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Full text of "Estudos sobre as provincias ultramarinas"

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^ 



PRESENTED TO THE UNIVERSITY 
BY THE RHODES TRUSTEES 



Cio -r- ]-% y 



ESTUDOS 



SOBRE 




i 



ESTUDOS 



SOBRE 







POR 



JOÃO DE ANDRADE CORVO 

■Sócio effectivo da Academia Real das Sciencias de Lisboa 



Volume III 




ii 



"■ i 



LISBOA 

m ORDEM E NA TYPOGRMIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIKKLU 

1884 



A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



PARTílI 




\^R^% 







A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



I 



Na sua obra magistral sobre a Philosophia da 
historia da humanidade diz Herder, fallando dos 
povos africanos: 

t Quando vamos ao paiz dos negros, devemos 
« pôr de parte os nossos orgulhosos preconceitos e 
« considerar a constituição d'esta parte da terra com 
« a mesma imparcialidade com que a consideraríamos 
t se existisse só ella. » 

Esta doutrina, verdadeira em relação a todos os 
povos e a todas as épocas, applicavel em historia 
tanto no espaço como no tempo, é sobretudo indis- 
pensável tel-a em vista, quando se trata da Africa. 
Não só por ser o problema complexo da civilisação 
mais difficil de estudar aqui, do que em outra parte 



8 

qualquer; senão também porque opiniões longa- 
mente sustentadas pela ignorância dos factos e pelo 
itihumano interesse do trafico lançaram a obscuri- 
dade nos espíritos, e obliteraram o sentimento da 
justiça e o amor da verdade na consciência dos 
homens civilisados, em relação aos negros. 

Mais de uma vez as raças negras tem lançado 
os primeiros bosquejos de constituições politicas e 
de incompletas civilisações ; mas a sua própria in- 
consistência^ e os perigos que traziam pendentes 
sobre si e que, mais ou menos cedo, se realisaram, 
vieram sempre a impedir a evolução posterior d'esses 
bosquejos de civilisação, e lançar no estado selva- 
gem aquelles mesmos que parecia irem entrando 
n'um periodo superior de evolução politica e social. 

Quando nós os portuguezes entrámos na Africa 
— rasgando pela vez primeira o espesso veu com 
que se cobria o mysterioso continente — encontrá- 
mos ali três vastos impérios, onde se notavam os pri- 
meiros lineamentos de uma constituição politica^ é as 
primeiras tendências á organisação social e ao tra- 
balho industrial e agricola. Eram profundos os vicios 
moraes que ainda persistiam ; eram falsas e eivadas 
de superstições e de fanatismo feroz as crenças 
dos povos; o materiaUsmo o mais repugnante domi- 
nava ainda os espíritos; corriam sem freio as pai- 
xões brutaes; a voz da razão mal se fazia ouvir, e 
a consciência jazia no mais profundo entorpeci- 



mento: mâs, comparados com os povos nómadas, 
que vagueavam pela immensidade dos sertões, os 
três impérios manifestavam uma superioridade in- 
dubitável. O Mani-Congo, o Monomotapa e a Abys- 
sinia, não eram eguaes entre si, nem se encontra- 
vam na mesma phase evolucionaria. 

O vasto império de Mani -Gongo era dado á ido- 
latria; ali dominavam a polygamia e a escravidão. 
Os homens, entregues ao ócio e á vaidade, confia- 
vam os trabalhos do campo ás mulheres e aos es- 
cravos; e não duvidavam alguns fazer dos próprios 
filhos, irmãos, e pães, vil mercadoria no vasto mer- 
cado de escravos, que em toda a Africa existia. O 
respeito pelos mortos e as suas ceremonias funerá- 
rias immediatamente se deduziam da crença, que 
tinham, de que o homem ao morrer não acabava de 
todo; mas ficava estreitamente unido á terra por la- 
ços mysteriosos de união, por assim dizer, material. 

A tudo isto, como diz o padre Cavazzi, se sobre- 
punha «um exorbitante desconcerto, em relação ás 
«coisas pertencentes ao governo politico.» E ac- 
crescenta depois: «a este considerável infortúnio 
t está sujeito o reino do Gongo, visto como se dilata 
«por montanhas inaccessiveis; o paiz e as provincias 
«mais afastadas da metrópole difl&cilmente conser- 
«vam a fé sob a devida obediência, principalmente 
«quando, os que as presidem, levantando a fronte, 
« proclamam a rebelião. » 



10 

A fraqueza dos laços, que uniam entre si as diffe- 
rentes partes do império, e os vícios moraes, que 
se oppunbam ao desenvolvimento da sua eivilisaçao, 
bastam para nos explicar as suas divisões e a sua 
rápida decadência. 

Havendo a accrescentar, ainda, as invasões das 
tribus ferozes dos jágas, que percorriam, guiados 
por ousados chefes, a Africa central de leste a oeste, 
lançando a morte e o extermínio por toda a parte. 

Do lado opposto da Africa — ao nascente e encos- 
tando-se ao rio Zambeze, como o império de Mani- 
Congo se encostava ao rio Zaire — se estendia o 
vastissimo império de Monomotapa. Divisões inter- 
nas, resultado da pouca consistência dos laços poli- 
ticos, que entre si uniam as differentes partes do 
império, deram em resultado a separação d'elle em 
três estados diíTerentes; um dos quaes, o de Quiteve, 
tinha grande importância. Aqui, n'este império .de 
Monomotapa estavam situadas, ao que dizem alguns 
escriptores, as celebres minas de Ophir. Mas, seja 
ou não verdade esta opinião, o que é fora de duvida 
é que existem ali minas de oiro, que parece serem 
de extraordinária riqueza e de fácil exploração. 

Ao norte da Zambezia existiam, nos primeiros 
tempos em que os portuguezes occuparam Sena e 
Tete, tribus cafres da mesma raça dos Jágas, nó- 
madas e ferozes, de que falíamos anteriormente. 
As invasões, e desordenadas excursões dos Zimbos 



contribuiram aqui, do mesmo modo por que contri- 
buiram na África occidental, para aniquilar todos 
os vestigios das civilisações primitivas. 

A Abyssinia — o celebre império do Preste João 
dos escriptores portuguezes — é o terceiro império 
que, na época dos descobrimentos, encontrámos na 
Africa. Este império — por ser christão e pelas vagas 
idéas, que corriam então na Europa, sobre a exis- 
tência de um grande potentado christão, a que allu- 
diam as mysteriosas tradições do oriente — fixou 
logo as attenções da Europa. Passou, na opinião 
dos povos, para a Africa o potentado asiático, desi- 
gnado nas tradições pela denominação de Preste João. 

Aos portuguezes cabe a singular gloria de haverem 
feito do chefe dos povos pastores das serras da 
Abyssinia o Preste João — esse grande e mysterioso 
imperador christão das terras orientaes. 

As serras da Abyssinia, menos accessiveis ás 
incursões das tribus ferozes que vagueavam pelo 
deserto, foram o asylo a que se acolheram povos 
de diversa origem; constituindo um agrupamento 
heterogenio, onde se propagou o christianismo da 
seita dos Monophysitas. Este povo forte, mas pouco 
unido, quer pelos laços da nacionalidade, quer pelos 
da religião, alargou o seu dominio nos territórios 
circumvisinhos. Mas essa grandeza ephemera foi 
seguida de uma rápida decadência pelas invasões 
dos Gallás que vivem nos próximos sertões. Foi 



12 

n'esse período de decadência que encontrámos o 
Preste João ; e, para quem ler com attenção a his- 
toria das missões portuguezas na Abyssinia, não 
ficará duvida que appressámos ou promovemos talvez 
essa decadência. 

Por toda a parte e com diversas raças, vemos 
os povos d'Africa lançar os primeiros lineamentos 
de estados semi-salvagens, capazes de abandonar a 
idolatria e de cultivar a terra ; por toda a parte assis- 
timos á destruição d'esses estados, pelas devasta- 
ções que n'elles fizeram as tribus selvagens, nó- 
madas e guerreiras: que vagueavam pelos sertões: 
tribus que professavam a idolatria, a escravidão e 
anthropophagia, como instituições sociaes. 



II 



Desenvolver o trabalho ; crear nas povoações as 
necessidades mais singelas da civilisação ; alargar os 
conhecimentos práticos dos processos, que os homens 
podem empregar para crear as riquezas ; melhorar, 
ou mesmo n^alguns logares iniciar a agricultura, 
adequada ás qualidades do solo e do clima ; facilitar 



13 

OS transportes e fomentar o commercio; melhorar 
os costumes bárbaros dos povos; educar e instruir; 
eis os meios de que podemos dispor para transfor- 
mar a Africa: cumprindo nós assim, os portuguezes, 
um dever social, e contribuindo poderosamente para 
o nosso próprio engrandecimento. 

Por muitas vezes se tem repetido — e ainda hoje 
alguns dizem e escrevem — que os negros não são 
capazes de cultura ; que não podem constituir socie- 
dades susceptíveis de progresso; que estão condem- 
nados a uma inferioridade irremediável em relação 
ás raças brancas. Todas estas asseverações são in- 
fundadas, e muitas vezes tem sido dictadas pelo in- 
teresse ou por um absoluto desconhecimento das 
condições e evoluções da humanidade. Admitlindo 
a celebre theoria de Darwin — se não como uma 
absoluta verdade, ao menos como um dos mais fe- 
lizes ensaios para explicar a transição dos antigos 
organismos para os organismos actuaes — não po- 
demos deixar de ver nos povos africanos como os 
primeiros graus de uma civilisação, que se está for- 
mando sob as mesmas influencias moraes e physi- 
cas, que parece haverem presidido ás primitivas for- 
mações das civilisações, que hoje occupam o primeiro, 
logar no mundo. 

Se recordarmos o que os modernos estudos de 
anthropologia prehistorica nos tem feito conhecer, 
acerca dos desenvolvimentos primitivos da civilisa- 



14 

ção humana, facilmente veremos que, em grande 
parle, o estado actual dos povos africanos corres- 
ponde ás primeiras phases da civilisação, taes como 
nos são reveladas pelos restos, modernamente en- 
contrados, das edades primordiaes. Não é, pois, 
com as sociedades modernas — tendo um alto grau 
de civilisação e dispondo de poderosos meios de 
communicação do pensamento, e de forças immen- 
sas para vencer as resistências que a natureza 
oppõe ás creações da industria — que devemos com- 
parar os povos africanos. N'este caso a sua inferio- 
ridade é manisfesta e incontestável. Devemos fazer a 
comparação com as condições do homem europeu, 
quando elle ainda eslava n'uma phase muito mais 
imperfeita da sua longa evolução ; e só então pode- 
remos formar uma justa opinião do que os povos 
d'Africa tem alcançado já e do que tem de alcan- 
çar ainda, para chegarem, nao ao apogeu da civi- 
lisação — porque a humanidade ainda lá não chegou 
em parte alguma — , mas ao grau em que a vemos 
na Europa de hoje. 

Uma grande parle dos povos africanos conserva-se 
no estado de Iribus nómadas, outra enconlra-se no 
estado pastoril ; e uma parte apenas se acha fixada, 
pela cultura imperfeita do solo, á terra em que es- 
taciona. Encontra-se ainda na Africa o horrível crime 
da anthropophagia. As armas e utensílios ainda 
existem ali, como existiam na edade da pedra. Ainda 






45 

se praticam os sacrifícios pelos mortos. Ainda se 
levantam povoações lacustres, como nos tempos 
prehistoricos. As mais grosseiras superstições do- 
minam os espiritos; a adoração dos feitiços arrasta 
os povos ás crendices as mais absurdas. Mas era 
superior o estado da Europa, não dizemos já nos 
tempos prehistoricos, mas na época da invasão dos 
bárbaros e da queda do império romano? 

Se nos reportamos aos escriptores da antiguidade, 
para termos idéa do estado em que se encontravam 
os povos bárbaros, ser-nos-ha fácil reconhecer, que 
não excedia esse estado aquelle em que hoje se 
encontram os povos africanos. O que dos germanos 
nos dizem César e Tácito basta para comprehen- 
dermos o estado social, rude e simples, daquelles 
povos que viviam como caçadores e pastores, des- 
presaudo a agricultura. Ainda que unidos em socie- 
dade, os laços que os prendiam eram tão fracos, 
que cada individuo quasi que nada sacrificava da sua 
natural independência á associação. O poder dos reis 
mais consistia em aconselhar do que em comman- 
dar : todos os negócios importantes eram resolvidos 
em commum. A vida nómada das populações fazia 
que ellas buscassem sempre mudar, para terras 
mais férteis- e legares mais ricos as suas estações ; 
e por isso se iam precipitando umas sobre as outras, 
e invadindo o opulento império romano. As calami- 
dades, que a Hespanha padeceu pela invasão dos 



16 

vândalos são descriptas ii'estes lermos por FlaviuSy 
escriptor contemporâneo. «Os bárbaros, diz elle,de- 
« vastaram tudo com hostil crueldade. A peste não 
«era menos destructiva. Uma fome terrível assolou 
«o paiz por tal modo que os vivos se viam obrigados 
«a devorar os mortos.» > 

Á invasão dos vândalos seguiu-se a invasão, não 
menos cruel, dos godos que primeiro se lançaram 
na Africa, onde praticaram a mais cruel devastação. 
Poucos factos semelhantes tem succedido na mo- 
derna Africa, apesar das numerosas invasões de 
umas populações negras no território das outras. 
Também aqui se tem levantado impérios e tem 
caido outros ao sopro devastador da guerra ; outros 
se tem desfeito pelas luctas intestinas. As guerras 
entre pequenos chefes são frequentes; mas a cniel- 
dade implacável, a não ser promovida pela super- 
stição, é uma excepção. Os sentimentos brandos do- 
minam quasi sempre. 

Os povos primitivos da Europa eram antropopha- 
gos. Strabão e Plinio aflSrmam que os germanos e 
os celtas o eram : e César conta que no seu tempo 
os vasconços praticavam a anlhropophagia. Este 
atroz costume tende a desapparecer, dês que os ne- 
gros estão em contacto com a civilisação ; e, como 
dizem muitos viajantes, todas as povoações procu- 
ram occullar esse crime. Se o praticam é clandesti- 
namente. 



17 

Por toda a parte as armas de guerra e de caça 
e os instrumenlos de trabalho de metal se vão sub- 
stituindo ás armas e instrumentos de pedra. A trans- 
formação será, em poucos annos, completa; e as 
consequências tornar-se-hão bem evidentes, como 
sempre tem succedido. 

O culto dos mortos — quando não acompanhado 
de superstições grosseiras — é uma prova da ele- 
vação moral dos que o praticam: e um primeiro 
passo para a civilisação, quando as superstições vão 
perdendo o seu caracter cruel, e vão procurando 
elevar-se em busca do que é espiritual e puro. 
Abundam ainda as superstições grosseiras em muitas 
partes da Africa ; mas, se compararmos o que suc- 
cede hoje com o que escrevem os padres Cavazzi, 
Fernão Guerreiro e João dos Santos, poderemos re- 
conhecer os consideráveis progressos que tem feito 
a civilisação africana, e a parte que n'ella tomaram 
os portuguezes. 



VOL. III. 



18- 



III 



Leão, o Africano, fallando da ultima região da 
Africa meridional, — que, para elle e para os es- 
criptores árabes do século xv, era mal conhecida e 
reputada a ultima d'aquelle continente, — região ha- 
bitada pelos negros, e a que elle chamou por isso a 
Terra-dos-Negros, affirma que havia alli povos com- 
mercianles, bem governados e ricos. E observa que 
se encontravam anteriormente n'aquella região mui- 
tos reinos, porém que, no seu tempo, quinze d'esses 
reinos, que visitou, se achavam sob o dominio de 
três reis. 

Os geographos.e historiadores da antiguidade 
parece haverem formado uma vaga idéa doestas popu- 
lações negras ao sul do grande deserto ; comtudo, 
na sua celebre tentativa de circumnavegar a Africa 
Setaspes disse haver encontrado uma raça de homens 
de pequena estatura; vestidos de folhas de palmeira; 
vivendo em povoações, e possuindo gados; timidos, 
e sem armas ; isto é, encontrou negros meio civili- 
sados, vivendo a vida pastoril, e, demais, com habi- 



19 

tacão fixa em consideráveis povoações. Já 1:300 
annos antes de Christo os egypcios conheciam os 
negros, por serem um dos tributos que os elhiopes 
lhes pagavam ; e, demais, os negros acham-se re- 
presentados nos monumentos egypcios, dançando, 
batendo as mãos ao som do tambor, exactamente 
como hoje se mostram no seio da Africa. O que os 
antigos conheciam dos negros tem uma importância 
limitada, e de pouco nos pode servir para descobrir 
as transformações moraes e sociaes por que passa- 
ram, em tantos séculos, os povos d'Africa, propria- 
mente ditos. 

Na opinião de alguns ethnologos são os negros 
o typo completo dos homens bárbaros e bestiaes ; e 
até lhes negam a capacidade necessária para se 
aperfeiçoarem e para darem mostras de possuir as 
faculdades, que caracterisam e distinguem o homem 
dos animaes. Pintam-n'os como tendo o craneo oval, 
a fronte deprimida, as maxilas proeminentes, os 
iabios grossos, o nariz largo e achatado, os cabellos 
curtos e lanuginosos, os braços longos, as coxas 
magras, as pernas delgadas, os calcanhares salientes, 
os pés espalmados. Estes defeitos não caracterisam, 
porém, os negros, nem se encontram reunidos nos 
individues da mesma tribu. As formas apresentam 
muitas variedades, e aproximam-se das formas que 
caracterisam as raças mais perfeitas. A própria côr 
da pelle passa por todas as gradações, desde o preto 

2# 



f.. 



20 

de ébano, até ao esbranquiçado do mulato, e mesmo 
á côr do cobre. Á grande variedade de formas e de 
côr corresponde uma não menor variedade no des- 
envolvimento das faculdades intellectuaes e nas apti- 
dões physicas. 

Segundo observações importantes de Reade, que 
tem merecido o assentimento de muitos anlhropolo- 
gistas — e entre outros de Peschel, no seu celebre 
tratado sobre as raças do homem — forma o negro, 
tal como o suppõe a generalidade dos que pouco 
conhecem a Africa, uma raça excepcional, que habita 
o immenso trato de terra pantanosa comprehendido 
entrç as montanhas e o mar, do Senegal a Benguella; 
assim como as terras baixas a leste de Africa. Esta 
mesma raça — para lhe conservar a designação que 
lhe dá o auctor que citamos — se encontra em volta 
do lago Tchad, em Senaar, e ao longo dos rios 
pantanosos. Divide o viajante, que estamos citando, 
os povos de Africa em três grandes raças: 

Os habitantes da Lybia: que vivem em terrenos 
de origem vulcânica e são caracterisados por feições 
caucasianas: côr trigueira escura, e longos cabellos 
negros. 

Nos terrenos petreo-arenosos, os habitantes teem 
um typo intermédio entre os anteriores e os negros, 
propriamente ditos. São mais negros; tem cabellos l 

negros e frizados; os lábios espessos e as ventas 
largas na base. 



21 

Finalmente, os negros de pelle negra, carapinha, 
e um grande prognatismo, vivem nos terrenos de 
alluvião e pantanosos. 

O auctor, notando quando a sua opinião vae de 
encontro ás idéas geralmente recebidas, accres- 
centa: «Existe uma illusão a respeito do negro, 
«que não é diflficil de explicar. Toda a costa de 
« oeste, e grande parte da de leste, é habitada pelos 
«negros. E natural que os negociantes e os resí- 
«dentes na costa os tomem como typo das raças do 
« continente. Os escravos, transportados ao novo mun- 
«do, eram quasi exclusivamente tirados d'eslas re- 
«giões; e tenho sempre observado que os escravos, 
«mesmo entre os negros, apresentam um typo de 
«inferioridade, comparado com o das populações 
« circumvisinhas. • 

O fluxo das populações africanas, de leste para 
oesle, ou antes de nordeste para sudoeste, explica 
a mistura, ás vezes, de tribus de raça negra aver- 
melhjido com a raça perfeitamente negra. Sendo os 
defeitos de organisação dos negros o resultado da 
acção longa, persistente, perniciosa, da insalubridade 
dos terrenos da costa, onde dominam os pântanos, 
é claro que as modificações de forma e de côr e as 
das faculdades mentaes devem mostrar-se tanto mais 
profundas, quanto mais longo for o período porque 
os africanos receberam essas influencias deletérias 
e degradantes. Por isso entre os negros da costa se 



22 

encontram diversos graus de inferioridade physica 
e moral. 

Quando se comparam os angolenses e os fantis 
da costa da Mina com os jollofos e os negros de 
Krú, é fácil notar a superioridade de elegância nas 
formas e de agudeza nos faculdades que, nos primei- 
ros, se manifesta: mas se fizermos a comparação 
com os negros de Casamança e da Serra Leoa, ou 
com os das margens do Zaire, então notaremos, que 
n'estes o typo baixo dos negros se mostra com a 
máxima exageração. 

Se esta opinião é verdadeira — e os factos em 
tudo parecem comproval-a de um modo irrecusá- 
vel — mostra ella que não devemos julgar das aptidões 
das raças africanas, pelos vicios de organisação dos 
negros escravos; nem julgar que aquelles povos 
não podem saber ser livres, quando existem tantos 
estados — mais ou menos rudimentares — na Africa, 
nos quaes se encontram formas de governo regula- 
res, justiça formal, linguas bem constituidas, e mes- 
mo alguma industria, a par de sentimentos moraes, 
que se podem comparar aos nossos, e que nem sem- 
pre lhes são inferiores. 



23 



IV 



Os defensores interesseiros do trafico de escravos 
por longos annos proclamaram a inferioridade das 
raças negras, comparadas com as raças da Europa: 
e até este falso argumento, baseado só n'uma errada 
apreciação scienlifica, serviu — nas relações inter- 
nacionaes — para repellir conselhos e admoestações, 
dictadas por um espirito conscientemente christão e 
civilisador. Uma questão essencialmente scientifica, 
e que só pode ser livremente discutida na serena 
região da sciencia pura — a questão da unidade ou 
da pluralidade das espécies no homem — foi trazida 
para a região perturbada e parcial dos interesses 
humanos; e, em vez de esclarecer o espirito e a 
consciência das nações, augmentou ainda a confusão 
dos espiritos por algum tempo, e radicou nalgumas 
intelligencias, pouco esclarecidas, a convicção da 
inferioridade irremediável dos povos africanos. 

A verdade é, que a idéa da espécie e da persis- 
tência dos seus caracteres tem soflfrido profundas 
modificações, em consequência dos estudos moder- 



24 

nos, e das idéas, geralmente admittidas, do celebre 
Darwin. As formas animaes não se renovaram em 
cada edade geológica da terra ; mas passaram por 
successlvas e lentas transformações, adaptando-se 
ás circumstancias naturaes; obedecendo, por assim 
dizer, ás influencias externas ; e preparando-se, por 
uma selecção natural, a resistir ás causas destruido- 
ras que, successivamente, as tem ido cercando. A 
successão das espécies, na opinião racional de Dar- 
win, liga-se estreitamente com o passado por uma 
causa ou outra ; não ha solução de continuidade, e 
por isso mesmo não ha, dentro da mesma forma ty- 
pica, profundas separações, profundas differenças, 
que, applicadas á humanidade, possam auclorisar es- 
sas divisões, em que se quer achar a superioridade 
absoluta de uns, á custa da inferioridade absoluta e 
irremissivel de outros. 

Uma das melhores provas de que as diversas 
formas do homem são o resultado da adaptação 
lenta do typo humano ás circumstancias do clima e 
dos meios em toda a sua extensão considerados, é o 
phenomeno da acclimação. Esta não pode fazer-se 
senão lentamente : quando se pretende obter subi- 
tamente, raras vezes deixa de ser fatal aos indiví- 
duos, e mais raras vezes ainda deixa de ser fatal á 
reprodução. Quanto seja funesto aos recemchegados 
o clima da Africa todos o sabem. Ha raças mais 
aptas do que outras para resistir a acção deletéria 



^ 



25 

da mudança de região, o que depende das aptidões 
orgânicas e da mais ou menos profunda differença 
dos climas ; d'aquelle d'onde se saiu e d'aquelle em 
que se entrou. 

O sêr humano é um todo, uma harmonia. Quando 
essa harmonia se quebra, o resultado é fatal. Por 
isso, quando uma influencia poderosa se faz sentir, 
pertubando a harmonia, é preciso tempo para esta 
se restabelecer; o quei se não consegue senão pela 
modificação simultânea e correspondente de todos 
os órgãos. Em quanto esta se não dá, não existe 
a adaptação ao novo clima; o perigo persiste. Estas 
rápidas considerações, que a natureza d'este traba- 
lho não deixa desenvolver, vem corroborar a opi- 
nião, que citámos anteriormente, de que o negro da 
costa e das terras pantanosas — o supposto typo afri- 
cano — não é senão uma degenerescência, uma ver- 
dadeira depressão das raças mais robustas e mais 
perfeitas, de formas e de faculdades, que povoam o 
largo continente* 

Por vezes se tem insistido sobre a pequena ca- 
pacidade do craneo dos negros, comparada com a 
das raças que se reputam superiores, para demons- 
trar a sua inferioridade. Mas deve-se observar, que 
são muito incompletas e pouco numerosas as ob- 
servações até hoje feitas, e, de mais, que as difFeren- 
ças não são tão consideráveis como geralmente se 
pensa. A isto ha a accrescentar outra observação, 



26 

e é que, com os séculos e os efFeitos da civilisação, 
as dimensões do craneo, mesmo nas raças europeas 
dentro do periodo histórico, tendem a augmentar; 
como o tem provado as observações. Nas mais remotas 
épocas geológicas, de que se tem encontrado restos 
humanos ; quando o homem \ivia com as espécies 
extinctas dos animaes, que caracterisam antigas for- 
mações; quando a sua industria, os seus costumes, 
o seu modo de ser, eram em tudo comparáveis aos 
que hoje se encontram entre os selvagens ; já então 
se pode notar que no homem existiam os caracteres 
essenciaes do typo, e que a cavidade craneana não 
era em todos a mesma; embora, por derivações e 
transformações, todos chegassem a constituir as raças 
europeas modernas, caracterisadas pela civilisação, 
e pela aptidão manifesta para um progresso indefi- 
nido. Pois o que se deu e se dá nas raças europeas, 
porque admittiriamos que se não haja de dar nas 
raças africanas ? 

Que as raças negras de diversos cambiantes, que 
existem na Africa, são susceptiveis de progresso, 
são capazes de transformações profundas nos seus 
usos e até nas suas idéas as mais elevadas, basta co- 
nhecer a historia da Africa para o perceber. Que 
ha nos negros disposições para ter os mais elevados^ 
sentimentos e modificar os seus usos, basta, para 
o avaliar, o estudo attento do que nos dizem os via- 
jantes modernos. O uso do arco, como arma de 



27 

gnerra e de caça, é um verdadeiro progresso que já 
data de remotos tempos. A supresssão das setas 
hervadas, que davam a morte inútil e traiçoeira- 
mente, é outro progresso, mas de natureza pura- 
mente moral. 

Em apoio do que levamos dito temos a citar, com 
verdadeira satisfação, um livro muito bem pensado, 
cheio de factos e de apreciações da mais elevada im- 
portância, ultimamente publicado pelo sr. A. F. 
Nogueira. E um estudo, que tem para nós o maior 
valor, pela lucidez e sincera lealdade com que está 
escripto. Vè-se, pela obra do sr. Nogueira, quanto 
a hospitalidade e a gratidão tem poder no espirito 
dos negros da raça Bantú, que occupa a maior parte 
da Africa equatorial e austral ; assim como se po- 
dem avaliar os progressos íntellectuaes, verdadeiros, 
alcançados pelos negros nos últimos tempos. N'um 
estudo do mais alto interesse, sobre os povos Ba- 
Nhaneca e Bam-Kumbi, diz, com razão, o illustrado 
escriptor: «Na nossa opinião, e sem pretendermos 

• decidir na matéria, o estado social dos povos a 
«que nos temos referido, não é certamente superior 

• ou preferivel ao nosso : mas, apesar das imperfeições 
tque lhe são próprias, assenta em bases naturaes, 

• que nós deviamos estudar com mais attenção, não 
tpara as seguirmos cegamente, abandonando o que 
fde bom e útil temos conquistado, mas para emen- 
€ darmos muitos erros. » 



^8 



Esta é a synthese do livro a que nos referimos, 
e qiie devemos considerar uma das melhores confir- 
mações de quanto temos dito. 



Quando estudamos as raças africanas, a fim de 
conhecer as suas aptidões para a transformação suc- 
cessiva, intellectual, moral e physica, que conduz os 
homens á civilisação, não podemos deixar de fixar a 
attenção n*um phenomeno importantissimo, que na 
Africa se tem passado e se passa agora mesmo. E 
a rápida propagação do islamismo pelos sertões, e 
a manifesta influencia, que elle tem sabido rapida- 
mente adquirir alli. 

Nas regiões do norte do grande continente — as 
únicas que os antigos conheciam, pode dizer-se — 
o christianismo teve um periodo de prosperidade e 
gloria, teve grandes theologos, fez numerosos pro- 
selytos ; mas tudo desappareceu diante da invasão, 
barbara e violenta, dos sectários de Mahomet. Quando 
Akbah, o conquistador, atravessando de um a outro 
extremo os estados da Barbaria, veiu a encontrar 



29 

as praias do Atlântico e o Grande Deserto, foi de- 
tido na sua marcha vertiginosa. Conta-se que, met- 
tendo o seu cavallo pelas ondas do mar, o conquis- 
tador, qual novo Alexandre, exclamou: «Allahl se 
o mar não detivesse a minha carreira, eu iria aos 
reinos desconhecidos do oeste, pregar a unidade do 
teu santo nome, e passar á espada as nações rebeldes 
que adoram outros deuses!» Annos depois, Muza 
conquistou a Hespanha; e os missionários musul- 
manos atravessaram o deserto, sujeitaram os sel- 
vagens íuaregs, chegaram a Tambutu, converteram 
os negros jolofos, mandingas e fulas ; e, voltando para 
o oriente, propagaram as suas crenças pelos reinos 
que cercam o lago Tchad, onde encontraram outros 
musulmano^ que vinham do oriente. 

Ainda hoje prosegue o islamismo as suas conquis- 
tas na Africa. E não se pode pôr em duvida, á vista 
das informações repetidas dos viajantes, que o isla- 
mismo tem consideravelmente melhorado o estado 
da civitísação rudimentar dos negros. O negro, con- 
vertido da idolatria á religião de Mahomet, adquire 
o sentimento da dignidade da natureza humana, 
que é o primeiro, o mais seguro passo, no caminha 
da civihsação. D'isto são notável exemplo os Man- 
dingas e os Fulas, onde o islamismo peneirou ha 
longos annos; a sua superioridade, em relação aos 
outros negros, é inquestionável, em quanto a cultura 
e civilisação. E não se creia, que a propagação da reli- 



30 

gião mahomelana na Africa é o fructo da violência; 
não se pense que é feita á espada, pelo terror : são 
verdadeiros missionários árabes, que a promovem e 
a vão, de tfibu em tribu, pregando aos selvagens 
africanos. A intolerância primordial do islamismo 
tende a desapparecer aqui, talvez em consequência 
do espirito pouco ardente em religião e demasia- 
damente positivo d'aquelles povos primitivos. E po- 
rém de notar, que nas povoações musulmanas se des- 
envolve rapidamente o desejo de aprender. Ha nume- 
rosas escolas mahometanas, frequentadas com as- 
siduidade por muitos discípulos, que vem por vezes 
de localidades afastadas. 

Os viajantes, não dominados por preconceitos, 
são acordes em affirmar estes factos. Entre outros 
o celebre Mungo Park, que atravessou os territórios 
de muitas tribus convertidas ao islamismo. Dos Man- 
dingas mahomentanos, diz elle, que são uma raça 
bondosa, hospitaleira, crédula e desejosa de apren- 
der. A propensão ao roubo, muito commum entre 
os bárbaros, não é maior n'aquelles povos do que 
em muitas nações da Europa. Das mulheres falia o 
viajante em termos muito benévolos ; porque sempre 
as encontrou compassivas, amigas da verdade, e 
boas mães de família. Tratando das escolas musul- 
manas o distincto viajante faz d'ellas uma apreciação 
elevada. 

Não são escolas muito desenvolvidas, nem os 



3i 

mestres possuem uma alta instrucção; mas, apesar 
de humildes, não merecem o despreso com que são 
tratados pelos missionários. Uma escola que Mun- 
go Park conheceu de perto^ era dirigida por um mes- 
tre mahometano nada intolerante, e frequentada por 
uns setenta rapazes; o mestre possuia o alcorão 
com alguns commentarios e um numero conside- 
rável de manuscriptos árabes. Na escola havia exa- 
mes, e os moços negros sabiam muitos dos factos e 
conheciam os livros do Velho Testamento, traduzi- 
dos em árabe. 

O dr. Barth, que realisou extensas viagens no 
norte e centro da Africa, nota o rápido desenvolvi- 
mento que tem alli tomado o islamismo. «Grande 
« parte dos bárbaros do deserto, diz elle, eram chris- 
«tãos, e posteriormente mudaram de religião e ado- 
< ptaram o islamismo ; » e accrescenta ; < uma conti- 
tnuada lucta, que cada vez se estende mais, parece 
€ destinada a opprimir os povos do equador, se o 
tchristianismo não deixa de disputar o terreno ao 
t islamismo» : porque, segundo o dr. Bar th, só o 
mahometanismo parece capaz de manter uma espé- 
cie de governo na Africa; e, o que ha de mais im- 
portante é que, formaes palavras: «ha um principio 
«vital no Islam, que basta só ser excitado por um 
«reformador, para levar a cabo grandes feitos.» Não 
partilhamos o enthusiasmo do dr. Barth, mas não 
podemos deixar de ponderar os factos, por tantos 



32 

viajantes confirmados, e buscar tirar d'elles conse- 
quências legitimas. 

Um missionário christão, de raça negra, citado 
por B. Smith, n'um livro recente {Mohammed and 
Mcàommedanism), escreve «a superioridade dó ne- 
«gro mahometano é clara, segundo a minha obser- 
tvação e experiência. Se os christãos, que são tão 
«exagerados em denunciar o mahometismo, po- 
« dessem viajar, como eu, através d'estes paizes no 
«interior da Africa Occidental, e observar, como eu 
«tenho observado, o enorme contraste entre as com- 
«munidades pagãs e mahometanas — a habitual 
«apathia e continuada deterioração de umas e a 
« actividade e crescimento physico e moral das outras; 
«a caprichosa e irregular administração da lei, ou 
«antes, a ausência de lei n'umas, e a tendência á 
«ordem e regularidade nas outras; o uso pertinaz 
«de bebidas espirituosas n^imas, e a rigida sobrie- 
«dade e abstinência saudável nas outras — elles ces- 
«sariam de considerar o systema musulmano como 
«um mal sem compensação no interior da Africa.» 



33 



VI 



Como anteriormente observámos, é quasi geral 
nos viajantes da Africa a observação do rápido cres- 
cimento do islamismo, ainda nas mais remotas re- 
giões. Uns dão á propagação do Alcorão uma im- 
portância decisiva na civilisação africana ; outros 
julgam, que essa propagação pouco pode influir no 
melhoramento dos negros; comtudo uns e outros 
reconhecem o facto, e não podem negar que, da 
acção do mahometismo tem resultado um estado su- 
perior ao primitivo estado de idolatria brutal, cheia 
de superstições as mais tenebrosas. 

fylor, no seu livro sobre A civilisação primitivaj 
nota que a asserção, de que existem povos grossei- 
ros sem religião alguma, ainda que possível em theo- 
ria, se não acha confirmada pelos factos. Se se consi- 
deram religiões unicamente as theologias, mais ou 
menos complicadas, das raças superiores, a asser- 
ção é verdadeira; mas se o sentimento religioso se 
toma ainda nas suas mais rudimentares manifesta- 
ções, então a afirmação de Tylor é perfeitamente 



VOL. III 



34 

exacta. iAté onde eu posso julgar, diz Tylor, pela 
« enorme massa de testemunhos até agora conheci- 
«dos, devemos admittir que a crença em seres es- 
«pirituaes existe em todas as raças inferiores, com 
«as quaes temos feito relações sufiBcienteménte in- 
«timas; emquanto que a asserção contraria se não 
c applica senão a antigas tribus, ou a tribus moder- 
<nas mais ou menos imperfeitamente descriptas.» 

Existe no homem, em todos os estados de desen- 
volvimento, a doutrina, profundamente radicada, da 
existência de seres espirituaes. E esta crença que 
o philosopho inglez denomina animismo. O ani- 
mismo pode considerar-se a condição fundamental 
da humanidade. Mas que differenças, em religião pro- 
priamente dita e em moral, comparando o animismo 
primitivo e o das religiões dos povos civilisados, 
desde as mais imperfeitas e falsas até ao cbristia- 
nismo, a mais pura das religiões e a mais perfeita 
em mora], nas suas origens primeiras e essenciaesi 

«O animismo caracterísa as tribus mais inferio- 
« res na escala da humanidade ; depois, deste pri- 
«meiro grau, modificado profundamente no curso 
«da sua ascenção, mas do principio ao fim guar- 
« dando a continuidade perfeita, sobe, e se eleva 
«até á altura da nossa civilisação moderna.» 

O negro com os seus feitiços é uma das mais 
rudes expressões do animismo. «Na idéa do negro, 
«diz o professor Vaitz, um espirito vive, ou podefi- 



35 

«xar-se n'um objecto material, qualquer que elle 
tseja; e, muitas vezes, um espirito muito grande e 
«poderoso pode habitar n'um objecto insignificante. 
«Ellè nao pensa que o espirito esteja preso para 
«sempre ao objecto meterial que habita; mas ima- 
«gina, unicamente, que d'este objecto faz a sua prin- 
« cipal morada. N'uma palavra^ o negro estabelece, 
«frequentemente, uma distincção entre o espirito e 
«o objecto material que este habita; algumas vezes 
«mesmo oppõe uma á outra coisa; mas, a maior 
«parte das vezes, combina ambas para formar d*ellas 
« um todo e este todo é o feitiço. » O feitiço vê, ouve, 
comprehende e obra ; o seu possuidor adora-o, fal- 
la-lhe com familiaridade como se fora um amigo in- 
timo; derrama sobre elle libações de rhum; e, em 
occasião de perigo, a elle se dirige, para lhe cha- 
mar a attenção. Os espiritos vivem nos rios, lagos 
fontes, formigueiros, arvores, crocodilos, macacos, 
serpentes, pássaros, etc. E tudo isto são feitiços. E 
um modo particular do culto da natureza. São tan- 
tas as reminiscências, que de tudo isto encontramos 
na historia e nas superstições antigas da Europa, 
que não podemos pôr em duvida, que o nosso actual 
«stado foi precedido de outro, que muito se asseme- 
lhava ao dos africanos de hoje. — Em nome, pois, 
de que facto positivo podemos nós affirmar que os 
negros são menos capazes de cultura e de civilisa- 
ção do que nós? 

3# 



36 

Essa doutrina dos espíritos da natureza, que ha- 
bitam e dominam q céo, a terra, o mar, transfor- 
mou-se facilmente na doutrina do grande espirito ; 
do espirito soberano, que acaba por se personificar 
na Ásia em Brahma, a alma universal: e na Eu- 
ropa na philosophia pantheista. « O universo é um 
todo de que Deus é a alma» como disse um grande 
philosopho. O celebre Comte disse que a concepção 
da alma do universo, entre os antigos, e o pantheis- 
mo obscuro do nosso tempo, não são mais do que o 
feiticismo generalisado c systematisado. E isto uma 
grande verdade, que lança viva luz n esta transfor- 
mação obscura do espirito humano. 

A theoria do progresso é a que a historia nos de- 
monstra por forma incontestável, quando a sabemos 
consultar com a seriedade e o desejo de chegar á 
verdade, com que ella deve sempre ser avaliada. A 
partir das mais remotas edades, o progresso apre- 
senta-se como o facto dominante da historia; e a de- 
generescência como um facto secundário. Só a cul- 
tura adquirida se pode perder; e nunca se vê des- 
apparecer uma civilisação, cujos primeiros progres- 
sos nos sejam inteiramente desconhecidos. Os pro- 
gressos, uma vez conquistados, persistem; senão 
no mesmo povo, ao menos nos povos com que este 
mantém relações. 

- De quanto fica dito vê-se que o islamismo, ape- 
sar dos seus erros, é, em relação á idolatria dos - 



37 

feitiços, um verdadeiro progresso. A idéa de Deus, 
5ubstituindo-se ao feiticismo, eleva o espirito, e 
torna sensivel a harmonia da natureza. Livre de um 
exagerado dogmatismo, e desprendida de rigorosos 
preceitos de moral, uma religião que prega a unidade 
de Deus é, para os idolatras dos feitiços, um pro- 
gresso verdadeiro. A idolatria dos negros necessa- 
riamente os leva a não se interessarem, senão pelas 
<joisas que, physicamenle, os impressionam e lhes 
<jausam prazer ou terror. O monotheismo mahome* 
tano ensina-lhes a apreciar as causas moraes das 
coisas e os seus effeitos puramente espirituaes. 



VII 



Para dar certa ordem aos nossos estudos ante- 
riores — acerca da influencia que sobre os negros 
exerce a propaganda musulmana — parece-nos con- 
veniente citar a opinião de dois viajantes, dotados 
ambos de um alto espirito de observação, e que, co- 
nhecendo bem o assumpto de que tratavam, per- 
correram partes oppostas da Africa ; não estão elles 
inteiramente de accordo no modo de apreciar esta 
questão complexa e difficil. 



38 



O bem conceituado W. Reade, já por nós muitas 
vezes citado, diz, ao tenninar a narração da sua 
interessante viagem pela costa occidental da Africa, 
na região equatorial : 



tSe, nem o commercio europeu, nem a protecção 
militar, nem as missões christãs, podem civilisar 
este paiz, o que se deve fazer? Deve a Africa ficar 
selvagem? 

«Não. A grande obra do progresso deve cum- 
prir-se, quer sem a ajuda europea, quer sob as 
vistas dos europeus. O continente será civilisado, 
os africanos serão convertidos por meio de uma 
religião. 

« Será a mesma religião que, sob differentes no- 
mes e formas, civilisou os hebreus por meio de 
Moysés, e o mundo occidental por meio de Jesus 
Christo. Será a religião de Deus, cujas leis e ce- 
remonias externas differem tanto, mas em que o 
elemento divino se conserva immutavel. 

«Mahomet, um servo de Deus, remiu o mundo 
oriental. Os seus adeptos andam a remir a Africa. 

<0s africanos estão hoje no mesmo estado em 
que estavam os árabes, antes de Mahomet. As leis, 
por isso, que aquelle grande propheta prescreveu 
para a conversão de uns, são perfeitamente apro- 
priadas para os outros. 

«Os africanos são bebedores. O alcorão prohi- 



\ 



39 



« be-lhes locarem no vinho ou bebidas espirituosas, 
« — EUes são jogadores : ao norte da Guiné um ho- 
<mem jogaria de uma vez, bens, mulher, filhos e a 
«própria hberdade, O Alcorão prohibe-lhes o jogo. 
« — São viciosos e voluptuosos. O Alcorão prohibe- 
«Ihes o terem mais de quatro mulheres. — Não 
«sabem pôr limites aos seus appetites, O Alcorão 
«compelle-os a um tempo de jejum annualmente : 
« durante um mez inteiro não lhes é permittido tocar 
em coisas de comer ou beber, de pela manhã até á 
noite. — Os africanos são idolatras. Teem sacrifí- 
cios humanos e muitos ritos bárbaros. O Alcorão 
abule isso tudo. 

«Os africanos são frívolos e affeminados: gastam 
as noites a cantar e a dançar. O Alcorão prohibe 
taes divertimentos. Aos músicos não é permittido 
tocar e cantar, salvo em honra de Mahomet. 

« Os africanos são todos ladrões. Não teem noção 
alguma de honra a este respeito. — Os africanos 
dizem uma mentira mais facilmente do que uma 
verdade. A falsidade, assim como o pequeno roubo, 
não é considerada entre elles como uma culpa. 
Quão diíTerente, porém é isto mesmo entre os ne- 
gros musulmanosl — Uma das primeiras lições 
— escreve Mungo-Park — em que a mulher Man- 
dinga instrue os seus filhos, é a pratica da ver- 
dade. Na casa em que uma infeliz tem o filho mor- 
to pelos bandidos mouros, a sua única consola- 



40 

ção, na sua pena extrema, é o lembrar-se que 
o pobre rapaz, no curso da sua innocente vida, 
nunca dissera uma mentira. 

«Os africanos não teem linguagem escripta, nem 
cultura mental de nenhuma espécie. Mas, onde os 
mahometanos vão, levam comsigo os seus marabús 
e os seus alcorões. Em toda a povoação mahome- 
tana ha uma escola publica e uma livraria. Na 
escola ensina-se ás crianças a ler o Alcorão, e a 
escrever n'uma taboa, com um lápis de carvão. E 
curioso ver um d'estes seminários, estabelecido de- 
baixo de urna arvore de sombra, no centro da 
aldeia; o grave marabú com as suas roupagens 
azues, e o seu barrete vermelho na cabeça ; e, em 
roda d'elle, um certo numero de rapazes negros: 
alguns negros, como fuligem, gritando em árabe 
com facilidade, e levantando nas mãos as suas ta- 
boas para lh'as corrigirem. 

«A livraria publica consta, principalmente, de 
diversas copias do Alcorão; algumas das quaes 
sãobellos exemplares de calligraphia. Tem também, 
com frequência, a traducção arábica do Pentateuco, 
a que chamam Torat Mouza ; os psalmos de Da- 
vid, el Zabour Dawidi; e mesmo o evangelho de 
Jusus, el ludjil Soa. Conservam também registos 
públicos e lembranças, o conhecimento dos quaes 

«seria muito interessante para o viajante que co- 

«nhecesse a língua árabe. 



41 

cO grande vicio nacional dos africanos é a indo- 
tlencia. Não tem nenhum exercicio de forças. Ad- 
tmiram-se de que os brancos passeiem, só pelo 
€ gosto de andar. Mas os mahometanos, que pro- 
f hibem o dançar, substituem a isto outros exerci- 
ccios, taes como a equitação, o arremeço de setas, 
«etc. Entre os negros, as creanças ficam todo o dia 
cao soL Entre os mahometanos estão sempre acti- 
fvos; e tem um jogo, no qual uns aos outros se 
«lançam bolas. Isto é só por si um signal de supe- 
triòridade. Nos brinquedos das creanças se podem 
«descobrir os instinctosde uma nação. 

«Assim o afeminado dos africanos pode ser mo- 
«dificado pela austeridade religiosa. A sua barbárie 
«pode ser abolida. Os seus vicios podem ser des- 
•truidos.» 

O celebre viajante G. Schweinfurlh, percorrendo 
os territórios ao longo do Nilo até ás suas regiões 
superiores e ás margens do Mar Vermelho, teve 
occasião de estudar profundamente a acção do ma- 
hometismo onde elle justamente conserva melhor 
o seu caracter bárbaro, violento e intolerante ; onde 
elle se não propaga tanto pelos missionários como 
pela força. Eis as opiniões do illustre sábio sobre a 
questão : 

«Ha um ponto em que todos estão unanimes: 
«o de que do islamismo nenhuma ajuda se pode 



42 

esperar, e que com o islamismo nenhum accordo 
se pode fazer. O segundo sura do Alcorão começa 
pela prescripçao : c Para abrir caminho para Deus, 
mata aquelles que te quizerem matar; mas não 
sejas o primeiro a começar as hostilidades, por- 
que Deus não gosta dos peccadores ; mata-os onde 
os encontrares ; expulsa-os do logar d'onde elles te 
quizerem expulsar, porque a tentação é peior do 
que um golpe mortal.» O islamismo, filho dos de- 
sertos, por toda a parte derramou a desolação, e, 
onde penetrou, os desertos se tornaram negros e 
áridos como os rochedos da Núbia e da Arábia, 
e, sob a sua influencia, cada nação, de Marrocos ás 
ilhas de Sunda, se congelou em massa homogénea; 
inexoravelmente, leva tudo ao mesmo nivel, apa- 
gando sem remorsos todos os traços de naciona- 
lidade ou de raça. 

« Que seja o islamismo capaz de progresso é uma 
mera supposição creada pelos livros, e sem fun- 
damento ; não ha também nada que prove, que caiu 
em decadência ; a sua condição parece ser a de 
uma perpetua infância. Os seus discipulos são como 
os germens da vagetação, que dorme nas areias 
dos valles do deserto; uma gota de chuva, um 
mero nada, chama-os a uma vida transitória ; as 
plantas deitam flor, produzem fructo, e depois 
morrem, e tudo fica de novo, ainda mais queimado, 
n'um longo e profundo somno. » 



43 

Ainda que pareçam contrariar-se estas duas opi- 
*niões, não deixam de estar conformes. Embora não 
seja o islamismo capaz de seguir o progresso» que 
caracterisa a civilisação moderna, — o que é incon- 
testável,— comtudo, em relação á idolatria e crença 
nos feitiços dos negros, o islamismo é um progres- 
so. Schweinfurth estava principalmente preoccupado 
com a grave questão do Irafico de escravos, e sob 
este ponto de vista a acção dos mahometanos não 
pode ser considerada senão como funesta na Africa; 
mas, em relação ás idéas e aos costumes dos sel- 
vagens, a opinião de^ Reade é verdadeira. O isla- 
mismo é um melhoramento, é um progresso. 

Faremos ainda algumas reflexões sobre o as- 
suní>pto. 



44 



VIII 



Notava já o P* Gavazzi, que os negros se orgu- 
lham muito da sua origem, e da sua antiguidade : 

«Tem estas nações uma pertinaz estima da pro- 
«pria origem, exaltando-a com as excellencias de 
«todo o mundo.» 

Tor estas opiniões, confusas e mal difinidas, que 
os negros teem de si, se vê que hão de com diffi- 
culdade supportar a idéa, que outra raça se lhe 
julgue superior, e queira fazer-lhe pezar uma tal 
superioridade. As tribus negras teem o sentimento 
da egualdade profundamente arreigado; e, nas suas 
constituições rudimentares domina, quasi ^mpre, o 
principio essencialmente democrático. O islamismo 
nunca intentou destruir a organisação dos povos 
primitivos em tribus, onde o espirito exclusivo domi- 
nava e onde havia o direito da própria tribu eleger 
os seus chefes. «Os homens são eguaes como os den- 
«tes de um pente.» «Todos os homens são filhos de 



45 

«Adão, e Adão foi formado de pó» diz o alcorão: 
e accrescenta, para não destruir todos os precon- 
ceitos da nobreza na tribu: «Os qae eram nobres 
«ao tempo do paganismo, ficarão nobres sob o is- 

• lamismo, com tanto que prestem homenagem á ver- 
«dadeira sabedoria» o que quer dizer, com tanto 
que se façam musulmanos. 

A principio, os sectários do alcorão propagavam 
a sua fé pela espada; hoje faz-se isto na Africa 
pelas pregações dos marabús. Mas os caracteres 
fundamentaes do islamismo são os mesmos. E ha 
n'^lles alguns que influem, poderosamente, no espi- 
rito das tribus negras, como, em outras eras, in- 
fluiram nos beduinos e nos berberes. 

O islamismo não abule, mantém a escravidão; 
mas, deve accrescentar-se, que promove a emanci- 
pação dos escravos , e promulga o principio de que 
todo o escravo, que abraça o islamismo, fica livre 
ipso facto; demais, cuida em que nenhum castigo 
recaia sobre o escravo emancipado, e em que os 
que permanecem escravos sejam bem tratados. «Cui- 

• da, disse o propheta, em os sustentar do mesmo 
«modo que a ti mesmo, em os vestir como a ti te 
« vestirás ; porque elles são os servos de Deus, e não 
t devem ser atormentados.» Quando os mahome- 
lanos invadiram a Hespanha, os servos, encontrando 
o apoio do islamismo, abraçaram no seu maior nu- 
mero esta rehgião. Os prelados catholicos, como 



46 

dizia Santo Agostinho, tinham feito acceitar a reli* 
gião catholica, mas não a tinham feito amar, não ti* 
nham tido occasião «de se fazer pequenos, de mur- 
« murar com elles as primeiras palavras da verdade, 
«assim como um pae gosta de balbuciar as primei- 
«ras palavras com o filho.» Este grande erro, de 
que Santo Agostinho accusava o clero do seu tempo, 
parece dominar nos modernos tempos o espirito de 
grande parte dos missionários christãos, que vão á 
Africa. Não admira: se nos lembrarmos de que 
Santo Isidoro, bispo de Sevilha — depois de confes- 
sar diante de Deus, que todos os homens são eguaes, 
e que o peccado original, origem da servidão, foi 
remido — adopta as opiniões de Aristóteles e Ci- 
cero sobre a escravidão, isto é, de que «a natureza 
« creou uns homens para dominar e outros para obe- 
«decer» e de que «não ha injustiça em que sirvam 
« os que não sabem governar-se, • 

O sr. W. Reade, que se mostra muito favorável á 
propaganda mahometana na Africa, diz, fallando dos 
escravos: «Este povo tem sido escravtsado egual- 
« mente por christãos e mahometanos. Os christãos 
ttem-n'os degredado, tem-n'os afastado duramente 
« de todo o progresso, infligindo-lhes mil crueldades, 
« Os mahometanos, por sua parte, tem-n'os elevado, 
« educado e tratado com paternal bondade. » Sem 
tomar ã letra as palavras do escriptor inglez, não se 
pode deixar de notar que, sob a influencia mahome* 



47 

tana, os escravos são protegidos pela lei e pela reli- 
gião; e por isso se não pode considerar um escravo, 
na verdadeira accepção da palavra, E a própria pala- 
vra mesmo, poucas vezes se encontra na linguagem 
do alcorão. Aqui a phrase consagrada é «aquelles 
que a mão direita possue» isto é, aquelles que perde- 
ram a liberdade pela conquista, que são captivos. 
O senhor que trata bem os seus servos é acceito 
de Deus; o que abusa do seu poder será expulso 
do Paraíso. 

O viajante Schweinfurth, apesar de altribuir aos 
musulmanos a conservação do trafico na Africa orien- 
tal, no que tem razão, diz : 

« O bom tratamento dos escravos, e bemestar de 
• que estes gozam, em comparação da dureza e nu- 
<dez das suas habitações, são coisas que muitas 
€ vezes se allegam para attenuar os males da escra- 
« vidão do Oriente. E sem duvida verdade, que o 
f contraste no trabalho dos escravos é muito grande; 
«e, ao passo que os europeus teem considerado os 
tseus escravos pouco acima de úteis animaes do- 
«mesticos, o escravo oriental é um mero objecto de 
«luxo.i 

A propaganda feita pelos europeus tem ido sem- 
pre de encontro a obstáculos invencíveis. O orgulho 
com que queremos fazer sentir aos negros a nossa 



48 

superioridade de raça: a cubiçà dos traficantes de 
escravos; a difficuldade em aceitarmos como irmãos 
e eguaes os negros, ainda depois de abraçarem o 
christianismo ; a ambição insaciável de lhes con- 
quistarmos as terras, em vez de lhes ensinar a cul- 
tival-as livremente ; o systema de lhes impor á força 
o nosso domínio; a insistência tenaz em irmos de 
encontro aos seus usose idéas, algumas das quaes 
são' fundadas em causas naturaes, que se não podem 
contradizer facilmente ; e a indolência com que nos 
temos até hoje esquecido de ensinar aos povos sel- 
vagens a verdadeira superioridade da nossa civili- 
sação, que é o dominio do homem sobre as forças 
da natureza pela sciencia, e as maravilhas com que 
a industria usa d'essas forças prodigiosas da natu- 
reza, para obter os productos que satisfazem ás nos- 
sas necessidades. 

A verdadeira superioridade da civilisação christã 
sobre toda a outra civilisação é a moral ; e por ella 
uma larga organisação social, fundada na egualdade 
de todos os homens, na paridade de todas as raças, 
e no progresso em commum de toda a humanidade. 
Tudo o que possa levar essa convicção ao espirito 
dos selvagens africanos ha de contribuir mais para 
a sua civilisação do que qualquer exposição, neces- 
sariamente imcompleta, de doutrinas que elle não 
pode comprehender, e que lhe faliam ás suas facul- 
dades intellectuaes entorpecidas, em vez de exerce- 



49 



rem salutar influencia na sua actividade sensorial 
naturalmente exaltada, onde a razão está pouco des- 
envolvida. 



IX 



De quanto anteriormente fica exposto se vê que 
o estado de desenvolvimento intellectual, moral, so- 
cial e religioso dos negros não é o mesmo por toda 
a Africa; antes apresenta grandes diversidades, 
que bem mostram serem estes povos susceptiveis 
de aperfeiçoamento, e aptos para a civilisação, tal 
como nós a concebemos e praticamos. E uma evolu- 
ção incompleta a que se dá n'aquelle vasto conti- 
nente ; mas que poderá completar-se, rapidamente, 
pela acção, e pelos exemplos de outros estados, mais 
perfeitos de civilisação : comtanto que estes se mos- 
trem mais favoráveis, e mais proveitosos, para o 
bem-estar de povos, — hoje selvagens ou quasi sel- 
vagens, — do que o seu actual estado o pode ser e 
não abusem da superioridade, que tem, para melhor 
fazerem sentir a sua força. 

m 

Isto tudo é a confirmação do que assegura, fun- 
dado sobre os factos, o sr. Nogueira no seu livro 
interessante, — que já citamos — intitulado Raça 

VOL. IH 4 



50 

Negra. «A raça negra, diz, não é menos bem do- 
«tada a esse respeito (a respeito de bons ou maus 
«sentimentos), do que qualquer outra; o seu cara- 
< cter mesmo prima pela docilidade, pela resignação 
tf ao soífrimento ; e é notável que, ao passo que nos 
«querem apresentar o negro como uma fera, quando 
«se vinga, se procura, ainda rebai^al-o, quando se 
«resigna, explicando essa conducta pelas suas bai- 
«xas virtudes», pela sua «inferioridade moral I» 

São muitas as accusações, que os viajantes for- 
mulam contra os povos africanos; mas são, qoasi 
sempre, laes accusações o resultado de um conhe- 
cimento incompleto dos sentimentos, das paixões, 
dos usos de raças mal conhecidas, a que os viajan- 
tes se conservam estranhos, e que querem julgar, 
por comparações com os povos denominados civili- 
sados, que sabem melhor encobrir os seus vicios e 
disfarçar a sua ignorância, e até, muitas vezes, a 
sua falia de senso moral e de religião. 

«Eu estive, diz o sr. Nogueira, doze annos entre 
«vários povos do interior de Mossamedes, e confesso 
«que nada vi que confirme as asserções que ahi 
«deixo expostas.» 

E prosegue : «O estado dos povos a que me refiro, 
«apresentando todas as gradações, desde a vida 
« verdadeiramente selvagem, errante e nómada, até 
« á sedentária e agrícola, nada offerece por onde se 
«possa concluir, que elles sejam absolutamente inca- 



51 

«pazes de se elevarem á vida civilisada. Se uns per- 
«manecem no mais baixo da escala, outros sobem 
«muito alto e mostram -se aptos para passarem a 
«um grau muito mais elevado.» 

Accusara-se os negros de indolência no trabalho; 
e é verdade. Mas também é verdade que, no seu es- 
tado actual, nada os excita ao trabalho ; não só por- 
que são muito limitadas as suas necessidades, mas, 
sebretudo, porque a escravidão, como instituição 
permanente, é destruidora de toda a iniciativa, de 
toda a energia individual. 

A opinião da Europa acerca da escravidão está 
hoje inteiramente formada. A reprovação é univer- 
sal e irrevogável ; e tem razão a Europa, não só 
sob o ponto de vista puramente humanitário, mas 
ainda sob o ponto de vista do interesse material e 
do desenvolvimento progressivo da civilisação afri- 
cana. Não se deve porém occullar que grandes es- 
pirites, observadores conscienciosos, não teem lan- 
çado uma condemnação absoluta sobre a escravidão 
na Africa/ Assim, o viajante W. Reade, cujas opi- 
niões, lúcidas em geral, temos por vezes citado, es- 
creve: «A escravidão, ou antes a servidão, é uma 
«necessidade na Africa onde, se a máxima de Ale- 
«xandre, — «é o trabalho real, e a preguiça é ser- 
«vil — > se deve considerar exacta, ninguém é livre. 
«A preguiça é o estado natural do homem, da qual 
«a necessidade primeiro e a ambição depois o podem 

4* 



52 

«libertar. » O remédio d'este mal é a liberdade e a 
civilisação, como o próprio escriptor parece reco- 
nhecer logo adiante. «Em Inglaterra, diz elle, como 
«tratamos nós os homens validos, que andam men- 
«digando pelas ruas? Metlemol-os na prisão, e obri- 
«gamol-os a trabalhar. A Africa é habitada por ho- 
«mens vaHdos, que não são obrigados a trabalhar 
«pela fome, não precisam vestir-se, e que nem ambi- 
«ção nem desejo de luxo teem.» Creadas as neces- 
sidades da civilisação, e elevada a dignidade pes- 
soal nos negros, elles trabalharão e sentirão a ne- 
cessidade de ser livres. 

O celebre Schweinfurth, inimigo ardente da es- 
cravatura, escreve sobre o assumpto : « A escravidão, 
« com o seu inseparável conjunto o trafico de escravos, 
«é tão antiga como o mundo em que vivemos; não 
«ha uma só pagina na historia, que não lhe descubra 
«os traços, não ha um chma nem um povo em que 
«não tenha feito sentir a sua influencia. Uma inspec- 
< ção imparcial do passado, não pode senão conven- 
«cer-nos, que as instituições religiosas pouco ou 
«nada fizeram pela causa da humanidade. Presente- 
« mente a escravidão é considerada como incompa- 
«tivel com a doutrina christã, mas a hisloria do an- 
«tigo christianismo apresenta um aspecto differente. 
«Os mais antigos padres da egreja parecia não con- 
«ceberem, que houvesse alguma coisa de mau em 
«possuir e em vender escravos; porque, ainda que 



83 

«o christianismo estabelece preceitos de fraternidade 
« e amor, estabelece também os deveres dos escravos 
«como escravos, de darem obediência e se submet- 
« terem aos seus senhores. A luz que brilhou sobre 
«a Galilea, emanando de um espirito tão sublime, 
«gastou dezoito séculos a penetrar no mundo, e só 
«agora principia a revelar-se na sua verdadeira 
«pureza. Mas em parte alguma do mundo a escra- 
« vidão mais se arreigou e se disseminou do que 
«na Africa.» 

A escravidão na Africa persistiu e persiste como 
uma instituição ; tende porém, a desapparecer com 
o contacto da civilisação e das idéas europeas. Só 
hoje, é que estas idéas são manifestamente adver- 
sas á barbara instituição. Antes, pelo contrario, ex- 
citavam-se os povos selvagens a fazerem escravos, 
para os vender ; e o influxo europeu mais contri- 
buiu para aggravar, do que para minorar os males 
da escravatura. Nem isto nos deve admirar, lem- 
brando-nos do trafico que na Africa faziam os go- 
vernos, e do muito que ganhavam n*esse infame 
commercio os religiosos, que iam para alli a civi- 
lisar os povos e propagar a religião christã. Nos 
archivos da secretaria da marinha e ultramar, como 
affirma o marquez de Sá da Bandeira no seu livro 
sobre — O trabalho rural africano — , existem nu- 
merosas queixas, feitas pelos governadores da índia, 
de Moçambique e de Angola, contra o irregular e 



54 

escandaloso comportamento de muitos membros das 
congregações religiosas e de seus chefes, e pedindo 
providencias ao governo, para que isto se evitasse. 
Uni dos governadores, Sebastião Xavier Botelho, 
chegou a escrever : «Os parochos das villas da Africa 
«oriental costumam ser ignorantes e de vida depra- 
«vada, não havendo n'elles senão cubica e desen- 
«freamento de paixões.» E accrescenta, referindo-se 
a um caso particular: «Podemos bem dizer que por 
«aqui não ha christandade senão no nome. Estes 
«parochos missionários nem doutrinam, nem pre- 
«gam, por serem tão ignorantes como os seus fre- 
«guezes.» 

Os jesuitas, mais de uma vez, abandonaram as 
missões, quando nenhum proveito prometliam, como 
succedeu em Angola, onde, conforme diz o honrado 
marquez de Sá da Bandeira: « Os jesuitas haviam 
«(1680) abandonado as missões que tinham no in- 
«terior, retirando-se para o seu collegio de Loanda. 
«Elles possuiam muitas propriedades ruraes, e fa- 
«ziam um grande commercio; e, preparando um 
«navio para ir com carga de negros para o Brazil, 
«elle (o' governador) não deu licença para isso ; mas 
«foi-lhes concedida pelo successor do mesmo go- 
«vernador.» 

Inútil é citar mais exemplos, que expliquem o 
pouco fruto da propagação. da religião christã pelos 
missionários, no tempo antigo: basta recordar, que 



55 



O grande D. João de Castro também formulou amar- 
gas queixas contra a devassidão e a falta de zelo 
dos frades na índia; porque o seu grande e religioso 
espirito não podia supportar taes erros e desmandos. 



X 



A escravidão é, em nossa opinião, a principal 
causa do grande atrazo de todo o género, em que se 
acham ainda as populações indígenas da Africa; 
quando todos os povos progridem, ou, se não podem 
resistir á acção da civilisação e adaptar-se a el)a, 
se extinguem com deplorável rapidez. Vemos, en: di- 
versas parles do mundo, os povos selvagens fugirem 
diante da civilisação, e por fim extinguirem-se. Ver- 
dade é, que o espirito cubiçoso e brutal dos colonos 
europeus tem contribuído muito para isso ; mas, é 
certo também, que parece haver alli a acção de uma 
lei mysteriosa e fatal, a qual condemna á destruição 
as raças inferiores, que não teem responsabilidade 
e não podem amoldar-se ao systema que lucta pela 
existência ; systema social que consiste em tomar, por 
assim dizer, posse das forças da natureza, e usar 
d'essas forças em serviço próprio. Ha aqui alguma 
coisa d'aquellâ lei de Darwin : « Pode dizer -se, me- 
«taphoricamente, que a selecção natural está a cada 



56 

«instante buscando no mundo as mais insignificantes 
t variações, rejeitando as que são más, preservando 
«e accrescentando as que são boas ; silenciosamente 
« e insensivelmente trabalhando, cada vez que a occa- 
«sião se offerece/no melhoramento de cada ser or- 
« ganico ; em relação ás suas condições de vida, quer 
«orgânicas, quer inorgânicas. Ás formas que não 
prestam extinguem -se; as outras desenvolvem-se e 
progridem. 

Na Africa encontramos também raças que evi- 
dentemente tendem a extinguir* se; mas ha muitas 
outras, que parece quererem desenvolver se e progre- 
dir. Isto, porém, depende do caminho que seguir a 
propaganda civilisadora de hoje em diante. Na lucta 
pela vida as raças inferiores não podem resistir por 
longo tempo, quando as despojam do solo ; quando 
lhes escravisam a população valida ; quando querem 
contrariar as leis naturaes, que só podem assegurar a 
conservação ; quando lhes tiram, em vez de lhes re- 
bustecer, o sentimento da própria dignidade ; quando 
lhes impõem o trabalho servil, em vez do traba- 
lho livre, estimulado pelo próprio interesse. 

Grande parte dos portuguezes, que vão para as 
colónias africanas, estão longe de ser os represen- 
tantes da civilisação europea ; estão n'isto accprdes 
todos os que visitam aquellas colónias, com espirito 
recto, imparcial e esclarecido. Não recorremos aos 
viajantes estrangeiros para formar esta triste opinião. 



/ 



57 

mas unicamente aos fados narrados por portague- 
zes ; e ao deplorável uso, que lemos, de povoar os 
territórios, que são nossos, com criminosos degra- 
dados. 

Um dos grandes males das nossas colónias é este. 
Faltam verdadeiros colonos. A emigração portugueza 
busca a America e não a Africa. Ha razões para 
isso; e essas, essencialmente praticas, não se des- 
troem com vãs declamações. A emigração é uma lei 
natural da humanidade. A liberdade de emigrar é 
um direito ; o uso d'esse direito não pode ser su- 
jeito a restricções, senão aquellas que tenham por 
fim proteger os incautos e evitar fraudes e enganos. 
Mas, por isso mesmo que a liberdade de emigrar é 
um dweito, por isso mesmo não está elle depen- 
dente senão dos impulsos do próprio interesse. Que- 
rel-o sujeitar a regras, querer estabelecer preceitos 
para forçar a emigração a seguir determinado ca- 
minho, é attentar contra a liberdade individual. Se 
queremos attrair a emigração para a Africa, prepa- 
remos o paiz para receber a emigração, — uma emi- 
gração sã e valida. E o paiz prepara-se pela con- 
strucção de caminhos ; pelo estabelecimento de com- 
municações para os territórios mais productivos e 
mais salubres; pelo melhoramento das condições 
hygienicas ; pela attracção lucrativa dos capitães ; 
pela creação de uma população nativa, que livre- 
mente trabalhe, e que venha a interessar-se pela 



58 

prosperidade dos colonos, partilhando com elles as 
vantagens da civilisação. 

Não ha meio termo : ou fazer dos negros traba- 
lhadores livres, e civihsal-os pelo exemplo, pela dou- 
trinação, pelo trabalho; ou repellir as populações 
indigenas, sacrifical-as ao nosso interesse e occu- 
par o solo que ellas abandonarem. E assim que 
succedeu na America do Norte e na Austrália. Mas 
aqui na Africa ha outro inimigo a combater, e esse in- 
vencivel: é o clima, que inhabilita o colono europeu 
a entregar-se aos trabalhos rudes do campo. Isso ex- 
plica, mas não justifica a escravidão. Porém hoje 
esse estado degradante não pode continuar; a mo- 
ral e a civilisação não o consentem. Em tal caso 
não ha senão uma solução : A creação do trabalho 
livre do negro, e a civihsação d'este pelo trabalho. 

Aos bons colonos portuguezes não pode esta tran- 
sição, aliás necessária, ser difiBcil. Basta, para o pro- 
var, lembrar o que diz um estrangeiro, que conhece 
bem Angola, e que minuciosamente descreveu alguns 
dos seus costumes; e basta recordar os resultados ob- 
tidos pelas commissões de obras publicas eminente- 
mente civihsadoras; basta conhecer os trabalhos por 
operários livres, que o intrépido sr. Paiva Raposo 
tem executado nos campos do Zambeze. 

Eis o que, a respeito da escravidão em Angola, 
escreve o sr. Joaquim João Monteiro, no seu inte- 
ressante livro Angola and the viver Congo: 



59 

«Mui pouca crueldade acompanha o estado de 
escravidão entre os nativos de Angola, e creio que 
o posso dizer mesmo do resto da Africa tropical, 
mas quero-me restringir á parte de que tenho per- 
feito conhecimento. E uma instituição domestica, 
e existe até hoje desde tempos immemoriaes; e não 
ha maior desgraça ou descrédito em ter nascido 
de pães escravos^ e em ser, por consequência, um 
escravo, do que ha na Europa em nascer de de- 
pendentes ou criados de uma casa antiga, e con- 
tinuar no serviço da mesma maneira. Ha alguma 
coisa de patriarchal no estado de captiveiro entre 
os negros, se olharmos as coisas sob um ponto de 
vista africano (devo outra vez chamar a attenção 
dos leitores para considerarem, que todas estas ob- 
servações se applicam a Angola). 

«Os homens livres, ou amos e suas mulheres, 
teem obrigação de dar aos seus escravos bom ali- 
mento e fato ; de os tratar em suas doenças, a elles 
e aos filhos ; de lhes escolher marido ou mulher ; 
de lhes dar meios para celebrarem suas festas, 
taes como casamentos, baptisados, enterros, do 
mesmo modo que entre si; os escravos, de facto, 
são considerados como família, e chamados «meu 
filho » e « minha filha. ^ 



Depois de lèr com attenção o que fica transcripto 
é difiScil suppor que, aos portuguezes honrados e 



60 



de bom caracter, pode ser difficil a transição, que 
resulta da abolição dos escravos. Esta deve influir, 
beneficamente, na civilisação africana. 



A CIVILISAÇÂO AFRICANA 



PARTE II 



A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



I 



Abolido o trafico e extincta a escravidão — e es- 
tes são factos consumados difinitivamente nos ter- 
ritórios portuguezes, e em breve o serão em toda a 
Africa,-:- ha que pensar sem descanço na transfor- 
mação mental e social dos negros. 

Não se supponha que essa transformação é im» 
possível, nem mesmo extremamente difficil. Nume- 
rosos factos provam o contrario. Ha que ler em 
conta que, na Africa, existem differentes raças, umas 
em via de evolução e manifesto progresso, outras 
em decadência e talvez a caminho de uma exlinc- 
ção rápida. O que se pode esperar de umas não é 
o mesmo que de outras se pode vir a alcançar. Os 
meios de actuar no espirito de umas não se deve 
crer que sejam os mesmos, que sobre as outras te- 



64 

nham acção. O futuro de umas e outras será natu- 
ralmente diverso: convém porém atlender que todas, 
mais ou menos adiantadas, com maior ou menor 
aptidão para o progresso, estão ainda numa espécie 
de estado infantil. 

O corpo humano é um agregado de órgãos, que 
exercem funcções distinctas, e contribuem todos 
para o phenomeno da vida. Estas funcções, — todos 
o sabem, — não conservam sempre entre si a mesma 
proporção, nem mantém um perfeito equilibrio no 
seu vigor relativo. Os seres humanos são constitui- 
dos diversamente em relação ás suas funcções. Uns 
teem forte o estômago e órgãos de nutrição ; outros 
os músculos, outros o cérebro. Mas, dada a des- 
egualdade na proporção das funcções, é comludo 
indispensável que se mantenha enire ellas certo 
equilibrio relativo, para que a vida se complete em 
todos os seus actos essenciaes. O predominio de 
uma funcção realisa-se necessariamente á custa de 
outras funcções Nos negros as funcções dominan- 
tes são as da vida physica, — admitta-se a expressão. 
As da vida intelleclual estão atrophiadas, quasi no 
estado rudimentar. Para a educação do negro deve 
ter-se em consideração esta circumstancia. 

As raças aperfeiçoam-se ou decaem de geração 
em geração; porque os órgãos e as funcções se des- 
envolvem ou modificam segundo acções internas e 
influencias externas. Querer subitamente transfor- 



65 

mar as raças, dar-lhes novas aptidões e novas idéas, 
é querer um impossível. Nem da desegualdade das 
funcçSes e da diversidade correlativa das aptidões, 
se pode^ concluir a inferioridade de umas raças em 
relação a outras. Todas estão em via de progresso, 
mesmo as que se julgam mais perfeitas. Raças in- 
feriores são as que não podem progredir: e as ra- 
ças africanas, pelo menos a maior parte d'ellas, são 
susceptíveis de lento progresso, como o estão pro- 
vando os factos. 

As próprias funcções menlaes apresentam pro- 
fundas differenças no seu desenvolvimento. Sem nos 
demorarmos em estudar as numerosas divisões, que 
a sciencia d'ellas tem feito, basta-nos attender ao 
contraste evidente que existe entre os phenomenos 
da emoção e os da elaboração intellectual, propria- 
mente dita; entre uma e outra coisa a differença, 
o antagonismo mesmo é evidente^ O prazer, a dôr, 
a excitação de qualquer ordem não se coadunam 
bem com a reflexão e o pensamento. Com as vio- 
lentas emoções a intelligencia padece, com o tral)a- 
Iho excessivo da intelligencia as faculdades de emo- 
ção embotam-se. No negro, como nos seres em que 
as faculdades do intellecto não estão plenamente des- 
envolvidas, as emoções dominam; e d'alli vem as 
vagas superstições ; as crenças extravagantes ; os ex- 
cessos no bem e no mal ; a tendência a seguir im- 
previdentemente os impulsos, as impressões de mo- 

VOL. III 5 



66 



mento, boas ou más ; a passar, sem transição, de 
uma agitação violenta á quietação absoluta; a faci- 
lidade era passar dos furores da guerra á inércia e 
a indolência na paz ; a resignação em face do so- 
frimento; a humildade em face da tyrannia; a indif- 
ferença com que consideram a morte, ou o furor 
com que emprehendem a vingança. 

A evolução social de um povo depende essencial- 
mente do desenvolvimento e natureza das suas fa- 
culdades. Para avaliar os actos e as opiniões dos 
selvagens é necessário colocar-se no ponto de vista 
das faculdades e das tradições d'estes. É diflScil 
julgar do estado do espirito dos outros pelo nosso 
próprio espirito; essa dificuldade é tanto maior, 
quanto mais afastados de nós estão aquelles que 
queremos julgar. Todos sabem quanto é difficil co- 
nhecer aquelles mesmos que vivem nó meio em que 
nós vivemos; que pertencem á mesma sociedade; 
que tem uma natureza semelhante á nossa. Conhe- 
cer e avaliar homens de outras raças, n'um estado 
mental muito diverso do nosso, é muito mais diffi- 
cil ; por isso, muitas vezes, nem podemos comprehen- 
der-lhes as acções, quer nos individuos quer nas 
sociedades, mais ou menos rudimentares, que estes 
constituem. Querer interpretar o modo de ser dos 
selvagens pelas nossas faculdades, complexas e des- 
envolvidas em grau muito superior ás d'elles, é 
origem de graves erros e de injustas apreciações. 



67 

D'aqui resulta a falsa idéa, de que as raças africa- 
nas estão condemnadas a uma perpetua inferiori- 
dade, e até de que representam uma espécie diffe- 
rente das que dão origem ás raças brancas. Essa 
cruel hypothese tende a desapparecer da sciencia e 
a especulação já não ousa evocal-a. A luz da jus- 
tiça vae alumiando, com vivo clarão, este grande pro- 
blema da humanidade ; o que abre novos e vastos 
horisontes á civilisação da Africa. 

O estudo, verdadeiramente scientifico, da histo- 
ria e da sociologia vae cada vez demonstrando mais 
claramente, que as sociedades se desenvolvem por 
successiva evolução e não por uma rápida transfor- 
mação, puramente artificial. As sociedades adquirem 
os seus caracteres t}fpicos por modificações succes- 
sivas: não por transformações instantâneas. As mais 
civilisadas sociedades de hoje tiveram origem, pri- 
mitivamente, em hordas selvagens, em que se prati- 
cava a anthropophagia, que viviam errantes, e ti- 
nham por industria única as rudes armas de pedra 
com que luètavam contra feras. Ainda, ha poucos 
séculos, muitos dos actos mais bárbaros, que vemos 
com horror praticar-se n alguns povos africanos, 
eram communs na Europa. O fanatismo feroz, as 
crenças nos feitiços, as mais abomináveis supersti- 
ções opprimiam e maculavam a alma dos nossos 
maiores. 

A falta de uma justa apreciação do estado phy- 

5* 



68 

sico e mental dos africanos tem sido uma das prin- 
cipaes causas da impotência da Europa em lhes pro- 
mover a civilisação. 

Ainda ha pouco, — considerando os pobres afri- 
canos como simples machinas vivas de trabalho, con- 
demnados perpetuamente a uma abominável escra- 
vidão, — os brancos não se occupavam senão de des- 
povoar aquellas vastas regiões, promovendo guerras 
fratricidas, e levando, atravez dos mares, os infelizes 
que a força, a astúcia ou a ignorância lhes entre- 
gava ás mãos. A esses actos de crueldade, inspira- 
dos pela sórdida cubica, mantidos por tenebrosos 
preconceitos, misturavam-se falsas idéas de religião. 
A caça dos escravos hypocritamente se justificava 
pela intenção de os fazer christãos; e fazel-os chris- 
tãos não era mais do qae baptisal-os em massa, 
sem lhes dar doutrinação alguma nem praticar com 
elles o minimo acto de catechese. 

É de admirar a eloquência, ungida da divina 
graça, com que os chronistas fradescos faliam das 
hecatombes de escravos que baptisavam, antes de 
os mandar vender no Novo Mundo I Na praia de 
Loanda, o bispo, sentado n uma cadeira de már- 
more, lançava a sua santa benção aos pobres es- 
cravos, que partiam para longiquas e estranhas re- 
giões, perdendo hberdade, família e pátria. E as- 
sim, o virtuoso prelado cumpria o seu dever de pa- 
dre e christão. Nem taes factos podem admirar, dada 



69 

a theoria dos theologos do século xvi, de que as 
terras dos idolatras e mesmo a vida e a liberdade 
doestes pertencem aos príncipes catholicos, a quem 
o papa, senhor universal, as pode dar. 

Em tempos modernos os velhos preconceitos, em 
grande parte, se apagaram, mas surgiram outros. 
Os viajantes, percorrendo a Africa em todas as di- 
recções e preocupados com os problemas geogra- 
phicos cu com as explorações de historia natural, 
pouco se tem fixado, com raras e nobres excepções, 
na Índole dos povos, nas suas leis, costumes e ap- 
tidões. Em se levantando alguns obstáculos ás suas 
explorações não hesitam, muitas vezes, em os attri- 
buir á Índole perversa ou á falta de intelligencia 
dos povos indígenas. E, assim, tem mais de uma 
vez contribuído para propagar falsas idéas sobre as 
raças africanas, que não pensam nem podem pen- 
sar como nós; mas que mostram, em muitas cir- 
cumslancias, sentimentos de justiça, exercem actos 
de hospitalidade, manifestam amor de família e pra- 
ticam actos de dedicação. Falsos sábios, por mais 
de uma vez, tem buscado provar, que as raças ne- 
gras occupam um grau inferior na escala da orga- 
nisação humana, a fim de justificarem os crimino- 
sos actos promovidos pela escravidão. 

Nb meio d'esta desordem nas idéas e d'esta 
errada apreciação dos factos, a verdade vae appa- 
recendo; e hoje a Africa é melhor comprehendida 



70 

do que o era ha menos de meio século. E a um 
melhor conhecimento deve corresponder, necessa- 
riamente, um systema diverso e mais racional de 
educar e civilisar os negros. 

E porém preciso não ter illusões. São os africa- 
nos capazes de melhorar as suas condições, physica 
e moral, pela acção lenta e segura da civilisação. 
O seu futuro não nos parece duvidoso. Mas hoje o 
grau incompleto de evolução em que se acham, as 
suas disposições para a emoção, a debihdade in- 
fantil das suas faculdades mentaes, facilmente os 
arrasta ao vicio e á depravação. Como diz W. 
Reade, na sua excellente obra Savage Africa: «Os 
« negros não nos merecem o nome de irmãos ; mas 
«antes os devemos considerar como filhos. Eduque- 
«mol-os cuidadosamente, e com o tempo se eleva- 
«rão.» 

No mesmo sentido se exprime, energicamente, o 
nosso amigo e distincto viajante o major Serpa Pinto, 
nos seguintes termos: 

« Os missionários, que teem pouco saber e intel- 
«hgencia, começam por gritar (aos negros) a cada 
«hora, a cada momento, no púlpito sagrado (que só 
«deve ouvir a linguagem da verdade), que elles são 
«eguaes ao branco, são eguaes ao homem civilisado; 
«quando lhes deveriam dizer o contrario, quando só 
«lhes deveriam dizer: 



71 

«Entre ti e o europeu ha uma differença enorme, 
«e eu venho ensinar-te a vencel-a. 

«Regenera-te, deixa os hábitos indolentes e Ira- 
«balha; deixa o crime e pratica a virtude; aprende 
« e deixa a ignorância, e só então poderás alcançar 
«um logar junto do branco, poderás ser seu egual. b 

Os conselhos seriam bons, mas não seriam fáceis 
de tomar. E pela impressão physica que pode che- 
gar-se^ ao espirito do negro, que está adormecido. 

Preceitos, é mais fácil dal-os que recebel-os, 
quando os que os dá tem a comprehensão d'elles e 
os sabe praticar, e quando os que os hão de rece- 
ber não teem faculdades para os entender e os não 
vêem praticar. 

O mais poderoso meio de civilisar a Africa é o 
commercio e o trabalho productivo. O negro selva- 
gem melhora e progride, quando do contacto com 
o homem civilisado lhe vem proveito e lição pratica 
incontestável 



72 



II 



Um nobre e generoso pensamento levou os pri- 
meiros exploradores da Africa a trabalharem perti- 
nazmente pela propagação da fé catholica, pela sal- 
vação das almas dos povos selvagens, que elles 
acreditavam estar condemnados ás penas eternas, 
pela sua ignorância das verdades catholicas. Tal era 
a crença dos nossos maiores. O seu maior empenho 
era descobrir terras incógnitas, para buscar alli ri- 
quezas naturaes de que fizessem monopólio: bapti- 
sar os idolatras, para lhes salvar as almas na vida 
futura; menos, porém, para lhes melhorar a vida 
presente pela civilisação e pela transformação do seu 
miserável estado social. 

Ao entrarem na Africa, os europeus acceitaram 
as consequências lucrativas da escravidão; e um dos 
melhores ramos do commercio era o resgate dos 
negros, que compravam por algumas manilhas de 
cobre, ou por um pouco de vinho da Europa. Entrar 
assim, interesseiramente, nos usos selvagens dos 
africanos; abrir-lhes mercados novos á venda de 



73 

seus filhos, irmãos ou inimigos não era certamente 
meio seguro de os civilisar. 

Preoccupados pela idéa de salvar as almas, sem 
cuidar dos corpos ; de lavar os negros do peccado 
pelo baptismo, em vez de lhes elevar os espiritos 
pelas sãs doutrinas da moral, propagadas pela pa- 
lavra e pelo exemplo; os missionários cuidavam, 
antes de tudo, de baptisar os chefes negros; para 
depois conseguirem, por qualquer meio, ainda mes- 
mo a violência, baptisar as multidões. E a sua dou- 
trinação era demasiadamente breve e em desaccor- 
do com as estreitas faculdades e baixo nivel intelle- 
ctual d'aquelles a quem se dirigiam, para que po- 
dessem os resultados ser eflficazes. O padre Gavaz- 
zi, para dar idéa da grande população do Congo, 
diz: que os missionários, poucos em numero, e sem 
se alongarem para fora de um estreito âmbito, «ba- 
«ptisaram em pouco tempo seiscentas mil almas.» 
Inútil é juntar-se a esta outra prova — porque ha 
muitas — do modo por que se fazia a catechese na 
Africa. 

A historia das missões no Gongo bem mostra a 
falta, que aos missionários fazia um conhecimento 
profundo dos caracteres intellectuaes dos negros, 
das suas necessidades moraes e sociaes, e do modo 
por que o espirito rude dos homens se abre lenta- 
mente a novas idéas, e a consciência a novos pre- 
ceitos da moral e a novas crenças religiosas. Es- 



74 

treitas opiniões religiosas e os dictames de nm fa- 
natismo pouco esclarecido, levaram a guerra onde 
havia a aconselhar a paz; substituiram uma idola- 
tria a outra idolatria; levantaram umas feitiçarias 
em vez de outras feitiçarias, na opinião materialista 
dos selvagens; e por fim perderam tudo, e fizeram 
desapparecer as conquistas de que mais se gloria- 
vam os missionários. 

A semente, porém, não se perdeu de todo: ainda 
restam vestigios d'ella. Quando os missionários bus- 
caram propagar a instrucção, abrir escolas, ensinar 
a ler e a escrever, encaminhar as artes em melhor 
direcção, e se mostraram desinteressados e bem 
morigerados, a semente fructificou; quando, ao con- 
trario, quizeram subitamente acabar com todos os 
peccados condemnados pela egreja, — embora os 
seus intuitos fossem justos e santos: — quando se 
occuparam exclusivamente, não de ensinar as boas 
doutrinas e as boas praticas, úteis á vida, efficazes 
nos seus resultados civilisadores, mas de pregar 
doutrinas que os selvagens não podiam comprehen- 
der; quando deram maus exemplos, especulando 
com o trafico dos escravos, e com os vicios dos 
povos; então a semente nada produziu, e a ruina 
entrou logo nos monumentos que quizeram edificar 
sem aUcerces. 

Quando os jesuitas entraram no Congo, abriram 
— segundo diz um manuscripto antigo — escola a 



75 

que acudiram cmaís de seiscentos moços» ; e outros 
foram « pela terra dentro a pregar o Evangelho, o 
«que fizeram com grande aproveitamento, conver- 
c tendo nos primeiros cinco mezes mais de cinco mil 
«pessoas.» Pouco depois voltaram os padres para 
Portugal «por causa do ruim clima.» Mas o paiz 
estava profundamente desordenado, e n essas des- 
ordens «foram mortos quasi todos os portuguezes. » 
No tempo do successor do rei, que governava por 
esta época, levantou-se o povo do Congo contra a 
propaganda dos padres «por ser coisa raríssima 
« — diziam elles — não ter mais que uma mulher». 
O chefe da revolta morreu e foi enterrado na egre- 
ja de Santa Cruz, e os padres, para darem maior 
vigor ao fanatismo, inventaram que «os diabos des- 
« cobriram parte do telhado da egreja, o tiraram da 
«sepultura e o levaram com espantoso ruido, de que 
«o rei ficou attonito e todo o reino.» E o manus- 
cripto, a que nos referimos, continua: «Succedeu 
«logo que entrando, e invadindo o dito reino, os 
«Giaques (Jagas) em grande numero, e dando ba- 
«talha ao rei Álvaro o desfizeram, e metteram em 
«fugida de tal sorte, que não se dando por seguro 
«na mesma cidade de sua corte, abandonou total- 
«mente o reino, fugindo a uma ilha do Zaire cha- 
»mada o Cavallo, com todos os sacerdotes e mais 
«portuguezes e os príncipes de seu reino». Redu- 
zidos já a venderem-se uns aos outros por vil preço, 



76 

pediram, o rei do Congo e os seus, soccoro a Por- 
tugal, que lhes mandou soldados que expulsaram do 
reino os invasores Jagas. 

Annos depois, e não obstante os favores que os 
povos do Gongo deviam aos portuguezes, lê-se n'uma 
consulta do Conselho Ultramarino de 1674, que fo- 
ram expulsos os capuchinhos, com muitos maus 
tratos e violências, tsob pretexto de que por seu 
«respeito não chovia n*aquellas terras.» Ao cabo 
de tão longos annos de pregação e propaganda, os 
menos rudes no Congo ainda conservavam todo o 
seu primitivo fanatismo, e as feições principaes da 
sua primitiva idolatria. Comtudo, a instrucção der- 
ramada pelos missionários não se extinguiu de todo. 
Levingston, que não pode ser suspeito, escreve do 
Congo: «o ensino dos jesuitas tem sido tão perma- 
•nenle, que o principe do Congo se conserva chris- 
^«tão, e que não ha menos de doze egrejas no reino, 
«fruto da missão estabelecida em antigos tempos na 
« capital de S. Salvador. » Que espécie dè christão 
seja o rei do Congo, dizem-no os viajantes, que ob- 
servam os factos com despreoccupação. 

Para lançarem de si a responsabilidade do pouco 
fructo das missões, os missionários da propaganda 
escrevem contra nós, os portuguezes, injurias mise- 
ráveis; esquecendo, com imperdoável ingratidão, o 
muito que nos devem. N'um livro de Marshall, in- 
titulado Cristian Missions, lê-se o seguinte: «Aprin- 



77 

« cipal desgraça da Africa Occidental é o estar ainda 
« com um império já corrompido, sem fé nas tradi- 
«ções catholicas, e qae rapidamente se precipita 
«n'uma decadência ignominosa, devida á gradual 
« extincção de todos os principios religiosos nos que 
«o dirigem; e Proyart não estava provavelmente 
«enganado, quando dizia que a immoralidade dos 
«portuguezes acceleraria a ruina das missões na 
«Africa.» 

Citamos estas vilissimas palavras, porque ellas 
nos dão idéa do que temos a esperar da propaganda 
e dos seus agentes. Deve, porém, notar-se que, onde 
não chega a nossa influencia, os trabalhos dos mis- 
sionários se não contam por triumphos ; antes teem 
sido de uma deplorável esterilidade. 



III 



As missões na Ethiopia, em terras do Abixin, — 
nome que os portuguezes davam ás terras do Preste 
João,— não deram melhor resultado do que as da 
Africa Occidental : das quaes as missões do Congo 
são o melhor exemplo. 



76 

A Abyssinia, quando primeiro alli foram missio- 
nários, era chistã, mas da seita dos monophysitas : 
os primeiros missionários foram mandados em tem- 
po do papa João xxii, segundo rezam as chronicas. 
Instituiram conventos, buscaram estabelecer o do- 
mínio dos papas, e nomearam inquisidores, para 
prevalecerem, pela intolerância, sobre os povos mis- 
tos da Abyssinia. Os inquisidores levaram a impru- 
dência até excommungar um potentado, que se sepa- 
rou de uma mulher e casou com outra. D'aqui nas- 
ceram grandes desordens e um processo escanda- 
loso, que terminou por nova excommunhão contra 
um sacerdote que o defendia; sendo tudo acompa- 
nhado das artimanhas cruéis com que, na edade 
media, os fanáticos buscavam dar força aos ana- 
themas da egreja. « Não lhe tardou — ■ ao padre — 
f muitos dias o castigo de Deus, porque, além de se 
«encher de lepra lhe inchou o ventre em tanta ma- 
«neira, que arrebentou, como outro Judas.» O in- 
quisidor foi mais tarde morto a açoites pelo poten- 
tado iracundo. A egreja contou mais um martyr, e 
vários milagres; mas a propagação da doutrina na 
Abyssinia nada ganhou. Esta narração de fr. João 
dos Santos é posta em duvida pelos chronistas je- 
suitas; e esta lucta entre dominicanos e jesuítas lança 
muita confusão na historia das missões na Abyssi- 
nia, mas não esconde a inefficacia de todas ellas. 

Depois que os portuguezes foram á Abyssinia li- 



79 

bertar o imperador Cláudio do jugo dos mouros, 
capitaneados pelo seu general Granha, começou a 
estabelecer-se alli a missão dos jesuítas ; e com ella 
uma triste época de dissenções religiosas, de que 
encontramos larga noticia na historia do patriarcha 
D. João Bermudes e na Historia geral da Ethiopia, 
de Ballhasar Telles. 

Sendo herejes os abexins, logo os missionários 
— ^em vez de se occuparem em lhes melhorar os 
costumes e em os encaminhar na senda das virtu- 
des — principalmente buscaram extirpar as heresias, 
e se envolveram n um dédalo inextricável de discus- 
sões theologicas, que Bzeram derramar rios de sangue 
e deixaram aquelles povos no mesmo estado em que 
os padres os encontraram ; mas debihtados e fracos 
para resistirem ás invasões dos mouros e gallas. 
Essas disputas estéreis passaram da Ethiopia para 
a Europa, onde as encontramos na Historia ecle- 
siástica da Ethiopia de fr. Luiz d'Urreta da ordem 
dos pregadores, e no volume iv da Relação annual 
das coisas que fizeram os padres da companhia. 

O resultado das missões dos jesuitas, e das luctas 
contra os schismaticos foi o que se vê na própria 
Relação annual que citamos. Diz-se alli : 

«Chegadas a Portugal as informações, e cartas 
«que os padres da companhia escreveram da Ethio- 
«pia do anno de 1562 e sabendo por ellas el-rei 
«D. Sebastião os grandes trabalhos que o patriarcha 



80 

«lá padecia e o pouco fruito que fazia n'aquella 
«terra, polia pertinácia d'aquelles reis e gente, e 
«pouca esperança que davam da sua redução â 
«egreja romana; e tendo, por outra parte, novas do 
«grande fruto que se ia fazendo na conversão da 
«gentilidade nos reinos do Japão: julgou, com raa^ 
iduro conselho, que seria mais serviço de Nosso Se- 
«nhor que o padre patriarclia se saisse de Ethiopia, 
« e passase para o Japão. Para isso escreveu a seu 
«embaixador, que tinha em Roma, e ao padre geral 
«de nossa companhia, para que ambos o tratassem 
«com a santidade do papa Pio v, o qual, polias in- 
« formações que também já tinha do que passava em 
«Ethiopia, facilmente veio no mesmo conselho e pa- 
«reçer e aos 2 de fevereiro de 1566 passou um 
«breve para o patriarcha da Ethiopia.» 

Assim, na missão do Congo idolatra, e da Abys- 
sinia christã, vemos as missões caminhar por erra- 
dos trilhos; não melhorar o estado da civilisação 
dos povos, senão quando buscam derramar a in- 
strucção; e fazer perder a Portugal a preponderân- 
cia que pelas armas conseguira conquistar. 

Está hoje a Abyssinia bem explorada pelos euro- 
peus, e pode — do que se conhece — tirar-se a con- 
clusão que o estado dos povos não tem progredido, 
desde o tempo em que lá estiveram os portuguezes. 
Os que professam o christianismo seguem ainda o 
mesmo schisma; e são elles, emquanto a morali- 



81 

dade, os que occupara mais baixa posição na Abys- 
sinia. Em diversos tempos, e com mais ou menos 
prospera fortuna, os missionários tem ido pregar as 
doutrinas catholicas á Abyssinia ; mas sem que os 
fructos hajam correspondido aos sacrifícios e ao 
zelo dos propugnadores da fé. A duas coisas se pode 
principalmente attribuir este deplorável resultado: 
á rudeza dos selvagens e ás praticas da escrava- 
tura; á subtileza e excessiva complicação — para 
idolatras, materialistas, ou schismaticos renitentes 
— dos myslerios e doutrinas pregadas pelos missio- 
nários. A isto ha, infehzmente, a accre^centar o ef- 
fcito desastroso dos vicios e cubica de muitos dos 
que deveram pregar com o exemplo, ainda mais de 

que com a palavra, os preceitos puros da religião 
christã. 

O que nós conhecemos das missões da egreja pro- 
testante não nos dá confiança alguma na efficacia 
das missõos puramente rehgiosas para civilisar os 
povos africanos. Não está o espirito d'aquelles po- 
vos preparado para receber o espiritualismo chris- 
tão. Costumado á rude e grosseira idolatria, e á ce- 
gueira de uma feitiçaria absurda, não pode o espi- 
rito dos selvagens altingir os requintes da fé, nem 
acceitar os mysterios da religião. 

Winwood Reade — um dos viajantes que melhor 
estudou o caracter dos negros na Africa occidental — 
depois de pintar a im moralidade e ignorância dos 

voL. m. 6 



82 

missionários inglezes na costa, e de manifestar a 
sua justa admiração por aquelles que arriscam a 
vida em missões no interior, affirma que uns e ou- 
tros pouco fazem em beneficio da civilisação, e nada 
em favor da christandade. 

«Em quanto ao ceremonial religioso — diz o illus- 
<<tre viajante — os negros não se mostram fanáticos. 
«Em quanto as coisas se reduzem ao baptismo, a 
« mostrar-lhes imagens da Virgem ou dos santos, a 
« distribuir-lhes rosários e reliquias, e Agnus Dei, 
«os povos divertem-se com isso, e teem prazer em 
«fazer-se christãos. Não fazem dificuldade em mu- 
«dar o seu feitiço pelo feitiço do homem branco, 
«que elles reconhecem ser-lhe superior, e conse- 
« guintemente, mais poderoso. » 

E, mais adiante, accrescenta o mesmo auctor: 

«A religião catholica é, de todas as religiões 
« christãs, a que mais pode ter acção entre os sei- 
í vagens. Impressiona-lhes os sentidos pela musica, 
«os perfumes, os ritos ostentosos: e com os seus 
«encantos, as suas reliquias, as suas imagens, dá 
«o que melhor convém ás intelligencias fracas — 
«alguns objectos externos, que possam venerar, e 
H( que lhes recordem constantemente o Greador. » 

E diz mais : 

« Em quanto a intelligencia africana se conservar 
«no seu estado presente, e em quanto a egreja con- 
«tinuar a confundir os seus minuciosos preceitos 



83 

«sociaes com os mandamentos divinos, a Africa não 
«se pode fazer christã.» 

Este é o segredo da propagação rápida do ma- 
hometismo^ contra o qual o christianismo lucla ha 
séculos na Africa, com pouco resultado. 



IV 



A propagação do christianismo, em toda a sua 
pureza — livre de todos os abusos e erros, que o 
fanatismo, a relaxação dos costumes e o esqueci- 
mento dos seus princípios fundamentaes lhe tem in- 
troduzido, com o andar dos séculos, — seria um dos 
meios mais seguros de promover a civilisação da 
Africa; sempre que a instrucção das populações, ra- 
cional e pratica, caminhasse a par do ensino reli- 
gioso e sempre que os demasiados escrúpulos não 
levassem os missionários a atacar de frente os usos 
e costumes dos povos ; querendo transformar de re- 
pente o que a natural evolução intellectual dos sel- 
vagens, n'um meio e n*um clima a tantos respeitos 
differente dos que na Europa se encontram, creou 
naturalmente. 

6* 



84 

Não devemos suppor que as leis poderosas da na- 
tureza humana, em quanto as faculdades moraes 
não dominam as tendências physicas, se podem trans- 
formar instantaneamente; nem que as praticas ex- 
ternas possam, por si só, mudar o estado moral dos 
negros. 

Não é difficil encontrar, infelizmente, a confissão 
dos poucos fructos que se tem tirado até hoje das 
missões. O negro christão — com poucas excepções 
— está á grande distancia dos europeos a quem 
deve a doutrinação, mas que por séculos o escra- 
visou e Q vendeu como animal, e de quem se con- 
servou e se conserva ainda afastado em tudo, como 
se este fosse de uma natureza totalmente diflerente, 
e infinitamente superior. O negro adopta os vicios, 
e mesmo os costumes do europeu com facilidade, 
mas d'ahi não lhe provem o bem ; porque os bons, 
exemplos e as boas doutrinas moraes não acom- 
panham a acção dos povos civilisados ; antes a op- 
pressão, a violência e a acção do seu sórdido com- 
mercio, parecem ser as mais naturaes manisfestações 
do dominio europeu na Africa. 

Dois séculos depois de entrarem no Congo os 
missionários portuguezès e italianos, ainda um d'es- 
tes escrevia — tendo pintado com vivas cores os 
vicios dos povos do Congo e Angola — o seguinte : 
€ o que se tem alcançado até agora n'aquelles paizes, 
«no que respeita aos costumes, não é para despre- 



85 

«zar; e pode-se esperar que, no andar dos tempos, 
€ favorecendo Deus as nossas diligencias, mais se 
«deixarão domar as paixões» E fácil ver que os 
missionários não estavam muito satisfeitos com o 
fructo dos seus trabalhos ; e comludo, era no Congo 
que os missionários mais tinham feito para bápti- 
sar os negros. N'aquelle tempo o mesmo missioná- 
rio italiano queixa-se de que «os portuguezes, por 
^causa da milicia que d^alh (de Angola) tiram, teem 
«sempre tido em muita conta, e guardado com sin- 
« guiar ciúme, esta provincia, tolerando que vivam 
<ísegundo as suas leis; e, decerlo, pela visinhança de 
«outras nações idolatras, das quaes seriam sem du- 
«vida incitados, será sempre impossivel sujeital-os 
«deveras; para este fim lhes é permittido e consen- 
«tido o privilegio — de nomear aquelles que que- 
«rem para governadores; e o vice -rei de Angola, ti- 
«rado o manter presidios nas praças, para evitar 
«rebellião e os prejuizos da coroa, não se mette em 
«roais nada.» Para evitar as revoltas, e sustentar 
as guerras que lhe movia o rei de Congo, onde in- 
fluiam os missionários, os portuguezes precisavam 
da milicia preta, e guardavam Angola com singular 
ciúme das intrigas e exigências dominadoras dos 
missionários: tinham os portuguezes então o bom 
juizo de não impor governadores aos indigenas, 
contra vontade d'elles, e de lhes respeitarem os usos 
e costumes. Apesar d'isso, foi o governo de Angola 



86 

muitas vezes perturbado pelos missionários, prin- 
cipalmente jesuítas, como é fácil verificar na his- 
toria d^aquella provincia. O desenvolvimento enorme 
da escravatura acabou de arruinar a nossa domina- 
ç^o em Angola, e de empobrecer aquella riquissima 
região, pela falta de braços e de actividade indus- 
trial. 

Fr. Gaspar Cam, bispo de S. Thomé e Congo, 
conhecedor das verdadeiras necessidades da costa 
d'Âfrica para conseguir a civilisação dos indígenas, 
escrevia em 1560, a respeito da missão que Paulo 
Dias levava a Angola: «que duvidava fazerem-se ca- 
« tholicos as gentes do reino de Angola, sem que el-rei 
«lhes desse faculdade para fazerem negociações; e, 
« pois que el-rei lha mandava prohibir, era dificultoso 
« convertel-os , mas comtudo os PP. da companhia 
«se resolviam a ir; pois parecia ser esta a occasião 
«em que Deus os chamava.» Assim, para o bispo 
de S. Thomé, não bastava a cathechese pelos jesuitas 
para christianisar os africanos, era também preciso 
o trato commercial com os europeus 1 O próprio pa- 
dre Gavazzi também recommenda no seu livro, já 
citado, que os missionários ensinem aos povos as 
artes, que então se praticavam na Europa. 

A rapacidade, a crueldade, o cynismo e o vão e 
orgulhoso sentimento de superioridade indisputável 
da raça e da religião, que os europeus levaram a 
Africa, tem sido as causas dominantes do pouco 



87 

proveito que tem tirado, da sua propaganda e do seu 
exemplo, na civilisação dos povos africanos ; mas a 
estas causas acrescem dois factos funestos, e cujos 
resultados se estão ainda manifestando : o trafico da 
escravatura e o uso da aguardente. 

Muitas vezes tem sido os portuguezes injusta- 
mente accusados de terem creado em Africa o hor- 
rível e imraoralissimo trafico da escravatura. Essa 
falsa accusação é ou filha de ignorância ou de má 
fé. Já em tempo de Heródoto eram os negros parte 
do tributo que ao Egypto pagava a Ethiopia, e do 
Egypto os escravos passavam á Europa. O commer- 
cio de escravos fazia-se em larga escala entre mou- 
ros e negros. Todos os que conhecem os escripto- 
res portuguezes dos xv e xvi séculos — e entre estes 
o illustrado chronista Azurara, — sabem quanto era 
reprovado, em nome dos grandes principios da re- 
ligião de Ghristo, este infame trafico ; mas o trafico 
continuava, porque os aventureiros, que iam aos 
descobrimentos, eram levados pelo interesse, e era 
isso que os conduzia á Africa, onde o infante D. 
Henrique e os seus continuadores tinham um grande 
problema geographico a resolver, em beneficio da 
sciencia e da civilisação. Não se creia que só em 
nossos tempos a philantropia se declarou contraria 
ao trafico ; muitos são os escriptores que contra elle 
fulminaram severas censuras ; e os papas lançaram 
inutilmente, as suas bulias. Nos modernos tempos^ 



I 



88 

a nobre Inglaterra poz-se á frente do honroso movi- 
mento anti-escra vista, e o imindo christão inteiro en- 
trou n'esse grande movimento civilisador. Agora o 
que é indispensável é fazer entrar n'essa reacção 
humanitária o mundo musulmano; enlâo, e só en- 
tão o triumpho será completo. O trafico de escravos 
será por fim abolido; o homem será livre em todo o 
mundo, onde chega a influencia da civilisação. Esta 
será a remissão da Africa. 

O uso immoderado da aguardente é um dos vi- 
cios favoritos dos negros, que os brutaHsa e tem 
directa influencia na persistência do commercio de 
escravos e na indolência e falta de aptidão dos afri- 
canos, para os trabalhos constantes da civilisação. 
Este vicio, que os deprava, devem-n'o os negros 
aos europeus, que alimentam grande parte do seu 
commercio com a venda das bebidas alcoólicas, e, 
por muitos annos, se serviram do vicio dos negros 
para facilitar o commercio dos escravos. Os primei- 
ros escriptores portuguezes, que trataram do com- 
mercio e do resgate na costa da Guiné, contam que 
os negros se compravam alli por manilhas e bacias de 
€obre ; posteriormente, este infame commercio fa- 
zia-se, dizem os escriptores, por vinho do reino; 
posteriormente, a aguardente era o principal agente 
commercial do trafico. 

Com alguma razão diz Levingston, na sua Expe- 
dição ao Zambeze que «a única industria que os 



89 

«nativos da Africa adquiriram, das suas relações com 
«os portuguezes, foi a de distillar espiritos.» 

Na venda dos espirilos, e no trafico de escravos, 
tivemos não só imitadores, mas rivaes ardentes nas 
outras nações da Europa; principalmente nos hol- 
landezes, nos inglezes e nos francezes. Nenhuma 
outra nação, pois, nos pode lançar a primeira pedra; 
nem as censuras são bem cabidas, quando vem de 
quem praticou os mesmos delictos. 



V 



O espirito dos negros não recebe doutrinas com- 
plexas, nem pode conceber idéas abstractas; e é 
esta uma das difficuldades, que obstam á rápida 
propagação da fé cbristã, e torna, infelizmente, mais 
fácil aos marabús o espalharem entre os povos afri- 
canos o mahometismo. Não pode pôr-se em duvida, 
que, mais de uma vez, as missões christãs tem fru- 
ctificado temporariamente na Africa; mas, força é 
confessal-o que nada, ou quasi nada tem produzido 
de estável e verdadeiramente christão. Não se pode 



90 

deixâr de admirar a abnegação sublime de muitos 
missionários, a fé viva com que tem soffrido uma 
dolorosa existência de privações e mesmo o marty- 
no ; mas, lançando os olhos para o immenso conti- 
nente africano, poucos são os pontos que n'elle se 
possam encontrar, onde a religião christã haja der- 
ramado, com resultado fecundo, as suas doutrinas 
civilisadoras. 

Um escriptor e viajante, que estudou profunda- 
mente a Africa, diz n'um interessante escripto {The 
African Sketch-book W. A.): •Ha duas castas de 
•missionários na Africa, os que residem nos estabe- 
«lecimentos e ensinam o negro britânico; e os que 
«vão viver entre os nativos.» 

• A primeira casta comprehende homens respei- 
«taveis e dedicados, que fazem certamente muito 
«bem; mas estes não são missionários, são simples- 
«mente o clero da-colonia. Vivem como os outros 
«funccionarios, etc. . . » , 

« Mas os missionários, que vão viver no sertão e 
«construem casas com suas próprias mãos, e apren- 
«dem os dialectos indígenas, e inteiramente vivem 
«entre os selvagens, pertencem a um género parti- 
«cular.. . Estes ponho eu (o auctor) acima do explo- 
«rador; penso que a sua obra demanda mais forta- 
« leza do que a nossa. » 

A maior parte das tribus negras crêem, que os 
espiritos dos que morrem vagueam em tomo da se- 



91 

pultura e das suas antigas habitaçOes. Por vezes o 
corpo é enterrado na própria casa e o espirito vive 
còm a família; crê -se que está sempre presente e 
toma parte na vida intinm dos seus. 

As tribus da costa do Oiro crêem, que ha uma 
região das trevas, debaixo do chão, para onde as 
almas emigram, e aqui retomam a posição que no 
mundo tiveram. Por isso, quando morrem os reis 
lhes sacriflcara escravos e mulheres, para os acom- 
panharem no outro mundo; e na sepultura se de^ 
posita ouro em pó e roupa. E crença que todas as 
coisas, de que o homem usa em vida, resuscitam 
no outro mundo para lhe servirem ; porque tudo 
tem alma, os seres humanos e as cousas inanima- 
das. O povo crê no mundo inferior como crê n'um 
paiz visinho; a fé torna-se n^elles parte integrante 
da sua própria natureza. 

Não ha no negro idéas de remuneração depois 
da morte. Ha deuses bons e deuses mãos : os bons^ 
sendo maltratados, podem tornar- se mãos; os mãos 
podem abrandar-se com presentes e lisonjas. Os fei- 
ticeiros servem de intermediários entre os deuses e 
os homens, 

Greem algumas tribus negras n'um deus creador 
do mundo, mas julgam-no indiíferente ao bem e 
ao mal; porque delegou a administração da terra a 
espirítos, que governam os seres humanos. A theo- 
lo^a, a moral, a religião, tudo se liga e se confunde:: 



92 



tudo é puramente humano e o reflexo da vida, das 
paixões, dos interesses mundanos. Os negros são to- 
lerantes, mas difficilmente admittem no seu espirito 
idéas, que contrariem as suas crenças infantis, a sua 
idolatria candidamente feroz, a sua maneira singu- 
lar de ver as coisas sobrenaturaes. Por isso o via- 
jante, que acima citámos, diz no livro alludido: «Exis- 
« tem regiões na Africa, onde missões, ha longo tem- 
<po estabelecidas, escasso resultado perceptível tem 
<ídado: e este facto suggere uma pergunta inleres- 
«sante: — se um missionário vae viver com uma Iribu 
«selvagem, gasta largos annos a ensinar-lhes a es- 
«criptura sagrada, e não consegue fazer um con- 
« verso sincero, devemos lamentar uma nobre exis- 
«tencia perdida, ou devemos crer que o missionário 
« serviu a causa sublime da moralidade e do pro- 
«gresso?» 

Se buscarmos informações acerca da influencia 
d^algumas missões sobre os povos africanos, encon- 
traremos, que o ensino das coisas úteis, em agricul- 
tura e em industria, tem sido o que melhores e mais 
efficazes resultados tem dado. Descrevendo os re- 
sultados obtidos pelos missionários allemães na Cos- 
ta do Oiro, lê-se no African Sketch: «Os missio- 
«narios allemães da Costa do Oiro são homens de 
«baixa extração/mas de excellentes maneiras e são 
«educados n'um collegio de Basle. . .Os missiona- 
«rios não ensinam só o evangelho, mas também os 



93 

«officios mechanicos e o commercio. Pedreiros, ar- 
«chitectos, sapateiros, lavradores são os seus irmão» 
«leigos, e mais de um pregador foi homem costuma- 
« do na infância a trabalhar com as mães. Um lai sys- 
«tema tem a sympalhia d'aquelles mesmo que di- 
•vergem totalmente dos missionários sob o ponto de 
«vista theologico.» 

Fallando da missão Levingstonia, outro viajante 
esclarecido e pouco accessivel a illusõès diz [To the 
Central 4f'^ica: Thomson): «Ha na missão homens 
«práticos, que ensinam aos naturaes da terra grande 
«variedade de industrias, e lhes ensinam a construir 
«melhor suas casas, a cultivar com maior proveito 
«suas terras. Estes representantes da egreja não jul- 
«gam indigno da sua causa associarem-se com uma 
«companhia commercial.» 

A historia da missão do Amandabelli, escripta 
por um missionário, Thomas Morgan, é muito inte- 
ressante e muito instructiva. As conquistas espiri- 
tuaes da missão, D'um povo idolatra e guerreiro, a 
quem os missionários pregavam o evangelho, e en- 
chiam de benefícios, foram sempre muito limitadas. 
N'uma crise deplorável de fome e miséria, os ido- 
latras, a quem os missionários buscavam consolar 
pela religião, diziam: «O espirito de que fallaes, e 
« dizeis estar comnosco, não o conhecemos ; não o vi- 
emos nunca, nunca o ouvimos, nunca o conhecemos 
«nem tratamos de o conhecer; mas conhecemos e 



^ 



94 

«sentimos nossos corpos, e quando elles se consomem 
« de fome, soffremos e morremos. » E mais longe, es- 
creve o missionário: «Não é rasoavel esperar no in- 
« digena convertido a mesma intelligencia e conscien- 
«cia de um verdadeiro christão. Os hábitos de idola* 
«tria, em que se arrastaram, devem modificar e in- 
« fluir no seu modo de ver as cousas. » 

Ao cabo de dez annos os resultados da missão 
resumem-se no seguinte: «A cabo de dez annos de 
•trabalhosna Africa Central do Sul, seria muito li- 
«songeiro e satisfactorio poder enumerar resulta- 
«dos directos e espirituaes ; e não o seria menos para 
«os christãos lerem essa enumeração. Infelizmente, 
«porém, não tenho tão brilhantes factos que narrar; 
« nem a nossa missão foi um triumpho . . . Alguma 
«cousa fizemos em ordem a emancipação dos escra- 
«vos, ensinando os ignorantes, elevando os espíritos 
«pervertidos, corrigindo os erros, vestindo os nus, 
«detendo a mão dos assassinos, alcançando a liber- 
«dade civil e religiosa para os súbditos de um des- 
«pota, abrindo o paiz aos trabalhos da sciencia e do 
«commercio, diminuindo as calamidades da guerra, 
«a polygamia e a feitiçaria. » Convém notar que mui- 
tos d'estes resuhados foram alcançados antes pelo 
medico e o mentor do que pelo missionário. 

Paliando de outras missões, mandadas á região 
do Zambeze, o mesmo escriptor diz: «Assim, das 
«três missOes que primitivamente se deviam estabe- 



95 

«lecer próximo do Zambeze, só uma — a de Aman- 
«dabelli — deu bons resultados.» 

Hartmann, o celebre professor de Berlin, que tão 
profundamente tem estudado a Africa, manifesta a 
este respeito opinião conforme ás que acabamos de 
expor aqui. Eis as palavras de illustre professor: 

«Nada temos de satisfatório a dizer, até hoje, dos 
« africanos recentemente convertidos ao christianismo 
«pelos missionários catholicos ou protestantes. Pres- 
«tamos homenagem á dedicação e excellentes inten- 
« ções d'estes mensageiros da fé, dos quaes muitos 
«teem soffrido um verdadeiro martyrio. Reconhece- 
rmos egualmente que ha louváveis excepções entre 
«osneophytos negros, hottentotes e berberes, alguns 
«dos quaes se tornaram membros úteis e honrados 
«d'uúaacomm unidade civilisadora. Mas, em geral, os 
«bons resultados das missões no continente africano 
«teem, até hoje, sido pouco consideráveis. Não creio 
«que o negro pagão nem mesmo mussulmano tenha 
«chegado á maturidade moral necessária para a com- 
«prehensão do christianismo e para as exigências da 
«civilisação moderna. Custa-me dizer o que sou obri- 
«gado a reconhecer, isto é que, apesar dos seus erros 
grosseiros, o islamismo parece, em geral, convir mai s 
do que o christianismo aos adoradores de feitiços 
na Africa. O sentimento e o simples bom senso se 
levantaram contra a idéa de inventar uma confissão 
christã especial, que tolerasse todas as particulari- 



*& 



96 

«dades das raças da negraria. O christianisrao deve 
« transmiltir-se em toda a sua pureza aos pagãos afri- 
« canos, por meio de missionários capazes, sinceros 
«e dedicados, que se interessem ao mesmo tempo 
«pela prosperidade politica dos seus neophytos. Pou- 
«co importa, de mais, que o movimento venha de tal 
«ou tal confissão christã. Infelizmente, não podemos 
«esperar senão do futuro os resultados, que os ver- 
« dadeiros amigos da humanidade quereriam poder 
«reaUsar desde já. Se, como observador imparcial, 
«previno illusões prematuras e talvez perigosas, que 
«poderiam ser seguidas por amargas decepções, não 
«tenho comtudo intenção de censurar os esforços dos 
«apóstolos enthusiastas e philantropos, porque, em 
«taes questões,' quem decide são as obras e não as 
«opiniões.» 

A opinião, fundada no estudo dos factos, com- 
pleta-se nas seguintes proposições, que julgamos útil 
citar aqui: 

«Basta-nos dizer que os missionários musulma- 
«nos, desde o tempo dos primeiros califas, tem sa- 
«bido proseguir na sua obra de conversão com um 
«zelo extraordinário, uma ousadia intrépida e uma 
«persistente energia. N'este ponto tem-se mostrado 
«superiores aos apóstolos christãos e o êxito tem sido 
«sempre d'elles. De mais, os principios relaxados do 
« islamismo conveem melhor aos costumes rudes dos 
«pagãos africanos, do que os preceitos mais severos 



07 

« do christianismo. O alcorão auctorisa a polygamia, 
^ «muito vulgar entro os negros; a fé musulmana une 
«os homens de todas as nacionalidades, de qualquer 
«condição; estabelece Uína espécie de familiaridade 
« entre superiores e inferiores; e os africanos primiti- 
« vos gostam muito d'estas relações livres. Não podem 
«elles criticar racionalmente certa? prescripções do 
«alcorão, que não supportam o nosso raciocínio; por- 
« que a lógica da maioria dos negros é muito pouco 
«desenvolvida^. Muitas das idéas supersticiosas, que 
«alimenta o islamismo, acham-se nos absurdos da 
^idolatria, e a perspectiva de gosos materiaes no 
«paraizo acorda os desejos e cubicas do africano 
«sensual, convertido pelo alcorão». 
E, n'outra parte, accrescenta Hartmann: 
«Falla-se muito hoje, muito ligeiramente por cer- 
«to, da decadência da religião de Mahomet; verdade 
«é que não faltam fermentações na constituição in- 
« terna do Islam, por causa do seu contacto com a 
« civilisação oriental. Mas estas agitações só se ma- 
«nifestam entre os litteratos, e não se fazem sentir 
«nas camadas ignorantes do mundo musulmano. 
« Ainda que perdeu o seu brilho intellectual d'outros 
«tempos, o islamismo fónna \m solido cimento, na- 
«cional e religioso,; entre povos muito diversos, des- 
«de a Rutnelia até ao deserto de Gobi, desde as 
«ruinas dTtica até aos lagos da Africa equatorial. 
«Nos paizes tropicais e subtropicaes da Africa, 

voL. m 7 



98 

« vê-se ainda fluctuar em paz o estandarte de Ma- 
«homet e seus successores. Verdade é, que muito se 
c falia da situação critica dos primeiros paizes ma- 
«hometanos e da sua decadência material e intel- 
«lectual, tal como a vemos na Mesopotâmia, na Ara- 
«bia, etc. » 

O fanatismo musulmano manifesta-se na África 
com toda a sua violência. Muitos são os ascetas ne- 
gros, os fanáticos mahometanos, que exercem por 
aquelles sertões uma influencia poderosissima para 
combater essa influencia funesta é preciso um longo 
trabalho da civilisação, o qual não pode dar resul- 
tados immediatos. 



VI 



Na historia das antigas missões, as que mais at- 
traem a nossa attenção são as de Angola e Congo; 
por mais antigas^ mais numerosas e mais caracte- 
rísticas. 

Em 1491 entraram no Gongo os frades da Or- 



99 

dera de S. Francisco, mandados por D. João ii ; e, 
n'esse mesmo anno, se baptisavam o duque de So- 
nho, o rei a rainha e muitos negros principaes « to- 
dos com muita devoção e gravidade» como dizem 
as chronicas. Então, diante dos frades, se destruiam 
os Ídolos e feitiços, que até alli eram adorados; e o 
rei recebia uma bandeira com a cruz, para ir á guerra; 
bandeira que elle necessariamente tomava por um fei- 
tiço, mais poderoso do que os que havia destruído ; 
porque os frades lh'o diziam, persuadindo-o de que, 
cpm tal bandeira, a victoria era certa. Logo de princi- 
pio os milagres, o apparecimento sobrenatural de cru- 
zes e outros, começaram a influir no espirito super- 
sticioso dos negros. O rei do Congo mandava a Por- 
tugal alguns negros, para serem educados e instrui - 
dos nas coisas da religião; e estes eram recebidos 
no convento de S. Eloy de Lisboa. Annos depois, 
el-rei D. Manuel mandou theologos em missão ao 
Congo, acompanhados de mestres de ler, escrever 
e canto chão, a fim de promover a propagação da fé. 

Apesar de. todos estes esforços dos reis de Por- 
tugal, vinte annos depois o rei do Congo, D. AíFon- 
so, escrevia a D. Manuel «que seu pae recebera a 
fé catholica, e n'ella mostrara bom começo, do qual 
por inveja do diabo foi apartado. » 

O filho, aborrecido pelo pae por ser christão, fora 
desterrado, e, para conseguir o throno por morte 
d'elle, deu uma batalha, em que, como era uso do 

7* 



100 

tempo, appareceram milagres e combateu Santhiago 
<com muitos de cavallo armados.» 

Com os portuguezes espalharam-se no Congo a 
cubica, a violência, as extorsões; e de S, Thomé ne- 
gava-se auxilio ao rei do Congo, apesar d'este man^ 
dar ao governador, de presente, cincoenta escravos 
e oitoceatas manilhas, e para su^ mulher e filho oi- 
tenta manilhas t porque no Congo não havia mais 
« christãos que o rei e D. Pedro seu primo, e os crea- 
« dos d^elles » toda a mais gente era inclinada á ido- 
latria. 

Em quanto as cousas se passavam por esta forma, 
os missionários brigavam uns com outros; dois fu- 
giam para Portugal, outro morria de pura magoa, 
e os outros se entregavam ao trafico dos escravos ; 
sendo o próprio rei obrigado, inutilmente, a pedir- 
Ihes c vendo a seu devasamento, por amor de nosso 
€ senhor Jesus Christo que, se comprassem algumas 
* peças (negros), que fossem escravos e que não com- 
tprassem nenhuma mulher, por não darem mau 
t exemplo nem fazerem o rei ficar em mentira com 
ta sua gente,» E, sem embargo, a devassidão cres- 
ceu tanto que os moços, que os padres tinham em 
casa para ensinar «lhes fugiam e iam contar tudo a 
€ seus pães e mães e parentes e todos começavam a 
«zombar e escarnecer. * A cubica crescia mais rapi- 
damente nos brancos do que a religião nos negros : 
como o pobre rei do Congo escrevia em 1514 a D. 



m 

Manuel < era tão grande a guerra e a cubica nos pa 
* dres, como nos homens de soldo ; todos compraVam 
«peças, sem embargo de lho Sua Alteza defender em 
«seu regimento.» Para facihtar as suas extorsões e 
tyrannias, os padres puzeram excommunhão a quem 
d'elles murmurasse ou fosse contra elles. 

Como era natural, em 1515 o rei podia dizer com 
sincera magoa «n'este reino a nossa fé é como vi- 
« dro, pelo mau exemplo dos homens que cá a vie- 
tram ensinar.» 

Quarenta annos depois dos primeiros missioná- 
rios e mercadores portuguezes entrarem no Gongo, 
escrevia D. Aflfonso a D. João in: «Senhor Vossa 
«Alteza saberá, como nosso reino se vae a perder em 
«tanta maneira, que nos convém provermos a isso com 
«o remédio necessário, o que causa a muita soltura 
«que vossos feitores e officiaes dão aos homens e 
«mercadores se virem a estes reinos assentar com lo- 
«geas, mercadorias e cousas muitas por nós defezas » 
. . . «e não havemos este damno por tamanho como 
«he, que os ditos mercadores levem cada dia nossos 
«naturaes, filhos da terra e filhos de nossos fidalgos 
«e vassallos e nossos parentes; porque os ladroes e 
«homens de má consciência os furtam, com desejo de 
«haver assim as cousas e mercadorias d'esse reino. » 
Eis os fructos funestos da influencia, chamada civi- 
Ksadora e christã, dos missionários no Congo. Para 
melhor se avaliarem estes deploráveis factos é útil 




102 

conhecer uma phrase da cilada carta : « Nossa von- 
tctade, diz o rei bárbaro, he que n estes reinos não 
«haja trato de escravos, nem saida para elles.» 

Em quanto o rei bárbaro assim pensava, muitos 
dos do seu reino, instados pelos mercadores, furta- 
vam os «naturaes forros, e os levavam a vender aos 
«homens brancos, escondidos e de noite; e os ho- 
«mens, tanto que os tinham em seu poder, mar- 
« cavam-nos com fogo 1 » Com razão escrevia Nunes 
Coelho a D. João ui em 1539 «muito proveitoso 
«será, para o divino e para o humano, despejar- se 
«este reino de todos os homens brancos que n'elle 
« estão, assim ecclesiasticos como seculares, » 

Se, ao cabo de meio século, a propaganda reli- 
giosa parecia antes decrescer do que augmentar, 
não succedia o mesmo ao trafico de escravos e á 
corrupção dos costumes. O numero de escravos «não 
«descia de 4000 a 5000 peças em cada anno afora 
^muitos e infindos que morrem por mingua de embar- 
^ cação it escrevia um certo Pacheco a D. João m; e 
accrescentava que os padres no aqueryr e castidade 
não tinham corrigimento, porque he a coisa que cá 
maior turvação faz. 

Os enviados da paz, os que deviam levar áquel- 
las regiões palavras de conciliação e propagar os 
principios da moral christã, eram os principaes pro- 
movedores da desordem e da maUcia; pondo, em 



i03 

poucos annos, o reino do Congo em total anarchia, 
acabando por o destruir de todo. Já em 1540 um 
frei Álvaro, com sete ou oito homens brancos, aten- 
tavam contra a vida do rei, no próprio momento 
em que ouvia missa, para proclamarem outro rei 
que melhor lhes servisse os interesses. 

Para satisfazer a reiterados pedidos, mandou D, 
João uf para o Congo quatro missionários jesuilas; 
com o fim de acudirem aos males que as missões 
anteriores não tinham podido remediar. Dois annos 
depois, em 1549^ o rei do Congo, D. Diogo, escrevia 
a D. João Hl : «Ha V, Alteza de saber, que os padres e 
«leigos, vassalos de V. Alteza, que do seu reino vem a 
«este nosso, para em elle ganharem suas vidas, por 
«suas ordens e mercadorias que trocam, são tão dis- 
• solutos em fazerem e cometerem fazer cousas, de 
« que Deus nosso senhor nem nós somos servidos, 
«mas antes com as cousas que alguns d'elles fazem, 
«que são cousas pêra lhes serem muito estranhadas 
«e reprehendidas, nos fazem com isso muito despra- 
«zer e deserviço, pelo desgosto que d^isso recebe- 
«mos.» 

Em vista d'estas razões, pede ao rei de Portugal 
lhe dê provisão para castigar os culpados. Pouco de- 
pois os jesuítas, feridos em alguns interesses, chama- 
ram do púlpito ao rei «perro e parvo» : este acto vio- 
lento deu logar a dessidencias entre os jesuitas e 
D. Diogo, e logo começaram as queixas dos padres,. 



i04 

e as conspirações para o deslhronar; o movimento 
de desorganisaçâo do reino bárbaro prosegue, so- 
prada a desordem pelos padres e traficantes de es- 
cravos. O rei D. Diogo morreu pouco depois, e tam- 
bém o seu herdeiro « sendo n ella pessoas naturaes 
t de Portugal, como escreveu a rainha D. Catharina, 
« os quaes, acrescenta, eu queria que fossem tão leaes 
«aos reis desse reino, como a mim são obrigados. » 
Não conseguindo os seus fins, e receiando a insalu- 
bridade do clima, os jesuitas abandonaram o Congo 
para se estabelecerem em Angola. O rei de Angola 
com o engodo de tirar ao Congo o commercio dos 
escravos, recebeu bem os padres e fez-se christão, 
com muitos dos seus. 

Nos primeiros annos do século xvii constava, pela 
relação do bispo de S. Thomé e outros muitos vin- 
dos dos portos de Guiné, a grande necessidade que 
hayia, no Congo e Angola, de missionários para a 
conversão das gentes, cujo numero é grande e fá- 
ceis as condições para receber o baptismo, «cujos 
« corpos se estimam em tão pouco, que não havendo 
«mercadores, que os comprem para servir, se ven- 
« dem ás manadas, como ovelhas, para leval-os a ou- 
« tros infiéis , que comem carne humana, para serem pe- 
«sados em seus açougues.» Esta grave accusação de 
anthropophagia feita aos povos, depois de mais de um 
século de missões, é reiterada pelo próprio gover- 
nador de Angola, no fim do século: «podendo -se 



105 

^cons^ir, escreve Gosta Menezes ao rei, livrar da 
« morte eterna e temporal tantos quantos se comem, 
€ sendo mxyrtos coma gado para regalo e sustento d'esta 
«gentilidade tão barbara e cruel, e outros tormentos 
<que padecem escravos e plebeus, de maneira que o 
* maior serviço, que se pode fazer a Deus, é resgatar 
«das mãos d'estes bárbaros para nossa escravidão, 
«que, sem fallar na espiritualidade, temporalmente, 
«pode V. Magestade livrar-se do menor escrúpulo. » 

Com estes e outros pretextos, o trafico de escravos 
ia sempre prosperando, e em breve vieram concorrer 
comnosco, n'esse bárbaro negocio, hollandezes e in- 
glezes. Pelo livro da feitoria de Angola consta que, 
do anno de 1575 a 1591, saíram d'aquelle reino 
para Portugal, Brasil e índias de Gaslella, 52,053 
escravos, afora os que saíam pelos portos de Pinda 
e outros. Cadornega, que escreveu a Historia ge- 
ral de Angola, um século depois, calcula em 8,000 
a 10.000 escravos por anno nos primeiros cem da 
conquista, isto é, aproximadamente, um milhão de 
escravos no primeiro século. 

A religião parecia servir, n'aquelles tempos, para 
nos assegurar o monopólio do trafico de escravos; 
pois que, nas pazes assentadas com o potentado do 
Sonho em 1690, se diz no artigo 8.^ «No que toca 
«ao negocio dos escravos, por ser de almas, de ne- 
« nhuma maneira permittirá o senhor conde de Sonho, 
«que os herejes os resgatem, p^/fos não exporá con- 



406 

ttingencia de se tornarem de gentios, infiéis. » N'esse 
mesmo anno, os missionários escommungaram o con- 
de de Sonho, por ter vendido escravos aos inglezes, 
nas feitorias de Angoi e de Bamba-Angoi. 

Esle e outros factos explicam o pouco fruclo que 
das missões se tirava. O bispo do Congo, em carta 
a Filippe iT, de 1612, busca explicar esses tristes 
resultados por *as gentes serem incapazes de n'el- 
«ílas se poder produzir ó serviço de Deus» mas elle 
próprio confessa que « muitos ha ali que damnam 
«tudo e mui poucos que ajudam.» O bispo achava 
que homens de «nenhuma sostancia» governavam 
tudo no Congo e havia grande falta de justiça. Com 
razão escrevia um frade carmelita para o seu con- 
vento: «se algum padre vem a este reino, seu prin- 
< cipal intento é adquirir negros e não almas. » Para 
acudir aos males de todo o género que, de dia para 
dia, exerciam no Congo e Angola, ou com esse pre- 
texto, solicitava o rei do Congo em Roma que lhe 
mandassem missionários ; o que Paulo v promettia 
n'um breve de 1620. Por uma carta regia do mes- 
mo anno, o governo de Madrid prohibia a entrada de 
missionários estrangeiros nas colónias portuguezas. 

Em Roma começaram os esforços para introduzir 
no Congo os capuchinhos italianos, o que, por fim, 
teve logar, por um breve de Urbano vm, em 1640. 
A revolução de Portugal deixava livre expansão ás 
ambições de Roma e alterava os interesses de Hes- 



107 

panha, em relação ás colónias portuguezas. Assim, 
não tardaram os capuchinhos era preparar uma em- 
baixada a Roma, a prestar obediência publica ao 
papa e a pedir bispos, sem intervenção do rei de 
Portugal. Eis o que, sobre estes factos, diz o jesuita 
António de Couto, mandado ao Congo como emissá- 
rio, por el-rei D. João iv : « Ao que toca de mandar 
«vir el-rei do Congo italianos, a titulo de religião, 
« se justificou com um breve de Sua Santidade Ur- 
*í bano vni, com o qual lhe mandou estes missionários: 
1 mas do breve, que também me mostrou, não consta 
«f mais que mandar-lbe quatro ou cinco, e hoje no seu 
«reino estão mais, não só italianos mas também cas- 
tf telhanos, e outros se tornaram para Europa ; e, con- 
« forme se diz, sempre fomentaram, e ainda, depois 
cda restauração de Loanda, fomentam as vãs espe- 
« ranças, em que vivia el-rei do Congo, de lhe vir ar- 
«mada de Castella: seja o que for, a verdade é que 
«convém, para uma firme paz e quietação d'este rei- 
«no, e para que de todo se acabem todas as descon- 
« fianças, que se vão estes missionários fora doeste 
«reino.» Os capuchinhos tinham então a protecção 
de FiUppe iv, a quem fr. Angelo de Valência, que 
fora a Roma levar a obediência do rei do Congo ao 
papa, também fora prestar menagem. 

Os missionários de diversas ordens pouco faziam, 
para ensinar aos povos as coisas úteis á vida, e 
apenas se occupavam de ensinar o que podia pre- 



108 

parar para o serviço ecclesiastico. Já no fim do século 
XVI os carmelitas diziam: «El-rei quer que ensine- 
«mos a grammatica aos filhos dos seus fidalgos, por- 
t que assim os costumaram os padres que estiveram 
«aqui. » Durante o século xvn, buscou-se crear semi- 
nários em Loanda e no Congo. O cardeal Berberino 
recommendava, em 1660, aos capuchinhos do Congo 
a formação de um seminário «onde os moços do 
«Congo, além das leltras e da grammatica latina, 
«aprendessem mais as outras sciencias necessárias 
€para o estado ecclesiastico.* Já, anteriormente, se 
tinha determinado aosjesuitas, que lessem no Congo 
uma cadeira de casos. 

Os jesuitas, que abandonaram o Congo para ir 
viver em Loanda e nos seus arimos de Angola, ti- 
nham um collegio em Loanda, onde ensinavam as 
humanidades e theologia moral ; além do que, tinham 
uma escola de meninos, onde aprendia grande nu- 
mero d'elles. 

Não tardou a missão dos capuchinhos, que nos 
primeiros annos soube captar a benevolência geral, 
a entrar em luta com os outros missionários e sa- 
cerdotes. 

Em princípios do século xvm, o prefeito dos ca- 
puchinhos escreveu uma relação das missSes do 
Congo, para atacar a influencia do bispo de Angola 
e dos padres, que queriam exercer a sua auctoridade 
ecclesiastica nos territórios, que os capuchinhos re* 



109 

servavam para si: e, quando os capuchinhos queriam 
o exclusivo para as suas missões, no Sonho e no 
Congo, havia mais de vinte annos que tinham um 
hospicio em cada um d'estes logares, e n*elle dois 
missionários e um leigo. 

O prefeito accusava os clérigos de viverem «aman- 
«cebados publicamente.,, de comprarem e esconde- 
« rem escravos ... de alguns doestes comerem carne 
t humana entre os bárbaros.» Respondendo a estas 
arguições, o bispo de Angola diz, entre outras mui- 
tas coisas. tO padre prefeito não hade negar, que 
tpara o serviço dos missionários nos hóspicios, que 
ttem no sertão, possue cada hospicio mais de cin- 
€coenta escravos^ e, mais adiante, accrescenta o bis- 
po: «O que é mais constante, é que, nas missões 
«dos padres capuchos, assim no sertão doeste reino 
« de Angola como no Congo, geralmente, só se verifi- 
« ca algum aproveitamento nos baptismos das crean- 
«ças morrendo e em tempo conveniente, e que 03 
«mais, que chegam á puberdade e d'ahi para cima, 
«ficam reincidindo em suas superstições e leis bar- 
« baras, em que vivem os outros, inda sendo baptisa- 
« dos adultos e velhos. . . choram (os bons missionar 
« rios) o pouco ou nada que aproveitam os povos, 
«perseverando nas suas superstições, em que crêem, 
«e na multiplicidade de mancebas que não querem 
clargar, e outros mais abusos gentilicos e diabólicos 
em que vivem sem remédio.» 



110 



VII 



A acção das missões de Angola, em particular, 
não foi mais efficaz nos seus resultados que a das 
missões do Congo, nem foi mais brilhante ou mais 
piedosa a sua historia. Já, anteriormente, alludimos 
ás missões d' Angola, agora referir-nos -hemos espe- 
cialmente a ellas. 

As violências dos jesuitas contra o rei do Congo, 
em 1549, e as desordens promovidas pela cubica 
dos portuguezes, entregues ao trafico de escravos, 
promptamente desgostaram o rei do Congo contra 
os missionários da companhia, que D. João ni para 
alli mandara em 1547. Annos depois, os jesuitas 
iam para Angola com Paulo Dias, onde o rei lhes 
fazia bom tratamento, e se fazia christão e muitos 
dos seus, como annuncia Dorta de Sousa á rainha 
D. Catharina em 1561. Esta simulada conversão 
tinha por motivo a rivaUdade de Angola e Congo 
sobre o trafico de escravos, o que já o bispo de S. 
Thomé preverá, escrevendo a D. Sebastião: «estou 



ill 



«muito desconfiado de se fazer christandade (em An- 
«gola) não se lhe dando o trato e negocio das mer- 
^cadorias.» O rei do Congo, pouco antes, havia-se 
queixado a D. João iii, do damno que resultava ao 
Congo do commercio de S. Thomé se fazer com An- 
gola. Mais de uma vez, os triumphos dos missioná- 
rios na Africa se podem, como n'este caso, explicar 
pelo trafico de escravos; força é confessal-o. Os ba- 
ptisados eram, ás vezes, em grande numero, mas, co- 
mo dizia um padre carmelita d'este tempo: «vão -se 
«milhares d*almas ao inferno por falta de ministros 
«e, ainda dos baptisados, se não morrem meninos, 
«mui poucos se salvam; porque não ha quem lhes 
«ensine, nem lhes diga que cousa é Deus.» Muito 
depois, em 1800, um governador de Angola escre- 
via contra estas conversões simuladas e baptismos 
de carregação como elle lhes chama. 

Uma vez estabelecidos em Angola, os jesuitas 
trataram mais dos seus próprios negócios do que 
dos interesses da religião. Persuadem os sobas, con- 
quistados e até antes de conquistados, a tomarem-os 
por amos, isto é, por senhores; assenhoreara -se de 
uma população numerosa, para trabalhar nos seus 
arimos (fazendas); promovem desordens e mesmo 
revoltas ; incitam ódios e guerras entre os potenta- 
dos de Angola e Congo; e manteem activo, por pró- 
pria conta, o trafico de escravos. E é curioso o modo 
porque os jesuitas obtinham peças para o seu tra- 



112 

fico, sob capa de moralidade. Em 1693 escreve a el- 
rei de Portugal o governador de Angola, em defeza 
dos jesuítas: «... occupando os seus escravos ates- 
te beneficio (a cultura dos seus arimoi) e na reedi- 
ficaçao, com que tem o seu collegio augmentado, 
tudo com officiaes que tem dos officios necessários e 
tudo cá deixam e nâo levam nada, dando com graur 
de cuidado o pasto espiritual aos seus escravos, e 
aggregados, casando-os; e são só os que n'este reino 
vivem em bons costumes^ porque, quando alguns os 
não tem e se não emendam, os embarcam para o 
Brazil e doeste mesmo modo se hão nos seus arimos. » 
No transporte dos seus tráficos empregavam os je- 
suitàs um navio e dois patachos, propriedade sua 
própria. 

^ Estes factos explicam o pouco fructo das missCes 
dos jesuitas na Africa. As preoccupações mundanas 
faziam-lhes esquecer os interesses religiosos. O tra- 
fico de escravos destruia os bons resultados do ensino 
na escola, na officina e no campo. 

De males eguaes adoeciam as outras missões. Da 
dos capuchinhos, que se declararam em hostilidade 
com o ordinário, dizia, em 1703, o governador de 
Angola: cHe menos mal que os capuchinhos italia- 
«nos ignorem as linguas dos negros, do que irem vi- 
«ver entre elles sacerdotes, que lh'as intendam e não 
«se abstenham de serem reunidos com mocanos^ de 
«portas a dentro, fazendo talvez gala do que deviam 



H3 

tenvergonhar-se; e, quando estes taes vam para o 
^ Congo ou para oulras partes, não é levados pela 
* salvação das aJmas, mas somente da conveniência 
€do resgate dos corpos, j^ 

Os factos, infelizmente, confirmam as tristes pa- 
lavras de Lopes de Lima : diz elle : cNão posso dei- 
cxar de lamentar que, á custa de tantas despezas e 
«riscos de vidas, as missões da Africa não chegas- 
«sem a obter mais que uma vã e mentirosa apparen- 
*cia de christandadCy a qual, se satisfaz os fins- da 
«sociedade da Propaganda fide^ não satisfaz por 
«certo os da civilisação da espécie humana, base so- 
« ciai sobre a qual indubitavelmente assentam os san- 
«tos dogmas da religião de Jesus Christo.» 

As missões, como escrevia o illustre marquez de 
Sá da Bandeira, tanto em Angola como no Gongo, 
apezar de subsidiadas pelo estado e de existirem du- 
rante séculos, deixaram na idolatria a grande massa 
da população. 

Ás numerosas dificuldades, — que podemos cha- 
mar africanas propriamente ditas,— que á propagan- 
da das verdades christãs se oppõem, accrescem as que 
resultam do antagonismo, mal disfarçado ou mesmo 
patente, entre missionários protestantes e catholicos, 
e ainda mais o caracter politico, que tomam uns e 
outros. O negro diMcilmente pode ter confiança e 
escutar homens que, para elle, pregam as mesmas 
doutrinas e que uns aos outros se combatem. 

voL^m 8 



ii4 

. Citamos, com verdadeira satisfação, a opinião de 
três portaguezes que, nos ultinws annos, fôtadaram 
a Africa, com esclarecido espirito, nobres sentimen 
tos e verdadeiro desejo de promover o bem dos afri- 
canos. 

Citaremos primeiro a auctorisada opinião do sr. 
A. F. Nogueira, no seu excellente estudo dai Raça 
Negra. Diz elle: 

«O melhor methodo de ensinar os indígenas da 
Africa, mesmo em matéria de religião, é dar-lbes 
bons exemplos, em vez de grandes definições dog- 
máticas e convencel-os, mais pelas obras do que pe- 
las palavras. O argumento dos factos conveace a 
toda a gente, mesmo aos selvagens. Se nós lhes 
mostrarmos, se lhes fizermos sentir que a nossa ci- 
viiisação tem vantagens claras sobre o estado em 
que elles se acham, e que lhes é possivel aican- 
çal-as; se, pelo goso da paz, lhes mostrarmos o de- 
sastroso da guerra; se, pelos benefidos do trabalho 
os ccnvencermos dos inconvenientes da ociosidade: 
elles acreditarão mais em nós, isto é, n'estes factos 
do que na nossa eloquência, por mais sublime que 
seja, e quer seja profana ou sagrada. Ora estes 
meios podem ser postos em pratica com ou sem 
missionários: melhor com elles, mas sem que se- 
jam absolutamente indispensáveis. Se formos bons e 
justos com os negros, se formos benévolos para com 
a sua ignorância, se lhes formos úteis em vez de 



r- 



l\5 

«prejudiciaes, elles virão a nós sem receio e antes 
«com confiança e boa vontade. Se lhes dermos bons 
«exemplos elles os seguirão de bom grado.» 

Estas palavras, inspiradas por um alto sentimento 
moral e pelo perfeito conhecimento do caracter dos 
negros, são corroboradas pelo estudo e opinião do 
illustre viajante e meu amigo o sr. Serpa Pinto, 

«Eu não creio —diz o ousado explorador com 
«uma sinceridade que nada assombra — o cérebro 
«do preto á altura de comprehender um certo nu- 
«mero de questões, comesinhas entre povos de ra- 
«ças evidentemente superiores 

• As questões abstractas são sublimes e incompre- 
«hensiveis a tão inferiores organisações. 

«Explicar theologia a um preto equivale a expor 
«as sublimídades do calculo differencial a uma as- 
«sembléa de camponios. 

«Mas, se o preto não está á altura de poder com- 
«prehender as verdades da religião de Christo, tem 
«sem duvida o sentimento do bem e do mal, e está 
«nas condições de comprehender os princípios de 
«moral eommum. 

«Marchem para entre os povos ignaros da Africa 
«central os missionários, sigam sem trepidar o cami- 
«nho que lhes impõe a sua missão evangélica, mas 
«desvendem os olhos. 

«Tomem para si o que ha de abstracto na scien- 
< cia de Deus, e não queiram ensinar aos negros o que 

8* 



H6 

tha de sublime n'ella para cérebros mais bem orga- 
misados. Ensinem moral e só moral, com o exem- 
« pio e com a palavra ; criem necessidades, que ellas 
t farão nascer trabalho, e só por elle se regenera um 
•povo. 

t Quero missionários, mas quero missionários do 
t christianismo e da civilisação, homens que, compe- 
«netrados dos seus deveres para com Deus e para 
ccom a sociedade, saibam firmar o edifício social em 
«solidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo 
«o que o prelo possa comprehender; esperando a oc- 
«casiâo que o tempo, a civilisação, não deixará de 
«trazer, se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco 
«incutindo nos ânimos as verdades da theologia e da 
«moral. 

« Busque primeiro fazer do preto um homem, que 
«tempo terá de fazer do homem um christão.» 

A esta larga citação juntaremos mais uma dos 
distinctas exploradores, Capello e Ivens, cuja probi- 
dade, sinceridade e clara razão se não podem pôr 
em duvida. Escrevem os illustres exploradores : 

« Obrigar na verdade o preto a conformar-se com 
«os hábitos e modo de viver do europeu, forçando-o 
«n'úm dia a semelhante conversão, afigura-se-nos 
«seguramente erro. 

«E porém lamentável que a crescente industria 
« de muitas nações não permitta a subordinação a um 
« plano,. e que tratando de introduzir-se na Africa sob 



117 

pretexto de praticar o bem em favor do indígena, 
apenas levem em mira o lucro do individuo e a pro- 
cura de mercados, onde possam diffundir quanto 
produzem, coagindo o preto, que honlem andava 
de pannos e pennas na cabeça, a trazer um cha- 
péu alto e envergar uma ridícula casaca. 

«Em matéria de religião todo o cuidado é pouco; 
interesses especiaes já hoje começam a manifestar- 
se no religioso fervor com que as missões invadem 
a Africa. 

«Do nosso gabinete antevemos, e ousamos apon- 
tar aos governos, que uma situação, embaraçosa 
para o civilisador progresso do indigena, principia 
a crear-se no grande continente. 

«De toda a parte as nacionalidades da Europa 
despejam missões, que no interior ensaiam a cathe- 
chese. Por seu lado os árabes, de Koran em punho, 
intentam a conversão, com apreciáveis resultados 
ja. 

«Cada seita, cada culto, apresentando-se como 
os verdadeiros, á exclusão dos outros^ o pobre pre- 
to, opresso pelos chefes^ impressionado pelas der- 
radeiras recordações do fetichismo dos pães, con- 
vertido pelos missionários, que o carregam de Bi- 
blias e de Korans, não saberá em breve onde o que- 
rem conduzir. 

«Assim pois afigura-se-nos, para remediar tama- 
«nho inconveniente, que é necessário o estabeleci- 



118 

mento de uma associação catholica internacional, 
a fim de, em plano geral com bases idênticas, ad- 
ministrar pela terra negra o pão espiritual ao indí- 
gena. • • 

«Ensinar de seguida o indigena a fazer a char- 
rua, a extrair o ferro pelo modo mais aproveitável 
e combinál-o com o carbone para produzir aço, le- 
var-lhe a primeira noção do moinho, revelando-lhe 
o modo de aproveitar a força dâs aguas e as van- 
tagens do amanhado da terra, etc. é, em duas pa- 
lavras, o debute serio das missões n'aquéllas para- 
gens. 

«O negro, desde o primeiro dia que avistar o 
missionário, deve vèr n'elle, não o feiticeiro de for- 
mulas mais ou menos mysteriosas, mas um génio 
superior, carinhoso, juiz recto, de cuja acção só 
resulte para elle o bem e a felicidade. » 
A seriedade d'estas palavras, o amor da humani- 
dade e da verdadeira civilisação que revelam, nãó 
podem deixar de impressionar profundamente to- 
dos quantos se interessam pelos progressos moraes 
e materiaes da Africa. 

Este brevissimo estudo das missões, que busca- 
mos, comtudo, apoiar em numerosos testemunhos es- 
criptos que poderíamos multiplicar indefinidamente; 
este estudo mostra o escasso producto das missões 
e a ephemera duração dos seus resultados. 

O sr. major Serpa Pinto observa com razão que, 



H9 

onde se consegue calhechisar o chefe de um povo, 
grande ou pequeno, consegue-se fazer christão o 
povo : mas, logo que a um chefe chrislão succede 
outro, que prefere os vicios da idolatria aos precei- 
tos austeros da religião de Christo, tudo cae em rui- 
nas e, onde antes havia muitos não se acha depois 
um só christão. 



VIII 



Não se julgue de quanto fica dito, que desco- 
nhecemos a importância da propaganda religiosa 
na Africa. Julgamos, ao contrario, que a benéfica in- 
fluencia da moral christã deve exercer a mais pura 
e inais civiHsadora acção no espirito d'aquelles po- 
vos; que a queda da idolatria e o desapparecimento 
do fanatismo e das suas praticas barbaras, feroses 
muitas vezes, necessariamente hão de preceder a com- 
pleta transformação social dos negros. O que, porém, 
não julgamos possivel é que, no cérebro por assim 
dizer incompleto do africano, possam, sem longa pre- 



120 

paração, sem um longo e prévio trabalho de educa- 
ção moral e physica, entrar outras idéas, para re- 
ceber as quaes o selvagem não está preparado, € que 
necessariamente repugnam á sua Índole brutal. 

Para apreciar justamente as causas do pouco fru- 
cto, que tem dado as missões, não ha que tomar em 
conta unicamente os defeitos ou mesmo os erros 
e vicios d'estas, mas ha sobretudo a considerar 
as condições physiologicas e intellectuaes dos ne- 
gros. 

tOs negros, diz o viajante Burton, tem a infe- 
trioridade innata e soffredorade uma raça, que tan- 
ctas occasiões tem lido de adquirir a civilisaçâo, mas 
«que tem sempre regeitado, de propósito, todos os 
«progressos.» Skertchly,um naturalista, que longa- 
mente estudou os povos deDahomey, chegou á mes- 
ma conclusão. 

O povo de Dahomey procede da raça de Alladah, 
mas com essa raça muitas tribus differentes se teem 
amalgamado ; de modo que poucos são os typos Ffon 
em que se encontra puro o sangue primitivo. Este 
conhece-se pela côr mais clara, que ainda se nota, 
bem distincta, na família reinante. Esta côr é a do 
café pouco escuro. Os Ffons eram uma raça guer- 
reira, provavelmente, quando emigraram das terras 
altas da Africa: mas teem ido rapidamente degene- 
rando. Skertchly, estudando este povo, formado de 
diversos elementos africanos, diz: «De todo o cora- 



<21 

« ção concordo com Burton nas suas affirmações, que 
«tendem amostrar, que do negro se tem formado uma 
«opinião elevada, de que tem de decahir, quando o 
«conhecimento verdadeiro da sua raça, tal qual ella 
«é e não como se suppõe ser, se generalisar. » Se- 
gundo o citado viajante, os verdadeiros limites geo- 
graphicos dos negros, propriamente ditos, estendem- 
se entre o parallelo das serras de Kong e o do Con- 
go; sem que estes limites sejam de perfeita regu- 
laridade. 

«O negro — observa elle — é um imitador, prova 
«evidente da consciência innata de inferioridade. Ac- 
« ceita voluntariamente o servilismo da sua própria 
«situação, e, todos sabem, que, antes quer obedecera 
«um mulato do que. a um individuo da sua própria 
«raça, e a um branco antes do que aos dois outros. 

«Nenhuma illusão maior tem jamais havido, do 
«que a de pregar aos negros, na supposição de que 
«eram eguaesaos brancos. Uma raça, que nunca pou- 
fde inventar uma divindade própria, não pode en- 
«tender nunca a theologia do christianismo. Podem 
«os negros, como papagaios, repelir de cor as ora- 
«ções e saberem os cânticos sagrados na ponta da 
«lingua; mas, quanto a entenderem uma palavra, é 
«um verdadeiro absurdo imaginal-o. . . 

«Quando os negros são obrigados a trabalhar, 
«ou pela fome ou pela força, melhoram, até certo li- 
«mite, onde param subitamente; e os casos em que 



122 

«passam além de taes limites são raros» O melhora- 
«mento de uma raça^ pela limitada mixtura de me- 
«Ihor sangue, prova-se bem em Dahomey, onde o 
«sangue puro dos Ffons formam uma classe intelle- 
«ctualmente elevada: á medida que se caminha para 
« a cosia e o sangue negro propriamente dito toma 
«ascendência, decresce o poder do pensamento na 
«mesma proporção.» 

Não se fazendo cargo das conclusões que, Sker- 
tchly quer tirar das suas observações, fica fora de 
duvida, entretanto, que elle reconheceu a inferiori- 
dade intellectual da raça negra, e as differenças no-^ 
taveis de desenvolvimento intellectual e physico, que 
existem entre os africanos de diversas origens. 

Conforme com a opinião de Skertchly é a de Ser- 
pa Pinto, quando diz: «Francamente, não cráo o ce- 
« rebro do preto á altura de comprehender um certo 
«numero de questões, comesinhas entre povos de ra-»» 
«ças evidentemente superiores.» 

Segundo as observações auctorisadissimas de W. 
Reade, que por vezes lemos citado, os caracteres 
physicos do verdadeiro negro são semelhantes aos 
da creança, com algumas modificações, que tem ana- 
logia com os caracteres physicos da velhice. «Medi- 
adas, observações microscópicas, analyses, provara, 
«que o typo negro é intermédio entre a infância, a 
« velhice e o animal. » Mas Reade prova, a nosso ver, 
com boas razões, que isto é o resultado da degrada- 



ias 

ção e da doença e não o verdadeiro typo africano. 
Esse estado de degradação encontra-se em limita- 
das regiões geographicas. Os verdadeiros africanos 
vivem nas montanhas e planaltos da Africa; os ty- 
pos degenerados, os verdadeiros negros, vivem nos 
logares pantanosos, entre os terrenos elevados e a 
costa, principalmente, do Senegal a Bengiiella, e nos 
logares análogos a leste. • 

Reade distingue na Africa três grandes raças. A 
queelle denomina raça da Ethiopia, a qual tem uma 
pelle trigueira, feições caucasicas, longos cabelltís 
negros. A raça intermédia, mais escura, lábios gros- 
sos, nariz largo na base, cabellos curtos e frisados. 
Finalmente, o typo de pelle negra, carapinha, e bem 
caracterisado prognatismo. 

O negro é, na Africa, uma raça tão excepcional 
como a dos homens lividos, que vivem nos logares 
pantanosos e em que se nota a degradação physica 
e moral. Como os negros, primeiro conhecidos na 
Europa, provinham das terras baixas das costas de 
oeste, por isso persistem as idéas falsas acerca dos 
povos africanos; idéas ainda corroboradas pela de- 
gradação manifesta dos escravos, mesmo entre os 
negros propriamente ditos. 

Doestes, forma o sagaz observador três classes, a 
saber : Os negros côr de bronze, de formas gracio- 
sas e afeminadas, pés e mãos pequenos, longos de- 
dos, espiritos inlelHgentes, maneiras polidas: Os ne- 



124 

gros de pelle negra, formas athleticas, maneiras ru- 
des, menor intelligencia, beiços mais grossos, nari- 
zes mais largos e,.muilas vezes, prognatas emsum- 
mo grau: Os negros typicos; raça excepcional, mes- 
mo entre os negros propriamente ditos, e que é inú- 
til descrever. — Estas três sub-classes teem dois cara- 
cteres externos em commum: cabello mais ou me- 
nos lanuginoso, pelle mais ou menos negra. 

A observação paiece demonstrar, positivamente, 
que os individuos de pelle avermelhada, degeneram 
em pretos, quando descem das alturas e se appro- 
ximam da costa. A degradação intellectual acompa- 
nha a degradação physica; e, nada admira, que a ci- 
vilisação, quasi sempre em contacto com os negros 
propriamente ditos, tenha encontrado grandes difi- 
culdades para alcançar resultados úteis. 



IX 



Em Angola, o dominio portuguez e a sua influen- 
cia encontram-se em largo contacto com os africa- 
nos: incumbe aos dominadores o dever de melho- 



125 

rar a situação dos negros, de lhes promover a civi- 
lisação em beneficio d'elles, e em proveito e honra 
dos primeiros descobridores dos vastos territórios 
da Africa. 

Busquemos, pois, formar idéa dos habitantes afri- 
canos de Angola, e do que a respeito d'estes pen- 
sam escriptores dignos de fé. 

W, Reade, que observou particularmente os ne- 
gros de Angola, compara-os aos Fulus, que cara- 
cterisa como tendo o nariz aquilino, sensivelmente 
largo na base, carapinha abundante, lábios grossos, 
pelle que varia da côr de azeitona ao bronze escuro ; 
— ^pode dizer-se a côr formada da combinação do ver- 
melho e amarello. As formas, nos homens, são nota- 
velmente afeminadas, os pés e as mãos pequenas; 
o que contrasta com as formas espessas e apparen- 
cia brutal e repulsiva dos antigos escravos, vindos, 
principalmente, do Congo. 

Da obra sobre Angola de J. John Monteiro e do 
excellente livro A raça negra de Nogueira, fácil é 
concluir, que a população da nossa vasla colónia é 
constituída por negros de diversas procedências; os 
quaes, no fluxo constante das tribus africanas de 
norte para sul e de leste para oeste, se precipitaram 
em varias épocas nos territórios da Africa Occiden- 
tal. Doestas populações, — de origens mais ou menos 
recentes, mais ou menos variadas, — a de mais impor- 
tância, que occupa um logar mais eminente entre 



426 

todos, pelos dotes physicos e mentaes, é a que ha- 
bita o território entre os rios Lifuni e Quanza. E 
a mesma de que falia Reade, acima citado. 

Estes negros de Angola, que Cannecatim deno- 
mina Abundas, o que significa vencedor, forma uma 
raça guerreira, que veiu de leste para oeste, — como 
o instincto parece ensinar aos africanos, — e conseguio 
dominar pela conquista tudo até ao mar. N'esta in- 
vasão remota, parece haverem os povos do Congo, 
evidentemente inferiores, ficado subjugados pelos 
abundos vencedores. 

São os negros de Angola (os abundos) «espeeial- 
« mente apropriados para a introduccão de hábitos 
tde industria, e uzos de civilisação; porque são na- 
«turalmente pacíficos, tranquilos e com disposições 
tpara a. ordem. A differença, entre elles e os indige- 
<nas da serra Leoa e do resto da costa occídental, é 
« muito sensivel e agradável. Não tem nenhuma das 
< repugnantes imposturas, phantasias ou hypocrisias 
« dos primeiros, mas são, invariavelmente, dvis e ama- 
€ veis» afiBrma J. Monteiro. Foi n'este vasto território, 
que do mar se estende até aos limites da colónia no 
sertão, que os jesuitas estabeleceram as suas mis- 
sões, as suas escolas e os seus arimos e culturas: 
aqui recrutavam elles escravos, para trabalharem nas 
suas fazendas ou para expedirem para a America; 
aqui faziam as suas^ denominadas, conversões, de que 
resultava formarem densas povoações em volta de 



127 

seus arimos. No Bango, tinham elles uma das suas 
mais importantes culturas: no Dande tinham outro 
arimo: em Cale (no Quissaraa) outro, apezar de ser 
a população muito menos sujeita e intelligenle do 
que os abundos. Além doestes, outros arimos e hor- 
tas tinham os frades da companhia na provincia. 

 duas coisas foi devida a superioridade dos 
missionários jesuitas sobre os de outras religiões: 
ensinar a ler e escrever «occupar os indigenas em 
•trabalhos ruraes e ensinar-lhes as boas praticas de 
€ cultura. Foi dos trabalhos d'esta ordem e não da 
«Câthechese reUgiosa que ficaram fundos vestigios em 
«Angola.* Milhares de nativos, diz Monteiro, até 200 
léguas para o sertão, podem ler e escrever correcta- 
mentej apezar de não haver uma única missão ou 
escola^— anão ser a pequena distancia deLoanda, — 
Jia muitos annos: mas isto é quanlo a civilisação e 
o exemplo fez entre os negros. Estes vivem todos 
crentes nos seus feitiços e encantamentos ; e, apezar 
de tratada, geralmente, com muito carinho e equani- 
midade pelos pórtuguezes « a raça negra e mesmo 
«os mulatos nunca passaram doestes primeiros rudi- 
«mentos de ler e escrever tanto nos officios públicos 
«como nos particulares.» 

Ao norte e ao sul d'esta região central, onde o 
dominio portuguez é effectivo e reconhecido, esten- 
dem-se duas vastas regiões; uma até ao Zalir< ou 
tra até ao Cunene. 



t28 

A região do norte não está, em grande parte, sob 
o domínio portuguez, e comprehende tribus de uma 
natureza menos pacifica e de organisação menos per- 
feita — physica e iporalmente. Por aqui se estendia 
ò vasto império do Congo, hoje inteiramente caído 
em decomposição. Geralmente, são estes povos do 
Congo compostos de homens pequenos, fracos de 
corpo, industriosos, e que faliam uma Ungua parti- 
cular análoga á dos Bundos. 

Na parte inferior do rio vivem os Mussurongos, 
raça pouco favorecida da natureza, e, pela maior 
parte, ladrões e piratas. Mais para cima, nas mar- 
gens do Zaire e para oeste do Mangue Grande no 
Ambriz, vivem os Muchicongos. Estes são, segundo 
Monteiro, uma tribu de negros superior aos Mussu- 
rongos, apezar de terem uma apparencia franzina e 
débil, de serem pouco aceiados e de andarem quasi 
nus. Os Muchicongos oppõem-se á passagem dos bran- 
cos, do Zaire para S. Salvador do Congo e vice-ver- 
sá: e servem de intermediários forçados entre as 
tribus do interior e os moradores da costa, em tudo 
que ao commercio se refere, porque faliam corre- 
ctamente o portuguez. A abolição da escravatura 
deu grande impulso, n'esta região, ao trabalho pro- 
ductivo dos negros. As modificações favoráveis dos 
direitos aduaneiros no Ambriz teém também, como 
sempre succede, contribuído poderosamente para o 
crescimento da producção n'esta região. 



129 

Estes resultados, obtidos em poucos annos pela 
abolição da escravatura e pelas facilidades do com- 
mareio, demonstram claramente que os negros, mes- 
mo das castas menos elevadas, são susceptiveis de 
se occupar no trabalho útil, de produzir ricas e 
abundantes mercadorias, sem serem a isso levados 
pela atroz oppressão da escravidão. A voz do inte- 
resse próprio e licito também aos negros se faz ou- 
vir, e é este o meio mais seguro e efficaz de civili- 
sar povos, que longos séculos viveram nas trevas 
caliginosas da ignorância, e a quem por vezes, mas 
raras, se quiz ensinar os principios abstractos, os 
profundos mysterios da religião, sem lhes indicar os 
meios de se libertarem da escravidão, creada pelos 
interesses dos homens e da não menos pezada es- 
cravidão, que a natureza selvagem oppõe ao desen- 
volvimento material e intellectual dos povos, que 
Dão sabem dominar-lhe e encaminhar-lhe as forças 
productivas. 

Os jesuítas, força é reconhecel-o, apesar dos gra- 
ves erros que uma ambição, uma cubica insensata 
lhes fizeram commetter muitas vezes, comprehen- 
diam a maneira pratica de civilisar selvagens; mis- 
turando ao ensino religioso, que não foi fructifero 
como os missionários de certo desejavam, o ensino 
industrial e agrícola e o dos rudimentos da leitura 
e escripta; e d'este ultimo restam ainda vestígios 
valiosos nas populações de Angola. 

VOL. in • '9 



. 430 

Um facto interessante merece ser conhecido aqui, 
visto tratar-se de averiguar o caracter e disposições 
dos negros da parle oesle da costa de Africa, onde 
exercemos dominio ou devemos vir a exercel-o. O co- 
nhecimento do negro importa o estudo dos meios de o 
civihsar, e, conseguintemenle, dos meios de o domi- 
nar : o que pela força se não poderá conseguir nunca. 
As tribus dos Mussurongos, Muchicongos e Ambri- 
zes, occupam-se de cultura, mas pouco ou nada de 
trabalho industrial, pois que apenas fazem os instru- 
mentos e utensilios domésticos rudimentares, que 
lhes são indispensáveis para a sua vida singelíssi- 
ma. A razão d'isto, além das causas geraes da in- 
dolência e inaptidão dos negros, é o haver n'aquel- 
las tribus uma espécie de communismo, que parece 
ter por fim manter uma egualdade perfeita entre 
todos os membros da tribu. Se um negro, pela sua 
industria ou commercio, fora dos usos estabeleci- 
dos, ganha uma pequena fortuna, superior á mise- 
rável mediania dos outros, logo é accusado de fei- 
ticeiro, e os seus bens repartidos por todos. Toda 
a actividade individual, toda a iniciativa pessoal, 
lodo o esforço para altingir a riqueza, a vida indus- 
trial, emfim, morre diante do principio, exagerada- 
mente estúpido, da egualdade. E é a isto que quer 
chegar uma escola que ameaça a paz e a felicidade 
da Europa ! 

Entre Ambriz e Loanda, na distancia de alguns 



131 

kilometros, vive a tribu dos Mossulos; nos quaes 
não exercemos domínio, e que se oppõem, quasi sem- 
pre, ás communicações da capital para o Ambriz. 
Já no fim do século passado esles selvagens manti- 
veram uma longa guerra com as forças de Angola 
e só ao cabo de cinco annos foram vencidos, para 
de novo se tornarem independentes. 



X 



Conforme a opinião de Cannecatim, citado no li- 
vro do sr. Nogueira, nasceu a lingua bunda em Cas- 
sange, nas denominadas terras do Ginga, e depois 
se estendeu pelos LiboUos, e Giacas, e, mais tarde, 
pelos districtos de Ambaca, Gollungo, Icolo e Bengo 
atéLoanda. Os logares do sertão, a que Cannecatim 
se refere, formavam na sua hypothese um único 
império constituído pelos conquistadores Abundos. 

Estes territórios, que ficam na fronteira leste de 
Angola, tem estado, umas vezes sujeitos á auctorida- 
de portugueza, outras não; são fronteiras fluctuan- 
tes, como as de quasi todas ou de todas as colónias 

9# 



132 

europeas na Africa. AUi, nas terras limitrophes, ar- 
dem sempre em guerras uns com oulros os potenta- 
dos negros, e teem logar invasões, que alteram pro- 
fundamente a natureza das populações. Quando os 
exploradores, srs. Capello e Ivens, chegaram a Cas- 
sange, um dos territórios limitrophes a que nos re- 
ferimos, eslava desde muito tempo vago o jagado 
de Cassange; o que dava logar a luctas repetidas. 
Segundo uma nota, que se lê no livro dos illustres 
exploradores, foi por fins do século xvi que os ja- 
gas conquistaram Cassange e teve logar a invasão 
dos Tembos, originários das lerras do Lunda.^ 

Passando ao sul do Quanza encontram -se povos 
nâo sujeitos ao nosso dominio. Entre esles povos, 
merecem particular attfínção os chamados Quissa- 
mas, que occupam a território ao sul, desde a em- 
bocadura do rio até á margem em face do Dondo. 
Já no fim do século xvi as armas portuguezas bus- 
caram penetrar em terras dos Quissamas, para che- 
garem mais seguramente a senhorear-se das suppos- 
tas minas de prata de Cambambe; para firmar um 
tão appetecido dominio se levantou o forte de Muxi- 
ma, onde se estabeleceram missionários. Armas e 
missões, tudo foi inútil. Os Quissamas, com mais ou 
menos prospero resultado, mas quasi sempre venci- 
dos nos combates e sempre inaccessiveis á civilisa- 
ção, conservaram a mais selvagem independência. 

Os Quissamas, diz o sr. Monteiro, são uma raça 



133 

de côr muito negra, de altura abaixo da mediana, 
e de uma apparencia notavelmente disforme. Mais 
do que os outros negros, pelo sr. Monteiro observa- 
dos, são elles selvagens, e suspeitosos. Quando vem 
á margem norte do Quanza, nunca se demoram mais 
do que o necessário para fazer o seu negocio, ape- 
zar de se conservarem em bons termos com os ne- 
gros e mesmo com os brancos, que residem ao norte 
do rio. 

De uma natureza e estado análogos são os Mu- 
coandos, ao sul de Benguella, entre o cabo de Santa 
Maria e o rio de S. Nicolau. Esta tribu dos Mu- 
coandos é nómada, e de pastores, não de agricul- 
tores. Andam quasi nus, apenas cingidos por uma 
pelle de carneiro; são inofensivos e pacíficos. Pa- 
rece que a tribu tende a extinguir-se, como succede 
a outras tribus incapazes de melhorar o seu estado 
physico e moral, e de adoptar as praticas laborio- 
sas da civilisação. 

Estes Mucoandos, que parece, pelo que dizem al- 
guns viajantes, ter pontos de analogia se não iden- 
tidade com os Quissamas, estão, por assim dizer, en- 
gastados nos territórios occupados pelos Mondom- 
bos. Eis o que o sr. Monteiro diz dos Mondombos. 
São estes, selvagens, com tendências ao roubo, e 
pouco parecidos com os negros das outras tribus, 
que habitam Angola. Cobrem-se apenas de pelles 
e couro de carneiro; e esfregam-se, corpo e cabeça, 



134 

com óleo ou manteiga rançosa, misturada de carvão; 
usara sandálias de coiro: teem altura medeana e 
cara hedionda. As suas cubatas são baixas e redon- 
das: são pouco trabalhadores e independentes. As 
mulheres cultivam a terra, e os homens são caçado- 
res e pastores. Quando o dono do gado morre, ma- 
ta-se a manada, toda ás vezes, e cohvida-se a co- 
mer a tribu inteira. 

Segundo os documentos officiaes que acompa- 
nham uma conferencia, feita pelo sr. Ferreira de Al- 
meida na Sociedade de Geographia de Lisboa, vê- 
se que a tribu dos Mondombos occupa o logar de 
Quissongo na margem esquerda do rio Giraul, perto 
de Mossamedes. E nómada, mudando com frequên- 
cia de habitação para ter ondo apascentar os seus 
rebanhos. Com diligencia obtem-se, com tudo, que 
trabalhem, ainda que seja grande a resistência. 

O sr. Monteiro termina a exposição acerca dos 
Mondombos, dizendo: «são uma raça forte, e ener- 
«gica, capaz de soffrer cançaso e fome; de caracter 
«bom e alegre. Não são os Mondombos uma raça má, 
«mas são selvagens, nómadas, e intratáveis, quan- 
« do se trata de os ensinar ou civilisar. » Os maus 
tratos, que dos brancos tem recebido, contribuiram 
de certo para lhes exagerar estes caracteres. N'uma 
communicação de Eug. Werhlin lê-se o seguinte, 
que bem mostra o modo porque são tratados os ne- 
gros, e o que mais se oppõe á sua futura civilisa- 



135 



ção: Esta tribu foi deshuniana e cruelmente tratada, 
por lhe não deixarem «um palmo de terra, de tan- 
gos terrenos de que foram desapossados, para cul- 
«tivar os mantimentos necessários á sua subsislen- 
«cia: não quero fallar em terrenos para pastagem 
f de gado vaccum e ovelhum, de que tinham ha pou- 
ícos annos grandes manadas, parte roubadas pelo 
«mesmo gentio dos Cubaes, que ha tempo se entre- 
«gou ao roubo do gado dos habitantes do districto, — 
«o que tem sempre praticado impunemente, — parte 
«e resto perderam pela epizootia que n'estes sitios 
«reinou com intensidade.» 

Mais para o sul, e no littoral, encontram-se as 
tribus dos Ba-Kuisse e ía-Nhaneca. 

Os Ba-Kuisse, como diz o sr. Nogueira, vivem er- 
rantes, nutrem-se de peixe, e vivem como os troglo- 
dytas, nas cavidades dos rochedos. Estes selvagens 
da beira-mar, mereceram ao distincto oflScial de ma- 
rinha, o sr. Amaral, as seguintes palavras: «A ex- 
«traordinaria tribu dos macuissos (Ba-Kuisse do sr. 
«Nogueira) é pouco communicativa entre si, vive 
«isolada das outras tribus, a tal ponto que, se algum 
«argumento se podesse produzir a favor de insocia- 
«bilidade do homem, seria de certo o d'esta casta. 
«Homens e mulheres raras vezes se juntam; estas, 
«na forma habitual, cultivam, quando o fazem, um 
«ou outro arimo. Verdadeira expressão da fome e 
«da miséria, dão um espectáculo hedipndo de sei- 



136 

tvageria e de escravidão, não d'aquella que a lei 
«attingiu, mas da que só o missionário pode aca- 
tbar . . . Esta tribu sombria não tem contacto algum 
tcom os brancos, que não a escravisam, mas assim 
«o fazem os seus hábitos, a sua repugnância ao tra- 
«balho, embora retribuido generosamente, a sua in- 
«dole nómada e extraordinária, etc.i 

Outra raça vagueia por estas terras, e se compõe 
de caçadores. São os Ba-Kankala. Estes teem pe- 
quena estatura, côr amarello-palida, ossos da face 
salientes, nariz chato, olhos obliquos, beiços gros- 
sos, queixo proeminente, carapinha pouco densa, 
ventre alto. São os caracteres physicos dos Bosch- 
jemans; caracteres, pouco mais ou menos, communs 
ás tribus de pygmeus da Africa. O professor Hart- 
mann indica por este modo esses caracteres : « pe- 
tquena estatura, cabeça grossa e alongada, hom- 
«bros largos, ventre saliente, bacia proeminente, 
«membros delgados, bem proporcionados, mãos e 
«pés pequenos, côr desde o negro carregado até o 
«negro oHvaceo, ou o amarello ou vermelho escuro, 
«face em forma de pêra, nariz curto e achatido, 
«maxilas salientes, lábios carnosos e grossos.» 

Entre estas raças, que podemos, por comparação, 
chamar inferiores, outras existem evidentemente de 
outra procedência, de caracter guerreiro, que parece 
haverem conquistado os territórios que habitam , e que 
mostram caracteres e aptidões que faltam ás outras. 



137 

Já atraz dissemos que, na hypothese plausível de 
Gannecattim, o paiz de LiboUo, na margem sul do 
Quanza, fazia parte do grande império, onde se es- 
tabeleceram os conquistadores Abundos. E o LiboUo 
o limite norte do celebre paiz do Nano, habitado pelos 
Bin-Bundos. Os povos de Libollo são de uma orga- 
nisação physica e moral muito superior á dos seus 
visinhos Quissamas; são mais guerreiros, altos e 
bemfeitos: são limpos e arranjam os cabellos em 
tranças em volta da cabeça, ornados com missangas 
imitando coral. 

As tribus do Nano, que nas terras altas occupam 
uma posição semelhante ás anteriormente indicadas, 
comprehendem extensas terras, e numerosos povos. 
Os povos do Nano tem o nariz achatado, os lábios 
grossos, o queixo recuado, os dentes inclinados, 
cabellos encarapinhados, côr escura e uniforme, as- 
pecto suspeitoso. Os distinctos exploradores Capello 
e Ivens, que nos dão estas informações, accrescentam 
no seu livro: «E grande a sua fama, pelas correrias 
«nos sertões do sul e do sueste, chegando até ao 
fvale do Dombe Grande. . . não escapando a Huil- 
tla, Copangombe, Mossamedes, que com frequência 
<r visitam. . . propendem para a rapina . . . aanthro- 
^pophagia pode exercer-se incidentalmente, como, 
*por exemplo^ nas occasiões de geral discórdia, em 
^que os vencidos são de ordinário devorados.^ 

Gonfinando ao sul com os povos do Nano, ficam 



138 

OS Ba-Nhaneca e Ban-Kumbi, povos especialmente 
estudados pelo sr. Nogueira. Estes povos, que se di- 
videm em vários grupos occupam o território com- 
prehendido entre a serra de Cheia e o Cunene, de 
i5^ a l?"" de latitude sul. Segundo a própria tra- 
dição, vieram estes povos do norte, d'onde parece 
haverem sido expulsos pelas invasões dos Nanos, 
assim como, por seu turno, expulsaram os Ba-Ximba 
dos territórios que hoje occupam. Todos estes po- 
vos faliam a lingua bunda ou seus dialectos, e pos- 
suem gados abundantes: são pastores e agriculto- 
res, consomem o leite azedo e fabricam a manteiga, 
como os povos do norte da Africa, e, como alguns 
d'estes, professam um certo culto ao boi. 

Referindo-se á anthropophagia entre estes povos 
o sr. Nogueira diz: mos Garabos (Ban-Gambue) ha 
«uma ceremonia, em que uma pequena porção de 
«carne humana^ que deve ser de um prisioneiro de 
«guerra, é ministrada, com outra, a um certo nu- 
«mero de iniciados. Essa ceremonia só se repete 
«por occasião da subida ao poder de um novo Ham- 
«ba (chefe), e começa a cair em desuso.» 

O horrivel vicio do canibalismo, conforme as pro- 
fundas observações de 0. Peschel (As Raças Huma- 
nas), não se encontra em grupos inteiros de nações, 
com excepção dos Papús e Polynesios, mas só ap- 
parece, em casos isolados, na Africa e na America. 
Diversas explicações se tem buscado ao canibalismo: 



i39 

umas vezes parece ler por fim augmentar a própria 
coragem, devorando a coragem do inimigo: outras, 
o canibalismo é filho da paixão da vingança: ou- 
tras, emfim, é promovido pelo fanatismo. Não é a 
anthropophagia um indicio certo de inferioridade 
entre as raças selvagens, pelo contrario: o« detes- 
« lavei costume encontra-se com mais frequência* 
t exactamente entre essas nações e grupos de na- 
« ções, que se distinguem das nações visinhas pela 
«sua capacidade é condição social mais amadureci- 
t da. » Na Africa a tribu dos Fans, os Niam-niam 
e os Mombutus são canibaes, e ao mesmo tempo 
dislinguem-se dos povos visinhos pelas suas apti- 
dões e qualidades physicas. 

Ãs circumstancias apontadas ; o facto d alguns 
povos, relativamente superiores, da costa de oeste 
terem, por tradição, a opinião commum de haverem 
emigrado de longe e do norte, assim como outras 
razões que se não podem citar aqui, levam -nos a crer, 
que esses povos teem commum origem n'uma re- 
gião populosa do centro d'Africa; onde talvez se pra 
tique ainda a anthropophagia. 

Do Bihé conta o sr. Serpa Pinto, que os sovas fa- 
zem repetidas vezes uma festa, a que chamam Quis- 
sungo, na qual são imoladas e devoradas cinco pes- 
soas ; um homem e quatro mulheres. 

Nas terras de Novo-Redondo, encontram-se uns 
povos, os Sillas ou Celis, que o sr. Monteiro aífirma 



ao 

serem canibaes. Diz elle haver conhecido, como guia, 
um negro que era por herança chefe da tribu; mas, 
como tinha de se sujeitar a uma ceremonia, na qual 
havia de comer a cabeça e coração de um homem 
para alcançar o elevado posto, não quizera ainda 
sujeitar-se á horrorosa iguaria. Nas cidades viu o 
auctor alludido carne humana a vender. As victimas 
são sempre os indigenas, por feitiços; e são decapita- 
das com um machado, que se distingue por um bu- 
raco na folha em forma de lonsango. Esta população 
de canibaes é, segundo o mesmo viajante, de uma 
raça superior de negros «a mais perfeita raça de 
«negros, em todos os sentidos, que encontrei na 
«Africa» diz elle; e a mais respeitadora do alheio, 
nola depois. 

Está isto de accordo com o que diz o Catalogo 
dos gavernadores de Angola, publicado pela Acade- 
mia. Quando foi da guerra contra o sova Sele em 
1772, os selvagens fortificaram-se num intrinchei- 
ramento «levantado todo de roda com baluartes, 
« formados de grandissimos troncos de pao a pique, 
« e outros trincados, mas por outros barriados com 
« tal cautella e arte, que á roda de todo elle havia 
«buracos e frestas, destinadas para as suas ponta- 
«rias sem serem sentidas, e lhe haviam juntado uma 
«estrada coberta, pela qual se serviam para tomar 
«agua do braço do rio, que ficava visinho á dita 
«trincheira: defensa que costuma prevenir o genito 



141 

•d'este sertão quando espera guerra. . . Faz duvi- 
«da haver semelhante habilidade em gente preta e 
«de nenhuma instrucção.» 

Este rápido esboço descriptivo das raças negras 
de Angola basta, para mostrar que se não podem con- 
seguir os mesmos resultados pelo ensino, nem che- 
gar ao mesmo grau de civilisação pelo exemplo, em 
raças tão diversas na Índole e no desenvolvimento 
physico e intellectual. Ha porém vicios, disposições 
funestas communs a todas ellas, e faculdades que 
em todas são differentes. Tudo isto é preciso ter em 
conta, quando se trata de transformar o modo de ser 
dos povos africanos. 



XI 



A extraordinária variedade dos caracteres physi- 
cos e mentaes dos negros, e de que Angola dá, co- 
mo vimos, uma curiosa e interessante prova, basta 
para explicar cabalmente a multiplicidade de opi- 
niões que, acerca dos negros, tem manifestado ob- 
servadores graves e experimentados. 



«42 

Já, anteriormente, expozemos algumas opiniões 
sobre os negros, que mostram bem o seu estado de 
inferior desenvolvimente, quer physico quer mental: 
mas não podem as mesmas apreciações applicar-se 
a todos os negros egualmente, pois que as differen- 
ças entre uns e outros são profundas. 

Depois de observar muitos dos povos de Angola, 
o sr. Monteiro chega á conclusão, de que o negro 
mais se distingue dos brancos mão tanto pela pre- 
«sença de qualidades más, como pela ausência de 
«qualidades boas, e de sentimentos e emoções, que 
«difficilmente percebemos que faltem na natureza 
«humana.» Este estado, por assim dizer, negativo, 
depende de ter o negro «um estado organicamente 
rudimentar do espirito.» Este estado rudimentar da 
alma, corresponde a uma insensibilidade physica es- 
pecial. 

Paliando de tribus negras do Nilo superior, as 
quaes parecem innaccessiveis a toda a acção civili- 
sadora, um missionário austríaco, citado por Haekel, 
affirma «que estão muito abaixo dos animaes, pri- 
vados de razão.» Ha, comtudo, que ter em conta as 
impressões particulares de muitos missionários, im- 
pressões que resultam da natureza das idéas que 
buscam inculcar aos pretos, antes de nenhuma pre- 
paração ; idéas, que estes não entendem nem podem 
entender. 

O celebre e illustre Stanley, que conhece como 



143 

poucos a Africa, — fallando dos negros de Zanzi- 
bar, os quaes «representam no seu caracter muitas 
«das disposições de grande porção das tribus ne- 
«gras dó continente» — diz o seguinte: «Achei os 
«amoraveis, capazes de grande affeiçâo, e possuiu- 
«do a gratidão e os outros caracteres nobres da na- 
«lureza humana: conheço que podem ser bons, obe- 
«dientes, que muitos são engenhosos, honrados, in- 
«dustriosos, dóceis, emprehendedores, bravos e mo- 
«rahsados; em resumo, são eguaes, em todos os 
«seus atlribulos de homens, a qualquer outra raça 
«ou côr que exista no mundo. . . Teem estes po- 
«vos, não ha duvida, todos os vicios inherentes a 
«um povo ainda profundamente mergulhado no bar- 
«barismo, mas comprehendem plenamente quanto 
«é baixo esse estado: o nosso dever, porém, a que 
«a religião nos obriga, é tiral-os do deplorável es- 
«tado em que se acham. Custe o que custar, antes 
«de começarmos a ter esperanças de melhorar as 
«raças ha largo tempo nas trevas, deixemo-nos de 
«lamentar impotentemente os seus vicios, e busque- 
«mos descobrir algumas das virtudes que teem, por- 
«que será, com o auxilio das suas virtudes e não 
«dos seus vicios, que a civilisação pode esperar aju- 
«dal-os.» 

Estas nobilissimas palavras são aviso e conselho 
a todos quantos se interessam pela transformação 
social e civilisação da Africa. 



144 

Na difiBcil empreza de civilisar o negro ha que 
ter em conta circumstancias, que dizem respeito ao 
estado, por assim dizer, orgânico dos negros a a ou- 
tras que dependem de influeneias externas. 

Acerca do estado physico e mental dos negros 
temos dito quanto é sufiSciente. Os negros sâo como 
as creanças, que houvessem parado no seu desen- 
volvimento mental ; tem as paixões, a insensibilida- 
de, o fogo, a falta de madureza, e a preguiça para 
o trabalho, que nas creanças se observa: mas este 
estado de desenvolvimento apresenta-se em diversos 
grãos. Como diz Lubbock, de todos os selvagens: 
« tem o caracter da creança com as paixões e a for- 
«ça do homem. » O sr. Nogueira, que faz no seu li- 
vro esta citação, accrescenta «tem também a docili- 
« dade d'aquella, e tem-n a no mais eminente grau 
«o africano.» 

0. Peschel. fallando das aptidões dos negros no 
seu excellente tratado Das Raças do homem, for- 
mula a seguinte opinião : 

«Depois de tudo quanto fica dito, não seria justo 
«considerar o negro por incapaz de se elevar a esla- 
« do mais perfeito, e também o attribuir o baixo grau 
« da civilisação presente apenas á natureza do con- 
«tinente; seria ignorar de todo a diversidade dain- 
«telligencia nas diversas raças humanas. A vanta- 
«gem da Africa consiste no facto de ser de possi- 
«vel, ainda que de não fácil, accesso ao Velho Mun- 



j 



145 

«do. D^aqui tem os negros derivado quasi tudo 
«quanto lhe tem melhorado a condição. Se esta raça 
«houvesse apparecido na Austrália diíBcilmente se 
«teria, pela sua própria força, elevado acima do es- 
pado dos naturaes d'essa região do globo. Por este 
«motivo, na nossa apreciação dos talentos naturaes, 
«devemos considerar o negro muito abaixo dos indi- 
«genas da America, que chegaram a grande madu- 
«reza unicamente pelo esforço próprio. Por outro 
«lado, se a Africa fosse melhor formada e tão ac- 
«cessivel como a Europa, os negros se haveriam mais 
«cedo civilisado, e gosariam já, proximamente, as 
«mesmas vantagens sociaes que os Malaio-chinezes. 

Se lançarmos os olhos para o continente afri- 
cano, — tendo em consideração as informações dos 
viajantes despidos de preconceitos, — notaremos que 
vastas regiões são occupadas por densas populações, 
de hábitos pacificos e laboriosos, dadas á industria 
pastoril umas, outras á cultura da terra e a uma 
cultura bastante activa: acharemos, n*uns si tios fer- 
reiros babeis, n'outros a cultura e tecelagem de al- 
godão; por toda a parte, quasi, a cerâmica e até cer- 
tas manifestações de uma arte rudimentar, mas não 
inteiramente privada do sentimento plástico. 

Se muitas tribus africanas se conservam n'um 
estado totalmente selvagem, outras ha que manifes- 
tam um progresso interno evidente. O canibalismo 
parece tender rapidamente a acabar, passando por 

voL. in. 10 



146 

uma phaze, que podemos denominar de fanatismo 
brutal. O sentimento religioso, característico do ho- 
mem, apparece n'umas tribus mais rudimentar do 
que noutras. Tudo leva a crer que o homem pas- 
sou por uma phase primitiva, em que não tinha reli- 
gião; ainda que os factos pareçam não dar exemplos, 
que manifestem a ausência total de crença nos espí- 
ritos — de um singelo animismo, segundo a expres- 
são de E. Tylor. Se esta preposição é exacta, os fa- 
ctos mostram que essa phase passou já ha muito 
para os africanos. Em toda a parte da Africa ha^, 
mais ou menos definida, a crença em espiritos bons 
e maus ; a crença na alma individual, ahna errante 
que conserva as suas relações com o mundo, que 
tem as paixões e os prazeres dos vivos, alma-fan- 
tasma, que é acompanhada por as almas das vi- 
ctimas que lhes sacrificam. Adoram alli os Ídolos; 
adoram vários animaes, principalmente serpentes, 
tendo ou não idéa clara da transmigração; crêem 
nos espiritos que dão a chuva, que favorecem as 
colheitas; e, chegam, n'algumas tribus, a ter uma 
confusa noção de um ser supremo, creador do uni- 
verso. E uma religião grosseira, cheia de supersti- 
ções, eivada de fanatismos ferozes, em que a feitiça- 
ria occupa um logar eminente e o sentimento da 
individualidade se perde nos terrores da superstição. 
Comtudo é certo que, por mais de um modo, se 
mostra a lenta tendência a um progresso relativo. 



U7 

Nenhum facto mostra melhor a superioridade do 
homem sobre os outros animaes do que a linguagem, 
fallada e escripta. A palavra é um instrumento es- 
sencial do pensamento e o meio de os homens se 
communicarem uns com os outros. A palavra fal- 
lada é a origem da superioridade do homem. A pa- 
lavra escripta é, porém, o meio de conservar as tra- 
dições, de deixar de umas para outras gerações o 
conhecimento das verdades adquiridas, das praticas 
úteis, dos feitos que podem ser exemplo e lição. A 
palavra escripta é a origem da superioridade da 
raça. Os negros da Africa estão privados d^essa su- 
perioridade, e isto s(5 bastaria para explicar o seu 
estado social. E não se diga que este facto, só por 
si, prova a inaptidão dos negros para todo o pro- 
gresso. Este facto não serve mais do que para nos 
mostrar, uma das causas mais poderosas do estacio- 
namento dos negros nos mais baixos graus da vida 
selvagem. 

Os caracteres de um alphabeto especial inventado 
pelos negros, para uso da lingua Vei, uma derivação 
da lingua dos Mandingas, mostra claramente, que a 
mvenção da escripta não é impossivel aos negros. O 
que acontece em Angola e particularmente em Am- 
baça, e, ainda mais, o que passa entre os negros ma- 
hometanos, mostra bem que os negros podem apren- 
der a leitura e a escripta e usar d'estes meios de 
aprender ecommunicar o pensamento com facilidade. 

10 # 



i48 

O islamismo espalha-se em Iodas as direcções e 
vae produzindo uma verdadeira revolução no espi- 
rito dos negros: por toda a parte se erguem mes- 
quitas e escolas, onde se falia e escreve o árabe em 
caracteres arábicos. W. Reade affirma que, do Sene- 
gal ao Cairo, e de Lagos a Tripoli, em cada aldeia 
se acha uma escola ; essas escolas frequentadas pe- 
los negros, ao passo que derramam o islamismo, 
propagam a leitura e a escripta. 

Quaes são os motivos que tendem a facilitar mais 
a acção dos marabús do que a dos missionários 
christãos? — Os negros teem um profundo sentimento 
de egualdade; são vaidosos, como observava já o 
padre Gavazzi; teem, como todos os homens, amor 
á própria Uberdade; não podem arrancar -se aos 
seus costumes viciosos, que são para elles uma se- 
gunda natureza e talvez uma necessidade do clima ; 
são dotados de espirito commercial. Ora, o marabú 
é um dos seus, vive com elles, commercia com el- 
les, não lhes combate abruptamente os vicios, e abre- 
Ihes o caminho para um melhor futuro. As palavras 
de Casabi, citadas pelo sr. Nogueira, tornam patente 
a falta de conhecimento da indole dos negros, que 
prejudica muitos missionários christãos. Diz o mis- 
sionário citado: «Para^ se chegar a conhecel-os (os 
«negros) e a comprehendel-os, é preciso deixar de li- 
«gar uma idéa de miséria á sua cabana e ao seu 
«manto de chacal, é preciso tòrnar-se o seu com- 



'* , 



<49 

«mensal, estar bem no seio da familia, sympathisar 
« com elles. Desde que estas relações se estabelecem 
t tudo se simplifica. O indígena deixa de ter segre- 
« dos para aqaelle que vê sorrir a seus filhos e dor- 
«mir pacificamente ao seu lado. O missionário, por 
«sua parte, acha encantos na sociedade dos seus no- 
« vos amigos. Se até alli os julgou insensiveis é por- 
«que não conhecia o caminho dos seus corações, se 
«lhe pareceram estúpidos é porque a confiança não 
«linha descerrado os seus lábios.» 

Quantos missionários comprehendem estes prin- 
cípios e os sabem pôr em pratica? 



XII 



Ninguém hoje põe em duvida que o homem 
physico e moral, a sua força e a sua intelHgencia, 
as suas aptidões, as suas invenções, tudo é produ- 
cto dos antecedentes. Um Newton ou um Camões 
não poderiam desenvolver as suas faculdades entre 
Cafres, nem a machina de vapor, o telegrapho ele- 



150 



ctrico oa o tear maravilhoso, podiam ser inventados 
na Negricia. 

Ha uma derivação lógica em todos os actos so- 
ciaes, uma suecessão ininterrompida em todas as 
transformações do homem. Não ha mais que buscar 
no passado os factos que na Africa se tem dado; 
não ha mais que voltar os olhos para o estado da 
civilisação da primitiva edade do ferro — mal conhe- 
cida ainda pelos anthropologistas^ — para ter a expli- 
cação de quanto hoje se observa no continente afri- 
cano. 

As faculdades mentaes, as leis a que estas obe- 
decem, emtanto que manifestações naturaes, são as 
mesmas no homem civilisado e no selvagens ; a dif- 
ferença está na maior ou menor complexidade d'es- 
sas faculdades, na sua grandeza relativa, e na exten- 
são dos conhecimentos accumulados e generalisa- 
dos n'um e n^outro; a differença está nos antece- 
dentes. Ora, ainda que as quahdades excepcionaes 
de alguns individuos não bastem para determinar as 
qualidades, physicas ou mentaes, de uma sociedade 
inteira, é comtudo certo, que as propriedades das 
unidades componentes determinam as propriedades 
da agregação d'essas unidades. A possibilidade de 
uma sociedade humana, qualquer que seja o grau 
do seu desenvolvimento, depende da existência si- 
multânea de um certo numero de emoções, de idéas, 
de interesses, nos individuos que a compõe. 



<51 

A acção exercida sobre alguns indivíduos com 
o fim de modificar, pela educação e pelo exemplo, 
as suas qualidades, não pode produzir senão um 
resultado lento e fácil de se esvaecer n'uma tribu 
selvagem ; a menos que uma tal acção se não exerça 
immediatamente sobre o potentado, que tem uma 
acção preponderante sobre a tribu inteira; mas os 
resultados são, n'este caso, ephemeros, porque de- 
pendem da existência ou da vontade de um só ho- 
mem. Isto explica muitas das milagrosas conversões 
feitas, em varias regiões da Africa, pelos missiona-^ 
rios; conversões que desapparecem de um momento 
para o outro, sem deixar vestigios. Falta a base, 
falta o solido fundamento da evolução commum de 
Iodas as intelligencias, da simultaniedade das emo- 
ções em toda a associação. 

James Mill definiu a educação a arte «de tornar 
«os individuos, quanto ser possa, instrumentos de 
«felicidade, para si próprios primeiro, depois para 
«os outros. » Esta definição, que tem um certo vago^ 
sobre tudo no que se refere á significação precisa 
da palavra felicidade, foi ampliada por Mill, filha 
do auctor e escriptor distincto, do seguinte modo. 
«A educação inclue tudo quanio por nós mesmoa 
« fizemos, e o que por outros é feito em nosso pro- 
«veito, com o fim de nos levar á perfeição compati- 
«vd com a nossa natureza; na sua larga accepção, 
«comprehende mesmo o eífeito indirecto produzida 



i52 

«rio caracter e nas faculdades humanas por coisas 
«cujo intuito directo é differente ; pela leis, pelas for- 
«mas de governo, pelas artes industriaes, pelas fór- 
« mas da vida social, até por causas physicas que não 
«dependem da vontade humana; pelo clima, solo, e 
« posição local ... a cultura que cada geração dá, de 
«propósito, aos que devem succeder-lhes, com o fim 
«de os preparar a conservar, e, sendo possivel, a 
«aperfeiçoar os progressos a que se tem podido che- 
«gar.» Estas definições da educação, sem duvida al- 
guma boas, ainda que envolvendo as idéas de «feli- 
cidade» e «perfeição» que são mal definidas, mos- 
tram comtudo quaes sejam as condições fundamen- 
taes da educação; e mostram, egualmente, quanto 
as acções indirectas, quer physicas quer moraes, são 
contrarias á educação dos povos africanos. 

Nos negros, como nas creanças, é preciso buscar, 
successivamente, desenvolver as faculdades da alma. 
O corpo humano é um agregado de órgãos, que po- 
dem ou não guardar entre si a necessária propor- 
ção : no ne^ro é o cérebro que tem menor desenvol- 
vimento, e as suas funcções exercem-se incompleta- 
mente ; a educação pois tem de pôr em exercicio e 
de dar vigor a este órgão e ás suas funcções espe- 
ciaes. Antes de conseguir este resultado pratico, são 
infecundos todos os esforços para melhorar as con- 
dições sociaes do negro. 

Um escriptor, que por vezes temos citado, e um 



i53 

dos que melhor conhecem os negros, sobretudo da 
costa Occidental da Africa, descreve assim, a largos 
traços, as suas aptidões: t Certa habilidade mecha- 
«nica, sem o génio da invenção; grande fluência de 
f linguagem, sem energia nas idéas; ouvido corre- 
íCto para a musica, sem capacidade de composição; 
«n'uma palavra, uma disposição de faculdades imi- 
«tativas, acompanhada com uma extrema esterilidade 
«de poder creador, tal é o. melhor negro. Isto mesmo 
«é caso raro, mesmo excepcional, e apresentar 
«estes animaes ensinados como verdadeiros exem- 
«piares do negro é fazer uma exposição menli- 
«rosa,» 

Tendo o negro o espirito assim disposto, como 
se pode actuar sobre elle e civilisal-o? Será ainda 
W* Reade que nos responda: 

«Emquanto a intelligencia do africano se conser- 
«var no seu estado actual e emquanto a egreja con- 
«tinuar a misturar as suas mais pequenas leis sociaes 
«com os mandamentos de Deus, a Africa não se fará 
«christã. 

«Se fosse possivel acordar o enthusiasmo popular 
«a favor de uma missão secular, para civilisar os ne- 
«gros, poder-se-ia formar uma sociedade com o fim 
«de diBfundir os conhecimentos práticos. Os negros 
«ainda não estão aptos para comprehender a doutrina 
«da Trindade, da Immaculada Conceição e do Cas- 



154 

«tigo Eterno; mas teem gosto pela musica, aptidão 
«para as línguas, um perfeito talento para a mecha- 
«nica. Penso que é necessário ensinar-lhes o corpo 
«antes da alma, e que as nossas egrejas na costa de- 
* veriam ser convertidas em officinas. » 

Esta opinião do eminente observador merece ser 
muito meditada. 

Entre os homens, ha grandes disparidades nos ca- 
racteres intellectuaes, assim como grande variedade 
nas inclinações e nos interesses, Tratando-se da edu- 
cação, na sua accepção mais larga, é da maior trans- 
cendência estudar a maneira de robustecer e au- 
gmentar as aptidões predominantes. Assim se pode 
conseguir acordar o espirito entorpecido do negro, 
tiral-o do estado de indifferença^ em que as impres- 
sões se tornam completamente indistinctas. 

Em geral, ha uma verdadeira antithese entre as 
actividades intellectuaes e as emoções, que, até certo 
grau, torna incompatíveis umas com outras; pois que 
as emoções excitadas enfraquecem as energias do 
intellecto, e é na tranquillidade do espirito que a 
força intellectual se desenvolve. O negro vive de 
emoções, mais ou menos rudes, e a vida externa do- 
mina n'elle a ^ida interna. Estes factos estão indi- 
cando o caminho seguro, por onde se pode chegar 
á alma do negro, e nem sempre sem dificuldade. 
Os exercícios da intelligencia cançam, gastam a pa- 



155 

ciência, quando os não acompanha um resultado 
attraclivo, quando não se combinam com o exercí- 
cio physico bem encaminhado; sobretudo, quando a 
altenção se não pode fixar, e as faculdades intelle- 
ctuaes se conservam no estado rudimentar ou entor- 
pecidas pela falta de applicação. 

Estas rápidas considerações bastam para explicar 
muitos dos factos deploráveis, que teem posto termo 
a varias missões, e dão egualmente razão da. este- 
rilidade dos seus resultados. Ha que seguir caminho 
novo, e a religião deve ser um dos meios podero- 
sos de civilisar o negro ; mas não pode ser nunca, 
nem o único nem o primeiro meio de levar a civili- 
sação á Africa. Muitos condemnam as missões, por 
lhes âttribuirem males que ellas não causaram; ou- 
tros as louvam em demazia, porque se deixam levar 
por factos limitados e sobretudo ephemeros. A me u 
ver, nem uns nem outros teem razão. As missões, 
as verdadeiras missões, teem feito bem e não mal ; 
apesar de errarem quasi sempre o caminho, que- 
rendo dirigir-se a faculdades que os negros, por em- 
quanto, não possuem, e não buscando mostrar-lhes 
praticamente as vantagens da civilisação, para o bem 
estar do homem. 

A acção progressiva do ensino sobre o espirito é 
uma das suas condições essenciaes. Não é possivel 
fazer entender um qualquer assumpto, sem o prece- 
der de outros que o tomem intelligivel. E n'esle sue- 



156 . 

cessivo caminhar é indispensável principiar pelo que 
é simples, pratico, interessante, útil. 

Muitas vezes se tem feito a observação de que os 
negros teem singulares disposições e aptidões femi- 
nis; são mais precoces do que os outros homens, e 
n^elles domina muito o que se pode chamar o ins- 
lindo. Aproveitar estas especiaes disposições, deve 
ser o segredo da transformação intellectual dos afri- 
canos. 



XIII 



Quando se principiou a conversão do Congo, fo- 
ram com os padres alguns pedreiros e carpinteiros; 
mas esses, pelo seu mau comportamento^ só de mau 
exemplo serviram aos negros. O rei do Gongo man- 
dou-lhes fazer umas casas, e depois escreveu a D. 
Manuel, queixando-se de que «começaram e anda- 
is ram a fazer os alicerces um anno, e vinham cada 
« dia e deitavam dentro uma pedra e tomavam-se para 
«suas casas. . . estiveram a enfornar a pedra (para 
« fazer cal) outro anno . . . Em maneira que, ha cinco 



i57 

«annos que andam n'es(a casa e ainda a não acaba- 
« ram, nem a acabarão d'aqui a dez annos, e não que- 
brem ensinar nenhum moço.» 

Referindo-se, na mesma caria, a ofíiciaes de ou- 
tros officios, escreve o rei do Gongo: «a um sapa- 
teiro que cá veiu mandámos dar cincoenta pelles, 
-«para que as curtisse e nos fizesse calçado. . . as 
«quaes elle nunca soube curtir ou não quiz ... o ai- 
«faiate fez-nos uma loba e umas mangas de vellu- 
«do. . . o telheiro nunca nos quiz fazer telha nem 
«tijollo. . . nossos criados nunca quizeram ensinar, 
«mas antes, se iam ver para aprender, lhes davam 
t tanta pancada até que fugiam. . . » N' outra carta 
a D. Manuel diz o mesmo rei: «Senhor, peço-vos 
«que mandeis os pedreiros e carpinteiros das casas, 
«para fazer uma escola, para ensinar nossos paren- 
«tes e nossas gentes.» E digno de notar-se o empe- 
nho com que o rei negro, cuja conversão ao chris- 
lianismo era apenas ephemera e interesseira, pedia 
quem lhes ensinasse a trabalhar os seus parentes e 
suas gentes, ao mesmo tempo que pedia padres que 
lhes ensinassem a doutrina christã. 

Já anteriormente vimos o fructo que deram as 
missões dos jesuitas, com as suas escolas de.primei- 
ras letras e o seu ensino de agricultura e de alguns 
officios mechanicos. Esse ensino era muito incom- 
pleto e encaminhado exclusivamente — como se vê 
de documentos contemporâneos insuspeitos — a en- 



riquecer os arímos da Companhia ; mas, não obstante, 
deixou traços em Angola, que ainda de todo se não 
apagaram; emquanto que o ensino, puramente reli- 
gioso dos outros missionários, mesmo dos celebres 
capuchinhos, não deixaram signal algum valioso da 
sua passada existência ; podendo o bispo de Angola 
dizer doestas missões, em 1722: tNas missões dos 
«padres capuchinhos, assim no sertão d'este reino 
«de Angola como no Congo geralmente, só severi- 
^fica algum aproveitamento nos baptismos das crean- 
«ças morrendo e em tempo conveniente, e que os 
« mais, que chegam á puberdade e d'ahi para cima, 
«ficam reincidindo em suas superstições e leis bar- 
«baras em que vivem os outros.» 

Vivamente interessado no nobre empenho de ci- 
vilisar Angola, o illustrado governador Sousa Cou- 
tinho creou muitas escolas primarias, e no Trem va- 
rias officinas, onde se ensinavam alguns officios me- 
chanicos, — estabelecimento este que aos poucos an- 
nos se definhou por falta de mestres e de zelo. A 
mesma sorte coube egualmente ás aulas de geome- 

m 

tria e fortificação, mandadas estabelecer pelo mesmo 
governador, que, dominado pelas idéas da sua época 
(1764), mostrou comtudo, ao crear estes estabele- 
cimentos de pouca utilidade real, quanto apreciava 
o ensino das sciencias e suas applicações. Idéa esta 
que hoje, muito mais que no tempo de Sousa Cou- 
tinho, deve preoccupar quantos se occupam em ge- 



159 

ral da instrucção dos povos e da civilisação da Africa, 
especialmente, 

Um escriptor, cuja auctoridade merece ter-se em 
consideração e que valia muito mais do que esses 
que, em sua vida, o julgaram mal; Lopes de Lima, 
diz, na sua hoje clássica Estatística das Possessões 
Portuguezas: 

«O ensino fabril é certamente o mais necessário 

r 

«a Iodas as nossas possessões d'Africa. — E certo 
«que, em Loanda, ha maior numero de mechanicos 
< que em qualquer outra d'essas possessões ; mas os 
«processos da sua industria pouco mais são ainda 
«hoje (1846) que as toscas rotinas do século xvn.» 

Na Africa do sul, os inglezes occupam-se, com 
superior zelo, de educar e civilisar os indígenas. Em 
1880 o numero e a natureza dos institutos de in- 
strucção eram, segundo o relatório do inspector ge- 
ral, como se segue : 



160 

Institutos de instrucçao superior e industrial. . 4 

Escolas publicas : 

Primeira classe 52 

Segunda classe 78 

Terceira classe 86 

~ 216 

Escolas districtaes 27 

Escolas das missões * 346 

Escolas aborigenas, industriaes e de officios. . 185 

Escolas normaes 2 

Estas escolas eram frequentadas' por 62:209 
alumnos. A população, não contando europeus, era 
de 314:789 almas. Os europeus subiam a 181:592. 
Estas indicações bastam, para provar a importância 
dos estabelecimentos de instrucçao na colónia in- 
gleza e o desenvolvimento dado ao ensino indus- 
trial. 

Henry Stanley, bom observador e ousado viajan- 
te, como todos sabem, falia com interesse das mis- 
sões que encontrou na costa de leste, e particular- 
mente da denominada Universities Misson. Esta mis- 
são, depois de uma larga peregrinação e de doloro- 
sas perdas de vida, veiu por fim a estabelecer-se em 
Zanzibar: reduzida, quasi a extinguir-se. Ahi, a mis- 
são, que se havia occupado de evitar, com pouco 
critério, os hábitos africanos de escravatura e de pré- 



461 

gar o evangelho aos negros, passou «a superinten- 
«der e ensinar as creanças e rapazes a impressores, 
«carpinteiros, ferreiros e outros ofiBcios communs. 
«O estabelecimento representa quasi todos os tra- 
«balhos industriaes, de uso commum na vida, como 
«occupação dos seus membros de classe inferior, e 
«é, no sentido genérico, um estabelecimento indus- 
trial e religioso, para educação moral e material de 
«uma classe desgraçada que merece a mais viva 
«sympathia e auxilio.» Os resultados teem sido ex- 
cellentes. 

Depois de se referir a outras missões, Stanley 
acrescenta estas memoráveis palavras : « E singular 
«que os philantropistas britannicos, tanto clérigos 
«como seculares, persistam na illusão, de que os 
«africanos possam ficar satisfeitos só com um me- 
«Ihoramento espiritual. Devem buscar convencer-se 
«do innegavel facto, de que o homem, branco, ama- 
«rello, vermelho ou negro, tem necessidades physi- 
«cas que precisam ser entendidas e satisfeitas. Um 
«bárbaro é puramente materialista. Está cheio de 
«desejos de possuir uma coisa que elle próprio não 
«pode descrever. E como uma creança que ainda 
«não pode fallar. O missionário encontra o bárbaro 
«ainda estupidificado pela ignorância, com instin- 
«etos de homem, mas. vivendo a vida dos bru- 
«los. Em vez de desenvolver as qualidades d'este 
« ser essencialmente pratico, procura logo transfor- 

voL. m. li 



162 

«mal-0, expondo-lhe os dogmas do christianismo, a 
«doutrina da transubstanciação e outros assumptos 
«difficeis, antes que o bárbaro tenha tido tempo 
« para exprimir as suas necessidades e explicar-lhes 
«que é uma frágil creatura, que pede o alimentem 
«com pão e não com pedras.» 



XIV 



. Profundamente convencido das verdades anterior- 
mente desenvolvidas ; persuadido de que era neces- 
sário acudir promptamente ás necessidades da pro- 
ducção e do commercio das possessões portugnezas 
da Africa; reconhecendo a opportunidade de derra- 
mar luz em povos ha pouco escravos e hoje livres 
pela lei; avaliando a conveniência de ensinar os ne- 
gros a produzir pelo trabalho e a melhorar a sua 
situação physica e moral; apreciando a importância 
de impressionar o espirito dos negros pelas mara- 
vilhas da civilisação e pela utilidade pratica d'essas 
maravilhas ; o governo portuguez tentou emprehen- 
der, em larga escala, as obras publicas no ultramar. 



163 

deixando-lhe a obrigação de pagar os encargos de 
tão vastos melhoramentos, aproveitando para este 
fim um imposto já creado e que, necessariamente, a 
actividade commercial deveria em poucos annos au- 
gmentar. 

O pensamento foi, infelizmente, mal apreciado. 
As obras publicas foram, por assim dizer, totalmente 
abandonadas. Entrou-se de novo no systema, roti- 
neiro e estéril, por muitos annos usado: e tudo se 
perdeu e tudo ficou no mesmo abandono. Nem se- 
quer foram justos com os dedicados, laboriosos e mui- 
tas vezes heróicos officiaes, que formaram as expe- 
dições de obras publicas n'uma e outra Africa! 

A triste verdade é, que em Portugal ha muita am- 
bição de território ; muito melindre phantásista ; uma 
voz sempre disposta a queixar-se dos outros ; uma 
tendência a accusar usurpações e expoliações. 

E bom e justo que assim seja; mas é pouco. 

E preciso ter coragem para trabalhar; espirito 
ousado para melhorar o que é nosso; força para 
comprehender, que a situação de Portugal lhe impõe 
o dever de melhorar a sorte dos povos que lhe es- 
tão sujeitos, civilisando-os. 

Tenhamos menos medo do que é novo, só porque 
é novo, quando o antigo não presta; mostremos me- 
nos disposições para a critica e mais amor sincero 
á justiça. 

A acção civilisadora das obras publicas e do en- 



164 

sino technico sobre os povos africanos é apreciada 
devidamente, em breves palavras, por um engenheira 
illustrado e enérgico, no qual brilham as qualida- 
des do homem novo a par da intelligencia reflexiva 
do homem experimentado, O director das obras pu^ 
blicas de Moçambique, o sr. major Joaquim José 
Machado, diz no seu Relatório de 1877: 

«A influencia d'estes trabalhos (as obras publi- 
« cas) sobre a civilisação dos indigenas é superior a 
«qualquer outro meio, que se empregue com tal in^ 
«tuito. 

«Ao trabalho remunerado afifluem populações de^ 
«muitas léguas de distancia, que se amoldam faciU 
«mente á disciplina e ao serviço que d'ellas so 
« exige. 

«Á aprendizagem dos officios de carpinteiro, pe- 
«dreiro e ferreiro, concorrem bastantes rapazes in~ 
« digenas, que manifestam, pela maior parte, habili- 
«dade esperançosa. 

« A indolência, tão apregoada, da raça africana pro- 
«vinha do estado ultra-sel vagem das populações, da 
« falta de contacto com as terras civilisadas, e, prin^ 
«cipalmente, dos hábitos deixados pelos antigos co- 
«lonos, que, em geral, remuneravam o trabalho do 
« negro com o chicote ou com a grilheta, » 

N outra occasião, o mesmo engenheiro disse : 



165 

«E-me finalmente muito agradável registrar, que 
«o preto trabalha livremente da melhor vontade 
«quando tem a certeza de receber e poder applicar 
«como quizer o fructo do seu trabalho.» 

A esta observação ha a acrescentar o facto, tam- 
bém affirmado pelo sr. Machado, de que « ha poucos 
«annos foi em Moçambique creada uma escola de 
«officios, chegando a ser frequentada por sessenta 
«e tantas creanças.» Devendo nolar-se a triste cir- 
cumstancia de não haver em Moçambique escola 
primaria quando aU estava o sr. Machado {Moçam- 
bique, por J. J. Machado, pag. 35). Em Quilimane 
havia escola com cento e tantos alumnos, mas sem 
casa: em Inhambane succedia o mesmo. 

Em Angola, como anteriormente notámos, o curto 
ensaio, feito para organisar um tal ou qual ensino 
pratico de artes e officios, não chegou a dar resulta- 
dos effectivos ; nascendo d'ahi a falta quasi absoluta 
de operários hábeis e officfaes mechanicos capazes 
de executar qualquer obra ainda a mais simples, 
quando chegou á provincia a commissão de obras 
publicas. Á falta de escola especial de oflBcios cor- 
respondia a mais deplorável falia de escolas prima- 
rias em toda a provincia. Os poucos professores que 
ha em Angola nem se entregam, geralmente, com 
zelo ao cumprimento dos seus deveres de ensino, 
nem teem em volta de si e á sua disposição meios 



166 

de o fazer. «As escolas — como me informa bene- 
«volamente o sr, Gorjão, n'uQs apontamentos que 
«me deu sobre obras publicas — estão alojadas em 
«casas alugadas ou em cabanas de má construcçao 
«e em ruinas.» Para acudir a este mal, assim como 
ã falta, quasi geral, de residência para as auctori- 
dades administrativas, os parochos, capellas, etc, 
propoz o zeloso e intelligente director das obras pu- 
blicas um typo de edifícios semelhante ao adoptado 
na Algéria: melhoramento este que se não pôde rea- 
lisar, por haverem terminado as fecundas expedições 
de obras publicas, D'este facto resultou ainda outro 
mal, que é opportuno lembrar aqui, e que merece 
attenção. 

O impulso dado ás obras publicas de Angola acor- 
dou a entorpecida indolência dos indigenas e mesmo 
a dos colonos e das corporações municipaes. A prin- 
cipio desorientados pela desusada actividade, accei- 
taram depois, gostosos, o impulso dado. Factos im- 
portantes o provam. 

Ao serem interrompidos os trabalhos das com- 
missões de obras publicas, já a camará municipal 
de Mossamedes havia solicitado e obtido a creação 
de um imposto especial para melhoramentos locaes ; 
já os proprietários de Novo Redondo haviam solici- 
tado a construcçao de um porto sobre o rio Guengo, 
contribuindo elles para a obra com seis contos de 
réis; já a camará municipal do Dondo projectava 



167 

uma ponte, orçada em quatro contos, para a ligar 
com a nova estrada; a camará de Loanda, final- 
mente^ pedia auctorisação para fazer o abasteci- 
mento de aguas na cidade, e a obra está orçada em 
quatrocentos e cincoenta contos. Estes factos £allam 
por si bem alto e claro; mas, se não bastassem, a 
representação dos povos de Loanda, quando as obras 
foram interrompidas em 1880, seria mais que sufi- 
ciente para desenganar os mais incrédulos e ensinar 
os menos illustrados e intelligentes. 

Deixando de parte o que a obras especiaes se re- 
fere na citada representação, julgamos opportuno 
citar o que diz respeito á com missão de obras pu- 
blicas e á educação e civilisação dos indigenas. Diz 
assim a representação, fallando da commissão de 
obras publicas : 

«O espirito publico acha-se bastante impressio- 
«nado com a enorme cifra que custaram estudos que, 
«a final, se não vêem, e que as pessoas menos illus- 
« Iradas não sabem apreciar com rigor. Não vendo 
«também concluídas todas as obras começadas, não 
«quer descontar á expedição o tempo empregado na 
«inslallação de tão grande pessoal, na sub-divisão 
«das secções, na organisação dos serviços que iam 
«ser dirigidos por funccionarios que, embora pela 
«maior parte instruidos e habilitados, entravam to- 
«dos n'um paiz que lhes era completamente desço- 



468 



nhecido no seu modo de ser, para todos um meio 
completamente novo, e que em todas as suas va- 
riantes e minuciosidades se não podia abranger em 
um simples golpe de vista. 

« Parece aos abaixo assignados que era mais útil 
reformar, convenientemente, o quadro das obras pu- 
blicas, aproveitando-se os três annos de experiên- 
cia, que mais pode considerar-se de aprendizagem, 
que todos os paizes teem pago, do que deixar per- 
der completamente os trabalhos começados, os ma- 
teriaes em deposito, e, o que é mais, o habito ao 
trabalho que se ia inveterando nos indigenas, o que 
tudo mais tarde poderia traduzir-se em duas úni- 
cas palavras: Civilisação e riqueza. 

«Estão actualmente creados elementos, cuja ini- 
ciação custou cara, em relação a operários, a tra- 
balhadores, a materiaes, a transportes, a organisa- 
ção e a empreitadas; interrompidas as obras, per- 
der-se-hão esses elementos, sendo depois necessá- 
rio fazer novas despezas e soffrer grandes demo- 
ras. 



« A interrupção dos trabalhos fará perder egual- 
mente quanto n'este sentido se tem ganho ; no es- 
tado em que grande parte d'elles se acham em toda 
a parte, e especialmente aqui, n'um clima tão no- 
civo á conservação de construcções, importará em 
algumas obras, como nas estradas incompletas, 



469 

«nos edifícios ainda descobertos, nas macbinas e 
«apparelhos, perdas enormes e, na maioria dos ca- 
«sos, irreparáveis. > 

Referindo-se á acção civilisadora das obras pu- 
blicas e do ensino industrial, diz a representação: 

« Em muitos pontos da provincia, houve difficul- 
«dade em desenvolver trabalhos, por falta de jorna- 
«leiros voluntários. Hoje o preto procura o traba- 
«Iho, aceitando um salário muito reduzido. 

«A continuação das obras publicas, radicando 
«esta tendência, permittirá o emprego do trabalha- 
«dor livre, mais útil e mais barato, em geral, do que 
«o serviçal.» 

E, mais adiante, diz ainda acerca das oífícinas, 
ensino industrial e seus resultados: 

«As officinas de Loanda teem já prestado alguns 
«serviços, tanto ao governo como a particulares, e 
«para o futuro podiam prestal-os muito maiores 
«ainda. 

«Ia agora começar a construcção de pontes me- 
«tallicas, estão a concluir-se dois fornos para fun- 
« dição de ferro, os primeiros e únicos que ha na 
«provincia; fechal-os e as officinas é tornar impro- 
«ductivo o que em tudo se tem gasto — não menos 



170 

«talvez que 100 contos de réis. Entregar a um par- 
«ticular tão vasto estabelecimento, é inadmissível, 
«porque aconteceria, sem duvida, o que aconteceu 
«com o antigo arsenal, que foi perda total para a 
« provincia. 

«O ensino profissional de operários indigenas é 
«urgente. Nada se faz com operários europeus, ca- 
« rissimos, e que pouco podem produzir passado al- 
« gum tempo depois da sua chegada aqui ; as despe- 
«zas improductivas com estes operários elevam -se 
« a centos de contos, logo que as obras tenham um 
«certo desenvolvimento. 

« Acabar com esse ensino quando elle começa a 
« dar resultado, e quando pode ser perfeitamente or- 
« ganisado, é erro gravissimo. » 



XV 



Antes de concluir este estudo, sobre os processos 
e as vantagens de civilisar os negros por meio do 
ensino profissional e do trabalho, não posso fazer 
coisa mais útil do que publicar, textualmente, as no- 



171 

tas que teve a bondade de me dar o sr. Gorjão so- 
bre o assumpto. 

Eis as informações valiosíssimas que dá o distin- 
cto director das obras publicas em Angola: 

«Se é grande e nociva em Angola a falta de es- 
« colas de inslrucção primaria, de egrejas e de edi- 
«ficios modestos mas salubres e decorosos para re- 
«sidencia das auctoridades dos concelhos do inte- 
«rior, maior era ainda e mais prejudicial a falta de 
«uma instituição destinada á educação e instrucção 
«dos operários indigenas. 

«Por dois lados deve ser considerada a utilidade 
«de um instituto d'esta ordem na província de An- 
«gola: pela sua influencia na moralisação e na civi- 
«lisação dos indigenas, e pelas vantagens directas 
«que d'elle devem tirar o Estado e a industria par- 
«ticular. 

«Pelas condições especíaes da Africa, ou ao me- 
«nos d'esta província, em relação ás condições cli- 
«matericas, á índole e ao atrazo da raça indigena, 
«á falta de incitamentos para o trabalho; pelos ob- 
«slaculos, muitas vezes ínsupperaveis, que a cada 
« passo encontra a iniciativa particular, quando não 
«tem o auxilio ou antes a tutela do governo; os 
«princípios económicos e de administração, ainda os 
«mais absolutos e incontestados na Europa, não po- 
«dem ter sempre aqui útil applicação. 




172 

«E assim que a instrucção primaria, que só por 
«si, nos paizes que attingiram um certo grau de ci- 
«vilisação e nas raças mais perfeitas, conslitue um 
«poderoso elemento de progresso e de moralidade, 
«tem por vezes dado em Angola resultados comple- 
«taraenle oppostos. 

« Possuindo apenas algumas noções de instrucção 
«primaria, mas carecendo de educação moral e re- 
«ligiosa, sem o habito do trabalho, sem necessida- 
«des e sem aspirações, o indigena, por via de re- 
«gra, fica a um tempo incapaz de se elevar pela per- 
« severança no trabalho e pela economia, e de acei- 
«tar serviços rudes, que, pela vaidade vulgar na sua 
«raça Julga despresiveis. N^estas circumstancias en- 
« tregam-se, em geral, ao vicio e á ociosidade, tor- 
«nando-se não só inúteis mas nocivos, pelo seu 
«exemplo, aos indigenas completamente ignorantes, 
«como ao gentio selvagem, que, muito mais facil- 
« mente do que era de esperar, se presta ao traba- 
«Iho voluntário. 

«Nos trabalhos dos estudos do caminho de ferro, 
«em quasi todos os das obras publicas, principal- 
« mente nos da estrada do Dondo a Caculo, tivemos 
«a occasião, mais própria que por ventura tem ha- 
« vido n'esta provincia, de fazer a comparação, 

« Dos prelos ignorantes do interior, do gentio do 
«Duque de Bragança, de Malange, de Gassange e 
« de Libolo — habituado á ociosidade, prestando-se 



473 

«SÓ por excepção ao transporte de cargas, exigindo 
tpor desconfiança e por reminiscência do trabalho 
«forçado o pagamento diário — a ração — abando- 
«nando o trabalho logo que recebiam pequenas quan- 
«tiâs — conseguimos, em dois annos de trabalhos, fa- 
«zer bons trabalhadores, sujeitos ao ponto e ao pa- 
«gamento quinzenal, ás correcções disciplinares de 
« multas e suspensftes, como na Europa. 

«A maior parte d'elles; uns crearam numerosas 
«necessidades; outros desenvolveram certo espirito 
«de economia. Alguns houve que entregaram a maior 
«parte do salário aos empregados, recebendo-o de- 
«pois junto, para com este pequeno capital conslrui- 
«rem ou comprarem cubatas e terras cultivadas. 

«A affluencia d'elles aos trabalhos públicos au- 
«gmentou a ponto de se conservarem, mesmo na 
«época da sementeira em anno de abundância — só 
«no primeiro lanço da estrada do Dondo — mais de 
«600 trabalhadores indígenas, ao passo que no pri- 
«meiro anno, apesar da escassez de alimentos, o 
íchefe e todos os negociantes do concelho do Dondo 
«apenas conseguiram fornecer 25 pretos para trans- 
« porte de cargas *. 

^ No primeiro anno os trabalhadores foram fornecidos pelos 
sobas e chefes de concelho, que os obrigavam a apresentar-se 
aos empregados das obras publicas, muitas vezes empregando 
violências. — As obras publicas nos últimos três annos mos- 
traram á evidencia, nâo só a inferioridade do trabalho forçado 



474 

tDos pretos e mestiços de Loanda e do Dondo, 
« com pretenções a civilisados, — de vestuário ã eu- 
«ropéa, mas andrajoso e repugnante, — sabendo ai- 
«guns ler regularmente e tendo, pela maior parte, 
«boa calligraphia, não conseguimos nada. De tal 
« modo se entregam ao jogo, á embriaguez, aos vi- 
«cios mais repugnantes, que por inúteis nos Iraba- 
«Ihos e prejudiciaes pelo exemplo foram muitos ex- 
«pulsos dos acampamentos. 

«Se na escola, juntamente com a primeira in- 
«strucção, for possível incutir nas creanças princi- 
«pios de educação e moralidade, desapparecerão em 
« grande parte estes inconvenientes. Gonseguindo-se 
«habitual-os ao trabalho, creando-lhes necessidades 
« que os incitem a vencer a natural indolência, o re- 
«sultado será completo. É assim e só assim que as 
•missões religiosas, antigamente as de Ambaca, por 
•exemplo, e agora as de Londana, no Zaire, conse- 
*guiram e conseguem alguns resultados dos seus úteis 

sobre o voluntário, mas a vantagem dos jornaleiros sobre os 
serviçaes contractados. 

A obra que saiu mais cara foi a do Giraul (estrada), onde 
se empregaram serviçaes. A mais barata foi a estrada do Don- 
do, onde o trabalho se fez com jornaleiros livres. — Adespeza 
com um serviçal, incluindo sustento, vestuário, juro e amor- 
tisação do capital empregado no resgate, perda por mortes, 
doenças e fugas, não é inferior a 180 réis, e o jornaleiro ga- 
nha em média 120 réis nos dias úteis e produz muito mais 
trabalho. 



175 

«^ louváveis esforços. De outra forma, .pelo menos 
«em grande parte, são completamente perdidos; 
«succedendo, como nos últimos tempos em Angola, 
«onde são poucos os indígenas que teem tirado par- 
«tido da instrucção primaria, e nem um talvez^ — ex- 
«cepluando os poucos que podem ccmsiderar-se ci- 
«vilisados, ao menos entre os milhares que tenho 
«empregado nas obras publicas — conserva os mais 
«simples e rudimentares vestígios de educação reli- 
«giosa e moral. 

«Uma escola, pois, onde as creanças, in internato, 
«recebendo a instrucção primaria e a educação mo- 
«ral e religiosa, adquiram as necessidades do ope- 
«rario civilísado, juntamente com o habito do tra- 
«balho e a instrucção profissional nas oflGicinas das 
«obras publicas, é sem duvida alguma um dos in- 
«strumentos mais completos e mais efficazes da ci- 
«vilisação e da regeneração da raça indígena. 

«Representará, porém, esta instituição um en- 
«cargo tão oneroso que, apesar da sua incontesta- 
«veJ utilidade indirecta, não convenha realísal-a nas 
«condições actuaes do reino e da província? 

«A experiência, adquirida durante perto de três 
«aonos, desde que se deu considerável desenvolvi- 
« mento ás obras publicas, mostra pelo contrario, de 
« uma maneira incontestável, que esta instituição é 
«de grande vantagem directa, quasi immediata, para 
«o estado, se não absolutamente indispensável. 



J5-- 






176 



«Quando se organisou a actual commissão das 
obras publicas, foram contractados no reino 100 
operários de differentes officios, com salário, com- 
prehendido entre 1|1500 e 2^000 réis diários, 
30^000 réis de ajuda de custo, passagens pagas 
de ida e volta; 500 réis de salário e tratamento 
gratuito durante as doenças, e metade do salário 
quando desempregados por falta de trabalho. 

«Mais tarde, era 1878, foram contractados pelo 
ministério da marinha operários com salário com- 
prehendido entre l|i500 e 2^500 réis, e 45^00 
réis de ajuda de custo e as outras vantagens con- 
« cedidas aos primeiros. 

«Ultimamente constou-me que alguns ferreiros e 
« caldeireiros, que requisitei para as oflBcinas, pedi- 
«ram 3^000 réis de salário. Os operários estran- 
«geiros não aceitavam de certo condições mais fa- 
« voraveis ; os inglezes, empregados pela companhia 
«de navegação do Quanza, vencem 2,^250 réis e co- 
«mida. 

«E provável pois que de futuro sejam mais one- 
« rosas as condições dos contractos dos operários 
«europeus. Supporemos, porém, que é possivel en- 
«gajal-os nas mesmas condições. 

« N'estas circumstancias as despezas de transporte 
«de Lisboa para Loanda, o vencimento durante a 
«viagem de ida e regresso e a ajuda de custo im- 
« portam em 140^000 réis. A maior parte dos ope- 



177 

trarios vem da província, tendo o governo de lhes 
€ pagar passagem até Lisboa e sustentando-os até o 
«dia do embarcpie; estas despezas não podem, em 
f média, avaliar-se em menos de 8^000 réis. 

«O numero médio dos dias de doença de cada 
t operário é superior a 40 por anno; Avaliando em 
«1^500 réis a despeza média diária de tratamento 
tde cada operário doente, é de 80^000 réis por 
tanno a despeza proveniente das doenças. As que 
«provém das viagens e devidas substituições dos 
«operários europeus na provincia, dos dias em que 
«é preciso abonar-lhes trabalho, etc, não é inferior 
«em média a 35|1000 réis. 

«Os operários são contractados em média por 
«dois annos. 

«Temos pois que, só em despezas puramente im- 
«productivas, gasta o estado a quantia de réis 
«37:800^000 com os 100 operários europeus du- 
«rante dois annos, e que, sustentando esse numero 
«durante seis annos — o que pouco é em relação ao 
«desenvolvimento e duração que devem tèr as obras 
«publicas na provincia — essa despeza perdida se 
«elevaria á importante somma de 113:400|i000 
«réis. 

«E muito maior, porém, a perda proveniente dos 
«elevados salários e do pouco trabalho útil dos euro- 
«peus. Enfraquecidos rapidamente pela acção do 
«clima, pelo irregular regimen de vida," por se ex- 

voL. m. 12 



478 



«porem muito ao sol, trabalhando em pontos insa- 
«labres e em más condições, já nos acampamentos, 
«já junto a pontos onde ha movimento de terras, 
«não conservam durante muito tempo o seu pri- 
«mitivo vigor, chegando a produzir menos de me- 
«tade de trabalho médio na Europa. Passados al- 
«guns mezes, por via de regra, o trabalho regular 
«do europeu pode avaliar-se, quando muito, em dois 
«terços do trabalho do indigena, e, em média, não 
«pode suppor-se superior a três quartos. Suppondo 
«o salário d'este de 500 réis, vê-se que o trabalho 
«diário produzido pelo operário europeu contractado 
«custa mais 1^633 réis do que o trabalho do ope- 
«rario indigena, o que corresponde a uma diífe- 
«rença de 44:417^000 réis por anno de 272 dias 
«úteis de trabalho por cada 100 operários. 

«A conservação pois de 100 operários europeus 
«nas obras pubhcas da província de Angola, du- 
«rante 6 annos, custará ao estado 103:500^000 
«réis de despezas improductivas, e a sua substitui- 
« ção por operários indígenas dará uma diminuição 
«de despeza de 266:056^000 réis, ou seja réis 
«379:905^000 no mesmo espaço de tempo. 

«Vejamos agora quanto custará a aprendizagem 
«de 100 operários indígenas na escola profissional, 
«suppondo que dura 6 annos. 

«Suppondo que o vencimento do director da es- 
tcola é de 80|1000 réis mensaes e de 36^000 réis 






179 

«O de cada um dos quatro chefes de companhia, e 
«a despeza com o sustento e vestuário de cada um 
«dos 100 operários de 180 réis diários, a despeza 
«annual de costeio da escola será a seguinte: 

^Director 960^000 

c4 chefes de companhia 1:720^000 

tlOO aprendizes a 180 6:570^1000 

«Despezas miúdas e imprevistas .... 200^000 

cTolal "9Í45ÕIÕÕÔ 

O trabalho produzido por cada um dos apren- 
dizes pode avaliar-se em 1 00 réis por dia ou réis 
«3:120<Í1000 nos dois primeiros annos, e em 250 
«réis por dia ou 7:800|i000 réis nos quatro res- 
«tantes; de modo que durante o primeiro período o 
«encargo será de 12:660^1000 réis e de 6:400|i000 
réis apenas no segundo ; e portanto a despeza to- 
tal com a instrucçao dos 100 aprendizes durante 
os 6 annos será apenas de 19:060^000 réis, por 
meio da qual, como demonstrei, o estado poderá 
economisar durante os 6 annos seguintes a impor- 
«tancia de 379:905^000 réis, suppondo que cada 
«um doestes aprendizes trabalha pelo preço médio 
«actual, avaliado em 500 réis diários*. 

^ Na escola profissional devem admittir-se alamnos susten- 
tados pelas camarás municipaes, pelas províncias ultramari- 
nas da Africa occidèntal e por particulares. — O numero de 
aprendizes sustentados pelas corporações municipaes de An- 
gola nao será de*certo inferior a 30. 

i2# 



180 

fSe o estado, porém, em vez de pagar 500 réis 
«a esses aprendizes, lhes estipular um salário ma- 
tximo de 400 réis durante os primeiros 3 annos 
€ depois de considerados oflSciaes, — o que é de ra- 
fzão, porque o salário actual está em demazia ele- 
tvado pelo desenvolvimento repentino dos traba- 
«lhos,-^a economia ascenderá a 400 contos de réis 
«proximamente, isto é, uma economia superior á 
« despeza effectiva de aprendizagem. 

«Acceites estes principios pela commissão no- 
t meada em portaria provincial, em 1878, para pro- 
«por o regulamento do ensino profissional de ope- 
« rarios indigenas, apresentei-lhe, a seu convite, em 
« sessão de 1 7 de outubro, o projecto e orçamento 
«do edifício para o internato, satisfazendo ás se- 
«guintes condições, também approvadas pela com- 
c missão: 

«1.* Alojar, em boas condições hygienicas, 80 
«operários, o director, os prefeitos e a repartição 
«de administração. 

2.* Ter uma aula com capacidade para 100 alum- 
«nos, isto é, para os 80 do internato e para os ope- 
« rarios adultos que porvej^tura queiram frequen- 
« tal-a. 

«3.* Ter, sendo possivel, sem grande despeza, 
«uma capella onde possam celebrar-se as oraçOes 
«quotidianas, o baptismo dos gentios, etc. 



181 

í 4.* Ter um pateo interior bastante espaçoso para 
: recreio dos aprendizes. 

« 5." Finalmente, estar disposto, por forma que, 
í sendo tão económico quanto possivel, satisfaça com- 
tudo a todas as condições indispensáveis n'uma 
instituição d'esta ordem em relação a disciplina, á 
educação e á instrucção. 

« Procurando desempenhar-me d'este encargo, co- 
mecei pela escolha do local para a construcção. 
Preferida, por mais salubre, a cidade alta, apezar 
do inconveniente de ficarem as officinas das obras 
publicas a alguma distancia do internato, optei pelo 
largo do Gollegio para poder aproveitar as ruinas 
do antigo convento dos jesuitas, o que se fez, com 
importantissima economia, transformando em es- 
cola e refeitório o corpo da antiga egreja, em co- 
zinha a sacristia, em egreja a capella do bello al- 
tar-mór de mármore, ainda ha pouco aproveitada 
para cavallaria, separando-a da aula por um cor- 
tinado. 

«Levantadas as cortinas, a aula transforma-se 
n uma- vasta egreja, reunindo-se assim n'esta insti- 
tuição civiUsadora os três grandes elementos de re- 
generação da raça africana: a officipa, a egreja e 
a escola. 

«As novas construcções consistem em quatro dor- 
mitórios para 20 alumnos, cada um com os res- 



182 

«pectivos lavatórios, arrecadações e quartos para os 
«prefeitos; um pavilhão para secretaria e residen- 
«cia do director, officinas para sapateiros, alfaia- 
«tes, etc. 

« Approvado o projecto, começaram os trabalhos 
«em novembro de 1878.» 



XVI 



o que da escola industrial e officinas pensam os 
homens mais importantes de Angola, já o vimos an- 
teriormente na representação que citámos. Vejamos 
ainda, para concluir, o que pensa sobre o assumpto 
o sr. Ferreira Maia, director das obras publicas. Diz 
no seu relatório de 1881 o sr. Maia: 

tEra de 14:000^000 réis a dotação mensal para 
«obras publicas, quando tomei posse da direcção, 
« que tinha encargos anteriores a satisfazer na im- 
«portancia de 11:005^369 réis. 

«Tão pequena dotação applicada a tão grande 
«numero de obras, como as que simultaneamente 
«teem de se fazer em toda a provincia, tendo de 



1 



».i 



183 



manter um pessoal technico e operário convenien- 
temente remunerado, e acrescentando ainda a ludo 
isto o elevado preço por que, em geral, se faz a 
acquisição do material para obras, é o bastante 
para se ver logo que os primeiros cuidados, a que 
tinha de me dar, deviam consistir na escolha dos 
meios mais adequados a realisar toda a economia 
possivel nos diversos serviços. 

«São estes serviços bastante numerosos, porque, 
além dos que são próprios da direcção, ainda lhe 
estão annexajdos: telegraphos, pharoes, observató- 
rio meteorológico e officinas, que não funccionam 
somente como officinas das obras publicas, mas 
também como estabelecimento destinado a produ- 
zir trabalho para os particulares, e cuja adminis- 
tração precisa ser muito cuidada para poder dar 
resultados profícuos. 

«Principiava a dedicar-me ao estudo dos meios 
a empregar, para conseguir o equilíbrio da receita 
com a despeza das officinas, quando em 9 de abril 
me foi communicado, em officio da secretaria ge- 
ral, que pelo governo de sua magestade era sus- 
pendido, desde aquella data, o subsidio com que até 
ahi concorria para as obras publicas, e que para 
o futuro se devia contar tão somente com os re- 
cursos da provincia, calculando-se em seis contos 
a dotação de que ella podia dispor mensalmente- 
para obras. 



i84 

«Perdoe-se-me o usar em um documento d'esta 
«ordem de uma franqueza, que talvez possa ser jul- 
«gada inconveniente — mas eu ponho a verdade aci- 
«ma de todas as considerações e julgo um dever im- 
« preterivel o dizel-a, mui principalmente quando nos 
« dirigimos a quem pode remediar os males occa- 
«sionados pelos factos que os constituem. Não é pos- 
«sivel, com a pequena dotação de que actualmente 
« se dispõe, fazer coisa alguma útil : seis contos de 
«réis disseminados por todos os pontos da provin- 
« cia, que constantemente reclamam melhoramentos, 
«são como as gotas de uma chuva de estio, que mal 
« caem no solo se evaporam, deixando-o tão requei- 
< mado como estava antes, t 

Feitas estas considerações geraes sobre a nova 
phase em que entravam, em virtude de um systema 
chamado de economia, e que é, na minha opinião e 
em face das mais simples leis económicas, um notá- 
vel desperdicio, segue o relatório, tratando das ofi- 
cinas, nos termos seguintes: 

«O deficit mensal médio das officinas regulava 
«por 810(^987 réis, quando tomei posse da direc- 
«ção. 

« Conhecer a razão de ser doesse d^/íc/í, se atten- 
« dermos a que as officinas foram creadas para a 
« execução de trabalhos importantes, que a direcção 



185 

lhe devia commelter, dispondo dos meios conve- 
nientes, é que esses lêem faltado ultimamente; re- 
sultando d'ahi que o seu quadro de pessoal, tanto 
administrativo como de execução, perfeitamente 
determinado para a primeira hypothese, se tornou 
incompatível com as actuaes circumstancias, não 
só em numero como no valor dos jornaes. Parece 
á primeira vista muito fácil a resolução d'este 
problema; a simplificação do quadro e a reduc- 
ção dos jornaes deveriam, convenientemente com- 
binados, conduzir ao desejado equilíbrio ; o que é 
todavia certo é ver-me na necessidade de confes- 
sar que, até hoje, ainda me não foi possível conse- 
guil-o, apezar de ter empregado até aonde o tenho 
julgado conveniente os meios apontados. 

<Ha uma razão que me tem forçado a limitar um 
pouco as reducções : o receio de perder elementos 
que me serão indispensáveis, de um momento para 
o outro, se o governo de sua magestade julgar con- 
veniente dar de novo enérgico impulso ás obras 
publicas. 

«Apresento em seguida o quadro demonstrativo 
do pessoal empregado nas officinas, nos mezes de 
fevereiro e junho, segundo o qual se poderá apre- 
ciar a economia realisada: 



186 



1 



CLASSES 



FEVEREIRO 



Apontadores 

Olheiros 

Guardas 

Mestre 

Relojoeiro 

Ajudante de relojoeiro . . . 

Caldeireiro 

Aprendiz de dito 

Torneiro 

Aprendizes de torneiro . . . 

Serralheiros 

Aprendizes de serralheiro. 

Ferreiros 

Aprendizes de ferreiro . . . 

Fundidores 

Aprendizes de fundidor. . . 

Carpinteiros 

Aprendizes de carpinteiro. 

Funiieiros 

Aprendiz de funileiro. . . . 

Fogueiros 

Ajudantes de fogueiro 

Sapateiro 

Canteiro 

Pedreiros 

Marinheiros 

Cozinheiro 

Trabalhadores 

Serventes 

Calafate 

Serradores 



u 
o 
Pt 

«D 
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a 
•o 



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a 

i 



2 



4 

8 

10 

10 

14 

3 

4 

14 

13 

7 

1 

2 

2 

1 

1 

6 

4 

34 

7 



•o 

c 



c 



a 
a 

g 



^300 
j$350 

2,^250 



1^400 
4,^500 
,|i300 
ij»300 
^153 
968,7 
|;065 
Ji695 



566,6 
)Í412 

^8o7 
10092 
442^8 



,0230 
^700 
,0650 
,0583 
,0300 
j;200 
^199 
,0090 

-í0- 
^450 



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1 
1 
1 
1 
1 

1 
1 

7 
7 
2 
3 
2 
3 
6 
1 
2 

2 

1 

1 



10 
8 
1 
1 



^300 

,0400 

1^0800 

1,0200 

|i400 



-10- 

1^500 
Í024O 
735,7 
Jil60 
Ji550 
10300 
^550 
416^6 
^750 
^120 
^450 



J>400 

■10- 
,0400 



,0158 

87,5 

,0500 

10400 



187 



« Vê-se por este quadro a considerável reducção, 
que se effectuou em o numero de indivíduos de 
cada classe e na média dos jornaes em geral, po- 
dendo todavia aíBançar, que não sacrifiquei á ques- 
tão económica a boa qualidade do pessoal, como 
era indispensável para poder contar com a boa 
execução de trabalhos importantes. 

«A reducção mais frisante foi feita nos jornaes 
dos operários europeus, que tinham findado os seus 
contractos, e entre os quaes havia grande numero, 
que não valiam metade do jornal por que foram 
cpntractados. 

«jETa hoje operários indigenas muito regulares y 
que, não trabalhando em companhia de europeus, 
se sujeitam a um jornal moderado, como quem se 
pode alimentar com a módica quantia de 60 réis 
diários; mas, desde que podem estabelecer o con- 
fronto com os europeus, relativamente ao mereci- 
mento e remuneração, achando-se lesados, tornam- 
se, com verdadeiro fundamento, exigentes. 

«Assim, desde que começa a haver numero sufi- 
ciente de operários indigenas, não julgo conveniente 
o emprego de operários europeus, a não ser como 
mestres de oficio, e foi isso o que procurei reali- 
sar nas officinas. t 



Da escola profissional diz o sr. Ferreira Maia o 
seguinte : 



m 

^Escola profissional. — Quando tomei posse da 
f direcção encontrei já interrompida esta obra. 

c Estão quasi concluidas três casernas com as 
«suas dependências, faltando, para o completo aca- 
«bamento assentar-lhes a cobertura definitiva, que 
«está actualmente substituida por uma cobertura 
«provisória de feltro, bastante deteriorada. Falta 
«também construir os pavimentos e assentar as 
«bandeiras de vidraça, etc. 

«A parte do edificio, destinada á casa da aula, está 
« ainda por cobrir. Para esta cobertura foi encommen- 
«dada, por intermédio do ministério da marinha, a 
«armação de ferro, em 24 de julho do anno próximo 
«passado ; até hoje nunca foi satisfeita a referida en- 
«commenda. E realmente lamentável se se não con- 
«clue este edificio, de que a parte já construída é 
«bastante considerável. 

« Esta obra foi interrompida em 1 8 de novembro 
«de 1880. 

«Apresento em seguida o mappa análogo ao dos 
« anteriores : 



19 3:306«634 1 :E!87 j 101 3 :893>e73a 1 IS 



Como se vê, uma idéa eminentemente civilisadora 
e fecunda, que a experiência mostra, em toda a 
parte, ser o mais seguro e efficaz modo de melho- 
rar a sorte do negro e de crear riqueza; uma idéa, 
com que pareciam estar de accordo os falsos pbilan- 
thropos e fmgidos liberaes da nossa terra, foi aban- 
donada, com perda lotai das despezas feitas e ainda 
perda maior dos futuros resultados, que d'ella se de- 
viam esperar. 

Talvez que esses mesmos liberaes tkeoricos, que 



190 

applaudiram o abandono total das obras publicas 
no ultramar e da escola destinada ao ensino profis- 
sional dos indigenas, mais de uma vez hajam pen- 
sado em restaurar alli os conventos. Gomo diz o sr. 
Nogueira, e já antes tinha notado o honrado e es- 
clarecido marquez de Sá da Bandeira: «Ha no nosso 
« paiz uns certos liberaes theoricos e optimistas, para 
«quem as lições da historia parecem letra morta, e 
«que, confiando tudo dos principios, sem attende- 
«rem ás circumstancias, não estariam muito longe 
«de acceitar os missionários, mesmo a troco da in- 
^troducção das ordens religiosas, i^ 

Desenganem-se todos; nãoé proclamando sem- 
pre e em vozes descompostas os nossos direitos, sem 
sequer os comprehender ; não é repellindo todos que 
lealmente nos coadjuvam, e deixando-nos arrastar 
por movimentos, em que a paixão domina cegamente 
a razão, que nos podemos tornar fortes e poderosos 
nas nossas colónias africanas. E preciso crear ri- 
queza; empregar capitães em preparar os grandes 
instrumentos da producção; tirar as peias ao com- 
mercio; seguir uma politica económica que não seja 
a de D. Manuel e de D. João ni, mas a do século em 
que vivemos : é preciso derramar a luz da civilisa- 
ção ; instruir os negros de accordo com as suas fa- 
culdades; apagar n'elles o fanatismo sanguinário 
sem o substituir por outro fanatismo ; encaminhal-os 
pelos bons principios da moral; e, sobretudo, ensi- 



191 



nal-os a trabalhar e produzir riqueza ; é preciso isto 
tudo, se queremos firmar o nosso poder na Africa, 
consolidar a nossa soberania, e merecer o respeito 
e a estima do mundo civilisado. 



IVILISAÇAO AFRICl 
PARTE 111 



A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



I 



Temos sido nós, os portaguezes, accusados de 
contribuir para o atrazo em que se encontra ainda 
a civilisação da Africa. Tem-se-nos attribuido a ori- 
gem do odioso trafico de escravos. Teem lançado á 
conta dos nossos erros a estagnação do commercio, 
a paralysação da industria, o atrophiamento da agri- 
cultura, o embrutecimento dos selvagens, a ineficá- 
cia das missões ; tudo emfim que envolve em caligi- 
nosas trevas o continente africano. 

Todo o viajante que penetra nos sertões da Africa 
julga-se obrigado a dizer mal de nós, a accusar-nos, 
a calumniar-nos, embora a influencia portugueza lhe 
permittisse levar a êxito feliz a sua arriscada em- 
preza: e, se alguma vez lhe escapa a confissão da 
verdade, julga-se obrigado a desdizer-se, para alcan- 

13 # 



196 

çar â benevolência dos especuladores, de varias or- 
dens, que formam o publico buliçoso, simuladamente 
interessado pelas coisas da Africa, a quem não convém 
que lhe contrariem preconceitos injustos que datam 
de longe, e não teem hoje razão de ser. Essas riva- 
lidades entre os povos civilisados, que occupam mais 
ou menos vastos territórios no vastissimo continente, 
não teem outro resultado senão dificultar a civili- 
sação dos negros, esterilisar esforços nobres e enér- 
gicos, impedir o commercio livre e paralysar a acção 
moral da propaganda civilisadora. Nós temos, mais 
que ninguém, razão de nos queixarmos d'estas in- 
justiças brutaes e nem sempre desinteressadas. E 
isto a consequência de termos chegado primeiro, 
de termos maior influencia do que os outros,' de 
sabermos melhor penetrar no espirito dos negros e 
obter a sua sympathia. É a consequência lambem — 
força é confessal-o — de um erro económico, de que 
ainda nos não soubemos libertar, embora as outras 
nações lhe hajam reconhecido já os inconvenientes e 
prejuizos: — a confiança nos exclusivos commerciaes 
e nos embaraços systematicos levantados ao com- 
mercio do mundo. Este erro foi-nos e ainda nos está 
sendo funesto. 

Sempre foi entre nós reprovada, por espirites es- 
clarecidos e almas sinceramente piedosas, a escravi- 
dão e o trafico; mas o uso dos escravos negros era 
muito antigo e muito vulgar no norte da Africa, 



-yr- 



197 

onde tínhamos trato constante, em paz ou em guerra. 
O vicio era da época e não de Portugal, Hollande- 
zes, inglezes e francezes iam á Africa disputar aos 
portuguezes o mercado de escravos ; e não era o es- 
crúpulo que detínha os nossos concorrentes. 

Em i570, D. Sebastião prohibiu que, no Brazil, 
fossem captívados os gentios, salvo os tomados em 
justa guerra. Esta disposição civilisadora foi am- 
pliada em 1609, n'uma lei que declara livres, 
conforme ao direito, todos os gentios do Brazil, ba- 
ptisados ou não. Em 1650, no Regimento para o 
capitão de Gacheu, recommendava-se-lhe : «O bom 
«tratamento dos gentíos e que se lhes não fizessem 
«vexações e se guardasse egualmente justíça a to- 
«dos. » 

O Regimento do governador de Angola em 1666 
contém muitas disposições, que bem mostram o in- 
teresse que o governo de Portugal tínha pelas coi- 
sas d aquella possessão africana, e as idéas huma- 
nitárias que dominavam o espirito da administração 
n'aquelle tempo, em que a Europa tão pouco se im- 
portava com a civilisação dos povos selvagens. A 
conservação da paz entre os sobas e o respeito aos 
costumes, na eleição doestes, é especialmente recom- 
mendado no Regimento. 

Os baptismos, sem a catechese dos novos chris- 
tãos, são censurados, porque, diz o Regimento, « é de 
«crer que o muito descuido que n'isto houve foi a 



198 

t causa do pouco effeito que se conseguiu, de muito 
«gasto e cabedal que n'esta empreza, de tanto ser- 
«viço de Deus e Meu, se tem mettido.» Prohibe a 
ida de homens brancos ao commercio do sertão pe- 
los muitos damnos que causam aos indígenas. 

No Regimento para o governador das ilhas de 
Cabo Verde, de 1676, fazem-se recommendações 
análogas em relação ao gentio. Prohibe-se a venda 
das armas e diz-se expressamente ao governador: 
«Tratareis muito que augmente esse governo, e que 
^seus moradores cultivem e povoetn pela terra den- 
«tro tudo o que poder ser.» 

O commercio de escravos era por aquelle tempo 
um commercio licito, e geralmente admiltido nas co- 
lónias de todas as nações européas; comludo> entre 
nós, era esse commercio regulado e o transporte dos 
escravos sujeito a regras, que tinham por fim evitar 
os padecimentos e precaver os perigos dos pobres 
captivos. 

Um alvará de 1684, tendo em consideração que 
na conducção dos negros captivos «obram os carre- 
«gadores e mestres de navios a violência de ostra- 
«zerem tão apertados e unidos uns com os outros 
«que, não somente lhes falta o desafogo necessário 
«para a vida, cuja conservação é commum e natural 
«para todos, ou sejam livres ou escravos, mas do 
«aperto com que vem succede maltratarem-se, de 
« maneira que, morrendo muitos, chegam impiamente 



199 

«lastimosos os que ficam vivos», determina que se 
não possam carregar alguns negros, em navios e 
quaesquer outras embarcações, sem que primeiro em 
todos e cada am d'elles se . faça arqueação das to- 
neladas que podem levar, com respeito dos agasa- 
lhados e cobertas para a gente, e do porão para as 
aguadas e mantimentos. Feita a arqueação, ordena 
o alvará: que nos navios de cobertas com portinho- 
las, por onde os negros possam receber o ar neces- 
sário, se lotarão sete cabeças em duas toneladas; 
e não tendo' portinholas, apenas cinco nas mesmas 
duas toneladas: que os navios levem os mantimen- 
tos necessários para dar três vezes ao dia de comer 
aos negros: que se cuide do tratamento dos escra- 
vos que adoecerem «com toda a caridade e amor do 
próximo.» Os mestres e capitães de navios, que car- 
regassem mais negros do que os da sua lotação, or- 
denava o alvará que pagassem de multa dois mil 
cruzados e fossem por dez annos degredados para a 
índia: alcançando a mesma pena aos senhores dos 
barcos e carregadores, Estas medidas, previsoras e 
humanitárias, mostram bem os princípios que domi- 
navam a administração em Portugal acerca dos es- 
cravos. 

Um século depois (1761) a lei concedia a liber- 
dade a todos os escravos, vindos para Portugal das 
provincias ultramarinas. 

Antes de 1830 a Inglaterra lançava as primeiras 



200 

bases para uma timida reforma do regimen dos es- 
cravos; preludio da abolição definitiva. Em 1833 
era promulgado o Acto do parlamento em que se 
declaravam «livres todos os escravos que, por con- 
« sentimento de seus senhores, houvessem sido trans- 
« portados ao reino unido da Grã-Bretanha e Ir- 
landa, anteriormente á promulgação do presente 
«Acto.» Reconhecia também o Acto de 1833 a «ne- 
«cessidade de deixar passar um certo intervallo de 
«tempo antes que a emancipação comece a reali- 
« sar-se. » Sem recordar a resistência, que se fez á 
aboHção em diversas colónias britannicas, é evidente, 
e isso queríamos mostrar, não ser ao governo por- 
tuguez que cabe o iogar mais obscuro na solução 
do grande problema da abolição da escravidão, e 
na regularisação do trafico. 

Em 1^836 um decreto aboliu o trafico nas coló- 
nias portuguezas. Em 1838 lançavam-se as bases 
de um tratado com a Inglaterra para a definitiva sup- 
pressão do iniquo trafico; tratado que veiu a assi- 
gnar-se em 1842. 

Em 1869 um decreto aboUu o estado de escra- 
vidão até ao termo definitivo de 1878, o qual, fe- 
lizmente, se realisou antes d'esta ultima época. 

Não podemos nós ser justamente accusados de 
provocar a desmoralisação e a barbárie dos indige- 
nas nas nossas possessões africanas, pela nossa per- 
tinácia em manter a escravidão e promover o trafico. 



!201 



Fizemos antes o que faziam todos; fomos dos pri- 
meiros a abolir em parte a escravidão, em tomar 
medidas para regular o trafico em beneficio dos ne- 
gros; não fomos os últimos em aceitar a abolição 
total da escravatura e total abolição do trafico. 



II 



Lançando os olhos para a nossa mais importante 
colónia africana, Angola, e estudando as suas suc- 
cessivas transformações, desde a conquista até hoje, 
podemos reconhecer, que o contacto da civilisação 
não tem sido totalmente inefficaz n'aquellas regiões, 
e que á influencia portugueza se não pode attribuir 
o atrazo, em que se acham ás populações indigenas, 
de tão vasto território; hoje, relativamente, as mais 
civilisadas da Africa intra- tropical. Não é absoluta- 
mente satisfatório o resultado obtido; é preciso, po- 
rém, recordar o que se sabe das aptidões dos ne- 
gros, e considerar egualmente a exiguidade da co- 
lonisação européa nas provincias da Africa portu- 
gueza, para bem se avaliarem os factos. 

O fluxo continuado das populações do grande 



.iAA_ 



202 

continente de leste para oeste, ou antes de nordeste 
para sudoeste, parece hoje demonstrado por nume- 
rosos factos j reconhecidos pelos que teem estudado 
a anthropologia africana. Esse movimento, que uma 
causa mal conhecida parece provocar, vem morrer nas 
margens do oceano; onde os territórios baixos, pan- 
tanosos e insalubres, parecem causar uma degene- 
rescência, uma alteração profunda nas raças, mesmo 
nas robustas raças dos negros que procedem dos 
sertões do planalto de Africa. As ondas humanas 
succedem-se umas a outras, misturando-se mais ou 
menos, ou conservando-se mais ou menos separa- 
das, e chegando as mais avançadas a encontrar o 
mar e a soífrer a acção insalubre da região do Hto- 
ral. Em Angola estes factos notáveis parecem achar 
a sua mais completa realisação. Do Zaire ao Cune- 
ne, do litoral á região alpina do sertão, as tribus 
indigenas dispõem-se em conformidade com os prin- 
cipios anteriormente indicados e conforme os pheno- 
menos característicos da natureza. 

No curioso livro sobre O Rio Congo, que acaba 
de publicar o i Ilustre naturalista viajante, o sr. H. 
Johnston, analysa-se a pholographia da Africa tro- 
pical a oeste e faz-se d'ella uma interessante descri- 
pção. O que n'outra parte doestes estudos dissemos 
acerca doesta região, deve haver disposto o espirito 
do leitor para entender e apreciar o que escreve o 
sr. Johnston: 



203 

«Da Serra Leoa ao rio Ogove, ao longo da costa, 
«dominam bosques que parecem sem fim. Esta é, de 
«facto, uma parte da região florestal — a facha flo- 
« restai que tem uma fauna e uma flora caracteris- 
«ticas, e que se estende para leste, junto do Equa- 
«dor, a mais do que a meio caminho da Africa occi- 
« dental ao lago Victoria Nyanza e margens occh 
«dentaesdoTanganica. E este o paiz dos macacos 
«anthropoides, que egualmente se encontram perto 
«da Serra Leoa, e sobre o Vellé, e junto do alto 
«Nilo. Mas, passando além da embocadura do Ogo- 
«ve, começa o bosque a afastar-se da costa e a ser 
«substituido gradualmente pela campina descoberta, 
« caracteristica da maior parte da Africa, e tão fe- 
«lizmenle designada pelos antigos viajantes como 
«similhante a um parque; designação que largas 
«superfícies cobertas de gramineas, onde se levan- 
«tam espessos grupos de arvores, amplamente jus- 
«tificam. Tal é o paiz de Loango, Cabinda, e ao longo 
«do baixo Congo até Stanley Pool. Um pouco ao sul 
«da barra do Congo, porém, a paizagem similhante 
«a parque principia a afastar-se do mar, nas pro- 
«ximidades da Cabeça de Cobra (Mangue Grande), 
«e d'ahi se segue uma feia região de vegetação pouco 
«densa e chuva pouco abundante. O paiz em volta 
«de Loanda é d'esta natureza, e apenas crescem ali 
«euphorbias, embondeiros e aloés, e não chega a 
« chuva a durar dois mezes por anno. Este áspero 



204 

paiz continua ao longo da costa, a alguma distan- 
cia, até ao parallelo 13*", onde elle por seu turno 
se afasta para o sertão, e perfeitos desertos o sub- 
stituem e continuam sem interrupção até ao rio' 
Orange. N'uma jornada de Mossamedes ao rio Cu- 
nene atravessam-se successivamente estas três ul- 
timas phases da paizagem, e depois de cruzar a 
zona de absoluto deserto enlra-se na região da es- 
cassa vegetação, e chega-se finalmente ao bello e 
onduloso paiz das florestas em grupos e planícies 
de gramíneas que só se chegam ao mar muito para 
o norte na embocadura do Congo. Os quatro pai- 
zes que acabo de descrever pode dizer-se que va- 
riam da absoluta esterilidade até á transcendente 
riqueza da vegetação ; talvez que a palavra esteri- 
lidade esteja longe de ser verdadeira, visto que o 
solo deserto é capaz de produzir amplas colheitas; 
a chuva é meramente o que falta.» 



Este aspecto geral da vegetação assume a mesma 
disposição quando se observam as zonas successi- 
vas, do litoral para o planalto em Angola, a come- 
çar pela que domina nas margens do Atlântico, 

As condições naturaes determinaram necessaria- 
mente a posição e caracteres das populações primi- 
tivas que occuparam o litoral, o seu modo de vida 
e costumes; limitaram as invasões das tribus con- 
quistadoras vindas do sertão, o seu mais ou menos 



^ 



^f 



205 

completo isolamento ou compenetração com as tri- 
bus anteriormente existentes ; assim como as modi- 
ficações por que umas e outras teem passado, em 
virtude da acção do clima, da alimentação e do con- 
tacto mais ou menos prolongado com a civilisação. 
Lancemos os olhos rapidamente pelo litoral do 
Congo para o Cunene, para formarmos idéa geral 
das povoações, lendo em vista o que anteriormente 
expozemos e o que nos diz, acerca das condições na- 
turaes, o sr. H. Johnston nas palavras acima citadas. 



III 



Conforme o sagaz observador, o sr. Johnston, as 
tribus da região do Zaire^ perto da costa, mostram 
caracteres que evidentemente são o resultado da de- 
gradação physica, produzida pelo clima, mas também 
o são da mistura, nas terras baixas, das tribus mais 
perfeitas vindas do sertão (de raça Bantu, proce- 
dente do nordeste) com as tribus originarias ou es- 
tabelecidas em épocas remotas n'aquellas terras. 
Esta hypothese deve considerar-se verdadeira, pois 
que nas tribus do litoral, taes como ãs de Cabinda 



206 

OU Loango, se encontram dois typos distinctos. Um 
Bantu, que tem caracteres nobres, composto de ho- 
mens altos e direitos, com mãos e pés pequenos, 
bella cara, nariz elevado, barba e bigode e abun- 
dantes cabellos. Outro typo mal feito, feio de cara, 
pernas canejas, barba mettida para dentro, lábios 
grossos, sem barba e de carapinha. 

A sul do Zaire, no paiz do Sonho, habitam os 
Muchicangos, Muchirangos ou Bachicangos, que for- 
mam uma tribu degenerada — de pelle negra, corpo 
infezado, desenvolvimento imperfeito — a qual, pela 
maior parte, habita um paiz pantanoso. Estes Mu- 
chicangos são um ramo degenerado da grande raça 
Bacongo. Junto do rio, como dissemos anteriormente, 
existe uma raça de negros piratas, pouco favorecida 
pela natureza. Esta raça dos Mussurangos é inferior 
aos Muchicangos. Parecem ser, porém, uns e outros 
da mesma procedência. 

Na relação de .uma viagem de missionários que 
D. Maria i, em 1781, mandou ao Congo, encon- 
tram-se algumas noticias curiosas das tribus do li- 
toral que pertencem ao reino do Congo, dos seus 
bárbaros costumes, da sua indolência, da sua igno- 
rância quasi absoluta e geral da religião christã, as- 
sim como dos ásperos caminhos e numerosas lagoas^ 
que «exhalavam de si um terrível cheiro.» A pri- 
meira « terra do Congo » em que os missionários en- 
traram era do denominado Marquezado de Mossul. 



207 

N'estas povoações, por estarem próximas do lerrito- 
rio governado pelos portuguezes, ainda era grande 
o afan por pedirem baptismo, sendo este o acto único 
por que se reputavam christãos. As festas que lhes 
fez o Manibamba (^governador do povo), as danças e 
batuques eram as mesmas que ainda hoje se obser- 
vam n'aquellas paragens. 

Mais para diante, os missionários soffreram todas 
essas inclemências e doenças, que fazem o martyrio 
dos viajantes quando precisam dos serviços d'aquella 
«gente pouco amiga de trabalhar» e totalmente bo- 
çal e barbara. 

O limite entre Angola e Congo era no Libongo e, 
comparando os territórios atravessados por elles na 
sua viagem, os missionários dizem: «Em o districto 
«do nosso reino até ao Libongo, melhores são (os ca- 
«minhos) e mais aprazíveis e habitados por gente mais 
« bem instruída e cultivada^ tendo as suas terras mais 
«cheias de fructos, como são mandiocas, milho gros- 
«so, bananeiras, goiabeiros; todo o mais resto dos 
«caminhos do Mossul são muito agrestes, estreitos, 
«cheios de mattos, e terras tão solitárias que só ou- 
«viamos os tristes gemidos das rolas; caminhos e 
«sertões seccos, cheios de pedras, e mais para feras 
«que para homens.» 

O quadro dá perfeita idéa da benéfica influencia 
portugueza, ha um século, sobre as povoações ne- 
gras. 



208 

Mais para o sul e próximo do Bengo e Loanda^ 
descreve-nos om 1846 -Castro Francia as povoa- 
ções de Quinfandongo, dos Muxiluandas e Cuaco, 
que vivem da pesca exclusivamente e do commer- 
cio de peixe fresco e de peixe fumado, ou antes 
assado á moda africana, como nas margens do 
Congo. 

Em tempo de Cadornega, cuja Historia das Guer- 
ras Angolanas temos citado, na ilha denominada de 
Loanda, que defronta com a cidade de S. Paulo, ha- 
via uma população, antes sujeita ao rei do Congo, 
que se chamava Mixiloanda. Eram os homens bons 
pescadores, que salgavam muilo peixe; principal- 
mente peixe de arribação no tempo do cassimbo, em 
que também faziam azeite. As mulheres apanhavam 
o zimbo, que servia de moeda, principalmente no 
Congo. 

No districto de Loanda, a pouca distancia da ci- 
dade, já n'aquelle tempo — apenas um século depois 
da conquista — os indigenas cultivavam muito as 
terras e colhiam milho miúdo e milho grosso ou za- 
burro. A propósito d'este milho dá-nos Cadornega 
uma informação interessante: «Milho zaburro, es- 
« creve elle, pelo menos este nome lhe dá a nossa 
«provinda do Alemtejo, onde havia quatro espigas 
«pelas hortas; hoje se diz que em Ribatejo e cam- 
«pos de Coimbra se lavra muito d'elle.» 

Nos campos de Loanda também se colhiam le- 



209 

gumes, chicharos, feijões, etc, e se creavam ove- 
lhas, cabras, gallinhas, etc. Pelo Coanza, onde se 
exercia já a influencia civilisadora dos portuguezes, 
vinham também muitas canoas « carregadas de todo 
«o género de cousas para sustento da vida humana... 
i escravos, marfim para negocio e farinha, maça 
«(milho), porcos salgados, de fumeiro e alguns vi- 
«vos, carneiros, chibos a que chamam capados pelo 
«serem, que é da melhor carne que tem estes rei- 
«nos, quantidade de gallinhas, laranjas assim da 
«China como das outras, limas ricas, e hmões que 
«é praga na quantidade, etc.» Esta enumeração de 
productos dá idéa das disposições das tribus, que 
habitavam aquellas paragens e do benéfico influxo 
do domínio portuguez. 

Como vimos, anteriormente, os povos do districto 
de Loanda, aptos para a civilisaçâo e para o traba- 
lho agricola, são comparados pelo distincto viajante 
W. Reade aos Fulus, caracterisados pelo nariz aqui- 
lino sensivelmente largo na base, carapinha abun- 
dante, lábios grossos, côr de azeitona ou de bronze 
escuro, formas afeminadas nos homens, que teem as 
mãos e os pés pequenos. Se nos recordarmos de que 
os Fulus, que occupam uma vasta área no alto Se- 
negal, parece terem origem na parte oriental da 
Africa, que teem feições que alguns viajantes com- 
param ás dos europeus, pelle avermelhada, cabei- 
los pouco encarapinhados, e se assemelham muito 

voL. ra 14 



2i0 

aos Mandingas, com que se acham confundidos — 
Mandingas que são considerados os judeus da Africa, 
como os Ambaquistas — não poderemos deixar de 
concordar com a observação de Reade. 

Ao sul do Coanza o território do litoral é muito 
estéril e fallo de aguas, sendo preciso fazer dos em- 
bondeiros, ocos pelos annos, depósitos para agua 
no tempo da chuva. N'este pobre paiz vivem os mi- 
seráveis Quissamas. Estes, como ján'oulro logar dis- 
semos, são uma raça contrafeita, negra e selvagem, 
onde a influencia civilisadora nunca pôde penetrar. 
«Esta província do Quisama, diz Cadornega, tem 
< de comprimento algumas sessenta léguas beira rio 
( Coanza, até á nossa fortaleza de Cambambe, e d'ahi 
«por diante até á província do Libolo; e pela banda 
«do mar e costa não tem tamanha distancia, por 
«ajuntar algum tanto a cabeça com a cauda; e terá 
«de largo até quinze ou vinte léguas, ficando-lhe 
«pela parte das costas o Dondo.i E aqui que exis- 
tem as minas de sal, producto de maior valor eno 
que negoceiam os Quissamas, que conservam o mo- 
nopólio do seu transporte e commercio. São prova- 
velmente os Quissamas restos d'aquellas tribus pri- 
mitivas que habitavam as terras do litoral, antes das 
invasões successivas que vieram de leste e nordeste, 
de cuja existência não podemos duvidar. Dos Quis- 
samas nos diz Hartmann, que parecem uma mistura 
de raças como os Balondas, onde se encontram os 



2ii 

caracteres typicos dos Niam-Niam, dos Furas, dos 
negros de Loango e dos A-Bantus, «Sao egaaes, 
«accrescenta, as condições etimológicas dos Quisa- 
«mas, entre os quaes se encontram indivíduos de 
«nariz esborrachado e cabellos lisos como os Niam- 
tNiam e os povos do Tanganica e Ogowe, que Le- 
«vingstone, Cameron e Stanley nos fizeram conhe- 
«cer; outros com o fiiio perfil dos Bejas; outros, 
temfím, de face grosseira e achatada como a dos 
«Zulos. » Não se vê aqui a analogia de origem en- 
tre os Quissamas e os povos de Cabinda e Loango, 
descriptos por John&ton ? Não são uns e outros for- 
mados da mistura de typos, dominando maiè nos 
Quissamas o typo primitivo do litoral? Da mesma 
natureza e procedência parecem ser os Mocoapdos, 
que ficam ao sul de Benguella. Esl^i tribu é nómada 
e de pastores. Cobrem- se apenas com uma pelle de 
carneiro, são inoíFensivos e parece tenderem a extin- 
guir-se. 

Estes povos ao sul de Benguella — segundo infor- 
mações tiradas dos Annaes do Municipio de Mossa- 
medes — formam uma raça de gentios nómada, que 
vagueia á beira-mar, pelas rochas, « sustentando-se 
«de mariscos ou de peixe, que industriosamente co- 
«Ihem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, á 
«falta de anzol.» 

Estão os Mocoandos cercados pelos Mandombes, 
os quaes são mais robustos, enérgicos e fortes, e são 

14* 



212 

também nómadas e pastores. Nas suas interessantes 
descripções sobre as raças d'esta região, onde se nota 
«a existência de tribus de typo especial» , os distin- 
ctos viajantes Capello e Ivens admittem, para expli- 
car o phenomeno, a mistura de raças do norte com 
outras raças no litoral. 

D'estes mesmos povos os Mandombes se encontram 
nas proximidades de Mossamedes: villa hoje impor- 
tante, a qual, ha menos de meio século, nasceu de. 
algumas feitorias pouco felizes situadas na denomi- 
nada Angra do Negro. Os primeiros fundamentos de 
Mossamedes não foram felizes, por ser mal encami- 
nhada a colonisação e por coincidir com uma época 
de esterilidade e fome, por falta de chuvas. Os po- 
vos indigenas estão atrazados em civilisação, quasi 
em estado selvagem e com pouco trato com os eu- 
ropeus. Segundo dizem os Annaes, a que anterior- 
mente alludimos: «Nas circumferencias da villa todo 
« o território é agreste, montanhoso e falto de aguas, 
«sendo apenas susceptível de cultura nas margens 
j(de alguns rios; e com tudo isso não deixa de ser 
«habitado por algum gentio bravo, o qual se encon- 
«tra muito disseminado junto ás serranias, nos lo- 
â gares onde ás torrentes, no tempo de chuvas, se re- 
« unem em grandes buracos ou poços naturaes, que 
«conservam a agua até á volta da seguinte estação 
«chuvosa; é ahi que esse gentio se encontra ordi- 
«nariamente, não se dedicando a trabalho algum, e 



213 

«apenas os homens são caçadores para se poderem 
«sustentar e a suas famílias. . '. Suas armas são o 
«arco e a frecha, e seu vestuário consta de duas pel- 
«les, uma da cintura até aos joelhos e outra do 
«mesmo logar até ás curvas.?» 

Ainda mais para o sul existem outras tribus er- 
rantes, insociáveis, que vivem nas cavidades dos ro- 
chedos, e se ahmentam da pesca. São estas tribus a 
representação actual d'aquelles homens prehistori- 
cos, a quem se devem as celebres accumulações de 
resíduos de mariscos á beira-mar? 

Na extremidade auslral da província encontram- 
se tribus que, evidentemente, pertencem a uma raça 
análoga ou talvez á própria raça dos Boschjemans, 
A existência d'estas tribus estranhas já havia cha- 
mado a attenção dos primeiros conquistadores de 
Angola. 

Cadornega conta no seu Uvro: <tque succedeu no 
«governo de André Vidal ir um homem pratico a 
«descobrir esta costa, por nome José da Roza, por 
«ver se achava alguma noticia de boca de rio que 
«entrasse pára os de Coanza, e chegando, costa a 
«costa, a dezoito grãos para além do cabo Negro, 
«não achando noticia do que buscava, trazer gentia 
«daquella paragem, que se não entendia nada do 
«que faltava; e a falia como de estalo, gente como 
«selvagem, que bem o demonstra assim em come- 
«rem a carne e peixe e milho crú; e por acenos só se 



214 

«entendia d'elles algumas cousas.» Estas indicações 
mostram talvez que, para além do cabo Negro, viviam 
povoações de origem hottentote ou boschjemans. 

Confirma esta opinião o que, acerca d'estes po- 
vos das visinhanças do Cunene, se lê nos Annaes do 
Município de Mossamedes. Dizem os Annaes que 
n'estas terras «existe muito gentio de raçaMuchima, 
«que não tem agricultura alguma e se mantém da 
« creação de gado. Não ha conhecimento cabal d'esta 
«gente por ser inteiramente selvagem, sabendo-se 
«apenas que possuem muito marfim, a que não dão 
« valor algum, não constando que tenham sido visi- 
«tados por brancos. Não teem negocio algum, e ape- 
«nas aquelles que se acham mais próximos das ou- 
« trás terras é que teem seu pequeno trafico, ás ve- 
« zes ; comtudo, não é isto de admirar, porquanto 
«bem próximo d'esta villa (Mossamedes} se acha o 
«gentio dos Corocas, que d'elle se pode dizer o mesmo 
^que dos Muchimbas, com os quaes confinam e se 
«alliam, que apenas alguns que teem vindo para 
«esta villa se acham mais civilisados 

« A origem da raça de Corocas foi primitivamente 
«de Mondombes, que se alliaram com os Muchim- 
«bas, e, com quanto ainda conservem alguns indi- 
«cios de sua origem, teem uma lingua bastante es- 
aranha pela abundância de sons guturaes e nasaes, 
« sendo desconhecida, por isso que se ignora a dos 
^Muchimbas.» 



215 



IV 



Agora que passámos rápida revista aos povos do 
liloral, em Angola, busquemos indagar o que de mais 
importante se conhece das tribus, que occupam as 
outras regiões do interior. Principiaremos pelo que 
o sr. H. Johnston nos diz dos povos do Congo, por- 
que nos pode isso servir de guia na nossa digressão 
do norte ao sul da provincia. 

Partindo da foz do Congo, rio acima, a estação 
das chuvas vae gradualmente crescendo, Perto do 
mar dura quatro mezes: em Satanley Pool — alarga- 
mento do rio, um lago quasi, hoje bem conhecido — 
ha apenas quatro mezes no anno sem chuva. Mais 
acima, ao aproximar-se o rio do equador, o clima 
torna- se verdadeiramente equatorial, e as chuvas 
quasi que não teem interrupção em todo o anno. A 
força vegetativa cresce com a quantidade de chuva: 
e de 3"" S. de latitude ao equador, o terreno está 
coberto de florestas. O solo vae também elevando-se 
acima do nivel do mar; e as raças humanas cada 
vez vão sendo relativamente mais perfeitas. 



216 

As raças que habilam a bacia do Congo, segundo 
Johnston, pertencem quasi Iodas á grande familia 
Bantu; comtudo apresentam eslas tribus considerá- 
veis differenças, encontrando-se os puros caracteres 
da familia só no alto Congo. Acima das Iribus do 
litoral, merecem a altençâo os Ba-congo, cujo centro 
está entre S. Salvador e Pallaballa, próximo do 
grande rio. Foram os Ba-congo a raça dominante 
por todo este território do Congo e os fundadores do 
grande império d'este nome. Era assim quando os 
portuguezes descobriram o império; quando era 
maior a sua prosperidade. São os Ba-congo uma 
raça superior á raça degenerada dos Mucbicongos 
da costa; não são, porém, do typo Bantu puro. A 
pelle é côr de chocolate ou avermelhada. São cabel- 
ludos, tendo abundante barba e bigode. Serram os 
dois incisivos anteriores da maxilla superior, mas 
não geralmente. A circumcisão é voto religioso en- 
tre elles. Não pintam a pelle nem a lavram com ci- 
catrizes. São os Ba-congo indolentes, inconstantes e 
sensuaes. Não se mostram sanguinários; mas sim 
supersticiosos, e n'esses casos tomam -se cruéis. A 
morte é sempre attribuida a feiticeria de alguém e 
a feiticeria punida com crueldade. 

Aqui por estas paragens observou o sr. Johnston 
um culto phalico; encontrando-se, pelos bosques, 
templos rústicos dedicados a este culto, que nada 
tem de obsceno. A este culto parece pertencer certo 



217 

numero de eunucos, que nas luas novas sacrifica- 
vam uma victima humana^ e hoje apenas uma gal- 
linha branca. 

Para reunir informações importantes, que possam 
esclarecer estas, sempre difficeis, questões das ra- 
ças africanas e de suas numerosas transmigrações 
ou invasões, citaremos aqui o que, acerca das inva- 
sões no Congo, escreveram na narrativa interessante 
da sua notabilissima viagem os srs. Capello e Ivens. 

Segundo os distinctos viajantes, podem admittir- 
se «três invasões distinclas, podendo dcnominar-se 
«a dos Gongos, a dos Bondos (os que faliam a lin- 
« gua bunda), vindos talvez de Jacca ou mais de leste, 
«e a dos Tembos, que comprehenderia ban-gala, 
«ma-quioco, ma-congo, talvez bin-bundo, oriundos 
^da região dos lagos, os quaes no litoral se desi- 
«gnam por Nano. K assignando a esta ultima (inva- 
tsão) o século xvi, as outras seriam anteriores.» 

Como complemento doeste modo de ver e para 
mostrar como se fez a mistura de raças nas regiões 
do litoral, acrescentam Capello e Ivens : 

«Estabelecidos os bundos como deixamos dito, é 
«natural que perto do Oceano, dedicando-se á pesca, 
«se estendessem pelo litoral, ao longo de Benguella 
«e Mossamedes, a fim de alargar a área das suas 
«excursões piscatórias.» 

E curioso comparar estas conjecturas, bem fun- 
dadas em geral, com o que dizia Cadornega acerca 



218 

do Congo. Aqui se distinguem lambem três invasões 
de diversas raças, e sobretudo se conhece o derra- 
mamento dos Abundas por Angola. 

Diz Cadornega: «Os Muxicongos (os Ba-congo?) 
« — descendo da terra dentro, e se entende vieram de 
«Congo de Amalaca (alto Congo) — se assenhorea- 
« ram do poderoso reino do Congo, sendo os naturaes 
« d'elle Ambundos de outra casta. Também diziam 
«os antigos que. . . o senhor rei D. João o Segundo 
«havendo mandado soccorrer este reino (Congo) . . . 
«a respeito dos Jagas ou Majacas, que os tinham 
« posto em grande aperto ...» 

E mais acima no rio, nas margens do Stanley 
Pool, que se encontram, segundo Johnston, os Ba- 
téké, que parece haverem invadido recentemente 
aquellas terras, deslocando os antigos habitantes 
para o sertão interior ou absorvendo-os como escra- 
vos. Os Ba-téké, que parece procederem do noroeste, 
dos lados do Ogowe, não são ainda hoje senão os 
povoadores das margens do rio. Nos Ba-téké a fronte 
é proeminente: o nariz é geralmente achatado e sem- 
pre largo nas ventas: mas, occasionalmente, encon- 
tram-se individuos d'esta tribu, que possuem um na- 
riz de cavallete e curvado na ponta. 

Os Ba-téké, Wa-buma e Ba-yanzi, que habitam 
no alto Congo, são tribus differentes umas das ou- 
tras, sobretudo na lingua; comtudo todas ellas ofife- 
recem tantos pontos de semelhança c desemelhança 



219 

com os Ba-congo do baixo Congo, que podem des- 
crever-se conjunctamente e conjunctamente distin- 
guir-se das tribus Ba-congo e suas derivadas. 

Estes povos do alto Congo quasi não teem mis- 
tura de sangue das raças negricias puras. Devem 
considerar-se puro Bantu, e por isso se parecem 
muito com outras raças puras da mesma procedên- 
cia, taes como os Ovambo, o Bahunda e os povos do 
Tanganica e Nyassa. Distinguem-se do Ba-congo em 
ter a pelle côr de chocolate e abundantes cabellos, 
barba e bigode. 

Os Ba-yanzi enconlram-se em região mais elevada 
do Congo. Foi na embocadura do Wabuma, nome 
do rio que lança no Congo as suas aguas conjuncta- 
mente com as do Coango, que Johnston encontrou 
a primeira povoação fixa da ousada tribu dos Ba- 
yanzi, que parece procederem do nordeste e defron- 
tar alli còm os chamados Ba-ngala do Equador. 

São os Ba-yanzi uma formosa raça. «Alguns ho- 
«mens, diz Johnston, são perfeitas estatuas gregas 
«pelo que respeita ás suas bellas e bem desenvolvi- 

m 

«das formas. Teem cara agradável por causa do bom 
«humor que lhes anima as feições. E notável n'elles 
«o desenvolvimento, comparativamente, grande dos 
«cabellos; particularmente na cabeça. 

«O j)enteado dos homens, accrescenta, imita cor- 
«nos no alto ou dòs dois lados da cabeça, ou cae em 
«cauda pendente de cada lado da cabeça, ou todos 



2áO 

«OS cabellos estão presos no alto da cabeça. As mu- 
«Iherís, ás vezes, frizam os cabellos em volta da ca- 
«beça, ou os alisam e levantam em bandeaux, ou os 
«dispõem n'uma infinidade de trancinhas como ra- 
«bos de rato. . • » 

Usam de uma casca vermelha (raphia nítida) para 
pintar as unhas e mesmo o corpo e os pannos com 
que se cobrem. Também se enfeitam de cores, branca, 
amarella e negra, formando vários desenhos. Usam 
largamente, como ornamento, de incisões na pelle. 
Sao estes homens agricultores, mas pouco creadores 
de gado e caçadores pouco diligentes: trabalham o 
ferro com bastante perfeição. 

Teem os Ba-yanzi um caracter amoravel e sen- 
sivel ao bello; na côr, na musica e na dança. O ca- 
samento é uma mera compra, desacompanhada de 
qualquer ceremonia especial; e cada homem tem 
o maior numero de mulheres que pode. Um escravo 
que morre é deitado, sem mais trabalho, no rio: mas 
quando alguém de alguma importância deixa de 
existir é, em geral, enterrado na casa em que morou 
e esta abandonada depois; na cova depositam fa- 
zendas, missanga, facas, cauris, e outras coisas que 
ponham o morto em estado de entrar n outra vida. 
Louça, facas, ele, são quebradas ou torcidas para 
que acompanhem «mortas» o espirito do que mor- 
reu. Quando é um grande chefe que morre, quatro 
ou mais escravos são deitados transversalmente na 



221 ^ 

sepultura e o corpo do chefe á cabeceira. Os escra- 
vos não são enterrados vivos, mas enforcados pri- 
meiro. 

Fazem estas tribus do alto Congo negocio em 
peixe, preparado ao fumeiro de grandes fogueiras de 
lenha. 



Depois de descrever a grande fertilidade das ter- 
ras dos Dembos, antes sujeitas ao rei do Congo; e 
em seu tempo, independentes e com insignias regias; 
diz-nos Cadornega, que os Dembos, já christãos e 
baptisados, eram sujeitos ao rei de Portugal, sendo 
muitos d'elles assistidos de capitães-móres, officiaes 
de milicia e escrivães para os rnocanos (pleitos), to- 
dos postos pelo governo portuguez. Alguns d'estes 
Dembos tinham grande poder e muitos sobas que 
lhes estavam sujeitos. O Dembo de Ambuila, por 
exemplo, tinha sob o seu poder quarenta sobas e 
podia pôr em campo cincoenta mil negros!? 

Tinham os Dembos pedras (logares fortes) que 
lhes serviam de fortalezas, a que se recolhiam quando 



. 222 

se viam opprimidos de algam poder grande de guer- 
ra. Uma das mais espaçosas, que podia receber todo 
ò sustento necçssario para uma longa defeza, era a 
do Dembo Ambuila. 

Um dos mais interessantes presidios do norte de 
Angola, pela sua situação no sertão, é o de S. José 
de Encoge, levantado entre os domínios do Dembo 
de Ambuila e do Dembo de Ambaca em 1758. Se- 
gundo uma informação oflBcial de ha mais de qua- 
renta annos, que se encontra no segundo volume 
dos Annaes Ultramarinos: «os usos e costumes que 
< tinha aquella gente eram a maior parte gentilicos, 
«e os outros seguiam a religião calholica; porém 
«não deixavam de continuar a fazer as suas pata- 
«ratas, e o commandante (do presidio) não podia 
«obstar, por ser muitissimo grande o território e 
« muito sangue custaria a domal-os ao uso da razão. > 
A população era então calculada em perto de vinte 
e cinco mil pessoas. 

A agricultura, conforme a mesma informação, é 
de mandioca, feijão, milho, e vários outros legumes, 
tabaco, algodão, café e carrapateiro: é feita pelas 
mulheres, porque a maior parte dos homens se em- 
pregam no commercio doestes productos agrícolas. 
Aqui não havia bois mansos, sendo o primeiro en- 
saio, que se fez em 1836, mal succedido, porque as 
cabeças de gado «morreram todas»: posteriormente 
outro ensaio foi mais feliz. 



223 

Para maior clareza, no que respeita aos povos 
que occupam o lerritorio de S. José de Encoge, é 
interessante conhecer o que conta o honrado almi- 
rante Baptista de Andrade de uma viagem, que alli 
fez em 1858. Depois de narrar a recepção cordeal, 
que os sobas lhe fizeram por todo o caminho desde 
â fortaleza do Bembe, conta pelo seguinte modo a 
recepção em Encoge do potentado Dembo de Am- 
buila : 



«Chegou (o Dembo) pelo meio dia, diz o sr. Ba- 
ptista de Andrade, e foi recebido á porta da for- 
taleza, mandando tocar a charanga e dar uma salva 
á passagem d'elle. Este Dembo terá sessenta an- 
nos, é baixo, reforçado, e tem physionomia agra- 
dável. Veiu de farda azul com silvado na gola, ca- 
nhões e abas. GoUete de casimira escarlate aga- 
loado de oiro; por baixo d'este collete, que era 
muito curto, trazia outro muito mais comprido, de 
seda azul, agaloado de prata; chapéu armado á Na- 
poleão, com plumas azues; sapatos chinezes de 
trancelim de oiro; meias de seda preta e pannos 
de seda azul lavrados de branco e agaloados de 
prata. Dragonas de official superior e a espada com 
copos e bainha de prata. Uma cadeia de oiro sus- 
pendia-lhe, na altura do estômago, um relicário do 
mesmo metal, contendo Nossa Senhora, S. José e 
o Menino Jesus. Mais uma cadeia de prata suspen- 



2-24 

«dia uma espécie de salva, era que estavam grava- 
rdes vários emblemas. No peito da farda trazia a 
«commenda de Ghristo, bordada; nos dedos conta- 
«vam-se-lhe seis armeis, uns de oiro e outros de 
«prata. 

«Na frente vinham quatro músicos tocando e re- 
«cuando para não voltarem as costas ao Dembo; ou- 
«tros quatro marchavam na rectaguarda, locando 
«instrumentos do paiz, taes como uma espécie de 
«viola, dois chocalhos de ferro, unidos e afina- 
«dos como marimbas, batuques, espécie de lam- 
«bores estreitos com uma vara de comprido, aca- 
« bando de um lado em ponta aguda e o outro co- 
«berto com uma pelle de giboia. Os mais instni- 
« mentos eram pelo gosto d'estes. Alguns macolas 
«iam na frente limpando o caminho^ que julgavam 
«obslruido com qualquer palhinha. Outros segura- 
«vam duas mui pesadas umbellas para cobrir o 
«Dembo, que a cada três ou quatro vagarosos pas- 
«SOS parava, para receber as homenagens da sua 
«gente e dar logar ás pantomimas de dois macotas 
<<que lhe punham aos pés um arco e zagaia, que 
< depois, com meia dúzia de pulos e tregcitos, íin- 
«giam arremessar para a frente e para os lados, a 
«ameaçar qualquer inimigo que podesse apparecer. 
«xilguns carregavam com uma grande cadeira de 
«braços, estofada, um tapete para pôr debaixo d'ella 
«e uma almofada para os pés do Dembo. Se acon- 



tece elle tossir ou dar um pequeno gemido, é isto 
repetido por toda a sua gente. O seu cuspo é cui- 
dadosamente aproveitado, para immediatamente 
com elle se besuntarem os seus vassallos de mais 
consideração, pois esta fortuna nâo chega aos que 
d'elle vivem mais afastados. 

«Quando algum vassallo tem de fallar-lhe^ ou é 
chamado para receber alguma ordem, ajoelha pri- 
meiro a alguns passos de distancia, beija o chão e 
bate pahnas; depois chega perto dos pés do Dembo 
e torna a ajoelhar, esfrega a bocca na terra, endi- 
reita-se, bate palmas e torna a inclinar-se para es- 
fregar as mãos no chão, e com ellas suja as faces 
de terra e torna a bater as palmas; repete mais 
uma ou duas vezes esta esfregação das mãos e da 
cara, sendo acompanhado nas palmas por todo o 
auditório. Só depois d'esta incommoda ceremonia, 
pode qualquer cidadão ouvir ou ser ouvido do 
Dembo.» 



A interessante viagem dos honrados exploradores 
Capello e Ivens chegou até ás terras dos Jaccas, isto 
é, ás terras próximas da fronteira leste da parte da 
província de Angola por nós occupada^ e ainda além 
para o norte. As regiões pelos illustrados viajantes, 
n*estas paragens, visitadas iam seguindo a margem 
oeste do Goango e terminavam ao norte n'um de- 
serto. E esta, sem duvida, a parte menos conhecida 

voL. m 15 



226 

da facha que limita a leste a província de An- 
gola. 

Pelas informações e observações colhidas pelos 
viajantes, são os ma*iacca de um aspecto menos dis- 
tincto do que o dos povos do sul da região por el- 
les percorrida: hoje pacificos, mas muito selvagens 
e desconfiados ; andam quasi nús ou cobertos de um 
tecido de palha. As habitações são bem construídas 
e cobertas de capim. São pouco agricultores e pouco 
pastores; não tendo gado vaccum, cuja posse só o 
regulo pode auferir: a caça é um dos empregos dos 
iaccas. O chefe d'estes negros é o Quianvo, cuja re- 
sidência é no parallelo de 6® 30', sendo provável 
que o Quianvo esteja sujeito ao Muata de Lunda. 
Quianvo é homem de estatura regular e reforçado: 
envolve-se n'um panno, põe manilhas, e traz na ca- 
beça fitas de missanga, onde se prendem pennas ver- 
melhas. O commercio com a costa faz-se ao longo 
do rio Loge, por intermédio dos ma-sosso, no Am- 
briz, e consta de borracha e marfim. 

Falla-se pelas terras de Jacca n'uma região a nor- 
deste habitada pelos ba-cundi ou ma-cundi, cani- 
baes ferozes; conta-se da existência de anões e de 
um grande lago. Na senzala do soba Quitumba ha- 
viam os srs. Capello e Ivens encontrado dois habi- 
tantes do norte do Lundo, do paiz dos Gachellan- 
gues, com o corpo ornado de cicatrizes e pinturas, 
os quaes lhes disseram que havia um povo de anões 



227 

(antioques?) muito ferozes, notáveis pela grandeza 
e peso das cabeças : também os Gachellangaes se re- 
feriam a um lago interior, que um d'elles atravessara 
n'um barco á vela no espaço de uma lua. 

Postas de parte as exagerações maravilhosas, com- 
muns aos pretos, a existência de anões e de um lago 
n'aquellas regiões (talvez o Aquibundo dos antigos 
mappas) parece-nos indubitável. Stanley e Wisse- 
man encontraram anões entre o alto Congo e o Lua- 
laba ; o próprio Johnston diz haver visto dois exem- 
plares do typo anão, que eram escravos dos Ba-yanzi. 
Estes anões, de que falia o sr. H. Johnston, eram um 
rapaz e uma velha: o rapaz era de pequena esta- 
tura, de cabello amarellado, comprido e frizado, 
disposto em pequenos montinhos (floconé), tendo 
uma expressão selvagem e disposição de corpo que 
lembra os Boschjemans: a velha tinha também ca- 
bellos amarellados e forma infezada. Esta vaga idéa 
dos anões, que na Africa se encontram em diversas 
regiões, conjuntamente com os terrores causados pela 
existência de macacos anthropoides que os povos do 
alto Congo conhecem, haverão provavelmente dado 
origem á lenda dos anões ferozes. 

Aos Jacca seguem-se os Ma-hungo, indo do norte 
para o sul. Segundo Capello e Ivens, os Ma-hungo 
distinguem-se pela côr bronzeada da pelle e pela 
singeleza dos penteados. Usam um panno â cinta, e 
manilhas de latão. Os incisivos superiores e ás ve- 

15 # 



228 

zes os inferiores são partidos pela raiz; pintam os 
corpos, são atrevidos e selvagens. Teem habitações 
immundas e possuem numerosos objectos^ productos 
da industria africana. São pastores e teém gado vac^ 
cum. Reconhecem como chefe o rei do Congo. 
Conforme Cadornega dizia, no seu tempo <as ter- 
ras e senhorios dos Dembos prolongavamrse pelo 
caudaloso rio Cuango e o sertão até Matamba e 
Quilombo de Ginga, de que é hoje senhor e rei D. 
Francisco Guterres Angola Canini, descendente... 
de suas antigas possuidoras, D. Anna de Sousa 
Ginga e de D. Barbara da Silva... D. Anna de Sousa 
chamada, pelo appellido da terra, Ginga, antes de 
se reduzir á íê catholica fez-se Jaga^ ella e todos os 
seus, saída que foi dos reinos de Angola e Dongo; 
e como trouxe em seu serviço, á nossa opposição, 
alguns Quilombos de Jagas^ tomou e abraçou seus 
ritos e costumes e com suas manhas e astúcias se 
apoderou do Jaga Cosa, e Caiote, e Dongo, que o 
eram de seu nascimento; e com elles e seus pode- 
res fez opposição e guerra viva aos vassallos con- 
quistadores d'esles reinos, e foi também guerreando 
pelo sertão dentro, fazendo suas conquistas; e com 
ellas apoderando-se de muitos senhorios e terras, 
e entre elles do reino de Matamba, com ardil e es- 
bulho de seus reis, em que haviam entrado pri- 
meiro as conquistas dos nossos portuguezes . . . 
tendo havido n'aquelle reino e senhorios muitas 



229 

« batalhas e tramas de guerra, ficando sempre o va- 
«lor porlugaez vencedor, e com victoria contra os 
«reis d*aquelle reino de Matamba. . . E como este 
< reino de Matamba ficava tão distante pelo sertão 
(dentro, se não sajeitou nem assenhoreou das nos- 
«sas armas, como devia de ser; que muito havia que 
c fazer com uma tão poderosa e astuciosa rainha 
« Ginga, que teve logar com seu poder de fazer frente 
«e opposição aos exércitos portuguezes, acudindo a 
«tudo com denodado valor e disposição; sem em- 
« bargo de ser por vezes do braço e bizarria portu- 
«gueza desbaratada, se tornava logo a refazer; e se 
«foi sempre sustentando e apoderando-se pelo ser- 
«tão de tudo o que podia, como o fez do reino de 
«Matamba.» 

D^aqui se vê que, em tempo da rainha Ginga, 
Matamba, que era independente e tinha rainha pró- 
pria, passou ao dominio da celebre conquistadora 
e ficou fazendo parte do reino da Ginga. Paliando 
doesta outr'ora importante região, dizem os srs. Ga- 
pello e ivens o seguinte: «Estávamos em pleno rei- 
«no da Ginga, hoje verdadeiro reflexo das grande- 
«zas de outr'ora, dividido em três provincias, Jussa, 
«Danje e Dongo, a que annexaram ultimamente as 
« terras de Matamba. » 

Este paiz de Ginga é uma das provas da rapidez 
com que se formam, engrandecem e decaem os im- 
périos africanos. Aqui tudo é movei, impérios c ho- 



230 

• 

mens: tudo se transforma rapidamente, os caracte- 
res physicos e as línguas; tudo cede á acção dos 
agentes externos, e á continua elaboração inlema 
de um mal seguro organismo e de um débil intel- 
lecto. Aqui se podem observar as aptidões para 
a transformação, para a adaptação da espécie hu- 
mana ás circumslancias variáveis da natureza. Os 
cambiantes são constantes; tudo é vago, tudo é in- 
certo. 

A Ginga era, ha dois séculos, um grande impé- 
rio, regido por uma mulher enérgica; hoje é uma 
região empobrecida, um povo em decadência. O rei 
de Ginga t pouco differe de um carregador de ty- 
poia » que reside n uma senzala com o pomposo ti- 
tulo de corte e conserva o nome antigo dos reis de 
Angola. Mantem-se o paiz dividido em feudos, cujo 
usufructo auferem os individues, a quem o monar- 
cha os concede vitaliciamente. Estes senhores de 
feudos teem, uns titulos de duques, outros de con- 
des, etc. 

Estes gingas são elegantes e bem conformados, 
mas franzinos e de côr carregada; usam penteados 
variados e ornados de penachos e enfeites de me- 
tal, missanga, etc. 

Possuem os gingas numerosos rebanhos. Usam 
cobrir-se de pannos tintos em tacula (Pterocarpus 
santolium) misturada com azeite. As habitações tem 
a forma de uma calotta elliptica de capim, com a 



231 



porta D uma das extremidades do eixo maior, abri- 
gada por um alpendre. Esta disposição dos alpen- 
dres faz lembrar a das casas rectangulares no Congo. 



VI 



Chegando com a conquista até Massangano, a 
quarenta léguas da cidade de S. Paulo de Loanda, 
o conquistador Paulo Dias fortificou este logar pela 
sua posição, apesar da insalubridade da terra; con- 
forme as informações dadas pelo auctor da Historia 
das guerras angolanas. Segundo o mesmo escriptor, 
o districto de Massangano era já em seu tempo muito 
dilatado, de grandes terras de lavoura, situadas pelo 
rioLucalIa acima até ao Luinha; e muito productivo 
e abundante. 

Em 1597 se elevou a fortaleza de Cambambe, 
C|ue marca o limite da navegação do rio Coanza. 
E sitio forte de si e que domina o território de mui- 
tos sobas poderosos. 

Mais além encontra-se o logar importante de Pun- 



232 

go N. DoDgo» a que Cadornega chama Pedras do 
MapuDgo, e qae foi logar forte dos reis de Dongo. 
Em tempo da rainha Ginga, um rei do Dongo apo- 
derou-se das Pedras do Mapungo e alli se estabele- 
ceu para estar defendido das correrias da Ginga, a 
qual era herdeira, pelo pae, do reino de Angola e 
odeiava o rei do Dongo, por este seguir o partido 
dos invasores portuguezes. O filho, porém, d'aquelle 
rei do Dongo rebelou-se contra os portuguezes e foi 
por estes combatido e vencido, ficando as Pedras de 
Mapungo em poder das nossas armas assim como 
muitos dòs sobas das terras circumvisinhas. 

Quando iam proseguindo as guerras do Dongo, 
em tempo do governo de Luiz Mendes de Vascon- 
cellos, se fundou a fortaleza de Ambaca^ ou Embaca, 
á custa de muitas luctas com o gentio. A pouca 
distancia d'esta fortaleza era a cidade de Cabaça, 
onde residiam os reis de Angola. 

Está Ambriz situada perto dos dois rios Lucala e 
Lutete, difficeis de traiíspor por falta de barcos. Alli 
havia guarnição ; e se reunia muita guerra preta, com 
as forças do Jaga Cabucu Candonga, o qual tem 
muitos milhares de negros, gente toda de Jogas e de 
guerra, prompta para servir com os portuguezes. O 
senhor do quilombo Cabucu era ajudado de muitos 
macotas, «cada um com seu terço de Jagas.» Estes 
capitães são muito leaes, dizia Cadornega, «causa 
«por que se fia d^elles as coisas de maior importan- 



233 

«cia; pelo que são mui odiados do gentio d'estes 
«reinos, e faz este corpo de guerra atemorisar esta 
«Ethiopia.» 

Do que nos diz Cadornega se pode concluir, que 
a invasão dos Jagas havia penetrado até ás margens 
do Lucala e ahi lançara o terror nos vassallos dos 
reis de Angola, na conquista dos quaes ajudaram 
as armas portuguezas. 

O presidio tinha até quinze mm adores e o tempo 
e calamidade do paiz consumia a muitos que alli ti- 
nham casas e fazendas com suas familias e muita 
escravaria e forragem (gente forra}: mas Angola 
engole muito. E accrescenta Cadornega que, em Am- 
baça e sua comarca, se fazia negocio de escravos e 
marfim, e que havia alli minas de ferro, de que os 
negros faziam armas e ferramentas. Comtudo é claro 
que Ambaca não tinha condições normaes de pros- 
peridade ; e que a sua decadência principiava já a 
manifestar-se. 

Da fértil e interressante região, a que se referem 
as informações do século xvii que foram citadas, 
lemos noticias de uma época que dista de nós, pro- 
ximamente, quarenta annos. Vejamos o que nos di- 
zem essas noticias. 

Fazendo a descripção do districlo de Cazengo, que 
demarca a leste com Ambaca, a norte com Golungo 
Alto, a oeste com Massangano, e a sul com Cam- 
bâiDlbe, Pereira Barbosa diz-nos, que é terra mon- 



234 

» -- - - 

« 

tânhosã e coberta de frondosas maltas; onde as ter- 
ras são muito férteis e prodazem duas colheitas por 
anno, de milho e feijão ; silvestre o café, a borra- 
cha muito abundante. Nas margens do Lucalla as 
terras baixas são cobertas de capim e pouco fera- 
zes. Existem no districto duas minas de ferro. 

O povo, accrescentâ Pereira Barbosa, ainda ha 
poucos annos era bravio, quasi sem industria nem 
commercio; pois apenas tirava algum partido das 
minas de ferro, fabricando enchadas e podões para 
uso próprio e para vender em pouca quantidade; 
com pequeno trabalho alcançava sustento abundante 
pela fertilidade da terra e commerciava para alcan- 
çar o sal da Quissama, que lhe servia de meio cir- 
culante. O povo d'esta região era «bisonho, descon- 
« fiado e pouco tralavel, indolente para si e quasi 
« inútil á sociedade. » 

Quatorze annos depois (1847) estavam as cou- 
sas mudadas. A cultura tinha crescido e produzia 
para consumo e para commercio. Havia fabricação 
de tecidos de algodão. Fabricava-se o ferro era maior 
quantidade e até o gentio de Quissama vinha alli 
comprar enchadas. Iam muitos á compra da cera 
no sertão para commercio ; conclue Barbosa « pelo 
f conhecimento que tenho d'esta gente estou per- 
«suadido, que é injusto quem os julga incapazes de 
«progresso na civilisação e na industria. i> 

Já n*aquelle tempo havia muitos c pretos lava- 



235 

«dos que fallavam portuguez, andavam vestidos e 
«calçados e sabiam ler e escrever.» A melhor classe 
de gente é a dos pretos de tanga; mas o que pas- 
sar a vestir calças perde-se dizendo-se branco e pro- 
curando chegar a soldado ou meirinho, o que é ter 
uma carta de corso. Os que eram baptisados e sa- 
biam alguma doutrina, escrevia ainda Barbosa cnâo 
«dão a isto outro valor senão o de se distinguirem 
«entre os seus, imitando os brancos.» A sua fé é 
uma estúpida idolatria. Teem seus advinhos e os 
seus chinguiladores. Se lhes succede algum damno, 
morte etc, recorrem ao advinho, que attribue tudo a 
algum feiticeiro que quasi sempre designa e este é 
victima da superstição. Tem a polygamia e casa- 
mento por compra das noivas. A infidelidade das 
mulheres é uma origem de renda para os mari- 
dos. Empregam também o juramento «que é uma 
«beberagem dada ao accusado.» 

Esta curta exposição mostra bem, apesar dos 
muitos usos gentílicos que persistem, a acção civi- 
lisadora qué a influencia portugueza tem tido e está 
exercendo n^este século ainda sobre as raças negras 
e demonstra, egualmente, as aptidões naturaes das 
tribus que habitam entre os dois rios Cuanza e Ben- 
go; onde as antigas missões religiosas deixaram 
persistentes signaes da sua existência. 

Quasi da mesma época da informação anterior, 
temos duas descripções de Ambaca, que esclarecem 



2S6 

sobre alguns pontos. Dizem-nos essas informações 
que, no tempo da conquista das primeiras terras de 
Âmbaca, se encontraram diversos sobas de diversas 
nações, uns d'alli residentes, e outros que vieram de 
fora na occasião da conquista. Uns se aggregaram 
aos portuguezes — diz a informação que vamos ci- 
tando [Annaes ultramarinos, vol. n) — recebendo 
terrenos em troca dos seus serviços ; outros tomaram 
as armas para caçar por conta dos portuguezes, es- 
tes foram os empacaceiros. Os primeiros desappare- 
ceram pelo andar dos tempos, como servindo os nos- 
sos interesses: os segundos, os empacaceiros, exi- 
miram-se do serviço, ofiferecendo donativos aos che- 
fes para os livrarem do tjugo heriditario. » 

Comparando esta informação com a que nos dei- 
xou Gadornega, pode concluir-se, plausivelmente, 
que na conquista se nos aggregaram os jagas a quem 
se concederam terras, e aos vencidos impozemos a 
obrigação da caça e fizemos delles • empacaceiros.» 

Os usos e costumes d'estes povos são uma mis- 
tura de usos e costumes dos Jagas e das tribus que 
faliam a lingua n^bunda. 

Quando morre um soba busca-se, na linha ma- 
terna, um successor; feita a escolha pelos macetas, 
vão estes de noite a casa do eleito e trazem -n'o preso 
a uma cubata, onde está por quatro dias, até lhe. da- 
rem a beber a aguadilha que escorre do çadayer do 
soba morto. Enterrado o soba defunto, põe-se na 



337 

Cabeça do eleito um barrete (cuginga), na mão es- 
querda o sceplro (mussesse), o bastão na mão di- 
reita, fâz-se-lhe uma cruz na testa e deita-se-lhe 
fuha nas mãos; depois toma este conta das mulhe- 
res do antecessor. 

Conforme outra informação {Annae$, vol. n), os 
usos doesta gente são notáveis, sobretudo com rela- 
ção a casamentos, enterramentos e óbitos. Os casa- 
mentos são acompanhados por uma grande festa, até 
o noivo se recolher com a noiva. O signal de que 
encontrou a noiva pura é dar um tiro. A polygamia 
é geral. Quando um preto adoece recolhe-se á casa 
dos parentes para o tratarem. Se morre volta para 
a própria casa e é enterrado, depois de varias ce- 
rimonias, em logares privativos, pondo-se-lhe sobre 
a sepultura varias quinquilherias, e abrigando isto 
com um alpendre. 

As opandas também aqui se encontram^ quando 
se duvida da fidelidade da mulher; sendo a coisa 
principal tirar, em expiação do crime, consideráveis 
multas aó cúmplice. 

Este districto de Ambaca tem muito gado, espe- 
cialmente vaccum: ha mattas de arvores resinosas. 
A alimentação é geralmente vegetal: o vestuário dos 
homens, calças, jaquetas e chinellas: das mulheres 
uma simples tanga: as habitações, muito distantes 
umas das outras, são de pâu a pique e paredes de 
adobe, cobertas de palha; as casas pobres, são porém. 



838 

todas de palha. cO povo de Ambaca é talvez o mais 
«civilisado dos nossos presídios, pois é raro o preto 
«ambaquista que não sabe ler e escrever,» 

De accordo com o que nos diz Cadomega, noti- 
cias sobre Pungo-N'dongo — publicadas nos Anmies 
ultramarinos em 1860— informam-nos que este no- 
me significa corte da rainha, e que ainda alli se via 
tim enorme embondeiro que, por tradição, se dizia 
ser do tempo da rainha Ginga. O território de Fun- 
go N'dongo era abundante de gado, e dava varia- 
díssimos productos vegetaes espontâneos e de cul- 
tura. Os indígenas, aptos para aprender mas n aquel- 
la época sem mestre, conservavam os usos gentíli- 
cos, criam em feitiços, praticavam a polygamia, com- 
mettiam os excessos dos idolatras negros por occa- 
sião da morte, executavam o bárbaro costume da 
undúa (juramento com bebida da casca venenosa.) 

tA religião dos habitantes, diz uma d essas in- 
« formações [Annaes, 1858), com poucas excepções 
«é apparente ou exterior; a christã é a de que se 
t servem ; a em que mais acreditam é a idolatria. » 

Então dizi?i um informador, que no districto vi- 
vera muitos annos: «estou convencido de que se 
«houvesse quem os aconselhasse, esclarecesse e in- 
«struisse, mudariam de systema,» 

Para dar noticias do estado d*esta vasta e fér- 
til região, ha proximamente meio século, recolhere- 
mos ainda as noticias que se encontram nos citados 



239 

Annaes^ acerca do presidio deDominado Duque de 
Bragança. Segundo o commandante do presidio Jo- 
sé Duarte em 1837, o duque de Bragança foi fun- 
dado em terras occupadas pela gente Ginga. Os 
povos eram gentilicos, parte sujeitos a Ambaca e 
parte á Ginga: são supersticiosos, maliciosos e da- 
dos â ociosidade: as mulheres trabalham a terra, 
e fazem todos os lavores necessários á vida, e isto 
explica a persistência da polygamia. Existe alli a 
upanda^ para tirar multas como premio da infideli- 
dade das mulheres em proveito dos maridos. A pro- 
ducção agricola em 1848 não progredia por forma 
apreciável, sendo aliás o terreno fértil e abundante 
em aguas. Os gados são, relativamente, abundantes 
e vagueiam pelos campos, onde ha bons pastos. 

A estas informações — a primeira das quaes data 
de dois séculos, e a segunda de meio século — com- 
paremos o que, sobre a mesma região, nos dizem os 
exploradores srs. Gapello e Ivens. 

A rápida noticia que os illustres viajantes nos 
dão de Ambaca correspondeu ao que se podia pre- 
ver do que ha duzentos annos dizia Gadornega. Am- 
baca, terra conquistada, onde se mantiveram duas 
raças inimigas, sendo essa rivalidade uma das for- 
ças dos conquistadores: terra, cuja importância de- 
rivava principalmente da proximidade de Gabaca, 
residência dos reis vencidos de Angola ; Ambaca , 
cujo commercio era de escravos e marfim, commer- 



240 

cio que acabou ha muito e onde as producções são 
pouco valiosas, em quanto a cultura se não desen- 
volver pela acção fecunda do fácil transporte para 
os portos de embarque; Ambaca não podia deixar 
de decair promptamente, e por isso não admira que 
os srs. Capello e Ivens digam: 

«Não se imagina a decepção que experimentá- 
cmos á vista da aldiola, que, na sua maior simpli- 
€ cidade, se reduz a uma rua com três casas e du- 
«zia e meia de palhoças 

«Dizem que Ambaca foi outr'ora muito povoada, 
« tinha opulência, trabalhava, mexia-se 

«Ambaea nada vale, porque lhe roubaram quanto 
tinha.» 

Erros de administração e o caracter ardiloso e 
dado a demandas dos ambaquistas contribuiriam 
talvez para esta decadência. O « ambaquista ê a ai- 
«ma damnada do sertão.» 

Chama-nos a attenção o que dizem do Duque de 
Bragança os srs. Capello e Ivens. 

O estabelecimento d'este presidio data do tempo, 
em que o governo enviou para alli uma expedição 
«com intuito de reprimir os excessos dos indígenas 
«jingas, que nas suas incursões ameaçavam o dis- 
«tricto de Ambaca.» 

Apezar de ser quasi nullo o commercio — jingu- 
ba, azeite e tacula, — pode dizer-se que «com pe- 
« queno esforço, talvez se tornasse esta terra n'um 



241 

t vasto districto agrícola, pois ha ali o algodão, o 
«tabaco, a jinguba e — mais ao norte no Dinje — a 
«canna d'assucar colossal, esplendida, e outros ar- 
«tigos.» A natureza do governo militar d'aquelle 
districto é talvez a causa d^elle se não ter desenvol- 
vido, apezar das terras serem ferieis e o clima sa- 
lubre. 

< Os povoadores são uma mistura de jingas, am- 
«baquistas, e alguns bondistas» dizem os illustres 
viajantes. Ao que parece, não chega ali a influencia 
dos Jagas. Um soba, que no Duque de Bragança vi- 
ram os viajantes, mostrava um estado relativo de 
civilisação, em nada comparável á dos sobas onde 
se não faz sentir a influencia purlugueza. O cara- 
cter do negro não é, em geral, mau; e quando ás 
vezes ha disposição para a perversidade e para o 
vicio, isso só tarde se revela. 

Em Malange, um dos conselhos da província mais 
afastada do liltoral, a insalubridade é muito gran- 
de, a ponto de dizerem os citados viajantes «as con- 
«dições de habitabilidade por aqui não satisfazem 
« as exigências europeas. » Bosques encharcados em 
tempo das chuvas tornam o transito difficil. 

O terreno é montanhoso, — informa-nos o via- 
jante Graça, que esteve em Malange em 1843 — . O 
soba chama-se Enibangana e é tributário de Amba- 
ca ; o terreno é fértil, produz milho, feijão e creações : 
poucas vantagens commerciaes offereee, a não ser 

VOL. HL i6 



242 



cera e escravos. Os indígenas cobrem-se com coi- 
ros de feras, usam de lanças e frechas, são de má 
Índole e ladrões, a sua religião é a idolatria. 



VII 



Agora que percorremos o vasto trato do territó- 
rio comprehendido entre os rios Coanza e Bengo, 
onde se realisaram as nossas conquistas sobre os 
reis e os povos da antiga Angola e onde se trava- 
ram as lutas com os invasores Jagas vindos de leste, 
é tempo de indagarmos o que Gadornega conhecia 
dos usos e ritos am-bundas, como elle os desi- 
gnava. 

Estes gentios am- bundas teem por costume — os 
que não são baptisados e vivem entre porlugue- 
zes — prestar culto ao diabo (o espirito do mal); 
invocando aquelle pae das trevas, pedindo -lhe re- 
médio em suas necessidades, trabalhos e doenças, 
fazendo-lhe sacrifícios, bailes e batuques, tendo para 
isso seus feiticeiros ou gangas. 



243 

Teem os am-bundas vários ídolos, que veneram, 
a que fazem sacrifícios acompanhados de comezai- 
nas, bailes e matinadas, com alaridos e apupadas 
que se ouvem longe «e principalmente fazem este 
«festejo quando apparece a lua nova» vestindo-se 
as mulheres de pannos brancos feitos da casca de 
uma arvore. 

Festejam o nascimento dos filhos; mas, se ao pe- 
queno os dentes de cima nascem primeiro que os 
de baixo, tem-n o em agouro e tratam de o matar. 

Usa o gentio de circumcisão « ainda a gente ba- 
ptisada. » Os juramentos (cangi) são muito vulga- 
res. 

Teem grande cuidado com os zumbi, que vem a 
ser o sonharem com algum defunto, porque, «ima- 
«ginam que lhes vêem pedir alguma coisa, ou coa- 
ctar que é pegar ou buscar para lhes irem fazer 
« companhia, sobre o que fazem ofiferendas e sacrifi- 
tciôs sobre as suas embillas^ que são os seus jazi- 
«gos.» 

Diz-nos já Cardonega, que os am-bundas tinham 
upandas, quasi geraes entre as tribus africanas. 
Upandas, diz o velho auctor, • vem a ser ter a man- 
«ceba ou concubina de algum d'elles ajuntamento 
<com outros, o coata ou apanha de upanda e lho 
«paga com dinheiro, quando não é com seu consen- 
c timento e amisade . . • entre os jagos tem pena de 
«morte.» 

16* 



244 

Quando casam, as mulheres enfarinham a cara 
e assim mesmo suas escravas. 

Transpondo os limites da região N'-bunda para 
leste, entra-se nos territórios do jaga de Casangi. 

Pela grandeza de seus estados, dizia Cadornega 
no fim do século xvii, o jaga Casangi pode chamar- 
se imperador: todo o estado é composto de gentio 
jaga que vive da guerra. O potentado de Casangi 
veste «mui ricos pannos de telas ou sedas»: leva 
quando sae « um fausto immenso, com muitos in- 
«strumentos áe engomas^ marimbas, gonges^pandei- 
< ros e chocalhos. » Â banza occupa muitas terras, 
onde agasalha, de muros a dentro, grande quantidade 
de concubinas. No Quilombo (acampamento) tinha 
trezentas mil almas, e de guerra mais de cem mil 
jagas «toda gente feroz e carniceira, com que ate- 
«morisíiva muita parte d'esta Ethiopia.» N'este qui- 
lombo havia muito commercio de escravos e mar- 
fim ; até aqui chegavam os negociantes portuguezes, 
nao lhes sendo permittido passar adiante. 

Dominava o jaga de Cassange metade dos sobas 
do Bunáo, por conquista; também dominava a pro- 
vincia dos Gangelles, que se estende rio Coanza aci- 
ma e grande parte da provincia dos Quinbundos, 
que vae correndo pelo sertão a Benguella. Tinha o 
titulo de Quiambole <que vale tanto como o Capi- 
«tão geral do rei de Portugal» que d'isto «se pre- 
«soQ elle sempre» Cadornega diz que a Cassange 



245 

vinham uns negros do sertão, a que chamavam Mu- 
zuas, dos quaes o jaga tomava alguns para conter. 
Noticia lambem o chronista de Angola que pelas 
terras de Cassangí corre um rio» o Luninha, tal- 
vez o Lu-ito, cuja agua é salgada e de que os ne- 
gros tiram sal. 

Vieram os jagas do sertão «dominando muita 
«parte d'esta adusta Ethiopia.» 

Teem estes bárbaros o singular uso de matarem 
os filhos, que nascem em seus Quilomos (acampa- 
mentos) ; o que, segundo diziam, procedeu de uma 
rainha mandar pisar um pequeno n um pilão «e dar 
«o sangue a bever a seus guerreiros, fazendo com 
«elles pacto e juramento de não consentirem mais 
« que nascesse creança em seus Quilombos. » 

Os jagas não adoram tanto os Ídolos como os ne- 
gros de Angola; mas teem em grande veneração os 
seus Quiculos, que são os ossos dos antepassados, 
a quem fazem sacrifícios de homens e animaes e 
em honra de quem derramam vinho, cada vez que 
bebem. Quando saem a suas conquistas levam com- 
sigo os ossos de seus maiores, e um chocalho de 
ferro a que chamam a Lunga. 

Quebram os dentes incisivos de um ou de ambos 
os queixos, e comem carne humana sem terem res- 
peito cC serem baptisados. 

Eis em resumo as informações principaes que nos 
dâCadornega dos costumes dos jagas no seu tempo. 



246 

Nos Annaes vol. i, encontra-se uma curiosa in- 
formação sobre os usos dos jagas, que merece com- 
parar-se com a que dos deixou Cardonega. Diz-nos 
esta informação, que os jagas vieram do sertão do 
Lunda, e primeiro se estabeleceram entre Ambaca 
e Gulongo Alio, d'onde depois foram lançados para 
Cassange. O primeiro chefe jaga estabelecido em 
terras portuguezas foi Golaxinga, e os seus descen- 
dentes por certo tempo governaram o estado, alé 
que yeiu um concorrente do LiboUo chamado Gonga 
e, mais tarde, da Ginga outro concorrente chamado 
Calunga; e as três familias ficaram concorrentes 
alternativamente ao Estado. 

Na successão o jaga é eleito por determinados 
macotas e o eleito é como forçado a passar por cer- 
tas cerimonias, entre as quaes entram sacrifícios hu- 
manos praticados pelo eleito, — que para isso usa de 
uma acha em meia lua — assim como actos de an- 
thropophagia. Esta cerimonia horrível, que se cha- 
mava o Sambamento, foi abolida pela influencia por- 
tugueza, desde que se baptisou o jaga D. Fernando. 

Por occasião da morte do jaga, os macotas pu- 
nham fora de casa toda a gente menos seis escra- 
vos « e o enfermo era ordinariamente suíTocado. » 
Morto o jaga fica três dias no logar em que mor- 
reu, e no fim doesse tempo lhe arrancam um dente 
que se entrega ao herdeiro, para ser guardado com 
os dos outros jagas na caixa dos molungos (attri- 



247 

bulos sem os quaes nenhum jaga pode governar). 
Vestido o morto com os melhores pannos, sepulta-se 
na própria casa com os seis escravos vivos. 

Acompanhemos agora os nossos exploradores 
Capei lo e Ivens ás terras de Cassange, para poder- 
mos formar idéa o mais completa possível dos po- 
vos que as habitam, Dizem-nos os viajantes que 
(OS habitadores indígenas são os ban-galas> cujo 
chefe é o jagga. E na divisão d'esta rcgiaó, chamada 
Quembo, que está situada a celebre feira, decaída 
da sua anliga importância desde 1860, pelas guer- 
ras entre vários chefes. Os ban-galas continuam a 
ser os únicos medianeiros entre os negociantes e os 
sertões longiquos: são elles buliçosos, turbulentos 
e muito dados a feitiços. Nas guerras buscam os 
mun-galas matar os adversários ; usam das armas 
de fogo conhecidas por lazarínas. 

Praticam a polygamia, as mulheres são obti- 
das por compra e são como escravas. As mulheres 
são muito mais activas do que os homens. As cu- 
batas são feitas de pau e cobertas de capim, sendo 
interiormente divididas em dois compartimentos, 
um dos quaes serve de alcova. 

O jagado de Cassange está vago por causa das 
lutas com os jagas Bumbu e Malungp. , 

Ha três familias que alternam no poder, os Ca- 
lachingos, os N'gongas e os Calungas: mas para 
chegarem ao jagado precisam satisfazer a certas con- 



248 

dições. Quando morreu o Bumba um sobrinho d'este 
fugiu com as ma-numa (os dentes dos jagas) e não 
poude elegcr-se novo jaga. 

Eis como os srs. Capello e Ivens contam as ceri- 
monias, que acompanham a morte de um jaga e a 
sua substituição por novo jaga. Evidentemente uma 
parte doestas horriveis cerimonias, que os viajantes 
não presenciaram, referem-se a épocas remotas. A 
quasi paridade das cerimonias aqui usadas com as 
que atraz dissemos se praticavam em Ambaca^ mos- 
tra bem que os jagas penetraram n'este território, 
como dissemos. 

€ Morto o jaga e propalada a noticia pelo Estado, 
<é immediatamente envolvido em numerosas peças 
<de fazenda, e, sentando-o numa cadeira, coUo- 
«cam-n'o no centro do quarto mais amplo da habi- 
«lação, ponto em que mais tarde será inhumado. 

«Em seguida p5em*lhe a cajinga na cabeça, 
«dispersando em redor do defunto, armas, cachim- 
tbos e todos os pertences que em vida usam, intro- 
«duzindo-lhe na bocca três pennas vermelhas da 
«cauda de um papagaio. Começam então os batu- 
<íques e danças próprias até á chegada do succes- 
«sor 

«Os macotas, reunidos, circundam o novo jaga, 
«transportando -o a um logar escolhido, geralmente 
«n'um campo, sobre uma arvore, onde se acham, 



de um lado artigos dé guerra, do outro enxadas e 
objectos empregados na agricultura; symbolos da 
guerra e do trabalho. . • O jaga escolhe o que lhe 
apraz . . . Dividem-se os macetas . . . 

«... emissários especiaes vão buscar um infeliz 
á senzala de Gatumbi Gatumbo para ser immolado 
na cerimonia > . . . 

t Chega cmfim o dia do segundo preceito, cuja 
descripção faz estremecer de horror. 

«O pobre homem, que trazem illudido para jun- 
to de um riacho, não longe da banza e ahi conser- 
vam amarrado durante dias, é cruelmente morto 
quando chega a comitiva, aos gritos e urros da 
horda de bárbaros. 

«Abrindo-lhe o ventre, do sternum até ao púbis, 
collocam-n'o próximo da agua e o novo soba, in- 
troduzindo os pés nas entranhas ainda fumegantes 
da victima, atravessa o rio no meio dos mais he- 
diondos tripúdios, amparado elle e cadáver pelos 
maioraes, sendo depois conduzido em triumpho até 
â sua residência. 

« Á medonha cerimonia da barca humana segue- 
se o dicongo ou banquete do Quinguri (espirito 
do velho jaga) . 

«Outro sacrificio humana tem então logar. 

«Um segundo miserável, em geral fornecido pe- 
las terras do Miungo, do soba Muena N'Durabje, é 
junto do nChala barbaramente assassinado, em 



250 

«honra do mamo Quinguri; e esquartejando-o ao 
« mesmo tempo que immolam um boi e uma cabra, 
«juntam uma perna de cada um dos d'estes animaes 
«á do homem, a fim de coserem tudo em vasta pa- 
«nela, da qual o novo soba comerá 

«As monstruosidades terminam pela circumcisão 
« e o futuro jaga é conduzido perante o cadáver do 
« antecessor 

«Tiram as pennas que o alto personagem finado 
« tem na bocca e obrigam o outro a chupar o liquido 
«nellas contido, em seguida põem as ma-mima ao 
«novo jaga e proclamam-no, tomando desde logo 
«a direcção suprema do estado.» 

Passando ao sul do Coanza n'uma região mais 
alta do que a habitada pelos Quissamas encontra- 
mos o paiz do Libolo, ao qual, segundo Gadornega, 
chamavam antigamente Atunda. E provincia dilata- 
da, com sobas muito poderosos. Os Libolos e Quis- 
samas, segundo o interessante livro de M. Monteiro, 
tem estreitas analogias, porém os primeiros tem uma 
organisação superior, o que está de accordo com o 
que succede por toda a Africa, onde as raças são 
tanto mais perfeitas quanto mais afastadas estão do 
litoral. Os Libolos tem sido em geral muito favorá- 
veis ao dominio portuguez. 

A 11^35 de lat. S. fica, segundo escrevia Al- 
meida Sandoval em 1837, o sertão deBailundo: 



251 

limiiam-n o, a lesle o BíIq e Undulo, a norte as hor- 
tas do Quenze^ ao sul o Lumbo e Huamba, a oeste 
as terras do Quipeia. Por este modo indica o citado 
SandovaJ os limites de Bailando {Annaes Ultrama- 
rinos vol. i). Tem o Baílundo 180 milhas de com- 
primento sobre 90 milhas de largura; tem clima 
temperado, sendo os mezes mais frescos, maio, ju- 
nho e julho; a terra é fértil, tem boas aguas, e uma 
abundante vejetação de prados e bosques. E esta 
parte do sertão muito povoada de homens fortes, 
sóbrios e corajosos na guerra, mas de caracter re- 
voltoso, grosseiro, atrevido, velhaco e ladrão- 

Em 1774 foi o pajz dos Bailundos invadido pe- 
las armas portuguezas e destruídas as povoações; o 
soba preso foi levado para Loanda onde morreu, e 
um irmão foi posto em seu logar. 

O governo d'estes povos pode dizer-se democrá- 
tico. São os macotas que põem e tiram os sobas. 

Conforme um oíBcio do capitão general de An- 
gola, de 1776, o gentio de Bailando insurreccio- 
nou-se, atacou o presidio de Novo Redondo e amea- 
çou Benguella. Deu este facto logar a uma guerra, 
que durou dois annos ; principalmente com o poten- 
tado de Bailundo. que já havia tempo estava rebe- 
lado e se arrogava a soberania de todo aquelle gen- 
tio. 



252 



VIII 



Já ciemos idéa do que são as tribus que vivera 
no litoral em Benguella. Caminhando para o sertão 
a leste, encontram-se os Quillengues, de que na sua 
viagem dão noticia os srs. Capello e Ivens. E uma 
região, em grande parte, coberta de florestas, habi- 
tada por povos mais distinctos do que os do litoral: 
devido isto ao clima, que é pouco insalubre relativa- 
mente e em que as chuvas manteem a fertilidade 
assim como também ás relações com os ba-nano do 
interior. 

Ha alli abundância de milho,.massambau (sorgo), 
feijão, mandioca, batata, canna de assucar e ou- 
tros fructos. Os gados são numerosos, o que dá lo- 
gar a continuados roubos, praticados pelos povos do 
Nano. Tem importância commercial, mas esta era 
maior anteriormente, por ser ponto de passagem das 
caravanas do Bihé. 

Os sobas parecem gosar de uma independência 
relativa. 



253 

Mais longe, para nordeste, encontra-se o presi- 
dio de Caconda, onde se afazem «grandes lavras» 
de mandioca, milho, massambala, ginguba (Ara- 
chis hypogea) canna saccharina, batata doce e inha- 
me. A caça é abundantissima e variada. 

«A sua altura, temperatura moderada, suavida- 
de do clima, belleza dos campos, profusão de plan- 
tas fructiferas, frescura da agua em regatos trans- 
parentes, crearam-lhe fama de superioridade em 
relação a outros pontos do sertão, a qual em coisa 
alguma é desmentida. . . 

«Sob o ponto de vista commercial, está longe do 
que foi em outro tempo, sendo porém ainda o pon- 
to de passagem das comitivas de ganguellas, que 
vão de leste com marfim e cera para o mercado 
de Benguella, dirigindo-se para a costa pelo ca- 
minho directo, isto é, peks terras do Caloqueme 
e Dumbe Pequeno. . . 

«Caconda, emfim, tem a esperar um futuro de 
riqueza no desenvolvimento da agricultura, desde 
o momento em que esteja ligada a Benguella por 
uma estrada regular ; visto que as ricas produc- 
ções, como a canna, o algodão e o arroz ahi se 
desenvolvem com facilidade.» 

D*esta região de Benguella para o interior temos 
mais antigas noticias, que podem esclarecer-nos em 
certos pontos. 



254 

O paiz dos Quillengues, como em 1855 dizia a 
memoria de Brochado {Annaes Ultr. vol. i), demar- 
ca ao N.com o Dumbe, ao S.com os Munhane- 
cas, a E. com o Nanno, a 0. com a Huilla e Cu- 
báes. O povo doesta terra é da mesma raça dos 
Cubáes; a este se juntam os diversos herdeiros de 
outros estados, que, perseguidos, buscam alli refu- 
gio e constituem pequenas tribus. O terreno é ge- 
ralmente plano e arenoso, as chuvas regulares: e 
d'ahi depende a fertilidade das culturas da man^ 
dioca, milho, massambala, massanga e fructos: o 
clima é quente e insalubre. Os homens mal se co- 
brem com duas pelles de carneiro, teem uma gran- 
de trunfa ornada pelo próprio cabello. As mulhe- 
res cobrem-se com as mesmas pelles, presas á cin- 
tura por um cinto de missanga e teem na cabeça 
três rolos de cabello. 

Nos Annaes vol n, encontram-se informações so- 
bre Gaconda, publicadas pelo sr. Pinto Balsemão, 
que merecem chamar a attenção. Ás armas portu- 
guezas, diz o zeloso escriptor, só chegaram a estas 
paragens em 1620, e 60 annos depois se construiu 
alli um pequeno forte, que pouco depois foi arrasa- 
do pela guerra dos negros, posteriormente por nós 
derrotados. 

Na época em que o sr. Pinto Balsemão publica- 
va as suas informações sobre Gaconda (1862) já 
aquella povoação tinha sensivelmente diminuído, 



255 

em consequência da abolição do trafico dos escra- 
vos desde 1830. A extensão do concelho de Ca- 
conda foi grande, mas em 1862 era apenas de 
44*^,5 de comprido e 28*^ de largo, approximada- 
mente. A abolição do trafico , afastando do concelho 
os commerciantes e a necessidade c do contracto dos 
«indígenas com os portuguezes empregados n'esse 
«modo de vida (o trafico) para lhes venderem seus 
I próprios irmãos, uns accusados por feiticeiros ou- 
< tros aprisionados nos seus incessantes combates, 
■ foram essencialmente as razdes que moveram os 
«sobas, até então (1830) nossos vassallos, a esqui- 
«varem-se do nosso trato e a tomarem-se indepen- 
«dentes. . . 

«E evidente que em muito hade importar a fei- 
«tura de uma estrada, que ligue Benguella a Ca- 
« conda; todavia, urge deitar mãos a ella, prece- 
^dendo este passo por um estudo scientifico feito 
«por engenheiros. O desenvolvimento d'estes dois 
«pontos reclama-o altamente. . . 

«O clima de Caconda pode, sem erro, ter-se por 

«saudável O europeu, em logar de encontrar 

«alli o calor abrasador filho da zona tórrida, como 
« aliás era de esperar, depara com uma temperatura 
«em tudo semelhante â das zonas temperadas. • • 

« O solo de ^ Caconda é fertilissimo ; porém a se- 
«melhança do clima com o da Europa, inhibe-o de 
«produzir alguns dos géneros dos climas tropicaes. 



I 



2S6 

«taes como café, canna, etc, em compensação cria- 
« se alli óptimo trigo, etc . . . 

«O commercio presente de Caconda reduz-se ã 
« exportação de cera, algum marfim e pelles de ani- 
«maes ferozes, que se permutam por fazendas, 
t aguardente, pólvora.» 

Comparando esta informação com o que dizem 
os illuslres viajantes que acima citámos, vê-se, que 
em vinte annos algum progresso se tem feito e que 
o desenvolvimento agrícola e commercial d'aquelle 
rico districto só espera uma estrada, que uma eco- 
nomia mal entendida e a falta de comprehensão 
dos verdadeiros interesses coloniaes impediram que 
se fizesse ha alguns annos. 

Paliando do reino de Benguella, sito na provin- 
cia chamada dos Quimbundas, Cardonega celebrava 
a muita caça que havia alli e dava logar a impor- 
tante commercio de pontas e abada, dentes de ele- 
phante, dentes de engalla (javali africano), pelles 
de zebra; assim como celebrava o -muito gado vac- 
cum, carneiros de cinco quartos e abundantes pes- 
carias, culturas, etc, accrescentando depois que 
esta provincia dos Quimbundos confinava com a 
Huila que * parece ser provincia dilatada.* 

E mais adiante diz Cardonega: 

«Pelo sertão doesta provincia, atravessa o rio 
tCunene, que quer dizer na lingua da terra Rio 



257 



Grande; não se sabe com certeza em que paragem 
da costa se mette em o mar, o que deve ser puito 
além do Cabo Negro e da costa descoberta de de- 
zoito graus; porque doesta paragem para cá é sa- 
bido dos que navegam até ã costa de Guiné, quo 
assim lhe chamam ; só o que ha noticia é, que indo 
o capitão mór Lopo Soares Laço fazendo aquella 
conquista do reino de Benguella, muitas jornadas 
pelo sertão dentro, chegara a este caudaloso rio 
Gunene e que, da outra banda d'elle, linha suas 
terras e senhorio um rei ou potentado por nome 
Muzumbo a Calunga, que quer dizer no seu idio- 
ma a boca ou beiços do mar ; e este apelido era 
em razão de ter um dilatado senhorio em aquelle 
tão espaçoso rio, que tem aquelle gentio para si é 
a boca do mar pela grandeza que tem. t 



N'uma carta ao governador de Benguella, de 21 
de março de 1853, o celebre Ladislau Magyar dava 
noticia da sua viagem pelo sertão de Benguella, 
por que sendo «grande o zelo e actividade que o 
•governo de sua magestade fidellissima tem desen- 
« volvido e continuará a desenvolver para descobrir 
«o interior d'este vasto continente (d^Africaj etc, 
«elle julgava não dever ficar mais na obscuridade 
«e, apezar da sua fraca capacidade, depositar so- 
«bre o altar das sciencias o fructo, ainda que es- 
« casso, das suas descobertas de cinco annos con- 

YOL. m i7 



258 

fseculivos no interior da Africa, coadjuvando, em 
f quanto lhe fosse possivel, o governo de Sua Ma- 
«gestade nas suas emprezas em prol das sciencias 
<e humanidade.» 

Depois de dar noticia das regiões por elle per- 
corridas em diversas excursões, de Benguella a Bai- 
lundo e a Bihé, d^aqui a Luchasi e Bunda, de Ga- 
rionga aos desertos de Quibaque, a mãe das aguas 
africanas, como lhe chama Magyar, e ainda prolon- 
gando a viagem até 4'41' lat. S e 25^45' long. E. 
em segunda excursão de Benguella a Quilengues, 
Gambos, Humbe, Cambo e Cunhama até 20^5' lat. 
S. e 22^40' long. E., depois de breve noticia, o il- 
lustre viajante concluo dizendo, que de volta aos 
Gambos fora muito bem recebido pelo regente Ca- 
bral de Mello, cuja grande capacidade e aptidão ce- 
lebra e accrescenta : « ha pouco tempo o gentio ain- 
tda era selvagem e intratável, pois elle (o regen- 
«te) sem recurso quasi nenhum de força, que o 
«apoiasse no exercicio da sua auctoridade, só com 
«as suas maneiras brandas e afáveis, soube levar 
«este gentio a tal ponto de docilidade, incutindo- 
«Ihe ao mesmo tempo respeito para com o go- 
«verno de Sua Magestade, que agora o gentio 
«dos Gambos é inteiramente domesticado, o que 
«serve de grande vantagem, pois o commercio aqui 
«gira livre e sem constrangimento algum.» {Annaes 
vol. i). 



259 

Esta declaração, este louvor dado ao governo 
portuguez e a um governador subalterno de um ser- 
tão selvagem, contrastam com as injustiças que via- 
jantes nos tem feito nos últimos tempos ; e, o que é 
mais interessante, mostram como nós sabemos, pela 
brandura, domesticar o gentio, o que outras nações 
não fazem senão pela força, mas incompletamente. 

Isto é confirmado pelo que observa, no seu excel- 
lente livro sobre o Congo, o sr. H. Johnston. tO ne- 
«gro, diz elle, não pode ser governado senão pela 
força benévola.» O sr. Monteiro, no seu estudo so- 
bre Angola, nota também a cordialidade de rela- 
ções que existe entre os indigenas e os portugue- 
zes, e mesmo as relações quasi de familia que se 
davam entre senhores e escravos. 

Doestas circumstancias provém um facto, que ainda 
ultimamente o sr. Johnston reconheceu no Congo. 
«Cada Cabinda conhece mais ou menos o portuguez 
(lingua).» E, mais adiante, accrescenta «Penso que 
«a recente tentativa dos portuguezes, para estabele- 
« cer-se na costa de Ca-congo, seja qual fôr a ma- 
«neira de ver das grandes potencias, encontrará a 
«approvação dos indigenas, que teem servido os 
«seus novos senhores bastante tempo fora do seu 
«paiz para não receberem com agrado o seu domi- 
«nio na própria casa.» A influencia portugueza na 
lingua do Congo é muito grande, como reconhece 
o auctor citado, e se fez sobre tudo sentir no territo- 

17 # 



-260 

rio do Congo, onde os portugoexes « exerceram du- 
«rante quatro séculos uma influencia predominan- 
ite, religiosa e politica.» 

A propósito da influencia benéfica dos portugue- 
zes na Africa, convém lembrar um facto reconhecido 
ainda pelo iltuslre viajante que temos citado. Quasi 
todos os animaes domésticos da Africa são de ori- 
gem asiática; as plantas cultivadas vieram em gran- 
de parte da America. 

€ Entre as plantas e arvores mais geralmente cul- 
ttivadas, diz o sr. Johnston, deve citar-se os Cajá- 
i^nus indicus, a mandioca, a batata doce, o milho, 
€0 amendoim, o tabaco, a canna de assucar, a ba- 
« nana e a palmeira do óleo. Kntre outras introdu* 

< ções portuguezas, que penetraram pela costa occi- 

< dental, contam-se o ananaz, a lima, e algumas 
«hortaliças degeneradas. 

tE difficil imaginar — observa ainda o viajante — 
«como o povo podia viver antes do milho, mandio- 
«ca, amendoim e batata doce, serem levados á costa 
«d'Africa pelos porluguezes e outras nações euro- 
«peas desde o decimo sexto século. A descoberta 
«da America aífectou profundamente a historia mo- 
« derna do Continente Negro. » 

Deixando estas considerações e proseguindo no 
estudo que iamos fazendo dos indigenas de Angola, 



261 

vejamos o que Magyar diz dos Quimbandas, que 
particularmente estudou. 

No Bihé estava situada, no tempo de Magyar, a 
corte do soberano dos Quimbandas, que faliam a 
lingua bunda e pertencem aos Balondas. Quando se 
acclama novo príncipe offerecem-se sacrifícios hu- 
manos e celebram-se banquetes canibaes ; sendo as 
victimas prisioneiros de guerra. Os nobres, se as- 
sim se podem chamar, dividem-se em duas classes, 
os crombé ya soma que comprehende os príncipes, 
e os crombe ya secula que são anciões do povo: 
a primeira é hereditária, a segunda eleita. O soba 
buscou usurpar ao ()ovo o direito eleitoral; e com- 
preliende-se a usurpação, por que os séculos sao 
ricos em terras e rebanhos, e defendem o povo con- 
tra a tyrannia do príncipe. Os séculos não estão ao 
abrigo das oppressões, mas gosam de certa inde- 
pendência. O homem que chega á virilidade é livre 
senhor de si e do que é seu: e os chefes de familia 
da mesma aldeia unem-se uns com outros para mu- 
tua defeza. Os sacerdotes, médicos e juizes são os 
Quimbandas. Os escravos, os dongos são proprie- 
dade absoluta dos donos. Os dongos, muito nume- 
rosos, não são só os prisioneiros de guerra mas 
também os estrangeiros ou mesmo indigenas; por 
que alli a menor culpa, uma simples palavra con- 
traria aos costumes é um crime, punido por multa 
ou escravidão: não é pois de admirar que metade 



262 

da nação seja escrava da outra metade, A sorte dos 
escravos não é inteiramente má, por que os senho- 
res exercem auctoridade paternal sobre elles e os 
tratam com doçura, podendo mesmo casar com mu- 
lheres livres ficando livres os filhos. 

Os Quimbundos, conforme Magyar, adoram os 
feitiços e principalmente os animaes, simbolo da 
divindade. Parecem reconhecer um ente supremo, 
que denominavam Sucu-Vanange, que pouco se in- 
teressa pelo destino dos homens: também crêem na 
existência de espíritos bons, Quilula-Sandis; e de 
espirilos maus, Quilula-Yangalo. A alma é immor- 
tal e, depois da morte, baixa ao mundo Calungo, 
onde encontra os prazeres sensuaes. Por vezes fa- 
zem-se sacrificios aos espiritos maus: servem de me- 
dianeiros os Ídolos domésticos, cujas imagens se 
guardam na capella da casa. 

Organisam-se procissões, acompanhadas pelos 
Quimbundos, no principio xlas estações secca e chu- 
vosa, para propiciar os espíritos bons. 

Do commercio em Angola e Benguella, diz-nos 
Magyar: 

« As caravanas do Bihé distinguem-se entre gran- 
« des e pequenas caravanas, que chegam á costa por 
« caminhos diversos, não só pelo numero e força ar- 
tmada, como também pelo valor das mercadorias 
«que são o marfim, cornos de rhinoceronte^ e cera. 



263 

Esta caravana vem ordinariamente duas vezes por 
anno a Bengnella, onde troca os seus produclos 
pelos da Europa. Consta de 3000 homens, a me- 
tade armados: como não ha bestas de carga, Iodas 
as mercadorias, mesmo a de paizes mais longi- 
quos, são transportadas pelos homens. A van- 
guarda da caravana chega ordinariamente dois ou 
três dias antes, para annunciar aos commerciantes 
a chegada da expedição. Então prepara-se tudo 
para receber os hospedes, e reunem-se os viveres 
necessários e os objectos para troca. A caravana 
vem em pequenos grupos, mais ou menos nume- 
rosos; as divisões dirigem-se com as mercadorias 
que trazem a casa dos seus conhecidos, para se 
aquartelarem. Os que trazem mercadorias para 
vender, vestem-se de novo e passam os primeiros 
dias a beber e comer. Depois começa o negocio, 
que dura seis dias; emfim as mercadorias troca- 
das são dispostas nas cargas e repartidas entre os 
carregadores.» 



Como se vê. o processo é ainda hoje o mesmo, 
salvo as differenças que resultam do nome marcado 
em Gatumbelia. 

Uma observação faz Magyar acerca dos Quim- 
bundas, que nos deve chamar a attenção. Diz elle 
que os Quimbundas, como outras tribus negras, 
gostam de demandas: o povo estúpido e brigoso é 



264 

explorado pelos olombangos ou advogados e pelos 
hypocritas Quimbundas ou sacerdotes de Baál, que 
o devoram como lobos esfaimados. Este espirito de- 
mandista encontra-se egualmente nos povos de Am- 
baca, com quem os Quimbundas teem analogia se 
não identidade de origem. 

fó antes de Magyar tinha dado noticias do Bihé 
o ousado viajante Rodrigues Graça. O Bihé, obser- 
va Graça, está situado no centro de riquissimas pro- 
vincias <d'onde tem vindo em todo o tempo, mar- 
cam, cera, e mais géneros de consumo do paiz, que 
< d'aqui tem saído effectivamente para as duas pra- 
«ças de Loanda e Benguella.t 

Gultiva-se no terreno plano do Bihé o milho, fei- 
jão, mandioca; produz a canna de assucar, o trigo, 
o tabaco, a hortaliça; é fria a temperatura e sau- 
dável o clima. 

A gente do Bihé é bellicosa e inclinada á indus- 
tria, gosta de viajar, e é ambiciosa: ha ali carpin- 
teiros e ferreiros. Usam armas de fogo, e preferem 
morrer na guerra a ficarem prisioneiros e escravos. 
São inconstantes, dados aos roubo e muito supersti- 
ciosos. 

Quando morre um filho do soba não se enterra 
até estarem presentes todos os parentes; então o 
levam á sepultura pendurado n um pau, indagando 
primeiro quem o matou; porque a morte é sempre 
attribuida a feitiço. Imputada a morte a um, a quem 



265 

querem fazer mal, prendem-n'o e á familia, todos 
ficam escravos. Fallecendo qualquer potentado Dão 
é o facto publicado senão ao cabo de um mez ; exce- 
pto sendo o Jaga Gassange cuja morte se annuncia 
ao cabo de oito ou dez dias. Quem revela a morte 
antes de tempo é levado á beira de um rio e ahi 
degolado pelo algoz que se chama Samba Golum- 
bole. 

» 

O sova, que tem de exercer o governo, reúne tor 
dos os subordinados numa praça «onde se mata 
um boi, um carneiro branco, um pombo dito ou 
cinzento, e muitas outras victimas são sacrificadas 
pelo Samba Golumbole, bem assim um preto de 
cada nação por elle dominada, cae sob elle o al- 
fange do algoz e, levados em triumpho, mostran- 
do-se ao seu povo ao som de caixas, marimbas, 
e outros instrumentos gentílicos, as cabeças dos 
desgraçados, manda cosinhar a carne d'elles de 
mistura com a dos outros animaes I e depois dis- 
tribuído por aquelles dos principaes e chefes tão 
opiparo banquete ! I O soba apodera-se da cabeça 
de uma victima e, agarrando-a com os dentes, tam- 
bém dança ao som da musica. » 

Graça observa, que o uso da anthropophagia era 
commum entre os potentados d'aquella região, oriun- 
dos da linhagem de Quingare, sendo um dos mais 
observantes o Jaga de Gassange. As analogias entre 
estas ceremonias e as que anteriormente dissemos 



1 



266 

se passavam nas terras de Cassange, parece con- 
firmar o que diz Cadornega, isto é, que o jaga de 
Cassange possuia vastos estados, que comprehen- 
diam metade dos sovas do Bundo, a província de 
Ganguella e grande parle da província dos Quim- 
bundos. 



IX 



, Prosigamos n'este estudo, acompanhando a expe- 
dição porlugueza dos exploradores Capello e Ivens. 

Passando para além de Caconda os nossos via- 
jantes entraram nas terras do Nano ou Ba-Nano, 
tribus «que parece comprehenderem todos os povos 
limitrophes. » A dislincção entre Nanos e Quillongos, 
já descriptos, não é fácil estabelecer. Uns e outros 
tem nariz achatado, lábios grossos, queixo recuado, 
dentes inclinados, cabello encarapinhado; a côr dos 
Nanos é talvez mais escura, o aspecto mais suspei- 
toso. 

São os nanos afammados pelas suas correrias nos 
sertões do sul e sudoeste para roubar e devastar: 



267 

pela rapina satisfazem as necessidades da vida. «A 
tanthropophagia pode exercer-se incidentalmente, 
«como, por exemplo, nas occasiôes de geral discor- 
«dia, em que os vencidos são de ordinário devorados. 
«Devemos, accrescentam os viajantes, declarar que 
«nunca encontrámos vestigio algum que o provasse 
«e, se a praticam durante a guerra nos feridos e nos 
«mortos, a negativa foi sempre a resposta ás nossas 
«interrogações.» 

Acercando-se do Bihé, os exploradores Capello e 
Ivens passam as terras habitadas pelos Ganguellas 
«tribus numerosas, afamadas pelas industrias que 
«exercem e pelo negocio importante de cera.» 

São os Ganguellas notáveis ferreiros, inclinados 
á musica para que mostram particular aptidão. O 
porte é elegante, o olhar vivo e penetrante, o aspe- 
cto eminentemente sympathico. 

O bem conhecido Silva Porto dizia acerca dos 
Ganguellas, em 1852, o seguinte: «são robustos, de 
«boa figura e em geral circumcidados; são arrogan- 
«tes, traiçoeiros, volúveis e perversos, se bem que 
«fracos.» Dados á embriaguez, vivem sempre em 
desordem^ incendiando povoaçOes, geralmente com- 
postas de quatro a vinte casas. 

Mais supersticiosos do que o outro gentio, «são 
«dados á caça, á pesca, á agricultura e ao trafico 
«da cera.» Os homens cobrem-se com pelles de 
animaes bravos, as mulheres com cascas de arvore 



268 

preparadas. Usam arco e sela, azagaias e armas de 
fogo. Possuem extensas lavouras em que cultivam 
mandioca, feijão, milho e massango: acompanham 
as lavouras mudando para ali as suas libatas. São 
bons ferreiros e empregam um ferro com qualida* 
des de aço. 

Do Bihé, aonde chegaram em seguida, infofmam- 
nos os viajantes o seguinte. O Bihé, ponto de par- 
tida das caravanas que vão ao sertão, é um grande 
centro de commercio. Apezar d'isso o Bihé é rela- 
tivamente pouco povoado, como quasi todos os dis- 
trictos da Africa central, o povo apresenta os tra- 
ços oríginaes da vida selvagem. Costumados ás lon- 
gas viagens os bihenos tem adoptado muitos usos 
e costumes de povos de sertões distantes. 

De ha muito habituados ao contacto do branco, 
entregam-se á embriaguez c ao roubo. 

Ás terras do Bihé são regadas por muitas aguas, 
e por isso de grande fertilidade; sendo as suas pro- 
ducções variadissimas; o tabaco, a palma christi, 
mandioca, inhame, milho, mnssambala, massando, 
banana, ananaz, laranjas. 

Os habitantes do Bihé não podem considerar se 
uma raça pura, de traços caracteristicos; são antes 
uma mistura complexa de povos diversos, uns vin- 
dos por emigração, outros ostabelecendo-se por con- 
quista, outios por successivos crusamentos. Na mul- 
tiplicidade de fluxos de população que tem cami- 



269 

nhado para a Africa occidenlal, o Bihé — côrle dos 
soberanos de Quimbundo, conforme Magyar — o 
Bihé tem sido um dos pontos de intercepção das 
diversas correntes. Difícil deve ser, em tal caso, 
reconhecer nas tradições confusas de povos selva- 
gens qual seja a origem dos bihenos. Âs tradições 
não podem referir-se senão ás raças conquistado- 
ras; e estas, na Africa, parece obedecerem a uma 
lei que as impelle, geralmente^ de leste ou nordeste 
para oeste ou sudoeste. 

«As tradições históricas, conservadas pelos Bibe- 
«nos, dizem os viajantes citados, tendem a mostrar 
«que, originários do norte, vieram d'essas extensas 
«regiões invadir o. sul, não podendo considerar-se 
«como autochthonos d'aqui.» 

Na opinião dos srs. Capello e Ivens, pode con- 
cluir-se com toda a reserva, que os ba-bihé occu- 
pam este sertão de recente data; vindos do norte, 
descendem naturalmente d'esses invasores tão fal- 
lados no interior d' Africa, que, em conquistas sue- 
cessivas, chegaram até ao paiz conhecido na costa 
pelo nome de Nano. Os ba-bihé ou antes bin-bundo 
«estariam assim comprehendidos na grande fami- 
lia dos ba-nano, que parece provir dos ba-lundo.* 

O biheno é alto, delgado, secco, de cabeça am- 
pla, fronte espaçosa e não muito deprimida, nariz 



270 

achatado, rosto largo, ponteagado na barba, ar^ 
cadas zigomaticas pouco proheminentes. As mulhe- 
res são mais activas do que os homens; algumas 
são notáveis pelo seu typo elegante e traços geraes 
elevados: os penteados são muito cuidados. A mu- 
lher é uma verdadeira mercadoria; paga a noiva aos 
parentes, esta é conduzida a casa do pretendente. 
A polygamia é geral. A religião é a idolatria ; o fei- 
tiço é tudo. Todas as idéas de uma religião mais 
pura não existem; comtudo a palavra n^zamhi si- 
gnifica Deus ; vocábulo este, mais ou menos modi- 
ficado, que se encontra mesmo entre os pigmeus 
que habitam perto do equador e que empregam o 
vocábulo niambi. Ligados comtudo á terra, sujeitos 
ás condições da vida material, os negros não pos- 
suem idéas abstractas. 

Exercem os bihenos algumas artes, principal- 
mente as de ferreiro e oleiro. A agricultura e crea- 
ção de gado são as industrias mais importantes. 

A capital do Bihé chama-se Gangombe e o chefe 
Quilemo. Esta libata Gangombe é um recinto qua- 
drado de iOOO metros de largo. 

Também aqui existe a terrivel superstição dè 
attribuir a morte a feitiços e de buscar reconhecer o 
auctor d'ella para o punir, ou para o expoliar. As 
guerras são excursões para roubar os visinhos. 



271 



X 



Para o sul do Dombe e confrontando com a ser- 
ra de Cheia, a lesle do litoral, eslão os Mu-cubaes, 
de que Brochado nos deixou uma descripção em 
1850. {Annaeí^ vol. i). 

A região dos M'.i-cubaes tem ao sul os Muximas, 
ao norte o Dombe, a leste a Cheia a oeste o Oceano. 
São varias as Iribus que habitam n'esla região, con- 
servando-se quasi independentes umas das outras; 
governados por sobas com seus macotas. 

O paiz é montanhoso e pouco productivo, salvo 
onde passam aguas correntes. 

O clima é ardentíssimo e doentio, e as aguas más 
e salobras. 

Os habitantes são timidos, vingativos, dados ao 
roubo c á ociosidade. São pastores; sendo a sua 
anica riqueza as manadas de bois; alimenlam-se 
principalmente de leite. Não lêem outras noções 
religiosas senão a crença nos feitiços. Cobrem-se os 
homens com duas pelles de carneiro, as mulheres 



272 

usam as mesmas pelles presas por um cinto de mis- 
sanga. 

As armas de que usam são a ílexa, a azagaia e 
o porrinho ou massa de arremesso {kiri dos Hoten- 
toles). 

Os productos naturaes são o sal e algum marfim. 
Cultivam pouco, nem as condições locaes a isso se 
prestam. 

Transposta a serra de Cheia, entra-se na região 
habitada pelos Munhaneca ou Ba-Nhaneca, como 
melhor os designa o sr. Nogueira no seu excellente 
livro A raça negra. N'esta região encontram-se di- 
versas tribus. Perto da grande cordilheira fica a Huilla 
em terreno de montanhas, com largas planícies, fér- 
teis e cortadas de muitos rios de boas aguas, onde se 
dão as colheitas da Europa, por ser temperado o 
clima e regulares as estações. Os habitantes, cora- 
josos e aptos para a guerra, usam a cabeça rapada, 
cobrem -se com o coiro de boi preso por azelhas á 
cintura e alguns usam pannos. Ás mulheres usam 
também de um coiro, cortado como uma toalha e 
segura por cinto de missanga; na cabeça trazem 
o cabello disposto em quatro rolos que saem do alto 
da cabeça. 

No Jau o terreno é menos cultivável por ficar 
grande parte d'elle no alto da serra; o clima é o 
mesmo da Huilla. Tributaria do Jau é a Umpata, 
que tem comtudo um sova chefe. 



273 

O Hay é ura pequeno estado tributário dos Cam- 
bos : tem apenas meia légua quadrada de território 
fértil e muito productivo, não só pela actividade 
agrícola dos habitantes como pela riqueza das pas- 
tagens. Quipungo e Quihita são dois estados peque- 
nos como o Hay, em parle montanhosas sendo mais 
quente o clima do que o d'este. 

Os Gambos formam um estado, relativamente, mui- 
to maior e por isso mesmo mais tyrannicamente gover- 
nado ; pois é facto, — segundo informa Brochado cujas 
noticias estamos extractando [Ann. Ultr. vol. i) — que 
nas terras dos gentios < qu^^nto maiores mais des- 
«potismos e arbitrariedades commettem os sobas, 
• porque é de sua crença assim fazel-o, para se tor- 
«narem temidos e respeitados pelo seu povo, o que 
«já não succede aos das terras pequenas, que lhes 
«convém afagar. « O terreno dos Gambos é pouco 
montanhoso e argiloso em parle, muito irreeular e 
variado ; na estação das chuvas a vegetação é forte, 
mas logo que estas acabam tudo cessa. O clima é 
mais quente que o de Jau e Huilla, por ter menor 
altitude; e a insalubridade é considerável. Menos va- 
lentes que os de Huilla os habitantes são bastante 
enérgicos e orgulhosos; a população é bastante den- 
sa. A cera é abundante, o marfim também apparece 
no mercado por serem os Gambos dados á caça; as 
minas de ferro são numerosas e ricas. 

Os Annaes do Municipio de Mossaínedes estão de 

VOL. m 18 



' 



ií74 

accordo com ais informações de Brochado acima ci- 
tadas, acerca das terras dos Ba-Nhaneca, e aceres- 
centam : 



«A origem da raça do gentio da Huilla, Hiim- 
pata e Jau é mu-nana, enlaçada posteriormente 
com a raça de Muximha, sendo a mais antiga a 
de Hay e Hompata; a de Huilla, porém, foi come- 
çada em época menos remota, segundo as tradi- 
ções do paiz, por um bando de mu-nanos emigra- 
dos, a cuja lesla vinha uma mulher e, com o trato 
que tiveram com os muximbas e gente das terras 
limitrophes, povoaram o Jau; este, ou em conse- 
quência de guerras que o favoreceram, ou por ou- 
tros quaesquer motivos, augmentou a população^ 
diminuindo a de Huilla; e achando-se por conse- 
quência o Jau mais povoado e poderoso, se tornou 
independente da Huilla já no tempo do actual soba, 
sendo hoje o sobado que governa os de Hampata 
e Macuma. » 



Os Annaes de Mossamedes mencionam a interes- 
sante festa do boi ou Geloa que celebra o gentio 
d'es!es sertões. Esta festa é também descripta pelo 
sr. Nogueira, fallando dos Ba-Nhaneca. Eis o que 
diz o sr. Nogueira : 

«Vem aqui a propósito dar noticia de uma ce- 



N 



275 

remonia, que usam os povos Ba-Nhaneca e que 
se não é propriamente um culto, para elle se en- 
caminha. » 

«Esta ceremonia, tendo por fim celebrar o estado 
de paz e abundância da terra, tem por symbolo ou 
objecto apparente um boi a que dão o nome de Ge- 
roa. O boi Geroa deve ser branco e preto, e acha-se 
entregue á guarda de um dos mais considerados 
senhores de terra, o qual tem o titulo de Muene- 
Hamboy que quer dizer «o maior pastor» ou «o 
pastor por excellencia» ; e é ahi acompanhado por 
outro boi, que tem o nome de Xicaca e por uma 
vitella com o nome de tembo-onjuOj como «dona 
da casa » . 

«No fim das colheitas, de julho a agosto, que é 
quando para elles termina o anno e com o appa- 
recimento da lua nova, é conduzido processional- 
meute o boi Geroa e seus companheiros, xicaca e 
tembo-onjuo, desde a residência do Muene-Hambo 
até a do Hamba, distancia que em Gambue é de 
umas sele léguas, servindo-lhe de cortejo um nu- 
meroso acompanhamento de donzellas enfeitadas 
na cabeça com grandes enfiadas de bagos de va- 
rias sementes, e de homens com as caras pintadas 
de um barro branco, a que dão o nome de peio 
e que tem uma significação de felicidade. Na re- 
sidência do Hamba, primeiro o Muene-Hambo 
depois aquelle, chegam á bocca do boi Geroa o 

18# 



276 

pó de uma casca do pau, bastante amarga e a 
que dão o nome de bunyuriiUo; se o boi lambe 
aquelle pó é um bom agouro, c o Muene-Hambo 
recebe toda a sorte de felicitações e obséquios, 
taíito do Hamba como dos principaes da terra, se 
o não lambe é um presagio mau e n'esse caso o 
Muene-Hambo deve pagar com a vida aquella pre- 
dicção funesta. Escusado é dizer que o boi lambe 
sempre o pó, ao que facilmente tem sido acostumado. 

«Immediatamente a este acto, o Hamba toma a 
palavra e profere um discurso, em que relata o 
estado das suas relações com os povos visinhos 
e diz o que pretende fazer no novo anno. N'estes 
discursos dão por vezes provas de uma grande sa- 
gacidade. 

«Ao discurso segue-se uma dança em honra de 
uma mulher do Hamba que tem o titulo de Kini 
e outra um nome da Tembo. 

« Durante os dias da festa a alegria deve ser Ião 
geral que não é permitido chorar os mortos.» 

E conclue a narrativa: 



«Tal ó a festa de Gcroa. Não parece haver em 
«tudo isto uma vaga reminiscência do culto do boi 
« Apis, lambem branco e preto, também presagiando 
«o futuro e acompanhado por uma vacca? 

Passando os Gambos, ao longo do rio Caculo-Var, 



Á 



277 

vae-se, por terras arenosas e por malas de regular 
grandeza, ao Hnmbe; a vinte e cinco léguas do li- 
mite da terra dos Gambos. O Humbe vae até ao 
Cunene e lerá ao longo d'esle rio umas vinte léguas 
de comprimento. No seguimento do rio vae-se a 
Camba por um matto muito denso e por areia solta: 
este caminho é povoado de elephanles e zebras. 
Camba também chega á margem do Cunene: é 
muito dado a guerras. D'aqui a Mulondo o caminho 
é parecido ao anterior :é também povo dado a guer- 
ras, com o que tem perdido da sua antiga impor- 
tância. O gentio nas Ires terras é o mesmo e tem 
os mesmos usos e costumes; são os Mahumbos ou 
Ban kumbi. Estes povos crêem no Ente Supremo 
que chamam Suco e crêem também n'outro poder 
grande que chamam Callungo (mar). Teem a su- 
perstição dos feitiços e das almas do outro rfiundo. 
A successão passa sempre pelo sexo feminino. O 
governo é de sovas com o concelho dos macotas. 
Existe a polygamia; as mulheres usam pannos e 
missanga no pescoço e coraes variados na cabeça: 
usam o penteado puxando o cabello da nuca á lesta, 
cobrindo as orelhas com rodas de cabello, que imi- 
tam as orelhas da girafa. Os homens trazem a ca- 
beça rapada com dois ou Ires rabichos no alio da 
cabeça, missanga no pescoço c pannos a cobrir 
adiante e alraz. Untam-se com manteiga mas não 
se pintam com tacula ou outras substancias, 



278 

Âs siiâs sementeiras são de massambala, mas- 
sango, macunda e uma variedade de amendoim: 
não usam o milho porque não gostam d'elle. Estru* 
mam as terras e por isso manteem estas a fertili- 
dade. São mais pastores do que caçadores e por 
isso colhem pouco marfim apesar de haver muitos 
elephantes. 

O soba que morre conserva-se na própria casa 
e a noticia não se divulga até apodrecer e a cabeça 
se despegar do corpo : então vão buscar o herdeiro. 

Quando morre algum d'elles busca descobrir-se 
qual fora o feiticeiro que lhe causou a morte e este 
é punido. 

Os homens são circumcisados. Usam como ar- 
mas a porrínha ou massa de armas com muita dex- 
tridade, também empregam as armas de fogo com 
negligencia e pouco cuidado em obter munições. 

Estas informações são dadas por Brochado e me- 
recem certa confiança. 

O que diz o sr. Nogueira sobre os povos Ba- 
Nanheca e Ban-kumbi completam este quadro. 

«Quem vive na Europa ou em qualquer parte 
f do mundo civilisado, se pensa alguma vez no que 
t se passa entre os povos que dizemos bárbaros e 
« selvagens, é para suppor que elles são todos cruéis 
«e ferozes, que não fazem mais do quedarem-se caça 
«mutuamente, que desconhecem todas as regras e 



279 

deveres em que se fundam as sociedades regular- 
mente organisadas, que não respeitam nenhuns 
direitos, ou que só reconhecem o direito do mais 
forle, emfim, que o seu atraso é, ao mesmo tempo 
que a prova da sua grande inferioridade o mais 
brilhante documento de quanto nos temos adian- 
tado, 

«Por mais lisongeira que seja para nós seme- 
lhante conclusão e que ella se funde nas ap- 
parencias, a verdade é que nem sempre o es- 
tado social de alguns povos selvagens é tão bár- 
baro como nos parece, nem tão superior é tam- 
bém a alguns respeitos aquelle a que temos che- 
gado. 

«Tendo residido entre osBa-Nanheca e os Ban- 
Kumbi, no interior de Mossamedès, desde i85i 
até i862 pude observar e mostrarei com os fa- 
dos, que se os costumes e o estado de civilisação 
de uma sociedade gentilica, por mais adiantada, 
não são para nos servir de modelo, os costumes 
que por cá temos, os erros, os preconceitos e os 
abusos que por ahi imperam, nos estão asseme- 
lhando mais do que geralmente pensamos a esses 
povos primitivos e nos fazem mesmo excedel-os 
ás vezes, em actos de requintada malvadez e per- 
versidade. 

«Nos Gambos e no Humbe (Gámbué e Kumbi) 
nunca se praticou, em quanto alli estive, assassi- 



280 

nato algum, não obstante todos os homens anda- 
rem armados e não haver policia nem força al- 
guma pubhca encarregada de manter a ordem. 
Só depois da occupação militar d'aquelles pontos 
pelo nosso governo, é que se deram alguns casos 
de assassinatos em soldados .por gentios ; mas es- 
ses factos, tendo um caracter politico por signifi- 
carem uma reacção contra o nosso dominio e além 
d'isso sendo provocados pelos excessos das nos- 
sas auctoridades, devemos excluil-os dos crimes 
ordinários. Perguntámos alli se alguma vez um 
íilho tinha attentado contra os dias de seu pae ou 
mãe. Nem sequer nos comprehenderam ; e depois 
só nos responderam com o espanto. N'aquelles es- 
piritos inferiores nem sequer se admitte a possibi- 
lidade de crimes tão espantosos. Não ha alli exem- 
plo algum, próximo ou remoto, de se ter perpe- 
trado um crime semelhante. 

€ Entre nós e apezar dos meios de força que se 
empregam para prevenir e evitar estes crimes, não 
só os simples assassinatos mas até os parricidios 
e outros crimes d'esta ordem são vulgares. 

«Entre aquelles selvagens ha gente mais ou me- 
nos favorecida dos bens da fortuna, ou relativa- 
mente pobre, mas a miséria, como se apresenta 
entre os povos civilisados repugnante e degradada, 
é aUi desconhecida. Alli o necessitado pede fran- 
camente, naturalmente podemos dizer, sem humi- 



284 

«Ihação nem baixesa, o que precisa e que não pode 
«obter de outro modo; aqui a civilisaçâo engendra 
«a miséria repugnante e feroz, que inventa as ulce- 
«ras e cega os olhos ás crianças para excitar o sen- 
«limento da caridade. 

«Os bens materiaes, que constituem a riqueza, 
«consistem, em primeiro logar, nos gados; cada 
«chefe de famiha possue ao menos algumas vaccas, 
«algumas cabras óu carneiros. 

«A terra é do soba, o que quer dizer é de to- 
«dos; cada um cultiva a porção que lhe é necessa- 
«ria, segundo o numero de pessoas que tem a sus- 
« tentar. Os fructos, a caça, e tudo o que a natureza 
«espontaneamente produz são bens de todos. 

«A fome entre elles só é conhecida por occasião 
«das grandes seccas, que, com as guerras, consti- 
«tuem as suas maiores calamidades. Entre nós mor- 
«re-se de fome mesmo em. tempos normaes. . . 

«A mulher honra-se eoa; 5^ mãe; entre nós o 
«sentimento materno nem sempre impede que mui- 
«tas mães abandonem ou matem os seus filhos. 

« Alli ha a Uberdade de costumes, que mais é in- 
«nocencia ou ignorância do mal do que verdadeiro 
«vicio, mas não ha a prostituição asquerosa e im- 
« munda como se acha estabelecida e «organisada»» 
«entre nós. 

•(A escoria social, a que entre nós se dá o nome 
«de canalha, também aUi não existe. 



í 



282 

«Não teem hospitaes nem asylos, mas também 
não teem prisões nem d^ellas carecem. 

t O roubo é geralmente praticado com o simples 
caracter de furto. São raros os assaltos aos cami- 
nhos, não obstante estes atravessarem extensas 
mattas solilarias e, os que se praticam, são qnasi 
sempre devidos a represálias entre dois povos ini- 
migos, sendo muitas vezes respeitadas as fazen- 
das dos brancos, principalmente se estes se con- 
servam estranhos e imparciaes a essas dissensões. 

« Entre nós, o roubo violento á mão armada pra- 
tica-se ahi em qualquer estrada, dentro do paiz, 
armado e policiado, e ás vezes dentro mesmo de 
povoações importantes. 

(Aqui estão alguns contrastes entre a nossa ci* 
vilisação c aquella selvageiia. 

«Mas analysemos ainda: entremos mais pela or- 
ganisação politica e social daquelles povos. 

«Ha entre elles uma nobreza, que se divide em 
duas classes: uma hereditária ou dos hambas, que 
é a dynastira e que se compõe unicamente dos 
membros da família reinante, outra vitalicia e que 
é formada pelos chefes, espécie de cheiks, encar- 
regados de administrar a justiça e velar pela or- 
dem nas diversas circumscripções administrativas 
e da qual saem os conselheiros effectivos dos Bam- 
bas. 

«Os poderes do Hamba ou chefe do estado são 



283 

absolatos, mas mais paternaes do que lyrannicos^ 
e subordinados ás leis tradiciojiaes representadas 
nos costumes. 

tOs conselheiros do Hamba teem a seu cargo a 
interpretação e applicação d'essas leis nos diffe- 
rentes casos de litigio que se propõem ou sobem 
á decisão d'este. 

«O Hamba raras vezes se encontra em desacor- 
do com os seus conselheiros, coníormando-se ge- 
ralmente com a opinião d'estes. Dão-se mesmo ca- 
sos de prevalecer a opinião do conselho contra a 
do Hamba. Isto porém depende até certo ponto do 
caracter d'este. 

«cO conselho eíFectivo do Hamba compõe-se de 
um certo numero de senhores de terra, parte dos 
quaes residem junto d'este, e ahi exercem funcções 
permanentes, e outros servem temporariamente. 

«Cada senhor de terra administra a justiça na 
circumscripção que tem a seu cargo, mas tão so- 
mente em juizo de conciliação; se as partes se não 
conciliam dirige-se com ellas ao Hamba, e este 
ahi decide, com audiência e consulta do seu con- 
selho, em ultima instancia. Estes processos verbaes 
e summarios são extremamente rápidos, e as sen- 
tenças, são quasi sempre justas. A prova testemu- 
nhal é admittido, e a pena de morte raras vezes 
applicada. Ordinariamente substitue-a, como entre 
todos os povos no mesmo estado de civilisação, 



«uma multa, mais ou menos importante conforme 
«a gravidade do crime. 

«Com os defeitos inherenles a uma tal organisa- 
«çâo judicial e administrativa, os abusos ainda as- 
«sim são raros, bem como as injustiças. 

«Todos os cargos públicos são gratuitos. Só o 
«Hamba cobra uns como emolumentos dos pleitos 
«que se decidem perante elle, mas relativamente 
« módicos. 

«Também não ha impostos, a não se querer consi- 
« derar como taes os presentes de pouca valia, que os 
«senhores de terras dão aos Hambas, sem comtudo 
«os exigirem dos povos que administrara, ou os ser- 
« viços pessoaes, raras vezes exigidos, a que todos 
«estão subjeitos. 

«A única contribuição que tal nome merece é a 
« que se acha estabelecida para os caçadores de ele- 
«phantes, os quaes são obrigados a dar ao Hamba 
«um dos dentes de cada elephante que matara. 

«Os Hambas teem o tratan ento de Táte-cnlo, que 
«se pode traduzir por «meu grande pae», e que é 
«o epitheto mais respeitoso que elles conhecem. 

«Os homens mais imporlantes, pela sua riqueza 
«ou posição official, e até o próprio Hamba são ac- 
«cessiveis a toda a gente. Muitos pretos, simples 
«súbditos ou simples escravos, como elles dizem no 
«sentido politico que também tem esta palavra, ou- 
«sam dizer aos Hambas verdades duras e amargas. 



285 

«Os ricos e poderosos quanto mais alto colloca- 
dos, mais benévolos e attenciosos se mostram para 
com os menos favorecidos da fortuna. 

«Não teem uma religião definida, com symbolos 
ou quaesquer formas externas, mas acreditam na 
existência de Deus, ou pelo menos de um Deus, 
e chegaram já a um estado de consciência muito 
elevado. O juramento entre elles tem a seguinte 
formula: assim eu te injurie, ou assim eu injurie 
os mais velhos, ou ainda, e este é o mais forte de 
todos, assim eu injurie meu pae ou minha mãe, — 
expressão cândida que está a revelar o que ha de 
pureza em tacs consciências. 

«A escravidão é uma instituição legal entre elles, 
mas os escravos são tratados como pessoas de fa- 
mília. 

«Não ha um preto gentio possuindo escravos, qne 
lhes dê publicamente este nome, e sim o de filhos 
ou sobrinhos. E, com eífeito, na falta de herdeiro 
legitimo (sobrinho íilho de irmã ou irmão filho da 
mesma mãe, que tal é a ordem de successão entre 
elles) é adoptado como tal o escravo mais antigo. 

«As mulheres são excluidas da herança, mas po- 
dem possuir o que adquirirem, o estabelecer casa 
própria. 

«Os filhos tomam sempre o nome de familia da 
«mãe, isto é, da anda ou totem a que esla pertence. 

«Todos os homens são soldados, isto é, servem 



286 

na guerra, e lodos andam arniados, mesmo em 
tempo de paz. As guerras, tendo por pretexto of- 
fensas ou injurias a vingar, ou direitos dynasticos 
a sustentar, teem por fim verdadeiro a conquista 
ou usurpção dos bens alheios, isto é, são sob uma 
fórma mais simples o que são ainda entre nós. 

•Parecem-nos desnecessárias as demonstrações 
a este respeito. Excepções também alli as ha. 

«Nas guerras não são mais bárbaros do que nós 
nas nossas, e ás vezes menos. Com effeito seria 
impossivel exceder o que ainda ha pouco referiram 
os jornaes da recente guerra turco-servia, ou ainda 
das barbaridades praticadas na Hespanha pelos fe-. 
rozes carlistas. 

«O duello entre elles tem uma fórma original 
e que merece ser aqui mencionada. Quando dois 
homens se indispõem a ponto de procurarem ag- 
gredir-se, o que todavia é raro, os parentes ou ami- 
gos de ambos dão a cada um uma pequena vara, 
colhida, no momento, de uma arvore qualquer, ti- 
ram-lhes as armas, e convidam-os a balerem-se 
d'aquelle modo para lhes passar a raiva do cora- 
ção. Então os dois campeões fustigam-se mutua- 
mente até que um, ou ambos, se dêem par satis- 
feitos, terminando o combate geralmente por uma 
mutua reconciliação. Será brutal isto, mas os nos- 
sos duellos, principalmente os de morte, estenden- 
do as suas fataes consequências ás pessoas que 



287 

dependem do que succumbe, não nos parece me- 
nos bárbaro. 

«Sem conhecerem a imprensa, lêem comtudo um 
meio de publicidade que merece ser referido. 

«Todo o homem que encontra outro conta-lhe 
tudo que sabe do occorrido n'aquelle dia, e recebe 
d'elle uma confidencia egual. D'este modo as no- 
ticias communicam-se aos pontos mais distantes ás 
vezes com uma rapidez prodigiosa. 

«N*este estado de civilisação tão inferior, sem 
escolas, sem academias, sem sociedades litterarias 
ou scientificas, sem syslemas philosophicos, sem 
religião ou acreditando simplesmente em Deus, sa- 
bendo de algumas cousas apenas o que não po- 
dem ignorar, e entregues á maior liberdade, aquelles 
povos vivem felizes e satisfeitos, sem os requintes 
da civilisação é verdade, mas também sem os vicios 
hediondos e a profunda desmoralisação, que são 
o triste apanágio das sociedades mais adiantadas. 

«Disse ha pouco um viajante inglez que do puro 
africano ainda não mal tratado pelo europeu podia 
fazer-se o que se quizesse. E disse uma grande 
verdade. Com effeito a aguardente, a pólvora e o 
chicote são os únicos instrumentos de civilisação 
que nós os civilisados lhes temos fornecido. O chi- 
cote era-lhes um instrumento tão estranho que se 
viram obrigados a adoptar-lhe o nome: chócóte 
dizem elles. 



288 

«M. Wallace, citado por Sir J. Lubbok, observa 
«que os povos civilisados «deixaram atraz de si os 
« selvagens pelo que diz respeito a intelligencia, mas 
« que os seus progressos não teem sido tão sensíveis 
« quanto á moral. * 

«Em um estado social perfeito, accrescenta elle, 
«a organisaçâo intellectual de cada individuo deve- 
«ria ser sufficientemente esclarecida para lhe per- 
« mittir comprehender a lei moral em todos os seus 
«detalhes, e para que, sem outro motivo, a impul- 
«são da sua própria natureza o levasse a obedecer 
«a essa lei. Ora ha um facto notável, é que os po- 
«vos cuja civilisação se acha no estado rudimentar 
«se approximam de alguma sorte d'este estado per- 
«feito.» 

jíM. Wallace affirma mesma que «a massa das 
«nossas populações não tem feito nenhum progresso 
«sobre o código moral dos selvagens, e em muitos 
«casos tem caido abaixo.» 

«De algumas tribus que visitou faz -nos M. Wal- 
«lace o seguinte quadro: «Cada individuo respeita 
«escrupulosamente os direitos do seu visinho, e es- 
«tes direitos não são nunca ou são raramente in- 
«fringidos. Uma egualdade quasi perfeita reina n'es- 
«tas tribus. Não se encontra alli nenhuma das enor- 
«mes distancias de educação e de ignorância, de ri- 
«queza e de pobreza, de amo e de servo, que são 
«ò producto da nossa civilisação; alli não ha divi- 



X 



r 



\ 






289 

São determinada do trabalho, a qual, se augmenta 
a riqueza, tende também a produzir interesses con- 
trários. » 

«Esta descrípção concorda perfeitamente com o 
que também observamos entre os povos a que nos 
referimos do interior de Mossainedes. Sir Lubbock 
nega que taes factos provem que esses selvagens 
tenham um grande senso moral; a ser assim as 
abelhas e os corvos também o teriam, e adduz ou- 
tras razões e argumentos, que, apezar do grande 
respeito que temos por este escriptor, com cuja 
opinião concordamos a outros respeitos, não nos 
parece serem das mais concludentes para o as- 
sumpto. 

«Na nossa opinião, e sem pretendermos decidir 
na matéria, o estado social dos povos a que nos 
temos referido não é certamente superior ou pre- 
ferível ao nosso, mas, apezar das imperfeições que 
lhe são próprias, assenta em bases naturaes, que 
nós deviamos estudar com mais attenção, não para 
o seguirmos cegamente abandonando o que de bom 
e ulil temos conquistado mas para emendarmos 
muitos erros. 

«Aquelle estado não é preferivel ao nosso, tor- 
namos a repetir, mas as nossas sociedades civili- 
sadas acham-se corruptas até á medula^ desvaira- 
das por todos os erros e gangrenadas por todos 
os vicios, e se quizermos entrar em uma via larga 

VOL. m. 19 



290 

t de progresso, teremos de nos inspirar a alguns res- 
c peitos na pureza e simplicidade dos costumes prí- 
tmitivos.» 



XI 



Esta rápida viagem atravez dos povos que habi- 
tam Angola, mostra a diversidade de taças que se 
encontram n'aquelle extenso território, e a variedade 
de condições climatéricas e de solo, que facilitam ou 
difficultam a vida e tão poderosa acção exercem no 
melhoramento ou decadência do typo humano. 

Parece-nos que um facto, por muitas vezes indi- 
cado pelos escriptores que teem estudado a Africa, 
fica confirmado pelo que sabemos dos acontecimen- 
tos succedidos em Angola, desde que nós penetrá- 
mos n'aquelle vasto território da Africa occidental. 
Os povos africanos, nas suas imigrações e conquis- 
tas, seguiram e seguem um caminho que os leva, por 
uma causa desconhecida, de nordeste a sudoeste ap- 
proximadamente. 

Estes movimentos tiveram logar em épocas di-- 



291 

versas ; foram verdadeiras revoluções que se succe- 
deram por intervallos mais ou menos afastados; co« 
ma ondas de tribus, guerreiras pela maior parte, 
que vieram quebrar-se no litoral ao oceidente da 
Africa. As raças vieíam aqui a confundir-se e a tro- 
car-se umas com outras. Movimentos secundários, 
alguns em sentido opposto ao movimento geral, 
contribuiram ainda a tornar mais completa a mis- 
tura e accumulação de raças diíTerentes na parte da 
costa comprehendida entre o Zaire e o Gunene. 

No Conpendium de Stomford, ampliado por Keith 
Johnston, depois de uma curta indicação do modo 
porque actualmente se distribuem as principaes ra- 
ças na Africa, accrescenta-se : 

«Mas é perfeitamente evidente que esta não foi 
«a distribuição original d*estes povos. Assim os Hot- 
«tenlotes, nos quaes alguns anthropologistas incluem 
cos Boschimans, residiam antes mais para o norte 
•e se foram, gradualmente lançados pelos Bantus, 
tpara os seus estreitos limites actuaes. Os próprios 
t Bantus habitavam primeiro ao norte e nordeste, 
td'onde foram obrigados a mover-se para o sul pe- 
«las invasões dos Hamites da Africa Occidental. As 
«tradições dos cafres, Bejuanos, Heresos e, prova- 
«velmente, de todas as outras tribus Bantus, indi- 
« cam o norte e nordeste como a sua primitiva resi- 
«dencia. A principal divisão dos Damaras, Omu- 
«Curu, tem o seuthrono para o norte, e para o norte 



292 

«fica voltada a cara dos mortos quando depositados 
ena sepultura. 

cOs Bantus parece haverem descido primeiro pelo 
c litoral oriental até aos dominios Hottentotes n'aquel- 
tia direcção. Este movimento, porém, deve ter sido 
«seguido por uma segunda migração para o occi- 
« dente, atravez do continente em direcção ao Atlan- 
«tico, occasionada sem duvida pela pressão dos So- 
«mali, os Ormas; ou Gallas e outras tribus Hamiti- 
«cas fazendo caminho, provavelmente, para o paiz 
«do Nilo, hoje occupado por elles, entre a Abissinia 
« e as terras altas do Kilimu-Njara. Uma prova ma- 
«nifesta doesta ultima migração dos Bantus para oeste 
«encontra-se na notável similhança^ que ainda exis- 
«te, entre os idiomas Ki-Svabili fallados na costa de 
«leste e os dialectos do Mpongue da Baixa Guiné.» 

Este resumo das idéas geralmente acceitas, sal- 
vas variantes mais ou menos profundas, está de ac- 
cordo com os factos especiaes que se conhecem em 
Angola. 

Quando os descobridores portuguezes chegaram 
ao Zaire, já estava conslituido o império do Congo, 
resultado de uma invasão de povos de nordeste, que 
se misturaram com outros povos de origem mais re- 
mota, e sobre elles estabeleceram os seus dominios. 
Como diz Cadornegaa «nação Mexiconga fora sem- 
«pre reputada por estrangeira avenidiça, que havia 
«vindo da terra dentro a dominar este reino.» 



293 

Mais tarde o Congo foi atacado por uma invasão 
dos Jagus ou Mujacas, que o poz em grande peri- 
go e foi o valor porluguez, que os livrou tda op- 
«pressão em que estavam.» Posteriormente, um rei 
do Congo chamado D. Aífonso Affonso pediu auxi- 
lio ao governo portuguez contra Jozão Tamba que o 
ameaçava, favorecido pela nação «a que chamam 
fMajacas, que são tão ferozes como os Jacas.» 

A procedência d'estas raças invasoras do Congo, 
como as das que agora encontrou alli Mr. H. John- 
ston, é do nordeste. 

Dos Jagas, a quem se deve attribuir uma extensa 
e temerosa invasão de Angola pela fronteira orien- 
tal, já dizia Cadornega que «desceram doeste ser- 
«tão dentro dominando muita parte d'esta vetusta 
«Ethiopia.» 

Pondo de banda os movimentos secundários, que 
tornam obscuro o movimento geral das populações 
mas não o contrariam essencialmente, reconhece-se, 
nos factos que se observam do Congo ao Cunene, 
que o foco das emigrações e conquistas tem sido ao 
nordeste d'Africa, e que, por abalos successivos, tem 
vindo acabar no littoral de oeste ou nas suas pro- 
ximidades, quando as emigrações anteriores puzeram 
obstáculo a que o movimento se completasse. Como 
um dos caracteres quasi geraes das conquistas das 
Iribus africanas e da formação dos impérios é a ab- 
sorpção e a incorporação das tribus conquistadas 



294 

nas tribus conquistadoras, d'abi resulta a mistura 
dos caracteres physicos a ponto de tornar difficil a 
descriminação das feições typicas das raças.Se jun- 
tarmos a isto que os povos selvagens da Africa es- 
tão, evidentemente, n'um período de evolução, acces- 
siveis a todas as influencias, recebendo do clima, 
do solo, da alimentação uma acção preponderante; 
se notarmos que não ha historia que nos esciareç;i 
e apenas se encontram tradições confusas, em que 
uma tendência exagerada ao maravilhoso e uma fu- 
nesta disposição ao fanatismo obscurecem e desviam 
a verdade, fácil é comprehender as dificuldades que 
se oppõem á reconstrucção, mesmo mal deflnida, da 
historia das emigrações, das conquistas e dos im- 
périos, que teem agitado a existência rude, singela 
e feroz do grande continente. 

Busquemos, comtudo, interpretar os dados co- 
nhecidos do difficil problema na África occidental, 
comprehendida entre os dois rios Coango e Cunene. 

Paliando dos habitantes do alto Congo o sr. Jo- 
hnston diz-nos, que se encontram primeiro os Ba- 
teki a que se misturam os Ba-yamzi, estes últimos 
sendo commerciantes e não colonisadores sedentá- 
rios. Mais adiante as duas raças estão singularmente 
misturadas. Em quanto os Ba-teki parece terem a 
sua verdadeira origem a N. 0. para os lados do 
Ogove; os Ba-yanzi provêem do alto-rio, defron- 
tando alli com os selvagens Ba-ngala do equador. 



295 

Estes Ba-yanzi não são caçadores muito activos, 
mas vão buscar o marfim como mercadoria ás visi- 
nhanças do equador, regido de que procedem. Não 
teem gado mas dão ao búfalo o nome de ny-ombuj 
termo com que a lingua Bantu designa o boi. Di* 
versos costumes d'estes povos recordam os costu- 
mes dos Jagas de Angola; sendo para chamar a 
attenção que as casas tenham, como ornato, craneos 
humanos. 

Este povo dos Ba-yanzi é puro Bantu e por isso 
se assemelha muito ás outras raças puras da mes- 
ma origem, como os Ba-lunda e os povos do Tan- 
ganica. Teem a pelle côr de chocolate escuro e lar- 
gos cabellos. Barba e bigode, que muitas vezes ar- 
rancam, desenvolvem-se na cara dos Ba-yanzi. 

Temos pois, no Congo, a raça invasora dos Ba- 
yanzi, representando a grande emigração do N.E., 
com caracteres physicos que, em geral, distinguem 
os povos vindos doesta alta região: temos uma cor- 
rente secundaria, vinda do N. 0., a dos Ba-teke tes- 
ttes parecem ser, comparativamente, chegados de 
«pouco e haverem deslocado os antigos habitantes, 
«arremeçando-os para o interior ou absorvendo-os 
« como escravos. » 

Estas invasões foram precedidas pelas conquis- 
tas dos Bâ-Congo, que dominaram todo este distri- 
cto e fundaram o grande império. 

Nas margens do grande rio, perto do mar, existem 



296 

OS Ba-chi-congos «que representam a vanguarda 
< da invasão Bautu n esta direcção, misturada com 
<a população negra anteriormente estabelecida.! 

Estes factos, tão claramente indicados nas mar- 
gens do Congo pelos estudos de Jõhnston, repro- 
duziram -se, com pequenas variantes, na provincia 
de Angola até ao Gunene. 

Ao passo que se formava o império do Gongo, 
cujo poder se estendia para leste, nordeste, sul e 
sudeste até a limites mal definidos, constituia-se 
também, por meio de emigração e conquista, o reino 
de Angola. 



XII 



Quando os portuguezes entraram no Gongo, o 
reino de Angola tinha sua existência distincta, mas 
parecia estar sujeito ao domínio do grande império. 
Factos posteriores, em que tivemos não pequena 
parte, operaram a completa independência. Era cla- 
ramente este antigo reino de Angola o resultado 
de uma conquista. As relações que W. Reade en- 



297 

controu entre os povos de Angola e os Fulos pode 
talvez dar alguma luz sobre a origem d'esta emigra- 
ção. O que é certo é que os reis de Angola ou 
Dongo estiveram longo tempo em lucta com o Con- 
go: e, se notarmos a significação da palavra Congo 
na lingua de Angola, isto é, devedor ou tributário 
podemos ser levados a crer que os reis de Angola 
dominaram algum tempo n esta terra. A organisa- 
ção do Congo e de Angola apresentam tanta ana- 
logia, que bem se pode reconhecer que um e outro 
reino formaram um mesmo império, ou estados tendo 
entre si as mais estreitas relaçõees. 

No Congo havia muitos duques, marquezes e con- 
des tque possuiam muitas terras e vassallos, reco- 
«nhecendo a el-rei do Congo por senhor, como a 
•feituras d'aquella coroa» diz Gadornega. O rei, 
accrescenta o mesmo auctor, dá poder aos duques 
seus parentes para t apresentarem em suas terras 
e senhorios» outros senhores com titulo de marque- 
zes. Claro é que estas designações de duques, mar- 
quezes e condes, foram dadas áquelles senhores do 
Congo por analogia com o que se passava em Por- 
tugal, porém os factos, que é o que imporia, aucto - 
risavam estas designações. 

Despojados pelas nossas conquistas angolanas, 
os antigos monarchas foram-se retirando para o ser- 
tão, onde os descendentes d'esses monarchas se es- 
tabeleceram na Ginga. Entre estes descendentes con- 



298 

ta-se a notável D. Aona de Sousa, mais conhecida pelo 
nome da Ginga terra para onde se recolheu «sahi- 
«da que foi dos reinos de Angola e Donga que to- 
«raou, abraçou os ritos e costumes dos Jagas» : re- 
duzindo-se depois esta rainha Ginga «á nossa re- 
«ligião chrislã, metigou parte do seu orgulho». No 
paiz da Ginga, onde se encontram os últimos ves- 
tigios da velha Angola, os srs. Capello e Ivens 
observaram uma organisação parecida com a do 
Congo. 

Este reino da Ginga ou Jinga divide-se em três 
provincias, Sussa, Danje e Dongo a que foi anne- 
xado Matamba. «Como todas as nações velhas e 

< caducas, dizem os dois exploradores, deixa-se a 

< Jinga escorregar pela inclinada senda que a con- 
«duz â aniquilação, fraca, perdida.» 

O chefe da Ginga ainda conserva titulo de rei, 
com sua corte e vassallos, tendo titulos «de duques, 
«condes, marquezes, que elle explora em proveito 
«próprio.» 

«A Ginga está dividida não em feudos, porque 
«ninguém d*elles é senhor directo, mas em muitas 
«propriedades, cujo usofructo aufere qualquer vita- 
«liciamente e que depois o monarcha se reserva o 
«direito de empregar ou ceder a validos. 

«A concessão faz-se, segundo a ordem do valor, 
« a individuos que, por esse facto, teem importância 
« e designações diversas, constituindo assim a escala 



299 

«hierarchico-social complicada, a qual passamos a 
«descrever.» 

«Os primeiros são os vundas (espécie de duques), 
«depois os candtts (talvez condes), quittumjes, zwn- 
«dos, dambis, capelles, catecos^ ngola-n boles, (es- 
«pecie de secretários), maíomiizumos, ele, que nas 
«terras cedidas, rodeados de escravos, compõem o 
«séquito real.» 

Os gingas teem formas elegantes, mas são fran- 
zinos: teem grande cuidado nos penteados, orna- 
dos com metal, plumas, missanga. São porém da- 
dos a viagens; e este facto, conjunctamente com a 
côr retinta da pelle e outras circumstancias, recor- 
da ainda a sua longa existência nas baixas terras 
junto do mar. 

O que sabemos dos potentados Dembos, que os- 
tentam a magnificência de reis, como nota Cardor- 
nega, parece confirmar as relações de soberania e 
de vassallagem que existiram entre Congo e Angola. 
Os Dembos reconheceram algum tempo o rei do 
Congo, mas, baptisados e destruido o reino de An- 
gola, recobraram a sua plena independência, reco- 
nhecendo-se comtudo vassallos dos reis de Portu- 
gal. 

Para o norte dos Gingas ficam os Hungos e os 
Jaccas de que anteriormente falíamos. Os Jaccas, até 
onde chegou a interessante exploração portugueza 
ficam a pouca distancia, relativamente, do rio Congo 



300 

e nas margens do Coango. Estes povos teem, sem 
duvida, relações de origem na Landa; e apresentam 
na sua ascendência semelhança com os ma-quioco, 
que lhes ficam muito ao sul, como veremos. São 
muito selvagens e desconfiados;' teem penteados 
muito variados: andam quasi nus: teem pouco ga- 
do especialmente o vaccum^ que só o regulo pode 
possuir. Isto merece notar-se porque mostra, que a 
posse de bois é uma riqueza excepcional e tida co- 
mo um privilegio real. Entre os povos da raça 
Bantu o boi ng-ombu é muito apreciado e, em mais 
de um logar, os povos africanos prestam ao boi uma 
espécie de culto: ora, conforme diz Johnston, os 
Ba-yanzi nas margens do Congo, visinhos dos Jac- 
cns, não conhecem o boi e chamam-lbe búfalo, ng- 
ombu. 

Os povos ma-hungo, entre Jacca e Ginga, tem 
um typo especial. São bronzeados e não negros co- 
mo os de Ginga, usam penteados singelos ou antes 
a carapinha solta: manilhas de latão; pelle pintada 
de azeite e argilla ; dentes incisivos partidos ; são atre- 
vidos e selvagens. As mulheres são mais feias do 
que os homens; teem porte selvagem; côr fula e 
manchada; andam nuas; e são tidas, como escravas, 
de muito menos valor do que as vaccas. As habi- 
tações são immundas e apenas usam utensílios de 
barro e moveis de madeira muito toscos. Reconhe- 
cem como chefe o rei do Congo. 



30i 

Esta circumstancia e a descripção que Johnston 
faz dos Ba-Gongo leva a suppor^ que os ma-bungo 
são parte da mesma raça, separada do corpo prin- 
cipal, cortada pela invasão de Jaccas que se inter- 
poz. Com effeito diz-nos Johnston que os ba-congos 
não tem o perfeito typo bantu: tem a pelle muitas 
vezes côr de chocolate ou vermelho escuro e não de 
um negro fechado como a pelle das tribus da cos- 
ta. Não fazem escoriações na pelle, como ornato; 
tem bastos cabellos: quebram os dois incisivos su- 
periores. A circumcisão é um rito semi-rehgioso. O 
caracter dos Ba-congo é indolente ; são supersticio- 
sos, crêem em feitiços. A mulher é uma mercado- 
ria, «a honra da mulher é medida pelo preço que 
«esta custa.» 

Para o sul da Ginga encontram-se os vestigios e 
até as tradições manifestas de uma ou mais inva- 
sões de grande importância. Qs srs. Capello e Ivens 
dizem-nos, que na margem do Cuango, habilavem os 
ma-quioco e ma-songo, antes de ahi chegarem os 
ban-gala. Já em outro logar indicámos vagas rela- 
ções entre os ma-quioco e jaccas. Talvez uns e ou- 
tros representem os resultados de uma invasão re- 
mota : talvez a dos Jagas ferozes, que invadiram o 
Congo 6 a que acudiu D. João n, que conseguiu 
libertar o império. Como os Jaccas, nome que lhes 
dão os exploradores portuguezes, os ma-quioco são 
caçadores, pescadores e pouco agricultores: uns e 







/ 

^ 



302 

outros parecem teryindo da Lunda; andam quasi 
nas, tem penteados originaes e diversíssimos. 

Os exploradores, cujas observações interessantes 
temos tantas vezes citado, notam que, tanto sob o 
ponto de vista pbysico como intellectual, os gaan- 
guelles e ma-quioco apresentam um typo superior, 
em relação ás tribus visinhas, sobretudo para o lado 
do mar: accrescentam mais que os bienos, gangueU 
les, quiocos, etc, apresentam entre si traços geraes^ 
que se podem resumir no seguinte: c Esqueleto des- 
«envolvido, ossos proeminentes, músculos fortes, 

< curvatura pronunciada da columna vertebral logo 
«acima da bacia, craneo dolicbocephalo, chato dos 
«lados, arqueado no frontal, dentes obliquos éice- 
« dendo os superiores, a côr da pelle variando do 

< preto ao bronzeado escuro. ■ Em vista d'estãs ob- 
servações não pode ficar duvida de termos aqui os 
vestígios claros de uma emigração do nordeste, que 
abrangeu em grande extensão^ a vasta região que 
estamos estudando. 

Parece-nos egualmente claro que uma segunda 
invasão se deu posteriormente n'esta região, codk) 
observam os exploradores Capello e Ivens, onde pri- 
meiramente habitavam os ma-quioco e ma-songo e 
dominam agora os ban-gala: isto foi o resultado de 
uma invasão. 

Os Ban-gala são bellicosos e turbulentos ; muito 
dados a litígios por tudo e, particularmente, por sup- 



303 

postas feitiçarias, em que muito crêem. São os Ban- 
gala indolentes, e as mulheres são as que cuidam 
da casa e trabalham quasi exclusivamente nos cam- 
pos: os homens, porém, gostam das viagens e são 
os intermediários do commercio do interior. Em 
quasi tudo e, especialmente, na sua intervenção no 
commercio interior, se parecem estes povos com os 
ba-yanzi do alto Gongo. 

Não dando ás lendas indigenas maior importân- 
cia do que ellas na realidade merecem, comtudo 
não se pode deixar de lhe ligar certo interesse: 
n'este caso conservam os povos d'esta região vagas 
noticias, que parecem ligar entre si a historia de toda 
ella: o que está em harmonia com a analogia dos 
usos e costumes, que se notam entre esses povos. 

N'Dumba Tembo, importante regulo de Quioco, 
contou aos nossos exploradores, a seguinte lenda: 

tOuvi contar a meus avós, que toda esta terra 
«que se estende ao longo do Coango, de cá e de lá, 
terá n'outro tempo pouco povoada. Existia já o po- 
cderoso governo dos lundas e também uma mulher 
«na mesma Lunda, denominada Tembo ou Luco- 
«quessa, que tinha três filhos chamados N'Dumba 
«Tembo, Musumbo-Tembo e Cassanje-Tembo, ca- 
«çadores notáveis, possuindo grandes partidas de 
«gente, com que vagueavam pelo sertão, perseguin- 
«do e matando os animaes que viam no caminho. 

«Questões serias, porém, com o chefe do estado, 



304 

«deram em resultado a perseguição dos três caça- 
f dores, fugindo elles para oeste, com grandes tro- 
<ços de gente, na intenção de ahi se estabelecerem. 
«Abandonaram, pois, a Lunda, e, avançando para 
«a margem do Cuango, conquistaram os povos que 
«por alli se achavam dispersos, dividindo as terras 
« entre si pela forma que vou indicar. 

«N*Dumba-Tembo tomou para si o T'chiboco 
«(Quioco), tendo por limites ao sul ò Cassai, pro- 
«ximamente, ao oeste o Jombo, ao norte o Mieji, ao 
«poente o Cuansa e o Luce por leste; Musumbo- 
« Tembo tomou o Songo, isto é, a terra que fica en- 
«tre o Guando e Tala-Mugongo até ao €uije; Cas- 
«sanje-Tembo escolheu para si as terras que no 
« norte se estendem entre o Cu-ango e Tala-Mogon- 
«go, sob a denominação de Quembo, Songo e Holo, 
«passando a chamar- se /agf^a d'ellâs. 

«Nas melhores condições com os povos avassal- 
« lados, começaram as suas relações, casando com 
«os filhos d'estes, e organisando emfim os estados 
«que hoje conheceis. 

« Continuando as conquistas para o oeste, esta- 
«beleceram diversos ramos, como o do Bié, que pa- 
«rece ser originário de Muzumbo-Tembo, cuja fi- 
«Iha ou neta se relacionou com um monarcha do sul, 
« dando como resultado os guanguellas, biénos, bai- 
«lundos, que assim, naturalmente, pouco a pouco, 
«conquistaram as terras em que se acham. 



305 

«Avançando ao longo do Cassai, estabelecemo* 
«nos até Catende, ainda a mim subordinado, e para 
«o norte até Muene Cantala, a quem ha pouco fis 
t guerra. 

« Os ma-quiocbs de leste são conhecidos por ma- 
«cosa e cobrem toda a região entre Cu-ango e Cas- 
«sai. 

« Os hábitos de caçadores sempre nos ficaram, e 
«são ainda os ma-quiocos aquelles que até mais 
«longe perseguem o n jamba. i^ 

Outra tradição, contada aos exploradores por es- 
tas regi?ies, completa a anterior, Cha-N'Ganji, o nar- 
rador, disse assim: 

«Muzumbo-Tembo, pae de Mutu-N*Zamba e de 
«Çahandi (mulher) veio do norte e conquistou es- 
«tas terras, estabelecendo a sua liabi tacão nas mar- 
«gens do rio Muiji, affluente do Lu-ando. 

« Mutu-N'Zamba foi pae de N^Bomba e de Ca- 
«nôe, constituindo aquelle a linha directa do Songo 
«até mim, que sou neto deN'Bomba e como tal go- 
«vernador do Songo e Huamba, e não Canôe e seug 
«descendentes, apenas usurpadores. 

«A senzala de meu avô era em Bingombe, junto 
«a lagoa Cu-ié. A minha no Lu-ando, junto ao 
«N^Gando. 

«Da nossa familia sairam os ca-jaggas, que go* 
«vemam o Bibe. . . 

«Cahandi, filha de Muzumbo-Tembo, foi mulher 

voL. m. 20 



a3Q6 

• de Jambi^e ;oaç3e^Gâpj;qmbe çesga^do pelos 

• porluguezes, estando em Loandar» 

Ao acabar, jp ,,?jecu)(í ;xyji era muito Jorte o soba 
da CassaDge, que parecia ser o mais podçrqso de 
todos elles, como conta Cadornega. Havia allí mui- 
tos Muatas^uerjpçpíphecmm Ç^^^ cjtbeça 
e senhor; a vida d*aquelle gentio era a guerra e a 
conquista, era gente «feroz e earniceíta;» As ter- 
ras e senhof iosjjQ^ppíent^do de C^ssange esten- 
diam-se «algumas tte,2i^oJas léguas gfilo sertã^ dén- 
«tro, e comprehendiam ás províncias do Umba e 
«Quitaxida^> pQ^iijl^til^ jqn^, çnetade dps ^ba^ 
do Bombo; tinha também a provincial dos Gi;angj[iel- 
las e a dos SojpgQ^ ç ^a^^ ^^s Qumbu^^ 
Cadornega, que « cada um à!)estps genti^^s èra. dp/di- 
« versa língua f Q quç con^ipa 9 facto dei soçce^i- 
vas conqu^titiS^ig ipig|;aíõçs ^'^ yasto tér^tojip. 
As conquistí^^ f jíp, gpjtentado dç, jÇa^áqge eslènãe- 
ram-se paisi, aléjii 4p1 Çuuepe, oçde sujeitou « q po- 
t tentado de Muzumbo Acalunda.» ^ ^ 

» ~ , . • _^ 

Estas le;íidas ^ 9ScfeçíP? '^F'*?^^^, por (^ 
mostram bem ^exjstenícia de^ma pojJéroáajt inyaâíy) 
vinda da Lunda, oú pela Lunda, ás regiões dè leste 
de Angola. e^J^xftz do Congo, prova velmec^te np sé- 
culo XVI. ^ ' " ;;\.^ 

Juntam9$^^i este^ ip^js ^Iguçis argjqimçnto^J, que 
não deixam de ter valor. O que os sfs. Capello c 
Ivens dizem do Bibe, parte notável da região dos 



307 



Quinbundas descripta por MagyaV, clfttmà Tógó' a 



nossa attenção. Gomo se devia prever, «os habitan- 
ttes do Bihciião deyiBm,rigorosameíite> cons^^^ 
«se como uiim^ >aç^ aisUncta, og traços cáràcleris- 
« ticos, pelos quaes possam *desdé logo notár-sê.» 
Difficil é também a guestãQ da sua origem, accr^- 
centam ainda os exploradores, ^omo acontece, pela 
falta da historia, en) toda a Íá*ic£^''â)endlonátrÁs 
tradições dos bihenos «tendem a mostrar que, on- 
iginarios do noríe, vieram d'essas extensas regiões 
«invadir o suí.^-^ Poderá óois concluir-se, <íom to- 
«da a reserva, que os babié occupam este sertão dè 
«recente data: que, ymdos do norte^ descendem na- 
«turalmente 4-6Sses1pvasòres, tâoíallados nó ihte- 
«rior d^Afrijça,' que,, em conquistas successiVaSj che- 
«garam até ao paiz conhecido na costa pelo nòmè 
«de Nano.» 



« Os ba-nano, accrescentam, parecem provir dos 
«ba-lundose abranger; a maior parte dos povos do 
«sudoeste.» 

O biheno é «alto, delgado, secco, de cabeça aqa- 
pla, fronte espaçosa e não muttÓ deprimida, nariz 
achatado, rosto largo, poníeagudo na barba, arca- 
«das zygomaticas pouco proemmentes . ... As nm- 
clheres são relativamente mais activas . . . ostentam 
«formas pouco feminis — A mulher é considerada 
«como verdadeirarmeFC?^doria. . . 
«A idolatria brutal, ou melhor o cego fetfcliísrâo, 

20# 



308 

«resumem âs idéas religiosas dos povos d'estas re* 
«giões... 

«Entre os bin-bundo, supersticiosos e ignorantes, 
«o quilulo nsandi (espirito mau) é o primeiro repre- 
«sentante da grande coborte, de que ouvimos fallar 
« com profundo terror. » 

E curioso lembrar que, fallando d'estes mesmos 
povos (Quimbundos), Magyar dizia que elles crêem 
jia existência dos QuUulu' Sanais^ que são os bons 
espiritos. 

Os bihenos são, como os outros povos d^estas.re- 
giões, os agentes do commercio com os sertões do 
interior. Como conquistadores chamaram a si to^ 
o commercio, que é a sua industria principal. 

O que os srs. Gapello e Ivens nos dizem dos po- 
vos de Gassange é mais uma confirmação do que 
fica indicado. 

Estes povos, os ban-galas, são em extremo am- 
biciosos e querem ser, e são «os únicos media^ 
«neiros entre os negociantes e os sertões longia- 
.« quos. » 

; São enthusiastas pelas viagens, andam sempre 
em movimento, e suppõem-se «o povo maisimpor* 
« tante do interior. » 

O man-gala é bellicoso e demandista, como já 
dissemos. • 

Recordaremos ainda — para terminar^ — o que os 
exploradores portuguezes dizem do3 sertões do inte- 



309 

rior, dos povos de Liinda; vaslo império cujo chefe 
supremo é o Muata-Ianvo. 

Estes povos tiveram, conforme suppõera cora ra- 
zão os exploradt)res, origem na região lacustre do 
norte. «Já no século xvii existia o império Muropôe, 
«que deu origem ao Cazembe.» 

«Os indígenas da Lunda são tratáveis mas pouco 
«dóceis; altos, esbeltos, desenvolvidos, possuindo 
«muitos d'clles alguma barba, o que não é vulgar 
«para o sul, habituados a longas viagens nas suas 
«terras, propensos á caça.» 

Esta noticia, parece-nos, dá ciará idéa das rela- 
ções que enlre si ligam as ultimas migrações, que 
vieram perturbar o equilíbrio das povoações na Afri- 
ca Occidental. 

Temos que lembrar, por ultimo, as tribus que 
habitam a parte meridional de Angola e que tem, 
evidentemente pelo que dizem os viajantes, uma ori- 
gem mixta, frncto do cruzamento das raças do norte 
com as raças do typo hottenlote, hoje reunidas no 
sul. 

«Os ba-cuisso, os ba-cuando, os ba-ximbo, di- 
«zem os exploradores Gapello e Ivens, teem um as- 
«pecto diíferente, que os approxima do typo hotten- 
«tole.» 



310 



r 



-V - • -■.•'■- 



^ r-i 



~ . m. I ■ ■ 



xiii 



n 



v i , r 



ií 



Não pode haver (Jjií^ída, depois do que fica dito, 
que o domínio portuguez na Africa Occidental está 
ba largos anrios em contacto com< povos de muitas 
raças, differeptes, e.qde em todgs tem exercido uma 
acção, mais ou menos proíun4a, mas em geral be- 
néfica. 

Em. quanto durou o império do> Gongo, as suas 
relações coní o governo portuguez foram as mais 
estreitas. DerPorlugal foram pftrar o. Gongo embai- 
xadas, missionaribs, oflBciaes mechanicos, exércitos, 
e de lá vieram^ a Portugal filhos dos reis e dos po- 
tentados a educar nas nossas escolas. Â propaga- 
ção do christianismo fez-se alli com muito fructo, a 
lingua portugueza vulgarisou-se e vulgarisaram-se 
os nossos U.SOS e costumpç. D^poi§, o império entrou 
em decadência: as guerras civis multipiicaram-se: 
os abusos, no seio da desordem, cresceram e toma* 
ram vullo: e com a queda do Gongo alenuou-se a 
influencia portugueza, talvez a maior que uma po- 



3M 

tenciâ qualqíií^ europêa e chrislã tem exercido n*um 
império negro- Gomtudo ficaram profundos vesligios 
desse poder que exercemos nas regiões do Gongo. 
Ainda hoje ^os chefes dò^òngo hiáhdâni pedir á co- 
lónia pbrlugúeza quem lhes' cohái^^ actos mais 
graves da sua vitíiá política;' o (}líé liem sempre sa- 
bemos aproveitar cbriveríiéntémênte. Nos povos de 
lai região são ainda os porlugòezes àquelles cujo 
dominio è melhor c máiá fácitménlé recebido. 

Em fe^ereiri) d'esteanno, dizia ttà Sociedade 
das Artes o si. Jóhnstóh,^ referindo Se á tomada de 
Landana pelos portuguezés.* «Lahdáná está silua- 
tda próximo í'a embocàaura do rib Chiloango, im- 
«porlanle caminho para o fnleíior. Landana fica a 
«cem' milhas da foz cio Gongo, liiàs recebe grande 
«pai-te do commerciÒ 'do Gongo, qué áegue do alto 
«Chiloango. E um lògiar rico, corií quatro ou cinco 
«grandes estabefecímefitòs còrnmèrciâès, uma mis- 
«são cathôlica ílorescènfè, umá égreja e medico. E, 
«de facto, uma colónia ém boas condições, na posse 
*da qual osportuyiiezès en&ardm sem nenhuma ra- 
« zão particular a não ser a ãè òs preferirem aos fran- 

> ■ ! / , . " >, 

*cezes.9 ' 

o sr. Johnston attribúe esta preferencia á influen- 
ciaNío seu governo/ mas sem' ihtércsáè algum. 

Quando as cbnquistas pórtúguezas começaram 
em Angola, o desenvòlvimerilo da cultura acompa- 
nhou as nossas arrtiás. Cadórnégã, nos fins do se- ' 



312 

culo xvu, descreve os numerosos animaes, as abun- 
dantes e variadas culturas que a nosso presença ha* 
via, em poucos annos, feilo surgir do árido sertão. 

Em poucos annos o povo de Gazengo, antes tbra- 
«vio, quasi sem industria nem commercio» lornou- 
se um povo cultivador e commerciante ; em conse- 
quência da acção benéfica e civilisadora que sobre 
elle exerceu o domínio portuguez. 

Nenhuma nação europèa levou mais longe pelo 
sertão africano a sua influencia civilisadora, nem 
exerceu efficazmente essa influencia em maior nu- 
mero de raças e raças mais selvagens. 

Pouco depois da invasão dos Jaggas tinhamos feilo 
d'elles nossos alliados, tinhamos minorado, se não 
úe todo extinclo, os seus usos bárbaros, os seus ri- 
tos sanguinários, os seus ferozes hábitos de cani- 
balismo. O jagga de Cassange, no lempo de Gador- 
nega, era Quiambolo do rei de Portugal, o que vale 
o mesmo que ser capitão geral — que d'islo se pre- 
sou sempre elle, e seus antepassados. Tinha junto 
<le si capitão mor, com seus officiaes e capellão. 

Por toda a parte aonde levávamos o nosso do- 
minio introduzíamos um agente da justiça, para re- 
gular os mocanos ou pleitos gentílicos, minorando- 
Ihes as crueldades, modificando-lhes as injustiças. 

Estes factos importantíssimos e que os povos ci- 
vilisados não teem modernamente excedido, nem se- 
quer egualado, são esquecidos por aquelles que gros- 



3Í3 

seiramente injuriam o nome portuguez, A philanlro- 
pia seniimental julgasse obrigada a injuriar os que 
lhe não lisongeiam as vaidades: precisam dizer mal 
dos outros, para se suppor que fizeram alguma coi- 
sa útil, que os pobres mortaes não são capazes de 
entender nem sequer sabem admirar. A philanlro- 
pia sincera, mesmo quando toca as raias do ab- 
surdo, é respeitável: quando porém a philantropia 
é mera hypocrisia, para esconder sórdidos interes- 
ses e uma inveja mesquinha, então é desprezivel e 
deshonra os homens e as nações. A gratidão não é 
só um dever dos homens honestos ; é um dever tam- 
bém das nações civilisadas. Portugal tem direito á 
gratidão das nações civilisadas, pelos seus feitos pas- 
sados; tem direito á justiça de todos, para que lhe 
não attribuam erros que não commetteu e que, por 
Índole e tradição, é incapaz de commetter. 

Accusaram-nos de manter a escravidão, quando 
todos os povos da Europa a faziam; accusaram-nos 
de praticar o trafico, quando os estrangeiros, prin- 
cipalmente, iam com os seus navios ou com os seus 
capitães provocal-o clandestinamente nas nossas co- 
lónias. Os inimigos do trafico e da escravidão le- 
vam-nos a mal, depois da abolição, que estabele- 
cêssemos o aprendizado dos negros, systema alta- 
mente racional e pratico, cujos resultados o sr. Jo- 
hnston indica numa simples phrase. «O methodo 
«portugueZj.diz este escriptor no livro sobre o Gon- 



314 

' * ' 

«go niuitas-vezes citado, do aprendizado estabele- 
€G]do:<peloi governo éibaslaBtçnttwe de abusos, e 
<|K)deFta'daTJbons resâltàdo^fióGongòT onde existe 
aí^^mcmméã&^e'^me<o\Tá&coYffúiça$'á tígilancia dos 
cruzeiriis^^tamicos. • - ? ^ 

ESanios persuadidos de que érnecessario crear 
OS' babítos e « as^^ fatmidades ^ *)raba}bar nos ne- 
gros, ««isso ^estamos de aeoordb eôm um escri- 
ptor^àfricaoò^citado^poi^ Bnrtofl e Gameron na sua 
ultima òbra^^obre^^a costia do Ouro. ^ A^s leis do tra- 
«balto,'dizeÃif esses escriplores, estariam fora de lo- 
teai' emlfiglaterra, mas Tia Serra' Leoa haveriam 
•saívad(p a população inteira dè se fiar na attracção 
« de um fitegocSo pléquenaedesméralisador; ter-nos- 
«biaiiij5al?6dtfvératdeiasèm^ ruínas e um povo 
t què se torna' de dia para diaítnenõs capaz de su- 
t portar o pesado trabalho da industria» agrícola. Pe- 
«^gar n'uma> enxada é hoje uma desgraça, os homens 
«'perderam^^â «ua 'rtriiidade para sef tornarem fidal- 

A Serra ^ Leoa foi 'o campo de experiência dos 
phifciTrtropistas senVnneBtaes e^ fésultado das liber- 
dades exoé^^as^ dadas aos^ negros /foi, segundo di- 
zeift Burtori e Caiheron', -fazer dos; cidadãos d'aqueUe 
paiz t o horror dos-Europeus dacosta occidental. 

'Para reápoiíderás accusações^ Ião infundadas 
qiianto injustas èi estúpidas, feitas- a Portugal pelos 
que 'sfeíjuljrfam modelos de^ ^pbilanthr<ípia ou simu- 



3i5 



Iam sei- o para occullar os seus sentimentos pouco 
nobres.' ttíafetaòs às palavras 'àòsí^/Johnston na 
(^riferèricía da Ã>afeíiíaá^^ que anterior- 

mente nos referimos. 






1.11 f. 



«Ém primeiro fóg^r, ainda (ju^^ pórluguezes 



ro logar, amda (jue os 
não possárià òfferecér o mésrbò espectáculo gran- 
dioso de força còlòhisadoráq^ á' Inglaterra, nem 
o génio òi^ganisá^^^ è'Hollanda, com 

tUidb, sòú graiideménté de o^iniaóí^ue a colonisa- 
tção portugueza deve prefenr-se a condição, primi- 
«tivá dé uín páiz sèlvàsem^ góvérfiádb por si mes- 
mo. A qualquer parte que os pórluguezes chegam 
elles, por fim, abrem caminhos, dessecam pântanos, 
«melhoram rios, e levantara cidades. Em suas co- 
tíotfjas o viajante podie transitar ébm sufficiente tran- 
tquilidádé, seguro, de mais, de achar uma hospita- 
tíidáde sem lirríitès nos amáveis líiyiianos. Eu vou 
«mesmo tâô^tóngéqiiéSupponho,pòr vezes, que os 
«pórtuguézés sao'iíiáis idíélligéhféá lias suas rela- 
«çiíes com às raças ifadigéíias*dè'(!juè os francezes 
«ou in^gTezés!'Os'Tráhceíiés^ a ser 

«crueiseos iriglézés sentímèntae^iiins brutalisam 
«os indígenas, os bútrostÔr^iiám-n^tís insuportáveis 
€ dé orgulllo." Vov oufrò làdó^ nist "còíonia moderna 
«portugueza, os indígenas fcònsideráíri o branco com 
«rèspèilo,'ê^ ao meâniô tèfnpó,' èoríi' carinhosa bene- 
«vòrenciâ.'Drii'àòá maia irijdátífitav^éfs erros em In* 



316 



glaterra 6 accusar os portuguezes de crueldade- 
com os indígenas; elles estão, pelo contrario, dis- 
postos a ser quasi sempre demasiado brandos no 
tratamento que dão ás raças negras, que reque-. 
rem para o seu próprio desenvolvimento e gover- 
nação regras firmes e vigorosas. Os portuguezes 
em contraste com os Boers, «são anjos de luz» e 
são tão amados pelos indígenas do sudoeste da 
Africa quanto são odiados os hoUandezes domina- 
dores. A opinião (ingleza) não faz justiça aos por- 
tuguezes no que respeita ás suas relações com as 
raças africanas. Despresam o excellenle e judicioso 
systema do aprendisado pelo governo como se fora 
a escravidão. 

tEm toda a parle em que os portuguezes real- 
mente dominam, a escravidão não é já praticada, 
mas um systema regular de aprendizado está em 
voga, o que muitos suppõem ser a mesma coisa. 
Alguém ha de cultivar a terra e, deixando-o a si 
próprio, o negro preferirá não ser esse alguém.. 
Elle não quer mesmo trabalhar sem ser obrigado. 
Nas tribus independentes a escravidão domestica 
é universalmente praticada e, quando o paiz vem 
a ser governado por uma potencia civilisada, ainda 
que a escravidão deva ser justamente, em princi- 
pio, abolida, algum systema de trabalho forçado 
deve inventar-se e súbstituil-a. E a idéa portu- 
gueza do aprendisado, sob as vistas do governo, 



317 

dos menores, com consentimento dos parentes e 
dos indigentes qne pedem soccorros, em todo o 
caso, satisfaz actnalmenle, a terrível falta de tra- 
balho manual. 

tDe mais» muita gente em Inglaterra accnsa os 
porluguezes de conservarem os seus súbditos ne- 
gros em total ignorância. Estes críticos, injustos e 
petulantes, ficariam surprehendidos de encontrar, 
a 500 milhas da costa, indígenas ensinados nas 
escolas portuguezas e que podem ler e escrever 
correctamente em porluguez. E para admirar, o 
ver quantos negros de puro sangue tem logar na 
administração da Africa portugueza. De mais^ sob 
a lei portugueza, todos os homens são eguaes. Os 
graus de cor não se traduzem em castas sociaes, o 
sangue negro não é despresado. Se eu fosse ne^ 
gro preferiria infinitamente o ser súbdito portu- 
gnez a sel-o^ d' outra qualquer nação. Que o domí- * 
nio portuguez é aceitável aos africanos, mostra- 
se pelas quasi nominaes guarnições com as quaes 
se conservam vastas possessões; pela ausência de 
revoltas c perturbações; pelo facto do exercito, 
que defende esles paizes da desordem, ser auto- 
chthono, e composto dos indígenas do próprio 
solo. » 



Não para defender os nossos direitos nem pu- 
gnar pelos nossos interesses, o sr. Johnston, via- 



318 

f 

jante illustre. julfípu dever combater ps preconcei- 
tos absurdos, e injuriosos dos, seus concidadãos; 
obedecendo assim aos impulsos da probidade ç ã 
força da verdade, que se impõe aos que a conKe- 
fcem e não temoe^pifito obscurecido pelo fanatismo, 
seja qual for a sua natureza e a sga origem. , , 

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A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



PARTE lY 

(REFLEXÕES ECONÓMICAS E ADMINISTRATIVAS) 



A CIVILISAÇÃO AFRICANA 



(iiriHõES EcemeitCAS t idiinistutivis) 



I 



Tiveram origem num pensamento nobre, glorioso, 
os descobrimentos porluguezes. A navegação mo- 
derna era uma arte incipiente, timorata, cercada de 
dificuldades, privada dos principaes e mais seguros 
meios de acção, cercada de trevas, sem guia e quasi 
sem norte. O mundo era desconhecido em grande 
parte e apenas algumas noticias, desconnexas e in- 
correctas, conlribuiam para tomar mais obscuro o 
que d^elle se sabia e para tornar mais vivos os de- 
sejos de o conhecer. Os mares eram um mysterio 
tenebroso, cheio de terrores, que se perdiam na 
obscuridade. O problema, o grande problema da 
geographia da terra, estava inteiramente para resol- 
ver, quando o infante D. Henrique, do alto do pro- 
montório Sacro, cmprehendeu a navegação ousada 

voL. m 21 



322 

da costa da Africa e sonhou dobrar um fantasiado 
Cabo da Boa Esperança, para abrir ao mundo o 
caminho da velha índia atravez dos mares. 

As navegações portuguezas foram uma empreza 
nacional, encaminhada por um alto pensamento. 
Quando os monarchas legavam uns aos outros a 
coroa, legavam também a obrigação de descobrir 
novas regiões e de levar, com o nome portuguez, 
a religião catholica aos mais remotos confins da 
terra. 

Mais tarde outras nações seguiram, na vastidão 
dos mares, os caminhos que lhes haviamos traçado: 
mas o seu pensamento exclusivo era o commercio 
e o seu meio de acção as companhias poderosas ou 
os aventureiros ousados. O espirito do lucro não 
tardou em generalisar-se; e as conquistas portu- 
guezas assumiram o mesmo caracter. A competên- 
cia dos povos estabeleceu-se por toda a parte; a 
lula travou-se entre os interesses rivaes; e d'ahi 
veiu a guerra dos exclusivos commerciaes, o embate 
violento dos monopólios. 

Á medida que se descobriam novas terras e no- 
vos mares, iam-se creando exclusivos e buscando 
afugentar, com as mais rigorosas prescripções, as 
ameaças mais violentas, a concorrência para asse- 
gurar a posse. A principio e por pouco tempo 
pôde-se isto conseguir, depois foi preciso enviar ar- 
madas, recorrer ás reclamações diplomáticas, em- 



383 

pregar todos os meios para conseguir afastar os ri- 
vaes: tudo inutilmente. O interesse tinha maior 
poder do que a politica e um supposto direito: o 
interesse lez-se guerreiro ousado: as companhias 
de commercio mandaram expediçOes em todos os 
mares, armaram navios, levantaram castellos, acha- 
ram nos seus respectivos governos apoio e tomaram 
um caracter de quasi independência e de livre ac-- 
ção internacional. 

A historia do celebre castello de S. Jorge da 
Mina e dos ataques e reclamações a que deu ori- 
gem a cubica do oiro, não é mais do que uma ma- 
nifestação completa das opiniões que dominavam 
no espirito da Europa, logo depois da primeira 
phase dos descobrimentos. As ordenações de D.Ma- 
nuel traduzem em preceitos legaes as falsas idéas 
económicas dos séculos passados, que tão caras nos 
tem custado e que tanto nos prejudicam ainda. 

El-rei I). Manuel, de accordo com as ordena- 
ções feitas pelos reis D. AfTonso e D. João seus 
predecessores; ordenou que pessoa alguma fosse 
nem mandasse navios aos mares de Guiné e das 
outras conquistas portuguezas, nem podesse t tratar, 
t resgatar, nem guerrear sem licença real» sob pena 
de morte e perda de bens para os que não obdeces- 
sem. Estas mesmas penas seriam applicadas áquel- 
les < que fossem achados nos mares e marcas das 
i ditas partes, posto que outra coisa não fizessem, 

31 # 



324 

■«nem lhe fosse provado, salvo serem nos ditos ma- 
cres e marcas d'elles achados.» Multiplicam as Or* 
denações Maúnelinas as prohibições sobre o com- 
mercio de mercadorias mandadas ás conquistas por 
nacionaes ou estrangeiros. Entre outras coisas di- 
zem as ordenações: «Defendemos que toda a pes- 
«soa de qualquer qualidade e condição que seja, 
«assi estrangeiro, como natural, nom seja tâo ou- 
«sado, que tenha, ou possua, ou traute n'e§les Nos- 
«sos Regnos ou de fora pêra elles, ou d'elles pêra 
«fora, conchas, coriis, contas pardas, ou das outras, 
«que na Mina valem, ou ao diante valerem, que 
«de Guiné vem, ou lambeis, sob pena, de ser pu- 
« bricamente açoutado ...» N'outro logar, tratando 
do commercio da Índia, prohibem as mesmas orde- 
nações o commercio «de especiarias, drogarias ou 
outra mercadoria de lã. . . mantimentos. . . » Ás 
prohibições commerciaes juntam-se as de servirem 
os pilotos, mestres, marinheiros, etc, nas armadas 
estrangeiras «porque teem em nossos reinos em que 
«ganhar suas vidas em nossas armadas e navega- 
«ções.» O que dito fica mostra bem a natureza da 
legislação no primeiro tempo dos descobrimentos e 
difíne as idéas económicas dominantes. 
• Âo passo que se alargaram as conquistas nas 
terras e nos mares, iam estas sendo consideradas 
eomo parle integrante da monarchia, e creando-se 
monopólios e defendendo-se os exclusivos com todo 



325 

O poder das armas portuguezas. Mas, á medida que 
os dominios se ampliavam, enfraquecíàm-se as for- 
ças, e lornava-se impossivel uma defeza eficaz con- 
tra o interesse universal, que não podia snpportar 
que os monopólios absorvessem o mundo ao nas- 
cente e ao poente. 

A este absurdo estado do commercio nas novas 
regiões juntou-se, pela mesma época, outro motivo 
poderoso que suscitou a Portugal e a Hespanha, 
primeiro separados e posteriormente reunidos sob 
o sceptro de Philippe ii, rivaes enérgicos e perigo- 
sos: foi esta a reforma religiosa, a que o rei catho- 
licô declarou uma guerra de extermínio. N'esta época, 
os hoUandezes haviam monopolisado a maior parte 
da industria dos transportes marítimos na Europa: 
no reinado de Carlos ii de Inglaterra, calculava-se 
em dois milhões de toneladas a capacidade dè 
todos os navios mercantes da Europa, e d'estas 
800000 toneladas pertenciam ás Provincias Unidas. 
Esta exuberância da industria dos transportes na 
Hollanda assombrava lodos os povos navegadores 
da Europa. A Inglaterra oppoz-lhe mais tarde as 
celebres leis de navegação de 1651; e obrigou as 
suas colónias a usarem, para o transporte, de na- 
vios inglezes. A Hespanha, levada pelas razões apon- 
tadas, suscitou obstáculos ao commercio marítimo 
dos hollandezes: ao passo que quebrava as suas 
relações de amisade com a Inglaterra. 



326 

A cadeia de ferro, em que buscamos fixar o com- 
mercio das nossas provincias do ultramar, não tar* 
dou em quebrar -se por toda a parle: e a guerra 
aos nossos monopólios tornou* se geral, quando as 
hostilidades politicas e religiosas contra a Hespanha 
^se juntaram ás hostilidades contra os monopólios. 
Drake ia, em 1577, inquietar os bespanhoes na 
America: Cavendish levava o pavilhão inglez ás 
Mui ucas^ poucos annos depois. Os hollandezes,pelo 
mesmo tempo, encaminharam as suas navegações em 
busca da passagem do nordeste para contrapor ao 
caminho á índia pelo Cabo da Boa Esperança, mas 
sem resultado; em 1596, porém, dobraram o Gabo 
da Boa Esperança e foram percorrer o archipelago 
indico. Depois de se formarem varias companhias 
conseguiram, no principio do século xvii, consti- 
tuir a celebre Companhia Geral das índias orien- 
taes, com privilegio de celebrar tratados, construir 
fortes e estabelecer governo. Em 1609 nomjeou a 
Companhia o seu primeiro governador geral, e pou- 
cos annos depois fundou Batavia e proseguiu nas 
suas conquistas sobre as vastas possessões portu- 
guezas^ até quasi ao fim do século, quando celebrou 
a paz com Portugal, que havia recobrado a sua in- 
dependência em 1640. 

As antigas colónias inglezas tiveram, proxima- 
mente, a mesma origem. No livro de Merival sobre 
a Colonisação diz-se: «Geralmente fatiando as an- 



327 

«tígas colónias de Inglaterra foram fundadas por 
«aventureiros á sua própria custa e risco. O solo 
«era commummente confiado a proprietários, quer 
«dizer, eram vendidas provincias inteiras no conli- 
«nente, ilbas no oceano, a individuos poderosos ou 
«a companhias empresarias e por estas arrendadas 

< a emigrantes, de ordinário por uma pensão. > 

A companhia da índias ingleza foi modelada pela 
companhia hollandeza: «ainda que, diz Heeren da 
«companhia hollandeza, opprimida por fim de con* 
«tas pelos males dos monopólios, conservou-se com- 
«tudo, menos por causa da sua vastidão do que pela 
« proheminencia da sua prosperidade, um pheno* 
«meno sem egual, que só podia existir n'uma nação 

< que chegando á maior riqueza sabe não sacrificar 
«ao luxo. > Todos conhecem a historia da compa- 
nhia ingleza da índia e conhecem a sua grandeza^ 
a sua riqueza, o seu poder sem rival: todos porém 
conhecem egualmcnte os vicios que a devoraram, 
as prepotências que praticou, e as causas que pro- 
duziram a sua final exlincção. 

As colónias trancezas tiveram origem semelhante, 
em grande parte, ás colónias de que anteriormente 
nos occupamos. A colónia do Canada esteve sob a 
direcção de uma companhia de 1663 até á queda 
do que se chamou o negocio do Mississipi. 

Durante este largo período, os franc^zes deram 
brilhantes provas do seu espirito aventuroso e da 



3â8 

\ 

sua energia; das hábeis disposições para conciliar 
os selvagens e para os attrair aos seus usos e costu- 
mes^ que caracterísam os povos de raça latina e que 
é eminente entre francezes; mas provaram também 
quanto são nocivas as companhias colonisadoras e 
quanto é ineficaz o systema dos monopólios. Leroy- 
Beaulieu diz, fallando do Canada, no seu livro da 
Colonisação : 

«O illustre Champlaín, que se havia occupado 
<com alto espirito da colonisação do Canada, não 
«cessava de protestar contra a acanhada e injusta 
«politica das companhias. Alguns raros espiritos, 
«dotados de um senso pratico notável para a época, 
< entreviam também e proclamavam os defeitos do 
« syslema : « Teve-se bem clara prova do que um 
«Estado pode esperar dos monopolistas, diz For- 
«bonnais: em sete annos só quâ;renta homens ha- 
«viam passado ao Canada: nenhuma espécie de cul- 
«tura se havia desenvolvido e a companhia conten- 
«tava-se de commerciar com os selvagens em re- 
c lação com os seus capitães, em ter n'um dos seus 
«foiles uma guarnição tão pequena que não podia 
«resistira qualquer ataque.» Vê-se que a compa- 
« nhia não tinha abusado do direito exorbitante de 
«transportar á força para o Canada todos os mendi- 
«gos e vagabundos do reino.» 

Ha no espirito publico em França uma causa 
permanente de grandeza, mas ao mesmo tempo de 



3i9 

erro e do fraqueza: é a facilidade com que deixa 
arrastar-se por uma idéa, com que deixa engodar- 
se por uma novidade e põe n'ella cegamente todos 
as suas esperanças. As prosperidades da companhia 
hollandeza das índias orienlaes exerceram poderosa 
fascinação no espirito francez . como o haviam feito 
em outras nações. A França persuadiu-se, como diz 
Leroy-Beaulieu, que a /undação de grandes com- 
panhias com monopólios era o meio seguro de rea- 
lisar grandes emprezas, e, durante «século e meio, 
€0 seu commercio externo foi encerrado no estreito 
c quadro das corporações privilegiadas.» 

As companhias, ao passo que abusavam dos mo- 
nopólios que lhes eram concedidos e expoliavam 
com a acre avidez do interesse os paizes que lhes 
caiam nas mãos, gosavam de uma liberdade de ac- 
ção quasi illimitada, porque não obedeçam aos pre- 
ceitos de justiça e de moral, que o di eito interna- 
cional, impõe ás naçõe> constituídas. Por estes mo- 
tivos tivemos nós, os portuguezes, muito que sof- 
frer nas nossas possessões ultramarinas da acção 
desordenada de companhias poderosas, que empre- 
gavam mais o procedimento de verdadeiros piratas 
do que o de corporações bem organisadas e sujei- 
tas aos grandes principios do direito. 



330 



II 



Salvo diíferenças de fónna ou de accidentes, to- 
das as companhias coloniaes tiveram a mesma na- 
tureza, passaram pelas mesmas phases, commette* 
ram os mesmos erros. A historia da companhia hol* 
landeza das índias orientaes pode tomar-se como 
typo de 'todas as outras. Nasceu esta companhia da 
fusão de muitas outras, que não podiam coexistir 
por causa da concorrência que umas ás outras fa- 
ziam : foi-lhes concedido o monopólio do commer- 
cio com as índias, e o seu principal e seu único in* 
teresse era o commercio, a que devia a sua existên- 
cia. Para conseguir o lucro, seu natural desidera- 
tum, a companhia faz, com os principes indígenas, 
contractos para conseguir os productos de maior 
consumo com exclusão de todos os outros commer- 
ciantes. D'aqui resultaram complicações, luctas em 
defeza dos monopólios, guerras com os indígenas, 
intervenções nas guerras de principes rivaes ; do que 
nasceu ser a companhia obrigada a adquirir a pos- 



331 

se de lerritorios, a constituir verdadeiros estados, e 
a assumir poderes soberanos. Como porém o fim 
era sempre* o mesmo, o liicro commercial, lodosos 
actos politícos d'esta como das outras companhias, 
resentem-se d'isso. O interesse dos povos conquista- 
dos era tratado com a máxima indifferença: a com- 
panhia das índias não cuidava senão de absorver 
a maior quantidade de productos pelo mais baixo 
preço possivel, de afastar a concorrência, de asse- 
gurar para si os melhores mercados. 

Ouando a companhia se dissolveu, em 1 7i^8, a ad- 
ministração publica dos Paizes-Baixos tom ou conta 
das colónias. O systema perdeu, pouco a pouco, o 
seu caracter puramente mercantil e a administra- 
ção mostrou interessar-se mais pelos povos indige- 
nas, cujos chefes ou príncipes passaram, por assim 
dizer, de vassallos a verdadeiros funccionarios. De 
1811 a 1816, época em que as colónias hollan- 
dezas da índia oriental estiveram na posse dosin- 
glezes^ a transformação tornou-se mais acentuada 
e, em vez dé obrigados á entrega de productos, os 
indigenas ficaram sujeitos ao pagamento de uma li- 
geira taxa. Posteriormente, feita a restauração do 
governo hollandez, os commissarius doeste governo 
hesitam no systema a seguir; ora favorecendo as in- 
dustrias europêas, novamente estabelecidas, com de- 
trimento da agricultura indigena; ora seguindo ca- 
minho inteiramenle opposto; ora dando força á ac- 



332 

ção da própria administração, com perigo if um e 
d'outro dos systemas anteriores. 

Este ultimo modo de ver, (|ue era, por assim di- 
zer, uma nova phase do velho principio dos exclu- 
sivos em favor dos possuidores das colónias, deu 
origem ao estabelecimento do singular systema das 
culturas. Era este fundado na obrigação imposta aos 
indígenas de reservarem parte das suas terras, a íim 
de cultivarem certos productos destinados aos mer- 
cados da Europa, devendo entregar esses produclos 
ao governo mediante uma pequena compensação pe- 
cuniária. Este systema esteve em exercicio conjun- 
ctamenle com o pagamento do imposto estabelecido 
anteriormente. 

Desde 1833, quasi todos os productos para com- 
mercio e, durante al^um tempo todos esses produ- 
ctos, foram enviados para a Hollanda, consignados 
ao ministério das colónias, e vendidos por intermé- 
dio da Sociedade Neerlandeza. 

Até 1850 este processo reinou absolutamente 
com sacrifício de toda a iniciativa particular. De 
1860 em diante foram acabando successivamenie 
as culturas obrigatórias, algumas das quaes davam 
perda, até que ficaram só duas — o café e o assucar: 
uma das quaes, a do assucar, deve acabar dentro de 
seis annos. 

O café é ainda, pela maior parte, remcttido pára 
os Paizes-Baixos onde é vendido : sendo o produ- 



a33 

cto applicado aos serviços da índia, cujo orçamento 
ha muitos annos não dá excesso de receita para a 
metrópole, principalmente pelo desenvolvimento que 
tem tido as obras publicas. 

Esta rápida historia da Companhia Hollandeza 
das índias Orienlaes, uma das mais poderosas e mais 
duradouras, moslra-nos bem claramente os defei^ 
tos de instituição d'esla natureza, e as phases por- 
que passa a sua transformação até ao definitivo 
estabelecimento do governo. Este hoje não pode 
ter um caracter de especulação, de exclusivo, de 
egoísmo; tem de occupar-se das povoações indíge- 
nas, tem de lhes levar a liberdade, a civilisação, o 
sentimento e o uso da iniciativa e da independência 
individual. São estas as consequências necessárias 
da transformação por que lem passado o espirito po- 
litico e a civilisação nas sociedades modernas. Anti- 
gamente a única ambição dos governos era regular 
o commercio das colónias, directa ou indirectamente: 
e com esse fim cercavam-no de restricções e guar- 
davam-no com a vigilância a mais ciosa. Hoje as 
idéas mudaram, e a maneira de comprehender os 
verdadeiros interesses do estado é oulra. As barrei^ 
ras vão successivamente caindo e algumas já de 
todo cairam, nos estados que lêem melhor compre- 
hensão dos seus interesses: os povos indígenas nas^ 
colónias são a preoccupação dos governos, que bus- 
cam trazel-os ao convívio da civilisação, não por 



334 

uma philantrophia sentimental e ridícula, em que se 
esconde um orgulho de raça tão estúpido como of- 
fensivo, mas pelo convivio intimo de homens cora 
homens, pelo sentimento civilisador da egualdade 
das raças diante das leis eternas da natureza, que 
permittem e preparam a sua transformação e suc- 
eessivo aperfeiçoamento^ 

Com mais ephemera duração e vida menos pros- 
pera as companhias francezas tiveram uma existên- 
cia, mais ou menos, semelhante á da companhia hol- 
landeza que tomamos como typo. A partir de 1635; 
as colónias francezas foram entregues a companhias 
e administradas por governadores geraes nomeados 
pelo rei, que não podiam entremetter-se nas ques- 
tões de commercio e em distribuições de terrenos. 
Gomo se devia esperar, os confiictos entre as com- 
panhias e os governadores levaram, no fim do sé- 
culo XVII, ao estabelecimento de um governo pura- 
mente real Ao Ijido de cada governador foi creado 
um intendente, para se occupar da administração e, 
mais tarde, foram instituídas assemblêas colohiaes, 
que podiam promulgar decretos que careciam da 
sancção do governador. 

Com varias alterações, chegaram as colónias a 
1830, época em que, por uma lei (de 1833), lhes 
foram concedidas maiores liberdades e, principal- 
mente, as liberdades municipaes. 

O anno de 1848 viu a abolição da escravidão e 



335 

deu ás colónias o direito de se fazerem representar 
no parlamento. Em 1866 foi modificado o systema 
commercial, que até alli reservava a França o di- 
reito exclusivo de abastecer as colónias das merca- 
dorias de que necessitavam e obrigava estas a ven- 
der á metrópole os seus produclos. Os transportes 
entre uma e outras eram reservados aos navios fran- 
çezes. Lançando os olhos para as diíTerenles coló- 
nias de França, achamos os direitos das alfandegas 
supprímidos; tirando-se aos productos francezos o 
favor de que gosavam no mercado colonial; subsli- 
tuindo-se aos direitos aduaneiros os direitos de bar- 
reira de. mar, que recae sobre todas as mercadorias 
indistinctamente, e cujo producto é applicavel aos 
municipios e constitue uma das suas receitas. Os 
princípios de per feita li herdade commercial, pode di- 
zer-se que estão estabelecidos em todas as colónias 
francezas desde 1866. 

Estas colónias dividem-se em dois grupos^ sob o 
ponto de vista administrativo. 

Umas que teem instituições representativas, as 
quaes regulam os impostos : outras em que estas 
questões são reguladas pelo governador e o conse- 
lho administrativo. N algumas d'estas, o commando 
e alta administração estão confiados a um governa- 
dor; e funccionarios dirigem os diversos ramos da 
administração. Um inspector dos serviços administra- 
tivos vela pelo cumprimento das leis e regulamentos. 



336 

Um conselho privado, junto do governador, é des- 
tinado a esclarecer este com seus conselhos e a par- 
tilhar a sua responsabilidade. Conselhos geraes tem, 
proximamente, as mesmas attribuições dos conse- 
lhos geraes em França, e são compostos de mem- 
bros eleilos. Estes conselhos geraes resolvem as ques- 
tões, que interessam especialmente á colónia, votam 
as taxas e contribuições; deliberam nos assumptos, 
que interessam as relações das colónias com a me- 
trópole. Votam o orçamento. As suas sessões são 
publicas. Ha, além d'isto, uma commissão colonial, 
que corresponde ás commissões departamentaes da 
França, e é cada anno eleita. 

N'outras colónias a administração é organisada 
da mesma maneira, mas sem os conselhos geraes; 
havendo, n'algumas d'estas, instituições municipaes, 
cujos delegados tomam parte nas deliberações dos 
conselhos de administração, quando se traia do or- 
çamento ou de questões geraes. 

A isto devemos accrescentar, que as despezas se 
dividem, em geral, em despezas de soberania, de 
administração e de protecção, pagas pelo estado; e 
despezas locaes, pagas pelas colónias. 

Vè-se d^aqui qual tem sido, em globo, a transfor- 
mação porque tem passado a administração, desde 
o tempo das companhias até hoje; e pode notar-se, 
como as liberdades de todo o género teem ido fa* 
zendo conquistas successivas, de anno para anno. 



337 

E comtudo para notar que n'este momento o go- 
verno francez parece querer recuar na senda das li- 
berdades commerciaes. O estabelecimento das taxas 
de consumo de mar (octroi de mer) nas colónias re- 
caij^ egualmente sobre todas as mercadorias, fran- 
cezas ou estrangeiras. Esta taxa era votada pelos 
conselhos geraes: ora o conselho geral da Guada- 
lupa, a pedido do ministério da marinha, acaba de 
votar direitos, sobrecarregando os productos de fa- 
bricação estrangeira. 



III 



As colónias inglezas, que a principio tiveram ori- 
gem análoga ás de que anteriormente falíamos, teem 
soífrido successivâs transformações, tendentes a am- 
pliar as suas liberdades, a fortiflcar a sua indepen- 
dência municipal, a crear instituições representati- 
vas, e a desembaraçar de todas as peias a sua acti- 
vidade commercial. A organisação colonial ingleza 
não foi sempre livre de defeitos, e aquillo que a In- 
glaterra aconselhou aos outros não o soube ella sem- 

voL m. 22 



338 

pre seguir e explicar: preconceitos e erros de va- 
rias ordens, poli ticos e económicos, dominaram o 
espirito britannico e, antes de chegarem á verdade, 
passaram os inglezes por muitas das phases que el - 
les julgam impossível que os outros hoje atravessem. 
Verdade é que a Inglaterra tem, melhor que ne- 
nhum outro paiz, aperfeiçoado as regras da boa ad- 
ministração colonial e estabelecido os princípios, que 
devem presidir á organisação económica e politica 
dos estabelecimentos d'esta ordem : mas não se de- 
ve olvidar que o esquecimento ou desconhecimento 
d'essas regras e principios foi a occasião próxima 
da Inglaterra perder as suas colónias da America 
do norte. Desde os Actos de Navegação a Inglaterra 
quiz monopolísar o transporte das mercadorias das 
suas colónias: o resultado immediato doestas medi* 
das, a que outras da mesma natureza deram maior 
força, foi restringir o mercado. «Posteriormente, diz 
«Merival, a Inglaterra impoz altos direitos prote- 
(Ctores; chegando, em certoscasos,á exclusão abso- 
«luta dos productos estrangeiros em favor dos na- 
«cionaes, alguns dos quaes eram também forneci- 
cdos por meio de prémios. Ultimamente, para com- 
cpletar o seu systema colonial, a Inglaterra prohi- 
cbiu ás colónias de emprehender vários ramos de 
«manufacturas, e sujeitaram os productos manufa* 
« cturados estrangeu*os importados nas colónias aos 
ç^mesmos direitos a que estavam sujeitos no paiz 



339 

ide procedência. . . Foi assim, pouco a pouco, que 
<as colónias foram levadas, em relação ao seu com- 
«mercio e a seus negócios internos, a um governo 
«regular e â subordinação, em que continuaram ; até 
«que a tentativa de reduzir a America do Norte a 
«uma sujeição mais completa, lançando-lhe impos- 
«tos sem consentimento seu, produziu a sua sepa- 
«ração.» Esta lição ensinou a Inglaterra a contar 
com as suas colónias e a dar-lhes as liberdades pos- 
siveis, conforme a sua situação. 

A experiência já havia mostrado aos inglezes que 
o contrabando é o grande nivelador do commercio 
e o adversário poderoso de todas as restricçõos exa - 
geradas. 

Para tornar isto mais evidente citaremos ainda as 
palavras de Merival : « O commercio de contraban- 
«do, diz elle, nas colónias hespanholas tomou-se, 
«na primeira parte do século passado, o systema 
«mais regular e organisado d'esta natureza que o 
«mundo viu. A Inglaterra ensinou o caminho e os 
«seus progressos foram facilitados, por haver obtido, 
«na paz de Utrecht, o que se chamava o contracto 
«de Assiento; isto é o privilegio de fornecer de um 
«numero limitado de negros escravos a America 
«Hespanhola; porque os navios que tinham licença 
« para o trafico davam ainda mais proveito empre- 
« gados no contrabando. Os hoUandezes, francezes, 
«e outras naç5es, tomaram o seu quinhão na presa. 

22* 



3iO 

Jamaica e S. Domingos foram verdadeiros arma- 
zéns de contrabando, d'onde era facilmente trans- 
portado para o continente; exactamente como as 
ilhas da Dinamarca e Suécia, nos últimos tempos, 
serviram para o mesmo fim em relação á própria 
Jamaica. Buenos-Ayres elevou-se de uma estação 
insignificante a uma cidade considerável, só por 
ser o centro do contrabando entre a Europa e o 
Peru. Os hespanhoes guardaram as suas costas com 
uma força marítima dispendiosa, e até chegaram a 
considerar o contrabando como uma oífensa pu- 
nivel pela Inquisição. Mas todos esses esforços fo- 
ram sem fructo, para vencer e que sir J. Child com 
tanta razão chamava « a força e violência do curso 
ordinário do commercio.» As frotas e galleões tor- 
naram-se insignificantes e seus possuidores gosta- 
ram de fazer com que estes navios, que tinham li- 
cença de navegar, servissem para passar o contra- 
bando que as outras nações lhes levavam. A guerra 
de 1737, a que sir Robert Walpole foi levado pe- 
los clamores do povo inglez, não era outra cousa 
senão uma guerra para a protecção dos contraban- 
distas . » 

Os inglezes puzeram em pratica todos os proces- 
sos destinados a encaminhar e restringir os movi- 
mentos do commercio das suas colónias, processos 
de que Leroy Beaulieii forma cinco classes; 
1/ Restricção á exportação de productos das co- 



341 

lonias, a não ser pára a metrópole. Esta é a primeira 
e mais geral restricção; e expjicava-se como sendo 
uma compensação dos sacrifícios feitos, para fundar 
e defender as colónias. Daqui resulta a vantagem de 
terem os povos, que gozem d'esse commercio, com 
exclusão dos outros, superioridade sobre estes em 
relação ao preço dos productos. Smilh já observou 
ha muito, que esta restricção tinha por eífeito dimi- 
nuir a producção nas colónias, pela falta de con- 
corrência ao mercado, e conseguinlemente elevar o 
preço das mercadorias produzidas; assim, as res- 
tricções da liberdade de commercio, em vez de tor- 
narem mais baratos os productos coloniaes, para a 
metrópole mesmo, tem como consequência elevar- 
Ihes o preço; e, ao mesmo tempo, paralisam o des- 
envolvimento da cultura, e tornam os colonos me- 
nos aptos a comprarem os productos fabricados. — 
Este género de restricções, pode dizer-se, não se 
mantém hoje senão muito excepcionalmente em na- 
ções civilisadas* 

2.* Restricção á importação de artigos de fabri- 
cação estrangeira nas colónias, com o fim de con- 
servar aos negociantes nacionaes o privilegio do mer- 
cado colonial. Mas as consequências d'estas restric- 
ções sãOj como o prova a sciencia e a experiência, 
tão fallazes com as das restricções da primeira clas- 
se. Os colonos, pagando mais caros os productos 
que lhes são úteis e mesmo os instrumontos de tra- 



342 

bâlbo, necessariamente sentem paralisar-se-lhes to- 
do o progresso, ao passo que os fabricantes da me- 
trópole pouco aproveitam do privilegio que a lei pre- 
tende assegurar-lhes. O contrabando é quem apro- 
veita: os contrabandistas tem um premio seguro 
para a sua industria illegaL — Estas reslricções ten- 
dem rapidamente a desapparecer. A legislação in- 
gleza e franceza deixam ás colónias a faculdade 
de flxarem os seus direitos aduaneiros; e os re- 
sultados são benéficos. 

3.* Restricções á importação de productos pro- 
venientes de colónias estrangeiras na metrópole. Es- 
tas restricções não são mais do que uma compen- 
sação dada ás colónias pelas restricções de que an- 
teriormente tratámos. E evidente que n'esta classe 
terceira é mais fácil evitar o contrabando, por ser 
grande o volume e peso dos productos coloniaes em 
relação ao seu valor, e por ser mais fácil a fiscali- 
sação na metrópole do que nas colónias. Os resul- 
tados sobre a elevação de preço dos productos su- 
jeitos a um commercio restricto e mesmo a sua in- 
ferioridade são constantes ; a ponto dos paizes da 
Europa, sem colónias, terem os productos coloniaes 
mais baratos e melhores do que os paizes senhores 
de grandes colónias tropicaes. Tudo o que prende 
o comitíercio diminue o consumo, sobretudo de pro- 
ductos de grande utilidade universal, taes como o 
assucar, etc. E difficil imaginar a expansibilidade 



343 

que pode ter o consumo do assucar com o abai- 
xamenlo do preço. 

A combinação irracional das compensações, en- 
tre as colónias e a metrópole, de recíprocos exclu- 
sivos, não tem quasi limites, mas leva aos mais ex- 
travagantes absurdos. Entre estes chama a attenção 
a celebre guerra dos assucares entre a França e as 
suas colónias, entre a beterraba e a canna. Durante 
as grandes guerras do principio doeste século foi o 
assucar das colónias excluido dos mercados da Fran- 
ça e então começou a industria do assucar da be- 
terraba. Feita a paz e admittido de novo o assucar 
colonial, aquella industria ficou reduzida á miséria; 
para lhe acudir vieram os direitos sobre o assucar 
de canna das colónias francezas em soccorro da be- 
terraba. Queixas acerbas dos colonos produziram 
então uma reacção, e foram lançados direitos sobre 
o assucar de beterraba, mas diíferenciaes em favor 
d'este. Então foram as duas partes a queixar-se ; e 
por fim tomaram-se medidas para egualar com equi- 
dade os direitos sobre os assucares inimigos, en- 
tão descubriu-se que, no meio dos seus queixumes, 

a producção do assucar de beterraba tinha crescido 
em vinte annos de 39 a 151 milhões dekilogram- 
mas. Esta singular guerra dos assucares mostra as 
illusões e os erros a que podem ser levados os ho- 
mens, que querem artificialmente regular o commer- 

cio, o qual tem leis naturaes que sempre acabam^ 
por vencer. 



344 

4.^ Originadas em considerações de natureza po- 
litica, com o fim de elevar a marinha ingleza acima 
da marinha hollandeza qae a assombrava, foram 
creadas as restricções que não permittiam o trans- 
porte de mercadorias, provenientes das colónias ou 
destinadas para ellas, senão em navios nacionaes. Es- 
tas restricções, tão erróneas e tão inefificazes como as 
outras, tiveram o dom de serem bem recebidas pela 
opinião publica em Inglaterra e n'oulros paizes. Com 
o tempo, ás intenções politicas uniram-se as razões 
económicas, as quaes, apezar de falsas, deram maior 
vigor ás leis restrictivas da navegação. 

Apezar da sua pertinácia em manter-se, a expe- 
riência e a observação tomaram em breve evidente, 
que o primeiro resultado d'esta prohibição de em- 
pregar nos transportes a marinha estrangeira foi tor- 
nar maiores os fretes, o que fazia subir o preço das 
mercadorias nos legares de consumo e conseguinte- 
mente diminuir este; sendo o resultado final a di- 
minuição da producção. Assim o resultado perma- 
nente das reslricções na navegação é, tornar mais 
caros os produclos no mercado das colónias e tor - 
nar mais caros os productos coloniaes na metrópole. 
Uma das melhores provas do mal que as restric- 
ções, sobre o commercio do transporte, fazem á me- 
trópole e ás colónias, são as voltas que dão muitas 
vezes as mercadorias para escapar aos direitos dif- 
íerenciaes. Os exemplos são numerosos. O eximio 



3i5 

patriota e esclarecido marinheiro o sr. Carlos Tesla 
escrevia ultimamente n um excellente folheio sobre 
a Navegação Nacional o seguinte: 

«Pode um barril de vinho porluguez ser expor- 
tado para Inglaterra, em navio inglez, e ser de lá 
conduzido também em navio inglez para uma pos- 
sessão portugueza. Não pode porém o mesmo bar- 
ril de vinho ser, no porto de Lisboa, embarcado para 
a mesma possessão, a bordo do mesmo navio in- 
glez, que aliás o poderia receber em Inglaterra, e 
depois leval-o áquelle destino, mas já sobrecarre- 
gado com as despezas de maiores fretes, seguros, 
commissões ! 

«Pode o chá, preparado em Macau, seguir em na- 
vio inglez pêra Inglaterra, e d'aqui ser conduzido 
pelo mesmo ou outro navio inglez para Lisboa. 
Não pode porém a mesma caixa de chá desembai- 
car em Lisboa, quando, ao passar em frente da foz 
do Tejo, o navio que a conduzia, a este aportasse 
para tal effeito ! 

Outro exemplo notável cila Marival. «Não é raro, 
diz elle, que a farinha dos Estados-Unidos com des- 
tino ás Antilhas, em logar de embarcar em No- 
va- York, tome a direcção de Monreal ou de Que- 
bec para ser transportada de uma d'eslas cida- 
des sob bandeira ingleza. Assim se eleva o preço 
d'esle artigo de necessidade; e,para metter alguns 
centos de libras na algibeira dos armadores, obri- 



346 

« gam-se as colónias a gastar muitos milhares de li- 
«bras.» 

A 5.* classe de reslricções é a que prohibe ás 
colónias fabricar os seus productos brutos. Geral- 
mente estas prohibições podem considerar-se inú- 
teis na maior parle dos casos, porque o próprio 
interesse dos colonos é corisagrar-se á agricultura, á 
pesca, á caça, ao commercio, e não á industria; e por- 
que, sendo as terras em abundância, o juro dos ca- 
pitães elevado, a mão d'obra pouca e cara, a grande 
industria não tem razão de se estabelecer nem pro- 
babilidade de prosperar. As prohibições importan- 
tes são as que se referem a productos brutos muito 
volumosos e de fácil preparação, sendo um dos me- 
lhores exemplos a industria da refinação do assu- 
car. Estas prohibiçOes não tiveram em resultado 
senão desanimar todo o progresso na fabricação 
primeira; elevar o preço do assucar, diminuir o con- 
sumo, e dar perdas ao thesouro. 

As cinco classes de restricções indicadas consti- 
tuem um systèma adoptado pela Inglaterra, assim 
como por todas as naçSes da Europa, com mais ou 
menos rigor, e praticado durante três séculos ; pode 
dizer-se que hoje quasi todas as nações reconhe- 
ceram o absurdo do systema restrictivo e o aboli- 
ram. Estes regulamentos eram inúteis ou contrários 
ao fim que tinham em vista, sem deixarem de ser 
injustos e vexatórios. Todas as restricções è prohi- 



347 

bicões que pesam sobre o commercio entre a me- 
tropele e as colónias, como mostra a experiência e 
escrevem os economistas, embaraçam o progresso 
das colónias, paralisam o movimento das transac* 
ções, prejudicam simultaneamente os productores 
coloniaes, os fabricantes metropolitanos, e os con* 
sumidores dos dois paizes^ e, em definitivo, o the- 
souro publico. 

Se lançarmos os olhos para o nosso movimento 
commerciàl, fácil nos será reconhecer que o Brasil, 
desde que se tornou independente e que nenhumas 
leis restrictivas pesam sobre o seu commercio com 
Portugal, é um dos paizes que tem comnosco mais 
activas relações, dá melhor emprego á nossa mari- 
nha e maior consumo aos nossos productos. 

Em 1876, por exemplo, a nossa importação para 
o Brasil foi de 1 .934 contos, sendo em navios por- 
tuguezes 1.873 contos. No mesmo anno, a expor- 
tação de mercadorias portuguezas foi de 3.500 con- 
tos; sendo 1.880 contos em navios portuguezes. 

Com as nossas possessões da Africa, a importa- 
ção foi de 741,5 contos, e a exportação de merca- 
dorias nacionaes de 948 contos e nacionalisadas 
27,5. 

A importação das nossas possessões da Ásia foi 
de 59 contos; a exportação para estas possessões 
foi de 49 contos, sendo apenas algumas dezenas 
de mil réis de mercadorias nacionalisadas. 



348 



lY 



O espirito brilannico, melhodico e pratico, lem 
buscado formular os princípios essenciaes de colo- 
nisação. 

Depois de uma longa experiência, os economistas 
inglezes chegaram â racional conclusão, de que as 
principaes vaniagens económicas da colonisação, 
em relação á mãe palria, são duas: abrir novas fon- 
tes de producção, d'onde, artigos de -primeira ne- 
cessidade, úteis ou de luxo, se podem obter mais 
baratos ou em maior abundância do que antes se 
alcançavam, em consequência das condições de fer- 
tilidade de um solo virgem: abrir novos mercados 
para a venda dos produclos da mãe pátria, mais 
lucrativos e mais expansivos do que os mercados 
anteriormente existentes, em consequência do rá- 
pido crescimento da riqueza em paizes novos. «Men- 
«cionei, accrescenta Merival, estas duas vantagens 
«como distinctas, para seguir, quanto possível, a 



_ "* «iki 



349 

•í linguagem popular: comludo, de facto, a imporia- 
«ção e não a exportação, é o grande interesse de 
«um paiz; não o dispor dos próprios productos, 
«mas alcançar outros productos em troca. A pri- 
«meira coisa serve só para se alcançar a segunda 
«e comtudo é singular o observar quanto o ultimo 
«objecto, o da importação, é desconsiderado no 
« modo commum do raciocinar n'este assumpto, como 
«se a única vantagem das colónias fosse para os 
«nossos productores, negociantes e fabricantes; e 
«não para os nossos consumidores, isto é, para a 
« grande massa de povo . . . Para seguir as nossas 
«idéas antigas de ganho económico para um paiz 
«em particular, esse ganho deve ser uma coisa ex- 
« clusiva e monopolisada. Comtudo o plano de mo- 
«nopolisar as producções das colónias, ou as suas 
«importações, ainda que parte essencial do antigo 
«systema colonial, é de tão diíBcil execução que 
« mal se pode dizer, que fora jamais posto em vigor 
«seriamente, excepto na ruinosa politica de Hespa- 
« nha e de Portugal em relação aos metaes precio- 
«sos, e ao negocio das especiarias pelos hollande- 
« zes . . . Por outro lado, desde que se descobriu 
«que era praticável até certo ponto, por meio de 
* regulamentos fiscaes, obrigar os colonos ao con- 
«sumo dos productos da mãe pátria; e desde que, 
«em toda a historia commercial, achamos que os 
«productores foram sempre capazes de dar ao seu 






■feí } 






A: 



350 

próprio interesse a apparencia do interesse nacio- 
nal e simular que o seu próprio ganho^ não o 
bem estar dos consumidores, era o grande fim da 
legislação económica; a attenção publica tem es- 
tado quasi exclusivamente fixada n^esta parle do 
asssumpto. Nada mais commum do que ouvir, 
ainda agora, as colónias fallarem, como se ellas 
fossem outros tantos empórios, onde certas quanti- 
dades de algodão e matérias brutas se podem ob- 
ter para os fabricantes e armadores. Que os pobres 
consumam mais alimentos, mais roupa, e tenham 
mais algum bem estar, que seus pais não conhe- 
ciam; que membros da classe rica e média, em troca 
do dispêndio de uma parte egual dos seus haveres, 
obtenham muitos benefícios, que antes não podiam 
alcançar, e se possam cercar de um luxo e elegân- 
cia antes desconhecido; são, no fim de tudo, os 
principaes benefícios que o descobrimento da Ame- 
rica e o desenvolvimento da colonisação nos asse- 
guraram: e é para um tal crescimento do nosso 
bem estar physico que devemos olhar^ como para 
a principal vantagem económica que se deriva 
para nós d'estes factos. » 
Estas idéas, as mais justas e mais democráticas da 
economia politica moderna, necessariamente trans- 
foimaram as leis económicas, que regem as colónias. 
Às velhas tradições e ainda mais os velhos erros não 
podem resistir ao poder que hoje domina a socie- 



351 

dade e tudo transforma. Â terra é para a humani- 
dade. Os productos do solo foram creados para be- 
neficio de todos; e, embora a justiça determine que 
se remunere a cada um pelos seus trabalhos e ser- 
viços, nada auctorisa o monopólio de qualquer dos 
dons da natureza e as leis económicas punem com 
a miséria os que lhe contrariam as leis. 

Para pôr em actividade a producção nas coló- 
nias ha elementos essenciaes, como se sabe : a ter- 
ra, o trabalho, o capital, evidentemente em propor- 
ções variáveis. O agente terra existe em abundân- 
cia e em boas condições nas colónias ; mas não sue- 
cede o mesmo, em geral, ao trabalho, e, ainda me- 
nos, ao capitaL Quando as colónias tomam um certo 
incremento, quando o commercio as frequenta e ali- 
menta, quando o espirito publico as busca com se- 
gurança de lucro, então a emigração expontânea 
facilmente se estabelece e com a emigração os ca- 
pitães necessários ; mas emqilanto isto não succede 
é preciso empregar os meios que convidem a emi- 
gração, o que não é fácil. 

Um dos assumptos mais importantes, um dos 
problemas mais complexos da colonisação é, sem 
duvida, o modo de apropriação da terra. 

O systema que primeiro se oíferece, como mais 
próprio para desenvolver a cultura e attrahir a emi- 
gração, é o das concessões gratuitas, e é esse ainda 
lioje seguido nas colónias portuguezas. Geralmente 



352 

consideram-se as terras desoccupadas nas colónias 
como extensos baldios, em que o excesso da popu- 
lação da metrópole, consistindo principalmente em 
indigentes sem capital, pode ser lançado em multi- 
dão, para buscar a subsistência como poder. Esta 
maneira de ver é completamente falsa. Vencidas 
mesmo as dificuldades de obter a terra, é impossi- 
vel que pequenos proprietários, não dispondo de ca- 
pital, possam aproveitar a terra cultivando esses pro- 
ductos exportáveis, que tornam as colónias ricas. 
Tratando d'esta questão, Marival diz o seguinte: 
«Temos que considerar agora o modo porque o go- 
«verno pode empregar melhor as terras incultas, de 
«que dispõe nas novas colónias, para o progresso 
« d'esles dois objectos : primeiro, dar guarida aos emi- 
«grantes; segundo, — e devo accrescentar, com risco 
«de qualquer má interpretação, como sendo o mais 
«importante dos dois, — tornara colónia attractiva 
« para a classe de colonos, que mais rapidamente po- 
«dem desenvolvera riqueza do paiz, e assim fazer 
«progredir a prosperidade de todos. . . Com o fim 
• de promover a riqueza e o commercio e, com es- 
«tes, crear emprego para as classes pobres, é para 
«desejar que a distribuição das terras se regule de 
«modo, qua assegure a introducção de capital e tra- 
«balho nas proporções mais convenientes. > 

Busquemos esclarecer pelos exemplos este grave 
assumpto da apropriação das terras. No Canadá, 



353 

por exemplo, esta questão teve a priDcipio solu- 
ção, que contribuiu para demorar os progressos 
da cultura e, por conseguinte, da população e da 
riqueza. Fizeram-se concessões gratuitas em tal 
quantidade que, em poucos annos, se dispoz de 
todos os terrenos férteis, entregando-os a pessoas, 
que nem os arroteavam, nem os vendiam, nem mes- 
mo faziam as despezas preparatórias para lhes dar 
valor. Por fim, em vista dos inconvenientes, que cada 
dia se tornavam mais patentes, e attendendo aos 
reiterados pedidos dos colonos, teve de se abando- 
nar o systema de disperdicio, e de seguir, exagge- 
rando-o, um systema opposto. Adoptou-se o prin- 
cipio da venda das terras, sem abandonar o das con- 
cessões gratuitas condicionaes, e as vendas fizeram- 
se a 10, 15 e mesmo 20 schellings o acre; o que 
era um preço excessivo. Uma emigração de 150000 
colonos do Canada para os Estados-Unidos foi a 
consequência d'isto. As causas d'esta enorme emi- 
gração foram, conforme um relatório ofificial «o pre- 
«ço elevado das terras, as vastas concessões feitas 
«a senhores e companhias ou indivíduos, que nem 
«cultivavam nem vendiam ; a apathia ou má condu- 
«cta dos agentes officiaes, conjunctamente com os 
«pesados encargos a que os colonos estavam sujei- 
«tos; o direito de aproveitamento dos bosques se- 
«paraio do direito de cultivar o solo; emfím a in- 
< suficiência d'organisação colonisadora.» Mais uma 

voL. m. 23 



354 

vez se mudou de syslema, para tornar as terras ac- 
cessiveis ao maior numero; baixou o praso; acres- 
centou-se a extensão do território da colónia, para 
leste, com a expropriação á companhia da bahia 
d^Hudson de parte das vastas regiões por ella occu- 
padas. 

- Na colónia ingleza do Cabo da Boa Esperança 
o accrescimo de cultura, população e riqueza não 
tem sido tão grande como no Luando, como observa 
Leroy-Beaulieu, apezar das suas excellentes quali- 
dades de producção e de clima. As leis liollande- 
zas eram extremamente pesadas; mas, com o do- 
mínio inglez, as circumslancias modificaram- se; as 
liberdades desenvolveram-sc, a ordem e o progresso 
ficaram assegurados, uma corrente de emigração se 
estabeleceu. 

Erros considerjiveis, porém, impediram os bons 
effeitos das medidas adoptadas; e a emigração dos 
Boers teve um resultado funesto. O regimen das 
terras n'esta colónia esteve sujeito a numerosas flu- 
cluações e regulamentos contradictorios. Primitiva- 
mente, concediam-se terras aos cultivadores, arren- 
dadas: depois estabeleceu-se o systema de venda 
a 2 francos o acre. Em 1853 voltou-se ao systema 
dos arrendamentos, ligeiramente modificado. Fize- 
ram-se lambem largas concessões a particulares o 
companhias. A agiotagem tomou vastas proporções : 
e em 1857 tornou-se ao systema das vendas, a ra- 



355 

zão de 4 shillings o acre. Por fim chegou-se á con- 
clusão que se deve seguir um regimen único e sim- 
ples, e que não o ha melhor do que a venda a preço 
fixo. 

Na AustraHa achamos o mais brilhanle exemplo 
das maravilhas da colonisaçao moderna. Terra dis- 
tante, que parecia inaccessivel ao trabalho humano 
e á cultura, aquelle enorme continente, onde falta 
agua, encerrando no seu seio um vasto deserto, im- 
penetrável quasi á navegação, com um clima secco, 
a Austrália, em menos de um século, transformou- 
se num paiz de uma extraordinária riqueza; onde 
se erguem esplendidas cidades; aonde existem e 
prosperam sociedades regulares e productivas; e 
que parece caminhar para um futuro de uma pros- 
peridade indefinida. Verdade é que a descoberta 
das minas de oiro apressou muito este progresso; 
«mas, mesmo antes d'este feliz acontecimento^ as 
colónias da Austrália estavam prosperas e cresciam 
rapidamente.» 

Segundo um relatório official de 1838. «Os pro- 
«gressos extraordinários d'estes estabelecimentos 
«foram occasionados pela offerta regular e constante 
«do trabalho dos degredados: eram entregues aos 
« colonos quasi como escravos : forçados a traba- 
«Ihos, produziam mais do que consumiam; o go- 
«verno offerecia um mercado a este excesso de pro- 
« duetos para a manutenção de seus eslabelecimen- 

23 # 



356 

ctos militares e peiíâes, que custavam á metrópole 
«mais de 7 milhões sterlinos. Assim o governo co- 
< meçàva por prover os colonos da mão de obra e de- 
• pois comprava-lhes os produclos : esle foi para os 
«colonos um commercio muito vantajoso, emquanto 
«o pedido excedeu a offerta, e este excesso durou 
«muito tempo.» 

N'esta primeira phase da Austrália, a principal 
solução da questão do trabalho foi a do emprego 
dos degredados. Este, que tantas questões subleva, 
e que não se deve aproveitar systematicamente em 
colónias que tenham uma sociedade já organisada, 
não parece haver causado grandes transtornos na 
Austrália, pois n'um relatório ofiScial se lê: «Ha 
« agora 3000 degredados dispersos pela colónia e 
« afifirmo que a vida e a propriedade estão aqui tão 
«seguras como em qualquer outra parte do império 
«britânico.» 

A necessidade de braços na Austrália torna va-se 
cada vez mais evidente á medida que a colónia pro- 
gredia; as terras abundavam, mas faltava quem as 
cultivasse e d'aqui nasceu uma escola celebre, que 
intimamente se liga com o systema de apropriação 
do solo. A escola de colonisação systematica de Wa- 
kefield adopta, como principio fundamental, a van- 
tagem do systema de venda do solo, em pequenas 
parcellas bem medidas, sobre o systema de con- 
cessões gratuitas: estas vendas deviam fazer-se por 



357 

preço relativamente elevado. Para alcançar traba- 
lhadores em proporção com o território occupado, 
coisa tão necessária nas colónias, Wakefield pro- 
punha, que lodo o producto da venda fosse inteira- 
mente empregado no transporte de colonos. O preço 
da terra deveria ser, conforme esta escola, unifor- 
me, fosse qual fosse a qualidade do solo, e bas- 
tante elevado, como já dissemos, para evitar que 
os novos colonos se tornassem promptamente pro- 
prietários. D'aqui resultava, segundo os sectários 
d'esta escola, •que o preço do terreno, sufficiente 
para occupar um trabalhador, deveria ser egual ao 
custo do transporte d'esse trabalhador para a coló- 
nia. Estes principios, salvas ligeiras modificações, 
foram applicados na Austrália com bons resulta- 
dos. 

E porém certo que o producto da venda das 
terras, ou o imposto lançado sobre ellas, quer es- 
tejam quer não cultivadas conforme o principio ado- 
ptado nos Estados-Unidos, não deve servir unica- 
mente para obter colonos trabalhadores mas deve 
também servir para os trabalhos geraes, que se po- 
dem chamar de preparação. Estes trabalhos são es- 
senciaes; sem elles não pode haver colonisação. E 
preciso que o estado os execute, embora mais tarde 
venha a reembolçar-se á custa da colónia. 

Os trabalhos preparatórios indispensáveis são de 
diversas naturezas. Os mais importantes de todos 



- j3* "íse. '„i*ar' 



t/ 



358 



São os trabalhos de viação. Sem meios fáceis, prom- 
ptos, seguros e económicos de transporte, os pri- 
mórdios da colonisação são penosos e lentos; a cul- 
tura só vagarosamente se pode estender; o aiigmento 
e diminuição da povoação estão paralisadas. Não se 
pode esperar a creação de"povoaç.ões para abrir es- 
tradas, pois que são jusíamente as estradas que 
dão origem ás aldeias ou cidades, que promovem 
a cultura, que excitam o commcrcio. Uma boa rede 
de estradas é o inleresse maior de qualquer coló- 
nia e condição sem a qual a colonrsação quasi se 
não pode rcalisar. Aproveitar as vias fluviaes na- 
vegáveis é crear estradas em condições especiaes e 
com vantagens excepcionaes para o commercio, pela 
economia dos transportes e sua facilidade: isto é, 
principalmente, atlendivel na Africa,onde ha escas- 
sez de forças motrizes, onde faltam os animaes de 

carga e de tracção. 

Por isso que a apropriação do solo tem tanta im- 
portância nas colónias, como anteriormente vimos, 
não pode a divisão das terras em lotes, bem medi- 
dos, bem limitados e bem dispostos, deixar de ter 
uma importância de primeira ordem entre os tra- 
balhos preparatórios da colonisaçãò. Da maneira 
mais útil de proceder á medição das terras, dá-nos 
exemplo, digno de imilar-se, a America. 

Facilitar o accesso ás colónias é egualmente im- 
portante para a prosperidade d'estas e para facilitar 



339 

O seu commercio, de qua depende a sua riqueza, 
e, que por isso mesmo, não deve encontrar embara- 
ços nem physicos nem fiscaes. 

Estes três serviços preliminares são tão impor- 
tantes que um Estado, que deseja ter colónias pros- 
peras, se não pode dispensar de os executar, em- 
pregando qualquer meio financeiro, racional e fun- 
dado na futura prosperidade das mesmas colónias. 
Eis o que a tal respeito diz Leroy-Beaulieu. «Pa- 
« recc-nos incontestável que uma colónia não pode 
«pagar á sna custa os trabalhos preparatórios de 
«primeiro estabelecimento: a garantia das suas ren- 
«das futuras é uma quimera: o que os Wakefiel- 
«dianos chamavam o self supporting principie é uma 
«utopia. Parece-nos indispensável que a nação co- 
«lonisadora faça, ella própria, o sacrifício d'estas des- 
«pezas preparatórias, sem esperar rehavêl-os nunca 
«ao menos de maneira directa. 

«É necessário que a mãe pátria pague por si as 
«despezás de primeira installação da sua colónia: 
«ao cabo de certo tempo tirará vantagens impor- 
« tantes, que compensarão o sacrifício inicial que hou- 
«ver feito: estas vantagens consistirão, principal- 
« mente, no desenvolvimento da sua industria e com- 
«mercio, graças ao novo mercado que se lhes abre 
«na colónia.» 

Estas reflexões e os resultados práticos dos prin- 
cipies económicos seguidos nas colónias, cuja pros^ 



360 



perídade está melhor assegurada e roais rapidamente 
se desenyolvea, devem servir de proveitosa lição ás 
naçOes qae possuem, como nós, vastas colónias e dei- 
xam desaproveitadas as riquezas, que n ellas abun- 
dam e que podem e devem engrandecel-as. 



No primitivo sentido, a colónia era uma fracção 
de povo, que se ia estabelecer fixamente n um paiz 
estranho, mais ou menos distante. Modernamente, o 
sentido da palavra colónia modificou-se, chaman- 
do-se também colónias aos paizes mais geralmente 
situados entre os trópicos, habitados por mebos enér- 
gicas raças do que os europeus a que estas sujeita- 
ram o seu dominio, para proveito do commercio e 
da industria. Aqui formara-se, na verdade, estabe- 
lecimentos europeus, mas estes são compostos de 
militares, funccionarios, negociantes e cultivadores, 
mas em numero pequeno relativamente á popula- 
ção indigena; os europeus vivem alli transitoria- 
mente, não se fixam nem constituem familia. 



361 

A Inglaterra é o paiz que mais colónias, propria- 
mente ditas, tem organisado. Os inglezes transpor- 
tam para as suas colónias as coiídições económicas 
e politicas da mãe pátria. A liberdade, a organisa- 
çâo municipaU as inslituiçííes representativas acom- 
panham o inglez, que vae constituir uma colónia. 

A colónia ingleza é uma parte da mãe pátria, que 
se destacou do centro da nação mas não perdeu ne- 
nhuma das suas qualidades essenciaes. D'este gé- 
nero de colónias nada temos a dizer, além do que 
fica anteriormente indicado. Das colónias, que po- 
demos considerar do segundo grau, pelo menos em 
grande parle, convém ao nosso estudo que digamos 
alguma coisa, principalmente do Cabo e Natal, que 
ficam visinhas das colónias da Africa porlugueza, 
e tem com estas muitos pontos de analogia. 

Estas duas colónias, que fazem parte do Império 
britannico, occupam a região sul do grande conti- 
nente africano. A colónia do Cabo, ha uns sessenta 
annos, antes de chegarem os colonos inglezes em 
1820, tinha uma população total avaliada em 1 10000 
almas, sendo 48000 de origem europea, 27000 hot- 
tentotes, 23000 escravos. O commercio era apenas 
de 454000 libras de importação, sendo a exporta- 
ção de 151000 libras. As rendas publicas não ex- 
cediam 110000 libras, e as despezas 13000 libras. 
Em 1820 começou a imigração ingleza, auxiliada 
pela metrópole ; e, apezar de tudo, os emigrantes pa- 



362 

deceram muito nos primeiros annos. Deu isto logar 
a um inquerilo, em consequência do qual a organi- 
sação do governo foi modificada e alguns monopó- 
lios abolidos. Em 1853 foi creada uma assembléa 
legislativa. Em virtude de innumeras questões en- 
tre a colónia e a aucloridade, a qual era pratica- 
mente uma autocracia militar, — questões cuja causa 
principal eram as numerosas guerras com os cafres 
e as concessões feitas a estes: — chegou-se á conclu- 
são, que se tornava urgente conceder ao Gabo um 
governo responsável. Assim se fez em 1872, 

Estas transformações successivas, a abertura de 
boas vias de communicaçâo, escolas, etc. tem dado 
prodigiosos resultados, apezar da inhabilidade do ca- 
racter inglez para atlrahir a sympathia das raças in- 
feriores, e trazei as ao trato intimo e cordeal com 
a civilisação. 

Durante os seis annos, decorridos desde 1872 até 
ao fim de 1877, as exportações no Cabo attingiram 
24 milhões de libras sterlinas, não entrando neste 
valor os diamantes, que não seriam menos de dois 
milhões de libras sterlinas por anno. 

Em 1872 a lã exportada attingiu o peso de 48 
a 49 milhões de libras com um valor de 3 a 4 mi- 
lhões de libras sterlinas. 

Quando, em 1854, o Cabo passou de ser um do- 
minio da coroa a ser um governo representativo, a 
sua receita era proximamente de 300000 libras ster- 



363 

linas: mas logo os colonos cuidaram de alargar as 
receitas e augmentar as despezas. As communica- 
ções faltavam e os habitantes do sertão estavam 
quasi isolados do reslo do mundo. O parlamento 
aprovou logo numerosas leis de obras publicas: fez- 
se uma nova divisão de districtos, a fim de que em 
toda a colónia se gozassem as vantagens, que anles 
estavam limitadas ás visinhanças da capital. Nume- 
rosas cidades e povoações se levantaram por toda a 
parte. Escolas publicas numerosas se abriram. A 
emigração cresceu. Começou-se a conslrucção dos 
caminhos de ferro; corlou-se o solo de linhas te- 
legraphicas. Melhoraram-se os portos, levantaram- 
se faroes, construiram-se docas. As rendas publi- 
cas tem augmentado, a matéria colleclavel tem -se 
desenvolvido; a divida publica tem acompanhado 
todo este movimento progressivo e passa muito de 
10 milhões sterlinos. 

Apezar de todos estes esforços prodigiosos do es- 
pirito inglez, o problema principal, o das relações 
com os indigenas, está para resolver. O orgulho bri- 
tânico não sabe coadunar-se com as exigências e as 
susceptibilidades dos selvagens. Não lhes capta as 
sympathias infantis; excita-os e afasta-os de si, o 
que é um mal, sobretudo na Africa onde todo 
o trabalho, todo o progresso profundo e real de- 
pende do elemento negro. Para que se não julgue 
que exageramos, citaremos as palavras do sr. An- 



^^ ■' 11 II 



364 

thoriy Trollope n'uma sessão do Instituto colonial 
inglez: 

t Tenho visitado, disse este respeitado viajante, 
todos os grandes paizes onde se falia inglez e sem 
duvida a difificuldade, em relação a todos esles pai- 
zes, que me encheu de horror, foi o facto que, le- 
vando nós por diante os nossos instinctos de civi- 
lisar e utilisar os paizes que Deus nos deu, nunca 
fomos, apezar dos nossos esforços e boas intenções, 
capazes de tratar os indigenas por um modo sa- 
tisfatório. Fizeram-se esforços de accordo com os 
mais elevados principios de philantropia na Nova 
Zelândia. Quando tomamos por nossa conta a Nova 
Zelândia annulamos contractos feitos por inglezes 
e por companhias inglezas, a fim de que os indi- 
genas se mantivessem no solo, que era d'ellcs e 
podessem dizer — de modo que nós podessemos 
dizer também — que nada se lhes linha roubado 
e de nada os haviamos privado. Comtudo sabemos 
«quão lerrivel foi a sorte d'esses indigenas. Como 
«disse Mr. Froude, estão morrendo. Na Austrália 
«eslão morrendo também: na Tasmania não ficou 
«nem um. Na Nova Zelândia vão morrendo tão de- 
« pressa que, em muitos districtos populosos apenas 
«se encontra um. Sabemos qual foi a sorte dos 
« desgraçados Índios nos territórios que nos perlen- 
«cem e dos quaes a parte mais populosa foi occu- 
«pada pelos nossos grandes colonisadores — os ci- 



%* 



365 

«dadãos dos Estados Unidos. Desappareceram ou 
« eslão a desapparecer. Ha porém uma raça que es- 

< peramos que não desappareça* O que podemos as- 
«segurar é que eslã raça não poderia achar maior 
«probabilidade de viver em prosperidade e confor- 
«lo e de gosar a graça de Deus do que pela ane- 
« xação. » 

O illuslre Mr* de Tocqueville, nos seus estudos, 
observou o seguinte, que confirma o que anterior-- 
mente fica dito : 

« Observei sempre que, em toda a parte onde se 
«introduziam, não chefes europeos, mas uma popu- 
«lação europea, no seio das populações imperfeita- 
«mente civilisadas do resto do mundo, a superiori- 
«dade real e supposta da primeira se fazia sentir 
« por modo tão offensivo para os interesses indivi- 
« duaes, e tão irritante para o amor próprio dos in- 
«genas, que d'aqui resultava maior cólera do que 
« da oppressão politica. » 

E depois Tocqueville acrescenta: 

«Se isto é verdade em relação a todas as raças 
«da Europa, com mais forte razão é isto verdade 
« com referencia á raça ingleza, a mais hábil em ex- 
«piorar em proveito próprio as vantagens de cada 
«paiz, a menos atractiva, a mais disposta a man- 
«ler-se á parte, e (pode dizer- se porque este defeito 

< se une intimamente a grandes qualidades) a mais 
• altiva de todas.» 



366 



VI 



O grande pensamento do infante D. Henrique não 
tardou em transformar-se n um pensamento de lu- 
cro, num sonho absurdo de ambição desregrada. 
D. Manuel sonhou que podia tornar-se o arbitro e 
senhor do commercio do mundo ; o herdeiro das gran- 
dezas de Veneza, das ostentações fausluosas da Itá- 
lia; do poder da Europa: a este pensamento, pura- 
mente mundano, juntou o desejo tradicional de guer- 
rear os infiéis mahometanos; e, como este desejo 
auxiliava em vez de contrariar as cobiças do mo- 
narcha, como podia desapossar os infiéis dos seus 
dominios da Africa occidental, da índia, do com- 
mercio do oriente, do mar Vermelho e do golfo Pér- 
sico; D. Manuel persistiu no seu intento, captando 
assim as bênçãos do Papa e a benevolência dos prín- 
cipes christãos. 

Os rigores de D. João ir contra os que ousavam 
commerciar na costa da Mina, as leis de D. Manuel 
acerca do commercio da índia, dão clara idéa do que 



367 

ambicionavam os cobiçosos monarchas. Nas carias 
do celebre Affonso de Albuquerque, ultimamente pu- 
blicadas pela Academia, podem bem apreciár-se os 
fundamentos d'aquella politica, ciosa e cobiçosa, que 
caracterisa o século xvi assim como as consequên- 
cias desastrozas de tal politica. E fácil ver, logo nos 
primeiros annos do esplendor das nossas conquistas 
na Ásia, os symptomas pavorosos de uma rápida e 
funesta decadência. Quando a flor desabrochava já 
o fructo estava podre. 

Em 1512 dizia Albuquerque ao rei, que lhe 
mandara á índia algumas armas e gente: «juro- 
«vos pola verdade que sum obrygado a dizer a vos 
«alteza, que na india haveria, antes da chegada 
«destas armadas, mil e dusentos homens, dellcs em 
«Malaca, delles em Goa e em outras fortalezas, e 
«entre elles não havia tresentos homens armados e 
«ametade d'elles sem lanças, e na nossa armada 
«nem nas vossas fortalezas somente uma arma, 
«nem lança, nem pique; 'e esta é a verdade. E certo 
«senhor, o que nos esperava na resposta do moço 
«da armada de Dom Garcia. . . porque via Malaca 
«em vosso poder, que é fonte das especiarias e ri- 
«quezas d'estas partes e chave da navegação do es- 
«treito; e Goa, que é freio de toda a índia e segu- 
« rança de toda a navegação das náos de vossa car- 
t^a . . . e não vpr gente nem armas para as segu- 
^rar e conservar, para tomarem asento, e ver-m^ 



368 



* mandar armadas á índia sem gente e sem armas, 
« tirando vossa alteza um milhão d^ouro, parecia pe- 
*cados meus que ordenavam darem algum açoute 
< na minha honra » . Não é possi vel pôr mais patente 
a cubica de D. Manuel. 

Em caria de novembro de 1513, Albuquerque 
expunha ao rei o estado de sujeição e de paz em 
que estava a índia inteira, e concluia : 

<Âs vossas gentes andam seguras por toda a 
«terra da índia, assim pelo mar como pelo sertão; 
«em toda a terra de Cambaya lho não perguntam 
«para onde vae, e em todo o reino de Daquem e em 
«toda a terra de Malaca compram e vendem em 
«toda a terra e andam tão seguros como nesses 
« reynos. » 

No mesmo anno de 1513, em dezembro, o grande 
capitão e o grande politico, expoz ao rei os princí- 
pios que a este convinha seguir no commercio do 
oriente; e isto mostra quaes eram as preoccupa- 
ções do rei commercianle a quem Albuquerque es- 
crevia : 

«A vos convém fornecer a índia de mercadorias 
« d'aqui avante, porque a boca do estreito, prasen- 
« do a Nosso Senhor, cerrada está . . • portanto, 
« senhor, mandai muitas mercadorias das sortes que 
« vos aqui aviso. » A isto segue-se uma longa lista 
de mercadorias com indicação dos logares onde me- 
lhor consumo encontram. A carta termina pela in- 



369 

dicação das armas que melhor convém na guerra 
da índia; e, nesta parte, o heróico guerreiro falia 
como quem conhecia melhor os negócios da guerra 
que os da paz. 

Esta politica de cobiça, esta politica de um rei 
onzeneiro, avarento e desconfiado, não podia dei- 
xar de ter as deploráveis e abjectas consequências, 
que o grande Affonso de Albuquerque pinta ao vivo 
n'uma carta de dezembro de 1513. Começa assim 
a carta: 

«Vossa alteza mè culpa, me culpa, me culpa em 
«algumas cousas de cá da índia feitas contra vosso 
«regimento, e creo que será por má informação que 
«vos de mim darão algumas pessoas, que, com in- 
«veja e dor de meus feitos e meus serviços, vos ser- 
«vem agora cá, como meus competidores, damnan- 
«do as cousas de vosso serviço e de todo bem da 
«índia, cuidando que damnificam a mim; e crede- 
«me, senhor, porque esta é a maior praga qíie agora 
«cá ha na índia. . . prouvesse a nosso senhor, que 
« este engano e damno tocasse somente ás partes a 
« quem querem fazer mal e não trouxessem vossa ai- 
o^teza em 4anta duvida das cousas da índia, e tão 
« revolto, que vos não deixam tomar verdadeiro as- 
isento nas cousas de vosso serviço^ nem vos acabar- 
^des de determinar o caminho que quereis que leve 
«o negocio da Índia. Digo- vos, senhor, isto, porque 

voL. ni. 24 



370 

« se bem olhar dos vossos regimentos e deteriim- 
« ções, cada armo vem um contrario a outro, e cdd 
« atino fazeis uma mudança e haveis novo conselho; 
« e a índia não é o castello da Mina, para cada an- 
«no bulirdes com ella.» 

Não é possível fazer mais severa critica da poli- 
tica de D. Manuel, do espirito mesquinho, descon- 
fiado e ingrato d'aquelle rei venturoso, do que a fez, 
no seu estylo singelo, o famoso Albuquerque. 

Aquellas maravilhosas conquistas da Iiidia pas- 
saram como uma evolução, e não baslaram a sal- 
val-a 

Albuquerque terribil, Castro forte, 

E outros èm quem poder n5o teve a morte. 

A decadência rápida do commercio da índia le- 
vou a pensar na Africa, em tempo de D. Sebaslião: 
como, mais tarde, as desilusões na Africa levaram 
a fixar a atlenção publica no Brasil. A inquietação 
do espirito portuguez, em busca de riquezas e de 
impérios que nunca conseguiu, trocando o que tem 
pelo que sonha, faz lembrar uma fabula do celebre 
La Fontaine. 

Em 1569 mandava D. Sebastião á Africa orien- 
tal a expedição de Francisco Barreto, nomeado ca- 
pitão-mór da empresa do senhorio de Monomotafa, 
em busca do oiro como n'outro logar contámos. 
Pelo mesmo tempo foi a Angola o conquislador 



.j 



371 

Paulo Dias de Novaes, por mandado da rainha D. 
Catharina avó d'el-rei D. Sebastião e regente, du- 
rante a menoridade de seu neto. Em geral, por toda 
a parte o dominio portuguez encontrou a alliança 
dos indigenas para completar as suas conquistas. 
As guerras da rainha Ginga, as lutas com os jagas 
são disto boa prova; e ainda nação alguma euro- 
pea levou tão longe, pelo sertão dentro, a sua in- 
fluencia como os portuguezes em Angola. Sem per- 
turbar os usos e costumes dos povos africanos, que 
fomos sujeitando, fizemos dos chefes d'esses povos 
agentes da nossa auctoridade. O jaga de Cassangi 
presava-se de ser Quiambolo do rei de Portugal 
«que vale tanto, diz Cardonega, como ser capitão 
geral.» Ao pé dos potentados indigenas púnhamos 
um capitão-mór e um juiz dos mocanos, para irem 
pouco a pouco infiltrando o espirito portuguez nas 
povoações selvagens, c, quando podiamos, leváva- 
mos ao sertão a religião catholica pelo missionário. 
O espirito de assimilação dos portuguezes na 
Africa prova-se, no que diz Cardonega: «d^elles (os 
«mulatos) se fazem grandes hommens; e no prin- 
«cipio da conquista d'estes reinos (Angola, Ben- 
«guella) todos ou dos mais auctorisados, que vie- 
«ram a qonquistar, excepto alguns casados, todos 
«os demais se acommodaram com mulatos, filhos 
«de homens de bem, conquistadores, havidos em 
«suas escravas e outros em negras forras; e ainda 

24 # 



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372 

«hoje ha descendência muilo honrada e nobre, que 
« em seu trato se pode comparar com a índia e es- 
«tado do Brasil, quando o grande Affonso de Albu- 
«querque fez aquelles casamentos em a cidade de 
« Goa. > 

N'uma reunião do Instituto Colonial de Londres, 
Mr. Ardrer fazia notar, que havia no sul d' Africa 
um conflicto de raças: «Onde brancos e negros, di- 
«zia, se encontram, parece haver sempre um prin- 
tcipio de desaccordo entre elles. Um, pela sua civi- 
«lisação superior, olha o outro como inferior e este, 
«que pela sua ignorância não pode competir com o 
/ «mais intelligente, tem de abandonar o campo. » Esta 
opinião de um homem illustrado é fundada sobre os 
factos de origem ingleza. Este sentimento exagerado 
de orgulhosa superioridade não existe nos portugue- 
zes; e por isso os negros, — que teem uma vaidade 
infantil orgânica, como ha séculos fazia notar o pa- 
dre Gavazzi, — facilmente acceitam o nosso dominio. 
E esta uma das causas da nossa superioridade in- 
contestável, quando se trata de alargar as nossas 
relações politicas e commerciaes na Africa. 

N'um estudo apresentado pelo dr. Holub, — que 
já temos citado, — ao Instituto colonial de Londres, 
acerca do commercio europeu na Africa austral e 
central, lè-se o seguinte, a respeito do commercio 
portuguez, n'estas paragens: 

«Se considerarmos agora o trafico dos portugue- 



373 

zes, vemos que os caminhos por elles seguidos ao 
sul d'Africa partem de Lourenço Marques e de ou- 
tras partes da costa oriental mais para o norte, e 
para o alto rio, pelo valle do Zambeze, até 300 a 
450 milhas da foz. Mas da costa occidental nego- 
ceiam elles até aos grandes lagos. Fiquei na rea- 
lidade espantado quando cheguei a estas partes da 
Africa central, para ver todas essas regiões que 
teem sido consideradas pelo vulgo na Europa como 
terra incógnita^ e achei, com grande admiração, 
que muitas doestas regiões entre a costa de oeste e 
os grandes lagos e o rio Congo são bem conheci- 
das pelos commerciantes portuguezes. Fiquei admi- 
rado quando encontrei negociantes portuguezes, que 
voltavam de uma viagem de 150 milhas a leste das 
Cataractas Vicloria de Zambeze, e soube que vi- 
nham dos grandes lagos, atravessando o continente, 
a partir de Loanda, Benguella e Mossamedes, e 
chegavam até a visinhança de Shesheke. Estes ho- 
mens conhecem cada tribu e cada rio, e as parti- 
cularidades das diversas tribus, n'estas regiões, tão 
bem que poderiam escrever um livro sobre esta 
parle d'Africa. Um comrhercio muito activo se faz 
do interior para a costa occidental. A nacionali- 
dade d'estes commerciantes é, até certo ponto, por- 
tugueza, uns setenta por cento se chamam Mam- 
bari, que são uma raça mixta. Teem todo o nego- 
cio na sua mão.i 



374 

Isto mostra claramente a influencia, que os por- 
luguezes lêem na Africa central, e quanto nos é a nós 
mais fácil do que aos outros manter estreitas rela- 
ções com os povos bárbaros d'aquelles immensos ser- 
tões. Temos por dever aproveitar estas felizes cir- 
cumstancias para alargar, cada vez mais, o nosso com- 
mercio, e promover eflficazmente a civilis.ição da 
Africa; agora, sobretudo, que o trafico de escravos 
está, felizmente, extincto nas possessões portugue- 
zas. 

Os que desejam sinceramente a transformação dos 
povos africanos, pela cultura e pelo commercio, de- 
veriam auxiliar, em vez de contrariar, a acção dos 
ousados viajantes porluguezes, e associar-se a elles, 
em proveito de todos. 



VII 



Aos males causados pela cega politica creada por 
D. Joãí) II e D. Manuel, — que os outros povos (hol- 
landezes, inglezes, etc.) imitaram, sem hesitação, por 
muitos annos, — juntaram-se os funestos effeilos do 
inhumano trafico da escravatura; e tudo isto contri- 



375 

buiu para a paralysação e mesmo decadência das 
nossas colónias. 

O trafico e a escravidão acabaram em terra por- 
tugueza, para honra nossa. Algumas das tradições 
da velha politica commercial persistem ainda, e com- 
primem, de um modo desastroso, a natural expansão 
de regiões ricas, ás quaes só falta o incentivo de um 
commercio activo com o mundo inteiro. 

Não cremos que a absoluta liberdade de commer- 
cio, como a conhecem alguns economistas e poucas 
nações praticam, seja o que convém á prosperidade 
do nosso dominio ultramarino; mas julgamos ur- 
gente o estabelecimento de direitos moderados, que 
não afugentem o commercio ; sem direitos differen- 
ciaes, a não serem minimos, relativos a productos 
de origem nacional ; julgamos urgentissima a aboli- 
ção do privilegio de bandeira e do absurdo princi- 
pio denominado de grande cabotagem, entre a me- 
trópole e as provincias ultramarinas. 

Se lançarmos os olhos para o movimento com- 
mercial de Angola, notaremos a sua tendência a cres- 
cer ; mas fácil é reconhecer, que também ha alli uma 
força oppressora, que impede elle tome as propor- 
çõeis que correspondem á grandeza da província e 
ás suas multiplices riquezas naturaes, pela maior 
parte desaproveitadas. 

Nos três annos de 1871-1872 a 1873 i 874 o 
movimento commercial foi: 



376 

1871-1872 4:290 contos 

1872-1873 4:076 » 

1873-1874..... 5:084 . 

Seis annos depois, com relação a annos civis, 
achamos o seguinte: 

1879.. 2:769 contos 

1880 4:287 . 

1881.. 3:137 . 

1882 3:939 . 

1883. 4:248 . 

Em relação aos rendimentos das alfandegas, os 
fados mostram ainda quanto é natural a paraly sa- 
cão do commercio, produzida pelas leis actuaes. 

Nos três primeiros annos acima indicados os ren- 
dimentos foram, respectivamente, 320, 356 e 390 
contos; nos últimos quatro annos, de 1877 a 1882 
foram os direitos, respectivamente, 260, 398, 502 
e 480 contos. 

Entire as alfandegas de Angola deve chamar de- 
lidamenle a nossa attenção a do Ambriz. Esta al- 
fandega, creada em 1856, com direitos muito mo- 
derados e.permissão absoluta do commercio para 
navios nacionaes e estrangeiros, apresenta o se- 
;guinte motimento commercial : 



377 



Annos 



1879. , 
1880.. 
1881.. 
1882 . . 
1883.' 



Importação 
em navios 


Exportação 
em navios 


Estr. 


Nac- 


Estr. 


Nac. 


contos 


contos 


contos 


contos 


181 


51 


208 


75 


353 


44 


494 


162 


341 


46 


352 


54 


223 


60 


302 


38 


212 


100 


393 


25 



a 

o 



82 

_a 

contos 

515 
1053 
793 
623 
730 



Isto deixa ver a percentagem considerável que, 
no movimento das alfandegas de Angola, representa 
a de Ambriz, e sobre tudo a que coube á navega- 
ção estrangeira. 

Se compararmos com o movimento commercial 
do Ambriz, o movimento commercial de Mossame- 
des, — região esta destinada a tomar grande incre- 
mento agrícola e commercial, uma vez libertada dos 
pesos que a opprimem, — ainda a lição é mais evi- 
dente do que pela comparação do commercio da 
provincia com a do Ambriz. 



378 



Annos 


Importa- 
ção 

contos 


Pxporta- 
ç&o 

contos 


Movimento 
commercial 

contos 


1879 


121 
114 
_ 119 
116 
120 


60 
86 
77 
94 
82 


181 


1880 


200 


1881 


196 


1882 


210 


1883 


202 







Estes números dispensam commentarios. 

Tem-se dito, como argumento supremo, á seme- 
lhança do que se affirmou em outras nações, quando 
se quiz consprvar á navegação nacional o monopó- 
lio dos transportes commerciaes nas colónias, que 
os privilégios de bandeira e a grande cabotagem, 
tinham por fim animar e promover o desenvolvi- 
mento da marinha nacional : os factos, porém, nâa 
tem dado, entre nós, raáão a estas previsões, como 
o nao deram nas colónias das outras nações; e por 
isso esse privilegio está hoje abolido em toda a parte, 
com vantagem do commercio e do desenvolvimento 
das colónias. 

Sem fallar da Inglaterra, onde o denominado Acto 
de Navegação do tempo de Cromwell foi abolido ha 
muitos annos (em 1854), vemos que a França, por 
um senattis-consultus de 1866, concedeu largos di- 
reitos aos conselhos geraes nas suas colónias, e, ao 



379 

mesmo tempo, modificou o seu systema commercial. 
A França, que, até áquella época, se reservava o di- 
reito exclusivo de abastecer as suas colónias de tudo 
o de que necessitassem, e obrigava estas a vender 
os seus productos á metrópole, reservando aos na- 
yios francezes o transporte das mercadorias entre a 
metrópole e as colónias (grande cabotagem), aboliu 
toda esta legislação restrictiva, e deixou aos conce- 
lhos geraes o estabelecerem os direitos de alfandega 
e os de consumo maritimo 

Nas índias Orientaes Neerlandezas, os princípios 
fecundos da liberdade encontraram, como sempre, 
i^esislencias, mais ou menos interesseiras. A pro- 
mulgação das leis de navegação em 1850 tiveram, 
como consequência, a egualdade de bandeiras nas 
índias e a abertura de numerosos portos ao com- 
mercio. Em 1855 principiou a discussão sobre di- 
reitos ditferenciaes, accentuando-se a opinião emía- 
vor da abolição gradual das leis protectoras do com- 
mercio nacional. Em 1865 promulgou-se uma lei 
em sentido liberal: em 1872 estabeleceu-se a egual- 
dade completa na exportação e na importação 

Entre nós persistem as leis restriclivas, e onde 
ellas se acham modificadas, o commercio tende a 
desenvolver-se. 

De uma informação estatislica do ministério do 
ultramar podemos ver o seguinte, em relação ao nu- 
mero de navios mercantes e sua tonelagem, entrados 



'"-ri 



380 

em Angola nos quatro annos a que se referem o: 
dados acima citados: 

xNAVIOS MERCANTES ENTRADOS EM ANGOLA 



Annos 



Í«79 
1880 
1881 
1882 



f 



Vapor 


TAU 


Nac. 


Eitr. 


Nac. 


Estr. 


143 


55 


57 


«9 


160 


59 


53 


22 


166 


47 


65 


25 


154 


59 


75 


32 



Tonelagem 

166:263 
175:324 
179:903 
191:573 



Não devemos esquecer que grande parte dos na- 
vios a vapor, considerados como nacionaes, devem 
ser os da carreira ordinária de paquetes, que lêem 
bandeira porlugueza, mas são estrangeiros. Vejamos 
agora qual foi a parte dos navios entrados, que re- 
presenta a navegação do porto do Ambriz, que tem, 
como dissemos, condições especiaes: 



381 



NAVIOS MERCANTES ENTRADOS NO AMBRIZ 



Annos 



1879. 
1880. 
i881. 
1882". 



Vapor 


Véla 


Nac. 


Estr. 


Nac. 


Eatr. 


32 


29- 


4 


6 


25 


38 


1 


6 


31 


28 





9 


25 


34 


1 


8 

1 



Tonelagem 

55:202 
61:231 
62:991 
68:491 



Assim O numero total de toneladas dos navios 
mercantes entrados em lodos os portos de x\ngola, 
duranlç os quatro annos de 1879-1882, foi de 
713:063, sendo as dos navios entrados no Ambri;? 
247:916, isto é, mais de 34 por cento. 

Os resultados alcançados pelo exclusivo da nave- 
gação, e pelas reslricções do commercio, ficam bem 
patentes por estes factos. A navegação nacional não 
cresce, o commercio roantem-se paralysado, onde as 
reslricções e exclusivos persistem, e, o que é mais 
grave, o movimento productivo e commercial do ser- 
tão fica paralysado, o que importa muito á riqueza 
nacional e ainda mais ao progresso da civilisação 
dos negros. 

Citaremos a este propósito as palavras de um 
distincto official de marinha, o meu amigo o sr. Car- 
los Testa. 



382 

«E ainda para notar — diz o sr. Testa, num opus- 
« culo sobre a navegação nacional— que apezar d'este 
« exclusivo em favor da bandeira, a marinha mercan- 
«til nacional não se aproveita muito d^elle, resul- 
«lando d'abi ser quasi nullo o commercio, onde e 
«para onde elle poderia ser activo e importante. O 
«que, porém, se torna ainda mais notável é que, ao 
«passo que de tal modo se impede a livre concor- 
« rencia, e que, por assim dizer, se afugenta o tra- 
« fico marítimo que espontaneamente procurasse am- 
«pliar-se, e qiie daria logar a um grande movimento 
^nos nossos portos tanto do continente como nas 
«possessões, e de onde resultariam novos elementos 
«de riqueza movei, por outra parte, e caindo em 
« contradicção palpável, concedem-se subvenções pe- 
«cuniarias a uma ou outra empreza, aliás já favo- 
«recida com a concessão de explorar um trafico que 
«a outros fica prohibido! 

«E assim que a uma linha de vapores inglezes, 
«que de Inglaterra mensalmente se dirigem ao Cabo 
«da Boa Esperança e Natal, é concedida uma avul- 
«tada subvenção a fim de fazerem escala por Lis- 
«boa e navegarem, transportando carga, entre este 
«porto e os da provincia de Moçambique. Não é,. 
«porém, permittido egual trafico marítimo a qual- 
«quer outro navio ou linha de navegação estrangeira, 
«tal como a ingleza, que, cursando análoga derrota, 
«toca mensalmente na ilha da Madeira, e que, em- 



383 

«bora sem receber subvenção, pretendesse trans- 
« perlar qualquer volume de carga entre aquelle 
«porto e outro qualquer domínio portuguez. 

«E prohibida a derrota e trafico aos que nada 
«exigem de retribuição oííicial; deixa de existir tal 
«prohibição para aquelle que, a par do favor do 
«privilegio, ainda por cima se sujeita a. . . receber 
« subvenção 1 

«É isto restringir a área de acção e de explora- 
«ção, impedindo a livre concorrência, em vantagem 
«somente do privilegiado e remunerado. A simples 
«lógica aconselharia o contrario, pois nada mais 
«evidente do que a contradicção que se dá n'esta 
«accumulação de favor e de retribuição.» 

Para tornar mais claros os inconvenientes do sys- 
tema restrictivo da navegação, creados pelo deno- 
minado principio da grande cabotagem, accrescenla 
o illustrado official de marinha : 

«Para avaliar por comparação o resultado de um 
«tal systema com o da livre concorrência, bastaria 
«notar qual seja o trafico que se eífeclua hoje em 
«dia entre Portugal e os portos do Brazil. A par 
«das linhas postaes, e como tal retribuidas, mas sem 
t exclusivo, outras linhas de navegação de dififeren- 
«tes bandeiras tocam em Lisboa, navegando livre- 
« mente com destino áquelle iqoiperio. Podem nave- 



384 

«gar e commerciar entre Portugal e Brazil, por isso 
«que o Brazil é estado independente e fora da acção 
«do artigo 1:315.% pois se fosse ainda dominio por- 
ttuguez e se> portanto, lhe fosse applicado o theor 
ce os eífeitos d'aquelle artigo, o que aconteceria? 
«Todo esse movimento ficaria restringido desde que 
«a navegação, por ser considerada de cabotagem, 
f ficasse resej vada só á bandeira nacional. O exém- 
« pio pode por contraposição applicar-se ao que ainda 
«acontece ao commercio entre Portugal e suas pos- 
« sessões. Mas os exemplos não se aproveitam como 
«lição para a pratica. Ainda assim é para notar que^ 
«apezar d'aquelle livre commercio para os portos 
«do Brazil e para os Estados-Unidos, não deixou 
«ainda a marinha nacional de explorar aquella na- 
« vegação de preferencia á que poderia entreter com 
«outros portos de nossas possessões, aliás sujeitas 
«ás restricções d'aquelle artigo 1:315.^» 

Se alterarmos profundamente o nosso regimen 
commercial, pondo-o de accordo com os principios 
modernos e com as lições da experiência, teremos 
dado um grande passo no caminho do progresso, e 
assegurado ás nossas colónias um futuro prospero 
e uma alta posição entre os grandes centros do com- 
mercio do mundo. 

Este progresso urgente, alcançado pela applica- 
ção racional e prudente do regimen da liberdade, 
deve ser acompanhado de largas medidas adminis- 



386 

trativas, que tendam a dar vida, movimento, activi* 
dade prodoctiva ás nossas vastas colónias africanas. 

Nao temos que insistir sobre a necessidade de 
emprehender obras de viação, efficazes e promptas, 
para preparar campo fecundo a novas emprezas agri- 
colas e commerciaes. Isto não precisa demonstrado: 
basta lembrar o que anteriormente dissemos, e os 
resultados, incompletos mas incontestáveis, dos en- 
saios feitos em virtude da lei de 1876, ensaios ir- 
racionalnente interrompidos pouco depois em no- 
me das economias, que vieram a dar n'um grande 
desperdicio. Acordou o espirito nas colónias: as 
obras publicas provaram a sua^cção fecunda, onde 
foram bem dirigidas; e, é de esperar, que não tar- 
de o momento em que o pensamento da lei de 1876, 
tristemente abortado, tome de novo vigor para le- 
var a bom termo a transformação das nossas pro- 
vincias africanas. 

As nossas possessões africanas não se parecem 
com as colónias inglezas, n'um ponto essencial e 
que se deve ter sempre em vista, quando se trata 
de organisar a sua administração. As colónias ingle* 
zas são verdadeiras colónias no sentido primitivo 
d'esta palavra, isto é, fracções de povo que vão es- 
tabelecer-se e fixar-se em regiões longiquas. A acção 
d'esses estabelecimentos é afugentar os indigenas ou 
mesmo provocar a sua anniquilação não podendo ou 
não sabendo persistir em frente da civilisação, re- 

voL. m 2S 



386 

presentada por pavos que lhes não comprehendem 
a indolé e as necessidades, que os querem conver- 
ter subitamente ás idéas e aos costumes da civili- 
sação, e que lhes fazem pezar, como um crime e 
como uma humilhação, a sua inferioridade. 

As Províncias Ultramarinas portuguezas são co- 
lónias ,áe outra natureza, e assemelham-se mais ás 
colónias hollandezas da índia. A população indígena 
é muito mais numerosa do que a população coloni- 
sadora, n ella reside a principal força que anima 
a agricultura e a industria, é indispensável con- 
tar com ella como auxiliar poderoso na adminis- 
tração. 

Nas índias Neerlandezas, a população européa 
era, em 1881, de 41:676 almas e a indígena 
de 25.904:371 almas, contando mais ainda uns 
400:000 orientaes de diversas procedências. D'e6ta 
circumstancia resultou uma consequência muito ra- 
cional e perfeitamente justificada. Desde os tempos 
primitivos, um dos princípios do governo neerlan- 
dez nas índias foi deixar, quanto possível, a popu- 
lação indígena sob a ímmedíata administra^ dos 
seus chefes naturaes. 

Este systema foi interrompido, durante o curto 
domínio ínglez, para tornar de novo a restabelecer*se 
quando voltaram os hoUandezes. Um regulamento 
governamental determinou, que a população se con- 
serve sob a direcção ímmedíata dos seus chefes na- 



387 

toraes, reconhecidos ou nomeados pelo governo e 
sujeitos á vigilância suprema dos governadores. 

Em quanto â administração superior das índias, 
está esta confiada a um governador geral, auxiliado 
por um conselho de governo ; que, em certos casos, 
deve consultar, e de que em outros carece de obter 
voto afirmativo. Este chefe supremo da administra- 
ção tem poderes legislativos e executivos, que pode 
exercer em conformidade com as leis. Empregados 
de fazenda, de administração, de instrucção publica, 
de obras publicas, de justiça etc, e um secretario 
geral, ajudam o governador no exercício das suas 
funcções. 

Por tudo isto se vê a estreita analogia que existe 
entre a organisação colonial hollandeza nas índias 
Orientaes, e a organisação colonial portugueza nas 
províncias africanas. 

Desde os primeiros tempos que nos servimos dos 
chefes indígenas para assentar o nosso domínio na 
Africa; já unindo ás nossas as forças d'elles, para 
sujeitar os rebeldes; já usando da sua influencia, 
para facilitar a administração dos povos sujeitos. An- 
teriormente dissemos, qual foi a posição official, po- 
demos dizer assim, do jagga de Cassanga e dos po- 
tentados Dembos, desde os tempos das guerras da 
rainha Ginga. 

A nossa alliança com os chefes indígenas é a força 
principal do nosso domínio. Este precisa ser sym- 

25* 



388 

patbico aos negros, interessal-os; fallar-lhe á vai- 
dade e á cubica. Os chefes negros devem receber 
do governo uma invistidura, e de mais uma pensão 
módica, que se lhes suspenda quando elies prejudi- 
quem os nossos interesses, suscitem guerras inúteis 
aos visinhos, embaracem por qualquer forma o com- 
mercio. 

A conveniência de accentuar cada vez mais este 
systema de governar nas colónias é evidente. N'outro 
tempo fizemos dos potentados negros nossos allia- 
dos. Hoje, o convivio constante; o sentimento cara- 
cterístico da egualdade, que domina no espirito dos 
portuguezes e é uma força incontestável para attrair 
os negros ; o accordo de interesses e o influxo lento 
mas seguro da civilísação sobre a barbaria, quando 
o não perturbam as paixões hostis; boje, que a es- 
cravidão não existe, e que foi abolido o trabalho for- 
çado dos carregadores-, o nosso dominio moral sobre 
os povos africanos ha de crescer e alargar-se cada 
vez mais. Não é pela força que podemos nem temos 
interesse em firmar o nosso dominio : a experiência 
tem-nos ensinado e está provando esta verdade. 

Para obter este resultado carecemos, acima.de 
tudo, de auctoridades que comprehendam e sigam 
invariavelmente uma politica de accordo com este» 
principios; auctoridades que deixem aos sobas o seu 
poder, com os caracteres que lhe sãí) peculiares^ 
exercendo-se em tudo que não vae de encontro aos 



389 

priDcipios essenciaes da civilisação e até onde taes 
principies podem ser seguidos pelos negros. 

Ensinar os negros a serem úteis, a comprehen- 
derem as vantagens do trabalho, e os benefícios do 
commercio: crear nos negros as necessidades, que 
representam melhoramento na vida material, des- 
envolvimento na vida moral : abrir aos negros hori- 
sonles, por onde se possam expandir as suas limita- 
das aptidões, a fim de lhes transformar a natural 
indolência em actividade productiva: ensinar os ne- 
gros pelo exemplo, àtrail-os pela benevolência, do- 
mar-lhes as ruins paixões pela justiça, impressio- 
nados pelas maravilhas da civiUsação, ministrar- 
lhes, na escola e na oíficina, um ensinamento que 
os persuada de que elles podem seguir as praticas 
dos brancos, com vantagem própria: eis o que te- 
mos a fazer na Africa portugueza. E proseguir, apre- 
feiçoando-o, no systema, ha séculos iniciado pelos 
portuguezes n'aquellas regiões. 

A politica do governo, com referencia a raças in- 
digenas, não pode ser outra senão a que fica indi- 
cada n'eslas breves palavras. E a mais segura, a 
mais efificaz; a que está mais de accordo com os 
nossos meios e o nosso caracter; é a que nos dá 
decidida superioridade sobre todos os povos euro- 
peos, estabelecidos na Africa; é, sobretudo, a politica 
qn^melhor pode contribuir para a civilisação dos 
negros, tornando n'elles vivo o sentimento da pro- 



390 

pria dignidade de homens; sentimento, que elles não 
possuem hoje e que o orgulho irreflectido dos ho- 
mens civilisados não tende, de certo, a despertar. 

Nas relações entre a metrópole e as colónias es- 
tabeleceram a constituição e as tradições um princi- 
pio, que deve ser mantido em toda a sua plenitude 
e desenvolvido em toda a sua fecundidade. Em vez 
de se considerarem as possessões ultramarinas como 
colónias propriamente ditas, foram ellas sempre con- 
sideradas como parte integrante da monarchia. A 
constituição considera-as, pela mesma forma, como 
parte integrante da monarchia, attribue-lhes o di- 
reito eleitoral, e da-lhes representação em cortes. 

Esta attracção exercida sobre as provincias ul- 
tramarinas, chamando-as á vida politica da monar- 
chia portugueza, interessando-as n'essa vida, conti- 
nuará a ser uma inutilidade como até hoje, uma mera 
phantasia, mais prejudicial do que útil, se não for 
robustecida pela vida municipal e provincial. Nos 
relatórios dos governadores encontram-se repetidas 
queixas da falta de gente para constituir nas loca- 
lidades o corpo municipal, mas isso não deve fazer 
descrer do futuro dos municipios no ultramar. To- 
das as tribus africanas tem um soba, todo o soba tem 
os seus macotas; este facto está nos ensinando o 
que deve ser o corpo municipal no sertão. Soba e 
macotas formam um corpo municipal. É preciso d3o 
querer fazer camarás municipaes á Européa. Lem- 



39i 

bremo-nos que na metrópole ha corpos municipaes, 
que não fazem grande differença dos conselhos dos 
sobas que dirigem os negócios das tribus selvagens. 

O exercicio das liberdades municipaes ensinará 
os povos, — onde ha europeus em maior óu menor 
numero — a exercer os seus direitos políticos, a go- 
vernar-se, a comprehender á sua responsabilidade, 
a contribuir para o governo e o progresso da pro- 
víncia, e a buscar no parlamento da nação uma re- 
presentação que satisfaça as suas aspirações e cuide 
dos seus interesses. O ensino da civilisação deve 
progredir com os hábitos ds, liberdade. E preciso 
não esquecer, que os negros teem espirito e hábitos 
essencialmente democráticos, e estão por isso habi- 
Htados a entrar na vida poUtica de hoje, com a con- 
dição de os encaminharmos convenientemente: só 
assim podemos fazer d'elles cidadãos. Toda a pre- 
cipitação é um erro; e houve precipitação em fazer 
eleitores de homens, que não sabiam ser cidadãos. 
O mal porém, não se corrige senão educando; não 
cerceando direitos ha largos annos concedidos. 

Com o desejo de attrair colonos e capitães para 
o ultramar, adoptou-se o principio da concessão gra- 
tuita de terras a particulares e a companhias, sem 
inquerir se os meios dos concessionários correspon- 
diam á grandeza e natureza das concessões. Já n'ou- 
tro logar notamos os inconvenientes das coocessSes 
gratuitas, e os resultados práticos dos princípios se- 



392 

^uidos nas colónias inglezas. Entre nós é preciso 
pór termo a um systema, cuja esterilidade estão pro- 
vando milhares de exemplos, seguidos durante meio 
século. A distribuição de terras e de riquezas natu- 
raes, gratuitamente, não leva a nada, nem attrae 
«migração, nem chama capitães. Os concessionários, 
não residem na colónia, guardam a concessão que 
lhes não custou nada, e esperam no futuro, ao acaso. 
Como não ha um estudo minucioso das provincias, 
como os terrenos não estão medidos nem demarca- 
dos, em grandes ou em pequenos lotes, as conces- 
sões são feitas ao acaso, vagamente, com risco mui- 
tas vezes de concedermos o que é propriedade dos 
negros, com risco de os afugentar e de os hostilisar 
por uma injustiça, que os offende nos seus direitos. 
Factos doestes teem-se repetido mais de uma vez, e 
nós devemos ter em mente que os negros são os 
únicos trabalhadores com que devemos contar na 
Africa; que é preciso attrail-os e não afugental-os, 
— ensinar-lhes que o branco é a justiça e não a vio- 
lência e o roubo. 

Tudo que pode activar e facihtar o commercio 
nos convém. — Estradas; meios de transporte, so- 
bretudo Unhas de caminho de ferro construidas com 
a maior economia, com a máxima parcimonia, e só 
nas regiões apropriadas, do litoral para o sertão; 
do paiz insalubre para o salubre e produetivo. Abai- 
xamento de direitos; Uberdade absoluta de navega- 



393 

ção para todas as bandeiras, porque esta nos não 
?ae tirar coisa alguma, mas levar e trazer merca- 
dorias e activar o commercio. 

Tudo que pode activar o trabalho, robustecer as 
forças productivas nas provincias ultramarinas, ten- 
derá a dar maior riqueza a essas possessões ; tor- 
nará mais estreita a união de todas as partes da 
monarchia; influirá poderosamente sobre a civilisa- 
ção e assimilação dos negros, e firmará a nossa in- 
fluencia na Africa. — Abrir vastos mercados aos pro- 
ductos africanos, supprimindo todos os intermediá- 
rios embaraçosos, que desviam os consumidores, 
monopolisam o commercio, e augmentam os fretes : 
ensinar o trabalho aos negros, por meio das esco- 
las rudimentares de artes e officios, sobretudo pelo 
exemplo de bons methodos agricolas e pela cultura 
das plantas tropicaes; — cultura esta que augmenta 
a riqueza publica, attrae os capitães, e se pode agora, 
que a escravidão acabou em toda a parte, empre- 
hender melhor em regiões nas quaes abunda a po- 
pulação negra do que em outras menos bem dota- 
das. 

O negro é susceptivel de melhorar os seus cos- 
tumes, de aperfeiçoar os seus methodos de traba- 
lho: ha d'isto numerosas provas. Onde o arado vem 
substituir a enxada, a agricultura passa das mãos das 
mulheres para as dos homens, e dá um largo passo 
no caminho do progresso. A este passo corresponde 



394 

um grande melhoramento na sorte da mulher, a for- 
mação de mais estreitos laços de família, o aperfei- 
çoamento da vida domestica e a primeira evolução 
de idéas moraes. 

Portugal tem um grande problenàa social a resol- 
ver. 

Gabe-lhe grande quinhão na conquista civilisa- 
dora da Africa; e essa será a sua maior gloria. Não 
deve hesitar no cumprimento de um dever: não pode 
addiar a sua acção fecunda nas terras africanas ; tem 
que reconhecer e acceitar a sua enorme responsa- 
bilidade. 

O caminho está traçado, é preciso seguil-o ener- 
gicamente, como cumpre a uma nação séria, sobre 
que pesam as tradiçOes de uma grande historia. 



rai DO VOLUME m 



índice do YOLIJME III 



PAG. 

Abundas em Angola 126 

Abyssinia 11 

Acabam as missões na Abyssinia 80 

Agua-ardenle desmoralisa 88 

Alliança com os chefes indígenas na Africa 387 

Ambacca 235 

Animismo nas raças africanas 34 

Anões 227 

Antagonismo dos phenomenos da emoção e da elabora- 
ção intellectual 65 

Antecedentes promovem o progresso 150 

Antropopbagia no Congo e Angola 104 

Antropophagia dos negros e antropopbagia dos germanos 

e celtas. 16 

Aprendizado, methodo português 313 

Apropriação da terra « 351 

Attentado contra a vida do rei do Congo na egrejá 103 



396 



PA6^ 

Bâ-congo 216 

Ba-cundi (canibaes) 226 

Ba-kankala 136 

Ba-kuisse e Ba-Nhaneca 135 

Ban-kumbi 277 

Ba-teké 218 

Ba-Ximba , 138 

Baptisados em Angola, etc 68 

Baptismos de carregação Hl 

Barca humana 249 

Ba-yanzi 219 

Bailundo 151 

Bihè ; 262 

Ba-Nhaneca 272 

Bam-gala 302 

Boi Geloa 274 



O 



Cabo e Natal, seus progressos 361 

Cachellangues 226 

Gaconda 253 

Camba 277 

Cambamba (minas de prata) 132 

Canibalismo ^ 138 

Capuchinhos em luta com o clero portuguez 108 



397 



PAG. 

Garocas .••...• 214 

Gassange 306 

Cazengo 233, 312 

Ohristianísmo na Africa • 87 

Geremonias [>ela morte de um jaga 248 

Gha-N'6angi 305 

Civilisação actual de africanos corresponde à civilisação 

préhistorica 14 

CoIoAias portuguezas na Africa comparadas com as coló- 
nias inglezas 386 

Colónias, parte integrante da monarcbia 390 

Golonisaçâo systematica de Wakefild 356 

Gommercio com o Brasil e com a Africa 347 

Gommunismo entre negros 130 

Gompanhias francezas • 334 

Gompanhia hollandeza das índias orientaes 330 

Goncessão gratuita de terrâs 391 

Gongo e Angola em lucta 297 

Contrabando é o nivelador do commercio. 339 

Graneo humano muda com a civilisação 26 

Grenças dos negros sobre os mortos 91 

Grenças religiosas dos negros 91 

Gubaes 271 

Gubiça dos reis portuguezes 366 

Golonias inglezas 337 

Gultura dos campos de Loanda 208 



Dembos 221 

Desenvolvem-se as sociedades por evolução e não por 
transformação , 67 



i^ 






398 



Diabos tiram o telhado da egreja no Congo para levarem 

um chefe de revolta 75 

Duque de Braganga 239 



E 



Egualdade entre os negros 44 

Elogio .dos portuguezes 3i5 

Embondeiro da rainha Ginga 238 

Emigrações africanas 29i 

Emoções e actividade intellectual 154 

Escolas mahometanas 30 

Escravidão em Angola 58 

Escravidão e os frades 54 

Escripta entre os negros 448 

Estrangeiros no Congo 107 

Expulsão das Companhias do Congo • 67 



Facilidade no commercio 393 

Fortalezas dos Dembos J21 

Francisco Barreto em Monomotapa 370 

Funcçoes physicas dominam as intellectuaes nos negros. 64 



O 



Gambos 273 

Huanguellas ♦ . . 267 



399 



PAO. 

Ginga • 227 

Guerra aos monopólios » 326 

Guerra dos assacares i • . • 343 



Hambas 283 

Hay 273 

Humbe 277 



Impérios (três) na Africa quando os portuguezes alli che^ 

garam 8 

Inimigos de Hespanha prejudicam as colónias portugue- 

zas 328 

Injurias dos missionários da propaganda contra os portu- 
guezes 76 

Institutos de ensino na colónia do Cabo 160 

Insalubridade dos terrenos da costa e movimento das po- 
pulações africanas do nordeste para sudoeste, cau- 
sas das alteragões dos typos negros 21 

Inf^oridade dos negros 121 

InvasSo dos Jagas no Gongo 78 

InstmcçSo dos missionários no Gongo 76 

lastrucgao de operários em Angola. 171 

Invasões no Congo 217 

Islamismo na Africa 28 



\ 



^•* 



400 



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.<■• 

J 



/ 



PAG. 

Jaccas. 299 

Jaga Gasangi. • 244 

Jagado de Gasangi está vago 247 

Jau ; 272 



Li bolo 250 

Lingua portugueza no Congo 260 

Luctas dos governadores de Angola com os missionários. 85 



M 



Magyar (Ladislan) carta ao governador de Benguella . . . 257 

Ma-hungo \ 227, 300 

Machado (Joaquim José), influencia das obras publicas . 164 

Ma-iacca 226 

Malange 241 

Mandombes 211 

Mani-Congo ;....... 9 

Ma-quioco 301 

Marabus e missionários. 148 

Marquezado de Mosoul 206 

Massangano 231 



401 



PAG. 

Matamba 2!f9 

Medidas portuguezas a favor dos escravos 197 

Meios de civilísar a África 12 

Missão allemã na Costa do Oiro, etc 92 

Missionários christãos; idéas sobre a escravidão 45 

Missões na Abyssinia 78 

Missões no Congo e em Angola 93 

Mixiloanda : 208 

Mocoandos 211 

Mondombos. . , 133 

Monomotapa . . * ■. 10 

Monopólios 323 

Mosendes 131 

Movimento commercial de Angola 375 

Muchicongos 128, 206 

Mucbimbos 214 

Muenandos 133 

Mussurongos 128 



N 



Nano 137, 266 

N^DumbaTembo 303 

Negros de Angola 125 

Nogueira (A. F.), livro sobre os negros 27 



Obras publicas em Angola, idéas da população 166 

Obras publicas nas colónias portuguezas 162 

voL. ni. . 26 . 



402 



PAG. 

Officiacs meclianicos no Congo • . . 186 

Opinião de Herder applicavel sobietudo á Africa.. . . 7, 8 
Opiniões de W. Reade e G. Srbweinfurlh sobre b isla- 

nismo na A frira 38 

Organisaçíio da Ginga ' 298 

Organisação das colónias hollandezas 387 

Origem das colónias inglezas 326 



Phalico, culto no alio Congo 216 

Pbylo|^Tapbia da Africa de oesle por Jobnslon 202 

Porluguezes na Africa 371 

Povos de Loanda são Fulus 207 

Povos negros, descriplos por Leão Africano 18 

Preparação das colónias para promover a emigrarão.. . . 57 

Privilegio de bandeira 378 

Procissões (juimbundas. 262 

Problemas de navegação e geographia resolvidos pelos 

porluguezes 321 

Progressos na Africa 17, Í4S 

Protestantes c catholicos, missionários inimigos 1 13 



Q 



Qualidades da propaganda christã na Africa 84 

Quiambole " 244 

Quianvo 226 

Quiculos dos jagas 245 

Quibita 273 



403 



ÍAG. 

Quillengues i^52 

Quimbundas. 261 

Quissamas 132, 210 

Qnis«^ungo do Bihé 139 



R 



Raphia-nitlda para a pintura 2^20 

Reade classitica os povos da Africa cm três grandes divi- 
sões 20 

Refutação das accusações contra os portuguezes 201 

Relações de Porlugal e Congo. . . 310 

Relações dos inglezes com os negros 363 

Religião e trafico de escravos 112 

Representação dos povos de Loanda sobre obras publicas 167 

Restriccões ao comraercio 3iO 

Ritos e usos am-btmdas 2*12 



Salvação das almas, preoccupação dos primeiros explora- 
dores da Africa 75 

Sambamenlo 246 

São José de Engoge 223 

Superioridade das missões de jesuitas 127 

Sousa Coutinho, escolas que estabeleceu em Angola. . . . 1S8 

Stanley, opiniões sobre a civilisação dos negros 160 

.Systema das culturas 332 

26# 



i 



404 






PAG. 

Terra e capital 352 

Trabalho dos degredados na Austrália 355 

Trabalhos de preparação 357 

Trafico da escravatura 87, 274 

Transformação dos negros ^ 389 

Tribus boschjemans na extremidade austral de Angola. . 213 

Tribus das terras baixas da embocad ura do Zaire 205 



U 



Urapala 272 



Vantagens económicas da colonisação 3i8 

Venda das terras a preço fixo. 355 

Vrda municipal 390 



Zanzibar (negros do) 143 

Zimbos 40 



ESTUDOS 



SOBRE 



iS 





ESTUDOS 



SOBRE 






POR 



JOÃO DE ANDKADE COEVO 

Sócio effectivo da Academia Real das Sciencias de Liiboa 



Volume IV 



LISBOA 

POR ORDEM ! U TTPOGRAPHU Di AC&DIMU REAl DiS SCBKCUS 

1887 



COLÓNIAS ASIÁTICAS 



A índia 



As viagens de descobrimento pela costa oriental 
da Africa, tinham chegado até ao rio do Infante; es- 
tava dobrado o Cabo da Boa Esperança por Bar- 
tholomeu Dias, mas não era conhecido o caminho 
da índia e o rei de Portugal queria esse caminho, 
para que viessem por elle a Lisboa as especiarias 
que faziam a riqueza do Mediterrâneo. 

O rei de Benin, da costa occidental da Africa, in- 
formou el-rei D. João II que, para os lados do oriente, 
havia um rei christão, chamado o Preste João: con- 
cluindo, doestas e d'outras informações, que o Preste 
João era rei da índia. D, João II mandou commissa- 
rios para irem informar-se e trazerem-lhe a noticia, 
e ao mesmo tempo fallou com Janinfante, um estran- 
geiro tratante que muitas vezes vinha a Lisboa e 
muito sabia da arte de navegação, para ir em qua- 
tro caravellas pela costa de Benin e proseguir a 



8 

viagem para dobrar o Cabo da Boa Esperança. O 
mar não permittiu a Janinfante proseguir a viagem, 
porque as caravellas eram pequenas e, quando se 
acabaram os mantimentos, voltou para Lisboa e disse 
a el-rei o que lhe succedera e que eram precisos 
navios grandes que permittissem navegar pelo mar 
largo, para descobrir o rumo d'aquellas terras que 
parecia serem mui grandes. El-rei encarregou Ja- 
ninfante de fazer á sua vontade os navios, e man- 
dou cortar boas madeiras que foram trazidas a Lis- 
boa. Andando n'esta labutação de construir os na- 
vios Janinfante adoeceu e morreu, El-rei também 
por este tempo morreu. 

D. Manuel, o seu herdeiro, tomou o mesmo em- 
penho de descobrir o caminho da índia, e encarre- 
gou d'isto Vasco da Gama, que partiu para a índia 
n'uma armada de três naus: S: Raphael, S. Gabriel, 
e S. Miguel. Cada nau levava oitenta homens. 

A armada, depois de varia fortuna, dobrou o 
Cabo da Boa Esperança e por fim chegou a Mo- 
çambique, onde o Xeque lhe mandou dois pilotos 
para os conduzir á índia. Os pilotos porém eram 
traiçoeiros ou ruins; e só em Melinde Vasco da Ga- 
ma achou amisade e recebeu bons pilotos que o con- 
duziram a Calecut. 

O caminho da índia pelo Cabo da Boa Espe- 
rança estava descoberto; e os portuguezes busca- 
ram encetar relações commerciae^ e destruir o com- 



9 

mercio que estava estabelecido com a Europa, por 
meio dos mouros e venezianos. Os mouros, sentindo 
o perigo que os ameaçava, tramaram em toda a ín- 
dia varias insidias contra os porluguezes; e isto du- 
rou assim até que um grande capitão, ÁíTonso de 
Albuquerque, por toda a parle os guerreou e es- 
tendeu as conquistas porluguezas pela costa da ín- 
dia. 

O tempo das conquistas e grandeza do dominio 
portuguez foi este. Malaca e as ilhas de Moluco caí- 
ram sob a espada de Affonso de Albuquerque e 
egualmente Ormuz, cuja posição maravilhosa do- 
mina o Golfo Pérsico. Na bocca do estreito do mar 
Vermelho a ilha de Sacotoro foi conquistada. Assen- 
tou em Goa o governo portuguez e deu-lhe assim 
uma solida existência. 

O dominio portuguez estendia-se pela costa da 
Ásia, mas não penetrava além da costa. O commer- 
cio era a exclusiva preoccupação dos conquistado- 
res, e bastavam-ihe as praças e feitorias que se es- 
tendiam á beira mar. Malaca, Moluco, Passem, Coi- 
Ião, Calecut, Cananôr, Codogun, Ghaul, Dabul, Or- 
muz, etc, eram pontos em que as feitorias ee acha- 
vam estabelecidas e preparavam as cargas para as 
naus que do reino a iam todos os annos buscar. 

Affonso de Albuquerque, voltando de Ormuz on- 
de levantara fortaleza, adoeceu e morreu. A sua 
morte foi signal de rápida decadência do nosso do- 



10 

minío da índia. A cubica e o exemplo dos reis com- 
merciantes, monopolisadores, especulando com as 
prezas no mar, desmoralisaram os fidalgos, que se 
armavam por conta própria para tomarem e rou- 
barem os navios dos mouros. Os capitães dos pre- 
sidios perderam a subordinação e tornaram*se mais 
ou menos independentes. E tudo entrou em deca- 
dência, apenas minorada pelo rígido governo do ce- 
lebre D. João de Castro. 

No reinado dos Filippes as invasões dos boUan- 
dezes fízeram-nos perder grande parte das nossas 
feitorias, e esses legares importantes para o com- 
mercio foram disputados por diversos navegadores, 
principalmente pelos inglezes, e passaram a ser de 
quem os conquistava, fícando-nos na mão apenas 
Goa^ Damão, Diu, Macau na China, Solor e Timor 
na Oceania. Da immensa região onde o nosso mo- 
nopólio commercial se exercia ficamos só com os 
pontos designados aqui. 

Além do mais, os hábitos do commercio muda- 
ram, os monopoHos desappareceram, e foi o com- 
mercio livre quem dominou no mundo. O nosso 
systema antigo não podia persistir contra a opinião 
e os usos de toda a gente. O nosso dominio des- 
appareceu, porque tinha realmente que desappare- 
cer. Não foram unicamente as desgraças que pro- 
duziram a nossa decadência, foi uma lei económica 
a que não soubemos e não quizemos obedecer. 



QOA 



No fim do século xvii o estado dos nossos negó- 
cios na índia era deplorável Em 1745 faziam-se 
numerosas consultas para saber o modo de regular 
a receita com a despeza, já pelo augmento das ren- 
das publicas, já pela suppressão de tribunaes. A 
receita era inferior ás despezas em 700:000 xera- 
fins, orçando ainda, apezar da diminuição do com- 
mercio e da falta de praças e feitorias perdidas, em 
perto de 600:000 xerafins a receita arrecadada. A 
principal razão de não chegar a receita para a des* 
peza era a péssima administração da fazenda, e os 
numerosos e desnecessários tribunaes que persis- 
tiam na índia Portugueza. A egreja também absorvia 
muitos rendimentos e contribuia para o empobre- 
cimento da índia, que por este tempo havia perdido 
as provincias do norte pela invasão dos maratas. 



12 

Já era 1 704 o estado tinha recorrido aos dizimes 
para acudir á falta de receita, mas as queixas dos 
clérigos, que suppunham este imposto pertencente â 
egreja e os escrúpulos do monarcha, haviam posto 
cobro a este recurso. Em 1745 resurgiu a mesma 
idéa, mas inutilmente. 

Desde 1685 quiz D. Pedro II salvar o commer- 
cio da Ásia por meio de uma companhia, á imitação 
das companhias inglezas^ hollandezas e francezas: 
mas esqueceu diffinir bem os exclusivos concedidos 
á companhia, não se designou o capital, as obriga- 
ções dós directores, a sua escolha, etc. 

Fizeram-se depois ensaios sobre a instituição de 
outras companhias, mas o tempo das companhias 
era passado e todos os ensaios portuguezes foram 
desastrados e estéreis. 

Nos primeiros annos do presente século a deca- 
dência não parou, apezar de algumas victorias ga^ 
nhãs aos mouros. O movimento liberal de 1820 deu» 
na índia, origem á anarchia desordenada. Uma triste 
quadra de revoltas, foi apenas minorada por algu- 
mas obras de utilidade publica. Uma estrada que 
rompeu os Gates, uma ponte em Ribandar, a villa 
de Pangim, melhoramentos na justiça e na adminis- 
tração económica, dão lustre aos governadores da 
índia. 



II 



 nossã actual colónia indiana forma um todo 
composto da ilha de Goa, de Salsete e Bardez, e das 
denominadas Novas Còig^istas, separada do resto 
do continente da índia pela elevada cordilheira dòs 
Gates; pelo occidenle o mar banha todo este terri- 
tório. 

Além doeste território ficam as praças de Damão 
e Diu. sobre a mesma costa, isoladas, porém, e for- 
mando corpos á parte e separados de Goa* 

Os rios e esteiros navegáveis em Goa são em nu- 
mero considerável e põem em communícação, nas 
marés cheias, as diversas porções de território. 

O território, comprehendido entre a linha dos Ga- 
tes e o mar, é, geralmente, fértil, dando abundante- 
mente vários fructos. 

Nas Velhas Conquistas, isto é em Bardez, Sal- 



14 

sete e Ilhas, sitaadas á beira mar, existe uma po- 
pulação aproximada de 251:000 moradores. 

E aqui que se encontra uma das mais antigas o 
curiosas instituições de propriedade que fixam a nos- 
sa attenção. As communidades agrárias são, mais ou 
menos, vastas propriedades possuidas em commum 
por uma associação exploradora. A origem das com- 
munidades foi a de tribus ou grupos de familias 
que atravessaram os Gates para vir estabelecer-se 
n'aquelles territórios á beira mar. Cada grupo to- 
mou posse de terrenos e os explorou em commum ; 
sob a direcção de chefes de familia {chefes de van- 
gor) a que depois deram o nome de gancares, ou 
senhores de aldeã. Estes gancares constituem uma 
aristocracia ; eram elles que governavam a cultura 
em conraium, cujos productos eram repartidos por 
todos os associados. Para sustento do culto religioso 
foram destinados certos terrenos. Aos servidores da 
communidade, concedeu-se o usofructo de prédios 
e campos que se chamavam namoxins. 

Posteriormente, novos adherentes vieram solici- 
tar dos gancares admissão na associação. Não po- 
dendo ser admittidos ao que pediam^ concedeu-se- 
Ihes a cada um algumas varas de terra, mediante 
uma retribuição em foro perpetuo: como os braços 
não eram sufficientes para a cultura dos vastos ter- 
renos possuidos pelos gancareSj chamaram-se no- 
vos colonos estranhos, chamados culacharins^ a quem 



f5 

se confioa a funcção de colonos cultivadores. As 
terras da communidade dívidem-se em três lotes: 
um para o culto; outro para beneficio dos ganca- 
res; e o terceiro para sustentação e salários dos 
culacharins. Do segundo lote é que se destinaram 
terras para aforamento in perpetuum] e outros para 
foros temporários com arrendamentos a curto pra-* 
so. Os gamares tiveram um patriciado, que se não 
podia perder, e a quem pertencia exclusivamente a 
gerência dos negócios communs. 

Um soberano, cobrando das gancarias um tri- 
buto, dado por livre vontade, tomou a protecção dos 
interesses polilicos d'aquelle território, nomeou os 
tanadares ou magistrados administrativos com func^ 
ções judiciaes e as camarás geraes, nas diversas pro- 
vincias, que taxavam os seus interesses e julgavam 
certas causas crimes. Seguiu-se a isto uma época 
de numerosas invasões de musulmanos, nas quaes 
foi preciso gastar sommas consideráveis, que as 
gancarias obtiveram por empréstimos feitos pelos 
foreiros e rendeiros. Os titulos emittidos garantiam 
o direito de participar dos interesses sociaes, mas 
com responsabilidade nos lucros e prejuízos. A ge- 
rência dos bens continuou comtudo a cargo dos 
gamares. Por fim a victoria ficou aos invasores mu- 
sulmanos, e estes apenas pediram um ligeiro au* 
gmento nos tributos, deixando livre a administra- 
ção da propriedade communal. O principio de equi- 



46 

dade proclamado no alcorão contradizia o principio 
de desegualdade qne a doutrina brahamanica pro- 
clamava nas contas; e d'ahi resultou a lucta entre 
calacharins e gamares na gerência dos negócios da 
administração dos bens communs. 

O império musulmano durou pouco tempo e suc- 
cedeu-lhe o dominio portuguez pela conquista de 
Affonso de Albuquerque. O dominio conquistado 
pela espada foi firmado pela politica; Affonso de 
Albuquerque buscou crear alliados nos povos hin- 
dus. O regimen das communidades foi mantido, uma 
terça dos impostos existentes foi abolida, e os bens 
que pertenciam aos musulmanos foram sequestra- 
dos e, em seguida, dados aos portuguezes que con- 
traíram matrimonio com mulheres hindus. 

Poucos annos depois um foral, promulgado em 
1526, resumindo o fundamento das associações com- 
munaes, aflSrmava ao governo o direito de intervir 
na gerência d'estas associações e de regular as suas 
relações com a auctoridade; o que cerceava a liber- 
dade e independência dos gancares. 

A esta seguiram -se muitas medidas que modifi- 
cavam profundamente a natureza das communida- 
des, cerceando-lhes os seus direitos primitivos e res- 
tringindo-lhes as suas liberdades. 0$ gancares, ten- 
do só voz nas arrematações de arrendamentos dos 
haveres da communidade, conseguiam por conluio 
tomar de arrendamento as terras por preço insigni- 



47 

ficante para depois de sua mao as subarrendar com 
beneficio próprio. As queixas multiplicaram-se, os 
abusos cresceram, e por fim um regimento de 1735 
auclorisou os cuntocares a licitar, mas pela voz de 
um gancar. 

Um decreto, hoje revogado, publicado em 1882, 
determina que a gerência das communidades agri- 
colas seja confiada a uma junta administrativa não 
retinbuida, nomeada, quasi sempre, pelo governo, 
sob proposta do tanadar-mór a que chama adminis- 
trador. As propriedades da communidade são ar- 
rendadas em praça, licitando gancares e interessa- 
dos, mas estes por voz de um gancar. Os pleitos 
entre as communidades e qualquer dos seus mem^ 
bros pertence ao governo resolvel-os, etc. O rece- 
bedor é responsável in totum pelo pagamento da 
renda. A propriedade territoreal da communa é in- 
alienável e as rendas reparlem-se segundo a velha 
pratica. 

As communidades são uma das formulas mais 
curiosas das associações. São associações cooperati- 
vas, que a lei tem transtornado, alterando a sua na- 
tureza primitiva, mas que ainda conservam muitos 
dos seus caracteres fundamentaes e se devem con- 
servar com modificações que afastem os abusos, que 
lhe alteram a organisação primitiva e afastem as 
suas naturaes consequências. A divisão da proprie- 
dade em pequenos lotes, arrendados pelo praso ma- 

VOL. IV • 2 



18 

ximo de três annos, afasta a boa cultura que pro- 
duz melhoramentos no solo, e é assim prejudicial ao 
estado e aos interesses das communidades. A este 
systema conviria antes substituir outro que mu- 
dasse o systema de exploração. N'este sentido pro- 
poz o sr. Teixeira Guimarães um projecto que me- 
rece seria attençao, mas que foi ultimamente des- 
attendido pelas corporações chamadas a dar sobre 
elle o seu parecer. No projecto do sr. Teixeira Gui- 
marães propõe-se a fusão das communidades con- 
tíguas a fim de constituirem associações bastante ri- 
cas, para, com o auxilio do credito, realisarem a sua 
transformação industrial. As propriedades deviam 
ser exploradas por conta directa das associações, 
empregando-se na cultura os processos mais aper- 
feiçoados que a sciencia conhece. Isto, porém, não 
poderia realisar-se senão por uma transformação 
relativamente lenta. 

Abolir de golpe o systema actual produziria uma 
crise, em uma classe de intermediários, que arrema- 
tam as rendas para depois procederem, de sua mão, 
a sub-arrendamenlos. Para evitar a crise para estes 
intermediários, o projecto propõe que, das terras a 
arrendar, se separe um terço da área total para a 
communidade n elle fazer a cultura por própria con- 
ta. Por esta forma no fim de nove annos todas as 
terras seriam exploradas pelas communidades. A 
creação de uma boa escola agrícola e a larga re- 



19 

muneração dos agentes technicos completa o pro- 
jecto. 

Salvo modificações, que a experiência iria ensi- 
nando, o projecto do sr. Teixeira Guimarães satis- 
faz ás condições essenciaes para assegurar a trans- 
formação racional das communidades; e essa trans- 
formação é essencial, para tirar do fatal entorpeci- 
mento, em que se definha, a agricultura indiana. 



III 



Âs communidades são uma das formas mais cu- 
riosas da propriedade territorial, e que tem maior 
extensão nas Velhas Conquistas. No seu estado 
actual, as communidades são uma causa do atrazo 
agricola, impedem todo o malhoramento e, só alte- 
rando-lhe as bazes, se poderá conseguir a necessá- 
ria transformação do solo e das culturas. E, sem 
essa transformação, não se conseguirá e natural en- 
riquecimento da índia. Ha, porém, interesses pode- 
rosos que trabalham para a manutenção do que está 
com todos os seus erros e abusos, uns porque lu- 
cram com esses abusos, outros por temerem bulir 
no que está e que tem por si a tradição. 

O atrazo da agricultura nas Velhas Conquistas 
mantém o atrazo da agricultura nas Novas Con- 
quistas, menos habitadas e mais atrazadas do que 



22 

as Velhas Conquistas : (l'aqui resulta a paralisação 
total da agricultura em toda a índia portugueza. 

A industria está por toda a parte morta; a agri- 
cultura, como acabamos de ver, entorpecida. Nada 
restava a velha índia para a despertar da sua ca- 
duca letargia. 

O commercio, na época da conquista, era mo- 
nopólio do estado e se apoiava na espada. Este 
monopólio matava todo o commercio livre, e afu- 
gentava os indigenas da idéa de tentarem transac- 
ções de qualquer ordem. Quando, porém, o com- 
mercio official acabou, não ficaram na índia nem há- 
bitos nem tradições de commercio, e este estabele- 
ceu-se por meio das companhias estrangeiras que 
tomaram o logar de dominadores, que nós occupá- 
mos por dois séculos. A índia portugueza faz no- 
táveis importações para o próprio consummo, in- 
clusivamente productos agricolas, que as suas ter- 
ras naturalmente podiam produzir em abundância. 
As medidas mais severas se empregaram no século 
passado para promover a agricultura; mas tudo foi 
inútil. Nem mesmo o arroz, que se produz natural- 
mente e em grande abundância nas terras de Goa, 
se conseguiu produzir em quantidade necessária 
para satisfazer ao consummo. 

A industria fabril quasi não existe, pois não vale 
a pena mencionar alguns ensaios infructiferos que 
se tem feito em diversos sitios. Os hábitos não es- 



23 

tão creados nem os mercados estabelecidos, apezar 
dos esforços por varias vezes empregados. 

As receitas publicas mostram uma tendência a 
diminuir, como se vê da tabeliã seguinte: 

1868-69 884:807^75 

1869-70 884:998^25 

1870-71 997:õ22$210 

1871-72 1.197:123^089 

1872-73 974:722^580 

1873-74. ..,..,... 881:458^59 

1874-75. .' 874:808^609 

1875-76 872:470^387 

1876-77 838:325|i624 

1877-78 850:490^747 

Nos últimos annos, de 1871-72 a 1877-78, a 
diminuição é evidente. As causas d'essas diffe ron- 
cas são principalmente; 

A considerável e progressiva diminuição da ren- 
da dos dízimos, que, havendo no anno de 1867-68 
atlingido a sòmma de 313:417^780 réis, se foi re- 
duzindo á cifra de 195:089^037, totalidade do ren- 
dimento no anno de 1875-76; 

A cessação dos rendimentos da grande porção 
de prédios nacionaes que foram vendidos, empre- 
gando-se o seu producto, por força das circumstan- 
cias, no pagamento das despezas ordinárias e obri- 
gatórias ; 



24 

A cessação dos rendimeDtos dòs foros dos pra- 
sos da coroa remidos em virtude da carta de lei de 
10 de junho de 1867, que por egual motivo não 
foram convertidos em inscripções de divida publica : 

A escassez dos cereaes, devida a continuadas e 
variadas alterações meteorológicas, que tem produ- 
zido, ha alguns annos, a falta ou deficiência das 
agua^ em tempo opportuno ; 

As excitações que tem abalado, por mais de uma 
vez, a praça e o commercio na cidade de Bombaim 
e na índia Ingleza; 

Finalmente o contrabando a que dificilmente se 
poderá oppor obstáculos na extensa r^a. 

Este estado decadente dos rendimentos públicos 
fazia-se sentir e tomou diflficil a vida publica e a 
gerência da fazenda. 



IV 



No seu relatório de 1879 o governador apresenta 
um resumo da producção agrícola do estado da ín- 
dia, e por este vê-se que faltam até alguns produ- 
ctos que podiam ali prosperar e outros são em pe- 
quena quantidade. Esse resumo é o seguinte: 





Cambos 


Candis 


M&OB 


ArfíCAr T , . - - , t - r 


227 


19 


17 








Cambos 


Candis 


Curós 


Bãt6 (2í,TT0Z com C28Câ) 


30:985 
276 
548 


15 
15 
17 


2 


Culita. 


8 


Castanha de eaiú. 


5 



26 



Caroço de undám 

Caroço de costám 

Feijão 

Gergelim 

Legumes diversos 

Mugo 

Nachinim 

Noz de galha 

Orió 

Pacollo 

Pimenta longa 

Pimenta redonda 

Savóm 

Semente de pmia 

Solam (cascas) de brindão. 
Solam (cascas) de ottomba 

Sal 

Semente de linho 

Tori 

Urida 



Açafrâc 

Cebola 

Gengibre 

Jagra de canas . . . 
Jagra de palmeira. 



Gvnbos 


Candis 


16 


10 


13 


15 


— 





20 


9 


802 


4 


- 


7 


1:305 


15 


— 


2 


119 


9 


992 


16 


648 


14 


19 


6 


33 


6 


— 


1 


133 


12 


14 


3 


7:483 


2 


5 


5 


16 


7 


10 


7 


Canais 


H&os 


.110 


4 


148 


8 


9 


22 


745 


21 


— 


16 



Coros 



2 

1 

10 

12 
10 

4 
5 
15 
17 
3 
5 

1 
14 



Arráteis 



16 



27 





Candis 


Mãos 


Arráteis 


Panha. 


44 
i 

2:862 


15 
5 




Spmpntft dft rícino 




Tamarindo ■ . ; 


5 


» 






Candis 


Mãos 


CalSes 


f : 

Vinho de caiu 


8i4 


6 








■ ■ - 


Arrobas 


Arráteis 


Onças 


Alfirodão 


3 
312 
324 
147 

3 


24 

17 

30 

4 

24 


• 


fiatata 


^_ 


Café 


. 


Linho 


. 


Seda 


10 


Tanioea bruta 









Numero 



Anànazes 10:685 

Anonas 360 

Bananas 3.945:490 

Bambus 2.339:549 

Gocos 39.913:440 

Canas 239:660 

Gatonas. 6:900 



28 



Namer« 

Folhas de betbe ii6:300 

Jacas 3.552:0i7 

Jambos i:660 

Limões 2:350 

Laranjas 2:564 

Lenha (arrobas) 62:930 

Mangas 26.041:975 

Mathombas 10:006 

Patecas 600 

Pepinos 1:356 

Pomos de adem 3:000 

Toranjas 6:933 

Tangerinas 100 

Em vista d'este resamo dos produetos agricolos 
de Goa é fácil reconhecer que algans produetos que 
acham fácil consommo não são cultivados ou o são 
em pequena quantidade. Citaremos os principaes. 

A falta de arroz é grande e por isso falta a ali- 
mentação do povo e ha necessidade da importação 
considerável e de enorme dispêndio que empobrece 
o estado, já de si tão miserável. A cultura dos tri- 
gos resolveria este negocio augmentando a quanti- 
dade de produetos alimentares. Todos sabem que 
hoje o trigo se cultiva abundantemente na índia e 
que os seus produetos são em tal quantidade que 
se receia a sua concorrência nos mercados da Eu- 



29 

ropa. Já em 1746 um homem estudioso da índia 
portugoeza escrevia sobre este assumpto o seguinte: 

«A experiência, que repetidas vezes tenho feito 
e fizeram outros por minha persuasão, tem mos- 
trado que estas nossas terras são capacissimas de 
produzirem trigo : e segundo as noticias que tenho 
alcançado, antigamente o recusavam a naturaes da 
ilha de Bardez, que deixaram de continuar com esta 
sementeira, porque os que lhe pediam o trigo com 
o titulo de vendido, Ih'o não pagavam e ficavam os 
miseráveis fazendo as despezas e pondo de casa o 
trabalho sem utilidade alguma sua». 

Assim pois a experiência na índia portugueza, 
os factos hoje geraes na índia ingleza, estão pro- 
vando a possibilidade de cultivar com vantagem o 
trigo, não só para augmentar os productos alimen- 
tares na índia, mas para promover a exportação. 

O trigo que se dá bem na índia é o que chama- 
mos tremez, isto é, que se semêa, nasce, cresce e 
colhe no período de três mezes. Esta sementeira 
pode fazer-se nos primeiros dias de agosto, evitan- 
do que a agua das chuvas fique empapada na terra 
em que o trigo está semeado; e semeando n'este 
tempo pode a colheita fazer-se em outubro. 

A segunda sementeira de trígo se deve fazer 
n'aquellas várzeas, em que se costuma semear o* 
bate de serôdio, que dão uma só novidade. Estas 
várzeas se devem lavrar logo que se colher o bate 



30 

e semeando-lhe logo o Irigo, que se creará com a 
humidade da terra e com o orvalho do céo. 

Nas várzeas q[ue forem de vangana, pode haver 
duas novidades de trigos, semeando este depois de 
colher a novidade do serôdio, deixando enxugar um 
pouco a terra e desfazendo os valados para que a 
agua se escoe e a terra seque mais depressa. 

O milho deve semear-se logo nas primeiras chu- 
vas pelos outeiros e suas faldas, cavando as terras 
e tirando as hervas para que o não afoguem. O seu 
producto é abundante porque de cada grão de se- 
mente nascem quinhentos em boa terra. 

O milho chamado zaburra é também uma sémen- 
teira muito profícua nas mesmas terras que a das 
castas de milho ordinário; d'esta quahdade de mi- 
lho se poderia na índia tirar grande utilidade. 

O bazury é outra casta de cereal que pode, com 
proveito, semear-se na índia. E pouco maior que o 
milho miúdo de Portugal, e é um mantimento sub- 
stancial e confortativo. Cada grão de semente de 
bazury dá quinhentos ou mil em boa terra. 

A esles podiam acrescentar-se a cevada e o tury 
que também se dão bem na índia nas mesmas ter- 
ras e com idênticos cuidados do que as sementei- 
ras anteriores. 

As sementeiras de algodão desenvolvem-se com 
facilidade na índia e podem dar considerável van- 
tagem em todas as terras que hoje se conservam in- 



31 

cultas, nas Novas e nas Velhas Conquistas. Ha duas 
castas de algodão, uma que se semea lodos os an- 
nos era chão fundo e rico, outra que vem em ter- 
renos mais seccos e mais pobres: esta dura muitos 
annos e em todos dá casulos abundantes: é o algo- 
dão arbóreo. Uma e outra casta se pode cultivar na 
índia e dar abundante producto. 

A pimenta negra é uma planta cuja sementeira 
podia ser de muita utiUdade na índia portugueza, 
e se cultiva nas terras visinhas com grande proveito. 
Foi a pimenta um dos productos que excitou a cu- 
bica dos conquistadores que d'ella fizeram a base 
do seu monopólio commercial: arrancar esse mo- 
nopólio aos mouros e aos venezianos foi o grande 
resultado dos descobrimentos da índia pelos portu- 
guezes. E pois de admirar que se não tratasse de 
introduzir essa cultura no território de Goa, como 
effectivamente succedeu. O estudioso, a que acima 
citei, na experiência acerca do trigo, dizia ha mais 
de um século o seguinte: 

t No que respeita á pimenta, também tenho visto 
o mesmo em muitos legares dentro da ilha de Goa: 
V. g. na horta do coUegio de S. Paulo, na do Se- 
minário de Santa Fé, na quinta de Santa Rosália e 
na aldeia de Bambolym em um bairro chamado Ve- 
lho MoUo; e em todas estas partes era a pimenta 
Ião excellente, que na fortidão excedia a de Sunda» . 

A experiência prova que a cultura da pimenta 



32 

preta se pode fazer em Goa com vantagem e com 
notável utilidade. Esta caltura é facil e económica; 
enterrando junto das arvores uns pedaços de ramos 
de pimenteira de palmo ou palmo e meio de com- 
primento ou semeando a pimenta, esta, quando re- 
benta, deita ramos novos que se vão pegando pelas 
arvores e subindo por ellas. Estas plantações nos sí- 
tios não regados devem fazer-se no principio do in- 
verno : nos logares, porém, que se podem regar, em 
todo o tempo se podem fazer, e só ha o trabalho de 
fazer a colheita da pimenta quando esta muda de 
côr. Esta mesma plantação se pode fazer junto de 
paredes altas porque a pimenta se pega a ellas. 

O producto em madeira das arvores de teca e 
jambuleira é tão considerável e precioso que vale 
muito a pena de se plantarem na índia que é a sua 
terra própria, e hoje faltam onde antes abundavam. 
A teca planta-se em pés de dois ou três annos, ou 
por meio de estacas deitadas com dois a três dedos 
de terra cobrindo-as. O jambuleiro pode semear-se 
em qualquer terra e sem risco, porque o gado lhe 
não toca. Estas madeiras não teem hoje o valor que 
tiveram antes do ferro entrar na construcção de cas- 
cos dos navios, mas nem por isso deixam de ser 
madeiras de alto valor para as construcções e para 
marcenerjâ. 

O café de que se produzem actualmente 3:000 
arrobas, pode multiplicar-se muito e obter muito 



33 

coDsummo dos mercados do mundo, o que seria fácil 
logo que se tivesse cuidado de fazer d'elle planta- 
ções. O chá, de que os inglezes teem feito impor- 
0» tantes plantações nas serras da índia, também se 
poderia plantar vantajosamente nos Gates, terras 
hoje incultas e que é preciso aproveitar prompta- 
mente, agora que esses montes são atravessados por 
um caminho de ferro, que os torna açcessiveis e fa- 
cilita os transportes que antes eram impossiveis. 



V. IV. 3 



o estado a que estava reduzida a índia portu- 
gueza, encravada em vastas possessões inglezas de 
que vivia isolada, sem participar da actividade agrí- 
cola e industrial d'aquelles immensos territórios, le- 
vou a promover a união dos dois paizes; fazendo 
commum um e outro commercio, e ligando-os por 
um caminho de ferro. Esta fusão, necessariamente, 
ha de produzir um grande abalo na Goa, velha e 
cadavérica, mas d'esse abalo deve resultar a vida e 
com ella a actividade. 

Para se entender a intenção do tratado resumi- 
remos aqui os seus fundamentos. Possuiamos havia 
longos annos privilégios concedidos pelo Mogol; o 
uso d'esses privilégios foi-nos respeitado pela Ingla- 
terra sem contestação, até que d'elles se abusou, e 
então^ depois de reclamações inglezas e esforços que 
não produziram resultado, a Inglaterra suspendeu-os. 

3# 



36 

Estabeleceu-se uma discussão entre os governos por- 
tuguez e inglez : o governo portuguez pedia indem- 
nisações que a Inglaterra contestava e não admit- 
tia. Antes da suspensão dos privilégios, por abusos 
praticados por negociantes inglezes de Bombaim^ 
estes produziam 90 libras por anno: o estado da 
questão pedia uma solução que lhe desse um prom- 
pto termo. Âttendendo ao intorpecimento de que 
padecia Goa, que estava quasi expirando por falta, 
de commercio e de industria e pelo abatimento da 
agricultura, o governo portuguez entendeu que era 
occasião opportuna para formular um tratado de 
commercio, que estabelecesse, entre a índia porlu- 
gueza e a Ingleza, uma mesma pauta. Isto daria um 
impulso á índia portugueza e a levaria a trabalhar, 
esquecendo as velhas tradições e buscando em no- 
vas instituições bases novas para a actividade in- 
dustrial, agrícola e commercial. Goa soffria do iso- 
lamento em que as suas circumstancias geographi- 
cas a coUocavam: era um povo atrophiado, que só 
o commercio com os territórios visinhos podia des- 
pertar, e esse estabeleceu-se pelo tratado. E certo 
que o remédio era violento, mas a uma situação dif- 
ficil e excepcionalmente embaraçosa são precisos 
remédios destes ; os quaes estavam experimentados 
em outras nações com resultados efficazes. 

Goa tem menos de meio milhão de habitantes e 
a população da índia Ingleza são 200 milhões, e a 



37 

vida em commum d'estas duas populações é neces* 
sariamente útil á primeira. Os direitos da alfandega, 
reduzidos a 5 7o ^ valorem^ em logar dos direitos 
que subiam a 15 e 20 por cento dá vantagens enor- 
mes aos consummidores. 

O menor preço porque as coisas se podem obter 
dá mais facilidade de vida e impelle ao mesmo tem- 
po á producção e á exportação. A união aduaneira 
estabelece uma pauta commum e uma alfandega 
commum, mas necessariamente obriga á união dos 
impostos lançados sobre os productos fabricados no 
paiz* Na índia ingleza havia impostos que se co- 
bravam do sal e do álcool, e era preciso assegu- 
rar esse rendimento, sem obrigar òs habitantes de 
Goa a sacrifícios inúteis. Para assegurar o rendi- 
mento do sal estabeleceu- se um systema de fabri- 
cação em Goa, fiscalisado por empregados inglezes, 
que exploravam as marinhas ou fiscalisavam as ex- 
ploradas pelos proprietários ou rendeiros, dando o 
governo inglez indemnisações aos proprietários de 
marinhas, avaliadas por uma commissão mixta. Esta 
influencia, exercida pelo governo inglez sobre a pro- 
ducção do sal n*uma colónia estrangeira já tinha 
precedente. 

Em 1815 a Grã Bretanha celebrou uma conven- 
ção com a França acerca da producção do sal era 
Pondichery, a qual foi modificada por outra con- 
venção em 1818. Na primeira, o governo francez 



38 

• obrigava-se a dar de arrendamento ao governo in- 
glez o direito exclusivo de comprar por preço ra- 
soavel o sal fabricado nas suas possessões, reser- 
vando a quantidade que os agentes francezes jul- 
gassem necessária para consummo domestico dos 

• habitantes; obrigando-se o governo francez a ven- 
der esse sal pelo preço que o governo inglez ado- 
ptasse nas suas possessões próximas. 

Como a experiência não deu os resultados que 
se esperavam, modificou-se a convenção por outra, 
em 1818, e n'esta se estipula que a manufactura 
•do sal seria probibida e que o governo inglez pa- 
garia todos os annos uma somma para indemnisar 
os proprietários das salinas. 

Estas convenções franco-inglezas eram um prece- 
dente, e sob a sua influencia o governo inglez pra- 
poz-nos a suppressão total da fabricação do sal, o 
que nós regeitamos por ser a extincção de uma in- 
dustria que mais prosperava em Goa. D' aqui resul- 
tou o tratado de commercio na sua forma actual. 

Doesta negociação, o governo portuguez queria, 
-como resultado, essencial para acordar a activida- 
de da índia, a construcção de um caminho de ferro 
que ligasse o centro do continente indiano com um 
porto na índia portugueza e facilitasse as commu- 
nicações de toda a índia. O caminho de ferro que 
se projectava era contrariado por fortes interesses 
mglezes, que tinham delineado e estudada um ca- 



39 

minho de ferro em território inglez, que fosse ter- 
minar em Corwar ao sul de Goa. Antes de se tra- 
tar da conslrucção de um caminho de ferro em Goa, 
pensava-se na construcção ou de uma linha para o 
norte, ligando com a linha de Madrasta a Bombaim, 
ou para o sul, pondo Goa em communicação com 
Carwâr: nenhuma d'estas linhas compensava a des- 
peza. A linha mais útil, mais necessária era a de 
oeste a leste, de Murmugão para o oriente, ligando 
com as linhas inglezas em Bellary. Esta linha, que 
liga o centro do Industão com um porto de mar, na 
índia portugueza, é muito necessária ao commer- 
cio da índia e põe Madrasta em communicação com 
Aden. 

O governo britânico hesitou em tomar compro- 
misso algum n'este sentido. Por fim cedeu ás im- 
portunações portuguezas, e prometteu auxiliar uma 
companhia particular que emprehendesse a con- 
strucção da linha cpm todas as facilidades, essen- 
cialmente concedidas ás linhas garantidas na índia 
ingleza. 

O caminho de ferro está em construcção adian- 
tada, e bem depressa Goa terá a desejada com- 
municação com as linhas férreas da índia ingleza. 

Foi em 18 de abril de 1881 que se assignou o 
contracto para a construcção do caminho de ferro e 
porto de Murmugão, apezar da vigorosa opposição 
do corpo commercial de Bombaim. 



VI 



Em 1877 a população da índia portugueza con-. 
tava 392:234 individuos; hoje essa população é de 
481:467 individuos e tende a crescer. A tendência 
ao crescimento é evidente. 

O gado em 1882 era o seguinte: cavallar 304/ 
asinino 160, vaccum 140:723, caprino 8:569, ove- 
Ihum 448, suino 60:035. 

Esta população espalhada pela superfície do es- 
tado é diminutissima; mas é de esperar que a con- 
strucção do caminho de ferro dê prompto um resul- 
tado inesperado. Às chamadas Novas Conquistas são 
um paiz meio selvagem, com uma população pobre 
e limitada, carecendo de tudo, mas o solo fértil pode 
transformar tudo promptamente, quando o mercado 
esteja em communicação com a índia ingleza e isso 
succederá em pouco tempo. 



42 

Os consammi dores indianos estão n ama situa- 
ção prospera em relação ao preço das mercadorias; 
o que é preciso é transformar á sua producção; o 
' que é fácil, altendendo á fertilidade do seu solo, e 
a aptidão dos habitantes para numerosas indus- 
trias, que vão hoje exercer na índia ingleza- 

O tratado do commercio levantou difficuldades, 
suscitou opposição violenta não só na própria ín- 
dia mas na Europa. A índia estava perdida, tinha 
irremessivel mente caido nas mãos ávidas dos in- 
glezes; os donos de marinhas eram sacrificados aos 
impostos inglezes. Esse terror já passou. A índia 
porlugueza é hoje mais portugueza do que nunca: 
os proprietários de marinhas teem sido amplamente 
inderanisados de todas as perdas, e produzem mais 
sal do que nunca: o publico consummidor consora- 
me mais e mais barato, e, em breve, um caminho 
de ferro virá pôr Goa em communicação com os cen- 
tros de producção. O ministro condemnado por fa- 
zer o tratado : abandonado por adversários e ami- 
gos está perto dos louvores de todos e será tão 
louvado como foi vituperado; ambas as coisas va- 
lem o mesmo em face dos factos: são processos da 
politica. O que é preciso é que os factos justifiquem 
as intenções: o resto pouco importa. 

Os rendimentos da fazenda da índia foram, nos 
dez annos anteriores ao anno de 1877 e 1878, os 
seguintes : 



43 

t 

1868-69. 884:80ap75 

1869-70 884:998^1225 

1870-71. 997:522^216 

1871-72 1.197:123^083 

1872-73 994:72211580 

1873-74 881:450^659 

1874-75 874:808^609 

1875-76 872:4701387 

1876-77 838:325^624 

1877-78. 850:49011793 

O tratado diminuiu os rendimentos, extinguindo 
os impostos das alfandegas. Em 1882-83 os ren- 
dimentos foram de 695:937^675 rs. e em 1884-85 
foram de 718:253^5200 réis. O alivio que os povos 
tiveram nos direitos da alfandega deram em resul- 
tado a maior possibilidade de pagarem outros im • 
postos e a expansibilidade financeira da índia. Hoje 
os impostos égualam quasi os rendimentos de 1877- 
78 e sabendo lentamente aproveitar as circumslan- 
cias breve os excederão. 

O governo inglez paga á índia portugueza 4 la- 
kas de rupias que s3o destinadas ao subsidio do ca- 
minho de ferro que se está construindo. 

A índia portugueza, depois de passar largos an- 
tios sem alteração na sua legislação, passou ha pou- 
cos annos por uma crise grave. Em 1871 uma agi- 
tação, no que então constituia o exercito da índia, 



44 

deu logar á extincção d'esse exercito e ã creação de 
uma companhia de policia e ao destacamento de 
um batalhão do regimento do ultramar. A estas mu- 
danças succederam outras, para tirar o espirito mi- 
litar que paralisava em Goa as forças productivas e 
dava ao povo um caracter de preguiça invencivd. 
Existia uma escola militar na Nova Goa, e a lei 
creou, em vez d^ella, um Instituto profissional para 
preparar para diversas industrias. 

Estas mudanças profundas no modo de ser de 
Goa, produziram vigoroso abalo, mas hoje esse abalo 
desappareceu e a opinião publica recebe o estado 
actual sem grande repugnância, e mesmo já chega 
a comprehender-lhe as vantagens. 



VII 



A execução do tratado foi origem das maiores 
resistências em Goa. Todos lhe levantavam emba- 
raços e lhe oppunham resistências. Á prudência e 
bom juizo do sr. conselheiro Aguiar, que foi no- 
meado pelo governo de Portugal para pôr em exe- 
cução o tratado, e aos esforços do governador o 
sr. conselheiro Caetano de Albuquerque, se deve 
a solução pacifica das difficuldades que o tratado 
levantou na índia. 

Quando o sr. Aguiar foi nomeado pelo governo 
commissario régio já estava nomeado o sr. Cawford 
por parte do governo inglez. A nomeação dos dois 
commissarios, cujo caracter era conhecido e respei- 
tado pela população de Goa, acalmou um pouco a 
agitação. 



46 

Passados poucos dias a agitação começou de no- 
vo, e os dois commissarios acarretaram sobre si os 
insultos dos que tinham interesse, ou soppunham 
tel-o em impedir a execução do tratado luso-britan- 
nico. Os commissarios porém não se perturbaram, 
e trataram pacificamente os negócios de que esta- 
vam encarregados. Concluidas as conferencias so- 
bre a execução do tratado, os commissarios convi- 
daram a uma reunião geral os proprietários de ma- 
rinhas, para que manufacturassem o sal por sua 
conta, ou as arrendassem aos agentes inglezes. N'esta 
reunião mostrou-se a descoberto a má fé dos pro- 
prietários, que hoje ajustavam uma coisa para no 
dia seguinte pedirem outra. 

O governador geral teve também uma conferen- 
cia com os proprietários das marinhas, mas esta foi 
tão estéril como a dos commissarios. O governador, 
em virtude da sua posição official, mandou prohi- 
bir a fabricação do sal em todas as marinhas não 
contractadas, e entregar aos agentes britannicos as 
outras, pagas largas indemnisações avaliadas por 
uma commissão mixta. 

Depois de resolvidas as questões relativas ao sal 
estabeleceu-se tudo regularmente. 

O sal antes não tinha preço, cultiva vam-no para 
ser introduzido, por contrabando, no território in- 
glez, e o povo ia ás marinhas roubar o sal de que 
carecia para consummo, sem encontrar resistência 

í 



j 



47 ^ 

alguma. Pelo território de Goa atravessavam carre- 
gações de sal, que iam ser introduzidas no território 
inglez. E claro que o sal se vendia por um preço 
muito differente d'aquelle porque, antes do tratado, 
se obtinha para consummo ; mas foi isto largamente 
compensado pela abolição dos direitos da alfande- 
ga, o que tornou mais baratos muitos dos produ- 
ctos do consummo usuaL 

As salinas existentes nos concelhos das ilhas, 
Salsete, Bardez, e Peruem são 488, cuja superfície 
attinge 4.220:898 metros. Além d'estas havia mais 
duas marinhas, não medidas, que produziram no 
primeiro anno 451 mãos indianas. 

O sal vendido, para consummo domestico dos ha- 
bitantes da índia portugueza, foi egual a 1.543:897 
ceiras, ou egual a 38:597 mãos e 17 ceiras; o pro- 
ducto da venda ao governo portuguez foi de 1 anná 
e 8 pias por mão ou 75 réis fracos, e foi vendida 
pelo governo portuguez a razão de 30 réis a ceira 
ou a 1200 réis a mão. 

O estado recebeu doesta proveniência 40:3 1 6(^780 
réis fracos. 

O governo inglez obrigou-se, pelo tratado, a en- 
tregar ao governo da índia portugueza uma quan- 
tidade de sal, livre de direitos e pelo preço da fa- 
bricação, correspondente a 14 libras por cabeça e 
por anno. O governo portuguez abriu estancos para 
a distribuição do sal, vendendo-o pelo preço que 



48 

julgasse conveniente. Estes estancos foram adjudi- 
cados em praça. 

Não tardaram muito, porém, a mostrar-se os pre- 
juízos d'este syslema, sendo necessário rescindir os 
contractos. 

O governo tomou então conta dos estancos, e 
deu-lhes o pessoal necessário; assim ficou a ques- 
tão da venda do sal resolvida com grande vanta- 
gem para lodos, para o governo e para os consum- 
midores. 

Com o tratado mudou o systema da fabricação e 
venda dos espirilos na índia portugueza. Os espíri- 
tos já antes do abkarí pagavam em Goa: o melhodo 
de impor essas contribuições, e de cobrar a receita 
é que variou com o abkari. Antes todo o individuo 
que queria vender a retalho os licores espirituo- 
sos, quer fabricados no paiz quer importados, tinha 
necessidade de uma licença prévia e pagava ao ar- 
rematante do imposto 900 réis fracos por mez, além 
do sello. Além d'isso o thesouro cobrava duas tan- 
gas por cada palmeira lavrada e os dizimos por 
cada palmeira a razão de 90 réis. 

No anno anterior ao tratado, o rendimento para 
o thesouro, proveniente dos espíritos e da sura, etc, 
foi de 47:314^264 réis. 

O systema mudou, porém. O numero de taver- 
nas em cada povoação é limitado, e estas são arre- 
matadas a quem mais dá. Nenhuma palmeira de 



49 

qualquer espécie pode ser lavrada á sura sem pré- 
vio pagamento da taxa : e esta concessão é feita por 
talhas de dez palmeiras, productivas ou não produ- 
ctivas. A venda de vinhos ou de espiritos não in- 
dianos é prohibida nas tavernas de espiritos na- 
tivos. 

No primeiro anno do tratado o rendimento para 
a fazenda foi, pelas licenças, de 47:336^880 réis. 

No destricto de Goa o numero de tabernas de vi- 
nhos e de espiritos nativos foi 414 e o rendimento 
de 76:668^840 réis fracos. 

O rendimento das lojas de venda de espiritos e 
vinhos não indianos foi de 1:395^000 réis. 

Com as licenças para lojas de venda a retalho e 
outras, foi o rendimento total de 126:963^120 rs. 
O que dá para o rendimento do abkari a mais que 
o rendimento anterior ao tratado 72:648^853 réis. 

Nos annos seguintes o rendimento tem augmen- 
tado. 



VOL. IV 4 



VIII 



o effeito do tratado no movimento das alfande- 
gas logo no primeiro anno se provou, ainda que não 
tão cabalmente como depois. A importação e a ex- 
portação augmentou apezar do entorpecimento em 
que jazia o commeròio de Goa. 

Na importação o movimento accentuou-se no arroz 
que cresceu 77:201 cut. no valor de 165:590 ru- 
pias; nos estofos de algodão em que a importação 
cresceu no valor de 130:389 rupias. As loiças e 
porcellanas cresceram no valor de 55:960 rupias; 
o assucar no valor de 46:380 rupias; os estofos de 
lã no valor de 27:085 rupias ; os legumes em 1 7:700 
rupias; o vinho augmentou no valor de 15:742 ru- 
pias; o petróleo no valor de 14:322 rupias. Na ex- 
portação também as diferenças são sensiveis. 

N'um relatório em que se exp5em estas coisas, 
o administrador geral das alfandegas diz o seguinte : 

4# 



52 

tAchain-se cabalmente respondidos^ os quesitos 
que V. ex.* se dignou formular, e parece-mo que a 
resposta mostra que o tratado é favorável sob o 
ponto de vista aduaneiro. Os rendimentos públicos 
provenientes d'esta fonte de receita é claro que ha- 
viam de diminuir muitissirao. Era coisa bem fácil 
de prever correndo os olhos pela nossa antiga pau- 
ta, e pela pauta anglo-indiana hoje em vigor, e at- 
tendendo a que todos os productos e manufacturas 
indianas haviam de entrar livres de qualquer impo- 
sição. Os resultados favoráveis foram o augmento 
do movimento commercial e a baraleza de muitos 
dos productos mais necessários á vida». 

Para esclarecer a questão das vantagens e incon- 
venientes do tratado, o governador geral dirigiu aos 
presidentes das camarás municipaes e administra- 
dores dos concelhos uma circular com quatro quesi- 
tos sobre o assumpto, e estes ao responderem mos- 
traram não ter havido nem miséria nem fome de- 
pois do tratado estar em execução, e que os preços 
dos géneros de consummo geral teem diminuido, 
uns 25 por cento, outros 30 por cento, outros 50 
por cento. 

Geralmente todos reconhecem as vantagens da 
quasi supressão ou abaixamento de direitos para os 
consummidores da índia portugueza e o natural 
accrescimo de importação e exportação de produ- 
ctos. 



53 

Teraiinados os primeiros três annos do tratado^ 
o mesmo tratado dava direito a cada uma das altas 
partes contratanles de convidar a outra a reconsi- 
derar as estipulações contidas no art. xji (o do sal) 
para serem alteradas, ou melhoradas. N'essa época 
foi o governo inglez quem apresentou algumas dif- 
ficuldades. O vice-rei da índia ingleza escreveu. um 
õflGício ao governador de Goa para lhe dizer que não 
julgava o seu governo haver necessidade de propor 
qualquer alteração ao art. xii ; mas que o delegado 
britannico estava prevenido para notar certos abu- 
sos, a fim de chamar para elles a attenção do go- 
vernador de Goa. 

O commissario britannico, dirigindo-se ao gover- 
nador, disse-lhe que estava resolvido a entregar-lhe 
as marinhas de Diu, com a condição do sal não 
ser exportado, que, reconhecendo que as marinhas 
de Damão eram de difficil superintendência e vigia 
e não podiam ser lavradas com proveito, pedia a 
sua suppressão; finalmente, com relação ás mari- 
nhas de Goa, declara que certos contractos feitos 
em janeiro de 1880 com certos proprietários, com 
o fim de fabricarem sal para os agentes britannicos 
não podiam renovar-se, e com respeito ás marinhas 
já supprimidas (assim designa as que não fizeram 
contracto) não serão estas exploradas nos nove an- 
nos seguintes. E preciso, accrescenta, reunir uma 
nova commissão mixta para fazer novos arrenda- 



^ 



54 

mentos, pois os feitos eram só para os primeiros três 
annos. 

Na sua resposta a este officio o governador geral 
oppSe difficaldades e objecções, que depois deram 
logar á resposta do commissario britannico; mas o 
que é mais digno de attençâo é a declaração do go^ 
vernador de que não tem que propor nenhuma al- 
teração ao art. xii, que era a pedra de escândalo 
do tratado. 

Depois de uma curta discussão escripta, entre o 
delegado britannico e o governador de Goa, este 
declarou que ia submetter a questão ao seu governo. 

A questão foi resolvida em Lisboa por um ac- 
cordo entre os dois governos. 

Reuniu-se depois em Goa uma commissão mixta 
que, fazendo o calculo minucioso do rendimento das 
marinhas,, propoz novas indemnisações, que foram 
geralmente acpeites pelos proprietários. 

Além doestas resoluções outras foram tomadas, 
para melhorar a fazenda publica no estado da In* 
dia. Um decreto de 15 de setembro de 1880 au- 
ctorisou e regulou a desamortisação e venda dos 
bens da fazenda e corporações de mão morta : e es- 
tabeleceu-se o processo para as denuncias de des- 
caminho de bens livres e vinculados da fazenda pu- 
blica e sua reivindicação e incorporação na mesma 
fazenda. Creou-se o imposto de tonelagem por de- 
creto de 21 de outubro de 1880, supprimiram-se 



55 

de lodo os direitos que era de uso cobrar sobre a 
navegação nacional ou estrangeira com diversas 
denominações . 

Este imposto rendeu nos dois mezes de dezem- 
bro e janeiro 2:062^891 réis. 



IX 



No tratado luso-brilannico de 1878 estabeleceu- 
se, que o governador geral de Goa e o vice-rei da 
índia ingleza regulassem, por uma convenção mo- 
netária ^eral, a recunhagem da moeda de Goa em 
uniformidade com a rupia ingleza. 

Effectivamenle o valor da moeda de Goa era mui 
differente do da índia ingleza: o seu peso, tanto da 
moeda de prata como da de cobre era mui incom- 
modo e soffria um agiô considerável nas transac- 
ções: as moedas de Goa não teem curso nem nos 
próprios districtos de Damão e Diu, e as inglezas 
eram acccites por toda a parle. Na recunhagem e 
alteração da nossa moeda não podia deixar de ha- 
ver inconvenientes, mas pela convenção esses in- 
convenientes eram sensivelmente minorados. 

A emissão do papel moeda, até ao limite de^ 4 



«8 

por cento do valor da moeda em circulação, foi au- 
ctorisada pela convenção monetária, e a requisição 
d'esse papel fabricado em Inglaterra por interven- 
ção benévola do sr. Conwford, commissario com o 
sr. Aguiar na commissão que se reuniu em Goa 
para tratar da execução do tratado. 

Outro melhoramento importante se estabeleceu 
em março de 1880, foi o da navegação a vapor nos 
rios de Goa. Este melhoramento de uma extraordi- 
nária vantagem para as communicações internas foi 
emprehendido á custa do thesouro, que comprou 
cinco lanchas apropriadas, com movimento accele- 
rado, pelo preço de 37:591^020 réis provinciaes, 
fabricadas em Bombaim. 

As cinco lanchas entraram em exercicio: a pri- 
meira desde 22 de março entre Pangim e Rachol 
tocando em Durbate, Cortalim, Cundaim e Com- 
barjua: a segunda na mesma linha de Nova Goa 
para Salsete, com egual escala: a terceira a prin- 
cipiar no dia 14 de junho, entre Nova Goa, Verem 
e Betim: a quarta em 12 de janeiro de 1881 na 
carreira diária entre o embarcadouro de Peligao na 
provincia de Bicholin e a capital de Nova Goa, to- 
cando nos pontos de Toltó, Dangin, Velha Goa, Pie- 
dade, S. Pedro de Ribandar : a quinta é de reserva 
para as substituições e qualquer occorrencia ur- 
gente. 

A conta das lanchas a vapor salda-se no deficit 



59 

para o thesouro, mas a sua utilidade é tão grande 
que a conta se não pode fazer por esta forma. Com 
effeito a receita foi de 5:548^591 réis e a despeza 
de 8:031^784 réis, mas ha a attender a questão 
sob o ponto de vista dos serviços que esta nave- 
gação faz ao estado, que só por observações esta- 
tísticas, que o tempo deve fornecer, se pode bem 
avaliar. 

Os melhoramentos resultantes das obras publicas 
chamaram a attenção do governador geral de Goa, 
como de todos os governadores das nossas colónias. 
Um governador distincto, o sr. almirante Almeida 
e Albuquerque, entendeu esta obrigação e procurou 
dar-lhe cumprimento. O- distincto governador en- 
controu grandes dificuldades a vencer. Com o no- 
vo tratado o rendimento de 3 por cento destinado 
para obras publicas cessou, e a junta de fazenda 
teve de solicitar do ministro que auctorizasse o em-' 
prego de outros fundos para este fim. 

Nas colónias portuguezas, á excepção de Macau, 
as cidades, as villas, os centros de população, não 
tinham as condições hygienicas que a sciencia acon- 
selha. Falta de edifícios públicos para funccionarem 
decentemente as repartições do estado; sem fáceis 
communicações entre os pontos mais importantes 
das provindas; sem egrejas, sem escolas, sem hos- 
pitaes que satisfaçam as exigências da administra- 
ção , lançavam o desanimo no espirito dos governa- 



60 

dores que de novo chegavam. As idéas loucas da 
economia, que levam a preferir viver na abjecção e na 
miséria a contribuir para as despezas publicas, do- 
minam o espirito publico, e é um obstáculo para em- 
prehender qualquer melhoramento. 

Quando o governador, o sr. Albuquerque, chegou 
a Goa tinham tido logar muitas calamidades, e en- 
tre estas a morte de dois governadores, por causa 
da insalubridade da capital. A necessidade de obras 
hygienicas era por todos reconhecida pelo terror que 
causavam tão sinistros acontecimentos, Ao chegar a 
Goa o sr. Albuquerque consultou o corpo medico e 
os engenheiros, para lhe indicarem o que havia a fa- 
zer para melhorar hygienicamente a capital. O corpo 
medico respondeu fazendo notar as numerosas cau- 
sas de insalubridade que seaccumulavam na capital 
e em Mapuça. As ruas cortadas de palhoças; casas 
pequenas, de tectos baixos, sem ventilação; a popu- 
lação condensada; o hxo e immundicia pelas ruas; 
os cemitérios pequenos, obrigando á exhumação os 
cadáveres subterrados depois de um anno; tudo tor- 
na insaluberrimas as povoações. Bosques de palmei- 
ras dentro das povoações impedem a circulação do 
ar e augmentam a insalubridade. 

O governador reuniu as informações sobre o es- 
tado hygienico de Goa, e essas informaçõos foram 
deploráveis. O chefe do serviço de saúde, o sr. Fer- 
rer, informando acerca de Pangim disse n um officio: 



61 

«Pangím é uma cidade onde faltam todas as con- 
dições hygienicas naluraes e onde os preceitos da 
hygiene publica se acham completamente desatten- 
didos, não se podendo de nenhum modo increpar a 
junta de saúde d'este desleixo, porque não cessa 
ella de reclamar, ha annos, em favor de melhora- 
mentos que deviam merecer a principal attenção do 
governo. 

«Dois foram os governadores que dedicaram a 
máxima attenção a esta ordem de melhoramentos, 
não podendo um, por circumstancias imprevistas, 
realisar os seus planos, e outro por succumbir vi- 
ctima das péssimas condições endémicas em que 
existe a índia portugueza, e que elle, de certo, ar- 
rancaria, se a morte o não colhesse prematura- 
mente. 

«Pangim foi primitivamente um pântano, tendo 
por esqueleto o outeiro que corre de NE. para SO., 
as formações de aterro silicioso, que o mar tem op- 
posto pelo lado N. e S., taes são os elementos geo- 
lógicos que com a laterite detrilica do outeiro for- 
mam o solo da cidade. 

tO nivel de toda a parte plana do terreno está 
inferior ao nivel médio do rio, circumstancia das 
mais adversas para o esgoto das aguas pluviaes 
e quaesquer liquidos que seja necessário remover. 

t Ao poente de Pangim existe o esteiro de Santa 
Ignez, que, por obstruido, se pode considerar um 



62 

verdadeiro pântano; a mesma denominação mere- 
cem as duas várzeas, que existem próximo da egreja 
de Santa Ignez e do hospital militar. 

< O rio Mandovi que banha a cidade,* descobre 
uma extensa e immunda vasa em toda a sua mar- 
gem esquerda. 

cÂo S. existe o paludissimo esteiro de Santa Cruz 
e^ na mesma direcção abundam extensos tractos de 
terra não cultos e alagados, outros reduzidos a ar- 
rozaes e marinhas. 

« A^ brisa do mar, que, por sua frescura e oxyge- 
nio, tanto podia beneficiar os habitantes, encontra 
na sua passagem um obstáculo, quasi invenciveL 
nos palmares que ao 0. abundam. 

c limpeza da cidade é nominal; o lixo que por 
muito tempo serviu para aterro de algumas partes 
da cidade, deposita-se agora ao S., a 100 metros 
da povoação. Não existem latrinas, nem urinoes pú- 
blicos. As casas particulares são pessimamente con- 
istruidas, havendo 1:966 que são térreas, e cujo pa- 
vimento está ao nivel do da rua ou inferior, muitas 
não tem latrinas, n'outras existem em péssimas con- 
dições, e em algumas os escrementos caem directa- 
mente sobre o solo. 

cE rara a casa que não tem porcos ou vaccas, e 
todavia não ha um único curral que mereça jBSte 
nome. 

c Os canos foram pessimamente construídos ; a 



63 

pedra empregada foi a laterile, que, por ser muito 
permeável, é imprópria; nao ha o declive necessá- 
rio, communicam directamente com as casas, rece- 
bem lixo, agua de chuva, aguas sujas e matérias fe- 
caes- 

< O palácio do governo é uma construcção anti- 
ga ; é mal ventilado, está exposto ás emanações da 
vasa, que todos os annos adquire maior extensão. 
Tem nas suas proximidades a extensa horta dos ca- 
motins, de notória immundicia». 

Esta descripção repugnante de Pangin dá bem 
idéa do deplorável estado de porcaria e das suas 
condições de insalubridade. O governador mandou 
fazer egual estudo em Mapuça, cabeça do concelho 
de Bardez, e o resultado da inspecção deu egual 
resultado. O vogal da junta de saúde na sua infor- 
mação diz o seguinte: 

«Foi-nos penoso reconhecer que Mapuça de villa 
só tem o nome, e que campeiam ahi impunemente 
todas as condições anti-hygienicas e de desasseio 
extremo. Um desmazelo vulgar dos habitantes, pela 
maior parte gentios, alliado á imperdoável incúria 
dos zeladores constituidos, conseguiu demonstrar 
que a humanidade podia viver respirando esterquei- 
ras^ que innumeras abundam lá, modeladas pelas 
que existem no quintal da própria casa sanitária, 
onde é a sede da maior parte das repartições pu- 
blicas. 



64 



€ A villa possue pelo lado occidental uma roa es- 
treita, cuja bifurcação dá mais adiante outras se- 
cundarias; uma, continuação da primeira, segue a 
E. e outra ao N. 

•Não ha mais ruas. 

«No angulo da bifurcação um prédio de casas em- 
barga muito a ventilação da villa. 

• Nas ruas não falta lixo e detritos animaes. 

«As casas são mediocres, de tecto baixo, janel- 
las acanhadas, sem asseio algum, intercaladas de 
casebres desmoronados, outras em rebouco. 

«De distancia a distancia estão situados os bair- 
ros, que não passam de uns montões a esmo de 
casebres e choupanas, fraternalmente intermeadas 
com sargentas e sangrias entulhadas de asquerosas 
immundicies. 

«A sua povoação é condensada. 

«A E. avista-se uma várzea sujeita a alagação 
salina: depois encontra--se a egreja, cuja capella 
mór é adornada de um formoso arrendado de teias 
de aranha; o resto do templo guarda harmonia; de- 
pois deparam-se, quaes sentinelas avançadas da 
morte, dois cemitérios; um do lado esquerdo, fu- 
são de podridões, denominado bairros dos [arares, 
serve para consummir paulatinamente os vivos; o 
que fica do outro lado, sendo destinado á consum- 
pção dos mortos, serve mais para consummir os vi- 



65^ 

vos, por mal situado e acanhadíssimo, havendo ne- 
cessidade de exhumaçâo antes de cinco annos!! 

«A cadeia nâo dista muito do cemilerio. 

«E situada no centro da villa; à sua capacidade, 
sendo sufficiente apenívs para 50 preeos, tem com- 
tudo empilhados 143; no meio do saguão abre- se 
o poço. A cosinha e outras serventias são húmidas, 
encharcadas e immundas, porque não se fazem os 
despejos e desaguamenlos convenientemente. 

«Condições hygienicas péssimas; a capacidade é 
desproporcionada ao numero dos presos; não exis- 
tia preso nenhum doente; os presos compram dia- 
riamente os géneros alimeriticios necessários; não 
ha rancho propriamente dito, e a ração fornecida 
pela fazenda aos presos é sufficiente, attendendo á 
alimentação habitual do povo; finalmente, não ha 
o asseio necessário, cuja falta se deve attribuir mais 
ao desleixa dòs indivíduos a qnem cumpra velar 
com zelo. 

«Quem quer, sabedor de que Mapuçá fora esco- 
lhida para villa unicamente pela sua situação favo- 
rável ao commercio da comarca, tem direito a es- 
perar um mercado zelosamente cuidado; nada po- 
rém, tão desprezado e mal disposto. O mercado não 
abriga do sol nem das chuvas ; é desprovido d'agua, 
sem livre espaço aos feirantes e quasi em ruinas. 
As mercadorias são expostas sem ordem; encon- 
tram-se espalhados por todo elle os fornos de assar 

VOL IV. 5 



66 

O grão; o peixe teimosamente exposto pelas ruas, 
aban lonado no basnr dispendioso ad hoc construí- 
do; tal é o prestigio auclorilario. 

-í Cresce a admiração quando se certifica que 
os commerciantes prompliíicam-se boamente para 
quaesquer melhoramentos, e que contribuem com 
uma cifra avultada do imposto de mercado. 

• As lojas são uns cubículos, onde as medidas e 
vasos de cobre, que conteem óleos, encohlram-se 
barrados de camadas de vários oxydos. 

«Nas casas de pasto e outros estabelecimentos, 
encontra-se grande quantidade de carnes resequi- 
das e alteradas, cervejas e conservas, etc, comple- 
tamente podres. Fiscalisação nulla. 

«As aulas publicas foram outr'cra casernas dos 
quartéis militares; baixas, sem ar, luz nem asseio. 
A entrada, sem escadas, dá para um terreno esca- 
vado, ora entulhado de lixo, ora inundado na esta- 
ção chuvosa. 

«A matança era ao ar livre; não ha muito que 
levantaram uma palhoça, com foros de açougue, 
onde os processos seguidos e os instrumentos usa- 
dos são anachronicos, como em toda a Goa. O gado 
é o melhor do nosso mercado * . 

Margão, capital de Salsete, está nas mesmas cir- 
cumstancias, quanto a asseio e condições de exis- 
tência da população. O exemplo d'estas três povoa- 
ções, os mais importantes centros de população, dão 



67 

O modelo do estado geral da índia portugueza. Á 
vista d'esta terrível descripção o governador tomou 
meriidas urgeutes para melhorar as condiçOes hy- 
gieDÍ€as das povoaçOes. 

Além das ordens de administração próprias para 
melhorar o estado medico, mandou-se pela repar- 
tiçãa de obras publicas fazer o aterro marginal ao 
longo da cidade de Pangin, para evitar a área de 
lodo que ficava a descoberto; talharam-se largos e 
ruas num palmar que abafava Pangiíi: abriram-se 
novas ruas para dar passagem ao ar, aterraram-se 
praças e ruas que offereciam maiores depressões; 
cortou-se um outeiro que corria pelo centro da ci- 
dade tapando o ar a um bairro ; limpou-se e deu-se 
nova direcção a um esteiro a que se attribuiam cau- 
sas de insalubridade; abriram-se casas para despejo 
publico, etc. 

A despeza nas obras de sanidade e viação publi- 
ca importaram nos primeiros mezes em 3:773^623 
réis. A limpeza e desobstruimento do esteiro de 
Santa Ignez e o aterro das suas margens com o. 
muro de supporte, custou 3:763^529 réis. O corte 
do outeiro da Conceição e o transporte das terras 
montou a 10:948^274 réis: a obra foi orçada em 
49:980^000 réis. A muralha marginal do Mandovi 
na extensão de 68 metros importou em 3:318^017 
réis: a obra toda está orçada em 72:000^000 réis. 
A expropriação para abertura das ruas importa em 

5* 



6S 

18:904^550 réis. A somma dos dispêndios em to- 
das as referidas obras importou em 22:067|1238 
réis. 

Além d'isso a rede de estradas reaes tem 970 ki- 
lometros^ p desenvolvimento das obras de estradas 
tem sido lento e está longe de altingir as exigências 
do paiz. Os edifícios públicos na capital são limita- 
díssimos: faltam, uma cadeia, tribunaes de justiça, 
escolas primarias e direcção de obras publicas. 

O palácio do governador geral é antigo. Tem-se 
feito ali varias obras destinadas a melhoral-o, e ul- 
timamente fizeram-se ali obras para lhe melhorar 
os sobrados, os tectos, as paredes, na importância 
de 4:868^283 réis. No palácio do governo no Cabo 
também se fizeram obras que importaram em réis 
5:787^314. O palácio do arcebispo, na VeJha Goa, 
também se concertou, importando as obras feitas 
até ao fim do anno económico de 1878-79 em réis 
1:07011700. 

A secretaria geral exigiu um prédio novo, e só 
tfelle se dispenderam no mesmo anno económico 
131:792|1829 réis. Outras obras também foram 
executadas em egrejas, quartéis, etc, na capital e 
n^outras partes do Estado. 

Até ao fim de 1880 as obras do aterro do Man-^ 
dovi proseguiram, assim como o corte do outeiro dâ 
Conceição, Ruas numerosas se abriram no palmar 
junto de Goa, e canos de esgoto indispensáveis para 



69 

a salubridade da cidade. O esteiro de Santa Ignez 
continuou a melhorar-se. Estradas novas se con- 
struiram ou melhoraram. Canaes para a navegação 
se abriram ; m?lhoraram-se os edifícios públicos na 
cidade e fora d'ella. 

As obras de melhoramentos na capital, as de via- 
ção publica e de arranjos nos edifícios públicos tem 
continuado até hoje com mais ou menos actividade; 
e a linha férrea está quasi concluida, e em parte 
aberta á exploração. 



X 



Na época em que o nosso domínio nos mares da 
índia era vasto, e em que dominávamos o mar e 
era preciso ter ali uma esquadra sempre prompta 
para impedir o commercio dos mulsumanos por o 
mar Vermeltio, constituin-se em Goa um arsenal de 
marinha para reparar navios e construir outros; 
um trem militar e uma fabrica de pólvora. Os tem- 
pos mudaram e estes estabelecimentos constituidos 
em vasta escala tornaram-se um peso para as fi- 
nanças do estado, sem compensação. Levou muitos 
annos para o governo tomar uma resolução a tal 
respeito, até que em 1869 o governo extinguiu o 
arsenal e a fabrica da pólvora, mandando vender 
em hasta publica o edifício da fabrica da pólvora e 
todos os objectos a cargo do arsenal e da mesma 
fabrica, que não podessem ser aproveitados para 



serviço do estado, tomando o governo do estado as 
providencias para a arrecadação dos objectos depo- 
sitados n'aquelles estabelecimentos. 

Em cumprimento da ordem do governo, o gover- 
nador, reconhecendo o inconveniente de levar a ef- 
feito logo a extincção d'aquelles dois estabelecimen- 
tos, mandou conserval-os até o acabamento dos ob- 
jectos em construcçâo, e nomeou uma commissão 
para fiscalisar os trabalhos indicados e formular um 
relatório a respeito dos objectos a conservar, tendo 
em vista as necessidades do serviço no mar. O go- 
vernador constituiu os pequenos trens militar e de 
marinha que deviam ficar. 

Por outra portaria mandou o governador que, á 
fabrica da pólvora, devendo ser concedida á. indus- 
tria particular por um limitado tempo e sob a vi- 
gilância official, SC desse de arrendamento tempo- 
rário, por cinco annos^ a fabricação de pólvora; em 
consequência d'esta ordem fez-se o contracto com 
as condições necessárias. 

Depois, outra portaria extinguiu os arsenaes de 
Damão e Diu, por a experiência ter mostrado a sua 
inutilidade, devendo os respectivos empregados con- 
tinuar a ser abonados dos seus vencimentos e apre- 
sentar- se ao serviço para que fossem nomeados nas 
mesmas praças, e os mais despedidos do respectivo 
quadro. 

O governo não approvou a creação dos trens mi- 



73 

litar e de marinha, e o governador, para arrecadar 
ò material de construcção, os instrumentos de tra- 
balho, os artigos de armamento e munições de in- 
fanteria e artilheria, ordenou que no edifício deno- 
minado casa da pólvora se estabelecesse um depo- 
sito geral, recolhendo para ali lodos os artigos do 
material acima designados. 



^ 



# 



.y 



XI 



 instrucção publica no Estado da índia é dimi- 
nutíssima, como se pode ver pelos dados seguintes: 

As escolas primarias são frequentadas por 2: i48 
alumnos, o que, para o geral da população, que 
pode ser aproximadamente 42i:429 habitantes, dá 
!:i72 indivíduos. Nas Velhas Conquistas ha uma 
escola por i6 kilometros quadrados e 5:000 habi- 
tantes. No concelho das Ilhas ha uma escola por 
15 kilometros quadrados e 4:900 habitantes; em 
Bardez uma escola por 13 kilometres quadrados e 
5:900 habitantes; em Salsete uma por 17 kilome- 
tros quadrados e 5:000 habitantes. 

Nas Novas Conquistas ha 13 escolas por uma su- 
perfície de 2:664 kilometros quadrados, ou uma es- 
cola para cada 204 kilometros e 8:615 habitantes. 
Em Pemem ha uma escola para cada 80 kitome- 



76 

tros quadrados e ii:500 habitantes. Em Bicholim 
e Satary ha uma escola por 164 kilometros e para 
6:250 habitantes. Em Pondá e Embarbacem ha uma 
escola para 160 kilometros quadrados e 6:598 ha- 
bitantes. Em Cacora, Chondraviadi, Balli, Astagrar 
e Canacona ha uma escolapor 968 kilometros qua- 
drados e 12:000 habitantes. 

Em Damão ha uma escola para 3:421 habitan- 
tes e em Diu para 5:500 Jbabitantes. 

Vê-se pois a insufficiencia no numero de escolas, 
e a causa da sua diminuta frequência. 

O ensino secundário é professado no lyceu de 
Nova Goa a em varias cadeiras isoladas. No semi- 
nário de Rachol também ha cadeiras de inslrucção 
secundaria. Estas cadeiías isoladas estão fora da 
prescripção da lei, do que resulta que a inslrucção 
não é egual. O numero de estudantes de instrucção 
secundaria tem ido crescendo nos últimos annos. 
No ultimo anno o numero dos matriculados foi de 
602 e no anno anterior de 333. O numiero dos exa- 
minados das escolas publicas foi de 309, e das par- 
ticulares de 300,. sendo approvados 478. O numero 
total dos individues que no ultimo anno de que te- 
mos estatistica (excluindo as escolas de ensino cle- 
rical, e de inglez de Damão) foi de 1:545. 
... O Instituto profissional de Goa tem matriculados 
210 alumnos; sendo 90 o dos examinados e 69 o 
dos approvados. O curso do Instituto não habilita 



77 

para o funccionalismo, mas habilita para muitas 
profissões.. Os que frequentam o Instituto não le- 
vam em mira uma habilitação para um logar de- 
terminado, e isso é causa do numero diminuto de 
alumnos que o frequentam. O conselho escolar bus- 
ca por todos os modos desenvolver o ensino e tem 
melhorado os estabelecimentos, e o modo de ensino. 

Sendo de grande utilidade os conhecimentos prá- 
ticos ija sciencia agricola, sente-se a falta de uma 
quinta experimenlal, como complemento da escola 
de agricultura. A falta de exercicios práticos tor- 
nam também difficiente o ensino industrial e artis- 
tico. 

O estudo das sciencias económicas é muito im- 
portante aos funccionarios, sendo para desejar que 
se exija a approvaçâo d'estas disciplinas aos candi- 
datos aos cargos públicos. Isto daria maior frequên- 
cia no Instituto. 

Parece-nos este estabelecimento n'um estado pro- 
gressivo^ e não deve assustar a diminuta frequência 
que tem. Quando a utilidade for geralmente reco- 
nhecida, então será maior a affluencia de alumnos 
e a sua acção na transformação social porque a ín- 
dia está actualmente passando. 

No anno de 1885 já esse augmento era notável. 
O numero de alumnos matriculados era de 335, 
sendo d'estes appro vades 114. 

A escola medico-cirurgica de Goa, acha- se mais 



78 

que incompletamente orgaDisâda, e falta-lhe todo 
para o ensino. Não tem hospital; o corpo docente 
varia a cada instante, é inconvenientemente remu- 
nerado : os alumnos saem da escola não habilitados 
para exercer a clinica nas colónias para que são 
mais necessários. Na escola actual o numero de 
alumnos anda por 60 a 70. São estas as noticias 
sobre instrucção publica no Estado da índia, e, co- 
mo diziamos, mostram o estado incompleto em que 
ainda se encontra este ramo de serviço publico. 



XII 



v-^ 



JNa antiga índia a justiça era administrada por 
tribunaes, o primeiro dos quaes era a relação com 
dez desembargadores, um chanceler, um ouvidor 
das causas eiveis, outro do crime, um juiz dos fei- 
tos da coroa, um procurador dos feitos da coroa, um 
promotor da justiça, um procurador dos defuntos: 
mais quatro desembargadores extravagantes. 

Em i628 reduziu-se o numero de desembarga- 
dores, a cinco, numero suflficiente para tratar os ne- 
gócios da índia. 

Com o andar do tempo se foi o tribunal simpli- 
ficando e reduzindo o seu poder, até que chegou a 
1833 extincta a relação de Goa. Em i836 um de- 
creto restituiu a relação composta de três juizes; e 
dividiu o território em três comarcas, cada uma com 
o seu juiz de direito. Creou também um procurador 
da coroa, e em cada comarca um delegado. 



80 

Um decreto de 14 de novembro de i878 aa- 
gmentou o numero de comarcas, elevando-as a seis, 
e extinguiu os julgados independentes de Diu e Da- 
mão, e os antigos julgados ordinários em que se di- 
vidiam as antigas comarcas, mandando crear nas 
novas comarcas pequenos julgados pela forma esta- 
belecida na lei de 16 de abril de 1874, e cria dois 
julgados ordinários, um em Diu, outro em Pragana. 

As novas comarcas de Sanquelim e Quepem fo- 
ram instaladas em 17 de junho e a de Damão em 
4 de agosto. O novo julgado de Diu ainda em 1879 
se não constituiu, ou d'isso não havia noticia em 
Goa, e o de Pragana não era possivel instalal-o por 
faltar para isso edifício apropriado. 

As condições especiaes das Novas Conquistas não 
permittiram a instalação de muitos dos novos julga- 
dos, e, nos que foram instalados o pessoal tem an- 
dado sempre em movimento, por ser difficil encon- 
trar individuos habilitados entre os habitantes, e de 
fora ninguém se sugeita a occupar togares sem or- 
denado. 

Isto mostra que é uma reforma não apropriada 
para as Novas Conquistas- 

A creação das conservatórias foi decretada em 
17 de outubro de 1865. O registo e publicidade 
dos direitos e encargos que modificam ou oneram 
a propriedade, é a segura garantia para o direito 
de propriedade e a salvaguarda das transacções so- 



81 

bre bens immobiliarios ; mas é preciso para isto que 
o registo predial esteja bem regulado e em dia, sem 
isso é um embaraço para outras acções. 

A grande extensão das comarcas da índia, a cada 
uma das quaes corresponde uma conservatória, a 
grande divisão da propriedade, a deficiência de pes- 
soal das conservatórias e o systema de escriptura- 
çâo estabelecida pelo regulamento, são as causas 
principaes do atrazo do serviço. 

Segundo os relatórios das ultimas visitas ás con- 
servatórias, o atrazo do serviço era de quatorze me- 
zes e quatro dias na conservatória das ilhas, de qua- 
tro annos e vinte e nove dias na de Salsete, e de 
vinte e dois mezes na de Bardez. Isto referido a 
1879. 

Á creação de duas novas conservatórias nas co- 
marcas de Sanquelim e Quepem não bastou para 
acabar pouco a pouco o atrazo do registo; porque 
a conservatória de Sanquelim comprehende a pro- 
vincia de Satary, de Bicholin e Peruem, e na con- 
servatória de Bardez os registos effecluados em dez 
annos representam apenas dois quintos dos regis- 
tos ; procedendo-se á separação dos titulos apresen- 
tados e não registados, reconheceu-se que para a 
conservatória de Sanquelim passaram 238 titulos, 
ficando para a de Bardez 651; procedendo-se ao 
mesmo na conservatória de Salsete, foram separa- 
dos para Quepem 3õ5 titulos e ficaram em Sal- 

VOL. IV 6 



82 

sete 2:690 lilulos para registar. Estes números mos- 
tram evidentemente que é urgenie modificar o ser- 
viço das conservatórias, para poderem satisfazer as 
suas importantes funcções. 

Este mal precisa remediado e prop5em-se vários 
processos para o conseguir, sendo um d'elles o au- 
gmento de pessoal de cada conservatória. 

São estas as indicações que se apresentam em re- 
lação ás necessidades judiciaes. 



XIII 



Havia na índia uma grave questão resultante da 
nossa conquista, e que profundamente abalava o es- 
pirito publico sempre que se levantava e se debatia 
entre Portugal e Roma. A questão religiosa na ín- 
dia foi sempre embaraçosa para o governo d'sste es- 
tado. Quando definitivamente se estabeleceu o nos- 
so dominio em Goa, affluiram os frades quo erigi- 
ram conventos e promoveram missões por aquellas 
regiões orientaes. Eram de diversas ordens esses 
frades, e estavam sempre em guerra uns com ou- 
tros. 

Quando perdemos Ceylão, Malaca, Cochim e ou- 
tras cidades, existiam nas cidades restantes qua- 
renta mosteiros com poucos frades cada um, e pro- 
curou-se reduzil-os, mas inutilmente. 

Em 1759, quando se extinguiram os jesuitas, fo- 

6# 



84 

ram presos aquelles que ali existiam ; foi cedida a 
sua casa professa do Bom Jesus, o noviciado do 
Charão e a casa conventual de Rachol, aos missio- 
nários italianos de S. Vicente de Paulo, para o es- 
tabelecimento de seminários. Estes padres italianos, 
poucos annos depois foram expulsos da índia, e sub- 
stituidos por frades portuguezes da mesma ordem e 
por clérigos da congregação do Oratório. 

As ordens monásticas eram um grande trabalho 
para os governadores. Já em i691 os governado- 
res da índia escreviam ao rei: 

«Não dá tanto cuidado a quem governa este es- 
tado e no que elle se acha, como dão as continuas 
perturbações dos religiosos que existem n estas par- 
tes, e é insoffrivel a inquietação que causam, pois 
apenas se socegaram os religiosos de Santo Agosti- 
nho, quando começaram a contender os capuchos, 
franciscanos e carmelitas; o que fazemos presente 
a V. M. para que seja servido ordenar o como nos 
havemos de haver nas bulhas d'estes religiosos, que 
em vez de gastar o tempo na conversão dos infiéis, 
o consommem e passam todos em pendências par- 
ticulares, parecendo os claustros mais quartéis de 
soldados que habitações de monges*. 

A principio a índia estava na parte espiritual 
sugeita ao prior mór da ordem de Christo. Foi no 
anno de 1534 que Paulo m constituiu o bispado de 
Goa. A instancias de el-rei D. Sebastião, Goa foi 



85 

elevada a arcebispado, e em 1606 o arcebispo de 
Goa teve o titulo de primaz do oriente. 

O arcebispo e o cabido de Goa pelas suas des- 
ordens perturbaram a paz no estado, e os governa- 
dores obtiveram um breve apostólico e ordem regia 
para impedirem esses excessos. 

Na índia os christãos espalhados por todo o 
oriente, andavam tresmalhados e perdidos, em lu- 
cta perpetua com os vigários apostólicos. Em 1857 
ajustou-se uma concordata com Roma, a qual foi 
ractiScada pelo governo portuguez em 1860. Esta 
concordata restringiu o antigo direito de padroado 
no oriente á egreja de Goa, de Gangranor, de Co- 
chim, Maliapor e Muluca, a Macau e a China. 

O governo portuguez comprometteu-se a contri- 
buir, quanto n'elle coubesse, para a creação de um 
novo bispado no território do arcebispado de Goa, 
de accordo com a Santa Sé. 

Proceder-se-ha á circumscripção dos bispados, 
e separou-se a jurisdição do bispado de Macau, 
conlmuando a pertencer-lhe a ilha de Singapura. 

Poderão erigir-se novos bispados das partes do 
território que ficavam fora dos limites das dioceses. 

Á medida que se estabelecer a circumscripção 
de cada bispado, remover-se-ha successivamente do 
território da diocese o vigário apostólico que n'ella 
existir. 

Esta concordata passou muitos annos sem ser 



86 

cumprida^ e as questões com a Santa Sé multipli- 
caram-se e tomaram muitas vezes um tom azedo 
em que nada havia de cordeal. Ultimamente quan- 
do o novo embaixador foi para Roma é que as coi- 
sas tomaram um aspecto mais rasoavel, e parece 
que se chegou a uma solução mais pacifica, entran- 
do debaixo do domínio do padroado muitos mil ca- 
tholicos que d'elle estavam afastados. 

Em 1560 foi creada a inquisição de Goa, e foi 
mais uma causa de intrigas e crueldades provoc^a- 
das pelas idéas religiosas que dominavam no século 
XVI. A inquisição de Goa tinha uma bella casa ao 
lado da calhedral; ds autos de fé faziam-se com 
tanta grandeza e fria crueldade como nas outras 
casas da mesma ordem que existiam em Portugal. 
A inquisição servia na índia, não para attrair gente 
para a fé christã, mas para d'ella afastar os povos 
mais bárbaros d'aquella região. Como não tinham 
tantos judeus, ou falsos judeus, a perseguir, empre- 
gavam-se em flagelar os gentios e mahometanos, e 
afâstal-os do baptismo. N'aquelle estado longiquo 
servia ella muitas vezes para saciar a inveja e a 
intriga de um povo de si dado a estas paixões ignó- 
beis. Os governadores serviam-se da inquisição para 
as suas vinganças muitas vezes, outras para satis- 
fazerem as suas ruins paixões. 



XIV 



A maior e melhor parte dos portos e enseadas, 
desde o Cabo das Correntes até ao Japão, estava 
em poder dos portuguezes, ou era por elles visitada 
e frequentada. A posse dos mares da Arábia, Pér- 
sia, índia, China e Moluca era de Portugal, e para 
ali navegar era preciso auctorisação d'elle. Mas esse 
grande poder acabou e pouco resta d'elle. As nos- 
sas possessões na índia estão hoje arruinadas, sem 
habitantes, sem cultura e sem industria. 

Pela entrada dos portuguezes na Ásia o com- 
mercio mudou de caminhos, e os árabes, que eram 
então senhores d'esse commercio, foram d'elle des- 
pojados. Lisboa passou a ser o empório do com- 
mercio do oriente, como antes o eram Veneza, Gé- 
nova e Florença no Mediterrâneo. Nos meados do 
século dezeseis, o Egypto, que era o interposto para 



88 

O commercio das três partes do mundo, estava aban- 
donado e esquecido. 

O islamismo, que ameaçava a Europa inteira, 
pelo domínio do commercio, perdeu o poder, por- 
que os portuguezes lh'o tiraram, apossando-se do 
caminho da índia e desviando-lhe o commercio. 

O poder immenso que os portuguezes alcançaram 
na Ásia, muitas causas lh'o fizeram perder. As cau- 
sas principaes foram as seguintes: 

— A pequena população de Portugal e a exten- 
são desproporcionada dos nossos dominios, que elle 
buscava estender sempre, levou a nação a um ex- 
tenuamento que facilitou a invasão hespanhola e a 
perda da independência. Na Ásia as numerosas pra- 
ças e feitorias, que não tinhamos povoação para de- 
fender, foram perdidas por se encontrarem em face 
dos inimigos da Hespanha que se tornaram nossos 
inimigos. 

— Os hollandezes atacavam -nos e, apezar de uma 
defeza heróica muitas vezes, apossaram-se de gran- 
de parte dos nossos dominios. 

— Os portuguezes quizeram, ao tempo que eram 
conquistadores ser commerciantes. Aonde chegou a 
espada portugueza, estabeleceu -se o commercio a 
ferro e fogo. Os commandantes dos navios eram os 
negociantes, que em nome do rei exerciam o com- 
mercio e arbitravam o preço ás mercadorias. As 
guerras incessantes devastavam no mar e na terra. 



89 

por toda a parte, o commercio livre que fugia espa- 
vorido, deixando as terras nas mãos dos vencedo- 
res, que não sabiam fazer commercio, e deixavam 
os povos ao desamparo, tremendo de pavor e es- 
condendo as mercadorias. 

— Onde os portuguezes iam levavam o fanatis- 
mo religioso e com elle um ódio implacável a todos 
os cultos que não fosse o catholico. Os pagodes fo- 
ram derrubados, e em vez d'elles levantaram-se 
egrejas e capellas; indivíduos de alta gerarchia eram 
arrancados á força da casa paterna e baptisados ; 
por fim levantou-se a inquisição que destruiu e en- 
cheu de terror a índia. 

— Nos primeiros tempos do descobrimento da ín- 
dia não se pensava em fazer conquistas, nem elevar 
caslellos, mas unicamente apoderar-se do commer- 
cio marítimo e conserval-o pela força. Mas esta opi- 
nião, que era a do vice-rei D. Francisco de Almei- 
da, não foi adoptada por Aífonso de Albuquerque. 
A distancia da índia a Portugal era tão grande 
que se necessitavam portos de abrigo e estabeleci- 
mentos favoráveis para as naus se repararem, e se 
poder acudir a qualquer desgraça que no mar nos 
succedesse. Por isso Albuquerque se apossou de 
Goa, e de Malaca, e de Ormuz, etc. Goa como que 
foi considerada a capital das colónias da Ásia; essa 
circumstancia tornou-se um grave inconveniente, 
porque a sua posição não era central, e o paiz 



90 

era aberto por todos os lados e infestado de epi- 
demias. 

— Uma das causas mais graves da decadência 
portugueza na índia foram os monopólios com que 
se fechou o commercio aos estrangeiros. O rei de 
Portugal fez-se commerciante e tomou para si o mo- 
nopólio do commercio. As naus partiam de Lisboa 
para a índia mal equipadas e fora de monção ; os 
naufrágios eram frequentes, e meltian)-se cfandes- 
tinamente mercadorias que saíam e entravam fur- 
tadas aos direitos. 

— A navegação no principio do século xvi já não 
dominava, nem os particulares queriam emprehen- 
der o commercio. Annos depois creou-se uma com- 
panhia para negociar na índia, mas nada aprovei- 
tou, porque, demais, a sugeiçao de Castella soffo- 
cara toda a actividade na nação portugueza. 

— A má politica do governo e a administração 
da justiça na índia, contribuiu muito para a deca- 
dência dos portuguezes. O luxo do oriente levou á 
infedilidade e mais vicios orientaes, deixando pro- 
seguir as prevaricações nos funccionarios públicos 
e a falta de justiça com que eram tratado^ pelo rei. 
A successão rápida dos governadores impedia que 
tivessem noticia do Estado que governavam, antes 
de chegar um successor que buscasse, primeiro que 
tudo, desmanchar o que o predecessor havia em- 
prehendido. 



91 

— A historia do governo de AfFonso de Albu- 
querque é a prova mais cabal d'esta verdade. De- 
pois de um governo glorioso, Albuquerque, que ad- 
quirira o direito de governar a índia, foi abando- 
nado por D. Manuel e morreu já demittido. Os suc- 
cessores trataram de desmanchar o que elle tinha 
feito, em quanto que os indígenas o adoravam como 
um ser sobrenatural e iam sobre a sua sepultura le- 
var as suas queixas e maguas. 

— Estes erros de administração tornaram odioso 
o nome portuguez, e quando chegaram os hollande- 
zes e inglezes, foram recebidos pelos Índios, sem 
quererem saber se eram mais lyranicos e mais in- 
justos os novos senhores. 

— O ultimo remate da nossa decadência na Ásia, 
foi a entrada de Filippe n em Portugal. A politica 
de Castella tinha por fim enfraquecer Portugal, ti- 
rando-lhe as armas na terra e no mar. O resultado 
d'este erro politico foi a revolução que sacudiu o 
jugo hespanhol. Mas durante o dominio de sessenta 
annos, os portuguezes, espalhados pelo mundo, fo- 
ram perdendo as virtudes que engrandeceram os 
seus maiores. Uns se fizeram piratas, outros se uni- 
ram aos estrangeiros, e quando os portuguezes sa- 
cudiram o jugo estrangeiro eslava a nação extenua- 
da, tinha perdido grande parle das conquistas asiá- 
ticas tomadas pelos hollandezes, e tinha quasi per- 
dido o Brasil onde os hollandezes dominavam egual- 



92 

mente. Na impossibilidade de tomarem os portos da 
Ásia e de reconquistarem a America, os portugue- 
zes trataram de negociar um tratado com os Esta- 
dos Geraes, o qual se assignou em 1661 por in- 
tervenção da Inglaterra. Por esse tratado os portu- 
guezes accediam a todas as pretenções que os hol- 
landezes podessem ter ás conquistas ^a Ásia, e es- 
tes reconheciam o direito dos portuguezes no Brasil. 
Foram estas as causas principaes da decadência 
do dominio porluguez nas terras orientaes. Ao do- 
mínio de Portugal seguiu-se o dominio dos hollan- 
dezes, a que se seguiu a conquista ingleza que se 
estendeu por toda a índia, ficando das nossas con- 
quistas só o estado de Goa, Damão e Diu. 



DAMÃO 



-^ 



y^ 



DAMÃO 



I 



Damão é um governo subordinado ao governo ge- 
ral da índia. Este governo, segundo se lê no Oriente 
Conquistado, entrou no dominio portuguez em 1569, 
que o reduziu e o encorporou n'esse anno nas pos- 
sessões portuguezas. 

O território de Damão confina pelo sul com o rio 
Calem, na margem do qual está uma aldeia que per- 
tence aos inglezes. O rio é estreito e vadiavel. Pelo 
norte confronta com outro rio mais largo e profun- 
do que se denomina Coileca; na sua margem uma 
aldeia também assim chamada, pertence ao regulo 
de Mandoim. Pelo occidente confina com o mar, e 
por leste com terras inglezas, e a estrada férrea que 
liga Bombaim a Barodá. Este território tem de ex- 
tensão de norte a sul duas léguas; e outro tanto de 
leste a oeste. 



96 

Em 1780, os vassalos do regulo de Parnem to- 
maram um navio porlugiiez e, como indemnisação 
cederam ao governo porluguez o pergannah de Na- 
gar Avely, o que augmentou o nosso domínio em 
mais do duplo em extensão territorial, pois a nova 
acquisição tem de sul a norte duas léguas, e de leste 
a oeste três léguas. Este novo districto é destacado 
do antigo, e a povoação, composta de maratas e 
mouros, está distribuída por 72 aldeias. 

O porto de Damão é formado pelo rio que divide 
o território e desemboca.no mar. A sul fica Damão 
grande, onde está situada a praça e cidade junto á 
foz; a norte, fronteiro á praça, Damão pequeno, 
com o forte de S. Jeronymo. Este porto seria dos 
melhores da índia se não tivesse um banco que ob- 
strue a foz e embaraça a entrada e saida ce embar- 
cações de mais de 250 toneladas. 

A praça é um decagono regular, abaluartstdo, 
com duas portas, a do mar e a da terra, em soflfri- 
vel estado, exceptuando o baluarte da barra que 
ameaça ruina. O forte de S. Jeronymo também está 
em bom estado. O material de artilheria compõe-se 
de vinte e nove peças de bronze, um obuz, dois 
gráes, trinta e uma peças de ferro e cinco de cam- 
panha. A maior parte d'estas peças está apeiada, e 
é indispensável encommendar carretas para algu-^ 
mas. 

O território de Nagar Avely é, como disse já, se- 



97 

parado do território antigo de Damão, por um vasto 
território com aldeias britannicas. A distancia en- 
tre a aldeia mais próxima e a praça de Damão 
será de 20 kilometros. O seu rendimento é o me- 
lhor de Damão; em 1878 foi de 19:242^900 réis 
fortes. Divide-o em duas porções o rio Sandalcallo; 
a divisão do norte comprehende cincoenla aldeias e 
a do sul vinte e duas. A população total anda por 
23:766 almas e indica augmento successivo e rá- 
pido. Divide-se em castas principaes que se deno- 
minam rajaputras, doriás, dublas e valrys. O nu- 
mero de colonos que figuram como rendeiros é ape- 
nas de 1:430. 

As aldeias são administradas pela fazenda pu- 
blica. A sede da administração é em Dudrá, aldeia 
separada das outras por território britannico. De- 
terminou-se que a administração se transferisse para 
Pardy, aldeia que fica central ao território do per- 
gannah, e que tem agua potável; mas para esta or- 
dem se cumprir com vantagem é preciso construir 
uma ponte sobre o rio Sandalcallo. 

As terras de Nagar Avely são muito favoráveis a 
diversas culturas, mas os ensaios são por ora limi- 
tados. Os arrendamentos fazem-se sem medições 
exactas, e, por isso, cada colono cultiva cinco ou 
seis vezes mais terra do que aquella por que paga 
renda. Apezar d'isso a população está reduzida á 
maior miséria, por duas causas: uma pela sua na- 

VOL. IV 7 



98 

tural indolência, outra pela despótica influencia dos 
agiotas. 

As culturas duram de junho a outubro, e, termi- 
nadas ellas, os colonos entregam-se á ociosidade e 
á embriaguez. Pagas as rendas e os juros exorbitan- 
tes aos agiotas, ficam os colonos reduzidos á penú- 
ria, vivendo de raizes sylvestres que apanham para 
comer. Quando chega a nova época da cultura en- 
tregam-se de novo aos agiotas, a quem pedem o di- 
nheiro para semente com um juro de 50 por cento, 
pagando depois na época da colheita juro e capital 
em géneros, com preço inferior ao do mercado e por 
medida de capacidade superior á legal. 

Em Nagar Avely estão arrolados poucos cajurys 
(sagus vinifera). arvore d'onde se extrae a sura, 
bebida de que se faz aguardente. 

Nas aldeias de Nagar Avely ha mattas em que a 
arvore teca predomina. Tem-se fallado d'estas flo- 
restas com exageração, avaliando-as em 8.000:000 
de rupias chirinas ; o certo é que estão mal trata- 
das, sem cortes apropriados, sem estradas, sem des- 
bastes, sem repovoamento. 

Esta desordem mereceria o estudo de um silvi- 
cultor intelligente e zeloso. 



II 



No anno de 1800 a 1820 construiram-se em Da- 
mão trinta grandes embarcações. Entre estas encon- 
travam-se fragatas de guerra e navios de 800 to- 
neladas. Para isto contribuiu a bondade das madei- 
ras, e a existência ali de constructores, carpinteiros, 
calafates e outros officiaes que trabalhavam bem. 

Hoje que a construcçao de ferro predomina, tem 
diminuido muito aquella industria em Damão. 

Ás fabricas de Damão^ onde se manufacturavam 
muitos tecidos brancos e pintados, que se chama- 
vam fazenda de negrOy arruinaram-se. Hoje ainda 
ha aldeias em que se fabricam fazendas de algodão, 
canequins, chitas^ etc., em teares do systema pri- 
mitivo e com linhos vindos da Europa ou dos ter- 
renos britannicos visinhos. 

Além d'esta industria moribunda ha ainda a pes- 

7* 



iOO 

caria, e a industria do sal. As pescarias occupam 
uma grande quantidade de machins, que salgam o 
peixe e o exportam para Paroly, Balsar e Surrate. 

Existem ainda vários officiaes de marceneiro, car- 
pinteiro, ferreiro, ourives, e d'outros oflScios em que 
se occupa a população. 

A instrucção publica está pouco desenvolvida em 
Damão. Com tudo no Damão grande ha três escolas, 
uma de ensino promiscuo, outra de guzarate, e a 
terceira de musica, sendo as duas ultimas sustenta- 
das pela municipalidade. 

Em Damão pequeno, na sala de D. Luiz I, ex- 
cellente edifício construido e oíferecido ao governo 
por um cidadão benemérito, o fállecido parsa Rus- 
tangy, existem cinco escolas; uma de ensino primá- 
rio, uma de guzarate, mantidas pela camará, e os 
colégios de ensino primário, de inglez, e de meni- 
nas. 

Além d'estas ha algumas escolas particulares de 
guzarate e de lingua moura. 

É indispensável augmentar as escolas. 

Em Damão grande carece-se de uma escola de 
meninas, porque as pequenas não podem todos os 
dias atravessar o rio. Em Nagar Avely ha que o-ear 
escolas primarias nas aldeias mais distantes, a fim 
das creanças encontrarem ao alcance de suas casas 
o ensino com facilidade. 

O commercio de -Damão está em grande decaden- 



^ 101 

cia. Antigamente estava elle na mão de estrangei- 
ros, os quaes deixavam em Damão as commissões 
de saida e entrada. 

O ópio exportado clandestinamente de Malaca ou 
das margens do Indo, augmentou o commercio em 
Damão. Em 1817 a exportação para Macau foi de 
640 caixas, cada uma no valor de 700 rupias. Em 
1819 foram para Macau 1554 caixas e para Can- 
tão 678 no valor de 850 a 900 rupias cada uma. 
Em 1820 foram 1133 caixas de 1400 a 1500 ru- 
pias. Em 1821 a 1829 foram, um anno por outro^ 
1000 caixas, das quaes o maior preço subiu a 2000 
rupias. 

O valor do que se exportava pertencia a nego- 
ciantes de fora, e pagava em Damão commissões, 
fretes e direitos. 

Segundo diz na sua Memoria o desembargador 
Teixeira Basto, para desenvolver o commercio, é fa- 
zer-se ali a compra e a venda de fazendas para os 
navios europeus, e extinguir-se a feitoria de Sur- 
rate. A primeira coisa não se pode decretar, a se- 
gunda está realisada. 




DIU 






DIU 



Diu é, como Damão, um governo subalterno per- 
tencente ao governo geral da índia. 

Diu é uma praça de guerrsi n'uma pequena ilha 
que tem de circuito três léguas, situada ao sul de 
Guzarate, de que forma a ponta meridional. Além 
da praça possuimos toda a ilha, e além d'isso um 
território do outro lado do rio. 

A posição de Diu e o vasto e seguro porto que 
tinha, fazia os portuguezes ambicionar a sua posse. 
Era um porto indispensável a quem queria lançar 
mão do commercio da Arábia, Pérsia e Guzarate ; 
já Affonso de Albuquerque tencionou alcançar li- 
cença do rei de Gambaya para ali levantar uma for- 
taleza. Depois de Albuquerque os seguintes gover- 
nadores da índia continuaram a cubicar Diu. Em 



106 

1519 Diogo Lopes de Sequeira preparou uma gran- 
de frota para a conquistar, roas nada conseguiu. 
Henrique de Menezes teve o mesmo intento, mas a 
morte não lh'o deixou verificar. Lopo Vaz de Sam- 
paio dispendeu para o mesmo efleito sommas enor- 
mes em uma das mais poderosas esquadras que a 
índia viu. No governo de Nuno da Cunha se prin- 
cipiou emfim, o levantamento de uma fortaleza por 
licença do rei de Guzarate Bahadur. 

Depois do cerco a que Diu esteve sugeilo, e da 
victoria de D. João de Castro, a fortificação se adian- 
tou a ponto de ser por muitos annos aquella praça 
considerada a primeira da índia. 

A ilba de Diu é de constituição vulcânica, for- 
mada de rochas na sua maior extensão, sendo o res- 
tante d'ella, parte terras de aluvião inundadas pe- 
las aguas, e parte terras aráveis. No limite oriental 
elevam-se moles enormes de fragoas alterosas, cuja 
média elevação acima do nivel do mar é, proxima- 
mente de 26 a 27 metros. Sobre essas rochas er- 
gue-se a potente praça; antes, no espaço por elia 
occupado, existia o castello dos mouros que occupa- 
va proximamente ametade da área da actual forta- 
leza. 

A fortaleza tem a configuração de um hexágono 
irregular, formado por cinco baluartes e um forte a 
cavalleiro, dominando os outros, cuja elevação aci- 
ma do nivel do mar é de 66 metros. A fortaleza 



107 

tem uma duplâ muralha, que a cinge pelo lado mais 
fraco, isto é do lado da terra ; e egualmente um du- 
plo fosso, o exterior aquático, e o interior secco, 
com escarpas e contra escarpas cortadas a pique. 

A ilha de Diu tem na máxima extensão 15 ki- 
lometros e de largura três e meio, sendo a sua área 
de 52 kilometros. A sua forma modificada é de um 
parallelogrammo: a sua temperatura máxima varia 
entre 30^ e 36® do thermometro centigrado, e a m?- 
nima anda por IO"" a 12^• as aguas pluviaes são 
na quantidade máxima de 22 pollegadas. O clima 
de Diu é excellenle; saudável e pouco atacado de 
doenças epidemicas. 

A população em 1830 era de 6:680 almas, in- 
cluindo os soldados e funccionarios civis e eccle- 
siasticos: d'estes eram christãos 256 e ecclesiasti- 
cos 10. Hoje calcula-se a população em 12:000 
almas, sendo apenas 150 christãos, e o numero de 
ecclesiasticos dois. Tem crescido a população mas 
tem diminuido o numero de christãos e o numero 
de padres. 

A agricultura é quasi nulla, por que os habitan- 
tes não tem propensão para ella nem o terreno se 
presta, por ser arenoso e em parte ser falto de 
agua. Ha abundância de braços, mas estes são in- 
dolentes e desajudados de capital e de intelligencia. 
O capital é minguadissimo e não busca a agricul- 
tura, e falta a intelligencia; não ha uma sucursal 



108 

do banco ultramarino, nem agrónomos que auxiliem 
a cultura da terra. Ao abatimento da agricultura 
corresponde o da industria. 

Em Diu havia fabricas de tecidos pintados da ín- 
dia. N'aque1la ilha havia muitos tecelões e estam- 
padores, tornando desnecessário o estabelecimeto 
de Madrasta, que depois subiram, quando Diu aba- 
teu. Em 1830 os operários de Diu eram em nu- 
mero de 300 tecelões e 50 estampadóres. O brilho 
e duração das pinturas nos tecidos de Diu, ainda 
que n'elles se encontre muita avaria, ,é ainda notá- 
vel. A importação e exportação, o commercio total 
de Diu, anda por 25:000|i000 réis. O rendimento 
da alfandega dá idéa do commercio, e foi em 1875 
a 1878: 

Exportação 3:441^996 

Importação 7:137^322 

Nosannosde 1878 a 1879: 

Exportação 5:830^927 

Importação 11:867^690 

Em vista d'estes dados estatisticos, fica evidente 
o abatimento actual do commercio. 

O commercio de Diu consiste, quanto á impor- 
tação, em géneros de primeira necessidade e co- 



109 

mestiveis, que vem do continente; pannos de algo- 
dão e seda de Cambaya; sedas e atalás de Sur- 
rate, linha e tintas, etc, marfim de Moçambique. A 
exportação é principalmente para Moçambique, e 
consta de alguns fardos de roupa. Para Macau ha- 
via antes commercio de ópio, mas esse acabou. 



MACAU 



MACAU 



I 



El-rei D.' Manuel animado pelo descobrimento 
da índia, e excitado pelas narrativas de Marco Paolo 
sobre o celeste império, mandou em 1513 aos seus 
carregadores que fossem a Liampá, ponto muito 
frequentado pelos commerciantes europeus. O no- 
me portuguez n^aquelle tempo fez çom que fosse 
bem recebido na China, sendo admittido a estabe- 
cer-se o commercio. 

Logo que D. Manuel foi informado do bom êxito 
da expedição commercial na China, mandou lá uma 
frota de sete navios e um embaixador, Thomaz Pe- 
reira, para negociar um tratado de commercio e 
amisade com o imperador. Os navios fundearam 
em Cantão, não tendo permissão de subir, e o em- 

V0L.1V 8 



114 

baixador foi por terra a Nankin, onde eslava o im- 
perador, cuja affeição o embaixador captou. 

Na volta do embaixador da China, foi mandado 
a Cantão Simão de Andrade, cora cinco navios. 
Este, porém, portou-se com imprudência e levian- 
dade, e suscitou as queixas dos povos, que se re- 
voltaram contra o embaixador; Simão de Andrade 
foi atacado pelo almirante chinez, e apenas pomie 
escapar a favor de uma tempestade. 

Em 1518 nova expedição vae á China, e encon- 
tra resistência, mas o commercio interrompido de 
novo se estabeleceu, quando os portuguezes apor- 
taram a Liampá. Em 1544 os portuguezes pratica- 
ram uma violência, e os chinas sublevados, bani- 
ram os portuguezes, roubaram- os e mataram muita 
gente. 

Por este tempo, estabeleceram-se as relações com- 
merciaes entre portuguezes e o Japão, e então fo- 
ram perseguidos os navios chinas, a ponto dos ha- 
bitantes de Chincheu, por onde o commercio parti- 
cularmente se fazia, para livrar-se de tantas per- 
das, offereceram aos portuguezes um estabeleci- 
mento n'aquelle porto, e o seu offerecimento foi 
acceite em 1546. Novas desordens vieram ainda 
obrigar os portuguezes a estabelecerem-se n'outra 
parte. 

tNo tempo do seu explendor e prosperidade, 
Liampá fez -se um logar seguro para os povos da 



115 

China, Sião, Barneu, Sewhew, etc, contra os nu- 
metosos piratas que percorriam os mares. A cida- 
de, ha muito florescente, tornou-se extremamente 
rica a partir de 1542, pelo seu commercio com o 
Japão. Possuia duas egrejas, uma casa da camará, 
dois hospitaes, e mais mil edifícios particulares. 
Ainda que bastante submettida á China, era admi- 
nistrada por uma municipalidade. » 

Assim se exprime Ljungstedt sobre o Liampó an- 
tes da sublevação china que baniu os portuguezes. 
A Liampó seguiu-se, como vimos, Chincheu, que foi 
perdida por outra revolução; e então o estabele- 
cimento portuguez transportou-se para Lampacáo, 
seis léguas ao norte do estabelecimento anterior. 

Em 1556 appareceu n'aquelles mares um pirata 
china que devastou os mencionados portos. Os chi- 
nas não podendo resistir-lhe, recorreram ao auxilio 
dos portuguezes, que o derrotaram e o aprisionaram 
em Macau, ilha deserta para onde elle se refugiara. 

Em recompensa d'este grande serviço prestado 
pelos portuguezes, o imperador cedeu-lhes Macau, 
e elles edificaram ali uma cidade, e separaram por 
uma muralha, em que se abre uma única porta, o 
seu território do território da China. 

A cidade governou-se independente, segundo as 
leis e costumes portuguezes, por muitos annos, sem 
que os mandarins chinas buscassem intervir em coi- 
sa alguma no governo da nova cidade. 

8# 



116 

Este estado de coisas durou até que, em 1622, os 
hollandezes, então inimigos da Hespanha, e por isso 
nossos inimigos, atacassem Macau com numerosas 
forças e chegassem a desembarcar 8:000 homens. 
O povo levantou-se e resistiu ao inimigo. Em 1623 
foi mandado um governador para Macau e este cer- 
cou de muros a cidade. 

No Japão haviam-se suscitado as perseguições re- 
ligiosas, e por fim os portuguezes, suspeitados e vi- 
giados, foram banidos d'este paiz em 1623; con- 
correndo para isso as intrigas dos hollandezes que 
já navegavam n'aquelles mares e tinham grande 
poder. 

Aquelles acontecimentos tiraram a Macau parte 
do seu poder, abateram a sua riqueza e commercio; 
os chinas tornaram-se menos respeitosos e ameaça- 
ram os portuguezes de terem a mesma sorte na Chi- 
na que tinham tido no Japão. A revolução de 1640 
que quebrou os grilhões de ferro que pesavam so- 
bre Portugal, deram vigor aos macaistas e aquelle 
projecto, dizem, não se executou. 

Os navios portuguezes que gosavam do privile- 
gio de irem a Cantão sem o registo das suas carre- 
gações, perderam esse privilegio, e era preciso da- 
rem dinheiro para continuar a ser exemptos. Ape- 
zar d'isto, em 1612, os mandarins pretenderam que 
os galeões reaes pagassem também direitos, porque 
eram navios de carga e não navios de guerra. O 



117 

commandante dos galeões recusou-se a pagar ; e os 
mandarins empregaram contra Macau a arma terri» 
vel da fome, recusando-lhe os viveres que eram for- 
necidos pelos chinas. Para se livrarem doesta triste 
situação, os habitantes de Macau apoderaram-se dos 
capitães. O senado em assembléa, a que foram con- 
vocados o capitão geral, o bispo, os prelados das 
ordens religiosas, tratou de resolver se devia pagar 
uma quantia avultada para livrar Macau das exi- 
gências dos mandarins. A assembléa resolveu que 
a cidade pagasse a somma exigida para conseguir 
a liberdade de commercio. 

O século xvni foi fatal aos portuguezes. Em 1 720 
perderam as terras de que estavam senhores fora 
de Macau ; muitos previlegios foram-lhe tirados, e 
estipulou-se que pagassem como feudo ou presente 
125 taeis. 

A origem d'este feudo é obscura. Os portugue- 
zes estabeleceram-se em Macau livremente por con- 
cessão do imperador, e ali edificaram a cidade e se 
governaram por muitos annos. Segundo as tradic- 
ções e os documentos existentes nos archivos por- 
tuguezes, o feudo foi, em sua origem, uma simples 
peita dada a Aitão, mandarim de Cantão, para tor- 
nar segura a sua benevolência. Os portuguezes, além 
dos direitos de ancoragem, pagavam uma certa som- 
ma que era recebida e dispendida por Aitão, a que 
chamavam o peitado. Durou isto de dez o doze an- 



nos, até que os portuguezes indo á feira, onde os 
mandarins tinham a receber os direitos que ^Ues 
traziam,. o chamado Pedro Gonçalves, que servia de 
interprete, disse a Aitao que trazia as 500 taeis que 
a cidade pagava por feudo. Aitão, como isto foi dito 
diante dos outros mandarins, vendo a sua critica 
posição, respondeu: «Sim, pois entreguem -as ao 
thesoureiro d'el-rei»; e é d'esta occasião que o feu- 
do se paga ao imperador. 

Seja como for, os portuguezes nunca perderam 
o seu dominio soberano sobre Macau, apezar das 
innumeras questões que os mandarins lhes suscita- 
ram em varias occasiões. 

Em 1725 o numero dos navios portuguezes foi 
fixado em 25, porque o vice rei de Cantão fez sen- 
tir ao imperador de Yam-chim que a marinha já 
constava de 25 navios, e que, mulliplicando-se, tor- 
nar-se-ia perigosa para o império. 

Em 1740 as questões levantadas pelos manda- 
rins e provocadas pelos portuguezes, tomaram certa 
gravidade, por quererem as auctoridades de Macau 
condemnar os chinas moradores da cidade que usa- 
vam pesos falsos; em consequência d'esta questão 
foi um mandarim, por ordem do imperador, intro- 
duzido em Macau. 

Pelos tratados de paz de 1842 e 1843, as por- 
tas de bronze do celeste império abriram-se ao com- 
mercio europeu e cederam á Grã-Bretanha a ilha de 



il9 

Hong-Kong, a pequena distancia de Macau. No tra- 
tado supplementar de 1843, o imperador da China 
declarava que havia querido ceder graciosamente a 
todas as nações estrangeiras, cujos súbditos ou ci- 
dadãos até então haviam commerciado em Cantão, 
o privilegio de commerciarem nos quatro portos de 
Fu-tchu, Anony, Ningepó e Chunglvi, com as mes- 
mas condições que aos inglezes. 

Por este tempo a situação dos portuguezes esla- 
va mudada; o seu commercio de Macau estava pro- 
fundamente modificado, e o governo portuguez em 
1845 declarou os portos de Macau portos francos 
para o commercio de todas as nações. 

Conforme o relatório que precede o decreto que 
declara porto franco Macau, os motivos foram os 
seguintes: que pela abertura de alguns portos da 
China ao commercio de todas as nações, as circum- 
stancias que favoreciam o commercio de Macau ha- 
viam cessado, e se tornava necessário, por causa 
da mudança de situação que produzia este aconte- 
cimento, adoptar medidas, pelas quaes, modifican- 
do o syslema restriclivo que até então tinha domi- 
nado e garantido a posição geographica da dita ci- 
dade, o seu commercio podesse ser favorecido e au- 
gmentar. 

O governador. Ferreira do Amaral, foi encarre- 
gado de dar execução ao decreto que fez franco o 
porto de Macau. As alfandegas chinezas tinham uma 



420 

■ 

delegação em Macau, e os abusos que ali se prati- 
caram tornavam-se intoleráveis. Ferreira do Ama- 
ral mandou demolir um posto fiscal na Praia Gran- 
de onde se comeltiam abusos, exigiodo dos pobres 
pescadores pesados impostos, 

O arrematante d'este posto foi queixar-se a Can- 
tão, e o vice-rei mandou um officio ao governador 
de Macau estranhando-lhe o comportamento, a que 
o governador respondeu que o posto fiscal fora il- 
legal e abusivamente estabelecido e tornando evi- 
dentes os maus procedimentos empregados pelo ar- 
rematante d'esse posto fiscal. 

Este posto era apenas de pequena importância: 
a delegação verdadeira das alfandegas chinas era na 
Praia-Pequena. Ferreira do Amaral declarou abolido 
o Ho-pu da Praia-Grande attendendo a que uma lai 
instituição china em território portuguez era inútil e, 
de mais, contraria aos principios do direito das gen- 
tes e incompatível com as nossas leis que regiam 
em Macau e com a transformação das relações com- 
merciaes entre a Europa e a China. O mandarim 
que servia de chefe da delegação da alfandega op- 
poz uma resistência passiva ás determinações do go- 
vernador de Macau, mas Amaral mandou-o intimar 
para sair logo e fez executar a intimação c:m ener- 
gia. 

O mandarins n'esta conjunctura buscavam empre- 
gar a sua arma de predilecção contra Macau, mas 



121 

inutilmente. Ameaçavam de fome. Um dia as lojas 
do bazar fecharam-se todas para privar a popula- 
ção dos meios de subsistência: o governador, po- 
rém, fez communicar que se em vinte e quatro ho- 
ras as lojas se não abrissem, o bazar seria destrui- 
do pela artilheria do forte do Monte. No dia seguinte 
pela manhã todas as lojas, sem excepção, estavam 
abertas. O caracter firme de Amaral tornava inútil 
o uso dos antigos meios empregados pelos manda- 
rins, contra Macau. 

Em 2 de agosto de 1849, passeava Ferreira do 
Amaral, desarmado, junto do ^osío do Cerco, quan- 
do um bando de assassinos o atacou e o trucidou 
cruelmente, cortando-lhe a cabeça. Uma guarda de 
soldados chinas que estava ah perto em vez de de- 
fender o governador mostrou que estava ali para 
auxiliar o assassinato; ao mesmo tempo uma força 
militar portugueza que foi occupar o posto do Cerco 
recebia o fogo do forte de Passalem, que os poriu- 
guezes atacaram e tomaram de assalto. Envergonha- 
dos de tomarem a responsabilidade de acto tão co- 
varde, os mandarins reconheceram o direito que as- 
sistia aos portuguezes de se queixarem e de se re- 
putarem offendidos. 

Desde esta época a independência de Macau tor- 
nou-se inviolável. O mandarim que residia em Ma- 
cau e que, por vezes tinha exercido funcções que 
offendiam os direitos soberanos portuguezes, aban- 



122 



donou o seu posto e nunca mais foi substituído. As 
Alfandegas chinas nunca noais estabeleceram dele- 
gações no território portuguez. 

A soberania portugueza foi confirmada pelo san- 
gue do heróico governador Ferreira do Amaral. 



II 



Em 1557, vencido e morto o pirata que devas- 
tava a costa da China, os portuguezes estabelece- 
ram-se na ilha deserta de Macau, que lhes foi ce- 
dida pelo imperador da China em remuneração dos 
seus heróicos serviços. Com armas n'uma das mãos 
e a enchada na outra, como diz Faria e Sousa, os 
portuguezes fundaram a cidade do nome de Deus, 
onde se estabeleceram uns poucos de marinheiros 
valentes e abriram o commercio com o celeste im- 
pério. 

A população, a principio diminuta, rapidamente 
cresceu, Fernão Mendes Pinto, que escreveu pou- 
cos annos depois do estabelecimento da cidade, diz- 
nos que Macau, que antes era uma ilha deserta, se 
fizera uma cidade nobre com casas de três a qua- 



124 

tro mil cruzados, egreja matriz, com vigário, bene- 
ficiados, capellão, auditor e ofl&ciaes de justiça, tão 
confiados e seguros com a certeza de que era nossa 
como se estivesse situada no porto mais seguro de 
Portugal. 

Á população portugueza veiu juntar-se uma nu- 
merosa população china, e esta subiu ao numero 
seguinte nos annos abaixo designados: 



Bairros 



Bazar 

Patane 

Mong-há 

S. Lazaro '. 

Sé, S. Lourenço, Santo António e 
Barra 

. Total da população terrestre . 
População marítima 

Total da população 







J867 


1871 


14:572 


19:877 


8:481 


7:215 


8:182 


5:576 


2:590 


2:598 


22:426 


20:941 


56:252 


56:202 


15:590 


10:060 


71:844 


66:267 



1878 



14:343 
6:524 
2:328 
3:111 



20:313 

46:619 
8:831 

55:450 



A população total de Macau sem tomar em conta 
a população do Taipu e Golowan, china e não chi- 
na, em 1871 e 1878 é a seguinte: 



125 





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126 

De 1871 a 1878 houve uma diminuição de po- 
pulação, e devemos ver se isso indica symptoma de 
decadência ou não. 

Nâ população do concelho de Macau, os 11:771 
individuos, que representam a diminuição da popu- 
lação, decompõe-se do modo seguinte: 



População do concelho do llacau 

China Não china 

1871 66:267 5:463 

1878 55:450 4:509 



Total para menos 10:817 954 



/ 



A diminuição da população não china, ou quasi 
exclusivamente portugueza, é devida ás constantes 
mudanças que teem logar em virtude das substitui- 
ções de tropa e de empregados, com e sem familias, 
que constantemente teem logar. 

Na diminuição da população china as cifras indi- 
cam circumstancias que attenuam a sua significa- 
ção. As mulheres diminuiram em numero de 1:159: 
ora comparando as profissões em 1878 com as de 
1867 vê-se que as meretrizes eram n'esta época 
em numero de 1867. Em 1871, época em que não 
ha estatistica por profissões, o numero devia ser 



127 



maior, porque era o tempo em que a emigração es- 
tava no seu auge; suppondo porém que o numero 
era egual temos que 

Em 1871 havia meretrizes 1:867 

Em 1878 . 436 

Para menos em 1878 1:457 

No total das mulheres chinas por annos, em 1878, 
temos 1:159: sendo o numero de meretrizes que 
abandonaram a colónia a mais d'este numero 242 : 
assim pois deixaram Macau 1:459 meretrizes e en- 
traram na população 292 mulheres a mais que con- 
stituiram familia. 

Nos 9658 homens que se acharam de menos na 
população chineza ha algumia coisa importante a 
notar. 

Na estatística das profissões em 1867 encon- 
tram -se os factos seguintes: 

Estabelecimentos de emigração chineza 17 

Colonos ' 134 

Corretores de colonos 319 

Empregados nos estabelecimentos 163 

Total 633 

Em 1871 a emigração cresceu ainda por Macau 



128 

23:882 colonos contratados e 458 livres: o numero 
de estabelecimentos era 24, dos quaes um só con- 
tava 1:754 corretores a seu serviço. 

Assim não será errado o calculo que o numero 
de indivíduos pertencentes á emigração, principal- 
mente colonos, fosse superior a todo o desfalque da 
população. Todo ou quasi todo o pessoal estran- 
geiro, envolvido na emigração saiu de Macau, quan- 
do esta foi exlincta. 

Os constructores de embarcações desceram na ra- 
zão de 162 em 1878 para 67 que eram em 1867: 
o que mostra que a população productiva estável 
cresceu. 

A mudança que se tem dado no commercio, pelo 
uso de embarcações a vapor de carreiras regulares, 
deu logar a uma natural diminuição da população 
marítima china: um barco a vapor transporta hoje 
mercadorias que 100 navios chinas não chegariam 
a transportar. A diminuição da população marítima 
fica inteiramente explicada por este facto. 

A população também diminuiu n*uma parte que 
se liga ao luxo, o qual diminuiu com a extincção 
da emigração. Notando as profissões de 1867, com- 
paradas com as de 1878 vemos o seguinte: 



129 











' ■ ■ ■ ^ ■ 

Profissões 


1867 


1878 


Para menos 


Criados de servir 

Culis 


3:835 
1:171 


2:385 
851 


1:448 
320 . 

* 


- 


Total... 1:768 



Por estas reflexões sobre o recenceamento da po- 
pulação de Macau em 1878, feitas n'um trabalha 
bem elaborado pelo sr. José Alberto Corte Real, se- 
cretario geral do governo, vê-se bem que a diminui- 
ção da população não significa diminuição na inten- 
sidade productiva de Macau, mas é um symptoma 
da alteração no seu modo de ser, alteração que é 
uma natural consequência da abolição da emigração. 



VOL. IV 



III 



Acabamos de nos referir anteriormente á emigra- 
ção china por Macau. Este facto merece fixar a nossa 
attenção, e por isso vamos expor, resumidamente, a 
historia do denominado t trafico de culis ^ . 

A emigração de chinas contratados para serviços 
ruraes, principalmente, tomou em poucos annos em 
Macau um grande desenvolvimento. O governo da 
colónia tolerou e buscou minorar-lhe os inconve- 
nientes, promulgando para esse fim successivos e 
cada vez mais apertados regulamentos, e adoptan- 
do medidas severas, organisando activa vigilância, 
creando funccionarios, abrindo estabelecimentos 
destinados a dar cumprimento a rigorosos precei- 
tos de policia e vigilância para garantir os chinas 
emigrantes dos abusos a que estavam sujeitos. 

Foram baldados os esforços e o zelo dos gover- 

9# 



132 

nadores. A emigração cresceu, e com ella os abu- 
sos e crimes contra os emigrantes, que eram enga- 
nados e levados dolosamente a emigrar, accumula- 
dos em navios, quasi sem comer, sem ar, sem luz, 
e sem espaço para repousar, para a America do 
Sul. 

As catastrophes multiplicaram-se ; as violências 
odiosas e repetidas, os abusos repugnantes fixaram 
sobre este novo trafico dos culis a attenção dá Eu- 
ropa. Os governos que haviam, não só tolerado mas 
promovido a emigração china, pozeram-lhe mais 
tarde peias e acabaram com ella, e a opinião por 
fim exerceu a sua natural e justa influencia. 

Os crimes praticados na emigração china não fo- 
ram desattendidos pelo governo porluguez, mas ape- 
zar d'isso fomos injustamente tratados por uma opi- 
nião exaltada. Logo que a emigração de culis por 
Macau se estabeleceu, o governo da colónia promul- 
gou regulamentos; o rigor dos regulamentos cres- 
ceu com o augmenio dos abusos commettidos pelos 
agentes da emigração, até que por fim, reconhecida 
a impossibilidade de pôr cobro aos abusos e repri- 
mir fora de Macau as violências, que parece inevi- 
tavelmente acompanham este trafico, o governo por- 
luguez resolveu ordenar que terminasse definitiva- 
mente a emigração contratada por Macau» 

As leis chinas não auctorisam a expatriação; com- 
tudo é antiga a emigração n aquelle império, e as 



133 

auctoridades, se a não consentem ostensivamente, 
toleram -n'a pelo menos, ou mesmo parecem consi- 
deral-a como um meio de acudir aos males que re- 
sultam da superabundância da população. 

A raça china é naturalmente expansiva; e a des- 
peito de todas as leis repressivas da emigração, os 
chinas proseguem a sua providencial missão de po- 
voarem a Ásia, a America, e talvez, em não remota 
época, a Africa também. 

Em 1845 o governo inglez, abolida a escrava- 
tura e sentindo-se falta de braços nas colónias, pro- 
vocou a emigração dos culis. Um especulador trans- 
portou de Amoy para a ilha Bourbon os primeiros 
carregamentos de chinas contratados; esta emigra- 
ção principiou em 1845 por 180 e foi crescendo 
de anno para anno, chegando em 1851 a 2:069 cu- 
lis. De Coulão também se estabeleceu egualmente 
emigração contratada, e durante os primeiros seis 
mezes de 1852 embarcaram 15:000 chinas nos 
portos acima indicados. 

Os agentes officiaes britannicos buscaram promo- 
ver a emigração e ao mesmo tempo minorar-lhe os 
inconvenientes. Duas dificuldades encontrou a ad- 
ministração ingleza para o conseguir. Uma foi a im- 
possibilidade de promover a emigração de mulhe- 
res, por ser grande a repugnância das mulheres ho- 
nestas da China para a expatriação; esta dificul- 
dade deu sompre á emigração dos culis um cara- 



134 

cter nada conforme com os sentimentos^ costumes e 
opinião da nação ingleza. 

A outra difficuldade, que obstou a que a emigra- 
ção se fizesse em condições regulares, e perfeita- 
mente expontâneas, foi a imprescindibilidade de cor- 
retores ou alliciadores que fossem ao interior dó im- 
pério engajar os emigrantes. Para minorar estes in- 
convenientes determinou o governo inglez que para 
ser corretor era preciso obter licença pela qual se 
pagava uma somma considerável de 5:000 duros, e 
a terem os corretores sugeitos a multas e prisão 
pelas transgressões. 

Disposições análogas foram adoptadas em Macau, 
com o fim de conseguir resultados idênticos, mas 
os factos repetiram-se sem que os meios emprega- 
dos surlissem effeito. 

Já então se repetiam os actos criminosos, empre- 
gados pelos corretores para alcançarem numerosos 
emigrantes. Os conflictos a bordo dos navios de cu- 
lis, as tentativas de revolta e de incêndio, que só 
pela força se reprimiam, a mortalidade successiva 
a bordo, tudo tornava a emigração mais odiosa. 

A emigração de colonos engajados por Macau, 
começou alguns annos depois de se haver estabele- 
cido a corrente da emigração dos outros portos da 
China para vários paizes tropicaes, promovida pe- 
las sugestões dos agentes interessados em levar bra- 
ços para os paizes tropicaes onde os trabalhadores 



135 

faltavam. Dois francezes primeiro e um negociante 
macaista logo depois abriram o exemplo em 1851. 
Foram 250 os primeiros culis que sairam da coló- 
nia em navio portuguez e por conta de um portu- 
guez, destinados a Calhao de Lima. Os contractos 
doestes culis eram por oito annos de engajamento e 
pela soldada de 4 patacas por mez. 

O visconde da Praia Grande, então governador 
de Macau, publicou um regulamento para tornar co- 
nhecidos do governo os depósitos de colonos e tor- 
nar regulares as inspecções sanitárias. Reconheceu- 
se depois que era necessário regular o comporta- 
mento dos corretores a fim de assegurar a expon- 
taneidade da emigração. Um regulamento estabele- 
ceu também preceitos sobre os navios de transporte. 

Isto, comparado com as datas dos regulamentos 
inglezes sobre taes assumptos, mostra quanto em 
Macau o governo era solicito em cohibir os abusos 
contra os culis e em minorar o soffrimento doestes 
desgraçados. 

Quando, por occasião das offensas feitas na China 
á Inglaterra e á França, estas duas potencias man- 
daram aU uma expedição que se apoderou, em 1857, 
da cidade de Cantão, trataram ellas das medidas so- 
bre emigração, com o fim de, evitando alguns dos 
graves inconvenientes reconhecidos pela experiên- 
cia, a tornar mais regular. Era preciso, segundo os 
regulamentos promulgados em Cantão, licença para 



136 

abrir casa de emigrantes; os regulamentos d'estas 
deviam ser approvados, e estar claramente escriptos 
á porta dos depósitos ; os inspectores da emigração 
tinham direito de visitar os depósitos para reconhe- 
cer se cada emigrante estava bem instruido da na- 
tureza dos engajamentos que tomava e para velar 
pela saúde e condições hygienicas dos emigrantes; 
a assignatura dos contractos só se podia fazer em 
dois dias por semana; dos emigrantes embarcados 
em cada navio se devia fazer uma lista; os engaja- 
dores de emigrantes deviam ser registados, etc. 

Em 1860 promulgou-se em Macau um regula- 
mento, creando uma superintendência da emigração, 
responsável pela execução dos preceitos da emigra- 
ção, e deu-se-lhe como auxiliar um interprete da 
lingua china. Ao superintendente cumpria assistir 
aos exames feitos na procuratoria e assignar os con- 
tractos conjunctamente com o procurador; ter um 
livro de matricula dos emigrantes ; dar a estes copia 
dos contractos e os esclarecimentos necessários até 
se assignarem seis dias depois da matricula. Os co- 
lonos, assignados os contractos, deviam receber os 
adiantamentos estipulados e ser transferidos para 
bordo dos navios que os deviam transportar. Só com 
permissão dos pães os menores de vinte e cinco an- 
nos se podiam contractar. Estabelecia depois o regu- 
lamento as condições do contracto. Os regulamentos 
dos depósitos e dos navios emigrantes careciam da 



137 

approvaçãô do governo. Os portuguezes não po- 
diam ir ao território china fazer engajamentos, nem 
a. navios portuguezes era permittido transportar emi- 
grantes para Macau, nem para outra parte na China. 

A medida que a emigração tomava desenvolvi- 
mento, os seus inconvenientes tomavam maior gra- 
vidade. 

Em principio de 1862 os Estados-Unidos pro- 
mulgavam uma lei prohibindo o trafico dos culis 
aos cidadãos americanos ou estrangeiros ali residen- 
tes. Os navios encontrados em contravenção ficavam 
sujeitos á confiscação, perseguidos e julgados em 
qualquer tribunal. 

Em 1868 o governador de Macau formulou um 
novo regulamento, que augmentou a responsabili- 
dade do governo, creando um deposito de emigran- 
tes na superintendência, e occupando-se com de- 
masiados cuidados dos interesses dos agentes de 
emigração. 

Por este tempo o ministro inglez junto do governo 
chinez empregou suggeslões e intrigas para impedir 
a emigração por Macau. Em virtude doestas intrigas 
o governo chinez dirigiu ao vice-rei de Cantão uma 
communicação para se oppor á emigração por Ma- 
cau. O vice rei dirigiu uma communicação ao gover- 
nador da colónia portugueza, em que dizia que mr. 
Wade havia feito conhecer a irregularidade dos en- 
gajamentos que se faziam «sem a devida permissão 




136 



abrir casa de emigrantes; os regulamô'^ ^^ p. 
deviam ser approvados, e estar clarar ^^\^^ cam- 
á porta dos depósitos; os inspecU* egocismtes es- 
tinham direito de visitar os der ^^^leraçôes do go- 
cer se cada emigrante esta^' ^^^ recordara n um 
tureza dos engajamento^ emigração era prohibida 
pela saúde e condiçT _^^^ ^^^ ^^ ^^ p^ i,^^ jj^p^^ir 
a assignatura do? ^^ emigração, se fizera um regu- 
dois dias por - .^^^ ^^^ ^^^^ j^^^ig ^^g garantias aos 
em cada ^^:^^^^^ 

dores de r^/^^^y^p^ador de Macau na sua communi- 
^^ ;'>'^í/l863 a 1865 alguns negociantes in- 
^^ r^''^fírânceie& tinham aberto estabelecimentos 
^ /^;/>ração em Cantão e em Sualá, sob a fiscali- 
^^l dos commissarios chinezese estrangeiros, mas 
^^^ engajamento de colonos não fora permittido 
'5 outras nações que não tinham tratado; que em, 
l86& se tinha feito, em virtude dos tratados, um 
regulamento de accordo com os governos francez e 
jDglez, o qual tinha a approvação do imperador, e 
se haviam então avisado as outras nações de que 
desde logo seria posto em vigor o dito regulamento, 
sendo para notar que desde então nenhum nego- 
ciante estrangeiro viesse a Cantão abrir estabeleci- 
mento de emigração; que em 1867 lhe fora obser- 
vado pelo ministério dos negócios estrangeiros que, 
por não haver em Macau nenhuma auctoridade chi- 
neza, os negociantes estrangeiros iam ali fazer en- 



y 



i39 

^jamentos clandestinos; e, finalmente, o governo 
"lez acabava de publicar a todos os embaixado- 
*trangeiros que aos negociantes das nações que 
ham tratado não era permiltido abrir esta- 
'tos para engajar colonos, quer em Macau 
. Liantão, e que aos navios das ditas nações 
^ seria também permittido transportar colonos, 
ficando livre aos negociantes das nações com tra- 
tado não só engajar colonos, segundo o regulamento, 
mas abrir estabelecimentos de emigração em Macau. 
Concluía o vice-rei, dizendo què dera as mais rigo- 
rosas ordens para punir os contra ventores das or- 
dens do governo chinez, e esperava que o governa- 
dor de Macau desse as ordens mais estrictas aos 
seus subordinados para vigiarem, a fim de que logo 
que descobrissem qualquer negociante que em Ma- 
cau estabeleça casa de emigração, ou qualquer mal- 
feitor indigena que abra estabelecimento para com- 
prar homens roubados para os vender como emi- 
grantes, procedam rigorosamente contra elles. 

O governador repelliu com dignidade o que no 
offièio do vice-rei havia de attenta tório contra a in- 
dependência de Macau. Este officio do vice-rei não 
teve consequenciíis immediatas, mas tornou patente 
a hostilidade do governo de Pekin á emigração por 
Macau. Mezes depois o vice-rei de Cantão officiou 
de novo ao governador de Macau, insistindo em que- 
rer que o governador atlendesse ás suas anteriores 



140 

observações, e referindo-se á convenção de 1866. 
Esla convenção a que o vice-rei se referia estava 
nuUa por não ter sido ratificada pelos governos fran- 
cez e inglez. 

Apezar das repetidas e rigorosas medidas toma- 
das pelo governo de Macau contra os abusos da 
emigração, continuaram estes a repetir-se, e entre 
elles havia a notar que os navios que transporta- 
vam culis levavam bandeira de um parz a que não 
pertenciam. O governador de Macau estabeleceu que 
os culis só fossem transportados em navios de na- 
ções que tivessem tratado com a China, ou daquel- 
las para onde os colonos se destinassem. 

Os factos estavam provando que os emigrantes 
se deixavam illudir, e que os crimes de incêndio e 
revolta a bordo levavam a suspeitar que entre os 
emigrantes se introduziam piratas e malfeitores com 
o fim de occupar os navios no alto mar. 

Em 1871 foi nomeada uma commissão para in- 
vestigar a maneira por que era regulada a emigra- 
ção e propor as providencias a adoptar para asse- 
gurar a liberdade dos culis e o seu bom tratamento 
a bordo. 

Em consequência dos trabalhos d'esta commissão 
o governador adoptou algumas medidas que tinham 
por fim : fiscalisar a capacidade moral dos encarre- 
gados dos estabelecimentos ; evitar o contacto dos 
corretores com os emigrantes recolhidos nos estabe- 



141 



lecimentos ou na superintendência; conhecer e re- 
gistar os culis chegados a Macau nas embarcações 
chinas; inspeccionar os emigrantes a bordo, exigindo 
dos capitães a declaração de que não lhes constava 
levarem em seus navios emigrantes suspeitos de pi- 
ratas ou enganados ; finalmente, melhorar a inspec- 
ção dos estabelecimentos de culis. 

As medidas tomadas successivamente sobre a emi- 
gração por Macau chamam a attenção por não se 
occuparem effectivamente senão da fiscalisação dos 
colonos emquanto se conservam nos estabelecimen- 
tos e na superintendência, mas não previnem ou 
castigam os abusos dos corretores no acto da alli- 
ciação no território chinez, nem alteram as suas con- 
dições fundamentaes nos contractos dos emigrantes. 
A administração buscava não perturbar um com- 
mercio que considerava como origem da prosperi- 
dade de Macau. 

Novo regulamento em 1872 foi publicado pelo 
visconde de S. Januário, que era então governador. 
Este regulamento reproduz as prescripções dos an- 
tecedentes, modificando-as ou ampliando-as n'al- 
guns pontos. O regulamento começa por affirmar a 
liberdade dos chinas emigrarem pelo porto de Ma- 
cau, devendo ser repatriados os que declararem a 
resolução de não querer emigrar. 

Os agentes auctorisados com licença para con- 
tractar emigrantes para os portos permittidos devem 



participar o numero de depósitos que teem e o nu- 
mero de emigrantes que n'elles pretendem receber, 
assim como o numero dos encarregados assistentes 
e dos chinas: a fim de se conhecerem as circum- 
stancias hygienicas dos depósitos e a capacidade dos 
encarregados. Estes prestam uma fiança de 1:000 
patacas; estes são todos responsáveis e a sua ex- 
clusão pode ser exigida pelas auctoridades. 

Os depósitos devem estar abertos quatro horas 
por dia para serem inspeccionados e os colonos re- 
ceberem conselhos sobre os contractos. Os culis 
não são admittidos na superintendência senão de- 
pois de inspeccionados pelos médicos, da leitura e 
explicação dos contractos, e do exame do superin- 
tendente. Recolhidos os que querem emigrar, não 
teem na superintendência communicaçao com os em- 
pregados dos depósitos; os corretores, mesmo que- 
rendo emigrar, estão separados dos emigrantes. Os 
contractos são assignados no segundo dia, em pre- 
sença de uma commissão. Os culis que não que- 
rem emigrar são remettidos ás terras da sua natu- 
ralidade. 

Este regulamento conservou as clausulas dos con- 
tractos, com pequenas alterações. 

A falta de assentimento explicito e mesmo de 
coadjuvação das auctoridades chinezas foi uma das 
causas principaes de se manterem sem correcção os 
abusos praticados pelos corretores. A não ratifica- 



143 

ção do nosso tratado com a China, a falta de accordo 
sobre emígraf^o e a falia de representante chinez 
em Macau, aggravaram aquelles males, por torna- 
rem impossível uma efficaz e rigorosa fiscalisação 
sobre os actos dos corretores. 

Sendo um facto provado que os abusos dos cor- 
retores eram dos mais odiosos e tornavam a emi- 
gração mais repugnante, não pode deixar de notar- 
se que no regulamento de 1872 nada se estipulava 
acerca d'ella. 

O sr. visconde- de S. Januário, a quem se não 
podiam occultar os defeitos do regulamento por elle 
publicado, foi-o modificando por medidas subse- 
quentes, sempre no sentido de melhorar a sorte dos 
emigrantes e pôr a honra da colónia portugueza a 
salvo das violentas accusaçOes com que uma opinião 
apaixonada a estava infamando. 

Em 1873 o governador de Macau estabeleceu 
que nos contractos da locação de serviços se incluisse 
a clausula da passagem de regresso findos os res- 
pectivos contractos. N'outra ordem reduziu a 6 an- 
nos a duração dos contractos. 

A historia das providencias repetidas, variadas e 
sempre infructiferas, tomadas pelo governo de Ma- 
cau contra os abusos da emigração contractada^ 
basta a provar o quanto aquella emigração estava 
profundamente inquinada de vicios que se não po- 
diam extirpar. Antes de chegarem a Macau, e en- 



144 

trarem debaixo da acção das auctoridades ali des- 
tinadas a fiscalisar a emigração, e mesmo durante 
o tempo que se conservavam nos deposiloS e na su- 
perintendência, os culis, illudidos, enganados, fas- 
cinados, opprimidos, subjugados por promessas ou 
por ameaças, dominados pela esperança de melho- 
rar de sorte ou pelo terror de voltar á miséria, nem 
comprehendiam os seus interesses, nem descobriam 
a verdade, nem sabiam resistir aos que especulavam 
com elles como se foram mercadoria vil, riem com- 
prehendiam muitas vezes os engajamentos que to- 
mavam, nem se preoccupavam de íim futuro que va- 
gamente se lhes representava como prospero e sem 
perigos. 

Além dos abusos que precediam o engajamento 
dos culis em Macau, havia faltas subsequentes que 
tornavam este trafico odioso. 

As condições hygienicas, o espaço, o ar, a luz, a 
limpeza, a alimentação a bordo dos navios de emi- 
grantes foram coisas sempre cuidadas nos regula- 
mentos de Macau; é, porém, certo que a falta de 
acção sobre os navios, uma vez no alto mar, fizeram 
com que o efifeito d aquellas disposições, tomadas 
n*um intuito humanitário, não correspondessem ao 
que se esperava alcançar. A mortalidade a bordo dos 
navios de culis que faziam largas viagens para a 
America era tão considerável que se não pode dei- 
xar de afiSrmar que os preceitos da mais indispen- 



145 

sável hygiene não eram cumpridas, nem se cuidava 
da saúde e vida dos desgraçados emigrantes. 

Em ddcámentos apresentados ao parlamento in- 
glez €m 1855 encontra-se uma estatistica da emi- 
gração para o Perii,.nos annos de 1843 a 1855, 
onde se vê que de 7:356 emigrantes embarcados 
só 4:754 chegaram ao seu destino, sendo os mor- 
tos a bordo 549. A relação dos mortos aos trans- 
portados nos navios que levaram os culis ao seu 
destino foi de 10 por cento, proximamente. 

N'outro documento de 1 858 encontra-se uma es- 
tatistica de trabalhadores chinas em Cuba desde l 
de janeiro de 1847 até 31 de dezembro de 1857, 
e por ella se vê que foi de 23:928 o numero de 
emigrantes partidos da China, de 20:586 o numero 
dos que chegaram ao seu destino, e de 9:342 o dos 
que morreram na viagem. A relação dos mortos para 
os embarcados foi de 14 por cento. 

As informações dos nossos cônsules confirmam 
esta excessiva mortalidade. Não é só, porém, esta 
mortalidade que torna odioso o trafico dos culis; 
infamam-a também actos de violência, incêndio, 
roubo e massacres praticados a bordo de alguns 
navios. 

No relatório qtie precede o ultimo regulamento de 
1872 diz-se que «desde 1856 partiram de Macau 
414 navios com colonos, ^ só 5 deixavam de che- 
gar ao sen destino por terem sido saqueados pelos 

VOL IV. 10 



146 

minuto, ^de^tflifDeo (calasli^ophes^ por pouco-m^iis de 
qualtacieiytbsHnaviõsv-é, •quaii€U>^96f60Q6Ídefa eoRi a 
devidèf^^pòmiiirÂ^/ilão estraordin^riajt con;M).-pavo»r 
rosai. >A^ vfolettci«áíe' revolta dfrtulte íor^ro^qttasi 
sempf€í)^proví>éBdas,{on «pelo tratamentp bárbaro Tfne 
nos níá^iòsri^cebiam, ouí pela ifotro^u6gão a bordo 
de Oí^inko^kia rtilulo - de •icisigfanfôs;> cada ufí\A 
daquellas eatasttiopbes^des^obite a» àfigusiíâis, >a^ 
misérias j^a«opprefs8iQ, a>fôttieo& tjranoia,íq*ierpa^ 
decéraih tfentòsf' flehoroenííy ôa'.rèvelh-è vicie pro- 
fundo de- urba cihigra^Jão erfiítjôesBtfccullam^faei^ 
noras> dispostas» aíèíJiíiááelter o* cpimesmai^alrozes. 

Eiâtes ^ ratOág^' ratiltipl içadas^ e^ Cariadas le>vardfn^ 
me ert) iS7S,'è» era» enlãd ministro^dâ/ marinha e 
ultramar;' à' prohibir'a' èmi^ra(^0'Èentractad;i por 
Macau ; esta resolução do govieiftt) fói por tetegrarm^a 
communicada ad ' governador em «20 de dezembroi 
Em 2^3 o visconde de S: JânuSarlo pablicoa Uflia por- 
taria 'fiftando»emíl2'7 de mar^o deiâ74av teísmo :de« 
fmitiwid-aqueUa-eilíiigraç&o;^'.»^.- ... .* ...t n .,..., 

Atém^ d'eMaS' raizôes hulindãitarías9'U>roei mx^coiih 
siderarão outras que me confirmaram na minha opi^ 
niâo. Vou expol-as para concluir. r.^ .-/ 

A/ estatística da) emigração di>s.%ulÍ6i)por lifacau, 
desâé qtíe sobre dia sè íiiLou a >a]Uenç^/^o ^verncii 
foi^^a^^seguitite':'^-' • ^ ^ ^^..^ ,-..: ...v^ ^v, ^..,.. _ . 



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148 

A emigração dos culis, apezar das alternativas- 
demonstradas pelos dados estatisticos, sempre ten- 
deu a crescer. Aos males por tal emigração occa- 
sionados, em vão buscaram oppor-se regulamentos 
rigorosos; o interesse de alguns homens, a immo- 
ralidade dos corretores, o pedido de braços para 
onde se estabeleceu a emigração, não cessaram de 
influir no desenvolvimento do trafico. Os verdadei- 
ros interesses de Macau eram sacrificados a uma 
illusoria prosperidade, a qual, ao passo que que- 
brava a energia da população, infamava a colónia 
e desdourava o bom nome portuguez. As nossas re- 
lações com a China tornavam-se todos os dias menos 
cordeaes, e chegariam a aberta hostilidade se não 
acabasse o trafico dos cuhs. O credito de Macau e 
os seus interesses e prosperidades perdiam com se 
não tomar uma resolução prompta e enérgica sobre 
este grave assumpto. 

O numero de repatriações que se fizeram desde 
que a fiscalisação de emigração se fez com zelo e 
conforme os regulamentos mostra por um lado que 
a administração de Macau se empenhou em cum- 
prir os seus deveres, por outro lado prova a falta 
de escrúpulos, a improbidade e immoralidade, não 
só dos corretores, que traziam a Macau os emigran- 
tes por meios fraudulentos, senão dos agentes da 
emigração, que os recebiam e os mantinham enga- 
nados nos depósitos. A repatriação subiu a um. 



149 

quinto dos chinas conhecidos em Macau como emi- 
grantes. 

A emigração se deve allribuir o abandono de nu- 
merosos cadáveres nas ruas de Macau. O governa- 
dor em 1872 mandava recommendar ao superin- 
tendente da emigração que communicasse aos en- 
carregados dos culis que esses taes estabelecimen- 
tos seriam fechados logo que se provasse que aban- 
donavam os emigrantes inválidos em logar de effe- 
ctuarem a sua repatriação. 

A emigração teve como resultado immediato e 
apparente o crescimento da riqueza de Macau, mas 
o resultado real foi diverso. 

A população de Macau em 1822 compunha-se 
de 4:315 christãos, incluindo 537 escravos, e de 
8:000 chinas. 

Segundo uma estatistica de 1849 a população 
de Macau era de 4:587 christãos e de 25:000 chi- 
nas. A população christã comprehendia 490 escra- 
vos. N'esta época não havia emigração por Macau. 

Em 1860 constava a população christã, incluindo 
os militares, de 5:219 individues, sendo 790 chi- 
nas christãos. 

N'um recenseamento da população chineza do 
anno de 1867 vê-se que esta população era em Ma- 
cau de 52:252 individuos. 

A população chineza teve um augmento extra- 
ordinário de 1849 a 1863, mas este crescimento 



150 

nâo mostra senão qii^a-][í6piflação^tetó^um^í$í|racter 
essencialmente fluctaante e por isso muitofaria- 
vel. Para o' provar basta ver <)àa a pop«tóção chi- 
neza por naturalidades é a segoiníe:— ^^riginaria de 
Macau eram 5:723 individues^, de€arítao 48^647, 
de,F()kim 1:797, de oulraft'pff)cfedencíâs«41õ. O 
numeto dé chinas natuBaes de Macau- eriar devido a 
apháreni-se muitos ^ausentes ^ Gatítãô, -naís* coló- 
nias bíitannifcas de Hong-Kong « Singapur^^ ilhas 
da Mahore. - *^* , - • - ^«^ 

No'!censo* da população lief&Ttaohai^e apo- 
pulação chfistâ de &:375inéividuosyaccu6íipdo um 
augmento insignificante em reiâ^ao' a 4860.< A po- 
pulação chinezà èl-a de 64:029, senda: aique residia 
em terra 53:7&t''è^ nd' maf 4-0:2^8, - ^' ^í> 

As dificuldades resultantes da acção dôs -postos 
fiâçafçs chinas cjtíe^cefcavaEm Macau «f ara *de certo a 
càúsá* dá diminuição dà poptífá^o maritima^ Divi- 
dida pôr híttiifaiHdades, a piopWâçãacbineza de Ma- 
cau, apt-esentava : riatnraés dfe-Macau 4 6:9'25Y natu- 
rftês de Caiitâo 43:078, naturaes^ de Fókiito 4:035. 
* A ptrpulâção total òhirieza habitando noanar e na 
terra diminuiu consideravelmente: 

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bitando em terra 

População chineza em Macau ha- 
bitando no mar. .:'... 



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É íacil nolar três fs^ctos^no que fica e^xposf o: 
1 .*" Que a (^piílaçao christsbcresee mijito l^ntan ente, 
e, se attendermos ás causai que^ íaafem víiriarj pode 
dizerfise talyez que fica estãcionariat 2.Í^Que.ía po- 
pulacfio chineza é, na sua maior parte, fluctuahle, e 
nada^jrepresenta çom i^lação á prosperidade ja co- 
lónias y."" Que a J)opul^ção^ chiiíeza tinháídimiiuida 
nos iflltimds annos, apèzarrda ernigrâção|crés( 

Voamos agora o qúe nos diz a- estatística] com- 
mer4aL 

- O commercio faz-se em Macau por navios (le alto 
bordo, quff transportam aá mercadorias |>ara portos 
mais ou menos distantes, e por J embarcações thinas 
de pequena lotação, que as transportam porjcabo- 
tagem entre porlos visinhos. 

Segundo os dados estatísticos, vê-se gue lios pe- 
ríodos de iSaior iheremento da emigi^açãoo commer- 
cio ficou estacionário, ou antes tendeu 9 diminuir^ 



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Avulta muito no movimento commercial de Ma- 
cau o ópio: como este seja destinado para um uso 
vicioso, que contribuo para deprimir a energia do 
povo que o consome, pode melhor avaliar-se o com- 
mercio em relação aos interesses reaes da colónia, 
separando o valor do ópio dos outros valores que 
representam o movimento commerciaL 

Por esta forma obteremos um resultado interes- 
sante, que é o seguinte : 



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156 



novimento geral do commercio 



Anpíos 


Ópio 


Outras mebcadobias 


1864 


3.558:296|;350 
3.448:í)92iíí300 
4.867:158,^650 
5.234:4491^600 


6.994 :i 15^350 
7.495:770iaí900 


1865 


1866 ; 

1871 


6.283 :077íí;60O 
5.654:570|i60O 



No primeiro período de 1864 a 1866 a impor- 
tação do ópio representa 61 por cento; no segundo 
período, 1870, o ópio representa 92 por cento. A 
média annual da importação total em navios de alto 
bordo baixou nos dois períodos antecedentes de réis 
5.996:426^150 a 5.429:618|ll00.réis: conside- 
rando a importação com excepção do ópio, a dimi- 
nuição foi mais considerável, pois que a importação 
baixou de 2.312:850^833 a 966:665|1900 réis. 

Na exportação elii navios de alto bordo, em que 
o ópio tem um logar insignificante, do primeiro para 
o segundo período a diminuição lambem manifestou 
as mesmas tendências. No primeiro período a ex- 



157 

porlação foi de 3.753:813^616 réis e no segundo 
foi de 2.708:334^600 réis. 

O commercio em embarcações chinezas, muito 
mais limitado no seu valor do que o dos navios de 
alto bordo, apresenta nos dois períodos tendência a 
crescer. 

Considerando o movimento geral commercial acha- 
se que a média do primeiro período foi da quantia 
de 10.849:470^16 réis, e em 1871 foi o movi- 
mento commercial de 10.889:020|1200 réis. 

A emigração de Macau não |)romoveu o desen- 
volvimento commercial, antes parece haver absor- 
vido toda a actividade da colónia, mudando ás suas 
fontes naturaes de riqueza. 

Se considerarmos por ultimo os rendimentos pú- 
blicos e a sua marcha encontraremos também evi- 
dentes provas de que a prosperidade de Macau era 
apparente e encobria uma profunda depressão mo- 
ral, uma paralysação das forças productivas. 

Em dezeseis annos os rendimentos cresceram na 
razão de 365 por cento ; os rendimentos provenien- 
tes das licenças para loterias, jogbs e venda de ópio 
esses cresceram na razão de 909 por cento. 

O seguinte mappa dá d'isto testemunho: 



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As necessidades de f|)rça publica, dé píolicia., de 
vigilância e actividade administrativa é judicial para 
manter a ordem n'umãl população fluctuante, e a 
abundância de recursos^ fizeram com que as despe^ 
zas crescessem quasi ria mesma proporção de-qud 
as receitas. I 

Para se avaliarem os, augmenlos de despeza du- 
rante os annos em que a emigração se desenvolveu, 
assim cofho ás modificações que essa despeza de- 
verá ^offrer quando as circumstancias actuaes ba- 
jam passado, é bom ver o quadro das despezas pu- 
blicas em Macau. 

Dete nolar-se que na administração geral se com- 
prebende' a policia. . ^- 



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16i 

Esta exposição rápida dos factos basta para nos 
convencer de que a emigração contractada por Ma- 
cau não foi origem de verdadeira prosperidade, nem 
teve consequências económicas^ sociaes que podes- 
sem desculpal-a de seus profundos vicios e iniqui- 
dades* 

Para se reconhecer a quem aproveitava o consi- 
derável movimento de capitães e as transacções lu- 
crativas do trafico dos culis é preciso recordar as 
palavras do sr. visconde de S. Januário n'um offi- 
cio ao governo. 

« A nação portugueza, lia-se no ofiScio do gover- 
nador de 23 de maio de 1873, sofifrendo muito no 
seu credito, não é a que mais lucra com a emigra- 
ção. Este movimento de trabalhadores engrandece 
principalmente paizes estrangeiros (Hespanha, Peru, 
etc), é dominado pelos capitães estrangeiros e en- 
riquece companhias e agentes estrangeiros, com 
quanto augmente assim a receita publica de Ma- 
cau e occasione um certo commercio e movimento 
úe fundos na colónia, favorável á sua prosperi- 
dade». ^ 

Vê-se por estas conscienciosas informações do 
governador que, principalmente os capitães e em- 
presários estrangeiros, e os agentes e aliciadores 
chinas, lucravam com a emigração. 

O negocio da emigração estava concentrado em 
poucas mãos, e na posse de estrangeiros na sua 

VOL. IV. il 



i62 

maior parle. Os agentes de emigração conslituiiam- 
se no fim em associação para explorarem essa in- 
dustria, e os agentes, julgando-se perdidos, repre- 
sentaram ao t governador j^ para os defender contra 
a sociedade dos agentes da emigração, que queria 
constituir um monopólio em prejuizo dos seus con- 
tractos. 

A angustia, a miséria que estas queixas revela- 
vam não deixavam duvida de que o trafico dos culis 
não só corrompia, mas arruinava parte da popula- 
ção de Macau, em nome da qual por longo tempo 
se sustentou aquelle attentado contra a humani- 
dade. 

Foi em vista d'estas considerações que me re- 
solvi prohibir definitivamente em Macau o trafico 
dos culis. O sr. visconde de S. Januário dando-me 
noticia dos actos que praticara, em virtude da com- 
municação que recebera do governo, dizia-me em 3 
de janeiro de 1874 o seguinte: 

«Muitas medidas terei que estudar e de publicar 
successivamente durante o período que decorre até 
se tornar effecliva esta deteminação, e que serão 
conducentes, não só a supprimir tudo quanto era 
concernente ao trafico de colonos contraçtados, ma8 
também a destinar alguma compensação a nume- 
rosos empregados, que perdem a maior parte dos 
seus vencimentos; a prever pela ordem e tranquil- 
idade publica, visto que um grande numero de chi- 



i63 

nas que eram corretores da emigração, e que estão 
longe da serem de bons costumes, ficam sem em- 
prego; e, finalmente, a auxiliar o commercio de Ma- 
cau, abrindo-lhe, se for possivel, novos horisontes. 

«Além d'isso estou estudando novas disposições 
que regulam em Macau, á semelhança de Hong- 
Kong, a passagem dos individuos chinas para pai- 
zes estrangeiros. 

«Como tive a honra de previnir a v. ex.* nos meus 
relatórios sobre este assumpto, deverá sentir-se no 
cofre de Macau uma sensível diminuição, em vir- 
tude da medida que acaba de adoptar-se; muitos 
individuos serão aíFectados em seus interesses, quer 
direcla, quer indirectamente, e isto produzirá uma 
certa crise em Macau; a crise será temporária, as 
faculdades da parte da população prejudicada de- 
dicar-se-hão, pouco a pouco, a negócios mais de- 
centes e seguros, a receita publica affluirá aos co- 
fres e, passado algum tempo, será reslituido o equi- 
librio. 

«EíFecti vãmente ter-se-ha effectuado uma grande 
reforma, aconselhada pela moral, pelo commercio 
das nossas relações internacionaes, e peia dignidade 
da nação; por quanto se o defeito não era nosso, é 
evidente todavia que a permissão d'este systema de 
emigração pela nossa parte e a sancção do governo 
portuguez em contractos aqui feitos, lhe i^npunha 
responsabilidades. 

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164 

c Agora é meritória esta probibição» por quanto 
acusa ella o maior desinteresse e é feita desassom- 
bradamente, por ser isenta de qualquer pressão es- 
tranha ; e não podemos aflfirmar que mais tarde 
viesse a acontecer assim. 

«Congratulo-me pois com v. ex.* pela adopção 
d'esta providencia, que tem sido muito honrada pela 
imprensa ingleza, e que justificando o nosso des- 
interesse e abnegação, livra Portugal de formidáveis 
accusações; e pode v. ex.* estar certo que durante 
o tempo que aqui me demorar empregarei todo o 
desvelo em suavisar esta transição, que não deixa 
todavia de apresentar bastantes difficuldades^. 

Abolindo a emigração conlractada em Macau, o 
governo cumpriu o seu dever. Reconhecido o mal 
como irremediável, era necessário por-lhe termo 
promptamente. As tradições e a honra de Portugal 
assim o exigiam. 



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As alterações da população desde que se aboliu 
a emigração em Macau, não provam que esta aboli- 
ção exercesse funesta influencia na sua prosperi- 
dade. 

Vejamos se o commercio augmentou ou diminuiu. 
Já vimos que durante o commercio de culis elle mos- 
trou tendências a diminuir; vejamos o que succe- 
deu depois. 

Em 1871, época florescente da emigração, foi o 
€ommercio o seguinte (em patacas): 

Commercio em embarcações Commercio 
de alto bordo em jancos 

Jmportação 6.387:786 1.809:775 

'Exportação 3.186:276 1.426:775 

~9!574ÍÕ62 3.236:550 
Commercio geral 12.810:612 



166 



Em 1880 o commercio apresentou os seguintes 
resultados: 

Coniiuercio em embarcações Commercio 
de alto bordo em jancos 

Importação ......... 5.859:200 3.448:922 

Exportação 3.762:738 3.510:561 

9.621:938 6.959:483 

Commercio geral 16.581:421 

Nas annos seguintes apresentou o seguinte re- 
sultado : 

1881 

Commercio em navios de alto bordo. 13.325:360 

Commercio em juncos 9 175:539 

Commercio geral 22.500:899 

1882 

Commercio em navios de. alto bordo. 13.277:699 

Commercio em juncos 10 536:993 

Commercio geral 23.814:692 

1883 

Commercio em navios de alio bordo. 13.804:972 

Commercio em juncos , . . i . 10.690:499 

Commercio geral 24.495:471 



167 

Assim pois o coramercio cresceu, e por este lado 
ainda a exlincçâo da emigração contraclada não pre- 
judicou os interesses de Macau. O commercio que 
em 1871 era de lá. 810:612 patacas era doze an- 
nos depois, em 1883, de 24.495:471; proxima- 
mente duplicou. 

GoQi a prohibição da emigração os rendimentos 
públicos diminuíram. Em 1872-73 o rendimento 
publico era de 308:012^748 -réis. 

No anno económico de 1880-81 a receita co- 
brada foi de 389:807^745 réis e a despeza de 
369:874^101 réis. 

Dez annos depois no orçamento de 1 882-83 eram 
computadas em 506:80 7<^000 réis. 

As despezas em 1871-72 eram de 266:344|736 
réis e em 1882-83 eram avaliadas em pouco mais 
de 300:000^000 réis. 

Em 1883-84 os rendimentos de Macau eram de 
538:507^000 réis. 

Em 1884-85 os rendimentos públicos eram ava- 
liados em 675:627<|1180 réis, e a despeza, incluin- 
do Timor, era de 456:221|i931 réis. 

Não houve pois diminuição das receitas publicas, 
antes estas augmenfaram depois de abolida e emi- 
gração. 

Tudo prova claramente que não foi prejudicial 
a exlincçâo da emigração, nem em relação á popu- 
lação, nem ao commercio, nem ás rendas publi- 



168 

cas, e poz termo a uma origem perpetua de cor- 
rupção» e a uma causa de depressão da morali- 
dade e da actividade commerciaes d'aquella pro- 
víncia. 



A instrucção da população de Macau está muito 
pouco desenvolvida mesmo entre a parte portugue- 
za: a parte china manifesta um descuido grande 
que chama a altençâo. Existe uma escola de in- 
strucção primaria unicamente para o sexo feminino, 
e essa é frequentada por 30 a 40 alumnas, de que 
a maior parte comparece com muita inregularidade; 
as escolas para o sexo masculino teem maior nu- 
mero de alumnos, e a frequência é muito mais re- 
gular. 

A população, emquanto ao grau de instrucção, 
' apresenta as seguintes circumstancias. O total dá 
população em 1878 era de 68:086: d'esla sabia 
ler: 



170 



Homens chinas 19:510 

Não* chinas 1:610 

21:120 

Mulheres chinas 372 

Não chinas 1:564 

— 1:936 

23:056 

Não sabem ler: 



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Homens chinas 20:555 

Não chinas 727 

21:282 

Mulheres chinas 23:095 

Não chinas 653 

23:748 

— 45:030 



Total 68:086 

D'aqui se segue que de 100 chinas sabem ler 
32 e não sabem ler 68; e entre os não chinas sa- 
bem ler 70 por cento, e não sabem ler 30 por 
cento. Na população de Macau, propriamente dita, 
a proporção é differente: d'esta sabem ler 1:610 
varões, e não sabem ler 727: das mulheres sabem 
ler 1:564, e não sabem ler 653. Na população por- 
tugueza de Macau em cada 100 sabem ler 75, e 
não sabem ler 25, números redondos. Na popula- 



171 

ção procedente de Portugal sabem ler em cada 100 
indivíduos 49, e não sabem ler 51 . 

Deduzindo, porém, os menores de i a 10 annos, 
sabem ler nos naturaes de Macau 89,23 por cento, 
e não sabem ler 10,77 por cento; e na população 
procedente de Portugal sobem ler 49,4 por cento, 
e não sabem ler 50,6 por cento. 

A instrucção do sexo feminino, sendo a popula- 
ção de 25:684 mulheres, tem 1:936 mulheres que 
sabem ler, ou 7,50 por cento; e que não sabem 
ler 23:748 mulheres, ou 92,46 por cento. As mu- 
lheres chinas são muito mais numerosas do que 
as não chinas, pois que das primeiras sabem ler 
372, e das segundas sabem ler 1:564 ou 70,5 por 
cento. 

Existe uma escola de pilotagem, que habilita in- 
dividuos para o serviço náutico de outros paizes, 
por que em Macau faltam navios portuguezes. Esta 
escola é pouco frequentada. 

O seminário de S. José onde se ensina instruc- 
ção primaria, porluguez, inglez, latim e lingua chi- 
nheza, é pouco frequentado e não dá nem padres, 
nem individuos habilitados para qualquer profis- 
são. 

Além das escolas publicas ha 16 escolas parti- 
culares, frequentadas por 407 alumnos, sendo 245 
do sexo masculino e 162 do feminino. 

Na escola commercial ensina-se portuguez, in- 



172 

glez, chinez, arithmetica, álgebra, geometria, escri- 
pturação mencantil, rudimentos de physica e chi^ 
mica, geographia, historia e doutrina chrislã. Fre- 
quentam esta escola ha poucos annos 69 alumnos. 

Ha mais 4 escolas onde se ensina a lingua in*- 
gleza, e uma onde se ensina o francez. 

Uma escola de catechése dirigida por duas pro- 
fessoras, uma china, outra por uma irmã da cari- 
dade para ensino de chinas e portuguezes. 

O eslabelecimento denominado de Santa Rosa 
de Lima, está estabelecido no antigo convento de 
Santa Clara, e dá ás creanças uma educação esme- 
rada. 

Em geral pode dizer-se que a educação das mu- 
lheres porluguezas é mais cuidada em Macau que 
a dos homens, e comtudo ha meios para que uns 
e outros encontrem a instrucção necessária, logo 
que se estabeleça um lyceu onde a instrucção se- 
cundaria seja ampla e convenientemente minis- 
trada. 

A população china é muito menos instruida, so- 
bretudo as mulheres. O numero das escolas é com- 
tudo grande, mas os chinas nãoas frequentam. Ha 
70 escolas para o sexo masculino, mas a média da 
frequência em cada escola é de 22 alumnos. As es- 
colas para o sexo feminino são 3 e a média da fre- 
quência é de 14 alumnas. 

O numero de creanças chinas residentes em Ma- 



173 



cau, é de 10:223, e ás escolas concorrem 1:576. 
E diminuitissimo, como se vê, este numero. Mui- 
tos chinas, é bom notal-o, aprendem a ler com os 
parentes, e por isso a frequência das escolas é tão 
limitada. 



TIMOR 



TIMOR 



Em 1832 o desembargador da Relação de Goa, 
Gonçalo de Magalhães Salvador Pinto, nas Memo- 
rias sobre as possessões porluguezas da Ásia, que 
escreveu n esta época, dizia de Timor: 

«Timor, como já se viu, é a mais pobre das pos- 
sessões da Ásia. Não ha n'ella agricultura, nem com- 
mercio, nem é fácil haver algumas d'estas occupa- 
ções sem grandes e penosos esforços, principalmente 
se á custa da nação forem feitos. 

«Os timores são nimiamente perguiçosos e inca- 
pazes de cuidar da cultura das terras, nem de ou- 
tros empregos trabalhosos, de que o proveito é in- 
certo. Se os obrigassem a isso desertavam para 
os territórios visinhos. E necessário para adiantar 
aquelle paiz uma ou mais colónias de familias eu- 
ropeas, que se empregassem na agricultura e no 
commercio, e depois de algum tempo os nativos irão 

VOL. IV. 12 



178 

seguindo o exemplo dos brancos e se acostumarão 
a trabalhos necessários para as commodídades da 
vida. Seria conveniente crear uma companhia para 
esse fim, cedendo-lhe pelo tempo, que parecesse 
justo, toda a jurisdição, mas essa muito inferior, 
como em outro tempo se praticou com as capita- 
nias da Africa e do Brasil, alterando somente o que 
as luzes e suavidade de costumes do tempo actual 
exigem se altere» . 

Timor é um governo dependente de Macau, e foi 
n'outro tempo dependente da índia. A sua adminis- 
tração tem sido frouxa e desordenada; divide-se em 
commandos militares, cujo numero tem variado, de- 
pendendo isso em parte do numero (Je officiacs de 
que se pode dispor. Cada um d'estes commandos 
governa certo numero de régulos, pela maior parle 
chamados reis. A cultura tem arroteado algumas 
terras, e a cultura do café, que é uma grande ri- 
queza, tem prodigiosamente.crescido. 

Timoi* é ainda hoje um ónus para Macau, que 
precisa todos os annos cobrir-lhe o deficit, mas é 
cada vez menor esse deficit, e as circumstancias vão 
melhorando notavelmente. 

Em 1832 a receita publica era de 2:000^000 
réis, hoje é ella de 48:000^000 réis aproximada- 
mente. As despezas teem crescido, como é natural, 
comtudo a desegualdade entre a receita e a despeza 
é muito diminuta e em breve será nenhuma. 



179 



O commercio cresce rapidamente, e a seguinte 
tabeliã o demonstrará claramente: 



Annos 


Importação 


Exportação 


Total 


1881 

1882 

1884 


204:2885^481 
203:95W334 
208:165í^540 
200:7955^098 


530:727;^285 
371:706^094 
469:129íí!687 
439:608)^978 


735:015)^766 
575:697^28 
677:295;íí227^ 
638:384ií!076 



Os direitos da alfandega apresentam o seguinte 
progresso: 

1881 65:892^737 

1882 36:0451840 

1883 43:8321823 

1884 : 36:868^84 

A prosperidade de Timor é evidente, e os viajan- 
tes confirmam esses progressos. 



FIM DO QUARTO £ ULTIUO VOLUMB 



índice 



índice do volume IV 



PAG. 

Actual colónia da índia 13 

Administração de Timor 178 

Algodão na índia, duas castas 31 

Augmento da importação em Goa 51 



G 



Café na índia 32 

Caminho da índia 8 

Commercio em Damão 100 

« em Macau 182 

€ em Timor 179 

Communidades agrarias 14 

Convenção monetária 57 

Communicações com os productores de sal 46 



184 



D 



PAG. 

Damão 9Ç 

Descobrimento do caminho da índia 7 

Descripçao do território da índia 13 

Desequilibrio em Goa de receita e de despeza 11 

Diu 105 

Domínio castelhano; invasões hollandezas fizeram-nos per- 
der muitas eoncpiistas .* 10 

Dominio portuguez não penetrava além da costa da índia. 9 



E 



Emigração não fazia prosperar Macau, mas enriíjuecia es- 
trangeiros 161 

Emigração por Macau 131 

Estabelecimento de Macau 115 

Estatística commercial de Macau 165 

Expedições á China 113 

Existência das salinas 47 

Extincção do arsenal 71 



185 



F 



PAG. 

Fabricas em Diu 108 

Ferreira do Amaral na índia 120 

Frades na índia 89 



Hha de Dia.. 107 

Impostos do sal e do álcool 37 

Inconvenientes das communidades para a agricultura .... 18 

Industria em Damão 99 

» e agricultura na índia 22 

Instituição das companhias na índia 12 

Instrucção em Damão 100 

» publica na índia 75 

1 í em Macau 169 



186 



PAG. 

Janinfante 7 



M 



Madeiras de construcçao na índia 32 

Mais impostos na índia i2 

Modo de cultivar as terras em Nagar Avely 97 

Mortalidade dos diversos emigrados 45 

Morte de ÂíTonso de Albaqaerque. Decadência da da índia . iO 

Morte do governador de Macau 121 

Mouros percebem o inconveniente dos portuguezes irem á 

índia 9 



N 



Nagar Avely : 96 

Navegação nos rios 88 



187 



PA6. 

Obras publicas 60 



Pimenta na índia 31 

Politica de Affonso de Albuquerque 16 

População de Macau. 124 

» na índia 41 

Praça de Damão 96 

Privilégios de navegação dos navios de Macau 117 

Producção agricola em 1878 25 

1 de trigo na índia 29 

Prohibe-se a emigração de culis 146 



188 



R 



PAG. 

Razões que nos fizeram perder o dominio na índia 83 

Receitas de Timor 179 

» publicas na índia 23 

Regulamento para a emigração por Macau em 1860 136 

Rendimento da fazenda na índia 43 

» das alfandegas de Timor 179 

» de Nagar Avely 97, 



Santa Rosa de Lima em Macau 172 

Sementeira de trigo, milho e bazury 30 

Suppressão de emigrantes vão alterar o bem estar de Ma- 
cau 128 

Systema para a transformação das communidades, do sr. 

Teixeira Guimarães 18 



i 



189 



PA6. 

Timor.. 177 

Tratado com a China de 1843 119 

1 com a Inglaterra. Caminho de ferro 35 

Tribunaes na índia 79 



Vasco da Gama. Viagem 8 

Venda de espirites 48 







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