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Full text of "Expedição Portuguêza ao Muatiânvua"

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J« 






(o 






DESCRIPÇÃO 



DA 



VIAGEM A MU8SUMBA 



DO 



MUATIANVUA 



EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIÁNVUA 



DESGRIPÇÃO 



DA 



VIAGEM Á MUSSUMBA 



DO 



MUATIÁNVUA 



PKLO 



CHEFE DA EXPEDIÇÃO 

HENRIQUE AUGUSTO DIAS DE CARVALHO 

Major do Estado Maior de Iníanleria 



KDIÇAO ILLU8TRADA POB II. CASANOVA 



VOL. I 

DE LOANDA AO CUANCO 



LISBOA 

LMPRENSA NACIONAL 
1890 



V 

I 



r^*.'a>v/5» ' 






V 



.1 



A 



NAGÃO PORTUGUEZA 



e. 9. Q. 



o chefe da Expediçio 



Ok 



AO EXCÍLLENTISSIMO SENHOR CONSELHEIRO 



MANUEL PINHEIRO CHAGAS 



IINISTRO D'ESTADO HONORÁRIO 



CONSAGRA ESTA PAGINA 



O cbefe da Expedição 



AO IXCILLKNTISSnO SKIIBOR CONSIIBBIRO 



FRANCISCO JOAQUIM DA COSTA E SILVA 



Pelf noilo qoe m interessou no bom êxito da Expedição 
e oa pnblicaçio dos trabalhos d'ella 



PARA SEMPRE GRATO SE CONFESSA 



O chefe da Expedição 



AOS BENEMÉRITOS 




l 




ES 




EZES 



NO 



CONTINENTE AFRICANO 



Ea to»tfaulM de duração pelo seo extremado patríotisno e acrisolado esforço 



O chefe da Expedição 



AOS PiliílCOS [ ILLOSIRADOS GRÉMIOS 



SOCIEDADES DE GEOGRAPHIA DE LISBOA 
DE GEOGRAPHIA COMMERCIAL DO PORTO 

ASSOCIAÇÃO COMMERCIAL 
E ATHENEU COMMERCIAL DA MESMA CIDADE 



lanifesU leste logar • sen profundo reconhecimento 



O Chefe da Expedlçio 



índice das gravuras 



Pa?. 

Agostinho Sizenando Marques, sab-chefe da Expediçílo opp. a 42 

Porto de Loanda 46 

Pharol de Loanda 49 

Ponta do Dande 52 

Mannel Sertório de Almeida Aguiar, ajudante da £zpediç2o opp. a 56 

Malva 60 

Conselheiro Ferreira do Amaral opp. a 60 

Contractados em Loanda opp. a 66 

Uma das encostas da cidade alta (Loanda) opp. a 68 

Orphis do asjlo D. Pedro V opp. a 72 

Feira diária em Loanda opp. a 80 

Vapor Serpa Pinto opp. a 86 

Fóssil vegetal 88 

Entrada no Cuanza 92 

Nossa Senhora da Muxima 93 

Estrella do sul % 

Villa e fortaleza de Massangano opp. a 96 

Baptisado no mato 97 

Ponte em Massangano opp. a 98 

Porto do Dondo opp. a 100 

Uma ma na vilIa do Dondo opp. a 102 

Dr. Luiz Collaço 105 

Trepadeira 106 

Typos do Libolo opp. a 110 

Ponte Pinheiro Chagas opp. a 112 

Planta da margem do Lucala 114 

Fazenda Proiotypo opp. a 120 



XVIII EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 



Pag. 

Partida da Expedição para Ambaca 126 

Rua das Palmeiras 129 

FsLzendsL Santa Izaòel opp. a 132 

Icungo (Gyp8 afrícantis) 136 

Caça aos gafanhotos opp. a 150 

Fabrico de uma tanga 152 

Pungo (montada do ajudante da Expedição) 154 

Jangada 156 

Pári-á-CacoIombolo opp. a 156 

Patrulha do Zamba opp. a 158 

Pedras de Pungo Andongo 161 

Cinatti Keil 164 

António (creado do chefe), de Golungo Alto 165 

Pungo Andongo opp. a 166 

Idem opp. a 170 

Polycarpo de Beça Teixeira 172 

Pungo Andongo opp. a 174 

Idem opp. a 178 

Cesalpina 182 

Partida para Malanje opp. a 186 

Muquíxi 190 

Entrada de Malanje — Ponte D. Carlos opp. a 190 

Secretario 191 ^ 

Mungungo 204 

Imbondeiro opp. a 210 

Casa do negociante Custodio José de Sousa Machado 217 

Xaquilembe, seu filho e o Muadiata 222 

Custodio José de Sousa Machado 224 

Amor perfeito de Malanje 228 

Matheus e Manuel 229 

Adolpho (contractado) 232 

Successor do soba Muhieba (carregador) 233 

Typo do Songo (contractado) 235 

Muquíxi 238 

Estrada para Cahombo 239 

Artefactos de Malanje 242 

Cacolo Cahombo opp. a 244 

Typo do Songo (carregador) 247 

João Campacala (idem) 251 

MirahUis longiflora 253 

Soldados Moveis opp. a 256 

Mussengo ulaje 258 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM XIX 

Pag. 

Fortaleza de Malanje 263 

ímctfa — Propriedade de Custodio Machado opp. a 264 

Convolvulacea 268 

Roa principal de Malanje 269 

Arte£Eketo8 de Malanje 277 

Domingos (contractado) 281 

Moende (jogo) 298 

Urucá 299 

Narciso António Paschoal 303 

Flor e fructo do omcú 306 

Morea 310 

Estrada para Qnissole 311 

Cacoata Tâmbu 314 

Ifanuel (carregador) 319 

Silphium tertbinthinaxtettm (Mulendica) 320 

Povoação de Andala Quinguangua opp. a 320 

Calei (bagre) 354 

Stida de Malanje 3õ5 

Mapnngo (insígnia de poder) 356 

Propriedade agricola de José Vaz no Qnissole 359 

Estabelecimento agricola de Callado no rio Luiimbe 361 

Estabelecimento de Francisco José Esteves em Catalã 364 

Estação Vinte e Quatro de Julho opp. a 366 

André (carregador) 369 

HabiUçoes do salalé 372 

Casimiro (carregador) 373 

Constnicçòes do salalé opp. a 374 

Smfularinea 376 

Sé (iuitári 379 

Estação Ferreira do Amaral opp. a 380 

Mucango, tio de Sé Quitári 383 

Panorama de Cafuzi opp. a 384 

Andala Quissna 386 

Accacia de Cafúxi 388 

Estaçio Paiva de Andrada opp. a 392 

Cáhia Cassázi 401 

Mossanje. 404 

Catnta 409 

Zanga 417 

Mneto Anguimbo 420 

Balaio 422 

í^is soldados da Ezpediçâo 423 



XX EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

Pag. 

MusBoma 426 

Muqufxi 435 

António Bezerra (interprete) 438 

Chapéu 440 

Povoação de Ambango opp. a 458 

O cozinheiro Marcolino e sua mulher 459 

Mulolo Quinhângua 462 

Mulher de Cáhia Casaáxi 463 

Sobeta Matamba 466 

Soba Caputo 467 

Filha do soba Anguvo 471 

Indemene Méssu 481 

Muquizi 504 

Rio Lui opp. a 506 

Fernando (cozinheiro) 512 

Uangambcle (carregador) 513 

Passagem do Cuango — Zunga desesperado opp. a 526 

Citruõ medica 530 

Camaleão 533 

Flor do tabaco 540 

Simão Cândido Sarmento 568 

Miyíji 578 

Cogumelo 602 

Vapores Stanley e Peace 625 

Mappas (trcs). 



índice dos capítulos 



CARTA AU CONSELHEIRO MANUEL PINHEIRO CHAUA8. 



INTRODUCÇAO 



Em LiUboa — Projecto da £xp«diçlo Portngaesa ao Muatiânvua — Seaa fins — Conaul- 
taa — Trabalho! preparatórios — NomeaçSes — Organtsaçio — Correspondência com 
diversos Isstítiitos e anetoridades — InstmcçSes do Ooyemo pelas qnaes se devia 
regular o chefe na sua Missio ao Maatiânvua — Partida da Expcdiçlo. . . Pag. 1 a 46 



CAPITULO I 



DE LOANDA A MALANJE 



No porto de Loanda ; recordações históricas ; I^anda cidade dos trópicos ; seus melho- 

nunentos — Na cidade de Loanda ; preparaçio da expediçSo ; contraetados ; efBcax 

avzilio de 8. Ex.* o Gtoyemador Qeral ; os melhoramentos feitos e os que mais 

importa fuer ; a popnlaçio — No rio Cnanxa ; sua importância e bella posição ; in- 

formaç]»es do dr. ICannel Ferreira Ribeiro — Massangano ; ontras povoações á 

beira-mar — A villa do Dondo — Viagem para Caxengo — Concelho de Cazengo — 

Viagem para Ambaca — Concelho de Ambaca — De Ambaca para Pnngo Andon- 

Ko — Concelho de Fungo Andongo — Viagem de Pungo Andongo para Malanje — 

Entrada em Malaoje — Q nosso modo de ver sobre a regiilo que atravessá- 

™» Pag. 47 a 214 



XXII EXPEDIÇIO PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 

« 

CAPITULO II 

CONCELHO DE MALANJE 



Demora da Ezpediçio em Malaqje ; em que ae emprega o poMoal e InformaçSea aobre 
o melhor caminho para o interior — O qae era Malai^e antea de ser elevado á ca- 
thegoria de concelho ; «eus actuaea limites — Caminhos ; habitações e materiaes de 
constmcçio — Pessoal da administraçio do conselho e as missões nacional e estran- 
geira — Carência de soccorros médicos e serviços correlativos; insufSciencia da 
força armada — Ediflcios e melhoramentos públicos; causa« de insalubridade e 
condições de saneamento — Commercio ; seu desenvolvimento, sua» relações eom 
os indígenas, e gravíssima concorrência dé estrangeiro — Agricultura e as provi- 
dencias que o seu desenvolvimento mais altamente reclama — Uma eleiç&o em 
Africa — Dificuldades com os carregadores ; podo de pagar-lhes ; exigências que 
apresentam — Protesto contra as informações do explorador Wissmann a respeito 
do commercio português — Despedida de Mala^je Pag. 215 a 856 



CAPITULO III 

DE MALANJE AO CUANGO 



Viagem para Catalã. Em Catalã. Partida para Andala QuinguAngua. Estaçlo 24 de Ju- 
lho ; a povoaçSo e seus moradores. Viagem para Andala Quiss&a. Construcções do 
salalé. Chuva e trovoada. Incidente no caminho — Caf&xi. Estaç-io Ferreira do 
Amaral. Visita de 8é Quitári. Qosto pela aguardente. Cumprimentos do Jaga ; pre- 
sentes ; dança. Visita ao Jaga Andala Quissúa. Abundância de gado — Viagem do 
chefe para Camávu. Os carregadores Massongos. O sobeta Angonga. Ka Estação 
Paiva de Andrada. Visita ao soba Ambango. A Estaçáo. Ajuste de carregadores. 
Intrigas de Ambango. Visita do soba Anguvo. Discórdias dos sobas. Desagulsado 
com Câhia Cassázi — Viagem do chefe com ai.* secçSo para o Cuango. O dia 31 do 
Outubro. Mona Mussengue, Mulumbo, e Zunga. Passagem do rio ; pagamentos aos 
donos das canoas e aos pilotos. A avidez de Zunga. Episodio grotesco. Visita do 
potentado Mueto Anguimbo. Ser&o na companhia de vários gentios — Regresso do 
chefe á Estação Paiva de Andrada — Algumas considerações sobre a região e seus 
habitantes ; crenças, usos e costumes d^e^tes — Partida da Estação Ferreira do 
Amaral. Correspondência acerca da passagem para o interior — Communicações 
officiaes relativas ao progresso da Espedição e suas relações com o gentio — Mar- 
cha da 2.* secção para a Estação Paiva de Andrada. Na Estação. Entrevista com os 
sobas. Situação dos povos e diversas informações sobre o estado do palz, e como se 
devem acceitar as informações do gentio — Algumas palavras acerca das expedi- 
ções commerciaes para o interior do continente. O negociante Braga — Participa- 
ções officiaes dando conta dos trabalhos da Expedição e outra correspondência sobre 
o mesmo assumpto. Preparativos de partida e incidentes desagradáveis' — Viagem 
para o Cuango. Nas margens do Lui. Roubo nas bagagens; providencias enérgicas ; 
encontro dos objectos roubados. Jornada para a povoaçSo de Anguvo ; acampamento 
Junto a esta povoação. Entrevista com Muene Canje. Noite de Natal; tempestade ; 
fugida de carregadores — Na margem do rio Cuango. Vioitas. Passagem do Cuango. 
Ainda o Zunga — Na casa filial de Custodio Machado Pag. 3ò7 a 530 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM XXIII 



CAPITULO IV 

O QUE DEVE SER MALANJE 



Oroir''^b.iA do pUiudto de Malax^e ; fua meteorologia comparada com a de Loanda — 
Saneamento por meio do trabalhador africano — Gonsideraç5es sobre oi traballia- 
doree europeus — Sitoaçio do iudigena, devido úm ambições dos estrangeiros — 
Aproreitamento doe indigenas na administração provincial ; facto comprovativo 
da inflneneia que sobre eiles exercemos. Keêessidade de educar devidamente os 
povoe que nos sio sujeitos, como elementos indlq»ensaveis para a ezploraçio e 
aproveitamento das riquesas naturaes nos noMos domínios — Organisaçlo do go- 
verno do districto de Malax^e — As missões civilisadoras e de instrucçio e pro- 
tceçio aos naturaes — Methodo a seguir no ensino; pessoal das missões; o mis- 
sionário — Administraçio da Justiça ; tribnnaes especiaes para o gentio — Força 
militar agrícola ; Moveis ou segunda linha ; serviços que lhe pertencem ; força 
policial — Intervenção dos sobas na administraçio local — Contribuições ; melho- 
ramentos públicos ; pessoal do governo do districto ; receita — Necessidade da 
creaçio do novo governo nos confins da província de Angola para eficazmente 
eontnbnir a dilatar e a assegurar o dominio de Portugal através do grande eon- 
tiaente Pag. 531 a 608 



APPENDICE 



PU4NO E ORÇAMENTO PARA O NOVO GOVERNO DE MALANJE... Pag. GOS a G2S 



I1L"° e ex-"'' sr. 



Conselheiro Manuel Pinheiro Chagas. 



Meu respeitável amigo : 

Deu-me V. EJx.* uma bem alta prova de considera- 
ção, confiando-me a direcção da Expedição Portugueza 
ás Terras da Lunda, a leste da provincia de Angola, 
na Africa austro-central ; e eu faltaria ao meu dever 
86, no momento em que venho apresentar ao paiz o 
resultado dos seus trabalhos, não o fizesse preceder de 
uma pagina especial, em que ficasse assignalado o meu 
grande reconhecimento para com V. Ex.* 

Designou-me V. Ex.* os trabalhos a que mais pai'ti- 
cularmente devia satisfazer a Expedição, e, para melhor 
se comprehender todo o seu alcance politico e com- 
mercial, foram-me entregues as Instruc(^es, que sem- 
pre me serviram de norma em todos os meus actos, 
ainda os mais insignificantes, no meio das tribus com 
quem tive de manter relações, procurando consubstan- 
ciar e radicar nas mais modernas a antiga influencia 
que sobre os seus antecessores os nossos conseguiram 
exercer. Correspondem a essas Instrucções, os três li- 
vros de que se compõe esta obra, que submetto á illus- 
trada apreciação de V. Ex.^ para ajuizar das questões 



vitaes, principalmente para a nossa soberania e futuro 
do nosso commercio a que tive de attender. 

Todas as investigações e estudos á que procedeu a 
Expedição foram além do que no seu inicio se podia 
suppor; excederam os limites que lhe foram marcados, 
porque também, por cii*cumstancias que não era dado 
prever, não só duplicou o tempo calculado para o des- 
empenho da sua tarefa, mas ainda se alargou o campo 
em que essas investigações e estudos deviam ser feitos, 
em territórios cujos habitadores não tinham ainda visto 
o homem branco, — o que tudo consta das minuciosas 
commupicações mensaes e mais documentos que sem- 
pre enviei á Secretaria dos Negócios de Marinha e Ul- 
tramar, e também, quando isso era possivel, a três dos 
nossos principaes institutos scientifícos. 

Essas investigações e estudos constituem um volu* 
moso e variado material que torna assaz conhecida a 
vasta região explorada, sob muitos pontos de vista, quer 
no interesse da sciencia quer no do paiz, e por isso, 
além doesta obra geral, foi organisado um álbum ethno- 



lógico de phojkographias, que.e8cIareGe todos os estudos 
da Expedição, e coordenaram-se mais quaíro volomeei 
parciaes, referentes: um, ás produc^ks e aos climas; 
dois, aos vocabulários e á grammatíca das línguas; e o 
outro, á ethnographia e historia tradidoTud dos povos; 
constituindo o todo um trabalho baseado em factos es- 
crupulosamente observados, e d.evidamente elucidados 
por gravuras, chtomos, cartas, mappas, schemius e dia* 
grammas. 

Mão posso, nem devo deixar de tributar t^nibem 
aqui os meus sinceros e calorosos agradecimentos aos 
successores de V. Ex.* no Ministério dos; Negócios de 
Marinha e Ultramar, pelos auxilies e protecção que se 
dignaram dispensar-me, no propósito de que todo o 
material adquirido pela Expedição ficasse aproveitado, 
auctorisando não só a respectiva publicação com todo 
o seu desenvolvimento, mas ainda facilitando os recur- 
sos indispensáveis para que se pudessem consultar e 
cotejar 08 trabalhos similares já publicados dentro e 
fora do paiz — o que permittiu completarem-se com 



vantagem os estudos da Expedição, e d^elles se tirarem 
conclusões praticas em beneficio da sciencia em geral 
e da África em particular. 

Entregues todos estes trabalhos ao Governo de Sua 
Magestade seria occasião opportuna de dar por finda 
a missão de que fora encarregado ; mas faltaria ao meu 
dever, como militar e como cidadão portuguez, se, 
tendo chegado do centro de Afi-ica com o mais com- 
pleto conhecimento dos gravissimos perigos que estão 
imminentes sobre as nossas provincias de Angola e 
Moçambique, não indicasse o melhor meio de os con- 
jurar e de se aproveitarem também naquelle continente 
as terras a que temos incontestáveis direitos. 

Já dei conta de alguns d'esses alvitres a S. Ex/ o 
Sr. Conselheiro Barros Gomes, a quem igualmente 
devo inolvidáveis provas de deferência e boa vontade ; 
mas não me soffre o animo limitar-me apenas á indi- 
cação dos mais graves d'esses perigos e não tratar da 
sua melhor resolução no campo pratico, procurando 
fecunda applicação a todas esses alvitres, visto o co- 



nhecimento que tenho do theatro em que se vSo succe- 
dendo precipitadamente os acontecimentos que nos 
podem ser funestos, e ter-me servido de lição tudo o que 
vi e observei, tanto da parte dos estrangeiros como 
das tribos còm que mais em contacto me encontrei. 

Posso, pois, dar informações seguras, porque fiquei 
conhecendo o apertado cerco que nos estão pondo as 
prindpaes nações da Europa, mandando ás terras da 
Africa, por um lado os missionários mais instruidos, 
08 deanteiros mais ousados, os exploradores mais des- 
temidos, os investigadores mais competentes; man- 
tendo, por outro lado, na costa, bloqueios, cujo fim é 
mais politico que humanitário; e de costa a dentro, 
nas zonas centraes, insinuando-se no animo dos chefes 
indígenas, arrancando-lhes contratos de que elles não 
teem consciência, apossandoHse das suas terras e £51- 
zendo convergir para os portos marítimos os seus pro- 
ductos commerciaes ; — e nós, Portuguezes, que já te- 
nnw o exemplo tristemente eloquente da Guiné e do 
Zaire, ficaremos apenas com as paragens mais insalu- 



I 



bres nas vertentes oceânicas, se não procedermos com 
toda a segurança, actividade e energia. 

Travon-se a campanha, sem que o presentissemos; 
porque a nossa attençSo estava subdividida na appli- 
caçSo de providencias internas mais urgentemente re- 
clamadas nos logares aonde a nossa auctoridade res- 
tringira a sua influencia, esquecendo-nos que essas 
providencias nunca poderiam dar os resultados que se 
pretendiam quando nos fosse limitado o vasto hori- 
zonte a que miravam. 

Previ-o e disse-o por muitas vezes, mas não fui atten- 
dido! 

Estamos agora no mais vivo d'essa campanha, para 
sustentarmos a integridade das nossas possessões de 
Angola e Moçambique, e mal me ficaria a mim se, co- 
nhecendo que ainda não é tarde, abandonasse o meu 
posto, tendo perfeito conhecimento do perigo, e não 
mostrasse, por todos os modos ao meu alcance, qual a 
maneira mais efficaz de o combater; e é isso o que faço 
no decorrer doesta obra, á medida que os assmnptos 



m'o sollicitam, justificando-se assim o seu desenvolvi- 
mento. 

Não são as pugnas, por emquanto, á mão ai*mada, 
(e faço os mais ardentes e sinceros votos para que se 
não chegue a tal extremo), mas as que visam á absor- 
pção pela influencia politica e commercial — não me- 
nos arriscadas para a independência das nações; e 
essas novas conquistas, que mais caracterisam o ul- 
timo quartel d'este século, fazem-se por meio da mais 
activa propaganda e vulgarisação, discutindo-se qual 
é a nação mais capaz e mais competente para civilisar 
08 povos africanos, e promover o seu progresso e bem 
estar. 

Discute-se mesmo qual é a naçlão que mais serviços 
tem feito em beneficio da raça negra, debatendo-se 
exactamente neste momento este pleito, de que tanto 
se tem abusado, e em que Portugal deve sempre figu- 
rar como parte mais interessada. 

Mas ainda não é tudo quanto deixo exposto, como 
muito bem o sabe V. Ex.*, pois arrojam-se a dizer que 



os Portuguezes nada teem feito naa terras da Africa 
para alargar o conhecimento d'e]las, e cbegam mesmo 
a pôr em duvida a nossa competência para esta ordem 
de trabalhos. 

É contra tào ousadas asserções que me cumpre pro- 
testar perante o paiz, e oxalá o podesse fazer perante 
a Europa, ou melhor, perante o mundo civilisado — 
embora como o mais humilde de todos os trabalha- 
dores que se internaram no seio do continente africano 
para o estudar, — affirmando mais uma vez que, assim 
como fomos nós os primeiros a descobrir, conquistar e 
explorar as mais vastas e mais extensas regiões iuter- 
tropicaes — patenteando ao muudo novos mundos e 
novas gentes, — ninguém melhor do que nós, ainda na 
actualidade, se pode antecipar no estudo e resolução 
das mais importantes questões scientificas, tanto no 
que respeita ás raças e A acclimataçSo de europeus de 
trópicos a dentro, como ao aproveitamento das terras 
e das condições favoráveis á sua colonisação pela raça 
preta e á transformação d'esta raça; porque, ninguém 



como nÔB, conhece o seu viver intimo, a sua politica, 
o 8eu commercio, as suas producçÕes iudustriaea, e 
Dieíino as suas liuguas, onde se encontram assimi- 
lados, e de remotos tempos, antigos vocábulos portu- 
guezeg. 

E que assim é, provam-no: a infinidade de roteiros, 
descripçSes, noticias, estudos e outros documentos que 
temos dispersos por vários arcliivos das maia antigas 
inetitiiições, na metrópole e repartições publicas das 
nwisaa duas grandes provincias africanas; as collec- 
çòea dos annaes ultramarinos e dos bolletins oíHciaes 
oaquellas provincias, e varias publicações e ainda ea- 
criptos inéditos. Que se collijam todos esses trabalhos 
na devida ordem, agrupando-se pelas regiões a que se 
referem, e ainda subdividindo essas secções pelos va- 
noH assumptos a que respeitam, e formaremos assim 
•ima coUecção especial de dados preciosos acerca do con- 
tinente africano, que, se nem sempre tiverem para a 
íciencia o cunho da precisão, que hoje lhe imprimem 
<M especialistas armados dos instrumentos mais moder- 



nos de investigação, nella se reconhecerá que para a 
sua acquisição presidiu sempre o espirito da obser- 
vação e a boa fé, que é bem melhor do que as ruidosas 
informações do momento, e a falta de conhecimento de 
causa de que se ressentem certos trabalhos estran- 
geiros. 

E justificado, por certo, o nosso orgulho, por ter- 
mos sido os primeiros que chegámos ás terras intertro- 
picaes, precedendo todas as demais nações, quer na 
America e Oceania, quer na Ásia e na Africa; mas de- 
vemos encontrar ahi também o mais vivo estimulo 
para mostrar aos estrangeiros, que se abeiram cubiço- 
sos das nossas possessões, que somos os mais compe- 
tentes para tratar com as raças que as povoam, diri- 
gindo a sua transformação e não promovendo a sua 
extincção como, em geral, tem feito a Inglateira e estão 
fazendo também outras nações nas vaiíadas regiões 
que occuparam, quer num quer noutro hemispherio. 

As lactas, porém, accentuaram-se e proseguem com 
assombrosa actividade, e não pode haver o menor tem- 



i 

i 



po a perder, a minima dilação/ reclamando hoje todas 
as noêsas possessões, mais do que nunca, o auxilio e 
a attençSo de todos os que se prezam de Portuguezes. 
E dirigi-me a V. Elx.* nestes termos, porque se trata 
de um assumpto palpitante de interesse e verdadeira- 
mente nacional. E se, como chefe de uma Expedição 
portugueza que foi ao centro da Africa, eu me alegro 
e ufimo de ver publicados os seus trabalhos, porque são 
os melhores documentos e os mais irrefragaveis para 
comprovar que me esforcei pôr corresponder á idea 
que V. Ex,* teve em vista enviando-me ali; como Por- 
tQgtlez não deixaria de lamentar que se não aprovei- 
tassem as indicações fornecidas pela Expedição, per- 
dendo-se tantos esforços, tantas canseiras, tantos sacri- 
ficios e tão boa opportunidade para triumphar dos 
muitos obstáculos, que se oppõem á nossa expansão co- 
lonial e á nossa legitima liberdade de acção em todos 
o« territórios portuguezes de além-mar. 

YSo os principaes alvitres indicados nesfiels traba- 
llios, lembra-èle mesmo o modo prática da íníia melhor 



• * 



« 



applicação; e a V. Ex.^ venho impetrar toda a sna va- 
liosa e cordial coadjuvação na propaganda do que deve 
ser hoje uma Santa Cruzada, a fim de que unidos todos 
pelo mesmo pensamento possamos luctar com êxito 
feliz, e mostrar ao mundo inteiro, que os Portuguezes 
nSk) faltaram nunca aos seus deveres como povo civi- 
lisado e colonisador. 

Não podem ir tão longe estes modestos escritos, nem 
tenho nome nem auctoridade para os apresentar; mas 
depondo-os nas mãos de V. Ex.^ apello para o seu for- 
moso talento e para o seu acrisolado patriotismo, pois 
estou certo de que, sob o seu alto patrocinio e aquecidos 
á luz da sua superior intelligencia, poderão elles me- 
lhor servir de estimulo para que novos labores se ini- 
ciem e novas expedições se preparem, que de uma vez 
ponham termo ás accusações que se nos estão fazendo, 
offerecendo-se também simultaneamente á justa e sen- 
sata apreciação de toda a gente de boa fé e de inten- 
ções honradas os trabalhos e serviços já emprehendidos, 
e ainda os que estão em via de execução, attestados 



pelos verdadeiros monumentos de progresso que va- 
mos levantando nas nossas possessões africanas. 

Quando, porém, V. Ex.* não encontre nos trabalhos 
da Expedição, que tive a honra de^ conduzir ás terras 
do Muatiánvua, o merecimento que deveriam ter, confio 
que ficará convicto de que procurei satisfazer, até ao 
extremo limite das forças próprias e com os recursos 
de que dispunha, ás Instnic^ies que recebi, e á con- 
fiança que V. Ex/ depositou naquelle que com a maior 
s&tifi&çSo se subscreve 



De V. Ex.* 

com o mais subido respeito e consideração 

amigo muito dedicado 



Henrique Augusto Dias de Carvalho. 



DE LOANDA AO CUANGO 



INTRODDCÇÃO 



H H larlorldftdei ^ In«lnicçflo4 da GQVpmo pelua qu 
■ nu> NIhIo u Kuiii&nvui ~ FanMi ds Expedi-lo. 



Em fevereiro de 1884 empenhava-se, com interesse, o Ex."® 
Conselheiro Manuel Pinheiro Chagas, Ministro e Secretario de 
Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, pela construcçâo 
do caminho de ferro de Loanda a Ámbaca. 

Este projecto, que havia mais de dez annos estava na tela 
da disciissão e cujos estudos tinham sido feitos por um pessoal 
technico distincto, por mais de uma vez, e por Ministros de 
politica diversa, fôra apresentado ao parlamento afim de obter 
a indispensável auctorisaçSo para tomar-se realisavel. 

Para tSo arrojada empreza vacillavam ainda os mais enthu- 
siastas por este importante meio de desenvolvimento da pro- 
víncia de Angola, quando tinham de attender ás fontes de 
receita que, logo de principio, haviam de saldar os enormes 
sacríficios do seu custo e conservaçílo. 

Contava-se com o commercio do centro do continente ; porém, 

a verdade era que, na alfandega de Loanda, os rendimentos 

nos últimos annos haviam diminuido muito, e os exploradores 

allemlies, que por lá tinham andado de 1875 a 1882, nada 

haviam feito transpirar sobre o que viram com respeito a esse 

commercio. 
Tinhamos, 6 certo, o roteiro da viagem de Rodrigues Graça 

de 1843 a 1848, e informações doeste e de alguns negociantes 

wtanejos, que se lhe seguiram, de tempos a tempos, a devas- 

*w a regiSo central além do Cuango que, a dar-se-lhes cre- 



4 KXPEDIÇAO PORTUGUESCA AO MUATIInVUÁ 

dito, nos aconselhavam a procurar ali mercados para as nossas 
industrias em troca dos productos conhecidos — marfim, borra- 
cha, cera e gomraas. 

Havia, pois, toda a conveniência em se conhecer das actuaes 
circumstancias d*esses mercados, e em attrahir os productos que 
ahi se encontrassem, ao menos para ir alimentando o caminho 
de ferro, que, por necessidade da província, ia construir-se, 
até que se encetassem em liarga escala a exploração agrícola e 
a mineira, na região que elle ia beneficiar. 

Assim o comprehenderam o Ex.™" Ministro da Marinha Ma- 
nuel Pinheiro Chagas, o Secretario Geral do seu Ministério, 
Conselheiro Francisco Joaquim da Costa e Silva, a Sociedade 
de Geographia de Lisboa e todos quantos se empenhavam pela 
construcção d'aquellc caminho de ferro. 

Demonstrava eu, então, na revista illustrada As Colónias 
Portuguezas, — de cuja fundação me ufano, pois a vejo sustentar 
os bons principies de propaganda iniciada, — as vantagens, que 
obteriamos em reatar antigas relações, que principiáramos a 
manter com os estados da Lunda; e, ouvido pelo Ex."^ Ministro 
Manuel Pinheiro Chagas e pelo Conselheiro Francisco Joaquim 
da Costa e Silva, por intervenção do benemérito explorador 
africano Paiva de Andrada, fui convidado a apresentar o pro- 
jecto da Expedição que tinha em vista. 

Delinear o projecto como cu o imaginara, com a maior bre- 
vidade possível, era, por certo, trabalho mui árduo; porém, 
como desejava satisfazer ao honroso convite que recebera, não 
vacillei, apresentando logo um trabalho bem mais modesto, pois 
se tratava de uma missão em Africa, que me parecia muito 
urgente, sobre o modo de fazer um estudo pratico de toda a 
região a leste do antigo reino de Angola, que habilitasse o 
Governo a providenciar de sorte que se oppuzesse um dique 
ás intenções absorventes que então se manifestavam, e que 
tendiam a cercear as principaes fontes de riqueza do nosso 
commercio colonial pelo occidente, tanto mais que estavam 
estabelecidas as bases para um tratado com a Inglaterra, sobre 
a nossa malfadada questão do Zaire. 



INTRODUCÇlO 



Este planOy que^ até então, eu não encontrara, sequer esbo- 
çado, em nenhum dos trabalhos publicados a respeito áA Africa 
Central, afigurava-se improrogavel, e para quem conhece pra- 
eticamente a vastíssima província de Angola, sempre onerada 
com grandes encargos, é evidente que o melhor modo de lhe 
dar o desenvolvimento, de que ella é susceptível, seria alargar a 
área do seu commercio, facilitando-lhe as communicaçSes com 
o interior. 

Era manifesto o definhamento do commercio da sua capital, 
emquanto que florescia o do Ambriz ao Zaire. Não era, pois, no 
âmago da província que devíamos procurar as fontes que por 
muito tempo o alimentaram ; era preciso ir além dos seus limi- 
tes orientaes, e ultrapassar o rio Cuango. 

E este rio, que fora em parte estudado pelos beneméritos ex- 
ploradores Capello e Ivens, e também por Van Mechow, até 
certa altura, não seria navegável d'ahi em deante até ao Zaii*e? 

E sendo-o, eram grandes os obstáculos a vencer para a união 
d^essa linha fluvial com a continuação do caminho de ferro 
de Loanda a Ambaca, já projectado? 

Quando tudo isto fosse possível, que vantagens nos podia 
offerecer a região central limitrophe? 

£ como se ha de conhecer bem esta região, sem conhecer 
o8 productos do seu solo, os seus climas, as aptidões dos seus 
povos, 08 seus usos e costumes, a sua historia, a sua existên- 
cia politica, e antes de tudo a sua língua? 

Dominavam-me estas ideas, como se prova pelas minhas 
communicaçSes ao Governo durante o desempenho da missão 
que me foi confiada, mas abstive-me de apresentar um projecto 
muito desenvolvido e de precedê-lo de largas considerações, 
receando prometter o que eu talvez não pudesse realisar. 

Tratei de fixar, por isso, as principaes questões a que deve- 
riamoB attender como mais instantes, a saber: restabelecer a 
nossa antiga influencia com os povos do Estado do Muatiãnvua ; 
estreitar mais as nossas relações commerciaes com esses povos, 
chamando de novo para a província as correntes mercantis 
que se procurava desviar para o norte; garantir communicações 



6 £XP£DIÇ20 POKTUQUEZÂ AO HUATIÂNVUA 

seguras ao nosso commercío entre ellcs^ por meio de EstaçSes 
civilisadoras^ commereiaes e hospitaleiras ; e ainda crear-lhes 
necessidades pelo contacto comnosco, ao mesmo tempo que, por 
uma influencia pacifica e benévola, os fossemos preparando a 
recorrerem a nós, que retribuindo-lLes o trabalho lhes propor- 
cionaridmos meios do as satisfazerem. 

Neste sentido fonnulei o projecto, c S. Ex.' o Ministro en- 
tendeu conveniente sobre elle consultar a Sociedade de Geo- 
graphia de Lisboa, que, reconhecendo-lhe a urgência, nâo foz 
demorar o seu parecer sobro tão importante assumpto. Julgo 
do meu dever reproduzir aqui este documento para melhor se 
avaliarem as ideas da benemérita Sociedade sobre a missão 
de que eu era encarregado. 

Sooiedacle cio Geog^apliia cie ILiist>on. 

111."" c Ex."« Sr. — Satisfazendo aos desejos, para nós muito honrosoí*, 
que V. Ex.* foi servido cominuuicar-noH por oAicio.da Direcção Geral do 
Ultramar de 28 de janeiro ultimo, e acolh(?ndo com particular agrado o 
pensamento e projecto a ({ue o mesmo oifício allude, a Dirccçilo doesta 
Sociedade encarregou a Commissílo Nacional de Exploração e Civilisa- 
çao Africana, de (rstudar o assumpto e tem a honra de apresentar, in- 
cluso, a V. Kx.* o parecer da mesma ConimissUo. 

A urgência e a natureza do caso e a circunistancia de se acliar sus- 
penso o expediente interno da Sociedade, por motivo da mudança e rcin- 
stallaçao da sede, fez -nos prescindir de levar o assumpto pendente á 
consideração da assembléa geral. 

Cremos, comtudo, poder assegurar a V. Ex." que interpretámos o sen- 
timento c a opiniílo dos nossos consócios, fazendo nosso o parecer da 
nossa ConnnisHÍlo Africana. 

Parece-nos até que este, como outros assumptos de análoga natureza, 
ganham muito sob o aspecto dos interesses e necessidades da politica 
nacional, — nas presentes circiunstauciíis, — em nslo serem extempora- 
neamente submettidos a uma publicidade que, sem trazer proveito algum 
ao estudo e á resolução competente d'elles, pode ser, e tem sido, por^•en- 
tura, mais de uma vez explorada contra o paiz e contra os esforços pa- 
trióticos da sua administração. 

Não ignora V. Ex.* que particularmente, em relaç3o ás nossas cousas 
africanas, diversos e poderosos interesses de politica e de cobiça estra- 
nha intrigam o conspiram incessantemente contra nós. 






INTRODUCÇXO 



NSo pode já duvidar-sc, e o Governo de certo o sabe muito melhor 
do que uós, que esses interesses toem em Portugal agentes hábeis e 
dedicados que espiam as nossas tentativas, e exploram as ingenuidades 
e imprudências da nossa boa fé e da nossa indiscrição habitual. 

Julgámos escusado alongar-nos mais acerca doesta qucstSo delicada 
e ingrata, em que apenas de leve tocámos, para affirmar a Y. £x.* que 
por nossa parte temos entendido de ha muito dever acautclar-nos, ató 
onde podemos, e consoante o pensamento patriótico e pratico que a 
nossa Sociedade representa e procura servir, contra a vulgarlsaçâo pre- 
matura e indiscreta de certos negócios e tentativas de que nos parece 
que n2o convém que os estranhos possam ter, como já tem succedido, 
mn conhecimento antecipado que os habilite a preparar-uos difficulda- 
des e mallogros. 

Assim é que, relativamente á Missão ao Muata-Yanvo, se tem conser- 
vado reservado para nós o assumpto desde as primeiras conversações 
de alguns dos nossos coUegas com V. Ex.* e com o sr. Paiva de Andrada, 
por nos ter parecido que nas vésperas de uma pova expedição allcmã 
áquelle potentado, e na situação presento da questão africana, haveria 
conveniência em que a Missão Portugueza se organisasse e partisse sem 
rnido, além de tudo prematuro e inútil. 

Infelizmente também neste assumpto se não ponde manter a necessá- 
ria reserva; a noticia da Expedição Portugueza, e.até do seu caracter 
politico, chegou já a Bruxcllas e a Berlim, e estas circumstancias bas- 
tarão para tomarmos a liberdade do chamar a particular attenção de 
V. £x.* sobre a conveniência manifesta, que nos parece havor em que 
epsa Expe< lição se organise rapidamente, de maneira que possa partir 
no paquete de 6 do próximo mez, expedindo-se desde já as necessárias 
prevençíícB e ordens ao Governador Geral.' 

Faça- nos sempre V. Ex.* a justiça de acreditar na boa e sincera von- 
tade da Sociedade de Geographia de Lisboa em cooperar, como possa o 
lhe cumpra, no serviço do Estado. 

Deus guarde a V. Ex." Lisboa 4 de fevereiro do 1884. — 111."'» e 
Ex.*<* Sr. Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Marinha e Ul- 
tramar. = Pela Direcção, o Vice-Presidcntc em exercicio, Francisco Ma- 
ria da Cunha = O Secretario perpetuo, Luciano Cordeiro, 



Pareeei* cia Commissã.o AAricana 

Senhores: — A Commissão Africana da Sociedade de Geographia de 
Lisboa foi extremamente agradável a commimicação que a Ex."* Dircc- 
f«o lhe fez do officio do Ministério da Marinha e Ultramar, de 28 do 
corrente, relativamente ao projecto de uma missão de estudo e de rela- 



8 EXPEUIÇIO POBTDGUEZA AO MUATIANVUA 

ç5eB politicas a enviar ao potentado africano, geralmente conhecido pelo 
nome de Muata-Yanvo ou Muatu-ya-nvo, 

Sem tratar agora de reivindicar para a Sociedade de Geograpbia de 
Lisboa a iniciativa da idóa ou reconhecimento da necessidade económica 
e politica de renovar as relações oíficiaes com o referido potentado, c de 
vigiar d'aguelle lado do sertão africano os trabalhos e esforços, nem 
sempre exclusivamente humanitários e civilisadores, dos exploradores e 
aventureiros estrangeiros, — iniciativa e reconhecimento que se acham 
registados na correspondência official da Sociedade e na particular c 
oíficiosa da sua Sjccretaria gorai, — limitar-se-ha a prestar, em princi- 
pio, a sua sincera adhesão ao pensamento que faz objecto do officio do 
Governo, e a offerecer á Direcção o seu parecer para que ella faça d^clle 
o uso que tiver por mais conveniente. 

Abstendo-se igualmente de fazer, por agora, a historia das antigas 
relações portuguezas com o referido potentado, crê também escusado 
demorar-se na fácil demonstração das conveniências commerciaes e po- 
liticas doestas relações, conveniências de longa data reconhecidas c 
apenas accrcsccutadas agora pela direcção e pelas circumstancias pre- 
sentes do movimento na exploração pratica geral do contuiente africano. 

E evidente que, se tivéssemos proscguido na politica por vezes en- 
saiada em antigas epochas — que chegou no Congo a radicar-se por 
uma forma notabilisHima — tcriaraos fixado em condições seguras e van- 
tajosas para o nosso commcrcio c para o desenvolvimento civilisador 
do nosso domiuio, o prestigio e a auctoridade do nome portuguez, nos 
potentiidos sertanejos que cstanceiam entre as duas costas meridionaes 
africanas. Mas n^o é menos certo também (|ue podemos ainda valorisar 
cousideravelment(; a situação singular que a historia e o espirito aven- 
tureiro e ousado dos nossoíf conquistadores, dos nossos missionários e 
dos nossos colonos nos crearam em Africa, e que estamos chegados a 
um momento em que, se o níío fizermos de prompto por mn esforço decidido 
e intelligente, arriscámos deveras, com a honra do nosso nome, a segu- 
rança e a prosperidade das nossas possessões africanas, contra as qnaes 
conspiram, por igual, a cobiça e a intriga d'aquellos a quem exacta- 
mente abrimos o grande continente. Depois de mallograda, e ainda as- 
sim gloriosa, tentiitiva representada pela Kxpediçao de Joaquim Rodri- 
gues Graça, em 1843, e lí parte (luaesquer ])artioulares commissões e 
dedicações patrióticas de um ou outro sert^inejo portuguez, as nossas 
relações oflficiaes com o Muata-ya-nvOy pode dizer-se que se acham in- 
terrompidas e abandonadas. 

O esforço, o serviço, e o vasto e utilissbno projecto do homem a quem 
o Governador José Xavier Bressane Leite confiou, por instrucções de 18 
de março de 1843, o encargo de explorar <«os territórios dos régulos por 
onde transitasse, de examinar os seus usos e costumes, de conhecer da 



INTUODUCÇXO 9 



soa agricultura, rios, minas, etc., para bem. dos interesses da NaçSo», 
nSo teem sido apreciados com toda a justiça entre nós, posto lograssem 
merecer a admiração e o elogio dos estranhos, e sirvam ainda de illu- 
cidaçâo c de guia aos exploradores que outros Estados teem ultima* 
mento enviado ao poderoso potentado do sertão central do continente 
negro. Vem a propósito citar a Expedição de Graça, cujo diário, nunca 
publicado na integra, esperámos x)oder em breve oíferecer ao publico, 
porque nos parece que o projecto que agora o Governo nos commanica, 
se approxima naturalmente d^aquelle que a Expedição de 1843 repre- 
sentava. 

Essa Expedição, infelizmente desprovida de recursos scientificos, ti- 
nha o duplo caracter de commercial e politica, de particular e de oífi- 
ciai, na sua organisaçâo e destino, e cremos que é igualmente este o 
caracter da nova Expedi ç-âo projectada, sendo pelo menos, o que nos 
parece e que todas as circumstancias aconselham que se lhe imprima, 
de»le o seu inicio, até aos ultimes pormenores da sua organisação. 

O caminho ou caminhos que conduzem ao Muata-ya-nvo são conho- 
ddos, e sem esquecer a necessidade de aproveitar todas as occasiõcs que 
Be offereçam de augmentiir e de rectificar os nossos conhecimentos e 
informações scientificas das regiões africanas, considerámos o projecto 
eobre que temos de pronunciar-nos como o de uma missão, principal- 
mente commercial e diplomática, destinada : 

l.* A estudar os meios mais práticos e fáceis de assegurar e dcsen- 
Yoker as relações commerciaes entre os territórios e portos da nossa 
pTovinvia de Angola e os povos e territórios sujeitos á dominação do 
Mwta-ya-nvo ; 

2.* Renovar junto doeste a memoria e cordialidade das relações anti- 
gu^ reforçar no seu animo e governo a estima o o respeito pelos portu- 
Rnezes, vigiar e combater as influencias estranhas e hostis que tendam a 
iilheal-o de nós e promover, emíim, os trabalhos convenientes no sentido 
<ie fixar n*a((uella8 regiões, e junto d'aquelle potentado, o prestigio e 
uctoridade da civilisação portugueza por meio do estabelecimento do 
lonanÚBsão religiosa, de um «residente» politico ou de algumas feitorias 
i^ontes. 

Qualquer que tenha de ser a solução da chamada questão do Zaire, 

^ das qae possam surgir pelo estabelecimento dos allemãcs o dos 

inçlexea ao sul do Cunene, é indispensável assegurar e desenvolver as 

wUçoc» (lo interior com os portos da província de Angola, e evitar e 

combater por meios práticos e promptos o desvio d'cssas relações para 

qiiaçaquer occupações ou estabelecimentos estrangeiros ao norte e ao 

*4 ou a preponderância politica de quaesquer influencias estranhas nas 

wgiòea n&o avassalladas do interior. 

O noMo principal alliado em Africa foi sempre, e diz o mais rudi- 



10 EXPEDIÇÃO POBTUGUEZA AO MUATIInVUA 

mentar senso pratico que ha de continuar a ser, o indígena que nós con- 
seguimos attrahir e prender ao convivio da nossa civilisaçSo, do nosso 
protectorado p*aciíico e liberal, da nossa influencia e da nossa actividade 
mercantil e instructiva. 

Pequenos e pobres como somos, criam-nos recursos singulares de 
força e de expansão colonial, a indole c tendências de raça, uma exce- 
pcional facilidade da adaptação e de assimilação etbnica e climatérica, 
a larga affirmaçíio antiga da nossa actividade e do nosso dominio. Cir- 
cumscrevendo, porém, as nossas considerações aos quesitos que nos são 
propostos 110 ofiicio do Ministério da Marinha, e dando como perfeita- 
mente dispensável qualquer demonstração das necessidades e das van- 
tagens determinativas da Missão projectada, cujo pensamento nos não 
parece que possa soffrer a menor coutestiição razoável, passaremos a ex- 
por, summariamcnte, o nosso parecer acerca da forma por que enten- 
demos que esta Missão deve levar a cabo os seus trabalhos e o que 
principalmente lhe cumpre fazer. 

1/* As lições da experiência própria e alheia, facilmente explicáveis 
para quem conhece as condições a que por emquanto teem de subordi- 
nar-se as expedições sertanejas em ^Vfrica, á parte as rasões de econo- 
mia e de caracter especial indicadas pelo Governo, aconselham que a 
Missão projectada se componha, pelo que diz respeito ao seu pessoal 
brancOf do menor numero que for possível de individues. 

Quer em rtílaçâo ao numero, quer á qualidade, cargo ou profissão 
d'esses individues, segundo a indicação do oiHcio do Governo, mal po- 
deríamos manifestar a nossa opinião não nos tendo sido enviada a pro- 
posta a que n'elle se allude. 

Naturalmente nessa proposta se terá determinado as rasões por que 
se entende que a missão se deve formar de um chefe, um ajudante, um 
padre e um pharmaceutico. 

Bastará de certo um chefe, ofiicial do exercito ou da armada, ou até 
um individuo da classe civil, regularmente habilitado, branco, enten- 
de-se, para com uma pequena escolta e comitiva de serviço indispensá- 
vel levar a cabo o projecto. 

E, porém, de evidente vantagem que um missionário, branco e por- 
tuguez igualmente, exeinplarissimo de caracter e costumes, acompanhe a 
Missão, e pode ser conveniente que mais brancos lhe sejam ad^icionados 
para os trabalhos de exploração scientifíca e de representação official, 
e muito particularmente, se como é para desejar, se conseguir estabe- 
lecer junto do Muata-Yajioo uma missão religiosa ou uma «residência* 
politica portugueza. 

Parece-nos escusado indicar as qualidades e caracter de instrucção 
e de confiança que devem determinar a escolha do chefe. 

É claro que elle ha de ser um homem iutelligente, de saúde vigorosa, 



INTRODUCÇAO 1 1 



enérgico e prudente, soffircdor e resoluto, de costumes severos, conhe- 
cedor, quando ntU> experimentado, nas cousas africanas e nos trabalhos 
principaes d*estcs reconhecimentos e campanhas de explbraçâo de es- 
tado, dotAdo de uma instrucçâo scicntiíica, provada por trabalhos ou 
por títulos escolares que sufficientementc garantam a sua capacidade, 
Mibendo determinar pelos processos mais rudimentares e expeditos, 
quando mais nâo seja, a situação gcographica de qualquer ponto; fazer 
as observações astronómicas c meteorológicas, fundamentaes, colher o 
conservar êpecimens e exemplares geológicos, zoológicos e botânicos, 
otc. Todo o pessoal deve ser escolhido por clle,. e mantcr-se-lhe subor- 
dinado na mais severa disciplina. 

N2o seria fácil, nem parece que nos fosse pedido, que formulássemos 
o orçamento doesta Expedição, orçamento que, além de tudo, terá de va- 
riar muito segundo as upplicaçijes e fins do projecto inicial. 

Accresce que a Expedição se diz que será^ auxiliada por subscripçáo 
particular, certamente no pensamento, que não podemos deixar de ap- 
provar, de que ella tenha também por encargo o ensaio de algumas 
operações commerciaes. 

£, pois, provável que na proposta se estabeleçam as condições orça- 
mentaes que ficam á conta e responsabilidade do Governo, e que este 
adopte consequentemente uma forma contraetal precisa e definitiva, o que 
igualmente nos parece ser o melhor processo para a formação da Mis- 
são, do seu pessoal e despezas geraes d'clla. 

A Expedição cremos poder fazer-se sem largos dispêndios, parecen- 
do-uos igualmente conveniente dar como determinado o processo de 
accessos, quando se trate de individues militares, ou de futuras conces- 
sões extraordinárias não especificadas no contracto primitivo, seja qual 
fòr a classe a que esses indivíduos pertençam. 

Pode o chefe ser um official do exercito ou da armada, com o curso 
da respectiva anna, parecendo haver realmente vantagem em que o seja, 
mas pode também ser individuo da classe civil correspondentemente 
habilitado. O que importa, sobretudo, é que tenha as qualidades moraes 
c instructivas necessárias ao bom desempenho do cargo. 

2.« Relativamente aos intuitos principaes da Missão, cremos te-los 
indicado já com suifíciente clareza. 

As instrucçôes politicas e scieutificas podem ser moldadas pelas que 
levou a Expedição scientifica Serpa, Capello e Ivens. As instrucçôes com- 
merciaes terão naturalmente de ser propostas pelos promotores da Ex- 
pe<lição, estudadas, modificadas ou approvadas pelo Governo, ou por 
quem elle encarregar de o fazer. 

£ certo, porém, que determinado o pensamento e fim da Missão, á 
discrição, intelligeucia e zelo do seu chefe, tem de ficar a liberdade de 
proceder pela melhor forma que as circumstancias e os recursos lhe per- 



12 EXPEDIÇZO POBTUOUEZA AO MUATIANVUA 

j ■ ' 

• 

mittam. A elle também deve pertencer a indicação ou proposta dos in- 
stmmentos e utensilios que tiver como indispensáveis, sem prejuízo de 
approvaçSo superior. 

Neubuma duvida terá comtudo a Commiss&o Africana, se o Governo 
e a Direcção entenderem por conveniente, de fixar quaesquer instmc- 
ções ou indicações fundamentaes, e bem assim de accordar com o chefe 
que for nomeado, a resolução de qualquer assumpto referente á mesma 
Expedição, desejando prestar a esta, por si e pela Sociedade toda a co- 
operação e parecer que for de sua competência. Aqui, porém, cabe uma 
observação, que julgámos ser de particular importância. 

Como a Direcção da Sociedade não ignora de certo, a Expedição scieu- 
tifíca de 1877 esteve para mallograr-se, quando apenas attingira o Bibe, 
pela supcn^eniencia no seio da extincta Commissão Central permanente 
de Geograpbia, de susceptibilidades e suggcstoes tardias que, posto não 
se tivessem reduzido a uma deliberação e consulta regular, inspiraram 
ordens que lançaram a confiisão entre os trcs beneméritos exploradores. 

Por outro lado facilmente se comprebcnde que estas expedições e 
trabalhos, pelo menos no que elles tecm de scientifíco ou no que im- 
porta ás necessidades e conveniências do estudo geral, mal podem su- 
l>ordinar-se exclusivamente ao expediente ordinário das secretarias e 
repartições publicas. 

Ha resultados e noticias que exigem immediata publicidade, devida- 
mente fiscalisada e dirigida, e convém igualmente conservar interessado 
o publico nos diversos incidentes e resultados do emprehendimento. 

E finalmente necessário ccntralisar e assegurar a correspondência, c 
as informações auctorisadas e convenientes da Expedição. Comprehende- 
se, e faz-se isto em toda a part«, e ainda ha pouco, em relação aos tra- 
balhos de Savorgnan de Brazza, o Governo Francez procedeu por esta 
forma estabelecendo (me todos os serviços e correspondência que lhes 
dissessem respeito se reunissem e centralisassem numa estação especial, 
devidamente habilitada. Importa chamar a atteuç4o do Governo sobre 
este assumpto. 

Existindo junto do Ministério do Ultramar, e fundida nesta Sociedade, 
a Conunissão Central de Geograpbia, cujo Presidente é o projirio Minis- 
tro, parece-nos que nenhuma duvida pode haver de que nessa Commis- 
são se concentre todo o expediente e correspondência relativa á Expedi- 
ção projectada, e das mais que estejam ou venham a organisar-se de 
igual natureza, começando por aquella que ha pouco partiu de Lisboa 
formada pelos nossos illustres consócios os srs. Capello e Ivens. 

Relativamente ao itinerário a seguir, mal pode determinar-se ante- 
oipadamente com precisão e segurança. Hão de determiná-lo, dia a dia, 
nmitas vezes as circumstancias e as necessidades da Expedição por um 
lado, por outro, o bom critério e zelo do chefe respectivo. 



INTBODUCÇÃO 13 



N2o se tratando rigorosamente de uma Expedição de descoberta de 
novoB caminhos e regiões, e sendo o principal objectivo o restabeleci- 
mento das relações com o Muata-Yanvo, parece-nos conveniente ad- 
optar como ponto de partida no sertão angolense, Malange, ponto qne 
08 exploradores allemíKcs teem escolhido como base habitual das suas 
expedições naquella mesma direcção. Ali, e no Quibundo, encontrará a 
Missão, entre outros sertanejos costumados a visitar as terras do Muata, 
08 conhecidos irmãos Machados, que tantos serviços tecm prestado aos 
allemães, e tão acariciados são por elles. 

£ porventura chegada a occasião de o Governo Portuguez estimular 
também a dedicação d^aquelles negociantes por qualquer testemunho de 
distincçlo e de apreço. Não ha muito que elles projectaram uma £x- 
pediç-ão ao chamado paiz do Cachcche, tendente a anteceder, senão a 
invalidar, em grande parte os projectos de Stanlej, em relação á dra- 
gagem commercial d^aquellas regiões. 

Vem também a propósito chamar a attenção do Governo para a im- 
portância notável de Malange, quer sob o aspecto politico, quer sob o 
dos interesses commerciaes da província de Angola. É necessário con- 
solidar e fortalecer seriamente d^aqucllc lado, c naquellc ponto, o domí- 
nio portuguez. Uma boa occupação militar c uma administração hábil, 
vigilante e moral, parece-nos que seria uma forte garantia, indispensá- 
vel, a estabelecer ali sem delonga, para tranquillidade e honra da nossa 
soberania e da nossa influencia no sertão. 

São do maior interesse todas as informações que a Missão possa co- 
lher acerca dos caminhos commerciaes mais fáceis e seguidos, dos pro- 
cepsos, necessidade e preferencias do commercio indígena, das aptidões 
do solo e do clima, dos costumes, tendências e situação dos diversos po- 
vo#, cm summa, de quanto importa ao melhor desenvolvimento das nos- 
sas ri'laç4ies mercantis. Estudar e pesquizar o procedimento e propósi- 
tos dos exploradores e agentes estrangeiros, é necessariamente um dos 
fins da Missão portngueza. 

Em relação ás providencias tendentes a evitar que o commercio seja 
dt^sviado dos caminhos ou das relações -dos nossos territórios e nego- 
ciantes, «o assumpto é vasto e complexo de mais para que o desdobre- 
mos aqui n*algumas indicações summarias e incidentaes. 

Resolvida a questão do Zaire, um dos nossos immediatos e mais vi- 
gorosos empenhos deve ser, até onde for ainda possível, assegurarmos 
os caminhos commerciaes indígenas, do interior para a nossa costa e 
para a margem sul do Baixo-Zaire. O desvio do commercio dos sertões 
ao sul do grande rio para o nortQ d*elle, é provável que continue a en- 
contrar difficuldades e resistências consideráveis. 

Ha annos instou a Sociedade de Geographia pelo estabelecimento de 
nma estação civilisadora em Xoki, como inicio e preparaçtío de uma 



14 EXPEDIÇÃO PORTUOUEZA AO MUATIÂNVOA 

occupaç2o offectiva. Stanley percebeu dopois a importância d*aqaelle 
ponto, e estabeleceu- 80 n*elle. 

Os caminhos de S. Salvador para leste, c os do mesmo ponto para o 
Ambriz pelo Bembe, que nunca devêramos ter abandonado, podem ter 
para nós, muito em breve, uma importância decisiva. Tudo isso, porém, 
apenas por natural divagação nos vem á lembrança, que o qu^ agora 
ha de occupar o estudo e attenção da Expedição projectada é o desen- 
volvimento o segurança das correntes mercantis, entre os vastos terri- 
tórios do Muata e os nossos estabelecimentos que lhe ficam mais pró- 
ximos, ou os nossos portos de Loanda e Benguella. 

Em relação ao primeiro, o caminho de Malange parece-nos natural- 
mente indicado; em relação ao segundo o caminho do Bihé impõe-se 
necessariamente. Kecapitulaudo, respondemos aos quesitos do ofticio do 
Ministério do Ultramar. 

l.'» A Expedição deve ser organisada com o menor numero de indi- 
vidues brancos que seja compatível com o seu caracter e missão, não 
podendo a ComniiBsão julgar da organisação a que o oflicio allude, por 
não conhecer a proposta respectiva, em que provavelmente essa organi- 
sação se explica e fundamenta. Parcce-lhe, comtudo, que ha vantagem 
cm que acompanhe a Expedição um padre ou missionário catholico, 
branco e portuguez, e que não havcnl inconveniente em que d'ella fa- 
çam parte dois outros brancos com as qualidades ou cargos indicados 
no documento ofticial, 8(!ndo, porém, absolutamente indispensável que 
ente pessoal se ache moral e instruetivameute habilitado, nas condições 
atniz expostas e consoantes á missão de que vne incumbido. 

2.° A Missão deve ser prineipahuento commeroial e politica, á ma- 
neira da de Eodrigucs Graça, mas suíti cientemente dotada dos requisitos 
e m(!Íos indispensáveis ji exploração soientifica, que deverá simultanea- 
mente fazer, das regiões que atravessar. 

Convirá que elhi se cmpenlie no estabelecimento de uma missão reli- 
giosa, de uma feitoria eomniercial ou de uma residência politica junto 
do Muata. 

E claro que a Missão deve apresentar ao potentado africano, uma 
dadiva ou offerta do Governo Portuguez, e que na resolução d*estc ponto, 
que aliás não foi consignado ao nosso parecer, deve haver toda a discri- 
ção o cuidado, reflectindo -se bem nas cireurníítancias em que se acha o 
poderoso regulo, frequente e generosamente presenteado pelos allemães. 
A Commissão Africana, approvando calorosamente, nos termos que 
ficam expostos, o .projecto díi Expedição indicada, estimará poder co- 
operar, na medida das suas forças, para o melhor êxito d'ella. 

Casa da Sociedade, em 3 de feveníiro de 1884. = Pela Commissão 
Africana, o Presidente, Vif<conde de S. Januário — O Secretario-relator, 
Luciano Cordeiro, 



INTEODUCÇlO 15 



Está largamente desenvolvido o parecer da Sociedade de 
Geographia de Lisboa e exposto com a proficiência que cara- 
cterisa todos os trabalhos doesta benemérita Sociedade. Não 
mencionava, porém, especialmente estudar os diversos idiomas 
d'aquelle8 povos, sem duvida porque a Sociedade depois de 
1878 por diâerentes vezes já tem manifestado a necessidade 
doesse estudo; nem tSo pouco se referia o parecer á conve- 
niência de se proceder ás investigaçSes fimdainentaes para se 
examinar a vida social e o modo mais fácil de ir civilisando 
cada um d'esses povos, e de activar as suas relações com a 
província de Angola; cerUimente, porque taes trabalhos só 
por si demandam, além de. aptidões especiaes, o tempo indis- 
pensável. 

Mas, em todo o caso, esse parecer, tXo notável sob muitos 
pontos de vista, mostrava a importância da missão que eu me 
propunha a desempenhar, c não faltavam já as bases impres- 
cindiveis para S. Ex.* o Ministro resolver. 

A portaria, que em seguida transcrevemos e que me encar- 
rega de organisar a Expedição, evidencia que a idea do Go- 
verno era que a Expedição se occupasse principalmente de um 
consciencioso estudo commercial, do estabelecimento de Esta- 
cais e de manter boas relações com todos os povos entre os 
quaes tivesse de transitar até ao ponto do seu destino, fazendo 
tratados de boa amizade e commercio com os respectivos po- 
tentados. 

Poirtairia 

Sendo de maior conveniência attrahir aos portos da província de 
AnfToIa o commercio do sertão a&icano, amiudando, quanto possivcl, as 
Tthifies entre esta provincia e os povos que demoram a leste d*ella, 
£ivorccendo-no8 excepcionalmente neste empenho, nâo só as relações 
inexistentes, mas o grande prestigio que entre aquelles povos tecm 
linda o nome c a língua portugueza, o que obriga os exploradores es- 
trtng:eiros que se dirigem áquellas paragens e demorarem -se em terri- 
tório portuguez para aprenderem os rudimentos da nossa lingua a fim 
de poderem facilmente ser entendidos, e a procurarem as recommenda- 
Ç^Vit das auctoridades e negociantes portuguezes; e sendo inquestio- 



EXPEDIÇÃO FOBTtJOUEZA AO MUATiAnVCA 



navelmente, no intuito indic&do, um doe meio* m&ia efficftzes de b. 
(darmos o nosso comiuercio naqiiellc sertSo o eHtabi>Iecer relu^^eB fa 
t! frequentes com oa Heua regulas e povoa maia importantes, demoo 
strando-llicB que sabemos conservar & influencia que desde remotaá ^i 
eras uji tvmoa sempre mantido ; lia Sua Magestade El-Rei por bem, 
pela Secretaria dTstado dos Negócios da Marinlm e Ultramar, encar- 
regar D Major do exercito de Portitgal, Ilenrique Augusto Dias de Car- 
valho, de organisar uma expcdifSo ijue, tendo por fim especial ir em 
missão ao Afuutu lauvo, procure ao mesmo tempo realisar os seguiut«B 

1.° Estudar, especialmente sob todos os pontos de vista do interesse 
commcreial, a região que demora a leste da prorincia de Angola, exa- 
minando quaes as suas priscipaes producções, o seu commercio, os 
caminhos por oudo elle actualmente se dirige para os mercados de con- 
sumo, o os meios que poderiam emprcgar-se para d attrahir ás nossas 
, possessões de Angola; 

2.° Indicar quacs os pontos, ondn conviria fiindanuos niicloos de esta- 
ções commerciaos ou estações eivilisadoras, procurando desde logo pro- 
mover as relações directas dos prineipaes centros eommerciaes d'aquella 
regiito com o conimercio da província de Angola; 

3." Conciliar o respeito e amisade dos povos por onde passar, inspi- 
rondo-lhes confiança no nome portuguez, ensinando -lhes, a par dos prin- 
cípios da religião christS, ae praticas mais úteis qno os levem ao melhor 
aproveitamentâ do solo, c de todas as riquezas naturaes, e assegiirando- 
IhcB que encontrarão sempre nasTclações com os portuguexee intuitos 
de pas, de protecção c de progresso ; c tratando por todos os meios de 
propaganda ao seu alcance de lhes tornar odioso o estado du escra- 

Para o desempenho tanto da missão ao Muuta lanvo, como das indi- 
cações mencionadas, receberá o referi d» Major Henrique Augusto Diaa 
de Carvalho opportunamente as instrucçucs convenientes, incnmbindo- 
Ihe desde já propor ao GoTemo o pessoal que deve compor a mencio- 
nada Expedição e que será constituído, alem do chefe, por um snb-chefe, 
um missionário e nm ajudante, convindo que todos elles tenham conhe- 
cimento, senão da região qno vae ser percorrida, pelo menos do interior 
da província de Angola, o que a um d'eltes não sejam estranhos os co- 
nhecimentos pharmaceuticoB. 

No intuito de mais completamente corresponder aos fins da miesãn 
que lhe 6 incumbida, deverá o Major Henrique Augusto Diaa de Car- 
valho procurar interessar nesta Expedição o commercío das praças dr 
Lisboa e do Porto, que, segundo consta tecm acolhido com favor a idía 
que se pretende realisar, diligenoíando, se for possível, que desde jk se 
inicie qualquer tentAtiva que conduza directa ou indirectamente a lerar 



J 



INTRODUCÇlO 17 



iqnelle sertiU) africano, em larga escala, os productos da industria por- 
tugaeza e a abrir-lhes ali fáceis e abundantes mercados. 
Paço, em 24 de março de 1884. = Manuel FitUieiro Chagas, 

Estava; pois, dado o principal impulso e lixados official- 
mente os problemas a que a Expedição mais devia attender ; e 
bem sabia eu a responsabilidade que assumia para com o paiz, 
para com a Europa e para com a sciencia, que se empenha 
com ardor em promover o estudo de tudo o que diz respeito 
is questões da Africa intertropical. 

Nio havia tempo a perder, porque a Expedição tinha de 
partir de Lisboa no paquete de 6 de maio para aproveitar a 
melhor monção para viagens no interior do continente africano, 
e por isso, em 3 de abril, sob proposta minha, eram nomea- 
dos: Sub-chefe, o phannaceutieo, reformado em Major, do qua- 
dro de saúde da provincia de S. Thomé e Principe, Agostinho 
Sizenando Marques ; Missionário, o sacerdote, professor da es- 
cola principal de Loanda, António Castanheira Nunes; e Aju- 
dante, o Tenente do exercito de Africa Occidental, Chefe do 
concelho de Massangano, Manuel Sertório de Almeida Aguiar. 

Todos tinham largo tirocinio em Africa, e as habilitações 
indispensáveis para os cargos especiaes que lhes foram com- 
mettidos. 

O Sub-chcfe, além do serviço que lhe fora peculiar durante 
treze annos que esteve na ilha de S. Thomé, ganhara credito 
nio só na direcção do observatório me^teorologico d'aquella 
ilha, mas ainda no estudo da sua fauna e flora, encarregan- 
do-se da organisação das variadas collecçoes de productos co- 
loniaes, que durante o seu tempo se enviaram a differentes 
exposiçSes nacionaes e estrangeiras. 

O Missionário havia já exercido este mesmo cargo por mui- 
tos annos a norte, sul e leste da provincia de Angola, mais 
ou menos internado; e no professorado grangeara prestígio 
com o indígena, — predicado essencial, que só se adquire pelo 
conhecimento de seus usos e costumes e da sua linguagem. 

O Ajudante já contava quinze annos de serviço na Guiné, 
Cabo Verde e em diversos pontos da provincia de Angola, 



18 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

contando duas campanhas contra o gentio, e tendo servido, como 
Chefe em concelhos internados, como Cacongo e outros, accres- 
cendo o dedicar- se ao estudo da photographia, em que adqui- 
rira pratica. 

Nomeado o pessoal, tratou-se de organisar o material, em 
que, se houve deficiências, devidas a circumstancias de economia 
e tempo, houve demasias por falta de bases que nos esclareces- 
sem; estes factores poderiam deixar de existir para análogas 
expedições regionaes, quando se tenha em attenção o que sobre 
tal assumpto teremos a expor. 

Como tinha de interessar na Expedição o commercio das 
praças de Lisboa e Porto, e diligenciar que se iniciassem 
quaesquer tentativas para levar em larga escala, ao sertão 
por onde tinhamos de passar, os productos de industria do paiz, 
dirigi ás Direcções das Associações Commerciaes de Lisboa e 
Porto, Banco Nacional Ultramarino e Sociedade de Geogra- 
phia Commercial do Porto, o ofBcio e circular que seguem, 
circular, que directamente enviei também aos negociantes mais 
importantes de Lisboa, do Porto e de outras praças. 



Officios 

111."'» e Ex."® Sr. — Desejando o illustrado Ministro da Marinha e 
Ultramar aproveitar, para o paiz, todos os vantajosos elementos de que 
ainda dispõe o prestigio portuguez na vasta região do continente a&icano, 
comprehendida entre as possessões de Angola e Moçambique, dignou-sc 
honrar-me com o encargo de Chefe da Expedição exploradora que para 
ali se deve dirigir em 6 de maio próximo, tendo entre outros fins o es- 
pecial de procurar novos mercados ao nosso commercio e industrias, es- 
tudando tudo que possa interessar e garantir a propaganda e desenvol- 
vimento do que reciprocamente possa convir neste intuito a Portugal, 
e aos paizes que a Expedição tenha de atravessar. 

O Governo, pela sua parte, entendeu confiar-me instrucções para que 
possam ter toda a validade os tratados de amizade que a Missão tem 
de celebrar com os cliefes d'aquelle8 povos, e designa quaes os estudos 
de exploração a que se deve dar preferencia, tanto no interesse do paiz 
como no da sciencia •, porém, no que respeita a iniciar qualquer tentativa 
que conduza directa ou indirectamente a levar áquelle sertão, em larga 



Nwmip l^n^ i 



nrrBODUCçXo 19 



escala, os productoB da industria portagueza e abrir-lhes fáceis e abun- 
dantes mercados, incumbe-me o mesmo Governo de procurar interessar 
desde já nesta Expedição o commercio das praças de Lisboa e Porto. 
Para que possa bem desempenhar-me d'esta missão, para mim de 
certo em demasia honrosa, tom^ a liberdade de dirigir pelo correio aos 
principaes negociantes, industriaes e capitalistas das referidas praças a 
inclusa circular. 

Mas não é isto sufficiente, como Y. £z.* sabe, porque o nosso paiz 
náo está, como a Allemanha, costumado a esta espécie de associações, 
que teem sido ultimamente o alimento das explorações allemãs ao cen- 
tro da Africa, e que táo bons resultados práticos teem dado. Agora mesmo 
segue o Tenente Wissmann, a reforçar a estação Luquengo, onde está o 
seu companheiro o Dr. Pogge, com uma grande expedição de fazendas 
e artigos diversos, obtidos por subscripção em Berlim, entre os seus capi- 
talistas, commerciantes e industriaes. 

Solicito, pois, por este meio o valiosíssimo auxilio da Direcção da 
respeitável Associação de que Y. £x.* é mui digno Presidente, na pro- 
paganda de que — nesta tentativa de experiência — entrem já, pelo me- 
nos, alguns artigos de commercio, que por quaesquer circumstancias, em 
armazéns ou depósitos, estão sendo considerados como capital estacio- 
nário, se náo perdido. 

A Expedição, tendo o máximo empenho em se tornar útil aos inte- 
resses práticos dessa e de outras instituições, muito deseja que Y. £x.* 
e a iUustrada Associação se dignem dar-lhe quaesquer instrucções neste 
8€otido. 

Deus guarde a Y. Ex.* Secretaria dos Negócios da Marinha e Ultra- 
mar, 29 de março de 1884. — Hl."" e Ex."»" Sr. Presidente da Associação 
Commercial do Porto. = Henrique Angvsio Dias de CarvcUho, Major do 
exercito. 

(Idênticos para os Ex."^** Srs. : Presidente da Associação Commercial 
de Lisboa, Governador do Banco Nacional Ultramarino e Presidente da 
Sociedade de Greographia Commercial do Porto.) 



Ci]roii.lair a, que se irefere o offl.cio anteirioi* 

A Expedição Portugueza á Africa Central, encarregada de uma mis- 
são especial junto ao «Muata lanvo», grande potentado que domina na 
vasta região da Lunda, entre as nossas possessões de Angola e Moçam- 
bique, tendo de transitar por povoados ricos em marfim, cera e outros 
productos hoje procurados nos principaes mercados europeus, com a 
devida auctorisação, offerece seus serviços ao commercio do paiz, que 



20 EXPEDIÇÃO PORTOGUEZA AO MUATIANVUA 

poderá aproveitar, querendo, a opportunidade de dar saida ás fazendas 
e géneros armazenados, que a concorrência tenha afugentado dos nos- 
sos mercados. 

Nesta circular encontrará Y. Ex.* uma lista das fazendas e diversog 
artigos que teem mais prompta venda naquelles sertões, e que devem ser 
empacotados em volumes de fácil manejo, e de peso não superior a 30 
kilos. 

Dará Y. Ex.* as suas ordens para que nos invólucros d* esses volumes 
se leiam, numa das faces as iniciaes da firma de Y. £x.* e a respectiva 
numeração, na outra face — E. P, A, C. — Expedição Portugtieza, Africa 
Central. 

Os volumes devem ser acompanhados da copia do inventario, em que 
pela numeração se conheça o que conteem e também os seus respectivos 
valores. 

Uma commissão nomeada pelo Governo entregará á Expedição os vo- 
lumes que Y. Ex.* enviar, e esta, sempre que houver opportunidade, fará 
á commissão remessa do valor dos productos transaccionados, e, effe- 
ctuada a devida liquidação, fará a mesma dividir os interesses propor- 
cionalmente aos valores recebidos. 

Como a Expedição deve seguir no paquete de 6 de maio, pede-se a 
Y. Ex.", caso queira aproveitar-se dos seus serviços, se digne ofl5ciar-me 
para o Ministério da Marinha e Ultramar, e fazer preparar o que ten- 
ciona enviar, até ao fim do mez de abril. 

A resposta de Y. Ex.* é muito necessária para se proceder á nomea- 
ção da commissão, e poderem calcular-se os carregadores, que será neces- 
sário ajustar com a devida antecedência. 

ÍSerá Y. Ex.* avisado do dia e local para onde devem ser dirigidos 
os volumes. — De Y. ex.*, muito attento venerador e creado = chefe 
da Expedição, Major Henrique de Carvalho. — Lisboa, 24 de março de 1884. 

Lista. 

Espingardas diversas; espadas, idem; pólvora; bacias de arame; 
panellas de ferro; espelhos de diversas qualidades e tamanhos; barre- 
tes de lã, cores diversas; camisolas de lã; facas de differentes qualida- 
des; missanga de bordar, cores sortidas; contaria; almandrilha, etc; 
coral fino e grosso; louças (faiança e outros géneros, das nossas fabricas), 
como canecas, tijellas, pratos, etc. ; vidros differentes (industria portu- 
gueza); machetes; algodões crus differentes; baeta amarella, vermelha e 
azul, diversos tons; pannos diversos; chitas, idem ; fardas, idem; velludos, 
idem; zuartes; tapessarias de differentes qualidades e tamanhos; lenços 
estampados; sedas differentes; louça de folha; relógios; copos bronzea- 
dos ; pannos da costa ; galões dourados ; fio de ferro, de cobre e de latão ; 



DÍTRODDCÇAO 21 



yarios ntensilios de ferro; chapéus de palha e outros; chapéus de sol, 
de cores ; caixas de musica e harmónios ; realejos ; bonés bordados, de 
borla; fechos de porta e varias outras ferragens, incluindo pregaria; 
miudezas e todos os mais artigos de fácil consumo e permutação nos 
sertões de Africa. ^^ O chefe da Expedição, o Major Henrique de Car- 
valho. 

Procurei estabelecer, por este meio, as relações indispen- 
sáveis, com as associações e casas mais importantes do com- 
mercio do paiz; e completava assim as bases fimdamentaes, 
sobre que deviam proseguir os trabalhos da Expedição no que 
dizia respeito á sua missão principal. 

Também julguei do meu dever communicar á Sociedade de 
Greographia de Lisboa que fora eu encarregado de dirigir a 
Expedição ao Muatiânyua, solicitando os seus bons officios para 
o melhor desempenho d'esta minha missão ; o que fiz nos se- 
guintes termos: 

Officio 

Dl."** e Ex."« Sr. — Sendo presente a S. Ex.* o Sr. Conselheiro Ministro 
dos Negócios da Marinha e Ultramar a consulta da Sociedade de Geogra- 
phia de Lisboa sobre o projecto de exploração dos paizes a leste da 
nossa provincia de Angola até aos dominios do Muata lanvo, honrou-me 
S. Ex.* encarregando-me de organisar e dirigir a Expedição que, além 
de uma missão especial junto áquelle potentado, terá de satisfazer a to- 
dos 08 quesitos sobre que versa a consulta da nossa Sociedade ; nesse 
intuito prepara-se a Expedição para chegar a Malanje por todo o mez 
de julho, devendo sair de Lisboa no paquete de 6 de maio próximo. 

Muito me honrará a benemérita Sociedade de Geographia de Lisboa, 
dignando-se dispensar á Expedição, dirigida, por um dos seus mais insi- 
gnificantes, mas dos não menos dedicados sócios, os seus sábios conselhos, 
confiando-me as instrucções cujo desempenho julgue conveniente aos fíns 
da mesma Sociedade e do máximo interesse na occasião presente á pro- 
vincia de Angola e ao paiz em geral. 

Deve-se á Sociedade de Geographia de Lisboa a iniciativa das nossas 
primeiras explorações scientiíicas no continente africano rcalisadas de- 
pois da sua instituição; e se essas, pelo mérito scientifico e airojado 
emprehendimento, encontraram desde a origem a máxima protecção que 
lhes podia ser dispensada pela Sociedade, a esta, cuja crfui :'ff (To 
mais modesta, mas cujos fins não devem ser menos proveitosos ao nosFo 



22 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIInTUA 

engrandecimento colonial e commercial, conto que nSo faltará o mesmo 
illustrado patrocinio. Falta-lhe uma direcção firme, sabia e já provada 
como a dos beneméritos Serpa Pinto, Capello e Ivens ; mas eu ouso es- 
perar que, pela intervenção de V. £x.*, não será menos bem acolhida e 
considerada pela Sociedade, e que esta se dignará dispensar-lhe a sua 
benévola e mui valiosa cooperação. 

Deus guarde a V. Ex.« Lisboa, 1 de abril de 1884. — 111."» e Ex.-« Sr. 
Secretario perpetuo da Sociedade de Geographia de Lisboa. ^ O sócio, 
Henrique Augwto Dias de Carvalho. 



NSo me faltava boa vontade^ nem me poupava a trabalho, 
procurando dar as mais completas informações sobre os fins 
da Expedição, que se preparava a seguir para o centro do con- 
tinente em concoiTcncia com as mais notáveis expedições es- 
trangeiras que a precederam, largamente abastecidas de todos 
os recursos e com mais largas aspirações. Tinha-as eu também, 
e segredava-me a consciência que nâo devia recear o confronto 
dos seus trabalhos com os que a nossa Expedição Portugueza 
pudesse levar a cabo. 

Mas até onde poderíamos chegar se não fossemos franca- 
mente auxiliados? Que recursos poderia eu encontrar, consul- 
tando todas as sociedades, agremiações e as firmas commer- 
ciaes mais auctorisadas ? 

Aprecie a nação os documentos que deixo exarados, pois di- 
zem mais que todas as considerações que eu possa fazer. 

OflFereço todos á consideração dos que se intere^am pelo 
nosso progresso em Africa, e assim se poderá fazer inteira 
justiça ás intenções que me dominavam ao organisar em Lis- 
boa a — Expedição ao Muatiânvua. 

Desejava partir robustecido com os melhores conselhos e 
as indispensáveis adhesões das Sociedades e dos homens mais 
competentes em questões coloniaes, e a par de todas estas 
consultas procurava habilitar-me com o material mais indis- 
pensável. 

Aos Ex."*®* Srs. João Carlos de Brito Capello, Dr. José Vi- 
cente Barbosa du Bocage, Conde de Ficalho, Dr. Júlio A. Hen- 
riques e José Júlio Rodrigues, participei a nomeação do pessoal 



INTRODUCÇlO 23 



da ExpediçSo, e fiz a apresentação do meu collega Sizenando 
Marques, como o encarregado das observações meteorológicas 
e coUeccionador dos exemplares da fauna e flora, que fosse pos- 
sível adquirir durante a nossa missão no centro da Africa; 
solicitando por essa occasião, de S. Ex.", conselhos e instruc- 
ç5es para o melhor desempenho de taes encargos. A benevo- 
lência, com que todos nos acolheram e honraram, deixou-nos 
penhoradissimos. 

Foram os nossos instrumentos devidamente aferidos no Ob- 
servatório do Infante D. Luiz, e algumas indicações se digna- 
ram dispensar-nos os Ex.™®* Srs. Conde de Ficalho e Dr. Júlio ^ 
Henriques, não podendo receber as que esperávamos dos au- 
ctorisados professores os Ex."*®* Srs. Dr. Bocage e José Júlio 
Rodrigues, por motivos mui justificados na occasião. 

Dando publicidade ás respostas dos officios enviados a dif- 
ferentes institutos, devemos declarar que muitas e anima- 
doras foram também as indicações particulares, e se não as 
mencionámos em especial é pelo receio que temos de omittir 
alguma. Apresentando em seguida a relação dos exportadores 
que confiaram volumes á Expedição, aproveito o ensejo para 
lhes prestar neste logar o tributo do meu reconhecimento. 

Por intermédio da Sociedade de Geographia Commercial do 
Porto: 



António José Gromes Samagario — riscados e lenços. 
António Marinho — riscados e baetas. 
Casa Buisson — lenços. 

Companhia manufactora de artefactos de malha — barretes de lã. 
Costa & Companhia, fabrica das Devesas — amostras de louça. 
Custodio Lopes da Silva Guimarães — galões e sapatos de liga. 
Eduardo Augusto dos Santos Júnior — 12 caixas de vinho do Porto. 
Fundição de Massarellos — panellas de ferro. 
Fundição do Ouro — uma bomba, 
(íonçalves Filhos & Companhia — chapéus. 
J. da Rocha e Lima — lenços. 
João Camillo de Castro — louça. 

Joào Ferreira Dias Guimarães — galões, botões, sombrinhas, pentes, 
mantas, rendas, emblemas, etc. 






24 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIANVDA 

José Carneiro de Mello — cotins, sarja, lona e flanella. 

Lino José de Campos — 48 latas de azeitonas. 

Manuel de Sousa Loureiro Castro — chapéus de sol. 

Manuel Francisco da Costa — ferragens. 

Marinho Irmãos — riscados e camisolas. 

Manuel José Moreira Monteiro — peças de riscado. 

Santos &. Nogueira — barretes de lâ. 

Sociedade de Geographia Commercial — chapéus de palha. 

Directamente : 

João S. Howarth, fabrica de Sacavém — 4 caixotes com louça. 

Doestes volumes foram apenas os dos srs.: Manuel Fran- 
cisco da Costa, JoSo Ferreira Dias Guimarães, Lino José de 
Campos, Eduardo Augusto dos Santos e Jono S. Howarth, 
que acompanharam a Expedição. Mais adeante fallaremos 
minuciosamente de todos elles. 

A^ssooiapeLo Oomtneiroial de IL<isl>ofi, 

. . .Sr. — Foi presente k Direcção da Associação Commercial de Lis- 
boa o officio com data de 29 de março ultimo, que V. se serviu diri- 
gir-lhe e no qual, dando conta de se achar encarregado, pelo Ex."° Sr. 
Ministro do Ultramar, da direcção da Expedição africana que vae 
brevemente emprehender a exploração d'aquelle continente na vasta 
região de Lunda, entre Angola e Moçambique, solicita da nossa As- 
sociação que o auxilie na tentativa de experiência cm que se acha em- 
penhado. 

O pensamento d'esta empresa nSo pode deixar de ser altamente sym- 
pathico á corporação do commercio da nossa praça, pois sâo obvias as 
vantagens que d'ella lhe devem derivar. Esta Direcção, desejando cor- 
dialmente o melhor êxito á Expedição que V. está encarregado de diri- 
gir, mui gostosamente deu conhecimento aos seus associados da circular 
impressa, inclusa no officio de V. , fazendo-a patentear no gabinete de 
leitura da Associação, para assim chegar a noticia do seu conteúdo a 
algum dos seus associados que directamente a não recebesse de V. 

Deus guarde a V. Lisboa, 4 de abril de 1884. — . . . Sr. Major Hen- 
rique Augusto Dias de Carvalho, . . . Chefe da Expedição Portugueza 
á Africa Central. = O Presidente, Carlos Ferreira dos Santos Silva. = O 
Secretario, António Adriano da Costa, 



INTRODUCÇAO 25 



A^ssocia^ão OommeroiAl do Poirto 

... Sr. — O officio que V. se dignou dirigir a esta Associação, com 
data de 29 de março ultimo, foi acolhido com a consideração e apreço 
devidos ao interessante assumpto de que o mesmo se occupava, e se 
só hoje venho responder-lhe, é porque desejava participar a V. o que 
esta Associação tinha procurado fazer em bem do patriótico intento do 
i Ilustrado Ministro da Marinha, fervorosamente secundado por V. 

No dia immediato áquelle em que se recebeu o officio de V. a que 
estou respondendo, foi o mesmo publicado n'um dos jomaes mais impor- 
tantes doesta cidade, e bém assim as instrucçocs e lista que o acompa- 
nhavam. 

1:500 circulares, das quaes remetto um exemplar, foram enviadas 
aos fabricantes e commerciantes doesta praça, e os Directores doesta 
Associaçáo obrigaram-se a aconselhar e a promover a remessa de pro- 
dactos, que, estando nas condições por V. indicadas, possam contribuir 
para tornar pratica e proveitosa a promettedora tentativa, que todos 
applaudem sinceramente. 

Receba V. os votos fervorosos que esta Associação faz para que o 
Oovemo de Sua Magestade e V. vejam coroados de prospero resultado 
Úo abençoados esforços, empenhados no engrandecimento da pátria. 

Deus guarde a V. Porto e Associação Commercial, 14 de abril de 
1884. — ... Sr. Henrique Augusto Dias de Carvalho, . . . Chefe da Expe- 
dição Portugueza á Africa Central. = O Presidente, Ricardo Pinto da 
Coita. 

6ooieda.de de GS-eog^apliia, Oommeiroial 

ú,o Porto 

. .Sr. — O Conselho Geral d'esta Sociedade, tomando conhecimento 
de um officio que a esta Sociedade foi dirigido pelo Sr. Henrique de Car- 
valho, Chefe da Expedição Portugveza á África Central, que deve partir 
de Lisboa em 6 de maio próximo, resolveu envidar todos os esforços 
para conseguir que doesta cidade sejam enviados alguns volumes, se- 
^ào as indicações fornecidas no referido officio. 

Para conseguir este resultado, cuja utilidade é obvia, além da co- 
'^peraçâo que espera obter de todos os sócios, o Conselho Geral nomeou 
'"na conuniosâo composta de nove membros, um dos quaes é o dignis 
«imo Secretario d*essa Associação, o Sr. Vieira de Castro, com o espe- 
cial encargo de, por todos os modos ao alcance da referida commissSo 
c da Sociedade, angariarem a adhesão de negociantes e industriaes para 
í remessa de artigos para a Expedição. 



26 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

Esta Sociedade, e especialmente a commissâo acima indicada, lucta- 
riam com grandes difficuldades para attingirem o fim a que se propõem, 
se não esperassem obter o valiosissimo auxilio e protecção da meritis- 
sima Associação Commercial do Porto, a que v. ex.* tão dignamente 
preside, e por isso o Conselho Geral resolveu que eu me dirigisse a 
V. Ex.*, manifestando as intenções doesta Sociedade e solicitando o au- 
xilio e protecção de que carece, e que em tão elevado grau lhe pode ser 
prestado pela meritissima Associação Commercial. 

E o que por esta forma cumpro, expressando ao mesmo tempo a espe- 
rança de que esta solicitação merecerá a Y. Ex.* e á benemérita Asso- 
ciação Commercial do Porto um bom e favorável acolhimento. 

Deus guarde a v. ex.' Porto e Secretaria da Sociedade de Geogra- 
phia Commercial, 6 de abril de 1884. — 111."° e Ex."* Sr. Presidente da 
Associação Commercial do Porto. = 7. P. de Oliveira Martins, Presi- 
dente. 

A.ssooia,pa.o Oommeiroia,! do Poi^to 

...Sr. — Em resposta ao officio que V. se dignou enviar- me com 
data de 23 de corrente, no qual me pede para lhe serem indicados os 
nomes dos cavalheiros que devem formar uma direcção representante 
dos expedi tores de productos de fabricação nacional, destinados á Expe- 
dição official á Africa Central, cumpre -me informar a V. de que, ten- 
do-se esta Associação e a Sociedade de Geographia d'esta cidade, 
encarregado de promover a remessa dos productos já referidos, qualquer 
doestas corporações acceitará com prazer as informações que V. tiver 
a bondade de enviar-lhe, e igualmente se encarregará de as transmittir 
aos interessados. 

Deus guarde a V. Porto e Associação Commercial, 28 de abril de 
1884. — ... Sr. Henrique Augusto Dias de Carvalho, ... Major Chefe 
da Expedição ao Muata, lanvo. = O Presidente, Ricardo Pinto da Costa, 



Sociedade de Greojari^npliia, Oommeireial 

do I*orto 

... Sr. — O Conselho Geral d'e8ta Sociedade, apreciando no devido 
valor o officio que de V. recebeu com data de 29 de março findo, resol- 
veu tomar a iniciativa na remessa de alguns fardos para a Expedição do 
. . . commando de V. Para esse fim nomeou uma commissâo especial 
que deve começar com a máxima urgência os seus trabalhos. 

Aproveito a occasião para rogar a V. o obsequio de expedir para 
esta Sociedade alguns exemplares da circular impressa com a compe- 



INTRODUCÇÃO 27 



tente lista^ qne Y. distribuiu, a fim de poderem servir de guia aos di- 
Tersos membros da referida commissão. 

Deus guarde a V. Porto e Secretaria doesta Sociedade, 6 de abril 
de 1884. — . . . Sr. Major Henrique de Carvalho, . . . Chefe da Expedição 
ao Muata lanvo.=0 Primeiro Secretario, Fernando Maya. 



.. . Sr. — Em virtude da resolução tomada no Conselho Geral doesta 
Sociedade, enviei hontem a Y. um telegramma, em que pedia a Y. o 
obsequio de indicar, com a máxima urgência, qual a direcção a dar aos 
volumes que d' aqui sejam enviados para a Expedição de que Y. é . . . 
Chefe, bem como o ultimo dia de sefem feitas d*aqui essas remessas. 

A razão d*este pedido que tive a honra de dirigir a Y. está em que 
um negociante doesta cidade, solicitado por esta Sociedade, organisou 
e fez entregar na estação dos caminhos de ferro de Campanhã uma 
grande remessa, e tornára-se necessário o esclarecimento acerca da di- 
recção a dar a taes volumes. Também ha mais alguns expedidores que 
tcem promptas, ou quasi promptas, remessas, e precisava esta Sociedade 
avisal-os convenientemente e a tempo acerca dos dois pontos acima in- 
dicados. 

Eis a razão do telegramma que, por ordem do Conselho Geral, tive a 
honra de enviar a Y. hontem. Não tendo até á hora em que escrevo, 
seis da tarde, recebido resposta alguma, rogo a Y. o obsequio de, pelo 
telegrapho, me enviar as informações e esclarecimentos a que atraz me 
referi. 

Deus guarde a Y. Porto, 25 de abril de 1884. — . . . Sr. Major Hen- 
rique Augusto Dias de Carvalho. = O Primeiro Secretario, Fernando 
MaycL 



. , . Sr. — Inclusos remetto a Y. os documentos relativos aos volumes 
que hontem enviei a Y. para a Expedição de que Y. é . . . chefe. 

A urgência de tempo e as difficuldades inherentes a uma primeira 
tentativa impediram que os esforços empregados por esta Sociedade, no 
intuito de promover impo^nte remessa de productos para a Expedição, 
w manifestassem em mais larga escala. Accresceu ainda o facto de se 
t<*r ventilado nesta occasião a questão da Exposição do Brazil, o que 
contribuiu muito para arrefecer os ânimos não preparados para empre- 
gas novas, como a da Expedição á Africa Central. 

£m todo o caso procurou esta Sociedade manifestar a sua vitalidade 
tuociando-se a uma empreza utilíssima, e empenhando-se para o bom 



28 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATLÍNVDA 

êxito d*ella. £ esta a sua missão, que pretende e procura cumprir quanto 
cabe nas suas forças. Se bons desejos bastassem, muito longe se iria 
no empenho de que esta Sociedade tomou a iniciativa no Porto. 

Tenho toda a esperança no bom êxito da empreza commettida á há- 
bil direcção de Y. , e a mesma confiança e esperança sente esta Socie- 
dade, da qual neste momento me constituo interprete, certo e convicto 
de que exprimo os seus sentimentos e opiniões. Portanto, como necessa- 
riamente esta Expedição deve ser seguida de outra e outras que vão 
como que de reforço á primeira, creio poder assegurar a V. que esta 
cidade se fará representar de uma forma mais avantajada nas seguintes. 

Para insuflar no espirito dos productores, principalmente, idéas no- 
vas, cumpre e é indispensável fazer propaganda activa e quasi indivi- 
dual, para o que se tomam necessários tempo e instrucçoes especiaes 
e desenvolvidas sobre o assumpto. Feito um trabalho longo e difficil 
uma vez, fica assente e garantido por muito tempo; mas é indispen- 
sável fazer-se, o que não foi possível para esta Expedição, pois que o 
tempo escasseia sobremaneira. 

Em todo o caso, creio que esta Sociedade cumpriu o seu dever c sa- 
tisfez a sua missão na forma como procedeu, e conquistou jus a ser con- 
siderada como interessando-se pratica e positivamente na solução do 
importantíssimo problema colonial. 

Esta Sociedade, sem duvida alguma, terá a maior satisfação em re- 
ceber a V. , no caso que lhe seja possível vir ao Porto antes da partida, 
c aproveitará tal occasião para significar a V. toda a consideração que 
tem e toda a sympathía que lhe merece a empreza que V. é . . . Chefe, 
o, ao mesmo tempo manifestar a V. os seus sinceros votos pela boa 
viagem e feliz êxito da Expedição. 

Deus guarde a V. Porto e Secretaria da Sociedade de Geographia 
Commercial, 1 de maio de 1884. — . . . Sr. Major Henrique Angusto Dias 
do Carvalho, . . . Chefe da Expedição Portugueza á Africa Central. = O 
Primeiro Secretario, Fernando Maya. 



Sociedade de Greog;ira.pliia de IL»ifi»l>oa, 

. . . Sr. — Cumpre-me agradecer a V. a communicação que se serviu 
fazer-me em seu officio de 1 de abril, e o amável offerecimento dos seus 
serviços á Sociedade, na honrosa commissáo de que V. foi olficialmente 
incumbido. 

A Sociedade, á qual opportunamente communicarei aquello documento, 
não deixará de certo de congratular- se pela resolução do Governo e pela 
escolha que fez de V. , que estimamos contar de ha muito no numero dos 
nossos dedicados consócios. 



INTRODUCÇlO 29 



Ao Grovemo de Sua Magestade expoz já á direcção da Sociedade, 
adoptando o parecer da Commissão respectiva, aquellas ideias e indica- 
ções que entendia dever apresentar-lhe sobre a Expedição projectada ás 
terras do Muata Yanvo, quando fomos convidados a exprimir o nosso 
voto e parecer, por S. £x.* o Ministro da Marinha e Ultramar. 

É provaTel que esses documentos, se tiverem sido considerados como 
ateis n'alguina parte ou n'algum sentido á referida Expedição, tenham 
ádo commonicados a V. 

N2o tendo posteriormente recebido communicação alguma por parte 
do Gk)vemo, devemos naturalmente entender que elle resolveu dispensar 
a Sodedade de qualquer outro concurso, além da consulta alludida, em 
relação á ideia e plano da Expedição projectada, cumprindo-nos somente 
acatar essa resolução, como o temos feito por occasião de outras expe- 
dições análogas. 

Não deixará Y. de comprehender perfeitamente toda a delicadeza 
doesta situação creada á nossa Sociedade. Ella resolverá o que tiver por 
mais conveniente em relação ás amáveis suggestoes contidas no officio 
de y. , e cumprirei então o grato dever de cumprir as suas ordens. 

Agradecendo, porém, a parte que me é pessoal na communicação de 
V. , tomarei a liberdade de observar-lhe que, como V. não ignora, a 
commbsão de que foi encarregado, á parte a sua particular missão diplo- 
mática e commercial, pôde accrescentar em muito o pecúlio de informa- 
ções e de noticias que a sciencia tem procurado reunir, em relação ás 
regiões e povos que demoram para além da nossa occupação angolense. 
£ o melhor conhecimento da hydrographia aMcana um dos pontos 
capitães da universal campanha emprehendida de ha séculos para abrir 
o continente negro á civilisação europea. 

Quer y. se dirija por Malange, quer tenha de optar pelo caminho 
do Bihé para attingir a Limda, não ha de encontrar inteiramente devas- 
sada e conhecida a questão das formações e communicaçòes hydrogra- 
phicas na vasta zona que terá de atravessar, apesar dos notáveis tra- 
balhos e esclarecimentos fornecidos por tantas expedições nacionaes e 
estrangeiras, que a teem percorrido. 

Permittir-me-ha, porém, y. que desde já chame a sua attenção para 
u informações extraordinariamente deficientes que possuímos acerca do 
paiz que os nossos sertanejos chamam Cacheche, ao qual projectava 
dirigir-se em 1882 uma grande expedição planeada pelos Srs. Machados, 
de Malange. 

Segundo estes, o trajecto é desconhecido do Quango para o nordeste. 
Ksaa expedição propunha-se a partir de Malange na direcção de nor- 
deste atravez da Jinga, uma parte do Hungo, até ás fronteiras septcn- 
trionaes do HoUo, seguindo directamente ás cachoeiras do Tembo-alluma, 
Qo Quango, para ali resolver se lhe conviria marchar através do paiz do 



f 

t 



32 EXPEDIÇXO POBTDGUEZA AO MUATIANVUA 

portancia a dispender com a dita Expedição, pelo modo seguinte : ven- 
cimento do pessoal superior e guardas, calculados para dois annos, 
ll:760j^000 réis; todas as despesas de material, instrumentos ou quaes- 
quer outras, 7:560jÍ»000 réis. 

Paço, em 22 de abril de 1884. = Manuel PinJieiro Chagas, 



Tendo sido nomeados, por portarias de 24 de março e 3 do correu te 
mez, o Chefe e mais pessoal para a Missão ao potentado africano Muata 
lanvo, e sendo conveniente estabelecer os vencimentos doestes empre- 
gados durante o tempo da mencionada Missão ; manda Sua Magestade 
£1-Rei, pela Secretaria d*Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, 
que sejam abonadas mensalmente aos mesmos empregados, além dos 
soldos e ordenados que, segundo as suas classes, lhes pertencerem, as 
gratificações constantes da tabeliã junta, a contar das datas nas mesmas 
declaradas, e bem assim as ajudas de custo respectivas em todo o tempo 
que permanecerem no interior de Africa, devendo cessar estes venci- 
mentos desde que os referidos empregados regressarem a Lisboa por 
qualquer circumstancia. Pennitte o mesmo augusto Senhor que os em- 
pregados superiores da dita Missão recebam dez mczes adiantados das 
suas gratificações para descontarem pela totalidade de seus soldos ou 
ordenados, e que aos guardas, quando assim se julgue necessário, atten- 
tas circumstancias que o Governo apreciará, se paguem adiantados dois 
mezcs de vencimento. 

Paço, em 22 de abril de 1884. = Manuel Pinheiro Chagas. 

rL*£tbolla doN voncimentois iiieiiHucs do Oheí*e 
e mais empregados da !M.issâo ao potentado afxdcano 

]\luata lanvo 

Chefe (além do soldo da cffectividade da sua patente), gra- 
tificação lãOj^OOO 

Sub-chefe (além do so!do da sua classe), gratificação 100^000 

Missionário (alem do seu vencimento de professor), gra- 
tificação 50^000 

Ajudante (além do soldo da cffectividade da sua patente), 

gratificação ÒOJIOOO 

Ajudas de custo aos quatro ditos empregados, a 15;^000 réis GOSOOO 

4 guardas europeus, a 20;í000 réis mensaes cada um SOj^OOO 

4904000 
Em vinte e quatro mczes importam cm 11:760^000 



INTUO DLCI,' AO 



33 



Os einpr^^ftrlos <jue stúrcin do Lisboa comeram a veiicer as suasgra- 
I fifica^-úes desile quo parllrem para Africa, e ob que residem em Angola 
I desiie que stiguirem para o interior. As ajudas de custo eSo aboDadaa 
I cmquaotu se eonservarein e:n míssilo no interior da provincia. 

bocrelarta d'Eatado dos Negócios da Marinha e Ultramar, 22 de abril 
de 1681. = Jfanuej FiaJieiro Chaga». 



í 



Á desiiesn foita com o material, do 7:5605000 réis, doaen- 
volve-se em: mstrtimoiitos, livros, mcdicamentus, armamento 
CHpeciul, photographia, presentes ao Huatiãavua o cGrte, paa- 
ta^'[n de rios e expediente. 

N3o eo attcndeu & construcçSo de Estnçílcs, a presentes aos 
potentados onde ellas se levantassem, ou a presentes du tran- 
«li>, nem ao salário e raçíios ilo pessoal de ciin'ega,(lure8, aoB 
escoteiros, o « outras despesas extraordinárias, diligeucias, 
gratificações, ctc. 

Na provineia de Angola contava a Expedição obter barra- 
ra», %amas, mesas e baiipos jjortateis, armamento Winthestcr 
com as respectivas cargas, mneliinas o outros auxiiios para 
phutographía, bem como tipóias e muares, o que tudo havia per- 
tencido ao pessoal dos estudos do cnniiuho de ferro de Aiu- 
bnca e ficara em deposito. 
Por causa da epizootia, a Expedição nilo p3de obter, de 

S. Thiigo de Cabo Verde, as muai'UB, como havia solieitado 

in governo. 
IVocurei orgauisar um material para a Expedição nas melbo- 

i« a Diais económicas condiçSes, tendo especialmente em at- 

tençb dar cumprimento As ordens superiormente recebidas, e 

bibilibUla com o ipiu lhe cm indispensável. 
Jicii tinha cscripto em 1877 no Jornal dan Colónias, quo 

tm Frsnça e Inglaterra ha bazai'es especlaes, onde se forne- 

comoH vinjunlcs on colonos que emigram pai-a paizes quentes 

• ptliiKircs, de todos os rcctu^os considerados tnais indispensa- 
™' e adequados a protegê-los dtt influencia dos climas e dos 
pMÍgos do sertão, uiuniudo-Hc de ferramentas, instrumentos, 
■"«luiittí, livros e artigos particulares aos diversos misteres 

* lie desejam dedicar-se; e em outros estabelecimentos ae 



34 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

adquirem os mais modernos instrumentos de precisSo, appro- 
priados já para trabalhos em Africa, acompanhados das res- 
pectivas instrucçSes praticas para os diversos estudos, que a 
sciencia instantemente reclama aos que se aventuram a in- 
temar-se naquelle continente. 

Sabia cu também que os fornecimentos, que fizesse em 
qualquer d'esses estabelecimentos, seriam cm boas condições 
de economia, qualidade e acondicionamento; porém, nem o 
tempo nem os recursos me permittiam lá ir, e era mesmo já 
tarde para requisições de um ou outro objecto que conhecesse 
mais de perto c fosse julgado essencial, como chronometros e 
outros instrumentos de meteorologia, anthropometria, etc, ou 
de consei^vas e outros géneros de alimentação, a fim de que 
num pequeno volume obtivéssemos o máximo de commodída- 
des e de alimentos. 

E é nisto, sobretudo, no preparar do material das suas ex- 
pedições para o continente africano, que os estrangeiros se 
avantajam a nós, logo ao saircm dos seus paizes. 

Era, porém, muito tarde, e tive de me sujeitar ao que pu- 
desse encontrar na cidade de Lisboa, e por economia ao que 
o Governo me dispensasse em Loanda. 

Sabia que existiam em deposito, na direcção das obras pu- 
blicas e no ministério da guerra, algumas armas antigas com o 
competente cartucliame e correame, barracas e artigos que lhe 
s3lo inherentes; vieram apenas algumas barracas, e em tal es- 
tado, que nem foi possivel acondicioná-las para embarque. O 
cartuchame e capsulas estavam deteriorados, e as armas, que 
eram de systema Wcstlcy Richards, melhor fora nâo as termos 
levado, porque durante mezes constituiram cargas muito pe- 
sadas e desgeitosas e, distribuídas pelos carregadores, depressa 
se inutilisaram. 

Estava deteiminado que a Expedição devia sair no paquete 
de 6 de maio, e em 28 de abril recebia eu as instrucções que 
transcrevo. 



INTBODUCÇXO 35 



TxkmtwLCQÒem 

Por qae se dere regniar o mi^or do exercito 

Uenrlqae Áagasto Dias de Carralho 
na Missão ao potentado africano Maata lanro 

Tendo sido Y. encarregado, em portaria de 24 de março ultimo, 
de organisar e dirigir a Missão que o Governo de Sua Magestade re- 
solveu enviar ás terras do potentado africano Muata lanvo, para os 
fins designados na mesma portaria, e com o intuito de renovar as re- 
lações commerciaes e officiaei^ com o mesmo potentado, que a expedição 
iniciada por Joaquim Rodrigues Graça, em 1843, procurara estabele- 
cer, por bem dos interesses da Nação, deve V. observar n^aquella 
organisação e no cumprimento de tão importante incumbência os pre- 
ceitos constantes das presentes Instrucçocs, ás quaes vae junta a copia 
da alludida portaria. 



A missão será composta de V. , como Cbefc, do Pharmaceutico refor- 
mado em Major, Agostinho Sizenando Marques, como Sub-chefe, do Mis- 
sionário António Castanheira Nunes, e do Tenente da Africa Occidental, 
Maimel Sertório de Almeida Aguiar, como Ajudante. 

Se por qualquer razão o Missionário nomeado por portaria de 3 do 
corrente não puder fazer parte da Missão, será por Y. escolhido, de 
aecordo com o Governador Geral da província de Angola, um outro que 
seja europeu e portuguez, e se ache moral e instructivamente habilitado 
para desempenhar as fimcçÕes importantes que teem de lhe ser attri- 
buidas. 

II 

Para o desempenho do que incumbe á Missão cuja direcção lhe é cou' 
fiada, são entregues a Y. instrumentos, medicamentos e outros obje- 
ctos enumerados nas relações juntas a estas Instrucções, e fomecer-se-ha 
na província de Angola dos demais a que se refere a relação respectiva, 
e do pessoal indigena que lhe for indispensável para seu transporte. 



III 

Ifflinediatamente á sua chegada a Loanda deverá Y. apresentar-sc 
so Governador Gkral da provincia, a fim de receber d'este magistrado 



36 EXPEDIÇlO PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 

as ordens o indicações que lhe parecerem convenientes para o bom ezito 
da Missão, considerando- as Y. como addicionamento ás presentes in- 
strucções. 

IV 

Beunido o pessoal da Missão e obtidos os precisos meios para a sua 
definitiva organisação e transporte, seguirá V. ao seu destino, de- 
morando-se em Malange somente o tempo necessário para obter os 
carregadores que lhe faltarem para a conducção do pessoal respectivo e 
material. 



Em Malange procurará que os commcrciantes portuguezes Machados, 
que ali se acham estabelecidos, auxiliem e protejam a Missão e os fins 
que se propõe, de modo que encontre o menor numero de difficuldades 
no seu trajecto. £ de presumir que aquclles cidadãos, que tamanhos ser- 
viços teem prestado a muitos exploradores estrangeiros que por ali teem 
transitado para o sertão central do continente negro, folguem de se lhes 
ofForecer occasião de provar o seu patriotismo, coadjuvando uma Expedi- 
ção Portugueza de que o Groverno tem esperança de obter singulares 
resultados para o commcrcio em geral, e especialmente para os interes- 
ses políticos de Portugal. O Governo acaba de reconhecer a dedicação 
dos alludidos commcrciantes por um testemunho inequívoco de distinc- 
ção e apreço, que accrescentará em valor, se também maior demonstração 
derem agora dos seus sentimentos de bons patriotas. 

Deve ser cm Malange que Y. terá de planear o itinerário que 
lhe cumpre seguir até ás terras do potentado Muata lauvo, e só ahi o 
poderá determinar com a precisão possível, contando que circumstan- 
eias imprevistas se podem dar, que algumas vezes o obriguem a qualquer 
alteração. O sertanejo Graça tem marcado no seu itinerário, dia a dia, 
os pontos por onde transitou, mas depois de 1847 ha sido mais de uma 
vez devassado aquelle sertão, e será por certo fácil a Y. , com cri- 
tério, e investigando, regular o seu trajecto até o ponto do seu destino, 
encurtando sensivelmente o itinerário de Graça. 



YI 

No seu percurso até á Mussumba deverá visitar os principaes chefes das 
tribus cuja passagem marcar no seu itinerário ; não se designando a Y. 
quaes devam ser essas tribus pela diiiiculdadc, que não desconhecerá, 
de lhe serem indicadas n'estas Instrucções. Só o perfeito conhecimento 



INTRODUCÇXO 37 



do estado em que irá encontrar as relações que entre si possam ter os 
poYOS de Qoibundo, Cubango e Cassai, e do modo por que actualmente 
costumam a tratar os exploradores e aviados europeus, é que poderá 
decidir Y. a visitar aquelles povos c demorar-se entre clles o tempo 
necessário para estreitar relações de amizade e commercio,' se prever 
que essa demora não retardará a chegada da Expedição á Mussumba. 
Se tiver razoes que lhe assegurem a possibilidade de não transtornar o 
fim da Missão com a sua passagem por aquelles povos, aproveitará n^esse 
caso a oceasião para procurar conseguir dos respectivos régulos que 
consintam e defendam abrigos construidos pela Expedição, que offercç^m 
aos visitantes europeus ou commerciantes dos sertões mais conforto do 
que as cubatas levantadas nas suas senzalas ; convencendo esses régulos 
de que, por esta forma e com essas commodidades, podem ter entre si um 
commercio seguro e ininterrompido, e auxiliares valiosos para a sua ci- 
Tilisação. Em todo o caso, deve ser empenho constante de Y. propor- 
cionar principalmente aos portuguezes que por ali forem a segurança de 
que necessitarem para fazerem a permutação de suas mercadorias pelos 
prodactos do «paiz, sem soffrerem os vexames e exigências que usam 
fiizer-se naquellcs sertões aos que a clles vão commerciar. 



YII 

Provida como vae a Missão dos instrumentos e recursos scientiíicos, 
deve Y. aproveitar todas as occasioes que se lhe offereçam de au- 
gmentar e rectificar as informações que existem 'das regiões africanas 
por onde transitar, estudando similhantemente os meios práticos e mais 
&ceis de assegurar e desenvolver as relações commerciaes entre os ter- 
ritórios e portos da província de Angola e os povos sujeitos ao dominio 
de Moata lanvo; não perdendo jamais de vista quanto importa evitar, 
por todos os meios, o desvio d'essas relações para quaesquer occupaçòcs 
oa estabelecimentos estrangeiros ao norte e ao sul, e combater a pre- 
pouderancia politica de estranhos nas regiões não avassaladas do inte- 
rior do paiz. 

YIII 

A soa chegada á Mussumba deve ser precedida das formalidades e 
wremonias usadas especialmente com o Muata lanvo, e de que deverá 
lofomuir-se em Malange, devendo apresentar a este potentado os pre- 
lentes que lhe envia o Rei de Portugal, em demonstração do apreço 
^ que é tido de longa data por Sua Magestade, principalmente desde 
<ive ali residia por algum tempo Joaquim Rodrigues Graça, signiíi- 



L 



38 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

cando-lhe quanto é agradável a Portugal a renovação das cordiaes re- 
laçòes iniciadas pelo dito sertanejo ; inspirando no seu animo e no dos 
seus conselheiros a estima e respeito pelos portugueses, que foram os 
primeiros a trocar com olle as valiosas mercadorias que levaram ás suas 
terras, engrandecendo o seu commercio com o fornecimento do que care- 
cia para satisfazer as necessidades do seu bem estar ; e convencendo-o 
também de que são os Portuguezes que ha séculos são tratados e respei- 
tados por todos os povos dos sertões visiuhos pela sua liberalidade e 
actividade mercantil. 

Logo que V. entenda que se ha insinuado no animo do potentado 
por forma que elle se ache bem disposto com respeito á Missão, procu- 
rará persuadil-o a celebrar um tratado do amizade e commercio, em que 
se consigne a necessária auctorisação e protecção por elle dada ao esta- 
belecimento e fixação, junto do mesmo potentado, de uma missão civili- 
sadora, religiosa e commercial dirigida por um «Kesidente politico» per- 
manente, e de algumas feitorias a que elle igualmente dê as devidas 
garantias de segurança, na certeza de que assim concorre para o desen- 
volvimento e civilisação dos territórios sob o seu domiuio, que receberão 
proveitosas lições sobre o modo de fomentar a cultura de suas terras e 
alimentar empresas de permutação de géneros da sua producção pelas 
mercadorias portuguezas que satisfaçam as suas instantes necessidades. 



IX 

Devem ser aproveitadas pela Missão todas as occasioes de persuadir 
os régulos das regiões que percorrer, e com mais demorada insistência 
o potentado que vae visitar, a abandonarem o antigo costume de escra- 
visar, fazendo-llies sentir que o Governo Portuguez tem o maior empe- 
nho em ver para sempre terminada a escravidão nas terras de Africa, 
onde todos lograriam maior somma de bens se seguissem os hábitos e 
priucipios civilisadores da Europa; mas estas exhortaçoes devem ser 
empregadas com critério e discrição, porque não pode espcrar-se que 
facilmente se desarrcigue do espirito de taes gentilidades, sobre que não 
temos dominio, o que consideram um direito e uma vantagem. 



Deve ser um dos cuidados da Missão investigar do procedimento, 
propósitos e influencia que entre aquelles povos vão tendo os explorado- 
res allcmães, ou outros quaesquer estrangeiros que até elles teem che- 
gado, e registar particularmente tanto essas informações como outras 



INTRODUCÇXO 39 



de interesse para Portugal. Sempre que a MissSo verifique que algum 
agente estrangeiro tem usado da ascendência, que por acaso possa ter 
alcançado sobre os indígenas, para prejudicar os interesses do commercio 
naeional ou o Nome Portuguez, protestará contra esse facto, procedendo 
eom a perspicácia e zelo que puder empregar para destruir quaesquer 
prevenções ou malévolas insidias, e fazcndo-lhes bem sentir que nem 
sempre sâo exclusivamente humanitários e civil isadores os trabalhos e 
tendências de alguns d*esscs exploradores ou agentes. 



XI 

Um dos meios de captivar a sympathia dos régulos dos scrtues por 
onde tem de atravessar a Missilo, é o de se conformar com os usos e 
estylos do paiz, assignalando a sua passagem, para ser bem acolhida, 
eom presentes e dadivas, a que se deve soccorrer, não como tributo, mas 
como espontânea demonstração de amizade e boa disposição de manter 
estreitas relações com os que dispõem das populações de taes paires. E, 
neste ponto, vem de molde recommendar á Missão o procedimento dos 
exploradores portuguezes por occasião das suas viagens pela Airica e 
qae elles nos seus interessantes livros relataram, tratando das exigências 
qae alguns régulos ousaram fazer-lhes, que mais poderiam denominar se 
verdadeiras extorsões. Um dos meios mais seguros de se livrarem dos 
ataques dos indígenas consistia quasi sempre em ser por estes reconhe- 
cido, que os exploradores se achavam bem preparados para resistir a 
quaesquer tentativas de depredação. Mas, ao passo que conservavam a 
conveniente firmeza, esgotavam também todos os recursos da prudência 
e da conciliação com os que peores instinctos revelavam. 



XII 

• 
A quem conhece as necessidades, tendência e superstições dos povos 

gentílicos, não será preciso encarecer a influencia e preponderância que 

entre elles pode adquirir a Missão, prestando-lhes os soccorros médicos 

de que necessitarem, e que serão dispensados pelo pharmaceutico da 

mesma Missão. £ pois escusado inscrever longas recommendações sobre 

este assumpto. 

XIII 

A influencia moral que a Missão deve exercer sobre o espirito dos 
otdigenas cumpre que seja inalteravelmente mantida, dando o exemplo 
^ bom procedimento a todos que se reunirem em tomo d'ella e dos 



40 EXPEDIÇXO PORTDGUEZA AO MUATIÂNVUA 

seus estabelecimentos, tratando os povos com benevolência, observando 
e fazendo observar pelos que a compõem, ou a ella se juntarem, a mais 
estricta justiça nos negócios que tenham relação com os indígenas, e 
não consentindo por caso algum que qualquer da Expedição illuda, 
insulte ou maltrate os mesmos indígenas. É da observância exacta 
doestes preceitos que depende o bom resultado da Missão, e especial- 
mente o credito do Nome Portuguez. 



XIV 

Deve a Missão, desde a sua salda de Loanda até o ponto do seu des- 
tino, durante todo o tempo que se achar constituída, e na sua volta a 
Loanda, fazer um diário exacto e completo de tudo quanto occorrer e das 
mais pequenas circumstancias que interessem aos seus âns. Sempre que 
encontre opportunidade rcmettcrá copias doesse diário, acompanhando- as 
de esboços dos caminhos percorridos, da situação geographica de qual- 
quer ponto, das observações astronómicas e meteorológicas fíindamentaes, 
e fará constar ao Governador Geral de Angola a situação da Missão. 
Quando esta terminar apresentará no Ministério da Marinha e Ultramar 
o alludido diário e um relatório de tudo quanto possa interessar á scien- 
cia e ao commercio em geral, e em especial ás relações com o Muata 
lanvo, assim como a collccção de espécimens e exemplares geológicos, 
zoológicos, botânicos, etc, que deve ter colhido e conservado. 



XV 

Um dos maiores cuidados de V. deverá ser o de procurar assegurar 
a sua correspondência e relações entre Malange e quaesquer pontos do 
itinerário que concertar, e entre estes e os estados do Muata lanvo, 
a fim de poder fazer, com mais cautelíi, a remessa do que lhe é recommen- 
dado no artigo 14.*», e enviar para o Ministro e Secretario d'£stado dos 
Negócios do Ultramar, Presidente da Commissão Central de Geographia, 
os resultados e noticias que exigirem immediata publicidade, que ha de 
ser devidamente físcalisada e dirigida, para que possa fazer-se conhecer 
pela imprensa o que for politico publicar; sendo certo que muito convein 
conservar o publico interessado nos diversos incidentes do emprehendi- 
mento que vae ser commettido, na intelligeneia de que não 6 permittido 
a V. dar informações do andamento, successos e resultados da Missão a 
outra qualquer pessoa ou a qualquer jornal, visto como só o Ministro 
pode estar nas circumstancias de discriminar e apreciar o que se poderá 
publicar sem inconveniente, e haver sido resolvido que toda a corresiKjn- 



INTR0DUCÇ20 41 



dencia e serriços relativos á Missão se deverão reunir e centralisar na 
Commissão Central de Geographia, cujo Presidente é o Ministro. 



XVI 

Ser2o tidas em apreço especial todas as informações que a Missão 
possa vir a colher com respeito aos caminhos conmierciaes mais fáceis 
e seguros, aos processos, necessidades e preferencias do commercio in- 
dígena, ás aptidões do solo e do clima, aos costumes, tendências e situa- 
çlo das diversas populações que atravessar, e, emfim, a tudo quanto 
importe ao maior desenvolvimento das nossas relações commerciaes. 



XVII 

Fazendo parte da MissSo um Missionário portuguéz, e indo entre as 
alfaias que ella conduz um altar portátil, recommendará V. ao dito Mis- 
sionário a installaçSo do mesmo altar no local mais próprio, e que for 
cedido pelo Muata lanvo para se celebrar missa, resguardando-o de 
qualquer profanação que iniitilise o prestigio que se lhe deve attribuir, 
ou macule o respeito com que deve ser venerado, sobretudo entre gen- 
tios. A Missão é politica e commercial, mas deve ser também religiosa. 
N^esta qualidade pode fazer relevantíssimos serviços á civilisação do 
paiz. 

XVIIl 

Pode presumir-se que a Missão de que V. é incumbido requeira dois 
annos para satisfazer aos âns a que se destina, e que ficam designados 
nestas Instrucçoes. Não ficará, porém, sendo obra de grande utilidade 
o que fizer, se na sua retirada for deixando ao abandono todos os esfor- 
ços, diligencias e dispêndios. E por isso que, referindo-me ao que fica 
dito no artigo 8.', eu lhe rccommendo que insista cm procurar conseguir 
do Muata lanvo que permitta que fique junto d'elle um «Residente» que 
dirija a Missão civilisadora, religiosa e commercial que ali deve perma- 
necer. Assim não afrouxarão as nossas relações com aquclle potentado, 
que é de crer estariam ainda mantidas desde 1846, se não fosse a impre- 
vidência do sertanejo Graça, que pode ser relevada pela necessidade da 
soa forçada retirada. 

XIX 

Os exemplos que os membros da Missão derem, de moralidade, de 
respeito pela boa fé dos contractos, de honestidade nas transacções, de 



i 



42 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

• 

comprimento exacto de seus deveres sociaes, bSo do necessária e pro- 
veitosamente reflectir-se nas outras partes componentes da Expediçlo, 
e ser reconhecidos pelas povoações por onde transitarem e pelos povos 
dos estados do Muata lanvo. £, pois, a pratica d'esses exemplos que 
muito rccommendo, como essencial á Missão, e nSo menos importanto 
será que V. mantenha sempre na melhor ordem e subordinação todos 
os elementos de que ella se compozer. 

Tudo o mais que nestas Instrucçocs não vae mencionado e que for 
necessário ter em consideração, será facilmente supprido pelo zelo e 
pela pratica que Y. tem dos sertòes airicanos. 

Secretaria d^Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, em 28 de 
abril de 1884. = Manuel Pinheiro Chagas. 

Approxima-sc o dia da partida, e o serviço accumula-se por 
tal forma que .não dá tempo a descanso. Era indispensável 
aproveitarem-se todos os momentos. 

Do Porto annunciava-sc-me, já pelo correio, já por tele- 
grammas, a remessa de eargas, e estas nSo chegavam. 

O meu collega Sizenando Marques, occupado com a aequi- 
siçSLo de instrumentos e seu aferimento, escolha de medica- 
mentos e rancho, e outras minudencias para os serviços a seu 
cargo, e ainda vigiando a maneira por que tudo se acondicio- 
nava em volumes de grandeza e peso determinado, nSo podia 
attender a outros trabalhos. 

As cargas propriamente da Expedição, bagagens e ainda 
uns setenta volumes do commcrcio do Porto, a pouco e pouco 
iam entrando nos depósitos do Arsenal, para d'ahi seguirem 
para bordo logo que tudo estivesse reunido; mas em 5 ainda 
&ltavam perto de duzentos volumes, que eu sabia terem já sido 
expedidos do Porto. Os telegrammas a tal respeito succediam- 
se, mas as cargas estavam demoradas no transito. 

A alfandega achava-se fechada, e d'ahi nova fadiga para 
serem recebidas a bordo as cargas que estavam no Arsenal. A 
custo, ás seis horas e meia, entraram ellas no paquete. 

Era tempo de tratarmos dos nossos preparativos, e de cum- 
prirmos com os deveres que mais custam a quem se ausenta 
do paiz por motivos análogos — as despedidas aos nossos pa- 
rentes e amigos. 



j 



INTRODUCÇlO 43 



Recolhi tarde a casa neste ultiipo dia^ e parece que a sorte 
me qaeria apurar o soffirimento. Horas depois de ter dado um 
abraço de despedida em meu estimado tio, o General Comman* 
dante das Guardas Municipaes^ Luiz de Almeida Macedo, re- 
cebi de súbito a noticia de que se finara repentinamente. 

A familia banhada cm pranto com a dor cruciante da sepa- 
ração e a dolorosa noticia da morte de um parente tão que- 
rido (dos poucos que me restavam ascendentes) davam ao dia 
do meu embarque uma sombra de tristeza tão profunda que eu 
mal podia resistir-lhe ; e, digo bem, fugi de casa para bordo, 
convencido de que se voltavam contra mim todas as angustias 
da vida. 

Tomara, porém, sobre mim graves encargos. Havia-me col- 
locado ao serviço do paiz, e antepunha-sc a tudo o cumpri- 
mento do meu dever. 

Parti. 

A Sociedade de Geographia de Lisboa, sempre benévola e 
sempre prompta a animar os que trabalham, lá estava repre- 
sentada na ponte do Arsenal, aguardando o nosso embarque. 
 do Porto, que tanto cooperou com o seu valioso auxilio para 
o melhor desempenho da nossa Expedição, ainda, á ultima 

hora, nos veiu animar com um telegramma de enthusiasticas 

felicitações. 
Também no Arsenal estavam os parentes e alguns amigos 

niaig dilectos para nos acompanharem, e a todos eu procurava 

occultar a minha dor, fechando commigo todas as minhas 

A gineta de bordo dá o signal de partida. Ainda os abraços 
de despedida, e segue o vapor ^S^. Thorm, pelo Tejo abaixo, 
no rumo em que na sua ultima viagem, quatro mezes antes, 
levara os notáveis e sympathicos exploradores portuguezes 
Capello e Ivens, para essa rápida e audaciosa viagem através de 
Africa — uma das grandes glorias do paiz neste ultimo quartel 
ílo século. 

Ia comnosco o sympathico Tenente da armada italiana Af- 
fooso Maria Massari, já conhecido pelos seus trabalhos de ex- 



L. 



44 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MX7ATIÂNVUA 

ploraçSo no norte da Africa^ agora contratado para o serviço 
da Internacional, e que mo fôra apresentado pelo meu antigo 
amigo o explorador africano Dr. Max Búchnery que, estando de 
passagem em Lisboa com o fallecido Nachtigal, veiu a bordo 
despedir-se de mim, c recommendar-me aquelle sou amigo. 

Massari parecia desanimado por uma idca triste. Separava-sc 
da sua futura noiva e ia para longcs terras, entregue a uma sorte 
incerta e talvez contraria aos seus mais ardentes desejos. Tam- 
bém não recebera informaçSes satisfactorias de Stanley, seu 
futuro chefe, e via-se assim duplamente embaraçado. 

As circumstancias approximaram-nos, o que foi para nós de 
grande prazer, e muitos foram os assumptos que discutimos 
com respeito a explorações. 

Tanto a mim como a Sizenando nos davam cuidado os tra- 
balhos que Íamos emprehender, mas não podiamos fugir a es- 
tas influencias de bordo, que são de todos conhecidas, e de 
que todos os que tccm viajado nos nossos paquetes da carreira 
de Africa se recordam sempre com saudade. 

O commandante A. de Oliveira Fialho, nosso antigo amigo, 
o que bem conheciamos de outras viagens, procurou tomar esta 
o mais agradável possivel. 

O vapor era bom. Já conhecia o caminho, como elle dizia; 
fazia onze a doze milhas por hora, e tudo promettia uma via- 
gem feliz e rápida. 

Um dos passageiros, porém, portuense, dos seus trinta an- 
noB e de génio folgazão, achava a vida a bordo monótona, e 
dizia-me enthusiasmado : 

€ Tenho pena de o não ter conhecido cm Lisboa, pois o não 
deixaria mais, e bons serviços lhe havia de prestar. 

€ Gosto muito de commoçSes fortes, novas, nunca sentidas! 
Imagine, eu mettído numa cubata no meio de um deserto e 
que de repente, sem me ser dado prever, um leão de um salto 
apparece ao pé de mim! 

«Fixa-me com os seus olhos de fogo, mas não vacillo um 
só momento. Se não tenho a espingarda á mão deito fogo á 
cubata, e elle enraivecido lá vae para a floresta berrando como 



INTBODUCÇÍO 45 



nm possesso^ e eu cá fico ao pé do fogo com os meus compa- 
nheiros; cantando victoria, emquanto não rompe o dia. 

cE d'Í8to que eu gosto! São estas commoç5es que eu pro- 
curo ha muito tempo. Olhe que eu já percorri o Amazonas^ o 
Bio da Prata como commissario; e andei por muitas terras do 
Brasil, e declaro-lhe que só cm Afirica poderia encontrar o que 
desejo; d'estas scenas que ora nos assustam, ora nos animam, 
e muitas vezes nos fazem suppor termos a nossa vida por 
am fio. 

cSSo estas commoçSes fortes, que ha de ter a cada momento^ 
que eu lhe invejo! Pois ha nada mais bello que, depois de dias 
de fome, disputar-se a tiro com o gentio uma gallinha, um 
ovo, um firucto qualquer, e ir saboreá-lo depois com todo o 
descanso! 

cSão estes momentos felizes do que só podem gozar actual- 
mente os exploradores!» 

E é assim que uma grande parte da gente pensa com res- 
peito a explorações! 

KSo eram essas commoçBcs que eu procurava, nSo ; e, pela 
minha parte, confesso que as muitas por que passei me abala- 
ram e fatigaram bastante, e estou certo de que aquelle enthu- 

siasta, que por ellas tanto almejava, pelo menos no fallar, se 

tiTesse soffrido metade, de certo se daria por satisfeito. 
O que me preoccupava sempre era dar fiel cumprimento ás 

«Instrocções» pelas quaes havia de guiar-me, e que os leitores 

já conhecem; instrucçSes de que se deprehende a importância 

^ missXo que se nos encarregara. 
Campria-nos, pois, estudar as terras, para onde nos dirigia- 

Di08, sobre diversos pontos de vista politicos, económicos e 

«científicos. 
Era, emfim, uma missão de paz, de civilisaçSo, e em que 

•c apresentavam os mais importantes problemas a resolver. 

Poder-se-iam resolver ao menos algims d^elles? 
Que raças habitavam todas as terras até á Mussumba? Que 

lingaag fallavam? Quaes os seus usos e costumes? Quaes os 

•cítt caracteristicos ethnographicos? Qual a influencia do meio 



46 EXPEDIÇlO POBTUQUEZA AO MUATIInVUA 

que os cercava? Qual a sua forma de governo? A sua poli- 
tica? A sua historia? Em iim, como aproveitá-los para o bem^ 
sem a macula da escravidão ? 

Da maneira pela qual a Expedição attendeu a todos estes 
assumptos se verá nas differentes monographias que vSp ap- 
parecer a publico^ e que cm summula abrangem : Descripção 
da viagem e eíicposição de todos os trabalhos nos quatro annos que 
durou a Expedição, 3 volumes ; Os climas e as producçves das 
terras de Malanje á Lunda, 1 volume ; Methodo practico para 
fallar a língua da Lunda, contendo najTaçdes históricas dos 
diversos povos, 1 volume ; Vocabulários dos dialectos dos povos 
do occidente da região tropico-austral da Africa, para portuguez 
e de portugucz para esses dialectos, com eíxplica^és dos vocábu- 
los de difficil definição, 2 volumes; Ethnographia e historia 
tradicional dos povos da Lunda, corroborada por caracteres 
physicos, linguisticos e outros essenciaes, 1 volume; Meteorolo- 
gia e climatologia das regiões visitadas pela Expedição, com- 
paradas com as do littoral africano ao occidente e ao oriente 
1U1S mesmas latitudes, 1 volume; Álbum ethnographico, 1 vo- 
lume. 



CAPITULO I 



DE LOANDA A MALANJE 



aèi uJcúete úorna, nalike kuia hdutúh 
«se tens medo, não avances.» 



Ko porto de LoandA ; recorda^ 5ei hiitoricas ; Loanda cidade doi trópicos, e aens molhO' 
ramentos — Ka cidade de Loanda; preparação da ezpediçio; contratados; efficas 
aaxilio de 8. Ex.* o Qoyemador Oeral ; os melhoramentos feitos e os que mais importa 
faser ; a população — No rio Cnanza ; importância ; soa bella posição ; informaç&es 
do dr. Manoel Ferreira Ribeiro — Massangano; outras povoações i beira*rio — A villa 
do Dondo —Viagem para Caaengo — Concelho de Cazengo — Viagem para Ambaca — 
Concelho de Ambaca — De Ambaca para Pungo Andongo — Concelho de Pnngo An- 
dongo —Viagem de Pnngo Andongo para Halai\je — Entrada em Halai\)e — O nosso 
Biodo de Ter sobre a região que atravessamos. 




Pouco se dorme n bordo 
de um pnquelc, qimndo fim- 
(lendo, porque, affeitos como 
estamos, npós nlgims dins de 
vingem, aos seus desoncon- 
tradoB movimentos, no niido 
da mnchinn e ao rodar do 
leme boL o vaevem das pe- 
sadas correntes, e 'a todas 
essas sensações, emfim, que 




50 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

nos embalam e ao principio mesmo nos atormentam, e contra 
as quaes nos não é dado reagir, sentimos então a sua falta e 
não podemos conciliar o somno. 

Accresce a estas circumstancias, justo é dizê-lo, uma certa 
inquietação, ou, ainda, a natural curiosidade que nos desassocega 
e nos estimula. 

Não é, pois, para estranhar que, fundeado o vapor, logo ao 
i*omper do dia, mesmo antes da baldeação, sobre a tolda se 
encontrem muitos passageiros, uns com a idea predominante 
de irem para terra nas primeiras embarcações que larguem do 
navio, outros ansiosos, esperando um parente ou amigo que 
lhes venha dar noticias e proporcionar-lhes um bom transporte ; 
e ainda outros, que nem as bagagens fecharam, com o único 
fim de contemplarem o panorama da terra naquellas horas em 
que começa o movimento matinal e em que o sol nascente dá 
certo tom de novidade ao porto e á cidade que nos defronta: 
e se isto succede em todos os portos onde, ainda que seja ape- 
nas de passagem, se entra, com muito mais razão se observa 
quando se chega a um porto tropical, onde se deseja viver por 
algum tempo. 

Fôramos também dos primeiros a subir á tolda, onde nos en- 
contrávamos mais uma vez' com todos os nossos companheiros 
de viagem, de quem estávamos prestes a separar- nos. 

«Mas por que nos vamos demorando tanto tempo a bordo?» 
perguntava um passageiro, que pela primeira vez aqui che- 
gava. 

Toruou-se esta interrogação o assumpto geral da conver- 
sa, c, de facto, todos mais ou menos lamentámos que, sendo 
Loanda uma cidade secular e de uma grande importância com- 
mercial, e tendo chegado um paquete na véspera á noite, 
não estivesse este rodeado de embarcações que se afretassem 
para o transporte de passageiros, bagagens, etc. 

Attribuiam uns esta grave falta a medidas preventivas de 
policia, outros a que ainda não tocara a alvorada em terra, mas 
nem uns nem outros acertavam. O navio havia sido visitado 
logo que chegou, e a policia estava a bordo. A razão era, com 



DESCBIPÇZO DA VIAGEM 51 

magoa o dizemos, não haver em Loanda embarcaçSes d^essa 
ordem. E custa a crer que ninguém se lombrasse ainda de pro- 
ver a tZo imperiosa necessidade, sendo certo que havia de au- 
ferir bons lucros. 

Uma cidade de primeira ordem como Loanda, puramente 
commercial, que tudo importa e que tudo paga com os ricos pro- 
ductos de exportação ; que vae ser dotada com um caminho de 
ferro de penetração e imia linha telegraphica que a h'ga á Eu- 
ropa, e servida no seu recinto por uma rede telephonica, nSo 
ter no sen porto grande numero de barcos para transportes, 
dá desde logo uma triste idea das suas commodidades com- 
mercíaes. 

E como pode explicar-se que qualquer particular, para sair 
da cidade ou nella entrar com sua bagagem pela via marítima, 
esteja dependente do favor de transporte do Governo ou de 
qualquer amigo?! 

O movimento de navios no porto de Loanda é tal, que con- 
viria mesmo organisar este serviço e facilitar assim ao indi- 
gena os trabalhos marítimos, com o que muito se aproveitaria. 

Mas deixemos este incidente, provocado por um passageiro 
que pela primeira vez aqui veiu, e olhemos em derredor, con- 
templando os logares que viramos em outra epocha, e pro- 
curemos descobrir o seu progresso durante o tempo que d^elles 
estivemos ausente. . 

O paquete ancorara entre a ponta de Isabel e o morro 
das Lagostas, negro promontório nSo mui saliente, onde ter- 
mina a enseada do rio Bengo, hoje coroado por um bom pha- 
rol de luz de rotaçSo, que se vê a grande distancia, proje- 
cto do illustre engenheiro Manuel Raphael GorjFHo, ampliado e 
levado a effeito sob a direcção do seu collega e successor no 
serviço das obras publicas Arnaldo de Novaes. 

Na nossa frente, a leste, estamos vendo, revestida de um 
cinzento claro, a fortaleza do Penedo, que primeiro foi um 
pequeno forte que mal continha seis boccas de fogo, mandado 
eonstmir por Luiz Lobo da Silva no seu governo de 1684 a 
1688* Nelle fôra preso, por ordem do mesmo governador, o 






52 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

traidor jaga de Caconda, que ahi terminou ob seus dias, em 
castigo do quanto incommodara os povos de Benguela. 

Este forte^ transformado oitenta annos depois em fortaleza, 
pelo, ainda hoje n2Lo olvidado, Governador D. Francisco Inno- 
cencio de Sousa Coutinho, apesar das interrupções por falta de 
material e porque a maior parte das novas construcçSes era 
feita onde chegava o mar, concluiu-se em dezesete mezes. 

Elle lá está ainda em bom estado, vendo-se sempre em 
asseio e boa ordem, sendo aproveitados os seus bons armazéns 
abobadados, abaixo do terrapleno, para deposito de pólvora do 
Governo e do commercio. 

Ultimamente, como já não tenha a capacidade indispensável 
ás exigências do commercio, sob um bem elaborado projecto 
do nobre Marquez das Minas, está-se procedendo um pouco 
além do pharol, para o interior, no alto da Bella Vista, á con- 
strucçHo de um paiol em boas condições e munido dos compe- 
tentes pára-raios. 

Para o norte do logar em que estamos vae-se desdobrando 
a costa por largas curvas reentrantes, que terminam em pon- 
tas mais ou menos salientes, sendo a que divisamos mais longe 
a do Dande, que nos occulta as bellezas das margens do rio do 
mesmo nome. 

O terreno sobre as praias, de uma areia esbranquiçada, ele- 
va-se quasi a prumo, parecendo-nos cortado pela mão do homem 
e formando barreiras dispostas em camadas de composição va- 
riada, ora vermelhas, ora pardacentas, desanimando pela falta 
de vegetação a quem pela primeira vez vae penetrar nesta pro- 
vincia, sobretudo quando tenha admirado a prodigiosissima ve- 
getação das^nossas primorosas ilhas de S. Thomé e do Principe. 

A impressão desagradável que se sente é tal, que estamos 
convencidos de que ainda não houve uma s4 pessoa que, nesse 
momento, se não recordasse com saudade da pátria e de tudo 
o que lá deixou, lembrando-se de voltar no mesmo paquete 
sem pôr os pés numa terra de tão desolada apparencia! 

E são estas impressões que, juntas á triste opinião que na 
metrópole corre sempre com respeito á Africa, muito teem 



L 




descripçao da viagem 53 

contribuído a tomar-nos aventureiros coloniaes e nunca colonos ; 
isto éy procurámos obter um capital com a idea de regressar em 
pouco tempo á pátria! 

£ esta uma das causas que mais teem concorrido para o 
atraso em que, nesta quadra do século xiX; ainda se encon- 
tram todos 08 nossos dominios de além-mar^ que tão facil- 
mente nos poderiam elevar ao grau de prosperidade a que as- 
pirámos, fazendo de Portugal uma nação mais respeitada, do 
que o está sendo, pelas naçSes colonisadoras. Mas não culpe- 
mos apenas os Governos d'este atraso, pois que o mal é de- 
vido aos nossos costumes e, talvez, a estar estabelecida a cor- 
rente da emigração para outros pontos do globo, em que temos 
importantes centros commerciaes; não querendo referimos a 
epochas anteriores ao primeiro quartel ainda doeste século, onde 
encontramos a causa apparente àó seu estacionamento, senão 
já definhamento, porque essas grandezas tão falladas eram me- 
ras illusòes, que todas se desfizeram, e com que a província de 
Angola nada lucrava. 

Ás colónias não se fazem sem homens e sem capitães, e sem 
86 porem em pratica os grandes melhoramentos materiaes e 
moraes que mais podem transformar as terras e as sociedades. 
A Gran Canária, que é de hontem, é um modelo que temos 
* seguir ; aliás, em menos tempo do que se pode suppor, as 
noBsaa ilhas da Madeira e de S. Vicente decairão a par do 
florescimento e desenvolvimento da sua vizinha, que se tomou 
ji sua rival. 

As ultimas estatísticas do movimento do seu porto já apre- 
sentam um numero de vapores entrados mensalmente maior 
^ne 08 annuaes anteriores, e muitos indivíduos que este anno 
Pí^uraram aquella ilha para estação de recreio, tiveram de 
íctirar por não haver já onde se hospedarem! 

Mas como levantar a opinião publica em favor das nossas 
possesaJes? 

Ba, sem duvida, muitos processos para o fazer; mas entre elles 
deve prevalecer sempre o de uma enérgica propaganda por 
meio de descripçSes exactas e das informações mais comple- 



54 EXPEDIÇIO PORTUGUEZÂ AO MUATIÂNVUA 

tas que sejam possiveis^ dadas por todos os expedicionários e 
por todos 08 funecionarios e negociantes^ que sâo^ para assim 
dizer^ os batedores que abrem e facilitam o caminho a uma 
larga emigração. 

£ nós; honrados pelo Governo de Sua Magestade com um 
importante trabalho de exploração commercial, diligenciare- 
moS; tanto quanto couber em nossas forças, dizer a verdade 
inteira sobre os factos que observámos. 

Conheciamos a historia da cidade de Loanda, onde servira- 
moS; tomando parte em muitos dos seus meAioramentos : nella 
estávamos prestes a entrar pela segunda vez, e não o podía- 
mos fazer com indifferença. 

E, obrigados a contemplar de novo a princeza das nossas 
colónias, porque nSo lhe consagraremos algumas palavras? 

E bello o seu porto, é grandioso o panorama que ella nos 
offerece, mas quizeramos ver-Ihe mais animação, mais movi- 
mento, mais vida e maior população. 

Cidade dos trópicos, quizeramos vê-la com toda a pujança 
das cidades que lhe são congéneres sob os mesmos parallelos. 

E porque não se tomará ella a primeira cidade do mundo 
intertropical africano? 

Vejamo-la por um momento, no seu estado actual e através 
da sua heróica historia. 

Quem pode olhar com indifferença para a veneranda forta- 
leza de S. Miguel, que tantos feitos illustres recorda? 

E porque nrio existe já esse padrão do governo de Luiz da 
Motta Feio, de que ainda nos falia Lopes de Lima nos seus 
Ensaios estatísticos, — o esplendido passeio publico, sobrepujado 
de frondosas e fructiferas arvores, com os seus obeliscos e 
assentos de pedra? 

Fora esta constnicção attestada em 1819 como um padrão 
do bom governo de Motta Feio, pelo Juiz, Vereadores e Procu- 
rador do senado da Camará ; mas o tempo, talvez, encarregou-se 
de fazer desapparecer todos os vestígios d 'esse monumento, e 
lá rareiam agora as arvores, que não são de certo as plantadas 
por aquelle benemérito Governador! 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 55 

£ como tinham fecunda iniciativa os portuguezes de outro 
tempo! 

Lembremo-nos de alguns nomes laureados e prestemos-Ihes 
a devida homenagem. 

Francisco de Vasconcellos da Cunha, que governava os rei- 
nos de Angola e Benguela desde 1G35, mandou construir o forte 
de S. Miguel apenas de barro, taipa e adobes, sendo a des- 
pesa paga com os rendimentos do dizimo, além dos da fazenda. 

E foi doeste forte que o valente general Salvador Correia de . 
Sá Benevides, treze annos depois, no dia 15 de agosto, fez sair 
hollandezes, francczes e allemaes em numero superior a mil, 
e outros tantos pretos que o occupavam, os quaes, ao passarem 
pelo pequeno numero de portuguezes que os desalojaram, quasi 
se arrependeram da precipitaçílo era se renderem ! 

Como é agradável recordar os heróicos feitos d^es&es bellos 
tempos, e como esta velha cidade se foi desenvolvendo, já no 
planalto, já á bcira-mar ! 

£ teem sido grandes na verdade os seus melhoramentos ; mas 
o seu clima, o seu commercio e as suas condições geographicas 
exigem que se rcalisem muitos outros, e julgamos do nosso de- 
ver lembrá-los aqui. 

A cidade de S. Paulo da AssumpçHo de Loanda está dis- 
posta em dois taboleiros, um superior e outro á beira-mar ; pelo 
quê se tem feito a distincçSo de cidade alta e cidade baixa. 

A baixa estende-se até á encosta, e para o norte vae-se es- 
treitando, limitando-se a um renque de casas distanciadas umas 
das outras; mas nunca se attendeu á natureza dos terrenos e 
i influencia que nelles exercem as aguas pluviaes. 

As chuvas, por exemplo, como bem o mostra a gravura, en- 
carregam-se de arrastar as areias, que facilmente se desaggre- 
gam da encosta, dando a esta a forma de talude, e depositam- 
nas em monticulos, que novas chuvas levam para o taboloiro 
inferior, e d'aqui para o mar, augmentando assim o terreno 
Bub-marino em prejuizo da cidade alta. 

Não sabemos se ha elementos sufficientes para se avaliarem 
estes phenomcnos geológicos^ já calculados para a costa doBalti- 



56 EXPEDIçXo'PORTUGDEZA AO MUATIInVUA 

CO, delta do Egypto, e outros logares onde os problemas d'esta 
ordem sâo estudados com affinco ; mas esta profunda modifica- 
ç^ nas camadas superfíciaes de terreno é assas intensa, e d'isso 
mesmo se ressente o porto, cujo fundo se eleva, e mostra que a 
ilha fronteira, ou antes o cordão littoral que tem este nome, é 
de formação recente. 

Somos, pois, levados a crer que os dois taboleiros em que 
assenta a cidade de Loanda tendem a nivelar-se com o andar 
dos séculos, ce a mâo do homem não se oppuzer ao desenvol- 
vimento doeste phenomeno de erosão. 

Como a própria gravura indica, as communicaçSes entre a 
baixa e a alta da cidade fazem-se por calçadas, construidas em 
diffcrentes epochas, orladas com arvores, que, apesar da sua an- 
tiguidade, não te era tido grande crescimento. 

Aquém, no planalto, vcem-se os cemitérios, o do alto das 
Cruzes e o protestante, como tristes mansões dos mortos; e 
mais além, para o interior, a obra mais monumental dos últimos 
tempos — o hospital Maria Pia. 

Um pouco mais para o sul, como limite da parte mais ele- 
vada, avista-se uma torre, de construcçHo antiga e que fazia 
parte da primitiva igreja da sé, muito bem aproveitada para 
o observatório meteorológico, de oíide teem saido trabalhos • 
notabilissimos depois de 1877, e de que, por certo, os médicos 
do ultramar não deixarão de deduzir as formulas meteoroló- 
gicas e dos climas, sempre úteis aos que desejarem fixar-se 
por estas terras. 

Cá em baixo, á beira-mar, e quasi a meio do contorno da 
bahia, distinguem-se importantes edifícios, como o mercado, a 
casa ingleza, a alfandega, a capitania do porto, as officinas das 
obras publicas ; e mais além, quasi occulto pelo theatro, o velho 
edifício do terreiro publico, importante construcção do Capitão 
General Sousa Coutinho, e que no seu governo, que teve princi- 
pio em janeiro de 1764, já serviu para celleiro do diversos gé- 
neros, que elle mandou distribuir pelos mais necessitados, na 
triste quadra de uma cruel fome, por que passou a cidade du- 
rante vinte mezcs ; e de tal modo se houve aquello benemérito 



DESCRIPÇÁO DA VIAGEM 57 

governador, que os effeitoB d^essa calamidade publica foram 
muitíssimo atenuados. 

Recordavamo-Dos com todo o enthusiasmo doestes factos, 
quando a nossa attenç&o foi despertada pela atracação de esca- 
leres ao navio, e, entre alguns amigos que vinham de terra, 
apresentava-se o nosso collega, Ajudante da ExpediçSLo, o Te- 
nente do exercito da Africa Occidental Manuel Sertório de Al- 
meida Aguiar, que estava em Loanda havia poucos dias, vindo 
de Massangano, onde exercera o cargo de Chefe do concelho. 

Chegara, pois, a hora de desembarque, e sendo-nos offereci- 
das algumas casas particulares para nossa residência na cidade, 
muito gratos pela distincçSo, não pudemos acceitar, mostrando 
a tão bons amigos, que assim nos queriam obsequiar, a conveniên- 
cia que tinhamos de residir próximo da alfandega, para mais fa- 
cilmente nos occuparmos das cargas e do seu ac4>ndicionamento, 
até se reembarcarem nos vapores da carreira do Cuanza. 

Queriamos também isolar-nos o mais possivel de todas as 
distracçSes, que sempre proporciona a hospitalidade de bons e 
antigos amigos, attento o muito que havia a fazer. 

A organisaçâo da Expedição, de que era forçoso occuparmo- 
no8 com actividade, para nos demorarmos o menos tempo pos- 
sível no littoral e aproveitarmos ainda para a viagem no inte- 
rior a quadra própria, que já ia muito adeantada, era o nosso 
principal cuidado. 

£ uma regra já experimentada, e que nunca deve ser esque- 
cida por quem se destina ao interior do continente africano, — 
o affiístar-se bem depressa da costa, muito principalmente se 
tem de passar para as regiSes mais elevadas. 

A resistência orgânica que se adquire no littoral nSò se obtém 
em poucos dias, nem mesmo em poucos mezes, e por consequên- 
cia a demora que houver aqui predispSe o individuo para as 
febres e a não poder resistir ás longas marchas que tem de 
fazer, debaixo de um sol ardentíssimo, pelas regiSes onde o 
veneno miasmatico, com os seus terriveis effeitos, o pode sur- 
prehender, encontrando-o já sem aquelle vigor que tinha ao 
entrar em Afirica. 



L 



58 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

A retirada deve ser mais rápida quando se tenha contratado 
algum pessoal indígena numa povoaçSLo qualquer da localidade 
de onde tenha de partir uma expedição^ muito principalmente 
da zona maritima, porque as distracções, que elle procura, 
prejudicam e são causa de quebras de contractos. 

Não olvidemos ainda um conselho da experiência que res- 
peita a nóS; europeus^ principalmente, e que adoptámos desde 
que fundeámos na ilha do Príncipe; é o 'uso diarío do sulfato 
de quinina como preventivo, pelo menos cinco grãos em jejum. 

Também se perde a acclimatação já adquirida quando se 
passa de um clima quente para o paiz natal; e tiós, embora 
habituados ás terras da Africa, já estávamos em Lisboa havia 
dois annos, e portanto iamos passar por uma nova adaptação, 
que a experiência tem provado não ser das mais fáceis, e por 
isso mesmo nos tomáramos mais cautelosos, apesar de nos encon- 
irarmos com mais forças do que quando de lá regressámos. 

O preventivo de sulfato de quinma, neste caso, tanto ao 
Chefe como ao Sub-chefe, impoz-se-nos de tal modo, que só pas- 
sados dias, depois de estarmos em Lisboa, deixámos de o usar ; 
e se alguma vez d 'elle em Africa nos esqueciamos, accom- 
mettia-nos uma excitação febril, e éramos obrigados a tomá-lo 
em dose dobrada ou ainda maior. 

A falta de sulfato de quinina tomou-se sensivel e mesmo 
grave, pois o Chefe da Expedição, deixando de o tomar por se 
lhe ter acabado, três dias depois, em que se viu obrigado a 
estar exposto ao sol intenso de março, foi accommettido de 
uma febre comatosa que o ia levando á sepultura, tendo de se 
sujeitar ao tratamento curiosissimo do gentio, de que daremos 
conhecimento no logar competente. 

É indispensável recorrer ás auctorídades competentes para 
sabermos das prevenções de que nos devemos rodear para 
resistirmos ás doenças do continente africano. 

Os nossos médicos coloniaes, pela sua longa pratica, nos seus 
relatórios, e nos últimos annos o Sr. Dr. Manuel Ferreira Ri- 
beiro em todas as suas obras, que, com muita dedicação, tem 
escripto sobre a nossa Africa, mui principalmente nos seus estu- 



DESCRIPçlO DA VIAGEM 59 

dos medico-tropicaes, durante os trabalhos do campo para o ca- 
minho de ferro de Ambaca, dSo-nos valiosos conselhos a seguir. 

Mas seja-nos permittido observar que notámos algumas de- 
fidencias nos trabalhos que consultámos, e a que mais adeante 
nos referimos, trabalhos aos quaes precisam de recorrer os 
individues que são obrigados a intemar-se nos sertSes da 
Âfirica Central com o intuito de se demorarem no desempenho 
da sua missão — faltando-lhes umas vezes a alimentaç&o con- 
veniente; aproveitando-se outras dos alimentos dos gentios, 
sofirendo quasi sempre suores abundantes, expondo-se aos 
raios de um sol ardentíssimo, atravessando activos focos de 
infecçSo, e tendo nto poucas vezes de passar dias inteiros sem 
poder mudar de roupas, que a cada passo se encharcam e 
seccam sobre o corpo. 

A todas estas circumstancias, a que se expSe quem se in- 
terna nos sertSes da Africa Central, ajuntem-se a acç2io depri- 
mente do clima, o trabalho constante, os incommodos com os 
indígenas e dificuldades de toda a ordem que não podem dei- 
xar de apparecer entre povos, cuja língua, usos e costumes se 
igaoram, e que forçosamente nos hão de servir de auxiliares. 

SSo, poÍ8| constantes as causas de desanimo e de graves 
doenças, que se manifestam após atormentadoras febres e indis- 
posiçSes gástricas, que nos inhabilitam para o trabalho e para 
as mais simples concepçSes intellectuaes. 

Haviamos compulsado com vivo interesse os livrps de viagens 
de exploradores nacionaes e estrangeiros, e notáramos quaes 
as difficuldades com que haviam luctado, a fim de nos aper- 
cebermos e podermos luctar com vantagem; e nos relató- 
rios do serviço de saúde do ultramar procurámos as informa- 
ç3es mais indispensáveis para nos fornecermos de alimentos, 
abrigos, roupas, remédios, e mesmo indicações praticas para 
melhor os acondicionar e aproveitar. 

NIo haverá algum alimento, perguntávamos a nós mesmo, 
que seja anti-dqi>auj}eraHvo e de que se faça boa provis&o para 
auxiliar o uso da alimentação indigena, sempre tSo monótona 
e tio deficiente para o europeu? N8o haverá o que possa sup- 



l 



60 EXPEDIÇÃO FOBTDGDEZA AO KUATIXkVDA 

prir a folta de sal, que se nSlo encontra na regifto para onde nos 
dirigimoB? £ que alimentos nos seriam mais úteis, qual o me- 
lhor modo de os conservar e o maia simples de os cozinhar? 

Ka &lta, porém, das indicações- que procurávamos, gniá- 
mo-noa pela pratica que haviamos adquirido no littoral e pelas 
informaçSes que obtivéramos da leitura de viagens no interior 
das nossas proviacias e centro do continente, jA publicadas, e 
fomecemo-nos do que julgámos mais indispensável. 

Durante a nossa viagem, á medida que nos iamos inter- 
nando, démo-nos ao trabalho de ir registando n%o só os defei- 
tos da organisaçâo da nossa ExpediçSo e as difficuldades com 
que tivemos de luctar, mas ainda o modo pratico de as resolver. 

Sobre todas estas ohservaçSes tizemos um trabalho, compre- 
hendendo a maneira de acondicionar todos os objectos, foram 
de volumes e modo de os fechar e transportar mais facit e eco- 
nomicamente ; qual a melhor alimentação para levar em redu- 
zido volume, os preventivos indispensáveis que nos devem 
acompanhar e meio de os ter sempre á mão ; emfím, a simplifica- 
ção de todo o serviço com vantagem e mus alguma commodidade. 

SSo, por certo, indicaçSes estas muito utcis aos qoe tiverem 
de se occupar de quaesquer trabalhos no centro de Africa, em- 
quanto se nfto espalharem por esse vasto sertKo estaçSes civi- 
lisadoras, devidamente montadas, c os caminhos de ferro nSo 
rasgarem de um a outro lado todo o continente, abrindo as flores- 
tas, e fazendo com que a industria ofFereça ao viajante todos 
os recursos de que este carece, para, sem perigo, se entregar 
aos trabalhos que lá o levarem. 




DESCBIPÇXO DA VIAQEH 



NA CIDADE DE LOANDA 




esembarcando em Loanda, im- 
mediatamente mandámOB pedir 
a S, Ex.' o Governador Geral, 
I o ConBellieiro Joaquim Fran- 
cisco Ferreira do Amaral, se 
dignasse marcar a hora, em 
que DOS poderia receber, e, 
neste mesmo dia, tivemos a 
honra de ser recebidos por 
S, Ex.' com a sua proverbial 
delicadeza; e com o senso pra- 
tico, que lhe é peculiar, man- 
teve a conversação sobre os 
diversos fins da nossa missSo, 
ora interrogando, ora aconse- 
lhando sobre tudo o qae se lhe afigurava melhor para se dimi- 
nnirem os attritos á marcha da Expedição em todo o território 
da província aob a feliz administração de S. Ex.* 

Catavam feitos os comprimentos officiaes, e, na nossa resi* 
deocia, aguardnva-nos o velho amigo Cunha Foca, agente da 
acreditada casa Bcnsaude, que, segundo as ordens do seu dire- 
ctor em Lisboa, vinha offerecer os seus prestimosos serviços, e 
dar-DOs o credito de que carecêssemos aqui em Loanda e na 
soa casa do Dondo. 



62 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO HUATIInVUA 

Por varias vezes o occupámos e nelle encontrámos sempre 
a melhor vontade em nos servir, e por isso aqui lhe endereçá- 
mos os nossos agradecimentos. 

A ExpediçSo aproveitava todos os momentos na sua organi- 
saçSo pratica, e ao mesmo tempo esperava quaesqner ordens 
ou instrucçSes particulares do Governo provincial, como lhe fôra 
determinado; e em 3 de junho recebeu um officio, onde se con- 
signavam algumas recommendaç5es da mais alta conveniência 
com rclaçSo aos potentados com que nos poderiamos achar mais 
em contacto. 

O officio é do teor seguinte: 

... Sr. — Encarrcga-me S. Ex.* o Sr. Governador Geral de dizer 
a y. que nenhumas instrucçocs ha por parte doeste Governo Geral a 
accresccntar ás que recebeu do Governo de Sua Magestade, porquanto 
tudo dependerá das decisões que as circumstancias da viagem acon- 
selharem. 

No emtanto parece que deve Y. ser prudente no uso dos medicamen- 
tos para com os potentados mais fortes, por isso que poderiam aquelles 
espirites rudes e ignorantes attribuir aos remédios qualquer morte ine- 
vitável, e filha de causas naturaes, e esta prudência é aconselhada por 
todos 08 exploradores da Africa, e na phrase do celebre Abbadie: as 
vantagens da cura nSo correspondem aos inconvenientes de uma termi- 
nação fatal da doença. 

Pcdem-se igualmente a V. os seus bons officios e esforços no cami- 
nho para augmentarem as remosHas de productos para a Exposição, acon- 
selhando os moradores a que concorram a este ccrtamen que muito 
directamente os interessa, e cujos resultados a ellcs mais particular- 
mente aproveitarão. 

Quanto a todos os meios necessários para seguir viagem a Expedição 
da q.ual V. é mui digno Chefe, deverão ser requisitados á £x."** Junta 
da Fazenda. 

Por este Governo Geral vão dar- se ordens aos Chefes dos Concelhos 
que para bom resultado da Expedição sigam sem hesitação as indicações 
de V. , e satisfaçam as suas requisições, a fim de que esta viagem pela 
qual S. Kx.* o Sr. Governador Geral se interessa muito pessoalmente, 
possa fazer-se e terminar com o êxito que é de esperar da competência 
de V. , e dos sous illustrados companheiros. 

Deus guarde a V. Secretaria do Governo Geral em Loanda, 8 de 
junho de 1884. — ... Sr. Chefe da Expedição ao Muata ItLovo. == Alberto 
Carlos d' Eça de Queiroz, Secretario Geral. 



DESCRIPÇAO DA VUGEM 63 

Como nenhumas ordens havia a esperar mais de S. Ex.*, 
ao offieio acima transcripto respondeu o Chefe no dia imme- 
diato: 



IlL"» e Ex."« Sr. — Aguardava as determinações de S. Ex.» o Conse- 
lheiro Governador Geral d'csta província, não só com respeito ás pro- 
videncias indispensáveis de que muito carece a Expedição a meu cargo, 
emquanto transita por territórios onde chega sua benéfica influencia, 
mas muito principalmente para ter na devida consideração e dar cum- 
primento a quaesquer encargos que o mesmo Ex."'^^ Sr. julgasse dever 
confiar-me. 

O offieio de y. Ex.*, n.® 517, de hontem, communicando-me as resolu- 
ções de S. Ex.* dá-me ensejo a deliberar que a Expedição siga no vapor 
que se espera para o Doudo, e d*ahi, tão promptamente quanto possível, 
para Malanje. 

£, pois, para )esta viagem que eu tomo a liberdade de solicitar desde 
já communicação á Alfandega para que a carga da Expedição possa dar 
entrada nos armazéns da Companhia de navegação do Cuanza, e á di- 
recção da Companhia para á Expedição ser concedido o transporte de 
pessoal e carga no primeiro vapor a partir, se bem dizem, Serpa Pinto, 

Além das três passagens para o pessoal superior ha ainda a solicitar 
uma para Augusto César, empregado subaltçmo, que do Reino acom- 
panha a Expedição, e duas para dois indígenas de confiança contratados 
nesta cidade. 

Para os meios de transporte por terra, que S. Ex.* o Governador se 
dignou dispensar, peço a V. Ex.* se digne apresentar a S. Ex.* as inclusas 
requisições que faço á Ex."« Junta de Fazenda. 

Numa d^essas pedem-se oito bois-cavallos em substituição das muares 
que não puderam ser dispensadas, e aquelles podem ser adquiridos em 
Punge Andongo ou em Malanje, segundo as convefiíencias que a econo- 
mia e a qualidade aconselhem. 

Como a Expedição pode contar com a protecção das auctoridades 
administrativas nos concelhos por onde tem de transitar, só ahí e a essas 
auctoridades deve requisitar os carregadores indispensáveis até Ma- 
lanje, onde tem de concluir definitivamente a organisação do pessoal de 
carregadores da sua caravana para o interior. 

Sendo possível, se S. Ex.* o Sr. Conselheiro Governador pudesse con- 
ceder á Expedição cincoenta soldados indígenas do batalhão de Ambaca, 
para vigiarem pelas cargas em todo o tempo da sua missão ; e quando 
por vontade delles, seria isso muito para desejar, pelo auxilio que lhe 
prestariam, evitando-se assim, que a Expedição tenha de instruir cín- 
eoenta homens boçaes, para os quaes trouxe o armamento indispensável 



64 EXPEDIÇIO PORTUOUEZA AO MUATIÂKVUA 

concedido pelo Ministério da Guerra, para melhor garantia dos valores 
que o Governo de Sua Magestade confiou á mesma Expedição. 

Por ultimo devo dizer a V. Ex.* que a Expedição se empenha por cor- 
responder á confiança que nella depositou o paiz e o Ministro que a no- 
meou, e agora, ao interesse que S. £x.* o Governador Geral acaba de 
patentear mais uma vez no citado officio de V. £x.* pelo bom êxito de 
sua missão. 

Deus guarde a V. Ex.* Loanda, 4 de junho de 1884. — 111."»» c Ex."»«» 
Sr. Secretario Geral do Governo Geral da província de Angola.= Chefe 
da Expedição, Henrique Âugvsto Dias de Carvalho, 

Activo como é, o Ex."** Conselheiro Ferreira do Amaral nSo 
fez demorar a resposta^ que é do teor seguinte: 

... Sr. — Tenho a honra de accusar a recepção do officio de V. sem 
numero e com data de hoje, o qual foi presente a S. Ex.* o Governador 
Geral, quo me encarrega de lhe responder que as requisições que ellc 
Incluia foram enviadas á Ex."* Junta de Fazenda, para que esta as tome 
na devida consideração. 

Quanto ao pedido feito por V. de soldados para acompanharem a 
Expedição, n*esta data officiou-se ao Commandaute de caçadores n.^ 3, 
aquartelado na Pamba, concelho de Ambaca, para que forneça trinta ho- 
mens que queiram voluntariamente seguir a viagem por Y. emprehen- 
dida, visto como não podem legalmente ser conipellidos a prestar esse 
serviço. Estou, porém, certo que essa força será fácil e expontaneameute 
recrutada no referido batalhão de caçadores n.° 3, devendo ao mesmo 
tempo dizer a Y. que será bom evitar nos pontos mais affastados os 
apparatos de força, que são sempre motivos de desconfiança e susto para 
os naturacs, que attribucm logo ás expedições compostas doesta maneira 
intenções bellicosas e de conquista, as quaes euraizando-se podem tra- 
zer obstáculos á realisação do pensamento civilisador que Y. prosegue. 

Finalmente, cumpre-me communicar a Y. , que foram dadas hoje 
ordens á Alfandega para lhe entregar os objectos pertencentes á Expe- 
dição e trazidos da Europa. 

Deus guarde a Y. Secretaria do Governo Geral em Loanda, 5 de 
junho de 1884. — ... Sr. Chefe da Expedição ao Muata lanvo. = Alberto 
Carlos d^Eça de Queiroz, Secretario Geral. 

Sendo incerto obterem-se as trinta praças concedidas, por- 
que só como voluntários é que se podiam aeceitar, e como se 
tivessem apresentado alguns carregadores que em Loanda se 
empregavam no serviço da Alfandega e de maxila, entendi nSo 
dever desprezar a offerta. 



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DESCRIPÇXO DA VIAGEM 65 

Fez-se entre estes a escolha dos indivíduos conhecidos do 
Chefe que já haviam trabalhado no serviço das obras publicas, 
e que lhe inspiravam mais condança. 

O contracto era vantajoso, nao só pelo lado financeiro, mas 
ainda pela garantia que offerecia, sendo feito na Administração 
do concelho ; e, por isso, no dia 7 o Chefe dirigiu-se ao Secre- 
tario Geral do Governo da provincia nos seguintes termos: 

Dl.*» e Ex."* Sr. — Procurando-me nesta cidade doze carregadores 
indígenas, alguns filhos de Malanjc, um das próprias terras da Lunda, 
e dois que dão conhecimento e informações de rios e povoados até além 
do Cassai, que pouco differcm dos que são do nosso domínio, e quercn> 
do elles contractar-se para fazer parte da Expedição em condições que 
julgo de grande vantagem, rogo a Y. Ex.*, se digne de solicitar do 
ex."^ Conselheiro Governador Geral a devida permissão para que na 
Administração do concelho doesta cidade se lavre um termo de contracto, 
cm vista do qual se possa providenciar, caso algum d^esses indivíduos, 
depois de ter recebido os adeantamentos, deixe de embarcar, ou fuja de 
qualquer ponto para esta cidade. 

Se desejo contratar este pessoal, é pór ter elle servido commigo nas 
obras publicas d*e8ta cidade, de 1878 a 1882, em diversas construcçoes, 
e querer acompanhar-me. Alguns mais se apresentaram ; porém, por me 
ser indispensável attender á economia, não posso contemplar todos. 

Outrosim, peço ainda a S. Ex.* a necessária auctorisação para ser 
dada passagem de 3.* classe a estes carregadores no vapor da Compa- 
nhia de navegação do Cuanza, em que segue a Expedição. 

Deus guarde a V. Ex.» Loanda, 7 de junho de 1884. — Ill."»« e Ex."»» 
Sr. Secretario Geral do Governo Geral da provincia de Angola= O Chefe 
da Expedição, Henrique Augusto Dias de Carvalho, 

A resposta de S. Ex.* foi a seguinte : 

. . . Sr. — Em resposta ao officio de V. datado de 7 do corrente, in- 
cnmbe-me S. Ex." o Governador Geral de dizer a V. que n^esta data se 
mandou abonar passagem para o Dondo, n'um dos vapores da companhia 
do Cuanza, aos doze carregadores que teem de o acompanhar, assim 
como se ordenou ao Administrador d'este concelho para mandar lavrar 
os termos de contractos dos referidos carregadores. 

Deus guarde a V. Secretaria do Governo Geral em Loanda, 9 de 
junho de 1884. — ... Sr. Chefe da Expedição ao Muata lanvo. == iíZôfrto 
Carlos d'Eça de (iueiroz, Secretario Geral. 



66 EXPEDIÇÃO PORTDGUEZA AO MUATIANVUA 

Fazemos referencia especial aos contractos que celebrámos^ 
para que se conheçam mais algumas provas sobre o modo por 
que nos entendemos com os indigenas, e acabe para sempre a 
idea de que nas nossas possessões se tolera um. vislumbre sequer 
de escravatura. 

Dirigimo-nos á Administração do concelho no mesmo dia 
em que recebemos o officio de S. Ex.*, e^hi, perante o nosso 
antigo amigo o Ex.™^ Sr. Adnunistrador, António Urbano Mon- 
teiro de Castro, e testemunhas, se registou no livro ii de termos 
diversos do anno de 1884, fl. 22 e 23, o contracto feito com 
doze dos carregadores, que se oflfereceram para o serviço da 
Expedição, os quaes eram: 1.°, Paulo, de Malanje; 2.®, Ma- 
theus, do Libolo; 3.®, Manuel, da Jinga; 4.®, Paulino, da 
Quissama; õ.®, Roberto, de Benguela; 6.®, Cabuita, de Qui- 
bundo; 7.®, Marcolino, do Congo; 8.®, Narciso, da Lunda; 
9.**, Domingos, de Loanda; 10.®, Francisco Domingos, de Cas- 
sanje; 11.**, António, de Golungo; 12.**, Adolpho, do Congo. 

Contrataram-se mais: um cozinheiro, José, do Libolo, e 
um cometoiro (que fora dos Moveis), Domingos, de Massan- 
gano. 

O contracto dos primeiros foi de 100 réis por cada dia ao 
serviço da Expedição, e o equivalente a 100 réis diários para 
raç5es, recebendo no acto do contracto 36j5í500 réis para prepa- 
rativos de viagem e para deixarem alguma cousa a suas fa- 
mílias ; o do cozinheiro foi de 10^000 réis mensaes, recebendo 
três mezes adeantados, e o do corneteiro de 5^000 réis men- 
saes, recebendo dois mezes adeantados; e todos principiavam 
a vencer rações do Dondo em deante. Compromettiam-se elles 
a acompanharem a Expedição á mussumba do Muatiãnvua, 
vigiando e defendendo as cargas e os expedicionários, e a fa- 
zerem serviço de carregadores sempre que por falta de pes- 
soal assim se tornasse preciso. 

Qualquer dos primeiros, em Loanda, ao serviço de maxila 
só que seja, vence, ordenado e ração, de 5^5000 a 6^(000 réis 
mensaes. A vantagem foi, pois, nos 3G/$õ00 réis, que logo dis- 
penderam, e em receberem todos os vencimentos juntos no 



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DESCRIPÇ!0 DA VIAGEM 67 

regresso, o que nSo compensou de certo os perigos a que se 
expuzeram e trabalhos por que passaram. 

Tendo chegado o vapor Serpa Pinto e estando annunciada 
a partida para o dia seguinte á noite, nSo havia tempo a perder 
em se cuidar na arrumação e boa disposição das cargas e ba- 
gagens. 

Auctorisada pelo Conselheiro Governador Geral, a Expedição 
cedeu á Direcção das obras publicas, pelo preço da factura, 
sessenta volumes de diversas ferragens e pregaria que o ne- 
gociante da praça do Porto, o sr. Manuel Francisco da Costa, 
enviou a tempo de acompanharem a Expedição, e a sua im- 
portância foi applicada á compra de artigos próprios para o 
interior; e assim esses sessenta volumes reduziram-se a qua- 
torze, onde se contavam esses artigos e os que por conta do 
Governo recebemos na cidade de Loanda, taes como : barracas, 
camas, mesas portáteis, machinas e aprestos de photographia, 
armas e suas munições, etc. 

Tinhamos ainda algumas horas deante de nós e iamos deixar 
a cidade, onde se nos haviam dispensado favores e distincçSes, 
e onde tantos e tão extraordinários melhoramentos estavam em 
rápido curso de realisação. 

Consagremos, por isso, alguns momentos a todos estes me- 
lhoramentos, que se estão fazendo, prestando assim o nosso 
enthusiastico preito a esta bella cidade, a altiva rival de todas 
as cidades sub-tropicaes africanas, que foi o theatro de tantos 
heróicos feitos dos nossos antepassados, e que será, num futuro 
próximo, o modelo de todas as nossas possessões do ultramar. 

Não desejo, por ocioso, repetir o que já está dito nos bem 
elaborados relatórios dos Governadores, Chefes de serviço de 
icaude, Directores das obras publicas, nas descripçSes e via- 
rren» dos exploradores Serpa Pinto, Capello e Ivens, nos en- 
saios estatísticos de Lopes de Lima, nas memorias de Motta 
Feio, nas obras do Dr. Ferreira Ribeiro e em outras de diffe- 
rentes escriptores que se teem occupado da cidade de Loanda. 

Em um período que ainda não vae lougc, teve a cidade de 
Loanda os seus dias de amargura, e todos procuraram conhecer 



68 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

da sua causa. Attribuiam-Da uns á falta das chuvas, outros á 
fáltsi de transportes e de boa viação, muitos ás dissidências 
com o Banco Nacional Ultramarino, e alguns, finalmente — e 
esta é a razão mais plausivel, quando não o seja conjuncto de 
todas — a terem escasseado, ou pelo menos a terem-se des- 
viado, os principaes artigos do commercio do interior, marfim 
e borracha, o que obrigou a fecharem-se muitas casas filiaes 
nos concelhos sertanejos ; — symptoma gravissimo e que mal 
pode logo explicar quem não conhece praticamente o com- 
mercio do sertão, e a preferencia de alguns de seus povos em 
correrem para o norte e sul, affluencia com que teem lucrado 
as alfandegas de Ambriz e Benguela em prejuízo da de Loanda. 

E certo, porém, que, devido ás expedições de obras publicas 
e aos estudos do caminho de ferro de 1877, e agora á activi- 
dade, intclligencia e bons desejos do Director das obras publi- 
cas, o Major de engenheria João Ferreira Maia, que accumula 
estas funcçoes cora as de Presidente da Camará Municipal, 
para que foi eleito no corrente anno, e ainda á superior admi- 
nistração do bemquisto Governador e distincto official da ar- 
mada. Conselheiro Ferreira do Amaral, começou a desappa- 
recer a crise, que se apresentou medonha, e em toda a cidade 
se vae já notando uma fecunda transfoimação, em que é muito 
grato attentar. 

O Ministro por um lado animando o Governador na dedi- 
cação e bons desejos que sempre tem manifestado pelo engran- 
decimento da colónia, e este pelo seu dando com toda a energia 
o seu apoio á Camará Municipal, á Direcção das obras publi- 
cas e a outras distinctas corporações que dispõem de recursos, 
todos, emfim, se mostram empenhados em que Loanda não 
desmereça do logar que occupa entre as principaes cidades do 
littoral africano. 

A singular distribuição orographica do terreno em que as- 
senta a cidade de Loanda, a irregularidade da encosta que 
separa os dois taboleiros em que a cidade se divide, e a que já 
nos referimos, chamam desJc logo a attenção dos engenheiros 
e dos hygienistas, que procuram estudar as causafi da insalu- 



DESCRlPÇlO DA VIAGEM 69 



bridado de uma localidade^ em que^ comquanto não haja super- 
iicies pantanosas, são frequentes as febres palustres. 

Desnudadas as terras de vegetação que as segure, o movi- 
mento das areias sob a acção das chuvas torrenciaes é patente, 
vendo-se, como prova indiscutivel, as suas grandes accumu- 
lações nas ruas calçadas da cidade baixa, — obra esta impor- 
tante do Governador Ponte e Horta, em que se consumiu 
muito tempo e dinheiro e que jazia occulta aos transeuntes 
por estar alguns decimetros abaixo do nivel do solo, achando-se 
transformadas as portas em janellas, apesar de dois e três 
degraus que aquellas tinham á sua frente. 

Por outro lado o porto ia-se entulhando, e de tal modo, que 
nas baixas marés quasi se podia ir a vau ató á ilha, pois nem 
já a corrente tinha força para repellir essas grossas camadas 
de areias, que se amontoavam no seu leito. 

As correntes maritimas, para o que concorre o Cuanza em 
grande parte, e as marés, por seu turno, teem influido na barra 
da Corimba; em outro tempo dava esta passagem a grandes 
embarcações, porém de um pequeno banco que era, se tomou 
já num dique, o que as obriga a tornearem a ilha para entrarem 
no porto. 

Era, pois, urgente que a mão do homem tratasse de obviar 
ao desmoronamento de ediiicios importantes da cidade alta, hoje 
á beira da encosta, e se removessem as accumulações de areias 
que pejavam as ruas da baixa, sendo dirigidas essas obras de 
modo que de futuro não houvesse de attender aos mesmos 
inconvenientes. 

O melhoramento que immediatamente lembra é o de um 
revestimento de cantaria, de baixo a cima, aproveitando-se os 
taboleiros, que se fizessem em toda a altura, para habitaçSes, 
jardins, hortas, passeios etc. ; mas estas obras seriam dispen- 
diosas, e Ferreira Maia, que assim o comprehendeu, planeou 
um projecto que ofFerecesse vantagens immediatas, mas sob um 
ponto de vista mais modesto e mais económico. 

£8se projecto consistia em fazer proseguir o aterro margi- 
nal, já encetado por imia das Camarás transactas, e ligá-lo á 



70 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIANVUA 

-ponta de Isabel , e em continuar o anterior da principal praça 
Pedro Alexandrino á beira-lnar^ até ao morro da fortaleza de 
S. Miguel ; obra esta de reconhecida necessidade, porque, além 
de outras vantagens, tinha a principal — fazer desapparecer o 
pestilente lameiro do Bengo e da praia a sueste. 

Para desvio das aguas fazia construir sobre a encosta, en- 
tão em barrocas, ruas calçadas, ligandoas ás já existentes para 
communicação directa com a cidade alta, e revestindo os terre- 
nos que as separassem, e que não pudessem ser murados para 
futuras habitações, de arbustos e raizes que, engradando-se, 
fossem estorvos a novos esboroamentos, quando menos tempo- 
rariamente, até que fosse possivel dispor de recursos para uma 
mais segura consolidação. 

Fen^eira Maia, eleito Presidente da Camará, e com o apoio do 
Governador Geral, principiou logo a executar o seu plano, e é 
certo que hoje se vê o empedrado das ruas da cidade baixa; 
que o aterro marginal em parte vae seguindo, havendo já bons 
lanços devidamente arborisados ; que novas ruas muradas, em- 
pedradas e com os seus renques de arvores, cortam a encosta 
de onde vinham as maiores enxurradas; e que está em começo 
uma avenida, do aterro próximo ao mercado, a seguir directa- 
mente ao hirgo do hospital Maria Pia, sobre esses morros e bar- 
rocas, que ainda ha bem pouco conhecíamos escalvados e de 
lormas extravagantes. 

Não pôde Ferreira Maia ver o resultado do seu projecto em 
execução, porque succumbiu á fadiga; e, infelizmente, como 
acontece a maior parte das vezes áquelles que do coração se 
dedicam a uma causa de que só tira proveito o paiz, — morreu, 
legando apenas a seus filhos um nome honrado. 

Para Loanda morreu aquelle prestimoso cidadão, mas não o 
seu projecto, pois encontrou quem o fizesse proseguir ; e asse^ 
gurâmos que no nosso regresso, quatro annos depois, a sua 
execução tinha grande incremento e as ruas da cidade baixa 
estavam limpas e nellas se continuava a ver o empedramento 
tantos annos soterrado. 

Acreditamos que ainda serão arrastadas algumas areias uas 



DESCRirçlO DA VIAGKM 71 

grandes enxurradas; mas nSo se dê a execução por concluida; 
contínue-se o projecto de Feireira Maia tal como elle o deixou 
planeado^ emquanto não for possível, com a protecção do Go- 
verno ou por meio de um empréstimo, fazer a verdadeira obra, 
que é levantar differentes audares com paredões de supportes, 
que possam vender-se ou arrendar-se, com o que a camará lu- 
crará bons rendimentos. 

Que se continue, pois, a cavar na vinha do Senhor, como 
diz o nobre Visconde de S. Januário, quando se trata de bene- 
ficios para as colónias, e alguma cousa se conseguirá. 

Um dos importantes e bem estudados projectos do enge- 
nheiro Raphael GorjSo era o aterro marginal, ligando a ponta 
de Isabel com a Alfandega, e o estabelecimento ali de uma 
ponte, á qual atracariam navios de alto bordo e d'onde a carga 
sairia para a Alfandega em carris assentes sobre esse novo 
aterro. 

Este projecto ia seguir-se, e já lá vimos uma ponto provisória 
para mais prompta descarga do material do caminho de ferro 
e da canalisaçSo das aguas da cidade. 

Estas duas obras, da máxima importância para a cidade, são 
dois immorredouros padrões de gloria para o illustrado Ministro 
que teve a iniciativa da sua execução, prendendo-se com elles 
ainda um terceiro, de não menos vulto — o da ligação da cidade 
com a capital da metrópole pelo cabo submarino. 

Estas três obras, só por si, bastariam para provar que a cidade 
de Loanda se levanta e não desmerece os créditos de terceira 
praça commercial portugueza; e se honram o Ministro que as 
iniciou, a ellas também fica vinculado o nome do distincto 
Governador Ferreira do Amaral, que, pela sua pertinaz insis- 
tência, conseguiu que taes melhoramentos fossem começados 
na SOA administração. 

Na cidade ha também uma rede telephonica, devida á inicia- 
tiva do mesmo Governador. Simpliliea-se assim o expediente 
tifBcial, e muito tem a ganhar o commcrcio e os habitantes em 
liarticular. Ultimamente, para evitar recados, sempre detur- 
pados pelos servos indigenas, havia necessidade de se escrever 



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72 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

para a mais pequena cousa, e nisso se gastava muito tempo c 
papel; emquanto que por este meio de communicaçSo — o tc- 
leplione — promptamentc se resalvam quaesquer duvidas. 

A construcçao do hospital Maria Pia levou tal impulso nos 
últimos tempos, que já o encontrámos recebendo doentes e nas 
melhores condições possiveis. 

Este estiibeiccimcnto colossal, bellamente situado quanto á 
sua exposição, está sob a direcçílo de um distincto quanto sym- 
pathicx) medico, Dr. Ramada Ciurto. Pela sua magnificência, 
pela distribuição e boa disposição dos seus alojamentos e repar- 
tições, com luxuosas mobilias, machinas, gazometros, lavan- 
deria, cozinhas, canalisação de aguas, hortas, jardins, emíim 
por todos os recursos essenciaes para a hygiene, serviço clinico 
e boa alimentação d(i que dispõe, rivalisa com um hospital de 
primeira ordem na Europa, c tem sido a admiração dos estran- 
geiros que o visitam. E um monumento da longa permanência, 
no Mini»t(TÍo dos Negócios do Ultramar, doesse vulto que para 
Portugal é uma gloria dos tempos modernos, — o ConselheiíH) 
João de Andrade Corvo. 

Foi um dia de regozijo para a cidade de Loanda o da inau- 
guração d^'Bte monumeiítal ediiicio do caridade. Por essa 
occasião não estiueceu ao benemérito Governador Ferreira do 
Amaral essa outra antiga instituição, também de caridade, que 
se tem mantido, cm lucta cora muitas difficuldades, á custa da 
iniciativa particular, a que se deve o seu estabelecimento. 
Referimo-nos ao Ai^ylo D. Pedro V, recolhimento onde as or- 
phãs de europeus c africanos teem encontrado o indispensável 
agasalho e educação, e que mereceu a protecção que, particu- 
larmente, o estimado Governador e sua chorada esposa lhe 
puderam dispensar. 

O que officialmente não era permittido ao philantropico ma- 
gistrado fazer suppria-o a magnanimidade d^esses dois boií- 
dosos corações, revelando-se era muitas esraolas e benefícios. 
A elles se deve a feliz lembrança de abrir naquelle dia um 
bazar, que produziu uma boa receita para a manutenção de 
tão pio recolhimento. 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 73 

As orphâs^ com os seus simples o asseados uniformes, fo- 
ram photographadas; e neste logar a gravura é um mudo 
apello aos poderes públicos^ para que concedam áquelle esta- 
belecimento uma dotaçFlo. que vá melhorar as suas circum- 
stancias, permittindo-lhe dar á instrucçHo que ali se ministra 
um desenvolvimento á altura das aspirações da cidade que o 
instituiu. 

 par doestes notáveis melhoramentos; não devemos esque- 
cer outroS; não menos dignos de se patentearem á Europa, para 
que se conheça o caracter progressivo e humanit<irio que todos 
elles revelam. 

As esplendidas officinas das obras publicas, a Escola profis- 
sional e o Observatório meteorológico, que já mencionámos, — 
obras e instituições que honram a expedição do obras publicas 
de 1877 — merecem sempre especial menção. 

As suas officinas, que de anno para anno teem tomado maior 
desenvolvimento pela acquisição de grandes e aperfeiçoadas 
machinas, já teem feito reparos importantes em navios nacio- 
naes e estrangeiros, e estão no caso de satisfazer ás exigências 
da agricultura moderna, e em pouco tempo não deixarão de 
attender a trabalhos de maior vulto. 

Creou-as, e tem-nas visto medrar, o intelligente e activo en- 
genheiro David Sarmento, um dos beneméritos d'aquella expe- 
dição, e a quem foi entregue a execução do projecto por elle 
elaborado, bem como a organisação da sua instituição, que abrange 
diversos officios. 

Muito seria para desejar que nellas fossem aproveitados dois 
recursos importantes da provincia, — ferro e carvão. 

Aqui tem a iniciativa particular onde bem coUocar capitães, 
e para os trabalhos não lhe faltarão braços baratos. 

As industrias em Angola mais ou menos teem sido ensaia- 
das com proveito, e se uma ou outra apenas tem vingado, c por- 
que lhe faltava então o apoio do Governo, com as providencias 
que só elle podia dispensar. 

Poderá, pois, exigir-se ao Governo que cmprehenda grandes 
trabalhos de deseccamento de pântanos e de irrigação em ex- 



74 EXPEDIÇÃO P0RTIK5UEZA AO MUATIÂNVUA 

tensos vallesy nas regiões em que apenas se encpntra uma ou 
outra povoação indigena que pouco ou nada produz? 

Só 08 esforços combinados do Governo e da iniciativa par- 
ticular poderão produzir salutares effeitos^ porque também 
não faltam provas de que pouco se tem conseguido com os 
trabalhos isolados de indivíduos emprehendedores^ luctadores 
que teem succumbido sem poderem vencer tão grandes obsta- 
culos; como são : a insalubridade do clima; a falta de braços, 
as estiagens, as grandes cheias, carência de soccorros médicos 
e outros. 

Presentemente não ha governo algum que se recuse a au- 
xiliar a iniciativa particular ou a encaminhá-la. 

As minas de ferro e carvão não estão muito distantes da 
linha fluvial do Cuanza, e o systema de viação Decanville, 
aproveitado, facilitará os transportes até lá. 

Desenganemo-nos. O preto não é um ente inútil, e bem diri- 
gido é um auxiliar poderoso nas industrias agrícola, mineira e 
fabril ; e não faltando na nossa província de Angola os recursos 
naturaes indispensáveis, é urgente aproveitar esses mananciaes 
de riquezas, sem os quaes não ha prosperidade que se possa 
sustentar. 

E no homem que está a principal força de qualquer paiz. 

Faltam apenas capitães, e esses não se devem esperar dos 
governos. 

Falíamos com conhecimento de causa, e no decorrer doeste 
nosso trabalho ver-se-ha que não somos exaggerados. 

Continuemos, porém, apreciando os melhoramentos da cidade 
de Loanda. 

Como complemento á instituição das officinas foi lembrada 
a escola de artes e officios, sob o titulo de Profissional. 

Aproveitaram-se as ruínas da extincta igreja do CoUegio dos 
jesuítas e terreno adjacente para a sua construcção. A rica ca- 
pella mór de mosaico, que um inglez em tempo propoz comprar 
ao Governo, devidamente restaurada, serviria de capella para 
a escola. Ao passo que tudo se preparava para se iniciar a 



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DESCRIPÇSO DA VIAGEM 7Õ 

construcçSo, uma commissão competente estudava o projecto 
doesta tão útil instituição. 

Os alumnos preparados ahi pelas liçSes theoricas, iriam me- 
lhor comprehendê-las praticando nas officinas e nas obras em 
construcçSo, emquanto que outros, nos casões dos corpos da 
capital^ trabalhariam em roupas e calçado para os seus compa- 
nheiros. A regeneração da povoação indigena tomava-se assim 
mais salutar, e proveitosa. 

Este isdificio ficou por concluir numa pequena parte, espe- 
rando opportunidade de maiores recursos ; e, na verdade, im- 
pressiona, não só que se não conclua, mas ainda que se não 
fíindasse uma instituição tão útil para a provincia, em que as 
creanças, recebendo a instrucção primaria a par da religiosa, 
adquirissem ao mesmo tempo a profissional junto de operários 
devidamente habilitados. 

Alais onerosa e inútil tem sido essa outra instituição supe- 
rior, com o pomposo titulo de Escola principal, em que se sup- 
poz poder ensinar ao indigena economia politica, francez, 
inglez, geographia e historia pátria, quando, na verdade, elle 
pouco sabe de instrucção primaria ; e o resultado tem sido des- 
ampararem os alumnos a escola logo em seguida ás matriculas. 

Em geral, o indigena africano precisa de um estimulo para 
«air da indolência em que o crearam, e esse estimulo, encon- 
trado na instrucção profissional tal como a comprehendêra a 
crommissZo que regulamentara essa nobre instituição, seria o 
a^nte mais efficaz de sua civilisação. 

Ahi encontraria elle boa alimentação e vestuário, e só isto era 
baifttante para o incitar ao trabalho; emquanto que na Escola 
príncijpal vê-se sujeito ás circumstancias da familia, se é que 
a tem, e como a instrucção o não favorece na occasião, fogo 
delia. 

Aasim o comprehendeu o pratico Governador Ferreira do 
Amaral, que mandou regressar o professor de economia politica 
á metrópole, e aproveitou parte do edificio da referida escola 
para uma aula de instrucção primaria. 

A existência do Observatório meteorolo^co não é hoje apenas 



76 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 

uma formalidade, como o foi até 1877. Está devidamente mon- 
tado, tendo como annexo um observatório magnético. 

A direcção d^ellc, confiada aos briosos e competentíssimos 
officiaes da nossa armada, acha-se em communicaçUo com o 
Director do Observatório meteorológico do Infante D. Luiz, 
em Lisboa. 

A elle recorrem já navios nacionaes e estrangeiros, para 
confronto de suas observações e verificação de chronometros. 

As publicações das suas multiplices observações fazem-se 
com regularidade ha dez annos, e d'ellas se podem tirar resul- 
tados muito proveitosos. 

A questão da climatologia de toda a região a leste de Loanda 
é importante e merece que se estude, pois do seu conheci- 
mento depende a melhor exploração doesse sertão. 

Não esqueçamos que foi ainda depois de 1880 que o porto 
de Loanda começou a ser illuminado; e trata-se já de collocar 
na ponta das Palmeirinhas um pharol de ferro, de luz não in- 
ferior ao do morro das Lagostas, que irá illuminar pelo sid a 
entrada do porto. 

A illimiinaçao do porto tem sido de grande proveito á na- 
vegação e ao commercio, pois até os nossos paquetes, acos- 
tumados á carreira, muitas vezes aguardavam as madrugadas 
para nelle entrarem. 

A linha telegraphica, também de iniciativa de Manuel Ra- 
phael Gorjão, e para cujo custeio o commercio concorre com 
o rendimento necessário, p5e Loanda em contacto com diver- 
sos pontos do Cuanza e concelhos internados a leste. Deve, 
comtudo, prolongar-se e ramificar-se, porque além de outras 
muitas vantagens servirá para ligar o observatório com os 
postos meteorológicos, que é indispensável crear pelo interior 
e dos quaes, por emquanto, se encarregariam de bom grado 
os agricultores ou negociantes europeus, munidos de instruc- 
ções, e que em seguida ás leituras dos seus instrumentos as 
enviariam logo pelo telegrapho ao observatório central. 

Tocámos ligeiramente, é certo, nos melhoramentos mais im- 
portantes de Loanda, mas embora, em resumo, devíamos con- 



DESCRIPÇÃO DA VIAGEM 77 

8Ígiiá-los aquiy para mostrarmos a injustiça com que nos tra- 
tam alguns estrangeiros, ousando affirmar que nada temos feito 
em prol das nossas terras de além-mar! 

Livingstone, que numa das suas viagens através da África 
veiu a Loanda, notava como digna de reparo a liberdade que 
observava nos deportados, a confiança que elles nos inspira- 
vam quando ali chegavam, pois que lhes entregávamos aguarda 
da fortaleza! 

Receava que elles, senhores de armas e pólvora, pudessem 
dar um ataque á cidade! 

Notava também as restricçOes da nossa Alfandega, pondo 
peias ao commercio estrangeiro, e que ainda fosse interdicto a 
qualquer estrangeiro a propriedade do solo! 

£ra verdadeiro Livingstone nas notas que tomava na sua 
interessante viagem através do continente, mas nem sempre 
as illaçSes que d'ellas tirou foram felizes. 

Com respeito aos deportados houve sempre a necessária 
vigilância, sendo certo que até hoje nao ha notícia de se ter 
dado o caso que elle receava. 

Nos últimos tempos, a deportação de sentenciados para 
Loanda tem sido assumpto de muita attençâo para governan- 
tes e governados, e o illustrado e nunca esquecido Rebello da 
Silva, de certo na esperança de que fosse reformado o nosso có- 
digo penal, havia decretado o estabelecimento das colónias 
penitenciarias de modo a aproveitarem-se as forças d'essa leva 
de criminosos que todos os mezes entravam em Loanda, ao 
mesmo tempo que pelo trabalho se contribuiria para regene- 
ração d'elle8. 

Na pratica apresentava diíBculdades a sua execução; comtudo, 
nos últimos annos algumas tentativas se fizeram nesse intuito, 
e para a colónia Esperançaj instituida ultimamente pelo bene- 
mérito Governador Amaral, vão sendo enviados os degredados 
qne da metrópole vccm chegando. O mesmo Governador tenta 
instituir no sul outra colónia d'este género. 

Quanto ás restricçSes, ó o próprio Livingstone que nos diz 
o motivo por que em 1845 as casas inglezas, que mantinham 



!■ 



I » 



78 EXPEDIÇÃO POETUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

rcIaçSes commerciaes em Loanda, se retrahiram. As ligaçSes^ 
que entfto havia com o Brasil, se por circumstancias de força 
maior foram prejudiciaes a essas casas, não o foram menos ás 
dos negociantes portuguezes. 

E tanto o commercio não encontrava ahi restricçSes, que 
Livingstone ficara surprehendido de ver em Loanda só um 
negociante inglcz, emquanto no paiz todas as trocas eram fei- 
tas com tecidos de algodSo das fabricas inglezas! 

Também ali, como em todas as nossas colónias, se permittiu 
aos estrangeiros a acquisiçâo de propriedades, ou de terrenos 
para as levantarem, e nas mesmas condições que aos portugue- 
zes, isto é, concessões gratuitas, e em tempo sem confronta- 
. ções — um dos males de taes concessões. 

Havia restricções para os navios? Mas qual é a nação que as 
nao tem tido? 

Leroy Beaulieu aponta, — perfeitamente discriminados em 
cinco classes, — os processos adoptados pela Inglaterra para res- 
tringir os movimentos do commercio das suas colónias, e nao 
certamente com o fim de prejudicá-las, mas sim de fazê-las 
prosperar, e foi só a pratica que mostrou a necessidade de as 
fazer cessar. 

Estas restricções diziam respeito: 

1.* A exportação dos productos das colónias que só devia 
fazer-s(í para a metrópole ; 

2.* A importação dos artigos de fabricação estrangeira nas 
' colónias; 

3.* A importação de productos provenientes de colónias es- 
trangeiras na metrópole ; 

4.* As que nâo permittiam o transporte de mercadorias, pro- 
venientes das colónias ou destinadas para ellas, senão era na- 
vios nacionaes ; 

f).* As que prohibiam ás colónias fabricarem os seus produ 
ctos brutos. 

E todas estas restricções tinham por movei o favor aos inte- 
resses da nação liberal por excellencia. 

líão a Livingstone, mas áquelles que ainda hoje argumen- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 79 

iam como elle e professam os seus principios a nosso respeito, 
recordaremos factos dos nossos dias, e digam-nos depois onde 
86 encontram mais restricçSes para estrangeiros. 

Na verdade, a Inglaterra nem sempre foi nossa amiga, prin- 
cipalmente tratando-se de questões coloniaes. 

Durante o anno de 1875 saiam nos seus vapores de Acra 
e portos próximos até ao da Serra Leoa, indigenas que quizes- 
sem emigrar para a ilha de S. Thomé; e vinham em tal 
estado de nudez, que o Governador da provincia exigiu ao 
consignatário portuguez que os vestisse para os poder desem- 
barcar. 

Nesse anno nSo houve peias a tal emigração. No anno se- 
guinte habilita-se um navio da casa Tarujo para o transporte 
de emigrantes, contratados nas mesmas condições e localidades ; 
o navio é aprisionado e a emigração prohibida, sob o pretexto 
de escravatura! 

Houve uma demanda que durou dois annos, se bem nos re- 
corda, mas a justiça estava do nosso lado e foram satisfeitas 
as indemnisações reclamadas com respeito á presa. 

Mas a ilha e os agricultores, foi quem sofireu com a mal 
entendida restricção, ao mesmo tempo que de Lourenço Mar- 
ques einhambane nós consentiamos que saissem emigrantes 
para as colónias ínglezas do sul. Natal e outras! 

Na mesma epocha deu-se o seguinte facto em Macau: 

Governava a província o Almirante Sérgio de Sousa (o falle- 
cido Visconde de Sérgio), e a vizinha cidade de Hong-Kong, 
pela sua imprensa, bradava contra a emigração chineza que 
se fazia, por Macau, para a America. Fazendo-se ella também 
por Hong-Kong, tratou aquclle governador de a regulamentar, 
tendo em vista o que se praticava ali. 

Ainda não ficou satisfeita aquella imprensa, e mais tarde o 
Governador Visconde de S. Januário, fez mais: determinou 
que se observassem os regulamentos adoptados em Hong- 
Kong ! 

Pois ainda isto não foi o bastante, por que vimos que o nobre 
Visconde suspendeu a saida dos colonos por Macau! 



! 
1 f - 



80 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUAT1ÍNVUA 



A consequência foi os vapores da carreira de Cantão e ou- 
\ ' » tros barcos, que faziam escala pelo nosso porto para Hong- 

Kong, virem carregados de emigrantes, que para lá seguem, e 
d'ahi vSo então nos vapores da carreira da America, no porão 
com ferros aos pés emquanto a terra está á vista! 

E querem os filhos da liberal Inglaterra maiores restricçSes 
do que as que temos apontado? 

Agora consideremos outra ordem de factos. 

As missSes do bispo americano Taylor estão disseminadas 
pelo interior da nossa provincia com prejuizo nosso; as fabricas 
de Manchester, prejudicando as nossas, lá vão espalhando os 
seus artefactos até aos pontos mais longinquos; os belgas, pre- 
judicando a industria das nossas lazarinas, mandam-uos por 
anno milhares de espingardas ; os exploradores scientifícos en- 
tram nas nossas províncias ultramarinas como em terras pró- 
prias, e mais, isentos dos direitos que paga o nosso commercio, 
e com 08 productos assim importados, vão concorrer nos con- 
celhos do interior; não ha colónia alguma nossa onde não se 
vejam estrangeiros estabelecidos nas mesmas condiçSes que os 
portuguezes, e livres dos encargos officiaes a que estes por lei 
são obrigados. 

Encontrarão, pois, os inglezes nas nossas colónias menos li- 
berdade de acção de que nas suas? Não acreditámos. 

Se ha quaesquer restricçoes para o commercio, tanto as 
sofFrem os estrangeiros como os nacionaes, e quanto á sua 
existência é isso devido a principies e tlieorias económicas, 
sobre os quaes até hoje a sciencia não disse a ultima palavra. 

Enganou-se, pois, Livingstone, e enganar-se-hão sempre, 
i por certo, todos os que se metterem a descrever qualquer 

paiz, sem ahi se demorarem o tempo indispensável para o 
estudarem. 

Mudam as circumstancias do commercio com as localidades, 
com as condições do clima e com os usos e costumes, e como 
se pode então apreciar um facto social ou económico sem se 
avaliar cada um dos factores que mais influem nos seus resul- 
tados? 
* 1 



f! 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 81 

Chega, finalmente, a hora de deixarmos a cidade de Loanda, 
a que nos ligam saudosas recordações. E opportuna a occasiâo 
de darmos conta das cartas retardadas que nesta cidade rece- 
bemos do negociante Custodio José de Sousa Machado, de 
Malanje. 

4 de abril de 1884. — Amigo e Sr. Major Henrique de Carvalho. — ^Foi- 
me muito agradável a prezadíssima carta de V. datada de 4 de fevereiro, 
e mais agradável me foi poder ver como Y. luctou e poude vencer tanta 
difficoldade. Muitos parabéns. ^ 

Meu irmão seguiu d'aqui cm dezembro com uma grande expedição 
para a Africa equatorial e sem passar pela mussumba do MuatUanvo, pois 
que, se tal fizesse, não lograria chegar aonde se deseja, que é a terra 
dos Cassungamenos. 

Devido a essa expedição, ha aqui agora uma falta enorme de carre- 
gadores para toda a parte, como aqui nunca se notou I Basta dizer, que 
para a expedição allemã, que aqui tenho, só pude arranjar por em quanto 
cem carregadores para o Lubuco, c não sei como se ha de arranjar o 
resto. E verdade que para a Mussumba, ponto já mais conhecido, talvez 
que seja mais fácil appareccrem ; no emtanto, só com a vinda de V. é 
que se ha de poder assentar no que for melhor. 

Aqui encontrará V. não o conforto que se pôde encontrar numa terra 
civilisada, mas um pobre e humilde tecto para o resguardar, e aos seus 
companheiros, das intempéries da estação ; mas pobre e humilde como é, 
é-lhe todavia franca e sinceramente offerecido com o maior prazer e 
satisfação. 

Ao dispor de V. fica quem com a mais subida estima e consideração 
é — De V. , etc. = Custodio J, de Sousa Machado, 

Malanje, 19 de maio de 1884. — ... Sr. Major Henrique de Carvalho. — 
Loanda. — Comquanto não tenha noticia da chegada de Y. , pela espe- 
rança que me deu na sua muito apreciada carta de 4 de abril, sou levado 
a crer, pelo seu conteúdo, que chegou \ e que chegasse de perfeita saúde 
é o que sinceramente estimo. 

Emquanto aos vários assumptos de que trata na sua citada carta, 
para cabalmente responder sobre tão vasto plano, era mister que eu dis- 
pozesHC de grande intelligcucia e de tempo, que não tenho ; mas quando 
Y. aqui chegar, então teremos muito tempo de conversar, não deixando 
da minha parte, sempre que me for possivel e o melhor que puder, de 
lhe fazer as indicações que mais convenham ao bom desempenho da sua 
espinhosissima commissão. 

No entretanto, pode Y. já ficar disposto, se admitte a minha sincera 



82 EXPEDIÇXO PORTDGUEZA AO MUATIÂNVUA 

franqueza, que Quimbundo é um ponto actualmente morto, nSo tendo 
já aqucUa importância commercial e politica que já teve ; além d'is80, 
para se ir por tal via, era dar-se uma derrota ao sul para descair depois 
para o norte, derrota a meu ver totalmente desnecessária, por nâo haver 
razões e interesses que a justifiquem. Passar por dentro de Cassanje 
é isso impossivel, porque os Bangalas não consentem a passagem dos eu- 
ropeus pelo seu território para o outro lado do Cuango; haja vista o 
que fizeram aos nossos illustres exploradores Capello e Ivens, para me 
dispensar de dizer mais. Para se passar pelo Loango, muito ao sul de 
Cassanje, que era o caminho que meu irmão levava para Quimbundo, é 
preciso ir-se preparado de modo a perder metade do que um commer- 
ciante leva, para pagar imaginários crimes, que elles phantasiam, só na 
mira de roubar o viandante. A vista, pois, do que com toda a verdade 
acabo de expor a Y. , e que me parece do seu interesse saber, o cami- 
nho que tem a seguir deve ser necessariamente o que levou agora meu 
irmão á frente da nossa expedição mercantil, que é : ir d'aqui direito a 
Cafuxi (Bondos), direito ao porto do rio Cuango entre os rios Luí, que 
ao norte separa a fronteira dos Bangalas (Cassanje), e o Luhanda, que 
ao sul separa a fronteira da nação do Holo, ficando entre estes dois rios 
um mixto de nações, todas independentes entre si, e a cuja região demar- 
cada entre esses dois indicados rios se dá o nome Mahari ou Cahari, 
cujo chefe, que dizem ser bastante poderoso, se chama Mueto-nguimbo, 
dono do porto da passagem no rio Cuango, situado abaixo alguns kilo- 
metros aonde o rio Luí conflue no Cuango. Este caminho é completa- 
mente novo, sendo meu irmão e mais um companheiro que levou, os pri- 
meiros europeus que passaram por tal via, segundo a aíhrmativa dos 
próprios naturaes. E ainda por este caminho por onde convenci o Te- 
nente Wissmann que devia seguir a expedição allemã de que é chefe, des- 
prezando assim a instrucção que trazia de ir direito ao Tembo-á-Lnma^ 
seguindo o trilho até ao Cuango que anteriormente tinha d'aqui levado 
o Major Mechow. 

O caminho, pois, que levou meu irmão com a nossa expedição, é ma- 
gnifico ; e quando V. o queira seguir também, parece-me, não terá que 
arrepender-se. E seguindo-o, terá do outro lado do Cuango a nação do 
Xinje, cujo povo é manso como os cordeiros. Doesta nação tomará V. 
o trilho que conduz ao Caungula, um potentado bastante poderoso, mas 
já subordinado ao Muafianvo. De Caungula, seguirá V. direito a Mus- 
sumba, capital da Lunda, e aonde reside o Muat'ianvo. 

O caminho &tè ao Cuango é bastante fértil de mantimentos para toda 
a comitiva, muito principalmente de gado vaccmn, suino, cabrum, etc. 

E preciso que V. saiba, que o Muafianvo tem por uso e costume 
receber tudo que o individuo leva para negocio, encarregando-se elle de 
mandar comprar marfim nos pontos aonde o ha, e como para esta gente 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 83 

O tempo nâo tem valor, os amios succedem-se ims aos outros, sem que 
cUe preste contas do que recebe ; e, como elle é o dono das suas terras, 
nâo havendo por isso a quem recorrer, o remédio já se vê, é esperar. 
Além d' isto nâo consente que europeu nenhimi passe além dos seus 
Estados. 

Acho ocioso encarecer a conveniência politica que ha na alliança da 
Lunda com Portugal : eu já o tenho demonstrado muitas vezes pela im- 
prensa, e ainda ao próprio Sr. Conselheiro Governador Geral, quando aqui 
esteve o anno passado ; mas é preciso muita prudência e tacto da nossa 
parte, e coadjuvá-lo, estimulando-o no seu valor (despótico aliás) contra 
08 invasores do sou território — os Quiocos — que lhe teem avassal- 
lado já uma grande parte dos seus melhores e mais poderosos feuda- 
tarios. Sobre tâo melindroso assumpto, só aqui, pessoalmente, teremos 
occasiâo de fallar; e por isso, e por falta de tempo, reservo-me para 
então. 

Emquanto a estações commerciacs eu vou estabelecer uma no porto 
do Cuango, mas na margem direita ; outra, logo que tenha um europeu 
de confiança, vou estabelece-la no Caungula, e outra no porto do Cassai, 
em Quicassa, que dá passagem para o Lubuco (Tu-Chilangues), para os 
Ma-cubas (Luquengo e outros pontos do norte para o Lualaba). 

Os exploradores allcmâes é que me teem impedido de ter mandado 
já o individuo encarregado da estação do Cuango, pois me pediram para 
que o nâo despachasse sem ser na sua comitiva, a que accedi por com- 
prazer. 

Estabelecidas as estações nos pontos que deixo indicados, teremos 
sem difficuldade communicaçoes escoteiras, rápidas e sem difficuldades 
com a Africa Central. 

Mas aonde é que hei de ir buscar pessoal de confiança que possa 
encarregar de fazer negocio, receber e despachar cargas e a correspon- 
dência de uns para outros pontos ? E isso que me tolhe de maior desenvol- 
vimento. Lançar mâo de ambaquistas ? E impossível, por serem elles os 
maiores ladroes, ao ponto de, quando nos nâo queremos deixar roubar 
por elles, seduzirem o gentio para nos roubar, a pretexto de um nada, 
apparentando para comnosco, e principalmente quando nâo conhecemos 
a lingua, o maior interesse em defesa da nossa causa. Creia Y. que 
nâo estou phantasiando, cstou-lhe expondo com franqueza os males de 
que tenho sido victima. Isto é uma gente que nâo precisa que os convi- 
dem a acompanhar-nos, porque elles sâo os próprios a encorporarem-se 
nas nossas comitivas; sâo elles ainda os verdadeiros ciganos da Africa, 
porque em toda a parte se encontram, nâo para nos auxiliar, mas para 
nos crear difliculdades. Mas também teem seu préstimo. Emquanto aos 
carregadores, já se poderiam ter pago alguns, se estivesse auctorisado, 
ou por outra, habilitado a fazê-lo, pois alguns teem apparecido. 



84 EXPEDIÇÃO POBTUQUEZA AO MUATIÂNVUA 

N2o acredite Y. que pagando-os d*aqai para um ponto qualquer do 
interior, que lhe é fácil poder depois obter os precisos para onde quizer ; 
é mister conservar os que teem de o acompanhar até Mussumba, e ali 
depois, fazer com elles novo ajuste, quer para cá, quer para o norte, 
quer para o sul, quando eUes queiram continuar ao serviço de Y. É por 
isso, que quero, além do interesse commercial, estabelecer a estação 
commercial na margem direita do Cuango, porque sendo os Ma-Chinjes 
um povo dócil, desejo costumal-os a transportarem cargas de lá para 
aqui, e de lá para o Caungula e Cassai ; porque do outro lado do Cassai já 
estão 08 Tu-Chinlangues que se prestam ao carreto de pequenas cargas, 
por ser gente muito fraca, mas iguahnente dócil. 

Muito mais longe me levaria o conteúdo da muito apreciada carta 
de Y. , mas escasseia-me o tempo, e por isso me reservo para quando 
Y. chegar. Todavia ahi ficam os principaes pontos que offereço á apre- 
ciação de Y. para d'elles eolher o que possa julgar aproveitável, se de 
aproveitável achar algimia cousa. 

O que peço a Y. é que não leve á conta de abuso da sua extrema 
bondade o ter-lhe roubado, com tâo estéril massada, o mais precioso do 
seu tempo. No mais, creia ao seu dispor quem com toda a estima e con.- 
sideraç&o se subscreve — De Y. , etc. = Custodio <7. de Sousa Machado. 

Repetiam-se as visitas e os affectuosos comprimentos; dese- 
javam-se as mais felizes horas através de todo esse sertão que 
Íamos percorrer, e, com satisfação o dizemos aqui, todos mos- 
travam o mais vivo interesse em que obtivéssemos resultados 
essencialmente práticos. 

Urgia, porém, partir, mas não o devíamos fazer sem dirigir 
a S. Ex.* o Ministro, neste momento, um olficio por intermédio 
do governo da província, dando conta de que a Expedição se- 
guia para o seu destino. 

Esse officio é o seguinte: 

ni."® e Ex."° Sr. — Que poderei eu dizer a Y. Ex.* com respeito á via- 
gem de Lisboa aLoanda, que não seja muito conhecido? No emtanto, pelo 
que respeita á Expedição, é forçoso confessar que, em todos os portos 
ondiB o paquete fundeou, foram bem lisonjeiras as demonstrações que 
tanto eu como meu collega recebemos das auctoridades superiores e de 
alguns dos seus habitantes. Estas demonstrações, bem o sabemos, todas 
vão recair no Ministro que levou por deante um projecto que, se estava 
na mente de muitos, deve a elle a remoção das difficuldades para se em- 
prehender a sua realisação. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 85 

Na noite de 30 do mez passado fundeámos em frente doesta cidade, e 
pouco depois, pelos cavalheiros que foram a bordo, soubemos ser espe- 
rada a Expedição, sendo-nos em três casas particulares offerecida hos- 
pitalidade, que nâo pudemos acceitar, por nos ser conveniente tomar 
quartos numa hospedaria próximo á Alfandega, e ser preciso também 
estarmos um pouco isolados para continuarmos os trabalhos prepara- 
tórios encetados em Lisboa. 

Desembarcámos na manhã de 31, e nesse dia fomos comprimentar, 
como era do nosso dever, S. Ex.» o Governador Geral da provincia, o 
qual desde logo nos dispensou toda a coadjuvação official para que a Ex- 
pedição não encontrasse diíficuldade, nem o mais pequeno estorvo nos 
seus primeiros passos ao dirigir-se a Malanje. 

Tendo conhecimento que o Missionário A. Castanheira Nunes enten- 
dia dever propor condições para se lhe garantir um futuro, ou á sua fa- 
milia, caso morresse no serviço da Expedição, convidei-o a declarar-me 
qual era a sua definitiva resolução. Allegou : a sua avançada idade, 
longa carreira no funccionalismo doesta provincia, parte em pontos mais 
ou menos internados, em que prestara serviços que, segundo elle, não 
tiveram a devida remuneração ; a demora na confirmação da nomeação 
de professor da escola principal doesta cidade, cargo em que apenas lhe 
faltavam três mezes de serviço para completar o prazo em que por lei 
lhe deveria ser dada a aposentação; o receio de preterir os seus direitos 
a essa aposentação pelo facto de acceitar o penoso encargo de Missio- 
nário da Expedição, não obstante ser esta, por certo, commissão por elle 
reconhecida de máxima importância para o paiz ; e finalmente o sacri- 
fício dos interesses que hoje disfructa em Loanda, onde vive com a com- 
modidade, que a sua idade e longa permanência em Africa requerem, 
e que não era compensado pela pequena gratificação mensal que lhe fora 
arbitrada. Foram estas as principaes razões que muito influíram no seu 
animo, para ainda que a seu pesar, deixar de fazer parte da Expedição, 
a não ser que o Governo de Sua Magestade se dignasse acceitar as con- 
dições que elle apresentava. 

Era tarde — foi a minha resposta. E não devendo nem podendo demorar 
a Expedição, que não posso ainda dizer a V. Ex." quando sairá de Malanje, 
deliberei partir para o Dondo no vapor da companhia, que se diz deve 
largar do porto amanhã, aguardando no emtanto quaesquer determina- 
ções de S. Ex." o Governador Geral. 

Pelas cartas que hontem recebi do negociante Custodio Machado, de 
Malanje, sei que a Expedição allemã, sob a direcção do Tenente R. Wiss- 
mann, tem encontrado ali grandes difficuldades para organisar o seu pes- 
soal de carregadores. Verdade é que ha sempre taes difficuldades quando 
se trata de explorações para o norte ; e, no dizer do mesmo negociante, 
parece haver toda a probabilidade de que a nossa Expedição seja mais 



86 EXPEDIÇXO PORTOGUEZA AO MUATIAnVUA 

feliz, porque tanto os povos de Malanje como os de Sanza e Ambaca, e 
carregadores que regressam nesta epocha do serviço de transporte de 
Dondo a Cazengo, se prestam a ir áa terras do Muatiânvua, onde este 
e outros, seus immediatos, lhes facilitam a ligação com mulheres de seus 
povoados a troco de presentes. Essa região, na linguagem fluente e ele- 
gante do Dr. Max BUchner é por esse facto o Eldorado doestes povoS) e 
mui principalmente dos interpretes e ambaquistas. 

Mas nSo obstante esta minha bem fundada esperança, repito, nSo me 
é dado por emquanto calcular o tempo que a Expedição se demorará em 
Malanje ; e, como seja certo que tenha de estacionar antes do Cuaxigo, 
não procurei nesta província quem quizesse substituir o referido líissio* 
nario, aguardando que V. £x.* resolva que á Expedição venha aggre- 
gar-se o sacerdote que cm Lisboa solicitara de V. Ex." fazer parte da 
mesma, e que se promptiíicava a residir na Estação que lhe fosse indi- 
cada, apenas com os vencimentos designados pela lei que creou as Esta- 
çues Civilisadoras. 

Se este Missionário já não encontrar a Expedição em Malanje, tudo 
fica prevenido para se facilitar o seu transporte até encontrá-la. 

Do que se requisitiira no paquete anterior á Direcção das obras publi- 
cas d'e8ta província para o serviço da Expedição apenas se conseguiu 
obter, mandando-se-lhes fazer os devidos reparos, barracas, mesas por- 
táteis, cinco carabinas Winchester com três mil cargas, e alguns artigos 
para a secção photographica. 

IS. Ex.* o Governador auctorisou a compra de camas, redes, macas, can- 
tinas e ainda de oito bois de monta. 

Pelo orçamento, approvado por V. Ex.», deviam acompanhar-me de 
Loanda para o interior mais três empregados subalternos europeus, o 
que importava em 60;^000 róis meusaes, fora rações; porém, tendo-se-me 
apresentado aqui, para fazerem parte da nossa Expedição, uns trinta in- 
dígenas, de mim conhecidos por haverem trabalhado sob a minha direc- 
ção nas construcçõ(ís a meu cargo quando fíz parte das obras publicas 
nesta cidade, de entre ellcs escolhi doze dos mais robustos, e com aucto- 
risação de S. Ex.* o Governador foram contratados na Administração do 
concelho, de modo que, para o tempo calculado, dois annos, ha uma diffe- 
reuça a favor de 126^5000 réis. 

Estes homens teem famílias em Loanda, estão já costumados aos usos 
europeus, e faliam mais ou menos portugucz ; dois d'elles, os mais velhos, 
foram carregadores de maxilas durante perto de quatro annos que estive 
em Loanda, e offerecem-nos garantia de que serão bons vigias das car- 
gas, que hão de procurar mais agradar-nos que ao gentio, e finalmente 
que não nos abandonarão com receio de serem deportados para Moçam- 
bique ou para a Guiné. 

Além disto, como não é possível díspensarem-se mais que trinta sol- 



DESCBIPÇXO DA VUGEM 87 

dados indígenas, e é incerto poder obter- se este numero entre voluntários, 
aquelles, armados como estes, augmcntarão a nossa força policial armada, 
e assim se infundirá mais respeito ao gentio. 

Sobre os pombos -correios, devo dizer a V. Ex." que chegaram bem, e 
que deixo nesta cidade quatro casaes para dois pombaes, um no palácio 
do Governo e outro a cargo do Director das obras publicas, a quem dei- 
xei as competentes instrucções. Os restantes seis são para o pombal em 
Malanje, e espero que o negociante Custodio Machado d^elle tome conta. 

Como no próximo paquete espero cheguem as cargas dos diversos 
volumes do commercio do Porto, que não chegaram a Lisboa a tempo de 
virem comnosco, pedi a 8. Ex.* o Governador se dignasse providenciar 
para que me fossem remettidos para Malanje. 

Nâo tendo sido calculada a verba a dispender com transportes, e 
variando estes de concelho para concelho, a S. Ex." o Governador soli- 
citei que elles fossem fornecidos pelos Chefes e pagas as despesas pela 
Ex."* Junta de Fazenda; ao que S. Ex.* annuiu promptamente, estando 
aquella prevenida para, sem hesitação, proporcionar todos os meios de 
que lhe é dado dispor para o rápido progresso da Expedição. 

A Expedição, devendo partir amanhã para o interior, despede-se de 
y. Ex.*, fazendo votos para que lhe seja possível corresponder sempre á 
confiança que V. Ex.» nella depositou. 

Deus guarde a V. Ex.* Loanda, 9 de julho de 1884. —Hl.»* e Ex."® Sr. 
Conselheiro Ministro e Secretario d'Estado do» Negócios da Marinha e 
Ultramar. = O chefe da expedição, Henrique Augusto Dioê de Carvalho. 

Chegara a hora de embarcar no vapor Serpa Pinto, que 
estava atracado ao cães da companhia^ aguardando os passa- 
geiros e recebendo ainda as ultimas cargas da Expedição. 

Nâo nos sendo possível acceitar todos os convites que tive- 
mos, nem tão pouco o do Governador Ferreira do Amaral, que 
demais a mais era commemorativo do seu anniversario, — faltas 
estas que só podem ser attribuidas ao pouco tempo de que po- 
diamos dispor, — aqui consignámos o nosso reconhecimento 
para com todos os que nos deram tantos testemunhos de defe- 
rência. 

Os contratados iam comparecendo a pouco e pouco no cães, 
todos mais ou menos alegres, e dois já muito embriagados, o 
que é para desculpar, pois entre elles e seus parentes e amigo 
se travaram durante o dia acaloradas discussões, acerca das 
probabilidades do regresso, porque os perigos eram muitos 



88 EXPEDIÇXO POnTDfiUEZA AO MUATIÂNVUA 

noB terras do gentio bravo, em que se cortavam ns cabeças 
da gente e se comia a sua carne. Diziam-Ihes também que o 
Major os fizera soldados, e elles agora já níío podiam largar 
a praça e liaviam de ir para a Guiné, para Moçambique, oa 
para onde ello qnizesse. 

Um dos embriagados chorava a valer, porque, eegondn elle, 
Ibe haviam roubado a roupa que comprara para a TÍagem, 
que a tiuham levado para o Terreiro Publico e este estava 
agora fechado ! 

Era tâo incomprchensivel o que o homem dizia, que o Chefe 
o conveueeu a ir deitar-se para bordo, ficando de dar provi- 
dencias no dia seguinte; e elle foi, certamente sem conscíen- 1 
cia do lugar onde estava, e lá adormeceu. 

Dados os últimos abraços aos amigos que nos acompanha- 
ram, entrámos á meia noite no vapor, onde já, sobre a tolda, ' 
umas camas de campanha de bastante uso e cobertas por ordi- 
nários mosquiteiros estavão promptas ; uctlas nos deitámos fati- J 
gados das fainas do dia, acordando de madrugada quando o I 
vapor se fazia ao largo para dar volta á ilha, pelo norte, ej 
seguir o sen rumo para a bocca do Cuanza. 




pesceipçao da viagem 



NO CUANZA 




vapor Serpa Pinto, visto do 
exterior, é um bonito barco, 
tem bom andamento, mas infe- 
lizmente é só de carga e sem 
condiçSes que o recommendem 
para navegar numa regiSo tro- 
pical. 

Quando se argumenta que em 
cerca de quarenta toras este va- 
por chega ao terminut da sua 
carreira — Dondo — e que uma 
noite se passa bem, responde- 
mos que na maior parte das via- 
gens nilo Buccede assim; mas 
ainda que succeda, gastam-se 
lOjflOOOréis por dia, o que é carol 
Nos vapores da companbia do Cuanza aò se faz distiacçSo 
de duas classes. Ã superior díffere da inferior em a primeira 
ter comida e a outra nSo; em nos offerecer, para nos deitar- 
mos, as taes camas de campanha sobre o convez, emquanto 
que na inferior serve do leito o próprio convez; em propor- 
cionar uma bacia e uma toalha para os passageiros mais abo- 
nados, e aos demais apenas uma celha. 

For taes commodidades paga o passageiro de primeira classe 
10,9000 réis, e o da segunda 5,9000_réis I 



^m^ 



90 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

Ora devemos confessar que tudo isto é exhorbitante^ e que 
se por qualquer circumstancia; o que succede muitas vezes^ a 
viagem se prolonga até cinco ou mais diaS; toma-se um mar- 
tyrio para os passageiros de 1/ classe pelos incommodos; falta 
de asseio e mau passadio ; e para os da inferior pelo que ainda 
é peor — a fome! 

Commanda o vapor António de Sousa (vulgo, Carapau)/ um 
d'estes homens que indicam logo ser o que nós chamamos — 
homem do mar, e que, não obstante procurar ser agradável aos 
passageiros, tem o seu feitio especial — um homem de mar com 
todas as suas birras e preconceitos! 

NSo é d^aquelles supersticiosos, como conhecemos muitos, e 
de uma devoção provada por qualquer imagem em que se re- 
presente uma das phases de provaçSo da mãe de Christo ; mas 
por isso mesmo, talvez, é pouco condescendente, e muito cioso 
no seu commando : o que na nossa viagem se revelou e pelo 
que mais perdeu a Companhia do que interessou, como eram 
os seus desejos. 

Os contractados em Loanda, aportando o vapor na Muxima, 
como fossem devotos da imagem de Nossa Senhora que ahi se 
venera, traziam já de Loanda vassouras, para varrer a capella 
e velas de cera e ainda outras cousas para depositarem aos 
pés d^aquella tão afamada imagem, implorando- lhe uma boa 
viagem até á Mussumba e que os livrasse de perigos e grandes 
trabalhos, e pcrmittisse que regressassem todos com saúde. 

Seria apenas uma questão de meia hora de demora, por- 
que a igreja fica próxima ao cães a que o vapor atracou. 

Pois o capitão não annuiu ao pedido, por que queria adeantar 
a carreira com receio que lhes faltasse agua no Dondo. 

A questão, repetimos, era apenas de meia hora! 

O vapor seguiu, e meia hora depois encalhou, e só pôde sa- 
far-se passadas três, tomando a encalhar na manhã seguinte, 
para só ao sol posto, e depois de muito fatigada a tripulação, 
continuar a navegar. 

Mencionámos este facto, porque mais tarde teremos de fazer 
allúsão a elle. 



DESCBIPÇXO DA VIAGEM 91 

Passámos a barra cerca das oito horas e sem que o sentís- 
semos, o que não é vulgar; e pouco depois entravamos na 
enseada, á nossa esquerda, onde estSo fundeados os velhos 
vaípores da companhia. 

O Cuanza corre neste logar, fazendo grandes curvas, ora para 
o norte, ora para o sul, e perdendo já muito da sua velocidade, 
porque se vae estendendo pelas margens entre essa prodigiosa 
vegetaçSo, por onde passam hoje embarcaçSes pequenas. 

E é assim que sobre as margens e nas planícies que lhes 
ficam próximas, nas epochas das seccas fica estagnada muita 
agua, que não pôde ir na corrente, formando-se entSo largas 
Buperfifiies encharcadas, d'onde emanam os effluvios paludosos 
que tantas vidas teem ceifado, e contra os quaes não se teem 
empregado ainda as grandes obras de arte, já com o intuito de 
melhorar as condições de salubridade da região, já com o fim 
de conquistar para a agricultura muitos hectares de magnifico 
solo hoje absolutamente desaproveitados. 

A regularisação das margens do rio Cuanza imp8e-se como 
uma das obras mais necessárias e mais productivas. 

Os bongues ^, feitos para o resguardo das plantaçSes da fa- 
zenda Santa Cruz, são d^isto uma prova bem patente. 

Este rio, que tem sido a admiração de nacíonaes e estran- 
geiros pela deslumbrante vegetação de suas margens e limpidez 
das suas aguas, contribuiu de um modo importantissimo para 
as conquistas em Angola, pois por elle se fazia a passagem para 
Massangano, sede heróica das operações militares, e onde 
ainda se conserva como monumento essa antiga fortaleza que 
domina o rio, e que por isso mesmo bem digna é de ser con- 
servada para ensinamento ás gerações futuras. 

O publicista Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, que nos últimos 
tempos mais tem escripto sobre a nossa A&ica, nos seus Estu- 
dos medico-tropicaes, encarando este rio sob variados aspectos, 
além das impressões e considerações da sua especialidade, 



> Defesas feitas de terra e canniço para resguardo dos terrenos mar- 
ginaes onde se fizeram plantações. 




EXPEDIÇÍO POBTUOnEZA AO MUATIÂNVOA 

compendiou tudo quanta d'elle se tem escripto, nEo só pelo 
que reepeita á geographia e flora das suas margens e á sus 
navegação, acompanlmnclo as suas reflexSes com factos histó- 




ricos que se acham espalhados em diversas obras, roteiros 
deserípçSes e docuraentoa officiaea, mas ainda o estudou como 
via eommercial*. 



1 AoB que se iatereasoin pelo que teinoa em Africs 
a leitura d'esta interessante publicatSo. 



UESCKlP^rAO DA VIAGUM 



O Dr. Ferreira Ribeiro descreve o rio Cuanza sob a impres- 
BHO de que a Expedição doa estudos do caminlio de ferro de Ara- 
baca, do que fez partL- ciiuio medico, trabalhava com o fito do 
que a via férrea devia partir de Oeiras, com o que a linha 
fiuvíal tudo tinha a lucrar. 

Mas hoje, que o traçado começou de Loauda, Beguiudo-ae um 
projecto diverso do que primitivamente se tinha em vista, que 
aiosta a via férrea de»te rio, volveremoã & primitiva navegação 
gentílica em canoas de um eij pau? 

Deixaremos que o rÍo se entulhe e mais ae complique re- 




I de Buas aguas, ou que estas procurem novas saidos? 
1 grande erro sob qualquer ponto de vista, princí- 
j politico. 
uta lembrar que, ainda o anno passado, era uma imprete- 
rível necessidade que todos os passageiros do vapor da ear- 
I reira se armassem e fizessem fogo contra o gentio da margem 
esquerda para o forçar a recuar, arrependido da sua ousadia 
em atacar as embarcações que tinham de navegar por ali. 

Estando fatalmente condemnada a carreira do uavegaçâo 
a vapor, nBo serão as pequenas emliarcaçÕea do vela ou a 
remoa que poderão resistir ao gentio da margem esquerda, e 



í • 



94 EXPEDIçlO POBTUOOEZA AO MUATIANVUA 

O que succederá é ficar esse gentio senhor do rio, e d'ahi os ata- 
ques á margem opposta e ás povoações que elle banha. 

Voltaremos, pois, aos antigos tempos? 

E quanto não nos custará depois, se quizermos adquirir o 
que hoje formos perdendo? 

Nâo será só dos Quissamas que teremos a recear agressões 
e ataques á propriedade. Os Libolos e Baílundas, mais para 
leste, aproveitarão da pilhagem, porque teem contas a ajustar 
com Bângalas e Bondos, e os únicos a perder seremos nós, 
porque os indigenas crêem que nas casas de commercio está 
depositada maior porção de pólvora, armas e fazendas, do que 
na realidade ali existe. 

Os poderes públicos, de certo, pensarão nas providencias a 
tomar desde já, a fim de se evitarem essas grandes e novas 
complicações na futura administração da provincia. 

É preciso pois conservar para a navegação o rio Cuanza, 
melhorando-se-lhe o regimen, e fazendo na sua barra as obras 
que foram recommendadas pelo distincto engenheiro Arnaldo 
de Novaes. 

O Dondo, deixando de ser o entreposto commercial dos sertões 
de leste, não pode, só por si, nem as povoações do littoral, cus- 
tear as despesas de uma companhia de navegação, e assim 
torna-se indispensável que o Governo pense já em estabelecer 
policia naquelle rio, preparando vapores apropriados que, re- 
cebendo algumas cargas e passageiros, poderão auferindo recei- 
tas ao menos para o custeio do carvão, servir o commercio, 
que não deixará de se fazer entre o Dondo e povos vizinhos 
do Libolo, e outros sertanejos e os agricultores das margens 
do Cuanza. 

Deve mesmo tratar-se da exploração do carvão de Cambambe, 
e aproveitar se, quando mais não seja, em proporção equi- 
valente ao que tenha de importar-sc para o consumo d^esses 
vapores. E ainda mais se pode diminuir o custeamento da 
navegação, quando se colloque no leito do rio um cabo raetal- 
lico, como o que se estabeleceu no nosso Douro, para reboque 
dos vapores, do que resultará uma economia de 25 por cento 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 95 

na despesa do carvão; melhoramento este de tão grande im- 
portância que, ha seis annos; houve quem pedisse o privile- 
gio; quando pudesse haver um accordo com a actual companhia 
do Cuanza. 

Acreditámos que não foi bem comprehendido o pedido, por- 
quanto no Douro tem o referido cabo oflFerecido vantagens á 
navegação. 

Mas prosigamos na nossa viagem. 

O vapor Serpa Pinto não se demorou em Muxima, como 
dissemos, apesar de ahi receber um passageiro para Massan- 
gano, e seguiu para o Cunga, onde atracou ao cães, permane- 
cendo ahi por algumas horas. 

Aqui éramos esperados por João Rebello, antigo agente da 
casa ingleza, a quem conveiu a farda de capitão de segunda 
linha para incutir mais respeito ao gentio, com o qual tem de 
lidar diariamente. 

Rebello tem creado nome pelas âuas fructuosas caçadas ao 
jacaré, que elle sabe artisticamente preparar para os museus, 
devendo nacionaes e estrangeiros á sua amabilidade os exem- 
plares que possuem. 

Os contractados de Loanda, em razão das boas e antigas 
relações do chefe da Expedição com João Rebello, a este 
se lamentaram da contrariedade que sentiam e da situação em 
que os coUocára o commandante do vapor, não lhes permittindo 
que fossem a Muxima levar as suas offerendas a Nossa Senhora. 
Sempre de coração bondoso, ouviu com attenção a queixa dos 
pobres rapazes, e immediatamente se promptiíicou elle mesmo 
a ir na manhã seguinte, á outra banda do rio, satisfazer esse 
compromisso religioso, o que os interessados com mostras.de 
intimo regosijo muito agradeceram. 

E de passagem seja-nos permittido observar, posto que de 
simples intuição, que entre todos os povos, mas mais espe- 
cialmente com a gente da raça negra, é da máxima impor- 
tância, para quem carece do seu auxilio no desempenho de 
qualquer empreza, manter-lhe sempre o espirito num certo 
grau de animação, e não lhe deixar perder a força moral pois 



96 EXPEDIÇÃO PORTDQUEZA AO UITATIINVUA 

que do coatrarío, o bom êxito d'eesa empreza pode ficar seria-' 
mente compromettido. 

à casa que Joiío Rebello dirige, no Ctumza, é uma das mais 
importauteB da companhia ingleza, Newton & Camigie, e todo 
o seu negocio é feito, pode dizer-se, com o gentio. 




DKUCRIPÇAO DA VIAGEJl 



EM MASSANGANO 



Seguindo vJagDiu fomoa fundear em 
frente do porto de Maasangano. Pena- 
liaou-noa deveras o estado em que en- 
contrámoB o presidio e aqudia villa de 
Ijinta nomeada, enjoa fiindamentoa fo- 
ram lançados em 1581 por 
Paulo Dias de Novaes. 

Kra ali que os noasOB va- 
lentes antepassados iam des- 
cansar das fadigosas corre- 
rias ao gentio e sustentavam 
tom as armaa na 
mito a defesa de 
tilo importante 

posto. 

Neate ponto, e 
([iiasi por favor 
da administração 
provincial, man- 
tem-se um che- 
fe do vasto con- 
celho d'aquelle 
nome, o nove 
\ soldados de pri- 
ira linha, se 
tanto, para ga- 
rantirem a nossa 
; iiuctoridade e a 
' nossa soberania! 
A curioaidado e tiediuuçào dõ nosso collega Sertório de 
Aguiar, se deve a gravura representando a parte principal da 




98 EXPEDIÇIO PORTUOUEZA AO MUÁTIÂKynA 



povoaçllo gentílica e um baptisado no mato, ceremonia antíga 
em todo o sertSo onde chega a alçada dos sacerdotes n'elle 
espalhados. 

SSo esplendidos os palmares que orlam todo o rio Lucala, 
principalmente junto á sua foz^ sendo os terrenos ali muito 
férteis. 

Uma bem dirigida exploraçSo das minas de ferro, que abun- 
dam em todos estes matos, dava a receita indispensável para 
conservar a fortaleza, ao menos como monumento, melhorar 
as condiçSes sanitárias da villa e o seu porto, d'onde outr'ora 
saiam promptas as galés para a policia da costa. 

Custa a crer que uma regifto tão productiva e bellamente 
situada entre a confluência do Cuanza e Lucala chegasse ao 
abatimento em que hoje se vê*. 

De certo, os seus primeiros povoadores europeus deviam ter 
ahi deixado vestígios da sua passagem ! Onde estão estes? 

O emmaranhado da floresta, onde ha em verdade arvores 
cujas madeiras teem grande valor ; o estado lastimoso da po- 
voação, que pouco difFere das mais selvagens que se vêem 
pelo sertão ; a falta dos recursos mais indispensáveis ; a vaga- 
bundagem do povo, tudo, emfim, nos faz suppor que, se algum 
europeu aqui trabalhou, toda a sua obra, toda a sua influencia 
se extinguiu. E certo, comtudo, que num rápido exame se re- 
conhecem as boas condiçSes naturaes da região para uma pro- 
mettedora empresa extractiva. 

Como centro agrícola e como ponto estratégico a villa de 
Massangano pode oíFerecer as mais largas vantagens e prestar 
os melhores serviços, se a quizermos aproveitar. 

Não se deve esquecer, porém, que o seu terreno é palustre 
e que a natureza tropical domina ali como soberana. 

Assim cogitando, encostados á amurada do vapor, iamos 
vendo desapparecer á nossa vista a bandeira portugueza, que 
lá estava tremulando acima das ameias da fortaleza. 



1 Á confluência de dois rios chamam os indipenas massangano (ma- 
sagano); é portanto d* aqui que vciu o nome que dêmos ao concelho. 



DESCIlIPçXo DA VIAGEM 




pocha era das penres para 
navegar a vapor no Cuanza, 
porque O rio levava poucas 
a^iias c estávamos arriscadoa a 
não aporlar ao Doudo. Ob en- 
(■alliea que se repetiam e ob 
r''eL'ios de outros fizeram atra- 
car o andaniontii do barco, e 
pur isso a custo se conseguiu 
c-liegar áquelle porto no dia IT), 
ik^poia de já estir de todo cer- 
_ ^ rada a noite, quando com rae- 
\T^ Ihor tempo tor-Be-ia fimdeado 
no dia 12. 

Na madrugada de 16, o representnnte da firma Bensaudo 
& C* vciu a bordo buscar-nos para sua casa; e pava os seus 
esplendidos urmazc-us foram conduzidas as caritas sob a vigi- 
^ Uacia dos contracCailos. 

A Expedição aproveita o ensejo para declarar que encontrou 
I «empre o mais fraueo auxilio nesta casa, quer em Lisboa, quer 
I Loauda c no Dfmdn. Pelas recommendaçSefl do Sr, Abra- 
I hani Bensaude foi tratada de uma forma que nunca poderemos 
r esquecer, não 8(5 nos casos em que foi prociao recorrer no seu 
* eredíto, maa ainda quando cila se utilÍBou da sua rasgada hos- 
f pitalidade. 



100 EXPEDIçlO POBTUOUEZA AO MUATIÂNVUA 

A Expedição tratou logo de aproveitar o tempo em relacio- 
nar tudo que existia^ e reduzir os volumes ás proporções con- 
venientes para poderem ser transportados pelos carregadores ; 
e, ao mesmo tempo, ia fazendo distribuição de armamento^ cor- 
reame, muniçSeS; instrumentos, utensilios, e arejando as boas 
roupas que levava para presentes. 

No emtanto, fazia-se ahi acquisiçlo de contaria, missangas, 
sal e outros artigos, julgados indispensáveis para quem viaja 
entre o gentio. 

Havia-nos encarregado o sr. Eduardo Augusto dos Santos, 
negociante da cidade do Porto, de tornarmos conhecido o seu 
vinho coníiando-nos, doze caixas, para ensaio. A um acredi- 
tado negociante nesta villa o entregámos para tal fim pelo 
preço da factura. 

E certo que saindo elle á razão de 400 réis cada garrafa, 
pouco mais ou menos, se vendeu na mesma noite a razSo de 
1^000 réis, e quem o provava achava-o excellente, afiançan- 
do-nos alguns negociantes que d^elle mandariam vir maior 
porção. 

Era mais imi encargo do commercio do Porto de que nos 
desobrigávamos, e segundo nos pareceu com bons auspicies. 

Não nos podia passar indifferente o movimento commercial 
do Dondo e por isso lhe prestávamos toda a nossa attenção. 

Estava animado o commercio, com respeito ás boas colhei- 
tas de café de Cazengo, muito do qual tinha estado armaze- 
nado nas fazendas dois e três annos, e aproveitava-se a aíHuencia 
de carregadores que appareeia nesta quadra, sendo conve- 
nientissimo manter-se até onde fosse possivel essa affluencia. 
Não podíamos, pois, esperar o retorno d'estes para nos inter- 
narmos. 

Mas como a corrente principal era para Cazengo, e ao com- 
mercio convinha aproveitar os retornos para ali, cedeu-nos as 
suas comitivas para não voltarem sem cargas ; e, logo que d^isto 
nos inteirámos, telegraphámos para o nosso antigo amigo e 
camarada, o chefe de Cazengo em Caculo, actualmente Major 
em Loanda, commandante de um dos corpos de caçadores, 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 101 

Lourenço Justiniano Padrel, perguntando-lhe se seria possível 
angariar ali carregadores para Malanje^ e elle immediatamente 
nos deu uma resposta favorável e ofFereceu-nos hospitalidade 
em sua casa. 

Fácil foi encontrarmos um negociante que se encarregasse 
de enviar todas as cargas para Cazengo. 

A este tempo appareceu-nos uma comitiva de trinta e um car- 
regadores, gente do Lombe, que devia regressar a Malanje sem 
fretes, e por isso os contractámos para o pessoal, bagagens e 
cargas mais indispensáveis, devendo-nos transportar directa- 
mente a Caculo e d^ahi a Ambaca, Pungo Andongo e Malanje. 

O seu contracto foi de duas peças de fazenda e 500 réis em 
cada uma doestas localidades para rações, contracto que foi 
feito perante o Administrador do concelho. 

Devidamente armados os nossos contractados, como os leito- 
res vêem na gravura que apresentámos, e prompto para mar- 
char o pessoal superior, fixou-se o dia 21 de madrugada para 
a partida. 

Passávamos pela primeira vez no Dondo, mas não nos era 
estranha a historia da sua fundação, e as condições do seu de- 
senvolvimento commercial, e por isso diremos agora algumas 
palavras a respeito da localidade, reservando-nos para no re- 
gresso a examinarmos mais detidamente. 

A villa do Dondo situada na margem direita do Cuanza entre 
9^ 4' de lat. S. do equador e 14^ 31', 36" E. de Greenwich, 
numa altitude de 93™, 7 é limitada pelos rios Cuanza, Mucozo 
e riacho Capacala. Tem contra si o estar assente numa depres- 
são insalubre, abafada pelas serras que lhe impedem a neces- 
sária ventilação, c principalmente pelos elevados morros, que 
a limitam a leste; é porém um empório do commercio do 
interior, e se muitas victimas de abnegação e de trabalho ja- 
zem no seu formoso cemitério, é certo que alguns mais felizes 
nella fizeram as suas fortunas. 

A qucstiío principal para quem tem de ali viver é manter 
um bom regimen, melhorando-se também as condições sani- 
tárias da povoação ; e a estas de ha muito que se está atten- 



102 EXPEDIÇÃO POETUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

dendo, devido aos esforços do hábil facultativo Laiz Fernando 
Collaço^ que todos aqui reputam como benemérito. 

E tão importante o numero de casas commerciaeS; que hoje 
aqui existe, que as antigas filiaes do commercio de Loanda teem 
retirado. Se bem nos recorda, actualmente continuam .apenas 
a casa ingleza e duas portuguezas. 

As actuaes casas commerciaes fomecem-se directamente da 
metrópole, sendo certo que os seus géneros, apesar das des- 
pesas com que relativamente estão onerados, se vendem ao 
publico por preços muito mais razoáveis, e ha, por isso, toda 
a vantagem para o commercio do sertão em fornecer-se d'esta 
praça, de preferencia á de Loanda. 

A povoação do Dondo é um mixto de gente, vinda de diver- 
sos pontos da província, e de fora d'ella, que teem constituido 
senzalas nas proximidades dá villa, seguindo a affluencia do 
commercio, uns na idéa de participarem d'e8sa affluencia pelo 
trabalho, q outros unicamente com o fim de se approximarem 
das estradas que conduzem para o interior, c de se locuple- 
tarem pelos roubos que com qualquer pretexto possam fazer. 

Além do europeu de differentes proveniências portuguezas, 
de mais ou menos longa residência aqui e por isso mesmo mais 
ou menos pallido e enfezado pela acção mórbida do clima, en- 
contra- se o africano com todos os tons da côr negra, desde o 
preto retinto até ao menos carregado, e ainda os mestiços 
até ao pardo mais claro. A aeçao deletéria do clima tem influen- 
cia igualmente em todos e até nos próprios indigenas, porque 
as vidas são de curta duração, e as creanças dão imi contin- 
gente importante para a mortalidade, podendo calcular-se em 
60 por cento! 

Este facto registámos nós em diversos pontos da região que 
atravessámos. 

Mas como não ha de ser assim? 

A alimentação das mães é o mais parca que é possivel, co- 
mendo somente em dias successivos infunde, que embebem em 
agua fervida cora sal, pimentinhas, ou com um pouco de azeite 
de palma e folhas de plantas esculentas, se as teem; chegam 



DESCRIPÇXO DA VUGEH 103 

mesmo a passar dias, chuchando apenas pedaços de canna 
saccharina, comendo jinguba crua ou mandioca fervida em 
agua e sal, ou uma maçaroca de milho assada! 

São dias de festa aquelles em que alcançam um bocado de 
peixe seco, de carne podre, ou mesmo lagartas das arvores! 

E, com tao escassa alimentaçíCo, ellas ahi vão para o ser- 
viço das lavras ou de transportes, ou de cortes de lenha, (tendo 
este de ser diário, embora se hajam empregado naquelles), 
com as creanças escarranchadas na cintura, seguras por uma 
tira de panno que amarram á frente, expostas ao sol, andando- 
Ihes a cabeça num vaevem continuado. 

O leite da raile resente-se de tudo isto. É uma aguadilha, 
sem qualidades nutritivas e em tão pequena quantidade as 
mais das vezes, que ella tem necessidade de o supprir suffo- 
eando a creança, de quando em quando, com bolas de infunde! 

Se juntarmos a isso a vivenda, essa palhoça immunda que 
geralmente construem, se não á beira de rios ou riachos, junto 
a poças de agua fétida, de que bebem, não é para estranhar 
que os que escapam na infância com muita difficuldade pos- 
sam exceder os quarenta annos, e que nelles predomine a in- 
dolência, que é um predicado do indigena africano, porque 
a ereançii até quatro e cinco annos dorme no solo junto i fo- 
gueira, passando d^ahi para as costas da mãe; e a sua ali- 
mentação, durante esse tempo, é insufficientissima e sempre a 
mesma. 

Em todo o nosso percurso notámos que apenas se destacam 
d'esta educação primitiva as mães que servem desde creanças 
algum europeu, ou serviram em outro tempo como escravas. 

Quando tratarmos dos usos e costumes dos povos com quem 
convivemos no interior, encontraremos tudo quanto se nota 
entre esta mistura de povos que rodeia o Dondo, e que o con- 
tacto durante grande numero de annos com uma população 
europea já importante não tem sido suíiiciente para modificar. 

O augmento da população indigena no Dondo é devido, por- 
tanto, ás correntes de immigrantes que para aqui vêem e não á 
soa propagação, e são estas correntes que nos trazem diale- 



104 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

ctos diversos que mais difficultam a lingua^ que se denomina 
ambunda, e que depois soffre alterações devidas ao contacto 
com os europeus. 

Predomina, é verdade, o dialecto mais do interior, e é indu- 
bitável que a sua grammatica tem soffrido pequenas modifica- 
ções. 

São os vocábulos novos, que de lá vêem, que vão fazendo 
esquecer os de antigo uso, e por isso ninguém como os portu- 
guezes, que teem residido em Angola, poderá hoje fazer um 
estudo comparativo da lingua ambunda, que se fallava nos sé- 
culos xvn e xvni, com a actual, de onde concluiremos que a 
lingua que se falia no litoral até ao Dondo é já mixta. 

A facilidade, com que o indígena africano — a que propria- 
mente chamámos gentio — muda de uma para outra localidade, 
tem por causas principaes a falta de culturas que o prendam á 
terra e o desconhecimento de todos os deveres sociaes. Estas 
mudanças, se por um lado augmeutam a população de uma 
determinada localidade, também lhes dão decréscimos em ou- 
tras, e por isso os recenseamentos no sertSo só se podem fazer 
com alguma probabilidade na população das sedes dos con- 
celhos. 

Ainda assim havia uma população ambulante, principalmente 
na villa, devida á epocha de maior affluencia do commercio, 
que muito altera os algarismos em que se fixam os habitantes, 
quando podem ser apurados. 

Nesta occasião calculou-se haver 4:000 pessoas na sede do 
concelho; mas pelo que observámos, pareceu-nos muito maior 
o seu numero. Acreditando, porém, no calculo, e sendo a média 
da mortalidade por anno, em circumstancias normaes, de 20 
por cento, é este um quadro desanimador e que reclama muita 
attenção tanto no que respeita ao saneamento como ao cum- 
primento das medidas de hygieue publica. 

Para nós a existência de um foco insalubre, como o Dondo, 
representa a desigualdade da lucta, que se sustenta em toda a 
parte entre as influencias mórbidas locaes e as condições de 
resistência da população. 



DESCKIPÇXo DA VIAGEM 105 

No empenho de preservar a povoação das influencias miaBma- 
ticas, tem-se toraado diatincto o honrado Dr. Luiz CoUaço, que 
á pratica de um bom medico reúne o poderoso auxilio da Ca- 
mará Municipal, de que faz parte. 

O impulso dado ás obras publicas pela fecunda ExpediçiLo 
de 1877 chegara até aqui, c no seu segundo anno, encontraram 
que fazer, no primeiro lanço da estrada d'eBta villa para Ca- 
zcngo, mais de 60(1 trabalhadores indígenas. Por uma economia 




mal entendida foi rcduEÍda a dotaçlo para obras publicas, e 
tiveram de ser suspensos este e outros melhoramentos em 
execução, 

O Dr, Luiz Collaço, eleito Presidente da Camará, aproveitou 
a occastUo, chamando a si os iodigenas já habituados a este 
serviço, c quo se acostumaram a occorrer a necessidades crea- 
das pelo lucro do trabalho voluntário, e, auxiliando-se de dois 
artistas europeus, cmprehendeu melhoramentos de grande im- 
portância para a villa, que è a sua scguúda pátria. 



106 



BXPBDIÇZO FOBTUQCSSA AO HUATIÂItVUA 



Deixemos o prestante cidadão dedicando-se a estes melho- 
ramentos, de que teremos de fallar mais tarde, e, a^ra que 
vamos partir para o interior, aproveitemos a occaaiSo de consi- 
gnar quanto reconhecida lhe fícou a Expedição pela imponente 
despedida que lhe preparou. 

Enthasiastaa todoa pelos resultados da nossa missão, oxalá 
elles encontrem motivos para applaudlr os dobsos esforços. 

Nesta festa, a que assistiram amigos selectos, nSo podemos 
deixar de mencionar a presença de um joven mas já acredi- 
tado negociante, o Sr. Marcus Zagury, sócio da firma Lara & 
C.*, que nos offereceu hospitalidade na casa da mesma 6rnu 
em Pungo Andongo. 




VIAGEM PARA CAZENGO 




ova ordem de cuidados c du 

responiabilidadea se nos npre- 

Heiita\a agora; c por isso nSo 

admira que aiuda de noite já 

n i xjjed Ç i esttvease em mo- 

1 viURiito disjtondo-sc tudo de 

, iiindo a pndE,r-8c encontrar á 

luSo, e devidamente acondi- 

^ Lionado u que fosse indispcn- 

bavel durante a viagem. 

Rimptu ) dia 21 de junho, 
e unt( 8 daa sete honis da ma- 
n)i?ljá as Ljnietas e tambores 
estjtvam no largo da villa dando 
o situai de marcha. 
das cargas vae formando, e no emtanto vem 
chegando o Chefe do concelho, e alguus amigos que nos querem 
honrar com a sua companhia até tora da villa. 
E a hora. 

O porta-bandcira lá vae para a frente, e seguem-no os cor- 
netas e tambores que, tocando uma marcha em ordinário, in- 
fluem tanto no animo dos carregadores, que estes vão levan- 
tando as cargas e seguindo, sem que seja preciso dizer-lliea que 




1 10 EXPEDIÇÃO POBTDGUEZA AO MUATIÂNVUA 

tiras tNlgadas de um palmo de compridO; de que filemos, nk^am 
fornecimento por xuxm macuta, 30 réis ca^A uma,'^ tiunimi a 
troco de feijão. 

Examinando a casa por dentrO; vimos estirado no solo um 
europeu esfarrapado, magro, de cor macillenta, com os. pés em 
miserável estado, cheios de feridas, resultado do m abundo, 
PtUex penetrans. Surprehendeu-nos e confrangeu-npç p seu 
estado, sobretudo quando nos disse que era soldado do bata- 
lh?Ío de caçadores de Ambaca, de onde partira, bavia cinco 
dias, para recolher ao hospital em Loanda! 

A ignorância, ou antes o modo brutal de extrahir aquelle 
parasita, e "b falta de asseio teem sido causa de que muitos 
estejam hoje sem dedos nos pés, sendo este desgraçado um 
triste exemplo de tal desleixo. Desde o dia 16 que estava em 
marcha e sem recursos alimentícios, e ia colhendo aqui e 
acolá o que lhe dessem ou o que podia furtar. 

São duas horas e meia da tarde. O sol queima, mas é for- 
çoso seguir a ver se conseguimos passar o Lucala ainda de dia. 

Alcgra-nos ver um caminho largo e direito deante de nós, 
de bom piso e limpo de capim, e por isso caminhámos a pé. 

Os carregadores vão contentes, porque se animaram com 
uma porção de aguardente, que se comprou a titulo de mata- 
bicho — o único estimulo, que por cmquanto nos dá a conhecer 
a actividade doesta gente ! 

Apesar de ter sido rápida a marcha, só ao sol posto chegá- 
mos á margem do Mucozo, e por isso achámos mais prudente 
não passar este rio de noite. Além d'isso, ao lado da estrada 
encontrámos, acampadas, comitivas de cargas que chegavam 
de diversos pontos, e seria arriscar-nos a uma desobediência 
querer obrigar a nossa gente a seguir. 

E sempre bom evitar desobediências, principalmente no pri- 
meiro dia de jornada; e, depois, diga-se a verdade, tinhamos 
já andado bastante. 

Acampámos á beira da estrada, afastados das outras comi- 
tivas, ficando uma grande praça entre nós e a casa dos Móveis, 
e outras que constituem aqui uma pequena povoação. 






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DESCRIPÇJO DA VIAGEM 111 

Chegou a nossa gente ainda a tempo de encontrar nessa 
praça algumas mulheres feirando garapas^ peixe seceo, fari- 
nhas^ jinguba e outros mantimentos^ de que fez acquisiçSo 
para a ceia. 

E este um ponto de muita passagem do commercio; e^ 
por isso se justifica a escolha do local^ ao pé de um rio, para 
descanso das caravanas e incentivo áquella feira diária. 

Como não trouxéssemos as barracas, porque contávamos dor- 
mir naquelle dia em Caculo, mandámos armar as nossas camas 
junto a duas grandes e frondosas arvores e protegemo-las com 
os tampos das redes. 

Estávamos dispondo as nossas cousas, porque a claridade do 
dia ia desapparecendo, quando se avizinhou de nós um amba- 
quista, soldado movei, offerecendo-nos os seus serviços — cer- 
tamente dar -nos um quarto na patrulha; mas querendo mos- 
trar que sabia portuguez ás direitas, a tudo nos respondia : pois 
não! é verdade! e nSio houve meio de obtermos outra resposta 
ás nossas interrogações! 

Agradecemos a sua attençílo, e tratámos de jantar ao clarSo 
das fogueiras do acampamento. A sopa foi o ultimo prato, 
porque levou mais tempo a arranjar; o que nílo foi fora de 
propósito, porque nos aqueceu o estômago, do que bem preci- 
sávamos, e deixou-nos aptos a resistir á cacimba da noite, 
que era espessa, e através da qual, em redor e a grandes dis- 
tancias, víamos ainda assim sobre as abas e cumes das serras 
os enormes clarões das queimadas. 

Era a primeira noite que iamos dormir ao ar livre, em logar 
para nós inteiramente desconhecido, e rodeados de indigenas 
que nos serviam apenas durante uma marcha, e mais além de 
um grande numero d^elles que nos eram absolutamente es- 
tranhos. 

Cada um tratou de embrulhar-se numa manta, deitando-se 
sobre a sua cama, de carabina ao lado, alumiado pelas fogueiras 
dos diversos acampamentos, e pouco e pouco se deixou apo- 
derar de somno, sob a impressão estranha e desagradável da 
vozearia d'essa gente que o rodeava. 



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I , 112 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUATIÁNVUA 

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\ \ Ao romper da madrugada é a corneta qae nos desperta, e 

V * num prompto, emquanto se enrolam camas e tudo se dispõe 

para a marcha, o cozinheiro arranja-nos uma chávena de café 
que, com a respectiva dose de sulphato de quinina, faz parte 
dos nossos preservativos nessas longas e fatigantes marchas. 
Arrancar os carregadores do conchego da fogueira nas ma- 
drugadas de maio a agosto é uma lucta, e por isso nào é para 
H estranhar que em junho as marchas se principiem ás sete horas 

e quasi sempre depois, quando o sol já é insupportavel. 

O rio Mucozo, que na epocha das grandes chuvas é de cor- 
rente bastante caudalosa, seguindo com uma velocidade su- 
*. perior a 10 milhas por hora e interrompendo por vezes a 

. tt r communicação para Massangano e Cazengo, é nesta quadra va- 

I ^ w diavel, porque traz pouca agua. 

( As bordas d'este rio são escarpadas, e cobertas de densas 

florestas de arvores de grande porte. Parece que a natureza 
se encarregou de dispor as cousas de modo que as aguas do 
rio, nas grandes cheias, se não disseminassem e fossem formar 
largos pântanos, o que está lembrando ao homem que lance 
m2Lo dos recursos que ella lhe proporciona para estabelecer 
|1 sobre as suas margens uma ponte de passagem. 

Y' Custa a crer que, sendo este o caminho mais importante pela 

affluencia do commercio para os concelhos agrícolas, nao se 
tenha attendido á satisfação de tão impreterível necessidade, já 
de ha muitos annos reconhecida. 

Provámos da agua, que na occasiâo era boa, o que de 
certo não succederá na epocha das chuvas, por causa da quan- 
tidade de barro que an^asta na sua corrente. 

Effectuámos a passagem mais depressa do que esperáva- 
mos, e seguimos para o Lucala. 

A descida para este rio é feita também á custa do trabalho 
das aguas phiviaes, as quaes, denudando as encostas alcanti- 
ladas, deixaram a descoberto bancadas de rocha, em que se 
p distinguem indicies de minérios de ferro e de cobre ; e torna-se 

difficultoso descer em razão das quebradas e barrancos que 
vão augmentando de anno para anno. 



1 



DESCRIPÇZO DA VIAGEM 113 

Mais a 8uly sob a direcção do antigo conductor das obras 
publicas Romano, trabalhava uma secção, preparando o ter- 
reno em que se devia lançar a ponte projjectada; e esperava- 
se pelo Governador Ferreira do Amaral para a collocação da 
primeira pedra *. 

Effectuámos a passagem do rio em uma canoa gentilica, 
escavação rudimentar feita num bom tronco de mafumeira, 
trabalho em que também se utilisam outras arvores que tcem 
as condições apropriadas. 

São uns berços que se desequilibram ao mais pequeno movi- 
mento e se voltam com muita facilidade. 

Com muita gritaria e trambolhão, e mesmo com alguns so- 
papos e mergulhos á mistura, se effectuou a passagem sem que^ 
felizmente, se molhassem as cargas, o que de veras receávamos. 

Desde que um honrado Governador, José Maria da Ponte e 
Horta, extinguiu os dizimes para pôr cobro ás extorsões e vio- 
lências a que davam azo, o porto foi considerado pertença do 
soba Cabouco, que impropriamente d'elle se apoderou para 
cobrar tributos de passagem, pondo ao serviço das comitivas 
e de qualquer viajante as suas canoas. 

A Expedição era de Sua Majestade, e por isso este poten- 
tado, coronel honorário e cavalleiro da ordem militar de Nossa 
Senhora da Conceição de Villa Viçosa, não exigiu tributos de 
passagem ; apenas os pilotos da canoa receberam de gratificação 
o seu mata-bicho. 

E não se julgue que por ser em serviço do Estado deixa- 
mos de ficar obrigados ao soba, porque é doesse tributo que 



1 De facto, dias depois, com toda a solemnidade, procedeu o Gk)ver- 
nador Geral á cerimonia, dando á ponte o nome de Pinheiro Chagas. 
Por muitos motivos se tomou esta ponte bem conhecida, ficando a ella 
vinculados os nomes de todos quantos concorreram para a sua construc- 
ção. Quando regressámos já ella estava concluída, e porque seja impor- 
tante como obra de arte, e pelo serviço que presta á agricultura, do con- 
celho de Cazengo muito principalmente, entendemos opportuno repre- 
sentá-la em gravura. 

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114 EXPKDIÇXO ^KTOGUEZA AO HDATIÍNVUÃ 

elle vire com toda a grandeza, tendo já sido computado o een 
rendimento anntial em 5:000iKI00 ou 6:000i!1000 réis, o que 
mostra a importância do trafico que por aqui transita. 

Perto das dez horae poz-se a Expedição em marcha, passando 
a serra em direcçSo a Caculo, onde entrou na melhor ordem. 

 região que atraTessamos tem já outro aspecto. SSo mon- 
tanhas cobertas de grandes florestas e, mais inaccessiTeis por 
causa dos barrocaes e linhas de agua que as cortam. É a região, 
por ezceliencia, do café, e onde também se dá a canna sac- 
charina. Parece que neste ponto se estabelece a traunçSo 
d'esta para aquella cultura. Pelos indicies que observamos é 
de presumir que existam ali jazigos de minérios aprOTeitareis. 

à contar da villa do Donde, haviamoB feito om percurso de 
56 kilometros approzimadamente, e, na verdade, é eó depois do 
Lucala que nos impressionam mais notavebnente os nnmeroBOi 
e gigantescos exemplares da flora, que nem nos deixam desco- 
brir a disposição do terreno que sombreiam. 

Sobrepujados de fortes e grossas trepadeiras que se cniBUii 
e enlaçam, tonuun-se estes macíssos silvestres recintos impe- 
netráveis ao homem, e fazem que supponhamos estar ntima 
floresta primitiva, em que se abrigam as feras. 




DESCEIPÇAO DA VIAQEM 



CO.NCELHO DE CAZENCO 



mico passava do meio dia, quan- 
do chegámos ao principal largo 
(Ia villíi de Caculo. Ahi nos 
iig^ardava o Chefe, CapitSo 
1'jidrel, que jA na véspera tioha 
ido ató A ponte do Lucala, 
siipjjondo que ali tivesaemoB 
(■licgado. 

Com a actividade que lhe é 
li:iljitual, deu ordem para aa 
I ai-gas seguirem para oa arma- 
zena que lhes havia destioado, 
e logo DOS conduziu para o 
bello alojamento que nos tinha 
preparado em aua casa. 
Feitos os devidoa cumprimentos, im medi atam ente se expe- 
diram telegramraaa para o Governador Geral em Loanda, 
participando a chegada aqui da Expedição, e para o Dondo 
pedindo brevidade na remessa das cargas. 

A recepçSo que nos faz Padrel e sua excellente família foi, 

como para todos os compatriotas que aqui vêem, inexcedivel; 

e é por intervençilo d'elle que temos de confeasar o nosso 

< reconhecimeato a todos oa fuaccionarios, agricultores e nego- 



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116 EXPEDIÇIO F0BTU6UEZA AO MUáTIIkVUA 

ciantes, a quem nos apresentou, assim como lhe devemos ( 
que sabemos com respeito ao concelho de que vamos fidlar 
e que tanto interesse merece, como região puramente agri 
cola, para a prosperidade da província. 

As £sicilidades e boa recepção que em toda a parte tivemoi 
pre&taram-nos ensejo de Êizermos as investigações de que care 
ciamos para formar um juizo mais seguro sobre as difficul 
dades que existem para o desenvolvimento da agricultura. 

Neste mesmo dia, emquanto se experimentavam carabinas 
armas e revólveres, se distribuiam raçSes, etc., puzeram se en 
ordem os diários da viagem, e receberam-se visitas. 

Entre estas, appareceunos Vieira Carneiro, negociante ser 
tanejo de Além-Cuango, afiícano dos seus cincoenta ou maii 
annos, agora empregado como escripturario de commercic 
nesta viUa, e que se propunha a acompanhar a Expedição, se ( 
Governo lhe garantisse uma pensão para a familiai caso mor 
resse na viagem. 

Quando um angolense, conhecedor do sertão para onde va 
mos, nos fez uma proposta de tal ordem, forçoso é confessai 
que ficámos desanimados. Ou aquillo por lá é muito insalubre, 
ou muito nos vamos arriscar no meio do gentio. 

Mas, reparando nelle, dissemos depois para os nossos com 
panheiros : talvez o homem receie que pela sua idade já nãc 
resista ás fadigas por que terá de passar, e a que resistii 
quando mais moço. 

Contou-nos elle que a sua ultima viagem fora em 1874, 
Levava muito negocio e roubaram-lhe quasi tudo o que trou- 
xera, resultado de uma boa permutação ; sendo forçado a en- 
terrar o resto do marfim, antes de chegar ao Cuango, con 
receio de que os Bângalas Ih^o roubassem também. 

Era este o motivo principal por que se propunha a ir com 
nosco, embora com pequeno salário. Queria aproveitar a pas 
sagem da Expedição no regresso, para á sombra delia trazer í 
sua pequena fortuna. 

Disse-nos que numa das suas viagens fora longe, para além 
do Cazembe, e descobrira o rio Luengue, o lago Calumbo e ai- 



DESCRTPÇAO DA VIAGEM 117 

gumas salinas, de qne o gentio que o acompanhava nSo tinha 
conhecimento.' 

Interrogado, porém, com respeito a Cazembe, fez-nos con- 
vencer de que nSo era do Muata Cazembe que tratava, e sim 
de um outro próximo do rio Liba, de que nos falia Living- 
stone, — rio de que também os Lundas, com quem convivemos 
depois, mostraram ignorar a existência, nSo obstante fatiarem 
muito do rio Liambéji. 

Disse que jiroximo do tal rio Luengue, que descobriu, se en- 
contra uma região em que ha muito marfim. Será o Caiuco, ou 
Caiunco, de que nos fallou Livingstone, e a que também se re- 
feriu o nosso benemérito explorador Serpa Pinto? Será o 
Samba, que, por má interpretação, Cameron na sua travessia 
para Benguela denominou Ussamba ? Ou finalmente ^ será Ca- 
nhiuca, dependência do Muatiânvua, a que os exploradores 
aliem ^es deram o pomposo titulo de reino? 

Foram estas as interrogações que fizemos a Vieira, e a que 
elle nâo pôde responder. 

Promptificava-se Vieira a encaminhar-nos por onde elle fôra, 
a Moçambique, segundo os seus cálculos em trinta e cinco dias 
de viagem ! 

Na verdade, custava-nos a crer nas suas informações, por- 
que seria sua conveniência, neste caso, sair era Moçambique, 
e elle mostrava querer ir comnosco para voltar com o negocio 
que deixara enterrado. 

Que se lhe havia de responder? 

Só podíamos offerecer-lhe transporte, mesa, barraca e uma 
mensalidade de 18/5000 réis. 

Mas, como elle ficasse de nos apresentar umas cartas, que 
provavam nSo só a sua probidade, como os serviços que pres- 
tara a negociantes portuguezes no interior, nada resolvemos 
nesse dia. 

Vieira era de opiniSo que a ExpediçSo, dirigindo-se ao 
Muatiânvua, prestaria um excellente serviço ao commercio 
da provincia, porque ha annos a esta parte, tanto os Quiôcos 
como os Bângalas o estSo prejudicando grandemente com as 



•I 



118 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

amarraçSeB^. E estava persuadido de que a Expediçto 
tinha de luctar com difficuldades por causa dos carregadores 
da comitiva, mas que convenceria o gentio a receber bem os 
negociadores e a acabar com os roubos. <cO que é preciso, dizia 
ellc; é muita paciência para o negocio, porque, em geral, todos 
os povos, do Cuango para lá, sSo muito desconfiados ; e nSo 
consentir que os carregadores se mettam com as mulheres 
d'elles, porque isso dá logar a demandas que levam muitos 
dias a decidir, levantadas de propósito para obrigar as cara- 
vanas a fazerem despesas nos seus sitios, além do que teem a 
pagar pelo crime.» 

Estas advertências confessámos hoje que não sSo para des- 
prezar, e que nunca as olvidámos. 

Chegavam as primeiras cargas do Dondo, e fomos com o 
chefe fazê-las accommodar em casa do negociante Soares 
Romeu, que se encarregou de as ir enviando para Malanje, 
com excepção de seis, de que precisávamos para Fungo An- 
dongo, e de outras que nos deviam acompanhar d'aqui para 
Ambaca. 

Impressionava-nos, sempre que saiamos, um constante ne- 
voeiro sobre a povoação, parecendo cortar a certa altura as 
montanhas que a cercam e impedir-lhe a ventilação, ao passo 
que grandes e copadas arvores nos limitavam o horizonte. 

Estávamos como que debaixo de uma grande pressão, abafa- 
dos, a respiração tomava-se diffieultosa, e tudo e todos apre- 
sentavam aspecto triste e acabrunhado. 

Disse-nos Padrel que isto é sempre assim emquanto o sol 
não consegue desfazer o nevoeiro, e que dias ha em que as 
camadas são tão espessas que o não consegue; e é então que 
essa tristeza, que notámos, se toma mais sensivel. 

A regular pelo que observámos, o sol só apparece á vista 
do observador depois das nove horas da manhã, não se tor- 
nando a ver mais depois das quatro da tarde. 



1 Extorsões feitas em todo o sertão aos negociantes pelo gentio. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 119 

Deve ser bem desagradável a vida aqui^ onde fisiltam as mais 
pequenas distracções! 

Padrel aproveitou a occasiSo; de nos mostrar as obras que 
estava dirigindo por conta dos rendimentos do concelho e com 
auxilio dos agricultores. Regularisa-se o largo em frente da re- 
sidência, em que estSo plantando arvores na devida ordem, e 
também se melhora a praça principal, que está rodeada por 
cajsas de commercio. A rua principal, da entrada da villa ao 
largo da residência, também está merecendo a sua attençSo, 
e uns pequenos aqueductos nas linhas de agua estSo sendo 
cobertos de madeira. 

Faz o que pode. Mas o que é isto numa povoaçSo que de 
tudo carece, e de que já ha quarenta annos se fallava pela fer- 
tilidade das terras que a limitam, pela abundância da borra- 
cha e desenvolvimento do seu café silvestre? 

Era isto o que pensávamos ao regressar á residência para 
jantar, quando Padrel se lembrou de nos convidar a visitarmos 
algumas fazendas, emquanto não appareciam os carregadores 
que nos eram indispensáveis. Escusado será dizer que accei- 
támos de bom grado, porque desejávamos fazer uma idéa do 
que era a agricultura neste concelho, já tão afamado. 

A importância de Cazengo, escreviamos nós á noite no nosso 
diário, é devida a umas dezoito propriedades, em que a me- 
nor, só em café, tem um rendimento annual superior a 22:000 
kilos , e as maiores para cima de 150:000. A Prototypo já 
produziu 225:000 kilos. Nesta e noutra fabrica-se também boa 
aguardente. 

Se o caminho de ferro for uma realidade, Cazengo terá um 
logar proeminente na contribuição para os cofres provinciaeSi 
porque a fertilidade dos seus terrenos, quando devidamente cul- 
tivados, a augmentará extraordinariamente. 

A vegetação, que se observa é prodigiosissima; as aguas cor- 
rem em abundância e são das mais puras que se conhecem. 

A canna saccharina e o café, de rápido desenvolvimento, 
pedem machinas para seu tratamento em substituição de bra- 
ços humanos, o que já se realisa em duas ou três proprieda- 



120 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

des; mas falta o principal factor de todo o progresso — estra- 
das e transportes rápidos. 

Lucta-se nestas propriedades, ha annos, com moita coragemi 
e se alguns agricultores teem sido vencidos, outros teem trium- 
phado na lucta; e todos vão cobrando alento, esperando essa 
via férrea tão desejada e cuja influencia já se conhece nos no* 
vos emprehendimentos em diversas propriedades, e em alguns 
melhoramentos públicos em via de execuçSo. 

Acabávamos de escrever estas notas, quando os foguetes, 
que no ar estalavam, nos recordaram que estavan^os na noite 
de S. João. Também o popular santo aqui é festejado pelos 
metropolitanos, que por cá vivem, e que nâo esqueceram as 
alegres folias de taes noites nas terras da sua naturalidade. 

Aproveitámos esta distracção, que nos apparecia, e fomos dar 
uma volta pelo largo, onde untadas de petróleo, se queimavam 
em fogueiras as barricas que serviram a alcatrão, cantando e 
dançando os indigenas em roda d'ellas. 

Estas danças, como todas as que já nSo teem o cunho da 
nacionalidade, apesar de animadas pelos que nellas tomam 
parte, mais ou menos electrisados pela aguardente, sfto em 
geral monótonas, e para nós perdem muito no interesse. 

Apesar porém da sua monotonia, é certo que, longe das dis- 
tracções que nos proporcionara os centros civilisados, o nosso 
espirito se influe com a descompassada gritaria e movimentos 
desordenados com que são acompanhadas estas danças. 

E conversando ora com uns ora com outros, as horas foram 
decorrendo despercebidamente e recolhemos já tarde, compro- 
mettidos a ir almoçar, no dia seguinte, á fazenda Santa Isabel, 
com o seu digno administrador Carmo Ferreira e o seu com- 
mensal Dr. Abel Augusto Correia de Pinho, juiz de direito 
da comarca. 

A difetancia da villa a essa bonita propriedade agrícola ven- 
ce-se em duas horas e meia de boa marcha, mas como para lá 
caminhámos antes de se descobrir o sol, fomos subindo, sem 
grande fadiga, para o logar em que estão o terreiro, as casas 
de habitação e os armazéns. 



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DESCRIPÇXO DA VIAGEM 121 

Tintamos tomado chá á moda de Padrel, isto é, carne 
fria, boas torradas e um bom copo de vinho; podiamos, por- 
tanto, esperar pelo almoço^ e com todo o vagar fomos fazendo 
as nossas investigações. 

Deixáramos em baixo uma esplendida plantaçSo de óptima 
canna de assucar^ para entrarmos logo nas plantaçSes de pés 
de café que, apesar do seu grande desenvolvimento, sSo de 
acanhada apparencia á vista dos colossos vegetaes que os som- 
breiam. 

Ainda não tínhamos chegado ao fim da rampa quando nos 
appareceu Carmo Ferreira, com o seu costumado bom humor, e 
disposto a auxiliar as nossas investigações, emquanto se prepa- 
ravam as chapas para se obterem algumas photographias e o 
almoço nSo ia para a mesa. 

Esta propriedade pertence hoje a uma sociedade de que faz 
parte Carmo Ferreira, que ha três annos aqui permanece, dan- 
do-lhe o maior desenvolvimento, como já se observa. 

As habitações estão bem dispostas, numr plano de antemSo 
preparado e muito arejado, pelo que se nos afigurou dever attri- 
buir-se — assim como aos cuidados de uma alimentação apro- 
])riada — a saúde que relativamente disfructam os europeus 
nqui residentes. 

É certo, porém, que o nosso horizonte está muito limitado 
pelo frondoso arvoredo que sobrepuja os arredores do terreiro, 
embora em rampa, que vão descendo até formarem os valles 
([ue se aproveitaram para a plantação da canna. 

E de tal modo se enti*elaçam os ramos de umas arvores com 
os de outras, que interceptam a penetração dos raios solares, 
ou lhes quebram a intensidade. 

O solo conserva-se sempre húmido, e essa humidade deve 
ser bastante prejudicial; e as plantações de canna, que na 
baixa tiram d'ella grande proveito, são outros tantos males que 
se accumulam contra a salubridade do logar. 

Esta impressão desagradável, que sente quem pela primeira 
vez visita estas regiões, parece, sobretudo a quem não des- 
conhece o trabalho das roças na ilha de S. Thomé, que pode« 



122 EXPEDIÇXO POBTUOUEZA AO MUÁTllNVnÁ 

ria deixar de se experimentar fazendo-se um desbaste bem 
ordenado, quando nSo uma roçada, deixando ficar apenas as 
arvores indispensáveis para protegerem os pés do café nos 
seus primeiros annos. 

Diz-se que Jofto Guilherme Pereira Barbosa, que conhecia 
praticamente a cultura do café no Brasil, chegando a Cazengo 
em 1837, e vendo desenvolvidos os pés de café silvestre, se 
propoz a arrotear uma plantação, e, devido aos seus cuidados, 
tomara ella um tal desenvolvimento, que os indígenas da loca- 
lidade o imitaram. 

As plantações dos indígenas attingiram o numero de duzen- 
tas, e ainda hoje se calcula que a sua producçSo era. de 
1.500:000 kilogrammas. E possível que haja algum exagero 
nesta informação. Teria sido muito acertado se se tivesse dado 
toda a protecção aos indígenas, porque, dedicando-se elles ao 
amanho das suas terras, não ha, por todos os motivos, nas 
circumstancias actuaes europeus que possam com elles com- 
petir. 

Os europeus, que se seguiram a Barbosa, depois de 1845, 
iniciaram com felicidade as suas plantações ; porém a baixa do 
preço do café na Europa, e outras causas, como a falta de bra- 
ços, difficuldades de transporte, e ainda a carência da protecção 
official, de capitães, e os erros em afastar o pequeno proprie- 
tário, foram causas de que este as abandonasse, com quanto 
a producção não haja diminuído. 

Desenganemo-nos : as nossas colónias africanas não poderão 
desenvolver-se — e não ha outro rumo a seguir emquanto as 
influencias climatéricas forem tão nocivas ao europeu — senão 
civilisando o indígena pelo trabalho. 

A educação do indígena em trabalhos niraes nas regiões 
agrícolas, transformando-o em pequeno proprietário, é o expe- 
diente que conhecemos mais fecundo para se attingir a má- 
xima riqueza agrícola de que estas terras são susceptiveis. 

Argumenta-se aqui com o facto de que os primeiros indí- 
genas plantadores de café alcançaram em pouco tempo um 
rendimento razoável, e que os íilhos, em vez de proseguírem 



descripçao da viagem 123 

no caminho trilhado por sens pães, se suppuzeram ricoS; e se 
entregaram á indolência, contraindo empréstimos ruinosos, de 
qne resultou serem espoliados do que tinham. 

Este facto não se deu só aqui. Em S. Thomé registam-se 
factos análogos, e de alguns sabemos nós que se deram com os 
naturaes ! 

Mas de quem é a culpa? 

Da falta da necessária educaçSo e das ambiçSes dos que pre- 
tenderam espoliá-los. 

£nriqueceu-se o aventureiro á custa dos incautos, com o pre- 
juizo das locaUdades, que definharam, é das populaçSes, que 
fugiram I 

E isto deu-se aqui, quando Barbosa, doze annos depois de 
começar a sua plantação, dizia: cÉ injusto quem julgar esta 
gente incapaz de progresso na civilisação e na industriai. 

Nesse tempo já as plantações de café tinham grande desen- 
volvimento, e faziam-se ali também tecidos de algodllo, e fabri- 
cava-se o ferro para negocio com o gentio da Quissama em troca 
de sal, e com o de leste em troca de cera. 

Se a administração publica tivesse intervindo na educaçSo 
d'este povo, que tendia a civilisar-se, se fossem aproveitadas as 
líçSes praticas de Pereira Barbosa e aqui fosse creada uma es- 
cola de agricultura, que com o tempo teria muito desenvolvi- 
mento, de certo não tínhamos hoje a lamentar que esta regiSo, 
tão fértil, tivesse passado por um período de retrocesso. 

Vieram e aqui se estabeleceram alguns europeus ignorando 
o que era a agricultura africana, inteiramente diversa da que 
se estuda em Portugal. Desconhecendo todos os perigos que oa 
rodeavam e contra os quaes se não teem tomado as devidas 
providencias; prescindindo do seu bem estar; supportando 
toda a casta de sacrificios; abnegando da sua própria vida pelo 
amor á causa a que se dedicaram e de que só pensavam obter 
immediatos fructos, esqueciam que na véspera, a seu lado, 
sucumbiam um e outro patricio, victimas sempre das illusSes 
em que se embalavam! 

E, cousa singular, os agricultores vão morrendo, dizendo 



124 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUATIANVUA 

sempre os que ficam que o clima da terra é benigno, e con- 
fiados em que na colheita seguinte ficarSo mais desaffirontados, 
e com mais duas terão uma fortuna que lhes permitta ir gozar 
nas terras da sua naturalidade o fructo de tanto sacrificio I 

E quem protege estes heroes do trabalho? 

Onde estSo as escolas que lhes ministrem conhecimentos de 
agricultura nos paizes tropicaes, e as indbpensaveis regras 
para nelles viverem? 

Onde hSo de procurar os livros de vulgarisaçSo que lhes 
sirvam ao menos de guia nessas empresas a que se aventuram? 

Como se illudem ! E como illudem os seus parentes e amigos 
na metrópole! 

Foi Alberto da Fonseca, esse enthusiasta pela riqueza agrí- 
cola de Cazengo, essa victíma da sua dedicaçSo, e que succum- 
biu na lucta pelo trabalho, que sem o pensar talvez, insistindo 
pela construcçSo do caminho de ferro de Ambaca, fez conhe- 
cer Cazengo como uma das regiSes mais insalubres a leste de 
Loanda ; região, repetimos, que requer desde já medidas sani- 
tárias de grande alcance para se aproveitarem os recursos que 
a natureza lhe prodigalisou. 

Até então, se houve no concelho um delegado do serviço de 
saúde, foi apenas de passagem ; e os agricultores, negociantes e 
funccionarios do Estado, apenas para consultas medicas tinham 
o inseparável Chemoviz, que para alguns é um flagello, pois 
imaginam soffrer de todas as doenças que nelle se apontam. 

Mas se os estudos do caminho de ferro de Ambaca nos for- 
necem argumentos e documentos importantes da situação de 
Cazengo, com respeito a insalubridade ; se está reconhecido que 
a exhuberancia da vegetação é a causa primordial da maligni- 
dade do clima; se é certo que a construcção do caminho de 
ferro se vae fazer e ha de servir esta região ; como é que seis 
annos depois d^aquelles estudos ainda encontramos este con- 
celho no abandono já conderanado ? ! 

Ha effectivamente uma grande falta de propaganda, e, o que 
é mais, de propaganda official que anime a iniciativa particular 
a constituir empresas! 



DESCRIPÇZO DA VUGEM 125 

Para nós, acceitâmos como principio que grandes empresas 
europeas hão de crear pequenos proprietários indígenas, e que 
8Ó assim se transformarão as regiSes agrícolas - hoje focos de 
infecção — em legares aprazíveis pela modificação do clima. 

Será crivei que, tentando o Governo uma arrojada empresa 
para facilitar os transportes de productos de Cazengo, esqueça 
ainda por mais tempo as providencias de que carece esse núcleo 
de colónia europea, que vae sendo dizimado. 

Se esses agricultores, que, na verdade, são os nossos benemé- 
ritos exploradores coloniaes, os deanteiros da civilisação que se 
hão disseminado pelos sertões das nossas provindas africanas, 
não merecem essa attenção dos poderes públicos; deixarão 
estes então sacrificar os seus funccionarios, quando não a uma 
morte certa, a um estado sempre precário de saúde? 

Não o acreditámos. 

Um dos grandes defeitos da nossa vida colonial tem sido a 
nossa disposição para acceitarmos como verdadeiro o princi- 
pio — que as colónias são terras em que qualquer que para lá 
vá encontra sempre melhor aproveitadas as suas forças do 
que nas terras da sua naturalidade. 

Um mau filho vae para as colónias ; o que não tem habilita- 
ções para se empregar na metrópole vae para as colónias ; em- 
fim, tudo o que não é bom manda se para as colónias I Basta 
uma carta de recommendação e o seu futuro está feito I 

E estes erros de tal modo se arraigaram, que se patenteiam 
dias depois de entrarmos em qualquer das nossas possessões ! 
Uludimo-nos quando suppomos que de tudo entendemos, que 
de tudo podemos fallar, que tudo podemos fazer sempre, 
com melhores resultados do que os obtidos pelos que nos 
antecederam, e assim esquecemos que nas nossas terras nem 
mesmo prestámos a devida attenção ao que pretendiam ensi- 
nar-nos I 

Mas se estes defeitos, devidos a uma falta de orientação se- 
gura sobro as nossas colónias, teem passado despercebidos, por- 
que alguns individues foram felizes, é certo que teem sido um 
mal para o desenvolvimento d^ellas. E este mal toroa-se tanto 



126 



KXPEOIÇÍO FOUTUGDBZA AO HUATIÂNVUA 



mais grave por ser implicitamente auctonaado pelo Bystema 
que ainda hoje se segue na sua administra^ So. 

Ãsaim noiueiara-se para os differcntes cargos do fuiicciona- 
hemo indivíduos que só O^crani conhecimento da existência de 
taes cargos pela sua nomeaçilo ' 

Um primeiro sargento, que pode ter sido um bom offici&l 
mfenor no exercito, pelo lacto da sua promoçUo a official su- 
balterno para o ultramar, está hoje apto para dirigir todos ou 




cargos da administraçíto publica, o caso é que lhe conveiiliu 
acceitar a vida attríbulada do sertão com todas as suas conse- 
quências! Mas a accumulaçâo de funcçSes vae muito mais longe. 
Êntrega-ae á sua responsabilidade uma ambulância de medica- 
mentos, e ha de tomar-se também medico e pharmaceutíco I 
£ digamos de passagem, que conhecemos alguns chefes, 
certamente intelligcucias privilegiadas, que lá se arranjam com 
as drogas e as teem applicado ás vezes com tal felicidade, qae 
debellaram doenças consideradas de gravidade. 



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DESCRIPÇÂO DA VIAGEM 127 

Mas isto ainda não é tudo. Recentemente o chefe, só por 
ser chefe, é iim sábio!! 

EUe, que tem um expediente que não lhe permitte sair da 
residência official, tem de conhecer os limites do seu concelho, 
e nestes as nascentes dos rios e o cnrso que seguem, as mon- 
tanhas, serras, cordilheiras, a sua geologia e mineralogia, a 
meteorologia e climatologia, as doenças predominantes, a fauna 
e flora, a população, usos e costumes das diversas tribus que 
a compSem, as producçSes, industrias' e commercio, e tudo 
isto como se fosse a cousa mais simples do mundo ! 

NSo exaggerâmoB, e o documento em que se interrogam os 
chefes dos concelhos sobre todos estes assumptos acba-se pu- 
blicado num dos números do Boletim ojfficial da província, fim 
do anno de 1887, e é sobre as suas respostas que se pretende 
fazer a nova carta geographica! 

De que teem servido então os pareceres dos homens techni- 
coB que teem visitado em differentes epochas os concelhos da 
província? 

Com respeito á agricultura crearam-se legares de agrónomos, 
é verdade, mas onde praticaram? 

Se o pensamento é ir implantar ali as nossas culturas de 
Portugal, commettemos um grande erro ! 

Em tempo, ouvimos que era conveniente fazerem-se em 
S. Thomé, antes de tudo, viveiros de café, quando junto a cada 
pé ha um viveiro natural ! E já houve quem se lembrasse de 
destruir, em Malanje, o salalé pela djnamite! 

É tempo 'de pensarmos a serio nas nossas colónias. 

Que se crie uma corporação de agrónomos coloniaes no nosso 
paiz, mas que vão dois ou três annos para a America ver o 
que lá se passa, com respeito ás culturas próprias — café, cacau, 
canna, algodão, tabaco, etc. ; que sejam depois distribuidos es- 
ses funccionarios pelas diversas regiões agrícolas das nossas 
provincias, onde devem estabelecer-se quintas modelos, em que 
aprendam os indígenas, ao mesmo tempo que sirvam de exem- 
plares aos europeus que se querem dedicar á agricultura; e, 
finalmente, que ao lado do agrónomo se coUoque o engenheiro 



128 KKPEDIÇIO PORTUGUEZA AO MUATIÁNVUA 

mechanico, o medico e o pharmaceutico ; e assim já teremos 
alguma cousa que preste em beneficio da agricultura. 

As despesas que se fizessem com estes funccionarioS; eram 
bem pagas pelo desenvolvimento da producçSo. 

Estamos convencidos do que tanto o governo da metrópole 
como o provincial continuam ainda suppondo benigno o dima 
doeste concelho, e que os portuguezes que dirigem essas dezoito 
fazendas, que constituem a parte mais importante da agriculr 
tura de Cazengo^ vivem na abundância e com todas as com- 
modidades e só precisam de lun caminho de ferro, que a seti 
tempo lá chegará. 

A não ser assim^ já aqui teriam enviado uma missSo de in- 
dividues competentemente habilitada com conhecimentos prar 
ticos das regiSes tropicaes, que devidamente os elucidassem 
sobre as providencias necessárias para se não desacreditar 
esta região a ponto de ficar despovoada. 

Sobre o que vimos e ouvimos, foram estas em resumo as 
considerações a que fomos levados; e que se nos desculpe a 
franqueza com que as expomos, porque, acima de tudo, a ver- 
dade é para nós um dever dizer-se, quando, em consequência 
da nossa missão, nos dirigimos ao Governo e ao paiz, para que 
se remedeiem os males que apontámos. 

Fixára-se a nossa partida para 25, ás onze horas da manhã, 
por isso que iamos jantar e pernoitar na fazenda Prototypo a 
convite do seu administrador. 

Tudo estava preparado para este fim, e logo na madrugada 
doesse dia se fez partir a caravana das cargas; e nós, depois 
de almoçarmos com Padrcl, seguimos cora elle. 

E, mais uma vez ainda, temos de consignar quanto iamos 
penhorados pela aíFabilidade e demonstrações de sympathia de 
que foi alvo a Expedição, tanto da parte do Chefe do concelho 
e sua familia, como de todas as pessoas com quem mantive- 
mos relações. 

Não citamos nomes, nem fazemos referencias especiaes, 
porque podemos deixar de memorar algum, e todos tiveram 
igual jus ao nosso reconhecimento. 



niíSCItlPl.^AO DA VIAOEW 





— ; YUGEM PAIU'AMBAUA 



Tiubamos andado 10 kilome- 
tfíis e chegUmoa ao rio Quí 
cuia, onde parilmoa para ver a 
líilla ponte em coriBfrucçSo, di- 
iij;ida por Padrel, sob a fiscali- 
s:i.;ào de F. Lopea da Costa o 
Silva, cominandante da divisão 
de Moveis, que perto d'ali tem 
A Bua patrulha. 



130 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIÂKVUA 

Aè obras de alvenaria estavam completas^ e feitas com moita 
solidez; faltava apenas o taboleiro, cujas madeiras, já appare- 
Ihadas, foram offerecidas pelo administrador da Prototypo, J. 
Augusto da Silva. 

Esta ponte devia ser posta brevemente á disposição do pu- 
blicOy e esperava-se a vinda do Grovemador Ferreira do Amaral 
para se fazer a inauguração. 

£ obra de reconhecida utilidade para o transito de cargas^ 
cuja affluencia por aqui é muita, e deve-se á dedicaçSo do 
Chefe e bom auxilio dos fazendeiros. 

E é geralmente assim ! Fora das vistas das auctoridades prin- 
cipaes das nossas colónias, os melhoramentos públicos que 
existem são resultado da iniciativa particular. Referindo-nos 
especialmente a Angola, o que se encontra bom pelo interior 
deve-se á dedicação dos chefes de concelhos, mas com o auxilio 
dos agricultores e negociantes. 

Quanto não custam, porém, esses melhoramentos?! 

Só a muita necessidade d'estes pode fazer esquecer aos que 
mais contribuem para os melhoramentos que se fazem nas ca- 
pitães o oous que acarretam á agricultura e ao commercio. 

Houve já um governo, que se lembrou ser indispensável 
acudir de prompto ás necessidades da producção e do commer- 
cio das nossas possessões em Africa, e tentou emprehender, em 
larga escala, as obras publicas no ultramar ; mas, infelizmentCi 
o seu pensamento foi mal apreciado, e uma economia mal enten- 
dida fez com que se interrompessem muitos trabalhos já em 
via de execução, e outros devidamente estudados para serem 
iniciados na primeira opportunidade, e este concelho, que era 
contemplado, mais uma vez ficou esquecido! 

Que os que se preoccuparam cora as despesas em estudos re- 
conheçam o seu erro, e vamos nós proseguindo na nossa tarefa. 

Esta ponte marca, por assim dizer, a entrada, por este lado, 
na fazenda Prototypo, para onde nos dirigimos. Esta fazenda 
pertence á viuva e filhos de Albino José Soares — outro mar- 
tyr da sua dedicação pela agricultura, que elle fez desenvolver, 
sendo esta a propriedade mais importante do concelho. 



DESCRIPÇZO DÁ VUGEH 131 

Seguimos subindo suavemente pela já afamada Rua das Poí" 
meiroê, que se pôde dizer é uma boa estrada de serventia 
publica com mais de 5 kilometros de extensão, tendo uns 20 
metros de largo, orlada de altas palmeiras symetricamente 
dispostas. 

Percorremos os dois primeiros kilometros, admirando a afluên- 
cia de carregadores, em numero de quatrocentos, sendo grande 
a actividade no serviço dos armazéns. 

O administrador, a quem já nos referimos, esperava-nos, e 
mostrava- se satisfeito com a nossa chegada, pois é sempre 
motivo de satisfação, para quem vive tão longe da pátria e 
tão isolado de distracções, encontrar com quem fallar e quem 
mostre interesse por estas terras. É mesmo um pretexto para 
se descansar do aturado trabalho quotidiano. 

Encontrámo-lo muito satisfeito por ter conseguido, durante 
o mez, enviar para o Dondo grande quantidade de café, ainda 
restos das colheitas de 1880 e 1881, que até agora estavam 
armazenados por falta de carregadores. 

Os pilões, nesta fazenda, são movidos por uma machina a va- 
por da força de cinco cavallos; esta porém carecia agora de 
alguns reparos, que o administrador esperava poderem ser 
feitos pelo engenheiro Sarmento nas officinas em Loanda. 

Até agora, quatro horas da tarde, a machina, ainda assim, 
limpara e lustrara desde a manhã trinta e uma saccas de café 
de setenta e cinco kilos cada uma. 

Quantos braços não se poupam neste serviço, e com que ra- 
pidez elle se faz? 

Visitámos os armazéns, e muito é o café nelles arrecadado, 
mais do dobro do que tem saido nesta quadra! 

J. Augusto da Silva veiu da metrópole para esta provincia 
em 1851, e vive nesta fazenda ha dez annos! Na verdade 
está bem conservado, revelando assim a sua boa organisação 
para resistir á influencia do clima de Cazengo. 

Vimos o lago artificial para creação de peixes; e provámos 
das magnificas uvas, tão afamadas no concelho e seus arre- 
dores. 



132 EXPEDIÇlO POBTUOUEZA AO MUATIÂNVUA 

Toda a fazenda é cortada por largas ruas, e entre ellas so- 
bresaem os enormes eantSes de arvores de café dispostas em 
quincnnce, o que permitte á arvore maior desenvolvimento, e 
'toma mais fácil a limpeza entre ellas, quando, como aqui, as 
parallelas estão distanciadas dois metros. 

Ainda ha densas florestas de boas e ricas madeiras por 
explorar nestas encostas dos quadrantes do norte, o que não 
admira, porque esta propriedade, ainda hoje conhecida pelos 
indígenas com o nome de Cahonda, é nova. Foi principiada por 
Albino Soares, em 1855, e não foi só para o café que ellc a 
trabalhou. A cultura do algodão mereceu-lhe também muito in- 
teresse, chegando a remetter para a metrópole 2:500 kilogram- 
mas, de que obteve bom resultado. 

Albino, que não fôra estabelecer-se ali como aventureiro, 
mas sim como colono, estava fazendo uma propriedade para 
seus filhos, e com esse fito não attendia só ao presente. 

Procurava o bem estar dos seus trabalhadores; estabelecera- 
Ihes senzalas em logares apropriados, acasalava-os, dava-lhes 
terrenos para cultivo próprio, e proporcionava-lhes distracçSes, 
chegando mesmo a organisar uma banda de musica, cujas des- 
pesas com instrumentos e professores corriam por sua conta. 

Chegou mesmo a ter agentes no interior do continente para 
resgatar indivíduos de ambos os eexos, proporcionando a estes 
vantagens e concessões, que os libertavam do estado de escravi- 
dão a que estavam sujeitos. 

Para toda a parte para onde nos voltamos, se encontram si- 
gnaes de que a civilisação aqui não tem sido uma palavra vã, 
e tem encontrado proselytos. 

E esta uma fazenda agrícola modelo, e lastimámos que o seu 
iniciador succumbisse na epocha em que ella florescia, e podia 
ser incentivo para que outros o imitassem. 

Chamados para a mesa do jantar, á sua vista ficámos surpre- 
hendidos. 

Não estávamos em Cazengo, estávamos na casa do mais rico 
lavrador da melhor das nossas províncias de Portugal! Foi o 
que se nos afigurou, para em seguida exclamarmos: — não é 



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DESGBIPçlO DA VIÁGEH 133 

para estranhar que, com taes condiçSes de alimentação^ de com- 
modidades de casa, e boa disposição e exposição da fazenda, se 
resista ás influencias do clima! 

Mas quantas victimas não houve para se poder aqui viver 
hoje em taes condiçSes! 

£ o que agora nos está causando admiração é mais um ai*- 
gumento em abono do que dissemos com respeito ás necessi- 
dades da agricultura do concelho em geral. 

Entrámos nos aposentos que nos eram destinados, e, ainda 
aqui, tivemos que admirar a grandeza com que foram mobilados. 
Com quantas difficuldades não teve que luctar Albino Soares 
para fazer transportar estas mobilias de Lisboa até aqui! 

E foi pensando nisto que adormecemos! 

Rompeu o dia; e depois de tomarmos o genuino café, fizemos 
seguir as cargas para Caringa, limite do concelho com o de 
Ambaca, e fomos admirar os bellos productos da horta que 
fica próxima da residência. 

Silva presenteou-nos com um bonito boi preto, ainda novo, 
mas que já dava cavallaria, e com um garrafão de azeite de 
palma purificado. 

Para recordação tiraram-se algumas photographias da notável 
vivenda em que estivemos hospedados. 

São horas de partir, e seguimos por essa bella estrada or- 
lada de palmeiras, deixando á nossa direita as senzalas Qui- 
lombo e Príncipe. 

Silva e outros acompanharam-nos até ao fim da estrada ex- 
trema da fazenda, que são mais uns 4 kilometros, e dirígimo- 
nos para casa do negociante Luiz António Pereira em Andala- 
tando, onde Padrel havia mandado preparar hospedagem para 
ali dormirmos. 

Aqui chegámos já perto do sol posto, depois de um percurso 
de mais 7 kilometros. 

Encontrámos em Andalatando uma pequena colónia de nego- 
ciantes, que confessam terem obtido este anno bons lucros, por- 
que o indígena lhes traz muito café para comprarem, e não 
lhes faltam carregadores para o levarem ao Dondo. 



134 EXPEDIÇlO PORTUOnEZA AO MUÁTIÃNVUA 

TodoB estSo muito animados, porque se está construindo a 
ponte sobre o Lucala. O que será quando se principiar a con- 
struir o caminho de ferro? 

E são estas esperanças que vão dando alento aos europeus 
com quem temos conversado neste concelho! 
* Se, a par dos melhoramentos materiaes de reconhecida utili- 
dadc; se forem adoptando medidas sanitárias essencialmente 
praticas, os resultados serão muito mais profícuos, não só para 
os europeus como para os indigenas e por conseguinte para 
esta productiva regiJto. 

Aqui, onde a corrupção atmospherica é principalmente de- 
vida á infecção tellurica, só a cultura do solo, o desbrava- 
mento das florestas, e o desvio conveniente das aguas, poderão 
a pouco e pouco melhorar as condições de salubridade. 

E isto conseguir-se-ha cora o tempo, como já dissemos, creando 
uma escola agricola, aproveitando as boas disposiçSes do in- 
digena d'e8te concelho para a agricultura, e procedendo ao 
desbravamento das florestas, a começar de baixo para cima, 
sobre essas abas de serra onde a exposição seja melhor em re- 
lação aos ventos predominantes e ao sol, para o desenvolvi- 
mento do café e cacau. Assim se crearão pequenas proprieda- 
des, que com o tempo se desenvolverão até á maior altura; 
e é ceno que a salubridade da localidade ha de logo augmentar 
consideravelmente, porque os pequenos proprietários se irão 
encarregando de outros melhoramentos ao seu alcance, que 
hoje lhes não occorrem por falta de incentivo e não porque os 
não apreciem. 

Isto que já foi ensaiado e que, por desmedidas ambições, 
não fecundou nem se desenvolveu, é o que ha a fazer com 
respeito a Cazengo. 

Apesar de ser já bastante tarde, ainda antes de jantar fomos 
visitar uma olaria em que se fabrica, por processos rudimenta- 
res, boa telha, que dizem ter consumo nos concelhos próximos. 

E esta uma industria que era da máxima conveniência que 
se desenvolvesse, porquanto, nestes concelhos sertanejos, as 
coberturas das casas dos europeus e até mesmo as de resi- 



DESGBIPÇXO DA VUOEH 135 

dencias officiaes, ainda bSo em geral feitas ao nso primitivo, 
como a choupana do gentio — de capim Becco, o que é um pe- 
rigOy sobre tudo na epocha das queimadas! 

Ora, onde não faltam os recursos indispensáveis, como boas 
madeiras e barros, isto só mostra da nossa parte uma grande 
incúria, e faz crer que o progresso e a civilisaçSo nos teem sido 
indifferentes. E é por este indifferentismo que somos mal con- 
siderados pelos estrangeiros. 

José António Pereira, Commandante da primeira companhia 
de Móveis do concelho, encarregado da casa de negocio de Luiz 
António Pereira, onde fomos hospedados, ínformou-nos de que 
esta casa tem mantido ha dois raezes, em constante movimento 
para o Dondo, cento e cincoenta carregadores em transporte de 
cargas de commercio — o que não succedia ha muitos annos. 

Se o café nos mercados da Europa subir de preço e se man- 
tiver por algum tempo, de certo que os agricultores e nego- 
ciantes sertanejos se libertarão de uma grande parte do ónus 
com que teem luctado nos últimos annos. 

O Chefe Padrel ainda nos quiz acompanhar até Caringa, li- 
mite do seu concelho com o de Ambaca, e fez expedir um es- 
coteiro ao Coronel Victor, como este lhe pedira, participando 
a nossa entrada no dia seguinte no concelho que administra 
muito a contento das povoações aiuda de gentios, para quem 
a vassallagem é ainda incomprehensivel. 

Custou-nos a separação de tão bom companheiro e camarada, 
que pretendia adivinhar o que mais desejássemos para nos 
ser agradável, e procurou sempre proporcionar-nos todas as 
commodidades. Aqui lhe renovámos os nossos sinceros agra- 
decimentos. 

Em Caringa esperavam-nos os carregadores, que fizemos 
seguir para Caméxi, onde, junto ao rio, descansámos para re- 
gistarmos algumas informações emquanto nos preparavam o 
almoço para o qual nos chamaram ás duas horas. 

Deviamos ter chegado aqui muito mais cedo; porém, o boi 
que alguns montaram para experiência, entreteve-nos pela 
serie de trambolhões por que os fez passar, e de uma das 



13 



EJCPEDIV^lO PORTDQUEZA AO MUATIÂNVUA 



vezes Gscapu1íu-se da mjto de um dos c&valleiros, e elle alii 
foi de batida por entre o capim secco, obrigaBdo-noe a fazer-lhe 
cerco, e perdendo-ae mais de uma hora para o agarrar durante 
a qual se deram episódios que provocaram a gargalhada. 

A noBBa marcha até aqui foÍ de 18 kilometros. 

Ab três horas da tarde continuámos a viagem, e pouco de- 1 
jwis apre sentou -se -nos um soldado, do batalhão do commando i 
do bravo corouel do nosso exercito de Africa occidental, Anta- I 
nio (ieraldo Victor, hoje reformado em general de brigada, I 
com uma guia para ficar ao nosso serviço, c com os bilhetes-l 
de visita d 'esto nosso amigo, oíFc recendo -noa hospitalidade om 1 
sua casa e dos seus offíciaes felicitando -nos pela chegada aa-M 
concelho. 




líKSCRIl-vSo DAVJAUKM 



CONCELHO m AMBACA 




uando is a esconder-sc o sol 
no horizonte, cbegámoa a Pam- 
ba, onde está aquartelado o ba- 
lallião de caçadores n." 3, po- 
ilendo calcular-so o percurso de 
IJaculo até aqui — -em 57 ktlome- 
iroa — marcha que bons escotei- 
103 teem feito num dia. 

O Commandante e seus offi- 
i'ines, mal sentiram, ao longe, o 
iiique das cornetas da Expedi- 
vílo, vieram ao nosso encontro. 
TivemoB a satísfaçSo de en- 
Lontrar antigna camaradas e ami- 
gos, o que nos alegi-ou; e, emquauto os carregadores com as 
cargas se dirigiam para o local que lhes fôra destinado, o Com- 
mandante convida va-noB a ir ver o quartel — a obra de maior 
importância nos últimos tempos em Ambaco — começada ha 
pouco sob a sua direcçSo, apenas com os recursos materiaes 
da localidade e com o trabalho das praças do batalhão. 

A exposição do quartel é boa, e o seu plano foí subordinado 
ÔA recommendaçiSes mais modernas para este género de edi- 
ficaçSes. Tem um bò pavimento raso, sendo isoladas as caser- 
nas, arrecadasses e demais dependências por largas mas e 



138 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUAHInVUA 

patcos^ estes com cultura horticola^ o que é de bom effeito, 
e de que tiram o máximo proveito as praças indigenas^ que, 
dispensando rancho de caldeiro, teem melhor alimentaçXo. 

Os officiaes estão bem alojados. As repartiçSes da secretaria 
e casa do commandante sâo amplas e bem ventiladas. 

As edificações, comprehendendo o quartel e todas as suas 
dependências, com paredes de adobes, caiadas exteriormente, 
faziam-nos lembrar uma bonita aldeia onde entrara a aniroaçSo. 

r 

E um contraste com as senzalas de palhoças, que consti- 
tuem a povoaçSo em redor e a d'ali afastada. 

ff Se nSo fosse esta sua obra, dissemos nós ao Coronel, passa- 
ríamos por aqui na supposiçSo de que isto era um deserto, 
pois o alto capim nSo só encobre a povoação, como não deixa 
ver o trilho para aqui se entrar!» 

Fomos depois ver a ponte que o Coronel está fazendo con- 
struir sobre o Lucala, que neste logar é muito estreito. 

A ponte é feita por conta da Camará, que já na sua acta con- 
signou o nome que ha de ter: — Ferreira do Amaral. 

Nada mais justo, porque ao benemérito Governador geral se 
deve o novo impulso para levantar Ambaca do marasmo a 
que chegara. 

Estão proniptos os pilares de alvenaria e prepara-se a ma- 
deira para o seu taboleiro, e tudo espera o Coronel se conclua 
com brevidade, pois deseja aproveitar a passagem do Conse- 
lheiro Ferreira do Amaral, que tenciona ir a Malanje, para se 
fazer a inauguração. 

Principiava a noite, e o nosso hospedeiro convidou-nos a re- 
colher para jantar. 

Esta rápida inspecção a duas construcçSes novas, confessá- 
mos que nos impressionou agradavelmente, porque nada mais 
viamos, e faziamos uma outra idéa de tudo isto! 

Não pensávamos que a capital do mais importante concelho 
do interior tivesse caído num tal esquecimento ! 

Será realmente este o logar, diziamos nós, para onde se mu- 
dou, em 1606, a sede do presidio fundado dois annos antes pelo 
Gk)vernador Cardoso, nesse logar a que chamam Praça Velha, 



DESCRIPÇlO DÁ VIAGEM 1 39 

e onde existem as minas do forte, ou antes redueto, que os 
valentes portuguezes de outrora foram, construir á vista dos 
inimigos? 

Será aqui, onde os jesuitas vieram collocar o berço da civi- 
lisaçSo, e de onde dimana esse vislumbre de instrucçSo que se 
encontra disseminada por toda esta parte do continente?! 

Seria nesta vasta planicie, que acabávamos de ver, que por 
vezes se reuniram forças de milhares de homens armados, para 
repeliir o gentio que nos hostilizava?! 

Mas onde estão os vestígios de factos tSo importantes, que 
aqui se deram e a historia nos aponta? 

Na verdade, tudo isto é triste; e se nSo fossem alguns^ docu- 
mentos que escaparam ao devorador salalé, e os cuidados de 
homens dedicados que lhes deram publicidade, parecél*ia que 
tudo que se diz de Ambaca era uma fabula! 

Entre os commensaes tomaram assento alguns amigo^ do Co- 
ronel que vinham ver-nos; e sobre o assumpto ouvimos um 
homem velho da localidade, que, se bem nos recordamos se 
chamava Balthazar, e outros ; e reunindo as notas, que entSo 
tomámos, e as investigações a que procedemos, concluímos: 

Que f5ra neste local que se reuniram, em 1740, vinte mil 
homens armados por ordem do Governador Magalhães, dos quaes 
apenas soldados eram duzentos e sessenta de infanteria e trinta 
de cavai lana; 

Que todos os presidies contribuíram para aquella força, 
sendo a isso obrigados todos os brancos, e pretos calçados ; 

Que a guerra era contra a rainha Jinga, por ter sido assas- 
sinado nos seus estados um negociante branco, a quem rouba- 
ram todo o seu commercio; 

Que esta guerra fôra feita por proposta do Governador, com 
o assentimento de todas as auctoridades que tinham voto. 

A rainha estava então no recinto que as pedras de Pungo 
Andongo limitam, e entre os penedos na parte mais recôndita. 
Os nossos, com receio de que ella fugisse para as suas ilhas no 
Cuanza, como era uso de seus antecessores, trataram pri- 
meiro que tudo de tomar posse das ilhas, e depois, de perse- 



140 EXPEDIÇIO PORTUGUEZÁ ÀO IfUÁTIÂNYaA 

guirem aquelles que em debandada procuraram refugiar-se 
entre os penedos. 

Pedia á Jinga que se lhe concedesse a paz^ sujeitando-se 
ás condiçSes que lhe fossem impostas, porquanto nSo fora ella 
que ordenara se praticasse tal attentado na pessoa de um bran- 
co; que o crime era grande, mas fôra obra de seus vassallos, 
a quem ia mandar castigar. 

Ha quem diga que £5ra um dos ascendentes de Calandula, 
potentado nas terras d'este concelho, que, combatendo ao nosso 
lado, perseguira a rainha, e, apaixonando-se por ella, a protegera 
escondendo-a entre as pedras, emquanto elle nSo obteve as 
pazes em que interveiu. 

Balthazar diz que não fôra Calandula, e sim o homem com 
quem ella viveu depois, e que era também soba aqui do conce- 
lho. Fôra este encarregado pelo chefe de descer ao covil onde 
ella estava, e vendo-a, de tal modo ficara encantado da sua 
belleza, que ella tirou d'Í8so partido, conseguindo que prote- 
gesse a sua fuga para o Songo, promettendo-lhe que ficaria 
sendo sua mulher se obtivesse as pazes que desejava, o que 
conseguira; e depois d^isso foram estabelecer-se mais para 
leste. 

Foi depois doesta guerra que a feira da Lucamba passou para 
aqui, pois a Lucamba ficou despovoada por não serem ahi as 
terras boas para a cultura. 

Muitas são as causas que teem contribuido para que Âmbaca 
não indique hoje o que foi; porém, de facto, os jesuítas minis- 
traram aos filhos doesta ten^a os rudimentos da lingua portu- 
gueza, a par de uma instrucção em ofiicios e no cultivo dos 
campos ; ensino este que se tem transmittido de pães para filhos, 
porém já viciado. Os mais espertos, como deixasse de vir 
cpmmercio para aqui, vão hoje procurar fortuna noutras terras. 

Com respeito a Calandula, continuou Balthazar, é ainda agora 
um potentado importante, porque tem muito povo e subordi- 
nados até ao Cuango. E a importância deve-a á parte activa 
que um dos seus antepassados tomou a nosso lado, numa das 
guerras contra o rei do Congo. 



. DESCREPÇÀO DA VIAGEM 141 

Contam ainda hoje os seuB; que Calandola tinha acoíise- 
Ihado o chefe da expedição militar, que fora de Loanda com 
ellc; sobre o melhor modo de combater as forças do rei; e 
como o referido chefe rejeitasse os seus conselhos^ tendo receio 
de que o julgassem traidor, mandara prevenir a feunilia de que 
os portuguezes iam mon*er; e elle havia de morrer ao pé d'elles, 
portanto tratassem já de quem lhe havia de succeder no estado. 

De facto assim aconteceu, e os seus vieram entfto estabele- 
cer-se aqui nas vizinhanças do presidio com o consentimento 
do nosso Governo, e sempre teem auxiliado as nossas forças 
contra o gentio, principalmente da Jinga ! 

Convinha ao Governo garantir a segurança doeste posto 
avançado no interior, e por isso a auctoridade local tem sem- 
pre fechado os olhos aos abusos que o seu povo mais ou menos 
tem praticado, expoliando os viajantes indigenas. 

O antecessor do actual Calandula adquiriu fama de valente 
por taes abusos, e foi destacando para o interior representan- 
tes seus, com a imposição de lhe serem tributários ; e estes fo- 
ram-se estabelecendo próximo dos caminhos do commercio en- 
tre os Bondos, e nos Holos e Bongos, próximo do Cuango. 

O actual segue as pisadas d'aquelle, e a preponderância que 
elle e os seus sobas vão tendo já prejudica o commercio, por- 
que se tomaram os seus estabelecimentos coutos de ladrSes e 
vadios, filhos d^aqui e de outros concelhos, que demais fiallam 
portuguez ; e são elles os que os incitam a roubarem seus pa- 
tricios e Bângalas, mostrando-lhes que nada teem a recear 
porque pouca força militar temos no interior. 

Depois que o batalhão veiu para cá, esses salteadores, que 
infestavam os caminhos para o interior, já não dão tanto que 
fallar. 

Houve ultimamente um governador que pensou em mandar 
ao Calandula uma embaixada com presentes, procurando por 
meios suasórios chamá-lo á ordem ; e isto era um passo muito 
acertado. 

O actual queixa-se de que o Governo não tem feito caso d'elle, 
nem nunca teve em attenção os serviços de seus avós, em- 



142 £XPEDIÇZ0 PORTaGUEZÁ AO MUÁTIÂNVUÁ 

quanto que Cabouco e Cassanje, constantemente sSo lembrados^ 
tendo-se revoltado varias vezes contra as nossas auctoridades. 

Esta conversação era realmente interessante para nós, e pena 
foi que, cortada por varias interrupçSes, se generalisasse e viesse 
cair nas questSes da actualidade, que já conheciamos. 

Comtudo, não foi em vão que a registámos, porque a ella, 
mais tarde pela tradição de outros povos, conseguimos juntar fa- 
ctos, que nos permittem marcar muito approximadamente quando 
principia a formar-se o estado doesse tão afamado e temido po- 
tentado no centro do continente, e a que menos correctamente 
se tem chamado Muata lanvo. 

O Coronel Victor também é de opinião que se devia trazer 
sempre contente o Calandula, porque dispõe de muita gente 
atrevida e mesmo aguerrida, e que nos pode auxiliar para con- 
ter sujeitos os Dembos, Bondos e Hungos, não avassalados e 
vizinhos, e garantir, não só a segurança do commercio e agri- 
cultura em Encoje, Duque, Fungo e Malanje, como também 
do caminho para o Dondo. 

Mesmo para a exploração das minas de oiro do Lombije, e 
aproveitando esse pretexto, diz o Coronel, é de toda a conve- 
niência a intervenção do Calandula, porque tem influencia bas- 
tante para remover quaesquer difficuldades que apresentem os 
povos limitrophes, difficuldades que se devem esperar, por- 
que ninguém ignora que o gentio nf\o acceita bem que lhe ex- 
plorem a terra. 

Para quem conhece o Coronel Victor — que passou a sua vida 
como subalterno em combates com o gentio, que foi o chefe 
das ultimas operaçSes militares em toda a região do Duque de 
Bragança, que por muito tempo tem vivido em todos estes ser- 
tões como chefe dos seus concelhos, onde se soube impor pelo 
terror, e, finalmente, que das guerras da Guiné chegou ha pouco 
tempo agraciado com a commenda da Torre e Espada, o que 
entro estes povos mais veiu confirmar a fama que já tinha, de 
Quijando ainvencivel» — a sua opinião não é para desprezar. 

Muitas vezes ouvimos fallar, mesmo além Cuango, do Qui- 
jando, doeste camarada africano, chegando a attribuir-se-lhe 



DESCRIPÇZO DA VIAGEM 143 

O costume de : — antes de entrar em fogo^ esfregar a farda com 
um remédio que só elle conhecC; para que as balas do inimigo 
lhe não toquem. 

Esta é a lenda que se tem propalado entre o gentio, e que 
é para nós muito aproveitável; pois basta muitas vezes a pre- 
sença d'este chefe, para evitar conflictos, de que se podem ori- 
ginar graves consequências para a provincia. 

Acabáramos de jantar tarde, e a conversa ainda nos reteve 
por muito tempo á mesa. As visitas querem retirar, e o Coronel 
pede-nos que ainda passemos o dia seguinte com elle, para com 
descanso se preparar a força que uqs quizer acompanhar; e nós 
aproveitámos o ensejo pedindo a Balthazar para nos guiar num 
passeio ao romper do sol, pois desejávamos obter ainda mais 
algumas informações, ao que elle de bom grado annuiu. 

Pouco dormimos, porque tivemos uns maus vizinhos — umas 
ratazanas que entre os forros das divisórias do nosso aloja- 
mento nos faziam uma impressão desagradável com os ruídos 
das suas ascensões e cambalhotas; e outras mais aventurosas 
que conseguiam sair e davam saltos por cima da nossa ca- 
beça. 

Por isso, logo de madrugada viemos para o largo a esperar 
o nosso companheiro. 

Um grande silencio que reinava para o lado do quartel pro- 
vava-nos que era ainda muito cedo, e para ahi nos dirigimos 
para conhecer dos seus arredores. 

Completa desillusão! 

Estende-so a planura para norte, rareando já o capim, e ele- 
va-se depois o terreno em morros, uns seguidos aos outros, 
mais ou menos elevados, despidos de vegetação, apresentando 
aqui e acolá manchas esbranquiçadas e avermelhadas! 

Para elles estivemos olhando algum tempo e diziamos vol- 
tando: — antes de se construir este quartel, o que haveria aqui 
para mencionar? Uma rua com algumas moradias de adobe, e 
uma porção de palhoças dispostas a esmo? 

Onde estará a igreja de Nossa Senhora da Conceição de 
Ambaca? 



144 EXPEDIÇlO PORTUGUEZA AO HUATIÂNVnA 

Por que razSo se escolheu este logar para terminus da linha 
férrea de Loanda, pela qual tantos se empenham? 

Será certo que foi aqui a capital do grande districto organi- 
sado em 1838; que contava oitenta mil habitantes e centena- 
res de sobados; dos quaes cento e trinta eram feudatarios da 
coroa? 

Mas durante o meio século que se lhe seguiu qual é a evo- 
lução que se tem dado? Augmentou ou diminuiu a populaçZo? 
Essa agricultura, que existia, e que chegara mesmo a expor- 
tar para Loanda os seus productos, porque definhou? Porque 
se não desenvolveram essa^i grandes manadas de gado vaccum? 
A populaçSo industriosa, esses ferreiros, carpinteiros, alfaiates, 
sapateiros que destino tiveram? 

Como tudo aqui é desolador! 

E estará o Governo ao facto de tudo isto? Conhecerá das 
causas doesta desolação? Ou vamos construir um caminho de 
ferro sem conhecer de taes causas, e sem ter a convicção de 
que elle poderá attrahir os restos d^esses elementos civilisadores 
dispersos, e que Ambaca ainda lhes poderá offerecer vanta- 
gens, superiores a outras terras, pela agricultura e outras in- 
dustrias que tiveram já aqui nomeada? 

É possivel, e aqui temos mais uma d^essas fecundas liçSes, 
escriptas nas terras intertropicaes, e onde o clima se patenteia 
assombrosamente nivelador! 

Desappareceram as culturas de Ambaca e fugiu a sua popu- 
lação; desappareceram as obras collossaes de Oeiras e desap- 
parecerá tudo o que se fizer, se não se tomarem em linha de 
conta os vivos coeficientes de correcção que mais caracterisam 
as localidades tropicaes. 

Faziamos estas reflexões, quando nos appareceu o bravo Coro- 
nel, com Balthazar, convidando-nos para tomarmos café e irmos 
em seguida todos dar o nosso passeio, emquanto o ajudante do 
batalhão ia apurando das praças voluntárias as de melhor 
comportamento, para passarem ao serviço da Expedição. 

No passeio apresentou-nos o Coronel vários sobas vizinhos 
que, uniformisados a capricho, vinham címiprimentar os seus 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 145 

hospedes. Todos, mais ou menos, se faziam perceber em porta- 
guez, e d^elles obtivemos também algumas informaçSes. 

E, cousa notável, o ambaquista, o afamado ambaquista, esse 
vulto com quem se topa a cada passo no centro do continente, 
diz-se, e é conhecido por branco; e todos os que nos outros 
nossos concelhos sertanejos procuram imitá-los no seu modo de 
trajar, e nos seus usos e costumes, dizem-se filhos de amba- 
quistas! £, a avaliar por aqui, a população de Ambaca deve 
ser na verdade muito grande. 

O ambaquista, para mostrar a sua importância sobre estes, 
ao seu nome de baptismo junta um appellido portuguez cuja 
fama lhe é vulgar; e assim, de envolta com os heroes da pri- 
mitiva, Salvador Correia, Paulo Dias de Novaes, Sousa Cou- 
tinho, de que tiram um e dois appellidos, lá se encontram já, 
modernos Sá da Bandeira, Lopes Calheiros, Ferreira do Ama- 
ral, etc. 

Alguns querem, ainda, destacar-se de seus parentes por as- 
cendência distincta, como, por exemplo, o primeiro interprete 
da Expedição, que entendeu por melhor aggregar ao appellido 
Bezerra, de seu pae, o de Lisboa, para que todos soubessem, 
dizia elle, que seu bisavô viera do reino! 

As missões de jesuitas que por aqui estiveram muito tempo, 
tendo a sua sede no Ambango-á-Quitambo, e as minas de cujo 
convento, Santo Hilarião, ainda lá existem, deixaram vestígios 
de sua passagem na educação dos povos que os rodeavam. A 
parte os interesses da companhia que os moviam, e davam le- 
gar ao que hoje se censura como escândalos, é certo que a elles 
se deve a transformação de Ambaca em berço da civilisação 
E d'aqui que partem esses rudimentares conhecimentos da nossa 
lingua, quer fallada, quer escrípta, as noções de agricultura e 
de officios manuaes e de outras profissões. 

O que elles não puderam destruir, infelizmente, foi essa mal- 
dita crença nos encantos e feitiços, e qu6 faz mais mal aos que 
se aventuram a internar- se no continente do que as crenças dos 
gentios. 

É porque naquelle ensino havia factos, havia exemplos, e 

10 



146 EXPEDIÇIO POBTUaUEZA AO MUATIÂNVUÁ 

no de hoje ha eloquência^ e como muito bem diz o sr. A. F. 
Nogueira no seu excellente livro A nuja, negra: cOs indígenas 
acreditam mais nos factos do que na eloquência; por mais su- 
blime que seja, e quer seja profana ou sagradai. 

A este respeito, quem conhece hoje o ambaquista ou indivi- 
duo por elle educado— qu#<todos sSo baptisados os que andam 
por estes sertSes — pôde dizer como o bispo de Angola em 
1772: cque do baptismo só aproveitam as creanças que mor- 
rem em tempo conveniente^ porque as que chegam á puber- 
dade e d'ahi para cima, ficam reincidindo em suas ^perstiçSes 
e leis barbaras em que vivem os outros i. 

E ainda é verdade o que então affirmava o referido bispo: 
t mesmo em velhos perseveram nas suas superstições/ em que 
crêeni; e na multiplicidade de mancebas, que nSo querem lar- 
gar, e outros mais abusos gentílicos e diabólicos em que vivem 
sem remédio». 

O ensino religioso era extemporâneo ; e como muito bem diz 
o nosso ousado explorador Serpa Pinto: c façamos primeiro do 
preto um homem, e temos tempo para d'esse homem fazermos 
um christâo». 

Mas, se o ensino religioso nada produziu, é certo que o ou- 
tro, apesar de muito incompleto, deixou fructos, e são elles que 
mostram a protecção que Portugal sempre dispensou aos povos 
das suas colónias. 

Raro é o ambaquista, descendente dos educados n^aquellas 
missões, que não se dedique a algum dos officios manuaes, 
sapateiro, alfaiate, carpinteiro, pedreiro; e todos elles mais 
ou menos sabem ler e escrever, sendo mesmo peritos em cal- 
ligraphia. 

Depois dos missionários, são os pães que se teem encarregado 
da educação dos filhos ; e pena é que esse ensino vá sendo in- 
conscientemente tão deturpado, tomando se quasi inintelligiveis 
as cartas que elles hoje nos enviam, algumas das quaes teremos 
occasião de publicar. 

Todos trajam á europea; mas, entre elles, distinguem-se os 
que estão em melhores circumstancias pelo chapéu alto e sobre- 



DESCRBPÇXO DA VIAGEM 147 

casaca preta, e logo abaixo os que fazem o seu fato de orleft 
preta ; e todos calyam, ^oje, ou sapato de liga, ou sapatos por 
elles feitos de couro ou de panno de algodão, que fabricam e tin- 
gem, e que teem, em logar de sola, madeira. 

A maior ambiçSlo do ambaquista que se preza é ser isento 
de praça, e possuir muitas mulheres; e são estes os dois moti- 
vos fortes por que larga o domicilio paterno, logo que chega 
aos seus vinte annos. 

Toma-se negociante sertanejo, porque encontra sempre guem 
lhe forneça* uma pacotilha a credito; e lá vae para o interior 
com dois ou três discipulos, que lhe confiam sob condição de elle 
lhes ensinar as prendas de que é dotado. 

O vidro da tinta, pennas e papel acompanham-no para toda 
a parte no seu rolo de folha que usa a tiracollo ; e mesmo so- 
bre o joelho, sentado no solo, elle escreve uma carta. 

Ás duas primeiras viagens são geralmente pequenas; perde 
sempre para os credores, mas traz a familia que procurava, 
mulheres e rapazes que resgatou, e estabelece-se no seu sitio. 

Fabrica uma casa de adobe, coberta de capim, e faz lavrar 
a terra de que se apossou. 

É ainda ás lições praticas dos missionários, que se deve o 
pequeno cultivo das terras que por aqui se encontra. A sua 
producção hoje reduz-se a arroz, feijão, batatas do reino e 
indigenas, milho, cebolas, alhos, bananas, mangas, jinguba e 
tabaco. 

Do trigo já não tratam, mas affiança-nos Balthazar e tam- 
bém o Coronel, que se colhera muito bom trigo em Ambaca. 

Os velhos é que vão dando noç3es agricolas aos rapazes e 
mulheres. Vimos boas tangas de algodão, e fumámos excellen- 
tes charutos aqui fabricados. 

Feita a sementeira, o que tem queda para o negocio recorre 
de novo ao seu credor a titulo de lhe pagar o augmentado cre- 
dito, e parte para uma nova exploração; e, em vista da produc- 
ção que calcula, determina á familia que deixa, geralmente só 
mulheres, a quantidade de dinheiro que quer encontrar no mea- 
lheiro, que é o solo onde o enterra. 



.■* 



« 

148 EXPEDIÇIO PORTUGUEZA AO MUATLÍNVUA 

E assim se explica, em parte, nSo só o desenvolvimento da 
populaçSo que teve Ambaca, como o da sua producçSo, e ainda 
o apparecimento recente de moedas de cobre e peças de oiro 
antigas, que se conbece terem estado muito tempo debaixo da 
terra. 

Os impostos e a decadência de Ambaca é que teem feito 
apparecer essas moedas. 

Mas a que devemos attribuir esta decadência? Dizem-nos 
que ^ abuso da supremacia eleitoral a que fôra guindado o 
commendador Manuel Mendes da ConceiçSo Machado, filho 
da localidade, e que pelas suas prepotências a auctoridade 
superior da provincia mandou prender em 1876 e remetter para 
Loanda, onde morreu pouco depois. 

No que este celebre commendador mais ferira a populaçSo, 
fôra em amarrar seus filhos a cordel para sentarem praça no 
exercto, e as eleições para deputados fomeciam-lhe o ensejo. 

A sombra das suas influencias, elle, o homem dos códigos, 
sugava o povo defi*audando-o nos seus interesses, fazendo 
justiça de Ambaca, como ainda hoje se diz; e por isso a 
gente mais aproveitável emigrara para outros concelhos, e 
alguns sem pouso certo por lá andam pelo interior, lembrando- 
Ihe Ambaca, apenas como recordação da grandeza de seus 
pães. 

NSo acreditámos que seja só este o motivo; este é dos nos- 
sos dias, e a decadência vem de epochas muito anteriores. 

Pelo que temos lido, acreditámos que Ambaca, ao fundar-se 
o nosso presidio na latit. 9® 15' S. do Equador e longit. 15® 2(y 
E. de Greenwich, se tornou um centro de sobados avassalla- 
dos, e que fugiam ao despotismo dos Jingas, govemando-se 
independentemente, embora submettidos á nossa bandeira, e 
contribuindo com impostos para de nós terem uma protecção 
efficaz. 

A estes povos reuniram-se outros, fiigidos mais de leste, tam- 
bém com o seu governo independente, avassallando-se uns e 
outros não, mas correspondendo ao mesmo por se avassalla- 
ram aos sobas já vassallos. 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 149 

Entre elleS; uma leva de gente da Lunda^ como veremos 
mais adeante; capitaneada por um príncipe, com auctorísação 
de um dos governadores D. Manuel, certamente D. Manuel P. 
Forjaz, foi-se estabelecer em Lucamba, de onde retirou pou- 
cos annos depois por as terras nada produzirem e^ seguindo 
atrás da caça, internou- se até ao Cuango. 

Começou, depois, o commercio de marfim e escravos entre 
estes e os aviados do nosso commercio, que já então chegavam 
ate aqui, a despeito das prohibiçSes de auctorídade superior em 
mercadejarem, no sertão, brancos, mulatos e negros calçados. 

Os jesuítas, com a mira neste commercio, conseguiram ro- 
dear-se de povos que catechisavam, animando-os ao mesmo 
tempo que lhes dispensavam o ensino incompleto de que já 
falíamos. 

Por muitos annos as guerras da Jinga, e outras a leste d'este 
povo, eram as barreiras ao nosso ingresso para o interior, e 
todo o commercio se fazia em Ambaca, seguindo para Loanda 
pelo caminho protegido pelos jesuitas até S. António do Bengo. 

Já se vê, pois, que essa grandeza baseada no commercio de 
Ambaca era ephemera, desde o momento em que nos inter- 
návamos e a viação era outra, isto é, logo que o gentio foi 
repellido das margens do Cuanza e se conseguiu um caminho 
mais directo para Loanda; e sendo os povos avassallados que 
procuravam as casas do commercio do litoral, Ambaca princi- 
piou a perder em importância pelo lado commercial. 

Restavam a agricultura e a industria fabril; estas, porém, com 
a retirada das missões, foram também afirouxando pela falta de 
estimulo e protecção official, e sobretudo de trfmsportes fáceis. 

Vieram depois as exigências e extorsões dos chefes; esque- 
cemo-nos de aproveitar os sobas na administração publica; e, 
por ultimo, deixámos imperar a tal potencia do commendador, 
e por isso necessariamente devia succeder o que presencia* 
mos — Ambaca ficar exânime. 

Quanto a nós, é á accumulação e successão de todos essas 
causas que se deve attribuir a decadência de Ambaca^ e, por 
conseguinte, a emigração de seus filhos mais prestáveis. 



150 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATLÍNVUA 

Os ambaquistasy espalhando-Be^ teem servido de núcleos em 
outros pontos do sertão, de onde dimanam usos e costumes 
nossoS; embora envolvidos nos gentílicos da localidade em que 
elles residem ; mal que temos de lastimar, porque tem servido 
de argumento para os estrangeiros nos desacreditarem, pois só 
querem ver nelles um portuguez que está explorando o com- 
mercio do gentio ; e mal contra que, na verdade, tem de reagir 
todo e qualquer europeu que se embrenha por esses sertSes, 
no intento de ser útil ao seu paiz e á sciencia. 

Teve Ámbaca fama pelos seus bois-cavallos, e houve em tempo 
quem aifirmasse que ahi abundava o gado bovino. 

Para os informadores onde terminaria então o concelho de 
Ambaca? 

Quanto aos bois-cavallos acreditámos que se vissem bastantes, 
porque, sendo aqui que o indígena começou a.adaptar-se aos 
nossos usos e costumes, reconhecendo as vantagens que tiráva- 
mos do cavallo, nos procurou imitar, domesticando os bois 
novos que por negocio adquiria de leste; porém, é certo que 
nem a abundância, nem a qualidade de pastos indicam, pelo 
menos agora, que a região que temos percorrido até aqui, seja 
a preferível para esse gado, e sobretudo quando se conhece, 
como nós conhecemos, a região que se segue, já fora d'este 
concelho, até ao Cuango, onde os pastos são excel lentes e o 
gado se tem desenvolvido de modo, que surprehende a quem 
percorre todo esse sertão. 

Ahi é unicamente o pasto que sustenta o gado, emquanto 
que aqui e noutros pontos é necessário cuidar da sua alimen- 
tação. 

Ê possível que se haja sustentado aqui alguma manada, e 
òomo consequência o exaggero da fama. Talvez succeda o mes- 
mo que se dá com os papagaios de pennas carmezins ou ro- 
sadas, que muitos suppoem oriundos de Malanje e Cassanje, 
quando elles a final nem da Lunda são. Os que apparecem vem 
do norte, trazidos pelas comitivas de commercio que lá vão ; e 
os Lundas, se os tivessem, não os cediam, porque as pennas 
da cauda doestas aves são muito apreciadas pela nobreza, e 



DESOKIPÇZO DÁ YUGEM 151 

copstituem um dos ornamentos de distíncçSo entre os potenta- 
dos e pessoas da sua corte. 

Para o potentado lunda, hoje, um papagaio doestes é um 
presente de valor, porque ha grande falta das taes pennas e já 
recorrem ás de aves menos raras. 

Com respeito á caça, fomos informados de que se nSo en- 
contra com facilidade em Ambaca; o que não admira, porque 
tendo sido este um dos pontos mais povoados do sertão, com 
certeza a que escapou foi corrida para o interior. 

É talvez por isso, que faz parte da alimentação do povo 
a grande abundância e variedade de gafanhotos, sendo o meio 
de os apanhar mais facilmente o largar fogo ao capim depois de 
se conhecer a direcção do vento, a fim de sem risco se fazer 
uma boa colheita. Este meio poderá ser bom, mas ia-nos sendo 
fatal no meio de um deserto, e por isso o prohibimos d^ahi 
em deante. O outro meio de os apanhar é mais moroso e re- 
quero muita gente : juntam-se raparigas e rapazes, com ramos 
de folhas e vão batendo o capim. 

O ambaquista, bem como as suas mulheres, quer em passeio, 
quer conversando, aproveita as horas do dia fiando algodão, 
de antemão preparado por elles para tal fim. 

O processo é o mais rudimentar possivel. Ajeitam as pastas, 
em redor de uma pequena vara rija, e o fio vae sendo enro- 
lado a uma outra, delgadinha e mais pequena que fazem girar, 
descrevendo espiraes, entro os dedos pollegar e index da mão 
direita, tendo por peso na parte inferior um firucto redondo, 
que faz lembrar, pela forma e côr, um limão pequeno ainda 
rijo. 

Livingstone, que viu este m,odo de fiar o algodão por estas 
regiões, não achou differença do que adoptavam os egypcios nos 
primitivos tempos. 

O ambaquista, á falta de recursos para obter fazendas do 
nosso commercio, faz bons lençoes de algodão pelo systema 
das tangas de mabela, batendo os fios transversaes com uma 
régua abahulada por entre os fios collocados ao alto, trabalho 
este que a Expedição melhor estudou numa colónia de am- 



152 EXPEDIÇÃO PORTDODEZA AO MUATliSVUA 

baquístae que encontrou na mussumba de Luambata, e de que 
dará conhecimento mais desenvolvidamente. 

£ com estes tecidos qite elles se vestem e calçam, e também 
teem vestido oa povos do interior, entre os quaea residem por 
algum tempo. 




Acreditámos também que este trabalho é devido ao ensino j 
dos jesuítas, a quem, devemos confessar, é justo o reconheci- 
mento que ainda existe nestes povos pela educaoSo que elles 
lhes ministraram. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 1 53 

Lastima-se que elles quizessem intrometter-se na administra- 
ção da província; mas é certo que os padres^ que depois dos 
jesuitas para lá foram, nSo deram os resultados que a posteri- 
dade tem ido herdando destes, e que seriam hoje muito mais 
profícuos se o ensino que elles deram tivesse continuadores. 

Agora Ambaca apenas exporta para os concelhos mais a leste 
algum arroz e batata; e cremos que a attençSo que está mere- 
cendo aos poderes públicos a construcção do caminho de ferro 
de penetração a partir de Loanda, influiu no animo do actual 
Governador para mandar aquartellar aqui um batalhSo de caça- 
dores, sob o commando do Coronel Victor, de onde se desta- 
cam forças para guarnição dos concelhos próximos. 

Era o Coronel o individuo que mais convinha, não só para 
o commando do batalhão como para Chefe do concelho, por 
ser africano e muito sympathico á soldadesca, e respeitado pelo 
gentio. 

Durante o dia tivemos occasião de conhecer que assim era, 
não só pelo que ouvimos aos sobas e aos filhos da localida- 
de, como pelo que presenciámos entre as praças do seu com- 
mando, que de muito boa mente lhe obedecem. 

Estavam apuradas doze praças, que por sua vontade passa- 
ram ao serviço da Expedição, e contrataram-se quatorze carre- 
gadores para transportarem arroz, batatas e feijão até Pungo 
Andongo. 

Promptos para seguirmos viagem de madrugada, fez-se a cor- 
respondência para o Governo e depois fomos jantar. 

O Coronel Victor, sempre cortez, surprehendeu-nos com um 
jantar de dezoito talheres, a que assistiram os seus officiaes, 
funccionarios e principaes pessoas da localidade. 

Terminou tarde, como era natural, o jantar, brindando-se por 
Sua Majestade El-Rei, Ministro da Marinha, Governador Ama- 
ral, e fazendo-se os mais ardentes votos pelos bons resultados 
da Expedição. 

O reverendo parocho convidou-nos a assistir a uma missa 
que elle tencionava rezar por nossa intenção no dia seguinte^ 
e á qual todos prometteram comparecer. 



154 



EXPEDIÇÃO POBTUODEZA AO HDATIXhVDA 



A offerta era de tal ordem que se nSo podia recusar. 

Na madrugada de 29, já amarradas as cargas e tudo dis- 
posto para a marcha, seguiu a Expedição para a capella, e foi 
auuunclada a ceremouia, a que ia proceder-se, por uma g^ran- 
dola de foguetes. 

Fiado o acto religioso, cuja intençSo muito temos a agrade- 
cer ao celebrante e a todos que a elle concorreram, despedimo- 
DOs do Corouel Victor e de todos os nossos amigos, e partimos 
seguindo a nossa bandeira, que j& ia na frente. 



IH 



DESCBIPÇXO DA VIAGEM 



m AMBACA PARA PUNao ANDONGO 




omo o Coronel Victor estivesse 
já soffrenílii dt- uma enforini- 
ilude c[iie nmi» tardo ae aggra- 
vou tí o obri}j;oii a regressar a. 
Luanda, mandoii-nos acompa- 
nhiir poio Alferes Cândido e por 
outros íiinccionarios até ao porto 
do Lucala. 

Entes, moutados em magnifí- 
coa boia-cavallos, chegaram é, 
margem do rio muito antes de 
nós, e sob a sua vigilância já 
quasi todaa as cargas e carre- 
gadores tinham passado para o outro lado. 

Pela primeira vez vimos as jangadas — um amontoado de 
palhas ligadas, com uma similhança de popa e proa, e gover- 
nadas por dois homens que aa empurram nadando. 

Ao pormos pé em um tâo caprichoso transporte fluvial, falta- 
ríamos á verdade se níto confessássemos que receámos que essa 
j'6*j°6* *'* virasse, e nós, de mistura com as bagagens, lá fos- 
semos levados peia corrente, sabe Deus para onde. 

Emfim tudo paasou bem, e já perto do meio dia seguimos 
em direcç3o á Praça Velha. 



156 



EXPEDIRÃO FOKTUOCEZA AO HUATIAnVUA 



Ao defrontarmos com eaaea vestigios do redacto, recordámo- 
uoa da Biia historia, e pensámoB quanto não custou esta liber- 
dade, qut- hoje se dísfructa, de por aqui transitarmoa aem re- 
ceio do gentio traiçoeiro! Quantaavictimaa por cata hberdade? 

O» carregadores haviam rodeado o rio Camuéji, e seguiram; 
por isso nós contimiámOB e fomos acampar, eram seis horas, no 
Cacusso, um pouco adeante do Ala, ao p/; de umas pedras que 




se eleram em pequeno numero acima do solo 1 a 2 metros. 
Tínhamos feito um perciu-so de 20 kilomotros. 

Estas pedras, n3o sei porquê, lembraram-noa, e nBo sem pena, 
que nem sequer perguntáramos em Ambaca pelo denominado 
Púri-á-CaeoIombolo, adiniravet subterrâneo, no dizer do nego- 
ciante Pereira, de Andalatando, e que tentámos esboçar á sua 
vista pelas indicações qua nos ia dando, com o fím de corrigir 
o desenho se lográssemos visitá-lo. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 157 



E uma grande rocha de grés schistoso^ cuja extensSo se cal- 
cula em mais de 400 metros, com duas entradas quasi em 
sentido opposto para imia espécie de tunnel que a atravessa^ 
tendo diversas alturas interiores. 

Para a chamada entrada principal, a descida, porque é bas- 
tante Íngreme, torna-se tão incommoda que muitos teem desis- 
tido de ir até lá abaixo. 

Tendo ahi chegado, encontra-se ao lado direito um lago que 
segue para o interior, e continuando em frente penetra-se logo 
na caverna, afigurando-se ter ahi uma altura superior a lõ 
metros, altura que diminuo para dentro. A rocha, tanto dos 
lados como superiormente, é esbranquiçada; porém, inferior- 
mente está revestida de uma camada de limos até uma certa 
altura, e o piso é da mesma rocha, devendo andar-se com cau- 
tela para se não escorregar, porque está sempre molhado. 

A entrada é espaçosa, e quasi ao centro, formando o fundo, se 
unem a parte superior e inferior da caverna, ficando dos lados 
aberturas menores para galerias, que se tomam tanto mais 
escuras quanto mais nellas se penetra. 

Nesse paredão ao fundo, chama a attençSo do menos curioso 
explorador luna cavidade em forma de capella, no meio da 
qual uma pequena pedra em bruto tem uma tal configuração, 
que faz lembrar uma imagem de Nossa Senhora: os amba- 
quistas chamam-lhe Nossa Senhora da Pedra Preta, e para 
elles tomou-se oráculo, que consultam e ao qual fazem suas 
promessas. Ao lado da imagem encontram-se cartas que lhe 
dirigem, e garrafas com azeite, vinho e outras offerendas. 

Pereira diz que tentou penetrar pela galeria da direita, po- 
rém as luzes dos que o acompanhavam apagaram-se; e sen- 
tindo correr um riacho próximo retirou-se com os amigos com 
quem ali fora, deixando ir os pretos mais ousados para deante. 

Vieram então esperar os pretos no lado opposto, e elles de 
facto appareceram, molhados até para cima do joelho^ e disse- 
ram não ter encontrado caminho enxuto. Certamente esta agua 
é continuação d'aquella que se viu á entrada e a que chamam 
lago. 



■í* 



/4 168 EXPEDIÇZO POBTUOUEZA AO MUATllKVnA 

A largura da entrada aqui é superior á da primeira, mas é 
muito mais baixa do que ella. Nesta parte da rocha sae agua 
como -de um filtro. 

E de suppor que os jesuitas, ou os antigos chefes d'este con- 
celho; como Lourenço José Marques^ um dos homens mais ver- 
sados em curiosidades e factos históricos da provincia, e que 
muitos manuscriptos, segundo é voz publica, deixou do seu 
espolio, tenham já dado conhecimento doesta importante obra 
natural, que a terra esconde á vista do viajante; porém, con- 
fessámos que, apesar de termos residido em Loanda perto de 
quatro annos, foi a primeira vez que d'ella ouvimos fallar, e 
sentimos de veras o esquecimento imperdoável de nSo irmos 
verificar os apontamentos que haviamos tomado no nosso diário 
em Andalatando, sobre os quaes é baseada a gravura que apre- 
sentámos. 

Pela primeira vez se armam as barracas de lona. O tempo 
está bom e.os carregadores não fazem abrigos, e dormem ao ar 
livre junto de fogueiras, que já se vêem espalhadas pelo acam- 
pamento. As cargas estão entre as nossas barracas e distan- 
tes d'essas fogueiras. 

Jantámos muito tarde, e logo em seguida cada um tratou de 
se recolher, tomar as suas notas e deitar-se. 

Aproveitando a boa vontade dos carregadores, conseguimos 
partir no dia seguinte ás seis horas e meia da manhã, e ás dez 
haviamos chegado ao Zamba, tendo feito um percurso de 12 
kilometros. 

Até aqui a vegetação é muito semelhante, e as queimadas 
produzem os seus effeitos devastadores, que nesta epocha sSo 
bem visíveis. 

Logo que saimos das redes, apresentou-se-nos o Comman- 
dante da divisão dos Moveis, um ambaquista de seus cincoenta 
annos, asseado, de altura regular, grosso, bem parecido, vestido 
de preto, sobrecasaca e chapéu de palha : bello typo de homem, 
que nos ofiereceu o seu bom quartel, com um grande quarto 
para hospedes, na supposiçSo de que quizessemos ahi pernoitar, 
e um boi da sua manada para darmos de comer á nossa gente. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 159 

£ra uma novidade grande^ para esta terra^ a nossa Expe- 
dição, de que já se fallava nas vésperas, e por isso fomos logo 
rodeados de muito povo. 

A offerta do boi ainda mais despeii;ára a curiosidade, por- 
que se ia conhecer da valia do atirador que o abatesse, míssSo 
de que se encarregou Sertório de Aguiar, que logo ao primeiro 
tiro, fazendo passar a bala por entre a manada, atirou com o 
sentenciado por terra. Este, depois de ter rodado um pouco 
para o lado e como quem sacode uma mosca que o magoa, 
caiu esperneando, em meio da gritaria e palmas do popula- 
cho; e assim Aguiar, não perdendo os bons créditos que dis- 
fructava entre nós de bom atirador, tinha d'ora avante a sua 
fama estabelecida. 

Esfolar um boi, esquartejá-lo, e fraccioná-lo depois em ra- 
ções é uma faina que acaba sempre ao bofetão, quando não 
acaba em facadas; e se a primeira vez entretém, nas outras 
enfastia, e nos excita contra tudo e contra todos que nos ro- 
deiam. 

A pratica foi-nos mostrando as providencias que tínhamos de 
adoptar em taes occasiSes ; e o certo é, que por fim se faziam 
todos esses serviços como se estivéssemos num açougue em 
qualquer cidade civilisada, no maior silencio e ordem possí- 
veis, sem contendas, recebendo cada um a ração que lhe era 
destinada. 

Esperemos por occasião mais opportuna para fazer a des- 
cripção completa d'esses serviços, e quaes as providencias que 
por ultimo se adoptaram para evitar contendas sempre desa- 
gradáveis; pois é um bom aviso que damos aos que se acharem 
em circumstancias análogas ás nossas, convencidos, como esta- 
mos, de que, em qualquer ponto do continente, a contar da 
costa, o preto rude perde a cabeça ao ver correr o sangue de 
qualquer animal. 

O que estávamos vendo dá a justa medida do estado de 
atraso em que se acham estes povos. 

Terminou aquella operação como de costume : uma porção 
do interior do boi não se reparte ; os que trabalharam na sua 



«. 



160 EXPEDIÇÃO PORTCGUEZA AO MUATIÂNVUA 

diyisSo deitam a mão a um grande pedaço^ e cada um pu- 
xando para seu lado vae sendo arrastado pelo mais forte^ até 
que caem todos sem querer largar a presa. EntSO; os mais 
fatigados^ e já pisados^ vão desistindo a pouco e pouco^ des- 
compondo os outroS; até que dois ou três que ficam^ servin- 
do-se por fim das facas^ lá se retiram com o seu quinhão. 

Nesta barulhada^ não se estranha que tomem parte um ou 
outro morador das povoações^ e também os cães. 

A Expedição encontrou neste logar uma secção com as nossas 
cargas^ vindas de Cazengo para Fungo AndongO; a qual tam- 
bém tomou parte na festa da carne. 

A população aproveitou do festim; mandando os seus vendi- 
lhões com fuba^ farinha^ cebollas^ e outros géneros que se per- 
mutam por carne. 

Emquanto se tirava uma photographia da localidade^ pre- 
parava-se o nosso almoço, no qual tomou parte o Chefe da di- 
visão. 

A sombra da casa collocou-se a mesa, e d^ali estivemos dis- 
fructando; na nossa frente, uma esplendida floresta, já descri- 
pta por Welwitsch. 

Bartholomeu Pedro Brandão, que está satisfeito com os seus 
hospedes, come pouco, mas bebe-lhe bem; e diz-nos: «O vinho 
é muito bom, e peço licença para o dar a provar ás minhas ra- 
parigas»; e cada uma por seu turno vem molhar os beiços no 
precioso liquido, que o nosso amigo lhes dá por conta. 

Principia o homem a alegrar-se, e ahi começam os presen- 
tes : agora gallinha, depois fubá, farinha, ovos, e, por ultimo, 
quer que levemos um porco! 

Isso não pode ser, lhe diz um de nós, não temos carregado- 
res para tanta cousa ! 

Tudo se arranja, retorquiu; e elle ahi vae ás curvas, gri- 
tando por fulana e sicrana para lhe trazerem dois rapazes, que 
levem as cargas dos seus amigos a Pungo Andongo, e elles 
apparecem. 

Fomos então mais exigentes: comprámos alguma cousa do 
que precisávamos, mas pagando o porco. 



DESCRIPÇÍO DA VIAGEM 



161 



Isto dea logor a uma diecusa^o, em que elle, aos abraços, nos 
queria provar que era muito uobbo amigo, e que uSo parecia 
bem fazer negocio com pessoas grandes de Mueiie Puto; mas 
cedeu, por fim, com a condição de nos acompanhar até ao 
Lutete, A margem do qual queriamoa pernoitar, e assim fize- 
mos alguns forneci men toe. 




^\vt 



;';'^''%;;3s_- ^^^^n. 



Mandou apparelhar o seu boi, mas como a alegria já fúase 
grande, e aa peruas fraquejassem, tudo eram pretextos para 
passarmos a noite ali. 

Ás três horas, cmfim, estava o homem convencido de que 
nós éramos maia teimosos do que elle, e resolveu-se a montar o 
boi. Os carregadores segnem e nós vamos para as rédea. 

Rodeado dos seus, quer mostrar que ainda é agil e nSo está 
em tal estado quo nSo pos^a montar o bm' ; mas, ao fazô-lo, 
vae cair do outro lado, rolando^pelo cIi.1o. 



162 EXPEDIÇSO POBTUGUEZA AO MUATllNVnA 

Um de nósy que ficou atrás, fez coro com as suas mulheres 
para que ficasse e fosse descansar um pouco, e elle cedeu abra* 
çando-o, e lá ficou sobre um pequeno morro, agitando um len- 
ço, e em grande gritaria, dando vivas á ExpediçSk). . 

As seis horas haviamos percorrido 4 kilometros. Parámos junto 
ao rio Lutete, onde depressa os carregadores improvisaram um 
acampamento, e os contratados armaram as nossas barracas, 
para onde fomos escrever as impressões do dia, aguardando o 
jantar, para o qual todos tínhamos appetite. 

Arranjam-se fogueiras como de costume. Os carregadores 
com a barriga cheia estSo satisfeitos, e tratam de cantar e dan- 
çar; e nós, com esta bulha infernal a que nos vamos acostu- 
mando, adormecemos, lembrando-nos da bebedeira do nosso 
Bartbolomeu e da sua boa gente. 

Bartholomeu, chefe da divisão, é uma potencia aqui: tem 
bastantes mulheres, boa manada, bellos porcos, cabras, galli- 
nhãs, lavras bem tratadas, e além d'isto boas propinas pela 
resoluçSo das questões dos povos que constituem a divisSo ! Que 
mais quer elle? 

Parece á primeira vista, que estas entidades, chefes ou com- 
mandantes de divisão — auctoridades gratuitas do governo da 
provincia espalhadas por todo este sertão — são o fiagello dos 
povos e um estorvo ao desenvolvimento das localidades. 

Impressionados pelo que se tem dito e escripto sobre taes 
auctoridades, confessámos que vinhamos predispostos contra 
ellas; porém, o que fomos vendo depois, mostrou-nos que essas 
entidades, quando bem aproveitadas, sao um grande auxilio 
á boa administração da provincia, como esperamos provar de- 
pois da nossa rápida viagem por estes concelhos sertanejos. 

Começava o mez de julho e começava bem. Logo ao rom- 
per do dia, o maioral do povoado próximo traz-nos um cabrito 
de presente, e pouco depois, um homem d^ahi pede providencias 
contra um dos soldados que nos acompanha. 

Eis a questão: 

Um soldado na véspera á noite roubára-lhe uma rapariga 
e trouxera-a amarrada para o acampamento. 



descbipçao da vuqeh 163 

Chamoa-se o soldado e o seu cabO; e todos os cabos de car- 
regadores^ ao mesmo tempo que se deram ordens para a Expe- 
dição amarrar cargas. 

O soldado confessou que roubara a rapariga^ porque um tio 
d'ella em Ambaca lhe devia 6^000 réis. 

O homem que se diz pae pede justiça de Mendes Machado; 
isto é : que o soldado lhe dê fazenda e dinheiro^ e leve a ra- 
pariga. 

O soldado diz: «Já estou privado do meu dinheiro; minha 
irmã esta amigada com o irmSo do queixoso^ tio da rapariga; 
fique elle com o dinheiro e minha irmS^ e eu levo a rapariga 
para cozinhar a minha comida na viagem.» 

A rapariga nSo quer ficar com o soldado, porque se nSo por- 
tou bem com ella, deixando-a ficar amarrada toda a noite. 

O soldado insiste que só a foi buscar para cozinheira. 

ResoluçSo : A rapariga fica com seu pae. 

O corneta toca a avançar; cada um se dirige para as suas 
secçSesy e seguimoç. 

Vamos subindo suavemente. Já aqui se nota outra qualidade 
de terra; já a vegetação é mais forte^ e o capim mesmo é di- 
verso. 

Tinhamos andado 13 kilometros e começámos a atravessar 
uma extensa mata, de que também falia Welwitsch, finda a 
qual entrámos em Cazela, pouco depois das dez horas, sendo o 
percurso, do Lutete até aqui, 16 kilometros. 

Descansámos para alnioçar, e fizemos seguir o cabo da força 
com a carta de recommendaçSo de M. Zagury ao gerente da 
casa Lara & C, em Pungo Andongo. 

Passava já do meio dia quando proseguimos a nossa jorna- 
da, e pouco depois começávamos a descobrir os cabeços das 
celebres e tSo afamadas pedras. 

Com verdadeiro enthusiasmo iamos vendo apparecer esses 
ennegrecidos monolithos naturaes, de que se falia com admira- 
ção ha dois séculos. 

Conhecíamos o que se tem escrlpto a respeito d'esta mara- 
vilha da natureza, e já em tempo escrevêramos alguns ar- 



J64 



EXPEDIÇXO PORTUODEZA AO MUATIXnvcA 



tigOB, mofltrando muito especialmente as vantagens de aqui 
se estabelecer uma colónia europea; e mesmo, quando fomos 
conaultadoa, na commÍBsSo da reorgnnisa^o do exercito do Ul- 
tramar, preferimos esta localidade a Ambaca para se aquarte- 
lar um batalhSo, baseando-nos nasínforaiaçScs que então ha- 
viamoa colhido. 

ChegámoB, cmfim, ao pó d' este monumento natural, ás trea 
horas e um quarto da tarde do dia 1." de julho de 1884; tendo 
feito de Ambaca até arjui, no rumo quaai aeinpre sul, um ' 
percurso de 6Í.1 kilometro8 — viagem que um bom escoteiro tem 
feito em dia e meio. i 




DESCRIPÇAO DA VIAGEM 



CONCKI.HO DK PUNGO AKDONGO 




NÓB, que noB sentira- 
inoa impressionadus, at- 
tcntnndoiios monumentos 
de Lo anda, observando 
as bdla^ margens do 
Cuauza, descobrindo-nos 
respeitosos em presença 
das heróicas fortalezas 
de Muxima e de Mau 
sangauo, estudando o 
uotavel movimento com- 
mercial do Dondo, per- 
correndo as plantaçcies de 
Cazengo e atravessando 
OB dcBcampados da lea- 
(riioi. ■!• Eiprdiçio) daria Ambaca, nSo pu- 

demos dominar a nossa confusão e o nosso assombro quando 
noa acbámoB em prc8eo;;a das majestosas pedras de Fungo 
ÃDdongo I 



1 66 EXPEDIÇIO POBTUGUEZA AO MUATIInVUâ 

Ey com franqueza o confessámos^ nSo nos sentíamos com 
animo de caminhar avante sem as contemplarmos por largo 
espaço. 

Approximámo-nos depois para fazer uma idea da sua altu- 
ra, e recuámos em seguida, como que receiando ficar esmaga- 
dos por um d'esses penedos, que parece quebrado, e cuja parte 
superior se mantém em equilibrio, ameaçando despenhar-se ! 

Afastámo-nos ainda para mais longe a fim de melhor abran- 
ger com a vista esses monstros de formas diversas, ligados 
até meia altura a constituirem uma muralha ondulada, termi- 
nando superiormente em figuras phantasticas mais ou menos 
arredondadas, mais ou menos agudas, que se destacam em in- 
tervallos como ameias de antigas fortalezas. E assim se esten- 
dem por kilometros para noroeste estes penedos, interrompeu- 
do-se a sua continuidade para depois nos apparecerem de 
distancia em distancia, como se fossem as cristas da mesma 
muralha que affloram á superficie e que diminuem de altura 
até desapparecerem no terreno que vae subindo. 

Como isto é soberbo! 

Quizeramos, antes de penetrar nas entranhas d'esta enorme 
estructura, que a natureza se encarregou de levantar para des- 
afiar a audácia do poder humano, e onde os Portuguezes foram 
esconder as suas habitações, avaliar-lhe as diversas alturas, 
conhecer- lhe o aspecto e attentar na côr que a reveste, que só 
de per si reptesenta um phenomeno interessante. 

E, na verdade, como são grandiosos estes problemas da na- 
tureza, que se revelam ao homem investigador! 

E quem dirá que a côr negra doestes penedos é devida a uma 
simples alga do género Sdtonema, a qual não só imprime 
caracter a esta região pedragosa, mas também, o que não é 
menos interessante, serve para proteger toda a vegetação contra 
os raios do rei dos trópicos — o dominador implacável de todas 
estas terras! 

Apresentaram-se essas pedras como uma maravilha geológica 
e como uma curiosidade botânica, e em verdade tudo aqui para 
nós é admirável, surprehendente ! 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 167 

E que de recordações históricas^ politicas, coloniaes nos iam 
acudindo á mente, memorando-nos da conquista doestas pedras 
e dos heróicos feitos dos Portuguezes em toda esta vastíssima 
provincial 

Mas o território das Pedras Negras não era o objectivo da 
nossa viagem, e por isso, assim pensando, naturalmente iamos 
penetrando nos dominios d'aquelles soberbos gigantes da natu- 
reza, seguindo por vezes em estreita vereda que dá acesso á 
povoação. 

Chegámos, emfím, eram quatro horas da tarde, a este exce- 
pcional logar habitado, onde já nos estava esperando o sympa- 
thíco negociante Philippe da Silva Leonor, cavalheiro que nos 
captivou pelas suas maneiras distinctas e modos insinuantes. 
Havendo embarcado muito novo para o Brasil, percorreu o 
Amazonas e o Pará, de onde veiu para esta província, fixando 
ultimamente aqui a sua residência como negociante e sócio da 
acreditada firma Lara & C* 

Recebeu-nos com verdadeira aflPabilidade, e tinha-nos prepa- 
rado um bom aposento. 

Tratámos de aproveitar o pouco que tínhamos da claridade 
do dia, pois bem sabíamos que das pedras a dentro anoitecia 
muito mais cedo. 

E este, por certo, um phenomeno de fácil explicação ; mas 
que influencia podo elle ter nos habitantes e na vegetação, se 
inquestionavelmente recebem uma somma de luz e de calor 
muito menor do que se estivessem a horizonte descoberto? 
São questões de pequena monta á primeira vista, mas não o 
podem ser quando se deseja conhecer a influencia de uma lo- 
calidade na vida dos seus habitantes. 

E a nós, que haviamos recommendado as terras de Pungo 
Andongo como logar adequado para uma colónia europea, cum- 
pria-nos reconhecer a verdade do que haviamos affirmado, em- 
bora para isso tivéssemos pouco tempo de que dispor; e, por- 
tanto, tratámos logo do que era indispensável providenciar com 
respeito á Expedição, para nos dedicarmos depois com mais 
cuidado ás nossas investigações. 



lè8 fiXPEDIçXo POBfUOtTEZA ÀO HUÀTIInVUA 

No grande quintal da casa que o gerente poz á nossa dispo- 
sição fizeram-se acampar os carregadores, arrumando-se as 
caibas num armazém, e armando-se uma das nossas barracas 
de lona para os doentes, que, por infelicidade, já havia, cer- 
tamente em razão das fatigantes marchas que ultimamente fi- 
zéramos, por termos ainda de nos demorar em Malanje e ir já 
muito adeantada a quadra do melhor tempo para nos inter- 
narmos. 

Da parte de fora do quintal armou-se outra barraca para as 
doze praças, que davam uma sentinella para as cargas, ao mes- 
mo tempo que vigiavam pela ordem entre os nossos carrega^ 
dores, pois que estavam aqui comitivas de diversas prove- 
niências ao serviço da casa. 

A bandeira da Expedição foi arvorada junto da barraca dos 
soldados, porque os nossos desejaram sempre destacar-se das ou- 
tras comitivas particulares com que se encontram; e é certo 
que a bandeira portugueza os anima e infunde respeito. 

Fomos, em seguida, procurar o chefe para sabermos se tinha 
já feito acquisiçâo dos bois de monta, como lhe fora recommen- 
dado pelo Governador geral da provincia. O chefe, que não 
passava de ser um bom homem, e desejava viver sem incom- 
modos, disse-nos que era cousa difficil o alcançarem-se de 
prompto oito bois em boas condições, e que por isso nos espe- 
rava para nós os escolhermos. 

Voltámos a Philippe Leonor, que se encarregou de os apre- 
sentar no outro dia de manhã, aifiançando-nos que já podíamos 
dispor de três. 

Despediram-se os carregadores que terminaram os seus con- 
tractos, e aproveitou-se o retomo de oito para Malanje, que fica- 
ram logo a nosso serviço e se encarregaram de obter mais, de- 
vendo os contractos de todos ser feitos no dia seguinte. 

Nestes serviços se passou o resto da tarde, até nos chamarem 
para o jantar. 

Vieram procurar-nos algumas pessoas da localidade as quaes 
o dono da casa, com a boa vontade de se nos ser agradável, 
convidara para nos fazerem companhia. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 169 

GeDeralisou-se a conversaçSO; e largamente se apreciou a 
importância doesta região^ e se fallou da sua opulência passada 
e sua presente decadência. 

Tratando-se da opulência, já se vê que falíamos do coronel 
Manuel António Pires, cujas filhas e netas nós conhecemos. 
Recordáram-nos o^modo principesco como elle em sua casa rece- 
bera Livingstone, que também no seu livro lhe consagra pa- 
lavras de muito louvor. 

O coronel, como se sabe, era negociante; dispunha de grande 
força de gente armada e havia-se tomado o sustentáculo do 
prestigio portuguez por estes sertSes mais próximos. 

As suas comitivas de negocio, passando através dos Libelos, 
iam até o Bié e regiões ao norte, alargando cada vez mais a 
fama do seu nome. Na verdade, chegou a possuir riquezas fa- 
bulosas. Tinha boas propriedades agrícolas, boas manadas de 
gado, e offerecia aos seus hospedes pSo fabricado com o trigo 
que colhia das suas fazendas, e excellentes queijos, a que Li- 
vingstone se refere como verdadeiro apreciador. 

As hortaliças mais perfeitas, e as carnes mais saborosas, que 
não eram excedidas pelas melhores da Europa, os fiructos mais 
finos, mais mimosos e mais delicados, e os doces que d'elles 
mandava fabricar, constituiam as refeiç3es doesse homem tSo 
singular, como as pedras a cuja sombra se acolhera. 

Das hortaliças, carnes, fimctas e doces, tivemos occasiSo de 
provar magnificos exemplares. 

Na sua residência, nesta villa, viam-se mobilias luxuosas 
mandadas vir da metrópole; os tectos e paredes dos quartos 
eram primorosamente pintados por artistas de mais subido mé- 
rito, que para tal fim mandou chamar. 

Era extraordinária, na verdade, esta narração, e tem tanto 
mais de real, quanto é confirmada com sinceridade pelo celebre 
Livingstone. 

Como o coronel, lembra-nos Rodrigues Graça, nas suas pro- 
priedades do Golungo Alto, e mais tarde o mallbgrado Borges; 
e ainda em Moçambique e em S. Thomé, ha memoria de outros 
Portuguezes que deixaram nome pela opulência em que vive- 



170 EXPEDIÇlO POBTUGUEZA AO MUATIIkVUA 

ram^ oa pelos vestígios que ainda d^ella se vêem nas proprie- 
dades que administraram. 

SSo importantes^ é certo; os factos que apontámos, e nSo 
menos notáveis, annos antes, os que se contam de Fortunato de 
Mello. 

Advogara este com enthusiasmo a idea de' aqui se. estabele- 
cer uma colónia europea; e seu pae, medico e naturalista dis- 
tincto, diz-nos Lopes de Lima, havia escolhido esta regiSo de 
preferencia a todas as outras para aqui passar os últimos dias 
da sua vida. 

Tudo isto, porém, não foi sufficiente para salvar esta loca- 
lidade do abatimento em que hoje a encontrámos, e de que 
nos é fácil dar a explicação. 

Como quasi sempre succede, e ainda hoje, a respeito dos mais 
vivos assumptos coloniaes, procede-se por informações menos 
auctorísadas, e assim vimos que as pedras de Fungo Andongo 
foram consideradas como insalubres e tSo más, certamente por 
causa da côr negra por que são conhecidas, que foi este por 
muitos annos o logar escolhido para onde se enviavam degre- 
dados os facínoras mais perigosos! 

Também para aqui veiu desterrado o preso politico José de 
Seabra da Silva, que fôra ministro, e a quem por commiseraç&o 
sustentara um dos ascendentes do indígena Polycarpo de Beça 
Teixeira, cujo retrato apresentamos. 

Prolongou-se a conversa até alta noite, e bem profunda foi 
a in^pressão que ella nos deixou. 

Os tempos áureos de Pungo Andongo tiveram, como os de 
Ambaca, uma causa exterior, a qual foi o largo commercio de 
marfim, escravos, borracha e cera, e com o seu desappareci- 
mento foram-se todas as riquezas. O tempo encarregou-se de 
apagar tudo o que era obra dos homens, e que elles não sou- 
beram tornar duradouro. 

Logo de madrugada puzcmo-nos a caminho para o logar da 
habitação de José de Seabra da Silva, e já não a encontrámos. 
No sitio em que essa casa existiu, quasi no fim da rua princi- 
pal da villa, ao lado esquerdo, foi construida uma outra mais 



> . V 






DESCBIPÇXO DA VIAGEM 171 

pequena; onde a Expedição se alojou no regresso, devendo 
esse £Etvor ao negociante A. Coimbra; no seu quintal ainda 
vimos restos das ruinas da antiga casa. 

E o que restava da habitação principal do coronel Pires? 

Que influencia tiveram estes homens nos habitantes? 

Custa a attentar no poder nivelador que impera nestas ter- 
ras; pois tudo desappareeeu sem haver reliquias á vista das 
quaes se preste homenagem aos que maíe se distinguiram! 
Mas, o que não podemos deixar de reconhecer é a singular 
disposição das habitações e hortas que vemos nos recôncavos 
doestas muralhas, de um e outro lado, fazendo-noa esquecer 
o seu ligamento que nos serve de piso. 

Os moradores internados neste profundo covão, aproveita- 
ram 08 espaços entre as saliências doestas moles gigantes, e ahi 
fizeram as moradias com os recursos materiaes da localidade, 
sem ordem ou alinhamento. 

A maior parte doestas edificações teem terrenos annexos, 
onde se vêem laranjeiras e bananeiras, sempre regadas pelas 
linhas de agua que saem da penedia e descem de alturas 
diversas, sendo depois convenientemente dirigidas para as 
regas d^outros pomares, hortas e jardins. 

A população não tem augmentado e a raça branca não tem 
tido aqui a devida propagação ; e diz-se que são firequentes o 
escorbuto, as pneumonias e doenças dos órgãos respiratórios, 
e ainda outras, provenientes da suppressão da transpiração. 

Attribuem-se algumas doenças ao uso da carne de gado suino 
e á qualidade das aguas, que não obstante, são das mais lím- 
pidas e frescas. 

Será de facto a população victima d'essas causas? 

E urgente que os médicos façam estudos a tal respeito, por 
ser este um dos assumptos que mais interessa á sciencia. 

A par da influencia da localidade nos habitantes, levantam-se 
outras questões não menos dignas de estudo. 

Tinhamos lido o que a respeito doestas pedras escreveram 
Livingstone, os beneméritos exploradores Capello e Ivens, e, 
antes doestes, Welwitsch. 



172 EZFEDIÇZO POBTtIQDEZA AO MUATiXnVCA 

Ãb pedras apresentam-se realmente em tórma de maralha, 
tendo kilometros de extensSo, e com salienciaB e reintranciaa 
mais ou menoB agudas ou arredondadas, o que para o geólogo 
nâo pôde ser indifferente. 

As formas, como bem se vê nas gravuras qne apresenta- 
mos, sito em geral, tSo variadas quanto ptiantasticos ; erguem-ae 




umas pedras a m^s de 60 metros, e encastellam-se outras, lem- 
brando um enorme castello medieval, ou, antes, esses monu- 
mentos gigantescos do Egypto, que nos asBorabrara sendo obras 
dos homens, como estas nos deixara estupefactos sendo obra 
da natureza. 

Destas pedras nos diz Livingstone ' : tCea rochers sont for- 
mes d'un conglomerai de fragments arrondls de nature diverso, 
renfermés dans une matríce de grés d'un rouge sombre, et 



1 ExphralioTU daTit 1'intíriair de fA/rique auttrale, 1840-1856, pag. 
463, tiad. Loreau. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 173 

reposent sur une couche puissante de grés semblable, ou sont 
contenusy en três petite quantité, quelques-nns des galets, qui 
entrent dans la composition des colonnes 

cLes {ragments dont le conglomérat de ces piliers est fbrmé 
sont des morceaux de gneiss; de scbiste argileux, de mica et 
de grés schisteux, de trapp et de porphjre, dont la plupart 
sont assez gros pour faire supposer que ces rochers sont les 
demiers vestiges de banes enormes de galets primitifs.i 

Sobre este mesmo ponto escreveram os nossos exploradores 
Brito Capello e Roberto Ivens*, o seguinte: 

cDa analyse que fizemos, concluimos que sSo as penedias de 
Pungo Andongo exclusivamente constituídas por um conglome- 
rado duro e resistente, em que figuram schistos argillosos, de 
envolta com o gneiss, porpbyro, alguma mica e a alludida es- 
pécie de basalto, para o qual, porém, deve haver toda a reserva, 
pela duvida em que estamos, t 

E como se formariam estas penedias? 

A este respeito escreve Livingstone*: 

iLes piliers gigantesques de Pungo Andongo, doivent avoir 
été formos par un courant maritime venant du sud-sud-est; il 
est facile de voir, en les considérant d'un point élevé, qu^ils 
suivent cette direction, et leur origine remonte à Tâge ob les 
rapports de TOcéan et de la terre différaient complètement de 
ce qu'ils sont aujourdlmi, bien avant Tépoque ou le globe ter- 
restre fut prêt à devenir la demeure de Thommci 

A idéa de uma corrente oceânica, vinda do sul e formando 
estes pilares, nito foi acceita pelos nossos exploradores, que 
explicam doeste modo o phenomeno: 

c A primeira idéa suscitada a quem faz a ascençSo de qualquer 
dos penedos (porquanto quasi todos sâo accessiveis), e que, re- 
conhecendo a sua disposição, tenta explicar, pela existência em 



* Dt Benguella áa Terras de lacca, vol. ir, pag. 190. 

* Op. cit.j pag. 463. 



174 EXPEDIÇÃO POBTUGUEZA AO mJATIÂNVUA 

todo O conglomerado de calhaus perfeitamente roliços^ a aoçSo 
indubitável da agua, é que outrora o leito do rio Cuanasa des- 
lisava pelas pedras, e um effeito vulcânico, elevando-as, desli- 
sou o curso do mesmo rio umas poucas de milhas para o sul. ^» 

Parece-nos mais consoante aos &ctos observados a explicação 
de Livingstone. do que a dos nossos exploradores Capello 
e Ivens. 

A lucta do Oceano com o continente, mais poderosa e mais 
accentuada outr'ora, poderia suggerir aquella explicação na- 
tural quando se attenta, mesmo em nossos dias, nos phenome- 
nos de levantamento e abaixamento da costa marítima. 

Refere-se Livingstone a um facto que relembrámos pelas 
suas mesmas palavras. Sáo as seguintes: 

cOn nous a fait voir sur Tun de ces rochers Tempreinte d'un 
pied, qui passe pour être d*une reine célebre dont tout le pays 
reconnaissait Tautorité*. 

Os nossos^ exploradores, porém, faliam da existência: cDe 
pegadas humanas á mistura com as de quadrúpedes, certa- 
mente câo, que existem, que nós as vimos e as desenhámos 
por serem authenticas.t^ 

Também vimos essa pegada muito visivel e a respeito da 
qual 08 habitantes se chegam a convencer seja artificial. EUa 
aprescnta-se de forma que pareceria, se fosse autentica, ter 
havido um escorregamento de quem descesse; porém, é só de 
um pé, e nem para a frente nem para trás ha outros vestígios. 

O nosso amigo Francisco Salles Ferreira, na sua visita de 
inspecçâlo das contribuições aos concelhos, como neste tivesse 
de demorar-se, conseguiu obter um molde d'esta pegada, e 
promette apresentá-lo num interessante trabalho que tenciona 
publicar sobre a provincia, e fazer sobre elle algumas consi- 
derações. 



1 De Bcnguella às Terras de lacca^ vol. ii, pag. 196. 

* Explorations dans Viniéritur de V Afrique australe, pag. 464. 

3 De BengueUa ás Tertas de lacca, vol. ii, pag. 191. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 175 

Julgámos^ pela nossa parte^ que a linha de Cachoeiras que 
se estende quasi parallela á costa atlântica, levantando-se os 
terrenos d'essa linha até aos planaltos centraes, e havendo nou- 
tros legares pedras assim postas a descoberto, como as do Congo 
e de Encoje para norte, está demonstrando que as correntes 
oceânicas chegavam não longe doeste limite, cobrindo toda a 
zona baixa da costa occidental da Africa, que é de formação re- 
lativamente moderna. 

As aguas diluviaes, que nessas epochas cairam e abriram val- 
les, reduziram as alturas de montes e escavaram estes terre- 
nos, deixando as pedras a descoberto, e enchendo de detritos 
de toda a espécie, os terrenos que o mar ia deixando livres. 

E bem sabido que as coordenadas geographicas são os pri- 
meiros factores que servem á determinação de um clima. As 
doeste já ha muito se acham calculadas, e são as seguintes: 

Latitude 9« 42' 14" sul. 

Longitude 15® e 30', E. Greenwich. 

Altitude, 1071 metros. 

É, pois, evidente que o território de Pungo Andongo está 
muito mais próximo da linha equinoccial do que dos trópicos, e, 
por isso mesmo, a sua posição não é das melhores, dando-se 
além d'isto a circumstancia da sua baixa altitude, em relação 
ás exigências dos modificadores do clima. 

Nem a latitude nem a altitude são, pois, favoráveis a esta 
região; mas a disposição do terreno, só de per si, neste caso, 
tem grande influencia, e dá ao clima caracter mais benigno do 
que o de outras localidades sob o mesmo parallelo. 

O sol, passando aqui duas vezes no zenith, faz também com 
que o calor domine ; e é grande, por certo, a correcção da tem- 
peratura dada pela disposição que offerecem as pedras. 

Mas qual será a influencia de simiHiante localidade, especial- 
mente na acelimataçao da raça branca? 

Apresentou-se-nos um caso. que a todos impressionou, e não 
se sabe como explicá-lo! 

E o de uma lindíssima creança de sete annos, em segunda 
geração. De pelle finissima e de uma grande alvura, olhos gran- 



176 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO KDATIInVUA 



des, cabellos louros, caindo-lhe em graciosos anneis sobre as 
costas, bdca pequena e beiços rosados; era o enlevo dos pães. 

Tinha, porém, um defeito, e grave, que causava pena en- 
contrar em rosto tfto formoso — os dentes eram completamente 
podres! 

£8te mesmo phenomeno se dava numa sua irm2 mais pe- 
quena, e que com ella muito se parecia. 

Estas duas creanças são netas do velho Tavira, que ha mui- 
tos annos aqui se estabeleceu, tendo sido primeiramente capi- 
tão de navios mercantes. 

SSo filhas estas creanças de uma filha d'elle e de um seu 
sobrinho — rapaz activo e que seu tio chamou para a direcçSo 
da sua bella propriedade agrícola, situada a uns 6 kilometros 
fora da villa. 

Também conhecemos os netos do coronel Pires, de que Li- 
vingstone nos falia com tanto enthusiasmo. E estes, filhos de 
sua filha e de um europeu, nasceram em Malanje e também 
Boffrem do mesmo mal, sendo a mãe natufal de Pungo Ân- 
dongo. 

Poderiamos suppor o mal hereditário, se não soubéssemos 
que no Peru e n^outros paizes se dSo factos análogos. 

Deve attribuir-se esta doença, aqui, ás aguas, aos alimentos 
ou antes ao clima? 

E o que cumpre averiguar. 

Causava-nos enthusiasmo fallar com os habitantes e recordar 
factos históricos, que tanto ennobreceram os nossos maiores. 

Foi o invicto capitão Luiz António de Sequeira que, em 
1671, conquistara esta maravilha para a coroa de Portugal ao 
atrevido D. João, ultimo rei dos Dongos. 

Eram arrojados e persistentes os portuguezes, que abne- 
gando de tudo que individualmente lhes era caro, se expunham 
aos maiores perigos, somente estimulados pelo amor e engran- 
decimento da sua pátria! 

Bebellára-se aquelle vassallo ingrato contra a soberania de 
F^ortugal, que por vezes libertara o seu reino do jugo dos Jingas, 
animado pela derrota que as nossas forçius haviam sofirido 



DESCRIPÇXO DA VUGEM 177 

contra o Sonho, sabe Deus 86 pela imprudência de se não atten- 
derem os conselhos do leal e dedicado Calandula, de que já £eJ- 
lámos. 

Custa a crer que Luiz António de Sequeira e os seus compa- 
nheirosy durante onze mezes; tivessem a constância de se 
sustentarem entrincheirados defronte d'este grandioso blocaus 
natural e que se suppunha inconquistavel; esperando a oppor- 
tunidade de lhe dar assalto. 

Em diversos pontos, arcando com as difficuldades das aspe- 
rezas das rochas e falta de rampas accessiveis^ elles trepam^ 
debaixo da resistência de um inimigo forte, aos cumes d'essa 
penedia, de onde o desalojam e perseguem. É tal o terror que 
d'elle se apossa pela bravura dos nossos, que muitos se des- 
penham de differentes alturas perecendo assim muitos d^elles. 

Pagaram bem cara a ousadia de irem atacar os nossos nos 
entrincheiramentos I 

E com actos de tal heroicidade occorre-nos o triste fim que 
teve esse valoroso capitão I Alguns annos depois, é ainda um 
traidor doesse povo dos Háris que, combatendo a seu lado contra 
as hordes aguerridas de D. Francisco, successor da Jinga, apro- 
veitando- se da desordem e confusão da nossa victoría, cobarde 
e traiçoeiramente o mata á queima roupa! 

AquoUe Portuguez, que foi o terror de todos estes sertSes, 
morreu vencendo, como muito bem disse um dos nossos histo- 
riadores modernos t 

A conquista das Pedras Negras representa, pois, um dos mais 
^andiosos feitos que os nossos praticaram por estas terras; e 
é preciso que se divulguem bem todos os factos que ennobre- 
cem o nome portuguez em Africa, visto que a Europa é tão 
injusta para comnosco, e tenta absorver por tantos modos as 
nossas melhores conquistas ! ^ 

Luiz António de Sequeira bem mereceu da pátria que tanto 

honrou ; e o melhor monumento para coroar os seus feitos, con- 

quistou-o elle. A nós cumpre saber aproveitá-lo para gloria di^ 

nação, arroteando devidamente as terras a que está vinculado 

o seu nome! 

u 



178 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO HUATllNynA 

E esta a homenagem que desejáramos se prestasse aos he- 
roes que tanto se sacrificaram, e alguns dos quaes quasi s2o 
desconhecidos dos Portuguezes 1 

Noutro tempoy pela sua bella situaçSo, affluia aqui o com- 
mercio de Jinga e Cassanjc; vindo do interior; do libolO; de 
todo o sertSo bailundo e ainda do Bié ; hoje, porém, restringe-se 
ao de leste, transportado por B&ngalas e Calandulas, e a muito 
pouco da outra margem do Cuanza, e por este motivo muitas 
das casas commerciaes, que aqui floresceram, já retiraram, e 
mais algumas pensam em fazer o mesmo. 

Benguela attrahiu a si todo o conmiercio mais a sul; Ma- 
lanje e Dondo o que passa por Cassanje e Songo. Hoje Pungo 
Andongo é apenas um ponto de passagem de comitivas. 

O gentio, sempre desconfiado de que o enganam, embora afre- 
guezado numa casa, em sabendo que noutro logar lhe dão mais 
alguma cousa pelo seu género, ainda que seja uma gratificação, 
sem olhar a distancias, vae lá com as suas cargas. 

E sabido que o commercio no Dondo está menos onerado 
que o de Pungo Andongo, e, portanto, pôde offerecer mais van- 
tagens ao gentio. E preciso que se dê certo numero de cir- 
cumstancias para haver compensações, e poder o negociante em 
Pungo Andongo competir com o do Dondo. Ora essas circum- 
stancias dâo-se com as casas filiaes, e são estas que fazem con- 
corrência. 

Aos gentios não passa este jogo indifferente e tratam tam- 
bém de fazer o seu, de que se aiTcpendem muitas vezes, por- 
que teem vendido o género por mais baixo preço do que lhes¥ 
fora offerecido anteriormente. 

Reconheceu o nosso commercio não haver grandes vanta- 
gens em ter espalhadas casas filiaes, e deu preferencia aos 
aviados; limitando-se, pois, o seu numero em Pungo Andongo. 

Todos estes factos, sendo o primordial o augmento de casas 
commerciaes em Malanje, motivaram a decadência commercial, e 
atrás d'ella a ruina de muitos prédios urbanos, e o desappa- 
recimento de todos os vestigios d^essa opulência de que só os 
homens antigos se recordam. 



f 



DESCRIPÇSO DA VIAGEM 179 



Todo O commercio por estes territórios se tem feito sempre 
ao acaso ; e a povoação era mais uma guarda avançada para 
uma exploração do commercio exterior, do que uma localidade 
em que se fixasse a população^ para constituir mna sociedade 
regular. 

Bastariam estes factos para se explicar toda a insciencia com 
que aqui se fazia o commercio. 

E que poderemos dizer das explorações agrícola, industrial 
c mineral? 

Como os europeus, arrastados pela idéa do commercio indi- 
gena, não pensavam senão em lhe ir ao encontro, esqueciam 
tudo que a terra IIkís podia offerecer como fonte de riqueza 
publica; a sua passagem não era assignalada, em geral, por 
serviço algum feito á localidade, e a sua retirada significava o 
aniquilamento completo. 

Houve, é verdade, os ensaios agrícolas de Fortimato de 
Mello e do coronel Manuel António Pires, e estes deram al- 
guns resultados benéficos á população indigena que por aqui 
se encontra, mas que está mui limitada pelas emigrações, por 
já não poder satisfazer ás necessidades que creou. E esta bella 
região será um ponto morto, se lhe não acudirem com as pro- 
videncias mais urgentemente reclamadas. 

Tenta-se a plantação da canna saccharina já com algumas 
vantagens, e parece que a agricultura se ensaia pela prímeira 
vez! Acuda-se, pois, a esta região com todas as providencias 
que possam aproveitar a estes pequenos núcleos de cultura. 

Não oflferece duvida que estas terras são m&gnifícas para 
diversas culturas europeas e para as que são próprias do clima, 
e nellas também se dao bem, melhor que em toda a região 
que percorremos, os bons pastos, e o gado aqui desenvolve-se 
e vive bem. 

E assim deve de succeder attenta a boa qualidade do capim 
que é differente d'aquelle que havíamos encontrado antes do 
Lutete, ainda na região de Ambaca. Aqui sim, dissemos nós, 
aqui por certo que o gado bovino encontrará muito melhor 
sustento, o que deve ser de grande vantagem para os colonos 



180 EXPEDIÇZO POBTDOUEZÁ AO MUÁTIÂNynA 

que procurem esta regiSo para se estabelecerem permanente- 
mente^ e queiram entregar-se a trabalhos agrícolas e á valiosa 
industria da creaçSo e engorda do gado^ que estabelecida a 
linha férrea^ encontraria por certo fácil saida para o melhor 
mercado do littoral. 

Também é certo que o europeU| sejam quaes forem as cir- 
cumstancias que se dêem, resiste ás influencias do clima, e pro- 
paga pelo menos até á terceira geraçSo. 

Devemos acreditar que o caminho de ferro de penetraçSo, 
de Loanda, mais mez menos mez; ha de atravessar esta regiSo 
para Malanje. E; portanto, occasiSo de pensarmos seriamente 
em aproveitar os recursos com que a natureza dotou esta loca- 
lidade, e a £Eicilidade de transportes que os poderes públicos 
lhe proporcionam. 

A iniciativa particular é por emquanto muito restricta no 
nosso paiz, e por isso aos poderes públicos ainda solicitámos 
mais um sacrificio, de que ao cabo de certo tempo resultarXo 
vantagens importantes, principalmente no desenvolvimento da 
agricultura^ e do commercio com a metrópole; porque este pe- 
queno mercado, que hoje aqui existe, tomará grandes proporçSes 
e terá uma outra ordem de necessidades. 

Uma colónia penitenciaria e um batalbSo agricola podem ser- 
vir ao Governo, não para ensaio, porque este está feito de ha 
muito, mas para despertar a attençSo e estimular a iniciativa 
particular. 

Mas que uma e outro se estabeleçam devidamente, proce- 
dendo-se aos trabalhos preparatórios indispensáveis, sob a di- 
recção de individues competentes, cujos planos deverão ser 
apreciados na metrópole, depois de ouvidas as auctoridades 
sobre o assumpto. 

Convençamo-nos. A nossa província de Angola ha de pros- 
perar quando os seus produetos poderem entrar, em concor- 
rência, nos mercados europeus, com os similares de outras pro- 
veniências. 

É tal o interesse que tomamos por esta região, sobre a 
qual já publicámos pela imprensa periódica alguns estudos. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 181 

que nos iamos esquecendo de que estayamos em yespera de 
partída; mas sejam também estas nossas resumidas conside- 
raçSes tomadas como tributo de reconhecimento a todas as 
pessoas que em Pungo Ândongo nos prestaram informaçSes, 
e mais ou menos manifestaram sjmpathia pelos bons resul- 
tados da nossa missSlo. 

Fizemos varias experiências para carregar os bois ; a von- 
tade era grande, porém o trabalho baldado, apesar dos diversos 
modos como pretendemos segurar as cargas. Se conseguiamos 
o nosso intento com alguns bois, lá iam elles de encontro a 
uma arvore, ou esquina de alguma casa, e a carga logo caia 
por terra; outros entravam pela primeira porta aberta, e fa- 
ziam dentro das casas grandes distúrbios, arrastando as cargas 
até as largar. 

Com o tempo e com um ensino persistente seria possivel 
conseguir alguma cousa, mas em caminhos estreitos ; agora nSo 
era possivel. Não havia, pois, outro remédio senSo contratar 
mais carregadores, porque, além das faltas que já tinhamoS; 
eram precisos mais alguns para o transporte dos fornecimentos^ 
que aqui fizemos, de pólvora, armas e lençaria grande^ por nos 
terem avisado de que a expedição allemã comprara todos os 
artigos d'esta qualidade que existiam em Malanje. Os carre- 
gadores fomeceram-se de camisas e bonés de velludilho. 

Como a Expedição partisse no dia seguinte e Sertório de 
Aguiar estivesse preparado para tirar algumas vistas photogra- 
phicas, aproveitou-se a ocoasiSo para photographar em grupo 
a Expedição, em frente da casa onde estivemos hospedados^ 
obtcndo-se assim a gravura que apresentamos. 

Não obstante haver ainda Êdta de alguns carregadores, deu-se 
ordem para a expedição partir na madrugada seguinte, divi- 
dida em secções ; e todo o dia se levou no preparativo de car- 
gas, trabalhos sempre fastidiosos por causa dos pesos, distri- 
buição de rações para a viagem, etc. 

Para o serviço dos nove bois de monta nomeou-se um dos 
contratados em Loanda acostumado a elle ; porém até Malanje 
nenhum de nós quiz ir montado. 



182 



EXPEDIÇÃO PORTOOtlEZA AO HDATIÂNVDA 



À pedido de Fhilippe Leonor, e como não podesBemoB ir d'aqui 
pernoitar a Calundo, âcámoa ainda em sua casa, e oa carre- 
gadores marcharam durante o dia por BecçSes e foram per- 
noitar a Cacolo, para seguirem de madrugada para ali. 

Foi assim melhor, porque tudo se fez com mais descanso, e 
tivemos o prazer de mais uma vez jantarmos na companhia 
de hons amigos. 




descripçjÍo da tiageu 



VIAGEM DE PUNGO ANDONGO PARA MALANJE 



udo estava prompto para 
partir ás sete horas e meia do 
dia 4, e emquanto esperamos 
por alguns amigos que querem 
acompanliar-uos, teimam trea 
doa coatractados de Loanda, 
já alegretes pelo mata-bicho, 
em carregar os bois; teimosia 
quo dá ensejo a bons trambo- 
IbSea e correspondente galhofa, 
e a fazerem-se arrecadar as 
cargas para, na primeira occa- 
siSo,'nos serem enviadas. 
Seguimos até ao lim da yilla, acompanhados pelas pes- 
soas da localidade a quem já agradecemos essa attenção; e 
ás dez horas e meia estávamos fóra das Pedras, e á uma 
e meia chegámos a Cacolo, onde almoçámos. 

Fóra do recinto da villa deixámos já, numa baixa, uma po- 
voação indígena com bastantes palhoças. O terreno desce sua- 
vemente d'ahi para o Lutete, affluente do Cuanza; para sueste 
ficavam as pedras chamadas Jingas. 




184 EXPEDIÇXO PORTUQUEZA AO MDATIÍNVUA 

Alegra-nos a viagem pelo grande horizonte que descobrímoSi 
parecendo-nos ter saido de uma prisão, e a nossa yontade é 
andar e ver, mas ver longe ; e de quando em quando deitámos 
um olhar fiirtivo para essa penedia, que vao desapparecendo, 
e se nos afígnora afirora muito mais sombria. 

Em Cari,^ povoação que passámos, apresentou-se-nos um 
homem com um bilhete e um boi-cavallo. O bilhete era de um 
dos nossos soldados que nos mandava mostrar aquelle boi para 
o comprarmos, como cousa muito boa, por sete libras ! Isto deu 
occasião a uma conversa, de que resultou comprarmo-lo por 
lôjSOOO réis. 

Apresentaram-nos outro boi-cavallo pouco depois, mas ar- 
reado, que também foi comprado pelo mesmo preço; lembran- 
do-nos então o conselho do Governadora provinda, de que 
era preferível este meio de transporte a outro qualquer, por- 
que^ em cásoi^ eittremos, nos proporcionava alimentação para 
alguns dias. 

Ainda depois apresentaram-nos mais, talvez uns seis ; e cus- 
ta-nos a crer que os allemães que mandaram escoteiros a Am- 
baca procurando até quarenta bois, se não lembrassem de os 
mandar aqui! 

Òccorreu-nos também o que nos dissera o pachorrento chefe 
de divisão em Pungo Andongo que haveria alguma difficuldade 
em arranjal-os! 

As quatro horas seguimos para o Lutete, a cuja margem 
foníos acampar, admirando-nos da volta que este rio dá, sendo 
já a segunda vez que dormimos próximo d'elle e nos servimos 
da sua agua. 

Effectivamente, não nos enganaram com as informações 
acerca das distancias: são 15 kilometros das pedras a Cacolo, 
fe 10 de Cacolo até aqui. 

A nossa refeição teve de ser muito parca; mas o peor de 
iudó foi que tivemos de passar a noite nas redes, sobre o 
capim, porque as camas ficaram para trás, certamente porque 
os carregadores vinham entretidos com os outros que beberam 
de mais. 



DESCRIPÇSO DA VIAGEM 185 

Ab secções que tinham partido de yespera estavam á nossa 
espera em Calundo ; mas era já tarde para ali irmos, e ao me- 
nos aqui tínhamos a casa da patrulha para abrigo. 

Logo de madrugada estávamos de volta com os nossos carre- 
gadores para seguirmos viagem, e depois de 10 kilometros de 
marcha chegámos a Calundo, de onde queríamos fsLzer seguir 
comnosco as secçSes que já ali estavam acampadas ; porém, o 
negociante Moreira, gerente naquella localidade da casa Oli- 
veira & IrmSos de Loanda, teve a amabilidade de vir ao nosso 
encontro a dizer-nos que o almoço estava na mesa á nossa 
espera. 

Fizeram-se seguir as cargas para Matete. Contractaram-se 
mais uns oito carregadores, que ahi estavam devoluto que 
eram de Malanje, e mandaram-se a Pungo Ândongo para nos 
trazerem as cargas que lá haviam ficado, e ao mesmo tempo 
dizer aos carregadores retardados no caminho que avançassem 
a encontrar-nos. 

Paulino, o encarregado dos bois-cavallos, lembrou que havia 
conveniência em serem estes montados tomando-se assim mais 
fácil a marcha. Era razoável o conselho, e, por isso, elle e 
os soldados lá os montaram e acompanharam as cargas. 

O inesperado almoço vinha de molde, porque nos permittia 
ter menos demora em Calundo, pois os nossos desejos eram 
vencer a distancia que nos separava de Andala Samba; além 
d'is80, Moreira, que tem fama de ser um bom negociante do 
sertão, porque sabe viver com o indigena, prestar-nos-hia • 
valiosos esclarecimentos. 

Notámos á sua mesa, como já o havíamos feito em Pungo 
Andongo, que as louças e talheres eram productos de indus- 
tria alIemS, e, a tal propósito, soubemos que por estes sertSes 
ha também carabinas, revólveres, facas de mato, e variedade - 
de capacetes de metal, tudo de proveniência allemS, que os 
exploradores d'esta nacionalidade para cá trouxeram e por 
aqui teem ido negociando. 

Registámos estes factos, porque foi por uma concessão gra- 
ciosa do Governo portuguez, em beneficio da sciencia, que se 



186 EXPEDIÇIO POBTUGUEZÁ AO HUATIÂNVUA 

lhes facilitou o serem despachadas as suas cargas nas alfan- 
degas da provinda^ com isenção de direitos^ e é bom que isto 
conste. 

Moreira^ este amável rapaz^ tSo digno de melhor sorte, é um 
mau exemplar para animar a immigraçSo europea. Mortificado 
com feridas incuráveis nas pernas, apresenta-se-nos maciUento, 
com falta de sangue, senta-se e falia sempre como quem está 
muitíssimo fatigado ; e o que também concorre para augmentar 
a impressão penosa que sentimos ao vê-lo é o facto de ser a 
sua pelle de uma alvura lymphatíca, os olhos claros, e o cabello 
louro claro. 

Pede licença para vegetar; e, comtudo, a sua residência está 
num planalto elevado, completamente desassombrado, e elle 
lá tem o Chemoviz para consulta! 

Como isto é triste! 

Reconhecidos o deixámos, e seguimos para Matete, a õ ki- 
lometros de distancia, que se vencem nimia hora, e, com peque- 
nas differenças, no rumo de leste. 

Aqui encontrámos, definhando-se também em lucta com o 
clima, á testa de uma casa filial de Moreira, um pobre rapaz. 
Ferreira, que nos convidou para jantar, dizendo-nos logo que 
tinha apenas uma gallinha, porque não quizeram vender-lhe 
mais ; porém empenhava-se em que o nosso coUega Sizenando 
Marques visse um doente, amigo d^elle, indígena, sobrinho de 
Narciso Pasclioal, de Malanje. 

Causou-nos dó tudo isto, e resolvemos ficar. Sizenando Mar- 
ques foi ver o doente emquanto se comprou, matou e distribuiu 
lun boi ; e, da parte que tirámos para nós, da melhor vontade 
repartimos com Ferreira, e com o que levávamos do nosso 
rancho se fez um excellente jantar, em que tomou parte, 
e que estamos convencidos foi para elle um jantar de festa. 

A nossa gente aproveitou também do descanso para prepa- 
rar o fogo e cozinhar parte das suas raçScs de carne e fiiba, 
que se lhe havia distribuído; não tendo deixado de haver, 
como sempre, a infallível bulha e as rixas por occasião da 
repartição da carne. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 187 



Apresentaram- se ainda mais alguns bois-cavallos á yenda^ 
mas não os acceitámos por entendermos que já tínhamos os 
que nos eram necessários. . 

O commandante da divisão dos Moveis veiu comprimentar- 
nos, e pedir licença para mandar prevenir o chefe do concelho 
de Malanje da nossa chegada a este ponto, conforme elle lhe 
ordenara de véspera ; e por isso se aproveitou o portador, es- 
crevendo-se um bilhete para elle, e outro para o negociante 
Custodio Machado. 

A nossa gente seguiu, com ordem de acampar em Andala 
Samba, e nós partimos ás quatro horas, depois de Sizenando 
Marques voltar de ver o doente, e de lhe deixar as prescripçBes 
para o tratamento a seguir com os preparados por elle mesmo 
manipulados. 

Continuámos no rumo leste ^4 les-sueste, e ainda não com- 
pletos 4 kilometros, novamente passámos o Lutete, pela ter- 
ceira vez, e deparou-s^-nos uma boa senzala num planalto á 
direita, e á beira do caminho um bom quartel (patrulha), em 
vista do que a nossa gente já havia acampado eram cinco 
horas e três quartos da tarde. 

Custando-nos a crer, pelas informações que tínhamos colhi- 
do, que fosse ali Andala Samba, onde a gente recebera ordem 
de acampar, chamámos o commandante da divisão que nos 
disse ficar esse ponto a uma hora de distancia; e, não sem 
custo, fizemos seguir para ahi os carregadores, só com o fim 
de acostumá-los á obediência. 

Havia luar, e ás sete horas e meia lá chegámos, tendo per- 
corrido 7 kilometros, pouco mais ou menos, sempre no rumo 
de leste. 

Ahi encontrámos também estabelecida uma divisão de Mo- 
veis, e o seu commandante apresentou-se immediatamente^ 
pondo á nossa disposição um bom quarto na patrulha, em que 
havia umas tarimbas feitas de mabú, para servirem de leito, o 
que nos foi bem pouco commodo, porque julgámos poder pres- 
cindir das nossas camas, que deviamos ter collocado em cima 
d^ellas. 



188 EXPEDIÇÃO POBTUGUBZA AO MUATIÂNVUA 

Os carregadores, na sna maioria, acamparam ao ar livre, 
entre fogueiras, entretendo-se primeiro a cozinharem o man- 
timento que tinham, e depois de terem a barriga cheia come- 
çaram cantando e dansando ; e nós, já affeitos a estas berrarias 
infemaes, adormecemos. 

O Lutete, com todas as suas ramificações, cortando a regilo 
em que temos andado depois de Pungo Andongo, rega muitos 
▼alies, que podiam ser excellentemente aproveitados para va- 
rias culturas remuneradoras; os indígenas, porém, apenas os 
aproveitam parcialmente para mandioca — base principal da 
sua alimentaçSo e que nSo requero cuidados — para milho, 
feijSo, alguma batata doce, abóbora, ainda algumas bananeiras 
e ananazes, e no todo, mais ou menos para tabaco. 

Também pelo transito se tem encontrado, aqui e acolá, bons 
pés de algodoeiro. 

Quando chegará o dia em que a iniciativa particular se 
convencerá de que o algodão é uma fohte de riqueza que vale 
muito a pena de explorar, com o auxilio do indigena, e que 
poderá ainda entrar na concorrência com o algodSo da Ame- 
rica, muito principalmente agora, que se acredita que o cami- 
nho de ferro ha de servir esta região? 

As explorações commerciaes são boas nos centros em que 
haja vida, e esta, aqui, só lh'a pôde dar a viação accelerada 
e a agricultura, quando queira aproveitar-se judiciosamente 
a excellencia do torrão e a abundância das aguas. 

A affluencia do commercio, por todo este sertão, se por um 
lado teve vantagens, por outro, trouxe o grande inconveniente 
de fazer desapparecer um produeto rico, que, desenvolvido de- 
vidamente, era a grande fortuna da província. Referimo-nos 
á borracha, de que ainda se encontram vestigios nessas flo- 
restas por onde temos passado. A mira no lucro immediato 
arrastou o indigena á imprevidência e, diga-se mesmo á bar- 
baridade, de destruir as fontes de todo esse produeto, pela 
maneira porque o colheu. 



DESCBIPÇlO DA VUGEIC^ 189 

Estávamos no dia 6^ e logo de madrugada nos puzemos a 
caminho com o firme propósito de entrarmos nesse meslno dia 
em Malanje. " , 

Eram quasi dez horas quando acampámos junto á patrulha 
do Lombe^ tendo feito um percurso de 13 kilometroS| descaindo 
para les-noroeste. 

O chefe da divisão dos Moveis veiu offerecer-nos de ahnoçar, 
e por consequência fizemos seguir os carregadores para Cula- 
muxitOy que verificámos depois ficar distante lõ kilometros 
de Malanje. 

Deixámos um caminho para leste, que vae para o Duque, e 
seguimos o de noroeste. 

Neste percurso encontrámos um soldado do destacamento de 
Malanje, que se nos apresentou com uma guia do chefe doeste 
concelho para ficar ás ordens da Expedição; era também por- 
tador de uma carta do negociante Machado, que dizia esperar- 
nos para jantar. 

Tivemos apenas um curto descanso de talvez meia hora, 
em Culamuxito, para se reunirem os carregadores que haviam 
ficado para trás. 

Culamuxito é um logar aprazivel, devido ao esplendido 
desenvolvimento das arvores que povoam a sua grande flores- 
ta, que lhe deu o nome indigena; é considerado vantajoso por 
ahi affluir o commercio do interior, e também pela fertili- 
dade da terra, que alguns cultivadores aproveitam para plan- 
tações de canna saccharína. 

Foi aqui iniciada a cultura da cana saccharína pelos irmSos 
Machados, e foram elles os primeiros a fabricar aguardente no 
concelho, o que lhes custou bastantes dissabores pela concor- 
rência do álcool do commercio. 

Estão estabelecidas neste logar algumas casas de coçamercio, 
na stia maior parte filiaes das firmas de Pungo Andongo e 
Malanje. 

As quatro horas e meia saiu d'aqui a Expedição, na melhor 
ordem possivel, indo os cavaiUeiros na frente, seguindo-se-lhes 
a bandeira, depois as cargas e por ultimo nós. 






190 EXPEDIpSto POBTUGUBZA AO MUATIÂNVIIA 

O cometa^ que vae moDtado^ toca com toda a inJentiai 
porque só assim os bois se dispSem a correr, e elle dép^V ^^ 
algona exercícios de equilíbrio cae, o que é iqptivp para grande 
risota. Tudo isto disfiructámos bem, porque lamoll subindo mra 
uma soberba plaDÍcie verdejante, que mais n2o deixámqpR^lM 
Malanje, chegando ao rio, que limita a vílla pelos quadrantes 
de noroeste para o norte, ao sol posto, e tendo feito um per- 
curso de õ kilometros, pouco mais ou menos. 

Todos estes valles, ou melhor, o conjuncto de valles entre o 
Lombe, Cuanza e Cuije, tendo de permeio o rio de Habúnje 
com os seus affluentes que, juntos com os d^aquellea rodeiam 
a vílla situada num planalto, surprehendem pela variedade 
de arvoredo, e pela sua vegetação, em geral superabundante. 

O solo de toda esta regiSo, desde Pungo Andongo, pôde di- 
zer-se que é composto de uma espessa camada de grés micaceo 
vermelho, em que o grSo vae diminuindo de tamanho á me- 
dida que noa afastámos d'ali, assentando sobre outras rochas 
sedimentares. 




MUQUIJE (ídolo) 







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descrifçao da viaoeu 



ENTBADA EM MALANJE 




Não faUaremos da rece* 
pçSo do Dfigociante Casto- 
dio José de SausaMachado, 
por quem fomos hospeda- 
dos, porque nesta casa é 
proverbial captivarem-seoB 
hospedes, que a miado a 
frequentam, com o aco- 
lhimento o mais hixftrro: 
nem do jantar, pois a sna 
esplendida mesa tem fama, 
e nella se nSo íazem alte- 
fnij raçSes quando elles faltem. 
^^ ^~- Custodio Machado á me- 
sa é considerado hospede, 
-- e D. Rosa procura sempre 
ser-lbe agradável: dizendo 
isto, está dito tudo. 
Principiávamos a refeiçSo, quaudo nos foi entregue um cartSo 
da expediçSo allemS, felícitando-nos pela nossa chegada; e 
poaco depois appareceu a comprimentar-nos o seu chefe, o 



192 EXPEDIÇZO P0BTU6UEZA AO IfUATllNVUA 

sjmpathico Tenente H. Wissmann^ que tomou am logar á mesa, 
qae lhe fôra offerecido pelo seu amigo o dono da casa. 

Como era de sappor, o assumpto da conversa foi o que mais 
nos interessava — exageros dos exploradores, falta de carrega- 
dores e de bons interpretes, necessidade do estudo das linguas, 
dificuldades da pronuncia, morte do Dr. Paul Pogge, as via- 
gens de Shut e Btlchuer, etc., etc. 

O jantar terminou com brindes (Prosit) — muito agradáveis 
para as duas expediçSes. 

Recolhemos, nSo para descansar, mas para pormos em or- 
dem as notas que tomáramos, baseadas nas informaçSes que nos 
haviam dado, e impressSes que recebêramos. 

E estas melhor se apreciam percorrendo os seguintes officios, 
que nessa mesma noite principiámos a escrever. 

A S. Ex.* o Governador Geral: 

m.^ e Ex.*<* Sr. — Chegámos a esta villa ás seis horas da tarde de 
hontem^ e devendo aproveitar a opportimidade do correio que parte 
ámanhS para essa cidade, principio por commimicar a Y. Ez.* que a Expe- 
dição saiu de Fungo Andongo em 4, ás dez e meia horas da manha. 

Pernoitámos nas patrulhas do Lutete e Andala Samba, sendo a mar- 
cha do primeiro dia de cinco horas, a do segundo de seis, e a de hontem 
de sete, ao todo dezoito horas ; o que nos convence de que a distancia é 
pouco mais ou menos de 85 kilometros, como pelas cartas se nos afi- 
gurou. 

O caminho é realmente bom, e em algumas partes, próximo ás resi- 
dências dos commandantes de divisões de Moveis, estava limpo, e para 
sentir é a falta de pontes e de algumas obras de arte sobre riachos e li- 
nhas de agua, que occasionam os charcos e pântanos que ha a atravessar. 

Permitta Y. Ex.* que diga agora o que tenciono dizer a S. Ex.* o Biinis- 
tro, é que esta viagem do Dondo a Malanje mais me convenceu da 
necessidade que eu já de ha niuito sustentava : de se conservar, e reno- 
var-se mesmo em alguns pontos, a antiga instituição das patrulhas. 

No tempo em que governava o districto de Golungo-alto o distincto 
major de artilheria, hoje general, Yisconde de Ovar, as patrulhas d*68te 
districto foram até fornecidas com leitos, lavatórios e mais mobília. 

De certo para quem não pôde fazer-se acompanhar de barracas e ca- 
mas de campanha, são tão apreciáveis estes agasalhos, que bem se pode- 
riam fornecer as patrulhas com uma ou duas camas de campanha, um can- 



DESCalPÇAO DATIAGEU 



193 



dieiro, ama mesa, duas cadeiras, e um lavatório completo, objectos que, 
ficando a cargo doe comoiandantcs de divisSo, e devidamente reserva- 
□B, BÓ seriam facultados a indivíduos de uma certa educação. 

V. El.', que já viajou por este sertSo, e conhece bem estes caminhos, 

f certamente terá reconhecido esta necessidade, e envidará todos oa seus 

esforços para que se sustentem as patrulhas que existem, se reedifiquem 

•8 que estio em minas, e se levantem outras onde se sinta a sua falta. 

Os exploradores allemies que pernoitaram nas que encontraram no 
sen transito apreciam-nas, e confessam a ellas deverem alguns eommo- 
dos que nSo esperavam do Dondo até Malanje. 

Em tempo propoi o actual director das obras publicas d'estii provín- 
cia, o Major de cngenheria José António Ferreira Maia, que oa soldados 
d'estHS patrulbae, pagos de rações pelo serviço das obraa publicas, tivea- 
sem a seu cargo conservar sempre limpos oa caminhos, atè 2 kilome- 
troB para cada lado do quartel. 

Isto seria muito útil; e quando aecumulassem esse serviço com o 
de vigilância pelos tabotetroa de simples passagem sobre as lluIiHS de 
D substituir as madeiras que estivessem cm 






agua, poderii 
mau estado, 

V. El.* bem sabe, e asaii 
graphia de Lisboa: «que a 
as férreas, tudo mais seria i 



a o demonstrou na nossa Sociedade de Geo- 
s verdadeiras estradas na provincia seriam 
in&uclifcro e pôde rcduzir-ae a caminhos 
limpos de vegetaçSo, com passagens ligeiras sobre hb linhas de aguQy. 

Sendo isto asaim, o projecto do illustrado Ferreira Maia tem agoru 
todo o cabimento, e, devidamente ampliado, páde ainda offorccer mnia 
vantagens. 

Emquanto n proviíicia iilo pÚdo aproveitar um pessoal próprio, 
poderiam ligar-se as patrulhas d'esta regiSo, em que se tocum os con- 
celhos centraes, por uma linha tclegraphica', e indígenas habilitados 
poderiam habituar-se k leitura de simples iDstrumentos meteorológicos, 
a horas determinadas, cujo registo communicariam para Lounda, ao 
passo que teriam a seu cargo uma pequena ambulância de medicam entoa 
com umas prescripç<3es geraes, pnrn servirem aos viajantes que de mo- 
mento d 'elles carecessem. 

Ainda mais. Se ás patrulhas fossem agg-rcgadaa arribanas para dois 
ou tres bois de monta, e se aproveitassem os Moveia para, a cavallo, le- 
varem de umas ds outras aa malas da correspondência, creio que muito 
melhoraria o serviço do correio, e eom pequena despesa. 

Com estetf limitados recursos das obras publicas, telegraplio e cor- 
reio, transformar Íamos as patrulhas em modestas estaçiSes hospitaleiras 
e uívilisadoros, e certamente, bem educados us Moveis, cujos serviços boje 
nZo sSo remunerados, constituiriam centroa, quando mais nSo fosse, de 
pequena agricultura. 



m 













,C 



194 BXPEDIÇIO POBTUGUEZA AO IRTAitlliVDA '*\ . *'^ 






y. Ex.*, melhor que eu, pelo sen modo pratico dever, podeii Jd|{i|p^. 
do bom resultado a obter do que 0U80 lembrar. * - '\*. 

ia 

• %*••;; 

Sobre a expedição allemS, devo dizer a Y. Ex.* que se me ^^jj^ii 
não obstante o seu chefe negá-lo, que o seu fim é inteiramente conuMQdMk'^ 
e de procurar caminho da estaçSo estabelecida pelo fidlecido Dr. PcMê, 
no Muquengue, para o Zaire pelo Cassai ou Lulúa e que, bem organi« 
sada, se dispÒe a demorar-se alguns annos para a realisaçSo da tentativa 
(qualquer que ella seja); porque, além de levar quinhentas carabinas mo- 
dernas com o respectivo cartuchame, que parecem destinadas a exer- 
citar os indigenas que consiga catechisar, se forneceu de muito gado 
vaccum e cabrum, alem do ovelhum da casta que trouxeram, e de muita 
criaçSo. 

Já no Dondo e Fungo Andongo fomos informados que esta expedi- 
ção se fornecera de fazendas e de outros artigos, no valor de 7:OOOJiOOO 
réis e aqui também teem feito grande fornecimento. 

Deus guarde a V. Ex.* — Hl."® e Ex.»® Sr. Conselheiro (Governador 
geral da província de Angola. — Malanje, 7 de julho de 1884.= O Chefe 
da Expedição, Henrique de Carvalho, 



A S. Ex.' O Ministro da Marinha e Ultramar. 



Ill."« e Ex."« Sr. 



Pelo que respeita ao transito na nossa viagem do Dondo a Malanje, 
passando por Cazengo, Ambaca e Fungo Andongo, vou repetir a V. Ex.* 
o que já disse ao mui digno Grovemador d'esta província. 

E de toda a conveniência que se mantenha a antiquíssima institui- 
ção das patrulhas, conservando-se as que já existem, reedifícando-se as 
que estão em ruínas, e ainda edificando-se outras em pontos de reconhe- 
cida necessidade. 

Fará quem não pôde contratar grande numero de carregadores, ou 
mesmo para quem não pôde fazer-se acompanhar de barracas e de um 
certo numero de objectos de commodidade indispensáveis, os quartéis 
das patrulhas, quando em boas condições, são um beneficio ; pois assim 
se evita que o viajante se exponha á cacimba da noite, e nellas irá 
encontrar um tal ou qual conforto depois de uma fatigante marcha em 
rede, ou montado num boi, o que é realmente bastante incommodo em 
dias successivos. 



' l>ESCaiPç20 DA VIAGEM 195 

. k. ezh^lo do qne já houve no vasto districto do Golungo Alto, no 
gQiverqD dk> actual Visconde de Ovar, em que se encontravam essas pa- 
troUuui á distancia umas das outras de 10 a 15 kilometros e guameci- 
4iijl*de camas e de outros artigos, ousei lembrar ao referido Governador 
Aítel-as do mesmo modo, ficando esses artigos a cargo dos commandan- 
tei^das divisões. 

Digne-se V. Ex.* attender-me. 

A patrulha, propriamente dita, não é mais que um pequeno destaca- 
mento de Moveis, um cabo e alguns soldados, havendo em algumas 
também um sargento. 

Este destacamento, que nâo tem a menor remuneração, está ás ordens 
do commandante de divisão — entidade que também nâo é paga, nâo ob- 
stante ter bastante serviço e ser indispensável aos chefes dos concelhos. 

Casos se teem dado dos Moveis abusarem das fardas qne vestem, exi- 
gindo, e mesmo roubando, ás povoações com que se alimentarem, do que 
se originam questões, que se tomariam conflictos sérios, se nâo fosse a 
prudência dos chefes dos concelhos em attender ás reclamações e fazer 
castigar os deliquentes, mudando-os de divisão. 

Ninguém deixa de reconhecer que tal castigo é pequeno, porém que 
mais se pôde fazer? Prendê-los na cadeia? Nâo ha verba para os sus- 
tentar. Demitti-los? Isso sâo sempre os seus sonhos dourados. 

E depois, como exigir-lhes subordinação e disciplina convenientes, 
se lhes exigem serviço aturado como á tropa de linha, com o excesso das 
diligencias pelo sertão, e nada se lhes paga, nem para comer nem para 
se fardarem? 

Também nâo ignora Y. Ex.* as dificuldades que ha nesta vasta pro- 
víncia, já nâo digo para construir e conservar estradas, mas para regu- 
larisar os leitos dos caminhos que existem, conservando-os sempre li- 
vres de vegetação numa dada largura. 

Do Dondo até Malanje fizemos um percurso approximado de 270 
kilometros, e; com franqueza devo dizer, que grandes extensões de ca- 
minho percorrido, devido aos cuidados dos commandantes das divisões, 
se encontravam limpos de vegetação, numa largura approximada de 
4 metros ; e, salvo uma ou outra depressão, se houvesse passagens nas 
linhas de agua, ribeiros, riachos ou como lhes queiram chamar, isto é, 
singellas pontes em que fosse fácil a qualquer substituir a peça de 
madeira que estivesse em mau estado por outra, certamente que por 
ahi podiam muito bem passar os carros ordinários para transportes. 

Mas, Ex."*° Sr., isto que nós agora vemos, nâo se dá sempre. O bom 
estado em que encontrámos os caminhos é devido á passagem do Gover- 
nador geral pelo sertão ; e é tal a influencia de S. Ex.* entxt estes povos, 
que, esperando-o novamente, continuam a conservar, e mesmo a melho- 
rar, o estado em que se achavam os referidos caminhos no seu regresso* 



196 EXPEDIVZO POBTUOUEZA AO XUATIÍKVUA 

Ha toda a conveniência em se aproveitarem os destacamentos aas 
patrulhas para vigiarem pela conservação das pontes, qae, segando o 
voto do actual Director das obras publicas, se deviam construir em to- 
dos os caminhos, pelo menos nos de maior transito commercial, de pie- 
férencia a qaaesquer outros melhoramentos na provinda. 

Se a esses homens se desse um salário diário de 60 a 100 réis, daado- 
Ihes o encargo de cantoneiros, cujo serviço se podia estender até meia 
distancia de outras patrulhas, teríamos uma boa rede de caminhos sem- 
pre transitáveis. 

Junto aos quartéis fiicilmente se levantariam telheiros (alguns já oa 
teem), ou estações onde se recolhesse o gado e onde houvesse deposito 
de agua e capim, e assim se montaria um serviço de mudas para trana- 
porte e para correios, serviço que podia ser feito por escala pelos sol- 
dados-cantoneiros. 

No quarto destinado a pousada para os viajantes, em recinto apro- 
priado, e sob a vigilância do commandante da patrulha, podia haver 
uma pequena ambulância de medicamentos, d^esses que, por triviaes, 
nada ha a recear da sua applicaç2o; e também simples instrumentos de 
meteorologia, thermometros e barómetros, que todo o viajante civilisado 
sabe ler. Com algumas noçòes que lhe dessem e pelo uso os commandan- 
tes poderiam registar diariamente as suas leituras, isto nas patrulhas 
que nâo pudessem ser aproveitadas para postos telegraphicos, porque 
aos cuidados do telegraphista deviam ficar taes registos. 

Nâo se admire, pois, V. Ex.* que eu diga — o Cabo lê — , porque, 
em geral, esse posto nos Moveis recae em Ambaquistas, e pôde dizer-se, 
que é uma raridade encontrar um que não saiba ler e escrever. £ tam- 
bém não estranhe V. Ex.* que se encontrem Ambaquistas por toda a 
parte, pois que, pelo facto de terem alguma instrucçio, hoje, logo que 
chegam a uma certa idade, deixam as suas casas e terras para obterem 
collocaçSo. 

De todos 08 povos d*esta provincia, são elles os que mais se aventu- 
ram, expatriando-se. Fogem á praça de primeira linha e buscam mulhe- 
res ; nesse intuito, lá vão com a sua pacotilha, mesmo para o centro do 
continente, até que satisfaçam essas ambições; e mais tarde buscam 
empenhos para serem cabos ou sargentos, e, os mais habilitados, com- 
mandantes das divisões de Moveis, nos pontos que mais lhes conveem. 
Os conmiandantes de divisão poderiam ser muito aproveitados, quando 
esse cargo recaissc em gente idónea, pois se podiam interessar na admi- 
nistração dos concelhos. 

Chefes de centros agricolas, com encargo de ensinarem a ler e a 
escrever a gente sob o seu commando, e deixando-os perceber emolu- 
mentos pela cobrança de contribuições para o concelho, ao mesmo tem- 
po que assumissem cargos de juizes de paz entre os sobados, mas de- 



DESCBIPÇlO DÀ VIAGEM 197 

baixo de umas instnicçoes que não lhes permittissem exorbitar, tomar- 
se-iam anctoridades prestantes. 

Que nos servisse a administração de Java, entre os indigenas, de mo- 
delo, e teriamos reconhecidas vantagens para o desenvolvimento agrí- 
cola da provincia. 

Desculpe-me Y. £x.* esta divagação, resultado das minhas impressões 
durante o transito que fizemos, e seja-me permittido ainda fallar acerca 
do serviço do correio no interior de Angola, que em verdade precisa ser 
reformado. 

Succedeu agora ter partido de Loanda, em 6, um escoteiro com a 
mala da Europa e s6 aqui chegou em 22 ! 

Os negociantes, aqui e em Pungo Andongo, contribuem para no fim 
do mez mandarem um escoteiro especial, com as suas correspondências, 
para chegarem a tempo a Loanda e serem enviadas no paquete ; pois já 
tem succedido sair d*aqui o correio em 24, e ficarem demoradas as cor- 
respondências um mez em Loanda, tendo o paquete seguido no dia da 
escala! 

A receita do correio da provincia t^ai augmentado de anno para anno, 
e é muito justo applicá-la bem em favor de quem para ella concorre, c 
talvez o alvitre, que me occorreu, com respeito ás patrulhas, possa ser 
aproveitado. 

Um dos Moveis d*esses destacamentos teria este encargo especial até 
á próxima patrulha, com um vencimento pago pelo correio, recebendo 
as correspondências (malas) em dias determinados, de modo que dei- 
xava umas e trazia outras, e em prazos que, ultrapassados, dariam log^r 
a multas. Havendo bois de monta nas estações, até se podia organisar 
economicamente um pessoal especial para este serviço que muito im- 
porta ao commercio. 

Mas tudo isto que lembro, deixaria de ser reclamado certamente, se 
a construcção da linha férrea, pela qual V. £x.* tanto se empenha, for 
uma realidade. 

Encarecer as vantagens doesse importante beneficio, mesmo em rela- 
ção aos melhoramentos de que fallo, é ocioso ; mas tenho a ousadia de 
dizer a Y. Ex.*, que o terminus d'essa linha não pôde nem deve por 
forma alguma ser Ambaca. 

Estando o paiz disposto a tal sacrificio, o que importa mais 70 a 80 
kilometros de linha, que tanta será a distancia de Ambaca a Malanje, 
em uma região que não offerece dificuldade pelos accidentes de terreno 
ou pelas obras d^arte ? 

Creia Y. Ex.* que esse augmento de despesa paga-o bem o concelho 
de Malanje, tanto pelo que ha de produzir, como pelo commercio que 
aqui aflue da Lunda, Lubuco, e outros pontos intermédios, e que a faci- 
lidade de communicações viria augmentar. 



198 EXPEDIçlo POBTUOUEZA ÀO MUÀTIÂKynÀ 

O Zaire, pôde Y. Ez.* estar certo, feita a constmcçSo doesta linlia, pou- 
co nos pôde appetecer, e mesmo os estrangeiros só d*elle se servirlo, 
quando não o abandonem extenuados de recursos e sacrifidos, pelo que 
possam adquirir do norte d*elle, e apenas até ao meridiano de Niftngué. 

Malanje, logo que se consiga, como é de esperar, remover as difi- 
culdades de passagem em todo o Cuango, suscitadas em parte pelos 
Bftngalas e Quiôcos, (o que mais facilmente se poderá obter com essa li- 
nha férrea), ha de ser sempre o natural entreposto do commercio para 
o centro do continente, e d'elle os Bângalas serio os agentes. 

Malanje, pela sua altitude (1:154 metros) e exposição, aproveitadas 
convenientemente as margens do seu rio, que limita a principal povoa- 
çSo pelo noroeste, é relativamente salubre, e aqui encontra o europeu, para 
sua alimentação, o que lhe é usual : trigo, arroz, milho, fava, ervilha, 
grão, feijão de todas as qualidades, batata, boas carnes e agua, fiructos 
da Europa e africanos. Aqui se dá a vinha, a pêra, a maçã, a laranja, o 
ananaz, a banana, a manga, a annona, a pitanga e o jambo. Cá temos a 
figueira, o café, o urucú, o eucaljpto, a borracha, etc., e todos os produ- 
ctos hortícolas, com um desenvolvimento de admirar, como cebolla, cou- 
ves, rábanos, etc. 

Já vê pois, y. Ez.*, que podem viver aqui colónias europeas agrícolas 
muito bem, e reproduzir; observando- se, comtudo, as leis de* um regi- 
men apropriado. Este clima, como o de todo o paiz, a leste, differe muito 
vantajosamente do do littoraL 

Todo o clima em geral é perigoso, principalmente o dos trópicos, quan- 
do se desprezam as precauções necessárias; porém, qualquer europeu 
bem constituido vive aqui bem, podendo fazer mesmo trabalhos manuaes 
durante muitas horas no dia, sem prejudicar a saúde. 

As condições principacs para se ter saúde são, sem duvida, habita- 
ções confortáveis, um trabalho regular, alimentação reparadora e mode- 
ração nos gozos da vida. 

O negociante Custodio Machado está nesta localidade ha vinte an- 
nos, e só uma vez foi a Loanda para tratar de negócios, e é um bellissi- 
mo exemplar de acclimatação ; quem o vê suppõc que elle habita na me- 
lhor região do nosso Portugal — está robusto, de bellissima cor e forte. 
Tem quarenta annos ; mas todos o fazem com dez annos de menos, prin- 
cipalmente quando estamos juntos. Aqui e nos arredores ha outros nas 
mesmas condições. 

Nota-se aqui a longevidade, tanto nos europeus como nos indígenas, 
o que não é proverbial no sertão que percorremos. 

A falta de rápidas communicações com o bom porto de Loanda, e de 
segurança e economia de transporte, tem sido até hoje o estorvo para 
attrahir aqui o commercio e a agricultura. 

Os terrenos são esplendidos e disso ha boas provas, e os recursos 



DESCBIPÇÃO DÀ VUOEM 199 

natoraes para cons tracções nâo faltam ; ha, porém, falta de quem dirija, 
de quem encaminhe, e de quem se anime, emfim, a sacrificar algum capi- 
tal, porque vê deante de si as dificuldades que só os governos podem 
faser desapparecer. 

Não sei porque este concelho estava esquecido pelos poderes públi- 
cos, até á entrada do actual Governador na administração da provinda. 
Lembrado para centro das operações militares nas guerras que se de- 
ram em Cassanje, foi depois abandonado a ponto de ser retalhado por ou- 
tros concelhos ! 

O serviço de saúde da província não se conhece ; aqui não ha um me- 
dico, não ha um pharmaceutico. , 

A benéfica acção do serviço de obras publicas nunca se estendeu até 
aqui; e, com tudo, não faltam na região recursos materiaes para se faze- 
rem 08 melhoramentos que tanto se reclamam, e para o que contribuiriam 
os sobados com a gente precisa. 

Aqui o chefe é tudo ; e na verdade o administrativo e judicial são 
ramos de governação que requerem magistrados especiaes. 

Pôde dizer- se que Malanje é melhor conhecido da Allemanha que de 
Portugal, e comtudo Malanje faz parte de uma província portugueza! 

£ uma necessidade impreterível que o paiz conheça bem esta parte 
da provinda de Angola, e por isso começam aqui as investigaçÒes mi- 
nuciosas da nossa Expedição ; e tudo se prepara para esse fim, emquanto 
não chegam as cargas, que a pouco e pouco teem ido para Cazengo, e se 
organisa o pessoal que ha de transportá-las para o interior. 

£, devo já fazer sciente a V. £z.* de que ha cinco ou seis annos se 
encontravam carregadores para a Mussumba, para transportes de cargas 
de 60 a 70 libras, por quatro peças de fazenda. 

£ste preço tem subido a pouco e pouco, a ponto de se exigirem á ex- 
pedição allemã, que ainda aqui está, oito peças e ração diária de uma 
jarda de fazenda ou o seu equivalente. A nós já pedem dez peças e 
ração igual, embora reconheçam que o preço dos géneros marfim e borra- 
cha (os únicos do interior) teem tido grande baixa nos mercados da Eu- 
ropa, e que com taes gastos de transporte não ha lucros para o nego- 
ciante. 

Pelas informações que já obtive, a elevação dos preços de transporte 
faz-se sentir em todos os concelhos sertanejos, mesmo de uns para ou- 
tros, e isto tem dado logar a um grande desanimo da parte do commer- 
cio pelas tendências que teem para subir, sob qualquer pretexto, — agora 
as expedições para o interior, amanhã a varíola, depois a epocha das 
sementeiras, mais tarde as chuvas, etc., — ao mesmo tempo que os pro- 
ductos no mercado da Europa tendem sempre a baixar. 

Muitos exemplos eu posso citar já a Y. Ex.* de que tal é o ónus sobre 
certos artigos que a sua exploração não convida. Qualquer mercadoria 



200 EXPBDIÇXO PORTUGUESA AO MUATIÂHVUA 

d'aqiii despachada para o Dondo, e vice-Yena, importa, por cada 100 
libras, frete e raç5es, em 3^000 réis, addicionando-lhe o transporte pelo 
Caanza (5 réis por libra) e de Loanda a Lisboa 500 réis (10 léiB por 
kilogramma), chega á alfiundega onerada em 4J000 réis. Nio entro em 
linha de eonta com direitos, despadios, sellos e entras mimideneiaa qae 
mtÁB oneram esse prodncto. 

Trata-se, por exemplo, do omcú, qne se teatoa eqilorar (prodoeto 
este qne por muito tempo constitoia nma ríqaesa no Pará). Si^pondo 
que para a colheita e preparo d*e88as 100 libras se empregoa nm homem 
por dez dias á raz2o de 60 réis por dia, tal producto nio se poderia 
vender por menos de i^800 réis, já com prejniao do exportador ; pois 
no mercado pagou-se a 1^500 réis por arroba, isto é, 4^685 réis por as 
100 Ubras! 

O agricultor n2o continuou a exploração, e os arbustos que se teem 
desenvolvido e estáo carregados de fructos, y2o largando estes no Boh 
e elles para ahi ficam até que se queimem com o capim no tempo das 
seccas. 

Para a Expedição comprei, em Ambaca, arroz da terra a 120 réis a li- 
bra, e o transporte de 3 arrobas até aqui importou em l^õOO réis, o qne 
elevou o preço da libra a 136 réis ! 

Apesar de todos os encargos, vindo de fóra da província seria supe- 
rior e mais barato ! 

Por estes dois exemplos notará já Y. £x.* as dificuldades que ha 
para a iniciativa particular animar e proteger a agricultura. 

O chefe de Cazengo, mandando-me apenas doze cargas, pede-me lhe 
mande d 'aqui carregadores, porquanto nio é conveniente desinquietar 
os que no seu concelho estáo em serviço dos agricultores. Uma pequena 
elevação de preço seria má na occasiâo, porque iria logo sobrecarregar 
o preço do café. 

Com muita dificuldade lhe mandei trinta. 

Esta questão de carregadores, pelo que vejo de dia para dia, ha de 
me ser difficil de resolver, porquanto os sobados das proximidades de 
Malanje estão exhaustos. Mais de quinhentos carregadores foram em 
dezembro ultimo com Saturnino Machado, e esses acarretaram outros 
tantos indivíduos para negocio. A expedição allemá está aqui ha seis 
mezes para completar o numero de trezentos, e ainda lhe faltam vinte. 

Por este motivo, já escrevi a todos os negociantes que teem influen- 
cias nos sobados e nisso interessam, pedindo-lhes para me obterem to- 
dos 08 carregadores que possam, e aguardo as respostas para tomar 
uma resolução definitiva ; certo de que me nào resigno a demorar-me 
tanto tempo aqui, como os exploradores allemães. 

A expedição allemà compõe -se de : chefe, Tenente H. Wissmann ; me- 
dico, Dr. Capitão L. Wolf ; observador. Tenente Von François ; photogra- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 201 

pho, Tenente Franz Milller; caçador Hans MtUler; carpinteiro de navios 
Bugslag, e armeiro Schneider. 

O modo por que esta expedição se está preparando hz acreditar 
que segue com o intento de se demorar no Lubuco, procurando d^ahi 
caminho para Canhica ou Canhioca, como elles lhe chamam, regifto que 
desejaram visitar o fedlecido Paul Fogge e Max Bachner, mas nSo lh*o 
consentiu o Muatiânvua, porque iam estragar o seu negocio de marfim. 
O chefe Wissmann seguirá para o oriente. 

Tentam explorar o Cassai, ou qualquer outro rio, para alcançarem uma 
via fluvial que lhes dô communicaçâo com o Zaire, segurando a sua pri- 
meira estação, ou melhor, o estabelecimento commercial creado pelo Dr. 
Pogge no Muquengue. 

Todos estes trabalhos sSo subordinados ao plano da Internacional, 
sob a protecção do Bei da Bélgica, com quem Wbsmann, antes de or- 
ganisada a sua expedição, se havia entendido. 

Antes que queira, sobre Malanje pouco mais posso dizer a Y. Ex.*, 
por isso que chegámos ha quatro dias ; e com respeito ao itinerário a 
seguir, preciso obter ainda alguns esclarecimentos sobre o que estava 
delineado, porque me faz vacillar a carta que Saturnino Machado es- 
creveu a seu irmão, da qual, por obsequio d*este, tirei copia para en- 
viar a y. £x.*, e que junta com esta remetto. 

Deus guarde a V. Ex.« Malanje, 10 de julho de 1884— Ill."^e Ex.»» 
Sr. Ministro e Secretario d^Estado dos Negócios da Marinha e Ultra- 
mar.= O Chefe da Expedição, Major Henrique de Carvalho. 



Por nos parecer summamente interessante, e com a devida 
vénia, transcrevemos neste legar a carta a que no precedente 
officio nos referimos, e de que com toda a franqueza o nego- 
ciante Custodio Machado nos facultou a copia. 

De Saturnino Machado a Custodio Machado: 



Cuango, 29 de janeiro de 1884. — Hontem acabámos de passar o Cuan- 
go, ao norte dos Bângalas (Cassanje) no paiz dos Cá-Harís. Felizmente, 
em todo o caminho por nós percorrido os indígenas não procuravam 
pôr-nos impedimentos, não obstante sermos os primeiros brancos que 
transitam por este paiz. De Cafuxi procurámos um trilho entre o rio 



202 EXFEDIÇIO FORTUOUBaBA AO MUATIÂHVUA 

Lai e Lnbtnda, que correm parallelos para o norte, aerrindo o primeiro 
de fronteira aos Bângalaa do Songo e o segando ao Hòlo. 

Na beira doestes rios ha am districto povoado por diversas raças, 
sendo a mais numerosa a dos Cá-Hondas, governados por diffèrentes re- 
galos independentes nns dos ootros. 

Foi neste paiz qae atravessámos o Loí para a margem direita, gas- 
tando cinco dias para o passar, em rasZo do rio ter aqai mais de 70 me- 
tros de largo, 4 de profundidade e nma velocidade superior a 4 kilo- 
metros, gastando as canoas, trajecto de ida e volta, 33 minutos. 

As margens d*este rio sio povoadas de uma vegetaçio esplendida, 
ao c<mtrario das superfícies horíxontaes, onde n2o vimos senio exten- 
sas planícies cobertas de capim, aqui e além algumas rachi t i c as acá- 
cias, que mal davam madeira para as nossas cubatas. Porém, sio terre- 
nos excellentes para a criação de gado vaccum, de que o indigena pos- 
suo grandes manadas, sendo quasi todo o que vimos bem desenvolvido 
e regularmente nutrido, muito superior ao gado que existe por Malan- 
je. Dos Bondos até ao ponto em que estamos vimos mais de três mil ca- 
beças no nosso transito. O preço por que o vendem n2o é caro, porque 
comprámos vitellas de quatro e seis mezes a dezoito jardas de algodSo 
cru. 

A direcção que temos trazido de Cafuxi até aqui tem sido quasi 
sempre noroeste. D*aqui queriamos seguir para o norte ; porém os car- 
regadores, adevinhando as nossas intenções, recusaram levar tal direcçSo, 
por 08 indígenas lhes terem dito que o caminho era mau. Assim, temos 
agora que fazer a travessia pelo paiz do Xinje, privando-nos de ir ao 
Anzovo, atravessar as terras de Maata Cumbana. 

NSo pôde haver nada peor que os carregadores de Malanje. Procuram 
ao viajante todas as difficuldades possíveis, chegando mesmo a seduzir 
o gentio para o nâo deixar passar ! Só o que querem é comer, como es- 
tes teem feito, que em sessenta dias que hontem fizeram, desde Malan- 
je até aqui, apenas se tem marchado duzentas e cíncoenta horas e elles 
já comeram três peças de ração cada um. 

Por aqui se vê a quadrilha que é, e o que d^elles temos a esperar. 
Se marchássemos regularmente, já hoje estaríamos além do Cassai ; as- 
sim, náo sabemos nem é fácil calcular o tempo que gastaremos nesta 
viagem. O que é certo, é que tudo quanto nós levámos é só para elles 
comerem e roubarem, e quando chegarmos ao nosso destino já nada levá- 
mos para vender. 

Estáo neste sitio ha dez diaB e náo ha forças que os arranquem 
d'aqui, dando por desculpas as enfermidades, o que é menos verdade. A 
enfermidade que elles allegam é fundada na razáo de terem aqui en- 
contrado muito gado vaccimi, aonde já immolaram quatro cabeças, afora 
cabras, gallinhas, porcos, etc. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 203 

Depois de passar os Bondos o paiz é fértil, o gentio de trato regular, 
e nnnca me persuadi que fosse caminho tão direito para uma travessia 
pelo Continente negro como é este que passámos até aqui. Porém, nem 
tudo pôde correr á medida dos nossos desejos : se procurámos um cami- 
nho para transitar sem obstáculos, e felizmente o encontrámos, temos o 
carregador para destruir num momento todos os nossos planos forma- 
dos, e quasi realisados, não lhes importando o prejuízo do viajante. 

Não cai por inexperiente, não ; porque desgraçadamente conhecia o 
que havia de acontecer, pois que a 10 kilometros de Catalã quiz obri- 
gar 08 carregadores a voltar com as cargas para Malanje por ver logo 
ali o seu mau proceder, constituindo- se em greve, fazendo um charivari 
infernal, brandindo as suas armas, fazendo esgares, e ameaçando de 
abandonar as cargas se lhes não desse ali mesmo nova ração. £u oppuz- 
me energicamente para que se não desse nada aos carregadores, optan- 
do para que voltassem com as cargas jpara Malanje, e obrigarem- se os 
fiadores a pagar as despesas feitas, mas o António não annuiu^ satisfez 
as exigências dos carregadores, e agora as consequências. 

Ainda não tinham marchado quarenta horas em Cafuxi, e nova gre- 
ve, e esta mais desaforada do que a primeira. Nesta não me pouparam, 
fui alvo de grandes descomposturas. Ainda me oppuz, e resolvido a vol- 
tar, abandonando tudo, porém o António não quiz ; o mal já tinha sido 
feito em Andala Quinguangua, agora aguentar e cara alegre. Fiz como 
Pilatos : lavei d*ahi as minhas mãos. 

Assim temos vindo, de greve em greve, com os carregadores, gastando 
sessenta dias até ao Cuango, que não são mais do que quinze marchas 
de carregadores, gastando oitocentas peças de fazenda, independente- 
mente da ração que já tinham recebido em Malanje. 

Assim temos andado e andaremos, até acabar esta viagem, pedindo 
unicamente ao AJtíssimo para que nos deixe chegar ao nosso destino, e 
para que possamos regressar com saúde e sem maiores prejuízos. São 
estes os meus desejos. 

Amanhã vamos deixar o Cuango e tomar a direcção de leste, deixando 
este rio, que poucas saudades nos deixa, por causa também das picar- 
dias que soaremos dos pilotos das canoas. Posto que pagássemos unica- 
mente vinte peças pela nossa passagem, quantia muito diminuta em re- 
lação á numerosa caravana que levámos — o rio aqui tem mais de 100 
metros de largo, 8 de profundidade e uma grande velocidade, — não era 
todavia motivo bastante para nos reter seis dias, havendo três canoas 
empregadas no nosso transporte; queixâmo-nos unicamente da insolên- 
cia e velhacaria dos pilotos. 

Aqui o Cuango não tem aquella vegetação luxuriante que tem o Luf, 
não obstante termos passado a poucos kilometros de distancia da con- 
fluência d'este naquelle. 



204 



EXPEDIÇSO POETDGDEZA AO MUATliUVUA 



O regulo d'aqni é o Mocto Ãngoimbo, que tem s sna residência iia 
margem esquerda do Cuango ; â o chefe doa Cá-Haris, e dizem ser baa- 
tonte poderOBO. NSo tivemos a, honra de ver uva altrza, nSo obstante eu 
ter ido á sua residência ; como estava doente, não appareceu. Comtudo 
dizem ser bom e tratavel, obsequiando- nos coro nmaeicellentevitella,« 
eilorquindo-nos primeiro doze pe^^as de fazenda a titulo de quíbanda.^'= 
Saturnino Machado. 




DE8CBIPÇA0 DA VIAGEM 



O NOSSO MODO DE VER SOBRE A REGIÃO 
QUE ATRAVESSÁMOS 




atamos, (iDalmente, na povoação 
principal de Malanje, logar ou- 
Je teinos de completar a organi- 
saçSo da Dosaa ExpcdiçSo, e onde 
começam os nossos trabalhos 
de exploração, por ser este um 
dos concelhos mais afastados do 
littoraL e pouco conhecido. 

For^m, antes de dar conta 
dos nosKOB c-studoa, relembremos 
08 factos roais salientes e mala 
característicos do nosso per- 
curso, de mais (le 200 kitome- 
trna do Dondo até aqui, su- 
bindo sempre e passando por 
terrenos de differentcs aptidSee, e a que correspondem povoa- 
çSes mais ou menos importantes. 

Estamos, pois, numa d'aquellaB regiSes elevadas tSo cara- 
cterísticas do continente afiícano, mas não de tão grande alti- 
tude qne o clima ae modifique por esse motivo e possa corrigir 



206 



EXPEDIÇIO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVnA 



a insalubridade^ modificai a infecçXo palustre, e dar novo ca- 
racter á vida vegetal e animal. 

A bacia hydrographica do rio Cuanza, cuja exploraçSo na 
sua parte mais alta se está impondo como uma extrema ne- 
cessidade, é menos desenvolvida do lado em que fica Malanje. 
Esta parte da bacia ó, por assim dizer, um terminas da se- 
gunda zona do valle do Cuanza, a partir da costa, e as suas 
margens vSo-se elevando gradualmente, destacando-se aos la- 
dos e a differentes distancias collinas, morros e montanhas que 
lhe servem de limite e lhe circumscrevem a alimentação sendo 
as suas aguas inteiramente pluviaes sem o menor contingente 
das aguas provenientes das regiSes altas e das lacustres, que 
neste mesmo continente tantas vias fluviaes alimentam. 

Consideremos, porém, na linha que percorremos, sempre sob 
a influencia do Cuanza na sua margem direita, o que se nos of- 
ferece em relaçSo á composição do solo, aos vegetaes e aos 
animacs que ahi vivem, ás povoações que por ahi se teem des- 
envolvido, e condições em que tudo se encontra na actualidade. 

Suppondo reduzidas aos differentes rumos astronómicos as 
distancias percorridas, a contar de Loanda, constituimos o se- 
guinte quadro, que, auxiliado pelo desenho graphico, muito es- 
clarece acerca dos desnivelamentos em todo o nosso percurso. 



Designaçlo 


Rumos 
approxiinados 


Distancias 

em 
kilometros 


InelínaçSei 

por 
kilometro 


De Loanda Dará o Dondo 


ESE. 
ESE. 
NE. 

E. 

E. 

S. 
ESE. 
ENE. 

E. 


140 
140 
90 

120 

42 

38 

92 

88 

135 


6".6 


Do Dondo para Catende (Cazengo) 

Do Dondo para Pamba (Ambaca) . . 

Do Dondo para as Pedras (Pungo 

AndonfiTO^ 


0-,67 
7» 

8» 


Do Pamba para Catende (Cazengo) 
De Pamba para as Pedras (Pungo) 
De Pamba para Malanje (Villa) . . . 
Das Pedras para Malanje (Villa) . . 
De Catende para Malanje (Villa) . . 


1",7 

8",8 

4",5 

0«,94 

2-,5 



descbipçaÒ da viagem 207 



Mas, como esses percursos são sobre montanhas, cortadas de 
valles e alguns bastante profundos e sinuosos, podem imagi- 
nar-se os grandes represamentos d'aguas no tempo das grandes 
chuvas, de novembro a maio, e como consequência a natureza 
miasmatica de toda esta região. 

Constituem todos os terrenos que atravessámos, quatro zo- 
nas distinctas, ás quaes correspondem também centros de 
producção muito variados. 

A primeira zona deve contar-se desde a costa até á altura do 
Dondo, sendo estes terrenos, de littoral ou recentes, e outros 
de formação relativamente moderna, sujeitos a elevaçSes e abai- 
xamento pouco sensiveis no presente mas que deveriam ter 
sido importantes em épocas passadas. 

Desappareceraro as ilhas da foz do rio Cuanza ; formou-se a 
que limita o porto de Loanda ; e vae-se tapando a barra da Co- 
rimba, por onde não ha muitos annos, como já se disse, saiam 
e entravam embarcações de alto bordo. 

Partindo d*esta região baixa, entrámos na da linha das Ca- 
choeiras e depararam-se-nos alterosos contrafortes e terrenos 
mais elevados; é esta a segimda zona — aquella em que predo- 
mina o ferro. 

A passagem d*esta zona para a terceira, a que correspondem 
as terras de Ambaca, não é tão saliente, e por isso muitos fazem 
estender a segunda até Malanje. 

Os que considerai^ as terras de Cazengo e Malanje como 
uma só região, esquecem-se de que não é só o accidentado dos 
terrenos que serve para fazer estas distincçSes. 

Ambaca, por exemplo, que fica entre Cazengo e Malanje e 
forma, por assim dizer, os contrafortes de Cazengo pelo nascen- 
te, está mais baixa e tem outras condições de clima e até de 
força vegetativa; e, quando se pense em fazer a sua explora- 
ção agrícola, não se pode contar com as mesmas vantagens 
que ofi^erece Cazengo. 

São estas as differenças que sempre se desconheceram, e por 
isso se fizeram tentativas, quasi sempre infructiferas, e se viu 






í « 



!l 



208 BXPEDIÇXO POBTUGUEZÀ AO MUÀTIÂNVUÀ 



despovoar Ambaca^ emqaanto Cazengo tem podido snsten- 
M * tar-se. 

Julgámos, poisy que a segunda zona, sob os parallelos em 

que passámos, deve subdividir-se, tomando bem distinctas as 

^ regíSes de CaÁengo, Ambaca e Pungo Andongo, ás quaes cor- 

I respondem climas, culturas, producçSes e populaçSo muito dif- 

ferentes. 

O homem de Ambaca distingue-se do de Cazengo e do de 
Pungo Andongo, não só pela natureza do trabalho a que se 
dedica, mas ainda pelos seus costumes, industrias, dialectos e 
até pela seu aspecto physico. 

Quanto á regiSo de Ambaca, somos mesmo levados a acre- 
ditar, pelas investigações e estudos ethnographicos e historico- 
tradicionaes a que procedemos, que uma parte d'ella foi man- 
dada habitar por um dos primitivos governadores geraes, que 
tudo nos leva a acreditar fosse Manuel Cerveira Pereira ; e que 
< para ahi fôra uma colónia da Lunda e do Libolo, que passado 

f algum tempo abandonou a regiSo a que puzeram o nome de 

Lucamba, como já dissemos, por ser improductiva, e a gente 
' lá foi atrás da caça, e mais tarde são esses povos os que cons- 

tituiram o jagado de Cassanje, de que mais adeante fallaremos. 
Assim como esses, outros fugiram, por não julgarem bons os 
terrenos para culturas. 

Era bom que se conhecessem as terras de cada região agrí- 
cola, para que se prestassem os devidos esclarecimentos a quem 
nellas se quizesse fixar. 
I Em Portugal, teem-se feito estudos especiaes ; e ha mesmo 

I ^ mappas minuciosos, mostrando quaes as regiões vinicolas, as 

dos sobreiros e carvalhos, as dos pinheiros, as dos milhos, as 
dos trigos, etc. 

E, se num paiz de tão fácil aproveitamento, ha indicações 
agrícolas, florestaes, zoológicas e mineralógicas, quanto mais 
precisas não são ellas aqui, onde, além do calor sempre per- 
sistente, ba o miasma, contra o qual não se toma uma única 
providencia ! 



DESCRU^XO DÁ VUGEM 209 

A nossa dassificaçSo de zonas, até Malanje, é pois a seguinte : 

Terras baixas ou marítimas; 

Terras em socalcos, em que predomina o ferro (Casengo e 
terras a norte); 

Planaras de Ambaca; 

Penedias de Fungo Andongo (rochas schistosas, gneises e 
grossos conglomerados na base) e terrenos adjacentes. 

NSo sSo, todos estea terrenos, essencialmente distinctos uns 
dos outros, especialmente a contar do primeiro socalco ou das 
Cachoeiras ; mas é certo que a sua configuraçSo, de per si, nos 
faz ver distincçSes, embora nós aqui e acolá vejamos apparecer 
o schisto, o granito, o ferre e o grés vermelho. 

O que registámos, por ser um facto bem observado, é que 
existe ferro e cobre, e no Dondo mostraram-nos carvSo e cal 
que vem de Cambambe, na direcçSo das Cachoeiras; e nós as- 
phaltámos os corredores do hospital Maria Pia, de Loauda, com 
bitume do Libongo, na foz do Dande — o que faz pensar na exis- 
tência de carvfto nas proximidades. 

Também tivemos occasiSo de ver palhetas de oiro, recente- 
mente obtidas do Lombije, e de que viramos em tempo uns 
frascos pertencentes a José Maria de Prado e da exploraçfto de 
Flores; e aqui,, em Malanje, nos foi mostrada uma pequena bala 
de prata, que uma das filhas do celebre coronel Pires, de que 
falíamos, possuia como reliquia, porque com estas balas car- 
regava seu pae as espingardas de caça, á falta de chumbo ou 
de balas de ferro, e diz-se ser da prata que os Jingas lhe leva- 
vam de presente para este fim, desconhecendo o sôu valor. 

Mas porque não vingou a fabrica de ferro de Oeiras, e ape- 
nas apparece uma ou outra tentativa de exploração mineira, e 
de ferro indigena até na região mais a oeste aonde fomos? 

Kão valeria a peoa, ao menos na segunda zona fazer estudos 
geológicos, não isolados, mas como complemento do estudo dos 
climas, das producçSes e das aptidões do solo agricultavel ? 

Todos os terrenos que se estendem, seguindo a faxa em 

que attentámos, sustentam também centros de vegetação bem 

distinctos de umas para outras zonas. 

u 



210 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

• Os grandes palmares em toda a zona baixa; as plantaçSes 
de café na segunda zona; o amendoim, o tabaco e arroz em 
Ambaca; as boas pastagens, os trigos e outras cultoras dos cli- 
mas menos quentes em Fungo Andongo; e as florestas d'alii 
para deante mostram que ha efifectivamente condiçSes geoló- 
gicas e climatéricas que correspondem a cada zona, e se dis- 
tinguem por alguns productos vegetaes. 

Ha mesmo alguns factos isolados, assas curiosos, que im- 
pressionam o observador. 

O imbondeiro, por exemplo, apparece indifferentemente por 
todas as três primeiras regiSes, isto é, desde a costa até aos 
confins de Ambaca ; mas, doesta longitude até ao Cuango pre- 
domina a acácia de bonitas flores de cor amarella e vermelha. 

E certo que nem toda a região que atravessámos tem uma 
população assas densa, o que nos causou a mais profunda im- 
pressão, porque apesar doeste facto se apresentar logo á pri- 
meira vista, não sabemos de quaesquer providencias que se te- 
nham tomado no sentido de favorecer o seu desenvolvimento^ 
ou seja pela immigração, ou pela protecção directa ás famílias. 

Limitam-se também os trabalhos agrícolas a meros ensaios^ 
e poucas toem sido as explorações mineiras e industi*iaes! 

Na região entre o Dande e o Cuanza, de facto, pôde dizer- 
se que tudo se tem experimentado. Houve ensaios de diversas 
culturas, mesmo europeas, e também das dos climas quentes: 
trigo, arroz, batatas, etc, e fruetas da Europa; algodão, tabaco^ 
café, canna saccharina, mandioca, milho, etc, dando excel- 
lentes resultados. Houve uma candelária no Dande, que che- 
gou a ter grande desenvolvimento; houve uma fabrica de fun- 
dição de ferro, em Oeiras, e os indigenas obteem, por pro- 
cessos rudimentares, bom ferro, de que se aproveitam para os 
seus usos ordinários; conhecemos asphalto do Libongo, cobro 
do Bembe e outros pontos, carvão do Cambambe, oiro do Lom- 
bije e de outras partes, prata das terras do Jinga. Aprovei- 
taram-se as magnificas madeiras á beira do Cuanza e con- 
struiu-se até uma fragata e outras embarcações grandes, em 
Massangano e em Loanda, para serviço da nossa costa. 



DESCBIPÇZO DA VIAGEM 211 

As tentatívasy porém, foram feitas de modo que muitos dos 
emprehendedores, e dos que com elles trabalharam; succumbiram 
yictimas da sua ousadia a par da sua ignorância, e d'ahi se 
originou a descrença, causa principal do abandono em que 
encontrámos estes férteis torrSes, beneficiados por aguas em 
abundância, e d^ahi esses vestigios e ruinas do trabalho de 
nossos maiores! 

Da incerteza nascem as vacillaçSes! 

Mal da Guyana franceza, que presenciou mesmo nas suas 
praias, derrocadas successivas de grandes expedições metropo- 
litanas, se a França não tivesse procurado, com insistência, co- 
nhecer da causa de tSo grandes desastres de vidas e de capi- 
tães! 

E, entre nós, já se procurou, de facto, a causa de todas estas 
incertezas e vacillaçSes? 

Como possuir perfeito conhecimento dos recursos provinciaes, 
sem que se façam estes estudos? 

Impressionãmo-nos com as despesas cm estudos, porque o 
publico não os conhece, e esquecemo-nos que d^elles, e só d'el- 
les, depende a civilisação e a riqueza doesta importante parte 
da naçSo. 

Diz o sr. João de Andrade Corvo, nos seus valiosissimos 
trabalhos sobre as provindas ultramarinas: 

cA triste verdade- é, que em Portugal ha muita ambição de 
território; muito moh'ndre phantasista; uma voz sempre dis- 
posta a queixar-se dos outros; uma tendência a accusar usur- 
pações e expoliações. 

cÉ bom e justo que assim seja; mas é pouco. 

cE preciso ter coragem para trabalhar; espirito ousado para 
melhorar o que é nosso ; força para comprehender que a situa- 
ção de Portugal lhe impõe o dever de melhorar a sorte dos 
povos que lhe estão sujeitos, civilisando-os. » 

Não desprezemos o conselho de uma das primeiras auctori- 
dades na nossa causa africana, e mãos á obra. Estudemos; e 
que esses estudos se façam desde já, a par da construcção da 
via férrea, que está em andamento. 



212 EXPEDIÇXO PORTUOUEZA AO MUATIÂNVnÀ 

Pois nSo é para estranhar que, ainda hoje, a entrarmos na 
ultima década do século xix, esta vastíssima provincia de An- 
gola esteja importando productos que já ha muito devia ex- 
portar, e sem que fizesse mal ás nossas industrias da metrópole, 
como sSo o álcool, o assucar, o algodSo e o tabaco, e outros 
propriamente hortícolas, como: feijão, batata, arroz, cebollas, 
etc? 

A administração provincial nSo tem aCçSo própria. Está ma- 
niatada, e sujeita ás deliberações e consultas de gabinete da 
metrópole, e ahi vêem-se as cousas por prismas muito diversos, 
sempre na descrença de que as colónias progridam, e tendo em 
vista a economia, porque ellas estão sendo um encargo muito 
pesado á metrópole. 

Que se faça a luz; que se estude devidamente o que pelo 
menos é mais urgente; e veremos o engano em que se labora 
e os erros que se teem commettido! 

Apresentem-se estatísticas dos rendimentos das alfandegas 
da metrópole e da nossa provincia de Angola, resultados de 
importações e exportações que se fazem reciprocamente ; atten- 
da-se á quantidade de famílias que, na metrópole, se sustentam 
á custa dos interesses obtidos em Angola; lembrerao-nos das 
empresas, propriedades e industrias para que contribuo esta 
provincia e cujos impostos entrara nos cofres da metrópole; 
continuemos assim perscrutando todas as fontes de receita da 
nação, e veremos que para ella provem uma contribuição im- 
portante, principalmente de Angola e de S. Thomé. 

Outrora acreditaram- se os governadores doestas províncias 
pelas conquistas, pelos seus feitos heróicos, e mais tarde, pelos 
melhoramentos públicos que se eraprehendiam sob a sua direc- 
ção; porém, depois que a administração se centralisou na me- 
trópole, a não ser o actual c honra lhe seja, por actos de ad- 
ministraçflo rasgadamente progressista, e exceptuando um ou 
outro de tempos a tempos, poucos deixaram vistigios da sua 
administração? 

Em uma das sessões da camará alta, dizia o nobre Visconde 
de S. Januário, pouco depois de chegar do seu ultimo governo 



DESCRIPÇZO DA VIAGEM 213 

do ultramar: cE preciso dar mais latitude á acçSo dos gover- 
nadores das nossas colónias, se querem que ellas progridam». 

E assim é. 

A acçSo dos governadores reduz-se, hoje, a reformar leis 
provinciaeSy já muitas vezes corrigidas ; a mandar applicar cas- 
tí^tí a militares e a degredados ; a mudar constantemente os 
òliefdà dos concelhos, o a entreter com estes e com os govema- 
ãorés subalternos o outras auctoridades, um volumoso expe- 
diente ! 

Nisto se oocupa um período de três annos. Algumas vezes 
visitam as povoaçSes do littoral; e raro é o que conhece o interior 
da provincia, e se informa alguma vez das suas necessidades 
mais instantes. 

O illustre Governador Ferreira do Amaral é uma das exce- 
pções de que acima falíamos; e é realmente para lastimar que, 
pouco tempo depois de conhecer bem o que valiam os dominios 
sob a sua administração e o proveito que d^elles se podia obter^ 
se não collocassem a seu lado os auxiliares e recursos indis- 
pensáveis, e ao mesmo tempo se lhe âSo oíFerecessem vanta- 
gens para elle continuar adininístrando esta província tanto 
tempo, quanto o necessário para que visse os resultados das 
providencias que adoptasse. 

Infelizmente, não succedeu assim ; e, o que é mais, por cir- 
cumstancias de certo alheias á boa vontade dos poderes pú- 
blicos, não foram ainda impressos os relatórios da sua admi- 
nistração, em que de certo haverá informações preciosas ; e as 
pessoas menos illustradas, bem como os estrangeiros, continuam 
na rotina de ignorarem o que está estudado, e o que ha de 
bom na nossa província de Angola. 

Os chefes de concelhos estão para com o Governador como 
este para com o Ministro ; o que sabem na maior parte das ve- 
zes é por informações, e estas de pouca confiança por falta de 
authenticidade. 

Gastam todos muito papel; mas resultados profícuos não se 
vêem, pela falta de indispensáveis estudos práticos, e boa orien- 
tação de quem dirige. 



214 



BXPEDIÇZO PORTOOtlEZA AO HDATIÂHVnA 



£m camprimeato das iiiBtracçSee que noB foram dadas, en- 
tendemoB ser um dever.ezpor, com toda a franqueza, as nossas 
impressdes e os resultados práticos a que chegámos. O assum- 
pto porém é de sua natureza complexo, e em alguns pontos 
inteiramente novo, por ieeo teremos de lhe dar maior desen- 
volvimento nos capitnloB que se segnem; e mais largos esta- 
dos e mais completas aprecia^See teremos de fazer, tanto no 
qne respeita á riqueza como á administraçSo da província de 
Angola. 




CAPITULO II 



CONCELHO DE MALANJE 



úeãa kaJnepe, úeJa kaãi 
canda pouco, mas anda sempre.» 



Demora da Ezpediçio em Malai^je; em que te emprega o pessoal e informaçSei sobre o 
melhor caminho para o interior — O que era Malai^e antes de aer elevado i cathegoria 
do concelho ; seus actnaes limites — Caminhos ; babitaç&es e materiaes de construe- 
ç2o — Pessoal da administraçio do concelho e as missSes nacional e estrangeira — 
Carência de soccorros médicos e serviços correlativos; insuíBciencia da força armada — 
£dificios e melhoramentos públicos ; cansas de insalubridade e condições de sanea- 
mento — Commercio ; seu desenvolvimento, suas relações com os indígenas, e gravis- 
sima concorrência do estrangeiro — Agricultura e as providencias que o sen desen- 
volvimento mais altamente reclama — Uma eleição em Africa — DUBculdades com os 
carregadores ; modo de pagar-lhes ; exigências que apresentam — Protesto contra as 
informações do explorador Wissmann a respeito do commercio português — Despedida 
deMalai^je. 




DEMOEA EM MALANJE 



Ao chefe do coocellio, e a todoa os ncgodantes que mais ou 
menoB mantinham rekçSes com os sobas vizinhos, pedimos 
desde iogo o aeu auxilio para se contractarcm carregadores para 
o serviço da Expediçiio até ao numero de trezentos; e man- 
duram-ee para os sobas mais distiintes individuos acostumados 
a taeH diligencias, com alguns presentes a Jím do os animar 
a enviarem os carregadores de que pudessem dispor, para os 
contractarmoa. 

Nos Bobados maia próximos da villa poucos se podiam en- 
contrar, porque a expediçiio do Machados & Carvalho que 
d*aqtii sairá em novembro do anno passado, e depois a dos 
allem&cs que estava em vésperas de partida, tomaram todos os 
que haviam diaponiveis, e os poucos que ficaram contractámo-Ios 



218 EXFEDIÇZO POBTUOUEZA AO KUATliirvnÀ 

para serviço das nossas cargas de Cazengo para aqui, pis- 
que o chefe d'aquelle concellio que esperaya o regresso das 
comitivas do interior que andavam no serviço dos transportes 
do caféy nos commnnicou que ellas se tinliam qnstado para 
mna outra serie de viagens não convindo por motivo algum 
desvii-Ias d'aquelle trabalho, o que seria prejudicial A agri- 
cultura. 

Forçados pois a reconhecer que a nossa Expediçlo tinha de 
se demorar algum tempo em Malanje^ angariando os carrega- 
dores que lhe eram indispensáveis para se internar^ e esperando 
todas as cargas que estavam em Cazengo, entendemos de ex- 
trema necessidade aproveitar o tempo, entretendo o pessoal que 
já vencia pela ExpediçSo no que nos f&ra mais recommendado 
com respeito aos trabalhos a emprehender. 

É Malange, actualmente, um concelho da província, onde 
existe ha mais de vinte cinco annos um núcleo de europeus 
dedicado ao commercio, mas onde a agricultura só é conheci- 
da, pode dizer-se, pelo seu nome. 

Ainda nílo ha muito, num dos mais bem elaborados traba- 
lhos publicados em Portugal sobre as nossas possessões ultra- 
marinas, 80 transcreve a respeito de Malanje apenas uma 
informação de Rodrigues Graça de 1843: cO soba chama-se 
Enihanfjana c é tributário de Ambaca; o terreno é fértil, pro- 
duz milho, feijrio e creaçoes: poucas vantagens commerciaes 
offerece, a não ser cera e escravos. Os indígenas cobrem -se 
com coiros de feras, usam de lanças e frexas, sao de má ín- 
dole e ladroes, a sua religião é a idolatria». 

Esta citação é feita pelo ex."® sr. conselheiro João de An- 
drade Corvo *, um dos ministros que, modernamente, por mais 
tempo dirigiu os negócios das colónias e que tem vinculado o 
seu nome a grande numero de reformas e melhoramentos que 
lhes respeitam. De certo elle mais diria do concelho de Ma- 
lanje, se tivesse dados mais amplos. 



í EshtdoB sobre, as Províncias Ultramarinas, vol. nr, pag. 241, 1884. 



DESCRIPÇXO BA VIAGEtf 219 

Convencemo-noS; poiS; 'que nos archivoB do Ministério dos 
negócios do ultramar, não havia até 1884 outras informaçSes 
ou esclarecimentos acerca doeste concelho, e por isso seremos 
o mais minuciosos que nos for possível em relatar o que d'elle 
conhecemos. 

Já ficou dito, e deve repetir-sC; que na Allemanha depois 
de 1876 conhece-se Malanje melhor do que em Portugal, peU 
fifidta de publicidade e necessária propaganda que ha entre nós. 
E sentimos deveras que o illustrado pessoal de engenheiros in- 
cumbido do estudo do caminho de ferro de Âmbaca, não ti- 
vesse tido opportunidade de fazer um reconhecimento até ali. 
Havia nelle individues que pelas suas informações auctorisa- 
das esclareceriam o governo e o paiz, acerca das boas condi- 
ç8es doeste importante e vastíssimo concelho e das modificaçSes 
pelas quaes tem passado com vantagens depois de 1843, uni- 
camente devido aos sacrifícios d^alguns Fortuguezes que ahi 
se estabeleceram e que tem ultimamente attrahido ali o eom- 
mercio do interior, numa escala niuito desenvolvida. 

Resolvemos, pois, que uma secçSo da Expedição, sob o com- 
mando do ajudante, fosse estabelecer uma estação, já fora da 
alçada da nossa auctoridade, na qual se armazenassem as car- 
gas que fossem chegando de Cazengo, e ao mesmo tempo que 
o pessoal procurasse insinuar-se no animo dos povos vizinhos^ 
attrahindo-os ao nosso convivio no interesse da agricultura e 
do commercio de Malanje e também no interesse da Expedição. 
Obter-se-íam assim carregadores para o seu serviço, garantin- 
do-se ao mesmo tempo coramunicações seguras para o interior 
e para a villa. 

O resto da Expedição ficava na sede do concelho activando 
o movimento das cargas, angariando carregadores, providen- 
ciando para manter em boas condições a secção destacada, e es- 
tudando o cojicelho sob os pontos de vista scientificos e com- 
merciaes que mais interessassem em geral ao paiz. 

O sub-chefe estabeleceu logo, nas melhores condições que 
lhe foi possível, os instrumentos de meteorologia, e iniciou os 
seus trabalhos não só de observações meteorológicas e astro- 



220 EXPEDIÇ!0 POBTUGUBà AO MUATTInVUA 

nomicas como de exploraçSes no campo^ tendo a attender aii 
ao tratamento de doentes ^. 

Era preciso pensar no melhor caminho a seguir para que a 
primeira secçSo partisse a cumprir a missSo que já lhe fôra 
destinada. Sendo ouvidos os negociantes práticos do sertSo da 
Lunda, Narciso António Paschoal, o velho Lourenço Bezerra 
que de lá chegara havia pouco tempo quasi cego, Gomes, An- 
drade e outros e também a opiniSo sensata do. negociante 
Custodio Machado, muito valiosa pelas boas informaçSes que 
possuia do que se passava além Cuango e junto ao que nos con- 
stava das conversas com o Tenente Wissmann, chefe da expe- 
dição allemS sobre o que a pratica lhe- demonstrara na sua 
primeira travessia; tudo nos convenceu de que Quimbundo, 
nada valia actualmente como ponto commercial, pois que 
tendo-se os Quiôeos estabelecido já em terras mais ao norte 
difficultavam as marchas das comitivas de commercio para 
a Mussumba, quando as não expoliavam, tendo já invadido 
mesmo as terras de Muansansa^ grande quUolo do Muatiftn- 
vua, a quem o Dr. Max Buchner ainda ha dois annos visitara. 
Mais para oeste, as luctas de Bângalas e Quiôeos tinham sido 
também estorvo ás remessas de marfim, cera e borracha que 
vinham de Quimbundo para Malanje. 

O sertanejo Saturnino Machado, homem bastante pratico e 
que mais de metade da sua vida a passara ali, tomando-se 
popular entre os vizinhos^ deixara a sua casa com os armazéns 
cheios de borracha á guarda de seus pombeiros para lh'a en- 
viarem quando houvesse opportunidade e carregadores, e fora 
procurar por novos caminhos, ao norte, outros mercados que 
offerecessem melhor resultado nas suas transacções. 

A vantagem da marcha para a Mussumba por Quimbundo, 
consistia apenas na existência ali do estabelecimento de Sa- 



^ Todos 08 trabalhos do sr. Agostinho Sczinando Marques, tanto em 
Malanje como nas outras estações cm que a Expedição se demorou, são 
publicados num volume separado, o quarto dos trabalhos da mesma, 
sob o titulo : Os climas b as pboducçoes das tebbas de Malanje i Lunda. 



DESCBIFÇXO PA VIAGEM 221 

tomino Machado, o qual foi um grande recurso para as ex- 
pediçSes alIemSs que ahi faziam a sua estação, se forneciam 
de novos snpprimentos, obtinham carregadores e eram guiados 
de potentado em, potentado por delegados d*estes, e por pom- 
beiros e interpretes do mesmo Saturnino Machado ; o que dava 
garantias de segurança e tomava mais rápidas as viagens ^. 

Por ultimo, não tendo agora este caminho importância com- 
mercial e estando já estudado, a escolha de qualquer outro, se 
nos acarretava attrictos, ofiferecia-nos campo menos conhecido 
para as nossas investigações e vantagens para o nosso com- 
mercio. 

A expedição Machados & Carvalho, á parte as difficuldades 
sempre levantadas pelos próprios carregadores, seguira bem 
pelo caminho de NE. para o Cuango que passa nos Haris a 
norte do longo e dos Bângalas; e a expedição allemã ia se- 
guir pouco mais ou menos aquelle itinerário e com ella ia uma 
comitiva de Custodio Machado para uma casa filial a esta- 
belecer-80 na margem direita do Cuango em território dos Xin- 
jes, súbditos de Capenda-cá-Mulemba, sobre que Saturnino 
Machado informava bem. 

Era, pois, de toda a conveniência, procurar garantir este 
novo caminho ao commercio e tirar o máximo partido dos po- 
vos de suas immediaçSes em nosso favor, radicando nelles o 
mais que fosse possivel a nossa antiga influencia agora reno- 
vada pela grande expedição dos irmãos Machados. 

Não nos convinha a nós Portuguezes, trabalhar isolada- 
mente nesta importante questão de exploração commercial^ 
sobretudo partindo d 'um mesmo ponto para o centro do conti- 
nente, quando entre nós seguia uma expedição estrangeira — 
também commercial — , e que pela forma por que estava orga- 



1 Todos 08 exploradores estrangeiros que atravessaram a região da 
Lunda de uma a outra costa e do Limpopo ao Zaire, foram sempre au- 
xiliados pelos Portuguezes, devendo especialisar-se Livingstone, Came- 
ron, Young, Stanley e todos os outros, mesmo os regionaes que conse- 
guiram fazer alguns estudos. 



222 



EXPEDIÇÍO POBTDOHKÍA AO MUATIÂNVDA 



nisadn, tinha de certo intuito de permanência e fina políticoí j 
que não poderiam sor senSo contrários A nossn influencia. 

Pcnsnva-se no accordo a que devíamos chegar com o ne- J 
gociante Custodio Machado, quando appareceu em Malu^e A I 








cumprimentar a expedição, Xaquilembe, Cacuata da Lunda 
com um rapazito seu filho e um companheiro com o titulo de 
Muit<!iata. 

Estes homens tinham vindo com negocio a Cassanje e sa- 
bendo que Be organisara uma expedição para ir visitar o seu 



DESCRIPçXa DA VIAGEM 223 

Muatiânvaa, entenderam dever oumprimentíUla e dar noticias 
do estado em que se encontravam os caminhos. 

I^omos informados de que Xanama, o Muatiânvua que o Dr. 
Buchner visitara; já não existia nem tão pouco o que lhe suc- 
cedeu; que Xanama receando que o illustrado explorador pai^- 
ticipasse a Muene Puto que fôra roubado nas terras do seu 
grande quilolo Anguvo, próximo do Cassai; despachara uma em- 
baixada para o Ânguvulo; governador em Loanda, a quem 
mandava um grande presente e dizer-Ihe: — que elle não man- 
dara fazer tal roubo, apesar de não ter gostado d'aquelle inguerês, 
porque dizia mal de seu amo Muene Puto; que elle desejava 
que Muene Puto lhe mandasse filhos seus, brancos, mas não 
inguerês, para ensinar seus filhos a fazer as bonitas cousas que 
dos suas terras tem visto, etc., etc. 

A embaixada era composta dos Cacuatas — Toca Muvumo, 
Muzuóli, CarungongO; Ludui^o com grande comitiva que guar- 
dava o presente, que se compunha de cincoenta dentes gran- 
des de marfim, um anSo, uma onça viva, escravos e as cargas 
de borracha que estes transportavam. 

A embaixada gastou mais de um anno em viagem porque 
tivera conflictos com os Qmôcos nas margens do Chicapa, e xú- 
timamente estava demorada nas ambanzas dos sobrinhos dos 
fallecidos Muhungo e Cambolo que se julgavam com direito 
ao jagado de Cassanje, na margem direita do Cuango. 

Os Bângalas não consentiam qu6 elles fossem com os pre- 
sentes para o governador, porque diziam: só o seu jaga é que 
pode fazer taes presentes e elles estavam-se preparando para 
fazer uma guerra ao que está na posse do estado. 

Tiveram ahi os Cacuatas noticia que fôra morto Xanama, e 
por isso díspuzeram do presente a favor dos Bângalas, sup- 
pondo que estes os auxiliariam a fazer uma guerra aos Quiôcos 
que lhes quizeram impedir a passagem. 

Os Bângalas receberam os presentes, e não se tinham decidido 
a fazer tal guerra de modo que os Cacuatas agora temiam vir 
dar o recado do Muatiânvua ao Anguvulo por não terem o pre- 
sente de que esperavam a compensação . e temiam volver á 



224 EXPEDIÇÃO POKTDOUHZA AO HUATIINVOA 

MuGBumba porque o novo Muatiãnvna ee ellee appareceBsem 
sein cousa alguma lhes mandara decepar ae cabeças. 

Os QuiScoB Babiatu do convite que os Cacuataa fizeram aos 
fiãn^las para os guerrear e agora os caminLos estavam cbeioa 
de QuiôcoB e todos ob negociadores que por ali passavam eram 
victimas da sua selvageria. 

Depois de semelhante communicaçao que noa foi~traQsmit- 
tida pelo liomem que servira de interprete ao explorador J 




Biíchner e que era ami^ d'elles e no-los apresentjira, tratámos ] 
de oa interrogar sobre o que era conveniente conhecer para quem ' 
se dirige para as suas terras e quaes os caminhos que elles po- 
diam garantir como de mais segurança para uma grande expe- 
dição. 



Do que ouvimos concluimos — que o caminho já 
) melhor a seguir, e que as casas commerciaes 




projectado ^^^ 
I que Cus- ^H 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 225 

todio Machado tencionava estabelecer e as estaçSes que a Ex- 
pedição tinha de levantar, deviam obedecer a um plano de 
modo que se protegessem reciprocamente; garantindo sempre 
as communicaçSes entre si e com Malanje. 

O negociante Custodio Machado, como homem pratico e de 
espirito patriótico, do melhor grado annuiu a cooperar para o 
bom êxito d'este plano e no dia seguinte entregava-nos a co- 
pia das instrucçSes que confiava ao gerente da primeira casa 
que ia estabelecer na margem direita do Cuango, as quaes sSo 
do teor seguinte: 



InstmcçOes do negroclante Cnstodlo Hachado 

acerca do estabeleéimento da sna estação comineroial 

na margem direita do Caango 

1.* O fim único e exclusivo do estabelecimento d'esta casa ou estação é 
paramente o de exercer o commercio licito com todos os povos que a ella 
accorrerem com cera, borracha e marfim, para permutarem por mercado- 
rias da Europa; mas muito principalmente para fazer o inicio em grande 
escala do commercio da gomma copal, o qual tem sido até &oje desco- 
nhecido neste concelho. 

2.* Deverá, logo que chegue ao ponto indicado, construir uma casa de 
pau a pique, que tenha 50 pés de comprimento por 15 de largo e 10 de al- 
tura de paredes, perfeitamente segura e aterrada, destinando-se 25 pés 
para armazém de mercadorias e deposito dos já indicados géneros colo- 
niaes, e os 25 restantes serão divididos em dois quartos iguaes, desti- 
nando um para dar hospedagem a qualquer passageiro civilisado que por 
ali passe. 

3.* Os géneros coloniaes são acreditados pelo mesmo preço por que 
correm neste mercado no acto da sua recepção ; como, porém, para a co- 
tação da gomma copal não haja ainda preço estabelecido, eu coto-a desde 
já, sendo ella igual á amostra que entrego com estas instrucções ao sr. 
Vasconcellos, em 4if500 réis a arroba, quando seja bem limpa de toda 
a terra ou barro e que não contenha corpos estranhos; deverá pois com- 
prar doeste artigo a maior quantidade possivel a preços animadores, a 
fim de que o gentio se possa dedicar á sua procura, sem todavia deixar- 
mos de tirar a vantagem em nosso interesse na exploração que nos pro- 
porciona este novo ramo de commercio. 

4.* Deverá empregar todos os esforços possiveis para animar sem vio- 
lência o povo do Xinje a empregar- se na conducção das cargas do com- 



226 EXPEDIÇ20 PORTUOCEZA AO mJATIÂNVUA 

mercio, n2o b6 para Malanje, como para o Caiíngala, Miasmábai Im- 
buço ou outro qualquer ponto; fazendo-lhe sempre com religiosa pontua- 
lidade 08 pagamentos ajustados, para n2o dar motivo a que em seu animo 
se possa incutir a menor sombra de desconfiança contra os Portugueses. 
No caso de poder conseguir que venham carregadores a Malanje, deyerá^ 
sempre que seja possível, mandá-los acompanhados de pessoa eerta, a 
fim de lhes inspirar confiança e animaç&o, a qual os deverá acompanhar 
ainda no seu regresso, pagando-sé-lhe o que se ajustar por tal serviço. 
£ conseguindo-se, como espero, que venham a Malanje sem repugnância 
e com carga, empregará boas diligencias para os convencer a receberem 
aqui o pagamento do seu Credito, n2o s6 porque acho isto mais vantajoso 
ao meu interesse, mas ainda por ser assim melhor para elles poderem no 
meu estabelecimento, e á sua vontade, escolher o artigo que mais possa 
ser do seu agrado, para lhes satis&zer o pagamento ajustado. 

Desejo, emfim, para coroar de bom êxito e florescimento este meu ar- 
riscado emprehendimento, que se mantenha sempre a boa paz e a boa 
harmonia com todos os povos gentios, não só com os que residem no per- 
curso do trajecto, como com aquelles do logar aonde a casa vae ser esta- 
belecida, e ainda com todos aquelles povos das circumvizinbanças; é este 
um especialíssimo assumpto que eu muito recommendo á sua attençâo, 
para que seja religiosamente observado, a fim de podermos manter sem- 
pre as melhores relações com esses povos, sem que nunca possam ter mo- 
tivo a pôr embaraços a quem quer que seja que por essas paragens possa 
transitar. 

5.* Os sacos em que me fizer remessa de borracha, que comprar, de- 
verão ser feitos de mabella, por ser mais consisteute e duradoura que nSo 
é a linhagem. A gomma copal deverá ser acondicionada em uma espécie 
de caixote feito de hastes de bordáo cortadas em troços conveniente- 
mente desbastados, de modo que o seu transporte seja fácil e commodo 
ao carregador, sem que a gomma possa aqui chegar esmigalhada. A cera 
deverá, como é costume, ser fundida em gamellas. 

6.* £ de toda a conveniência que ao porto de Muêto Anguimbo afflua 
o máximo movimento, sendo necessário como o do maior e mais seguro 
transito do caminho que meu irmão abriu quando á frente da nossa Ex- 
pedição Commercial se dirigiu á Africa central e equatorial; e para se 
evitar quanto possível a falta de canoas que facilitem promptai^ente a 
passagem do porto no Cuango, deverá comprar até três canoas grandes 
e boas, que sirvam a dar com segurança transportes a cargas e pessoas 
de uma a outra margem, podendo, para as ter sempre promptas para 
tal fim, engajar o máximo numero de pilotos que forem precisos. 

7.* Fica auctorisado o sr.VasconcelIos a comprar até quatrocentas pelles 
de lontras finas e boas, bem como algumas de onças grandes, sendo umas 
e outras sem defeitos. Também me comprará algumas quitecas, differen- 



DESCRIPÇXO DA YUGEU 227 

tes armas e arcos gentílicos, mulcmgueê-çuingundoõ e outras mais curio- 
sidades que o gentio costuma fazer, e que veja podem ter algum mereci- 
mento na estima dos europeus. Comprará igualmente até mil mabellas, 
mas que sejam das mais largas e mais compridas que possam ser, rejei- 
tando todas as que forem curtas e estreitas. 

Finalmente, tudo o que vir que inspire interesse e curiosidade, quer 
sejam trabalhos feitos pelo gentio em madeira, ferro, osso ou marfim, 
quer mesmo animaes vivos que se possam possuir, sem lhes sacrificar a 
vida e que por cá não haja ou nem sequer tenham sido ainda vistos, 
poderá comprar, não sendo caros. 

8.* Não poderá fazer vendas fiadas, devendo todas que realisar ser 
feitas com o pagamento á vista. 

9.* Náo poderá o sr. José António de Yasconcellos ter negócios particu- 
larmente seus, porque sendo, como é, meu empregado, recebendo como tal 
o ordenado de 15JÍ000 réis mensaes a seco, a contar da data em que le- 
vantar para o seu destino, e mais õ por cento do valor dos géneros que 
permutar e me despachar para Malanje, náo é justo que distraia a sua 
attençáo, em prejuízo dbs meus interesses; além d^isso, se os seus bons 
serviços, zelo, cuidado e honradez recommendarem uma qualquer grati- 
ficação, ha de lhe ser dada sem repugnância. 

10.* Em caso nenhum poderá despedir-se do meu serviço sem que pre- 
viamente me avise de tal resolução, a fim de poder com antecedência pro- 
curar outro empregado, a quem então fará entrega, por balanço, do que 
houver cm casa, devendo esse balanço ser por ambos assignado. 

11.* De seis cm seis mezes prestará um balanço exacto do movimento 
da casa, para o qual deverão ser descriptas todas as compras e outras 
despezas que se fizerem. 

12.* Fará quanto possível para todos os mezes me remetter os géne- 
ros coloníacs que tiver permutado, quer por carregadores Bondos, que 
mandará engajar, quando não for possível fazer o despacho por Mazio- 
jes, quer por outros de confiança e pontualidade. 

Nos dias 14 e 15 de julho prcparou-se devidamente a sec- 
ção que partiu na madrugada de 16. Foi estabelecer-se em 
And^la Quínguângua uns 17 kilometros a NE. de Catalã, ulti- 
mo ponto onde a nossa auetoridade estava exercendo de facto 
a sua jurisdicção, e a 58 kilometros da villa de Malanje. 

Este sobado já pertence ao jaga Andala Quissúa e tanto 
d'este como dos povos visinhos nos occuparemos em occasiSo 
competente. 

Por agora diremos que em 24 de julho já o ajudante da 



228 BXFKDIÇZO POBTOGDEZA. AO HCATliVTOi. 

Expediç3o hospedava o melhor que era possivel o chefe da 
expediçfto allemS que seguira ao couce da mesma. 

Ob sobas das immedíaçSes da villa, Muhieba, Âmbango e 
Ãngonga apresentaram alguns carregadores para o transporte 
de cargas de Gazengo para Malanje e d*aqui para aquella es- 
taçSo, que se denominou — 24 de Julho — e apesar da poucos 
a mudança ia-se fazendo, emquanto continuávamos nas diligen- 
cias de obtel? carregadores para a Mussumba, o que deu logar 
a visitarmoe e entretermos relaçSes com diversos sobas do con- 
celho, colherem-se boas informaçRea e fazerem-se trabalhos de 
reconheúda necessidade e de ntto menor importância. 




DSaCBIFçXo DA VIAGEM 



O QUE ERA MALANJE 




No atmo de 18&7, ainda 
as terraB d'e8te concelho, 
que é Tastiasimo, estavam 
repartidas por diversos so- 
bas já avassalladoB, muitos 
d'elles, aoB presídios de 
Ambaca e Duque de Bra- 
gança. 

Os Songos tiveram aqui 
três sobados importantes 
sendo o superior, o do 
lembe, da &milia de Qui- 
binda que se estabeleceu 
no Bul junto ao Cuanza, 
quasi na confluência do 
CuJji, indo elle depois oc- 
cupar aa terras do Quesao, 
sujeitando-se aos dízimos 
e serviço forçado no presí- 
dio de Ãmbaca até ao anno 
de 1850. 
O Sonna, que já em 1828 se suppSe residia no Lombe, 
como o seu povo deixasse de lhe obedecer com a mesma hu- 
mildade depois que elle se avaseallou ao presidio de Ambaca, 



230 EXPEDIÇZO PORTUGCEZA AO MUATllNVnA 

mandou uma embaixada ao chefe declarando, que estava prom- 
pto a pagar o dizimo á Nação e apresentar gente para o ser- 
viço do presidio ; mas que determinasse que um delegado seu, 
fosse residir junto d'elle com a necessária força para chamar á 
ordem os seus súbditos que estavam procedendo onuito mal 
depois que as suas terras passaram ao dominio da Coroa. 

Franòisco Gomes, sobêta que viera de Cassanje e f8ra mo- 
cota do Calandula de Ambaca, D. JoSo Damião, foi estabelecer- 
se, com o titulo de Calandula, mais para leste do presidio e 
d'elle um pouco distante no Jungo, terras do gentio Quiluanje- 
quiá-Samba. Teve questSes com este e foi expulso do sitio pe- 
lo povo. 

Em 1838 sendo occupado o Duque de Bragança pela nossa 
auctoridívie, Francisco Gomes e os seus fugiram com receio de 
serem castigados e espalharam-se por Ambaca, Pire e terras de 
Bondos de Andala Quissúa; indo Gomes primeiro para Cahon- 
go e pouco depois para Camueia, Lombe de cima^ onde se 
conservou até 1840. É depois doesta data que foi a Loanda, 
pedir ao governador da provincia para se estabelecer em 
Angola Luije, terras do soba Quifucussa (Bondo), declarando ser 
elle o Calandula de Ambaca, de quem se não conhecia o pa- 
radeiro havia muito tempo, e que gosára de umas certas isen- 
ções do nosso governo pelos bons serviços prestados por um an- 
tepassado nas guerras contra o Sonho, a que já nos referimos. 

Foi elle recommendado pelo governador ao chefe do presi- 
dio do Duque de Bragança, José Vicente Duarte, que o acom- 
panhou até ao quartel da divisão do Lombe e lhe cedeu terras 
no Matete além do Lombe limitadas pelo riacho Quingungo, 
próximo da residência do soba tambera Bondo, Quicunzo-quiá- 
Bembe, onde se estabeleceu com os seus, e onde estava uma 
divisão de Moveis a quem Quifucussa, visto ser considerado 
gentio, tinha de pagar os dizimos, emquanto elle Calandula era 
dispensado de tal pagamento. 

Esta concessão fora feita, não podendo elle passar o Lombe 
nem tão pouco o Quesso, e como acceitasse, foi d'ahi em deante 
considerado Jaga. 



DESCRIPÇZO DÁ VUGEH 231 

Morreu Gomes em 1848, tendo sempre vivido bem com as 
anctorídades portnguezas. 

Snccedeu-lhe D. Gonga Catalã que em 1849 foi castigado 
pelo chefe do presidio do Duque, por abusos e faltas de res- 
peito ao chefe da divis&o do Lombe, Joaquim José da Motta ; 
e os seus macetas temendo que se perdesse aquelle estado 
pelos atrevimentos de Calandula, destituiram-no e elegeram 
para o substituir a D. António Agury que continuou no mes- 
mo sitio. 

A este ainda succederam Paulo Muânji e Bartholomeu Gar- 
cianno, que sempre andaram em boa harmonia com as nossas 
anctorídades. 

Actualmente existem Muânji e Camuiri no concelho de Ma- 
lanje residindo não mui distantes ao norte da villa, sendo o 
primeiro competidor do outro e ambos se teem acceitado como 
Calandulas por conveniência da tranquilidade publica e para 
evitar conflictos entre elles, pois dispõem de muito povo. 

Um e outro se tomaram protectores e acoutadores de Am- 
baquistas e serviçaes que teem fugido, os primeiros ao alista- 
mento militar e os últimos ao trabalho que a lei lhes imp5e. 

Os Calandulas hoje apparecem por toda a parte, porque 
adoptaram o uso gentílico, do representante usar o titulo de 
representado ; é este um meio de se attríbuirem ao verdadeiro 
as faltas e mesmo crimes, praticados por individues que se 
servem de taes títulos. 

O verdadeiro. Calandula reside no Songue, próximo das ter- 
ras do Congo, é descendente da Lunda, vive em boa harmonia 
com o rei do Congo e diz-se súbdito do rei de Portugal. 

É dos seus dissidentes e que contra elle se rebellaram, que 
partiram os actuaes que teem residência no Duque, no Jongo 
á margem do Cuango, e os dois em Malanje : o Muânji entre o 
rio Lombe e morro de Ambango, já no seu extremo a leste pró- 
ximo á villa, e o Camuiri a norte do mesmo morro na margem 
direita do Lombe próximo da confluência com o Lutenga. 

Qualquer d'elles está abusando hoje muito das consideraçSes 
com que por necessidade, teem sido tratados pelos chefes dos 



BXFEDIÇZO POBTCGUEZÁ AO HCrATUNVIlÁ 



conoellios, e muitas tSa as repreeentaçSes qae vSo ^parecendo 
contra o sen mau procedimento e mesmo roaboa que os mos 
snbordinadoa estão faseado ás comitÍTas de commeicto que 
teem de transitar por aquelles legares. 

O soba Quifucusaa, pertencia ao sobado Bambe-iá-CaTÚnji 
de além do rio Cnaozs e veiu com os sons subordinados 
Quenzs, Cambambe e Quissama-quiá-Bambe, occupar as terras 
em que hoje estilo, limitadas pelo rio Angola Luijt e que se es- 
tendem até Angola Bole, por conoes- 
bSo de Ãadala Qoiasúa, a quem Qni- 
fucussn se avassallou, sendo a popa- 
laçilo angmcntoda pelas relações qae 
os seus povos estreitaram com os Bon- 
des, com os quaes se aparentaram 
ainda por condescendência do mesmo 
' Andala Quissúa. Estes povos foram-se 
espalhando para as bandas do norte 
entre o rÍo Cambo e seus affluentes 
occidentaes. 

O Andala Samba é de descendência 
da Jinga. A ello concedeu o chefe 
Juatino Feltro de Andrade terras do 
(,'aiiiirc até ao Buizo com a condiçSo, 
de vigiar pela segurança dos cami- 
nhos, por serem ji muitas as queixas 
que tinha do commercio contra sal- 
teadores que atacavam as comitivas 

de Calimdo até Cabanza, e também 

de construir e conservar as passagens 
sobre riachos e outras linhas d'aguas. 

Já depois de estabelecidos todos estes sobas, vieram do Cod- 
go-Ambango, Angondo, Mungongo, Momo, Caiongo, Cam- 
buuje e Malenga, que estão próximos á villa a norte d'e8ta, 
estendendo-se para leatc. 

Próximos a estes e mais visinhos da villa, residem o Muhie- 
ba e Angonga, parentes que vieram já de Quiríma entre o 




DE8CRIPÇS0 DA VIAGEM 



233 



Soiigo e Tala MugODgo e sSo de descendência do Libolo, e tam- 
bém Caliitanga que usa malunga *. 

Tanto estea como oa anteriores consideram o Ambango do 
cathegoria superior, e dizem ser a um dos seus antepassados que 
se deve o estado dos Bambciros o que tal ora a sua fama que 
deu o seu nome Ambango ao morro que limita a villa pelo 
norte, do alto do qual, der 
poia de uma ascenção de 
800 ou 900 pés, os dossob 
infatigáveis e ousados ex- 
ploradores Capello e Ivens, 
avistaram as penedias de 
Pungo Andongo, os montes 
de Ambaca, a sen^a Mu- 
liuugo ao norte e o Cuanza 
serpeando entre verdejan- 
tes planuras ao sudoeste*. 

Também de descendên- 
cia da JingH, se estabele- 
ceram junto ao Cuanza e 
Cuiji de um c outro lado, 
limitando o concelLo pelo 
sudoeste os sobadoB — Qui- 
táxÍ,Cabila, Andungo, Am- 
bumba, Ambila, Cumassa 
e Quissonde ; e maia tarde 
passaram a ser denominados povos Masmelaa. 

Foi depois de 1857 que todos ostee povos se r 
formar o concelho de Malanje, até abi um c abado' 
BB aggregaram também outros povos, mais a leste do Cuanza 




para 



' Bracelete de metal, digtinctivo Lonurifico eutre os súbditos do rol 
do Congo. 

B Btnffutlla át ttrra» de laeca, Tol. tt, cap. xt, pag. 41. 
pendência do presidio do Ambaca, de que era auctoridade um 



234 EZPEDIÇIo POBTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

para o norte; contando-se entre estes os dos sobas — Anjinji, 
AnjiO; Calunda; Camulemba; Quiombo, Fila Cassanje, CiingEi 
lanza Páti, a sueste; e mais os Songos — Sáti, Quitamba, Ca- 
hombo, Quimbamba, Capuco e outros marginando o Coiji até 
á sua confluência com o Cuanza; e ainda Quipacassa, Cam- 
bondo; Muquixi; Catalã, Andala Samba, Ânzáji, etc., pelo 
lado do norte. 

A constituição d'este concelho era' de reconhecida necessi- 
dade depois de 1850, anno em que o fallecido Major Salles 
Ferreira por determinação do Governo teve de ir com uma 
expedição bater os Bondos, depor e mais tarde prender o jaga 
Andala Quissúa ; collocando em seu logar o Quissúa Camuáxi, 
e mezes depois, bater o jaga Ambumba, de Cassanje, que fu- 
giu para a margem direita do Cuango, collocando também em 
seu logar o jaga que o povo elegeu. 

Alguns sobas de Malanje por essa occasião tiveram de ser 
castigados e entre elles se menciona o Muhieba, antecessor do 
actual, que apesar de avassallado fazia causa commimi com os 
rebeldes, atraiçoando -nos. 

Os castigos que soffreram Muhieba e Andala Quissúa foram 
na verdade terríveis, mas de grande effcito, porque ainda hoje 
se falia nelles e com respeito pelas nossas armas. Um dos so- 
bas foi amarrado a uma boca de fogo que se fez disparar em 
seguida ficando o padecente surdo durante o resto da sua vida. 

Dizem os descendentes de Muhieba que fora este o castigado, 
porém Andala Quissúa, com quem estivemos e que era tão 
surdo como velho, contou-noH ter sido elle quem soffrêra tal 
castigo e que depois jazera muitos ânuos preso numa masmor- 
ra em Loanda, mas injustamente. 

Fosse qual fosse o castigado, é certo que o castigo impoz a 
todos os sobas vizinhos a sujeição ás nossas auctoridades , 
ainda as de menor graduação; e os sobas do Lombe, Calan- 
dula e outros mais- obstinados, foram modificando os seus cos- 
tumes gentilicos e toniando-se mais obedientes. 

Nas ultimas guerras de Cassanje, de 1857 a 1862, é certo 
que as nossas forças encontraram ja nestes povos grandes au- 



DESCBIPÇXO DA TUGEM 



xíliares, e alguns como o Ambango e vizinhoa, e ainda ob do 
Lombe e os do sut prestaram importantes serviços nas con- 
BtrucçSes passageiras com que se julgou dever fortificar a vílla 
pelos quadrantes de leste, e todos concorreram para a mana- 
tenção da tropa que aqui se reuniu em avultado numero. 

É depois d'iato, infelizmente, quando tudo estava bem dÍB- 
posto para se dar um ataque a Cassanje que veiu a ordem para 
se suspenderem as hostilidades e retirar toda a força, o que no 
animo d'aquelle povo nos desprestigiou bastante, tomando-o 
até insolente e atrevido para com os negociantes europeus; 
porque a este facto acres- 
ceu voltar o concelho de 
Malanje a ser dividido no- 
vamente em cabados, aban- 
donando-se o que já tínha- 
mos dominado a leste. 

Ao gentio nSo passam 
despercebidos factos d'eBta 
ordem, e nós ouvimos muita 
vez dizer A gcraçito mo- 
derna, que Muenc Puto & 
amigo de Cassanjo, porque 
sabendo que as guerras que 
houve com Cassanje foram Ci. 
motivadas pelos seus filhos 
negociadores, mandou reti- 
rar todas as suas forças, e nHo quiz que ellcs pagassem as 
mortes que fizeram. 

Se elles teem a esperteza para com taes palavras se mos- 
trarem amáveis, é para acreditar que aos indigenaa da pro- 
víncia, e mesmo ao gentio seu vizinho, digam — nada temos a 
receiar dos soldados de Muene Puto, porque já lhe matámos 
muita gente e elle nSto teve coragem para fazer vingar essas 
mortes. Miiene Puto bem sabe que somos valentes e os seus 
soldados, quando cú chegarem, já não teem força para nos 
guerrearem. 




236 EXPEDIÇÃO POKTUGUEZÀ AO MaATIÂNVUA 



Oa CassanjeSy ou, como é mais vulgar, os Bângalas, estXo 
abusando muito da indiffercnça com que temos olhado para o 
seu procedimento depois das ultimas guerras. E o peor é que 
os mais ousados dos nossos aventureiros africanos, que acom- 
panham comitivas de negocio no sertào, onde elles cstSo disse- 
minados, tendo de proceder na resolução de pendências com 
08 povos indígenas conforme lhes lembra e segundo os recursos 
de força de que podem dispor, díio causa ás expoliaçSes e se* 
questros das comitivas, feitos pelos Bâugalas cujos prejuizos 
vão recahir sobre as casas cí>mmcrciaes que as abonaram. 

Houve eiíifim um governador que reconheceu a necessidade 
de se constituir de novo o concelho de Malanje e de ahi collo- 
car uma auctoridade idónea com um destacamento da primeira 
linha para poder sustentar a sua auctoridade; porém ainda 
d'esta vez os limites doeste concelho foram marcados cm vir- 
tude de informações pouco fidedignas, informações segundo 
a memoria dos indígenas, no que sSUo pouco felizes. Muitas vc-. 
zes, se não deturpam, inventam nomes, principalmente os Am- 
baquistas, porque consideram desairoso mostrar que ignoram 
o que se lhes pergunta. 

Para elles, distinguc-se o homem do bruto em que este é 
um ignorante e nHo falia, só para não se dar a conhecer. 

Xâo havendo hoje melhores eschirecimentos do que aquclles 
que obtivemos sobre as confrontações do concelho, apresentá- 
mos, em presença da carta dos nossos beneméritos exploradores 
Ca})ello e Ivcns, os limites por aecidi^utes naturaes que mais se 
approximam d'aquell(is como verdadeiros; mas o que não offe- 
rece duvida ó que se devem acceitar de preferencia os accidentes 
naturaes, ou entrio proceder-se desde já ao levantamento geodé- 
sico e topograpliico de toda a província de Angola por pessoal 
competente, e sobre essa nova carta fazercm-se as demarcações 
dos concelhos de modo a ficarem bem definidos os seus limites. 

A serra Tala Miigurigo limita o concelho pelo lado de leste, 
a começar pelos Songos, e seguindo com esta, esse limite vae 
até ao extremo norte do monte Ambango, que fica approxi- 
madamente na altura do porto Audala Maquita, no rio Luí. 



^^*Hr~^ 



DESCRIPÇXO DA VUOEM 237 

D'aquí faz-se a demarcação norte, cortando o rio Cambo até 
á serra da Jinga, separando as terras doesta dos Bondos de 
Andala Quissúa. O limite de oeste comprehende as monta^ 
nhãs do Duque de Bragança^ rio Lucala e segue pelo seu con 
fluente Muquixe até Calundo, no Lutete, para continuar com 
este e passar ao Lombe até á sua confluência com o Cuanza; 
sendo o Lombe e o Lutete que separam este concelho do de 
Pungo Andongo. O limite ao sul é a parte do Cuanza, entre 
o Lombe e o Cuíji, seguindo depois este ao Songo. 

As demarcações que nos apresentaram comprehendem nomes 
de riachos e de sobas, que pela sua pouca importância, carta 
alguma por emquanto pode d^elles dar noticia. Seria muito 
necessário uma carta regional para se marcarem devidamente. 

Os limites que acceitâmos e que se não afastam muito dos 
que se consideram oíBciaes, abrangem um território com uma 
área muito approximada de vinte e um mil e seiscentos kilo- 
metros quadrados. 

Uma zona de tanta vastidSlo, que abrange a maior parte da 
região altoplana da nossa provincia, a norte do Cuanza, consi- 
derada phytogeographicamente, distingue-se da zona littoral 
e intermédia pela immensa variedade da sua grande vegetação, 
multidão de plantas aromáticas e bulbosas, luxuriante verdura 
de seus extensos descampados e particular elegância de mui- 
tos vegotaes, tanto herbáceos como arborescentes ; considerada 
ethnographicamente, é a mais complexa pela grande variedade 
de povos que hoje a habitam, de procedências mui diversas, 
mas que pelos seus usos, costumes, artefactos e dialectos mos- 
tram que tiveram uma origem commum, de que se foram des- 
prendendo em dififerentes epochas, para aqui muito mais tarde 
e depois de terem experimentado varia fortuna se tomarem a 
reunir, sob o nosso dorainio, em condições mais favoráveis para 
a sua civilisação. 

Offerece esta região notáveis vantagens, porque o relevo do 
seu terreno e a sua abundante rede fluvial torna-a o mais apta 
possível para se estabelecerem colónias agrícolas, tanto de in- 
dígenas como de europeus. 



238 EXFEDlÇlO POBTDGDEZA AO MCATIÍNVUA 

Numa regiílo como esta, ha, pois, muito que estudar, tanto 
sob o pODtO de viata scientlfíco como no de sua administração, 
e eo o camiulio de ferro aqui chegar, mais urgentes se tornam 
estes estudos para se conhecerem todas as aptidííes do seu solo 
e as snaa condíçfíes de salubridade. Pode mesmo prever-ee que 
80 devem fundar aqui quintas de recreio dos negociantes quo 
vivendo no littoral, d'ali se retirem na epocba daa chuvas, que 
£ 8 mais doentia. 




^^C^ DBSCRIPgXO DA VIAGEM 230 ^^^H 




CAMINHOS ^H 


^^^^^B^^^^^H^a^H 


^H 




A s<;de do con- -^^^ 


'^^^H^HjH 


celho, a que temos ^^^H 
chamado villa, es- ^^H 




tá situada entre O" ^H 


'^^HB^pHwB 


Ití' 10" de lat. S. ^H 




<lo Equador e IG" ^H 

15' 0" de long. E. ^H 


,rgájí - "^■HhI 


XA<i é innita ^^H 




Be ^^^^^^H 


1 ^jtt^H 


[jola sua plan- a^^^^^^f 
t^i, i' assenta snbrt) ^^^^^^^^h 




<uii planalto ^^^^^H 




metros acima do ^^^| 




nível do mar, mé- ^^M 


y^ÊÊ^^^S^^~~^^^^^B^^^^^^^^^ 


dia da rigorosas ^^^| 
observaçcles hyp~ ^^^M 
Bometricas e baro- ^^^H 


^^Ê^^^Ís^^^^^M 


A 9iia maior ex- ^^M 
lens;1o é de W. ^^H 


^^^^^^^B^s^- ^ 


pnra E., tendo a ^^M 
•'ntrada a NE. e ^^H 




Mt^M 


sahidas pelo SE., -^^Ê 
E. e íiW. por ca- ^^M 
njinhos deiínidos, ^^M 
([tie se dirigem, o ^^^H 




KT '* ^'^ Pk^^SH^^^^^^^I 


primeiro, através* ^^H 
sando uma exten- ^^^^^H 


1 







240 EXPEDIÇZO POttTUOUESA AO miATllHVUA 



^mm*A- 



sa floresta das mais ralas e buzas, em que abundam as aca- 
cias, a Quipacassa, e segue d'ahi passando sobre o Luzimbe, 
afluente do Cuíji, para Catalã, logar em que se estabelece- 
ram, e em suas vizinhaiiças, casas filiaes do commercio de 
Malanje; o segundo, seguindo até certa altura com o rio Ma- 
lanje, diríge-se para Cahombo, logar onde ha pouco tempo se 
fundou a colónia penitenciaria Esperança, instituição do Oo- 
vemador Ferreira do Amaral, e estende-se até ao Cuiji, pró- 
ximo da sua confluência com o Cuanza; o terceiro a conver- 
^r para o Cuiji, acompanha-o depois até Anjínje-á-Cabári, 
Quissole e Angio, d'onde partem ainda outros caminhos, indo 
um pelo Anzáji-á Catalã, outro pelo Chissa, Andala Samba, 
etc., e um que se pode dizer o prolongamento do que parte 
da villa, passando o rio Cuiji vae para o Sanza, Songos, etc. 

Só este caminho de Malanjè ao Quissole é que se pode dizer 
mereceu a attençSo da auctoridade, pois lembra uma estrada 
de ordem inferior para vehiculos, e que certamente foi devida 
ao estabelecimento de casas de commercio no Anjinji e Quis- 
sole. Tem 14 kilometros de extensSo. 

O caminho do leste, que se dirige para a colónia Esperança, 
tem de extensSo 22 kilometros e é muito accidentado, ficando 
a colónia numa altitude um pouco inferior á da villa. Neces- 
sariamente, se a colónia tiver o desenvolvimento que se espera, 
este caminho em pouco tempo se transformará numa estrada 
nSo inferior á do Quissole. 

Pelo que respeito ao caminho de Quipacassa, só mais tarde 
se pensará eertameute em melhorar as suas condições de viaçSo, 
porque quem mais o frequenta hoje é o gentio. É este cami- 
nho o que oífcrece menos diíHcuIdades quanto aos accidentes 
do terreno. 

Os sobas prestam- se de boa vontade a dar a gente que for 
necessária para os trabalhos, e ha grande vantagem de se eu* 
curtar a distancia para a regiSLo dos Bondos de Andala Quis- 
súa, hoje vassallo de importância, e com o qual convém manter 
estreitas relaç(!le3. 

A maior parte das habitações eram de construcçFto rudimen- 



descripçao da vugek 241 



tiar, com as paredes de adobe, coberturas de capim e piso de 
terra batida ou piloada, ou de pedra mal britada. As que td- 
timamente se estSo construindo merecem muito mais atten^ 
da parte dos proprietários, que teem em vista os commodos de 
que elles e suas familias precisam, pois as fazem para sua ha- 
bitação e para nellas arrecadarem os valores que teem de ne- 
gociar. 

Outr'ora consideravam- se as habitaçSes apenas como aloja- 
mentos provisórios, que durassem o tempo indispensável para 
o negocio de uma factura, pois na terra faltavam ao europeu 
todas as condições de habitabilidade e os recursos que a ci- 
vilisaçSo reclama ; e os governos, diga-se em verdade, nem pen- 
savam em' semelhante localidade senão para censurarem impli- 
citamente os que se expunham a vir fazer negocio entre o 
gentio, declarando sempre que não podiam dispor de forças 
militares indispensáveis para aqui manter a nossa auctoridade 
e prestigio. 

Hoje, quem faz uma casa é já pensando que nella tem de 
permanecer por alguns annos, porque as illusSes com respeito 
ás rápidas fortuna» desvaneceram-se, e quando possa retirar, 
o custo da casa já está reembolsado, e vendendo-a, qualquer 
preço que alcance é sempre bom lucro. 

As coberturas de capim, sobre dispendiosas, offerecem pe- 
rigos em caso de incêndio, e são incommodas por deixarem 
passar as. aguas. Com grandes diíBcúldades luctaram os que 
primeiro tentaram substitui-Ins por telhas ou feltro, o que além 
de exigir despezas de transporte, requeria um madeiramento 
nas devidais condiçSes. 

Tendo cm attenção estas necessidades pensou-se, e bem, que 
nos arredores da villa existiam, em grande quantidade, boas 
madeiras e barros e que também havia a* alguma distancia boa 
pedra calcarea, e portanto empregar um pessoal de modo a 
aproveitarem-se estes recursos era o verdadeiro caminho a se- 
guir e assim se fez. 

Com respeito a" carpinteria e mesmo marcenaria vimos já 
obras de alguma importância como — portas, janellas, armações 



242 



EXPEDIÇZO POBTDQCEZA AO miATllNTUA 



de lojas e de coberturas em boas condições, e com uma tal ow 
qual perfeição; cadeiras de assento de palba entrançada, mesas 
e commodas, tudo envernizado, o que nos causou admiraçSo; 
calhas, curvas para rodas e diffcrcntes peças de madeira para 
machinas e carros completos próprios para bois. 




De serralheria também vimos ferragens, fechaduras, cha- 
ves, enxadas, picaretas, estribos, etc, e se nlo perfeitas, aa- 
tísfazendo aos fins a que s3o deatinadas. 

Quanto a otária, já se fabricam tijolos, ladrilhos e telhaa, 
industria iniciada ha pouco, mas que a pratica ha de muito 




DESCBIPÇAO DA VIAGEM 243 

melhorar; panellas, bilhas e outros ntensilios caseiros já o gen- 
tio os fabricava. 

Com respeito a cal, obtivemos mna pequena amostra de uma 
experiência que se fizera ultimamente com pedra calcareai 
que se diz fôra trazida das bancadas de rocha onde estSo aber- 
tas as fumas do Caeolo Calombo. Estas bancadas pelo fiEu^to 
de estarem um pouco distantes da villa, nSo teem merecido 
ainda a attençSo da iniciativa particular que certamente tira- 
ria proveito da sua exploração, contribuindo para melhorar 
consideravelmente as condições de solidez, aceio e bem estar 
nas habitações onde este material fosse utilisado. 

Por mais de uma vez estivemos para ir ver estas fumas tSo 
afamadas, e que sâo visitadas quasi sempre pelos forasteiros, 
que confirmam nellas existir calcareo em abundância e de boa 
qualidade, porém circumstancias imprevistas nos desviaram 
sempre d'este nosso intento. Foram todavia tSo minuciosas as 
informações que d^ellas nos deram, que não duvidámos repro- 
duzi-las. 

Caeolo é uma montanha que fica próxima do rio Lombe e 
a oeste de Malanje uns 26 kilometros. 

Passado o rio sobe-se facilmente ao planalto, e uma vez ahi, 
percorrendo algumas ondulações, encontra-se no terreno uma 
abertura de forma circular, que dá entrada para uma depres- 
são natural, ao fundo da qual se chega por uma rampa, que 
a certa altura é cortada quasi verticalmente, obrigando o visi- 
tante a um salto de mais de metro e meio. 

Âpresentam-se então na frente as referidas fumas, cuja en- 
trada espaçosa faz lembrar as cryptas abobadadas dos antigos 
templos. Consistem estas num grande recinto dividido á frente 
por dois grossos pilares ou esteios, que supportam o tecto, o 
qual arremeda na forma um barrete de clérigo. Este recinto 
mostra-se dividido em três lanços, um central e dois lateraes. 
Uma outra parte da abobada, partindo dos pilares para dentro, 
está ligada a \un. grande macisso central, o qual se prolonga 
para o interior, formando com as paredes lateraes da grata 
duas escuras galerias abobadadas. 



244 EXPEDIÇÃO PORTUOUEZÀ AO MUATllNVnA 

Calcula-se que a distancia entre os dois pilares da entrada 
será de mais de dois metros, e d'e8tes ao macisso ha pouco 
mais ou menos um espaço igual, sendo a largura das galerias 
de pouco mais de um metro. Estas no principio recebem luz 
por umas aberturas de forma irregular, que existem superior- 
mente, e que por certo sSo já trabalho intencional, devido a 
explorador mais curioso que tentou conhecer como acabavam 
essas galerias. 

A altura doesta gruta natural calcula-se que seja na entrada 
de seis metros, e assim se conserva pouco mais ou menos até 
onde teem penetrado os visitantes mais audaciosos, isto é, uns 
vinte metros ; e affirma-se que as paredes sSo muito secas, es- 
branquiçadas e sem uma fenda. O piso, e ainda a mesma ro- 
cha, sSio de superfície* desigual. As luzes, devido provavel- 
mente á presença do gaz acido carbónico, apagam-se á medida 
que se penetra para o interior, por já não haverem abertu- 
ras no tecto das galerias que facilitem a sua ventilaçSo, e os 
visitantes recuara sempre com receio de animaes ferozes, sendo 
os primeiros a retroceder os indígenas, logo que as luzes que 
elles levam para alumiar o caminho se apagam. 

Vêem-se indicies de ahi penetrarem animaes, e ha quem diga 
ter lá visto cacos de louça de barro e cascas de diversos fructos, 
o que n2to pode deixar de attribuir-se á reuniSio de alguns in- 
digenas, que escolheram aquelle logar como refugio ou abrigo. 

Todos são unanimes em que a certa distancia da entrada se 
ouve um rumor surdo, que se attribue á presença de animaes no 
interior da caverna. Por cima existe alguma vegetação, e rareiam 
as arvores, sendo delgada a camada de terra. Aqui e acolá 
veera-se montículos de pedra calearea de aspecto esponjoso *. 



1 O ultimo chefe da colónia penitenciaria resolveu-se a cxpbrar o fa- 
brico da cal, e chegara mesmo a fazer alguns fornos ligeiros á america- 
na ; e foi por essa occasiao que recebeu ordem para retirar, porque a co- 
lónia ia ser extincta. E isto foi um grande mal, porque os habitantes de 
Malanje teem de continuar ainda a obter uma barrica de cal do Dondo 
por um preço fabuloso. 



DESOBIPÇXO DA VIAGEU 



PESSOAL DE ADMINISTRAÇÃO E AS MISSOES 




inúta-se a um official militar, 
sob o titulo de chefe, o funccio- 
nalismo Da administraçSo de tSo 
vasto concelho. Keune elle en- 
cargos diversos taes como : admi- 
nistrador do concelho, juiz, com- 
mandante militar, delegado do 
correio, superintendente de con* 
tribuiçSes, oíBcial do re^sto ci- 
vil, âacal da fazenda, etc. Ha um 
sacerdote, qae além de parocho 
na sede, era professor de in- 
' strucçtto primaria, com o titulo 
de missionário, estendendo-se a 
Bua jurisdicçSo ecclesiastica a 
todo o concelho do Duque, e, 
se hem nos recordamos, chegando mesmo até Pungo Andongo. 
O chefe é coadjuvado na administraçSo, cobrança de rendi- 
mentos, correio e julgado, por um escrivão, um amanuense, 
ura ou dois of&ciaca de diligencias, e no serviço militar por um 
cabo, nove soldados e uns seis cornetas I 

O parocho tem por auxiliares oa rapazes de maior idade que 
frequentam a aua escola. 

Presente mento, a comarca de Pungo Andongo alai^u-se ató 
aqui, e constituiu-se um jnizo ordinário gratuito com as suas 
entidades: e mais confusa e demorada se tornou a administra- 



246 EXPEDIÇXO PORTUGUESA AO HUATliHynA 

çSo da juBtíça entre o grande numero de povos gentílicos do 
concelho costumados aos processos summariosy e ás decisSea 
dos sobas, nas suas questSes e que hoje mais se prendem com 
o administrativo. 

Foi demasiado cedo a applicaçSo das nossas leis vigentes, 
no que respeita á administração da justiça aos povos gentili- 
cos, que nSo estSo preparados para a acceitarem. 

E depois a nomeação dos legares da magistratura para este 
novo tribunal, sendo gratuitos, sobre quem foi recahir? 

Em negociantes ou agricultores, que pelas suas muitas oc- 
cupaçSes, se não podem entreter com os fatigantes trabalhos, 
estudos e discussões inherentès a esses cargos, ou então em 
homens inconscientes, ainda mais fanáticos pelo feiticismo do 
que os próprios gentios, cujas causas crimes lhes são entregues 
para as apreciarem e julgarem, e que mais complicam as ques- 
tões, quando as não p3em de parte, adiando-as sob qualquer 
pretexto, não se esquecendo nunca de expoliarem as partes, á 
falta de interesses, porque pela lei poucos são os que podem 
auferir. 

Temos registados alguns casos, que provam ter havido pre- 
cipitação em implantarmos a administração da justiça neste 
concelho como a temos na metrópole. 

Legisla-se e com as melhores intenções para povos de que se 
não tem conhecimento, esquecendo-se os graves conflictos a que 
pode na pratica dar logar a applicação de leis que elles nlo 
comprehendem. 

Entre os povos de um sobado julga-se um caso de feitice- 
ria. Morre um, morrem dois ou três indivíduos, arrebentados 
mesmo, com as drogas venenosas que os obrigaram a ingerir. 
Os cadáveres jazem insepultos nas estradas ou nas proximida- 
des, a auetoridade administrativa teve conhecimento do facto, 
levanta auto de corpo de delicto e dá-se d*elle conhecimento ao 
sub-delegado do ministério publico. 

Instaura-se processo, sabe-se quem preparou as bebidas, sa- 
be-se quem obrigou as victimas a bebê-las e sabe-se porque 
tudo isto se fez. Eram feiticeiros os que morreram. 



DESCBIPÇXO DA TIÃGEH 



247 



O 8ub-de legado, sendo d'ar|ue]lea africanos que acredita pia- 
Oiente que o podem enfeitiçar, p8e termo na queatJo nSo tendo 
quem inculpar; se o sub-delegado porém é zeloso e insiste 
cumprir com os aeus deveres, requer que entre immediata- 
mente na cadela o potentado e os do seu conselho, que ordena- 
ram ás victimas que bebessem as drogas venenosas, e os que 
as prepararam. 

à auctoridade administrativa quer cumprir os seus deveres, 
e embora com pequena força, lá segue para o sobado. 

Kecua, porém, a maior píirte das vezes, porque o povo em 
maasa apresenta-se a defender 
os usos estabelecidos, que para 
ellee silo leis, e os que as man- 
daram applicar. 

Se o representante da aucto- 
ridade é firme e resoluto, levan- 
ta-sc um cnnflicto, em que esta 
é desprestigiada, se ó que nilo 
p5e em risco as vidas e baveres 
dos habitantes europeus na sede 
do concelho. 

Na maior parte das vezes, 
pois, os criminosos nilo entram 
na cadeia, e continuam incólu- 
mes B mesmo mantendo as rela- 

çSoB que tinham com ns aucto- 

. , , 1 - . . • it TIPO no toxao 

ridades administrativas ejudi- j^.^^^^^, ^^^^ 

ciaes. 

Estes casos s3o frequentes; cheg:lmos mesmo a ver na ca- 
deia criminosos d'esta ordem, por mandado da auctoridade 
administrativa, que foram soltos por determina^ do sub-dele- 
gado á falta de provas, quando estas existiam em abundância I 

Foi assim melhor. 

à prudência ou o medo do feitiço salvaram o concelho de 
um estado timtidtuoso, que poderia ser muito prejudicial ao 
commercio e i. agricultura. 




248 EXPSDIÇXO POBTUOUEZA AO MUATIÍHVUA 



Desenganemo-nos — é ainda muito cedo para impormos a 
poTOSy que teem usos e costumes muito diversqa dos nossos, as 
leis que nos regem. Em Malanje^ nas proximidades da villa 
mesmo, adopta-se ainda com mais frequência^ do que além do 
Cuango, a antiga praxe do juramento, para se conhecer da in- 
nocencia do individuo ou dos individues sobre quem recahem 
suspeitas de terem praticado, segundo o modo de ver do gen- 
tio, o que chamam crime; suspeitas fundadas apenas nas adi- 
vinhações de um homem, a quem recorrem como auctorídade 
infallivel em tacs casos. 

Estes juramentos, para os mais crédulos, consiste cm tomar 
uma beberagem, que ás vezes no mesmo dia lhe p5e termo á 
existência. Dizemos para os mais crédulos, porque hoje mui- 
tos só o acceitam fazendo-se substituir por cães ou mesmo por 
gallinhas. E uma questão de sorte a que se sujeitam, prefe- 
rindo ter de pagar, quando esta lhe seja adversa, tudo quanto 
possuam, antes do que perderem a vida. 

Temos de ser mais explicites sobre este assumpto em outro 
capitulo, e por isso nos limitámos a registar que neste conce- 
lho e em outros mais próximos de Loanda, e até mesmo 
naquella cidade, ainda que ás occultas das auctoridades, tal 
juramento se usa entre os indígenas. 

Os chefes aqui nâo teem força para fazer cessar semelhante 
uso, e um houve que d'ellc se aproveitava quando tinha de 
proceder a averiguações, entregando os individues a quem ti- 
nha de interrogar, ao soba que cllc mais considerava. 

Para os mais timoratos ó certo que este systema dava resul- 
tados, porque preferiam confessar a verdade a sujei tarem-se á 
prova do juramento, e as partes, como dizem vulgarmente, 
acommodavam-se com os sobas, a quem pagavam os respecti- 
vos medicamentos (emolumentos) por ter sido arbitro. 

O indígena, mesmo o que está mais em contacto comnosco, 
prefere as suas penalidades, por mais árduas que sejam, a pra- 
tica d^esses juramentos, que para muitos equivale á pena de 
morte entre nós, aos nossos castigos de prisão, deportação e alis- 
tamento nos corpos do primeira linha da província, e por isso 



« 



• • 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 249 

O chefe^ que os entregava aos sobas para elles decidirem nas 
soas questSes^ era o melhor chefe que elles conheceraâi, e 
ainda hoje é chorado! 

Por aqui se vê que uma legislação especial, em que se inte- 
ressassem os sobas e se tomassem os processos mais summa- 
rios^ nSo só simplificava a administração,* mas tomava-a mais 
económica e menos apparatosa. 

Assim prepararíamos estes povos para mais tarde acceita- 
rem bem as nossas leis. Que elles primeiro conheçam as van- 
tagens e protecção que d^ellas podem advir, e sujeitar-se-hão 
a todas as suas disposições. 

Também no ultimo anno se dotou o concelho com uma com- 
missão municipal e imia junta de parochia, por isso que se re- 
conheceu a necessidade de adquirir receita em beneficio do 
mesmo municipio, recolhendo em Malanje os impostos que o 
commercio estava pagando no Dondo e creando outros sobre 
a aguardente, industria apenas iniciada, promettendo grande 
futuro, e sobre a qual mais adeante teremos de chamar a at- 
tençSo dos poderes públicos. 

Não teem dado os resultados, que era de esperar, as mis- 
sBes a cargo do sacerdote, e sem intenção de offender quem 
está incumbido doeste serviço, e com quem mantivemos boas 
relações, devemos dizer a verdade: não os podem dar, porque 
elle não comprehende o seu ministério, e d'esta sua ignorân- 
cia tira partido a missão americana do bispo Taylor, que na 
villa se foi estabelecer. 

Como parocho, reduzem-se as suas funcçBes a um officio de 
baptisar creanças è adultos aos molhos, a tanto por cabeça, 
sendo o minimo 10 macutas (300 réis), na casa que serve de 
capella da freguezia. Se tem de sahir da sede, quem o convida 
para ir fazer um baptisado, além do transporte paga lOjSOOO 
réis fortes. Como é natural, preparam-se-lhe boas refeições e 
permitte-se que os povos vizinhos aproveitem a occasião da 
ceremonia e o local, para se fazer a colheita das 10 macutas, 
que se repete ás vezes com três ou quatro turmas de tantos 
neophytos quantos o recinto escolhido comportar. 

IT 



250 EXPEDIÇXO POBTUOUEZÁ AO HUATTIhVUA 

ComnOBCO deu-se um caso, que nSo podemos deixar de re- 
giste. Quando regressámos do interior vieram em nossa compa- 
nhia ÍEunilias de Ambaquistas, que ha quinze annos estavam reti- 
das na mussumba do MuatiânYua^ e traziaiu creanças, e adultos 
que desejaram baptisar-se logo que chegaran^.a Malanje. Vi- 
nham também creanças, filhas de carregadores da ExpediçSo, 
que nasceram durante o tempo da nossa missão, e ainda outiw 
que tomáramos sob a nossa protecçSo, a maior parte dos quaes 
nSo conheciam pae nem mãe, e que na occasiZo competente 
mostraremos com documentos officiaes os destinos que tiveram. 

Baptisaram-se ; mas qual nSo foi o nosso espanto quando, 
tempo depois, se nos apresenta a couta d'esses baptisados em 
numero de quarenta e tantos, a rasSo de 500 réis por cada um ! 
Verdade é que depois pedimos certidão de cinco, e apesar de 
ter ao lado averbada a sua importância (500 réis), tinha por 
baixo — grátis. 

Foi um generoso obsequio, mas preferiríamos, e era mesmo 
mais curial pagar as certidSes e nSo os baptisados. 

Três mezes em cada anno, e geralmente antes das festas da 
semana santa, faz-se a prodigiosa colheita pelo concelho do 
Duque de Bragança, e o officio exerce-se mesmo em viagem, 
no caminho onde o sacerdote passa de rede, em que tudo vae 
devidamente preparado, e ahi mesmo se baptisam os que recla- 
mam o sacramento. 

Para o gentio o baptisado é uma ceremonia que lhes agrada 
e a que acorrem pressurosos, porque cada um espera do seu 
padrinho um bom presente, pelo menos que o vista; e a este 
propósito se diz que ha gentios que se teem baptisado por mais 
de uma vez, o que engrossa a fonte de receita para o parocho. 

Com respeito a casamentos, se bem nos recorda, ha apenas 
um registado nos livros da parochia, e a regular pela espórtula 
dos baptisados, acreditámos que se façam, como fomos infor- 
mados, exigências de cabeças de gado para que o acto reli- 
gioso se verifique na capella ! 

Com respeito á missão do professorado, nSo caminham as 
cousas melhor, não obstante aos domingos apparecerem três 



desceipqSo da viagem 



251 



alas de rapazes, qae durante a missa berram despropositada- 
mente umas oraçScs, e que se admittern como exploodidoa cân- 
ticos. 

Alguns rapazes vâo para a aula todos os dias, porém a de- 
mora ahi nâo ó grande, e um d'elle8 que melhor comprehen- 
deu o professor é o mestre dos outros. O ensino doa Ãmbaquis- 
tas produz melhores resultados. 

Ora tudo isto é muito grave, e para o que nSo podemos dei- 
xar de chamar a attcnçSo de quem compete, porque na mesma 
rua da vllla, a duzentos pas- 
sos da capei la e escola esta- 
beleceu- se a miasSo america- 
na, que DOS está ensinando 
como ae educa o gentio. 

Um dos missionários tra- 
tou logo de aprender a lín- 
gua portuguesa cora o tim 
exclusivo de estudar a lin- 
gua do gentio, e a pouco e 
pouco, senhoreando-Bc de 
smlias, foi escrevendo na 
vocábulos d 'esta e dando- 
Ihes a verdadeira interpre- 
tação em portuguez. 

Na missKo existem senho- '■^ 
ras e crcauças, que se p3em cnrr-Bfl.i«r 

ao lado dos neophytoa e os 

acompanham na instrucçito, e n£o só estes são catechisados 
pela aiTabilidade c mesmo cai'Ínho com que sSo tratados, mas 
também porque os estimulam com prémios de registos colo- 
ridos e diversos chromos. que elles muito apreciam. 

Em alguns dias da semana, depois do sol posto, e nos domin- 
gos, ás dez horas da manhil, as portas da casa da missão estão 
abertas e pai'a lá entram adultos e creauçaa de ambos os se- 
xos para assistirem ás cerimonias religiosas que ahi se cele- 
bram com todo o decoro c dcvoçSo, em que os psalmos sSo 




252 EXPEDIÇXO POBTUGUEZA AO MUÁTTÍKVUÁ 

cantados ao som de uma orcheslra em que entra o harmonium" 
flúte como parte principal^ sendo os coros feitos por todos os 
circumstantes. 

Nos intervallos as meninas da Missão e os missionários fa- 
zem a explicação do cathecismo em portuguez e na lÍDgua am- 
bunda, e obrigam as creanças; pelas continuadas repetiçSes, a 
conservarem na memoria o que se lhes vae ensinando. 

Assistimos a muitos doestes actos e ás aulas, e nunca aqui 
vimos menor affluencia de gente do que a máxima concorrên- 
cia á nossa capella e escola official. 

O ensino da Missão não se limita apenas a instruir as pes- 
soas que a ella concorrem nos mysterios da religião e nas le- 
tras, mas tem também por fim o guiá-las pelo exemplo nas ar- 
tes e officios, e no cultivo da terra^ e na sobriedade^ resigna- 
ção, abnegação e paciência em supportar as contrariedades da 
vida. 

Os recursos do estabelecimento são, em verdade^ muito es- 
cassos; reduzem-se ao fructo dos trabalhos agricolas e a uma 
insignificante mesada em moeda, da receita de esmolas adqui- 
rida pelo bispo Taylor. 

O missionário Chatelaine que de lá retirara de regresso á 
terra de sua naturalidade na Suissa, enviou depois para aquella 
missão uma cartilha já impressa para os seus alumnos, escri- 
pta na língua d'este8 com as equivalências em portuguez. Foi 
sem duvida um bom serviço que nos prestou, mas oxalá que a 
propaganda da Missão que principia a partir do Dondo e se 
estende até ao Lubuco, debaixo da nossa protecção, não seja 
num futuro mais ou menos remoto causa de grandes desgos- 
tos e de prejuizos para o nosso domínio. 

O dr. Summers que por auxílios portuguezes, de que temos 
bons documentos, que a seu tempo apresentaremos, conseguiu 
chegar ao Luluabourg do Estado Independente do Congo, lu- 
ctou cora grandes dífficuldades, para ahi proseguir na propa- 
ganda da sua missão; e isso nos prova, que a nossa tolerância 
se tem tornado demasiada e é origem da complicação das nossas 
cousas no continente africano. 



DESCKIPÇJÍO UA VIAOEK 



ífCORROS MÉDICOS. FOHÇA I'UBLICA 



Não havia, nem ainda lioje 
ha, um facultativo e um phor- 
maceutico officiaes em toda a 
! vaetissima regíSo do concelho; 
entidades estas indispensáveis 
' quando SC truta de uma colónia 
curope-a cm uma rcgiSo cujas 
condi ç3 es climatéricas e de ha- 
bitabilidade para indivíduos es- 
tranhos sao inteiramente des- 
(.■onhecidas. 

Esta gravíssima falta toma- 
ra-Bc raais Bonsivel, porque vo- 
íjava entre o publico ainda o 
pânico duma mortandade que 
houvera, dois mezes antes de 
aqui chegarmos, quer de euro- 
peus, quer de africanos, como 
ha muitos annos nílo couetava, 
icndo as pneumonias duplas a 
doença que se tomou predomi* 
I natite e que ainda continuava n fazer victimas. 

O terror fora tal, que aínda se faziam preces e prociasBes 

Ipara que tiudasac semelhante calamidade. Muito respeitamos 

leatee actos pela devoção de que sâo revestidos, porém estes 

M>r si fló não podem satisfazer, porque nilo devemos esquecer 



jjmj> 



• 



254 EXPEDIÇlO PORTUGUESA. AO MUATIÂNVUA 

também a máxima evangélica — Faze da toa parte que en te 
ajndarei. 

Era por isto mesmo que o chefe da Expedição dizia a S. Ex.^ 
o Ministro dos negócios da marinha e ultramar na sua coni- 
municaçâo de 30 de setembro de 1884: 

«Os processos de trabalho da MissSo americana sSo muito mais fecun- 
dos que os que estão em uso na parochia do concelho, e urge que se pre- 
parem 08 elementos indispensáveis para se estabelecerem boas Missões 
portuguesas, aqui e mais para o interior, que devem encarregar-se da 
educação do indígena, — o verdadeiro auxiliar com que podemos contar 
para a transformação das terras da Africa intertropicaL 

Tem sido este assumpto tSo bem tratado nas nossas regiões officiaes, 
temos tSo bons exemplos a citar na historia da provinda de Angola 
desde os primitivos tempos até hoje, do bom resultado das missões 
quando devidamente organisadas, e do que na pratica ellas o£forecem 
de mais vantajoso, que talvez pareçam prolixas quaesquer considerações 
que eu tenha a fazer sobre este ponto. 

Mas creio que assim não é, e se insisto no assumpto, é porque receio 
muito que vamos adiando indefinidamente a importante questSo das mis- 
sões, e nos limitemos a cruzar os braços e a admirar os pro^gios das 
da Huilla e do Congo sob a direcção dos beneméritos sacerdotes Antu- 
nes e Barroso. 

Muitas missões, e capacidades para as dirigir como aquellas que aca- 
bámos de citar, e que teem bem merecido do paiz, é do que carecemos 
com muita urgência, porque as do bispo Taylor tendem a estender-se 
para o interior. 

Projectavam ultimamente destacar missionários para os Quiôcos, povo 
este da Lunda que, se conseguem catechisar, o que creio fácil, muito 
aproveitará com isso a causa da civilisação e da humanidade no centro 
da Africa austral. 

£ preciso que nas missões haja homens práticos com conhecimentos 
de agricultura, desenho, e em geral das artes manuaes para se imporem 
pelo exemplo e adquirirem influencia e prestigio entre os gentios. 

As missões taes como se devem comprehcnder, são as verdadeiras es- 
tações civilisadoras.» 

«Pela iusufficiencia d opessoal medico e pharmaceutico para as exi- 
gências doesta vastíssima província, não poude o Governador geral con- 
seguir que o serviço de saúde mandasse para aqui entidades competentes 
para beneficio dos povos do concelho, que é muito grande e do pessoal 
da colónia Esperança que ia sendo já numeroso. 



DESCBIPÇlO DÁ VIAGEM 255 

Dá-se infelizmente o caso de ha três mezes ter havido aqui entre en- 
ropeuB e indígenas uma mortandade que a todos surprehendeu como 
cousa extraordinária, e para a qual mais contribuíram as pneumonias 
duplas, doença que ainda hoje está &zendo muitas yictimas. £ questSc 
de quadra, a que os antigos denominam de epidemia, e por causa da qual 
se estão fazendo preces e procissões. 

O meu coUega Sizenando Marques foi chamado para acudir a yanos 
doentes, e sem fazer distincçâo de classe ou de côr tem ido em seu auxi- 
lio; porém, infelizmente os doentes ou os seus familiares quasi sempre 
o chamam nas ultimas circumstancias e depois da applicaçSo insciente 
de remédios enérgicos. No emtanto o chefe da colónia Esperança, já 
em extremos desesperados a elle recorrendo, ou porque fosse moço e 
robusto ou por que mais desveladamente fôra tratado pelos que o cer- 
cavam, o certo é que já entrou em periodo de convalescença e está quasi 
restabelecido. 

Commigo havia combinado em 13 do corrente nesta villa, o nego- 
ciante Luciano Elísio da Cunha estabelecido no Chissa, ir esperar-me em 
sua casa para me acompanhar a escolher um bom porto no Cuango para 
a passagem da Expedição; e oito dias depois aqui regressou a casi^ de 
seu socío e em tal estado, que sendo chamado o meu coUega no dia se- 
guinte, já cousa, alguma poude £azer em seu beneficio. Os dois pulmões 
estavam completamente perdidos. Todas as diligencias foram infructi- 
feras. 

Ha aqui um sentenciado, homem que teve alguma pratica de enfer- 
meiro num dos hospítaes do reino e está empregado na casa de conmier- 
cío de Alfredo José de Barros, que soccorre os doentes que o chamam, 
com remédios por elle preparados numa pharmacía que em casa tem o 
seu patrão. 

Mas isto se alguma cousa tem de vantajoso quando fiútem absoluta- 
mente todos 08 recursos médicos, bem considerado é um perigo e para o 
qual concorre a auctoridade implicitamente, porque se vê na extrema ne- 
cessidade de aproveitar os serviços d'aquelle individuo quando as cir- 
cumstancias mais urgentemente o reclamam; mas o Gk)vemo de Sua Ma- 
gestade, nSo deixará por certo de ter na devida consideração as provi- 
dencias que urge adoptar desde já com respeito ao assumpto, e por isso 
entendi do meu dever não occultar o que nesta localidade se está pas- 
sando. 

O chefe da colónia, jovem official, bastante intelligente e dedicado ao 
estudo, lá se tem ido familiarisando com o Manual de Chertwviãf e obser- 
vando as suas formulas prepara medicamentos servindo-se de uma am- 
bulância que lhe foi confiada, tendo-os applicado aos sentenciados e 
áquellas pessoas que o procuram e o consultam. Mas se, até certo ponto, 
esta sua forma de proceder se pode considerar humanitária e tem sido 



256 EXPEDIÇÃO POBTUOUEZA AO MUATIÂNYUA 

atil e yantajoBa para os que teem aproveitado da sua consulta, acar- 
reta-lhe sem a menor duvida graves responsabilidades, que elle nem 
pode nem deve assumir. 

S. Ez.* o Governador geral da provinda, que pode fazer em taes dr- 
onmstancias, se lhe faltam os recursos indispensáveis? 

A S. £z.* nada digo nesta occasiâo sobre tSo momentoso e importante 
assumpto, limitando-me apenas a pedir-lhe a leitura d'esta commnnica- 
çSo nSo fEusendo mais considerações; a intelligencia e boa vontade de 
S. Ez.* supprirSo todas as que poderia feizer, e é de esperar que se ado* 
ptem as providencias necessárias a fim de occorrer a uma falta cuja 
continuação se toma altamente prejudicial a estes povos, e que terá sido 
sem duvida notada e commentada desfavoravelmente pelos ezpediciona- 
rios allemâes que aqui residem ha seis mezes. 

Da çossa pharmacia teem-se cedido os medicamentos indispensáveis 
ao tratamento de doentes europeus e indígenas que tem recorrido ao 
meu coUega.» 

Provavelmente S. Ex/ o Ministro da marinha e ultramar a 
quem foi enviada esta commuicaçSo, nSo teve d'ella eonheci- 
mento, sendo certo que ainda no nosso regresso o sub-chefe 
teve de supprír a falta de medico e pharmaceutico, tomando- 
se por ultimo tão indispensável a sua assistência ás doenças da 
quadra, que a commissSo municipal e os habitantes, deram 
d'is80 testemunhos públicos. 

. Malanje como já vamos provar, tornou-se um centro impor- 
tante de commercio e da agricultura na província de Angola 
e oflFerece grandes recursos para o desenvolvimento d'esta e 
de todas as industrias que no concelho se ensaiem e por isso 
merece hoje toda a consideração dos governos não podendo con- 
tinuar a manter-se uma administração tão acanhada como tem 
tido até aqui. 

A necessidadade de se estabelecer em Malanje uma delega- 
ção de saúde, está na verdade bem comprovada; mas quería- 
mos imia delegação, onde a par dos soccorros médicos, se fi- 
zessem as competentes observações meteorológicas, o que era 
de grandes vantagens para o estudo do clima e sua compara- 
ção com o do littoral. 

As delegações de saúde como tivemos occasião de observar, 
precisam de ser remodeladas segundo as exigências da mo- 



DESCRIPÇAO DA VUGEM 2Õ7 

dema scíencia para se habilitarem a concorrer com trabalhos 
eguaes áquelles que os médicos estrangeiros apresentam e 
qne temos visto publicados em revistas scientifícas de primeira 
ordem. 

Ainda ha pouco tempo, podia acceitar-se o que hoje ôe man-^ 
tem; o concelho retalhado em divisões sob o commando de 
officiaes moveis e que administravam em nome do chefe como 
podiam e sabiam os povos vizinhos do quartel ou patrulhas, 
govemando-se os sobas mais distantes independentemente, sa- 
tisfazendo apenas a uns tributos mesquinhos ou nominaes a 
pretexto de vassallagem, e o chefe na sede procedendo de modo 
limitado ou unicamente exercendo a sua alçada de facto na co- 
lónia europea espalhada aqui pelas povoações próximas de Cu- 
lamuxito, Anjinji, Quissole, Anjio, Chissa, Anzaje, Catalã e 
Andala Samba. 

Seria absurdo exigir que as quatro divisões de Moveis que 
tem o concelho e ás quaes está confiada a segurança publica, 
a guarda dos valores do commercio e o prestigio da nossa 
auctoridade, sem que por isso recebam um ceitil, fossem a ex- 
pressão do que se deseja e que preeuchessem os fins para que 
foram creadas. São ellas constituidas por um certo numero de 
homens esfarrapados, esfomeados, com um boné militar na 
cabeça e munidos de bayonetas sem bainhas, ou com cacetes 
em que se arma uma bayoneta, ou com espingardas sem fechos 
ou com estes amarrados por barbantes; emfim homens que só 
servem para transportar as mallas do correio ou uma carta a 
qualquer commandante de divisão. 

O facto do concelho estar confiado a semelhante força, se 
por um lado manifesta que é grande o nosso prestigio entre os 
povos indígenas que o constituem, deve fazer também lembrar 
que ahi mesmo vivem outros não avassallados e nos seus con- 
fins gentio bravo, e que o concelho confronta com o de Cassanje 
cujos povos ainda recordam as suas proezas e feitos nas ulti- 
mas guerras em que repelliram as nossas forças regulares. 

Estes povos posto que não tenham forças regulares tem sido 
fornecidos a interesse de commercio da metrópole de armas 



258 



EXPEDIÇXO POBTUOUEZA ÁO MUÁTTIhVUA 



lazarínas .e granadeiras e de bastante pólvora^ e o esqueci- 
mento a que temos yotado a sua ousadia foi mais prejudicial 
á nossa causa do que se tivéssemos castigado os rebeldes com 
a devida severidade, posto isto nos custasse sacrificios de gente 
e de dinheiro. 



MUSSRNOO UIUJK 



DEBCRIFÇXO DA TUGEM 



edifícios pubucos. saneamento 




reside o chefe do concelho num 
t barracSo dividido em duas alas, 
cada tuna com dois comparti- 
mentos, sendo a da esquerda 
destinada á administração e a 
(la direita para moradia d'eUe 
3 de sua família. 
à construcçSo foi feita no 
, terrapleno de um reducto, Koje 
(^m ruinas, a qne impropria- 
mente se cliama fortaleza, obra 
. passageira que ae levantara em 
tempo para defender os habi- 
tantos da villa dos ataques do 
gentio. Tem 80 metros de lado 
c observaram-se as devidas proporçiJes no seu plano. 

Actualmente o denominado fosBO dSo é mais do que uma 
depressUo no terreno, porque as aguas plavíaes teem arrastado 
as terras do parapeito para o fundo, onde se teem accnmn* 
lado, de mistura com detritos vegetaes e lixo, que para ali fo- 
ram lançados. 

Ao fundo do terrapleno ha pequenas casas construídas como 
o barracão de que falíamos, com paredes de adobe e cobertura 
de capim; eram destinadas para o paiol, arrecadação de arma- 



V--^i-^tf^ 



260 EXPEDIÇIO POBTUGUEZA AO MUATIÍNVUÁ 

mento, cozinhas e casa de guarda, mas tudo está em tal estado 
de ruína, que o chefe ultimamente teve de aproveitar-se da 
offerta do paiol particular do commercio para nelle arrecadar 
a pólvora do governo e o armamento. O que ha na arrecada- 
ção está tudo arrumado a um lado, porque parte da cobertura 
do mesmo abateu. E que armamento ! Uma carga inútil, cuja 
madeira está a pedir fogo, e as ferragens que as vendam a 
peso. 

Já não é uma fortaleza, é antes um acervo de escombros, 
de que o rapazio, e as cabras e carneiros fizeram logradouro 
commum. 

Isto tudo forma um verdadeiro contraste com os melhora- 
mentos a que os particulares estão procedendo para embelleza- 
mento da villa; e depois o que representa este recinto nas cir- 
cumstancias em que se acha actualmente, quando nada temos a 
recear dos povos gentílicos que o rodeiam? 

Era bem melhor para a hygiene que se arrazasse de uma 
vez o parapeito para se entulhar completamente o fosso, que 
hoje é um deposito de immundicia e um foco de emanaçSes 
deletérias, e se fizesse um bonito largo central, continuando-se 
o pomar das laranjeiras que ha no terrapleno, que contém ex- 
plendidos exemplares, e cuja plantação é devida a um dos pri- 
meiros chefes d'este concelho. 

Em frente doestes tristes destroços, que só denotam miséria, 
e a nossa muita indifferença, e sobre os quaes fiuctua a bandeira 
nacional, está o largo principal da villa, de grande área, e que 
dá mais um attestado da nossa incúria. 

Não devemos esquecer um grande edificio que existe em 
paredes, até certa altura, começado á custa de uma subscripção 
particular, e destinado á igreja da sede do concelho, mas onde 
junto á entrada para a capella-mór, se desenvolveu uma ar- 
vore de grande porte. Este local tornou-se também um verda- 
deiro esterquilinio ! 

Era realmente reconhecida por todos a grande e inadiável 
necessidade de proceder a esta construcçSlo, que como se vê, 
está por concluir, porque a sórdida cubata onde se celebram 



DESCBIPÇlO DA YUaEH 261 

08 actos mais solemnes da nossa religião^ nSo nos acreditava 
como bons catholicos^ e muito menos como povo culto e civí- 
lisador, perante os indígenas que pretendemos catechisar e ar- 
rancar á pratica dos seus preceitos feiticistas. 

Mas nâo é isto só que provocou os nossos reparos e nos con- 
tristou. 

A pocilga em que se encontram os presos, situada na rua 
principal da villa, e a que impropriamente se chama cadeia, é 
um foco de infecção em que jazem os miseros, flagellados pelos 
Pulex penetrans, carraças, e outros parasitas, acrescendo a tudo 
isto ter o preso de pagar á entrada e saida uma tXo magnifica 
hospedagem. Para lenitivo de tanto mal ainda ha quem se 
condoa da sua desgraça e lhes dá alguma cousa para comer. 

Sentimos ter de descer a estas minuciosidades, porém de- 
vemos dizer a verdade inteira ao Governo, que desconhece este 
estado de cousas que nos está desconceituando nos confins 
doesta vastissima provincia aos olhos do gentio que pretende- 
mos avassallar e educar, e mostrar-lhe como aqui se mantém a 
auctoridade que o representa. * 

Tanto a fortaleza como o recinto da igreja em construcçSo, 
o quartel vizinho e a cadeia publica são focos de infecção mais 
prejudiciaes que o grande pântano a que nos vamos agora re- 
ferir. 

O pântano corre pelo norte da povoação de um e outro lado 
do rio Malanje e vae terminar em Quipacassa, tendo cerca de 
dez kilometros de extensão para esse lado. Alguns denomi- 
nam-no quizanga, nome impropriamente empregado, pois este 
vocábulo é somente applicado ao pântano, quando elle é pesti- 
lento, aliás deve ser màlona, e este faz menos mal que qual- 
quer dos focos que apontamos, porque os ventos mais impe- 
tuosos, que são os dos quadrantes de sul e leste, impellem os 
seus effluvios para além da villa, que situada em tmi ponto alto, 
lhe fica muito superior. 

Ainda assim este pântano de ha muito estaria saneado, se 
tivesse sido aproveitado na cultura da canna saccharina; mas 
isto, que seria uma empreza indubitavelmente remuneradora, 



262 EXPEDIÇXO PORTUOUEZÁ AO MUATllNVnÁ 

dadas certas circumstancias^ demanda de prompto capitães 
para grandes despezas, a que se nSo animam mesmo os mais 
ousados habitantes da sede do conselho e arredores. 

E quem se atreverá a um tal commettimento^ quando o com- 
mercio, pelo modo por que os impostos estSo estabelecidos, vê 
que com uma pipa de álcool se podem fazer três de aguar- 
dente? 

Como pode concorrer entSo a industria da canna saccharína 
com os seus productos, embora obtidos em condiçSes econó- 
micas? 

Concorre, mas com que vantagem ! 

NSo ha agricultura que possa luctar com bom êxito, quando 
as pautas aduaneiras nfto sSto reorganisadas segundo as exi- 
gências da industria^ da agricultura e do commercio, do seu 
estado de actividade e de progresso, das suas condiçSes eoono- 
micas e segundo as suas relações com os mercados, tanto inte- 
riores como exteriores. 

NSo se podendo sanear este pântano por meio dos processos 
agrícolas, não será fácil encontrar outro que o possa substi- 
tuir com vantagem. 

Pensou-se, e chegou mesmo a tentar-se, regularisar a cor- 
rente do rio, profundando-se o seu leito em algumas partes e 
fazendo excavaçòes novas na sua continuação para as aguas 
serem desviadas em condições de desapparecerera as estagna- 
ções das represas por falta de declives, mas todas as despezas 
que se fizeram foram infruetiferas, como era de prever, porque 
o mal é da própria quizanga, ou terras baixas e alagadas ao 
sopé da montanha Ambango, numa grande extensão e sem es- 
coante para lado algum. 

Attenta a disposição dos terrenos, o que nos parece mais fá- 
cil e proveitoso seria dividi-lo em talhões por valias, culti- 
vando nelles a canna de assacar, a partir da base da monta- 
nha, defendendo as margens do rio de modo que as aguas não 
saissem do leito ainda nas enchentes mais altas. 

r 

Faculte o governo da província capital a emprehendedores, 
sob condições que garantam lucro certo, e a obra ha de fazer-se 



DESCfilPÇ2o DA VUGEU 



aproveitando com isao a saliibrídade da principal povoaçiío 
do concelho e euae immediaçSes, o emprehendedor e os ren- 
dimentos provi nciacB. 

Em queatScB d'esta ordem devemos também ter em atteo- 
ção 08 lucros que por viaa indirectas derivam de uma determi- 
nada origem e que vío entrar, como os rendimentos dírectOB, 
noo cofres da província. 




E para demonstrar que os interesses são certos não é ne- 
cessário irmoa muito longe. Encontrámos bons exemplos nos 
terrenos que marginam o rio para lesto cm continuaçílo áquel- 
les de que tratamos, ondo se creou o, propriedade agrícola e 
de recreio de Custodio José de Sousa Machado, — a Inveja — 
G nos terrenos que marginam o Cuiji, no Anjfnji e Quissole, e 
ainda noutros. 



264 EXPEDIÇlo PORTUGUEZA AO MUATIÂKVnA 

A Inyieja pode chamar-8e um jardim agrícola; de pequena 
fazenda de recreio que era em principio, a pouco e pouco foí-se 
desenvolvendo, transformando-se num estabelecimento que pôde 
hoje servir como modelo. Diversos exemplares da flora euro- 
pea, americana e africana, ao lado dos indigenas, convenien- 
temente tratados e mesmo guiados no seu crescimento, devido 
ao esmero do seu proprietário, o benemérito negociante e in- 
dustrial acima mencionado, attingiram um tSo elevado grau de 
desenvolvimento, que incitam ainda os mais incrédulos nas 
aptidões agricolas doesta região, a fazerem ensaios nas terras 
vizinhas das suas residências até aqui abandonadas e servindo 
de monturos de lixo ou de immundícias. 

Esta propriedade, que está no extremo da villa, a leste, é 
cortada pelo rio Malanje, e tem na sua frente, marginando-a, 
o caminho que segue para Cahombo, onde se estabeleceu a 
colónia Esperança, colónia de sentenceados, devida á iniciativa 
do actual governador, o conselheiro Ferreira do Amaral. Estava 
ainda em trabalhos de installação e preparatórios de cultivo, 
que infelizmente se retardaram por causa de um incêndio que 
ali se manifestou, o qual apesar de atalhado a tempo, fez ainda 
assim bastantes estragos. 

A Inveja está dividida em grandes talhões por largas ruas 
de piso regularisado ; na parte destinada ao jardim, onde se 
construiu um grande tanque, veem-se as mais delicadas plantas 
de sementes da Europa: variedade de rosas, dhalias, amores 
perfeitos, verbenas, malvas, cravos, cravinas, lyrios, estrellas 
do sul, alecrim, maiijoricrjo, etc. ; na horta encontram-se, e 
muito desenvolvidos, (?á melhores exemplares de hortaliças do 
reino, como, diversas espécies de couves, nabos, rábãos, ra- 
banetes, cebolas, alfaces, ervilhas, etc.; grandes talhões em 
que cresce o trigo, noutros o centeio, e os que nSo sSo apro- 
veitados p!\ra plantas consideradas de mimo, s2o-o para o mi- 
11 10, que é de cresoimonto e producçâo prodigiosa, batata eu- 
ropea e imligena, grão, feijão, etc. 

Alii se encontra já o pinheiro, o cedro, o urucú, a macieira, 
bcllissimas laranjeiras e figueiras, a pitangueira, a mangueira, 



DESCRIPy20 DA VIAQEH 265 

a toranja, a fructa conde, a anona, as goyabeiras, diversas es- 
pécies de bananeiras e varias outras arvores que dSo fioictos 
indígenas. 

Todos os talhSes são rodeados de esplendidos ananazes, e 
próximo ao rio a rua que coiTe no mesmo sentido é orlada de 
beilos eucalyptos. 

Uma parte doeste jardim, que pode chamar-se de acciima- 
tacão, a que ãca do lado do nascente, é destinada também a 
culturas para alimentação do pessoal indígena, como ginguba, 
inhame, batata, feijSo, milho, etc. 

As margens do rio que eram sobrepujadas de mabá (jpopy- 
rus) ainda ha dois annos, foram plantadas de canna saccharina, 
c d'ella se estava vendendo já na villa uma boa aguardente, 
distillação que se faz na mesma propriedade com a machina 
especial do systema CoUares, e com o competente moinho, para 
ser movida por agua ou por bois. 

A plantação que estava feita quando regressámos, era calcu- 
lada pelos práticos para uma producção de cem pipas de aguar- 
dente, numa extensão, seguindo o rio, de mais de 1 kilometro, 
tendo sido este devidamente encanado, e foi com este trabalho 
e com o canna vial que se enxugou grande parte do pântano. 

E, pois, este um exemplo comprovativo de que a quizanga 
que resta á frente da villa pode desapparecer, logo que ahi 
se façam trabalhos análogos. 

Custodio Machado pensava em aproveitar convenientemente 
a grande queda de agua do rio, que existe nesta sua proprie- 
dade, como motores hydraulicos que tencionava applicar a al- 
gumas industrias, caso o caminho de ferro ali chegasse. É de 
certo um plano de grande alcance, porque a estação que venha 
a fazer-se não pode deixar de ser na villa, com a qual confina 
a propriedade. 

O urucú, que até agora, para a propriedade, era apenas ar- 
busto de ornamentação, quando devidamente preparado pode 
ser uma grande fonte de receita. 

Como se vê pela sua planta, a villa, povoação principal do 
concelho, não é grande ; consiste em uma longa rua principal 

18 



266 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

correndo proximamente de leste a oeste, e da largo, onde está 
a fortaleza, parte uma outra de menor exten&So, também es- 
paçosa, pouco mais ou menos para norte, onde ha luna ponte 
de madeira sobre o rio, construida ha pouco tempo, e ^ue dá 
entrada á villa por esse lado. 

Âtraz doestas ruas, e dispostas sem ordem, ha pequenas ha- 
bitações, construidas ainda ao uso gentílico, algumas barrea- 
das, formando por conseguinte viellas irregulares e mais ou 
menos tortuosas. 

Fora da villa e além do rio, um pouco para noroeste, pro- 
ximamente á distancia de imi kilometro, na encosta de uma 
montanha, estabeleceu-se um pequeno mas asseado cemitério, 
convenientemente murado, em que as sepulturas estão res- 
guardadas. 

Alguns negociantes ultimamente quotisaram-se entre si e 
£zeram levantar uma casa para paiol da sua pólvora, forÀ da 
villa na montanha adjacente, e offereceram-na ao Gbvemo 
para nelle recolher também a sua e tomar co&ta do edificio 
como propriedade do Estado, logo que pelas taxas de saida 
de barris, por elles estipuladas, estivessem embolsados da 
despeza da construcção, o que de certo terá logar cm pouco 
tempo. 

Os principaes estabelecimentos eominerciaes que encontrá- 
mos na villa pertenciam a Alfredo José de Barros, A. Simões 
da Cruz, Eduardo Ferreira Campos, Custodio José de Sousa 
Machado, Lara & C.*, Oliveira & Irmãos; em Culamixito a 
António José Coimbra e Vieira Dias; no Anjinji-á-Cabari & 
Narciso António Paschoal. 

No nosso regresso contavam-se os antigos pertencentes a 
Cruz, Campos, Machado e Paschoal, e mais os de Manacás, 
Neves & Zagury, Costa & Coimbra, Zafrany & Neves, José dos 
Santos Caria, Freitas Irmãos, Pinto & Ferreira, Victorino José 
(la Ilosa, Macedo e outros menos importantes, e as casas ãliacs 
(los primeiros, que se estendiam até ao Chissa, Catalã, Anzáji, 
Samba e ainda na baixa de Tala Mugongo, e mesmo na feira 
de Cassanje. 



DESCKIPÇAO DA VIAGEM 267 



Com algumas excepçSes, todos estes estabelecimentos apre- 
sentavam ainda as paredes e coberturas feitas ao uso do paisi^ 
a que nos referimos anteriormente; as casas que se iam tefor^ 
mando ou construindo de novo já o eram em outras condições. 
NSo obstante serem todas ainda de um só piso^ tinham cober- 
tura de feltro ou telha, paredes de adobes em forma de ti- 
jolo, e algumas de tijolo ou alvenaria, caiadas interiormente, 
e já algumas exteriormente, com pavimentos ladrilhados ou ba- 
tidos a cimento, e as obras de madeira em melhores condições 
de fabrico. 

As ruas da villa, em asseio e regularisaç2o do pavimento, 
e por estarem devidamente illuminadas a petróleo, mostravam 
ultimamente, que tinham merecido a attenção da commissSo 
municipal e do novo chefe do concelho. 

Em consequência das ultimas guerras de Cassanje foi limi- 
tada a villa pelos quadrantes de leste por uma Hnha de for- 
tiãcaçâo passageira, accommodada ao terreno e a que chamam 
teíialhas, certamente pela disposição da sua frente, que olha 
para a banda do sul. 

Esta construcçâo, feita apenas para servir na occasiSo, e 
que está presentemente nas mesmas condições da fortaleza — 
umas ruinas que facilmente se devassam, encravadas já entre 
povoações indigenas — melhor seria arrazá-la, ou então reedi- 
£cá-la em boas condições de defeza fazendo d^ahi remover 
essas povoações, que consistem em algumas dezenas de cuba- 
tas de capim, dispostas sem ordem ou alinhamento, unidas al- 
gumas a porções de terra cercadas, que são cultivadas ao uso 
do paiz. 

Do que deixámos exposto se concluo, que os edificios públi- 
cos não são os mais apropriados a tornar este logar um bom 
centro de immigração, e urge por isso que se adoptem na 
provincia as medidas mais urgentes e se obtenham as indis- 
pensáveis dotações, para que nas povoações çxistentes, e que 
promettam florescer, se construam edificios em condições sa- 
lubres. Para modelo, lembrámos os que conhecemos na colónia 
franceza de Argel, alguns dos qiiaeft iUastrado engenheiro 



268 EXPEDIRÃO PORTCGUEZA AO MUATIAnvUA 

Rapliael GorjSo se propunlia a constniir em differentea conce- 
itos da província, que eram aliik bem económicos e que li 
ficaram em projecto no archivo da direcçfio do aerviço das 4 

obras publicas de Loaada. 




DESCRIPÇAO DA VIAGEM 




COMMEIÍCIO E SEU DESEKTOLVIMKNTO 



O commercio lifito de Malanje prÍDcipinti a Jeaonvolver-se 
depois de 1860, por ter sido quaeí eomplftiiinentc abando- 
nada, pelo menos par negociantes do importância, a feira de 
Casaiinje em consequência das desastrosas guerras doa annos 
anteriores j e affroiixou relativítmente, já na década seguinte, 
porque nSo obstante principiar a affiuencia de borracha e cera, 
escasseava o marfim. ' 

Ha cincoenta annoa vinha o marfim daa terras da Lunda, e 
compensava o sacrifício de ir procurá-lo, pela barnteza dos 
i de transporte, que já eram por si só, uma boa mercado- 
ria de permutação — os escravos ; vinha o marfim e pelo tran- 
sito obtinha-se a borracha e a cera. 

O marfim, díga-se a verdade, nunca veiu em quantidade l: 
raro era o quo entíto se comprava. Os potentados posauiam-no 
como pagamento de tributos das auctoridades suas subordina- 



270 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIÁNVUA 

das, ou, como estas^ em resultado da caça, porque o caçador 
geralmente, e ainda hoje pode dizer-se como synonimo, — o 
Quiôco — podia caçar em terras de qualquer, pertencendo me- 
tade da caça ao dono do. sitio onde o animal cai^e morto. Só 
a parte que pertencia ao caçador é que tinha venda. 

Ás comitivas do nosso commercio que se internavam no 
continente, nSo procuravam então mai-fim, procuravam escira- 
vos, mas como tinham de fazer presentes e valiosos aos po- 
tentados por onde passavam, estes retribuiam-os com escravos 
e «alguns com uma ou duas pontas de mai*fim. 

O marfim foi sempre mais procurado pelo lado do oriente, 
e ainda hoje ha quem se recorde, em Quilimane a Tete do 
arriscado negocio que ali se fazia, abonando-se a credito fa- 
cturas, aos próprios caçadores que vinham do interior para 
serem retribuidas com marfim. 

Veiu a lei prohibindo a procura de escravos no centro de 
África, e os sertanejos abstiveram-se de lá ir, já porque os 
transportes tinham de ser pagos e o valor do marfim era pouco 
convidativo, já porque os potentados não lhes sendo acceite a 
sua mercadoria — escravos, — que possuíam em quantidade como 
tributos recebidos, recusavam-se formalmente a permittir aos 
seus povos, inclusive, que permutassem alimentos cora as co- 
mitivas, e conseguiam demorá-las para pela fome se irem ren- 
dendo e perdendo as suas fazendas. Finalmente como em ver- 
dade, nunca houvesse abundância de marfim, esperava- se pelo 
resultado da caça na occasião, e o negocio soffria grandes de- 
longas para se fechar o que era devido também em parte aos 
incidentes, como pretextos de crimes de carregadores e outros 
que ainda mais o demoravam. Concluido o negocio, nâo para- 
vam aqui os transtornos, porque no regresso, principalmente 
nos primeiros dias, muitos eram os ataques de salteadores contra 
08 quaes tinham de se precaver os negociantes, havendo sem- 
pre mais ou menos prejuizos. 

Houve até quem, para se salvar, cedesse a permutar alguma 
fazenda por um ou outro escravo, — mercadoria perdida no ter- 
ritório portuguez — e esse, quasi exhausto de recursos, deses- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 271 

perado, se obtinha no fim de mezes, direi meamo annos^ uma 
ou duas pontas de marfim era o muito que conseguia. 

Estes exemplos^ que se repetiram, foram afastando os eu- 
ropeus d*es8as aventuras e dando logar aos aviados com forne- 
cimentos a credito que nunca se pagaram na totalidade, e por 
ultimo aos Ambaquistas, alguns dos quaes, ainda por lá andam 
e como os aviados, nunca chegam a liquidar com os seus cre- 
dores. 

Ainda em 1859 se caçava o elephante entre o Cuílo e o Lu- 
lúa do 9® de latitude S. do Equador para o norte. No Cabembe 
de Bungulo, dava-se ao caçador quiôco Quirauanga Matala: 
três barris de pólvora, duas armas lazarinas e seis peças de fa- 
zendas e nq Luele matava elle poucos dias depois um elephante, 
do qual uma ponta ficou para o caçador e a outra para o abo- 
nador, tendo esta setenta e oito libras de peso. Um outro 
Quiôco, Mona Congolo, quando precisava de fazenda ia a casa 
de Saturnino Machado, recebia pela firma Machado & Carneiro 
um abono e seguia para as suas caçadas, dias depois pagava 
com grandes lucros o seu credito. 

Em 1868 já se nâo encontravam elephantes, senSo do Chi- 
capa para lá e nas terras de Mussenvo e pouco mais, na altura 
de 8® para norte e em 1878 só próximo de 7**; para o sul já nSo 
havia elephantes. Os Quiôcos depois d*esta epocha consegui- 
ram insinuar-se no animo dos de Muquengue e continuam 
perseguindo a caça para o norte. 

Diz-se presentemente que entre o Chicapa e Cuango, a con- 
tar do 7** para norte tem apparecido elephantes em quantidade ; 
é possivel, porque esta região não tem sido explorada. 

No oriente os Árabes, em raz2to de alimentarem o commer- 
cio de escravos ainda encontram marfim no Nyangué em boas 
condições e no occidente succedia o mesmo para o commercio 
do Zaire. 

No periodo de 1870 para cá, os Bângalas, povos de Cas- 
sanje, que vivem nas margens do Cuango, notando o retrahi- 
mento das casas de commercio portuguezas, tomaram-se ne- 
gociantes e com grande vantagem, pois são elles os carrega- 



272 EXPEDIÇÃO FOBTUGUEZÁ AO MUATTInVUA 

dores de suas mercadorias. Intemam-se, ySo em busca de cera 
e borracha e também de escravos para augmento de suas co- 
mitivas. Sendo da mesma familia, digamos ainda com os mes- 
mos usos e costumes e vivendo quasi sob o mesmo clima, que 
08 povos com quem váo negociar, costumados como elles á mes- 
ma parcimonia de alimentação e yestuariO| com pouco se sa- 
tisfazem as suas ambiçSes, de modo que, caravanas de cin- 
coenta a sessenta pessoas que vêem á feira de Cassanje, a Ma- 
lanje, e algumas até ao Dondo e Loanda, o muito que trariam, 
era uma até três pontas de marfim. 

E certo que na Landa, no Canhiuca, no Samba, ao norte de 
Lulúa e outros pontos a SE. ha ainda algum marfim, mas toda 
essa região é muito grande, e o que existe, é pertença ainda 
dos potentados, que a custo o obteem, não para negocio, mas 
para apresentar ao Muatiânvua, quando este ordena o paga- 
mento de tributos. 

Nenhuma comitiva ahi logra chegar sem que tenha feito 
transacções por escravos, mesmo porque estes constituem a 
moeda mais corrente para se obter o marfim. 

Depois do abandono da feira de Cassanje, appareceu aqui 
Arsénio Pompilio Pompeu com uma factura importante de 
Loanda, e que aguardava e animava as comitivas de Bânga- 
las a internarem- se com commercio fiado para o interior. E 
d^ahi que data a procura da borracha e cera e tal era a in- 
fluencia por estes productos que ás suas fontes succedeu o 
mesmo que á do marfim, foram-se esgotando, porque o gentio 
tratou de colher sem se importar com o futuro. E tal foi a 
abundância nessa epocha que já Arsénio e alguns pequenos 
negociantes que d'elle se avizinharam com mira no lucro, não 
satisfaziam as offertas e as caravanas encaminharam-se para 
Malanje. 

Então e depois, e pode-se afiançar até agora, tomou-se Ma- 
lanje o verdadeiro entreposto commerci^^l do centro do conti- 
nente para Loanda, sendo em principio os portos do Cuango 
por onde elle affluia: Cambamba-cá-Quipungo, Anjínji-cá- 
Quingúri, Quitamba-cá-Quipungo, Muanha-á-Cassanje, Quis- 



DESCBIPÇlO DA VIAGEM 273 

sueiarcá-Quipungò (vulgo Caquema)^ Cassanje-cá-CamboIo, Cas- 
sanje-cá-Calunga, Ambanza Ilunda, Camassa-cá-Quibomba, 
Ambanza Badiacola e Ambanza Cuenda. 

Ultimamente pode dizer-se que estes portos estavam fecha- 
dos ao commercio^ ou pelo menos que os Bângalas^ receosos 
que mesmo pequenas comitivas de Quimbares, Calandulas, 
Bondos e outros da nossa província fossem por conta própria 
ou de algum estabelecimento commercial fazer-lhes concor- 
rência no interior e estragar o negocio como elles dizem, taes 
dificuldades e taes exigências apresentavam á passagem das 
comitivas, que afastaram estas e se algumas conseguiam passar 
satisfeitas as exigências, ainda tinham de se sujeitar a encor- 
porar-se nas comitivas d^elles, o que as obrigava a grandes 
demoras nas suas terras, emquanto estas se preparavam im- 
pondo-lbe de mais a mais os Bângalas que todas as despezas 
de portos e presentes a potentados de toda a grande comitiva 
corressem por conta d^ellas. 

Depois até 1882 as comitivas que sairam das terras de 
Angola, procuravam no Cuango o porto chamado do Caminho 
Grande, o de Quimbundo, também conhecido pelo de Muene 
Quissesso, Senhor Machado (Saturnino); e havia também um 
outro mais ao norte, o de Quitamba-cá-Quimpungo do Am- 
banza Imbua, por onde passavam algumas comitivas do conhe- 
cimento do Ambanza sem dificuldades . 

Era aqui, que o europeu L. Elisio da Cunha tinha a sua 
casa de commercio desde 1877.' 

Os Drs. Pogge e Lux, por influencia dos irmSos Machados 
passaram sem dificuldade no primeiro porto, porém o explo- 
rador allemâo Otto Schiitt que quiz passar ao norte, depois de 
ter pago imia verba importante, contrariado ainda por novos 
entraves, retirou, pensando já regressar a Malanje. Porém no 
transito encontrando-o Saturnino Machado, que ia com a sua 
comitiva para o interior, este não só o acompanhou para lhe 
facilitar a passagem no Cuango pelo seu caminho, mas ainda 
foi a Cassanje buscar-lhe mais recursos por Schiitt já estar 
muito desfalcado. 



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•" 



♦ 



•• 



« •* 



274 EXPEDIÇÃO POBTUQUEZA AO MUATIAKVUA 

Este caminho de Quimbundo tem sido a ponco e pouco ában* 
donado; porque logo nas terras dos Songos e Minungos, efetes 
povoS; sob qualquer pretexto^ fazem exigências ás comitivas 
de quituxi (crime), o que origina uma demanda que leva tempo 
a decidir, além das despezas a fazer, que nfto sSo só as do 
crime, s8o ainda as da alimentação do pessoal. 

Tudo isto pois, tem concorrido desde 1868, para que os 
Bângalas se tornassem os agentes do nosso commereio no in- 
terior; com vantagem para elles e também para os concelhos 
do sertão do Dondo a Malanje, começando a affluir estabele- 
cimentos commerciaes de maior importância & villa de Malanje 
e seus arredores. 

Desenvolve-se Malanje no seu commercio com prejuizo do 
Pungo Andongo e também do Dondo, porém este concelho 
sente menos a differença porque ahi afflue o café de Cazengo 
e azeite e outros productos da margem esquerda do Cuanza. 

Está calculado desde 1881 que as três casas principaes de 
Malanje, Alfredo José de Barros, Lara & C/ e Machado e as 
duas mais a SE. de Narciso António Pascoal e Oliveira IrmSos, 
permutam annualmente mercadorias no valor de 25OKX)0í00O 
réis e isto quando a borracha e a cera teem tido grande baixa 
nos mercados da Europa. 

Esta baixa, tem-so feito sentir muito, porquanto o Bângala, 
que como já disse é o carregador dos seus productos, muitas 
vezes aqui chega para fazer negocio e, como se lhes falia nessa 
baixa e se pretende dar-lhe o desconto ao preço do costume, 
suppSe que o pretendem enganar e volta com a carga para a 
sua terra tendo ás vezes dez e quinze dias de viagem a fazer, 
mas prefere isso e esperar por melhor preço. E se trouxer 
uma ou mesmo mais pontas de marfim, também não o vende, 
embora se lhe dê mais alguma cousa que o usual por este 
artigo. 

Algumas comitivas, porém, mais ousadas, seguiam por Ma- 
lanje para oeste e era-lhes mais fácil encontrar melhor coUo- 
cação aos seus géneros quanto mais se aproximassem do lit- 
toral e consideravam isto melhor negocio, o que se não estra- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 275 

nha, desde que se reconheça que os Bângalas não attendem 
ás distancias que teem de percorrer a pé com as cargas aos 
hombros; o que é pouco o que dispendem com a sua alimen- 
taç?(o. 

E esta é a razão porque algumas comitivas ultimamente ap- 
pareciam em Loanda e também no Ambriz, quando noutro 
tempo não iam mais longe do que ao Dondo. 

Considerando os negociantes de Malanje, que^ as comitivas 
que passavam para Loanda e para o Ambriz iam encontrar 
vantagens nas suas permutações, porque os artigos do nosso 
commcrcio eram muito menos onerados em Loanda com fre- 
tes, e no Ambriz ainda menos pelas differenças de pautas, e 
que dentro em pouco, Malanje, seria como outr'ora apenas um 
ponto de passagem; reconheceram por isso que havia neces- 
sidade de hictarem com alguns sacrifícios para se não desviar 
a corrente de commercio que ahi tinha affluido. Reviveu por- 
tanto o antigo systema das cambolaçSes, condemnado desde a 
primitiva, porque os encarregados doeste serviço, diz-se, abu- 
saram da liberdade do commercio. 

E isto uma questão de theoria sobre que diversificam as opi- 
nidcs, principalmente dos interessados; e bom ou mau é certo 
que o systema, reviveu no concelho de Malanje, não obstante 
a auctoridade, que não tinha nem tem força para o combater, 
o não apoiar. 

Saem agentes da cambolação das diversas casas com uma 
pacotilha na epocha própria, e vão esperar ao caminho, a dias 
do distancia, as comitivas de negocio procurando catechisá- 
las, com dadivas aos chefes e a um ou outro mais influente, 
e mostrando-lhe as vantagens que encontrarão se permutarem 
o seu negocio nas casas que representam. 

A mesma comitiva podem appareccr outros agentes ou na 
própria occasiao, ou já depois no transito e isto que acontece 
uma ou outra vez e quando os agentes não sejam conhecidos 
ou mesmo amigos, (t que tem dado logar a conflictos. 

As comitivas em geral, acceitando bem o primeiro cambo- 
lador que lhe apparecc, sobre tudo quando conhecem a casa, 



27G 



EXPEDIÇIO POBTUQDBZA AO MliATIÂNVtlA 



O que é natural, conaideram o facto como lembrança de amisa( 
de seu antigo freguez e deixa-se guiar pelo agente. 

Isto não é mais que um reclame a que estamos cOBtumadt 
na Europa. 

Um viajante chega a qualquer cidade por mar ou por ten 
c meamo Raten de dar um passo nessa cidade, encontra lo( 
uma alluvião de cambpUidorea com cartSes e anuuncios para tf 
conduEÍrem ao melhor hotel, ao melhor alfaiate, chapelleir( 
retratista, etc, etc. 

No commercio sertanejo em Afiica, o mau é serem indigi 
nas 09 agentes da cambolação, e ainda assim não sHo o 
casas de maior vulto que estabelecem os conllictos. Sfio o 
pequenas casas âliaes destacados mais para o interior e os avi 
dos, que também por lá andam com as suas pacotilhas c as pn 
tendem negociar a todo o transe ; e se essas pequenas casas o 
aviados dispõem de força que poaaa impor-se às comitivas, aléi 
da força moral que os anima por estarem cm terras que i 
estas são extrauhas, quando a bem não queiram permutar ^ 
seu negocio, chegam a fazer-lhes sequestros em parte ou mesi 
no todo da carga que transportam, a pretexto de que a parei 
tes, amigos ou mesmo patrícios seus, chefes d outras comiti 
vas em tal anuo ae fizera o mesmo. 

Perdeu a comitiva na occasiSo, porque o theatro d'estae s 
nas é fora da alçada das nossas auctoridadcs e n^ teeui i 
quem recorrer; porém ella, maia tarde, obteve a compensaç^ 
com gi-andes lucros, porque nas margens do Cuango ou i 
suas proximidades, comitivas que sejam estranhas, isto é, qql 
sejam das terras da província portugueza, vâo pagando até ó 
Bãngulas estarem saciados ! 

E este mal tomou taes raizcs entre os Bãngalas, que s 
reproduzindo no centro do continente, com toda a vanta 
para as localidades onde se pratica. 

A eambolaçào das casas de Malanje, no intento com qoa ^ 
fizeram reviver, surtiu o effeito que se desejava — a corraite í 
commercio nSo foi desviada, seguiam apenas para oeatej as 
comitivas já afreguezadas em Fungo Andongo e no Dondo, e 




DESCBIFÇZO DA VIAGEM 



277 



uma ou outra, coin a ídoa de especular; mas estas, como as 
vantagens nSo compensassem as distancias a percorrer, so uma 
vez chegavam ao Dfindo, nSo deixaram por isso duas o três ve- 
zes de permutarem o seu negocio em Malaitje. 

Abusando porém os indígenas, que procuram negociar por 




sua conta nas proximidades dos llmiteB officiacs da província, 

da cambolaçito, as casas de Malanje nunca mais alimentai-am 

^^^ tal sjstcmaj substituiram-no pelo das famorosas, novo me- 

^bi thoda de róclamc usailo só entre as casas commerciaea que olú 

^^r £ucm a coQCorrcncia. 



278 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

Consiste este sjstema em lançar ás comitiTaB que passam 
á frente doestas casas imi certo numero de artigos de oommer- 
cio — camisas^ camisolas^ lenços, barretes, talheres, espelhos, 
novidades em missangas o contarias, etc., para as convidar a 
parar e fazerem ahi negocio. Essas comitivas naturalmente 
param, distribuem os artigos entre si, emquanto os chefes en- 
tram em convénios com os donos ou empregados da casa que 
os representam, e raro é aquelle que nSo toma logo ahi o aga- 
zalho da praxe. 

£ muito singular o modo de fazer commercio com o indígena 
no sertSo, e muito especialmente com o gentio. 

Quem pela primeira vez procura conhecê-io, nSo lhe agrada 
o que vê, sente-se mesmo mal ao descrevê-lo, parece-lhe tudo 
muito irregular, e mesmo illicito o que se pratica, e o que a 
tal respeito pode pensar redunda em descrédito pai^a os ne- 
gociantes que ahi representam o conmiercio portuguez. Po- 
rém observando com toda a attenção o que se passa durante 
os transacções, o modo por que o gentio as encaminha, e co- 
nhecendo o valor dos ai*tigos permutados, e principalmente 
dos que se recebem, o ónus com que teem de ser sobrecar- 
regados até chegarem aos mercados para onde se remettem, 
e as alternativas de preços a que ahi estão sujeitos, nSo pode 
deixar do conformar-se com os usos, e só lhe resta louvar a 
muita paciência dos negociantes europeus e admirar o espi- 
rito inventivo que revelam, c que a pratica lhes tem apurado, 
para se sairem bem do labyrintho de antemSo preparado, em 

que os envolvem, muito particularmente as comitivas de Bân- 
galas. 

Chegando uma comitiva a qualquer estabelecimento commer- 
cial é hospedada, pelo menos durante ti^es dias, e a nSo ser o 
chefe e um ou outro que o acompanha, que entram no esta- 
belecimento para ver diversos artigos e conversar com o dono 
a respeito do negocio, e observar o modo por que este se faz 
com outros freguezes, os mais só pensam em comer e beber 
bem por conta da casa, dansar c folgar até altas horas da 
noite. 



DESCBIPÇZO DA VIAGEM 279 

As combinaçSes sobre preços sSo feitas pelo chefe da comi- 
tiva de accordo com os mais velhos, sendo a imidade a peça 
de fazenda de lei, cujo valor se pode reputar em 850 réis. 

A unidade da pesagem é a libra, e, segundo O accordo a 
que chegarem, em cima do balcSo se collocam as peças de fa- 
zenda de lei que correspondem ás libras pesadas. 

Antes de principiar esta operação, é sabido que tem de se sa- 
tisfazer á exigência do mata-bicho com aguardente^ exigência 
que se repete varias vezes de dia e de noite até se fechar 
o negocio. 

As pesagens são sempre acompanhadas de amiudadas obser- 
vações e comparações com as que se tiverem já feito nesse e 
em dias anteriores, e até em viagens precedentes ; e de muitos 
commentarios e exigências que aborrecem. Cada um que pe- 
sou o seu negocio procede depois á contagem das peças e re- 
cebe a sua nota, alguns já em papelinhos, mas a maior parte 
ainda em pausinhoa, a um por peça. 

Vío depois conferenciar todos juntos sobre o numero de pe- 
ças que rendeu o negocio de cada um e se àttinge o producto 
que com antecipação já haviam calculado pelo numero de bo- 
las de borracha, se se trata doesse producto, o que é mais tri- 
vial, ou pelo peso do dente de marfim, calculado a olho, como 
costuma dizer-se. 

Não é raro, depois doestas conferencias, voltarem aos esta- 
belecimentos a fazerem reclamações e procederem a novas pe- 
sagens, addicionando ao monte mais algumas bolas de borra- 
cha que tinham ainda guardadas, as quaes, na maior parte das 
vezes, estiveram de molho durante a noite; muitas vezes á pe-. 
sagem feita addicionam papagaios ou mesmo curiosidades. 

Tudo isto leva muito tempo, procurando sempre o gentio a 
favor dos seus interesses pretextos para ludibriar o comprador 
e conseguir augmentar as pesagens; pela sua parte o compra- 
dor que os percebe, tendo já a pratica necessária e tendo feito os 
devidos descontos nas balanças e medidas de fazendas, discute 
com elles, analysa os seus artigos, propõe abatimentos pelas 
depreciações que lhes laz notar, ao mesmo tempo que por ou- 



»i 



280 EXPEDIÇIO POBTUGUEZA AO MUATIÂKVUÁ 

tro lado os amacia^ dando-Ihe mais um copo de aguardente^ 
lun pequeno presente, do que mais lhe está attraindo a atten- 
çSo emquanto duram as òperaçSes e discussSes do negocio. 

Ha alguns annos parecia haver mais franqueza da parte dos 
nossos estabelecimentos^ porque as peças de fazenda já vinham 
preparadas das fabricas para negocio com o gentio. As peças 
apresentavam maior numero de dobras que jardas, e conta- 
vam-se as dobras por jardas. Assim uma peça de fazenda que 
se dava ao gentio por 24 jardas, e que equivalia a três peças 
de fazenda de lei, reputada em 2}$550 réis, nKo tinha mais 
que 18, isto é, valia 1}$910 réis. Havia, portanto, uma larga 
margem para compensar as exigências, a hoi^pedagem, os ma- 
ta-bichos, os presentes, os enganos, as delongas das transac- 
ções e malufo de quitanda final, faltando o qual se pode 
desmanchar o negocio, e que de anno para anno se vae tor- 
nando mais oneroso, usos estes com que todos se conformam, 
para não perderem a freguezia, porque o gentio sempre en- 
contra imia ou outra casa, que mais bem precavida melhor o 
pode servir. 

A questão das dobras durou alguns annos; porém este pro- 
cesso tornou-se conhecido, e se um ou outro negociante tirou 
d*elle proveito, de certo não foram os que tinham casas filiaes 
ou aviados pelo sertão, nem tão pouco fornecimentos a credito 
aos indígenas, porque esses tiveram os prejuizos de ficarem 
com saldos a haver, devidos ao mesmo processo. 

Nas primeiras transacções acreditou o gentio que as dobras 
eram jardas, porém quando as peças eram abertas em suas 
casas ou no interior reconheceram o logro, d^ahi em deante, 
nas equivalências de peças de fazenda, o que antes acceitavam 
aos estabelecimentos commerciaes por três peças, só tomavam 
por duas e meia, e as de quatro (geralmeote chitas), por três. 
E no sertão tornaram-se então mais exigentes : as fazendas que- 
rem-nas medidas, importando-se pouco com a denominação de 
jarda, fazendo elles a sua unidade, que, conforme os povos, 
varia de 0™,90 até l'",20, e mais adeante teremos occasiSo 
de citar até de 1°*,80 e mais. 



desckipçao da viagem 



281 



I 



Se o DOSBO commercio tem de recorrer a artificios é para 
poder competir cora o gentio, que niaso não llic i inferior. Tem 
ellee a pacliorra de dar jIs bolas de borraclm volume e grandeza 
Riaior do que a que tinham quando as obtiveram, já pondo-as 
de inõlho, já encheado-as do terra e paus ; e ás pontas de marfim 
díLo maior peso, conseguin- 
do atacá-las na extremidade 
com calhaus de modo tal, que 
é difficil perceber-se '. 

Em geral o Bângala cstl 
t2o pratico nas pesageníi, 
que, embora as bolas de bor- 
racha teuham passado por 
differentcs grandezas, en- 
fiam-nas logo cm pausinhos 
em duas ordens, tautas por 
ordem (ultimamente cinco), 
e tem a sua unidade — miitd- 
rí — que regula por meia 
libra. Obsenámos muitas 
vezes que as vinte bolaa que 
traziam dispostas em dois 
mutáris, se não tinham o 
peso da libra, pouco d'ella 
diffcriam. 

Calcula, pois, o Bãngala, actualmente, que seiscentas o c;n- 
coenta bolas, pouco mais ou monos, toem o peso de uma arroba, 




■ Em T.isboa, ainda não ha muito, soubcmoB ter-se vendido mna ponta 
de marfim para obra, em cuja extremitlade encurvada se encontrou per- 
feitamente ajustado um taco de madeiro, sendo para admirar como foi 
pOBBÍvel ali cotlo(?á-lo, o que bi5 se conheceu quando foi cortada a ponta. 
Escosado será dizer quo o comprador, dando parte d' esta fraude, fòi im- 
mediatamente indcmuisado pelo vendedor, pessoa muito acreditada uc^ta 

^ Morreu em Malanjc dois mezcB depnia do TcgrcBso. 



282 EXPEDIÇXO PORTUOUEZA AO MUÁTIInVUÁ 

e sem se importar com o preço que a borracha possa ter no 
mercadO; pela pratica reputa-a em tantas peças de fazenda^ e 
com isso conta. 

Depois de estas peças estarem sobre o balcâO; procura elle 
reduzi-las ás equivalências, de modo a obter o máximo dos ar* 
tigos que pretende e estes da melhor qualidade. 

Devemos notar que outr'ora também o nosso commercio lu- 
crava com as fazendas de boa apparencia mas com desfalque 
nos fios, porque eram estas as que se levavam para o interior, 
porém actualmente as fazendas doesta qualidade sào ahi rejei- 
tadas e os Bângalas tornaram-se exigentes, e o peor é que as 
pretendem boas pelo mesmo preço das inferiores, exigência 
esta a que é impossivel satisfazer. 

Viu-se portanto o commercio na necessidade de dar ás pe- 
ças uma nova forma e medição. Como para elles uma divunga 
regula de 3'°,40 a 3™, 60, as fazendas são cortadas já em uma 
e em duas divungas, isto é, em um ou dois pannos. Dois pan- 
nos, equivalendo ainda para o Bângala a uma peça de lei, já 
em réis dá preço mais favorável, e por conseguinte na equiva- 
lência de artigos muito mais. 

E isto é indispensável, principalmente tratando-se de espin- 
gardas. Quem conhece a pauta de Loanda, e os encargos com 
que este artigo é onerado até Malanje, custa-lhe a acreditar que 
elle se possa vender ao gentio pelos preços por que se vende. 
Uma espingarda é reputada cm quatro peças de ftizenda de lei 
(3j54(X) réis), pois além de Malanje vendem-se por três e por 
duas e meia! 

r 

E pelas equivalências e pela balança que o nosso commercio 
consegue satisfazer a todas as exigências do gentio, tendo em 
attençao sempre o preço mais baixo que obtiveram os artigos que 
permutaram nas remessas anteriores, e succede muitas vezes, 
apesar das cautelas precisas, não terem lucro algum na venda 
d'esse8 artigos, quando ntio coutara prejuizos. 

O lucro da permutação geral, se o houve, é devido aos pre- 
ços com que foram tomadas as fazendas, com os quaes se sal- 
vam as baixas das remessas, já é uma compensação nas tran- 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 283 

sacySes do anaO; mas conta-se mais um anno de sacrifícios in- 
fructiferos. 

Nos últimos annos, porém, a sorte bafejou o commercio de 
Malanje, com a subida da borracha e com a affluencia das comiti- 
vas que, depois de 1884, foi devido em parte á influencia da nossa 
Expedição no interior, o que é comprovado pelos redditos da 
alfandega de Loanda, provenientes dos concelhos de leste. O 
augmento e desenvolvimento dos estabelecimentos commerciaes 
neste concelho é ainda, ao que asseveram as próprias comiti- 
vas de Bângalas : emquanto a Expedição de Muene 
Puto está no interior; vamos para lá mais afou- 
tes porque não nos roubam. 

E note-se que neste período, e dois annos antes, poucas fo- 
ram as comitivas de Bângalas que passaram além do Quicapa 
á procura de marfim ou borracha em terras do Muatiânvua, e 
se uma ou outra passou, de lá vieram sem cousa alguma, e os 
que escaparam diziam: — Trazemos a nossa vida, e 
já foi uma grande cousa! 

E estas comitivas o que iam lá buscar eram escravos, não 
só para fazerem parte das suas comitivas futuras para o Lu- 
buco, mas ainda para ahi trocarem alguns por marfim. 

A occasião é opportuna para repellirmos a insinuação do 
Dr. Wolf, companheiro do Tenente Wissmann, o qual na sua 
conferencia em Manchester, affirmou que se vendiam no Mu- 
quêngue milhares de escravos por anno aos Bângalas e aos 
Quiôcos em troca de armas e pólvora, insinuação que mais 
tarde redunda em censura para os negociantes portuguezes, que 
tão bem o receberam e a todos os seus companheiros durante 
seis mezes que estiveram em. Malanje, e onde não viram en- 
trar esses milhares de escravos em troca d'essas armas e pól- 
vora, sendo certo que Bângalas e Quiôcos só doestes negocian- 
tes as recebem, pelo menos na sua maior parte. 

E repellimos essa insinuação, porque na verdade, se ha trans- 
acções de escravos é exactamente na região além do Cuango, 
e seguem da Lunda para as terras em que os illustrados ex- 
ploradores andaram. 



284 SXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÍNVUA 

Os Bftngalas e Quiõcos, e ainda ob Angombes e Bienos^ que 
se Quiôcos nSo são, siU) da mesma fiEunilia, para lá os levam da 
Lunda, e seguem com elles para o norte para o alliado do 
Estado Livre Tippa- Tib, no Nyangué, e para outros negociantes 
de escravos. 

Nós sabemos que os exploradores allemSeS; desde que se 
lembraram de viajar no centro da Africa, de 1878 até agora, 
se conformaram com os usos e costumes dos povos que visi- 
taram, e mesmo nSo podiam, nem podem por emquanto reagir 
contra elles, e nSo só acceitavam os escravos como moeda 
corrente, mas até com elles fizeram pagamentos aos seus car- 
regadores, que eram filhos dos arredores de Malanje, perten- 
centes aos sobas avassallados, mas que teem governo indepen- 
dente; e também sabem os exploradores que esses individues 
de escravos só teem o nome, que nós lhe damos pelo &cto de 
ser esse o vocábulo com que classificámos, nSo o ente propria- 
mente, mas a individualidade, que passa constantemente de 
mSo em mSo ^. 



1 É preciso conhecer bem o significado dos vocábulos para se apre- 
ciar o modo de ser social do indigena gentio, e nâo cairmos em erros que 
prejudicam as descripções de factos e do que se passa naturalmente na 
vida real doestes povos. Mutu (mutu) é o vocábulo singular, que significa 
«pessoa, ente» *, e o seu plural é antu (atu), Elles teem vocábulos para 
distinguir a pessoa homem da pessoa mulher, e também os vocábulos 
para as distinguir segundo as idades, e ainda para a pessoa homem os 
que a distinguem segundo a sua cathegoria social. 

Na classe inferior encontra-se o mururo («o servo» da familia,da tribo, 
do estado emfím), que os nossos Ambaquistas interpretaram como, tnubica 
(mubika)^ e que na província de Angola os nossos antigos consideraram 
escravo. NSo ha equivalência entre mururo e mubica senão no facto da 
dependência de um senhor que o pode passar a outrem — é a moeda nas 
suas transacções. 

O mururo, nas terras do Muatiânvua, é o abandonado, aquelle que se 
encontra no mato, entre o capim, nos caminhos, e que nSo tem ou se lhe 
nao conhece familia, ou um parente qualquer. Quem o encontra leva-o 
cm sua companhia, e diz mururo á hunona («abandonado para quem o 
apanhar»). 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 285 



E feliz d'aquelle que chegou a terras portuguezas, porque 
ahi termina o seu fadario; constituiu familia e trabalha para si 
e para a sua descendência, a que d 'antes não tinha direito. 

Mas temos agora mais do que informações indigenas, temos 
noticias muito recentes das localidades em que teem estado 
ultimamente os exploradores, fornecidas por europeus, e para 
as quaes não podemos deixar de chamar não só a attenção 
do nosso governo e do nosso paiz, mas ainda a de todas as na- 
ções que se interessam pela causa africana, e d'essa nova as- 
sociação humanitária fundada para pôr termo á escravidão em 
Africa. 



Como é natural, o abandonado que encontrou então um abrigo, o sus- 
tento, uma familia emfim, trabalha para esta e considera-se d'ella o mais 
inferior, e por esse facto é sempre o mururo. Como reconhecimento mesmo 
d*C8se benefício, quando o chefe da familia tem alguma condemnação a 
pagar, elle próprio se apresenta para o pagamento ou para fazer parte 
d*elle. Registámos alguns casos d'estes, em que o senhor e mais pessoas 
de famílias só a muito custo e nos últimos extremos lançavam mão do 
mururo, a quem se haviam affeiçoado. 

O mururo acarreta agua do rio, corta e transporta as lenhas para as 
cubatas, faz o fogo, vae procurar nas lavras, e mesmo nos matos e nos rios, 
alimentos para a familia, sae em diligencias para pontos distantes, para 
todos os effeitos faz parte da familia e com consentimento dos chefes 
pode ter as suas relações amorosas, porém dos fructos d*essas relações, 
isto é, dos filhos é que não pode dispor ; qualquer doestes herda do pae 
o ser mururo da familia que o abrigou. 

Os prisioneiros de guerra, os tomados nos sequestros, ou que não po- 
dem pagar condemuaçoes, são considerados abandonados — mururo. 

Se apparecem parentes do mururo, seja em que grau for, mas reco- 
nhecidos, o mururo ó resgatado e deixou de ser considerado como tal. , 

O mururo é um modo de ser no estado do Muatiânvua, porém nunca 
vi este, nem os potentados chefes de território, fazer distincção entre elle 
e os considerados fidalgos e mesmo fílhos do Muatiânvua. Aquelle vo- 
cábulo mesmo, ouvi -o isolado, como designando o serviçal da familia, 
e entre as mais indigentes, porque, para os que estão em melhores cir- 
cumstancias já o vocábulo é outro e faz perder a idea do abandono — 
caxalapoli (kaxaíapoli) ^ cuja interpretação é «vigia» (o que toma conta 
do que pertence ao individuo que faz as vezes de seu pae). 



286 EXPEDIÇZO FOBTUGUEZA AO MUATliWUA 

Estas noticias yeem a propósito e completam os nossoa co- 
nhecimentos sobre a RegiSo Portagaeza, que os illostrados ex- 
ploradores que ali foram sob nossa protecç&o, offisreceram ao 
Estado de H. Stanley e seus consócios; mas nós^ que sabe- 
mos qoanto os nossos compatriotas; filhos de Angolai trabalhai 
ram para a regeneração dos povos que a occapam^ protesta- 
mos bem alto contra mais esta usurpaçSO; feita sem qae o nosso 
paiz tivesse conhecimento de tal facto, ou pelo menos ignorando 
as condiçSes em que se encontravam estes povos e as estreitas 
relaçSes que ha vinte annos elles mantinham constantemente 
com os filhos de Angola. 



£m geral todas as pessoas que constitaem a fitmilia, a tríbu ou o es- 
tado, sfto denominadas pelos próprios chefes aníu ámi {alu dfnt) ou ano 
âmi, cnja interpretação é : «mca povo» ou «meus filhos». 

O mururo só tem paridade com o muinea de Angola, em infelitmente 
passar como moeda nas transacções como aquelle passou, porque as 
circnmstancias da vida social rudimentar do centro do continente assim 
o exigem, e para as quaes as nações civilisadas, sem o pensar, contribui- 
ram, como demonstraremos em outros logares ; porém o que lembra de 
odioso no mubica foi devido aos povos que avançaram na civilisaçâo e é 
inteiramente desconhecido no caso do mururo. 

Entre os povos do centro do continente, os ferros, os cepos, o chicote, 
que alguns exploradores dizem lá ter visto como instrumentos de repres- 
são e castigo para os escravos, não sâo de fabrico indígena. Esses arte- 
factos saem das fabricas estrangeiras, geralmente inglezas, que já annos 
antes os exportavam para outros pontos do continente africano e para 
outras regiões do globo. 

Infelizmente também nós importámos os modelos e os imitámos; po- 
rém entre os indígenas, os próprios prisioneiros de guerra, sSo conduzi- 
dos apenas seguros uns aos outros com cordas feitas de vergonteas de 
trepadeiras, amarrando-se-lhes os pulsos atraz das costas, como se faz 
aos macacos. 

Mas os illustres exploradores allemâes que me obrigaram a fazer esta 
explicação do que elles de certo não ignoram, sabem bem que nas terras 
do centro de Africa, entre as tribus indígenas, não ha o serviço remn- 
hcrado, que o mururo é uma necessidade, aliás não teriam quem os ser- 
visse e teriam de retirar por lhes ser impossível penetrar no campo das 
suas operações commerciaes. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 287 

Depois da chegada da expedição Wissmann ao Lubueo tra- 
tou-se e conseguiu-se a navegação, em parte, do Cassai e Luiúa 
até ao Zaire, e fez-se logo oceupar o paiz pelos agentes do 
Estado Independente do Congo, e em dezembro de 1887 dizem 
as nossas noticias: 

«O paiz mudou inteiramente; subiram de valor todos os artigos, tanto 
de negocio como viveres; a fazenda espalhou-se por toda a parte com 
profusão ; a borracha, que se vendia por preços extremamente baratos, 
hoje está pelo triplo, e presentemente apparece pouca ; o marfim tor- 
nou-se raridade e o que apparece vende-se por preços elevados e nâo 
convém em qualquer mercado da província de Angola. 

As caravanas de Quiôcos, Bângalas e Malanjes são quasi diárias. 
Hoje estão neste paiz para cima de duas mil pessoas d'esta8 procedên- 
cias, que são verdadeiros enxames que invadem todo o território do Lu- 
bueo, não deixando uma bola de borracha, nem um escravo. Devemos, 
porém, concordar que não são estas caravanas que fazem damno ao com- 
mercio licito; compram e mal, fazendo negócios sem calculo nem me- 
dida, porém levam a borracha para os mercados da província e os escra- 
vos ficam com elles para os seus trabalhos. 

O que é summamente mau, damnoso e terrível, são as caravanas de 
Bicnos, que dcsem])ocam em Cabau vindos pelo oriente. Estas, sim, são 
uma praga, emfim um verdadeiro flagello. É devido a ellas que estamos 
fazendo conhecimento com a miséria, e soffrendo gravíssimos prejuízos. 
. Temos feito diversas viagens a Cabau, a ultima em maio, e de todas 
temos tido a desgraça de encontrar este flagello, obrígando-nos a reti- 
rar com as mercadorias por ser impossível fazer negocio em concorrên- 
cia com traflcaiitcs de carne humana. 

Estes bandidos não levam para Cabau um búzio, nem um bago de 
missanga ; o único artigo que levam para a troca por marfim são nume- 
rosas levas de escravos, que vendem aos Bacubas por preços 
desgraçados. 

Para fazer idea d 'este péssimo negocio é sufficiente dizer que dão 
por uma pequena ponta de quatro libras de peso, um escravo; de dez, 
dois ; de vinte, seis ; de trinta, dez ; por uma de cincoenta a sessenta, 
vinte ; e finalmente deram quarenta e cinco escravos por um 
dente que pesava noventa e duas libras !!! 

A primeira vista parece incrível que isto se faça; porém, com mágua 
o digo, é uma triste verdade ! 

Os Bacubas, eniquanto teem negócios doestes, nâo vendem o seu mar- 
fim por artigos de nef^^ocio licito, e quando o vendem, exigem em búzio 
o equivalente ao valor de escravos. 



288 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

Ora em Cabau o preço de um escravo sfto emoo mil bagos âe bmios, 
preço fixo em todo o paiz, de forma que quem qnizer comprar a ponta 
egual á vendida por quarenta e cinco escravos temdedardu- 
sentos e vinte cinco mil búzios, que equivale a 225 kilogrammas ! O preço 
d*este artigo, vindo de Malanje, fica em Cabau a 700 réis o kilogrammay 
e a compra da ponta seria em réis por 157JÍ500. 

Por aqui se vê como está hoje o negocio do marfim, devido aos tra- 
ficantes da carne humana ! 

DirSo agora, como é possivd que os Bienos possam dar um numero 
tflo avultado de escravos por uma ponta de marfim ? 

A rasSo é muito simples, e vou eipIicÀ-la porque fui testemmilia oea« 
lar de uma d*e88as transacções na viagem que fis ás bacias de Sanooro 
e LumAmi, aonde encontrei uma cáfila de Angombes. Esta g^te saia 
do Bié e veiu a Catema, no Dilolo, d'ahi atravessaram o pais entre 
Samba e o Muatiânvua até ao Canbiuca. Atravessaram depois o Lubi« 
lázi para a margem direita, no paiz dos Balongos, onde principiaram a 
comprar escravos. Percorrem o extenso paiz dos cannibaes, entre o La- 
bilázi e o Lumámi, comprando escravos ao Lupungo, Sàpo-8apo e outros 
potentados, vendendo um barril com um kllogramma de pólvora on uma 
arma lazarina por cinco escravos, quatro jardas de fiuenda por um, ete. 
Descem com o curso do Sancoro até aos Bassongos, passando o rio para 
a margem esquerda, entrando em Cabau, onde fazem substituir o nego- 
cio licito pelo seu de escravos, que compram baratíssimos. 

Foi cm novembro de 1886 que encontrei no Sapo-Sapo três carava- 
nas de taes cáfilas que seguiam para Cabau, levando um numero superior 
a oitocentos escravos!! Escravos vendidos por marfim, pelos 
preços que lhe custaram, deiza-lhes um lucro espantoso ! 

Fiz ver isto ao Sr. Barão de Maçar, chefe politico do districto, e dis- 
se -lhe nâo ser possivel estarmos perdendo os nossos interesses, n2o po- 
dendo fazer negocio licito ao pé de taes concorrentes, e se não podia por 
cobro a esse estado de cousas, reprimindo energicamente os vendilhões 
de carne humana, collocava-me na dura necessidade de arranjar forç:is 
para cu mesmo destruir os escravistas. 

Cavalheiro, como é, mostrou- se muito seutido, mas nada ponde fiucr, 
porque a estação do Luluaburg não tem um único homem que sirva 
para pegar numa arma, e a estação do Luebo, que está a 20 kilome- 
tros de Cabau, tem apenas seis Zanzibaritas, que são impotentes para 
castigar uma caravana de Bienos, formidavelmente armados e bem mu- 
niciados. 

Faz -se commcrcio de escravos, vcndcndo-se ás centenas, a quatro 
horas de marcha da estação do Luebo, não podendo obstar a este 
commcrcio o pessoal do Estado Independente que se assenhoreou d*este 
paiz?» 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 289 

Acreditamos, pois, á vista doestas noticias, que se referem 
á regiSo que os exploradores allemSes, valendo-se da nossa 
influencia e protecção, foram dar de presente como terras por 
si exploradas, ao Estado Independente do Congo, que é ver- 
dade qae ahi se negoceia em escravos, mas que não são os 
Portuguezes os agentes d'esse negocio, nem tão 
pouco é elle para as terras portuguezas, e sim 
para o norte e oriente, e os que não ficam no norte, lá irão 
também para o oriente. 

Por diversos individues tivemos conhecimento no interior, 
que nas estações que se levantaram próximo do Muquengue, 
Muanzagoma, Lulua, Luebo, etc, se esperava desviar o com- 
mercio que ia para Malanje, fazendo-se offertas ás comitivas 
até de dinheiro, llá^OOO réis por cada arroba de borracha ou 
de artigos de melhor qualidade, e em maior quantidade do que 
ellas podiam obter das casas de Malanje e mesmo em Loanda. 

Em principio suppozemos que seriam os próprios Bângalas 
que pretendiam encarecer agora a sua mercadoria e tentavam 
armar ao effeito para maiores ganâncias sob tal pretexto. 

Pelo que depois soubemos de melhor fonte, pelo conheci- 
mento do que se passa no littoral com respeito a fretes e im- 
postos, pela conferencia que lemos do Dr. Wolf, em Manchester, 
e ainda pelas ultimas noticias do Lubuco, afigura-se-nos que 
corre grande risco o commercio de Malanje e todo o sertanejo 
d'ahi até á costa, se desde já se não adoptarem im mediatas e 
acertadas providencias contra a propaganda que se faz a favor 
do Estado Independente do Congo, em prejuizo dos interesses 
da nossa provincia de Angola. 

Os artigos de permutação facturados em Malanje, á rasão 
de 2^1000 réis, vendem-se no Luebo a 225 réisl 

Os búzios, que são o principal artigo para o negocio de mar- 
fim com os Bacubas (quando não se ofierecem escravos), e que 
em Malanje se vendem a 6f5õOO réis a arroba, e chegam ao 
Luebo oneradas de modo a não poderem vender- se por menos 
de ISjJOOO réis, estão-se vendendo no Estado do Congo a 4<J500 
réis por dez mil bagos, que é mais de uma arrobai 



290 BXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIÂHVUA 

Isto é devido nSo bó á facilidade de transportes, como á dif* 
ferença de fretes marítimos e impostos aduaneiros. 

Que vantagens podem ter pelo negocio licito as caravanas de 
commercio que da nossa provincia nos últimos quinze annos 
concorriam aos mercados do Lubuco, principalmente de Ma- 
lanje e proximidades, se vSo lá encontrar melhores mercado- 
rias do que podem levar, ou as similares, por preços quasi 
50 por cento mais baratos, quando o nSo for ainda mais do que 
aquelles por que as obtiveram em Malanje. 

É para nos convencermos que em pouco tempo essas comi- 
tivas, que para lá levavam commercio, agora irSo como immi- 
grantes para se assoldadarôm por algum tempo ao serviço das 
casas de commercio estrangeiro. Os resultados ser-lhe-hlo de 
certo mais favoráveis. 

Disse o Dr.WoIf na sua conferencia em Manchester: cExiste 
tanto marfim nos paizes não conhecidos, além do Estado Inde- 
pendente, que nem se pode pensar quando elle acabará... Se 
o caminho de ferro do Congo for uma realidade, nSo ha du- 
vida alguma que todo o commercio da borracha, que vae agora 
para Malanje, descerá pelo Cassai e se juntará no Congoi. 

Estava, pois, a propaganda iniciada para nos despojarem do 
commercio além do Cuango. 

Vejamos agora pelas noticias, ainda de dezembro de 1887, 
como se trabalhava nesta empreza: 

«A casa Sanford, da companhia americana que se propõe constniir o 
caminho de ferro de Vivi a Leopoldville, para se certificar se haverá mo- 
vimente sufficiente de commercio que alimente esse caminho, estabele- 
ceu nas estações do Estado, mediante certas condições, artigos de com- 
mercio para a compra de marfim c borracha, e o Sr. Legat no Lnebo, 
nos mezes de junho e agosto, comprou para cima de 1:000 kilogrammas 
de marfim e 4:000 de borracha ; sendo esta vendida por portugueses de 
Angola, que por aqui estão fazendo os seus reviro». Os preços dos arti- 
gos da troca são pelos do custo e despezas; os preços da borracha 3 
pence por libra (peso), e o do marfim, qualquer que seja a sua lotaçilo, 
2 shillinga por libra. 

«Como o fim doesta companhia é conhecer do movimento commercial, 
não admira que faça taes negócios. Mas vamos lá competir com ella ! 



descripçao da vugeh 291 



O percurso d^aqui até Leopoldville é de mais de 600 milhas, e o lucro 
é de 1 ptnny por 2 kilogrammas de marfim. Por quanto irão estes ho- 
mens vender o seu marfim nos mercados europeus ? 

Agora uma nova companhia, denominada Compagnie du Congo pour 
le commerce et l^induatrie, propoe-se a navegar em todos os affluentes do 
Cuango onde vae fazer negocio. Nâo estabelece feitorias, o commercio é 
feito a bordo dos seus vapores especiaes. 

Em vista dos projectos d' esta companhia, o que pode esperar no fu- 
turo o commercio de leste de Loanda ? 

A embocadura do Cassai calcula-se estar no 3* 14' 4" de lat. S. do 
Equador, e entre esta e a foz dizem existir um afiluente, que vem da nossa 
provincia e que é navegável até certa altura. O Cuango é navegável até 
quasi ás portas de Malanje , e o Cuílo e Luangue pensa-se que tam- 
bém se prestam á navegação para lanchas a vapor. O Cassai é navegá- 
vel desde a foz até ao Peínde. E tudo isto aproveitado pelo Estado 
Independente, nâo redunda cm prejuizo da região norte de toda a nossa 
provincia de Angola?» 

São estAs considerações de um negociante do sertão, homem 
bastante pratico, que ha trinta annos se estabeleceu em Ma- 
lanje e conhece todas as phases por que tem passado o com- 
mercio do centro do Continente. E a ellas ainda acrescenta 
muito judiciosamente : 

»A lingua que se falia nas estações é a Portugueza; outra qualquer 
difficilmeiíte seria entendida, por terem sido os Portuguezes que desbra- 
varam este paiz ha mais de vinte annos, onde o seu elemento se encontra 
espalhado por toda esta região. 

Devido a esta feliz circumstancia é que Wissmann e os seus com- 
panheiros se apossaram do Lubuco sem a menor opposiçâo. 

Para se conhecer o elemento portuguez neste paiz é bastante dizer 
que as caravanas de pequenos commerciantes que vem de Angola, che- 
gam aqui quasi semanalmente. Toda a borracha que presentemente se 
exporta por Loanda, sae d'aqui levada por Quiôcos, Bângalas e gente 
de Malanje e Pungo Andongo, e também pelos Angombes vae muita 
para Benguella. Isto pode dizer-se durante os últimos dez annos, por- 
que da região da Lunda pouca borracha tem apparecido neste periodo. 

Porém no Lubuco succcde o mesmo que á Lunda — as suas florestas 
estão quasi completamente extinctas. As comitivas que ultimamente teem 
chegado estão vendendo as suas mercadorias por menos de metade dos 
preços aqui estabelecidos, e ainda assim muitos nâo logram vender os 
seus artigos por causa das Estações. 



292 SXPBDIÇZO FOBTUGUBZA AO MUAUÍNVUA 

Ainda antes da chegada da expediç2o do Tenente Wissmann uma 
anna ou um barril de kUogramma de pólvora equivalia a mil bolaa de 
borracha ; actualmente uma arma vale quatrocentas, e o barril tresen- 
tas; um boi ou vacca, que se vendia por dose mil bolas, presentemente 
s6 o acceitam por quatro mil. Ainda ha pouco mil bolas pesavam, pouco 
mais ou menos, 40 kilogprammas, agora nem chegam ao peso de dO. 

Se vierem, como se diz, para aqui estabelecer-se filiaes das casas 
hollandeza e firanceza do Zaire, as numerosas caravanas que aqui vinham 
annuslmente da nossa provinda escusam de cá voltar, por lhes ser im- 
possível luctar com taes casas. 

«Um dos agentes da casa hollandeza com quem aqui íall^ chagado 
no vapor Peace, afiirma vir para aqui luna filial da casa hoUaadeaa, e 
admira-se que os Portugueses se n2o hajam importado com esta rQgiXo, 
pois sem ella, por emquanto, de nada vale a grande provinda de Angola 
com respdto a commerdo.» 

Todas estas considerações vêem, quatro annos depois, con- 
firmar o que a nossa ExpediçSo previu logo de principio em 
Malanjc; e fez constar á Associação e Sociedade de Geographia 
Commercial do Porto nestes termos: 

«Malai^e é, e continuará a ser, principalmente se a construcçlo da 
linha férrea a Ambaca for uma realidade, o verdadeiro e único centro de 
commerdo europeu para o seio do Continente ; segundo o meu fraco modo 
de ver, deverá Malanje ser no futuro o centro de um governo, governo 
de leste da provinda, para cujo limite mais no interior está reservado 
o Cuango. 

. . . Pelo que respeita a liberdade de navegaçáo e reforma de pau- 
tas, com taes medidas muito teem a ganhar os interesses do paiz, esta 
provinda em especial e muito particularmente o commercio portuense, 
quando queira alargar os seus mercados consumidores para aqui, fiEusendo 
derivar parte dos productos que ora se encaminham em concorrência com 
os estrangeiros para outros pontos. 

Pois é crivei que se mantenha por mais alguns annos a distincçfto de 
pautas para as mesmas mercadorias nesta mesma provinda ? 

O Ambriz, com uma pauta mais favorável, já convida o gentio da 
Lunda, ao norte, á permutação, quanto mais n&o se fsrá nos portos do 
norte, que se pretendem conservar livres de direitos aduaneiros. 

O Cuango é muito grande na verdade, porém o preto nâo conhece dis- 
tancias para grangear lucros, embora pequenos. Nas margens doesta 
grande artéria fluvial, que já ha muito nos devia fazer communicar ra- 
pidamente com o Zaire, é onde mais se faz sentir o odioso dos gravames 
das di£férenças pautaes. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 293 

Não é raro encontrarem- se gentios nestas margens com a mesma qua- 
lidade de mercadorias, obtidas com grande differença de preços, o que 
elles levam á conta de bom ou mau negocio, ou, melhor direi, de que fo- 
ram roubados. Isto não é exagero, e a mesma impressão recebeu o es- 
trangeiro Yon Mechow, que um pouco ao norte da sua exploração no 
Cuan!<o, encontrou fazendas mais baratas do que as similares de que 
elle dispunha para seus gastos. 

Se á Sociedade de Geographia Commercial do Porto está reservada 
a importante missão de conseguir a reforma das pautas da provinda de 
Angola, que as unifique e torne mais liberaes, muito terão a agradecer- 
Ihe os interessados, e o seu nome ficará vinculado aos melhoramentos 
que necessariamente d'ahi hão de provir para esta vasta colónia. 

Somos d^aquelles que não apreciam o Zaire como vantagem princi- 
pal; temos muito para onde nos alargarmos e com interesses certos. O 
commercio pelo grande rio é um pretexto, ha de fazer- se pelo Cnango 
para a nossa provincia quando tiver um termo a nossa boa fé e com an- 
tecedência nos formos precavendo contra os successivos logros em que 
caimos a cada passo com os aventureiros que de tudo nos querem des- 
pojar. Bem sabem os estrangeiros o que querem, mas por emquanto a 
evolução dos seus mysteriosos desígnios prosegue na penumbra; nin- 
guém quer ver no nosso paiz ! » 

Quando isto escrevíamos; em 1884, mal podíamos imaginar que 
logo um anno depois o mysterio se desvendaria, organisando-se 
o Estado Independente, e que já os exploradores allemSes esti- 
vessem trabalhando por conta do futuro Estado, fazendo-lhe doa- 
ç5o de um território, cujos povos só comnosco mantinham re- 
lações e d'onde provinha nos últimos annos todo o commercio 
indigena que affluia a Loanda e ao Ambriz. O Sr. BarSo de 
Maçar, primeiro chefe do districto, que o Estado chama seu, 
tratou logo de repellir os Portuguezes que lá encontrou, e se 
podesse vedaria a entrada a todas as caravanas que da nossa 
provincia para lá se encaminham ainda. A julgarmos pelo que 
succedeu a um empregado africano chamado Santos, que o Te- 
nente Wissmann para ali levara de Malanje, nenhum súbdito 
portuguez poderia esperar d'aquelle funccionario o mínimo si- 
gnal de sympathia. 

Este pobre rapaz, amarrado, espancado e ferido pelos indí- 
genas, esteve preso numa cadeia três dias, sendo depois por 
fraqueza entregue aos seus verdugos, que o queimaram vivo ! 



294 EXPEDIÇXO POBTUaUBSA AO XUATIÂNVIU 

O dr. Summers, da missSo do bispo Taylor, que se nata- 
turalisára portuguez e entrara no Lubuco com a bandeira por- 
tugueza á frente da sua caravana, fôra altamente censurado por 
tal fiicto, nSo consentindo o Sr. de Maçar que elle entrasse no 
exercício das suas funcçSes. Entre outras amabilidades d'aquelle 
cavalheiro, ao illustrado missionário, registámos esta — que 
nSo gostou de o ver com a bandeira portugueza, porque todos 
os Portuguezes eram uns bichos e uns ladrSes. 

Em occasiSo opportuna mostraremos ao súbdito belga quem 
sSo os ladrSes que ao bondoso Rei Leopoldo 11 extorquiram a 
fortuna, se é que Sua Magestade nSo os tenha jA apontado 
antes de entrarmos nesse assumpto. 

«Tanto 08 Qniôcos como ou Bftngalas — dizíamos nós á Sociedade de 
Geographia do Porto — , teem descido ultimamente em busca de marfim e 
borracha até ao 5^ lat. S. do Equador ; o regresso com as mercadorias 
ás costas toma-se-lhes penoso quando elles, a menor distancia, do Am- 
briz ao Zaire, encontram melhores fazendas em qualidade, mais varie- 
dade, menor preço, e isto por causa do pequeno frete e nenhuns impostos 
aduaneiros. Encaminham-se portanto para ali os que n2o estiverem mus 
próximos dos Chilangues, pois que nesse caso largam a estes as merca- 
dorias para as permutarem no Nyangué por escravos, os quaes s2o enca- 
minhados d'ahi para a região dos lagos. 

Mas se o caminho de ferro de Ambaca não é mais uma esperança vS, 
se realmente se faz, são bem empregados os sacrifícios e trabalhos da 
nossa Expedição e as despezas que com ella está fazendo o Governo. 
As Estações que vamos construindo serão muito aproveitadas, tomar-se- 
hão núcleos de civilisação, centros riquissimos de agricultura, em que 
não faltam os braços livres e indispensáveis ; o commercio procurará es- 
tes centros, de uma salubridade incontestável em relação ás zonas ma- 
rítimas ; e muito é para sentir que não venha immediatamente alguém 
aproveitar-se das boas disposições cm que deixámos os povos que as ro- 
deam. 

Fazendo -se um ramal doesse caminho de ferro a Malanje (65 kilome- 
tros), e d'ahi um outro seguindo a sua directriz, mais ou menos pelo 
nosso itinerário ao porto Molumbo, no Cuango, na extensão de 20 kilo- 
metros, teríamos com isso grandíssima vantagem. As remoções de terras 
não offerecem grandes difficuldades á construcção, porque as differenças 
de altitude não são grandes e de nada valem as linhas de aguas a pas- 
sar, sendo a mais larga o rio Lui, que na peoi epocha do anno, numa 
largura pouco mais de 40 metros, tem profundidade não superior a 3 me- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 295 

tros, sendo inferiores o Cambo e o Luximbe, e sendo o porto Molambo 
um bom porto, assim ficará ligado a Loanda, o melhor da costa em toda 
a nossa provincia de Angola. Assim, não só se aproveitariam as férteis 
terras que esse caminho de ferro atravessasse, as melhores que se conhe- 
cem em toda a região, a partir do Dondo, pois é a da maior altitude, 
regada por boas aguas, fadada para todas as culturas, mas ainda se re- 
solveria o grande problema, cuja solução nos últimos annos tantos se 
empenham em encontrar : unir por fácil communicação o alto Zaire com 
um bom porto da costa, que certamente, depois de pequenos trabalhos, 
não se encontrará nenhum como Loanda. 

O Cuango, do Molumbo á confluência com o Zaire, pode tomar-se na- 
vegável em principio por lanchas, e mais abaixo por barcos, uns e ou- 
tros a vapor. 

Se alguma cousa fizéssemos neste sentido, podíamos explorar com van- 
tagem esses restos de productos naturaes, que ainda provocam a ambi- 
ção do commercio em Africa, e certamente por uma direcção prudente se 
conseguiria preservar as suas fontes do vandalismo e dar-lhes longo pe- 
ríodo de extracção ; aprovcitar-se-iam ao mesmo tempo as riquezas que 
o solo, aguas c braços nos oÔ*erecem, creando grandes propriedades agrí- 
colas e centros populosos, onde então o commercio encontraria bons mer- 
cados para as suas transacções; crear-se-iam as receitas indispensáveis 
a sustentar a linha fluvial no Cuango e a férrea até Loanda, pouco nos 
devendo importar a mal fadada e mal encaminhada questão do Zaire; cn- 
grandeciamos a nossa vastíssima provincia de Angola, e finalmente, pelos 
domínios do Muatíãnvua, manteríamos a ligação com a outra não menos 
vasta, não menos rica província de Moçambique que estrangeiros cubi- 
çosos parecem accordes em querer para sempre separar. 

A nós, e só a nós, Portuguezes, pertencia de direito e de facto um 
quadrilátero no centro da Africa, cujos lados exteriores são formados pelo 
líttoral das nossas vastas e riquíssimas províncias de Angola e Moçam- 
bique. 

A Expedição pensou ainda por al^um tempo cm descer o Cuango, mas 
crente que aos arrojados exploradores Capello e Ivens estava destinado, 
depois de explorarem o Cunene, o continuarem a exploração já por elles 
iniciada d'aquelle rio, para o seguirem até ao Zaire, e sendo mui diversa 
a nossa missão, com bastante reluctancia desistimos d'este intento, que 
podia e de certo seria mal recebido no paiz, se de facto os nossos bene- 
méritos exploradores tivessem pensado ou lhes fosse determinada a re- 
solução do importiiute problema. E com magua repetimos, desistimos 
doesse intento, po~que conhecendo os trabalhos de V. Mechow, estávamos 
crentes de que o Cuango, salva a queda de agua que o fez recuar no seu 
projecto, era navegável, e d'essas supposiçoes bem fundadas dêmos co- 
nhecimento ao nosso Governo «. 



296 EZPEDIÇXO POBTUGUEBA AO MUATXÍHVUA 

O que entSo se podia imagiDar ser uma ilIusSo, tomoa-se 
numa realidade pouco tempo depois. Em fins de 1866 o Bev.^ 
Grenfell e o Dr. Mense no vapor Peace, pertencente á estaçlo 
dos missionários Baptistas, estabelecida no Stanley Pool, fize- 
ram essa navegação indo depois até ao Lulúa, como vimos 
pelas noticias de que já demos conhecimento. 

Mas se não nos antecipámos na resolução do problema, to- 
davia não ha rasão para desistirmos de tratar desde já do es- 
tabelecimento de barcos a vapor especiaes no Cuango e seus 
afluentes da margem direita, e ao norte se for verdade o que 
se suppSe com respeito a um affluente da esquerda, até onde 
a navegação seja possivel, pois que esta linha fluvial ainda não 
nos foi contestada. 

Emquanto uma plêiade de homens ousados, que se estabe- 
leceram em Malanje e mais para deante, teem luctado por 
desenvolver o seu commercio muito onerado, como vimos, e 
sem terem o apoio dos governos, que tudo ahi até agora in- 
dicava terem esquecido que este vastissimo coácelho era de facto 
occupado por Portuguezes, que contribuem annualmente com 
uma importante receita para os cofres centraes da provinda; 
os aventureiros estrangeiros que depois de 1878, pela nossa 
costumada tolerância, estudaram esta região e procuraram in- 
dagar das origens do commercio indígena, que se effectuava 
com excellentes resultados em Malanje, porfiavam por se apo- 
derarem d^elle. 

Não era da Lunda, além do Cassai, o reconheceram três 
expediçSes successivas, que e^se commercio provinha, e por 
isso seguiu a quarta expedição para o norte, d'onde tinha re- 
gressado o nosso velho sertanejo Silva Porto depois de uma 
aventurosa viagem e onde em o período de 1876-1884 afflui- 
ram numerosas caravanas de commercio da nossa provincia de 
Angola. 

Era, pois, ali no norte, que se devia estabelecer o thea- 
tro das operaçSes, para se dar o golpe de mestre. 

Continuando a apparentar na Europa que se tratava apenas 
de explorações seientificas e arrojadas travessias, saia apenas 



DESCRIPÇAO DA VUGEM 297 

pelo oriente o Tenente Wissmann, emquanto o fallecido Dr. 
Pogge ali permanecia vigiando pela presa. 

Fi«erara-se os accordos da Allemanha com a Inglaterra (nossa 
antiga e boa alliada), e o Rei Leopoldo; e voltou Wissmann con^ 
a quinta expediçílo, ainda ao abrigo da nossa protecção, abu- 
sando da nossa tolerância, a dar o cheqne-mate aos Portuguezes 
que o auxiliaram a colher os louros das suas glorias, e obser- 
vando o plano de antemão forjado, entregou ao Estado, que 
H. Stanley havia preparado para si, a região onde primeiro 
tinhamos entrado e onde nós inmos buscar o commercio indí- 
gena, que alimentava a prosperidade dos concelhos de Malanje 
até ao Dondo. 

Depois, a concorrência, fácil pelos transportes, isençSes de 
direitos e impostos e o dominio absoluto sobre os povos su- 
jeitos ao poder discrecionario dos potentados gentílicos — de 
que forçosamente hâo de fugir as nossas caravanas e as dos 
povos vizinhos, que se consideravam intermediários ou agen- 
tes do nosso commercio — mais aggravou a situação penosa 
que a cubica do estrangeiro nos creou. 

Vê-se, pois, que o commercio de Malanje ha de decair, e 
está já em crise. E podem os poderes públicos ser índifFeren- 
tes a tal situação, quando o concelho, que é vastíssimo, tem 
recursos que se podem aproveitar para suavisar por emquanto 
essa crise e fazer prosperar outras industrias. 

Fizemos a descripção do commercio de Malanje nas suas 
relações com os indígenas, e mostrámos os graves e immínen- 
tes perigos que está correndo por causa dos exploradores que 
trabalham em favor do Estado Livre do Congo, e cumpre- nos 
insistir para que se tomem as mais indispensáveis providen- 
cias e se salve uma das melhores fontes de receita da provín- 
cia de Angola e uma das mais bem fadadas regiões para pro- 
porcionar legares de refugio contra as dtnomiuadas cameira- 
das das regiões baixas. 

Não se trata de cousa nova, de fazer qualquer tentativa de 
exploração commercial. Trata- se positivamente de factos con- 
summados e de que ninguém poderá duvidar. 



298 



EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 



. Se Dia actualidade nada se fizer em &Tor de Malanje, pre- 
cipit&mos a mina de Angola e annollfimos todoe os esforços 
e sacrificioB que se estSo fazendo com o caminho de feivo de 
penetraçSo. 




MUEKDB (JOOO) 



DESCHIPçXO DA TIAaEH 




AGRICULTURA 

Está iniciada a agricultura 
no concelho, noa arredores da 
villa, em grande escala e com 
bons residtadne, e é para abi 
que se deve dirigir a nossa at- 
tençiio & medida que com todo 
o impulso ae deve continuar a 
conatrucçJlo do caminho de ferro 
de Loanda a um doa portos do 
Cuango, que offereça maisvan- 



300 EZPEDIÇZO PORTUGUESA AO MUATIÂNYUA 

tageos para o aproveitamento doeste rio como yU de commu- 
nicaçlo^ 

Dizem 08 filhos do Landa: aci utuma, kaiaUpe mufUa cse 
mandas, nSo olhes no caminho (nSo esperes, segue) t^. É ama 
verdade esta, e qae devemos ter em vista, para nSo perder- 
mos os bens qae ainda nos restam. 

A agricultura do concelho, a grande agricultora, pode di- 
zer-se começou ha poucos annos em Culamuchito pelas plan- 
taçSes de canna saccharina, feitas pelo fisdlecido irmio de Cus- 
todio e de Saturnino Machado, e por outros. 

Depois seguiram-se as plantaçSes a £. e SE. da vílla, a 
contar de Catepa pelo Anjínji e de Qui^sole até ao Luzimbe, 
onde se estabeleceu o velho Callado, que tem sempre luctado 
com grandes difficuldades e casos de força maior, como ainda 
ha dois annos um incêndio devastador. 

Nos últimos cinco annos é que teve maior incremento essa 
promettedora industria, e neste período o agricultor José Vass, 
que constituíra uma propriedade com diversas fazendas de Am- 
baquistas e de indigenos, que por compra conseguiu reunir, 
pasBOu-a por 22:000|$000 réis a um infatigável trabalhador, 
António da Conceição Pinto, que desejava abandonar o com- 
mercio, onde não fôra infeliz, para se dedicar á agricultura. 
Em três annos este proprietário desenvolveu-a consideravel- 
mente, tendo cedido a parte que lhe ficava mais distante da 
residência a um outro, também arrojado trabalhador de ap- 
pellido Ferreira, que tratou logo de fazer uma grande derru- 
bada, encontrando por esta occasião, segundo elle disse, alguns 
pés de café. 

Narciso António Paschoal, que tinha uma pequena proprie- 
dade para recreio, junto do seu importante estabelecimento 
commercial, que era regada pelo rio Cuiji, tratou de a au- 
gmentar, fazendo acquisição da que pertencia ao seu vizinho 



1 O que equivale ao nosso proloquio : «Quem quer vae, quem n2o quer 
manda». 



DEÔCRIPylO DA VIAGEM 301 

Andrade, e ainda de outros terrenos comprados á Fazenda, e 
logo em seguida tratou de desenvolver as plantações. 

Custodio Machado, porque Culaniuchito lhe ficava um pouco 
distante, não abandonando a propriedade que ali tem, tratou 
de aproveitar a denominada Inveja, nas margens do rio de Ma- 
lanje, de que já falíamos, plantando ahi a canna saccharina. 

No Lombe desenvolveram-se também as propriedades agrí- 
colas de diversos indígenas, destaeando-se já entre ellas a de 
Macedo. 

A constituição doeste núcleo de maiores proprietários agri- 
colas do concelho é, pode dizer-se, de recente data, e elles 
não se poupam a cancciras nem a despêzas, e lá teem já in- 
stallado os engenhos indispensáveis e outras machinas de grande 
valor. 

Todos elles ainda o anno passado, com grande custo, esta- 
vam fazendo transportar do Dondo para Malanje, as pesadas 
peças de novas machinas, que da metrópole tinham chegado! 

Progrediram os trabalhos agrícolas de todas estas proprie- 
dades á custa dos maiores sacrificios que é possivel imaginar, 
e a colónia Esperança, com os grandes auxilies do governo 
provincial, extinguiu-se passados três annos da sua instituição! 

E o que é mais, todas as plantações que ahi se fizeram, 
vingaram ! 

A extiucçâo da colónia Esperança foi um passo precipitado, 
e não deve entrar em linha de conta para desacreditar a agri- 
cultura nesta região. 

As causas da sua extincção são as mesmas que já temos 
apontado por varias vezes: falta de conhecimentos da loca- 
lidade em que se estabeleceu a colónia, e não estar ella devi- 
damente preparada para receber europeus, embora fossem sen- 
tenceados ! 

Devia ella mudar talvez de local, pois não faltam no con- 
celho muitas outros em melhores condições de salubrídade e 
de mais fáceis communicações com a sua capital, mas nunca* 
extinguir-se, como se fez, com grande prejuizo dos valores 
que nella estavam empregados. 



302 EXPEDIÇXO FOBTDGUESA AO MUAHÂHVUA 

NÓ8, que tomámos a liberdade de apresentar ao faDecido 
Gh>vemador Eleuterio Dantas o projecto de orna colónia pe- 
nitenciaria agrícola, que mereceu a honra de ser mandado 
estudar por uma commissSo e se chegou a iniciar; nós, que 
solicitámos do Ex.°^ Conselheiro Júlio de Vilhena, no Jíít- 
nai das Colaniaê, a sua sabia apreciaçSo para um outro proje- 
cto mais desenvolvido, o qual era de dar execuçlo ao deter- 
minado pelo finado estadista Rebello da Silva sobre colónias 
penitenciarias no ultramar; nós, emfim, que louvámos a ini- 
ciativa do benemérito Governador Ferreira do Amaral, nlo 
podemos deixar de lamentar que S. £x/ nSo fosse compre- 
hendido e nSo tivesse encontrado os auxiliares que lhe eram 
indispensáveis para o proseguimento da empreza — o aprovei- 
tamento da actividade d 'essas numerosas levas de sentenceados, 
que todos os annos entram na provincia, em próprio beneficio 
d'elles, regenerando-os pelo trabalho; — e a do desenvolvimento 
da agricultura nas férteis regiões a leste de Malanje, que além 
dos proventos immediatos para estas em particular, e para a 
provincia em geral, serviria de incentivo paia a agricultura 
do gentio vizinho se tomar productiva, o que tudo redundaria 
em beneficio de Angola. 

O concelho de Malanje produz já, e quando se queira pro- 
duzirá em abundância, mandioca, o principal alimento do in- 
digena; d'ella se obtém tapioca, fíiba (amidon), pós para gom- 
ma e farinha; ginguba e gergelim, que também os indigenas 
comem e ofierecem ao commercio para exportação; algodão, 
que os indigenas fiam e tecem para redes, cintas, tangas, etc., 
e que sendo devidamente explorado, pode o commercio expor- 
tar, emquanto se não estabelecem fabricas de fiaçSLo, etc.; 
taho/co, que os indigenas remettem para o sertão e que o nosso 
commercio poderá exportar, quando se trate a serio do seu 
cultivo; canna sa^xharina, de que já se fabrica muito boa 
aguardente; arroz, de uma qualidade especial e que se pro- 
duz em terrenos secos ; mamona e purgueira, que se não pen- 
sou em exportar, por ser caro o seu transporte; emfim, café, mi- 
lhos, urticú, batatas, todas as qualidades àe feijão, grão, trigo. 



DESClílPÇAO DA VIAQKM 



3o;í 



cevada e aveia, todos as variedades de hortaliças, e cebolas, 
melancias, melSes, laranjas, limões, cidras, mangas, goiabas, 
jambos, netperas, maçãs, etc. 

£, fínalmeate, ha do concelho belliesimos pastos para gado, 
o qual está bem desenvolvido, e também nâo ha falta de sal para 
commercio eum o interior, e quando bera explorado, pode prea- 
cindir-se do que é importado da metrópole. 




À Sociedade de Geographia Commercial do Porto dizia a 
nossa Expedição, depois de conhecer a fertilidade de toda esta 
região até ao Cuango : 

• Em todft eets, kodu, de Mutanje ao Cuango, vive e pode trabalhar o 
europeu, tendo algumas commcdidades de que pode facilmente rodear-Bo; 
venham ellee, não como aventureiros, mas como colonos, com algum ca- 
pital buBCondo uma nova pátria, e coustruindo antes o Governo o cami- 
nho de ferro projectado, veremoB se uão se fazem boas e ricas pro- 
priedades. 

Á agricultura é que pertence clvllisar e cugraudecer a Africa. Em- 
quanto se peusar de modo diverso, havemos de continuar a ver dissipar 
valiosos capitães, e nSo passará nunca do que tem sido.» 




304 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

Quatro annos depois, quando nós vimos o estado florescente 
das propriedades que dâo canna saecharina, as qiiaes já produ- 
zem para o consumo ann uai mente mil pipas de aguardente ou 
mais, e que o caminho de ferro se está construindo, nâo podemos 
deixar de pedir aos poderes públicos — que protejam já, com 
as providencias que lhes é dado adoptar, o desenvolvimento 
da industria agricola, activando aquella construcção através 
d'esta região até ao Cuaníro e dotando este rio com barcos a 
vapor especiaes que difficultem a entrada dos álcoois estran- 
geiros que lhe fazem concorrência, libertando de impostos por 
um certo numero de annos tudo o que possa beneficiá-lo, como 
sâo instrumentos, utensílios, materiaes, machinas, etc. ; final- 
mente que promova francamente a colonisaçFio com indigenas 
de além do Cuango, para sanearem e prepararem as localida- 
des á melhor adaptação de colónias europeas agricolas, conve- 
nientemente dirigidas por indivíduos technicns e de confiança, 
pois só assim sé poderá tirar proveito das boas condições de 
solo e da abundância de agua que o rega. 

E isto sFio remédios a applicar de prompto, mas nXo é o suffi- 
ciente. O plano de providencias a adoptar deve ser muito mais 
lato, e deve ter em vista alimentar essa via forrea, cujos encar- 
gos sào de elevada importância, para salvar a província de 
Angola, pelo menos nesta regirio, que se estende 4 graus para 
norte, da derrocada que lhe está inimincnte, preparada pelas 
nações estrangeiras que mais temos beneficiado em Africa. 

Deve esse plano abranger. As formulas de administração mais 
consentâneas com a Índole e costumes dos diversos povos in- 
.dígonas que constituem a populaçFio do concelho, interessando 
nella quanto possível os chefes d'estes povos segando os seus 
usos, e nào indo de encontro a elles, na regeneração que se 
tenha em vista; o modo pratico de se utilísar o elemento in- 
dígena hoje despiezado, no aproveitamento do solo, com cul- 
turas de que tirem ímmediatos lucros na locíilidade ; o ensino 
profissional mais conveniente á aptidão dos indígenas que nelle 
se alistem de modo a estimulá-los na pratica e creando-Ihes 
necessidades ; compenetrá-los da necessidade de contribuir para 



desckipçao da viagem 305 

o estado, mas de modo a fazer-lhes ver, com melhoramentos 
palpáveis, que estes são applicadas com vantagens para todos 
isto é, ligando as suas povoações entre si por caminhos re- 
gulares , dirigindo-os na construcçào e disposições das suas 
habitações, embora com os recursos de que ainda hoje dispõem, 
a fim de pela sua forma e capacidade fazer mudar de aspecto 
as povoações, approximando-as do grau de aperfeiçoamento que 
podem ter; o estabelecimento era logar que, á condição de ser 
central, reúna as de maior salubridade, boa agua, fertilidade 
de solo e abundância de boas madeiras, — o que se dá nas 
proximidades da villa, — de imia quinta regional modelo, ex- 
plorada por europeus; e, finalmente, a creaçâo de companhias 
militares agrícolas em differentes pontos do concelho, devida- 
mente dotadas de aulas regimentaes, e a cargo das quaes 
ficaria a policia das estradas, o serviço de escoteiros, as dili- 
gencias do serviço publico nos limites dos seus districtos, 
etc, etc. 

O plano mais conducente, e de resultados práticos immedia- 
tos, ao aproveitamento d'e8ta vastissima regiào e dos seus po- 
vos deve ser desenvolvido em relação ao que conhecemos de 
Malanje ao Cuango, assumpto este de um novo capitulo. Tal 
como elle se nos afigura, apresentá-lo-hemos ainda neste pri- 
meiro volume da DescripçaO da viagem — que realisámos de 
Loanda á mussumba do Muatiânvua. 

Julgamos ter dito o sufficiente para que se conheça o que 
era Malanje, o que tem sido depois de 1843, o que é na actua- 
lidade, e o imminente perigo que corre de decair depois do 
desenvolvimento que attingiu, como succedeu a Ambaca e 
Pungo Andongo, porque o coramercio, confiando nos productos 
(marfim e borracha) que vinham do centro do continente, con- 
fiou demasiadamente numa base falsa e instável. Essas fontes 
dos dois únicos productos, embora valiosos, já estão, e mais cedo 
do que podia prever-se (aparte as blagues de mananciaes que 
esperam encontrar os que trabalham por i Iludir os protectores 
do novo Estado Independente do Congo), beneficiando as cor- 
rentes do commercio com as quaes já não podem competir as 



806 EZFEDIÇfo FOBTDODEEÁ ÁO HtÁTUHTIU 

de Mabmje, pelas muitas facilidades que aqoellas desfroctam. 
Eatas perennes fontes em breve desapparecerlo, como pri- 
meiro resultado das grandes emprezas das beneméritas asso- 
(úaçSes humanitárias dos £ns do século zn, qoe por ultimo 
parece querem completar a sua obra aniquilando a raça afri- 
cana a pretexto de regenerá-la; nem que o grande continente, 
onde ella se tem ãesenvolvido, possa ser desbravado somente 
pelas raças que superabundam nos outros e de onde diari*- 
mente se expatriam os seus filhos a procurar noras ternu onde 
melhor possam aproveitar a sua actividade. 




DESCRIPÇXO DA V1A0F,M 



UMA ELEIÇÃO EM AFRICA 




nu fatiar agora de uma eleíçSo 
de deputado para as cortes con- 
stituintes que haviam de refor- 
mar o código fundamental do 
paiz, outorgado pelo Imperador- 
soldado, e de onde dimana o con- 
juDcto de franquias que disfru- 
ctâmos. 

São convidadoa ob eleitores a 
lançarem o seu voto na uma que 
ost-i »obre uma mesa na secre- 
taria da admioistração do con- 
celho de Malanje, no domingo 
17 de agosto de 18lr!4. Feliz- 
mente a expedição allemSl já eatá longe e não assiste ao es- 
pectáculo. 

O corredor que dá accesso para a sala onde se vae consum- 
mar o acto está bem guoi-necída de garrafas e garrafões de 
aguardente, mas como ellea se despejavam com facilidade, a 
multidão, que se estende até ao largo em frente da fortaleza, 
de quando em quando tem de abrir passagem aos portadores, 
que continuadamente vSo e vem a substituir as vasilhas esgo- 
tadas pelas que voltam já cheias do fornecedor. 



k 



308 EXPEDIÇÃO POKTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

Logo de manhã a concorrência de eleitores para a forta- 
leza onde fluctua a bandeira bicolor, aíHue de todos os lados. 
Os eleitores ostentam nesse dia as suas melhores roupas; os 
que estão mais em contacto com o elemento civilisado, trajam 
ou sobrecasaca ou fraque preto, e os que nSo trazem chapéus 
altos de antigas eras vem com os de panno ou de palha que 
se usam só em dias festivos. Os sobas vestem saias de chita^ 
farda e as suas cajingas por elles mesmos tecidas e de diver- 
sas formas; outros^ emfim, de menos posses, trajam á europea, 
apresentando-se com as suas calças e casacos de riscados, ou 
se ainda andam ao uso gentílico, com os seus pannos de varia- 
das cores. 

Todos trazem na mão um papelinho, que supporemos ser 
antes um valle de aguardente, que uma lista para a eleição, 
porque o portador á entrada do mencionado corredor, apresen- 
tando-o, é logo contemplado com a competente medida cheia, 
que elle sorve de um trago, passando para a sala, onde o seu 
nome é descarregado, e o presidente da mesa eleitoral faz en- 
trar mais um voto na uma. 

São tantos os eleitores, que esta cerimonia, repetindo-se para 
cada um, faz com que a votação se prolongue por dois e três 
dias, e portanto, depois de fechadas as portas da secretaria do 
concelho, o chefe vê-se tão apoquentado com as exigências 
dos eleitores famintos pedindo de comer, que manda abater 
uma porção de gado vaccum para elles dividirem a carne entre 
si, e distribuir algumas cargas de fubá e mais garrafões da in- 
dispensável aguardente. 

Trata, pois, cada um de escolher local apropriado para os 
seus agazalhos e onde fazer as fogueiras, e depois de cozi- 
nharem a comida, comem, dançara e folgam, até altas horas 
da noite, cantando sempre e fazendo alIusSes ao acto e á bon- 
dade e liberalidade do chefe do concelho que os encheu a 
fartar. 

Isto repete-se dia e noite emquanto se não encerra o acto 
eleitoral. Mas depois de todas estas operações, o que tem mais 
graça é que suppondo-se que não ha um voto discordante da 



DESCBIPÇlo DA VUGEM 309 

vontade da mesa, nSo saccede assim. Apparecem nomes de 
dois e três candidatos votados, entre os quaes o que tem me- 
nor numero de votos tem-nos ainda assim em numero supe- 
rior ao dos concorrentes á uma; e ainda mais, as listas lá 
existem para o provar. Numa das eleiçSes anteriores, dizia- se, 
que havendo a mesa deliberado servir um amigo eleitor, com- 
promettido com um candidato a quem nSo podia deixar de sa- 
tisfazer, lhe acceitou de pancada um rolo com trezentas listas, 
muito bem acondicionadas e amarradas, mas receando que esse 
numero de votos fosse fazer mal ao candidato recommendado 
pela auctoridade, augmentou a esse candidato outros trezentos. 

Quando algum dos europeus ahi residentes pretende intervir 
nas eleições, ainda que nâo tenha poder para vencer as aucto- 
ridades, a lucta trava-se, e já tem tido consequências graves; 
por isso hoje absteem-se mesmo de lançarem o seu voto na 
urna. 

E fazem bem, porque o que se está praticando com o maior 
desassombro desacredita-nos énao civilisa os povos que preten- 
demos attrahir ao nosso convivio. Elles não imaginam o que 
representa o acto a que sSo chamados, e bom é que continuem 
a ignorá-lo. 

Dos poderes públicos solicitámos, porém, que se acabe com 
taes phantasmagorias; restrinjam-se os circules eleitoraes ás lo- 
calidades em que ha camarás municipaes eleitas, e seja só con- 
cedido o direito de votar áquelles que melhor podem compre- 
hender essa regalia. 

Façamos primeiro dos indígenas cidadSos, e depois convide- 
mol-os a gosar dos seus direitos logo que tenham a compre- 
hensâo do que elles valem. 

E chamámos-Ihe festa indigena, porque assim sSo todas as 
que vimos entre estes povos do concelho de Malanje. SSo reu- 
niões de homens e mulheres, pulando, dançando, berrando, 
com acompanhamento de instrumentos de pancadaria, marim- 
bas e também de algumas harmónicas, subindo de ponto a fes- 
tança e a alegria se teem bastante carne de vacca e abundân- 
cia de aguardente. 



310 



EXPBDIÇZO FOBTCTOtlEU JU> HDA-niHTUA 



SSo frequentes fe«taa ígnaes por occanSo de obitoa, oa qnando 
promoTid&B por comitivu de negocio, e ornas e outras sio fora 
do recinto da rills e aononciadas por descargas continuadas 
de fuzilaria. 




DESCRIPÇAO DA VIAGEM 



DIFFICULDADES COM CAKREGADORES 




312 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÂKVUA 

mai^em do Luf, onde se devia montar a terceira. Havia, pois, 
toda a conveniência em não aecumular mais cargas na segun- 
da. Era preciso avançar, ainda que fosse a pouco e pouco, e 
sendo assim estudava-se toda a região e os povos no nosso 
percurso, como se tinha feito em Malanje e seus arredores. 

Pela serie de documentos que reproduzimos se fará idea, 
não só dos trabalhos já emprehendidos e cujo resultado foi 
enviado ao Ministério dos negócios da marinha e ultramar, 
mas ainda dos esforços em vão empregados, para 0]*ganÍ8ar um 
pessoal de carregadores para trezentas e vinte cargas, sendo 
mais de vinte para dois homens, devendo notar- se que a maior 
parte das cargas tiveram de ser reduzidas no Dondo e em Ma- 
lanje, a menor peso e volume. 

As difficuldades de arranjar carregadores e de modificar as 
cargas são assumptos já tão conhecidos e bem descriptos pe- 
los exploradores africanos, que entrar nelles seria repetir, com 
differenças insignificantes, o mesmo que está dito, e por isso 
julgámos ser sufficiente transcrever parte da nossa correspon- 
dência com as diversas auctoridades, e com os negociantes que 
procuraram auxiliar-nos. 

Com respeito a pagamentos ao pessoal é que julgámos con- 
veniente prestar esclarecimentos nesta occasião, porque é mui 
diverso o modo de o fazer á medida que nos vamos internando 
no seio do continente. 

O commercio, a partir do Dondo, tem conseguido manter 
uma taxa invariável de pagamento para o transporte de uma 
carga, cujo peso em media regula por 100 libras; porém, sub- 
entende-se que essa carga é divisivel, e se o não for, que pode 
ser transportada por dois e ás vezes mais homens. 

Ora isto pode fazer- se de concelho para concelho, porque os 
caminhos são regulares e teem a largura sufficiente, mas já não 
se dá o mesmo além de Malanje, em que os caminhos são tri- 
lhos e mais ou menos entre florestas. 

Se as cargas são divisíveis, como fardos, barris de pólvora, 
espingardas, etc, escusado é o negociante acondicionar estes 
objectos em uma carga devidamente enfardada e protegida con- 



DESCKIPÇlO DA VIAGEM 313 

• 

tra as intempéries que teem de sofirer nas jornadas, porque 
passando para as mãos dos carregadores e fora das vistas de 
quem lh'a confiou, é logo a carga dividida por diversos e acon- 
dicionada a seu U90 nas suas muhambas ou canastras juntamente 
com os artigos que lhes são indispensáveis, como pannos, es- 
teiraSy panellas, etc., e também carne, peixe, mandioca, milho, 
bananas e outros géneros para a sua alimentação. 

Mas o pagamento no interior da provincia não variou, sendo 
certo que os carregadores inculcados pelo soba que é freguez 
de uma casa, raras vezes deixam de apresentar os objectos con- 
stantes das cargas que lhes foram confiados. 

O pagamento é feito por peças de fazenda, e estas podem 
ser trocadas na equivalência já estabelecida pelos artigos de 
negocio que mais lhes convenha. A peça actualmente tem um 
certo numero de dobras, uma imidade inferior á jarda e o car- 
regador da provincia, nos seus fretes dentro d'ella, acceita essa 
unidade, porém os que se destinam para além de Malanje já 
nSo a acceitam, e a pratica mostrou-nos que nfto podem nem 
devem já acceitá-la. 

A unidade de medida que aquelles exigem, é inferior ainda 
assim, á que pretendem os Bângalas e Lundas, e principal- 
mente os Quiôcos. E igual á adoptada pelos povos do Lui e 
margens do Cuango, vizinhos ao norte de Tala Mugongo. £ 
medida que varia segundo o comprimento do braço do indiví- 
duo que mede, e que ha de ser igual á extensão contada do 
meio do peito até ao extremo da mão, tendo o braço direito 
estendido para o lado. Duas medidas d'estas fazem um heirame, 
quatro uma divunga (um panno) e dois pannos uma peça. 

Esta peça, que teiQ, portanto oito d^aquellas unidades, é su- 
perior á do commercio na provincia de 1™,60 ou mais, proxi- 
mamente três das suas dobras. 

Ora se o explorador, viajante ou negociante apenas tem o 
trabalho de formular uma tabeliã de novas unidades no local 
em que faz o seu fornecimento, e pagar nessa conformidade, 
tem depois de calcular o seu fornecimento, partindo doestas ba- 
ses, não como o commercio as proporciona, mas contando sem- 



314 



KXPEOrçÀO POKTDOUKK^ AO MITATIÍNVrA 



pre com um excesso de fazenda para as differenças que vae en- 
contrar á medida que se afasta para o centro do cootiiiente, e 
muito principalmente se for negociar. Destas variantes resulta 
a necessidade de maior numero de cargas e por eonseguiate 
de bocas, c cada uuia come, não o que ee pensa equivalente 
a duas das tacs dobras ein três dias, mas, pelo menos, uma em 
cada d)i\, diíFcrença qne numa viagem longa é importante. 

E fique-ae certo que a 
raçSo de uma dobra por 
dia é muito pouco, como 
provaremos por vezes no 
decurso da nossa uarra- 
ç&o, e o resultado são os 
furtos que se fazem aos 
fardos, cargas de missanga 
e pólvora, em quitntidadea 
insignificantes, que se co- 
nhece ser para comprar 
de comer, mas que feitoa 
por varias vezes e por di- 
versos, avolumam oe dos- , 
falques. 

Ha v Íamos estabelecido 
em Matanje para os nossos 
pagamentos as seguintes 
equivalências, adoptando 
pai-a base o bando, a uni- 
dade da medida de fazenda, já indicada pelos carregadores 
contratados : 

8 batidos (peça) de algodSo 1 :000 taxas amarellaa 

6 ditOK de riscado de segunda qualidade 1*> biindoB de algodão 

8 ditos de riscada de priDieirUi qualidade 2i 

8 ditOB de chita de segunda qualidade 'H 

8 ditus de cLita de primeira qualidade -I^ 

1 espingarda lazarina '2ii 

1 barril de pólvora (peso, 1 lli.) 12 

1 chapelUnho de sol 6 




DESCRIPÇZO DA VIAOEH 315 

4 canecas ou pratos ordinários 8 bandos de algodão 

3 macetes de Cassungo 8 

1 macete de missanga Maria II 8 » » 

1 braça de baeta 4 

4 lenços grandes 8 

6 ditos pequenos 8 



» m » 

m 
» » » 

» B 9 



» » m 



Com respeito aos outros artigos, era pelos preços da factura 
que se regulava a equivalência. 

Também estabelecemos a equivalência dos nossos artigos 
com os productos — marfim, cera e borracha, calculando estes 
pelos seus últimos preços nos mercados da Europa, assim, con- 
tando com fretes, impostos, etc, tinhamos: 

Borracha (peso, 3 Ib.) 8 bandos de algodfto 

Cera (peso, 10 Ib.) 8 » » • 

Marfim de lei (peso, 1 Ib.) 12 » » » 

Dito meão (peso, 1 Ib.) 10 

Dito inferior (peso, 1 Ib.) 6 » » 



» 



Mas esta tabeliã, que até ao Cuango foi bem acceite, teve 
de ser muito modificada depois entre os diversos povos com 
que estivemos em contacto, havendo differenças para mais e 
para menos. 

Em Malanje mesmo, salvo o que já está dito com respeito 
a dobras, innovaçâo de ha dez annos a esta parte, as equiva- 
lências diíFerem segundo as casas commerciaes e os emprega- 
dos das mesmas casas, e isto é tão conhecido pelo negociador, 
mesmo gentio, que se toma curiosa a exigência doestes, em só 
fazerem o seu negocio com o dono ou quem representa de dono 
do estabelecimento, e mui principalmente se é europeu, em- 
bora os empregados de balcão também o sejam. 

Entre elles supp3e-se que o primeiro, o mais velho, como 
elles dizem, aquelle a quem todos obedecem, é sempre mais 
benigno, mais resignado, dotado de mais perspicácia e que 
lhes fará mais concessões e os tratará m*hor, predicados es- 
tes que crêem os seus potentados possuem, e por isso pre- 



316 BZPBDIÇZO POBT0OUB8A AO MUnlHVUA 

fisrem tratar com os donos. Ainda mais^ o negodadorgentío at-' 
tribae a si uma qualidade que o distingue entre os seus, e na 
própria comitiva de que fiiça parte é mais considerado o que 
tnuB maior commercio. Costumados ao estado de humilhaçSo em 
que vivemi quando chegam i posiçSo de negociar por sua conta, 
fora de suas terras, procuram sempre relaçSes com os indivi- 
dues de mais elevada posiçSo ni^f terras por onde passam, e 
isto explica também em terras portuguesas a consideraçXo que 
desejam de egual para egual, com os proprietários dos esta- 
belecimentos commerciaes. 

^ Esta praxe mantem-se da parte do nosso commercio^ pela 
conveniência em se nSo perder a fregueziai e muitas veses 
succede estar o proprietário, ou quem o representa, entretido 
com serviços que lhe sSo especiaes, inclusive fazendo a cor- 
respondência ou mesmo escripturaçSo da casa, e deixar tudo 
para ir attender ao negociador que reclama a sua presença. 

E d'Í8to se tira um bom partido, porque estabelecida uma 
larga margem para descontos nas transacções, ás vezes por 
uma troca de artigos, umas certas concessSes, se compensam 
os beneficios que lhe proporcionava o empregado de balcSo, e 
com que o negociador se não conformava. 

A casa lucrou e o freguèz ficou satisfeito, na supposiçSo que 
ia muito mais bem servido, por ter feito o negocio com o dono 
do estabelecimento a quem se dirigia, e do que se ufana entre 
os seus, dizendo: — Fiz o negocio com o meu amigo. 

Comnosco deu-se este caso: 

Indo a caminho da Estação 24 de Julho, veiu ao nosso en- 
contro o chefe de uma comitiva de Lundas que seguia para 
Malanje, com negocio, e apresentou-nos um bilhete do chefe 
da expedição allemã, que no-lo recommendava como Cacuata 
do Muatiânvua. Pedia o protegêssemos no negocio que pre- 
tendia fazer, ficando á nossa disposição para nos acompanhar 
á mussumba, podendo os seus rapazes transportar alguma carga. 
O Cacuata, de queni teremos ainda de fallar, porque repre- 
senta um papel no decRrer da nossa missão, chamava-se Tambu 
(Leão), e repetiu-nos o que o bilhete dizia. 



DESCRIPÇAO DA VUOEM 317 

Recommendámo-lo para Malanje, porém elle nSo quiz fazer 
negocio emquanto ahi nSLo chegámos. 

Procurou-nos depois para intervirmos em seu favor, dizen- 
do-nos: —Vós representaes Muene Piíto, eu represento Mua- 
tiânvua; nas nossas terras, quando um filho de Muene Puto 
quer fazer negocio^ o Muatiânvua assiste para elle não ser rou- 
bado; venho pois rogar-vos para assistirdes ao negocio que es- 
tou fazendo da ponta de marfim que trouxe; eu vim recom^- 
mendado a Muene Puto pelo seu filho inguerês, e por isso, sem 
a presença de Muene Puto nâo faço negocio, vou-me embora. 

Lembrando-nos que a Expedição, protegendo esta comitiva, 
tinha a lucrar, pelo menos podia o Cacuata aplanar alguma 
difficuldade com carregadores, e mesmo ser-nos útil no tran- 
sito, falíamos ao negociante na casa de quem elle estava alo- 
jado e que sabia da insistência do Cacuata, em fazer negocio 
com a Expedição e depois em que interviessemos, protegen- 
do-o, na casa em que se resolvera fazê-lo, o qual nos disse 
ficar satisfeito com a ponta, acceitando o dono três peças de 
lei por cada libra de peso (peça equivalente a 8 jardas de al- 
godão). 

Tratei, pois, do ajuste com o Cacuata, offerecendo-lhe duas 
peças por cada libra de peso que tivesse o dente. Os empre- 
gados da casa todo o dia levaram em discussão com elle, não 
obstante a resolução do patrão, e acabou-se por nesse dia lhe 
darem sessenta e oito búzios, que representavam o peso em li- 
bras a que tinham chegado. 

No dia immediato a toda a pressa chamou-nos o Cacuata, par- 
ticipando que só lhe queriam dar trinta e quatro peças! 

De facto sobre o balcão é o que estava, porém como o em- 
pregado realmente dizia que a pesagem tinha sido de 68 li- 
bras, e estávamos auctorisados pelo patrão a dar-lhe três peças 
por cada libra, e havíamos contratado por duas, entendemos 
conveniente evitar polemicas, e apenas dissemos ao empregado 
do pagamento: — Vejo que o Sr. se enganou, porque em vez 
de multiplicar por 2 o numero de libras, que são os búzios que 
hontem lhe deu, dividiu, e por isso o homem se queixou com 



318 EXPEDIÇIO PORtUOUEZÁ ÁO MUÁTIÂNVUÁ 

rasSo ! — O empregado mostrou- se surprehendido, e sorriu-se, di- 
zendo: — É verdade, onde eu tinba a cabeça! — E á minha 
vista se fez o pagamento integral. 

Pediu o homem o molufo de quitanda, e como o pagamento 
auctorisado era de mais 68 peças^ conseguimos se lhe dessem 
mais 6 peças, e ainda houve um lucro real, para o que o ne- 
gociante offerecia, de 62 peças, fora o que elle já entendia lu- 
crar pelo preço por que fazia sair do estabelecimento a sua fa- 
zenda. 

O Cacuata ficou satisfeito, o negociante lucrou e o empregado 
na balança e nas equivalências também não deixou de ganhar! 

O interprete de que nos servimos para nos entendermos com 
o Cacuata, e que estava em ajuste comnosco para fazer parte 
da Expedição á Lunda, e a quem no ajuste das equivalências 
tivemos de mandar indagar por ultimo, de uma nova queixa 
do Cacuata, disse-nos: — A diflFerença era de uma peça, que o 
empregado também pagou ; porém estes rapazes de Malanje 
n&o sabem fazer negocio com o gentio, elle hontem só devia 
ter accusado metade do peso que lhe dava a balança e dar-lhe 
os 68 búzios como peças a receber, e nXo como libras de pe- 
sagem. 

E assim que nós fazemos no mato, porque a outra metade 
é para folga de presentes, mata-bichos e outros prejuizos. 

Ouvindo tal declaração desesperámo-nos, e dissemos-lhe : — 
E por isso que se diz que o commercio foge da província ; já 
sabiamos de três modos de defraudarem esta pobre gente, e 
vocemecê ensina-nos agora mais um. Fez vocemecê parte de 
uma exploração allemã, e é por isto que Portugal é accusado 
pelos estrangeiros. Que culpa tem a nação que vocemecês se 
vangloriem de explorar os seus semelhantes, roubando-lhes o 
melhor do seu trabalho. Quando elles se dirigirem para os 
estabelecimentos estrangeiros, que na provincia se vão intro- 
duzindo, queixem-se então que isto está abandonado, que seus 
patr5es já não fazem commercio e que só o caminho de ferro 
pode salvar a provincia ! Os senhores indigenas afastam d'aqui 
o commercio, e para que querem o caminho de ferro? Se ten- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 



319 



cioDava ir na nossa companhia para a Lunda, nessa dísposiçiSo 
escusa de ir, porque negócios que \á bc íaçam liSo do ser 
pagos religiosamente. Estiveram aqui seis mezes os allemSes, 
e ainda aqui ficou um negociante vendo as falcatruas que vo- 
cemecês fazem, e nas notas d'elle não é o nome de seus pa- 
trícios que se encontra, v sim o docommercio portuguez de 
Malanje. 

— Diga-me, que culpa 
tem o dono d'aquel]a casa, 
que o empregado seu patrí- 
cio tenha procurado arran- 
car ao Cacuata um certo 
numero de peças? Nuo era 
para o patrSo que elle que- 
ria aquelle lucro, e, ámanhS 
o nome do patrilo é que 
apparecia na bocca de to- 
doa. 

Tem rasSo, — nos diz 
elle — ; nós somos una igno- 
rantes e devemos ser dea- 
culpadoB. 

— PoiB como VOCemecê m*«iu. im QUiuavEDol 

entra no numero doa igno- con-^gador 

rantes, trato de procurar 

outra vida, que cumnosco já nilo vae. 

A propósito d'eate caso dizíamos nds ao Qovcrno: 

nE tuilo falaidutle, tudo fingioientoa, tudo leviandades, para Ibe nSo 
darmoEioutroDome.de que estão usando os iudigenas que bc intitulam em- 
pregados do comini-rcio, e meemo os ouropcus de rupiitação duvidosa, de 
quem oa estabeleoimeutos commerciaes d aíjiti tepm do laoçar mSo para ob 
Buaa casas filiaea, e mesmo para o baleio das próprios estabelecimentos, 
i falta de melhor. É já liabito inveterado cá nestes contíns da provín- 
cia, e por isso nilo se estranhe que úinanhS se diga qiic o commercio é 
nma burla, um que todos os seus agentes poiRam em se tornar mais dis- 
tincloH, comprometendo asaim aa firmas que nellea tcem de confiar, por- 
que já se assevera que o pouco negocio que o gentio traz, segue de prefe- 




k 



320 



EXFEDIÇXO POBTUODEU AO MUATIÍHTDA 



renda pára ontroi concelhoa; tendo certo que m eomitivu de Bingalaa 
e Lundu qne por aqniveem, por ímo memo leram diaa, e atá aomaiua, 
antea de começarem a &2er transacções. 

Acha-M agora neata villa nm eommtseionado de orna caaa de Uan- 
clieater, com o propósito de conhecer como se &b aqoí o oommerdo ; e 
é de crer qne este individao, qaando regresse, e em Tirtnde do que fica 
exposto, nem ponpe mesmo a casa em qne, dmrante meses, tem tido unta 
franca hospitalidade ; e assim como Cameron fei recair na Naçio Por- 
tagneia o qna achon de repngnante e odioso no preto Ctúmbra, porqne 
eate preto se lhe apresenton coroo cidadSo portugnei, aesún se piocu* 
lari desacreditar o commercío portognes, tomando-se os empregadoa on 
serrentea pelo patrSes.* 




DESCftlFÇAO DA VUOEM 



PROTESTO CONTRA AS INFOEMAÇÕBS DE WISSMANN 




«maÍB poderiamos saj^r es- 
crevendo o qae deiz&mos ex- 
posto, que seria o tenente 
WiftBmann, quatro auDOS de- 
pois, qoe no livro em que dá 
conta da sua exploração, fi- 
zesse a, mais injosta censura 
aos negociantes portuguezes 
de Malanje, que sem a mais 
pequena garantia por vezes 
lhe honraram OB seus saques, 
icerca dos quaes sempre se 
estabeleceram duvidas e de- 
longas noB pagamentos, 

O arrojado explorador, que 
pela segunda vez entrava no 
coraçlo da Africa por Malanje, onde se demorou eutSo seis me- 
zes, mantendo as mais estreitas relaçSes com os negociantes 
portuguezes, bem sabe que ha a distinguir no commercio os 
agentes ou aviados e caixeiros, dos negociantes ou seus repre- 
sentantes á testa dos estabelecimentos que ahi conheceu; e 
também, as medidas lineares e de peso estabelecidas por essas 
casas commerciaes em relaçílo ás exigências dos negociantes 
gentios, d'aquillo que se deve considerar buria ou logros usa- 
dos por aquellcs agentes. 



322 £XPEDIÇ!0 PORTUOUEZA ÁO MUÁTIINVUÁ 

Que importa ao gentio a denominaçSo de jarda dada a uma 
medida que varia de O^^GO a 1™,30, e de arroba a um peso que 
varia de 30 a 50 e mesmo GO libras, se tudo é uma convea- 
çSo de interesses reciprocos? • 

Comprehende o gentio que uma chita de superior qualidade, 
de 200, 300 ou 400 réis o metro se não pode transaccionar 
pela mesma quantidade de borracba que uma outra de infe- 
rior qualidade, de 70 a 150 réis o metro? E da mesma sorte 
08 algodSes e riscados? Conhece elle que a qualidade é melhor, 
que a largura é maior, que as cores e os padrões lhe agradam 
mais á vista, mas ignora o seu custo e os impostos aduanei- 
ros que sobre esses artigos pesara; cobiçou-os e não quer pa- 
gar mais do que sempre pagou por igual quantidade de fa- 
zenda. 

O illustrado explorador, que conhece perfeitamente o modo 
de negociar do gentio, ignora porventura que as bolas de bor- 
racha apresentadas actualmente por elles, tendo diminuido de 
volume, não diminuiram de peso, pelas impurezas com que as 
enchem ? 

E depois não devemos esquecer que não tratamos de igual 
para igual, entre indivíduos civilisados, em que se fixa e se 
observa uma tabeliã de equivalências para a transacção de pro- 
ductos; aqui tudo é muito variável. Para o commerciante ci- 
vilisado ha a attender nas transacções, em relação aos seus 
artigos — ás variações de fretes mari timos, dos transportes ter- 
restres, ainda ás costas dos homens, impostos aduaneiros, cama- 
rários e outros; nos productos naturaes a negociar — aos preços 
nos mercados da Europa, e para lá chegarem, aos mesmos ónus 
que tiveram os primeiros, e ainda o que é peor, a attender á 
qualidade d'esses géneros e exigências do gentio que os vende. 
O gentio porém só tem a attender á sua cobiça, porque imagi- 
nou que a sua carga lhe ha de dar um certo numero de arti- 
gos, e tudo quanto obtenha a mais sao favores do seu amigo. 
Mas é preciso que se saiba que elle regula-se pelo numero de 
bolas de borracha e dimensSes do marfim, e serve-se de arti- 
manhas para augmentar o seu peso. 



DESCRIPv!0 DA VIAGEM 323 

Como dissemoB, também em principio nos impressionou des- 
agradavelmente o modo por que se fazia negocio em Malanje; 
tudo nos parecia muito irregular, e o que considerámos burla 
e expoliações dos aviados e casas destacadas pelos caminhos 
no sertão, já fora das vistas das nossas auctoridades, por algum 
tempo suppozemos ter a approvação do commercio ; mas nSo 
é assim, vá a censura a quem a merece. Estes aviados e casas 
trabalham para interesse próprio; de commum com os estabele- 
cimentos de Malanje só teem o serem seus devedores, e mesmo 
se alguma d^essas casas gira sob firma associada com a de um 
capitalista, este nada tem com a gerência dos negócios. 

Que as levas de gentio ou comitivas que trazem negocio do 
interior fujam doestes aviados ou casas e venham a Malanje, 
perfeitamente de accordo com o explorador Wissmann, mas 
que fujam de Malanje, pelo mesmo motivo, para os concelhos 
mais a oeste, é um engano, foi mal informado, é desconhecer 
08 usos antigos. As que seguem são geralmente as antigas co- 
mitivas, já afreguezadas em estabelecimentos de outros conce- 
lhos, ou pelos motivos que já expozemos, tratando do com- 
mercio de Malanje. 

O illustre explorador devia dizer-nos a que chama commer- 
cio portuguez, para não confundir no seu embroglio os homens 
que lhe franquearam os seus estabelecimentos a toda a hora, e 
que sempre encontrou dispostos a auxiliarem no nas duas epo- 
chás que foi a Malanje organisar as suas expediçSes para o seio 
do continente e lhe forneceram os créditos que levantou, sem 
garantias nem limites. De certo esses fornecimentos nem esti- 
veram sujeitos á pesagem das taes balanças mancas, nem a 
medidas diversas das indicadas nas marcas. 

O modo de pensar do arrojado viajante é que variou; en- 
tão era o explorador scientifico que ia continuar a obra 
encetada na sua primeira e gloriosa travessia, e assim que che- 
gou ao seu amigo Muquengue, como teve a noticia que o ima- 
ginário estado de Stanley se tomara uma realidade, olfere- 
ceu-lhe pela sua parte as terras doeste potentado, que bem o 
recebia; era preciso também agradar-lhe dizendo mal do com- 



324 EXPEDiçXo portuguezá ao muáttânvuá 

mercio portuguez de Malanje, sem o qual nunca teria chegado 
ao Muquengue, nem a fazer ao Estado a cessão de territórios, 
como se fosse cousa sua, cessão de que os proprietários não 
teem conbecimento, pois continuam vivendo na idea de què 
Muene Puto manda para lá seus filhos para negociarem, e que 
os barcos a vapor, que navegam nos seus rios, chegam das ter- 
ras do Muene Puto para serviço d^elles. 

Se os filhos de Angola que estão nas terras de Muquengue 
retirarem, quando as fontes de marfim e borracha se extingui- 
rem, o que não tardará muito, então reconhecerá o Muquengue 
e os seus como foram illudidos com a administração benéfica 
do Estado Independente! 

O modesto e mui esclarecido explorador, Dr. Max Bôchner, 
calculou que o lucrativo commercio de marfim e caoutchouc 
não podia durar mais que cincoenta annos, e que seria muito 
mais proficuo fazer trabalhar os indigenas nas plantações de 
baunilha, cacau, quina, etc. E nós vamos mais longe; os de- 
voradores do Estado Independente, que já nem se dão ao tra- 
balho de construir casas, e fazem o negocio mesmo a bordo 
dos seus vapores, consumirão estes productos em cinco annos, 
e com essa extincção cessará o seu philanthropico afan pelo 
aproveitamento das forças activas, que até então reconheciam 
no preto. 

Depois repetirão o mesmo que muitos beneméritos explora- 
dores africanos já disseram, que os pretos não são suscepti- 
veis de passar o nivel da vida de tribu, e deixá-los-hão em 
uma situação muito mais desgraçada do que aquella em que os 
encontraram. Mas, quem sobreviver a esse abandono, verá o 
resto. A região central de Africa tem necessariamente de pas- 
sar por uma grande transformação, e nós, Portuguezes, que 
assistimos impassiveis ao rápido caminhar para essa transfor- 
mação, e que primeiro sentiremos o seu embate no oriente e 
no occidente, nao contemos com o auxilio estranho para resis- 
tirmos ás incursões d 'esses povos. Se taes incursões se rea- 
lisarem, teremos de confiar nos próprios recursos, e com elles 
nos devemos ir preparando. 



DESCRIPÇlO DÁ VIAGEM 325 

■ ^— — ^^^— -^^^^ — ^,^.^^■^■1^^— ^^^— ^i»^^— ^—^«^ 

Mas deixemos este incidente, a que fomos levados pelo livro 
recente do explorador Wissmann, e nSo nos precipitemos em 
considerações que nos suggerem os acontecimentos além do 
Cuango. E como os documentos que em seguida transcrevemos 
dizem o bastante sobre os trabalhos da Expedição em Malanje, 
que possam não ter sido sufficientemente esclarecidos no texto, 
ó tempo de encerrarmos este capitulo. 

Officio do Chefe ao Ajudante da Expedição. 

IH."*'* sr. — Participando-me V. S.* na sua commanicação recebida hon- 
tem 23, que em 30 do corrente, se achará prompto a partir com a pri- 
meira parte da Expedição para Quibutamêna, margem direita do Luí, 
onde projectei estabelecer a Estação Paiva de Andrada; e sendo 
certo que são o mais amigáveis possiveis as relações dos povos visinhos 
com a nossa Estação Ferreira do Amaral, e estando essa Estação con- 
cloida e preparada a receber o resto das cargas, e considerando sobre- 
tudo que é da máxima conveniência transportar todas as nossas cargas 
o mais breve possivel e com a segurança com que o temos feito, até ao 
Cuango ; realizei hontem mesmo os contractos com o pessoal indispen- 
sável para transporte das ultimas cargas que chegaram de Cazengo e 
que seguem hoje com o empregado Augusto. Pelos contratos deve esta 
comitiva abi cbegar na manhã de 30, o mais tardar. 

O empregado se, porventura, ainda encontrar algumas cargas na Esta- 
ção 24 de Julho, leva instrucções para obter do Andala Quinguangua os 
carregadores necessários para se fazer também acompanhar d^essa car- 
gas e o empregado Machado que ali está, depois de entregue a Estação 
á pessoa por mim indicada, seguirá já para a que se vae construir na 
margem do Lui. 

As cargas que d*aqui vão são trinta e seis, e entre ellas, achará Y. S.* 
quatro barracas de campanha que certamente lhe serão precisas. 

A passagem do rio Lui, é de pequena importância e fíii informado que 
n'este tempo se atravessa muito bem a vau e por isso não Ih^ fará fdta 
por ora o nosso barco, que irá na viagem seguinte. 

Na Estação Paiva de Andrada aguardará o Sr. Ajudante a minha che- 
gada, que espero não excederá quinze dias depois da sua entrada em 
Quibutamêna, porque acompanhando-me o Cacuata Tambu do Muatiân- 
Yua, parece-me já conveniente ir reconhecer o porto onde elle passou o 
Cuango, que diz ser alguns kilometros mais a sul do porto de Muêto 
Anguinbo do nosso primeiro projecto. 

O empregado leva os medicamentos que o Sr. Ajudante requisitou e 



326 EXPEDIÇXO PORTUGUBZA ÁO MUÁTIÂNVnÁ 

também sal para os nossos contratados, mas por esta occasiSo lembro- 
lhe que este sal é das margens do Luí para onde vão, e esses homens 
têem direito ao pagamento das rações na espécie corrente e nio em gé- 
neros, e se estes lhes tem sido fornecidos, foi na supposição de que os 
povos por onde têem transitado se recusavam a vender- lhe géneros por 
não gostarem da nossa occupaçSo como os novelleiros aqui fizeram apre- 
goar sem fundamento, como hoje podemos affirmar, e ainda por suppor- 
mos que em alguns pontos não existiriam géneros ; porém agora o Sr. 
Ajudante, bem como eu, conhece que todas as nossas apprehensòes estão 
completamente desvanecidas pela pratica, e que é mesmo bom que a 
nossa gente se costume a comprar sal aos vendilhões do Lui e com elles 
estabeleça mesmo relações de amisade para não nos temerem, e que 
saiba dar ao sal o devido valor para o pouparem alem do Cuango pois 
que só ás rações e mui escassas o poderão ter. 

Os carregadores que d'aqui partem, vão pagos de vencimentos e ra- 
ções até ao Luí, e por isso, caso não tenha podido arranjar todos os car- 
regadores que lhe são indispensáveis, para a conducção das suas baga- 
gens, rancho e outros artigos que tem de o acompanhar, fará substituir 
as cargas que levam pelas que julgar de mais urgente necessidade fazer 
já transportar. 

O Sr. Ajudante não deixará de conhecer, quanto tem sido útil o modo 
por que vamos avançando, ainda que lentamente ; pois que alem dos po- 
vos já nos estimarem e se congratularem quando qualquer individuo da 
Expedição passa pelas suas povoações, tem havido a vantagem de não 
estarmos inactivos e de podermos dar cumprimento a uma parte impor- 
tante da nossa missão, fazendo estudos que vão sendo remettidos ao Mi- 
nistério da Marinha e Ultramar, estabelecendo estações, como nos foi 
muito particularmente recommendado, nos pontos onde o commercio se 
não fazia senão entre indígenas, tornando- se as vizinhanças d'essas es- 
tações povoadas de gentios que vem do interior com negocio, consti- 
tuindo ellas verdadeiros centros das suas transações. E de esperar que 
os gentios quando se convençam que não ha pensamento reservado de 
os hostilisar foimem ahi centros de população importantes, o que por 
certo, será agradável ao governo de Sua Magestade. 

Cumprimos o que nos fora prescripto e os que depois de nós vierem, 
por certo nos imitarão. 

Por ultimo só me resta mais uma vez lembrar ao Sr. Ajudante que o 
nosso empenho deve ser seguirmos sempre as instrucções que recebemos ; 
e que bem com a nossa consciência, o governo e o paiz jamais olvidarão 
os serviços que vamos prestando. 

Malanje, 24 de julho de 1884. — III."*» sr. capitão M. S. d' Almeida 
Aguiar, ajudante da Expedição. = O chefe da Expedição, Henrique de 
Carvalho. 



DERCKIPÇXO DA VTAOEM 327 

Ao Secretario da Sociedade de Geographia de Lisboa. 

111."» e Ex.™o Sr.— Ao favor do nosso estimado consócio Castodio José 
de Sousa Machado, devo a inclusa copia de uma carta que sen irmão Sa- 
turnino lhe dirigiu das margens do Cuango e que me pareceu de todo o 
interesse para o archivo da nossa Sociedade ; sendo de nâo menos im- 
portância para a minha Expedição, pois que de algum modo influiu para 
alterar o itinerário que havia projectado seguir d'aqui para o interior 
do Continente. 

Não me sendo possivel ser táo extenso quanto desejava, porque preciso 
terminar a minha correspondência que deve ser expedida hoje mesmo 
para Loanda a fim de seguir para a metrópole no paquete de lõ do pró- 
ximo mez, limito-me a dizer a Y. Ex.* e á Sociedade, que a S. Ex.* o mi- 
nistro, justifico as rasoes por que abandono o itinerário por Quimbundo, 
e faço seguir a nossa ExpediçAo para o rio Cuango, pelo caminho per- 
corrido pela expedição dos irmãos Machados & Lopes de Carvalho, no 
intuito de o assegurar ao commercio pelo menos emquanto os Bangftlas 
subordinados ao Jaga de Cassanje não entrem na ordem e se sujeitem á 
obediência que devem á auctoridade por nós reconhecida. 

De accordo com o referido consócio Custodio José de Sousa Machado, 
estamos estabelecendo n*esse caminho estações commerciaei^ e hospi- 
taleiras. 

Nós já montámos a primeira — 24 de Julho — em Andála Quinguangua 
a uns 60 kilometros a ENE. de Malanje e passados poucos dias espero 
se montará a segunda em Cafuxi junto ao rio Luhanda na vizinhança 
de Andála Quissúa, e uma comitiva de Machado, já seguiu com um seu 
delegado, a montar uma casa filial na margem direita do Cuango. As 
instrucçoes que o negociante Machado confiou ao gerente doesse estabe- 
lecimento foram por mim enviadas por copia a S. Ex.* o ministro e estão 
elaboradas em harmonia com o que se recommenda nas minhas instruc- 
çoes. 

A Expedição allemã com a qual durante quinze dias, mantivemos aqui 
as mais cordiaes relações, e que chegara a Malanje ha seis mezes, foi 
recebida na nossa primeira Estação, onde viu já sessenta cargas em 
preparativo de marcha para o interior. 

Vamos devagar, é verdade, mas parece-me ser este o systema mais 
seguro aproveitando- se bem os poucos carregadores que nos tem sido 
possivel arranjar. 

Rogo a y. Ex.*, se digne apresentar os meus sinceros protestos de 
dedicação, á nossa Sociedade. 

Deus Guarde a V. Ex.« Malanje, 29 de julho de 1884.— 111.»» e Ex.»*» 
Sr. secretario da Sociedade de Geographia de Lisboa. = O chefe da Ex- 
pedição, Henrique Augusto Dias de Carvalho, 



328 EXPEDIÇZO PORTUOUEZA AO MUÁTIÂNVUA 

A S. Ex.^ o Qovemador Geral da provinda de Angola. 



£m 24 de julho, fluctuava a nossa bandeira no logar em que se estava 
construindo a nossa primeira EstaçSo em Andala Quinguangna e n^esse 
mesmo dia eu e o meu collega S. Marques fomos acompanhar o chefe da 
Expedição allemâ o tenente Wissmann e o seu companheiro tenente Mol- 
ler a Quipacassa, 12 kilometros distante de Malanje, onde o negociante 
Custodio Machado lhes offerecia um almoço de despedida. 

Antes de partir, o tenente Wissmann repetiu com insistência o pedido 
que já na véspera me havia feito de o desculpar para com Y. £z.* pela 
falta que commettêra em não ter particularmente e em nome da Expe- 
dição, agradecido a Y. Ex.* os muitos obséquios que lhe foram dispen- 
sados n*esta província por todas as auctoridades e habitantes com quem 
mantivera relações, rogando não me esquecesse de mencionar particu- 
larmente o nome de Y. Ex.* e também o do chefe d'este concelho o capitão 
N. Y. Breyner pois que á efficaz protecção e auxílios que encontrara, 
devia o bom acolhimento da sua expedição e á sua muita influencia o 
poder partir sem encontrar outras diffictddades que não fossem as já por 
elle conhecidas da indolência dos trezentos carregadores que conseguira 
contratar. 

Permitta pois Y. £x.* que, aproveitando a opportunidade do correio, 
antes de tudo procure desobrigar-me doeste compromisso, com que me 
congratulo por ser testemunha, que uma vez os estrangeiros se mostram 
reconhecidos aos favores recebidos das auctoridades portuguezas nas 
nossas colónias. 

Na Estação portugueza em Andála Quinguangua, que se denomina 
24 de Julho, almoçou e jantou no dia 30 o chefe da Expedição allemã, e a 
sua opinião com respeito á construcção conhece-a Y. Ex.* pela copia do bi- 
lhete que elle me escreveu. 

N*esta data já ali estão depositadas 60 cargas que devem seguir para 
o interior, alem do rancho para consumo do pessoal e fornecimentos para 
um empregado interino. 

Espero no dia 8 seguir para ali para acompanhar a secção do com- 
mando do Ajudante a Cafuxi em terras de Andála Quissúa para, junto á 
margem do rio Luhanda, se estabelecer a segunda nova estação que se 
denominará — Ferreira do Amaral. Desculpe Y. Ex.* que a Expedição ao 
deixar a primeira sob o seu benéfico governo, para se internar no Conti- 
nente, preste assim homenagem e um tributo de reconhecimento ao be- 
nemérito governador, que exerceu toda a sua influencia para que nos 
concelhos por onde a Expedição transitou, os seus chefes não hesitassem 
um só momento, em lhe prestar todo o auxilio necessário para ella se- 
guir ao seu destino. 



DESCRIPgXo DA VIAGEM 320 

Removidas todas as cargas para a nova Estação, será entregae a de- 
nominada 24 de Julho á pessoa idónea que a queira aproveitar para esta- 
belecimento commercial avançando o ajudante a estabelecer uma ter- 
ceira na margem do Lui, e durante este tempo de certo na margem do 
Cuango, um empregado do negociante C. Machado, terá já construida 
mna casa para o seu estabelecimento, com um quarto destinado a receber 
viajantes. 

£ já, na margem direita do Cuango, em terras do Capenda Camulem- 
ba que será construida a nossa quarta Estação, muito mais espaçosa que 
as anteriores, porque ahi se ha de reunir toda a Expedição durante al- 
gum tempo, não só para fazer estudos que lhe são indispensáveis, como 
modificar as cargas em relação ao seu peso, arranjar carregadores para 
seguir pelo menos até terras já occupadas por povos do Muatiânvua, tendo 
porém em attenção a epocha das chuvas. 

Estabelecida esta linha de estações e sendo ellas occupadas devida- 
mente, teremos segura a nossa communicação com Malanje e garantido 
ao commercio um porto no Cuango, o que era uma necessidade impreterí- 
vel que V. Ex.* não desconhece. 

Até hoje, não sei se da metrópole vieram para a Expedição alguns vo- 
lumes do commercio do Porto e encommendas que se fizeram para o seu 
serviço. 

Em todo o caso o que possa vir, ser-nos-ha remettido pelo negociante 
Machado até ao Cuango. 

Está concluido o pombal e os pombos já têem tido alguns ensaios no 
serviço de correios, mas por emquanto a pequenas distancias. 

Ainda me não foi possivel visitar a Colónia Esperança, mas tenciono 
lá ir brevemente por serem esses os desejos do chefe e então farei um 
croquis do meu reconhecimento e a V. Ex.* darei conta das minhas im- 
pressões sobre tão util estabelecimento. 

Deus guarde a V. Ex.* Malanje, 3 de agosto de 1884. — 111."» e Ex.™» 
Sr. conselheiro governador geral de Angola. = O Chefe da ExpediçãO| 
Henrique Auguéto Dias de Carvalho, 

Ao Secretario da Sociedade de Geographia Commercial do 
Porto. 

111."* e Ex."*> Sr. — Em vésperas de partida, julgo do meu dever apro- 
veitar a opportunidade do correio para enviar mais alguns esdarecimen 
tos a y. Ex.* com respeito ao commercio n^estas paragens, que, na verdade, 
tem muito a estudar por ser especial o que tenho observado e que se não 
coaduna com o meu modo de pensar. 

As fazendas que vogam são o riscado azul em branco de 1.*, 2.* e 3.* 
qualidade; sendo aqui vendido a 3^000, 2il»õ00 e l/õOO réis a peça. Vem 



330 EXPEDIÇÃO PORTUGUBZA AO MUATIÂHVUA 

já ÚBs fiibrícas, pelos pedidos que se fazem, dobrmdas de modo que as 
dobras (beirames) nâo correspondem ás medidas qae se indicam. Aa«m^ 
diz-se qoe ama peça (2.*) tem 9 beirames, cada beirame 2 jardas; de- 
via, portanto, ter 18 jardas, mas apenas tem, quando tem, 12 jardas. 

Os algodões sâo também de I .*, 2.* e 3.* qualidade e ainda n^estes ha 
distiiicçâo de largo e estreito, e o seu preço varia de l^dOliad^õOO réis. 
N^estes, lia peças (a maior parte) que indicam ter 40 jardas; muitas nem 
têem 30. Ua-as também de IS dobradas em 24. 

As chitas sào classificadas em finas e de negocio, adamascadas e ris- 
cadas com cores vivas, que variam em preço, por peça, de 2^250 a õ^OOO 
réis. 

Vende-se também riscado anilado (de que os pretos gostam) a ^iOOO 
réis a peça. 

Doestas fazendas, em geral, raras sâo as que se podem chamar boas, 
e o mau tecido sustenta-se por algumas semanas, devido a uma espécie 
de gomma, que cáe em pó. Se a fazenda vae a lavar, fica uma rodilha, 
se não uma rede, o que o gentio já reconhece e por isso rejeita-a. 

Um commissionado ou agente de uma associação ou nova casa, que 
viesse informar-se do negocio, qualidade de fazendas que se adoptam, 
e procurasse reformar este systcma e nAo illudir o comprador, prestaria 
um bom serviço ao nopso conimercio e industria, que parecem inclinados 
a querer alargar as suas transacções em Africa. 

O que se está praticando actualmente afugenta o negocio do interior, 
e ainda ha dias tive eu de intervir em favor de mn Caquata do Muata- 
iâiivua, que segue na minha companhia para n Luiida, a fim de o nâo en- 
ganarem, como já se eatava fazendo, tanto nos pesos e balanças, como 
nos pagamentos. 

Com a exploração allemà aqui esteve um commir^sionado de commer- 
cio, também allemào, Burgmabtter, por conta de uma casa de Manches- 
ter, a informar-se do negocio, e quasi posso afiiançar, que depois de di- 
zerem mal de nós, em breve para aqui mandarão uma ou mais agencias 
d'e8ta casa. 

Eu informo devidamente o governo sobre este assumpto, mas os ho- 
mens de patriotismo podem, emquanto é tempo, antecedel-os e evitarem 
a concorrência, que mais tarde nos ha de ser prejudicial. 

O gentio foge já de quem o engana e prefere augmentar a sua viagem 
(!om a carga ás costas, percorrendo mais GO léguas até Loanda, onde en- 
contra melhoras fazendas e mais equidade, a transaccionar o negocio 
aqui. 

Isto é bem mau. 

As armas lazarinas, de pau pintado a vermelho, de pederneira, que 
abi custam 600 réis, vendem-se a 3^500 e nas equivalências por fazenda 
dá-se-lhes sempre um valor superior. 



descripçâO da viagem 33 1 

Os barretes de lâ, cintas vermelhas, chapellinhos de sol de panninho 
carmezim, espelhos, guisos, tachos, facas, etc., são para presentes a quem 
faz negocio, porém no ajuste de contas ficam mais que pagos. 

Os barris de pólvora, feitos à propôs, de madeira grossa, nSo tendo mna 
libra de pólvora custam aqui 900 réis e são passados por duas libras por 
causa do peso da madeira. 

Mas para que todos estes embustes, estes enganos, e estes presentes 
que o gentio paga sem o saber. Os mais experimentados hoje exigem 
sempre mais, por desconfiarem (e com rasão) que sSo elles os prejudi- 
cados? 

Ha pouco disse-me um interprete, que tem viajado muito na Lunda, 
que os negócios com o gentio são feitos de modo a dar-se metade do que 
se offerece por qualquer género, para que a outra dê bastante folga aos 
pedidos que elle faz, fechado o negocio I Já vê pois, V. £x.*, que alem 
de todos os enganos, ainda ha depois este recurso final para que o gé- 
nero comprado fique pelo menos 50 por cento mais barato do que o preço 
pelo qual se ha de vender na £uropa. 

As equivalências nas permutações de fazendas por quaesquer artigos 
do mesmo estabelecimento, fal-as o commercio pelo preço das facturas e 
o mais que pôde alcançar-se na occasião da permutação. É mais esperta 
o que mais interessa na permutação. 

Parece-me, pois, que havendo melhor qualidade de fazendas, medidas 
e fracções exactas, variedade e novidade de artigos e até novos padrões 
nas fazendas, tudo deve ser muito apreciado pelo gentio e attrahir o 
commercio do interior que, repito, já nos vae fugindo. 

Devo, porém, fazer sciente a V. Ex.* que, se o Porto quizer para aqui 
dirigir o seu negocio, ao primitivo custo dos artigos, tem de aug^entar, 
alem de direitos e fretes em Loanda, mais 10 réis por kilo no frete até 
ao Dondo e d'ahi em diante 20 réis por kilometro em cada 80 a 90 li- 
bras de carga. E a media dos preços por que tem ficado os transportes 
das cargas da Expedição. 

Os transportes realmente oneram muito o custo dos artigos, mas, re- 
pare V. Ex.*, não é tanto como se diz e queira comparar com o que se dá 
na Europa. 

D*aqui á Mussumba de Muatiânvua, regula a distancia por pouco mais 
de 1 :000 kilometros e o custo de uma carga d'aquellas está ajustada por 
17j^õOO réis, e isto porque os pagamentos são feitos em fazendas aqui 
compradas. P6de-se, pois, dizer que é caro? Eu nSo sei por quanto lá 
se levaria uma carga igual empregando uma besta muar, se isso fosse 
possível. 

Emfim, a Associação Commercial do Porto reflectirá sobre estes escla- 
recimentos e resolverá com respeito ao assumpto como entender, certa de 
que muito folgarei que possa aproveitar- se o que lhe communico para' o 



332 EZPKDIÇZO POBTDGUSZA AO MUATIIHYUA 

deieiiToHrimeiílo das taamãçòe» do eonmiereio da cidade do Porto 



Deus guarde aV. Ejl* Malange, 3 de agoato de 1884.— ID."* e Ex.»» 
Sr. Secretario da Sociedade de Geographia Comiiiernal do Porto. = 
Cbefe da Ezpediçio, Henr-gwe AmguMo Díoê de CarvalktK 



A S. Ex/ O Ministro doe Negócios da Marinha e Ultramar. 

IIL"* e Ez."* Sr. — Já tire a satisíaçio de eornininiicar a V. Ez.% qae 
estava montada em Andala Qmngnangna, a nossa primeira estaçio eom- 
mercial e hospitaleira e que esta, se denominou : 24 de Jolho, pela eoiíi- 
eidencia feliz de ser n'este dia qne, no logar que para ella fôra designado 
pelo potentado da localidade, se arroron pela primeira yes e com geral 
aprazimento dos povos indígenas, a bandeira portogneza. 

Informado pelo meu ajudante, que a Estaçio estava prompta a fone- 
cionar e que havia toda a conveniência em occupal-a, ^roveitando-ae aa 
boas relações que a secç2o sob seu commando, tinha mantido eom os po- 
vos vizinhos e também de que por ali passavam comitivas de eonmier- 
do, consegui que o negociante Narciso António Paschoal para lá en- 
viasse um empregado com commercio, logo que a Ezpediçáo tivesse feito 
remover todas as suas cargas para a nova Estação que ia estabelecer na 
vizinhança do Jaga Andala Quissúa. 

A Expedição já tinha entretido com este Jaga, correspondência so- 
bre esse intento e náo se offereciam duvidas sobre tal estabelecimento ; 
por isso se contrataram carregadores para o transporte das cargas e como 
náo fosse posei vel arranjar todos os necessários, lembrou-me que talvez 
o Jaga que dispõe de muitos povos, nao só os conseguisse para esta 
mudança mas ainda para a Mussumba de Muatianvua, porque pelos boa- 
tos que correm, de que os Bângalaê pretendem oppor-se á passcLgem da Ex- 
pedição e do Muatianvua mandar matar os carregadores que commetterem 
alguma falta — vejo que não me ser possível, aqui, obter mais do que os 
vinte que já estáo contratados. 

O ajudante, com os carregadores de que lhe era possivel dispor, pre- 
parára-se com o que lhe era mais indispensável, e eu segui d^aqui ao 
seu encontro com trinta cargas para a nova Estação, e um empregado 
africano que tinha mandado para á Estação 24 de Julho, ficou ahi to- 
mando conta das cargas que náo podiam seguir. 

Em três dias conseguimos vencer a distancia que os allemáes trans- 
pozeram em seis, mas no ultimo dia apesar de menor marcha, foi esta 
muito mais fatigante e fastidiosa por termos de descer a valles de algu- 
ma profundidade. 



DBSCRIPÇZO DÁ VIAGEM 333 

Chegados á planície de Cafoxi que é rodeada de bellas e elevadas 
montanhas e serras todas cobertas de copados arvoredos, apparece-nos 
Andala Maguita, potentado nas povoações a NE. e da parte do Jaga 
nos disse que estavam preparadas três boas cubatas para nos hospedar- 
mos. 

Como estas povoações ficassem distantes do rio e da residência do 
Jaga^ preferimos ficar a NO. no extremo de uma povoação pequena que 
pertence a um potentado de menor graduação, Séquitari, á margem do rio 
Luhanda. 

£8te potentado não obstante não estar prevenido por Àndala Quissúa, 
mandou limpar immediatamente duas boas cubatas para descansarmos, 
emquanto nAo combinávamos com o Jaga onde queriamos fabricar a nossa 
casa. 

Mandei participar ao Jaga que tinhamos ali chegado, que agradecíamos 
a boa hospitalidade que nos mandara dar na povoação Andála Maquita 
mas preferíamos ficar na de Séquitari por estar-mos mais próximo d'eUe 
e do rio, e que esperava elle desse as suas ordens n'este sentido. 

Immediatamente apparece o seu muzumbo (interprete), dando-me co- 
nhecimento que o Jaga já havia escrípto ao meu ajudante, mostran- 
do-lhe que não podia sair da sua residência por estar velho e muito 
doente das pernas, sendo o motivo porque não vinha elle próprio com- 
prímentar-me ; que os filhos de Sua Magestade eram sempre bem vindos 
ás suas terras e dava ordem a Séquitari para que fossem satisfeitos os 
meus desejos. Agradeci, dizendo que de tarde iria visital-o. 

As três horas da tarde, eu e o ajudante, fomos até lá, fazendo-nos acom- 
panhar de homens que levavam os presentes que lhe destiláramos. 

Passámos o rio e á medida que nos approximâmos da serra, que ficava 
distante da povoação uns 400 metros, surprehendeu-nos a ascensão que 
tinhamos a tentar pela aspereza do declive e irregularidades do piso 
esburacado e embaraçado por raizes de arvores a descoberto, chegado 
a convencer-nos que devia haver outro caminho, apesar do guia nos di- 
zer ser este o único. 

Era uma subida por vezes quasi na prumada, mas ainda assim a nossa 
surpreza foi excedida quando vencida a primeira altura apoz um trajecto 
de 200 metros n*nm planalto, vimos uma outra para vencermos e ainda 
uma terceira e quarta, posto que, estas com inclinações muito mais ra- 
scáveis. Calculo que nos elevámos a mais de 200 metros. O panorama 
com que deparámos nos quadrantes de N. a S. pelo leste era realmente 
soberbo, o horizonte é immenso e d^aqui se vêem as campinas e serras 
que se desenvolvem alem do Cuango e descortina- se parte das povoações 
de Cassanje. Terei occasião d'aqui voltar e farei o croquiê d'este pano- 
rama digno de descripção, mas que V. £x.* decerto me dispensa de fazer 
n*esta occasião. 



334 EXPEDIÇZO PORTUGUEZÁ AO MUATIIkVUA 

Chegados á residência do Jaga, mandou este logo collocar daas ca- 
deiras á sombra de uma grande arvore na frente da sua porta, onde tam- 
bém o foram sentar entre almofadòes sobre um certo numero de estei- 
ras, que ahi coUocaram os seus serros ao chegarmos, dizendo elle logo 
quando appareceu, que nos recebia aqui, para nos poupar o descalçar- 
mo-nos ao entrar na sua habitação, como é o uso no paiz. 

£8te velho Jaga é o que foi preso em 1850 pela expedição militar 
do commando do major Francisco Salles Ferreira, em consequência de 
ter sido assassinado em suas terras o capitão dos Moveis, chefe de divi- 
são, Simão Rodrigues da Cruz. 

£lle, como se provou mais tarde, em cousa alguma concorrera para 
tal assassinato, porém fiigira, quando aquella expedição se approximava 
da sua residência e isso deu logar a que o referido major o considerasse 
rebelde e deposto e nomeasse logo outro para o substituir. 

No mesmo anno, quando o major Salles voltou com nova expedição 
para então castigar o Jaga rebelde Anbumba de Cassanje, foram enoon- 
tral-o no seu exilio e não obstante elle pedir que o deixassem viver so- 
cegado o resto de seus dias e na obdiencia do Jaga, que estava occu 
pando o seu logar; o major desconfiado de tanta humildade, por qtianto 
estava informado que elle tinha um grande partido e mais tarde se esta- 
beleceriam conflictos com o Jaga por elle confirmado ; fel-o prender e á 
comitiva que o acompanhava e a ferros o conduziram para a cadeia de 
Loanda, onde o velho jazeu alguns annos. 

Ura dos nossos governadores, creio que o fallecido visconde de Sérgio, 
dias depois de tomar posse do governo, condoeu- se do pobre velho que 
ali estava sem processo e mandou pol-o em liberdade, certamente acon- 
selhando-o para que vivesse bem comnosco, porém não lhe occorrendo a 
conveniência de o avassallar provavelmente por não suppor que elle vol- 
tasse a occupar o seu antigo cargo. 

Mas não succedeu assim, os velhos macotas entenderam ter o velho 
Jaga soffrido muito, estando innocente e de novo o elegeram, e elle cer- 
tamente, á cautella, veiu estabelecer-se no alto da serra a que com tanta 
difficuldade trepámos. 

Não será muito fácil a tropas regulares, dar um assalto e aprisionar 
a sua povoação; primeiro, porque de longe a previniriam por meio de in- 
strumentos de pancada de que darei conhecimento e, feita a prevenção, 
com facilidade resistiria a sua gente pois não lhe faltam recursos para 
se manterem por muito tempo e no emtanto talvez repellissem os ata- 
cantes ; era segundo logar porque conseguindo estes approximar-se, as dif- 
ficuldades do terreno lhes dariam tempo a refugiarem-se pelas terras não 
avassalladas de noroeste. 

A recepção que nos fez o Jaga e os seus macotas que o foram ro- 
deando não deixava de nos interessar pela novidade, mas limito-me por 



descrtpçao da viagem 335 

agora ao essencial. O velho Andala Quissúa depois de nos apertar a mSo 
•6 puchar-nos a si para nos abraçar, agradeceu-nos a visita e muito mais 
o presente que lhe demos, como signal de boa amisade que constava de^ 
2 peças de chita, 1 de zuarte, 2 barris de pólvora, 1 garrafiU) de Mguar- 
dente e uma bandeira portugueza; narrou a sua historia e o castigo que 
soffrêra por um filho seu, malvado, o ter compromettido ; e terminou 
aconselhando os que o cercavam a que vivessem sempre em harmonia 
com os filhos de Muene Puto, que nâo consentissem que os seus povos 
levantassem confiictos com elles, e que soubessem aproveitar esta occa- 
sião em fazerem bons negócios, com a casa de Muene Puto que se ia 
estabelecer nas suas terras, para que viessem outras e fossem então fe- 
lizes. £lle já estava velho, não podia gosar d^essa felicidade, mas lem- 
brava-lhes a desgraça que caiu sobre as terras, por causa do Cassanje 
que se quiz revoltar contra os soldados de Muene Puto, etc. 

Disse-lhe eu que lhe dava aquella bandeira, que elle bem conhecia, 
porque tendo de collocar uma num grande mastro em frente da casa que ia 
fazer, também elle devia estimar ter uma na sua residência, porque era 
amigo e um bom vassallo de Muene Puto; mas a casa que ia fazer-se, 
precisava ter paredes barreadas para durar mais tempo que as de capim. 

De certo, responde o velho, quero a bandeira de Muene Puto na minha 
habitação, porque é signal que me quer bem ; e emquanto á sua casa, os 
senhores sâo brancos e eu sei os costumes, podem barrear as paredes, 
nós é que nâo podemos. 

Havia-me prevenido com a bandeira, porque tive o presentimento que 
em elle vendo a nossa havia de ambicionar uma, e isto porque no meu 
trajecto em Quíssúh, encontrei dois sobas do Jaga, que eram acompa^ 
nhados de força armada para uma guerra em Angola Luiji e a ultima 
levava uma bandeira de chita de rnmagem. 

Estes sobas, por mim interrogados sobre aquelle apparato bellico, 
responderam : que tendo morrido Quifucussa, o seu povo por suggestoes de 
um tal Ambumba, elegera para seu logar um protegido doeste, e Andala 
Quissúa, que não desiste de seus direitos de nomeação, mandava-os guer- 
rear e dar o Estado a quem pertencia. 

Tanto este Ambumba como Anganga Anzamba e outros, conside- 
ram-se portuguezes e desligados de Andala Quissiia e por isso pouco se 
importam com taes guerras, e é certo que um chefe de divisão com 10 
soldados Moveis foi o sufficiente para convencer as taes forças que de- 
viam retirar, porque o novo Quifucussa já estava confirmado pela auc to- 
ridade portugueza em Malange. 

Quando desenrolei a bandeira para elle ver, inclinou-se todo para 
deante, tocando com as mãos na terra, levou-as ao peito e bateu em se- 
guida três vezes uma na outra, o que obrigou a todos os presentes a ro- 
jarem-se no chão e a imitá-lo. 



336 EXPEDIÇXO PORTUGDKZA AO BIUATIANVUA 

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Despedindo-nos d*elle pediu-me se-lhe mandava um remédio bom 
para lhe tirar as dores que estava soffrendo nas pernas, e na snpposiçSo 
de que seria rheumatismo fiquei de lh'o mandar de Malange. 

N*e8se mesmo dia com o meu ajudante, se escolheu o local para a 
Estação, a que se deu principio na manhS seguinte, e tendo logo ahi col- 
locado um mastro com a nossa bandeira, deu-se á futura estaçio o nome 
de — Ferreira do Amaral. 

Estávamos a lõ de agosto, e em Loanda nesse dia, todos prestam 
homenagem á memoria do grande feito do valoroso general Salvador Cor- 
reia que libertou a cidade do jugo dos HoUandezes ; também nós aqui, 
lembrando- nos das grandes festas em Loanda, estávamos prestando a 
nossa homenagem em nome da Expedição portuguesa, ao actual gover- 
nador de Angola. 

Aq^ nos confins do dominio, a leste da provinda sob a feliz admi- 
nistrado do conselheiro Ferreira do Amaral, era justo que a Expedi- 
ção, deixando um monumento de sua passagem para o interior, con- 
signasse nelle o reconhecimento que devia ao benemérito governador. 

Neste mesmo dia Andala Quissúa, mandou avisar todos os seus sobas 
que eu contratava carregadores para a Musumba do Muatiftnvua até a 
numero de duzentos e cincoenta, e além d'isso carregadores para irem a 
Malanje e Andala Quinguangua, buscar cargas para a casa que ia fa- 
zer- se em Cafuxi ; e mandando me parte doesta resolução lembrava-me o 
seu pedido de milingo (remédio) para as pernas. 

O meu regresso a Malanje foi o mais rápido possível; partindo ás sete 
horas da manhã, ás quatro da tarde chegava á Estação 24 de Julho, 
depois de um percurso de 48 kilometros em rede, e no dia seguinte 16, 
ent]'ava em Malanje ás seis horas da tarde, tendo ido de Catála ao An- 
zaje, Chissa, Ângio, Quissole e Aujinji, onde me demorei hora e meia 
em casa de Narcizo Antouio Paschoal. 

Em Malanje, encontrei bastante doente o meu collega S. Marques, sof- 
frendo já havia três dias em resultado de excesso de trabalho que tivera 
no matto, exposto ao sol ardentíssimo colleccionando exemplares da flora 
que lhe pareceram de mais interesse para a sciencia. 

Animado pela companhia e medicando-se devidamente, foi-se res- 
tabelecendo felizmente, e três dias depois era eu atacado de uma gastro- 
enterite, com febre e rheumatismo, que me obrigou a estar de cama al- 
guns dias e ainda hoje me sinto bastante debilitado. 

Apesar doestes meus incommodos, o que mais me tem contrariado, é 
não apparecerem carregadores para a Mussumba, no emtanto vou empre- 
gando todos 08 meus esforços para fazer seguir todas as cargas para a 
Estação Ferreira do Amaral com gente de diversas proveniências, pois 
para esse serviço já os de Andala Quinguangua, de Andala Quissúa, do 
Lombe e do Sanza, apparecem. 



DESCRIPÇ20 DA VIAGEM 337 

Envio nesta data, dirigidos ao Ministério do ultramar, alguns caixotes 
com collecçòes sendo um d'elles destinado para o Museu Ck>lonial, onde 
vâo productos d*esta região, como trigo, arroz, café silvestre e outros, 
tudo de excellente qualidade. 

A cultora do trigo, foi apenas um ensaio de C. Machado ; lançara na 
terra uma onça de semente doeste cereal e fez uma colheita de 80 kilo- 
grammas de esplendida qualidade. 

Também vão dois volumes especiaes de plantas devidamente etique- 
tadas, um dirigido ao Ex."® Sr. conde de Ficalho e outro ao sr. Dr. Júlio 
Henriques, de Coimbra, segundo as suas indicações e conselhos. 

A respeito da dedicação do meu coUega para este género de traba- 
lhos, eu tive occasião de informar Y. Ex.* da sua valia e por isso limito-me 
agora a solicitar a Y. Ex.* se digne dar as suas ordens para que os vo- 
lumes de collecçòes e correspondentes catálogos que as acompanham, 
bem como os mappas das observações meteorológicas sejam enviados aos 
directores dos estabelecimentos scientifícos a que se destinam. 

Deus guarde a Y. Ex.", Malanje, 22 de agosto de 1884.— 111.»» e Ex.»» 
Sr. conselheiro ministro e secretario doestado dos negócios da marinha 
e ultramar. = O chefe da Expedição, Henrique Augusto Dia» de Carvalho. 

A S. Ex.* O Governador Geral de Angola. 

Ill."<* e Ex."'^* sr. — Regressando a Malanje, depois de ter visitado os 
sobas que se comprometteram a apresentar carregadores para eu os con- 
tratar para a Lunda, e logo que se me offereceu ensejo, diriji-me á co- 
lónia Esperança e não o partecipei logo a Y. Ex.* por ter de enviar a 
inclusa communicação ao Ministério, pela leitura da qual Y. Ex.* ficará 
sciente do meu modo de pensar sobre tão útil instituição, escolha da lo- 
calidade para seu estabelecimento e forma por que se encontram aloja- 
dos os colonos. 

Ahi deixo eu bem consignado o meu modo de ver sobre o estabeleci- 
mento e sobre os trabalhos iniciados ; porém a Y. Ex.* devo dizer agora, que 
o chefe da colónia de bom grado se prestou a acompanhar-me a todos os 
pontos onde se faz sentir já o trabalho dos colonos, e levou a sua deli- 
cadeza a pedir a minha opinião sobre o projecto, em vista de preferir 
para as novas culturas as terras baixas juntas ao rio Cuiji entre os rios 
Yula Angonbe e Sunza, o que me parece acertado. Junto ao rio Cuiji 
para plantações de canna e áquem para trigo e centeio. 

N'estas, a dois metros de profundidade, encontra-se sempre agua e 
uma bomba artesiana indicará onde devem abrir-se poços a determina- 
das distancias. 



338 EXPEDIÇXO PORTUOtJEZÁ 40 M0ATIÍnVUÁ 

_B^_a^^^^BsaBMKHa^>^^^^— ia^i^^i^i>n__^^^— ^— aiB^i— >~>~^^^->»^^B^^Bi^ii— aaaiaia*»»i*a-^ã<U^>-B-i ^iaa«kAM..M_<Mb.«M^ 

Também o chefe me desejou ouvir sobre a canalisaçfto do Cuiji para 
o centro das habitações, e como me tivesse feito acompanhar de um ane • 
roide, fácil me foi satis&zer ao seu pedido. 

Das habitações ao Çuiji e no rumo S. já está feita uma larga estrada 
de 1:500 metros de extensão, accessivel a carros tirados por bois, onde 
se faz a conducção de barris de agu^ A differença de uivei é de 21"',õO. 

Ora, para tal differença e n*esta pequena extensão,' creia V. £x.* que 
os motores Halliday para moinhos de vento, importam, com a tubagem 
precisa, em quantia inferior á despeza a fazer com a canalisação que 
nunca pode ser obra boa, como V. £x.* não desconhece. 

Um deposito de ferro no centro da povoação, que se diz provisória, e 
os tubos, mesmo á superfície do solo, ao lado da estrada, seria o bastan- 
te ; havendo a vantagem de se mudarem quando se queira e leval-os mesmo 
a irrigar os terrenos que se pretenda, por meio de mangueiras. 

Os rios Vula Angonbe e o Sunza, nas proximidades da colónia, en- 
contrei-os já seccos e por isso verá V. £x.*, que o que proponho é vanta- 
joso e económico. 

Quando regressei da colónia, participaram-me ter aqui passado uma 
embaixada de Cassanje, recommendada ao chefe e que se dirigia a 
Loanda a comprimentar V. £x.*, e logo se espalhou que ella tinha por 
fim pedir a V. £x.* para impedir que a nossa £xpedição fosse á Lunda, 
pois receavam os de Cassanje, que ella tivesse em vista promover uma 
guerra dos povos do Muatiânvua contra os Bângalas. Procurei logo o 
chefe do concelho, que teve a attenção de me mostrar as correspondên- 
cias do chefe do Cassanje a tal respeito e de que V. Ex.* terá conheci- 
mento, e esta minha noticia apenas serve para prevenir a V. Ex.* sobre 
boatos menos verdadeiros que venham a propalar-se. 

Do chefe do concelho solicitei se dignasse enviar a V. Ex.* os volu- 
mes das colleçòes que a Expedição remette para o Ministério do ultra- 
mar. 

Deus guarde a V. Ex.« Malanje, 30 de agosto de 1884. — 111.*"® e £x."° 
Sr. conselheiro, governador geral da província de Angola.-^ O Chefe da 
Expedição, Henrique Auyn^to Dias de Carvalho, 

Da Secretaria do Governo de Angola ao Chefe da Expe- 
dição. 

...Sr. — Em resposta ao officio de V. datado de 4 do corrente, in- 
cumbe-me S. Ex.* o governador geral, de dizer a V. que é com muitís- 
simo prazer que vê a maneira hábil por que vae a Expedição satisfa- 
zendo aos preceitos que constam das instriieções recebidas do governo 
de Sua Magestade e que muito agradece a consideração havida com o seu 
nome, no baptismo de uma das estações fundadas pela missão, a qual 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 339 

representa por parte de Y. uma generosa attenção que se esforçará por 
merecer, prestando á missão ainda de longe, todo o auxilio que em suas 
forças caiba como é do seu dever e sâo as instrucções do referido go- 
verno. 

O mesmo £x."° Sr. mais me incumbe de dizer a Y. que seria conve- 
niente que o tenente Wissemann escrevesse o agradecimento a que Y. se 
refere no citado ofiicio, para poder documentar para a metrópole, que 
tendo recebido instrucções para auxiliar a expedição allemã, as tinha 
comprido a contento doesta. 8e não for porém possivcl obter esta decla- 
ração escripta, ficará o testemunho da missão portugueza para certificá-lo, 
comprehendendo-se todo o alcance do escripto a que me refiro. 

Deus guarde a Y. Secretaria do Governo geral em Loanda, 22 de 
agosto de 1884. — Ao. . . Sr. Chefe da Expedição ao Muati&nvua = ^Z- 
berto Carlos d^Eça de Queiroz^ Secretario Geral. 

Carta do negociante Custodio José de Sousa Machado ao 
Chefe da Expedição. 

Tendo-me Y. demonstrado os bons desejos que a benemérita Socie- 
dade de Geographia Commercial do Porto tem em desenvolver o com- 
mercio d*aquella cidade por estas paragens, verdadeiros centros de pro- 
ducção e de consumo, venho satisfazer, ainda que imperfeitamente, ma» 
tanto quanto o permittcm as minhas acanhadas forças, ao pedido de 
Y. Ex.* remettendo-lhe as amostras com as indicações que deseja. Eu, pa- 
triota humilde e sem voz auctorisada para poder emittir a minha opinião 
sobre tão importante assumpto, mas fundado na experiência com que me 
auetorisa a hagatdla de vinte annos de residência effectiva nestas para- 
gens, estimaria muito que o commercio e a industria portuense viessem 
com os seus productos concorrer vantajosamente com os da industria es- 
trangeira, que nós importamos por intermédio de alguns monopolistas 
do commercio e -da navegação colonial, parecendo-me ser isto bem fácil 
ao génio laborioso e activo dos habitantes da cidade invicta e, sobre- 1 
tudo no que respeita á industria algodoeira, fabricando tecidos iguaes aos 
que importamos de Manchester e com os quaes fazemos a permutação 
por géneros coloniaes com o gentio ; porque, tendo a metrópole, como 
tem, a matéria prima que importa das colónias, de desejar era que muito 
mais de 3.000 lOOOJiOOO réis que Angola importa annualmente de taes 
tecidos, ficassem no paiz, alimentando a nossa população industrial, evi- 
tando d'est'arte que, milhares de nossos compatriotas fossem obrigados a 
abandonar a sua pátria, levando para o estrangeiro a sua intelligente 
actividade por falta de applicação d'ella no seu paiz. Ora isto é profun- 
damente triste, mas verdadeiro. 



340 EXFEDIÇlO POBTUGUEZA AO MUATIÂNynÁ 

Maa o que eu acabo de expor, agora mais do que nunca se juBtifica- 
ría, se a esses monopolistas que tanto teem enriquecido á custa dos pe- 
sados sacrificios a que tem subordinado o commercio e a navegação co- 
lonial, lhes girasse nas veias o puro sangue português. Mas nlo succede 
assim, e, em vez de educar e alimentar a nossa populaçio com industrias, 
cujos productos teem neste illimitado paiz tio largo consumo, preferem 
antes animar a industria e o commercio estrangeiro, servindo apenas 
de 'seus intermediários, para nos venderem essas mercadorias depois 
de haverem tirado d'ellas um fabuloso lucro, alem da commissSo, que se 
lhes paga por tal serviço ! £ o estrangeiro, ao contrario do que faz qual- 
quer commerciante, que deseja vender as mercadorias que tem no esta- 
belecimento, fazendo todas as vontades e acarinhando quanto possível 
o fireguez e muito especialmente quando elle é certo e nos paga pontual 
e honradamente o que nos compra, elles, os estrangeiros, desdenhando 
e ridiculisando a tolice portugueza — por lhe irmos comprar o que nós 
podíamos ter tâo bom ou melhor em nossa casa, — manifestam a sua 
gratidão para comnosco, insultando-nos e injuriando-nos, oppondo-se com 
tenacidade infrene á occupaçâo do que é nosso — como o fizeram as ca- 
marás de commercio, os Brights e quejandos em pleno parlamento in- 
glez ! £ nem com tudo isto os inimigos da pátria e das colónias, que nSo 
slo outros senão os monopolistas do commercio e da navegação colonial, 
longe de se sentirem, pelo amor da pátria, de taes infiunias, continuam 
a procurar-lhes — e talvez ainda em maior escala, — os productos da sua 
industria, em vez de tirarem uma desforra pacifica e muito honrosa, 
como era a de fundarem estabelecimentos fabris no paiz ! 

£u, em face d^isto, até creio, meu bom amigo, que já os estrangeiros 
nos olham com o máximo desprezo pela pobreza de sentimentos patrió- 
ticos que os portuguezes lhes patenteam. 

Desculpe, meu bom amigo, a rude linguagem com que me exprimo, 
e, se ella provocou em V. £x.* o seu desagrado, espero que se dignará 
relevar-me d^essa falta, se falta commette quem tem a consciência de 
somente dizer a verdade. 

De V. , etc. = Custodio J, de Sousa Machado. 



Lista das mercadorias que mais convém para os mercados do interior doesta 
parte da Africa, por ser com ellas que se fazem as permutações de cera, bor- 
racha e marfim, com os povos gentilicos. 

Tecidos 

N.° 1 — É o riscado americano chamado de 2.* D'ante8, eram as peças 
d*este riscado de 18 jardas e de 24 pollegadas de largura ; porém a am- 



DBSCRIPÇXO DA VIAOEM 341 

biçSo mercantil, estabelecendo a competência entre collegas, diligen- 
ciando cada um permutar mais, vendendo mais barato, levou-os a faze- 
rem encommendas para as fabricas com menos jardas e menos largara, 
vindo a peça dobrada no mesmo numero de dobras que tinha quando 
trazia a medida de 18 jardas. Escusado será dizer que o primeiro que 
fez uso doesta esperteza d*ella tirou a máxima vantagem. Hoje vem já 
d*esse riscado com 12 jardas e 18 ou 20 poUegadas de largura. 

N*esta qualidade de riscado ha um variado numero de padrões. Eu 
simplesmente apresento essa amostra para por ella se fazer idéa do seu 
tecido e preparo. Ha n^esse género um outro riscado chamado de 3.*, 
muito mais ralo de tecido e com o mesmo numero de jardas e poUega- 
das. Mas para estes sertões não convém que o mesmo de 2.* traga me- 
nos de 14 jardas dobradas em 18 dobras. 

K.<» 2 — Este é o riscado tafachis estreito de 1.*, de 14 jardas dobrado 
em 18 dobras. E também bastante procurado. 

N.® 3 — E o riscado tafachis de 1.* largo, também bastante procurado. 
Doeste costuma vir de 14 jardas e ainda também de 18 jardas e 18 dobras. 

N.® 4 — Sâo maclussos estreitos de 14 jardas dobrado em 18 dobras. 

N.<* õ — São os mesmos maclussos, mas de 1.* e largos. Costuma vir 
de 14 e também 18 jardas, mas sempre dobrado em 18 dobras. 

N.® 5 — Chitas estampadas de 24 jardas dobradas em 24 dobras. 
K^este artigo ha superior, médio, inferior e o ordinário com mais ou 
menos preparo. 

K.<* 6 — Lenços de chita estampados de 12 em peça, de diflEerentes gos- 
tos, mas de cores muito vivas e de tamanho regular, não convindo que 
sejam muito pequenos. 

N.<* 7 — Baeta azul e encarnada em peça de 60 jardas. 

N.» 8 — Algodão ou panno cru. N'este género a variedade é enorme 
com muito preparo, conforme é mais ou menos ralo. Costuma vir o mais 
vulgar, com 20 jardas dobrado em 40 dobras e com 20, 24 e 30 poUega- 
das. E também costuma vir com essas mesmas larguras, mas com 24, 28 
e 30 jardas, mas sempre dobrado em 40 dobras. 

Estes é que são os tecidos de mais fácil venda e os mais usuaes e 
conhecidos, o que não obsta a que se introduzam outros para melhor, 
mas em quantidades moderadas até que o gosto se desenvolva. 



Varies artigos de differentes industrias 

Cassungos grossos (avelorio) das cores azul, branca e encarnada. Mis- 
sanga Mana 2.* grossa, almandrilha fina e grossa, missanga gimbo grossa, 
missanga branca grossa, coral apipado grossa, alguma roncalha, muito 
pouca, azul e branca e outras. 



342 EKPEDIÇZO PORTUQUEZA AO MUATIInvuA 

- Ai taxas amarellas de nomeros 6 a 8 que já modernamente se man- 
dam vir da Inglaterra. 
' Os chapéus ou guarda-soes ordinários. 

As facas ordinárias de ponta e cabo de osso, de 6 poUegadas.para 
cima. 

Arame amarello cortado em jardas de n.<** 4 a 6 (redondo). 

Barretes de lâ e algodão, encarnados. 

Cintas (faxas) de lã e algodão, encarnadas. 

Linhas de algodão de n.<* 20 para cima. 

Agulhas (poucas). 

Espelhos com capa de zinco redondos e com capa de papel. 

Papel almaço pautado e fino pautado. 

Armas lazarinas, de coronha encarnada e que se fabricam em Liége, 
cuja perfeição não se precisa admirar. 

Pratos covos e rasos de louça imitando as que fazem os inglezes, que 
tem grande consumo. 

Canecas brancas e pintadas de bico e lízas, imitando louça ingleza 
(idem). 

Canecas bronzendas de melo litro e 2 litros, com relevos, e em forma 
de jarros ou das que no Porto se chamam infutas. 

Jarros e bacias de louça, imitando louça fina ingleza. 

Fechaduras, á imitação das inglezas, dobradiças, pregos, louça de 
ferro, pratos de folha de Flandres. 

Jarros e bacias de folha de Flandres pintada. 

Vinho do Porto engarrafado e de pasto. 

Azeite de oliveira, sal, arroz e outros artigos de rancho e conservas. 

Galões de oiro falso de* differentes larguras. 

Machetes (ou catanas), enchaiias de 1 a 2 kilogrammas, machados 
bem calçados de n.*' 4 a 6. 

Cobertores de algodão com relevos estampados. 

Chapéus de palha (ordinários), bonés de borla, de panuo e de veludo, 
cores differentes — e bordados a soutache. 

Bijuterias, anneis, brincos, pulseiras, ete. 

A S. Ex.* o Ministro da Marinha e Ultramar. 



Com respeito ao commercio, continuo informando V. Ex.* que a Expe- 
dição tem-se visto na necessidade de comprar a fazenda a jardas para 
pagamento aos carregadores na conformidade do ajuste, e é certo que 
num total de dez peças teve de dar proximamente mais duas, por este 
motivo exijo as contas dos fornecimentos em jardas e não em peças. 



DESCRIPÇZO DÁ YlÁQEK 343 

Também nas transacções a pesos, a aactoridade tem de intervir por- 
que é um logro o que se está praticando. Nas pesagens de borracha ha 
arrobas de quarenta e de cincoeiíta libras, e isto muito contrbue para nos 
desacreditar, quando taes operações sâo do dominio dos estrangeiros, não 
porque elles os nào façam ainda peiores, mas porque teem o bom senso 
de as fazer fora do alcance das nossas vistas. 

Na presenle occasião está aqui um negociante allemflo, Burgmastter, 
por conta de uma casa de Manchester a estudar o modo por que se tran- 
sacciona com o gentio e quaes os artigos de conunercio que este mais 
procura, e por isso é natui*al que em muito pouco tempo comecem a sair 
dos prelos estrangeiros as diatribes contra o commercio dos portuguezes 
em Africa, e por isso me anticipo fazendo sciente a V. £x.* do que pode 
motivar tacs censuras. 

£ tal ^ a certeza que teem os Ambaquistas que assim procedem, de 
ficarem incólumes, que fazendo parte das comitivas que vào para o in- 
terior, ou mesmo servindo de guias ou interpretes ás expedições allemás 
que desde 1878 aqui se organisaram para o centro do continente, para au- 
ferirem maiores lucros, vâo sempre preparados com novos embustes e 
falcatruas, o que tem motivado complicações a essas expedições. 

Muito seria para desejar que isto acabasse e se ficasse sabendo de 
uma vez para sempre quaes as medidas legues e as equivalências entre 
os artigos do commercio com o gentio, visto nao correr entre elle uma 
moeda com curso ofiicial. 

Como V. £x.* verá, pelas coutas que lhe forem presentes, as despezas 
com os transportes de cargas de setenta a oitenta libras dentro da pro- 
víncia, regulam a 20 réis por kilometro e fora de 16 a 17 réis, o que na 
verdade é muito barato attendendo á falta que ha de carregadores como 
provam os documentos que juuto. 

Se o commercio tivesse contribuído, como sempre esperei, para auxi- 
liar o governo n^esta £xpediçâo que o interessava, as verbas orçadas 
seriam suíEcientes, pois os transportes seriam pagos pelos lucros das 
transacções, mas desde o momento que, mesmo o pouco que á ultima hora 
os negociantes do i^orto accusam enviar, não foi recebido, a £xpedição 
para dar cumprimento ás suas instrucvoes tem de recorrer ao credito em' 
maior escala do que era dado suppor, porque alem das despezas de trans- 
portes, tem de construir as £staçòes e fornecê-las pwra o tempo em que 
a £xpedição tem de ahi mantcr-be ao menos para fazer os estudos que 
lhe sâo recommendados e satisfazer a outros fins da sua missão. 

A falta de carregadores tornou-se tão geral, não obstante os muitos 
esforços que se teem empregado, que resolvi definitivamente, visto 
achar-me um pouco melhor, seguir para o Cuango no dia 6 do próximo 
mez com o meu collega Marques e um pequeno pessoal de carregadores 
de que dispomos. 



344 EXPEDIÇIO PORTUQUBZA AO MUATIÂNVnÁ 

8e Andala Quissúa me apresentar os carregadores que me prometteu 
e com os que possa já ter eucontrado o nosso outro coUega S. de Aguiar, 
parece-me melhor seguir já directamente para a Mussumba ou descer o 
Cuango até ao Zaire e subir depois com o Lulúa ou o Cassai e entrar na 
Mussumba. 

Só as circumstancias e recursos ahi me poderão suggerir o seguimento 
do meu itinerário, de que darei na primeira opportunidade conhecimento 
a y. Ez.*, certo que s&o os meus desejos descer o Cuango, porque melhor 
seria aproveitada a despeza com triplíce vantagem de, satisfazendo ás 
nossas instrucções, conhecer da navegabilidade dos rios mencionados, da 
influencia estrangeira sobre os povos a norte e do que ha a esperar do 
commercio d^essa região, quanto a mim já preferível ao da Lunda. 

Tive já occasiáo de dizer a V. £x.*, que conheci a necessidade de es- 
tudar as linguas doestes povos, e revestindo-me de toda a paciência, já 
tenho um importante trabalho, e com o que possa ir adquirindo no campo 
pratico espero fazer-me acompanhar de elementos que as auctorídades 
competentes em Lisboa poderão converter em livros muito aproveitá- 
veis de estudo, como grammatica, diccionario e mesmo uma guia de con- 
versação. 

Apesar de náo me ter sido encarregada tal tarefa, creio náo será in- 
fructifera, náo só porque com o tempo podem fazer- se-lhe as devidas cor- 
recções e preparar um bom trabalho para estudo dos europeus emprega- 
dos em Africa, mas ainda para se habilitarem devidamente os futuros 
exploradores a dispensar interpretes, em geral sempre maus, porque nem 
dizem tudo que queremos, nem nos previnem de tudo o que devem ; mas 
também, o que julgo de muita vantagem, poderá servir aos Ambaquistas 
sobretudo para se aperfeiçoarem na lingua portugueza, a qual muito teem 
transtornado, transformando os nossos em vocábulos ambundos. £ para 
exemplo eu transcrevo a interessante carta que um Ambaquista dirigiu 
como secretario de um soba ao meu ajudante na estação Ferreira do 
Amaral. 

111.""» sr. Tenente. — Em primeiro desculpa sem saber o honrado nome 
de V. S.' e peço perdão a V. S.' por parte de Deus Nosso Senhor, a con- 
fiança de lhe dirigir similhante esta; e como minha necessidade tão me 
exige por isso humildemente dirigio-lhc esta ; Estou informado de varíos 
meus patrícios d'aqui, em como V. S.* tem a Gulha de olhar para uma 
pessoa que está muito distante de 4 léguas e pode ser conduzido por um 
emzollo e por este motivo quero ver também com meus olhos ; e para o 
que no caso de ser assim, rogo a sua bondade comparecer nesta minha 
Banza, resposabilizo da jornada do meu senhor õO:000 que são duas 
vaccas e um garrote que é o nosso dinheiro d'aqui. — Deus guarde a 
V. S.» Canbonbo, 29 de agosto de 1884. = Soba, Cuigana Mogongo, 



DESCRIPÇlO DA VU6EM 345 

QuerV. £x.* saber do que se trato? 

Pede o homem ao meu ajudante para ir á sua residência com a ma- 
china photographica tirar«lhe o retrato, responsabilisando-se elle pelas 
despezas da viagem. 

Também junto á copia de uma carta recebida ha dias por C. Machado, 
e que lhe foi dirigida pelo sócio d'elle e de seu irmSo, António Lopes de 
Carvalho, escrípta da margem do Cassai e por onde V. £x.* verá o que 
posso esperar dos carregadores das immediaçâes de Malanje. 

SSo sempre as chuvas, as desculpas que os sobas dSo por nâo apre- 
sentarem os carregadores, mas realmente é verdade nSo os haver. 

Apenas consegui vinte para a Mussumba e quarenta até ao Cuango, 
mas estou cansado de esperar e sem probabilidades que elles appare- 
içam; completam se aqui os três mezes no dia 6 do próximo mez, de ob- 
servações meteorológicas e seguimos para a estação Ferreira do Amaral, 
pois talvez ali possa arranjar mais alguns carregadores. 

As differentes cartas que junto, provam bem que continuar aqui, 'é 

tempo perdido. 

Deus guarde a V. Ex." Malange, 30 de setembro' de 1884. — 111."® e 
£x."<^ Sr. Conselheiro Ministro e secretario doestado dos negócios da ma- 
rinha e ultramar. = O chefe da Expedição, Henrique Augusto Dias de 
Carvalho, 

Carta de António Lopes de Carvalho a Custodio Machado. 

Cula-Muchito, 3 de maio de 1884, ás 10 horas da noite. — Compadre 
amigo e sr. Custodio : 

Estamos próximos do Quicápa, distantes do Cassai oito dias de jor- 
nada I ! A malvadez dos carregadores tem sido tanta, que nos obrigou a 
retroceder para a nenzala de uns Qniôcos, a fím de tomarmos cont? do 
resto das cargas, porque com gente tão péssima e perversa não se pode 
terminar a viagem. Os roubos teem sid» tantos e com tal descaramento, 
que alguns carregadores tcem roubado um terço da carga que se lhes con- 
fiou para conduzir. Para que o amigo faça idéa, limito-me a dizer-lhe, 
que 08 onze carregadores do Quanza, roubaram perto de trinta peças de 
riscado inteiras, quasi dev; de chitas, trinta tangas e duas armas I Por 
aqui já pode calcular quanto devemos ganhar. 

Por tudo o caminho, temos colhido informações do Cabau, porém teem 
ellas sido taes, que não sabemos o que havemos de fazer em tão triste 
situação. Todos dizem que os Biénos arrasaram aquolle ponto de tal for- 
ma, que para se comprar uma ponta de marfim são precisos cem mil ba- 
gos de búzio (12-A) independente de almandrilha que já não acceitam 
aos fios mas sim aos massos e outro sortimento. Ora, sendo doesta forma, 
não podemos salvar metside do capital com que d*ahi saimos. 

83 



346 EXPEDIÇZO POBTOGUESA AO KDATIÍKVIIA 

Os carregadores do Bondo, tem-se distíngnido no roubo por todo o 
minlio ; a almandrilha, biuio e missanga tem andado numa poeira. Do sal 
já nio existe metade. 

Nio tem sido a necessidade qne os tem obrigado a roubar, mas sim 
a malvados, porque s6 de raç2o já nos teem comido 5 peças e meia cada nm. 

Estamos pois no sitio dos Qoiôcos, aos qnaes eomprámos dnas pontas 
de marfim com 120 kilogrammas. 

Colhendo informações dos Qoiôcos, indicaram-nos on ponto onde ba 
mnito marfim a troco de bnâo e contaria. 

Aqaelles promptificavam-se a levar>nos á tal regilo mediante a grati- 
ficaçio de oito mil bagos de bosio, quatrocentos de almandrilha, dnas 
campainhas e algnma fazenda para vestir. 

A regiio a qne me refiro é talvez no 2* de latitnde entre o Loango e 
Cassai, acima da confluência do primeiro, dois dias mus para o norte e i 
embocadura do Lulua, onde está o mysterioso Lucuengo. 

Besolvemos pois seguir para o norte, e chamando os patrões dos car- 
regadores fizemos-lhe ver a nossa nova resoluçlo e os motivos que nos 
obrigou a tal ; elles, porém, acceitaram i^>parentemente, mas combinan- 
do-se todos para nos' exigirem dez peças de fazenda cada um, que vinha 
a ser o mesmo que recusar, de forma que náo temos o direito de escolher 
o ponto que nos convenha ; aqui quem manda s2o os carregadores e te- 
mos de andar ao capricho d^elles. 

Considerflmo-nos pois desgraçados, a única taboa de salvaçlo era a 
viagem para o norte, porém estes infames privam -nos de nos salvarmos, 
dizem que os mandaram para o Labuco, nâo querem saber se ha negocio 
ou se deixa de o haver. 

O Quiluange então, todo o seu empenho é presentear o Muquengue 
com as nossas pessoas c tudo quanto levámos, contando receber d*aquelle 
potentado, grande gratificação por tal presente. 

£ á vista d*isto, tratámos de ver se pod amos convencer alguns carre- 
gadores para seguirem para o norte com um de nós e o outro continuar 
para o Lubuco com o restante. 

Apenas podótnos convencer os Ma-Songos e os do Bango, mediante 
três peças de pagamento a cada um. 

Ficámos pois tratando d'cstc negocio c, tendo muito que fazer, n&o 
podemos ser mais extensos. Desejo- lhe saúde, e até outra occasiâo. 

Seu compadre, amigo, obrigado c criado, António Lopes de Carvalho. 

Cartas do negociante Narciso António Paschoal ao Chefe da 
Expedição. 

. . .8r. — Presente da estimada carta do v. , datada de hoje ; vou em 
primeiro logar agradecer os seus cumprimentos que retribuo, desejando- 



DESCRIPÇXO DA VIAOEM 347 

lhe a continuação da sua saúde; eu continuo encommodado, sendo este o 
motivo de ainda não poder dar aki uma chegada. 

Aos seus criados dei o recado para se dirigirem aos sobas a fim de ar- 
ranjarem os carregadores ; eu já providenciei para me trazerem todos 
que podessem ajuntar; mas ainda não me appareceram e apenas pude 
agora arranjar o homem portador doesta, para contratar com V. a fim 
de seguir com elle na sua missão, este homem esteve muitos annos em 
Loanda, e tem bastante pratica da gente e costumes do sertão. 

Quando despachar os portadores para Cassanje devem elles passar 
aqui para receberem a carta para o chefe de Cassanje, assim como re- 
commendar ao pessoal a maneira por que devem entrar naquelle concelho. 

O homem que remetto tem conhecimento com os sobas que, como do 
costume abonam os carregadores ; por isso com grande facilidade pode 
ir engajando os carregadores, dirigindo-se aos sobas. 

Sem assumpto para mais, subscrevo-me com toda a consideração 

De V. , etc. Angingi Acabari, 18 de julho de 1884. — ... Sr. major 
Henrique de Carvalho. = Narciso António Paschoal, 

. . .Sr. — E portador doesta o seu criado que tinha vindo ao engaje de 
carregadores que não pôde obter nessa, disse-me que alguns sobas pediam 
que lhes adiantasse alguma vestimenta, mas é uma desculpa simples, e 
como 08 conheço, querem enganar a V. , porque sei que alguns sobas 
estão compromettidos com carregadores para diversos negociantes. 

O homem que eu mandei no outro dia para guia de V. , passou 
aqui hontem tcndo-lhe recommendado para hoje seguir para o Sanza, 
a fim de engajar os carregadores que lhe foram recommendados por 
V. , e vendo a vontade da parte d^elle, creio que o ha de conseguir 
muito breve. 

Sube do mesmo homem que V. tencionava mandar uma offerta ao jaga 
de Cassanje por uns Caquatas que me consta estarem ahi no concelho 
os quaes já estão naturalisados Bângalas, por terem gasto todas as impor- 
tâncias que traziam do Muatiânvua a seus negócios, não podendo por 
este motivo voltarem para a Lunda, e cresce mais que elles não podiam 
entregar pessoalmente a offerta para o jaga, por não se corresponde- 
rem com o referido jaga dl Cassanje, e mesmo acho desnecessário fa- 
zer similhante offerta, visto V. não tencionar passar nas terras de Cas- 
sanje. 

Eu acho-me um pouco melhor mas muito fraco ; tenciono fazer uma 
visita a V. mesmo para fatiarmos sobre certos assumptos da sua missão. 

Desejo que continue de perfeita saúde, e sou com estima e conside- 
ração. 

De V. , etc. Angingi Acabari, 20 de julho de 1884. — . . . Sr major. 
Henrique de Carvalho. = Narciso António Paschoal, 



348 EXPEDIÇÃO PORTUOUESA. AO MUATIÂNVUA 

Carta de Lourenço Gt>nçalyes dos Santos ao Chefe da Ex- 
pedição. 

. . .Sr. — Começando desde Ngio, aonde sou residente e seguindo para 
Loximbi, Ndala-Samba, Xiça, e até neste ponto aonde cheguei hontem 
no Lngaj amento de carregadores, conforme as ordens de v. , n2o me foi 
possível conseguir nenhuns em todos os sitíos a que me refiro, para pe- 
garem em cargas para Lunda, por a maior parte dos pretos ter sido en- 
gajados pela Expedição allemã, e outros aproveitando esta comitiva, se- 
guiram para o interior a seus negócios, não obstante que empreguei 
todos os meios ao meu alcance n^este serviço, para satisfAzer as respei- 
táveis ordens de v. O resto de alguns pretos que encontrei em algumas 
sanzallas dizem que só se prestam a transportarem cargas do Dondo 
para este concelho e vice-versa, por isso a este respeito espero segundas 
ordens de y. , e no cazo de ser preciso engajar carregadores para este 
fim, mandar-mc um garrafão de aguardente e um barril de pólvora, tudo 
para prezentiar os sobas que devem afiançar os carregadores, porque 
com feizenda vejo que nada posso fazer, tanto que a que V. me deu ainda 
existe, bem como um bocado de sal para tempero. 

Aguardo a resposta de V. por este portador e subscrevo-me com a 
maior veneração 

De V. Servo respeitador. Sanza, 26 de julho de 1884. — . . .Sr. Major 
Henrique de Carvalho. ^ Lourenço Gonçalves dos Santos. 

N. B. — Alguma cousa que sobrar nas despezas que eu fizer com os 
carregadores, voltará. 

...Sr. — HoDtem chegxiei neste sitio vindo de Cafuxi. Nao podendo 
aprcsentar-me a V. por ter viudo incominodado na saúde, cumpre-me 
participar a V. , que tendo percorrido diverças sanzallas dos Bandos, 
no ingaj amento de carregadores, foram baldadas todas as minhas dele- 
gencias por os pretos de aquelles sitios nào lhes convir pegarem em car- 
gas para Muatiauvo. 

Esta difficuldade que se tem oÔereeido neste serviço, tem-me desani- 
mado inteiramente, de continuar a ser empreçado, e desde já despeço-me 
das suas ordens, com grande sentimento de Y. , simples-ment»* por nào 
ter a felicidade de colher a estima dos meus patrões por me faltar a oc- 
caziáo de boni ezito dos meus serviços e da comissão a que tenho sido 
ordenado, por que nào obstante que de minha parte nao tem havido a 
mínima nipligencia de empregar os esforços para engajar carregadores, 
porém, prende-me a consciência por nào poder satisfazer-se inteiramente 
aos dezejos de V. Dos carregadores de Talla Mungongo que ha dias fiii 
engajar, hontem apresentaram-se-me os cabos, dizindo que concordaram 



DESCBIPÇAO DA VIAGEM 349 



pelo pagamento que V. lhes havia offerecido para a viagem a Landa com 
cargas, e que deixaram os outros em viagem para cá ; estou á espera 
delies, e quando chegarem, irei com elles á prezença de V. para eflTei- 
tuar-se o pagamento do carreto, e por aquelle serviço V. determinará a 
minha gratificação. 

Com toda a consideração subscrevo-me 

De V. venerador servo e obrigado, Angiò, 4 de setembro de 1884. — 
...Sr. major Henrique de Carvalho. = Z^ourenço Gonçalves dos Santos. 

Carta dx) Soba Andala Qiiissúa Andombo ao Tenente Aguiar. 

II."** Sr. — Recebi a honrada carta de V. S.' com data de 20 do corrente, 
que acompanhou uma peça de chita, um barril de pólvora, e (3) três bo- 
tijas de agua ardente, que por sua generosidade mandou-me offerecer, e 
mil vezes muito obrigadissimo Fico certo da chegada de V. neste sitio, 
de meu filho Ndala QuinguanguH, assim o trabalho que tem ahi de mandar 
fazer a pousada (fundo), para qualquer nep:ociador que por ahi transitar, 
conforme as ordens de Sua Magestade Fidelíssima, a quem Deus guar- 
de, e estimarei que cumpra os ditas ordens, para ganhar a victoria. De- 
pois de concluir o trabalho de ahi, aqui m'achará ás ordens, para esco- 
lher o sitio que quizer, para fazer outra casa como aquella. A respeito 
dos carregadores, até quando chegar aqui o ... Sr. major, que die ter 
ficado em Malange, e por consequência V. S.* pode fallar a meus filhos, que 
estão vizinhos com o dito Andala Quinguangua, para ver se arranjão ahi 
alguns carregadores para irem em Malanje. Estimei as medidas que Sua 
Ma<;estade Fidelíssima tomou, de mandar a Expedição portugueza para 
o Matianvo. 

Chegando aqui V. e o ... Sr. major, poderão fallar bem com os carre- 
gadores que quizcrem ganhar, para levarem as cargas. 

Concluo, desejando a Y. S.' a mais perfeitíssima saúde e ventura, e eu 
fico de saúde, e assentado em um logar por causa da minha idade avan- 
çada, e sou por ser com respeito 

De V. S/ seu súbdito muito obrigado e criado. Banza, 28 de julho de 
1884. — . . . Sr. tenente ajudante Aguiar. — Sobba, Ndala QuisstM Ndombo, 

P, S. — Sciente do bom tratamento que lhe está fazendo o meu sobor- 
dinado filho Ndala Quinguangua, conforme V. mandou-me dizer na sua 
estimada carta, e muito estimarei que elle continue, como subordinado 
portuguez. 

Carta de Custodio Machado ao Chefe da ExpediçSo. 

Sr. — Em resposta ao estimadíssimo officio que V. se dignou dirigir-me 

com a data de hoje, cumpre-me franca e lealmente, dizer-lhe o seguinte: 

O que mais tem concorrido para se não obter o numero de carrega- 



350 EXPEDIÇXO PORTCGUEZA AO MUATIÂNVUA 

dores que V. deseja para a Lunda, é a extrema falta que presentemente 
ha d^elles para toda a parte, depois que a nossa expedição mercantil le- 
vantou para a A&ica equatorial, seguindo-se-lhe depois a expedição 
seientifica allemâ, que V. ainda veio aqui encontrar, e a qual, primeiro 
que se lhe engajasse o numero que precisava, levou seis mezes, tempo 
este que tiveram de residência na minha casa. Todavia eu, ainda assim, 
não me tenho poupado a diligencias nem a esforços por toda a parte e 
já mesmo antes de V. checar a esta terra, para lhe engajar o maior nu • 
mero possível, mas tudo inutilmente. 

Não sei a quem V. se quer referir na ultima parte do seu citado of- 
ficio. Da minha parte cumpre-me confíimar aqui o que disse na minha 
carta particular que V. recebeu, quando chegou a Loanda, que vinha 
luctar com a grande escassez de carregedores, pois que também cá se 
achava estacionada a expedição allemã por essa causa. 

Mais me cumpre informar a V. , que para a Lunda, não ha hoje 
aquella influencia de negocio que já houve noutros tempos, dando o preto 
carregador preferencia, em ir antes para o Lubuco (Tu-Chilangues), 
aonde encontram quem lhes forneça mulheres para os servir, por todo o 
tempo que lá residirem e aonde se lhes dá de comer, gosando assim e a 
seu modo e em larga escala e sem lhes ser preciso pagar a mais insigni- 
ficante despeza, o que já lhes não succede na Lunda. 

Eis tudo que me cumpre responder a V. 

Deus guarde a V. etc. Malanje, 25 de setembro de 1884. — - . .Sr. ma- 
jor Henrique Augusto Dias de Carvalho, chefe da expedição á Lunda. s= 
Custodio J, de Sousa Machado, 

Carta da firma Sousa Lara & C.*, ao Chefe da Expedição. 

. . . Sr. — Com a approximação das chuvas, os carregadores recusam-se 
formalmente ao ganho de cargas, tanto para o interior como para o Dondo- 

Temos empregado todos os meios ao nosso alcance para conseguirmos 
o cumprimento do pedido feito por W. , porém tudo tom sido baldado, 
embora mesmo tenhamos feito avultadas promessas aos's<)bas pelo enga- 
jamento de carreguílores, e tenhamos também ofterecido avantajados pa- 
gamentos para assim animar os pretos a fazerem parte da Expedição de 
que V. é mui digno chefe. 

V. pode crer que iiao é por negligencia nossa que temos deixado de 
dar cumprimento a seu pedido, porém está conhecido ser esta a peior 
quadra para o engajamento de carregadores, e profundamente sentimos 
não podermos sor úteis a V. 

Deus guarde a V. , etc. Malanje, 25 de setembro de 1884. — .. .Sr. 
Henrique Augusto Dias de Carvalho.= p. p. de Sousa Lara & C.*, «/. M, 
de Freitas, 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 351 

Do Chefe do concelho de Malanje ao Chefe da Expedição. 

. . . Sr. — Em resposta ao officio que v. hontem me dirigiu, cumpre-me 
dizer que effectivamcnte tem solicitado de mim, varias vezes, para, pelos 
sobas do concelho sob minha administração, se alcançarem os carregado- 
res indispensáveis á Expedição de que v. é mui digno chefe, e sei per- 
feitamente que V. tem animado os sobas com presentes de valor, oflfe- 
rccendo o pagamento de dez peças de fazenda aos carregadores que se 
promptiíicassem a marchar para o ponto destinado, mas é certo, que além 
dos presentes, e pagamento aos mesmos carregadores v. nâo tem podido 
engajar o numero de carregadores precisos, e nem eu tenho conseguido 
que os sobas apresentem esses carregadores, porque os mesmos sobas di- 
zem-me sempre que a maior parte dos seus filhos seguiram para o Lu- 
buco, levando cargas da expedição mercantil dos irmãos Machados e da 
Expedição allemã, e outros a seus negócios naquelle sertão, e ainda ou- 
tros empregados no transporte de cargas do commercio, que elles prefe- 
rem, d*aqiii ao Dondo e vice-versa, por não lhes convir irem com cargas 
a tão grande distancia como é a Luuda, aonde se destina a Expedição. 

E esta a rasão da contrariedade que tem havido no engajamento dos 
carregadores, e a desculpa que os sobas me teem dado. 

Deus guarde av. etc. Malanje, 26 de setembro de 1884. — ...Sr. 
chefe da Expedição Portugueza ao Muatiânvua.= O chefe do concelho, 
Nicolau Victor Edmgçs Braf/ner, capitão. 

De Alfredo José de Barros ao Chefe da Expedição. 

. . . Sr. — Respondendo ao officio de 24 do corrente mez, devo dizer a 
V. , que me tem sido difficil o engajamento de carregadores como em 
tempo asseverei a v. 

Tenho empregado estas diligencias, despachando empregados meus 
(musumbos) aos sobas, não tem sido possivel convencê-los, mesmo ofie- 
recendo-lhes um pagamento avultado, allegando que em virtude de esta- 
rem próximas as chuvas vão empregar-sc na cultura. 

Como V. deve saber, o concelho está completamente esgotado de car- 
regadores, porque quasi todos foram para o interior da Lunda e Quiôco, 
engajados pelos Srs. Saturnino, e tenente Wissemann, chefe da expedição 
allemã, além de outros que preferiram dedicar-se ao seu commercio ali, 
prescindindo o carreto. 

Em consequência do que levo dito, já v. vê que nada posso conseguir 
dos ditos carregadores, sentindo não ter o gosto de satisfazer o seu pedido. 

Deus guarde a v. etc. Malanje, 27 de setembro de 1884. — . . .Sr. ma- 
jor Henrique de Carvalho, chefe da Expedição Portugueza.= Alfredo 
José de Barros, 



S62 sxpKDiçXo FonraouEiâ lo mdâtiíhviia 

De Francisco José Esteves ao Chefe d* Ezpediçlo. 

. . .Sr. — Em resposta ao oficio de ▼• de 85 do proiimo passado, que 
s6 liontem recebi, cnmpre-me dixer-Ihe : É verdade qae v. me pedia ha 
já tempo paim contratar carregadores para o serviço da Eipediçio Por- 
tngnesa 4 Landa, da qaal y. ó digno chefe, ainda qàe pagando-oa a 
des peças de fiuenda, pagamento saperior ao qae ó de eostame para 
a capital do sertão da Landa; fis porém todos os esforços ao mea alcance 
para os obter, mas infelizmente nÍo me íbi isso possiyeL Por nltimo pe- 
dia-me v. para lhe engajar alguns psra o Caango, visto os nio poder 
engajar para a Landa, o qp» ea promettí, por me parecer isso mrài fiuil 
visto a distancia ao Caango ser mais carta e por isso de menos demMm» 
Se V. nio tem consegoido obter carregadores para a Landa é eerta- 
mente isso devido a qae o carregador na presente estaçlo, dedicasse 
mais 4 coitara do qae ao carreto, para aproveitar as primeiras elra« 
vas; é esta ama contrariedade a qae também o connnereio do interior 
est4 sujeito todos os annos nesta epocha, e, qae só de fevereiro em 
deante melhora. 

Algans sobas a qaem ea fallei para procararem carregadores para a 
Landa, apresentaram-me idéas assustadoras sobre o Maata lanvo^ qae se 
14 fossem lhes custaria as cabeças, etc, etc, e qae Aisíb fiusilmente se 
arranjariam para o Lubuco, parece-me, porém, qae estas idéas se lhes 
desvaneceriam, se como já disse o tempo fosse propicio. 

Deus guarde a v. , etc. Catalã, 1 de outubro de 1884. — . . .Sr. major 
Henrique Augusto Dias de Carvalho, chefe da Expedição Portuguesa 4 
Lunda. s= Francisco Joêé Eêteves. 

Do Secretario da Sociedade de Geographia de Lisboa ao 
Chefe da EzpediçSo. 

. . .Sr. — Accuso a recepção do officio de v. , de 29 de jalho, e dos 
documentos que o acompanham. Na próxima sessSo terei o gosto de com- 
municá-los á nossa Sociedade que não deixará de congratular- se pelas 
noticias auspiciosas da expedição que v. dignamente dirige e de fuer 
os mais calorosos votos pelo seu melhor êxito. 

São interessantes as informações que v. nos communica acerca da 
expedição Machado e do bom acolhimento feito pelos beneméritos con- 
cidadãos doeste nome av. e á sua missão utilissima. 

O desvio imposto por circumstancias supervenientes ao itinerário que 
V. contava poder seguir, não me parece diminuir o interesse scientifico 
e commercial da expedição que v. dirige, sendo de esperar que sob 
aquelles dois aspectos, possa v. com a sua boa vontade e dedicação 
prestar ao paiz informações e serviços de considerável importância. 



DESCRIPÇZO DA VIÂOBM 353 

Para nós, hoje mais do que nunca, o interesse nacional da consolida- 
ção e segurança da nossa influencia e das nossas relações prestigiosas 
no sertão africano, impõe* se como o primeiro objectivo das expedições 
portuguezas. 

Promover a communicaçSo e o trafico licito entre os nossos portos e 
territórios occupados e as regiões do interior; assegurar que os cami- 
nhos se conservam abertos, e firmar as sympathias e o prestigio da ac- 
ção portugueza como acção de paz e civilisação respeitadora dos direitos 
e dos poderes constituídos, aproveitar prudentemente todas as occasiÕes 
que se offereçam para convidar os potentados indígenas ao commercio 
licito com 08 portuguezes, ao abandono do trafico escravista e ao bom 
acolhimento dos nossos missionários e negociantes, fazer neste sentido as 
convenções que pareçam convenientes a exercer directamente ama inter- 
venção amiga e justa nas questões e nos antagonismos sertanejos ; final- 
mente, vigiar e desarmar por todor os meios a intriga com que os explo- 
radores e missionários estrangeiros manifestamente teem procurado e 
procuram alheiar de nós o respeito e a affeição dos naturaes e deslum- 
brá-los com promessas e ameaças do poder dos seus respectivos paizes : 
são propósitos que não podem deixar de ter merecido e de continuar a 
merecer ao esclarecido esforço e critério de v. uma particular attenção, 
e cuja feliz e habíl realisação temos como certo que fará a gloria da 
expedição commandada por v 

Reiterando os votos que faço pela prosperidade d'ella e de v. , cum- 
pre-me assegurar-lhe que a Sociedade de Gkographia estima continuar 
a receber as commuuicações que v. entenda dever fazer-lhe. 

Deus guarde av. — Casa da Sociedade, 4 de outubro ne 1884. — ... 
Sr. Henrique de Carvalho, sócio da Sociedade e chefe da Expedição ao 
Muatiftnvua. »- O secretario perpetuo, Luciano Cordeiro, 

A S. Ex.^ O Ministro e Secretario d^Estado dos Negócios da 
Marinha e Ultramar. 

111."" e Ex."» Sr. — Já um pouco restabelecido dos meus padecimentos, 
e havendo sido infruetiferas todas as diligencias|para alcançar aqui mais 
carregadores, parte amanhã o resto da Expedição para a Estação Fer- 
reira do Amaral, na esperança de se demorar ahi pouco tempo. 

Avançando a Expedição, julgou- se conveniente fazer acondicionar de- 
vidamente as novas collecções adquiridas até esta data, e tanto dos seus 
catálogos como dos mappas das observações meteorológicas feitas até 
agora, envio copias com este officio, para serem remettidas ás estações 
competentes. 

A Expedição, pela boa recepção e acolhimento que teve na provinda 
de Angola, consigna no seu diário, ao deixar Malanje, o seu muito reco- 



354 



XZPBDIÇXO POKTOmneU JU> MDAnlBVUÁ 



abetíncoto ao Couselheifo gOTenudor gval « » todaa m wet a ri dioJc» 
Mmedbiâa qa« lhes «So rabordiíudaa, e minda aos ludntntM dM povo»- 
ç9m oode por algnm tempo teve de demcwv-M, pois todas á poitiK, 
M^nndo M meioa e reeorsos de qne di^mnlum, dencoetnnB fuato 
IbeB cift BTinpftthícft esta Ex^ediçlo. 

llani&itBçSea bSo estma, a qne a Espediçio i-nteiide corres pondi-r em- 
pngaado todo* oe meios ao sen alcance para snlÍBlazcr durante a suii 
Buuio aoa desejos de V. £x.% qne sSo também o^ iir> aigntttario. 

HaUi^e, 10 de ontobro de 18B4.— HL-* e Ez." Sr. Oraeelhciro Mi- 
idatro e Mcretario d'eBtado dos negócios da marinha e ultrunar.^O 
l&efe da Expedíçio, Btnnq»Êe ÂMgtuto Díoê d; Carvalho. 



Ao Chefe do concelho de Cambambe. 

XSL" e Ex."* Sr. — Aos enidados de V. Ex.% kÃo rrracttidoa com des- 
tino ao/Ex."" GoremadoT da provincia, luna mala, sete caixotes, seis 
guolaa, nm fardo o nm Toinme gradeado, para que ^. Ei.* dé as snaa or- 
dens para serem euTÍados ao Ministério da marlnhiL e nltramar. 

Os anímaes precisam ser sustentados do Domio ein dcaiite, c en soli- 
cito de T. Es.* a sua attenclo para que Ibes oíIij falte o ilpvido alimeuto 
até Loanda, certo de que a Jnnta de Faxenda hmi f-i- ri.'<'ii''iir^i a Batisfazcr 
a respectiva despesa, por conta da Expedição a meu cargo. 

Deus gnorde aV. Ex.* Ualonje, 19 de outubro de 1881. — Ill."*eEx."* 
Sr. Cbefé do concelho de Cambambe. = O chefe da Expediçlo, fimrigw 
Augvíto DitiÊ de Carvailto. 




DESCHIPÇXO DA VIAGEM 355 




DESPEDIDA DE MALANJE 



Estávamos em principio de outubro^ haviara-se completado 
trCB mezes de observaç^ea meteorológicas, remettcram-se ao 
Governo toilas as colIecçíJes que se adquiriram, as nossas car- 
gas seguiram avante, fícando comnosco dos bagagens apenas 
o que era absolutamente indispensável. Estavam jil carregado- 
res contratadiis para noa levarem de rede para a cstaçSo Fer- 
reira do Amuriil, e n.^o obritante os homens mais sensatos 
dizerem, ser arriscado partirmos apenas com vinte e seis car- 
regadores contructados para a Mussuniba, e que o chefe da 
Expedíçílo corriíi grande risco, por estar doente, alquebrado 
e avelhantado, designou-se o dia 1 1 para a partida. 

A Expedição nSo pode deixar de consignar neste logar o seu 
reconhecimento pelas benévolas domonstraçSea de sympathia de 



S6(r MznDi^^ Kw r wjnuM A âa nrâxilavu. 



■WPl 



que fiâ alvo, ao ddxar a Tilla^ e de eqpedaliaar o nome do 
bemqaiato negociante Cnatadio José de Sousa Madiadoy qne 
além doa TalioaoB aerriçoe de que a meama ji Bie en dere- 
dora, promovea as manifestaçBes de deqpedMa, qne eomèçan- 
doíMi^dialO só ierminanun naTÍlla íb qnalro Imaa da tarde 
do *dia lly com o almoço em seguida á missa, qiie em intm^ 
Ipela nossa felis viagem entendeu lesar, e paim a qual noa eon* 
vidoí^ o Bev.^ paiodiOy indo todos os que tomaram pade nestas 
«anifartagges aoompanliar-nos até á casa do pn^etario José 
Van, no Qnissoley que nos onerava para o janteTi que só ponde 
ter logar depois das ii6¥e horas da ncnte. 

â no dia 1^ que tère logar o esplendido almoço de despe» 
em casa doeste Inaano agrieultor, almoço em quê iíe tte- 
caram os brindes mais àffectnosos, e em qué o nomedo ittns- 
tre Ministro da Marinha, conselheiro Mannel Fbdimo ClJisgaSy 
fin muitas Teses lembrado. '/'* . 

Meio dia era a hora marcada para a partida} éi^^ioíáSte 
oorreios já tinham levado a notieia i villa, o pessoal dá Àr 
senda descarregava as suas^espíogatdas, a bandeira portugueBa 
s^uiu á firente, e nós despedimo-nos saudosos dos nossos bons 
amigosy que continuaram, emqaanto nos viam, soltando enthu- 
siastícos vivas á KzpediçSo. 




Murtnteo (omaxiA dk podbb) 



CAPITULO III 



DE MALANJE AO CUANGO 



usotaf nuta été tnúén* éí; aèi uhmío^ 
kaudipe hUala mu Jila c queres? 
vae tu próprio ; se mandas não es- 
tejas a olhar no caminho. (Quem 
quer vae, quem não quer manda)». 



Viagem para Catalã. Em Catalã. Partida para Andala Quingruângua. Eitaçlo 24 de Julho; 
a povoação e seus moradores. Viagem para Andala QuiMÚa. ConitracçSei do salalé. 
Chuva e trovoada. Incidente no caminho — Caf&xi. Estaçio Ferreira do Amaral. Vi- 
sita de Sé Quitári. Gosto pela aguardente. Cumprimentos do Jaga ; presentes ;daaça. 
Visita ao Jaga Andala Quissúa. Abundância de gado — Viagem do chefe para Camivu. 
Os carregadores Massongos. O sobeta Angonga. Na Estaçio Paira de Andrada. Vi- 
sita ao soba Ambango. A Estaçio. Ajuste de carregadores. Intrigas de Ambango. 
Visita do soba Anguvo. Discórdias dos sobas. Desaguisado com Cáhia Cassixi — Via- 
gem do chefe com ai.* secção para o Cuango. O dia 81 de Outubro. Mona Muaaen- 
gue, Mulumbo, e Zunga. Passagem do rio; pagamentos aos donos das canoas e aos 
pilotos. A avidez de Zunga. Episodio grotesco. Visita do potentado Mueto Angnimbo. 
Serão na companhia de vários gentios — Regresso do chefe á Estação Paira de An- 
drada — Algumas considerações sobre a região e seus habitantes ; crenças, usos e cos- 
tumes d^estcH — Partida da Estação Ferreira do Amaral. Correspondência acerca da 
paoitagem para o interior — Communicações offlciaes relativas ao progresso da Expe- 
dição o Ruas relaçSes com o gentio — Marcha da 2.' secção para a Estação Paira de 
Andrada. Na Estação. Entrevista com os sobas. Situação dos poros e dirersas infor- 
mações sobre o estado do paiz, e como se devem acceitar as informações do gentio — 
Algumas palavras acerca das expedições commerciaes para o interior do continente. 
O negociante Braga. — Participações offlciaes dando conta dos trabalhos da Expedi- 
ção e outra correspondência sobre o mesmo assumpto. Preparativos de partida e inci- 
dentes desagradáveis — Viagem para o Cuango. Nas margens do Lui. Roubo nas baga- 
gens ; providencias enérgicas ; encontro dos objectos roubados. Jornada para a povoação 
de Anguvo ; acampamento Junto a esta povoação. Entrevista com Muene Ca^Je. Noite 
de Natal ; tempestade ; fugida de carregadores — Na margem do rio Cuango. Viaitaa. 
I*a8sagem do Cuango. Ainda o Zunga — Na casa filial de Custodio Machado. 




VIAGEM PARA CATALÃ 

N3o nos era deaconhecido o caminho que tínhamos a seguir, 
pois já o h.ivianioa percorrido no nosso regrcseo do And ai a 
Quissua a Malanje, tendo feito o respectivo reconhecimento que 
noa deu um bum croquis. O que nós porém desconheciam o 8 
eram os carregadores que nos transportavam, contratados pelos 
negociantes do Quiaaole para a viagem até á estação Ferreira 
do Amaral, cora a condigíío de pernoitar em Catalã, onde ea- 
peravamos encontrai' o pesaoal das cargas e bagagens que ha- 
viam partido para ahi do Malanje no dia 10, pelo caminho das 
senzallas dos Bambeiros. 

Eate caminho para Catalã, faz-se no rumo pouco mais ou 
menos de NE., e regula a sua exteu&ão, por causa dos zig- 



k 



360 BXPEDIÇZO PORTUGUESA AO muauínvua 

zags a que nos obrigam as ondulaçSes do terreno^ entre flores- 
tasy e passagens das linhas de agua, de 29 a 30 kllometros, 
mas sendo bons os carregadores^ faz-se esta yiagem de rede 
em seis e meia ou sete horas, e montado num boi, em menos 
uma hora. 

Em Catalã esperava-nos para jantar o negociante Francisco 
José Esteyes, sócio do abastado proprietário Narciso António 
Paschoal, de quem já temos fallado, e era preciso portanto 
fazer apressar a marcha, porque demais tínhamos contra nós 
o have-la principiado tarde e quando já não havia luar. 

Até ao rio Luximbe, viam-se algumas plantaçSes de canna, 
trabalho de Ambaquistas e de alguns indígenas, e uma boa pro- 
priedade, cuja situaç&o é das melhores, porque fica entre este 
rio e o Cuiji. Pertence a um velho europeu por nome Calado, 
antigo residente nesta parte da província, um verdadeiro co- 
lono, que fez doesta terra a sua pátria adoptiva. 

Proseguimos contornando esta grande propriedade e de novo 
nos embrenhámos numa floresta, ora descendo, ora subindo. 
A claridade do dia ia desapparecendo, de modo que ao en- 
trarmos no povoado Anzaje onde ha algumas casas filiaes 
do commercio de Malanje, era já escuro bastante e os carre- 
gadores não queriam passar avante. 

A distancia d'ahi a Catalã é pequena, pouco mais de 3 ki- 
lometros, e por isso insistimos com os carregadores, por nSo 
ser possível ficarmos ali, e terem-se elles obrigado a leva- 
rem-nos a Catalã. Allegavam que já por vezes tinham escor- 
regado sobre a crusta da pedreira, sobre a qual em parte se 
levantou a povoação, que havia buracos e paus pelo caminho, 
que estava muito escuro, finalmente tinham receio de marchar 
de noite. 

Resolvemos fazer o resto da marcha a pé, entre o capim todo 
molhado. 

Fomos informados de que a este sitio se dera o nome de 
Anzaje (raio), porque são frequentes aqui as descargas da ele- 
ctricidade atmospherica, o que não é para estranhar attenta a 
abundância de ferro contido no solo. 



■ 


DESCIÍIPÇXO nA VIACEM 3fi] 


^W 


■ 


ChegámoB a Catalã ás novo horas, ser vindo -nos de guia 
ara o estabelecimento do negociante Esteves, as luzes, que 
e quando em quando descnbriainoa atravez do capim. 

A mesa estava posta e elle aguardava-noa para jantar. De 
nais havia sido a sua coudescendencia para que o demoratí 
emos nindn, e por ísbo tratámos logo de nos alliviar dos ape 
rechos que nos sobrecarregavam, como; revólver, faca, bolsa 
ustrumentos, etc., que tudo amontoado arrumámos a um lado 
i depois de lavar cara e mãos fbmoB tomar ob nOBsos logaree 


^^^^H 




i mesa, emquanto que dois contratados de Loanda que no 
acompanhavam, iam recebendo dos carregadores e guardando 
iB malas de viagem e outros volumes que nSo podiam deixar de 
indar comnoaco. 

ÃB cargas ainda nilo tínhatn chegado, e diase-nos Esteves que 
erramente os carregadores não eaiam das senzallas dos pa 
rentes de quem se foram despedir, sem terem a noticia de ha 
permoB aqui chegado, como é de costume. A demora, porém 
[iSo noa prejudicava porque tencionávamos ficar em Catalã \an 
)u dois dias, fazendo todas as diligencias para contratar algune 

1 


] 



362 EXPEDIÇZO POBTUOUEZÁ AO IfUATIÂKYUÁ 

carregadores, quando mais nfto fosse para o Cuango, porque 
diga-se a verdade, tínhamos partido de Malanje com muito 
poucos. 

Esteves, de madrugada, despachou os seus pombeiros para 
o Sanza, a fim de ver se d'a]i vinham os que lhe tinham pro- 
mettido e que já estavam pagos, e nós mandámos um soldado 
ao soba Andala Quinguangua recommendando-lhe que arran- 
jasse os que pudesse para, quando chegássemos á EstaçSo Vinte 
e Quatro de Julho, os contractarmos. 

Apesar de ser tarde e estarmos fatigados da marcha, con- 
versámos muito com o nosso hospede, alegrando-nos o encon- 
tro do único europeu que vive neste ermo, e que nos propor- 
cionou uma tSo boa e tão franca hospitalidade. 

Versou principalmente a no86a conversa sobre exploraçSes 
commerciaes além do Cuango, e Esteves, que aspirava a aven- 
turar-se a uma empreza doestas, mostrou-se penalisado porque 
o seu sócio não tem querido annuir á realisaçSo de um pro- 
jecto que elle lhe apresentara. 

O negociante Paschoal, seu sócio, é um homem pratico, e 
apesar de ter adquirido uma fortuna, negociando as suas fa- 
cturas na feira de Cassanje e nas margens do Cuango, conhece 
bem todos os prós e contras doestas aventiiras e quando se lhe 
falia numa exploraçílo ao Lubuco, responde sempre: deixem 
vir Saturnino Machado e depois veremos. 

Tendo muitas relações com os Bângalas de maior importân- 
cia, que certamente o terão informado acerca de commercio do 
Lubuco e de todo o interior, acreditâraos ser prudente o seu 
modo de proceder. Mesmo pelo que respeita a Cassanje, que 
elle conhece bem e onde sustenta ainda algumas relações com- 
merciaes, tem suas duvidas sobre o futuro. 

Crê agora mais nos resultados da agricultura que nos do 
commercio, e pensa empregar parte da fortuna, que com tantos 
sacrificios e riscos alcançou em melhores tempos com o com- 
mercio no sertão, na plantação da canna saccharina, sem com- 
tudo abandonar os estabelecimentos commerciaes que hoje 
possue. 



DESCRIPÇZO DA VUGEM 363 

Ávida de cangalheiro — disse-nos elle — é boa para rapa- 
zes; os meus antigos freguezes sabem onde eu tenho as casas,- 
se quizerem continuar negócios commigo que as procurem. 

Filho da provincia, muito cordato, possuindo uma fortuna 
solida', e tendo apenas três filhos que mandou educar em Lis- 
boa, faz bem em não arriscar os seus capitães; e para entreter 
a sua actividade, basta-lhe dirigir como o está fazendo, a sua 
propriedade agricola ao pé da casa principal que tem no An- 
jinji-á-Cabari e manter os seus estabelecimentos commerciaes. 

Esteves, porém, ainda novo, que ambiciona voltar á terra da 
sua naturalidade, de onde saiu muito moço, e com fortuna pafa 
ahi se estabelecer, não lhe agrada o retrahimento do seu sócio, 
e nao será para estranhar se algum dia nos chegar a noticia 
de que elle se aventurou numa viagem ao interior. 

Foram estas as impressões com que adormecemos, e de tal 
modo, que só com dia claro despertámos, para logo pormos em 
movimento a nossa gente, mandando uns a chamar os sobas 
próximos, outros ás senzallas dos Bambeiros, dando parte aos 
nossos carregadores de que já aqui estávamos e despachando 
também os que de véspera já tinham diligencias destinadas 
para o Sanza e Ándala Quinguangua. 

£m seguida tomámos uma boa chávena de café e fomos dar 
um passeio com o nosso hospede. 

Agradou-nos ver a horta, junto ao rio Catalã, bem como os 
arredores do estabelecimento commercial do nosso amigo. 

Já não nos admirámos de que elle vivesse bem ali, preve- 
niu- se para passar commodamente, longe dos recursos que offe- 
recera os centros civilisados. 

Na horta, encontram se os melhores exemplares das nossas 
hortaliças e alguns de desenvolvimento superior ao que é mais 
trivial em Lisboa. 

Com respeito a gado bovino e suino é elle muito superior ao 
que temos visto na provincia. Apresentou-nos um casal de 
porcos que nos maravilhou pela corpulência e gordura. Con- 
serva-o para a procreação apenas e por alguns exemplares que 
vimos, prova-se que nâo degeneram. 



n 


364 EXPEDIÇZO POBTUGUEZÁ AO MCATIÂNVUA ^^Ê 


[ 


gado ovelhum e catrura, era ainda muito mais deBenv<d<^^| 
vido que de Fungo Andongo, o meUior que conheciamos. ^H 

Quauto ás aves domesticas nSo as ha superiores na provÍB^^H 
cia, gallinhas, patos, perue e pombos, distinguem -se pela eal^^| 
^andeza e bom peso. ^^H 

Também possue c^es de caça, que se desenvolvem bem «^H 
mesmo oa cruzados com indigenns nào são mauB. Fomos mimo-^H 
seadns com um casal que muito apreciámos. ^^M 




ft 


Os pastos sl\o magníficos, as aguas exccUentes e nSo deye^^| 
nos deixar de citar uma uasoente de agua férrea. A altitudO^^H 
le Catalã é a mais elevada que conhecemos, 1;260 metroa^^^J 
sto é, mais 106 metros que a de Malanje. Os peores ventD«i^^| 
:iB de oeste, não sào os que predominam. Tudo emfim coDcorr&^^l 
para neste logar se crearem bem os animaes de que o homem^H 
arece para sua aUmentaçSo ou como seus auxiliares. | . ^^| 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 365 

Asseverou-nos Esteves, que passava aqui muito bem attri- 
buindo isso á salubridade do logar, ainda assim disse ter tido 
algumas febritas, e com franqueza a cor macillenta da sua pelle 
não nos agradou e pareceu-nos que elle resistia com vantagem, 
em consequência do bom passadio. 

E não admira o nosso reparo, porque depois vimos que o 
mal a que tem podido resistir, as infecções paludosas, existe 
próximo, mais para norte, sendo o clima muito húmido. 

O passeio foi largo e por isso almoçámos já depois do meio 
dia, aproveitando parte da tarde e noite na correspondência 
para a metrópole, emquanto o pessoal menor, satisfeito com 
um garrote, fubá e aguardente que lhes dera o dono da casa, 
preparava a refeição para a noite. 

Tivemos depois do jantar noticia que as nossas cargas ti- 
nhani ficado nesse dia no Muquixi, e por isso era de suppor 
que chegassem só no dia immediato, porém ainda não vinham 
as que deixáramos em Malanje, por não terem apparecido al- 
guns carregadores contratados, que affirmaram vir ter com- 
nosco. 

Appareceram alguns sobas vizinhos, dizendo que seus filhos 
não queriam ir á mussumba com receio de que o Muatiânvua 
lhes mandasse cortar o pescoço e não se ajustavam também 
para o Cuango por temerem que depois os fiizessem seguir 
amarrados para lá. 

Era esta uma contrariedade que não sabíamos como expli- 
car, mas sobre que julgámos conveniente não fazer maiores 
indagações, para que não se propalasse o boato de que quería- 
mos obrigá-los a tal serviço. 

Mais tarde, soube-se que eram os de Cassanje que andaram 
a atemorisar os povos com estas e outras noticias para que a 
Expedição não fosse para o interior fazer mal ao seu negocio. 

No dia 14 e logo de manhã, chegaram 12 carregadores do 
Sanza para se contratarem, mas só até á estação Ferreira do 
Amaral, por preço muito em conta. 

Andala Quinguangua, respondera-nos que arranjaria 20 car- 
regadores, mas estes de certo também não iriam ao Cuango. 



366 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATliKVnA 

Tendo chegado as caixas, alguns carregadores queixaram-Be 
das que continham a pharmacia e não houve remédio senlo 
fazer transportar algumas por dois. F)ra um mau precedente já 
nestas alturas, mas não havia remédio. Na EstaçSo onde nos 
Íamos demorar algum tempo, providenciámos a este respeito. 

Mandaram-se quatro dos antigos carregadores a Malanje 
buscar as cargas que lá tinham ficado, sendo entregues as que 
estes trouxeram a quatro novos, chegados do Sanza. 

O dia 15 foi destinado para descanso de todos, a fim de no 
dia seguinte de madrugada partirem para a EstaçSo Vinte e 
Quatro de Julho. < 

De facto em 16 poz-se a caminho a commitiva das cargas para 
Andala Quinguangua onde ficava a Estação Vinte e Quatro de 
Julho, acompanhada por dois soldados e com ordem de irem 
avançando todos os dias para a Estação Ferreira do Amaral^ e 
mandámos prevenir o empregado nesta ultima de que estáva- 
mos em marcha e que recommendasse ao soba da povoaçIO| 
que fosse arranjando carregadores para transportarem cargas 
d'ahi para a Estação Paiva de Andrada, no Lui. 

O velho Calado e sua filha jantaram comnosco, e esse homem 
recordando-se da pátria, de que nos havia de fallar? Dos homens 
de mais nomeada de seu tempo e das questões que então eram 
mais palpitantes: guerra da Maria da Fonte, da Patuleia, do 
marechal Saldanha, conde da Povoa, barão de Catanea, Passos 
Manuel, etc, e terminou com o que o preoccupava mais na 
occasião, o fabrico da aguardente, machinas de distillação, etc, 
e de quanto fora infeliz no commercio. 

A filha, essa, nem luna palavra, e para muita gente, soube- 
mos depois, que passa por muda. 

Tinhamos resolvido que partiríamos no dia immediato, e por 
isso deixámos a familia Calado com o dono da casa e fomos 
terminar e fechar a nossa correspondência para ser enviada 
para Malanje. 

Por emquanto iamos aproveitando os recursos que tinhamos 
para dar mensalmente noticias nossas ao governo e ás nossas 
famílias. 



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DESCRIPÇlO DA VIAGEM 367 

O nosso hospede entendeu nSo só dar-nos um lauto almoço 
de despedida, como ainda preparar-nos alguns assados, ovos, 
queijo, pão, vinho e café para o caminho. 

Como a distancia d^aqui para a Estação, onde queríamos ir 
pernoitar, não era grande, 20 kilometros, que de rede se vence 
em três e meia ou quatro horas, acceitámos o seu convite e % 

ficámos ainda para almoçar, no que fomos acompanhados pelo 
velho Calado e só partimos á uma hora da tarde depois de » . 
expedido o nosso correio para Malanje. 

Despedindo-nos do nosso excellente amigo o sr. Francisco 
José Esteves cumprimos um grato dever significando-lhe neste 
logar o nosso reconhecimento. 

Seguimos o rumo, quasi sempre para E. entre arvoredo, por 
terras húmidas em parte encharcadas e com linhas de agua que 
de certo desappareceriam, se a intensidade dos raios solares nào 
fosse modificada pela ramagem do arvoredo sobre que incide. 
Chegámos á Estação eram cinco horas e appareceu-nos logo 
o soba, pedindo que não fossemos para aquella casa e sim para 
uma que elle mandara preparar próximo da sua, porque como 
estava fechada por algum tempo, pululava ahi o inahundo 
(JPtãex penetrans). 

Suppondo que seria exagero da parte do soba para nos at- 
trahir para a povoação, tentámos entrar, porém os dois pri- 
meiros carregadores que iam na frente, logo aos primeiros 
passos, deitaram a fugir batendo nas pernas e gritando que não 
entrássemos. 

Não havia pois que hesidar, acceitámos o offereciípento. 
O soba em seguida, presenteou-nos com um grande porco 
para a commitiva o que se retribuiu com uma peça de chita de 
primeira qualidade, que elle muito agradeceu; nós porém, rela- 
tivamente não ficámos de peoi* partido. 

Coin respeito a carregadores, disse-nos que na occasião só 
pudera alcançá-los para Andala Quissúa, mas que passados mais 
dias os apresentaria para o Cuango. 

Neste caso resolvemos logo, com grande magua do soba, 
partir de madrugada para a Estação Ferreira do Amaral, a fim 



1 



308 KXPBDTçXo POBTamnosA ao «UAirÂKvnA 

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de li' irmos' dormir e dÍ8semo»-Ihe que mandasse li os carre- 
gadores quando os tivesse. ^ 

Maton-se o porco, ficando un pedaço para arraigarmos lam- 
bem a nossa refei^^ e o resto dividia se pekè carregadores, 
que trocando parte por fiiba tiveram mna boa ceia. 

Ji de noite, Andala Qaingaangna mandou arranjar uma beUa 
fogueira, a qual attrahiu dançadores e musica, e veiu sentar-se 
perto de nós, para gosar das nossas impresaSes sobre o entre- 
tenimento que preparara para celebrar a nossa cbegada. 
* Tintamos assistido a muitas danças afiricanas, tanto nesta 
província, como na costa oriental e na ilha de S. Thomé, 
tínhamos lido algumas descripçSes de viajantes e eiploradores, 
porém confessámos que mids primitivo, mais gentílico, nada 
vimos, como o que se estava passando deante de nós. 

As raparigas e os rapazes estavam formados em duas linhas, 
distantes uma da outra uns 3 metros. A toada dos instrumen- 
tos de pancada, sae uma das mulheres dançando em passinhos 
curtos e vae direita ao homem que mais lhe agrada ç dançf»" em 
firente d'eUe até lhe tocar e recuando nos mesmos passos de 
dança, este como attrahido, procura também dançando unir-se 
a ella que procura sempre fuglr-Ihe com o corpo. Assim andam 
no terreiro ora avançando, ora recuando, até que a rapariga que 
o fora desafiar se deixa vencer e então tocam-se por três vezes 
no ventre e na ultima, ficam assim por segundos dançando, in- 
clinando o tronco para traz e um pouco para a direita e ter- 
minam de Bubito, indireitando-se, batendo os pés com força e 
recuando cada um aos seus logares, no meio dos applausos dos 
espectadores, expressos por grande vosearia, assobios e palmas. 

Segue-se outra rapariga a conquistar o seu rapaz, e assim 
Buccessivamente. 

Quando as linhas dos bailadores eram grandes, viam-se dois 
e três pares no terreiro. Algumas raparigas por mais envergo- 
nhadas ou por mais coquetes tapavam parte da cara com len- 
ços, mas pelos requebros que davam ao corpo e pelos sorrisos 
que se lhes podiam descobrir, mostravam a sua satisfação por 
este passatempo. 



DESCRIPÇAO UA VIAGEM 



369 



Quando eram horaa de nos acconimodurmoB recolhemos, porém 
as tarimbas eram curtas por falta de espaço na cubata, e por 
isso, pelo calor ineupportavel que fazia c por causa dos mos- 
quitos, poucos foram os momentos de repouso que tivemos. 

Principiava a aclarar o dia, ainda tudo estava em socego na 
povoaçSo, e já a nossa pequena commí tiva estava em movimento 
de partida. 

É occasião de fallarmos na Estação Vinte c Quatro de Jullio, 
e de dar as informaçSes que temos sobre a povoação. 

A Estação foi construída à 
saida da povoação para norte, 
e Hcou um pouco distante d'ella. 
Oecupava uma área ile ll^X 
4", 8 tendo as paredes a altura 
de 3 metros. 

Foi dividida cm dois com- 
partimentos, sendo o do cen- 
tríjj o mais espaçoso, com 6 me- 
tros de comprimento destinado 
a armazém das cargas, tendo 
esteduas janellas. Os compar- 
timentos latcraes cada um com 
sua porta, destinaram-se, um 
independente do armazém, 
para hospedes, e o outro que 
com este communica para o 
encarrregado do estabeleci- ciuTtg»iior 

mento. 

Deu-se á cobertura bastante elevação, para offerecer bom 
escoamento à, iigaA das chuvas. 

NSo se deu maior desenvolvimento a esta EstaçSo, por ficar 
a um dia de marcha de bons estabelecimentos commerciaes e 
não ser provável que tão pequena distancia fosse sufficiente 
incentivo para attrabir as commitivas do commercio do interior 
já encarreiradas para aquellos. 

Fundando esta Estação, teve-se em vista, facilitar as com- 




370 BXFBDIÇXO POBTUGinUÁ AO mJATlÂJKVUA 



mimicaçSes i Expediçlo, dispor ob poros visiiihos a Ma &Tor, 
manter alii uma reserva de recursos, e fteilitar a mudança dos 
cargas para deante, attenta a grande fidta de carregadorea que 
havia em Maknje. 

A poYoaçSo é disposta, como em geral, as que temos yisto, 
^ numa baixa, assombrada pelo lado de leste e próximo de agua 
i4^ corrente, havendo depressSes aqui e ali onde se estagnam por 
algum tempo as agoas pluviaes. As habitaçSes slo baixas, re- 
^'^^ Yestidas de capim mas regularmente acabadas, e destaoam-se 
as dos indivíduos que teem mais posses pela grandesa, maia 
divisSes e pela omamentaçto, feita com o mesmo capim, nas en- 
tradas e no fecho das cúpulas. 

Entre as habitaçSes vêem-se curraes e chiqueiros, e os ani- 
mães também aqui parece darem-se bem. 

SSo as mulheres quem cuidam das lavras e estás limitam-se 
a plantaçSes de mandioca, milho, jinguba e nalgumas também 
ha feijSo miúdo. 

Os homens no tempo próprio caçam, cortam madeiraa no 
mato, alguns ji procuram o serviço de carretos, mas na maio- 
ria slo indolentes e os que se encontram pela povoaçSo passam 
a maior parte do tempo nas habitaçSes, junto aos brazeiros e 
bebendo d'alguma bebida fermentada, sendo aqui a principal 
o hydromel. 

As mulheres entrançam os cabellos a capricho, mas só os 
penteiam de tempos a tempos, e untam-nos com varias sub- 
stancias, a pohto de nalgumas apenas se perceberem as di- 
visSes das tranças que mais parecem IS do que cabellos en- 
crespados. As tranças sSo apertadas com pedaços de metal 
ou enfeitadas com contaria, preferindo-se a vermelha. Algumas, 
porém, mais pretenciosas e por isso mesmo menos descuidadas 
e que se penteiam a miúdo, arranjam alguns penteados artís- 
ticos e que agradam á vista. 

Os rapazes até uma certa idade, geralmente, quando fezem 
gosto pelas tranças augmentam-nas com crescentes que dis- 
ferçam enfeitando-os com contaria diversa na côr e grandeza. 
Presentemente os homens, pelo contacto com os Ambaquistas e 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 371 

mesmo com os Bambeiros ', já usam como estes, de barretes e 
chapéus de qualquer cor, feitio e espécie; o caso é cobrirem a 
cabeça. 

Vêem-se homens de barba cerrada e alguns têem-na es- 
pessa. 

Como vestuário trazem as pelles de qualquer animal, sus- 
pensas á cinta atraz e adeante, porém sobre estas, se os têem, 
usam pannos de fazenda que em geral só os tapa até aos joelhos 
ou um pouco mais abaixo. Os mais abastados cobrem-se com 
um grande panno de algodão ou de chita que a um terço do 
seu comprimento amarram na cintura, ficando o resto para cima 
com que tapam as costas envolvendo os braços na parte que 
lhes cae adeante, se teem frio, e sempre quando estio senta- 
dos ou conversando. As mulheres amarram sobre os peitos um 
cordão ou fita delgada e entallado neste é que seguram os pan- 
nos, ficando com os braços livres para poderem trabalhar á 
sua vontade, pizar o bombo, cozinhar, cavar, transportar agua, 
etc. As mais indigentes usam apenas um trapo a cobrir as par- 
tes pudendas mas se teem mais algum retalho de fazenda, so- 
bre o referido cordSo com que sempre apertam superiormente 
os peitos de modo a fazer ahi uma quebra, prendem-no para 
tapar o seio. 

Os pannos melhores são debruados com outros, o mais geral 
é debruarem-nos com ganga azul. 

Com respeito ao seu dialecto, notou o capitSo Aguiar que 
era um mixto do de Loanda com o dos Bailundos, encontrando- 
Ihe comtudo vocábulos especiaes. E convencia-se de que se 
havia adulteração era no que se chama dialecto de Loanda, 
pelo contacto com os europeus. 

Conhece o referido capitão e mesmo falia os dialectos de 
Loanda até Massangano e alguns do sul, do sertão de Ben- 
guella, e no seu diário registou, a respeito do dialecto que falia 
este povo com quem conviveu algum tempo: cQue a maioria 



1 Vizinhos da sede do concelho de Malanje. 



372 EXFKDIÇXO POBTUanSEA AO mUTIÂHTm 

dos termos sSo ignaes, porém a pronnncU i dífferente e con- 
corre em grande parte para que quem, como en, nlo conhece a 
ftmdo nem este nem ontros dialectos, os nlo possa compreheai- 
der a primeira vex qae os oave. ^«dso de olmgar esta gente 
a repetir duas ou três vezes o qtie me dizem para entio os 
perceber». 

■De fiicto asum é, mas nKo é só a pronuncia qae difficolta a 
percepção, é a questZo de onvidOf a Cslta de Tocabnlos nos poro* 
qno mais s» afastam da actÍTidade que se vae aooentaaudo 
entre as tribos mais adeantadas, e principalmente o modo di- 




▼erao da juxtaposiçSo d'ea8eB vocábulos. As línguas rSo pas* 
Bando por modificações com o correr dos tempos e as de Afirica, 
em alguns povoa, estão num periodo de transição e mais se 
seute esta quando nos encontramos entre tribus relativamente 
mais atrazadas *. 

Este povo em geral é docit e a Expedição manteve com elle 
as mtús cordeaee relaçSes, e como laça parte dos povos de 



1 Vide OB volumes -eapeciaes sobre linguística, publicados pela Expe- 
dição. 



DESCaiPÇAO DA VIAGEM 



373 



Andala Quissúa, entre os quaes íamos viver por algum tempo, 
basta por emquanto o que deixâmoa dito aobre aa nossas im- 
pressBes geraes a seu respeito, nSo devendo comtudo deixar 
de consignar por ultimo que apre sentando -se em principio 
muito desconãado sobre as nossas intençSes, não foi, sem se 
mostrarem conti-isfados, e sobretudo o potentado, que nos dei- 
xaram partir antes do sol t 

Seguimos o rumo N.-E, 
e depois de passarmos a 
povonçíío de Caco lo Bela, 
embrenhámo-uos numa 
floresta de arvores corpu- 
lentas e onde o aalalé en- 
controu vasto campo para 
as suas imponentes coii 
strucçSes; algumas real 
mente s?ío prodigiowa.-, 
deixando-nos em duvidii 
á primeira vista, se síík 
eltas que sustentam as ar- . 
vores de elevado porte, 
ou 80 estas lhes sorvem ^ , 

de apoio. CABCHIKIUDIII lUUUBl 

E certo que além da riuTíiriuiot 

arvoro principal que se 

apresenta inleriormente rendilhada, envolvendo com as raizes 
essas construcçIlSefl, partem d'estaB trcs ou quatro mais pe- 
quenas que nellas parecem ímpIantadaB. Ha outras construçfles 
já cobertas superiormente de vegetação variada e luxuosa como 
siços de jardim, do centro dos quaes se elevam as arvores 
que as sombreiam. 

N3o é raro do tronco do uma d'cstas arvores levantar-se 
uma outra como enxerto, de folha muito differente. 

Algnmas d'e3tad obras da natureza, de tal modo captivaram 
a nossa attenyão, que insensivelmente com o lápis as fomos 
copiando o melhor que nos foi possível, para a nossa carteira. 




374 EXPEDIÇZO PORTUOUEZÁ AO MUATIÂHVUA 

Continuando a marcha^ ás nove horas e três quartos^ pas- 
sámos o rio Cambo, sobre o tronco de uma arvore^ tendo feito 
um percurso de lõ kilometros. 

Este rio vem de S.-E, parece partir da elevada serra de Tala 
Mugongo é descaindo para o W., seguir depois paraN. na baixa 
Occidental das montanhas do jaga Andala Quissáa. 

Começámos a subir, sendo ali a floresta mais densa, vendo- 
nos forçados por isso a caminhar a pé, porque na rede o nosso 
corpo era molestado com as pancadas nas arvores. O caminho 
ainda estava liberto do capim pelas ultimas queimadas e por 
isso nfto nos custou a marcha. 

Passámos algumas linhas de agua, e ora descendo mais que 
subindo, parámos ao meio dia na margem do rio Quindúa, onde 
encontrámos bellas arvores, á sombra das quaes descansámos 
e comemos alguma cousa, tendo feito um percurso de 11 kilo- 
metros ou mais, e sempre no mesmo rumo. 

A nossa gente precisava também de comer^ e por isso o des- 
canso foi de uma hora. 

Um pedaço de carne de porco e pSLo da véspera, ovos assa- 
dos e queijo, foi a nossa refeição. O leitão inteiro que o nosso 
amigo Esteves havia mandado arranjar apodrecera, mas os 
carregadores é que não consentiram que se deitasse fora, co- 
raeram-no todo. 

Continuando a nossa marcha, depois de descermos a um 
grande valie, subimos a um planalto, onde passámos ao lado 
da senzalla de Cambaquela e num acampamento provisório mais 
adeante encontrámos em descanço a commitíva das nossas 
cargas que partira antes de nós de Catalã. 

Eram três horas e três quartos e haviam ahi recolhido por- 
que principiara a chover. Contávamos mais 10 kilometros de 
marcha, sendo esta num rumo um pouco mais para norte. 

Nilo nos convindo por forma alguma ficar ali, pois numa 
marcha de três horas podiamos vencer a distancia que nos fal- 
tava para chegar á EstaçUo, apesar da forte trovoada que es- 
tava sobre nós, e suppondo que a chuva, pelo caminho que tí- 
nhamos a seguir, pouco mal nos faria, mandámos distribuir uma 



DESCRIPÇZO DA VUOEM 375 

raçSo de aguardente á gente para a animar a prosegnir, e de- 
terminámos que as cargas que encontrámos fossem immediáta- 
mente recolhidas^ devendo os carregadores continuar a viagem 
no dia seguinte. 

Já tinhamos avançado 2 kilometros e na descida para^>o 
valle maior que se encontra neste trajecto, que por ser pro- 
fundo chamam Muhamba, a trovoada augmentou e a chuva 
apertou comnosco cada vez mais. Os carregadores, que já iam 
alegrotes, acossados por ella, seguiam numa carreira vertigi- 
nosa e lá fomos de cambolhada na rede com elles por uma ri- 
banceira Íngreme. 

Felizmente elles sabem cair; porém um de nós, que ia na 
frente, assentou com os costados no solo, e sem dar um ai, es- 
perou que o levantassem do charco em que o deixaram, em- 
quanto que aquelle que vinha atraz, e que o ia atropellando, 
sentindo o alarido dos carregadores e sendo obrigado a des- 
viar-se, saltou fora da rede suppondo que teriam partido a 
cabeça ao seu companheiro que jazia immovel. 

SSo accidentes estes que succedem muitas vezes a quem 
tem de transitar no interior de Africa, e sobretudo onde hou- 
ver aguardente ou qualquer bebida dos mesmos effeitos hila- 
riantes. 

Já fatigados, fomos como pudemos até á sehzalla do soba 
mais próximo e como o tempo tendesse a alliviar, tratámos de 
aproveitar a bonança. 

Descíamos novamente pela Quicassa, mas a chuva e trovoada 
augmentaram. 

Faltavam 2 kilometros para chegar á EstaçSo, mas já es- 
tava escuro bastante e o caminho era perigoso por ser em ri- 
banceiras, na aba de uma serra. 

Aproveitámos todavia a claridade dos grandes relâmpagos 
para adeantar ainda alguma cousa no caminho e chegámos a 
um acampamento provisório, dos que por ali se encontram, 
prestando-se alguns dos homens que ahi se achavam, a virem 
com fogachos que fizeram de capim guiar os nossos carrega- 
dores. 



376 



EXPEDIÇZO FOKTDQDEZA AO MDATtiHVUA 



Chegámos á Estação eram sete horas e um qnarto, mttito 
moidos, muito encharcados c com bastante apetite, tendo sempre 
seguido pouco mais ou menos o rumo N.-E. num percurso 
de 48 kilometroa, a contar de Ãndala Quinguangua. 




DESCBIPÇÍO DA VIAGEM 



CAFLfXI -ESTAÇÃO FERREIRA DO AMARAL 




ivcndo o empregado que pstiiva 
tomando conta da Estavílo dis- 
posto jil as cousas em dejRisito 
11 doa quartos, e dado as 
IH ordens ao cozinlieiro para 
lazer uma canja de galliuha, 
tratámos nós de mudar de roupa 
i fomos tomando café para nos 
' confortar. 

Da Estii^So Paiva de Andra- 
da tinham chegado na véspera 
três contratados de Loanda a 
-'<. dcram-nos noticias circurastan- 
* ciadas do que por lií ao passava. 
Como lodos ali estivessem bera, cuidámos de ir pondo os vo- 
lumes que trazíamos nos devidos logores. 

Veiu a canja por quo suspirávamos e uma refei^jílo repara- 
dora e que o estômago recebia bem, dispoz-nos a ouvir as íii- 
formaçfies de uns o outros acerca : das relaçSes <iije se haviam 
mantido com os povos vizinhos, recursos alimenticios, prefe- 
rencia da missanga á fazenda para a compra de géneros a re- 
talho, gosto pronunciado dos potentados pela aguardente, ne- 
gocio de gado bovino, esperanças de carregadores para a 



378 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO HUATllNVnA 

Mussumba, offertas de algiins para transportarem cargas para a 
Estação Paiva de Andrada, etc., etc. 

E depois de tudo isto, deitámo-nos e dormimos até de ma- 
drugada, sentindo-se já então grande movimento na povoação. 

Pouco depois de terminadas as nossas abluções matutinas e 
feitos os arranjos do costimie, recebemos a visita de Sé Qui- 
tári, soba da povoação. Como tomávamos café, também lhe 
apeteceu provar, mas não gostou, preferindo um copo de aguar- 
dente que sorveu com delicia. 

Já sabiamos que toda esta gente até ao Cuango dá grande 
apreço a um copo de aguardente. E o melhor mimo que se 
lhes pode fazer, porque elles ainda não encontraram a moeda 
com que a possam adquirir. 

Se alguém se lembrar de vir para aqui vender cálices de 
aguardente por boUas de borracha, não lhe faltarão freguezes, 
porém será um grande mal para esta terra. 

Tirar uma porção de borracha dos seus pequenos depósitos 
para comprar um garrafão ou mesmo algumas garrafas, não o 
farão porque geralmente esses depósitos, que a pouco c pouco 
vão accumulando, constituem as suas fortunas, que destinam 
parte para compra de cabeças de gado e uma outra para fa- 
zendas e missangas com que se vestem. Mas tirarem luna boUa 
de quando em quando para irem saborear o seu copinho, por 
certo que o fariam *. 

Nós levámos até ao Cuango alguns garrafòes de aguardente 
destinados a presentes, por serem estes os mais económicos 
e para gratificarmos os carregadores ; porém como o nosso fim 
era mantermo-nos nas boas graças d'estes povos e não nego- 
ciá-la, de um garrafão faziamos três e ás vezes mais, tempe- 
rando-a com a agua do rio, filtrada, e sem que elles tivessem 
conhecimento de semelhante operação. 



1 No nosso regresso, já nas margens do Cuango e também aqui, se 
negociava em aguardente a retalho, e os agricultores de Malanje, de 
certo terâo reconhecido o augmento de procura d'este bom producto da 
Bua industria, depois que a Expedição se foi internando no Continente. 



DESCKIPÇAO DA VIAGEM 



379 



O soba terminou a sua viaita, participando- nos que espe- 
rava que seu pae ', o jaga Andala Quisaúa, raandnsao cum- 
primentar-nos c dar-nos de comer, para elle então também nos 
trazer alguma couaa e dar ordem á sua g^nte para vir á Ea- 
taçSo vender mantimentos á nossa comitiva. 

É a praxe que encontramos ora todos os povos com quem 
tivemos de entreter relações ; ninguém de uma povoação se 
apresenta a vender ou offerecer qualquer cousa a um hosj 
sem que o potentado tenha 
primeiro enviado o seu pre- 
sente. 

De facto, depois de ter 
retirado Sé Quitári, appa- 
receu-noa um representante 
do velho Jaga felicitando- 
noB pela nossa chegada á 
EstaçSo, sentindo elle mio 
poder vir pessoalmente por 
estar quaai entrevado, como 
era sabido. Havia mandado 
buscar um boi á sua ma- 
nada para nosso alimento, 
como porém este sei-viço ti- 
vesse demora, pedia accei- 
tossemos as duas gallinhas ' 
c a porca que enviava, para 
n&a e a nossa gente podermot 
sem o boi. 

Agradecemos oa comprimentos e & lembrança do Jaga, e 
compromettemo-nos a ir vê-lo logo que ttveasemoa tudo na de- 
vida ordem, manifestando a necessidade que tínhamos de car- 
regadores para fazermos seguir jA &s cargas para o Cuango, 




1 esperar até que nos trouxes- 



1 K uao d'eBtes povos cliamarero pac nos poteotados, polo menos o 
cabulo que empregam para oa deaignarem, è eate. 



S80 BXPEDIÇZO POBTUGUEZÁ AO XUATIÂHTnA 

TÍ8to estannos muito apertados na EstaçSo. Como aignal de 
amizade e de termos recebido o seu presente, mandámos-Ihe 
pelos seus portadores um garrafto de aguardente, acrescen- 
tando que esperávamos desse ordem ás suas sensallas para 
Tenderem mantimentos á gente da nossa comitiva. 

Foi depois de se retirarem estas visitas, que tivemos oppor»^ 
tunidade de passar uma visita á EstaçSo. 

Ficara esta construída com toda a solides, occupando o edi- 
fício uma área de 12^X4 dividido em três compartimentos, 
sendo o do meio mais avançado e por isso mais largo 1 metxo. 
Derarse ás paredes d'este ultimo, maior altura e portanto a sua 
cobertura era também mais elevada projectando-se sobre as la- 
teraes. Ao pavimento deu-sé um nivel superior ao do solo em 
redor, ficando á frente da porta de entrada um pequeno alpen- 
dre, dispondo-se o solo ahi em degrau, entre o nivel do ter- 
reno e o da casa. 

Os lados d'este alpendre foram fechados por bancos de arga- 
massa igual á das paredes da construcçSo, onde se sentavam os 
que nos vinham visitar, evitando-se assim a accumulaçlo de 
gente na casa central onde trabalhávamos e onde estavamí ar- 
recadadas fazendas e outros artigos de commercio, instrumen- 
tos, armamento e utensílios que era indispensável ter mais á * 
mao. 

O alojamento da esquerda destinámo-lo para quarto de dor- 
mir, e o da direita para armazenar as cargas, dispostas na de- 
vida ordem, em prateleiras fixas nas paredes do alto a baixo. 

As paredes tinham de altura 2",20, porém como as asnas ti- 
vessem grande altura, havia no interior uma cubagem de ar 
muito sufficíente. 

Tanto as mestras como os tabiques foram feitos em duas 
ordens de gradeamento de troncos devidamente preparados, e 
entre elles metteram-se pequenos calhaus e pedaços de barro 
endurecido sendo tudo depois revestido por ambos os lados de 
barro amassado. 

O soba tinha cedido um espaço ao fundo para curral e 
horta, que devia ser fechado por um tosco gradeamento, o qual 



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7 



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descripçao da vugem 381 

circumdaria a Estaçíto até á sua linha de frente; porém esse 
serviço só poderia fazer-se, caso tivéssemos muita demora, o que 
nâo desejávamos. 

A frente da Estação havia um largo que nSo convinha em- 
pachar e por isso o acampamento dos carregadores foi disposto 
aos lados, ficando as suas habitações afastadas umas das outras 
por causa dos fogos. 

Estávamos na extrema norte do planalto da povoação a que 
denominam Cafuxi * do Sé Quitári, d^onde seguem as ram- 
pas para os valles, as quaes terminam junto ao rio Luhanda 
que se desenvolve em curvas pronunciadas do nosso oeste pelo 
norte para confluir no Luí. E pelo valle da nossa frente que 
se faz o caminho para NE. para Holo, longo, etc. 

No planalto que nos ficava fronteiro, distanciadas imias das 
outras, destacavam-se, sombreadas por frondoso arvoredo, três 
povoações que constituem Cafúxi, tendo cada uma o nome do 
seu soba. 

O nosso horizonte limitado a oeste pela grande serra de An- 
dala Quissúa e que se estende para noroeste, é mui desaffron- 
tado d'ahi para leste, principiando a restringir-se depois para 
o sul, apresentando-se-nos ahi, a limitar o recinto das aldeias 
dois elevados montes de formas semelhantes, quasi da mesma 
altura vistos da Estação; e mais, parece que a natureza se 
encarregou de os rasgar a meio, em forma da projecção de 
um vaso, para dar accesso por este lado á região de além. 

Durante as madrugadas, emquanto o sol nos permittia, ti- 
vemos occasião de desenhar os panoramas que do largo da 
Estação disfructavamos para todos os lados, e por isso os re- 
produzimos para dar d'elles melhor idea do que por uma simples 
descripçao. 

Tendo nós presenteado o Jaga pela nossa chegada, era justo 
não esquecermos o soba Sé Quitári e o seu velho tio, que pres- 



1 Segundo os Ambaquistas, fmd («sitio»), kafaxi («pequeno sitio»). 
Parece-noa a interpretação — aldeia, pequena povoação. 



SB2 BXPEDiçZt) ^HUtstíuisàk âo iiuÃiilHVtr 

- ■ ' * " - -.. 

tara ao empregado da EstaçSo o importante serviço de lhe 
ranjar. crea^, cabritos, ovos e mantimentos das lavras de 
que elle carecia para seu sustento. 

Tatnbem os figurámos a mn e a outro, assim como o toUio 
Jaga, segundo um croquis que nos foi possivel obt^ durante os 
poucos dias ein que mantivemos com eUes relaçSes. 

Os homens vieram agradecer a lembrança e entSo trouxe» 
ram cestos de fubá ^ para a nossa gente. Esta, que além da 
porca teve também um garrote, enviado por Andala Quissáay 
terminou o dia com um festivo sarau, e nós fomos obrigados 
a acompanhar o soba e a sua primeira mulher assistindo a mum 
dança improvisada pela nossa gente, á qual nXo resistiram aa 
raparigas da povoaçSo, attrahidas pelos sons de uma harmónica 
tocada por Adolpho, rua dos nossos contratados de Loanda* 

Fizeram grandes fogueiras, assobiada e alarido, com a proTÍa 
licença do soba. 

As raparigas, já de tarde tinham vindo acompanhar o soba 
para ver os brancos, de quem pareciam temer-se, porém uma . 
porção de missanga a granel, que se lhes atirou, fez-lhes per* 
der o aoanhamento e d'elles se approximaram. Por isso á 
noite, ouvindo a musica, não poderam parar nas habitaçSes, 
e o soba, que conheceu o que ellas queriam, disse-lhes que 
fossem dançar com os filhos de Muene Puto. 

O nosso cozinheiro Marcolino estava alegrete e entreteve 
a sociedade, cozinhando os mocotós ^ para o nosso almoço do 
dia seguinte. 

Para animar a dança, que era dirigida pelos rapazes de 
Loanda e a que as raparigas e rapazes da povoação facilmente 
SC affeiçoaram, deu-se um cálice de aguardente temperada a 
cada um. 

As dez horas levantou-se um rijo pé de vento de N.-E. sendo 
preciso fazer apagar as fogueiras por causa das fagulhas nSo 



1 O amido da mandioca. 

2 Mãos de vacca. 



DBSCSIPÇZO DA VIAOEH 



383 



irem causar algum BÍniatro, terminando portanto a festa e reti- 
rando cada um para suas casas. 

Seria meia noite, grossa cbuva nos obrigou a mudar de camas 
6 de logares, porque a cobertura do nosso alojamento, sujeita 
a uma grande prova, indicava-nos os reparos de que carecia. 
Destinámos o dia para fazermos a aaccnsSo á residência do 
Joga, e por iaso se tratou do presente que lhe deviamoa levar, 
porém antes, Sizenando Marques dispoz os seus inslnimentoa 
de observação e preparou me- 
dicamentos para alguns doentes 
por quem o soba se interessava 
e que lhe apresentara. Contra- 
taram-se e pagaram-se dois car- 
regadores para a Mussumba; 
despacharam -a e com pagamento 
dois dos nossos, que contrata- 
ram mais dois seus parentes para 
o serviço das targas Uimbtm 
para a Mussumba mdí buacJÍ 
los iÍB sen^atlas que diziam a 
um dia de distancia da povoa 
çSo, recebeu se a viaita de St 
Quitan e de seu tio, que noa ^ 
trmxorara mais uma porca de 
prcaontL que foi di\ idida pelo ^ ^^^^^ t o be «á aniTiiti 

pessoal, o distribuíram se de 

zesete cargas que haMam de seguir no dia immediat para t 
Estaçlo Pa va de Andrnda 

Perto daa três horas partimos para Andala Qiiíssúa, e en- 
contrámos, ]>ouco depois de ter passado o Luhanda ás costas 
doa carregadores, uma comitiva do Jnga, que vinha cimipri- 
mentar-nos; dissemoa-ILc qual o nosso destino e portanto que 
os quo quizessem fossem mais depressa preveni-lo. Alguns 
retrocederam e outros entenderam dever guiar-nos e auxiliar-nos 
ua Íngreme subida, em cujo primeiro lanço o aneróide accusou 
uma differença de nivol do 246 metros. 




384 £XP£DIÇAO PÒRTUGUEZA AO MUATIÂNVUA 

Como tinha havido prevençSo, fomos recebidos ao som de 
marimbas de cabaças e de cantigas indígenas allusivas á nossa 
boa amizade com o Jaga. 

O velho estava já sentado sobre esteiras, entre dois grandes 
almofadòes, ao lado da entrada da sua residência e á sombra 
da mesma grande arvore sob a qual o vimos a primeira vez. 
Vestia camisa de algodão e estava envolvido em um grande 
panno. 

Logo que nos approximámos estende-nos as mãos e de tal 
modo nos puxou a si, que iamos perdendo o equilibrio ; abra- 
çámo-lo, ao que elle e os seus mostraram grande satisfação. 
Queixou-se logo das suas grandes dores nas pernas. S. Mar- 
ques observou-o e receitou, prohibindo-lhe o uso da aguardente 
com o que elle ficou muito contristado. Felicitou-se e a terra 
pela vinda da Expedição. Recommendou aos seus que conti- 
nuassem a mostrar boa amizade pelos filhos do Muene Puto. 
Examinou uma a uma as differentes peças que compunham o 
presente, e disse aos do seu conselho que mandassem apresen- 
tar-nos os carregadores que já se tivessem arranjado. 

Emquanto os interpretes transmittiam os cumprimentos de 
parte a parte, não poude o velho resistir á tentação de pedir um 
cantil para ver, c em seguida de no-lo pedir como presente 
para seu uso. 

Como havia sobresalentes, e como as visitas áquellas alturas 
fazem-se uma vez na vida, lá o deixámos, para não contrariar o 
2)obre Jaga na esperança que nos livrasse de mais embaraços 
com carregadores. 

Despedimo-nos d'elle, dizendo-lhc que iamos ver a povoa- 
ção e elle pediu-nos veuia para presentear o soldado que nos 
servia de interprete, com um bode, e que o presente para nós, 
o mandaria á Estação. 
Agradecemos e partimos. 

A povoação ó boa, grande e as habitações mais importan- 
tes são cercadas, sendo revestidos os paus das cercas de es- 
teiras com desenhos agradáveis á vista. 

Algumas habitíiçòes indicam idea de persistência, pela so- 



DESC&IPÇAO DA VIAGEM 385 

lídez e mesmo gosto artístico que revela a sua construcçSo; 
sendo as suas cúpulas bastante elevadas. 

Também visitámos uma povoaçSlo de Ambaquistas^ em boa 
ordem e onde fizemos acquisição de cebolas^ alhos^ azeite de 
ginguba ^ e de palma por elles fabricado e de boas bananas. 
Vimos as suas lavras e creações e tudo nos agradou. 

As mulheres e rapazio seguiam-nos neste passeio^ e o que 
mais lhes causava admiração eram os cabellos finos e compri- 
dos de Sizenando Marques, a quem tomavam por filho do chefe. 

A ascensão e o calor, fez-nos transpirar copiosamente e des- 
pertou-nos o appetite, e por isso ao chegarmos á Estação mu- 
dámos logo de roupa, tomámos uma dose de sulfato de qui- 
nino^, e pouco depois estávamos á mesa, fazendo as devidas 
honras ao jantar com que o cozinheiro se esmerara, dizendo- 
nos que se o achávamos bom, era porque agora tinha temperos 
em abundância. 

A noite passou-se como a anterior, assistindo á dança e 
despedida dos rapazes, que de madrugada tinham de seguir 
para o Luí ; emfim, um pretexto para molharem a palavra antes 
de se deitarem. 

Logo de madrugada, sabendo-se na povoação que ia partir 
uma comitiva de cargas para a Estação Paiva de Andrada, 
vieram alguns rapazes pedir se lhes dávamos também cargas 
para ganharem alguma cousa. Contrataram-se dez, por oito jar- 
das de fazenda cada um, e seguiram na comitiva que partiu ás 
oito horas. 

Chegaram pouco depois os quatro carregadores que de Ca- 
talã se mandaram a Malanje para transportarem as cargas que 
lá deixáramos, aos quaes se mandou dar carne e fuba^ que 
sobrara das rações do dia anterior. 



1 Cuata a crer que uma garrafa doeste azeite se venda em Lisboa por 
preço inferior ao que aqui nos pediram. 

2 Prevenção que muito recommendâmos a quem tem de viver em 
Africa. 



EXPEDItÃO PoaTOGDEZA AO MDAtUsITJA 



O soba da povoação fronteira veiuviaitar-noB e fez-Be acom- 
panhar de uma manada para escolhermos uma vaeca, presente 
a que se correspondeu em valor ura pouco superior. Appare- 
ceudepois Angola Ambolcj um doa grandes do jagado de Andala 
Quissua, que já conhecíamos por o termos encontrado á frente 
do uma força armada que ia fazer guerra a Quifucussa, quando 
viemos aqui marcar o logar para a Estação. Vinha felicitar- 
nos pela nossa chegada, apresentar-nos a sua primeira mulher 
e trazer-nos também uma grande porca de presente, ao que 
correspondemos como é do estylo, num valor superior. 

Os presentes de gado, a 
abundância d'e!le que vi- 
mos pelas immedíaçSes, e 
o seu custo muito rasoavel, 
motivaram a nossa resolu- 
ção de fazer o pagamento 
de raçSes ate ao Cuango em 
carne. 
Nilopodendodeixarde ac- 
' ceitar presentes e por con- 
seguinte de lhes correspon- 
der, liavia um grande saldo 
K a favor da Expedição, pa- 
gando em carne as raçõoa 
a toda a gente da comi- 
tiva, porque o valor com 
que se retribuia com arti- 
gos de commercio o gado recebido era inferior ao que teríamos 
de pagar em raçííes. 

As maiores cabeças de gado que nos tinham sido offerecidaa 
davam para três días de ração ; sendo sessenta o numero de 
boccas, equivaliam a 180 raçSes. Se tivéssemos de pagar em 
fazenda, o mais favorável e que nunca se pode dar, seriam 
noventa jardas, pouco mais de onze peças, e o valor do pre- 
sente com que se retribuíra cada vez variara entre 
nove peças. 




I 



DESCBIPÇÃO DA VUOEH 387 

O pessoal ficou mais satisfeito, porque eram avultadas as ra- 
ções de carne, e uma parte doestas facilmente se trocava na 
povoação por productos das lavras e mesmo por farinhas, 
fubá, etc. 

Comprando, ainda o custo seria menor e portanto tomava-se 
mais vantajoso. 

Tendo participado o ajudante da ExpediçSo em 21, que a 
Estação não comportava mais cargas e que elle estava prompto 
a caminhar para deante, ficou resolvido que o chefe seguiria 
no dia 23 direito ao Cuango, com todos os carregadores de 
que fosse possível dispor, e também com os que se podes- 
sem arranjar nas povoações vizinhas, havendo demora naquella 
Estação apenas dos dias indispensáveis para ahi se contra- 
ctarem os carregadores que faltassem, para não deixar ahi 
carga alguma e neste sentido se procedeu ás diligencias ne- 
cessárias. 

Um rapaz, que se dizia filho do velho Jaga e que em Ándala 
Quinguangua mantivera boas relações com o ajudante da Expe- 
dição e a quem dêmos, não sei porque, o nome de João Quis- 
súa, apresentou uns oito carregadores para transportarem a 
rede do chefe até á Estação Paiva de Andrade, vindo elle 
também de companhia. 

O Sé Quitári e sua mulher appareceram ao sol posto para 
conversar um pouco, recebemo-los com a nossa habitual cor- 
dialidade e também se comprometteram da melhor vontade a 
apresentar alguns carregadores para o transporte de cargas 
para aquella Estação. 

Tudo estava disposto para a partida do chefe no dia seguin- 
te, e como não era possivel vencer a distancia que tínhamos 
a percorrer num dia só, o cozinheiro arranjou uns assados para 
a viagem. 

Despacharam-se também cargas, tendo sido primeiro pagos 
os carregadores que se contractaram. 

O nosso collega Sizenando Marques, que continuava com a 
maior sollicitude a dedicar-se aos seus estudos e observações, 
encarregou-se de proseguir nas diligencias de contractar mais 



886 BXFBDIÇZO POKTDCniEU AO HDAIIIhVOA 

eatre^ãon» e de &3ser seguir ao sea destino as cazgas sob « 
TÍ^laneia de algtuu soldados e serriçaes de Loanda, doa ponooa 
^oe ficavam ao serviço da Estaçto Ferrwrs do Amaral^ par. 
tindo d'ahi o chefe da madragsda do dia 23. 




DESCIilPÇAO DA VIAGEM 



VIAGEM DO CHEFE PARA CAMAVU 




oscemos ao valle em frente da 
EstaçSo, e passando duas vo- 
zes o rio Luhanda, cntrámOB 
iiuraa larga savana, limitada por 
arvoredo, onde encontrámos as 
terras já bastante encharcadas, 
posto estivéssemos ainda no 
principio da estaçSo das chuvas. 
Tendo descido ao valle para pas- 
íannoa o Luhanda a primeira 
vez, inclinámos para N.-E. se- 
guindo depois quasi sempre com 
o rumo E., deixando algumas 
povoaçiíea e lavras para traz. 
Logo á entrada na savana, 
ao sul, e contando os primeiros 8 kilometros de percurso, fica 
a povoação do potentado Hunda, a quem pertencia uma boa 
manada que ali vimos espalliada. Nesta povoaçíto encontrámos 
acampados oito dos carregadores contratados em Mnlanje para 
o Cuango, e que haviam marchado de Catalã no dia immediato 
Á partida da comitiva dos Masongos contratados pelo nego- 
ciante -Esteves. 

Surprehendidoa, porque contávamos que oa quarenta car- 
regadores que tínhamos contratado para o Cuango nos espe- 
rassem na Estação Paiva de Andrada, como era do ajuste e 



890 EXPEDIÇZO PORTOOUEZÂ AO XUÁTIÂirVUÁ 

■III ■ ■— ^—— ^—^.^—11—^—^-^1^^— ^■^——^—^—^— ^——^^——— —1^—^-^^^—^^ 

nSo havendo nós excedido o praso da demora, fomos interro- 
gá-los. 

Mais nos surprehenderam, dizendo: — ^^Que visto a Expedi^ 
n&o poder passar para o Cnango, haviam deliberado procnrar- 
nos para lhes darmos novas cargas para a Estaçlo Paiva da 
Andnida e com esta nova viagem satisfazerem o seu compro- 
misso para o Cuango. 

E porque se nSo passa? Perguntámos. 

Porque o soba Ambango está descontente com a EstaçXo. 

Desconfiando que o motivo nSo era este, determinámos-lhe 
que seguissem comnosco e tendo nós andado 2 kilometros, en- 
contrámos um dos nossos soldados, que nos apresentou uma 
communicaçSo do ajudante, participando que todos os carre- 
gadores contratados para o Cuango haviam retirado. 

Novamente interrogámos os homens, para que n2o occultas- 
sem a verdade pois iamos sabê-la pelos potentados das imme- 
diaçSes da EstaçZo. Apresentaram-nos um novo pretexto: — 
Que na Estação não lhe queriam pagar raçSes. 

Só nós, lhe dissemos, podiamos pagar raçSes e na occaailo 
de partirem, e portanto não deviam ter retirado. Sigam pois 
adeante e participem a todos os seus companheiros que nós 
amanhã lá chegaremos e hão de ter as suas raçSes para mar- 
charmos no outro dia para o Cuango. Foram. 

Nós, continuando pouco mais ou menos no mesmo rumo E. 
chegámos á povoação do Mona Quinhangua, completando até 
ahi 20 kilometros, onde descançámos um pouco á sombra de 
três grandes arvores para comermos alguma cousa, eram dez 
horas e meia. 

O potentado, homem serio e sjmpathico appareceu a cum- 
primentar-nos com as suas mulheres e creanças, e pediu-nos 
licença para mandar dar aos carregadores um bom porco e 
fubá, o que acceitámos com a condição de elle comer do al- 
moço que traziamos, porque não podiamos retribuir na occasião 
a sua lembrança e não nos era possível pernoitar ali. 

O potentado de bom grado acceitou, provou do cognac do 
nosso cantil, que multo apreciou, e deu-o a provar ás suas mu- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 391 



IhereS; emquanto nós afagávamos as creanças e lhes distri- 
buíamos alguns fios de missanga^ que sempre levávamos na bolsa 
de viagem^ mimos que as mães muito agradeceram. 

Depois fomos dar um passeio pela povoaçSo, que nos agra- 
dou pela boa ordem em que estava; vimos a manada que era 
esplendida e offerecendo-nos o soba duas rezes, pedimos para 
estas ficarem ainda até o nosso regresso. 

Despedimo-nos, deixando-lhe imi bilhete para um cabo de 
carregadores, que devia ahi chegar no dia seguinte ou depois, 
ordenando-lhe desse áquelle potentado um garrafão pequeno 
de aguardente. 

Seguimos 3 kilometros no rumo ESE. para percorrermos 
depois 2, descendo para uma linha de agua, o Caquiango, no 
rumo ENE. Vimos ao norte uma boa lavra de mandioca e á beira 
do caminho uma pousada de carregadores, onde encontrámos 
a comitiva que havia três dias tinhamos despachado. 

Sendo apenas meio dia e tendo elles acabado de comer, cal- 
culámos que naquelle dia não tinham marchado e interrogan- 
do-os disseram : — Que não tinham ido avante por lhes haverem 
dito que os potentados d'ahi em deante não deixavam passar 
cargas, sem primeiro se lhes dar um garrafão de aguar- 
dente. 

Certamente os Massongos que elles nos informaram terem 
fugido, foram propalando este boato pelo caminho. 

Bem diziam os Allemães, que os Massongos eram os peores 
carregadores que havia em Malanje e não os quizeram levar. 
Kós acceitámos este recurso para o Cuango, porque Esteves nos 
aíBrmou ter confiança no soba que os apresentava, aliás recu- 
saríamos, como recusámos os que nos apresentaram em Ma- 
lanje da mesma proveniência. 

Conseguimos que a comitiva levantasse e seguisse comnosco, 
porém duas horas e meia depois, já pediam por cansados para 
acampar. Ficaram nos fundos que deixaram os Allemães ao norte 
do caminho que tinhamos seguido, depois da referida linha 
de agua por nove kilometros, direcção pouco mais ou menos 
E. Yi ENE. sempre em subida, e num descampado. 



392 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIAnVUA 

Não vendo rio algum e só poças de agua estagnada^ quize- 
mos convencê-los que ficavam ali mal^ porém como fosse tarde 
e elles podiam vencer no dia seguinte a distancia d'ali á Es- 
tação, não insistimos. 

Logo que começámos a subir do Caquiango, approximámo- 
nos da grande serra Ambango, que se avista a N.-E. da Estação 
Ferreira do Amaral, em forma de chapéu armado, e depois 
seguindo os zig-zags do caminho sempre sombreado por esta 
extensa serra e que parecia não ter fim, voltámos para N.-E, 
e caminhando parallelamente á serra mais 10 kilometros dei- 
xámo-la a final para entrarmos num vasto descampado para 
o lado do N. seguindo ao longo do arvoredo que ficava á nossa 
direita marginando o rio Lui, affiuente do Cuango. 

Tinhamos caminhado mais 10 kilometros no mesmo rumo, 
quando chegámos á povoação do sobeta Angonga, súbdito do 
Ambango, no sitio do qual entrou a comitiva eram seis horas e 
meia e já escuro bastante. 

A marcha de 54 kilometros tinha sido fatigante, todos tinham 
vontade de comer e de descansar, e já muitos dos que nos 
acompanhavam ficavam atrás na senzalla do Bahulo, por isso, 
eonvidando-nos o sobeta a tomar agasalho numa habitação que 
cUe havia já feito preparar para tal fim, dêmos por terminada 
a nossa viagem naquelle dia. 

A cubata que nos apresentaram era espaçosa e bem con- 
struida. 

Arranjou-se uma grande fogueira á sua frente e recebemos a 
familia do sobeta e toda a gente que quiz ir ver-nos. Trouxeram- 
nos um bode de presente que demos -aos carregadores para divi- 
direm entre si, retribuindo a dadiva com uma sobrecasaca 
preta e 8 jardas de chita. 

Depois de termos comido ura pedaço de cabrito assado, bo- 
lachas e uma banana que trazíamos, deitámo-nos, e apesar das 
dores rheumaticas na perna direita e de uma bolha debaixo do 
pollegar do pé direito que nos mortificara durante a tarde, ce- 
demos á fadiga e adormecemos, acordando só ás cinco horas 
da manhã, já dia claro. 



I 



\ 



í'-; 



DESCBIPÇXO DA VIAGEM 393 

Tratámos dos preparativos da viagem^ fizemos as nossas 
despedidas e ás cinco horas e meia partimos no rumo N-E. 

Tinhamos andado 2 kilometros e passámos por uma povoa- 
ção d^onde a gente saia correndo das cubatas para verem pas- 
sar o filho de Muene PutO; fazendo grande alarido e batendo as 
palmas. 

Alguns rapazes quizeram substituir os carregadores que nos 
transportavam na rede e conduziram-nos por 2 kilometros, 
vindo as raparigas sempre aos lados gritando : Muene Puto ueza! 
Muene Pvio uaxica! («Muene Puto, veiu ! Muene Puto chegou»)! 

Chegando a uma outra povoação os rapazes d'esta recebe- 
ram a rede dos que nos transportavam e de quem nos despe- 
dimos recommendando-lhe que fossem á Estação para terem 
o seu mata bicho. Também as raparigas quizeram acompanhar- 
nos á povoação por onde tinhamos de passar, gritando como 
as outras e andando distancia igual. 

Nesta repetiu-se o mesmo que na anterior sendo os idtimos 
que chegaram á Estação, tendo andado um pouco mais de 3 
kilometros. 

Veiu logo fazer os seus comprimentos o soba Ámbango, 
acompanhado dos seus rapazes por elle mais considerados, 
cada um com a sua espingarda lazarina. 

Esta visita que devia ser de meros cumprimentos, tomou-se 
demorada por causa dos queixumes do soba e da sua gente 
contra o pessoal da Estação. 

Não contaram tudo, porque terminaram os seus discursos di- 
zendo : — O sr. major precisa descansar agora, voltaremos depois 
para fallarmos com mais vagar. 

Augusto Jayme, irmão do soba de Malanje, que nos acom- 
panhava para vigiar pelos seus carregadores, e que mandámos 
para deante a fim de ir fallar a Mueto Anguimbo, no Cuango, 
e preparar-nos a passagem, disse não ter seguido, em conse- 
quência da indisposição dos carregadores, sobre o que nos pre- 
cisava fallar. 

Já se vê que tinham havido por aqui novidades sobre o que 
era indispensável providenciar, e portanto chegáramos a tempo. 




Eitev» elle acatado mtmÊt eadenm ab de eovo, o qae 
bem me edammiy poiqoe eté e^ oe eobee qee liiilleeMiB 
fado enta^ram-ee aobre esteíias no dilo, oa em peqaemie htm- 
qnhilioe> 

A casa eetaTa cheia de gente, reeebea-noa mmfto bem n 
fieaiam todos aatisfeitoe com o presente qne dêmos ao aen 
pae. 

Sobre a partida paia o Coango da primem parte da Sqpe- 
diçSo, disse que nlo a teria consentido s^n a nossa' diegada, 
porquanto n2o havia fallado comnosco e n2o conhecia a nossa 
vontade, que era a de Muene Puto; e se houvesse alguma no- 
vidade desagradável com os povos para deante, com razSo nos 
poderíamos queixar d'elle, porém agora, como nós já tínhamos 
chegado, tratar-se-ia d'is80. 

Fallando-lhe com respeito á necessidade que tínhamos de 
mantimentos, respondeu que se prohibiram ás mulheres de irem 
vendê-los ao nosso acampamento com receio nao dessem ellas 
motivo a conflictos entre os carregadores e a gente das povoa- 
ç8es, o que nos desgostaria; porém, estando nós lá, nSo deixa- 
riam de apparecer todos os mantimentos que desejássemos. 

De facto, pouco depois, mandou-nos Ambango um boi magni- 
fico e uma porção de fíiba, como signal de boa amizade. 

O boi foi logo morto, limpo e esquartejado em raç^s, en- 
viando-se, como é da praxe, uma perna ao dono da povoação. 

Durante o dia os homens vieram á Estação, mas quando 
acompanhavam o soba ; porém as mulheres e creanças nao nos 



DESCRIPÇZO DA VIAGEM 395 

deíxaraiDy constantemente om magotes em frente da janella e 
das portas para nos admirarem e verem os nossos mais peque- 
nos movimentos. 

Revestimo-nos da máxima paciência, aturando-os em prin- 
cipio, respondendo a todas as suas perguntas, e deixando-os 
depois em contemplação, pedindo-Ilies apenas que se sentas- 
sem, para que pudéssemos ver o que tinhamos a fazer e para 
não obstarem á livre circulação do ar. Pedido a que acquiesce- 
ram de bom grado, porque era o que desejavam — ver o que 
fazia o branco. 

Voltou o soba ao escurecer do dia, para conversar e pedir- 
nos um pouco de aguardente. Como precisávamos de carrega- 
dores, estimámos mesmo que viesse, e escusado será dizer que 
destemperámos todas os garrafões já encetados. 

Como o soba ficasse de nos apresentar no dia seguinte todos 
os sobetas da sua jurisdicção e nos pedisse para lhes darmos 
alguma cousa, a fim d'elles o auxiliarem a apresentar com prom- 
ptidão os carregadores que necessitávamos para o Cuango, tra- 
támos de preparar doze presentes iguaes, oito jardas de ris- 
cado e quatro de chita, que tantos eram os sobetas indicados, 
e recolhemo-nos por necessidade de repouso. 

A sós informou-nos o ajudante : das exigências do Ambango 
e das rivalidades entre elle e um outro potentado Anguvo, a 
2 kilometros da Estação e já na margem do Luí, dispondo 
este de muito mais povo que o primeiro; que havia sobetas, 
os que residiam nas immediações da Estação, que diziam reco- 
nhecer Ambango por chefe e outros mais distantes ao N. que 
reconheciam Anguvo ; que ambos se queriam impor como donos 
da terra, a que dão o nome de Camávu, mas um e outro pa- 
reciam intrusos, forasteiros que se estabeleceram ali, vindos do 
interior, dizendo-se umas vezes do Holo, outras do longo, 
sendo certo que a proveniência era diversa ; que havia porém 
sobetas, que pela sua pequena importância em população e por 
que se estabeleceram por ali depois, reconheciam um e outro 
como mais velhos na terra mas apesar de lhes obedecerem, di- 
ziam-se subordinados do jaga de Cassanje^ de quem se afasta- 



396 KXPEDiçXo POBTuauEEA AO muatiAnvua 

ram para 86 esquivarem aos tributos e procurarem os cami* 
nbos dos negociantes de gado. 

Observou ainda o ajudante, que era de suppor que no dia 
immediato apparecesse por ali muita gente e que nXo nos dei- 
xariam fazer cousa ^guma, porque se nSo contentariam em 
nos ver de longCi baviam de querer estar muito perto de nós, 
tomando-se impertinente a sua curiosidade. 

Como o nosso fim principal era arranjar carregadores e nlo 
menos de noventai assentámos em que o ajudante trataria de 
providenciar para que se fossem pondo em ordem todas as 
cargas e bagagens para a viagem, emquanto nós attendiamos 
ás visitas e procurávamos contratar carregadores. 

Era tarde quando adormecemos, mas como estávamos in- 
quietos, resolvemos logo de madrugada passar vistoria á Esta- 
çSo e dar balanço ás cargas existentes. 

A EstaçSo tinba por base um rectângulo 10^x5"', e ape- 
nas se fez nélla um compartimento reservado de 3 metros do 
frente para o nosso alojamento e casa de trabalho, ficando o 
resto para arinazem das cargas, onde também dormia um em- 
pregado incumbido de as vigiar. 

As paredes tinham de altura 3 metros, e na da frente uma 
porta ao centro e uma janella de cada lado.. 

A altura da cobertura era grande, porque a largura da casa 
também não era pequena. 

Não sendo possivel barrar as paredes, foram revestidas de 
capim, exterior e interiormente. 

A frente da Estação estava virada a SSW. e nessa linha 
via-se a alterosa serra do Ambango, destacando-se de tudo 
que a rodeava, pela forma como se nos projectava, idêntica 
no aspecto ao desenho que d'ella obtivéramos na Estação Fer- 
reira do Amaral. Esta serra havia de servimos de ponto de 
referencia para uma boa determinação, depois de termos as 
coordenadas de ambas as EstaçSes. 

Pelo balanço dado ás cargas, e attendendo á fugida dos 
Massongos e ás cargas que deviam chegar no dia seguinte ou 
depois, transportadas pelos rapazes de Andala Quissúa, que 



DfiSCRIPÇAO DÁ VIAQEM 39? 

de certo não quereriam ir para deante, calcolou-se não ser pos- 
sível fazer se o transporte com menos de noventa carregado- 
res, alem dos que estavam ao nosso serviço; não havia por- 
tanto tempo a perder. % 

Quatro dias! Quatro dias sem tréguas consumimos numa 
lucta continuada com as exigências e impertinências de todos 
os sobas, sobetas, mulheres, carregadores antigos e carrega- 
dores que se contratavam ! Foi esta uma boa prova que elles 
tiveram de quanto sabiamos ser pacientes, e da resignação de 
que dispúnhamos para os aturar e de também os levarmos 
sempre de vencida em todos os nossos intentos e bem assim 
chamá-los á razão e os domarmos quando fosse preciso ! 

Nestas luctas, em que os interpretes ainda mais nos enfa- 
davam, porque tudo atrapalhavam e confimdiam, ou por não 
nos comprehenderem, ou por se temerem d'elles só pelo facto 
de os considerarem como gentios e nos supporem sempre mais 
fracos e estarmos á mercê d 'elles, deram-se episódios que, se 
uns eram risíveis, outros nos revelavam o atrazo doestes povos, 
a avidez e cubica desmedidas de que são dotados, e também 
que nelles se encontra sempre um lado vulnerável por onde 
é possivel despertar-lhe os bons instinctos. No seu animo de 
tal modo se incutiu a prestigiosa influencia de Muene Puto, 
que para muitos essa entidade é ainda hoje um mytho vene- 
rando. Acreditam que só nós os Portuguezes, é que somos os eu- 
ropeus, e que temos o condão especial de os attrahir, cathe- 
chisar e educar devidamente para conviverem com gente culta. 

Os primeiros sobetas que nos apresentou o Ambango, foram 
Hunda, Ambualo e Cáhia Cassaxi, e como estes dissessem 
quando lhes falíamos em carregadores, ter recebido ordem de 
Cassanje para não deixarem passar os brancos para o Cuango, 
que se fosse preciso obtivéssemos de lá licença, replicámos-lhe 
que Cassanje era um jagado de Muene Puto, e ninguém nos 
impediria de passar por lá ; que o nosso caminho era pelo norte 
e se elles não quizessem dar carregadores os mandaríamos 
buscar ao Anguvo e se este não tivesse todos que precisásse- 
mos o Andala Quissúa apresentaria o resto; que se contavam 



398 BXPBDIçto POHTDGUSZA AO mjATllNVUA 

oom as soas annas para se opt^orem á nossa saída, só uma das 
nossas mais pequenas lhes provaria que nada tínhamos d^ellas 
a recear. 

Disparámos um bom revólver, que traiamos, de seis tiros, e 
isso foi o bastante para começar entte elles um tiroteio de re- 
criminaçSes e ásperas censurasi por nos terem fallado mal e 
feito siangar. E como nós nos retirássemos em seguida para a 
EstaçSo, deixando-os no largo á frente da casa onde os rece- 
bêramos, nSo descançaram emquanto nSo cedemos a que uma 
deputaçSo d'elles entrasse, para nos assegurarem que todos obe- 
deciam a Muene Puto e pediam que nSo ficássemos agasta- 
dos com elles pelas más palavras de um homem que nSo sabia 
fallar bem. 

Era verdade que gente de Cassanje os ameaçara se elles nos 
deixassem partir pelo norte, porque queriam que nós passás- 
semos nas suas terras para lhes darmos alguma cousa; mas 
elles eram filhos de Andala Quissúa, de quem nós éramos bons 
amigos e não se importavam com Cassanje e haviam de apre- 
sentar 08 carregadores. 

Um copo de aguardente foi o signal de que a satisfaçSo nos 
aplacara. O Ambango, nojenta creatura, que preparara a scena, 
suppondo que nos demorava ali mais algum tempo, tendo ape- 
nas em vista a aguardente que lhe fugia e que nSo se apres- 
sara a desculpar os mais, foi corrido para a povoação, ouvindo 
depois ásperas censuras. 

Os filhos do Anguvo, que estavam presentes, asseguráram- 
nos que seu pae nos apresentaria todos os carregadores de que 
precisássemos para o Cuango, e se não tinha vindo já compri- 
mentar-nos, fora porque o Ambango o não avisara da nossa 
chegada, certamente com receio de que nós déssemos a An- 
guvo, melhor presente que a elle. 

Sendo vantajoso aproveitar a rivalidade entre estes dois po- 
tentados, dêmos ao mais velho dos rapazes que nos fallou, uma 
farda encarnada do commercio e oito jardas de chita para le- 
varem a seu pae como signal da nossa chegada e dissemos- 
Ihes que tinhamos muito gosto em vê-lo. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 399 

Os sobetas Matamba e Cáhia Cassáxi que appareceram de- 
pois^ vinham dizer-nos que eram estranhos ao desgosto que 
nos causaram os sobetas do Ambango ; que elles estavam para 
vir visitar-nos no outro dia porque queriam trazer-nos de co- 
mer, mas que sabendo o que se havia passado com aquelles 
sobetas, nâo esperaram pela comida que haviam mandado ar- 
ranjar e vieram logo, só para nos assegurar que elles eram 
filhos de Muene Puto e que contasse com os rapazes d 'elles 
para levarem as nossas cargas ao Cuango. 

Foram bem recebidos e levaram presentes para elles e suas 
mulheres. 

O Anguvo correspondeu ao presente mandando-nos uma 
vacca e annunciou a sua visita para o dia seguinte. 

Nesse dia, logo de manhã, constando a Ambango que o outro 
soba vinha, pediu que lhe fosse fallar um dos nossos interpre- 
tes. Estava afilicto, nos disse este, porque o Anguvo, o amea- 
çara com uma guerra, logo que Muene Puto deixasse esta terra, 
por nao lhe ter participado a nossa chegada, para elle poder 
comer só a nossa fazenda; que se lembrou de nos apresentar 
os sobas pequenos e se esquecera d'elle que era mais velho ; 
que fora preciso Muene Puto lembrar-se d'elle para saber 
que tinha chegado e poder vê-lo etc, etc. , 

Respondemos que Ambango acompanhasse a Anguvo, que 
nós haviamos de conseguir que elles fizessem as pazes. 

Como Anguvo vinha de rede, entendeu o Ambango vir es- 
carranchado aos hombros de um dos seus rapazes mais fortes. 

E da praxe entre estes povos, dar-se uma gratificação aos 
individues que transportam os potentados nestas visitas gran- 
des, e por isso dêmos uma porção de missanga aos carrega- 
dores da rede, logo que estes chegaram á porta da Estação, 
e depois ao que servia de cavallo, quando se approximou com 
o cavalleiro. 

Não poude conter a sua avidez o Ambango, que ia dando 
um bom trambulhão, pelos esforços que fazia para arrancar a 
missanga das mãos do rapaz que lhe servia de cavalgadura. 

Foi preciso ampará-lo para se apear, e protejê-lo para entrar 



ÍOÒ EXPEOIÇÍO tomÚQUÉÍA 10 HdÀTlllIVtlA 

na EstaçSo, Uvrando-o das vuas e motejos da pcqpulaça, na 
▼erdade bem merecidos; sendo curioso ver os seus tregeitoa 
e carantonhas ao ser apupado sem piedade pelos que o rode»- 
▼am. 

Queixou-se Anguvo com azedume da maroteira do Am-" 
bango em o afiístar de Muene PutO| quando elle lhe era muito 
inferior èm categoria e um intruzo na terra, e que ji estírera 
para o castigar pelo atrevimento de nSo deixar ir flizer a casa 
onde Muene Puto. queria, pois Ibe dissera que os povos do 
Lui eram ladrSes ; que mais ladrXo e bêbado era elle, porque 
queria comer só e nSo repartir com ninguém os benefidos que 
tinba recebido de Muene Puto e por isso agora nem os seus 
filhos lhe queriam dar carregadores para apresentar a Muene 
Puto ; que elle vinha visitar-nos, traser-nos de comer e diser- 
nos que marcássemos o dia da partida para antecipadamente 
poder mandar apresentar os carregadores de que carecêssemos. 

Procurámos antes de tudo harmonisA-los, e dêmos a Anguvo 
um presente igual ao que se tinha dado a Ambango, e agra- 
decemos o segundo garrote com que nos obsequiou. Pedimos- 
lhe que mandasse até sessenta carregadores, durante o dia se- 
guinte, para lhe pagarmos e sairmos no dia immediato a esse. 

O homem apresentou-nos dois de seus filhos, um, o que 
fôra portador do presente que lhe enviáramos, para nos acom- 
panhar e guiar por um bom caminho ao porto de Mueto An- 
gaimbo, e despediu-se de nós, dizendo que nSo fazia caso de 
um miserável como era Ambango, para nSo nos desgostar, 
mas elle que tomasse muito sentido, que Muene Puto nem 
sempre estaria ao lado d'elle para intervir a seu favor. 

Demos-lhe entSo um pequeno garrafto de aguardente, com 
o que se metteu na rede e partiu. 

Depois saiu Ambango, que não deu sequer uma palavra, 
mas doesta vez a pé, acompanhado do seu povo. 

No dia seguinte, estava-se juntando gente na povoaçSo do 
Ambango, para nos ser apresentada para o transporte de car- 
gas, quando ao longe se sentiu toque de marimbas e ^e in- 
strumentos de pancada. 



DESCIilrçXo DA VIAGIÍM 



401 



Soiibe-se que era C:ihÍa-Cassfixi que vinha de rede com cam- 
painhas e todo o seu povo, comprimentar Mueoe Puto. 

Nda almoçaTamos, omquaiito elles marcliavam com todo o 
seu vagar, saboreando as honrai com que se apresentava o seu 
sobn. Vinham-se appruxímando da Estaçíto, quando de súbito ae 
aentio grande borborinho e logo em seguida nos participaram 
uma grande guerra da gente do Ambargo com a do-Ca^sáxi. 

Eia o caso, O Ambango, considerando que era uma grande 
offensa á sua dignidade, aprosen- 
tar-se um soba inferior, de rede 
e cora musica, na sua terra, or- 
denou aos seus que o fossem 
obrigar a apear-se, lhe quebras- 
sem a rede e oa instrumentos, e 
tratou de ae safar, passando o , 
Luí, que distava pouco mais di* 
2 kilometros para leste de nós. 

O povo do Ambango armada 
com espingardas mas sem pól- 
vora, e com paus fez a intimaçSo 
á gente de Cassilxi para que reti- 
rasse ou se apeasse o soba, e 
d'ahi o conflicto, de que resultou 
atirarem com o homem por terra, 
quebrarem o pau á rede fazendo 
em cavacos os instrumentos. O 
mulherio e creanças gritavam, 

os homens principiaram a lucta pelo arremesso de paus que 
encontravam á mSo e que enim despedidos a grandes distan- 
cias, batidos com os canos das espingardas ou com outros paus 
de maiores dimens3es. 

No emtanto, nós aaimns para ver o que se passava, nSo 
obstante estarmos em chinellos, e como o homem fosse p«- 
chado por outros e andasse acocorado, suppondo que elle es- 
tava ferido, expozemo-nos aos taes projecteis, conseguindo com 
o ausilio de trcs soldados, dispersar os magotes c trazermos 




JiÉ 



402 SZPEDIÇZO POBTUGUEZÁ AO 1ÍUATIÍHVUÁ 

, , ; 

pela mSo o soba^ que fizemos sentar em uma cadeira, i firente 
da nossa casa. 

Vinham os homens da povoaçSo em chusma, para nos darem 
esqplicaçlo do que se havia passado e certificar-nos que nSo era 
nada com Muene PutO| mas nós, antes que elles fatiassem, e 
suppondo viriam atacar o soba, mandámos o interprete dizer- 
Ihes, que se alguém se atrevesse a vir ali fazer desordens, &r 
riamos arrear a bandeira de Muene Puta e rompiamos fogo 
contni a povoação. 

Retiraram todos, mandando nós depois chamar o Ambango, 
e como este nXo estivesse, veio um dos homens velhos da po- 
voaçSo, que disse nSo approvar as ordens que dera o Am- 
baogo, pois se devia lembrar que estavam aqui os filhos de 
Muene Puto; mas também que o soba Oassáxi fizera mal em 
se apresentar nestas terras de rede, o que era uma £alta de 
respeito para o dono d'ellas, que nSo tinha posses para andar 
assim, e que era melhor elle retirar já, porque na povoaçSo 
os ânimos estavam exaltados, e se mais tarde o encontrassem 
ainda ahi, podiam fazer-lhe maior desfeita. 

Como o soba Cassáxi entendesse ser mais conveniente re- 
tirar, fizemo-lo acompanhar por três soldados, a quem elle 
deu uma cabra de gratificação, e a nós mandou-nos uma grande 
vacca. 

Apparecendo o Ambango ao sol posto, fazendo-se estranho 
ás occorrencias, por ter passado o dia na outra banda do rio, 
onde fôra escolher gado para nos mandar, exprobámos lhe o 
seu modo de proceder e fizemos-Ihe sentir a má situação em 
que elle se estava coUocando com os povos vizinhos quando 
nós deixássemos o sitio. 

Estes povos sem um chefe que os estimulasse para o bem, 
eram de certo os mais difiSceis de domar e convencemo-nos que 
levantando-se conflictos com o Ambango e conseguindo-se provar 
deante dos seus que elle era incapaz pelas suas más qualida- 
des de dirigir os negócios que mais interessam ao que elles cha- 
mam Estado, seria fácil fazêlo destituir das honras e contri- 
buir para que de entre elles se elegesse um chefe que modificasse 



DESCRIPÇAO DÁ VIAQEM 403 

■^ ' ' ■ ■ 

OS maus hábitos que tornavam aquella gente odiada dos ou- 
tros povos. 

A final, no dia 27, logo de madrugada, principiaram a appa- 
recer carregadores para o Cuango, ao preço de oito bandos * 
de riscado, e como tivéssemos gado, mandou-se matar uma 
vacca para distribuir rações á gente para o caminho, e depois 
do nosso almoço, ás onze horas do dia 28, partiu o ajudante 
com a primeira comitiva de cargas, tudo gente antiga. 

Durante o dia, pagámos a sessenta e três carregadores, todos 
apresentados por Anguvo, e a mais pagariamos se não fosse já 
muito tarde e se nSo estivéssemos fatigados de medir e cortar 
fazenda. 

Chegaram cargas da Estação Ferreira do Amaral, transpor- 
tadas por gente de Andala Quissáa, que preferiam ir buscar 
novas cargas para aqui a irem para deante com as que trou- 
xeram, como lhe propúnhamos; por isso tomavam-se precisos 
dezescte carregadores a mais dos que haviamos calculado. 

O que nos admirou, foram quatro rapazes de Andala Quis- 
sáa, que trouxeram cargas para a Estação Ferreira do Ama- 
ral, e que para aqui vieram comnosco, não terem querido rece- 
ber pagamento e ajustarem-se para seguirem ainda com as 
cargas comnosco até ao Cuango. 

Queriam regressar no nosso serviço da rede até Cafúxi e 
receberem então os seus pagamentos juntos para irem para suas 
casas. 

Se estes servissem de exemplo a outros, não faltariam car- 
regadores em Malanje, não só para diversos pontos da província 
a oeste, como ainda até ao Cuango. 

Oxalá esta experiência aqui, estimulasse também estes po- 
vos para não haver dificuldades quando o resto da Expedi- 
ção tivesse de seguir para o interior. 



1 O bando, aqui, medc-se de meio do peito ao extremo da mão direita 
estando o braço estendido na linha do corpo; verificámos que correspon- 
dia a 0",80. 



404 



EXPEDIÇÃO POIITUQUEZA AO MUATUNVOA 



Ambango, apparece-nos quando eatavamoa a acabar de jan- 
tar, e mostrou-se penalisado por nóa 11S.0 termos querido con- 
templar os aeus rapazes com cargas, ao que lhe reapondemos ! 
que ellea nSo tinham de que se queixar, porquanto hai 
ajustado como oa do Anguvo, fazerem o transporte por uma < 
peça (oito bandos) e quando fomos a pagar-lhes exigiram duas; 
se queriam receber como os outroa, que viessem de manbS 
cedo tomar cargas, e cada um receberia uma peça e seguiría- 
mos logo. 

Tendo despachado os cairegadores do Anguvo com um dos 1 
interpretes e contratados, fomos pagar aos que appareceram e j 
estes pouco depois seguiam para a margem direita do Lul, J 
ficando de noa esperar na povoação do Mulolo, onde iamosj 
dormir. 

Escrevemos ao sub-chefe para nos mandar o empregado euro- 
peu com o cozinheiro Marcolino, e qiie continuasse a activar I 
o transporte das cargas para a EstaçSo, onde doixavamoa I 
apenas o cabo do destacamento e um contraetado de Loanda. I 

Almoçámos áa dez horas, e com grande surpreza nossa, ap- 
pareceu Ambango e Matamba para nos acompanharem ai 
Luí, o que só conseutinioB até ás primeiras povoaçSes para ob 1 
nilo obrigar a andarem a pé. 




DESCRII\AO DA VIAGEM 



TIAGEM DO CIIKFI: COM A PRIMEIRA SECÇÃO 
1'AEA O CUAXGO 




cndo o caminho a seguir em 
zig-zaga, predominou o rumo 
para N.-E. Depois de alraves- 
' sarmos o planalto c a um pouco 
. maia de 1 kilometro, conieçá- 
raoB a descer para o valle em 
; que enconti'ámos as terras en- 
charcadas por causa daa chu- 
i vas e dae lavras, e da um e 
outro lado até ao rio Lui vi- 
I mos povoaçSes de diversos so- 
I bas, parecendo-nos todas pe- 
' quenas, tendo, porém, mais ou 
menos gado. Cestas, registâ- 
moa á beira do caminho, as dos 
aobetas Calabundo, Buudungo, Luianha, Canzundo, Canpun- 
dundo, Matamba o a de MissOnhi, que era a maior. 

Tintiamos andado 9 kilometros, e chegámos á beira de um 
talude de onde se descobria atravez do arvoredo o rio Lul, 
que nessa occasião ainda corria baixo, o que nos permittiu fa- 
zer a sua passagem a vau. 

à descida era disposta em degraus pelos indigenae, seguindo 
as onduIaç3c8 do terreno, ora para um ora para outro lado, 
descida que calculámos ser de 8 metros. 



406 EXPEDIÇXO PORTUGUEZA AO MUATIInVUA 

Pelo que observámos á beira do rio, tanto numa como noutra 
margem, as aguas pluviaes se não agora, em outros tempos, 
já caindo directamente sobre as margens, já engrossando as 
das correntes, deviam ter dado causa á formação doestes talu- 
des, e se nas maiores enchentes as aguas não attingem hoje a 
altura de onde descemos, pouco lhes faltará. Os pés de milho 
que vimos a meio talude, quando aqui voltámos um mez depois, 
estavam debaixo d'agua. 

Eram quasi duas horas quando effectuámos a passagem, 
que se fez com vagar e cautela, não só porque o rio tem a 
largura de 60 metros, e a agua dava pela cintura dos homens 
mais altos, mas ainda porque a força da corrente era muita, 
0"*,9 por segundo, o que verificámos de tarde. 

Passado o rio, subimos, e ainda no mesmo rumo fomos en- 
contrar uma povoaçSlo a 1 kilometro de distancia. 

Mulolo, soba da povoação, veiu logo ofiFerecer-nos uma boa 
cubata para descansarmos, dizendo-nos que fôra aqui que per- 
noitara o sr. capitão, que nessa madrugada seguira para Mus- 
sangano, onde devia ficar. Agradecemos a attençSto que teve a 
sua recompensa como era do estylo. dando-se-lhe um panno de 
algodão (4 jardas). 

Informando-nos da distancia d'aqui a Mussangano, e sabendo 
que levaria duas horas a vencer, e não sendo ainda três da tarde, 
lembrámo-nos de seguir para lá; porém os carregadores, tanto 
de Anguvo como de Ambango, constando-lhe que o soba man- 
dara vir a sua manada para nos presentear com um boi, e con- 
tando já que o dividíssemos por elles, pediram-nos para que 
ficássemos e que no dia seguinte adeantariam até encontrar o sr. 
capitão. Cora grande satisfação de todos, annuimos ao pedido. 

As impressões da pequena jornada d'aquelle dia foram real- 
mente muito agradáveis. Os habitantes das differentes sen- 
zallas por onde passámos fizeram -nos uma ovação, o que é para 
agradecer entre povos gentios, e sobretudo nao estando preveni- 
dos. Foi bastante a guarda avançada, que eram os filhos de 
Anguvo, dizer quem transportavam, para todos virem para o 
caminho esperar-nos. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 407 

Cada vez nos convencemos mais de que esta gente, sendo 
bem tratada^ se toma dócil; e não se diga que é pelas dadivas^ 
porque elles pelo caminho nada tinham a esperar. Aqui não 
succedia como nos arrebaldes de Lisboa e outros pontos do 
paizy em que creanças e mesmo os adultos; correm aos lados 
dos viajantes que passam pelas suas terras a cavallo ou em 
carruagens, com o sentido que estes lhes dêem alguma moeda 
de cobre. 

Emquanto nos preparavam o jantar, fomos dar um passeio 
pela povoação, que cercada de grande arvoredo apresenta agra- 
dável aspecto, e descemos depois ao rio e entretivemo-nos, 
com o auxilio de pontos de referencia que marcámos, a medir 
a velocidade dos corpos que boiavam, folhas, pedaços de pau 
que homens por nós ensinados iam lançando á agua, emquanto 
nós mediamos o tempo, e da media de muitas observações cal- 
culámos assim com sufficiente approximação a velocidade da 
corrente. 

A agua pareceu-nos um pouco salobra e desagi'adavel, e 
lembrámo-nos que talvez as salinas próximas de um e outro 
lado pudessem ter alguma influencia para esse resultado. 

Também nos entretivemos a fazer croquis do rio e do pa- 
norama que se disfructava da nossa pousada para a margem de 
onde viemos, um amphitheatro onde se ostentavam diversos 
exemplares da flora africana, que dão realce á paizagem e que 
decerto são modificadores importantes, pois se assim não fosse, 
estando o sol já na sua grande declinação, mais insupportavel 
se tornaria. 

Jantámos ás cinco horas, e com appetite, porém a agua^ não 
obstante ter passado pelo nosso filtro de carvão, era detestável. 

Mulolo veiu-nos pedir para mandarmos matar um boi para 
a nossa comitiva, pelo que tivemos de lhe dar duas peças de 
riscado, 36 jardas, que correspondem a 4 Ya de lei, equiva- 
lentes a 3^600 réis. 

Foi morto o animal, e conhecendo nós quanto era difficil con- 
tentar o gentio com a repartição da carne, e sendo a grande 
maioria dos carregadores do Anguvo, encarregámos seu filho 



"k^^ 



406 KKPEDiçZo rasTuonaA âo waãTítmwwL 




de Cuor ft dGstiiliiiielo^ vío 
fjÊo^ e 00 dose bomens ao homo 

NIo ddzoa de lisfer giiiaiia e 
pffflliHfl mes oomo s covse em enlie eOei^ lá ae 
poeeedo elgom iaomoy lenrindo isfo de diatiaedb eoe urireg da 
poToa^ e 90 wea tízíiiIio Catata, da margam fmgmwài Ê ^ qao 
Tieia Tieitar-noa. 

Eete soba diese, qoe eqiefáim paonaBenioa pda eaa teoa 
para eamprír com oe eeos dererae, poíe aio eetata eaa beae 
idaçSeo oom o Ambango. 

CooTenoa algom tanpo, e oomo priaeqpiaira a e a ematj a i" 
pedia lieeaça paia retirar, admirando-ee aniilo çm lhe ido 
dcmcBioe am pedaço de carne e a]gama i^;aaidenle. 

Betpcmdemos entio, qae nós é qoe estranhávaiaoiy eilaBdo 
eDe em soa casa, se nXo tiyesse lembrado qae tinbaaioe anila 
gente a qaem dar de comer, e qae moa peqpena l emb a am a» 
am ovo de gallinha que foese, ama por nós mnilo i^piaeiada. 

Ifololo spmou-me, e o soba lá fioi, 8^;ando disseram oa IW^ 
regadores, moito envergooluido. 

Mnlolo ainda se demorou um pouco, bebeu am copo de 
aguardente e retirou. E nós fomos escrever o nosso diário e 
em seguida atirámo-nos para cima da cama de campanha ves- 
tidos como estávamos, e adormecemos. 

Caiu uma forte bátega de agua de madrugada, porém as 
cargas estavam protegidas pelo capim, e como ás cinco horas 
e meia já o sol estivesse a descoberto, tudo se poz em movi- 
mento para a marcha. 

Despedimo-nos do soba, e perto das seis horas seguimos na 
rectaguarda da comitiva, no rumo de N.-E. Y^ N. 

A marcha fez-se sempre em terreno bastante ondulado, entre 
arvoredo, descendo mais que subindo e passando sobre muitos 
charcos, chegando a Catandangala Mussangano, depois de uma 
marcha de 14 kilometros, eram oito horas e três quartos. 

O soba e a gente da povoaçSo, pediam para que descançasse- 
mos, pois desejavam dar de comer ao seu protector Muene 
Puto. Mostrámos a necessidade que tinhamos de ir acampar 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 



409 



junto da comitiva do noaso ajudante e qiio para a outra 
voz ali peraoitariamoa. Algima carregadores pediram para 
se demorarem e que iriam maia tarde ter comnoBco, o que 
consentimos^ porque se o nílo iizeasemoa, elles deíxar-se-iam 
ficar. 

Continuámos a jornada, ainda mais ou menos no mesmo 
rumo por maia 8,5 kilometros, primeiro descendo a um pro- 
fundo valle em que nSo era poasivcl andar de rede pela dou- 
sidade da vegetaçUo e depois aubimos pela encosta de um pla- 
nalto e sobrt elle passilmos á 
frente da povoação de Mona 
Anguvo, Bubdito de Muene 
Canje, giande potentado na 
margem direita do Lul, a 
oeste de Mussangano. Des- 
cendo 500 metros se tanto, 
encontrámos no valle a co- 
mitiva do ajudante fazendo 
o acampamento, a qual pouco 
antes ali havia cbegado. 

Grandes e copadas arvo- 
res, muito próximas umas 
daa outras, apropriavam o 
local para se transformar 
com rapidez num acampa- 
mento provisório, porém, 
com respeito a eondiçSes 
de salubridade, aio podiam 
ser peorea na occasião, porque chovia, e o solo mantinba-so 
encharcado, por não experimentar a acção dos raios solares. 
O rheumati«mo nas pernas fez-nos conhecer pouco depois de 
sbi estarmos, que não nos enganávamos. 

Havíamos chegado em boa hora, porque o ajudante prepara- 
va-se para ir almoçar, o ao seu convite nSo resistimos. 

Tinha o ajudante já a sua barraca de lona armada, de modo 
que nella so accommodou a nossa cama de campanha, e por 




410 BXPKDIÇZO POBTUQUEZÀ AO HUAtllNVUA 

Í880 em seguida ao almoço, mudámos de roupa e dormimos 
umas duas horas. 

Os carregadores que ficaram para trás foram chegando a pouco 
e pouco e a tempo de também partilharem da carne de um 
boiy com que nos presenteara Mona Anguvo. Este depois do 
meio dia veiu comprimentar-nos. Em seguida saimos com o 
interprete a explorar caminho para deante^ vindo dar a um 
vaDe orlado de grande arvoredo, com terras encharcadas no 
fundo, e que se prolonga até ao Cuango, d^onde concluímos 
que as aguas d'este rio na epocha das cheias chegam aqui, 
e durante mezes este valle é um extenso pântano. 

As quatro horas e meia estávamos de volta no acampamento, 
e viemos a propósito, porque os últimos carregadores que 
tinham chegado, já gritavam por nSo serem contemplados com 
carne, e que iam retirar, porque eram tanto filhos de Muene 
Puto como os que tinham vindo primeiro. 

Comprou-se um gaiTOte e todos ficaram satisfeitos, o que 
convinha, pois tínhamos de attender á viagem da outra parte 
da Expedição. 

Recolhemos cedo, mas a chuva que caiu durante toda a 
noite, mal nos deixou socegar, pois que a barraca se tomou 
um verdadeiro filtro. 

De madrugada melhorou o tempo, e deu-se ordem para 
avançar. 

Era um dia solemne o de 31 de outubro, e muito desejáva- 
mos commemorá-lo, fazendo passar a primeira parte da Expe- 
dição o rio Cuango, com a bandeira portugueza desfraldada. 

Quizemos pagar o garrote ao soba, este porém não quiz 
acceitar remuneração. Era um presente, e que Muene Puto 
desse o que fosse da sua vontade. Promettemos então no nosso 
regresso, dar-lhe uma vestimenta como lembrança também da 
nossa passagem pela sua terra. 

Como os carregadores do Anguvo tinham ido dormir na povoa- 
ção, só conseguimos partir ás sete horas e meia; o rumo va- 
riava entre E. e N.-E. por causa das sinuosidades do caminho, 
que se faz quasi sempre por terreno pantanoso e á beira da 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 411 

aba de uma montanha que se estende do sul acompanhando o 
rio Cuango, sobrepujada de arvoredo que nesta parte está ra- 
chitico, certamente devido ás queimadas. 

Passados 9 kilometros; entrámos numa clareira a ESE. que 
nào era mais de que uma grande depressão na montanha, já 
escavada pelas aguas pluviaes, e começámos depois a descer sua- 
vemente para ENE. 2 kilometros, entrando na povoação de 
Mona Mussengue, d'onde já se viam as aguas do Cuango que 
correm em curvas de grande raio em sentidos diversos mas 
inclinando para N.-E. 

O ajudante e as cargas iam seguindo aos zig-zags para o 
porto, 3 kilometros mais adeante, inclinando para E., e nós, 
encontrando Mussengue, dissemos-lhe que os filhos de Anguvo, 
seus netos, vinham atrás com as nossas cargas e nos pediram 
para os esperarmos na sua povoaçFio, porém que desejávamos 
que as cargas que já tinham chegado, fossem passando nas 
canoas para o outro lado, ficando nós com elie para nos enten- 
dermos sobre os pagamentos que tinhamos a fazer e portanto 
que nos mandasse arranjar quartel para pernoitar. 

O soba recebeu-nos muito bem e disse-nos que MuenePuto era 
o senhor das terras e que ninguém se opporia aos nossos de- 
sejos. 

íamos já a caminho para o porto, quando nos appareceu um 
homem embrulhado num grande panno a chamar-nos — Oh 
senhor, sou Mulumbo! e vociferando que era elle o dono do 
porto, porém que era preciso participar ao seu chefe Muêto 
Anguimbo a nossa chegada, para elle nos fazer passar o Cuango 
muito bem. Coraprehendendo o que queria, dissemos-lhe qué, 
devia esperar que nós o gratificássemos e aos pilotos que tra- 
balhassem nas canoas, passando as nossas cargas. O homem 
abrandou, mas ainda pediu para nos demorarmos um pouco, 
porque o portador iria depressa dar parte a Muêto Anguimbo. 
Como não tivéssemos almoçado ainda e pensámos que a ques- 
tão era de pagar, promptamente annuimos ao que elle queria 
e convidámo-lo para comer alguma cousa comnosco. 

O ajudante voltou do porto, e mesmo onde estávamos^ á som- 



412 EXPEDIÇXO POBTUGUBSA AO HUÁTIÂSrvnÁ 

bra de uma grande arvore, dispozemoB as coasas para o almoço, 
e em quanto este se arranjava, ordenámos que fossem indo as 
cargas por grupos para o porto, entretendo-nos a conversar com 
o homem, que nos deu noticias das expedições de Saturnino 
Machado e dos AllemSes. 

Queixou-se que estes lhe deram fazenda de má qualidade; 
mostrámos a nossa, que lhe agradou. Provou do cognac do 
nosso cantil de que gostou muito e principiou logo fSEdlando das 
grandezas de Muene Puto. 

O povo ia-se agglomerando em tomo de nós, e elle tudo era 
dizer aos seus que se a£BU9tassem porque nós éramos pessoas 
muito grandes. Nós procediamos ao contrario, diziamos-lhes que 
podiam sentar-se, mostravamos-lhes as bússolas, o relógio, o 
conta-passos, as facas, os revólveres, faziamos as nossas ez- 
plicaçSes, dávamos uns fios de missangas ás creanças, lenços ás 
raparigas, etc. £ elles iam dizendo uns para os outros, slo 
bons brancos, sSo verdadeiros filhos de Muene Puto. 

Veiu o almoço, o soba comeu d'elle, distribuiu-se bolacha ás 
creanças, dêmos a provar um pouco do nosso vinho, e tudo 
ficou muito satisfefto. 

Mona Mussengue, a quem fizeram constar o que se estava 
passando e que pertencia a uma outra sanzalla, appareceu-nos 
dizendo que elle era o dono 'da terra. Arranjámos-lhe um logar 
para se sentar ao pé de nós, e apesar de já vir tarde, também 
provou um pouco do nosso bife com bolacha e um cálice de 
vinho. 

Aproveitámos então a oceasião de dizer: — Nós estamos prom- 
ptos a pagar a passagem do rio, mas é preciso saber a quem. 
Mulumbo diz que é dono do portO; que são suas as canoas, e 
vossemecê MussenguO; diz que é dono da terra; além d'Í8so 
os pilotos, que teem trabalho, também querem pagamento, e 
Mulumbo também diz que é preciso uma ordem de Muêto 
Anguimbo. Ora Muene Puto quer todos contentes e quer pagar 
a quem for devido. 

— Como nós não passámos hoje, e temos de ir ao Luí buscar o 
resto das cargas, vossemecês chamam os pilotos para passarem 



DESCBIPÇZO DÁ VUGEM 413 

O sr. ajudante e as cargas que estSo chegando e nós cá com- 
binaremos o que temos a pagar. 

Mulumbo pediu vinte peças e como nos ríssemos desceu a 
dezesseis. Ainda é muitO; lhe dissemos, porque o amigo sabe 
que nós temos uma boa canoa e podemos passar sem as suas. 
Para não termos trabalho de a armar, vamos pagar aos seus 
pilotos mas ha de ser menos. 

— Muene Puto pode mandar passar e pagará o que for da 
vontade do seu coração. 

Uma faisca eléctrica que ali caisse não produzia mais effeito 
entre a nossa gente. Tudo partiu para o porto e nós despedimo- 
nos dos sobas até á noitinha, recommendando a Mussengue que 
mandasse arranjar a cubata e desse ao meu criado alguns ovos 
e uma gallinha. 

No porto houve alguma demora para apparecerem as canoas 
e já se tratava de armar a nossa, quando ellas chegaram. As 
novas exigências e conversa dos pilotos, sobre o pagamento 
dos seus serviços, seguiram-se as nossas ameaças de que já não 
careciamos dos seus serviços, porque iamos armar a nossa ca- 
noa. Por fim cedA*am, e passaram o ajudante e duas cargas. 

Eram duas horas e meia da tarde, ãuctuava a bandeira por- 
tugueza no outro lado do Cuango. Os tiros de fuzilaria e os 
vivas a Sua Magestade El-Rei D. Luiz, rompiam de um e 
outro lado, e as cargas iam-se reunindo a pouco e pouco em 
volta da bandeira. 

A esta hora certamente, diziamos nós, está o nosso monar- 
cha recebendo as felicitações de seu povo, e por maior festa 
que lhe preparassem neste anno, por certo que não deixaria 
de lhe ser sympathica e ao paiz em geral, a que naquella hora 
celebravam dois dos seus mais humildes servidores rodeados 
de africanos, na margem d'aquelle soberbo rio. 

As canoas eram pequenas e viravam-se com muita facilida- 
de, por isso não podiam transportar mais que duas cargas por 
cada viagem. Já umas dez estavam no lado opposto, quando nos 
appareceu descendo a ladeira para a praia, aos saltos, embru- 
lhado num panno, com um pequeno pau na mão, que mane- 



414 EXFEDIÇZO POKTUGUEZA ikO MUATliKVnÁ 

java rapidamente um fignrSo baixo, de feia catadnray e que 
mais parecia nm macaco que um homem, berrando como um 
possesso, com a cajinga na cabeça, espécie de cbapen armado 
com os bicos revirados para baixo, que fora oatr'ora de palha 
xdara, mas que agora estava negra e gordurosa. 

Entrando no circulo das cargas, veio direito a nós na mesma 
faria, mas a esse tempo já sabiamos o que elle queria e nSo 
nos arredámos, elle entSo virou-se para os carregadores, voci- 
ferando, que eram elles os culpados em nSo prevenirem Mnene 
Puto dos costumes da terra, que elle era o dono das canoas 
e ninguém lhe fallára; que elle ia fazer retirar as canoas. 
Prevenidos pelo interprete, assentámos-lhe uma palmada nas 
costas, o quando elle se virou dissemos-lhe apresentando-lhe 
o nosso cantil: — O que tu queres sabemos nós, vaes provar 
aguardente. 

NSo foi preciso interprete, limpou logo os beiços, sorriu-se 
e bateu as palmas emquanto via com os olhos a luzirem-lhe, 
correr no copinho o liquido do nosso cantil. O movimento das 
cargas continuou. 

EntSo já manso, fallou aos interpretes^ para que Muene 
Puto o nâo esquecesse dando-lhe que vestir, porque seu irmão 
Mulumbo era dono do porto, porém era a elle, Zunga, que per- 
tenciam as canoas. 

Os interpretes responderam-llio que nós dormiamos na san- 
zalla de Mussengue e que fosse amanhã fallar-nos, que Muene 
Puto não se esquecia d 'elle e lá se retirou mais satisfeito. 

Veiu grande trovoada e chuva, os pilotos queriam interrom- 
per o serviço, dizendo que os donos do porto já haviam reti- 
rado, mas mediante uma porção de carne que se lhes deu, conti- 
nuaram. 

Armaram-se barracas de lona numa e outra margem para 
se recolherem as cargas, eram quatro horas. O ajudante seguiu 
para o interior cora os carregadores que já estavam com elle, 
para irem pernoitar na casa filial de Custodio Machado, ficando 
a receber o resto das cargas nessa margem o empregado José 
Faustino. 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 415 

A chuva apertou mais, fízeram-se recolher as cargas nas 
barracas, passando para o outro lado os demais soldados e con- 
tratados. 

Dispunhamo-nos a ficar na barraca da banda de cá e man- 
dámos á povoação buscar a cama e alguma cousa que houvesse 
de comer, porquanto nSo queríamos deixar as cargas e era 
conveniente animar os nossos homens; porém o Mona Mus- 
sengue, apparece-nos com alguns rapazes, e disse que vinha bus- 
car-nos, ficando aquelles rapazes ao pé da nossa gente para 
tomar conta das cargas. Elles traziam de comer para repartir 
com 08 nossos, três soldados c três contratados de Loanda, a 
quem deixámos cartuchame para as suas armas, por se dizer 
ser frequente apparccerem ali cavallos marinhos. 

Chegámos á cubata muito encharcados e fatigados, e enten- 
demos que o melhor era despir a roupa, embrulharmo-nos numa 
manta spbre a cama e mandarmos arranjar um brazeiro. 

As cargas que chegaram de tarde estavam bem arrumadas 
no largo, á nossa frente, e protegidas com oleados. 

O criado António tinha cozido uma gallinha e quatro ovos. 
O caldo estava quente, e com vinho confortou-nos e sentimo- 
nos muito bem. 

Augusto Jayme, que nos acompanhava para vigiar os carre- 
gadores apresentados por seu irmão, o soba Ambango, de Ma- 
lanje, e que era caçador, servia-nos agora d.e interprete, e a 
elle encarregámos de vir de madrugada dar-nos varias infor- 
mações que precisávamos e de rondar durante a noite o acam- 
pamento. Nós, visto chover bastante e nâo termos luz, tra- 
támos de dormir. 

As onze horas, pareceu-nos sentir em vez da chuva, uns coros 
afinados, ora de homens, ora de mulheres, que nos fazia lem- 
brar os cantos religiosos num convento, e que parecia soarem 
a grande distancia. 

Soubemos que era uma dança, e se não fosse o receio de 
adoecer teríamos ido observá-la, porque o cantar, destacava-se 
(las toadas ruidosas com que são em geral acompanhadas todas 
as danças na Africa. 



416 gggpiçlo i t H rn KH iiu ao maimÍMfnA 

Ãm emeo horas já se Tia, e fevaniáiiia-iiM pan e icicvftf o 
£flfÍ0 do dia antaior e apmáiiios qoe a diatancui da TSirtatite 
Paiva de Andfada ao Lai, onde o panámos, enm 9 Idkiiio- 
tros, e d'este porto iqaeDe em qpe a Ebqpedi^ passam o 
Cnaiigo 36 Idlometios, portanto eiaTiagrai qne podíamos haat 
t»o regreãão em oito oa nore horas; o qoe nos em bastante 
▼antigoso por nlo termos ficado eom eoosa aigmna do têêiAo, 
e se nom dia podíamos passar sem esses recursos, já o mesmo 
nlo snocederia em dms on três dias socoessíyos. 

Augusto Jayme disse-nos qae ainda tinham fieado algmnas 
cargas para trás e ficámos ancíosos porqne eDas diegassem a 
tempo de passar, pois desejávamos regresssr no dia imme» 
díato á Estaçlo. 

Soube também Angnsto, qne a expediçio afleml dera dea 
peças de faaenda e duas armas, ao Mnhmíbo dono do porto e 
a seu írmio Zmiga, e qnatro peças aos pflotos, por ajudarem a 
passar cargas, porquanto eUes tinham armado as suas canoas 
e que também contemplaram Mussengne, dono d'e8ta povoa^ 
e o Muèto Angnimbo que se dizia o potentado principal dos 
Haris; a quem pertence o rio até aos Bângalas do Songo. 

Esta gente mente muito, sobretudo em interesse próprio, 
mas foram-noB dizendo que o inguertz, passou dando pouco, 
e que Muene Puto que vinha atrás, é quem pagava bem. Pre- 
cisávamos pois preparar-nos para grandes exigências. 

Mulumbo veio procurar-nos, e arranjámos um pacote para 
elle e para o tal irmão, isto é, duplicámos os artigos variados que 
desejava, a nSo exceder o valor de dez peças. Pediu mais uma 
espingarda e um barril de pólvora, poz-se um objecto igual em 
cada monte, pediu uma pouca de missanga para as suas rapa- 
rigas, que demos para fecho. Queria mais cousas, mas retirou 
sem ellas. 

Vieram os pilotos, deram- se oito jardas de riscado a cada 
um, e passando que fosse o resto das cargas, dar-se-ia o mata- 
bicho. Pediram então para irem as cargas em seguida para o 
porto, o que se fez; e o serviço das canoas principiou ás oito 
horas. 



descuipçao da viagem 



417 



Pouco depois entrou na cubata o Zuuga, trazendo pela mão o 
nosso interprete e veio sentar-se ao nosBO lado. 

Com 08 8eu8 modos desabridos que já conheciamos, princi- 
piou a sua conversa, contando pelos dedos tudo quanto queria 
que se lhe desse. Fazia-nos lembrar um moço das nossas casas 
de pasto, dando ao freguez o rol de tudo quanto lia prompto 
na cozinha para se comer na occasiSo. 

Em altitude de quem prestava a maior attençSo ao inter- 
prete, deixámo-lo acabar a 
ennumeraçiSo, que era uma 
boa lista que aquelle trazia 
de cór, edissémos-lheiVeja 
lá nSo se esquecesse esse ho- 
mem de mais alguma cousa? 
O interprete interrogou-o, e 
ello pediu mus um gimííto 
de igiiardente 

NSo quer mais nada? Se 
Muene Puto qmzer lembrar 
se das suas raparigas, que 
lhes de um d eases miabOí> 
de missanga grossa, M iri i 
n, que tem sobre a cima 

Fingindo uos eutJIo enco 
lensados, e deitando rápida 
mente a mão a um dos mas- ^imu 

SOS, movimento este que o 

homem e todos os que estavam dentro da cubata, suppozeram 
sor para pegar no revólver que estava ao lado, e como nos 
levantássemos em seguida e déssemos quatro berros, bradando 
que fosse pedir a seu irmílo o que ae havia dado com des- 
tino para ellc; sem esperar a iiiterpretaçSo do que eu dizia, 
deitou i mm edi atam ente a fugir de gatinhas para o largo, res- 
mungando que o interprete nSo era bom e nílo sabia o que 
fizera zangar Muene Puto, formando-se logo grande roda em 
tnmo d'Glles. 




418 BZPEDIÇXO PORT0GUEZÁ AO MUÁTllNVnÁ 

Devemos confessar qne a vontade ^e rir foi grande, mas 
querendo sustentar o papel até ao fim, saímos atírando com o 
masso de missanga ás raparigas, que estavam pouco distantes. 

Grande borborinho, porque os homens também querkm 
apanhar, tíias as raparigas nSo deixaram. 
' EntSo o Zunga, vendo a missanga espalhada, exclamou: b^n 
se conhece que é Muene Puto que temos na terra, e eu fiz bem 
mal em o incommodar. Depois procurou o interprete e pedin- 
Ihe que nos dissesse que era muito nosso amigo e que €»penva 
lhe perdoássemos se fizera mal; que estava prompto a prestar 
o serviço que lhe ordenássemos. 

Fizemo-lo approximar de nós e ao interprete, a quem re* 
commendámos lhe dissesse : Que Muene Puto já dera a sen irmio 
Mulumbo a parte que lhe pertencia no pagamento da passagem 
do rio, roas que fosse elle para o porto activar o serviço das 
canoas, que lhe daria ainda uma boa gratificaçSo, e o. honram 
para lá foi. 

Mulumbo veiu depois perguntar se queríamos pagar a doze 
rapazes seus para transportarem as cargas do porto, na outra 
banda, para casa de José de Vasconcellos onde pernoitara o 
ajudante. Havendo já muitas cargas no outro lado e sendo de 
toda a conveniência que se recolhessem, ajustámos por duas 
jardas o transporte de cada carga, o qiie correspondeu a uma 
jarda por 5 kilometros. 

Almoçámos tarde, já depois do meio dia, e no entanto che- 
gara o Muêto Anguimbo, que preferiu esperar na sanzalla, a 
incommodar-nos. 

Tendo á mão o presente que tencionávamos dar a Mussen- 
gue, enviámo-lo como signal de amisade ao Muêto e elle veiu 
depois agradecer, pedindo para acceitarmos um boi que nos 
trazia, e perguntando-lhe eu o que desejava, respondeu que 
n?to fazia negocio com Muene Puto. 

Isto, lhe dissemos, nâo ó negocio. Como queremos dar-lhe 
uma lembrança, desejámos saber o que prefere. O seu macota 
respondeu: Elle fica satisfeito com uma espingarda e um barril 
de pólvora, o que logo lhe dêmos, por ser uma boa troca, e 



DESCBIPÇiCO DA VIAGEM 419 

pedimos ao Mussengue para deixar ficar o boi na ena manada 
até á nossa volta. 

O Muêto Áng^imbo era um velho sympathico, baixo, ma- 
gro, fallando muito pausada e acertadamente. 

A sua conversaçslo versou sobre a grandeza de Muene Puto, 
esperanças que alimentava de que seus filhos europeus viessem 
estabelecer-se nestas terras, pois os portos eram muito procu- 
rados pelo commercio indigena; que as expediç8es de Muene 
Puto tinham vestido seus filhos, e por isso ninguém se atrevia 
a marcar-lhes preço de passagem nos portos, etc. 

Fallavamos sobre as passagens, quando Zanga, que tinha 
chegado do rio, nos interrompeu para cumprimentar Ang^imbo, 
e pedír-lhe que intercedesse para lhe darmos alguma cousa 
de vestir, porque o irmSo a tudo chamara seu e nada queria 
repartir. Muêto riu-se, e nós dissemos que já lhe havíamos 
promettido, se elle fosse para o porto fazer passar todas as 
cargas, dar-lhe com que se vestir. 

Muêto Anguimbo respondeu-lhe que os filhos de Muene 
Puto nllo eram como elles, tinham uma palavra só, fosse elle 
fazer o que nós queríamos e que teria a sua vestimenta. 

O v-elho despediu-se de nós, pedindo quando voltássemos com 
o resto da Expedição o fossemos ver e passar um dia com elle 
no seu sitio. 

Este ficava á margem do Cuango, a norte, segundo as infor- 
mações, 12 a 15 kiiometros distante do ponto em que está- 
vamos. 

As terras da margem direita, pertencem a Mona Mahango, 
nos dominios de Capenda-cá-Mulemba, que confinam ao norte 
com as terras de Muêto Anguimbo (Hari) e de Muene Puto 
Cassongo, súbdito do Muatiânvua. A casa de C. Machado, de 
que era empregado José de Vasconcellos, estava a meio cami- 
nho do porto para a povoação principal de Mona Muhango, no 
sitio de Mona Quinonga que foi o primeiro marido doesta. 

As duas horas fomos ao porto acompanhados de Zunga, o qual 
não mais nos largou, agora submisso, dizendo-se muito nosso 
amigo, e que nos convinha ter a nosso favor por causa da 



420 



SZFEDIÇXO POBTO0DBU AO WJÁTliVTDA 



puiagem da ultima parte da !EKpodiçSo. Àbl encontrámos 
«.penas dez cargas do dia anterior, qne ainda ^''Thi^Tn de ficar 
mn dia na barraca, por causa do tempo qae já ameaçava chova, 
havendo maia dez que ainda podiam passar. 

Ia rdtirar-me, quando appareceu Vasconcellos a cnmprimen- 
tar-nOB e a pedir para mandarmos nma carta a Custodio. 

Acompanhoa-noB até á poroaçto, onde estávamos alojados, 
jantando comnosco. 

Dísse-Dos qae o qodante 
chegara a sua casa ás sos 
horas da tarde do dia ante- 
rior, e qae podíamos retinr 
no dia seguinte descansa- 
doB, pois fiiria conduzir as 
cargas todas para ali. 

Como lá se encontravam 
carregadores para as cai;gas 
seguirem para Mona Mo- 
hango, convencemos os car- 
regadores contractadoB para 
a Lunda a regressarem com- 
nosco a buscar mais. 

Oa filhos de Anguvo o 
Âmbango nSo quizeram re- 
no dia seguinte, o que esti- 
mámos, porque animavam a nossa gente a fazerem rapidamente 
a viagem. Os oito contractados em Malanje para o Cuango, 
também iam comnosco e como estavam costumados ao trans- 
porte das redos, auxiliavam os outros com o interesse no mata- 
bicbo de aguardente em chegando &a EstaçSes. 

Augusto Jayme ficou na povoação com sua mulher e dois 
rapazes, para nos tranamíttir qualquer noticia da nova KstaçSo 
que se ia construir já, sob o nome de — Costa e Silva. — 

Era este uma merecida homenagem que prestávamos ao Di- 
rector dos negócios do ultramar a quem deviamos importantes 
aoxiíios na orgauisaçSo da nossa Expedição. 




tirar, preferiram acompanhar-n 



DESCRIPÇ!0 DA VIAGEM 421 

Vasconcellos retirou para sua casa e nós entretivemo-nos 
durante uma parte da noite conversando com Mussengue, Mu- 
lumbOy Zunga e os filhos do Anguvo e do Ambango, que os re- 
presentavam junto de nós, tratando-se dos beneficies que a 
Expedição fizera ás terras por onde passara e da esperança 
que Muene Puto continuaria a protegê-los^ levantando casas 
em suas terras. 

Assim^ diziam elles : — Muene Puto nos dai*á parte da esper- 
teza que o sol leva toda para as suas terras e nós saberemos 
então fazer fazendas, pólvora^ armas e missangas^ e já não pre- 
cisámos vestir as pelles dos brutos; faremos boas casas e la- 
vras; teremos os seus remédios para as nossas doenças e 
aprenderemos a escrever e a ler e já não seremos enganados 
com os recados. 

Este modo de discorrer, dava logar a entrarmos em expli- 
cações e a diálogos, d^onde concluiamos que na Europa se apre- 
ciam muito mal estes povos, e quando se tratar de os educar 
devidamente, pode esperar-se d^elles o mesmo que de qual- 
quer povo civilisado. 

A passagem do commercio por aqui ha de modificar-lhe os 
costumes, porém uma missão bem organisada e como a imagi- 
namos, deve dar excellentes resultados, e a influencia dos Por- 
tuguezes é tal, que não creio a possam supplantar quaesquer 
estrangeiros, que para elles são sempre os inguerises, appella- 
tivo pronunciado com um tal ou qual desdém. 

E nós, sabemos muito bem, que o único estrangeiro que en- 
tre os povos de Africa meridional soube conquistar a estima, 
foi Livingstone, e porque ? Porque procurou imitar-nos, esque- 
cendo a cor d^aquelles com quem convivia, estendendo-lhes a 
mão, sentando-os á sua mesa, visitando-os nas suas habita- 
ções. E elle que assim praticava, admirava-se do modo por 
que 08 Portuguezes na provincia de Angola tratavam os ho- 
mens de côr, mesmo quando eram seus empregados e escra- 
vos, e fazendo o parallelo com os seus patrícios, dava relevo 
ao contraste, censurando-os. 

Stanley e outros exploradores que se lhe seguiram, querendo 



422 EZPBDIÇXO POBTOOCRU ÁO ITOATllHTUA 

lu Eoropft conrencer-Qos pelo sen modo de foliar iohn os po- 
Toi Ȓnoan08, qae como elle pensavam, ilSo foram tio felUea. 
£ porque? Faltava-l^ea a aprendlza^m que elle tivera oõm- 
QOBCo antes de Be internar no Beio do continente, e depois a 
pratíca, em que se adquire, além da resignaplo e pacielida que 
fAo indíapensaTeifl, a convicção de que eatea povos bSo ccOxeti- 
tuídos por entes de quem dependemos para a nossa existência 
no mão em que elles vivem. 

Sendo já um pouco tarde, e tendo-sé preparado Qa povoa- 
çSo um batuqne do despedida á nossa comitiva, ent«ideiBOS 
nJto dever abusar do &vor dos homens que vieram {aaer-Doã 
companliía ao principiar da noite, e agradecendo a sua attenjlo 
recolhemo-Dos para nos deitar pouco depois. 

O ribombar de imponentes trovoadas qne se succediam ad 
(^fferentes pontos, despertou-nos já perto das cinoo hora* da 
madrugada, e nSo foi poesivel tomar a adormecer. Ma «ap»- 
rança que o tempo alliviaria, dispozemos todas as nossas o 
para a viagem, inclusive a cama. 




DESCIUPV^O OA VLAQEU 



EKGKESSO DO CJiEFK A ESTACÃO PAIVA 
UE ANDlíADA 




Da facto, ás sete horas da 
mauliíi, não obatante as inatan- 
cifia <los sobas para ficarmos 
aiuda eese dia, pois que nos 
iríamos molhar eom a chuva 
polo camiobo, partimos, e diri- 
jíiiido bem os carregadores que 
nos haviam de transportai-, con- 
seguimos ainda passar o Lui um 
I pouco antes das quatro horas 
t da tarde c antes das cinco che- 
gávamos á Estação Paiva de 
Andrsda, 
- gMKi, -^ nossa alimentarão durante 
o dia consistira apenas de qua- 
tro ovos quentes, oh quaes sor- 
vemos acm tempero algum ao partir. 

Encontrámos já na Estação, o empregado europeu, Augusto 
Ccsar e algumas cargas vuidas da Estação Ferreira do ^ima- 
ral. Este informou-nos estar de saúde o aub-chefc, e de tudo ter 
corrido felizmente aem novidade. O soba Ambango continuava 
fazendo as suas visitas de noite á f^stação, na esperança du 
beberricar o seu copinho de aguardente, mas a respeito de 
apresentar mantimentos para a gente, dizia estar tudo exLausto 
pelo pessoal da Expedição que soguira para o Cuango. 



^!^^T y 



tít EXFSDIÇXO rORTCGUCZA. AO IBSATtIXWÁ 

Emqaaato ae noa arraDJaTa amm canja atnrintos o Ãmlmigo 
qne apparecea poaoc d«pob de chiarmos, e á Doaaa pergunta 
K a terra já nSo tioba qne nos dar de comer, resprakdea ter 
Já dado proridencíu para (joe da oatra banda viesse gado para 
qaando Maene Puto chegasse com soa gente, e qtte a cazne 
aSo haTta de &ltar. 

Agradeceu o boni_ tratamento qoe dúpensáinoe na Ttagen 
AM aena rapaxea eaperando qae Maeae Puto, sea protector, 
M lembrasse d'elles para a outra Tiagem. 

Hostrámua a nossa satUía^ pelo bom comportamento e 
•erviço de seus rapazes, e como o cnado nos trouxesse o jan- 
tar, demoft-lhe uma perna de gallinlia e uma bolacha, que 
guardoa para a ceia, e um oc^ de vinho que bebeu, deixando- 
aos segundo o mter{wete, com Deus, para dormirmos Bocega- 
Jamente. 

Comemos, tomámos varias notas e deítámo-noa em seguida, 
nXo muito bem dispostos, e durante a noite tiremos accessos 
de febre. J 

Era nosso intento continuar a viagem no dia seguinte 3 d^B 
novembrOj poróm a febre nSo nos lar^u de madrugada e eo- 
brevindo-nos outros íucommodos devidos á muita fadiga, ad- 
diimos por isso a partida, conservando-nos a caldos de galUnha 
durante o día. 

Recebemos a nossa correspondentua de Malanje e com ella 
uma carta para José de Yasconcelloa, que im mediatamente ex- 
pedimos pelo cabo da força que mandávamos apresentar ao aju- 
dante e também recebemos communicaçao do sub^efe, qae 
nos dava boas notidas sobre os negócios da EstaçSo Ferreira 
do Amaral. 

Providenciámos relativamente ao nosso regresso áquella Es- 
tação, querendo fazer toda a marcha, de treze horas, no dia 
4, e por isso mandámos seguir os oito carregadores, que vieram 
contractados até o Cuango, para a povoaçlto de Mulolo Qni- 
nhangua onde deviam pernoitar, sendo estes os que haviam 
de nos transportar d'aht á referida EstaçSo, sendo a viagem 
de quatro horas. 



D£8CUIPÇA0 DA VIAGEM 425 

Entendemos de toda a conveniência o descanso durante o dia 
para nao aggravar o nosso mal estar, que durante a noite 
mais se accentuâra e não podemos deixar de attribui-lo a can- 
çasso, humidade, mau passadio, e á falta de café e quinina, o 
que em parte era devido ao noáso descuido. 

Conservando-nos na cama durante o dia e procurando cha- 
mar a transpiração, próximo da noite sentimo*noB um pouco 
melhor e mais animados para fazer a viagem num dia, e co- 
meçar depois uma medicação methodica. 

A indisposição gastro-intestinal passou, e dormimos bem toda 
a noite. 

Estávamos no dia 4 ; veiu o soba de madrugada saber como 
tínhamos passado a noite, fízemos-lhe as nossas recommenda- 
çòes para viver bem com o empregado que ali devia perma- 
necer e que tratasse de arranjar mantimentos para quando che- 
gássemos. 

O soba asseverou-nos que não deixaria de ter na devida at- 
tcnção o que lhe recommendavamos e partimos eram seis horas .; 

Quando chegámos á povoação de Quinhangua era uma hora 
e três quartos e ahi apenas nos demorámos o tempo indispen- 
sável para troca de carregadores e para recebermos do poten- 
tado o presente de um boi, que mandámos repartir por toda a 
gente que nos acompanhava consentindo que ahi pernoitassem. 

Chegámos á Estação ás seis horas da tarde, e na occasião 
em que o sub-chefe era chamado para jantar. 

Vinhamos bastante fatigados, devido á posição forçada na 
rede durante doze horas, ao estado febril em que nos conservá- 
vamos desde o dia anterior e também á fraqueza porque es- 
tivéramos a caldos, e nesse dia de manhã apenas tínhamos 
tomado dois ovos quentes e uma chávena de café. 

Comemos pouco, a febre augmentou, e por conselho do sub- 
chefe, fomos para a cama, oode pouco depois tomámos uma 
chávena de chá com pós de Hover para transpirar, o que teve 
eífeito; porém sobreveiu uma forte dor de cabeça que não 
diminuiu como de costume, com fricções de essência de hortelã 
pimenta. Passámos mal toda a noite. 

88 



426 EXP£D1Ç20 POKTOGOEZA AO MUATIÂNVnA 

Logo que a claridade do dia permittia, quizemos principiar 
a fazer a communicaçSo para S. Ex.^ o Ministro, o qae nao 
nos foi possivel ; a febre prononciou-se com toda a intensidade 
e tivemos de voltar para a cama. 

Queríamos aproveitar a opportunidade do regresso dos car- 
regadores que de Malanje foram ao Cuango, para enviar a 
correspondência para a metrópole e a communicação ao Governo 
de que a primeira secção da Expedição havia passado aquelle 
río em 31 de outubre e estava construindo a Estação Costa e 
Silva, em terras de Capenda-ca-Mulemba, em Mona Samba 
Mahango, para ahi se reunir toda a Expedição. O nosso estado 
não noft permittiu dar a essa communicação o necessário des- 
envolvimento limitando-nos por conseguinte a uma singela par- 
ticipação. 

Pelas boas informações que tinhamos acerca dos povos de 
Mona Mahango, e recursos da terra, o que foi corroborado por 
José de Vasconcellos que já vivia entre aquelles povos ha 
quatro mezes, e tendo nós de nos demorar ahi algum tempo 
para se arranjarem carregadores para a Lunda e estudar a re- 
giãO; resolveu-se que a Estação devia ser construída com a ne- 
cessária capacidade e com as accommodaçoes e segurança in- 
dispensáveis para alojamento do pessoal e deposito de todas 
as cargas. 

Conseguimos despachar os carregadores no dia 6, logo de 
manhã, porém em seguida principiámos em tratamento, e até 
ao dia 8 nao nos foi possivel fazer trabalho algum, não ces- 
sando durante esses três dias as chuvas e as trovoadas. 




J^ 



MUBBOMA 



DESCRIPÇAO DA VIÃQEH 



ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBKE ESTA EEGIAO 
E OS SliUS HABITANTES 




aub-cliefe da Expedi ç8o du- 
rante a. nossa ausência não se 
poupara; além das observações 
qiKitidiaDns tanto astronoinicas 
como raeteorologicaa, prose- 
giiiu naa diligencias de activar 
o trausporte das cargas para a 
Estação Paiva de Andrada, con- 
tractando no voa carregadoreB 
entre os povos vizinhos com 
quem manteve boas retaçSee, 
aproveitando todos ob momen- 
tos de que podia dispor para 
aiigmentar as suae eollecçõe» 
da fauna o flora, indo elle 
mesmo ao mato examinar ou 
tiollicr os exemplares que mais reclamavam a sua attençSo c 
estudo. 

A media de um bom numero de observações dera já para 
coordenadas da noasa EstaçZo em Cafiixi de Sé Quitárí, 9" 
O" 10" lat. S. dij Equador, e 16° 42' 1" long. E. de Green- 
wich; no que se provava que oa nossos trabalhos pela estima 
se approxímavam da verdade. 

Nos nossos reconhecimentos a pé, deu-nos a pratica uns des- 
contos a fazer, quando a marcha era em terreno ondulado e 



U.^jJVr 



Affi EXPKDfClo FUKltW.lX A JO TâTTl^TCJL 



e 

Depois de uma jofnada, en o «mbd prnMÍn> coidado qvando 
aaunpsTamo», rednzi-la a mu cn^jw giapUeo, e cono ai 
laa mediçiSea eram fintas de cinco em cinco «m^^y^ e 
oa noawM paaaoa eslaTam p e ifeium ente calndadoa, de modo 
que 1:420 em raminho poocoondnladodaTam 1 Idlometio e eqm- 
raUam a 1:600 em leneno cii)a inclinaçio r^nlara por 30^, 
feyrtMJft depoú a« correcções de declinação e inclinaçio da 
airnlba e redacções de cotagem nesse primeiro trabaDiOy traçá- 
ramos os nossos itinerários, qae depois rerificados doas e ti^s 
reses, como sococrdea de Malanje ao Coango e comparados 
com os dos collegas que também apresentaram os seus reco- 
nhecimentos dos mesmos caminhos^ obtinha-se nm itinerário 
médio, qne a determinaçlo astronómica das cooidenadas com- 
jnrorara com pequenas difierenças. 

Em todo o tempo que nos demorámos nas EsftaçSea, o sub- 
chefe Sízenando Marques foi o mais escrapoloso possirel nas 
obserraçSes de que estará encarr^ado e sempre qae a occa- 
síio lhe era propicia, aproveitara-a para &zer as obserraçSes 
astronómica» me&mo a altas horas dâ noite, e como as distan- 
cias entre a* EstaçSes nâo sâo grandes, pode considerar-se boa 
a determinação das coordenadas das nossas Estações. 

A altitude aqui, 8o2 metros, é inferior á de Malanje em 
322 metros, - differença que repartida pelo nosso transito^ re- 
gula de 3 metros por kiiometro, o que nos prova, nJo haver 
grande» difficuldades a vencer quando se procure ainda melhor 
caminho, para se fazer proseguir por aqui a linha férrea de pe- 
netração, acrescendo as cireumstancias favoráveis de nâo termos 
encontraílo necessidade de obras de arte de importância, de 
existirem boas madeiras em todo o percurso, de se encontra- 
rem pedreiras, e das terras nâo serem soltas, nem tâo pouco 
muito resistente». 

Pelo perfil que já apresentámos, do nosso transito até ao 
Cuango, conhece-se que o planalto de Malanje termina pelas 
alturas de Catalã e dahi descem os terrenos para os rios Cuanza 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 429 

Cuiji e Cuango, formando uma grande depressão, por isso que 
seguimos para o norte; porém a cotação será menos áspera 
quanto mais nos approximarmos do rumo de leste. 

O que podemos já affiançar, é que a região entre os rumos 
indicados até ao Cuango é a melhor que conhecemos em toda 
a nossa provincia do Dande ao Cuanza, para a creação de ga- 
dos^ e isto é importantissimo só por si, quando se trata de 
construir um caminho de ferro e se sabe que Loanda importa 
gado e pode passar a exportá-lo em grande escala. 

Á agricultura também aqui encontra vasto campo para se 
desenvolver. Os productos que' temos visto são magníficos, 
o torrão é excellente; existe abundância de aguas e a uma 
temperatura elevada corresponde a humidade nos máximos 
graus de saturação de 92^ a 98°. 

As circumstancias climatéricas da localidade, modificadas 
pelos ventos de S. que são das regicHes mais elevadas, pare- 
cem-nos favoráveis ao europeu quando se observem as prescri- 
pções recommendadas pela sciencia. Desde 15 de agosto que 
nesta Estação teem estado europeus de differente compleição, 
já na epocha das chuvas e pode dizcr-se sem as commodidades 
a que estão habituados. Havendo-se exposto muito ao tempo 
e não se poupando ao trabalho, por emquanto, salvo uma ou 
outra febre, mais uma excitação devido a fadigas e contrarie- 
dades, por não correr tudo como era para desejar, a quem tem 
em vista chegar ao termo da sua missão, não se registaram 
outras doenças; cumprindo não esquecer que as influencias pa- 
lustres se devem ter feito sentir em todos, desde o dia 11 
de junho em que chegámos ao rio Cuanza. 

Pelo que respeita aos indigenas, é preciso entrar na apre- 
ciação dos seus usos e costumes e modo de existência, para se 
conhecerem as causas porque não podem luctar com as condi- 
ções climatéricas, succumbindo muitos ainda antes de attingi- 
rem a maioridade. 

Logo que nos achámos restabelecidos dos nossos incommo- 
dos, tratámos de aproveitar algumas horas do dia, que nos era 
possivel distrahir d^outros serviços, procurando familiarisar-nos 



430 EXPEDIÇÃO PORTUGUEZÁ AO MUATIÂNVnA 

com 08 habitantes da povoação, indo ás suas cubatas, assen- 
tando-nos ao lado d^clles a fim de colher todas as informaçSes 
para formar um juizo seguro sobre o seu modo de viver. 

Mucongo, homem já velho, tio do potentado e que deixara o 
seu sitio para vir viver na ambanza do sobrinho, foi quem es- 
colhemos para nos acompanhar nestas nossas visitas e para 
nos ir prestando esclarecimentos, sobre o que mais provocava 
a nossa attençSo. E é pelo que vimos e pelas informaçSes co- 
lhidas, que somos levados a deduzir, que a falta de vigor e a 
depauperação das populações nesta região, é mais uma conse- 
quência do aniquilamento de forças, devido a degeneração a 
que chegaram seus maiores pela miserável existência que tive- 
ram, do que das condições climatéricas da localidade, que não 
teem sabido modificar e que sobre elles exerce também a sua 
influencia. 

Vivendo estes povos tao próximos de nós, havendo o seu 
jaga Andala Quissúa estado muitos annos preso em Loanda, 
existindo alguns homens que se lembram das guerras de Cas- 
sanje e dos o65ciaes e negociantes europeus; é também certo 
que na maioria, indivíduos já adultos, sabem só por lhes dize- 
rem, que existe o Rei de Portugal (Muene Puto). Conhecem 
os seus súbditos, mas nao teem uraa idea precisa do que elle 
realmente é, e suppSem que o fabrico de todos os objectos 
provenientes da Europa, é obra sobrenatural, custando-lhes a 
crer que as mãos dos brancos possam fazer cousas tao perfeitas 
ou tão pequenas como, por exemplo, a missanga. 

Muene Puto, essa entidade abaixo do Zdmbi (Deus) é pae dos 
brancos e dos pretos, dizem elles, porém ensinou os filhos 
brancos a trabalharem e não fez caso dos pretos ; os pretos 
nascem, vivem, mas não trabalham porque não foram ensina- 
dos. Os filhos de Muene Puto, aprenderam a fazer tudo que lhes 
era preciso, das boas cousas que o Zambi creou nas suas ter- 
ras, e como já teem de mais, lembraram-se de nós para troca- 
rem o que trazem pelo marfim, cera e borracha que temos 
para d'ahi fazerem cousas boas, mas não nos ensinam para ficar- 
mos sempre como os brutos. 



DESCRIPÇZO DA VIAGEM 431 



Discreteando assim, fomos levados a uma certa ordem de con- 
siderações sobre a sua existência. 

Admirando-nos que tivessem abundância de gado e mesmo de 
creações e que não matassem os animaes para se alimenta- 
rem disseram: — Uma ou outra rez vendesse a algum negocia- 
dor que por aqui passa para nos vestirmos e ás nossas mu- 
lheres, mas o nosso âm creando o gado é para termos sem- 
pre com que pagar os nossos crimes, impostos, presentes e 
exigências do jaga. 

Sc os mais velhos uma vez ou outra matam uma cabra ou 
carneiro ou mesmo uma gallinha e repartem com os seus paren- 
tes, é porque tem festa em casa ; procuram afastar os maus es- 
piritos ou enterrar bem algum parente para que este nSo venha 
persegui-los depois. 

O chefe da povoaçSo e os que assim assistiam ás nossas in- 
dagações, asseveraram-nos que só depois da existência da nossa 
Estação é que se via carne nas cubatas de seu povo. As lavras 
iam-se exhaurindo de mandiocas, as raparigas trabalhavam com 
gosto a pisar os bombos, para levarem fubá aos nossos carre- 
gadores, mas tudo isso era por causa da carne. 

Sendo isto uma circumstancia importante de que podiamos 
tomar partido para os estimular nos trabalhos de lavoura e a 
dar-lhes maior desenvolvimento, respondiam*nos com outros 
factos desanimadores. 

Para que, diziam elles, cultivar mais do que pode chegar 
para a nossa gente? 

— Depois de sairem os filhos de Muene Puto, que estSo agora 
aqui, quem vem procurar os productos das nossas lavras? Os 
moradores de outras povoações todos teem lavras para si ; Ma- 
lanje, que é a terra de Muene Puto mais próxima, nâo precisa 
dos nossos productos; o preto não mata gado nem creaçSes 
para trocar por fubá, todos teem as suas raparigas que lh'a 
arranjem. Os negociadores que passam, são poucos e pretos 
como nós, se compram gado é para vender em outros pontos 
e com uma pouca de missanga sempre arranjam que as raparigas 
lhe vendam bambo e trazem as suas mulheres para o pisarem. 



432 EXPEDIÇZO POBTUODEZA AO MUATIÍKVUA 

— Se Maene Puto mandasse para a sua casa mais brancos, 
então sim, todos cuidariam de £Euser lavras maiores^ para terem 
ÊEizenda, as raparigas trabalhariam era fazer farinhas e fubá 
para trocarem por carne, os homens fariam carretos e iriam 
ao negocio da borracha. Se não vierem, sentir-se-ha agora muita 
falta, porque não estávamos costumados a passar tXo bem. 

£ a propósito do passadio, diziam elles, que antes de chegar- 
mos, o usual era comerem o infunde com folhas cozidas, e 
muitos dias passavam com mandioca crua e jinguba, e quando 
havia milho, com massarocas passadas pelo fogo e nada mais. 

Caça era tAo raro apparecer como peixe e mesmo o dissesse 
(lagarta de arvores) era preciso ir longe para os arranjar em 
troca de bombos. 

Kotando-se-lhes que viamos muitas creanças de peito e pencas 
em proporção de mais edade: — Morrem muitas, era a res- 
posta. 

Este facto, diziamos nós, só se pode attribuir ao man ali- 
mento das mães e de não as pouparem expondo-as com os 
filhos ás intempéries nos trabalhos mais penosos. Talvez seja 
por isso, respondiam, mas então quem havia de ir para as la- 
vras e pizar-nos o bombo? Nós conhecemos que as mulheres 
soífrem e se definham depressa, mas ainda assim temos mais 
mulheres na povoação que homens. 

— E porque os homens certamente emigram para outras 
terras? 

— Não senhor, respondia-nos Sé Quitári, esta povoação é feita 
por meu tio que morreu. Viemos para aqui, das margens do 
Cambo, do outro lado de Andala Quissúa (W). Foi este quem 
nos mandou chamar para aqui, porque o nosso sitio era muito 
doentio. As emigrações na nossa terra só se dão por causa das 
guerras, e nós felizmente não as temos tido ha muitos annos. 
Ha de reparar que nSo ha velhos aqui, como existem lá em 
cima no Andala Quissúa, mas é porque os nossos velhos não 
quizeram deixar o Cambo. Nós viemos e aqui temos vivido em 
boa harmonia com os vizinhos e com o jaga, e o nosso gado 
augmenta, que é o principal. 



DESCRIPÇ20 DA VIAGEH 433 



Mas não são atacados aqui de doenças, pergtmtayamos nóS; 
que estávamos soffirendo de dores rheumaticas. 

— Ha muitas doenças de ventre e dores pelo corpo, mas 
no Cambo soffiíamos muito mais. Eram provavelmente devidas 
ás péssimas aguas barrentas na epocha em que estávamos, ás 
grandes humidades e a uma alimentação miserável. 

E quem mais soffre d^essas doenças, os homens ou as mu- 
lheres? 

— As mulheres e creanças, disseram elles. 

O que nós pensámos ser certamente devido nos homens a 
elles se ausentarem por algum tempo da localidade, nos seus 
pequenos negócios e em procura de caça. 

Estas e outras conversas que a miúdo tínhamos com esta 
gente, e a que de bom grado se prestavam, mostrava-nos que 
elles reflectiam, e se não tinham ideas fixas sobre o modo de 
se aproveitarem da sua actividade, não deixavam de reconhe- 
cer que é nisso que lhes leva vantagem o homem branco, e que 
por isso mesmo gosa elle de commodidades e de um bem estar 
que elles poderiam ter, e para que estavam dispostos a traba- 
lhar quando houvesse a certeza de os alcançarem também. 

Soífrem e vêem definhar-se^ a sua progénie; não é porque 
não reconheçam o mal, é por não encontrarem o que os estí- 
mulo a debellá-lo. 

Que a nossa Estação já estava influindo no seu animo de 
modo benéfico, reconhece-se também, e assim como elles en- 
contraram melhoria para a sua existência, na mudança do 
Cambo para aqui ; já reparavam que haviam de sentir differença 
para um estado peor, quando a Estação fosse abandonada. E 
note-se que o abandono que elles sentem é dos brancos e não 
dos negociadores africanos que por aqui passam á aventura 
com as suas pacotilhas, ou que residem provisoriamente entre 
elles. 

E porque é isto assim? Parece-nos poder explicá-lo. 

Os Ambaquistas ou os que os imitam, isto é, os taes Quim- 
bares, nao educam esta gente, nem procuram o seu bem estar, 
antes se servem dos seus usos e costumes e procuram desper- 



434 EXPEDIÇIO PORTOGUEZA AO MUATIÂNVUA 

tar-Ihes os seus apetites gentílicos em proveito próprio. Faci- 
litam o uso da aguardente e de tudo que mais possa embrutecer 
os incautos quando d^ahi lhes resulte engodá-los nas transacçSes 
que com elles procuram fazer. Tornam-se adivinhos^ tomam-se 
mesinheiroSy havendo-se prevenido antes com o que mais possa 
agradar-lhes, e assim os vão entretendo até receberem d'el- 
les o pagamento em borracha ou em serviçaes, que é o que 
mais desejam e, no entretanto, vão comendo sempre os manti- 
mentos. 

Espalham-se é certo esses aventureiros por todo o interior, 
e alguns chegam mesmo a estabeleçer-se provisoriamente longe, 
porém afastam-se uns dos outros por causa da concorrência 
nas suas explorações. Um grupo de quatro numa povoação já 
é raro encontrar-se. 

Alguns ha que trabalham pelos officios de sapateiro e alfaiate 
e também na plantação e fabrico rudimentar de tabaco, mas 
como o âm seja ainda o mesmo, de obterem alguns serviçaes, 
se alguém educam são estes com quem retiram logo que en- 
contram opportunidade, e os proventos para os povos são ephe- 
meros ; ha localidades em que se não encontra sequer vestígios 
da sua passagem. 

Em principio este povo mantinha-se, por assim dizer, numa 
linha de respeito para cora a Expedição, estudava-nos, como 
nós a elles. Aproveitavam das visitas dos potentados para 
nos observarem, conhecerem o nosso modo de tratar os ho- 
mens velhos e os nossos usos, e d*ahi nasceu a convivência e 
uma tal ou qual confiança. Perderam depois o receio pelos 
brancos, ouviara-nos e respondiam-nos já sem reserva. 

As mulheres principiaram a fazer transacções com os pro- 
ductos das suas lavras e mais trabalhos, e os homens apre- 
sentaram-se para carretos, serviço que lhes era inteiramente 
novo, indo até ao Luí, e encarreirando-se também para Malanje. 
O que se ajustava era-lhes pago integralmente, e chegaram mes- 
mo a deixarem em deposito os pagamentos de um certo numero 
de serviços, para não receberem fracções; por exemplo, de uma 
certa peça de fazenda que lhes agradava, cousa que não era vul- 



DESCHIP^AO DA VIAGEM 



435 



gar, porque são muito desconfiados e mesmo os que estíío mais 
cm contacto com os brancos querem oa pagamentos adeantadoe. 

Sendo supersticiosos, soubemos tirar partido d 'isso respei- 
tando as suas crenças e d'ahi uma confiança reciproca. 

O fim da missSo era estndar-Ihe a Índole, cathecisá-los, exer- 
cer influencia no seu animo, aproveitar a sua actividade e 
crear-llie necessidades cm proveito do commercio de Malanje, 
attraJiindo-os ao convívio da 




província, ao mesmo passo 
que os estimulávamos re- 
compensando -Ih ea o traba- 
lho, ensinando-llics o modo 
de poderem satisfazer as 
suas ambiçSes, mostrando- 
llies emfira os benefícios que 
(la nossa protecção podiam 
■ advir. 

O negociante sertanejo, 
cujo fim ó realisar no menor 
tempo possivel a transacção 
■la sua pacotilha, não pers- 
cuta, nfÈo indaga das miou- 
dencias a que é preciso des- 
eerse para avaliar a índole 
dos povos que procura para 
o seu commercio. EnfastÍa-o mesmo outra cousa que nSo seja 
o seu negocio, lastima ns delongas que se dSo nas transacções 
e leva-as A conta de prejuízo, quando para o indígena é uma 
questão de íoteresse devido á sua índole que nâo conhecem, 
do que resulta uma má apreciação sobre o povo, o desacredi- 
tareni-no como selvagem, de quem nada se pode obter em pro- 
veito da civilisação. 

O que mais estranharam cm mis, era o nosso amor da inves- 
tigação, e a nossa perseverança. 

Víamos por exemplo, numa povoação, defronte ou ao lado 
de uma cubata, uma tosca figura imitando um homem, cortada 



436 EXPEDIÇZO PORTUGUEZA AO MUATIÂNVOA 

á faca numa tabuinha, ou gravada num tronco, devidamente 
reservada num pequeno telheiro, ou protegida por uma trepa- 
deira; víamos uma planta disposta com esmero, que se desta- 
cava de outros arbustos ; viamos no caminho um amontoado de 
troncos ou formando pyramide ou dispostos em cruzetas ou 
quadros ; viamos uma bananeira isolada e umas cubatas em mi- 
niatura ao lado, protegendo panellas de barro, umas contendo 
agua, outras, matérias pastosas, outras emfim, algumas peque- 
nas plantas, etc., e não nos contentávamos em conhecer os 
seus nomes : muquixij quissondcj muti, nhangua^ etc. 

Para bem podermos interpretar tudo isto, entravamos numa 
serie de indagações e assim conseguiamos obter noçSes da 
sua grosseira religião. 

Apreciavam muito estas nossas investigações e d'ahi desper- 
tava-se-lhes a curiosidade em fazer confrontos com o que a tal 
respeito poderia existir nas terras de Muene Puto. 

O muquixi que figurámos é uma copia do que existia de- 
fronte da habitação do velho Mucongo. E o Zâmbi dos pretos, 
nos disse este. Muene Puto tem o seu Zâmbi numa cruz, nós 
não sabemos fazer mais do que isto para o representar. £u 
estava muito doente e mandei chamar um adivinho, e este 
depois de consultar os idolos, disse-me que nâo poderia melho- 
rar, emquanto nâo mandasse fazer ou restaurar um Zâmbi. 
Mandei então fazer este e desde que elle aqui está defronte 
da minha porta, estou muito bera. 

Sé Quitári, que nos acompanhava na occasiâo, pediu-nos para 
irmos também ver o seu. Era uma figura tosca, excavada num 
tronco e serapintada de preto, encarnado e branco. E confir- 
mou-nos elle, que também gosava saúde desde que ahi o col- 
locou com o devido resguardo. 

E coratudo nas cubatas de ura ou outro gentio, na parede 
do fundo sobre um retalho de baeta encarnada, lá estão os 
crucifixos de metal que o nosso commercio lhes leva. 

Acreditam elles que o Zârabi dá felicidade ás pessoas que 
os mandam figurar e também ás povoações, e por isso se al- 
guém o inutilisa, é multado para fazer um novo. 



DESCBIPÇlO DA VIAGEM 437 

E note-se que se serviam da palavra Zâmbi, nSo porque seja 
este o vocábulo usual que é o equivalente muquixi, mas para 
que comprehendessemos melhor o valor que para elles tinha. 

E insistindo nós em conhecer a idea que tinham do Zâmbi^ 
responderam : — Nunca o vimos, mas nós vivemos e morremos 
quando elle quer. 

O seu modo de pensar com respeito á morte, revela-se na 
seguinte explicação de Sé Quitári : — Morre o homem, mas a 
vida doeste apparece noutro corpo, se os parentes nâo chora- 
ram bem a sua perda ou não pagaram as dividas que elle dei- 
xou. Este persegue-os até que isto se faça e até que âque sa- 
tisfeito por se lhe ter dado boa comida. 

Este homem, querendo provar-nos esta sua convicção, e in- 
vocando o testemunho dos seus parentes e mais gente que o 
ouviam, acrescentou. 

— Quando adoece algum dos meus bois, ou tenho infelici- 
dade èm casa, mando chamar o melhor curandeiro das terras do 
jagado e este faz apparecer o meu pae com outra cabeça; eu 
então mando vesti-lo e dar-lhe muita comida d'aquelle boi que 
adoeceu ou de outro se a infelicidade é de outro género, e isto 
porque meu pae nunca teve gado, e já uma vez estando a 
dormir me appareceu, dizendo que eu estava muito rico e nSo 
me lembrava d'elle que morrera pobrç, sem nunca ter visto 
uma cabeça de gado na sua posse. 

E como sabe que é seu pae, lhe perguntámos, o homem que 
o curandeiro lhe apresenta? — Porque me conta muitas historias 
antigas de seu tempo, das suas caçadas, das suas guerras e 
nomeia todas as pessoas da nossa familia. 

•Indubitavelmente, o espertalhão do curandeiro tirava par- 
tido da credulidade doesta gente, diziamos nós, mas respeite- 
mos as suas superstições ao mesnío tempo que lhes vamos 
apontando a superioridade da nossa crença, para elles estabe- 
lecerem o parallelo e tirarem as suas conclusões. 

Comprehendiamos assim o nosso papel de propagandistas do 
bem entre estes povos; éramos bem acceites e previramos o 
successo do nosso modo de proceder. 



438 



EXPEDIÇÃO POKTUGUliZA AO MUATIANVUA 



Naa nossas commmiicaçSea ao Ministério, ao Govemadoí 
geral de Angola e ao negociante Custodio Josú de Sousa Ma- j 
chado, lembrámos a. conveniência de nos fazer render nesta 
Estação e a este ultimo por uma casa âlial da sua, emfim ' 
o aproveitar-se de qualquer modo a influencia que chegámos a 
adquirir entre os povos em redor. 

à efficacia das nossas EgtaçijCB até ao Cuaitgo, quando nito | 
fosse por outro motivo, tornou-se bem palpável, porque aua- 
tentavH nSo meuos de setenta indivíduos, que eram permanen- 




que I 



1 troca dos 



alimentos que lhes eri 
indispensáveis, espalhavam j 
diversos artigos do nosso ] 
commercio. Era um prin- 
cipio devida, porqueliouve ] 
iluem amontoasse alguns 
desses artigos e dos adqui- 
ridos com transportes das j 
nossas cargas, parte dos | 
quaes trocados depois pOP 
sal e este com a outra | 
parte, negociados no Pein- ' 
de e Xinje por borracha, 
"^ íiTomo B«uu (uTiRpmiTí) "i" '!*'■*'** ^^ transformaram 

ncsfa Estação, já entSo fi- 
lial de C, Machado, em fazendas c outras mercadorias, mas , 
em quantidade muito maior. 

Tivemos no interior noticia do bom negocio que nesta casa 
estava fazendo o empregado de Machado, das hoaa relaçSea qae 
mantinha com os povos vizinhos e da animação que entre estes 
reinava para fazerem as suas excursSes entre o Cuango e o 
Cuengo ; sendo certo que no nosso regresso, entre as EstaçBes 
Paiva de Andrada e esta, em sitias até ali desertos, se viam 
novas povoa^^Bes e muito gado, 

O gado estava dando um bom rendimento para estes poros, 
era procurado para negocio além do Cuango e para a nossa , 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 439 

província de Angola nos concelhos a leste do Loanda^ o que 
antes da vinda da Expedição só fazia um ou outro, mas em 
pequena quantidade e de tempos a tempos. 

Uma rez que neste logar poderia importar no valor corres- 
pendente a SjJOOO ou 4f5000 réis, no açougue em Malanje pro- 
duzia de 15^000 a 20^000 réis, no Dondo mais, e em Loanda 
mais ainda. E um bom negocio. 

Os povos do«Lui, do Ámbango principalmente, vendo que 
os de Andala Quissúa, sem repugnância alguma, andavam no 
serviço de transporte das nossas cargas para a EstaçSo no seu 
sitio, também já ahi appareceram a pedir cargas e a mudança 
fez-se mais rapidamente do que pensávamos. 

Para a Mussumba, é que não era possivel angariar carregado- 
res, nem com a intervenção do velho jaga Andala Quissúa. 
Nós não pudemos deixar de attribuir este facto, ao que se 
chama intrigas de Cassanje, intrigas que nos foram comprova- 
das com a chegada do interprete António Bezerra, que por 
doente só ôntão se apresentou ao nosso serviço, com o famoso 
documento a que damos publicidade, e que nos enviou o ne- 
gociante Machado, de Malanje, onde se lhe asseverara, que 
em Cassanje tudo se preparava para evitar a passagem da 
Expedição no Cuango, ou fazer pagar caro essa passagem. 

Documento enviado por Custodio Machado ao chefe da Ex- 
pedição. 

Amigo c sr. António José Pereira : 

Rogo-lhe o favor de me dizer ao pé d'e8ta o que o amigo me disse 
que havia ouvido referir ao gentio de Cassanje, com referencia á pas- 
sagem da Expedição portugueza, de que é chefe o sr. major Henrique de 
Carvalho; pois muito me obsequeia, informando-me por escripto para 
prevenir consequências e por cujo favor muito grato lhe fica o seu 

Attento, amigo e muito obrigado.» Custodio «/. de Sotua Machado, 

Resposta. 

No dia 28 de outubro cheguei ás margens do Luí, aonde passei o dia. 
Ko dia seguinte chegou uma embaixada do banza Quissúa Cá-Ambum- 
ba, do Hiongo, chamar o Quiluange-Quiá-Cassanje, para irem impedir a 



440 EXPEDIÇXO POBTaOUEZÁ AO muatiínvua 

Yiagein ao IlL** Sr. major Carvalho ; disendo mais, que sem €altm com- 
parecease para receberem £uenda d*aqaelle senhor, porque se o deixas- 
sem passar, ao depois, todos haviam de querer passar de graça. 

Sem mais, seu attento amigo e obrigado. -= António Joêé Pereira. 

• 

Nota. — O mesmo António José Pereira, que acima me deu aqueUa 
resposta, me disse pessoalmente que o sr. major estava impedido de pas- 
sar, pois que o gentio do Hiongo, por onde o sr. major tinha feito a via- 
gem, se oppunbam á sua passagem á viva força, e que, mesmo assim, 
lhe haviam de exjgir ama grande quantidade de £uendas. Mais me disse 
que ao gentio de Cassanje ouvira dizer, que nSo convinha a passagem do 
sr. major para o Muat*Ianvo, visto como ia fiizer amiaade com elle da 
parte do Maniputo a fim de os desg^raçar. 

Foi isto que elle pessoalmente me disse em casa de Alfiredo, onde se 
achava em tratamento de uma biliosa. N2o vejo que o que ^le disse, 
viesse modificar cousa alguma do que eu tinha dito naa rninhaa eonver- 
sas, e por muitas vezes ao sr. major. 

António José Pereira é sócio de Alfiredo José de Barros, na easa de 
Cassanje. = Custodio Machado, 

A vista d'este docameDto^ felicitava-nos Maclúido, por já me- 
tade das cargas da Expedição estarem além Cuango, na Ea- 
taçSo Costa e Silva, e sem que tivesse havido difficuldades e 
punha-nos de sobreaviso para algumas tramóias no fiitiiro, qne 
nos pudessem preparar os Bângalas, a quem não convém qne 
08 brancos estabeleçam relações commerciaes directas com os 
povos do interior, pois querem elles ser os mediaDeiros, para 
nâo perderem nos seus interesses. 




DESCRIPÇXO DA TIAOEH 




1'ARTIDA DA USTAÇAO FEEREIKA DO AMARAL 



' oudo pois de nos sujeitar ao ex- 
pediente de caniinliarraos de Es- 
tftçílo em EstaçSo, com os carre- 
gadores que tivessemoB e fosse 
possivel ir obteado pelo tran- 
sito naa povoações, para essas 
■ pequcmis distancias, e fendo 
completado ura mcz de obser- 
vações meteorológicas, prepara- 
mo-noB para sair d'esta Estaçito 
era 23 do novembro, fazendo a 
j correspondência para a metró- 
pole, aproveitando o correio que 
no fim do mez seguiria de Malanje com as malas para o pa- 
quete que sala de Loanda em 15 de dezembro. 

Annunciada a nossa partida, de novo se apresentaram os po- 
tentados conselheiros do jaga o chefes de povoação a visitarem- 
noB, trazendo os seus presentes de comida para a viagem, em 
retribuição do quê esperavam também presentes de fazendas^ 
missangas, pólvora, etc. • 

As chuvas estavam de volta comnosco e era preciso apro- 
veitar os intervalloB em que cessassem; assim no dia 23 e a 




4tô KXFEDIÇXO FOBTDSDBU 10 VCATIIhtiU. 

differentes horas, B&irani três partidas de carregadores de pro- 
Teniencias diversas, vi^riadas por gente nossa, nHo obstante a 
eonfusSo de delegados do relho jaga, ambanzos e Bobas, cjne 
encliiaiQ a Estaçilo, para se despedirem de nós. 

O jaga mandara mna raparigninha de presente para Muene 
Pato, pedindo que não saíssemos dn terra zangados com cUe, 
por n3o ter apresentado os carregadores que prometera para o 
Uuatiãnrua; que furam os seus Cltios qce faltaram, com re- 
ceios de Caasanje e do Miiatiãnroa ; que elle era filho de Muene 
Puto e quería a sua amizade. 

NSo tendo nós já na Estação cousa alguma com que retri- 
buir aquella attenção, nem nos convindo lerar a pequena para 
u terras da Lunda, pedimos desculpa de não acceitar o prc- 
■iCnte, porque as nossas leia Já nSo permittiam que tivéssemos 
ftscravos, como elle bem sabia, mas para que não tomasse como 
desfeita a recusa, enviámoa-lhe um chapéu armado, como recor- 
dação de bons amigos que forumos, e visto elle estar velho, 
mandávamos- lhe dizer que nào se esquecesse, para felicidade 
de seus povos, de prestar vassallagem a Muene Puto, como 
tínhamos combinado. 

Todos queriam aguardente por despedida, mas já nSo a ha- 
via e por isso lhes dêmos uma caneca do ooaso vinho para dis- 
tríbuirem entre si. 

Ainda nos appareceu o velho da povoação fronteira com nnoa 
boavacca; dissemos que sd a acceitariamos com a condiçSo 
d'el!e mandar gente de sua confiança á EstaçSo Paiva de An- 
drada, para lhe darmos também um presente de despedida. 

Uma das nossas barricas de atum, estava perdida, mas Sé 
Quitán lá ficou com ella e teve de a repartir pelos seus coUe- 
gas, bem como os garrafões vasios, pois que nos viamoa em 
sérios embaraços para satisfazermos os pedidos que tivemos. 
Até restos de assucar num assucareiro e jimbolo (pedaços de 
de bolacha), a todos chegou para o seu Zãmbi. 

É costume entre estes povos, quem tem um crucifixo, pôr 
a seu lado embrulhado num retalhiaho de fazenda, uma pitada 
que seja de assucar e um pedacito de pilo ou bolacha. 



DESCRIPÇlO DÁ VIAGEM 443 

Tinham chegado na véspera uns portadores com um officio 
do jaga Calandula Muânji, e juntamente um outro de S. Ex/ o 
Governador geral da província, recommendando-nos uma pre- 
tensão do jaga com os potentados Quissengue e Bungulo, entre 
os rios Luachimo e Chicapa e como os macetas a que se referia 
esse officiO; de que damos conhecimento, ficaram de vir ter 
comnosco e de nos acompanharem, mandámos dizer ao jaga, 
que procuraríamos satisfazer as determinações do Sr. Gover- 
nador geral quando se apresentasse a occasião e apparecessem 
os seus macetas, e aproveitámos ob portadores para levarem 
para Malanje a nossa correspondência. 

Faltavam dez minutos para uma hora da tarde, quando dei- 
xámos a Estação Ferreira do Amaral. 

Do Jaga Calandula ao Chefe da Expedição. 

«Cumpre-me remetter a V. o officio que lhe veia do governo geral da 
província de Angola, onde veia o meu despacho a am requerimento que 
eu tenho mostrado o meu sentimento de matar mens filhos e as gentes 
e pontas de marfim e borracha pelo filho de Muana Quissengue de noinè 
Quissanda, de Mona Mucungo, da naçSo Cahongo, habitante á beira do 
Qulcapa a outra banda d'elle que espero V. mandar seu despacho a este 
requerimento. 

«Deus guarde a V. Quilombo, 17 de outubro de 1884. — 111.»» e Ex.»« 
Sr. Chefe da Expedição ao Muata lanvo. == D, António Martins da SUva^ 
Calandula Muanji.» 



De S. Ex.' o Governador Geral ao Chefe da ExpediçSò. 

Tendo -se o jaga Calandula Muanji, D. António Martins da Silva^ 
queixado a S. £x.* o Governador geral, contra os sobas Quissengue e 
Bungulo, do sitio Qulcapa, sobre o roubo por estes mandado commetter, 
segundo aquelle allega, de uma porção de marfim e cera que o filho do 
requerente André Domingos, trazia da Mussumba, terras do Muata 
lanvo, onde fora negociar, sendo aprisionado nessa occasiSo o dito seu 
filho, e mortos os serviçaes que o acompanhavam; e pedido o mencionado 
jaga que V. fosse auctorisado a levar em sua companhia áquellas ter- 
ras 08 seus macotas, a fim de lhes servir de medianeiro na reclamação 
que vão apresentar aos sobas de Quissengue e Bnngnlo; o mesmo Ex."* 
Sr. houve por conveniente dar ao requerimento do supplicante o despa-' 



cho seguinte : •Eutenda-se o aupplicoute com o mftjor Carvnlho, e as 
ordena que elle sobre o assumpto der, é com» ac fossem por mim dadas*. 

O que commanico a V. pam Bca conheciment':) e devidos eSettos. 

Deus guarde a V. Secretaria do Governo Geral em iKMUida, 25 de 
outubro de 1884. — ...8r, major Henrique Augusto Dins de Carvalho, 
chefe (la Expedição ao Muiita Ihhvo. =Aiberta Cario* d'Eça de Queiroz, 
■ecreUrío geral. 

A S. Ex.* O MÍDÍatro dos Negócios da Marluhft e Ultramar 

Dl."' e El."" Sr. — Tendo de mandar uma cftiía com exemplares da 
ilora d'estea arredores para Malanje, colhidos e devidamente estudados 
pelo meu cotlcga Sizcntuido Marques, aproveito a opportuu idade dos 
portadores para maia eircinnstaneiailamcntc prestar a V. Ex.* Ctn addita- 
mento k minha ultima com mu nica; ão de (i do corrente, maia alçuna es- 
clareci mentos sobre cstca povos, eom oa quaes a Expedição tem mantido 
boas rela^SeB, porque se nic afigura que ficaram lançadas as base^ para 
eatas se assegurarem firmemente do futuro, com muita vantagem para 
o commercio do interior da provipeia, e ^uo portanto nào será Jifficil 
conseguir que elles de bom grado venham avoasalar-se á Nação Porlii- 

Pcloa croqui* do itinerário j& enviados e pelo que agora rcmetto da 
Estaçilo Paiva de Ãndrada ao território dos Xinjea, v£-se que a Expedi- 
ç3o pouco se desviou do qui" cm Malanje projeolúra c dn qui' ii V. Ex.* 
com muni q uei. Ob desvios que houve, sSo devidos âs ainnosidadea qne 
tivemos de percorrer, o que é bem preferível a fazer derrubadas, par» o 
que ae carecia de um pessoal habilitado e de tempo que melhor ae deve 
aproveitar em trabalhos mais úteis. 

Passou a Expedição por povoaçúcs importantes, sujeitas a grandes po- 
tentados independentes, entre estas as dos Bondos do Andala Quiasúa, 
e as doa Huris de Mucto Anguimbo, com quem entreteve relações de 
amliade que podem ser muito aproveitadas peloa Portugueaea que m 
procurem ; estabeleceu Estações em localidades, cujas distancias de nmaa 
ás outras nâo excedem 63 kilomctros, e que um indígena com carga de 
GO a 70 libras vence em trea dias ; e trausilou por caminhos em que oi 
riachos e rios que se encontram facilmente se atravessam, sendo o mais 
importante d'esteB o Lui, cuja altura de agua onde passámos a vau n2o 
attinge 1 metro, mas que na epocha das grandes chuvas se passa em 
canoa, como o Cuango, em todo o tempo, e é meamo de^qnena largura, 
80 a 90 metros. 

Apenas entre o rio Cambo e este sitio Cafúxi, se encontraram no nosso 
caminho vallcs mais pronunciados que fatigam os viajantes a pé e os 
eanegadorea, mas que nSo s3o difficcis de transpor, pois as múores 



DESCRIPÇÂO DA VUGEM 445 

dififerenças de nivel chegaram o muito a 90 metros, sendo elles em nu* 
mero de cinco, de modo que a dífiferença de altitude entre Malanje e 
Cafáxi, depois de se elevar em Catalã a 106 metros, desce gradualmente 
464 metros. 

O transito é feito mais entre florestas do que em terreno descoberto, 
e só de Cafúxi em deante se encontram terras encharcadas e de 7 a 8 
kilometros de distancia do porto do Cuango ha um pântano que se es- 
tende até lá, mas que enxuga no tempo das seccas. 

Quer se saia de Malanje pelo Anjinji, S.-E., quer pelos Bondos, N. 
E., pode dizer-se que até ao Chissa e Catalã se caminha em território 
sujeito á influencia da civilisação de Malanje, e diremos mesmo, á au- 
ctoridade portugueza ; porém 20 kilometros a N.-E. de Catalã, onde se 
estabeleceu a nossa primeira Estação, Vinte e Quatro de Julho, a povoação 
e todas as mais d'ahi em deante são puramente gentias, sujeitas a au- 
ctoridadcs e na obediência do jaga Andala Quissúa, que em tempo foi 
nosso vassallo, mas que depois das guerras de Cassanje, se considera como 
tal, nunca se lhe exigindo porém que prestasse o devido juramento. 

Quando este potentado, que esteve preso na cadeia de Loanda, foi 
posto em liberdade, era certamente boa occasiSo, usando de uma diplo- 
macia acertada, para definir bem de uma vez a nossa posse ao território 
em que elie domina e que é realmente muito grande. 

Hoje mesmo nào seria difficil chamá-lo a nós, pois pela sua avançada 
idade, respeito pela auctoridade do governo de Sua Magestade, pelas 
boas relações que tem procurado que os seus povos mantenham com a 
nossa Expedição, e ainda pela ambição de ter em suas terras estabele- 
cimentos de brancos, com fazendas, missangas, pólvora, armas, aguar- 
dente ; sou levado a crer que está bem disposto, e só espera lhe indiquem 
o caminho que tem a seguir para ser bem acceite. 

No seu conselho entram os herdeiros que melhor ou peor percebem 
o portuguez e o que ha de succeder-lhe no governo, nesta convivência 
de três mezes, tem- nos sido bem sympathico. Talvez mais tarde, quando 
o conselho mude com a successão, as disposições dos novos conselheiros 
nos não sejam tão favoráveis. Pela rivalidade que existe entre este povo 
e o de Cassanje, lamenta o jaga, seus filhos e ambanzas, que Muene Puto, 
segundo ellc, por tanto tempo desprezasse esta terra e que apesar da re- 
bcllião de Cassanje, para lá tivessem continuado a ir feirantes portugue- 
zcs ; quando as suas terras são mais saudáveis e os filhos de Muene Puto 
aqui seriam mais estimados e poderiam ter auctoridades independentes 
que 08 protegessem, sendo elle severo com o seu povo todas as vezes que 
não tratasse bem e respeitasse todos os filhos de Muene Puto. 

Em outro tempo, me disse o jaga um dia, intrigaram-me com Muene 
Puto, e se clle ainda acredita nas intrigas, porque não manda para estas 
suas terras soldados e capitães para guardar as suas fazendas? Porque 



446 EXPEDIÇZO POBTDOUEZÁ ÀO MUÁTIInVUA 

primeiro, Beria necessário, lhe respondi, que o meu amigo preatasae ju- 
ramento de bom vassallo. 

— Mas eu eston entrevado, bem vô. 

— Pois mande seu filho mais velho, com os macotas do eonselbo a 
Malanje, se não podem ir a Loanda. 

— Hei de fallar neste negocio ao conselho, mas para irem procurar o 
sr. governador a Loanda, quero que lhe levem um bom presente, como 
fez o jaga de Cassanje, foi a sua ultima resposta. 

Todos estes povos em redor das Estações e suas vizinhanças, podem 
dizer-se de boa indole, morigerados e com pequenas variantes, apesar 
de supersticiosos, adorara o Deus de Muene Puto, posto continuem a ter 
o sen. Para elles. Deus, é o que pode haver de maior, porque Muene 
Puto é um homem muito grande, mas o Zâmbi é superior e já existia antes 
dos homens, é o Sé Culo^ o primeiro entre os entes que pode haver de 
mais veneração pela sua antiguidade, velhice, etc. Esta crença tem-se 
transmittido de pães a filhos. Acreditam que o Zâmbi existe invisível 
mas que ha de ser superior a tudo que conhecem e possam vir a conhecer. 
Imaginá-lo é uma questão do adivinho, e acceitam qualquer forma 
que se lhe dê, porque acreditam que só os adivinhos é que os podem figu- 
rar ; são estes por elle inspirados ao dar-lhe uma forma para sua ima- 
gem, seja qual for o material. 

Não ha povoação onde estas toscas imagens de formas rudimentares, 
não estejam resguardadas. Seja sob pequenos telheiros ou nichos, sobre 
o solo, ou um pouco mais acima sobre uma espécie de estrado, vêem-se 
essas figuras, umas vezes com pernas outras sem ellas, de pé ou acoco- 
radas, mas sempre disformes, com cabeças largas terminando superior- 
mente em bico, havendo-as até com chapéu. Aos lados d*ellas, na mesma 
linha, vêem-se objectos para ornamentação, que variam segundo as povoa- 
ções e os artifíces e representam segundo a phantasia de cada um, cai- 
xas, lâmpadas, canecas, etc. 

Povoações ha, em que existem dois, três. e mais doestes telheiros. 
O que é mais curioso, é a razão da sua existência, é quasi sempre a 
mesma em toda a parte onde os tenho visto. Um dos homens da povoa- 
ção, geralmente um velho, esteve muito doente, foram infructiferos os 
medicamentos applicados, chamou-se um adivinho dos mais afamados, 
consultou-se, este achou grave a doença, porque era de idolo, e para se 
salvar do mal que este lhe pretendia fazer, devia o doente mandar ar- 
ranjar primeiro que tudo um muquixi para o Zâmbi e depois festejar 
o idolo e trazê-lo sempre contente. 

Em geral todo o muquixi tem uma rasão de existência entre elles e 
por isso é um caso de gravidade, por qualquer circumstancia, inutilisar 
um, ainda que para isso nâo houvesse propósito. 

Também estes povos acreditam que se morre, mas que todos nós te- 



DESCRIPÇlO DÁ VIAGEM 447 

mos em vida o Catumbl >, e este é imperecedoaro ; entra no corpo de qual- 
quer racional ou irracional e persegue os parentes ou amigos, até que 
elles satisfaçam os compromissos que o defunto não poderá satisfazer 
emquanito por cá andara neste mundo, ou chorem devidamente a sua 
perda, pois elle não ficara satisfeito com o ceremonial que lhe fizeram. 
As festas de óbito entre estes povos, têem de commum: o chorar e 
carpir desde que o doente expirou até que se enterra, fazer tiros de fu- 
zilaria, se ha pólvora, e beber de preferencia aguardente, até que os da 
festa estejam todos embriagados. Depois do enterro ha fuzilaria ao nascer 
e pôr do sol, danças toda a noite, choros, e comes e bebes, a diversas 
horas do dia. Estas cerimonias duram de três a oito dias, segundo as 
posses. Os parentes durante as ceremonias, que correspondem ao nojo, 
passam a andar apenas com as partes pudendas tapadas e rapam me- 
tade da cabeça de um lado. 

Se ha gado ou posses para o adquirir, a carne faz parte das refeiçÒes. 

Estas ceremopias, segundo os povos, são mais ou menos complicadas 
dependendo da jerarchia do fallecido. 

O Cazumbf geralmente apparece de noite, quando se está recolhido para 
dormir, mas também pode mostrar- se de dia aos que são dotados de gé- 
nios mais apprehensivos, principalmente quando se caminha sósinho, e 
é frequente essa apparição quando se vae buscar agua ao rio e se não 
encontra outra pessoa. 

Não se sabendo a que attribuir o seu apparecimento, chama-se um 
adivinho e esse tira partido do estado exacerbado em que se encontra o 
individuo que o consulta, o qual em regra está prompto a dar tudo 
quanto possue para se ver livre do Cazumbi que o amofina, lhe tira a von- 
tade de comer ou tem sido causa da sua doença. 

Que mais simplicidade e mansidão poderá haver do que a doestes 
povos ! 

O homem é tido em geral como indolente por não saber como em- 
pregar a sua actividade, não haver encontrado quem o educasse para 
esse fim e ter na mulher uma serva que cuida das lavras, fabrica a fari- 
nha e a fubá, cozinha o infunde, acarreta as lenhas e agua, etc 

Muito débil em geral esta gente, pela sua escassíssima alimentação, 
e de modos commedidos, por um pedaço de carne toma-se exigente, dá 
o melhor que tenha para o obter em substituição de umas hervas ou fo- 



' Ccuumbi interpretam os Ambaquistas por espirito, alma de individno que morre e va- 
gueia em procura de outro corpo de racional ou irracional onde se introduz e nunca é para 
bem da localidade a que elle pertenceu on dos habitantes que continuam li existindo. 
Muitaa vezes vílo perseguir as pessoas de sua família, embora em viagem oa residindo 
j á em outra povoação. 



Ihaa de mttuàiorax, se é qne as tem para comer. 8e nada tem, eza^- 
pera-se, pertie a cabpça i vista do uma rez recentemente morta c bòo 
pode cod|i;t se <]iie não puxe da sua faca e cort« nm pedacilo que seja 
de carne, se ê que d3i> trax comsigo alguma cousa em que poMl levar 
um pouco de sangue, com qne até os mais desprovidos de sorte ee con- 
tentam. Por causa de um pedaço de carne temos assistido a lactas de ca- 
racter grave, mesmo entre os cootractadoa de I^oanda. Parece que a 
fista do sangue lhes perturba o organismo, e que d'abi provem a necca- 
■idadc de luctarcm para que essa perturba^io se acalme. 

E é notuvel que ainda o maia abastado, a não ser por motivo muito 
extraordinário, não mandu matar uma rea da eua manada. O' este ponto até 
ao Cuango, vécm-se manadas de bom gado vaccum, mnitos porcos, ca- 
íras, carneiros e mesmo galiiulms; pois os povos, SC alguma carac come- 
ram durante o tempo qne por ek estamos, obtiveram-na por via de tran- 
sacções com o pessoal da nossa Eipedição de quem a conseguiram comu 
presente ou por compra. 

Ab mullicrcs vão acarretar aguo e lenha para os nossos carregadores. 
a6 com a mira cm receberem unia isca de carne como retribuição. 

Vendem um ou outro animal pela necessidade que téem de fasendaíi 
-e pólvora, mas ainda aasiiu esperam que por aqui apparcça algum Quim • 
bare á procura de gado para alcançarem maior preço. 

A Expedição tem obtido com facilidade gado por preç«s muito re^u- 
IsreB, o que dá as raçúea mais cm conta, porque uma parte d'estas è a 
melhor mooii» (jiie os nosson carreiriidrires poiliam obtt-r pura penuutiir 
pelos productos das lavras, farinhas, etc. 

Naa localidades em que se levantaram as EstaQ^B, anccedeu em 
principio o que era de esperar. O povo sem distincção de sexo nem de 
idade, rodeava-as para ver os brancos e vê-loa comer, escrever ou faxer 
qualquer cousa, ouvi-los fallar, etc.; se porém um de nós chamava al- 
guém ou a elle se dirigia, fugiam ; ee passava por algnma cubata e perto 
estava o morador, era certo escondcr-Be, e se fosse mulher, fiachar a 
porta se para isso tivesse tempo, etc. O branco para cUes era um indi- 
viduo que lhes podia faxer mal. 

Passados alguns dias, conheceram o sen erro, pois as creançae eram 
bem tratadas e recebiam um mimo, nma caricia, o que lhes agradava; o 
soba havia recebido presentes, conversava muito socegado ao lado de nm 
de nós, estava muito senlior de si, animava a sua gente a approiimar-se ; 
alguns alcançavam boa paga pelos brindes que faziam aos brancos, ovos, 
• gallinhas, farinhas, cabras, porcos, bombóa,feÍjSo,batatas, bananas, etc, 
e esses attrahiam os outros e procuravam também obter bieudas, mis- 
sangas, etc. ; d'aqui se originou a approximação, s confiança, a penna- 
taçSo, a conversa, as boas relações o emSm divulgarem-se pelas tízí- 
nbanças as boas qualidades dos brancos, filhos de Muene Pato. 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 449 

Os homens vêem entrar e sair das Estações, cargas ás costas de in- 
divíduos de outras povoações, vêem que estes andam melhor vestidos que 
elles e que trazem para permutar por alimento fazendas e missangas, 
sabem ^e isso é resultado de serem bem pagos os serviços de transportes 
e são elles mesmos que se dirigem aos sobas a pedir que se interessem 
com Muene Puto para os admittir nestes serviços e a pouco e pouco vâo 
conhecendo os bons resultados da sua actividade para o trabalho. 

A procura doestes serviços pelos homens e a permutação por parte das 
mulheres, de mantimentos por carne, faz- se nas Estações que hoje man- 
temos, e aqui tem V. Ex.* como estas estão exercendo grande influencia 
nestes povos, concorrem para a sua melhor alimentação, para que se 
vista a maior parte da gente com fazendas novas e ataviem seus filhos 
e mulheres com missangas e braceletes de latão. 

O que nos causa muita impressão é a grande mortalidade das crean- 
ças, quando nos convencemos que não é pela insalubridade das terras e 
sim pelo fraco leite das mães e da exposição em que andam ao sol ar- 
dentíssimo e ás chuvas torrenciacs, ás costas d*ellas emquanto estas tra- 
balham. Mas este mal, modifícar-se-ía facilmente, pois o povo aqui é sus- 
ceptível de civilisar-se, e basta para isso o contacto comnosco. 

Sc se organizassem as Estações de modo a manter-se uma creche em 
cada uma d'ella8, com o indispensável pessoal feminino para as crean- 
ças, os primeiros resultados serviriam de incentivo para os indígenas 
imitarem estas benéficas instituições. 

Devemos convenccr-nos de que os indígenas por aqui, não inventam, 
não criam, mas imitam tudo que lhes proporcione vantagens. Factos, 
exemplos frisantes, que elles comprehendam e com os quaes possam es- 
tabelecer comparações é do que elles carecem; convencendo- se que lhe 
resulta interesse cm imitar o branco, esquecem o que tinham, e adoptam 
a innovação com que procuram logo famílíarizar-se. 

Conservando-se estas Estações abertas, podem contribuir para facili- 
tar o commercio no interior, a leste de Loanda, e para se angariarem 
carregadores para o transporte das suas cargas, de que se sente, prin- 
cipalmente cm Malanje, uma grande falta, e a qual, segundo as ultimas 
noticias, augmcnta de dia para dia. Mas o que sobretudo mais é para es- 
tranhar e com o que a Expedição se gloria, é ter-se conseguido que os 
povos da margem do Luí, que nunca pegaram numa carga e alguns nem 
saíam das immediações de suas residências, não só transportassem as 
nossas cargas ao Cuango, mas ainda as tenham vindo aqui procurar para 
a Estação Paiva de Andrada, para terem a preferencia a transportá-las 
d'ahí para o Cuango, com receio da concorrência que ahi deve haver. Vem 
buscá-las a 65 kilomctros de distancia e assim augmentam os seus inte- 
resses. Não será difiícil pois, que elles cheguem até Malaúje e uma vez 
aqui, onde encontram em abundância e mais em conta com que satis- 



4XO BXPEDIÇSO FOBTDGCEZi. AO HDAtUrTOA 

&ier u mu Deoeiâídadea, fuilmeoto ae irSo «ncatrumido n» aorvi^ 
de transporte entre os coni^clhos viEintos. 

Eneetado o csminliD cnmo o foi por nós neste propósito, cumpre pro- 
seguir, mu prosegair com DiRlhodo, justiça e ucerto. Seria reatnwiitc àa 
gnaàe conTeoíeDciK que ente coetutuo se eetabeleeeBae, não bÒ para ga- 
nutÍT ao conunercio uma estrada segura pura as euob transactues alâin 
do Cuango, como para eile poder coutar com os uiirregadores que lhe são 
indispensavdB entre ae chbus de suae rulatòca. Em Andala Quinguiui^a, 
eataMecida a EstaçSo dpade 21 de julho até 4 de outubro, pemiaueceu 
aU sempre nm doe europeus da Expedição e depois foi entregue a um 
empregado do negociante Narciso Antouio Paschoal. A Eatuçâo Ferreira 
do Amaral, eãtA aberta desde 15 de agosto dcTeudo uús deixá-la em 22 
do corrente; também aqui estiveram europeus durante três rocies. 
- A EetafXo Puva de Aadrada, ou melhor, na, localidade cm que cila 
■e levantoo, desde o 1." de setembro que lá tem estado sempre um eu- 
ropeu, e como alii nos deinoTorertioa aiuda até aos uieadoa do mez pró- 
ximo, excederá de três mezea a piirmauoncia de europeus ali. 

Na Eataçio Coata e Silva, já lá cata o ajudaute desde o 1.° do cor- 
rente e decerto ainda sM teremos demoro, u3o obstante serem os meus 
desejos aetÍTar a partida para o interior. O governo poderia aproveitar 
Aqaellft EstaçSo para nlojiinicnto de uma missão europeaque ahi cootíe- . 
gnisse attrabir o commeroto e segurar o porto do Cnaugo, no ijne ma em- 
penharei, interessando por emqnanto nesse propósito o n^ociante JeaA 
Vasconeellog, a quem entrego a Estaçlo. 

Nas primeiras três Estações, tem havido pois um contacto directo de 
europeus com oa povos gentios vizinhos durante três mexes, o qne exer- 
ceu uma influencia benéfica entre estea, e não ha exagero quando asse- 
vero que de facto se crearam para ellce certas necessidades e que sa 
um ou outro as poderia já conhecer pela passagem das eipediçSes de 
S. Machado e da allemã, pois é provável que estas espalhaasem algumas 
faiendae, é certo por6m que esse derramamento deveria ser em escala 
muito insignificante, poía aó ae poderia dar por alguns presentes aos po- 
tentados e por troca de algum alimento para os carregadores, numa 
passagem rápida. 

Repito, este povo e em geral o gentio, é na verdade indolente; mu 
mostrando-lhe o que se lhe dá cm troca de seus serviços, nSo os tllu- 
díndo ou ludibriando nos pagamentos, fazendo-lhes ver que náo ha inte- 
resse em enganá-los, vero prestar os serricos que se pretendem, em troca 
do que ae contrata. 

Citarei um exemplo a V. Ei.* Quatro homens de Andala Quingnan- 
gna, que tinham trazida para aqui cargas por três vezes, dias depois de 
ter fechado a Estação naquelle ponto, vieram aqui pedir cargas para o 
Coango. Receberam o pagamento em fazendas, do qual apenaa tiraram. 



DESCRIPÇlO DÁ VUGEM 4Õ1 

2 jardas para permutar por comida no caminho, e pediram para lhes 
guardar o resto. Foram commigo ao Cuango e voltaram. 

Como d'aqui continuassem a sair cargas para o Lui, pediram nova- 
mente para fazerem serviço e cá deixaram o pagamento. £m voltando, 
três ainda voltarão e um irá a Malanje para me levar dob garrafSes de 
aguardente ao Cuango e d^ahi ha de trazer a nossa correspondência 
para Malanje. Razão tenho eu pois para acreditar, que bom seria que esta 
aprendizagem de civilisaçSo iniciada aqui, nSo ficasse nisto por falta 
de quem venha residir nas Estações e as aproveite para o commercio. 

Nesta data escrevo ao negociante Custodio José de Sousa Machado, 
em Malanje, para mim um dos homens mais sensatos e mais dedicados 
que ahi conheço, para que mande estabelecer nesta Estaç&o um empre- 
gado de sua confiança, tomando- a assim um posto intermédio entre a sua 
casa de Malanje e a filial do Cuango. 

Confio no patriotismo de Custodio Machado, emquanto o commercio 
não vier aqui, pelo menos estabelecer filiaes, e que este posto, ha de con- 
correr, para que se nSo percam os trabalhos da Expedição, e evitar que 
o commercio, que tende a seguir pelo norte para a costa fuja de todo de 
Malanje; confio também que o encarregado continuará a encaminhar 
estes povos no serviço de transportes, cuja falta se tem feito sentir nos 
últimos annos em Malanje e concelhos próximos; finalmente que elle 
alargará o mercado do consumo da aguardente, o qual particularmente 
digo a y. Ex.*, é o que faz mover tudo aqui, o que será uma felicidade 
para os agricultores de Malanje, que por falta de consumidores em pouco 
não tardarão em ver cheios os seus armazéns e depreciada a mercadoria, 
pois que para fornecer a costa por emquanto, lá estão as florescentes 
propriedades de Alto Dande, Cazengo e Cuanza, com outros recursos 
de transportes, com os quaes os proprietários e productores de Malanje 
não poderão competir. 

O que deixo exposto não se refere só aos povos d'esta localidade, 
mas a todos os limitrophes do transito da Expedição até aos Haris. Com 
os do Capenda-ca-Mulemba, estou convencido que pouco tardará que a 
casa Machado em Mona Samba Mahango, não tenha influído para que 
se dediquem ao serviço de carretos, e pelo menos para pequenas distan- 
cias, da margem do Cuango ao local da Estação, já nós o alcançámos. 

E todos estes povos sabem bem distinguir-nos dos Allemães, a que 
chamam inguerêzea. Os Allemães passaram sem deixarem sjmpathias, an- 
tes ao contrario, alguns potentados queixam-se d*elles prometterem muito 
e faltarem; de acamparem fora das povoações, de terem os seus acam- 
pamentos sempre rodeados de gente armada para os afastarem ; nós ao 
invez, acceitámos os seus cumprimentos, aproveitámos a sua hospitalidade 
emquanto se fabricam as casas e somos bons amigos no dizer dos indíge- 
nas; elles são soberbos, inimigos, má gente, não são filhos de Muene Puto* 



452 EXPEDIÇÃO PORTUCIUEZA AO MOATIÍNVUA 

De feito, o nosBO armamento, por ora, tem estado, como ee áit, na ar- 
recadaçlo; as nossas r(!la^'òea com ob indígenas são os melhores possí- 
veis e todoB lamentam quu Muciie Puto, depois da nossa eaida, uto 
queira mandar mais filhos occupar as casos. 

Dizem ellcs, »6 agorn, dejiois de vir Muenc Puto é que os nossos filhos 
comem alguma carne, toem veatimoiitas, missangas e pólvora, cti:'. 

VenJo-nos escrever, fazer observações, colher plantas, raízes, eto,, c 
procurando d'ellea iiifonnaçues sobre as suas terras, povos, línguas, ete., 
HiLbcV. Eií.* como rematam? Que Mueuc Puto dcvta para cu mandar 
brascoii para ensinar os açus lilhos a fazerem o que nos fazemos, para 
felicidade de suas terras ! Que elles bem sabem que os braneoa tiram dii 
terra muita consa para comer e vestir, cmquauto ellcs so sabem tirar 
mandioca, alguma jinguba e pouco mais, e essas mesmis tecm de ser 
plantadas em lavras longe das povoações porque o gado da labo de tudo. 

Quanto poderiamoa aproveitar de tão boas disposições a nosso respeito ! 

Se os afazeres nos periníttein, i woitiitlia quando os sobas e os 
seus nos procuram para conversar, tratámos do esclarecê-los sobre diver- 
sas culturas, dixcmos-lbe como se evita que o gado prQJudique as plan- 
tações, qual o inconveniente de andar o gado solto nas povoações, etc. 

Declaro a V. Ei." que deixo com saudade a Estaçito Ferreira do Ama- 
ral, pois chego a couTencer-me (talvei esta boa fé leja demuUda], qne 
dentro de um auno, ea teria modificada vantajosamente o modo de Tiver 
d'eBta gente, pelo simples &cto de lhe crear necessidades, bcendo-Ihe 
conhecer praticamente os resultados de mn pouco do een trabalho devi- 
damente dirigido. Demais nos temos demorado nestas Estações, mas 
queira Deus, que outros com táo boa vontade como a nossa, se nSo de- 
morem em prOBcguir na obra encetada com tjo boDS auspícios. 

U meu eollega Sizcnando Marques tem aqui alcançado tuna eollecçSo 
de plantas e de fructos, alguns dos quaes inteiramente desconhecidos. 

Dois d'esses fructos sSo muito agradáveis pelo seu sueco saboroso e 
fozcm lembrar bem, um os mclborcs morangos e o outro as boas passas. 
Entre as raízes encontra-se uma que parece o nosso salepo, e outra que 
i rica em álcool e amido. Como a maior parte das plantas nSo estSo 
lúnda em estado de se guardarem, scguirSo das margens do Luf, com 
as que ahí houver que offereçam interesse. 

Por ultimo, ainda uma vez afianço a V. Ex.*, que temos trabalhado, 
tanto quanto nossas forças e saber permittem, quer de dia quer de Tioite, 
e com a tranquilidade que dá a consciência do dever cumprido espera- 
mos ir correspondendo á confiança com que V. Ex.* nos honrou. 

Deus guarde a V. Ei.'. Estação Ferreira do Amaral, 15 de novembro 
de 1884.-111."" e Ei."- Sr. Conselheiro Ministro e Secretario d'Estado 
dos Negócios da Marinha e Ultramar. ^ O chefe da ExpediçSo, Henri- 
rique Augiuta Diae dt Carvalho. 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 453 

A S. Ex/ O Governador Geral da Província de Angola. 

Ill.*<* e Ex.^^» Sr. — Pela communicaçâo inclusa, qae respeitosamente 
rogo a V. £x.* se digne enviar ao Sr. Conselheiro Ministro dos Negócios 
da Marinha e Ultramar, terá V. Ex.* conhecimento de que passou o 
Cuango no porto de Mulumbo dos Haris em 31 de outubro, e 1.° do cor- 
rente a primeira parte da Expedição, com cento e cincoenta cargas, e no 
sitio de Mona Samba, domínios de Capenda-ca-Mulemba, se está con- 
struindo com o consentimento d*e11a, que é ahi o potentado, a nossa nova 
Estação Costa e Silva. 

A esta se está dando maior desenvolvimento que ás anteriores, e isto 
porque espero, como já disse a V. £x.*, que com o tempo se crie ali uma 
povoação de alguns brancos e Ambaquistas ou. que o commercio ahi 
aíHua e haja necessidade de mais armazéns e garantias de força por causa 
dos Bângalas. 

As maiores dimensões que tem de se dar á casa, é trabalho que se 
traduz numa demora de mais alguns dias, mas a Expedição não podendo 
estar lá toda reunida senão depois de 15 de dezembro, por isso que tem 
de proceder ainda a algumas observações no Luí, não haverá nisso pre- 
juízo. 

Pela referida communicação, fica V. Ex.* ao facto das boas relações 
que temos mantido com estes povos, como se me afigura que ellas podem 
ser aproveitados em benefício do commercio da província em toda a 
vasta região entre o Cuanza e Dande, custando-me bastante deixar esta 
Estação sem ter a certeza de que alguém a vem occupar. 

Neste sentido V. Ex.* verá que escrevi ao negociante Machado, pro- 
curando convencê-lo das vantagens de fazê-la occupar e se V. Ex.* pela 
sua influencia já como governador geral da provinda, já pelas muitas 
sjmpathias que felizmente adquiriu na sua viagem ao interior, conse- 
guir que esse ou qualquer outro negociante de facto a vá occupar ; creia 
V. Ex.* que os resultados hão de ser bons como asseguro ao Ex."° Ministro. 

Eu nas minhas considerações a S. Ex.*, podia e devia talvez ir mais 
longe e provar-lhc que se o caminho de ferro de Ambaca não continua 
sendo uma illusão, se elle de facto se construe o promptamente, a occu- 
pação de todas, mas principalmente doesta e da Estação Costa e Silva, 
será de uma grande importância para o trafego do mesmo caminho. 

V. Ex.* que tanto se tem empenhado pela realisação doeste grande 
emprchcndimcnto, conhece bem, que urge se faça uma estrada carreteira, 
quando não possa como deve ser logo, um ramal doesse caminho de ferro 
a Malanje e outro d'ahi ao Cuango. Num e noutro as dififerenças de al- 
titude na extensão, o primeiro de 60 a 6õ kilometros, o no segundo de 
250 kilometros, não apresentam grandes difficuldades em remoções de 
terras e obras de arte. A estrada, pelo menos muito contribuiria para o au- 



454 EXPEDIÇXO POETDGUEZA AO HUATIÂNVUA 

gmento da receita dn via rápida projcctadA, e em geral ao desenvolvi- 
mento (Ih província e quum sabe se, di-lo-hão os nossos beneméritos 
exploradorea Capello e Ivens, por uuia navegação de lanchas a vapor 
□o Cuango, do Muliimbo para baixo, se estabeleceria uma boa e se- 
gura coininunkaçSo cora o Alto-Zaire, resolvendo-se aasim o grande 
problema, em que mais de uma naçSo se empenba por achar uma boa bo- 
laçSo e que para Portugal se tornaria muito facil, porque mellior porto 
que o de Loanda nSo me parece que haja outro até á embocadura do 

Desejaria dar maior desenvolvimento a este assumpto, porem prcci* 
sava de socego de espirito c nito ter que me occupar de tantos c tio va- 
rladoB afaíerea como aSo aquellca em que me acho envolvido e por isso 
apenas aponto aV. Ex.' o que se mo a6gura de conveniência, e V. Ei." 
por certo, se lhe merecer algama attençio o que lembro aproveitara a 
indicação em favor da causa que tanto e melhor do que ninguém Y. Ei.* 
tem sabido advogar, jí na Sociedade de Gcographia de Lisboa, já na 
imprenso, ji como governador geral da provineia, á qual mais directa- 
mente e de prompto esse mellioramento írA beneficiar. 

Deus guarde a V. Ex.*. BiititçSo Ferreira do Amaral, 15 de novembro 
de 1884.— II1."° e Ei."" Sr. Conselheiro Governador Geral da província 
de Angola. — O clicfe da Expedição, Henrique Augntto Diaa de Car- 

Eram taes as nossas preoccupaçSes nos últimos dias, por 
deixarmos a Estação Ferreira do Amaral ao abandono, que 
ainda A ultima hora aproveitámos a occasiilo de fazer uma 
communicaçilo á Sociedade de Gcographia Commercial do 
Porto, e tratando de vários assumptos que julgámos de inte* 
resse aos fins d'aquella benemérita instituiçSo, dizíamos : 



Com tio pequeno pessoal c sobrecarregado como estava, talvez fosse 
temeridade, como se dizia em Malanje, avançar; mas creadas as Esta- 
ções era necessário que ncUas houvesse alguma permanência por parte 
da Expediçio para se conhecer de sua influencia sobre o gentio das im- 
mediaçòes e do caminho percorrido e podcr-se garantir ao commercio a 
segurança de suas mercadorias, o que muito me foi recommendado pelo 
Governo, e se assim não fosse, inúteis seriam os sacrificioH e trabalhos 
da Expedição no que respeita á sua missSo commercial. 

E certo que consegui dispor as cousas de modo que, sendo nós quatro 
europeus, contando com o empregado subalterno que vcin connosco de 



DESCRIPÇÃO DÁ VUOEM 455 

Lisboa, em todas as três Estações estabelecidas, tem estado sempre nam 
período mais ou menos de três mezes, am de nós. Assim na primeira, 
24 de Julho, esteve sempre um europeu desde 20 de julho até 4 de ou- 
tubro ; nesta o mesmo desde 15 de agosto até agora ; na Estação Paiva 
de Andrada, no Luí, esteve o ajudante desde o l.<* de setembro e agora 
o empregado, e para lá vamos eu e meu coUega Marques ; d^aqui a mea- 
dos de dezembro seguiremos para a margem direita do Cuango onde 
e8t4 o ajudante desde 31 de outubro e onde toda a Expedição terá ainda 
demora. * 

A influencia das Estações fez-se logo sentir na primeira localidade, 
porque se em principio, e mesmo em todas, o gentio olhava o branco 
como uma curiosidade, procurando vê-lo a todos os momentos, analy- 
sando-o ou estudando-o nos seus mais pequenos movimisntos e se d*elle 
fugia quando por qualquer circumstancia este ia ao seu encontro, a 
ponto de entrarem para as cubatas e taparem as entradas se o branco 
para ellas se encaminhava; dias depois, eram elles os primeiros a sau- 
dá-lo e trazerem-lhe, segundo as suas posses, algum presente, que sem- 
pre retribuíamos bem. 

Pagos estes e outros serviços, ainda os mais insignificantes, por risca- 
dos, algodão, missangas, pólvora, etc, foi -lhes isto lembrando umas 
certas necessidades, fazendo-lhes nascer umas ambições que d*antes nSo 
tinham. 

Assim, por exemplo, como já disse, só por causas muito extraordiná- 
rias se mata numa doestas povoações um boi, um porco, ou uma cabra, 
mas como a Expedição tem por costume quando chega a qualquer povoa- 
ção, mandar logo um sígnal de amizade, rrmmpo (presente) ao soba, este 
vem agradecer também, trazendo uma vitella ou garrote, se tem gado, 
maior, quando não um porco ou carneiro, e os menos abastados, gallinhas, 
ovos ou qualquer outra cousa. 

O nosso pessoal, para ser alimentado já não é pequeno, e por isso, 
se o presente não for uma cabeça de gado vaccum, trata-se logo de 
procurar quem venda uma, o que em principio não deixou de ter diíBcal- 
dades. 

Eu tenho sido feliz, porque nunca deixei de arranjar garrotes e mesmo 
bois, emqnanto outros viajantes já não dizem o mesmo, pois até aqui, al- 
guns que teem passado pelas povoações em que temos acampado, só que- 
riam comprar por baixo preço o que me tem custado de 3^^000 a 7)^500 
réis, segundo a grandeza do animal. 

Este é dividido em rações para dois e três dias e com uma parte d*es- 
tas rações obteem os nossos das mulheres, o amido de mandioca, que 
feito em massa na agua a ferver constitue o pão. Esta transacção faz -se 
facilmente, porque estes povos, vivendo miseravelmente, apreciam muito 
o mais insígniflcante pedaço de carne nas suas refeições. 



Tanto ae permutaçucs pela cama como pelas miasangu e fasendas, 
approiimAram os povos do nosso pessoal e d'ahi as boa« relações que 
mantiveram. 

As Estações, a contar de Malanje, tcem sido depósitos de cargas e a 
remoção d'ella8 de umas para outras, tcm-se realisado sem difficuMade com 
os poTOS das immediaçòeB, porque ob pagiutientoa b3o feitos com lodo 
O escrúpulo e de modo a serem por ellee observados no acto de toma- 
rem conta das cargas que se Ibes destinam. 

A lisura, que a Expedição^ embora prejudicada, tem usado o conti- 
nnará a manter nos pagamentos, tem-ltie Bttrahido sympathiaB por onde 
ella transitou e por isso a procura do carretos por toda a parte. 

E devido a istfi que a Expcdiclo, apenas com quarenta carregadores 
para a mussumba do MiiatiãuTiia, conta já cento e cincoeota cargas além 
do Cuaugo e cento e noventa na Kstaçíto Paiva de Andrada. 

Os povos de Arabango, Anguvo e Anguangua, vizinhos dVsta Esta- 
ção, já aqui vieram pedir cargas para o Caango e como os d' aqui e de 
Andala Quissúa, tauibem as pediram, para contentar a todos, tive de ra- 
tear as cargas na conformidado da procura, segundo as povoações. 

A populaçio que por aqui vive, apartada da civilisaçSo, é reAtmentc 
de boa Índole e de fácil educação, mas se para com ella se proceder de 
forma irregular, entSo perdem-na e torna-se como a gente dos arredores 
de Malanje, que são na verdade atrevidos e insolentes e procuram en- 
ganar e roubar o branco, o que se dove atttibuir Á má edueaçSo que tem 
recebido, d'is qii: !i|ifTjas pnieuram interesses sem olhar aos meios, e 
os maltratam e espoliam, enganando-os até nos pagamentos peloa ser* 
tíçob mais árduos que lhes exigem. 

Já escrevi a Custodio Machado, que apesar de ser negociante, se 
afiuta muito do modo por que se está procedendo eom o gentio e mesmo 
com indígenas do concelho de Malanje, mostrando-lhe a eoavenieni»» de 
mandar para aqui um sobrinho ou um empregado da Bua confiança, coa- 
tinuar nesta obra de eivilisação que nós encetámos: crear neceasidodes 
a estes povos e aproveitá-los para o serviço de transportes. 

A elle já e a outros que de futuro venham a estabelecer filiaea no 
Cuango, maito convém a segurança d'este logar, como ponto intermédio 
entre essas e as suas casas em Malanje, não só para lhes proporcionar 
carregadores de que carecem para diversos pontos, mas também como 
meio de attrahir e manter o pouco commercio que vem do interior por 
este caminho, commercio que os AllemSes procuram chamar para o 

Mas a occupaçSo d'estas e de todas as nossas Estações at^ ao Caango 
pelo commercio, também ha de influir no florescimento dos propriedades 
agricolas que agora principiam a ser mais alguma cousa do qne tenta- - 
tivas. Entre estes povos é pronunciadissímo o gosto pela aguardente (ea 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM • 457 

tenho- a dado com dois terços de agua), é o verdadeiro passaporte entre 
elles, a mola real que os põe em movimento. 

O mercado do consumo da aguardente de Malanje, sendo só para o 
concelho é limitadíssimo, porque lá estão Cazengo e o Alto Dande, flo- 
rescentes na cultura da canna. Sendo necessário alargar o mercado com 
vantagens para as propriedades agrícolas de Malanje, só pode fazer-se 
para norte e leste, e de certo as Estações poderão ser os depósitos 
d*onde deve irradiar esta mercadoria e outras para as margens do Cuango 
e pontos intermédios. 

Dizem os humanitários ser a aguardente uma bebida nociva aos indí- 
genas africanos ; porém será difficil dizer ao agricultor que abandone a 
sua producçâo, e se nós a nSo aproveitarmos para despertar a actividade 
do Africano, outros virão aproveitá-la. Haja vista o que tem succedido 
com as genebras e outras bebidas alcoólicas por toda a parte e com o 
Champagne e ópio introduzidos na China pelos philanthropos. 

£u tenho um grande defeito, procurando ser verdadeiro, sou muito 
franco e digo tudo quanto sinto, quando se trata do meu paiz, porque 
vejo que os estrangeiros nos nâo poupam, attribuindo-nos em theoria os 
males da causa africana, quande elles na pratica são os que mais abusam 
d^esses males em prol de seus interesses. 

O systema de ataque, principalmente dos Inglezes, contra nós, .em 
todas as nossas colónias, nSo nos deve illudir por mais tempo, procuram 
afastar-nos da concorrência do seu commercio, pela sua imprensa, atri- 
buindo-nos tudo que possa imaginar-se de odioso, e sós em campo, nSo 
teem duvida em se tornar intermediários do nosso commercio e dos in- 
dígenas, seguindo os trilhos que lhes abandonarmos, os mesmos proces- 
sos e até aproveitando os productos que condemnaram, porém então do 
seu fabrico e ainda mais nocivos. 

Poi vezes tcem censurado ao nosso commercio os carregamentos de 
pólvora e armas que elle espalha no interior do Continente, e a maior 
quantidade de pólvora que por cá se vê é a ingleza, e a grande quan- 
tidade de armas de systema moderno que se encontram não entraram 
pelas nossas alfandegas. 

As aguardentes são más, porém é certo que as pipas de álcool que 
tanto mal lhe estão fazendo na concorrência, são de proveniência es- 
trangeira. 

£ para esta concorrência que está prejudicando altamente a agricul- 
tura da província, eu não posso deixar de chamar a attenção da Socie- 
dade de Geographia Commercial do Porto, pois embora seja a aguar- 
dente um artigo de commercio importante, os maiores beneficios são para 
o estrangeiro, porque cada pipa de álcool que o commercio obtém d*elle 
fá-la equivaler a três de aguardente do agricultor, quer dizer sendo o 
custo doesta 85i^000 réis, aquella attioge o preço de 255^000 réis o que 

80 



458 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO MUATIÂNVOA 

dá uma grande margem de lucros e convida a mandar procurar mais ál- 
cool no estrangeiro, emquanto que o desenvolvimento da industria da 
aguardente affecta favoravelmente a producçâo de outros artigos do com- 
mercio portuguez, como são alambiques, machinas, rodas hjdraulicas^ etc^ 
em valores importantes que teem ido para Malanje da casa Collares & C.', 
e ainda fazendas e artigos de commercio com que os agricultores pagam 
ao grande pessoal trabalhador de suas fazendas. 

Emquanto houver facilidade na entrada do álcool estrangeiro, todas as 
vantagens de lucro da aguardente produzida na localidade revertem em 
favor do commercio, porque a lucta é grande na concorrência. 

Uma outra ordem de considerações influíram em mim no estabeled- 
mento das nossas Estações, de que não trato agora para me nSo tomar 
demasiado extenso, porque o meu fim é apenas mostrar que parto d*aqui, 
sentindo bastante não ter a certeza que alguém virá occupar esta, e nas 
disposições de seguir o trilho por nós encetado. Se ninguém vier, se esta 
Estação tem de ser fechada e abandonada, hoje que o povo se alegra 
em rodeá-la e prestar-lhe serviços, tomar-se-hão infructiferos e mesmo 
baldados os sacrifícios e trabalhos d*esta Expedição. 



Confiámos sempre desde a organísação da nossa ExpediçSo, 
no estabelecimento das EstaçSes, como um meio proficuo, nSo 
só aos diversos fins que se tinha em vista, como também para 
a regenerarão dos povos convizinhos, sempre que ellas fossem 
dotadas de um pessoal á altura de coniprehender a sua missão. 
Podíamos nós pela nossa parte estabelecê-las, e emquanto nel- 
las nos demorássemos, iniciar por assim dizer os trabalhos, 
preparar o caminho para o pessoal que as devia occupar, e não 
podendo ir mais além, recorríamos aos poderes competentes 
e até aos particulares, para que nâo fossem inúteis os exfor- 
ços empregados. 

E na esperança que pelo menos o negociante C. Machado 
nos ouvisse, partimos, assegurando áquellcs povos que em breve 
viria negocio para a Estação, se elles não consentissem que a 
casa se deteriorasse. 

E não foram vãs essas esperanças. 



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DESCRIPÇZO DA TUOEU 



MAECHA DA SEGUNDA SECÇÃO PASA A ESTAÇÃO 
PAIVA DE ANDRADA 




Logo que passámos o rio 
Luhauda, fomos fustigados por 
grande chuva e trovoada que 
nílo mais nos deixou até & po- 
voação de Mulolo Quinhãngua. 
A ultima comitiva de cargas 
que haviainoB despachado com 
o interprete, cozinheiro, baga- 
geiros e contractados que nos 
acompanharam, logo que a chu- 
va começou, recolhera-se a uma 
povoaçito á entrada da savana 
depois do rio, sem que nós des- 
- semos por isso. 

Enun cinco horas quando 
chegámos e até ás sete nos 
eivemos enchugando a uma 
nj^eira, que o bom de Mulolo 

nos havia feito preparar, junto da cubata que puzera á nossa 

disposição, para ali pernoitarmos. 



460 EXPEDIÇZO POBTUGUEZA AO HUATIÍNVUA 

Dera-nos elle um bom porco, que os carregadores das redes 
trataram de matar, preparar e dividir, ficando nós com luna 
parte, porém faltava-nos o melhor, o cozinheiro e todos os 
aprestos indispensáveis, louças, talheres, temperos, e ainda gé- 
neros de rancho que ficaram atrás. 

Alguém pensou que precisaríamos de comer e de umas pe- 
quenas malas que sempre nos acompanhavam, e ás sete horas 
o cozinheiro e bagageiros appareceram-nos. Posto que tarde, 
pudemos-nos remediar, supprindo a falta de talheres com os 
dedos, contentando-nos com pratos do chefe da povoação, mas 
como nâo faltasse bolacha e vinho, que com a carne de porco 
passada no fogo, compoz o nosso jantar, pouco depois dor- 
miamos sobre as tarimbas da cubata, e tão bom somno foi que 
só despertámos de madrugada. 

Apparecendo o soba a cumprimentar-nos, demos-lhe um 
pouco de cognac do nosso cantil, uma peça de chita, outra de 
riscado e um bilhete para que o nosso interprete quando pas- 
sasse, lhe entregasse duas garrafas de aguardente, com o que 
elle ficou muito satisfeito. 

As sete horas e meia da manhã estávamos a caminho e só 
descansámos ás dez e meia, á sombra de uma arvore num des- 
campado fronteiro ás ruínas do acampanjento dos allemâes, de 
que falíamos na nossa primeira viagem, e próximo de um ria- 
cho. Ahi almoçámos. 

Como nao apparecessem os homens que haviam ficado para 
trás, á imia hora da tarde continuámos a viagem e ás quatro 
chegámos á povoação do sobeta Anguangua. 

Esperámos ahi um quarto de hora, e como já nlo appare- 
cessem os que nos acompanharam até ao almoço e faltassem 
apenas 12 kiiometros para chegarmos á Estação, pareceu-nos 
mais acertado proseguir, completando a jornada d^uma vez, e 
lá onde nâo nos faltariam recursos, mandaríamos arranjar uma 
refeição mais reparadora e camas de campanha onde dormís- 
semos com mais commodidade. 

Mal podiamos suppor, vinte dias antes quando aqui passá- 
ramos, que encontraríamos dois riachos que os nossos homens 



DESCRIPÇlO DA VIAGEM 461 

mais altos atravessaram com agua pelos hombros. Tivemos de 
sair das redes e de ser transportados aos hombros de dois car- 
regadores. 

Eram os effeitos da chuva; o que entSo tomáramos por um 
vallado, transformara- se num affluente do Lui. 

Como já fizesse escuro, e menos cuidadosos por duas yezes 
nos molhássemos^ occorreu-nos que durante o dia, a perna 
direita soflfrêra de nevralgia rheumatismal. 

Paciência^ diziamos nós, é avançar e depois trataremos da 
cura. 

Ainda depois doestes dois riachos, encontrámos «um terceiro, 
e a passagem de todos elles demorou-nos a viagem, a ponto 
de só chegarmos ás sete horas e meia da tarde e já escuro bas- 
tante á nossa EstaçSo. 

Emquanto o cozinheiro Marcolino matava uma gallinha e 
nos preparava uma excellente canja com todos os temperos 
segundo elle disse, tratámos de esfregar as pernas com aguar- 
dente, e de vestir roupa enxuta. 

A canja addicionou-se um bom bife, bolacha, bananas e vi- 
nho. Que mais podíamos desejar? 

A esta interrogação que a nós mesmo faziamos, encarrega- 
ra- se de responder o Marcolino, com uma fragrante chávena de 
café. 

Lançámos no diário os nossos apontamentos de viagem, e 
deitámo-nos numa das camas que havia em armazém, devi- 
damente preparada pelo empregado europeu ; acordando só no 
outro dia, muito admirados de não termos tido uma febre va- 
lente e de não só não sentirmos dores nas pernas, como ainda 
de poder mover muito bem uma e outra. 

Tendo de nos demorar aqui algum tempo para contractar os 
carregadores que nos eram indispensáveis para o Cuango e os 
que fosse possível arranjar para a Lunda, e não havendo con- 
fiança no tempo nem tão pouco nos povos que vivem na mar- 
gem direita do Lui, pois não estavam satisfeitos por a Estação 
se estabelecer neste logar, cumpria-nos aproveitar a demora, 
para dispormos os ânimos dos descontentes a nosso favor, evi- 



462 



EXPEDIÇZO POETDQOEZl AO MUATIÂKVDA 



tando que se levuitassem difficuldades na nossa passagem e no 
emtanto providenciar, para que i^o faltassem mantimentos 
para o pessoal que nos acompanhara. 

Era preciso ainda tirar proveito d' esta forçada demora, au- 
gmentando os nossos estudos do que houvesse mais aprovei* 
tavel com respeito a todos estes povos e localidades, para a 
BCÍencia, para o commercio e para a administração provincial. 
Não tínhamos aqni um es- 
teio forte, como o velho Jaga 
Andala Quissúa, a quem to- 
dos os povos das immedia- 
ç3es da EstaçSo Ferreira 
do Amaral obedeciam, e 
apoiados ao qual adquiri- 
mos o prestigio necessário 
para a influencia que che- 
gamos a exercer sobre to- 
dos os pequenos chefes seus 
subordinados. 

Ambango, chefe da po- 
voação próxima, que se 
fizera acreditar á nossa pri- 
loeíra secção, como o prin- 
y •í.,.frt\ cipal potentado e senhor das 

uuLom ouiíiiiíotx terras, entre todos estes po- 

vos, já nós conhecíamos 
pela nossa viagem o que valia em confronto com Anguvo sito 
a 2 kiloraetros de distancia, e a pouca importância que lhe 
ligavam mesmo aquellcs que ellc nos apresentara como seus 
sobetas áqiiem do Lui. 

Além d'Íeto, informando-nos elle e os seus, que solicitara 
se construísse a nossa residência perto da sua senzalla, por 
serem muito ladrões os povos da margem direita do Luí, 
quando se pensava cm montar a Estação cm Qiiibuta Mena, 
este facto nào só nos fez crer que não vivia em boas rciaçSes 
com elles, mas ainda que os temia. 




DESCRIPÇAO DA VIAOEU 



463 



Não ba, pois nestea sítios um chE^fe, dizíamos niJs; cada 
pcquBDtt povoação tom o seu, vivendo em rivalidades uns com 
os outros quando se trata du questiles eutre si, mas que se li- 
gam, tratando-se porém como estranhos, sobretudo se ba a es- 
poliar alfjuna negociadores que por aqui passem. 

Assim discorríamos ao alvorecer do primeiro dia nesta Esta- 
ção, depois da íncommoda viagem que tinbamos feito, quando 
um tiroteio de fuzilaria nos 
obrigou a indagar o que o 
motivara, 

Tratava-se de um óbito 
na povoaçSo do Ambango, 
ao qual também concorriam, 
além de nós, os filhos de Au- 
guvo, Matamba e outros ao- 
betâs. 

Apresentava-se-nos, pois, 
um ensejo para principiar a 
proceder com a necessária 
diplomacia de modo a des- 
embara^yir-nos do melhor 
modo posei vel do labyrintbo 
de senhorios em que caí- 
ramos. 

E da praxe, sempre que 
iniLHu !>■ Biatk (JA.ÍÍ1I Bo chora um óbito, contri- 

buirem os parentes e ami- 
gos para as cercmoniaa, segundo aa auas posses, inclusívèj 
quando mais não tenham, vão com a sua espiugarda carregada 
com uma pouca de pólvora e aroía ao logar da ceremoniu, e 
depois de permanecerem algum tempo junto dos que choram 
e de verem que se conlieceu a sua presença ahi, ao levantar, 
descarregarem a espingarda para o lado. 

Se algum negociante ou negociantes, de passagem, acampa- 
ram próximo, é certo pedir-ae-lhes que contribuam para as ce- 
remonias. O que mais se aprecia é a pólvora, e por isso para 



%í 



464 BZFEDIÇZO P0BTUGUK2A AO MnÁTEiSYUA 

evitarmos o pedido, mandámos distribuir pelos sobas 
uma porçlo de pólvora e aguardente. 

Como era de esperar, véiu logo o Ambango acompanhado 
dos principaes, agradecer a lembrança de Muene Puto, a quem 
nXo tinham ainda vindo cumprimentar, suppondo que estivesse 
recolhido. 

— Muene Puto é um bom amigo, lhes dissemos, mas agora é 
preciso vossemecês corresponderem á sua amizade. Todos toem 
gados e creaçSes, e nós comprámos. Sabem que nós chegá- 
mos hontem e temos necessidade de coiher ; fiiça pois o Ambango 
prevenir todos os sobas que carecemos de mantimentos. 

Pouco depois, mandava Cáhia uma vacca, o Anguvo um 
garrote, a mulher do Cáhia veiu com as suas raparigas tracer- 
nos fubá e bombos; e já perto da noite partidpou-nos Ambango 
que 08 seus filhos tinham ido á outra banda do Lui para tra- 
zer uma vacca da sua manada, porém que esta fugira para o 
mato e por isso nos pedia para a acceitarmos morta, de ma- 
drugada, porque era o único meio de nos poder presentear já. 
Acceitámos de boamente, poupando assim as rezes que tínha- 
mos no curral. 

Com as nossas cargas que chegaram, vieram também carre- 
gadores de Andala Qiiissúa, e aproveitando a presença doestes 
e dos filhos de Anguvo, obtivemos algumas informações que 
nos illueidaram sobre o labyrintho a que já nos referimos. 

O monte Ambango divide as terras de Cassanje, de Andala 
Quissúa e as do sitio em que estamos, conhecido por Camávu 
e a que alguns chamam do Ambango. As terras do Ambango, 
começam no Mulolo Quinhângua, onde pernoitámos, que dizem 
ser filho de Calandula, e que para ali veiu, sujeitando-so a 
Andala Quissúa, e o seu senhorio estende-se pela margem es- 
querda do Luí até ao sitio do Anguvo. 

As terras doeste, estendem-se até Mona Mussengue, no 
Cuango, conhecidas por terras dos Holos, emquanto estas, as 
do Ambango, sSo conhecidas pelas dos Bombos ou Cobos. 

A leste da nossa EstaçSlo, na margem direita do Lui, sSo 
as terras de Cambolo Cambamba que já pertence aos longos, 



DESCBIPÇlO DA VIÀOEM 465 



e limitam com terras de Cassanje; pelo sueste; seguem até ás 
alturas de MussanganO; onde passámos em viagem para o Cuan- 
go, confinando ellas com os Cobos entre Luí e Cuango e vSo 
unir-se com as dos Haris que começam na altura de 12 kilo- 
metros pouco mais ou menos a sul do porto de MulumbO; onde 
embarcámos no Cuango, e continuando com este rio, vSo ter- 
minar ao sul nos limites de Muene Puto Cassongo e para o 
interior a oeste com os lacas. 

Em Mussangano reside o sobeta Matamba, e tanto este como 
o seu vizinho Angiivo, no caminho pouco antes do Cuango, e 
outros para oeste, dizem-se súbditos de Muene Canje, que é 
Holo. Os rapazes de Andala Quissúa, dizem serem estas terras 
de Camávu, de que Ambango se diz senhor, pertencentes todas 
ao jagado de seu pae, porque os limites pelo oeste e norte são 
o Lui até aos Holos ; que o Ambango é sobrinho de um Cahun- 
da, que fugira das suas terras, e com o consentimento do jaga 
Quissúa se estabeleceu mais a oeste doeste logar, encostado á 
serra. 

Morrendo aquelle e grande parte da populaçSo, viera entSo 
Ambango com os que escaparam formar esta nova senzalla, 
como herdeiro de tio e não pagara ainda tributos ao jaga. En- 
carregados elles de lhe fallarem nisso, desculpára-se por ser 
ainda um soba novo, mas logo que tivesse um bom presente 
disse que iria cumprimentar o jaga, como era do seu dever, 
mesmo porque o Anguvo seu vizinho, se queria apresentar 
como mais considerado do que elle, quando era certo que elle 
Ambango representava seu tio, a quem Andala Quissúa dera 
estas terras e que o Anguvo aqui veiu collocar-se depois, sem 
consentimento do jaga. 

Como o monte Ambango é considerado limite de senhorios, 
com o omnimetro tratámos de o demarcar e conhecer a sua 
maior altura em relação á altitude doesta Estação. 

Procurámos uma base extensa e o mais desaffrontada possí- 
vel, tendo já para confronto a nossa Estação Ferreira do Ama- 
ral, a estima do itinerário d'aquella para esta e as coordenadas 
doesta. 



EXPEDIÇZO FOBTDODEZA AO KUATIÂNTDÂ 



Feio Bystema de iiradiaçSes qae adoptámos, reaolnçSo de 
triangnloB e trabalhos graphicoB, ficou o monte Ambango de- 
marcado de maneira que contraprovando por elle as coorde- 
nadas d' esta EstaçSo temos as seguintes differenças: Na lon- 
gitude meQOB 3" e na latitude mais 6", do que as obtidas pelas 
observaçtles astronómicas que foram, latitude S. do Equador 
8" 37' 48", longitude E. de Greenwich 17" 6' 36". 

A altitude da EstaçSo é 
de 701 metros acima do 
nivel do mar. 

Para o ponto mais ele- 
vado do monte Ambango 
deu-nos o omnimetro mais 
151 metros, isto é 852 me- 
tros, mais 20 metros que a 
altitude em que ficou a Es- 
tação Ferreira do Amaral. 
E na verdade o omni- 
metro, um bom instrumen- 
to, pois por uma simples 
scmelhanva de triângulos 
rectângulos nos dá as dis- 
tancias e alturas que dese- 
jâraoa conhecer sem ser ne- 
soMT* lUTiuu cessario medi-las, mas é de 

grande inço mm o do o seu 
transporte e por emqtianto, como instrumento de viagem para 
o interior do Continente, nSo seremos nós a aconselhar a sua 
adopção. 

Ao nosso reclame, iam apparecendo os sobas com gado e 
mantimentos, segundo suas posses, para presentes ou para 
venda, o tendo nóa de lhe corresponder, entendemos que visi- 
tando-os nas au.is residências lhes seria mais agradável, inte- 
resaando-nos era conhecer as suaa povoíiç5es e o seu modo 
de vida e hábil itando-nos a poder figurá-las devidamente nos 
nossos mappas e estudos. 




DESCSIPÇZO DÁ TIAGEM 



467 



Aseim quando 08 nosBoa afazeres bob permittiam algumaa 
folgas, aprove itáni o -las, fazendo as nossas excursSes e visitas. 

Tanto as povoaçSes do Anguvo como do Cáhia, são de muito 
maior importância que a do Ambango, e ocham-se situadas em 
logares muito mais aprazíveis. As hf.bitaçSes foram construidas 
com o pensamento de permanência e por isso se conhece serem 
mais solidas e bem acabadas que as d'este, que parecem aer 
provisórias, mais um d'es- 
ses acampamentos de via- 
gem que pelo transito temos 
encontrado, do que uma 
senzalla. 

As habitações são sepa- 
radas uma das outras por 
canteiros cultivados com 
aquillo que o morador en- 
tende mais essencial ter ao 
pé de si. Em alguns vimos 
limoeiros, mamoeiros, ba- 
naneiras e também nos do 
Anguvo, ãguram o pau de 
sabSo e o Ocá, que conhe- 
cemos na ilha de S. Thomé ; 
o tabaco, as pimentinhas, 
cebolas, tomates e outras 

plantas rasteiras como jinguba, vimo-las representadas numa 
e noutra povoaçSo. 

As lavras estendem-se além das povoaçSes até ás margens 
do Luf. 

Estas povoaçíies denotam uma certa antiguidade e vê-se 
que preside nellas uma certa ordem no corte das grandes ar- 
vores, cuja lenha se aproveita para os brazeiros durante a 
noite e para cozinhar. 

Pelo lado social, não escapa ao observador o respeito pelo 
potentado e o modo lhano como este trata o seu povo. NSo se 
nota que entre elles haja disttncçSes de classes, a não ser a 




468 EXPEDIÇlO POBTUOUEZA AO MUATIÂNVOA 

de povo e chefe, pelo respeito com que este é ouvido e o ce- 
remonial de que o rodeiam quando se trata de negócios de 
administraç?lo. 

Fora d^isto, e como as povoaçSes s3o pequenas, parece que 
todos constituem uma única familia. 

O soba, quando esmaga tabaco para fumar, distribue pelos 
que o rodeiam o que lhe veiu á mão, até ficar só com a parte 
que lhe basta e que lança no seu cachimbo. Succede algumas 
vezes deixar de ser contemplada uma pessoa em quem n&o 
reparara e conhecendo a falta, se tem ainda algum na bolsa, 
lá tira um pequeno pedacito ou manda pedir que lh'o tragam 
da cubata para o dar. O mesmo succede com qualquer comida 
ou bebida que lhe tragam deante de circumstantes. 

Reservar qualquer doestas cousas que receba, só para seu 
uso, quando sejam vistas por alguém, não é costume entre es- 
tes povos, principalmente dos mais idosos para os mais novos, 
e embora tudo desappareça num momento, reparte-se até onde 
possa chegar. 

Interrogando Anguvo, se era filho doestas terras, disse-nos 
que viera de Mona Congelo, margem do Quicapa, porque não 
quizera sujeitar- se ás imposições do Muatiílnvua nem de An- 
dumbo de Têmbue, e passando o Cuango aqui se estabelecera 
em boa harmonia com o seu vizinho Muene Canje. 

O Cáhia, a quem fizemos a mesma pergunta disse-nos que 
sua mae era do Holo e o pae do longo; que este trabalhara 
muito no negocio do sal e conseguira estabelecer a sua povoa- 
ção na margem direita do Luí. Morrendo o pae, elle herdara 
o estado e viera para ali com o seu povo, mas já encontrara lá 
o tio do Ambango, senhor de Camávu, e por isso este, tendo 
herdado de seu tio, queria ser mais do que elle, mas não tinha 
posses nem povo para isso. 

Tanto numa como noutra povoação havia muitas creanças, 
mas notei que são enfermiças e débeis. Informaram-nos tam- 
bém ser aqui grande o contingente da mortalidade nas crean- 
ças, e a julgar pelas mães que são umas perfeitas múmias, as 
populações não tendem a desenvolver-se e certamente a causa 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 469 

aqui é agravada como já notámos em Cafúxí pelas influencias 
dos pântanos, pois pode dizer-se ser tudo isto o mesmo d'aqui 
até ao Cuango. 

As manadas que vimos não estão em proporção com a gran- 
deza das povoações, e parece que os sobas e sobetas, sendo na 
maioria antigos nas terras, deviam pelos seus cuidados contri*^ 
buir para que ellas estivessem mais desenvolvidas. 

Achando-se disseminadas estas povoações a grande distan- 
cia umas das outras na vasta região como é a da Cafúxi, que 
atravessámos até ao Cuango, e sendo pouco populosas, occor- 
reu-nos, se de facto o nefasto trafico, que por muitos annos 
se sustentou na província de Angola, e também a miséria em 
que estes povos depois teem vivido, teriam concorrido de al- 
gum modo para a depauperação em que as vemos, parecendo 
todas populações que aqui se estabeleceram ha pouco tempo 
e que estão lactando sem vantagem contra as influencias mór- 
bidas da localidade. 

Muito satisfeitos com a nossa visita, retirámo-nos, assegu- 
rando-nos tanto Anguvo como Cáhia e os seus, á despedida, 
que podiamos contar com carregadores para levarem as nossas 
cargas para o Cuango e também para a Lunda. 

Ainda fizemos outras visitas aos sobas Caputo, Anguângua 
e Canzella, e mantivemos relações com Quijica, Quibando, 
Cuâso-uá-Meínha, Matamba, Méssu-uá-Catala, e não as quizemos 
entabolar com Canguia e Catuta, que nos procuraram, para 
fazermos sentir a todos que elles se haviam portado mal com- 
nosco; o primeiro, querendo prender umas cabras que nos per- 
tenciam, para lhes pagarmos resgate, e o outro, por nos apre- 
sentar seis ovos, exigindo nos que lhe déssemos uma vestimenta 
igual ás que tinham recebido outros sobas que nos obsequiavam 
de vez em quando com uma cabeça de gado. 

Depois de melhor informados escreviamos no nosso diário : 

«Pelo que temos observado até ao Cuango, todas estas ter- 
ras e povoações, como as encontrámos, nada valem; é possí- 
vel, passados alguns annos, trabalhando-se constantemente, que 
se pudesse fazer alguma cousa em beneficio d'ellas e obter 



470 £XPEDIÇ!0 POBTUOUEZA AO HUATllNVnÁ 

resultados satísfactorios, mas para isto seriam precisos exfor- 
ços combinados do governo e de iniciativa particular. Ha 
muito a desbravar, e muito a modiâcar o que é bem peor, e 
isto só se consegue sustentando missSes de educaçSo e de tra- 
balho, ao mesmo tempo que troços de vias férreas cortem este 
território. ^ 

Os povos estSo na primitiva e parece que o único progresso 
entre elles, consiste nas plantações de mandioca, de milho e 
de tabaco e na creaçâo de gados; mas antes da mandioca qual 
seria a base da sua alimentação? 

NSo ha uma pequena cousa, por mais insignificante, que nos 
indique antiguidade neste povo. Serão todos elles extranhos 
á regiSo? 

As terras estão virgens na sua maior parte, e as aguas cor- 
rem naturalmente ou estagnam quando por seu pé não podem 
achar escoamento. 

Se as arvores não se apresentam de secular aspecto, não é 
pelo desbaste que tenham soffrido, e sim pelas queimadas que 
se fazem ao capim no tempo sêcco, que as ataca e não as deixa 
medrar, com o duplo fim de terem caminhos e caça, rareando 
esta já por aqui, tal tem sido a sua perseguição. 

As povoações mudam-se com muita facilidade, até sob o pre- 
texto da morte do seu chefe, e com ellas vão os nomes que 
tinham. E d 'aqui provem as divergências que se notam nas 
informações que prestam os exploradores, ás vezes sobre a 
mesma localidade e seus habitantes diversos, acrescendo va- 
riarem ainda essas informações com o tempo, pelos individues 
que lh'as prestam, e ainda com os interpretes que interrogam. 

O gentio nada ignora, responde a tudo de prompto, e se es- 
tiver só, é arriscado, muitas vezes, acceitar a informação que 
nos presta. Succede mesmo, entre um grupo que se interroga, 
irem recordando uns aos outros um certo numero de circum- 
stancias, até que se chega a um convénio sobre a resposta 
que deve correr por verdadeira, e todavia muitas vezes, é 
esta forjada entre elles ali mesmo, sem razão ou fundamento 
seguro. 



DESCRIPÇZO DAVIAOEH 471 

Toda a, cautela é pouca, o por ísbo mesmo, temos sido em 
demasia meticulosos em acceitar como verdadeiras certas infor- 
maçSes, e os nossos questionários repetem-se a diversos. É 
pelo cotejo depois das respostas que chegamos a obter algumas 
conclusSea que nos parecem mais verosímeis e de que pudemos 
obter contraprova. 

Assim por exemplo, aqui, todos estSo de accordo, que as 
povoaçSes desapparecem num ponto para irem estabelecer-se 
noutro, mas vindo de N. e E. a intemar-se na nossa proviu- 
cia, e que se ligam os homens de umas 
com mulheres de outras povoaçSes nSo 
havendo vestígios do passado porque 
tudo deaapparcco por eflFeito das quei- 
madas depois de as abandonarem. 

Procuram-se sempre as aguas e nas 
regimes em que as nSo ha, nunca houve 
povoaçSes. 

O gado veiu para a!qui de N.-O. e 
d'aquí é que ultimamente ae fornecem 
os BuDgalus e conserva-se pelas mes- 
mas razões que nos deram ua EstaçSo 
Ferreira do Amaral, mas vende-se en- 
tro estes povos m^is do que entre os 
de Andala Quissúa, por ser aqui mais 
procurado e nílo terem outro recurso 
para satisfação das necessidades que 
conhecem. 

Por se acharem mais distantes da civilisaçSo é certamente 
entre estes povoa mais pronunciado o desejo de ver e de saber, 
do que entre os que deixámos, pelo menos pelo que diz respeito 
aos brancos. E as mulheres, porque gosam aqui de mais liber- 
dade, nZo nos deixam; passam horas e horas em frente das 
nossas portas e janellaa, e a mtúor satisfação que lhes podemos 
dar é prestar-Iliea attenção, convidá-las a entrar, deixá-las 
analysar os objectos que vêem, mostrar-lhee o préstimo que 
tem, e dar-lhc todas as explicaçSes que desejam. 




472 BXPEDIÇAO POBTUGUEZA AO MUÁhIkVUÁ 

As de melhor comprehensSo, satisfeita a sua curiosidade, se 
lograram entrar na Estaç&o e approximar-se do branoO| dlo 
provas da sua vaidade ás companheiras, ministrando* lhes logo 
esclarecimentos, mesmo do logar em que estSo sobre os obje- 
ctos que chamaram mais a sua attençSo e de que tomaram co- 
nhecimento.» 

O que registámos e que era reéultado de observaçSes de al- 
guns dias, convidava-nos a indagaçSes para fixarmos as nossas 
ideas sobre estes povos, e darmos aos nossos estudos uma 
orientação mais consentânea ao fim que tínhamos em vista — co- 
nhecer qual a disposição d* estes povos a nosso respeito e como 
aproveitá-la no engrandecimento dos nossos dominios, sem que 
fosse necessário recorrer a meios que redundassem em sacrifi- 
cios que mais complicassem a sua administração. 

Para ò estudo das exploraçSes commerciaes que tanto nos 
foi recommendado, íamos nós reunindo elementos que muito 
nos desanimavam, ao mesmo tempo que nos esclareciam sobre 
as circumstancias mais económicas em que se poderiam fiueer 
quaesquer exploraçSes no centro do Contínente e sobre o único 
meio de attrahir com vantagem o pouco conmiercio que existe 
além do Cuango na região equatorial do sul para a nossa pro- 
vincia de Angola. 

Depois de estabelecidas as nossas Estações, fizéramos as se- 
guintes viagens rápidas em rede : Do Cuango á Estação Paiva 
de Andrada 9 horas e meia (um dia); doesta á Estação Ferreira 
do Amaral 12 horas e meia (um dia) ; d^ahi para a 24 de Julho 
9 horas e meia (um dia); dVsta para Catalã 4 horas (um dia 
e descanço); de Catalã pelo Anjínji a Malanje 11 horas e meia 
(um dia). Total em cinco dias, quarenta e sete horas úteis, 
240 kilometros. Se a viagem for directamente de Malanje ao 
Cuango acompanhando cargas, então o minimo tempo que se 
gastará, suppondo não haver casos extraordinários, como doen- 
ças, paredes, conluios, etc, será: Quatro dias á primeira Es- 
tação e um de descanço; três dias á segunda e um de descanço; 
quatro dias á terceira e um de descanço, e três dias ao Cuango. 
Total: dezesete dias. 



DESCRIPÇlO DA VUGEBf 473 

A Expedição allemã gastou vinte e dois dias porque todos os 
dias foi levantando acampamentos. Saturnino Machado gastou 
muito mais tempo por causa de doenças e vários pretextos para 
demoras arranjados pelos carregadores. 

Podemos, pois, contar vinte dias, como o minimo tempo de 
viagem para cargas. 

E sabido que o carregador não transporta mais que duas ar- 
robas e custa esta viagem cinco peças de fazenda de lei, sendo 
uma para ração, o que equivale a 4fJ0(X) réis. 

Se este transporte fosse feito em uma via férrea, reduzir-se-ia 
a viagem o muito a nove Loras, e se a despeza descesse na pro- 
porção, não excederia A 200 réis, mas 500 réis que fosse, te- 
riamos grande lucro, e além de muitas outras vantagens, segu- 
rança, commodidade, resguardo ao tempo, muitissimos lucros de 
beneficio, mesmo sobre a importância, pois não se calcula na 
Europa quantos artigos se deitam fora, por inutilisados com- 
pletamente, não só pelo modo por que se transportam, como 
pelos effeitos das intempéries, que por mais cuidados que haja 
se não evitam. 

Nós, no calculo que apresentámos, accoitâmos que uma peça 
de lei é a ração de um carregador até ao Cuango, o que nunca 
se tem dado. E uma illusão mais, com que um negociante ou 
explorador parte de Malanje para o interior, bem como para o 
carregador que contractou para seu serviço e de que poucos dias 
depois sofre as consequências porque este, se não pode re- 
sarcir os prejuizos que logo attribue a logro, por meios licites, 
procura mil pretextos, faz greves, e por ultimo, os recursos 
toma-os elle pelas suas mãos, esburacando, descozendo ou des- 
pregando as cargas, e procurando sempre encobrir a abertura 
do seu thesouro vae illudindo o patrão, que só tarde reconhece 
os prejuizos que teve quando encontra roubada a primeira 
carga, que quasi sempre por circumstancias que se não podem 
evitar, já tem corrido por mão de diversos carregadores. 

Já se vê que o interesse de todos que dirigem uma caravana 
de cargas de commercio, é fazer transportar estas com a má- 
xima economia possível; e é certo também que o preto, quando 

81 



474 EXPEDIÇÃO PÒRTUGUEZA AO MUATIÂNVDA 

se contracta para o serviço de transportes nfto faz cálculos, 
pede uma porção de fazenda ou outros artigos que lhe convém 
na occasião e não olha ao futmx), nem pensa no que ha de co- 
mer no dia de amanhã. 

Para elle pouco importa ao receber um pagamento, que se 
lhe diga: tanto é de ordenado ou de jorna; tanto é para comer; 
pediu o que lhe lembrou, deram-lh'o, e isso era o que queria 
na occasião. 

É costume entre elles levarem o que receberam para as 
suas povoações, distribuindo-o como entendem, e naturalmente 
as pessoas de familia, geralmente das contempladas com as suas 
dadivas, arranjam-lhe alguns mantimentos na véspera da par- 
tida, que lá vâo amarrando ás suas cargas, e estes duram o 
muito, quatro dias. 

E é só quando estes deixam de existir que se reúnem aos 
grupos por fogos e se decidem a pedir a raça. E se nâo ha a 
necessária prudência da parte do director da caravana, come- 
çam os conflictos, pode dizer-se ainda, ás portas de Malanje. 
De facto, quem sabe que uma peça de lei são oito jardas de 
algodão ou de riscado ordinário, e que com uma jarda se não 
pode em parte «alguma comprar mantimentos para dois dias, 
não pode estranhar que oito não cheguem para vinte dias de 
viagem. 

Conseguimos estabelecer duas jardas para três dias, o que 
equivalia até certa altura da viagem a 65 réis por dia. 

Nos primeiros seis dias da nossa residência nesta Estação 
tivemos de sustentar sessenta pessoas, e nestes apenas demos 
para rações uma vacca e dois garrotes que recebemos de pre- 
sentes (o que é mais caro), e nos importou em valor corres- 
pondente a 19?5800 réis. Se tivéssemos pago as rações em 
artigos de commercio, a importância despendida seria de 23j5k400 
réis, isto é, mais 3^000 réis, e a alimentação seria muito in- 
ferior. 

Esta differcnça é importantíssima, principalmente quando se 
trata de uma exploração commorcial, isto é, de andar no cen- 
tro de Africa, procurando mercados para transaccionar factu- 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 475 

ras^ o que é multo diíferente de se dirigir a caravana a um 
mercado de antemão determinado. 

Ha necessidade de estabelecer Estações ou acampamentos 
provisórios, que entre os povos africanos se nJto pode dizer 
por quanto tempo servirão, e portanto quanto haverá a des* 
pender com o sustento do pessoal. 

Já pois nesta Estação, nos preoccupava muito a questão das 
explorações commerciaes, e no nosso diário do dia 1 de de- 
zembro escrevemos: 

o Quanto não custará uma exploração commercial, quando se 
pretende obter o resultado que é de esperar com relação ao 
capital que se arrisca e aos sacrificios que se fazem? 

Cada vez mais nos convencemos que para commercio será 
muito melhor que o gentio ou o Bângala, venha á nossa provin- 
da como seu agente, trazer artigos á permutação; porém hoje 
este alvitre que seria talvez o melhor e diremos o único que 
se devia seguir, já com difficuldade se poderá adoptar comple- 
tamente, não só por causa das expedições estrangeiras que dei- 
xam por onde passam fazendas e outros objectos de procura, 
mas ainda por causa dos Ámbaquistas, que de pacotilha em 
pacotilha também lá os vão deixando. Entretendo portanto as 
poucas necessidades do gentio por algum tempo, obstam d'este 
modo que elles continuem a encaminhar-se para a provincia, 
como antes das guerras de Cassanje, e assim se explicam os 
queixumes dos negociantes do Dondo, Pungo Andongo, e 
Malanje, sobre o pouco commercio que actualmente se faz. 

Uns trinta carregadores que chegaram hontem, regressando 
do sei'viço de Saturnino Machado, que por aqui passou ha um 
anno, mais nos impressionam com as suas informações. 

Saturnino Machado está em Cabau. Tem feito algum nego- 
cio, de vinte a trinta pontas dizem, sejam trinta e todas de lei, 
a que damos o valor de 90^1000 réis ; tem porém ainda muita 
demora porque a contaria, armas e pólvora não tem tido a 
saida que era de esperar. O que se procura são escravos 

O seu sócio Carvalho seguiu com uma grande parte da co- 
mitiva para o Cassai. Ainda não obteve noticias sobre o ne- 



476 EXPEDIÇZO POSTUOnEZA AO muátiínvuá 

gocio que elle tem feito^ mas consta que todoa os carregadorea 
estSo descontentes por causa da demora e das fomes por que 
teem passado. 

Suppondo que Carvalho tenha obtido o mesmo resultado, que 
é duvidoso e realisando as transacçSes a preço fiivoravel, tería- 
mos 5:400f$000 réis, e que o interesse sobre as mercadorias era 
de 50 por cento, lucrava-se 2:700^000 réis. 

Abatendo d'esta importância a manutençSo do pessoal du- 
rante um anno, que era enorme, e os prejuizos de que já 
houve conhecimento, onde estSo os lucros da empresa no pri- 
meiro anno? 

ÂBsustam-nos os resultados de taes commetímentos e vamo-nos 
dar ao trabalho, com os elementos que temos e mais informaçSes 
que procuraremos obter, de fazer os nossos cálculos para es- 
clarecer na primeira opportunidade o governo e a Sociedade 
de Geographia Commercial da Porto, sobre o que ha a esperar 
por esta região, de exploraçSes commerciaes, e terminamos por 
hoje as nossas consideraçSes a tal respeito dizendo : Rasio, ti- 
nha o sertanejo Narciso António Paschoal em duvidar dos lu- 
cros da empreza de Saturnino Machado. Elle aguardando que os 
Bângalas venham procurá-lo a sua casa, ha de interessar muito 
maiS; sem risco e vivendo com todas as commodidades.» 

A Expedição allemã dirigida pelo tenente Wissmann, que 
tinha a pratica adquirida na sua primeira travessia, tanto co- 
nhecia a importância do sustento do pessoal, que fez grande 
fornecimento de gado e creaçSes, tendo a sua viagem por ob- 
jectivo attingir o mais rapidamente possivel o Muquengue, no 
Lubuco. 

Isto comprehende-se, porquanto um homem cuida perfeita- 
mente de vinte cabeças de gado e este sendo regular, está cal- 
culado que uma cabeça dá cento e oitenta raçSes boas e 
portanto as vinte, três mil e seiscentas raçSes; emquanto um 
carregador apenas transporta em media, uma carga de fazendas 
no valor de 65í5000 réis, que se pode dizer equivalem a mil 
rações e que aqucllas poderão importar em media em 6i$000 
réis por cabeça, ou 120^000 réis valor de duas cargas, porém 



DESCRIPÇXO DA VUGEM 477 

86 estas forem pólvora, armas ou búzio, o seu valor diminue 
de 40ái000 a IS^JOOO réis. Ao que acresce ainda o lucro do pa- 
gamento e sustento de um carregador e do individuo que cha- 
mámos para o acompanhar, que numa exploração em que ha 
valores a guardar tem muita importância. 

Se estivéssemos de posse doestes esclarecimentos quando sai- 
mos de Malanje, em todas as EstaçSes nos teríamos abastecido 
de gado em abundância, não só pelo lado da economia com 
respeito a carregadores, mas ainda como mais tarde reconhe- 
cemos, por ser este um grande ramo de negocio no interior. 
Ao Caungula do Lôvua, por exemplo, algumas comitivas le- 
vam por raridade uma ou outra cabeça, e só depois na terra 
do seu parente áquem do Luêmbe vimos três cabeças. • 

Entravamos no mez de dezembro e as chuvas começavam a 
apertar e a incommodar-nos, não só porque de noute, depois 
de collocarmos em resguardo os nossos livros e papeis, tinha- 
mos de andar a procurar sitio para a nossa cama acabando por 
abrirmos o chapéu de chuva para resguardar a cabeça, mas tam- 
bém porque nos lembrávamos que os terrenos iam-se enchar- 
cando, os rios enchendo, e d'abi maiores difficuldades para a 
nossa jornada e se bem que os carregadores estivessem pro- 
mettidos, só a pouco e pouco vinham comparecendo para se 
contractarem. 

ApQsar doestas contrariedades, cada um de nós trabalhava 
no que lhe era especial, e com tanta mais vontade quantas eram 
as contrariedades que nos appareciam, porque no trabalho en- 
contrávamos a distracção que nos era precisa, para não nos 
deixarmos dominar pela influencia do tempo e pela nostalgia 
que principiava a manifestar-se. 

A falta de photographia recorremos ao desenho, para poder- 
mos figurar os typos da margem do Lui, que pelos penteados 
e ornamentos de que usam differem já da gente que até aqui 
conheeiamos, e para bem os comprehendermos perseveráva- 
mos no estudo dos seus dialectos e costumes. 

Não nos podemos convencer já de ha muito tempo, que na 
raça preta, mesmo entre os povos conhecidos como gentios, se 



478 BXPEDIÇ!0 PORTUOUEZA AO • MUÁTllNynA 

nSo encontram as mesmas percepçSes que entre nós, as mes- 
mas sensaçSes de jubilo ou dor. E estamos persuadidos de que 
elles comprehendem como nós as impressSes que os sentidos 
acceitam ou repellem, como nós demonstram as indinaçSes 
ou affectos e denunciam esse sentimento sublime que os move 
a amar alguém e essa paixSo d'aima que um e outro sexo mu- 
tuamente se inspiram. 

Os rapazes antes de se ligarem com uma rapariga reques- 
tam-na primeiro, procuram occasiSo de lhe fieillar e de se en- 
contrarem com ella, já nos caminhos para as lavras e rios, já 
nas danças, e pedem-na aos pães ou parentes mais velhos. 

Ha entre elles, pode dizer-se, um contracto de casamento 
a seu modo. Um contracto em que se estipulam as condiçSes 
de bem viver e além d'isso em que é indispensável o consen- 
timento de quem serve de pae á noiya, sendo eUe e ella de- 
vidamente presenteados. 

Os casos de prevaricação estSo previstos e sSo condenmados^. 

Mesmo com as creanças, que nunca souberam o que era um 
beijo e arrebatados ás suas mães não mais lhes lembra os ca- 
rinhos e affiigos, quando os tiveram ; se as rode&mos como ás 
nossas d'essas bellezas da nossa educação, não mais nos dei- 
xam, perseguem-nos para as acalentarmos, para corresponder- 
mos ás suas meiguices, emíim para lhes satisfazer a necessi- 
dade de amor que na alma se lhes desperta. 

As que nos acompanharam são exemplos que não podemos 
deixar de citar; e que não temos razão para nos arrependermos 
por emquanto dos cuidados que nos mereceram, di-lo-hão os 
factos que no decorrer doeste nosso trabalho iremos apresen- 
tando. 

As mulheres também aqui, procuram fazer-se valer, aformo- 
seando-se a seu modo, já lustrando a pelle do corpo e os ca- 



1 No volume sobre Etbnograpliia, mais desenvolvidan^nte se trata 
doeste e de outros assumptos na parte relativa aos usos e costumes does- 
tes povos. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 479 

bellos com olcos ou outras matérias gordurosas, já pintando 
na cara traços vermelhos, negros ou brancos e dando ao penteado 
formas mais ou menos complicadas. E trivial verem-se tranças 
de diversas larguras, e os penteados ornados com missangas, 
contas e metal amarello, em chapas pequenas, rectangulares 
e em cruzetas e canudos. 

Enfeitam as orelhas e cartilagem do nariz com argolas ou 
quaesquer pingentes, e também com pausinhos delgados que 
passam por furos feitos de propósito. 

Também algumas apresentam a tatuagem nos braços, hom- 
bros ou entre os peitos e sobre o ventre, representando obje- 
ctos naturaes. Uma vimos, que tinha sobre os hombros imi- 
tações de. arvores muito bem feitas. 

Usando os peitos nús, consiste a maior elegância em cruza- 
los com o maior numero de fios e variedade de missangas pos- 
sivel e em ornar braços e pernas com argolas de metal ou de 
fios de cobre e mesmo de ferro. 

Pelo que respeita a vestuário não differe este do usado entre 
os povos de Andala Quissúa. 

Os homens também trajam como os d^aquelle povo, porém 
como as mulheres, abusam das unturas, tanto no corpo como 
na cabeça. 

As relações que os nossos carregadores souberam manter 
com os povos vizinhos, fazia com que estes viessem ás suas 
danças, o que muito apreciaram porque entre a nossa gente 
havia quem tocasse harmónica e as danças eram mais variadas, 
c se as mulheres não vinham ao nosso acampamento para dan- 
çarem, como succedeu em outros povos, apesar da liberdade 
que ellas disfructam aqui, é porque os homens em geral e os 
potentados em particular, são muito ciosos das suas raparigas. 
Por muito tempo cremos que esta gente suppoz que nós nao 
saíamos d'aqui ; acostumaram-se a ver-nos todos os dias, es- 
tavam satisfeitissimos, porque demais viam interesses na nossa 
permanência, isto é, os artigos do commercio que elles dese- 
javam saíam da Estação para seu uso em troca do gado e 
mantimentos que traziam para a nossa alimentação. 



480 EXPEDIÇXO POBTOGUEZA AO MUATliNyUÁ 

Convencidos emfim; de que tínhamos de partír, apeUavnin 
para o ultimo recurso^ o de contractar rapazes para o transporte 
das nossas cargas^ no que interessavam todos os homens, mu- 
lheres e creanças e muito principalmente os potentados. 

Entre os que se apresentaram, contavam- se cincoenta para 
a Mussumba do Muatiftnvua, á rasXo de seis peças cada imi| 
o que nfto era caro e para nós já importante, e sobre os pri- 
meiros que se pagaram doesta forma, pronunciou se logo o soba 
Anguvo contra Ambango, por este consentir que nos enganas- 
sem não podendo garantir a segurança nestes contractos. 

E certo que nós levámos á conta de inveja, as ásperas cen- 
suras de Anguvo a Ambango, nao acreditando na sua sinceri- 
dade e na convicção com que eram feitas. NSo podíamos es- 
perar que eUe tivesse razão e que mais tarde nos havíamos 
de arrepender de não termos querido prestar attenção áquelle 
quasi aviso ou conselho que não era para desprezar, taes eram 
os nossos desejos e anciedade de proseguirmos com rapidez 
na viagem. 

Espalhara-se a notícia de que Íamos partír, e por isso de 
Muene Canje, no outro lado do Luí, vieram portadores que nos 
foram apresentados por Anguvo e Ambango, como do Inde- 
mene Mésu, pae d^elles e senhor d^aquellas terras, que nos 
mandava cumprimentar. 

Agradecendo a visita, respondemos que se nos avistássemos 
com Muene Canje saberíamos corresponder devidamente á sua 
amabilidade. 

Um dos enviados fez-nos seiente, que um sobrinho d'aqucllc 
pensara em ir ao nosso encontro quando fomos ao Cuango, e 
que o tio não consentira para que nos não persuadíssemos que 
se exigia a Muene Puto tributo de passagem ou que nos que- 
riam escoltar. 

Retorquimos, que nunca tivemos receio dos povos que nos 
iam esperar ao caminho, e quanto a presentes os dávamos a 
quem queriamos ou a quem prestasse serviços a Muene Puto. 

Querendo convencer-nos o enviado, bem como Ambango, 
que era da praxe o enviar-se um signal de estima a quem 




deschipçao da viaqeh 

manda viaitar, respondemos que o faríamos quando entendes- 
aemoB e n2o por intimaçSea. 

Isto dou logar a um grande discurso do mais velho, qne nos 
obrif^ou a responder: que Ambango nos dissera sempre que 
estas tçrras eram suas; que todos os sobas vizinhos eram seus 
filhos; que Anguvo era seu egual e governava para o norte até 
ao Cuango, emquanto que elle governava para sul até Qnt- 
lundula; que dÍo conhecia os Coboa 
nem os Holos, nem Ambango me fnl- 
lára nunca no seu pae Muene Canje; 
que todos os sobas que Ambango me 
apresentara como seus anhordinados 
foram contemplados e portanto neste 
logar nada mais dava a pessoa alguma ; 
que se ello Ambango tinha agora nm 
pae, llie mandasse metade do que lhe 
havíamos dado. 

Com respeito a escoltar no cami- 
nho, podia fiizè-Iú MuL'ne Canje ou 
qualquer outro soba; só lhes lembrá- 
vamos que o nosso fim era de paz c 
de boa amizade, porém que cada uma 
das nossas espingardas podiam despe- 
dir doze bailas num prompto quando 
fosse preciso. 

Que a fazenda de Muene Puto nSo 
era para se deitar fora, tinha muita 

applicação, sendo a principal pagar o sustento dos homens que 
DOS transportavam. 

Estava pois terminada a nossa entrevista; já sabiam o que 
havia a dizer a Muene Canje. 

Chegara nesta occasiSo de Malanje a correspondência e tam- 
bém um sertanejo, Químbaro, qne ha annos residia no Xinje, 
margem direita do Cuango, para onde queria seguir, porém, 
vinha pedir-nos protec^'ilo, porque Amliango pretendia fazer-lhe 
agora exigências pela sua passagem. 



I 



tXnmÇAO FOSTCGCEXÂ IO ■TATUSVTXA 

I KTtf^-t** qne c«t«Ta em Te»- 
pêra d» [MVtídft, aoqaaaBRVO, edaqBEcstebimm>,poriKdne 
J«So Amobío Soara Bnp bm mttu, i£xeiB-m> u occorren- 
ciaa, ali qoa d'«Oe ww ■ep arf aio». 

£otn « eofreapondenctt, appaneeo-iK» o Camwttmo Jt Por- 
tt^ ie lõ de jolbo, em qae se lia oin ctmmnnjradg dataA» 
(Ic lynula e auignado por Jolío PafaDeiriín. «na nSertaãa» 
s esta Bxpediçio, e que pela philaaci». phrmsewlo txmlnatâco e 
apreeíaçQe» extrara^antes, moilo nos fex rir, alo noa aeado 
difficil recoobeccr o oome do TetdadeirT* aoctor. 

£u a Dota que lançámoa do nosso diário. 

«Ê moa expoeíçio de dontrina moíto superficial baleada em 
ínforma^fSea (alsaa do qae por cá te paosa e na tnoita tgnoraD- 
eia doa boroena e dai cousas como são na realidade, ãeme- 
Uunle oommanicado «stá destinado a nma resposta, maf é pre- 
GÍÉO vagar e por isso archira-se por emqoaDto.i 

Também recebemos o Economuta de 20 de setembro, em qae 
TÍntu traiucripta paile de ama communícaçio aossa ao Minis- 
tro do Ultramar, e antes, em artigo prim^ipal sob o título de 
Tratup<»it» em Angola, se teciam encooiios «o Govemador de 
Angola pela iniciativa que tonUra em renovar a antiga iasti- 
tniçSo das Fatrulbas; mas o qae nllo deixava de ter graça 
era, qne as coneideraçSes que justificavam as providencias to- 
madas, fossem as mesmas, até as próprias palavras da nossa 
communicaçlLo, que nilo foram transcriptae, e de qne já de- 
mos conhecimento no capitulo anterior, o qne nos fez persua- 
dir seria algama d'aquellas trocas de granel, qne tantas vezes 
se dão na composição doa nossos jomaes diários. 

Mas, á parte a coincidência, foi-nos muito agradável ver que 
mais uma vez, o illustrado Governador de Angola, tomara na 
devida consideração uma proposta nossa, o que nos obrigava a 
agradecer especialmente a S. Es," aquella distincção. 

A Sociedade de Geographia Commercial de Porto agrade- 
cia-nos o interesse que tinhamos tomado pelos seus encargos, 
lazendo-nos scieate do que infelizmente se tinha passado com 



DESCHIPÇlO DA VIAGEM 483 

respeito aos volumes do commercio da cidade do Porto e da 
correspondência que a Sociedade mantivera com a Direcção dos 
negócios do ultramar e com o representante da Sociedade em 
Lisboa, o dr. Manuel Ferreira Ribeiro. 

O Governador Geral de Angola também nos communicava 
que tendo chegado no transporte índia os volumes do com- 
mercio, immediatamente os fizera transportar para o Dondo, e 
que determinara ao chefe do concelho que elles nos fossem 
remettidos para Malanje com a brevidade possível. 

Agora era muito tarde, sobretudo depois das minhas reflexSes, 
que sao justificadas com respeito ao custo do seu transporte 
de Malanje em deante e á qualidade de mercadorias que elles 
continham. 

O negociante Custodio Machado, enviava-nos as cargas pedi- 
das e também aguardente, que transportava um novo carrega- 
dor que á ultima hora pudera contractar para nosso serviço, e 
entre outras dava-nos a agradável noticia de ter mandado seu 
sobrinho estabelecer- se na nossa Estação Paiva de Andrada, e 
de annuir ao nosso pedido de ser agente da Sociedade de 
Geographia Commercial do Porto. 

Officiámos a Custodio Machado, considerando-o já como 
agente d^aquella benemérita Sociedade, encarregando-o de pro- 
mover em Malanje a venda de todas aquellas mercadorias, no 
que certamente tinha a lucrar o commercio do Porto, embora 
levasse mais tempo a transacção. 

E tanto ao Ex."*® Governador, como á illustrada Sociedade 
determinámos justificar a resolução que tomámos. 

Informando-nos Braga, que Mona Samba e outros potenta- 
dos do Capenda nos apresentariam carregadores para a Mus- 
sumba ; que a jornada da nossa Estação Costa e Silva para o 
Caianvo era de dois dias e para o Anzovo de três ; que este, 
de facto, era quilolo do Muatiânvua, que nos havia de pres- 
tar todo o auxilio e fornecer- nos guias para seguirmos o cami- 
nho que desejávamos, entre Caungula e Anzovo Bunguvo, pouco 
nos desviando da latitude em que estávamos, o que era para 
nós de interesse ; e acrescentando que em Mona Samba não nos 



I 



484 EXPEDIçIO PORTUGUEZA AO MOATliUVDA 

faltariam mantimentos de lavras e que gente d'alii se e 
garia de nos arranjar gado, tomámos a resolução de nos demo- 
rar na Eataçio Paiva de Androda o tempo Indispensável para 
fazer a correspondência para a metrópole e para a provincia, e 
com os carregadores que tinliamos mudarmo-nos depois o mais 
rapidamente que fosse posaivel para a Estaçilo aliím do Cuango, 
pois que as chuvas o as trovoadas succediam-se com mais forç;». 
Acrescua a iato os perigos a que estávamos expostos, pois que 
8Ó em pólvora tínhamos mais de treaentos barria, se pode dizer 
aervindo-noa de cabeceiras, e quanto maior fosse a demora, 
mais se prejudicava a nossa viagem. 

Em virtude d'e8ta resolução, mandou-se dizer a todos oa so- 
bas, que fizessem apresentar os carregadores contractados, e 
que se houvesse quem quizesse vender gados ou quaeaquer ou- 
tros mantimentos, os prevenisse d'e que durante quatro dias 
estávamos dispostos a comprar tudo que apparecesse, se os 
preços nos conviessem. 

No emtanto, continuávamos a tomar informaçUea que nos 
convinham do sertanejo Braga, e aproveitávamos todos os ele- 
mentos com que pudéssemos justificar o que tínhamos a consi- 
gnar em toda a nossa correspoodeocia, a qoal foi do teor se- 
guinte : 

A S. Ex.^ o Ministro da Marinha e Ultramar. 

III."> e Ez.*° Sr. — Tendo partido eu e o meu collega Slzenando Mar- 
ques em 22 do mez passado com o couce dd E^ediçSo da Eataçio Fer- 
reira do Amaral em Andala Quiasúa, acompanhando as nltimae cargas, 
aqui chegámos á Estação Paiva de Andrada, margem do Lul, em 2S is 
sete horas e meia da noite, onde me tenho demorado ntto só por cansa 
das chuvas toirenciaes que teem caido, como pelas difficuldades de pu- 
Btgem de rios e ainda porque neste ponto tenho conseguido contractar 
directamente paia a Lunda (Mussumba do Mnatiflnvna} cincoenta carre- 
gadores, o que sem duvida alguma é devido í influencia da referida 
Estação. 

Os contractos de pagamento teem sido feitos á razão de seis peçaa 
{6Í100 réis) e ração que se nSo pode calcular em menos de 80 réis por 
dia a cada homem, e portanto não eicedendo o preço dos contractos em 
Halanje. 



DESCRIPÇlO DA VUGEH 485 

Aqui, como na anterior Estação em Andala Quissúa, tenho encon- 
trado da parte dos povos que as cercam muito respeito e veneração pelo 
nosso Rei (Mnene Puto) e todos os Portuguezes sob a influencia da enti- 
dade com este nome, são por elles bem tratados. 

£ certo que esta influencia se mantém á custa de presentes e dadivas 
que se fazem, não só aos seus potentados, mas a uns e outros dos seus 
familiares mais considerados e se assim não fosse todos elles mais ou 
menos colligados, estorvariam a marcha regular das expedições e de 
viandantes isolados (geralmente Ambaquistas), que procuram intemar-se 
além do Cuango, e mesmo levantariam difficuldades que só á força de ar- 
mas se poderiam vencer na occasião, sem que do seu bom êxito resultas- 
sem vantagens para os futuros negociantes e para a manutenção dos 
nossos bons créditos, porque os caminhos desde esse momento se fecha- 
riam como actualmente se encontram os antigos por onde outr^ora se 
transitava com muita facilidade. 

A Expedição tem encontrado, e certamente quem de futuro a imitar 
encontrará, reciprocidade nos presentes e dadivas, pois que muitas vezes, 
mesmo antes de se terem feito, já se tem recebido alguma cabeça de 
gado, farinha ou outros quaesqner géneros, com que o rancho do pessoal 
se tem tornado muito menos dispendioso. 

Cito a y. Ex.* alguns exemplos. Tenho acceitado garrotes de presente 
a que tenho correspondido com valores de 3^500 réis, e estes teem che- 
gado para um dia de rações ao pessoal (sessenta pessoas mantenho eu 
aqui) o qual com parte da carne distribuida, obtém farinha, bombos, etc, 
com que acompanham a carne que lhes fica. O rancho do pessoal, pago 
em fazendas ou por outra forma importaria, diariamente, de 4j|>8(X) a 
5^400 réis. Uma vacca pela qual dei o valor de oito peças (6^400 réis) 
serviu para três dias ; e assim houve uma economia para a Expedição 
de 8i|i000 a lli^OOO réis. 

No meu diário estão citados muitos exemplos a demonstrar a ver- 
dade da minha asserção : o que se dispende com presentes e dadivas é 
(por cmquanto assim tem sido) uma insignificância, e bem compensado 
fica pelo socego, tranquillidade e boa harmonia em que se tem encon- 
trado a Expedição com estes povos gentílicos e pelas vantagens que se 
obteem a favor do pessoal de carregadores. 

Estas mesmas dadivas teem contribuído também para que os povos 
que nos cercam e seus visinhos, nos procurem para vender gado, crea- 
ções, ovos, bananas, bombos, etc. 

Pela nota das despezas nesta Estação com respeito a dadivas e com- 
pras de gado para rancho do pessoal, de 24 do ultimo a 9 do corrente, 
vé'Se que foi ella de 45^000 réis. Se pagasse as rações á razão de 70 réis 
por homem diariamente, o menos que posso admittir, montariam estas 
naquelles 16 dias, a 67 J2(X) réis, e portanto houve um saldo de 21^400 réis. 



48G EXPEDIÇXO POETUGUEZA AO MOATliSVTJA 

Estea resultados levaram-mo a concluir, que embora mais fatigante 
p&Tft mim, É nixúbi maia ceonomico dar o nmcho em géneros (pãme, sera< 
pro que abaja), doqntt pngar &s raçãea em iaze n daí, mi sa migas, pólvora, 
etiJ.; l." porque sendo ingiguificantiasiinas bb fracções (70 r^is), de quaes* 
quer d'ne5es artiges, nunca ea pode pagar menos de três a qnatro dias 
adeantadoe, c easaa poderiam ou iiSo ser dex-idamente empregadas, e 
d'abi motivos de dissidenciai) e desordens entre carregadores e pretextos 
de fome para nSo avançarem ; 2.° porque assim lhes seria diflicit faze- 
rem acquiaiçào de carne de vaoca e mesmo da porco ou cabra c com 
uma parte d'estas ra^ues é que ellos v3o comprando farinha, ginguba, 
etc.; 3.° porque sendo pagos cm carne e sendo bem alimcntadoB (como 
nunea o foram, nem mesmo nas suas habitações, porque ahi sd raramentti 
el!a entra], nSo se lembram de pedir a dil&renca do valor das raviJes, 
e cumprem-se os seus contratos, que foi de lhes dar de comer todos os 
dias e só artigos de commercio em pontos onde nSo haja carne á vendo- 

A oceasiSo é opportuna de dizer a Y. Ex.' que para uma expedi^So no 
centro da Africa é uma questilo assas importante e de que se não tem 
pensado a serio, a do rancho para O pessoal de carregadores. 

Tenho pensado maduramente neste assumpto desde qne saí de Ma- 
lanje, e cheguei a convenccr-me que é cila que neutralisa todos os ec- 
fbrçoB de qualquer expedição cuja mira seja realisar lucros. 

Se continuasse a proceder como em Malanje (fazendo o pagamento 
de rações a dinheiro), e na primeira EstaçSo (em fazendas e missangas 
ao pcf^íoal que ali esteve), o qiio tpi'm adoptado os negociantes serta- 
nejoB 6 expedições AUemSs, eu nSo sei a que ponto moutoiiam ji aa 
despezas d'csta ExpedicSo, só pelo que respeita iquella verba. 

Supponha V. Ei.* duzentos carregadores a receberem 70 raie diarioa 
para rancho durante vinte mezes, média de tempo qne se pode calcular 
para estas expedições (não contando cora doenças, grévea, ete.) ; só para 
isso teria de despender-se 6:40DfOOO réis. Addicionando-lbes agor« o 
pagamento (ordenado) de ida e regresso a IGjOOO réis por cada carrega- 
dor, aá para a verba de transportes, nio fazendo entrar em conta ex- 
traordinários, o total da despeza montaria á importância de 11:600^000 
réis. Isto a contar de Malanje. , 

É claro qne quanto maior for o numero de carregadores crescem na 
mesma proporção as dcspezas, por serem calculadas por homem. 

Se a expedição é apenas commercial, de um só negociante que a acom- 
panha, e que leva apenas comsigo ura empregado europeu e om in- 
terprete, muito favoravelmente calculadas as despezas com eatea em 
45^000 réis mensaes, elevar-se-ha aquella verba de despeças de mais 
900J000 réis, isto é a 12:500<000 réis. 

NSo leva essa expedição livros, instrumentos, medicamentos, etc, 
mas o negociante nSo pode deixar de distrahir do pessoal viifte cam- 



DESCBIPÇXO DA VIAGEM 487 

gadores para seu serviço especial, como : bagagens, algum rancho, al- 
guns medicamentos, cama, e ainda fazendas e outros e£feitos para pre- 
sentes e tributos de passagem, etc, o que por certo nâo é muito, mas 
que vae reduzir a caravana a cento e oitenta cargas para despezas e 
permutação. 

Os valores d'essas cargas variam de 364^000 réis a 90j|í000 réis, mas 
seja de 80;S000 réis a média (parece-me demasiado). As cento e oitenta 
cargas são equivalentes a 14:400^000 réis. 

Comparando esta cifra com a das despezas de transporte, ha um saldo 
apenas para negocio de 1 :900i^000 réis ! Não entro com os valores des- 
pendidos com as cargas que levam os vinte carregadores, porque as faço 
equivaler á sua importância o que certamente é muito pouco. 

Poderá aquelle saldo em quaesquer permutações no centro da Africa 
produzir sequer o capital empregado na Expedição 14:400|I000 réis? 
Responde-se certamente que as despezas são diárias e o capital vae sendo 
logo empregado nas permutações com grandes lucros e estes podem dar 
para as despezas. Mas creia V. £x.* que não é tanto assim, que os géne- 
ros procurados quando se encontram é já a grandes distancias do ponto 
de partida e por conseguinte muitas teem sido já as despezas feitas, e 
quando mais alguns resultados houver, certamente não compensam os 
sacrifícios, trabalhos e perigos a que se expõe o negociante. 

Ex."*** 8r. — A Europa tem sido illudida com respeito ao commercio 
da Africa e nós vamos na onda porque as informações que nos chegam 
á metrópole das nossas províncias, são menos exactas. Falla-se e escre- 
vesse sem perfeito conhecimento de causa, estabelecem- se hypotheses 
sobre bases falsas, deduzem-se argumentos e apresentam-se doutrinas 
que realmente enganam os inexperientes, e os que procuram informar-se 
devidamente, teem de acceitar como verdadeiras essas hypotheses e de- 
ducçõcs ; e como isto possa acarretar mais prejuízos aos negociantes que 
na metrópole se teem interessado pelo commercio de Africa, cumpre-me, 
já que y. Ex.* me honrou confíando-me a missão de que estou encarre- 
gado, ser muito verdadeiro e leal nas minhas informações. 

Presentemente dois negociantes sertanejos da provinda de Angola 
teem- se afastado mais á aventura indo commerciar no centro de Afri- 
ca, refíro-me a Silva Porto, de Benguella, e a Saturnino Machado, de 
Malanjc. Se me recordo bem, um e outro ha mais de vinte annos que 
teem estado internados no Continente, um no Bié e o outro em Quibun- 
do, esperando o dourado manancial de productos do gentio, para na ve- 
lhice descansarem e d'elle gosarem, remunerando-se assim de tantos sa- 
crifícios, trabalhos e perigos a que se expozeram durante esse longo pe- 
riodo da sua vida, isolados no meio do sertão. 

Não chegava porém essa fortuna, e impacientes lembraram-se ultima- 
mente de se sacrificarem mais uma vez, arriscando o producto de seus 



■zniHçIo pfnnnFarau AO kiuiiImtiu. 

os Bftcríficios, e prepararvn-se para levarem 
k Dic-rcadoê Inngi^nos onde le lhes dizín paderíam 

Em I8S1, M a meoKi i:^ me nSo falha, partiu Silva Porto do Bié, di- 
rigindo-M para o sorte. 'juanCos eacriScios e despesas nSo Uie cnatftris 
dMde logo, o obter que •'.!■ l^.ng^cUaalicfaegaseem cargas para treioiloe 
eaiT^iadoTM I Eate é o iiMmero. segundo o interprete qae o acompanhou 
da Haaa Congido ft C^bau, e qao á ultima hora se me apresentou para 
nu Mompaiiliac i Landa, 0Dd<.' tem estado por varias vezes- Infonaa-mo 
ainda «to, aer a impMtincift d'uquella caravana 20:000^000 réis, valor 
qna fflra psnnntada fOi trezt^ntiis pontas de marfim. 

Ectas nlo fÍR«m a6 encontradas em CabiMi, mas em Tortos pontoa qoe 
viaitanun, gaatando-M por isso em tal exploraçSo dezoito a vinte meses. 
Num ueripto de SUva Porto & Sociedade de Geographia de Li&boa. 
na ma note de deapesos, lembra-me ter visto uma verba approiimada- 
mento de 2:00(tf000 léíe, consumida apenas em tribatos, dadivas aos so- 
bâi, etc^ o que redtu o valor da caravana a 18:000^000 réis. 

Sou informado qne Silva Porto píigava ao seu pessoal as rações eui 
misMngaa á raalo de nm macete (340 réis) para quatro diaa, porIBiili> 
Kceito (o qne i petm duvidar) que pagou rações á razSo de 60 réis dia- 
rloa. Sendo aaaim, despendeu diariauieiilc 18^000 r£ig e por conseguinte 
em deioito meus 9:TS0i000 léis. 

Calculando qne obteve oquellea euregadoiea pan id» t voUa per 
13X000 réis cada nm (o qne nSo é cHvel), SiGOO^OOO r^ serio oe aew 
vencimentos. Suppondo que com o empregado enropen e os interprete* 
qne levou despendeu em todo o tempo ordenados e raç^ea, 68(4000 ríÒB 
(para arredondar coutas) já temos 14:000^000 a abater ao valor empre- 
gado, 18:000j000 réis ; resUm portanto 4:000^000 réis. D'e8tea ba' 
unda a abater ae importâncias de mesa de Silva Porto, o sen transporte, 
eommodidades, armamento, medicamentos, qne se pode reputai em réia 
2;000<000, ficando portanto para permutação apenas 2:000^000 réis i ftUs 
estes, segundo o informador, deram trezentas pontas de marfim ! Ora, cal- 
culando estas em média, valor liquido na metrópole a 90^000 réis cada 
ama (o qne é muito), produziu a pennntaçSo 25rO00jO00 réis, abatendo 
réis 2:0002000 de entrada. Ha portanto um lucro de 5:000^000 réis ! 

Na metrópole, este capital empregado apenas em inscripçòea, prodn- 
úria sem trabalbo nem perigos nos dezoito mezes 1:800^000 réis, a 
diSerença de lucros ê de 3:2002000 réis, nSo chega a 200^000 réis por 
mez. 

Pergunto, se na metrópole se tentar uma eiploraçio d'esta ordem 
aos mesmos pontos onde foi Silva Porto, pois qne do Bié até entre os pa- 
rallelos 5 e G (sul do Equador) nSo encontrou marfim, acbaré eaea em- 
presa nm empregado de confiança e í altura de dirigir e administrar 



DESCRIPÇXO DA VIAGEM 489 

uma tal exploração por 200^000 réis por mez, menos dos lucros obtidos? 
£ quando assim seja, a despeza doesse e outros empregados em Wagens 
de Lisboa a Loanda e d'ahi ao ponto em que se organise a expedição 
d'onde ha de sair ? 

Devo agora notar a V. £x.*, que custa a crer que em e£feitos de com- 
mercio, fazendas, louças, taxas, missangas, busios, pólvora, quinquilbe- 
rias, etc., os valores equivalentes a 20:000JI000 réis, possam ser tran- 
sportados só por trezentos carregadores ou antes menos, porque sempre 
ha a abater os do serviço pessoal do negociante e ainda os destinados 
ao especial da caravana, embora nestes 20:000|>000 réis se comprebendam 
já os fretes, direitos, etc, do ponto de partida para o interior. 

Saturnino Machado, que ha um anno partiu de Malanje para Cabau, 
levou para o transporte dos mesmos valores oitocentos homens. Já vê 
pois y. Lx.*. que as informações acima não são muito exactas. 

Até ao Cuango jáV. £x.* conhece os contratempos de Saturnino Ma- 
chado, não só com relação a despezas extraordinárias, como á sua longa 
viagem de Malanje ali, sessenta dias ! Quando o muito devia ser vinte. 

£stão aqui passando de regresso, parte dos seus carregadores e elles 
informam-me ter Machado acabado o negocio de fazendas e estar agora 
negociando as armas e a pólvora. Não dizem o numero de pontas de 
marfim alcançadas, mas dizem ser pouco e também nada informam so- 
bre o seu companheiro António Lopes de Carvalho, que se separara, a 
bem da sociedade, a procurar melhor mercado a N.-£. 

Ao favor de Custodio Machado, recebido em 10 doeste mez, devo 
o saber que os carregadores haviam abandonado Saturnino nos Bacon- 
gos, junto ao Alto-Zaire, e que no ponto em que elle se encontrava, 
havia muita borracha. Julga Custodio Machado que Saturnino resolverá 
para evitar maiores despezas, descer o Zaire em pirogas. 

Quando este regressar, espero que Custodio Machado, me obsequiará 
informando-me sobre os resultados da £xpedição; mas já se pode as- 
severar que ella custou muitos sacrifícios e trabalhos e que esses resulta- 
dos talvez os não compensem, nem por certo animarão futuras explorações 
commerciacs. Oxalá eu me engane, pois são cordiaes os votos que faço 
pelas prosperidades dos infatigáveis, prestantes e patrióticos irmãos 
Machados, de Malanje, dignos por tantos titulos de terem dias tranquil- 
los e cheios de felicidades. 

O modo por que as mercadorias chegam actualmente oneradas, ao ponto 
onde se hão de organisar as expedições; o pagamento que presente- 
mente pede um carregador para transportar a carga ; o pequeno peso 
doesta; a baixa dos preços nos mercados europeus dos trez únicos géne- 
ros que a Africa offerece á permutação : cera, borracha e marfim (refiro- 
me ao seio do continente); a escassez que d'esses mesmos se vae 
notando do parallelo 7.^ para sul (distancia a que ainda se poderão en- 

8S 



490 EXPEDIÇIO PORTUGUBZA AO XUÁTllHVnÁ 

contrar por emquanto) ; a competência que n*es8a procura nos eatSo fifc- 
xendo os estrangeiroe nos portos ao norte até ao Zaire cá do occidente, 
e os Árabes em Njangoé e os estrangeiros no Tanganica e Nyaasa, «2o 
finalmente, £x."><* Sr., rasòes assas fortes para prejudicar a empresa ou 
emprezas, individuos ou associações que tentarem expedições commer- 
ciaes ao centro do continente africano. 

KSo é preciso ser especialista em assumptos commerciaes para ae co- 
nhecer esta verdade ; a simples obseryaçSo durante algum tempo nestas 
paragens com o intento de bem informar a quem compete, é o bastanteé 

Os centros dos concelhos a leste de Loanda e essa mesma cidade, qiie 
digaài nestes últimos tempos quaes os géneros que ahi chegam do een- 
tro de Africa, a nSo ser o que lá levam os Bftngalas, que sSo os proprie- 
tários das suas cargas ! 

O Bângala é puramente commerciante e percorre l^^as e le^naa com 
a sua carga em busca de quem mais fazendas lhe dô por ella. 

Aproveitar pois estas disposições, não levantar conflictos com ^ea^ 
procurando fazer-lhes concorrência além do Cuango, e o estabelecknento 
de agencias commerciaes em todos esses caminhos de Malanje a(té este 
rio, pelo menos nos que já hoje garantem segurança e boas diapostçftes 
dos povos limitrophes para comnosco, creio ser o mais acertado* Ellea 
cá virão trazer-nos á provinda o pouco que já se encontra no centro 
de Africa, de bons géneros para permutação, sem que haja necessidade 
de mais sacrificios, despezas e mesmo victimas. 

Para o futuro viver da provincia de Angola e seu desenvolvimento, 
nada se pode esperar já Q^essed productos afamados e em que se fazia 
consistir a riqueza do commercio africano. 

Outr'ora, essas explorações íizeram-se entre nós e talvez uma ou outra 
com vantagens, porque os carregadores eram escravos do dono da cara- 
vana que as acompanhava. 

O que entre nós foi de ha muito banido, creia V. Ex.* que tem sido e 
ainda é, aproveitado pelos estrangeiros que por cá andam e no que nâo 
deixam de nos prejudicar mesmo durante a nossa missão, porque os po- 
tentados estranham, nao só que lhes nao compremos os escravos que nos 
apresentam, mas que não acceitemos os que nos enviam de presente; 
já posso fallar assim e ainda estou áquem do Cuango. 

Apresso-me a dar estas informações a V. Ex.*, para que no paiz não 
haja precipitação em se organisar uma exploração commcrcial ao centro 
de Africa, que emquanto a mim terá resultados funestos, se não for at- 
tendida a opinião d'esta Expedição, que espero será um dia publicada 
juntamente com a relação de todos os seus trabalhos. 

Felicito-me hoje, porque os volumes de mercadorias (perto de duzen- 
tos) de alguns nogoci antes do Porto, houvessem chegado a Lisboa de- 
pois da minha partida para Loanda. A Providencia estava então por 



DESCRIPÇÍO DA VIAGEM 491 

mim ; se me houvessem acompanhado, emquanto nSo estaria já o seu 
transporte ! £ onde e como permutá-las ? £ a pergunta que faço a mim 
mesmo muitas vezes. 

Pode o Governo querer continuar a provar á £uropa, que também 
Portugal com grandes vantagens para estes povos, manda para cá as 
suas £xpcdiç(jes civilisadoras ; que nos é facultada a passagem entre 
elles, só pela influencia do poder de Mucne Puto, que elles veneram e 
respeitam e sem necessidade de disparar um tiro para abrir caminhos ; 
que como as demais nações, nos interessámos e sabemos civilisar os 
povos por onde passamos, e que finalmente quando díspozermos de ca- 
pitães, sempre havemos de conseguir muito mais que as missões estran- 
geiras, já pelos nossos costumes brandos, já pelo convívio e antigas 
relações no paiz (o que elles recordam sempre), já pelo conhecimento 
que mais ou menos toem da nossa lingua (não é raro mesmo entre o 
gentio em conversa ouvirem-se palavras portuguezas), e pelo bom trato 
e justiça que lhes dispensámos, ainda mesmo contra os nossos interes- 
ses. Para taes fins se o Governo o entende e o paiz pode e quer, que ve- 
nham outras Expedições em seguida a esta, porque nós os Portuguezes 
teremos sempre em tudo superiores vantagens, mas esperar que as em- 
prezas commerciaes sustentem expedições com a mira em alargar mer- 
cados aos seus productos em troca de outros de maior valia, (a não se 
modificarem muito em favor d^essas emprezas os encargos que pesam 
sobre os objectos do commercio que entram na provinda de Angola), é 
um erro e gravíssimo, sobretudo em concorrência, como actualmente, com 
os pontos privilegiados ao norte e com a grande potencia da Internacio- 
nal, que só pelos seus milhões empregados em fazendas, força bem ar- 
mada, e fenos a subjugar e dominar o gentio, nos pode arrebatar o que 
para nós por boa vontade viria. 

Preparada a Expedição para partir depois de amanhã para o Cuango, 
Estação Costa e Silva, onde eu chegarei no dia immediato para dispor 
tudo a fim de se efFectuar a passagem do rio, entendo do meu dever dar 
antes da partida algumas informações a V. £x.* sobre esta localidade e 
suas vizinhanças. 

Esta Estação, rodeada a leste e norte pelo Luí, vindo do sul fica na 
altitude media (media de cem observações) de 701 metros, isto é, 4r»l 
metros abaixo de Malanje, na latitude S** SI' 48'' sul e longitude 17*» 6/ 
30''; está cem metros a leste da povoação principal, Ambanza do Am- 
bango. E rodeada áqucm do Luí, em todos os quadrantes, seguindo de 
norte pelo leste pelas seguintes povoações mais principaes, cujos nomes 
são os dos potentados Angiivo, Quibando, Matamba, Cáhia Cassáxi, Ca- 
mávu, Cátúta, Cáanzela, Mucanda, Anguanguay Cáputo, Quijica e outros 
de menor importância. 



492 BXPEDIÇZO POBTCOUBKA AO XUATllwnA 

Com todms dias e com os seu potentado» temos mantido aa mèDiona 
relações. Amiudadas vezes estes me piocDraram (geralmente de noite, 
habito em que os tive de pôr para me deixarem trabalhar dnrante o dim), 
a fim de conversarem e saberem do qoe se passa nas terras de lloe&e 
Poto, e também receberem o malofb da visita (agnaxdente temperada 
como já disse a V. £x.*) e me apresentarem seos filhos (denominaçio em 
que comprehendem os homens das soas povoações), para transporte das 
minhas cargas ás terras do Mnatiânvna. 

A parte a grande humidade, devido a ser nma grande planície e ro- 
deada pelo Lai e seos afluentes, a sitoaçio é salubre e soppomo-la 
mesmo superior a Cafuzi, que reputamos saudável, certamente por es- 
tarmos mais desaffirontados por todos os quadrantes. Aqui entre o pes- 
soal, em três semanas apenas foram tratadas duas doençaa ligeiras; 
uma febre das ordinárias no empregado europeu e uma simples bron- 
chite num dos carregadores, um & outro por dormirem ao relento. 

Os povos sio mui soceg^os, mas ciosos das grandesas doa sena po- 
tentados, Ambango e Anguvo, e por isso se nota entre ellea nma certa 
rivalidade, respeitando-se porém estes chefes mutuamente quando se en- 
contram, pelo menos á minha vista. Tanto um como outro conaideram-se 
subordinados de Muene Canje, a quem chamam pae, residente em Mns- 
sanjísno, 5 kilometros a N.-O., além do Luí, que é o potentado doa Cõbos, 
e por isso estes aqui, se deviam considerar como taes ; mas é o que se 
nSo dá, porque Ambango que pelo lado paterno é Holo e pelo materno 
Côbo, considernndo-se senhor do que herdou do tio, um intruso que veio 
eHtabelecer-se mais a oeste do logar em que aquelle fundou a actual 
sanzala, (ambauza) diz-se independente, e á similhança do soba Ambango 
de Malanje, chama ao seu povo, que faz estender até ao Qnilandula Mu- 
lolo Quinhangua, próximo do rio Luhanda, Bambeiro ; querendo assim 
distingui -Io dos MHhôlos, Macôbos e Mahundas, povos que o limitam,. 
sem se importar que Audala Quissiia pretenda que os limites de suas 
terras os comprehendam, porque toma o Luí como fronteira. 

Ha pouco aquelle potentado mandou-o avisar, que até agora tem es- 
perado pelo seu tributo e a resposta de Ambango na minha presença, 
foi, que estava ha pouco tempo no Estado e nâo se achava preparado 
ainda para lhe pagar o devido tributo. 

O Anguvo, diz ter fugido de Mona Congolo, margem do Chicápa e 
ter vindo estabelecer a sua ambanza próximo do Luí, sob o dominio de 
Muene Canje, e ser também independente porque é parente dos Hôlos 
como dos Bângalas (Cassaujes) e dos Haris (Muêto Anguimbo), e n2o 
quer também acceitar para seu povo a denominação de Côbo. 

Tenho visitado as principaes ambanzas e nalgumas tenho visto além 
de mandioca e jinguba, limoeiros, feijão, bananeiras, milho, papaia (ma- 
mão), pau de sabão, mamona, algum tabaco e ocá de S. Thomé. 



DESCRIPÇAO DA VIAGEM 493 

As povoações mais próximas do Lui teem homens que se dedicam á 
pesca e já por três vezes fomos mimoseados com peixe, o bagre e outros 
mais pequenos, gostosos mas de muita espinha. 

N^esta Estação fez-se em principio acquisiçâo de vinte gallinhas, 
quatorze das quaes levamos comnosco, o que tem sido muito apreciado, 
por ser raro o dia em qne se nâo guardam cinco a seis ovos para o nosso 
rancho. Teem também apparecido ovos á venda na Estação, o que nos 
prova haver aqui mais creação que em outras localidades onde temos 
pernoitado. 

Pelo que respeita a gado vaccum, nao nos tem faltado aqui, como já 
disse a V. Ex.*, é este o ponto onde os aviados dos marchantes de Pungo 
Andongo e Malanje se abastecem em troca de fazendas, missangas etc. 
Mas aqui como em Andala Quissúa, não se mata gado para a povoação, 
e a gente d'aqui, se ultimamente tem comido carne, devem-n*o a esta 
Expedição pelas permutas por farinha e bombos. 

Também é aqui procurando o sal do Luí, tanto d'além do Cuango, 
como das povoações até Malanje, do que se tira algum interesse. 

A disposição d'e8te povo a nosso respeito e tudo mais que deixo ex- 
posto me levam a crer que seria de um grande bem para o futuro, man- 
ter- se esta Estação, não só para a conservação doeste bello caminho para 
o commercio, como pelo grande numero de carregadores que num mo- 
mento lhes pode fornecer, quer para Malanje, quer para o Cuango ; e 
ainda porque estas terras pela sua fertilidade e abundância de aguas, 
facilmente se agricultavam, podendo em grande parte ser aproveitadas 
para creação de grandes manadas de gado, que até se poderia exportar 
para fora da província, quando estabelecida a linha férrea de Ambaca. 

Que venham para a Estação e suas immediaçoes, pessoas idóneas que 
ensinem e civilizem estes povos, que a isso se prestam, e então o com- 
mercio da província se não encontra hoje as riquezas imaginarias do cen- 
tro da Africa, encontrará sempre lucros rasoaveis mas seguros, porque 
os consumidores serão então os povos que civilisam e por certo lucros 
maiores dos que realisa actualmente, ou podprá obter de futuro, se as cou- 
sas continuarem como d'antes. 

A minha proposta ao negociante Custodio Machado foi bem acolhida, 
participou-me já que seu sobrinho ia partir com negocio para a Estação 
Ferreira do Amaral, e só esperava carregadores para esse fim. Como 
sei que em Malanje ha difficuldades actualmente em os arranjar, mandei 
um portador a Andala Quissúa para os enviar, e este também já me res- 
pondeu que os ia expedir, o que creio fará, porquanto sei quanto elle e 
o sobeta da localidade apreciarão o estabelecimento d*aquella agencia ali. 

Eu repito hoje a V. Ex.* o que já tenho dito mais de uma vez, encon- 
trei em Custodio Machado um grande auxiliar para o bom êxito da mi- 
nha missão. 



I 



Tem wdo elle que em Malnnje, na presença doa eatrnngeiroB (Alle- 
uiiltis cm maioria), tem sabido manter o boni uome portiigaee. Hoje mm 
eu d'ÍBso uma tealeinuiiha, porque deante de mim se derius nlguns fi»- 
etos que o comprovam o por iaso tanto eu novamente tomo a libe