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Full text of "Ethnographia e historia tradicional dos povos da Lunda"

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ETHNOGRAPfflA 



HISTORIA TRADICIOML 



DOS 



POVOS DA LUXDA 



EXPED1(;A0 portugueza ao muatiànvua 



ETHNOGEAPHIA 



HISTORIA TMDICIOML 



DOS 



POVOS DA LUNDA 



PBLO 



CHEFt DA EXPEDigAO 

HENRIQUE AUGUSTO DIAS DE CARVALHO 

lajor do Estado Maior de lafanteria 



EDI9AO II.LU8TRADA POR U. CASANOVA 



"■«wv^/VW^»» 



LISBOA 

IHPRENSA NACIONAL 
1890 



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l'i 



INDICE DAS GRAVURAS 



T>T>o de Celles <> 

Typo das margens do Lui 7 

Typo Caluba. 10 

Typo Quiòco da» margoiiK do Quiuiubue 11 

Quioca das inargons do Luacliiino 14 

Mulhcr das iiiargeiis do Lui If) 

Mabela (objecto de vestuario) 17 

AuguYC (cavallo marinilo) 20 

Salale 21 

Dicabà (paliiioira dr Icquc) e quiinaijìpo («ntlo toin tbllias») 24 

Aloét* e cactoH 25 

Flore.sta de Chiiiiane, ao norte da Mussumba ojip a 2r> 

Mulher Lunda pinando iimiidioca 32 

Banco IVS 

Mujia (ariiiadillia para peixe) 37 

Mucoco (canieiro do Lubuco) 40 

Aiiipeinbe (cabra de Mataba) 41 

Cambonzo (gato bravo) 44 

Miiquixi 48 

Aiidaiida (tìor do algodr)ein)) oO 

Dinka 07 

Grupo de.Diuros (jpp. a 58 

Filila do rei Aiitczé 65 

Monumento do CalAnhi 73 

Grupo de Luba» (Chibango) npp. :i 7(5 

TvfK) do Nano 81 

Rapaz Ugunda 89 ' 



VI EXPEDI9X0 POBTUGUEZA AO MUATIANVUA 



Pag. 

Xa Cuniba (N. B, Por equivoco està Quingiìri) 97 

Sepultura de Uunga 105 

Lucano 112 

Mappa da dìstribuÌ9ào dos Povos Tua opp. a 118 

Typo Bungo 121 

Typo Lunda 128 

Typo Bàngala 129 

Mappa geographico-linguistico dos Povos Tus ou Antus opp. a 132 

Typo Quióco 136 

Typo Peinde 137 

Parte da couiitiva do Congo . ; opp. a 138 

Typo Matipa (Muero) 168 

Typo de Benguella 169 

Typo Luba (Luembe) 172 

Typo Massuco (Cuango) 172 

Typo Quióco (do sul) 173 

Typo Caroca 176 

Typos Quiocos (Luachinio) 177 

Typos Quiocos (Luana) 180 

Typo NiamNiam 181 

Typo Lunda (Cajidixi) 184 

Typo Lunda (LuliSa) 185 

Typo da Quissama (Cuanza) x 188 

Typo Lunda (Mataba) 1S9 

Typo Lunda (Luiza) 192 

Tjrpo Lunda (Cassai) 193 

T>T)0 Lunda (Cajidixi) 196 

Typos Lundas (Lubas) 197 

Typos Lundas (Calànhi) 200 

Typos Lundas (Mai Muneuc) 201 

Typos Lundas (Mussumba) 204 

ConstrucQoes do mabiixi e do muquinde (salale) opp. a 212 

Typo Caconda 216 

Typo Lunda (Luliia) 217 

Habita^òes opp. a 220 

Typo Nianza 224 

Typos do Congo (S. Salvador) e Lundas (Cassai) 225 

Mussumba do Muatiàuvua opp. a 226 

O Muatiànvua bebendo malufo opp. a 230 

Typo Caconda 232 

Typo Malanje 233 

Typo Massai 240 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA VII 

Tjrpos Quiocos (Quicapa) 241 

Bepresentante de nm Muqufzi opp. a 244 

Trophea de ca^a — Povoa^So de Quibango opp. a 248 

Muquixi 248 

249 

Muzaela (monnmentos de ca^a) 256 

Angongo (carata) 257 

Typo do Bié : 260 

» . . 261 

MuBsaa 271 

Dìtandas 272 

Chino, cachino 274 

Rato, muTuro 274 

Cachipuale, ampaca, luboco, dicumbo e chissapuilo 275 

Sabas, nongos, canungo, mussaca, caboco e mussindo 278 

Fabrico de urna panella 279 

Fabrico da tanga 282 

Modo de fiar e de lecer no antigo Egypto 283 

Fabrico da chicanga. • 285 

8apo : 286 

Chibnntila, dizumbe, capaia e chipaia. 287 

Mussale 289 

Mussasse 290 

Cabaxe 290 

Capanda cà niànhi 291 

Difuca 292 

Chiopo 292 

Mussindo 292 

Matopa 293 

Péxis 294 

Chisanguilo 297 

Ampaca 298 

Mussùnhis, mudambala, Incasso e chimbùia 300 

Armas brancas e amuletos de ca^a opp. a 302 

Mocnilis 303 

ChUala 304 

Calembeles 305 

Mucubas e chimpalas 307 

Cadiango, mulimo, séu e mussaca 309 

Chissoqne, anguimbo e hicasso 312 

Mnpango 314 

Bnqnmda 316 



vili EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

Pag. 

Mussande 325 

Quizanga 328 

Caxàvu 329 

Panno da costa. 332 

LesBole e cajinga 333 

Mucoi pa zingo : 335 

Grupo de mulheres Lundas opp. a 336 

Angonga 337 

Capate quifanda 337 

Miluinas 338 

Muquiqui 339 

Tubare 339 

Ibefnhes 340 

Cabonda 341 

Cbibangula, chisseque e chini 342 

Mùtue u& caianda 345 

Sala ià calongo 347 

Dicuaca dia missangala 348 

MusBoma .' 349 

Mola de missanga 352 

Manana 357 

Lucanga 360 

Chini 362 

Chissanje 365 

Marimba ià maqufri 368 

Rubembe 369 

Rucumbo 370 

Mussengos 372 

Chinguvo 374 

Angoma ììl mucamba 375 

Mucubile 377 

Mussamba 378 

Luzenze 378 

Caungula 388 

pae do segundo Quisseugue 393 

Mucanza (Muatiànvua interino) em audiencia ordinaria . . . .opp. a 400 

Xa Madiamba 401 

Mona Congelo 405 

Quipoco 409 

Urna marcha opp. a 416 

Chefe Luena 416 

A Mu&ri de Xa Madiamba 424 



ETHKOORAPHIA E HISTORIA IX 

Pag. 

Tocador de marimbas 420 

Tocador de quissanje 433 

Um adivinhador opp. a 434 

Maasengo ulaje 436 

Cranio de cavallo marmilo 449 

Especiea de gafanhotos opp. a 452 

Muhanda 456 

Ancai 457 

Muiéo 464 

Sócn 465 

Angolungo 472 

Urna dan^a opp. a 478 

Pelomba 473 

Maende 477 

Cantos Liindas opp. a 478 

Ambau 480 

Itengo 481 

Grupo de mulhcres Quiocas opp. a 486 

CbisBaqnembo 488 

Inchimbe 489 

Cabuluco 496 

Tnnzo 497 

Angaje 505 

Angondo 512 

Bagre 513 

Urna sepultura no Cundungulo (ipj>. a 514 

Mulher Bàngala .• 529 

Uni cacuàta 537 

Raparigas Andcjeinpos 545 

Rapariga Lunda (do I^ulua) 552 

Mulher Tuconga 561 

Um negociante Quicìco 5(58 

Soì)rinho de Andumba T(^mbue 576 

Mona Quicssa 585 

Um adivinhador 592 

Serva na Lunda — Muàri no Quiòco 601- 

Quigaiiibo 608 

Bieno 61«; 

Filba de Muatiàuvua Mutcì)a 625 

Ambanza Qiiiteca 636 

lanvo (Xa Madiamba) 648 

Muene Massaca — Umbala 657 



EXPEDiglo PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 



Paflr. 

lanvo, vulgo Xa ìladiamba, Miiatianvua olcito (chromo) opp. a 6G4 

cozinheiro Fernando 673 

Filha de Canapumba Andundo opp. a 674 

Sepulturas de José do Tclhado e filhos opp. a 684 

Marcolino e sua niulher 688 

Antonio 689 

Cranios humanos servindo de copos 697 

Chibango e comitiva (Lubas) opp. a 702 

Antonio Bezerra 704 

Chefe Capata \ . . 713 

Filippo e Mario 729 



INDICE DOS CAPITULOS 



CARTA AO CON8KLHEIRO HRNRIQITE DE BARR08 OOHE8. 



INTRODUCgÀO 



Intaitos d*c8ta obra — Conslderafues ^raei — Algnmas palavras lobre a conflgraraf ào 
e naturesa do solo no occidente da reglio austro-central africana — Observa^Ses 
lobre OS seus habitantes — Necessidade do estudo das ra^as sobre o ponto de vista 
anthropologico e ethnico — Difficuldadei d^este estudo — Meios de obter conheci- 
mentos cabaes doi usos, costnmes, crenfas, tradi95e8, industria e alimentarlo doi 
naturaes — Regimen hydrograpbico — Aspcctos da vlda vegetai e animai — Vanta- 
gens que proveem da grande inflnencia e prestigio dos Portuguezes para se roelho- 
rarem as condi^Ses actuaei dos indigena!, e idea geral sobre os meios a empregar 
para tornar efficaz essa Inflnencia, attrahindo especlalmcnte a immigrarlo do inte- 
rior para os pontos da provincia de Angola em quc maid largamente se achadesen- 
volvida a agricultura — Provas do caracter fecundo e civilisador da influencia por- 
tugneza na Africa — Exploradores allemies e facilidades que Ihes proporcionamos 
— KeflexSes sobre o estado actual da gente da Lunda e povos vizinbos — Causas 
provaveis da sua decadencia — Vantagens do estudo das suas tradi^Ses historicas e 
dos seus dialectos — Usos, costumcs e armas primitivas — Idcas falsas e preconcel- 
tos dos europeus que visitam o interior — Proveito que tambcm adviria das estarSes 
riviiisadoras para registo de observar5es metcorologicas e outras — Tremores do 
terra e outros phenomenos naturaes — Conclus5es la 50 



CAPITOLO I 



ORIGEM DOS POVOS DA LUNDA 



A ra^a negra — EmÌgra95os de tribus para a vertente sul do Zaire — Os Bungos — Lenda 
de llunga e de Luéji— Constitui^ìlo do estado do Muatiànvua — ExpatriafRo de 
nma fracfio de Bungos capitaneados por QuingùrI ; sua entrada no territorio de 
Angola e ostabelecimento om terras de Ambaca — Dcscendencia dos Jagas — Par- 
tida dos Quidcos para as nascentes do Luango — Funda9&o dos estados do Capenda, 



XII EXPEDiyXo PORTUGUEZA AO MUATlAxVUA 



dos Quiòooti de Mnene Poto Castone, de MuaU Cnmbana, dos Nungoi, de Carni- 
gula e outroi — O Lubuco — Viagem do Qalòco Quilanga à procura de maHUn — 
Uelaf 5cg com o Muquengrae — Partlda d*oite para o Qaimbundo ; suas rela^Ses com 
OS Portugruezes — O potentado Gambons^ — Gonelaiòei 51 a 112 



CAPITULO II 



DIALECTOS TUS OV ANTÙS 



Ob8orvaf5ei preliminares — Valor etbnographico dos estudos gloticos — Difficaldades 
det collecclonamento de materiaea lingulsticoa na Africa — Nocoasidade do mcthodo 
uniformo para o catudo daa linguaa — Trabalhoa de linguistica africana, eapocial- 
mcnte de SchOn, Schweinfurth, A. F. Kogueira, J. de Almeida da Guuha e Héli 
Chatelain — Limites doa povos Tua ou Antùt — U«o de vocabulos e phraaea portu- 
guozaa inteijectivamente emprcgadaa neatoa dialectoa — Conaidera^dea aobre a 
oacravldio e condÌ9Ìo actual doa povos que viaitcl — Gonclua5es e indica^Jies para 
o estudo dos qnadros linguiaticos annexoi 113 a 161 



CAPITULO III 



CARACTERES ETHNICOS 



Obscrva^Ses gcracs — Dados anatomicoa e phyaicos àcerca dos poToa Tua ; cdr da polle, 
doa olhoB, doa cabelioa— Algunias indica^ 5es aobre caractorea pbyaiologicoa ; fecun- 
didado, cniKamcntos com outros povoa africanoa ou com europoua — Baaoa da ali- 
mentavÀo ; aoa influcncia — Docn^aa predominantea — Causaa de extinc^io daa 
populafòca — Aapccto goral do indigena; for^a mnscular; condi^òos de roaiatencia 
à fadiga ; robustec relativa ~ Considera^dea aobro oa caractorea, aituaf ào e condi- 
9008 de Vida de variaa tribua da Africa centrai — ConclusSea 163 a 3()G 



CAPITULO IV 



HABITAQOES DOS POVOS TUS 



Typoa daa hBbita9^ea, modo de aa construir e matoriaca ompregadoa ; aua diviaào into- 
riur — MusBumba do Muatiànvua, seu plano o distribuÌ9So — Familia do Muatiàn- 
vua, dignitarioa e maia possoaa da córte, seus titiiloa o attribuivòea — Acconiinoda- 
9no d^esae pessoal — Logaroa dcatinadoa aoa idoloa e roHi>cctivo culto ; qnalidadoa 
que 8o Iho attribiiera — Monumontoa e trophous de ca^a ; coromonial observado na 
sua in8talla9ào — Officios manuaes e logarea ondo so oxorccm — Habitafòoa em goral 
de variaa tribua da regimo — A mussumba do Muatiàuvua no tempo do Rodrìguca 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA XIII 



Gra^a e em tempos snbsequontes — Influeocia civilisaclora exercida ahi pelos sabdi- 
tos portognexes oriundos de Angola — Deoadencia dos Lundas na actualidade ; 
suas cauias 207 a 264 



CAPITOLO V 



INDUSTRIA INDIGENA 



Algumas palavras sobre o conhccimcnto do fogo e do ferro — Objcctos de uio, flxos nas 
habita^Oet — Moveis divenos de madeira — UtensiHos domosticog de xnadeira ou 
ferro — Objeetos de ceramica; processog mdimentares do seu fabrico — Emprego 
da roda do oleiro pelos Bàngalai e Quiòcos — Tanga de algrodSo ; tearei — Obras 
de esteira e verga — Objeetos do. uso pessoal ou caselro feitos de varias substancias 
texteis — Aproveitamento das caba^as corno vasos para conter e transportar liqui- 
dos — Lou9a europea — Cacbiiubos para tabaco e liamba — Utensilios para llmpesa 
da bocca e cabellos — Faeas e outros instrumentos cortantes — BastSei, ma^as e 
varlas outras armas de madeira ou de ferro — £scudo8 — Lanfas, piques, alabar- 
das, forquilhas, etc. — Armas do tiro; arco e flecba — Armas de fogo; fabrico de 
espingardas e cartuchos— Instrumentos agricolas, enchadas, machadinhas de ferro ; 
anclnhos ou enga^ os de madeira — Indu:^tria da pesca ; cercas e armadilhas para 
apanha do peixe — Considera9ÒCB sobre o fabrico de armas, utensilios e outros 
productos de industria indigena, e influcncia atroptiiantc exercida sobre olia pela 
introducffto de artefactos europeus 265 a 322 



CAPITULO YI 

VESTUAIIIO E ADORNOS PESSOAES 
INSTRUMENTOS DE MUSICA 



Considera^òes preliminaros — Materiaos usados para vcstuario de arabo» os sexos ; dosi- 
gna^&o das suas differcntcs pc^a-s o modo de se usarom — Cinto» do roissanga ou do 
basios ; cinto» do couro — Bra^nc» o cauhùes do couro ou do baota — Bolsas de 
viagera de pellos ou do couro ; cartuchciras — Bandas ou cintns do IR o do flbras 
vegctaes — ('ollares do coutaria; omprogo da contarla comò mooda corrente — Ob- 
jeetos usados comò distinctivo, corno amulctos ou simplesmentc comò onfoite — 
Miluinas e outros ornatos para u cabota — Diadema», rcspiondores, rapacetes, e^c, 
servindo corno distinctivos, o modo de os fazer — Passadciras de metal para os 
cabellos — Barretes do 13, bone» e chapéus curopeus de forma» e materiaes divor- 
SOS — Chapéus do sol o umbellas — Briucos, pingentes, argolas, anneis e outros 
adomos para as orelhas, narlz, mSos o bra^os — Lucano ou distinctivo de sobera- 
nia na Lunda ; ceremonial da investidura do Muatiànvua na posso d*essa insignia 
— Amulctos diverso» — Lucanga ; ocromonial para a sua colloca^ào — Ca«cavoi» e 
guicos — Mutilayòes o pintura» na cara e no corpo, onipregadas cumo embelleza- 
mento — Instrumentos do musica — Chissanguc e marimbas — Instrumentos do 
corda, de vento e do paneada 321 a 379 



XIV EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 



CAPiTULO vn 



USOS E COSTUMES MAIS NOTAVEIS 



Necessidade de eitndo demorado para te conhecerem os utos e costumes dog povos qae 
o vii^ante visita — Sauda^Ses matatlnas ao potentado e modo por qae este Ihes 
corresponde ; formolat em uso ; nomea que teem, scgundo a« tribus — Cumprimen* 
tos e ■auda95es por oceasiio do encontro de pestoas nos caminbos ; modo de sau- 
dar entro as pesMoas intlmas — Tranamistio de noticiaa e habito de as detorparem 
•>- Ezclamafdea e geaioa aiffniflcativoa do variaa emo^Sca — Manifestasse! de res- 
peito, de cortesia e de atten^io — Audienciaa ordinariaa e andienciaa aolemnes ou 
Marne» — Proceaao aegnido nos pleitos ou demandas, vUlongeu, e modo de os promo- 
ver e decidir — Factos ezemplificativos — O nosso modo de proceder nestcs casos 
com 08 indigena* — Ceremonias usadas entre os Quiòcos e os Lundas ao dar-sc por 
terminada a milonga — Audiencias para rcsolu^ào de negoclos do estado, para 
recep(4o de visitas e para expedir ou receber meusageiros ; pragmaticas observa- 
das para a sua abertura, no decurso d'ella, e no seu encerramento — O Muatiànvua 
nas audiencias ; expedientes de que usa para entreter a assemblea antes das audien- 
cias — Narrarlo feita por Xa Madiamba doa seus trabalhos durante o exilio e em 
quo pos em relevo a extrema dedicarlo e fidelidade da sua muàri — Exito felix da 
sua eloquenda — Musioos e improvisadores uà córte — Dan^as guerrciras e outras ; 
frenesi dos dan^adores — Provas Judiciarias ou juramcntos — Superti^Oes e agoi- 
ros ; creu9a em feiti^arias — Casos cm que se nSo applica o Juraraento — Assassi- 
nato horrivel de urna mulhf*r inflel — Pouca frequencia d'cste genero de crimes e 
. de outros menos gravcs entre os gcntios — Reflexùos sobre a escravidào .... 381 a 440 



CAPITOLO vm 



USOS E COSTUMES MAIS NOTAVEIS 



Cuidados com as mulheres no periodo da gravidez; nascimentos ; manifestafSes rui- 
dosas por essa occasi&o — ImposÌ9do do primeiro nome ao recemnascido ; periodo 
da sua amammentaf&o ; mudan^as que se dào na mulber depois do primeiro parto 
— Uso da circumcisio para ambos os sexos ; imposiyào de nomes novos ; a cir- 
cumclsào comp requisito indispensavel para a invcstidura na auctoridadc — ('o- 
guomei de ca^a; ca^adas; queima do capim; modo de tratar a carne do cavallo 
marinho ; fatta de sai ; avides pela comida animai ; uso exeepcional de comer carne 
de c&o entre os Bàngalas; epoca das ca^adas; culto do seu patrono; emprcgo do 
veneno na ca9a e na pesca — Salda dos potentados ; composiv^o do seu sequito 
em visitas e emjomadas — Maneira de indicar os trilhos em marcha; aptidào dos 
guias para se orientarem ; repugnancia do preto em marchar de noitc — Auxilios 
prestados aos dooutes e impossibilitados de caminhar; exemplos do dedicafào e de 
reconbecimento pelo beneficio reccbido — Trabalhos agricolas; colheitas ; trata- 
mento da mandioca e prepararlo do infunde — Da alimentarlo em goral ; refel- 
(5es e USOS que Ihe diaem respeito — Luctas ou guerras entre os indigenas; impo- 



ETHNOGRAPHIA E HISTOBIÀ XV 



•ifio de nomei de guerra — Jago» ; dan^M e cantigas — Progreseo induftrìal com- 
parade em diflbrentes tribus — Casamentoi; praxei obsenradas pelo doìto — Casot 
em qne se fas a venda da malher; laa iltaa^io na tribù — Modoi de expresiar 
affeifio — Polygamia — Oanho com as mnlherea da familia on da tribù ; punirlo 
da que te entrega sem anctorisaflo do seu senhor; casot de vpanda — Bandoa e 
pregóei; correipondencia a distanoia por melo de iustrumentos de pancada — Cau- 
Mw de doen^a ou de morte — Untnraa e pinturas da pelle corno presonratiToi — Tra* 
tamento de certas doeufaa — Adivinhoe e cnrandeiroi — Obitos ; nojo; eeremonial 
obtenrado noi entemunentot — Varias maneiras de dispdr doi cadaveres — Vliitas 
de pesame*; culto peloi mortos — Adoratilo do Zdmbi ou Ente Supremo — Con- 
ci»"*© 441 a 580 



CAPITULO IX 



SUCCESSAO DOS MUATIAKVUAS 



Mnatiinrua lanvo — Noéji — Muquelengue Mulanda — Mutoba — lanvo Noéji — Ma- 
canxa — Mulàjl — Umbala — lanvo (3.«) — Noéji (2.^) — Muld^l Umbala — Muteba 
(2.*) —Umbala (2.*) — No^ji Ambumba, vulgo Xanama— Ditenda, vulgo Chlbinda 

— Noéji Cangàpua — Quimbamba, vulgo Mariba — Mucanza, Muatiànvua interino 

— Umbala, idem — Promessa de Xa Madiamba de ser Muatiànvua, caso Portagal 
concedesse o sen protectorado & Lunda 521 a 665 



CAPITOLO X 



CONSIDERACOES FINAES 



Algumas palavras icerca do estado social do negro — Exemplos de affeÌ92o na familia 
— Sentimento de caridade — Hospitalidade — Auscncia de sinceridade nas prò- 
messas; indifferenya pelaverdade — Nofio de pudor — Respelto pelo branco— Tes- 
tcmunhos de amixado e de boa indole — Castigo imposto ao ladr&o na tribù ; sobre 
o modo de facer Justi^a em geral — A péna de tallio — Falta de habitos de trabalho 
rogular — Preceitos sobre a mancira de commerciar no sertio — O negocio do 
marflm — Probidade dos devedores — Fraudo de um potentado — O traflco do sai 
e dos escravos — Estado mental do negro — DistincfSes que fscem das cdros, e 
dos sons na musica — Astrologia naturai — Uso de similes e compara^òes — Ditos 
conceituosos; adaglos e proverbios — Jofros de palavras e adivinha^^es — Influen- 
cia civilisadora dos Portaguexes — Differen9a de dialectos e ma interpretavio du 
vocabalos — Ideai religiosas — Unidado do grupo ethnico constituido pelos povos 
Tus — Conveniencia em vulgarisar pela imprensa os conhccimentos adquiridos 
pclos Portuguezes àcerca dos povos africanos desde a sua descoberta — Obrlgafio 
que temoB de levantar o nivel moral das tribus sujeitas à nossa influencla — Faci- 
lidade de adapta^io do negro aos nossos usos e costumes — Exemplos do vivacidade 
e de Intelligencia em dois adolescentes trazidos do inturlor pelo chofe da Expe- 
diflo — Necessidade de se enviarem bons mlssionarlos para Africa corno agentes 
de civilisa^o 607 a 731 



Ul."" e Ex."" Sr. 
Consellieiro Henrique de Barroa Gomes 






— a 



w 

tu 

»pO] 
mi 



. altissimii pi-otec(;.ào de V. Ex.' que se pu- 
blicam os primeìros volume» de urna parte dos traba- 
Ihos e das ìnvestigaijòes a que procedeu a ExpedÌ9ào 
lob meu cotumaDdo è, musBumba do Muatiànvua, na 
.frica austi-o-central ; deixai'ia eu, portanto, de mani- 
festar um dos setitimeutos maia profundos que me ani- 
mam, ao dar incremento à publicìdade d'eatea trabalhos 
a gratidào — , se nao inacrevesse o respeitavel nome 
V. Ex.' naa primeiras paginas de um doa livros qiie 
m agora a lume. 

Preferi multo de. proposito eate, em que trato da 
ethnographia e da liistoria tradicional doa povoa, que 
habitam a vasta regìào, que se estende entre os 5" 
12° de latitude a S. do Equador, deade o concelbo 
te Malanje até ao 24° de longitude a E. de Green- 
wich, para o dedicar a V. Ex.' ; colloco-me asaim à al- 
tura de quem bonra o alto patriotismo proverbiai em 
V. Ex.* e, com muito entbuaiasmo, significo o meu re- 
inhecimento para com V. Ex.', dizendo franca e leal- 
inente que todoa os trabalbos da Expeditjào Portu- 
gueza. ao Muatiànvua foram acolhidos por V. Ex.' com 
yerdadeiro interesse e com a mais aiaccra deferencia. 




Nào eetào ainda, Babe V. Ex.° muito beni, resolvidi 
todos OS problenma que respeìtam l'ta rai;as da Afrfi 
intertropìcal ; ma3 tambem nSo deisa V. Ex.* de rea 
iihecer quanto urge dar todo o impulso e toda a pr 
tec(;ào a quaesquer estiidos e investiga(|'6e8 d'està ni 
tureza, para que aa na(;òes estrangtiras, que d'ellea i 
estào occupando, se nào julguem as unicaa nassa mi. 
sào, nem continuera a apresentar-noa corno inconip' 
tentes para asta ordem de ti-abalhos. 

E, pois, necessario que se reatabele(;a toda a verdi 
de, e que Portugal, accumulando as provas ìrrefragi 
veis que possue, nem por uni momento ceda o Ioga 
que lUe compete comò nat^ào colonlal e cìvilìsadora. 

Sào desconhecidos quasi todos os trabalhos dos Poi 
tiiguezes no8 differentes ramos da activìdade humanf 
e nào o sào menos os aurvi^os, constantemente presti 
dos ha mais de qiiatro seculos, pelos filhoa do torrS 
patrio em que me honro de ter nascido, a todas as n 
9a8 inferiores, tanto na America comò na Asia e n 
Africa, e poi-tanto ao mundo inteiro. 

Poderiamos seguir o mesmo systcma, em prol d 
progresso, da civiliga<;ìlo e da hiimanidade no seìo d 



continente africano, trabalhando com enthusiasmo e 
•^edicaijào, embora por todos olvidados, porque nós so- 
mos pouco expansivos e apregoadorea dos proprios 
feitoa, — poderìamos, se as outras nagÒes nào quìzeasem 
esbulhar-noa de toda a gloria e ainda de todos 08 di- 
reitos, fazendo-no3 aa mais flagrantes injustiijas, diri- 
gindo-nos as mais crucis accusa95e9! 

Astìim, é indispensavel pormos de parte a mal ca- 
bida e ruimmente interpretada modestia, safmios do 
Bilencio em que temoa cstado, rebater as infundadas 
ìnformafjÒea , fìlhas de intereasea partìculares, fermento 
e incentivo de continuados litigios poHticos, e estorvo 
que difficulta a marcila regalar da nossa adminiatra<;So 
colonia]; fclizmente, porém, gra<;a8 aoa muitos aacri- 
ficios que noa ultimos vinte annoa temoa feito, vae 
està moatrando o que pode prodiizir devidamente refor- 
mada. 

E beni conhecida toda a lucta que se levaiitou cen- 
tra nós, desde que Livingstone apreaentou ao mnndo 
civilisado OS seus pi-inieìros trabalhos nos sertòes da 
Africa anatrai, que nós ji'i liaviamos percorrido de urna 
Eh outra costa, e onde elle penetrou com a noasa ìnfluen- 



eia e protec9&o, e onde elle vìu que o nosso commercio 
se mantinha e sabia imp6r-se às exigencias astuciosas 
dos povos selvagens, sem necessidade de recorrermos 
à for9a das armas. Seguiram-se a Livingstone outros 
exploradores; serviram-ue elles tambem de linguas e de 
guias, com quem se faziam entender na lingua porta- 
gueza, sem o que là nSo poderiam andar. A despeito 
d'estas verdades a lucta augmenta e tem sido para nós 
das mais funestas consequencias. 

Nào é este o logar opportuno para fazer um estudo 
comparado de todos os nossos trabalhos em Africa com 
OS das outras na9oes, nem tal é meu intento agora; mas 
devo dizer, e V. Ex/ o sabe, que nem todos os proble- 
mas da ethnographia e da historia tradicional dos po- 
vos d'Africa na regiSo intertropical, tiveram a precisa 
S0IU9SL0 por parte dos exploradores, viajantes e missio- 
narìosestrangeiros; e que ninguem melhor do que nós 
pode contribuir para esse fim, a que a sciencia aspira, 
e em condÌ9des que urna justa e sensata critica o possa 
receber e approvar. 

Esses exploradores e viajantes nao podiam enten- 
der-se com os naturaes do continente que pretendiam 



estadar, pensar corno elles e com elles se consubstan* 
ciarem, avaliando-os nos seus prazeres e nas suas dores, 
na familia e nas coUectividades mais ou menos rudi- 
mentares, nas produc95es industriaes, na lucta para a 
vida e no seu mais intimo viver. Faltavam-lhes predi- 
cados essencialissimos — o conhecimento dalinguagem, 
o sentimento acrysolado e menos apregoado da huma- 
nidade, e o desprendimento de interesses egoistas. 

NSo é nnma rapida viagem,-e demais com Inter- 
pretes que das linguas modernas so mal conhecem a 
portugueza — , que se estuda o portuguez para entender 
interpretes e povos que se demandam. Teem os povos 
de rude civilisa^ao a que chamamos selvagens sua cul- 
tura tambem, que na linguagem espelho d'ella se 
amostra com delicadeza de significado e cambiante de 
ideas por vezes tao diversas e quasi sempre tao pecu- 
liares ao seu desenvolvimento intellectual e ao sen 
gran moral, que so o largo e familiar convivio e a de- 
morada pratica no'-la destrin^a. 

E é neste estudo que se destaca, pela persistencia, 
o martyr da civilisa^ao africana, o dr. David Living- 
stone, que là perdeu a sua vida; e com està roubou a 






morte & scienda os tràbalhos linguisticos, que so elle, 
descansado no gabinete, poderia ir explanando, tàzen- 
do-no8 conLecer a verdadeira interpreta^So, o caracter 
naturai, a fei^So propria de fallar d'aquelles povos em 
cujo 8610 demorou — o que se nSo inventa mas se al- 
canna na pratica e no tbeatro das investiga^des. 

A proto-liistoria d'estes povos, tirada das tradi^oes 
communs d'elles e a historia de cada urna das tribus 
de pjsr. si, nSo se fazem sem verdadeiro conhecimehto 
dot 0K$ai dialectos ; e em Africa entre estes povos, onde 
se nfllf *encontram documentos archeologicos, archi- 
tectonicos e escrìptos é o estudo persistente nestes dois 
earacteres importantes, historicose glottologicos, e o dos 
ethnicos, que entao facilmente se obteem, que nos hSo 
de encaminhar para o estudo das raQas, o qual neste 
continente, no dizer dos homens da sciencia, est^ in- 
teiramente por fazer. 

Quanto maior for a differeuQa entre a nossa ci vii i- 
saQào e a do povo que queremos estudar tanto mais 
necessario se nos toma para que fallemos e compre- 
hendamos bem a lingua ou dialecto d'elle, que vivamos 
da vida d'esse povo ou d'essa tribù e que pensemos inti- 



[ inamente, servi iido-nos dos inesmos termos e das mes- 
I mas locui;.5es e alluaÒes que nos devem levar ao cere- 
rbro a» ìmagens dos objectos locaes e as 8eii8a9Òes daa 
I tnesmas commo(;5e8 psychicas e comparaijòes que taes 
l objectos eslabelecem, na mente d'esse povo, e sintamoa 
teasas commo^òes ou aa comprehendamos corno elle as 
I sente, corno elle as concebe. 

Mas sentir corno os proprlos indigenas é ti-ansfor- 
Imar-se psy chicani ente; e quem sae de iim meio corno 
lo nosso, nSo pode logo facilmente tranaformar a sua 
Imentalìdade, l'ecliar, para assim dizer, toda a sua vida 
Iphyaica, moral e iutellectual, para a conservar muda, 
jsquecida durante um certo periodo, e ter a indiapen- 
leavel coi*agem e resigna^So para tornar um logar 
lentre aquelles com quem pretende conviver por algum 
Ktempo. 

E a linguistica o principal instruraento de investiga- 
1^0, de que tem de se munir quem tente resolver os 
rprincìpaes problemaa de ethnograpbia de um povo. 

Por isto eu, para poder aer coraprehendido nos meus 

l'ìntentoa, tratei logo de ir eatudando os dialectoa daa 

ribus com quem qtieria maiiter rela(;:òes; tratei de in- 



vestigar das provenìencias dos vocabulos, que me ps 
reciam compostos ou derivados, e da razSo dos que dil 
feriam em populai;5e8 TÌzinhas; e para corroborar o 
meUB estudog e appUca<;oe8, reiinia todoe os artefacto 
onde mais se imprimia o caracter de cada familia, d 
cada communidade, procurava apreciar as condi^Sfl 
ethnographicaa dos povos com qucm estava mais en 
contactoje comparando estes mena trabalhos com a 
ìnvestiga^ÒeB de grande numero de viajantes, explora 
dores e missionarios estrangeiroa que mais detidament 
se teem occupado d'estea aaaumptos, chegueì il con 
vic^ao de que todos elles se acham superfìcial e incom 
pletamente estudados. 

Sào OS mais emìnentes especialiataa que o confirmani 
e en poderia comprov^-lo. se nao me tornasse demasiad 
extenso, ti-anscrevendo largos e desenvolvidos trechoi 
em que todos estea benemeritos da sciencia appellai 
para oa novos exploradorcs afrìcanos, recommendtu] 
do-lhes o que mais convem fazer para se apurar tedi 
a verdade, nas condi^òes em que a sciencia o exigf 

Nào jdeisarà V. Ex." de reconhecer que seria mia 
um valioso aervi(;o preatado por Portugal é. civilisa^ 



dos povos da Africa intertropical e ao progresso e boa 
administra^ào das suas possessòes, se o Governo de 
Sua Magestade Fìdelissìma mandasse proseguir nas 
principaes Ìnve8tÌgai;òes linguisticas e etlinographicas, 
de que os meus trabalhos sao apenas ìnicio, e as fizesse 
completar com os estudon sobre a accliraata^ào das ra- 
9as extratropicaes, esaminando todas as condÌ9Òe8 de 
adapta^ào, de traballio e de propaga^ào. 

Mas perraitta V. Ex.' que desde jà affimie que as ra- 
(jas do norte, de tropicos a dentro, nào poderao traba- 
Ihar, eem o ausilio dos povos que abì se encontram 
e hào de for»;à-los ao trabalHo e manter por multo tempo 
a escravidào tal corno existe entre. elles — , por ser in- 
Btitui^ào que Ihes é indispensavel, nJìo obstante prò 
clamar-se no mundo ciWlisado, que aquellas ra9as 
procuram combaté-la. Sabemos o que valem estas pseu- 
do-humanitarias lucubra^Ses philosophicaa, logo esque- 
cìdas na pratica por seus auctores que, ao envez do 
que ensìnam theoreticamente, se servem de escravos, 
teem mantide a escravidào e nào podem deixar de a 
manter — posto que a poaeam minorar ejamaisdevam 
peorar corno infelizmente e censuravelmente oi'azeml 





perfeito conhecimento da niaior, oii menor facìH- 
dade de oa diversoa povos da raija branca ae poderem 
ahi acclimatar, é o modo maia pratico de, codi segu- 
ran(;a de boni exito, se fazerem eucaminhar para deter- 
minadas localidades as correntes da nossa eniigracjào 
e de se reformar, com proveito, teda a nossa adminìs- 
tra^ào colonial. 

O qiie temoa nós feito neste sentìdo? 

Beseulpe-me V. Ex.' a franqueza rude, que sei, infe- 
lizmente, nao agrada — temos seguido a retina e nada 
maia ! 

Quaes sao oa reaultados, com applicaijSo, que Por- 
tugal tcra obtido daa institui^òea que nos ultinios vinte 
annos tem niantido com multo sacrificio, uos sena do- 
minioa, em Africa, procurando sempre dar-lhes desen- 
volvimento progressivo? 

Temos ali observatorioa meteorologico», bem mon- 
tados, dirìgidoa por pessoas competentea; direc^òes de 
aervi(;o de saude, em quella intelligencias esclarecidas; 
de obras publicaa com engenheìros abalìsados ; agrono- 
mos laureadoB no aeu curao; governadores que teem 
sido elevados aos primeiroa cargOB do funccionalismo; 



juntas de provincia em que se discutem as questSes 
mais impoi*tantes è além de ludo isto, no proprio mi- 
nisterio dos negocios do ultramar, urna j unta consultiva 
composta de auctoridades reconhecidas sobre assum- 
ptos de administra^So colonia!. 

£ onde encontrar, para consulta, està junta, — o mi- 
nistro, qualqi^er emfim, — as deducQSes, estudos sobre 
OS resultados . essencialmente praticos de todas estas 
instituifSes'r \* 

De que servem, mesmo, todas essas public a9oes es- 
peciaes dispersas, observa^Ses meteorologicas, descri- 
P95es, catalogos, actas, propostas, regulamentos, map- 
pas, cartas, schemas, etc, se d'estes trabalhos se nao 
tiram conclusSes, nSo se indica o que é applicavel na 
pratica, nem o modo comò caminhar para attingir o 
fìm que devemos ter em vista? 

V. Ex/ bem o sabe, nSo ha ignorancia entre nós, 
nSo, corno o fazem propalar as na^oes que jnvejam a 
nossa situa9So e o predominio que temos sobre todos 
OS povos na Africa austro-central ; o que ha — é a 
falta de meio intellectual commum, comò existe entre 
aquellas na^Ses, em que se apreciem e discutam os 



trabalhos preliminares para estudos comparados, a que 
se de a publicidade devida, agrapando-os aegxmdo a 
clas8Ìfica9So que Ihes cabe; fetltam-Dos repartÌ95es es- 
peciaes na mesma junta coDSultìva, ou independentes 
da junta, uà mesma direc^So dos negocios do ultramar, 
com auctoridades competentes e o pessoal indìspensa- 
vel, para que ali se collijam e compulsem todos esses 
documentos que se inutilisam nos archivos. So d'està 
maneira se poderSo fazer estudos comparados, extrahir 
as leis e preceitos que na pratica se devem observar, 
formular as instrucQSes convenientes para a melhor 
orìenta^Slo de trabalhos scientìficos e administrativos, 
publicar revistas mensaes de propaganda, em que fi- 
quem coordenados todos os assumptos devidamente es- 
tudados para serem apreciados e sujeitos & crìtica sen- 
sata, que elucida e fructifica; emfim, para qu^ de todo 
este trabalho jà possi vel sàiam livros de cunho officiai 
com a illustra^So in dispensa vel, nào so para se corrì- 
girem tantos erros e censuraveis interpreta^Ses de es- 
trangeiros e de nacionaes, largamente disseminados 
na maior paiie dos livros de vulgaiisa^ao que correm 
pelo mundo civilisado, mas tambem para que se pos- 



sam assentar as bases sobre que se deve inaugurar urna 
nova phase da regenera^ao dos nossos domìniog afri- 
canoa, a par das a8pira95e8 a que temos si do levados, 
pela que se implantou na metropole e progressivamente 
tem caminhado nos ultìmos quarenta annos. 

É um augmento de despesa? Que importa, se esse 
augmento é dividido por todas as colonias e d'elle re- 
sultam proveitos immediatos e novas receitas creadas 
sobre bases solidas ! 

E de mais, V. Ex." hoje o conhece corno um d'aquel- 
les que melhor o sabem, sera esse o meio imico, de pa- 
tentearmos a todas as na95es os servi^os que Portugal 
sempre tem prestado & civilisa93o de toda a Africa, 
desde que a descobriu, percorreu e explorou, e affirmar- 
mos que podemos satisfazer à necessidade impreteri- 
vel, que temos, de nSlo perder o logar na deanteira dos 
que pretendem na actualidade resolver todos os proble- 
mas que mais importam ao progresso da sciencia acerca 
da orìgem das raQas africanas e acerca dos melhores 
e mais rapidos processos de ellas se civilisarem, sem 
ser necessario laudar mSo de meios violentos, perse- 
guindo-as ou eliminando-as. 



V « te, ^ #> 



, . ' 



• » 



' Em todo este trabalho, corno V. Ex.* vera, prevalece 
'^ sempre o eHpirito da observa^So né campo pratico, 

quer sobre diversos dialectos de umafamiliados povos 
que habitam o centro do continente entre as nossas 
vastissimas possessSes de Angola e Mo^ambique, quer 
sobre os seus artefactos, usos e costumes, quer sobre a 
sua historìa tradicional, quer, emfim, sobre os diver* 
SOS caracteres dos povos d'essa familia, que mais os 
confundem, a influencia dos meios e o seu modo de ser 
social ; trabalhos de investiga9ào e compara^ao estes, 
pelos quaes cheguei a conclusSes, que sem perda de 
tempo se devem conij^var por outros meios de obser- 
vacjao; devendo memorar-se, em primeiro logar, os es- 
tudos de anthropologia e de anthropometria por um 
lado, e por outro, os de meteorologia, geologia, mine- 
ralogia, physiographia e climatologia, no que estas 
sciencias feem mais intimo com todas as ra^as, com 
todas as produc^des naturaes e para o que nao faltam 
entidades, com o denodo, a constancia, a abnegac^o e 
cònhecimentos indispensaveis, a par das estrangeiras 
que se teein apresentado a devassar os segredos do 
grande continente africano. 



. ». * 






Finalmente, y. Ex.*, quando nSo veja neste meu pri- 
meiro ensaio a importancia que eu Ihe desejo dar, 
digue-se acceitar a dedicatoria do meu trabalho, corno 
a mais profunda prova de gratidSo para com V. Ex/ a 
par do testemunho de dedicado amoi" ^ nossa patria 
da parte de quem ha mais de vinte annos tem envelhe- 
cido no serviQO das nossas coloniM % 6 



de V. Ex/ 

com todo o respeito e recoilhecimento 

um dos admiradores dinceros 



Henrique Augusto Dias de iSatvàlho. 









Longe de eiiacionar, corno ae dii, o negro 
progride. Muitaa ra^ai. negràt moatram-ae J4 
prepantdaa para paiMrem a um eatado de cìtì- 
liaafJU) auperior. 

A. F. Noouxuu, A Ba^ Negra, ^ 






INTRODUCglO 



iBlaltot <l*etU obnt — Conalden^Sei geraet — AlgamM paUrrM lolire a eooflffwrftfto • 
nAtores* do solo no oecidonte da rariio Muitro-oontiml «fticaaA — OlkMiraf 9m lobiro 
ot Miu habltaatet — Neoetaldade do eatado daa rm^M lobra o ponto de Titta antluropo- 
lofloo e ethnleo ~ Difflcoldadot dette ettudo — Melot de obter eonbeeimentot eal»aea 
dot ntoty eottamet, eren9at, tradlf 9et, Indnttria e aumentarlo dot natoraet — Beffl- 
nen bydrographieo — Atpeetot da rida vegetai e animai — Vantagent quo proveem da 
grande Inflneneia e prettiglo dot Portogneset para te meUiorarem at eondlfSet aetaaet 
dot Indigenat e Idea goral tolure ot melot a empregar para tornar eAeas otta inflnen- 
eia, atlrahlndo etpeclalmente a Immigrarlo do Interlw para ot pontoo da prorineia de 
Angola om quo mait largamente te aeha detenrolTlda a agrlenltnra — Plrovat do ca- 
raeter feenndo e eivllltador da inflneneia PkMrtngnesa na Aflriea— Ei^loradoret alle- 
miet e faellldadM qne Ihet i^roporeionamot — Beilex9ea totKre o ettado aetnal da gente 
da Lnnda e poyot ▼Isialiot — Cantat provavelt da tua deeadenela —Vantagent do et- 
tndo dat tnat tradl^ftet hlttorieaii e dot tene dialeetpt — Utot, eottunet • armat prl- 
mltivat — Ideat faltat e preooneeitoo dot enropeot qne Yltitam o interior —> Proreito 
qae tambem adrlria dat ettar^et eivilitadorat para regitto de obtenrarSet meteorolo- 
gica* e otttrat — Tremoret de terra e ontrot phenomenoi naturaei — Conclut((e^. 



» • 




pesar do bom material de eB- 
tudo que me foi posBivel adqnì- 
rir entra as diversaa tribae que 
encontrei no centro do conti- 
nente africano, ao sul do eqns- 
dor, seria arrojo da minha parte 
determinar desde ji as origeng 
etliDÌcas d'eetas trìbuB e as 
causaa que motivaram o Beu 
estabel ecimento naB regiSeg 
que hoje occupam. firn d'este 
despretencioso traballio é ape- 
nas julgar do desenvolvìmento 
e BÌtua99o actual dos povos afins 

com quem estive em contacto, estudando-os naa localìdades em 

que boje os vemos e sob as influencias de meio a que esOo bu- 

jeitOB. 

Considerada astronomicamente, a zona TaBtisBima de que me 

proponbo tratar demora entre 6° e 12' de lai. S. e 16" e 26' 

de long. E. Greenwich, dando-lbe està situa^So condifSes es- 

peciaeB de clima e de eBta93eB. 

Veneidos ob planaltos que delimitam a regiSo que ezplorei, 

vemoB OS terrenoB descerem extraordinaiiamente para o notte, 



EXPEDI9Z0 PORTUGUEZA AO MUATIXnVUA 



e é para està regiSo e para todas as que Ihe ficam proximas que 
mai particularmente chamamos a atten9So dos govemoB. 

S80 variadas as tribus que por aqui habitam, e tado Be 
noB apresenta, ao eBtudà-las, emmaranhado e confuBO, comò 
eBsas innumeraB florestas, com que, a cada paBBo^ se topa naa 
regiSeB despovoadas, o que desde logo mostra que se tomam 
preciBOB largOB amios de permanencia entro essas tribuB para 
se proceder As investigasSes mais indispensaveis, a fim de que 
se possam esclarecer tanto as questSes anthropologicas e ethno- 
graphicas corno as historicas e as linguisticas^ obtendo-se, aasim, 
documentOB seguros para a compara9^ das ra9as da Afirica 
Central com as que Ihe ficam ao norte e ao sul e com as que 
povoam outros continentes. 

E, na verdade, pouco se tem feito para colligir entro essas 
tribus OS necessarios documentos ethnologicosy cuja coIlec9fto 
tSo proficua tem sido ao estudo ethnico das regìSes do Medi- 
terraneo e em goral do velho e do novo mundo; nem mesmo 
se tem feito o exame comparativo dos artefìu^tos, das armas, 
dbs utensilios e confronto minucioso e sistematico dos varios * 
idiomas ahi fallados^ estudos estes indispensaveis para bem se 
apreciarem as differen9as caracteristicas de cada tribù e as suas 
condifSes de ra9a e de vida physica e social. 

E comò se ha de conhecer qualquer povo som permanecer 
entro elle^ estudando-lhe os seus usos e costumes, a sua lin- 
guagem (ainda nSo escripta)^ e os productos que obtem do solo 
ou da sua industria? 

De que nos pode servir uma ou outra narra$So sobre as vi- 
sitas que nos fazem os potentados, e as ceremonias que nestaa 
se observam? 

SSo acontecimentos mais ou menos ruidosos^ mas que nSo 
servem para d'elles se deduzir o valor intrinseco de um povo^ 
ou apreciar a sua capacidade productora e a sua civilisa9So. 

E o que se pode concluir tambem dos vocabularios^ em que 
se nota um ou outro verbo, uma ou outra palavra, uma ou 
outra phrase^ fallando-se apenas por alto na construc9So gram- 
matica!, som a deducfSo das leis a que ella obedece ? 



ETHKOORAPBU E HISTORIA 



SerSo estes, porventuray os materìaes Bufficientes para se 
determinar orna lingua, a sua estructura e respectiyag trans- 
formafSes ou modlfica98e8 dentro da propria tribù ou na sua 
passagem de urna para outra? 

Por outro lado, nunca se poderà com seguranja &zer idèa 
do estado industriai de qualquer povo, num dado momento, sem 
se fixarem bem as relagSes que so dSo entro o hamèm e o initmh 
nuanto de que usa, e o producto que Ihe corresponde. 

É este innegavelmente o criterio fundamental de que se 
deve lan9ar mSo. Mas comò conhecer d'estes fietctores indus- 
triaes, se nSo nos demorarmos o tempo sufficiente ein cada lo- 
calidade com o intuito de fazer as inyestiga98es mais precisas, 
nfto isoladamente, mas subordinando-as a um methodo homo- 
geneo, variado e sempre objectivo? 

As influencias das localidades na vida dos povos, ji estuda- 
das entro as do dominio historico, sSo de diffidi reconhecimento 
o mài se podem apreciar, se nSo se determinam rigorosamente 
OS fiictos meteorologicos mais importantes e a capacidade do 
individuo que a elles se adaptou. 

O regimen das aguas fluviaes, com relajSo quer às nascen- 
tes quer As chuvas, deve ser tido em muita atten(&o para se 
avallar a fertilidade dos terrenos, a maior ou menor- intensi- 
dade das culturas e a communica(So mais ou menos facil de 
uns com outros povos. 

Cumprìa-me proceder a todas as investiga98es que me ha- 
bilitassem a formar juizo seguro sobre muitas d'estas questSes, 
cssencialmente praticas, questSes de facto, e n&o dar motivo 
a duvidas, comò as que tantas vezes se apresentam da parte 
dos anthropologistas e etbnologos, que se queixam de que os 
viajantes que teem penetrado no continente africano, em vez de 
se limitarem a dar conta dos factos que observam, descreven- 
do-os na sua extrema simplicidade, os envolvem em narra9Se8 
mais ou menos coloridas, segundo o seu modo de ver, que nem 
sempre estari em harmonia com a realidade dos dados anthro- 
pologicos, ethnicòs ou sociaes, os quaes dependem de variadis- 
simas causas e de influencias profondasi comò sSo as localida- 



EZPEDig3;0 POBTUGDEZA AO MUATIÌNVOA 



ì que ellea 



k 



dea, OB climas, a alimentammo, a hereditariodade, 
nSo puderam devidamente eetudar. 

Succede que o viajante, homem saido de um meio (Mvilìaa-- 
do, quando entra no centro da Africa, jà ahi chega chcio de 
tedio pelas grande» contrari edad e s que encontra diariamente, 
pela falta de commodidades, pelos sacrifìcìos que fez e até 
perigoa que leve da correr. Esqueee-ae de que as cousaB mais 
inaignificantes do lar domestioo 
so Ihe devem apparecer corno 
recorda^ So satidosa ; que a sua 
familia se resumé ao pessoal 
que o acompanlia, e que este 
cstA, para com elle num grande 
atraeo de civiliaa^ito. A pro- 
pria lingua quo esse pesBoal 
talla, pela delìciencia dos ter- 
mos, ó cauBa de grandes' em-^ 
bara^oB, pois se ao europeu J 
affluem muitoa Tocabulos para^ 
a niesraa idea e con8trucs5e8 1 
^'^^'^. dÌTersas para a exprimir, o aeu ' 
peseoal e as tribus com quem 
se ve em contacto apenas teem 
um vocabulo para diversoB ob- i 
- **" " jectos, ou mudando-lhe ob pre- 
fi xo a transformam um nome 
(rùot. do e. Mor»ei) numa acsào e vice-versa; fa- 

ctoB que se aggravam quando fazem um discurso a um inter- 
prete, porque eate o rcduz a poucas palavraa na trangmiesSo, 
assim ee estabelece um dialogo sempre enfadoobo, entre o 
indigena e o intorpretc, tendo o viajante de aguardar por 
muito tempo a rcsposta, o que de certo o impacienta e Ihe 
augmenta as centrar iedade a. 

Os indigenas, além d'iaso, no estado de isolamento em que 
teem permanecido e pelo caracter das auaa rela^Sea com os 
eatranhoB, aìEo naturalmente desconfiadoa, nào podendo compre- 




ETDNOGRAPHIA E HI8T0SU 



F bender o alcance das palavras que ouvem, nem tSo poiico que 
I alguem oa procure a nUo ser para negocio. 

O eapirito de curiosidado quo oa domina e a desmodida cu- 
r hìfja. pelaa cousas mais insignificante a, b3o apenas a conse- 
[ quencia do eeu atraso social, e iim indicio de que tendem para 
L o aperfei^oamento e nSo para o quietismo brutal ou iiapro- 
t gressivo. 

NSo nos devemoB esquecer de que é tambem a noaaa curio- 
I «dade, o nosso dcBGJo de 
l ver e de posauir que noa 
estimula e noe faz progre- 
dir, sempre auxiliados por 
um passado que noe legou 
extraordinariaa vantageOB , 
mquanto que OS indigenas 
l^do centro da Africa nlU) co- 
ihecem senSo o que pode 
latiafazer a a euas necesai- 
kdes, tondo atra a de ai um 
isaado de trevas de que 
ì guardam memoria ! 
clima, era que o via- 
jante mal attenta, exerce 
aobre elle estranila ac9So, 
perturbando aa prìncipaes 
fiincjSea do aeu organiamo 
e produzindo-ILe um mal- (cr-quii) 

eetar, que o torna inquieto e incapnz de eatudo cìrcumapecto. 

RA penuria daa povoa^.Sea que habita e das localidadoa a que 
vae dirigindo e que Ihe sSo inteìramente desconbectdaa, 
do concorre para que nSo forme idea eegura dos recursoa 
com que tem a contar, preoccupando-ac aaaim com as maia 
inaignificantcB faltaa e applicando a sua constante atten93lo ao 

Eaa Bupprir. 
^, nSo pode d«ixar de ae aborrecer em pre- 
sSes que se tevantam, e pretende convenccr 





hi 



KXFEOI^XO FORTtiaCKZl AO ItOATlANVtJA 



OS indigetms logo &a primeiras plirases, iiuerendo por fbr^s 
sujeitÀ-loB AB 8U&S impoaifSea, corno se nÌo eativease em terra 
allieia e onde nSo pode dictitr a lei ! 

Vivendo de contrariedade em eiiiitrariedade, ehega a es- 
queoer-se de que os predicados que melhor recommeDdam os 
que de Id regressam com mais aiictorisoda experiencia, sào 
a resigna^do, a prudencla e ft maù completa abnega^So. 

E é porquc estas 8npi-c;maa condi^Ses se olvidam, que se 
nota miiìtaa veses, nas primeiras paginaa dos seiis diarios, 
dassilicarcni niuitos viajantes de selvagem iim povo apenas 
por «ni ou outro facto isolado, pìntando o com ss c6re» mua 
feiaa, e alguui tempo depois, j& faniiliarieados com os seiis 
xiBoa e coBhimes, apreciareni-no multo mais favoraveiraonta 
lì em piena oppoBifHo com as primeiras informa^Sea que 
deram. 

Nao é raro, nas deacripvSeB feitaa pelos mcsmos viajantes, 
ser avaliado ao principio o povo, de qne tratam, apenas por ai» 
guns individuoB qne observam, dea e re vendo -se corno deagrAfa- 
do, desproporciooado, rachitico e de roste repugnante; e mais 
tarde, em vista de outros individuoa que se Ilie apresentam me- 
lhor alimeotadoB, maia desenvolvidos, ossea viaJMntea conaide- 
ram o raesmo povo comò gente gncrrelra, de formas athleti- 
cas, lembrando os aiitigos gladiadores roinanos, e recommen- 
dain-no corno bona modelos para estiidoti de escuiptnra. 

E as informa9Ses aaaim contradictorias, refiirìndo-ae & mes- 
ma tribii ou a tribus milito proximaa, s^o o resultado do ma-', 
thodo Bubjectivo que se adopta mesmo nos trabalhos que 
devem Ber inteiramente praticos e exporimeataos, e tecm em- 
bara^ado os homons competentea que desejam de laes deacrì- 
p^Sea colber alguna resultados para a sciencia. 

Ora, se ha eludo que exija mais aocego de eapirito, e a muor 
imparcialidade de opiniilo é sem contestatilo alguma o das tri- 
buB africauaa, com que se logra estar em contacio ; e sem esse 
eatudo despreoccupado a etlmographia nào poderi progredir 
nem tìxar-se em bases seguraf. 

É necesBarioj que numa cxplora^ìo das tcrraa da Àfrica 



BTHNOGRAPail E HISTORU 



Central, corno eni todas as explora^Sea nnalogas, seja qual for 
o objectìvo que se tcnha em vista, aó se preste culto à verdade. 
Devemos para isso despir-nos de todos os preconcettos, de 
todas aa vaidadee de ra^a, de religiSo e de cultura intellectual, 
e investigar 08 factoa taes comò elle» se apresentam em cada 
individuo, em cada familia e em cada tribù, relacìonaado-os 
sempre com todas as condigi^es do seu vìver physica e moral- 
mente con side rado. 

Os TÌajantes, finalmente, comò melhor se deprehende das 

palavras dos Lomens de seiencia qiie se teem occiipado d'es- 

tee assumptos, obedecem mais &a ImprcssSes de momento, des- 

curando de investigar mais de cspa^o as condigSes ìntimas de 

L cada collectividade. 

E indiapenaavel quo elles se insinuera no animo doa indigc- 

nae, acompnnhando-os noB seus soffrimentos e prazeres, ava- 

I!ando-os naa diSerentes phases da sua vida e estudaudo as 

Lcaueas que mais accentuadamente aa determinam no tempo e 

espago, e nssim poderSo evitar erros qne dìfficultem ou 

l'Inutilisem OS trabalhos que hajam emprehendido, quasi sem- 

jfcprfì com a maior abnega^ e desprendimento. 

Teem-se obtido, noutras regÌ5ea do continente africano, era" 

I nioB, 08808 mesnio eaqucletoa humanos; mas além de serem 

em quantidade limitada, nSo sSo acompanhados doa eaclareci- 

mentos maia importante» para se determinar precisamente a 

tribù a qiic pertencem e apreciar, em bases exactas, o aspect 

[eral doa povos de qualquer regiilo da Africa Central. 

E corno se hilo de fìxar as condÌg5es organicas de todas as 

. tribus, que aqui vivcm, sem os eetudos feitos localmente, prò- 

F Gurando-ae tanto quanto seja poasivel todos os dados e docu- 

I mentOB que os coraprovcm? 

E corno poderlto adeantar-se esscs estudos das ra^as da 
p Afi'ica intertropical sem museus bem organisadns, e sem as in- 
fc.TBBtigagSe» geologìcas doa terreno» onde vivem as tribus de 
* que se deseja estudar a vida e capacidade progressiva? 

E comò podem aproveitar-ae os exemplares que se teem en- 
TÌado para os museus? 






EXPEDIfXu POSTUGITEZA AO HCATlilTTUi 

CoiiBegue-ae, no limite 
ilo possivel, noB iaborato- 
rìoB em que tudo so iaz 
com methodo — medin- 
do OB exempIareB com os 
mais rigoroBos instrumen- 
tos — confrontar o mate- 
rial anthropologico com o» 
dadoB obtidoB pelas ana- 
lyaes feitas noutras ni9as 
a que se applieam ob mes- 
nios compasBos, as mes- 
inas balanjas e um me- 
thodo igual de trabalho. 

Chega-se, aem duvida 
ulguma, a fazer a mais 
rigorosa deacrip^Ho e pro- 
<:ura-se mesmo fazer a 
comparasse com ob ele- 
iDL'ntos de outras ra^as 
ju estudadas; mas seme- 
Ibante confronto é muito 
vago, pouco segiiro aob o 
ponto de vista geral, fi- 
cando em lodo o caso por 
L'onhccer o estado de cada 
tribù, atteutaa as trondi- 
(;òi'8 em que se obteve o 
111 uteri al da estudo. 

Pois aera sufficiente, por 
cada esemplar de authro- 
pologia que se envia, de- 
terminar apenas a data em 
que foi encontrado, e a 
localidade em que estava? 

NSo, por certo. 





ETHSOGRAPHLA K HISTOltlA 



U 



No estado, em que se encontram actualmeute ae tribuB a&i- 
canaa que conlieci, é dìfEcilimo aaber se uni esqueleto per- 
tenca realmente à tribù que occupa certa localidade no mo- 
mento em que d'elle se faz acquisijSo. 

É absolutamcQte necessario manejar perfeitamente a lingua 
conhecer os ubob e os costumes de cada tribù, aa Buai gner- 
ras e supereti^Sea, para ae evitarem informa^Sea exaggeradas 
que nSo podera reaistir a urna critica jufta e sensata. 

Deve meamo empregar-ae 
o metbodo aubjectivo, com ak 
maxima cautela, nSo ae guian- 
do OB viajantea por inibrma- 
gSes doa indigenaa sem as 
contrapro vare m sempre que 
possivel seja, por meÌo de 
urna cautelosa observa^So. 

Os indigenas nio se pres- 
tam facilmente a quaesquer 
explìcagSea relati vas a um 
cadaver, Fogem d'elle, e nSo 
ousam mesmo tocar-lhc! 

Em caao de guerra ou em 
lucia com os aeua inimigoa, 
corno acto de valeatia e no 
onthuaiaamo da refrega, aepa- 
ram a cabeja do vencido para 
a levar corno tropheu da Victoria e de supremacia sobre aquel- 
les que concorrem à guerra. VSo collocd-Ia aos pés dos seus 
chefes na esperau^a de, pelo numero d'ellaa, verem galardoa- 
dos OB BeuB servÌ90s. 

Mas Bobre csteB mesmoa crantoa que ae possam obter, 
qoantas informa^Sea fabulosa» n&o os acompaubam, e quanta» 
outraa nSo se the ajuntam quando se tornam do dominio do 
viajante ? 

Forma-ae mesmo a respeito d'eatea cranioa uma lenda, que 
augmenta segundo oa potentadoa que ae vSo succedendo na 




Ttre qjiitce 



(FbaL da Xipedlclo) 



12 



EXP^DI^AO FOKTOGDEZA AO UUATUMVUA 




posse dollos, exagger&udO'Be ob seus feitos e deturpando-se tudit. 
a verdade. 

Reconhecia eu todaa estas difEculdades, e apesar d'isso ten- 
tei por mais de urna tbz obter cranioa de individuos que eu 
conhecera, com quem tivera mesmo de entretcr rcla^Ses por 
itl^m tempo e de quem tmlia alguns esclarecimentos sobre 
a vida, naturalidade, filia^So, tribù e localidade em que està- 
vani, e que, por doen^Ji ou victimoa daa super9tÌ53e8, succum- 
biram e tiveritra sepultura muito prosima da minba residencia, 
ou foram mesmo abandonados nos matos. NSo me foi posaivel| 
tudavÌB, adquiri-loB, corno tanto deaejava, tendo alida acerca 
d'cllea as mai» corapletaa Ìnforma93esj e peccava mesmo quo, 
se Tiesse ao conhecimento dos indigena» que eu oh aprovei- 
tava, ine levantassem algumas difKciddadea na iniss2o de que 
eu estava encarregado e que, por forma ueubuma, me arris- 
earia a comprometter. 

Era meamo de esperar, que se aervisaem d'esse facto corno 
argumento em deaabono da causa que eu advogavji jimto d'el- 
lea, iato i, empenbar-mc era que oa cbefus n3o pudesaem man- 
dar matar oa soua aubditoa, e por que case genero de castigo , 
cessasse por uma vez. 

Tive eacrupulo em recolher oa eaqueletos ou cranios que vi 
por algumaa vezes diapersoa no meu caminbo sem atteatados , 
authenticoa da aua origera, e assim dcixei de fazer o colleccio- ,j 
namento de alguns materiaea, que podiam aerrir ao estudo daa 
condi^Scs biologicUB d'estes povoa, e aoa trabalbos de crani»- j 
logia, que na Europa e na America teera nestcs ultimos tem- 
poa adqiiirido grande deaenvolvimento, 

A anttiropnmetria feita noa vivos é um dos recnrsos mais 
empref;ado8 para o estudo das rn^as, mas, nas circumatanciaa 
era que ainda hoje ee viaja no interior da Africa Central, é 
quaai impossivel proceder com o devido rigor a Bemelbantee 
medi^Ses. 

Mas jà nsaim nSo auccede era quaeaquer daa nosaaa provin- 
cias, meumo noa logarcs mata internadoa, pois que ahi se pode 
orgaoisar um gabinete de trabalho, embora provisorio, proce* 



BTHKOORAPHIA E HISTOBIA 



13 



dendo-se às investigafSes anthropometrìcas mUs recommeii** *' 
dadas, e evitando sobretudo o sermos precedidos ali neste genero 
de investiga^Ses por outras nafSes coIonisadoraB. 

Os fins da ExpedigSo, a meu cargo^ eram além d'isso muito 
especiaes ^, e por isso nSo me fomeci dos instrumentoa nem 
das in8truc93e8 que mais se recommendam para estudar as 
condifSes organicas d'estes povos ; mas^ ainda assim^ no intuito 
de aproveitar o tempo, recorrì a outros meios de apreciar cada 
uma das tribos nas condÌ98e8 em que ellas se encontram, es- 
tudando os seus dialectos, usos e costumesi as suas ferramen- 
tas e utensilios, observando os indigenas nos trabalhos das suas 
rudimentares industrias, comparando-os nos seus tra908 physio- 
nomieos e mesmo medindo-os quando isso era exequivel, o 
que tudo constitue o objecto especial da EAnographiUf de que 
me occupo neste trabalho, com o firn de chamar a atten98o dos 
poderes publicos sobre o assumpto, e de fomecer subsidios que 
possam contribuir para se determinar a origem das ra9as com 
que estive mais em contacto. 

E cumpre observar aqui mesmo, de passagem, que nSo se 
fiaseram ainda as investigagSes mais altamente reclamadas pelos 
homens de sciencia, em toda a Africa Central, subordinando-as 
a um methodo homogeneo e praticamente exequivel para todos 
OS exploradores e viajantes. 

Creio que seria de grande conveniencia proceder-se à orga- 
nÌ8a$So de um congresso colonia!, destinado a apurar todas as 
observa^Ses e estudos jà feitos, e a formular os modelos ge- 
raes a que deviam st^eitar-se os que sSo encarregados de fazer 
explora95es nos territorios intertropicaes, onde ha problemas 
inteiramente novos a resolver. 

Os trabalhos scientificos sSo -mesmo sacrificados ao rigor de 
economia, e os viajantes muitas vezes, com grande màgua, 
nSo podem fazer-se acompanhar de todos os exemplares em 



1 Consultem-se as respectivas Instruoffet no voi. i da Disobip^So n* 

YlAWtM. 

* 



14 



EXFEDlf Io FOBTCOUEZA ÀO KOATIÌNVUA 



qne baseiam m^iitos dos seus eetudos, vendo-se obrigadoa até 
a abandonar dguos dos que jà haviam reglstado nas soaa 
cardasi 

Convem tambem obscrvar que mna espedi^ao unica ii3o 
pode flimultaneamente tratar de coUec^Ses geologicjis, minera- 
logicas, botonicas, zoologicas, elbnographicas, e alnda dos obje- 
ctos mais iadiepensaveis à vida em terraa tSU} iuhospitas, onde 
faltam todos rccurBOs e as doen^aa aSo tSo frequentes. 

O pesBoal auperior da Ex- 
pedÌ5!to a meu cargo, cumpre- 
ine dizei-o, conformou-se com 
as ci rcuin stano ias em que se 
encontrava e nKo dtividou pri- 
var-se d'aquillo quo lUe era 
maie esseucial, indiepeuBavel 
mesmo para a satisfa^So das 
primeiras necesaidades, antes 
do que abandonar ob seus 
doentes, demorando-se, se as- 
sim era precìso, para o seu 
tratamento, fazendo-os condu- 
zir com 08 devidos cuidados, 
e attendendo ao mesmo tempo 
as collec^Òea que bavta adqni- 
rido e que por falta de carre- 
gadores se tornava bem dìffi- 
cil fazer transportar. 
NSo me sendo possivel fazer augmentar o numero d'eataa 
cargas, live de o limitar ao que me pareceu mais easencial; 
e, satisfazcndo aos devercs que me eram particularmente in- 
dicsdoB nas Lwtnic^des que bavia recebido, tralci de recorrer 
aoB procesBos adequados a auxìliar-me no cstudo das ra^as 
com que mais convivia, procurando insinuar-mo no seu animo 
e apoderar-me muito cm cspecial doa dialectoa que lallam, das 
suas raizes, vocabulario, formajRo e construc^So das palavras, 
conhecer na aeua usos e costumes, fixando os mais cnracteristi- 




!■ Elprill;-la) 



ETHBOGKAPHU B BIBTOBU 



15 



eoe e fioeodo-os aoompanhar de formulss lingoisticaH qae 08 
iqpreaentem. 

ICerecenun-me a mws parfa'cnlar atten^So todas as buab tra- 
£$368, &seiido quanto me fbi possivel para reconatitnir toda 
a sna kistoria tradioional, Mmpre contraprovada pela inter- 
[««taflo e significarlo dos Tocabaloe. 

£ a par d'este estndo, tempre cheio de dìfficaldades, prò- 
cnrava examinar os caracteres ezterioreB inus salienteB dos 



maoifeBtafSes moraes e in- 
tellectnaes. 

As condi^Ses da sua rida 
phjBica, as suas Inctas intì- 
mas, u Buperflti(3e8 que 
mais dondnam em cada trì- 
ba, Berviam-me de attesto 
estodo, porque, quanto a 
mìm, sto problemas difficeis 
e de qne nlo se obtiTeTam 
ainda ob dadoB sciestìficos 
principaeB. 

A par de todas estaB 
mvestìga^es registei as 
tendeociaa ìndiutriaes qne 
procorara comproTar pelas 
annas, pelos atensilios, pe- 
loB artefÌEtctoB e pelos obje- rcnuDii) 

ctos de veBtnario. 

InrestigaTa do anxilio qae cada tribù tirava doB recursos 
que Ihe offerecia a natoreza, e da infiuencia que Bobre ellaa 
ezercia tudo o que as rodeava, e que està em condìoSes innito 
diversas do que se observa nos nossos climae, ou sob as nosBas 
latitudes Terdadeiramente iucitadoras do progresso. 

O clima por um lado, a hereditariedade e as tradÌ9Se8 por 
oatro, sSo os factores por onde melbor se avalla o estado em 
qne se encontram estas tribns, e so depois de bem as conbe- 




16 



Exi'EDigXo FosraavBXX ào huatUutda 



I 



B é que podemoB avallar a ìoSueiicia que Bobre ellne pode 
ter a approximagSo do liomem branco, civilìsado, e milito es- 
pecialmente do Portuguez — que melbor oa couhece e q^ue 
elles melhor recebem. 

O Portuguez nSo extermlna. Inainua-se, ebega mesmo a assi- 
milar-ae, creando sub-ra^as bem caracteristìcaB, baja vista o 
Brasil, e dando movimento progreasivo aoa indigenaa, corno 
aos de Ambaui e doB concclhos mais proximos. 

Procurei, pois, acercar-me de todoa oa documentoa e de 
todaa aa provaa que ma auctoriaasaem a demonstrar, perante 
todas as na^See coloniaadorHs e perante todoa ob Uomena de 
aciencia que maia ae dedicam ao catudo das ra^as, que oa na- 
turaea da Africa Central tecm mtiitaa condi^òes progressìvaa e 
podem tornar-se verdad^ramente uteia a bì, il familia, i. bo- 
ciedade, ao progresBO e i cìvilisa^o, comò qualquer individuo 
de ra^a branca. 

É eate o prìncipal objectivo d'este traballio, que ae baaeia 
milito principalmente no cstudo das tradi^Set e dog produciot de 
laanufactura indi(/ena de toda a ordem, procurando esclarecer 
asaim algima problcmaa da hiatoria do homem tropical, cujo 
eatudo é tao deecurado na regiSo centrai do continente negro, 
em que tudo, por aaaim dizer, é aindu um mjsterio para o 
mundo scienti fico. 

E, de Facto, corno se bSo de apreciar aem um eatudo atten- 
to, em qualquer regÌ3k), as arma», os in$trumentos, os utetiiilios, 
OB ariefactos, os ohjectos de vestuario doa sena habitantes, oaador- 
TU», aa eomidat e o modo de as cozinhar, at belndas e o procesao 
de sa fabricar, tu conetruc^Zes, ai culturas, a sua aàministra^So e 
regtmen governativo, as ceremonias funeraria», ot nascimento», 
a» cagadaa, as dangaa, o systema de negocios, as tuperstigiiee, a» 
nUgragdes, a» tucta», as guerra», o viver de familia, a» aptidSes, 
a dwagào mèdia da lido, a» doengas, tndo, erafim, que melbor 
pode caracterisar um povo que vive completamente afaatado 
doB centroa maia adeantadoa, e aem oa meios de transporte 
precisoB para estabelecer faccia communica^SeB com as tribus 
mais civilisadas. 




BTHKOQEAPHU E HISTOBU 



17 



Nilo ha ÌMgM dentro de toda 
està zonfr im^^ar, nem gran- 
des tìkb flonaes em condifSeB 
que permìttam desenrolTer-se 
a navegaySo, approxìmaretn-Be - 
aa trìbuB e actÌTar-Be o com- 
mercio. 

Do rio Cuango, de corrente 
longitudinal, até ao Lnbilaxi, 
na meBma bacia hydrographica, 
quasi parallelo iquelle, e qae, 
corno elle, leva as suaa agnaa 
para o Zaire, grande drenador 
sub-equatorial, e entre o 6° e 
12° de latitude ou ainda mais 
para leste, oa factos etlmo- 
grapbicoa, que ia observando, 
encontraTa-os de novo mais 
adeante, semelhantee e algims 
identicoB aos que jà tinba ob- 
servado no meu transito pela 
provincia de Angola, com ai- 
gumaa moditìca^SeB apenaa de 
forma, 

Toda està zona vastÌBsima, 
que se estende por 1:200 kilo- 
metroB, a contar da costa Occi- 
dental para o interior, està fora 
> de todas as Ìn6uencias pelagi- 
- caa, o que Ihe d& feÌ9So intei- 
ramente Continental e isolada. 

Està constantemente domi- 
i pelo sol, que aquì dardeja perpendicolarmente os seua 
raios duaa vezes por anno, sempre com toda a sua influencia 
e com toda a sua intensidade. 

Correm mesmo, sobre a BÌtua9So d'està zona, gravee erros, 




18 



EXPEDItXo PORTDGIIEZA AO HDATIAnvda 



qae urge fazer àesapparecer, para que os immìgranteB nSo sof- 
iram induzidos nelics. 

A cordilhetra que acompanlia o Cuango pelo seu lado Occi- 
dental serve de termo ao planalto de Malanje, e d'alii para 
leete o que existe é urna depress&o ein rampa, mais ou mesos 
ondulada, ató da elevadas cumìadaa da rcgiSo dos lagoH. 

Faltam-lhe, poia, todas as vantageus doa planaltos isolados 
e todas as eeperan9oaaB condi^tfes de aalubridade naturaes que 
ahi ae pretendala encontrar. 

Teda eata regìSo pertence, por aSBÌm dizer, & vertente me- 
ridional do rio Zaire, e é cortada de nachos, ribeiroe e linhas 
de agua, correndo de sul para norte, ajguna em forma de rio 
na parte em que os passei, e na de lagoas e aguas estagnadas 
na zona que se Ihe segue mais a leste. 

Tanto a disposi^So fluvial, a contar do rio Cuango até ao 
Lumdmi, corno a lacustre, a contar do Lualaba aos grandes 
lagos, merece o maia detido estudo, quando ae pretenda fazer 
a sua explora^ào agricola e commercial, 

Os terrcnos abaixam extraordinarìamente quando se entra 
na regiSo que conhecemos, quer se parta de Malanje, quer 
doB lagos, na margem de um dos quaes reside o celebre Muata 
Cazerabe dos noasos esploradores Lacerda e Gamitlo, aos quaea 
devemoa o Diario da Expedi<;ào Porttigueza de Tele a Lunda. 

Ub rios eetreitam-se e quebram-ae em cachoeiras, algumas 
formidaveis, e là vào as auaa aguas alastrar-se nas terraa mais 
baixas, correndo ent3o, depoia, para NW., corno se fossem 
largo rio, e sSo easaa cachoeiras uma daa causaa do isolamento 
daa tribuB, itnpedindo-as de.commuuicar com as tribus do nurte 
por melos faceis de transporte fluvial. 

Oa rios principaes entre o Cuango e Lualaba, com exce- 
p^So do Cassai, mais parecem cabeceiraa ou nascentes do uin 
grande rio do que correntes fluvtaes independentes. 

Descem todas de urna estreita cuuiiada que se estende daa 
alturaa do Bié, sob o parallelo 12", pouco maia ou menos, até 
Ab naacentea do Lualaba, dirigindo-ae todaa para o norte, se- 
{jiiinJo as st'rrns que se levntitiun de um e outro lado, e indo 



?.f 




ETHK06BAPHIA E HISTOBU 19 

juntar-se ao rio Zaire, a una 500 metros de altitude, na sua 
margem esquerda. 

Fàrece que todas estas aguas partiram de um reservatorio, 
elevado além do parallelo 12^, e se dividiram e sub-dividiram 
a procurar caminho sobre essa depressào no centro do conti- 
nente, fazendo as profundas escaya9Òes que se tomaram leitos 
do8 denominados rios^ ficando entro elles as partes mais ele- 
Tadas do solO| que sflo hoje essas serras que deante do obser- 
vador se desenvolvem parallelas umas às outras e baixando 
para o equador. 

As largas faxas pantanosas que orlam de um e outro lado 
estes rioB na epocha das grandes cbuvas, de outubro a mea- 
dos de junbO| mostram-nos que jà foram maiores as suas lar- 
guras e que as terras teem baixado consideravelmente, ou me- 
Ihor, que grandes quantidades de terras foram d'ahi arrasta- 
das para o norte. 

£ tSo singular a disposÌ9lo d'estes rios, que se me sugge- 
rem algumas considera9Ses, que muito desejaria podessem ser 
comprovadas em estudos p'osteriores. 

Sto ainda hoje tSo abundantes as aguas pluviaes, que eu 
creio que, devido a ellas, o relevo do solo tem soflfrido modifi- 
ca98es, e que a natureza se encarregou de p5r aqui a desco- 
berte o minerìo de ferro massÌ90. As aguas dos rios, princi- 
palmente do Cassai, que sSlo bem claras, correm na epoca 
pluvial em seus leitos negros misturadas com a argilla ; todo o 
solo das cumiadas està impregnado do sesquioxido, com a sua 
c5r ayermelhada, e mais aqui mais acolà, nas partes elevadas, 
apresenta-se o minerio à fior do solo. 

Nfto deve ser muito afastada a epocha, em que todas as aguas 
pluviaes se represassem nesta immensa depressilo por nSo en- 
contrarem facil salda para o occidente, por causa das grandes 
cordilheiras em planalto em que afloram as pedras do Congo, 
Encoje e Pungo Andongo. 

Formando estas alturas barreiras inexpugnaveis pelo occi- 
dente, entSo as aguas foram descendo e corroendo as terras que 
encontraram no seu percurso; a essas aguas se reuniram as 



•4.' 



EXPEDICÀO POKTDGDEZA AO MCATIÀKVCA 



que transbordavam da regiilo dos lagoa maìa altoa no oriente 
tamkem cercados por nlterosas montanhas, e, com o seu peM 
e maior velocidade, ajudaram talvez a abrir o leito ao rio Zaire 
que ainda hoje conserva tal for^a de corrente que vence a dai 
coirentea oceamcas, sobrepondo-se as suas agitas a estas at^ 
grande distancia da costa. 

Keatam vestigios de lagoaa e lagoB, que ainda ao tempo daa 
noseas descobertas e explora^Ses deviam ser mais extenaos, e 
creio, portante, verdadeiraa aa infornia9Ì5e3 do nosao Diiarte Lo- 




pea Bobre a exiatencia de iim mar inteiior. E nSo eerà este o* 
verdadeiro Caluuga' doa povoa da regiSo centrai do conti- 
nente? 

Folgo de ter oceasiSo de prestar sincera homenagem aoa 

nossos exploradores do acculo xvi, pondo cm relevo a verow-^ 
milhanja daa suna informa^Bea, 



' Està vocabiilo encofttiou-o Livinsctoni? i 
lagos nas anas uUimaa ezpIoro^ÒeB na regiÀ 



LO cleeignafio de •gru 
OS lagM. 



BTHKOGRAPHU E HIBTOBIA 21 

E muito BÌogalar, na verdade, a distribui^ao das agnas, nSo 
so em rela^So àa montanlias do occidente cuja direcfSo segaem 
mas em coctraste com a disposi^So lacustre das aguaa que 
se estendem ao oriente, levantando-ae ahi de repente o ter- 
reno, sobre o qual ee formaram os Terdadeiros lagos. 

As Bguas do8 lagoa mais altoB, ao norte, trasbordaram nessa 
direc^So e ^& foram formar o 
grande rivai do Zaire, o Nilo, 
jà notaTel pelo Bea delta bem 
corno peloB poroe que ahi lia- 
bitaram — os primeiros quo 
figuram na biatoria da huma- 
nidade ; as aguas doa restati- 
tea que, traabordando tam- 
bem, nfto poderam encontrar 
caminho para oa primeiroa, 
derramaram-se mai a para o 
occidente e formaram a re- 
gtSo lacoatre, aeguindo urna 
parte d'ellaa a unir-se ao 
Zure. 

Este facto, de per si, mos- 
tra qae ha orna divisoria 
distincta entra esaa regiSo 
lacustre e a flnvial que atra- 
veasei, e, portante, que o 
CasBu ou Lulua, com todos 
OS sens bra^os, é a contiuua- 

(So do Zaire, e o Lualaba ou Lualuba, com os diversoa lagos 
que renne, um refor^o que se aeguiu depois a juntar-se-Ihe, 
devido & disposifSo que o terreno fot tomando, pehi forja das 
agoas trasbordadas doa maìores lagos a leste. 

Tanto na regiSo lacustre comò na fluyial aa aguas, aprovei- 
tando OS dectives do terreno para o norte, baixaram e deiza- 
ram a descoberto terras que noutro tempo se nSo conheciam ; 
e parece que é depois d'essa epocha que as correntea de immt- 




22 EXPEDI^AO PORTUOUEZA AO MUATIANVUA 

grai^ das trìbus do norie se estabelecem para estas regiSes. 

E é deyido a essas iiiiinigra93e8y certamente, qae na regimo 
fluviale entre os povos que a habitam^ nada se apreaenta de 
novidade; a nlU> ser o que a natnreza nos offerece com teda a 
sua magestade e pajan9a. 

Entre as manife8ta93es natnraes ha por certo mal estranhas 
noYÌdades e contrastes estupendos^ pois se nns animaes nos 
assombram pela sua corpulencia e grande porte^ outros pela 
sua pequenez nos confundem com os seus trabalhos^ comò sSo : 
o caiéque (kc&dce), d'onde sae o decantado saUdé que fabrica 
as soberbas con8trac93es de terra de formas pyramidaes, en- 
yolvendo algumas os troncos de grandes arvores até certa al- 
tura^ construc^Ses onde se encontram outros insectos ; os maque- 
jes (makefe), que mordem ; os maquindes (makide) de grandes 
asas tran!«parentesy os quaes andam sempre em multidSO; volte- 
jando no ar, deixando o solo atapetado com as suas asas^ de 
que facilmente se despojam; e ainda os Udangues (tukye) de 
cor preta e com muitas pemas; e todos elles passados pelo 
fogo, OS consideram os naturaes corno bons manjares, porque 
sSo gordurosos. 

Com respeito aos tulangues posso affiancar que assim é, 
porque tres vezes e em differentes epochas, com bombò (booó) 
torrado; fiz consistir nelles a minha refeÌ9So. 

Mas ainda ha outros que^ além de constructores, sSo produ- 
ctores, comò a abelha, o cambulido (kabidulo) que nos incom- 
moda bastante, pois pousa nas faces e se introduz por toda a 
parte, principalmente onde eneontra cavidades, nos ouvidos. 
ventas, olhos, entre o cabello, etc., e se Ihe pega, sobretudo se 
houver ahi humidade. 

Este insecto alado, de urna grandeza media entre a mosca e 
o mosquito pequeno, é molle e facilmente se esmaga com uma 
ligeira pressSo, deixando um aroma agradavel de flores. Nos 
troncos das arvores fazem a sua moradia, penetrando ahi por 
pequenos orificios e là fabricam o mei, de gosto mui apreciavel. 
As boras de maior calor, até ao sol posto, andam sempre por 
fora em grande quantidade, e tomam-se uma verdadeira praga 



ETBKOGRAPHU E HISTOBIA 23 

I 

pam o desgra^ado yiajante qne lem a infelicidade de acam- 
par (mie elles pollolam. NIo mais o largam com as euas per- 
ae^fSes, do que sofiem as consequencias em serem eabforra- 
chados. £m dias de nevoeiros ou de chavas aBo saem daa suas 
habita$8e8. 

O andolo (aolo), tambem dos multo pequenos insectos, vive 
debaixo do solo^ em tocas; e o indigena^ dias depois de cessa- 
rem as grandes chavas, conbece^ pelas estreitas fendas por 
onde elles procoram sair^ o legar onde encontr&-loS; e com um 
pan de penta aguda vae levantando a terra e fazendo d'elles 
larga colheitai e moìtas vezes^ sem mesmo os levar ao fogo, 
08 come & medida que os vae apanhando. 

£ tal a yariedade de ratos, lagartos e gafanhotos, que nella 
encontram os naturaes alguns recursos para diversificarem 
a sua alimentagSo. 

Ha outros organismos^ porém, que sSo apenas constructores; 
comò o eachcUle (kàótxile) nas arvores e o mabuòi (mabuchi), 
cuja habita^So, de uma forma diversa do muqulndo (mukido) 
feito pelo salale, é baixa, romba e com uma especie de cha- 
peleta superior, que parece ahi collocada por mSo de homem; 
e tanto d'està comò d'aquella construc9So melhor dSo idea os 
desenhos do que qualquer descrip9So. 

Tambem nSo devemos esquecer o samabumbulo (samabu- 
iulo), que escolhe no solo a terra para construir a sua habita9So 
em forma de ninho; de encontro ao varejo da cobertura das 
cubatas, e o cocanjUa (kokajilaj, animai que se encontra pelos 
caminhos; semelhante às carochas, mas de corpo mais grosso, fa- 
bricando perfeitas bolas de terra de uma grandeza prodigiosa em 
rela^l&o ao tamanho d'elle, e que traz constantemente comsigo. 

Muitos outros organismos mereciam especial men9&o, e todos 
elles concorrem para tornar mais frisantes os enormes contras- 
tes que se observam no reino animai em teda està zona! 

£ a par dos collossos vegetaes, comò o imbondeiro em deter- 
mìnadas regiSes, ao occidente do Cuango, talvez o mais velho 
e mais corpulento especimen da flora africana, que facibnente 
se distingue pela sua forma,, e da linda dkabd (dikabd) cpal- 



24 



EXFEDI9%0 POBTUODESA AO MDAtUnvuA 



meira de leque», e do munriaje (mvgaje), ipalmeira do azeitei, 
dìsaeminada por toda a zonaque atraveeseì, appavecem vastas 
superficies cobertas de capim e de bellas florestas, onde im- 
pera, à beira dos rlachos, o muaje (arvore que alimenta aa 
8uperstÌ9Ses) e aa nSo menoa agigantadas mucamha (mukaùa), 




mafuma, e ainda outras, e onde parccc nSo ter pcnetrado o ma 
cliado destruìdor, nem o fogo devastador dos indigenaa. 

Chamam ob naturaes aqui a estas florestas matìquita (mati- 
lata), e do Cuango para a costa michito (mìSìtoJ; e niio é lìacii 
ao naturalista, sem muita pereieteacia e boa Tontade, definir- 



ETHNOQBAPHU E HISTOEUA 



s caracteres, e dar 



Ihes OS prìncùpaes mdÌTÌdaos, iodicar-lhes o 
d'ellaa luna descrip^So snimada. 

O obserrador pode sentir-Be enthuBÌasmado, vendo urna abo- 
bada de verdura, formada pela» bellas copas daa mais a^g^anta- 
das arvores, e corre preaauroBO a procurar orna entrada, mas, 
o solo coberto de urna pajante vegeta^So, obrìga-o a parar, a 
firn de descortinar ama 
vereda maia lìvre, um ata- 
Iho mais segoro para se- 
guir por ahi e penetrar no 
coraQSo da floresta, mas 
nada encontra que o t 
xilie neste intento. Cometa 
entSo a afastar a vegeta- 
rlo, que mais o embaraga, 
mas a bem pouca dietancia 
deparam-se-lhe emmaran- 
hadoB cipdé, qne vfto subin- 
do, agarradoa aqni a um 
tronco, ficando mais além 
snspensos, une quasi a to- 
car no solo, outros enter- 
rando-se mesmo, laudando 
fortes raizes para se levan- 
tarem de novo e estende- 
rem sena ramoa em diffc- 
rentes sentidoe. NSo pode i p a xlcbb-.s, tea cìcto» 

caoiinliar & vontade, e vae iLii»nib.i») 

notando que a mais emmaranfaada vegeta^^ ali se evolve, se 
mistora, ee ramifica, se enla9a, se aperta e Be levanta aos ares 
a procurar o raio do sol vìvificador, Balvando-se nesta lucta os 
vegetaes mùs fortes, e definbando-se ou sendo subatituìdos 
por outros os que nSo podem viver sempre à sombra ou num 
meio tSo hnmido. 

E aspecto de ama floresta assim é realmente originai, bo- 
berbo, dwlimibnuite, mas o seu estudo é muito mais difficii, 




26 



EXPEDI^ÀO P0RTU6UEZA AO KDATIÌNTCA 



mais comptexo, mais arriscado meemo, pelae condi^des em que 
8tì apresenta. 

Destacam-Be muitae vezes dae masaas vegetaes TÌrentea fe- 
toB arboieoa, dominam outraa vezes aa pandaa fpada), que 
fomiara um contraste encanlador com db vallea deearborisa- 
do3, couBtitiundo os bosqiies mais sio^ares. 

naturalista, porém, nSo so contenta com o aspecto que 
Ihc apreaeuta qualquer foresta; iaterna-se, pelo contrario, cada 
vez mais, caindo aqui numas covas, occultaa pela espeesa ca- 
mada de foIUas jà mcio em decomposi^ào, e eubiudo ali sobrc 
OB troncoB de arvores agigantadaa, e lan^adas aobre a terra por 
eifeito da sua velhice ou por causa de phenomenoa naturaes, 
ou ainda porque o eeu grande porte nSo estava jà em rela93o 
com aa raizes que as alinientavam. 

Silo todos eates troncoB revestidos, mesmo cafdos, de varia- 
dÌBsimas trepadeìras, sobre as quaes se levantam parasitas 
de toda a especie, que se alimentam na podridSo d'esaes tron- 
cos amortecidos e que tudo encobreni A vista dos cutIobob. 

Passam-se assim horas auccessivas, e o exploradorvè-seobri- 
gado a limitar-se ds Buas prìmeiras teutativas, subordinando-se 
ia condi^Bes do melo em que se encontra, sem lograr orien- 
tar-se, tal é a vastidSo da floreata e os variadisaimos exempla- 
res que a sna vista abrange. 

E grosso e pesado o humus em que se cria toda essa ve- 
getatilo ; e ahi puUulam pequenas plantas, que o revestem e 
dSo ao terreno aspecto singnlar. Levantam-ae algumas d'estas 
a bastante altura e formam, por assim dizer, a primeira ca- 
mada Horestal e que logo prende a nosaa atten^So. 

D'eate pnmeiro manto de verdura, qne cobre o terreno, 
surgem arbuatos, que quasi se animam a luctar com as ar- 
vores que Ihee lìcam mais proximas, mas nào chcgam, aa 
mais das vezes, a raeio da sua altura, fonnando enlào ahi urna 
cobertura de grosaas fibras ou cordas que intercepta os espa- 
5oa que podiam dcixar penetrar a luz mais desafogada até ao 
solo. 

As florestas tomam-se assim mais espeBsa^ e de mais diffi- 



ETHN06BAPHIA E HISTOBIA 27 

cil pe]ietra9S0; o qne faz augmentar os obstacalos para o seu 
esame regalar e proveitoso. 

Conhecia eu, de pertó; os nossos pinhaes qne se estendem 
por largos tractos de terreno sob a influencia maritima e nun- 
ca na regiao do sul ; os castanhaes nos terrenos de planalto do 
interior; sempre ao oriente e ao norte ; as variedades dos car- 
valhos e as nossas regi3es alpestres sempre bem definidas^ mas 
nunca pude observar aspectos e paizagens comò as qne se me 
deparavam nas florestas que a Expedigio atravessou; e onde 
se accumulavam arvores e arbustos, cruzando-se e enla9ando-se 
em tal variedade e em tal quàntidade, que se tornava absoluta- 
mente impossivel penetràlas, sem que os machados e as facas 
precedessem o explorador e Ihe facilitassem a passagem. 

E assim corno so confundem todos os vegetaes; assim as tri- 
bus que por aqui habitam se enla9am e se misturam, e so a 
muito custo se Ihes pode ir determinando as suas condÌ98eB 
physicas e moraes. 

NIo me parece qu^ estas tribus, comò irei demonstrando 
no correr d'este trabalho, constituam uma ra9a autochtona da 
regiao em que as encontrei, croio sejam antes uma mistura de 
povos vindos de pontos afastados por successivas migra95es, 
realisadas em tempos relativamente modemos. 

Parece-me tambem, embora nSo tenha dados positivos que 
corroborem as minhas observag^es, que nao vieram do sul, 
mas das latitudes septentrionaes pelo nordeste dos lagos de 
maior altitude, que pura os indigenas representam de certo 
o seu Calunga. 

Abalan90-me mesmo, a suppor que nSo sSo originarios das 
regi^es lacustrés sub-equatoriaes, d*onde se destaca o Nilo e 
vae, por assim dizer, dar vida aos egypcios, — povos influen- 
ciados por largos mares interiores e muito afastados d'estas 
regiSes. 

O que mais me importava, porém, nas condÌ93es em que 
me encontrava, era estudar as tribus nas localidades em que 
vivem actualmente^ e descobrir as suas .rela98eB com as da 
provincia de Angola, persuadido, corno estou, de que atii; em 



28 EXPfiDiglO POBTUGUEZA AO MUÀTIInVUA 

oda a regiSo mais alta^ desde o Zaire até ao Cuanza^ a popu- 
lajSo tem augmentado pelas correnteB migradoras que d'aqui 
se teem dirigido para là. 

Tinha mesmo neste estudo o meu prmcipal empenho, pois 
que reconhecia ser da maxima vantagem favorecer ainda hoje 
todas^estas correntes^ estudar melhor a origem das gentes que 
as compSem^ as suas incIiiia93eB e habitos^ e aproveità-las nos 
trabalhoB ì& agricolas, jà commerciaes. 

Devi Job rsmo com eUas fonnar colonias indigena», des- 
tinadas aos logares em que é difficil por emquanto a coloni- 
sajSo europea; e empregà-las no saneamento d'esses logares; 
e nos primeiros trabalhos agricolas e florestaes. 

E um meio que ainda nSlo se experimentou, mas a que urge 
recorrer; n&o so para nSlo faltarem bra90S; mas tambem para 
augmentar as for9as vivas da provincia por meio do elemento 
indigena; que é, e sera sempre; o melhor e mais fecundo auxi- 
liar do europeu no clima ardente dos tropicos. 

Ha mesmo teda a conveniencia em dar-lbes terrenos para 
cultivar por conta propria, o que nSo seria novidade, prote- 
gendo-os e animando muito especialmente os pequenos pro- 
prietarios indìgenaS; ensinando-lhes os mais faceis e os mais 
proveitosos processos de cultura. 

Estou convencido de que o africano; por mais bojal que 
seja; acceita o ensinO; e d'este procura tirar todo o proveitO; 
quando dirigido fora de um meio aniquilador e improgressivo. 

A educa9SLo do indigena aqui no interior é infructìfera, pois 
que produzem nelle mais effeito os exemplos da sua familia, 
dos seus companheiros de casa où d'aquelles com quem con- 
vive; do que as regras e preceitos que Ihe possam dar os es- 
tranhoS; que Ihe vSo fallar do que elle nUo entende. 

Pode acceitar e fixar na memoria algumas indica93es se d'ahi 
Ihe resulta qualquer proveito immediato; pois nSo està prepa- 
rado para amar o estudo pelo estudo, nem para se occupar de 
cousas abstractas; superiores ao seu estado montai. 

E de pouco resultadO; por certO; a educa9So do indigena 
no meio em que vive, mas se o tirarmos d'ali e o educarmoB 



ETHNOGBAPHIÀ E HI8T0BU 29 

junto a nós; nos centros mais civilisadoB^ para depois o re- 
patriarmosy destaca-se sem duvida dos seus conterraneos^ mas 
entSo sarge am mal e bem grave, porque Ihe falla onde ap- 
plicar a sua educagSo. 

Ha mesmo neste processo um resultado negativo pois que, 
▼endo-se o negro com a sua intelligencia mais esclarecida, 
toma-se o tyranno dos povos incultos entre os quaes vae viver, 
e procura tirar todo o partìdo d'esse estado selvagem em seu 
favor, dando assim pessimos exemplos, e prejudicando todos 
OS esfor^os dos quo tentem trabalhar para melhorar a sua si- 
toagSo. 

Quanto a mim, dois poderosos meios auxiliadores que mais 
immediatamente podem contribuir para a regeneragSo dos po- 
vos do centro de Africa sSo os seguintes: o caminho de 
ferro de penetraySO; que jà està iniciado, e a instìtui- 
9S0 de uma Sociedade humanitaria de coIonisa9So e 
expIoragSo das terras da Africa Central, que tratasse de constì- 
tuir centros agricolas, chamando a estes os individuos que se 
resgatassem, escolhendo os logares mais adequados para esses 
nucleos civilisadores, e formando novas povoa98es administra- 
das por elles mesmos e por nós patrocinadas e dirigidas. 

Levei mais longe as minhas consideraySes, porque as ques- 
t5es de que me occupo respeitam tanto ao oriente corno ao sul 
da provincia, e a todas as nossas possessSes da Africa. 

Mas cumpre restringir-me à regimo de que trato, e dizer 
desde jà que, nas condÌ98es em que se encontram estas tri- 
bus, serSo baldados todos os esfor90s para ahi por um termo 
à escravidSo, que é um producto naturai do meio em que vi- 
vem, e uma fatai necessidade do seu modo de ser social. 

Destroem-se estas tribus umas às outras, e, nSo havendo do- 
cumento algum dos seus tratados, comò manter a paz? 

E na lucta pela existencia, quando numa regiao faltam os 
▼iveres, o que fazem os habitantes que ahi se estabeleceram? 

Caem sobre as tribus mais fracas comò os Barbaros cairam 
sobre os povos da Europa orientai, e estes sobre os do occi- 
dente. 



30 EXPEDigXo PORTUGUBZA AO MUATIANVUA 

Todos conheoem as luctas que entSo se feriram; o oaracter 
sanguinolento de todas ellas^ e comtudo jà estayam todos 
estes poYos num gran de adiantamento muito mais sensivel 
do que o das trìbùs incultas que aqui se encontram* sempre 
desconfiadas e promptas a luctar ao primeiro pretexto que 
se Ihes offere$a. 

E comò arranci-las d'este estado selvagem? 

Dando terras e protec9So às mais fracas, o que se doverla 
fazer desde jà para uma grande parte d'ellas; pois que estfto 
passando por uma das phases mais criticas da sua existencia. 

No momento em que as encontrei, as suas circumstancias 
eram das mais graves. 

Urge, pois, acudir-lhes sem perda de tempo, e nenhuma 
nafSo pode £Eizer melhor do que nós, porque ha seculos que 
sobre ellas exercemos influencia. 

NSo duvido mesmo asseverar que se delimitam muito bem 
todos OS poYOs que nos conhecem e nos respeitam, 
podendo mesmo fixar-se.as terras onde, por alguns processos 
indirectos mas altamente significativos, fizemos sentir a nossa 
influencia, e que bem mostram o caracter fecundo e civi- 
lisador dos Portuguezes em todos os territorios que desco- 
briram. 

Nos ambaquistas temos um vivo exemplo de que a N a 9 S o 
Portugueza nào faz escravos, nem tira a liberdade 
de cada indigena que se occupa do seu negocio percorrendo as 
mais afastadas regiòes da Africa Central. 

A introduc9So da mandioca nas terras da Africa 
Central é outro notabilissimo facto que nSo devemos esque- 
cer. Fez-se pela provincia de Angola, sendo trazida do Brazil 
pelos Portuguezes. Receberam-na de boni grado os povos de 
leste da provincia, e a sua piantasse foi passando de tribù 
para tribù, até à regiao dos lagos, descendo ao sul, até aos 
povos do Alto Calahari, e nfto excedendo, pelo norte, os do 
3<^ de latitude. 

Toda està vasta regiSo està, pois, occupada pelas tribus 
que mais, se relacionam com os Portuguezes, e de onde nós 



KTBHOORAFHIÀ E HISTOBIA 31 

poderiamos tirar todas aa yantagens, se quizessemos trabalhar 
de raiz e a preceito para se formar um grande imperio colo- 
nial nas terras da Africa Central. 

N8o pioderei ea indicar neste logar os processos de mais fa- 
cil execugSOy e que bem se comprehendem; quando se conhece 
a lingua das trìbus e se Ihes falle uma linguagem que ellas pos- 
sam entender claramente. 

Attentava eu, porém^ not exploradores allemSes, que tSo fre- 
qnentes viagens estSo fazendo e que de tantos recursos dis- 
pSem, segoindo-se as suas expedÌ98es umas às outras, e redo- 
brando- se de esforyos na propor9So das difficuldades que se 
apresentam ; mas apesar de tudo, nestes annos mais proximos^ 
ainda seriemos nós os preferìdos, e elles serSo obrìgados a ser- 
▼irem-se da nossa lingua, ccmo meio de communicaySO; e dos 
nossos sertanejoB corno guias e interpretes. 

Somos nóS; pois, quem Ihes fEtcilitftmos os principaes meios 
d'elles se intemaremy de se entenderem com os indigenas e 
de escolherem as melhores teiras e os centros commerciaes 
mais importantes. 

Se nós, porém, Ihes abrimos as portas e se sairmos de casa, 
o que podemos esperar? 

E se nSo procuràmos augmentar as nossas relaySes com as 
trìbus mais afietstadas; favorecendo as suas migra9Ses para as 
localidades que mais nos convenham^ ficar3o essas tribus su- 
jeitas a quem Ihes proporcionar mais vantagens ou melhor as 
souber explorar. 

E chegaremos entSo tarde, e mais mna vez nos lastimaremos 
pela nossa boa fé. 

E quem percorrer teda està regiSo, a leste da provincia de 
Angola, nSo deixarà de notar,' corno eu, que, se é grande o 
atraso em que se encontra a agricultura, nSo faltarìa a boa 
vontade da parte dos indigenas em se occuparem nestes tra- 
balhos se tivessem a certeza de que Ihe seriam comprados os 
seuB productos* 

Bastava aproveitar està tendencia para fazer augmentar os 
productot provinciaes, e chamar aos concelhos de leste o com- 



32 EIPKDigXo POETCOUEZA AO MDATIÌNVDA 

mercìo, sem o qual todo o progresso eerà ìficerto e toda avida 
colonial vacillante. 

O que para mim se apresentava corno facto betn evidente 

era o completo isolamento de todas estas trìbiiB, e a sua piena 




I 



sequestrasSo das ra^as mais adeantada«, meamo de dentro do 
continente. 

E facto observado tambem que, a par do atrazo que se nota 
na agricidtura, se nota o mesmo atraso em todas a» demais in- 
doEtrias, imindo-as nas suas maDifeata^i^es um lago commum, 



rilHHOQBAPHU E HI8T0BU 33 

qne mostra os pcnotoB de contacio d'estes poTOB e Ihes di certo 
grau de unidade mui saliente. 

NSo é focil deecobrir-lhe o passado, nem estSo feitas ainda, 
corno ji dÌBBe, as iiiTeBtiga9Ses paleo-ethnologicas em todas eBtas 
terrasj maa, por fiictos negativoB apeoas, nSo me parece qne 
passassem aqni pelas idades de pedra bem caracterìeadaB, qae 
constìtaem em parte ob tempoB prehistoricos dos povos qae 
eetSo lioje m&ie adeantadoB. 

Creio mesmo que as primeiras trìbus, que para aqui 'vieram, 
j& tìcham conhecimento do ferro, e nelle trabalbavam e que, 




encontrando-o oesta regiSo, lego que as migraySeB se succe- 
deram, prìncipiaram a utilÌB&-lo, ainda que com iustrumentoB 
mdìmentares nSo muito differéntes dos que hoje usam. 

E possivel mesmo que oe africanos do norte entraesem na 
idade de ferro em ama epocha anteriordquella que se marca para 
oa povos das outras ra^as. 

£ està orna questuo de grande importancia, que mais tarde 
oa miÙB cedo ha de ser resolvida pelos benemeritoa da Bcien- 
cis que se entregam a taes investtgagSes, e sobre este ponto 
limito-me a affiati9ar que todos os artefactos, todos os traba- 
UiOB, OB mais antìgos, devidoB i mSo do indigena neBta vas- 



34 



EXPEDH^AO POETCnUEZA JIO MUATIANVUA 



tiseima regìSo, os seus omatos, etc., e&o jtl feitos com pontas 
OH laminaa do ferro. 

Dir-se-ia, Bem o estiido da sua Uistoria tradiciona), que e&o 
antes autochtonos do que ìmmigriinteB, pois conserram ob pro- 
ceBSOB mais primitivoB para a peBca e para a C39a! 

Nilo parece que se houvessem destacado de outrae tribus 
mais adeantadas, nera que estivessem em coutacto com outras 
que IheB BerviBscm de exemplo em quaesquer trabalhos ou lu- 
ctando com mais vantagem contra as feras e contra oa clìmas. 

Notava, pois, que ailo ìnconscientes dog seua trabalhos e nSo 
sabem aproveitar e transformar kb for9aB da natureza, nem 
OS recursOB das bellas florestas de que se acbam rodeadoB, 
nem tSo pouco procuram desonvolver a propagagSo dos ani- 
maes domcsticos! 

Nìto se aproveita o vento para o mais BÌngelo moinlio, nSo 
fazem a menor irriga^ao, nem teem a mcnor obra de arte! 

Tecm sido pelo contrario, prejudiciucs a si meamos, des- 
truindo muìtas das especios dos animaes que ]à baviam vingado 
e aqui IbeB trazlam ae comitivas do nosao commercio, que tanto 
frequcntar'am està regiSo. 

Por exeuiplo no Luarabata, onde eecrevi muitas d'estas obser- 
va^Sea, e naa immediagSes, num raÌo de 25 a 30 kilometrofl 
para àquem do Luizii e Cajidixe, no tempo do MuatiSnvua 
Mutcba, ha qiiinze ou dezeseis annos, contavam-ae mais de 
mil e quatrocentas cabejaa de gado vaccum, e todas aa tribus 
tinhara rebanhos de gado miudo de todas as qualidades, nSo 
Bendo suino ioferior ao nosso I 

Pois toda està riqueza deìxaram perder! 

Tambem tive do notar noa mena diarioa que vi vestigìoa de 
arrozaes e fmctos degcnerados, corno melancias ; e tambem de 
hortali^as, comò couves, alfaces, etc. 

NSo é facil esplicar està indifferenja pela conaervajSo de 
tudo o que Ihca e mais util. 

Diz-se serem ostes destmjos niotivadoB pelas luctas de parti- 
doB entre fìlhos de Muatiànvua pelo poder, no que fizeram 
intervir ob Quiocos e depois das gueiTas com estes que ob le< 



BTHKO0BAJ?HIA E QISTOBU 36 

TUE de vencida, roulwido-lhes aa mulheres e creazigaB e de- 
Tgstando o que enco^tram, os proprios habitan^s antecipam-se 
nessa devasta9S0; para que os contrarìos nada encontrem quando 
Toltem. 

N&o se limitam hoje a estes pemiciosos procesaos, atacam 
mesino toda a yegetagSo e as proprias florestas; incendiando 
tudo a que podem lanyar fogo, e por tal modo o fazem e em 
tal extensSo que o fumo d'essas enormes e estupendas quei- 
madas chega a influir no regimen meteorologico, e no desen* 
Tolvimento dos vegetaes e dos animaes mais nobres ou mais 
aproveitaveis I 

Tudo teem destmido, e o peor é que tambem na destruiySo 
li foram essas grandes fontes de receita — marfim, borracha e 
cera — pelo modo corno ca9aram o elephante^ colheram o mei 
e eztrairam a borracha. 

E quando sairSo estes povos de um estado tSo rudimentar, 
se niSU> forem em seu auxilio os Portuguezes ensinando-oS; tu- 
telando-os e protegendo-os? 

Està grande parcella dos povos da Africa Central ainda se 
encontra no estado nomade, fixando-se apenas algumas tribus 
em localidades, que mais facilmente poderiam cultivar, ou 
mais proximas de cafa, de caminhos mais frequentados, de 
linhas de agua, das margens de rios em que abunda peixe ; 
mas apesar de todas estas boas condÌ98e8 locaes abandonam- 
nas muitas vezes por outras, e se algumas dentro do mesmo 
territorio se constituem em estado, outras, as mais ousadas, 
tSo passando de umas localidades para outras, embora as te- 
nbam de disputar pela guerra, quando à sua entrada se oppSem 
08 prìmeiros habitantes. 

Ainda existem aqui armas e utensilios de madeira, muito 
similhantes na forma aos que existiam entro os europeus 
nas idades prehistoricas. 

Praticam-se ainda em al^ns pontos d'està regimo os sacrifi- 
cios pelos mortos, e levautam-se noutros povoa98es lacustres, 
corno as dos primitivos povos da rafa branca europea ou comò 
as da Oceania. 



36 EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATIIkYUA 

Em todas estas trìbus se notam as mais grosseiras supersti- 
93eS; que dominam os espiritos^ e a cren9a nos feitiyos quo as 
levam às crueldades mais absurdas ! 

Mas estes &ctos nSo sSo tSo geraes que, ao lado de ama 
tribù mais atrazada, nSo se encontre outra em que se obser- 
vem logo & primeira vista considerayeis progressos^ devidos 
. Ab rela98es com os PortuguezeS; e por onde se pode avaliar 
as transformagSes pdr que terSo de passar, quando essas rela- 
93es se tomarem mais intensas e alargarem mais a sua ac9So 
benefica e civilisadora. 

Nào nos esque9amos, porém, que todas estas trìbus estSo 
ainda num estado de grande atrasO; e nSo as condemnemos 
sem prìmeiro nos lembrarmos das luctas e devasta93es que 
houve entro os povos europeuS; em estados analogos de desen- 
volvimento, e nos tempos successivos até aos medievaes; e 
ainda posteriormente. 

Se attentarmos, pois, no que està estudado dos nossos prì- 
mitivos tempoS; là encontraremos alguns povos barbaros em 
um estado semelhante ou muito peor do que aquelle em que se 
encontram os povos d'està regi&o. 

As invasòes de umas tribus nos territorios de outras, as 
luctas intestinas e as guerras entro pequenos chefes, e as que 
se teem originado na propria tribù pela ambÌ9ao do poder, 
teem side as causas da devaBta92lo que tem lavrado na vas- 
tissima regimo que percorri, e a decadencia em que se encon- 
tram OS seus habitadores. 

As transforma95es moraes e sociaes por que passaram estes 
povos perdem-se na bruma dos tempos. So as tradÌ93es histo- 
ricas e a linguistica nos podem conduzir por emquanto & recon- 
stituÌ9^o d*este estado, outrora tSo fallado, do poderoso Mua- 
tiànvua, que para os povos limitrophes era um mytho, e ainda 
para muitos é assim hoje considerado^ invooando-o alguns para 
abusarem dos mais credulos. 

Mas quaes seriam os primeiros povos que se fixaram aqui? 

Custa-nos a crer que estes povos constituam^ comò jà disse, 
uma ra9a especial; e antes nos convencemos que ha nelles 



ETHNOOBAPHIA E HISTORI& 



37 



ama mistura de trìbus aujeita & influencia da ac^Sa longa, 
persisteiits e mesjno pemicìOBa dos terrenos de alIuviSo e 
pantanoeosj influenciaB deleterìae e degradantee que teem mo- 
dificado taìvez as formai, a cor e mesmo aa faculdades men- 
taee dos pOTos que aestaa depreBsSes do solo do continente 
foram obrigados a refugìar-se, fugindo 
às invasSes dos povos barbaroB qae en- 
l traram pelo norte e nordeste do contì- 
' nente, e se sujeitaram & dominafSo dos 
que j& ahi encontraram, e ob precede- 
ram na immigra^fto. 

EstabelecidoB os primeìros immigran- 
tes, corno viveriam? 

NSo ha indicios de que foBsem pas- 
tores, nem se sabe qual o alimento mais 
preferido antes de là introduzirmos a 
mandioca. 

NSo teem a pesca lacuBtre, e a que 
fazem nos seus rìOB é por meio de ar- 
madilhas de tiras de ama especie de 
chibata, ora dando-lhes a forma de py- 
ramide conica, ou a forma cylindrica, 
que collocam nas reentrancias dos rios 
onde peìxe affine, e tambem fazendo 
cercoB de pedajos de troncos unidoB, 
onde o peixe levado pela corrente ha 
i de entrar, e d'onde nSo pode sair pelo 
I labyrintho que Ibe armarn dentro d'elles. 
Aa pequenas redes e anzoi conhe- 
cem-nos de ha pouco, mas nio fazem 
uso d'elles, certamente porqueosobrìgam 
a pennanecer num determinado ponto e a empregar a paciencia 
e destresa que se requèrem n'este genero de pesca. Alguns 
utilisando o anzol contentam-se com um peixe, e por ìbso con- 
siderando-o comò urna armadiiha, deixam-uo com a isca ie 
vezes até ao dia seguinte 1 




EXPEDI^Xo POHTnOtJEZA JlO ITOATIIKVUA 



Para a ca^a grosaa, antos do ubo das armos de fogo, e ainda 
}ioje, nSo se dSo a grande incommodo, e o procesBO é primi- 
tivo — armadilhaa — covas mascaradas coin rainoa e foUiagena 
onde o animai cae e immediatamente à caeetada é morto. 

£ d'isto teem elles urna imagem, qiie empregam frequente- 
mente: mona yoluyo ntit dtuumo aci: makul tala àibuko — cuja 
iraduc^'So littcral é: ao tilho do veado na barriga da mSe diz: 
um&el repara na cova». 

Tambem empregam oa cercos de troncOB em grandea ex- 
tcnaSca e numa boa espesaura aeguidoa de fuaaos, de modo 
<[ue o animai qtie se emmaranba nesta especie de palìssada 
depois do urna grande lucia vae caìr extenuado, senSo fendo, 
110 fosso, 

Oiitras vezes o animai cae neBsas covas ferìdo por flechaa 
que, suHpensas nos troncos do arvores e equilibradas por um 
contrapeso, se despedem mal elle toca na armadilba. 

Com reapeito ós armas de fogo, tambem usam dispfi-Ias de 
forma que procurando o animai comer a isca, a espingarda 
dispara-se e elle fica prostrado. 

Hoje OS mais audazes perseguem a ca^a il frechada e a fogo ; 
e tambem com as ma^s (especie de cacete) e com grandea fa- 
cas vSo luctar com oa animaes, e é certo que algims, A falta 
de polvora, tiram d'eate melo bom partido. 

Faltam-Dies os rigorosos Inveroos e quasi que dispensam as 
babita(<te3, quo sSo na verdade da mais facil e rudimentar 
construc^So. 

NSo tcem aenSo a prover Ab euas necessidades ph^sicas, no 
que a natureza os favorece bastante. 

O rcuto vegetai fomece-lhes os alimentoB mais ÌDdiapensa- 
veis, dando ob indigenas sempre preferencia aoa que Ibes deram 
menos traballio a colber. 

E, quando o reino vegetai nSo pSde supprir todaa aa auaa 
necesBidadcs, recorrcrain aos animaes que mala facilmente cou- 
seguiam apanhar, corno lagartaa, ratos, salale, gafanhotos, abe- 
Ihae e oLitros que appareciam, e aos restos dasvictimaB que as 
feraa deixavam ! 



ETmOGRAPHIA È HI8TORTA 39 

Pode explicar-se, pois, por estes factos, que estas tribus nSo 
paderam adquirir energia, nem crear urna popuIa9So forte e 
letiya? 

O cerebro nSo funccionando atrophiou-se, e pode dizer-se 
que 08 enropeus teem aqui de patrocinar e de dirigir a gera- 
ffto nova, porquanto os individuos, taes corno se encontram pre- 
sentemente, estìU) epi estado de grande rudeza. 

£ sem 08 estimulos de um clima rigoroso, nSo se tornaram 
ptevidentes, nem souberam associar-se constituindo nacionali- 
dades duradooras, e tampouco deixaram, que nós saibamos, os 
mais insignificantes vestigios do seu passado. 

Os seus maiores inimigos sSo as tribus que Ihes ficam mais 
proximas, e por isso algum esfor90 fizeram para obter a arma 
defensiva e a offensiva. 

O clima, porém, com os seus dias de fogo, e as esta93es com 
a sua uniformidade, dào à flora e à fauna condÌ93es muito es* 
peciaes a que o homem nSo pode ser insensivel, modifican- 
do-se a sua organisa9So, as suas aptidSes, toda a sua yida, 
emfim. 

Faltam-Ihe, pois, muitas das qualidades do homem que se 
acha sob as latitudes médias, especialmente nas do kemisphe- 
rio do norte, em que elle aprendeu a tirar à terra pelo seu tra- 
balho tudo quanto ella pode dar. 

Emquanto o homem dos tropìcos tem à m^o imia faci] ali- 
mentayào, o das latitudes onde o solo é menos dadivoso é obri- 
gado, nSo so a procurà-la com difficuldade, mas tambem torna-se 
previdente, armazenando-a para se supprir quando o frio este- 
rilisa as terras e puriHca os ares, trazendo-lhe a fome, mas lim- 
pando as terras dos parasitas mais temiveis, dos miasroas tellu- 
ricos, e fazendo de cada homem um industriai, una constante 
lactador, que se resgata do meio que o cerca e imprime caracter 
à unidade social — a familia. 

Cousa alguma, por ora, nos prova nesta regiSo que o ho- 
mem tivesse passado por urna idade pre-metallica ; antes tudo 
nos indica que elle veiu para està regiào aproveitar-se da va- 
riedade de vegetaes que a natureza Ihe proporcionava, e dos 



40 



EXPEDigXo POBTUQDEZA AO MCATIÌNVDA 



aniinaes que noB bosques e nos rtos encontrava, e que iaùl- 
mente obtinha sem grande esforfo. 

Parecc, quo numa d'esBaa primciras iimnigra^SeB que ae 
deram, jà alguns povos tinham conhecimcnto do ferro e do 
fogo, a eram certamente eeses os que vierara habitar nas Berras 
e nos pontos mais elevados, os quaes se destacam dos que di- 
reni no3 vallea, porqno estea teem urna cor mais negra, ao 
pasBO que aquellea a teem mais avermelhada. 

A esae conbecimeuto foi devido o instrumento rudimentar, 
cortante e perfurante, com qne fizeram esses outros, — as armas 
e utensilioB de madeìra — para a satiefa^So de euas prìmeiras 




necessida^eB, imitando sempre em tudo as formas que Ihes 
offerecia a naturerà. 

Ab dififerentes eapcciee de caba^as e outros friictos de grossa 
casca^ OS quaes, extrahido primeiro o miolo e sècos depois, Ihes 
serviram para formar a sua baixella primitiva, foram mais tardo 
OS modelos da sua ceramica rudimentar. 

Das floreetaB em que se abrigavam passaram a imitar as 
eonatrucjScs do salalo com pequcnas aberturas rez-do-chSo por 
onde de raatos entravam ; quando nSo aproveitavam as mesmas 
c(inBtruc95cB comò indicaremos em logar competente. 

Fara vestuario limitavam-se a umas folbas de arbustos, co- 
brindo apenas as partes genitaes, porque entre ellea a nomilo 
de pudor era a bem dlzer deseonheclda. Acceitavam bem a 



BTHKOQEAPHU E HISTOBU 



41 



Boa nadez, e ans olbavam para os ontrog com a meamanatarali- 
dade com qae se olba para qnalqner animai. 

E este mesmo traje era ama imita;So do qne viam aoi ani- 
maes de maior corpulencìa. 

Existem ainda nmas tribas, Beis dìae ao norte da miusnmba 
do CaUnhi, nom estado de cìvilisa^ relativamente atrasa- 
do, caja imita^So é ainda mais frisante. 

Refìro-me aos manjala niavumo («os que vestem a pelle da 




barrigai), conaistùido està defonna^So etlmica em as mSes co- 
me^aremJogo após o nascimento dos filliOB a eetender-Iliee pouco 
a pouco a pelle qne cobre aqaella parte do corpo, puxando-a 
em segoida para balzo. 

O oso das folhas ainda boje se ve entra as povoa^Ses mais 
desfavorecidas, e principalmente do Quicapa para là, onde jà 
ha falta de pelles dos animaee pequenos e das mabelaa do 
norte e mais do interior, e onde a fazenda deizott de appa- 



42 EXPEDI9X0 POBTUGUEZA AO MUATIInVUA 

Na mtiB8amba do Maatiànvim; na propria córte d'este pò- 
tentado; j& fui encontrar suas filhas apenas vestindo ramos de 
folhas adiante e atràs, suspensos a um cordlo na cintura! 

Isto que muitos podem tachar de impudor, para élles 8Ó re- 
presenta pobreza e decadeneia do seu Estado. 

Tudo se apresehta aqui em condiySes muito singulareS; no- 
tando-se profundas differen9a8 até nos animaes que nos sSo 
domesticos, corno os cameiros, as cabras e os cSes! 

E; com respeito a estes; nSo consta que se damneni; que 
é, por certO; urna das suas condi$3e8 mais singulares. 

As tradi$8es historicas que obtivO; antes da con8tituÌ9lU> do 
Estado do Muatiànvua; apresentam-nos os povos anterìores, os 
BungoM, corno bons atiradores de funda. Consistiam as fundas 
em grossas fibras que as florestas Ihes proporcionavam e cujos 
extremos apertavam na mSo, tendo primeiro coUocado os pe- 
^uenos éàlhatts na parte mèdia; estes depois de sujeitos a um 
movimento de rota9So eram impellidos a grandes distancias, 
largando-se uma àtó extremidades da fmida. 

E certo que essas pedras^ ou calhaus; nào se encontram por 
teda a parte à fior do solo, e que é descarnamento das mon- 
tanhas e serros que Ihes dà pequenos calbaus, lascas, ou des- 
aggrega98es de rochas; e nao ha vestigios de que estas fossem 
affeÌ9oadas para tal uso. 

Desde o momento em que se me dà uma perfeita idea do 
uso da funda devo crer na sua existencia, porém, hoje dào 
preferencia à madeira para armas de arremesso, e isto por fa- 
ctos que ainda hoje se observam. 

Na occasiào de um Ie\rantamento da popuIa9Ì[o, homens, 
mulheres e erean9a8, tudo trata de se re unir ao primeiro grupo 
que promove ; e, antes de tudo, correm às cubatas a buscar o 
primeiro pau que encontram, se é que nSlo possuem uma es- 
pingarda, uma faca, flechas ou qualquer arma, e mesmo assim 
là levam um pau, e a lucta trava-se logo a distancia, lan9ando 
OS contendores ims contra os outros esses paus, que no ar des- 
crevem trajectorias mais ou menos caprichosas e com mais ou 
menos velocidade, porque s£o batidos com grande for9a por 



KTdNOGRAFHU E HÌ8T0BU 43 

aqtleUeé que elles letavam na inSo, oa pelos canoa das es- 
^ngardaa ou pelos cacetes, grandes ùlco», eie. 

Esses projecteisy alias commiins entro povos poùco adeanta- 
dofiy teem aignìis d 'elles as pontas agugadas, sondo is vezes 
arranjàdos niesmo no theàtro da lucta pelas mulheres e rapa- 
tìoy 6 ferem ao acaso. 

Nestas luctas tem-se em vista a&star um dos contendores; e 
lui sempre Vantagem para os quo as proyocam, porque surpre- 
hendem os ataeadosy multo principalmente se estSo nas pò- 
voafSeSy e os Irto afugentando ; immediatamente a isto os ata- 
eantes com as armas com que impelliram os projecteis vSo 
levantar as cubatas dos fugitivos, destrui-las^ e roubam tudo 
que possam encontrar. 

Assisti a algomas d'estas luctas em povos diversos, e comò 
o meu fim era apenas apaziguà-los, reconheci ser de grande 
perigo collocar-me entro os contendores, por estar sujfeito a ser 
moléstado pelos projecteis de uns e outros. 

Todas estas tribus aotualmente apresentam differentes prò- 
dùeios indttStriaeSy e tOÈotei nota do que se me tomou mais 
frisante pai^a os caracterisar. 

Teem habitos e usos jà locaes^ mas estes nSo deixam de ter 
uma tal ou qual relagSo com os que se observam em todas as 
tribus e a que attendi com todo o cuidado, habilitando-me assim 
a apreciar o seu estado social no momento em que as encontrei. 

Procurei colher tambem minuciosas informa93e8, dando pre- 
ferencia aos factos que me pudessem elucidar sobre o estado 
de atraso de cada tribù, e notei o desenvolvimento progressivo 
que cada uma vae tendo, devido multo principalmente ao con- 
tacto com os povos da nossa provincia de Angola, jà influen- 
ciados pelo convivio com os Portuguezés da metropole. 

Foram, pois, os Lundas — os africanos com quem mantive re- 
}a(8es no periodo de tres annos — que mais chamaram a minha 
atten$So; e consegui iniciar-me nos seus usos e costutnes, nos 
seus dialectos e vida intima, entrando nas suas cubatas, nSo 
corno estranho, ou visita de ceremonia, mas comò pessoa amì- 
ga e da mais completa confianya. 



44 



F,XPEDI(]3[0 POKTDQDEZA AO ICDATliUTUA 



Cheguei meemo a tornar parte nas sua« refei^Sea, e a conbe- 
cer pertanto da siu vida domeatica. Era chamado ou proourado 
constantemente para resolver as suas peDdeiicias. Fediam-me 
conselhoB nas suas dìfficuldades e nos rgub uegocios. Conhe- 
cendo-me juato, elles, que em principio de mim desconfiavam, 
eutregavam-mc as biibb deioaudas, para eu aa advogar perante 
08 potentadoB. 

E, pelo modo franco e leal corno eempro procedi, obtive 
d'elles Be reparasscm prejuizoB e damnoB, feìtos a negociadores 
e comitivaB estranhaa que recorriam il protecySo da Dossa ban- 
deira, e pam algnne conaegui repara9ao completa; o que para 




ellea é extraordioarìo, pois o ladrSo ou quem o protege usa da 
seguinte imagem : iiauJia ku mutodo kikuajwnepe kadt, cuja tra- 
ducjào literal é: «o que eie da arvore n2o sejuntajdii (roubo 
feito nSo se entrcga completo). 

Isto que paBsa para elles corno aphorismo, é um pretesto co- 
rno aa mentiraa, de que aabem tirar proveito. 

E viBto que fallei em mentiras, sou franco em declarar j4, 
que considero entro elles o vocabulo mentirà, assim corno o 
de eecravidfto, em accepgSes mui diversa» d'aquellaa que 
niìa Ihe damos. Tanto num corno noutro, nSo ha associada a re- 
puguancia que noa inapiram taea vocabulos. Kum e neutro nSo 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 45 

Ila idea do mal e sim urna BatÌBfa9So de imperiosa necessidade, 
nlo Ihes yindo à mente o prejuizo de segundos. Usando-os, so 
86 lembram de si, e nisto mesmo ha mais imiocencia que egois- 
mo. Teremos occasiSo de o exemplificar. 

Numa doen9a grave em que perdi de todo a consciencia, e 
quando j& nSo tinha os mais insignificantes recursos para a 
compra de alimentoSy e apenas na localidade existia so man- 
dioca, milho e tomates; fui tratado por elles com o mais vivo 
interesse, e com o mais notavel carinho. 

Procuravam passarinhos ou peixe miudo para me alimentarem, 
e a agua em que estes eram fervidos, sem sai ou outro qual- 
quer tempero, obrigavam-me a bebé-la. E tantos desvelos ti- 
veram, e a taes banhos me sujeitaram, e tantas adora93es fize- 
ram aos seus idolos, que, segundo elles, voltei a mìm passa- 
dos uns oito dias, e vi-me entSo rodeado, nSo de selvagens, 
mas de amigos dedicados que manifestavam a sua alegria e se 
sentiam verdadeiramente felizes por me verem salvo. 

Os povos da Lunda, comò os outros povos indìgenas, teem 
OS seus habitos jà adquiridos, os seus lagos sociaes, a sua fa- 
milia, as suas paixSes e os seus amores, e as suas necessidades, 
subordinadas ao meio em que se encontram e onde nasceram, 
se educaram ou se acclimataram ; e nós, sem os comprehender- 
mos, sem os estudarmos, ao menos para Ihes fazermos justÌ9a, 
penetràmos nas localidades onde elles habitam e queremos logo 
ser comprehendidos, imitados e servidos, corno se fosse &cil a 
imposÌ9So de outros costumes e de outra religiSLo, na vida mais 
intima de imi povo, sondo isso alias essencial para a conquista 
das terras da Africa e para a civilisa9So dos povos que a ha- 
bitam e que sSo os auxiliares mais indispensaveis para essa 
conquista ! 

Olvidàmos meio em que nos encontràmos, esquecemos 
indo e tendo-nos a nós sós comò modelo, julgàmos ter trans- 
portado para là a Europa civilisada, com todas as suas com- 
modidades, com as suas ultimas leis que levaram seculos a 
alcangar; e as realidades que vemos levamos à conta de sel- 
yagerìa, para com desprezo tratarmos o negro e chegarmos i 



4r> 



EXFEDIflO FOBTUGtJEZÀ 40 UnATliKVCA 



triste e cironea concIusSo, que queremoa fafa echo no mundo 
cÌTÌlÌ8«do — de que OB povoa da Afiica sSo briitos e comò tace 
BÓ a tiro se podem submotter aos noseos ubos e coetiunes; ou 
entflo, que d'ellee nada se pode fazer, por eerem rebeldes ao 
ensiao. 

negociante, tendo apenas em vista o seu commercio, pe- 
netra no centro do continente, com a mira no maximo lucro, 
e por todoB oa meìoa que Ihe lembra procura have-lo ; esquece 
que estd cnainando ao indigena o portido que elle pode ^rar 
dos mesmoB meios. 

Enfastia-o a demora na« tran8ac95eB, porque efite nSo qner 
Bujeitar se ao prc^o que Ihe oÉFerece, e esquece que a sua in- 
BÌstencia e causa d'essa demora. 

Entende que pode passar lìvremente com o Bou commercio 
e negocià-lo onde queira; e levanta conflictos quando se Ihe 
exige nm tributo pclaa vantagena que foi procurar & locoUda- 
dea em que negoceia. 

Neste caso jà nìlo quer o mundo civilisado onde eatà, quer 
a Africa ignorante comò aeu patrimonio. 

Procura emfim esplorar e nSo quer Ber exploradol 

Por muito que o negociante de là traga, nunca està 88tÌ8- 
feito; e as suas impressi!leB com rcepeito aoa povoB, qne so 
tempo teve de cstudar segundo o espìrito do commercio, bSo 
desagradaveiB. 

viajante explorador, Bacrìficando-Be no intento de abrir 
caminbos de costa a costa e de os assignalar devidamente à 
face da scicncia, occupando-se do que Ihe é correlativo, nSo 
tem tempo nem Ihe permitte o clima dcscer da especialidadefi 
daa regiSes que atravessa, e apenas aprecia oa povoa pelo que 
observa na sua rapida paaBagem ; e na verdade, nesee mo- 
mento, que se Ihe apreaenta sSo oa malee e os vìcios de um 
principio de civiJisa^ito jà mal encaminhada. 

Sào, poÌB, aa explora9SeB regionaes que mais importa fazer, 
ellaB nos darSo a conhecer oa indigenas, com todos os seus 
ooBtumes maus e bons, e nos ìndicariki a melhor orientarlo a 
dar-lheB. 



ETHKOGRAPHIA E HISTÓRIA 47 

Sugger^ram-Be-me estas coDsiderafSes quando me achei con- 
▼aleacente d'essa grave doenga a que jà me referi, convalescensa 
qae passei entre almofadas, sobre urna cadeira, sem me poder 
mover, inchado e tolhido de dores ; e resolvi-me entSo a colher 
todos 08 elementos que me habilitassem a fazer om estudo 
ethnograpliieo e historico de todos os povos com quem me 
encontrava, e que se apresentam num estado t^o primitivo. 

lASio havendo elementos para estudos sobre os tempos ante- 
rioresy tive de restriogir as minhas inve8tiga98e8 ethnographi- 
casy bem corno as historicas e politicas, aos unicos dois £EM!tores 
de que podia dispor — linguistica e tradijXo — soc- 
correndo-me dos artefactos de madeira e de ceramica, do ves- 
tuario e dos omatos ; e assim consegui esboyar a tra90s largos 
o viver dos povos da Lunda, sendo està por ventura a primeira 
tentativa que se faz neste sentido. 

Creio que este estudo, comparado com investigajSes analo- 
gas ao norte e sul, nos indicarà a proveniencia d'estes povos 
e talvez ahi encontraremos indicios de terem elles passado por 
ama idade anterior à de ferro, e que depois d'ella tivessem 
legar as immigra98es para està regi&o central-occidental ao sul 
do equador. 

Se as tradÌ95e8, corno as linguas, onde a escripta se des- 
conhece, nSo sao elementos rigorosos para servirem de base a 
um estudo iSio importante corno é o da ethnographia, é certo 
que elles elucidam muito, e comparados com os que se podem 
obter dos outros ramos da sciencia, concorrem nSo so para este, 
comò para o estudo da anthropologia. 

E em toda a Africa Central, ninguem melhor que nós, os 
Portuguezes, espalhados em suas diversas regiSes, os podere- 
mos fazer. 

Quando a agricultura revolver as terras, e as construc9(!les 
de caminhos de ferro exigirem o derrubar das florestas e as 
grandes escava95es, quando a expIora9So mineira e a lavra 
dos materiaes uteis forem emprehendidos em certa escala, quan- 
tos problemas, até hoje obscuros para a sciencia, n2o serSo es- 
clarecidos ? 



48 



EXPEDigÀO J'ORTUGUKZA AO MUATliNVUA 



Se as estagSes ciyilisadoras, taes corno foram delineadiis, ee 
estabelecessem pelo interior d'està regiSo, quantaa noticias 
importantes de pbenomeuos accideataes nSo eucoutrariamoa re- 
g^Btadas qae, gb nSo passam deapercebidos para o indigena, 
d'ellea se eaquecem, ficando igaorados no mundo eiviJisado! 
Em 30 de novembre de 1885, de- 
pois da meia noite, e eatando jà dei- 
tado na minLa resideocia (oeta^So 
Luciano Cordeiro), no Cangula, senti 
Iremer bastante a minba cama e notei 
i:Bse facto na niinha carteira parti- 
cular; nZto quiz leval-o ao diario, re- 
ceando ser illusSo minha, porque até 
ali nunca ouvira fallar em tremorea 
de terra nesta parte do continente. 
Hoje, porém, fallo d'olle com con- 
sciencia, porque em 18 de marjo de 
1886 eacrevia eu no meu diario, 
acampado enlUo na colonia D. Car- 
los Fernando, no Luambata: 

uEm julho de 1880 sentiu-se nm 
n(.mor de terra no sìtio de Mona 
Gongolo, no Quicapa, que tambem 
se sentiu no Muquengue (Lnbuco), 
mvaa (nmLo) ^^^^ estava entSo o meu interprete, 

que tambem dìz bavedo seatido Silva Porto no Quiluata do Mai 
Munene. primo do interprete, Agostinho Bezerra, estava en- 
tao om Quirabundo e tambem o sentiu. Este tremor leve le- 
gar de noite e na direc^So do Quicapa, pois nho fora sentido 
no Cangula, ondo eatavam a esae tempo una parentes d'aqnel- 
les que a Quimbundo foram encontrà-lo diaa depois. 

«D'esto tremor tìveram tambem conbecimento Saturnino 
Macbado, em Quimbundo, e um empregado de Domìngos de 
AsaumpfJlo Quitiibia, de Pungo Andongo. 

«Diz Bezerra: que fugira da cubata onde estava, tna«, sen- 
tindo fora que a terra tremia, voltou para ella; que na ma- 




^-a^fe.^ 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 49 

dmgada segointe yiu algumas cubatas derrubadas e todas 
mais on menos estavam indinadas e que a terra tiaha gran- 
des aberturas. 

cKocha conta que nesso anno aqui nSo se dera por isso^ 
porém que seis ou sete annos antes, vivendo ainda o Moatiànvua 
Muteba, se sentirà aqui no Lnambata mn tremor muito grande ; 
aquiotado Mnatiànvua^ o grande telheiro das recepgSeSi fSra 
abaixo; que cairam muitas arvores; morreram moitos passa- 
ros; 08 peixes saltaram para fora dos rios; o terreno abriu, e 
em algons pontos ficaram covas e cairam muitas casas. 

cAlgons velhos lundas presentes attribuem estes tremores a 
feiticeria e dSo-lhe o nome de muxindo (muxido), os de Lubuco 
e QuiocoB chamam-lhe dinhica (dinika), dizendo o Muquengue 
que é obra sua e por isso elle toma tal titulo, e é certo que 
eunhiea (kunika) é o verbo cabalar, tremer». 

cTambem em Quimbundo Ihe chamam dinhica (dinika). 

cTodos elles estSo de accordo que o estremecimento teve 
logar de cima para baixO; querem dizer^ de sul para o norte. 

cO dr. Bùdmer, em julho de 1880; jà estava em Malanje, 
e por isso certamente nSo. teve conhecimento do que se deu 
ao longo do Quicapa.» 

Assim comò estes, quantos outros accidentes naturaes serSo 
observados pelos indigenas e de que nós nSo temos noticia 
cabaly comò por exemplo o estranho pdr de sol nos mezes 
de julho e agosto, e a sua intensidade ao declinar, nestès me- 
zes, depois das tres horas ; as chuvas chamadas de algodSo e 
as dos grandes prismas de agua congelada nos mezes de se- 
tembro a novembre; as repetidas appari95es de innumerosas 
estrellas cadentes em zonas inferiores às fixas, nos mezes de 
novembro a dezembro, etc., o que tudo observei. 

De ÙLCio, a sciencia, em todos os seus ramos, muito tem a 
estudar ainda no grande continente. Convicto de que todos 
que levarem uma pedra para o bello edificio da explorafSo 
afiricana auxiUam a sua construc9So, procuro enfileirar-me no 
logar mais humilde entro os seus operarios, colligindo e orde- 
nando todo o meu material o melhor que posso para dar d'elle 



50 EXPEDI{;XO PORTDQUEZA AO MOATiAnVCA 

conheci mento, principalmente no que respeita & historìa das 
tribuB que encontreL estabelecEdae na regimo Taetìsaima que 
procurei conliecer, e das que d'aqui ee Mo espalbado até & 
costa Occidental, fazendo ao mcamo tempo a deacripyìlo daa 
localìdadea que constituem oa seua territorios, cuja reunlào 
forma o Tasto estsdo do Muatiànvua. 



r 




(nxn DO itLoopoKiio) 





CAPITOLO I 



OEIGEM DOS POVOS DA LTINDA 



A ra^ negr» — Ei^igraf S«f de trilrai para a Teiiente mi do Zaire — Oi Bnngoi — Lenda 
de Uiuifa e de LaéJI — Conititai^Io do eitado do MnatiànTna — Expatriaflo de urna 
frae^io de Bnngof capitaneadoi por Quingr^ ; raa entrada no territorio de Angola e 
•stabeleeimento em terraa ée Ambaoa — Deteendencia dot Jagas — Partida doi Quid- 
eoe para as nascente! do Lnango — Fondarlo dos estadoi de Capenda, de QniAcos, de 
Mnene Puto Cauongo, de Moata Gumbana, dot Nongoi, de Ganngala e ontroi — O La- 
Imeo — ^Ylagem do Qaidco Qnilunga à procura de marflm — Rela^Sei com o Mnqnen- 
gne — Partida d'ette para o Qnimbimdo ; tnat rela^Set com ot Portagaeset — O pò- 
tentado Cambongo — ConclutOet. 






I 

■• 




em conbecidos sSo os proble- 

mas, que se eatSo propoodo no 

mimdo scientifico, a respeito 

da ethnogrspliia africana, ain- 

L da tSo obscura, e nSo venho 

por certo, pronunci ar-me 

sobre as probabili^des do 

_ triumpho de urna òu outra 

J^ bypothese, porque esses pro- 

"= blemas naturabnente se pren- 

' dem com o estudo das ragas 

em geral, 

que desejo mnito eapecial- 
meiite é expor todos os factoB, 
a mett ver interessantes, que observei e todos os apontamentos 
bistoricoB e etbnograpbicos que me foi possivel collier durante 
o tempo da commissSo especial de que fui encarregado, entre 
OS povos com quem tive de manter estreita» relagSes, para o 
Bea cabai desempenbo. 

D'este modo podere! concorrer com alguns elementos para 
augmentar o material jà existente concernente & ethnographia 
africana, aproreitando o ensejo para mostrar quanto sSo defì- 
cientes 08 trabalbos que aeste sentìdo se teem feito. 






54 EXFEDigZO POBTUOUEZA AO MUATllNyUA 

Julgo mesmo que faltam as principaes inYe8tiga93e8 para se 
obter um resultado pratico e para onde possam convergir as 
attenjSes dos homens mais competentes e de espirito synthe- 
tìcoy e sómente, preenchendo essas laconas; se chegarà um dia 
a pdr termo às profundas dissidencias que se levantam^ quando 
se procura determinar a origem dos povos afncanos. 

Dizem, por exemplO; alguns ethnologos que toda a Àfrica 
esti povoada por tres ragas diversas, correspondendo a regiSes 
bem distinctas Ian9ada8 de norte a sul, desde as terras saha- 
reanas até às calaharìanas; subordinadas de um e outro lado 
às influencias tropicaes, sem as quaes nSo pode existir uma 
tribù negra em toda a sua pureza. 

Na parte septentrional da Africa fica uma regiSo importante, 
jà do dominio da historia e fazendo parte da bacia mediter- 
ranea, em que se tem elaborado grandes civilisaySes e no ex- 
tremo sul adelga9am-se e projectam-se as tei^ras, penetrando 
em dois oceanos e obtendo assim influencias pelasgicas que 
Ihes dfto condiySes de clima muito diversas das de todas as 
outras regiSes. 

Os que proclamam a existencia de treis ra9a8 distinctas nSo 
offerecem factos que se imponham comò verdades absoluta- 
mente acceitaveis. 

£ de feitO; as differen9as mesologicas que se observam 
naquelle vastissimo continente poderSo explicar satisfactoria- 
mente a existencia de tres ra9a8? 

Os que acceitam tal doutrina s&o os primeiros a reconhecer 
que^ em geral^ as inve8tìga93es feitas s&o deficientes, e que 
todos OS estudos anthropologicos por climas est&o por fazer. 

Em opposiylLo a està formulam-se outras doutrinaS; que se 
advogam com verdadeiro calor e enthusiasmo, mas a que falta 
tambem o devido rigor embora tenham por seu lado largas tra- 
dÌ98eB. 

Ensinam estas que a raga, que povoa os territorios africanos, 
é uma unica, embora se modifique aqui e além, segundo o 
regimen orohydrographico e as condiySes especiaes dos climas 
e das localidades. 



ETHNOGBAPHIA E mSTOBlA 56 

Urna e oatai doatrìna MLo baseadas ho moBino material fbr- 
necido pelos rìajantes e exploradores qae mais se teem inter-^ 
nado no amago do continente^ e que se teem achado em inti-* 
mas rela95es com as tribus mais pnras; mais isoladas on maic( 
genoinamente africanas. 

MuitoB d'estes obreiros do progresso, porém, nSo puderam 
entregar-se ao exame especial dos dialectos, que deve ser nm 
dos principàes elementos de estudo em qnestSes ethnogra- 
phicasy nem Uies foi possivel occuparem-se da anthropologia 
nem ainda da geologia; e assim o estudo da raga negra tem 
tido pouco adeantamentO; por carencia de factos fundamentaes. 

Dizer, por exemplo, que os terrenos da Afirica, primeira- 
mente exundados, foram habitados por uma ra9a aborigene, 
autochthona, que ahi viveu por largos annos, é fazer uma 
asserito ousada, para que se nSo alcanfaram ainda provas 
cabaes, etnbora se apresentem factos dignos de attento exame. 

Os sectarios d'està doutrina suppSem que essa rafa aborige- 
ne se firagmentou, por motivo sem duvida de uma larga inyasSo 
de negros; cuja origem ainda nSo puderam determinar, e mos- 
tram comò exemplareb d'esses fragmentos as tribus dos Boxi- 
mane9y Mussequeres ou habitantes dos bosques e de outros povos 
que largamente se differenjam entre si e habitam a zona mais 
apropriada à ra9a negra. 

Todas estas doutrinas, mais ou menos brilhantemente sus- 
tentadas, quando se trata da distribuÌ9ào geographica dos po- 
vos da raga negra, encontram grandes entraves, as maiores 
difficuldades^ porque, de tropico a tropico, esses povos occu- 
pam as mais variadas regiòes. 

Na Àfrica vivem entre outras ra9as, tanto a nortè até ao 
Sahari, comò no centro de uma a outra costa, e ao sul até à 
Cafraria e Hottentotia. 

Na Asia habitam o DeccSo e differentes ilhas. 

Ka Oceania estendcm-se pelas principàes regiSes insulares, 
sempre intertropicaes. 

E comò se explica entSo a existencia da ra^ negra em tSo 
variadas localidades? 



56 



EXFEDlfìO POBTDODEZA ÀO HHATiIkVUA 



r 



Procuram alguna ethnologos esplicar eate facto pelo des- 
apparecì mento do um aotigo cODtmente, que ligava todas ae 
terras orientaea, o lembram corno contraprova que esea ra^a 
falta inteiramente oas terras occidentaes hojc exiiudodae. 

S2o gravea as duvidaa que se apresentam Bob o ponto de 
viata da geologia e da geograpliia pliyaica, mas nSo menos 
dignaB de attento exame aSo aa durldaa que nascem do eatado 
da raga negra pelo que respeita a ei mesma e em rela^ào &s quo 
parallelamente cora ella occupam hoje a auperficie da terra. 

NSlo tento, nem poaso meamo, entrar num traballio geral 
de ethnographia ' e muito menos tenbo a pretenaSo de me 
occupar do estudo de toda a ra5a negra, quer tenta o aeu ha- 
bitat noB territorioB da Àfrica, quer nos da Asia ou Oceania. 

Nao tratarei tambem doa povos que se teem desenvolvido 
no longo do rio Zambeze, do Cunene, nem de outros que Ihea 
Hcam mais ao sul ; nem tiio pouco doa quo TÌvem nas rcgiSes 
mais a norte além doa limites que me b3.o necessarios para 
termos ou elementos de compara^ao. . 

Concentram-BC, pois, oa meaa eatudos na vastÌBsima regiSo 
situada na vertente sul do Zaire, baixa, de natureza lacustre 
e largamente drenada por Tariadiaaimas correates de aguas 
mais ou menos caudalo^as, e cheias de rapidos. 



' Como é sabido, eio duas oa theoriaa fundamentaes eobre aa ra^e 
— a. dos monogeniatae e a dos poljgeniataa — ; e, tanto para 
uma comò para outra theoria, se invocsm srgumcntoa doa meaiiioa ramo» 
daeciencia. 

Por£m ucnhum d'esses ramos chegou aìnda a um grau de dcscnvol- 
vimento tSo perfeito, que pennitta o recoahecimento da rerdade aem se 
levautarem duvidas e conteeta^Òea, dando Bempre origcm a uovaa e 
multiplìcadas thcoriaa, que mais provam muitaa vezes o talento de aeus 
auctorcB quo a verdadc dua factoa que apresentam. 

A rcBpcito da Africa Central pode mcsmo dizer-se, que todos OH es- 
tudos geologicoa, geograpUcoe e cthnograpliicoa nSo paesani de tenta- 
tivas, mais ou menoa brilliautcmentc rcalisadaii, mas som bomogeueidade 
noa proccsBos de investiga^So, a que difiiculta todos os trabalbos de 
compara^Ao, comò por mais do uma va aerei for^ado a p6r cm relevo. 




ETHNOGRAPHIA E UISTOKIA 



Toda catfl regiSo é occu- 
pada por differentes trìbiis, 
e, aegundo os dados quc 
obtivo e hei de ir apreaen- 
tando, confinnam oetes a tra- 
digSo de terem vindo ellas 
do nordeate, fugindo prova- 
Telmente &b perscgui^òea de 
povoB mais aguerridoa. Es- 
taa tribus disseminaram-sc 
marginando os lagos mais 
occidentaea e descaindo d'ahi 
para oeste reuniram-se da que 
foram para sudoeate, e com 
eUas aeguiram, pclas beiras 
doB ri 08 até às naacentes. 
Fugiam por certo a eaaaa in- 
vaeSes que chegaram até da 
alturas daa origens do Nilo, 
enlre o grande Sahara e este 
rio tSo afamado. 

Deixaram aos seus perse- 
guldores as tcrras que occu- 
pavam, e vieram procurar as 
linbas de agua quo Ihes fica- 
" vam mais proximas e a regiBio 
lacustre que se estende ao 
oriente d'essa vaata rede ftu- 
vial, que forma o celebre rio 
Cassai OH Cassabe dos noasos 
antigos exploradores. 

Fixaram-se, a principio, 
jonto ao curso inferìor doa 
rìos que Ihea fìcavam mais 
proximoB, assentando as suas 
reaideaciasemTarioslogares. 




(Jri^ icbntìjitanbì 



m 



58 



SXFEDIflO PORXnQUEZA 10 IIUAT1ÌNVUA 



E é por isao que a tradi^&o noa diz se destacnram mais 
para o oeate e sudoeate algumas tribus ou parte d'ellaa — umas 
fugindo ao despotisino dos govemniiteB, outrag ein busca de 
tnolhorca ]ocalidadea e ainda outras por causa de disBidoticiaa 
cntre vizinhna e mesmo uà propria tribù. 

Pareee quc em algumas d'eatas tribus se conserva aiuda 
vaga recordagSo da regimo doa lagoa, pelo menofi noquellaa 
de que mais eapccialmeate me occupo. 

Devo meamo obaorvar que a pniavra Calunga, de que os 
povoB d'eata regiSo UBam, é antiga e se referia Teroaimilmente 
aos grandes lagoa e n3o aos grandes mares, que nuuca viram. 

No vocabtdario indigena bó ae cncontram oa nomea de ani- 
maea e objectos que Ihea BJlo cu foram conhccidos, e por iaso 
é naturai que ae d@ a denominatilo de Calunga is por9(^e8 de 
agua que aeparam urna terra de outra e de uma exteiisSo muito 
Buperior è. largura dos aeua rios, era cujoa vallea babitam. 

E certo, além d'iaso, que quando ae pergunta ana p^ìvoa do 
Caaaai para leste, onde £ca o Valanga apootam Bempre para 
o nordeate. E é peraìatente tambem a. idea de que oa prìmeiroa 
habitantcB d'abi vìeram e Ee fixaram aqui na regiSo media doa 
rios entre o Cassai e o Lualaba. 

Eia a tradÌ9So: Uma tribù de ca9adoreB afaatando-ee doa 
grandoB lagos a norte entranhou-Be noa matos e passou o 
Zaire, acampando proximo do seu grande affluente (Lumàmi?) 
e mima fioreata entre eatea, onde viram indicioa de ca9a em 
abimdenda. 

Exploraram o terreno era rcdor e encontraram aqui e acolà 
pequcnoB povoados. 

Calundo, chefe d'eata tribù e que abandonAra os seua por 
ter side posposto na successSo do eatado que entendia perten- 
cer-lhc, de accordo com os seuB partidarioa constituiu um novo 
estado que se denomi oou Luba. 

Terà està trilju alguraa rela^Jlo com oa Lubas, povOB vizinlios 
doa Mubutos, Mubucrce e Bongos do que falla Schwcinfurtb? 

OutroB povos vindoB do norte juntaram-se a eates, engran- 
decendo o novo eatado, e outros eatados tambem se formaram 





BTHNOGRAPHIA E HISTOBU 59 



no paiz de entre os lagos e a£9uentes do Zaire mais para o sul, 
nSo devendo esquecer o dos Bungos, entre o Rubiléxi e Ruiza^. 

E estes parece terem chegado mais cedo aqui que 08 do 
estado de Luba, porque foram encontrados mais tarde pelos 
d'este ultimo na localidade em que se conservarne num grau 
de desenvolvimento relativamente atrasado. 

Os Bungosy apesar de ji conhecerem o ferro^ faziam uso da 
funda, emquanto os Lubas, empregavam o arco e frecha, o que 
denota^ por certo, maior adeantamento. 

O estado da Luba teve sorte igual & dos do norte, foi reta- 
Ihado por differentes invasores, e o seu ultimo potentado Mu- 
tombo Muculo {mutoHo rnukulo «arvore velha»), reconhecendo 
a sua decadencia, aconselhou os filhos Cassongo, Canhiuca, 
Hunga e Mai, a que fossem procurar novas terras e melhor 
fortuna mais para cima, acompanhando os rios, e ahi consti- 
tuissem novos estados, protegendo-se mutuamente, pois d'elle 
e da terra jà nada tinham a esperar, e que a sua avan9ada 
idade nSo Ihe permittindo jà ausentar-se do legar, ali morreria. 

Foi està a causa que determinou pouco tempo depois a for- 
marlo dos estados de Cassongo e Canhiuca, ficando o Rua- 
raba^ de permeio, o que mostra que o primeiro se inclinou 
para a regimo lacustre, emquanto que o ultimo nào passou da 
de entre-rios. 

Bunga e Mai continuaram acompanhando o velho Mutombo, 
servindo o primeiro no logar do irmào mais velho Cassongo, 
comò immediato do potentado ou seu Suana Mulopo. 

Os Bungos, porém, viviara agrujlados em differentes povoa- 
95e8, governando-se independentemente cada uma com o seu 
chefe, intitulado csenhor de estado», que tinha por distinctivo 
Iticano (bracelete feito de veias humanas)'. 



1 r prononcia-se muito brando e parece ouvir-se L 

2 E bracelete primitivo. Presentemente faz-se de nervos de bufalo, 
cabra co de outros anìmaes, nSo obstante ainda dizerem que é de 
veias homanas. £ insignia especial d'estes povos, e distingue o senhor 
do escravo. 



60 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 



Os chefes d'estas povoa^Ses eram parentes e todos ouviam 
e respeitavam o mais velho^ lala Màcu {teda maku t mSe das 
pedrast), cognome que Ihe deram por t^r sido mn bom atiradpr 
de pedras^. 

Os Bungos eram mais pescadores que cafadores, mas tanto 
para a pesca comò para a ca^a serviam-se de armadiUiaSy 
ainda hoje maito usadas^ e que fazem ainda sem auxilio de 
utensilios de ferro. 

Os fiungos de.além do Mulongo^ a£9aente do Cajidixi, 
ainda hoje fabricam o ferro e mesmo o cobre, mui mdimentar- 
mente; porém^ tanto esses corno todos elles em geral nfto nos 
apresentaram indicios de terem sido pastores^ o que faz suppor 
que foi a abundancia da ca9a que os desyiou d'esses trabalhos. 

A sède prìncipal d'estes povos, ou melhor a residen<ùa do 
lala, ainda hoje, é considerada a do Calànhi entro os rios 
Calànhi e Cajidixi. 

lala, de sua primeira mulher Cdnti, ou C6ndi contava dois 
filhos, Quingùri e lala e uma filha Luéji, que tomaram para 
appellido o nome da mSe. 

Os filhos jà adultos tomaram-se ocìosos e entregaram-se ao 
uso immoderado das bebidas fermentadas, causando depois 
desordens e perturba95es no estado. Abusavam da sua po8Ì9SOy 
vexando, espoliando os povos, motivo por que seu pae, achan- 
do-se bastante adeantado em annos e enfraquecido, procurava 
fazer que Ihe succedesse um sobrinho que elle muito estima- 
va e que era pelos anciSos considerado capaz para a governa- 
9^0 dos povos. 



1 A transposio^Lo d*estes*vocaba1os {maku iala) e sua reductio, transfor- 
maram-no em macola {makcda), e corno xa é titolo de respeito para com 
08 velhos, muitos passaram a intitular aquelle chefe Xa Macola {xa 
makal4ij^ que com o tempo se reduziu ainda a XcLcala {xa kala) e hoje 
ainda se ouve para mais distinc92o Xacala Macala^ titolo que se dà a 
quem reprcsenta na ausencia o potentado, o que £az as yezes do lala 
Màco, que eu interpreto « regente >* e nào «pae», comò os Quimbaies 
teem tradozido. 



ETHNOOBAPHIA E HISTOBU 61 

Isto constoa aos filhos^ e numa occasiSo em qae o velho se 
entretìnha, corno de costnnie ^^ a fabricar urna esteira àejm- 
ambi (jSuU ca angda» dos Ambaquistas) no seu pateo reser- 
Yado, entraram elles multo embriagados naqaelle recinto, e se- 
gniram direitos ao pae, que Bem olhar para elles coQtinuoa com 
iraa tarefa. 

Ao lado de si tinha o velho urna bacia de madeira com 
agaa ji de c8r leitosa, derido isso às fibras da ang6a qne 
entrela^ava e que tinham estado ahi de mdlho para se amol- 
darem e sujeitarem com mais facilidade às exigencias da obra. 
Os filhos perturbados pelo malufo (cvinho de palma») tomando 
aquella agua por està bebida^ come9aram a insultar o yelhO| 
dizendo que os roubava estragando malufo, emquanto elles o 
andavam mendigando de cubata em cubata, porque tinham 
fome*. 

pae surprehendido por tal atrevimento e desatino, limi* 
tou-se a levantar os olhos para o mais velho e encolher os 
hombros. Este ^ entSLo, sem mais demora, levanta o musunhi 
{vauuni e especie de cacheira») que trazia, e jogou-lhe uma 
pancada à cabe$a que o prostrou lego sem Ihe dar tempo a 
gritar por soccorro. 

Ob filhos continuaram a insultà-lo e a moé-lo de pancadas, 
com receio de que pudesse gritar, dizendo-lhe que elle jà co- 
rnerà bastante ao estado e devia deixar legar para outro, e 



1 Presentemente o Maatiànviia, e em geral qoalquer Muata, mesmo 
em audìencias ordinarias, entretem-se em fazer algons trabalhos de 
mios, come esteiras, cestas, chapeus, e tambem obras de missangas, 
corno mUuina, muquixi, faxas, etc. 

2 Considera- se o malufo, corno um recnrso alimentar, dizendo-me 
alguns indigenas, que por moitos dias o bebem à £Bilta de todos os ali- 
mentos. Até entro os da nossa comitiva de carregadores, registei esse 
facto. £ sera com effeito o malufo uma bebida confortante ? 

' Com respeito a Quinguri, ainda hoje se diz no Cnango : — qae era 
tio barbaro, que se sentava nas costas de um escravo, apoiando-se na 
ma lan^ cuja ponta espetava no peito de um outro (homem ou nmlber) 
ope Die ficasse mais prozimo. 



02 EXPEDI9X0 P0RTD6UESA AQ MMIXÌHVIU 

foi 8Ó quando o suppuzeram sem falla e viram bftnhad» eai 
sangue que o deixaram para ali iìmmìmmào. 

Sua irmi Loépi lecolbendo ji tarde do servìfo das lavras 
eom as suas serras^ corno de costume^ procurava pae para o 
saudar, e nSo vendo recolhidoy seguiu para onde ouvia una 
gemidos e ficou surprehendida com triste quadro que via 
deante de si. 

Calculando lego o que se teria passado e para evitar gran*^ 
des conflìctoSy teve a prudencia necessaria para se center, e 
auxiliada por algumas das servas tratou immediatamente de 
limpar velho, pensar-lhe as feridas, recolhé-lo i cubata e 
deità-Io sobre esteiras, emquanto outras servas, por seu man- 
dado, iam chamar os parentes mais velhos e vizinhos, mas sem 
alando, que ella muito recommendou. 

Pouco a pouco conseguiu saber do pae comò os factos se 
passaram, e d'elles foi dando noticia aos parentes que vinham 
ao seu chamamento. 

Inteirados todos do acontecido annuiram ao pedido de Luéji 
de nSo abandonarem velho durante a noite, pois ella re- 
ceava que os irmSos voltassem a torturà-lo e a por-lhe termo 
& existencia. 

Os parentes mais velhos entenderam cada um por sua parte 
mandar participa9So do occorrido a todos os muatas proximos, 
e antes da madrugada jà os principaes estavam ao lado de lala 
moribundo. 

Este reconhecendo seu perigoso estado faz approximar 
todos para Ihe communicar as suas ultimas vontades. 

NSo reconhecendo em seus filhos a precisa capacidade para 
a goveman9a do estado, por isso pensava, havia jnuito, em 
quem Ihe devia succeder; mas depois do que se passàra pedia 
a todos OS seus amigos e parentes que se juntassem e reco- 
nhecessem sua filha comò unica herdeira e senhora das terras ' 



1 A88im explicam o titolo de Suana Murunda cu Mulunda («iiaiia 
imcmatf), que ainda hoje existe, de nomea^So do Muatiftnvua, represen- 



ETHSrOORAPHU B HISTOiOA 63 

^B^^^^^B^^^— i^^^^^^^»— ^^^■^^~B~^— ^B^-i^Ba^iiaa— ••>~^-^^mB^MBBnaaMa__^B_aa^^i^^aB^>^B— i^^— ^B^a^BO^BB^i^ 

que por amiimde dos nmatas se congregassem a formar um 
nova e«tado, e a ella entregou o seu lucano para o collocar no 
brago do homem que o seu coragSo escolliesse para pae de ■eoa 
filhofl, que eram do seu sangue e devìam succeder-lhe. 

lala ainda achava sua filha multo nova, e por isso pediu 
aoB muatas que fossem seus conselheiroe e nada deliberassem 
sem todos manifestarem o seu voto, e que por forma alguma 
attendessem aos seus malvados filhos e procurassem destruir 
todas as machinagSes que elles tentassem para tornar posse 
do estado. 

Morreu b velho, o Xacala, comò os povos o denominavam, 
e OS muatas dos diversos estados agora unidos^ tendo em multa 
considaragSo as suas ultimas vontades e receando dos maus 
instinetos dos filhos, deliberaram que em redor dsL anganda^ 



tando a pessoa de Laéji-liià-Cònti, a herdeira da terra que se chamou 
Landa cu Rnnday nome que tomoa da amizade (ruSa) qae reinatra entra 
OS chefes dos estados bungos, e que se juntaram a formar o novo estado, 
o qaal entSo na sua parte mais popolosa nSo la multo além dos 8<» e 9* 
de lai S. do Equador e entre os 23<» e 24<» de long. E. de Greenwich. 

Deve notar-se qae nesta regimo os nomes dos rios principaes teem 
por prefixo tu on ru e ob seus affluentes (filhos, corno elles dizem) am 
ootro antes, ca {ìea; de kakiepe «pequeno»); e estes prefixos terminam 
para leste da regiSo dos lagos e ySo desapparecendo & medida qae 
DOS approximftmos da costa occidental. 

mu é prefixo de gente, de nomes com determinada classifica^So e 
de titalos, e tem por plorai a; porém nos limite83 norte e boI da re- 
gi2o que tratàmos diz-se ba. 

* Anganda {§aia) qoe ons interpretaram «paiz», ootros «capital», 
e mius oo menos todos «terra de . ..», em toda està regiSo é o legar 
onde habita o potentado. 

As moradias qoe o cercam, resgoardadas por oma grande cérca, con- 
stitaem a quipanga {kip(z§a). Este vocabolo tambem serve para deno- 
minar a e d r e a , a qoal, por fechar um espa^o rectangolar, foi motivo 
para qoalqoer figora em qoadro ser tambem denominada quipanga, 
destacando-se da figora em arco oo corva, qoe toma a denominasse de 
mueondé (mukoJk) «redonda». 

É certo, porém, qoe se oove indistinctamente dizer : voo & qoipanga. 
▼00 k anganda de F. . . 



64 



BXl'EDl^XO POKTCODEZA AO HUATIÀNVUA 



de Luéji todos elles, corno fazendo parte da cSrte, tiveasem 
OS aeuB repreeentanteB vom familìas, tuxalapuU e tuvilaje *, e 
que Luéji nomeasse, de entre elles muatas, quem fìzeBse as 
vezes de Xacala e ainda outrae auctoridades que TigiasBem 
pela sua segitranya. 

As quìpangaa sito feitaa sempre ficando a linha do seu maìor 
comprimeato na direc^o E.-W-, Bendo a frente para leste. 

As povoa^Ses que ficam d frante coustìtuem o que se cha- 
ma m^su [mesu «olhoss) da quipanga, e aa que ticam atrda 
mazembe (mazSe «caudai). As doa lados bSo dunomìnadas ma- 
calas (makalaf, destacando-se na actunlidade as da dìreita das 
da eaquerda. 

Tanto o méssu corno o mazembe aào logares conaiderados 
de grande importancia, e por iaao foram logo (e ainda hoje o 
bXo) confiados a muatas dispondo do grandes for^as e da con- 
fian^a do potentado, eatSo da de Luéji, e o que foi nomeado 
para o tnéaau recebeu o titudo de Calala* e o que foi para o 
mazembe o titulo de Cannpuìnba^, 

Mais delibfìrou o conaelho doa muatas que os seus repre- 
aentantes na cSrte tomarìam ob seus titulos e nomea, e com 




' Tuxalapóli & o plural de eaxalapóli (kaxedapoli), Tocabulo com- 
posto de trCB : ca -\- xala -f pàU- ea é dJminuitivo, abreviatnra de 
eaqui (tuW) «rapaz-; xala é a radicai do verbo eaxala (kuxala) "fìcar» 
e pàli «fora, adeautc». — «0 lapaz que fica de fora; vigilante; policia». 

TanAaje (tulaje) plural de cambqjt {kahu^e), tambem é um vocabulo 
composto: ca (ka) 'rapaz», ambaje (oa^) aoniiuo, coragem». 6So oa que 
aentenceiam, e os eiecutorea da eeutenfa. Àlguna por iato lQteq)retam 
■ ali^Keg, carrascosu, o que uio eiprime multo o verdadeìro acntido. 

> Calala {kalala) é tanibem um vocabulo composto, sendo agora ea 
a Dega^^ porque ae trata de ura verbo ikrdaia «dormiri), — 'O qne nSo 
dorme; auctorìdade que velano méssun. E aquellc a, quem incumbe afas- 
tar o inimigo da frente do potentado, a d'abi a interpictafSo de >capitio 
das forfUB». • 

> Canapumba (kaitapula) — vocabulo composto de oana {lana), radi- 
cai do verbo «deepochar», e pumba (pula) 'trudora — «O que deepacha 
oa traidores; o que defende o potentado dos inimigoa qne o pretendeva 
atacar pelas costas-. 




ETHKOORAPHU B HISTOBU 



eases repartiiia eua ama ob presenteB que elles fossem enTÌando 
de auaa terras. 

A qiiipanga agora augmentada com as povo&^Ses da cfìrte, 
pauou a denommar-se muMumba (mu«u2a), que se pode tradu- 
zir bem por f capital do eetado», nSo obstante qualquer acam- 
pamento prOTisorio do Muatiànvua e sua comitiva em marcha 
aer actoalmente tambem aasim cbamado. 

Laéji, a Soaua Manmda, eatisfeita com a tutela no governo 
do eatado, augmentado peloa do. seu conselho, entretinKa-se 
com as snas amilombes^ no ser- 
VÌ90 d&8 lavras, e apenas com- 
parecia às audiencias da manhS 
para a resoIu^So das demandas 
do poTo e negocios do estado, 
em que confirmava voto da 
maiorìa. 

Decorna aseim o tempo, mos- 
trando Luéji capacidade para a 
govemafSo e creando aHeifUo 
DOS pOYOB, e por ìbso ob velhoa 
moatas (quilolos do estado), a 
qnem o pae a confìira, instavam 
com ella para que escolhesse um 
homem entre oa seus parentee 
para espose, pois era necessario 
tratar da successSo. 

NSo encontrava ella, porém, entre ( 
dassO) e por isso ia adiando essa escollia. 

No emtanto, Qunga, £Iho de Mutombo, potentado da Luba, 
logo que este morreu e depois de ter procedìdo às ceremonias 
do seu obito, comò era um grande ca^or, reuniu todos os 
gens amigos e dispoz-ee a esplorar as florestas ao sul, e devi- 




IJfud Cgnuiel ChillU-Long) 

) seus quem Ihe aj 



1 Jimltmbe» {atnUoU) «rapuigos ao serrico patticnlar du mulheres 
doa potentato». 



66 



EXPEDI^Io POBTUflUEZA AO MDATIÌNVDA 



damente prepnradoa vìerara marginando o Cajidfxì, n3o esque- 
cendo Ilungii de trazer a sua cAiwiiwìa ', ajinbolo da aucto- 
ridade que ficava ao mulopo* de seii pne. 

Urna tarde, quando o boI ia inclinando quasi a desapparecer 
no faorisEonte, as raparlgas da Luéji qiie se cstavam banhando 
no Cajidixi, vendo chegar ao porto da margem direita nm grupo 
de ca^adorea estranhoB, rapazca ousadua e bem armadoa com 
Buaa frechaa e facaa, eaem da agua e proctiram occultar-se de 
modo a vg-los sem aerem viBtaB. 

Vinha & frante d'esse gnipo o cliihinda (lihida ■ca5ador«) 
llunga, que, vendo-aa fugir precipitadamente, dirigiu-ihes a 
palavra, e urna d'ellas, a mais afoita, pergimtou-lhe quem 
eram e o que querlam. 

llunga reapondcu: — Siòìda muropo mutobo, ni tupokolo'. 



1 Mnchadinha de luxo, que se descreve no cnpitulo respeetivo. 

* Mulapo, muropo, mvlùpue (nnilapiii), murùpue (miii-upiìi), aegundo 

dialectoB, n3o é denoniina^ào de uni povo, mas uro titulo do imme- 
diato a lun poteotado, ou ao senlior de urna fainitia. Està dcDomina^HO 
iìlbos do Mntombo dn Luba para ob eatado» que conati- 
jn. Entro os Lnndas adoptou-se depois da vinda de llunga e por 
se chama Snana MiUopo ao que aegue na auccoBsSo, dovendo por 
interpretar-ae nherdeiro immediato". AlgiuiB interpretam por •prin- 
cipe berdtìiro», o quo nSo me pareen bem porque eutre familios partieu- 
larea tambem existe OEta eutidode, ob irmSoH mais novos alo mulripat dos 
mais Tellios na devida ordcm. 

h d'aqui eertamente que provém o uso doB nosBOS antigos eiplora- 
doroB e viajantcB cbamaram ao ostndo do Muati^iyua, dos MarupuoE ou 
MuropoB; e mesnio ebegarum a conftintJir Muatiànvita com Itlurópuc. O 
Suana Mulopo é de facto fillio de MuatìAnTua, hcrdeiro do que està no 
cstado; mas quando d'elle toma posae deiia de ser Snann Mulopo para 
acr Muatifiurua. Como immediato na euceesaSo de um MuatiA.nvua è 
aìnda seu quilolo ; o que tambem auccedìa no Muata Cazembc, onde esaa 
confusilo se deu, pois os exploradorcs, que fazem a ennumeraf So dos qui- 
lolos do Cnzcmhe, citam o Sunna Murópue, sobrinbo do Muata. 

E tambem a mesma coufiiaSo ec deu eom o catado dos Miilnaa, quando 
mùhia (muglia) é o aportador de noticias, nm-eacudeìroi. 

^ Consulte! diversoabomens velboB,B&ngaIas, Quificos e Liuidaa sobre 
«ata voeabulo, que aJguua diaem eer Utoowlo (iukohdo), e qualquer d'ellea 




ETHNOGRAPHIÀ E HISTOBIÀ 67 

iMieie tìiama, iukusota mogiia (cca^ador siibdito de Mutombo, 
oom rapazes valentes, temos carne, pi^ecìsàmos «al»). 

A rapariga apressou-se a dizer-lhe que ia com as suas com- 
{MULheiraB particlpar & Suana Murunda a chegada d'elles ao 
porto ; mas que nSo passassem o rio sem ordem de sua ama, 
porqne 08 vigias os podiam tornar por inimigos e fisizer-lhe» mal. 

Como ji escurecia por isso Bunga mandou acampar, e mar- 
eoa elle mesmo o seu legar proximo do rio^ espetando no solo 
mn tronco em forma de forquilha^ que cortou de uma grande 
arvore que ficava um pouco distante, e nelle suspendeu a aljava 
o arcO| 6 pócae, e todos os demais aprestos de ca9a. 

Estendeu a sua esteira e deitou-se, ficando com a cabota 
encostada ao improyisado cabide, para ter à mSo as suas ar- 
mas, e os pés voltados para o rio. 

Ahi passou a noite, tendo sempre na mSo direita a.saa chim- 
bùia, e ao lado tim bom braseiro de troncos seccos, que os 
KOS companheiro» haviam juntado para aUmentar o fogo. 



dÌ2Ìa ser verdadeiro um e ontro. Ambos no singular trocam o prefixo 
tu em ha* Kum e noatro a tcrmina9So lo è uma abreviatara que se in- 
terpreta «fora, extemo, nu, que se yé». No primeiro poco, parece ser 
mna oorrup^So de pócue (pokut)^ arma branca de que ainda boje se 
faa maito ubo, especie de adaga ou espada curta de dois gumes, em 
linhas cunras terminando em ponta e que toma differentes denomina^Òes 
scgundo o numero e saliencia das curvas. No segmido coco (koko) é 
corrup^So de hoco (hoko) «cranio». primeiro Tocabulo indica que a 
valentia que attribuem aos Lundas, é deyida ao manejo da arma com 
que cortam as cabe9as ao inimigo ; no segundo é devido ao seu animo 
em limparem essas cabe^as, cortarem a parte superior do cranio, a dar- 
Ibe a forma de canòa e por ella beberem agua ou malufo na pre8en9a 
dos seus chefes. Como succede com outros yocabulos, por muito tempo 
suppuji que um era corrup^ào do outro e que seria indifferente dizer 
ecKocoio ou capoccio; mas depois d'estas informa^Oes yejo que o motiyo 
pprque os considerayam yalentes era diverso. 

O major Gamitto na sua yiagem ao Muata Cazembe, encontrou o yo- 
cabulo* capoccio que empregou no plural, comò em portuguez, para desi- 
gnar OS yalentes da Lunda que elle distinguiu dos poyos oonquistados 
pelo pócue (polàiè) «grande fiEu^j». 



6S EXPEDI9ÀO PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

logar onde dormiu Dunga ficou aasigualado para a poato- 
ridade e por isso fui minucioBO na rela^Ho d'està parte dalenda. 

Luéji, a quena as Buas amilombes deram parte do occorrido, 
despertando-se-Ihe a curioBÌdade por todaa Ihe affianjarem que 
nSo conlieciam na terra rapaz tSo perfeito e insinuanttì comò 
capador com qucm fallaram, mandou logo chamar o aeu Ca- 
napumba, e disae-lhe que, eetando do outro lado alguos cafS- 
dores estrangeiroa quo traziam caja e pediam Bai em troca, 
providenciasae durante a noite para se Ihe alcanjar de corner 
a bcber e tudo que fosse preciso para o seu bom agasalho, e 
que logo de madrugada os fizesse passar rio e Ih'os apre- 




Cunipriram-Ke aa ordens de Luéji. Ainda ob cafadores dor- 
miam, e j& olla, rodeada das suaa servaa, ia para o largo em 
fireute da sua resìdencia, d'ondo descobrìa o caminho para o 
porto, e para ahi fez traasportar urna grande pedra em forma 
de olmofada, quo estava junta a urna arvore na quipanga, e 
em que aeu pae outr'ora ee sentava. 

Chegou Hunga onde estava Luóji, e ella convidou-o a aen- 
tar-ge na pedra ao seu lado, ordenando a Canapnmba e & sua 
gente que conduziasem os companheiroa do eeu hospede aos 
apoaentoa que estavam preparados no mazembe para descan- 
sarem, 

Luéji, rodeada de suas amilombee, que assiatiam mudas 
aquella entreviata, ouviu a historia de Dunga e a re8olu9So em 
que olle estava de abandonar o seìi estado, do qual a iusignia, 
a chimbiìia, foi muito admirada, passando de mSo em mio. 

Pela sua parte Luéji tambem Ibe apresentou o lucano que 
herdàra de seu pae, penaando que o melhor modo de reter 
junto a si t^o bello ca^ador aeria fallar-lhe na caya, encami- 
nhou a conversa para eate assumpto. 

Disse haver nos arredores multa ca5a, porém que ae luctava 
com grandes difficuldades para a obter, porque nem sempre 
caia nas armadilhas de que a sua gente diapunlia, e elle, de- 
moraado-ae algmis dias, podeiia enainà-loB a nearem das annas 
que empregava. 




ethnoOraphià e histobia 69 

De bom grado acceiton Ilunga o convite^ e foi logo hospeda- 
de numa cubata^ na propria anganda^ porque Luéji procurava 
jà evitar que elle se agradasse de alguma das suas servas e 
querìa té-lo ao pé de si^ e vigià-Io, pretexto de que se serviu 
para com Canapumba^ que Ihe havia preparado um bom apo- 
sento no mazembe, legar para onde sSo enviados os hospedes. 

Passados dias foi Ilunga quem pediu licenja a Suana Mu- 
runda para mandar um dos seus rapazes entregar a Cassongo^ 
seii irmSo mais velho, a chimbùia do estado de seu pae e par- 
ticipar-lhe que preferia ser ca9ador da senhora da Lunda^ sua 
visinha^ a voltar àquelle estado, que se achava muito pobre, 
e a li morrer. Elle, Cassongo, que era o mais velbo, no- 
measse para seu Suana Mulopo, o individuo que quizesse. 

Agradou tal resolu9So a Luéji, porém temendo fosse ella 
devida a uma influencia de occasiSo, adiava sob pretextos 
plausiveis a partida dos portadores. 

lam-se estreitando de dia para dia* as rela93es entro elles, 
e Hunga, para provar a Luéji quanto as apreciava, lembrou-se 
de piantar estacas de arvores proximo da pedra em que ella 
fizera sentar junto de si na primeira vez que se avistaram. 

Luéji, pelo seu lado, querendo corresponder a està prova de 
affeifSo, mandou limpar todo o terreno em redor da pedra e 
baté-lo constantemente, depois de molhado, a firn de se tor- 
nar mais rìjo, e para là ia todas as tardes conversar com Ilunga 
e beberem garapa em signal de reciproca amizade. 

Parece que a planta9&o das arvores, feita por Ilunga em redor 
da pedra, nSo foi feita ao acaso e o conjuncto constitue hoje 
um monumento, que se aponta e explica aos viajantes que teem 
ido ao Cal&nhi, e que se conserva por ser indispensavel no ce- 
remonial da posse de um Muatiànvua. 

A arvore que Ilunga primeiro plantou, que hoje é a mais 
desenvolvida, foi a mujangana (mujàgana)^ ou mudiangana 



^ Este vocabulo vem de cuangana {kìiagana) «receber», e por isso é 
possiyel que a arvore fosse escolliida com inten^io. 



70 EXPEDI9X0 POBTDOUEZA AO HDATIÌKVTTA 

(miMÌio^ana). Ab duas qtie se Ihe segiiiram, de menor cresci- 
mento, foram dispostaa inclìnadas urna para a outra, comò Bam- 
bolo da priraeìra entrevista que os doua ali tivcram. 

Eatc grupo de arvores està hoje milito desenvolvido, Bendo 
certo qiie as duas menorca eotrecruzam os seus troncos e ra- 
magem, e que A inudiangana, qiie symboltaa a recep^So, as aa- 
Bombra com a. suii grande copa, dando a este quadro naturai 
um aspecto aprazivel. 

monumento U esbl, e corno me foi poBsivel, desenhei-o; a 
Icnda ó comò fica expoata, 

Luéji, coQBultando oa aeus oraculoa, convenceu-se de que 
acu pae se encarregdra de llie enviar aqiielle ca^ador, por nSo 
ter ella eucontrado ainda, entro os seus parentcB, um homem 
por quem o aeu coragào palpitasse, e por isso resolveu-se a 
convocar a conseiho os càrulas * para os consultar sobre que 
Ihe diziam os adÌvÌnhos e sobre o que Ihe dìctava o cora93ki. 

N5o ae rccusaram os -cirulas a reunir-ae, e no dia aprazado 
compareceram: Candala, Cimzela, Mulnangulnji, Tuilji, Can- 
dinga, Catata, Quipéxl, Cassaco, Macongo, Dinhinga, Muan- 
sansa, Andumbo-id-Tcmbue, Ambnmba e tanibem as mulbe- 
rea Anguina Cambamba, Anguina Cata, Anguina Muhongo a 
quem Luéji participou que nSo tendo encontrado um homem 
(le seu goato para Ihe confiar o lucano que herdiim, seu pae Ihe 
enviira o cbibinda Ilunga, de quom multo se agradàra, e por 
laso OS chamdra para Ihea pedir que proccdeaaem àa ceremo- 
niaa para sanccionar a aim eacoiha; se Ilunga nSo era seu pa- 
rente, era um grande, irm&o de Canhfuca e Casaongo, sena 
vizinhoB, e n2o devia importar que elle fosse catrangeiro, por- 
quc OB filhoB que d'elle viesse a ter serìam sangue d'ella e 
por consequeucia de Muata. 

Oa velboB parentes, que ji sympatbiaavam com o cafador, 
pronunciaram-se a seu favor, porque queriam ae cumpriasem 



I AoB parentes na ordem ascendente dà-se este titulo de cànila (kd- 
rula), que se tetn iulerpretado por — tio de Muatiànvua. 




ETHN06RAFHIA E HISTORU 71 

as ultimas vontades de Xacala Macala, e estavam sempre 
temerosos de que Qningùri, cujo genio irascivel conheciam, 
conseguisse organisar partido para roubar o lucano & irmS e 
tornar conta do estado. 

Todos applaudiram de bom grado semelhante resolu9So e 
a transmittiram aos seus povos, que receberam bem a noticia^ 
e Ilunga despachou lego um dos seus para levar a. Cassongo 
a chimbùia e dizer que ia unir-se com a senhora da Lunda. 

Luéji tambem pela sua parte mandou os seus àltuis (aliia 
cportadores») cumprimentar o seu-futuro cunhado e entregar-lhe 
alguns presenteS| pedindo-lhe o seu franco auxilio para Ilunga 
fazer bom governo nas terras que ella herdàra de seu pae, 
mostrando-lhe a sua importancia e a situa9SU) em que se encon- 
travam, e finalmente o receio que todos tinham de que o seu 
ìrmSo Quingiìri levantasse difficuldades ao novo governo. 

Cassongo recebeu multo bem-^ os enviados e, passados alguns 
diaSi despachou-os, devolvendo a chimbùia a seu irmSo, para, 
comò sjmbolo do seu estado^ a confiar à guarda do seu Suana 
Mulopo, praxe observada no estado do seu defuncto pae^ que 
elle, Cassongo e o Canhiuca mantinham, e que Ilunga nfto 
devia desprezar. 

Os presentes de sua cunhada retribuiu-os com marfim e 
armas de ferro, que elle confiou à vigilancia de homens de 
sua escolha a quem determinou ficassem tambem As ordens de 
Luéji, para sem demora o prevenirem de qualquer attentado 
de Quingùri e seus sequazes centra o governo de seu irmSto. 

Luéji ainda tinha o lucano em seu poder; porém, sendo jà 
reconhecida a sua gravidez e avisada por uma serva de que 



1 Receber bem, entra cstes povos, consiste multo principalmente, em 
86 dar aos recemchegados, antes de Ihes ser concedi da audiencia pelos 
potentados, urna boa cubata para dormirem, e comida e bebidas em' 
abundaacia. Se nas refei^òes entram grandes por^oes de carne, ou 
melhor, se Ihes dio animaes vivos para matarem e cozinharem quando 
quizerem, a recep^So é ainda mais considerada e o potentado é repu- 
tado multo rico e multo bom. 



72 EXFBDI9Z0 POBTUOUBZA AO JfUATliNVnA 

a 8aa ama quando ella estìvesse dormindo, tratou logo de 
chamar 08 tubungaa (yelhos moatas), seiu mais proximos pa- 
rentesi para se marcar dia em que elles hayiam de entregar 
lucano ao pae de seu futuro filhc 

Hostrou ella a urgenda d'essa ceremonia, porquanto ji nSo 
podia conjparecer assiduamente ao tetame\ e por isso, poucos 
dias depois, se reuniram os tubungos e, com teda a solemni- 
dade, se deu come90 à ceremonìa, tendo Ilunga de se stgeitar, 
durante tres dias, com a maxima resigna9lo, a todas as provas 
humilhantes por que entenderam elle devia passare 

Terminaram estas pelos discursos dos mais considerados 
entro os tubungos e allusivos ao acto; e o mais yelho d'estes, re- 
cebendo lucano de Suana Murunda, ao collodUlo no bra(o do 
chibinda, em nome do povo deu-lhe poderes: para reunir todos 
OS pequenos estados em um so sob o dominio de seu futuro 
filho, que devia engrandecer, avassalando e conquistando po- 
YOSy contando para isso com a vida de todos; para mandar ma- 
tar OS que Ihe desobedecessemi e os que fossem feiticeiros ou 
criminosos; para disp6r da vida e haveres de todos os subditos 
cm favor da grandeza e bem estar de seu filho, comò escravos 
quo eram de sua mSe, a senhora das terras; e para ensinar os 
filhos de seu povo a serem valentes com os valentes e auda- 
zes filhos que acompanharam. 

Xacala, tornando a chimbùia de Ilunga, dando grandes sal- 
tos e acompanhado de assobios e brados do povo, indicou por 
mimica que luctava com feras e inimigos, a quem derribava 
para os depor aos pés de seu amo, interrompendo de quando 



1 Muori ou muadi (muadi) é a primeira mulher do potentado. 

< Grande andicncia. 

3 Estas ceremonias ainda hoje se repetem taes quaes a tradi^So as 
transmittiu, ou com mais alguns exaggeros e amplia^òes, devidos a mn 
certo gran relativo de civilÌ8a9So em qne os Lundas se encontram. 
Como as descrevemos no capitulo competente, limitàmo-nos agora a citar 
as prerogativas que foram conferidas a Ilunga. 



ETHJJOQBAPHIA E HISTORIA 



73 



em quando o fatigunte jogo para fazer as siias excltima^SeB, 
em que era apoiado com enthusiasmo pelos circumstantos *. 

<Faze-te grande, ó Eunga, em nome de tou tìlho, para que 
elle possa repartir por o seu povo os haverea que adquirirea ! 

*SS juato e forte para que elle te imite e todo o seu povo 
bemdiga de ti 1 * 




Foi aBBÌra que findou a ceremonìa da ìnvestidura do lucano; 
seguiram-se depoia as refeÌ93e3, bobidas, danjafl, eie. 

Kasceu o filho de Luéji, a qiiem chamaram Noi^ji* e dias 
depois foi apresentado em telarne paralhe aerdado um titulo. 



' TodoB OS preceitos, entào recomtneniiados, i 
quundo se fax a acclama^ So de um Miiatitlnvua. 

* Teve o cognome de Namci Mazéa {tiama ma 
gengivaa-). 



repetem ainda hojit 



EXPEDiglO PORTCGOEZA ÀO HUATlJtNVDA 



I 



O qne entSo diBaeram oa muataa reamne-se no seguinte: 

■Nóa nSo somoa mais que teuH humildes cscravos; ta &a o 
aenhor dos noxaus corpos, daa noasas vidas, das nosaas rìquo- 
zas, de tiido que vSa deante de ti. 

«Se nóa aoraoa grandee, tu é» maior que nóa. 

i Acima de ti so ha : kaCa§a ùataì/a makaaa ni mteau, kutala 
oSbo, vitdu kamutala *o constructor que faz bra^og e pemas, 
ve todoa e nìnguem o vét.é(é,vtùataìa avita ^, mitodo nimauito 
ni tata, aìjada adso, eie miiatìavwi! «tu, o aenhor das riquezos, 
arvores, rioa e pcdrns, todaa aa teiraa, todaa aa vidaa, tudo, 
emfim, tu poasuea, aenhor!». 

Ilungft aatiefeito diaae : tavo timi, mua(ia/«o, eie ùaloaa, mùitia 
fMeu filho lanvo, o aenhor do todaa aa riquezaa, o poaeuidor 
de tudo que vemos, tu que fallas, èa o conaelheiro, que o iazeia 
acceitar» . 

E da tradigSo que o titulo de Muitia é tSo autìgo comò de 
IfuatiàDTua e que Ilunga concederà ao primeiro todaa aa ter- 
ras ao norte da Musaumba que elle pudesse conquiatar entre 
oa noB Lulàa e o Lubilàxì, porém que nuuca eaae eetado, para 
leste, paseuu alieni dos affiuentes do CalànhI, e para norte além 
de CapeleqnesBa, grande montanha que acpara os Uandaa de 
puvoa da Luba. Urna parte d'eata regimo ealà ainda por co- 
nhecer, &abendo-se eó quo os Beua habitantea dormem nae 
edifica^Sea do aalalé, que cobrem oa orgfca genìtaea com a pro- 
pria pelle da barriga e por iaao Ihes chamam oa Manjala Ma- 



L. 



' Àneua (aOia, plurol de 9iia) -riquexaa> ; m (io, é o plural de itto] 
•daai ; cùnvua (buSùa) é o verbo «possuir', e tambem ee cmprega para 
dt^sìgnai "pertancor-, quando a poeee é do sujeito. vouabulo MuatiAu- 
vua é, paia, composto, e destitca-se bem de Muata lanvo. 

lanvo é nome de peaaoa e Muata "Bcnhor'. Diz-se Muata lanvo, 
corno Muata Muteba, Muata José, Muata Machado, etc. E meemo se tcm 
dodo o caao de baver Muatìànvua lauro, e d'eetea pela tradifSo conlie^o 
dota, e poesoalmente um. 

* E d'aqui que proveem oa papagaioa eom o corpo todo coberto de 
pennaa i^nnuzius, que a3o tjlo apreciadaa para adorno. 




ETHKOORAFHU E HISTORIA 75 

É este o estado que tem maior numero de tribatarioB, e por 
essa concessSo Muitfa estabelecéra corno praxe qae os que Ihe 
succedessem deveriam presentear o Muatiftiiyua com urna filha 
ou parenta qne mais fosse do agrado d'aquelle para sua muàri. 

Depois d'està deliberammo entendeu Lnéji qne o seu chibin- 
da, sondo o pae de Muatiftnyuay devia ser tratado com o ma- 
xime respeito, porque em nome d'elle governava e o repre- 
sentava para todos os effeitos. 

Era ella a primeira a prostrar-se e a rojar-se deante d'elle 
quando tinba de Ihe dirigir a palavra ou a agradecer-lhe a mais 
insignificante mercé, comò dignar-se olhar para ella, permittir- 
Ihé que tocasse na sua roupa, ou mesmo na pelle em qué se 
sentava, etc., e com demonstrafSes ruidosas a mostrar o seu 
reconhecimento depois das refeÌ93es, ou liba93es a elle devidas; 
obrigando assim os seus velhos parentes a que a imitassem e 
a costumarem os seus povos^ a praticar o mesmo para com 
elles, no proposito de perante o Muatì&nvua se tomarem o 
mais humildes possivel. 

Tanto se exaggeraram estas ceremonias humilhantes, que a 
alguns de seus parentes custava o conformarem-se ao seu uso, 
e Qtungùri foi o primeiro a pronunciar-se contra ellas, decla- 
rando nSo ter nascido servo para se sujeitar a cortezanias tSo 
aviltantes e de mais a mais para com um estrangeiro. 



1 Denommam o seu povo pelo yocabulo drUu (atu) plorai de m&tUu 
{nwlu «pessoa»). 

Tem-se dado a aste vocabulo interprctaQÒes erroneas, e d'ahi as illa^òes 
para a denominando das linguas d'estes povos; sem fundamento, porém, 
corno veremos no capitalo seguinte. Muitos interpretaram oste yocabulo 
por «homem», quando é certo que todas as tribus até o littoral teem o 
seu vocabulo especial para este significado. 

Como povo, sem ezcep^So, se prosta deante de seus potentados, ha 
tambem quem por isso adopte a InterpretaQSo alu por «escravos», 
quando a verdade é que teem yocabulo correspondente a està expressSo. 
E yocabulo «escravo» é pouco usado, porquanto essa entidade é con- 
siderada filho do seu senhor: muana dmi «meu filho», ana ami «méus 
filhos», ana à MucUidnvua «filhos do Muatiànvua», etc. 




76 E7iTEDl<;l0 PORTUaUEZA AO MDATLÌHVUA 

Mas, deve notar-ee que tanto este, comò oatros, bo as nSo 
qneriam praticar com o Miiati&nvua, as n&o dispensavam para 
cornsigo e aa exigiam aoa que consideravam bcub inferiores, e 
muitas d'essaa ceremoniaB, e algumas até mais hitmilhantes, as 
trouxeram algumas tribuB para a nossa provincia de Angola '. 

Foi d'aqui que se originaram as dissidencJas e facQSesjmas 
Luéji tinba grande partido e o chibinda adquirira muitas sym- 
pathias, e por isso em principio pouco caso fazia das noticìaB 
que a tal respeito Ihc trausmittiam. 

Quinguri deixou de comparecer naa audiencias; principiou a 
organÌBar partido entre ob purentes de sua mSe, procurando 
competir com o Muatiànvua, tornando-se exìgente em obe- 
diencia e extorquindo tributos, a pretesto de que Ilunga era 
um estrangeiro, estava comendo o quo Ihe pertencìa, e que- 
rendo pelo terror excedè-lo em reapeitos, elle meamo decepava 
as cabe9as aoa que pretendiam oppGr-se da auaa determiua;<1ea, 

Eatando Luéji ao facto do que se ia passando na quipanga 
do iriDÌlo, principiou a recear que elle obtivesBe prestigio pelo 
terror e incitava Ilunga a que mandasse raatar para esemplo 
um doa parentea d'ella que maia frequentava as reuniSea de 
Quinguri, e mesmo o proprio Quingilri, se iseo julgaaae conve- 
niente para a seguran9a do estado do Muatìànvua. 

Eata noticia, mais ou menoa deturpada, ia tomaudo vulto ; 
o deBoasosaego era grande, originou-ae a intriga na córte, co- 
me^aram as pcrEeguÌ9Ses e as luctas intemas. 

Quinguri, nSo obatante contar com um grande numero de 
partidarioB, receava da gente de Ilunga e de CaaBongo, e por 
isso deliberou elle e alguns parentes mais affeì^oados, abando- 
narem aa suaa terras e irem organisar longe d'ali um grande 
eatado, para mais tarde virem deatruir o do Muatiànvua, 

Uma noite, quando tudo estava em Bilencio, largaram fogo à 
sua povoayfio e partiram, deixando um homem encarregodo de 



1 Vcja-S6 o capitulo em que trato de todas a 
em diversas triliuB. 



ETHNOOBAPHIA E HI8T0BIA 77 

participar no dia segainte à irmX — que^ visto ella o querèf 
matar, deixàra as suas terras para ir procurar, outras onde 
o sol se escondia e ahi organisaria um grande estado, d'onde 
despacliaria urna guerra que o havia de vingar das humilha- 
9808 a que ella quizera sujeitar; e que no entanto fosse ella 
comendo bem a riqueza das terras dos seus avós com estran- 
geiro que escoUièra para pae de seus filhos. 

Seguiu Quingùri o rumo de WSW., dirigindo-se a Quim- 
bundo (chÌEunado caminho de Quingùri), e d*ahi passou o rio 
Cuanza, proximo às suas nascentes. 

Està marcha levou muito tempo, porque elles iam fazendo 
acampamentos pelo caminho, onde se demoravam em procura 
de caga pelo sjstema de armadilhas e exercitando-se no uso 
da frecha; e tinham de combater além d'isso, os povos que 
queriam opp6r-se à sua marcha, quasi corpo a corpo, com as 
suas grandes facas de dois gumes, e assim iam passando de 
« terra em terra. 

Seguiram pela margem esquerda do Cuanza até ao Libolo, 
onde chegaram depois de grandes luctas, e Quingùri conseguiu 
travar relagSes de amizade com alguns potentados, e entro 
elles, com Angonga e seus parentes, uma numerosa familia de 
grande importancia, com quem se aparentou pouco depois, 
porque se ligou a uma irmà deste chefe, 

Quingùri demorou-se nestas terras algum tempo, porque do 
outro lado do Cuanza se travavam as encamiyadas guerras da 
Jinga, Andondo e outros seus vassallos centra as forgas por- 
tuguezas, e às quaes, apesar de estas irem ganhando terreno, 
nSo foi possivel pdr termo sem perda de muitas vidas num 
longo periodo de annos. 

Jà em Massangano havia presidio portuguez, e Quingùri, 
passando com os seus Cuanza a vau acima de Cambambe, 
mandou participar ao capitSo-mór que elle e os seus eram 
amigos que vinham de longe e se dirigiam a Muene Puto. 

Mandou o capitSo chamà-los, e por Quingùri soube terem 
elles abandonado as suas terras para là do Rurùa (Lulùa), e 
que guiando-se sempre pelo sol ali chegaram e pediam a 



78 



BXPEDigXo POBTUGDEZA AO MUATIAnYDA 



Muene Puto Jhea desse terreno para elles constituircm um es- 
Udo Tassalb. 

capitilo-mór mandou-OB acompanhar e aproscntar ao go- 
vernador em Loaiida'. 

Quingixri faz a descrip^o da sua viagem ao govemador, 
expLcou 08 motivoa por que se expatxiara e ob dcBcjos que 
tinha de Be estabelecer, sob a protec(3o de Huene Puto, em 
Buas terrae. 

govemador, considerando-os destemidoB e valentes, cu- 
tendeu tirar partido d'elles naB guerras contra a Jinga, o disBO 



I 




' É diffidi apurar data» cntre o gentio, pelo modo irrcgalar por que 
dìvidem o tempo, e sobrctudo quando os factos se referem a epochaa 
antcriorea ao tempo da peasoa que se interroga. 

Neste caso, porgiti, ha fòntes tradicionaes em quo todos bSo nnani- 
tnca, conio b3o — »« gucrrttH entrc MasBongano e Cfimbiuiibe; os tributos 
quG jà algiins sobaa entre estea pontoa e imniedia^ùea pogavam a Klueue • 
Puto; recordafùt^H que se conaervam de que o goveraador a quem &llou 
Quingùri ac chamava D. Manuel; as guerras em que ellos entraram 
cum aa nosaas for^as contra a Jiuga; e ainda a circumstancia de elles 
irem eatabelecer-se na Lucamba em Amboca, logo em seguida & uova 
posse Tiaquetla regi So. 

Cora taee referenciaa podem aquellea liomens ter cntrado em Loanda 
ou no tempo de D. Mauuel Pereira FoqaK, de 1G06 a 1G09, ou no de 
D. Manuel Pereira Coutìnho, de 1630 a 1635. 

No primciro caso, para que mala me indino, ha a tentatìva da des- 
eoberta de pommnnica(3o entre Angola e Mo^ambique, certamente ba- 
seada noe esci aree i mento a prestados por QuìngAri e seua companbeiroa 
sobrc a viageni do eeu paìx a Loanda. 

No Bcgundo temoa as guerras eontra a Jinga e os muitoB prìsioneìroB 
que OS descendentes de Quingùri ainda hojc blasonam ter feito para 
Muene Puto. 

Ha uma tal ou qual conftisSo, ainda aesim, ncsto ultimo caso ; mas 
factos de maior vulto é qae se eonservam na memoria, fi natu- 
rai tambem que D. Manuel acja o govemador que llics coucedeu terraa 
em Ambaca, fazcndo-Ihea eate nome mais imprcsaSo que Fem3o, Bento 
ic monOB uaual. 

Em qualquer doa casca pode dizer-se que pouco antes se organison 
o catado de Muatiànvua, visto que este se coustitulu em tìns do ae- 



ETHNOORAPHIA E HISTOBIA 79 

logo que Ihes concederìa terras e os auxiliaria nas suaa pri- 
meiras planta^SeSi mas que era preciso coadjuTarem elles as 
nossas for9a8 para bater os poyos rebeldes que estavam feizendo 
mal aos vassallos de Sua Magestade. 

E comò elles acceitassem a proposta^ mandou-os adestrar nas 
nossas armaS| o que se fez em pouco tempo. 

Na occasiSo de partirem para p interior com as nossas for- 
gasy govemador disse a Quingdri que esperava quo todps os 
seus provassem que a fama de valentes, que tinham adquirido, 
a mereciami nSo abandonando os companheiros ao lado de 
quem iam combater e que escolhessem o sitio que mais Ihès 
conviesse para ahi se estabelecerem. 

Parecé que, de facto, comò os seUs descendentes asseve- 
ram, elles prestaram bons serviyos e o governador cumpriu a 
promessa, dando-lhes as terras entro Ambaca e o Golungo, as 
armas de que se tinham servido, polvora e tambem sementes 
diversas^. 

JPrestaram acto de vassallagem e por està occasiSLo foi en- 
tregue a Quingdri, sob o titulo de Jaga, uma bandeira ver- 
melha com uma corda da epocha, feita a proto, e por baixo uma 
legenda azul, em que se reconhecia o rei de Portugal comò o 
senhor do jagado, nSo podendo d'este symbolo usar os succes- 
sores de Qiiingùri, sem terem antes prestado a derida vassal- 
lagem perante o govemador de Angola. 

locai que escolheram para residencia foi junto ao rio Ca- 
muéji; mas foram infelizes com as primeiras culturas, pois nem 
o milho vingou, razSo porque chamaram ao sitio Lueamba (f nSo 
prestai); nem as outras produc98es os animaram a ficfu* ali. 

Como eram cajadores trataram de se internar pelos matos, 
a nordeste, & foram repellindo os povos para além do Lui e 



1 À respeito d'essas sementes dizem os Bàngalas actualmente : — ^ 
o anguvulo enganou-nos — , porque elle bem sabia que o milhQ nSo podia 
produzir por j4 ter side cozido, e as outras sementes estavam podres 
por dentro. 



80 



EXPEUlglO POHTUGDEZA AO MOATIÌNVUA 



c 



pararam no Àmbando, Junto & Balina do Holo, onde acomporam 
provi Boriainente. 

A gente do Holo, receosa d'aquellea atrevidoH cajadorea, 
cedeu-lbes o usofructo de metade d'aquella salina ; e jA Quin- 
giiri, flatiafeito, havia mandado preparar aa terraa para cultivo, 
quando alguns doB aeus, que paBBaram o Lui cm procura de 
caja, Ihea mandaram participar ter-ae encontrado urna boa terra 
despovoada e com duaa grandea aalinas, que depoia foram cha- 
madas Quilunda e Lutona. 

Quingùrl partiu logo com toda a Bua gente e, depois de exa- 
minar as sallnaB e obaervar ob terrenos em redor, diaae logo : 
FicamoB aqui, eata aerd a noBsa terra. 

Mandou pedir ao governador que Ihe permittiBae ahi estabe- 
lecer o jagado, porqnanto na Lucamba n2o bavia boaa terras 
e que apeaar de mais longe, ellea continuavam a ser bona vaa- 
ealloB de Muene Paio. 

Animava oa seus para quo trabalhaasem, porque aa salinag 
eram a sua felicidade; com ellas baviam de comprar mnìta 
gente no estado de aua irmH e j& Ihea nilo fallarla nem aua- 
tento nem de que vestir, corno filhoa de Muene Puto. 

Oa povoB que elles bateram deade Ambaca até aqui, alguna 
doB quaes ae escaparam ao aeu jugo, dizìam aerem oa Peindea *. 




' Estes povos tinham a sua maior popula;3o nas terraa hoje occu- 
padaa pcloa lìondos de Andata Quiaeiia. 

O Qaingùri- quii -Cónti trouie comsigo da Lunda uuia cntidade cor- 
reapondontc i de Calala do Muatiànvua (o que commonda aa for^aa da 
avan^ada). Era cata o Angola (Ambole), donde descende o Andala 

Oa Peindea, deacendeotea doa que foram eipulsoa dna terraa (hoJG 
dos Bondoe) choram ainda aa aalinas, aa palmeiraa, aa moleisbaa e aa 
bananeiras que oa seiiB paasadoa peideram. 

Quando Oe comitlvaa de BAngalas, Bondoa, Qiiimbares e Calandnlaa 
Ihea apparecem com aal para negocio dizem-lhcs ; ahìa kuhi, cdeHavuino, 
muJrua kUagolu, énu l&amixile baia baie dia ntuludo, lelii mùatu, ttehina- 
lao kamukele, kamogùa kvi huhaha munita imea patricio, meu parente, 
voa que ficaates ao pÈ da noasa terra, lembraatea-voa de vir hoje ver- 



KTHNOCtRAPUIA e IIISTOHIA 



81 



Julgftva Quinguri necessario augmentar a sua popula^So e 
por isso mandoii recado a Angonga por urna do suaa mulheres, 
iruiK d'oBte, para o coiividur e a todu a fnmilia a'virem viver 
com elle no eea novo jagado siijeito a Muene Puto. Dizialhe 
quo as terras eram boaa e <^ue havia muito sai, etc. 




Veiu Angonga acompanhada de muìto maia genie do qiie 
Quinguri podia supiìór, e este e os seus matores sultditos re- 
ceando que os recemeliegadoa so Icmbrassem de Uiea estorqiiir 



noe e trazer-noa um pedalo do noaso sai. llfin vìiido sejaeB, muito agr&- 
decidi». Em eonformidHiie com a tr«di(3o JSo iiotkift do sitìo dos Beus an- 
tepusadoa, embora nunca o viasem, e deacruv«m-no bem. 



H2 EXPEDIfXO PORTOaUEBA IO UDITIAnTUÀ 

oa seuB bens tratou de 08 interesBar pelo florescìmento do 
jagado. 

Pam evitar no futuro complica^SoB Bobre a bucco«sSo no 
governo, ftsaeiiLaram que a ella tinham direito ae duas faiuiliaB, 
e quo por isso em scalda a Quingùri seria jaga um fìlbo de 
AngODga e que a esse Buccederia um descendente do primeiro 
observadas certas condi^Sea, isto é, t&o Ber maguita^ e au- 
jeitar-so depois de oleìto^à circumcisSo •. 

A mulher mais considerada para os potentados é sempre a 
primetra, e comò a de Quìnguri era Culaxingo, por isso os dea- 
cendentes de Quingùri aSo cliaraadoa de Culaxingo. 

MaÌ9 tarde urna expedl^So de descontentes da Jinga, capi- 
taneadoB por Caliuiga vicram pedir hospcdagcni ao jagado 
de QuÌBgùri. Este jA os couhecia corno turbulentos e auda- 
CÌ0S08, e por isso de accordo coni Angonga, foram elies ad- 
mittidoa com a conditilo de Oaltmga fazer parte do estado, 
dando a sua familia tanibeni successor oo jagado entrando 
na ordcm depois da de Angonga. Assira a um Culaxingo se- 
guia-Bc um Angonga e a este um Calunga. 

Observou-se està ordem, corno disse ji, até certa altura; 
poréni depois as ambi^Ses deram origem a dissidencias e 
luctas, que mais conbecidas se tomaram depois de instituida 
a feira de Caasnnje. 



■ Os {ìlhoa do jaga aio maquitat, teem o moamo eBtado e considera- 
(So e por iseo n3o podem ecr jagaa. Us sobriuhos pela linba materna e 
iubìs proximos do que foi jaga alo os que podem ser eleitoa, mftB pela 
ordem da familia a que pertencem. Porém, està lei mal pensada originou 
confusi3eH e ae guerraa qae teem havido nos ultimos trinta annos, e ji. 
nio é possivel, lioje, perceberetii-sc os fìiadomeotos em que oa candida- 
bis prouuram baneiir os seua dtreitos. 

■ A circunicisSo, acompanliada de ccremouias repugnantea para nós, 
é feita na actualidade multo depois do jaga eleito eatar de posse da 
governa; ito do estado ; e tanto d'ella comò das i^eremouiafi noa ocenpà- 
mos ao tratar dos uaoa e costiimes d'eatea povos. 

Por agora, apeiiaa uotarcraoa de paaaageni, que tSo singular operarlo 
se pradca deade tempos immemoriaea. E posaivet que honrcsse passado 




ETHNOGRAPHIA E HI8T0RIA 83 

Foi um neto de Quingùri, chamado Cassanje; quem mudou 
a sède antiga do jagado para o logar em que hoje està, e deu 
o seu nome ao sitio e ao jagado ^ 

Pelas averiguagSes a que procedi, apurei que a Quingùri 
snccederam de facto um Angonga e depois um Calunga, e que 
depois d'este entrou o Cassanje neto do primeiro. 

A Cassanje seguem-se por sua ordem: Angonga-cà-Am- 
bamba, Calunga-cà-Quilombo, Cassanje -cà-CuIaxingo, Qui- 
luanje-quià-Angonga, Quingùri-quià-Cassombe, Cambamba-cà- 
Quingùri, Quitamba-cà-Calunga, Quissueia, Luame-luà-Qui- 
pungo, Calunga-cà-Luame, Malengue Augouga, Quitumba-quià- 
Angonga, Angunza, Cambamba, Cassanje-cà-Cambolo, Qui- 
tamba-quià-Xiba, Muanha Cassanje, Calunga-cà-Quilombo, 
Quienga-quià-CamboIo, Quituniba- quia- Angonga, Quingùri- 
quià-Culaxingo, Cambamba-cà-Quingùri, Camassa-cà-Quinendì, 
Ambumba-à-Quinguri^, Calunga-cà-Quissanje, Cambolo-cà-An- 



dos povos da ra^a negra aos Egypcios e d^estes aos Israelitas que a ado- 
ptaram comò preceito religioso. 

Seja corno fór, é certo que Quingiìm, por scr bungo, jà tinha passado 
por està operarlo em creanQa, e por isso se estabeleceu que os succes- 
sores d'elle fossem circumcidados, depois de elcitos jagas, sem o quo 
nSo seriam validas as suas determiira^oes. 

De 1852 para ed, os jagas eleitos vào adiando esse preceito em- 
quanto podem, e assim teem occupado o cargo, mas sem prestìgio, o 
quando se dispocm a soffrer a circumcisSo nao Ihe sobrevivem. 

1 Seria para desejar que fosse de confian^a a tradi^So chronologica 
dos jagas que obtivemos, pois acreditando que houvesse longos inter- 
jagados, pelo que succede na actualidade, seria mais um argumento em 
favor da epocha approximada, nSo so d'està in&titui^So em Cassanje, 
corno da do estado do Muatiànvua, em cujos dominios so parece ter 
dominado de facto até ao Cassai. 

^ Este foi educado em Ambaca, fallava e escrevia portugue?;. Costu- 
roado aos nossos usos, nào quiz sujeitar-se à circumcisSo e ia protra- 
hindo o cumprimento do preceito de dia para dia. 

Para se tornar temi do, lembrou-be de fazer eztorsoes aos feirantes 
portugaezes, e por isso là foram for^as nossas, sob o commando do migor 
Francisco Salles Ferreira, ezigir-lhe repara^Òes e depòlo. Urna grande 



84 EXPEDl^lSo POKTCGUEZA AO MDATIANVDA 

gonga*, C'amuéji-cil-Calunga, Ambumba-A-QuingTin*, Ma- 



parte do roubo foi entregue e elle consegniti fìigìr para a margem di- 
reità do Cuaugo com ss insìgnìas ào estado, que foram apprebendidas 
pelo Capenda Camulemba, facto e peraonagem de que nos occupaiemoB 

Como possa duvidar-ie que este juga escreresse portuguez, aproveito 
a opportunidode do dizer que conLc^o uni desceudente de urna das tres 
famiUaB qne tuem direito A Buceeagao no jagado, quo foi edueado na 
Eecola Acadeoiica, do conselbeiro Floreneio dos Santos, nesta cìdade de 
Lisboa, nnm periodo nlo pcqueno; lioje é itin dos bona guarda livros de 
commercio e estava ultimamente cm casa do impoTtante negocìante e 
agricultor NarcÌBo Antonio Paschoal, de Malauje. 

Pois este ainda iiSo bn multo, citando entSo no Dondo, recebeu uiiia 
embnixada de Cagsanje, quo o couvidava a ncecitar o cargo de jaga, 
para o qual o queriam eleger por Ihe pertencer de direito. 

Entrc varios proteit<]s que apresentou para declinar tal cargo, lem- 
brou-se do diEor que so o acceitarta se elica se eujeiCaeseoi a modifi- 
car todos OS Bcus usoe e costumes em couformidade com ob da« terraa de 
Mucne Puto, onde o mandaram ensìnar. 

Na casa onde estava tinha mais intereeses trabalhando, do que elice 
Ihe podiam dar roubando. 

Como insifitissem pura que eHe fosse e pouco a pouco db ensinasse, 
entSo responden-llcs que antes d'elle, devia entrar seu tio quo vivia no 
Golungo Alto e era mnia veibo. A cmbaixada reUroa natio convencida 
que eram infructifcros oa seiis esfor^oa. 

tio a que elle so referia tambem fallava e eacrevia bem portugucz, 
e se nlo me eugauo foi quom ma&dou educar o sobriubo. 

Conhecemoa maia alguna deacendentes do jagas de Caasanje, nSo 
em tSo boas circmnstajiciaa, mas que, fallando e eacreveudo bem o por- 
tuguez, tecm eido cmprogados cm casas de commercio, sendo alguna 
negoci antes por sua conta. 

De certo que depoEs de 1850, aproveitando as boaa diaposifùea cm que 
ficaram aquelles povoa comnoaco e educando oa filhos daa fa.milias de 
jaga», tcriamos preparado o terreno para a sua regenernsSo e intereaeé- 
loB-iamoa na nossa admiuiatragSo. Em legar competcuto tratftmoB d'este 
e outroB asaumptos que com elle teem rela^So. 

' Foi eate o jaga que, depoato o Ambumba (D. Paschoal), foi bapti- 
sado na presenta da ultima eipcdi;Jo do refcrido major em 1850. 

> É o mesmo Ambumba (D. Paschoal) que fugira dc4iiite das aoasaa 
forfae; porém, tantos roubos fazia ie caravonae de commercio, qne os 




ETHKOGRAPHIA E H18T0RIA 85 



lenga^, Cuango Culaxingo'e Cassanje-cà-Calànhi'. S3o estes 
OS nnicos jagas de que tivemos conhecimento. 

A bandeira vermelha, que segundo elles, foi entregue a 
Qaingùri-quià-Contiy ainda hoje se conserva em Cassanje corno 
insigma do jagado reconhecido pelo nosso governo. 

Apesar das ultimas guerras; nunca ninguem pensou em in- 
utilisi-la. So sae em dias solemneS; ou para a guerra. E urna 
dadiva de Muene Puto que se guarda com vencrajSo. 

Com tempo os filhos de maquitas, foram constituindo pò- 
voa93es e dissemiqando-se para sul de um e outro lado do 
Cuango. Denominaram-se estas ambanzas, sendo tambem am- 
hanza o titulo dos chefes. 

A denomina9SLo que a estes povos se dà de Bàngalas parece 
sor jà uma corrup9SLo nossa de bangdla, porquanto elles dizem 
quibangàla (kibayala) um homem do seu povo, aquibangàla 
(aldbcLgald) muitos d'elles. 

A tal respeito me disseram os proprios Bangalas, que esse 
nome viera com os seus antepassados de Ambaca. 



Portoguezes em Cassanje iufluiram no animo dos homcns mais impor- 
tantes para que de novo entrasse no estado. Voltou e foi confirmado ; 
mas entSo dizia-se jaga de Muene Puto e teimou cm se nao sujeitar 
ao preceito da circumcisao, e annos depois occorreram as desastradas 
gnerras de Cassanje. 

1 A este seguiu-se um grande interjagado, por serem muitos os pre- 
tendentes, havendo guerras entre os seus partidarios. 

* Prestou vassallagem cm 1882 e morreu em 1886, por occasiao de 
ser circumcidado e isso deu logar a exigencias dos parentes, que até hoje 
nSo teem querido entregar as insignias do jaga em scu poder, allegando 
que deve ainda ser eleito um seu parente, porquc aquelle so podia con- 
tar-se se tiyesse sobrevivido ao preceito. 

^ Depois de mais de mn anno de dissidencias entre os principaes, 
resolyeu-se Cambolo-cà-Angonga a chamar este seu parente, que nilo 
foi confirmado pelo Govemador geral conselheiro Brito Capello, ngrque 
muitos maquitas deixaram de votar nelle. £ bom foi o procedimento do 
govemador, porque o velho Zunga, com quem estive, tem imi partido 
forte e é da familia do fallecido Cuango Culaxingo, que em seu poder 
conserva as insignias do estado. 



EXPKDI^AO l'OKTUGUKZA AO MOATIANVDA 



Ob mcirinhoa, ou qncm fazia a cobranjft de tribiitoa, acoin- 
panhaviim os sobas levando na raao dìreita, corno diatinclivo, 
altas gro»sas varas que terminavam Buperiomiente em cmra 
e que denomÌDaram bengala. Estas, muitas vezes, Ihes servi- 
ram para batcrem noB tributados indefosos, que prociiravam 
eequìvar-se ao pagamento. 

Semelliante uso foi adoptado peios encarrcgadoa da cobraiiga 
de trìbutos para o jnga, e d'alii veiu o dizerem os Ambafjuis- 
tas, que iara a Casaaiije negocìar com os AmbaDzae — vamos 
aos jibangala, que corresponde a aquthangalaf corno elles mea- 
mo entre si se alcunharam. 

Seja ou nào veridica a tradi^'ilo, o certo é que estes povos 
nada teem com oa Bilngalas do aorte, no Zaire, nem t3o pouco 
pelos YouabuloB das lingua» que conhecemos com oa Galaa ao 
nordeate dos gran dea lagos. 

Aqui temoB pois numa regiXo junto ao Cuango, conio urna 
tribù de lìungos, de mistura com urna do Libolo e urna ter- 
ceira da Jìnga, constìtuìu um povo no limite da nossa provin- 
cia de Angola, em que certamente entrou parte dna povos de 
Anibaca e doB povoa repellidos Tupcinde, que nSo scguiram 
com 08 que foram eatabelecer-se entre Cullo e C'uengo. 

Voltàmos agora & mussumba do Muatiànvua. 

A partida de Quingùri fizera bulha. Para os Lundas era um 
BUccesao importante, sobre que todos fallavam e emìttiam a 
sua opiniito. 

Uus eram a seu favor, e outroa, levadoa pela curiosìdadc, 
iam todos os dias d audicncia da madrugada para conbecereni 
da dispoBÌ5So do Muatiilnvua a tal rcapeito e avalìarem da sua 
capacidade para governar o estado do filho. 

Luéji, pela sua parte, qucria conbecer, antea de se tornar 
quajquer provideneia, daa Ìmpreas3es de seus parentes maia 
proximoa, e por iaso eatava do accordo com Ilunga em esperar 
que ^ea se pronunciaBsem, ou que alguna boatoa sobrc a via- 
gem de Quìngùri cbegasaem à musaumba. 

Decorroram alguns dias e um ou outro portador das po- 
voagòes TÌziahas dava parte de ter visto paaaar a comitiva e 



ETHNOGRAPHU E HI8T0BIA 87 

do8 ronbos e desordens qate ia fasendo entre os povos por onde 
passava; tado ji se rèy corno ainda hoje, narrado com mais 
oa menos exaggéro. 

Em ama das aadiencias Ànguina Cambamba ', tia de Luéji, 
e de combvia9So com os seus parentes Andumba-ui^Témbuei 
Ambumba, Qainiama e outros, todos dos descontenteS| per- 
gontoH a Lnéji se o Muatiànvua tivera alguma noticia do seu 
man parente Quingdri, e comò ella mostrasse nada saber^ dea- 
Ihe relajSo dos boatos que corriam e lembrou-lhe a convenien* 
eia de aconselhar o Muatiànyua a -mandi-ló suspender a mar- 
cba, e fazè-lo retroceder para ser devidamente castigado. 



1 Ànguina {gina) «grande senhora». Tambem tomam este vocabulo 
corno «mSe», i)orque para elles m S e é a senhora mais elevada que i)ode 
hayer. Empregam muito a sua abreviatora na, corno para pae a abre- 
TÌatura sea (tambem tratamento, de xambanza, que se dk aos velhos). 

Ab familias, em geral, entre estes povoB, distingaem-se pelo nome 
das mles, que tomam corno appellido. Pode o homem que se diz pae, nSo 
o ser; porém sobre a mie nÌo ha duvidas. 

Entre os Bongos, que eu considero os primeiros dos povos que che- 
garam de nordeste a està regiSo, observava-se o que ainda hoje se nota 
nos Xinjes e em outras tribus — as filhas dos potentados é que dSo os 
herdeiros para os estados de seus paes. poder nSo passa por isso de 
paes a filhos. 

No estado de Mu Jtiànyua^ embora se diga que para ser Muatiànvua 
é preciso ser Muatiànvua, o estado nào passa directamente para os 
filhos. Este facto so se deu com os filhos de Luéji porque està nio te ve 
filhas. 

Muatiànvua Noéji (o que o nosso Rodrigues Gra^a conheceu) fazia 
consistir a sua maior grandeza em ter muitas filhas, para (dizia elle) 
darem muatas para o estado. 

Foi este quem durou mais tempo na govema^So e deixou uma grande 
prole, porque nem tias, nem sobrinhas, nem irmàs, nem mesmo as pro- 
prias filhas escaparam à sua concupiscencia. Conheci dois filhos-netos 
d*este homem, filhos de duas filhas e d'elle. 

£ depois d'este Muatiànvua que mais acerrimas se tomaram ss Inctas . 
entre os filhos de Muatiànvua pela ambialo de tomarem posse do estado. 

Andumba era filho de Témbue, irmà de lala Màcn, prima de Cam- 
bamba e corno està, tia de Luéji. 



EXFEDI93;o PORTDGDEZA AO HUATlAwuA 



Luéji, mais aagaz, respondeu que seu irm3o era luuito oa- 
sado e que pani urna dìligencia d'estas, so se podia mandar 
um parente de muita contìaii^a. 

Offereceu-se entSo Anguilla Cambamba para ir com ob sena 
em procura de Quingùri e convencé-lo a apreeentar-se ao 
Muatìanvua. 

Estava bem taformado llunga, quo aquelles parentes de sua 
mulher lite nSo crani altei^oadoe, e quando LuéJi Ihe commu- 
nìcDU o que se passilra, fcz-lhe sentir que era milito conve- 
niente para o Boasego do cstado, que elle* tambem fossem e 
ficaasetn por ì& com Qiiingùri. So elle havia de aer foryado 
um dia a mandar matar algum d'elles, meJhor era dìzer-lhes qup 
se aproveitavam oa seus bona acrvigos e quo fossem mais de- 
pressa posaivel naquoUa diligenoia. 

Na manhB seguinte Luéji, na audiencia*, disse a Nd Cam- 



Entre os Lundas oa primoa inat^mos tHo considcrados ìnniot e oa so- 
brinlios corno filhos, e d'itliì iinacc a confusSo iiaa interprctaQÙos para 
qucrn qSo està ao facto d'estc modo de couEiiderAr ob parentescos, o que 
b6 bem eo cotiiiireliende ioterrogando-os ao ee\x ubo, se bbo filhos da 
mesnia barriga, o que elles entSo explicam. 

NcBt« caso Anguioii C'ombamba, ponaiderarla irmS de Andumba, era 
prima, Audumbo, considerado filho, era aobrinho e Quiuiania por ser 
primo d'eatc, era considerado aeu irmào e tauibepi fiiho do Andumba, 
quando u ilo tiuha parcnteeco algum eoiu elle. 

A mSe de Andumbo era T^inbue, e por isso ec diz Amdumba-uà- 
Tèmbue, que ec eontrahe em Andumba-i-Témbue. 

' Està provadn que nas audiencias, principiando pela do Muatì&nvua, 
nSo se dizeni aa prìncipaes razùes porquo br vae praticar qualquci acto ; 
nSo se dÌE meamo ahi, cm queatùcB de cstado, Benào aquillo que se per- 
mitte. As taes audicaciae, neete caso, hSd urna perfeita phautaatnagorìft, 
que todOB conheeem e para que todoa concorrem, e tiido se acccita corno 
ae foBse realmente verdadeiro, porque as dclibera^ea s3o tomadas de- 
pois, notando-se que as que se fazcm constar em audiencias sito tam- ' 
bem differentcB <las vcrdadeiras. 

NSo faltario occasìòcs em que provo que de eipcriencia sei d'eate 
facto; e uma oecosiito, fallando d'elle em particular aos que exerceram 
o cargo de MuatiUnviia perante mini, responderani-me : "Se n2o fòase 
aasim, todos sabiam tanto comò uus, e cada um era uin MuatiànTnai. 



ETHHOQKAPHU. E mSTOBU 



bamba qne fizera constar 
so Muatìàaviia, sea amo, 
a offerta d'aqaellea bona 
BervÌ908 para fazer voltar 
Quingàri, e qua elle accei- 
téra de bom grado, por 
confiar multo nella e em 
todos OB seus ; que b6 aa- 
8Ìm se apreseittaria Quin- 
gàri, qae era necessario 
matar para exeniplo, poìe 
estava abusando multo da 

sua tolerancia em atten- 

980 aoa boiis parentes de 

Suana Murunda, sua mu&- 

ri ; e por isso que foBsem 

todoa OB que quizessem 

nesBa diligencia, de tra- 

zer Qoingùrl. 

TodÒB perceberam a 

inten;So, e receosos de 

que o primeiro que se 

levantasse fosse victima 

da sua ouEadia, corno era 

frequente, deixaram-se fi- 

car na espectativa. 

EntSo Luéìi, vendo quo """'' toustu 

elles se ateraorisavam, 

disse-lhea: Nós bcm sabemos que os nossos parentes estilo 

deacontentes, e sentem nSo ter ido coni Quinguri, porque jà 

euppSem formando um estado que ha de vir a eer multo 

prospero. Pois o Muatiànvua permittc-lbcs que vSo era seu 

seguimento e nSo aerei eu que me opponha A marcha doa que 

qnizerem ir para junto d'elle. 

Kà Cambamba disse entlo : Nós iamos para trazer Quingùrì, 

e nio para £car com elle. 




no 



EXPEDIfXo PORTUGUEZA AO MUATJÌNVOA 



Luéji, jd eiifadada respondeu : Mas o Muatiànvua é que nXo 
08 quor tornar a ver aqui — aì6ko a hi kiytiri* «vSlo tambem \A 
para Quingiirit. 

Todos que estavam diapoetos com antecedeneia para partir, 
levantaram-se i min odiatameli te e Eeguiram, receando que, pro- 
longaudo-Be a confereocia, tiveBsein de soffrer pelo meno» a 
decapitammo. 

E là foram una pisadoB da comitiva de Qningiìri até ao Cas- 
sai, aeguindo depois até proximo das nascentes pela margem 
onde passarara, e mudaram de rumo para ceste até ao Cuauza, 
onde acamparam junto & serra do Muengiie ou Mungue por 
terem ahi visto ferro em abundancia*. 

Andumba, era o inaìs velho e foi por isso conaiderado chefe, 
Eatabeleceu-HO, pouco mais ou menos, onde hoje se acha o 
seu dcsccndetite, naa nascentes do Cuango; e mais tarde oa 
xeus parentos, nSo menos ambiciosoa que oa deacendentea do 
MufttiàDvua, foram-sB espalhando d'alii nté ao OaBsaij e com 
tempo, 08 deacendentes d'estea ainda se afaataram até pouco 
mais do 12° lat. S. do Equador, constituindo novns tribus aob 
diversaa dcnomina^Sea quo toinaram doa rios &a margens dos 
quaes se eatabeieceram, comò aio os Angombes, Nungos, Lue- 
nas, Lassas, Cossas e outros; todos conhecidoa dos Lundas 
l>or aiSkQ, nome que até hoje conaervam e ao pode inteqiro- 
tar por expatriados (oa que foram para o Quingiiri} \ 



' Abreviatora de aio òko k&a ku h'yuri «ySo taraliem li para o Quin- 
gùti». Petcebeu-se cntSo, comò ainda hoje (devido A rapidez e contra- 
^òes) ainho a ku kiyvri. Depois ficaudo aidco denomina^ d'aqnelU 
tribu, UQia pcssoa d'ella ficou Bendo para a Landa ChiÒco, Cachidco, e 
para os da tribu Quiòco. 

1 Os parcntCB de Na Carabanibn, iato £, o» quc com «1Ìa deiiaram a 
pc'irte, mais ou dicdob traballiayam em ferro, ainda que por pmceaaoa 
malto mdùnentarea. Hoje eSo eflectivamente db Quifiooa os melhoiea 
feireiros uesta regiSo; cxoediam mesmo os melhorea cntre oa Bàngalaa. 

' Pelo missionario Lecoml.i, fui informado qiie os QuiScos tambem ae 
estSo cspiilhiuido agora mais pnrn sul, e eatSo Toubando os < 
outros poTOa das immediasÒes da sua miasSo no Cubaugo. 




ETHNOOBAPHU E HISTORU Ul 

Nà Cambamba foi a mSe da prìmeiro Quissengue; e este dea 
orìgem a um estado que veiu constitair mais ao norte de seus 
parentes e jà em terras de um qoilolo do Maatiànvuay o 
QuimbondOi por nSo querer sujeitar-se ao domìnio de Am- 
bamba. Depois d'elle é que descendentes de Ambomba e Qui- 
Ulama se atreveram a afastar-se mais para norte, descendo 
com OS rios; mas até as guerras de Cassanje (1856) nZo pas- 
savam além do 9^ de lat. S. do Equador. 

Depois da partida de Andumba, Nà Cambamba e dos seos, 
Ilunga deliberou mandar gente de confianfa para o sul a con- 
quistar terras para o seu estado, pois constava que Quingàri 
ia sujeitando os povos e levando muitos comsigo. Està gente, 
entre outros chefes, contava Caembe Muculo, Catema, Musso- 
catanda, Xinde, Canongnexe, Cajembe, Malango e ainda outros 
seus parentes que vieram chegando do seu antigo estado da 
Luba. 

As terras eram conquistadas para elles e seus herdeiros 
ficando sujeitos a pagar ao Muatiànvua os milambos (milalo 
ctributosi). 

Luéji pela sua parte convidou seu primo Candumba, vulgo 
Caquiria Uhonga (tcome miolos»); a seguir no caminho de 
ceste, com o seu povo e mais gente que Ihe concedeu, a tornar 
terras e conquistar povos, e oppor-se a que Quingùri tentasse 
vir atacar os povos do estado. 

A este deu Luéji o titulo de Capenda Mucuà Ambango 
(egrande personagemji), e à sobrinha d'elle, filha da irm& Mona 
Quingungo, deu o titulo de Mona Màvu-à-Combo («filha da 
terra conquistadai). 

Quando elles se despediram de Luéji, recommendou-lhes 
està o seguinte : kapeaa, ka^ana kueaa ktakata kueaa akilenu 
«fidalgo, nXo marches comò marcharam os nossosi. Referia-se 
aos parentes que nSo mais deram noticias de si e se afastaram 
do estado. 

Por causa de doen9as e outros motivos, està tribù por muito 
tempo esteve demorada no Luachimo, mas mantendo sempre 
em 8eguran9a as communicagSes com a Mussumba, enviando 



EXPEDI(]iO FORTDOOBZA AO UOATIIkvoA 



milamboH ao MimtiànTua, e Babcndo attrahir a ai ob povos 
vizinhos. 

Passado tempo, havendo morrìdo Capenda, foram de voto oa 
maiores de estado r|ue Mona Mdvu, nSo fìcasee oaquelle logar, 
e quo eacolboase de eatre o sou povo um homem do quem 
goetaese para a representar nas audioncias, nae marchas e em 
todoB OS actoa a que ella nSo pudease comparccer, comò o 
tinha foito Luéji, Suana Muriinda; mas que nao podia ter mais 
que dois filhoa d'csac homora; pudendo entào eacolhor oiitro 
com a mcema condigSo, e aasim succcasivamente. 

Enteodiam d'oste modo, qtie su ella podia dar o sangue de 
Capenda para a sueccasSo, e que se os fìlbos do um doa bo- 
meuB fossem mauB, os do algum outro deviam ser melbores. 

Màvu fez a sua escolba e resolveram abandonar as terras, do 
quo deram parte ao Muatiflnvua, e seguìram para oeate pas- 
sando o Cuengo, e com o tempo espalbarain-ae ati ao Cuango. 

Màvu teve tres maridos e de cada um um filbo e urna filba. 
Do primeiro Tengue e Mabango, do aegundo Malundo e Mu- 
zombo e do terceiro Maasongo e Mabolo. 

la envelbecendo Mona Màvu e comò oa fìlboa jà fossera 
maiorea, de accordo com os gnmdea da sua c8rte, cada grupo 
de filbos foi formar um estado com o titulo de Capenda, fican- 
do o primeiro grupo junto ao Cuango, onde jà estava Mona 
MAvu, e indo os outros mah para o sul, procurando cada um 
tambcm o aeu porto no Cuango. 

Ab irmilB acompanhavam oa irmaos para IbcB darem succes- 
sores ao estado, e com ellas se ficou observando o que a tal 
respeito se praticdra com a mSe, e por isso se dìz que o es- 
tado, aqui, é daa mullieres. 

Todaa ellaa teem as suas terras e cèrte no territorio de cada 
um dos tros estadoa cni que ae divide o dominio do Capenda. 

Aaaeatou-se em que eates se deviam auxiltar mutuamente, 
e que quando num n5o houvesse berdeiros ae iriam procurar 
noB outroa. 

Pela precedeucia doa grupoa de filbos ae conaiderou a ordem 
doB ostadoB: no primeiro fìcon lengue e aua irmH Mabango e 



I 



À 



ETHNOGRÀPHIA E HISTOKIA 93 

denominon-se Mulemba por causa do grande numero de arvo- 
res d'este nome {Ficus elasHcusjy de que havia abundancia na 
terrai e o potentado passou a ser Capenda-cà-MuIemba. 

se'gundo e o terceiro tomaram o nome de potentados e 
slo Capenda Malundo a sul do Mulemba, seguindo-se o Mas- 
BongO; que confronta com povos que tomaram o nome de Songo 
e depois se dividiram em grande e pequeno Songo. 

Até certo tempo, observava-se a praxe estabelecida, os fillios 
das irmSs dos potentados davam-lhe os herdeiros; porém ulti- 
mamente em cada nm dos tres estados tambem a ambÌ9So 
estabeleceu dissidencias, e tem havido altera95e8 que se man- 
teem pela flSrga. Os descontentes v2Lo-8e disseminando pelo 
interior, a&stando-se da sède e occupando terras que estavam 
por explorar. 

SSo 08 que retrocedem para leste, corno os Quiocos para 
o norte, e alguns de uma, e de outra procedencia que consti- 
tuiram novas tribus, cujos antepassados jà eram d'està regilo 
de que me occupo. 

Os Quidcos, ferreiros e ca9adores, encontraram vasto campo 
para exercer a sua actividade, e com facilidade obtinham sai, 
objectos de vestuario e armas do Libolo, e povos mais ao norte 
(Bàngalas). 

A sua popula9So, augmentada com os povos vizinhos jà pelas 
guerras, jà pelas rela95es que com elles sustentavam, dissemi- 
nou-se entro o Cuango e Cuanza para as bandas do norte, e 
ainda até o Bié e mais para oeste. 

Dos principaes descendem Andumba, Ambumba, Muxico 
(Quiniama), Miequeta, Quibau, Catende, Canhica, Cabinda, 
Mucanjanga, Quissengue, Miocoto, Quihcndo, Cambomba e 
outros ; sondo estes os que em seguida a Quissengue primeiro 
se afastaram de Andumba, por causa de exigencias de tribu- 
tos e receio de feitifos*. 



1 À descida de Quìssengne para o norte quizeram oppòr-se os Lundas 
no tempo do Muatiànvua Noéji, porém cste pensava de modo diverso do 



94 



EXPEDigXO POBTUGUEZA AO MUATIÌKVUA 



D'estes se afastaram aiuda outros pelos meenios motivos e 
algnna, depoU do eatabeleci mento de Carneiro em Quimbundo, 
iato é, depois de adestrados no uso das noasas armas lazarìnas, 
foram na ca^a ao elephante. 

Cada iim d'esse» indìvidiios tomou-Be potentado aas terras 
que foi occupar e constituiu tribus eom os povos jd coubecidoa 
pelos BaQgalas e; Lundaa com diversaa deaominagSes, e ainda 
com OS que encontrarain a sul, iiHo inda além dos limites na- 
turaes em que se restringem os pcivoa com linguas differentes. 

No estado do Capendn, as migra^iiSB das popnla^Ses para 
leBte e por c^mseguinte a coustitui^'So de novas tribus com 
aquellas e outras que as precederam do interior teve logar de- 
pois das luctjta por causa do poder, que principìarain no es- 
tado de Muasongo, mais ao sul. 

Governava uste estado, Canje e sua irniS Muholo Angonga, 
e além dos tres filhos Andumba, Cilvula e Cauje, tinha està 
tido antes Quicdliia de nm Bengala. 

Morrendo CaDJe, os Bàngalas entenderam auxiliar a entrada 
no estado, ao filho do seu patricio, e depois de guerras centra 
OS partidarios do Andumba, ficou Quìcibia. Por morte d'aste, 
aiuda os RHugalas entenderam que deviam favorecer a entrada 
(le Canzdri, sobrinho d'aquelle, fillio de pae e mSe bàngalas. 



que se pensa hojc n& cdrte, corno Tcremos trateiudo do seu governa, e 
limitou-ae a, nomcar Quimbundo pani governo de uui eetailo, no logar a 
que deu o nome, & fiu de manter boHH rtla^ea com aqiielle e outros doa 
HeoB psrentcB quo quizcesem voltar do sul para os suas terraa, e de velar 
sempre pela manutentào da boa ordcin. 

Entre os QuìiÌpob, og aeuB potentadoa, Mons AnganB — aio mandani 
matar, romo o ^fuatIJìnvuIl, «oFeitit^ntn^ e o enfeìtifiulo morre. 

E poJer que se Ihes attribue; mas é curioso que, ob que se afaatam 
por cete motivo, tornam-ao Afona Angana entrc os que ob acoinpanha- 
run e fazem-ac logo iicrcditar tiimbem comò feiticciros; e é certo que o 
povo em gcral, qucr acredite, quer nSo, faz auppor que iato aasim é. 

Pelai miuha parto croio que esae feitifO nSo passa de urna boa 
doae de veneuo, admìniatrada a tempo e boras, aem que os mais credulos 
o percebam. 



ETHNOGBAPHU B HIBTOHU 96 

■ r ■ ■ ■ ■ 

Porém, nas guerras que se travaram/ Andomba consegoia re* 
YÌiidicar 00 seiiB direitos. , 

Como no esiado vizinho de Malandò, ob herdeiros à Bucces- 
bSo eram crean^as, Càvula, irmSo de Andomba, receando que 
OB Bftngalas «e oppuzessem & entrada d'elle em^segaida a este, 
tomou pOBse d'aquelle estado. 

Morreu Andumba^ e Cavala nSo qaerendo largar eerto pelo 
davidoBOy resignou a BuccessSo em favor do seu.irmSo Canje. 

DeBfizeram-Be d'este e entroo, Canziri, a qaem. suceeden 
Xà Anzoaa, tambem bàngala, e oste estado agora pode> di- 
zer-se qae se tomou dos Bàngalas, visto que estes se espalba- 
ram pelas suas terras. 

No Malundo, depois da morte de Quime, filho de Tumba 
Lupeto e ultimo neto de Muzombe, chamou-se seu tio QuibSoo 
para governar estado na menoridade dos herdeiros, mas 
legar foi disputado àquelle por Càvula Massongo, de quem j& 
fallei. 

Este fez que acompanhassem seus sobrìnhoB Massóli e 
Canzàri que por ordem Ihe succediam, preterindo a Qailelo 
quO) Bendo j& de certa idade, passou para o estado de Mulemba. 

No Mulemba, observàra-se sempre a praxe até Pire, que 
falleceu ha vinte annos. Este teve quati*o filhas, de que viviam 
duaS; IVIahango e Cafunfo (Cafimvo). 

A primeira, que era a mais velha, teve de Quinonga dois 
filhoB, Macamba e Mueanzo; de Quibulungo tambem dois, 
Candala e Pire ; e do ultimo Quienza, Cambongo, rapaz de dez 
annos. 

A segunda teve de Quissupa, que morreu, um so filho Mu- 
tende, que tambem morreu; de Imica duas filhas, Mutumbo e 
Puta; de Quibuta Mena, um rapaz, Muafo, e uma rapariga, 
Angongue. 

Como Mahongo nSo tinha filhas, suceedeu-lhe a sobrinha 
Mutumbo, com dois filhos de Quimica ainda crean9as, um ra 
paz, Quihoca, e uma rapariga. Samba. 

Os maridos d'estas senhoras, depois de terem cumprido com 
OB seus devercB, vio constituir pequenos estados, em sitiosipor 



EXPEDiglO POTTUQOEZA AO MCATIAnVOA 



ellas designadoB, bSo conaiderados magnatea, tomam parte 
Como seus consetheiros noa aegocioa de todos os seua domi- 
nios; nisB os filhos ficam em poder d'cllae. 

Fallecendo Pire, o Capenda-cà-Mulemba, eraMucamba, filho 
de Mahango, quem devia succeder-lhe ; poróm tounira posse 
do estado o Quìlelo Maliioda, a pretesto de ser aquelle muito 
novo, e conio pouco tempo depois Mucamba morresse, devia 
passar o estado para Mucanzo; mas Qtiilelo continuava sus- 
tentando ser aste urna crenn9a, notando-se ter està creanza ]& 
onze filhos e qiie a mais vciha tcria os seus quatorze annos. 

Dizia-se que Quilelo hSm tinha ainda satisfeito aos preceitos 
para ser cousideratìo C'apenda, por nilo encoatrar as ineignias 
do estado era poder de Pire, e que Mona Cafuofo, ambicio- 
nando o legar para um dos sens filhos, em vez de ir para os 
da irmS, conseguirà conserva -la a em seu poder, mas que d'isso 
sabia seu ultimo tnarìdo Qulbuta Mena, que era eacravo, o 
qual tratou do lli'as subtraliir por sua conta e escondé-las fora 
do sitio. 

Este Quibiita era da classe servii, e corno Mona Cafunfo o 
quizesse expulsar do sitio depois de ter d'elle dois filhos sem 
nada Ihe dar, levaotaram-se conflictos, de que resultou cor- 
rerem-no à paulada, deixando-o muito mal tratado, jà em ter- 
ra» de Mona M.ibango, 

Sendo visto ali por nm rapaz de Mucanzo, pediu-lhe para 
chamar este porque ia morrer e queria eonfiar-lhe um segredo 
de estado. 

A elle eommunicou as intenjBes de sua tia Cafunfo, e onde 
havia escondido o coire daa insignias, que b<Ì a elle perteu- 



Quibuta morreu dias depois. 

Mucanzo tinha jà comaigo as insignias do Capenda-ci-Mu- 
lemba, quando com elle estive. 

Em 1S85 lalleceu Mucanzo, e é provavel que essas insignias 
passassem para poder do irmSo Candala. Comtudo em 1887 
ainda estava no estado, (Juilelo, que dera a seus irmSos 
Maionde, Quiansiaje, Caianvo e Xà Machinje, bona gover- 



ETlISOtiBAPHIA i: mSTfJRIA 



nog no sou dominio ; o serji 
hoje diffidi, apesar de nilo 
BatÌRfazer aoa preceitos e 
lite faltarem aquellas inai- 
gnias, o deBlocii-lo. Por 
sua morte de certo Ihe 
BUCcederÀ Caianvo, que 
demais tem o apoio dos 
Bàngalas, com quem tem 
manti do boas relagSes. 

fallecido Pire era o 
Capenda-cà-Miilemba qiie 
em 1860 auxiliou as noesas 
forjas, commandftdas pelo 
major Sallea Ferreira, em 
perseguir o rebelde Am- 
bumba, jaga de Cassanje, 
e que consegui a apa- 
nhar-Ihe as insigniae, quc 
mandou entregar ao refe- 
ndo major; pelo que eate, 
em nome do governo, o 
Domeou capitilo dos portos 
do Cuango, mandando-lhe 
uma espada e urna banda 
de presente*. 

Ob filhos dos potentadoB nos ostados de Gapenda limitam as 
suas ambi;3eB ao dominio de pequenos povoados; os melhores 



1 No Tol. Iti da DBBontp^ìo oi Tiaogh, que é constituido pelo relato- 
rio, teolio de fiUlar d'eate nasumpto com mais deaeuvolvimento, porque a 
elle se refcrcm doig officios que recebi do actual Capenda-cd-Mulemba, 
que, collocado cntre Quiòcos 6 Bàngalas, pede ao governo de Mueue 
Puto quo nào abandone as terras do seu estado que Ihe pertenccni, e 
Ihe gnraata a nomea^So do capitSo doa portos de Cuaugo, coucedida 
pelo mesmo governo ao een anteceMor. 




I 



#■■ 



98 EXI'EDJ^ÀO POETUGL'EZA AU MUATIANVUA 

cargOB bSo para as fillias que ec destinnin para mulberes de 
principes e doa proprios Capendas, e por iato se dia qae nestc-e 
estados a feticidade é daa mulhercs. 

Foi-ain OB BELugalaa qucm alcuiiharam estes povos de XlDJeB, 
porque a sua aliruenta^So em principio oram ratos'. 

Quaado OS XinjcB chegaram ao Cuango, Mona Milvu infor- 

mou V Muatiàavuu, que Qiiingùri paseàra ila torras de Maene 

Fato, e que ella organisari& tim esttido Capenda, contando 

fc com a BUft prolec^So, e enviou-llie proBentes *, 

'^ DaTK Qoticia de aerem multo boaa as ten-as e haver por ali 

'* muitOB leSes e tlcphantos, 

Estae coinmuuìca^iSes foram dcepertar ambi^TEes de graudeza 
que ji existiam noe duacendentes de Mutombo, e por isso Ilunga 
cliamou Mai, seu irmào, e convidoii-o a ir explorar pelo norte, 
US icrras quo Ihe conviesscm para coustituir um estado para 
elle, corno homem grande (muncw), e niandou-o acompauliar 
de gente armada, d'elle e de sua mulher. 

Mai eucoatrou poros nas actuaetì terra» de Mataba, que fa- 
cilmente sujeitou &s »uns imposiyilies, e tbl eetabelecer-ee no 
Cbicapa, juuto da cacliociraa, conheeidas pela denominatilo 
de ilai Miincue, impondo-se aos povos vizinhos que a pouco e 
poaco vieram do none e foram tornando as denomioa^Oes de 
Tticongo, TnbinJQ, ChilangueB. 

Urna vez estabelecìdo, mandoa logo preaentes a Luéji, e kz 
que seuB dominios se dilatasBem para o sul. 

Neste estado teem-Be succedido os filhos de irmSoB, e os qiie 
se apuram boje sSo por sua ordem: Caesepo, QuìsBupa, Ad- 
gonde-ià-Lìbata, Quiluata, Mucongo. 



l'Nio sii OB Xìnjes, mas maitos povoe Lnndu e do Cuutgo até Ma- 
laaje procunun os ratea para eubetituir a carne on peìxe que aSo podem 
haver. Os B&ngalaB b3o os untcoa poros que vi comerem carne do do. 

> Ainda hoje o Capenda-cà-Mulemba e aa mnlherea do Eptado, man- 
dam mìlamboB de quando em quando ao Muatiinvua, e muitaa vezea os 
poTOB landas maia proiimoe abneom, enviaudo portadores em nome 
do MnatiAnvoa pediudo-lhe milambos, que nunca ne lecueam. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 99 

A este ultimo succedeu um irmSo, que està ainda no estado 
de Camoanga. 

Outros houye entre aquelles^ porém os nomea citadoB sSo 
- dos mais notaveis pelas suas guerras^ e por isso sSo apenas os 
que hoje se reeordam. 

Gom a comitiva de Mai^ saiu a de um primo de Luéji, fillio 
de Muata, Quissanda Caméxi, que fói até ao rio Ldvua, a 
de Muquelengue Mutombo, primo de Ilunga que, passando 
aquelle rio, seguiu para o norte, e a de Cassongo, sobrìnho do 
mesmo Qunga que, depois de deixar aquelle junto ao Cullo, 
seguiu para o oeste até ao Cuango. 

Todas estas comitivas de gente armada, a que elles chamam 
guerras, tiveram de repellir e sujeitar à obediencia de Luéji, os 
povos que foram encontrando no seu transito. 

Caméxi deixou em seu legar, junto ao Chicapa, um sobrìnho 
e voltou & córte a dar parte das boas diligencias que l^e esta- 
vam fazendo, entregando a Luéji muitos escravos. 

Para remunerafSo dos seus bons servi^os deu-lhe LuÓji o 
titulo de Caungula, e auctorisasSo para dividir as novas terras 
por elle conquistadas, em estados pelos seus filhos. 

Como fallecesse antes de sair de novo para os seus dominios, 
foi està auctorisa9ào concedida a seu filho mais velho, tambem 
Caméxi, que partiu levando comsigo seu irmelo Lussengue, que 
foi investir no estado do pae com a residencia no legar em que 
elle deipara imi sobrinho, e a este deu o titulo de BungiUo, 
para ir formar estado onde mais Ihe conviesse em suas terras, 
indo este para o Luachimo. 

Regressou tambem à córte com mais escravos para Luéji e 
deu-lhe parte do modo comò procederà, pedindo para ir collo- 
car outro irmSo menor uà margem do Luembe, onde conti vesso 
em respeito os povos entre este rio e o Cassai, voltando elle 
para junto de sua ama. 

Assim se fez. 

O Muquelengue Mutombo apossou-se da regiSo em que foram 
estabelecer-se os Peindes que corridos dos seus sitios, recearam 
intemar-se mais para o norte por causa das feras. E' comò 



*-t 



•*.f. 



s 

100 EXPEDIfXo POBTUQtnOkA AO HUATIInVUA 

aqnelle ob tratasse muito bem, cognominaram-no Cmabana^ e 
d'ahi titillo de Muata Cumbana que conseryaram seuB suc- 
cessores^. 

O Cassongo qae pretendeu afastar-se das exigencias da 
córte, encontrando o CaangO; soube pertencerem as terras além 
d'elle a Muene Fato, ji considerado o grande dos brancos, 
e intìtulou-se Muene Fato Cassongo. 

No estado do Caungala observou-se a mesma praxe na suc- 
oesaSo qae na do sen amo, Muatìànvaa, e os nomea que se 
apuraram foram: Muteba, Chissupa, que perseguido pelos pa- 
rentes foi morrer na serra Xicandama; Noéjì, tambem perse- 
gnido; foi morrer nas terras de Mai Munene; Uunga, filho de 
Chissupày que estabeleceu a sua residencia junto ao Massai, 
proximo da confluencia com o Lovua. 

A oste jà muito velho, por ordem da cdrte veiu succeder o 
potentado actual seu sobrinho, que mudou a residencia mais 
para norte, onde està. 

Chama-se elle X& Muteba e distingne-se do seu inferior no 
Luembe, cujo povo é hoje na maior parte de Mataba, denomi- 
nando-se este Caungala de Mataba. 

No Bungulo, margem do Luacbimo, e ao sul de Caungula, 
seguiu-se a success^o pelos sobrinhos : lanvo, Mazàri, Canhimo, 



1 Entre os povos da Lunda «tratar bem» é «dar» sem o pensamento 
reseryado de compensa^So, e neste caso o vocabulo que Ihe corresponde 
é cumpana (kupana) «dar», que àquem do Cuango corresponde a cum- 
bana (kulana). 

Se nos lembrarmos que os Peindes marginayam o Cuango e yinham 
até proximo ao Duque de Bragan^a, acreditaremos que este povo tem 
vocabulo cumhana {kulana)^ que tambem em Angola se diz cubana e 
corresponde a kumpana (kupana) entre os Lundas; isto é, deixa de ser 
nasal a consoante. 

Està admittido entre os Lundas o Cumbana dos Peindes que deram 
nome ao seu potentado, porém é de suppor que muitos em sua lingua 
digam cumjMna e assim explico comò o Dr. BiicHner, e em geral os ex- 
ploradores allemSes, acceitam que aquelle Muata era Cumpana, quando 
todos o designam por Cumbana. 



ETHNOGRAPftlA E HISTORIA 101 

Qaibuta, lanvo^ Cambombo^ que fugiu pela persegaÌ9So de 
parentes^ Copacànhi, Camuéji^ Quiluata^ a quem os parentes 
com auxilio dos Quiòcos coagiram a abandonar o estado em 
favor de um primo, è que um ou dois annos depois com a 
protec^So do Muatìànvaa foi reintegrado. 

Màis tarde volontariamente entregon o estado a um irmSo 
d'aquelle e que hoje està no poder com o titulo de Bungulo 
Cambombo. 

Ao tempo que estas conquistas se faziam, saiam da córte 
para o Cabango a SW., na margem do Chiùmbue^ Muansansa e 
Muene Luhanda, seu fìlho, qualquer d'elles Muquèlengues^ com 
ordem de instituirem estados e conterem em respeito os povos 
que Ihe ficassem ao sul. 

Em seguida a estes^ concedeu o Muatiànvua ao grande Xa- 
cambunje, as terras jà conhecidas pelo nome de Tengue ao 
sul na margem direita do Cassai, e abrangendo as terras re- 
gadas pelas nascentes do Lulùa, e com elle foràm Cauhàhua, 
Catenda, Xà Cahanda, Càbua, Catanda, Fimiubanda, Qui- 
bando, Catema e outros. 

Actualmente os descendentes d'estes tomaram-se chefes de 
povos^ que se conhecem pelos nomes dos rios que passam nas 
terras que occupam: Macossa, Matassa, Maluena, Minungo, 
Tungombe, etc, e todos elles s^o da mesma familia dos que se 
expatriaram para sul — aioco. 

Aos chefes d'essas comitivas seguiram-se outros, que eram 
seus descendentes e ainda hoje sSo considerados Muquelen- 
gues, titulo de nobreza que continuam a usar os da c6rte de 
Muquengue, a que ha poucos annos se chama Lubuco, sendo, 
quanto a nós, seus povos uma grande parte do antigo estado 
da Luba, que veiu encortar-se ao Cassai, espalhando-se d'ahi 
até ao Lumàmi. 

Se attentarmos na disposÌ9So das terras a norte, parece que 
estes povos fugiram aos terrenos encharcados e às florestas 
mais densas que marginam os rios, e se nSo passaram para 
a regiào da Lunda jà conhecida, foi por enconti*arem de per- 
meio entSLo os povos que foram repellindo^ os Tubinjes, Tu- 



102 EXPEDigSo POBTCGCKZA AO KTATlANVDA 

congOB, Acauandaa, de outras migragSes nnterioreB, povoa mais 
aelvagena e oa mais d'elles em contacio com o governo do 
Muati^Qvua e jil a elle sujeitos. 

Em aeguida aos Liibas vieram oa Qùetcg e Cubae que os 
limitam pelo norte e ae dizem jil repcllidos peloa povos do 
Zaire, e sào estes que depoia, nos ultìmoB tcmpos, engroasaram 
n poputa^Jki siijeita ao lluquengue, e a Luquengo seu visiiiho 
ofi oortc. 

Lubitco, ou ntellior o qnc hoje ae cliama Lubuco, ainda ha 
inaia de qninze annas, talvcz vinte, apenaa era conhecido das 
caravanaa dos noaaoa Qiiimbarca, de algttns Qniòcoa maia arro- 
jados e dos Tiiruba (Lubaa) do MuatiilDma sob o domìnio de 
Mai Munena. 

Os nosaoa Quimbarcs de Ambaca, tiraram partìdo daa boss 
rela^Sea travadaa com o Muquengue Quixìmbo Caasongo (irmSo 
do actual) e com os aeua ranquelengea, oa aenhorea do Maio, 
jimtos d'ellea ae demornvam annoa tran a forni andò os aeus pan- 
nos de mabela em objectoa de veatiiarìo ao uso europou, corno 
cal9aB, caaacos, camiaolas, bonets, etc, e tambem fazendo-lhoe 
sapatos de couro purellea meamo curtido. Esaas relagSea iam-sc 
estreitando, e os Àmbaqulstas \A iam Ìntrodu!tÌndo palavras 
portuguezas e de amhundo, lingua de suaa tcrraa, no vocabu- 
lario pouco copioso d'tUes. 

Como é naturai, apresentaram-ae os Ambaquiataa corno Glhos 
de Muene Piito, fallaram-lhe era juramonto de bandeiraa e 
descreveram-lbe os qosbos uaos e costumes ; erafùn, desperta- 
ram a curiosidade de Q,uÌxtmbo e da sua tribù (a maia branda 
e intelligente, que tende a civili Bar-ae). 

O elephante, batido peloa Quiócos, foi recuaado para o norte, 
e Mucanjonga, um doa mais audazes ca^adorea, seguido de 
algmiB companheiros e ji com as nossaa arraaa lazarinaa, saiu 
do seu sitio junto a um dos affluentes do Luele, ao ani de Mona 
Gongolo, para uma esploralo de caga ao norte, e, seguindo o 
Quicapa, consegutu passar depois o Cassai e fez-se amigo de 
Muquengue, apreaenùindo-se corno cagador, QuUunga, nome 
que certamente tirnu de Ilunga (o pae do primeìro Mimtianvua). 




ETHKOGRAPHIA E HISTORIA 103 

% 

Contractou com Muquengue ca^ar nas suas terras o elephan- 
te, repartindo com elle, e tambem ensinà-Io e aos sena a cagar. 

Isto daroa algum tempo e d'ahi os depositos de marfim, 
maiores ou menores, que tiveram Quiximbo e os chefes mais 
consideradoB qae o rodeavam. 

Tambem nas terras havia abundancia de borracha, e os 
Quidcos nestas excursSes, quando a caga Ihes dava folga, apro- 
veitavam o tempo na sua colheita, de que os nossos Quimbares 
se occupavam ensinando tambem os Muquelengues a colherem- 
na e acceitando-lha em troca de obras de alfaiate e sapateiro 
que Ihes faziam. 

Mucanjanga e os seus realisaram para ali duas ou tres via- 
genS; porque retiravam com o marfim que negociavam depois 
por fazendas, armas e polvora. 

Da penultima à ultima, o intervallo fòra grande, e é naturai 
que a ausencia d'estes cagadores fosse bastante sentida por 
Quiximbo e os seus^ porque elles Ihes levavam sempre novi- 
dades e tambem tabaco, que multo apreciavam. 

Ouvia Quiximbo fallar a Quilunga das boas cousas que tinha 
Muene Puto, e que tudo de là recebia por intervengSo de um 
bom amigo branco, que vivia proximo do seu sitio, e estas no- 
ticias eram confìrmadas pelos Quimbares que o tentaram a 
emprehender urna viagem e Ihes lembraram urna rede corno 
optimo melo de conduegSo. 

Os Quimbares chegaram a obter-lhe urna, com as suas ma- 
belas e a conduzi-lo a passeio a troco de bolas de borracha. 

A falta de tabaco, urna tarde Quiximbo fumou Uamba 
{diamba ou riamba), o que o embriagou, e jà de noite, conta 
elle, julgàra ter ido a uma terra, onde se fomecéra de roupas 
brancas, fato, polvora, armas e muitas outras cousas, e que 
principiàra a felicidade da sua terra com a protecySo de Muene 
Puto. 

Despertado, nSlo podia apagar-se da sua imaginagSo o que 
pensava ter-lhe succedido, e por isso de madrugada mesmo, 
mandou chamar seu cunhado Quinguengue, e seus parentes 
com quem mais privava, Capuco, Quibundo e Umbeia, e, de- 



104 EXPEDiglo POBTUGDEBA AO KDATIAnvua 

poÌB de narrar o que vira, propoz-lhcs para o acompanharem 
mima viagem ató & reflidencia de Quilunga, que ha tempo nJlo 
apparecia, para com elle irem procurar ns boas cousas de 
Muene Puto, de que precisavaiu. 

Houve dÌ8CUBs3o sobrc a projectada jomada, que julgavam 
cheia de graodes difficuldades por nuuca tereni aaido de sua 
terra ; mas orgauisaram urna grande cxpedì^So, levando escra- 
vos, marfim e borracha em quantidade, para preaentearem os 
povos que nSo os quizessem dcixar passar. Era urna teuta- 
tiva em que Quìximbo eo nSo importava muito que Iiouvesae 
prejuizo de valorcs j o que desejava agora era entabolar rela- 
^Bes com povos novos e vèr o estabeìeeimento do branco, junto 
ao seu ainigo QuiluDga. 

Seguiram o Cassai ató ao porto Muiamba defronte do Mai, 
onde o queriam passar para aubircm com o Quicapa, e man- 
daram prefientea de marfim o escravoa ao Mai e ao seu Qui- 
luata. Aqiielle achava a teutativa doa Cbilangues um arrojo e 
tratava de impedir-lhes a passagcm; foriera Quiximbo reforgou 
o presento, mandando-lhe mais duaa raparigas e um dente 
grande de marfim; elle deu-lhea entSo um guìa para os acom- 
panbar pela margem esquerda do Quicapa até ao limite d&s 
snas terraa. 

Pagando a una e outros chefes de poToafSo conaegniram cbe- 
gar e Mona Gongolo, onde encontraram Ambaquiataa, entra os 
quaee tambem estava o interprete da uossa Expedì^, Antonio 
Bezerra, que depoia oa guiou ao Quilunga, que entBo reaidia 
l'unto ao affluente do Lucbico, um pouco maia a oeste. 

A Mona Gongolo deram elles quatro mulbores e seìa dentea 
de mariìm, porquo na sua quipaoga estiveram hoapedadoa 
alguna diaa deacanaando e informando-se do que deeejavam 
aaber. 

Fonali depois procurar Mucanjanga, ondo os acompankou 
Bezerra, e Aquelle, que era amigo antigo deram mùor presente 
do que a Mona Gongolo. 

Mucanjanga correaponden a està dadiva com fazendas, 
armas e polvora e ficou de os acompanhar no regresso, acon- 



KTHSOGHAPHLl E HiaTOKU 



105 



selbando-OB que foeaem a Quimbuntlo, ao estabeleci mento de 
Camiiiro & Macbado (a cargo de Saturnino Machado) e nego- 
ciassem o reato que traziain. 

Saturnino Machado, hospedou-OB muito bcm, e fez o nego- 
ciò que elloB desejavam, de modo que os deìxou eatisfeitoe. 




Voltaram il sua terra muito contentea, contaram tudo que vi- 
ram, o modo por que o branco oa tratou e Ibea pagou e seu 
marGm; mostraram o negocio que traziam e oa bona conae- 
thoa que Ihea dera o branco, e recommendaram a todos que se 
preparaasem para ca^ar elepbantca e colher borracba, ae que- 
riam ser felizes, e quo d'ali por deauto deviam fiuuar liamba. 



106 



EXFEDT^-Xo PORTUGITBSA AO XDATIÀKVUA 



É d'aqui que data a transfonna^So por que rapidamente teem 
passado o8 povos do Muquengiie, contribuindo rauito para ella 
a afflueiicia desde eotilo da noxaa gente de Anibuca, Malanjc 
e Pungo Andongo, que ae denominam todos Ambaquistas. 

Quisinibo ainda fez outra viagem, e Bendo beni succedido, 
OS Betiif nomearam-oo Muqtiengiie do Lubnco. QuÌD<^ieiigo foi 
residìr proxlmo do rio AluauBangoma, e os outros parentes 
constituiram tuinbem pequenos estados. Os homens de Cabau 
nilo iargaram o seii trajo, quo é Como o dos Cabiadas, grande^ 
paunos (le mabein e cainiflolas; algiuiB d'estes fato» sSo bem 
bordadoB a miseanga pelas suas mulheree. 

Morrenda Quixiuibo deixou uni fìlbo doB acus dez annos, 
conhecido de Miicanjanga e mais QuiOcos, que niaadaram dizer 
no tio (o actual Muquengue) que se leinbraese sereni elles ami- 
gos do pae d'aquella creanza, a qnem o eatado pertencia e que 
emquanto ella fosse menor fizesse um botn governo. 

Muquengue conveneeu o seu povo de que, tendo elle tam- 
bem feito uina joruada ao Quìlunga, Ibe pertencia lierdar o 
estado, e seu sobrinho seria o seu immediato para o herdar 
d'elle; que elle ali era o Muatiànvua. Fez-se i-odear dos seus 
afieifoados, dos que juraram o moio e dos sens amigoa, que 
viviam na proximidade da sua reBidencia, e eram ob tìllios de 
Muene Futo, consultados até para os seus negocios comò oa 
QuiOco.'. 

O nesso sertani^jo Silva Porto, na sua primeira viagcm, 
encontrou o Lubuco nesta situa^So. 

Em 1831, a expedì^fto Pogge e WiaBDiann, que ae dìrigia 
para o Muatiànvua com a idea de por ali realisar urna travessia. 



» 



Neutro logar prcsInni-Be esci aree ìmentoH muis desenvolvidos Bobre 
eBt«a povos e no voi. i ila DeschipcÀo da Vuo£» ee àA conta, ile doìg rela- 
torioB importai) tea qne reccbeinos do ncgociantc Bertooejo Saturnino 
Maehftdo, qua mostra comò catjo procedendo os ageutes do novo Estudo 
do Congo naqiiella regiilo, que por todos os motivos devia ter eido reg- 
peitada caino portugucEa; e nessa doce illnaSo unda vivem algnn? 
doB aeuB povoa. 



ETHNOGRAFHU E HISTORIA 107 

e procurando conhecer Canhiuca foi informada em Quimbundo 
por Saturnino Machado.das circumstancias anormaea em que 
86 encontrava a regiSo do Cassai & Mnssumba e aconselhada 
por elIO; resolven descer o Quicapa e passar ao Muquengae 
oom goias do mesmo Saturnino, indo tambem acompànhada 
pelo amigo e freguez antigo da sua casa conunereial/o quidco 
Mona Gongolo. Ahi chegou a expedigSo, demorando-se o 
dr. Pogge mais de dois annos junto do Muquengue. 

Os exploradores allemSes nSo poderSo negar, pois, a nossa 
influencia naquelle paiz, e que ahi encontraram os nossos usos, 
OS nossos costumes e até a nossa lingua. 

Se consultarmos o vocabulario das linguas d'està vastissima 
regiSo, là encontraremos muitos termos portuguezes adoptados 
pela gente de Canhiuca, do Congo, de diversas tribus sujeitas 
ao Muati&nvua, e pelos povos de Ambaca, Malanje e Cassongo. 

Nota-se, comtudo, urna differen9a no seu prefixo plural que 
é ba corno em Canhiuca, no Cassanje e algumas tribus do 
Congo, emquanto que em teda a regiSo considerada é a cu 
ma. Assim emquanto se diz na Lunda — ana a miuitianviia 
(cfilhos do Muatiànvua»), os do Lubuco dizem bana ba Ivbtico 
(cfilhos do Lubuco»); mas o singular milana («filho») é o 
mesmo. Além d'isso chi e o lu sSo prefixos especiaes de uns 
e outros, e tambem os encontràmos em tribus do Congo. 

Comparados nos usos, costumes e artefactos, ha apenas dif- 
feren9as para um estado mais prospero, iste devido, sem du- 
yida, ao contacto com os nossos Quimbares e a maior applica- 
9^0 e tendencias para o trabalho. Aqui sim, distingue-se uma 
classe livre da dos servos, que se vSo buscar fora do meio 
em que ella vive, comò veremos. 

Croio, pois, que os povos de Mataba, Tubinje, Tucongo e 
Acauanda sSo os que precederam os actuaes do Lubuco nas 
migrafSes, e talvez mesmo os Lubas e Bungos, porque estlo 
num estado relativamente atrasado, e alguns d'elles, os ultimos, 
OS da parte septentrional principalmente, sSo anthropophagos. 

Nesta regimo, com o mesmo nome de Uandas, distinguem-se 
pelo trajo dois povos, os Majala Mavumo e os Majala Chiquita 



► . ■ ■ • 




] 08 EXPEDIqXo POBTUGUEZà AO MUATUnVDA 

(o8 que cobrem com a pelle dii barriga as partes genitaes, e os 
que veatem pelles de animaes), e u tradicional eotre os Lun- 
das, encontrarem-Be anSua neatea dois povos. 

TerSo estca algumas relas^es com os povos anSoa de Schwein- 
fìirtli? Està nosaa duvida tomar-ac-Iia mais patente quando 
tratarmos doB usos e costumeB. 

E singalar a canstitui^So das tribus de que tratàmos, que 
partindo de um eentro ae diaperaaram até certa altura, e era 
vez de proaeguirem para norte e buI, onde parece tinbam largo 
campo, retrocedesBem conio temoa vìato, a otouparem terraa 
por onde tìnliam paasado indiffereatea, certamente pela preci- 
pitagSo com que fugiam, Jil aoa poroa invasoroB, jà ao despo- 
tismo de aeUB potentados, j& emfim às guerraa inteatinaa levan- 
tadaa pelos mais audaciosos e aguerridoB. 

Asaim vemos pelos dialectoa e pelo que se està passando na 
actualidade com respeito ao commercio de eacravos, quo ellaa 
foram até ao Zaire, seguindo as terraa do Congo, e que d'aqui 
aairam outraa para sul. A parte Icate da noasa provincia de 
Angola até ao Cuanza, fornece-noa muitos exemploa d'eatas 
migra^Bes; mas além do Cuaugo, a leate do Capenda Camu- 
lembft, junto &s terraa de Mona Samba Mahango, uma tribù 
se foi ahi collocar eob o dominio do putentado Cambongo, que 
merece menjXo porque um doa seus deacendentes preatou rele- 
vantes servi^os, nas ultimas guerras de Caaaanjo, aos portu- 
guezea africauos que, fugindo & ferocidade doa rebeldes e 
passando o Cuango, por elle'foram aajlados e protegidos. 

De dois d'estes que eatavam no acampamento da ExpedigSo 
obtive a respeito de Cambongo aa seguintes informa93e8: 

Diz-so Bubdito de Muene (rei) Congo; os seus dominioa 
eonfrontam com aa terraa de Mueto Anguimbo, de Maholo e 
varios subditoa do Congo, e a leste com oa Peindes e OutrOB. 

Sua mite, Muaua Mudili, e sua irmà Angiiri-à-Cama vieram 
com elle do Congo e aqui ae ea tabe le cera m, Bendo aquellas jà 
idosas e multo respeitadas pelea seus povoa e os daa vizi- 
nhan^as, motivo porque oa de Capenda n3o teera tido luctas 
ultimamente com os dcscendentes. 



I 



1 



ETNOGEAPHIA E HiaTOBU 



109 



i 

■ 



Trouxe do Congo, corno insignias paru o seu eetado, um 
grande sino (dUujtga) de igreja, naturalmente de algum dos 
antigos temploB portuguezes eia S. Salvador, 

Quando tiveram logar as ultimaa guerraa de Caasanje (do 
tenente coronel Casal), una sessenta a setenta filLos de An- 
gola, que combateram ao lado d'este, depois da sua morte 
fugiram em dcbaodada para os Xinjes e d'aqui passaram para 
fls terraa de Oambongo, porque os Xiujes eetavam da parte dos 
BàDgalus, que poiicos annos aotea haviam aido intermcdiarios 
iias pazea d'elles eom Aogùri-d-Cania, que ainda conservava 
comò tropheu da Victoria que sobro elica alcau^&ra o uranio 
de um Capenda'. 

Oa Angolenses ainda no Cambongo foram pereeguidos peloB 
B&ngalas, maa de um modo diverso, porque se nito ntreviam 
a atacà-los na povoa^So. 

Levaram a Cambongo om presente de sessenta pe9aa de fa- 
zenda atacadas, quaranta armas, polvora e missanga em quan- 
tidade, para que elle lliea entregaase os refugiados corno presas 
da alia guerra, em que foram victoriosos. Cambongo recebeu 
tudo e ordenou que oa Angolenaes e BAngalaa ec reunisscm 
em um determinado dia em frente da sua resideocia. 

A bora aprazada jd elle oa aguardava e mandou collocar uà 
Portuguezea de Angola ao aeu lado direito e oa BAngalaa, 
no lado oppoato. A eatea perguntou o que queriam. 

Responderam : Oa Portuguezea vieram com Casal atacar-noa 
nas nOBsas terras, nós fomos veucedores (mostram iiin bra^o jd 
ennegrecido e uma eapecie de cabelleira, que traziam, para 
signal), e queremos essa gente (apontando para os de Angola) 
porque sSo nossos escravos. 

Cambongo inaistiu por mais de uma vez para que Ibe dia- 
oessem se aquellea cabellos eram de um branco, filbo de Mucne 
^Fnto, morto por ellea. 



ì 



' Not«-ee que elica falluni Bempre no presente e por isao as rcferen- 
< oiaa eio a ucendeates que tinham ob titoloa dos da actualidade. 



no 



EXPEDI920 FOBTUOUKZA AO MVATIAmvuA 



Refiponderam que sJm, e em segulda cantaram o ggu Iiymoo 
de Victoria nessa eampaoha, canto que ainda hoje consci^'am 
quando qiierem alardear de vnlentSea, com ob povoa com quem 
se dispSem a gnerrear. 

Cambongo ouviu-oe com toda a placidez e depois tnandoii 
buscar pelos eens a dilunga e coUoctl-la junto de ai, e batendo- 
Ihe com toda a for^a pergimlou se o jaga de Cassanje tinba 
nu eetado urna in»Ìguìa corno aqiiella. Nilo, rcsponderatn elles; 
là temos campainhaa peqiieiiaB e Iviernhe*. 

Pois bem, està trouxe-a eu de S. Salvador quando Mueno 
Congo meu pae me mandou para estas terras, era wm presente 
do seu muito amado irmSo e amigo Huene Puto. Oa de Caa- 
BBHJe nSo podem ter um signal comò este, porque nSo conhe- 
cem Muene Puto corno dizem; um bom prutcctov que tudo noe 
manda dus euas terras. Mas corno v<ìs quereis os seus filhos, 
esperae um pouco, que jii os recebereia. 

Mandou buscar os presente» que elles uasvesperas Ibesman- 
daram e poz tudo no largo entre os Àngolenses e Bàngalaa, 
recommendando a eatea que verificaasem bcm se ali fallava al- 
gumu cousa. E corno ellea disaessera nada fallar, ordenou-lbea 
que fossem buscar o capim de uma cubata proxima em mi- 
nas e o juntassem em monte para lliea largarem fogo. Depois 
ordenou-lbea que ahi fossem latitando pega por pc^a do que 
haviam trazido, excepto oa barris de polvora, que mandou 
recolber pela sua gente*. 

Os BUngalas jii hìId cstavam aatiafcitos, e oa Angoicnaea pela 
sua parte anaiosos esperavam o desfecho da scena que elle ia 
fazendo deaenvolver corno d'antemSo a concebcra. 

Grande era o silencio, que Cambongo interrompeu dirigindo- 
se aoa B^ngalas: — EntSo v6a quereis comprar um amigo de 



< É um inetrumenCo de ferro em forma de ferradura. 

* Entre estes povos aio sSo para eatranliar as humilha^Se 
sujeitam as tribns estraageiras perantc os potentados com ( 
de ter rela^òeB, e oa BQugalus muito prinuipalmi'iite. K o casi 
lei qoe aó eìo ousados e valentes em suas casas. 




ETNOGRAPUIA E UlSTOBIA 111 

Muene Puto para yos entregar os filhos d'elle; idea agora sa- 
ber corno taes entregas se fazem, quando, se irata oom Muene 
Congo, que toda a sua grandeza deve a Muene Puto. O des- 
tino das fazendas e mais cousas que trouxestes jà o vistes ; 
agora os filhos de Cassanje que acompanharam a embaixada, 
que ySo dizer ao seu jaga qual a resposta a tSo infame pro- 
posta. 

A gente de Cambongo ji preparada, immediatamente os fre- 
charam e atiraram com elles para cima ds^ fogueira. 

Cambongo levantando-sci disse entSo para os Angolenses : 

— Tende o trabalho de enterrar esses malvados, corno tes- 
temunhas do que acabo de praticar^ e fazei constar um dia a 
Muene Puto, quanto mais vale um Cambongo seu amigo que 
um Jaga que se diz seu vassallo. 

Os Ambaquistas que me deram estas informa98es disseram 
que mais tarde f5ra ter com elle um patrìcio com os dedos 
das mSos cortados pelos Xinjes, para que nSo escrevesse para 
Muene Puto^ dizendo os maus tratos que soffiriam ali os seus 
subditos. 

A sujeÌ9SLo de todos estes povos aos potentados da Lunda é 
de moderna data e foi por està sujeÌ9So e pelas conquistas de 
outros que se instituiu o Estado do Muatiànvua, que afugentou 
tambem outros, que foram formar novas tribus para oeste do 
Cuango jà na nossa provincia, e de mistura com gentes ji entào 
sujeitas ao Muene Congo, e neste caso estSo os longos, Holos, 
Hàris; Bongos e mesmo Jingas, destacando-se entro todos 
algumas tribus que, a seu modo, se mostram dedicadas e 
mesmo affeiyoadas aos Portuguezes. 

Assim se disseminaram, pois, os povos na regiào de que me 
occupo e que segundo a tradÌ9ào de todos elles, consegui dis- 
por no esbojo geographico-historico que apresento. 

De todos estes povos temos a notar que os Qui6cos, na actua- 
lidade, sSo os que mais se deslocam, e por isso nSo seri para es- 
tranhar que em poucos annos marginem o Cuango, porquanto 
elles chegam jà pelo norte em differentes pontos aos limites do 
Lubuco, e n&o encontrando elephantes nem borracha na regiSo 



•^ 



>« 



112 EXPEDI^O POBTUQUEZA AO MUATIÌNVUAi 

qae teem atravessado nos ultìmos annos, vem jà acossa^os pelos 
Qoidoos do sul descendo entre o Cassai e o Lulùa. ^ 

Lnéji teye de Ilunga seis filhos — lanyo, Noéji; Namà Ma- 
jumba; Cassongo, Muene Paia e Huquelengae Molanda. 

Por •oiisidera9So para Luéji e Ilunga estabeli9ceu-se que no 
eslado do Muati&nyua deyiam succeder por ordem todos os 
seus ^filhos que fossem vivos ao tempo emque se desse a sue- 
cessio; e d'ahi eni deante passarla aos filhos dos mais velhos ; 
e d'este modo nunca poderia passar directamente de paes para 
filhosi porqùe contaram que se o Muatiftnvua nSo tivesse filhos 
de uma mulher os teria de outra, e entre tantas mulheres que 
possuc; se nSo tivesse filhos de nenhuma^ nSo era capaz e dei- 
xava de ser Muatiftnvua; succedendo-lhe quem tivesse jus 
a isso. 

Praxe foi està que deu legar is ambisSes do poder, e d'ahi 
a grandes complica98e8 e tambem aos incestos praticados pelo 
Muatìftnvua, admittidos comò licitos, o que terei occasiSo de 
mencionar no desenvolvimento d'este nesso trabalho comò ve- 
remos em outro capitulo. 

Moirendo Ilunga, comò elle fosse considerado estrangeiro 
para a terra dos Bungos, deram-lhe sepultura na margem di- 
reita do Cajidixi no logar em que dormiu na noite em que ali 
chegou, e seja ou nSo veridica a lenda, là me apontaram em 
logar reservado uma arvore, que dizem ser a forquilha que 
elle ali plantàra para cabide de suas armas, e eu desenhei-a 
comò monumento que os Lundas mostram ter em simmio 
apre90. 




LUCAKO 



CAPITULO n 



DIALECTOS TUS OU AOTtS 



ObMiTftfSea preliminarei — Valor ethnographico doa estados glotticoi — DifBcaldadea de 
colleocionunento de maleriaea linguiaticos na AfHca — Neceaaidade de methodo mi- 
forme o para estudo daa lingaaa — Trab&lhoa de linguistica africana, especialmente de 
SchOn, Schweinftuih, A. F. Nogueira, J. d'Almeida da Cunha e Héli Chatelain — Li- 
mites dos povos Tos oa Ant6s — Uso de vocabalos e phraaes portuguesas inteijecti- 
vamente empregadas nestea dialectos — Considera^Sea sobre a escravidio e eondi f&o 
actual doa povos que visite! — Conclas5es e Indica^es para o estudo dos quadros lin- 
gnisticos annszos. 



8 



ara eatudo das ragas, b^ 

tradi^Bes 



bons auxilia 

dos poTOB, sobrctudo quando 
d'eEsas tradi^i^ea se podem 
dediizir alguns caracteres 
ethnicos, lìnguisticoa e outros 
(issenciaes a esse estudo. No 
campo das minhas inveatiga- 
gÒea, diversos foram ob povos 
com quem ti ve de conviver, 
e corno nSo pudesse dispor 
dos recursos que ino eram 
indiapensaveis para os rigo- 
roaoa trabalhos que a Bciencia 
actu al mente reclama, tratei 
de aproveitar todos os conhecimentos que ia odquirmdo pela 
observajSo aubordinaudo-os a mn methodo unilbnne, levando 
tSo longe quanto me foi pusaivel as minbas indaga^Ses. 

Pelas tradi^Sta vimos que houve em variae epochaa diffe- 

rentes migra^iìes que seguiram de N.-E. para a regììio de que 

me occupo, mas nSo tornando todas o mesmo caminbo, e que 

a neste centro se tornaram a juntar para de novo se aepa- 

rarem e espalharem a sul, a oeste e ao oriente, E tudo ìndica 





116 EXPEDIljJo PUWTUCUEZA AO MDATIÀNVUA 

que eesas emigra^òes irìain muito maie aUra, se obstaculoa na- 
taraes se Ibe nào ante puzes seni, comò o mar ao orJeute e occi- 
dente, as elevadas montanlias, o rio Zambeze e as bnrreiras 
couBtituidas por outros povos, ao aul. 

EsteB povoa que se apartaram de um centro presiunivel 
commum para voUarera a reunir-ac era outros pontos, e se 
afastaram de novo para de novo se cruzarem, entrando jd nes- 
sea cruzamentoB influoncias eatriAilias, apresent^m as differen- 
^as que, eui grande parte, devidas a eaaas influencias se notam, 
de dialcctOB, de tcz, de desen voi vi mento pbysico e moral, des- 
tacando'se Eobre ttido, os que revelam eapirito nomada, dos 
que por inei-cia, proveniente da aerilo longa e persìstente dea 
terrenoB insalubres era que vivem, teem definhado ou perma- 
necido estacionarìos, nào se aproveitando doa eleinentoa que a 
natureza llies offerece eni aeu beneficio. 

Mais urna vez rcpetimos, nào sao os nossoa estudos restrt- 
ctameute anthropologicoa, n aim ethnographicoB, earazSojà a 
diaacmoa : nSo nos prepaMmoa para proceder a medì^Sea aubre 
eaqueletos corno seria para deaejar, nera os pudemos adquirir, 
e n^ creio que por emquanto ae consiga fuzcr devidamente 
esse genero de trabalhos no centro do continente; todavia, se- 
ria para deaejar, que se fizesaem jd, noa limitea raaia afaatadoa 
daa noasaa provindea de Angola e Mo9an)bique. 

A linguistica, pela sua parte, vae esclarecer-noa aobre a 
conatìtui^ilo doa povoa qiie hoje occupani a regiJo centrai eni 
que andei, e quando aeja pnsaivel alargar-ae o campo daa anas 
inveatiga^Sea iniciadaa, cbegar-se-ha talvez à origem d'essa 
constitui^So. E se a linguiatica nSo possue todos os elementos 
para a determina9So, caractorisa^Jo e classifica^So das ra^as, 
é certo que oh niateriaea ethnicoa e anatomicoa, e todaa aa in- 
veatiga^Bea a que nos conduzem os eatudoa aothropologicoa, os 
podem subm ini atra r. 

E um facto jjl ndquirido para a scicncia, que a raja negra, 
quer se encontre naa terraa do Africa quer naa regiSea insulo- 
peninsulares, talvez reatos, conio jà ae disse, de algum antigo 
continente que se estendeu pelo mar das Indias até ao grande 




ETHNOGRAPHIA E HISTOUU 117 

Oceano, £a.lla linguas em que os elementos se juxtapSem, e 
agglutinami iste é, linguas cuja morphologia està no periodo 
denominado de aggIomera9ào ou aggiutina92Lo. 

Ab linguas agglutinativas; porém, quer no seu estado mais 
rudimentar ou mais proximo das linguas isolantes, quer jà no 
seu grau mais adeantado ou mais yizinho das flexivas, abran- 
gem imia grande àrea e sSo falladas por povos que habitam 
OS mais yariados climas, de um e outro hemispherio. 

Mostrap os factos observados que estas linguas, no actual 
momento, sHo tambem as que teem mais vasta extensSo, maior 
dominio e mais largo desenvolvimento. 

N^o teem em geral estes povos africanos, monumentos, e mui- 
tos d'elles nSo conhecem moeda ; nSo teem lingua com escri- 
pta propriamente sua, e assim se levantam as mais fortes dif- 
ficuldades para se reunir um bom material linguistico que 
proporcione os mais indispensaveis elementos fixos de compa- 
TB,gìio dos principaes grupos d'essas linguas agglutinativas. 

Conhecia eu, de ha muito tempo, a escassez do material para 
tal estudo, e resolvéra aproveitar, corno jà disse noutra parte, 
a occasiào que pela primeira vez se me offerecia, de estudar 
os dialectos das tribus com que me ia encontrando, subordi- 
nando as minhas investigaQSes a um methodo sempre experi- 
mental e contraprovado, quando possivel nas differentes po- 
voa5(5es em que mais me demorava. 

Preoccupa va-me sobretudo a verdadeira interpretajSo que 
devia dar aos vocabulos que ia registando, pois so assim, 
a meu ver, poderia encontrar o valor rigoroso de cada termo. 
Refere-se oste meu estudo a nove das tribus que encontrei 
durante a minha commissao no interior de Africa, e que ha- 
bitam na vastissima regiSo que se estende desde o IV de lat. 
sul do Equador para o norte até ao 5^, e da costa Occidental 
até ao 24® de long, a leste de Greenwich. 

Este trabalho, a que procurei dar todo o desenvolvimento 
nas minhas publicaQÒes : Vocabulakio de Diai.ectos Afri- 
canos, e Methodo Pratico para fallar a Lingua da 
LuNDA, so por si corrobora, o que, com muita proficiencia 




118 SXPEDlfjXo FORTUODEZA AO HUATIAmvua 

disse meu amigo Luciano Cordelro, secretano da nossa So- 
ciedade de Geographia de Lisboa, em 1878, quando lembrava 
ao Governo a creajio de um curso colonial em qiie se ensì- 
□asBem as Hnguas auBtro-afrìcanas. 

• Urna familia de linguas provenlentcs de urna mesma lin- 
gua, fonte perdida ou modiiìcada, parece ter por dominio loda 
a Africa centrai, à. cscep^SiO dos terrìtorios em qiie se fallam 
08 dialectos dos hottentotes e boximitnee, ameagados de total 
mina, ou as linguas europea». Esse dominio estende-sc ainda 
ao norte do Equador ; no occidente até ao goìpho de Guiné, ao 
éste até cerca do 2" de ktttude, ao centro até & regiSo do 
Luta-Nzigue. 

As relagSes entre algumas daa linguaa d'essa familia, col- 
locadas a consideraveis distanciaB geographit-as, foram jA eatre- 
vista pelos nossos antigos misBionarlus ; os trabnlhos de Bleek, 
liaha, Fred. Mìiller, demonstraramna completamente o deter- 
minaram a exienB^o da familia. Acha-se aqui, iim raesmo typo 
fundamental de grammatica, um mesmo fundo de raizes, di- 
verstficado no tempo e no espajo segando as leis quo regulam 
a evolu^ilo das linguas*. 

Mas para o caso de que ora Irato, nSo é o bastante ; procu- 
re! por isso comparar o meu trabalho cora os voeabularios de 
outros viajantcs, exploradores, missionarioB e negociantes, e 
determinar por este melo as relafiles daa tribus que ficam mais 
proximas ao norte, ao sul e a leste da regiìto que percorri. 

Ainda hoje, nSo ó facii eatc traballio de comparatilo, nilo so 
por falla da precisa homogeneidade em todas as investigagSes 
linguisticaa, mas tambem pela variedade na representa^So gra- 
phica dos sons. 

O que, porém, parece jà averiguado pelos ethnologoa e pbi- 
lologos mais competentea, é que, dentro do proprio continente 
africano, nos territorios em que demorara oa povos de cSr mais 
carregada, se apreeentam muitos dialectos indepcndentes, fal- 
lados por algumas tribus importaates e que pelaa suas condi- 
(Ses nomadas occupam hoje localìdades muito diversas das 
que primeiramente habitaram. 



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Foi rejcibida tambcm a denomJnafSo de Hnguaa ou diale- 
ct03 (lo sul de Africa, porque mais a sul d'esse grupo a geo- 
grapliia nod apuntava os Hottentotes e os Boximanea. 



120 EXP£DI920 PORTUGUEZA AO HUATIAkVUA 

Urna denomina9&o linguistica quo nSo estivesse em deshar- 
moma com a geographia, foi o que sempre se teve em vista ; 
porém até hoje, pode dizer-se; nfto se encontrou um nome que 
precisasse, definisse bem, a àrea geographica em que vivem 
OS povos que se classificam por aquelle grupo de dialectos; e 
que se distinguem ao norte, com o qual limitam, dos classifi- 
cados verdadeiros negros de Africa^ e ao sul pelos que fallam 
as linguas sul-africanas. 

E indispensavel para um estudo substancioso, em que se 
aproveitem os elementos existentes em teda a Africa, decretar^ 
para assim dizer, In8truc93es methodicas e homo- 
geneas, em que se co^signem com o sufficiente rigor os 
caracteres e signaes que hSo de servir para a representa93o 
dos sons e o modo de os ligar em vocabulos; e estes em com- 
postosi tendo a seu lado o significado com as necessarias expli- 
ca93eS; para a sua interpretajSlO; segundo as circumstancias. 

Ainda nSo ha multo, Abel Hovelacque, na sua Linguistica, 
nos mostrou comò se encontra està questlU) scientifica, no se- 
guinte periodo : 

cLe nombre des idiomes parlés par les Nègres d'Afrique 
est assez important. Quelques-uns de ces idiomes se rattachent 
d'assez près les uns aux autres et forment ensemble des grou- 
pes bien marqués ; mais on ne peut assurer, avec preuves scien- 
tifiques en main, que ces différents groupes soient tous issus 
d'une seule e méme souche ; ces différentes langues, sans doute, 
appartiennent les unes et les autres à la classe des langues 
agglutinantes; mais ceci ne préjuge en rien une communauté 
d'origine. Malgré bien des emprunts, le lexique de ces diffé- 
rents groupes d'idiomes est fort varie, et, par-dessus tout, leur 
grammaire est très diverse. Dans l'état actuel de nos connais- 
sances, nous pouvons dire que Ton rencontre chez des Nègres 
d'Afrique im certain nombre de langues ou de groupes de lan- 
gues tout-à-fait distincts les uns des autres, tout-à-fait indé- 
pendants.» 

Hovelacque, rejeitando a denominafSo de Cafre para o grupo 
de linguas de que estou tratando, diz mais : 



ETHNOQRAPHIA E HI8T0BU 121 

■Le mot de bantou est préférable. C'eBt le plurìel da mot 
qne eignifie hotnmt; il a le eens d'hommei, Ae population, de 
peitpU et peut facilement s'appliquer par extensioQ à la langae 
elle mSine.i 

Pelo que reepeita 6^ lingasB que se deBominam cafriaes ou 
bftntaa apresenta Hovelacque a claBBÌfica9ÌLo de Fred. MUller 
e em aeguida a de W. Bleek, qae é um pouco differente, mas 
tambem em tres ramoa. Ka primeira 
eatSo comprebendidas as linguas de 
Zanzibar, regiZo do Zambeze, Cafraria 
e Zulnlandia ao oriente, de Sechuana e 
Teqaei» ao centro, e as do Congo e He- 
rerd ao occidente. 

Estes tres ramoa bXo aubdivididos 
em dialectoB, mas toraa-se notavet que 
urna grande parte das trìbns que coo- 
stìtuem oa grande» e afamados Eatadoa 
da regifto centrai n3o estSo ncllea com- 
prebendidos, nem mesmo nas auas sub- 
di vieSes. 

A classtficasSo de Bleek é logo aub- 
dividida, e corno aquella nào satisfaz às 
czigenciaB da sciencia, porque muitoa 
povos ficam por mencionar. Comtudo 
noma e neutra se faz comprebender a 
lingua do Congo e o ambundo até ttto mnao 

Orambo. 

Hovelacque, que apreeenta eataa cUssìficasSea, é o prìmeìro 
a reconbecer a necessidade de novas deacobertas e dovob cb- 
tudoa para ae classificarem de modo mais exacto aa linguas j& 
conhecìdas. 

É agora occasiSo de prestarmoa a derida bomenagem a dois 
nossos compatriotae, que modernamente deram publicidade aoB 
aeuB trabalhoB de linguistica africana de subido mento para a 
Bciencis, e tanto mala quanto eaaes trabalboa s3o puramente 
de dedicasse pelo engrandecimento do paiz, e que nellea oc- 




122 EXPEDI^ZO PORTDGUBZA iO HDÀTII.MVUA 

caparam tempo que Ihes restava para deBcango de suaa fa- 
digoB diarias. 

Reiiro-me ao sr. A. F. Nogueìra, auctor jà conhecido pelo 
exceliente livro de vulgartsa^ao A Eaqa Negra, e que DO 
Boletini da Sociedade de Geograpliia de Lisbua, n." 4 da 5.' 
serie (1885), publica os seus estudos Eobre dialectos do inte- 
rior de MoBsamedes; e ao meu amigo o sr. Jonqiiim de Al- 
meida da Cunha, Secretano geral da proTÌocìa de Angola, 
que em 1886 prìocipiou a dar publicidade aos seus tApon- 
tamentog para estudo das Unguas falìadas pelos indìgena» 
da provincia portugueza de Mo^ambique na eosta wierdal de 
Africa*, traballio este feito durante o tempo que Berviu corno 
Secretarlo geral d'aquella provincia. N3o se devem tSo pouco 
eaquecer os trabalhoa do africanista siiisso, sr. Héli Chate- 
lain, com justÌ9a muito apreciados, e principalmente a sua 
grammatica do quimbundo ou lingua de Angola. 

N3o se conformam os nossos doÌs talentosos compatriotas 
com a denominatilo de bantu do dr. Bletk, e o primeiro faz 
mais, protesta contra tal denominatilo, ao que me associo de 
bom grado, accettando conscientemente todas as suaa judicio- 
sas considcra^Ses sobre a verdadeira interprcta^So da palavra 
h&ntu, pois assim a comprehcndi em toda a regiSo oode me 
internei e onde ella se encoutra cora a differenya de prefixo. 

Antes de entrar na classifica^jlo dos grupos de dialectos que 
constituem urna lingua, o mais acertado seria dar-lhc urna 
denominatilo que abraugesse toflos os poTos quo a laltam, e 
para isso, devem contribuir todos os dados que pelos diversoa 
ramos da scicncia 03 approximam. 

A Francisco Maria de Cannecattìm na sua CoUec^o de ob- 
servagve» grammaticaes sobre os dialectos de Angola, por imias 
deducfSes do verbo ctiòitnda ou cubundo, pareceu acceitavel 
a denominatilo de bimdo ou bimda para a lingua que compre- 
bende aquellea dialectos, 

A tal respeito as minhas apprehensSes r&o mais loage e pa- 
rece-me que Cannecattìm nSo obteve verdadeiro significado 
d' aquelle vocabulo. 




ETHNOGRAPHIA E HIgTOBIA 123 

Sem nos importar agora a origem dos povos da regiSo cen- 
trai do continente africano, o qae me parece nSo offerecer jà 
duvida alguma é que d'ahi vieram os povos por differentes mi- 
gra9Se8 para a costa occidentale e là encontràmos o vocabulo 
cabunda^f mas com um significado que nSo é bem o cbater» 
de Cannecattimi que me parece melhor tornar conhecido tal 
corno me foi explicado. 

Supponha-se um grupo de homens armadoSi que veem de 
longe sem ser esperados a uma terra estranha; os povos d'està, 
atemorisados por gente que Ihes é inteiramente desconhecida, 
fogem-lhe, ou humilhados e surprehendidos sujeitam-se às suas 
imposÌ98es. Aqueiles, esfomeados, a primeira cousa de que tra- 
tam, é de correr immediatamente às lavras e devastar tudo 
para comerem, e em seguida vSo-se apossando do que encon- 
tram, incluindo mulheres e crean9as. Se Ihès convem a terra, 
estabelecem nella a sua residencia permanente; se nSo, seguem 
seu caminho. 

A acfSo que esse grupo praticou chamam cumbundo, e a 
cada individuo que faz parte do grupo quimbundo, o que eu 
creio ter interpretado bem por «invadir, invasor». 

E para notar que antes de Malanje ser occupado pela au- 
ctoridade portugueza, ha pouco mais de vinte annos, d'além 
Cuango pelo sul de Tala Mugongo, vinham povos fazer cor- 
rerias comò a exemplificada, aos povos bondeiros e bambeiros 
e tambem aos do Songo, e estes chamavam aquelles imbundo, 
(plural de quimòundó); o que faria suppor poderem esses po- 
vos ser da regiSo da Limda, a que um potentado deu o seu 
nome ou titulo de Quimbundo. Mas ainda aqui as nossas inves- 
tiga98es nos esclarecem, porque o significado é ainda o mesmo. 

A auctoridade Quimbundo na Lunda é moderna; é do pri- 
meiro quartel do actual seculo. O Muatiànvua Noéji (que R. 
Oraja visitou), foi quem a nomeou para repellir os Quiocos, 



^ b pode ser ou nao nasalado, segundo as tribus, o que nSo importa 
para a questSo de que trato. 



124 ESl'EDIfXO POBTUGUEKA AO IIITATlAtIVUA 

subditos de Qiiissengue que vinham descendo pela margetn do 
Qm'eapa, roubando as povoa^fSes do dominio do Muatiànviia, 

Essa auctoridade em^ontrou jà Qitissengiie e os seiis estabe- 
lecidos, e oste & ÌEtiina9ào da ordem para retirar por ser 
tjuimhmido «invasor» responrleu-lho que Quimbimdo era elle, 
pois jà là o encontràra, e aquelle entSo levantou do sitio em 
que acatnpàra e foi atacd-lo na propria resìdencia, declarando- 
ihe que era Quimbiiudo mas do Muatiànvua, e conBeguiu matar 
esse Quissengue e desalojar os companlieiros d'elle'. 

O ar. Nogueira diz bem : que o bando è um idioma que deu 
origem aas differentes dialectos que se fallam na nossa provin- 
cia de Angola, com excep^ìto de alguoa, mas que se estende 
para fora d'esses limites, difundindo-se em urna zona que se 
mìo pode calcular em inenos de 2:000 legnas quadradas. 

Assim o creio, e as minbas con8Ìdera95e3 a tal respeito con- 
stituem o assumpto d'eate capitulo. 

Mas porque razào, estudados mais cu menos diversoa diale- 
ctos de uma lingua a que os nossos antepassados, os priraeiroe 
a quera se devem os conhecimentoa da linguistica africana, 
cbamaram lingua blinda, ac nào deviam reuair sob a 
inesma dcnomiua53o todos os outros dialectos que se fosaem 
eatiidando e com aquoìles tivesaem atìnidado de vocabulos e 
de principios grammaticaes e ainda outros la908 que pudeasem 
prender oa povos que os fallaiu? 

Era milito mais acertada a denomina^So das linguas dos 
invasores, que a moderna de pesaoas, quando outros 
inotivos nSo houveaae para a rejeitar. As invaaSes dcram-se 
para aa costaa Occidental e Orientai e com easas decerlo veiu 
a lingua originaria, que se fui modificando eom o tempo, 
nas loealidades onde se foi tixando e misturando com as dos 
povos distinctoa de norte e eul, que vieram ao aeu encontro. 



■ No capitulo Bobre a Hietoria de MuatìAnvua, se detienToIve a nar- 
ra;Ìlo que respeita da guerra» de QuiiuboDdo e Quisaengiie, devida a um 
Telho Quiòoo d'esac tempo. 




ETm^OORAPHIA E HISTOBIA 



125 



É em virtude d'esses ultimos que se sentem mais differen- 
9a8 nos dialectos das tribus que povoam a regiSo centrai na 
direcfSo da linlia N.-S. do que na do E.-O. 

Hovelacque^ querendo justiiicar a denomina9So de bantu, dada 
aos dialectos que constituem a familia de que se trata^ publica 
a seguinte tabella dos differentes dialectos que conhece com o 
vocabulo que elle erradamente, devido a mis informa93es in- 
terpretou por chomem» e k qual acrescento mais os dialectos 
que conhe90; mas para urna conclusao differente : 



Dialectos 

Quisuahili 

Quinica 

Quicamba 

Quissambala 

Quihiau 

Sena 

Macùa 

Cape 

Zulù 

Setelapi 

Sessuto 

Tequeza 

Herero 

Sindonga 

Nano 

Angola 

Congo 

Benga 

Duala 

IsBubon 



Singular 

tu 
mu-tu 
mu-au 
mu-tu 
mu-du 
mu-ito 
mu'ttu 

U'tU 

umU'tu 

mo-thu 

mO'tu 

omu-no 

omU'du 

u-tu 

omu-no 

omu-tu 

omu-lu 

mo-to 

mO'tu 

mo-tu 



Plani 

uHa-iu 
a-tu 
a-du 

uua-tu 
va-au 
va^ttu 
a-ttu 

aba-tu 

aba-ìu 
ba-ihu 
ba-tu 
va-no 

ova-du 
oa-iu 

oma-no 
oa-tu 
oa-tu 
ba-to 
ba-tu 
batu 



Desejàmos escrever os vocabulos d'està tabella segundo o 
systenia adoptado para o nesso Methodo pratico e Vocabu- 
LARios; nisso nSo deixdmos de encontrar embara90s e confes- 
samos que por vezes nos lembrou substituir a letra o por n, 



126 



EXPRDTQXO 1H)nTDCrnK2A AO XnATllNVUA 



attrìbnindo a indiffereìi^ do inveMagador a désharmonia quo 
se nota entre algons idiomas; porém òomo é possivel que o o 
nSo tenha o valor de u, conservimo-lo ; destac&mos, porém, 
as rfdzes dos prefixos. 

Dos noBsos mappas, extrahindo o inesmo vocabolo, temos a 
acrescentair a està tabèlla : 



DiideetM 


Biiigalar 


Curuba 


ma-iu 


Mataba 


mwiu 


Ltmda 


murlu 


Macossa 


ma-iu 


Urega 


mu-tu 


Maniema 


'mU'du 


Urùa 


murtu 


Canhiuca 


muJtu 


Uanda' 


mu-au 


Uganda 


mu'lu 


Unioro 


mu-iu 


Sucuma 


murliu 


Niamuézi 


mu-tu 


Ugogo 


mU'lu 


Ussagara 


mu-iu 


Maconde 


mu-tu 


MAvia 


mu-iu 


Bengala 


mu-tu 


Malanje 


mu-iu 


Mungo 


mu-iu 


Ijoanda 


mu-iu 


Congo (portuguez) 


mu-iu 


Niassa 


mu-iu 


Ujiji 


mu-iu 


Marungo e vizinhati9aB 


mu-iu 


Cazembe 


mu-iu 


Ubissa 


mu-iu 


Tete e Mar&via 


mu-io 



Fbir»! 

ba-iu 
a-iu 
a^u 
a-tu 

ha-du 

Oriu 

ha-iu 

ha-du 



ua-tu 
ua-iu 
ha-iu 
a-iu 
a-iu 
a-iu 
a-iu 



a-tu 



ua-tu 



ETHNOdBAPHIA E HISTORIA 127 

DUleotot Bilicar Plnral 

Minungo, Quidco, Xinje mu-ìu ahi 
Uiànzi murtu — 
Bacongo e Congo (S. Sal- 
vador) mu'iu a-lu 
Babuende mu-lu — 
Lurieùmbi e Lulihaneca mu-tu balu 
Limano murnu — 

Se attentarmos nos prefixos do plural, vemos quo varìam se- 
gando 08 dialectos : ha, nos limites a norte e sul ; tia no oriente 
e jà proximo da costa ; e a em toda a regiSo dentro d'estes 
limites. Parece, pois, que havia mais razSes para denominar-se 
a lingua" d'està familia, de dntu do que de bdntu, nSo me con- 
formando nem com uma nem com outra por causa do seu si- 
gnificado. 

De factO; a raiz tu ou ìu, é muito usuai entro estes povos 
para os vocabulos «animai, carne, corpo», etc, e juntando-lhe 
OS sons §, i, obteem novas raizes, dos vocabulos ccabe9a, ore- 
Iha»; e antepondo a uns e outros novos sons vocalicos, corno 
a, e, ti, ainda formam raizes de outros vocabulos qne se refe- 
rem a pessoas e cousas: cnós, companheiro, senhora, dominio, 
estado, canòa», etc. ; por transposÌ93es, juxtapo8Ì98es, con- 
trac95es de sons se obteem ainda muitos outros em que predo- 
mina sempre a raiz primitiva tu ou tu. 

E de crer, sem duvida, que os primeiros povos tivessem 
adoptado um vocabulo que os distinguisse dos animaes,'de quem 
tomavam os nomes, por qualquer analogia, para baptismo da 
sua prole, baptismo que elles classificam pelas suas entradas 
na tribù, e depois no Estado, ou comò ca9adores e tambem 
corno guerreiros. Se sào successores dos chefes ou potentados 
ainda teem um quai*to baptismo, que é entro nós o cognome por 
que se fazem respeitar quando de posse do mando. 

Na cdrte do Muatiànvua tive occasiSLo de ver que o nome 
de um animai dado a homem n3o é imposto ao acaso, e repre- 
senta no Estado uma categorìa. O chibungo «lobo», por exem- 



128 



EXPEDigXo POHTCGUEZA AO MUATUNVUA 



I 



pio, considerando-se comò tal, tornou-ae o protector dos aeua 
semeibnntes, affaata-os dos la^oa ou armadilhaa e qiialquer ca- 
gador a seu lado nem se atreve a apontar a arma para elles. 

Perante individuos de maior categoria o Chibungo nSo falla, 
imita o ADimal no seu oUiar deecontìado, nos movimentoB, gri- 
toa, modo de acommetter. 

A sua sauda^.So, ao entrar no circulo de circutuBianteB, an- 
nunciada corno a de todos pelas trea palmadas sacratnentaes, 
reduz-se a iim olhar Laixo para todos os lados e a una bodb 
gutturaea t 




que potentado olhe para 
elle e levante o brago direito 
em signal de que agradece 
cHiuprimento. 

Um som rapido, abaixando 
a cabota, v. unia afiìrmativa; 
prolongando o som e movi- 
meuto de cabega para a di- 
rcita corno enfaatiado é urna 
negativa. 

So falla quando n poten- 
tado o interroga, procurando 
aempre acompanhar-ae dos 
gestoB e dar ao rosto a ex- 
iiro i.iBiM presaiìo do animai que re- 

preaenta. 
Como o lobo, assim o leSo, o cavallo marinilo, o porco, o 
cSo, gato, o veado, a cor^a, etc, teem ob seiis representan- 
tes, e imitaj^ea. 

Animaes e mnsicos mdeiam o MuatiElnTua em marcha, e s& 
depoia d'eates é que seguem as outras entidadee. 

Ha oecasiSes, sobretudo de noite, noa acampamentos era que 
todos OS simuladoB animnea d2o accordo de bì para atfastar ob 
inimigoa do potentado. E é curioso porque algumas imitajBea 
aSo na verdade excellentes, Entre estea povoa, tem certa signi- 
Bca^So e silo muito apreciadoa os bona imitadores. 



ETHNOGRAPHIA K H18TORU 



129 



Tomava-se, pois, necessario um vocabulo, para distinguir o 
homcm, que tem o seu vocabulo especial, do nome do animai, 
e muta nSo si^ifica <)ianiein> e sim «pessoai). Pelo menos em 
todos OS dialcctos que conhego, existem os vocabiilos thmaem» 
e «mulher», e estou coiivencido quo so a tal respeito os inves- 
tigadorea estraogeiros enconlrarara diividae, foi tainbem da ma 
interpreta53o d'eases vocabulos por «macho» e «femeao. 

E naturai, porém, qua da distinejilo de «horaem» e «mulher» 



vocabulos para a diatincjSo 



viesBe depois a applicarne d' 
dofl sexos nos que eram coiii- 
muns a ambos cumo^filho, 
irmSo, primo, etc, e d'ahi 
para os animaes, para que 
elles aio teem, corno nós de- 
BÌgna9So, para a femea, por 
ex.: vacca, cadella, etc, 
que dizem: boi-muiher, cilo- 
mulher. 

Note-se ainda, que mufu. 
mìitu é pessoa do seu povo, 
por que depoìs que conhe- 
ceram o mulato e o branco 
ji a estes deram uma denomi- 
na^ especial. E que aquelle 
vocabulo, é o mesmo para 
toda està familìa, ealvo a va- 

ria§5o das articTUa93eB e das nasala^Ses, mais ou menoa pro- 
nunciadas segundo as tribus, nio resta duvida alguma. 

Na parte phonologica do Methoijo para fallar a Lisgl'a 
DA LuNDA, procurei provar que estes povos permutam as ar- 
ticula^Ses: d, r e l; rf e (,■ z, j e x; e ainda e e 3 antea de a; 
e d&-ae o mesmo com as tribus vizinlias até à costa occidental. 

Por outro lado, considerando que 6 de pouca ìmportancJa a 
naaala^o das conaoantes e que ba tribus que aspiram mais 
ou raenoB os sona vocalicos, e que ncnhuma d'ellaa emprcga a 
menor representagSo graphica para memoriar umaa outros, 




130 EXPEDl^AO POETUGUICZA AO MUATIÀNVDA 

se deprehendem logo as grandes diflicuidades e mesnin difEceia 
condi^Ses cm qiie se encontra o investigodor para cstabclecer 
regras, que possam aer ndoptadas sera reluctancia por aquelles 
que se dedicam ao estudo d'estas linguas. 

Postos eates principioa em evidcncia, vé-se pois, que tu, du, 
lu ou mesmo htu ou ^u quer aejam 011 d3o articulagSes naea- 
ladiifl, s3o a raìz do vocabulo que designa o indigena de toda a 
TaHtÌBaiiiia regiào que occupalo as tribus consideradas ; e il 
parte oa defeitos de aiidi^So do inveatigador ou aa pronuncias 
doB individuoa d'cssaa tribus, e considerando ainda que o ti 
por t BÓ apparece nos povos mais diatantea, pode acceitar-se, 
que todos esaes povos se denominam in ou («; e que corno os 
dialecloa que ellea fallam estSo subordinados a uns principioa 
grammaticaes que aaaentam aobre concnrdancia, altera^òee, 
omiasSea, e juxtapo3Ì5Òca de prefixoa, conatitueni elles a familiii 
de linguaa de pretìxoB que se pode denominar de linguai 
prefisativas ou de prefixoa, quando se nSo queirn 
admittir a de Hogua ambunda dos uoseos antigos, que 
devia ter a primazia. 

No intento de deatrinsar a rede formada pelos povos Tua 011 
Antiìs, procurei rounir em quadro, o maior numero de voca- 
buloB conbecidos nos aeua diversos dialectos, e com eates fazer 
um eatudo de compara5So com que obtive no campo daa mi- 
nbas inveatiga^fles ; e é este eatudo linguistico que vera corro- 
borar as tradì^Sea, sobre oa caminhoB seguidos pelas diversa» 
migra^Sea que vieram de N.-E. diatribuir-se por tribus em diffe- 
reutes pontoa da regiìio em que os encontrei. 

Ob trabalhoa do missionario inglez J. SchSn tendem a mos- 
trar que OS differentes dialectoa haiiasas, obedecem a uns prin- 
cipioa grammaticaes que tecra certa affinidade com os que sl- 
dSo entre oa diveraoB dialectoa da Luuda, nJìo so no que res- 
peita a sua phonologia comò é. morpbologia e syntaxe. Eatea 
dialectos, comò jà disse, conatituem a lingua que muito se ap- 
proxima da do Sudan. 

Por infelicidade todoa oa trabalboa linguisticos de Scbwein- 
furtb deaappareceram no pavoroao incendio que elle descrevè 



1 




ETHNQaHÀPHU E mSTORIÀ 131 

nas 8uas Viagens e descobertas na Africa centrai do norie, noa 
annos de 1868 a 1871 ; mas é certo qae nas infonna93es qM 
illustre explorador nos presta sobre os povos bongos^ con 
quem mais esteve em contacto, encontro muita semelhanga e 
mesmo analogia, pom rela93o a usos e costumes, artefactos e 
modo de viver, com os primitivos povos da Liunda, os Bungos 
e OS Luha^, uns e outros que a tradijSo, corno se viu no ca- 
pitalo anterior, nos dà por origìnarios do N.-E. do continente. • f ^ 

Nào obstante, pois, nos faltarem de Schweinfurth os dados lin- 
guisticos, e de Schon so conhecermos alguns principios geraes 
de grammatica da lingua haùssa, descobre-se um fio que nos 
conduz à rede em que nos fomos embrenhar na regiSh) centrai ; 
fio de que por emquanto se nao conhece de onde parte a ex- 
tremidade, mas que segundo o acreditado Schweinfurth se sup- 
p3e circumscrever os povos que rodeiam o lago Tchad. 

Se assim é, e sendo possivel a affinidade d'estes com os 
Haùssas, e sendo a lingua dos Haùssas a de Sudan, é de crer 
que esse fio partisse dos povos que limitaram pelo occidente 
Sahara. 

Certamente os primitivos povos, fugindo deante das invasSes, 
que depois se cruzaram em todo o Sudan, foram descahindo 
para S.-E. até ao norte da regimo dos grandes lagos, e é ahi 
entro o Alberto Nianza e o Victoria Nianza que encontro os 
povos Tus no Unioro e no Uganda. 

Comparando os vocabulos que me foi possivel grupar d'estes 
povos com 08 de dialectos de outros, disseminados na regiSo 
austrocentral, constitui o mappa geographico-linguistico dos 
povos Tus ou Antus, e por elle melhor se conhece o caminho 
que seguiram as differentes migra9Ses das tribus que hoje a 
povoam e em que se destaca, quasi ao centro, esse grande 
Estado, outr ora tSo fallado, do temide Muatiànvua. 

E pois da parte mais alta e mais affastada da vertente me- 
ridional do Mediterraneo, tSto celebrada nos tempos antigos e 
que jà teve muito mais largos limites, e onde encontro mais a 
norte os povos de que trato, que é a que se reportam as minhas 
considera98es sobre os seus dialectos. 



132 



EXPEDI920 POKTUQUEZA AO MCATIÌKVUA 



Deixando de parte afi consicIerajCes sobrc as terraa do con- 
tinente que primeiro ae exundaram e as suaa rela^SoB eom os 
oceanoa, lagos e rioe que aa cercavam ou regavam, bem corno 
outro facto de uSo menos ìmportancia, o da existcacìa de um 
mar interior, que podfria ter coberto toda a re^So do Sahara, 
e aa rela^.Ses que case mar devia entSo ter com o Mediterra- 
neo e Nilo por um lado e por outro com os lagoa planalticos, 
que tambem devcriam ser mais vastos; nSo poaao deixar de 
dizer que as migra^Ses doa povoa, que quasi sempre ae aubor- 
dinaram ao regimen das aguas, ae dcviam ressentir d'està ein- 
gular disposÌ9ào fiuvial, lacustre e talvez maritima. 

Em segTiìda àquelles povos, do lado meridional do lago 
Victoria, vivem os Suacumea, cujaa affinidades linguiaticas com 
OS poToa do norte aSo bem palpaveia. 

Pareee-me, poia, que nSo devem ser indifferentea eataa consi- 
derajSea quando se pretendam eatudar as migra^Scs de povos, 
noa aeus tra^oa maia geraes, j& em rela^ilo aos rios da vertente 
orientai para o Mar das Indìas, jà rodeando 03 lagoa Tanga- 
nlca e Niaasa, e descendo para o ani até onde ae Icvanta a 
divisoria fluvial dos rios Zambeze e Zaire ; jA deacabindo de- 
pois na regiào centrai maia baixa. cortada pelo grande numero 
de atHuentes do Zaire, e di s seminando -se pela costa Occiden- 
tal até oo Cuanza, acompanbando aioda o Cassai ató ds anas 
Dascentes, passando o Bié e espalhando-ee entre Cunene 
e a costa. 

E para acreditar que, povoadas por eatas migra^Ses aa mar- 
gens dos graadea lagos Victoria e Tanganica, outras novas 
migra^Sea d'alii vieram entSo pasaar o Lualaba, rio qiie atra- 
veasa aa celebrea montanhas do Lita ou Bua, grande paìz 
cujoa limitea com o do Muatianvua nSo estSo ainda claramente 
defìnidoa e onde ob Arabes teem encontrado bons mercados 
de eacravoB. 

SSo certamente eatoa montanhaa que correm a audoeste do 
Tanganica e parecem depois prolongar-ae para nordeste até ao 
Victoria, quaal na meama linba, que deu motivo a que se Ihes 
chamasse aa montanhaB da Lua. 








J 



ETHKOQBAPHIA E HI8T0BU 133 

O conjanto de todas estas montanhas prolongando-se para 
S.-W. quasi até à costa marìtima, separam na regiSo tropical 
as terras em que existem os grandes lagos, das terras baixas 
em que corre esse grande numero de rios e seus affluentes^ 
cujas aguas vSo com os d'aquelles, augmentar as do magestoso 
Zaire. 

Na sua parte mais elevada e quasi no Equador, o grande 
Victoria, que com os seus vizinhos alimenta o venerando Nilo, 
por muito tempo se acreditou ser o marco divisorio do con- 
tinente em norte e sul; quando a divismo mais acceitavel é a 
que nos dSo as montanhas que cortam as terras do Lua, divi- 
dindo o centro do continente em duas regi3es, — a elevada ou 
dos lagos, e a baixa ou dos rios. 

Querendo fixar os limites à regimo em que vivem os Tus, 
eu diria que sSo : ao oriente, os grandes lagos, destacando-se 
do Victoria a linha que une as regiSes occupadas pelas tribus 
que desceram para sueste até à embocadura do Rovuma, Su- 
cumas, Niamuézis, lànsis, Qogos, Cagaras, Macòndis e Màvias; 
ao sul rio Zambeze, o seu affluente Liba (Livingstone) e as 
grandes serras dos Bàris, Barozes e Ambuelas ; ao occidente a 
costa desde o Cunene até ao Zaire ; e ao norte, cortando este 
rio, 2.** ao sul do Equador, e além d'elle, para o oriente por 
emquanto o 2.^ ao norte d'essa linha. 

Tomando o dialecto da Lunda (Muatiànvua) por termo de 
comparagSo, portante o que no mappa està limitado pela c6r 
mais intensa, os limites dos dialectos dos outros povos apre- 
sentam-se com tons diversos, conforme differem menos ou mais, 
pelos vocabulos que grupàmos. 

E certo que a maior parte dos vocabularios que obtive, além 
dos da regiSo que estudei, sSo devidos aos exploradores que 
se assignalaram por importantes servigos, mas cujos fins eram 
muito differentes do estudo das linguas dos povos por onde 
transitaram. Tomaram elles nota dos vocabulos que mais os 
impressionaram, mas sem a idea de que pudessem ser invo- 
cados para o estudo comparado dos povos, e isso temos de ter 
em vista em trabalhos de compara9So. 



134 



EXPEDI^XO PORTDGCEZA AO HDATlllTYUA 



Ultimamente jà aa regiflos costeiraa e aquellas ató onde o 
commercio europei! tcm oa seus agentes v2o chiimaodo a at- 
ten^lto para o estudo das linguas, e alguns trabnllios vto ap- 
parecendo a publico, mas infelizmeDte, sera a UDÌfurmi(Ìude que 
seria para deaejar, e o que mais grave ae torca aimla, tom a 
inh'oducgSo de vocabulna novos o de outros qiie sào estraulios 
li lingim fuadamental. Nota-se meemo em alguns trabalhos a 
tendcncia para tratar estas linguas corno aa de floxSo. 

Essa trans fo mi ajJlo, ha do aer feita pclos nattirae» mosmo 
quando augmentarem as suaa noceasidades e as circuuietancias 
08 obriguem a procurar satisfuzè-las. Succedere corno no lit- 
toral da noesa provincia do Angnla, em que o dinloeto vaa 
diferindo muito do que foi eetudado pcloa nosaoa antigoa mia- 
gionarios e outrua prestantes cidadSos, aiada nos meados d'este 
seculo. 

Entra os doza carregadores contratados em Loanda para o 
servÌ9o da ExpediySo, era um apenas d'està cidade, e outros 
■ que para M foram em creanjac, eram das aeguintes terras : uin 
de Malanje, um de Cassanje, um do Libolo, um da Jiuga, um 
da Quisaama, um de Benguela, um do alto Congo, uin do Gki- 
lungo, um do Quibundo, um do Congo littural e um da Lunda. 
Pois todos fallavam melbor ou peor o dialecto uaado em Loaada, 
e davam-se casoa cutìobob entre elles. 

Naa Buas converaas, as Iiga95es, muitas interjeigòes ou me- 
thor as partes variaveta da oragìto eram sempre fcitas em por- 
tuguez, e algumas nem se podìa dìzer que fossem das maia 
frequentes, e é eatranho meamo que gente tSo bojal aa possa 
comprehender e bem empregar, por esemplo: — ora agora, pois 
enlàOf por consequencia, oh homem! por isso, mas entào; etc. 
E que ainda mais me impressionou, é o caso geral que ae 
dà ató com os de Malanje. Levanta-se urna que^tSo entre elles 
fiuetentuda na sua linguaj pois os vituperios, os insultoa, as 
palavras emfira que querera dirigir comò mais offonsivas ao 
seu contender, tudo é dito em portuguez intelligivel, e segue 
a conversa na lingua d'elles. E asstm successivamente estilo 
horas, sem se atrapalharem na ligagìlo das duas linguas, no- 




' ETHNOGRAPHIA E HI8T0RTA 135 

tando-se que alguns, poucas mais palavras conhecem em por- 
tuguez *. 

Assim, quem se dedica ao estudo da lingua de certos povos, 
nFlo pode deixar de mencionar factos d'està ordem e fazer 
sentir quando elles se empregam ; e a grammatica, vocabula- 
rio ou guia, sendo uteis para o conhecimento d'esse dialecto 
ou dialectos, longe de representarem sempre os vocabulos da 
massa dos habitantes, sSo comtudo um repositorio onde ficam 
bases para investiga93es. 

Mas a regiSo Occidental do centro do continente ao sul do 
Equador, digamos, a regine fluvio-lacustre, tem side esque- 
cida de todo, e a do norte até à altura do 5^ de lat. està ainda 
por conhecer. Como pois se tem querido marcar a àrea geo- 
graphica de urna lingua, apenas pelos dialectos que se conhe- 
cem em torno de urna vastissima regiSo, e que, se existem al- 
guns elementos, apenas se encontram nos archivos portuguezes 
que se n2lo procuram para consultar? 

Pela minha parte, se nao posso ir além dos limites que fica- 
ram marcados no meu mappa geographico-linguistico, é certo 
que a dÌ3po8Ì9«ao do limite norte, ao oriente, indica ser por ahi 
a entrada das immigra53es dos povos Tiis na regiào central- 
equatorial, e»é possivel mais tarde por ahi fazer a juncffìo com 
as terras d'onde elles sào originarios. 

Aqui duas questSes importantes se podem estabelecer. Ou 
03 grandes lagos jà constituiram um so na regiSo mais eleva- 
da, e das suas margens vieram esses povos descaindo para o 
occidente pelo sul do Equador, e d'ahi as differenjas com os 
povos que marginam o Zaire na sua grande curva para o norte; 
ou entfto, comò jà dissemos, marginavam o grande Sahara pelo 
occidente e jà vieram encontrar os lagos subdivididos, e se- 
guiram as correntes que indicàmos. 



^ Iato prova ainda, que entre os povos a&icanos, nSo se encontram 
vocabulos que tenham a expressSo vehemente de offensa corno acon- 
tace entre nós. 



13G 



EXPEDI^AO PORTITGUEZA AO MllATUNVDA 



A parte a anthropophagia, que Schweinfurtli encon- 
troii nos Mùmì/utos e sena vizìnhos no Oriente os Niavi-niams 
entre 4° e 5° ao nortc do Eqimdor, eu encontro priaci pai mente 
noB Bongos, corno jd disse, grandea seraclhan^aa, mcBiiio ana- 
logia, com OS povoB que visitei na Lunds, salvo difi'excnvas ao 
eeu estado de adeanta- 
mento, devidas à epocha 
e contacto com povos 
civ'tiissdos. E ainda com 
respeito & anthropoplia- 
gia devo dizer, que ha 
um povo encravado no 
Estado de Muatiunvua, 
nas margens do Lulùa 
ao norte e que o separa 
dos Cliilangues do paiz 
do Lubuco (Luba?), oa 
Acauandas, ero que ella 
taiiibem se pratica. 

E este uni povo que 
oft'erece interesse para 
a sciencia e de que me 
liei de occupar em logar 
opportuno no capi tu lo 
aeguinte. Divide-ae em 
dnas grandea familiae, 
a do norte e a do sul, 
sujeita ao Muatiilnvua, 
aendo oa primcii-os con- 
aideradoa os mais sel- 
vagens, e apresentando 
caracteres que muito oa approximam dos Acas de que falla o 
explorador Schweinfurtli; siio elles os que praticam a anthro- 
pophagia. 

E este uso é tJìo repugnante entre os povos vìzinhos da 
Lunda, que o malvado Muatiunvua Àmbumba (vulgo Xanama) 




UFO 41110C0 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 



137 



querendo introduzi-lo no seu Estado comò pena superior il de 
morte, para os quo julgava aeus iaimigoB, depois de abando- 
nado pela córte, foi peràeguido a tiro e a flecha, morto e es- 
quartejado, so porqur? urna vez ordendra aqtielle castigo o man- 
ddra matar os quo Ihe nìlo obedeceram comendo a carne do 
Buppitciado 

Mas se OS Acauandas, nette habito repugcante bSo ob que se 
exceptuam entre as numerosas tribuB doa povos que denomi- 
namos Tiis, jà nilo succede o mesmo com a servidilo, queé 
geral, mio com os liorrores 
corno nós a coraprehen- 
demos, nem tilo beoigna 
corno no sul a descreve 
esclarecido escriptor A. 

F. Nogueira na sua inte- ^^^k::-i^^^^B •n' , ^ 

ressaate obra A raca ne- ■.^^B^S^^^K^L fg, 1^ 

gra, constituindo actual- ^^^^^^^^B '*' ** 

mente um dos prìncipaes 
faracteristicos do seu vi- 

Era de prcver o que a 
este respeito estd succe- 
dendo na regÌ3o centrai, e 
se continuarmos a subor- 
dinar plano de ataque 
ao trafìco da escravatura, 
bloqueaudo apcnas aa cos- 

tas do continente, commettemos um erro à face da sciencia e 
de lesa bumanidade, depois de termos expoliado aqnelles po- 
vos do melhor dos aeus haverea e recursoa, com o commercio 
do marfìm e da borracba, 

O que boje repugna entre elles, — a anthropopbagia — , é 
o recurso de que bSo de lan^ar mSo os mais fortes até serem 
exterrainados. 

E preciso conbecer as actuaea condÌ^:3e3 de vida d'aqnellea 
povos, dos fracoa recursos com que elìes contam, do abandono 




Tiro PllXOB 




138 



expedi^ao portugchza ao mdatianvca 



I 



a qua oa votimos depois das beni entendidas leis de repressilo 
do nefaudo tratico, (maB t'ora dus mercados iateriores de suae 
opcjrngScs em que elle coatìauou por fulla do que o substi- 
toiese) para betn se coinprehender que é hoje necessario salvar 
eatea povos da grande calamidade que os aniea^a. 

Devo meamo dizer que o slty-o na regimo centrai é a moeda 
usada aas permutagSes, e o (pie mais impressiona, ató nas com- 
praa de alimentos. Além do Luli'ia, principalmente na córte, vi 
opera^òes d'està ordem. Muatiùnvua interino mandava com- 
prar cabritos além do rio Cajidixi em troca de muleques! 

Unia occaaiilo, disse-me elle, mostrando-mo um cordeiro: 
^Para ter hoje este pedalo de carne para presenteàr ao meu 
amigo, mandei urna rapariga e ainda me exigiram urna ca- 
neca I — 

Agradeci a sua lenibranja, dizendo-llio que nSo podia 
acceitar. 

— Mas eu sei que o meu aniigo tem estado multo doente e 
precisa corner. 

— ^Contimiarei a corner ìnfiiude com tornate, mas esse ani- 
mai repiigna-nie, porqno representa para mim a vida ile imia 
pesaoa. 

— que quer? é a desgra9a a que chcgarara aa nossas 
terras! Jà nào teinos fazendaa, nom luiasangas, nem polvora, 
e o peor é que os negueiadores niio nos procuram porque atto 
temos que Ihes dar em troca! 

E este bomem dizta a verdade. 

Tive occasiio de ver mais que iato:^ — um liomem vender-se 
a ai mesmo ! Kìo tinha que corner nem d'onde o Laver, FoÌ 
quebr.ir urna panella a um Quióco, tornou-se aeu escravo, e 
logo em seguida foÌ vendido por este a nm Cangombe de urna 
comitiva do commercio do sul, que chogàra a Luembe onde 
_cu estftva, e so dirigia para o Lubuco. 

No Luambata, jogava um gnipo do Lundaa, Um que perdia, 
continuou jogando sob palavra, e nào tendo com que pagar 
entregou-ae corno cscravo nté que se resgataase com caba^as 
de malufo, que cIU' Indos o.h di;is in culhendo. As eaba(,'n? 




^m- 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 139 

eram reputadas em um certo valor, estava quasi saldada a sua 
conta passados tres mezes, quando os Quiòcos o levaram, fa- 
zendo parte de urna gaziva que haviam feito numa povoagFiio, 
proxima ao logar onde elle ia buscar o seu malufo. 

Como 08 Bongos de Schweinfurth, dizem os da Lunda: — 
Para que cultivaremos as terras se àmanha veem os invasores 
(aqui OS Quiocos) e tudo nos roubam? Sujeitemo-nos a corner 
que a terra tem. 

A subsistireni portante as condÌ9oes em que se encontra està 
regiao, pode fazer-se cessar o tratìco da escravatura? 

De duas urna, ou as immigra9oes fogem às gazivas e certa- 
mente^ para os liraites das nossas provincias ao occidente e 
oriente do continente ou entlìo os povos mais fortes irilo exter- 
minando OS mais fracos, mas pelo que é peor e mais repu- 
gnante, parasaciarem a fome. 

E prova este facto importante da servidSLo, que é geral en- 
tro OS povos Tus, que as correntes das suas migra9oes seguiam 
o caminho de que as suas linguas dSo noticia; e corno nao 
tenham podido achar saida pelo littoral onde domina a nossa 
auctoridade, ahi param passando ao estado de livres, confun- 
dindo-se assira com os que jà encontram nesso estado ; e os 
que conseguera sair, retrocedera, pelo nordeste, caminho das 
primitivas emigra^oes, fugindo aos povos invasores, para a 
regiao lacustre onde se espalham. 

É notavel, que nos povos que marginam o Zaire, os que 
vivem além do 3'' ao S. do Equador, jà apresentam uma gran- 
de difFereuga nos vocabulos, e isto conhece-se lego, nas tabellas 
que forraulei, attentando na nuraerag^o; e essas differengas 
comcgam no oriente, nos Uregas e no occidente nos lanzis. 
D'este lado os Bcicongo e os Babuende teem muitos vocabulos 
(le S. Salvador do Congo, frequentes nas margens do Cuango, 
no Muene Puto Cassongo era teda a vasta regiao dos Tus ; e 
do outro lado, o mesrao acontece entre os de varios pontos 
([ue marginam o Lualaba em teda aquella regilio. Porém ao 
centro, comegara a difl'erir os vocabulos dos Bacubas, tornan- 
do-se sensivcl a differen9a nos dos Batiias e d'ahi para o norte. 



140 



EXPEUlgXo POBTUGUEZi AO MDATIÀNVIA 



Parece, pois, que easea povOB, a melo do curao do Zaire na 
sua regiSo miiis equatorial, sSo completamente dìSereotes dos 
Tus, e demats notu-se que sSo esse» hoje ob que alimentam 
OS mercadoB de eBcravoB, que ob ArabeB procuram. 

Se ae ImguaB, o que se ve pela comparajSo dos vocabuJoB que 
consegui grupar, ae oa caracterea phyaionomicoa de que me vou 
occupar e depoia oa usob e custumes, corno veremoB, confir- 
mam as tradÌ9Se8 liistoricas que nos dào o CaBsongo, Canhiuca, 
Mùo e Ilunda (pae do primciro Muatianvua), corno irmSoa 
deBcendentea de um poti-ctado, vindoa da regiSo doa lagos a 
nordeatc; e ae mais tarde é do Eatado de Muatianvua que se 
deBtacam diversas tribuB a formar a Lunda, indo mais para o 
oriente o Muata Cazembe que se fixou junto ao Iago Moero ; 
nSo bKo menos dignoa de citar-ae certos facies que abonam eata 
confirma^So, corno por exemplo a planta^So da mandìoca, que 
parece nós abi levàmos do Brazil e se espalhou em toda a re- 
giSo doB Tua, pois là a encontrou o explorador Scbweinfurth 
noB Bongos, povo que elle diz tender a desappareeer; e outros 
corno 03 trabalboa em ferro, e os objei^tos do adomo pessoal 
e diversos artcfactos, assumpto de que irato mais adeante, nSo 
esquecondo aiuda a pratica «la circumciaSo, de que tambem bei 
de fallar ao referir ob usoa e costumea d'eatea povos. 

A extensflo e forma da rede que conatituiram as tribus que 
vivem na regÌ5o fluvio-lapuatre, fica bem definida pela linguis- 
tica, e nSo resta duvlda alguma que vicram de fora dos iimitea 
em que aa circumscrcvi, opinilo contraria & de Scbweinfurth, 
que Buppoz havcr ura grande Eatado ao centro e a sul do 
Zaire, d'onde provinham alguns doa povos que visitou, 

O que auccede boje, com oa Turcos e Nubios, que pelas Buas 
invaaÒea se fazem temer dos povos que encontram no seu ca- 
minbo, é indiclo de que os embatea e repulsSes aucceaaivas de 
povos lanjaram os mais fracoa, numa idade remota, de en- 
contro aOB obstaculos naturaea que nSo poderam ultrapassar. 

O tom da c6r da pelle que se podia considerar carncteristico 
de um povo, eutre aa tribus d'està regiSo, faz differengaa in- 
sensiveis, e nSo é peculiar de urna tribù. Se ha alguma diSe- 




♦ ■.« 



■??, 



ETHNOORÀPHIÀ E HISTORIA 141 

ren9a a notar^ é comparando-o com as dos povos do littoral, 
de urna e outra costa; que se apresentam com um tom de pelle 
mais escuro. 

E é tambem notavel a facilidade com que estes povos se 
ySo melhor comprehendendo uns aos outros, à propor9ao que 
se caminha do littoral das duas costas para o centro do conti- ^ 

nente. Este factO; associado ao da colora9So da pelle, corro- 
bora que jà notàmos, que ha mais differen9as entro povos 
e povos da regiSo centrai do continente no sentido das latita- 
des que no das longitudes. 

As modificafSes que se observam na cor, devem considerar- 
se devidas à altitude, à ac9So especial da humidade ou do ca- 
lor, às condÌ95es mesologicas das localidades por onde se espa- 
Iharam. 

As differen9as das linguas; pode dizer-se, existem apenas 
nos prefixos e no maior ou menor numero de vocabulos deri- 
yadoS; sondo certo, que muitos dos radicaes prìmitivos, que se 
nXo encontram numa tribù, se vSo encontrar em outras, em- 
bora distantes. 

CreiO; pois, que estes povos, que denominei Tus, constituem 
8Ìm uma ra9a, e diversa de outras jà bem distinctas e classifi- 
cadas, e que a sua lingua é a mesma, caracterisada pelos pre- 
fixos que variam, é verdade, de umas para outras, e por isso 
ìios parece, se deve para taes idiomas acceitar a denomina9So 
de — Linguas de prefixos ou prefixativas. 

Nos quadros que se seguem, pelo que jà ficou dito, o leitor 
deve apenas ter em vista as raizes dos vocabulos quando queira 
&zer as devidas compara93es, nSo so porque em muitos faltam 
08 prefixos, mas ainda porque em alguns se encontra no plural 
prefixo que nSo me foi possi vel passar para o singular, por 
eu desconhecer ou por nSo existir. 



142 



EXPEDi9!o POBTnauEZA AO kcatiInvca 



PORTUGUEZ 


UGANDA 


UNIORO 


SUCUMA 


NIAHUézI 


Um 


emù 


Òimùè 


limo 


solo 


Dois 


biri 


biri 


min 


biri 


Tres 


sato 


asato 


idato 


tato 


Quatro 


nia 


ina 


ena 


ena 


Ciuco 


tano 


itano 


tano 


tano 


Seis 


laga 


laga 


tadato 


kaga 


Sete 


musalo 


musaju 


pugati 


musafo 


Gito 


liana 


liana 


nani 


ilanehe 


Nove 


mùeda 


mùeda 


keda 


siedia 


Dez 


kumi 


iéumi 


ikumi 


ikumi 


Cem 


kikumi 


igana 


igana 


igana 


Agua 


mazi 


maSi 


mi2i 


miSi 


Alimento 


merré 


viakulia 


ugali 


ugali 


Ar 


peùo 


vikoi 


beho 


taka 


Arco 


tego 


tego 


uta 


uta 


Arvore 


muti 


ekiti 


muti 


muti 


Ave 


nioni 


kinoni 


noni 


noni 


Bananas 


toké 


kitokehe 


madogehe 


matokehe 


Banquinho 


teùi 


ateùi 


isubi 


iteùehe 


Batatas 


rumodé 


vitakuli 


nubu 


kafu 


Bei^o 


mumùa 


hamuromo 


iremo 


muiomo 


Boca 


kamùa 


hamunùa 


mulomo 


mulomo 


Boi 


te 


te 


gobe 


gobe 


Bons dias 


iitiano 


ùije Ilota 


agaruka 


uboro 


Cabala 


kita 


1 • • • 
kisisi 


Buha 


sikodo 


Cabota 


tue 


mutui 


tue 


itùe 


Cabello 


luviri 


isokche 


uvùiri 


niisasi 


Cabra 


buzi 


buri 


buri 


buzi 


Caminho 


kuvo 


muìiada 


zlra 


zira 


Canoa 


nato 


aùato 


uato 


bùato 


Cao 


bua 


bua 


bua 


mubùa 


Carne 


marna 


marna 


nama 


nama 


Casa 


uiiu 


czu 


nuba 


nuba 


Ceu 


birehe 


baruguru 


irudehe 


irudi 


Chuva 


kuva 


ezula 


buia 


fui a 


Dedo 


garu 


rukumu 


liala 


liala 


Dente 


dinio 


hamano 


lino 


lino 


Dia 


misana 


zana 


siku 


siku 


Estrellas 


iienii 


hamunioni 


soda 


soda 



ETSmOGRAPHIA E BISTORTA 



143 



UGOGO 


USSAGARA 


cssuahìli 


MACOXDE 


MAVIA 


limoga 


mùe 


moihi 


imo 


imo 


megetehe 


iiauin 


bìri 


bili 


ribiri 


madato 


ùadato 


tato 


nato 


inato 


macna 


ena 

• 


ena 


cexe 


muxexe 


maliano 

1^ 


tano 


tano 


nano 


muano 


tadato 


seta 


seta 


nano na imo 


mùano na imo 


pugata 


fugati 


Saba 


nano na bili 


— 
. . . na ribiri 


Sani 

f0 


mlnana 


mani 


nano na nato 


. . . na inato 


mikeda 


keda 


keda 


nano na cexe 


. . . na muxexe 


kami 


kumi 


kumi 


kumi 


kumi 


igana 


mirogo kumi 


mia 




— . 


marcga 


maji 


maji 


medi 


medi 


uheba 


ugali 


cakula 


ùilio, villo 


vino, bilie 


bcbo 

4«r 


bcho 


baridi 




xiubulu 


pidi 


uta 


uta 


upidi 


«V 

upidi, ùakurepa 


biki 

1^ 


muti 


muti 


inadi 


nadi 


degehe 


degehe 


degehe 


ùuni, nehe 


xuni 


iiiatokche 


hotìo 


dizi 


goùo 


inono 


kigoda 


ligotla 


kiti 


xitebo 




MI 

niabu 


Loka 


viazi 


-— 


namùadìia 


mulomo 


mulomo 


mudomo 


luieie 


lulomo 


kimla 

1^ 


lulaka 


kinùa 


ukanùa 


xikaniìa 


gobe 


gobe 


gobe 


inobc 




bukùa 


bukùa 


iabo 






toma 


iiugu 


kibùiu 


— _ 


_ 


litiie 


mutui 


kicìia 


mutu 


mutile 


muiìiri 


niieri 


niìieri 


uìiibo 


ui-ida 


penehe 


penehe 


buzi 


ibudi 


budi 


Jira 




ijia 


dila 


idira 


— 




mutubùi 




^^^ 


dibùa 


8uku 


bua 


gaìiaga 


maùaga 


marna 


marna 


niama 




inama 


gada 


muba 


nmba 


gade 


rinade, gade 


vudehe 


vudehe 


uigu 


1 • vy ■ ^ 

liuiga 


kuxana 


tonia 


fula 


^uha 


buia, mulugu 


buia, nugu 


kahala 


kidori 


kidori 


xala 


biala 


menu 


menu 


jinu 


linu 


rinu 


kiguru 

9 ^ 


hamisi 


muèana 


madùa 


ridila 


todùa 


nirezi 


mota 


nodùa 


ritodiia 



i— 


EXPEDI(!0 F0BTD6UEZA AO HUÀTUnVUA 


^ 


1 


PORTUGtIBZ 


UOANUA 


UHIOKO 


3UCUMA 


NIAMUizI 


Faca 


kabi 


kieiil 


lusu 


keri 




Fariuha 


usano 


Ijuro 


nsu 


11 fuma 


^^B 


Fato 


]'..g0li 


.n,.ìda 


miiciìa 


umeda 


^^m 


Fogo 




mliriro 


moto 


rauriro 


^^H 


Follia 


ka^agara 


ikivavi 


masiìa 


maìiasi 


^H 


Fumo 


muka 


miiika 


lia£i 


lioSi 


^H 


Homcm 


muÌQ 


muta 


muta 


niutu 


^H 


Hyena 


pisi 


f)iei 


ivi ti 


ifisi 


■ ' 


Illm 


ki^lga 


— 


^ 


— 




IniiSo 


gnda 


muiiu mima 


dugo 


dogo 


^^B 


Lago 


kiiaja 


nl.aSn 


niiaìa 


ii-abo 


^^B 


Lagoa 


kidiiia 


viaaero 


irabo 


iziùa 


^^p 


LHni;a 


fumo 


cumo 


kima 


siimo 


^^^ 


Luào 


porogouia 


tari 


sfb^ 


Bila 




Lingim 


dilimi 


barurimi 


ulimi 






Lna 


muesì 


kttezi 


muczi 


miiezi 




ma 


■iiabo 


mauehc 


maiu Diabo 


maiu 




Mio 


kibiitu 


karùato 


kum 


kiloko 






rusoEii 


aniBOsii 


Italia 


ita^a 




Morte 


afudehe 


iuafiia 


kiifiia afiidohe 


kufua 




Mulher 


ì<«zi 


Wi 


kitna 


mukima 




NSo 


n(sla 


«^ , 


ku luba 


ìieèo 




Nari!: 


nido 


banidn 


nido 


nido 




Noite 


klro 


liakiro 


HZlku 


nfiikii 




011.0 


diBO 


hariso 


diBO 


dÌB0 




Orellm 


kutu 


amatili 


Hiatm 


maliii 




Ovellia 


diga 


taiiia 


Iiob 


kolo 




Pse 


kitaji 


tata 


ba\a 


tata 




Palz 


ikaro 


eli 


talo 


siaro 




Passare 


koko 


egoko 


gi>ko 


koko 




P6 


kijcri 


vln-Ji 


lujLrL 


l.\jeri 




l'edra 


ji> 


ivari 


111 


iglR' 




Pelle 


fokiilim 


fiii 


sola 


SObl. 




Pelle 


diva 


baru 


din 


lìiri 




Bio 


muga 


hamiiiga 


mogo 


mogo 




Sai 




miiniu 


miiiiu 


intienu 




Setta 


kfiwiri 


mttiiLi 


soga 


iiabi 




Sim 


botto 


i>ibo 


.t.mlR 


kiìakìietié 




Sol 


j'iria 






iiioiiu 



ETHNOGKAl'HIA E HISTORIA 



145 



UGOOO 


USSAGARA 


ussuahIli 


MACONDE 


MÀVIA 


mùerehe 


magi 


kÌ8U 


xipula 


xipula 


usaji 


asagi 


ùoga 


uba 


uba 


mùeda 


suke 


guo 






moto 


moto 


moto 


moto 


moto 


mahazi 


jani 


jani 


lihaba 


riaba 


lioxi 


mosi 


moxi 




^— 


biti 


bizi 


fisi 






matu 


muta 


muta 


munu 


munu 


0g 




1 • • v 

kisiua 




kitage 


daga 


daga 


dugu 


nogiiago 


nogoùago 






kiziìia 




ruhudc 


irabo 


didimazi 


ziùa 


litada 


ritada 


goha 


goba 


mukuki 


M 

kuxi 


ikuxi 


siba 


siba 


siba 


hiba 


^0 

biba 


lumlmi 


lumimi 


uri mi 


lumimi 


lumimi 


maregi 


muregi 


mùezi 


inìiedi 


mùcdi 


laia 


mieli 


marna 


iiagole 


maùokue 


mùoko 


g^Jii 


kono 


ikoiio 


kouo 


itacla 


kigogo 


killma 


Iixiga 


li tube 


sakapa 


uslra 


kufa 




k il ira 


muéekuru 


muderche 


miiaua muké 


Ikoge 


inaki 


kullza 


kudubu 


akuua 




i tamii a 


pula 


pila 


pua 


mula 


di mula 


klro 


kiro 


U8Ìku 


xilu 


xiru 


di 80 


gléo 


gico 


libo 


riho 


makutu 


gutùi 


musikio 


kutu 


matu 


Loro 


koro 


kodùe 




kodo 


tata 


babà 


bal)a 


liaiia 


Ulta 


basi 


kiruga 


lei 




— . 


guku 


guku 


kuku 






kigerehc 


UlU 


è" 


likabato 


ridodo 


dibùc 


di bile 


jiii(?bo 


liaga 


riaga 


éoba 


soba 


.sumakì 


hioba 


loba 


cigo 


kìiarii 


gozi 


mapo 


labala 


mogo 


mukorogo 


niutoni 


luliudì 


ruhudi 


mania 


muuiu 


éuCi 






soga 


muvi 


nmxari 






vivio 


boga 


dio- 


momo 


umomo 


izaùa 


jiua 


jiua 


namaiu 


ridìia, lidula 



10 



EXPBDI9Z0 POBTIFGCEEÀ àO HDATlfllTUA 



POKTOOrBZ 


..^SA 


Ujlll 




HAKIEVA 

(oeuc) 


Um 


klmozi 


mtìe 


jomu 


umoba 


Dois 


viiilri 


tìaiiiri 


inabiri 


babiri 


Tre* 


vitato 


ùstoto 


boHutila 


iìaaata 


Quatro 


vinie 


jiaena 


Lona 


vanasi 


Cioco 


visun» 


iiataoo 


balano 


li alano 


Seìs 


... na kitnow 


ùatailuto 


mot mi a 


mutiiha 


Sete 


... na viiiirl 


diii 


musalo 


mudato 


Oito 


. , . na vitato 


niinani 


mubada 


miìada 


Novi! 


... uà viiiic 


kieda 


ketema 


kitema 


lìez 


xikumi 


uaxumi 


ìkumi 


dikumi 


Cem 


— 


igana ^ 


liikBuia 


lukama 


Agim 


mazi 




memu 


maxi 


Alimento 


Xflkudia 


virlliùa 


virivi! a 


viribQa 


Ar 


(.opii 


beho 


tnasika 


KUlEika 


A reo 


iita 


miihueto 


buia 


utA 


Arfore 


ti^go 


itìiti 


mutio 


muti 


Ave 


halamehe 


!eùa 


tUDÌ 


koui 


Bananaa 


tori 


tokehe 


maodehc 


doso 


Bunqaìnha 


I-a3o 


tetìehe 


kikala 


kibara 


liatatiLH 


batata 


Tirnba 


bihama 


kaaega 


Hei^o 


Inmo 


mtmiìa 


mnlomo 


mulomo 


Ho<>ea 


karaila 


kaDJia 


kaniiis 


kaniia 


Bai 


Èoì>e 


ila 


èobe 


gothC 


llons diaB 


ulimoio 


— 


utego 


bakiieno 


Ca\)in;s 


sigubu 


kisaiiu 


kiaaila 


kia»a 


Cabeca 


inlltu 


mutiift 


mnsijÈ 


mntiu 


Gabello 


sisi 


uz ri 


inueli 


Huki 


Cabra 


Wi 


penehe 


buri 


Wi 


Caminho 


5ira 


jira 


munirà 


ijila 


Canoa 


bfiato 


tiato 


iifllO 


biiato 


cao 


garu 


biia 


ibiia 


ibiia 


Carne 


Dinma 


niamu 


marna 


mama 


Casa 


n,«la 


Su 


kedehe 


dabo 


Ceu 


mitabo 


ij-m 


nikuni 


ijnln 


eli uva 


fala 


tuia 


vula 


buia 


Dcdo 


kala 


unitoké 


mi.mè 


miutìè 


Dente 


zinu 


amento 


menu 


minu 


Dia 


tpzana 


iztiiìa 


juìia 


ì..ìia 


EstrcUa* 


ìodua 


inaenfa 


kagiimina 


kagamina 



ETHNOGBAFHIA E HI8T0SU 



147 



URUMQO 


UOUHA 


CAZEMBE 


UBISSA 


MARÀVI 


kimùè 


imo 


nioze 


imo 


moze 


fiùiri 


ùaùiri 


biri 


siviri 


biri 


vitato 


ùasato 


tato 


sitato 


tato 


yinehe 


Tiaana 


nai 


sinehe 


nai 


Titano 


ùatano 


xano 


sisano 


xano 


vitadiato 


mutada 


tatato 


mutadfa 


tatato 


taJa 


musabo 


zinomùè 


mufugati 


xinomùè 


fianehe 


1$ 

muùada 


isere 


kinani 


isere 


kapnBÌo 


kitema 


feLa 


mùeda 


feba 


sumi 


kumi 


kumi 


irikumi 


kumi 


— 


lukuma 


zana 


ikikumi 


zana 


ameZi 


mema 


•• 
emeda 


amezi 


masi 


nùali 


viriasi 


alia 


ubùari 


adia 


nknpema 


masika 


— 


ukupema 




nta 


utaùako 


— 


UTuta 


uà 


fimnti 


muti 


— 


umuti 




fioni 


Ioni 




ifijoni 


barame 


mikodehe 


matokehe 


-— 


mikodehe 


— 


teùehe 


kiùala 


utada 


ktpuìia 




ifinlu 


viruDu 


xubo 


ifiubu 




miromo 


miromo 




mulomo 


muromo 


akanùa 


kukanùa 


pakanùa 


akanùa 




vigobe 


— 


gobe 


igobe 


gobe 


mapola 


aiumuga 


— 


mapola 




usnpa 


kiasa 


— 


usupa 




kitùè 


kitui 


mutuò 


mutue 


musoro 


ma8ÌBÌ 


niuùeri 


sisi 


nusisi 


sisi 


bnzi 


buzi 


pebe 


m 

buzi 


buzi 


muZira 


icira 


zila 


iSira 


jira 


uùato 


bùato 


ùato 


bùato 


— 


kabùa 


ibùa 


kabùa 


kabùa 


ibùa 


inama 


niama 


inama 


inama 


nama 


ga^a 


sibo 


gala 


gada 


nuba 


maribi 


ùilo 


^"■^ 


mavìbi 


— 


ifnla 


vula 


lula 


fula 


fura 


kiara 


minùè 


— 


munùè 


minùè 


ameno 


meno 


dinu 


ameno 


dinu 


iigalo 
!ala 


juua 
kagemogemo 




akazùa 
itada 


ùaxena 

neze | 



EXPKDigJO POBTDQOKZA AO MOATUlffVUA 



PORTCOUKZ 


ifuesi. 


IWiJI 


(1«M) 


UAXtKHA 


Faca 


.p.,. 


Uli 


ludolche 


rubahn 


Farinha 


ufa 


ufn 


vuK* 


baga 


Fato 


laro 


mùeda 


guo 


kirala 


Fogo 


muto 


miuauflii 




tuia 


Folhft 


»»!>. 




tubi»! 


galli 


Fumo 


tosi 


musi 


inoxi 


luuki 


Homem 


tnutu 


nmtu 


badu 


louda 


Hyena 


fisi 


fisi 


jibiii 


kìlùi 


nha 


kinila 


kirira 


— 


— 


IrrnSo 


pflaga 


mù etili che 


ntiìua 


mntttnche 


Lago 


nìiaja 


taganika 


luji 


lux! 


Lagoa 


taùarohc 


kitaga 


kiziila 


kizifla 


Lim^a 


tugo 


lUUIO 


forno 


fumo 


Lelo 


kago 


uri 


daìtiii 


aaluè 


Lingua 


diliini 


Turimi 


durimi 


Inlimi 


L«a 


mùGzi 


ukùezi 


indago 


«agi 


Mie 


amiu 


marna 


lehiì 


nmé 


Mio 


dix^a 


kig^a 


mtiboko 


maboko 


MontanliA 


piri 


niiisosii 


uhagula 


gulu 


Morte 


kufa 


afuiebe 


iiafìia 


ukiÌA 


Mulhcr 


mukazi 


gorebo 


mokazi 


tnnkaii 


N,ì.> 


purijche 


ataiehc 


utoko 


kuaikicdo 


Nariz 


pimi) 


ixulu 


miiebehe 


muEebe 


Nolte 


ueiku 


USIlgO 


mufuku 


utu 


OIho 


di80 




dÌBO 


diso 


Orelha 


kutu 


UffUtiii 


makuiiiiebc 


magutìii 


Ovelha 


dira 


tama 


uiiikoko 


uiiikoko 


Pau 


atatcliu 


daU 


ni tutu 


utata 


PaiK 


ziko 


ili 


kibaro 


nm.Heèeho 


Passare 


Luku 


loko 


»a\o 


goko 


Pé 


mùedu 


uiaguni 


niaulu 


maholo 


Pedra 


mìlala 


miehe 


inabflé 


dibilp 


Pc-iic 


loia 


Biiii 


— 


— 


Pelle 


fiUO 


muiiiri 


kÌEicua 


kcsetìa 


Rio 


Sijehc 


inugcxi 


aiiiema 


luil 


Sai 


ladi ertili: 


iimuiii 


muglia 


musiki 


Seta 


pariro 


miHbi 




iiiUHUma 


Sim 


kodi 


aie 


cLe 


tìoiìo 


Sol 


uzHa 


izmia 


mimiuia 


Julia 



ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 



149 



URUNGO 


UGUHA 


CÀZEMBE 


UBISSA 


MARAVI 


mùerehe 


luhete 




mùerehe 


xiso 


nvuga 


uziehe 


oga 


ovoga 


ofa 


Saro 


mariùa 


— 


zaro 


— 


morirò 


morirò 


molilo 


morirò 


moto 


mayula 


mejani 


— 


injani 


— 


ìkinSi 


mosi 


mosi 


ikoSi 


osi 


muta 


moto 


mùana Inme 


moto 


mamona 


kabùima 


kibùi 




ikil>ùi 


— 


kisera 


— 




kisiSiri 


soa 


mnieki 


mokiga ùami 




monagi 


bare 


kimumana 


odivihi 




omomana 


— 


kiraì>i 


kiziua 


— 


kirabehe 




fumo 


forno 


— 


ifomo 




Siì>a 


otabùè 


lamo 


kalaino 


podoro 


ulnlimi 


lolimi 


lidimi 


olorimi 


lilimi 


mùezi 


mùezi 


godo 


mùezi 


mùezi 


iagu 


nana 


mama 


maio 


mama 


minùè 


tono 


éikasala 


amaboko 


maja 


piri 


ùigoro 


— 


orupiri 




ifiia 


akufa 


— 


okofa 


uafua 


mùana kazi 


laSiana 


mùana kazi 


mùana kazi 


mokazi 


io 


aha 


— 


tapari 


ahiahi 


mona 


mohebe 


miona 


omona 


pono 


uviiBiko 


ufoko 


— 


avasiko 


osoko 


amezo 


liso 


diso 


iri5o 


diso 


amatili 


makutùi 


ditùè 


amatùi 


sikoto 


mikoko 


mukoko 


mokoko 


ipaga 


bira 


tata 


tata 


tata 


tata 


babà 


ikaro 


mùaro 




ikaro 




goko 


goko 


— 


ìgoko 




magasa 


kogoro 


motata 


amoro 


mùedo 


iribùè 


dibùe 


mabùè 


iribùè 


mokala 


isaiii 




masavi 


osmi 


soba 


kigada 


kiseùa 


ipapa 


ipapa 


pararne 


muloga 


mototo 


— 


moroga 




mìkerehe 


mnnùi 


* mogùa 


mikeri 


mono 


mifùi 


misari 




mofoi 




ehe 


ehe 


— 


ehe 






ioùa 




akazùa 


zoa 



exfedi^jCo poktcodeza ao hdatiXnvda 



PORTUaUBZ 


.lU... 


BATUA 


BACtTBA 


BALCBA 


Um 


xamoje 


hoÈi 


kiJioSL 


ioianb 


D0Ì8 


ibi 


pillidi 


fiki 


ibidi 


TrcB 


ieato 


felietu 


i£ata 


isalo 


Qufttro 


ini» 


■Eihì 


iùihi 


inai 


Ciuco 


kohoko 


tahano 


itfthauo 


itano 


Seia 


m ut alta 


fahame 




isaWbo 


Sete 


— 


ùababuhele 


iahumule 


mutekcte 


Oito 


einona 


inahane 


iiiahane 


mukiilo 


Nove 


— 


dibibua 


dibibua 


Sitekìia 


Dos 


ikama 


iiaji 


ieaji 


dikumi 


Ceni 


— 




_ 


lukama 


Agna 


mie 


inafi 


lofi 


mai 


Alimento 


mata 


— 


__ 


— 


Ar 


— 


~ 


— 


__ 


Arco 


— 




— 


_ 


Arvore 


kiti 


bulicta 


pi'è" 


buta 


Ave 


kokoliri 


— 


— 


— 


lìaniuias 


mama 


_ 


- 





Banquiulici 


kituli 


— 




— 


BHtatna 


— 


— 


— 


— 


Bci^o 


mitutu 


— 


munto 


mu<<Ìko 


Bocca 


kiima 


_ 


— 


mukano 


Itoi 


- 


_ 


_ 


_ 


Bona ilÌU'< 


„ 


_ 


_ 


_ 


Cabala 


kkuru 


— 


— 


_ 


Cabota 


m i 


ihituxe 


_ 


mutuò 


Gabello 


bi 


pube 


lìuba 


auki 


Cabra 


buri 


— 




— 


Caminho 


jeia 


_ 


— 


— 


Canoa 


mato 


— 


_ 


_ 


Cào 


b a 


— 


_ 


_ 


Carne 


la a 


Jabama 


— 


muninl 


Casa 


uba 


dubo 


cnboÙa 


8ubo 


Ceu 


uku a 


_ 


_ 


_ 


Chuvft 


bura 


"bida 


t>ub"ia 


fula 


Dtido 


u 


ktala 


uibiio 


niuhoko 


Dente 


m u 


mnbL-mi 


inibiii 


di he no 


Dia 


ut k i>l 


_ 





_ 


Eatrollua 


k diked 


- 




- 



EmNOORAPHU E HISTOKIA 



151 



TUCURUBA 


MATABA 


canhìuca 


UANDA 

• 


LUNDA 


kamùè 


kazi 


kamiiè 


kamiiè 


kamiiè 


kabidi 


kabidi 


kabidi 


kaadi 


kaadi 


kasato 


kasato 


kasato 


kasato 


kasato 


ka&ai 


kaniga 


kani 


kani 


kani 


katano 


katano 


katano 


katflno 


katano 


kusalalo 


samano 


musabano 


musamano 


musabano 


mùaJa muia 


éabùarì 


subii ibìdi 


sabìiari 


Al 

sabiiari 


mùa^a mukulo 


dinana 


miiada 


éinana 


éinana 


éiviia 


éidivùa 


èite^o 


divua 


diva 


dikami 


éikumi 


dikumi 


dikumi 


dikumi 


kama 


kama 


éitota 


éitota 


éitota 


mai 


meji 


mùaza 


meji 


mema 


éidiaje 


kudia 


ììadia 


ùalia 


kudia 


éipepele 


pepele 


ki^o 




éipepele 


bnta 


uta 


uta 


uta 


uta 


mudi 


madodo 


mutodo 


muti 


mutodo 


nino 


jila ^ 


jila ^ 


loko 


jile ^ 


makode 


makode 


éikode 


makode 


makode 


dttada 


ditada 


ditada 


éipapo 


ditAda 


taLa 


jlboSo 


rutaba 


— 


A» 

jitaba 


muziko 


mulabo 


mulanio 


mulabo 


muzubo 


mukano 


mukano 


nmkauùa 


kaniia 


mukano 


gobe 


gobe 


gobe 




gobe 


malegele 


naiala 


kubaèa 




iialaka 


biloùa 


sua 


èileù 


kisua 


supe 


muta 


mutue 


muta 


mutu 


mutile 


nono 


lukabo 


suki 


SUSI 


rusuki 


buiji 


pebe 


buji 


busi 


pepe 


Jila 


Jila 


jila 


zila 


Jila 


bùato 


iiato 


mìiaSa 


biiato 


uato 


1>ùa 


kahùa 


kabìia 


kakùa 


kabùa 


munini 


inama 


multa 


nama 


éinama 


zabo 


Suo 


lupo 


ditale 


éìkubo 


kahulo 


ehulo 


dihulo 


ehule 


dihulo 


1>Qla 


i^ula 


i^ula 


uvula 


lunula 


w • • • 

muini 


mùihi 


muno 


muno 


w • • • 

muini 


dina 


dizeù 


dtnu 


menu 


dizeii 


ditoko 


ditago 


dièiko 


usua 


diéiko 


katal>a 


misogonoka 


kasagani 


musogouoka 


tutubo 



152 



EXPEDig!o PORTUGUEZA AO MDATIAnVUA 



\ 



N, 



PORTUGUEZ 


UREGA 


BATUA 


BACUBA 


BALUBA 


Faca 


obeo 






._ 


Farinha 


umata 


— 




— 


Fato 


turu 








Fogo 


kasa 




tcbia 


kapia 


Foiba 








— . 


Fumo 


muki 








Homem 


mutu 


-e- 




\ 


Hyena 










Uba 


kititi 






— 


IrmSo 


nieia 








Lago 


- - 








Lagoa 










Lan^a 


turno 








Le2o 




— 




tabùc 


Lingua 


Clami 






Indimi 


Lua 


meri 


kìicci 


gena 


naieci 


Màe 


inaile 








M^o 


niakasa 


koboko 




boko 


Montauba 


kioma 


mukuci 


ikoco 


kakuna 


Morte 


kukiduka 


uakua 




ùalufùa 


Mulher 


mukazi 








Nào 








— 


Nariz 


inìicbì 


dilu 


milo 


diùlo 


Noite 


iita^iiira 






1 

j 


Olbo 


liso 


diso 


• v« 

nnci 


I 

diso : 


Orelba 


kiita 




niatuki 


dibicu 1 


Ovclba 


ineme 






1 

1 


Pae 


moma 






— 


Paiz 


kada 









Passaro 


koko 






1 


Pé 


tidc 


kupidi 


m abela 


cibebela 


Pedra 


Ili e 








Peixe 


n 




cubebia 


munini mai ' 


Pelle 

1 


ukoìia 




— 


casa 


Rio 


.kiji 


mudili u 


loci 


nuisnlu 


Sai 


IIÌUU 








Seta 


- - 


ccbcbo 


J)OCÌO 


mukcta 


Sim 


— 


— 




— 


Sol 


iniia 


diuba 


Itiije 


dmba 



\ 



ETUNOGBAPHXA E HISTOBIA 



153 



TUCURUBA 


MATABA 


CAXHlUCA 


UANDA 


LUNDA 


kele 


poko 


mùele 


mupete 


paka 


bukula 


uga 


buge 


uga 


buga 


dilùato 


izùato 






ijala 


kapia 


kai 


mulilo 


mudilo 


kasiìè 


diani 


difofii 


dibixi 


mafofu 


dieji 


muixi 


muixi 






muixi 


mutu 


mutu 


bai 


mulume 


mutu 


kajama 


dìsupc 


malege 


malege 


éisupa 


kidila 


mùitugo 






miìÌ8aga 


mùaua babà 


mona marna 


mona marna 


mona maku 


mona maku 




^/ • • • 

mnijia 


— 




dijia 


èizaga 


ulaù 


dijia 


ditede 


ulaiì 


èisokolo 


disugo 






di sugo 


^0 

tabu 


tabu 


niamage 


MI 

tabu 


tabu 


ludimi 


ludimi 


budimi 


ulimi 


rudimi 


gode 


kiieji 


musuge 


kakiìeji 


gode 


babà 


marna 


marna 


maku 


maku 


diboko 


lioko 


lioko 


moika 


(fikasa 


mukuna 


mukado 


«■^iw 




mukixi 


mufi 


ìiafiia 


ufi 


ufùa 


uania 


inukaje 


mukaje 


mukaje 


mukaje 


mukàjc 


naxà 


kanà 


kaua 


kinia 


ualike 


dilu 


muzuro 


muzuro 


zulo 


dizuro 


utako 


ufuko 


ufuko 


usuko 


ucuko 


disu 


disu 


disu 


li su 


disu 


diéu 


ditìii 


ditùi 


itili 


ditui 


éipaga 


nuikoko 


mukoko 


mukoko 


mukoko 


lete 


tatuko 


tata 


tuta 


tàtuko 


mlsoko 


kolo 


éibuje 


gada 


kolo 


kaniho 


kajile 


koni 


hoko 


kajile 


éidiajele 


*0 

miiedu 


cidiatelo 


cijiatelo 


miiedu 


dibùè 


diala 


ditadi 


utadi 


diala 


muniiìi ùa mai 


biji 


• • 

IXl 


bixi 


• • 

1X1 


mubidi 


cikoua 


kisebo 


kisea 


èikada 


limita 


nuiloga 


musula 


muloga 


ulto 


makele 


mukele 


mukele 


muu 


muglia 


muvi 


muvi 


muketu 


muvi 


séo 


moio 


kiene 


ié 


mane 


ié 


raùina 


musana 


muiiine 


musana 


mutena 



KZPEDI9I0 POBTDOCSZl. AO KDATUnTDA 



™™™. 


M„™.0 


MACDSSA 


«moco 


VRiX 


llm 


kHXIO 


kaii 


kaintìè 


kamo 


DoU 


k»ieri 


kadi 


kiutdi 


tiiiU 


Tre» 


kfttato 


katato 


kai-ato 


tiiaalo 


Qufltro 


kuiiaiie 


kuìiaue 


kanai 


tuaa 




kuUuo 


kalRiiii 


katauo 


tiitano 


Seis 


kaauinaiio 


«aTmno 


musalauo 


tnaaba 


Sete 


kaxiìiniri 


xibiìari 


libiiari 




Oito 


konnke 


uike 


nak- 


nmaJa 


Nove 


ìviia 


diva 


ua 


kitema 


Dtìi 


kiimi 


dìkuini 


kam 


dikuiii! 


Cem 


inulakHJi 


èilota 


ulakiij 


kutiia 


Agua 




meji 


ne» 


■nenia 


Aliioento 


idia 


kudia 


daje 


viliiia 


Ar 


«popele 


— 


k pepele 


— 


Arco 


uta 


uU 


ta 


uta 


Arvore 


muei 


muti 


uodo 


fiti 


Avo 


àiiio 


jilft _ 


Jl-' 


Kuni 


llnimiius 


nmkodc 


rnukode 


uloje 


miiko^e 


Bouquinho 


kitilaiiio 


dialo 


kt no 


— 


BftUtas 


tala 


jiboBo 


tabu 


kulugu 


IIei(o 


mu.ubo 


muzubo 


nazubo 


— 


Bocca 


iniiknnn 


Tiiukaiio 


ukano 


mukanu 


Boi 


golìa 


Kobe 


fpLe 


gobe 


Bona di»9 


ùazeka 


ì'iakola 


kola 


^ 


Caba^ii 


stia 


jij'^ 


sii al 


mugu 


Cahci;» 


lUUtU 


IlLlltll 


utu 


kutnJ' 


Cabcllo 


kabo 


luknbo 


klo 


niiìeni 


Cabra 


Pebe 


pele 


ppb 


b,i.i 


Camìnlio 


jiU 


jila 


J * 


mi.ìda 


Cuioa 


uliigo 


iiato 





nnto 


cao 


kabtìa 


kak&a 


kal a 


ì,.ia 


Carne 


iijuma 


nama 


fuo 


iiama 


Casa 


i!uo 


Suo 


Ino 


Suo 


Ceu 


diluilo 


mio 


k lulo 


— 


Chiiva 


?nU 


villa 


tuia 


lilla 


Dedo 


miiDi 


niiììiio 


n 


mim-iè 


Dente 


diju 


diju 


czu 


neon 


Dia 


dittiko 


diiiko 


dtag a 


fuko 


Estrellas 


tetebo 


intubo 


tegouoie 


konienia 



ETHNOQRAPBIA E HISTORU 



155 



/ 








CONGO 


/ XINJE 


UIANZI 


BABUENDE 


BACONGO 


^.y ^^ A^ x^ ^^ 

(S. Salvador) 


naoxi 


mosiehe 


mosi 


bosa 


moxi 


kaadi 


mùe 


miole 


kìiali 


kole 


katato 


siti 


mi tato 


tato 


kutato 


kani 


ina 


mia 


una 


kuia 


katano 


mitano 


vitano 


tano 


kutano 


mosabano 


tuba 


misaba 


sabano 


kusabano 


sabùari 


musafu 


sabiiari 


4^ 

sabùali 


sabùadi 


nano 


inìiabi 


nana 


nana 


nana 


divùa 


bua 


vua 


evua 


evua 


kumi 


kumi 


kumi 


ikumi 


kumi 


mulakaji 




mukama 


kama 


kama 


meia 


maza 


maza 


mazi 


maza 


kudia 


udia 


ulia 


bilia 


dia 


lapepe 






perno 


fulumùino 


aia 




mikelehe 




lugugo 


mmi 


mùiti 


muti 


muti 


lufAko 


jila 


muni 


nuni 


nuni 


nuni 


makode 


makode 


makode 


ututo 


maoji 


kialo 








kuda 


bo2o 




èikùa 


baia 


bua 


«nuvubo 




labo 




bobo 


mukano 


muuia 


nuùa 


muno 


nuùa 


gobe 




gobi 


gobi 


gobe 


Jajekele 






keba bota 


ilubo iabole 


bida 








kalo 


mutue 


ipu 


tu 


tu 


tu 


kabo 


usiiche 


8uki 


leje 


suki 


5ele 


taùa 


kobo 


kobo 


kobo 


Ida 




makaga 


zilo 


jila 


Ulttgo 


maio 


malugu 


bùato 


lugo 


boa 


bua 


bua 


muìia 


bua 


uta 


bisi 


bise 


bizi 


biji 


ìIqo 




mazu 


bùala 


luse 


dialo 




sulu 


liulo 


zulù 


foU 


fula 


mavula 


vula 


vula 


i&àini 


musi 


mutebo 


zaia 


mutebo 


dixq 


dinu 


menu 


menu 


dinu 


iàzna 


— 


bilubu 


lubu 


lubu 


tiitabo 








tetebua 



EXFEDI9X0 PORTUQUDU. AO KDATIAhVUA 



POBTCGCBII 




UACOB8A 


QCIOCO 


ur6a 


Fua 


PO., 


pokfì 


kde 


luppte 


Farinha 


tog. 


fai ini 


huga 


ukula 


Fato 


Uiiato 


izflato 


Uùato 


biiùa 


Fogo 


lahiiL 


koso 


kahia 


niiriro 


Fulbi 


iliaSo 


•liUbo 


dieji 


— 


Fumo 


dìii 


miìiii 


mùUi 


— 


Homcm 


■nlltu 


rnutu 


IlllltU 


muìu 


Hjena 


igo 


kizupa 


kisupa 


kuiuugu 


Ilha 


m.aga 


muitugo 


■uusaga 


— 


InnSo 


tiiiUiia iial 


mona luaku 


mona noku 


tuia 


Lago 




kiteile 




— 


Lagoa 


kklLiìft 


iilaiì 


kited 


— 


Lan?a 


kisokola 


fumo 


k k 1 


mukohflè 


Lea» 


hoj.^ 


tabu 


abu 


tabu 


r.i«gua 


Inaimi 


ludimt 


lud 


luvuni 


Lna 


T.-ji 


kupji 


k J 


kilesi 


Mie 




nai 


ku 


lolo 


Mio 


koko 


fikasa 


k ko 


manoko 


Hootaalia 


moèojo 


■nukad'o 


uk 


— 


Motte 


aflU 


uafiiila 


Ufi a 


uftfa 


Mulhcr 


mnkaje 


nmk.y^ 


mkaj 


mukasi 


Nao 


lo 


ka 


1 


Vllfl 


SariK 


difillo 


fixuro 


U 1 


luioua 


Nolte 


utuko 


ufiiko 


ufiik 


lolùa 


Olilo 


disu 


KÌlsa 


d 


dlsu 


Orelhu 


dltul* 


lUtui 


k tu 


matui 


Ovellia 


Imdi 


uiukoVo 


bu 


mukoko 


Pao 


tata 


tata 


tata 


taU 


Paiz 


kifuii 


kolo 


kfux 


H 


Pasaaro 


kujìln 


kaida 


kaj la 


— 


Pé 


kulo 


inued~u 


k 1 


iistìaia 


Pc<ira 


dibiiè 


dita di 


bh è 


Ihliè 


Pelle 


bis! 


III 


b 


inQìta 


Peilo 


Ubo 


tabo 


labo 


Biaeva 


Ri.. 


lùiji 


muloga 


luj 


luiìi 


Sai 


«.ogiia 


mugua 


noffia 


mfleps 


Seta 


imi vi 


muvi 




miketo 


Sim 


iQ 




k ko 


iS 


Sol 


miiiwii 


dit.igo 


mual a 


minia 



ETHNOGRAPHU E HISTOBIA 



157 



XINJE 


UIANZI 


BABUENDE 


BACOXGO 


CONGO 
(S. Salvador) 


poko 


birehe 


mubele 


mubele 


bele 


lupa 




muniaka 


falinia 


fulb 


izùato 




— 


— 


— 


tahia 


kapia 


tuia 


<• 
bazu 


tuia 


diago 


ikuko 


mukobo 


utiti 


lukaia 


mùixi 






mùisi 


mùisi 


mura 


mutu 


mutu 


mutu 


mutu 


kulùama 






— 


kobe 


ki8aga 


1^ 


0^ 


^ flV 


kasaga 


mona marna 


du 


dugu 


koba 


mùanagùa 


dizaza 




•— 




riaga 


kisokolo 


ikogo 


uioge 


— 


dioga 


hoje 


koxe 


koxe 


xigubu 


koxe 


Indirne 


limi 


din li 


lulaka 


lubimi 


kùeji 


usugi 


goda 


goda 


gode 


marna 


marna 


mania 


mama 


1» ^y 

gua 


koko 


liboko 


moko 


koko 


koko 


mngogo 




izuru 


mula 


miogo 


ufi 


afua 




ufuire 


lufiìa 


mukajc 


laU 


miketo 


muketo 


keto 


kan4 




ko 


ve 


ko 


dizulu 


juru 


bobo 


iilu 


zuno 


UBUko 




fuko 


bùilu 


fuko 


difiu 


lisu 


disu 


lisu 


disu 


kutìii 


itui 


kutuke 


ukutu 


di tu 


buri 


memé 

• 


memé 


memé 


memé 


tata 


tara 


tata 


tata 


se 


• 

ZI 


• • 

ISl 


• • 

181 




uxi 


kajila 


U8USU 


118U8U 


susu 


nuni 


kulo 


likuru 


tabi 


kulu 


tabi 


ditadi 


iba 




liania 


tadi 


biji 


bisi 


bisi 


fu^ 


biji 


lalo 


lada 




kadi 


kada 


ùito 


ibari 


Jali 


zali 


loko 


mugùa 


muglia 


muglia 


salu 


mugua 


mufiila 






— 


sùaga 


kemé 






geté 


egeta 


1 mùana 


ikaga 


tagu 


tagli 


tagua 



BXPBDiylO POBTUGUBEÀ AO KDATIÌ5TDA 



roBTUOUBZ 


CAS«JO«B 


UALANJE 


„p».o 


COitOO 


U." 


HlOJii 


irnoii 


moii 


moxi 


Doia 


kandi 


iadi 


jnole 


sole 


Tres 


katHb) 


it*to 


Ufo 


UU> 


Quatro 


kniiane 


iflaim 


■ha 


muia 


Ciuco 


katano 


lìmo 


touo 


taiio 


Scìa 










Sete 


BiLlidari 


saìxìnri 


silOari 


«abiiari 


Gito 


i>aki 


iiaki 


nuDO 


Dime 


Nove 


diviia 


iviia 


iviU 


evtìa 


De« 


dikumi 


dikumi 


dlklUlli 


kiimi 


Cem 


Uama 


k>una 


kaiiia 


lama 


Agi» 


meia 


meo a 


mar» 


masa 


Aliinetito 


idm 


kidm 


kutn 


dia 


Ar 


fi.Ji 


kitebo 


Inpepe 


gnbdila 


Arco 


iita 


lira 


uta 


uta 


Arvore 


niuii 


muli 


luuti 


muti 


Ave 


jila 


jila _ 


miui 


~ 


Bananas 




makode 


makoji 


dihoji 


Bamiuiiilio 


kiiilo 


kialo 


kialQ 


kiado 


Bstatus 


bo!o 


boio 


buio 


kiri^i 


BeÌQO 


mum.1>o 


ninzuLo 


kibaka 


kianiia 


Bocca 


dikjiro 


kaDiia 


mini liei 


mimùa 


Boi 


8.1. 


èobc 


£..!,„ 


gole 


Bona difts 


_ 


— 


— 


— 


CHbB^a 


lid'a 


bida 


kalo 


— 


Cabei;a 


llilltn 


IllUtflè 


mutu 


tu 


C'nhello 


deba 


aeba 


Bllki 


BukU 


Cabra 


kobo 


k<,bo 


kolo 


peT>e 


Cainiuho 


Jila 


Jila 


Jila 


Jila 


Canoa 


iiato 


ulugo 


l"go 


dogo 


Ciò 


iìitìo 


ìLua 


biiua 


bolìft 


Carne 


xitti 


litu 


biji 


biai 


Casa 


iiiuo 


tao 




— 


Cett 


kmilo 


dmlo 


mio 


— 


Chnva 


fida 


vula 


fnla 


— 


Dedo 


miliiio 


mutebo 


iiiuteìio 


mule'bo 


Dente 


dizu 


dizu 


diim 


di mi 


Dia 


kizillL 


kibua 


kibibo 


kilabo 


EstreUoB 


teteìio 


tetelo 


tetoluka 


óatete 



BTHKOGBAPHIA B HIBTOBU 



DISTKICTO DE LOAHDA 


luciìmbi 


LUNHANICA 


LIMAKO 


moxi 


moli 


masi 






ìui 


kiali 


bari 


_ 


_ 


tato 


kitato 


tato 


_ 


_ 


fiuia 


kiflana 


knana 


_ 


_ 


ituo 


kitSDO 


tano 


_ 


_ 


Bmnuuio 


kisamano 


palo 


_ 


_ 


B«1)ììarì 


aalfiarì 


tano bari 


_ 


_ 


naki 


aake 


nane 


_ 


_ 


ÌTÌta 


ivtìa 


die 


_ 


_ 


koni 


likine 


kume 


_ 


_ 


lum» 


bama 


liU 


_ 


_ 


mena 


mciia 


mcba 


meba 


babà 


kndia 


kudta 


nodia 


_ 


_ 


kiriula 


mulege 


pepo 


_ 


— 


nU 


— 


ute 





_ 


amli 


muti 


mnti 


„ 


_ 


iUa 


Jila 


— 


_ 


_ 


dihoT. 


dikojo 


bojo 


_ 


_ 


kialo 


— 


lipudi 


_. 


_ 


kirip 
dinibo 


_ 











mazobo 


_ 


_ 


_ 


dikano 


dikano 


nìulugo 


mulugo 


mela 


goT.i 


gola 


gobc 




- 


dÌDulo 


bi3a~ 


tela 


toda" 


kabila 


Dmtaè 


inataè 


mutue 


mutììè 


QttìÉ 


Jel. 


s,u 


buke 


_ 




kelc 


lobo 


likobo 


koLo 


bolo 


Jila 


Jila 


lira 


Jira 


Jira 


dogo 


dogo 


iiato 






ilùa 


ilììa 


libua 


_ 


■ __ 


ùta 


»itu 


bercia 


hito 


sito 


molli 


kubata 


Juo 


_ 




dikulo 


ìuio 


iulo 


_ 


_ 


?ula 


?ula 


lui» 


lira 


lera 


mnlelo 


muletio 








diéa 


dijo 


io 


-^ 


_ 


kima 


kilua 


kubi 


_ 




tete^fla 


tetebua 


ìugurulu 


- 


- 



EXPEDI^ZO POBTUQDEZA AO ÌIXSÀ.T1XSVVA. 



pottTuavsz 


CASBAKJE 


uxLàxm 


.^oo 


OOISOO 


Tua, 


Poko 


poko 


bele 


Idi 


Firinha 


fnba 


faba 


fuba 


— 


Fato . 


isttflto 


l«riato 


iKiiitn 


irtiato 


Fogo 


tulxa 


tuliia 


kapia 


tiibia 


Pollui 


kmga 


kwga 


difulo 


dlkaia 


Fumo 


<(ixi 


dìxi 


mtìiii 


mitili 


Homem 


mutu 


mlltu 


nmtu 


niutu 


Hyew 


kulflama 


igo 


ièo 


— 


Uba 


kieaga 


kisaga 


di sugo 


cadi 


ImSo 


moD« glna 


pagi 


pagi 


— 


Lagoa 


kizuga 


ki^aga 


kizagft 


~ 


Lnii^a 


Itieokolo 


kisukulo 


kiaokolo 


— 


Lc5o 


tabu 


hojì 


koji 


lori 


Lingna 


d'uni 


dimi 


dlka 


ludiiiiL 


Lua 


l=ji 


-beji 


Bod« 


go^u 


Uie 


gì DB, marna 


marna 


maina 


— 


usa 


kfiako 


lukfliiko 


koko 


kuako 


Montanha 


niugogn 


muludo 


mogo 


mogo 


Morte 


kibi 


kiì.i 


muti 


mafiìa 


Mulhcr 


mukm-i 


mnkaji 


mukctu 


muketo 


NSo 


lo 


kani 


ko 


— 


Nariz 


dlznln 


iiiKuro 


bobo 


— 


Noi te 


iiaukii 


Ksuko 


usuko 


— 


Olho 


.liaii 


dimt 


.iisu 


diBU 


Orelha 


katiii 


ditiii 


ditùi 


kutn 


Ovclba 


bmli 


buri 


koko 


iinraii.- 


Pttfl 


xa, lùtukn 


lata 


tata 


— 


i'uix 


fiixi 


ili 


\i 


— 


l'ussaro 


knjila 


kajilft 


llìUIli 


lUllli 


Pé 


kinaiim 


kiuaiiia 


kiiio 


kulo 


l'edm 


liilllllK^ 


ditadi 


.liti* 


, talli 


Peiiic 


kLk(^lc 


i>iji 


zouji_ 


bi8i a masa 


Peliti 


kikcxìa 


d:kod;i 


«ikada 


r.mkada 


Rio 


liilji 


m^- 


KUe 


inukoko 


Sai 


■nojiia 


iiviKiia 


.nogìia 


— 


Settii 


mutuili 


ini>fiilH 


uiufula 


— 


i^iin 


kieué 


1^ 


ló 


— 


Sol 


tniiaiin 


«.liana 


luìiana 


t agii a 



ETHNOORAPHIA E HISTORIA 



161 



DnnacTO i 
foko 


»E LOANDA 

poko 


LUCÙMBI 


LUNHANECA 


LUNANO 


miiele 


kika 


moke 


fabft 


fuba 


fidi 


hidi 




iitttto 


— 


— 


— 





tobift 


tabia 


tupia 


— 


— 


diiii 


difo 


xisùe 


difo 


— . 


éà 


• • 
nxi 


mum 


mubi 


musi 


WB&L 


muta 


* mutu 


rautu 


munu 


ilo 


kimalalia 


ximalalia 




__ 


liJa 


kisaga 






— 


piSi 


page 


page 




' 


dilaga 




tala 




— 


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— 


— 






k^ 


hoji 


Lofi 


Ilo lama 


bosi 


dimi 


dimi 


laka 






di(ji 


rieji 


barai 


bani 


sai 


marna 


marna 


memc 






Inkako 


mako 


kuboko 




■ 


BnhJa 


muludio 


puda 






iiiliia 


ùafua 


ùafùa 


ùaliia 


ùafa 


Mbato 


lafli 


murikadi 


mukai 


ukai 


ka^i&aoi 


— 


date 




— 


dinno 


disnno 


iulo 


ùilo 


riulo 


Mb 


usuko 


ufuko 


utike 


uteke 


cBaa 


nÌ8U 


isu 


— 


— 


ditiii 


ditiii 


kutiii 






w 


Imi 


gai 




— 


titi 


tata 


tate 




— 


wai 


koxi 


xirogo 




— 


ma 








— 


kinama 


kinama 


padi 






£tidi 


rìtave 


tari 


mana 




mi 


bije ^ 


8Ì 




- 


Mha 


kikoda 


xikoba 






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mujìji 


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mogìia 




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— 








«le 


— 


na 




— 


1 iikak 


rikuli 


kaT>i 


— 


— 






11 



CAPITULO III 



CAKACTERES ETHNICOS 



Obferraf dea genje§ — Dados anatomicof « phyiico» &cerca dos povoi Taf ; cdr da pelle, 
dos olhos, dos eabellos — Algilmaa indica^ 5e8 >obre caracterei phyalologicoa ; fecnn- 
dldade, crusamentoi com outros povos afticanos oa com europeas — Bases da allmen- 
ta^io ; sua influencla — Doenfas predomiuantes — Causas de extlbc^&o das popnla^et 
— Aspocto geral ; for^a muscolar ; condi^des de resistencia k fadiga ; robuBtes rela- 
tira — ConaiderafSes aobre os caracteres e 8itaa9Jlo e condif^es de vlda de yariat 
trlbofl da Africa centrai — Coneliuòes. 




xpimdci agora o rcsultado doa 
estudoB que pude fazer aobre 
'■ varioB tjpos maÌB caractenBticoB 
de iodividuoa da:* diversas trìbuB 
da regiào que percorri, teiiho 
etu vista juatificar a codcIusIìo 
H que cliegnei pelas tradì^SeB 
e peloa caracterea ethnicos, iato 
é, que OS povos Tua tiveram 
nrigem comnium ao norte do 
Equador, afaatando-ae d'ahi por 
differente 9 iiiigrafòes para o 
planalto orientai. 

E d'eate plaoalto, por certo, 
que peloa meamoa ou por ca- 
minhos diversos, se aeguiram, corno jà tìcou dito, novaa migra- 
jBea, e por cnizamentoa com outraa gentea ae foram conati- 
tuindo as tribua que se eapalharam por toda eata vaatiaaima 
regi^, modificando-Be umos mais que outraa por differentea 
causas. 

As taodifica^Ses na conformatilo, na te:; e atnda no desen' 
volvimento mental, tornam-ae maia caractcriaticaa, bem corno 
ae differeugas uos dialectos, elitre as tribus que ae fixaram nas 



166 EXPEDiglO PORTUQUEZA AO MUATIInYUÀ 

maiores depreestles do solo do centro do Continente, se as com- 
pararmos com as que continuaram a immigrar para as regiSes 
elevadas ao sul; isto é, ha maiores distinc9Òes entre todos cstes 
povos no sentido das latitudes do que no das longitudes. Gru- 
zando-se nos seus caminhos as migra98e8 de entre norte e leste 
para està regìao centrai, as correntes tomaram-se depois mais 
frequentes de leste para ceste, nSlo nltrapassando para sul as 
cordilheiras cu maiores relevos do continente, sobre as quaes 
estSo 08 grandes lagos, e que seguem depois para sudoeste até 
sul de Mossamedes. 

Os povos Tus ficaram, pois, delimitados por esses relevos 
orographicos a sul, e pelos lagos ao oriente e espalharam-se 
para o occidente até à costa, nào passando o Zaire para o 
norte. 

De certo nos seus limites de contacto se deram tambem 
cruzamentos com os povos vizinhos, que sao, sem duvida, a 
causa de niio apresentarem centraste typico que d'estes os 
differencie bastantemente. 

^Mas ainda assim, nos povos Tus, dentro dos limites que Die 
suppomos, ha dados anthropologicos e ethnicos que me impres- 
sionaram e melhor se coadunam com as condi^Ses do meio em 
que vivem; e é d'estes dados que me occupo, comparando-os 
com 08 que se teem colligido entre os povos além d'esses 
limites. 

Serei minucioso na men5ao dos seus usos, costumes e arte- 
factos, e em goral de outros caracteres ethnicos, figurando 
tambem pela photographia os typos individuaes que obtive, e 
com estes elementos tentarci corroborar as minhas asser5Òes, 
corae9ando neste capitulo pelo que respeita aos caracteres ana- 
tomicos e physicos. 

Com respeito à conforma9ao de cranio notei que em goral 
nestes povos predomina à dolichocephalia. Enti'e os Uandas, 
porém, observei cabe9as de forma mais curta ou aiTcdondadas. 

Com respeito a prognathismo é multo variavel, e se a scien- 
cia na actualidade nSo admitte a orthognatia absoluta, por 
ser principio assente que a linha sub-nasal é mais ou menos 



ETHNOGRAPHIA E HI8T0RIA 167 

inclinada sobre o plano naturai da base do cranio, devo men- 
cionar que, se o trivial entro estes povos, eram angulos infe- 
riores aos estudados na ra9a branca que variam de 76^ a 82®, 
é certo, porém, que muitos exemplares me impressionaram 
por se destacarem d'aquelles e se encontrarem nestes limites, 
sondo por consequencia superiores ao limite marcado para os 
Chinezes, 12\ 

Com effeito afigura-se-me que alguns Chins, com quem con- 
vivi seis annos, eram mais prognathas do que muitos indivi- 
duos d'estas regiSes. 

E se é caso averiguado que no oriente da Africa os seus 
habitantes sSLo menos prognathas que no occidente, pelas mi- 
nhas observa93es e pelas medidas de projecfSes que obtive 
de diversos exemplares, 70° a 80°, nSo posso deixar de con- 
cluir que se encontra entro estes povos o prognathismo inferior 
ao limite maxime conhecido actualmente para a ra9a branca 
76°,5. 

E é occasiSo de dizer que se me apresentou mais de um 
individuo de nariz aquilino e muitos de ventas ovaes e aper- 
tadas; o que porém é mais vulgar sSU) os narizes, largos na 
base, chatos ou grossos. 

Nota-se tambem que teem olhos grandes ou rasgados, ex- 
pressivos e um pouco obliquos; as palpebras grossas, por ha- 
bito mais descaidas que entro nós; arcadas zygomaticas um 
tanto angui osas; as orelhas sào grandes, sobre o rodendo, 
largas quasi em quadro; testa elevada; cabellos abundantes 
e encarapinhados ; tendo alguns individuos barba grande e 
espessa. 

Registei, comò typo goral, resto sobre o comprido, bocca 
sempre grande, labios grossos e levemente revirados, sondo 
inferior mais saliente, pescoso alto e delgado, ficando a ca- 
be9a bem posta entro os hombros. 

Quanto & estatura e outras dimensSes, nSo se verificam as 
proporyòes estabelecidas relativamente às unidades adoptadas 
nas academias de bellas artes, principalmente no que respeita 
a comprimente de bra^os, pés, distancia entro os olhos, lar- 



EXPEDIfXo POBT0G0EZA AO MDATUhvTJA 

gora da base do narìzi 
etc. ; eomtudo medimos 
alguna ladividuos, e em- 
bora registasBemos tre a 
de altura de l^^SOa 1",82, 
variaram os outroB de 
l^jGO a l^iTS, e podemos 
estabelecer corno media 
I^jGS, acima, pois, daa 
eetaturas mediaa, a par 
duB Arabes, e inferiorcB 
iln doB habitantcB da Gui- 
ni-, ciija media de altura 
conliecida é de PjTZ^, 
]-\ classificadoB naa gran- 
ih's .m altas uataturas. 

Ha typoB de urna con- 
figurafSo phyBÌca esplen- 
dida, largoB de tiombros, 
peito tambem largo e 
musculoao, um pouco ar- 
queado, pelle finiBsima ; 
as ramificasse a venoaas 
aSo chcias e aalieiites, 
ajiparecendo em relevo 
aobre aa pemaa e bra90s; 
o abdomen é um tanto 
protìraioente e largo, o 
umbigo cbeìo e saliente. 
Sobre a cireumferencia 
do abdomen, creio que, 
alòm da iniluencia quc 
^'°' — "■ ■"» - ' ncUes deve ter a irregu- 

larìdade das lioraa de refei^So e abtmdancia ou inaufficiencia 
do alimento, maia vegetai do que animai, rauito contribne 
tambem pura iado o uso firequente do vinbo da palmclra e aa 





BTHNOQBAPHU E HISTOBIA 



bebidaa fermentadas de milbo e de mei, com que em dias 
saccesBÌvoB eupprem a falta de alimentammo solida. 

Kota-Be que ob individuos que apresentam oste caracter 
mais deaenvolvido, sujeitos a prìva^iteB mais longas, adqairem 
maior curvatura lombar, tornando-se a pelle Bobre o ventre 
mnito eurugada. 

Os bra^B s3o compridos em demaaia; as mSoB relativa- 
mente pequenas ; aa pemas delgadas, tendo a rotula bem defi- 
nida, pé comprido, nSo muito largo, aa sua parte superior 
arqueado, a pianta quasi 
chata e o calcaneo pro- 
tuberante. 

NaB formaa feminl- 
nas, que mais se dea- 
taca é o Beguiute: 

Cabe^a muito rega- 
lar, um pouco deprìmida 
noe lados, cabellos abun- 
dantes e encarapinlia- 
dos, testa pequena, mas- 
seter camoso e pouco 
convexo, roste ovai ou 
redondo, de majSs pou- 
co proeminenteB, olhos 
grandes Bobre o redon- 
do e mortÌ50B. 

A cdr de pelle, forma dos labios, i 
regÌBtàmos para o sexo maaculino. 

A eatatura é pequena, poucas excedem 1"',64, podendo re- 
putar-ae a media em 1°,40 a 1°',50. pescoso é curto e grosso 
e regularmente contomado; seioa grandes, pendentea depoia 
da puberdade, turgidos anlei^ d'es3e periodo; bra^os bem 
contomadoa e roli^os ; mìos grossaa e dedos curtos ; cintura 
grossa, redo venosa sem relevo , abdomen proeminente, coxas 
grossaa e bem salientes^ nadegas vibrando ao menor contacto; 
pé pequeno e largo. 




; do nariz, comò o que 



170 EXPEDiglO PORTUQUEZA AO IfUATIÀNYUA 

O que &e toma mais notavel nas crean9a8y sSo as dimensSes 
da cabe9a em rela9&) ao delgado do pe8C090 ; a curvatura do 
peitOy que sem flexSo segue com a do ventre, formando o todo 
um abaulado muito saliente na parte inferior ao plano das per- 
nas; a grandeza e forma do umbigo corno um botSo espherico^ 
sendo mais volumoso nas crean$as das margens do Cuango, nas 
quaes chega a ter o tamanho e saliencia de uma meia laranja 
de regulares dimensSes. As mSos e pés sSo pequenos, mais pro- 
porcionados ao delgado dos bra90s e pemas de que aos seus 
comprimentos ; a grossura da coxa é muito desproporcionada 
em relagào & da pema; em geral todo o bra90 é mui delgado 
e pouco camudo, tornando -se pronunciadissimas as claviculas. 
As vertebras cervicaes, as dorsaes e as lombares^ bem comò 
stemum; distinguem-se à primeira vista, o que chega a im- 
pressionar desagradavelmente no geral das crean9a8 até aos 
oito annos, e é d'està idade em deante que principia a pro- 
nunciar-se a curvatura lombar, o que pensàmos attribuir, além 
de outras cousas, ao uso de se sentarem sobre os calcanhares, 
inclinando o corpo para a frente. 

E tambem geral serem as crean9as pouco expansivas, ti- 
moratas e apresentarem um sembiante contri stado; e isto, 
nota-se tanto mais, quanto mais se nos revela a pobreza das 
mStes e a sua nega9ao para o traballio. 

Com respeito aos velhos que conheci, notei haver grandes 
difFeren9as entre os que passaram urna vida mais attribulada 
e OS que s2lo senhores de estado, podendo, ainda assim, consi- 
derarem-se communs as modifica9oes das formas do ventre, 
que se alargou e achatou, apresentando-se a pelle corno vin- 
cada em differentes sentidos e fazendo grande numero de pre- 
gas arqueadas para baixo. Os olhos sao mais amortecidos; o 
achatamento do nariz e o alargamento das ventas sSo mais pro- 
nunciados; as orelhas affastam-se mais da cabe^a; o beÌ90 in- 
ferior é mais descaido ; o systema venoso mais em relevo ; os 
pulsos mais delgados; a curvatura lombar maior; as rotulas 
mais salientes; o pé mais espalmado, com os dedos mais des- 
unidos. 



ETHNOORAPHIA E HISTORIA 171 

Muito mais tarde que nos individuos da ra9a branca^ appa- 
rece nestes a decrepitude, a qual vae produzindo modifica9Òe8 
de formas, chegando os velhos até ao estado que se tem clas- 
sificado de mumias, isto é, sSo individuos magros; descama- 
dos, seccos, em que os ossos se distinguem um por um. 

Muitas sSo as causas que concorrem para a expressSo do 
roste, umas fixas e anatomicas, e outras moveis e physiolo- 
gicas. 

E sabido que a conformaySo da testa, o grau de saliencia 
dos globos oculares, o contraste da cor dos cabellos com a dos 
olhos, a forma das palpebra», das azas do narlz, a das ven- 
tas, dos beÌ90s, do quekxo e tambem a injec92LO dos capillares 
da pelle, o jogo dos rausculos subjacentes despertados pelo 
sentimento, tudo isto sao elementos essenciaes que muito con- 
correm para a expressSU) da physionomia, na qual se revelam 
as impressSes. 

roste, apresenta, no dizer de alguns anthropologistas, dois 
aspectos muito difFerentes — visto de perfil e visto de frente; 
mas ainda nào o caracterisam bem. 

Para o prete, por exemplo, estabelecem no primeiro caso, 
perfil: visivelmente obliquo ou pregna tha, com as mandibulas 
salientes lembrando um focinho, bei^os grossos e revirados; 
e no segundo, frente : testa curta e descaida, as faces curtas, 
as ma9Ss proeminentes e os olhos à fior do resto. 

Mas muitas excep9oes se encontram no scio do Continente 
africano, e nSto se pode aceitar corno regna o que apenas sào 
indica95es geraes. 

AH ha tambem bons exemplares do que passa comò per- 
feÌ9ao proverbiai. 

Dizem ser uma testa ampia, larga, signal de superioridade 
sobre os que a teem estreita, deprimida, e apresentam-se comò 
dÌ8tinc9ao, as testas quasi verticaes, elevadas, tendo as bos- 
sas frontaes muito pronunciadas. Nos individuos que me foi 
possivel figurar distinguem-se todos estes casos ; e ainda, o das 
testas altas e pronunciadamente convexas, que se julga uma 
anomalia, e tambem o das testas curtissimas e muito indi- 



172 



EXPEDI^aO portdgueza ao muatunvca 



aadas para trde, qunsì nào se distìnguindo as boBBaa, caracter 
que ae attribue aos idiotaa. 

N3o eiTou, tiem aìnda phantasioa Livingatonc, quando disse 
ter encoutrado no occidente do Tanganiua, e principalmente 
no Cazembe, individuos de cor negra desvanecida, com pouco 
prognathismo, de narìz caucaBÌco e cabe9aB regulares, t5o bel- 
las corno ae encontram em quttlquer reimiìlo de europeua. 




Entre estes povoB noteì testaa que se confundem com as que 
caracterÌBam o typo europeu — grandca, cheiaa, inclinando li- 
geiramente para tràa deacrevendo lurga curva, com aa boBBaa 
um tanto eicvadas, e bem pronunctadaa aa arcadaa em que as- 
sentam aa aobrancellias, tornando as orbitas profundaa. 

Mas catea caracterea nuo aào pccuIiareB a urna tribù, poia 
se encontram geralmento — teatas perto da vertica! ; aa obli- 
qua» com differentcB gi'auB de inclinaySo ; aa eatrcitas, aa lar- 
gaa, aa arredondadaa a aa deprimidaa ; as orbìtas salìentes, aa 
que nSo aobreaaem à linha da teata, e aa encovadas. 





ETHSOGKAPIIIA E mSTORIA 



173 



Nelles Téem-se tambom as aberturas das paìpebraB rnsga- 
das, deade a forma de urna amendoa, até ao redondo da parte 
mais eatreita de iim ovo ; variando ein tamanho o globo ocular, 
havendo-08 grandes ; e a raiz do narìz mais oii menos profiinda. 

E no nariz, ainda aasim, que ha mais uniformidade entre 
estea povos, deetaeando-se a largura na baae entre as ventas, 
que em alguna cliega a Bcr igual d altura, de modo que a sua 

projec^So aera um f riangulo muito - ^ 

proximo do equilatero. A quebra, 
Bendo pronunciada, dà aoa nari- 
zes aspecto tubercidi forme, forma 
està, que mais se yè aquem do 
Cuango. 

Aa ventas aSo largaa, haven- 
do-as arredondadaa, aa azas do 
nariz aSo coi-nudaa mna miùto 
moveia. A dilata^So e contraevo 
d'esta£, que entre ni^a se consi- 
dera corno caso excepcional, 
nestes povos é tSo pronunciada, 
que no momento em que aSio 
contrariadoa li.igo ae manifesta 
dando ds pliysionomias aspecto • 
feroz. 

O intervalli) ocular, aendo 
igual, na innior parte dos typos, 
& baae do nnrlz, impresaiona-nos 
pelo destiique d'aquellea em que 
esse intervallo ó menor, ainda aaaim, superior aoa do typo 
europeu. Maa eataa ditferenjaa, bem corno as da harmonia en- 
tre o cranio e a face, podem considerar-ae cxcepfSea corno aa 
ha em outras ra^aa jd estudadas. 

Ab orelhas em todos os individuos figuradoa, vè-ae bem que 
n^ silo caracter diatinctivo ; podendo apresentar-se comò typo, 
para todos, as orelhas corapridaa e largas, aendo a sua projec- 
;Ao a de um ovo em que a parte superior maia larga é urna 




I 



< 



176 



EXPEDigXO POETUGOEZA AO MUATliSVUA 



Do cruzamento de diversaa tribus, cujob antepaseados per- 
manecessem em localidades tduUo diversaa e dietantes, e ainda 
da infiuencia dos meios, devcm ter resultado de certo oa tona 
de cOr negra qiie se encontram nesta regiSo; e repìto que 
se dcstacam mais eaaea tons no sentido daa latitudes, podendo 




affinnar-Be que è mais ctara a cCr da pelle a contar do Cassai 
ao Liialaba e mais escura do Cuango para a costa, sendo certo 
que OS Chitangues e os povoa do Mai {Lubas e Congos) e 
Uandas ao norte, os Luenas e outroa Quiùcos do sul tambem 
sSo bastante escuros, o que rem con£rmar que as tribus na« 
vtzinhan^as dos pantanos ou em menores altitudea teem a c6r 
da pelle mais caiTegada. 




ETHKOGBAPHIA E HlSTOKtA 



177 



À coloratilo da pelle varia em tons, seodu o tundo negro 
menoB ou mais carregado ató ao retintit, pnrccendo entrar na 
Bua compoBÌgSo o vermelho com amarello em differontes pro- 
porfSes, e fica-Be em duvida sobre a claBaifica^iio a dar aa co- 
rea mcnoB carregadaB do negro, se de bronze, choeolate em 
pasta, café moido, ou castauho eacura. Os tons sSo miii diver- 
sos, mas a colora^So avcrmclhada predomina nas regiSes mais 
eleradas, naquellas em que o 
ferro abiu]da,3emquanto nas 
mms baixas o fuodo ;negro ó 
manifesto. 

N3o me admira pois que 
nas regiSes do norte, aa mais 
baixaa e junto ao lìttoral, se 
encontrem os in di gè nas du 
cdr negra mais retinta. 

A cor dos ollios varia do 
castanho, em que ha muitoa 
tons, até ao preto, que nSo i 
trivial, e comò sobresae A cor 
da pelle, illude, iìgurando-se- 
nos Berem os olhos pretos: 
refiro-rae ao circulo exterior ^—^^13 
do iris, pois que interior é 
mais claro. A cor da cscle- 
rotica Dito é perfeitamente 
branca, e entro diversaa tri- 

biiB que habitam a regiSo que visitei encontràmo-Ia até de um 
amarello pallido. 

Regiatei corno notavel, que ob homena e mulheres tinham 
em geral boa vista, nSo precisaDdo de a auxilìar para verem 
perto ou a grandes distancias, poia que as lunetas que para 
aquelle fim eu usava, experi mentadas por elles, nào foram cu- 
bi^adas, por nSo Ibes encontrarem preatimo algum. Entre mui- 
tos individuoB que tiveram curioaidade de ver ao longe pelos 
nossoB binoculos de bom alcance, devidameate graduadoa ape- 




178 



liXl'EDiglo POKTUGUEZA AO MUATIÀNVOA 



k 



nas tree mostraram aprecid-loa, dÌzGudo-me a maiorìa nilci ve- 
rom mellior coni tal auxìliar, do que vium a olho desarmado. 

Os cabelloB aSo lanosos, em alguns mais fiuoa e male ou me- 
noB encrespados, rijoB, de forma achatada, tendendo a cnro- 
lar-se em espirai; a sua cor varia de preto fueco até ao ne- 
gro, mas varia muito pouco; estd no caso doa olhos. Aa c6- 
ree claras de cautanbo e louro d3o as vi ; os caaos de corea 
escuras, atirando para cattonbo ou para amarellado ou averme- 
Ihado foram mui poucos. Os cabellos maìa claroa bSo tambem 
caracteristìco naa regiSes mais elevadas; todavia so collocando 
a par exemplares d'cssas rcgiSes se destaca este caracter. À 
primeira vJata é diflìcil a diatinc^iio por canea das materias gor- 
durosas com que ob empastam. 

Vi poucoB indigeuas de cabellos nissos ou brancos, o que in- 
dica quo rosistem por mais tempo à in£uencia do meio que os 
europeus, que obi embranquecem rapidamente. Tambem as 
calvas sBio raras e sii ao vèeni em individuos de multa idade, 
cmquauto no europeii se torna uotavel a quóda do cabello e 
mesmo a calvicie em qualquer idade, muitu principalmente de- 
pois das primeiraa febres, e se o individuo fica sujeito apenaa 
oca recm'sos alimenticioa das localidades. 

Ob pelloa no corpo rareiam aobre o ventre, brajoB e pemas 
e pode dizer-Be que aào muito poucos os individuos que ob 
teem nas costas, pclto e bombros. E possivel que para isso 
tenbam coutribuido as substanciaB com que untam o corpo e o 
babito de doi-mirem junto dos braseiroB, e mesmo na ausencia 
du Bol nilo dispensarem eaaes braaeiros, em tomo dos quaea 
se reunem, sustentando-os em chammaB, pois a pelle, princi- 
palmente nas pernaa, apresenta-sc creatada e sem o brilbo e 
finura que se nota noa bra^os. 

Em todaa aa tribus ee véem individuoa barbadoa, e se nSo é 
frequente o uso do bigode è porque o rapam. Geralmente iiaam 
o que nÓB cbamàmoa pera, o esla bastante comprida, a qual 
entranyam e dobram para a parte anterior, atnndo-a inferior- 
mente, um puuco acima do dobrado, de modo que a fazem ter- 
minar numa eapecie de botSo, 




ETNOGRAPHIA E HISTORIA 179 

Os homens velhos; especialmenté os potentados^ fazem gala 
em ter graudes peras; tornaudo-as o mais compridas que Ihes 
é possivel^ e nisto se assemelham aos Chins. Augmentam-nas 
com uin cordSlo, que revestem de crescentes, adelga9ando-as 
para a parte inferior ou enfiando-lhe grandes contas que aper- 
tam de encontro aos cabéllos que possuem junto à barba^ e 
sustentam as fiadas, inferiormente, por um nò de que saem 
alguns cabellos para illusSo. 

Pelos cabellos se conhece a tribù a que um individuo per- 
tence; n&o so pelo crespo e encarapinKado d'elles, comò ainda 
pela sua quantidade^ comprimente e pelo modo de os compor 
ou pentear, que se pode considerar um caracter ethnico. 

Pelas impressSes que me deixaram os caracteres physiologì- 
cos nos povos com quem convivi, posso dizer que a sua vida 
media està multo abaixo do que se attribue a diversos povos 
da ra9a negra, o que creio sei a devido às influencias dos melos 
physicos e sociologicos em que vivem. 

A indolencia, o torpor, a preguiya, a repugnancia ou nega- 
9S0 ao trabalho, emfim a ignorancia, atrophiando-os e concor- 
rendo para os tornar de uma submissSLo extrema, nao Ihes per- 
mitte cultivo da intelligencia. NSo sabem sequer corno evitar 
as causas de doen9as. As luctas e guerras que se succedem 
pelo desejo de imia melhor existencia, do que a que teem 
nos logares que abandonam, sao raotivos de extinc9So ou ex- 
pulsSo dos povos mais desfavorecidos. E, finalmente, abandono 
e isolamento em que os teem deixado as na93es civilisadas, que 
outr'ora exploraram o que havia de melhor em suas terras, 
mais teem concorrido para as pessimas condÌ95es sociaes em 
que vivem estas tribus. 

A mulher entra num estado decadente e enfraquece ali multo 
mais rapidamente que entre outras ra9as, porque nSo so se des- 
envolve multo mais cedo, mas tambem muito antes da epocha 
propria é arrastada aos prazeres sexuaes, e todo organismo 
de certo se deve resentir muito d'isso. 

Em geral entre estes povos, desenvolvimento do corpo, a 
mudanjA de dentÌ9So, termo do crescimento do cerebro, o 



180 



EXPEDIflO PORTDQtJEZA AO MCATlXnVDA 



apparecimento dos dentea chamadoB do aizo, o deaenvolvimento 
dos ossos longos, a nienstrua9Ììo, dj-se muito mais cedo do 
que é usuai entre nus. cmbranquecimento e queda dos ca- 
belluB e a perda doe dcntes veem ao contrario milito mais tarde. 
A menatruagSo apparece em geral na idade que julgo nao 
Ber Bupcrior a dez antios; mas aqui o activar-se està funcjSo 




vital pode attribuir-se ao color, porquo a alimentammo é em re- 
gra insufficiente. 

Apesar da falta dos cuidadoB mais elementares, a mullier 
concebe com facilidado e a procreagào é grande, Na Expe- 
dÌ9fto sob meu commando registaram-se os seguintes eaaoa de 
fecimdidade : Rosa, cm trinta mezes teve tre» filhos, Maria, em 
quinze, tres, Bendo doÌB gemeoa, Cabuiza, em vinte mezes, dois. 



I 




ETBNOGRAPHIA E BISTORTA 



Vem a proposito narrar 
que na estasilo Conde de 
Ficai ho, & margem do 
Cliiiinibiie, recebi por in- 
termedio de um Ambanza 
(Bàngala) uni agradeci- 
mento do Caungula, po- 
tentado proximo & eBta9So 
Luciano Cordeiro, onde 
nos demoMnios petto de 
tres mezea porqiie: «ob 
meuB fìlhos eram multo 
posBantes e ILe deram 
fortuna para a terra, pois 
que todas as niulhcres 
estavam com as barrigaa 
cheias > . 

MaB assim corno a fe- 
cundldade e grande, a 
mortalidade naa crean^aa 
é correapondente, o quo 
nSo posso deixar de attri- 
buir & pobreza do le ite 
das mSee, por audarem 
constaatemente expostaa 
&& intemperìes, e sujeitas 
a trabalbos superiores ds 
suas for^as. Està morta- 
lidade e a aervidSo ou 
expatriagSo for^ada con- 
correm muito pai'a a de- 
panperaclo das povoa- 
9ÌlieB. 

Os criizamentos d'este 
povo com outros conhe- 
cidoB, Cafrea, Boxìmanea 




(J^ud acbweliininti) 



182 expediqIo portdgueza ao muatiastca 

e Hottentotes, ntto me parece quo se Imjam dado em grande 
escala; eomtudo a questSo das c&ree, aa fonnas nadegarias 
pronunciadae, meemo alguns tragoB pliysioDomìcoa, fazem 
lembrar ty^i d'aquelles povos, e é ente «m caso que nierece 
ser estudado. 

Os cruzamentOB de eiiropeua com os indigenaa, jA da provin- 
cia de Angola, jil mesmo de fora e que para lil teem entrado, 
é asBumpto importante para ser devidamente estudado, pois 
que ha os elcmentos indispenaaveis ao alcauce das auctoridades 
competentes da provincia, e eu neata occasiilo apenas poderia 
dizer o que jà é notorio, a saber: — que nao lem esse cruza- 
mento sido fecundo, corno era de esperar, considerando o 
longo periodo em que para està parte do continente teem 
atHuido OS Portuguezes, , 

Conheyo cruzamentos de mulatos de Ambaca, de Pungo An- 
dongo, e mesmo de Malanje, com mulheres d'estes povos até 
à segunda gera;3o. 

Mas com estes temos a attender Ab mudanjas de meio, de 
alimenta^'So, de resguardos e condijSea hygienicas mais favo- 
raveis. 

Os pretos d'estaa proveniencias cruzam-se bem com aa mu- 
lheres da Lunda. 

E par» notar que os Bàngalas e Quiòcos, buscando as mu- 
lheres l'dtre 03 Lundaa, teem procreado m^lhor deacendencia 
que oa Jjundaa entre si, nao so com reapeito ao deaenvolvi- 
mento uà infancìa, corno & actividade que depois adquirem. 
Ora, couveneido, comò eatou, pelaa tradi^'Ses e linguas, que 
Bàngalas, Quiòcos e Lundas siìo urna e a meema familia, aó 
posso attribuir laes vantagena a terem methorado de condi- 
93es de vida as mulherea com reapeito a alimentajao e estima, 
e porque aeua filhos deixnm de viver corno na Lunda nas con- 
di^Bes humilhantea de servirem para aa trocaa por alimentos 
e outroB objectOB de primeira neceasidade, aendo aira creadas 
para, depoìa de urna certa idade, auxiliarem scus paes na co^a, 
lavoura e negocio, até poderem constituir familia e trabalba- 
rem entSo para a sustentar. 




^ 



ETKOGRAPHIA E HI8T0RIA 183 

. ■ ' ■■ 

As tiniSes consanguineas pertencem ao numero das causas 
deprìmentes que mais A(^ uccentuam entro estes povos^ e con- 
ven90-me de que ainda o s^o mais do que na ra9a europea. 
D'estas uniSes se deriva o quasi atrophiam^nto em que os ve- 
mos. £ dos seus usos a polygamia até com parentes muito 
proximos. 

Nas cortes dos potentados a maior riqueza d'elles consiste 
em terem muitos filhos de diversas mulheres, e na Limda^ 
com excep9§o dos fìIhos das consideradas primeiras mulheres, 
e com excepgSo d'estas, conservam os demais comò moeda, 
que em occasiSio opportuna vae passando de mSo em mào. 

A base da alimenta9ao de todos os povos^ que julguei mais 
acertado denominar Tus ou Antus, é a mandioca^, e depois 
milho, amendoim e feijSo. O que antes Ihes servìria de base, 
nSo diz a tradÌ9àO; pois muitos velhos consulte! a tal respeito. 

Com excep9So dos milhos, a refeÌ9So mais usuai consiste nas 
folhas d'estas plantas, pisadas ou n^o, cozidas em agua simples 
ou com tempero de sai ou pimentinhas e azeite de palma em 
massa ou jà liquefeito, e da raiz da mandioca, moida depois 
de devìdamente preparada e amassada em agua a ferver. 

Os milhos, refiro-me aos vulgares na Europa e aos espe- 
ciaes, conhecidos por massango, cazaca e catonfìe^ ou os 
comem cozidos em agua ou torrados ao fogo e tambem redu- 
zidos a farinha, a qual depois de fervida em agua, se toma, 
segundo a quantidade d'està, em purè ou em massa. Com o 
cazaca fazem um acepipe agradavel, mas que por ser irritante 
se toma so em pequena quantidade. E pisado este milho em 
um gral juntamente com pimentinhas, e essa massa é cozida 
em agua e sai. 



1 Tratando da agri cultura e outras industrias darei noticia do modo 
de piantar e preparar a mandioca. 

2 O massango tem o grào de forma redonda, de cor clara, e de gran- 
deza nào superior & pimenta da India. Os outros sSo de cor mais escura 
e de maior diametro, sendo o inferior o catonde que faz lembrar o pain^. 



184 



EXPEDIfJtO POBTDGUEZA AO MUATIÀSVUA 



Tambem a jinffuba, ou o fructo de urna arvore que milito 
se Ihe asfiomelha, mas de bago niaior, faz parte da alinienta^So, 
cozida em agua, com ou aem tempero, e tambem bc usa cnia 
ou torrada. 

Toda a carne de ca^a, uicamo era estado de decomposi^lto, 
Oli o peixe, haveodo-o, a^ manjaros predilectoa. Aa carnea doB 
animaci^ qtie nos sSo domeaticos conaideraia-ee raridades na 
atimenta^So d'esies povoa, 
até meanio aa gallinliaa, e 
iato pela almples ra?:i[o de 
que quem possue estes ani- 
maca tem sempre lima ea- 
peran^a de oa negocinr, 
com alguma commitiva que 
appare^, por fazendas, 
missangaa, polvora e es- 
pi ngardas. 

Nga vcgetaes encontram 
oUfa 11 m (grande numero 
de pianta» que Ihes fome- 
cem folhaa, que cozera ou 
guisam, e tambem fructas, 
alguma a mai a ou menoa 
acidaa. 

Oa cogumelloB frescos 
oa seccoB, poÌB ha-os de 
differentcB grandezaa ató & 
de 0^,50 ou mais de dia- 
metro, na estajSo propria, 
B&o um grande conductd que suppre a carencia de carne ou 
de peixe. 

Na falla frequente de outros recursos alimentarea, ou quando 
nBo tenKam com que comprar a carne ou peixe quo appareee, 
preferem corner oa ratoa, os palmite a ou lagartos das arvo- 
res, OB gafanhotOB, aa formigas, etc., a matar qualquer animai 
domestico que possuam. 




I 




ETHNOGRAPnlA E HISTORIA 



185 



E é notavel que, com excep^Slo doB Bangnlaa, nSo comam 
carne de c3o domcBtico, emquaDto eBtea os levam nas commiti- 
vas de commercio corno reciirao na falla de outras cames. 

Em occasiSes critìcaa vi oa naturaea procurando plantas ao- 
lanaceas, e escavarem as terras até extrahirem tuberas, que 
coziam em agua, quando aa reconheciam comò boaB, aeodo ma- 
gnificos o cassddi e cazuiiiiì, da forma de um rhombocdro, 
com caaca de cOr eaeura, angulos aalienteB, interiormente de 
cfir branca atirando para vermeiho, tendo n cassddi o aabor da 
batata do reino, das nào 
farìnaceaa, e aendo o ca- 
zumbi mais acido maa me- 
noB agrada vel ao paladar. 

A falla de aal desde o 
Citango até ao Lnbilàxi é 
aenaìvel, e os reaiduoa da 
queima de capìna especiacs, 
que algiimaa tribù a procii- 
ram para o supprìr, nùo 
eatiafaz. Eu creio mesmo 
que eata falta é o motivo 
de em alguna pontos os 
povos maatigarem e engu- 
lirem frequentemente as 
terraa ferruginoaaa. 

Das palmeiras e do lu- 
UmJie («bordUoB) extrahem 

ellea o succo que deixam fermentar, e com eale se embriagam 
facibnente, e na sua falla tambem os milboa e mei Ihe prò- 
porcionam bebidaa fermentadas, quo aìnda maia os excìtam 
na embriagucz. 

Um Quióco daa raargens do Chìcapa, que mantinba rela5(!>eB 
com urna das caaaa de um negociante portuguez em Benguella, 
trottxe de là um alambique pequeno e jà fazia um bello alcool 
do mei, a que addìcionava alguma esaencia, obtendo licores 
agradaveia, mas fortea. Sabendo que a Expedì^So eatava nos 




I 




EXPEDI^SO POBTUQUEZA AO HDATIINVUA 



passado o Cuango; è certo porém qne a forno» encoutrar, logo 
qua passHinoH o Cassai em terraa por onde mio teem transttado 
as caravanas de conimercio, deade o rio Caiinguéji até ;lmuB- 
suniba do Cal&nhi. 

Tanto Desta miiasumba, corno iias outraa até ao no Luisa, 
tambem era voz geral, qiie a varìola por ahi se desenvolvém 
depoie de 1884, e una diziam ter apparecìdo com as gaeiras 
do8 QuiScoB, e outros qae 
tinlia sido trazida das mar- 
gens do Lubiltisi pelo Mua- 
tìànTua interino Mucanza. 

As tcndencias supersticio- 
aaB d'eates povos levavam-oa ft 
acreditar, que oate tilho de 
Muatiànvua, cbamado a to- 
rnar interi namente as redoaa 
da governa9lio, recoando qne 
a gente da córto procurasse 
um pretesto para o matar, 
trauxera cnnifiigo uma caveìra 
de lun guerreiro que continha 
um feiti^o liquido, que fóra 
eapargindo pelo transito até 
& muasumba, e que os ventoa 
transportaram esse mal para 
' as povoa^Òes lundaa a oeate, 
desenvolvendO'Se d'ahì até As 
margena do Cassai. 
È a variola a doen5a que os negros mais temem. Nao resta 
duvida, porém, que tanto està comò qualquer outra molestia 
contagiosa, se deve desenvolver aquì e em qualquer regiHo do 
Continente, em que os cadaverea das victimaa ficam insepuItoSf 
expostos ao tempo, esperando que aa feras os despedacem e 
devorem, ou as chuvas levcm os seus reatos para aa deprea- 
aSes do terreno, em que mais tarde uma vegeta^So esube- 
rante OS esconde à vista doa viandantes. 






ETHN06HAPHIA E HISTOKIA 



A3 hepatites &3o rarae, a fobre amarella niLo sb conhece; em 
compensu^So oa embarajos gastricoa aSo frequenteB e constan- 
tes aa febrea endcniicaa. 

Nesta regiilo s5o raroa os ÌndÌvÌduoB aleijados oii defoituo- 
sus de na^ccD^a. 

Oom rcspeito a cicatrizes nota-se quo, se a (.'daga offende a 
derme, bSo estaB relativamente GBbi'anqiiÌ9adas em rela^So com 
a c6r negra que aa ro- 
deia; se affecta ligei- 
ramente a auperficie 
aa coaturas qiic dcpoia 
apparecem, s!In maia 
cscuraB, que o normal 
da pelle. 

Mas eataa obaerva- 
ySea foram geriies com 
respeito a todaa as tri- 
bua, e se alguma dìa- 
tincfSo pode fazer-ae, 
é que se pronunciain 
mais as doen^aa )i:: 
epoclia das grandi s 
chuvaa do que na das 
menores tcmpcraturas, 
de maio a outubro; v, 
que mai a soffrem d'el- 
las 08 povoB que habi- 
tam naa regiSea baixas, e d'eatea mais os que demoram ao 
norte, nas terras paatanoaas. 

Se outr'ora era lenta e meemo inseBSivel a bcqKo das causai 
de extinc^ao das popula^Ses lundas do Muatiànvua, toma-ae 
ella hoje bem patente quando se confronta o eatado da refe- 
nda populafSo com o das trìbua, que nos limites meridìonaes 
dos dominios d'aquelle potentado, ae foram de Ben voi vendo, iato 
devìdo a influencìn exercida pcloa Portuguezes noa coattuneB 
e civilisa^So d'easaa trìbus. 




190 EXFEDI^20.P0KT1J0U£ZA AO UOATIÌNVTA 

As lucta» guerreiras, a peate, a gruude mortalidade das 
crean^aBj etn&u a escravid3o em beneficio de gentcs estranhas 
multo coutribuem para a extinc9ào dos povo» que se deixaram 
ein atraso, e permaiiccem sem saber cumo empregar a sua acti- 
vidade para luctarem eom vantagem pela vida, 

Fara fallar do aspecto geral doB povoB Tua, devo primeiro 
considerà-los sujeitos à inSuencia do meiu em que vivem, 
porque este directa oii indircctamentc modifica o modo de Ber 
do organismo. 

A3 ahitudes, aB temperaturas elevodas e a melhor alimen- 
ta^So influem considera veemente Bobre as eBtaturas. Aa maÌo- 
rcB que registei eram sempre do tribus quo viobam do sul. Os 
Chilangues, Tuoongos, Uaudas e ob individuos do Congo que 
eativeram uo servilo da Expcdi^'So s3lo gente que considero 
de menor eetatura em rolajào à das outras tribus que conheci. 

Apeaar de havcr entre os Lundas individuos que se podem 
considerar de boa, e em mèdia de regular eatatura, os que 
rodeavani o Muatianvua e elle proprio dizlam, que os bomens 
de Malanje e de Loanda, que faziam parte da ExpedipFio, eram 
muito altoB e robuBtoe. 

Ab alturas a&ù cmm tuee que devcssem eausar admira93o, 
mas iste eó prova que ^ntre elles o regular dSlo é a grande 
cstatura. Comiudo-OB Cossas de Xacambunje e os NungoB de 
Quibungo a sul, bera corno ob Qhìòcob de Quisaéngue, ob Lue- 
nas, OS AngombcB e os Bienos que me appareceram cm levas 
tìnham em geral boa altura e eram tambem robustos e desen- 
vulvidos, para o qué ob favoreciam as maiores altìtudca em que 
vivem e a melhor alimenta^-ào, e para os quacB a carne nSo é, 
comò entre os povos coni quera convivi, urna raridade. 

E certo tambem, que nas povoa^Ses de raaior importancia 
pela popuIa^So, pelea trabalhoa agricolas e pela crea^Ko do ani- 
maea, iato é, naa consideradaa de maìor riqueza, ee encontram 
OB exemplarea de maior estatura, desenvolvimeuto e nutrÌ9So 

Se compararir.os os typoa figurados que conhcci eom ob 
eatudados pelea exploradorea e viajantea ao norte do Equador 
para leste, veremos que ha, entre todos, grande analogia de 





ETUNOGBAPHIA E HISTOKIA WU 

^M^— ^^■^^^^^^— ■■■■ — — ■ ■ ■ ■■■■■-■■-■■■ ■■■ „ ^^i^^^i^ 

caracteres. E seni duvida isto é devido à origem communi | à 
hereditariedade, forga que fixa e transmitte os caracterqsvjà 
adquiridoBy à influencia dos ineios^ e^ em geral^ ès condÌ95es 
da ra9a, cuja evolugUo no espa90 e no tempo, nSo pode dedzar 
de ser subordinada a essa influencia. 

Asaim notam-se as differen9as de cores menos carregadas 
nas terras elevadas em rela9ào és baixas^ nos terrenos ferru- 
ginosos em rela9ào aos palustres. Mudam as condÌ95es hjgie- 
nicas para um individuo: muda este de localidade paraonde 
disfructa mais saude^ toma-se a sua cor mais negra. 

Com respeito aos cabellos, o clima nSo deixa de influir em 
OS tornar mais ou menos crespos. Ha mais calor^ menos humi- 
dade^ o cabello enrola-se mais, emmaranha-se mesmo. 

Nas terras lodosas, ou baixas, encontram-se individuos com 
OS cabellos mais espessos e encarapinhados que nas terras 
mais aridas e elevadas; quanto mais para sul mais elles se 
tornam flexiveis e teem maior crescimento. 

As tran9as grossas e compridas, sondo frequentes entro o 
Chicapa e Lualaba, tornam-se mais notaveis pelas dimensòes, 
finura e encrespado, quanto mais se anda para o sul. 

Os povos de Quimbundo, e os Nungos, Cossas e Luenas 
foram aquelies que mais me impressionaram pela grandeza 
das tran9as. 

Os Lundas na regiao centrai usam o cabello cortado; em 
algumas tribus vizinhas de Quiòcos véem-se, poróm, indivi- 
duos de tran9as delgadas e curtas. Os Bàngalas usam tam- 
bem cabello cortado, mas os seus vizinhos ao norte, entro o 
Lui e Cuango, os longos, Holos, Cobos e os Hàris, rapam 
o cabello em partes, de modo que, dando aos penteados diver- 
sos feitios, tomam as cabe9as aspectos extra vagantes. 

As mulheres em goral usam as tran9as delgadas; porém na 
Lunda, as filhas do Muatiànvua e as primeiras mulheres de 
potentados de maior gradua9ào costumam rapar os cabellos 
adeante, até urna certa altura, para dar maior amplitude às 
testas e de modo que os cabellos apresentam-se pela &ente 
dispostos em forma de resplendor e atràs caem em tran9as. 



192 



ESPEDlfAO PORTirCUKZA AO MUATIANVUA 




NaB creangas é frequente o Gabello todo cortado rente oa 
por partee, comò }& disse, bob povoa daa margeuB do Lui. 

A oraamenta^iilo dos cabellos é usuili tanto noe honiens comò 
nas mullieres, e para isso langam mìo de misaangaB, contaria, 
fhapas 01] cauudoa de metal, preferindo o amareilo, e tambem i 
de alguuB pequenoB fructos, depois de eeccoB, e que furam 
para nellea enfiarem as extremidades das trangaa. 

Tanto OS homens corno as midheres sujeitaui 03 penteados 
a modelos mais ou menos capriclioBos, untando as cabog^s com * 
mate ri as gorduroaas, em 
que muitas veze» mistu- 
ram barro verniellio. 

As gravuras doa diver- 
Bos individuos, nito bó neste 
comò uofi outroa volumes 
relativos à nossa Expedi- 
5?to, mostrara a variedade 
de penteadoB e sua oma- 
raenta^aio, mais frequente 
em todas as tribiis a, que 
me refiro. 

Foi nas menorcB altitu- 
des, à mcdida que cami- 
skì»?-*. nhei para centro do 
Uontinente, que se me 
apresentaram individuos dispondo de menos for^a muscular. 
Assim 09 Xinje» foram os que reputeì corno mais fracos. MuitoB 
nSo agucntavam urna marcba de duas horas com urna carga 
de 30 kilogrammas. 

K3io teem estes povos alimenta^So inferior aos Lundas^ e 
d'estes os que vivem era condigSes mais deafavoraveia resia- ' 
tem multo mais &a niarchas e supportam maiores cargas, o 
que nSo posso deixar de attribuir às in£uencias das localida- 
des em que vivcm. 

Ha trlbus qiie se destacam pela sua robustez, desenvolvi- 
mento pbysico e vivacidade, por esemplo ob QuiScos em rela- ^ 




à 



ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 



193 



;So ao8 Liindas e entre aquelles os do sul com rela^So aos do 
norte. Este desenvolvimento o meamo actividade toraam-se 
mais "sensi veis quando transinittem noticìas ou fallam de qual- 
quer asaumpto qiie ìhe merc^Ji interesse e tambeni quando 
v!to em marchaB. E pai-a admirar que alguna andein em diae 
BuccessÌTOB dozc e mais legnas em cada dia, rilUatido npenas 
urna ou outra raiz de mandioca ou cernendo a]j»iim pedalo de 
infunde frio, ou jinguba meamo crua se a obteem. Conside- 
ram-ae muito felizes os que encontram milho pelo caminho 
ou quem Ihcs de urna caneca 
de malufo ou outra qualquer 
bebida fermentada. 

Onde se notam mais as mo- 
dÌfica9Scs pliysicas é naa per- 
nas e bra90B, que se arqueiani. 
Esse arqueaniento é naa per- 
nas para a frente, o que Ihcs 
&cilita o andar, e noa bra^os 
para os ladoa, devido aos exer- 
(ùcioB da ca9a, jà com ns facas, 
j jà com outraB armas. 

Com respeito a robustez, ' 
nota-ae que varia na rasào dì- 
reeta d'estas modifica53e8 e da 
Bctividade, que teem adquirido. 

As mart'haB do» Lundas que 
demoram a le»te do Cassai, e 
' aa doB Quiócos aiaÌB do sul sSlo sempre feitas em passo que 
I denominàmoB de gymnastica, e s3o sempre muito rapidas. 

Com urna espingarda ao hombro, e apenaa cobcrtos com urna 
pelle adeante e outra atrus, suspenaas à. cintura de modo que 
OS morimentos das pernas fìquem livree, andam legua^ e leguas. 
Ha individuos que num dia percoiTem extensSes de dezeaeis a 
dezoito leguas. 

A nosBa Expedi^So teve a seu servilo um rapaz que, partindo 
L ouma madrugada da Esta9So Paiva de Andrada, no dia seguinte 




^ 



1 



194 expediqXo poRTuauEZA AO muatiAnvua 



àntes do sol posto estava em Malanje ; tinha andado trinta e 
sete leguas, e dSo andou de noite. 

Os Lundas que mais andavam, quando se tratava de urna 
diligencia urgente, diziam que n^o podiam competir com elle, 
porque Muene Puto fizera d'elle um passaro. Este rapaz era 
do interior, porém desde creanza que vivia na nossa provincia, 

Pode dizer-se que os povos do planalto Occidental vSo de- 
crescendo em robustez para a costa e para a depressSo centrai, 
comò se ve pelo confronto do grande numero de individuos que 
apresentàmos; porém do Chicapa para o oriente e nessa re- 
gimo, à medida que yamos para o sul, tanto a estatura corno 
a robustez augmentam em rela9So progressiva com as altitudes. 

Entro OS QuiScos e Lundas além do Cassai notei que os 
Quiocos do sul, Luenas e Lassas sSo os que se distinguem por 
estes caracteres e seguem-se-lhes depois os Cossas, os Tabas, 
OS Bungos, e por ultimo os Lundas e Luas, entro os rios Lu- 
lùa e Cassai. 

Os narizes largos, chatos ou tuberculiformes; os olhos gran- 
des, rasgados obliquamente, os beÌ9os salientes mais grossos 
e revirados, as orelhas grandes e quasi em quadro, inclinadaB 
para a frente, as cabefas alongadas e deprimidas aos lados, 
pesco90 curto, os bra90s delgados e compridos, as maos 
grandes, os p6s largos e espalmados, mio seudo caracteres 
peculiarcs a cada ura d' estes povos, avultam entre todos, sendo 
para notar que predominam mais entre os Chilangues e Congos 
e em geral nos povos mais perto da costa occidental «io norie. 

Na Luba, regiao ao norte, encontram-se individuos com estes 
caracteres mais harmonicos ou menos desproporcionados, e por 
isso pretendem destacar-se dos Chilangues, a quem chamani 
por desprezo quipelumha (similhantes aos macacos), mas d'es- 
ses exemplares tambem os ha melhores em Mataba e nas 
margens do Lidùa e Cassai ao sul. 

Entre os Xinjes e gente de Muene Puto Cassongo, na mar- 
gem direita do Cuango, existem individuos de rosto redondo, 
e regular, de narizes achatudos e ventas um pouco elevadas e 
largas, com cabecas grandes, nao sendo as suas estaturas das 



ETHNOGBAPEU E niSTOBIA ' 195 

maiores ; mas d'estes casos, tambem se apreséntam entre indi- 
viduos mais do interior e que fazem parte da collec9So de 
representa^Ses dos individuos da ExpedÌ9So. * 

Ha quem supponha que os Balubas n^o sSo originarios do 
paìz que habitam e que teem ido para ahi do sueste. 

E de crer que iste seja verdade, emquanto'àprimeira parte 
da SUPPOSÌ9S0, porém quanto à segunda, nada prova que te- 
nha havido correntes de migra9ao dos quadrantes do sul para 
aquella regiSo, antes tudo prova contrario até a escrava- 
tura; e aquelles que assim apregoam estSo em contradic93o 
comsigo mesmos, porque fazem desapparecer os Batùas substi- 
tuìdos pelos Baeùas, que dizem vieram de noroeste, conside- 
rando-os rafa diversa dos Balubas, que creio seja verdade. 

Tambem houve jà quem suppuzesse que os Quiocos constì- 
tuiam uma ra9a diversa da dos Lundas e que viera do sul. 
Nem as tradÌ95es de uns e outros, nem os dialectos nem os ca- 
racteres physionoraicos os distinguem. 

Se alguma distine9ao ha nos Quiòcos, é na sua desenvoltura, 
actividade e no desejo de mais se approximarem de nós, des- 
tacando-se dos povos vizinhos no desenvolvimento que vSo 
tendo pelo contacto comnosco. 

Tanto estes comò os Bàngalas e os Xinjes se afastaram do 
poder absoluto do Muatiànvua^ mas isso é de moderna data e 
nimca passam além do Bié. 

Voltaram sim, comò os Bàngalas de Ambaca para Cuango; 
mas porque jà eram destros no manejo da arma de fogo, per- 
seguindo na ca9a o elephante, e confiando jd na sua supre- 
macia sobre os Lundas, foram-se fixando onde aquella ca9a 
08 convidava. 

Quiòco retrocedeu, marginando os rios que descem para 
o norte, e foi fixar-se onde Ihe conveiu, emquanto Bàngala 
tem penetrado tambem nas regiSes d'onde se expatriou, mas 
apenas por causa de negocios, e volta ao legar em que se es- 
tabeleceu nas margens do Cuango. 

Os Xinjes, so agora principiam a sair para negocio, mas 
vSo perto para nordeste, até aos Peindes; nunca foram para 



196 



EXPEOlQJlO POBTDGUEZA AO BnJATIÀNTDA 



leste porqiit! ainda receavani do poder do Muatì^vua, e iilti- 
mamente porque 03 QiiiScoa Ihes cortaram a passagem. 

Mae qiialquer d'estes povos, comò os que se dtzem aujeitOB 
ao Muatitlnvua, procede da mesiiia origem e elle» asBÌm o créem ; 
liavendo ji em todoB, (■ certo, eangiie de oulras tribus de origem 
diversa, vindas do norie, mas qiie se fixiiram em dlfferentes 
epoclms, nas locnlidades em qne aquelles aa eacontraram. 

Todas as migra95es d'ea- 
tes povos parece que se 
tcem fuito ao acaso; toda- 
via, 06 iiidividuos que vin- 
gam facilmente se domam 
a todas as coi]dÌ93es da 
Vida. 

A adapta^Bo expontanea 
d'estes povos a novas con- 
di^Scs climaterica^, pare- 
ccndo naturai e tornando ae 
um facto, nflio deixa com 
tudo ainda hoje de ser pa- 
ga li custa de grande tributo 
de dnen9as e de urna mor- 
lalidade formida^el, que 
faz crer que b3o muitos os 
naacimentos, alias j& as 
popula^Ses estariam multo 
dizimadas, eenSo extinctas. 
A mortalidade que se nota deve em grande parte attribuir- 
ae à incuria pecnliar d'estes povoa e aoa aeus poucos esfor^os 
em luctarem para melliorar aa condi^Sea da sua existcncia. 

Ainda aasim, devemoa ter em viata qne os dealocamentos 
das tribus, taes corno noB mostram as linguas e as tradigSes, 
se fizeram a pouco e pouco e foram graduaes, que é muito 
differente do que se foasem em grande escala e para maiores 
distancias, e feitoa bruscamente. De certo plienomeno de 
accommodagìlo à& localidades em que vivem se nKo tomaria 





tlo facil, porque demaia Ihes faltam oa reciirsos quo entre nós 
noB facultam a boa hygiene e os melhores resgiiardoa da Vida 
civili Bada. 

E de crer qite a transigilo de um para outro clima se nào 
fa^a sentir nestea povoa no momento em quo oa encontràmos, 
por sereni ob actuaoa cliniaa semdliantes àquelles d'onde elles 




vieram, favorecendo-oa a circmnstancìa do criizamento com oa 
pOTOs com que foram confrontar e oa precederam naa anaa 
mÌgru9Se3. 

NSo é poasivel por emquanto precisar, aem conteatajflea, qual 
aejft a ra^a doa povos Tua, porque faltam oa elomentoB easen- 
ciaea em que ae possa fiindamentar qualquer ctasaitìcagSo ; 
comtudo, animo-me a dizer que eates povos nìlo devem encor- 




198 EXPEDI^XO POIÌTUGCEZA AO MUATlASVDA 

porar-ae com oa de outras regiSes ao norte e ao sul jA cara- 
eteri sados. 

excesso do calor, urna certa faciHdade em se alimeu- 
larem, posto qiie de modo inaiifiìciente, e toda a falta de eeti- 
muloB Bociaes e iateliectuaes, teem eido as caiisas de se nSo 
exercitarem e d e se o voi ve rem oa eeus orgJtoH e faculdadee, 
corno noa povoa, mclhor e mais virilmente dirigidoa. 

Por ìbso, a compara^Xo daa formas oi'ganicas e de tudos ob 
caracteree d'eates povos, qualquer que aeja o ponto de vista 
por que encaremoa o aeu typo, deve ser feita com o maximo 
eacrupulo para ae nSo errar. E se eaaa conipara^So é difficil 
com povos do mesmo coutinente, torna-ae impossivel com oa 
povos fora d'elle, e muìto mais quando num estado adeantado 
de civilisa^So. I 

Às compara^Sea, que ae teem qucrìdo fazer, com estes ulti- 
moa, num doa seua estados primitivos, aao inacceitavcìs; porqae 
deve ser coudijSo essencial, o eatib elecer- se a ìgualdade de 
m-cumatancias, o que por ora é nSo è possivel. 

Aa eatatiaticas e oa instrumentos de observa^So, que entre os 
povos da ra^a branca a^o grandes auxiliares para ac avaliarem 
oa caracteres physiologicos doa inJividuoa, faltaram-noa aqiii, 
e por isso os nossos estudos se limitam & observayào e As ìn- 
forma^òea; a autbropometrìa, a etimologia, e o estudo da pa- 
thologia a que recorrem os antbropo logos para o conhecimento 
daa ra^-aa està aquì por fazer, tendo pois de me cìngir a um 
cu outro facto, que nào eecapou A observajào, por me ter im- 
pressionado. Como poderei ir mais al(5m? Iato é, corno fazer 
mais do que compara^Sea entre tnbus de urna dada regiito, e 
d'estaa Cora as jd estudndas além doa aeus limites, e descobrir 
pelea caracteres de sena Indlviduos mais semeihantes oa po- 
vos de quem oa devo approximar? 

Se estea jà foram clasaificados, a contraprova far-se-ha pela 
linguistica, pelos productos manufacturadoa e peloa caracteres 
doB individuos que ae comparem, tendo em attengSo as di(fe- 
rengas devidas ao tempo, da dietancias, e a outras influencias 
modificadorae. 




ETUNOGKAPHIA E HISTORIA 199 



Os cruzamentos tudo emmaranharam e confundiram, feliz- 
mente aperfeÌ9oando. que ficou de mau, iato é, os povos 
que estacionaram, os que teem permanecido num estado rela- 
tivamente mais inerte, sao os que ficaram a norte do estado 
do Muatiànvua, Nhiucas, Cliilangues, Uandas e seus vizinhos 
Binjes e Congos na margem di reità do Cassai, que o estado 
independente do Congo tenta jà submetter ao seu dominio. 

E isto mais um argumento, que nos prova que nSo foi por 
aqui o caminho das difFerentes migra9oes para a regiào cen- 
trai. As migra9oes atravessaram o Lualaba abaixo dos Lubas 
e Songos, e seguirara entre este rio e aquelles povos. 

Mas jà estariam estes na regiào que occupam entre Lulùa 
e Cassai? A tradÌ9ao so nos diz que, organisando-se o estado 
do Muatiànvua, jd là existiam. 

Por outro lado é certo que entre esses povos existe ainda 
a anthropophagia e ahi se encontram os individuos de menor 
estatura e de cabe9as pequenas e redondas. Costuraam elles 
envenenar as fleclias, e usam da lan9a comò arma commum; 
fazem a passagem dos rios por nata9ao5 trazem o traje primi- 
tivo dos tecidos de fibras de materias textis unicamente para 
cobrir as partes genitaes, ou empregam para isso as folhas de 
arbustos, ou ainda pequenas 8ec9oes de caba9as, aflFeÌ9oada8 
para esse fim e suspensas da cintura, e tambem utilisam os 
pequenos fructos seccos comò ornatos. Trabalham rudimentar- 
inente os metaes fazendo manilLas de ferro e de cobre, que 
aproveitam para as suas trocas, e tudo me leva a crer serem 
estes povos da familia dos Bongos e Acas, descriptos por 
Schweinfurth. 

Foram os povos do Muatiànvua os primeiros que os procu- 
raram e que com elles sustentaram muitas guerras, para rou- 
barem gente, ficando com as mulheres para si e vendendo os 
homens que recebiam corno parte das presas aos mercadores 
de escravos; foram tambem os povos do Muatiànvua que là 
introduziram a mandioca e alguns artigos do nesso commercio. 

Os cruzamentos que entào se deram com as mulberes 
d'aquelles povos, a julgarmos pela grande popula9ao de Ma- 



/ 



1*1)0 



i:xi'i':iiiv\i 



taba, devem ter dado bona resultados; poréiu hoje é difficil dU- 
tinguir nesta vastisfiima rcglSo os praductos d'esse cruzamentu, 
e comttido sabe-ae qu» os indigcnas d'aqiii, vSo buscar mullie- 
rea aos seus vizliihos Bliijes e Congoa. 

Nas teiras do Mai, entre os rioa Laachimo e Cliiuinbue, ha- 
via até 1887 um pequeno cstado, do Chibango, onde sotcvao 




tou a noEsa Estayào Conde de Ficaiho, qtie se constituiu com 
gente da córte do Muatiànvua e com oa Cfailangues, viziiilioB do 
nortc, e por isso Chibango era intitulado cai-uruba {kakuruba 
Ksenhor de Liibas»); e o resultado dos cruzam^ntos foi bom, 
porque este povo se distioguia pelo sen aspecto mais harmo- 
nico e agradavel il vista, e por um estado relalivameote mais 




ETUNOGRAPUIA E HISTOltlA 



201 



adeantado qtie o dos Eeus vizinLos ao nordeste, os povos de 
Tambu-iul-Cabongo. Ha a observar, porém, qtie eram infe- 
riorea aos Liuidas, qiie ali estavam provi sori a mente, chegadoa 
da córte do Muatiànvua, e tambem aos Matabas seus vizinhos 
a leste entrc o Luembe e o Cassai, e aoa Quiòcos estabelc- 
cìdoB ao aul. 




Os Lambaa de Mataba que visitilmos, e que ha vinte annos 
eram consideraJos pelos da córte do Muatiànvua comò insi- 
gnificantes, os tributarioa de eacravos e que con stantera ente 
eram cercados e perseguìdos por for^as d'aquelle soberano, 
que elles alcunharnm de amjmédes (apùedì oalguazil»), que Ihes 
destruiam as tavras o roubavam gente; nos ultinios dez annos 



1 



202 EXPEDI^IO POBTUGUEZÀ ÀO MUÀTllNVUA 

dispuzeram se a resistir a essas invasSeB, favorecendo-OB o 
estarem limitados a leste pelo Cassai e a oeste pelo Luembe. 
Os Lambas (chefes de povoafSes) dirigidas primeiro por 
Cacimco e depois por seu sobrinbo Ambiji, homem novo, 
herdeiro do potentado d'aquélle estado, conseguiram nào so 
livrar-se do jugo, mas desenvolveram as suas povoafSes pela 
lavoura e crea(8es de gado miudo. 

Os Lambas auxiliam-se defendendo-se reciprocamente, pois 
teem grande amor ao que com muito casto crearam. Receiuido 
agora dos Quiocos pelo sul, vao alliar-se com os mais fortes, 
e essas allian9as impoem-lhes tributos pesados de escravos, 
e a fim de pouparem os fiIho3 do paiz vào buscà-los aos Binjes 
do norte. 

commercio dos Bàngalas ou melhor as lazarinas e poi- 
vora que estes Ihes teem levado, animarara-os à resistencia e a 
defenderem o que teem grangeado ; porém se os Quiocos con- 
seguem o seu intento, marginarem o Luembe cortando-lhes a 
communica9ao com esses negociadores e reduzindo-os aos seus 
recursos locaes, enfraquecem-os e depois seguir-se-hSLo as cor- 
rerias, o que é para sentir ^. 

Os Ampuédes, outr'ora mais activos, foram nas suas epo- 
chas de felicidade, poueo previdentes, segando dizem os actuaes 
descendentes, e trataram a seu modo de gozar das victorias que 
alcangaram sobre os povos do norte e do oeste, consumindo o 
que encontravam. Deixaram-se, porém, ficar atràs dos que 
nuo querendo sujeitar-se ao absolutismo do Muatiànvua se ex- 
patriaram, os Bungalas e Quiocos, os quaes limitando-os pelo 
oeste e sul teem concorrido para o seu enfraquecimento. 

Os Bàngalas a troco de commercio, ha muito tempo, e os 
Quiocos nos ultimos oito annos roubaiido-os, teem trazido de 
là as melhores das suas mulheres e creanyas, para constitui- 
rem familias. 



* No voi. Ili da T)escbip<?ao da Viagem trato mais desenvolvidamentc 
d'estcs povos. 



ETHNOGRAPHIA E H18T0RIA 203 

< 

Se considerarmos os Bàngalas e Quiòcos, vemoB que sSo 
estes 08 mais favorecidos, certamente por causa das maiores 
altitudes em que vivem, apesar dos primeiros^ nas margens do 
Cuango^ estarem mais em contacto comnosco. 

Sào 08 Bàngalas atrevidos e julgam-se superlores pelos co- 
nhecimentos que vfto adquirindo com o nesso convivio ; porém 
no interior jà se temem dos Quiòcos, que ahi, nas suas terras; 
sSo mais destemidos que os primeiros. 

Os QuiScos^ à medida que se foram afastando do Andumba- 
uà-Témbue, chefe dos primeiros emigrados,,para leste e norte, 
foram-se cruzando com os Lundas de Xacambunje e de Quim- 
bundo e deram origem aos Cossas e Nungos, e estes, com os 
Quiòcos que se espalharam mais a sul^ aos Lassas, Luenas e 
Angombes. 

Entro 08 Quiocos os mais robustos, fortes, corpulentos e 
activos, sao os do sul^ e para isso muito tem coneorrido nào 
so as favoraveis circumstancias da regiao que habitam^ mas 
ainda as relagoes commerciaes que elles mesmo, libertando-se 
do jugo do Muatiànvua e depois dos seus potentados, (Muana 
Angana) teem procurado manter com o sul da nossa provincia 
de Angola. 

Sào estes os que teem animado os Quiocos do norte, os de 
Quissengue, Ambumba e Muxico, a avan9arem até a con- 
fluencia dos rios Lulùa e Cassai, e mesmo mais além, perse- 
guindo elephante, colhendo boiTaclia e trafìcando em gente. 
Como, porém, escaceassem as primeiras fontes do seu com- 
mercio ou melhor, sendo obrigados a percorrer maiores dis- 
tancias, e nSo podendo competir com a concorrencia dos alle- 
mSes à busca do marfim e da borracha, recoiTcram à astucia 
e ao roubo, aproveitando-se do enfraquecimento a que elles 
e OS Bàngalas reSuziram os Lundas e cortando-lhes as com- 
munica93es para o sul e oeste com os Portuguezes com quem 
estes ultimos commerciavam. Fazendo correrias nas melhores 
povoaySes da Lunda, chegaram ao ponto de^os annos de 
1885 a 1888 roubarem ao Muatiànvua na propria corte, as 
insignias do estado. 



:i04 EXPliJJlVÀO l-OUTUCUEZA AO MUATliNVUA 

É a parte dos povos da Lunda que se expatriou, e que se 
approximou dog Portuguozes e por coiisequencia se robuste- 
ceu, que vae fazendo desapparecer a outra parte, a que tiaha 
avanjado, conquistando povos, mas que estaciontìra, permane- 
céra em quietajSo, e se tornerà indolente por Ihe faltar o apoio 
que encontrou a prlracini, approximando-ae da civUisa^fJto. 




Desapparecem popula^cìeB de Lundas enfraquecidas, para 
iiugmcDto de popiilayScs iiovas, em que vingam os cnizamen- 
toB com melhorcs rosuJtados. 

Sào ns mulheres Lundas, mais estimadas e melhor tratadas, 
que cBtào dea en voi vendo essas novas popula^Bes, pois os QuiS- 
L-03 nilo as vendem nem OB tilbua que d'ellas teem. 

Muitos Lui^das que, em rapazes, foram comprados ou rouba- 
doa pcloB QuiòcoB, desenvolvendo-spj jà d'elles ae nio distin- 
gucm, e acompanhaiii-oa nas gazivaa. 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 205 

Apenas ao norie se mantinham, quando regressei, ob im- 
portantes dominios dos Muatas: Cumbana, Caungula e Mai 
e dos Lambas (Mataba). Por noticias, porém, que recebi ulti- 
mamente, consta-me que Cumbana e Mai n^ teem podido 
resistir à invasSo dos Quiocos. Mataba està jà cercado por 
elles e Caungula a custo se tem sustentado. 

Tambem soube que os Xinjes vào sendo aniquilados pelos 
Bàngalas e Quiocos seus vizinhos. 

Por consequencia os Quiocos divididos em pequenos estados, 
do Cuango até ao Lubilàxi, estSio senhores de todo o territo- 
rio do antigo dominio do Muatiànvua, sem que por isso dei- 
xassem de ser Lundas ou houvesse modifìca9So de raya. 

Assim comò os novos estados hSo de desenvolver-se pelas 
correrias aos povos mais atrasados do norte, de que jà fallei, 
Nhiucas, Chilangues, Uandas, Binjes e Congos, assim tam- 
bem é de esperar que tenham de resistir a grandes luctas, dos 
seus vizinhos mais a sul, os Lassas, Lucnas, Angombes e ou- 
tros, e talvez mesmo de Bienos, por nào encontrarem colloca9&o 
vantajosa entro os primeiros às mercadorias que obteem de 
Benguella. 

Mesmo que iste se de, embora desappare9am muitas das 
popula95es que se estRo formando e mais depressa do que se 
pensa, nSo ha elementos novos, n3o ha exterminio de ra9as, 
serSo sempre frac93es dos povos Tus a destruirem outras dos 
mesmos povos, que nSo teem condÌ95e8 para resistir às primei- 
ras, longe comò estSo do contacio da civiHsa9ao. 

E a ordem naturai das cousas: caem, desapparecem os mais 
fracos deante dos mais fortes, e o peor é que esse desappa- 
recimento é pelo exterminio, porque nós, que queremos fazer 
echo aos apregoados sentimentos de humanidade, preferimos 
acceitar os acontecimentos a resgatar os fracos, dando-lhes 
vida nos logares em que dominàmos. 

Concino, pertanto, das minhas ob8erva95es que os povos Tus, 
que rodeiam a regiiio deprimida do centro do Continente a sul 
do Equador, pelo oriente, sul e oeste, nas terras de maiores 
altitudes, se destacam dos que permaneceram nessa regiSo; 



206 



EXFEDI^XO POKTDGDEZA AO MDATIAnVUA 



qae easas ditleren^as se tornani mais eeneìveis no sentido das 
latìtudes qiie das longitiiilea, senlMo em que tambcm ee regip- 
tam HB maiores ilifTcreii^as de altitudes. 

Os orgSos fiuiccionando ahi mais livromente, a nllmenta^Sn 
Bendo mais reparndnrn, a villa mais loiiga, melhor resìsteoiria 
offerecem &s influeneias patliologicae, moditìcando-se alguns 
doa caracterOB ethnìcos da popHla9ÌIo pelo contacto pom os 
povoB civiliaadoM, 





CAPITULO IV 



habita(;Oes dos povos tus 



Typos das habita^oos, modo do ai conitniir o. materiaes emproj^ados ; sua divinAo interior — 
Mnssamba do Muatiànvua, seu plano e distribui^ào — Familia do Muati&nvua, digni- 
tarios e mais pcssoas da rdrte, seu» tittilos e attribnif 5es — Aocommoda^^iio d'esse peR- 
roal — Logares destinadoa aoi idolos o rospectivo culto; qualidadcs que se Ihe attri- 
buem — Monumentoi e tropheus de ra^a; coremonial obscrvado na sua installafìio — 
OflRcios manuaes e logarcs onde se exerccm — Ilabita^òes om goral de varias tribus da 
regiìlo — A niassnmba do Muati&nvua no tempo de Rodrigues Gra^ a e era tempos snb- 
sequentos — ^nfluencia civilisado: a exercida ahi pelos subditosportuguezes oriundos de 
Angola — Docadencia dos Lnndas na actnalida«Ie ; suas cannaM. 




avendo colligido o que se me 
deparou mais Dotavel sobre os 
caracteres pbysicos dos indi- 
vi duoB, e nno encontrando 
razBea que obstem a que os 
reuua em o meemo grupo 
ethnico, procurei em outroa 
caracteres, maiiifesta^Ses pe- 
las qunes piideB=e distingiiir 
typos de Iribtia ou os povos 
espccines que teem aomes 
dìverBOB. 

As tradi^Ses e os dialectos, 
qiie entram no numero d'eslas 

manifesta^Ses Btio outros tantos clementoB que corroboram a 

hypothese da constituifac das tribus por povos de diÉFerentea 

migra^Ses, pnrecendo haver entre ellas lagos que as ligam a 

urna orìgem commum. 

Investigarui, pois, tudo o que respeita ao modo de vìver 

d'esaas tribus, euas leis, ubos e costumes, organisa;3o social, 

historìa tradicional, etc. 

Ab faculdades de imitar e sperfei^oar bTIo disposÌ98eB com- 

muns a todos os horaens ; mas estas faculdades com a educa- 



210 EZPEDiglO PORTUGUEZA ÀO MUÀTIÌNVUÀ 

9X0 modificam-se, e por isso é necessario distingoir qae per- 
tence & raga e ao individuo, d'aqoillo que é proveniente da 
educa93o e outras influencias extemas. 

Os Quidcosy por exemplo, aproveitam-se ha annos da inac- 
9S0 e fraqueza em que encontraram os Lundas do Muàtiàn- 
vua depois de 1870, iato é, depois que um ambicioso filho de 
Muatiànvua, Xanama (govemador) das terras banhadas pelo 
Cassai, entre 9° e 11^ de lat. S., entendeu rivalisar em po- 
deres com Muatiànvua. Auxiliando este homem, encontraram 
mais^tarde nelle o necessario apoio para fazerem incursSes nas 
povoa98es dos Lundas, e é certo que teem conseguido trans- 
formar os costumes e modificar o aspecto das mulhcres e ado- 
lescentes que foram augmentar as suas popuIa$8es, a ponto de 
ser jà difficil distingui-Ios na tribù de Quiócos, a que perten- 
cem na actualidade. 

Entre os Bàngalas, que pela sua parte, ultimamente na 
Limda, so trocam as pacotilhas dò nesso commercio e o seu 
sai por mulheres e rapazes, succede o mesmo. 

Tambem os Ambaquistas e a gente de Pungo Àndongo, que 
na Lunda teem constituido as suas familias com mulheres do 
paiz, em pouco tempo transformam os usos e costumes que 
ellas tìnham, nos das terras de sua naturalidade. 

No littoral mesmo, ha Lundas chegados ahi de recente data 
e com multa difficuldade se podem distinguir dos nativos que 
ahi vivem. 

Mas se està tran8forma9ao se faz facilmente, é porque os 
povos entre os quaes se tem dado, nao encontram novidaderf 
de usos e costumes, e sim um aperfeijoamento dos seus. 

O que se nota é que a aptidao de se accomraodarem ao 
que convem A& suas inclinafSes e necessidades se desenvolve 
mais ou menos rapidamente, permitta-se a expressào, pelo dis- 
pertar da sua intelligencia. 

Succede, porém, que individuos que teem passado por estas 
transformajòes se ressentem ainda da educa9ao primitiva, e 
facilmente perdem o que adquirirara raelhor, quando volvem 
ao melo d'onde sairam. SSo d'isso exemplo os individuos que 



ETHUOGRAPHTA E HISTORIA 211 

a ExpedÌ9lo contratou em Loanda, alguns dos quaes para ali 
foram da Limda ainda crean9as, e mesmo carregadorcs de Ma- 
lanje da mesma proveniencia, os quaes depois de estarem am 
anno ao 8ervi90 da nossa ExpedÌ9ào, e jà do Cuango para o 
interior, quando* sujeitos so aos recursos das localidades, vol- 
taram aos seus costumes antigos. 

Homens, jà ha niuitos annos em contacto comnosco e Bujei« 
tos is nossas leis, tudo olvidavam, pelos usos do gentio! Eram 
08 primeiros a pedir os juramentos nas mais pequenas ques- 
tSes; a exigirem de terceiros, mais fracos, o reembolso do que 
entendiam extor95es praticadas por outros mais fortes; a ob- 
servarem à risca os preceìtos estabelecidos entre as tribus com 
quem conviviam ; a esquecerem-se de nós, que os alimentava- 
mos, para obedecerem aos potentados de quem se temiam; a 
illudirem-nos, intercedendo pelo gentio com quem estabeleciam 
rela95es de amizade, servindo-se da mesmas armas, o pretexto 
artificioso e a mentirà, porque, comò elles, miravam jà ao inte- 
resse ; emfim a despirem-se do vestuario a quo jà estavam cos- 
tumados; voltando facilmente ao traje antigo, das mabelas e 
peUes de animaes, e isto para terem, comò o gentio, a casa cheia 
de mulheres que os servissem. 

Rapidamente se deu com elles nao so a transforma9ao da 
linguagem nas suas compara95es, phraseologia, idiotismos, etc, 
mas até se confundiam na sua pronuncia9^o ! 

E é notavel que havendo grande ausencia de rela93es entre 
alguns d'esses individuos com os da tribù a que talvez tives- 
sem pertencido, submetteram-se, deixaram de fallar o dialecto 
a que estavam acostumados, e bastou o contacto de alguns di^ 
para se recordarem do dialecto da infancia. 

Mas isto so prova o que tenho dito, que as primeiras trans- 
forma95es se deram uSio de ra9a para ra9a, mas para tribus 
relativamente mais adeantadas, e que a educa9ao d'esses indi- 
viduos se fez brusca e for9adamente. 

Estes factos regressivos nSLo provam que os individuos a que 
me refiro nSo possam passar de um certo gran de civilisa9So 
inferior, comò se tem querido deduzir, porque estes mesmos 



212 EXPEDigZo PORTUGUEZÀ AO huatiInvua 

individuos & medida que de novo se afastavam do melo em 
quo esses factos se deram e entraram naquelle em que haviam 
jà lido urna educa9^o differente^ d'essas altera98e8 que dura- 
ram mezes apenas ficaram com as mas impressSeSy de que so 
corno reminiscencia fallavam para protestarem* ali n3o tornar, 
e procuraram ainda mais distanciar-se dos indigenas com quem 
yinham de conviver, readquirindo os seus habitos. 

Os de Loanda nem jà quizeram sujeitar-se ao servigo de 
transporte de redes nem de trabalhos domesticos, todos elles 
pediam emprego nas officinas do governo e alguns aproveita- 
vam as folgas cuidando dos seus arimos^; tambem a maior 
parte dos carregadores de Malanje deixaram os carretos para 
se dedicarem à lavoura e ao negocio de gado vaccum. 

Mas para bem apreciar o modo de ser d'estes povos nas suas 
manifesta98es intellectuaes, moraes e sociaes, isto é, para prati- 
camente reconhecermos o que ha expontaneo e naturai nessas 
manifesta$8es, eu colloco-me o mais afastado possivel da civi- 
lisagSo e longe dos limites da nossa provincia de Angola, e 
ahi encontro os povos rodeados de uma natureza mais selva- 
gem, e procuro distinguir o que possa attribuir-se jà à in- 
fluencia da civilisa9ao, e irei confrontando depoìs o que se 
observa mima tribù e nas vizinhas, até aos limites da nossa 
provincia. 

Supponho-rae pertanto, entre os Lundas, na corte do Mua- 
tiànvua, na sua miissumhaj entre os rios Luiza e Cajidixi, 
affluentes orientaes do Lulùa. 

Nrio encontro aqui os habitantes das cavernas naturaes, en- 
contro o homem levantando os abrigos para sua habita^ao, 
mais ou menos perfeitos, sendo os mais inferiores na gran- 
deza uma imita9ào das construc9oes do salale, as quaes sendo 
feitas de terra, s2lo mais solidas, e pode dizer-se que mais 
bem repartidas interiormente do que as construidas pelos indi- 
genas. 



Hortas, fazeudas. 



ETHN06RAPHIA E HISTORIA 213 

Conheci duas classes d'estas construc95es. Urna que faz 
lembrar os grandes cogumellos, nao excedendo acima do solo 
a altura de 0™,40 a O'^^òO e que estreitam na sua parte supe- 
rior para se cobrir de urna especie de chapeleta, e sSo feìtas 
com humus do sitio em que so encontram, ou de terra de allu- 
vifto que toma a consistencia do tijollo, nas con8truc9oes dos 
termites a que os pretos chamam mabuxi. 

A outra pertencem as grandes pyramides conicas que se 
véem principalmente nas florestas; sSLo de argilla vermelha, 
feitas pelo salale roedor a que se dà o nome de muquinde. 
Interiormente apresentam um labyrintho de arcadas e pilas- 
tras, lembrando os grandes edificios de cantaria com rendi- 
Ihados, em que a rainha ou mate geradora (caieque) d'essa 
infinidade de pequenos nevropteros se occulta no legar mais 
recondito. Estas construc9oe8 teem grande altura, base larga 
e terminam sempre em angulo mais ou menos agudo. 

Pode dizer-se que em qualquer d'estas liabita93es se abri- 
gam grandes tribus e por isso se véem àreas bastante consi- 
deraveis cobertas d'estes edificios, mas os dos primeiros sSo 
mais unidos. 

Quando o tempo tambem destroe estas construc9Ses, os ha- 
bitantes abandonam-as para irem levantar outras. 

As feras aproveitam as cdifica9oes abandonadas para d'ellas 
fazerem abrigo, e ha uma tribù dos Uandas que aproveita as 
grandes construc9Ses do salale nos bosques para là ir pemoi- 
tar, tendo as suas ipacas (especie de aringas) nas povoa93es 
onde vivem nas horas de repouso durante o dia.. 

Os abrigos que os indigenas fazem imitando estas edifica- 
95es, que nem mesmo de choupanas merecem o nome e que 
sfto da mais rudimentar construc9So, consistem em uma duzia 
de troncos de arvores conservando as ramifica95es e folhas 
dispostos a formar uma pyramide conica, aproveitando-se os 
troncos que tenham forquilhas para cruzamento no vertice e 
firmando-se todos inferiormente no terreno. 

Outros troncos, dispostos entro aquelles a formar a circimi- 
ierencia, firmam-se tambem na terra, sobrepondo-se às cru- 



214 EXPEDiglO FOBTUGUEZA ÀO HUATIInVUA 

zetas do8 primeiros, e depois d'iato dispSem se as raiiiifica93e8 
e fblhagens, de modo a eiitrela9arein-«e sobre este esqueleto. 

Beveste-se a obra exterìormente com ramos do folbas, e 
ainda por cima se cobre este revestìmento com feixes de ca- 
pim seccOy que se collocam de baixo para cima, no sentido da 
altura comò a telha solta num telhado; e para remate tomam 
um feixe grosso de capim, atam-no a um ter$o da altura com 
o mesmo capim, e curvando-o, v^ enfìà-lo depois no vertice 
da sua construc9ao, de modo que a parte mais alta fica para 
cima; o feixe é depois revirado, espalhado e batido, ficando 
bem assente, cobrindo por consequencia as extremidades su- 
periores do revestìmento das paredes. 

£m um dos lados d'està construcfào, geralmente do que fica 
para nascente, deixam um intervallo entro dois troncos ao rez 
do ch&o^ que nao revestem. E a communica92o unica para o 
exterior, e de tao pequena altura que por ella so se pode pas- 
sar de joelhos. 

A està habita92o chamam elles muquinde (mvJciae) que é o 
nome das construc98es feitas pelo salale. 

Actualmente o muquinde numa povoa9&) so denota desleizo 
da parte de quem o habita, cu entào, que essa residencia é 
provisoria. 

Tambem Ihe chamam chicunco {Hkvko), vocabulo cuja inter- 
pretagSo é tmetade», porque a cubagem que abrange, segundo 
elles, é metade da que tem a mucanda {mukadà). 

A mucanda «abrigo» (de kukada «abrigar») é urna habita- 
5X0, ainda multo simples, mas que jà demanda mais algum 
trabalho: os troncos com que se forma o esqueleto sao varas 
mais delgadas e flexiveis, que se collocam espetadas no solo, 
fechando um recinto mais coraprido do que largo, arqueando- 
se depois as varas de sorte a ligarem-se superiormente. 

Este conjuncto é ligado por fibras vegetaes, passando estas 
alternadamente entro as varas, nas quaes dao volta completa ; 
està arma92lo cobre-se depois com ramagens de folhas e so- 
bre esse revestimento dispSe-se capim comò ficou dito para 
o muquinde. Tem tambem uma entrada baixa. 



£THN0GRAPHU e histosia 215 

Diz-se terem sido os Cassanjes e ob Ambaqaistas os intro- 
ductores d'este aperfeigoamento, a que chamam fundo, e os 
Lundas mucanda. 

Como este vocabulo, entre nós^ està acceite por «carta» e tam- 
bem OS Lundas o empregam corno tal, procure! investigar a 
sua origem, e julgo opportuno dar conhecimento do resultado 
das minhas investiga^Ses. 

Urna eleya9So de terra, chama-se muquinde e urna montanha 
mucanda. Como estas habita98es^ pela sua forma^ depois de 
cobertas com os revestimentos, adquirem urna configurammo 
irregular, alargando muito na base e formando rampas que per- 
mittem accesso facil para refor9ar o revestimento de capim onde 
a agua das chuvas tiver encontrado passagem, para elles essa 
disposÌ9ào é a de urna montanha em miniatura, e d'ahi, o no- 
me que Ihe deram de mucanda. 

A carta que transita em mào de qualquer portador no in- 
terior, além de encerrada no seu involucro fechado, é envol- 
vida em papeis, para nILo se enxovalhar, e depois em peda908 
de fazenda e ainda em folhas seccas amarradas com fibras. E 
ao conjuncto d'esses resguardos, que elles chamam por ana- 
logia mucanda, e tanto que o papel, que conhecem servir 
para involucros, tambem denominam mucanda, e quando seja 
destinado para cartas dizem mucanda uà sanhica ^ (mukada Ha 
sanika «papel de escrever») e para cartuchos de polvora, uà 
difanda (iia difaaa)^ de missanga, uà kassangassanga (ria ka- 
sagasaya). 

Tanto o muquinde comò a mucanda sSo os abrigos que as 
comitivas de commercio construem, quando vSo em viagem, nos 
logares em que acampam. Nos caminhos mais frequentados por 
estas comitivas, quando os abrigos se n&o encontram por cau- 
sa dos fogos, que succede geralmente nos mezes de maio a 



1 Do Cuango para a costa dizem soneca {$oneka), Muitos j& dizem 
papéle ; e alguns j& Ihe applicam o vocabulo ibubulo «foiba de paimei- 
ra«, em que escrevem os Ambaqaistas. 



216 



expediqXo pobtuodkza ao kdatUkvua 



agosto, sempre se conhecem os seus veatigioB, e eBsca logarea 
denominain os LundaH micanda, e os AtnbaqiiistaB, MalnnjeB 
e CasBanjes, fundos. 

Creio aer està denorainafSo portiigiieia, pelo facto de 8c su9- 
pender a marcha do dia nesse logar. 

tjuilombo (kiloZo) é o acampamento, que se faz nas po- 
voagOes, para periiiituencia de algum tempo ; mas ncste caso 
08 abrigoa bSo mais bem construidoa e teem maior cubagem. 
EBtes abrigo B teem o nome 
de mìlmuo {de kuzàama «escon- 
dero), porque as suas entradaa 
sSo protegidaa por urna especie 
de alpendrcB para nSo deixar 
penetrar as aguas das chiivas, e 
com um gradeamento de varaa 
revestidas de capim pelo lado 
interior para ae nSo ver o que 
Bc passa dentro. 

Apresentam ainda aa mesmas 
formas do miiquinde e mucanda, 
mas sSo maia altas e aperfei^oa- 
das, tondo geralniente no centro 
mn poetai e te para apoio das 
L^obc^t^raa e um rivestimeli to 
mais CBpesso, ficando as sima 
abas 9em flexSes. 

Nas povoa^Ses destaca se, pe- 
las formas e mais perfei^o na 
coDBtrucjilo, a babita^So (munzào), a que se cbama chicimAo. 
Pode ter està a base rectangular, quadrada e tambem circu- 
lar, variando nas suaa dimensÒes desde o reetrictamente indis- 
pensavel para accommodar um individuo, até ao preciso para 
um casal coro filhos, ainda crean^as e que preciaem ser ama- 
mentados. 

As crean§aB depois da creajSo do leite, quo em geral ter- 
mina do8 tres para os quatro annos, passam a dormir em ha- 





ETHNOGRAl-eiA E HISTORIA 



217 



bÌta(3lo independcnte da dos paes, reunidas Bob a vigilancia 
da iìlha maie veiha, se a ha, j^ em idadc de poder ter tal 
encargo, ou de urna serva. 

Nas eonatrucfSes deatacam-Be ae paredes daa coberturas, 
variando a altura d'aquellas, de 1 a 2 metros. So a Àrea a 
occupar é grande, teem entSo um pontalete ou prumo ao cen- 
tro para apoio da eobertura. 

Ab mais perfeitaB conatruem-Be do seguinte modo: rìaca-Be 
no solo a base que llie querem dar, àa vezes mesino com o pé, 
depois com o machadinho abreni 
Bobre o tra^o um rego de 0"',\Ò 
de fiindo, e nelle vSo espetando 
varas delgadas o maia dìi-eìtaa poa- 
sivel, com intervallos de 0",25 a 
0",30, e com os péa calcam a 
terra de encontro &s varas. 

No logar destinado para porta, 
deixam um intervallo seni varas, 
que poucas vezcB excederà em 
largura O^jTO. 

A partir do solo para cima 
atraveesam ho ri zon talmente varas 
maia delgadas, por fora e por 
dentro, que atam às verticae.s, 
com mioji itibras), obrigando-as 
noa angulos das paredes a dobra- 

rem, para continuarem a revestir a parede contigua até onde 
poasam cliegar. A extremidade de urna reune-se a de outra 
vara e assim por deante. Eatas varaa vUo-ac collocando paral- 
lelamente, com intervallos pouco mais ou mcnos iguaes aoB 
doB prumoB, ati5 & altura que se pretende dar às paredea. 

Dm pouco acima da ultima vara transversai, cortam-ae as 
yaraa verticaea ou prumos. 

As paredea silo revestidaa de capim em peqnenoa feixes, 
qae se vito atando bem apertadus una aos outroa, e ao gra- 
deamento no sentido da altura, de modo a nSo havorem fendas. 




I 



218 ExPEDigXo POBTUGUBssA 10 muatiInvua 

A cupula é feita iparte, e dando-se-lhes alturas diverBaa, 
tendo as mais consideraveis mais de vez e meia a altiura das 
paredes. 

Tomam as medidas de angolo a angulo se a pianta é reotan- 
gular, e marcam-nas na terra ao lado, ou com o pé riscam 
approximadamente um circulo igual ao da base da casa se 
ella for circular. 

No centro d'este trafado coUocam depois um pan da altura 
que querem dar à cupula para apoio das extremidades das va- 
ras que hSLo de formar o vertice. Estas varas cortadas sempre^ 
um pouco para mais da grandeza que deveriam ter, pela dis- 
tancia d'aquelle apoio à base marcada^ sSo dispostas equidis- 
tantes seguindo os riscos da pianta no terreno. 

Ligam-se superiormente as quatro varas maiores se a pianto 
é rectangular, ou qualquer grupo de quatro se é circular, por 
meio de um encanastrado de libras até uma largura de 0'",20. 

Entro aquellas varas collocam outras a cobrir todo o re- 
cinto e ligam-as umas às outras por meio de fibras, a come9ar 
de uma certa altura do solo para cima; e assim obteem uma 
arma9Zo que lembra a de um chapéu de sol, nSo aberto com- 
pletamente. 

A cupola é entSo collocada sobre as paredes excedendo-as 
para o exterior, e liga-se a estas porque as por9oes salientes 
dos prumos entram no seu encanastrado. 

Aparam-se entao as hastes da cupula para ficarem equidis- 
tantes das paredes, e cobre-se o todo de capim a come9ar de 
baixo para cima, deixando uma beira que nSlo é inferior em 
projec9ao a 0™, 20, 'para resguardar as paredes das aguas da 
chuva, tendo o constructor o cuidado de fazer um talude de 
terra no pé da parede com esse firn. 

£m algumas habita93es para evitar o salale, batem o solo 
muito bem batido, com couros de animaes ou com algum pe- 
da90 de pau facetado, humedecendo um pouco o solo. Outros 
fazem este trabalho mais perfeito, procurando argilla vermeiha 
que pulverisam, e por meio de uma peneira espalham-na sobre 
solo à medida que o vSo batendo. 



ETHMOGRÀPHIA E HI8TORIA 21^ 

• « 

Tambem vi cobrir de capim as cupulas antes de serem 
postas Bobre as paredes. 

Quando a habita9ào é grande, nSo se dispensa o pontalete 
ou pendural no centro, e ha entSo umas cruzetas a meia altura 
da cupula feitas pelas varas, que formam urna especie de tecto 
qiie se aproveita, para guardar as pequenas malas e outros 
objectoSy e a que chamam mutala, 

Algumas d'estas habita98es jà teem urna ou duas divisorias 
por dentro até certa altura, revestidas de esteiras. E quasi 
certo terem todas urna divisoria para resguardo do legar em 
que se dorme, e onde se ve urna tarimba de pequena altura, 
coberta de capim, as melhores com um estrado de caniyado 
tambem coberto de capim e sobre elle duas ou mais esteiras, 
conjuncto este a que os Ambaquistas dào o nome de violo. 

As habita95es superiores a està, em grandeza e solidez, to- 
mam o nome de mucumbe (mukuie), vocabulo equivalente ao 
nesso credendo». 

Podem ser de base rectangular, mas por fora tem uma va- 
randa circular, feita de paus grossos^ com intervallos iguaes 
ao diametro d'estes, e com a altura de 0'°,6 a O^yS, e nella 
descansa a parte inferior da cupula, que tem de 3 a 5 metros 
de altura. A das paredes da habita9lo regula de l'^yòO a 
l'»,70. 

So OS chefes de poyoa92[o possuem o mucumbe, e d'estes vi 
alguns com as paredes interiores revestidas de capim, e divi- 
didos em tres ou quatro compartimentos, sendo o chào batido 
e elevado, de 0^,10 a 0^,20 acima do terreno em redor, que 
tambem é batido na largura de 1 metro. 

Quando està habita9Sio se destina para receber as visitas 
multo intimas do potentado nSLo tem divisSes, e as paredes 
silo forradas interior e exteriormente de esteiras, tendo tam- 
bem as varandas por fora, que geralmente sSo da largura de 
1 metro. 

No recinto interior apenas entra quem o potentado chama. 
Quando alguem Ihe pretende fallar, fica na varanda e d'ahi 
mesmo conversa com elle depois da devida venia. 



220 EXPEDigZo POBTUGUEZA AO MUATliNyUA 



É està a habitafSo que vi com cobertnra de maior altura^ 
até ou acima de 6 metro», à qual os Lundas chamam chiota 
((Stota) e outros quiota Qciota). Este vocabulo quer dizer cvi- 
gilante» entre os titulos dos empregados da casa dos grandes 
potentados; e parece que, por ser a cupula d'està habita9So 
a que se destaca ao longe numa povoafSo, é que se Ihe deu 
esse nome. 

Tambem no logar de residencia do Muatiànvua ha. urna 
construc93o especial para audiencias em tempo de chuva, a 
que chamam amavo {azavó) celephante», certamente por ser 
muito comprida. 

A base é um rectangulo de 12'° X 4™ e algumas sSo até 
mais compridas. As paredes sSio de pequena altura, 0'°,8 a 
1 metro. A cobertura em duas aguas é de grande declive e 
nos lados maiores tem duas portas fronteiras. A um ter^o de 
urna das paredes do topo, da que fica virada para sul, està o 
logar em que sempre toma assento o Muati&nvua, por ser o 
superior, de onde nascem os rios nos seus dominios. 

Jà se ve tambem nas povoaySes dos Lundas, mas com mais 
frequencia nas dos Bàngalas e Quidcos, a cubata do Amba- 
qui sta, a que elles chamam chibango (òibago) e estes quibango 
(kibago). 

E uma casa rcctangular de solo batido, com paredes de 
1",40 de altura e mais, feitas pelo systema das habita95es 
usuaes. A cobertura é com duas aguas e as cntradas teem de 
altura 1 metro e mais, sendo a tapagem feita com os gradea- 
mentos jà mencionados, revestidos de capira. 

Eu vi habitagoes d'està ordem, construidas por gente do 
Congo, sendo na verdade muito solidas e bem feitas. As co- 
berturas eram em duas ou quatro aguas, tendo nellas disposto 
capim às camadas transversaes, bem aparadas, fazendo lem- 
brar telhas americanas de madeira (shingles), Tinham boas por- 
tas e janellas, ficando salientes os aros, revestidos tambem de 
capim. 

Nas povoagoes dos Quiocos vèem-se muitas cubatas, com 
as paredes barradas, e as portas e janellas s2lo de madeira por 



ETHKOGRAPHIA E HISTOBIÀ 221 

elles trabalhadas; e em duas povoaySes à margem do Cbiùm- 
bue jà se véem portas e janellas com as respectivas ferragens, 
fechos e fechaduras. 

Urna d'estas povoa98es era de Muana Quipoco^ homem que 
tem feito algumas viagens com comitiyas de commercio por 
sua conta a Benguela, tendo primeiro estabelecido rela98e8 
com 08 QuimbareSy com dois dos quaes se aparentou toman- 
do-08 para genros. Tomou-se bom carpinteiro e ferreiro^ mon- 
tou officinas de trabalbo, onde elle mesmo ensìnou os rapazes 
da sua poyoa9So. 

Além de negociante era tambem um dos bons lavradores 
indìgenas, e tanto elle corno seu primo Tandanganje tinham 
manadas de gado vaccum. 

Em toda està regi2Lo do Cuango ao Lubilàxi, entro 6° 30'' e 
8° de lat. S. pode dizer-se que sSo elles os unìcos individuos 
que actualmente possuem gado vaccum, trajam à europea e 
viajam em redes. 

Mesmo nas mais pequenas povoa98es de Quiòcos, de Bàn- 
galas^ de Xinjes e outras as entradas nas habita98es sSo mais 
altas que nas melhores dos Lundas. 

Em todas as povoafSes se ve o que elles chamam chùaambo 
(pisaio), que se tem interpretado por «sombra» e eu julgo 
melhor, interpretar, comò «tendal» ou «canastro», porque o 
fim principal d'essa construc9Sio é expòr ao sol mandiocas, 
bombós, cames, peixes, que se pretendem seccar, bem comò 
objectos que se lavaram ou se molharam, e tambem para os 
resguardar dos animaes damninhos. 

SSo quatro paus espetados no terreno, ligados superior- 
mente a formarem um quadrado, e sobre este collocam varas 
que engradam e algumas vezes revestem de capim, e por isso 
Ihe chamam os interpretes «sombra», e sobre elle p5em generos 
alimenticios e outros objectos comò disse. 

Ha outra construc9^o, miniatura de urna cubata sobre està- 
cada, a que chamam chitula (jóitula), e do Cuango para a costa 
quittda (kitula), que eu traduzo por «dispensa», por ser ahi 
que guardam as colheitas que vSo fazendo nas lavras e que 



222 EXPEDigZO POBTUaUEZA lo MUATllNVnA 

afiistam da terra por cauMt do salale, ratos, eto./ e tambem 
para as preserrar da hamidade. 

Geralmente urna familia occupa mais de urna habita9So, e 
por isso duas, tres ou mais d'estas babita95es estSo dentro 
de urna cérca formada de troncos de arvores e varas transver- 
saesy que se ligam àquelles por fibras^ revestindo-se tudo com 
folhagem ou mesmo capim ; e ao recinto chama-se andonda 
(adoaa dogar do senhor ou senhorat)^ 

O chèfe da poyoa9So, com a familia que d'elle se nSo 3e- 
para e os servos, occupa um recinto maior, que envolve àquel- 
les, e que comò elles é tambem cercado; mas a cérca é mais 
alta e mais forte, porque tambem é feita em paineis maiorea 
e para resistir melhor ao tempo. A este recinto chamam entfto 
chipavga (èipaga), e do rio Quicapa para oeste, quipanga {ki- 
paga). O legar em que se isola o potentado dentro da chi- 
panga, com o que Ihe é mais reservado, chama-se anganda 
(agaaa). 

Quem tem pateo reservado, ckiuzo (Siuzo), cozinha ao ar 
livre, se o tempo o permitte ; se o nào tem faz a comida mesmo 
dentro da habita9ào; porém alguns teem chiuzo especial onde 
cozinham, a que chamam chizanza (òizaza). 

Indepcndentemente do fogo para cozinhar, ao por do sol jà 
todos teem tudo disposto para aquecer as habitafoes. Em um 
logar que jà pelo uso forma depressao, faz-se o braseiro, e 
às vezcs descuido com o fogo é tal, que as cubatas incen- 
deiam-se ; e se ha vento, em seguida à primeira ardem mais 
algimias. 

As pequenas moradias, com tSo acanhadas accommoda95es, 
sao causa das doen9a8 que mais atacam os moradores, comò 
con8tipa9Ses, pneumonias, rheumatismos, bronchites e nevral- 
gias mais ou menos complicadas. 

As povoa95es sSo um aggrcgado de habita93e8 de familias, 
que se construem, cercadas ou nào, em redor da quipanga do 
potentado. 

Creio pelos vestigios que se véem em algumas povoa9oes, 
em que os paus das cércas mais ou menos rebentaram e se 



ETHNOGRAPHU E HISTOBU 223 

tomaram arvores, qne em tempos normaes, isto é^ algomas 
dezenas de annos atràs, as poyoa98eB Lundas, que mais ou 
menoB encontràmos desmantelladas^ eram divididas em mas e 
travessas embora estreitas, formadas por essas cércas; e quem 
nellas entrava so via por cima as eupulas das habita98es, o 
que actualmente so se d& em parte de uma ou outra povoafSo, 
sendo o solo entro as habita95es e dentro das cércas mais ou 
menos batido. 

Proximo da quipanga do potentado vé-se um largo a que 
chamam xlco {xiko)y em que o chSo foi piloado, ficando resis- 
tente comò um beton, e pela for^a do sol encontra-se gretado 
em differentes sentidos. Sao estes largos destinados a merca- 
dos, feiras de generos alimenticios e ainda de outros objectos 
para ti'ansac95es. Nas povoa9des mais importantes fazem-se 
estas feiras diarias, noutras duas ou tres vezes, e em algumas 
uma so vez, por semana. 

A mussumba comprehende um grande numero de povoa98es 
dispostas nuroa certa ordem em tomo da quipanga do Mua- 
tiànvua, mais ou menos distantes d'ella; e com ella consti- 
tuem a capital do seu estado. 

Se suppuzermos uma tartaruga projectada sobre o solo e con- 
tomarmos essa projec9ao por linhas reetas^ obtemos a pianta 
da mussumba, em que a cabe9a é o logar a que se chama 
méaau (mesu «olhos»); cada um dos bra90s mucano (mukano 
cbOca»); a cauda, mazembe (mazebe)', cada um dos lados maio- 
res macola (makala); e cada uma das pemas anibaia {ahiia), 
sendo a da direita da Muàri * e da esquerda da Lucuoquexe*. 

A mussumba é tra9ada a preceito, pelo Muatiànvua, quando 
muda de sitio ou por qualquer outra circumstancia. 

A frente da mussumba é sempre virada para leste e a di- 
rec9So da rua principal 6 na linha E.-W. 



' Primcira mulher do Muatiànvua. 

2 Mulher que representa a mSe do primeiro Muati&nyua quando 
«nviuvon. 



EXPEDI^lO PORTCGUEZA AO MDATIAnVUA 



Muatiànvua chega ao legar cm qiie pretende cstabelecer 
a sua quipanga, montado num chimangata (Simagata iservo 
especiali); vira-so para o nascente, manda marchar homena 
para a sua frente, que vSo pisando o capim cm urna dada lar- 
gura, andando para tràa, e eeguindo mais para a direita ou 
esquerda, segando as indica^Ces do bra^'o do Muatiilnvua. Na 
frente d'estcB marcha o Calala, com 
a sua gente, de svi andò o capim, 
pouco mais ou menoe, no rumo j& 
indieado. 

E o Calala quem calcula, pela pò- 
pula^ào que eatà com o Muatiànvua, 
quid a extunsSo d'essa rua, que ha 
de tenninar, coro a Bua quipanga, que 
ó centro do raéssu, 

Quando os que calcam o capim jà 
podem seguir pelo ti'a^ado indieado 
pelo Muatifinvua, este manda virar 
no me amo ponto o chimangata em 
que monta, e faz prolongar o tra^ado 
inicindo para oeste ; para este servilo 
vae na frente o Canapumba, que cal- 
cula a grandeza do caminho em que 
Ila do ficar a sua chipanga, do mesmo 
modo que o Calala o fez para a frente. 
Vira-se depuis o Muati^vua para 
a esquerda e para a direita, fazendo 
assim OS caminhos urna cruz. Apeia- 
se entìto e vae sentar-se no espafo 
(Apkd ihoaitaaì Ijmitado pelo bra^o do lado do sul, e 

legar em que elle se sentou indica onde ha de ficar a porta 
da sua anganda. 

A rua prìncipal da mussumba de Mutcba, no Lnambata, 
tinha de extensSo 3 kilometros; a de Cbimane, de 3 a 5 kìlo- 
mctros; e a de Cabebe de Noéji, 4 kilometros, As larguraa, 
varìavam de 2 a 4 mctros. Està rua denomina-se mucombele. 





ETHNOORAPHIA E HISTORIA 225 

O schema graphico que em segutda apresentàmos, eaclarece 
o qae teuho a dizer d'aqui em deante. 

estada do MuatiElnvua, é dividido em pequenos estados e 
o chefe de cada um, embora Muata e Quilolo do MuatiànTua 
tem sempre o seu logar na c6rte pela ordem de bierarcliia. 

Se està no sea sitio, fica na c6rte o representante d'elle, 
com &milia e alguma for9a armada, e por isso se reserva 
sempre eapajo para &a auas Iiabita95es. 

No mésBu ficam à frente as puvoagSea do prìmeiro e segando 
Calala; atraz do lado esquerdo Muene Tèmbue e outros filhos 




de Huatiànvua; à dlreita Muene Casse, Muene Panda, Muene 
Capanga e outros da margem do Lulua. 

No mucano da dìreita o Muitla, no da esquerda o Suana 
Mutopo. 

A mucala da direita pertence à Muàri, a Ja esquerda a Te- 
melnhe ou segunda mulher do Muatiànvua. 

Na direita, entro o mucano e macala fica a muila, (m&ila 
(residenciai) da Lucuoqucxe, que occupa grande espa90 por- 
que é permanente na cSrte, e na macala da esquerda à sua frente 
fica Muene Rinhinga, o Muata mais considerado, que colloca 
o distinctivo da realeza, o lucano, no bra^o do Muatiànvua; é 
o descendente considerado corno seu tio {c4lrtUa) mais velho. 



226 EXPEDlflO POKTUOUEZA AO MUATIImYUA 

A Suana Murunda, que representa a dona das primeiras ter- 
ras doB Bungos, o nucleo do estado do Muati&nvua^ tem a 8ua 
povoafSo entro Maone Rinhinga e a Temeinhe. 

Os quilolos do norte do Cassai estabelecem as suas povoa- 
95es a oeste da de Suana Murunda; e os de sul^ para leste da 
Muàri; exceptuam-se d'estes, os que foram qmlolos da Lucuo- 
quexe, que entSo teem poyoi^95es na sua muila. 

Arnbaia (cJ^id) sSo logares reservados para as mulheres 
mais consideradas, Lucuoquexe e Muàrì^ durante o tempo que 
estfto menstruadas, e tanto num corno neutro^ ha um espago 
destinado no primeiro à Suana Murunda, que se cbama chaxa 
{laxa) e no segundo para a Temeinhe, que se chama ampapa 
{apapa) quando estas estào no mesmo caso. 

Na cauda da supposta tartaruga esti o mazembe, que é divi- 
dido em duas partes, ficando o primeiro Canapumba mais dis- 
tante e o segundo mais proximo da residencia do Muatiànvua. 

O mazembe é separado da quipanga do Muatiànvua, pela 
manga (maya cpateo») e ahi ficam as cozinhas e habitagòes 
do mudri muixi (miiari mùixi to senhor do fumo; cozinheiro») 
e seus ajudantes; e ainda as dos individuos que transportam 
o Muatiànvua, quer no móuha (moiiha «palanquim») quer escar- 
ranchado sobre os hombros. 

A mòuha é urna especie de palanquim ou de andor, consis- 
tindo era uma canastra de bordas baixas, com 0'",15 a 0™,20 
de altura, com o fundo rectaDgular de l'",20 X 0",80, sondo 
cada lado maior ligado, por anneis do mesmo encanastrado de 
fibras, a um varai que tem de comprimento o triplo d'aquel- 
les lados, regalando o seu diametro por 0™,1. fundo e lados 
da canastra sào revestidos exteriormente de couro. 

Aos varaes chamani missele (misde, plural de masele) e sào 
feitos de uma madeira especial, branca, rija e leve, que se 
alisa melhor que é possivel cera as machadinhas rematando 
nos cxtremos em toscas bolas. 

Sao transportados em mouha, o Muatiànvua, a Lucuoquexe 
e o Muata com honras de Muatiànvua, notando-se que poderà 
algum usar o distinctivo na cabeja, miluina, e nào ter a honra 



MUSSUHBA DO MUATIANYUA 



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MAZEArBX 






òa 




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ÀUVkiAJTAUM oa kmu'd^uu 



ETHNOQRAPHIA E HISTORIA 227 

de ser transportado de móuha. Na cdrte actualmente so tinham 
essa distinc9ào Muene Rinhinga, Muitia e Muene Casse. 

Quando sae este vehiculo, reveste-se interiormente com um 
bom cobertor, ou o melhor panno de fazenda que haja, de 
modo a cairem as extremidades aos lados, e sobre este panno 
ainda collocam uma pelle de on9a ou de leopardo, e é sobre 
ella que se senta o potentado. 

A mouha é transportada por dezeseis ou vinte homens, qua- 
tro ou ciuco a cada extremidade dos varaes^ e vào outros na 
companhia para os renderem. 

No cruzeiro formado pelas ruas principaes da mussumba, ha 
um espa90 à frente da quipanga, fechado dos lados pelas ha- 
bita98e3 da macala da Muàri e da macala da Temeinhe, intei- 
ramante livre, onde temlogar as audiencias geraes^ tetame, e 
que se chama ambula (abula, de kujmula «dizer^ transmittir^ 
noticiar, communicar»). 

A quipanga é dividida ao meio em duas partes, na que fica 
a frente, chimene (òimene «largo») véem-se do lado direito es- 
palhadas algumas habitarSes das amilombes (amiloie «servas») 
da Muàri; e no lado erquerdo as dos ampuedes (apUedi cal- 
guazis; OS que sao encarregados de execu98es policiaes»). 

Junto à porta que fica em frente da rua prineipal està a ha- 
bita9ào do chiota, quilolo vigilante e que tem à sua guarda n2to 
so as casas reservadas, anzavo e chiota, que ficam quasi a meio 
d'este logar corno ainda vigiar pelo harem do Muatiànvua que 
fica dentro da quipanga; é tarabem o mestre de ceremonias. 

A outra parte mais ao fundo, é dividida em diversos re- 
partimentos com habita95e8 tendo uma rua no prolongamento 
da prineipal. 

A direita, isto é, do lado do sul, os repartimentos da frente 
sSo destinados para habita9C)es da Muàri e mulheres do seu ser- 
VÌ90 diario e os do fundo so para as habita9oes do Muatiànvua. 

No lado do norte, à frente, estao as habita93es das mulhe- 
res predilectas do harem, e que a Mudri consente tenham re- 
sidencia na quipanga, e no do fundo é onde estSo por assim 
dizer as arrecada95es de roupas, armas, polvora, etc, os ha- 



228 EXPEDI(!0 PORTUQDEZA AO UOATIANVOA 

veres mais vulgares do Muatiànvua, e aa habita^Ses doa guar- 
das a quem estilo con£n,dos, o neste La aìnda um recinto re- 
Bervado a6 para o Muatiànvua quando estA na -maiala. 

Oa tuxalapóU, oa tumhaje e muaicoa do MuatiStiTua que to- 
mam o titulo de Mu&ri a que se addiciona o nome do inatru- 
mento que tocam, teem aii auaB LabitafSea dispostaci em torno 
da quipanga. 

É uo mazembe que se hospedam oa portadorea de recados 
que veem de fora, e na povoa^So da Lucuoquese as visitas de 
maior eonaidera^So. 

A quipanga de qualquer quìlolo é cercada corno a do Mua- 
tiànvua, e nella as Iiabita93e3 sào dìapostaa corno neata, tendo 
todas, mésBu, macala, ambaia e mazembe. 

Na porta do fundo da cérca da quipanga ba urna pequena 
babitagào, mùmuo, onde tìca o cabila (IcabUa oporteiro»). 

O MuatiAnvua, paasa urna grande parte do dia na chiota, 
bebendo com algum quilolo quo mais Ihe apraz, e & noitinba 
recolbe para juuto das suas favoritas (akaje) onde se demora 
algiimaa horas, bcbendo com oUas. 

Sobre o vocabitlo maiala tem havido grande confusào por 
parte dos interprete». N&o é urna coziaha espccial do Muati&n- 
Tua. Està denomina-se chizanza (èizaza). 

Na maiala pode estar qualquer que ae sinta doente e tenba 
posses para nella se conservar. Observa-ae ahi com o maxi- 
me rigor um i-egimen prescripto por um advinho ou por um 
curandeiro. E por assim dizer urna dieta que se impSe nSo 
8Ó ao individuo que d'ella carcce, mas ao pessoal indispen- 
savel que com elle tem de manter rela^Sea. 

Quem esUL oa maiala, durante o tempo que se occupa de 
quaesquer servigos para o individuo a quem se preacreveu o 
re^meo, nSo pode fallar com peaaoa alguma e foge mesmo de 
ver pesaoas extranhas a esse eatado sob pcnaa graves. 

Muatì^vua ou o individuo que està na maiala passa para 
um recinto separado, e aó tem communicas^o por accionados 
com creado particular que o acompanha e com o chefe dos 
cozinbeiros. 





ETHNOORAPHIA E HISTOBIÀ 229 

Este conserva-se na cozinha com um cozinheiro especial e 
com duas raparigas nomeadas, urna para servÌ90 da agua e 
lenha^ e outra para o das eompras de generos. 

Estas mimem-se do um chocalho quo pSera à cintura e pas- 
sam pelos caminhos cantando. Todos os que venham por esse 
caminho fogem ao seu encontro para nSo serem vistos^ até que 
passem. Se o nSLo fizerem bSLo considerados feiticeiros que que- 
riam perturbar o regimen prescripto a quem d'elle carecia^ 
portante queria-Ihes mal, e comò tal tem de ser julgados. Para 
o caso do Muatiànvua, a senten9a seria cortar-se-lhe o pe8C090. 

Ninguem pode olhar para as bebidas, comldas ou qualquer 
objecto que tem de servir ao recluso da maiala, sob pena de 
castigo para quem os transporta, pois se dìz que, so num olhar 
o feiticeiro pode transmittir ao recluso o feitÌ90 se for essa 
sua inten9ao, muito principalmente sendo este o Muatiànvua. 

O que cozinha so deixa de ser responsavel por ellas depois 
de entregar a comida ou bebidas ao cozinheiro mór, e é este 
quem tudo apresenta ao Muatiànvua, sob sua responsabili dade. 

Come-se e bebe-se numa casa especial, e durante esse acto 
ninguem pode fallar com o individuo que està na maiala. E um 
legar onde ninguem ousa penetrar nem antes nem depois das 
refeÌ93es. 

O Muatiànvua depois da ultima refeÌ9So e jà quando ten- 
ciona recolher-se, dispensa por gestos o Muàri Mulxi do seu 
servÌ90 nesso dia, e é este entSo que vae levantar pcir assim 
dizer a interdic9ao a todos que estiveram com elle de servÌ90, 
para podere m comer e fallar com os seus. 

Semelhantemente quando o Muatiànvua come ou bebé em 
goral na presen9a dos seus quilolos ou empregados, tapa-se 
para que o nSo vejam, e comò é de estylo elle repartir do que 
come ou bebé com os que estejam presentes, aquelles a quem 
se vae dirigindo, no momento em que estendem a mSo para 
receber o que Ihes dà, passam à maiala, quer dizer ficam in- 
terdictos, nào podem fallar, communicam com elle por gestos ou 
por estalinhos com os dedos. Esses individuos retiram do cir- 
culo e vSlo comer ou beber em separado. 



230 



EXPEDIi;ÀO PORTUGUEZA AO MDATljtUVUA 




Assìm fnzem toduB, até ao ultimo contemplado. 

Durante o tempo que o MiiatiSnvua come oh bebé, cobertn 
com um panno, ou BÓmente com um chapéu de 8oI aberto, to- 
doB OS eircumstantes estSo dando estalinhos com oe dedos e de 
quando em quando palmadas cnmpasaadas. 

Està eeremonia tem por firn afugentar o que pudesse Tir de 
ruim (i envolver-se na comida ou bebida que o Muatìànvua vae 
mettendo na bocca, e para que ihe fa^a bora proveito. 

Logo que o Muatìanvua se descobre, cada um dos contem- 
plados avanza agacbado até juoto d'elle, ajoetlin, e passando 
OS dedoa da sua destra pelos dedos d'elle dà tres estalinbos, 
e depoÌB de fazer istn tres vezes, bate tres palmadas compas- 
Aadaa e diz ti medida que se vae levantando: ralumho! chi 
noéjif sànthi.' {kalubo! Ci noéjH zn^i!). 

Este deixa de estar inlerdicto e segnem-se por ordem hie- 
rarchica oa outroa do mesnjo modo. Se o interdicto é descen- 
dente de Muatiiìnvua, em vez de passar os dedos pelos d'ette, 
apresenta Ihe nnia foiba de arvore, que segura entre os dedos 
para elle ir quebrando tres pedagos e deitaudo fora. 

Para completo conlieciniento de urna chipanga ou quìpnnga 
devo dizer que na Luuda inditeti nctam ente jà se dlz chicumbo, 
corno do Ciiango para a costa cubata, para designar qual- 
qiier casa pequeua ou grande e sem attendilo &, forma; chi- 
cumbo porém é sempre acompanhado pela designagSo do des- 
tino que tem. Assim diz-se: chicumho ckid culatigala (ÒUcitto 
Eia kulai/ala) se é para dormir, Nas habitag^es d'este genero 
cbama-se chineza (èineza) A varanda se a tem, do vocabulo que 
corresponde a «visitas» ; capalacSnhi (kapalakani) àa divisSes 
OH reparti mentos se os ba. Cliipanga por analogia é qualquer 
cérca ou recinto quadrado. A urna moldura quadrada tarabem 
chamam cbìpanga; està admittido, pois, este vocabulo para 
qualquer rectangtito. 

A rua principal denoraina-se mtrcovìbele (mvJcobele) ^Ra trans- 
versaes mussando (-musalo); as passagens entre cubatas qua 
poasam ser interceptadas por outras, uacatula mucomòele (ùaka- 
tida mìikoMe «cortou a principati); oa eiìpa^os entre as cuba- 



ETHNOGRAPHU E HI8T0BU 231 

tas em forma de largo càxi (kaxi)\ os Iarg08 onde se^azem 
08 mercadoB xico (xiku) ; o solo das casas pàxi; e os regos em 
roda das casas para desvio das aguas puéji {p&eji) ; os Ioga- 
res reservados para sepulturas, majambo (majc£o). Ao sitio no 
Calànhiy onde estao as ui*nas em que se recolhem as unhas^ os 
dentes e cabello do Muatiànvua que morre em paz com os seus, 
chama-se amai {zaì). 

Como jà ficou dito, todos os ilolo, (plural de kilolo, que se 
tem interpretado por tfidalgo»), apesar de serem senhores de 
estados espalhados por teda està regiao, tem legar na cdrte e 
por isso, quando estSo nas suas terras, fica na mussumba quem 
OS represente e com for9a armada. Esse representante toma 
titulo e para todos os efFeitos ó ouvido, vota e delibera, comò 
se fosse o proprio quilolo, e por isso tratando da mussumba, 
dou agora conhecimento de cada um d'elles, pelo legar que 
nella occupam e com as explica^Ses que pude obter. 

No méssu: 

Calala. — E o chefe das primeiras forgais que entramemope- 
ra9Òes se ha guerras a sustentar, e a quem compete a vigilan- 
cia sobre o que occorre à frente da mussumba. E a elle que 
pertence em combate cortar primeiro a cabe9a d'um inimigo 
e apresentà-la ao Muatiànvua. O Calala tem o seu estado além 
do Cajidixi, e é descendente do Muatiànvua; no estado que 
Ihe pertence tambem tem o seu calala, que se nSo deve con- 
fundir com o segundo calala do Muatiànvua, que substitue o 
primeiro, quando este sae em diligencia ainda mesmo em 
tempo de paz. 

Camòaje-ud-Pemhe. — E o chefe dos que sentenceiam e que 
sSo executores das 8enten9as. Tem estado no Muiataid-Pembe, 
territorio bem delimitado entre os rios Luxixi e Luiza, por cau- 
sa de tres altos montes equidistantes entre si e bem visiveis, 
coroados de grandes penedias descalvadas. 

Estive com o homem que tinha este titulo no seu sitio, em 
dezembro de 1886, e consegui fazer um croquis da sua resi- 
dencia na base do morrò. Como esclarecimento devo accres- 
centar que muìàln'in'pemhe (minala la pebe «pedreira de cai- 



232 



EXPEDI9X0 POSTUGUEZA AO HUATllKVnA 



careoi) è d'onde se extrahe um pò esbranqui^ado quo OB indi- 
genos amassam em rolds para com elle friceionarem o corpo 
em eignal de huniildade na presenta dog potentados. 

E aquella pcdreira tim bom ponto de rcferencia do noaso 
itinerario na caria, e pnra sentir é que nSo hajam muitos pon- 
tos naturaes analogos, pois os quo se tomam das povoa^Ses, 
flSo de occasiilo, porque estas mudatn de situatilo frequente- 
mente, e Bob quftlquer protesto, 
com OS Qomes que tinham, que sSo 
OS dog potentados. 

Assim no itinerario da prìmeìra 
viagem do fallecido Dr. Pogge 
iipenaB se encontram Qfiibundo e 
Mìiansansa; no de Otto Schiitt ape- 
nas Mai Munene (quedaa de agua 
do Chicapa); no do Dr. Biichner 
aqiiellas povoajSes do Dr. Pogge 
R Capenda-cd-Mulemba, proximo do 
Cuangn na margem esquerda e no 
de Rodriguos Gra^a, Xaeamhuje. 
E eabe-se onde eram as residen- 
cijis do Muati&nvtia com quem es- 
tiveram, por indica^^es dos bomeua 
que existiam nesses tempos, e por 
a sua deBtruÌ5So ser de moderna 
data, por que com reapeito a indi- 
cioa aó OS vi no Luambata, e certamente por ter ahi Scado a 
colonia de Ambaquistas que \k encontrei. 

Continuando a noticia que estava dando sobre os differentea 
personagens e suas povoafSeaj que exintlam no roésau da mits- 




Muene TSmbiie.— Fìlho de Muatianvua, immediato do Suana 
Mulopo (principe herdeiro). Tcm o seu eatado na Museumba, 
isto è, a alia residcncia officiai, e por aua confa faz lavrar as 
terras que o Muatianvua Ihe dà jà fora da sua resideucìa, mas 
proximo d'ella. 



^ 



GTHKOORAPQIA B HI8T0BIA 



233 



Mvene Casse. — Com honras eie Muatiànvun. É cirula; foi o 
primeiro d'este nome, tio de Muatiànvua, e oh seus descen- 
dentes conservam essas honras. actual, tem o seu estado 
na margem do Luiza (Ruiza) ; porém o aeu delegado e forjas 
teem a sua povoagjlo na mussumba. 

Fazem ainda parte do mésau, oa repre sentante» de : 

/duene Quijidila. — Tambem cdrulaj tem seu estado na mar- 
gem direita do Ltiliìa. 

Mitene Capanga. — Cenila ; 
tem seu eatado que é grande, ao 
norie da quelle s. 

Minine Mussengue. — Càrula ; 
tem aeu estado na margem es- 
querda do Lulùa confrontando 
com OB do8 precedentea. 

liana Mvtomho. — Curandeiro 
do Muatiànvua e que o preserva 
de feiti^os. £ quem faz ob mu- 
qìiixi e qtàteca; o seu estjido é ao 
norte e proximo do precedente. 

Muene Panda. — Cànila, com 
honras de Muatiànvuaj o seu 
estado é grande ao norte de 
Muene Capanga. 

Muene Dicamha. — Cdrula ; o 
seu estado é ao norte d'este. 

Muene Cakunza. — Filho do Muatiànvua Àmbumba, hoje sem 
estado, 

Muene Catota e Muene MulorrAe. — Filbos de Muatiànvua, 
lioje sem eetados. 

Muoia Qiiibundo. — Cdrula, tem hooras de Muatiànvua; o 
Ben estado, um dos maiores, é na margem esquerda do Qui- 
capa, ao sul. 

Muoia Xacamhunje. — Cilrula, com honras de MnatiSnvua, 
seu estado muito importante està situado na margem direita 
do Cassai ao sul, vulgo Tenga. 




I 



234 expedtqXo PORrnouEZA io moatiAkvuà 

Muene Ccdenga. — Tem lionras de Maatiftnvua, e é eenhor 
de Mataba entre o Cassai e Luembe ao norie. Domina numa 
grande regiào^ e em parte slo-Ihe sujeitos os Tucongos e os 
Tubinjis. 

Na macala da Muàri : 

Muoia Mai Munene. — CArulfi; tem honras de MnatiftnvQa; 
Ben estado està na confluencia do Chicapa e Cassai, ao norte 
confina por este lado com o Lubuco; domina em parte nos 
Chilangues e Lubas. 

Mona-uta-cd-Curuba. — Cànila; jà em terras do anterior, o 
seu estado; limitado ao norte por ellas, estende-se para sul na 
margem esquerda do Chiùmbue até terras do Maansansa. 

Muene Chibuico. — Carandeiro e advinho do Maatiànviia; 
o seu estado é na margem direita do Cassai. 

Muene Chiota, — Mestre de ceremonias na corte; tem o seu 
pequeno estado na propria mussumba. 

Muoia Xacala. — E o regente quando o Muatiànvua sae para 
a cafa ou para a guerra; o seu estado é no Calànhi, mussumba 
do primeiro Muati&nvua, mussumba de honra e onde, no anzai, 
existem os restos dos descendentes d'aquelle até Mùteba. Os 
successores d'este soberano, nem sepultura tiveram por serem 
mortoa pelo seu povo. 

Anguina Ambanza. — Mae (ou representante da mae do Mua- 
tiànvua); tem o seu pequeno estado na mussumba, onde vive 
sempre. Nd é abreviatura de Anguina. 

Acaje. — Mulheres do harem do Muatiànvua; pela ordem de 
sua jerarchia na córte sao a contar da Temeinhe: Caxinhica, 
Chisoqueinhe, Maica, Mutondo, Mene, etc. 

Na macala da Temeinhe : 

Muata Mticanza. — Càrula com honras de Muatiànvua; go- 
verna parte de Mataba a sul, e p Landa. O seu sitio é na 
margem esquerda do Cassai, ao norte de Calenga, legar jà 
diverso do indicado pelos Drs. Pogge e Buchner. 

Muata Muansansa, — Càrula; o seu estado é na margem 
esquerda do Chiùmbue. Jà estao cortadas as suas terras pelos 
Quiocos desde 1880. 



ETHKOORÀPHIA E HI8T0RIA 235 

^^^■^■^— ^— ^— i^i^-^^i^^-^— ^— ^— ^-^^^^^^— ^— — ^— ^i^ . 

Marne Luhcmda. — Filho d'este; tem o seu estado mais ao sul 
entre Chibundo e Xacambunje. 

Muoia Caungtda, — Càrula; senhor do maior poderio de ter- 
ras, do Luembe ao Cuilo. O primelro potentado por auctori- 
8a9So do Muatiànvoa, dividiu o seu estado por nm irmSo e um 
filho attendendo aos seus bona BervÌ9os, nas conquistas de pò- 
V08. Ofl descendentes teem mantide essa divismo, posto que 
num estado muito torbulento, conservando os potentados, uns 
em rela^Ao aos outros, os graus de parentesco de entSo, embora 
nSo sejam parentes hoje, distinguindo-se o titulo de Caungula, 
entre os chamados irmftos, e designando-se o que representa o 
mais novo, por Caungula de Mataba, o qual é considerado corno 
o chefe do mazembe d'este grande estado; o do filho foi sem- 
pre Bungulo. O sitio do primeiro é na margem esquerda do 
Lòvua. 

Caungtda de Mataha. — Càrula; o seu sitio é na margem es- 
querda do Luembe, ao norte, na fronteira das terras de Ma- 
taba, estendendo-se pelo norte até à confluencia do Luembe 
com o Chiiìmbue e pelo sul até terras do Bungulo. 

Bungulo. — Càrula; o seu sitio é entre os rios Chiùmbue e 
Luachimo. 

No cruzeiro, a que chamam miata, do lado da Muàrì ; ficam 
as povoa95e8 de: 

Muori 'Ud-QuUornbo, — Mestre de campo das for9:ts armadas. 

Cana Golungo. — O que vigia as aguas. 

Fuma Anganda. — O que vigia as lavras do Muatiànvua. 

Turno. — O que vigia os servÌ9aes. 

Fuma tuxalapóli. — Muene Caje, chefe dos guardas. 

Tdmòu Calau. — Immediato d^este. 

Famuisaassa. — Guarda roupa. 

Chicomborchid-Mata. — Guarda das arraas. 

Uana. — Ama secca (ou a sua representante) do Muatiànvua. 

Amilornbe, — Damas, mulheres ao servÌ90 da Muàri. 

No cruzeiro a que chamam (kipala) do lado da Temeinhe 
ficam: 

Muoia Condola. — O particular do Muatiànvua. 



236 EIPEDI^Xo POBTDGDBZA AO MDATLSnvua 

Anffuina Muana. — Mie da Muàri. 

Uana malvfo. — Guarda das bebidas. 

Luina. — Guarda doa moveis, uteneilios, etc, pertencentes 
ao Muati&nvua. 

Cambuia. — Cacuata, carraaco. 

Muene Séji, Muene Cadinga, Muene Muxinda e Muene Ca- 
riai. — Quìlolos de hnnra ao servilo particular do MuatiSnvua. 

Vana Caiuaro. ^Guarda e porta bandeira do Muatiàcvua. 

No raucano da direita: 

Muitia. — Cinila tem as honras de MuatiàDTua; é o qui loto 
qiie recebe maior numero de milarabos (tributos); é grande 
seu eHtado, na margem eaquerda do rio Calànhi. Confinam 
as Buas terras cnm os Uandaa, anthropophago», e com terras do 
Lubuco. E o primeiro conaelheiro do eatado e é por isso mui- 
tas vezea procurarlo quando vem k mussumba, e ahi passa 
grandes temporadas. E da familia d'elle que geralmente se 
escolhe urna donzella para mudri do Muatiànvuu, logo em se- 
guida k ultima cerenionìa da posse. 

Lucuoquexe. — Muàn Caraonga, titulo que Luéji-à-C3nti re- 
cebeu quando seu fìllio herdou o estado, pelo fallecimento do 
pae, o chibiuda Ilunga. Ella que era a aenhora das terras da 
Lunda, Suana Murunda, passcu a accumular com o estado que 
tìaba este, multo superior em grandeza pela quantidade de 
quiiolos que seu filho ordenou Ihe pagaBsem tributo, e por 
isso adquiriii maiores encargos corno o titulo o indica. Àquella 
palavra é composta do prefixo tu, do verbo kùoka itratar, 
cuidar, curar», e a termina^Xo esce, que imp5e a obrìga^So de 
fazer a ac^So que o verbo indica. Lucuoguexe quer dizer: — 
pessoa que faz tratar, cuidar, curar do eatado e da pesaoa 
que governa, que é o Muatiànvua, Ella e todo seu estado 
occupam uma grande àrea de terreno para as suas povoa^es, 
por que tem de contar com o necessario para hoapedar os que 
vivem noa seua sitioa e que frequentemente a vera visitar; 
e ainda com os honpedes de grande categoria. Constitue uma 
mussumba, eó por si, porém para nSo havor confuBSes deram- 
Ihe o nome de mìiila. 





ETHKOGRAPHU E BISTORTA 237 

No mucano da esquerda: 

Suana Mtdopo, — Primeiro principe herdeiro do Muatiànvoa; 
tem seu estado na margem esquerda do Calànhi^ a sul. 
segundo é govemador do Tenga, que tem seu estado na mar- 
gem esquerda do Cassai e em terras de Xacambunje, com o 
titulo de Xanama, que tem honras de Muatiànirua. O terceiro 
é Muata Mussenvo; tambem com honras de Muatiànvua, e tem 
seu estado na margem efequerda do Luachimo em terras do 
BunguIOé 

Mona Uta. — Filho de Muatiànvua; defensor do que esti no 
poder; especie de condestavel. Tem um pequeno estado na 
mussumba. 

MuadicUa. — Immediato d'este, vigia pelas armas que per- 
tencem ao Muatiànvua ; tambem tem seu pequeno estado na 
mussumba. 

No mazembe : 

i." Canapumba. — Grande quilolo, que se distingue do seu 
immediato por ter mujima (e grande») em segaida ao titulo. 
Tem povoa9So consideravel e a ella faz o Muatiànvua aggregar 
muitos dos seus tticiLata («officiaes de diligencias») e povo^ 
quando regressa de expedÌ9Ses. £ por assim dizer o guarda- 
costas do Muatiànvua quer na paz quer na guerra ; vigia para 
que elle nSo seja atacado à falsa fé; tem seu estado na mar- 
gem esquerda do Calànhi até ao Luiza, confinando pelo norte 
com OS Uandas. 

2.° Canapumba — Substitue o primeiro quando ausente; este 
reside sempre na mussumba com o seu povo. 

Distribuidas na manga encontram-se as babita95es de: 

Mudri Muixi. — Chefe dos cozinheiros. 

Muvazo. — Chefe dos tocadores de marìmbas. 

Chùsenda Manungo, — O que tem & sua guarda as caldeiras 
e mais utensilios da cozinha. 

Fuma Chisseque, — O que conduz a umbella ou o guarda-sol 
que serve ao Muatiànvua. 

Casseia. — O copeiro encarregado da distribuÌ9So de todas 
as bebidas. 



i»38 



EXPEDIfXO POBTDGDEEA AO HUATIÌKVDA 



Camuema. — Mestre (fabricante) de malufo, garapa, etc. 

Uarta Ampaca. — M\i\her encarregada da grande faca do 
Muatiànvua, e que a transporta quando elle vae em marcha, 
indo sempre a seu lado. 

Uana Mundele. — Mulher que tem i sua guarda tudo o que 
uè tem fuito, com destino aos idolos do Muati&nyiia, de que é 
o prÌQcipal u Mundeh, que tem casa especìul, e d'aliì o titulo. 

Uana Mupungo. — O que giiard» a cauda com que se en- 
xotam as moscas. Este utenailio eontem no cabo ou péga ob 
remedios eontra os feiti^'os. 

Madri jVoéyì.— Quilolo, especie de fiel, o comprador da casa 
do lIuatiànTuu; o eeu pequeno catado é na propria mossumba. 

ChUìundo-did-Mema. — Dìspenseiro. 

Cakimio-d-Cumema. — Honiem ou mullier, que tranaporta a 
agua para o Muati2ji\'ua. 

Fuma-id-MÌ8sete. — Chefe doa carrcgadorea da mòulia. 

Àinda doB ladoa de t'ora da Anganda Hcam os tuxalapóli (<tì- 
gilactee de polìciai), lumbaje (lalgozcs*), tttcuàla (ichefea de 
diligencìaai), musicos, cantadores, oa alcunhadoa animaes para 
imitarem aa suas vozea de quando em quando, j& de diaja 
de no ite. 

Urna muaaumba nilo bc faz pois, em pouco tempo; mas o 
eBsencial, que ó a chipanga, coro o aeu méssa e mazembe fica 
tra9ada logo no primeiro dia, e a anganda do Muatiànvua prom- 
pta a recebè-lo ao sol posto. 

O que é notavel é que tanto na musaumba para permanen- 
cia, corno nas proviaorias, que se conatruem em tempo de caga, 
ou para descan^o em jomadaa, ou mesmo as que se fazem no 
theatro da guerra, alóm de se observarem oa meamos preceitoa 
para a distribuÌ9Xo de logares, il medida que aa babitajSea se 
vSo construindo, ba sempre toda a atten9ao com oa idolou. 
com receio de que eatea posaam fazer mal aos moradoree ne 
nova localtdade, mesmo durante a conatruc^Ko. 

E por iste que os Lundas entendem corno indispenaavel prO' 
ceder logo à planta^So de um certo numero de arvorea e 
buatos dentro e fora doa recintos que cercam, e mesmo ; 




ETHNOQRAPHIA E HISTORIA 239 

caminhos e em logares afastados d'estes, mas ao alcance da 
vista. 

A bananeira^ as pequenas palmeiras^ as plantas da familia 
das cactaceas e outros arbustos leitosos^ e plantas chamadas 
de oniamenta93o, là se véem resguardadas^ rodeadas de tor- 
rSes ou cercadas com varas delgadas^ tendo a seu lado panel- 
las e fcmdos de caba9a8, algumas jà quebradas^ umas com terra 
e plantas^ outras com agua e ainda outras contendo os milcfi' 
go8 (milogo\ que se dizem precisos para limpar o ar de con- 
tagios e feiti90s. 

Todas estas plantas, assim dispostas, teem as suas caldeiras 
em redor, e sSlo cuidadosamente tratadas, nào se Ihe faltando 
com a necessaria rega em tempo proprio. 

Os idolos sào muitos ; e todos encontram quem os repre- 
sente, o que nào succede com o feiticeiro, que elles dizem 
haver, porque quem o representasse seria considerado comò 
proprio feiticeiro, e podia contar com morte certa. 

Representar um idolo é pedir para elle ^, e com a colheita 
de donativos se Ihe fez o festejo. £ uma crea9ào puramente 
imaginaria, e nSLo percebi a descrip9ào que os seus devotos 
pertendiam fazer-me d'elle, a nao ser que sSo entes invisiveis 
e que nos querem mal, tendo poderes de molestar quem Ihes 
apraz por modos diversos; e s^o tantos os idolos quanto os 
males que por diversas forraas nos podem affli gir. Festejam- 
se para Ihes desviar a atten9ào da no3sa pessoa e para nos 
esquecerem. 

Entre os muitos que existem, temei nota corno sendo de mais 
nomeada, os seguintes: 

Mundde (mudele). — Festejam-no para se nSLo oppor A for- 
tuna em assumptos de ca9a. 

Calemba (kcUeta). — Se uma doen9a grave ataca qualquer 
pessoa, mas que é goral e nào ataca so uma parte designada 
do corpo OS advinhadores dizem, ser a doen9a de idolo; os 



^ pacU mutu ukuita mukixi uedi «cada um pede para o seu idolo*. 



240 



BXPEDigZO POBTOODEZA AO HnATllNVUA 



parentee tratom de festejar o Calemba, para que se alio oppo- 
nila ao curativo e pcrmitta que o doente se reatabple^a. 

Cafanda [kafuda). — Eate é considerado mais cruel e teme- 
roso, e veiu na companhia do pae do primeiro Muatiànvua. 
Pode um individuo estar bom e ser exceliente pessoa e elle 
de repente, irandose, dar-lhe a morte 
ou fazer com que o matem. E multo 
festejado porqiie todos o temem. 

Sapo-ià-Lupeto (sapo ia lupeto). — 
E muito festiìjado principalmente peloB 
que teem de fazer urna viagem; poìa 
dizem que elle nos camiuhos pode 
fazer muito mal aoa viandantcs. 

Uinhaje {u%aje). — É o que se fes- 
teja uà eeremonia cbamada da lacan- 
ga, para que nSo traga guerras & 
pessoa a quom se està collocando, 
mas no caso que venham, que a Vi- 
ctoria Ihe perten^a. 

Nhamòua (nabOa), e Cabiia Qatbi- 
la), — SSo festejadoH pelos ca^adores 
antes de partirem para a ca^, para 
nSo Ihe apparecerem, emquanto ellea 
apontam ao animai ou no acto de o 
matarem. 

Camuau (kamàaii). — É muito fes- 
tejado pelos namorados, para se nELo 
( jmd omion) metter entre ellea e os separar; dizem 

que OS casaes se dcsunem ou por causa de feiticerìa que Ihes 
fazem, ou entao porque o idolo nSo està contente com elles. 
Gongolo (kogolo). — E muito procurado peloa que ae acasalam 
para se iiSo oppor a que de sua uniìto haja filhos, porque a 
causa BÓ pode provir de feitijos, ou d'estc idolo qne é muito 
malfazejo. 

Caòuiza (kabiiiza). — E muito festejado por ura caaal, quando 
a mulher cst^ proxima a dar ik luz. À cubata por dentro e em 






ETHNOOBAPBIA E HI8T0&U 



241 



redor é guamecida de bujigaDgas: chìfrea pequenos e grandes 
com milongos, panellas, ramos de follias, etc, e tambem o seu 
muquixi é guarnecido de diversas figunahas para o Cabuiza nSo 
poder U entrar. 

Beza. — E o que faz as doen^as nos pés. 

Maca. — E o que faz as doen^as nos bra^s. 

Quifuo Méaau (kifuo mem). — E o que faz a doen^ dos olhoe. 

Capanga Saza (kapaya saza). — Este, dizem os crentes Ber 
mnito mau; faz nascer urna creanza ou um animai com ob 
bra^OB dobrados pfi.T& dentro. 




(4UIC1PA) 



No nosso acampamento havia urna cadella que teve tres 
cachorrinlios : um morto que se deitou fora, outro que viveu 
so dez ou doze dias, com os membros anterìores dobrados para 
dentro de modo que mal andava, e por isso se mandou deitar 
ao rio, e o terceiro que engrossou despropositadamente e que 
mal se mexia. Este, passados vìnte dias, come90u a ganir con- 
Btantemente e durante dois dias parecia que o animai estourava 
pela grande barriga que tinha. Investigada acausaconheceuse 
que nSo tinha orifìcio para evacuar. Era tarde para se Ihe fa- 
zer qualquer cousa, e em breve morreu. 

O meu interprete, que era questSes gentilìcas era um oraculo, 
quando eu mandei deitar fora o cSozito aletjado, tcÌu dizer-me 



242 EXFEDI^XO FOBTUGnEZA AO HTJATllXTUA 

que nito fazia bem, quf aquillo era doen^a do idolo Capanga, 
e isso ia contrarid-lo e que nos podia prejudicar! Mandei-o 
passear, e quando raorreu o ultimo^ dif8e-me elle: ve o patròol 
jà cometa o idolo a vingar-se. 

Saimo» d'aqiielle acampamento, e a cadella que peorAra e 
que nunea mais quiz corner, mori-eu em marcha; foi tambein 
Capanga que a niatou me aaseverou elle. Mas ieto niio era 
para eatranhttr porque refendo interprete jA vira sair do rio 
Cuango, & chainada de um anganga aeu nmigo, urna on^a! 
Faltou com ella, mandou-a retirar e ella tomou a mergulhar 
e desappareceu ! 

Mtiftia Mungongue (mufua mtigoge). — Este, dizcm, é que 
produz a loucura; todos o temem por se recearem de tal des- 
graga para seus filhos. 

Chinila (iiìiila). — FoÌ mandado vir do sul por urna Lucuo- 
quexe velha, ero razào de llie tercm dito qne oste se oppu- 
nha a felicidade das raparigaB e Ibes dava uiaa doen^a qne 
as matava antes de sereni mSes. 

E por ieao que todas as raparigas iinma certa ìdade vào, com 
as roultieres que su dizem protegida?; do idolo, fazer-llie urna 
festa e procurar a sua amìzade; tendo por £m principat a 
abla^So dos grandes labios do orgJ\o sexual. 

Ha outroa idolos eapcciaes da caga : Muta Cahmbo (mvta 
kfihio), Canzonji {kazoji), Pancaasa (pakaaa), e Tdmbu (tatù). 
Ha quem pense que Muldjt e Calàji dào feitiyo, e a duvida 
desejain elles nunea se esclare^a, porque se tal succede, oa 
ambicioBos aproveitam-Be d'isso e nSo deixarào de enfeitigar 
n quem qnerem mal. 

Sài» geralniente as raparigas do Muatiànvua ou de qualquer 
quilolo que reproaentam oa idolos. As vezes andara dufta, 
trus, quatro e mais maacaradaa a capricho coro pannog à roda 
da cintura, caindo até aos joelhos a formarem um aaiote bem 
tufado, com os peitaa cnizados de fios de miaaangas fiaas e 
grossas que v5o paaaar pelas costa», e tambem com outros fios 
BUBpenaoa ao peaeogo e com haatea dclgadaa de trepadeiraa, 
com folhagem a tiracollo e sabre o saiote. Eufeitam a cabega 





ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 243 

com grinaldas de folhas e tambem com lenyos de varìas c6reS; 
amarrados com as pontas caidas para tràs sobre as costas fi- 
cando as grinaldas por cima. Fazem lembrar as dan9arìna8 de 
theatro de feira, ou raelhor pelas trepadeiras com cachinhos 
de bagos pretos, as creangas que antigamente entro nós se 
vestiam em trajes ullegoricos ao mez de maio. 

Na mSo trazem um objecto, semelhante &8 nossas magarocas 
de alfazemas feito de fibras vegetaes, tendo dentro pequenos 
fructos seccos que chocalbara, ou entao uns cabos de madeira 
encimados de espheras de fibras entrelagadas, tendo dentro os 
referi dos fructos seccos ou carogos, sondo ornados estes obje- 
ctos a capricho com missangas de diversas cores. Outras tra- 
zem tambem uma especie de panderetas. 

Com estes chocalhos acompanham as suas cantigas que ter- 
mi nam sempre com o ràrdrà^. 

Assim andam de porta em porta, dangando onde as chamam 
e oflFerecendo pembe (peiej aos transeuntes, que d'elle tiram 
uma pitada com que fazem uma cruz no peito, nos bragos e 
nas costas das màos, isto em signal de que podem ellas ir 
buscar à residencia d'esse individuo a propina, que consiste 
em retalhos de fazenda, missangas, ou generos alimenticios, o 
que tudo serve para a festa do idolo. 

Se o idolo que se festeja é de caga, sSlo estas representan- 
tes muito procuradas por todos os cagadores que pagam boas 
propinas para terem fortuna na caga, e corno a festa toca a 
todos, a colheita é grande. 

A idolos que elies jà imaginaram, dando-lhes formas toscas 
de figuras humanas, teem para alguns um legar reservado a 
que chamam muquixis, 

O vocabulo muquixi (mukixi) tambem se applica às figuri- 
nhas ou imagens, e as que vi nSo excediam a altura de 0'",30. 
SSo chatas ou arredondadas, ou podem mesmo ser feitas em 
relevo no tronco de uma arvore. 



* O r pronuncia-se muito brando. 



244 



EXFEOI9XO POKTnOOEZl 10 UUATIÀKVDA 



Ob que excedem aquella altura, de corpo inteiro, denomi- 
nam-se ckìttca (Sitekd), mas se repreaentam lima mulLer tem 
o nome de ckkombe {Hikole). 

Podem estar abrigados ou iiSo, e 09 abrigos Bcrem 011 no 
80I0 ou acima d'elle. 

Ob abrigos tenho-OB visto em forma de oratorio, Bcm porta 
Dem frootarin, coni seu telheiro revestìdo de capim ou de 
folhaa; mas hb trepadeiraa sSo os ornatos que moia agradam 



ExiBtcm proximo das cubatas, aos donos das qua«s perten- 
cem, e eào 03 mais estiuiados; ìà tem a Rua bananeira ao pé, 
ou seu divu dii noéji (divti Éi no^ji, pequena palmeira), a com- 
petente panella com agiia contendo platitas, etc. Tarabem ae 
Tgem peloB eaminhoB. 

Observa-se ranìtaa vezes nas povoa93e8 aquì e ali um cone 
de capim, qufi parece tapar alguma cousa, ao levantar-se po- 
rém nflda se encontra, mas è um muqufKÌ e reapeita-se. 

Uaa-se pintar os idolos com tìuta preta, branca e vermelha 
que ae obtem da selva de algumas plantas, Rlacam-oB, aera- 
pintam-os ou dos doìa modos combinam aquellas corea corno 
entendem de melhor effeìto. 

Ha muquixis mais bem acabadoa que oiitroa; porém o chi- 
teca é aempre multo tosco e extravagante, porque o fazem de 
cabe9a multo grande, peacogo multo dclgado, barriga pre- 
eminente, pemas extremameute pequenas e groaaas, etc: oa 
mais perfeìtoB aSo os que trazem os Gongos do Zaire. 

Ha tjimbem qucm use pendurA-loa, quando miudoa, ao pes- 
C050 daa crlan^aB comò amuletos, e bem aastm formas de mSos, 
pés e apitos feitos de niadeira ou mesmo de marfim, com o 
meamo fim. 

Nesta regiilo oa melhorea muquixis sSo feitos pelea Quió- 
cos, porém os que sSo trazidos do Congo e do Zaire, ropito, 
sHo OS mais perfcltos. 

Por analogia chama-ae muquixis a una figiir5es que apparc- 
cem iaoladamente ou em dan^aa, ex qui sitamente mascaradop, 
querendo alguna representar qualquer animai com grandes cau- 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 245 

das ; OS melhores sào os que pretendem arremedar os macacoS; 
trazem a sua mascara de madeira muito grande, afunilando 
para a barba, apenas com buracos no logar dos olhos e bocca, 
urna grande cabelleira de corda, ou barrete coberto de muitas 
pennas, geralmente de gallinha, trazendo enfiadas nas pemas 
e brayos argolas com objectos que fa9am muita bulha, para 
acompanharem as suas cantigas. Levam o dia inteiro ou a 
noite dan9ando, e a importunar todos emquanto Ihe nSo met- 
tem na mào a desejada propina. Apparece d'isto tambem no 
Xinje e entre os Quiócos. 

Em Jornada vi muita vez, à beira do caminho, e mesmo nos 
descampados e tambem na mussumba distante das povoayòes, 
amontoados de troncos seccos dispostos em formas diversas ou 
espalhados em quadro, triangulo ou em posigSo vertical, for- 
mando pyramides mais ou menos altas; sào monumentos que 
OS ca9adores levantam ao seu idolo Camónji, Os de Malanje 
chamam-Ihe muxaela. 

Um chifre grande, espetado num tronco de uma grande ar- 
vore, tendo em volta o terreno limpo e pisado, uma trepadeira 
a enlear essa arvore, e uma cabaga e panelia suspensas de 
outro tronco, constitue isso tambem um monumento dedicado 
a um outro idolo denomi nado Muata Calomho, 

Todos respeitam muito esses monumentos e por isso se con- 
servam annos nas mesmas condÌ9(5es, sondo muitas vezes repa- 
radoB e augmentados por outros ca9adores. 

Servem elles de indica9ao aos ca9adore8 peritos, pois pela 
sua construc9ào, disposÌ9ào, orienta9ao e ainda por outros si- 
gnaes, dào a conhecer o cognome de ca9a de quem o fez, o 
logar onde encontrou ca9a, sua qualidade, emfim se viu muita 
ou pouca, se ha agua ou nao perto, etc. 

E jà que fallàmos d'estes monumentos, nao devemos esque- 
cer 08 tropheus dos ca9adores que se véem em pontos diver- 
sos de uma chipanga, ou mesmo no centro das povoa95es. 

Observam-se umas certas ceremonias, no logar em que se 
determina collocar um tronco de arvore grande com muitas 
ramifica95es, despido da folhagem para servir de cabide às ca- 



246 



EXPEDU'AO PORTCGUEZA AO MUATIANVUA 



veìraB, chifres e OBBadas maìores do» animaos mortos pelo c«- 
jador da povoa95o, quando essea animapB bSo de grande porte. 

Essas ossadas bSo enfeltadaa com tiras de baetu, prcferindo- 
se para isso a veriuellia. 

A cercMnonia da muhanhe (miikaiie:), aaaim se chama aquelle 
tronco, pri;aide o chefe da povoaySo e assistem todoa oa aeu» 
ca9adore9. 

A que vi, ora presidida polo Mnatianvua em pcssua, e fazia- 
ae para si- coUocarem dois d'esses cabides, um ao lado do ou- 
tro e o cereinoniul usado consiatin no seguinte : 

Abriram-se a poucoa passos de diatancia da entrada do grande 
pateo da chipangn, duos covas peqiienas, urna perto da outra, 
nSio excodendo a sua profundidade 0"',4. Em l'rente de cada 
iviva, um qiiilolo aguentava o tronco que nella devia entrar, 
e entro elles estava o curandeiro do Mnatianvua tendo a seu 
lado um outru quilolo com urna panella quo continha agua 
preparada com folhatì e una oertos ingredientea. 

Era frente do intervallo das covas e do curandeiro oolio- 
cou-ae o Mualifinvna. Todos os cajadores e tuxalapdlia eatavam 
armados de eapingardas e armaa gentilicas, fazendo grande 
roda ao grupo. 

Mnatianvua bateu tre'» palmadas, e o curandeiro, molhando 
um ramo de folhas na agua da panella, aeporgiu-a sobre as co- 
vaa, dizendo umaa palavras rituaea. Em seguìda avanjou, fa- 
zendo o meaino ao Mnatianvua e correu a roda doB eapectado- 
res, fallando sempre, tudo om allusSes aoa antepaaeados do 
Muatiilnvua, cujoa eapiritos invocava para que fossem coruadoB 
de bom esito ob sena esforgos e que oa troncoe que ae iam 
impiantar em pouco tempo ticaaaem carregadoa de cabe^as de 
animaes, e que nào houvesae fome de cn^a. 

E de UBO invocarem-se so os nomea d'aquellea que pela tra- 
dirlo conBer\'ani a fama do bona cn^adorea. 

Approxiinarara-se depoia do Mnatianvua dois ca^adorca, cada 
um coni o aeu prato, trazendo um pembe, e outro ocre que se 
esmagam facilmente entre os dedoa, dando aquelle um pò que 
maaearra de branco e este de vermelLo. Muutiànvua dirigiu- 





ETHKOGBAPHIA E HISTOKIA 247 

se com estes até &b covas, e ajoelhando entro ellas esfregou 
a cara; peito e bragos, primeiro com o pembe^ depois com o 
ocre, 

£m seguida reuniu todo o ocre com o pembe uo mesmo pratO; 
que pousou entro as covas. 

A roda dos circumstantes alargou-se entHo, e cada um segu- 
rando a espingarda com as duas màos inclinou-a para a frente 
com a bocca para cima, bambaleando o corpo, ora para a frente 
ora para os iados, ao compasso de um cantico ou melopeia 
triste, allusiva aos cagadores, e assim estiveram algum tempo, 
emquanto o Muatiànvua, olhando primeiro para as covas, de- 
pois para o céu, fazia as invoca95es, pedindo fortuna para os 
seus ca9adores. 

Estes, tendo avan9ado e apertando-se, estenderam as espin- 
gardas a toda a altura dos seus bra90s a cobrirem o Muatiàn- 
vua, que à medida que ia lan9ando pitadas de pò, ora numa 
ora neutra cova, pedia aos antepassados que nomeava: — quo 
nào contrariassem fazendo que os seus ca9adores nao encon- 
trassem ca9a ou tivessem mas pontarias ; que era filho d'elles 
e desejava partiiliar da boa sorte que elles tiveram; que se 
alguem Ihes fez mal nSo fora elle de certo, porque nem sequer 
OS conheceu, e referindo-se aos que conliecera, porque ainda era 
crian9a e as crian9as nào fazem mal a ninguem, etc. 

A musica de marimbas e de outros instrumentos acompa- 
nhava oste recitativo. 

Acabado elle, os ca9adore8 come9aram a cantar e a dan9ar 
grotescamente em redor dos troncos. O Muatiànvua tambem 
dan90u mas junto d'estes. No em tanto, chegou um quilolo, 
acompanhado de um rapaz que transportava caba9as com 
malufo, as quaes collocou junto das covas. 

O Muatiànvua, deitando malufo numa caneca, foi-a despe- 
jando, primeiro numa e depois neutra cova, porém vagarosa- 
mente, e intermediando com o pò do pembe e do ocre cada um 
por sua vez, fallando sempre em voz baixa para os seus an- 
tepassados, e terminando por deitar uma por92o maior de ma- 
lufo quasi de repente em cada cova. 



248 



EXPKDIVAO PORTUGUEZA AO ML'ATIAKVITA 



Acabitda estti operarlo coUocou bo o Mtiatiamua entre os 
dois troncoa aeguranìo os (.rm as màos e os ci^rtdoFca dan9a 
raui e cantirara no^anieate n que elles chamam a sua cm^So 
Kmt n depoiB o Muatiàmiia oa trincos em baixo eum o pò 
furmaadu urna criiz e uà quii Ins qut^ oa tiaham anipaiado 
desdt. a primitisa le\ antardm nos ao ar e deixaram noa cair 
com um certo e»for^o nu meio das covaa 

EntAo o MiiatiàiiMia e lodoa encoataram as e&pingardas 
aos troHLOB e o ciiniidcir com o acu ramo de follias fu as 
p rg ndo a agua da sua 
paaclla sobre o Mtiati&n 
\tia e depois apresentou 
ILe a panella e o ramo 
EstP entao, emquanto os 
ta^ id ire^ anda^am era ro- 
It dis tioDCDB cliamando 
a e-fpiritoa do8 ca^adores 
ifiiiialia em seH fa^or, 
t i aspeigindo ora as Ci 
\ 13 ora as espmgaidaa 
ri 01 ca^adorea que ai 
Ihe apjroximavam 

Ofl cajadores conscrva- 
raiu-sc por algutii tempo 
dan^audo e cautando em 
roda doB troncoH, até que 
chegdu um quilolo com 
um prato, contendo tfraa de baeta en»;arnttda e de algodào 
branco, e um outro quilolo tornando o prato do pembe e ocre 
vermellio que estava no cbào, puzeram-ae ambos ho lado do 
Muati&nvua, que depoia corrcu a roda doa ca^adorea diatri- 
buindo pembe. 

Consiste a distribui^ao do pembe eui o Muati&nvua rìacar 
no peito do cajador que, por aeu turno se Ihe apresenta, uma 
Cruz, eendo o tra^o branco ao alto feito com o pembe e o 
tranaversal com o ocre vermelLo. 





ETHNOGRÀPHIA E HISTORIA 249 

Cada um por està occasiSo tomou do prato das fitas, a que 
Ihe conveiu pela cor, branca ou vermelha, e o Muatiànvua fez- 
Ihe no brafo direito urna nova cruz da cor da fita. ca9ador 
depois d^sto foi buscar a sua espingarda, amarrando a fita na 
ramifica9ào d'um dos grandes troncos em que tinha mais fé, 
sendo para esse que destinava uma reliquia do animai que 
houvesse de matar. 

Està ceremonia observou-se com todos os circumstantes, que 
depois de terem tomado as suas espingardas, as foram encos- 
tar em logar retirado, principiando logo a cantar e dan9ar. 

O Muatiànvua depois, tornando uma por9(ÌLO da terra que saiu 
das covas, ageitou-a na palma da mao esquerda, borrifou-a com 
malufo, e com os dedos da direita 
amassou-a de modo a dar-lhe uma for- 
ma, lan9ando-a depois numa das covas. 
Repetiu mesmo para a outra. 

Seguiram-se os ca9adores a fazer o 
mesmo que o Muatiànvua, e cste foi 
sentar-se junto da mudri e mais mu- 
Iheres, onde jà havia caba9as de ma- 
lufo, das quaes escolheu uma para si, 
mandando distribuir as outras pelos 
ca9adores. 

Os quilolos, que susti veram os tron- 
cos, entulharam depois as covas com terra, batendo-a com 
agua e formando caldeiras era roda, protegidas por um mas- 
SÌ90 de barro, que com os ferros dos machadinhos molliados 
em agua alisaram uniformemente. 

Em gerai està festa da muhanhe principia de tarde, de modo 
que ao por do sol deve ter terminado a ultima ceremonia da 
implanta9ao dos troncos com toda a seguran9a. 

Bebem depois todos, acompanhando o Muatiànvua so quem 
elle chama aicm dos que o auxiliaram nas ceremonias, e em 
seguida veem as raparigas e a musica para a dan9a. 

Arranjam-se foguciras que se procuram manter até madini- 
gada, e em torno d'ellas dan9a-8e e canta- se. 




MUQUIXI 



250 EXPEDI9I0 POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

Muatiànvua, passado uin pouco de tempo de assistencia às 
dan9a8y retìrou para os seus aposentos. 

Ha tropheuB de cafa realmente muito carregados de ossa- 
das, porém alguns sSo destinados so para cabe^aS; e sSo de 
bom effeito. 

Tambem vi tropheus de guerra com as caveiras de inimìgos, 
porém o numero d'estes era lìmitado e maxime numero de 
caveiras que cada um tinha nSLo excedia seis. Informaram-me 
que neutro tempo viam-se muitos d'esses tropheus; porém 
hoje onde elles se véem mais frequentes é nas povoa98es de 
Canoquena, quatro dias ao norte da mussumba do Calànhi; 
sSo caveiras dos individuos da Lunda que os naturaes conse- 
guiram matar e devorar. 

Mencionaremos agora que, espalhados pelas diversas pò- 
voagSes na mussumba e tambem em qualquer dos estados de 
um quilolo grande, e mesmo em povoa9Ses isoladas, se en- 
contra um certo numero de individuos que sSo mestres de 
officios, e entre elles conheci os seguintes: 

Isdde, — Ferreiro. 

FaiUnga. — que sabe coser com as nossas agulhas e com 
fios que fazem do seu algodSo, por um processo muito primi- 
tivo; é alfaiate. 

Faiala, — O que faz as bainhas para as facas grandes e 
pequenas. 

Vana quingue, — O que faz as portas de capim, de bordao 
ou cannilo para a mussumba, quipangas e mesmo para as 
cubatas. 

Uana mouha. — que faz a mòuha, palanquim de encanas- 
trado de fibras vegetaes. 

Mujinga sambo, — que faz os sambos e bracelctes mais 
finos. 

Mucala ueinhe (mukala Heine) ^ .— Ìì nome que se da em 
geral a qualquer mostre ; assira : 



«0 que da vida»*. 



ETHNOOBÀPHU E HI8T0RU 251 



Macola ueivlie uà cJiiquUa {Ha ^ikUa). — que trabalha em 
obra de pelles ou couros. 

Macola ueinhe ud andando (iia aaadà). — que fia e bate o 
algodSlo. 

Macola ueinhe uà manungo (Ha manugo), — O que trabalha 
em obra de olarìa. 

Mìicola ueinhe ud morato. — que faz colheres de pau. 

Macola ueinhe vd angoma (Ha agoma). — O que faz os instru- 
mentos de pancada. 

Mucala tieinhe ud mibungo (Ha miìmgo), — O cordoeiro. 

Mucala ueinhe ud chicumho (uà òikuio), — que levanta 
cubatas. . 

Mucala ueinhe ud chicango (uà likago). — O esteirelro. 

Mucala ueinhe ud chipaia (iia òipaìaj. — que faz cestos e 
todas as obras de verga. 

Muscolo ueinhe ud chisapuilo (iia òisapiiiloj, — O que faz 
pratos; copoB; etc, de madeira. 

Mucala utinhe ud sala, — O que faz os distinctivos de pennas 
para a cabe9a. 

Quaesquer trabalhos por mais simples e rudimentares que se- 
jam fazem-se à sombra de urna arvore, e quando as nào haja, 
de ura abrigo arranjado com esteiras ou capim, a que se chama 
uruele (urOele); porém a gente de officio construe em logar pro- 
prio para trabalhar urna especie de telheiro com cobertura de 
capim. 

Nos pequenos largos das povoa95es encontram-se muitas 
d'estas officinas a que chamam munzuo mueinhe (muziio mOetne 
e casa de vida, movimento, trabaiho, officio •). 

As officinas sao simples, porque o material com que traba- 
lliam durante o dia, além de ser em pequena quantidade, é de 
facil transporte para as habita93es, e além d'isso os objectos 
fabricados sSo ligeiros, e quando se acaba o trabalho levam-nos 
comsigo. 

Ha tambem uns recintos irregulares fechados por paus de 
um metro a metro e meio de altura, tendo a um lado, um pe- 
da90 de terreno reservado com cobertura de capim; a que cha- 



252 



EXPEDI^ÀO PORTUGDEZA AO MUATIAnVDA 




mam muhlnde (muhide «curralo), que pode eervir para gado 
cabrum e ovclhtim ou pura gado suino. 

Onde lia gado vnccum, sSo eetos rocintos multo maiores e 
feitoa com mais segurao^a. gado de dia vae para o pasto 
logo de madrugada, e rccolhe ao sol posto. 

Todas as pnroa^òes doa potentados Lundas que vi em dif- 
ferentee terras tinham iiiaia ou menos a dispost^So da mua- 
sumba; porém corno sKo maiB restrictaa nSo estd bem defìnida 
essa disposi^:Jki scnSo pedo que respeita à quipanga do poten- 
tado com um grande lai^o é, frante, e rtiRs espa^osas isolando-a 
daa poToa^Ses aos lados. 

Em toda a quipanga ha o diimene (pateo de entrada), com 
toda a largura da quipanga, em quo se vgcm duas ou maÌB 
arvores frondosas, li sombra das quaes o potcntado reccbe ob 
Beus nmigos scm ccremouial. 

Para aa audiencias publicns, que san diarias e pouco depois 
de romper o sol, o potentado tem de sair fora da quipanga 
para a ambula, largo à frente d'ella, em que geralmente tam- 
bem La pelo menos urna grande arvore que se destaca das 
outras e & sombra da qual tem logar a reunlào, 

Algime Qui5co3 ji se affastam deste mo<lo de tramar as po- 
voa^SeB, mas, ainda assim, as »-uas residencias propriamente 
ditas sào cercadaB e situadas pouco mais ou mcuoa no centro 
d'ellas, mas isoladas por largas ruas. 

Deatro da cérca nSo ha divisorias; as habita^Ses, conBtruidas 
solidamente, estilo distanciadas umas das outras e diapostas 
Duma C-irta ordem. 

Entre as habita^Ses em algumas poroa^Ses d'estea e dos 
Bangalaa e Xinjes, ha pedagos de terreno cultivado de tabaco, 
aboboras, cebola» e algumas plantas de mimo comò algodào, 
etc, havendo tarabem bananciras. 

No CauDgula, talvez niesnio por mais affast^do, apesar de 
se observar a disposig^o de uma musì<umba, a aua quipanga 
tem mais vaatìdSo e contem niuitas habita^Ses mais bem con- 
struidas, alinbadas cm ruas, fuzeado lembrar uma seuzala dos 
noasDs couceUioa sertanejoa. 




ETHN06RAPHIA E HISTORIA 253 

Ab poyoa9Ses dos Quiocos: Xacumba, Quipoco, Tandan- 
ganje e mesmo do Capumba no Quicapa, distinguem-se pela 
boa ordem e disposiyHo das habita95es, que sào construidas de 
pauB a pique^ a que se dà o nome de chibango, sendo as dos 
primeiros jà de paredes barradas. 

Ab povoagòeB dos Bengos e de Andala Quissùa^ a que cha- 
mam amhanza, em geral sào grandes^ ficando as residencia dos 
potentadoa quasi ao centro. 

Estas residencias occupam grande àrea dividida em repar- 
tìmentos, e estSo unidas a cércas que limitam um espa90 
rectangular, de modo que a frente d'ellas occupa urna parte do 
lado da cérca, que fica virada para a rua. Teem so urna porta 
para està, mas diversas para o pateo, no qual ha aìnda outras 
casas, quartos para servos, cozinhas e mais dependencias. 

Tanto as cércas comò as paredes exteriores das habitajSes 
sSo revestidas de esteiras ou entao de faixas de capim, dispos- 
tas com differente desenho e de modo que umas depois de sec- 
cas silo mais claras que outras. 

Tanto as ambanzas comò as senzalas sSlo arbori sadas e teem 
entre as habita9Ses canteiros cultivados na epocha propria, 
trabalho este que pertence às mulheres. 

Em todas as povoa95es, em geral, as lavouras de mandioca, 
amendoim, feijSo, milho, batatas, etc, sSo além das habita- 
93es e geralmente nas depressSes e proximo à beira de rios 
ou linhas de agua, por serem os terrenos ahi de ordinario mais 
encharcados ou pelo menos mais frescos. 

SSo de facto as povoa93es mais intemadas dos Lundas, que 
hoje se nos apresentam nura estado relativamente de maior 
atrazo, e quem ler o que di zia Rodrigues Gra9a em 1848, 
julga que o velho sertancjo phantasiou uma mussumba a seu 
bel prazer. 

O retrocesso nos quaranta annos decorridos, explica-se pelas 
BÌtua95es anormaes por que teem passado os povos sujeitos ao 
Muatiànvua, depois de ter fallecido Noéji, que Rodrigues Gra9a 
conheceu no poder, e pelo desenvolvimento dos Bàngalas e 
Quiocos mais em contacto com a ciyilisa9So. 



254 EXPEDIfXo POBTDQDEZA AO inTATTXNVTIA 

Oa Lundas qiie até entilo, abusando do poder absoluto e ter- 
rivel do scu Maati&nvun, dlotavam a lei a todos os povna d'està 
regimo até ao Cuango, esmorecerani, perderum o animo para a 
lucta, recuaram, tornando-se uà maior parte inertus, cingindo-se 
em principio à defeaa doa lares, depoìs fugindo a occultar-se 
abandonando estes a quem os persegaia, eem ee importarem 
com o futuro. 

Se voitam ao sitio é por amor A localidnde, ou na eaperan^a 
de qiie ali appare^am as suaa miilheres, ob seus parentes, oa 
seua amigos, que oonHeguirnm cscupar-se aoa persegui dores, 
e emquanto permaneccm ncaaa usperan^a nada oa estimula a 
repararem oa prfjuizoa e a meUiorarem o que ainda poaaam 
encontrar. 

Vegetam nSo vivem, e para isso conteutam-ae em esgarava- 
tar naa arvorea & busca doa bichos e a procurar no solo as 
raizea e oa ratoa. 

Maa se conhecemna aa causa» por quo um povo decae e ve- 
moB que arrancado o individuo do meio em que a decadencia 
se dd elle ó auaceptivcl de ae regonerar e progredir, aito 
devemOB formar aobro elle o noaso juizo quando aujeito aó- 
mente a circumstanciaa anonnaes, 

Rodrigues Gra^a, que eateve um anno no Bié e d'ahi seguiu 
para a muesumba, acutiu tal ìmpreaRÌio quando aqui cbegou, 
que escreveu no eeu diario : 

tO aeii terreno, a mnior parte é plano, mattos altos nos 
logiires de pantanos, com madeiraa de construc^So; fertil de 
farinhaa de mandioca, feijBlo de todaa aa qunlidadea, amen- 
duina, azeite de palma, baminas curtas, corno aa de S. Tbomé, 
e daa compridas multo docea e saboro^as, batatas da terra, 
inliamea corno oa do BraKÌI, carai, aboboras, gado vacciim em 
grande quantidade perteucente ao eatado, ananazea, abundante 
de toda a qiialidade de ca^a, peixe dos graudes rios, carneiros 
poucos, mas em Cazembe grandea rebanhoa. seu clima é 
quente maa agradavel. Seu inverno principia em fina de julbo, 
e finaliaa noe meados de maio, conforme as eatagSes em todoa 
eatea mezea chove conatautemente, é muito aujeita a raios no 





ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 255 

tempo proprio. Cortada geralmente de riachos, muitas nas- 
centes de agua, logares alagadÌ90B intransitaveis no tempo 
das chuvas, abastecido de frondosos arvoredos. O verSio prin- 
cipia em maio; no tempo proprio cuidam de piantar, e muito 
se asBimelha este clima com o do Brazil. E cercada pelo cau- 
daloso rio Cassahy, bem comò o Lurua ou Ruma, de que jà 
fiz men9So na derrota. 

«O Lurua é abundante de peixe, pesca-se a boa tainha, o 
roballo, além d'outras qualidades de bom gesto ; e conforme as 
apparencias entendo que tem communica9ào com o mar; sua 
agua salobra com cheiro a maresia, innavegavel em partes por 
grandes pedras que obstruem o seii leito. O gentio que habita 
suas margens, pesca com redes de malha muito compridas, 
fazendo cerco, e de noite com fachos. Olhando-se, poréra, para 
o costume barbaro d'este povo, admira encontrar-se alguma 
industria, tendo objectos de uma nagao civilisada. Rica de vas- 
tas campinas cheias de elephantes e muitos outros animaes sil- 
vcstres e de muitos palmares, de que extraem o azaite ; a canna 
de assucar ha em grande quantidade e de boa qualidade, etc. 

«Ao descortinar tao vastas campinas, quem sae da espessura 
das mattas fica extasiado, desenrolando-se a seus olhos um pa- 
norama encantador. O caminhante fatigado de tao longa e tra- 
balhosa jornada, quando entra nesta mansao parece-lhe ter 
esquecido tantos incommodos e mil difficuldades que teve a 
superar. Immensos logarejos apinhados de choupanas fabrlca- 
das segando o gosto de cada um, e no centro dominando, 
comò maioral, a modo de uma torre, a habitagflo do regulo 
feita com multa regularidade cercada de um muro de grossos 
paus era quadrado com dois portSes, tendo com muito asseio 
e simetria; um horisonte dilatado e mui claro, o paiz risonho 
e fertil abrayando urna verdura perenne, realfa a vista do es- 
pectador. Nao é a ficQSo que descrevo é a realidade que jà 
testemunham alguns dos brancos que pizaram este solo, se el- 
les deixando o terror por mede de que vUo apoderados pela 
noticia das crueldades do regulo, apreciando o grande e o bello 
so aformoseado pela natureza e deixando por algum momento 



256 



EXPEDl^'ÀO POUTUGUEZX AO MDATUnVTJA 



08 ideaa do intereeee, admirarìam por certo um quadro tSoìna- 
gestoBO ! 

ijulga-se oviajante acliar-ee em um paiz civìHsado, apolicia 
que encontra, limpeza de maa, em linha recta, pra^as espayo- 
sas onde concorrem os eeiis generos diariamente, esperando 
acbar, aegundo o costume, a confusSo e a desordem, encontra 
a bellezn, a ordem, o aseeio e muitas outraa boas disposif^es 
tSo raras entre o gentio; tudo iato confunde, e corno digo, deixa 




absorto o espectador, desapparecendo o susto de quem vem 
apoderado de idea» tSo melancolicas e tristea. 



«Com o potentado moram suaa mulheres e nm certo numero 
de eacravos deatinadoa para o servÌ50 domestico; em cada um 
doa dois portSes tem um porteiro para fechA-Ioa da oito lioras 
da noite, bem corno abrir ao amanhecer. Reaidem em aeparado 
sua mSe, ìrrnSo e aobrinha, com aeua cercadoB quadradoa e 



ETNOGHAPHIA E HISTORIA 



257 



porteiro, etc. Tem duas grandes pra^as de mercado, urna em 
frente da reBÌdciicia do rcgiilo, principia àa dea horas da ma- 
nhS e acaba &a duaa da tarde; a outra defronte da murada da 
mSe do regulo, deede as trea horas até & noite, além de iniii- 
tas outras menorea etti difft'rfnten logaree. 

fSiias mas nmi C(mi|>ri(laf^, l;irgtis, asBc-iadas e alinh:ìd;i^, 
todoa OS dias sh> varridas, e todn tii|ui!llt! ipie se doacuidc da 
limpeza é ntullado em luna L-abra im urna puuta de uiartiiu, 



r 





tendo cada tua um inspector, quo fisealisa o aaseio d'ella; tam- 
bem naa pra^as é o terreno limpo à, vaBsoiira, nSo se encontra 
pedra nem pau. ■ 

Se de &cto, eu passando por Canenda, onde jà honye duaa 
grandma musaumbaa, numa daa quaes em 1881 eateve o Dr. 
Max Biichner, apenns deparei com urna extensa superficie 
sobrcpujada de olerado capim; se Cabebe, onde cxistia a 



258 expediqXo pobtogoeza ao muatiAnvcà 

niUBBumba do Miiati3iivua Noéji que Rodrigues Gro^ nos des- 
creve, sii bq conhece ter sido logar habitado pelo solo batido 
que se ve em alguna pontoa ; so em Cdpue Camixi apenaa ans 
paufl de uma cérca, que ae trausfonnaram etii arvores, noB in- 
dicam o sitio da mussumba do Muatiìlviia Ambumba onde es- 
teve o fallecido Dr. Paul Poggej se em Chimane e no Luambatn 
so se vèem entre o capim restos de ruìnaa daa mussumbaB do 
Mualifinvua Muteba ondo eateve liouren9o Bezerra; e final- 
mente Be so no Calànhi eu vi em parte desmoronada a mus- 
sumba mais antiga, aquella onde se investe da poase do seu 
cargo Muatìànvua cleìto; é contpensada a mìnha curiosidadc 
e dà-me elemeotos para ajuizar do que foram todas essas mus- 
sumbaB a povon^So importante que eucontro no Luambata, en- 
tre OR logares em que eativeram estabelecidas as mussumbas 
d'este nome e de Càpue Cam^xi, cuja pianta apresento. 

Nesta povoajSo devo notar que encontrei alguns Ambaquis- 
taa e filbos de Malanje e sena arredores, que para ali foram 
corno carregadores de comitlvas de commercio e fìcaram ag- 
gregadoa aoB primeiros. É a estea que se devia em parte nilo 
BÓ a ordem e aaseio da povoa^Ho, mas ainda o movimento, a 
vida que nella se disfructava. 

Depoìs de Rodngues Gra9a, estabeleceu-se em Cbimane 
Lourenjo Bezen-a, filho do Golungo, que durante vinte annoa 
apenas ciaco vezea foi a sua casa nas terraa de Malanje, aendo 
a ultima a do seti regi'easo definitivo, morrendo dois annos 
depoia em 1885. 

Conhecia elle jii multo bem o ajatema de negociar no BcrtSo, 
em que decorrem oa annoB esperando-ae a cobran^a de cre- 
ditos, e quando tomou pela prìmeira vez a resoIujSo de ir 
para a mussumba, levou comsigo alguns companheiros, gado 
vaccum e eeraontea, com o pensamento de ae rodear de um 
certo numero de commodidades. 

Muatianvua Muteba, qne ent3o estava no estado, havìa 
comprebendido que mal andilra o aeu antecessor Noéji em 
lesar por pretextoa cavilosos, e com dolo e fraudes, as co- 
mitìvaa do commercio dos Bàngalas de Quiùcoa e de Quìm- 





ETHNOGRAPHU E HISTOBIÀ 259 

bares, que nos seus ultimos tempos procuravam a mussumba 
e arrabaldes para negociarem ; e tanto elle corno a c6rte nSo 
esqueciam, corno um grande mal para o Estado, a espolia9So 
violenta feita i grande comitiva de Gra9ay sobre quem jà nSo 
havia entdo duvidas de que era um verdadeiro filho de Muene 
Puto, que là fòra mandado para beneficio dos povos. 

Por isso Muteba, offerecendo-se-lhe com a chegada de Be- 
zerra ensejo de fazer esquecer o labeu de mucato (mukato 
«selvagem») e de muiji (mùiji «ladrSo»), que Noéji adquirira 
para si e seus successores pelos actos que praticara para com 
08 negociadores que vinham das terras de Muene Puto, que 
elles sempre consideraram seu protector, procurou resgatar pelo 
seu procedimento com aquella comitiva a boa fama perdida 
da localidade para o commercio, attrahindo assim futuras co- 
mitivas e tirando do seu convivio todo o partido em beneficio 
dos seus povos. 

E é certo que bastante fez da sua parte, nSLo deixando de 
pagar os seus creditos religiosamente. 

Lourengo Bezerra, vulgo entre elles Lufuma, fallava perfei- 
tamente a lingua da Lunda, tinha uma grande pratica de con- 
vivencia com europeus na provincia de Angola, era jà a esse 
tempo homem de seus quaranta annos e soube insinuar-se no 
animo de Muteba e da sua corte a ponto de ser consultado 
mesmo nas questòes do estado. 

Concedendo-lhe Muteba uma grande àrea de terreno ao lado 
da sua mussumba, dedicou-se à agricultura, que jà conhecia 
de Ambaca e Golungo, e raontou varias officinas de trabalho. 

Muteba ia todas as madrugadas ver os trabalhos de seu 
amigo e tratava de o imitar na agricultura. 

Ainda hoje se vèem vestigios de grandes arrozaes e se en- 
contram varios productos horticolas, degenerados, introduzidos 
là por Bezerra. 

Muteba chegou a estabelecer multas de trabalho para quem 
na sua presenya pedisse tabaco a outrem, ou a passagem do 
cachimbo ou mutopa a qualquer que fumasse para d'elle tirar 
duas ou tres fumafas comò é de habito ainda hoje. 



EXFEDIQIO POBTCQUEZA AO HOATlll 



. NSo perdonva a ninguem nem mesmo à sua muilri, que nSo 
piantasse tabaco, quando reconheceu que scm traballio florea- 
ciam era pouco tempo as planta^Sea por elle mesmo feitas, de- 
poia que vìu conio o seii nmigo as fazia. mais que consentia 
era que o multado se fosse da cSrte, cu desse um escravo por 
si, para ir piantar as sementes ou plantas que elle mesmo 
dava entSo no individuo que multava. 

Fazia Mutoba tanto goato nas 
crea^Ses de gado vaecum, que 
Lufuma, tendo necessidade de ir 
a Mslanje fornecer-ae de uma no- 
va factura, llie fez presente de 
todo o gado que tinha, que, junto 
ao que olle jil havìa adquirido 
pelos presentcs que em principio 
liie iìzera, conatituiu a sua gran- 
de nianada denominada de Chi- 
mane, que dcH logar a outras do 
Luambata o de Cauenda, attln- 
gindo todns no anno de 1882 o 
numero de 1:200 cabejaa. 

Bezerra, sempre que regres- 
Bava daa suas excursiles & pro- 
vìncia, trazia-lhe, além de pre- 
sentes e encomraendas, algumas 
eabe^as do melhor gado para 
,r.a>. u« «o™«, crea?ao. 

É costume os fidalgos da corte apresentarem para o servilo 
do Muatìilnvua um de seus filhos, quando a sua idade regula 
por quatorze annos; poÌa Muteba ao entregarem-lhe algtine 
d'estea rapazea, mandava-oa a Bezerra para os adestrar em 
algum officio e tambem ensinar-lhes a esercver a lingua de 
Muene Puto. 

I Conheci DO Luambata tres Lundas que escreviam portuguez 
de modo que ea entendia o quo queriam dizer. Tinbam side 
discipulos de Bezerra. 




ETIINOGKAPHLA E HISTORIA 



261 



Dr. Pogge, quando regreasou da Musaumba, recebeu de 
Bezerra para a sua viagem urna sacca de arroz de Chimane^ 
que agradeceu com um bom presente. 

Nas suas officinas fabricavam-se : tangae, pannos tecidos de 
algodilo ou fìoB texteìs de urna pianta da familia das cannabi- 
neaceas, e d'eates panoos de diversaa grandezas ae faziam até 
lenfoes e roupas ao nosao uso; cal^'ado de couro e mesmo 
d'aquelles pannoa; colherea, cai- 
xaa, bancos; utensilios de ferro, 
conio machados, enchadas, facas, 
fecbos, etc, jà um aperfeijoa- 
mento do quo sabiam fazer; do 
canbamo e de fibras de outras 
plantaa texteie faziam-se tambeni 
cbapeas imitando oa noEsoa do 
palba, grande» estciras, boas 
cestas, etc., e de obra de oleiro 
vasilhas muìto mais perfeitaa do 
que antcB, a julgar pelas que 
consegui ainda ver nas povoa9Òes 
doB Lundae que visitei. 

E incontestavel que durante 
08 doia annos do governo de Mu- 
teba, o que se cbamava a córte, 
a regiilo entro o Luiza e Caianhi, 
pas&ou por urna grande transfer- (p^ot_ ^g Mortai) ^ 

mosSo. 

Veiu depois o Ambumba que fora Xanama (governador) no 
Tenga* e Louren^o Bezerra, ainda por algum tempo se con- 
servou em Chimane, porém aqueUe potentado era multo exi- 
geute, e Bezerra nSo poude proseguir na sua obra civilisadora, 
e tere de retirar serriado-ae de um sabteriiigio, alida perde- 




' É a regiào eutro 9" 
eaqnerda d'est» rio. 



: 10" latttudc S-i Kimama r 



262 EZFEDI^ÌO FORTDOUEZA AO HUITIIKTOA 

ria traifoeiramente a vida. Ambimiba, sendo Xanaina, jurdra 
Tingar-Bc da Muasumba, e eoaseguÌDdo ser MuatlAnvua e auxi- 
lìado pelos QiiÌ6cos, empregou todos oa seus esforgOB para a 
aniquillar bem comò o estado em geni, entrsgando-o i des- 
cripgSo d'clles. 

O esphacdamento do eetado e a decadencia que precipita- 
damente ee tem Buccedido dos ultimoB cinco annns é obra 
d'aquelle nefasto Muatitm^'ua ', que aó tarde se iembrou de 
imitar Muteba, mandando urna enibaixada a Muene Puto, para 
tornar Bob o bcu proteetorado o antigo estado do Mnati&nrua, 
diligencia que ob Bùngalas no Cuango fnistraram, corno elle 
no Cassai fi'UGtrtira a de Muteba, pela ambi^ào de tìcar coni 
vaIioBÌB8Ìmo presente de diizentns pontaa de marfìm de lei 
e qiiinhcntOB CBCravos. 

NSo devo deixar sem reparo que, vendo eBcripto naa cartas 
geograpbicas qiie commigo levei, kìsimemè e kizeméne, corno . 
o legar da Mussumba em que CBtcve o explorador allemao 
Dr. Pogge, na raargera esqucrda do CnlAnhi, nìnguem me deu 
nóticia de tal nome. Indicaram-me, é verdade, aquella mua- 
eumba na margem eaquerda d'aquelle rio mas com o nome 
de Cdpue Camàxi, posto pelo MuatiSnvua, e que o explorador 
TÌBÌtou, a duas horas de marcba a S.-E. do Luambata. 

Com a mesma facìlidade com que os potentados mudam de 
reeidencia, trocam ob nonies aos sltios, dando-Be a cìrcumBtan- 
cia de se esquecerem completamente osuomeB que ellas ttnham 
anteriormente. 

Eu creio bem que o nome d'aquelle BÌtio seria Qmximemè, 

porquanto todos os descampadoB, que bó aervem para pastos 

de gado miudo, teem esse nome. Qui, ó o prefixo que se em- 

. prega para sitio, legar etc. ; xi vocabulo € terra»; e meme' indica 

o balir doa animaes pequenos que andam no paBto. 

Naturalmente ao fallecido doutor, repetiram onome que ti- 
vera o sitio e nillo o da Mussumba, que era de recente data. 



1 V<!Ja-Be Hialoria de Uuleba e Xanama, no capitulo respectivo. 




ETHNOGBAPBIA E HISTOBU 263 

A povoagSo que encontrei no Luambata nSo é mais que o 
resto d'esse nucleo da colonia de angolenses que Bezerra dei- 
para no Chimane, jà com familias que constituiram com Lun- 
das e que luctavam para viver, nSo obstante terem sido obri- 
gados a abandonar os lares por duas vezes num anno, em 
consequencia das correrias dos Quidcos. Por firn almejavam 
por um soccorro qualquer que Ihes protegesse ao menos as 
vidas no regresso para a provincia. 

Depois de 1881 em que esteve ein Cauenda o Dr. Max Bùch- 
ner, nem sequer urna pequena comitiva de Bàngalas voltàra 
à Mussumba, e està pobre gente, sujeita apenas aos recursos 
da localidade, luctava para os aproveitar e poderem manter- 
se, sempre numa e8peran9a de que a ordem se restabeleceria 
e Ihes fosse possivel encorporar-se em alguma comitiva de 
regresso. 

Longe da civilisa9So, cortado o seu regresso pelo cérco de 
Quidcos de quem se temiam, por duas vezes vendo destruidos 
OS seus trabalhos de annos, custa a crer na sua persistencia e 
comò a cultura do tabaco por ultimo, principalmente os susten- 
tava e Ihes permittia ainda augmentar as suas familias com 
servos! 

Està persistencia era porém um facto naturai, pois se dà 
entre os individuos que nasceram jà em contacto com a civili- 
sa9So, e que foram educados debaixo de uns certos principios 
ainda que rudimentares da vida eulta, e se encontraram numa 
terra estranha, distante, sem outros recursos senSo os que Ihe 
offerecia a localidade, e com aptidào e conhecimentos adquiridos 
para aproveitarem com vantagem esses recursos. 

Jà assim n3o succedia com os indigenas da localidade e vi- 
zinhos, porque, embora tivessem revellado em tempos ante- 
riores a faculdade de imita los e de se aperfeÌ9oarem, tinham 
a facilidade de se contentar com aquillo de que langavam mSo, 
comò o homem primitivo, e do que a natureza Ihes offerecia 
para se alimentarem, abandonando trabalhos emprehendidos 
pelo receio da sua destruigSo pelos Quidcos, que de mezes a 
mezes os atacavam para os espoliarem do melhor que possuissem. 



2Ò4 



EXl'EDigXo PORTDQDEZA AO MLUTIÀNVOA 



Mas iato é um estado anormal, e se s3o os Lundas, em 
toda està regiSo, que na actualidadc ae apresentam num grau 
relativamente atrasado, devemos nSo obstante eetudar ob seuB 
progresBos até entJlo, porque ae aquolle atraso denota deca- 
dencia, lem ella a sua origem prìacipai noa habitos de sujeigSo 
d'esse povo à auctoridade despotica dos bcus ultimos gover- 
nantee e i. falta de recuraos para poderem resistir & ìnvasSo 
de povos, que, reeonbecenijo essas faltae e o aeu estado de 
desordem ìntoatina, se prevaleceram d'easas circuiustanclas 
para os anìquilar. 





CAPITULO V 



INDFSTEIA INDIGENA 



AlgiuuAs palavru sobre o conhecimento do fogo e do ferro — Objectos de ciao, fixoB nas ha- 
bita^Sea — Moveis diversos de madeira — Utensilios domesticos de madeira ou ferro — 
Objectos de ceramica; procetsos rudimentares do leu fabrlco — Emprego da roda do 
oleiro peloi Bàngalas e Qoiòcoi — Taoga de algodùo; tearei — Obras de eatèira e 
verga — Objectos de uso peuoal ou casello feitos de varias substancias texteis — Apro* 
Yeitamento das cabaf aa corno vasoa para contcr e transportai* liquidoa — Lou^a euro» 
pea — Cachimboa para tabaco e llamba — Utenailioa para limpeza da bocca e cabelloa — 
Facaa e outroa inatnunentoa eortantea — BaatSea, ina9aa e variaa outraa armaa de jna- 
deira oa de ferro — Eacudoa — Lan^aa, piquea, alabardas, forquilhaa, etc. — Armaa de 
tiro ; arco e flecha — Armaa de fogo ; fabrico de eapingardaa e cartuchoa — Instrumen- 
toa agricolaa, enchadaa, machadinhaa de ferro ; ancinhoa ou enga^oa de madeira — 
Induatria da pesca ; cercaa e armadllhas para apanha do peixe — Considera^Sea aobre 
o fabrico de armas, utensilioa e outros productoa de industria indigena, e influenci* 
atrophiante ezercida aobre ella pela introduc9ào de artefactos europeua. 




emoB no capitulo antecedente 
noticia corno eates povos ac 
encontram, construindo abri- 
gos; maa a julgar pelo que 
niuda hoje succede quando 
em viagem ou quando pevse- 
guidos pelo inimigo que os 
for^'a a aban donar oa que 
tinham, é de preaumir que 
antes de ob saberem conatruir 
ae abrigussem & sombra daa 
arvoree na entrada de urna 
floresta, ou meamo entre o 
eapeaao e elevado capìm. 
NSo VI noB montes, nas serras, nem meamo noa caminbos, 
em todo o meu tranaito, que houveaee excava^òea ou cavemaa, 
corno as de que tive noticia em Ambaca e Malanje, nera en- 
contrei peasoa a!f,nma daa 1 calidadea, com quanto interrogasBe 
muitaa, que me aoubesaem dar d'ellaa noticia. 

Tambem nSo ha indicio nem tradirlo que noe diga corno 
estea povoa chegaram a ter conhecimeuto do ferro, conbeci- 
mento certamcute poatenor ao doa sena actuaea abrìgos. S^, 
porém, todoB unauimes em dizer que os aeus autepasaadoa jà 



I 



^ -"*»-- 



26)i EXPEDI93I0 PORTHODEZA 10 HDATIInVDA. 

coiilieciam, das terrns d'onde vinham, aquelle grande elemento 
do progresso, e naa terras onde se fixarain comefaram logo 
a fazer uso d'elle. 

Emquonto ao fogo é para notar que o seti vocabulo tenlia 
variado muito entre os diversoB povo» de toda està regiSo, 
ouvindo-se o meamo cm tribus a grandes distancìaa. 

AsBÌm nos povoa mala ao norte e ao oriente ou é moto ou 
muriroj notando-se mcsmo, ainda nos mais intomndos ao 
oriente do Zaire; mas a oeste de Maniema,- diz-se tiUn'a; no 
Drega, cassai ""^ Baciibas, chìhia; e nos Balubaa capta. 

Caminhando aìnda mais para sul e ceste até à costa, em 
Canhliica è, mudilo; cm Mataba, queihta; era Macoaea quétae, 
eni diversas povoa^des Lundae até ao Cuengo, càssui, cdssue, 
càesuo, aUsu; nos QuìOcos cdhia; no Congo, copia; naa mar- 
gens do Cuango, tiihia; de Malanje n Loanda, tiìiia. 

Pondo de parte a questSo do prefixo que uiuis està no ain- 
gular ca e noutros no pliiral tu, v6-ae que a aua deaigna^Ho 
pasBOu de riro ou dìlo, eom que vtnha do nordeste até ao Caa- 
sai, para hta ou sua, (sue, su, sa); e com està passou para toda 
a regiflo de que nos occupàmos até è. coata. 

Eetaa deaìgna^t^ea, porém, se sSo empregadas por analogia 
em outroa vocabulos corno nos Balubaa para a polvora que é 
tambem copia, noiitroa sao dcduzidas corno entre ob Lundaa, 
de usua (usàa iforga*) de que tambem fazem suapàli ou «uà- 
cali («de repente, ji, depressa, quanto antes»). 

E do esforgo em se fazer Jbgo que parece ter-Be orìginado 
vocabulo, o que indica ter aido adoptado depoia de obterem 
o fogo pela frie^uo ou pela percuaaSo, opera^'Ses amba^ que el- 
lea nSo deaconfaecem; e il &lta de laca, vi gente de Muene 
Maaaaca, pela fricjìto de madetra, incendiar capim e obter 
fogo para cozinhar. 

O modo mais usuai porque obteem lume é a percuBsSo; 
a pedemcira nSo Ihea falta, e a faca é objecto indiapensavel 
q|ue aempre trazem. 

Causava-lhea grande sensa93o que eu com a minha lente, 
ÌDcendìasse trapoa, capim, acendeBse um cigarro, fìzesse arder 





ETHyOGRAPHIA E HISTOBU 269 

o tabacò na mutopa d'elles quando qlieriam fumar^ Ihes qnei- 
masse a pelle das costas ou das m^os, e denominavam a lente 
càssue ca mutena (kasiih ka mutena sfogo do 8ol>). 

E nSo foi està urna locu9ào nova entro elles, porque a teem 
corno um cognome de guerra; e é curioso^ que sondo cdhia o 
vocabulo para fogo entro os Quiocos^ tambem elles tenham 
aquelle cognome^ o que me faz parecer, cdhia vocabulo mo- 
derno entro estes. 

Tambem elles sabem que o raio Ihes pode incendiar a ba- 
bita$So ; porém se alguma vez esse facto se dà^ é considerado 
corno feitifo. 

Conhecem que uns certos fructos oleosos ardem, bem comò 
a céra, porém nSo sabem aproveità-los, e se admiravam as ve- 
las de cera feitas i mSo pelos Ambaquistas, as nossas de es- 
tearina, pela perfeÌ9ao e brancura, ainda mais extranbeza Ihes 
causavam, e deram-lhes o nome de càssue ca Muene Pitto, as- 
sim comò aos phosphoros amorphos, càssue ca mutondo (cfogo 
do pau>). 

As suas luzes sSlo ainda hoje as chammas das fogueiras de 
lenha, que vSo alimentando, emquanto comem ou conversam 
durante a noite. 

Em goral nas povoafSes, os braseiros da noite sao aprovei- 
tados para as refeÌ9Ses da manhS ; sempre ha quem tenha fogo 
durante o dia, e por isso uns vao obtendo dos outros o fogo 
de que carecem, mesmo para fumar. 

Para viagem todos levam na bolsa, ou nas dobras do panno 
à cintura, uma pedemeira, fusil ou faca e um pedafo de isca. 
Està obteem-na elles do algodào, da casca da bananeira e 
tambem de algumas fibras, depois de uns certos preparos. 

Com respeito ao ferro, colhe se da tradÌ9So que Ilunga, o pae 
do prlmeiro Muatianvua vindo do nordeste, trazia comsigo a 
chimbìiia, pequeno machado distinctivo de Suana Mulopo do 
estado de seu fallecido pae, e que era conhecido por Canhiuca 
e Cassango, seus irmSos ; pertanto qualquer dos estados que 
OS tres organi saram, se nSo tinham conh ecimento do ferro ma- 
nufacturado, tiveram-no entSo. 



270 



EXFGDI^ZO FOBTDOUBZA AQ HDATIAnTUA 



b 



Mas, é atnda a historìa tradicìonal que aos dà a saber que 
OB BungOB, povo que Ilunga encontroii jirnto ao rio Calftnbi, 
conbeciaoi o ferro, visto que tinhaiu as laminae com que cortO' 
vam as veias liumiiuas pura fazerem o lucano, distìnctivo em 
diversoa estados de Muata, em qiie estavam divididos estea 
povos, e tambem o mondo (modo «instrumenfo de pancadai), 
que é um tronco escavado intcriormente por urna pequena aber- 
tura e que Ihc-s serre para transraittirem noticìas a diatancias, 
ou de povoa^ào em povoa^ao. 

Quando se organisou o cstado do Muatianvua, e principia- 
ram as correntcs de migrarlo d'esse estado a espalbarem-se 
para o occidente entre 7° e 10° de lat. S., nSo descoiiheciam 
pois cstes povOB o l'orro. 

Ha quanto tempo porém o conheciam? Nilo é certamente 
na regiSo em que hoje vivem que se poderi saber. 

Quaes os progressos que elles teora feito depois d'essa im- 
portante acquÌEÌ9lo, é do que noa vamos occupar, descrevendo 
OS objectos que vimos, principiando peloa que sSo de aeu oso 
quotidiano. 

Ulalo. — É a cama que fazem no recinto mais resgtmrdado 
da habitagSo e junto à parede. Parallelamente a està e d'ella 
distante»* CP,6 a 0™,7, pjantam no solo forquìllias de troncos, 
distanciadas de 0°,3 a 0",4 uraas das outras, tendo de altura 
acima do solo de 0",! a 0"',3, e num comprimente que nSo 
excede l^GO. 

Ab forquilhas s^o dispostas para receberem uma vara resis- 
tente. Junto ò. parede fas-se o mesmo. Sobre as varas longitu- 
dinaea cruzam-se outras mais curtas, a pcquenaa distancias oh 
umas de encontro ^s outras, e tudo se ata e aperta por meio de 
liames, de modo que nSo fiijam dos logares em que se pre- 
tende que fiqnem, 

Obtem-se assim um estrado, que se cobre de capim bem ba- 
tido, e por cima eatendc-se uma, duas ou mais esteiras, e quem 
possue pellea pc^e-as por baiso das csteiraa. 

Ha porém qucm tenha camas melhores; sobre o estrado dia- 
p<Ie-Be uma cobertura de cannÌ9oa, lìgados uns aos outros no 




ETHKOGRAPHIA E mSTOBIA 271 

sentido do complimento, fazendo-nos lembrar omas taboinhas 
para janellas (venezianas); e é sobre està cobertura que deitam 
as esteiras. 

Se a altura das paredes da habìta9So permitte, as tarim* 
bas silo elevadas acima do solo até 0",8^ e neste caso a cober- 
tura de cannijo tem a largura sufficiente para tocar no chXo, 
aproveitando-se o espajo abaixo do leito para arrecadajSo de 
varios objectos. 

Vi alguns acampamentos no meu transito, feitos pelos Tun- 
gombes, Bienos e Quidcos do sul, em que as habita93es eram 
alias, tendo portas de altura razoavel, e o ulalo ostava acima 
do solo 0",6 a 0™,7. Ora se estas habita^òes eram provisorias, 
para servirem uma ou duas noites na viagem ao ponto a que 
se destinavam, geralmente o Lubuco, de certo nas suas povoa- 
93es permanentes, as habita^Ses e commodidades de que se ro- 
deiam devem difiFeren9ar-se por serem mais perfeitas e melhores. 

Lutala. — Chamam elles a uma prateleira lutala, e fazem-nas 
semelhantes aos estrados das tarimbas. Aproveitando superior- 
mente OS vSos das coberturas nas habita95es, dispSem ahi uma 
especie de redes de varas delgadas ou mesmo so de liames bem 
esticados de vareta a vareta em diversos sentidos. Tambem 
ouvi cbamar às tarimbas que se fazem para as cargas ou ob- 
jectos que se querem livrar do salale ou da bumidade, ulalo 
iduma {ìdolo touma ccama das cousas»). 

Mu88au (musau), — E um travesséiro de madeira: faz lem- 
brar OS dos Chins, com menos ornatos; porém alguns tenho 
visto multo razoaveis no trabalho. Vi-os de 
um so pé, de base redonda, tendo a altura de 
0'",12 a 0",15, sustentando um pequeno prato 
redondo onde assenta a cabe9a, tendo de dia- 
metro superior 0™,12 a 0™,15; outros em vez 
de prato, supportam um rectangulo de 0'",18 X 0'",9 esca- 
vado do centro para os lados. Estes sSo elegantes. 

Ditanda (ditaaa). — Banco de pequena altura, que fazem de 
diversas formas de uma so pe9a ou entSo com tres ou quatro 
pés, .ligados inferiormente por travessas. 




272 EXPEDI^XO POBTDGUEZA AO MUATlASVCA 

Os primeiroB siio feitoa segimdo o goBto de quem oa quer 
e da madeira de que se diRpSe. Uds sSio de assento rcdondo 
era forma de prato pouco cavado, com tres ou quatro pés, que 
partem da sua face inferior, tendo estes pelo lado interior uns 
apoioB que obliquameDte convergem todoB ao fuado do assento. 
Oa pés de aec^-ao quadrada tcem feralmente 0™,U2 de lado; a 
altura d'este banco varia até ao lìmite de 0"',3. Tambem oa 
fazem rectangiilarea e de urna so peja, tendo o assento tuga 
depressilo longitadinal em forma de crescente, e aSo mais in- 
commodoB. Este movel tem O^jS de comprimento e O"",! de 




largo; oa pés bUo constituiclos peloB ladoa de urna caixa de 
forma arredondada, com abertos à faca, aegundo o goato do 
artifice; o assento cscede um pouco estes. 

Ha muitas variedades d'estes bancos, sendo todaa milito por- 
tateis, levea e pequenos. Os pés sSo mais ou menna enfeitadoa, 
e vi um d'elles de forma rcdonda, em que o assento de ma- 
deira e OS aeus apoios consistiam em umas mSos segurando o 
lampo pelos bordoa. traballio nSo estava mal acabado. 

Os quatro pés a direito, ligados por traveasafl inferiormente, 
aJto imitagSo dos bancoa qiie fazem os Quimbares, jA acostu- 
madoB a viagens no sertSo. SJto cobertoa superiormente por 




ETHNOQKAPHIA E HISTORIA 273 

urna pelle de animai, que cosem pela parte ìnferìor depoÌB de 
bem assente sobre o quadro a que estào ligàdos os pés. 

Ha outros estreitos so com dois pés, que fazem lembrar ims 
assentos antigos de que jà usimos, e com a sua gavcta com 
ebave; mas é preciso ter sempre um individuo atràs, a segu- 
rà-los, para que quem nelles se assenta nào caia quando faya 
qualquer movimento. 

» Ditanda dia cuxatela {ditada d^a kuxatelà). — É um banco 
com costas, ou melhor assento com costas que faz lembrar 
uma cadeira. Foram os Quiòcos os primeiros a usà-los. Os as- 
sentos sao quasi quadrados; os pés trazeiros prolongam-se para 
cima vez e meia a sua altura e estào ligados a moia distancia 
do assento e superiormente por travessas. assento é de couro 
ou pelles pregado a tachas amarellas em quadro. Tambem os 
espaldares de alguns sào de couro e pregados do mesmo modo. 
Fazem lembrar pelas suas pequenas dimensòes as cadeiras de 
costura para meninas. Àlguns vi tambem de bra90s. Costumam 
quando o potentado sae fora para ouvir algum estranho, cobri- 
los todos com um bom panno de chita, de len90s ou bavendo-o, 
com um bom cobertor. 

Muatiànvua Àmbiimba, sabendo que alguns quilolos nos 
seus estados jà se sentavam em bancos e mesmo em cadeiras, 
zangou-se e pediu às comitivas dos Bàngalas que Ihe trou- 
xessem uma cadeira d'aquellas em quo se sentavam os filhos 
de Muene Puto. Mais tarde, quasi no firn do seu governo, fez 
sair uma expedÌ9ào com mariim, e uma das cousas que pedia 
directamente a Muene Puto era se Ihe mandava uma cadeira 
igual àquellas de que usava. Nao queria o Muatiànvua que 
houvesse alguem na Lunda que se sentasse mais alto do elle. 

Muxete. — E uma pequena caixa de madeira de 0™,60X0'°,25, 
tendo de altura 0™,20, mas em que os lados menores se prolon- 
,gam abaixo do fuudo uns 0'°,08 a O^jlO, ficando assim o fìindo 
acima do solo. Estas eabcas, que teem fechadura, servem tam- 
bem de bancos. Algumas em legar de tampa teem gaveta ou 
slo abertas do lado. Fazem-nas, imitando as que teem levado 
e là deixam ficar os Quimbares. 

18 



'EDigXO POBTDQUBZA AO MUATllUVUA 




Chino (iSino).— É um al- 
A mofariz de madeira em for- 

^ ma de urna ou cylindrico, 

^^^^^^ com o »ea pedal. Alguna 
H ^^H sftu niuito toscos, variando 
^^^^H nas dìmeiiaSe». Os maiores 
^^^^^ qiie vi tccm de altura iute- 
^^^ rior U^jS a O^^G, diametro 
na bocca 0"',3 ; oa mais pequenoa, altura 
interior 0™,1 e largura na bocca, 0",07j 
estes so 8er\'em para pisar folbas de tabaco. 
Os maiorea emprpgam-ae para triturar e 
esmagar a mandioca depoia de raagada eoi 
peda9oa e esfarellada, a firn de preparar a 
fuba; Q que fazem piaando estes pedagoa 
com um pau de 1",2 do altura, O^jOSó do 
largura, terminando a parte inferior num 
al argani ento, arredondado na base para 
bem bater oe peda^'os de mandioca de en- 
coutro aa paredes do almofariz cujo fìmdo 
é concavo. Aquelle pau, que nSo é mais 
que um pil2o, tem nome de muixi (muian). 
Ao pequeuo almofariz para tabaco chamam 
cachino (kaSino). 

Rato. — -E urna colhér de pau imitando 
aa noasaa. Fazom-ge grandea e pequenas 
e ha-aa tambem de ferro. 

Mìivuro. — Haate de madeira, terminando 
iium extremo em concha, ou em forma de 
canòa com abertoa; é a colber com que 
mechem o malufo ou outra qualquer bebida 
fermeutada. A outra extremidade termina a 
capricho imitando uma ave, urna cabe^a de 
homem ou de qualquer quadrupede. E toda 
mais ou menoa cnfeitada com relevoa feitos 
à faca, ou com trago» em varios eentidos. 





BTHMOGRAPHIA E HISTORIA 275 

CkiMopuilo (iùapiiSo). — Prato de madeira. Fodem Ber de 
dirersas grandezas, mais ou menos cavados. O nuùor qua vi 
tinha de diametro superior 0°°,4 e 0'",12 na base ; bIo todos de 
borda larga, que geralmente destacam do resto, fazendo-a preta 
com enfeites a branco e vennelho. Escolhe-se para iabricar 
esteB pratOB urna madeira eapecial guasi branca e muito macia, 
para bem se trabalhar & faca. A parte inferior fica perfeita- 
mente lisa, sendo cavada. O fiindo jà é mais tosco pelo Udo 
exterior. Fazem-noB sempre com um rebordo mais ou menos 
saliente pela parte inferior. Àlguns sSo altos, tendo a forma 
de vaso .com altura de 0°°,1 afora o rebordo de CjOS; variando 
o seu diametro na abertura de 0'°,3 a 0°,4. Estes teem tampa. 




MuitoB se servem d'elles corno bacia para lavar a cara e mSos, 
e dSo-lhe o nome de dicumbo (dikuio), 

Tambem os ha em forma de vaso quasi cylindrìco de 0",13 
a 0^,15 de altura; tendo de diametro no fundo 0™,06 aO",08 
e superiormente, na abertura, de O^^IO a O^jlS. Alguns s3o 
bojudos ao meio. Servem-sc d'estee para beberem e tambem e 
mais geralmente, para nelles deitarem mfilbo que tomam junta- 
mente com o seu mica '. Este vaso nSo tem borda larga, mas 
apenas encurva um pouco para fora. Tambem Ihe fazem pin- 
turas pelo lado exterior, tendo um bordozinho inferior para o 
fundo nSo assentar no solo, e ha alguns com tampas. Cba- 
mam-se estes cachipuache (kaSipuaie). 



I Vide na pagina 277, quando se descreve o tatngo. 



. 276 EXPEDI9I0 PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

A08 noBsoB pratos de lou9a, qualquer que seja Bua grandeza 
ou forma; chamam chilonda (òUoaa). A nossa loufa deram o 
nome de cama, e por isso tambem dizem chilonda chicama (òi- 
loda òikama). Os Bàngalas dào-lhe o nome de chianga (òiaga), 
denominaySo que jà os Limdas muitas vezes empregam; e aoB 
objectos de foiba de lata chamam chilonda chidfoia. 

Mìi88oma, — E um espeto de pau ou de ferro em que assam 
o peixe ou carne. Em o peixe sendo pequeno mettem-lhe o 
rabo na bocca; se é grande, cortam-no às postas, e assim 
preparado ou a carne cortada em pedajos, esfrega-se com sai 
«e o teem^ enfìam uns bocados em seguida aos oiitros e o 
extremo livre do espeto crava-se no terreno ao lado do bra- 
seiro; assim disposto este utensilio pouco a pouco vae-se vi- 
rando para se assar que se quer. 

DSo mesmo nome por analogia aos palitos com que co- 
9am a cabe9a ou que Ihes servem de pregos para os seus 
penteados e para segurar os pannos, sendo mais ou menoB 
ornamentados com desenhos em abertos ou em relevos e en- 
feitados com missanga. 

Ha ainda outros artefactos de madeira para elles de grande 
importancia, comò sào os instrumentos de pancada que des- 
crevo em outro capitulo, e nato, canoa para pass agem nos 
rios. 

As canóas s3o de differente grandeza e fazem-nas de tron- 
cos de arvores, comò sSo mufuma, mufide, mucamba e outras. 
Tiram-lhe as cascas a machado e escavara-nos para o interior 
no sentido do maior diametro, D^o-lhcs forma de próas para 
ambos ob extremos, e nao tendo quilhas, rolam sobre as 
aguas, sendo preciso haver equilibrio de cargas ou passageiros, 
^orque viram com facilidade. 

Quando, em 1887, os Quiòcos perseguiram os Lundas do 
Lulùa até à Mussumba, tal era a precipita9ào com que estes 
queriam passar rio Calànhi, que a canòa que andava ao Ber- 
VÌ90 de transporte de gente se virou por mais de uma vez, e 
muita gente foi levada pela corrente, perecendo na maioria 
por nSo saber nadar. 



ETnSOOBAPniA E HI8T0BU 277 

Em alguns pontos em vez de candas fazem jangadas de 
varas de lutombe e de bambùs; a que dSo tambem formas de 
pr6a, e nellas passam cargas pesadas. 

O goverHO tanto do umas comò de outras é feito com varas 
encostadas ao costado na proa, e em algumas tambem é auxi- 
liado com outra à ré, quando as correntes sSo mais fortes e 
em sentido desencontrado. 

Ha candas grandes que levam de vinte a trinta pessoas^ 
todas enfileiradas no sentido do comprimente; as jangadas, 
porém, nSlo transportam mais de duas pessoas. 

As canoas feitas de mufuma, que na provincia de Angola 
chamam mafumeira, sSo as melhores ; polo menos sSio as que 
offerecem mais seguran9a e resistem mais ao tempo. 

Nao teem oiitros objectos de madeira para os seus servifos 
de trato caseiros porque o barro, fibras de plantas e as ca- 
ba9as Ihes fornecem os demais de que carecem. 

Nfmgo (na^o).— Panella de grandeza regular para uma fa- 
milia de seis a sete pessoas, onde se prepara o mica. O pro- 
cesso de o fazer é muito simples: fervem primeiro a agua, e 
alguns deitam-lhe uma pequena por9ao de fuba para activar 
a fervura. Depois deitam-lhe uma porgSo razoavel, quasi me- 
tade do que pode levar a panella, da mesma substancia e lego 
a mexem com um pau especial, mas com um certo esforgo e 
v2lo-lhe deitando com a mSo esquerda mais fuba, mexendo-a 
sempre. A agua vae sondo absorvida, e quando jà receiam que 
a massa se pegue, continuam o traballio fora do fogo enta- 
lando a panella entro os pés ; e entao com as duas maos me- 
xem o pau, porque a massa se vae tornando resistente, e ainda 
Ihe vao deitando fuba, continuando a operagSo até ficar bem 
enxuta. 

Ao pau usado neste servigo chamam mupdji. 

A panella pequena denomina-se canxingo (kamcyo), mas se 
tem a forma das nossas tijellas, baixa e abrindo para cima, 
chama-se canungo ed mussangcda. Se ella forma dois bojos comò 
OS nossos alcatruzes e se e estreita comò elles, recebe o nome 
de chibenguele (èibegde). 



278 



EXPEDI9I0 POBTUODEZA AO KUATIInvDA 



Ha umas, em forma de jarra, para cozinhar hervas, lagar- 
t08 e cogunieltoB, a que chamam dibungo (dibuyo). 

Taiubetii vi grandes panellas em forma de caldeiro, mas de 
fundo abahulado, a que duvam o nome de cariba {kariha). Està 
serve para nelln ae fazcr a fermenta^So de bcbidae. 

Saba.— E a sua bilha para malufo, azeite ou agua. Imagìne- 
se urna esphera a que se eortou urna calate para llie adaptar 
um cylindro oco, eie urna das formas. 




Està varia Da grandeza, sondo o collo ou gargalo despro- 
porcinado pela sua grande altura com retatilo às dìmensctos da 
espbera ou parte inferior. Para azeito em geral Hsam-as mais 
pequenas, fazendo a sua parte inferior lembrar as garrafas de 
toucador: dois aegmentos de espheraa que se irnem pelos bor- 
dos e tendo superiormente um collo ou gargalo tambem alto. 
Estea gargalos teera a forma cylindrica ou abrem um poaco 
na parte inferior, e tambem ao contrario apertam. Aa 1 
pequenas d'estas ultimas chamam cassaha (kasaba). 

Ha algumas com arabescos mais ou menoa bem dispostoa. 




ETHN06BAPHU E HISTOBIA 



279 



Vsiiam molto nae dimensSea esteB artefactos de otaria, fi- 
cando sempre o barro escnro; cbegaodo mesmo a Iiaver pa- 
nellas que parecem chavenas e mesmo sabas, que ntk> bSo mais 
qae tres ou quatro eapheras umaa sobre a» outras, dimintimdo 
em diametro as que ficam por cima, porém entram na classi- 
fica^^ de nimgo e eaba. 

E por isso Às noseaa panellas de foiba ou de ferro, aos ta- 
choB e frigideiras, dSo elles sempre ob nomea de nungo uà 
chUonda (nugo Ha iilo- 
aa). Foi cbilonda o no- 
me qne deram à noesa 
lou9a, e aasim denomi- 
nam tambem ob utensì- 
lioB de coztnha, aeja 
qutd fot material de 
qne aejam feitos. Até 
a um grande tacho de 
cobre, qne Louren9o Be- 
zerra deixou qo Lnam- 
bata, para gomma, ta- 
pioca e farinha, que nÓB 
chamamoB farinha de 
pau, cbamaram nvngo 
uà chilonda. 

O modo de fabricar 
a lou9a é muito rudi- 

mestar servindo de fórma na primitiva os fundoB de caba9aB 
e outros fructos de caBca grossa. 

Sobre um estrado formado de pequenos paus estendem um 
bocado de barro amassado com agua, mas numa camada es- 
peasa, e nesta assentam até certa altura a cabaQa ou fructo, 
cuja fórma querem reproduzir; em seguida vSo juntando & 
mSo pedagos de barro amasBado, continuando a rodear a fSrma 
e tirando o barro excedente da base, o qual t!Io humedecendo 
com mais agua, aproveitando-o aasim para a continuagiio do 
trabalho. 




280 EXPEDigZo POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

De quando em quando espargem agua com ramos de folhas 
Bobre a obra, e com pau& estreitos, afiPeifoados de antemSo e 
que molham, vSo correndo sobre o barro, alisando^ e remo- 
vendo as sobras para os pontos onde ha depressSes. 

Assim continuam aie & maior largura da caba9ay e depois 
espargem bastante agua sobre a obra até tirarem a caba9a para 
fora sem desmanchar a parte que està feita. Come^am entSo & 
mSo a alisar o trabalho por dentro. 

É depois d'este servÌ90 que continuam a dar-lhe maior al- 
tura, seguindo em tomo e addicionando peda90s de barro amas- 
sado, que ageitam com a mSo por fora e^por dentro. Hoje jà 
urna panella antiga embora quebrada Ihes serve de modelo. 

Para o gargalo da saba, se nSo teem um velbo, um pau Ihes 
serve para modelo, fàzendo o enchimento com cacos ou mesmo 
cascas de arvores e tambem folhas. 

A omamentafao é feita com pauzinhos ou mesmo com a 
ponta da faca quando o barro ainda està fresco. Depois dei- 
xam curar o barro fabricado ao sol, e à noite ao calor do bra- 
seiro nas habita98es. 

Os Quidcos e os Bàngalas jà seguem outro processo melhor, 
e menos primitivo : sobre uma roda é que estd disposta a obra 
a moldar, e està vae sendo afFeÌ9oada à mSo pelo trabalhador, 
que com a outra mSo faz girar a roda. 

Para a feitura de varias po^as de vestuario descriptas no 
capitulo immediato, tccem se os pannos de fio de algodao niim 
tear especial. 

O processo de fabricar a inn^a é muito simples, comò se ve 
na gravura em que a figurfimos. Sobre uma travessa collocada 
bori zontal mente ao alto e fixa, e sobre uma parallela inferior 
e move], se dispoem os fios, uns ao lado dos outros, era toda 
a largura que se pretenda dar à tanga, e a come^ar de baìxo 
para cima se vao dispondo outros fios transversaes entro as 
duas ordens de fios verticaes, e cruzam-se depoii^ estes pas- 
sando entro ellas umas reguas de madeira com as arestas bo- 
leadas com que batem duas ou trcs pancadas sobre o cruza- 



ETHNOGBAPHIÀ E RI8T0RIA 281 

mento dos fios verticaes que apertam os transversaes, e asBim 
seguidamente até se tocar na travessa snperior fixa. A travessa 
inferior que resistiu às pancadas até urna certa altura^ tira-se 
depois, para ir collocar-se acinia da parte jà tecida e batìda. 
Por ultimo cortam-se os fios verticaes superior e inferiormente, 
e està a tanga feita; se querem dar-lhe maior comprimento 
que a distancia entre as reguas, os fios cortados superiormentei 
unem-se a novos fios que se fazem passar pela regna ao alto, 
e o traballio segue de novo, enrolando-se entSo a parte do 
panno jà feito a um cylindro inferior movel que gira em tomo 
do eixo longitudinal, nos montantes que sustentam a travessa 
horizontal fixa superior. 

fio, se é de algodSto, obtem-se depois de coUocadas as pas- 
tas do algodSlo em tomo de um pequeno pau rolÌ90, e puchando 
o fio em tomo de um outro pau que se faz girar entre os de- 
dos pollegar e index da mSo direita, sempre equilibrado por 
um contra-peso inferior, que é um fructo multo semelhante a 
um pequeno limalo ainda verde, a que chamam dibuije. Este 
modo de fiar, faz lembrar o usado com a nossa roca e fuso. 

Na obra de Wilkinson : Moeurs et coutumea dea anciens Egy- 
ptienSy pag. 85, encontra-se a gravura que em seguida apre- 
sento, e que serve para nos elucidar sobre o modo de fiar e 
de tecer outr^ora no Egypto. Se comparamos està gravura com 
a anterior, obtida de um desenho que fizemos do tear que vi- 
ihos no Luambata, notàr-se-ha, que se perpetuou, aperfeÌ9oando- 
se esse modo de tecer os pannos, com que se cobrem ainda hoje 
OS individuos mais affastados dos centros civilisados, ou que 
jijlo podem obter as fazendas europeas por qualquer circum- 
stancia. E nSo se pode dizer que fossem os nossos Ambaquis- 
tas, ou filhos de Angola, que levaram para o interior este pro- 
cesso rudimentar, porquanto nas regiSes ao norte onde elles 
nSo entraram ainda, e naquellas que so nos ultimos vinte e 
ciuco annos visitam, jà là existia esse processo. S2o ainda as 
migrafSes de N.-E. que o trouxeram e nas terras dos Uan- 
das onde os mesmos Lundas nSo conseguiram entrar, fabri- 
cam-se os pannos por este modo rudimentar. 



282 expediqXo pobtdgceza ao mdatiInvda 

Das fibras de plantae textcis corno as cannabÌDas e outras, 
fazem as esteiras, chapctis, cestos, peneirns, bandfjas, nialae, 
saccoB, bolsas, etc, do differentes formas, tendo todoa estea 
artefactos nomea diverso». 




b 



Chicanga (Ukaga). — É urna esteira, sendo as suas dimenBBea 
UBuaes l'",6 X C^jOS; fazcm-naa de angùa, pianta que se en- 
contra nas margens doB rtos, a quo tiram fibraB de dimeaBSeB 
ìguaes, que seecam para utiliear. Entrela^am-nas em gnipos de 
fibras verticaeB e horizontaeB, formando cortes desenhoa, tro- 




BTHITOQBAPHU E HIBTOBU 2o3 

cando-sQ de quando em quando a ordem aoa grupoe e asBim 
Bucce Bsivamente até ao remate da obra. Os meatres neste tra- 
balho fazem diias e tres esteiraa por dia, e Babem dispor e 
combinar ae fibra» de modo que obteem deBenhos difiFerentes, 
OB quaes tomam maÌ8 dìstinctOB, tingindo as fibra», por gru- 
poB, de preto on Yennelho, oa entSo tingindo as tranaverBaeB 
oa as TertìcaeB, ou uma sim outra nSo, para dar quadradoa 
de diversa cfir. 




Em Caungula de Mataba vi uma esteira de 5"" X Ì'°,Q qae 
forrava o exterior do recinto em que dormia o potentado, en> 
tretecida em omatos diversos a preto e a branco. Era traba- 
Iho dos Uandas mais civiliBados. Em outroa pontoa sobre um 
fundo branco ou aobre a cor naturai repreaentam a preto ani- 
maea ou ornatos diversos, ou viceversa. 

Aa maia perfeitaa que vi aito fabricadas por gente'do Congo. 
TodoB teem a sua eateira, ainda os mais pobrea. É para eUes 
cama ou melhor colchSo, se teem cama de capim. Em viagem 



284 expediqXo portuguessa ao muatiAnvua 

todos a estendem no solo, e na madrugada segainte énrolam-na 
e transportam-na com os demais objectos que ySo na carga. 
Os mais remediados deitam tres e quatro. E frequente às ho- 
ras de caler disporem as esteiras à sombra de urna arvore prò- 
xima da cubata ou mesmo junto a ella, em ponto onde haja 
yira93o, e ahi dormem deitando a cabota no respectivo mus- 
sau. Qualquer quilolo e mesmo o Muatiànvua se entreteem a 
fazer esteiras nas horas de ocio. 

Chibuntìla {òibtdila). — Pode chamar-se-lhe uma mala de via- 
gem, feita das fibras de cabama, pianta aquatica da familia das 
cyperaceas, ou das fibras do lutotnhe ou outro bordUo. Rasgam 
as fibras na largura de 0"*,008 a 0™,01, e numa espessura que 
Ihes permitta terem a necessaria flexibilidade, a indispensavel 
resistencia ao tempo e que offerefam solidez e seguran9a para 
depois de postas em obra aguentarem o que se introduzir na 
mala. 

É muito simples a sua fabrica9ao. Fazem-se dois quadra- 
dos de entrela^ado com as referidas fibras, que regulam por 
0™,4 X 0'",4, sondo porém um d'elles um pouco menor. Do- 
bram-se ao meio estes quadros e ligam-se pelos lados que se 
ajustam, fieando aberta a parte opposta ao dobrado. Obteem- 
se assilli dois saccos, um dos qiiaes entra no outro a seraelhan9a 
das duas partes de uma cigarreira. 

Os bordos do sacco do fimdo e da tarapa sao ornados com 
as mesmas fibras. Completamente cheio o quadrado que serve 
de bolsa faz-se entrar na tanipa, que o envolve, e ata-se ao 
melo com liames tambem da mesraa fibra, os quaes geralmente 
estUo presos d bolsa. Està mala, depois de fechada e beni aper- 
tada, encurva na parte inferior, o que dà boni commodo para 
o transporte, porque o arqueaiiiento do fundo ageita-se à forma 
da cabe^a do individuo que a transporta. 

Jci se fazem outros saccos mnito mais perfeitos, em que o 
fando nao é em aresta, mas plano, e ó refor9ado com duas ou 
tres reguas da largura de 0'",03 a 0'",04. As suas foces late- 
raes nSo sSo rectangiilos e sim trapezios, embora o compri- 
mento do fundo da tampa seja pouco inferior aos comprimen- 



ETHNOGKAPinA E HISTORIA 



toB daa abertiiraa que Ihes correspondem A lampa em alguna 
é fixa de iim lado da paredes do fuudn, e fccha-se adeante 
por meio de urna peqm-ni .ildraba de pju 

Sào bastante reHÌstentes e de muita dura^jo estua malas. 

Chipaua (pìpaua). — È 
nome que se di l'is ^ ^^ ~^° -~ —^ _ ^. -^^'^^^y^s 
malas em forma de caixaa 
feitaa de um capim apro 
priado, dìxico, que depyis 
de aecco fica aomelbanti 
a um cannilo delgado, t 
unem-se e apertam-si 
bem uns aos outros por 
liames. 

Eatas malaa tcem a 
frante, lados, lampa e 
fundo de forma rectaa- 
gular. Sendo de menores 
dimensSes que a chibuu- 
tlla BÙnplea, o aeu fundo 
e tampa eSo mais largoe 
que 03 da ultima. A pega 
que consti tue a tampa 
ajuata-ae com a do fundo, 
porque ha na parte au- 
perior d'està um resalto 
de (y",015 para o lado 
interior, aobre o qual a 
primeira vem de scannar. 
A tampa é fixa pelo lado de tris da caixa. Feclia-ee pela 
frente enrolando una cordeis feitos de cabama, que ae raaga 
em fios, a uma eapecle de botòea de pnu fixoa à parode da 
frente. 

E neatas caìxas que as mulberes guardam o que mais eati- 
mam e aprcciam — os objectoa de adorno, comò contai'ias, 
missangaB, briucos, as suaa riquezaa emfim, e guardam-nas 





286 EXPaDI9X0 POBTCGOEZA AO UUATLiNVnA 

em logar reservado, e logo correin a buscd-las em casoa de 
alarme ou perigo, uomo fogos, guerra, etc, e quando querem 
retirar do sitio que habitam por qualquer ci re um slancia, nào 
terSo ellas tempo de levar aa suaa csteiraB, ou outra cousa 
qualquer conio panella, comida, etc, porém para ir buscar a 
sua chipaua ha sempre tempo, ainda que para isso tenliam de 
arriscar a propria vida. 

Mesino quando perseguidas pelos QaidcoB, segundo me eon- 
taram, ellaa U iam com o bcu thesouro debaixo do bra90 ou 
il cabe9a. Ninguem tkes tÌu as esteiras, a mutopa para fuma- 
rem, uma raiz de mandioca sequer com que matar a fomc; 
maa a chipaua là estava ao lado d' ellaa durante diaa e noites 
entre o capim. 

Sapo.—È uma bolsa pequena de 0",2 X 0",1, feita de 
capim aceco entre la jado. 

Tem una pequenos anneis nos estremos doa ladoa maiorea 
para por ahi se suspender por uma eorda delgada 
a tiracoUo. Fazem-nos de menores e de maiores 
dimenaSea haveudo-os até bem pequenoa, que se 
trazera auapenaos A cinta por cordeia, e a estea 
chiimam caasapo (kasapó). 

Tambem oà fazcm de cor, pretoa ou vermelLos, 
ou combinadaa as cdres segundo os proccsBoa que j4 temos 
indi cado. 

Tambem se fabricam com lampa, lembrando uma cigarreira 
corno a chibuntila. 

Amhuiri (aòùiri). — DA-ae este nome a uma boceta que pela 
forma n2o deixa de ter certa elegancia; é bojudo na parte in- 
ferior a qual é ligada superiormente a um collo, que abre corno 
a bocca de uma jarra, tendo a reapectiva tampinha. S3o de 
puuca altura, entre 0";i2 e 0",15. Do collo ao bojo fazem- 
Ihe umaf, asas para ae auspender a tìracollo. S3o feitOB de fi- 
bras de bordào multo delgadaa, 

Diaba. — E uma caixa cilìndrica feita pelo mesmo eystema 
de CQtrelagado, com a sua lampa, a qual aasenta aobre um re- 
bordo que Ila naa suas paredes. Teem 0",16 de altura e 0",05 




ETHNOGRÀPHIA E BISTOBU 



287 



de diametro. Na tampa e na caixa propriamente dita ha lunas 
pequenas aBelbas, que se correspondem puasando por ellas e 
por baìxo do fundo um cordel ; podem levar-ac tambem a ti- 
racoUo. As mais pequenas teem o nome de caiaba (kataba). 

Todas eatas pequemis bolsaa, que podem suspender-se à, cin- 
tura, servora apenaa para aa mulherea guardarem nellas algmia 




fioa de missanga, quando vSo ao mercado fazer compraa, sem- 
pre de pouca monta por screm para consumo do dia. 

Disstimbe {dizute). — ^Especie de urna com tampa. Empregam- 
se no Ben fabrico tres materiaes diversos cahama, cabobo e 
quijila, qne dSo fibraa de cSres claras, avermelbadas ou escu- 
raa, e que fazcm agradaveis contraates umaa com outras quando 
poataa em obra. A parte inferior (caixa ou reservatorio) ter- 
mina por um aro da altura de O^^O^ todo de cor eacm'a. D'alti 




288 Exi>EDigXo PORTuauEz-A Ao muatiìnvua ;^^ 

i m i II ' I i 

para cima apresenta a forma de vaso com differentea filetes 
exteriormente, jà a cores claras jà a escuras^ sendo estes mais 
ou menoB largos e salientes. corpo d'està urna é constituido 
por um entrela9ado em losangos esbranquÌ9ados, sendo os fon- 
doB preenchidos com desenhos diversos de fibras de cdres. 

A altura d'este vaso interiormente é de 0°*,15, tendo de dia- 
metro no fundo 0™,15 e a abertura 0",22. A tampa entra num 
rebordo, que é guarnecido com um filete escuro. Està tem de 
altura interior O^jlS, sendo o seu diametro superior a 0™,12; 
as paredes sSo abauladas e guamecidas tambem de filetes de 
c6res diversas. Serve està urna para nella se guardarem cou- 
sas de estima9So; e tambem as ha para conservar o infunde 
quente. 

Chipaia {Pipata). — E um cesto em forma de vaso. Ha-os 
multo bem feitos. Principia-se por se Ihe fazer o fondo em 
forma de um pequeno quadro, do centro para os lados, collo- 
cando primeiro as linhas diagonaes, depois as intermedias a 
estas, e logo em seguida come9am o entrelagado ao centro. 

A medida que se vae enchendo a obra, vào-se dispondo aB 
outras linhas intermedias às primeiras e assim por deante. 
Quando o quadro tem as dimens5es precisas, dobram-se as 
primeiras linhas para cima e fazem-se as paredes que abrem 
em leque e segue o entrela9ado multo apertado, o que dà às 
mesmas paredes uma forma boleada, e assim por deante até 
à altura que se Ihe quer dar. O quadrado do fundo dos cestos 
maiores tem 0°*,2 de lado e as paredes 0™,4 de altura. Ter- 
mina sempre o seu bordo superior em um pequeno arrendado 
bem feito, de cor preta ou vermelha. Emprega-se para està 
obra a cabama que é multo clara, quasi esbranquÌ9ada, e que 
sae multo limpa da m2lo do fabricante. O fundo é de tal modo 
apertado que faz concavidade para dentro, de modo que os 
angulos inclinando para baixo constituem os pés d'este cesto. 

Alguns ha que apresentam linhas horizontaes em diversas 
alturas dispostas ao gesto do artifice, quer pretas quer ver- 
melhas, e tambem vi uma d'estas chipaias toda preta sendo 
avivado o bordo a vermelho, o que produzia bom efieito. 



w 



ETHKOGBAPHU E HISTORIA 



Se a chipaìa tem metade das dimensSea ordinarias d'està, e 
d'ahi para baixo, recebe o nume de capata {ìcapàia). 

Ab de uso domestico para fariubas, fuba, ete., que podem 
center de 2 a 4 kilogrammas d'estas substancias, tambem se 
Ihe di nome de capaia. 

Algamas chegam a ter a forma doa noasos alguidares. 

Cangalo (lavalo). — É uma capaia ein miniatura; e feita dos 
meamos materiaes. Serve em geral para center ovos. Estes obje- 
ctos slo uaadoB pelos homens e pelas mulberes indiatinctamente. 

Fiquide. — Nome dado a um sacco de pequenas dimeoaSes 
feito de panno de mabela fina, que serve para guardar mia- 
aanga, Eram estea que, cheioa de niacetea de misaanga groasa 
e fina, e de diveraas qualidadea e cOres, constttuiam o munsapo 
(«presente de boccai), que oa oegociantes mandavam ao Mua- 
tiànvua ao entrarem na sua musaumba. 

Tuco. — Sacco feìto de macuba, material constituido por fibras 
de cascaa grossas, mais grosseiro que 
a mabela, e que faz lerabrar a nosaa 
lintiagem de saccaria; é de grandes di- 
mensSea e proprio par» trimsportar até 
60 kilogrammas de fuba ou de farinha. 

Mussale. — Peneira em forma de 
jarro, por meio da qual se separa a 
fuba mais lina da mais grossa. E feita 
do capim, indeleme; algumas sSo real- 
mente bem feitas. A aua altura varia 
de 0",4 a (y^jG, a bocca tem de dia- 
metro 0°,I0 a 0°,14, e o seu fundo 
quadrado tem 0"',1 por lado. 

Luale (Ivate). — E outra peneira em forma de bandeja, enca- 
nastrada corno a antecedente, mas com abertos maiorea. Faz-se 
de cabama e tambem de cabobo, plantaa aquaticas texteia. 

Cassasse (kasase). — Canastra feita do incoco da palmeira, 
ou folhas da palmeira vulgo do leque, e tambem das fibras 
largas do bord^o. NSo tem tampa. Estea utensilios silo multo 
uaadoB pelas mulKeros para transporte daa colbeitas nas lavras. 




20(1 



KXPEDl^'ÀO POETDGUGZA AO MUATiJLNVDA 



Muteaste — Eapecie de canastra corno a» nosaas para trans- 
porte de cargaa, a que a gente do Angola là o nome de iwH- 
hamha, e onde se accndicionam os ^oIuqils pesando ató GO 
kiIogrammaB que teem de traniportar «e para longe. Todo o 
carregador deseja cargas que sl pusnam bem distribuir tia sua 
muasaBBC, e se a carga que se Ihe distribue é divtsivel e de 
raaior peso e nJlo se pode ageitar beiu nella passa o exceaao 
para o ^eu guibessa (kibesa tajudantei) E lanibem feita de 
hbras fortes de palmeira passan lo se Ihe pelo fundo e ao meio 
no sentido do compnmonto urna vara compnda de madeira 



re islento a quii se dispòc de modo a exce ler um pouco de 
am ! ido (0" 2) o coinpnmento da mussa'tsa beando loda a 
parti, restante do utr lui* que regula por vez e meta o com- 
primento d'aquella, ou seja 1'° ou l'°,20, e se o carregador é 
alto l'",30 até l'",40. Eate cabo, que sempre vae vìrado para 
a fi-ente do carregador, auxilia-o multo, porque querendo des- 
cansar ou passar a carga para o outro horabro, basta-lhe in- 
dicar o corpo um poueo para a irente, para que o oxtremo 
da vara toque no solo. Para o primeiro caso encoata a carga a 
urna arvore; para o seguodo depois de apoiar o cabo no solo 
Icvanta a carga com as railos e passa-Ihe a cabcga por baixo, 
e logo cm seguida ageitada que csteja ao honibro, endireita o 
corpo e segue o seu caminho. 

Cahaxe. — E mua bandeja redonda coni 0'",3 a 0™,4 de dia- 
mtlro e pouco funda; 
é feita pelo systema de 
encam strado da caba- 
lila e que nilo fica per- 
f itamente apertado. O 
hcu rebordo é forte. 





ETHNOGRAPHIA E HISTOlflA 291 



Serve para transportar fructas, tomates e batatas a^pequenas 
distancias; serve tambem para o infìinde, substituindo um 
prato. A capala e tambem o dizumbe collocam-se no centro 
da roda formada pela familia quando se renne para corner, 
e d'ahi todos vSo tirando com a mSo pequenas por93e8 de in- 
funde, que rolam entro os dedos em forma de boia, indo mo- 
Ihar està na panella tambem commum do molho ou das hervas. 

Às cabafas, comò disse, sSo aproveitadas para o servifo do- 
mestico, e parece naturai que na primitiva as empregassem 
sem OS omatos que Ihes fazem actualmente. 

As nossas lou9as, comò copos, canecas, garrafas e frascos, 
muito espalhados em teda està regiSo, fomecem melhores 
utensilios do que os que se podiam fabricar das cabaQas, e 
presentemente so quem nSlo tem podido adquirir aquellas lou- 
9a8 é que apresenta um ou outro d'esses objectos de fabrica- 
ySLo indigena. Os que vi sSo os seguintes: 

Chissumpe (òisupe). — Caba9a a que a nossa gente de An- 
gola chama binda (bidà). Serve para agua e tambem para 
malufo; as suas formas e dimensSes s2lo as naturaes. O pé da 
caba9a é lascado pela parte que curva para cima, e é por ahi 
que se enche e se despeja. 

Ha umas que apresentam dois bojos, sendo o 
superior de menor diametro, a que se corta uma 
parte para formar a abertura, e dSo-lhe o nome 
de panda (puda), D'estas, as mais pequenas, ser- 
vem para azeite, e tomam entao o nome de capun" 
da ed mànhi (kapudakamani). Aproveita-se o collo 
de algumas, em que se faz um buraco no extremo, adaptan- 
do-lhe um tace delgado, de madeira, que faz o servigo de 
rolha. Como destinam estas so para azeite de palma, addicio- 
nam àquelle nome a palavra angaje (ayaje), 

Tambem ha caba9as com a forma da punda, mas um pouco 
menores em dimensSes. Cortando-lhe maior porgSo a parte 
superior serve de copo para beber agua e chamam-lhe rubun- 
go (rubugó). 




292 



EXPEDIt^O PORTUGUEZA AO UUATIÀNVtlA 




Ha outrae cabacinhas muito pe- 
quenas, com o pé delgado e curvo, 
a que se corta a parte superior 
para fazer urna caixinlia deisando 
ficar o pé, corte 6 plano ou den- 
teado para se ajuatar bem a tampa 
quando ee feclia. 

Depois de bem secca» e limpaa 

servem para guardar o sai. As 

taiupaB »jìo feralmente ornameuta- 

das à faca ou com estilete de ferro. 

Tarn bem as ha grande» aBstm 

omamentadas, mas entSo a tampa 

& a meio do bojo. A està caixa 

cliaraa se difuca e ia pequenas ca- 

""" difuca (kad>fr,ka). 

Cliiopo (Stopo). — Ab caba^as de mediano tamaiilio e aclia- 

tadas aos lados aproveitam-se, cnrtando-se-lhes os fundos, 

para servirem de copop. Estes realmente fazem muito fresca 

a agua bem corno o malufo. A projec^So 

de seu bordo na abertura tem quasi a 

fnnna de mn oito. Faitem lembrar as oa- 

( nóas de borradia ou de vidro, que anti- 

gamentc se uanram entre nós corno copos 

para beber agua no campo. As dimensSes 

d'este copo no aentido do comprimento, 

regulam por 0"',20, a largura em mt^ia 

0<"ìO, e altura ao centro 0™,12. 

Se siio de maiorea dimcnsSes e sobre 
Il redondo teem o nome de ihitaia (Sitaìà). 
Mussìndo (musido). — A este objecto é 
que realmente se devia por analogia cha- 
mar rhiopo. As caba^as muito delgadas 
e compridas, quasi cylindricas, sào cor- 
tadaa a contar da parte inferior na altura 
de 0'°,16. Fazem lembrar assim as me- 





&TH!fOaRAPII(A É iIistokIa '20Ì 

didas antigas de barro, para leite, -com aquella altura e lar- 
gura. seu fiindo é do forma ovoide aguda. Eates copos ce- 
deram porém o logar às noBsas canecas de lou^a, e quem tem 
melhores posses usa de copos de vidro. 

Cbamam às primeiras em geral rupaesa, porém nào deixa 
de haver as suas dÌ8tinc58eB. Se a caneca ó loda branca, cha- 
mam-lhe matoca, (toka cbrancoi); se dourada, mamutena, (mn- 
tena «sol»); se é de diversas corea, wamuevgue uanzavo, (tana- 
Daz); se tem bico, mulamo uà calongo, {mulamo Ha kalogo 
«bico de papagaio*); se é larga, mabungo, {dibugo tpanella* 
de que fallei); se tem tampa, mabungo dia cubuiquexe {mabugo 
dia kubuikexe «panollas de ee podcrem cobrlr*). 

Fazem apcnas dUtiuc^So nos copos se elles teem ou nào asa; 
no primeiro caso chamam-lhes mmtmo rud xipoxipo, e no se- 
gundo ruBumo rttd calando. 

Ab nosBaa garrafas de vìdro e ds botìjaa de grès cbamam 
puelete e aos frascoa capuelete (kapueUte). Apreciam muito 
qualquer d'estes objectos especialmente para guardarem azeite. 

Mutopa. — Objecto indispenaavel 
para homens e mulheres, por (4110 
todos fumam ou tabaco ou diamha 
(liamha). E o seu verdadeiro ca- 
chimbo. Consìste este numa cabala 
de collo alto, quanto mais possivel 
direito e delgado, à qual ae tira 
miolo depoia de secca. 

Ko bojo fazem um buraco em 
logar que nSo embarace a aspìra^ào 
do filmo pelo collo, e nease 
buraco entra um tubo, geral- 
mente de canna delgada, ou 
entSo de tronco de arvore 
especial previamente furado. 
Este tubo vae tocar na agua 
de que até certa altura sc.^ 
onctie bojoj dd.-Be-lbe o no-~ 




294 



KXFEDIfiCO POBTirOtlEZl. AO MDATlllfVtlA 



me de muxia, e na siia extaremidade superior entra o deposito 
do tabaco mussaca (musaka) que tem a forma de vaso. Ksto ó 
feito de barro cozido ao fogo, maa ob niellioreB sito 
de talco vermelhu multo mauio, e qiie se trabaiha 
milito bem &, faea, tendo exterlormente varius or- 
natoa. Eate talco exiate era grande qiian- 
tidade naa terras de Mataba. Ab viitopu, 
{plural de vuitopn)j Bao tainbcm eofeitadas 
coro tacliinhaa de metal amarello, apresen- 
tando desenhoB Bymetricoa e variados, se- 
giindo a phantafiia de qiieni ae taz. No 
collo abre-se inferii irniente um orificio, qne 
8e fapa com o dedo niaior da niào dircita 
quando bc aspira fumo pela sua extre- 
midade. 

DepoÌB de servir, a miitopa é lavada por 
dentro e por fora, e enche-se a cabaja de 
novo com agua, até que a eata chegue a 
niiixia, o que se conhece soprando pela 
abertura do collo, a ver se Balta alguma 
agua para fora, 

Vé-sc pois que o uso de desnarcotisar o 
fumo é antigo em Africa. 

Tambem se conliecera os nossoa eacbira- 
boB, e jà alguns os teem, imitando os de 
Quimbarcs, que Ihes chamam pixi, e cuji' 
tubo {viuteté) iì mais ou meaoa coiuprido. 
Tambem os ha formados de urna ou mais ( 
peyas, sendo geralmente a que entra na 
bocca um delgado tubo de ferro terminando em 
ponta. Os Quiòcos usam muito d'estcB cacbimbos. 
Os tubos de madeira &3lo ornados com anneis 
grosBos de misEanga de diversas cGres. deposito consiste 
nura i)equeno vaso de ferro de borda larga, o que faz suppor 
ter elle urna capacidade interior muito maìor do que realmente 
teem. Em geral tanto d mutopa corno o péxi, dcante seja de 






ETHNOQBAPHIA B HISTOBIA 295 



quem for, nSlo se conhece dono, pois passa de mSo em mSo; 
e se a roda de conversadores é grande, quando volta & mSo 
de seu dono tem elle de a encher novamente de tabaco se 
qnìzer fumar. 

Sempre que a mutopa ou cachimbo vae para novo fumador, 
este insensivelraente passa a palma da mào direita pela parte 
que entra na bocca, carregando nella para a limpar da saliva 
do que o precedeu. 

uso do tabaco generalisou-se em teda està regiSo vindo 
de Angola, e creio bem que se propagou com o da mandioca 
para NNE. e SE., e a generalisa9So d'estas duas plantas foi 
tal, que hoje parecem indigenas. 

Ha cachimbos feitos segundo o gosto do possuidor, e d'elles 
apresento varios exemplares da collecyào que enviei & bene- 
merita Sociedade de Geographia de Lisboa. 

Ainda sSo objectos indispensaveis e de uso frequente os se- 
guintes : 

MìiccUula {mukalula), — E urna tira de cabama, com uma es- 
pessura que Ihe dà a resistencia precisa para vergar e nào 
quebrar, que se alisa perfeitamente e a que se arredondam as 
arestas. Tem de comprimente (y",25 a (r,30 e Cr,005 a 0'°,006 
de largura. Serve para raspar a lingua, primeira cousa que o 
indigena faz lego que se levanta de manhS, e às vezes até 
ainda sentado na cama procede a essa opera9SLo. Entre estes 
povos, em geral, ha o maior cuidado com a limpeza da bocca, 
iato pelo receio do escorbuto. 

Mupcda, — Faz o servilo da nossa escova de dentes. Con- 
siste num pedago de cabama, que tem as fibras separadas até 
0™,12 ou 0",15 numa das extremidades e reviradas, lembrando 
08 pinceis ordinarios para tintas grossas depois de algum uso, 
em que as barbas abrem. Acabada a limpeza da lingua, come- 
yam a esfregar os dentes com este objecto, iste durante horas. 
Principiam nas cubatas e continuam ao ar livre e mesmo em 
passeio neste cuidado. Todos fazem luxo em trazer os dentea 
multo limpos. 



à9Ó 



ESPEDI^AO PORTWUEZA AO liUAtlJNVUA 



Sobre o aasoio do corpo, observei que os Lundas apenas o 
faziam consistìr na limpezn da bocca e dentea; tinLam horror 
& agua para se lavareni diariamente, e ae nSo fosse o oalor 
que OH obriga a banliarcm-se nos rios, seria couaa era que nunca 
cuidariam ; notando-se de mais a raais que sSo elles 08 que 
mais uaam untar o corpo com as drogas a que obamam reme- 
dioB contra feìti^os, contra guerras, contra doen^as, etc. 

Nao teera diivida alguma, besuntados corno estuo, de vesti- 
rem urna camisa branca, urna farda, um bom casaco, e anda- 
rem com elles até que urna circumetaacia qualquer oa obriguc 
a tini-Ios. 

As camisas em geral, se se despem, voltam outra vez para 
corpo eem serem lavadas. Rccordo-nie de nm homem que 
aeguramente trouse urna durante tres mezes; eatava preta, 
luatroia e principiava a esfarrapar-se. 

Entre os Luodas nSo ee lava um unico trapo, desculpando- 
se OS potentadoa com dizer que aa suaa raparigaa nào aabem 
lavar. 

Fallei algumas vezes ao Xa Madiamba para que ordenaese 
que duas ou tres das suas raparigaa foesem cera a mulher do 
raeu interprete, que elle conhecia ha muttoa annos, aprender 
a lavar as suas camìt^ne e pannos no rio; e elle dizìa sem- 
pre: — Sim, bei de mandar um dia — ; mas nuuca maodou. 

Urna vez que observei loda a sua roupa muito suja, cenau- 
rei-o o diaae-lhe que era urna vergonha ver um potentado tilo 
enxovalhado, e que ae quando là voltasse o viaae do mesmo 
modo me retiraria. Eotào elle pediu ao nieu interprete para 
a mulher levar toda a sua roupa, e a miudo mandava depoia 
até as fardaa bordadaa para serem lavadas no rio; mas con- 
seguir que aa auaa raparigaa aprendcssom a ensaboar isso 
nunca; era urna ìnnova^So, e ellas tinham outros servÌ90s a 
fazer. 

Mostrava- se -Ih e que as suas patricias, vindo jà de Malanje 
com OS carregadorea da minlia ExpedÌ9ao, eram as quo lava- 
vam as propriaa roupaa e as dos seus corapanheiros. Essas 
agora jà sSo filhas de Muene Futo, diziam ellaa, aabcm muito, 





ETHNOQRAPUi/ E HISTORIA 297 

sSo senhoras, nós somos bichos do mato, so servimos para 
acarretar agua e lenha, nSio nos sobra tempo para aprender 
outras cousas. E lavar para qué? Os nossos homens nunca 
lavam o corpo, e assim andavamos sempre a lavar e elles a 
Bujarem. 

N3o se dd o mesmo com alguns Quiòcos que conheci : as suas 
raparigas lavam-lhes as roupas com sabSlo, e elles andam muito 
limpos; é verdade que os individuos a que me refiro, punham 
unicamente na cara alguns tra90s a vermeiho, preto e branco, 
emquanto que os Lundas, quando nSlo besuntam o corpo com 
as drogas preservativas, fazem luxo em lustrar a pelle com 
azeite ou outras materias gordurosas. 

Nisto tambem os de Jinga e povos que marginam o Lui 
sSo exìmios. 

Entre os Bàngalas destacam-se os senhores de ambanza 
(povoa9ao), que trajam camisas, fardas ou casacos, ou em legar 
d'elles OS grandcs pannos a que chamam gubo. 

Mas ainda superiores a estes em asseio sSo os Xinjes e os 
do Lubuco, principalmente os que se consideram fidalgos e pro- 
curam imitar os Ambaquistas no trajc à europea, embora as 
fazendas que teem sejam riscados, chitas e algodSes. 

Os Quiocos na maioria entre o Cassai e o Lulùa, sSo comò 
OS Lundas, e isto tambem por causa das unturas centra os 
feitÌ90S, que elles dizem nSLo se fazem so para um dia, por- 
que teem de pagar os remedi os ao Anganga que os fez. 

A gente do Congo que andava na ExpedÌ9Xo lavava o corpo 
e as roupas, e acostumou as suas companheiras, que eram 
Lundas, a lavarem-sé todos os dias. 

O Quissengue, com quem estive por differentes vezes, pode 
dizer-se que era asseado no coi'po e na roupa, e as suas mu- 
Iheres apresentaram-se-me sempre bem. 

Chizanguilo {òizayùilo), — Pente de bordSo, de tres, quatro 

ou mais dentes muito afFastados uns dos 
outros, com que desembara9am os cabellos. 
E imita9Slo de uns pentes muito ordinarios 
das nossas fabricas, e por isso causaram 




298 EXPEDI9I0 FOBTDOCEZA AO HDATUnTUA 

multa adtuira^Ko ob peiitee finoB e de alÌBar, que a Expedi^So 
levou de um industriai do Poito, pretoB, luBtrosoa e muito 
beni acabadoe; algims d'elles tinham aros de metal. Oa Lim- 
daB ficavam muito satisfeitos quando se Ihea dava algum. 

Chamam por analogia cktzanguilo aos garfos de ferro que 
usam oa ferreiroB, para tirarem do fogo qualquer pedago de 
ferro, e aos nossos para corner, qne elles jà imitam de madeìra 
mcamo de ferro, ebamaram chizanguilo uà cadile (Sizajjùilo 



Fozem alguns objectOB, instrmueutos e armas de ferro para 
seu UBO, Lavendo grande variedade de facaa, quer pela gran- 
deza quer pela forma. 

,-;:^ Ampaca (apaka). — É o nome generico para as 

// facas. Ab mais ordiuarias fazem-nas terminando 

em ponta mais ou uienoa aguda; a linlia das cob- 
tds é recta e tua pouco mais longn que a do gunie 
que é curva e muito mais saliente, alargando junto 
ao cabo ; silo de varias dìmenaSes. comprimento 
das folhas varia de 0"',09 a 0™,20 e i; proporeional 
ao dos cabos. Eates eìlo chatos, eonsistindo numa 
especie de chapa de madeira quo escureccm. Numa 
daa extremidiideB abrcm urna ranhura onde entra 
o espigio em que termina a foiba, a qua! fica assim 
bem encabada. A um tergo do comprimento do 
cabo faz-se um buraco ou uma abertura rectan- 
gular, por onde passa ura cordSo que serve para 
a Buspenderem ao pescoso ou a tiracollo. 

Os cabos maiores sào iIb vezes guamecidos com 
lacbas amarellas. Todas as facas teem as suas 
baiubaa ou de couro ou de madeira, formiid.as por duaa pegas 
que ajustam e se revestem de couro. As bainbas tambem sKo 
guarnecidas de taehas amarellas. Quando nilo as usam sua- 
pensas, mettem-nas entre o cinto ou cordel e a roupa que eate 
Begura & cintura, ficando o cabo de fora, isto é, a um lado 
dcbaixo do brago esqucrdo. 





ETHN06RÀPHXA E HISTORIA 299 

Em geral as facas sSo sempre mais ^streiias na extremi- 
dade. Algumas ha encurvadas para tràs^ sSo as melhores para 
o corte de plantas e capim e tomam o nome de ampaca mu8^ 
9UC0 (apaka musuko «faca do capimi). 

Ha-as com os bordos salientes^ com uma ou mais curvas^ 
quasi corno dentes de serra. 

Diembe (dte^e). — SSo umas faquinhas sem cabo, de forma 
flabellar, tendo na parte mais larga o gume que sempre està 
muito afiado. E com estas facas que rapam o cabello e barba, 
trabalhando sempre o eixo em sentido perpendicular aos ca- 
bellos. Rapam a barba num instante. 

Como é naturai, tendo este povo conhecimento do ferro, as 
armas que hoje apresentam quer de madeira, quer d'este me- 
tal, denotam um certo aperfeiyoamento. SSo estas as que se 
podem coUeccionar actualmente, porque as antigas de madeira 
tempo encarregou-se de as destruir, e as antigas de ferro 
depois de um certo uso voltaram ao fogo para se aproveitar o 
metal para varios fins. 

Destacam-se corno principaes entro as armas de madeira, 
as que teem semelhanya com as nossas antigas ma9as ou cla- 
yas, e que teem nomes diversos, segundo a sua forma, po- 
dendo distribuir-se em dois grupos: o de ma9as alongadas e 
de ma9as redondas, e todas teem o nome guerreiro de : 

Musmrihi {musuni). — E o vocabulo que vulgarmente se tem 
interpretado por moca; os indigenas da nossa provincia de 
Angola chamam-lhe urihe. Procura-se para as fazer uma pe9a 
de madeira rija e pesada. As mais ordinarias terminam de 
um lado: ou em forma de duas conchas juxtapostas, sondo 
vivas as arestas da uniSo com o cabo de 0",50 a 0™,60 de 
comprimente; ou em forma de pinha com as arestas vivas; 
sSo as mais temiveis. 

As que se podem grupar com estas formas sSo chamadas 
musilnhi mucondo, às restantes chamam-se musunki nrnlepa. 

As ma9a8 propriamente ditas e mesmo parte dos cabos, siio 
mais ou menos ornadas com figuras esculpidas, imitando di- 
versos animaes. 



;foo 



EXPEDI^AO POHTUOCEZA AO MUATlANVtlA 



Tambem costumam dnr-lhe cflres escnras, até mesmo a cfìr 
pretft, e alisam-nìis e luBtram-nas de modo que parecem fabri- 
cadas das melliores mndoiras a (jue ^depois se applicoa um 
bom verniz. 




k 



Ha qucm as guamcga cotn tachinlias amarcllas, qiic trazem 
sempre multo limpas e brilLantee. 

As que figuro representam algiimas das que offerecì à Socie- 
dade de Geographia de Lisboa. 

Vssangue (iMo^e).— E urna canna de altura variavel, entre 
l'",20 e l^jóO, de grossura igual em todo o seu coiuprimeato, 




ETHNOORAPHIA E HISTOBIA 301 

■ ' ... 

entre 0™,015 a 0",020; perfeitamente lisas, escurecidas e lus- 
tradas com tintas a oleo. 

Algamas s^o guarnecidas de anneis de missaDgas miudas, 
mais ou menos largos e mais ou menos grossos, ficando um 
espago de 0'",25 a 0™,30 na parte superior a descoberto. Os an- 
neisy embora unidos uns aos outros, nunca passam abaixo da 
meia altura da canna. Os povos do norte de Mataba e os seus 
vizinbos Tucongos trazam sempre o usaangue, assim corno os 
Quiòcos e Lundas a sua espingarda lazarina. 

Muxia. — E um objecto semelhante ao antecedente, mas de 
menores dimensòes; faz lembrar as nossas bengalas com castSo. 

ChÌ88engue (ì^iseye). — Grande bastao feito de um ramo grosso, 
terminando superiormente num esgalho; um dos rebentos foi 
alisado um pouco à faca, ficando outro um pouco saliente para 
o lado e mais ou menos arredondado. Geralmente estes bastSes 
teem 1™,30 de altura, 0™,02 a {)",03 de diametro, e sSo mais 
ou menos tortuosos. Nalguns aproveitam os extremos arredon- 
dados para nelles esculpirem umas figuras grosseiras, mas o 
mais geral é dar-lhes a forma so de cabegas mais ou menos 
toscas. Estas cabegas a malor parte das vezes sao triangulares. 
Bendo lado menor a testa; e os dois iguaes e maiores as fa- 
ces, sendo a barba em bico. 

Chipaza (òipcLza)., — E tambem um bastSo corno o anterior, 
terminando superiormente em arco, e tambem de uma so pega. 
Tanto este comò o chissengue sao objectos muito estimados 
por quem os possue. EstSlo sempre à mao para os casos inespe- 
rados. 

Dilanda {diladd). — E uma das nossas bengalas ordinarias 
de canna, encurvadu na extremidade superior. Usam-na em 
passeio, e os potentados levam-na quando vào dirigir os tra- 
balhos das suas lavras. 

Vi ainda duas langas de madeira em forma de harpSio: 

Dibaia, — Tem de altura l'",50, e 0'",02 de grossura. A um 
quarto da sua extremidade superior parece que se encravaram 
tres pyramides conicas umas nas outras, terminando a ultima 
numa langa aguda. 



302 



EXPEDigXo PORTnanEZA ÀO HCATlAyVUA 



Cassaca (kasaka). — Tem mais altura que a dibala e apre- 
sonta superlormeDte e so de uni Udo tres aalieucias em forma 
de denteo de aerra, sendo as linhas maioroa dos dentea iguaes 
e parallelas, formando a do extremo com a linha da buste um 
angulo agudissimo, 

Como arma defensiva de madeira teinos a mencìonar: 

Ituqiiiho (rukibo). — E nm eacudo que pela forma faz lem- 
brar oa que uaarara os noasos antepaasadoa. Oa mais aìmplea 
aSo rectaugulares ; outros teem os ladoa uicnores em arco, sa- 
lientea ou reintrantes, aegnndo a vontade de qucm os manda 
fazer. A madeira para oa aros é especial, e depoia de bem li- 
gadaa aa quatro pe5as que os constituem, cobrem-ae com um 
entrelagado de fibraa de lutoiiibe ou de entro bordSio qualquer, 
passando-se entre ellas, em aentidos oppoatos, para Ihea dar 
mais consiatencia algumaa tiraa oatreitaa de cabama, especie 
de chibata, de modo que fiquem bem apertadas esaas tiraa no 
entrela^ado. 

Cobre-se todo depoia com fazenda, mas os escudos mais 
apreciados sSo os cobertoa de bacia encamada, avivados com 
baeta azul ou algodlU) branco; e às rezes ainda, a uma certa 
diatancia doa vivoa, aeguindo o quadro exterior, coae-ae urna 
tira eatreita da mesma fazenda d'ellea. Geralmente tem de al- 
tura l^jlO até 1"',20 e de largura (P,40 a (>",Ò0. Pela parte 
interior tem diias tiras de couro pregadaa ao meÌo, e distantea 
urna da outra 0",20; allo pregadaa nos aros doa ladoa maiorea, 
ficando o mais tensaa possivel, & é por ellas que ae paasa o 
bra^o eaqucrdo para os aegurar. 

Ha quem oa cubra com pelle de antilope ou outras pelles de 
pello muito curto, que giiarnecem eom tacltas amarellas em 
arabescos; e tambem oa cobrem de couroa aeecoa. 

Para defcaa usa-ae o eacudo um pouco inclinado & frente do 
corpo; mas em marcba deixa-ae cair naturalmente ao lado ea- 
querdo prolongaudo-«e com o bm^o. 

eacudo do Muiocoto, potentado Quiflco, era coberto de baeta 
vermelba, Na Lunda actualmente so o Mnati^nvua e grandes 
quilolos OS usam corno diatinctiros de sena estadoa, costume q^ue 




ETHNOQRAPHU E BI8T0BU 



IheB ficou do tempo em qae nSo conlieciaiii outra arma além do 
arco e frecba. 

Àntea da introduc9lo daa armas laaarioas, quando as luctaa 
eram por asBÌm dizer corpo a corpo com as armas brancas, 
facas, Iaii9aa e piques, o ruquibo ou luguìbo era um auxiliar 
na defenaiva, porém dSo me parece que foese aqui t&o fre- 
quente seu uso corno entro os Zulos e ob povoB do norte, 
porque o material do seu fabrico nSo abona muito as euas van- 
tagens para combate. 

A dar credito àa tradi^Sea d'eates povoa, os Bungos, ante- 
rioreB ao Estado do Muatiànvua, eram conhecidoa corno atira- 
dores de pedras, cmquanto que ob Lubas, d'onde veiu o pae 
do primeiro Muatittn^tia, foram por aquelles conaideradoa am- 
pacali (apakali « liictadores de facai). 

O facto de ainda hoje todoa oa Lundas uaarem facaa gran- 
des era marcha e a preBteza com que ao maia pequeno pre- 
testo a desembainham e manejam em Bua defesa, leva a crer 
foBse eeta sempre a aua arma predilecta. 

FoBse emfim qual fosse a aua procedencia, é certo que co- 
nheceram as armns de arremesso e as armas brancas, desdc 
a pequena faca até Ab de 0"',70 de comprìmento com folhaa 
de forma e largura diveraaa e bem assim urna grande varie- 
dadc de lan9as. De todas as que vi dou agora breve noticia. 

Mucudli (mukiiali). — E «ma arma com- 
posta de urna folha de ferro e de mn 
cabo. A folha tcm de coraprimento 0™,40 
a 0^,50 e de largura O",04 a 0",08, 
tendo de um e outro lado recortea maia 
Oli menoa salientea ou bieca mais ou me- 
noB agudos. A sua extremidade termina 
em ponta aguda. E afiada dos dois ladoB 
tendo a lamina um engrossamento ou 
veio na linha centrai. 

Silo bem encabados, e os punbos maia 
ou menoB elegantes, com seua arrendados 
e anneis de fio de ferro, cobre ou latSo. 




304 



EXPEDigÀO rOBTHOUEZA AO UnATlXKYUA 




A bainha eh itala (èil^da) é fetta de 
uniH madeira especial muito love, macia 
e branca. Consta de duaa pe^ae iguaea 
que ext-edem um pouco a maxima lar- 
giii'a e comprimento da foiba. Em uuda 
urna fazem urna pequeiia cava, de modo 
que sobrepondo-as tìcam coni a capaci- 
(ladc precisa para n fulha ter urna CLTta 
t'olga. Depois du bem ajuBtndae os duas 
ppgaa urna coutra a outra ligam-se e 
apei'taiD-Ee com tres ou quatro anneia 
cstreitos tambem do madcira ou de lia- 
mes, reveatindo-BO tudo com pelle de 
cahucua (pequeno quadrupede), e que 
é milito macìa e escura. Devidaraente preparada adquire a 
elasticidade precisa, e depois de muito repuxada cose-se Bobre 
urna daa faces, sendo està a que se encosta ao corpo. As baU 
nhas aSo ligadas no annel proximo da bocca a urna especie 
de talabai-te feito de pelle cor de castanha de aììztntzo (zazo), 
animai que faz lombrar uiua daa uossas lebres, e a que dito 
a forma de ura rolo que ligam em arco, ficando com ambas 
as pontas caidas para baixo. Estc talabai'te a que chamam 
mata (maia), usa-se sobrc o bombro csquerdo pasfiando o bra90 
esquerdo para fora, e a mSo dìreita erapimha o cabo da arma 
segurando a outra na bainba. 

Quando se sentam tiram logo a maia do bombro, pondo-a no 
chfU) ou sobre a pelle em que ee sentam, e a faca deante de 
si. So OS poteiitados usam da maia, e o que ee ve mais geral- 
raente é a faca Buspensa por urna corda ou cordSo ao hombro, 
ou cntSo mettida a um lado entro o einto e o panno, e muitos 
p3em-na de baixo do bra90. 

Mussnmttna. — E urna arma corno o mucufili em que a foiba 
differe d'cste pelas auaa maiores dìmensSes, e por ter uma pen- 
ta muito aguda que toma um ter^o do scu comprimento. SSo 
muito mais fortes e pesadas. Oa Uandas é que as usam e sSo 
fabricad&s pela gente do norte. Tambem as ha de foUtas mais 





ETHNOOBAPHIA E HISTORU 



306 



largaB cavadas a meio, formando oa gumoB largaa curvas reiii- 
trantes terminando em bicos multo agudos. Teem bainhas corno 
as outras facaa, mas pela sua largura parecem pastas. 

£ grande a variedade de facas, quer pelo feitio quer 
pelaB dimeneSes, que ha entre 
estes povos, tendo nomes di- 
versos segundo as suas formas. 
Àa de Canhtuca, por causa de 
Berem arredondadas para fora 
chamaram mucumbe. Ab noBsas 
eapadas de infanteria por aerem 

direitas e de um so fio deram 

mesmo nome que dSo às facas 

de meea, ruquila, e às noBsas 

antigas bayonetas por serem 

estreitaa e terminarem era ponta 

chamaram mussoculala. 

Vèem-se \& poucos exempla- 

res de Ian9a8 ; alguinas teem 

baetes de madeira e outraa sSo 

todaa de ferro. Obaervei aa 

segui ntes : 

Calembele {kaleZde). — E urna 

pequena azagaia, ou toda feita 

de ferro ou entSo com a baste 

de madeira. Ha quem enfeite 

estas ultimas com missangas 

miudas de diversas corea, dis- 

postaa de modo varìado. 

Os Tucuatas quando ein mar- 

cha servem-se d'ellas para apoio 

e para a sua defesa, e quando se sentam espetam-naa um 

pouco k esquerdu e d fronte do logar em que fìcam. 

Murumbo (muruòo). — E urna Ian9a, tendo a baste tambem 

de ferro, formando com ella mua so peja. A baste consiste 

nmna vara delgada do 0",08 de diametro, com l'°;20, de com- 




306 EXPEDI(20 PORTUGUEZA AO MUATllNVnA 

primento e o ferro tem 0",22 de comprido, e na sua parte mais 
larga 0",03. No ponto onde come9a a haste é arredondada. 

Algumas hastes tem a 0'";20 de distancia da lan^a, um annel 
grosso que serve para a elle se prender a cauda de algum 
animai, quasi sempre preta ou mesmo uma pelle de grande 
pollo corno da pdumba, disposta em forma de saiote. Muitos 
ainda fazem primeiro um enchimento sobre o annel, uma es- 
pecie de taco, e a este é que prendem a pelle, cobrindo par- 
te do taco que fica a descoberto com baeta encamada ou mis- 
sanga miuda de diversas còres. 

Mucuba. — Forquilha de ferro feita tambem de uma so pe9a, 
sondo a haste de comprimente e de largura igual à da arma 
precedente, terminando o cabo comò ella em ponta para se es- 
pètar no solo. De 0",10 a 0",12 da sua extremidade superior 
partem para um e outro lado os ramos arqueados de uma for- 
quilha, um pouco mais delgados que a haste. 

Serve a mucuba para apoio das espingardas e tambem de 
arma defensiva. Tambem se fazem com um so ramo de for- 
quilha, e ha outras em que a haste termina numa pequena 
boia, da qual partem os ramos da forquilha. 

Chimpala (ì^ìpala). — Està arma tom a liaste da mesma altura 
e grossura que o muriirabo, e a O'^jlò abaixo da extremidade 
superior partem para lados opposto» follias de ferro em forma 
de crescente, corno as dos macliados dos nossos antigos porta- 
machados, terminando a haste infijrioriiiente em ponta. E uma 
boa arma defensiva e offensiva. Algnmas teem so crescente de 
um lado, e do outro o ramo de urna forquilha. Tambem as 
guamecem com o seu saiote de pelles conio o mnrumbo. Os 
grandes quilolos que as possuera, trazera-nas sempre porquc 
llies servem de bordao para encosto, sendo-lhes perniittido 
levarem-nas a audieneia do proprio Muatianvua, e espeté-las 
deante do logar em que se sentam. 

Qualquer pan direito e que nao parta com faeilidade é apro- 
veitado para encabe9ar com uma pe^a de ferro terniinaudo em 
ponta agu^fida. Re està é em forma de lamina dao a està arma 
o nome de ruqiùla^ se é em forma de espeto, quer tenlia ou nao 



ETHNOORAPHIA E HISTOKIA 



aroatas vivas, chamam-lLe 
mnseecolo, & é certamente 
pf!a analogia qiie teem 
com ellas, qtie as nrmens 
espatlas e bajoaetas re- 
cebem eates mpimo*» nn 
mes quo ó em todo n 
caso mais correcto do qu' 
o nome de ehibata, {\\\\ 
OB Ambftquistas dìo <- 
Dossaa espitdns, e quo s i 
posso attribuir ds priii 
chadaa em vcz de ctiìli i 
tadae que ae applicav ii i 
em outro tempo é, sold i 
deaca comò caitigo 

A arma de tiro antemn 
à de fogo que estes pnvos 
conheceram, foi de ci'iln 
o arco e freclia do qm 
aimla ab faz alc^um usu, 
Benda as primitivas f'n- 
uhas de madeira. 

Era poia està ami.i 
que no plural tinba o nu- 
me de mata. Ao appari' 
cerem depois as laKarmn-< 
e aa granaderraa que » 
nosBO commercio levava 
para o interior, deram- 
Ihes o nome de uta iid 
Muene Puto, e com o 
tempo passar a m a cha- 
mar-ae so uta, e ao antico 
cbamarani tila va 
vuilimo ou uà cadiango; 




30S 



EXPEDI^IO POETUGUEZA AO MUATIÀNVUA 



sendo cadlango (kadìayo) o arco, e vtiiUmo a corda. Està é 
feitft de pdles de unimaes n qiie tiraram oa pellos, seiido cor- 
tadaa &s tiras e enroladaa i?m espirai para apertarem os extre- 
mo8 do arco, fìcando asEÌm a corda bastante tensa. 

A frecha tem o nome de séu («mì); i urna varinlia delgada 
de madeìra o inaia direita posBivel, tendo num dos cxtrcmos o 
ferro ciirtu cm forma de lan^a a que cliamam mùjì, e no outro 
fozcm-sc cutalties eRtreìtos opposto» dots a dois, onde se fixam 
pennas de gallinlia apanidas quasi rent«B A baste, iato para a 
frecha cortar o vento oom mais facilidade e seguir coni mais 
certeza na direo^So em que foi arremosaada. 

Quem nSo posane unia espingarda usa do arco em diligcn- 
cias, cajadaB e guerras e traz sempre um feise de frechas, em 
numero nunca infcrior a trinta ou qnarentn, mcttido em um 
sacco ou aljava de fibras, que se suspeude && costas e ao qual 
se dil o nome do mussnca. 

Uta. — E o vocabido pani espingarda que estes jtovob trou- 
xernm do nordeste e que os povoa do norie ainda hoje usam 
na meamn aecep^So. 

Presentemente a* armas de fogo, ainda as mais modemas, 
que se carregam rapidamente e os revólverea sito, em geral, 
conhecidoa de todos eates povos. 

que è port!'m para elles mais vulgar é a arma lazarina, 
para a qual ji adoptaram urna nomenclatura sua, de que don 
co nheci mento: 

Chiunje (Èìufe). — Toda a coronha. 

Chitanda {(ìtadà). — Chapa do conce. 

Dkuro.^Cimo. 

UnvingtUe (uviyate). — Vareta. 

Dixisae [dixtsé). — Feclinria. 

Mufuane (mHiiiane).— Cilo, 

Chimbele (iiZele). — Chapeleta e 

Canhiquite (kaSikite). — Pedemeira 

liucàsme {nikasvìè). — Ca^oleta. 

Mvesau {miuaii). — Descansos (cliapinLa em dentea, poca 
ezterior) do ciìo, 



i cabeja do 





ETHNOaRAPEflA E HISTOBIA 



Mucambo ud petire (mukato napeiire).-^ 
O meemo que ca^oletn. 

Chopo (iopo). — Pe^a cavada (bacia ou 
deposito) Bobre que Assenta a ca9oleta. 

Disse (diee). — Ouvido, orificio de com- 
mimica^So com a culatra. 

Casabtdle (kaaahùile). — Gatilho. 

Mulime. — Todo o guarda-mato, 

Dicoza. — Bra^adeira. 

Um bom ca9ador estima mutto a sua 
espingarda. A coronha até & fecliaria é 
cri vada de tachas amare llas, em varios 
desenhos. resto da coroaha e cano era 
todo aeu comprlmento é envolvido em 
bra^adeiras largss de latSlo feitas das varas 
que Ihes leva o commercio, e onde fazem 
desenhos em re levo antes de dobradas. 

As espingardas est^o sempre multo lim- 
pas, sSo lavadns mesmo nos rios, e o maior 
luxo é trazerem os metaes e o que se possa 
ver da madeira ludo muito lustroso. 

Os aprcciadorca, e em geral os poten- 
tados, teem saceos de pelles avivados de 
fazenda encarnada, em quo as mettem, 
ficando apcnas pai-te do cano de fora. 

Vi fazer coronhas jI faca, que depois de 
promptas e pintadas com as tintas que se 
podiam obter, eram mesrao superiores a 
muitaa das coronbas das lazarinas quo là 
chegam, nSio sendo facil distingui-las d'es- 
tas ultimas. 

Entre estes povos fazem-se todas as pe^as de fecharia, mas oa 
que trabalham mclhor em ferro sao oa Qutòcos e depois os Bàn- 
galas. O Quifico su o que nito faz é o cano, e por isso racsmo 
compra canos usados e apresenta depois boas espingardas &a 
quaes os adaptou. 



310 EXPEDigXo POBTUGtmZA AO muàtiIkvuà 

Com respeito às afìnas de fogo perguntaram-me um dia: 

ìicuKcqpe ìiapa urna, òiye ìSteza naSio nanif (cQuem é o ainigo 
que no8 visita e so come o que traz comsigo?») 

Por algum tempo quiz ver se Ihes respondia, e confesso que 
n^ò podia esperar a resposta que nao deixa de ser curiosa: 
uta Ha Mitene Puto, udHa difaaa diede, (tA espingarda de 
Muene Puto que so come a sua polvora»). 

Jà ha cartuchos para as lazarinas de manufactura indigena, 
que sfto realmente compridos de mais, mas devemos consi- 
derar que para o preto um bom tiro é o que produz grande 
estampido. 

As pistolas e revólveres chamam cauta, e conforme os tiros 
do ultimo assim dizem cauta de tantos narizes: por exemplo, 
cauta canhi cazuro (kauta kani kazuro «arma pequena de qua- 
tro canos>). As espingardas de dois canos denominam-se uta 
nuxzuro mcuidi, etc. 

Com respeito às armas indigenas que observei, eu nao vejo 
mais do que Schweinfurth encontrou nos povos que visitou na 
sua viagem pelo Nilo ao sul; e acreditando que as migra95eB 
partiram de là para està regiSo, pode dizer-se que se nSo tem 
havido aperfeiyoamentos no seu fabrico, ou antes parece U ha- 
vè-lo.s seguado uh descrip^oes do retVrido explorador; e isso 
devido à introJuc9ao pelo conimorcio portuguez das armas de 
fogo eutre os povos de que trato. 

E sobre as armas de fogo, repete-se aqui o que jà notou 
Sehwcinfurtli com os seus carregadores. O indigena quando 
vae à ca^a aponta ao animai e mata-o ; porém sempre que dis- 
para urna arma por motivo de regozijo ou em eeremonias 
publicas nao poe a arma em pontaria e desfeclia para o lado 
esquerdo, umas vezes com o cano para baixo e outras vezes 
sem essa precau^ào, tornando-se isso perigoso para quem 
esteja d'esse lado, e se a arma se acliar Ciirregada com baia 
c-o tiimbem para quem esteja até mais distante. 

Mais de urna vez succedeu uà minila ExpedÌ9So, um carre- 
gador desfecliar sobre outro, cliegando um a ficar muito mo- 
lestado niuua perna e num brayo e no regresso a Catala, um 



ETUNOGRAPHIA E HISTORU 311 

dos contratados de Loanda, ficou com a cara^ e um bra90 e mSo 
em miseravel estado. 

Se por qualquer circumstancia essas espingardas estiverem 
carregadas mesmo com churnbo miudo, é problematico que as 
victimas d'esses descuidos fiquem ainda com vida. 

Apesar de serem simples os trabalhos de lavoura os instru- 
mentos em uso, que se encontram, denotando alguns um certo 
aperfeicoamento, silo jà de ferro. 

Lucasso. — E urna enchada pequena com o cabo de madeira 
curto e tosco. ferro em forma de concha termina quasi em 
bico do lado cortante, e do lado opposto tem a forma de um 
espigao que se vae cravar na maga do cabo, onde se fez pre- 
viamente um buraco para o receber. 

cabo é um tronco de arvore em forma de F, em que se 
aproveita o no ou ligajao dos dois ramos para cravar o espi- 
gAo. A foiba pode ter forma diversa da de concha, e ser rectan- 
gular e curva. Para cavar com està enchada, a mao direita 
pega no ramo inforior do cabo e a esquerda auxilia os movi- 
mentos pegando no outro. 

Faz parte da collecgao de instrumentos agricolas que ^euni 
uma enchada em que o cabo é bem torneado, terminando infe- 
riormente em forma de pata de animai, sendo a foiba bastante 
comprida, e estando cravada segundo a direcgao do ramo de 
madeira em que se talhou a pata, isto é, disposta com uma 
inclinagao que torna facil cavar com ella o terreno. As folhas 
em geral sào muito afiadas para poderem cortar as raizes ou 
cepas que se encontram no solo. 

Sao as mulheres que ordinariamente trazem as enchadas ao 
hombro, e que com ellas trabalham nas lavras. E em geral 
a muàri do potentado que dirige o trabalho e usa de uma 
enchada pequena, com a folha e cabo omados de desenhos, 
sendo este enfeitado com missanga. 

Dos machados o mais commum, que corresponde & enchada 
ordinaria, consiste num cabo tosco terminando num nò, entrando 
neste um ferro que alarga para a extremidade e que a melo do 
seu comprimente achata para dar o gume. 



312 EXPEDi(jXo pOBTnGUFZi no mdatUsvca 

Chissoque (èisoke). — Pcqiiena machiidmha. E iiteneillo indis- 
pensavcl para os horaeua e tanibem para as raiilhereB que nSo 
teem machadoa de maitircB dimensSea, DÀ-se ao ferro o nome 
de munita {mukita) e ao cubo o de mitssùnhi (musuni). 

Tanto um comò outro teem forma especìal. Este é de uma 
BÓ pe^. E iim tronco em que se aproveìta o nò de liga^^ com 
outro tronco, quo depois se adelga^a à, faca, terminando numa 
cabega de groBBura sufficiente para se Begurar bem na mSo. 




Àlgona aprceentam-Be cm curva poueo prontmciada. Em cima 
aproveita-se a curva para fazer contrapeso a equìlibrar-ae com 
o ferro. Este sendo redondo vae ade]ga9ondo até ao gume, que 
usam trazer sempre muito afìado, tendo para o lado pusterior 
lun eapigào que entra Bum orificio do lado opposto ao contra- 
peso. gume tem de 0'°,02 a 0°',04 do comprimento. 

Frequentea vezes eate machado é empregado naa lavras em 
vez da encbada, e usam-no sempre porque tambeui serve de 
arma. O exemplar que figuro é omamentado e a foiba apre- 
senta-se bem lisa. 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 313 

- — I 

Anffuimbo (gi^o). — A folha alarga para a parte anterior, e 
se fosse curvada e voltada em sentido transversai no orificio 
em que entra, darla urna das suas enehadas. As dimensSes 
regulam pelas mesmas do chissoque. 

Chvmbuia (èibuìà). — E urna machadinha mais delicada, pode 
dizer-sé urna arma de luxo. O gume é em forma de meia lua 
na parte anterior e estreita um pouco ao meio até à entrada 
no cabo. Estas laminas sao mais ou menos ornadas. 

Os cabos sao de melhor madeira e um pouco mais aper- 
feigoados do que os das machadinhas ordinarias; fàzem-nos 
escuros e lustrosos, e o contrapeso é guamecido de tachinhas 
amarellas. 

Mudambala (micdaiala), — E um outra machadinha ainda 
mais delicada. 

A linha do contrapeso forma quasi angulo recto com o cabo 
e fica no projongamento do ferro. Este à saida do cabo tem a 
mesma largura do contrapeso, continuando assim até ao gume, 
que é mais largo, de forma semilunar com dois dentes nos 
extremos, e limitado posteriormente por dois arcos de circulo. 

Tanto cabo comò a folha sao omados, sendo o ramo do 
contrapeso lavrado ou crivado de taxas amarellas. 

Dicanda {dikada), — DifFere da mudamhala, em que a folha é 
redonda, pouco depois do que apresenta uma saliencia comò 
um annel grosso e lago, que é enfeitado aos riscos ou em xa- 
drez, etc, e continua ainda redonda, alargando e depois acha- 
tando em forma de leque com a largura de 0™,02 a 0™,03 no 
gume, e distante do cabo 0™,20. Tanto o cabo corno a lamina 
sSo enfeitados com mais ou menos arabescos. 

Todos OS machados em gcral s2lo considerados comò armas 
defensivas e ofFensivas pelos indigenas, e por isso trazem-nos 
sempre comò a faca e a espingarda, se a teem. Neste caso o 
machado suspende-se a cintura do lado esquerdo um pouco 
para tras, ficando o mucuàli, que se suspende ao hombro, 
adeante do machado. 

Os machados e enehadas s2lo os unicos instrumentos de la- 
voura que por emquanto ali se conhecem ; porém vi jà entro 



314 



EXFEDl^Zo PORTDQUEZA AO HUATIIkVUA 



08 QuiScoa e noa povos do Liilùa, os nossos ancinhos ou eng»- 
50B, feitoB toscauiente de madcira. Pode dizer-se que é o ehi 
zanguUo (ponte), quo iazum de tres nu quatro duntcs, tendo 
uà parte eupcrior um biiraco onde entra nm cabo, o qual, 
depois de entrar ahi, é amassado aa parte excedente coni uni 
objccto posado para tornar a forma de nm botào, 

Senem-sc d'elle para limpar a terra, depois de revolvida, 
de raizes, folhas e cavacoe, quo amontoam a um lailo, e quc ao 
mnllicrca depois Icvam em ceHt*»a para um logar em que os 
quetmam. Cbamam ellea a este instrumcnto chlzanf/uflo cucungo 
e àquella opera^^, a ultima antes de semearum, cucungo. 



Ura do8 objectos indispcnsaveiB aoa potentadoa e de que se 
fazem acompanhar aeniprc quc oa tcem, quer estojam rece- 
bendo visitas, qner saiam da sua residencìa para 
longe ou para perto, e que em muitns trìbua passa 
por symbolo do eatado, cliegando a eonbeeer-sc 
por elle potentado a qiiem pertcnco, é o 

Mupungo (mupuyo), que eu traduzi por lenxota- 
inoacasi, por o ter visto empregar uesse servijo 
divcrsas vezes, mas que tem outras appUcft^Ses. 
Fazem-nos da acguinte forma: 

Affei(,-oa-3e um encanaatriido de (ìbras de cabama 
em forma de cone truncado, tendo 0"',I0 de maior 
diametro na base e 0™,2o a 0"',3U de altura, e re- 
veate-BC de baeta cncarnada ou azul, avivada nas 
extremidades de algodào branco bordada de mia- 
sangaa em varioa deaenlios. Na abertura menor 
iutroduz-sc a cauda de um animai grande, ou entào, 
quo é mais frequente, a pelle de um macaco de 
grande pollo, de quc se aproveita a parte branca 
e preta, de modo quc parece urna cauda, apertan- 
do-se està de enc entro ao cabo com cor dei a. 

Ha una de caudas nmito compridas, com caboa 
guamecidos de anneis mais ou mecos salìentcs e 
bcm enfeitados. 





ETHNOGRAPfflA E HISTORIA 315 



Na extremidade aberta do cabo, deitam-lhe os milongos cen- 
tra feitigoB, que consistem numas misturas de varias drogas 
preparadas pelos Angangas, formando massa, que se ataca bem 
até uma altura de 0'",03 a 0™,04 de borda. 

Nesta massa espetam depois pennas de gallinha ou de outras 
aves, fios de ferro e de cobre, ou melhor ainda, chifres de corga 
ou de gazella, cheios tambem de mexordias. 

Geralmente o Eiilongo neste caso é para preservar o pos- 
suidor de morte na guerra ou de ser apanhado pelo inimigo 
quando sae em diligencias. 

Os Quiocos sào OS que mais usam do mupungo, e os poten- 
tados teem uns especiaes, que confiam àquelles que os vSo 
representar em qualquer missSo, e é certo que elles difiFe 
rem uns dos outros, porque a distancia reconhece-se logo por 
elles, de onde veem os portadores. 

O Muana Angana, Quissuassùa, que me visitou no Luam- 
bata, trazia um, o maior que vi, de cauda preta, e do cabo, que 
era muito grosso, saiam dez chifres de cor^a. Elle tinha-o na 
mSo, e repito, servia-se d'elle para afugentar as moscas. 

Ha-os grandes e pequenos, e os cabos sào muito variados, 
sobretudo com respeito à disposi fao das missangas. 

Deve notar-se, que nao é so este objecto de uso que se apro- 
veita para conter milongo, corno preservativo de qualquer mal 
que possa fazer-se ao seu possuidor. 

Sempre que em qualquer objecto de uso se vcem arreme- 
dos de figuras humanas ou de animaes, comò por exemplo nas 
armas, nos instrumentos de lavoura, nos adornos que se usam 
suspensos ao pesco90, bra90s e pcrnas, devemos concluir que 
o intento ao coUocà-los ahi foi de desviar feiticeiros ou affas- 
tar males, que a superstieào faz crer que podem surgir de um 
momento para outro. 

Se em qualquer d'esses objectos for possivel abrir-se uma 
cavidade por pequena que seja, assim se faz e quem os obser- 
var attentamente, ha de encontrar, embora perfeitamente en- 
coberto, o milongo apropriado, para affastar o mal da pessoa 
que traz. 



316 



EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATrANVLA 




É para notar quc aa mulherea nSo teem essas apprehensBc- 
a seu rcHpeito, e obaervii-se tiellas n aiisencia mesmo de arnus 
IctoB; porL^m sho ellas os prìmeiraa a su spende -lo a ao pescogo 
do8 fiUioa e a amarrarcMii-lhc aoa brayoa as iteca («paueinhoB, 

fnictoB peqitenOB aoccoa, dentea de animaes, etc.»). 



Tendo dado conliecimeoto das armaa usadas por estea po- 

VOB para sua defesa, e para a ca^a, bem corno dos acua inatru- 

metitoa de lavoura, etc., terminarci eato capitulo dando noticia 

dos artificioa de q\ic se servem para apanhar o peixe noa noe. 

Ruquinda (ruìdaa). — Nos rios 

qiif passam proximo das povoa^Bes 

e no8 logarea em que conhecem que 

afBuc o peixe fazem cercaa para o 

apanharcm. 

Consistem cstas de pali^adas de 
troncoa encoatados una aos outroa, 
■entrando pelo rio até doie e tres 
■netroa. 

D'eata pali^ada partem outras 
.lara montante e parajnaantc, fei- 
taa do mesmo modo, aendo bem 
ii^adas com liames as partes dos 
troncoa quc ficam fora de agua. 
Parallela A primeira, e a urna 
^- eerta diatancia, coUticam outra, que 
liga no oxtremo com ella e ae prolonga com canni^ados até & 
outra margem, ee o rio acaso é eatreito, e a qual se mantem 
ligando-se a una aupportea, que vSo collocando de diatancia 
cm diatancia. 

Além d'eate labyrintlio com que pretendem envolver o peixe 
que appare^-a, procurjun quando elle ac eacape da primeira 
cerca affaslà-lo da corrente, e por isso até onde Ihoa é pos- 
aivel penotrarem no rio, collocAm em diveraoa aentidoa pali- 
9adaH de troncoa inclinadaa sobre as margens e a estae d&o o 
nome de chixexe. 




I 




ETHNOGRAPHIA E HI8T0RIA 317 

Can$ar ob peixes e virar-lhes a cabega, é o que nós que- 
remoB — dizem elles, — pois ficam encostados aos paus no 
sentido do comprimento e aào podem d'ahi sair. 

IHssena (disena). — É urna armadilha^ feita com varinhas del- 
gadas de capim disposta» com pequenos intervallosy e ligadas 
ninas às outras por'fios de fibras; teem a forma de am pequeno 
barcOy sondo as linhas da pr6a e pòpa rectas, e as que caem 
Bobre a quilha^ tambem rectas. Fixam-na proximo às margens 
dos rios com a bocca virada centra a corrente. Tem de com- 
primento 0°»,40 e de altura 0»,25 a 0",30. 

Catanda (kataaà). — E outra do mesmo feitio com dimensSes 
um pouco maiores e com umas travessinhas ao meio para con- 
servar tensas as suas paredes. 

Mujia. — SSo outras armadilhas para peixe miudo; feitas do 
mesmo material. Tem a forma de dois cones juxtapostos pelos 
vertices e com abertura em cada um dos lados maiores. SSo 
de pequenas dimensSes e transportam-se facihnente. 

£m yiagem rara é a comitiva que nSo leva dois ou tres 
d'estes apparelhos^ sempre na esperan9a do apanhar algum 
peixe nos rios que tem de atravessar. 

CoUocam-se amarradas pelo centro a imi pau e equilibradas 
por outro pela parte de fora, de modo que as aberturas fiquem 
viradas para montante e para juzante da corrente. Em goral 
deixam-nas assim ficar teda a noite, e so de madrugada vSo 
conhecer se tiveram fortima. 

SSo poucos ainda os individuos que fazem uso das tarrafas 
e outras redes. Chamam a uma e outras uanda {uaaa)y e 
tambem poucos sSLo os que sabem pescar & linha^ chamando 
a està ambungo (]^ugó)j e ao anzol dUòua {dUoùa). 

Reduzindo-se a muito pouco as necessidades d'estes povos^ 
tambem poucos foram os objectos que fabricaram para os aju- 
darem a satisfaze-las. E se vcmos estes mesmos num estado 
rudimentar^ attribuo este facto & interven9So do commercio 
portuguez que Ihes levou outros melhores^ que nSo so supprem 
o legar àquelles, mas ainda Ihes deu a conhecer outros novos 
creando-lhe necessidades que nSo conheciam. 



318 



expediqao portogdeza ao mdatiìnvua 



i 



Sabe-se pela tra<]Ì9;io quo, orf?anÌBado que foi o estado de 
Miiantiilnviia, prini^iplamm a Bair da cSrte etnÌBearlos encar- 
regadoa do abrir l'ainìnhos na dìrecgao que segiiia o sol no seu 
declinar, e outros tembem para as regiSes na direc^So de onde 
elle vinha, 

Qiiingùri, ao partir, disaera: — Vou seguir até & terra ondo 
sol se esconde. 

Cazembe (o prlmeìro) tinba a mìssfto de procurar rela^Ses 
com as terras de Muene Puto a leste. Parece pois, que estes 
povos quando vicmni estab<^Ìccer-SB noa ten-itorios que aetual- 
mento occupam, conbeccram que para oa lados a leste e oeste 
se encontravam terraa onde existiani povos mais cultos quo 
Ilies podiam proporciuuar os meios de snpprircm alguiuas das 
suas ncceasidades, e é provavel quo esse conheciraento o obti- 
vessem pelo systema de transmiss&o de noticins, conbecido nus 
povos de N.-E. ao norte dos grandes lago», nuticias que se 
davam lego em scgiiida A sauda^So da manliS, costuine milito 
usado tambem na nosHa provincia de Angola a que cliaiuam 
maézu, e na Lunda lussando. 

Pode dizer-Hc moderno o estado de Muatiùnvna e pareceni 
da mesma epocba nao so as niigra^Ses freqiientes dos povoa 
da Lunda para a nossa provincia de Angola, conio o estabe- 
lecimento das covrentes do nosso commercio para M. Eatas 
correntes, procedentes dos povos da Jinga e de outias tribus 
nvassalladai:) ou nSo, olieguvam na volta até Ambaca nos pri~ 
mitivoB temjxis do noeso dominio, e eram esaes agentes que 
traziain do interior em troca de fazenda as levas de escravos 
que sairam pela provincia, e digamos a verdade em principio 
protegidos pelas missòes dos Jcsuitas. 

Aasìm se pode esplicar o facto que apenae, por curiosidadc, 
imi ou outro individuo das tribus se dedica ao fabrico de ar- 
mas, utensilios e outros artefaetos propriamente indigenas; e 
naturalmente em pouco tempo, o que ainda hoje ae ve deipara 
de existir por effeito daa coirenteB de commercio que estSo 
cortando essa regiito em todoa os sentidos. O que so eneontra 
agora nos diversos museus da Europa, proveniente de indus- 




ETHNOQEAPHIA B HISTOBU 



319 



tria indigena, passarà para a posteridade corno documento 
eUinographico de urna idade primitiva d'eetes povoa, notaa- 
do-Bs que os que pennaneceram mais afaatadoa do commercio 
eoropeu, sSo oa que apresentam productoa mais perfeitos da 
sua industria. 




CAPITOLO VI . 

VESTTJARIO E ADOENOS PESSOAES 
INSTKUMENTOS DE MUSICA 



ConsideraySea prelimiDarea — Materlaes UBadoa para vestuarìo de ambos oa sexos; deuìgiM- 
^o das aiiaa differentes pefas e modo do se uaarem — Cintos do mlaaanga ou de basios ; 
cintos de couro — Brafaea e canhSea de couro ou de baeta — Bolaas de ylagem do 
pellet oa de couro; cartucheiraa — Bandaa ou cintaa de Ift e de fibraa vegotaea — Col- 
larea de contaria ; emprcgo da contaria comò moeda corrente — Objectoa usadoa corno 
dlatinetivoi corno amuletoa ou aimpleamente corno enfeite — Miluinas e outroa omatoa 
para a cabe^a— Diadema«i resplendorea, capacetes, otc.| servindo corno distinctivosi e 
modo de oa fazer — Paasadoiraa de metal para oa cabelloa — Barretes de Ift, bonét e 
chapéus eui'opeua do formaa e materlaes divcrsoa — Chapéus de jol e umbellai — Brin- 
coi| pingentos, argolaa, amicia e outroa adomoa para aa or^lhaa, nariz, mioa e brafos — 
Lucano ou distinctivo de soberania na Lunda ; ccremonlal da investidura do Muatiin- 
Yua na posse d^essa insignia — Amuletos diversos — Lucanga; ceremonial para a sua 
colloca9Ìio — Cascavcis e guizoa — Mutila^Scs e pinturas na cara e no corpOi empre- 
gadas comò embellesamento — Instrumcntos do musica — Chissangue e marimbaa — 
Initrumentos de corda, do vento e de pancadaria. 



Éi 




Barn eBteB povos de tr^os, 
adorno B, objectos de luxo, 
ineigniae, amuleto s, tstna- 
gena e outrae mutila^Ses 
para enfeite, de que doa 
agora noticia, bem corno dos 
seuB instrumentoB de iqubì- 
ca, que tudo contribuir& 
para se formar uma idea 
geral do deBenvolvimento 
daa Buas faculdadoB inTen- 
tivas e artisticas e dae suas 
aptidSes. 

No clima em que aqui rive nSo tinba o bomem necesBÌdade 
de proteger o corpo contra ob rigores do frio, e o uso que 
ainda actualmente observa de cobrir^aB,parteB genìtaes com 
folhaB, tecidoB de filamentos de plautas e com pelleB de anì- 
masB, demonstra-DOB que eBse habito é imposto por certas no- 
(Ses de deceucia e taJvez para reatrìngìr as provoca^Ses para 
OB pr azere s sexuaee. 

Nem aB pelles, nem ob tecidoa que podem obter, ainda hoje, 
para seu reBguaidoj bSo coBidas. 




EXPEDigZO FOBTDODEaEA AO inJA.TlllfVUA 




A aguUia é instminento quo oa PortugHezee llies levarain, 
e pode dizer-se que ainda no principio do bccuIo actual nSo 
a conlieciam ; e quo os pannos cosidos para vcstuario sé prin- 
cipinm a ver-se agora. Rodrigiiea Gra^a, quando em 1849 es- 
teve na Muasumba, deu-noa a, cntonder que o uso daa baetae 
enroladas cm torno da cintura era um traje rico, pois aó 09 
potentados e fìlhos de Muatiilnvua as podìam usar. 

uso da mabela, quc é um tergo de uma tanga do algo- 
dilo e que d feita corno està, trouxcram-no os povos que vìe- 
ram do nordeBte, pois o chibinda Uunga, pae do primeiro Mua- 
tiànvua, quando veiu jà a usava, e cncontrou os Bungoa com 
esse traje, 

Os Uandaa, ao norie do primitivo estado d'estos ultinios po- 
vos, fabricam-nas, beni comò os Chilangues e tambt'm os po- 
vos entre o Lulùa e Muansaguma, afflucntes do Zaire; e estcs 
fazem-nas niuitu Bnas, e d'ellaf^ jd talham roupas ao dosso ubo 
enaioados pelos Ambaquiatas. As mulheres dos individuoB que 
no Lubuco tem o titillo de Muquelenguo^ — oa que dizem ter 
passado pelas provas do motOj e que sSo mais constderados na 
córte do Muquengue — bordam-naa com aa misgangae miudas 
que ba perto de vinte annoB o nosso commercio là tem intro- 
duzido. 

E pois com as folkas de arbustos, pelles e inabelas e com 
as nossas fazendas, que cUes cobrem o corpo- no todo ou era 
pai-te; e dào nomea cspeciaes &s differentes pejas segundo a 
natureza do material de que sSo foitas, auaa dimenaSes e for- 
mas. Tambem, ultimamente, alguns raais favorecidos veatem 
camisas, camisolas, fardas ou casacos, colletes, calgas e outraa 
roupas levadaa pelo commercio portuguez, porém todos estes 
objectoa bSo recebid^s com nome do cahuico (kabuiko «co- 
berturas»), distingiiindo-ae as caiyas pela denominammo de ca- 
buico ed miéndu (kabùìko ka mtedu acobertura daa pcmaa»). 

Aa folhas com que se cobrem, k falta de outros materiacs, 
teem o nome das proprias folhas, maiji. h 

Pelo que respeita a pelles e mabelae reduz-se o vestuario ^| 
ao seguiate: ^| 

i À 




Chiquita ckià méssu (Sikita Ka mesau) — É lima pelle de 
animKl pequeuo, qiic dcpots de devidamenta timpa e aecca, se 
colloca adeantc, siispcDsu & cintura (pag. 121). 

Por analogia um rctalho de qualquer fazenda, ou qualquer 
folha ou ramo de folhas, posto em seu logar, chama-ee tambem 
chiqutta. 

Oa rotallios que usam as mulherea teem as dimensSes res- 
trictamente neccssarias para o effeito desejado, e usam-ae sub- 
penaos por um mwjji («cordel de fios de baste de plantas») 
adeante e atrds, ao wm- 
hungo («cordSo de iìbraB 
torcidas»), quo tntzem à 
cinta. Muitfts vezea osto 
é subatituido por fiadaa 
de raisaangaB groaaas e 
finaa e tambem por fiadaa 
de pequeiioa buzioa. 

Alguna L'hamam a eatea 
retalhos t:hiheh (Sihele), 
porém Cdte é o vocabuJo 
proprio piii-a qualquer pe- 
dacìto do tnzonda e està 
ao caso de maiji para as 
folhas. Nan niichas notas 
encontro quo o chibele, 
neate caso, toma o nome 
de chiquita. 

No3 houiGDS ntto se vèem eatea retalhoa, 
ae nlo teem pellea para esae uso. 

Mua»oniÌ6 (musaae). — E um trapo, um pedalo de fazenda, 
que ae usa suapenao por urna ponta ao mtièuTttjo, e deixam-nn 
cnir adeante ajeitando-o a andar eutre as pemas, e quando se 
seutam, il medida quo se vao abaixando, vSo conchegando 
Cora ao niilo direita a sua extremidade para tràa a ajustar-ae 
bcm ao corpo, do aorte quo quando se cbegam a aontar ji 
eaaa extreuùdade està debaixo d'ellea. 




eferem as folhas 



326 



EXFEDI(!o PORTnOUBZA i.0 MDATtlKVnA 



Muitas vczes o miibiingo é subetituido, principalmente nos 
homons pelo mufavde {mnkaaé), que é urna corAn feita de nma, 
duas ou tres tiras delgadaa de pelles seccas, conforme a lar- 
gura qiie se Ihe quer dar, devidamente torcidas. 

Ckìqmta chià cunhima (Éikita Èia kunimà). — Pelle que se 
traz Buapensa aos meneionados corddes, mas atr^s. Por analo- 
gia tambcm se dà o mesmo nome ao peda^ de fazenda ou àe 
fulhas que a eubstituem. 

Tanto està pelle, corno a de deante, chega Ab vczea até i 
curva da pema ou joelho, e nesse caao tem geralmeute a lar- 
gura para eobrìr as coxas, à guisa de aventnl. 

Oeralnicnte as pelles mais aprecladas s^o as que se amol- 
dum bem e tem pello fino; comò as de macaco, anjivìbo (jiZo 
ifurSo de pello eastanho muito fino»), muiéu (muìeii leSo do 
matoi), cassanda (kasada «animai do mesmo genero»), cambojizo 
(itoSozo «gato bravo»), caquimequime (kakimekime «roedor qne 
tem babitos nrbnreos»), etc. 

Estaa pelles, dopois de algvim uso, amoldam-se corno se fos- 
eem fazcnda. E sSo tSo aprociadas que se uaam mesmo sobre 
as fazendas e mabela, corno se fossem aventaes, e é luxo 
andar em com as caudas pendcntes. 

Era marcbas até os maiores potentados as usam enrolando 
oa pannos de fazenda-'^, se os teem, A cintura; o que me faz 
crer que procuram ter livrea os mo-\-imentoa das pemas prote- 
gendo-as ao mesmo tempo do orvalbo no capim. 

Estando na povoa^ilo do Chibango disse a este, que ranito 
me admirava corno elle consentia que as euas raparigas tra 
jassem folbas de ai-vores, quando ningncm mclbor do qne elle 
podia obter com fucilidade os pannos de mabela do Mal com . 
cujos povos confinava, Disse-me que todas aa suaa raparigas 
mais ou menos tinham pannos de fazenda ; porém qneriam 
poupA loB andando assim, quando em eervi^Oj principalmente 
no das lavraa. 

Seja comò for, è certo que so d'osta povoa93o em deante 
e na propria raussumba do Muatiànvua é que vi apreaentarera- 
se muìtos homcns e maUiores lundas com semelhante trajo. 




ETHNOGRAPHIA B HISTOBIA 327 



Até OS Lundas quo nos acompanharam e quo em principio ti- 
nham fazenda de vestir^ ou porque a estragassem, a perdessem 
ao jogo, a empenhassem ou vendessem por causa do malufo e 
tabaco, e mesmo para corner^ passaram ^ andar so cobertos, 
corno OS povos quo iamos encontrando, com folbas, pedacitos 
de fazenda e de mabela mais ou menos grossa. 

Os aventaes de velludo omado com galSes douradod e ma- 
tizados de estrellas douradas^ que a .£xped]93o levava^ foram 
muito apreciados por todos estes povos^ principalmente na Mus- 
sumba^ porque ^ram uns meios saiotes, e is filhas de Muatiftn- 
Yua que estavam usando mabela e pelles, fizeram muito ar- 
ranjo. A estes aventaes chamavam elles chiquita chid tdo 
(courof) chid Muene Puto. 

Em diligencias ou para ca9adas a grandes distancias, nem 
OS Lundas nem os Quiocos levam os seus pannos; o traje li? 
mita-se às pelles caindo adeante e atràs. 

Didt. — Tecido de fios*das fibras de plantas texteis, for- 
mando um rectangulo de 0",80 por 0™,60. 

Cazamhale (kazaHale). — E o mesmo que o antecedente, de 
menores dimensSes, mas franjado de todos os lados. Faz lem- 
brar uns pequenos guardanapos que ha de palha fina para ser- 
VÌ90 de chà. 

Tanto um comò outro sSo para substituir os objectos de 
yestuario jà descriptos; porém tambem as mulheres, depois da 
puberdade, principalmente as dos Qui6cos e Bàngalas, usam- 
nos sobre os peitos para os tapar, suspendendo-os a cordSeSi a 
fiosy ou fiadas de missangas, que fazem passar sobre a nas- 
cenya dos peitos apertando-os, e que atam nas costas. 

Caxàvu, — E um panno curto (pag. 329) feito de qualquer 
fazenda ou de mabela, que as mulheres usam, ficando muito 
justo às nadegas e preso à cintura com fiadas de missanga 
ou cordSes. NSo passa abaixo do joelho^ e quando se sentam 
no solo, entalam-no entro as pemas. 

Mucuta. — E tambem usada pelas mulheres; é mais estreita 
ainda do que caxàvu, mas mais comprida. Prende-se à cin- 
tura de modo que haja pontas iguaes de ambos os lado, syme- 



32ft 



F.XPEOIVÀO PORTUGUKZA AO MUATlAxVCA 



tricameDte disposta?. Apcrtara-na bem apertada na freiite com 
uns pregoa a quo duiraam manjeta (majeta) deixando cair aa 
pontaa, qUB vào um pouco abaixo dos juelhos. 

Sossa. — Pannila ^f inaitela grossa jà fabrtcadoa de proposito 
e de qqe usam os Lomeits, tenniDando ob lados mais estreitos 
em fraojas. Apenas sobrepSem adeante, o bSo eeguros na cin- 
tura por uva eordel on corda feita mesmo de trepadeiras, e 
viram Bobre està a parte da mabela que deixaram acima e 
que a tapa, fieando a franja calila para baixo. 

Quizanga (kizaya). — S5o 
OS maioree pannos que se 
fazem de mabela, à imita- 
gSo doa que oa Ambaquìstas 
chamam lessale, e que fa- 
zem reunindo tres e quatro 
tangas fabricadaa de algo- 
dào, unindo-as no sentido 
do comprimento. Urna d'ee- 
1 tas tangas é entSo um re- 
j ctangiilo quo regula de 
j V',aO por ^".GO. 

Divunga {divuya). — E o 
I pauDO que usam todos os 
que posBuem fazeada, tendo 
dojlargiira o dobro da lar- 
gura da fazenda e de com- 
primento 2 metroa, e às 
vezes lira pouco mais. Faz-se urna divunga de todo o genero^, 
de tecido, menos de baeta. A que é feita de len^'os, se eateo 
83o pequeiios, consta, geralmeiite de seis; tres em baixo e 
tres em cima. Teem apparecido modernamente na formadas 
de quatro leu^oa grande», que s^o muito apreciadas. A di- 
vunga 6 ilcbruada com zuarte, que quanto mais largo é mais 
flgrada. Todoa estes povos se queixavam de ser niuìto ralo o 
zuarte que lioje para Id envia o nesso commercio, parecendo 
mais urna rede do que um tecido. Dizem que no tempo de 






ETHNOGRAPilIA E niSTORIA 



D. Maria II Ihe levavam urn zimrte inuito tapaào e bora ; e que 
d'elle vestiam bem as mpiirigas. Tambcm debruam a divunga 
com algodSo e fazeoda do lei, que é o xadrez miudo, azul e 
branco; mas hnje essa fazenda tauibem é inulto pobre de fioa 
e està depreciada, chegando iiiesmo a aer rejettada. 

A diviiiiga de baeta tem a largura da propria baeta e de 
c»mprimeiito poiico mais de urna bra^a; nào ó debruftda,lìca 
com as auas ourellas brancas, o que multo se apreda. 

HouTi! Ulna epocba em 
que BÓ o quilolo e mais 
peeeoas grandca da Landa, 
vestiam baeta, principal- 
mente a encamada. Aindn 
em alguDB pnutos, corno 
no Xinje, 80 o Muana An- 
gana e no Caungula do 
LSvua aó os quilulos a 
UBam. Hoje nm cacuata 
quando vae em diligcneia 
do Muatiànvua é preBcn- 
teado por estc com urna 
divunga de baeta, que logo 
veste com multo prazer. 

A divunga p3e-se à cin- 
tura (pag- 13G) e segura-ae 
por um cinto de couro, 
passando em volta a parte superior eìn pregas Bobre este, e 
é puxada até exceder ponco para baixo doa joelhns, a firn de 
ficarem os movimentoa das peruas dcBembara9ado8. Ab ma- 
Iberes usam-na presa acima dos peitos e • scita na cintura, 
quando em trabalLos domcsticos (pag. 188). 

Divunt/a dia cahuico (divuya dia kahùiko). — Panno que se 
usa sobrc os hombroa cobrindo todo o corpo quando se catA 
sentado. Fazcm-sc de qualqucr fazenda e inesmo de mabela, 
mas sondo de algodSo jA Ibo chamam lettole (pag. 333), dos 
Ambaquiatas. Se porém o panno é bastante grande e forrado 







EIPEDI^Jo POHTCOnKZA AO «DATIÌNVCA 



No meu acampamcnto fìzeram-se alguna guarda-peitos da 
luxo, tanto para a Muilrì comò para as outras mtillieres de 
Xa Madiamba (pag. 204). 

A Mudri e outras mulherea da mussumba enviaram-se ro- 
meiras, sendo as moihores as que forum feitas em Lisboa, de 
velludo ornado de gal5es dourados e com estrellas de metal 
amarello. A Liicuoquexc o outras mulberea da corte foram 
contempladas com algumas romeiras de bacta e tnmbem de 
panno, giiarnccidas e ornadas com galSea prateados e doura- 
dos. Tanto a uiqbs corno a outrai^ chamaram chihuico eftìA 
mema («aguai), porqiie dizem 
quo 08 filboa de Mnene Puto 
veeni da agua, differentando 
assim estes dos naturaes de 
Angola. 

Ab velhaB gerahnente nada 
usnm; e as raparìgas novas 
que nSo teem chìbuico conten- 
tara-se em suspcnder ao pea- 
ca90 muitos fioa de missangas, 
ao3 quaca na altura do peito 
dSo urna la^ada, deixando pen- 
der aa cxtremidades dos fìoa. 
Ckìnndo chid xingo {(irido 
eia xigo). — Especie de cabejSo 
^" ' de fazenda, geralraente baeta 

avivada de cor diversa, que so 
peaaoas de distinc^ao usam sobre oa hombroa. Tambem aoa 
coUares de lat^o dSo eato nome, e por isso aoa dois que levava 
a ExpcdifÈIo, uni com cruz suapensa ao mcio, e outro em cor- 
vas, com pingentea, deram o nome de ckÌTÌndo chid ulo (ouro) 
pa xingo. 

Jd ficou dito que aa raulhercs substituiam o mubungo por 
fiadas de missanga & cintura, e a eatas chamam mioje ud tua- 
sangasanga; poréra, se em logar de missangaa aa fiadas forem 
de pequenos buzios, chamamdbe entSo mala'itete (tnalaìete). 




ETHNOGHAPHIA E HISTORU 



AB fia<laB d'estes, Bendo imidaB, formam um cinto que tcm 
meemo nome. Ha tambein uns cintos' de couro ornados de 
buzioe, qiie uaam oa hoiiifiiis para leste do rio Chiùmbue, que 
lem ainda oste nome. Oa homens em geral, além do mubuugo 
teeiii o set» icipo e amponda. 

Xipo. — Cinto de couro da largura de 0",06 a O^'iOO. Oh me- 
Ihores sào de couro de boi, mas, na niUBaiimba onde ob d![o 
ha, fazem-nos da pelle de outroa animaea grandeB que cagam. 
Varia de comprime nto, mas oa primeiroa teem geralmente o 
dobiv) da volta da cintura e 
às vezeB mais. Ajustam-no 
& cinta principiando por urna 
ponta que ha de dobrar ura 
pouco, e o rcBto que aobra 
é enrolado e diapÒe-se de 
forma que o rolo tìque a um 
lado. Seguram-no com uub 
atillios que passam por ori- 
ficioB abertoB para esse firn. 
Servem-Ihe oa ci nto b, corno 
jÀ ficou dito, para segiirareui 
OS pannoe, e tambem para 
nellcB Buspcnderem nboloasa, 
angonga, etc. tt ^^^ 

Tupanga (tiiptùjn). — Siilo 
bra^aea de couro ou de baeta de 0™,60 a 0'",90 de largura, 
usadoB na parte mais cheia do bra^o, ou cauhSea da altura de 
0",10 a 0",15, usadoa no antebra^o pelos homens ou mulherea 
de distinc^Hio. Ob de couro com ornatoa, feitos com um pe- 
queno ferro pouteagudo, ou com abertoa à ponta de faca e 
tambem omadoa de tachas amarellaa, estSo muito em moda. 
Ob de baeta avivam-se a branco, azul ou encarnado, conforme 
a c5r dos bragaes ou canliiHo, e enfeitam-se com miasangas. 
Tambem oa ha de tiras com bordados a missangas de dJveraas 
corea, que tse fazem corno para oa enfeitea de cabeja e forram- 
ttos com qualquer fazenda. 



333 I 

tcm o ^^^^^^1 

OS de ^^^^^^1 




334 



EXPED19ZO POST0ODE2& AO HDATiINVDA 



Tupanga tua mìéndu (tupaya tàa viiedu). — É urna tupanga 

que coUucaui no delgado da pcrna até urna certa altura, e 
Hcrvem-Hti para aa gtiamecer de buzioa à falta de mUsanga. 
Por analogia, ia polainaa do baeta agniuadaa coni gal5ea dou- 
rados e prateados, que a Expedi^'io dou ao Muatiànvua e ao 
Quissengue, puzeritm o nome de tupanga tua Mitene Puto. 

Amponda [poda). — Banda, faisa ou cinta de 13, de diversas 
coree, com aa reapectivaa borlaa. E objecto multo apreciado 
purque aa uaam os filhua de Muene Puto. Àa muUierea tambem 
aa cubi^am, e a algumas aervem aa cintaa de IS para com ellus 
cobrirem oa peitos. A amponda aubatitue o cinto de couro ou o 
malantcte para a eeguran^a doa seus pannoa. Às que se de- 
ram ao MuatiSnvua e ao Quiesengite eram orladas e enfeita- 
daa com galSes douradoa e prateadoa, e usavam-as umas à 
cintura, outras a tiracoUu. 

A mullier que é mSe, meemo a mala pobre, podcrà nSo ter 
outro objecto de uso, porém nSLo dispensa a amponda fcita de 
fìbras ainda att mala grosaaa, e que usa corno uma rodilha em 
tomo da cintura; é com ella quo segura oa filhos, escarrancha- 
dos naa costaa ou a um lado quando em marcbaa. Emquanto 
as nSo posauem nào deacangam, porque na verdade fatiga-aa 
baatante trazerem os filbos escarranchadoa ao lado diretto na 
cintura aeguroa com o bra90, mala ainda transportando à, 
cabota feixea de lenba, ou cargaa de mandioca, ou de outroa 
generoa, ou entUo caba^aa com agua. 



Eatre 09 objecto» de adorno, ha una consideradoa comò dia- 
tmctivoa de auctoridade, outroa que so uaam coustantemeiite 
e de necosaidade, em virtude de auperatijSea, attribuiudo-se- 
Ihea o dom de afaatarem malcficios, doen^as, aecidentes, e que 
podem classificar- a e corno amuletos, e outroa tìualmente que bSo 
adomos. D'eates os que aSo de miaaangaa e contaria aimples- 
mente enfiada, e que facilmente se eoltam, podem conaiderar- 
Be corno entre nóa, um peculio, e a que ae recorre para aatia- 
fagSo de qualquer neceeaidade ou appetite inesperado, ae Ihes 
faltam outroa recursua. 




RTHNOaRAPHIA E HISTOBIA 

SKo estea ultimoa objGCtos de adomu peasoal e de luxo que 
ee iiaam no peacit^o em furma de collarca, ou cm fiaclas oruza- 
dos Bobre o peito, oii poatas subre oa bouibros, a tìracollo ou 
& cintara, caindo um pouco aobre o ventre 
braceletea ou annilhaB noa bra^oa e pemas, e aiiida enfiadus 
naa trauma do cabello. 

Ha collares que sào mais do que fiadas e demandam traba- 
Iho. Fazem-ae de diversoa feitiua eom o nome de mucoi pa 
xingo (mukoi pa xigo). Urna porjSo de fioa diapostoa em feixc, 
b3o eniiados em misaangaa, 
ora um ora doia; e de dia- 
tancia em dìatancia ailo aper- 
IndoB por anneia da meama 
missanga ou por urna conta 
groaaa por onde paaeam todoa 
OS lìos. Faz lembrar aa noasas 
antigas bolaas de misaanga 
para dinheiro miudo, porém 
maia estreitaa. Tcnninam os 
extremoa em pingentea tam- 
bem de missangas. O aeu 
comprimento varia conforme 
as posses da dona, dcade o 
que pormitte dar a volta em 
torno do pescoso ató ao que ' 
pode cair abaixo doa peitoa. 

Oa deaenbos do mucoi aSo variadoa, conforme a quantidade, 
variedade de cor e dimenaSea da miaaanga de quo ae dUpSe, 

À Expedi^So levava una ji feìtos de cootaa de vidro azues 
e brancaa eom pingcntes, que foram muito aprectadoa e a que 
oa Lundaa deram o nome de miicol ud majore. 

Às fiadaa que coUocam & cintura geralmente sSo da miaaanga 
groaaa, e contaria redonda ou apipada, e a eataa cbamam muoje 
uà tiusanga (mùo}e ùa tusaga). 

Aa miaaangas e cootaria grossa conatituem a maior riqueza 
daa mullieres, que truuaformam o corpo em verdadeiraa mon- 





336 EXPEDigXo poutugueza ao muatiAnvuA' 

tras, em quo se véem contas de todas as cdres, formas e gran- 
dezas; que o commercio portuguez para là tem levado. Algu- 
mas vi que de certo eram de fkcturas multo antigas^ pois o 
nesso commercio jà ahi as d2o leva. 

Os homens tambem as usam numas tribus mais do que em 
outras, porém apenas em uma a duas fiadas, ao pesco90 e nas 
tran9as do cabello, e duas a tres fiadas grossas na cintura. 
Tambem nos pulsos ou nos delgados das pernas trazem às 
yezes uma até duas fiadas. 

As mulheres que possuem estas riquezas e mesmo os ho- 
mens recorrem a ellas muitas vezes^ quando n^ teem outro 
recurso, tirando algumas missangas ou contas de que precisam 
para comprarem o seu pedago de carne, peixe e mesmo malufo 
ou marra (garapa). 

Tiram apenas as que sSò restrictamente precisas na occa- 
siao. Sei que Mucanza (o Muatiànvua interino), querendo com- 
prar no Calànhi um pouco de sai para me mandar, tiràra do 
cabello quatro contas grandes apipadas. 

As mulheres teem a sua riqueza contada, e a falta de ama 
missanga ou conta ó para a possuidora motivo de grande tris- 
teza, chora muito; é uma falta irreparavel, pelo que chega a 
chamar adivinhos a quem tem às vezes de pagar muitas mis- 
sangas, o que Ihes nao importa, para saberem quem Ihe quer 
mal, se foi feiticeiro ou ladrao, inclinando-se mais para sup- 
por que foi por artes d'aquelle que soffireu esse desgosto. 

Bolossa. — Espocie de bolsa de viagem, em forma de carteira, 
feita de pelle de animai, com uma certa elasticidade ; tambem 
as teem de couro muito flexivel. As maiores sXo rectangulares 
de 0^,30 X 0",20, e cortam-nas de forma que a aba que as 
fecha acaba em bico, comò a de um sobrescripto, e so cosem 
OS lados. Vi uma bolossa preta avivada de baeta encamada, 
que fazia bom effeito. 

Usam-nas presas ao xipo ou suspensas a tiracoUo. E um 
indispensavel onde se guardam todas as miudezas e tambem 
a isca e o fìizil. A isca chamam ucoco e ao fusil dos Amba- 
quìstas fuji ou fuzi. 



ETHKOGRAPHIA B HI8T0BIA 



337 



Angonga (goyà). — Cartucheira ou patrona, que 
se nsa na frente, presa ao cinto por aiillms. 

CoQsÌBte de urna especie de caixa de coiiro coni 
a tampa quasi da mesma altura quo o fiindu, 
omada mais ou mcDOs na tampa, tendo iilguns 
abertos na frente, scndo revestìda ìatfrionncntu 
de baeta encarnada; ao fiindo pela parte oxtirior 
fazem com o meemo couro urna eapeclo de 
dorea de gaveta, aoa quaes enrolam 
UDS atilhoB que vccm da tampa, e 
aasim se fecham. 

Além doa cartucbos que ficam 
colloeados verticalmente a um lado, 
tambem giiardam na angonga, taba- y 
co, iaca, fuaìl ou quaesqucr outras ^■4*5^ 
cousas miudas. 

Capate quifanda {kìpate kifada). — TJsam tambem muito de 




polvorinhos a que dào o 
feitoa de pequenaa caba^aa, 
tendo doia bojos sendo o 
BUperior de menor diametro 
e que termine num collo 
delgado e curto, na extre- 
midade do qual introduzem 
um toro de m ade ira da 
forma das nossas rolhas. 

Tambem oh fazem de 
cbifres, e alguns polvori- 
nhoa corno o que trouxe 
para a coIlec^So da Socie- 
dade de Geographia de 
Lisboa, e que figuro, sSo 
por elles ornadoa servindo- 
se doa e stile tea de ferro 
Bendo GB omatos em alto 
r elevo. 



indicado. A maior parte sSo 




338 EXPEDI9I0 POBTDQCEZA AO MUATUsVOA 
i ■ 

Ha ainda outroB objectos de luxo, feitos de couro, de metal 
amarello e de fios de ferro oa de cobre, para enfeitar oa ca- 
belloB, orelbaa, bra^oa e pemas, de que irei dando conheci' 
mento a come9ar da cabe^a para oa pés, mcncioaando que 
é dÌBtinctivo, o que ae pode considerar amuleto e que aeja 
puramente objecto de luxo. 

Miluina. — Este vocabulo nSo tem BÌngular. É o dÌBtinctÌTO 
de honra de MuatiftuTua, e consiste numas pontaB que partem 
de Bobre aa orelhaa, curvando-se um ponco para a cara, e ter- 
minando cada uma por um buzio. SSo reveatidaa de misBangas 
miudas de diversaB cSres, dispostas ajmetrìcameQte em feitìos 
diversos e ao capricbo de quem aa usa. 

Ha-aa tambem que estSo divididaB em doia, trea, quatro e 
cinco ramos, sendo comprimente e a largura na 
parte inferìor o meamo que nas primeiraa. Està 
parte que eetd aobre a orclha, tem de largura 
D'eros, e o comprìmento regula de modo que as 
pontaB fiquem no mesmo plano que a penta do 
nariz, quando a cara està direita. Ab de uma 
penta so, bSo cbataa e as outraa sSo um pouco 
abaiiliidns. 

Fixam-nas ou a um arco quo npert.im na r.i- 
hv.^n passando pelo alto da testa aobre as orollias, ou a um 
filino, mutue ud culumhi, que é giiarnceido na entrada de mis- 
fiangaa ou de urna fifa bordada de missangaa, ou ainda de um 
arn de meta!. Finalmente, ba ^Ufiu tenlia a pacborra de com- 
por o pentcado de forma, que pode prender as suas miluinas 
logo ao cabello por meio de cstiletea de pau rijo. 

Quem tora o cabello boni e abiiiidantc corno o actual Suana 
Calenga, dil às miluiuaa a forma de uuia pyraniide conica, oca 
interiormente e rcniatando taiubem nuni buzio. seu compri- 
mento regula pelo mesmo das outras, e o diametro na base è 
de O^.Ol. Kstas fieara entàii num plano perpendìcular ao perfil 
do individuo que as usa, cabello d cntranjado o apertado de 
modo a ser cobcrto por ollas, e preso peloa estiletes ou pali- 
tos no aro da base. todo é tambem revestido de missangaa. 



ETNOGRAPHIÀ E HISTOBIA 



339 



Ainda vi umas outras mìluinas que usava Muene Casse e que 
faziam lembrar as asas de urna panella. Era um aro forrado 
interiormente de fazenda branca ou vermelha, e revestido ex- 
teriormente de missangas. E por assim dizer um abrigo para 
as orelhasy que ellas encobrem, sendò presas superiormente ao 
Gabello ou a uma fita, o que é mais frequente. 

As formas das miluinas s2o feitas de fios de cabama ou de lu- 
tombe, redondos, finos, fortes e flexiveis. Os aros exterioros 
fazem-se com fios mais grossos que ligam com os prìmeìros, 
sendo preeiichido o centro com um encanastrado feito tambem 
dos mesmos fios. Reveste-se o todo com qualquer retalho de 
fazenda delgada beni apertada, e é por cima que se matizam 
ao gesto de cada um com a missanga miudinha. Este traballio 
demanda muita paciencia por causa da symetria que tem de 
observar-se, pois ó necessario sempre proceder-se à contagem 
depois de collocado um fio, e isto por cada cor de missanga 
que se empregou para os desenhos. 

Muquiqui (mukiki). — E tambem um distinctivo que pode 
usar-se com ou sem miluinas. G oralmente teem tambem 
a forma de pyramide conica, òca interiormente, sendo 
o diametro inferior da base de 0™,02. Tem de compri- 
mente 0'",10 a 0™,15, terminando tambem em um 
buzio. Revestem-se de missangas miudas comò as mi- 
luinas. Usam-se no alto da cabega com a penta para 
tr^s e um pouco inclinada para baixo, presa comò 
aquellas por um estilete ou oravo de madeira que a 
atravessa assim comò ao cabello, que foi entrangado de modo 
a entrar no vazio. 

Tubare. — Substitue o muquiqui, mas tem forma diversa. 
Supponha-se um cylindro oco de 0'",07 de diametro 
e com a altura de 0"',08 a 0",09 com rebordos 
salientes nos planos das bases, e sobre uma d'estas, 
coUoque-se um disco comò tampa, que excede «^ssa 
borda em 0™,01 em todos os sentidos. A forma 
é feita de cabama ou de lutombe, devidamente encanasti*ada 
corno a miluina. Reveste se depois com qualquer pedajo de fa- 




340 



EIPEDI^JO PURTCGUEZA AO MUATliUVUA 



fe 



zeiida, e sobrc eeta se applicam a capricho as fiadae de mia- 
sanga. Pniduzem boni ofTcito as misanngne dispoetas a partir 
do ceutro daa tampaH em pequonos circiiloe de còres diversas 
ou em bicoa, fazendo lembrar raios de catretlaa que se piutam 
a corea j mas o que mais agrada s3o aa estrellas de duus corea 
preta e branca. 

Campai ed calenija {kapaì ka kaìeyà), — Tiimbem se ueaou- 
tro tubare, que differe do aiiterìor, em o cylìndi'o aer apertado 
a meia altura para o centrn a formar um annel, de modo que se 
fizermos paaaar uin plano pelo e'ixo do antig» cylindro, ficariam 
ahi projectadas aa suas parcdea corno (approxiinadamente) oh 
rainoB de uma hyperbule. Fnzem-ae aa auaa tormna corno aa 
anteriores, e reveatem-ae de miasangas miudaa. 

Ibeinke (iieìrie), — É um aro 
de latào amarello de 0^,020 a 
Cr,035 de largo com que tanto 
03 liomens corno as mulherea de 
elevnda posi^So omam a cabc^n, 
cinjindo-a acima da teata oii no 
alto da cabe^a, de modo a lìizcr 
rebaixar o cabello na frente, e 
elevando muitn a ganforina para 
trtìa, ou entSo collocando-o no 
mesmo logar, tendo-ae previa- 
mente rapado o cabello adoante 1 
a lìm de augmentar a teata, o 
que è de liixo para elica, 

Inclinain-o sobre o cabello que se eleva para tnia, e quem o 
rapa adeante, j& o inelÌDa de modo que os cabetlua restantes 
ae elevam & frente, e nelle aaaenta o aro, o que ae diz ser 
innovajào das tìlhaa do Muatianvua Noéji. 

Eatea arca aào feitoa de vareta de ararne groaso, que os 
negociantea ahi levam, muito bem batida com um malhete 
de fen'O, a que charaara lotida (loda). 

Obtida a espeaaura e largura deaejada, riscam-no em qua- 
dros com pun^Sea ou ferrea de poutaa maia ou menoa rombaa; 





ETHNOGRAPIIIA E HISTORIA 341 

depois com os referidos punfSes batem estes riscos para os 
tornar salientes do lado contrario. Nesses quadros fazem entSo 
a capricho a sua omamenta9lto a que dào tambem relevo, pela 
forma indicada para os riscos. Os que sao destinados a traze- 
rem-se inclinados sobrc cabello nSo rapado, separando assim 
a testa da ganforina, fazem lembrar uns resplendores pelo seu 
arqueado e pelos recortes que Ihes fazem pela parte superiòi*» 
Os recortes ou sSo em forma de trapezio, lembrando as ameias 
das antigas fortalezas, ou entito rectangulares, em arcos ou em 
circulos separados uns dos outros, fazendo lembrar os remates 
das coroas que se vèem nos braz(5es da nobreza. Os melhores 
artistas para o seu fabrico s^o os Quiocos. Tanto estes corno 
08 Lundas apreciaram muito umas chapas largas de latào que 
dei aos potentados. Alguns fazem terminar as extremidades do 
seu ibeinlie por uns arrebites acima das orelhas, com 0™,01 a 
0'",02 de saliencia. 

As gravuras que apresento mostra um ibeinhe de metal, 
Hgado ao mutue uà culumbi, que traduzi por «chinò» e outro 
para o alto da cabe9a feito de varinhas de metal, sendo a 
parte inferior de couro coberto de fiadas de missanga grossa 
encamada, da que chamam Maria U. 

Cabonda (Jcaboaà), — Sao fitas feitas com enfiadas de mis- 
sangas miudas, dependendo a sua largura da por9ào de mis- 
sangas do que se dispoe, tendo geralmente 0™,015 a 0™,040 
de largura, com o comprimento tambem variavel, quer para 
terminar na altura das orelhas, quer para poder apertar-se 
sobre a nuca debaixo do cabello. 



\y^t-(l 




As missangas sSo enfiadas para este fim ein fios de algo- 
dao ou fibras vegetaes, seguindo uma determinada ordem em 
numero e cores, conformo os desenhos de phantasia ou os 
dos modelos, que teem à vista. As de menor comprimento sSo 
presas ao cabello pelos estiletes ou cravos jà mencionados. 



342 EXPEDIpIO P0BTU6UEZA AO MUATUnVUA 

Chihavgtiìa (Sìba^ula). — Ob QuÌ6coe chamam-lhe ^i^n- 
fjvla. E urna especio de resplendor <\\ìe fjizem. cobrìndo os 
moldes de baeta hzuI ou cnciirnnda, de p.iniio oii de conro e 
tambem de qimlqucr fazenda, que depoìa t; revestida de mia- 
Bangas. A forma é feita de mudi» que o nrn ast^enta sobre a 
cabej;a corno o ibeinho oii cabonda quasi Bonipre encostado 




ao cabollo, deixaodo ver acima da testa parte da cabe9a ra- 
pada. Quer ob Liindas quer os Quìócos, iisam niiiito, comò 
OS Cliins, rapar metade da cabefa & frente. Aquelle aro é que 
se lifra o resplendor, ticaDdo um poufo inclinado para tris e 
com a altura de O^IO a 0°',14. 

As chibangulas de couro sSa as mais simples, porque de 
cada lado das extrcmidades do aro iuferìor sae um paiisinlio 




ETHN06BAPHIA E HISTORIA 343 

que as fixa horizontalmente na altura das orelhas, variando a 
sua grandeza, conforme a altura que se pretende dar ao. res- 
plendor; e as extremidades d'este sao ligados a um arco de 
fibra de cabama, com a espessura conveniente a conservar a 
fiiìrma. Este arco é ligado em differentes partes ao inferior 
por uns palitos (viissoma) a firn de conservar sempre a mesma 
largura que se pretende, sendo algumas mais altas ao centro. 
Para as chibangulas que se forram de couro e mesmo do baeta 
ou panno, està forma é sufficiente. Revestem-na depois aper- 
tando multo o re vestimento pela parte de tràs. Os aros sào avi- 
vados de outras fazehdas que destaquem dos fuijdos e tambem 
com fios de ararne e tachas amarellas. Nas de couro costumam 
fazer ornatos ou arabescos em relevo, porém estes fazem-se 
antes de se collocar o couro na forma, e pela parte interior com 
OS pun9oes e do modo jà indicado. Sào ainda os Quiocos os 
mais perfeitos nestes trabalhos. 

Alguns forram-nas interiormente com um pedafo de fazenda, 
geralmente algodao branco ou baeta encarnada, para se nSio 
ver por tràs o acabado. 

Tanto as de couro comò as de panno e baetas, tambem ao 
centro sSo cheias com tachas amarellas em diversos grupos 
e em arcos concentricos servindo as taxas mais pequenas para 
OS arcos interiores. As fòrmas das de missanga sào mais com- 
pie tas para terem mais consistencia. Os aros d'estas sSo liga- 
dos por um encanastrado de fios de fibras de cabama ou de 
lutombe ou de qualquer bordào, rolÌ90s e delgados mas consis- 
tentes e que se amoldam sem quebrar. E o todo coberto com 
qualquer fazenda e depois é que o revestem de missanga. 
Este traballio ó sempre o mesmo, dispondo-se as fiadas em 
cima da fazenda, de modo a ficarem b9m apertadas umas de 
encontro as outras. Os desenhos sobresaem em fiadas, tendo- 
se em atten9So as cores e o numero de contas por cor. 

Vi urna muito simples, branca e preta, e de bonito effeito, 
aos bicos em angulos iguaes. Algumas na fronte e ao meio, e 
elevando-se acima do bordo exterior, teem imi enchimento de 
differentes formas, umas lembrando urna cornucopia, outros 



544 EXPEDigXo TOUtVÙVÉZk AD MUÀTIANVUA 

um pequeno chifre que revestem tambem; e do interior d'elle 
fazem sair pennas de passaros, tìos de arame^ etc. 

Ha tambem quem as applique sobre um aro que assenta 
na cabe9a, Bendo este revestido de chapinhas de metal^ que 
sobre elle se batem, e guarnece-se o resplendor tambem de 
pequenas chapas de metal de differentes formas. Eu vi urna 
d'estaS; tendo corno appendice pendente de cada extremidade 
uma tira de baeta encarnada avivada de branco da largura de 
O^jOS e que caia & frente até & altura dos peitos. 

Os Lundas so usam as de missangas e as de metal, mas 
estas s2lo mala baixas. Os que teem miluinas quando p5em a 
chibangula, prendem as duas miluinas pela parte de tràs e a 
um lado, ficando as duas pontas multo salientes. As de metal 
sào ornadas pelo systema de bater com os pun98es os dese- 
nhos, e terminam superiormente em recortes verticaes, curvos 
e em bicos. 

Com tudo que é de metal amarello e mesmo de cobre, teem 
elles muito cuidado na limpesa^ e por isso nSo extranhei que 
apreciassem muito os objectos dourados que levavamos. A um 
diadema de pedraria falsa que dei à Lucuoquexe chamaram- 
Ihe logo OS Lundas chihangula cliid Muene Puto. 

Mutue uà caianda (mutue uà kaìada), — E uma especic de 
capacele de forma eapriehosa, que demanda multa pnciencia 
para engenhar, e so os graudes poteutados Quiòcos os usam, 
cu OS seus representantes durante o tempo que sao encarrega- 
dos de qualquer missào fora do seu sitio. Fazem o casco de 
cabama quando secca. 

E està a parte que entra na cabe9a até meia altura da testa 
e que vae estreitindo para cima até 0"',22 terminando quasi 
em bico. A parte traseira é ligada uma especie de resplendor 
que o excede 0"',12 em altura e em largura um pouco mais. 
Este resplendor é um pouco achatado a melo da altura e cur- 
vado um pouco para a frente, pode chamar-sellie a guarda ou 
abrigo do corpo principal do capacete. Mantem-se o arco supe- 
rior nesta forma por causa do eucanastrado que se Ihe faz com 
OS fios de lutombe ou cabama bem apertado corno o do casco. 



ETHNOORAPSIA E HISTOBIA. 



345 



DoB ladoa do bordo inferìor d'este até 0'',0b de altura, saem 
urna eapecie de ai-oB que fìcam salieates e protegem as orelhas, 
e guarnece-ee cada um com urna boia, feita do mesmo mate- 
rial, compensadoraa de urna terceira boia e maior, posta ao 
centro e atràs na parte inferior do resplendor, que 6 o remate 
pela parte inferior d'este capacete para quem o olha por detr&a. 

Da parte eupcrior d'està, parte urna especìe de cornucopia 
ou melbor, collo de cisne 
que a um terfo de altura, 
quasi se encosta ao resplen- 
dor para depois se encurvar 
voltando a terminar um pouco 
acima do inesrao resplendor. 
A boia centrai é ligada As 
lateraes por outras bolae mas 
de menor diametro. 

E feito ludo iato por par- 
tos. So depoia do casco ser 
devidamente reveatido de fa- 
zenda é que se cobre com a 
fazenda que deve apparecer, 
gerainiente bacta cacamada, 
avivados os bordoa e salien- 
ciaa com al godilo branco. 
Depoia addiciona-se-lhe o 
reaplendor jà devidamente 
revestido tambem de baeta 
encamada com os sena vivoB brancos e azues, ou qualquer 
omamenta^iEo que se Ihea d€, consistlndo em cordSes mais ou 
menos aalicntea, que se cobrem com fazenda de urna bó cSr 
ou de còres diveraas. Por ultimo collocam-ae as bolas, os aro» 
e depois a cornucopia. 

Muitos ainda depois matizam eatas differentea partcs na 
frente com miasangaa, tachas e fio de metal amarello. 

Daa aaas fazcm pender duas tiraa tambem de baeta encar- 
nada avivada, que veem &» vezes até meia altura do peito. 




^«SÌtJrt— 



346 EXPEDigSo portuguezà ao muattìnvua 

A primeira que vi foi a de Capomba^ que desenhei e figure! 

na pagina anterior^ e corno se ve nXo tinha grande omamen- 

tafSk); OS fundos eram de baeta encamada^ bem assente^ que 

ao longe julguei ser panno, e o mais reduzia-se a yìvob e 

forros muito finos brancos ou azues; mas pelo bem acabado 

fez-me boa impressalo, e chegaei a suppor nao ser obra de 

Quiocos. 

Mona Cangolo principiou uma^ deante de mim, mas ia jà 

feita com luxo, porque Ihe fomeci galSes dourados e pratea- 

dos e missangas miudas^ com que ia revestindo os frisos e ma- 

tizando-os a seu gesto. Quando a acabou dizia elle: — Com este 

n&o me apresento eu ao Quissengue^ que trata logo de Ihe cba- 

mar seu. 

Este capacete, chapeleta ou comò Ihe queiram chamar é 
muito pesado^ e disse-me Mona Quissengue que preferia usar 
um capacete de metal do exercito allemSlo com que o vi, a pri- 
meira yez que o visitei, a usar o seu mutue uà caianda. Trazia-o 
comsigo, mas so o punha nas ceremonias em que nSo podia 
apparecer sem elle, porque tinha de ser o primeiro a observar 
as praxes da etiqueta. A maior parte das vezcs o seu mùtue 
figurava comò insignia na cabe9a do seu representante. 

Os Xinjes tambem usam toucado analogo comò disti nativo 
de potentado. 

Os povos óquem do Ciiango, principalmente os Bondos e 
Holos, usam da cajinga, distinctivo de potentado que parece 
ser originario do Congo, e tambem dos braceletes de latao a 
que chamam malunga, As cajingas sao tecidas por elles e dao- 
Ihes forma seraelhante a um chapéu armado, com as pontas 
mais reviradas e caidas para baixo (pag. 333). 

Sala là calongo (sala za kaloyo). — E tambem um distinctivo 
que usam no alto da cabe^a o Muatiànvua e os seus quilolos 
ou quem os representa; alguns trazem-nos um pouco para tras, 
mas sempre sobre o lado direito. Os tucuatas, quando em di- 
ligencia fora do sitio, mesrao para negocios particulares de seus 
amos, tambem usam essa insignia. E facil fazer uma sala. Num 
pequeno circulo de baeta de 0'",05 a 0™,06 de diametro, devi- 



ETHNOGBAPHIA E HIST01UA 



S47 



dainente forrado ou nielhiir almofadado, eapetam-Ihe e pren- 
dem-Uie pennas de papagaio, carmezìoE. Cijino oa papagaioe 
sSo raros, sii ae enctmtram além de 7°, por isso ha urna tal ou 
qual distincjSo neste adorno raeamo entra os muatas. 

Nera todoa teem fola id culon/jo, multo pri nei pai mente na 
córte. Em vez da almofa^ln de baeta, tambem iisam fazer do 
60 da fibra de cabama e de liitombe, ou qualijucr bordSo urna 
pcquena caloto eucanastrada, e na uniìLo doe Jìob eapetam e 
Boguram milito bem as taea peunas, Tambem em vez da calote, 
fuzeni uraas fònnas corno um 
tamborete, em qtie o fundo tem 
a forma circular, e comcfam a 
collocar as pennas de metade 
d'esse tamborete para cima, o 
que as fuz parecer mais alias 
e elegantea. Miiitos guarnecem 
encanastrado inferior com 
missangas ou forram-no iiite- 
rJDrmeate de baeta encarnada. 

Os nossos espanadores sem 
O cabo eram para aqtii de 
grande effe ito e tanto maior 
quanto mais compridas aa suaa 
peonas e mais varìadas aa 
córes. 

X&. Madiamba antea de -^ / 
partir do Casaassa, (Esta^ào 
Cidadc do Porto), comò tinha muito poucas pennas vermelhaa 
de papapaio, mandou-nos podir as das caudas daa porabaa, que 
eram todas brancaa, e arranjou a aua sala collocando as car- 
mezins ao centro e as brancas em roda; t'azia bom effeìtn, e 
oa Lundaa que vinbaia cbegando do interior para o transpor- 
tar, Buppuzeram fier Muene Puto que Ih 'a tinba dadoj e cbama- 
ram-Ihe sala uà mema («da agua>). 

Tambem as ha de pennas de outraa aves, e por isso tomam 
nome d'eatasj asaim aula ad mucuco (daa pennas do cuce); 




SAfv^- 




348 EXPEDiySo pobtdooeza ao mdatUsvca 

sala id camangue (de urna ave branca); 
Baia ià miaaangala (de outra ave com a^ 
permaa da cauda grande», acastanhadas e 
salpicadaB de branco). Tambem aa fazem 
de pennaa de gallinba do mato, mfùs escu- 
ras, quasi pretas, a que chamam, nao stda, 
mas dieuaca dia mìssangala. Tive occasiSo 
de ver urna do grande altura em forma 
de copo encanaatrado, coin pennas de gran- 
de canno e multo dlreltaa, de modo que 
a pliunagem ficava distante da cabe^a e 
vergava, lembrando a cauda do gaio, até 
nas cdreB; e a essa davam o nome de mitete ià amolo. 

A uma que mandei fazer de plumas pretas e brancas guar- 
necido o pé de cada uma com estrellas douradas, cbamaram 
aala tià Muene Pvto; a um pennacho multo alto carmezim que 
a ExpedigSo levou para o Muatlànvua, tala uà vato (ido Es- 
tadoi), e às plumas brsncas do meu chapeu armado, sala uà- 
gitene uà mema (fsala grande da agua>). 

MuBBonAo (muM^). — È um enfeite de metal com que aper- 
tani a parte inferinr das tranyas dos cabellos, vnriando na al- 
tura conforme a quantidadc do metal de que dispòom. Ou s2o 
clmpas muito batidas naa quacs envolvcm as tran^aa apertan- 
do-as muito e deixauilo-lhc as extrcmidades de fora, que guar- 
uecem com coutas ou missangaa, ou sào mesmo tubiia, pelo 
interior dos quaes fazera passar aa tranfas. 

Un.s bocaea do metal quo tinham vindo para enclier cartu- 
choa da mìnha arnia iStein, foram muito aprcciadoa pelo Qiii- 
bcii, potentado Qiiiòoo que me prcstou bona aervi^oa em Mataba, 
na passagem do Caasni ; e quando por easa occaaiilo vei» ver-me 
podiu-mo para Ilio dcixar corno lembran^a da nossa amizade 
aois d'eatcs bocaes, aooreaceiitando: — Assim nào oa aabem 
fa/.er oa Quiòcos, 

Tanto eatea enfeitca conio tudo que tccm de metid, e em 
goral as bra^adciraa daa lazarinaa, com que rjvostem todo o 
canno e coronila, e iucliiaive aa tacbas, trazom sempre multo 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 349 

limpas e lustrosas. Tal é o seu gosto por objectos de metal 
que jà se véem com brincos e mesmo anneis feitos por elles 
mesmos. Os Quiòcos sSlo os mais perfeitos, tanto nestes traba- 
Ihos comò nos de ferro. 

Mona Quissengue^ entro algumas cousas que me pediu e me 
dìzia multo desejar possuir, cobifava um dinheiro em euro de 
Muene Puto, nao so para mostrar aos seus velhos que ficaram 
no sitio, mas ainda a todos os negociantes que por là passas- 
sem^ a fim de saberem que elle estava em boa amizade com 
Muene Puto. Felizmente pude satisfazer a tal pedido, dando- 
Ihe uma moeda de 5^000 réis em euro. Tao contente ficou 
que conseguiu fiirà-la e trazia-a sempre suspensa ao pesco§o. 

Mussoma. — Entro os varios objectos _______ 

feitos de missanga que figuro encon- 
tra-se este, que é um estilete feito de madeira rija, com 
a extremidade aguda para espetarem no cabello e tambem 
para prenderem as suas mabelas e mesmo outros pannos 
de fazenda, aos cordSes ou cintos na cintura. Alguns or- 
nam a cabe9a d'esses estiletes com missangas, e outros 
ainda os terminam em pingentes tambem de missangas. 

Mumjmpo (mupupo). — Sào os barretinhos de la de cores 
com as respcctivas borlas, que os negociantes Ihes teem levado 
e que usam no alto da cabega um pouco descaidos para tràs. 
Estimam-nos muito, principalmente no tempo fresco. Tambem 
dSo este nome aos bonés com pala ou sem ella, do velludo, de 
baeta ou de panno, e aos chapeus, jà de chita, jà de palha e 
de panno, que tambem por là apparecem. 

Tuitdri tu mdtui, — Sào uns pequenos ornatos de ferro, de 
metal ou de madeira, que usam nas orelhas, ou em forma de 
argola ou de canudos, tendo ambas as extremidades com ou 
sem pingentes, e a que presentemente, por ouvirem assim cha- 
mar aos Bàngalas e Quimbares, que os usam jà dSo o nome 
de bilincos. As orelhas sao furadas jà depois da adolescencia, 
e por isso rauitos se véem com grandes rasgSes nellas em vez 
de orificios. Tambem sito muito apreciados os involucros metal- 
licos dos cartuchos das nossas armas, e muito mais ainda como^^ 



350 EXPEDigXo POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

disse 08 do sjrBtema Stein, de 0",07 de comprimento e O^^^OO? 
de espessura. Equilibram-nos bem^ conservando-os horizontaes. 
Oh Quiòcos jàimitamos brincos^ com ararne fino em voltas aper- 
tadas, e alguns guamecendo essas voltas com chapinhas do 
mesmo metal ou de cobre, e tambcm com missangas. 

Vendem-nos bem aos Lundas e nào s&o de mau effoito. Ob 
brincos ordinarios que levava a ExpedÌ93o foram muito apre- 
ciados; tanto pelas mulheres comò pelos homens da Lunda« 

MtUondo uà muzuro. — E um pauzinho ou palito pequeno, que 
atravessam na cartilagem do nariz, excedendo um pouco a lar- 
gura das ventas. E para alguns um enfeite de luxo. 

Ha tambem quem, em legar de palito^ use uma argola de 
qualquer arame, mas muito fino. 

Carucano carwinAf.— Deram este nome aos anneis que fazem 
de fios de metal e argolas de arame de cobre e de latlo, e 
tambem aos anneis de latào que ha pouco principiaram a usar^ 
fazendo assim a distinc9Sio do lucano. 

Lucano. — SSlo uns braceletes, distinctivo de que s6 usam o 
Muatiànvua e Muata que teem Estado. Jà o usavam os senho- 
res dos antigos Bungos, honra que depois Luéji-ià-Cónti con- 
cedeu a todos os Bun^^os, logo que ella entregou o do pae a 
Cliìbinda Ilunga, progenitor do potentado que intitularam Mur- 
tianvua. Actualmente todos os Bungos os usara, e todos appa- 
recem com elles no acto da posse do seu Muatiànvua. 

lucano quo figurei a pag. 112, e fcito de fios de bordao 
muito apertados, aos quaes se enrolam outros fazendo enclii- 
mento ao meio, de modo que adelgace para as extreraidades. 
E coberto com veias humanas que enrolam em tripas de cabra, 
muito apertadas e nnìdas às voltas umas com outras. As extre- 
midades tcrminam por duas delgadas hastes de capìm ou dois 
canÌ90s, de maneira que um possa entrar no outro. Prendem- 
nos fazendo um furo que atravessa anibos; e com um pequeno 
palito que preenche esses furos fica bem seguro. 

Estes braceletes sito untados de azeite de palma, e com o 
tempo e sujidade ficani escuros, fazendo-nos lembrar de longc 
uns pequenos cliouriyos de sangue. 



ETHNOGRÀPHIA E HISTOBIA 351 

Houve alguns Atiànvuas que, depois de estarem no poder, 
OS iizeram especiaes para si, e por isso estSo em deposito sob 
responsabìlidade de Suana Murunda, em urna peqaena caixa- 
feita de urna so pega de madeira, e ahi existém diversos^ sendo 
conhecidos pelos nomes dos Atiànvuas a quem pertenceram. A 
Suana Murunda é a representante de Luéji-ià-Cónti, e é por 
isso que ella apresenta o lucano que o novo Muatiànvua ha de 
por no bra90. E ella tambem que apparece sempre nos seus 
ultimos momentos para receber o que elle tem ou tirar-lh'o 
logo que morra e guardà-lo. Por estes motivos é indispensavel 
que Suana Murunda acompanhe o Muatiànvua nas suas guer- 
ras e mesmo nas ea9adas, e entSo leva comsìgo a caixa para 
nella guardar o lucano, se o Muatiànvua morrer por qualquer 
circumstancia. 

A que acompanhou Muriba, o ultimo Muatiànvua, na guerra 
em que elle morreu, ficou prisioneira dos Quidcos, e là està 
ainda com a caixa, tendo aquelles pedido por varias vezes que 
a resgatem, o que tem coUocado em difficuldades a córte. 

Como a ìnvestidura do lucano, seja a principal ceremonia 
da posse do Muatiànvua, julgo opportuno dar neste logar 
conhecimento de taes cercmonias, porque tenho muitas vezes 
de me referir a ellas nos capitulos em que trato da historia 
tradicional d'estes povos. 

filho do Muatiànvua, se nào é pela guerra que promove 
a sua eutrada na mussumba, comò Xanama e os que Ihe sue- 
cederam, porque entao se dirije logo ao Calànhi, onde renne 
immediatamente a corte, fica acampado proximo à margem 
esquerda do rio, esperando que se reunam todos os da córte 
que team de assistir à ceremonia da posse, e os principaes 
Bungos que hào de acompanhar a Suana Murunda, a quem 
directamente obedecem. 

Geralmente, quando morre um Muatiànvua na mussimiba, 
o que se elege para Ihe succeder é chamado do logar da sua 
residencia, e d'ahi é transportado, bem comò a Muàri se a tem, 
até à margem esquerda do Calànhi. 



352 EXPEDigZo pobtugubza ao muatiìnvua 

A praxe é que o filho de Muatiànvoa, que vae tornar posse 
do EstadOy ha de esperar a Suana Murunda e os seus Bungoa 
na praia do Cassaco. 

Os Bungos logo ahi Ihe tiram toda a roupa e atavios bem 
corno & Muàri, e apenas Ihes dSo uns pequenos pannos de ma- 
bela grossa para pòrem adeante e atràs, suspensos 
de fibras ao cinto a que chamam mola. 

Passam o rio em canoas^ e os Bungos nSo mais 
OS largam; levam-nos para urna cubata entre as 
d*elles, na mussumba do Calànhi. DSo-lhes de co- 
rner e de beber e previnem-os, quando sào horaa 
de recolher, que na madrugada seguinte os irSo 
buscar para os apresentarem ao povo. 

A hora aprazada na ambula da chipanga prin- 
cipal reunem-se a Lucuoquexe todos os quilolos 
da córte e Suana Murunda com o povo Bungo. 
Uma deputa9So vae buscar os dois, sentando-os 
em chSo raso ao centro da roda formada pelos de 
mais gradua9So, sentados em pelles. 

Emquanto elles veem e se dirigem ao legar em 
que se hao de sentar leva tempo até que se resta- 
bele^a a ordcm, porque a ovagao do povo torna-se 
numa bulha infernal, gritarla, assobiada, pancadaria 
iios instrumentos, canticos allusivos, etc. 
Falla depois o mais velho da dcpiitacao: 
— Vós viestes, ó fillio de Muatianvua, porque os 
velhos quilolos que comem com o Muatiànvua do 
fructo do nosso trabalho vos charaaram para her- 
dardes o estado de vossos avós; mas isso 
nfio é bastante, é mister prlmeiro que fiqueis 
sabendo que iiós os Bungos é que somos os donos d'estas 
terras, e nós nao danios o nosso consentimento seni conhecer- 
mos o vosso prestimo. 

Segue-se depois unia narrayao do que se tem passado com 
OS seus antecessores a contar de Iluuga, o pae do primeiro 
Muatiànvua, e levando-o ao alto da margem do Cajidixi, onde 




ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 353 

Ihe mostram a sepultura d'aquelle, na margem opposta, devi- 
damente reservada, diflFerenfando os que elles consideram 
corno bons e maus successores. 

Voltando ao logar em que de novo se sentam, dizem-lhe: — 
A mola (cinto) que vos dèmos hontem para entrardes neste 
recintO; é o que vos prende à nossa dependencia; d^esta mus- 
sumba so podeis sair para urna guerra, e so 6cando victorioso 
podeis largar a mola, e entào sois senhor de escolherdes sitio 
para residencia, sois independente de nós que nos tomàmos 
vossos servos. Fazei a guerra, e quanto mais depressa puder- 
des largar esses pannos melhor para vós, para nós e para as 
terras do Estado. 

Depois entregam-lhe urna muasassa (a canastra em que se 
levam as cargas), dizendo-lhe: — Temos fallado muito, ideao rio 
buscar agua. Elle pSe-a ao hombro e encaminha-se para o rio. 

Entào um dos da ceremonia grita-lhe : — Voltai, nao vèdes 
que nessa mussassa, nao era possi vel trazer-noe a agua que 
precisavamos ; nào tendes olhos para verdes que tem buracos? 

Elle volta sempre com ar prazenteiro. Ha grande assoada 
do povo, gritaria, assobio, saltos, etc. 

Fazem-se outras experiencias pelo mesmo gesto durante o 
dia, sempre com o fim de por a prova a sua resigna9ao, porque 
elles entendem que um bom potentado deve ser impassivel, 
ouvir toda a gente sem se mostrar contrariado, embora co- 
nhega que o estSo enganando; nao deve interromper quem 
Ihe falle, nem tao pouco retirar a palavra a quem a tiver 
concedido, embora o que este diga nao seja do seu agrado, 
nem tSo pouco mostrar-se contrariado em ouvi-lo. 

E por iste que depois de um certo numero de experiencias 
Ihe diz que dirige as ceremonias: — Muatiànvua tem de ou- 
vir OS conselhos de todos os quilolos ; nao se deve agastar com 
quem lh*os dà; precisa ter paciencia para encarar a sangue 
frio que ve com os seus olhos e ouve com os seus ouvidos; 
castiga depois e mesmo manda matar quem Ihe deu um mau 
conselho e que podia fazer-lhe perder as terras que Ihe dèmos 
para governar. 



"-.•i- 



354 



EXPEDI^Xo POBTUaOEZA AO STOATIÌNVCA 



Nesse dia j& elle recolhe & nngiinda cum a eua Mudri, quando 
08 BtingoB dào a voz de mutena vàia («o eoi vae»); mas para 
entrar tecm de visitar todaa as arvorea milewba (iFìcub elaa- 
ticus») em tórno da oliipanga aoa zigiie-zags, ora uma, ora 
entra, indo por iira lado e voltando por outro. Logo que elle 
entra, o cabila (porteiro) fetta a porta da cérca e o povo retira. 

Quando cliega k angunda jd \k encontra comida cozinhada 
e bebidaa, que a Lucuoquexe, Suana Mumnda e o Maitia 
teem mandado das euas residencias. 

No dia seguinte, logo que o sol cometa a apparecer Bobrc? 
o liorizonte, ou se enlcula ser essa occasiào, jà os senhorea 
de Eatado, povo e a deputa^ào doa Bungos, encarregada das 
ceremoniaa, aguardam a chegada doa doìa que Suana Mumnda 
foi buscar. 

Quando apparecem, tc-m legar a infemeira do costume, mas 
jii com mais inoderafXo porque ee approxima o termo da posse. 

Sào conduzidos entilo 4 pedra monumentai, & sombra das 
tres ar\'ores onde foi recebido Ilimga por Luéji, e sSio ali espe- 
rados pela Lucuoquexe. Sentados na refenda pedra, envem 
il Suana Mm^unda e aoa Bungos a repeti^.Sa dos discursos que 
se fìzeram a Itunga quando recebeti o lucano, e de que dei 
couhecimento no eapUuIo i. 

Convida-OB depoia a Lucuoquexe a acompanbà-la e v3o 8e- 
guidotì de lodo o povo direitos ao Anzai, onde à, porta està o 
Xaeala M acala eeperando-oa. 

Eeto dia: — Idea ao recinto onde tcnho sob a minlia guarda 
aa reliquias de vossoa avós deade Luéji-ió-Cònti, e que mor- 
rem em amizade com o seu povo; podeia entrar. 

E apontando por sua oidem aa urnan, vae dizendo a quetn 
pertencem e oa merecimentos do MuatiSnvua do quem efto os 
rcatoa deposi tados, 

Acabada està ceremonia regreeaam todoa para junto da pe- 
dra, onde agora sii ae senta o Muatifinvua, ficaudo jà a Muilri 
i. direita e uni pouco atrós sobre urna eatcira, que Suana Mu- 
mnda ahi colloca. Oa quilolos sentatn-ac aoa lados e a deputa- 
yào om frcnte, atràs da sua ama. 




ETHNOQBÀPHIA E HISTORIA 355 

O mais velho dos Biingos diz por ultimo: — Foi aqui que a 
senhora d'estas terras^ nossa ama Luéji, recebeu Ilunga, que 
engrandeceu o Estado que o pae Ihe havia deixado; aqui Ihe 
poz no bra90 o lucano que era dos Bungos, com que elle fez 
o Estado do Muatiànvua; é aqui tambem que a sua herdeira 
Suana Murunda vae entregar aos grande» quilolos que tos hao 
de aconselhar o lucano, que teem de por no vesso bra90. Nao 
vos pedimos mais terras porque temos muitas, mas defendei-as 
e augmentai a heran9a que com esse lucano vos entregam. 

A deputa9ào retira entào para tràs do Muatiànvua, e Suana 
Murunda levanta-se e a ella se dirijem Muitla, Canapumba e 
Mona Rinhinga (o representante do tio mais velho de Luéji). 

Da caixa que Ihes apresenta a Suana Murunda tiram entào 
um lucano, que vao enfiar no bra90 direito do Muatiànvua, 
prostrando-se os tres no chao, e em seguida todos se esfre- 
gam, OS grandes com pembe e o povo com terra. 

Durante estas ceremonias de humilha9ao, em que se rolam 
por terra, exclamando chi no^i! colombo! zdmbi! catanga! etc, 
està novo Muatiànvua com o brago direito estendido, e so 
terminam quando este levanta o brago para o ar; e entlio todos 
08 musicos tocam nos seus instrumentos e veem os Bungos 
trazer-lhes dois bons pannos, um para a cintura e outro para 
por sobre os hombros, e principiam entSo os tiros de fusilaria 
e as dangas, que duram até a madrugada do dia seguinte. 

Terminada a primeira danga allusiva a guerras, levanta-se 
o Muatiànvua, e todo o seu povo o acompanha à frente da clii- 
panga, onde jà està uma pelle de leao para elle se sentar, e 
Muene Casse, que é o anganga (curandeiro mór), com pratos 
onde està pembe e um com os milongos (remedios). 

O Muatiànvua toma d'estes pratos algumas pitadas riscando 
o corpo em differentes logares, e entào Canapumba p3e-Ihe o 
distinctivo {sala) na cabega, fazendo elle novos riscos de mi- 
longo no corpo, e o Anampaca entrega-lhe o macuali (grande 
faca) do Estado. 

Esfrega-se depois o Muatiànvua com a pembe e senta-se na 
pelle ; vem entilo, a Lucuoquexe e depois os quilolos^ por ordem 



356 



EXPEDiglO POETOODEZil. AO HDATUNVUA 



hierarctica, collocar era frente do MuatiàiiTua os presentes 
que Ihe trazem e recebor a peiube que elle IIicb dA, rojando-ae 
todos depoÌ9 em agradecimento. 

À mtialca e dan^a contìnua sempre, o està ceremonia dura 
até ao Bol posto, em que todos retiram para corner. Voltando 
depois para a &etite da chipanga ns danyas até madnigada. 

Ofl tres diaa a seguir san todos de folguedos, em que ha 
abundaucia de comidas, bebidas e muitas dan^as, cantorias e 
tiros repeti do s. 

Nestas ceremoniaa nilo se matti ninguein, no que difierem das 
que se fazem para a posse dos jagas do Cassanje, e ainda ba 
outras differen9aa; mas comò estas jà foram descrìptas peloa 
exploradorcs Capello e Ivens na sua primeira viagem, por isso 
seria ocioBO dar d'ellas noticia. 

No8 Quiòcos e Xiujes o ceremonial da posse do grande po- 
tentado reduK-se a ir buscar o eleito ao logar em quereBÌde 
o trazé-lo para a povoai;Ko principal eutregando-lbea as insi- 
gnias do Estado, havendo danyas, tiros, e nos dias de festa 
abundancia de comida e bebida pura quem a cllaa vem assiatir. 

Como a grandeza de qualquer d'estes Eatados consiste na 
grandeza do barem, as mulherea que pertenciam aos auteces- 
sores paasam sempre para o herdeiro. 

Succede porém no Estado do Muati^nvua qua a Muàri, que 
acompanliou na posse, sii 6ca cora elle emquanto a córte nSo 
Ihe entrega urna nova mulher para Muàrì, pasaando cntào 
aquella a ter um Estado especial e um novo mando da esco- 
Iha do Muattiinvua. 

filho de Muati^vua que fot escolhido para o estado, no 
trajecto do legar em que reaidia para o Calanhi, cmbora tenha 
lucanga* La de entrar na povoa^So do maior potentado mais 
proximo do seu trajecto, para subatituìr essa lueanga ou por 
urna ae a nSo tiver. Sem ter feito essa ceremonia nSo pode 
entrar no Calànhi para receber o lucano. 



b 



ì. perna direita o que deacrevo o 



ETHNOQRAPHIA E HI8TORU 



357 



Cazequele (kazekde). — É urna pulseira de fio de cobre, que 
à& tantas voltaa em roda do pulso, quantas o permitte a gran- 
deza do fio. Vi urna de foiba de cobre, delgada e ornada noa 
aeus extremoa. 

Mattana. — Sito tambem pulseiras feitas de varetas de metal 
amarello ou de ferro. As primeiraa quanto mais grossas forem 




metbor. Tive occasiao de ver individuoa que UBavam dea a 
doze d'cBtas mauilhas em cada brayo, e tambem ba quem as 
pouha nas pemas. As de ferro, para aa diatinguir d'aquellas, 
obamam manana uà utddi. 

Chizacasae (cizakase). — Dd-se este nome a um fio que pòem 
no bra90, atado na altura do cotovello com olgumas contaa 
groesaa ou miasangae e tambem com caro^os de fructos, ficando 



I 



3f)S 



EXFKDlgXO PORTDQUEZA AO UUATiAhVUA 



cBte quasi sempre acima do cotovello; e comò o seu oso seja 
para afastar maleficios, pode eonsiderar-se comò um amuleto. 

Cadifùla.— É o meamo; mas em vez de contas ou mÌBBaa- 
gas itaa-se acìma do cotovello nm pequeno chifre de corja, um 
pausinho eepectal ou mesmo um bonequinho de pan loscamente 
feito e que tornam luatroso e escuro Cora azcite de palma. 
Tarabem se pode considerar este adorno corno amuleto. 

DiptUii. — E ainfla o mesmo adomo; a differeDja eatA em que 
o cordel pode ser ntado na altura do cotovello, ou no pulso ou 
na perna desde o delgado atii i altura do joelho, e em vez 
daa contas, miasaogas, chifres, etc, entìam-lhe o dipùdi, trucio 
da ar\'ore d'esse nome, que é redondo. A esto fructo depoia 
de sécco tira-se-lhe o mlolo por dois buraquinhos, que se Ihe 
fiizem em aeotido opposto e por ouiie se enfia num cordel. 

Este fructo, lustrado com azeite de palma, pareee urna boia 
de madeira. Quando o fructo é doa mais pequenoa ckamam-lhe 
cofddi. 

Geralmente os homens tambem usam o dipùdi bem comò 
a umhaia (fructo do ampAxi) e una pequenos bonecoa de ma- 
deira, com contas ou miseangas, em collares, os qiiaes àa vezes 
rematam ao eentro era pingente por um poqueno chifre de 
cor^a tendo dentro vaiias dmgas, e neste caso serve de pre- 
servativo centra divindades malfazejas ; mas outros sio sii para 
ornamentasse. Aoa boncquinboa chamam caqtiixi, diminutivo 
de muquixi. A umbala tambem àZo o nomo de lungdjt; este 
fructo é apipado e bem lustrado com azeite de palma. Pareee ' 
feito de madeira. 

Tanto este conio a cliiza e o diptidi podem eonsìderar-se 
corno amulctoB. 

Os QuiòcoB tambem usam os cliifres de cor^a e bonecoa 
maiorea e mais bem foitoa suapensos ao pesco50, o qne tambem 
constitne um amuleto. 

Sambo (soSo). — E um fio delgado de lutombe ou de qualqner 
outro bord5o, que cobreni com finisaimos fioa de cobre ou de 
metal amarello, e que se obteem puxando & ficira o mais que 
podem o arame que Ihes levam oa negocianteB. Aaaim coberto 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 369 

■■■ ' — ~ 

o fio, enrolam-no no bra90 ou no delgado da poma, dando tanr 
tas Yoltas quantas permitte o seu comprimento, e ao que.ellQ 
se presta perfeitamente. 

E oste um adomo de que so usam pessoas de distinc92o, e 
muitas vezes o tiram para o enviarem corno signal seu. & 
pessoa com quem teem de se communicar. 

Vi entregar a Xa Madiamba dois d'estes adomos corno 
signaes, sendo o ultimo mandado por Xa Cambuje e foi o que 
o resolveu a retirar e a addiar por algum tempo o tornar poase 
do Estado. Chama-se ao dos brayos sambo jid macassa; e ao 
das pemas sambo jid mièndu. 

Lucanga (lukaya). — E uma argola feita de fios de bordSo, 
que usam no delgado da perna direita caida sobre o pé. E 
distinctivo indispensavel, de que jà deve, usar o filho de Mua- 
tiànvua que tem de por o lucano. E fechada, cosìda mesmo, 
depoìs de collocada no seu logar. Fazem primeiro um pequeno 
rolo de alguns fios e sobre estes entrela9am outros, de modo 
que tudo fique muito apertado. Deixam-lhe os extremos livres, 
e depois de posta na perna ligamnos um ao outro, continuando 
o revestimento e ficando um intervallo de dois dedos, em que 
fazem seis ou oito furos. 

No dia em que està se colloca na perna procede- se a umas 
certas cereraonias. Danyam e cantam os tumbajes na toada dos 
instrumentos de pancadarìa e do chissanje, e houve tempo em 
que se matava uma pessoa e alguns animaes para comer 
nesse dia, sendo o sangue d'estas victiraas misturado para se 
deitar nos furos meacionados. Hoje so matam os animaes que 
podem obter, e aproveitam o sangue para esse effeitp. 

Os tumbajes dan^am com raraos de folhas na mSo: ora avan- 
9am ora recuam numa linha em fronte do potentado, e quando 
se trata de matar algum animai que està seguro com uma corda 
ao pesco9o, veem elles entào aos saltos, um a um, com as 
snas facas, sempre na toada da panqadaria atirando uma cuti- 
lada ao pesco90 da victima, e se està nSo morre lego, o que 
vem atràs renova o golpe. O que consegue aparar a cabie9a 
cortada do animai approxima-se do. potentado a dan9ar com 



300 



EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATliNVOA 



ella na m^o, levanta-a ao ar, e depoie lao^a-a numa cova 
grande em forma de prato, aberta no terreno defronte da qual 
elle està sentado. Iato repete-se emqujinto ha aniraaes a matar 
e é de cada urna d'esaas cabe^as que se toma uin pouco de 
sangue para deitar nos mencionadoa fitroB. Os corpos dos ani* 
maes bSo Ioga levados peloa tuubajes para eerem cozinhados 
para a refeì^So. Cosem-se entSo os extremoa da lucanga cotn 
jìos que se passatn nos furos. 

A lucanga nunca se tira do seu logar, rompe-ae ou inutilìsa- 
ae completamente o cot&o 
aubtitue-se por outra, pre- 
cedendo as meamas cere- 

Ob filhos de MuatiànTua, 
quando sKo cbamados para 
governar o Estado, dos 
aitioB d'onde partem pro- 
curam a reaidencia de um 
, grande quilolo, para onde 
se transportam antea de 
tcutarcm a viagem para a 
Mu8 Bumba. E este qutlolo 
que Ihe Iia de por a lucan- 
ga; é elle quem faz as 
despesas da ceremonia. Xa 
Madiaiiiba escollieu o Caun- 
gula do Mucimdo, porque além de grande quiiolo e dcBceudente 
de Muatiànvua era seu antigo amigo. Aasiati a està ceremonia. 
Manjata (melata). — SiSo duaa ou trez fiadas de fructos, ca- 
hudi, a que depois de seccoa tiram o miolo, e onde mettem 
pequenaB Bemeutes para chocalharem. Trazera-nas presas no 
delgado ilaa pernaa e goatam de andar com elJaa para sentirem 
a bulha que fazem. Aa raparigaa naa dan§as tambem as uaam 
na cintura aoa imiìboa e nos pulaoa, e daujara bamboleaudo o 
corpo de maneira que o ehoealhar seja ao compasao da musica. 
Tambem uaam pequenoB tubos de ferro en£adoB em um ararne, 





ETHNOORÀPHIA E HI8T0RIA 361 

tanto no delgado das pemas corno nos pulsos^ para o mesmo 
effeito. 

Hoje por analogia, faz-se o mesmo com os guizos (capocolo) 
e com campainbas pequenas (guemua)^ quo os negociantes Dies 
levam. Chegam a usar mólhos de guizos na cintura, somente 
para fazerem bulha quando andam. O calala do Xa Madiamba 
era conhecido ao longe pelos guizos, fazendo lembrar os nos- 
sos antigos postìlhSes. 

Ha ainda outros objectos que, por serem de luxo, embora 
de moderna data, menciono neste legar. 

Chibde chià zàmbi {Ubele eia zaHk). — E uma tira de baeta 
encamada da largura de 0'",03 a O'^^CM, omada com imi estreito 
vivo de algodSlo branco, e tem o comprimente sufficiente para, 
dobrada e posta ao pescogo, cair sobre o peito um pouco acima 
da cintura. 

As extremidades acabam em ponta e os vivos seguindo essa 
penta veem a terminar depois numa tira. Cosem as tiras da 
baeta uma à outra da altura dos peitos até is extremidades, e é 
sobre essa parte mais larga e ao meio que prendem um cruci- 
fixo de metal amarello. Tambem ha quem use dois, e entSLo 
na mesma altura sào presos um a cada tira. Geralmente Mu- 
teba dava-os jà completos aos seus tucuatas, quando iam por 
mandado d'elle ao Cuango, para serem felizes na viagem e 
no negocio. Foi depois de Muteba que se tornaram frequentes. 

Diquengue {dikeyé), — E o nome que elles dSo às fitas e aos 
galSes, e por analogia aos galSes dourados chamam diqaengue 
dia ulo» 

Cachitate (kalitate). — Foi o nome que deram às medalhi- 
nhas e alfinetes de peito de cartonagem, que levava a Expedi- 
53I0, enviados por um negociante do Porto. 

BUinco (biliko). — Chamaram assim aos brincos que a Expe- 
dÌ9^ levou do mesmo negociante, e que multo apreciaram. 

Dide. — A que tambem chamam hotam dos (^imbares, nome 
que dSo aos botSes, referindo-se sempre ao vestuario^ assim 
dide did dibuico ou botam; dide é um dos seios. 



EXPEDt9jCo FOKTUOnEZA AO HDATIANTUA 



Chini (Sint). — É a sua cnixa de rapò, qne fazem 
de boiflSo, de madeira e tambem de marfira, geral- 
mente de fomift cylindrica tendo superiormente uma 
poqiiena abertiira onde entra apenas o dedo indieador, 
quo aseentando sobre o rapè traz aggrcgado uma por- 
5IÌ0 d'este pò que levam ds ventas. 

Estas caixas sito mais 011 mcnos ornadas cu enfei- 
tadas e trazem-nas sempre suepensas adeante por um 
cordfto à cititiira un ao cinto. 

I)Hu dia ubo. — E o nome que deram à grande 
umbella que Rodrigues Gra^a levou ao Iiluatianvua 
Noéji e que ainda Iti vi na córte. Como era vermelKa 
deram-lhe este nome, por fazer lembrar os grandes cogumellos 
rosadoa. So uaavam d'ella quando iam para guerras ou para 
ca^adas. A sua cor j& escureceu, o apparece nas audienciaB 
para cobrir o MuatifLnvua. 

Chisseque (èiaeke). — E um chapelinho de sol, traste indis- 
penaavel para os grandee quando em audieneias, porque estas 
se realisam sempre ao sol. O Muatiànvua e os quilolos gran- 
des teem sempre o seu caxalapuli junto a si do lado do sol, 
segurando no chinseque e andando de quando em quando a 
procurar fazer boa sembra a seus amos e girando tambem com 
a baste nas mSos para elle fuuccìonar comò ventilador. 

Preferera os de qualquer fazenda carraezira ou de retallios 
de córes diversas ; mas nSo haycndo d'estes acceitam todo C 
qualquer que se Ihes apreseute, muito principalmente se nSo 
teem nenlium. Quem ob possue estima-os, e se precisam qual- 
quer concerto e no sitto se encontra um Quimbare ou Bengala 
que seja, logo procuram para Ib'os fazer. meu interprete 
foi sempre muito procurado para estes e outros arranjos. 



Mas nXo devemos esquecer corno adomo d'estca povos o 
jimbaJB, que ainda hoje se ve mais ou menos em todas as tri- 
bus, e que 6 mesmo que os inglezes denominaram tatooiwg. 
Consiste este em picar a pelle em linbas ou desenhos e intro- 
dazir nella uma eubstancia cortuite que os tome permanentes. 




ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 363 



Nos homens ji este uso se ve menos qne entre as mulheres^ 
e naquelles mais nos Quiòcos quo nos Lundas. Observa-se quasi 
sempre no roste, sobre a testa a partir do nariz, sendo na maior 
parte das vezes apenas linhas, e em alguns caso^ pequenas figu- 
ras circulares ou rectangulares, dispostas symetricamente aos 
lados da testa. Nas mulheres vé-se o jimbaje acìma do umbigo, 
nos bra90s, hombros e em algumas nas coxas (V. pag, 329)- 

O jimbaje mais fino faz-se hoje com as nossas agulhas, mas 
fazia-se d antes com um estylete de madeira de penta muito 
fina. Do mupàxi, arvore que dà o fructo que tem o mesmo 
nome, que faz lembrar a azeitona e de que pisando-o se obtem 
um bom azeite, se extrahe a seiva a que chamam uengue 
{ueye), que se Hquifaz depois ao fogo. Tem-se considerado 
essa arvore comò pertencendo à mesma familia que o safu da 
ilha de S. Thomé, mas nSo é assim. 

As pontas de duas agulhas juntas sSlo molhadas no uengue, 
e depois com ellas procede-se ao jimbaje sobre as lìnhas que 
previamente se tra9am na pelle no legar escolhìdo. 

A opera9ao que é dolorosa consiste em ir picando dois pontos 
a um tempo sobre essas linhas. Dos pontos feridos brota san- 
gue, que o operador de vez em quando estanca passando sobre 
elles pò de carvSo, com que os fricciona um pouco, e na falta 
de carvSo com a cìnza dos braseiros ou com a da queima dos 
capins de que extrahem o sai. 

Nas margens do Lui vi mulheres que tinham sobre os hom- 
bros jimbaje feito com o estylete de madeira, e de tal modo 
que as figuras, imitando arvores, adquiriram relevo, e lem- 
brava umas dragonas. Tambem vi numa mulher esses relevos 
acima dos peitos, um pouco para o lado direito. 

Em alguns individuos o desenho toma uma c6r mais escura 
que a da pelle, e noutros fica menos carregada; é possivel que 
isso seja devido a combina9jto do pò com que estancam o san- 
gue e d'este com a seiva do mupixi. 

A mutila9ào dentaria a que chamam mazeu macussonga, pode 
dizer-se nSo ser caracter privativo d'uma tribù ou povo nesta 
regiSo e vé-se em um ou outro individuo de qnalquer tribù, 



364 



EXFEDI9X0 POBTUOIJBZA AO MDATllHVnA 



^ 



principalmente entre 03 QuìScob, sendo mais frequente eBse ubo, 
que passa corno aformoseamento, entre os Chilaugues, Tabas 
e UandaB, iato é, no norte da regiSo de que trato. 

A opera^Sb é tambem dolorosa, porque com um pequeoo ferro 
cortante t5o laseando os dentea peioa anguloa, de um lado e 
outro, batcndo nelle com um outro ferro ou objecto solido que 
se preste &. percussSn. 

Àlguns individitos a quem interrogueì sobre firn de tal 
U8an9a e sua utìlidade, diziam-me que era para melbor rilba- 
rem a mandioca e trincarem a carne da ca9a, Outros diziam 
que era uso de familia e que em pequenos é que Ihe tinliam 
feito aquella opera^So, porém n maior parte dizia aimpIcBraente 
que se fazia por ser mais bonito, 

facto é que tanto està mutìlagSo corno o jimbaje, pelo 
menoB nas mulhei-es jil se observa antes da puberdade. 

Os grandes furos ou melhor rasgainentos bob lobuloa das 
orelbaa e no narìz para nelles se metterem ptngentes, anneis, 
eylindros de foiba de ferro, cobre ou latSo até é. grosBura de 
4 e 5 milllmetros, e raesmo panziahos, podetn couEiderar-Be 
em todaa as trìbus d'està grande familia de que trato corno 
um caracter etlmico. 

As pinturas a vermeiho entre aB mulherea novas, no corpo 
e principalmente na cara, e tarabeih neetas o proIoDgamento 
artificial doB olhos com ferros aquccidos ao fogo, conatltueni 
tambem embellezamentos. Ab pinturaa aobre a pelle tambem 
se usam comò remedio centra doen^as ou feiti§arias. 

Direi nesta occasiSo que ha doen5as cujo tratamento eonsiate 
em esfregar lodo o corpo com cinza. Applica-so està noa casos 
de variola, sarampo e outraa erupjSes cutanens e tambem 
centra a debilidade geral e anemias. 

Todoa 03 inatrumentoa de musica usados por estea povoB 
pode dizer-se que silo mais ou menoa conhecidoa na Europa, 
e ha muito tempo em Portugal, porém ainda assim entendo de- 
ver fallar d'elles. È conveniente aaberse que n3o tendo estea 
povOB palavra que exprima som em geral, comtudo distin- 



ETBNOGRAFHIA E mSTOBIA 



365 



guem OB sons e dSo-lhes os nomea correspondentes & posigiLo 
daB teclas dob aeua teclados, noa instnimentos de pancada ito 
logar em que batem com as baquetas, e nos de vento e de 
cordae aoB buracoa que tapam ou ao ponto da corda qne ferem. 

Os mais ueados silo: 

Chissanje ou quissanje.— 'È, urna pequena caixa de madeira 
especial, rauito leve, tendo de comprimente 0"',25 a 0'",30, de 
largura O^jla a 0'",l7, e de altura 0™,025 a (r,030. É feita 
de uma bó pe^a, e escavada interiormente é. faca pelo lado de 
raaior altura, onde se abro apenaa uma ranhura estreita. 

A doifl termos do compri- 
mento da caixa va e està 
diminuindo de altura em 
Btiperficie concava, de modo 
que fica tendo sómento 0'",01 
de altura num dos extrenios, 
Bendo corto tambem feito 
à faca. A parte super ior 
n2o é completamente plana, 
apresenta uma concavìdade. 
No logar em que cometa a 
adelga^ar a caixa ha um 
pequeuo cavallete muito ea- 
treito com 0"',(K)7 de altura 
a que chamam cahoje, dis- 
posto no sentido da sua largura e Berve de apoio às pe9aB do 
teclado, cujos extremos toscamente acabados se cooservam 
sempre elevados sobre a caixa. A uma certa distancia d'este 
cavallete, calculada pela vibra^ào maxima que devem ter as 
notas e parallelamente a elle fixa-se um outro, pouco mais 
alto, que è uma lamina do ferro curva. A esea lamina ckama- 
se midimo. Entre estas pejas, mas mais proximo da primeira, 
colloca-se por cima das teclas uma tranqueta deigada de ferro, 
que se enfia nuns anneìs alinbados entre cada teda e fixos 
à caixa. Està tranqueta serve para fixar as teclas obrigando-as 
a uma certa curvatura nas exti'emidades. 




366 



EXPEDI^IO PORTDQnBZA AO MUATtiHVDA 



Ao teclado dSo o nome de mirine (miriùa), ao conjunto 
doa anoeis nmzambo (mazato), e i trauqueta cujos extremoa 
dobradoa cui angiilo redo se tixam à caixa chicassa [Sìkofa). 

Ab pe^as do tecliidu na parte deanteira a contar do mazambo 
sSo cliataa e alargam um pouco para as extremidadoB, aendo 
mais tarde com o bater dos dedos polldas, tornando-se eabran- 
qui^daa. Estaa pe^as sào de ferro, porém ha outraa caixas que 
aA teem de madeira, maa ossaa suo para principiantes. 

£m uiuitas d'aquellas pe^'os usam àe vezes enliar uns pe- 
quenoB aroB chatoa de ferro, a que cliamaui sinuada, para 
obterem melbores vìbra^Scs. Ao meiu da abertura da caìxa, e 
no Bentido do seu comprìniento, atravessam um fio da ararne, 
e tambem nelle enfiarn quatro ou cinco d'aqiietles aros, a que 
dào nome de uquino (tiklno), e & abertura da caixa o de 
mupdnlii (mupani dado de tr^sji). 

Ha quem colloque sobre a caixa e a pequena distancìa do 
mupànhi, um fio e nello en&ada uiua grande conta a que cha- 
mam diqitenqueta (dìkeketa). 

Ob bona tocadores addicionam ao inetrumento pela parte de 
baixo urna pequena uaba^a a. que cortam mu pedalo e cuja aber- 
tui-a tenha um diametro um pouco inferior li largura da caixa, 
e prendem-na por um cordel ao fundo d'ella. A caba9a tem o 
nome de cJiitaia (6itaia), e a caixa o de mum^uvu (tnuSavu 
«coatella»}. , 

Toca-ae no teclado e correm-se todns as suas pe^aa, apenaa 
com 08 dedos polegares, passando todos os outros dedos por 
baixo da caixa a conservala e ù. caba^'a na posi^ào conve- 
niente, de modo quo a abertura d'està nSo fique compieta- 
monte tapada pela caixa. 

Ha quisaanjes de raaiorea e meoorea dimensSes que as des- 
criptae, e tambem mais geitosos e bem acabados tanto noa 
metaea corno uà propria caixa. 

que figuro, tem 23 pegaa de teclado cuja equivalencia da 
notas de musica da nossa clave de solj em trez oitavas diver- 
sas, é a que em aeguida indico. Entro aa referidas nota» véem- 
ae 4 BUstenidos, sondo para notar que o que entra na escala 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 3^7 

naturai; seja qual for, toma o nome de diisuica danotaa que 
corresponde ; os que entram na oitava inferior de muene tembue 
da nota de que é sustenido, e os da oitava superior de iniana 
rmdopo d'aquellas^ nota que o chissanje que figuro nSo tem. 






X=l 



rrt 



^EE^^- 



^"'rgj 



rrr*^r7r ^'ii é-r'"\ — ' -i-^^ — z=±^ 



t:^±= 1^^ * J r^I 



Estas 23 notas resumem-se a 5 capambo (= re) sendo um 
sustenido da oitava inferior, e por isso muene tembue u4 ca- 
pambo; 4 chissesse (= sol); 4 chissombo (= mi) de que um é 
sustenido na oitava naturai, chissaca chid chissombo; 3 dixini 
{= dò); 3 murundo (= si); 3 chibandeje (= la), sendo dois 
sustenidos, um na oitava acima suana mulopo uà chibandg'e, 
e outro na oitava abaixo muene tembue uà chibandeje; 1 muid- 
nhi {==1 fa). 

Nos de menores dimensSes so se contam 16 pe9a8, sendo 
supprimidas 2 chissesse, 3 chissombo, 1 dixini, 1 murundo, 

Os potentados e seus parentes geralmente, e tambem o Mua- 
tiànvua fazem luxo em andar pela rua ou mesmo irem visitar 
qualquer pessoa tocando no seu chissanje. Alguns teem este 
instrumento em muita estima9aO; e por isso se véem as caixas 
e as caba9as ornadas à faca com figuras humanas, de quadru- 
pedes e aves e tambem com desenhos em pequenos quadros. 

De noute ouve-se nas povoa93etì e tambem nos acampa- 
mentos um ou outro que acordou cantar a meia voz, £azendo 
acompanfaar-se no chissanje. 

Geralmente estào fumando na sua mutopa liamba ou tabaco ; 
collocam-na deante de si entro as pemas, vSlo fumando e pas- 
sam OS bra9os por fora da mutopa, ficando-lhes os movimentos 
livres para tocarem o chissanje. 

Succede sempre ao aspirarem o fumo que Ihes venhaa iosse, 
e por isso o seu canto é cheio de interrup93es. 

Ao que està cantando numa cubata responde outro, is vezes 
tocando tambem no mesmo instrumento. 



368 EXPEDiglo PORTUOUEZA AO BHIATIÌEÌVDA 

Marimba id maqtiiri {mariba ta makiri). — As mais commune 
bUo fonnadaa de pauzinLos que asBentam sobre um arco e 
respectiva corda e teora as seguintcs notas : 3 capamho; 3 chi- 
bandeje; 3 ckissesse; ò chiasoti^o; 2 chissaca; 1 ^ixini; 1 m«- 
rundo; total 16. Ha outras a que chamam marimba mangonje 
(marila magoje) analogas à anterior, maa com mais duas notas : 
capojr^bo e o seu suona mutopo. 

Estea ÌQtrumentos tcem 8 e 7 sona disdnctos conforme a 
Bua grandeza e de que ha os melhorca excmplarea noa aobados 
em redor de Malanje e entre os Bondoa de Andala Quiaaiìa, 
e tambem em algiimos ambauzaa de Bangalaa. 

Em doia grandea arcoa feitos de troncoa delgadoa apropria. 
doa aasentam as taboinlias de urna madeira tambem especial 




que coDstitue o teclado, e a cada urna d'estaa correapondem 
inferiormente caba^as, escolbidaa aegundo o aom que produzem 
e com a forma adequada. 

Todaa aa cabajas bSo lìgadas por fibras de vegetaes, 
Hoje jà dividem as marimbas em duas pai^ea, uma para o 
canto outra para o acompanhamento, e neate caso aSo doia os 
tocadorea, cada um com duaa baquetaa, aendo oa estremoa 
arredondadoa d'eatas guarnecidoa com borraclia. 
■ Torna-se assim o transporte mais facil porque cada tocador 
leva a sua parte do inatrumento, paasando o arco exterior para 
trds daa costas e suapendendo-a ao pesco9o por meio de uma 
corda ou por tiras de panno, ou com um doa patuios com que 
usam cobrir-se e que em marcha nJo vestem. 




ETHNOOBAPHU E HISTOBIA 



369 




As marimbaa que se usavam anteriormente a estas eram 
milito grandes, porque no Ben teclado se comprehendia canto 
e acompanhamento. 

Mvhembe. — Incluem este no numero das marimbas, mas é 
multo differente. É de ferro; 
OS primitiTOfi tinham a forma 
de ferradura, d'onde Ihes veiu 
o nome. Dizem que Rodrigues 
Gra9a, quando fot à MusBumba, 
levava mn macho ferrado, e 
por causa das ferraduras deram 
ao macho o nome de* lubemhe 
cu rubembe. 

Oe ramoB da ferradura silo 
dois vasos estreitos e compridoe 
adelgagando para a curva, que tera ahi um diametro de 0",010 
a 0™,016; a abertura nas extremidades tem a forma ovai, 
sendo o maior eixo de 0^,04: a 0",05 e a altura dos vasoe de 
0",'25 a O^jSO. Ab paredes doa vasos bSo um poiico espessas 
e refor^adas por una aros no raesmo plano pelo lado interior 
e exterior, que se reunem ao arco da ferradura. 

Na gravura em que figuro um d'estes instrumentoa vè-se 
outro mais perfeito, em que oa vasos bSo mais bem acabados 
e se,ligam pelos fundos a urna travessa tambem de ferro. 

Faasam una iìoa de fibras no arco ou travessa para na mSo 
esquerda suspenderem eate instrumento, e é com a mSo dì- 
reita que nello tocam com urna varinha de ferro, que percor- 
rendo aa paredes dos vasos de alto a baixo, e ora um ora 
outro, produz todaa aa notas que encontram no chìasanje e 
nas marimbaa. 

NSo é de mau effeito quando toeado por mSo de mestre. 

Os Qiiiùcoa e os Limdaa alem do Ca«aai fazcm muito uso 
do rubembe. 

Entro as insigniaa do eatado do Muatiànvua encontra-se o 
rubembe quo existe de maiores dimenaSes, e na ambula (granda 
largo) onde ae fazem aa audienciaa tem o seu logar reservado. 



370 



EXPEDIf So. POBTOGDEZA AO UDATllNVnA 



que é urna travessa posta Gobre duna fonjuilhas, de propoùto 
plantadae para o aguentarem, e i5 uesta travesaa que elle se 
Hiupende. 

Sucumho. ^Este mstrumento é muito conhecido na noBEa 
provincia de Angola. Toma-se urna vara de urna madeira espe- 
cial flexivel curva-se em arco, apertando-se as extremìdadca 
com um fio grosso que jà fazem do se« algodÙo e que conaer- 
vam bem tenso. Na parte inferior do arco lÌKa-so urna pequena 
cjba^a com urna abcrtura de grandeza calculada para se obte- 
rem boaa vibrajSes. Està abertura fica voltada para fora quando 
se toca, e a corda ao alto, 

arco fica entalado entro o corpo é bra^o esqucrdo, indo 
a mSo corre spendente segurar nelle a certa altura. Com tuna 




» 



varinlia uà mSo dìrcita taugendo em differeates alturas da 
corda tiram-se hoaa soas, que lembram oa do urna viola, e 
cujo conjuncto é agradavel. Oa Louudas clioniam-lhe vìoldm. 
Tocam-no quando passeiam e tambem quando estSo deitados 
nas cubutaa. É muito commodo e portati!. 

Oa instrumentos de vento eSo muito simples e fabricam-ee 
do palha de capius especiaes, de madeira e tambem de mar- 
firn, todos mais ou menoa omamentados, e alguna mesmo imi- 
tando formas bumanas ou de animaea. 

Mixia. — E um apito feito com o cauudo de um capila 
grosso a que chamara Ubuntia {lihuya\ tendo de comprimento 
0'",12. Urna das extremidades cortam-na em viez, e da parte 
inferior até proximameate a meio abrem-ihe 3, 4 ou & orifi- 
cio», e tapaado com oa dedos de ambaa as mSos, ora una ora 
Outros, toeam o quo querem. Do som estridulo que prodnxein 
provém talvez o nome de muda. 



ETHNOGRAPHIA £ HISTORIA 37 1* 

Catou (katoik). — Tambem instrumeiito de sopro. E urna 
pequena boia de madeira a que fazem um orificio para bocal 
e na parte opposta abrem mais 3^ 4 ou 5 orificios^ que tapam 
ora uns ora outros com os dedos para obterem os sons, sendo 
por esses orificios que escavam interiormente a bola^ servin- 
do-se para isso de uns pequenos ferros^ que vSo batendo pouco 
a pouco com a mSlo ou com algum pau. 

Ditondo (ditoao). — Outro do mesmo genero. Consiste em 
dois pequenos troncos de madeira especial^ que se encruzam 
e furam com um ferro, primeiro o vertical de um extremo 
até proximo do opposto, ficando este tapado, e depois o tronco 
horizontal de um extremo ao outro. orificio da parte supe- 
rior do primeiro é o bocca! ; e com o poUegar e index da mSo 
direita, ora tapando um, ora outro lado do tronco horizontal, 
ora deixando-os ambos abertos, ora tapando-os simultanea- 
mente, se obteem sons diversos. 

Muzdde. — E ainda outro, constituido por imi cylindro de 
madeira, que se pode furar com facilidade de um extremo até 
proximo do outro, que fica tapado. A pequena distancia do 
fundo fura-se tambem de lado a lado, e os buracos que se 
obteem em sentido opposto tapam-se alternadamente com o 
pollegar e index da mSo direita, para produzirem certos sons. 

Tanto este corno os antecedentes trazem-se suspensos ao 
pesco90, e assim collocados chamam-lhes caasengossengo (keue- 
gosego)^ que é urna fior que termina em forma de apito. 

Ditele. — E um flautim em miniatura. Tem 0'°,18 de com- 
primente; e de todos o que vi de maior diametro nSo excedia 
a 0'",01. A um lado e proximo do extremo superior fazem- 
Ihe imia abertura em viez, por onde tocam; e a contar do 
extremo inferior até proximo do meio abrem 5 orificios, que 
n£o ficam na mesma linha e sim aos lados e a meio, conforme 
faz mais geito para tapar com os dedos de ambas as mSos. 
Neste variam mais os sons. 

Qualquer d'estes instrumentos de som agudo serve tambem 
para signaes e para duas pessoas se corresponderem a pequena 
distancia. Mas nisto os mais peritos sSo os Quidcos. 



372 



EXPEDiglo PORTUQUEZA AO MUATIIkVUA 



Ob .povos mais adeanta- 
doB, corno 08 do Congo e 
08 QuidcoB; fazem todos 
esteB instrumentoB de mar- 
finiy que na Liiiida conser- 
yam ob mesmoB nomes. Ob 
povoB de Caiembe e de 
Canhiuca tambem os fazem 
de marfim. D'estes figuro 
OB que trouxe para a Sociedade de Geographia de Lisboa, 
e a que dSo o nome generico de mussengo. 

Chipanana (òipanana), — E o que nós chamàmos trompa 
de e a 9 a . Sào chifres, ou dentes pequenos de marfim. Fa- 
zem-Ihes imi buraco na penta por onde assopram, e apertando 
mais ou menos os beÌ90s tiram d'elles sons diversos. Chamam 
por analogia as nossas cometas chipanana dia Muéne Puio. 




Os instrumentos de pancadaria sSo oriundos do nordeste e 
alguns teem entrado ultimamente por Malanje na nossa pro- 
vincia de Angola. Consideram-se os que conlie90 comò insi- 
gnias do Estado do Muatiànvua e que os potentados de todas 
as tribus, mesmó dos dissidentes d'este Estado, estao ado- 
ptando tambem comò insignias da sua auctoridade, embora 
de menor grandeza, e de que se fazem acompanbar quando 
em passeio. 

Mondo (modo). — Instrumento de pancadaria que se ouve à 
distancia de 10 kilometros e às vezes mais, conforme as alti- 
tudes e vento. E o baixo profundo. E feito de uma s<S pe9a. 
Toma-se um toro de imia arvore de madeira rija e leve. Proxi- 
mamente a meio fazem-lhe uma abertura quadrada de 0°*,15 
por lado; e por ahi com os ferros dos seus machados bem afia- 
dos, OS escavam multo bem, ficando por dentro as paredes lisas. 

Alguns nos topos exteriormente teem duas argolas ou asas, 
por onde os suspendem de imia correla de couro aos hombros 
quando em marcha. mondo so se pode tocar estando o toca- 
dor Bentado no cbào e coUocando-o.entre as pernas. 



ETHKOGRAPHU E HISTOBIA 373 

Dois pauB de 0",20 de comprimento e com urna das extremi- 
dades revestida de borracha formando urna boia sSo as baque- 
tas^ ou melhor ina9anetas, com que tocam. E instrumento para 
a guerra. Os maiores teem 1 metro de comprimento e pouco 
mais de 0",25 a 0",30 de diametro. 

Ha-08 de menores dimensSes e mais bem acabados^ e nSo 
se ouvem por isso a menor distancia. Fiz acquisisse de um 
d'estes. 

Em Loanda conhece-se este instrumento no bairro da gente 
de Cabinda, que faz com elle as suas chamadas, e toca a 
alvorada e a recolher. 

Como digo tratando ainda dos usos e costumes d'estes povos, 
mondo é para elles uma especie de telephone. 

Chinguvo ou Quinguvo, — Ha varios modelos d'este instru- 
mento no museu da Sociedade de Geographia de Lisboa. SSo 
OS instrumentos de pancadaria que mais usam em marcba, e 
com que tambem transmittem noticias e ordens na Mussumba 
ou para povoas^es muito proximas. Està hoje multo generali- 
sado. Qualquer Muana Angana Quiòco^ mesmo dos que elles 
dizem feito à pressa^ jà se faz acompanhar do seu quinguvo. 
Muitas comitivas de commèrcio os levam para vender comò 
curiosidade aos europeus na nossa provincia de Angola, e para 
servÌ90 no sobado e ambanzas. 

SSo umas caixas de um feitio especial e para as quaes é 
preciso escolher a madeira. Os mais triviaes sSo os de que 
eu trouxe um exemplar e que figuro em gravura. 

De um pranchSo da espessura de 0™,12 a 0",14 cortam 
um pedajo rectangular de 1™,0 X 0™,80; e collocando ente 
de entello sobre o solo, ao meio da espessura abrem uma rar 
nbura em todo o sentido do comprimento, que com ferros 
apropriados e a malho v2lo escavando interiormente, alargando 
essa escavasse & medida que vSo tirando para fora a madeira. 
A largura da abertura varia de 0'",015 a 0^,020. 

Pela banda de fora vSo cortando a machado, para a parte 
superior, a madeira do fundo que està assente no solo, de 
modo que fiquem as paredes maiores em dois planos inclinados 



374 



expediqZo postdgdeza ao muatiInvua 



para a linba media da abertura, e do todoB os lados corno luua 
largura egual a essa abertura. 

Ao fundo dSo-lhe a inachado urna forma arqueada para ob 
ladftH e v5o cortando a mndeira d'ahì para as extremidadea 
da abertura em arco, deixando ficar proximo da niesma doia 
peda^oB salientes de que depois fazem umaa pégaa ou umas 
pefaa chataa, era que abrcm ino buraco para nelle passarem 
cordas para euapensSo do inatrumento a iim traveesào, 

ÀlguDS d'estcs inetrumentoa apresentam os cortes das faces 
tnaiores rectos, de modo que a sua figura é a de um trapezio 
inclinado para o interior da caixa. 




Ao meio da abertura e perpendicularmente ila facea maioreB. 
atraveasam um ferrinlio em que enfiam laminas de ferro dobra- 
daa em forma de tuboa, e tambem duas ou tres mÌBeangas 
grossas; e ainda alguns coUocam ao raeio de ara lado e reiite 
com o bordo superior um ferrinlio, que curvara logo a prolon- 
gar-se com esae bordo, e nelle etitìaui as laminas de ferro para, 
chocalliarem quando ae bate no chinguvo. 

Ao meio das faces maiores, de um e outro lado, pregam-llie_ I 
uraaB aaliencìas de borracba, a com as baquetas ou ma^anetas, 
que bSo pouco iDaiores do que as que deix.-imos descriptas 
para o mondo, batem ahi e na caixa a diverBas alturas e dia- 



i 



ETHN06RAPHIA E HISTORIA 



375 



tancias, tocando as Buas marchas, tranBmittindo ordens ou no- 
ticias, ou tocam para as dan^as e fazem os acompanhamentos 
aos seaB cantoa. 

(Jeralmente suspende-se a nm pan sobre ob hombroa de dois 
homenB, Bendo o de tris o tocador. Era raarcha e qiierendo to- 
car-ee, e aBsim que o transportam. 

chinguvo aeompanha bem o chissanje, e qiialquer d'ellcB 
08 cantores, devendo todavìa notar-se que os cantos silo antCB 
recitatìvoB. 

E na verdade para admirar comò por urna eatrelta fenda 
86 consegue escavar ino prancbSo e dar-Ihe a forma desejada. 
Chega-se a querer investigar se nSo serHo pejaa perfeitamente 
unidas coni grude ou cora outra substaneia analoga. 

Angoma td mucamba (ìjoma ia mukaba). — Dizem que aó o 
Muatiànvua a possue, e em 
toda està regiào uBo vi 
egual em grandeza e forma 
ti que figuro de um desenho 
que fiz i, vista da que tue 
mostraram na Miissumba 
do Calanhi. SiS snc para a 
guerra. 

Toma-se para fazer este 
in strumento um tronco do 
madeir.i apropriado, a que 
dito a forma de um cone, 
e que tomam óco escavan- 
do-o por dentro. A base 
maior que tem 0"','10 de 
diametro & coborta com 
urna pelle de animai devi- 
damente prepara da, e o 
lado opposto de 0"',!:*0 de 
diametro fica aberto. Està 
e specie de t imbaie tem de 
altura l^SO a 1°,50. 




376 



EXFEDI^XO FOKTDGDEZA AO KUATIÌKVUA 



A pelle é posta a ficar bein tenaa, e tìxn-ae ao corpo do 
instrmaento por liames dispoBlos em differentes sentidoa. 

Batem as pelles com baquctas grandes, feitae com aB jd dea» , 
crìptas para o mondo e cliingnvo. 

A parte exterior da madeira é omada muitas vezes com r»- | 
JevoB feitos à faca, e tambem Ihes fazem desenhoa em curvaa 
naia ou menos capricho&as e outros arabeecos. 

Km outroa, que s£o mais estreitos e curtos, toca-se agachan-^ 
do-ae o toeador, qua colloca o instrumento entre os pés e bate 
Da pelle com ambas aa màos. 

Para quc a abertura pela parte de baixo nia fique comple- 
tamente tapada, teca no cliSo bó urna parte da borda inferior, 
e corno tem por isso de se conservar incliuado ])ara a irente, 
para que nno perca o equilibrio, pansa-se-lhe miia corda em 
tomo, abaixo da pelle, o auspende-BO ao peacopo d'o toeador. 
Fazem milito tiao d'estc intrumento nas suaa dan^a, e quando 
o tempo està htimido, de vez em quando vào aquecendo a 
pelle que Berve de tampa, da fogueìras que se fazem junfo 
doa musicos. 

Ritumba (rituZà), — É outro instrumento de uao frequente 
entre todos eates povoa. Faz-se de um tronco de l^jO a l^iSO 
de comprido aborto interiormente em forma de cylindro, regu- 
landò o diametro do 0",20 a 0",25. Esteriormente fazem-no 
em aalienciaB e reintrancias mais ou menoa curvas com anneis 
o friaos, tendo alguna deaenbos caprìchoBOB. 

Sào eates os mais uaadoa nas danpas e tambem se tooam 
batcndo com as maos na pelle que tapa uma das aberturas. 
Muitas vezea oa tocadoros eacarrancham-se ncllea e tocam 
horaa seguidas sem deacansarem. 

Angoma ìa calenga Qoma ìa kaleya). — Multo menor que o 
antecedente maa é multo enfeitado quer com os omatos na 
madeira feitoa a ferro, qucr com fiadas da mìsaanga. 

Angoma uà muanga (goma uà màaga). — Tambem é uma 
angoma de O^jòO a O^jCO de altura e de diametro auperior 
a O^jSO ou 0"',40, e um poaco mais eatrcita para a parte infe- 
rior, a que se deisa um rebordo esteriormente j aa parcdes 




ETHNOGKAFBIA E mSTOKU 



377 



bSo ornadas & faea. Andam sempre auspenaos a tìracollo no 
lado direito do tocador, que loca mearao assim batendo com 
ambas as mlloa na pelle, ou entSo deitain-nas no solo, escar- 
rancham-ae aobre cllaa e batem na pelle. E està geralmente 
a poai^So mais favorita, aobretudo naa dan^aa. 

Mucvhile. — Urna outra, daa que trouxc e que figuro, per- 
tenee hoje à Sociedade de Geo- 
graphìa de Lisboa, E das pe- 
quenas, com 0",70 de altura e 
pellee naa duaa aberturaa. Ex- 
teriormente adelgaga ao meio 
e toma a forma espberica para 
OS ladoa; na parte centrai tem 
aa pégaa e apreaeata-se a ma- 
dei ra lisa, emquanto qne o 
resto é ornado por tragoa eur- 
V03 e parai leloB em grupoa 
barmonicoa. 

Mvctipela. — Angoma muito 
pequena, ma a com pelle dos 
doia lados. corte no aentido 
do eixo d^-noa de projec5So 
duas ta^aa ligadas peloa fundos, 
aendo a uuiSo revestida a mis- 
sangas groasaa e tìnas de diver- 
sas còrèa e diapostas a capriclio, 
e tambem naa partes a desco- - 
berte, com faca e outros ferrea, 
fazeni-lhe arabescoa maia oii menoa salientee. Os tocadores 
Buspendem-nna ao pescoso e tocara batendo com urna daa 
mSoB em cada pelle, fazendo variar os sona jà batendo com 
as cabegaa doa dcdos, j& com aa palmns das mSos mais ou 
menos em cbeio, 

Angoma id Muene, Puto. — Por analogia é o nome que dSo 
és noBsas caixaa de guerra e tambores. Ao dog maiores addi- 
cionam-lhe a palavra rnujima (grande). 




I 



^ 



378 EXPEDIflto POHTUQDEZA AO KUATlAlTVDA 

Musaamla {musaia). — E um 
instrumento de chocalho usado 
nas dan^ae em hoiira doB idoloe, 
e que se arranja muito simples- 
mente. 

ÌIos extremos de urna vara pequena de madeira fazem dois 
eapheroidea encanastrados do fibraa de cabama, e iaierior- 
mente cruzam-noB coni 6os rijoa de ararne e noUes enfiam 
cbapos dclgadas de ferro ou fructos eécos a fìm de fazerem 
ruido. 

Lvzenze (luzéze). — Outro ìrstrumento para o mesmo firn e 
pode dizer-se da mesma especie, 
que fazem de «m friieto séco a que 
se tira o miolo por meio de ori- 
ficios que Ihe abrem, e por ruein d'elles introduzem-lhe semen- 
tes ou ppdacitos de ferro para chocalhar. 

Nura dos referidos orificios mettem urna baste de madeira 
para Ihe servir de péga. 

Jiudua (JiHaùo). — ^E tambera um instrumento que as rapa- 
rigas e rapazitos usam nas dnn^oa, 

Consiate mim fio de ararne, ao qual se enrolam, ficando & 
larga, chapinlias de foiba de ferro, ou lata e mesmo de metal 
amarello, e que bateodo umas de encontro &s outras possam 
cbocalliar bem. 

Este fio passam-no em roda do delgado da pema, e ha 
quem traga dois e tres fios para cada perna e tambem para 
OS bragOB na cintura. 

Como as suaa dan^as sSo pidadas, os bons dan^arinos bam- 
boleiam com o corpo, e aaJtam e pulam de modo que a bulha 
da sua jiu&ua nUo destoe do compasso dos instrumentos de 
pancadaria. 

Com 03 instrumentos de pancadaria mondo e chinguvo e aeus 
congencrea, e tambem com os instrumeutos de sopro corno 
veremoB em outro capitulo, os naturaes da regiìlo que visitei 
communicam una com os outros e traDsniittera noticiaa a grande 
distancia. 




ETHNOGEAPHIA E HISTOBIA 379 

Num trabalho que tenho ptaneado, e a que espero dar publi- 
cidade, estudarei minuciogamente ob differentes objectoe qne 
deixo mencionados, comparando-os com os obaervados por 
outroB explorodores portuguezes e por Livìngatone, Cameron, 
SchweinfurUi, Barth, Stanley e outros; objectOB que reputo 
commons a todos os povos Tus e caracteristicos da sua mdi- 
mentar civili BagKo. 

Limitar-me-hei por agora a chamar a &tteD93o do leitor para 
as gravuras dispeiBaa no presente livro, onde se encontram 
figurados muitos dos diversos objectos summariamente deE- 
criptOB neste capitolo. 



CAPiTULO vn 



USOS E COSTUMES MAIS NOTAVEIS 



Necessidade de e&tudo demorado para se conhecerem os asos e costames dos povos qae o 
viiO^n'^ visita — SaudafSes matutinas ao potentado e modo por qae este Ihes corres- 
ponde ; formulas em uso ; nomes que teem, segrundo as tribus — Gumprimentos e saada- 
95es por occasiao do encontro de pessoas noe caminhos ; modo de laudar entre as pes- 
soas intima* — Transmiss&o de noticias e habito de as detarparem — Exelama93es e 
gestos signiflcativos de varias emofSes — Manifesta^Ses de respeito, de cortesia e de 
atten^So — Audiencias ordinarias e audieucias solemnes ou tetamu — Processo seguido 
nos pleitos ou demandas, milongas, e modo de os promover e decidir — Factos exempli- 
flcativos — O nesso modo de proceder nestes casos com os indigenas — Ceremoniaa 
asadas entre os Quidcos e os Lundas ao dar-se por terminada a milonga — Andienciaa 
para resolu^&o de negocios do estado, para recep9&o de visitas e para expedir ou rece- 
ber mensageiros — Pragmaticas observadas para a sua abertura, no decorso duella, e 
no seu encerramento — O Muatiànvna nas audiencias ; expedientes de que usa para 
entreter a assemblea antes das audiencias — Narra92io feita por Xa Madiamba dos sena 
trabalhos durante o exilio e em que poz em relevo a extrema dedica^ào e fldelidade da 
sua muàri — Exito feliz da sua eloquencia — Musicos e improvisadores na córte — Dan- 
9as guerreiras e outras — Frenesi dos dan^adores — Provas judiciarias ou Juramen- 
tos — Superstifòcs e agoiros ; cren^a em feitifarias — Casos em que se nio applica o 
Juramento — Assassinato horrivel de urna mulher infici — Pouca frequeneia d'este 
genero de crimes e de outros menos graves entre os gontios — ReflexSes sobre a escra- 
vid&o. 



I 




emo8 quo mn certo numero de 
rej^ras e pratica» estabelecidaa 
eutre estea povoB, constituera no 
eeu eonjuncto oa seus eostumee 
e usoB, e algumas difTercD^as, 
quc noa meauios ae encontram 
de tribù para tribù, tomaram- 
se caracteristicas, teem para 
assim (lizer uni cunlio eapecial, 
e é necessario qiie o obscrva- 
dor note esaas difTerenfati, pois 
o que muitas vezes se pode 
considerar comò prolLxidade, 
nSu o é realmente. 
T' Assim corno na ornìthologia ou ism qualqucr ramo daa scien- 
cias de observa9r[o se requerem os cuidados do eapecialista 
para que nào cscape notar e figurar a mais pequena differenza, 
qtie possa servir para distìnguir urna especie de outra, ainda 
que à. primeira vista pareva que se trata de um esemplar jà 
couLecido e claesiticadoj assim e»tudando oa coatumea de po- 
voa mesmo vizinhos, o observador deve registar tudo o que o 
impressiona, embora se Ihe afigure que o que se estd passando 
deante d'eUe, é jd caso investigado. 



384 



EXPEDigXo POETCGOEZA AO HHATIAnVCA 



I 



Quando no Liiambata me dispjiz a reunir todos oa aponta- 
meDtos diepcrsOB 1103 meus diarìos eobrc os usdb e costumes 
doa povos que co-nhecia, para os coordenar e enviar conjuncta- 
mcnte com outros traballios, na primeira opportunidade, A 
Secretarla de estado doa negocios da raarinha e do ultramar, 
porque urna portinaz doen^a me fazia recear estar proxuno o 
termo da minha existenciaj escrevia eu apreaentando esaes 
trabalhoa as considera9Se8 aeguintes: 

«E preciao viver-ae algum tempo entre estes povos, mezea 
e mcamo aimoa, para se poder fallar com pieno conhecimonto 
de eausa, nào aò doa aeua uaoa e costumea, corno ainda da 
sua biatoria tradicioual, da sua politica, do scu modo de viver, 
de commerciar, da aua industria, cren^aa e superstÌ55e8, e 
ainda daa difTcrcntes phases por que foi paaaandn, a fim de 
ajuizar se progridem ou retrocedem, e se poderito ou nSo 
aproveitar-ae com reconhecidaa vantayens, de auxilioa estra- 
nbo9, iato é, dos povos mais cultos com que posaam estar em 
contaeto. 

Pode aaaevernr-se, quo noa ultinioa ciucoeuta annos, senSo 
loda, pelo menos um ou outro ponto d'està regimo centrai foi 
viaitado por europeus; porém una, porque so vinbam tratar 
do aeu commercio, e poueo Ibea importava o maia; outroa, 
refiro-me aos oxploradorea allemàca, porque o scu intento 
apenaa era eonhecer partido que a politica do aeu paiz po- 
di» tirar das afamadaa riquezas do Muatiànvua, e fazercm por 
aqui a travesaia do continente africano; é certo que nem eates 
cem aquellea ae entregaram às minucias e eapecialidadea qua 
requerera eates conbecimentos. 

Komjlo, Rodrigues Gra^a, e ultimamente Cameiro, Satomino 
Macbado, Antonio Lopes de Cnr\-alho, Silva Porto e JoSo Ba- 
ptiata, negociantes aertancjoa; Dr. Pogge, Dr. Max Bilcbner, 
Tenente "Wiasmann, Otto Schutt, Bartb, Livingstone, Cameroa 
e outroa, o que noa dizem? Multo pouco! 

Apenaa algumas infornia9J5e8 e a maior parte devidaa aos 
scua interpretea, que ludo aabem segundo elles proprioa, e 
nada querem perguntar, porque seria para ellea bomìlbaote 



ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 385 

mostrar ignorancia; creaturas desmemoriadas; a quem nada 
mais importa que os seus interesseS; por que além do contracto 
com seus amos, vem sempre esperando boas gratifica93es dos 
potentados por cujas terras tem de passar o branco^ e aos 
quaes elles dizem: — jà ve que sou um bom amigo — e o outro 
responde-lhes : — sim senhor, nSo me esquecerei do amigo, — 
e as iiiforma93es d'estas fontes, repito, nào merecem grande 
credito. 

Ultimamente Silva Porto, depois da sua viagem ao Lubuco, 
escreveu uma extensa carta ao secretario perpetuo da Socie- 
dade de Geographia de Lisboa, e depois da minha partida de 
Lisboa, é possivel que os ultimos exploradores allemSles, e 
mesmo Saturnino Machado, se tivessem occupado em prestar 
alguns esclarecimentos sobre os assumptos a que me refiro; 
mas comò é naturai que so tocassem incidentalmente na ma- 
teria, parece-me que pode preencher essa lacuna a parte dos 
meus trabalhos que agora se referem aos costumes d'estes 
povos. 

Vou seguir pois neste traballio o methodo que observei ao 
coordenar os meus apontamentos, por me parecer o mais sim- 
ples e elucidati vo. 

Estes povos sao madrugadores, o que nao admira, porque 
as occupa93e8 do seu dia terminam pouco depois do por do sol, 
e sào excep93es as noites de bom luar em tempo sécco, nas 
quaes se reunem aos grupos nos pateos ou em frente das re- 
sidencias de algum amigo ou potentado, muito principalmente 
sabendo que ahi ha malufo, e recolhem entao das oito para a» 
dez horas; e tambem aquellas (nas mesmas circumstancias de 
luar) em que por qualquer motivo ha dan9a, em que se entre- 
teem até ao romper da manha. Em qualquer dos casos nSo ha 
de haver frio, porque a tudo preferem a sua fogueira na 
cubata, collocando-se na favorita POSÌ9S0 horizontal sobre a 
esteira. 

Se nSo todos, a maioria dos que fazem parte da chipanga 
de um potentado; logo de madrugada o vSo cumprimentar; e 

25 



386 EXPEDigXo pobtugueza ao muatlìnvua 

muito principalmente se teem de Ihe apresentar urna questUo 
qualquer, para elle resolver. Pode comparar-se este costume 
em parte; ao que se observa nas administra95es dos nossos con- 
celhos, sobre as occorrencias da vespera. Isto dà-se mesmo entre 
OS sobados em tomo de Malanje; com os jagados de Andala 
Quissùa e Cassanje, mesmo entre os Bàngalas e Xinjes, além 
do Cuango^ e tambem entre os Quiocos^ Lundas e Chilangaes. 
A forma da sauda92lo é uma pouco diversa. E feita geral- 
mente depois do potentado sair da sua cubata, ou mesmo no 
pateo da sua residencia, ou no largo à frente d'ella e à som- 
bra de uma arvore, se a ha. Tambem os mais chegados à casa, 
se o potentado ainda està recolhido cumprimentam-no de fora, 
' ao que elle correspondej se porém manda entrar dentro da 
cubata repete-se o cmnprimento. Nos sobados de Malanje e 
nas ambanzas de Cassanje dào à sauda9S[o o nome de cume- 
neca (kumeneìca), e tambem assim Ihe chamam os Quiòcos 
e Xinjes. Os Bàngalas charaam-lhe cudiunda (kadìudcC)] os do 
Lubuco cudiebexa (kuc^ebexa) ; e os da Lunda, comprehendendo 
todo estado do Muatiànvua, culanguixa (kìdayixà). 

As pessoas mais novas fazem tambem as sauda95es && mais 
velhas, mesmo em jomada, quando as encontram ou vendo-as 
pela primeira vez no dia; porém, no caso de que trato agora, 
siippSe-se o potentado sentado esperando as suas visitas. 

Os primeiros que chegam proximo d'elle, curvam o corpo 
imi pouco para a frente, batem tres palmadas com as mSos di- 
zendo: cuaco mueto, calunga! que quasi ao pé da letra quer 
dizer: «apertemos ou toquemos as nossas mSos, grande!» Nos 
Quissùas e Songos a venia é maior, porque com os dedos das 
maos tocam no solo e dizem: calunga! tuameneca («senhor! 
cumprimentemo-nos ou cumprimentàmos»); ao que os poten- 
tados ou OS mais velhos, em fim os cumprimentados, corres- 
pondem dizendo: zàmòi, calunga! («Deus grande o permitta, 
assim o queira!»). 

Os de Cassanje, e em goral todos os Bàngalas, nas venias jà 
sSo mais humildes: sentam-se no solo raso à frente do poten- 



ETHKOGBAPHIA E HISTORIA 387 

tadoy baixam a cabe9a a tocar com a barba no chSo, depois 
levantando o corpo^ vito levando ambas as mSos à frente a to- 
car com as pontas dos dedos no solo; levantam-nas à altura do 
peito e dobram-nas a tocar com as pontas dos dedos nelle, e 
depois batem tres palmadas dizendo : calunga, tiuzmenecal res- 
posta: calunga! zdmbi! quiauJiaha! Està ultima palavra quer 
dizer: muito bem, muito bem. Os Xinjes do mesmo modo, e 
comò estes os Bàngalas e os povos ao norte entro o Lui e o 
Cuango. 

Os QuiGcos tambem se sentam e levam as mSos ao cbSo, de 
onde tomam entro os dedos da direita urna pitada de terra, 
levam-as ambas à altura dos peitos, ficando a esquerda a elles 
encostada, com a palma virada para cima, e a direita a esfre- 
gar o peito com a terra tres vezes, aproveitando alguma terra 
que caisse na mSo esquerda; alias apanham nova pitada do 
chSo. Isto é fcito com muita presteza, e depois estendem os 
bra90s para o potentado, tendo as palmas das mSos virada uma 
para a outra, a da esquerda por baixo. Logo que a visita 
apanha a terra a primeira vez, jà o cumprimentado està de 
bra90s estendidos para elle esperando a sauda92ìo, e isto mos- 
" tra haver muita atten92lo com a visita, embora seja humilde 
a pessoa que appare9a. A um tempo visitado e visitante batem 
uma palmada dizendo: nohaha^ e depois batem palmas segui- 
das, compassadas e diminuindo no tom até acabarem. O visi- 
tante diz em seguida o que tem a dizer. 

Neste caso nohaha demonstra satisfa9SLo por se encontra- 
rem e é a felicita9So; porém a sua interpreta9ao é t bem e bomi. 

Tambem dizem uacola a primeira vez que se vèem no dia, 
seja qual for a bora; porém nohaha é o mais frequente, comò 
de respeito, e é sempre a retribuÌ9ao do visitado, quando 
este é Muana Angana ou potentado de maior jerarchia. 

Os da Lunda sSo mais humildes e comò em tudo mais muito 
commedidos. Os seus cumprimentos e agradecimentos sSo ainda 
hojtì comò foram mandados observar por Luéji-ii-Conti, ordem 
que motivou a desuniSo dos parentes, que mais tarde constitui- 
ram os povos hoje conhecidos por Quidcos, Xinjes e Bàngalas. 



388 EXPEDiglO POETCQDEZA AO MUÀTIÌNVUA 

NoB da Limda, mesmo encontrando-se em caminho, o que ee 
julga ioforior larga o que tiver na inSo e abaixa-se para apa- 
nhar terra e esfrcgar oa bra^ os cotn as inìioB oppostas dizendo : 
calumbo! tualanga! vudìS! e tambem alguns zàmbil 

Estaiido o potentado sentado, por grande que seja o qiùlolo 
qtie o visita, larga a sua arma, ou qualquer cousa que traga, 
no chilo, apanlia terra, esfrega os brajoB e diz: colombo! vu- 
diSI chi noéji! sempre bateado paliuadas, ulongo! vudié! 

A re sposta do potentado 
e; muamé ou umdi, dito 
muito seccamente, denotando 
superioridade, e que qiier 
dizer «sim seuhor», ou tbem- 
viudo»; a tambem dizem aos 
que maia CBtimnm chauape 
«muito bemi. 

A fleugma com que oa 
potcntadoB recebeni as suas 
\isitaa, a paciencia com que 
ou\em OS seus vmutnio («in- 
terpretes»), a seqmdSo com - 
que aponaa rcspondem cJia- 
uape, examo demorado, a 
um por um, doB objectos quo 
eoo a ti lue ni o prese ntes que 
se Ihe dào, e a assistencia in- 
diffircnte a sua arrecadaySo, 
sem dcmoDstrarem o mmimo 
indieio de satiefa^ilo, ou de pesar por nào ser presente de 
maior valor, jà uoutras regicies o notàra Schwe infortii, e a 
mim me impreasiouou tambem. Note-ee que o vocabulo cha- 
uape, é o chaiipi recolhido pelo eseiarecido explorador. 

As vczes o potcntado diz o nome ou titulo da pessoa que 
sauda, o que è pam està urna houra, que agradece em acto 
continuo de pé batendo as palmas e dizendo: vud^, «nucud 
baagol mwaié chi noéji, vudiS! colombo! e so eutSio ee senta. 





ETHNOGRAPHIÀ E HI8T0BIA 389 

So for quilolo; a quem é permittido sentar-se numa pelle, o 
ceremonìal é outro. Estando proximo do logar que Ihe pertence 
occupar o seu caxalapóli passa à fronte, e desviando todos os 
quo embarafam o caminho, vae direito a esse logar e estende 
a pelle onde seu amo indicou. Depois d'elle se sentar dà-llie 
um embrulho com outra pelle pequena, onde traz a pembe, quo 
o quilolo toma, e vagarosamente colloca-a depois de desem- 
brulhada em fronte de si, tirando uma pitada com a mSo direita, 
e com ella esfrega o brago esquerdo acima do cotovello, fa- 
zendo o mesmo com a esquerda para o lado direito, esfregando 
tambem a testa e terminando sempre no peito, batendo as tres 
sacramentaes palmadas e dizendo: colombo f vudie! vudie! a 
que corresponde o Muatiànvua: muamé, . ., uendi «multo bem, 
F. . ., seja bem vindo». 

O Caungula do Lòvua, Mucundo, dizia: colombo! mué chi 
noéji conhimboì «grande, acima de Noéji poderoso». 

O Muata Cumbana intermediava com muimbo, que nSo tem 
interpretagao, sendo certo que està palavra para elle corres- 
pondia a dizer: confinam as minhas terras com as de Muene 
Puto Cassongo; sou dos grandes do estado. 

Se a visita vier de longe entSo os cumprimentos sSo outros, 
e d'elles trato fallando do tetome. 

Nos povos da Luba ha a considerar os que BKopdumba («sel- 
vagens»),e os bona moto ou bona lubrico («tidalgos grandes»). 
Os primeiros so dizem: molo «viva», e a resposta é: %u . . . um; 
08 segundos apanham terra e esfregam o peito e dizem batendo 
as palmas: muguelengue! colungo! colunga! cudiebexa moto cud 
muquelengue «senhor grande! grande! cumprimentar pela vida 
do senhor»). 

O Muquelengue (o grande potentadoì, e por analogia os mais 
velhos em relagSo aos mogos, respondem: zàmbi! cudiebexol 
«por Deus! agradejo o felicitar-me!». 

Em seguida aos cumprimentos, mesmo em caminho, é muito 
frequente, o que tambem jà se nota na nossa provincia de An- 
gola, fazer-se a communicagSo das novidades que cada um 



390 EXPEDigXo POETUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

sabc; principiando os que se julgam inferiores, que sSLo os pri- 
meiros a cumprimentar, e isto depois de retribuida a 8auda9!to. 

A este costume chamam em Malanje, Cassanje e Xinje 
maézu, os Quiòcos e os da Lunda lussango, e os da Luba bualo, 

Este uso de transmittir noticias, é realmente muito bom meio 
de as fazer chegar longe, porém tem o inconveniente de nSo 
serem a expressao da verdade. Principalmente os Lundas nSo 
as d2k> sem as florearem e deturparem a seii belprazer. Muitas 
vezes succede mesmo na localidade, que o individuo que pri- 
meiro a transmittiu durante o dia, & noite ouve-a jà por um 
modo tao diverso, que suppoe ser outra, e comò tal a passa, 
referindo-se entSo ao individuo que ultimamente Ih'a trans- 
mittiu, e nSo a contando jd pelo mesmo modo. 

Assisti uma vez ds averìgua93es a que procedcu Xa Ma- 
diamba para conhecer da origem e veracidade de uma noticia 
que Ihe n2Lo era favoravel, e conheceu-se o que deixo dito. 

Havia-se fallado de manhil na anganda sobre a prisco feita 
por uns Quiocos de uns portadores que elle despachàra na ves- 
pera para uma diligencia, e à noite jà se dizia que os haviam 
roubado e morto. Descobriu-se que nada era verdadciro e que 
OS portadores tinham passado o dia e noite no sitio de Mona 
Gongolo, para às duas horas da madrugada atravessarem o 
rio Chiùmbue. 

Muitos exemplos d'estes podia cu citar, até de noticias de 
Malanje. Por duas vezes tive novas da morte do meu amigo 
o capitalo Antonio José Macliado, chefe do concelho de Malanje. 
Um dos novelleiros teve até a audacia de me affirmar que 
estava na villa no dia do seu en terrò, e que por pedido dos 
negociantes da localidade o meu amigo Custodie José de Sousa 
Macliado tomàra conta do cargo de cliefe do concelho, até o 
governador geral providenciar a tal respeito. Isto era para 
acredi tar! 

Tratando de me informar devidamente e jà depois de ter 
recebido cartas d'aquelle meu amigo, ainda se dizia o mesmo; 
e a final quem tinha morrido era um officiai, chefe da colonia 
Esperan9a. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 391 

Entre os Lundas, vi outro modo de cumprimentar e que me 
agradou. Os cumprìmentos de que fallo teem legar entre pes- 
soas de intimidade. Àvistam-se duas mulheres que ha tempos 
se nSlo vèem, e a que chega approxima-se da outra. Ambas 
levam as mSk)s à freute do peito, a esquerda por baixo com a 
palma virada para cima, batem as tres palmadas sacramentaes^ 
porém de cada vez a palma da direita de uma vae passar pela 
palma da direita de outra. 

Para os homens ha ainda outro modo que nos indica haver 
entre elles um tal ou qual afifecto. 

Dois primos; filhos do Muatiànvua que tinham side multo 
amigos, havia annos que estavam separados em consequencia 
das perseguijSes partidarias. Nao sabiam um do outro e até 
se julgavam mortos. Cada um por sua vez veiu ao encontro 
de Xa Madiamba. Quando appareceu o segundo, depois de 
cumprimentar o Muatiànvua, foi procurar o legar que Ihe per- 
tencia, e encontrou là o seu primo. Foi grande satÌ8fa9ao nos 
dois! Bateram as palmas sacramentaes e depois cada um col- 
locou as maos sobre os hombros do outro apertando-os com 
effuslo, e cruzaram os peitos descansando as cabegas no hom- 
bro um do outro. Iste foi feito tambem tres vezes, rematando 
a sauda9So por darem de novo tres palmadas. 

E innegavel que entre estes povos se reconhece a superio- 
ridade que dà a idade e os cabellos brancos, e se procura man- 
ter os graus do parentesco primitivo, o que nos causa a nós 
europeus muitas vezes confusào, porque os interpretes nào nos 
sabem explicar essas rela95es de parentesco. Assim, por exem- 
plo, o filho de um tio meu é meu irmSo, e sera mais velho em- 
bora mais novo, se o pae d'elle for mais velho do que o meu, 
ou dando-se o mesmo com as mSes se estas sHo irmSs e dSo 
OS titulos de nobreza. Agora aquelle em rela9ao a um filho meu, 
é tambem irmSo d'elle, mas mais velho sendo mais novo, por 
ser pae d'elle jà considerado mais velho do que eu. Assim 
tudo mais ; porém entre a familia do Muatiànvua e dos gran- 
des potentados, Quiòcos, Xinjes e Bàngalas é onde iste mais 
se manifesta. 



392 EXPEDI^^iO PORTUOl-EZA AO MPATllSVlIA 



Os fìlho9 de <]ualqucr MuatiàDvua na Lunda ou de Quissen- 
giie nos QuiucoB, bìÌo todoa filhoe do imperante; porém Como 
cntre 03 Qulóoob a succeBsSo nSo tem seguido uiua certa ordem 
na familia reinante, é honra ser pae do Quissengue, e a cada 
paeso se eiicontra um Muana Angana, que diz : en Boa pae de 
Quissengue; nós Bzemos n QuisBcngue. 

O actual potentado é o quarto Quissengue e todoB teem per- 
tcncido a fumilias diversas, e segundo estc systema os descen- 
dentes do» paes de todoa ob quatro dizem-se sempre paes do 
QuisBengue, seni fazereni distinc^^o de qual d'elles o foi effe- 
ctìvamente. 

O Quissengue que estiver no estado d'aqui a cincoenla an- 
nofl, além do qne t'or seu pae, terri. mais tantns paes quantos 
03 descendentes dos que foram paes dos seus antecessores e 
ainda dos desecndentea dos que hào de ser paes dos que tenham 
de imperar ató entZLo. 

Està a u peri ori d ade, que muito respeitam entre si, ainda que 
se de é» veziìB por urna pequena circuuistancia, manifesta-se 
sempre nas suas rela^fies, mesmo que eatejani a sós duas pes- 
soas, na questilo de demandas, em audiencias etc, na forma de 
apoiar n que falla. 

Aasim DOS sobados e arredorcs dos doebos coneellios mais 
internadoB a leste de Loanda, a eada momento o orador scado 
o mais veiho, é interrompido por he! uaqiiene mitene! que quer 
dizer: "sim senlior, multo bem» ; ao que elle responde apenas: 
saqtierila «muito obrigadoi, e continua. Se é mais novo quo 
falla, o mais velho diz su: quùtne ou quiamÒoie, affirmatiTa 
que correfiponde a «està entendidoi. Entre os Bftngalas o mais 
novo eonfirma dizendo: eh! wì! calunga! ao que o velho corre s- 
ponde por quiauhaha «bem», para ser ainda agradecido pelo 
mais novo por: cabniga! chiéne! fgrande! é verdade!». 

Os Xinjes apoiam esclamando quioquiene, a que se corres- 
ponde por mumó, 

Ob QuiScos dizem : quioquió ou quioguió amhai, e tambcm 
cunero, e a que correaponde angó e tambem moiimii «siga, sim, 
accoito, entcndo*. 





ETNOGRAPHU E mSTORU 



393 



Nos do Lubueo é sempre moia, a que ae corresponde por 
tadiapa festa bem>. 

Ob da Lunda é que usam de muitas mais excIama^Ses : chia- 
huhi, colombo! mairi muamo! mitantS! maone chaxa! a que 
ae correaponde por: muanié! chauape! vudiS! mué chi noéji! 
que é o mais frequente. 

Ab ìntcrrupfBeB do que se ouve sJto em geral muitas, e 
conforme as conversas ; se é urna noticìa variada e nella entra 
cousa que ora alegre, ora 
entrÌBte9a, oiivem-Bo inaia 
ou menos as seguintcB ex- 
clftma53es, de que tornei 
nota, nuni caso em que 
um individuo dava aoutro 
urna novidade, sendo tudo 
dito cnm muito impeto: 
ihuhé! vudié! ab! ed! eHéht 
um! noéji! caianda! fu- 
dié!vudiS! muané!um. . . 
um! ah! ai. . . ed! iJìtthi! 
ihuhé! ouhtthé! 

Ab admirnySes muitas 
vezea q![o paRBam de una 
geatos e trejeitoa, que 
para elles ainda oxpri- 
mem mais que vozea e 
phrases. Asaim o cruzii- ,, ,.^, ,,,, m.^-bdo acimmoub 

mento das mlUis sobre a 

bocca aberta, e movendo um pouco a citbeja para os lados, 
exprime que urna couaa qualquer & extraordinaria. 

Exprcs^am a sua grande Batisfa93io ao agradecerem urna 
dadiva ou a reeonhecerem luu servilo importante que se Ihes 
presta, batendo com a palma da mito direìta na bocca aberta, 
ao mesmo tempo que garganteiam ah! ah! ah! 

Tambem asaim recebem nas proximidadcB de urna povoa^So 
qnaesquer pessoas de grandesa que para ella se encaminlia. 




394 



EIPEDI9X0 POHTnaCEZA AO mdatiìnvca 



Como }& disaemos, pcIoB melos que toem de tranemìttìr noti- 
ciafl, sabem com aatecedencia quando algiiem de importancia 
se dirige para aa Elias tcrras, e por isso a popuIa^So vem ao 
caminho e a forma de felicitar o recemcliegado depoia de a 
verem ò. batcr com a palma da mSo direita na boca aberta 
garganteando ao mcsmo tempo ah! ah! ah! 

Se a pessoa que ebega corrcsponde a essa sauda^So corno 
ntjs, com mesmo geeto, eeguem todos a acompanhà-la cor- 
rendo sempre em torno do viajante, com o enthusìasmo que 
correapoade Aa sauda^Ses europeas, intcrrompcndo-as apenas 
para cantarem: «Chegon ar. F..., boje é dia grande, nóa 
acompanbàmo-lo porque elle é bom e vem viaitar-nos. 

Assim o acompanbam até qtie elle se aviste com o poten- 
tado. Quando retira da povoa^So faz-ae meamo, que cor- 
reaponde ao noaao bnta-fora, seguindo tìa vezes com o viajaate 
até tres e quatro kilometroa. 

Se este na despedida Ihea di urna gratificatilo em fazenda 
ou miaaangas, ent?io o enthusiaamo ebega ao delirio, cantando- 
se e dau^nodo-ac durante boraa succesaìvaa, ae é na occasiSo 
que o individuo acampa proximo daa eUaa povoa^Ses. 

Quando pretendem manifestar que urna couaa é insignifi- 
cante, levantara o brayo direito, virando a palma da mSo para 
fora, corno por dcmats, ao meamo tempo que encostando a lin- 
gua centra céu da bocca fazem ouvir tsh, Uh, tskl Ao 
contrario, quando pretcndcm mostrar a iniportancia que ligsm 
ao que dizcm, comò por esemplo, goatarem muito de urna 
peBBoa ou couaa, levantam amboa oa bra^os até fìcarem na 
posigio liorizontal e movendo-os rapidamente um pouco abai- 
xo, um pouco acima para a fronte dizem: cMvùdi, chivudi, 
chìvddi ou sesse, aesse, sesge, que quer dizer 1 tanto, tanto, 
tantoi ou ecbeio, cheio, cheio». 

Muntiànvua, e tambem Mona Quiasengue, mais que 
dizcm para corresponder aos applauaoa ou felicita^Ses é: o 
primeiro muaniè, e o aegundo quìoquió; e no fim de qualquer 
communica^^ dizem aempre primeiro chianape, e o aegundo 
nohaha. 



h 




ETHNOGRAPHIA E HISTOBIÀ 395 

Se nm potentado interrompe alguma vez um orador para Ihe 
fazer alguma pergunta, este logo se calla, ouve-o e depoiiJ diz 
vvdie; os Lundas esfregando os brà90s com terra e os QuiScos 
o peito. 

Se é questuo so de affirmativa, respondem os Lundas chaxa 
ou muamo, acrescentando-lhes : mucuà arribango, muana, muene 
anganda, ou a inda chi noéji, selej' ami, tàttico; para o caso de 
negativa, huate, hai, cuiji, cangana; tambem com os mesmos 
addicionamentos que querem dizer: ffidalgo, senhor, poten- 
tado, amo das terras ; o ente invisivel superior ao Muatiànvua, 
patrio, pae», e seguem o seu discurso; acabando o orador, 
depois do potentado se declarar satisfeito com o seu costu- 
mado fduanie ou chiauape, por esfregar os bra5os e dizer: «m- 
diè, calowho! zdmbi, etc. Os Quiocos sempre com o mesmo 
quioquió! quihuhaha! ou nohaha! 

Tanto OS Lundas comò os Quiocos quando o potentado faz 
uma interrup^lto para fallar gritam logo texàiìhi fatten93LO>, 
e dSo for9a aos seus amos com o jimhvla a falle». 

Os Lundas, nos seus grandes espantos ao ouvirem qualquer 
noticia, dizem logo : muJiaqué! e vagarosamente batem as mSLos 
e levam depois a direita a apertar o queixo, meneando a ca- 
be§a umas poucas de vezes; o que eu interpreto pelo nesso 
«ah! homem!» Tambem querendo mostrar indififeren9a por 
qualquer noticia que se Ihes dil, ou querendo desviar de si qual- 
quer imputa9ao que se Ihes fa9a, empregam a phrase: cuiji 
cmndi; cuiji cuau; «culpa d'elle; culpa d'elles»; que se pode 
interpretar: «nSo me importa com isso, nao se me dà, isso 
nSo é commigo», etc. 

Outro modo de manifestar respeito pelos superiores consiste 
em nSlo cuspir, ou em o fazer com recato. 

Os do Lubuco nito cospem deante de gente, e se algum Ben- 
gala ou Qu imbare o faz, embora tape com terra o logar onde 
fez cair o cuspo, diz com estranheza: lequela cuchila mate 
paxi «nSo é bom deitar cuspo na terra». 

Nos sobados de Malanje e d'ahi até ao Cuango, se o poten- 
tado cuspir, um dos rapazes de servÌ90 que estiver ao seu lado 



396 EXPEDl^JO POBTCQUEZA AO MDAtUnVUA 

immediatamente apanha uma pitada de terra para tapar o 
cuBpo. Oa do jagado do Cassanje e mesmo de Andala QiiiBsùa 
bSo mais cuidadoHOH, abretu uma pequena cova, cnvulvem o 
cuspo Ila terra, deitam-na nessa cova que tapam bem, e depoia 
com aa mSos nivelam o terreno, para se nSo conhecer onde foi. 
Eutre oa Quiócoa, o individuo que quer cuspir «faata antes a 
terra com a mSo direita um pouco para cada Indo, em Begnida 
no ncto toma com a mSo a juntiir a terra, mas isto é feito com 
ligeireza e nilo incommoda nìnguem. 

Os QuiócoB jà conaideram um certo numero do servi^os avil- 
tautes para os seus semclhanteB, e nisto se destacnm muito de 
todoa OB povos que conlieci. 

E notavel a gente da Lnnda: eoape e aasoa-ae pouco, e a 
quem o vi fazer ou era putentado ou veiho, e estes dcsviam a 
cabe^a para o lado e com a mSo direita levam o panno que oa 
cobre a tapar um pouco a cara do lado das visitaa, coapindo 
para trds, e entSo oa seus scrvos tapam o cuapo corno j& disse. 

Com rcspeìto a ansoarem-ae, é & mito, e tambem de forma 
a nilo Berem vistoa doa cìrcnmatantes, e la eatilo os aeus scrvos 
para taparem, comò no caso precedente. Eatando Xa Madiamba 
muito conatipado, e impreaBÌonando-me por o ver assoar-se 
& mSo, dei-llie um len^o meu e d'elle fez logo uso. No dia 
seguinte jd tinha um monte de folhas grande» deante de bÌ, 
a que ae ia asaoando, deitando-ua para trtis muito bem embru- 
Ihadas, e case» cmbridhos eram mettldos em covaa peloa seus 
mo^os, que para cbbo fim as abriam immediatamente. 

Quando um potentndo ou urna pesaoa mais velha espirra, os 
circumst.intes batem tres palmadas pelo menos e aaiìdam-no. 
Ob do Lubuco dizem: moto, mwjutlcngue «viva, noaso fidalgoi; 
OS QuìGcob: cola noh-ika; oa Bàngalas e Xinjea: vmeinbt; o 
quo tudo tem a mesma intcrpreta53o pouco mais oa menos; 
e OH da Lnnda mais: vioio, cedombo, aouàU avudU, UStuco; 
e quando eatre amigoa: ucdanga. 

Se o potentado ou o mais velbo da roda se levanta por qual- 
quer circurnstaucìa, levantam-ae todoa, e depois esperara-no 
sentadoaj quando elle volta ou meamo vem de novo receber 





ETHNOORÀPHIÀ E HISTORIA 397 

as visitasy logo que o avistani; levantam-se todos^ e depois 
d'elle se sentar batem as palmadas, dizendo o mais velilo d'el- 
les, na Lunda: tuxxica; nos Quiocos: pdxi muana angaria; no 
Lubuco: uaxacama. Os Bàngalas e Xinjes so batem as palmas. 
Estas palavras que interpretadas ao pé da letra querem dizer : 
cchega; vem^ senta-te>; tem neste caso uma significa9SÌo mais 
lata: cbom é tomarmos a vè-lo», é uma cortezia denotando 
respeito tambem. 

Se o Muatiànvua ou mesmo qualquer potentado ou um ve- 
Iho Lunda chama alguem, um seu creado que seja, na presen9a 
dos circumstantes de que esteja rodeado, o que é frequente 
durante o dia ou mesmo entro pessoas de familia, o individuo 
chamado, agachando-se, vae direi to ao potentado ou a quem 
o chama, dando estallidos com os dedos da mào direita, e à 
medida que se approxima d 'aquelle mais se agaeha até que 
fica de joelhos na sua presen9a, e so se approxima arrastando- 
se nesta posiySo e vae collocar-se no logar que Ihe é indi cado 
com a mSo para ouvir o que elle quer, e que é sempre dito 
em segredo ao ouvido. 

Depois de ouvir o segredo, passa tres vezes os dedos da sua 
mSto direita pelos dedos da mSo direita do potentado, e de cada 
vez dà estallidos com os dedos d'essa mao, e por ultimo tres 
palmadas, signal de que ficou sciente e vae dar immediato 
cumprimento ao que Ihe foi recommendado. 

O potentado corresponde ou nSo, porque pode jà estar en- 
tretido numa conversa, e muitas vezes estende-lhe a mào por 
comprazer, e até pode ficar virada ao contrario, o que para o 
inferior é indiflferente. 

potentado pode mesmo nfio dar a mSo, porém o inferior 
usa sempre da ceremonia, passando os dedos da sua mao, ou 
pelo panno do potentado ou pela manga do casaco ou camisa 
se elle a tem, ou mesmo pela pelle ou esteira em que esteja 
sentado. 

Os Bàngalas tambem procedem do mesmo modo; porém nos 
outros povos, em goral, apenas se agacham e passam entre os 
circumstantes batendo palmadas para elles se desviarem, e aga- 



398 EXPEDlfZo POKTDOUEZA AO UUATIÌKTUA 

chadoa vZo u qtiem oa chama, e aasim ouvem o reciido e afas- 
tam-se aìudn, Da meBiiia uttitude alò sairem da roda, eeguindo 
depois diruitos ao seu destino. 

Ob Quiócos (riirvam o corpo para paesareni, estendendo o 
bra^o direito para a fronte, a firn do llie abrirem caminbo, 
ficando de joelbos a ouvir o recado, e ncabado elle esfregam 
troB vczes rapidarocnto o centro do peìto com terra dìzendo: 
quioquié; depoia IcTantamse e retiram rapidamente por entre 
oe ci reuma tati te s. 

Tarnbem ù frequente virem recadoa de fora para o puten- 
tado, e o portador da nicsma forma atraveasa entre o povo. 
Ncsto caso fica uni pouco à rectagiiarda, e quaudo chcga ao 
lado do potentado tranamltte Ibo o recado em segrcdo, e de- 
pois de ouvir a reapoata sae da roda procurando o logar onde 
ba mcDos gente, e vae elevando o corpo d medida que eevae 
affaslando, e dando depois os taes estidlidos. A retirada é feita 
sempre com prcateza. 

Tanto num corno noiitro caao, quaoaquer pesaoas ainda que 
sejam de niator grandeza no eatado, ouvindo oa eatallldoa dea- 
viam-se um pouco para doixarem passar esscs portadores. 

Mesmo que estejam fallando o fazem, e continuam a fallar 
ainda (pie o potentado eBteja prestando atten^^o ao recado e 
respondendo ; e ao por cortczia o orador se calla nesse momento, 
cmbora aeja visita estranila ao paiz, aquelle diz lego, apon- 
tando para o ouvido deaoccupado: matui -maodi, tUtui édi cadi 
uei, londa ttenho dois ouvidos, oste para V., falle», corno 
quem diz: «com este ou^o bem o que diz». 

Tambem commigo succedeu iste era principio com Xa Ma- 
diamba, costume com que nunca me pude conformar e quo, 
diga-se a verdadc, é das cousas em que nSo tinha razSo, 
porquanto quiz fazer suppor a mim mcauio ser isso urna dea- 
considera^So, quando nito era senSo um costume. Cheguei a 
conseguir por ultimo, que fallando elle commigo, nilo fosscmos 
interrompidos com os taea segredos; porém elle dizia-me e eu 
reconheci ser certo : — Nób nilo podemos deisar do prestar 
atteujSd a todos que nos fallam, e oa segredos eSo fallaa do 





£THNOGRAPHIÀ E HISTORIA 399 

cora9lLo que nSo podem ser prejudicados. Muitas vezes por se 
nSLo ouvir um segredo a tempo, o inimigo nos apanha despre- 
venidos. Como temos dois ouvidos um pode attender a quem 
nos estava fallando e outro ouvir o segredo num momento. 
O Muatiànvua precisa ter bons ouvidos^ se os nSo tiver a 
gente da córte, mata-o, porque todos desejam ser servidos 
a tempo. Aos taes estallidos chamam cttdicala. 

Ha audicncias ordinarias que se pòdem considerar de tribu- 
nal, e tem legar todas as madrugadas, e outras extraordinarias, 
a que os Limdas chamam tetame^ e estas demandam um certo 
ceremonial, e so se fazem quando se annunciam por ordem dos 
potentados, annuncio que se efiFectua de vespera, depois do por 
do sol, por meio do mondo ou do chinguvo, e podem ser a 
qualquer bora do dia. As vezes sendo apenas*de mera forma- 
lidade por motivo de visitas de apresenta93lo, celebram-se so 
depois das quatro horas da tarde, para evitar o sol. 

As audiencias ordinarias nào comparece toda a gente, ou 
veem a pouco e pouco alguns, na maior parte com o proposito 
de fazer os seus cumprimentos ao potentado. E na maioria dos 
casos este quem cbama um ou outro quilolo, a quem deseja 
fallar sobre qualquer negocio, ou que pelo correr da discussSo 
na audiencia tem de ouvir. 

Estas audiencias, que na maioria dos dias principiam dentro 
dos cercados, jà ds sete boras teem de ser mudadas para a 
ambula, pateo à fronte da residencia, por causa da agglome- 
raySo do povo. 

Como potentado, o dono da terra comò elles dizem, recebe 
sempre de madrugada, é habito entre estes povos, apresentar- 
Ihc nSo so as questSes que houveram de vespera entre uns e 
outros, comò tambem as antigas de que nunca houve compo- 
siySo; pois é d'estas questSes que vivem tanto os potentados 
comò OS seus povos. 

E o meio de adquirirem com que se manterem, pois, a nSo 
ser um ou outro mostre de officio que alguma cousa ganba 
pelo seu trabalho; o resto està sempre na ociosidade ou pen- 



400 



EXFEDI9IO POBTUQUKZA AO MUAT1ÌNVUA 



k 



saado corno suscitar questlo com outro, e d'elio haver qual-l 
quer cousd que eabe elle possue. 

Por iato todns os dina é frequente ver-sc um individuo, e 
nSo sSo maU, depois de cimiprimentar o potentado, di^graaitar 1 
dcante d'elle, aobre a pelle em que se senta, urna bra^a è 
baeta, ou um panno jà feito de quatquer fazenda, ou urna | 
caneca de polvora ou meamo umu arma, ou se de maìa mo- 
deetas ci rcum stane iaa, um ou dois prutos ou urna caneca; e 
corno isto é da praxe, vae depoia para o scu logar eaperar | 
quB potentado Ibe conceda a palavra para tratar da sua 1 
queixa. 

Àlguns, principalmente sendu quilolos, depois de se scnta- 
rem tlram do aeu cinto ou do penteado um cLìfre, que espe- 
tam deante de si, e isso é signal de urgencia para a resolu^ilo j 
da questa que deaejam apresentar para julgamento. 

Logo que o pretendente obtem a palavra faz a aua represen- 
taySo ou queixa, ouvida a qual, se manda chamar o accusado 1 
se o La, a quem se dà parte da queixa contra elle e se Ibe I 
ouve que tem a allegar em sua defcza. 

E costume, quando o accuaado è avisado de que ba urna mi- 
longa («demanda») contra elle e que vae Julgar-se, aprescntar- 
sc na audiencia com seu lenii>a («advogadop) para o defender. 

O potentado em seguida dà a palavra a um quilolo, que 
escolbe entre os velboa parentea, para eate fazer urna eapecie 
de relatorio e dar o seu parecer. 

Oa outroa ou apoìam ou fazem as suaa observayffes, e todoa 
maìa ou menos se pronunciam a favor d'aquclle a quem acham 
razilo, e entSo o potentado retira por uni pouco, determinando 
aos aeua conselheiros que resolvam de modo a fazer-se inteira \ 
justija; e quando volta depois de ouvir o que votaram, pro- 
nuncia a sentenza dizendo ao que perdeu a questuo o que tem 
a pagar, do que elle vem a receber proventoa, aasim comò do 
que soHcitou a resolu9ào da pendencia. 

Entre os Qiùòcos, estes proventos aio sempre mais avulta- 
doB, e por isso meamo os pagamentos por taes queatSes bSo 
muito onerosoB. 



lì 



*j. 



ETHNOQRAPHIA E HISTOBU 



401 



Em Caesanje, no Xinje e no Liibuco tambem ha eetae au- 
diencìas; porém no Lubuco aa questùoa que se apresentam 
bSo de natiireza diversa, sSo "consideradas superiores, ou por 
causa de feiti5aria ou por easoa de morte, que se dào geral- 
mente de algum homem contra a sua companheira, porque silo 
multo ciumentoB. Por nmharias e mesmo t'urtoB, poucoB julga- 
mentOB teem logar. 

NoB outros povoB, estaB queatSes silo frequentes, e por qual- 
qner pretesto, poÌB constituem por aBsim dìzer o Beu modo de 
TÌda, e muìtas sib alimenta- 
daa pelos proprins potentadoa 
que tambem d'ellaa vivem, 

Os QuiScos sobre qualquer 
pretexto fazem uma milooga, 
e aprcciam multo quando aa 
podem le vantar com pessoas 
estranhas &a auaa povoa90ea. 

Oa vendi IhSes procuram 
comitivas de commercio j4 
de caso pensado, e dirigem- 
ee a individuoa d'essaa eomi- 
tivas a tim de ganharem 
milonga, que ellesjàviìo pro- 
jectando pelo caminbo comò 
ÌAo de proniover. E alguns 
eatSo jd tSo habituados à cliicana, que ncm ae dSo a esae 
trabaiho, eaperam que o enaejo BC lliea offere^a. 

Hoje com todos eates povoa succedo o mesmo; porém os 
Qui6cos eatSo em primeiro logar, e depois os Bàngalas toma- 
ram-Be distinctos no modo de arranjar a milonga, de forma a 
ganbarem-na, e por isso mesmo sSo conaideradoB comò os mais 
espertos, ìsto é, os mais precavidos e cautelosoa. 

Um vendilbilo Quióco apresenta a sua carga, pequena ou 
grande que seja, a quem procura para negocìo, e acocorado 
ao seu lado principia a discutir sobre pre^os, quantidadea, 
qualidades, etc., e jà de principio é precìso muito cuidado. 




/ 



402 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATLÌNVUA 

Urna pouca de farinha que se entorne, urna panolla^ cahaga, 
ou qualquer cousa que tombe ou se quebre, urna questao de 
palavra toraada em sentido diflFerente, o pegar nos objeetos a 
negociar antes de os ter pago, etc, sSo casos para o vendilhSo 
abandonar a carga ao individuo coni quem esses casos se de- 
rcm, arbitrando logo ao damno um prefo fabuloso, e aquelle 
ainda tem de ir sustentar a demanda perante o potentado, que 
tambem se ha de pagar por bom pre90. 

Vou dar conhecimento de alguns factos que observei e que 
demonstram comò està gente é artificiosa para chegar aos fina 
que tem em vista. 

Um carregador da Expedi^fto travou rela95es de amizade 
com um Muana Angana (senlior) de urna povoa§So vizinha do 
nesso acampamento, a ponto, o que nào é trivial, de aquelle 
Ihe dar creditos nao so de alimentos, mas ainda de fazendas. 
carregador pediu um dia àquelle senlior que Ihe fizesse 
um remedio, para se tornar bom ca^ador. Consiste o remedio 
num certo numero de ceremonias, e na prepara^ao de certas 
drogas quo se dao a beber aos que da melhor fé consultam 
OS entendedores, e ainda de outras com que esfregam o corpo 
e a aima que ha de servir na prime ira ca9ada, o que tudo 
preenche um certo numero de dias, e tem de ser pago e 
bem pago depois; se ó que o cliente nSo tem de sujeitar-se 
a novas ceremonias por ter side infeliz na primeira ca9ada, 
porque entào ainda mais tem de pagar, e iste repete-se até 
que mate um animai qualquer, o que tem for9osamente de 
acontecer, porque o remedio, segundo elles, é infallivel. 

O individuo, porém, que a elle recorre é sempre vigiado 
até que pague. 

Como o carregador era filho de Muene Puto, tinha credito, 
e passadas as primeiras ceremonias que duraram tres dias, veiu 
Muana Angtoa ao acampamento por ser dia de pagamento 
de ra93es. 

Succedeu porém no dia seguinte que o rapaz, que jà estava 
anemico, nSo dava accordo de si, e pedindo-se para elle soc- 
corros medicos, estes jà foram tardios. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 403 

Teve noticia o Muana Angana de que o seu amigo morréra 
e fora enterrado, e por isso veiu demandar os do seu fogo, 
por nSo Ihe haverem coramunicado que elle tivesse adoecido e 
por o nao chamarem para chorar o seu obito. 

Estava posta a questao que tinha de levantar-se e diseu- 
tir-se. 

Sabiam os do fogo que o seu falleeido corapanheiro devia 
àquelle Muana Angana, nao so alguuia fazcnda, corno tambem 
alimentos, e suppondo que elle se contentaria com o paga- 
mento das dividas, para evitar dcraandas procuraram chegar 
a um accordo sobre esse pagamento com elle e com tres indi- 
viduos de mais considerayao que o acompanhavam. Ató este 
ponto marcharam as cousas multo bom e os Quiocos trataram 
de recollier o que so llies deu. 

Findo este negocio, lembraram tambc^m ser preciso dar-se- 
Ihes alguma cousa por niio se ter prevenido o Muana Angana, 
amigo do devedor, de este ter adoecido. Responderam os com- 
panheiros do defuncto, que nao tiveram tempo porque elle 
morréra quasi de repente. 

— Nrio foi outro motivo ? Ihes pergunta o considerado comò 
conselheiro mais velho. 

— Nilo senlior, disseram-lhe os rapazes. 

— Sabiam entao que elle era amigo e hospede do Muana 
Angana? 

— Sim senhor. 

— Entao nesso caso, diz-lhc o conselheiro, confessam o seu 
crime, porque embora morresse o homem, um de V. podia ir 
dar parte do succedido. 

Nao concordaram os rapazes com a tal milonga; porém, 
temendo que passados dias se levantasse algum conflicto com 
alguemdo fogo, que tivesse por qualquer circumstancia de 
transitar pelas terras ou vizinhangas do Muana Angana, enten- 
deram dover conferenciar, e quotisaram-se a final para Ihe 
darem alguma cuusa. 

E sobre esse pagamento houve grande discussSo, chegando 
todos a um accordo ja depois do sol posto, e por isso os do 



404 



EXPEDI^XO PORTDQDEZA AO m.'ATlAs^'CA 



fogo entenderam nSo B(1 dar agasalho aos QuÌ8co8 corno dar- 
Ihea ainda de corner e de fumar, na supposi^ào de qiic tiido 
estava acabado e que rccolliiam amigos. 

E preciso que se note, que ludo ae passava sem que I 
ttvcBae d'isso conbeeimento, e nesse dia eu ostava ODtretjl 
com Mona Congelo e Xacumlia, grandes entre os Quiócos, i 
taes quo Bc diziam paes de Mona Quissengiic, que eu mandi 
cliamar para me prestnrem um servilo com respcitn a QnU 
sengue. Estea iodivìduos neasa noite dorniiram tambem ; 
acampamento. 

Ob pi'omotores da questuo comeram, beberam, fumaraml 
dormìram, parecendo qiie deviam estar rauito satisfeitos e 
03 aiuigoa quo assim os recebiaiui por^-ni logo de maiihìE, chi 
niaram o cabega da gente do fogo que Ihes dera tio.spìtalidac 
para continnarem a sua milouga. 

O cabe^a Kurprehendido, diz-llie: 

— Qual iniloiiga, entiìo isso n^ lìcou acabado hontem? 

— Nilo senlior, repUcou o veiho, ficou acceito e addiado por- 
que V. oiivirain a queixa de Milana Angana, fizcr&m com que 
elle nìlo chorasse o obito de &eu amigo, e d'isto ano se tratoiu 
dando-uoa V. boa hospedagem, de corner e fumar, que é ^ 
prova da iiossa raz^o. Se asaim nSo fosse V. mandavam-aoi 
embora para as uosaaa casas. Quando nSo ha raz2o, quan^ 
duas poEsoas nào ostilo em barmonia, cada um puxa para i 
Bcu lado e nÌ!o podem ser nmigos, 

Os homens do fogi nesta questUo continuarara em divergei 
cias, e entào vicram todos allegar (cussopa) perante mira o qaj 
elles chamavam a sua razSo. 

Estavam presentes oa meua amigos Mona Gongolo e '. 
cumba, quo queriam retirar, mas a meu pedido, pois ee t 
tava do questào com Quiócos, ficaram. 

Procurei convencer os Quiócoa de que ellea nSo tinhai 
razilo para a sua queixa, e que jà de mais haviara pago M^ 
companheiros do fallecido, e ali^m d'isso que ellea nfio eram 
parentea d'elle para exigirem a participajKo do obito, e aoabcì 
por dizer-lhes que se oa carregadores antes de terem resolvido 





ETHNOQRAPHIA E UIStUBlA 



405 



pttgar-Uies as dividaa e dar-lhea hospital idade, me houvcsscm 
cousultado, uada terìam dadu. 

Kespondeti eutSu o Muaua Àngana: 

— Muene Puto podia fazer assim porque é o senhor d'estas 
terras, e a Muene Putto todos obedccem, mas isso nSo era de 
justija, e o Miiene Puto i|ueria-ine mal, pois me dcsacreditava. 
O morto levoii para a cova o remedio q«e eti Ihe fiz e estra- 
goii-m'o. Se me tiveeaem raandado cliamar, eu mesmo depois 
d'elle morto, fazia outro reme- 
dio para Ihe tirar o primeiro, 
que nào perdia avirtude. Assim 
nào su perdi o pagamento dos 
meus remedios, mas ji nilo 
posso ser bom ca^ador, porqiie 
o remedio que eu tinha feito 
foi com morto. 

homem discorreu milito 
tempo sobre eate asaumpto para 
me coDvencer da sua razào. 

Quando elle acabou de fallar, 
disse-lhe eatarem preaentes dois 
potentadoa tambem Quiòcoa, 
quo conbeciam os costumea 
doB filhoB de Muene Puto e 
iam ouvir o que estava no aeu 

cora^So, e elles deciiliriam de- _ 

poia corno se devia por um 
termo & milonga. 

— Teado V. feito urna bcbida para um homem tornar, e 
morrendo eate no outi'o dia, comò prova V. que elle n5o morreu 
d'esfia btbida? 

Todos se mostraram aurprehendidoa com o que eu diasera, 
e o Muaoa Angaua retorqiiiu muito depressa^ Muene Puto 
cucarumuna milonga, («inverteu a mitonga») nauhukd («aca- 
bou») — , e deitou a fugir com oa companheiros, licando a rir 
a bom rir todos oa que prcsenciaram a scena. 




406 



GXPEDI^XO POBTDGtTEZA AO KDATUnVDA 



3cn- 



Eis caso: duvidar-Bc que iim Muana Angana Quiiìco 
fazor remedioa e possa urna bi^bldn por elle prcparada cauEU 
a morti; de qiieui a b^ba, é apont^-lo corno feitìceìro il execn- 
9S0 publica, SBria caso para urna gnerra eutre iodìvidiiOB 
igual posi^io; mas corno se tratava com Muene Piito fu^i 
para iiào haver mais qtiestSes a tal respeito. 

Pareeia-mci pois que se teria acabado a tal mìlonga, 
aioda d'està vez nSo terminerà. 

Paasados dois mczes jà eu estava no Caungiila de Matsl 
nn EstaySo Serpa Finto, Capello e Ivens, tivù participa^lto 
de que um dos carregadores, que fìc&ra atrasado em marchtt 
com urna carga, havìa sÌdo agarrado por gente d'aquelle SIui 
Angana, e quo um Lunda ao ser^'ico da Expudi^So que tii 
presenciado facto, fóra procurar o Muana Angana e Ihe dt 
a sua arma para rcsgate do carregador e da cai-ga que perti 
eia a Muene Puto. 

homeiu aunuiu ao rcsgate, dizendo que nào querìa quea? 
tòes com Muone Puto, e que a anna ticava para tornar o logar 
do remudio que icvjira o morto. 

Custava-inti que semelhante ardii lìcnase impune; porém 
corno o Miuina Augana jd estava a tres dias de jornada da 
uoasa Esti^^Au e eu tivesse de fazer dcspesas jiara lA mandar 
algueni Iratar do aasumpto, que na occastSo jit me niU) era 
tacii, fiz mesmo que o indigena — nSo desistuido da questuo, 
addìei-a para melhor opportunidade. 

Procedi sempre asaim em todas ae pendenclas em que Uve 
de intervir com oa iudigenas ainda oh mais bojaes: perdo-se 
multo tempo, é poréui o ayatema d'elles quando rocouliecem 
Ber infructUero reeorrer il l'orba. 

EUes na verdade sao insignes em nos darem provas da sua 
paciencia e peraistencia para conseguirem os seua Sub; porém 
na lueta eommigo a tal reapeito mostrei-lbes sempre que nio 
levavam ji melhor. 

De dia para dia, reconhecia a necessìdadc de me tornar 
gcDtio, de nSo alterar o meu espirito, de acceitar com a maxima 
resigna^ào todas as eontrartedadcBj de obrar segando os acon- 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 407 

tecimentos, e nos ultimos tempos até de nSo pensar no futuro, 
porque o mais insignificante projecto baqueia, quando os recur- 
sos com que contàmos dependem d'elles. 

Trabalhar sempre com constancia para alcan5ar o que se 
tenta, empregando os meios ainda os mais astuciosos, se isso 
depende da forja da argumentagSo, embora se perca muito 
tempo e mostrando a cada momento que se nSo receia da forya, 
é de certo luctar com vantagem com o gentio que està em sua 
casa. 

Esperava eu a visita de Mona Quissengue, potentado a quem 
todos OS Quiócos obedeciam embora pertencessera a tribus que 
reconheciam comò chefe principal Quiniama ou Ambumba, 
de estados independentes, e por isso fiz ten92lo de aproveitar 
ensejo para o fazer sciente de todas as occorrencias com 
Muana Angana. 

Quissengue mostrou-se surprehendido da ousadia d'elle para 
com Muene Puto, senhor d'estas terras, e fez sair a sua ban- 
deira para Ihe exijir o pagamento do crime, baseando-se a exi- 
gencia nos factos occorridos e expostos, segundo o seu uso en- 
volvidos em compara9oes, de modo que o horaem, se nSLo desse 
a milonga por perdida, tinha ou de fugir com os seus ou por 
muito tempo estar sujeito a satìsfazer a todas as exigencias, nao 
so do Quissengue mas dos que quizessem abusar do seu nome. 

Quatro dias depois de ter partido a bandeira, mandava-rac 
Quissengue apresentar a espingarda do Lunda, mais outra e 
ura rapaz, sendo isto a multa que o outro tivera de pagar. 
Acceitei a priraeira espingarda, que mandei entregar ao seu 
dono, e fui em seguida agradecer a Quissengue pedindo para 
elle ficar com a outra e da-la a quem entendesse, e me per- 
mittisse deixar ficar o rapaz ao servigo do portador da sua ban- 
deira; ao que elle annuiu, dando-lhe tambem a espingarda. 

O Muana Angana havia batido com o machado na arvore, 
& sombra da qual teve legar a discussilo com o representante 
de Quissengue; este dera-llie a pembe para fechar a bocca; 
nunca mais se podi a fallar em tal questFto a pessoa alguma. 
Estava terminada para todos os effeitos. 



408 EXPEDigXo POltTUGUEZA AO MUATIANVUA 

Um outro facto: — Tandaganje (V. pag. 136), um Qui6co 
importante, querendo escolher um novo sitio para se estabe- 
lecer ao norte na eonfluencia do Luachimo com o Chiùmbue, 
passando pelas terras do Chibango, onde nós estavamos, Esta- 
9ao Conde de f'icalho, e sendo antigo amigo do Muatiànvua, 
entendeu dever visità-lo e demorar-se dois dias com toda a 
sua comitiva perto d'elle, a fim de conversarem e beberem 
juntos, comò elles dizem. 

Foram dois dias de festa para aquelles amigos, que se recor- 
daram das suas rapaziadas, ca9ada8 aos elephantes, etc. 

O Muatiànvua querendo dar urna prova da considera9So que 
tinha por aquelle Quióco seu parente e amigo, entendeu man- 
dar acompanhd-lo no reconhecimento que se ia fazer a tres 
dias de jornada, ppr um velbo cacuata e a sua gente armada. 

O cacuata, ficando à dÌ8po8Ì9ao do hospede, foi, comò é de 
costume, com todas as suas mulheres, filhos e povo. 

Logo na primeira noite, em que haviam acampado, caso im- 
previsto, alteraram-se as boas rela95es de amizade entre os da 
comitiva em viajem, e d'ahi se originou uma questuo grave, 
que poderia ter consequencias funestas se nSLo tivesse havido 
a necessaria prudencia de parte a parte. 

Os viajantes haviam comido sem distinc9ao entre Lundas e 
Quiòcos, reinando a melhor harmonia entre todos, e para se 
tornarem agradaveis ao Muana Angana, Tandaganje e seu 
amigo Quipoco que o acompanhava, trataram de dansar em 
roda de uma fogueira em frente d 'aquelle, ao lado do qual 
estavam sentadas as mulheres de mais considera9ào, que nào 
dansavam. 

Em roda da dansa, acocorados comò de costume, estavam 
diversos individuos que, nSo podiam ou nSo queriam tomar 
parte nella, e comò estavam de viagem, todos elles tinham 
as suas espingardas com o conce sobre o solo, e o cano para 
ar entalado entre o bra90 direito e o corpo. 

Jà se havia dansado bastante e succedeu que um dos rapazea 
que rodeavam os dansarinos e ficava à fidente da primeira mu- 
Iher de Tandaganje, fez um movimento qualquer: a espin- 



ETHHOORAf BIA E HISTOBU 



409 



garda diaparou-se e a baia foÌ cravar-se no peito da desdìtosa 
mullier m alando -a. 

Grande burborinhol todos oa Lundaa forani amarrados, e 
houve discuasSo por loda a noite ! 

A mulher era parente de um Quiascngue, era grande o crime I 
Era preciao enterri-la porque estavam era viagem e voltarem 
atràa ao acampameoto do Muati^vua a apreaentar a milonga, 
pagarem-ae do crime e , , , . 

irem depoia para a su;i 
terra chorar o obito. 

N3o eram jA oa amigus 
que aairam na vespe ni 
muito aatiafeitos coni a 
hoapitalidade do acampi)- 
mento, eram inimign; 
qiie chegavam ii locai 1- 
dade e acampavani a ~ 
kilometroa de diafanci:! 
d'aquelle acarapamenlo . 
Jd a^o eram os dola arai- 
goB que estiverara bob, 
comendo, bebé odo e eoa- 
versando durante doia 
diaa; mas dola contendo- 
rea que ae nSo podìam 
aviatar e que nomearam 
quem oa re presentasse ~ -- — 

para tratar da demanda 

qne ae ia levantar, e que era apreaentada pelo queìxoso, quo 
exigia o pagamento d'aquella vida. 

Primoiro: Era preciao reconhecer-ae daa razSea allegadaa 
pelos queisoBOs e acceitar-ae a milonga, alida aeria declarada 
a guerra, era que tomariam parte todos os Quiòcoa pro&imoa, 
logo que ella ae declarasse, e a quo ae iriam lUiindo outros. 

Segundo : Chegar-ae a um accordo aobre o pagamento e 
iiobre outras exìgenciaa, e durante a luta daa diacuaaSes prò- 




^^-s- 



410 



EXFGDl^JEO POBTDODEZA AO HDATUnvuA 



ceder-se cautelosamente para que se nSo levantassem novi 
incidentea, o que importava novas milongas. 

EataDtlo o MuatiÙDTua ein viagem pam ir inTestir-se àtM 
Buctoriilade para que fórn eleito, e harettclo difficuldades pimi 
pasBar era terras de Mritaba e pendoncias a regoìver com os | 
Quiòcoa do Cassai, aconaelhava a priidencia nSo so o acceitar-se | 
a mìloitga, porque de mais era roconliccìda a razìtoj mas ainda 1 
desfazer todos oa attrictos para se p5r termo no menor praso I 
possivel a essa desgra^ada demanda, e de modo a haver am« 
re conciliammo, e que nSo mais se pudesse fallar em tal milongs, 
OH servir ella de pretesto a futuras compUca^fSes entre os Qni6- 
cos e Lundas. 

Da parte de Tandaganje trabaHiava Quipoco com nm do« 
seua, e o mais velho da comitiva do prìmeìro; da parte do 
MiiatiAuvua o seu irmSo Suana Mulopo, Chibango, potentado 
da localidade e lanvo, muitiimbo (interprete) do Muatiànvua. 

velho cacuata, pae do rapaz com quem se dcu aqnella | 
infelicidade, foi mandado apresentar ao Muatiànvua; porém i 
toda a sua gente ficou comò refcns emquanto ae tratou da | 
questuo no acampameiito dos Quiócos. 

Durou qitatro dias, trabalhando-sa sempre, a resolu^So 
d'aquella importante pendencia, porqiie aa exigencìas eram 
grande» ; cbegando-se finalmente a um accordo de pagamento, 
que se fez a pouco e pouco de vìnte peasoas, homens, mulbe- 
res e ereanyas, quntro barris de polvora (de arratel), quatro j 
armas lazarinas, quatro paunos de chita, dois de riacado e 1 
quatro prato s de lou^. 

DIas depois dizia-me o Muatiàuvua com certa graja : — Bem 
cara me custou a lembranja das minliaa rapaziadas, e o panno 
que me trouxe de presente aquelle aiuigo. Mas que Ihe bave- 
mos de fazer? A gente da Lunda està assim, sSo creangaa 
sem juizo e querem Muati^vua b6 para pagar por elles ne i 
Buaa tonterìas. 

Satisfeito pagamento, reuairam-se os repreaentantes de 
ambas as parte», trazendo os do Muatianvtia uma cabra e um 
prato, oa do Tandaganje um machado e um pedalo de pembe. 




ETNOGRAPHU E HISTORIA 411 

A cabra, depois de morta e esfollada, foi aberta ao meio e 
separada em duas partes iguaes, ficando ao lado do grupo. 
Sobre o prato apresentado pelos Lundas foi collocado o pedago 
de pembe. Quipoco tomou o peda90 e tra9ou urna cruz sobre 
OS beigos e outras sobre a testa, a meio peito, nos bra908 e nos 
pulsos, dizendo ao mesmo tempo: — nSo sera Tandaganje, que 
eu representOy que mais fallard nesta milonga, nem tSo pouco 
OS seus filhos ; durmam descansados os Lundas, que nào serio 
mais incommodados por este motivo. 

O Suana Mulopo, por parte do Muatìànvua, fez o mesmo 
dizendo: — durmam bem os Quiòcos, que o Muatiànvua decla- 
ra-se satisfeito e nSlo serio nem elle nem os seus filhos que 
se lembrarSo mais d'està milonga. 

Repetiram de parte a parte todos o mesmo. 

Depois Quipoco deu o machado a Suana Mulopo, que cor- 
tando urna lasca de madeira da arvore mais proxima a passou 
a Quipoco, dizendo-lhe: — Entrego-te da parte do Muatiànvua 
para Tandaganje, o testemunho de que està arvore assistiu & 
reconcilia9So entro elles. 

Quipoco fez e disse o mesmo da parte de Tandaganje para 
com Muatiànvua, e depois cada grupo levou metade da cabra 
para corner. 

E é assim era geral que os QuiScos fazem terminar todas 
as suas milongas, na certeza de que se faltar alguns d*estes 
preceitos, a questào da parte d'elles nào està bem terminada 
e revive mais tarde. Entre os Lundas diflFere um pouco, comò 
vcrcmos. 

Referiremos outro facto em que se denota o pretexto cavi- 
loso para forjar uma milonga, e comò sobre elle se sustenta 
com vantagem urna discussSo com individuos que estejam de 
boa fé. 

Na Estayào Pinheiro Cliagas na margem do Calànhi, além 
da colonia ambaquista, reuniram-sc mais de quinhentos Lundas 
fugidos das suas casas, pelo receio que tinham de serem pre- 
80S pelos Quiocos, que cercaram todas as povoa9(5es entre os 
rios Lulùa e Calànhi. 



( 



412 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

Os chefes d^esses acampamentos de Qui6cos, respeitando a 
bandeira portugueza, vinham visitar-me e chegaram a dizer-me 
que sablam que junto de Maene Fato estavam muitos Lundas 
escondidos, mas que nSo saissem d'ali mesmo para as lavras^ 
seni serem acompanhados por meus filhos, alias podiam ser 
presos pelos Quiòcos que andavam por fora espalhados, e elles 
nào queriam que Muene Puto se zangasse. 

Por ultimo appareceram uns Luenas (Quiócos do sul), que 
tinham pendencias antigas com o velho Rocha, chefe da colo- 
nia, e lembraram-se urna tarde de o procurar. Era uma comi- 
tiva de nao menos de vinte com armas. 

Queixaram-se ao Rocha que um Lunda na vespera, tendo 
apanhado um rapaz Quiòco, Ihe tiràra uma arma, deixando-o 
prostrado no caminho muito maltratado de pancadas, e que 
seguindo elles as pisadas no caminho por onde aquelle se 
escapàra, conheceram que o malfeitor estava escondido entra 
a sua gente, e por isso Ihe vinham pedir, visto estar ali 
Muene Puto, que fosse elle Rocha, que devia conhecer esse 
Lunda, para fazer com que elle entregasse a arma que per- 
tencia a Quissengue. 

Foram dar-me parte d'este incidente, e comò era proximo 
do sol posto lembrei-me de que elles quereriam ficar de noite 
na colonia para surprehenderem os Lundas, e de certo have- 
ria grande balburdia e conflictos mesmo com a gente da colo- 
nia; por isso fui tur com elles na resolugSo de os desviar d'esse 
intento. , 

Expozeram-me o motivo porque vinham até ali, e eu respon- 
di-lhes que elles nSo tinham prova alguma de que esse Lunda 
ali estivesse, que poderia mesmo esse rasto ser ou de algum 
Quioco, pois nesso sitio passavam muitos, ou de gente minha 
que todos os dias ia para as lavras, e mesmo que fosse de um 
homem da Lunda que diziam ter roubado uma arma, poderia 
este ter passado para outro sitio; que além d'isso imi ladrSo 
nunca diz a ninguem o roubo que faz, e ninguem pode dizer 
que uma arma que qualquer traz é roubada, e portiinto Rocha 
nào podia ser responsavel pelos roubos que se lizessem. 



ETHNOGRAPHIÀ E HISTORIA 413 

— Mas elle corno velho, replicou o chefe, pode indagar, pro- 
curar e chegar a saber pela sua gente, se na verdade estarà por 
aqui porto um Lunda com urna arma roubada. 

— Como questSo de favor poderà elle procurar, mas isso leva 
tempo e nSo é agora proximo da noite que se fazem essas 
buscas. 

— Mas nós ficàmos c& o tempo que for preciso, o sr. major 
é Muene Puto, mas tambem é Quissengue para nós, porque 
é amigo duello, e nós ao pé de Quissengue nSo o podemos 
incommodar, havemos de respeitar as suas ordens, e o Rocha 
no emtanto vae procurando. 

— Aqui nao podem ficar, nem temos sitio para os receber, 
nem corner para Ihes dar, e n^io é de noite que se tratam 
essas questòes. 

— Muene Puto que se nSo zangue, que nós viremos outro 
dia, o Muene Puto é Quissengue, o Quissengue é Mueue Puto, 
sSo nossos amos, e o que elles dizem é o que nós fazemos. 

Mas Muene Puto que é amigo de Quissengue, nSo quer 
que roubem uma arma do seu amigo, e por isso o Rocha, que 
ha muitos annos aqui vive e é amigo dos Lundas, pode pro- 
curar essa arma para nós levarmos a Quissengue. 

— Com respeito ao sr. Rocha, que responda o que quizer, 
porém hoje jà n[lo pode tratar d'isso. 

Entendeu o bom do meu interprete, primo do tal Rocha, 
para dar mais for9a à resposta, imitar os Quiócos nas suas 
comparagSes, e acrescentar o que so depois pude saber: — De- 
vem retirar satisfeitos com a resposta de Muene Puto, pois 
bem sabem que onde estA o leito nSo pode parir a cabra. 

E certo que, acabando de fallar, notei que, ao despedir-se 
de mini o chefe dos Quiócos, todos corresponderam e retira- 
ram a passos largos, segundo seu costume, e que iam satis- 
feitos. 

NSo mais se pensou na questSo; porém tres dias depois 
apparecem outra vez os homens, e d'està vez procurando-me. 

— Fizemos o que Muene Puto nos disse, retiràmos para 
deixar parir a cabra. 



414 



EXPEDI^So PORTDGCEZA AO MnATlJtSVnA 



r 



Confesso que fiqaei sizrprehendido, porquc nSo podia com- 
prehender ao que elles qiieriam chegar. 

Elles insietiam no dito e o uieu interprete atoleìmado, mos- 
trava-se ignorante ou nilo llie convinha explicnr a consequen- 
cia da sua estupida comparagSo; mas corno era preciso eu ficar 
sciente do qiie se estava pasaaudo para responder aos homens, 
fcram os rapazcs de Loaoda, o Rocha e outroe Ambaquistas 
que explicaraiu a estup'ida eomparnjiio do interprete. 

— Eu Hou Quisaengue, Ihea reepondi, e nSo è a tnim de 
eerto a quera procuram, Q^issengue ouve e reaolve aobro 
aa pendencias entre a gente do seu povo, mas nSo discute 
nem levanta queatSea. 

— -Sim eenhor, dizcni elles, mas Muene Poto ó apessoade 
respeito que estil aqui, e o muzunibo, quando outro dia uos 
maadou embora, disse-nos que o ladrito nflo podia apresentar 
a arma, na preaen^ji do roiibado, e por isao nós durante tres 
diaa nSo viemos c& para elle entregar a anna ao Roclin. E 
este agora tcm de uoa entregar essa arma ou o pagamento d'ella 
para o levarmos a Quisaengue. 

— Rocha e aeus companheiros fallam muito bem a lingua 
de V.; entendam-se depoia sobre esses negocìos, na certeza de 
que eu nSo quero bulhas no acampamento, e portem-se bem. 
Saibam que eu vou d'aqni para u Quissengue e dirci tndo o 
que se passar. 

— Mueue Puto esteja deacansado todos os seus filhos, que 
n&o daremo» motiros para o dcsgostar, o vanioa trstar da 
noBSa questuo com o sr. Rocìia no logar qiie elle nos indique. 

A questSo ia bem e estava julgada perdlda pelos QuÌ3eoa ; 
porém Roclia quo tìnba quatorze annos de pratica coni os cos- 
tumes de Lundaa e Quiòcos, quercudo nSo obstantc sei- amave] 
com o8 seus contcndores, esqueceu esses costumoa, e corno tiuha 
tabaco de aobra ofi'ereceH duas pilhaa a cada um e deu fogo ao 
chefe. Eatava virada a milonga, havia-Ibes dado razìto. 

NSo tendo a arma, nBio sabendo quem a tinlra, e scredi- 
tando mesmo que era um roubo imagÌnarÌo, tinba ainda aasim 
de a pagar. 




ETHKOQBAPHIA B HISTORIA 415 

Sendo as queixas contra um Lunda, os Lundas quizeram 
quotisar-se para auxiliar o Rocha no pagamento. 

A exigencia era grande, de cem pessoas; porém depois de 
muita diseussSo, em que Rocha e os seus tiveram de sustentar 
por dois dias a comitiva, ficàra reduzida a vinte; e entre ra- 
pazes e mulheres da Lunda, jà fatigados de andarem em cor- 
rerias passando fome, fngindo aos Quiòcos, apresentaram-se 
trinta, que quizeram ir com estes, salvando-se ainda o Rocha 
d'està vez de grandes apuros. 

Depois da entrega da pembe pela forma que j4 conhecemos, 
disse ao Rocha o chefe d'està quadrilha, cujo retrato apre- 
sentàmos na pagina seguinte. 

— Meu amigo va para a sua terra com Muene Puto, agora 
escapou d'està milonga^ mas nós temos contas passadas a ajus- 
tar. Sabemos que Muriba fez guerra contra nós com a polvora 
que V. Ihe fomeceu; e se V. fosse um bom filho de Muene 
Puto devia aconselhar Muriba a que nào matasse a nossa gen- 
te, porque se elle era Muatiànvua fomos nós que o fizemos. 

Este Rocha partiu comnosco do Luambata, porém entendeu 
demorar-se no Lulùa para arranjar mantimentos, e constou-me 
mais tarde que toda a sua gente, até antigos pombeiros, Ihe 
fugiram com oito cargas de marfim, e é provavel que elle caisse 
em voltar para o Luambata com a mulher e os filhos. 

As milongas entre Lundas terminam com a distribuÌ9So da 
pembe e da carne de um animai em partes iguaes entre os 
contendores, porém em vez da ceremonia do machado pianta- 
se uma bananeira, deitando-se primeiro na cova o sangue do 
referido animai. 

Quando resgatei a faca do Muatiànvua Ambumba, vulgo Xa- 
nama, do poder do Quissengue para a entregar ao Muatiànvua, 
uma das exigencias de Quissengue, na ceremonia da pembe, 
era que aquelle potentado mandasse matar, para regozijo de 
Quiòcos e Lundas, um grande quilolo do Muatiànvua por elle 
apontado (tal era o odio que elle tinha a Bungulo, que a sua 
gente a fogo nunca pudera vencer), e comò eu Ihe dissesse que 
nunca consentiria em semelhante cousa, lembraram-se entSo 



416 



EIPEDICXO POBTOQDEZA AO MUATLÌNVDA 



dota doa aeua de pedir em logar d'elle a cadeira que eu levava 1 
para o estjido, 

Rnspondi qiie se elles tìnhnm animo e valentìa, mandasseiB 1 
o seii povo nrniado buscÀ-la onde ella estavs, pois a seu ladvl 
so me enfontrariam a mim para a defender. 

Foi Ì9to bastante para Quissengue me abra^ar e affaetar-se 
commigo para diatancia, debaìxo de urna arrorc e mandar vìr 
para n<ÌB urna caba^ com 
mei fermentado, que ainda 
quente bebemos, pcdindo-me 
que esqueeesse o atrevimento 
dos seiis rapazes, e que se - 
terminasse a qucst5o corno I 
cu entendesse pois elle ficava i 
satisfeito. 

Dìzia a gente do Quia* i 

seng;ue que eu tinta enfeiti- 

9ado o seu amo, porque elle I 

viera dn sitio cora tenjSo da I 

levar milita gente da Liuida J 

e quo eccontrando-me j 

déra o caler. E o proprio 1 

— n-"~ ^ — — Quissengue chegava a diz< 

^^^ÌÌ7 -^^-^ 1"f receava eu Ihe fizessa J 

^ *^~ algum feitÌ9o, conversa est» 1 

que, general ia andò- se, ma ] 

entretinha por vezes e me fazia rir de niuito boa vontade. 

Continuando a tratar do asaumpto que interrompi para nar- j 
ragfSo dos pleitoa que acabo de fazer, repito que aa audiencias J 
n2o teem b<ì logar para resolver milongaa. Fazera-se tambem j 
para a rcaolu^So de negoeìoa do estado, para a recepgKo do ' 
visitas ou para se deapacharem ou ouvìrem portadores. 

Eatas audiencias sKo annunciadas, de vespera, a todas OB 
quilolna ou no proprio dia, o que se faz por melo do mondo. < 
Cbamam-se entSo a eatas audiencias tetatm. E o potentado o 1 
primeiro que se apresenta. 




I 



ETHNOGRAPHIÀ E HISTORU 417 

Na Lunda o Muatlànvua sae da chipanga para a ambula^ 
onde ao topo jà està a sua pelle de leSo ou de oii9a e o banco 
para elle se sentar. Vera seguido dos seus caxalapólis e na- 
pumbas com a sua gente armada^ a qual dispara as armas logo 
que Muatiànvua se assenta, annunciando assim que o Mua- 
tiànvua jà està fora e espera pelos seus quilolos. Toca-se entlLo 
o chinguvo e se ha cantador canta emquanto se nSo reunem 
todos. Os quilolos dos lados da Mussuroba sSo os primeiros a 
chegar com a sua gente mais ou menos armada, e todos depois 
de cumprimentarem o Muatiànvua vSo sentar- se nas pelles, 
previamente dispostas, observando as ceremonias jà mencio- 
nadas. Veem por ultimo os que pertencem ao méssu os quaes 
trazem a sua gente aimada na frente aos saltos, e chegando 
à ambula desenvolvem em linha e depois de avan9arem cor- 
rendo e apresentando as suas armas ao potentado, tornam a 
retirar para voltarem a fazer o mesmo e afastarem-se depois 
para os lados, para avan9arem todos os quilolos e filhos do 
Muatiànvua que venham atràs. 

Tive occasiSo de fazer um desenho de uma marcha de Bàn- 
galas analoga a estas, em que ao mesmo tempo aprescntaram 
as suas armas ao Muatiànvua comò signal de respeito e sub- 
missSlo, e por isso fìgurei està marcha, para melhor compre- 
hensSlo do modo comò se apresentam sempre as forgas do méssu 
no tetame annunciado com antecedencia. 

Os que podem sentar-se vSo tomando os seus logares, e, 
geralmente, depois d'isso vao chegando pelos angulos que elles 
fecharam corno os dos lados, por um o Suana Mulopo com a 
sua gente e por outro Muitia, e por ultimo chega a Lucuo- 
quexe com o seu Xamuana e povo. 

Està geralmente passa à frente dos quilolos do méssu, que 
se afastam logo para ella passar, e ahi se senta tendo o seu 
Xamuana (amasio) a seu lado. Quando a Lucuoquexe sae da 
residenoia para o letame, vem montada num servÌ9al, vindo o 
seu povo a correr na frente a abrir caminho, saltando, asso- 
biando e gritando, e tudo que encontram no caminho, sejam 
pessoas sejam cousas, é derribado. 

27 



418 



EXPEDI^Xo PORTCaCEZA AO MOATliSVDA 



NumA oecasmo, no Calàahi, era dia de mercado e a comitiva 
da Luoimquexe niio deu tempo a desviarem-se os vendilliBea 
foni 03 seus r.egocìos. Foi uni destro^o geral, panellae, caba^-ns e 
Babas partidas, azeite entoruado, jlnguba, milho, feijSo, carne, 
peixe, fructas, etc., tudo espalhndo, apanhando cada ma o que 
podia. Uns choravam, outroa gritavam, alguna pragHfijavam, e 
muitos partiram nuina abalada desenfrcada suppondo quv eram 
OB Quiócoa. 

A Lucuoqiiexe quando ehegou Aquella altura, informou-se 
do occorrido e inandou ir tudo mais tarde il Bua residenci^ 
para inderonÌBar os prejuizoB e f&-lo contentando a todos ; no- 
tnndo-se que nilo era de estranhar o que acontecìa, e que ell& 
procederà aasim porque sendo interina no cargo nào queria 
crear inimigos. 

Estando o tetame constituido, mandamse cliamnr as viBitas 
se é para estas quo elio se reuniu. Se sào Lundas, quilolos que 
sejani, apparecem todos com o peito, cara, e bra^oB caìados 
de branco com a pembe e ticam de pé, a grande distancia do 
potontado, batendo aB palmas e dicendo ns palavras que jà 
citilmos. ProBtratn-se depois no cimo rebolando e demorando-se 
de barriga para o ar tres vezes, depoìs ajnelham, contiouando 
se s5o quiloloH a esfregar os brn^oa e cara com a pembe, se 
inferiores a estes, com a terra, e se trazem alguma cousa, o 
quo ó de praxe, aecrescenlam ainda aos cumprimentos, batendo 
palmadas: rapando! capando! uvudlS, stiapdU tamhula colombo 
echi notji, miifamhecamhe, {lunga btdl; o que pouco mais ou 
menoB quer dizer: tF. . . agradece, quer venha depressa (Eu 
F. , . agrade^o) corri depressa, receba grande eenlior desccn- 
dcnte de No^ji, grande dos grandes de llunga cafador». 

Se o potentado toni interrompido com o acu costumado c/ra- 
iiap'-, ou umdi, ou muanìé, enttlo redobram ae taes palmadas, 
rcboIlSes, esfregagSes com a pembe ou terra, dizendo sempre 
a ^-iaita vttdìé, tdluco, vudiè, mucttahatiffo, etc. 

A muaica que sempre comparece nestea actos, principalmente 
a de pancadarla, desde que o potentado estii, toca, e redobra 
de fur^a emquanto a visita està fazendo os seus cumprimentos, 



ETHNOGRAPHIA E HI STORIA 419 

e nSo para para quo a visita possa fallar sem que està Ihe mando 
dar alguma coisa corno gratificagSo. 

Depois de um momento de de8can90 falla entSo a visita e diz 
ao que vem. So ó portador que fora despachado polo poten- 
tado em urna diligencia, ou enviado por alguem, dà entSto o seu 
recado, que todos ouvora em silencio, soltando de quando em 
quanlo algumas das suas exclama9Òes se o caso é para isso, 
ou fazendo gestos significativos uns para os outros de satisfa- 
9ào, de desespero ou de admira9So, conforme o caso. 

Urna interrup9ao do potentado ou do algum quilolo para me- 
Ihor percep9^o, dà motivo a grande explicagUo, e d'està origina- 
se geralmente no auditorio grande burborinho, de que todos 
se aprovoit^lm para dar largas às suas expansSes e mostrar 
o bom ou mau eflfeito que Ihe produziu qualquer ponto da nar- 
ra9ao e a custo a ordem se restabelece; o chinguvo toca-se, 
OS tuxalapólis graduados gritam texànhi {atìen^a.o), jimbula, di- 
zem ao quo falla e o principal encarregado dà ordom ao mos- 
tre de ceremonias para que se nao prolongue muito o totame 
se é de dia: mutena uà auéji (o sol està muito quanto), se é à 
tarde : miUenh udia (o sol està a de spedi r-se), ou cicajnla, (vae 
escurecendo). 

Se a visita é estranha, um Quiòco por exemplo, ent^o o 
ceremonial é um pouco diflferente. A visita ou é Muana Angana 
ou representante d'oste e tra z a sua bandeira, geralmente feita 
de len90s com enfeites do tiras do algodSo ou de baeta, ou en- 
ìKo de baeta encarnada com tiras brancas cruzadas ou dispos- 
tas em diversos sentidos, e na cabe9a a mutue nd caianda, do 
quo jà dei conhecimento, e tambem uma pelle e urna cadeira do 
pau, que faz lombrar pelo tamanho as cadeirinhas de costura. 

A visita colloca-se em fronte do Muatiànvua sentada na sua 
cadeirinha, com a pollo do on9a aos pés, e vem ombrulhada num 
grande panno ou gubo, quo a involvo dos hombros aos pés ; 
de modo quo osto e a mutue aponas Ihe deixam ver a cara. 
Quando se senta, a sua comitiva grita por algum tempo oh! 
oh! oh! O porta-bandeira anda em correria do um para o outro 
lado fazendo tremular a bandeira e dar voltas no ar. 



420 



EXPEDI^XO POHTDGCEZA AO MDATIAnVDA 



Restabelecido o Bilencio, veiu o interprete da visita para o 
centro e o Munfianvua apresenta tanibem o seti que vae para 
defronte d'aquelle, e anibos fieain de coconia. Esfrega-se o 
primeiro com burro 011 terra, comò jA dissemoa que fnzein oa 
Qiii&coB, e do Muatianvua fuz o mesmo corno os Lnndas; 
eSo eumprimentos reciprocoB. Falla primeiro o interprete QuÌ6- 
co que jà traz o recado estudado; responde o do Muatitlnvua; 
depoia cada nm se chega ao seu potentado e era voz alta tran- 
Bmittem os recados. Segue-se o Miiatiàn\-ua a fallar por sua 
vez, responde principiando por agradecer a vÌbìIh, ouvo qual- 
quer observa5ào a que respondo superficialmente, e manda 
descansar o kospede para depoÌB o despaehar bein. Geralmente 
tiestaa occasiSes ha sempre troca de alguns preBeutes, ainda 
que Bejam de pequeno valor. Quando se levanta a visita, a 
comitiva diapara alguns firos. Levantam-se depois os quilolos 
e por ultimo o Muatiànvua, disparando tambem os tuxalapólis 
e OS do mazembe alguns tiros, e vào aconipaiihA-lo retirando 
elle montado num ctimangata até à porta da sua residoncia, 
no meio de cautos, assobios, gritoB, tocando o chinguvo, e die- 
parando-se ainda alguns tiros mais. 

8e o Muatiàtivua nas audiencias lixa a vista em algum qui- 
lolo, cate esfrega logo os bra^os e dia: vudiS, mué ehi noéji; 
agradecendo a honra. Se espirra ja diasemos tarabcm o que 
se pratica. Se concorda com quem falla, este immediatamente 
Buspeode e agradece: vudiPj muanié, mticuà hango, muene 
anganda, muS chi noéji, ctc. 

Quando o Muatiànvua falla e estd contando qualquer cousa, 
referindo-se a urna pessoa 00 logar e aponta comò querendo 
lembrar-se do nome que Ihe esquece, è tambem da praxe que 
o quilolo que tem conLecimento d'aquillo a quo elle se refere 
o auxilie lembrando-lVo, ao que o potentado diz logo: mua- 
nié, e ■prosegue. 

Com reapeito a portadores, jà para levar algimia raensagem 
jà para transmittirem respoataa doa recadoa que trouxeram, de- 
vemoB observar que que elles dizem no tetame é ài vezes 
multo diverso da realidade. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 421 



O Muatiànvua é informado na vespera da realidade das 
cousas pelo seu Muitia, e de accordo com este ordena o que 
convem se diga na ambula. 

Assisti a alguns casos d'estes por convite de Xa Madiamba, 
e vi que na realidade assim era preciso, porque no tetame 
nSo se reunem so os quilolos, é todo o povo, e muitas vezes 
dos rapazes partem inconveniencias. O que o Muatiànvua faz 
muitas vezes é depois de ouvir os portadores mandar chamar 
OS quilolos velhos, aquelles a quem chama avós, os que teem o 
titulo de Càrula, e communicar a estes o verdadeiro recado, ou 
chamar os portadores para que rcpitam, mas com verdade, as 
novas que trazem, deante d'elles. Isto geralmente faz-se de 
noite e muitas vezes em logares distantes da mussumba. Entào 
discutem todos o que ha bom ou mau e o que se deve dizer ou 
nào na ambula. 

O Muatiànvua nao deve dar mostras de se impacientar e 
muito menos dar a perceber os seus sentimentos por qualquer 
noticia mesmo de gravidade, e que nao possa agradar ao Es- 
tado ou à sua pessoa; o mais quo faz é dizer para o audito- 
rio: «Veja là que tal é o sabor d'està garapa (bebida)?» ou 
f'Provem d'està garapa» ou ainda iQue me deixem enterrar os 
ossos na minha terra». 

Antes de aberta a audiencia, ou melhor antes de se tratar 
do assumpto para que foi convocado o tetame, o Muatiànvua e 
em goral todos os potentados d'estes povos, emquanto se vào 
reunindo os individuos que a elle teem obriga9ao de assistir, 
entreteem o tempo narrando historias antigas sobre qualquer 
pretexto que sempre enconti'am, ou interrogando um e outro 
dos individuos presentes de graduayao no Estado sobre algum 
assumpto conhecido ou occorrencia moderna que com elle se 
relacione, ou fallam a proposito de qualquer novidade do dia, 
e a conversa depois generalisa-se entro todos os circumstantes. 

Xa Madiamba era para isso fertil em expedientes e tinha 
fama desde que fora Suana MiJopo de seu tio o Muatiànvua 
Muteba. 



422 EKPEDiglO POETUGOEZA 10 MDATliSVUA 

Entre elles era con^iderado bom urodor, de urna gronde 
rem in! scene ia e sublimo nns coiiipnra^'iScB. 

Nào era liomcm que cocetaase logo o assumptu de qiie queria 
tratar; priiifipisva pur tìguntr o que se deu ou podia dar-se 
eulre individuila de geui()8, caraetercs u for^aa ditìerente» na 
situii^'ào que maii« Ihe cunviulia, uuma ca^ada, nunia guerra, 
em questi'ies doitiesticas, nas de mulhercs, etc., e dtsdeducyilo 
eoi deducffio, chegava ao pontn que Ibo convinha, para entào 
apresentar u assunipto que Ibe iotcrfisiiava. 

Procurava ir dispundo o auditorio a eeu favor, aìnda nos ne- 
gi>cios que Ihe podiam ser deafavoraveis, ou «m que podia ter 
d'elle oppoai^ào, e quando ea conheda eenbor do auditorio, jA ' 
iionvcnciil" -le que vnm elle podia contar, apreaeutava-lhu entao 
a <[Ui-))t ti, e se depeudin de vota^'rto era certo tè-la unanime. 

Nuui dea diaB de juruadii, a muiiri deu parte de estar doente | 
e nàu Ibe ser po^sìvei andar, e elle fez annunciar que nSo se ' 
podia seguir viagom naquelle dia. ' 

Suube que oa representantee dos fidalgoa da cdrte, que 
vicraui por mandadu d'aquelles no seu incontro para e acom- 
panharem para a musaumba, niunnuravaui eontru o euipecìlbo 
da sua companbeira, e que depuis d'elle tornar poaae do eatado 
nào consentiriam que continuasse a aer sua nmàrì por nJlo per- 
teacer é. nobrtiza. Na primeira occasiSio que ae Ihes oSereceu 
enaejo de estareni todos presentes, lenibrou-se elle de contar 
algmuas agruras da sua vìda durante oa doze annos de expa- 
triagào, e poz em relevo os bona aervijoa prestadoB pela unica 
peasoa que nunca o abandondnt. 

— Deixci as mulbcres, deixei lìlboa, deixeì tudo quanto 
tinba, contava elle, e perseguido de dia e de noito e aem ter 
ponsò certo, ncm aabeudo comò arranjar de corner e nào po- 
dendo andar senSo eacondido noa uiatou, sempre ao mcu lado 
tivc urna BCrva, que vendo que neulium dos meua parente» se 
diapunha a acompanbar-me, quiz partilbar da uiinha sorte. 

Ella expuuha a sua vida por mim, Indo arranjar comida, e 
acarrctar agna e lenlia, couatruir a cubata, vigiando ató (juando 
eu dormia, com receio de que um malvado de um aobrinho 





ETHNOQBAFHIA E HISTORIA 423 

^ — 

meu que de tempos a tempos vinha ver-me, me qiùzesse 
matar. 

Eu jà nSo era novo e ella era ainda rapariga; mas prendam 
um cào ao lado de urna cadella e deixem-nos sós por muito 
tempo, embora as idades sejam differentes, o que succede? 
Um cheira o outro, e passado algum tempo jà nào podem viver 
sem a companhia que se costumaram a conhecer. 

E o que succede commigo e a minha mudri. Eu hoje jà nao 
posso viver sem està boa mulher. A ella devo a minha vida. 
Tudo quanto eu tive de soffrer sofifreu ella tambem, e se al- 
guma vez estava resignado, se estava satisfeito a ella o devo. 
De mim que podia esperar ella? Nada. Para qualquer parte 
para onde fosse, ainda nova comò era, estava sempre melhor 
do quo commigo. Nao quiz. Hei de ser eu, agora que me cba- 
mam para o estado, que a hei de repellir? Nao posso, o meu 
coragào nSo o quer. 

Se V. vieram da corte com o encargo de me dizer que ella 
là nSo pode ser minha muàri, voltem a communicar aos se- 
nhores que o Xa Madiamba quer continuar a viver no mato 
comendo massesse (olagartas de arvores») com a sua boa com- 
panheira, e nunca larga-la para ser Muatiànvua. 

Antes de eu ser Muatiànvua jà come9am com os mafefe 
(«intrigasi)), que se hào de depois desenvolver para me mata- 
rem; entào escolham outro Muatiànvua e deixem-me morrer 
descansado, onde està mulher que tem sido a minha unica 
amiga me feche os olhos e me enterre os ossos às escondidas 
da gente da Lunda. 

A narra92lo foi longa porque abrangia um gi-ande numero de 
episodios da sua vida laboriosa, e do modo por que conseguirà 
desviar-se de todas as difficuldades que Ihe sobrevieram, jà 
creadas pelos inimigos, jà pela falta de recursos para se ali- 
mentar; teda via elle alcan9ou um triumpho na atten9So quo 
todos Ihe prestaram, e por ultimo nas ova95es que todos foram 
fazer à muàri. 

Com apoio d'aquella gente, dias depois jà a muàri ia tendo 
o seu estado, isto é, à medida que na viagem vinham chegando 



424 



EXPEDUIAO l'ORTUGOEZA AO UDATIÀNVUA 



representantoB de quilolos que pertenciam itquelle estado, iam- 
se apre senta ndo a ella e ficaram logo ao siìu servilo. 

A miiàri tornou-se depoia ciumenta e Bcuipre leve receioB 
de que os consellieiros do veiho Xa Madiamba eonseguiseem 
conveucè-Io a aubstitui-la, e por isso quando algum quilolo Ite 
apresctitava umn parente, para ir coustituindo o seu eerrallio, 
tratava logo de Ihe dar guarida, mas fora da cliipauga e procu- 



rava acasali-la com algum e 



1 protegidos ; e numa occa- 
eiào, notando cu que urna 
d'essas raparìgas jà esta- 
va gravida, disso-me Xa 
Madiamba multo depres- 
sa: o que està vendo nao 
e obra minha, mas o filho 
que nascer hào de dìzer 
que é meu. 

— Niìo me admira, Ite 
respondi, porque o Mua- 
tiaavua è pac de todos. 
— Nào é isso, me retor- 
quìu, é porque a rapariga 
me pentence. Como me 
. risse pela fleugraa com 
que mo dava tal razSo, 
disse-me elle ainda: 

— Tem razSo para rir, 

mcu amigo, se isso suc- 

cedesse ao meu sobri oLo 

Xanama, jà ella e o pae da erlan^a nfio comiam hoje/Mjy'c*. 

As audicncia« ordinarias fazem-se sempre de madrugada, 

para se evitar a ardencia do sol a que teem de estar expostos 

OS cìrcumstantes; mas nSo lia uma bora determinada e abre-s© 

sempre que comparecc « potentado, que escollie geralmente 



Abi'uviutura dv iufuuili;. 





ETHNOGRAPHU E HISTORIA 425 

urna sombra para em tomo de si se reunirem os individuos 
que jd esperavam e os que vào chegando. 

Se entro as pessoas que apparecem veni alguma de maior 
ìmportancia, avisa-se lego o potentado, que se apressa para nSo 
a fazer esperar; o mesmo se dà quando muita gente o aguarda. 

Estes avisos sSLo feitos muitas vezes por musica. Se por qual- 
quer cireumstancia està um tocador de ehissanje^ de marimbas^ 
ou mesmo de chinguyo que sabe cantar ou acompanhando-se 
no respectivo instrumento, proximo do legar em que està o 
Muatiànvua, encarrega-se de, ao mesmo tempo que entretem os 
grupos de individuos que d'elle se approximam, prevenir o 
Muatiànvua de quem é que o espera. 

cantador, sempre tocando, improvisa nessa occasiSo o 
que canta, e vae juxtapondo, umas em seguida às outras, as 
allusSes que faz, de modo que se accommodem à toada do 
iiistrumento, succedendo assim que umas palavras siU) ditas 
com rapidez e outras sSo allongadas por syllabas, demorando- 
se nas finaes, se é preciso abrangerem as notas que Ihe con- 
veem. 

Registei um d'esses cantos cuja interpretajSo literal é pouco 
mais ou menos a seguinte: 

«Muatiànvua. sol jà vae alto, o que estaes fazendo? As ra- 
parigas nào podem prender-vos. Vós sois pae de muitos filhos. 
Vinde ver os que vos esperam. Teda a noute estivestes com 
as raparigas, comestes e bebestes com ellas. Reparti o resto 
comnosco, se quereis ser bom pae. Nào foram as raparigas 
que vos deram o estado. sol jà està bravo, vinde. Chegou 
F. . . é nesso pae Noéji, que vem salvar a Lunda dos inimi- 
gos: elle é o leSo, mio gosta que o fa9am esperar, tem quatro 
olhos, ve muito bem là para dentro ; se elle se zanga vae bus- 
car-vos; sai, sai, sai.» 

A maior parte das vezes o Muatiànvua, ao ouvir o signal da 
pessoa que chegou, ou recebendo a communica9ào das pessoas 
que jà o esperam, vem para fora. 

Porém, se està bebendo na companhia de algum dos quilolos 
grandes, sobretudo se sào Muatas, demora-so mais porque, 



426 EXPED1(!0 FORTDQDEZA AO UUATIInVCA 

vindu acompanhado coni cstes, todoa sabem que aio foram ss 
niulheres a. causa, da demorn. 

Quando cu chegava, viaha logo o chìota chamar-me da parte 
d'elle, para eu uào ter que esperar; porém se eii encontrava 
alguma pessoa com quem desejava fallar, e pura elle se nSo 
demorar, escusarame a entrar, maodando dizer-lbe que nÙo 
de inorasse a audienci a. 

Outras vczes, os cantadores nlludem a casos que conheceia 
dus antcpassadoà do Muatiiinvua, a ca^adas, ctc, quereodo 
provar ter Lavido prejuizoa era se dcixarem atraaar oa nego- 
cioa por se nSo fazerem as cousas com presteza. 

ÀBHim comò ha sempre palestra antes de se abrir a au- 
diencia, tambem aquellas em que se trata de assumptos da 
guerra, ou de manifeata^flcs de valentia, ou mesoio aqiiellas 
em que se conferem lionraa ou se nomeìam individuos para 
cargoB no estado, terminam sempre pela ctifuhJia. 

N3o consegui que mo explìcasecm bem este vocabulo; mas 
parece-me nào errar dizendo que é uma, ceremonia à uuita^tto 
da que usavam os antigos gladiadores, 

que vae dannar, traisi de puxar o scu panno para cima, 
apertando-o entro o cinto e o corpo de modo que fiquem livrea 
03 movimentos tlas pernas. Desembaìnha a sua grande faca, 
empunha-a bem e depois, U(n pouco agachado, com as pernas 
arqueadas e manej'ando a faca ora para um ora para outro 
lado, de quando cm quando imitando estocadas iuclinadas para 
o cbiìo, e virando a faca ora para cima ora pjira baiso, dan^a 
aoa saltOB, avanzando e recuaudo, dando passos nos bìcos dos 
pés; tudo com muita raptdez, gritando, aasobiando, fazendo 
tregeitos e momicea com a cjibeya, cara e corpo, dando ao tosto 
expressBes do feroeidiKle. E em tudo acouipanbadu pelos ina- 
trumentos de pancada, e pela berraria e assobiada dos circum- 
stautea que o animam. Asaim dan^am até ae fatigarem, indo 
depois à. frentc do potentado num dan5ar verti^noao, imagi- 
nando esforjos grandea, uma lucia em firn com o inimigo, que 
pode ser um homem ou uma fera; e terminam por fazcr meugto 




ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 427 



de tres cstocadas seguidas sobre elle, que està derrubado, e 
depois caem de joelhos em terra abrindo os bra90S; corno quem 
oflFerece os despojos da sua viatoria. 

Em taes casos nSlo se ve so um luctador, vèem-se dois, 
tres, ou mais, e converte se tudo noma perfeita inferneira. 

E preciso nào confundir està cerimonia com a dos tumhajes 
(juizes que se tornam algozes) para os feiticeiros, e que se cha- 
ma cuiasamba; nem com a dos ibinda (ca9adores) que se chama 
uianga, as quaes tambem nào sào danyas comò as usuaes de 
passatempo ou que se fazem para agradar aos quilolos: estas 
teem tambem a sua significa^ao. 

Fazem parte da primeira os que constituem o tribunal que 
julga 08 feiticeiros que se Ihe entregam, ou que teem de per- 
seguir até OS encontrar para os matarem. Da segunda os caya- 
dores, logo qae se determinam as queimadas do capim para 
se podcr ca9ar. 

Uma e outra sào dan9as de roda, nas quaes os que danyam 
cantam alludindo ao firn que teem em vista, amolando de 
quando em quando os primeiros as suas grandes facas, e os 
segundos ornamentando as suas armas e collocando ao pescoyo 
OS amuletos preparados pelos mestres de mais considerayào. 

Durante uma e outra bebe-se, mas nào se pode comer; 
de modo que a certa altura da ceremonia jà os espiritos estào 
perturbados pelo influxo das bebidas fermentadas; e é mesmo 
arriscado ir interromper os da primeira na vertiginosa com- 
mo9ào em que vào clamando pela necessidade de se apresentar 
feiticeiro, para soffrer as torturas a que foi votado. 

Uma noute, estando eu na esta9ào Luciano Cordeiro, era tal 
a influencia dos tumbajes na ceremonia do cuissamba, pois se 
tratava de dois feiticeiros a quem se attribuia a doen9a da muàri 
e a morte de uma mulher que fora temeiiìhe (2.* mulher) do Mua- 
tiànvua, no tempo em que elle era Suana Mulopo de Muteba, 
que elle proprio nào poude resistir-lhe, e com a faca desembai- 
nhada foi para o meio da roda tambem afià-la e cantar e dan9ar. 

Entào enthusiasmo recrudesceu: era imi estrepito que che- 
gava a tomar-se horripilante, e os meus carregadores atemo- 



EXPEDigZo PORTDanEZA AO UUATIÀNVUA 



rÌBados vieram de Id a correr, padir-me que foaso arrancar 
MuatiànTua d'aquella cafìla, pois se continiiuvam a beber ] 
na exalta^à» em qtie jà estavam, um pouco tempo aio respei- 
tariam pet^sua alguma, e podia haver muita desgraga porqn» 1 
ninguem te ri a nelle s mSo. 

Os feiticeiros ainda nSo haviam Btdo ìndicados; porém de- I 
mais aabiam os meus que urna das mulheres (pag. 217), a quem I 
se queria attribuir tal crime, jA se tinha refugiado na Esta^ào, 
pedindo-me que Ihe salvasse a vida. Fui. A l'oda doB tumba- 
jea de tal forma se unirà, que era diffidi encontrar logar para 
passar. Fallar-lhes era bradar num deserto, porque o berreiro 
abafaria ae ininlias vozes; tocar num para chamar a sua atten- 
5S0 era arriscado, porque a intìuencia com que manejavam aa 
facaa, afiadas corno estavam, podia dar em reaultado um feri- J 
mento, embora aem ìntenjSo. 

Em taes eirciunstancias, tornei a resolu^o de rapidamente, 
em aentido contrario ao andar da roda, empurrar doÌ9 para I 
mcio e agarrar o Muatiilnvua pela cintura dando com o pé na 
chinguvo, ao meamo tempo que tbes disae: acuarunda acuel« 1 
mafefe («o povo da Lunda é traigoeiro»), que elles eataram I 
costumados a ouvir-mc. Tudo iato foi tHo rapido, que pararam 
surpreliendidos, e recouhecendo-rae riram-se e abriram passa- ] 
gem para eu levar o Muatiilnvua para a sua residencia. 

Acompanliaram-noa o irm^o d'elle, o sobrinbo e o seu calala. 

Eram 11 horas da noute; consegui que o Muatianvua man- 
dasse o seti calala dispersar a multidSo, obrigando-me a indem- 
nisar os tunibajca pela intcrrup9So da aua ceremonia, e fiz com 
que elle se recolhesse, para depois convers<ii'mo9 de madrugada 
aobre quo motivara a reuniSo doa tumbajea. 

A ìiianga è uma daD9a intoresaante emquanto os espìritcu 1 
nSo estSlo perturbados, porque os tropfaeua dos amuletoa e doM 1 
petrechoa estilo muito eofeìtados e sSo dados ao ca^ador depois I 
de umas certas ceremoniaa allusìvas, que entrctcm os curiosoa, 
a quem se permitte approximarem-ac para ver; e so corre rìaco 
de sor alterada, ae qualquer d'eases curiosos der motivo» a 
iuterrup^ijoa, ou entrar por qualquer circumalancìa na arena . 





ETRNOGRAPHIA E HISTORU 

doa cajadores, o qiie prejudica a ceremonia, sendo o pobre 
desgragado vietima da ferocìdado dos fanaticOB. 

Uè outraa dan^B, tanto em hoinenagem aos idolos corno é 
ina, e das que fazem parte das ceremoniaa ftinebres fallarci 
mais adeante. 

Quando numa audieocia de demaiidas entre dois conten- 
dorea, nXo é possivel pelos indieios apurar-se a verdade, é 
)U l'amento o ultinao 
recurao dos que preten- 
dem mostrar a sua in- 
noceneia. Ojiiramento 
pode considerar-BG co- 
rno um costume cara 
ctPnBtico cntre lodns 
OS povoB de que fallo, 
pota ate em familia por 
questSes multo parti cu 
lares elle se obBer\a, 
porém o que actual 
mente conlie^o, se cm 
algumas tnbua <^ ou «te 
approxima do que tem , 
sido descnpto por al 
guns Tiajnntti, na 
maioria dos casOB jà 
està multo raodificado. 

Mesmo oa povos da nossa provincia de Angola mais afasta- 
doB do littoral o usam, e era Malanje, em certaa tribus comò 
na Colandula, elle é observado com os rigores que nSo bSo fre- 
quentes além do Cuango, pelo què so toma mais odioso a nós 
europeus. 

Em Loanda tnmbem oa povos genttos, que teem viudo aug- 
mentar a popula^So da cìdade, nos seus arrabaldes, entre si 
usam, sem que as iiossaa auctoridades o possam evitar, por- 
quo o fazem com o maximo sigillo. 




-£!»>S 



430 



EXPEDI^^^O PORTOQCEZA AO ITOATlANVnA 



c 



jiiramento consiate em ingerir urna bebida preparada na 
occasiìlo, na qual entra a casca da arvoro miiaje, qne contém 
certoa principios toxicos. Hoje j4 alguaa povoa se Batisfazen), 
dando essa bebida a cJles on a gallìnhas. 

Cada nm tra/, o seii Cito ou gallinha, que o vem represen- 
tar, e He o animai morrò, indica quo o representado perden a 
demanda ou ó criminoso. 

Em Malanje, antes do jur.imento, diz o quc vae beber ou 
dà a beber a um animai a pn^ao: quidi muene, sé inga qui- 
nuguivala galoele quiaho hombo id mucueto, i sanf'e td mucueto, 
ni mona id mucueto guifua cumhamho, sé anji qnilua ffuiqmmo- 
na puto meta, na sa ianibamho. («Sim senhor, se desde que 
en nasci enfeiticei alguma cabra de meu companheiro, alguma 
gallinha de mew companheiro, um filho de mcii companheiro, 
eu morra com o juramento, ee asBim mìo foi, me salvo. Àssiin 
juro.T.) 

Na Limda: chaquene, pam/u valeìa tattico ni macUf nadia cali 
pembe wi mucueto, cunlaje nafua nabaruca, ecmgana, candicali 
nilSua Villana mucueto, ni pcmhe vd mucueto, ehu tid sansa. 
(«Em vcrdade desde que me gerou pae e mSe, se eu comi jd 
cabra de companlieiro por mìm enfeitigada, eu morra com o 
juramento; se ainda niìo enfeiticei, filho, cabra on gallinha de 
companheiro lan^o o juramento, salvo-mo.») 

Noe Bnngalas: qwdìquiene an/ìpangu quita ni combo id mu- 
citeto, nan'udo td mucueto nasusua ud mucueto, namona uà mu- 
cueto, gamuloiia cali ffuftia cangi, gumuloua mona pene mera, 
quidlquiene ai miicneto ijatana ipantìa gufue U mona pene mela. 
(«Se ó vcrdade deade que nasci que enfeiticei cabra, porco, 
gallinha on filho de companheiro, eu morra ji; de contrario eu 
me salvo. Se é verdade que commetti upaìtda (crime) com està 
rapariga eu morra; se niio me salvo.») 

Os Bangalas levam da Lunda a casca de muaje para os seus 
jursmentoa ; mas a bebida que com ella preparam è para os 
cites. 

Os Quiócos tambem hnje a dito aos anìmaes, mas nera isso 
mesmo é muito nsado entre elles. Discutir é o seu forte, e quem 




ETHNOGRAPHIÀ E HISTOBIA 431 

tem n^elhores argumentos é quem vence. Em coinpensa93o^ acre- 
ditam muito nas mortes por feitÌ9aria, e comò ii3o querem ter 
contacio com feiticeiros, tiram-lhes tudo e expulsam-nos da 
povoagSo quando os adivinhadores os apontam^ se s2lo pessoas 
do povo. 

As super8tÌ93cs sSo geraes em todos estes povo8. Teem os 
seus agoiros, qne se entre nós se consideram ridiculos, na ver- 
dade, nSo nos podemos vangloriar de os nXo termos tambem; 
e é curioso que, se alguns sao tSo semelhantes que parece para 
là OS termos levado ou que no-los trouxeram, outros nossos 
creio serem mesmo muito peores, e nSo provam muito a favor 
da nossa illu8tra9So. 

Mergulha-se um gallo num rio um certo numero de vezes. 
Se elle estonteado volta ao cimo de agua e procura a margem 
onde estamos, succede o que nós desejamos; se elle desappa- 
rece ou vae para a margem opposta, succede o contrario. 

Gallo que canta fora de horas o seu dono mata-o logo, por- 
que alguma desgra9a està para Ihe succeder, ou vae receber 
uma ma noticia. 

Se muiéu (mabeco, clLo do mato) ladra de noite, é certo 
que morre alguem da familia de quem o ouve, e por conseguinte 
mima comitiva, os que d'ella fazem parte, ficam logo receosos, 
porque a algum ha de succeder tal desastre. 

Em alguns povos matar um cao é uma grande desgra9a 
que està para succeder à terra, e o potentado trata de vingar 
essa morte comò se fosse de pessoa do seu povo. E preciso 
lavar o sangue que correu na terra, e isso so pode ser feito 
por um anganga especial. 

Entre os Xinjes e Quiocos matar um cào da povoa92[o é 
uma demanda muito importante, em que corre grande risco 
quem o matar, provando-se que o fez de caso pensado ; e tem 
grande multa a pagar, mesmo provando-se que o matou invo- 
luntariamente. 

Com um dos carregadores da ExpedÌ93o deu-se um caso 
d'estes involuntario na Esta9ào Costa e Silva, com um cSo de 



432 EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 



Mona Samba^ na margem direita do Cuango ; mas por ser j& 
segando caso o carregador teve de pagar o valor correspon- 
dente a GjJOOO réis. 

Xa Madiamba, querendo provar-me um dia multo em segredo 
que de facto acreditava qne urna rapariga^ que estava ao seu 
servÌ90 era feiticeira, e que elle nSo Ihe queria mal porquanto 
a ninguem dera noticìa do que Ihe succederà, narrou-me o 
seguinte: Um dia no Cassana encontrei no meu infunde um 
embrulho de cabellos, fios de baeta encamada, uns pausinhos; 
um buzio e um dente de gente, e nSU> foi senào ella que là os 
poz para me enfeitÌ9ar, porque era ella que estava encarre- 
gada de cozinhar para mim, e nas vesperas tinha tido grandes 
questSes com a Muàri. 

Expuz este caso porque é muito semelhante a um que em 1 9 
de abril de 1889 transcrevia o Reporter, j ornai que se publica 
diariamente em Lisboa, de um outro do Rio de Janeiro, caso 
Buccedido na capital do Brasi I, e que fora descoberto pelos 
medicos, tendo sido entregue o seu auctor à policia. 

E numa das nossas provincias do norte, jà depois de eu ter 
chegado a Lisboa, dando-se a morte de urna creanga que a 
medicina explicou comò caso de somnambulismo da mSe que 
deposera um seu filho de leite, durante a noite sobre uma 
porgào de cai, do que resultou elle fallecer, quiz a populaga 
attribuir o facto a feitigaria pretendendo matar a mae. 

Mas nas cidades de primeira ordem, temos nós em abun- 
dancia os casos de enguÌ90s, presentimentos, os asares e os 
caUistos, que talvez, alguns pelo menos, nKo encontram paral- 
lelo entre aquelles povos. 

Para o Quiòco o Muana Angana, o seu chefe em geral 
é feiticeìro, creio mesmo que chega a suppor que é um predi- 
cado sem o qual se nSo pode ser Muana Angana, e por isso 
se Ihe succede algum mal e o adivinhador esconde o nome do 
feiticeiro, imagina que é o chefe, e logo que pode expatria-se 
com a familia para sitio longe da povoaglto, indo entSo criar 
um povoagSo de que elle se faz Muaua Angana, e por con- 
seguinte pouco depois os seus consideram-no feiticeiro tambem. 



ETHNOGRAFHU E HI8T0BIA 



433 



Oa de Malanje, quando vSo da Liinda k presenta doB eeuB 
Bobas teiD de beber logo juramento para provarem qae cSo 
levam d'alli feitigos, nem aprendcram a arte. Mas conio iato 
nio Beja sen^o para Ihes incutir terror, comprehende-Be bem 
que a bebida preparada à vista doa fiobas, é feita para nio 
fazer mal aOB seuB fìlhoa. Augusto Jayme, irm^ do soba Am- 
baiigo, dizia-me ter bebido esse juramento jd duaa vezes e 
que no regresso ia bebè-Io pela terceira, sem receio algum. 

A naturalidade com que os 
fitboB de Malanje, de Ambaca, 
do Congo e oe Bàngalae no inte- 
rior do continente se prestam a 
tornar parte noe juramentoB de 
QuiócoB e Lundas, e ainda o 
facto de levarem para as suas 
terras as cascas da muaje para a 
bebida que preparam, induzem 
a acredttar que o juramento é 
antigo entre todos estes povos, e 
que o trouxeram os primciroa 
immigrantes do nordeste. 

Essa mesma naturalidade faz 
convencer estes povos, que nas 
terraa de Muene Puto é elle 
usado com aua auctorisa93o, e ^ 
esaa crenya collocou-me era diffi- 

culdades quando tentei salvar nm homera de passar por eeme- 
Ihante prova. 

Si, MuafiSnvua e os parentes da mulher que morrèra, se- 
gundo se adivinhàra enfeiti^ado por elle, havlam annuìdo a 
que provasse a sua innocencia se quìzesae, e o homem prom- 
ptificou-se a beber o juramento. 

Procurei intei-vir a favor d'està victima da BnperBtÌ9fio, pou- 
pando-a ao cumprimento do preceito, e o Muatìanvua e os indi- 
viduoB de graduatilo, presentes, disseram que ntto devia eu 
oppor-me a tal resolugSio, porquanto tambem em Malanje bavia 




434 EXPEDiglO POETUGUEZA AO MUATIInVUA 

esse uso, e para que eu nSo suppozesse que elles querìam matar 
o criminoso ou fazer Ihe mal se estivesse innocente, deitando 
na bebida qualquer veneno, os parentes nomeariam urna pes- 
soa de sua confian9a, elle Muatiànvua outra e Muene Fato o 
irmào do soba Ambango de Malanje muito conhecedor d'estas 
usangas. 

Yeriam estes preparar a bebida e na presenga d'elles é que 
o accusado a beberia. Este levantou-se promptamente para ir 
sujeitar-se a essa prova; porém eu ainda consegui que elles se 
demorassem^ e disse para o Muatiànvua e circumstantes : que 
eu nSo podia dar pessoa alguma que me representasse num 
acto que Muene Puto nao admittia nas suas terras, e que se 
Ambango de Malanje consentia que entro os seus se fizesse 
UBO de tal bebida, enganava o quilolo de Muene Puto que 
governa Malanje, e commettia um crime. 

O que eu podia fazer era eu mesmo ir ver preparar a be- 
bida, e d'està havia de primeiro beber o individuo encarregado 
de a preparar, depois eu, e so depois o accusado. 

— Isso nSo pode ser, disseram todos, pois nós haviamos de 
consentir que um filho grande de Muene Puto bebesse do 
juramento?! Nao senlior. O seiihor major é o nesso pae, e 
nesso bcmfeìtor, ningucm llie pode imputar um crime, quem 
e fizesse era criminoso. Nao senlior! 

— Mas Muatiànvua, llie retorqui ainda, explicbu-me que 
a bebida nao faz mal a quem estiver innocente, e comò o 
individuo que vae preparà-la e eu estamos innocentes, nao 
devem ter receio que nós a bebamos. 

— Mas Jluene Puto. . . 

Nao pudemos continuar, porque de repente, levantou-se um 
burborinho, fora da ehipanga onde està scena se passava, sen- 
ti ram-se tiros e cada um tratou de sair e armar-se. Houve 
unia grande confusao, e o accusado aproveitando-a conseguiu 
ir esconder-se e eu retirci para a nossa Estasio, a fim de tomar 
as providencias necessarias e aguardar os acontecimentos. 

Sobre està forma de provarem a sua innocencia, devo con- 
fessar que encontrei o costume mais inveterado entre os povos 



I 



ETHNOGRAPHIÀ E HISTORIA 435 

da nossa provincia do que além d'ella. Os carregadores da Ex- 
pedÌ9So terminavam sempre as suas contendas por se desafia- 
rem para beberem o juramento. Dois chegaram mesmo a pre- 
parar a bebida para a toraarem, no que live de intervir, 
dizendo-Ihes que se quizessem fazer tal eoisa primeiro os des- 
pedia do servÌ90 da ExpediySo e fossem depois para longe de 
nós fazer o que quizessem, na certeza de que os nSo tornava 
a admittir ao servijo. 

Tentaram entlo dar a bebida a duas gallinhas, mas o que 
representava o soba Ambango entro elles a isso mesmo se 
oppoz, dizendo que onde estava a bandeira de Muene Puto 
havia obriga9So de respeitar as suas ordens. 

Resolveram entào jogar um jogo, de que dou noticia neutro 
legar, estabelecendo antes que quem perdesse tinha de pagar 
ao soba que o ia preseneiar e ao Lunda que havia preparado 
a bebida, a qual se langaria no rio, e foram para là decidir 
pleito. 

No Calandula, estando eu em Malanje, succedeu morrer o 
potentado, e trataram os macotas de mandar adivinhar quem o 
enfeitÌ9àra. Devo jà prevenir que a maior parte da gente d'este 
povo sSo Ambaquistas ou d'elles descendentes. Apontados os 
feìtieeiros, tratarara de os obrigar a provar a sua innocencia; 
uma das mulheres, que tomou a tal bebida, inchou de tal modo 
que rebentou. 

chefe do concelho, tendo conhecimento d'este facto, foi 
lego ao sitio para proceder na conformidade da lei; na reali- 
dade jà mais pessoas haviam tido a mesma sorte, e croio bem 
que se elle nSlo fosse tSo depressa mais vìctimas haveria. 

Como recorda9ao d'essa mortandade entregou-me o referido 
chefe dois paus eguaes, que enviei à Sociedade de Geographia 
de Lisboa, um dos quaes figuro, e a que chamam mussengo 
ìdaje, sondo rematadas as extremidades por um refor9o de 
ingredientes ligados por liames, pendendo de uma d'ellas no 
sentido do comprimento do pau varias pennas. 

Era a estes paus que se dirigìa o adivinhador, Ambaquista 
tambem, que foi pelo chefe mandado preso para cadeia, à dispo** 



436 



EXPEDigSo PORTUGUEZA AO MOATIjINVDA 



BÌ(lo da Justi^, para Baber qtiem eram ob feiticetroe. O preso 
interrogado, jA havia feito urna curiosa narra^So, em qae pro- 
vava que elle nSo era mais quo uia instrumento doa macotas, 
que quizeram desfazer-ae do Calandiila, para entrar um outro 
que elles protegiam no seu estado, e que aa mortea doB feiti- 
ceiros eram indispensaveis para nitnca se Babcr que foram oa 
macotas quo contribuiram para a morte do potenfado. 

So bem me recordu, o sub-delegado nào cncontrou base 
para processar o preso, e a questSo tomar-ae-ia tSo eomplicada 
quando a nossa justiga tivesae de nella ae envolver, que jiJgo 
da toda a conveniencia provÌdencÌar-Be desdejàparacasosiden- 
ticos. Corre-no8 o dever, deade quo admittimos indigenas comò 
povoe avassalladoa e eubditos nns noasos dominioa, de preparar- 
mos essea poTOB a sujeitarcm-ao às leia portitguezaa. Modifì- 
qnem-Be eataa na applìca9Ìto ao gentio ou entSo qSo os admit- 



h 



tamoB no nosao convivio, É preferivel isso a coapir-se a nosaa 
auctoridade a contemporiaar, cora o receio de ser despres ti giada 
por Ibe fallar a f'or5a necessaria. 

É tempo de educar devidamente oa povos quo vamoB eub- 
mettetido e sobretudo por forma alguma admittir que se inutìH- 
sem OS esfor^oB enipvegadoa pclloa noBBOs antepaasados, comò 
por exemplo com ob Ambaquìstas, que voltando ^a praticas 
gentìlìcas se tomam mais ferozes do que aa acluaes trìbus de 
gentioE, dando pessimos elemeotos para a nossa adminiatra9So, 

A prova do juramento entre todoa eates povoa é tSo aesus- 
tadora, que as pessoas que a ella teem de submctter-se pre- 
ferem declarar que san criminosos ou auctorcs do crime que 
se High imputa, a passar por ella. 

Assim urna mulher a qucm o seu corapanheiro imputerà a 
culpa de nUo vingorem ob tìlhos quo d'ella nasciam quando o 



ETHNOORAPHIA £ HISTOUIA 437 

terceiro morria poucos dias depois de vir & luz, foi conside- 
rada pelos adivinhadores corno feiticeira. Quiz o homem que 
ella passasse pela prova do juramento e ella recusou. Em au- 
di oncia queixou-se o homem d'essa recusa e foi interrogada a 
mulher que declarou peremptoriamente, que nSo bebia o jura- 
mento, porque na verdade era feiticeira. 

Escusado é dizer que os tumbajes tomaram logo posse d'ella 
e a leyaram para as margens de um rio, onde a foram espati- 
far às cutiladas, com grande alegria do povo que assistia & 
execufSo, que terminou por lan9arem o cadaver ao rio, levan- 
dO'O a corrente para ser devorado por algum jacaré. 

Nos crimes em que ha provas para condemnar o accusado, 
nSo ha juramento; para o individuo que se encontra a roubar ^ 
uma lavra nao ha mesmo julgamento e o que o matar em 
flagrante nSo commette crime. A auctoridade da terra, tendo 
conhecimento de que uma pessoa foi morta em taes circum- 
stancias limita- se a dizer: sutnda uà fa mu candinga a foi morto 
corno um porco nas mandiocasi». 

Se o ladrào nao é apanhado em flagrante, limita-se queni 
consegue agarrà-lo a expò-lo à execra92lo publica, e quando ó 
possivel suspendem-lhe ao pesco90 os objectos roubados. 

E tal a assoada e apupos quo Ihe fazem e sào tantas as 
pauladas e martyrios que soffre durante o dia, que se consegue 
escapar-se foge para nao mais voltar ao sitio. 

S2to rarissimos os casos de assassinato sobretudo com pre- 
medita92lo, e tem uma attenuante o homem que mata a com- 
panheira que encontre em flagrante delieto de rela93es amo- 
rosas com outro. 

Como se resolveu um caso de homicidio involuntario entre 
Quiocos e Lundas jà o disse, agora apresento um que se tor- 
nou horrivel pelas circumstancias aggravantes que se deram. 

Um cacuata do Muatiànvua (pag. 184) te ve em viagem os 
seus dares e tomares com a companheira e està receando d'elle 
porque sabia que elle jà tinha morto imia rapariga e um rapa- 
sito da sua comitiva, fugiu para casa d'um homem que mais cu 



438 EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

menos a requestava^ e pode ser mesmo que jà tivesse tido alga- 
mas rela98es com ella, porém pertencia à tribù do potentado em 
cuja poyoa9So estavamos acampados. Quando fugira, de noite, 
levàra comsigo o que Uie pertencia^ nào esquecendo toda a sua 
missanga e contarla. 

cacuata queixou-se ao Muatiànvua da fuga e do roubo e 
nesta questuo tinha de ser ouvido o potentado da terra. Este 
indagando do paradeiro da mulher soube que ella entràra na 
cubata do homem para quem fugira, e segundo o costume par- 
tira umas poucas de cousas ao entrar na cubata e por conse- 
guìnte tornara-se desde esse momento escrava do dono d'ellas, 
tendo este de resgatar a mulher de quem até ali se conside- 
rava seu senhor. 

Desejava o Muatiànvua de accordo com o potentado inter- 
vir, a fim de que o novo proprietario da mulher desistisse da 
antiga praxe e a entregasse^ pagando o antigo senhor os des- 
tro9os por ella feitos. 

O homem querendo ser agradavel aos potentados promptifi- 
cou-se a entregar a mulher. 

Muatiànvua mandou chamar o cacuata e disse-lhe que so- 
cegasse, que a sua companheira voltaria para casa, mas tinha a 
pedir-lhe que nao a castigasse, por quanto estavam numa terra 
de um Muata grande parente de Muatiànvua e nao queria com- 
plica^oes futuras com este. 

Foi entregue a mulher ao cacuaùi e pouco depois de està- 
rem em easa pareee ter havido entre elles alterca9ao relativa- 
mente ao oeeorrido, de que resultou, o malvado tapar a bocca 
a mulher com uma rodilha, deìta-la por terra e enterrar-lhe 
um pan de ponta aguda pelas partes genitaes até onde Ihe foi 
possivel e assim a matou em poucos minutos. 

homem foi sentenciado à morte. Tive de intervir no caso 
a pedido d'elle e de seu fillio, e confesso que bastante me repu- 
gnava interceder por semelhante malvado, a quem foi commu- 
tada a pena, para nós uma insìgnìficancia, que se A'eduzia ao 
pagamento de quatro barris de polvora, duas armas lazarinas, 
dez pannos de riscado e de cinta para o potentado da terra, 



ETHXOGRAPHIA E HISTOBIA 439 

dando mais ao Muatiànvua o que entendesse. Deu-Ibe a filha 
mais velha e este preferiu fazè-Ia aia da sua muàri. 

Em todo o tempo da minba commissSLo no interior^ apenas 
conheci os dois casos apontados^ um involuntario^ outro pode 
dizer-se talvez devido à alIucina9ào do ciume. SSo mesmo 
raros os ferimentos com faca ou às pauladas. O povo tem as 
suas desordens, as suas bulhas, amea9am bater^ ferir e matar^ 
jogam mesmo os paus comò projecteis^ mas ludo de longe. 
Se se approximam para luctar corpo a corpo dao expansSo à 
sua colera gritando^ saltando^ ameayando, fazendo muito espa* 
Ibafacto, esperando sempre que alguem os separé. 

Jà assim nSLo succede na nossa provincia. No pouco tempo 
que estive em Malanje, observei por causa de mulheres e tam- 
bem devido a bebedeiras^ alguns casos de ferimentos graves 
feitos com facas, e quatro pessoas perigosamente feridas foram 
cuidadosamente tratadas pelo sub-chefe da ExpediySio. 

Tambem sobre castigos corporaes apenas registei dois casos 
de mSLes baterem nos filhos. 

E convem notar que além da provincia^ em toda a regiSo 
centrai que se tem considerado comò o mercado dos escravoS; 
nSo vi entro estes povos o azorrague, a corrente, os cépos, 
as forquilhas, emfim indicio algum que me demonstrasse a 
necessidade d'esses instrumentos de tortura, centra os quaes 
protestam com razSo as na9oes civilisadas. 

Se nSo fossem, infelizmente, as comitivas de negocio, que 
v2Lo especialmente à Lunda incitar a ambÌ93o dos povos, pelos 
artigos de primeira necessidade que Ihes levam, e para acqui- 
8Ì92L0 dos quaes estes nada podem offerecer senSLo gente; o 
observador menos perspicaz veria entro elles n2Lo o escravo, 
mas servÌ9al que ainda assim tem assento a mesa dos patrSes, 
veste as suas roupas, ca9a com as suas armas e comò elle tem 
voto para as resolu93es de negocios da tribù. 

Os homens que na Europa querem concorrer de bom grado 
para ,essas associa95es anti-escravistas que se estSLo iniciando 
por toda a parte, antes de estatuirem as leis da associa9So 
sabem o que yfio fazer? que é que se pretende? 



440 



ESPEDiglo POBrUOVEZA AO ITCATIÌHVUA 



É facil dizer-aei aoB nossoH aentimentos humanitarios repa- 
gna a escravidSo em Africa, vamoa acabar com ella. 

À escravidSo, rcpito, tal corno esiste na parte occìdental do 
centro d'Africa ao sul do Equador, é um modo de ser dea seoa 
poTOB e para a cxiateticia dos quaea é necessaria nas circiun- 
BtanciaB em que elles se encontram. Se as na^See cultas prc- 
tendem dar a loda essa grande regiSo o deaenvolvimento de 
que é BUsceptivel, para entrar em concorrencia com outras 
no convivio da civiliaajSo; se pretendem pflr um termo & 
escravidSo, iato é, evitar que o gentio va ser escravo era terra 
estranha, offerece-ae um unico meio, é evitar que o C'jmmer- 
cio europea entro em Africa, Como porém nSo é possivel 
obstar a que elle entro era qualquer possessSo europea, d'ahì 
sempre encontra agentes que o levem para o interior, e a 
permutatilo pela carne humana continuare. 

Quanto a mìm a inaia profìcua associatilo humanitaria scria 
aquella que conseguisBe regenerar o proto pelo trabalbo, crean- 
do Ihe neccssidadcs e educando-o para elle poder satisfazé-Ias, 
e que linalmente o encaminhasse para concorrer comno&co no 
aperfeifoamento geral da humanidade a que todos queremos 
cliegar. 





CAPITOLO vm 



USOS E COSTIJMES MAIS NOTAVEIS 



Caidados com as malheres no periodo da gravidex ; nascimentos ; manifesta^ Ses ruidosas 
por etsa occasiào — Imposi^ào do primeiro nome ao recemnascido ; periodo da raa 
amammenta^&o ; mndan^a qne se dào na mulher depoia do primeiro parto — Uso da 
circumcis&o para ambos os sexos ; imposifào de nomea novos ; a circumciaSo corno 
req,uÌ8Ìto indispenaavel para a investidura na auctoridade — Coguomcs de ca9a ; ca^a* 
daa; qneima do capim; modo de tratar a carne do cavallo marinho; falta de tal; avi- 
dex pelacomida animai; uso excepcional de corner carne de cSo entro oa Bàngalas; 
epoca das ca^adas ; culto do seu patrono ; emprego do veneno na ca^a e na pesca — 
Salda dos potentados ; composi^io do seu sequito cm visitas e em jomadas — Maneira 
de indicar os trilhos em marcba; aptidSo dos guias para so orientarem; repugnancia 
do preto em marcliar de noite — Auxilios prestados aos doeutes e impossibilitados de 
caminhar; exemplos de dedicarlo e de reconhecimento pelo beneficio recebido — Tra* 
balhos agricolas; colheitas; tratamento da mandioca e prepara9Jlo do infunde — Da 
alimenta^&o em goral ; refeifSes e usos que Ihe dizem rcspeito — Luctas oa guerraa 
entre os indigenas ; imposÌ92o de nomes de g^uerra — Jogos ; dan9as e cantigas — Pro- 
gresso industriai comparado em differentes tribus — Casamentos; praxes observadas 
pelo noivo — Casos em que se faz a venda da mulher; sua situa^ào na tribù — Modos 
de expressar affeÌ9ao — Polygamia — Qanho com as mulheres da familia ou da tribù ; 
puni^io da que se entrega sem auctorisa9ào do seu senhor; casos de upanda — Bandos 
e pregóes; correspondencia a distancia por meio de iustrumentos de pancada — Caosas 
de doen9a ou de morte — Unturas e pinturas da pelle corno prescrvativos — Tratamento 
de certas doen9as — Adivinhos e curandoiros — Obitos; nojo; ceremonial observado 
nos enterramentos — Varias maneiras de dispdr dos cadaveres — Visitas de peaames; 
culto pelos mortos — Adora9%o do Zdmhi ou Ente Supremo — Conclusào. 



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iiito difficii & conhecer bem aa 
li.'is e costiimeB de certoa povos 
liviliaadoB, a comprehenaào ilofl 
i|iiaes é de grande importancia 
quando ee pretende eatudar 
devidainente eaaes povoa; as 
difficuldades augmentam porém 
quando ae Irata de povos aem 
cultura, longe da civiliea^lo, 
poi a para ae conhecerem os 
seuB costumes, que entre elles constituem lei, è neceesario além 
de urna obaervajào peraistente, um systema de regiato especial 
e minucioao, e urna paciencia nSo vulgar. 

E o eatudo do viver doa povoa aelvagena r ecom menda- ae, 
para melhor se comprehender o dos povos civilisados. 

Seguirei apreaeutaiido as minhas obaerva^òea taes quaes as 
'escrcvi na occaaiSo, aob a iufluencia do que mais me imprea- 
aionou, comquanto a ordem que ob8er\-o, nào aeja rigorosa- 
mente a denti fica. 

Poderia, à proporySo que don conbecimonto de um costume, 
compard-lo com outro analogo de povos jà estiidados da anti- 
guidade, e que pode ter com elle urna tal ou qual aemelhanga, 
mas isBO mesmo me obrigaria a desviar do firn que teuho agora 



444 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 

em vista: — narrar singellamente o que observei sobre o indi- 
viduo desde que nasce^ sujeito aos costumes da tribù e do 
estado a que pertence. 

Logo que a mulher entra no terceiro mez de gravidez, 
principiam a manifestar-se os cuidados dos paes, consultando 
OS angangas^ para conhecerem os successos futures^ e fiizendo 
remedios que teem por indispensaveis para encaminhà-los a 
bom exito. 

Os adivinhos aconselham o que devem fazer os paes para 
contribuirem para esse bom exitO; indicando os idolos espe- 
ciaes que se devem propiciar, para se nSo levantarem difficul- 
dades no curso regular da gravidez, e obstar a que os feiti- 
ceiros possam exercer influencias funestas no animo da mulher, 
e inutilisar todos os esfor90s que se empregam para um parto 
feliz. 

As ceremonias com os idolos e os remedios applicados & 
mulher e contra os feitiyos, que se nSo conhecem, mas que se 
procuram desviar, renovam-se em todas as phases da lua. 

Na occasiSo em que se pronunciajn os primeiros symptomas 
de parto, todos os cuidados sao poucos para conjurar os ma- 
leficios destinados a mae ou a criaii^a, e correm logo para o 
pé da parturiente todas as mulheres, parentas e vizinhas que 
ja passaram por esse transc, na inten^ao cada urna de a auxi- 
liar, e por isso todas fallam indicando o que se deve fazer. 

Os adivinhos permaneceni fora coni o pae, espalhando pelos 
arredores remedios contra feiti(;os, e dirigindo aos idolos as suas 
depreca^oes; a um pedindo que nao quebre os brayos a crian- 
9a, a outro que llie nao quebre as pernas, a um terceiro que 
a deixe trazer bous olhos, etc, e tambem a outros cera refe- 
rencia d mac para quo nao fique aleijada, para que recobre 
forya, etc. 

No momento critico, a algazarra e a bulha tomam-se ver- 
dadeiramentc infernacs ; os adivinhos e outros chegam a saltar 
para cima da morada onde està a parturiente, com paus e 
objectos de ferro batendo uns de encontro aos outros, ao mesmo 



' ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 445 

tempo que bradam para animarem a mulher, que està soffirendo^ 
e està bulha ainda augmenta quando o parto é difficile porque 
a maiorìa das mulheres deixam a parturiente para na rua gri- 
tarem, gesticulando de bragos para o ar corno que affastando 
o influxo do mau idolo ou do feiticeiro, que nSo deixam vir a 
crian9a & luz. 

A parturiente p5e-se de brugos, segurando-se com ambas as 
m2Los a uma trave de madeira, que de proposito se collocou 
atravessada de uma a outra parede da cubata, e faz todos os 
esfor908 para a. crian9a nascer^s emquanto fora se faz aquelle 
barulho de ensurdecer para a animar. 

Quando a crian9a apparece, ha grandes palmas na cubata 
para dar signal aos de fora, os quaes demonstranj a sua ale- 
gria com assobios, saltos, tiros, indo todos em seguida dar 
parabens à mSe e ao pae; aquella fica depois em sossego, e 
pae trata logo de se sentar à porta, esperando os parentes 
e amigos, e para quando a mSe tenha repousado Ihe apresen- 
tar algum alimento, que estes Ihe hajam trazido de presente. 

O nascimento de um filho, principalmente do primeiro, é uina 
das maiores festas para o casal; todos os parentes, ainda os 
mais pobres, depoia de verem a crianga, vSo arranjar pelo 
menos o seu presente para ella, e os que podem trazem-no 
tambem para os paes. 

Nos primeiros dias nSo se faz comida no casal; os parentes 
ou vizinhos encarregam-se de a apresentar. 

Passados alguns dias, nunca menos de tres, que dSo para 
descanso da mae, os parentes que veem chegando, e mesmo 
OS amigos, ficara para as festas que duram algum tempo, e que 
consistem em dangar, e em consumir as ofiertas de comidas 
e bebidas que se teem recebido. 

Se parto foi de gemeos e feliz, a alegria sobe de ponto, e 
a mulher é muito considerada, e toma o titulo de Na Passa; 
e é do rito fazer-se-lhe uma casa de proposito, afastada do lar 
conjugal, para bem criar os seus filhos. 

O seu companheiro pode là estar durante o dia e comer 
com ella, poróm de noite volta para a casa antiga. 



446 EXPEDigXO PORTUOUEZA AO MUATllNVnÀ 

IJm geral dio preferencia aos £lbos do sexo femininO; por 
que dizem, qué sSo estes ob que se encarregam de augmentar 
a prole, emquanto que os maehos v2Lo augmentar a de outros^ 
e às vezes mesmo sem o saberem. 

Sào sempre os primeiros partos que apresentam mais diffi- 
culdade para as mulberes. E se urna conheci; que ainda no 
terceiro exìgiu tratamento serio^ noutras era para admirar a 
facilidade com que tinham as crìan9as, e aos pares. Urna por 
exemplo, estando em viagem, caminhando ella a pé e com a 
carga, sentou se com as companheìras à sombra de uma arvore 
para descansar; e antes da noite, boras depois de eu ter acam- 
padO; veiu apresentar-me uma nova filba da ExpedÌ9S[o. Era 
convite para ser seu padrinbo, encargo a que nSo podia es- 
quivar-me, sendo baptizada em Malanje com o nome de Julia. 

A crianya recebe o seu primeiro nome, lego que a mSe Ihe 
dà de mammar, é o nome de leite; e quando os parentes veem 
felicità-la^ as festas que entao se fazem podem chamar-se as 
do baptizado, porque nas suas cantigas jà entra o nome da 
crian9a, o que indica o reconhecimento d'esse nome pelos pa- 
rentes e pela tribù. 

Ao contrario do que succede entre outros povos, iiao sao os 
paes nesta regiao que dao o nome aos filhos, e sìm estes que 
reunem ao seu nome de leite o da mae; assim dizem os Xiu- 
jes: Mueanzo Mahango, a mae era Maliango; nos Quiocos: 
Andumba Tembue, a mae era Tembue; naLunda: Noéji Ma- 
canda, a mae era Macanda; porém em Mataba o appellido e 
do pae: Muteba lanvo, o pae era lanvo. 

E certo tambem que, se quando a crian^a nasce occorreu 
uni caso notavel^ ou cliegou ao sitio uma visita de impor- 
tancia, a crian^a torna-se commemorativa do facto, ligaudo ao 
seu nome aquelle coni que dào idea d'isso. 

As crian9as em geral maramam até milito tarde, dois e tres 
annos; andam jd algumas a brincar, e quando se lembram 
veem a correr em busca da mae, trepam e ajeitam-se-lhe no 
collo, procurando o peito que as satisfa9a. 



ETHNOORAPHIA E mSTORIA 447 

Na verdade isto nSo passa de urna guloseima, porque é.rara 
a mSe que ao firn de um mez n^ dà ao recemnascido caldos 
grossoB do amido da mandioca, quando n2k) bolas de infonde, 
que obrigam a chupar. 

As mSLes em geral teem pouco leite^ porém algumas ainda 
assim precisam fazé-Io seccar, e para isso collocam sobre os 
peitos urna cataplasma de folhas amar^as piìsadas. 

A cr]an9a sendo desmammada, jà nSo dorme com os paes ; 
passa para outra habitafSo, n3o deixando comtudo de acompa- 
nhar a m2Le até os sete ou oito annos. 

Nao devo esquecer mencionar que a mulher depois do pri- 
meiro parto engrossa de cintura, e depois da amammentaySo 
fica com OS peitos pendentes, e naigumas tomando proporySes 
Yolumosas por andarem soltos. A cataplasma a que nos referi- 
mos, contribue talvez para produzir a flaccidez e achatamento 
que ali se vèem em muitas mulberes. 

E tambem jà em adultas que as coxas principiam a engros- 
sar de uma forma desproporcionada com o resto da pema, e 
julgo ser este caracter proprio da ra9a, porque se nota em 
todas as tribus que conheci. 

Os rapazes dos sete para os oito annos, e as raparigas pouco 
antes da puberdade s^o circumcidados, e depois d'essa cere- 
monia os rapazes tomam um outro nome, que muitos substi- 
tuem ao de leite, o que nas raparigas se faz tambem; porém 
com estas o geral é nSo mudarem o seu primeiro nome. 

S&o OS paes que entregam os rapazes naquella idade a um 
anganga da especialidade para a ceremonia da circumcisilo, 
que dura de uma determinada lua a outra. O anganga, tomando 
conta d'elles, leva-os para uma casa distante da poyoa9^, a 
que chamam mucanda, e onde elles se conservam em liberdade 
com OS companheiros, mas nSo tendo relaySes algumas com 
o exterior. 

A comida é preparada pelo proprio anganga, e a agua é 
acarretada por elle do rio durante a noite, para as necessida- 
des do consumo diario. 



448 EXPEDiglO POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

A està ceremonia chamam elles cata mugongue, e faz-se sem- 
pre a um grupo de rapazes^ a que chamam mucanda de tal 
epocba. A mucanda é assìgnalada por algum facto extraordi- 
nario, podendo até ter um nome de animai nSo vulgar, morto 
na occasiSo por um cayador, o nome d'este ca9ador, o nome de 
algum outro animai que tenha causado desgra9a devorando 
aJguma pessoa, comò o jacaré, o leopardo, a on9a; etc, um 
nome que se deu a uma visita estranha, à escassez de um 
genero de produc9So, que dizem fome de tal producto, etc, 
A ceremonia termina pelo corte do prepucio. 

£m toda a regiSLo da Lunda ninguem pode ser senhor de 
Estado sem ter passado por essa opera9ao. 

Em Cassanje estabeleceu-se està imposiySlo so para o Jaga, 
e por isso entendeu-se dar iìm às ceremonias da posse com 
este preceito. Succede que o Jaga eleito é sempre um homem 
jà de idade adeantada, e os que tem querido sujeitar-se a està 
opera9SLo morrem dias depois. 

Quingiiri, com quem mantive rela93es e que era um dos 
descendentes do primeiro Jaga, irmSo de Luéji, m2Le do pri- 
meiro Muatiànvua, ainda em rapaz numa das suas viagens à 
Lunda^ entendeu que devia fiizer a opera9^o para d'ella ficar 
livre quando Ihe pertencesse ser Jaga, mas disse-me algumas 
vezes, que tinlia seus receios de que os maquitas (os prinei- 
paes de Cassanje) nao quizessem admitti-lo, por estar jà cir- 
eumcidado, mas que nesse caso irla a Loanda pedir o auxilio 
de Muene Puto, porque nao podiam negar-lhe o Estado. 

A ceremonia das mullieres cliama-se cata quiuila, e con- 
siste na abla9ao dos grandes labìos, que nas mullieres brancas 
sito menos salientes. 

Dà-se nome de qidmla aura idolo a quem se devem oflfe- 
recer os despojos da operaeSo, para nao obstar il gera^ao. 
Construeni unias cubatas proprias para elle, onde as mulheres se 
demoram, para o cumprimento do preceito e coni o seu con- 
sentimento, o tempo necessario, que se conhece pelo anda- 
mento regular da cicatrisa^So. Umas demoram-se mais tempo 
que outras nessas ceremonias, e entao dizem que o idolo nao 



GsUiva satisfuito com as dadivas que I 
preciso refor9A-Ias com outras. 

E urna mulher jà de idade que procede à operagSo, e ella 
convence &a raparigas que, o q«e se cortOH é entregue ao Ìdolo 
para Ihes nSlo mandar doenyas e permittir-lttOB que aejam 
fecundas. 

Como disse, as raparigas recebem tambem um nome por 
està occasiiio; mas corno se envergonham de dìzer que tive- 




ram neceBsidade de ir ao quiuila, é rara aquella que d'elle 
faz uso. 

Além d'este baptiamo, ob rapazes ainda podem ter dola, um 
de caga e o ultimo, o mais apreciado, de guerra, 

Ob rapazes logo depois de circumcidadoa, acompanham os 
pareotes cagadores à caga, e ao mato preatam, e bem, o ser- 

TÌ9O dos UOBSOS cilCB. 



I 



450 EXPEDiglo POETDGUEZA AO MUATIÌNVUA 

Assisti a urna d'essas ca9adas Da margem do Lulùa^ em 
Muene Capanga, a que chamavam grande ca9ada, para a qual 
fui convidado pelo potentado, e de que fizeram parte doze 
homens da minha comitiva. 

Em grande planicie coberta de capim, espalharam-se numa 
das cabeceiras todos os rapazitos, formando uma extensa linha 
em cui*va; a tocarem as extremidades nos arvoredos lateraes. 

Os cagadores foram tomar posiyào no lado opposto e a uma 
grande distancia, virados para os rapazes, que caminhavam 
para elles batendo as palmas^ e de quando em quando gritando 
e assobiando. 

Isto realizou-se à forya do sol, quando os animaes proeuram 
capim para se pouparem à sua ardencia; ao serem sobre- 
saltados pela bulha dos rapazes fugiam, e os ca9adores vendo 
algum perseguiam-no. Reeolhemos porto do sol posto, tendo 
apanhado dois porcos silvestres multo bons e um veado que 
nSo era pequeno. 

Acostumam-se assim os rapazes a estas diversSes fatigantes, 
e a eonhecerem pelos trilhos a qualidade da caya, epocha da 
passagem e caminho em que anda, e quando jà podem fazer 
uso da espingarda, proeuram os mestres para Ihes fazerem 
uiangue [ina<je «remedios))), e la vao caminhando a seu lado 
para coiiiplctart'iu o aprciulizado. 

Km j>e tornando distinctos comò cayadores, sao os mestres 
que llies dào o nome <le caya que juntam ao seu conio: — 
muxaila, muhonqo, chitembo^ etc. 

Todos estes povos ca^am mais cu menos, e ha algims bons 
ca^adores, principalmente entre os Quiócos e no Lubuco. 

melhor tempo para cayar, é depois de cessarem as chu- 
vas; mas ninguem o pod(^ fa/.er em quahpier dominio sem os 
potentados procederem a ceremonia da queima do capim, o que 
se eftectua lìos logares em que se tcnha jà auuunciado appa- 
rccer ca^a, e ora acpii, ora acola, faz-se parcialmente a queima, 
ficando o capim as manelias, para sombras, e o que se destroe 
é snbstituido em poncos dias ])elo brando que cresce bem, e 
que OS animaes proeuram de preferencia para seu alimento. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIÀ 451 

Quando a ca9a tenha sido batida nos logares em que jà se 
fez a primeira queima, isto é quando o tempo està mais fresco 
e o capim mais secco, em fins de maio e junho, faz-se urna 
nova queima, mas entao é toda a cito. 

As margens dos rios sempre sSo mais poupadas do fogo para 
pasto dos cavallos marinhos, ca9a de grande estima9So para 
OS indigenas, por ser animai mais corpulento e rendoso; mas 
a sua carne apodrece facilmente em dois dias, o que pouco 
Ihes importa. E o tempo geralmente indispensavel para tira- 
rem o animai do rio, limparem-no, dividirem-no em peda90s 
para o transportar para o sitio a que pertence o ca9ador. 

Os mais cautelosos defumam logo a carne no logar em que 
a retalham, e podem conservà-la por mais tempo. Abrem gran- 
des covas na terra, onde queimam, no fùndo, toros de madeira 
e sobre a abertura fazem urna especie de grelha com troncos 
delgados, e sobre ella expoem a carne ao fogo. 

Eu comi na margem do Cuango um bife da carne de um 
cavallo marinho (V. pag. 20), que alli matou um dos nossos 
ca9adores; mas està carne teve os temperos indispensaveis, 
e nào me soube mal. 

A falta de outra carne comi muitas vezes d^esta. 

Os indigenas apreciam multo as mSos d'este animai, de que 
me nSo appeteceu provar, o que attribuo a ter-me nauseado 
com cheiro de umas jà putridas, que me trouxeram à cubata 
quando as quiz desenhar. 

Em compen8a5So dias depois ainda no mesmo acampamento, 
meu cozinheiro Marcolino presenteava-me com uma muhanda 
que elle tinha morto; bonito animai, que consegui desenhar 
tambem, e cuja carne é delicadissima. 

macaco pode dizer-se que é caga vulgar; o indigena pre- 
fere, e com razFìo, para comer d'entre os quadrumanos a carne 
das pélumbas, que chegam a ter grande corpulencia. 

Eu jà havia comido na ilha de S. Thomé carne de macaco^ 
mas arranjada corno se fosse de lebre, e confesso que fui illu- 
dido e depois chasqueado pelos meus commensaes, a quem 
dias antes asseveràra que nunca comeria semelhante iguaria. 



452 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

Repugnava-me a idea de que na viagem la corner carne de 
macaco, de mais a mais sera ter os temperos convenientes, 
ainda assim comi d'ella. E adocicada, e ainda mais o figado. 

A pelumba que figuro foi morta pelo contractado de Loanda 
Adolpho. 

chibonde e o suina (porcos de mato) sao bons e teem 
bastante gordura; o muiéo, que é o mabeco de Angola e ladra 
corno 08 cSes, tambem foi caya que nos appareceu em Mataba 
e no Luambata, mas em pouca quantidade, e repugnou-me por 
ser enjoativa, e ainda mais por eu jA nào ter sai para poder 
temperà-la. 

Os animaes mais communs comò caga sao o angolungo (ago- 
lugo «veado»), ancai {kai «corga»)^ ambau (6aù «boi»), sócu e 
quipacassa (soku, kipakasa «antilopes»). 

Pelo que respeita à alimenta9lio d'estes povos, a epocha 
mais feliz é a dos mezes de maio a outubro, em que apparece 
mais ou menos ca9a e em que os rios comcQam a baixar tra- 
zendo muito peixe. E o tempo das colheitas e em que pelo seu 
desenvolvimento, facilmente se deacobrem os tuberculos que 
solo llu's offerece expontaneainente, e que sao na verdade 
bons, Icnibraiido al^'ims a batata in;j:;leza, e outro.s o inliarae; 
mas san tao imprcvideiites {^no se nao leiubram de os replan- 
tar e fazer desenvolver. E a estayào em que os cogumellos 
tomani enornies proporyèes, em quo os ratos, as lagartas de 
arvores, os gafonliotos, os salalés e oiitros inseetos abundam, 
e llics proporeloiiaiu depois de seceos ao sol, uni recurso para 
se supprireiu na epoeha das i^-randes ehuvas. 

A falta de sai é iiuiito sentida entre os povos de toda està 
re*2^iào para la do Ciiaii^^^o, e siipprem-na eoiii pequenas quan- 
tidades qne, de quando em quando obteem d'essa substancia, 
nos residuos da queinia de urna eerta qiialidade de capini. 

Dizeni elles que as earnes putridas se prestam mais fiicil- 
niente a ser di^eridas do (pie as Irescas, mas estou conveiicido 
que se elles tivessem sai para as conservar de eerto as nao 
comeriam uaquelle estado. 



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E! j! 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 453 

Recorrem ao fogo para defumar as carnes, mas geralmente 
isso faz-se quando jà comeja a corrup9ào, e na maioria dos 
casos n2lo se pode dizer que seja de proposito, e sim pelos 
dias que decorrera para o seu transporte do logar em que se 
abateu a caja até à residcneia do potentado a que pertence o 
ca9ador. 

E convengo-me tanto mais d^isto, que matando-se um ani- 
mal domestico numa povoa9So, a alegria e o enthusiasmo é tal 
que desde esse momento até que a carne de todo desappare9a, 
o grito geral e expontaneo, é: carne! carne! 

Se a carne é vendida a retalho, todos se desfazem do que 
teem, e vSo empenhar-se para comprarera urna por9So por 
minima que seja. 

Na avidez pela carne, mio sei o que liei de mencionar em 
primeiro logar, se a gente que rodeia o animai que se està 
dividindo, se os cacs. E urna lucta entre uns e outros por uma 
gota de sangue, pelo mais microscopico pedacito que conseguem 
apanhar, com risco de pancadas, e às vczes de um golpe da 
faca com que se està li rapando ou cortando o animai. 

Até pelo que pertence às entranhas ha conflictos e desor- 
dens, para se decidir quem ha de levar a maior parte! 

Mas està sofFreguidao pela carne é um caracteristico da ra9a, 
e nSo de ura povo ou de uma tribù; observei-a no indigena 
africano desde Loanda até ao Calànhi, e o mesmo tem notado 
todos OS exploradores ao norte e ao sul da regiao que visitei. 

NSo posso, porém, deixar de confessar que estranhei que 
sendo geral esse caracter, so os Bàngalas da margem do 
Cuango, mais em contiicto comnosco e ha seculos, fosse a uni- 
ca gente que conheci, cernendo carne de cao domestico. 

Chegam a levd-los nas suas comitivas para o interior jà com 
esse proposito, porque preferem essa carne à dos ratos. Con- 
sideram mesmo desprezivel quem come este roedor, e foi 
por isso que alcunharam o povo de Capenda, seu vizinho na 
margem direita do Cuango ao norte, de maxinje (ratos). 

A minha admira9ao apenas se dà, pelo facto dos Bàngalas 
pertencerem à familia que occupa a regiSo de que trato^ e que 



454 EXPEDigXo pobtugueza ao muatiAnvua 

nSo teem tal uso, sendo elles os que além de mais proxìmo 
de nós, manteem constantes rela9oe8 comnosco. O facto em si 
n2to era para mim de novidade, porque vi alguns Chins em 
Macau comerem carne de cSo^ ainda que elles dizem ser so 
do de lingua preta. 

O Muatiànvua, e em geral os potentados de lucano e mi- 
lufna, quando vSto para as ca9adas, se é para longe das suas 
residencias, fazem-se acompanhar pelas suas comitivas, e esta- 
belecem acampamento no logar em que se determinou fazer a 
cagada do anno, a fim de se recolherem provisSes para a epo- 
cha das chuvas. 

Nas vesperas os ca9adores tratam de fazer os chamados re- 
medios, invocando os idolos especiaes, e isto denominam uianga, 
para o bom exito da ca9ada a que se prop5em ir. 

Estes remedios applicam-se apenas exteriormente ao corpo 
do ca9ador; e d'elles usa tambem urna das suas mulberes pre- 
dilectas, que por esse facto fica sendo Na Caianga (senhora 
que participa no voto). 

Està mulher nao acompanha o ca9ador, mas se nSo resistir 
a qualqucr tentagao que possa dar motivo a perturbar- se a 
paz domestica, isto é, se descura da mais insignificante cousa 
que possa interessar ao«lar, se procura distrac^oes sobretudo 
com outros rapazes, embora essas distracgoes nào passem de 
urna dan^a ou de uma simples conversa, é certo, dizem elles, 
que o ca9ador erra as pontarias, e passa por caminhos em que 
tem andado a ca^a sem a ver. 

Se o ca9ador volta em dias successi vos e a sua infelicidade 
se repete, està dccidido, a culpa é da Na Caianga, e elle re- 
gressando para junto d'osta, exige logo que Ihe confesse tudo 
quanto fez na sua ausencia, quer de noite quer de dia; e se 
desconfia ou està prevcnido de alguma cousa quo ella Ihe 
nao confessou, chega a amarrar-lhe as màos atnis das costas 
até confessar tudo. 

EVaqui se originam questoes importantes, chegando a haver 
o repudio e a venda mesmo da mulher, além do crime que ha 



ETHNOGRÀPHIA E mSTORIA 455 

a pagar se houve quem a tentasse. O crime consiste no pre- 
juizo da uianga e das pe9a8 de caga que o cagador perdeu por 
eìTO de pontaria, ou das que deixou de ver, e de que havia 
indicios nos camìnhos em que transitou. 

O idolo é mundelej figura tosca de madeira, que tem ao 
pescogo fiadas de missangas miudas e que està dentro de umas 
pequenas cubatas à entrada do mato e à beira de um rio ou 
riacho. Véem-se algumas vezes dois d'estes idolos, um de cada 
ladó do caminho que vae para o rio. 

Quem passa junto d'elles respeita-os, e aquelle a quem mais 
interessa o seu culto, se por casualidade tem de ahi passar 
ou se OS vae procurar, leva comsigo urna porgào de fuba e 
uma porgSo de ginguba. Chegando ao pé do idolo langa a fuba 
de modo a formar uma cruz em que a cubata fica no centro, 
e sobre a fuba pSe a jinguba em monticulos aqui e acolà. 

O mundele do Muatiànvua està numa cubata grande e aos 
cuidados de um guarda, havendo ali proximo tres ou quatro 
cubatas proprias para ahi residir o Muatiànvua. 

Quando é chegada a epocha da quei ma dos matos, e o Mua- 
tiànvua a annuncia em audiencia cuinhi cuoxi uampata (kuini 
kuoxi ùapata «queiraar as lenhas do mato»), todos tratam de 
se preparar para a partida, e o Muatiànvua nesso mesmo dia,' 
depois da audiencia, vae para junto do idolo, onde ninguem 
vae perturbar, e so falla a quem manda chamar; mas a 
companheira que jà o nào deixa até ao regresso da cagada, 
a Na Caianga, essa so falla com elle e foge de ser vista por 
estranbos. 

Considera-se logo em molala, isto é, nlio falla com pessoa 
alguma senato com o Muatiànvua, e é tal o receio que se Ihe 
possa attribuir a mais pequena contrari edade, que prefere nSo 
sair da residencia cercada que se Ihe destinou ao lado da que 
é occupada pelo Muatiànvua. 

O Muatiànvua pela sua parte, durante todo esse tempo nSto 
tem relagSes com outras mulheres, nem mesmo com a sua 
muàri, e so recebe comida cozinhada pela Na Caianga, e a 
bebida que ella Ihe apresenta; porque, para os indigenas é 



456 



BXPEDIflo FOBTUQUEZA AO HUATIInVOA 



ponto de fé, o nieto mais crentes eSo ainda os gentios, quo 
08 olhares de estranhoB sobre a sua comida e bebida podeni 
tronaformar estae em veneno. 

Assira te esplica a razSo por que se veem alguna potentadoB, 
e principalmeate o MuatiSnvua, abrigadus da vista dos curio- 
aos, quando comem ou bebem. 

Costumavamos □i'>s tornar as nossas refeÌ9Se3 ao ar livre, 
acmpro <\yi<: o ti'mjio n pcmiittia, porqiie o calor era inauppor- 




tarel nas noBsaa barracas de Iona, e iato em principio cauBOti 
bastante impressilo ao Muati&nvua, que muito particular niente 
fili ppdir no nosBO interprete para uoB prevenir de que comes- 
semos naa barracas, pois o olliar dos curiosos sobre o que 
iamos corner noa podia ser fatai, porque entre ellea podia eatar 
algiuii feiticeiro. 

E su depois de estar o MuatÌD,nvua alguna dias em obla^Ses 
soB idoloa que Ibe merecem mais dcvo^So, que Tolta é. sua 



ETHNOGRAPHIA E mSTORIA 



457 



anganga, e pelo toque do mondo faz annunciar a toda a cSrte 
o dia e hora da partida para a exciirsSo venatoria. Como a 
ordem seguida nas marchas é sompre a mesma, ntiste tituln fìca 
comprehendida a qiie se segue para ae jomadns, visitas, etc. 
Ponco se ca^a no tempo das cliuvas, principalmente quando 
as capins teem attingido a grande altura; mas ainda assim ha 
ca^adorea felizes, qnc, por andarcm sempre prevenidoa com 
a sua arma obteem alguma caga. 




Ha ainda quem uae com vantagens daa flcchas e das raa^aa 
na ca^a; porém apontara-se os que se teem distinguido com as 
ma^as, pelo facto de serem curtaa e ser necessario expflr-se o 
ca^ador a luctar corpo a corpo com o animai, o que é devt^Tas 
perigoBO, principalmente aendo animuea ferozea. 

E preciso liaver muita certeza na pancada para o animai 
cair logo, e poder o ca^ador tirar immediatamente partido 
d'essa vantagem. 



458 EXPEDigXo pobtugueza ao muatiAnvua 

Com respeito ds flechas^ pode dizer-se que entre os povos 
por mim visitados, pouco se usa hoje d'ellas, a nSk) ser nas 
armadilhas; porém os Uandas teem aìnda a flecha corno a sua 
uta (tarma»). A folha de ferro é envenenada, uns dizem coni 
um veneno multo subtil vegetai, outros com pe9onha de cobra. 

Nos ultimos annos os Quiòcos deixaram de ir fazer incur- 
sSes àquelles povos, porque dizem elles que os Uandas collo- 
cavam entre o capim pequenas pontas de ferro envenenadas, 
que feriam os pés dos expedicionarios e de que resultava 
grande mortandade. 

As flechas que os indigenas em geral usam nas armadilhas, 
bem corno a isca que collocam nas de peixe, sSo untadas com 
suecos de certas plantas, que elles dizem venenosas para o 
animai, mas cujo veneno se localisa na parte offendida que 
elles reconhecem pelas manchas e que deitam fora, comendo 
o restante sem receio de que Ihes fa9a mal. 

Em geral os grandes potentados poucas vezes saem em pas- 
seio, a nSo ser para alguma visita, e poucas sSo as que fazem. 
Na Lunda o Muatianvua so visita a Lucuoquexe, ou algum 

uegociante, principalmente se estc é branco. E saem poucas 
vezes a passeio para nao inconimodarcMn os seus qnilolos. 

Mesino em casos ordinarios a comitiva do Muatianvua é 
grande, porque além dos servos de sua casa, aeompanham-o 
sempre os quilolos que estao com elle, e d saida da anganda 
vao-se encorporando na comitiva os que o veem partir. 

A maior parte das vezes o quilolo dispensa a sua gente de 
acompanhar quando vae para visitas, porque o povo das 
comitivas aproveita-se sempre da agglomera^ao de gente para 
roubar alguma co usa por onde passa. 

Em geral dd-se o UK^smo com os Qniocos, Xinjes e até no 
Lubuco, e por isso os grandes potentados para evitarem con- 
fusoes e queixas, so por muita necessidade saem fora da sua 
chipanga para visitas e para as lavras, e procuram faze-lo o 
mais particularmente possivel. Yao quasi sempre a cavallo num 
chiraangata, que é o servo adstricto a este servÌ90. 



ETHKOGRÀPHIÀ E HISTORIA 459 



O Muatiànvua, apesar de reduzir muito a sua comitiva, sem- 
pre leva o Miiitia ou o seu representante, o seu Suana Mu- 
lopo, Muene Témbue e às vezes filhos de Muatiànvua, além 
dos seus mona uta e muadiata, e seguem-se os tuxalapólis 
armados e os servos que Ihe trazem a pelle, banco ou cadeira 
se tem, a mutopa, mupungo, a sua arma, o seu mucuàli, o 
chisseque e o chissanje. Se a muàri o acompanha, entSo veem 
tambem as suas amilombes ou damas. 

Muitas vezes tambem o acompanha o tocador de chinguvo, 
e cantadores e mo908 de 8ervÌ90 com as diversas insignias do 
Estado, e presentes que tenham recebido para elle de mais 
aprefo, e isto nota se tambem com os grandes senhores de 
terras. O Caungula, quando ia cumprimentar o Muatiànvua, 
ou ia para as lavras, era acompanhado de rapazes, levando 
um na cabe9a o chapéu armado que eu Ihe dera, outro uma 
pistola, outro uma ca9adeira, outro uma espada, e^to..^ além de 
outros que levavam cousas proprias do Estado. 

Parecia que elle tinha em pouco apre90 aquelles objectos que 
a ExpedÌ9^o Ihe dera, e fui informado do contrario, porque 
assim mostrava a sua grandeza, e isto verificou-se com outros 
potentados com quem fui entabolando depois rela9Se8, e com 
Muatiànvua; e vi depois na mussumba do Calànhi que o 
Muatiànvua Mucanza e depois o Umbala, interinos, levavam 
sempre na fronte a grande cadeira de espaldar que Ihes dei, 
para ser posta no legar em que se queriam sentar. 

Para jomadas vae tudo, e seguem entao a ordem da chi- 
panga, indo o Muatiànvua na mouha ou palanquim que é 
transportada por doze a dezeseis homens. Os quilolos dos la- 
dos da chipanga tomam os seus logares ao lado do palanquim, 
ficando entro està e os quilolos os servos que conduzem as 
insignias e mais cousas do Muatiànvua, e atràs as suas rapa- 
rigas que levam espingardas, polvora, flecbas e ainda facas 
que pertencem ao soberano. 

Seguem, atràs d'estas, os homens que herdaram os titulos 
de animaes, e os imitam mesmo fallando com o Muatiànvua; 



460 EXPEDigXo PORTDGUEZA AO MUATIAnVUA 

depois OS tuxalapólis armados^ e todos os cantadores e musicos 
com OS instrumentos, os tumbajes com as suas armas e facas, 
e cambuia {kahma aalgoz») e fechando o cortejo o mazembe 
com todas as suas for^as. O que respeita à cozinha vae com 
mazembe. 

O povo do méssa principiando pelo calala, forma a guarda 
avanyada, este anda sempre correndo na fronte, ora para tràs 
ora para deante, apparecendo de quando em quando a dar 
parte de que o caminho està desimpedido e pode passar o 
Muatiànvua sem receio. 

O guia da marcha, e isto é geral mesmo no interior da nossa 
provincia, que conhece os trilhos, para que nao haja engano 
dos que o seguem, quando se apresentam diversos trilhos na 
sua fronte, deità ramos de folhas sobre aquelles que se nSo 
devem seguir, e isto quer dizer que se fecham aquelles cami- 
nhos e se continua a marcha pelo que està aborto. 

Na ca9a, ou mesmo numa marcha pela floresta, o que vae na 
fronte e deseja que o sigam, ou é encarregado de encaminhar 
OS companheiros, vae quebrando ramos de arbustos e mesmo 
de arvores deixando-os peudentes, e muitas vezes, se traz 
macliadinlia, o que é frequente, marea os troncos das arvores 
com riscos eruzados ou eorta-llies uma lasca <la casca. 

Estes signaes sào uteis, e teem livrado os que por qualquer 
cireumstaueia se atrasaram, de se perdcrem no camiulio. 

O indigena é muito pratieo uà orienta^ao de caminhos; eu 
chegava a cspautar-me corno muitos me diziam: nào é por aqui 
é por ali. Qucrìa iuformar-me do motivo; as vezes era ques- 
tuo do modo porque uma fulha estava no solo, outras pelo me- 
xido da terra, ainda outras pelos vestigios de dedos de pés, que 
eu confesso, que por mais que me mostrassem nao chegava a 
distinguir em algnms trilhos. 

Muitas vezes dizia-se: isto é um rio; e eu apenas via uma 
pequena depressao de todo secca, d'onde concluia que muitiis 
linhas de agua e riaehos, que eu ja havia figurado no meu 
itinerario, em uma cpoeha de anno desapparecem e quem 
sabe, se nao se apresentarào em outro logar com nome diverso. 



ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 461 

A Muàri vae montada sobre um homem ao lado direito do 
palanquim^ com todo o seu povo. 

A Lucuoquexe vae do lado esquerdo um pouco à frente. 

As jornadas do Muatiànvua effectuam-se geralmente para 
ca9adas a dois ou tres dias de distancia da mussumba, ou entào 
para a guerra, e neste caso a comitiva é gi'ande, porque se Ihe 
aggregam os quilolos de fora da mussumba, e todos levam as 
suas mulheres, e estas carregadas de facas, flechas, polvora e 
mesmo de espingardas. 

Estas jornadas sSo sempre mas para as povoajSes por onde 
passar a comitiva, porque com certeza ha roubos, e ninguem 
se queixa com receio da morte, e os povos na maior parte 
fogem para nSo soffrerem ainda em cima pancadas ou alguns 
ferimentos. 

No Lubuco as jornadas dos grandes sao ainda de mais res- 
peito para os povos, porque jà sabem que aquelles nSo saem 
da rede (estes e tambem alguns Quiocos jà usam rede), sem 
que venha o chefe da povoagao trazer-lhes bons presentes, 
geralmente comida para elles e comitiva. E se ha demora, là 
vae a bandeira lembrar que o potentado està demorado e nSo 
pode sair da rede. 

Com OS Quiocos dà-se o mesmo. Tambem os Muana Anga- 
nas no Xinje nao podem sair da sua residencia, aUàs fogem 
OS da povoagào, porque julgam que elles vSo levar- Ihe a guerra, 
e jà sabem pelo menos que as suas lavras sao roubadas. 

Nào marcham estes povos, nào viajam, nem guerreiam de 
noite, e isto por diversos motivos : — receio das feras, nSo 
poderem evitar troncos, paus ou covas no caminho, e os espi- 
nhos em que possam rasgar as cames; em guerras por|[ue se 
n3Ìo distinguem os amigos dos inimigos, sendo certo que mesmo 
de dia elles procuram distinguir-se com signaes bem evidentes 
na cabe9a, para no furor da lucta nao ferirem os companheiros, 
e finalmente porque elles entendem que a noite é para des- 
can90 e que nao se devem incommodar. 

Numa occasiao urna for§a de Lundas, que era despachada 
para uma diligencia, e esperava ter lucta ou guerra corno 



462 E^CPEDiglO FOBTUGUEZA AO HUATIÌKVUA 

chamam, com os da povoa9ào onde se tinha de fazer a dili- 
gencia, vieram pedir-me quadrados de papel ìgual para porem 
na cabe9a; a firn de se conhecerem mutuamente. 

Elles teem mesmo um anexim que empregam com frequen- 
cia, para mostrarem que a noi te é para repousp: èchi nasuta 
ni uchuco uacàdi cusulaf mema ma uito to que é que passa 
de noite sem parar? A agua do rio». 

Se alguem adoeee em marcha, nSo fica abandonado; ha sem- 
pre um parente ou um amigo que o leva às costas, embpra 
tenha de andar leguas, e preferem isso a que o doente seja 
transportado numa rede ou padiola, que se pudesse improvisar, 
o que seria menos penoso para elle e para quem carrega com 
elle : — porque assim so vao os mortos para a cova, e fazé-lo 
seria querer mal ao doente. 

Registei alguns casos d'estes, até com os carregadores da 
minha ExpedÌ9So, que soccorriam os do seu fogo. 

No Luambata, um dos carregadores de Malanje, encontrou 
sua mae e irmSos que o quìzeram acompanhar, e comò a velha, 
passados uns dias de marcha, nSo pudesse jà caminhar por 
causa das feridas que Ihc appareceram iias pemas e pés, elle 
nao so Guidava da m^te com todo o carinlio, mas transportou-a 
ató Malanjc escarranchada nos seus liombros. 

Os Luudas e Quiocos se tiverem um doente numa comitiva 
em marcila, que nao seja possivel transportar às costas, pre- 
ferem demorar-se nesso acampamento, embora tenham de sof- 
frer fome, a abaiidonà-lo. 

E quando a doen^a é variola, a que elles teem mais res- 
jieito, levam o atacado para o mato, longe do acampamento, 
e ahi Ihe fixzcm urna cubata especial, e as pessoas de familia 
ou amigos para la vao para o pé d'elle trata-lo, proporcio- 
nando-lhe todas as commodidades que é possivel obter-lhe, e 
a comitiva espera que elle se cure ou que morra. 

Se morrc, é este o caso em que principalmente os Quiòcos 
deitam a fugir, deixando-o abandonado na cubata até que urna 
fera se lembre de o fazer desapparecer, e isto pelo receio do 



ETHKOGRAPHIA E HISTOBU 463 

contagio da doen9a, que neste caso elles suppSem os mataria 
tambem. 

Deram-se casos isolados de maes abandonarem crìanyas no 
capim, mas isto porque estas Ihe eram empecilhos, ao fugirem 
de amos de que se queriam livrar, ou com receio de se tor- 
narem presas de QuiScos. 

Tambem registei um caso de abandono de urna mulher ane- 
mica; atacada de rheumatismo em ambas as pemas^ nmna 
povoa9So, mas isto porque a comitiva a que pertencia retirava 
a toda a pressa^ e deixavam-na na esperan9a de que alguem da 
povoà9lÌo n3o deixaria por dò de a soccorrer. E de facto quando 
regressei; passando por essa povoa9aO; là a encontrei ainda 
entrevada e fazendo parte duella. 

Porém taes casos nào destruiram em mim as boas impress5es 
que tinha d'estes povos, por nSo abandonarem os seus doentes, 
e a sua dedica92Lo pode servir-nos de exemplo. 

Por vezes comitivas de Bàngalas^ uma de Andata Quissùa^ 
outra do Congo, e ainda outra de indigenas do conceiho de Ma- 
lanjc; me. pediram para deixar ficar nos meus acampamentos 
doentes até ao seu regresso, ou na companhia de alguem, para 
quando se achassem melhores se retirarem e irem encontrà-las 
em algum ponto. 

Da mesma sorte, nSo é raro achar-se nas povoa93es de 
Quiocos e de Lundas, algum Bàngala ou Quimbare hospedado, 
esperando que as comitivas a que pertencem voltem ali de 
novo, para pagarem a boa hospitalidade e tratamento que ahi 
tiveram. 

Um rapaz de uma comitiva do Congo, que ficàra doente na 
residencia de um Ambaquista no Luambata, o qual o tratàra 
da variola negra, tSo reconhecido estava, que quando o 
chefe da comitiva a que elle pertencia e que era do seu povo, 
voltou das terras do Congo ao Cassai, e o mandou chamar, 
mandou-lhe dizer, que nao deixava assim quem o havia aco- 
Uiido bem e o tratàra na sua ma doen9a, e que enviasse elle 
um bom presente para aquelle seu segundo pae, e que entSo 
se retiraria. As circumstancias nSo permittiram que o pae 



464 



EXPEDI9X0 PORTUGUEZA AO MUATllSVUA 



pudeBsc passar nem scqucr mandar algucm levar ao filho I 
qiie pedia; e pouco dcpois adoeceu o AmbaqiiiHta tambem da I 
variola e uiorreu. O rapaz nunca largou, e tratou-o até i J 
ultima, e quando eu ìà cheguei e o convidei para retirar com- 
migo para o seu pne que estava em Molanje, respondeu-me: ] 
Agora, sim scnhor, jti posso ir, porque pagiiei a minha divida. 

Casos d'estes nSo se devom omittir porque uelles so revela I 
bem a boa ìndole d'estes povus. 



M.' 



É 



A marcila para o trabalho daa lavras é feita sempre ao 
rompur do dia e à. vontade, 

Eate servilo etii geral pertence && iDuIhcrcs sob a direc- 
(ào da mui'iri do potentado, depois dos rapazes terem limpo o 
terreno de troncos secco», algumas raizes e capim ressequido 
das queimas. 

Os potentados vao rauitaa vezes, de raadrugada depois de 
terem bebido, ver o andamento dos trabalhos, e sfio sempre 
elles que vilo lan^ar as primeiras aementea na occasiào propria. 

principal labor é f'eito pelas mulheres, e nào esige gran- 
des esforjos. Depois de limpo o terreno que se quer lavrar, 



ETHNOGBAPHIA E HISTOBIA 465 

as raparigas fazem urna cava geral a come9ar de um lado, 
estende ndo-ee em toda a largura que se quer dar a um talhKo. 
Se tratam de semear jinguba, milho ou feìjào, no primeiro 
dia potentado e depois os aeua tuxalapólis, mu&rì e servaa 
mais consideradas, levando em um pequeno sacco de mabela 
ou no regalo do panno que vestem uma porgSo de semente, 
com o pé diretto afiìistam a terra para os lados a fazer urna 




pequena cova, e com a mXo direita deixam cair nella tres ou 
quatto das sementes, e com o meamo pé tornam a ajuntar a 
terra afaatada, cobrindo aquellas, calcando-a por ultimo uma 
BÓ vez, e segucm para a frente a fazer o mesmo numa dis* 
tancia de dois pequenoa passos. 

Se querem piantar mandioca, trazem entSo feìxes de troncoB 
jà cortados de 0">,30 a 0'°,40, com uma das pontas agu(adas. 

Ab mulherea abrem trcs covas com as machadas, formando 
um pequeno triangolo, e os homens dÌBpSem um tronco em 



466 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 

cada cova, com a ponta inclinada para fora^ e com os pés vào 
encostando e bateado a terra de encontro a esses troncos. 

As sementes miudas corno as de tabaco^ massango e outras^ 
bSo lanjadas a eito sobre o chào jà cavado. 

Se ha pequenas plantas a trasplantar, entSo as mulheres 
para cada pianta dSo urna enchadada, e puxando um pouco 
a terra para si, disp5em-na, e com a inesma enchada encostam 
a terra de encontro a ella. 

Depois das sementeiras e plantaySes, isto é, logo que as chu- 
yas comegam com mais intensidade, o trabalho da limpeza do 
terreno jmito às plantas, arrancando as hervas e capim, per- 
tence so às mulheres. 

As colheitas sào feitas pelas mulheres, que levam entSo para 
as lavras cestos de formas diversas, e uma especie de sachos 
ou as proprias enchadas, e durante as horas mais frescas da 
manhà e da tarde, procuram o que jà està no caso de ser co- 
Ihido. Apanha-se geralmente o que é preciso para a occasiSo, e 
succede muitas vezes que a mandioca, colhida nas horas da 
manhSl, é logo posta de mòlho no rio, onde a deixam dois e 
tres dias ; mas o trivial é ser levada para a residencia, onde a 
descascam, levando-a depois para o rio. 

A mandioca depois de sair da agua, é exposta ao sol a sec- 
car, que fazem sobre esteiras no chSo, ou sobre a cobertura 
das cubatas, e depois da seccagem toma o nome de bombò. 
Cortada às tiras e torrada ao fogo, serve-lhes de pSo, e sendo 
acompanhada de jinguba ou de mei, além de agradavel entre- 
tem a debilidade por muitas horas. 

Geralmente o bombò partido em pedajos é lari9ado no chino, 
especie de gral de madeira (V. pag. 32), e ahi é triturado e 
reduzido a um pò finissimo, a que se chama faba, e està pas- 
sando por uma fervura, e mexida constantemente com um 
pau, forma uma massa, ruka, em Angola infunde, e constitue 
a base principal da alimenta9ao. Tirando da massa pequenas 
bolas, mergulham-se em caldos ou mòlhos, às vezes so das 
proprias folhas do arbusto da mandioca, a que chamam qui- 
zaca ou chizaca, sendo està uma das refeÌ9oes Tulgares^ mas 



ETHNOGRAPHIA E EISTORIA 467 

das mais parcas; se houver peixe, carne ou gallinha, entSo 
podem chamar-se boas refeÌ53es, sobretudo se se dispSe de 
azeite de palma e sai para temperos, porque ojindungo (jidugq 
cpimentinhas») nunca Calta. 

O infonde geralmente tira-se da panella para cestas, que 
teem diversos nomes, de que jà dei ecnhecimento, sendo pre- 
feridas as que teem tampas. Estas collocam-se ao centro da 
roda dos que tomam parte na refeiyslo, tendo jà cuido em 
desuso entre algumas tribus o preceito antigo das mulheres, 
crian9as e rapazes até oito annos comerem em roda separada 
da dos homens. 

O costume de todos tirarem o infunde aos peda^os da massa 
que està no centro da roda, para molharem na gordura ou 
caldo que teem no seu prato, ou em prato de sociedade com 
outro, nao é especial d'estes povos, porque tambem os Arabes 
nas suas refeÌ9oes, sem distinc^ao entre os que d'ellas tomam 
parte, mettem as mSos numa gamela commum para todos. 

O traballio de reduzir o bombò a fuba, e o dos servÌ90s 
domesticos, bem comò o de transporte de agua do rio e de 
lenhas para a cozinha e para as fogueiras nas residencias^ 
pertence às mulheres. 

Os rapazes pequenos auxiliam-nas nestes servÌ9os e tambem 
alguns jà adultos; porém no geral estes entreteem o dia na 
ca9a, ou em fazer ou reformar as habitajSes ou nas demandas, 
em que sSo assiduos, em negociar os generos de produc92lo 
ou as fubas e farinhas fabricadas pelas mulheres, e nas horas 
do calor entreteem se a fumar e conversar ou a jogar. 

Os servÌ908 domesticos das mulheres e crian9as sSto feito^, 
sempre que o tempo perraitte, ao ar livre, e por isso o. chSo 
junto às residencias é mais ou menos batido e limpo, formando 
pequenos terreiros onde se fazem esses servÌ90s, e principal- 
mente OS preparos para as refeÌ93es. 

E occasiao opportuna de dizer mais alguma cousa que sei 
Bobre estas refeÌ9oes, principalmente das ceremonias que se 
observam, quando sSo dadas por um potentado a quem o serve, 



468 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

f 



ou a pessoas que elle quer honrar^ cerèmonias que redundam 
em agradecimentos; nuns pela gra9a e noutros pela honra 
concedida. 

A propriedade e escolha de alimentos entre nós, indica o 
grau de civilisa93LO a que tern chegado urna certa coUectivi- 
dade; porém entre os povos de que trato, a medida nSo pode 
ser regulada nem pela propriedade nem pela escolha de ali- 
mentos, e sim pela grandeza das terras lavradas^ pelas previ- 
dencias ou reservas para as peores epochas do anno, e ainda 
pelas crea95es de animaes domesticos. 

Entre as tribus de um mesmo estado ha umas mais previ- 
dentes que outras, e sSo essas as que teem melhor passadio^ e 
nos revelam em rela9So às outras um certo grau de adeanta- 
mento, e maior actividade. 

O que é certo, porém, é que na escolha dos alimentos bem 
comò na forma de os cozinhar, nào ha distinc93es em igualdade 
de circumstancias. 

Tratando-se de potentados, é geralmente a muàri quem faz 
a distribuiyao de generos que manda comprar, ou que tem 
armazenados, e ha sempre um cozinheiro que dirige o modo 
de guizar e temperar a comida. 

Os da cat>a do potentado que participam d 'essas refeÌ9ues, 
OS scrvos ou os que com elle coniem, ao sol posto ou um pouco 
mais tarde, lego que a refeiyao Ihes e dìstribuida, do lado de 
fora da ehipanga, veem agradecer batendo palmadas, e eantam- 
Ihe multo afimidameute, o que é de bom efFeito para quem 
estil um pouco distante : tiiddla cali icùdia munganda cutala 
eh! iquinoé eh! eh! Vjuinoé ih! eh! iquinoé, («Comàmos jà 
comer da residencia, é duce, que sempre o eucoutremos! 
cncoutremos! é o que desejamos»). 

Isto repete-se muitas vezes com as palmadas, e a pouco e 
pouco vae dìminuindo a elevayao das vozes ató se extinguir 
de todo, parecendo que se vao afa stando. 

Depois de comer e quaudo acabam, as mulheres vao coUo- 
car-se a porta da muari, e os homens A do potentado, aguar- 
dando que lima e outro appare^am, para o que sao avisados. 



ETNOGRAPHIA E HISTOBIA 469 

As mulheres curvam-se deante da muàri; passam a palma 
da mSlo direita pela da muàri que se conserva de pé, e Ih'a 
estende, e batem depois urna palmada na sua mSo esquerda. 
Repetem isto tres vezes; terminando com tres palmadas. Faz 
isto cada urna por sua vez e retira. 

Com Muatiànvua, os homens ajoelham deante d'elle, que 
està de pé com o bra90 direito estendido, e apresentam Ihe 
uma foiba, que aquelle aperta entre os dedos da mSo direita, 
e depois com o pollegar e index cortam à foiba um bocadi- 
nho, que deitam para o cbSo dando um estalido com os dedos. 
Repete-se isto tres vezes, cada um por seu turno, terminando 
com tres palmadas, levantando-se depois e retirando. 

Se Muatiànvua na occasiao està conversando com alguem, 
e manda entrar os que veem agradecer, estes fazem os agra- 
decimentos de joelhos, ou dando-lhe a foiba, ou passando os 
dedos pelo panno que elle veste, ou pelle era que se senta, e 
repetem-se as mesraas cereraonias de estalidos e palmadas. 

Devo notar que estas cereraonias se fazera tarabera, quando 
o Muatiànvua pede a qualquer uma cousa que tenha na raSo 
para elle ver, ou que passa a qualquer para ver uma cousa 
que elle tenha comsigo. O que entrega ou o que recebe é agra- 
ciado neste caso, e pertanto mostra logo o seu reconhecimento, 
porque cousa era que toque o Muatiànvua, entre elles, é cousa 
honrada ou para raelhor dizer sagrada. 

O potentado pode dar um peda90 do que està coraendo, ou 
mesmo ter alguem a seu lado a comer do que elle Ihe dà; mas 
elle é que nào come sera estar coberto, e o individuo honrado 
fica logo na maiala, isto é, interdicto de fallar na sua presen9a 
até que tenha encontrado opportunidade de Ihe agradecer, o 
que se dà tarabera cera a bebida, para o que elle convida sem- 
pre algum quilolo. 

Tratando do baptisrao, disse receberera ainda os rapazes um 
terceiro nome, que era o de guerra, que rauito apreciavam. 

Pelo que ainda hoje se ouve entre os povos de toda està 
regiSio; pelo modo arrojado com que os individuos de uma tribù 



470 EXPEDiglo PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

se apresentam deante dos de outra; o facto de andarem sem- 
pre armados, saindo da sua habìta9So, mesmo para visitas 
dentro do povoado; a forma turbulenta com que fazem ter- 
minar as suas contendas, ainda a mais simples discussSo em 
que n^o chegam a um accordo; a gesticulajEo, as amea9as, 
as dan9as, os recitativos e cantigas com 'que terminam as 
audiencias em que se tratou de desacatos feitos & auctoridade 
dos seus potentados; nas suas narra95es emfim, as compara- 
5008 que fazem com os actos de valor e ferocidade de seus 
antepassados nas guerras; tudo faz crer ao observador, que 
tem de lidar com povos guerreiros, e que é normal o estado 
de guerra entro elles; que sao nomadas, que nada ha que os 
fixe à terra, que desconhecem ainda a lavoura, as industria*, 
que nSlo criam gados, nSo negoceiam ; emfim, que se conservam 
num estado primitivo dos mais atrasados, sujeitando-se a viver 
dos successos impre vistosi 

Mas nìio é assim, e o observador tem de ir modificando as 
suas opiniSes com o tempo de convivencia com estes povos, e 
à medida que os vae estudando e comprehendendo. 

De facto o que à primeira vista se nos re vela, e pode dizer-se 
tudo aquillo com quo doparanios o parecc estranho aos nossos 
usos o costumes, iiao é mais do quo v e s t ì ^ ì o s q u e a i n d a 
e X i s t e m d o u m a p r i m i t i v a e d u e a 9 à o , que o tempo 
nao conseguili de.svanecer completamente, porque as moditìca- 
^Hes se teem fcito lentamente, attento o meio em que vivem, os 
recursos qne a natureza llies dispensou, e a intervenivo pre- 
cipitada dos povos que progrediram no estado de civilisa^ao. 

Anjita (jita) é vocabulo frequente que ao mais insigni- 
ficante pretcxto se ouvc, e que se tem interpretiido em portu- 
guez por «guerra». 

Lendo os apontamentos que consegui reunir, sobre a succes- 
silo dos potentados no elevado cargo do Muatianvua; vendo 
modo de elles governarem estado constituido pela sujei^rio de 
divcrsos povos aos poderes que Ihe conferiram os que de mais 
perto teem rodeado; deprehende-sc que a guerra é ura modo 
de ser permanente para se manterem esses poderes. 



ETHNOGRAPHIÀ E HISTORIA 471 

O ultimo preceito a que tinha que satisfazer o potentado, 
chamado a occupar aquelle cargo, era libertar-se da mola^ que 
08 descendentes dos Bungos, nucleo que organisou o estado, 
Ihe puzeram à cintura, o que so pode fazer quando alcance 
Victoria numa guerra era que elle toma um nome especial. 

Acreditado nessa guerra, e senhor absoluto do mando, ao 
mais pequeno pretexto que um seu subdito Ihe fornecesse, 
para provar que sabia sustentar o poder que Ihe confiaram, 
culuanjita Qculuajita acombater») era a amea9a com que o por- 
tador levava a uta (um arco e urna flecha) para aquelle a que- 
brar, se preferia isso à imposÌ9So que Ihe fosse feita de pagar 
tributo de guerra, visto ter for9ado a saida da uta. 

Algumas vezes, nem a amea9a se fazia, e um quilolo partia 
com seu povo arraado para dar um assalto a uma povoa9So 
de outro, saqueà-la e em seguida queimà-la. E a preven92lo 
era: anjita ueza (Jita ùeza «là vem a guerra»). 

O que se fazia entao so por ordem do Muatiànvua valga- 
risou-se, usando-se do nome d'elle, nas tribus mais afastadas, 
que pretendiam expjorar outras, e foi imitado pelos senhores 
de Estado com as tribus dos seus dominios. Mais tarde, gene- 
ralisou-se entre todas as tribus, sempre da^ que se julgavam 
mais fortes para com as mais fracas, por causa da ambÌ9So 
do commercio illicito; e se em principio os expoliadores se 
apresenta vam era nome do Muatiànvua, ultimamente jà nem 
isso fazem, vao escudados no direi to da for9a que consiste 
hoje no maior numero de armas de fogo de que dispSem. 

Na mesma tribù quem se considera mais forte pelo apoio do 
potentado, ou pelo numero de armas que possue (gente armada), 
vae guerrear o mais fraco por qualquer pretexto. 

Guerras geraes, das chamadas entre povos estranhos, por 
questSes de territorlos, por pendencias entre os potentados de 
Estados diversos, sSo raras. E sào de moderna data as que se . 



* Corda feita de fibras que usam por debaixo do panno, e de que dei 
jà conhecimento a paga. 352 e 353. 



eTHNOGBàPHIA E HISTOBU 473 

Entre os Quidcos e Lundas no anco de 1885, além do Cas- 
sai, houve urna guerra maU seria, por que aquelles, por conta 
de outros Lundas, tratavam de matar o MuatiSiiTua Muriba. 

D'està guerra dou conhecinieiito na narra9So que fa90 do 
governo d'este potentado. 




Em seguida a està, orgnntsou-ae outra em Mataba, que con- 
«istiu em cada calamha * apreseutar a sua gente armada para 
guerrear as for§as que defendessem o govemador Mucanzaj 
mas estas forgaa, que o acompauhavam quaado este querìa 



1 Auctoridade qiic fcm o scu Estiido suUordinado ao potentado da 
rcgiSo, Snana Coìenga. 



474 EXPEDigXo portugueza ao muatiAnvua 

passar o Luembe para oeste, abandonaram-nO; e a guerra limi- 
tou-se a meia duzia de inimigos assassinariem Mucanza. 

Tambem em 1884, os QuiScos de Mucanjanga, da margem 
do Chicapa, pretendendo apoiar um pretendente Lunda que 
queria derrubar do estado o Caungula para tornar o seu logar^ 
despacharam for^as armadas para irem atacar o povo de Caun- 
gola, e espalharam-se por difFerentes pontos. Deram-se d'este 
modo de parte a parte casos isolados de mortes e aprisiona- 
mentos. Julgaram os Quiocos que Ihes seria possivel ircm 
atacar Caungula na sua povoa9So, morreram tres dos princi- 
paes Quiócos, e as for9as d'estes retiraram. 

Houveram depois indemnÌ8a93es de parte a parte^ e tudo 
ficou corno antes. 

Emquanto estive no Luambata, os Quiòcos, que tinham vindo 
do sul marginando os rios Lulùa e Luiza para assaltarem as 
povoa93es dos Lundas^ conseguiram que todas fossem aban- 
donadas, fugindo os povos para o Calànhi onde estava o Mua- 
tiànvua interino e a corte. 

Vinham elles amarrar gente para levarem para negocio com 
OS Bienos, Lassas e Angombes, que principiavam a traficar 
por marfim no Estado independente do Congo ao sul do San- 
coru, nos territorios dos Quotes e Songos, seguindo o caminho 
do Samba, e conseguiram-no, scndo està jd a segunda explo- 
ra^ao d'este genero. 

Sabendo que no Calanhi eucontrariam theatro para as suas 
proesas lizerara-lhe um cèreo, espalhando-se em acampamentos 
distantes uns dos outros, nos quaes a maior for9a seria de 
trinta a quarcnta armas, e d'estes se destacavam tro90s de 
gente armada nunea superiores a dez homens, que iam bater 
o mato, corno elles diziam. 

Urna boa for^a que saisse do Calanhi, com flechas que fosse, 
repelliria todos os acampamentos, mas de tal modo estava a 
fj^ente aterrorisada, que assim que sentiam os tiros de fusilaria, 
abandonavam tudo, dando o grìto de salve-se quem puder, e 
iam esconder-se onde podiam no mate, e Id eram encontrados 
pelos Quiócos, que os levavam para os seus acampamentos. 



ETHNOGRAPHIA E HI8T0BIA 475 

Do que se passou nesta grande guerra^ segando os Lundas^ 
dou minuciosa noticia na rela9So do governo do Muatiànvua 
interino Mucanza, e por isso me limito agora a dizer, que dois 
ou tres Quiocos bastavam para levar vinte a trinta pessoas 
da Lunda presas, jà corno propriedade sua. 

É para as comitivas de commercio que teem de transitar 
pela regiSLo onde ha guerra, que estas luctas oflferecem perigos, 
se nio se quizerem suj citar, sendo estranhas aos contendores, 
a pagar o tributo a qualquer d'elles que Ihe appare9a. 

Nas guerras centra Muriba e depois centra Mucanza, cito 
08 factos que se deram com comitivas de commercio dos Bàn- 
galas, dirigidas pelos conhecidos e importantes ambanzas, 
Ambumba, Quinzaje e outros ainda dos Quimbares do Lu- 
ximbe^ concelho de Malanje, factos qué dUo exemplos tambem 
da ferocidade dos indigenas quando se imaginam em guerra. 

Por outro lado, apresentam-se casos em que se prova a sua 
boa conducta com um inimigo que caiu em seu poder, pois o tra- 
tam com carinho, curam-no se elle està ferido, e chegam a pro- 
mover-lhe a evasalo. Quando escrevo sobre aquellas guerras, 
que foram as maiores que conheci, notei casos d'estes, que 
registei nos meus diarios. 

O potentado confere aos rapazes que entram pela primeira 
vez numa guerra, e que nellas e tornam distinctos pelo seu 
valor, um nome de guerra que d'ahi por deante elles adoptam 
. de preferencia a qualquer outro; mas a imposiySlo que equivale 
& concessSo d'um titulo, é precedida de um ceremonial em 
audiencia na presen9a dos homens mais velhos do Estado, e 
nesta o que os apadrinha, geralmente o caudiiho da guerra, 
relata as provas por que passaram os seus recommetidados. 

O potentado, agraciando qualquer com o cognome que Ihe 
apraz, faz-lhe offerta de uma arma e geralmente de imi panno, 
e segue-se depois o agradecimento do interessado, que dan(a 
a cufuinha, introduzindo no recitativo que faz', as circumstan- 
cias que se derara para poder mostrar o seu valor. Tomam 
parte na cufuinha os seus amigos e admiradores. 



476 EXTEDI^lO FOSTDOtlEZA AO HUATIÌNTDA 

Termina a festa por urna grimdo refei^So com os amìgoB, 
e & noile, no larpo cm frente da sua liabita9ao, cclebram-Be 
aa dan^ag do i-oatume até luadrugada. 

Pelo que tenho expoeto se ve que nSo silo as guerrae, taes 
quaes nóa as comprehendemos, e que aquillo a que se àà este 
nome, si(o vestìgios de unta educa^Sio primitiva, que se toma- 
ram ultimamente mais pronunciados por causa do commercio 
europcu, mas que nós Portuguezes, facilmente poderiamoa 
extinguir completamente, espalhando missSes por toda està 
regiSo. 

Uma boa direcgSo na futura educatilo d'estes povos, em 
quem se reconliece boa indole e faculdades aproveitaveis, e qae 
teem rudiraentos de agrit-iiltura e de outras industrias, é o que 
ba de pur termo a essa tiirbulencia com a qual luctam e dcfì- 
nbam algumaa tribus, em proveito de outras. 

Tanto OS rapazes corno as raparigas entreteem-so de noile 
em dangas, e com qualquer pretesto as fazem tambem de dia, 
quando nSo haja prejuizo oni se afastareni dos trabalhos ordi- 
nario» ; mas os homctis entreteem-se conversando e fumando 
ou jogando. 

Entro OS Lundaa, principalmente, joga-ae niuito, chegando 
o jogador n perder tudo quanto tem, inclusive as mullieres, 
e meamo o que nSo tem, pelo qné se escravisa. Entrega-se ao 
servilo do parceiro que ganhou, até se resgatar pelo pagamento 
que combinam, acarretando agua e lenhas, colhendo o vinlio 
da palmeira e noutros trabalhos, por um certo tempo. 

No3 Lundaa conbe^o oa jogos ambala e cutangaje, mas o am- 
bala é o favorito para os Jogadores viciosos, porque os seus 
resultados sào rapì dos. 

car090 do atiipdxi (paxi) cora a forma de uma amendoa 
eatreita e comprida, chama-se ambala, e dà o nome ao jogo. 

ampàxié nm fnicto maior que o safii de S. Tliomé, com 
que He tem confundido, e d'elle os Luudas fazem azeite. 

Dividem o carolo no sentido do compvimento, apreacntando 
cada parte interiormente a sua cava. 




ETHN06RAPHU B HI8T0BU 477 

Cada jogador tem a metada do carofo na mSo, e atira com 
elle ao ar, dizendo se ha de cair com a face exterior cu inte- 
rior para baiso, e quando perde tem de pagar o que o par- 
ceiro tem na mSo ou deante de si. Faz lembrar este jogo um 
que se usa entre nós com um dinheiro qualquer — cunbos ou 
cruzea. 

Prìncipiam jogando a buzios, peda^os de ferro, misBangas, 
08 rapazItoB até a gafaubotos, e passam os bomens depois ao 
que teem na cubata corno objectos de veatuario, armas, uten- 
bìIIos, e até mulheres corno disse. 

Na colonia do Luambata apostou um Lunda, por firn, qaa- 
renta Iìob de missanga que nSo tinba, na csperanpa de ganbar 
oa do parceiro, tendo estado a perder até ent3o. Perdeu ainda, 
e entregou-se ao seu servilo, para se resgntar com malufo, a 
urna binda por dia. 




Ào fim de quinze diaa o parceiro ganbante, jà aborrecido de 
tanto malufo, propoz-lhe para que vendesse o resto do malufo 
qne faltava por miasanga, e Ihe entregasse està, o que aquelle 
fez, e reagatou-se mais depressa. 

Consiste o outro jogo numa grande roda de covinbas, nas 
qaaes os parceiros v%o lansando um certo numero de tentos, 
mas a preceito, e tem regras para a passagem de umas para 
outras covaa; quando um parceiro ebega a rcuuir todos os seus 
tentOB numa cova, ganbou. Ha perda de tentos quando o joga- 
dor é obrigado a depositar tentos era covas onde jà se encon- 
trem os do parceiro, e os perdidos entram na cova por onde 
se deve principiar o jogo. 

Este jogo tambem se encontra com o nome de muende em 
Mataba, e tambem o vi em Malanje, mas faz-se sobre urna 
taboa com tres, quatro e ciuco linbas de covas. 



478 EXPEDiglo POBTUQUEZA AO muauXkvua 

As mulheres e crian9aS; algumas vezes tomam parte neste 
jogo por divertimento. Nos Butùs tambem o explorador Schwein- 
furth encontrou este jogo com o nome de mangala. 

Os rapazes ainda jogam dois jogos muito semelhantes aos 
chamados entre nós do botSLo e da choca, em que uma róda 
de jogadoresy cada um com o seu pau mettido numa cova, es- 
peram que um de fora atire para uma das coyas um osbo ou 
um pequeno pau, e elles com os seus atiram-lhe umapancada 
desviando-o do seu trajecto para longe. 

As dan9a8 e cantigas s^ as diversSes mais communs d'es- 
tes povos e nellas os grandes aproveitam as suas raparìgas 
comò meio de distracylo. Na Lunda dan9am indistinctamente 
homens e mulheres; entre os Quiocos nSo^ o mais que se ve 
sSo rapazes até doze annos. 

A danga é sempre de roda, e ao centro d'ella estSo os toca- 
dores de um^ dois e tres, e às vezes mais instrumentos de pan- 
cada — chinguvO; gomas grandes e pequenas; e se é de noite 
ha fogueira ao pé. Estas alumiam o terreiro em que se dan9a, 
e servem para aquecer as pelles das gomas. Todos cantam, 
tocadores e dan^arinos. 

O passo é quasi sempre o mesmo, variando em ser mais ou 
menos apressado conforme o andamento da musica. Jinga-se 
mais ou menos tambem o corpo, andando-se sempre de roda, 
mudando -se de posiyHo segundo as dan9as. 

Os cantos sao sempre melodiosos ; a letra é por exemplo : 

Entre os Quiocos : — uè ié, kueza andolo, kueza muxama, 
kàxi kalunga dienji, irmcamulamba, «D'onde vem a velha, vem 
a rapariga e talvez o seu barregao a va castigar com pancada». 

Outra: — Eh! qulahatuca, eh! anguancjudngua, iadile kaiem' 
he, chidi a muzé muene eh! quiahatuca eh! anguanguàngua. 
«Elle rcbentou em bocadinhos o feiticciro que enfeitijava o 
caiembej é corno a ambi§ao que rebenta em peda90s». 

Outra: — Na camuanga, uanga mana fuba, cachinga chiengu^ 
làmi, mafud amala . «A senhora Cam uanga acabou-me a man- 
dioca, por isso o meu amigo morre de fome». 






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ETHNOGRAPHIA E HISTOKIA 479 

Na Lunda: — eie. . . é.. . é! dkhico dieza oca madiamba, 
eie, , . é, . » é! mudri a iène a chi no^i, eie. » , é. . , 41 tumòaje 
eie mulangcda badi, eie. , . é. . . é! (repete-se). «Chegou o dia 
em que vem Xa Madiamba com a sua muàri; e todos os filhos 
de Noéji; o seu povo jà dormiu fora esperando-o». 
• Outra : — naleca, naleca, quiud, quieza, kamo, usota rnuana 
beza. eh le lèi eh le le! a tamboca. eh le le! eh U le! pé mu» 
sango. «Eu fiijo, fujo, deixo-vos e vindea aintfa, procurae o 
senhor Beza e dangae para a minha morte». 

Outra: — cangonde andama eh! le U! ami naia leali eh! le 
le! nacumutala pala unaxa eh! le le! «Vem lua nova, depois 
de outra vou ao meu sitio, veremos o firn à minha velha. 

No Congo, ouvi no meu acampamento este, com urna certa 
gra9a: — mucongo mucucrduca miquele, cadi mono té le le! ah! 
té le le! té U le! cadimono té le le! calu findo nau, findo azau, 
kadim^no té le le! té le le! (repetem). «Os meus companheiros 
quando dizem alguma cousa sSLo attendidos, mas eu nSo sou, 
chamam-me tonto, correm commigo. Kào fazem caso de mim>. 

Numa danga dos Xinjes ouvi uma cantiga de grande effeito, 
que jà tinha escutado alta noite, quando pernoitei na margem 
esquerda do Cuango. Faz a parte cantante o tocador ou toca- 
dores, segue-se um còro das raparigas, depois um outro dos 
homens e outro ainda de todos. Porém d^este canto nao me foi 
possivel obter a letra. acompanhamento destaca-se do usuai 
nestes povos, que ó sempre um batuque. 

Ha homens e mulheres que se dedicam a trabalhos espe- 
ciaes, ou melhor a trabalhos para os quaes a sua aptidSo foi 
despertada, e em que se aperfeigoaram com a pratica; e estes 
trabalhos de que dei jà conhecimento, é o que constitue pro- 
priamente as suas indus trias. 

Resta agora saber se por essas industrias estes povos fazem 
vida? Se é possivel distinguir por ellas as tribus que se orga- 
nisaram e se govemam independentemente? Emfim se, com- 
parando OS seus artefactos, podemos conhecer do estado de 
adeantamento de umas tribus em relagSo às outras? 



480 



EXPEDigXo PORTUOUEZA AO MUATIANVUA 



Pode dizer-se affo i lame nt e que as industrias a que me referì 
83o coinmuns a todas cllae; ha porèm tribus eoi que 09 arte- 
factos revclam mais perfBÌ9ào do que noutras, Bendo certo qae 
se nota, que naquellas em que tem havido mais contacio com 
o commercio europeu, os objectoa que este Ihes leva teem feito 
eaquecer o artefaeto indigena similar, e algum que se encontri 
aìnda, aendo mais perfeito, considera-se comò rarìdade; é tra- 
balho do curioSo e ii3o producto de um modo de vida. 




Ha porém artefactoa corno aito ob de olarìa, os de ferro e 
de fibras de plantaa texteia, que se vèem em todas aa tribus, 
aendo oa priraeiroa fabricidos pelas mulherea, Estea artefactoa, 
produzidoa no intento de aatiafazer a neceasidades instantes, 
tomaram-se para una comò meio de vida entre os da tribù de 
que faziam parte, e maia tarde pela aolìdez e perfeijESo dos 
trabalioa estca passam para outras tribua, tornando-se portanto 
umaa distinctas das outras, polos acus artefactoa especìaes. 




ETNOQBAPHIA E HI3T0BU 



481 



Àssim, havendo nas obras de ferro distìnc^Ses entre trìbuB 
Lundae, destacam-se d'estas aa de Quiùcos, e nestas teem a 
preferencia as que vivem entre o Cuaaza e o Cuango ao sul. E 
neetas tribua que, com excep^ào do caco, se apresentam armae 
lazariuas, algumaB tfio pcrfeltaa ou mais que as que o noaso 
commercio para ì& lèva. 

Com reapeito & mabela, aa melhores e mais fìnaa aSo as 
fabricadaa pelaa trìbua do norte, Uandas e Lubas; e aa mais 




groBBaa, maiores, ile tecido mais apertado e pintadae, sSo feìtaa 
noa Sambas e Soiigos. As eateir.ia quo se destacam pela gran- 
deza, textura, flexlbilidadc e cùrea foscos, sao da regiSo do 
norte entre o 5° e 6" S. do Eqiiador, viudo a maior parte das 
margens do Lulùa ao Cassai. As usuaes, fabricadas com mais 
perfeÌ9So pelos desenlios do entrela^ado e corea, sito feitas 
pelos Bungosj^e podem collocar-se ao lado das do Congo, e daa 
que vi em Mo^ambique. 



482 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATllirVTrA 

Pelo que respeita a obras de cestos e congeneres, destacam- 
se as que fazem os povos entre o Cassai e o Luiza. Emquanto 
aos artefactos de olaria, sSlo os mais perfeitos os fabricados em 
Canhiuca, nos povos do Cassongo e em terras de Xaeambunje, 
na margem direita do Cassai. 

Tambem no fabrieo de azeites e vinhos de palmeira e de 
lutombe se distinguem por melhor, os povos que marginam o 
Luiza e o Cassai^ e estes sao tanto mais peritos,* quanto mais 
para o norte. 

As comitivas de commercio que se intemam nestas regiSes, 
conhecendo o aprego em que sao tidos os artefactos das diver- 
sas tribus, quando regressam, fornecemse nas tribus por onde 
passam d'aquelles que teem mais procura, para pagarem as 
passagens dos rios, para presentes aos potentados e compra 
de alimentos. 

Nào constituem estes trabalhos um meio de vida, porque é 
relativamente pequena a procura, e todos para si lavram a 
terra. Fazem-se nas horas de descango, e quando d'elles ha 
necessidadd para a familia, ou quando sejam encommendados, 
e geralmente o curioso tem mulher e servos que se empregam 
nos seus servÌ908 domcsticos. 

Sao as comitivas de commercio que se demoram algum tempo 
nas povoa9oes que aiiimam a fabricacao dos artefactos de que 
carccem, e que pagam geralmente em fazenda, polvora e mis- 
saugas ou com algum objecto de louga, que tambem multo se 
aprecia. 

Nas comitivas de Bangalas, vae sempre um ou outro que é 
ferreiro, e nas povoayoes, em que os nao ha, a troco de ali- 
mentos ou de algum arlefacto indigena, é o ferreiro que traba- 
Iha para os da povoa^ao; e tambem nas dos Quimbares, 
ha sempre quem saiba coser, succedendo estarem empregados 
t4s vezes mais de tres individuos em coser pannos para os da 
povoagao, sendo os seus trabalhos pagos em alimentos, ou cui 
artefactos indigenas e mesmo em borracha. 

Filhos de Ambaca, e todos os que os podem imitar, tiraram 
sempre nas viagens que teem feito ao centro do continente 



ETHNOGRAPHIA E HISTORU 483 

bons resultados dos sena conhecimentos praticos, e mnitos, se 
encontram espalhados em diversas povoa^Ses entre o Cassai e 
o Zambeze, até ao 24*^ do longitude. Fui informado que mais 
para leste, na bacia do Zambeze, havia uma povoa5So quasi 
constituìda de gente da nossa provincia de Angola, em que as 
crean9as so fallam portuguez. Outro tanto estava succedendo 
do Cassai ao Lulùa, entre o- 5® e 6^ lat. S. do Equador, de- 
pois de 1868, regiao em que andou o nosso sertanojo Silva 
Porto, onde ainda estao Saturnino Machado e Antonio Lopes 
de Carvallio, e onde, em fins de 1881, entraram pela primeira 
vez OS exploradores allemSes Dr. Pogge e Wissmann. 

Em 1885 um explorador estrangeiro de cujo nome me nSo 
recordo, depois do tratado de Portugal coni o Estado indepen- 
dente do Congo, tornou publico quanto o impressionou que 
Portugal nào fizesse valer os seus direltos de prioridade àquella 
magnifica regiao, em que os Portuguezes havia mais de dez an- 
nos estavam civilisando os habitantes, conseguindo jà vesti-los 
e cal§à-los ao uso europeu, tornando-os agricultores e criadores 
de gado vaccum, que até entSo alli nSlo havia, e introduzindo 
nos seus dialectos denominagSes portuguezas. 

Estas impress5es escritas por um estrangeiro, que esteve era 
differentes pontos d'aquella regiao, creio que passaram desper- 
cebidas à imprensa* periodica do nosso paiz, porém o acaso là 
m^as levou, quando eu estava beni proximo d'ella, em terras 
de Mai. 

Os prejuizos que tivemos em consentir que o Estado inde- 
pendente se assenhoreasse d'està regimo, sem que da parte de 
Portugal houvesse reclama9Ses, pedido de indemnisagSes, 
nem discussao, me parece, de especie alguraa, so se tornarao 
conhecidos mais tarde quando pudermos dispertar; visto que a 
atten9So do paiz ha tempos se voltou para a Africa orientai, 
e ahi encontrou muito em que se entreter. 

E uma tactica de estrangeiros, colligados em desmoronarem 
o nosso imperio colonial em Africa, nao so tentar fraccionar 
08 nossos dominios, mas imporem-se ao indigena com o seu 
commercio supplantando a nossa influencia. 



484 EXPEDigXo portugueza ao muatiInvua 

Quando as linhàs de caminho de ferro de penetralo em 
Angola, a que està em via de execu93o e as qae se projectam, 
chegarem ao Cuango, ou antes, reconhecer-se-ha a falta que 
houve na conferencia de Berlim, em nSo haver quem da parte 
de Portugal praticamente pudesse esclarecer os seus repre- 
sentantes sobre as questSes que se debatiam, o que nUo faltou 
à Allemanha nem tSo pouco aos que conseguiram crear esse 
Estado independente, que se vae constituindo è. custa de expo- 
lia9Se8 de territorios aos indigenas, e que nos seus limites a 
sul e oeste, isto é, pela linha passando pelo 6° latitude E. do 
Equador, e 24® longitude E. de Green., corta povos que per- 
tencem ao estado do Muatiànvua, de modo que em alguns 
ainda divide tribus, deixando urna parte d'ellas para o novo 
Estado. Quando a administragao ahi possa chegar e queira de 
facto exercer a sua auctoridade, veremos entSo comò esses 
povos a recebem. Com respeito aos Tucongos, jà tive noticias 
do conflicto que houve, e de que resultou retirarem as forgas 
do Estado independente. 

A regiao de que me occupo foi respeitada na conferencia 
de Berlim, certamente porque os exploradores allemaes que a 
conhccom, informaram que os sous povos estào jd exhaustos 
de martìm e borraclia, e qiu? j^Tande é a influencia dos Portu- 
guezes sobre todos elles, (^ c-om uiuitas (lifficuldades teriam a 
luctar OS estrangeiros quo quizessem apossar-se das suas ter- 
ras. Ahi oncontrani-se a cada passo fillios dos concelhos serta- 
nejos do districto de Loaiida, empregados nas povoayoes, ja 
comò escreveìites, ja comò alfaiates e sapateiros e ainda corno 
ferreiros e fabricaiites de tangas. 

Estes individuos teem prestado bons serviyos para a civili- 
sa9ao dos povos de todo este territorio, e a elles se deve o 
progresso que se nota entro Bangalas, Xinjes e Quioeos, que 
muito se destacam dos Lundas mais internados. 

Os progressos na industria sao todavia ahi muito lentos, por- 
que OS povos se acliam muito espalhados, constituindo peque- 
nas povoa^oes e mantendo so relayoes com os mais vizinhos; 
e o commercio da nossa provincia, proporcionando-lhes eni 



EtHNOÓlUPHIA E HIQTORU 485 

melhores condigSes o que mais Ihes importa para satisfaQ^o 
de necessidades, e cosmopolita comò é, fez estacionar jà e em 
alguns pontos esquecer as industrias indigenas, que promet- 
tiam vingar. 

Eepito o que jà disse, as necessidades da familia, é que 
ainda mantem as industrias de que dei conhecimento, e um ou 
outro mais industrioso ou mais intelligente, ou por curiosidade, 
fabrica os objectos indispensaveis. 

A maior ambigSo dos rapazes, quando chegam a certa idade, 
é estabelecerem-se, constituirem familia, e ou procuram a 
mulher, ou pedem aos potentados que se lembrem d'elles, 
pois jà sentem a falta de uma companheira para.os seus ser- 
VÌ90S domesticos. Muitas vezes procuram tambem os chefes 
de familia, a quem se offerecem comò auxiliares nos servigos 
da lavoura, ou na caga ou pesca, ou mesmo comò aprendizes, 
jà tambem prestando- se a desempenhar alguma incumbencia, 
fora da povoagao, de mais ou menos importancia. 

Reconhecido o seu prestimo entram na familia, recebendo 
uma filha para companheira. 

Ha quem tenha negado o casamento entro estes povos ; mas 
considerado comò contraete elle existe, e ainda mais, ha mui- 
tos exemplos de raparigas serem requestadas pelos rapazes. 

pretendente tem de dar sempre presentes de alimentos, 
de fazendas e outros objectos à noi va, aos paes e aos potenta- 
dos, que de algum modo hajam intei'vindo no seu enlace; e 
fazem-se as festas mais ou menos ruidosas nos primeiros dias 
de bodas, havendo sempre dangas que se prolongam durante 
a noite. 

Se OS pretendentes sao individuos que teem posses, além de 
vestirem a noiva e paes, ainda vestem os parentes mais che- 
gados e mesmo os amigos, e nunca esquecem de contemplar 
os potentados. 

Nos povos dentro da nossa provincia, sSo importantes essas 
dadivas, porque fazem parte d^ellas cabegas de gado, e aguar- 
dente em quantidade. 



486 EXPEDI9X0 PORTUGUEZÀ ào muàtiìnvua 

Entro OS QuiocoSy é da praxe nada se dar aos paes e pa- 
rentes, pois isso para elles seria escravisar a noiva, o que de 
modo algum elles querom que alguem possa pensar sequer. 

No Lubuco tambein ha a maxima liberdade no que respeita 
ao casamento, e as festas so se realisam no dia em que a rapa- 
riga ó concedida ao rapaz que a pretende, sondo olla previa- 
mente ouvida, e nunca* obrigada a acceità-lo. 

Os presentes que fazem os pretendentes Lundas e de outras 
tribus, até na provincia de Angola, teem alguns considerado 
comò compra da noiva; mas nào devem assim sor tomados. 
Faz-se venda so de mullier que pertence .à classo inferior, 
ou é serva na familia, ou de mulher que o seu companheiro . 
repudiou, e que passe aquella classe ; mas essas vendas so se 
fazem a individuos cstranhos & povoa9ao. 

Geralmente nas comitivas de commercio que vao & Lunda, 
vSo sempre individuos com o fito de encontrarem entro as mu- 
Iheres destinadas a passar comò moeda nas transac95es, alguma 
que Ihes agrade para companheira, nSo obstante a torem jà, e 
és vezes mais de uma nas suas terras. E uma companheira 
que so tomam para a viagem, mas resulta tomarem-lhe aflfei- 
^ào e tciTiu fillios d'ella. Essa mullier, portaudo-sc bem, passa 
pelo seu eoiii[)aiilieir() a ser eonsiilerada, e se na terra elle ja 
tiver uiua, seiii]»re (jue elle saia, é aquella que acompaDba, 
e se a nào tiver, passa ella a ser seuliora na casa e fieando 
a governa-la iia sua auseiicia. 

As luulheres que se eompram ao agrado do pretendente, eus- 
taui-llie caras, regulando entro viute e triuta pe^as, valor 
super io r a 2O;)0U0 réis. 

Como se ve lia aqui repudio, desquite, comò se da nos 
povos além do Zaire para N.-E., e o desquitado, segundo as 
circuuistaneias, pode ser obrigado a retribuir quem promove o 
desquite, com valores (pie de anteniao se estabelecem. 

Os potentados (^uieeos, ultimamente, tìxaram corno praxc, 
para viverem em boa harmonia eom os vizinhos Lundas exigi- 
rem-lhes comò tributo uma parenta para mulher delles. Os 
potentados Lundas, que se teem prestado a tal concessào comò 



"I 



I 



ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 487 

por exemplo o Caungula de Mataba com Muiocoto, Quimbundo 
com Quissengue, e Muansansa com Quiniama teem vivido em 
boas rela9Se8. 

Essas mulheres sao muito estimadas pelos Quiocos e se nSo 
sSo as suas primeiras mulheres teem consideragSlo corno estas. 

Os potentados Quiocos, quando em resultado das incursSes 
ou mesmo de guerras com os Lundas recebem nas presas mui- 
tas mulheres, reservam duas ou tres para as suas casas, e dis- 
tribuem o resto pelos rapazes da povoa93lo, contemplando em 
primeiro logar os que nao tenham nenhuma para companheira, 
sondo tambem muito estimadas. Até agora os Quiocos entre o 
Cuango e Cassai compram mas nao vendem gente, o que jà nSto 
succede com os de além do Cassai, que vSo vendé-la ao sul. 

O Quioco é muito cioso da sua companheira, e desgrayada 
d'aquella que o atraÌ9oar. Desapparece nSo se sabendo comò, 
attribuindo-se a sua ausencia a obra de feitÌ90. 

As mulheres Lundas, que por vontade ou obrigadas se vào 
ligar com os Quiocos, sào muito bem tratadas por estes, e 
passado pouco tempo, se voltam à tribù a que pertenceram, jà 
se distinguem das suas companheiras, n2lo so pela grande quan- 
tidade de missangas que trazem sobre o peito, pelos penteados 
e pelo trajo, mas ainda pela nutriyao, habitos que adquiriram, 
gestos e linguagem. E tal é a superioridade que reconhecem 
ter adquirido, que jà fallam com certo desprezo com aquellas 
que se destacam d'ellas mais pelos seus modos humildes, ges- 
tos acanhados e formas enfezadas. 

Com OS Bàngalas dà-se o mesmo, e poucos sSo os que levam 
as mulheres quando voltam nas comitivas à Limda. As mulhe- 
res dos ambanzas, entre os Bàngalas, sSo muito consideradas, 
e povo nas suas povoayoes dà-lhes o tratamento de mSes. 

No Lubuco, as filhas de familias de primeira classe sSo 
muito estimadas. Nao andam pelas ruas na ociosidade, nSo tra- 
balham nas lavras nem negoceiam. Os seus afazeres sSo todos 
caseiros, dirigem os 8ervÌ908 domesticos, e passam a maior 
parte do tempo, depois de penteadas pelas servas, bordando 
mabellas a missanga, jà para si, jà para o marido e filhos. 



488 



expedi^aO portdqueza ao moatiXnvua 



Na córto do Muatianvua, corno disse, aa filhas doa failecidos 
potcntadoB eatSo a. cargo da Lucuoqucxe, e vivem na mus- 
Bumba até qiie o Miiutiànviia Iht-s deetiue consorte, que tem de 
Ber quilolo ou mimta, sendo preteridos os que tenhaiu lionras 
de MuatiSnvua, o que para os agraciados li urna grande dis- 
tioc^ào, mas que Ihes importa em grandes dcspesas. Ae filhas 
de Muatiàuvuii, aasiin Como tudas as mu]heres de sua casa, 
nSo teem indepeudencia para escollierem cotnpanLeiro, e sujei- 
tam-se à impoai^ìlo do Muatiiinvua. 




O quilolo cm qucra recae essa graja, manda de presente 
a noiva grande ninnerò de cabraa e cabacas de inalufo, para 
repartir com aa suas amigas, e atóm d'isso roupas e miasaugas 
para vestir, e ao Muatiaiivua e à Lucuoquexe tambeni manda 
cabra», malufo e bona pannos. 

A Lucuoquexe reuno o quo recebe de fazendas com o que 
vem para o MuatiSnvua, e eate é qucm reparte os pamios pela 
Lucuoquexe, Siiana Murunda, sua muAri, Tomeìnbe, Anguiua 
Muana, Anguina Ambanza e outraa notubitidades feminiiiaa. 
Elle nSo fica com um unico panno de fazenda. 

Na Liinda, se iima raulhcr so porta mal, esquecendo-se nSo 
BÓ quo estA ligada a um rapaz, mas abaudonando os seus 





ETHNOGRAPBU 

deveres domeaticos, s^lo casos estcs quo entram uà ordem das 
mìloagas e que pi.rtencem à juntidiL^So do Muatìànvua. 

Se decljira querer por qualquer motivo viver com outro ho- 
mem, entSo este tem de pagar grande milita, principalmente 
se na queatSo so da alguma circumstancia aggravante. 

Aqiii, comò no Lubiico, iia questSca de ciumea aio freqiien- 
tes, e por laso muttas vczea os jinndos trutim aa suas mulhe- 
res a paulada, o mtatno tem liavido evemplos de ellea as 
matarcm, casos que tambem sSo julgadoa peloa potentados, e 




provado quo aeja i^atìir a razilo da parte do marido, é oste 
absolvido o diapt;iiBado de qualquer multa. Nos aobadoa, em 
Malanje, dà-ae o mesmo. 

Vé-ae poia quo nestas ligajSee procuram encontrar os con- 
juges uma tal ou qual affeÌ9ao mutua, sentimento eate a que 
niSa chamariamos amor, palavra que esiste na Lundjx, bcm 
comò a que aerve para designar beijo. 

E a primeira espressa pelo vocabulo rdia ou r(ìa (conformo 
a pronuncia), e na aogunda ha a diatinguir: se silo os conjugca 
quo se osculam, cbama-se-lhe uatacànhi; ae sSo os pnes que o 
fazem aoa filhos, acariciando-os, uasangudUa; e tambem & certo 
que um liomem ou mulher abrayando urna pesBoa do seu seico, 



i 



490 EXl>EDigXo POETUGUE35A AO MUÀTIÌNVUA 

corno amigo que se nSo ve jà ha tempo, ou que correu algom 
perigo, dizem : uà mupane chicassa chia mia «dei-lhe um abra90 
de amor». Na Lunda é tambem a palavra que elles teem para 
expressar amizade, comò mulunda ou murunda para camìgoi. 
No Lubuco este vocabulo jà foi substituido por Ivhtico. 

Nos seus cantos, principalmente ao som do chissanje, ha sem- 
pre um pensamento mais ou menos reservado sobre o amor, 
e que mal se pode interpretar. No correr d'elles apparecem 
umas palavras, nomes geralmente, que suggerem umas certas 
ideas ou recordagSes, de que fazem applica93o quando faltem 
no canto termo's para as exprimi rem claramente. Estes cantos 
sSlo pois de natureza tal, que mcsmo um bom interprete nXo 
pode transmitti-los sem a necessaria explicagSo do improvisa- 
dor, ou pessoa que os repete. 

A 8 vezes servem comò communica9So entro rapaz e rapariga 
que se requestam, percebendo-os so elles. 

Por exemplo: 

na-mula pu-njau — cassanga zanze — ca — iau iau — aquéxe 
cu-ngo-ve quexe — ingui-ndo — chi-a-nze — cas-songo uà mu- 
tomho — mU'CU-d-di mi calongo — mi-rumba uà ca-quengue — 
mirhnba nd viaqid-di — chia-nza — aj^an-da — ca-jimhe — mo- 
lla uta. — * 

N«ao podenJo fazer urna interpreta9ao corno scria para de- 
sejar, dou a se^uintc explicayao: 

Qiiem canta e toca suppòe-se ser pessoa que soffre multo 
de doeiK^a, que està ausente da iiiulher que estima, a qua! podia 
tratar d'elle com carinho ; lamenta-se, depois imita a rapariga 
que escuta, dizendo : «que faz mal fallar alto porque assim 
dà a perceber a todos aquillo que so os seus cora^ocs deviam 
saber», 

E por causa das mulheres que os Quiocos teem tido guerras 
com OS Lundas, percceiido multa gente de parte a parte. 



1 Os traQOs graiides rei)rcscnt}iin as paragcns, e os pequcnos as pau- 
sas ; a musica e totla ein recitativo melodico ou melopcia. 



ETHNOGBAPHIA E HISTORIA 491 

SSo guerras devidas ao ciume, guerras de extenmnio^ mas 
em que as mulheres e a raga teem ganho. 

As mulheres entre os Quiócos n^ saem dos seus sitios para 
guerras^ nem mesmo acompanham as caravanas de commercio 
a nSo ser por exeep9^o urna ou outra, e so alguma que se con- 
sidero de mais elevada posÌ93o ; em goral ficam tratando dos 
filhos, dos 8ervÌ9os domesticos e das lavras ; e se saem de casa^ 
vao com os seus maridos para as daii9as^ em que so tomam 
parte ellas com rapazitos pequenos. 

As dangas entre os Quiocos nào sSo corno na Limda^ em 
que se vèem os homens e raparigas promiscuamente. 'A mu- 
Iher do Quioco nao tem as liberdades que disfructa a de um 
Lunda. O Quioco vigia-a constantemente. 

No Lubuco ha duas classes na sociedade; os do Moio, que 
s^o OS mais civilisados, e os Quipelumias, a que aquelles cha- 
mam selvagens e sSo propriamente os Chilangues'. Os do Moio 
estimam muito as suas mulheres e compram gente extranha 
ao seu Estado, homens para o servigo de lavras e mulheres 
para creadas no interior das habitagSes. 

Quem quizer comprar marfim no Lubuco, escusa de levar 
fazendas, deverà levar armas, polvora, missangas, buzio e 
pelo menos um rapaz ou rapariga para servir. 

Vé-se pois que nestes povos ha affeigSo ou amor entre as 
pessoas de differente sexo que se ligam; e so Ihes falta a au- 
ctoridade ou garantias nos contractos que fazem no intento de 
OS cumprir, para tornar tio validas essas liga9Ses comò as nos- 
sos matrimoniaes, o que Ihes nào sera difficil acceitar quando 
d^sso reconhe9am a vantagem. 

A polygamia, é o estado familial commum dos homens de 
melhor posÌ9ao em todos estes povos; fazem, porém, grande 
distinc9^o da muàri ou primeira mulher e alguns da segunda a 
Temeinhe. O Muatiànvua, que pode ter tantas quantas Ihe 
appetecer, classifica as com distinc9So até & sexta na seguinte 
ordem : Muàri, Temeinhe, Caxenuluca, Quissaqueinhe, Mahica 
e Mutondumene, todas as mais sSo acaje, «raparigas ou mo9as>* 



492 EXPEDigXo portugueza ao muatiìnvua 

Os quilolos tambem teem Mudri, Temeinhe e moyas de casa. 

Alguns quilolos teem raparigas para interesse, principal- 
mente se o seu sitio é muito concorrido de negociantes. 

Tambem os tucuatas e mesmo individuos sem gradua93o, 
que tem as suas lavras e algumas posses, além da Muàrì teem 
as suas raparigas, de que tambem tiram interesses. 

A Lucuoquexe, a cargo de quem està a alimenta9ao e edu- 
ca92lo até uma certa edade, de todos os filhos do Muatiànvua, 
e de recolher e sus tentar os filhos orphSlos, var8es ou femeas 
de todos OS fallecidos Muatiànvuas, atc que tcnham a coUoca- 
9I0 devida indicada pelo potentado, tem além das suas damas 
favoritas as suas amilombes, que Ihe dSo interesse. 

A Muàri do Muatiànvua tambem tem as suas amilombes, que 
procuram interesses para a sua ama. 

As raparigas vem ao encontro dos negociantes, e mesmo car- 
regadores d'uma expediglio, trazem-lhes fuba, carne ou peixe, 
gallinhas, hortalÌ9as, emfim todos os alimentos que podem 
obter. Nao Ihes acceitam pagamentos, dizem que aquillo e por 
amizade ; entSo elles admittem-nas nas suas cubatas comò fre- 
guezas, conversara com ellas, dUo-lhes tabaco para fumarem e* 
come^am a fazor-lhes os seus presentes de missanga, e d'ahi 
se originaui rclayòes aiuorosas que sao admittidas por parte 
dos potent^idos e dos pareutes. 

Se o acampamento é por urna noiitc, cllas cxigem logo ao 
sair da cubata do individuo onde dormiram, a retribuiyào da 
amizade; mas se é por mais dias levam de corner ao seu fre- 
guez e este vae-lhes dando presentes, com que ellas lucram 
sempre, e por isso as relaedes amorosas nao se apagam, sempre 
na esperanya de uma boa lembranya de despedida. 

Tudo que reeebem apresent^im aos seus potent^idos, ou 
cliefes de familia^ e (^stes tiram uma parte para si. 

Com OS Bangalas e Quiocos jd isto se nao da. Para elles 
seria um crime que praticaria qualquer de suas raparigas, se 
tal fizessc; e liomem teria de pagar uma grande multa. 

No Xinje usa-se assim, mas so com uma certa ordem de 
raparigas, ja para esse tìm destinadas. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORU 493 

Estas raparigas; que andam para assim dizer ao ganho^ sSo 
aquellas a que os seus senhores chamam mucau, mas que sSLo 
consideradas tanto corno as mais que vivem nas suas residen- 
ciasy com respeito a tratamento. Slo so escravas para o effeito 
de vendas. 

No Lubuco OS do Molo, teem as suas muàris, e sito as crea- 
das d'estas (as escravas), que procuram os negociantes, mas 
em seu proprio interesse. 

Na Lunda, o Muatiànvua Noéji Ambumba, os grandes se- 
nhores corno Caungula, e mesmo alguns maridos, incitam as 
mulheres a estabelecerem relagoes amorosas còm os negocian- 
tes; mas se estes nao satisfazem todas as exigencias d'ellas, 
podem contar que teem de soffrer bastante e por ultimo sSo 
esbulhados de tudo quanto possuam^ E este o meio empregado 
pelo potentado para obter muitas vezes o que ambiciona, e que 
por mais de uma vez Ihe houvesse sido recusado. 

Mas se uma rapariga, som o consentimento do potentado a 
quem pertence, teve relagoes com um estranho, est& tem de 
pagar o crime (upandcì), e ella muitas vezes morre à paulada, 
ou a golpes de ferro, ou nao mais se sabe o fim que teve. 

O Suana Calenga Ambinji, num caso d'està ordem exigiu 
um grande pagamento ao rapaz e a ella; depois de a mandar 
varar amarrada a uma arvore, fez-lhe cortar uma orelha e 
marcar com um ferro acima dos peitos e nas costas, obrigan- 
do-a depois, emquanto vivesse, a levar todos os dias lenha e 
agua para cada uma das suas mulheres. 

Queria que estas vissem constantemente nella o exemplo 
do que Ihes succederia, se fossem culpadas de crime analogo. 

Um dia, indicando-me a desgrafada que jà estava reduzida 
a uma mumia, e que mal se podia ter em pé, contou-me o cas- 
tigo que Ihe dera, terminando por dizer : — que ella fora uma 
bonita mulher e que a estimdra muito. 

— Tenha entào do d'ella, Ihe retorqui, e deixe-a terminar 
OS seus dias descangados ahi numa cubata; ella jà nSo pode 
andar todo o dia no mato e no rio, a transportar lenha e agua. 



494 EXPEDiglO PORTDGUEZA AO MUATIInVUA 

— Se eu seguisse o que o meu amigo aconselha, replicou 
elle, estava perdido ; as outras raparigas conheciam-me fraco, 
suppunham que eu me arrependéra e faziam o mesmo. 

— Nao pode ser, o potentado tem de mostrar que é forte. 

— Eu estive muitos annos na mussumba, continuou elle, por 
eausa do malvado Xanama, que entendeu vingar-se de meu 
tio em mim e nos meus irmXos, que là morreram, e vi comò 
procedia com as suas raparigas, que eram apanhadas na upanda; 
ou as matava logo com o seu cumplice ou as vendia, e eu dizia 
commigo, dSo é isso que eu faria no teu legar. Se um dia che- 
gar a tomar posse do Estado de meu tio, e que tal me succeda, 
o castigo que liei de dar ha de servir de exemplo a todas as 
raparigas. Deu-se infelizmente o caso com uma mulher que 
sabia ter a minha estima; tanto peor, ha de morrer marcada 
no servigo das outras. 

Era inabalavel a resolu9So d'este homem, e seria baldado 
o tempo em interceder por ella. 

Deram-se casos de upanda com os meus carregadores, e 
valeu a alguns estarem ao servifo de Muene Puto, cuja influen- 

cia em todos estes povos é manifesta; e isso nao obstante as 
minlias continiiadas advertencias para se coliibirem^ pois que 
esses casos podiam ter eonsequencias desagradaveis, senao 
graves para elles^ e collocavam em diiìieuldades a ExpedÌ9ao. 

Um dos soldados, por exemplo, que fazia parte da pequena 
for^a que nos acompanhava e que conhecera em Ambaca, Xa 
iMuliongo, uma rapariga qne fazia parte de uma comitiva de 
seu irmao Cacuata, que ali fora a negocio, achou-se envolvìdo 
nnm d' estes casos. 

Està rapariga, repudìada pelo seu companheiro, fora entro- 
gue ao irniào e considerou-se livrq para tomar novas liga^oes. 

Em Ambaca, terra estranila, o irmao e mais parentcs sou- 
beram que o soldado de Muene Puto, tinlia relacoes com ella, 
e pouco s(^ iraportarani. 

Nem soldado, nem ella, nem os parentes podiam suppor 
quo tempo depois se havìara de encontrar todos no Caungula! 



ETHNOORÀPHIA E HISTORIA 495 

-" 

Na Muhongo, que o vira, veiu logo procurà-lo. Como Tivesse 
a mSe e estivesse na sua companhia com dois innSos, nào sendo 
nenhum d'elles o Cacuata, que estava ausente, Na MuhoDgo 
aconselhou o soldado a que se dirigisse & mae, para ella poder 
viver na sua companhia. Era isto, o mesmo que pedir a rapa- 
riga em casamento, e portante o soldado te ve de sujeitar-se à 
praxe, vestir a màe e os dois irmSos, e fazer urna festa em 
casa duella, correndo todas as despesas por sua conta. 

Semanas depois morreu a màe, e o rapaz ainda fez as des- 
pesas de mortalha e das ceremonias de obito, e um dos irmSos, 
que era menor, veiu tambem para a companhia d'elle. 

Assim decorreram alguns mezes, sem que tivesse havido 
novidade, até que o soldado teve de marchar numa diligencia, 
que durou quarenta dias; 

Quando voltou ao acampamento encontrou a rapariga em 
poder do primeiro companheiro, homem jà de idade, arvorado 
em auctoridade, que entendeu fazer revlver os seus direitos 
nSo maritaes mas de senhor, e isto com o consentimento do 
irmSo mais velho, o Cacuata, que tendo apparecido e estando 
agora debaixo das ordens d'aquelle de que era devedor, nSo 
pudera recusar-se a entregar-lhe a innSl, Qomo elle Ihe exigira, 
emquanto n2to pagasse o que Ihe devia. 

Derara-se varios conflictos entro o soldado, o velho e a sua 
gente, por causa de Na Muhongo, que sempre que podia ia 
ter com o soldado, até que entenderam vigià-la. 

O soldado, irritado, e julgando-se com direito à rapariga, exi- 
gia pagamento das despesas que por ella tinha feito, quando 
nao consentissem que ella vivesse na sua companhia. 

Appareceu entSo o irmào Cacuata, que se nSo queixou cen- 
tra seu cunhado soldado, mas centra a mSe e parentes que 
acceitaram bem as ligaySes d'elle com Na Muhongo, quando 
sabiam que està nao podia dispor de si, porquanto e repudio 
do marido era apenas uma questuo temporaria, e tanto que 
ella e os seus parentes nada Ihe haviam page. F6ra entregue 
a sua mìe per ella nSo viver bem com as suas companheiras, 
que queriam ter a primazia nas relagSes com o sea homem. 



496 



EXPEDigXo PORTCGDEZA AO MUATIÌNVDA 



Além d'isso mais veiho era elle cacuata, que nSo (ììra ouvido, 
e o seu novo cimhado que elle conhecia de Arabaca, uaque- 
cèra-se de o contemplar. Bem sabia elle qne cstava auseBte 
na oecasiào, porém Jd ahi estava havia algmn tempo, o seu 
ctmliado nSo tinha feito caso d'elle, e elle estava disposto a 
harmuDÌsar todos. 

Chaniado o soldado, coinprometteu-se a nSo levar a raparìga 
para aa terras de Muene Puto, a viver com ella emqaanto 
todoa andassem juntos na 
viagera, mas tratando ella 
dos Ber>'i^os domesticos 
do primeiro compauheiro, 
e ti nal mente a vestir este 
o cacuata, e a ir corner 
com elles, comò hoiis 
amigos e parcntcs, para 
desfazerem assira aa zan- 
gas, e poder ]& a rapa- 
riga nessa noìte voltar & 
sua cubata. 

E assira torminou està 
Il panda ! 

As peores sSo aquellas 
que se dSo com a rapa- 
riga que, seguiido ellea, 
està no rem e dìo da ca^a, 
que é Na Caianga, por- 
que estraga o remedio e 
torna infeliz o ca^ador a quem ella pertence. 

Apesar de haverem entre estoa povoa ligaySes por affei^o, 
& certo que os potentados e na familia os paes, e na falta d'ee- 
tes o filho mais velho dispOem das mulhores para as amance- 
barem, comò jd disse, com homens que Ihea mere^am conlian^a, 
para oa tomarem considerados dos seus povos; o as filbas de 
Muatiùnvua em disponibilidado muitas vezes dirigem aa suas 
Bupplicas ao potentado para quo Ihes de compauheiro. 






ETHNOORAPHIA E HISTORIA 



497 



Os QuìòcoB, quando cliegam a idnde propria, pedem aoa eeiis 
Milana Angana que se lembrem de que elles nilo teem com- 
panheira para os tratar. 

Entre os Xiojes, corno o estado é das raulherea, qualquer 
d'estas, se pertence à córte, tem o direito de cliamar qualquer 
rapaz, da classe mais humilde que seja, pai'a manter relaySes 
eom ella até ter d'elle dois filhoa, e depoìs d'isso dd-lhe um 
logar ao Estado e designa-llic o sitio, era que deve crear a 
sua povoa^So, e elle so 
se apresenta na residen- 
cia da mSe de seiis Hlhos, 
quando é chamado para 
Ber ouvido aobre negocios 
do Estado. 

Aquella cliama em se- 
guida outro liDmein, para 
com oste ter rcla^Ses naa 
mesmas cireumetaticias, 
e assim Bucce^tBÌvamentc 
emquanto possa ter dois 
£llios de cada um. 

Està lei estabeleceu-sr: 
assim porque, dizcm os 
Xinjes, que se oa tìihos 
de um paD foram maus, 
podem OS de outros ser 
melhores, e nisso inte- .,vn;o 

ressa o Estadn do Ca- 
penda, em que todos teem direito de reger por sua vez. 

Mo Lubuco, entre a gente do Moio, njlo existe eata especie 
de poliandria, e dà-sc a polyganiia, mas n3o com as mulheres 
do Moio, que, por isso mesmo, se tomam distìnctaa e maie 
estìaiadaa. 

Em todos estes povoa dd-se porém o facto doa potentados em 
geral aerem, ou quererem mostrar que sSo, multo ciumentos 
por umas determinadas mulheresj e por isso se urna d'està^, 




ì 



498 EXPEDigXo portugdeza ao muatiAnvua 

pouco depois de anoitecer, nSo tiver recolhido e o poteatado 
nlto souber onde ella foì, por todos os lados se ouvem os pre- 
goeiros, annunciando o que succederà a quem tiver retido essa 
mulher que falta. 

Como estes povos sao muito supersticiosos, e tudo mau que 
Ihes succede qucrem attribuir a feitÌ90s, principalmente doen- 
9as de qualquer pessoa de sua faniilia, infìdelìdade pu fuga da 
mulher, etc, por isso saio frequentes os bandos à noite. 

Um homem, a quem chamam Lubila, corre teda a chipanga^ 
e se ha povoa^òes proxiraas, vae até là chamando a attengao 
de todos, em altas vozes e dizendo: — «que adoeceu F. . ., e o 
potentado avisa que se alguem chamou os seus feitÌ90s para isso^ 
OS fa9a recolher, alias terà de sofirer um castigo rigoroso ; que 
desappareceu F. . . , (descreve os signaes e os seus prestimos^ 
onde estava, etc), se alguem a enfeitifou que pare com esse 
processo, e deixe-a voltar para sua casa, alias, descobrindo-se 
seu paradeiro, ha de ter que ver quem Ihe virou o corajao». 

Tambem os bandos correm quando os potentados querem 
• communìcar alguma cousa aos seus filhos (povo), por exemplo : 
Que se n«ao roiibe tal oii qua! lavra, pois quem là se encontrar 
sera amarrado; que quando 'chegar urna comitiva de negocian- 
tes se vendam os mantimentos por tal e tal pre^o ; cu que nada 
se venda seni um novo aviso, etc. Os bandos estao em uso por 
todos estes povos da regiao centrai, mas nao passam de urna 
limitada àrea; porém para distancias grandes recorre-se a um 
systema muito curioso e mesmo engenlioso, que dà bom resul- 
tado, mas que é ditiicil de bem se comprehender na pratica. 

Mesmo entro aquelles que estao habituados, é necessario 
muito uso e attenoao para devidamente se utilisar. 

Para transuiissào de notìcias até fis distancias de 12 a 15 
kilometros, o mcio usado é grosseiro e mal comparado faz lem- 
brar os modernos telephones. Empregam para esse fim os 
instrumentos de pancada mondo e chinguvo, sondo mais usuai 
primeiro para maioros distancias, e tambem se utilisam os 
apitos para as pequenas distancias. 



ETHKOGRAPHIA E HISTORIA 499 

• 

Estes instnimentos foram descriptos jà em outro logar, e por 
isso so agora trataremos da transmisslo de noticias. 

Os tocadores do mondo sao especialistas multo praticos, que 
de crian^as se acostumaram a fallar por o mondo : vao fallando 
e tocando, e ha peritos que traduzem logo o que o mondo diz. 

A duas leguas de Calànhi, na colonia do Luambata, um rapaz 
da Lunda, que de pequeno ali se crcou, e que fallava bem o 
portuguez, respondia num pèqueno mondo ao que de là se 
dizia. 

Por meio do mondo chamam-se os que tecm voto na corte 
para a sua reuniào, e para isso toca-se de modo que se traduz 
assim: acuarunda ó chipata congelo; cumanganhàni, cumanga- 
nhàniy cumanganhàni ; amitanzuca cudi cahiinji; muene landa 
jimha; mutue chipanga chid hipele; cumanganhàni, cumanga- 
nhàni, cumanganhàni, aPovo da Lunda, os quo combatem os 
inimigos ; reunam, reunam, reunam ; chama-vos Cabùnji, grande 
senhor, dono da chipanga de folhas (referencia ao Muatiàn- 
vua). Reunam, reunam, reunam». 

A chamada particular da Lucuoquexe ó: Camonga, uendi, 
nicala cusutula cahiinji unvala amavo, «Senhora Camonga, ve- 
nha, espera vé-la passar o Cabùnji (elephante) que é o grande 
dos grandes que fizeste nascer». 

A do Muitia: uà mucondde tàmhu, uà muhamba xima, mv^^ 
Baca xima uendi, aO que me traz leao (carne), cestos de fiiba, 
a carga de fuba, o alimento emfim, venha». 

E tambem se chamam por oste meio todos os quilolos que 
se queira, por que cada um tem um signal especial. 

Para chamar toda a gente às armas (assisti a està convoca- 
9X0 no acampamento de Xa Madiamba), dizia o mondo : a^va- 
runda ó chipata congolo, ucuete uta, ni cahuita midimo^ mun- 
guletelanhi, munguletelanhi, aPovo da Lunda, os guerreiros, 
OS que teem espingardas e frechas, venham todos com ellas, 
venham todos com ellas». 

Aviso da fuga de um rapaz : acuarunda ó chipata congelo, 
ucuete messu, ungula dilanhi: «Povo da Lunda, guerreiros que 
tem olhos, vejam bem^ fugiu (subentende-se) um rapaz; para 



500 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 



chamar urna rapariga, accrescentam : lubuiza mutanguela ari- 
ganda «rapariga que augmenta aB nossas terras. 

Para dar parte da chegada de alguem, por exemplo de Muene 
Puto, (seu representante) : acuarunda, ó ckipata congolo cabuico 
cabuico, cacuete mendu iacuopatajana, uazeza, uaxica: «Povo 
da Lunda, valentes ; o que tem cal9a8 (cobertura nas pemas) 
de que todos somos filhos, veiu, chegou». 

De tal modo tem o tocador o ouvido costuraado ao dizer do 
mondo, que move apenas os bel90s comò quem està fallando, 
e vai tocando, e outros ao longe, logo que ouvem o signal de 
attengao, procuram mecliendo tambem os beÌ908, as syllabas das 
palavras que se ajustem aos sons que Ihe chegara aos ouvidos, 
e em seguida interpretam-as, quando nao completamente, de 
modo mais ou menos approximado. 

Numa occasiao descjei fazer a experiencia, e disse a um 
mondista que fizesse saber a Bungulo que eu ia para casa e 
precisava muito fallar-lhe. Pouco depoìs de entrar no meu 
alojamento chegava Bungulo, e riu-se por eu Ihe ter feito a 
communica^ao pelo mondo. 

Noutra occasiao quando regressava do acampamento do 
potentato Mona Quissongiio, niandei chamar o mondista de 
Xa ]\Ia(liaml)a e (lissc-Uu' ])ara participar a todos, que Mona 
Quissenii^uc se despcdia comò boni ami^Oj e pedia a todos 
para folgarcm (* danyarcm dnrante a ncutc. liomem puchou 
lou^o o mondo a si, e traiismittiu o recado do scu^uinte modo: 
aiudvuììda o c/n'pafa roììijolo, tixanhl! rhissciìr/ìfe naia, naca- 
vena mona macu lundl caini nji^mucne tanda, jlmha mutue, muene 
cìupaur/a, chlaìujwjìe^ nd mucanena^ na lììucanena , ene ciipan- 
fjana, apancjana, ene ruhuìay fuIahuJe ahuJe^ tualuhuìa. aPovo 
da Lunda, gucrreiros, attcncào! Cjjnissenguc rctira, despede-se 
do seu irmao, o ^'rande seidior, o cabcya dos povos, o dono 
das t(n*ras, o dominador; despede-se^ despede-se comò boni 
ami;:;o. Dancem, saltem, gritem, fayam a sua festa corno ami- 
gos tambem». 

() povo de Quissengue, ouvindo, respoudeu: «Que nao haja 
intrigas, e dancemos comò bons amigos que se despedem. Quio- 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 501 



C08 e LundaS; Lundas e Quiocos sSo todos filhos do grande 
senhor das terras, despedimo-nos, despedimo-nos, adeus, adeus». 

As dan9as contimiaram toda a noite d'um e d'outro lado 
do rio Cachimo, affluente do Luembe. 

Està forma de transmissao de noticias trouxe-a o Chibinda 
Ilunga quando veiu da Luba. 

Presentemente no Lubuco, so se servem d'este melo de trans- "- 
missao em caso de guerra, porque os Chipelumbas sempre que 
ouviam mondo, armavara-se e guerreavam os vizinhos, sup- 
pondo ser isso o que se pretendia. 

Os Quiocos preferem os apitos, mas estes sao para pequenas 
distancias, e por este meio avisam os seus Muana Angana da 
chegada de alguem. 

Combinando duas pessoas, de familia geralmente, num certo 
numero de signaes, correspondem-se das lavras para casa e 
vie e- versa. 

Os Bangalas e Xinjcs tambem usam do mondo. Em Loanda, 
mesmo no bairro de gente do Congo elle là existe, e é com 
que tocam a alvorada e a recolher. 

Este modo de transmittir as noticias pelo mondo, ou mesmo 
pelo chinguvo, é tao efficaz, que no dia em que a Expedigào 
passou Cassai, o souberam na mussumba do Calanhi; e corno 
no trajecto ao Lulùa a Expediyao por causa das chuvas tivesse 
gasto quinze dias, ja os portadores da corte estavam no Lulùa 
indagando se a ExpediySo havia retrocedido, ou se algum 
quilolo a havia impedido na sua viagem. 

Eliseo Reclus, na sua NouvtUe géographie universelle, la 
terre et Ics hommes^ voi. xiii, tratando da Africa Meridional, 
mal informado diz: «Que os Dualas e seus vizinhos, constituem 
unico grupo de negros que se servem do tambor para trans- 
missilo de noticias». O illustrado geographo sobre este ponto, 
esqueceu-se de consultar a viagem de Schweinfurth, que mais 
de urna vez cita. Tratando dos Niams-niams o esclarecido 
viajante dà-nos coijhecimento d'este meio de communica9So ; 
e muito antes d'elle jd o nesso major Gamitto, na sua viagem 
ao Muata Cazembe, falla d'esse meio de transmittir noticias. 



502 EXPEDiglo PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 

Em todos estes povos, considerados corno constituindo actual- 
mente a familia Bantu, e que denominei Tus, é usuai este 
sy stema de communica9ao. 

No nosso regresso, em terras entre Malanje e Pungo An- 
dongo, vi OS indigenas corresponderem-se a pequenas distancias 
por melo de um apparelho multo grosseiro, semelhante ao tele- 
phone, qual consiste de dois fundos de caba^as quasi iguaes 
em dimensSes, ligados por cordas de fibras. Um fallava numa 
cabaya em voz baixa e outro ouvia na outra. 

Por meio do mondo, conseguem os povos gentios precaver-se 
centra os feiticeiros, porque comò se ouve longe quando ha 
alarme centra imi feiticeiro, as povoafSes tornam-se descon- 
fiadas de qualquer estranho, principalmente se é dos que tra- 
zem, comò elles creem, doenyas ou morte comsigo. 

As suas crenjas baseìam-se em circumstancias meramente 
fortuitas, sem relayPio alguma com os acontecimentos de que 
ee suppSe que ellas sSo o prenuncio. Timoratos e ignorantes, 
tornou-se para elles a 8uperstÌ9ao um sentimento religioso, e 
as causas de todos os seus males, ainda os mais insignificantes, 
attribiiein-iias todos a ma voutadc dos seus idolos ou entao 
aos maleficios dos foitlceiros. 

Assilli, urna ma pontaria, o caìr-lhe das maos qualquer ob- 
joeto de estima e quebrar-se, o perder-se a vontade de corner, 
urna qiial(|uer eontraricdade, iiada para elles pode considerar- 
se aceideiital, e o move], o causador efìiciente, e um idolo ou 
feitieeiro, e buscam logo conlieee-lo, consultando os adivinhos. 
As doenyas e mortes cstao no mesmo caso. 

Na Lunda quando alguem adoecc ou morre, por milito pobre 
que scja, a familia trata lop:o de mandar adivìnhar a causa, 
porque se for devida aos idolos, tratam de os aplacar para 
nao eontinuarem a fazer mal ao doente, ou a perseguir ainda 
o morto, e para que este fi que em boni logar d'onde nSo venlia 
a inquietar os vivos. Se for por feiti(;o, procuram adivinhar 
qnem foì o feiticeiro para ser devidi^.mente julgado, e quando 
se cncontre, ser entreguc aos tumbajes para o irem niatar a 



ETHNOGRAPniA E HISTORIA 503 

golpes de faca proximo de um rio, onde lanyam depois o 
corpo. 

Dào-se sempre com grande satisfagSo do povo estas exe- 
cu98es summarias, por ser um feiticeiro de menos, e para se 
verem as contorsSes do rosto e ouvir os gritos do padecente. 
Os haveres d^este redundam em proveito dos parentes do 
doente que falleceu. 

Acreditam os Lundas nos remedios para nSo morrerem nas 
guerras, mas os mesinhados là vào morrendo ; e tambem acre- 
ditam em remedios que langados em pannos, esteiras ou pel- 
les, vào levar a morte àquelles a quem se destinam. Xa Ma- 
madiamba muitas vezes me fallava nuns e outros que desejava, 
e comò eu sempre Ihe dissesse que se nio deixasse enganar, 
que nada d'isso existia e me risse, elle, nao contente com os seus 
angangas da Lunda, pediu a Bàngalas e a Quiocos e até a gente 
do Congo, para Ihe fazerem remedios com àquelles effeitos. 

Quando o sobrinho Muxidi Ihe mandou duas pelles de on9a, 
offereceu-m'as, dizendo que se nào ser via d'ellas porque certa- 
mente traziam feitiyo para'o matarera. 

Os Quiocos, principalmente os chefes de povoafSo, teem 
receio dos feitifos, mas o que é mais curioso é quererem elles 
passar por feiticeiros para com o scu povo e tornarem-se assim 
mais respeitados. E é certo que todos, os principaes, receiam 
multo de Mona Quissengue, que ha de ser por for9a feiticeiro, 
seja quem for esse Mona Quissengue ; e tambem se dà o caso, 
pelo menos com o actual, de ter muito medo de feitÌ90s, mas 
esse teme-se de toda a gente, principalmente dos Lundas. No 
Lubuco jà se nao dà isto, e so os Chipelumbas é que acreditam 
na sua efficacia. 

Infelizmente na nossa provincia de Angola, ainda hoje se 
ere muito em feitÌ90s. 

O interprete da ExpedÌ9ao, que sabia ler e escrever, e que 
tinha estado em contacto mais ou menos com europeus, fugia 
aos nossos medicamentos, e procurava os dos gentios, porque 
attribuia tambem as suas molestias a feitÌ90s e a pessoas que 
Ihe queria mal. 



504 EXPEDigAO POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 



Por eflfeito do geito, contusSo cu molestia, a perna direita, 
do joelho para baixo e o pé, tornaram-se-lhe enormes com a 
inchagao que por mezes o impossibilitou de a dobrar, e por 
consequencia de andar, e no joelho é que parece estava a ori- 
gem do mal. 

Tinha sempre a casa por fora e por dentro guamecida de 
chifres e cheia de mistelas, hervas, panellas com aguas e varias 
outras cousas, e là ia o anganga de manha e de tarde afastar 
o feitÌ90. Mais tarde principiou este a deitar-lhe ventosas sar- 
jadas por sua conta, porque tambem tinha suas manhas de 
curandeiro e grande predilecgao por sangrar, deitar bichas e 
dar tisanas. 

Um anno depois, tinhamos acampado por alguns dias em 
Calamba Cassenga e appareceu o interprete na minha barraca 
dizendo: — Meu patrao, eu nunca podia ficar bom da perna; 
agora um cirurgiào da Lunda que me deitou umas ventosas, 
tirou-me do joelho parte de um peixe, imia baia e o rabo de 
um bicho! 

— Està doido? Lhe disse eu! 

— NSo meu senhor, é a verdade, vi eu, e aqui està. 
— -E qiiem lhe metteu isso la? 

— Foi uii] feiticeiro. 

— VA com D(Mis e (Icixe-ine tral)alliar. 

Elle là foi rosnando: os scnhores iiào acredìtam nestas cou- 
sas, mas iKKS tcmos visto outras pcores. 

No dia seguiute eliamou oiitro Lurida para o sarjar^ e coii- 
tou-lhe o que na vespera lhe liavia saido do joelho. O Lunda 
riu-se, dizendo-lhe (|ue era uma mentirà do tal anganga para 
fazer valer o seu traballio, e (|ue nào aei*editasse em tal. 

Pouco depois voltou elle a minha barraca e disse: — meu 
patrao, tinha razri(ì. 

— E in que? 

— Hoje esteve ea F. . . a sarjar-me; conteidhe o succedido 
hontem, e elle mostrou-me beni ([ue ludo era mentirà, e que 
o tal anganga nao passava de um grande intrujào; trazìa tudo 
aquillo escondido e drpois enganou-me dizendo que saiu da 



EXPKDI^AO POllTCnUEZA AO MLATIANVUA 



51 ir» 



ventosa. Eu entSo disse-llie : O que é desgraga, è quo o sr, 
Bezcrru acredite mais o que Ihe diz o geiitio, do que aquillo 
que Ibe dtz o branco, e n!lo quer o scnhor que Ihe affirme que 
é ainda mais gentio dos que os Lundas. 

Tanto OB Lundaa corno os QuìGcos acreditam qua os potcn- 
tudoa teem iimas fìgurinlias de pau que mandaiu de noitc a 
casa de cada uni para dan^arem ao pé do fogOj a fìm dt' os des- 
oriontar e enfeitì^ar. 

E por causa do receio dos feiti^os, que jà nas cubatas e ao 
redor d'ellas, pelas ruas das chipangas e tambem fora d'ellaa, 
e nas lavras e caminhos para cstas e & borda dos rios, se veem 
chifres cheios de mistelas, bonecos de pau mais oumenoatoe- 
coa dentro e fora doa njuquixes, panellaa de barro com agua e 
hervas, e te. 




ni 

I 



Esceptuando no Lubnco, iato é geral eni toda a regiSo cen- 
trai, mesmo nos limite» da cidade de Luanda, onde jjl babita 
o gentio. Os Lundas, por causa de feiti^os e tambem em occa- 
siSes de guerra, andam sempre com oa brajos, peito, costas e 
cara bezuntadoa de unturaa, azeito e tìntas, e com urna penna 
encarnada no cabcllo, com a rama para a frente. 

QuiOco 8Ó usa de tintas na cara, e auapenso ao pescoso lil 
traz uns chifres pequenos com reraedios, e ainda a tiracollo uns 
cylindroa feitoa de encanastradoa de cabama, e forradoa por fora 
de baeta encarnada, ou està combinada da tiras com baeta azul, 
contendo varios ingredientes, juntamente com pennaa de galli- 
nha, de passaros, retalhos de pelles de certos animaes e saindo 
da abertura uns pequenos chifres de cor$a, ou pennas encar- 
nadas. 



506 EXPEDI9A0 PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

Os Liindas tambem trazem a tiracollo estes porta-remedios, 
para nSo serem aprìzionados ou mortos em combate. 

Urna penna encamada espetada no Gabello acima da orelha, 
e coUocada horìzontalmente sobresahindo à linha do perfil, é 
indicajSo de que o paiz està em guerra; tambem os Quiocos 
usam d'este signal. 

No Lubuco a gente do Molo jà nSo usa nada d'isto, nem ere 
nestes remedios, e trazem o corpo muito asseado. NSio se yèem 
OS taes cbifres pequenos ao peìto, e trazem sómente suspensas 
ao pesco90 umas pequenas figuras comò amuletos. 

DLzem que as feitÌ9arìas serSo boas là para os Cbipelumbas, 
a quem chamam gentio bravio, e que tratam de ir civilisando 
e chamando para o Moio. Nós somos filhos de Muene Puto, jurà- 
mos o Moio, e nSLo acreditàmos nisso. Somos filhos da Liamba, 
nosso paiz é de amigos, e entre amigos nSo ha feiticeiros. 

Na Lunda, e isto desde o Cuango, a cada passo se topa com 
um chifre espetado no solo, com uma imagem tosca, isolada 
ou mettida num abrìgo, uma panella com agua muito suja e 
outras com diversos simpleces, etc. Nas residencias dos poten- 
tados e mesmo dentro de suas cubatas, encontra-se tambem 
d'iste, e solo da chipanga està coberto de riscos pretos, 
brancos e encarnados, e ludo sao preservativos centra diversas 
coisas que clles receiarn, principalmente feitiyes. 

Mas tambem d'iste encentraraes muito nos sobados em redor 
de Malanje; até mesmo os rapazes que eu contratei em Loanda, 
oriundos de diversos pentes da provincia, acreditam muito em 
feitÌ9es, e o que Ihes diz e adivinlie ó infallivel. 

Alguns forara muito crean^as para Loanda e teem estado 
sempre em centacto com eurepeus e feram mesmo educados por 
ellcs, mas nao perderam ainda assim as suas superstÌ9oes. 

No caso de uma doen^a, se o adivinho attribue a molestia 
a um idolo, entae principiam lego os especialistas a fazer o 
tratamcnte na conformidade das indica9oes per elle dadas. 

Dos muitos casos que a este respeito observei, transcrevo 
um do meu diario succedide em 1885, de que temei nota em 



ETHKOGRAPHIA E HISTOHIA 507 

2 de abril no acampamento de Valle das Amarguras, proximo 
do rio Camau, affluente do Uhamba. 

e Reparando que Tàmbu, o rapaz lunda do Cacuata, tem 
andado hoje proximo da cubata do interprete Bezerra com a 
cabe9a omada de capim^ cantando, pidando e fazendo-lhe bulha 
com uns paus à porta, diz-me Bezerra ser elle um bom cirur- 
giSo, e estar tratando a sua Maria de urna doen9a de que ella 
soffila ha tempos. 

Bezerra mandpu adivinhar, e sabe ser a doenga de idolos 
da Lunda, e a que chamam ctda, que o Tàmbu conhece muito 
bem e sabe tratar! 

Conta Bezerra que a Maria quando estava no Lubuco teve 
urna crian9a, que pouco depois morreu, e ao retirar para Ma- 
lanje pisàra ella urna sepultura no caminho, que sabiam ser de 
uma rapariga que tinha tido um filho que tambem morrèra. 
Conheceram isto pelos remedios que estavam sobre a refenda 
sepultura, e que tambem elle pizàra inadvertidamente. Quei- 
xava-se Maria ha tempos do ventre, e elle quando fora agora 
ao Anzavo contàra ao Cacuata as suas apprehens5es devidas 
ao facto de ella ter pizado aquella sepultura. O Cacuata disse : — 
Talvez seja isso, mas se f5r, o meu rapaz que acompanhou 
vossemecè é um bom cirurgiSo para essa doenga. Por isso 
combinaram elles principiar hoje o tratamento à enferma. 

Maria nào saira de casa, mas o cirurgiào quando appareceu, 
comò disse, depois de preparar o remedio perguntou por forma- 
lidade, se ella estava em casa. 

A isto respondeu Maria, so depois de muito palavriada do 
introluctor, tapandc a entrada da cubata. 

Este retirou e passado talvez duas horas é que voltou, sal- 
tando e fallando muito e entregou-lhe o romedio com o qual 
ella devia lavar o corpo durante o dia. Este remedio que se 
chama mufatanda, consiste simplesmente numa infusSo de 
certas hervas. 

Maria faz o que Ihe mandaram. Das duas para as tres ho- 
ras da tarde voltou o homem sempre aos saltos, gesticulando 
e comò que fallando para os idolos, e perguntou à doente se 



508 EXPED19A0 PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 

fizera o que elle prescrevéra. Recebendo resposta afl&rmativa, 
retirou satisfeito e voltou ao sol posto a buscà-la, saindo ella 
coberta coni um leD9ol, e preza por urna corda à cintura que 
elle segurava na extremidade para a guiar; ella levava numa 
cabaja a agua com que se lavou, e là a conduziu para o outro 
lado do rio onde descobriu urna sepultura (indispensavel para 
este tratamento), e urna vez ahi ofdenou-lhe que despejasse a 
cabafa sobre a sepultui*a. Voltaram, vindo Maria ainda tapada 
com len^ol ; entrou osta na cubata onde ficou sem fallar a nin- 
guem, e ómanha bebera o remedio que se chama cida. Se a 
doen9a for a que se suppoe, é certo, diz Bezerra, que ficarà 
curada. Se nSo tìcar, é porque a doenga é outra e o adivinho 
errou. E precìso novo adivinhamento para se conhecer Lem a 
natureza da molestia e fazer-se o tratamento devido! 

A proposito, fiquei sabendo que na Lunda todos soflfrem de 
lombrigas e este mal é multo conhecido pelo nome de (juióca. 
O adivinho depois de ter dito ser està a molestia de que soflFre 
o doente, e sendo devidamente pago pelo seu trabalho, é suc- 
cedido pelo cirurgiao especialista que dà logo a beberragem 
propria para o caso, feita tambem de umas determinadas her- 
vas e quo toma o nome da doenya — (juioca. 

Em([iiauto .se bebé a infusa^, salta e canta o tal curandeiro. 
No dia segui ute^ traz elle e poe ao lado do doente urna panella 
coni folhas e cascas de arvores, por elle escolhidas e mettidas 
eni agua, e coni està agua borrifa-llie todo o corpo, servindo 
para isso as niesnias folhas e cascas. Chama-se a este prepa- 
rado curojffda. cirurgiTio é (|uein adniinistra os borrifos pela 
])rinieira vez^ di/endo certas palavras^ uina grande arenga. Nos 
dias seguintes é o proprio enfermo que faz a operacao por tres 
vezcs, durante as vinte e (piatro lioras. 

A sua coniida é feita eni separado e s(') come de inadrugada, 
e as scis lioras da tarde, ao ])ór do sol^ depois d'isso ja nào 
pode corner mais ató ao dia seguinte. Nào pode corner carne 
de ])orco neni de bagre. () remedio é efficaz e prompta a cura 
se de facto a doenca é devida a lombrigas! Segundo diz o 
gentio, é urna doenca de idolos. 



ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 509 

Tambem se curam doen9a8 que se ere serem devidas a fef- 
ti§os. Se urna pessoa apanha um feitigo ou é enfeitigada por 
qualquer era sua casa ou na alheia ou mesmo na rua, é coisa 
que logo se conhece, e é caso para se chamar um adivinhador. 

O enfermo, dcsconfiando mais ou menos d'onde procede o 
feitÌ90, dà o maézu comò é naturai a qualquer pessoa, e està 
divulga-o, até chegar ao conhecimento dos adivinhos, que sabem 
tirar logo proveito d'isso, pois em goral os maézus sào passa- 
dos de bocca em bocca sem consciencia, e de tal forma se vSo 
deturpando, que se convertem em verdadeira novidade quando 
volvem ao conhecimento de quem primeiro Ihe deu origem. 
Tenho prova d'isto até com interpretes e Loandas, e às vezes 
appareciam comò ordens minhas o que apenas nera bem pen- 
sado estava! 

O adivinhador quando o procuram, estd jàà espera d'isso, e 
està sabedor do que se passa, e a quem se imputa com mais 
ou menos fundamento o mal de quem o manda chamar. 

Chega a casa do enfeitigado, com ares de quem entende das 
coisas. Toca uma especie de campainha, ou agita uma cabaga 
que tem dentro pedagos de metal e outros objectos que produ- 
zam bulha; canta, grita e salta, sempre com acompanhamento 
de palmadas e cantos dos circumstantes, faz muitas momices, 
gestos mysteriosos, avanga, recua, para, etc. 

Traz preza na cabe^a uma figura de pau, o angomho (que os 
interpretes dizem ser o diabo); suspense ao bra^o uma especie 
de cesta ou bolsa feita de capim secco (faz lembrar a palha), e 
dentro muitas bugigangas, pedagos de baeta jà usada, pós de 
gallinha, ovos de cobra, pausinhos, raizes, folhas, tacida, etc, 
para o que olha de quando em quando comò quem quer consul- 
tar esses objectos. Interroga o enfermo sobre os seus sofiri- 
mentos, mira-o, espanta-se, dà reviravoltas na cubata, gesti- 
cula, pasma a olhar para as bugigangas, tira o angombo da 
cabe9a e fica absorto olhando para elle e depois dà uns saltos 
e àspira9oes ruidosas, uns ah! ed! ed! comò quem jà sabe 
tudo. Os de casa dSo-lhe logo a esportula, conforme os teres do 
queixoso, constando de fazendas, polvora, etc. Se acha pouco, 



510 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

nio volta o angombo para a cabe9a; lamenta-se, pede mais e 
ofTerece o que dào ao angombo que lego toma ao seu logar. 

Depois de guardar o que Ihe deram, espalha as bugigan- 
gas no cliSo, salta de novo, gesticula^ falla a cada coisa, toma 
a tirar o angombo, e p5e-o comò se fosse a olbar para todos 
aquelles objectos. Demora-o a final mais junto de um d'elles, 
e em seguida pucha a si o objecto escolhido, e diz solemne- 
mente em que consiste o feiti90; onde foi apanhado, quem é o 
feiticeiro e quem é o cirurgiSo que deve ser chamado, o qual,' 
bem entendido, anda combinado com o adivinho. 

Chama-se o cirurgiào, que traz jà o remedio, consistindo de 
infusSes de certas raizes, troncos ou cascas, para o doente 
beber e expellir o feitÌ90 e outros para Ihe bezuntarem o corpo, 
feitos de folhas pizadas e amassadas com azeite. Estas unturas 
e as comidas sito administradas segundo as suas prescrip^òes 
e por quem elle determinar. Assim dizem que farSo desappa- 
recer depois de algum tempo o feitigo! 

— E se nSo fizer? Fica na mesma? 

— N2lo senhor, respondeu-me Bezerra, o cirurgiSLo diz logo 
que adivinho nao presta, e faz elle o seu papel, descobrindo 
outro feitÌ90, reccbc a esportala e aponta outro cirurgiao. 

E assim se continua até se acertar ou o doente morrer, ou 
cntao quando o doente està ja exhaiisto de recursos e de pa- 
ciencia, que corre com o ultimo e nao chama mais ninguem. 
Assim se esquece da doenya e declara mesmo que nunca fora 
eufeitiyado e que por isso o adivinlio nao podia cuni-lo!!!» 

E de praxe na Lunda conceder aos sentenciados à morte 
pelo Muatiànvua, nao sendo feiticeiros, o tempo necessario 
para comerem e bebercm antes de screm executados. Os que 
nada teeni em casa, mandam pedir ao proprio Muatiànvua que 
Ihes mando cozinhar infunde e um pedalo de carne ou de peixe 
e llies de ainda malnfo, pois estao com fome. Muatiànvua se 
nada tcm prcparado em sua casa, manda-o pedir fora a Lucuo- 
quexe ou a algum quilolo, e satisfaz-se o pedido para o senten- 
ciado ter animo de receber o castigo que se Ihe impoz. 



ETTlNOORAPniA E HISTOUIA 511 

I ■ il I 

Os corpos do8 sentenciados em goral, ficam insepultos no 
logar onde foram executados, ou sào lanyados ao rio, e por isso 
nSo 86 chora o seu obito. 

Em todos estes povos mesmo em Malanje, logo que morre 
uma pesBoa, é sabido que os parentes e amigos que estSo a 
seu lado o annunciam à, vizinhanga e mesmo a grande distancia, 
pelo seu carpir, o qual so termina depois do sol fora, se a morte 
teve logar de noite, ou interrompe-se so alta noite para con- 
tinuar ao alvorecer e terminar das oito para as nove horas. 

Se OS parentes teem algumas posses, o numero de carpi- 
deiras augmenta, e logo ao romper da madrugada se ouvem 
tiros de espingarda. 

Iste repete-se ao sol posto e até alta noite, e dura de tres 
àa vezes até oito dias, havendo danjas, comes e bebes nos 
ultimos, segundo as posses da familia e gerarchia do defunto. 

modo de carpir, ou melhor, as ceremonias de nojo pouco 
differem de uma para outra tribù, em toda a regiSo centrai. 

Embora a familia, em que se dà um obito, tenha posses, 
demonstra-se o pezar dcsataviando-se todos dos seus adomos 
e enfeites, e substituindo as roupas por peda90s de tecidos de 
fibras grossas de certas cascas, que fazem lembrar a nossa 
serapilheira, cobrindo com ellas sómente as partes pudendas. 
Homens, mulheres e crean9as rapam o cabello ou completa- 
mente ou por metade, e so de um lado. N^o se cozinha em casa 
emquanto o cadaver nSo tiver sepultura, e toda a familia con- 
serva-se encerrada na cubata, chorando. 

So OS homens e mulheres expressamente chamados para car- 
pir, o podem fazer fora, e em redor da cubata em que està o 
defunto. 

Em Mataba encontrei uma novidade no modo de carpir. Os 
parentes e mesmo amigos do defunto, arranjam uns saiotes 
de folhagens e omam a cabe9a com grinaldas de verdura, o 
que faz lembrar as nossas antigas dan^as de campo; e andam 
sosinhos todo o dia e durante noite, de suas casas para a do 
defunto e vice-versa, pelo mesmo ou por diverso caminho, sem- 
pre em passo de danja, em canticos lamentosos, e quando se 



512 



EXPEDI9ÀO PORTOaUEZA AO HDATIANVUA 



encontram duas d'estas figuras, dangam ambas algum tempo,! 
e depoia cada urna segue seu destino. 

O ceremonial do» enterrns, e modo de dar sepultura A'3 
diverso de ima para outroa povos. 

Se defunto pur exemplo è Muatiànviia, tiram-lhe os den- ' 
tea, aa unhas e os cabellos, e giiarda-se tudo mima especie da 1 
urna tu«ca de madeira, que vSo depositar uuma casa era legar J 
proxìmo ù mussumba do Calilnhi, a que chamam Auzai, e o 
corpo sepultum-no no letto do rio, 
quinto affluente do Calanhi. 

A Lucuoquese lem um cemi- 
terio especìal em Catandama, 
lognr na margem esquerda do rio 1 
Calanhi, e um pouco ao norte da j 
musBuraba do mesrao nome. 

A gento da Landa é enterrada j 
CUI logar afitatado das povoa^Sea, | 
quando por qualquer circumstan- ] 
eia ae nito deixam inaepultos oa j 
corpos. 

Os grandea de Mataba, os , 
Tulamba', sSo tambem sepulta- 
doB noa leitos dos riachos. 

No Xinje, ob grandea (Muana , 
Angana) aào veatidos com bona 
panuoB, dcitados sobre leitoa 
ftitos de ]tau on de cannas nas , 
caaas em que viveram, aendo as portaa fechadas e trancadas 
por fora, e ahi estSo dois e tres annoa até restarem aó oa 
eaqucletos, e durante todo este tempo lia sempre vigias em , 
roda das caaaa para afaatar oa cflea, e outros auimaes. 

Estes vigias sào considerados corno lobos, e podem ir à ! 
cubata de qualquer corner quando teoUam vontade, e roubar 




' Phiml ile Uiilambii. 




ETHNOGBAFHIA E HI8T0RIA 513 

mesmo cabraa, galliiiKas e malufo, emfim, cousaa de alimento, 
que nÌDgiiem se queisa, e mesmo qiieixando-se, oa potentados 
dSo ob attende riam. 

Fica encarregada urna raparìga de estar ao pé do defunto, 
recolhendo em panellas os vermes e peda^oa de carae que 
caem da ossada, e por ultimo reune todos os oeaos contados 
em mabelas ou bocados de panno, indo entào os parentes, 
amigos e povo, se o defunto era senhor de senzalla, em prò- 
cissSo langar esses ossos no leito de um rio, e nesse dia e qob 
dois oa mais seguintea, conforme as posses, chora-se de novo 
o obito, havendo grandes dan^as. 

A gente do povo tem logar especial de sepultura, embora 
n&o resguardado comò conviria. 




Entre os Quiócos, se moire um dos grandes senhores, fica 
depositado na propria cubata ; aa portas trancam-se por fora e 
vai-se accumulando terra em torno da casa de modo a cobrÌ-la, 
intermediando essa terra com troncos e raizea, e toda a po- 
voa^ito se muda piira um logar distante, mas donde se veja 
a elevatilo que fizerara ; depoia cercam està especie de tumulo 
com troncos grossos e unidos, e ni d'aquelle que ao passar 
por ali nào for cora a devida reverencia. E motivo para uma 
grande milonga em que o infracfor perde tudo quanto pò s su e. 

Para os do povo e costume, era qualquer sitio afastado daa 
povoagCee, abrlr uma cova pequena e sentnr nella o cadavcr, 
ficando a cabe^a e joelhos de fora, e aquelles que fizeram o 
enterraracnto, deitam em seguida a fugir. 



5U 



EXPEDIflO POETUGOEZA AO MDATIÌNVUA 



k 



Tambcm na Limda, enire a gente maÌB pobre, se dà o repa- 
gnante uso de e mb mi li arem oa corpos Riimas estelros e deì- 
xil-los ÌQBepultos entre o capiiu, e aiijeitos a sercm pasto dos J 
aniraaes uarniceiroa. 

No Caungula de Matabo, havia um ìogar eapecial para an-l 
gente da thipanga do potentado, e comò na Cliina, cozinha-s 
para o defunto na vespora do enterro & noite, e a comida vae 
com elle para a aepultura. Tnmbem para leste do Lulza, oa 
LundsB quo teem posses fazem o mesino para oa seua parcntes. 

Oa Uandaa comem a carne dos defuntos, e lai]9am ob ossos 
noa rioa! 

No Liibuco sSo as mulliercs qiie abrem as eovas e enterram 
OS sena companheiros, e vice-vcrea. Aa aepulturns silo atràa 
das reaidcncias, o que n.lo é para extranliar, porqiie noa soba- 
diia de Malanje 'mcsmo ao pé da villa, onde ha cemitcrìo, 
observa-ae ainda o meamo; devendo notar-ae qiie alguns doa 
B:ibft», beni comò aeua filhoa e povo aSn baptiaadoa. 

Tanto noa caminhoa, no interior do districto de Loaoda, de 
concelbo para concellio, corno no meu transito do Cuango ao 
Cullo, vi algumas aepulturaa indii^adas por elevajSes de terra, 
cobertas de troncos e arbiistoa, e cercadaa de duaa ou tres 
ordena de pana mnia ou menoa grosaoa e altoa, que aào dis- 
postoa pelea individiioa que pertenceraui a oomìtivaa ein via- 
gem, e aseim fìcani reagunrdadaa das feras. 

A maia notavel que conhcci, 6 a que figuro ; era de um am- 
banza importante que fallecèra no caminbo do Cundungalo 
para o Cucngo, jà no rcgrcaao do Lubuco para a aua casa na 
margem do Cuango. 

Sempre que por ali pasaara comitìvaa de BAngalaa, que é 
proxìuio de um legar em qiie por costume ae acampa, todos 
là vSo depositar um signal do seu rcspeito, que conaiate em 
arvorar urna bandeinnha de qualquer fazenda, dependurar 
una fioa de miaaanga ao pescoso de urna figura toBca que U 
exifite, por U novaa figuraa, e pelo caminbo vUo cravando na 
terra pana, que um ou outro mais curioso da comitiva afTei^oa 
na sua extremidade com a faca, imitando animaea ou cabc$as 



ETHNOGRAPHIA E fflSTORIA 615 

humanas, chegando alguns quasi a completarem figuras de 
homem ou de mulher pelo menos até à cintura. 

Quando regressei, vim por esse caminho, e numa grande 

extensSo estava limitado do lado esquerdo por urna linha d'es- 

tes paus, que pela variedade da altura e das figuras mais ou 

.menos completas que nelles se viam, esculpidas ou contoma- 

das, produzia um eflFeito agradavel. 

TodoB OS que passam por pé de uma sepultura, fazem-no 
eom certo respeito, e é frequente quebrarem um tronco de um 
arbusto proximo, antes de se approximarem e langam sobre ella 
o ramo quando passam, batendo em seguida com a mSo no pé 
do lado da sepultiira. 

E sobre estas ceremonias que notei, fui informado que Ihe 
lan9am o ramo, para nao serem perseguidos em sonhos pelo 
sepultado, e batem no pé, para que cala teda a terra que 
pudessem trazer pertencente à sepultura, a qual poderia tirar- 
Ihes a forga para andarem d'ahi em deante. 

No meu regresso, quando visi tei o novo jaga Andala Quis- 
siia, D. Teca, estive antes na povoagào do velho jaga, meu 
amigo, que là tinha deixado ainda vivo; e comò os antigos ma- 
cotas me convidassem para descan9ar antes de seguir ao meu 
destino, fui informado, que elle fallava muito de mim e por 
vezes dissera quando estava doente, que nao se esquecessem 
de me darem de comer quando eu voltasse, e que Ihe fizeram 
a vontade, sepultando-o com a roupa com que eu o havia 
presenteado. 

Deram-lhe sepultura na casa em que elle residia, e là estava 
a bandeira portugueza num pau a um canto, onde elle sempre 
a tivera guardada. 

Pedi para là entrar, e disseram-me que eu tinha de tirar as 
botas. Contentei-me pois em olhar de fora para a eleva9So de 
terra, dentro da casa principal, sobre a qual estavam espetados 
troncos grossos, formando cabides, onde se viam suspensoa 
pedayos de fazendas, bonecos, panellas, missangas, etc. 

Dos paus da cérca exterior da casa, que haviam rebentado, 
quebrei dois tronquinhos com folhas, e atirei-os para dentro da 



510 



EXPEDI^ZO POBTDQDEZA AO KUATllMTUA 



L 



casa, que todos que me acompanhavam milito flpreciaram, e 
pediram-me entSo para ser eu quem fechasse a porta. 

Està ceremoiiia, explicaram-me depois, era para que o de- 
functo soubeese que fiira o seu amigo que pediu para o visitar, 
e para elle lìcar descangado, 

Em algumas povoa^Ses lundas vimos logarea reservndos. 
para sepulturas, e onde se obaervara mais nas pruximidades 
dos camiubos, ti na nosaa provincia até ao Cuangu, e algumas 
sepulturae sSo na verdade de muito trabalhoj pode dizer-se 
que e![o toscoB mausoleus de grande altura, estando a terra 
batida e solidificada, disposta em dots e tres degraus, e aobre 
eUes urna forma de caixSo. Tudo isto estA aob um telbeiro 
espa^oso, (.'oberto de capim, aeodo vedada a entrada do recinto 
por urna palisaada de troncos unidos aos suportea do telheiro. 

Parece, pois, que aa que encontreì no meu transito até ao 
Cuilo, e que me iuforraaram sercm de comitivas de commer- 
cio, silo urna imitii^ìlo das que se veem na nosaa proriucia. 

Quando fui escolher o locai para a nossa Esta^^ Conde de 
Ficallio, no Chibango, a tres kilometros de dìatancìa do rio 
Chiiìmbue, a unica cousa que me pediu o senbor da povoa- 
^0 fol, que nSo collocasse o acampamento ao pé do logar dos 
morto». 

No Cacunco, em Mataba, duas mulherea da Lunda, que iam 
na minha comitiva para a mussumba, fomrn condemnadas a 
Ulna multa grande por terem ido pescar ao riaclio em que se 
sepultavam os Tulamba da locai id ade. 

Atravessando aa terras do Capenda, pasaou a ExpedÌ9Ao na 
povon^Ffo do fallecido Mona Mucamba, cujo corpo, havia mais 
de um anno, ostava dentro da residencia esperando a oppor- 
tunidade para aer enterrado. Ao lado do cadaver là ostava 
fechada urna rapariga com panellaa em roda de si, onde ia dei- 
tando OS vermcs e oa peda^os espbacelladoa do corpo do seu 
senbor, e noutrns os oasoa que d'elle se iam desligando. 

A casa era cercada, e por fora eataram oa chamados lobos. 
Mucanzo, que era o berdeiro, jit tinba ehamado a si o harem 
do defunto, e isto contraiiou muito o povo visto o cadaver 



ETHKOGRÀPHIA E HISTORU Òli 

— ' 

alnda nSo estar enterrado; e de quando em quando iam gritar 
contra os da povoa9?lo de Mucanzo, por Mona Samba^ que 
era a mSe e senhora das terras, nao ter jà mandado chorar o 
obito d'aquelle seu filho, e por todos jà estarem roubando o que 
elle deixàra. 

Salvas as excep95e8 que apontei, vè-se que estes povos 
teem respeito pelos mortos, e acredi tam que, se nSo Ihes derem 
boa sepidtura e se os nSo chorarem devidamente, elles voltam 
a lembrar aos parentes o que querem que se Ihes fa9a, e d'isso 
todos se receiam. 

Assisti As visitas de pezames entro os Lundas. A visita 
passa a palma da mSo direita pela do individuo de mais res- 
peito que està de nojo, bate depois uma palmada na sua mao 
esquerda, faz isto tres vezes e diz : chaipe, chaipe, chaipe, mu- 
rundandmi «triste, triste, muito triste, meu amigo». Resposta 
d'aquelle: chatiape muane, ióuma id anzdrìihi tucuile enchiquef 
iobrigado, senhor, cousas de Deus, o que se Ihe ha de fazer?». 

Nos Quiòcos diz a visita : quibe una mona, quibe una mona. 
Resposta : cu chi mutuile sepa diami, iduma id anzàmbi ? o que 
com pouea differenga quer dizer o mesmo. 

Tambem entro os Bàngalas, Xinjes e no Lubuco se usa 
està ceremonia. E em todos é uma distinc9ao que se faz aos 
que estào de nojo, ir à sua porta disparar alguns tiros. 

Ape zar de serem muito supersticiosos, attribuindo tudo que 
é fora do ordinario à feitiyaria ou à malqueren9a de idolos, 
elles acreditam num poder sobrehumano, que nesta regiSlo cha- 
mam zdmbi, e que os interpretes teem tomado por Deus, sondo 
certo que aos crucifixos que o commercio là tem levado deram 
o nome de Zàmbi ; e teem uma tal ou qual idea do seu poder, 

A tal respeito disse-me um Bàngala que viveu imi anno no 
meu acampamento: 

— «Na minha terra (Cassanje) os paes ensinam aos filhos a 
ter respeito pelo Zàmbi que nos ve e ouve, sem que nós o 
possamos ver, e que tem a sua morada là em cima (apontando 
para o céu). Quando estamos afflictos, a elle pedimos que venha 



518 



EXPEDIfZo POBTDGUEZA AO MUATLSnVUA 



em noeso ausilio e nos ajude a livrar-noB de afflic^Tlo ; quo 
protcjii as boaa pessoaa e castiga os criminoBos (e poz aa iqSob 
em attitude de adt)ra52o ollinudo para cima). E elle quem po<Ie 
dar felicidade &i pessoas e ds terras. N£o fazcmas corno os 
Lundaa qiie trazem o Zàmbi (cnicitìxo) aiispenso ao pescoso; 
nfio seDlior, seguimos o uso das terras de Muene l^lto. Todas 
OB Ambanzos, fazem de proposito uina casa peqiK'na, onde na 
" parede do fundo, aobre baeta enciirnada se p5e o Zambi e os 
SantoB, que cada um pode arranjar, ou entSo na parede da 
cubata de cada um, mas em resguardo, se colloca o Zitmbi 
tapadoi. 

Urna midher da Lunda, Cabuiza, filha do Muatlànvua Mu- 
teba, a quem iuterroguet sobre o mesmo assumpto, disse-me: 

— iMeu pae tinba muito respeito pelo Z^mbi de Muene 
Puto, e pelo seu Obi Noéji. Nas suaa doenjas, e raesmo quando 
tinlia ÌDterease em atcan^r alguma cousa, cbnmava o Z!lmbi 
em seu favor, levantava os bra^os e & albera para cima e 
dizia: chi noéji zàmbi utala udtni ni muxtma uape «olhai para 
mìm com bom cora93o>. Titdia o seu Zàmbi sempre em multa 
e8tiraa9no, e tinha muitos guardados, que pedia aos uegocianteB, 
para distribuir pclos scus cacuatas quando os mandava a qua!- 
qiier diligencia longe, para que fossem bem succedidos e nào 
llies acontecesse mal algiim pelo caminhoi. 

Conheci um d'esses cacuatas, Mema Tundo, que ainda tlnba 
o Zilmbi que Ibe dera Mutcba, e dizia que ainda hoje nZo saia 
para uma diJigencìa seni o levar ao pescojo. 

Cabuiza ouvira muita vez seu pae reprehender os quiloloa 
por nSo fazcrem pelo Zàmbi o que deviam, e por isso depuis 
de clic morrer a terra nSo podia ter felicidade. Elle pmiha « 
pcmbe num prato deante do Zàmbi. 

Fallando no Zàmbi a Xa Madianiba dìsse-me elle: — que 
seu pae o Muatiànvua Xoéji sonliilra uma uoite quo urna cara- 
vana de commercio de um branco estava para chegar & sua 
muBsumba, e dias dcpoìa cliegou Eodrlgues Gra^a. 

Este, continuou elio, mostrerà a Noéji o que era o nesso 
Deus e corno n6& o adoravamos, e o muito que Ibe devìamoa, 




ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 519 

e aIcan9avamo8 com os nossos pedidos. Noéji^ dias depois, 
mandou logo arranjar na sua mussumba de Cabebe urna casa 
especialy onde fez collocar pelas paredes em cima de reta- 
Ihos de baeta encamada, os cruci fìxos que Ihe dera Rodrigues 
Gra9a, attribuindo o sonho que ti vera ao Zàmbi. 

Noéji e OS seus parentes de quando em quando iam levar 
a pembe ao Zàmbi, e passavam ali o dia, comendo e bebendo 
e tocando marimbas, ao que chamavam: fazer a festa em honra 
do Zàmbi. A casa tinha um guarda, Muene Cabéza, a que 
chamavam nana mundele (guarda do branco). Muteba mesmo, 
estando era Chimane, muitas vezes ia adorar o seu Zàmbi 
em Cabebe, que ahi conservou, e ia levar-Ihe a pembe e 
passar là o dia com a sua muàri e alguns parentes. 

A adora9ào usuai dos Lundas consiste em levantar as mSos 
e cabe^a para cima e dizer : iou zàmbi chi noeji nitala curnuxi- 
ma dnchi ni mulàjì, ànchi ni muiji; nitala eie, muene cu can- 
tanga uatanga macassa ni miendu, «Vós, senhor Deus acima 
de Noéji, compadecei-vos de mim jà contra feiticeiros, jà cen- 
tra ladrSes, olhai por nós Senhor que fazeis as nossas pemas 
e brafos.» 

No Lubuco tambem teem muita fé no Zàmbi de Muene Puto, 
e procuram muito os crucifixos de metal. 

No Xinje dà-se o mesmo, e tambem procuram as imagens 
ou registos de papel, a que tambem chamam Zàmbi, e pedem 
aos negociantes um pouco de sai para elle, e a nós sai, assu- 
car e jimbolo (bolacha ou pilo); de tudo queriam muito pouco 
que fosse para levarera ao seu Zàmbi, que, comò nos Bànga- 
las, està numa cubatasinha especial pendurado na parede do 
fundo, sobre baeta encarnada, e assim tambem as imagens. 

Os Quiocos tambem teem a mesma cren9a, e usam os cruci- 
fixos sobre ti ras de baeta encarnada suspensos no peito comò 
08 Lundas. Estes dizem: anzdmhi mucido (antigo Deus), em- 
quanto que no sul se diz : tdtuco ulo (pae velho, antigo). 

Os de Malanje usam tambem do vocabulo mau^i, para 
designar Deus, que eu me persuado ser uma corrup9ào do 
Chi Noéji da Lunda. 



520 



ESPEDI9X0 POETUOUEZA AO MUATlAsVDA 



Quando se fez urna casa grande no Cbibango, para 80 con- 
servar armada a cadeira còm o respectìvo docel, que a Expe- 
pedi^ào levou para o Muatiilnvua, todos os velhoa quc rodea- 
vam Xa Madiamba Ihe recordaram a necessidadL' de festejar o 
Zamlii, porque aqiiella casa era d'elle, pois so elle podia ter 
leinbrado a Muene Puto para que Ihe mandasse que uenliuiu 
Muatiànvua tinha obtido antes d'isso. 

Eet&o convencidos, pois, estes [iovos, da existencia de lun 
poder superìor invisivel, poder que nSo é dado ao homem 
egiialar, e todos se curvam deanto dos seus designios; e nSo 
86 Ibea Olive urna impreca^So contra elle, ainda mesmo quando 
soSrani grandes contranedades, ou quando mais exjisperadoa 
pela maior deugi-a^a que Uies possa acontecer. 





CAPITOLO IX 



SUCCESSÀO DOS MUATUNVUAS 



Muatìànvua lauvo — Noóji — Muquolcngue Mulanda — Mutcba — lanvo Noóji — Mucanza 
— Muljijì — Umbala — lanvo (3.0) — No»^ji (2."j— Mulàji Umbala — Miitcba (2.») — 
Umbala (2.o) — No<''ji Arabumba, vulj^o Xanama — Ditnnda, vulgo Chlbinda — Noéjl 
Cangàpua — Quinibamba, vulgo Muriba — Mucanza, Muatiàuvua interino — Umbala, 
idem — Promessa do Xa Madiamba de ser Muati&uvua, caso Portugal concedesso o seu 
I»rotcctorado d Luuda. 




ulguei quo nSo sena ocÌogo, 
antes de terminar esto traba- 
Iho pela exposi^So do alguns 
factOB e aprecia^Sea relativaa 
aoa caracterea intellectuaea e 
moraes das tribus que visitei, 
dar ao leitoroa apontameiitos 
que pude retollier pela tra- 
di^Sa orai, eobre a succeasilo 
t . dos potentadoa da Landa, 
desde a morte de Ilunga ató 
'\'f ao meu regresso da i 

Bumba em 1887, e que no 
seu coiijuncto reaumem o 
que me foÌ posBivel apurar 
Bob re o assumpto. 
Como é de auppor, attenta a carencla dos indispensaveia 
dociimentos, devem liaver lacunaa na narrajào, e ó de crer 
mearao que se déem ommiasSes de alguns potentados, talvez 
por nSo Laverem acontecimentoa notaveia com ellea relacio- 
uados, que os tornaaacm tcmbrados na memoria popular. Ainda 
aBBÌm, OS elementoa colligidos nSo deixam de ter o aeu valor, 
corno aubsidios para esclareeer o estudioBO, aobre ae pbaBea 
principaca na exiatencia d'està frac93o importante da grande 
familia a&icana de que me occupo. 



EXPEDigÀO POKTUG0EZA AO M0AT1ÌNVDA 



Muatiànvua lanvo 



Quando Ilnoga, esposo de Luiji, morren, està tirou o liicfuo 1 
do brago do defunto, e poseados dias foi colloci-lo no de seu | 
tilho lanvo, repetindo-se por essa occaaiSo as mesmas cere- I 
monias que so obBcrv-aram no tempo do pae, e que ainda hoje 1 
se repetem, corno jà descrevi em oiitro logar, 

Logo que lanvo foi proclamado Mitatiànvita, entenden que 
sua mSe devia ter um Eslado independente, coni aueeessSo por 
sua morte, A eseoiha do MuatiSnvua, entre as filbas do seus 
aacendentcs, e uaofructo de rendinientoa proprios, mas com 
certos deverò» e encargos, taes comò: cuidar do Muatiànrua , 
em vida, providenciando para que Ihe nilo faltasae de corner, 
do beber, lenbas para se sqiiecer; tratà-lo naa suas doen9a8; 
Huperintender no preparativo das auas excuraSes, jà de recreio 
ou de caga, )& naa de guerra j tornar conta de todos os filhos 
d'elle desde qiie nasceaaem, sendo varfles, até & idade de Bete 
ou oito annos, em que pudcasem prestar alguns servìjoa ao 
pae; sendo femeaa, ató à idade da puberdade, em que o Mua- 
tiànvua Ibes destinasse consorte. Depois d'elle morto, compe- 
tia-lhe ainda vigiar pclos seua reatos mortaea, e mandar obaer- 
var as ceremonias que em epocbaa marcadas se devem aos 
mnrtos, etc, e ainda, dar hospedagem às visitaa de peasoaa 
de alta categoria, que o Muatianvua tivease de receber. 

A Lueuoquexe ' tem um grande poder, merecendo pelos seus 
encargos multa consideragào. Baata dizer, que na actualidade. 



I Lueuoquexe. SSo trea palavras contrahidaB: In prefiio de peasoa, 
iTTMot verbo "Cuidar, tratari, e exe auffixo factiliro. Aasim aquella nova 
palavTB corno titulo, deaigna a pesaoa que cuida, trata de tado necesBa- 
rio ao Estado do Muatiànvua. 

Etradarnente se tem por isso ìntcrpretado, que a mulher que tem 
aquelle titulo reprcseuta de in3o do Muatiànvua. De facto o novo cargo 
leeaiu, nns daaa primeiras vezea, ero inSea do Maatiftnvua no poder, 
poréro n3o mais aasim succedeu. 




ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 525 



é a unica pessoa que no caso de morte arrasta após si para a 
sepultura todas as pessoas do seii Estado, que no acto do en- 
terro se podem encontrar, até mesmo o descendente de Mua- 
tiànvua e seu consorte, se nSo teve *o cuidado de desapparecer 
na occasiao em que ella fallece. 

A mulher que é elevada aquelle cargo tem o privilegio de 
escolher para marido, um descendente de Muatiànvua ao qual 
se n^o admitte recusa, e a quem ella no seu Estado dà o pri- 
meiro logar de honra (Xa Muana*). 



r 

E costume entre estes povos, corno o é ainda na nossa provincia de 
Angola, em signal de deferencia e considera9ao para com os homens 
em geral, chamar-lhe pae, e às mulbercs mite. Muitas vezes o Muatiàn- 
vua chama à Lucuoquexe màcu («màe»), principalmente quando Ihe 
pede alguma cousa. 

E de crcr que este babito, em uso tambem entre os do Congo (pai élu 
opae nossoa), fosse entrando em Portugal, e d'aqui a razUo porque aos 
pretos cbamàmos «pae». 

A msLe do Muatiànvua, comò a de qualquer potcntado tem o titulo de 
Anguina Muana («senbora da córte») que abreviam em Na Muana. 

1 Este titulo compoe-se de duas palavras Xa e Muana. A primeira 
indica superioridade na grandeza, quantidade e qualidade, e Muana 
quer dizer «filbo». 

Pelo facto do individuo que o toma ser filbo de Muata, e ser esco- 
Ibido pelo Lucuoquexe para seu conjuge, é por isso o filbo predilecto do 
seu Estado, a quem ella cede parte dos seus tribù tarios. 

Este personagem é tratado pela Lucuoquexe com grandes extremos, 
mas nunca o deixa s6, e ai d^aquelle que commetter alguma leviandade 
com as filbas do Muatiànvua, que todas estào a seu cargo, antes de mu- 
darem de estado, ou com as suas aias e servas ; é morte certa, e é caso 
em que o Muatiànvua nao pode intervir. 

Xa Muana é o unico bomem que nSo pode ter senao uma mulber, 
a Lucuoquexe, e està tambem nào pode ter filbos. Seria morta por feiti- 
ceira aquella que os tivesse ; excep^ao unica foi Luéji que gerou o Mifti- 
tiànvua, e que depois de ser Lucuoquexe nào teve mais filbos. Se as 
successoras os tivcssem, pensam os Lundas, isso darla logar a ambi^oes 
para o cargo de Muatiànvua, porque o filbo de Lucuoquexe se julgaria 
com direito a disputar o logar ao Muatiànvua que estivesse no Estado. 

Nao importa, porém, que ellas tenbam sido màes, ou o sejam, quando 
sào nomeadas para aquelle cargo. 



526 



EXPEDI^lo POBTCGnEZA AO MDATUnvua 



lanvo mandou partìoipar b bcu tio Canhiitoa que succederà 
a aeu pae, e que eaperava elle o reconheceaae corno senhorda 
todae as terras, e nessa e oiifor alidade Ihe maudosse tributos 
corno 03 mais quilulos. 

For conselhos de Bua mSe e do Miiida, coQcedeii o ubo do 
lucano a alguna doscendentes de Muata, e a fleua tios, além 
d'esse uso, o titillo de cdruta, para elica proaeguirem, comò no' 
tempo de seu pne, Da occupa^ito de terras jà conquiatadas, ou 
na conquiuta de outraa. 

Foi entSo que partiu o Faaisnupa Canhimho (Canhenvo) com 
a sua expedii,'.%ii para Bucate, qiic seguiu sem obetaculo até 
proximo dos MaizaB e Massires, e com os quaea teve eutSo de 
austentar urna guerra de exterminìo. 

Inffìrmado de que com os povoa mais de lest£ se fazia bom 
negocio, estabeleceu Canhimbo a sua residencia proximo do 
lago Mucro, dando à terra o nome de Lunda, que era o d'aqucUa 
d'onde partirà. Oa conquistadores fizcrara-se temìdoB pelo ubo 
do ampoco (faca), e ob povoa que sujeitaram denominaram-oa 
Campocolo» '. 

Succedeu a Canliimbo, quo toraàra o titulo de Muata Ca- 
zembe, um filho e dcpois uui neto, consertando todos o nome 
do primeiro, e foÌ eate quem tratou de eonstituir uma cfirte à 
iraita^So da do MiiatiSnvua, e nSo obstante continuar a man- 
dar tributos a eate, tomou-ao independente e conseguiu que o 
intitulasaem Muati&ovua. 



I 



1 Sobre eate votabiilo, ha duas reraòea, Uns acceitam que é a deno- 
mina^So doa chociLlhoa, guizoa, ctc, que oa Luudos usavam ao pescoso 
ou & cintura, quando iun em inarcha, para espantar 
rozes que pudosscm eetar pmiiinos do acu trajeclo ; uso que ainda hoje 
bctS entre al^maa tribua, e até no aertSo da uoBaa provìucìa. Ob carre- 
gadorea do rodes no BCrtSo uaam eintoa cheioa de guiioa principalmente 
em raarehaB de noite, para o mesmo firn. OutroB direm aer o vocabulo 
composto de ea (profilo do aingular), e aTapoeo, «faca, arma de dcfesa e 
de ataqucn, poh »na mào". 

Seja qaal fòr a interpretatilo é certo que a deuoraina^'So de campocolo 
se Tulgarisou. 




1 

ETHNOORAPHU E HISTOBIÀ 527 

Como fóra estabelecido quo so um Campocolo; Lunda da 
corte do Maatianvua, podia succeder no novo Estado^ morto 
aquelle, foram buscar là o successor entre os seus parentes, e 
yeiu entSo Luqueza, no tempo de lanvo Noéji, o idtimo que 
foi da mussumba; conhecido do Dr. Lacerda, e succedeu-lhe 
um outro Canhimbo, de quem nos falla Gamitto. 

Para leste, mas so até o Lubilàxi, foram com a sua gente 
08 irmSos Mutombo Muculo e Caiembe Muculo, bons cagado- 
res de flecha, os quaes repelliram para Samba os povos que 
desalojaram, estabelecendo-se proximo às nascentes do Lubi- 
làxi, e ficando o primeiro mais ao norte. E depois d'este que 
foram estabelecer-se na margem direita do Munvulo, affluente 
d'aquelle, e mais ao norte, Muene Tondo, Muene Quitanzo, 
Mulanda e outros. 

Querendo lanvo dar desenvolvimento & lavoura e ao mesmo 
tempo mostrar a sua valentia ^, participou à corte que ia fazer 
guerra aos selvagens Tucongos, no Lulùa, e de facto de li 
regressou com muita gente que ou guardou para si ou repartiu 
pelos seus quilolos. 

Como Canhiuca se esquivasse a pagar novos tributos, o Mua- 
tiànvua, enthusiasmado com os louros da sua primeira guerra, 
e influido pelos seus quilolos, mandou dizer a Canhiuca: — «Se 
nilo queres pagar o que é devido, quebra a lan9a que te apre- 
senta o meu enviado». 

Aquelle era tambem novo no Estado, e desejava ter occa- 
siSo de se fazer conhecido por valente entre os seus, e por 
isso declarou-se preparado para acceitar a guerra; e n?lo so 
quebrou a lanja, mas encarregou os enviados de communicar^ 
que OS ia seguir jà, porque queria esperar a guerra do Mua- 
tiànvua o mais perto possivel da sua mussumba, para Ihe nfto 
dar muito trabalho. 



1 £ 80 quando saem victoriosos na primeira guerra que allea podem 
substltuir a mola dos Tubungos pelos seus cintos ou cord5e8, que omam 
com missanga e aos quaes por analogia tambem dSo aquelle nome. 



528 



expbdiqZo pobtuoueza ao uuatUktua 



lanvo ao ouvir tal resposta saiu immediatamente com a soa 
guerra e enconlroti Cauhiuca jd acampado, a poucos dias de 
marcha ao N.-E. da Bua reaidencia. 

Travou-se a lucia, e no mais eocami^ado de refrega a gente 
do Muatiànvua, duvidando da Victoria e receando que Canbiuca 
se atreveese a persegui-Ios até ao CalànLi para se apossar do 
Estado, abandonaram-no ao inimigo. 

lanvo, desamparado, reiiniu toda a sua familia e servos qiie 
com elle ficaram, e elle mesmo foi cortando as cabe^AS a to- 
doa, entregando-se depois a Canhiuca que o mandali matar 
e esquartejar, ficando com aa pernaa, bra^os e cabe.5a, que 
guardou em deposito e de que exigiu resgate ao successor. 

O Muatiàavua na guerra ha de vencer sempre, porqae, 
aegundo elles, quem morre è o homem que u fraco, que nJlo 
presta, ou nSo podia com o Eatado; e auccedem-lbe tantos 
quantos 03 precisos para sustelitarem a fama do tìtulo, 

Betiraram porque riram a guerra perdida, e o Muati&nvua, 
vendo-se abandonado, entregou o lucano à Suana Murunda 
para o seu successor, e elle considerou-se morto para todoa os 
effeitoa. 

A tradi^^o aó dd a lanvo um filbo, Not^ji lanvo, que tinba 
poiica idado quando seu pae morreu e qiie estava entregue aoa 
cuidadoa de Luéji, sua avc5. 



Muatlànvua Noéji 

Regrcssando Sunna Murunda com o lucano, segtindo o rito, 
collocou-o no brafo de aeu aegundo filho, que depois de invea- 
tido no cargo adoptou o cognome de Noma Mazeu (gengìvaa). 

Conscrvou a córte tal corno eatava organisada, e ouvia multo 
08 consclhoa de sua mSe; porém entendeu que se nJto deviam 
confundir oa podercs d'ella com oa seus, e para fazer bem 
sentir d cSrte, nas suas conversn^òes principiou logo a entre- 
cortar as suaa pliraaes e mesmo a dcatacar palavras, iutercal- 
laudo-llie um bordilo eapecial e signifìcatico — muaniS chinoSji, 




El'HNOOK&PHU E HISTO&IA 



529 



ji abreviado em maé chi noéji, e em algiimas tribus, Mataba 
por exemplo, mane chi noéjt (aninguem superior a Noéjii)); o 
que a Lucuoquexe e tndoB oa grandes do Estado logo adopta- 
ram, e hoje é trivial em todoB oa povoa, corno homenagetu ao 
Miiatiànvua, porque acima d'elle so Deus. 

Sabia Naina Mazeu quo 08 dcBcendentes de seu tio Quinguii, 
com a protec^Jlo de Muene Puto, baviam feito mn grande 
Bstado nas margena do Cuango (BSiigala), e contava niuitaa 
vezea ter aonbado que aqtieltes 
mnua parentea do Muatìànvun, 
mais para dcante haviam do dar 
multo trabalho ao aeu Eatado, 
que procurariam deatrui-lo, e 
que o Muatiànvua que tivease 
de luctar com elica, se qiiìzease 
Ber feliz, havia de primeiro 
alcan^r a protec^ho de Muene 
Puto. 

Apprehenaivo com eate ao- 
nho, que ae repetira por vezes, 
tentou elle, jA pelo occidente, / 
j4 pelo oriente, procurar cala- 
belecer rela93es com aa terraa C_ ' J^ ' 

de Muene Puto ; porém oh B.1n- 
galaa por um lado, e oa povos 

de CasBongo e de Cazembe, oppuzeram-lhe obataculoa que 
friiatraram sempre as suas tentativas. 

Contrariado por ni\o llic acr posaivel ir tSo longe luctar com 
aquellea povoa, perseguia oa maua aubditos, senbores das ter- 
raa proximas, indo elle meamo levar-lhes a guerra, e d'abi 
veiu o re&peito que todos Ihe tinbam, e mais tarde o tcrror 
de aeu nome, que se perpetuou nos succesaores. 

O primeiro que Ihe deu pretesto para o aeu baptiamo de 
guerra, e podcr tirar a mola doa Tubungoa, foi o Muata Séji, 
por ae eaquivar a satisfazer a urna exigencia de tributoa que 
Noéji Ibe mandou fazer. 



530 EXPEDigXo POBTUOUEZA AO MUATllNVnA 

Quando o Muatiànvua chegou ao sitio d'elle^ j& Séji tinhA 
fugido, por ter sido avisado por o Muitia de que o MuatiSn- 
vua Ihe nSo perdoava, e aconselhou a poyoa9ào a que se Ihe 
entregasse immediatamente. 

O Muatiànvua tomou para si o que Ihe approuve, e diyidia 
resto pelos seus quilolos mais considerados, e antes de regrea- 
sar A mussumba mandou queimar a povoa9Ì[o. 

Foi elle quem organisou o servÌ90 de policia na mussombmi 
com OS rapazes novos filhos da corte, que Ihe apresentaram para 
tuxalapólis, e creou os Tucuatas', chefes de diligencias, e tam- 
bem a corporajSo dos Tumbajes*. 

Estas organisagSes deram margem a tributos de rapazes e 
homens, e novamente eome90u a emigra9So da popula92o cen- 
trai para ceste, e a occupa9^o de territorios até ent2o coosi- 
derados comò matos ou conto de animaes ferozes. 

Nomeàra Namajimba seu Suana Mulopo, porém corno elle 
morresse, entrou em seu legar o irmSo d'este, CasBongo. 

Foi no seu tempo que principiaram os Bàngalas a encami- 
nhar-se com pequenos negocios de fazenda e de sai para a mus- 
sumba, trazendo de là escravos para as suas terras, atraves- 
sando sem difficuldade a vasta regimo do Cuango até là, porque 



* Està palavra compoe-se de prefixo tu e do verbo cucUa «; 
prender, amarrar e tambem ajudar* (o que prende, ajuda etc.) £ um 
de Gommando, o mais inferior, e ao qual sao dados, pelo menos, 
ou quatro homens sempre armados com armas fomecidas pelo chefe da 
povoa^ào a que pertencem, à imlta^So do que se observa na córte. 

2 Todos 08 criminosos sentenciados a morte pelo Muatiànvul^ sic 
entregues a estes para executarem a sentenza pelo modo por que foi 
determinado, ou a faca ou a paulada, ou por meio de torturas, etc 

Além d'isso, reunidos em tribunal, ouvindo as provas contra um fai- 
ticeiro, jnlgam-no e sentcnceiam-no, podendo por isso em dadas circam- 
stancias e em certas condigòes, vender a vida do feiticeìro a qoalquer que 
a pretenda, estranho à tribù a que elle perten9a ou onde teve legar o 
seu julgamento. 

Poupam a vida ao accusado, mas se qualquer tumbaje o tornar a ver, 
pode matà-lo ou vender-lhe novamente a vida a outrem. 



ÉTHNOGRAPHIÀ E HISTOBIÀ 531 

entSO; invocar o nome do Muatiànvua para onde ia o negocio 
de mandado do Quingùri', era o sufficiente para se Ihe abrir 
caminho. 

Foram os Bàngalas com o seu negocio que deram legar a 
que alguns annos depois^ continuassem a fugir dos centros 
populosos a leste do Lulùa os que receavam ser vendidos pelo 
Muatiànvua; e este, suppondo que os Quiòcos no sul acouta- 
vam OS foragidos, mandou-lhes exigir tributos por habitarem 
nas suas terras. 

Os Quiocos que jà se haviam espalhado entro as nascentes 
do Chicapa e Cassai, com receio dos feitÌ90s do Andumba Tèm- 
bue, seu chefe, sujeitaram-se a esse pagamento; porém os che- 
fes das diligencias de tal modo abusaram do poder que tinham, 
que OS potentados entenderam pela sua parte tambem tributar 
OS vizinhos em nome do Muatiànvua. 

O Muatiànvua^ sabedor de tal abuso, creou uma auctoridade 
especial, Muene Chimbuia (csenhor do machado»), para esse 
firn ; porém este e os que o representavam, tomaram-se depois 
o terror dos povos ; por que, além de cobrarem presentes para 
Muatiànvua e para si, comò representavam o Muatiànvua 
para todos os effeitos, quando as cobran9as nSo satisfaziam às 
suas ambiySes, nSo so matavam os que procuravam esquivar- 
se ao pagamento, mas destruiam as povoajSes e roubavam 
gente. Muene Chimbuia, ou segundo outros Muene Cutapa 
(«homem que mata»), logo que entrasse numa residencia e 
collocasse o machado no chào, estava decretada a morte do 
proprietario, a quem apenas eram concedidos os dias neces- 
sarios para se preparar. 

Comia, bebia e divertia-se, no que o acompanhava o Muene 
Chimbuia e os seus subordinados. 

Um cacuata que andasse em diligencias com a sua gente, 
onde chegava, era recebido corno se fosse o proprio Muatiàn- 



1 Assim chamam aos jagas de Cassanje, por ter sido Quinguri o pri- 
meiro jaga. 



532 EXPEDiglO PORTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

Yua, e ai d'aquelle quo nSo Ihe desse boa hospitalidade e nSo 
contemplasse com bons presentes para a sua viagem. 

Se hayia descontentes cntre os Lundas mais afastadoB da 
córte, OS Quiócos chegavam mesmo a pronimciar-se contra os 
abusos praticados pelos delegados do Muatiànvua; e quando 
Ihes era possivel procuravam vingar-se, fechando-lhes os carni- 
nhos pelas suas povoa9oes e roubando os vizinhos. 

O Muatiànvua, informado do que se passava dizia: — «Po- 
dem os Lundas matar-me à traifJlo comò fizeram a lanvo meu 
irmào, mas fiquem certos de que virei um dia, transformado em 
Muene Puto, tomar posse d'estas terras, visto que perderam o 
juizo». 

Attribue-se a sua morte a feitigos tambem de parentes. Dei- 
xou filhos, e d'estes chegaram a succeder no Estado, Muteba, 
Mucanza, Muléji, Umbala e lanvo. 

Croio ser este Muatiànvua Noéji a quem Rodrigues Gra^a 
se refere com o nome de Quimanézi, o que certamente é de- 
vido a erro de escripta, devendo ser Quinauézi. 

Tratei de investigar a tal respeito, e concini ser questao de 
pronuncia. Muitas vezes confunde-se o z coiaj, Os povos do 
sul eiii vcz (lo pretìxo cJii que é caracteristico no norte, empre- 
gam qtà^ e tambem no sul o o aborto do norte, é proferido aii. 
D'està forma o Quinauézi era o Chi Noéji da corte, abrevia- 
tura do bordao que este ]\Iuatianvua fizera emprcgar na con- 
versa9ao — muam chi noéji. 

E este o Muatiànvua a quem ouvi attribuir pouco mais cu 
mcuos as palavras que a Rodrigues Gra^a disseram os povos 
do sul que elle proferirà pouco antes de morrer; — aEu nao 
morrò, transformo-me em morto, para ir visitar Muene Puto, 
meu irmao ; nao sei d'elle; quero saber da sua grandeza e vós 
la me deveis dar tributo ; e quando uao o cumprìrdes, meu 
irmao vos eastigara. obrigando-vos a pagar tributos corno meu 
herdeiro e senhor d'estes matos». 

Durante todo o tempo que estive entre os Lundas, e um 
anno completo que estive entre o Luembe e o Calànhi, nunca 
ouvi que o Muatiànvua desse a Muene Puto o tratamento de 



ETHNOOBAPHIA E HISTORU 533 

irmSo. Actualmente o que se dizia e que se pode considerar 
tratamento era: «Muene Puto — nosso pae — o senhor d'estas 
terras — o nosso proteetor — o poderoso que nos manda fazen- 
das, polvora, annas e missangas — o amigo do Muatiànvua». 

De facto, é verdade que o Muatiànvua, querendo ser ama- 
vel nas suas delibera93es, em negocios que diziam respeito i 
ExpedÌ9So, quando eu Ihe fallava ou mandava alguem fallar- 
Ihe, respondia sempre : — Muene Pitto ni Muatiànvua, Mua- 
tiànvua ni Muene Puto, etc, querendo indicar uma igualdade 
reciproca. 

Creio bem que o tratamento de irraSo, que por muito tempo 
se figurou existir da parte de Muatiànvua para com Muene 
Puto é erroneo, corno nSo sao de nenlium modo verdadeiras as 
interpretagSes que se dSo muitas vezes às palavras ou discur- 
sos que se attribuem àquelles povos. 



Muatiànvua Muquelengue Mulanda 

NSo quiz Cassongo, Suana Mulopo de Noéji, succeder-lhe, 
e comò jà tivesse fallecido seu irmSo Muene Pata, entrou o 
mais novo dos filhos de Luéji, o Mulanda que jà era velho, 
mas cuja mSe era ainda Lucuoquexe e muito considerada por 
todos, 

O seu neto Noéji lanvo, filho de lanvo, por ella educado, jà 
era senhor de um pequcno Estado. Mona Uta porém era de um 
genio irrequieto e ambicioso e queria ser Muatiànvua. 

Mulanda conseguiu alargar os dominios dos Muatiànvuas para 
leste, e cobrou tributos no Samba, na parte orientai do Urùa*, 
e raandou duas embaixadas a Cazembe, que de là Ihe trouxo- 
ram muito bons presentes. 



1 u neste caso é prefixo, segundo Cameron, que indica «terra, paìz», 
e rtia ou Itta e o nome d'elle. E porqiie se suppozesse este vocabulo por- 
tuguez, d'ahi se orìginoa denominar-se as suas alterosas montanhas — 
Montanti as da Lua. 



534 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO UnATllKVUA 

O senhor de Canhiuca comejou a inquietar-se com as con- 
quistas do seu vizinho, em territorios que considerava seus, e 
principiaram as desintelligencias novamente entre os dois po- 
dereS; coine9ando pelas presas que se faziam de parte a parte 
às caravanas de commercio^ que entre elles andavam de um 
para outro lado. 

Noéji lanvo, desesperado porque seu tio sendo velho ainda 
gozava de multa saude, e estava com disposÌ53e8 para disfin- 
ctar durante annos a administraj^o do Estado, aproveitou-se 
das desintelligencias com o potentado de Canhiuca, e à frente 
de urna caravana foi combinar com elle que o auxiliaria numa 
guerra centra o Muatiànvua, se elle o protegesse na successSo 
immediata. 

Ató entao nSto havia exemplo de um filho de Muatiànvua, 
pedir auxilio de for5as estranhas para derrubar o seu poten- 
tado, e por isso causou gi'ande admiraQSto, e nSo teve mesmo 
muito credito a noticia que se espalhou de que Noéji vinha 
com urna for9a de Canhiuca atacar o Muatiànvua seu tio. 

Prevenido Noéji em marcha de que a sua aventura jà se 
tomàra conhecida de alguns que o podiam comprometter, fez 
acampar a for9a de Canhiuca até receber as suas ordens, em 
logar CHI quo nao fosso vista. Avan^oii elle apenas com a 
sua gente carrcgada de azeite de palma, mabelas, esteiras, 
sai e pe^as de ea^a, e entrou na mussumba, participando ter 
vindo dos seus negueios, o que mais fez ercr, que os boatos 
(pie se propalavam nao crani senao intrigas que se forjavam 
])ara o Muatiànvua o castigar. 

Nuéji apresentou os seus presentes ao tio, sendo muito bem 
recebido, e este convidou-o para à noite ir comer e beber com 
elle, que acceitou, tendo antes prevenido os seus amigos de. 
que o ataque se* devia dar proximo da madrugada. 

Se beni coineram uiellior beberam, e o resultado foi tio e 
sobrinlu) iicareni completamente embriagados, e cairem em 
})rofundo sonnio. 

Dado alarmc de guerra, houvc grande confusao na mus- 
suniba. No cmtanto a guarda do Muatiànvua tratou de o levar 



ETHNOGRÀPHU E HISTOBU 535 

para longe, emquanto os de Canhiuca iam com as suas facas 
e flechas fazendo grande mortandade nos Lundas despreveni- 
dos, e aprisionando as mulheres e crian9as. 

Come9ava a aclarar o dia quando se resolveram a largar fogo 
às cubatas, e retiraram com as presas e tiido quanto puderam 
roubar. 

Entro 08 prisioneiros estava Cabuiza, Muàri de Noéji, a qual 
sendo reconhecida por um dos chefes dos inimigos, perguntou- 
Ihe oste pelo seu companheiro, e comò ella dissesse que estava 
na mussumba quando elles a assaltaram, ordenaram-lhe que 
OS acompanhasse para verificarem se elle por acaso teria mor- 
rido na refrega. 

De facto la se encontrou a cabe9a de Noéji a um lado e o 
corpo a outro. 

Os de Canhiuca, que contavam matar o Muatiànvua para 
Ihe succeder Noéji, vendo que este e nao aquelle é que tinha 
side morto, recearam da vingan9a, em que os Lundas tinham 
vantagem por estarem na sua terra, e retiraram precipitala- 
mente deixando em liberdade Cabuiza, que tratou de enterrar 
Noéji, dando-lhe sepultura em um legar reservado, que ficou 
sendo o amai pa noéji, recinto em que se depositaram os res- 
tos mortaes dos potentados. 

Cabuiza, e o seu filho lanvo Noéji, ainda uma crianja, foram 
logo recolhidos pela Lucuoquexe na sua chipanga, onde encon- 
traram boa hospitalidade. 

Teria aquelle mo90 uns doze anno^, e apesar dos bons conse- 
Ihos da mSe e da sua bisavó jà demonstrava com rancor o odio 
mortai que tinha k gente de Canhiuca. 

Era Suana Mulopo de Mulanda o seu sobrinho Muteba, e 
corno este tivesse dado provas de grande capacidade e do 
muita valentia para governar o Estado, e Mulanda conhecesse 
estar velho para sustentar guerras com Canhiuca; reuniu os 
grandes do Estado, e disse-lhes que resignava os seus poderes 
no seu sobrinho Muteba, que era muito capaz para fruir com 
elles as riquezas do Estado, o que todos acceitaram da melhor 
vontade. 



536 EXPEDigXo portugueza ao huatiInvua 



Muati&nvua Muteba 

Passou assim a successào do Estado à segunda gera^ao de 
Luéji; sendo ainda a representante d'està que p5e o lucano 
no bra90 do potentado. 

O primeiro acto de Muteba foi de reconhecimento para com 
seu velho tio Mulanda, concedendo-lhe comò elle dqsejava o 
estado de Càrula no Luliia; e corno por este facto seus filhos 
perdiam o direito à successao de Muatiànvua, ao mais velho 
d'elles deu-lhe o estado de grande Calala ao servÌ90 da corte, 
terras na margem direita do Cajidixi, e tambem gente, para 
nSo despovoar o Estado de seu velho pae. 

Nomeou Mucanza seu irm^o, Suana Mulopo, e encarregou-o 
de ir exigir ao Canhiuca urna satisfajao completa, por ter man- 
dado atacar à falsa fé a mussumba do Muatiànvua, exigindo- 
Ihe entregasse os presos que levàra da sua mussumba. 

Respondeu Canhiuca que elle fora convidado para levar a 
guerra à mussumba, e que so farla entrega da gente da Lunda 
em seu poder, quando o Muatiànvua mandasse pagar o seu 
resgate. 

Muteba osperou algum tempo, omc^uanto todos os scus qui- 
lolos se preparavaiii para a guerra, e no entanto lanvo Noéji 
que ia crescendo, e com elle a raiva aos de Canhiuca, andava 
percorrendo os caminhos com outros rapazes, sempre na espe- 
ran^a de vinp^ar a morte de seu pae, e se conseguia cercar 
alguma comitiva desgarrada, era certo haverem desordens e 
conflictos graves. 

Tinha elle ja os seus dezoito annos, e os velhos da corte 
respeitavam-no, e queriam-lhe rauito, pela audacia e valentia 
de que estava dando constantes provas. 

Kao desconliecendo seu tio a preponderancia que elle ia ad- 
quirìndo no animo de todos os liomens da corte, para evitar 
compliea^oes no futuro, e para o contentar, com o consenti- 
mento de todos, deu-llie o estado de segundo Suana Mulopo, 
fozendo-se por essa occasiào grandes festas na corte. 



ETHNO0R4PHIA E HISTOKU 



Mucanza notando jà a grande popularidade de eeu primo 
cm segundo gran, (estea primoa aito consideradoa Bobrinhos, 
porque oa primoa em primeiro grau aSo tidoa corno irmSos por 
sena paes o terom sido), propoz ao Muatiànvua e & c5rte, que 
lanvo trocaase o cargo com elle, vieto que tendo-o a cCrte en- 
contrado capaz para aer Siiana Mulnpo, devia elle ter a prima- 
zia, porquanto aeti pae se 
fosae vivo devia ter sido 
jà MiiatiSnvua. 

Foi um precedente que 
se eatabeleceu a liom do 
Estado na occaaiSo, maa 
que mais tarde se reco- 
nheceu aer mau por cauaa 
daa ambi^ScB. 

Todos applaudiram a 
proposta, e o MuatiSnvua 
2^ nSo podia deixar de 
approvar; maa no entanto 
obaervou que previa gra- 
vea complica^Sea no fu- 
turo por està alteragSo na 
succesBSo. 

Foi ouvida a velila Lu- 
cuoquexe, que nSoappro- 
vou, maa que ae eonfor- 
mou com a deliberagSo. 

mal estava fetto_ disse 
ella, e eu corno poucoa 
diaa posso viver, nSo quero eiubaragar oa ncgocioa do Eatado. 

Foi pois lanvo nomeado Suana Mulopo e todoa reconbeciam 
a sua coragem, e quo elle contributria para que ae choraase 
devidamente a morte de seu pae, depota de eatar vingada. 

Muteba, can5ado de esperar, mandou declarar ao Canbiuca 
a resoIugSo em que estava — ae na volta dos portadorea nSo 
vìesse a gente da Lunda, que este tiuha em refena com os 




538 EXPEDigXo portuouezì» ao huatiìnvua 

milambos (tributos) que Ihe eram devidos — de ir elle mesmo 
queimar-lhe as povoa98c8. 

Canhiuca limitou-se a responder que se o Muatiànvua là 
fosse, sujeitar-se-ia às consequencias. 

Fartiu Muteba com urna grande forQa para atacar o vassallo 
recalcitrante, e dado o recontro, foi derrotado e morto Canhiuca, 
e com elle muita gente, regressando o Muatiànvua com gran- 
des despojos. 

O novo Canhiuca renovou a declarajSo de guerra, nSo sendo 
mais feliz. 

Sendo eleito o terceiro, prcferiu fazer as pazes, pagar as 
despesas da guerra, entregar teda a gente da Limda que es- 
tava captiva, e considerar-se tributario. 

Nestas contendas tomàra-se lanvo mais notavel, e mais 
temido pela sua valentia. 

Morrendo a velha Luéji, deixou vagos os seus dois cargos 
importantes : o de Lucuoquexe e o de Suana Murunda. Muteba 
nomeou para o primeiro Cabuiza, màe de lanvo Noéji, e para 
o segundo sua irmS Cassenga. 

A aoreditar nas informa93es que tive do velho Louren9o 
Bezerra, e mais tarde de Rocha, que presenciaram o que se 
passou na inussumba por occasirio da morte da Lucuoquexe 
(/amina, deveria ter liavido grande mortandade nos dias do 
funeral de Luéji-ia-Cùnti. 

Logo que derain parte ao Muatirmvua Jluteba da morte da 
Lucuoquexe, mandou elle agarrar o Xa Muana, marido d'ella, 
e prende-lo na sua mussumba; e que se matasse toda a gente 
que se encontrasse na resideneia da defunta. So podiam chorar 
ao pé d'ella as mullieres que a tinhani servido. 

No dia do enterro todas as pessoas encontradas pelo tran- 
sito, ainda mesnio que pertencessem il nobreza, eram logo pre- 
sas e seguiam com o prestito, até junto da grande cova em 
que se devia lan(;ar o corpo da Lucuoquexe. Ahi se dispoz urna 
camada d'essa gente deitada no fundo, e sobre essa, sentadas 
e encostadas ils paredes da cova, se collocaram as servas da 
defunta, e sobre as pernas d'estas o corpo, servi ndo-lhe de 



ETHNOOBAPHU E HISTOBIA 539 

cabeceira o seu Xa Muana. Em segiiida taparam tudo com 
a terra, que se foi calcando, formando-se urna eleva92U) sobre 
o solo em redor, e logo em seguida foi està cercada de duas 
ordens de paus grossos e unldos, para as feras nào irem des- 
cobrir a sepultura, atirando-se para dentro do recinto assim 
resguardado grandes troncos de arvores com folhagens a mae- 
carar a terra da elevajào. * 

No regresso os homens encarregados de todo este ceremo- 
nial^ roubavam e acutilavam todas as pessoas que encontrayam 
pelo transito até chegarem à presen9a do Muatiànviia, a quem 
deram parte de ter sido muito bem enterrada a senhora das 
terras. 

Neste morticinio foram victimas filhas e filhos de Muata, e 
descendentes de Muatiànvua, e os parentes que Ihes sobrevi- 
veram, referem os narradores, conscguiram que os feitieeiros 
matassem o Muatiànvua pouco depois. 



Muati&nvua lanvo Noéji 

Fizeram-se grandes festas pela sua acclama9So, e todos os 
quilolos porfiaram em o presentear com as suas parentes para 
augmento do harem, no que entenderam se devia fazer con- 
sisti r a grandeza do Muatiànvua, e todas ellas traziam grande 
numero de presentes para seu amo. O povo em geral associava- 
se a essas festas da nobreza, trazendo tambem presentes de 
mantimentos. 

Logo que lanvo foi eleito para succeder no Estado, quiz 
que nas ceremonias funebres que iam fazer-se a seu tio, se 
mandassem matar algumas pessoas para o acompanharem na 
sepultura; porém a Lucuoquexe observou à córte que isso nSlo 
era da praxe, que nunca pela morte de um Muatiànvua se 



1 Para a Lucuoquexe e successoras ha um cemiterio especial na mar- 
gem esquerda do Calànhi, que se chama ecUandama, 



540 EXPEDigXo POBTUGUEZA AO MUATIÌNVUA 

havia feito semelhante cousa, e que por isso nSto se devia 
consentir que o Muatiànvna introduzisse innova93es, que Ihe 
podiam ser prejudiciaes. Que se havia praticado assim, pela 
morte da Lucuoquexe passada, por ser ella a Luéji-ià-Cónti, e 
mesmo era seu voto que nSo se devia tornar a repetir esse uso 
com as suas suceessoras. 

Approvaram todos o que a Lucuoquexe dissera, mas ainda 
assim affirmaram-me que sempre se mata um ou outro indivi- 
duo quando morre algum Muatiànvua. Ultimamente, depois 
de Noéji (o que Rodrigues Gra9a conheceu), o unico que 
morreu na mussumba foi o seu successor Muteba, e por morte 
d*este nSo consta ter-se victimado pessoa alguma. Os outros 
foram assassinados, e nao foram os seus corpos sepultados no 
rio; nem no anzai ha urnas do que chamam reliquias d'esses 
Muatiànvuas. 

lanvo logo de principio, manifestou a necessidade de engran 
decer o Estado de seus avós, e de exigir a Canhiuca que pa- 
gasse a vida de seu pac, que os seus traÌ9oeiramente mataram 
quando elle dormia; e exigiu que à córte o nao contrariasse. 
— «Se me fizeram Muatiànvua, deram-me direito a ser obede- 
cido, e aquelle que nSo quizer ser obediente fuja para eu o 
nao niatar.» 

01)S(Tvaram-Ihe os velhos quo o Canluuca estava socegado, 
o nao fora o que estava no Estado quem itiatara seu pae, e 
que este era a^i^ora uni quilolo do Muatìan\ma. 

lauvo respoudeu-llies: — «Que quem herdou dos seus pas- 
sados o Estado, bordava os b(^ns e os males que elles tìzeram, 
assim corno suecedera a elle Muatiànvua. Muatiànvua nao 
morre é semju'e o mesmo. que fizeram Chibìnda, Noéji, 
Mutel)a fiz eu, e liao de faze-lo todos os ([ue vierem depois; 
tauibem com Canliiuea deve ser o mesmo. Estejam sempre 
preparados ])ara a guerra, e ai d'aquelle que tiver medo, ou 
nao me quc^ira seguir. 

Aeliando-se apertado na mussumba do Calanlii, e conside- 
rando apeuas està comò monumento para o acto da posse de 
Muatiànvua, e onde se deviam depositar os restos mortaes dos 



ETHNOORAPHIA E HISTORIA 541 

que exercessem esse cargo, foi estabelecer urna grande mus- 
sumba em Cabebe, deixando està entregue ao Xacala, repre- 
sentante de lala Màcu, e aos Tubungos. 

Foi no seu tempo que partiu para leste seu primo Luqueza 
com povo que elle Ihe deu, a tornar conta do Estado de Ca- 
zembe, fundado por Canliimbo, junto ao lago Muero. 

Por està occasiSo partiram tambem Xinde, Canonguéxi e 
outros em seguimento d'aquelle, occupando os territorios por 
onde elle passou, ao sul do Luliìa até às suas nasccntes. 

Mostrou aos seus quilolos que tinha necessidade de tirar a 
insignia que Ihe fora imposta pelos Tubungos, e por isso par- 
ticipou a resolu9So de ir tomar terras no Lulùa a norte, para 
Estado do Muitia, que considerava ser ainda pequeno. 

Convenceu os seus, e conseguiu por-se em marcha com urna 
grande guerra; bateu os povos das margens do Lulùa, Luiza 
e Calànhi, que eram anthropophagos, e sujeitou ao seu dominio 
urna parte dos Uandas. 

Proximo da confluencia do Calànhi e Cajidixi, cercou de 
fortcs e espessas palissadas uma grande àrea de terreno onde 
estabeleceu uma mussumba de guerra, para o caso de ser 
necessario submetter os povos que se rebellassem, para d'ali 
serem expedidas forjas e recursos para o nortc, e com o fim 
tambem de estar mais proximo do Canhiuca, que elle sempre 
teve em vista hostilisar. 

Nestas guerras, em que foram divididos grandes despojos 
pelos seus fidalgos, maior nome creou elle de audaz e de 
valente. 

NSo ignorava Canhiuca o que se estava passando, e espe- 
rava occasiUo para ter um pretexto de Ihe mostrar que se jul- 
gava, apcsar de sua fama, superior a elle. 

Regressou lanvo a Cabebe para dar descan9o à sua gente, 
deixando na quipaca, quo construira, um primo seu, com a 
forfa indispensavel para ahi se sustentar, sem ter de recear 
ma vizinhan9a dos povos de Canhiuca. 

Trabalhava-se em Cabebe na lavoura, disfructando-se a tran- 
quìlidadc que succede às lides da guerra, quando chegaram 



542 EXPEDigXo portugueza ao muatiAnvua 

emÌ8sario8 de Canhiuca. Este estranhava quo lanvo se tivesse 
est[aecido até entSo de o mandar cumprimentar, e de pagar os 
tributos corno fizeram seus avós. Muatiànvua recebeu-os em 
audiencia, e quando o que fallàra acabou^ fe-lo approximar de 
si; e mandando cortar as cabefas aos outros disse-Ihe: — «Leva 
a minha resposta a Canhiuca». 

Fouco tempo depois acamparam for9as armadas d'aquelle 
potentado, junto ao Munvulo, affluente do Lubilàxi, e o Mua- 
tiànyua mandou logo o seu Calala desalojà-las, o que lego se 
fez. Vieram mais passado algum tempo^ succedendo novo des- 
barate^ em que os despojos foram muito maiores. 

Decorridos algims annos mandou Canhiuca annunciar que 
viria elle mesmo atacar a mussumba, e por isso saiu ent%o o 
Muatiànvua e foi esperà-Io na sua quipaca. 

Um anno se entretiveram em escaramu9as sem grandes re- 
sultados, e a gente da Lunda sentia-se desanimada e qneria 
regressar a suas casas. 

NSLo desconheceu lanvo que seria arriscado dar um ataque 
& chipanga, porque o descontentamento era grande pelas fomes 
que a sua gente estava passando. Reuniu os velhos e disse- 

Ihcs : 

— aNao qiiero sacrificar o meu povo, mas nSo posso retirar, 

porqiie o poder do Muatianvua ficaria corapromettido se com- 
mettesse tal cobardia. Morrerei aqui; se alguera quer ver, fiquC; 
mas tratem os raeiis qiiilolos de mandar a gente para as suas 
tcrras e vSo por o lucano em meu tic Mucanza». 

Cabeia, seu sobrinlio, que era o Mona Ut<a, foi o priraeiro que 
desamparou quando o viu entrar na chipanga de Canhiuca 
seguido pelas raullieres e por alguns rapazes. 

E da tradi^rìo que elle matou muita gente do Canhiuca para 
entrar na chipanga e largar fogo à sua cubata, e que pouco 
antes de morrer tambem disscra: 

— oEu morrò em desaffronta do meu povo, mas Muene Puto 
vira das aguas um dia perguntar por mini, e nao me cncon- 
trando, porque todos me abandonaram, tomani entào conta 
d'estas terras». 



ETHNOGRAPHIÀ E HI8T0RU 543 



Muati&nvua Muoanza 

Mucanza nomeou Suana Mulopo seu irmSo Mulàji^ para Lu- 
cuoquexe a sua tia .paterna Camina^ e teve por Muàri sua 
sobrinha Cambamba, filha de Muteba. 

Receando Canhiuca, que o novo Muatiànvua quizesse vingar 
a morte do anteeessor, mandou-lhe immediatamente um grande 
presente, pe<Jindo-lhe que Ihe concedesse o perdio, porquanto 
nSLo fora elle que atacàra lanvo. 

As gueiTas com Canhiuca tomaram-se fataes para o Estado, 
pela perda de vidas, e resgates onerosos pelos restos mortaes 
do Muatiànvua, e por isso a córte, acclamando Mucanza, irmSio 
de Muteba, foi de voto que tratasse elle de recuperar for9a8 e 
nSo pensasse por emquanto em vingar a morte dos seus ante- 
cessores. Se queria experimentar-se na guerra e tirar a mola, 
fizesse-o para o norte. 

Grandes exigencias se fizeram entSo ao potentado de Ca- 
nhiuca comò indemnÌBa95es, o que tudo se pagou, e mantive- 
ram-se no seu tempo boas relajBes de amizade e commercio 
entro os dois povos. 

Precisava Mucanza livrar-se da mola dos Tubungos, e por 
isso lerabrou-se de ir fazer guerra aos povos do norte, junto 
ao Cassai, comò desejavam os da sua corte, e onde se Ihe 
dizia que havia muita gente para escravos do Estado. 

Conta-se d'elle que, abandonado pelos seus na guerra com 
Muene Cacongo, Malàji dos Tucongos, se portàra denodada- 
mente, vendo por ultimo apenas a seu lado a Muàri, que mor- 
reu sob urna chuva de flechas, animando-o sempre. 

Os seus, quando reconheceram a impossibilidade de se 8us« 
tentarem centra tanto povo, que de todos os lados Ihe appare- 
cia durante os dias que a guerra durou, aconselharam-no a 
retirar; poréra elle respondeu que fossem tratar de arranjar 
outro Muatiànvua, porque nSo queria mais ser potentado de 
cobardes e medrosos. Preferìa morrer em combate. 



544 



EZFEDigZo FOBTnGDBZÀ AO HUATliinnjA 



b 



Os ultimoa qae rctiraram ainda viram que elle, depoia de ter | 
morto multa gente à flecha e i faca, se servirà de paua agit- 1 
yndos que Ihe dava a Muàri, e depois passou a luctar bra^o a, | 
bra^o com o inimigo, at<^ que o amamiram. 

Prostrado da fadiga e vendo em roda de si os corpoa dos I 
que matura, pediu entSo que antea de atabarem com elle Iho j 
desaem agua, porque tinha milita sède. 

Todos respeitaram esse valente, e foi o proprio inimigo que | 
tranBmittiu a tradi^So da sua fama. ' 

Muene Cacongo ordenou que ae lUe desse agua, e que o con- I 
duzissem para a sua chipanga, porque homens comò aquelle | 
so so matuvam cm guerra. 

Deram-lhe um bom aposento e apresentaram-lhe de corner, 
que elle rejcitou, e aasim paseou doìs dia». No immediato foi 
o proprio Muene Cacongo aeonselliA-Io a que contesse alguma i 
couaa, e propòr-lhe que acceìtasae sua irm3 para Muàri e o 
cargo que Ihe era iuherente de Xambanza. 

— iSe me tìvessea matado, ILe respondeu, tinhas-mepoupado 
ao desgosto de ouvir eaaa proposta de ura muu escravo. Porque 
OS meua foraiu t3o cubardea que me deixaram so luctando com 
o teu povo, nSo pensea que seria t3o indigno que me abaixaase 
a sor quilolo do meu quilolo. Ou mata-oie jA, ou deixa-me mor- 
rer socegado, odiando aó os meus>. 

Muene Cacongo, so depoia de Mucanza ter morrìdo de forno, 
voltou ao aposento ondo elle jazia para aeparar a cabe^a do 
corpo, e levila para o centro da sua chipanga, onde espetada 
num pau a conaervou conio reliquia de um grande guen-ciro, 
que morrèra na sua terra. 

Era da praxe que o MuatiSnvua, vencedor nas guerraa com 
povos eatranhoa ao Estado, manclaaae fazer um lucano eomme- 
morativo das auas primeiras victoriaa e o uaassc, mandando 
recolber ao deposito o que tìvease recebìdo no acto da aua poaac. 
Por isso Chi No^ji, Muteba e lanvo Noéji tinham cada um feito 
um lucano, que usnram depois das suaa primeiras victoriaa; 
e eatea da mcsma aorte os rccolhia a Suana MurunJa, no 
pequeno cofre conEado & sua guarda, quando o Muatl^vuu 




de nascimento pelo d'aqiiclle antecessor que elle deseja imitar 
no governo, 

Muatianvua quando se resolve a combater um tDÌmigo 
Gstrangeiro, entrega multo em particular o seu lucano à, Suana 
Muninda; porém alguns, Gonfiando na sua boa sorte, e ultima- 
mente Ambiimba por desprezo do coshime, teem morrido sena 
o havercm feito, e esse lucano deixou de entrar cm deposito, 
o que OS Lundas consìderam de mau agouro, sendo obrigado o 
r a rehavè-lo por tneio de resgate on por rana guerra. 



r)4B 



kxpediqXo pohtcqueza ao utatlìnvda 



ilucanza, quando vira qiie a sua gente conicjava a fug^r, 
chamou XJmbala, san Mona Uta, e (leIerraÌnoii-Ihe que acompa- 
nhaase a Siiana Muninda, para a iniissumba e a eata entrogou 
o lucano, dizcndo que o fosse dar & pessoa a qucm a córte es- 
colhesee para Ihe succeder, porquanto elle nSo podi» fugir a , 
BÌm combater ainda quo fosse so, e que nìlo era j^ o Muatito- j 
vua que in morrer. 

Mucanza foi o unico Muatiànviia que morreu sem deixar 
filhos; port-m mais tarde entendeu a cGrte que se devia perpe- 
tuar o seu nome, dando aa hooras do Muatiànvua Mucanza a 
itm deseenJcnte do unieo quilulo que morréra a eeu lado na 
inalfadada guerra com os Tucongos. 



k 



Muatiànvua Mulàji 

Mulàji, ivroSo mais velho do Mucauza, foi clinmailo parA 
Bucce der- Ihe ; porOra poucos dias depois de tornar posse, seit 
primo Cabein, conbt'cido pela alcunlia de Canoqiiene {ogrnndc 
bocca»), descenilento de Mulauda, teve coni elio alterca^lìo por 
causa da divisSo de urna pe^a de ca^a que elle mattlra, de qne 
resultou perguotar o ]kiuatianvua, so elle sabia jà ter bnvido 
no Eatado pessoa superior ao MuntiSnvua? 

Fura isto bastante para a cftrto so levantar, e Canoquene 
insulton-OB, por se rebaixnreni a servir uni liomem que dcflco- 
nbecia 03 preceitos da ca^a. 

— Procurem-me pura me matar e ver5o o que succede, eu 
nào tcnbo medo: (maku ùtimi ùafa kati iininha ni3e j4 mor- 
reu»). 

NSo ostava a eOrte costumada a linguagem tSo audacìosa na 
presenta do Muatiànvua, e ficaram titdos attonitos aguardando 
a dolìbera9So que tomaria Mulàji, o qual passado algum tempo 
disse : 

— «E se cu matasse aqnelle meu primo!» 

Ficnram todoa penaativos, e elle pouco depois continuou; 

— «E urna crian^a; vamoa beber». 



ETHNOGRÀPHIA E HISTORIA 547 



Recolheram o Muatiànvua e os velhos da corte à anganda 
para irem beber. 

Estavam nas suas liba^Ses, procurando inspirar-se sobre o 
castigo a dar a um parente do Muatianvua que procederà de 
um modo comparavel so ao do Qulnguri irmao de Luéji, quando 
chegou um alvÌ9areiro participando que Canoquene levantara 
com todo o seu povo e jà ha via passado o rio Cadijixi para a 
outra banda. Tocou a rebate o mondo chamando às armas, e 
todos correram para o largo à fronte da residencia do Muatian- 
vua com as suas amjas, promptos para o que Ihes fosse deter- 
minado. 

Como Muatianvua e os principacs da corte estavam muito 
embriagados, anoiteceu sem que se tivesse resolvido sobre o 
que havia a fazer ; e o Muatianvua a quem chamaram a atten- 
5ÌI0, dizendo-lhe: — uchuko ueza kdli («jd veiu a noite»), le- 
vantou-se dizcndo : — aia ni anzàmhi, tuladika pamàki ezànhi 
(«vào com Deus, durmamos, do madrugada voltem»). 

O povo ficou desesperado por ter side chamado para a guerra 
e estar uma tarde inteira aguardando as ordens, sem que 
cousa nenhuma se resolvesse por causa do malufo, e retirando 
para as habita^oes ia vociferando centra Muatianvua, que 
era fraco e cobarde, etc. 

Ou porque recrudcscesse o descontentamento, quo se pro- 
nunciou lego durante a noite, entro os grupos que se formarara 
em differontes residencias para Iiba93os, ou por intcrferencia 
da gente do Canoquene, comò pretende a tradijao, descul- 
pando desagrado dos da corte, o certo é que na madrugada 
encontraram Muatianvua morto na sua habita9So. 

Era a primeìra vez que tal succedia, e por isso grande foi 
a balburdia que houve para se adivinhar a quem se havia de 
attribuir esse delieto, suppondo-se que fora um bom acto poli- 
tico e aconsclhado pelos mestres da arte de adivinhar, lan^il-lo 
a conta de feitÌ9aria, de mandado de Canoquene. A corte deli- 
berou entregar o Estado ao irmlto do fallecido Umbala, que 
era seu Suana Mulopo e proceder-se depois ao enterro e a 
chorar-se defuncto. 



548 



F.XPEDI9X0 PORTDGUEZA AO ML'ATlAsvUA 



Nào era csto homem da sympathia da cijrte, porém ella chi 
mando-o havla mrjstrado a necessìdade de se vingar a mori 
de scu irraJlo, e pertanto de ir fazer guerra a Canoqticne. Se>l 
gundu o seu procedi mi: nto, ou a ciirte o abandonava e cntrava'S 
seu irmSo lanvo cm quem havia confìancn, mi cntùo, se ellftl 
se portasse bem, aguardarìum o primeiro pnteKto pura d'elle I 
8e deafazorcm. 

MaatiAnvua Umbala 

E de todo3 OS tempos este modo do proceder, dos qiie in- 
flucm nas clei^Sea para o cargo de MuatiSiiTiia ; dìzem elleBl 
que assira se evifam compHcayBea para o governo, devìdasl 
àquelle a quem na vcrdade, por drcumstancias que se d2o f 
na sua pessoa, se deseja entregar o Estado. 

Muìtas vczes para o cargo ir recair no qiie està em quarto] 
ou quinta logar, ehamam os anteriores para nSo descoutenta- I 
rem os do seti partido, mas jd estA decretado comò se }i3o da ] 
dea fazer d'elle. 

E sorte, me disseram, e aa eousas arratijam-sc de forma que { 
o mais esperto filho de Atimtiilnvua, erabora conKe^a os ardis 
usados com os seus antecessores, que morreram pouco tempo ! 
depois de aerem eleìtoa, nào penaam no que a ellus ha de 
succeder. E é por isto que se diz : acuarunda acìiete mafefe , 
(«oa da Lunda a^o trai^otirosa). 

Actiiabnente yX os QuiCcos se Jntromettem nas eleì^es do ' 
Muatiànvua, me disse um infurmador, e isso foi um grande < 
mal para a Lnnda pelea sorvijos que teem de Itiea ser pagos, 
e porque se tem organisado partidos no Est-ado. 

Umbala tinba pois urna carta a Jogar, e se fosse fuliz podia 
alimentar n eaperan^a de gosar algum tempo na posse do 
Estado de seus antcpnssados. 

Sabia-sc que Canoquene fora estabeleeer-se com aeu povo 
na cLipangft de guerra, feita por lanvo em terras dos Uandas, 
e que conneguira aftrahir a si ns povos vizinhoa anthropopha- 
goB, para se defender doa Lundas qne ouaaasem atac4-1o. 




ETHNOGRAPHIA E HlSTORlA 549 

Determinàra mais que qualquer Lunda que passasse o rio ^ 

sem auctorisa9?io d'elle, podia ser comido por quem o encon- 
trasse, assim comò ficar este com o que Ihe perteneesse. 

Estas ordens agradaram, e por isso augmentavam os adhe- 
rentes ao seu partido, adoptando elle logo para si o titulo de 
Muatiànviia. A localidade ainda hoje conserva o nome de Ca- 
noquene, e os potentados que Ihe succederam teem tornado 
todos titulo de Muatiànvua Canoquene. 

Umbala organisou a sua guerra, e partiu para dar o ataque 
ao seu competidor. A primeira difficuldade surgiu logo à pas- 
sagem do rio Cajidixi, havendo necessidade de se cortarem 
arvores longe e transportà-las, para se fazer uma ponte, tendo 
de ser protegida a construcjao pelos frecheiros. 

Os mais atrevidos que passarem o rio a nado, para na outra 
margem protegerem a construc9So, eram immediatamente agar- 
rados e mortos pelos canni baes que estavam occultos nos mor- 
ros do salale. 

Fez-se a final a ponte, e passaram algumas for9as com o 
Muatiànvua, porém era jà noitc, e pouco depois foi ella cor- 
tada nao se sabe por quem, sondo le vada na corrente. Os Lun- 
das que passaram lembraram-se de atacar os morros do salale, 
mas OS Uandas liaviam-se escondido no mato para os 'deixar 
internar e acampar. 

Fatigados os Lundas e julgando que nada tinham a recear, 
entenderam os de melhor fé suspendér a marcha e dormirem. 
Outros OS mais timoratos, passaram o rio a nado, conseguindo 
alguns regressar. 

Foi està uma das guerras mais desastrosas ; os que ficaram 
nessa noi te no territorio do inimìgo nao voltaram, o que fez 
acredi tar que todos fossem devorados pelos cannibaes. 

Os que retiraram vieram logo dar parte do acontecido a 
Suana Murunda, que ficàra acampada na margem esquerda 
com outros quilolos e a sua gente armada. 
• A guerra estava perdida, e todos regressaram à mussumba 
para dar posse ao novo Muatiànvua que era lanvo, (o terqeiro 
d'este nome) e que tinha as sympathias da corte. 



550 EXPEDigXo PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 



Muatiànvua lanvo 

Este potentado teve logo de dar o cargo de Lucuoqucxe a 
sua cunhada Camonga^ que fora Muàri do seu irmSLo Muteba; 
o de Suana Mulopo, a seu sobrinho Ditenda, filho de Mul^ji, 
e para Muàri escolbeu sua sobrinha, filha de Umbala. 

Haviam outros cargos vagos, porém corno os filhos de seus 
irmSos estavam ìnvestidos em estados de Càrula, perdendo 
assim o direi to à success^o no Estado de Muatiànvua^ investiu 
nelles o seu segundo e terceiro filho, porque o primeiro jà 
tinha morrido. 

Para Muene Tembue, que era o immediato ao Suana Mu- 
lopo, nomeou Quiaraba, que mais tarde, por morte de Ditenda, 
passou a ser Suaua Mulopo; e para Muitia, havendo falta de 
desccndencia naquelle Estado, nomeou com approva9So dos 
quilolos d'esse Estado, o seu filho Mucuàchimo, que passou a 
ser Càrula. 

À mSe d'aquelles seus filhos, deu o estado de Anguina 
Mu.'ina. 

Depois do ultimo lanvo, suus irmilos poucas relayoes tinham 
niantido coni Canhiuca, e o commercio com os seus povos ha- 
via dimiunido mnito. lanvo cpie ja era liomem dos seus cin- 
counta annos qnando tomou posse, pensou ser necessario para 
beni do Estado qne cessassem as inimizades com Canhiuca. 
Conta-se quo elle usara nesse proposito de uni estrat^igema, 
que a ser verdade, nào deìxa de ser curioso. 

Mandou embaixadores coni uni bom presente ao Canhiuca, 
a dar-llio parte que toinara conta dò Estado, e que sondo 
agora Muatianvua desejava ve-lo uni dia, conio nm bom amigo 
na sua mussumba, j)ois era isso de conveniencia para liaver 
eoniianya reciproca dos povos que queriam continuar a com- 
merciar. • 

Canhiuca agradeeeu o presente, e disse que tcria muito 
gosto em Ihe annunciar brevemente a sua visita, para o que 



ErnKOGRAPHIA B HISTOBIA 551 



esperava que o Muatiànvua approvasse a resoIu93o que havia 
tornado de demorar os seus embaixadores. Pelos portadores 
d'este recado tambem Ihe mandou um bom presente de marfiin. 

Com antecedencia soube lanvo da sua partida, e conio por 
distincySo tinha de receber o seu hospede à entrada da mus- 
sumba, onde este devia primeiro descan9ar sobre pelles para 
isso ali dispostas ; na vespera, durante a noite, com o auxilio 
do Muàri Muixi (seu cosinheiro^ e pessoa de muita confian9a), 
e da sua Muàri, fizeram urna profunda cova no legar em que 
devia sentar-se Canhiuca, cobrindo-a com grandes pelles de 
leào e de on9a. A esquerda ficaram as pelles reservadas para 
o Muatiànvua. 

Com o fim de distrahir a gente de 8ervÌ90 particular, o Muiri 
Muixi, segundo as ordens que havia recebido, despachou de 
madrugada tudo em busca de gado miudo, de crea9ao, de fa- 
rinha, bombós, malufo, etc, que logo mandou preparar para 
a festa de recep9ao. 

Chegou Canhiuca no seu palanquim, sendo multo bem rece- 
bido, e lanvo foi buscà-lo para o conduzir ao legar que Ihe 
estava designado, emquanto as pessoas do seu sequito se foram 
dispersando pelo méssu e mazembe, segundo as suas catego- 
rias, para accommodarem as bagagens nos alojamentos que 
Ihes estavam destinados, e prepararem-se para a audiencia, 
cujo signal devia ser dado no chinguvo grande (mulépe Ca- 
penda * ). 

Canhiuca ao sentar-se, foi logo abaixo, e para abafar qual- 
quer grito, serviram as extremidades das pelles com que o 
cobriram. Estabelecida que foi a ordem, depois da confus^o 
que este accidente provocou, mostrou lanvo o seu pesar pelo 
que succederà, mas visto o acaso proporcionar-lhe tal ensejo, 
disse que nSo devia Canhiuca sair d'ali, sem Ihes garantir que 
nào mais mandarla guerras às suas terras. Estava em seu 
poder, e se Ihe quizesse fazer mal, era so mandar tapar aquella 



9 

1 Capcnda e o auctor do mulepo. 



552 



EXPEDIfìO POtlTSOUIÌZA AD MVATiAnVDA 



cova. Todos OS scus apoinram o MuatiàiiTua, que, removendo 
&s pclIcH, Ihe disae o qiie cstava tratado, | 

Cantluca que tudo ouvira, respondeu immediatamente que, 
cu fosse de proposito ou por accidente o quc Ihc succederà, 
nào pndia dcixar de acrcditar que tudo aquillo era obra de 
feiti^o, e por isso contasseia d'ali em deante com elle e com ob 
eeus desccndentes corno bons amigos, e que nSo mais se levan- { 
tariara guerras contra o Katado de seu irmSo Muatianvua. 

Nào gauhou para o su sto, poia 
BÓ pedia que o tirasBem dali e, 
urna vez fura, que queria era 
por- se a. caminlio. 

Tiveram de convencè-lo qua ] 
devia fìcar na mussumba dois I 
dias, e que eecolheBse o qiie qui- j 
zoBBe corner, e onde queria per- I 
noitar, 

Emfim com todas as cautelas, 
e sempre desconfiado, passou j 
aquelle dia e o immediato junto 
do Muatianvua e dos seus gran- ' 
des, e là partiu no outro dia; 
aendo certo, que d'essa data em 
deaute, dizem os Lundas, n&o 
^ mais houvcram guerras com Ca- 
nhiuca, que tem pago sempre 
tributos ao Muatianvua, e a gente 
da muBsumba vac negociar as 
Buas terras aem que se tenha dado a mais pequena occorrencia i 
dcsagradavel. 

Foi lanvo quem se lembrou de mandar sair diligenciaa a | 
procurarem oa aeua parentes QuÌScob nas margens do Chicapa 
e Cassai ao sul, para com elles se mauterem rela53e8 de com- 
mercio e de caja. Oa Quiòcos por comprazer annuiram. 

Quiz lanvo ir fazer guerra aoa Tucongos, eaperando que Ihe | 
entregassem a cabe^a de seu irmilo mais velho Mucanza, e che- j 





ETHNOGRAPHIA £ BISTORU 553 

gou mesmo a sair com esse intuito^ porém ao passar o Cas- 
sai, apresentou-se Muene Taba com grandes for9a8 para se 
Ihe oppor, e elle resolveu-se a dar-lhe um severo castigo pelo 
seu atrevimento. Foi tao grande a derrota, que os chefes dos 
povos (Calambas) fugiram para os matos, e os da Lunda fize- 
ram grande rtumero de prisioneiros, e tantos, que aconselha- 
ram o Muatiànvua a contentar-se com aquella Victoria. 

Mandou lanvo agarrar Muene Taba, e uma vez na sua pre- 
sen9a, perguntou-lhe se o nSo reconhecia comò Muatiànvua. 
Este prostrou-se pedindo a sua clemencia, e sujeitou-se n^o 
so a considerà-lo corno seu amo, mas ainda a indemnisà-Io com 
seiscentos escravos, pelo que retiro u entào o Muatiànvua sa- 
tisfeito da sua proeza. 

Foi no seu tempo que os dominios do Estado de Muatiàn- 
vua ficaram definìdos, tal comò hoje se consideram; porém é 
conveniente advertir que o poder do Muatiànvua sobre elles, 
de 1874 para cà pelo menos, nào passa de uma £09^0. 

A sua auctoridade exerce-se apenas de facto, do Cassai até 
ao Lubildxi. 

Diz-se que lanvo morreu de velhice, pelo menos nSo hou- 
veram ambÌ95es da parte de seu Suana Mulopo, Quicomba, a 
quem pertencia succeder-lhe ; porquanto este lego que seu ir- 
mSo adoeceu chamou seu sobrinho, filho de seu priitìo Ditenda, 
rapaz de vinte annos, e que vivia na sua povoa9ao e a quem 
dera Estado de Suana Mulopo e disse-lhe: — «Eu nSo me 
sinto com for9as de ser Muatiànvua, mas tu és um rapaz 
muito sagaz, e eu vou propòr à Lucuoquexe e aos velhos do 
Estado para tu entrares, mas nao me mandes matar porque 
eu nào te fa90 mal, deixa-me morrer descan9ado no legar em 
que tu queiras, e nao exijam de mim grande trabalho». 

De facto Quicomba fallou à Lucuoquexe, e està, quando a 
corte reuniu para se resolver sobre a successao, propoz a resi- 
gna9ào de Quicomba em favor de Noéji, ao que todos annuiram 
de boa vontade, porque demais se reconhecia que primeiro 
era fraco de cabe9a e muito doente, e alem d^sso Noéji jà 
havia dado provas de s^o juizo. 



554 



EXPEDI^ZO FOBTUOUEZA AO HOATIINVEA 



Noéji aindft quiz convencer o tio que entrasse no Estado, e J 
o lizeBse antes seu Suana Mulopo, porquanto era mitito novo! 
e nSo faltnviam mvejosos que o intrigassem. Quicomba ìdsìb- I 
tiu que havia boQS precedentes para todos d'olle esperarem j 
uin bom Muatiilnvua, e que educasse o fillio d'elle, Mutebft 
pai'a ser Suana Mulopo, para llie succeder e nada mais querìa, J 
pois tambem llie parecia que este tinba boa cabe^a e havia dal 
ser valente. 

A noite chamado Quicomba para assistìr aoB ultimos mo-l 
mentOB de laovo, e auppondo que a córte o obrìgniia a ser I 
Muatlanvua, vendo que lauvo aiuda ouvia e fallava, dtsse-lhe 1 
deante do todos que o rodeavam, quo dosietia da Bucce&ailo I 
cm favor de Noéji seu neto'. 

Linvo tirando o lucano e dando-o a Suana Murunda, ninda I 
pondo dizer: 

— iFizeste bora. Noéji ha de ser um bom Muntiilnyuat. 

Estava decidido, pois o que diz uni Muatiànvuaiuoribuiido,, 
e para os Lundaa urna maxima sagrada. 



Kuatianvua Noéji* 

Depois daa ceremonias do eatylo, foi seu cuidado na pri- 
meira audiencia declarar, que seu tio Quicomba ostava iio 
logar de seu pae, e corno tal querta que o considerasaem, 
poréra corno estivesse doente e desejasse viver tranquillo j unto j 
d'olle, por isso o nomcava Mona Uta, e a seu filho Mutebn para j 
o coadjuvar e para assistir àa audiencias corno Muadiata (logar J 
immediato). 



1 Ai>B tioe nvÓB ctiiunam nvós, o portanto aio nctoB db segundos Bobri- 
nlioB dircitoa. 

' Foi cete, que negnciunte scrtanejo Rodriguca Gra^ TÌBÌtou em 1 
1847; flugundo oa informadores, calculei que elle se conaervon no poder I 
trìnta e doia nnnos, o pertanto, que devia ter tornado poase do cargo f 
eutrc oa anugs 1820 a 1822. 



ETHNOGRAPHIA B HISTOBIA 555 

Conhecia que Muteba era um rapaz muito esperto, e que 
seria util aproveità-lo para um dia poder entrar no Estado, 
que seu pae nào quizera acceitar corno todos sabiam; porém, 
corno ostava ainda novo, ajudaria por emquanto o pae e mais 
tarde pensarla em Ihe dar um cargo independente. 

Nomeou seu irmào Mulóji, Suana Mulopo e entro outras 
nomea98es, que muitas feZ; foram das primeiras, de Cata sua 
prima, fìlha de Tumbo Mussenvo Quianda e de Macanda sua 
tia; para Anguina Ambanza, concedendo-lhe para marido seu 
primo Quissanda, que por esse facto tomou o estado de Xam- 
banza; e quando morreu a Lucuoquexe o MuatiAnvua fez en- 
trar para oste cargo C^ina, fìlha de Cabeia e nota de Chi 
Noéji, e para Nama Mazeu, sua tia (irmS de sua mSe, e para 
OS Lundaé mSe d'elle). 

Adoptou cognome de Diuta, porque nunca deixou de fazer 
uso das flechas na ca9a, embora tivesse em estima9So as armas 
lazarinas com que, a pouco e poucO| foi armando a for9a ao 
seu serviyo. 

Era muito respeitado pela sua valentia, e comò estavam aca- 
badas as guerras com Canhiuca, o que se devia ao bom governo 
de seu avo lanvo, tomou-se esigente com os quilolos mais dis- 
tantes para Ihes pagarem grandes milambos (donativos for9a- 
dos). Desejava mesmo que elles desobedecessem para os guer- 
rear, mas era tSo temide, que so duas vezes teve de deixar a 
mussumba para esse fim. 

Quando nào era obedecido immediatamente, mandava lego 
sair o seu Calala com as for9as, e iste era o bastante. 

Estas guerras nào eram outra cousa mais que incursSes 
devastadoras, porque depois de morto o quilolo fazia-se lego 
sequestro de teda a sua gente e de todos os haveres, quei- 
mando-se em seguida a povoa9ào. 

Noéji era desapiedado com os feiticeiros, e com todos aquel- 
les que nSo recebessem muito submissamente as suas ordens, 
mandava-os matar sob o mais pequeno pretexto, ao mesmo 
tempo que engrandecia os que o ajudavam a fazer prosperas 
as suas terras. 



55t> 



EXPEDt^Zo PORTDGUEZA AQ KDATIi.tITUA 



Sabendo que o seu parente Andumba Témbue, o chefe do9 
QuiScos no sut do Mungo, margem do Ciiaiiza, eatava tirando 
ahi grande proveito na ca^a aos elepbantes coni os sena bons 
ca^adorea, usando das espingardas lazarinae de Muene Puto, 
enviou-lbe urna embatxada com »m preaente de cinco dentea 
de marfini, e dizer-llie: — Que nem elle nera o aen parente 
tinbam culpa doa aeonteciraentos que levaram oa velboa jà 
fallecidoa do um e outro lado a de savi rem-se, e os soiis a aban- 
donarem as terras ; por isao devlam eltes concorrer para se 
uoirem os tìlhos d'easea descendentes, e pUo jil dava o esemplo, 
mandando-llie aquellea prcaentes em signa! de boa amizade. 
Pedta-Iho ao niGsmo tempo que Ihe envlaase alguus bons ca- 
^adores para na eompaubm doa aeus filhoa irem ca9ar 03 elo- 
phantes, pois qne havla muitoa naa suas terras. 

Andumba agradecendo alembran^, respondeu, sertambem 
de voto quo ae rcatassem as rela^Sce de parontesco entre oa Lun- 
daa e oa seua povoa; que de certo os tiuiòcos se aproveitariam 
d'essa boa amìzude para cuntiuuareiQ aa suas cayadas para o 
iiortc, onde os ca^adorcs se Iriam estabelecendo d'ahi era deante, 
e mandoH-lhe alguns, entro elles conaiderado grande meatre, 
bomem velbo e conbecido por Xa Maqueca Angombe. Este jà 
anteriormente tìnha aconselbado seu amo a enviar urna em- 
baixada ao Muatiànvua, reconhecendo-o corno ehefe da familia 
e do Estado, para que os Quiócos pudessem cayar nas terras 
da Lundii e viverera ahi corno outr'ora, allegando que ninguem 
d'ellas OS expulsàra, e que foram aeus aacendentes que im- 
migraram por vontade, nao perdendo por isso os direitoa de 
para ìà voltarem. 

Eatas terras diasera velbo, pertenciam ao dominio do Mua- 
tiànvua, maa os aeus parentes QuÌ6cos nilo tìnham commettido 
delieto algum para estarem privados de vìverem e fazcrem aa 
suas cajadas nellaa. Andumba tinha dado razSo ao aen velbo 
ca^ador, e estava jà organisando uma embaixada para enviar 
à mussumba, quando appareceu a do Muatì^nvua que elle muito 
estimou. Reccbeu-a muito bem, e fé-la acompanhar por uma 
embaixada sua, de que iìzeram parte algiius ca^adorea, que 





ETHNOGRAPHIA E HISTORIA 557 

*■ 

disseram ao Muatiànvua o que acima fica exposto, enviando- 
Ihe de presente algumas espingardas, pederaeiras e barris de 
polvora para os seus filhos fazerem boas ca9ada8*. 

A regular pela idade de Xa Madiamba, o qual dois annos de- 
pois, jà fez parte das ca9adas com aquelle niestre, e embora 
tanto elle comò Mona Quiessa e Quibéii, que se lembravam 
d'este facto me dissessem que o Xa Madiamba era entSò 
muito novo, nSlo Ihe devo dar menos dos seus dezoito annos; 
e por isso calculo que as embaixadas deviam ter chegado à 
mussumba de 1840 a 1841. 

Logo a primeira ca9ada foi de grande exito, e isso animou 
Noéji a presentear o velho cajador com escravos e marfim, e 
a despachar com elle uma nova embaixada para Andumba seu 
parente, com quarenta escravos e quatro pontas de marfim de 
lei ; pedindo ao mesmo tempo que approvasse a nomeayào que 
fizera de Xa Maqueca para seu chibinda (cajador), e o dei- 
xasse vir todos os annos à mussumba para fazerem juntos as 
suas ca9àdas. 

Andumba agradeceu ao Muatiànvua, disse que Xa Maqueca 
voltaria sempre que elle determinasse, e que pela sua parte, 
— querendo tambem boa amizade entro os filhos de seu irmao 
e OS seus — , estava tratando de fazer sair seu sobrinho Quis- 
sengue (o primeiro) com o seu povo, para se ir estabelecer 
em terras do Muatiànvua ao sul do Cabango. Esperava que 
o Muatiànvua approvarla este seu modo de proceder. 

Por essa occasiao Noéji tinha saido com uma guerra da sua 
mussumba, para ir bater o quilolo vizinho, Caiembe Muculo, 
no que nào foi feliz, valendo-lhe ser estimado pela córte, que 
o nEo abandonou. 



1 Estas informaQoes foram-me dadas pelo velho Quióco Mona Quiessa, 
que consegui photographar, com quem convivi perto de dois mezes, e que 
me forneceu muitas noticias sobre Quiòcos e Lundas do tempo passado. 
Era um velho dos seus setenta annos, e muito considerado entre estes 
povos. Vivia cntào na corte de Andumba Témbue, e comò ca^ador tam- 
bem por vezes vivera na mussumba do Muatiànvua Noéji. 



558 



EXPEDI^XO POBTUGUEZA AO MDATIÌNVUA 



Tendo morrido nessa guerra o seu Calala, aconselhanun-iio 
a que retimsse para a mussumba, pois qiie de tal guerra nSo 
viaha proveito algiim; que oe seua antepaesados n&o se impor- 
tavam cnm a mdependencia de Cniembe, pnrque fora sempre 
iim bom vizinho e amigo, descendente de Muatiànviia e Cà- 
rula, que de quando em quando mandava mìlambos ao Mna- 
titlnTua, e maiores do que qualqucr quilolo do E»tado. 

Os grandes da Lunda haviara resolvido nSo abandonar Noéji 
ncBta guerra, comò era da praxe até ali com as guerra» de 
Canhtuca, porque nfio liavia até entSo motivo al^m para es- 
tarem descontentee com elle, pois repartìa com todos os sena 
quilolos OB milamboB que recebia, bem corno o producto das 
cagadas. 

Noéji queria corno MuatiftnTua serezperimentadonumanova 
guerra, e lerabrou-se de ir elle mesmo com as suas forgas ata* 
car 03 Tucongos e Tubinjes, para Ihe aproaentarem a cabega 
do aeu anteceasor Mucanza, que ainda li existia espetada nnm 
pan il frente da priocipal reaidencitt uaquelles povoa; procu- 
rava emtìm um novo theatro de suaa fa^anhas, para se acredi- 
tar, visto o revez que soffrSra com o Caiembe. 

Ob quilolos ainda o dissuadiram d'isso dizendo-lhe e 
conveniente nomear um quilolo grande com multo povo, para 
exigir a referida cabota; a quando as cousas corressem mal, 
era entSo que o Muati&nvua devia ir com a sua córte para 
levar a guerra Aquelles Bclvagens. 

Existia ainda um dosccndente do quilolo, que i 
lado do MuatiAnvun Mucanza na guerra dos Tucongos, a quem 
Koéji elevou &a honras de Muatiflnvua, rcprescntando Mu- 
canza, e deu-llie Estado (povo), para ir eatabelecer-sc no Cas- 
sai, em terras de Mataba, comò govemador d'ellaa, com a mis- 
sISo de obter dos Tucongos a cabeja de seu amo. 

Para ì& marchou eate cnm o cognome de Atguvo, e teve de 
tomar posse do cargo que Ihe dera o Muatianvua, fazendo 
fogo Bobre o povo do Mataba, que estava contente com oa sena 
Tularabas (auctoridadcs) e com Suana Calenga, que era o seu 
principal chefe. 




BTHNOGRAPHIA E^ HISTOBU 559 

Àngavo, depois de estabelecido, soube entreter boas rela98es 
com 08 Matabas^ e animà-Ios a baterem os Tiicongos em seu 
interesse, até apparecer a eabe9a do Muatiànvua; a qual porém 
nunca foi entregue. 

Os Tucongos sujeitaram-se à obediencia^ e desculparam-se 
dizendo que a cabe9a existia em poder dos Tubinjes. D'ahi 
para eà coine9aram ent&o as razias àquelle povo, feitas peloB 
Lundas a pretexto de obterem a referida cabcga, causando 
muitos estragos nas terras de Mataba. 

Quiz Noéji por mais de urna vez ir com as suas for9as aju- 
dar Anguvo, porém a corte sempre se oppoz, dizendo-lhe que 
aquelle nada pedia, estava governando bem, e nfto devia ir o 
Muatidnvua expòr a sua vida por causa de um quilolo que 
jà fizera grande do Estado ; que n&o era bom ir outro Mua- 
tiànvua perder a sua vida em terras de selvagens, e que elle 
tinha muito que fazer ainda para augmento de seu Estado e 
bem de seus fìlhos. 

Voltou Xa Maqucca para fazer ca9ada aos elephantes, e d'està 
vez, entre outros filhos de Noéji, foi tambem com elle lanvo, 
vulgo Xa Madiaraba, que logo na prlmeira jomada matou um 
elephante sendo considerado bom atirador. 

Foi durante o tempo que durou està ca9ada, que Noéji man- 
dou fazer a sua grande mussumba em Cabebe, dando às rnas 
urna determinada largura, e obrìgando todos a construirem as 
cubatas por um mesmo modelo, alinhadas e com as portas 
voltadas para as ruas. ^ 

Recebeu jd os ca9adores no seu regresso nesta mussumba, 
e foi d'aqui que despachou Xa Maqueca para Andumba, com um 
melhor presente de marfim e escravos que da primeira vez; 
dizendo ao seu parente que ficàra satisfeito de saber da sua 
resolu9ao em mandar Quissengue seu sobrinho estabelecer-se 
em terras do MuatiHnvua. Assim era bom, e elle ia jà despa- 
char Chimbundo com povo para ir tambem para o Chicapa 
fazer boa amizade com elle. 

De facto a embaixada retirou, e dias depois Noéji nomeou 
Chimbundo que seguiu nesse proposito com multa gente bem 



560 



expediq3[o POBTDonEZA Ao huatiAkvqa 



arraada. Os LtrndaB nm geral, principalmente Muansanaa, qua 1 
eetava no Cabango além do Ho Chiiìmbuc, nito estavam satia- 
feitos com a vinda dos Quiiìcos do sul. DIziam jd, qtie clles, 
mellior armados e bons ca^adorea nSo se limitariam a exter- 
minar ob elcphantes e outra ca^, cuja falta os da Liinda sen- 
tiriam depois; tambetn liaviam de qucrer tornar-ee senhoroa 
dtì suftB terraa e roiibar-Ihes aa mulheres, e ulguns jà come> 
^vam a exigìr aos Quiòcos quo Ihes comprassem o sitio onde . 
estabeleciam as suas povoa^Sea e tambera, comò tributos, parte I 
das suas ca^adas, e além da carne dos elephantcs, unt doa dea- 
tcSj que devpria ser sempre o melhor. 

Oa Qui6co3, ainda que Ihes ciistasae, a isso ae aujeitavam, 
e oa Lundas que tinham agora quem Ihea trouxosae a carne, 
e rcccbiam doa Bàugalaa ta^endaB, armaa e polvora, princi- 
pi aram logo a entregar-se a ociosidade. 

Preparavam apenaa aa terra» dm-ante urna ou duas boras em 
cada madrugada, para aa mulheres plantarem e cuidarem das 
lavras depois, e em seguida come^vam bebendo malufo, mal- 
dizendo doa outroa, procurando sempre induzir oa potentados 
a expoliarem os Quiòcos vizinhos, e d'aqui so eataboleceu ■ 
tal viver daa milongaa, catechiaando-se oa potentados para as 
reaolverem, dando-lbe por entrada um presente, e ao terminar 
do pleito pagando mais do que o valor da milonga. 

Cliimbtiudo' quando aaiu da musaumba, jà aabia que todos 
OS quiloloa nào eatavam contentea Cora a vinda doa Quiùcos 
para as terras de Muatlìlnvua, e por isso Jd ia de opinilo 
anteeipada contra elles. 

O Muatiilnvua Noéji, quando este ae deapediu, lerabrou-lbe, 
bera comò ao povo que o acompanbava, que oa mandava esta- 
belecer junto aos Qiiiócoa para manterem com ellea boaa rela- 
9Ses, pois tambem eram lìllios de Muatiànvua. Se tiabam ido 
para longc iora iaao por vontade d'elles, e nSo porque os liou- 



' Cliimlmndo Aie 
tar Quimbundo. 



s Lumlas da PÙrtP, pon'iii o vnlgar È o 




ETHNOORAPHU E niSTOUU 



561 



Tcssem expul»adoj eaperuva que os scue filhos se dessem bcm 
coni OB filboB de Quiesengue, uovo potentado <\ue por coescu- 
timcuto d'elle, Muatiàiivua, ia ser scu viziulio. 

Quando Quimbundo pasaou por Cabango, jà Mimnaansa bo 
queixou multo do Qiiissengue e do seii povo, e diase que osti- 
vera para Ihe ir levar uiaa guerra a firn de o fazer voltar para 
as suaa terraa, pois jà haviam tentado roubar-Ihes rapjtrigas, 
Quimbundo logo disse quo vinba resolvido a nào llies aduitttir 
mais pequeno atrevimento, e talvcz mesmo logo que cliegasse 
ao scu novo aìtio, fizesae 
sair urna guerra para ex- 
pulsd-lo do logar onde 
estava, caso os vizinbos 
da Lunda se queixassein. 

Àinda Quimbundo mìo 
estava de posse das suas 
terras, e ]& pensava era 
desalojarQuissengue, que 
por HuctorÌBa9ào do Mua- 
tianvua est ava estabcle- 
cido no paiz, o assini 
erain esquecidas as re- 
commenda^^òes do Mua- 
tiilnvua quo de accordo 
com o mais velho doa 
putentados QuÌòcob, Ae- 

dumba, se eiupenliavam em acabiir as dissen^'Ses na fainilia 
entro Lundas e QutScos, para sereni tudoa consìderadoa fìlbus 
do mcsino povo. 

Quimbundo ao chcgar mandou prevenir Quiasengue que ea- 
tava de posse de seti Estado, e que o Muatìànvua Ihe recom- 
niendilra que procurasse estabelecer boas relagSes com os seua 
parentes e vizinlios Quiòcos, Qua eatava porém ìnformado por 
Muansansa, que o scu povo so tiulia jii portado rauito mal, pro- 
curando roubnr os Lundaa, e por isso o prevenia de que nSio 
estava disposto a admittir-ILe isso; e visto nSo ter elio aiada 



563 EXPEDiglo POSTOQUEZA AO HUATliHVDA 

puga tributo das terras onde se estabelecérs, e pertenccndo 
essjis terrafi a elle Quimbundo, que esperava o fìzesse agora. 

QuiBsengue respondeu-lhe que uUe cstiiTa mal inforraado. A 
qucBtào de um qiialquor rapoz ter feito um roubo i. gente da 
Lunda, nào era de certo motivo para se quebrarem !ogo rela- 
i^Sea entre os velhoa pareates que ostavam dispostoa a reata- 
las; que fora para oqucllas terraa por urdem do Muatì&nvua, 
u por eonseguiiite tanto era senlior d'ollas corno QuJmbundo i\as 
siiae; era tanto quilolo do Muatiilnviia corno elle, e que nunca 
um quilolo grande, pagira tributos a outro. Que nSo julgasse 
que o temia, catava ali dìapoato a viver bem com todos os 
quilolos vizinlios, e cram easas as ordens que tinha tanto do 
Muatianvua, a queni pagava milambo, corno do aeu Muana 
Angana, Audumba, e que nSo viesac elle jil provocji-lo. Es- 
tava certo que o MuatltLovua o nSo mandilra para tal firn. 

Como aiuda hoje se usa, fez Quisscngue acompanhar os por- 
tadorea de gente sua, para ouvirem a reepoata, a qual foì : — 
aVisto que diz Quiaacogue, prepare-ae, ee é homem, para 
me receber na aua chipanga». 

Era o repto, estava declarada a guerra. Quissengue n&o 
espcrou; em tres dias estava em frento da chipanga mandan- 
do dizer ao seu provocador que vinha provar-lhe que era ho- 
mem. Comejou o fogo e foi morto Qiiimbundo; fìzerom-se 
prisioneiroa e outraa presaa e volveu Quìssengtie para as suas 
terras, succedendo a Quimbundo o aeu Suana MuIo^k). 

Nom Andumba nem oa do aeu conselbo approvaram seme- 
Ihante guerra do Qui'aacngue emprehendìda sem auctorisa^fto, 
avisando-o que nSo contaese sor auxÌlÌado pelea seus patrìcios 
DO caao de viugan^a, e prevcniram o Muatiàuvua Nuéji da 
rcpreliensilo que mandavam dar a Quissengue. 

Noóji respoudeu ao aeu parente que fura aquillo uma crìaii- 
cisse, de que elles vellios nSo deviam faier caao. 

E certo que pòuco depois o aegundo Quimbundo e oa seua, 
jà devidamente preparadoa, aem mais tir-te nem guàr-te, apre- 
sent»ram-se armados em fì'ente da cbipanga de Quissengue e 
conaeguiram matd-lo. 





ETHNOGRAPHIA E HISTOBIA 563 

Foi nomeado um segando Quissengue e partiu com novas 
recommendaySes de Andumba, para viver bem com os Lun- 
das vizinlios, e fazer-lhe sentir que nSo tiveram approvaySo do 
Muatiànvua nem d'elle Andumba as guerras com Quimbundo. 

Quando chegou o novo Quissengue^ Quimbundo nSo contente 
ainda com a guerra em que ficàra victorioso, veiu à mussumba 
pedir ao Muatiànvua que Ihe desse gente e polvora para ex- 
pulsar o novo Quissengue de suas terras. 

Noéji riu-se e disse-lhe: — «Jà vejo que és tSo crianga comò 
teu irm&o. Essas guerras que fizeram, sFLo guerras de rapazes^ 
quizeram experimentar forgas; matou-se um Quimbundo^ de- 
pois matou-se um Quissengue^ jà devem estar satisfeitos. An- 
dumba n&o dà foryas a Quissengue para essas rapaziadas, e 
tambem eu nSo as dei nem as dou a Quimbundo. Descanga 
ahi uns dias, e quando quizeres vem que eu te despacho»." 

despacho foi o seguìnte : — aMandei Quimbundo para aquel- 
las terras para viver bem com os nossos parentes e nSo para 
OS guerrear. No Estado, quem determina as guerras sou eu, 
Muatiànvua. As crianyas quizeram experimentar as suas for- 
5as, e pagaram-se. Agora ouve o que te diz o Muatiànvua, o 
senhor de todas as terras, rios, aguas e arvores que vès. Aqui 
est2o estas duas armas, uma é para ti, e outra has de entre- 
gà-la a Quissengue, e tambem aqui està um barrii de polvora 
para cada um; ambos sSo meus filhos, estas armas sSo para 
cayarem e se lembrarem do pae que os estima a ambos, e que 
quer vè-los unidos. Agora a cada um entrego mais, uma mu- 
Iher para companheira; quero que juntos gosem muito bem 
dos seus Estados. NSio consinto mais desavengas nem desor- 
dens, e quem as provocar, conte que terà um castigo severo. 
Podes partir». 

Em 1845 segundo os melhores dados,*adoeceu Noéji. Como 
era de avaoyada idade a sua doenya deu muito cuidado aos 
que Ihe eram realmente dedicados ; porém os quilolos de méssu 
(os de maior grandeza), comeyaram a murmurar que era mau 
estarem a procurar salvà-lo, que tanto este comò sua mSe jà 
tinham vivido muito; que os filhos do Muatiànvua jà tinham 



564 EXPEDigZo pobtugueza ao muatiInvua 

OS cabellos brancos^ e que morriam sem gosar do Estado, e 
que seria melhor que ambos fossem a caminho dos que mor- 
rem, para Ihes succederem outros. 

Sabia Noéji o que se passava^ e apesar de ir melhor fazia-se 
mais doente^ admittindo so à sua presenta um ou outro quilolo 
mais distincto^ e isto so na sua cubata de dormir. Assim an- 
dou mais de um mez. 

Os filhos de Muatiànvua que todos pertenciam ao méssu, 
principiaram a manifestar tambem o seu descontentamento pela 
proIoDga92[o da doeii9a, dizendo que o melhor era acabarem 
com o velho^ pois jà tinha comido muito bem o seu Estado. 

Seu sobrinho Muteba sabendo d'estas combina9Ses, e que 
Muene Casse e outros quilolos do méssu se haviam promptifi- 
cado a virem atacar a anganda e matar o Muatiànvua^ foi 
logo ter com este, prevenindo-o do que se passava^ dizendo- 
Ihe em seguida: — «Tomei as minhas providencias, nSo tenha 
receio; eu* e o meu primo Muadiata nao deixàmos agora a 
anganda^ somos as vigiaso. 

Muatiànvua costumava sentar-se no lubaza («pateo tra- 
zeiro da anganda»), e por isso Muteba disse-Ihe que conti- 
nuasse a ir sentar-se ali, e quando elle Ihe mandasse dizer 
que chegavam os conspiradores, que parece so viriam de ma- 
drugada^ mandasse o Muatiànvua armar os seus tuxalapólis e 
que Ihe fizessem roda, mas que se nào movessem, nào era 
preciso Muatiànvua incommodar-se por causa das criangas. 

— «Tu tambem julgas, Ihe disse Noéji, que eu estou ainda 
doente? Estàs enganado; ha imi mez que finjo que a doenga 
continua, para saber quem me quer bem e quem me quer mai. 
Kào estou tambem tao veiho que nào possa acceitar a guerra 
de um ou de outro quilolo. Farei o que tu dizes, mas conta 
que se for preciso ainda tenho muita for9a para te ajudar». 

Toda a noite Muteba e seu primo, que jà haviam combinado 
terem comsigo duas das suas melhores facas. As suas flecbas 



1 À este tempo era Muteba o Xambanza* 



* • 



ETHNOORAPHIA E HISTOBIA 565 

e espingardas lazarinas estiveram àlerta, e come9ava a rom- 
per o dia, quando viram do lado do méssa apparecer gente 
armada. Cada um coUocou-se ao lado da porta da anganda 
empunhando a faca, e mandaram chamar o Muatìànvua para 
vir assistir ao que ia passar-se, fazendo-o sentar de modo a 
nSo ser visto. 

Os rebeldes notando que nao havìa movimento algum na 
anganda, entenderam que tudo ainda dormia, e por isso nSo 
dispararam as armas para atemorisar ninguem, querendo apa- 
nhar de subito o Muatiànvua e matà-Io immediatamente. Era 
para elles o meihor, e mesmo o mais seguro expediente. 

A medida que elles iam entrando na anganda a um e um, 
là estavam os dois de mucuàli em punho a degolà-Ios, para o 
que a pouea altura da porta os favorecia, porque obrigava os 
que iam entrando a abaixarem-se e por o pescofo à prova. 
Assim deram cabo de uns poucos, sem que os de fora dessem 
por isso. 

A preeipita92to com que queriam entrar, nem os deixava ver 
o que se estava passando, tendo so em atten9ào que nSo acla- 
rasse o dia antes de perpetrarem o attentado. 

Noéji satisfeito de ver aquelles dois bravos rapazes defen- 
dendo com tanta coragem a sua vida, collocou os seus tuxa- 
lapólis de um e outro lado da porta da anganda encobertos 
com a cérca, e de repente faz-lhes dar uma descarga de espin- 
gardas sobre o monte de conspiradores, em resultado do que 
morreram muitos d^elles, ficando outros feridos, fugindo os res- 
tantes espavoridos. 

Os que ainda ficaram de longe e que estavam preparados, 
esperando que alguem os chamasse, abysmados com o que suc- 
cederà, viram em seguida Muteba, o Muadiata e o Muatiànvua 
sair com os seus tuxalapólis a fazerem tiros de baia e lan^a- 
rem flechas. Alguns cairam logo por terra tomados de terror, 
desculpando-se com quem os manddra, e a maior parte foram 
perseguidos pelos dgis heroes do dia, entSo jà seguidos por 
muita gente do mazembe que ao ouvirem a descarga vieram 
logo para o logar do conflicto armados com as suas flechas, 



566 



EXPEDI(!0 POBTCOnEZA AO ÌICkTlilPnjA 



facas e armas lazarJnas, e collocaram-se fto lado do Moatiào- 
vaa aiixiliando-o. 

Tal era o suato que os reroltosoB nem paderam disparar nm 
unico tiro. 

Como ellea fiigiseem para o lado da Lucaoquexe, Hateha 
receando que fosBein ataci-Ia, mandou saìr gente do outro lado 
a prevenir a do mazembe, e segulu arante ent'io com as suas 
forjaa arroadns, prendendo e matando muilos doa conjursdoB. 

A Lucuoqaexc, que quando ouviu a deacarg^a j& tinlta cha- 
mado a sua gente lìs arnias para virem À anganda, log» qne 
reccljou recado de Muteba, mandou as suas for^s para fora, 
as quae» prestorani bom ausilio. 

A lifSo fura severa, e no dia aeguinte quando o MuatiàiiTiia 
appnreccu no tetame, todos se prostraram no chiUi, a^rade- 
cendo assim a Muculo Noéji (Zàmbi) nào ter morrido o aea 
MuatiiìuTua. 

Com reapeito a Quimbundo cumprindo a diligencia, comò 
o MnatÌiln\'ua ordentlra, vireu sempre em boas rela9<!le8 com 
o Quisseng^e. 

Baie morreu e succede-'lie Buanvna, que veiu do sul, aìnds 
com recommendfl9Ì5cH de Andumbn para viver e