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Full text of "Florilegio da poesia brazileira: ou, collecção das mais notaveis composições dos poetas ..."

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FLORILÉGIO 



• DA 



ou 

fl >LLECÇÍO DAS M.41S NOTAVElé COHP08IÇÔK8 
DOS POETAS BRAZILEIROS FALECIDOS, 
CO>'TEXDO AS BIOGRAPHIAS 
,V-J>BMHi:Ç9í^l51ES,^ 5 , 

TtDO.PÍlíCEDIDO DE UM 

ISNSAIO HISTÓRICO SOBRE A8 LETTRAá 
NO BRAZIi. 



TOMO II. 




LISBOA 

KA. IMPRBNSA. RACIONAL. 

*1850, 






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G. F. PARKMAN FUNO 




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V-íi 



V ADYEilTEKClA. 



I X^FBSAB dos bons desejos que oos aniva- 
Rftni ao emprcfhender esta publicação, riu-se eila 
irais de uum vez delida e empatada. E agora 
\iei depois de qoatro annos no prelo, a damos 
^^r concluída, vexâmo-nos de eocontrar-lhe 
tantas falias e imperfeições. Chegámos a ter 
nedo de a deixar correr, e a nfto Ternareiola- 
^0 arbitraria de a guardar um tanto de amor 
próprio, talvez o público nSo tivesse a obra 
com seus defeitos, pelo menos agora. Más oSo 
deremos sustentar caprichos : venham embora 
as censuras, que ahi vai o livro. 

Convém, porém, saber-se que, quando em fins 

de 1B46 entregámos á imprensa os primeiros 

nateriaes para elle , estávamos empregado na 

.egação imperial em Lisboa, ^onde pouco de* 

rpois tivemos que sair para ouTro destino. An- 

Íolhou*se-nos íacíl a continuação da impressão 
laquella cidade, com a condição de que se nos 
aandaria uma prova pelo correio. Várias des- 
as provas foram revistas em jornadas n'uroa 
'ilagem, e sabe Deus como. Outras veaes 
;am com recommendação de que deviam 



IV ADVERTEXaA. 

devolver-iie pelo mesmo correio, e era neeefia' 
rio sempre vél-ns com demasiada precipita<,i'> . 

Estas difficuldades, e o desejo de terminar 
a obra, nos obrigaram a abandonar o pensa^ 
mento de proseguir com a redacçfto das biV» 
graphias de todos os poetas, como fizemos coái 
CS quatorze primeiros. j 

Pedimos, pois, desculpa pelai irregularidadej, 
« pelas emendas que vão em notas e erratai, 
esperando merecei -a em altençilo ao servi f> 
que em todo o caso fazemos, e aos bons deai* 
jos que nos animam. Quanto á orthographl, 
sabemos que a muitos parecerA estranha ; m^, 
■tendo que fazer uso dos accentos, nfto podianís 
deixar de ser cofaerentes, adoptando^s em to^s 
RS palavras, em que a sua presença possa aili- 
liar, lôbre ludo, o leitor estrangeiro. 

i 
Madrid, 11 de Outubro de 1850. t 

s 

* 

F. A, dt Varnhage% 



•%• 



IGNACIO JOSÉ DE ALVARENGA 
PEIXOTO. 



\ 



IGNACIO JOSÉ DE ALVARENGA 
PEI3CÒTO. 



o 



Marquei de Pombal tioha en soa alta 
política conhecido a necetsidade de cuidar 
do Braiil, e pois qae muitos brasileiros talen- 
tosos haviam sempre em Portugal correspondido 
á sua confiança, veio elle também a ser grande 
protector dos brasileiros, que em reconheci- 
mento não perdiam occasiâo de o exalçar. Um 
delles, do qual ora nos vamos occapar, Igna- 
cio José de Alvarenga Peixoto, amigo de José 
Basílio (a cujo Uruçuay compoi um Soneto 
encomiástico, que foi publicado com o mesmo 
poema) nSo devia ser menos estimado por 
Pombal, a quem tanto louvor pródiga na ode 

« ITSo os h«roet qa« o game CBsaagvcnUdo. « 

Assim é que o mesmo Pombal depois de o 
despachar primeiro juii de fora dè Cintra o 
elevou depois a ouvidor de uma comarca em 
Minas com a patente de coronel do 1.^ regi- 
mento auxiliar da campanha do Rio Verde. 

As suas composições poéticas já antes o ha- 
viam recommendado para árcade ultramarino ; 
porém até hoje nSo nos tem sido possível de 

p • 



SU4 PI.OniLRG:0. 

•cidir com certeza se o nome de Eureste Phe- 
nicio^ era u que levava como pastor. * 

Chegando ao Brazil o nosso poeta, magis- 
trado e militar, a quem talvez não seria estra- 
nho o pensamento de PomUilde.estal^elecer na 
America a cabeça do império portuguez, pe-~ 
netrou-se^ tanto desta idea que çom o vigor da 
convicção traçou uma ode em que conxida a 
Rainha Maria I, a passar-se ao Brazil, e as- 
senhorear-se da America toda. E com todo o 
seu enlhusiasmo não se esquece ãe prevenil-a 
contra as natiiraes rivalidades da antiga metró- 
pole, e de Ta/er protestos pela lealdade de seus 
votos : 

Vai artUnte deteio; 
Entra harnilhado na r4>al Lisboa 
Sem ser sentido do invejoso Tejo. 

• — ^_ • 

Da America o furor 
Perdoai, Orande Aagasta, i lealdade, 
Sio dignos de perdto crimes d'amor. 

, Em Minas é natural que começasse a conviver 
com Cliiudio e Gonzaga : além disso vemos qne 
se dava com D. Rodrigo Jos<^ de Menezes, ao 
depois Conde de CavalJeiros, e que governou 
aquella província desde 1778 até 1783. E bem 
digno é de ler-se o patriótico* canto genea- 
thliaco que compoz em 19 estancias ao Olho 
desse Governador. 

* Em todo o Êaso Enreste é o autor da Resposta dm 

NUe ã^despedida de FiUno por Cláudio, e coUocan<to-* 

. no Florilégio e na composiçlo» nSo affiançâmos de todo 

que seja ella obra de Alvarenga Peixoto; maa d«ixâ- 

mol-a em pendência. 



M.V ARENGA PEIXOTO 3e« 

Igual amisade não travou cIq certo com o 
successor deste último, Luís da Cunlia de Me- 
nezes, que conservou o mando até 1788 ; e 
antes pelo contrário lia toda a probabilidade 
dé que como os mais mineiros tomasse |)arte 
activa contra os abusos deste Governador, Ião 
fortemente satyrisado nas Cartas Chilenas, • 
obra esta cuja composiçio cremos nfto seria 
«stranha ao mesmo Alvarenga Peixoto, aind» 
suppondo que oSo tivera nella parte. Do no- 
me Dirceu, pastoril de G^^njtaga^ Saz-se nellas 
raençSò como amigo do autor ; lambem se faz 
referencia a um chimico, que talvez seria o 
Maciel, de que adiante faremos menção, e a 
um veUio jurista, ete. — A crítica litteraria «ó 
por si difficilmente poderá resolver qual dos 
lilteratos que estavam em Minas seria propria- 
mente o autor das taes cartas salyricas. De- 
via ser pessoa versada na jurispi*iideucia, amigo 
de Gonzaga, de instrucçSo variada e gramie 
facilidade de metrificar. AJ^m disso parece que 
havia estado em Portugal ; e qiie era autor 
recomneadado por seus escri|>4oft. Esla uHima 
circnmstancia parece deduzir-se dos doi» se- 
guintes versos de uma epistola que preeede as 

* Si depeit de lev oimIm vcms 4st« «0in|K>aiçS<»> e da 
«abre elle medilar, é qoe «hegimot • deicnbrir qne «e 
ceferia a am govenador de Minas, e nÍo do Rio, como 
a principio imaginamos. Dado este passo, o maicar a 
4poca e apontar a pessoa do satyiisado fanfarrio, ji nio 
otterecia taata difficuldade. Cmrtks mineiras lhes podemos 
lioje ck^mar, visto qae já nio éaecessario o disfarce. Até- 
Minãt e ViVa Rica entram no Terso eom o mesmo metro, 
de Chilt e Santiago. 



3.66 TLOBILEGIO. 

Cartas, a qual no geral do esijia parece se^ de 
Goozaga : 

a Que teus eicriptos de nma idade a outra 
PaiaarSo teoipre de esplendor cingidos. » 

Dois poetas havia então em Minas em quem 
se davam todas. estas eondiçdes: o de que ora 
nos occupftmos, e Cláudio cuja affei^o por 
Gonzaga fizemos sentir na sua biografia. A sa- 
tyra de que tratámos é inferior ás obras que 
conhecemos de um e ontro : no estylo ha re- 
dundâncias e nos verbos repetições de mau 
gosto, e ás vezes expKMOes menos decorosas 
que desdizem da alma maviosa de Cláudio^ e 
da lyra enthusiasta de Alvarenga Peixoto. Com 
tudo alam de que ás vezes dorme o próprio 
Homero, e já nfto parece o mesmo, quem sabe 
se, visto que as taes cartas não deviam ser 
impressas, quereria também o autor sair-se do 
serio para 

« Refocilar a lassa hamanidade. » * 

O certo é que as taes Cartas Chilena» são 
o corpo de delicto do orgulhoso Cunha tte Me- 
nezes ; ao passo que o desgoverno d^ste foi 

* Devendo dar trecho* dessas Cartat Chiltnãs nesta 
eollecçlo de poesias braiileiraSy preferimos oollocal><M 
onde ^90; consenrando-lhes o psendoajmo Crítillo por 
escrínio; se bem que a analogia no nso de aignmas 
frases como AMigutto'for Soberano, e o amor • eeitat 
comparkfSes verbi gratia da raça dos homens com a dos 
leSes, etc. qne vemot nas obrai anthenticas de Alra- 
penga Peixoà), comecem a abalav-oos a faror de <f»e 
hf\a elle o tal CritiMò, 



ALYARBffOA PBItOTO. ^B7 

taWes a orígem da primeira fersestaçi* era 
Minas que leroii o poTo á conpiraeSo que de- 
pois se descobriu. Qneizava-ie o povo de Ca- 
nha de Menetes, e mal sabia se seguiria o Caso 
da fabula qoe no seu snccessor eacontrartam 
alguns o seu ilagello ! 

No tempo de Meneies tinba-te dito : 

« Q«c « Inunant^de enfim deta^pravada ' 
Da* injáriat qoe «offre ; por fcco braf o 
Os ferro» soltará, que detafroaxa 
Tintos de fresco gotejado langue, n 

Á chegada de Barbacena correu a noticia 
de que ia elle forçar o pagamento de setecen- 
tas arrobas d'oiro, que Minas deyia á coroa 
segundo a capitação. — Em vários circulot se 
tratou da impossibilidade de se annuir a taes 
ordens, e o direito natural lembrou logo os 
recursos que havia para a resistência. . . 

Os Estados Unidos haviam sido felites con- 
tra^ a metrópole : o chimico José Alves Maciel, 
que voltava de estudar em ^França onde vira 
os princípios da revoluçSo/ jalgava encontrar 
em Minas recursos bastantes para snitep^e ; o 
seu cunhado Freire de Andrade, comraandante 
da infanteria, deixouse convencer; e o nosso 
poeta Alvarenga Peixoto, vendo ensejo favo- 
rável de realisar as suas ideas de formar-se um 
governo no Brasil, enthusiasmou-se : improvisou 
togo a bandeira para o novo estado e, propoz as 
providencias que se deviam adoptar para crear 
partido e para resistir á guerra, na qual elle 
estaria á frente do seu regimento. 



370 FLORILÉGIO. 

Rompam o instável sulco 
Do pacífico mar na face plana 
Os galeões pezados de Acapulco. 

Das serras da Araucana 
Desçam nações confusas -differentes 
A vir beijar a mão da, soberana» 

Chegai, chegai contentes, 
N3o temaes dos Píssarros a fereza, 
Nem dos seus companheiros insolentes- 

A, augusta portuguesa 
Conquista corações, em todos ama 
O soberano autor da natureza. 

Por seus filhos tos chama,, 
Vem pôr o termo á nossa desventura, 
E os seus favores sobre nds derrama. 

Se o Rio de Janeiro 
Só a glória de ver-vos merecesse, 
Já era vosso o mundo novo inteiro. 

Eu fico que estendesse 
Do Cabo ao mar pacifico as medidas, 
E por fora da Havana as recolhesse. 

Ficavam incluídas 
As terras, que vos foram consagmdas, 
Apenas por Vespucio conhecidas. 

As cascas enroladas 
Os aromas, e os indicos effeitos, 
Poderão mais que as serras prateadas. 

Mas nós de amor augeitos 
Promptos vos ofertamos á conquista 
Bárbaros braços, e constantes peitos. 



V 



ALVABEITGA PIIIOTO. , 371 

Pode a Tartaría grega 
A luz goiar da ruasiana aurora ; 
E a niSs esta fortoiía nSo nos chega } 

Vinde, real senhora, 
Honrar os vossos nares por dois meie». 
Vinde ver o Brasil, que vos. adora. 

Noronhas e Menezes, 
Cunhas, Castros, Almeidas, Silvas, Mellos, 
Tém prendido o leSo por muitas vetes. 

Fiai os reaes sellos 
A mãos seguras, vinda descançada, 
De que servem dois grandes Vasconcellos ^ / 

Vinde a ser coroada 
Sobre a America toda, que protesta 
Jurar nas vossas mSos a lei sagrada. 

Vai, ardente desejo, 
Entra humilhado na real Lisboa, 
Sem ser sentido do invejoso Tejo : 

Aos pés augustos vôa, 
Chora, e fase que a m2i compadecida. 
Dos saudosos filhos se eondda. 

Ficando enternecida. 
Mais do Tejo nâo temas o rigor. 
Tens triumphado, tens a ac^o vencida. 

Da America o furor 
Perdoai, grande augusta ; é lealdade, 
*SSo dignos de perdão crimes de amor. 

Perdoe a magestade. 
Em quanto o mundo novo sacrifica 
A tutelar propicia divindade : 



372 FLORILÉGIO.. 

O príncipe 43agvado 
No p3o de pedra, qae domina a barra 
Em colossal estádia levantado, 

. Veja a tri forme garra 
Quebrar*lbe aos pés Neptuno furioso, 
:Que o irritado Sudoeste esbarra ; 

E veja glorioso 
'Yastissima extensão -de immensos mares, 
Que cerca o seu império magestoso : 

Honrando nos altares 
A mao, que o Un ver de tanta altura 
Ambos os mundos seus, ambos os.mares^ 

, E a f é mais. santa e pura. 
•Espalhada nos bárbaros desertos, 
.Conservada por vós :firme csegura. 

Sombra illnetre e famosa 
Do grande fundador do luso império, 
Eterna paz, eternamente goza. 

N*um e n*outro hemispberio 
Tu \éa 08 teus augustos descendenles 
Dar as leis pela voz do ministério : 

£ os povos differentes, 
jQue é impossível quasi ennumeral-os, 
Que vem a Iributar-lfaes -obedientes ; 

A honra de mandal-os, 
Pedem ao neto glorioso teu ; 
Que adoram rei, que serviram vassallos. 

O Índio o pé bateu, 
Tremeu a terra, ouvi trovões, vi raios, 
.E de repente desappareceu. 



ALVARBKGA PBIXOrO, S7; 



Ao na«cimeiilo do. filho do Goreraador D. Rodrigo. 



Bárbaros filhos destas brenhas duras, 
Nunca mais recordeis os males vossos ; 
Revolfam-se no horror das sepulturas 
Dos primeiros av6p os frios ossos : 
Os heroes das mais alias cataduras 
Principiam a ser patrícios nossos ; 
£ T0860 sangue, que esta ferra ensiSpa, 
Já produz fructos do melhor da Europa. 

Bem que venha a semente a terra estranha, 
Quando produz, com igual fÔr^ gera, 
Nem do forte lefto fora de Hespanha, 
A fereza nos filhos degenera ; 
O que o estio em umas terras ganha, 
Nas outras vence a fresca primavera, 
A raça dos heroes da mesma sorte, 
Produz no sul, o que produaio no norte. 

Rómulo por ventura foi romano ? 
£ Roma a quem deveu tanta grandeza ! 
O grande Henri<)ne era lusitano? 
Quem deu princípio á glória portagueza ? 
Qne importa que Joaé americano 
Traga a honra, ^ virtude e a fortaleza 
De altos e antigos troncos portngueze» 
Se é patrício este ramo do» Menezes ? 



374 FLORILÉGIO.' 

Quando algum dia permittir o fado 
^ue elle o maodo real moderar ^eDbaf 
£ que o bastão do pae com glória herdado 
No pulso invicto pendurado tenha, 
Qual esperaes que seja o seu agrado ? 
Vós experimentareis como se empenha 
Em louvar estas serras e e^tes ares, 
Em venenar gostoso os pátrios lares. 

Esses partidos morros e escalvados» 
Que enchem de horror a vista delicada, 
Em soberbos palácios levantados 
Desde os primeiros annos empregada. 
Negros e extensos bosques tão fechados, 
Que até ao mesmo sol negam a entrada, 
E do agreste pais habitadores 
Bárbaros homens de diversas cores, 

Isto que Europa barbaria chama, 
Do seio' de delicias tão diverso, 
Quão differente é para quem ama 
Os ternos laços do seu pátrio berço ! 
O pastor loiro, que roeu peito inflama. 
Dará novos alentos ao roeu verso, 
Para mostrar do nosso heroe na bocca 
Como em grandezas tanto horror se troca. 

Aquellas serras, na aparência feias, 
Dirá José, oh quanto são formosas ! 
Elias conservam nas occultas veias 
A força das potencias magestosas ; 
Tem as ricas entranhas todas cheias 
De prata e oiro e pedras preciosas ; 
Aquellas brutas escalvadas terras 
Fazem as patês, dão calor ás guerras. 



ALTABENOA rSUOTO« 37 S 

Aquellet morrcMT negros e fediaclot, 
Que occupam quati a regifto dos ares, 
São 08 que em ediOcíos respeitados 
Repartem raios pelos crespos mares. 
Os corinlhios palácios levaotados, • 
Dóricos templos, jouicos altares. 
SSo obras feitas desses lenhos duros, 
Filhos desses sertdes feios e escuros. 

IA coroa d'oiro, que na testa brilha, 
£ o sceptro, que empunha oa mão justa 
Do augusto José a heróica filha, 
Nossa rainha soberana augusta, 
£ Lisboa de Suropa maravilha, 
Cuja riquesa a todo o mundo assusta, 
£slas terras a fazem respeitada, 
Barbara terra, mas abençada. 

Esses homens de vários accideotes 
Pardos e pretos, tintos e tostados. ^ 

São os escravos duros e valentes, 
Aos penoeos serviços costumados : 
EUes mudam aos rios as correntes, 
Rasgam as serras, tendo sempre armados 
Da pesada alavanca e duro malho 
Os fortes hraçoa feitos ao trabalho. 

Por veotuiat ienhores, pôde tanto 
O grande beroe, que a antiguidade acclama. 
Porque aterrou a fera de erimaato, 
Venceu a hydra eom o ferro e chaínma ? 
Ou esse a qaem da ti)ba grega o canto 
Fei digno de, immortal eterna fama ? 
Ou inda o macedonico guerreiro, 
Que soube subjugar o mundo inteiro ^ 



376 FLOIàlLEGIO. 

Eu SÓ pondero, que essa força armada 
Debaixo de acertados inovimeotos. 
Foi sempre uma com oatra disputada 
Com fins corre»pòndeotes aos ioteotos, 
Isto' que tem ca*a força disparada 
Contra todo o poder dos elementos, 
Que bate a forma da terrestre esfera 
Apesar de uma vida a mais austera. 

Se o justo e • útil pôde tão somente 
Ser acertado fim das acções nossas, 
Quaes se empregam, disei, mais dignamente 
As forças destes ou as forças vossas ? 
Mandam a destruir a humana gente 
Terriveís legiões, armadas grossas : 
Procurar o metal,, que acode a tudo, 
É destes homens o cansado estudo : 

São dignas de attenção. . . ia disendo 
A tempo que chegava o ve}ho honrado. 
Que o povo reverente vem beniendo 
Do grande Pedro com o poder sagrado ; 
E já o nosso heroe nos braços tendo, 
O breve instante em que ficou «alado, 
De amor em ternas lagrimas desfeito 
Estas vozes tirou do amante peito. 

Filho, que assim te falo, filho amado, 
Bem que um throno real teu berço enlaça, 
Porque foste por mim regenerado 
Nas puras fontes de primeira graça : 
Deves o nascimento ao pai honrado, 
B(as eu de Christo te alistei na praça ; 
Estas mãos por favor de um Deus superno 
Te restaurarão do poder do inferno. 



ALVABBRGi HEIIOTO. 877 

Amado filho mea, torna a iBeoi braços. 
Permitia o eeo, que a goveriiar proaígaa. 
Seguindo sempre de teu pai os passos. 
Honrando algamas paternaes fadigas 
N3o receio que encontres embaraços, 
pDf onde quer que o teu destiòo sigas, 
Que clle pisou |)or todas estas terras 
Mato4, rios, sertões, morros a serras 

Vsleroso, incansaTel, diligente 
Do serfiço real, promoveu tudo. 
Já nos paises do Pori valente, 
Já nos bosques do bruto Buticndo, 
Sentiram todos sua mio prudepte 
Sempre debaixo de acertado estudo, 
E quantos viram seu sereno rosto 
Lhe obedeceram poriamor e por gosto. 

Assim confio o teu destino seja 
Servindo a pátria e augmentaado o estado, 
Zelando a honra da romana igreja. 
Exemplo illustre de teus pais herdado ; 
Permitia o ceo, que eu felismente veja 
Quanto espero de ti desempenhado, 
Assim contente acabarei meus dias, 
Til honrarás as minhas cimas frias. 

Acabou de faiar o honrado velho, 
Com lagrimas as vozes misturando ; 
Ouviu o nosso heroe o seu conselho 
No?o8 projectos sobre os seus formando. 
Propagar as doutrinas do evangelho, 
Ir aos patrícios seus civilitaodo, ^ 
Augmentar os thesoiros da reinante, 
Sâo seus disvelos donde aquelle inalant»*. ^ 



378 FLORILRGIO. 

Feliz governo, queira o ceo saõrado 
Que eu chegfoe a ver esse ditoso dia, 
Em que nos torne o século doirado 
Dos tempos de Rodrig^o e de Maria ; 
Século, que será sempre lembrado 
Nos instantes de gosto é de alegria. 
Até os tempos, que o destino encerra ^ 
De governar José a pátria terra. 



Retfato de Aoarda. 



A minha Anarda 
Vou retratar, 
Se a tanto a arte 
Poder chegar. 

Trasei<*me, amores, 
Quanto vos peço, 
Tudo careço 
Pára a pintar. 
Nos longos fios 
Dos seus cabellos*, 
Ternos disrellos 
Vâo-se enredar. 

Trazei-me, amores, 
Das minas d*oiro 
Rico (hesoiro 
Pára 08 piírtar. 



VLYABBNOA PIIXOTO »'» 

No rosto a idade 
Da primavera, 
Na sua esphera 
Se Té brilhar. 

Traiei-me, amores, 
As mais viçosas 
Flores vistosas 
Pára o pintar 
Quem ha que a testa 
Não ame e tema, 
De om diadema 
Digno lograr? . 

Trazei-me, amores, 
Da silva idalia 
Jasmins de Itália 
Pára a pintar. 
A frente adornam 
Arcos perfeitos, 
Que de mit peitos 
Sabem triumphar. 

Traiei-me, amores, 
Justos niveist 
Subtis pincéis, 
Pára a pintar. 
A' um doce aceno 
Settas a molhos 
Dos brancos olhos 
Se vêm voar. 

Trasei-me, amores. 
Do sol os raios, 
. Fieis ensaios 
Pára os pintar 



580 FLOfilLEOIO' 

' Nas ViSM faces 
Se vd a aurora, 
' Quando col<$ra 
A lerra e o mar. 

Trazei-me, amores, 
As mais mimosas 
Padicas rozas 
Pâm as piotar 
. Os meigos risos 
Com graças noras 
Nas lindas covas 
VSi<»-3e fljiintar. 
N Trazei-tnp, amores, 

Os pincéis leves^ 
As sombras breves 
Pára os pintar. 
Vagos desejos 
Da bocca as brasas 
As frágeis azas 
Deixam queimar. 

Trazei-me. amores 
Coraes subidos, 
Robias polidos 
Pára as pintar, 
£ntr'aUo8 dentes 
Postos em ála 
Suave fala 
Perfuma o ar. 

Tratei^me, amores, 
Nas condias claras 
Pérolas raras 
Pára 08 pintar. 



ALVABBNGA PEIXOTO Sftl 

O corio, atlante 
De taes assombrog. 
Airosos hombros 
Corre a formar 

Tra»ei-inc», amores, 
Jatpe a m&ig cheias, 
Oe Qatm veia* 
Pára o pintar. 
Do peito as ondas 
São tempestades, 
Oode a s vontades 
Vâo uaufragar. 

Traiei*me amores. 
Globos gelados, 
LimÒes aevados • 
Pára o pintar. 
Afãos cristalinas, 
Roliços braços. 
Que doce» laços, 
Promeltem dar. 

Traseí-me, amores, 
As assucenas, 
Das mais pequenas 
Pára as pintar. 
A delicada. 
Gentil cintura, 
Toda se apura 
Em se estreitar. 

Tracei me, amores, 
Anciãs, qae fervem, 
So ellas servem 
Pára a pintar. 



«"(82 FLomuieio. 

Pés delicados 
Ferindo a terra, 
As almas guerra 
Vem declarar. 

Trasei-me, amores, 
As seitas promptas 
De duras pontas 
Pára os pintar. 
Porte de deosa 
Espirito nobre, 
E o mais, qu*encobre 
Fin9 aventai 

Só v6s, amores, 
Que as graças nuas . 
Vedes, as suas 
Podeis pintar. 



Conselhos a seas filbos. * 

Meninos, eu vou diotar 
As regras do bem viver , 
Não basta somente ler, 
É preciso ponderar, 
Que a lição nSo fax saber, 
Qnem faz sábios é o pensar. 

Neste tormentoso mar 
D*ondas de contradicções, 
Ninguém soletre feições, 
Que sempre se ha de enganar ; 
pe caras a corações 
Á muitas legoas que andar. 

* CnsU-nos a crer cpie sejam d« Alvarenga Peiíolo 
tanto estas sextilhas como apoesiaqncse segnefOianAo.) 



ALT ARENGA FBUOTO. S85 

Applicai ao cooTenar 
To()o8 o8 cinco sentido», 
Que af paredes tôm ooridos, 
E também podem faltar : 
Ha bizinhos escondidos, 
Que 8<$ vivem de escuta/. 

Queni quer males evitar 
Evite-lhe a occasiio. 
Que os males por si vtr&o, 
Sem ninguém os procurar; 
E antes que ronque o traTÍo, 
Manda a prudência ferrar. 

Não vos daixeies enganar 
Por amigos, nem amigas ; 
Rapazes e raparigas 
Não sabem mais, que asnear ; 
Ag conversas, e as intrigas 
Servem de precipitar. 

Sempre vos deveis guiar 
Pelos antigos contelhos, 
Que dizem, que ratos velhos 
^ão ha modo de os caçar : 
Não liatam ferros verinelhos, 
Deixem um pouco esfriar. 

Se é tempo de professar 
De taful o quarto voto. 
Procurai capote roto 
Pé de banco de um brilhar. 
Que seja sábio piloto 
Nas regras de calcular. 



'84 FLOBILBGIO. 

Se vos mandarem chamar 
Pára ver uma faneco, 
Respondei sempre que nSo, 
' Que tendes em que cuidai' : 
Assim te entende o rífSo 
Quem está bem. deixa-se estar* 

Deveis-vos acautelar 
£m jogos de paro e topo, 
Promptos em passar o copo 
Naii angolÍDas*do azar: 
Taes as fábulas de Esopo, 
Que \6ê deveis estudar. 

Quem fala, escreve no ar, 
Sem pôr virgulas nem pontos, 
E pôde quem conta os contos. 
Mil pontos accrescentar ; 
Fica um rebanho de tontos 
Sem nenhum adivinhar. 

Com Deus e o rei não brincar, 
É servir e oliedecer, 
Amar por muito temer 
Más temer por muito amar, 
Santo temor de offender 
A quem se deve adorar ! 

Até aqui pode bastar, 
Mais havia que dicer; 
Blâs eu tenho que fazer, 
Nfto me posso demorar, 
E quem sabe discorrer 
Pôde o resto adivinhar. 



ALVAIlKnEGA PlíUOTO. Sft*'^ 



O SmIio. 

Oh que sonho ! oh que soabo eu tive ii*eita 
Felis, dilosa e loeegada sérta ? 
Eu Ti o Pio de AtMicar levanta r-se 
£ no meio das ondas Iraatfonnar-se 
Na figura de uui índio o mais gentil, 
Representando só todo o Bratil. 
Pendente ao líracol de branco arniabo 
Concavo dente de animal marinho 
As preciosas aruMs lhe guardava ; 
Era Ihesoiro e jantamenle aljava. 
De pontas de diamante eram as «elas, 
As hásteas d*oiro, mas as pennas preta» ; 
Que o Índio valeroso altivo e Torte 
N&o manda seta, em que não mande a morte, 
Zona de pennas de vistosas cdres 
Guarnecida de bárbaros lavores. 
De folhetas e pérolas pendentes. 
Finos rhrystais, topaiios transparentes, " 
Em recamadas pelles de sahiras 
Rubins, e diamantes e saphíras, 
Em campo de esmeralda escurecia 
A linda estrella, que nos trai o dia. 
No cocar. . . oh que assombro ! oh que riqiieia I 
Vi tudo quanto pôde a natureza. 
No peito em grandes letras de diamante 
O nome da augustissima imperante. 
De inteiriço coral novo instrumento 
4ls ndbDs Uic occupa, em quanto ao doce accenlo 



5B6 FLORILÉGIO. 

Da§ saudosas palhetas, que afinava, 
Pindaro americano assim cantava. 

Son vassallo e 40\\ leal, 

Como tal, 

Fiel conslante, 
Sirvo á glória da imperante. 
Sirvo á grandeza real. 
Aos elysio» descerei 
Fiel sempre a Portugal, 
Ao famoso vifie«rei. 
Ao illustre general, 
Ás bandeiras, que jurei. 
Insultando, o fado e a sorte, 
E a fortuna desaguai, 
Qtt*a quero morrer sabe, a morte 
Nom é morte, nem é mal. 



388 FLORILÉGIO. 



Despedida de Fileno a Niic, por Cláudio. 

Adeiií, Ídolo amado, 
Adeui ; que o meu destino 
Me leva peregrino 
A nâo te ver jamais. 

Sei, que é tormento ingrato 
Deixar teu fino trato : 
Más quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 

Tu ficas ; eu me ausento ; 
E nesta despedida 
Se não se acaba a vida, 
É sò por mais penar. 

De tanto mal, e tanto 
AUítío é só o pranto : 
Mâs quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar I 



Quantas memórias, quautas 


Agora despertando, 


Me vem acompanhando 


Por mais me atormentar I 


Faria o esquecimento 


Menor o meu tormento : 


Mas quando é, que tú viste 


Ura triste i 


Respirar ! 



SMpotU úm Hite a FtlaaoyfO 

Em vão, Fileno «BMido, 
Accnias ten deiliao ; 
Se foget peregrino, 
Por me nío ver jánaif . 

VÍ8te-ne, falto, ingmto, 
Vxtwà. a teu doce trato: 
E ta, que awim me %isCe, 
Partíale 
A respirar ! 

Disias : eu me ausento. 
F(fi esta a despedida. 
Qoe toda a minha ▼!()» 
Me ba de faier penar. 
Entre martírio tanto 
Eu me desflf em pranto : 
E tu, q«e assim me viste, 
Partiste 
A respirar! 

Oh quantas vezes, quantas 
Do somno despertando, 
Te vou acompanhando, 
Por nSo me atormentar \ 
NSo ha esquecimento, 
Que abrande o meu tormento : 
E tu, que astiin me vifle, 
Ptortiste 
A respirar ! 

• Veja a aoU da pag. 364.— E»ta »«•?••*' !*«V 
na» quatro «egaintes paginas impares, e a A*f»e**a *• 
Cláudio naa paies. 



Qinmdo esta montanha, 
Oint1ki«»«itoVTV«ild6. • 
Aonde amor ieeeiíd» 
Seu doce enredo citá. 

Aqui me occoireA foiít^. 
Alli mè lembxa. oi Jnooie : 
Mâs quando «, que tu viste 
Um triste 
RespiTa». ! 



Sentado junto ao rio 
Me lembro, fiel pastora, 

Daquella feliz bora. 
Que n*alma impressa está. 

Que triste eu linha estado, 
Ao ver teu rosto ihtdo! 
Mfts quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



De Filis, de JUsarda, 
Aqui entre desveleis* • 
Me pede aniiiiitBt.neioft 
A causa de mau. Mal. 

Alegre oi mu aemlitante 

Se muda a.«ida 4iisliAle : . 

Mfls quando é, que tiivkite 

Um triste 

Respirar ! 



Etmt^STC. >•* 



No prado, e na montante, 
Saudosa lioje estou rendo 
O eogano, que tctteado 
A minha láéa está. 

Baixei comtigo á fonte, 
Snbi comtigo ao monte : 
E to, que assim nte viste. 
Partiste 
A respirar! 



Ao som do manso rio, 
Niie, fiel pastora. 
Chorando a toda a hora 
A toa ausência está. 

Afflícta neste estado 
Aceuso o ceo irado : 
E tu, que assim me viste. 
Partiste 
A Respirar! 



Neto Filis, nem Litarda, 
Que foram tens desvelos, 
Me podem já- dar selos. 
Nem já me faaem mnl. 

S<S teu cruel semblante 
Me lembra a cada instante : 
E tu, que assim me viste. 
Partiste 
▲ respirar 1 



39 S FbQRIL«fiÍO. 

Aqui colhendo flore;: 
Mimosa a niipfa cara, 
Um ramo me prepara ; . 
Talves por me agradar : 
Aoarda alli se agasta ; 
Dalíso aqui se ai&sta : 
Mfti quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



Tudo isto na memória 
(ph barbara crueldade ! ) 
Á força da saudade 
Amor me pinta já. 

Rendido desfaleço 
De tanta dor no excesso : 
Más quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



O mais, que augmenta a mágoa, 
É ter sempre o receio, 
De que outro amado enteio 
Teu peito encontrará. 

Amante nos teus braços, 
Quem sabe^ se outros laços. . I 
Mâs quando é,. que tu viste 
Um triste 
Respirar I 



EVBUTB. S9S 



T 



Fileiío as bdlaf florei 
A Hize amada e cara, 
Já aurora nSo prepara ; 
lá Dão quer agradar. 

Comigo aaior le agasta ; 
O meu pastor se affasta : 
£ tu, que assim me viste, 
Partiste 
A respirar. 



Conservo db memória 
A tua crueldade ; 
Nem sei, como a saudade 
Me não tem morta já. 

Mas ali ! que desfaleço , 
Chorando em tal excesso : 
G tu, que assim me viste 
Partiste 
A respirar ! 



Crescendo a minha mágoa, 
Se augmenta o meu receio; 
Que entregue a novo enleio 
Talvez te encontrará. 

Que vetes nos meus braços 
Eu le formei os laços ! 
E tu, que assim me viste, 
Partiste 
A respirar ! 



Por onde ^^er^ %f^ gires, 
Desta alma, que je i^dpra, 
Ah lembra-te, pc^stoca, 
Qne já te soube amar. 

Verás em men t^rmeo^p 
Perpétuo o sentimento. , 
Mas quando é, que tu viste 
Hm triste 
Respirar ! 



Lá desde o meu de&terro ; 
Verás, que esta corrente 
Te vem faaer presente 
A anciã de meu mai. 

Verás, que em meu retiro 
Só gemo, só suspiro : 
Mâs quando é, que tu viste 
Um triste 
, Respirar ! 

As ninfas, q^e se escondem 
Lá dentro do s^u seio. 
De meu querido enleio 
O nome hâo de escutar. 

No bem desta lembrança 
Allivio a alma alcança : 
Más quando é, que tu viste 

Um triste 

Respirar I 



V€»E»e. »•» 



Pér ma», <|Me attteale giiM 
De Níie, que te adora, 
N&o liai de aéhár pailora, 
Que toais te n!bft aibar. 

Ve tieiii, a qbe tònnento 
Me obrí^ o fentinieiilD : 
E tu. que atiiiA me riite, 
Partiste 
A respirar f 



Aqui posla em destSrra, 
Ao Bum desta corrente, 
Sempre terei prtfteéte 
A cansa de meu mal. 

E tu nesae relíro 
Despresas meii Huspiro -. 
E tu, t|ue assim me visie, 
ParliMe 
A respirar l 



Até <l<* mira se escondem 
As ninfas no sen seio ; 
Pois teu fingido enleio 
Não querem escutar. 

E nem étHà lembrança 
Sequer minba Mima aléança 
E tu, que aisim me viste, 
Partiste 
A respirar ! 



396 F10A1LII61O. 

Ah! De?a-te meu pranto 
Em tSo fatal delírio, 
Qne pag^uef meu martyrío 
Em premio de amor tal. 

Mereça um mal sem cura 
Lograr esta ventura : 
Hfti quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



E se por fim, pastora, 
Duvidas de minha ância, 
Se em ti n2o á eonstanoia, 
BOnl^i alma o vingará. 

Farei, que o ceo se abrande 
Aos ais de uma ância grande : 
MAs quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



Terás ^u minha pena. 
Com passo vigilante, 
A minha sombra errante, 
Sem nunca te deixar. 

Terás. . . ah bello emprego ! 
Nfto temas : eu socégo : 
Mâs quando é, que tu viste 
Um triste 
Respirar ! 



BCflBSTE. S97 



CottlMço, qoB O aea praiKo 
PluMU a ler delírio : 
PoU meu crael martyrio 
Cbega a extremo tal. 

Mfts como ha de ler cura, 
Quem naice tem Teotura } 
E 111, que Bisã\fa me vMle, 
Partiste 
A respirar l 



Talves outra pastora , 
Zombando de tua âoeia, 
Da falta de constaDcia 
Em li me vingará. 

Mal feílo^ que se abrande ^ 
Vendo rigor tào grande : 
E tu, que assim me viste, 
Partiste 
A respirar! 



Verás na minha pena, 
Que sempre vigilante, 
Por todo o campo errante, 
Jamais te hei de deixar. 

E tu. . . ah louco emprego 
De quem n2o tem socégo! 
E tu, que assim me viste. 
Partiste 
A respirar ! 



3ea FLOR 11. CG 10. 



Kxcerptoi tias Cartas ChHenas. * 
DescripçSo d'unias feitas eui Villa Rica. 

Chegou á noasa Chile a dooe oova 
De que real infaate reeebéca 
Bem digna do seu leito casla eípôsa. 
Reveste-se o bachá de «emo aleg^, 
E pára bem fartar os seus desejos, 
Quer que ás expensas do senado e povo 
Arda em grandes festins a terra toda. 
E28creve-8e ao senado extensa carta 
Em ar de magestade, em phfase moira, 
E nella se lhe ordena que prepare 
Ao gosto das Hespanhas, l>ravos toiros. 
Ordena-se também qae nos theatros 
Os três mais bellos dramas se «slropiem, 
Repetidos por boccas de mulato» : 
Nfto esquecem emfim as cavalhadas 
S<S fica, Dorotheu, no livre arbitriò 
Dos pobres camaristas repartirem 
Bilhetes de convite pelas damas. 
Amigo, Dorotheu, ah ! tu não podes 
Pezar o desconcerto desta carta. 
Em quanto não souberes a lei própria, 
Que aos festejo» reaes prescreve a norma. 

Em quanto, Dorotheu, a nossa Chile 
Em toda a parte tinha • flor da terra 
Extensas, almndantes minas d-oiro ; 
Em quanto os taberneiroB ajuntavam 
Immenso cabedal em poucos annos, 

* Veja pag S6». 



CBITILLO. 39» 

Sem terem bm taberoâs fedurcaCa» 

Outros mais sortimentos, que nlo fossem 

Os queijos, a cacluiça, o Rerro fnino, 

E sobre as prataleiras poucos fraseos : 

Em quanto emfim as negras fuiiMHiieirãi 

Á custa dos amigas mó trajavam 

Vermelhas capas, de palSes esbertas, 

De galacés e timus, ricas saias : 

Eatão, prelado amigo, em qualquer festa 

Tirava liberal o bem senado 

Dos cofres cbapei^dos grossas barras. 

Chegwam tacs dei>pesas á notícia 

Do rei prudente, que n virlude presa ; 

E vendo que ealas rendas se gastavam 

Em toiros, cavalbadaa, e eomédias> 

Applicar-se podendo a eoisas santas : 

Ordena pro«ida»te, que os senados 

Nos dias em que devem mostrar gosto 

Pelas reaes fortimas ae moderem, 

£ BÓ façam cantar nos templos os hymnos 

Com que se dSo aos oeos a» jnstas graças. 

Ah ! meu bom Dorçtheu, que fslis fora 

Esta vasta conquista, se os seus chefes 

Com as leis 4os monarchas se ajustaram ; 

Mâs alguns nSo presumem ser vassallos. 

Só julgam qne os decretos dos augustos 

Tem força de decretos» qnaudo ligam 

Os braços dos mais ^niens que cUeftmnndam, 

Mas nunca quando ligam os seus bcaçoi. 

Com esta fábin lei repiiea o^corfio 
Dos pobres senadores, e pundeia 
Que o severo juis que as contas toma, 
Nio lhes ha de approvar lào grandes gastos. 



á 



400 FLOBL£(ilO. 

Da Borle, Dorolheii, que o bravo potro 
Quando a sella recebe, a vei primeira, 
Em quanto não sacode a sejia fóre, 
E faz em dois pedaços selía e rédea ; 
Mette entre os dvos braços a cabeça, 
£ dá, saltando aoi ares, mil corcovos : 
Assim o irado chefe nfto atara 
O freio desta lei ; espama e brama, 
E em quanto entende que o senado seia 
Mais as leis que o seu gosto, n&o descança. 
Aos tristes senadores nfto responde, 
Más manda-lhes dizer que a nào fazerem 
Os pomposos festejo», se preparem 
I^ra serem os guardas dos forçados, 
Trocando as varas em chicote e relho. 

Mandam-se apregoar as grandes festas, 
Acompanha ao pregão luzida tropa 
De velhos senadores : estes trajam 
A modo cortesão, chapéos de pluaias ; 
Capas com bandas de vistosas sedas. 

Chega emfim, o dia suspirado, 
O dia do festejo ; todos correm 
Com rosto de alegria ao santo templo : 
Celebra o velho bispo a grande missa ; 
Porém o sábio chefe não lhe assiste 
Debaixo do espaldar ao lado esquerdo. 
Pára a tribuna sdbe, e alll se assenta. 
Uns dizem, Dorotheu, fugiu prudente. 
Por não ver assentados os padrecos 
Na Capei la maior- acima delle. 
Òs outros sabichÕes, que a causa indagam 
Discorrem, que o senado lhe devia 



GMTIUX). 401 

Erguer no pretbjterio docel bnaco. 
Em hoora de dle ler lugar-leMOte. 
Máfl eu oum Mies volOf nSo eooeordo, 
E julgo HÍToito, que a rasSo foi etta : 
Porque estando patente, e lendo potto 
O seu chapéo em cima da cadeira, 
Podéra dnridar-se te deiia 
O bUpo ler a mitra na cabeça. 

Acaboa>ae a fttncçSo : o notiu chefe 
A caaa com o bitpo se recolhe. 
A Dobreia da terra oe acom|>aaha 
Até qne montem a doirada sege. 
Aqui, meu Dorotheu, o chefe mostra 
O sen desembaraço, e o seu talento. 
Sò n'iima funeç&o destas ae conhece 
Quem tem andado terras, onde habitam 
Despidas dos abusos, sábias gentes. 
Vai passando por todos, sem qne abaixe 
A emproada cabeça ; qual mandante, 
Que passa pelo meio das âJeiras. 
Chega junto á êege, á sege sobe, 
E da parte direita toma assento. 
O bispo, o velho bispo atrai caminha 
£m ar de quem se teme da desfeita : 
Com passos vagarosos chega á sege, 
Encaixa na estril>eira o pé cançado. 
E duas veies por subir forceja. 
Acodem alguns padres respeitosos, 
E por baivo dos braços o sustentam : 
Enllo com mais alento o corpo move. 
Dá o terceiro arranco, o salto vence ; 
E sem poder soltar uma palavra. 
Ora vermelho, ora amarello fica 



46S FUOBILMIO. 

Do nogso F/arftrrih ao lado eM|iwrdo. 
Agora dirás ttt qoe bmto é ene ? 
Pôde haver nm lai homem, qne se atreva 
A pdr na sua sege ao seu prelado 
Da parte da bolça. Eu tal nfto creio. 
Amigo, Dorothen, estás mui ginJA» 
Já lá vfto 08 rançosos forraalarios, 
Que guardavam á risea os nossos velhos. 
Bm outro tempo, amigo, os homens sérios 
Na rua n&o andavam sem florete, 
Trasíam cabelleira gnrade, e branca, 
Nas mftos os seus cha)>eos ; agora, amigo, 
Os nossos próprios becas tem cabello ; 
Os grandes sem florete vfto- á missa, 
Com a chibata na mão, chapeo fincado, 
Na forma em que passeiam os caixeiros. 

' Ninguém antigamente se sentava 
Senilo'diteito{Mè gMVe nas caldeiras, 
Agora as WíiftiiM-daitilii iitravèssam 
As pernas sobre as-pev nns N*o«iiro tempo 
Ninguém se retirava dos amigos, * 

Sem que dissesse, -^ adeus — agora é moda 
Sahtrmos dos congressos em segredo ; 
Pois corre, 'Dorethctt, a paridade, 
Que os costumes se mtidan c*ob teMrpos. 
Se os antigos fidalgos sempre davam 

• O seu direito lado a qualquer padre^ 
Acabou-se esta moda« o nosso chefe 
Vindica os seus direitos : vé que o liispo 
É um grande, que foi ha pouco frade, 
E n2o p<kle hombrear com qnem deseenrlp ' 
De nm bravo paiãgSê, que sem di^ta 
Lá nos tempos de Adio já era irrande. 



CBfnUJO.- 4#3 

Ainda, Do9oliiea, m hugo earto 
Caretas iiSo bríoca? bm, m» w TÍan 
Nos rasos camarotes altas popas. 
Enfeites com que Insiram neteiss danas. 
Quando já no castello de madeiía 
As peças fuiilanim ; signal eerlo 
De que 9 nosso heroe e o velko b i s po 
No adornado palanque se sssentavsM : 
Agora dinis tu, é forle pressa ! 
Os chefes nos IheaUos entram sempre 
As horas de eorrer*se aein» o paano ; 
Amigo Derothett, to nunca viste 
Uma cresBça a quem a idÍí premette 
Leval-a a ver de tsrde algum» fesla^ 
Que logo de manhX á mSi persegne. 
Pedindo que lhe dispa os fatos velhos? 
Pois eis-aqui, amigo, o nosso diefe 
NSo quer perder ;de eslar easqfniha e teso 
No erguido camarote ura breve* instante. 

Chegam-se em fim as horas do festejo, 
Entra na praça a grande eometiva, 
Trasem os pagens as compridas lanças 
De fitas adornadas ( vem á dextra 
Os formosos giletes arfeados. 
Seguem-se os cavaHeiros, que eortnjsai 
Primeiro ao bruto chefe, logo aos outros^ 
Dividindo as fileiras. pelos lados, 
Não ha quem o cortejo não receba 
Em ar eiail e grato : só o chefe 
O corpo da cadenra não levanta 
Não abaixa a eabeça-; qual o dono 
Dos míseros escravos, quando juntos 
A benção vão pedir-Hie^ porque sejam 



MA FLOBILEGiO. 

Ajudadof de Dei» no seutrabaHiii. 

Feitas as cortesias do costume 
Os destros cavalteiros çalopeam 
Em circalos vistosos pelo campo ; 
Logo se formam em diversos corpos 
à maneira das tropas, que apresentam 
Sanguinoflas batalhas ; soam trompas, 
Soam os ataballes e fagotes, 
Os clarins, os boés e mais as fraiitas. 
O fogoso ginetes, as ventas abre, 
£ l)ate com as mãos na dura terra : 
Os dous mantenedores jú se avançam* 
Aqui, prexado amigo, aqui nSo lutam 
Como nos espectáculos romanos 
Com formosos ledes, malhados tigres. 
Os homens peito a peito e braço a braço. 
Jogam-se encontroadas, e se atiram 
Redondas alcancias, curtas cannas. 
De que o destro inimigo se defende 
Com fazel*as no ar em dous pedaços 
Ao fogo das pistolas se desfazem 
Nos postos as cabeças ; umas ficam 
Dos ferros traspassadas, outras voam 
Sacudidas das pontas das espadas. 
Airoso cavalleiro ao hombro encosta 
A lança no princípio da carreira. 
No ligeiro cavallo a espora bate; 
Desfai com mSo igual o ferro, e logo 
Que leva uma argolinha a rédea toma, 
E fas que o bruto pare. Dois coros 
Ap|ilaudem o successo, enchendo os ares 
De grata melodia. Então vaidoso 
Guiado de um padrinho ao chefe leva 



CBITILLO. 40» 

O signal da victúría que «efura 
Na dextra, arruda lança. O brnto cImA: 
Accetta a oflerla em ar de mageaUde, 
A maneira doi amofl quando tomam 
As coisas que Ibe dão os seus criados. 

Principiam ot toiros, e te aug^mcatam 
Do chefe as parvoíces. Manda á praça 
Sem rejrra, sem discurso e tem concerto. 
A^ora salie um toiro levantado 
Que ao máo capinim, sem fuftir espera : 
Acena-lhe o capinlia, elle recda 
£ atira com as mftos ao ar a terra. 
Acena-lhe o capinha novamente ; 
De novo raspa o chSo, e logo investe, 
Lá vai o máo capinha pelos ares ; 
Lá se estende na aréa, e o bravo toiro 
Lhe dá com o focinho um par de tombos ; 
Nem deixa de písal-o em quanto o néscio 
Não sfgue o meio de fingir-se morto. 
Meu esperto l>oisínho em pas se fica, 
Que o nosso chefe ordena te recolham 
Sem faseres mais sorte, e te reserva 
Pára ao curro sahires, quando forem 
Do Senhor do Bomfim as grandes festas. 
Agora sahe um toiro que é prudente, 
Se o capinha o procura logo foge, 
Os caretas lhe dão mil apupadas : 
Um lhe pega no rabo e o segura ; 
Outro intenta moutal-o ; e o grande chefe 
O deixa passear por largo espaço. 
Manda»lhe soltar os ci&es, manda melier-lhe 
As garroxas de fogo, que primeiro 



406 FLOBILEfilO. 

Que a pelle rompam cJo ligeiro briilo. 
Nos dextvos dedos do capinha estalan*^ 
Com estes máos festejos que aborrecem, 
Se gastam nuiitos dias. Já o povo 
Se cança deassistir na triste praça : 
E ao ver-se solitário, o bruto chefe 
Nos trata por insultos, mais ingratos. 

Soberbo e louco chefe, que proveito 
Tirastes em gastar em frias festas 
Immenso cal)edal. que o bom senado 
Devia consumir em coisas santas ! 
Suspiram pobres amas, e padecem 
Crianças innooentes, e tu podes 
Com rosto enxuto ver tamanhos males < 
Embora sacrifica ao próprio gosto 
As fortunas dos povos que governas : 
Virá dia em que mão robusta e santa, 
Depois de castigar-vos, se esconda 
E lance na fogueira as varas torpes. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA. 



T 



HOMAS António Goniaga, nait conhecido 
pelo acme de Dirceu, viu a Iiib, legnado auaa 
próprias declaraç0ei>, em 1747. 

Jo%o Bernardes Gonzaga sen pai, depois de 
legiiir cargos de magistratura na Bahia e Per- 
nambuco , foi despachado desembargador do 
Porto. Ignorámos as épocas em .que successtva<^ 
mente serviu nessas três cidades ; se os conhecês- 
semos, buscariamos onde se achava em 1747 a 
certidão de baptismo de seu mencionado filho 
Thomaz, a qual §6 nos dará o verdadeiro desen- 
gano acerca de sua terra natal ; sendo para nós 
insufiiciente a tal respeito o que consta da Uni- 
versidade de Coimbra. 

O primeiro facto biográfico incontroverso 
do poela Gonzaga, de que temos conhecimento, 
é o haver*se elle matriculado em Coimbra , 
como estudante da faculdade de leis, no dia 
I .® d'oiitubro de 1 763, aus dezeseis annos de 
idad%. Em 176tt parece que concluiu com as 
formaturas seus estudos universitários. 

Também tiog nslo jcabe dúvida que nSo foi 

R 



410 FLORILÉGIO. 

Minas a primeira provincia do Brasil onde vi- 
veu ; pois se lembra, diz : 

'da Bahia 

Onde pastei a flOr da miaba idade ; 

e nem se -esquece dds palitieiras e dos dois 
bairros em que era 

tt Partida • grt cidade, w 

Mas é tSo vaga para nós a expressSo ôeu flor 
da idade, «que nHo sabemos .« essa estada deve 
ter tido logar em companhia de seus pais antes 
de ir a Ck>imbra, ou se em algum primeiro poeto 
da carreira da magistralura depois de formar-se. 

Despachado ouvidor de Villa Rica, ignoráouNi 
em que anno, foi Gonzaga na Capital de Minas 
encontrar prkneiro os estímulos amorosos que o 
crearam poeta erótico, e depois a origem dos 
flagelloe de que foi viotima. Com effeito se por 
um kido lhe apparecei» a sua Marilia (D.> Maria 
Joaquina Dorothea do Seixas) que o inspirou a 
ponto de o tornar immortal, eaeuo mesmo tempo 
encontrou no fiel Glauceste (Cláudio) um amigo 
coniQ' raras vezes ha na terra ; depois as suas 
virtudes tanto o recommendaram que chegou-ae 
a crer que os mineiros o procbiraariam chefe 
d*uma conspiração que premeditaram, o que 
lhe promoveu a prisão e degredo em Africa, 
on^e falleoeu como veremos. 

Parece que o nosso poeta viveu ao princípio 
em Yilla Rica, alheie a aíTeiçdeB amorosas ; o 
que elle celebra quando já apaixonado por 
Marília, e vendo-se mui outro : 



THOMAZ ANTÓNIO 60NZAGA. 411 

Acato flto eitt» 
Os titios fonnosot 
Aoade pataai^n 
Ot annos ^tiotot ' 

A que o captivoíi era uma bella mineira cu- 
jas feições e prediradof elle eternifov em teus 
veraoB ; nem quiz que a posterioridade pocesse 
em questão a pátria daquella que era para 
eiie a fonle de toda a poesia : 

« Tu ibrniota MSrili» já fitettff 
Com teat olbot ditotat at caovpúiat 
Do tanro Ribeirto' eoi qtf« aátrêtle. o 

É verdade que Dirceu eonfes^ qiie já húica 
de conhecer Marília 

Seas versos alegre f 

Ali repetia : 

mas esses versos seriam provavelmente aquelles 
que depois enji^eitoii ptm nfto deverem faser 
parte da sua lyrica segundo nos maní festa : 



N^Bona aoile tocoAido 
Velbos papeis revoltia', 
E por ▼er 3e' qnétrMaVan 
Um por uni ■ todõt lià. 

Eram copiai emendadas, 
De qnantoe renoi melbore^ 
Eu compâf na teflra idade 
A meus diversos amOret. 

Aqui leio ja«tas qiíeixas 
Contra a ventdra formadas. 
Leio excessos mal acceitoc, 
Doces prOnieisas qaébiiadhs- 

K 



4lií FLOttItEGIO. 

Vendo tem-ratSe» Umankâ» 
Eu exclamo transportado : 
Qutfinttas t&o maljeiuu! 
Que tempo tão mal passado I 

Junto poi* n*nR' grande monte 
Ot solto» papeis, e logo, 
Pontue relíquias nio fiquem, 
Os intento pór no fogo. 

Então Trjo que o deus cégo 
Com semblante carregado 
Assim me fala, e crimina 
O men intento acertado : 

Queres queimar esses versos ? 
Dite, Pastor atrevido. 
Essas Lyras não te/oram 

Inspiradas por Cupido ? 

Achas que de toes amores 
NSo deve existir memória f 
Sepultando esses triunfos^ 
Não roubas a minha glória? 

Disse amor; e mil se calla^ 
Nos seus hombros a mSo pondo> 
Com um semblante sereno 
Assim á queixa respondo : 

Depois, amor, de me dares 
A minha MiariUa belfa. 
Devo guardar umas Lyras^ 
Que não são em honra delia ? 

O que importa^ amor, que importaf 
Que a estes papeis destrua ; 
Se he tua esta mão, que os ratga, 
Se a chommCf que os queima, t tua? 

Apenas amor me escuta 
Manda que os lance nas brasas v 
E ergue a chamma c'o vente, 
Que formou batendo as asas. 



THOM AZ ANTOXIO 60NIAI 

E aqui nos occorre uma idea, ^ 
pertença maii á critica litteraria do \|tie A bio- 
jl^rafia, n&o deizareiOM pára outra occatiSo. É 
mui poMÍTel qne a maior parte dat Ijrai que 
«e publicaram com o titulo de 3.^ Parte de 
suas poesias, e que sio estranhas ao romance 
amoroso de Marília e Direeu, e os bons crí- 
ticos tem regeitado em varias ediçòes * como 
espúrias, — é possivel, dizemos, que entre ellas 
haja várias legitimamente compostas por Oon- 
laga, mas do numero das|que elle dii ter en- 
geitado. De todas as lyras dessa chamada 3.* 
iParte a única que nSo é estranha ao romance 
é a seguinte, que nos dá o desfeixo delle pela 
despedida do poeta, que díi á sua Marília que 
▼ai (como succedeu) morrer no desterro sem 
a tornar a ver. 



* A ediçSo origin*! de Balbfles pttbiirada «ot, ca- 
dernos coBtinha §6 m I.* e 2.* parte. --A' 9.* te!ac- 
rrescentou pela I.' v«x ani 1800 uma parte S.* que te 
reimprimia na ediçlo nunesianna de 1803. -~At edi- 
ções da imprensa r^gia de 1 8 1 2 e da larerdina da 1 9 i t 
e 1318 dirigidas por critico» eonspicoo» nlo cootéai a 
-tal Z'* parte, o qae julg;lmos qne seguiu Sfi^a na Bahia 
em 1815. Posteriormente como o público «nttott a ter 
por menos completas «s^ss edições, a que presidia «d ra- 
soavel esctupulo, começaram os rditore^ a pnbUcar sem- 

Sre a 5.* parte, que *e encontra nas edições de BoUand 
e 1820, 1U27 e liMO-.n» âe 1824; nas de Í82S 
e 1828 de N'nnrs; na de 1B!^7 da réj^ia; bem como 
na de KiôS da Baliia, oa de lf^4(i do Rio de Janeiro. 
— •Ifenbuma obra «rm portugnez a nlo ter o CanOes tens 
tido mais ediçGes nestu século. Foi traduzida 'em francca 
pelo Sr. Moaglave e em italianno com todo o esmero pele 
Sr. Rasc^lla. 



/ 



14 FLOBILiEGJO. 

Leu-se-me cm 1>m a «entenç» 
Pela desgraça firmada ; 
Adea», Marília adorada, 
Vil- desterro vou soffrer. 

Au4«nte de ti, MacUia, 
Que farei? irei morrer- 

Qae vá para longes terras, 
Iniimarem-me «■ ouvi; 
"E a pena que entSo senti. 
Justos ceos ! o|^ sei diset* 

Ausente de ti, Marilii, 
Que farei ? irei morrer. 

Mil penas eston sentindo 
J)fi4r0,n>\fK4a „ e.pçr negpç^ 
yie está dizendo a 4e'f^'*Ç** 
^ue nunca n^âis t'hei'de ver. 
Ausente de ti, Marília, 
Que'f«Te«? irei morrer. 

Por deixar os pátrios lares, 
Píâo me fere o aentimento ; 
Porém snspirOt e lamçnto 
Por tSo ceoo te perder 

Anaente de ti, Marília, 
Qne farei ? irei morrer* 

Nlo slo as horas que perco^ 
Quem motiva a minha dor ; 
Ma» sim ver^ que o meu amor 
Kste fim havia de ter. 

Ausente de ti, Marilia, 
Qne farei ? irei morrer. 



A mSo do fado invejoso 
Vae qnebraiMlD em mil pedaços 
Os doces, suaves laços. 
Com qnc amor nos quis prender. 
Ausente de ti, Marilia, 
Que farei ? irei morrer. 



THOM AZ áNTOmO «ONZAG 1 . 4 1 «S ^ 

Da d«igraç«a lei fáttl 

Pôde de ti •eparar-me t 

Mas Baoca d^aloia tirar-me 

A gloria de te q«erer. 

AnMflte de ti» ManUa, 
Uei de aa)ac*te aitf aaonrer. 

Ao8 íelizei amores de Dircea é CdOiagradA 
a primeira parte da obra lyrica ; sfto trinta e 
sete odes anacreonticas em que o poeta felii 
com a sua estreita rende graças ao deus do 
amor por ibe haver concedido o l)em de mai» 
valia, 

• De tado quanto le cria 
Oa no* maret ca «a terra. • 

É uma nova kúitòria de ama paiiio «morosa 
que tegnia seu caminho natyrat, com todas as 
competentes declarações, requebros, esperanças, 
mas quasi «em ciúmas. —Ha por ahi remi- 
niscências do cantor de Teos * e mais poetas 
de tua escola. 

* Cf>inp8Te-ie da I.* parte a Ijr« 8.'' eom a de 
Anacreonte que cqr»teça- 

Ztt làt kiyuç rà ©íSt-ç, **lc. 

e ignalmeote «s teguintr» : 
ali.* com a 

O/Ai» kíyitw 'Kr^íèttç. elr. 
a 56 com « 

Fçcí^c fio< e.lc. 
e com a 



'Si 6 FLOItlLlSGIO. 

Outro tanto nfto succede na segunda parte 
que por um successo extraordinário vai dar 
originalidade ás composições do poeta. 

Gonzaga despachado desembargador para a 
Bahia, cuidava dos preparativos da partida, no 
número dos quaes entrava talvez a prévia uni&o 
á sua cara Marília, quando uma occorrencia 
extraordinária veio interromper sua felicidade. 
O capitão general de Minas, Visconde de Bar- 
bacena, foi informado que se tratava na pro- 
víncia de seu mando de uma conspiração, e 
que Gonzaga era a pessoa indigitada para chefe 
do novo estado independente. Foi então Gon- 
zaga preso e posto em segredo, quando Cláu- 
dio, Alvarenga Peixoto, e outros. 

Daqui por diante até partir para o degredo 
todas as penas, todas as queixas do amante 
infeliz, acham-se consignadas nos seus versos da 
^.^ parte. A leitura attenta desta pede fami- 
liarísar-nos mais com os sentimentos do poeta 
na prisão do que o faria talvez uma aulo-bio- 
grafia escripta depois. B por tal forma temos 
esta convicção que ora mesmo não ousámos dar 
um pas60 sem primeiro correr de novo os olhos 
pelas 38 lyras da fi.^ parte. 

Assim o acabámos de executar, e tal é a 
commoção de que nos sentimos ainda possuídos 
que nos treme a mão ao escrever estas linhas. 
Estamos profundamente convencidos de que 
Gonzaga foi martyr da prognosticada sedição, e 
que até era a ella inteiramente alheio. Assim o 
protestou bem solemnemente uos juizes, e com 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA. 417 

todo o vjgor d 'alma o protetta noe feus Tersos 
a 8Í mesmo, á sna Marília, eao mundo ! — Oo* 
çamol-o : 

u A ioiolente caldnaia depra vada 
£rga«a-te ceotra mim, vibrou <<la Ha^aa 
A v«»enoia espada, m 

Outra vez na lyra segui Qle : 

NSo has de ter horror, minha Marília, 
De tocar pulio, que tofireo o« ferrot ? 
Infame» impostores mos lançaram, 
£ nto pnniTeis etros. 

Esta mio, eita mio, que ré parece, 
Ah ! nio foi ama re»f nio foi tó nma, 
Qae, em defesa dos bens, qae sio do Estado, 
Voveo a. sábia pluma. 

ff 

£ certo, minha amada, sim é certo 
Que en aspirara a sor de nm sceptro o dono; 
Mas este grande império, que ea firmava. 
Tinha em teu peito o thtono. 

As fdrças, que se oppnnham, nio batiam 
Da grossa pe^a, e do mosquete os tiros; 
S^ eram minha» armas os soluyot. 
Os rogos, e os suspiros. 

De cuidados, desvelos, e finezas 
Formava, 6 minha bcUa, os meus g«erreiios : 
Não tinha ao meu campo estranhas tropas : 
Que amor nio quer parceiros. 

Mas pôde ainda vir um claro dia, 
£m que esias vis algemas, estes laços 
Se modi m em prisões de alivio cheias. 
Noa tens mimosos braços. 

Vaidoso entio direi : Eu sou monarca; 
D0U leiSf que è tnaiSf n*tun coração divino ; 
Alio que ergueo o giStto, e não a férça, 
É que é de apreço dino. 



41 « FLOaiLEGIO. 

{tf pAremos aiiida nos segninte^ verãos : 

Embora contra mim raivoso esgrima 
Da Til calilmnia a cortadora espada ; 
Uma «Ima, q«al em t«Uio» 
Nio »« recei» a Mtda^ 
En hei de, sim, p«mB«>Uie • ivaolencia, 
Pisar-llie o negro collo, abrir-lhe o peito 
Go*a« arma» inteneiveis da imiocencia. 

e nestes oiitioci: 

Tq Marilia, se OnTÍres 

Que ante o teu rosto aflicto 

O meu nome se ultraja 

Co snpposto djBficto 
Dice sevct-a assim em meu abono : 
Nio toma as armas contra nm sceptro jasto 

Alma digna de um tlirooo» 

Dá porém termúante prova ée soa nSo cum- 
plicidade a lyra da mesma S.* parte, lyra mais 
fértil d'aFgomeiitos de defensa que de imagens 
eróticas. • * 

Eu vejo aquelLa deusa, 
Astréa pelos sábios nomeada ; 

Traz nos olbos a venda, 
Balança n^uma m&o, na outra espada : 
O vél-a não me causa nm leve ai)allo 

Mas antes atrevido. 
Eu a vou procuEar, e aMim lhe falo : 



* Pnblieando nestit logar esta lyra dispenUmo-nos 
de a repetir no corpo do Florilégio. 



THOUAZ ANtOme ttONZAGA. 410 

Qual é õ povo,- di<ã, 
Qae cotnig^o òoncorre no attentido? 

O amerieaiio poto ! 
O povo mais fiel, e mais honrado f 
Tira as imiças dai mfuoê do lojatto dono, 

Elle uieififo ai «ubníetfe 
De DOTO á niJeí^O do hiio Uirodtf. 

£a vejo nai lii«t<Srtaf 
Rendido Pernambuco aos hoUaMèses ; 

Eu vejo iiaqueada 
Esta illostre cidatle, dos francétes ; 
Lá se derrama o tairg^ue brasileiro ; 

Aqui ttáot basta, Stipre 
DaB roubadas fanfí^ias o dinlieiro. . . 

Em quanto atiShn fklava, 
Mostrava a deosa tiáa me ouvir com ^òiíló ; 

Punha-me a vista tesa, 
Enrugava o sevefo e acceso roSfbi : 
Não suspendo comtudo no que àigtí, 

Sem o menor receio, 
Faço que a- não entendo, e assim prssfgo*. 

' Acabou-se, tyranna, 
A honra, ti têítf deslé luso povo ? 

Não é aqiielfé miesmo, 
Que estas acçSes obrou : é* oti^To lioVo ? 
£ p<Sde há Ver direito, que fé ínovW 

A 8upp6r-nb8 cniptfdbs, 
Quando em nosso favor conspira a prova ? 



4S0 FLORILÉGIO s 

Ha em Minas um bomem. 
Ou por seu Bascimento , ou seu thesoiro, 

Que aos outros mover possa 
Á força de respeito, á fôrçu d 'oiro ? 
Os beos de quantos julgas rebelados, 

Podem manter na guerra, 
Por um anna sequer, a cem soldados ? 

Ama a gente assisada 
A honra, a vida, o cabedal tão pouco, 

Que ponha uma acção destas 
Nas mãos d* um pobre, sem respeito e louco ? 
E quando a commissão lhe confiasse, 

Não tinha pobre somma, 
Que por paga, ou esmola lhe mandasse ? 

Nos limites de Minas, 
A quem se convidasse não havia \ 

Ir-se-hiam buscar sócios 
Na Colónia também, ou na Bahia? 
Está voltada a corte brazileira 

Na terra dos suissos. 
Onde as potencias vão erguer bandeira \ 

O mesmo autor do insulto 
Mais a riso, do que a terror me move ; 

Deu-lhe nesta loucura, 
Podia-se fazer Neptuno, ou Jove. 
A prudência é tratal-o por demente ; 

Ou prendel-o, e enlregal-o, 
Para d^le -zombar a moça gente. 



THOIIAZ ANTOMIO «ONZAGA. 4tl 

Aqoi, aqui a deota, 
Um extenso fuspiro aos ares sólla ; 

Repete outro suspiro, 
£ sem palavra dar as costas volta : 
Tu te irritas 1 Lhe digo, quem te offeode, 

Ainda nada ouvisle 
Bo que respeita a mim, socega, attende : 

E tinha que offertar-me 
Um pequeno, abatido, e novo Estado, 

Com as armas de f6ra, 
Co' as suas próprias armas consternado I 
Achas também, que sou tão pouco experto 

Que um bem tSo contingente 
Me obrigasse a perder nm bem já certo ? 

N2Í0 sou aquelle mesmo, 
Que a extincç&o do debito pedia ! 

Já viste levantado 
Quem á sombra da paz alegre ria ? 
Um direito arriscado eu busco e feio, 

£ quero que se evite 
Toda a razSo do ioíulto e todo o meio? 

Não sabes quanto apresso 
Os vagarosos dias da partida ? 

Que a fortuna risonha, 
A mais formosos campos me convida ? 
N3o me unira, se houvesse, aos vis traidores : 

Daqui liem oiro quero ; 
Quero levar somente os meus amores. 



49 S FLOBiLEGlO. 

Eu, ó ceg^a, nSo tenho 
Um grosso cabedal dos pais herdado ; 

Não recebi no emprâgo, 
Nem tenho as instrucçSes d' um bom soMado. 
Far-me-hiam os rebeldes primeiro 

No império, que se erguia 
Á custa do seu sangue e seu dinheiro ? 

Aqui, aqui de todo 
A deosa se perturba, e mais se altera ; 

Morde o seu próprio beiço ; 
O sítio deixa, nada mais espera. 
Ah I Tal*te, entSo lhe digo, vai-te embora : 

Melhor, minha Marília, 
Eu gastasse oomtigo mais est' hora. 

» 
Note-se que atribne a infames imf^ostores as 
algemas que lhe lançaram ; que julgava ultraje 
o ser taxado de cúmplice na sedição ; que tinha 
por impossível e condemnava de inépcia se 
fovse entregar seus destinos ao TiradetUes 

a . . . . pobre^ «ein respeito e looco« 

que segundo o mesmo Gonzaga não era digno 
de outro castigo mais que o ser declarado em 
alienação. 

O caracter do amante de Marília manifesla- 
se em muitas de suas composiçSes quando 
preso. É admirável a nobre audácia com que 
se resigna até a soffrer uma injusta morte, e a 
convicção que tinha de que essa morte era 
uma nova palma de martyrío que jamais mur* 
charla. 



THOMAZ ANTÓNIO «ONZAOA. 4«i3 

Ra i— B— !• «• fmiê 

Bfat dIo motnrMB outiot 

Q«e dÍT«ai hoara «o asado ! 
O togai-lo anaka akaa ato recates 
A qaea $á)»io campria as leis sagradas 

SarT sm de sólio as crases. 



.... se os jaslos céos, pára fias occitltos 
Em tio tyraaao mal lae nlo soccorrem ; 
Yerás eatto qoo os sábios ; 



Eu teaho am coraçio maier qae o nuiado. 
Ta formosa Marília^ bem o sabes : 
Uaa coraç iOt e basta, 
Oade ta mesasa cabes. 



A par deste peosaoièoto gabUine rejamos na 
seguinte estrofe kigubre e^nio nessa hora e^stava 
talvez sua alma de eontfhno pairando entre as 
esperanças dé gozar Marília e a morte : 

Dircéu te deixa ó bélla, 

De padecer caosado; 

Frio SBÓr já banba 

Sea rosto descorado ; 
O sangae já nSo gjra pela Téa ; 

Sens palsos ja nSo batem, 
E a clara los dos olbot sc bacéa ; 
A lagrima sentida ji Ifac corre; 
Ji pára a coovalslo, suspira e morre. 

Alguma ves lhe assalta nna idéa trcnenda, 
e que mais que a morte o deixa atormentar* 
Lembra-se que seu velho pai s»be da soa 
sorte, que soffre com etla perante a socie- 
dade além de soffrer pelos padecimentos de 
seu filho. 



42 4 FLORILÉGIO. 

Parece qae vejo a bonra 
Marília toda enlntada 
A face d'nm pai rugosa 
N'ain mar de pranto banhada. 



Por outro lado enteroece o leitor, que co- 
nhece a biografia do poeta, ver, o modo como 
este, ás vezes abraçado com a esperança, ima- 
gina um futuro mais tranquillo, em que a sua 
Marilia possa vir a contar a seus filhinhos as 
aventuras e prisSes de seu pobre pai o triste 
Dirceu. Não respira menos confiança, aquella 
estrophe com que conciae outra ijra : 



Qnal en tou, teri o mnndo ; 
Haia me dará do qne «n tinha, 
Tomarei a ver-te minha: 
Qae felii conaolaçSo! 

NSo ha de tudo mudar- ae, 
Sá a minha torle nSo? 



Sua resignação ás vezes é tão grande que 
tem por alguns sido julgada menos sincera : 
não tanto quando christãmente diz 

tt E beijo a lanla mSo que aatim me guia ; » 

porém sim quando roga á sua Marilia não 
pragueje ao seu accnsador Barbacena por que 
dii 

9to é o jnlgadorj é o proceaio 
E a lei qne nos condemna. 

A. nós parece-nos haver demasiado rigor era 
tal modo de julgar, lembrando-nos de que o 



THOMAZ ANTÓNIO «ONZAGA. 4tiS 

maior número das Ijrrai da 8* parte foram 
ainda compostas em Villa^Rica, quando Gonia- 
ga, peias perguntas vagas que ilie faiia o magiS' 
irado Torres, nftt) podia ter uma idéa de toda 
a culpa que Ibe impunha, nem das autliorida- 
des que tumavam parte em sua accusação. — 
Tal?es só quando com seus trinta e tantos co- 
réos, em uma jornada de mais de um mes, 
passou á cadéa do Rio, e ahi compareceu pe- 
rante a alçada é que soube todo o teor da ac- 
cnsaçSo. 

Depois da mencionada transferencia sua pri- 
meira composição I talves a lyra (34) com 
mais risos de epistola, a.ccusando o recebimento 
da caria em que Marília lhe aconselha siga o 
seu destino^ na certeza de que ella lhe íerá 
firme na ausência. 

A constância de Dirceu é mais notável, nfto 
como amante, pois nSo faltam exemplos diaman- 
tes extremosos ; sim como poeta que se Votara 
a legar á posteridade um padrSo de seu nome 
e da belleza da sua Marilia, do mesmo modo 
que Tas^ e Patrarcha haviam grangeado faina, 
afamando para sempre Clorinda e Laura : 

Uai se aot vtndoiro» 
X«u nome passa 
E tá por graça 
Do dens de amor, 
Qae tanto inflamina 
A mente, o peito 
Do teu pattor. 



426 FLORILÉGIO. 

Em vio terUs 
Essas estrellas; 
E as tranças bellas. 
Que o ceu te deo; 
Se em doce verto 
ifSo as caatasse 
O bom Dirceu. 

Gonzaga tinha uma alma nobre, que pensava 
mais na glória immortai que nas vaidades du 
mundo. 

« E melhor ser leinbtado 

Por qnantos hfto de vir sábios humaaos/ 
Que ter arcos, ter coches e ihesoiros 
Qae morrem com os annos. n 

E para essa gMria póstera eslava persuadi- 
do de que 

u Sá podem oonserrar am nome iUastre 
Os versos ou a história. » 

Com esta idéa fixa Gonzaga não se occupa 
senão da sua Marilia. — Âté na prisão se linha 
imposto o dever de escrever .cada dia em honra 
delia algum canto : 

Se me visas eom teas olhos 
Nesta masmorra metido. 
De mil idéas funestas, 
£ cuidados oombatsdo; 
Qual seria, 6 minha beUa, 
Qnal seria o teu pesar? 

A fftrça da dor cedera, 
E nem estaria vivo, 
Se o menino deos vendado. 
Extremoso e compassivo. 
Com o úome de Marília 
Nio me viesse animar- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA. 427 

D«Uo a cana ao romper d'aWa; 
O nieio dia tam dado, 
£ o cab^o ainda flactva 
Pela* coktaa deagreahado. 
Nio teaíio valor, nlo teaho, 
Nem para de mim c«idar. 

Dii-me Cupido: E MariUm 
•ífão estima este cabeUo? 
Se o deixas perder de todOf 
Ifão se ha ae enfrdar a» vi'Io? 
Snapiro, pego no pente, 
Vou logo o cabeUo atar. 

▼em am taboleiío entrando 
De Tarios manjares cbeio; 
P5e-ie na meia a toalba, 
£ eu pensativo passeio : 
De todo o comer esfria 
Sem nelle poder tocar. 

£u entendo que a matar-te ; 
Diz amor> te tens proposto j 
Panes hemt terá Marília 
Desffftslo sobre desgosto. ^ 

Qnal enfermo c*o remédio» 
Me aíflijO) mas voa jantar. 

Cbegam as boms, Marília, 
Em qne o sol já se tem posto; 
Vem-me ,á.mem«iria qge aellas 
Vi á j/^nella teu rosto : 
ÀecUno na mSo a face, 
£ eotro de novo a chorar. 

Diz-me Gnpido : Jd basta, 
M basta, Dirteu, de pranto; 
^>ç/itequÍQ de Mariha 
Vai tecer teu doce eunlo. 
Pendem as fontes dos olbos^ 
Mas eu sempre von cantar. 



428 FLORILÉGIO. <« 

Vem o forçado acceader-me 
A Telha, so^a candéa ; 
Fica, Marília, a masmorra 
I&da maift tricte, e mais féa. 
Nem mais canto, nem maii posso 
Uma só palavra dar. 

Dix^me Cupido : São horas 
De escrever-se o tfue tstá Jkito : 
Do azeite e da fumaça 
Uma nova tinta ageilo; 
Tomo o páo, que penna finge. 
Voa as lyras copiar. 

Sem que chegue o lev6 somno, 
Canta o gallo a vez terceira ; 
Eu digo a amor, que fico 
Sem deitar-me a noite inteira : 
Faço mimos, e promessas 
Para elle me acompanhar. 

Elle dis, que em dormir cuide, 
Qoe bei-de ver Marilia em sonho 
NSo respondo uma palavra, 
A dura cama componho, 
Apago a triste eandéa, 
E vou-me logo deitar. 

Como p<Sde a taes caidados 
Resistir, 6 minha bella. 
Quem nio tem de amor a graça ; 
Se eu, qne vivo á sombra delia, 
Inda vivo desta sorte. 
Sempre triste a suspirar? 

Em quaoto li?jre e feliz só Mariliu lhe vinha ao 
peniamento ; penando 8<5 a lembrança de Ma- 
rília lhe podia suavlsar seus males. 



THOMAZ ANTOIIIO CONZAfiA. 49» 



A alçada creada no Rio condemoou Gon- 
zaga a degredo prep^tno para as Pedrat d*An- 
voche ; pena commulada em des annos de de- 
.::redo para Moçambique. 

Em fins de setembro de 1793, deiíou este 
poeta o solo brasileiro para ir cnmprir seu des- 
tino, que segundo elle mesmo ditia, na última 
Ijra que compôs, era o de ir morrer em vil 
deeterro. 

Em Moçambique quis dedicar-se á advocacia. 
Mas de continuo lhe vinham á mente as injus- 
liças dos homens. . . . fec-se hipocondríaco. -— 
Lembravam-lhe suas antigas esperanças de amor 
e de gl<5ria« . . — frustradas. 

Algum tempo depois sentia que a. cabeça 
lhe abrasava. . . Deixou de trazer cbapéo. Bfas 
e calor que soffria nfto era fysico. Foi acomet- 
lido de uma febre violenta de que esteve á 
morte. Os soccorros da. medicina restituiram- 
Ihe a saúde do corpo ; mas o espirito ia de 
mal a peor. Quando não tinha accessos de 
furor ou de ternura obedecia em tudo á mulher 
que o tratara na doença. 

E louco terminou seus dias em 1809 quem 
fdra capai de compor e de legar ao mundo a 
preciosa lyrica intitulada Morilia de Dirceu. 



4S0 PLORILBtilO. * 

Ljrat. 



Tu nSo verás, Marília, cem captivos 
Tirarem o cascalho, e a rica terra, 
Ou dos cercos dos rios caudalosos, 
On da minada serra. 

Não rerás separar ao hábil negro 
Do pezado esmeril a grossa aréia^ 
E já brilharem os granetes de oiro 
No fundo da batéa. 

NSo verás derrubar os virgens mattos ; 
Queimar as capoeiras ainda novas ; 
Servir de adubo á terra a fértil cinza : 
Lançar os grSos nas covas. 

N8o verás enrolar negros pacotes 
Das séccas folhas do cheiroso fnmo ; 
Nem espremer entre as dentadas rodas 
Da doce cana o snmo. 

Verás em cima da espaçosa mesa 
Altos volumes de enredados feitos ; 
Ver-me-has folhear os grandes livros, 
E decidir os pleitos. 

Em quanto revolver os meus consultes : 
Tu me farás gostosa companhia, 
Lendo os factos da sábia me^Ua história, 
E os cantos da poesia. 



TBOMAZ ANTÓNIO «0NZA6A. 4S1 

Lerág em nita vos a imagem bella, 
Fm vendo que ihe dás o justo apreço, 
Gostoso tornarei a ler de novo 

O cassado processo. 

Se encontrares louvada uma bellesH, 
Marília, nfto lhe invejes a ventum, 
Que tens quem leve á mais remotft idade 
A tua formosura. 



II. 

Pega na lyra sonora. 
Pega, meu caro Glauceste ; 
E ferindo as cordas de oira^ 
Mostra aos rnsticos pastores 
A formosura celeste 
De Marilia, meus amores. 

Ab, pinta, pinta 

A minha bella ! 

£ em nada a ciSpia 

Se afaste delia. 

Que concurso, meu GHauceste, 
Que concurso tão ditoso ! 
Tu és digno de 'Cantares 
O seu semblante divino ; 
E o teu canto sonoroso 
Também do seu rosto é dino, 

Ab, pinta, pinta 

A minha beUa'} 

£ em nada»a cópia 

Se afaste delia. 



'*32 FLORILÉGIO. 

Pára piotare« ao rivo 
Át mas faces mimosas, 
A discreta natureza 
Que providencia uão teve ! 
Creou no jardim as rosas, 
Fea o lyrio, e fez a neve. 
Ah, pinta, pinta 
A minba belia ! 
E em nada a cópia 
Se afaste delia. 

A pintar as negras tranças 
Peço que mais te disveiles, 
Pinta chusmas de amorínhos 
Peios seus fios trepando ; 
Uns tecendo cordas delles, 
Outros com elles brincando. 
Ah, pinta, pinta 
A minha bel la I 
E em nada a cópia 
Se afaste delia. 

Para pintares, Glauceste, 
Os seus t)eiços graciosos, 
Entre as flores tens o cravo, 
Entre as pedras a granada, 
E para os olhos formos«js, 
A estreita da madrugada. 
Ah, pinta, pinta 
A mjnhatbella ! 
E em nada a cópia 
Se afaste delia. 



THOUAZ ANTÓNIO GO.NZAGA. 4SS 

Mal retratares do rosto 
Qaaalo julgares preciso^ 
Nao óéê a cópia por feita; 
PaMa a outros dotefi, passa, 
Pinta da vista, e do riso 
A modéstia, mais a ^raça. 

Ah ! pinta, pinta 

A minha t)ella ! 

£ em nada a cópia 

Se afaste detia. 

Pinta o ^arlx) de seu rosto 
Com expressões delicadas ; 
Os seus pós, qaaodo passeam, 
Pisando ternos amores ; 
E as mesmas plantas calcadas 
Brotando riçosas flores. 

Ah, pinta, pinta 

A minha belia ! 

E em nada a cópia 

Se afaste delia. 

Pinta mais, presado amigo, 
Vttk terno amante beijando 
Suas douradas cadéas $ 
E em doce pranto desfeito, 
Ao monte e yalle ensinando 
O nome, que tem no peito. 

Ah, pinta, pinta 

A minha bella ! 

£ em nada a cópia 

Se afaste delia. 



>»5* rLORILEGia. 

Nem suspendas o' teu canto, 
Inda que, pastor, se veja 
Que a minha bocca suspira, 
Que se banha em pranto o rosto ; 
Que 08 outros chorara de inveja, 
E chora Direeu de gosto. 

Ah, pinta, pinta 

A minha beila ! 

E em nada a cópia 

Se afaste delta. 



Aquelle, a quem fez cego a naturesa, 
C*o l)ordfto palpa, e aos que vem pergunta f 
Ainda se despenha muitas vezes, 

E duis remédios junta ! 

De ser cega a fortuna eu nSo me queixo ; 
Sim me queixo de que má cega seja : 
Cega, que nem pergunta, nem apatpà, 
£ porque errar deseja. 

A quem não tem virtudes, nem talento», 
£lla, Marilia, faz de ura sceptro dono : 
Cria n*um pobre berço uma alma digna 
De se «enlar n*um throno. 

A quem gastar nfto sabe, nem se anima, 
Entrega as grossas chaves de um thesoíro ; 
£ lança na miséria a quem conhece 
Para que serve o oiro. 



THOMAZ ANTOMO GONZAGA. 45 J 

A quem fere, a quem rouba, a infame deixa, 
Que alraz do vício em liberdade corra ; 
Eu honro as leis do iioperio, eUa me opprim« 
Nesta vii masmorra. 

Más ah ! minha Marília, que esta queixa 
Co 'a solida rasSo se oSo coaduna ; 
Como me queixo da fortuna tanto, 
Se sei não ha fortuna ? 

Os fados, os destinos, essa deosa, 
Qoe 08 sábios fingem, que uma roda move, 
É fiò a occulla mio da Providencia, 
A sábia mão de Jove. 

Nós é que somos cegos, que não vemos 
A que fins nos condui por estes modos; 
Por torcidas estradas, ruins veredas 

Caminha ao bem -de todos. 

Alegre-se o perverso com as ditas ; 
C*o seu merecimento o virtuoso ; 
Parecer desgraçado, ó minha l)ella, 
É muito mais honroso. 



Meu sonoro passarinho, 
Se sabes do roeu tormento, 
E buscas dar-me, cantando. 
Um doce contentamento, 



R« 



*5^i FLORILÉGIO. 

Ah ! nSLo cantes, mais nâo cante». 
Se me queres ser propício ; 
Eu te duu em que me faças 
Muito maior beneficio. 

Ers^ue o corpo, os ares rompe, 
Prucura o Porto da Estrella, 
Sobe á serra, e se cansares, 
Descansa n*um tronco deila. 

Toma de Minas a estrada, 
Na igreja nova, qne fica 
Ao direito lado, e segue 
Sempre firme a Villa Rica. 

Entra nesta grande terra, 
Paísa uma formosa )M)nte, 
Passa a segunda, a terceira 
Tem um palácio defronte. 

Elle tem ao pé da porta 
Unm rasgada janella, 
É (la sala, aonde assiste 
A minha Marilía l)ella. 

Para liem a conheceres, 
Eu te dou os sinaes todos 
Do seu gesto, do seu talhe, 
Das suas feições, e modos. 

O seu semlilante é redondo, 
Solirancelhas arqueadas, 
Negros e finos catidlos. 
Carnes de neve formadas. 



TH0MA2 ANTOMO GO.NZAtiA. «S7 

A bocca risonha e breve, 
Suas faces còr de rosa, 
N'uma palavra, a que rires, 
Entre todas mais foraosa. 

Chega entSo ao sen ouvido, 
Dite^ que sou quem te mando^ 
Que vivo nesta masmorra, 
Mâs sem alívio, penando. 



Se o vasto mar se eocapella 
E na rocha em flor rebenta, 
Grossa nau, que n&o tem leme. 
Em tSo sustentajHie inlenia ; 
Até que naufraga e corre 
Á discrição da tormenta. 

Quem uão tem uma belleia. 
Em que ponha o seu cuidado. 
Se o eeo se cobre de nuvens 
E se assopra o vento ira/lo, 
Mão tem forças, que resistam 
Ao impulso do seu fado. 

Nesta sombria masmorra, 
Aonde, Marília., vivo. 
Encosto na mão o rosto, 
Fico ás vezes pensativo. 
Ah ! que imagens Ião fuiie»las 
Me finge o pesar activo. 



^33 FLORILÉGIO. 

Parece que vejo á hoora, 
Marília, toda enlutada; 
A face de um pai rugosa, 
M*aiii mar de pranto banhada ; 
Os amigos macilentos, 
£ a família consternada. 

Quero voltar os meus olhos 
Pára ouiro diverso lado; 
Vejo n*uma grande praça 
Um theatro levantado ; 
Vejo as cruzes, vejo os potros. 
Vejo o alfanje afiado. 

Um frio suor me cobre, 
Lassam-se os membros, suspiro ; 
Busco alívio ás minhas âncias, 
Não o descubro, deliro. 
Já, meu bem, já me parece, 
Que nas mãos da morte expiro. 

Vem-me enlão ao pensamento 
A tua testa nevada, 
Os teus meigos, vivos o>bos, 
A tua face rosada. 
Os teus dentes crystallinof, 
A tua bocca engraçada. 

Qual, Marilia, a estreita d'alva, 
Que a negra noite afugenta ; 
Qual o sol, que a névoa espalha 
Apenas a terra aquenta; 
Ou qual íris, que o ceo limpa, 
Quando se vê na tormenta : 



TBOHAZ ANTOMO GONZAGA. *S^ 

Assim, Marília, desterro 
Triste ilIusSo, e demência ; 
Faz de novo o «eu officio 
A rai&o e a prudência ; 
E firmo esperan^s doces 
Sdbre a cândida innocencia, 

Rei»tauro as forças perdidas, 
Sobe a viva cdr ao rosto, 
Ciyra o sangue pela véa, 
E bate o pulso composto : 
V^y Marília, o quanto pode 
CJontra os meus males teu roíto. 



DOMINGOS CALDAS BARBOZA 



DOMINGOS CALDAS BÂHBOZA. 



p. 



ouço antes da suppresiKo dos Jesuitus 
frequenlaya as aulas delles, no Rio de Janeiro, 
certo pardinho travesso, que se distinguia entre 
seus collegas pela grande facilidade que tinha 
de rimar. £8se joven, Tendo-se applaudido em 
leos primeiros ensaios, começava a desmandar- 
se em in?ectiras de mau gosto, quando, por 
correcção, lhe sentaram praça de soldado, e o 
destacaram para a Colónia do Sacramento, 
nesse tempo a Ceuta ou a Gibraltar d' Ame- 
rica. 

Se bem que nfto fossem as armas a voca- 
ção do bisonho militar, tão pouco encontraria 
nellas grande castigo ; por quanto seu génio 
social e pratenleiro prompto lhe grangearia 
amigos entre os novos camaradas, com quem 
passar vida alegre e folgada. Entretanto vol- 
tando ao Rio quando a Colónia foi occupada 
pelos Hespanhoes em I76S, aproveitou a oc- 
casifto para sollicítar sua baixa de serviço ; c, 
apenas a conseguiu, resolveu, cdm. auxilio de 
seu pai, passar-se ao Reino, onde veio a ad- 
quirir certa celebridade, que até agora tem 
sido, quanto a nds, ou exaggerada, ou, talret 
ionocentemente, calumuiadà. 

Tratámos de Domingos Barbosa Caldas, qne 



*** FLORILE&IO. 

convém tino confandir com o sublime e bíblico 
poeta Sousa Caldas, também brazileiro, de quem 
adiante nos occuparemos. 

O pai de Caldas Barboza, segundo elle nos 
dá a entender, era de Portugal : 

Filho de honrado colono 
Q'ein soberba e cnnra quilha 
Dos Tentos ao dcsaboao 
Foi ao nOfO mnodo e Ílh« 
Soffrer o perpétuo somno- 

N 'outra occasião refere-se o mesmo Caldas 
á sua triste e longa história e á lealdade de seu 
pai que contada, dis elle, íaiia a glória d*am- 
bos : e accrescenla : 

Henlei>lhe a infelicidade, 
Mâs honrO a saa memória. 

Sua mSi era uma negra escrava de seu pai : 
esta circiimstaDcia do nascimento, que elle 
apregoava no rosto, parece que o affligia por 
extremo ; se bem que alguma vei tratasse de 
atenuar : 

Desde o tritU nascimento 
Fundira minhas rasSes 
Se fdra aqni men intento 
Ir descnlpar gerações : 
£ tenho em conhecimento 
Que nto hoave doii Ad5es« 

Rara ve« encontraremos Caldas Barboza em 
suas composições repassado de melancolia, sem 
que nos fale do seu berço; o que nos faz crer 
que antes era a lembrança do mesmo berço 
que lhe inspirava esses versos sombrios. Cita- 
lemoR em primeiro togar as quadras : 



DOMINGOS CALDAS BAIBOZA. 44 J 

Bodcoa feia ui«tes« 
Mea berço logo ao natccr; 
Rafeiou-me a triste vida, 
Serei tritte até morrer. 

Ao al>rir dos froosioi olhos 
Vi o dia eicurecer, 
Foi preságio da iristexa, 
S«rsí triste até morrer. 

bem como aqueila : 

Desgraçado desde o berço 
Servi té i sepakvra, 
Pois assin o qaiz raeu fado 
Cb<^ro a minha desventura. 

Faremos ainda isençSo dos sonetos, princi- 
palmente do que diz 

Negro vapor da terra aos ceos alçado 
Veio empecer-lhe a alegre loaçanla, 

dos sentidos improvisos, 

Ao som 4a lyra a chorar, 

e das tristíssimas quadras 
A mortal melancolia. 

Caldas Barboza achava-sc em Via n na do 
Minho quando recebeu a notícia fatal da morte 
de seu pai, que equivalia para elle ao annún- 
cío de sua immediata indigência : 

Assim de remoto clima 
Deixei do sul o cruiêiro, 
Vi do norte a cstreHa em cima 
De mnito maior luzeiro; 
Naa margens do claro Lima 
£a me yi orfio primeiro, 
E eatlo da fortuna opima 
Vi o dia derradeiro. 



4146 FLORILÉGIO. 

Durante essa residência em Vianna foi que 
elle compoz á Tempestade aquella ode : 

O torvO inverno sobre pardas nuvens 
Caminha á foi do socegado Lima. 

Por occasiílo da inauguração da estátua 
equestre d'ElRei D. José em 1775» foi Caldas 
BarlK>za um dos que appareceram a festejar 
essa solemnidade com suas composições poéti- 
cas. 

Ao mesmo rei D. José dedicou Caldas a 
Lebreida^ frouxa composição cm 50 oitavas 
rimadas, que nem merece o nome de poema, e 
cujo assumpto foi uma real caçada de lebres, 
presenciada pelo autor, que á custa delia ia 
ganhar talvez a protecção do monarcha, se nao 
falecesse este logo depois : 



• « • • • 



QueoB diria 
Qaando o grande rei me honrou 
E da facil poesia 
Agradar-se assim mosliov; 
Que de noite, que de dia 
Gratamente me escuton ; 
E a real proiecçlo pia 
Franquear-me começou, 
Qne tio ponco viviria. ! ! 

Felizmente para o infeliz orfSo ao faltar Ibe 
tal Augusto, encontrou um Mecenas, que foi 
seu arrimo e amparo. 

O Regedor das Justiças José de Vasconcellos 
e Souza (irmão do conhecido Vi ce-rei do Bra- 
zil), ao depois Conde de Pombeiro, foi o novo 
protector que appareceu a Caldas Barboza, a 
quem amparou por toda a vida ; e tão grato 



D0HIK603 CALDAS BARBOZA. 447 

este lhe ficou que, apezar da prohibiçSo que 
recebeu a maior parte das suas composições, 
fora as cantigas, tem por objecto perpetuar 
as virtudes, acçSes, anniversarios natalícios, 
etc. do mesmo Conde Regedor e de sua boa 
famitía. 

Essa protecção nSo se limitou a dar«lbe 
cama e meza primeiro no palácio de seu irmSo 
o Marquez de Castello Melhor, e depois de 
casar-se nos seus aposentos da Bemposta ; sen&o 
que o fei ordenar, arranjou-lhe um beneficio, 
e o logar de capellâo da Casa da Supplicaçlto. 

Além disso iutrodnsiu-o em toda a boa socie- 
dade da Corte, cuja estima o protegido depois 
soube captar, já pela facilidade de seus tm- 
proTisos cantados ao som da viola, ásimilhança 
de um iyrico grego ou de um trovador da idade 
média, já por sua alma affectuosa e inoffensiva, 
que não creava inimigos, nem era accessivel a 
intrigas. Este acolhimento foi tal que a pre- 
sença do Caldas tornou «se quasi uma necessi- 
dade de todas as festas, sobre tudo das parti- 
das do campo. Nas aristocráticas reunides das 
Caldas, no9 cansados banhos do mar, nos picto- 
rescos passeios de Cintra, em Bellas, em Que- 
luz, em Bem fica, sociedade onde nSo se achara 
o fulo Caldas com sua viola nSo se julgava 
completa. 

Todos os sitios mencionados ficaram em seus 
versos commemorados ; sendo para lastimar que 
o autor figura nelles geralmente mais como 
IruRo do que como poeta , v. gr. no seguiuie 
estribilho 



448 FLORILÉGIO. 

Ai ceo 
£lla é minh» yáyá^ 
O «eu moieque toa eu. 

Más em abono do nosso trovador cumpre di- 
ser que essa abnegação devia de ser calculada. 
Caldas Barboza conheceu, por ventura, que na 
sociedade a paixSo mais prejudicial nella mais 
commum, é a do amor próprio: tinha a 
consciência do pouco valimento de sua cdr 
n'um paiz onde ella era um máu preconceito : 
preferiu pois passar por bobo, ser o primeiro 
a escarnecer de si ainda á custa de sua digni- 
dade, mas ir vivendo descançado ; como fez de- 
pois o bom Tolenlino, que a elle no caracter 
e no estiilo ás vezes se assemelha. 

Além de que a mesma falta premeditada de 
amor próprio era uma qualidade a favor dos 
improvisos de Caldas. Nelles olhava este s6 
ao effeilo do momento, nSo á rima e perfeição ; 
surprehendía os motes e glosava-os segundo s e 
lhe apresentavam ; a tal ponto que alguns por 
incompletos parecem absurdos por que nao se 
deram á imprensa as circumstancias que oi 
acompanharam. Encontrareis ahi muitos desa- 
líubos, e faltas d 'arte, mas a travez dessa irregu< 
laridade e pobreza de vestuários descubrireis 
muita vez inspirações originaes. 

Podiam, quanto a nós, comparar*se as inspi- 
rações do nosso improvisador aos caprichos do 
pintor Goya. Este a rir reduzia a quadros, que 
depois se copiavam em razes., as murmurações 
da Corte do Prado e do Escurial ; mostra 
génio ; mâs é na execnç&o incompleto e ás ve- 



DOMINGOS CALDAS BOBBOZA. 440 

set grosseiro. Caldas também nÍo qoer saber 
de correcções : nos seus e&tribilhos admilte tri- 
vialidades, e até disparates semsabores ; ▼. gr- 

Mea bem ettá mal com eu 
Gcules de bem pegou ncUe 
Tape, tape, tipc, ti» 

• oDtras quejandas, que fiíerem com que al- 
guém o nomeasse por autor de cantiguinbas 
com seus ai lé lé. 

Andam por quasi duzentas as laes cantigas, 
que nos deixou. A maior parte correm impres- 
sas em dois Folomes, accompanhadas do seu 
retrato. Muita gente se admira de qne essas 
cantigas tivessem tSo grande acolhimento, e por 
▼entura chegou a condemnar o gosto poelieo 
da sociedade que as apreciava, sem se lembrar 
de dar desconto ao trovador, que se via muita 
vez obrigado s6 por comprazer a glosar sem 
inspiraç&o ; e aos ouvintes que nSo applaudiam 
só a poesia, mas também a melodia do accom- 
panhamento da voz e da viola, e a docilidade 
daquelle que nSo se mostrava jamais esquivo 
em fazer*se agradável. 

Mas Caldas Barboza nSo deve ser mó ava- 
liado pelas suas cantigas : nem sSo ellas que 
lhe dão a coroa de poeta* Quintilhas noi dei- 
xou que tdm muito da natural graça e singe- 
leza das de Sá de Miranda ; compoz muitos 
sonetos, e pôde dizer-se que se ensaiou em todo 
o género de poesia. No didáctico possuímos 
delle, em rimas emparelhadas, uma recopilaçSo 
da história sagrada, cuja «.* ediçXo foi feita 



<H0 PLORILLGIO. 

em 1793. Deilii se conaervam qiiasi loilos os 
exemplares alçados c em papel, na livraria da 
Casa de Caslello Melhor em Lisboa, e é obra 
que ainda boje podia servir nas escolas para os 
meninos relerem na memória o mais importante 
da Elscripttira. Compoz também Caldas neste gé- 
nero duas epistolas a Arminda acerca da metri- 
ficação, cujos preceitos expõe comdaresa, mas 
demasiado pobremenle. Alem disso fazemos men- 
ção do canto em verso solto, O Jardim ; da canção 

Qual enxame de abelbat taitorrando* 

da traducção da ode 1.^ de Horácio, e da 
carta de M.*"® Deshoolíeres á Sir.* que queria 
ser poetisa, ele. Em fim as suas poesias lhe 
mereceram entrada na Arcádia de Roma com 
o nome de Lereno Selinunlino. 

Caldas Barboza era para com os seus coUe- 
gas superior a todo sentimento de inveja ou 
de rivalidade. Procurava quanto podia o trato 
dos poetas, aos quaes rendia muitos serviços, 
fazendo valer suas rclaçdes cortezãs. C longe 
de os recomroendar humilhando'Os ao seu vali' 
mento, procurava occasião favorável para o fa- 
zer com dignidade, e de modo que cada qual 
se apresentasse logo a pedir com o direito ad- 
quirido por seu comprovado merecimento. Foi 
assim que uma vez se aproveitou de certo an- 
niversario para recommeudar ao »eu Mecenas 
entre outros poetas a Elmiro (José Agoatioho 
de Macedo), que na ode encomiástica ao Conde 
de Pombeiro consagra as seguintes expressões 
ao seu amigo Caldas : 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. 4i<i 

Eia lablima, g«Mioroio CaMaa, 
ImprOTÍio canlor» ca paUo a Ljra, 
Que Apollo enatta de froadosa rama ; 

O fogo qae retpiía 
Píot versos tem coa ratilante chaoMia^ 
Com qae a volúvel fantasia eaealdas, 
£a tigo : e o vAo rápido qa*ergBeate 
Do ninho amerleanoi onde nasceste* 

Eia anima o mea canto, ao c«o sagrado 
Eit me sinto leyav; toco co'a frente 
O convexo d'abobeda exalada 

Do astro refulgente; 
Já vejo o disco, e face tUaminada, 
Vejo o plano estensissimo encrespadOf 
Qae sdbre um lenho intrépido sulcaste, 
Quando o cruzeiro lacido encaraste. . 

Lá vejo a praiâ^ lá deicnbro a aréa. 
Na qnal eleva a torreada frente, 
A qtiem Neptnno cede o s ceptro j^ndoso ; 

Lá vio pelo horiíonte 
Aa ameas do muro magestoso* 
Que em tomo cinge a Ínclita Ulissea, 
Cdrte famosa, que avistando booraste, 
Quando as aréas bumidas beijaste. 

Ah! tu nio traxes o metal Inienlc, 
Os accetos rabina, os diamantes, 
Nem esses lenhos nos sertSes cortados, 

Nem aromas fumantes^ 
Que ponhas nos altares coosagrádofy 
Que ofierta o rico lúcido Oriente ; 
Mis versos urdes de immertal bellcBa^ 
Sublime vos da simples natnresa. 

Ah ! tu de Vasconcellos hoje p dia 
NatAl na lyra. que te dera Apollo, 
Aos astros leva; donde mora Astrea, 

' £ de om a outro pálio*' 
Leva a glória da ioclita Uiyssea 
Na imptovisa, na doce melodia, 
Sâe o seu repentino altivo canto, 
Q'a mim, aq mundo possa encher d'cspanto. 



4»t FLOaiLEGlO. 



£a coafandidoy qotl mctqainho gan^ o. 
Entre bandos de cisnes sonorosos. 
Que nas ismcneas ondas se mergulham, 

E bebem dos nndosos 
Rt0S| qnc no Parnaso inda borbulham. 
Tio remontados vdos vSo alcanço, 

Sue Tersos possa urdir alti-sonanies, 
ais sublimes qu^o oiro, qn'os dlamanUs. 

Já a par de um bisavó, qn* o vaciUau 
Reino snstere nos nervosos hombros 
Pela Pátria infelia sacrificado. 

Entro pasmos, e assombros 
Li lhe lerantam basto consagrado. 
Fundido do metal puro, e brilhante. 
Outros já pulem os penhascos broncos, 
£ já dos bosques desarreigam troncos. 

A empresa é grande, porém tu sobejas, 
C1nge>te a ella, sonoroio Caldas, 
Desprega as áureas mageslosas pennas. 

Pois do Parnaso as faldas 
Deixas, e sobes, as maasSes serenas; 
Más se outros vates incUtos desejas, 
Que ronca tornem esta lyra minha. 
Tens os cisnes qa'o fulvo Tejo aninha. 

Elles louvem oomiigo o natal dia. 
Que tantas vexes seja lepecido, 
Q' Apollo gaste o coche e gaste as rodas; 

Louvado, o applandido 
Seja dos povos, e das gentes Codas, 
Que cheios de pratcr e de alegria 
IJie augurem para sempre dilatados 
(eculos pelos oeoa abençoados. 

É rerdade qoe nesta ode, cujo estjlo el«- 
vado não condiz com o assumpto, parece que 
Elmiro * tíoha mais em vista inculcar seus 
vdoB que dicer o que sentia. 

* NIo perdoou Bocage a José Agostinho esta cir€Nm> 
stancia na grande satyra com qno o surtia : 



DOMINGOS CALDÁ9 BABBOZi. 4í$S 

Ghamasie grande, barmooico ao Lcrcno, 
Ao fusto trovador} que em papagaio 
Transformaitc depois, haTcndO impad;» 
Com Uvemal ebanfana, alarv« almoço, 
A eipevtas do coitado oraog-otaiifo. 
Que uma terpe engordou, cevando £lmiro. 

Ffole-fte porém que papagaio te cbamava Lcrevo a ai 
próprio : 

Nio é do Tamitc nm cytne 
Que vai tollar doce canto : ' 

Bratileiro papagaio 
D'arWímédo a voa levanto. 

Mais sinceros, se bem qne menos estrondo- 
sos, são 08 elogios que lhe fazem Belmira 
Transtagano (Belchior Curvo Semedo) Corydon 
A^eptanino, e sobre todos EurindoNonacriensf?, 
cujo seguinte trecho nuo podemos deixar de 
transcrever; pois nos revela o amável caracter 
de Lereno : 

Unicamente 

At virtudes pacíHcas me aprazem. 
Tu ri*/ Lereno amado? £ c' o meneio 
Dos prespicaxes olbos do semblante 
Como que spprovas o pensar d'Eurindo? 



f 



Sei qae o mal te aborrece, o bem te enleia. 
Que um coraçSo te ba dado o Ser Supremo 
Onde mil dotes cândidos s« acolhem. 



Más vejo^ amável Caldas, que te enoja» 
Se tao comprida arenga, e que a sonora 
Lyra tomando^ que te afina Apollo, 
Mis oella etcraisar do grSo Pombeiro. 
Da illnstrc esposa virtuosa e belia, 
Os claros nomes, méritos sublimes. 
Da fresca Bellas, os amorosos troncos 
Mover (que assombro l) vejo ao «om divino. 



41S4 FLOBILEGIO. 

Porém Cal rias Barboza, apesar de sempre 
leal e consequente com seus amigos, teve por 
vezes o dissabor de nílo se ver correspondido. 
Chegou a ser íntimo de Bocage ; mâa este poeta 
sacrificava os seus amigos ao prazer de exerci- 
tar sua inoata maledicência. Bem conhecido é 
o epigramma que compoz quando certo iolrí- 
gaute lhe foi dizer que se queixara Lereno 
dessa sua péssima qualidade : 

Ditem que Fábio BeluSo 
Eoi Bocege ferra o deole^ 
Ora é forte admiraçio 
Yer um cSo morder na gente ? 

Além de ingratidões similbantes, que são du- 
ras de sofTrer a uma alma cândida e ingénua, 
como a de Lereno, viu este ainda em vida 
hostilisado e enxovalhado por invejosos da re- 
putação exaggerada que o público lhe creára. 
Este resentimento de vários árcades contempo- 
râneos ainda dominava Filinto quando no des- 
terro se íncommodava de que applaudtssem em 
Portugal 

Oi vertinhos an5e« a anlt Nerinas 
Do canlarino Caldas a quem parvos 
Põem a alcunha de Anarreonte luto, 
E a quem melhor de Ânacreonie falo 
Cabe o nome; pois tanto o fulo Caldas 
Imita Ânacreonie em verbos, qnaoto 
Negro pcrú na alrnra ao branco cjme. 

Este juízo parece-ncs apaixonado, e em parte 
contradictorio. O que é sem dú^da é que mui- 
tas compoíiiçÕcs de Lereno sao, ^em mereci- 
mento o que por força devia succeder a queiu 



DOMLNG0& CALDiS BAEBOZA, 4tfJ 

muiia Tes compunha só por obsequio, e Mm 
inspiração. Mâs alg^umas poesias ha suas quo 
silo bastantes para que os litleratos o Iralem 
com consideração, embora se deva confessar 
que profundava pouco, sabia menos, não estu- 
daTa, e (udo devia á natureza ; pois como elle 
diz singelamente : 

Tersos me Tiram fater 
Por innalo e doc« tonf. 

Domingos Caldas Barboza terminou seus dias 
qUfiâi ao mesmo lempo que o precedente século. 
Falleceu a 9 de Novembro de 1800 de uma 
rápida "^ enfermidade que apenas lhe permittiu 
proTer-se dos sacramentos. Depois de ser de- 
positado seu rorpo n*uma capella que tem os 
Condes de Ponibeiro dentro de um bosque no 
seu palácio da Bemposta, fui enterrado na 
igreja parochial dos Aojos, em cujo liv. a fl. 
S77 está lavrado o sen assento de óbito, do 
qual devemos uma certidão á bondade da 
Ex."»» Snr.* V. d 'A. quando creança mui va- 
lida do nosso poeta, que a posteridade avaliará 
no justo termo que lhe cabe. 

Segundo informações que obtivera o defunto 
cónego Januário, Caldas Barboza nascera no 
mar, vindo sua mãi d* Africa para o Rio de 
Janeiro. Esta informação cairia sò por si 
diante das pessoas da familia de seu protector 
e do de J. Agostinho, que affirmam que elle era 
filho do Brazíl. Mâs o próprio Caldas diz que, 
quando nasceu, 

Por cima da infeli* choça 
Gralha agoureira *e ouviu. 



AáG FLORILÉGIO. 

o que (lá a eolender que nascera em terra. 
Mais : continuamente está elie a confessar que 
' é brasileiro, chamando-se até papagaio, e pelo 
seu génio nem se ihe importaria de apropriar- 
se o epiteto de orang-otang, que Ibe dá o seu 
amigo Bocage. Descrevendo a Âllmno em ver- 
sos soltos certas festas de Queluz, diz tratando 
do Príncipe do Brazil : 

£ mais meu do que teu. . . 
Do throno portagnet, -é indft herdeiro, 
Mái i príncipe já da pátria minha. 

E quem n?lo conhece aquelles seus versos : 

Nót lá no Brazil 
A noa ia ternura, 
A atsucar nos salie, 
Tem «nuita doçura. 

£ os chulos lunduns da Nliánháiinha e do 
Charapim, em que se lembra da cuia, do angti, 
do quingombóf da malagueta^ do mel do tan- 
que ele. etc. 

NSo abandonemos pois ao oceano cosmopo- 
lita a nacionalidade do bom fulo Caldas, que 
tanto se occupou.do Brazil. 



DOMINGOS CALDAS BABBOKA. 4tt7 



Detafdgo do Etiro- 

Já fatigado^ de forçar ▼ãroente 
Aferrolhadas portas do futuro ; 
Cançado de espreitar por várias fendas 
O que o tempo por vir-me tem guardado ; 
Surgir vejo o phantasma do poMivel, 
Q'ora se apouca, e ora se agiganta, 
Sinto o pavor, que vai calando as veias, 
E aqui me prende o sangue, ati o agita ; 
Ah ! quer de mim fugir minha alma afflila ! 

Armania, Armania. . tímido cu clamava, 
E os soluços a rouca voz cortando, 
Só arma, arma. . pelo ar soava, 
£ o echo o triste som ia alongando : 
Não sei se mais me assusta a infelis troca, 
Que faz perder teu nome em minha boeca. 

Mas graças a Morféo co*a. plúmbea vara 
O meu corpo tocou, e as dormideiras 
dspremeu nos meus olhos assustados : 
Cerram-se frouxamente á loz do dia, 
K afracando-me. os pés, falhando o passo, 
Já na terra baquêa o corpo lasso. 

Outra vez a Morféo as graças rendo, 
Q'arranjando a rc\ôlla phantasia, 
Faz q'em torno de mim ledos risonhos, 
Voem alegres lisongeiros sonhos : 



>i»3 FLOBRBGIO, 

Vem com elles em plácida mistura, 

Vivificas volúveis esperauças: 

Qual me mostra a abundaBeia bem de perto, 

Q'a mão estende, e sobre mim entorna 

O seu torcido cofre, nunca exausto ; 

Qual me faz ver q*o meu merecimento 

(Quanto se alegra esta alma com^ tal vista) 

Cresce de dia em dia, e rai subindo 

A*8ombra do alto throno, q*o escuda, 

Aos raios que fulmina a ardente inveja. 

Ah seja embora assim, sempre assini sejia, 

Quem avalia a confusão q'eu tive, 
Ao ver o lindo rosto da ventura, 
Na sonhada phantastica figura? 
Armania, Armania, viste-me risonho, 
É q'eu vi a fortuna, mas foi sonho. 

Pareceu-me que o templo seu me abrk», . 
Que tu a elle mesmo me guiavas, 
Q'inc1inando-se meiga, jú me ouvia, 
Q*á sua protecção tu me entregavas, 
Q'a poderoza mSo.ella estendia, 
£ que de onde eu jazia, ella me alçava» 
Já quasi entrava as portas da fortuna, 
Eis súbito se ergueu vapor espesso ; 
Pára aqui vou errado, ali trupeço. 

Por entre a nuvem adiante opposta, 
O templo eu vejo, as portas vejo aberta», 
Lá vejo os bens, que p&ra mim pedias, 
Nao é lojigo o caminho, o altar, é perto. 
Mas se Armania me deixa, eu não acerto. 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. ÂdO 

Ar mania, Armaoia, acode-me .* que monatro 
De orelhas azioioai, larga bocca 1 
Não tem, nfto tem maiu hórridos lalidot, 
O rouco iadrador das Ires gargantas. 
Cruel maledicência, aisim se avança, 
Vomita em mim o infernal veneno, 
O' triste sorte do infeliz Lereno ! 



Os amores de feira. 

Librado sobre as azas 
O dens de amor eu vi gyrar três dias : 
Desce ao Campo da Luz entra nas cafas : 
Com elle as inquietas alegrias 

Os traveços prazeres, 
Desasocegam homens, e mulheres. 

Ora poisava em ariçadas tranças 
Ora se vê a furto em olhos bellos 

Semeando esperanças, 
Que dão por triste frnclo horríveis zelos 

Ora em peito se esconde, 
E ali existe, e nao se sabe aonde. 

No logar em que o povo compra, e veude, 
Ali pertende amor ter lucro grande, 

Subtis laços estende. 
Nem algum ha que ali seguro ande, 

DSo-se arriscados passos, 
E cu vi a mais de cem cair nos laços. 



400 FL0BILE6I0. 

Destra belleta ufana passeava, 

Turba immensa a seguia : 

Com estudados gestos captivava, 
E DUDca se rendia, 

A seus grlUides já presos 

Yi muitos corações em vão acceio». 

Mnrtezia que de livre assim blasona, 

E que tantos captiva 
Por entre as ruas de baeta, e lona 
Faz rabear a escrava comitiva, 

E vai ao torpe bando 
Desgraçados rivaes accrescentando. 

Pendem d\im lado matizadas fitas, 
Bordadas coifas, lenços mil galante», 

Várias plumas bonitas, 
Lindas caixas, anneis extravagantes, 

Com que o destro caixeiro 
Faz do que pouco vai multo dinheiro. 

De preparada concha a um lado alvejam^ 
Pequenos corações com letras d^oiro, 
Lpm-se ali expressões, que se desejam. 

Um acha o seu agoiro : 

E numero infinito 
Poupa em curto letreiro um longo eseriplo. 

De um amphibio animal malhada casca 
Dera os subtis anneis, que vende aos fios 

Graciosa tarasca, 
K os grosseiros bonecos (fassobios, 
E as azues, e encarnadas charamelas, 
V* 08 molhos de perpetuas araarellas. 



DOMINGOS CAIADAS fiABBOZA. ^<* 

Já Martezia lá Tai a recostar-se 

Em certo mostrador, defronte cu fico ; 

Basta ella chegar-se 
O pobre vendedor se torna rico : 

Qtial virtude eu couheço 
Do que a ella lhe ag^rada s<5be pre^. 

Vãos peraltas lá v3o em competência. 
Qual offcrtarlhe a fita primorosa, 

•Que acceita por decência ; 
Qual leva por offrenda graciosa 

Um coraçfto bem feito, 
TSo frágil como o que lhe esconde o peito« 

Esta volante, e frouxa bateria 

Não p<Sde inda rendé-la ; 

E é falso amor, amor de zombaria, 

O que se lê nos lindos olhos delia : 
E já Cupido irado 

Tem digno vencimento destinado. 

Ai magras bolsas d&o o dltimo alento. 

£ esta helleza invicta , 

Bem livre canta o próprio vencimento . 
Fria iseniçílo terríveis leis lhe dieta, 

E astuta resistindo 
Os deixou ir chorando, e ficou rindo. 

Mas nSo zombes, cruel, que pouco tarda 

A vingança d*amor, 
A quem tuaizenção não acobarda 

Teme o teu vencedor. 
Mil settas despontaste, mas espera 
A que de Acrizio a prole já rendara. 



468 FLOBILEGIO. 

Fogosos bratos entre espuma eoToltos 
Duro freio raivosos mastigando 
Param aonde òs amorinhos soltos 
Os virtuosos corações tentando 

Escreviam attentos 
A lista de futuros caiamentos. 

Desce o moço Frondelio, então retine 

O som das algibeiras 
Não tarda que Martezia.não se incline 

As vozes lízongeiras 

De oiro sempre suave, 
Que ao peito sem virtude é própria chate. 

Venceste, astuto amor, em fim venceste 

Já Marlesia delira, 
Não fazem todos o que fez b6 este, 

A cruel já suspira, 
Ao seu vil interesse é despresado 
Mas alviçaras, amor, estás vingado. 

Incautos moços, conhecei o engano, 
E nelle contenplai o que eu contemplo, 

E pára o outro anno, 
Lembrando o conto qiie vos dou d*exempIo, 

Ninguém fiar-fe queira 
Em achadíços corações da feira. 



OOMINaOS CALDAS BABBOZA. <*<»' 



Boa» testai. 



KJs-me a Tonof péê prostrado, 
Dai-me a beijar essa mão 
Capaz de mudar meu fado, 
£ que em piedosa intençslo 
Me tem beneficiado. 

Por ésU occasâo, por ésia 
£u vos reoto apparecer 
Hoje com cara de festa, 
Eufeitada do prazer, 
Qu' entre esperanças me resta : 

Felizes annos conteis. 
Pedir aos -céus me compete, 
£ fazei v<Ss, que podeis, 
Me seja o de oitenta e sefe 
Melhor, que o de oiterta e teit. 

Este o tempo, v4s sabeis, 
De cumpridas profecias : 
Tenho f^ nas que faieis, 
Lembro mais, que e^tou nos dias 
Dos donativos doa r^is. 

Mas temo uma má ventura. 
Que tudo o meu me baralha, 
E cruel talvez procura 
Embrulhar-me na mortalha, 
Tristes bens da sepultura. 

♦ Ao Arecbifpo Inq«i»idor. 



*^* FLOBILBGIO. 

Dai-me vós algum conforto, 
Marcai mais curta esta meta : 
Q*á8 vezes pondero absorto, 
Que já CamSes o poela 
Foi feliz depois de morto : 

Quizera que a real mSo, 
Que faz felizes as gentes, 
Me tirasse de aflição : 
£ em quanto inda tenho dentei 
Me desse da Igreja o pSo. 

E mais que o próprio sustento 
Vai-me a honra interessada, 
Porque haverá fraudulento, 
Q 'afirme, que não ler nada 
£ não ter merecimento. 

Fora o meu crime cantar, 
Se isto crime pôde ser ! 
Agora vou-me a mudar 
De cantar para comer, 
A comer para rezar. 

E pois que o Senhor vos pòz 
Onde me valhais assim : 
Vá um ajuste entre n($s : 
Orai v<5s, e orai por miro, 
E eu rezarei por vós. 

Não quero ser mais extenso, 
Bons festas vos agoiro ; 
E ao Mistério a que eu pertenço, 
Fazei possa ofiertar oiro, 
Q'eu só tenho mirra, e incenso. 



DOMINGOS CALDAS BARBOZA. 4«^> 



Ao» anno* da oonde««a d« Pombeiro. 

Hoje é dia de oblação, 
E en trago do meu tezouro 
Coizas, que já raras são : 
Valem maU que prata, e ouro, 
Pedaços de gratidão. 

Trago palavras, Senhora, 
Q*offertar-vo8 : não duvido ; 
Ralhe o Mando muito embora, 
Q*expre8B0es de agradecido 
Não são de lançar-se fora. 

Mas disto não venho mal ; 
E se eu mesmo testimunbo, 
Q*ante vos aer grato vai : 
Da gratidão com o cunho 
Trago muito cabedal* 

Trago dos meus companheiros, 
Os que vos servem com migo, 
Q*ahi vedes prazenteiros, 
Parabéns de cunho antigo 
Singelos, e verdadeiros. 

Qual diz: que aos céus vos pediu, 
E que do céo vos julgou, 
Apenas vos descobriu ; 
Pois as que o céu vos doou, 
Graças iguais nunca viu. 



406 FLOBiLEGIO. 

Qual vos viu eotre as mantilhas, 
E logo, em belleza, diz : 
Que podieis dar partilhas, 
£ mostra que as repartis 
Pelos filhos, pelas filhas. 

Qual vos trouxe nos braços, 
E qual pelas aadadeiras 
Vos teve em primeiros passos : 
Qual conta as graças primeira», 
K pueris desembaraços. 

Por todos se nota então 
Quanto mais fieis cresfcendo 
Ia crescendo a razão ; 
Mnis, e mais aparecendo 
Formozura, e discrição. 

Trago entre tantos louvorê» 
Com o toque da verdade 
Agradecidos clamores. 
De vozes de toda a idade, 
Gentes de todas as core». 

Reparai bem no alvoroço 
De mim, e de todos estes: 
Reparai no aceio nosso : 
Pára tanto vós nos deste». 
Quanto vedes tudo é vosso. 

Mas aqui não pareis, não : 
Veja o vosso entendimento, 
Qual vem nosso coração, 
Que traz agradecimento 
Por cambio de gratidão. 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. 467 

Tomemos um tom mais alto : 
Convém á honra do dia ; 
Saiba o Mundo que eu não falto, 
Dando em signal de alegria 
Até nos versos meo salto. 

Dos outros disse até*qui ; 
Agora de mim direi : 
Que logo quando vos vi 
tíesát ent&o presagiei 
Cnmpriu-se o qne eu antevi, 

Inda nas faxas honraste 
Minha rude cantilena : 
Já quando entfto me escutaste, 
Sempre ao som da minha avena 
Piedosos olhos voltaste. 

A minha uiada amargura 
Diminuir-sc eu sentia : 
Cuidei que era a formosura, 
A cujo esplendor fugia 
Minha feia má ventura. 

Batia o meu cora çSo, 
Qual podia se expessava, 
EUe me dizia então : 
Qu'em vossos dias estava 
Dos meus a consolação. 

Quando na desgraça minha 
José estancou meus ais, 
Roguei ao céo, qual convinha, 
Desse aos outros grandes mais 
Almas, como a que elle tinha. 



^^^ KLOniLEGIO. 

Ouve o céo meus grito» lasso» ; 
*oi a minha voz ouvida: 
Teceu estes doces laços. 
Eis sua alma á vossa unida 
Já nos dão dignos pedaços. 

Possa a tâo justa iiniàa, 
Segura em doces affeclos. 
Respeitar do tempo a mâo, 
E os netos dos vossos netos 
Recebam vossa benção. 

Quando vai meu voto ardente 
Kevoando ao céo assim : 
Sabe o Deos Omnipotente- 
Que não sois só pára mim 
Sois o bem de muita gente. 

Portugal, que não se esquece 
^o que dos vossos lhe vem, 
E medita o que carece, 
Pede comigo também 
Q'é seu o mesmo interesse. 

Nega-me o céo cabedais, 
Qual seja a razão não sei ;' 
Porém como vds vivais * 
Mais nada ao céo pedirei : 
Vivei, não dezejo mais. 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. 469 



Fragmento dirigido ao primogenilo da dita condet»a. 

Senhor, deveis escutar 
Estes meus conselhos sérios, 
£ n'alma os deveis gravar : 
É mais que ganhar Impérios 
O gabe-los governar. 

Nunca a discórdia desuna 
Nações, que a amisade enlaça, 
Que vos obrigue importuna 
A ser de outros a desgraça : 
Ah ! sede a nossa fortuna 1 

Sede dos servos que crescem 
Amparo e consolaç&o : 
flonrai-03, que honra merecem. 
Sede arrimo e dai a mão 
Aos que como eu envelhecem. 

Sei que pouca perda vai, 
Snccedem outros a estes ; 
Porém um pouco notai, 
Achaste-os quando nascestes, 
Já serviam vosso pai. 

E quando f roxos e lassos, 
Para a vossa companhia 
Não podermos já dar passos, 
Lembre-vos, senhor, um dia, 
Qne vos trouxemos nos braços. 



4 TO FLORILÉGIO. 

Guardai em vossa lembrança 
O que é digno de reter, 
Q ue merece confiança ; 
E nSo é para perder 
Uma servidão de herança. 

Pois que o céu assim dispôs 
A obrigaçSo nos reparte : 
Vivei, senhor, para nòs ; 
E do mundo em qualquer parle 
Nós morreremos por vós. 



Lyra ao dilo primogénito. 

Deixa qu*a lyra 
Nas mãos eu tome ; 
E qu*o teu nome 
Possa cantar : 

Vai-te ensaiando 
Desde pequeno 
A ouvir Lereno 
Por ti clamar : 

Se um nome queres 
Digno de glória, 
E qu'a memória 
O haja de honrar : 

Tens 08 modelos. 
Não busques mais, 
Os dignos pais 
Te hâo de guiar. 



DOMINGOS CA LDA8 BAR BOZA . 47 l 

Vai bem quem sogne 
Destea modelos, 
Qu'o8 Vasconcelos 
SSo de imitar : 

Deixam-te a glória 
Castellof-Brancoí 
Camiohos francos 
Para trilhar 

Díser podia 
Paimosas cousas, 
Que dos teosSousas 
Ha que contar : 

Se eu chamo os séculos 
Por testimunhas, 
Corréas, Cunhas, 
Ouves louvar. 

Quando tu leres 
A lusa história, 
Tua memória 
Tens que fartar : 

Illustre Aonio, 
Graças aos céus, 
Podes dos teus 
Liç5es tomar. 

Sê eu fosse próprio 
Para ensinar-te. 
Bem pouco d 'ar te 
Tinha q^usar ! 

Basta mostrar-le 
Dos teus o trilho, 
Vai d 'águia o filho 
O sol buscar. 



asse 



472 FLORILÉGIO. 

Já sobre o Píndo 
V Eu me levantOf 
Ouço alto canto 
Teu nome alçar : 

Para escreve-lo, 
Doiradas peunas, 
Sábias Camenas 
Vão preparar. 

O céu vigie 
Na tua idade, 
E esta verdade 
Verás chegar : 

Nos pobres versos, 
Qn^ofiTrecer venho, 
A honra tenho 
De a annunciar. 



Qiiè é taadade? — (Fragmento-) 

Pois saber o qu*é saudade 
Gentil 0*Neile careces, 
Vou talvez diser-te um mal, 
Que soffres e nSo conheces. 

DirSo uns ,qu*é sentimento, " 
Que aó port ugueses tem ; 
E qu*importa falte aos outros, 
Vozes qu'o expliquem bem : 

Mâs eu, senhora, n&o quero 
lUudir Tossa grandesa : 
Saudade — é nome qu' explica 
Triste mal da naturesa. 



DOBONGOfi CALDAS BABBOZA. 4YS 

Fillia da cniel auiencia 
È eifa teroa paixSo, 
Qiie se Dutre de eiperan^as 
No Bensivel coração: 

De lembranças e desejos , 
Trislemenle acompanhada, 
Puoge e fere uma alma terna, 
Do amado separada. 

Por eiemplo — dWidida 
Da laa cara metade, 
Toda essa falta que sentes. 
Isso, 0'Neile, é qu'é saudade. 

Em meio de mil praseres. 
Sempre esta paíxio é triste , 
E a seu íntimo tormento, 
Nenhuma coisa resiste : 

Obriga a lagrimas tristes. 
Obriga a sentidos ais. 
Nem s<S humanos obriga, 
Inda a brutos animaes. 

OuTe o saudoso gorgeio 
Da amorosa philomella. 
Quantas veses te enterneces 
Co* a triste saudade delia : 

O áureo collo entumecendo, 
Arrullando o pombo aflQícto, 
Tenra esposa que lhe falta 
Chama em seu saudoso grito : 

Bravo, sanhndo leão, 
A madeixa sacudindo^ 
Se a cara leoa prendem, 
Os campos corre bramindo. 



^74 PLOHIiEGIO. 

Traz edtes males amor, 
Porém a doce amisade 
Não deixa de ter também 
A doença da saudade. 

Tu, qu*a memória teos cheia 
De mil successos antigos, 
Escusas qu'eu te reconte. 
Tristes, saudosos amig^os. 

Do teu Augusto Ricardo, 
Te lembre a célebre história, 
£ vé do amigo saudoso 
Qual seja a honrada memória : 

Também de fido animai, 
Que seu bom senhor perdeu. 
Se conta que de saudades. 
Junto ao sepulcro morreu. 

£ de temer este mal, 
O lempo o torna mais forte; 
E em lhe faltando a esperança, 
Bem depressa é mal de morte. 

Basta, senhora : já sabes, 
Qu'em fim saudade só é 
O sentimento que ura soffre. 
Quando o qu'e8tima não vé. 

Tu, qu'onde quer qu'apparece« 
Causas amor e amisade, 
Terás dado (oh ! não duvido!) 
Motivo a muila saudade. 



DOMINGOS CAt.I>AS BARBOZA. 4?» 



A Mclaacoii*. 

Pastoras n&o me chameif 
Pára Tossa companhia, 
Que onde eu vou comigo levo 
A mortal melancolia. 

Coube-me por triste sorte 
Eclipsada estreita impim, 
Que em meus dias sempre influe 
A mortal melancolia. 

Logo ao dia de en nascer, 
Nesse mesmo infausto dia, 
Veio bafejar-me o berço 
A mortal melancolia. 

Por cima da infeliz choçi 
Gralha agoireira se otiTÍa, 
Que a meus dias agoirava 
A mortal melancolia. 

No meu innocente rosto 
Quem o notava bem via. 
Que em triste côr se marcava 
A mortal melancolia. 

Que fiz eu á naturesa, 
Á fortuna eu que faria, 
Para inspirar-me tam cedo 
A mortal melancolia l 

De alegria ouço eu falar, 
Mâs nâo sei que é alegria : 
Nunca me deixou sabe-lo 
A mortal melancolia- 



470 FLORILÉGIO. 

Se um anno triste se acaba, 
Triste o outro principia : 
Marca as horas, dias, mezes, 
A mortal melancolia. 

Sou forçado a alegre canto, 
Faço esforços de alegria, 
E occulto no fundo d'alma 
A mortal melancolia. 

£nxugo o pranto nos olhos. 
Obrigo a que a bocca ria. 
Pára disfarçar comYosoo 
A mortal melancolia. 

Kão quero com os meus pesares 
Funestar a companhia ; 
Que é uuia peste que lavra 
A mortal melancolia. 

§e os seus bens me mostra a sorte 
Móstra-m*08 por zombaria ; 
Porque pára mim só guarda 
A mortal melancolia. 

Sonhei que uma augusta mito 
Venturoso me fazia : 
Fui sonho — e fica em verdade 
A mortal melancolia. 

Fui abranger as venturas 
Que o sonho me offerecia ; 
E despertei abraçando 
A mortal melancolia. 

Se um praser se me dirfge, 
Occulta força o desvia : 
Só de mim se não separa 
A mortal melancolia 1 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. 477 

Eila me vai consumindo 
De hora a hora, dia a dia ; 
Sinto-me ir desfalecendo 
Da mortal melancolia. 

O sangue vai-se gelando, 
O coração se me esfria : 
Fica em pas Arménia — eu morro 
Da mortal melancolia. 

Inda quando o frio corpo 
Se envolver na terra fria. 
Ha de corroer meus ossos 
A mortal melancolia. 

Se acaso dura a tristeza 
Dos numes na companhia, 
Ali mesmo hei de ler n*alma 
A mortal melancolia. 

Sobre a minha sepultura 
Que escrevessem eu queria, 
Um epitáfio em Irinmpho 
Da mortal melancolia. 

Lereno alegrou os outros, 
E nunca teve alegria : 
Yiveu-»e morreu nos braços 
Da mor (ai melancolia ! 



478 FLORILÉGIO. 



Zabumba. 



Amor ajustou com Marle 
Vãos mancebos alistar, 
Um lhes dá trabalho honroso. 
Outros os faz rir e zombar : 

Tan, tan, tan, tan, tan, zabumba 

Bella vida militar : 

Defender o rei e a pátria, 

E depois rir e folgar. 

Toca Marte á generala, 
Vai as armas aprestar : 
Amor tem praseres doces, 
Com que os males temperar : 
Tan, etc. 

Ouço o rufo dos tambores, 
Já dali toca a marchar ; 
Os adeuses são apressa, 
Não ha tempo de esperar : 
Tan, etc. 

Vai passando o regimento 
E as meninas a acenar ; 
Vão as armas perfiladas, 
Mal se pôde a furto olhar : 
Tan, etc. 



DOMINGOS CALDAS BA n IIOZ A . < 7 9 

A mochila que vai fofa, 
Pouco Jeva que peiar ; 
Pouco pão e pouca roupa, 
Mâs saudades a fart%r : 
Tao, ele. 

A cidade que é de looa, 
Vejo apressa levantar ; 
PÕem-se as armas em sarilho, 
Vai a tropa descançar : 
Tan, etc. 

Vigilantes sentinelas 
Tejo alerta passear : 
Quem vem iá f quem vai ! faça ai to l 
Sempre alerta ouço gritar : 
Tan, ele. 

Vejo alegres camaradas 
Os baralhos apromptar ; 
Param, topam sujo cobre 
A perder, ou a ganhar : 
Tau, etc. 

Dá-se um beijo na borracha, 
L»á vão brindes a virar ; 
E co'a pública saúde 
Vai tenção particular: 
Tan, etc. 

Vem quartilho, «vai canada. 
Toca em fim a emborrachar ; 
A cabeça bambaleia. 
Ali ouço ressonar : 
Tan, etc. 



480 FLOBILEGIO. 

Corre o qne vigia o campo 
Vem perigo anDuuciar : 
Pega ás armas, pega ás armas, 
Dobra a marcha e avançar : 
Tao, etc. 

Uma brigada em columnas, 
Marcha a outra a obliquar, 
Os contrários fazem cara. 
Toca a morrer e a matar : 
Tan, etc. 

Já fusila a artilharia, 
Sinto as bailas sibilar ; 
Nuvens já d' espesso fumo 
VSo a luz do sol turbar : 
Ta D, etc. 

Ouço o bum, bum bnm das peçns, 
Vejo espadas lampejar ; 
Lá vão pernas, lá vão braços, 
E cabeças pelo ar : 
Tan, etc. 

A batalha está ganhada 
VSo o campo saquear ; 
Vem bandeiras arrastando. 
Toca em fim a retirar ; 
Tan, etc. 

Venha a nós — viva quem vencei 
Quem morreu deixa-lo estar; 
E da pátria no regaço 
Os heroes vem descançar : 
Tan, etc. 



DOMINGOS CALDAS BA RBOZ A. 481 

Os que salvam da peleija 
Vem a amor as graças dar ; 
K em signal da sua gloria 
Juntam flores ao cocar : 
Tao, ete. 

Os olhos que ▼iram tristes 
Vem agora consolar : 
A saudade se esfoeça. 
Torna a posse ao seu legar : 
Tan, «<c. 

Vem família, vem visinhos 
Boa vinda festejar ; 
E da bocca gloriosa 
Grandes cousas escutar : 
Tan, etc. 

Despe a veste, mrostra o peito, 
Quer sisuras procurar ; 
Mâs o tempo sarou tudo, 
Nem signal se p<Sde achar : 
Tan, etc. 

Que affrontou sempre os perigos 
Gentil dama ha de escutar ; 
S* estimou guardar a vida ; 
É só pára Ih* a entregar : 
Tan, etc. 

Um merecimento novo 
Tem de novo a apresentar. 
Vem mais rico de esperanças. 
Tem despachos qne esperar : 
Tan, etc, 

V 



48S FLORILBOIO. 

Ha de ter a fita verde 
De uma ord^m militar ; 
Soldo em dobro por tret meses 
Que a senhora fao de gastar : 
Tan, ete. 

N&o credes, meoioas, nestes, 
Não é certo o seu amar; 
Costumados sempre á marcha 
Até amam a marchar : 
Tan, ei€. 



Hetratoi. 



Quero Lucinda 
Bem relratar-te. 
Se acaso a arte 
Tanto puder. 

Finos çabellos 
Em trança grossa, 
Temo que possa 
Pintal-os bem. 

Dos lindos olhos 
A lu2 tâo TÍTa, 
Cor expressiva 
Nunca eu darei. 

N3o tens oas faces 
Jasmins e rosa, 
Côr mais graciosa 
Nas faces tens. 



DOltlNGOS CALDAS BARBOZA. 403 

Todas t*a ioTeJaoi, 
E ha quem ser queira. 
Assim trig:ueira 
Como lu és. 

TSo linda bocca 
Graciosa e brere, 
Ninguém a teve 
Nem pôde ter. 

Quando ta mostras 
Os alvos dentes. 
Causas ás gentes 
Doce prazer. 

Tem por entre elles 
Vozes discretas, 
Sfto de amor seitas 
Que ferem liem. 

Risos e graças 
Não tem pintura, 
Tanta doçura 
Cópia nSo tem. 

Guardas no seio 
De amor o encanto, 
Mâs cobres tanto 
Que nao se \ê. 

' Se o gentil corpo 
Quero imitar-te, ^ 

Desmaia a arte 
Tu bem o vês. 

-Pobre Lereno 
Vê que é loucura, 
Deixa a pintura 
Beija-Ihe os pés, 

o • 



484 . FLOSILEGIO. 

Neste retrato 
Se acaso eu minto, 
Ê porque pinto 
Menos do qu*és. 



Não digo o nome 
Da minha amada. 
Que oSo ten nada 
Que conhecer. 

Com tanta gra^ 

Não ha ninguém. 

Amor nos fios 
Da loura trança, 
Quantos alcança 
Vai enlaçar. 

Mais preso q*eu 

Ninguém está. 

A luz dos olhos < 

Nunca se eclipsa. 
Ali atiça 
Seu fogo amor. 

Não é tão bella 

A luz do sol. 

A côr das faces 
Lindas formosas, 
É a das rosas 
Com os jasmins. 

Outra nenhuma 

Tem côr assim. 



DOMINGOS CALDAS BABBOZA. 48 il 

Guattia na bocca 
. As mais graciosas 
Perlas preciosas 
Entre rublos. 

Que voi tio rica 
Se forma ali) 

É cofre rico 
O niveo peito, 
Do mais perfeito 
Mais puro amor. 

Guard*a minh^alma 

Que eu la fui pôr. 

Os pés mimosos 
Com graças tantas, 
Sào tenras plantas 
SRo pés de fior. 

Eu vou beijar-lh'os 

Seja o que for. 

Se acaso virem 
A ninfa bella, 
Que como elta 
NSo ha ninguém. 
É essa mesma 
Que é o meu bem. 



486 FLORILÉGIO. 



Sonetos. 

Negras, nocturnas a^es agoiraram 
£jte funebto, malfadado dia \ 
Dia em que a triste idade principia 
De nm triste, que as desgraças bafejaram : 

^ Qnanto ha de mau, em duros nós ataram 
Atropos, Cio to e Láchesis impía, 
Que esta nodosa vida estende e fia 
Pára males que ainda n&o chegaram. 

■ Tocou-me o berço a m2o cruel e dura 
Da cega e inconstante Potestade, 
Que enche meus pobres dias de amargura : 
Mágoas, desgostos, marcam minha idade, 
Mâs esqueceu á minha má Tenlura, 
Tírar-me o refrigério da amisade. 



Neste dia fatal — infausto dia, 
Nasceu ao mundo mais um desgraçado ; 
E l)em que pelas musas embalado. 
Só para Melpomene é que nascia : 

Quando a funesta aurora resurgia, 
O lúcido caminho achou turbado. 
Negro vapor da terra aos céus alçado, 
Veio empecer-lhe a alegre louçania : 

Três veses troa o céu, e do Cocyto 
Soltou a inveja as viperinas tranças, 
Soou da parte esquerda um rouco grito : 

Ah! nasceste infelia — -e em vão te canças! 
Lereno, já teu fado estava escripto. 
Serão teu maior bem vãs esperanças! 



PADRE ANTÓNIO PEREIRA 
DE SOUSA CALDAS. 



PADRE ANTÓNIO PEREIRA DE SOUSA 

CALDAS. 



A 



BtoGRAPHiA déflie illuatre cidadio, 
modelo dos ecdetiasticoa e honr» do púlpito, 
foi ja «scripta por um orador igualmente illui- 
tre * , e por isto nesta colJecçSo a daremoi 
apenas em resumo, e quanto baste a faier co- 
nhecer o poela e o individuo. 

António Pereira de Sousa Caldas nasceu no 
Rio de Janeiro no dia 24 de Novembro de 
176£. Sendo de compleição mui débil na ida- 
de de oito annos, seu pai que era um com- 
merciante da mesma cidade o mandou a Lis- 
boa recommendado ao cuidado de um lio, nego- 
ciante abastado, que, conhecendo nelle decidi- 
da vocação ás lettraSy nada poupou paru lh*a 
cultivar. Mandou-o, pois, a Coimbra, onde, 
começando a dístinguir-se já nas aulas do cur- 
so de direito, ja nas palestras com seus coUe- 
gas, já em suas composições poéticas, foi apa- 
nhado pelos do Santo Officio, havendo quem 
diga que por maçon. 

* O Coacgo JaoBArio d« G. B.~Jlcv. do Intt. Hitt. 
do Rio de Janeiro, T. II. p. 126. 



480 FL0BILB6I0. 

Remettido pára Lisboa, foi por ordem do 
Governo e a empenho de sea tio, transferido 
pára o convento de Rilhafoies, a fim de ser ahi 
catheqaisado por seis mezes. Os Rilhafolístafl 
desempenharam de tal modo a sua missão, qae 
nSo só ganharam a affeíç&o do joven cathequia- 
ta, como talves ahi lhe fizessem nascer a voca- 
çfto pára a vida ecclesíastica qae depois abra- 
çou. 

Saindo do convento fez uma pequena viagem 
a França, indo recommendado em P^is ao 
embaixaidor de Portugal o Marquei de Pombal, 
filho. -—Regressando a Lisboa seguiu á Uni- 
versidade de Coimbra, onde concluiu com día- 
tincçfto sua formatura em direito. 

Regeitando a carreira da magistratura, que 
se lhe offerecia, foi a Roma tomar ordens. A 
viagem que entio fez pelo mediterrâneo at^ 
Génova, descreve elle em uma carta de prota 
e verso a seu amigo Jdio de Deus Pires Fer- 
reira, que se acha impressa entre suas obras, 
e no Pamnêú Luêitano, pelo que não a repro- 
duzimos, apezar de ser um espelho do seu ca- 
racter. A pequena ode ao Creador ao entrar o 
estreito è digna do primeiro de nossos poetas 
sagrados. 

Voltado a Lisboa depois de tomar ordens 
em Roma, nSo se demorou ahi mnito; pois 
qois ir ver sua pátria e sua mil. Estava outra 
vez em Lisboa, quando pela entrada dos Franca- 
lear^ressou ao Brazil, donde nunca mais saiu. 

Aqui começa verdadeiramente a melhor épo- 
ca da vida do Padre Caldas, ao menos aqnella 



80C8Á CAL0A8. 401 

em que adquiriu mais g^lória, e patenteou sens 
talentos oratórios. Todos os domingos se api- 
nhava o melhor da cidade pára o onvir no 
templo de Santa Rita, cujo púlpito elle esco* 
Ihéra por estar junto da pia onde fdra feito 
christBo. 

Nas oecasiSes mais solemnes da cdrte, na9 
festas maiores das outras igrejas, o Padre Cal- 
das era sempre o pregador procurado. 

Más pouco lhe dararam seus dias de glória. 
Débil de constituído e appUcado mais do que 
esta lhe permittia, acabou desta vida aos 52 de 
Março de 1814, e foi enterrado no convento 
de Santo António da mesma cidade. Foi bom 
amigo, homem probo e osmoler. 

Suas poesias sagradas e profanas, que deixou 
pára corrigir e publicar ao General Stocfcler, 
também poeta, tem roais nomeada por aquellas 
que por estas ; por isso mesmo que sua voca- 
^o o fes occupar-se mais das primeiras. 

Publicaram-se em Paris em 18S1, com mui 
importantes notas e comentos de Stockler; e 
em 1836 se deram á hn em Coimbra dois to- 
milos em que não se contém as traducções. 

Outras obras deixou, das quaes apenas se 
sabe o paradeiro, e algumas cartas em prosa 
no gosto das de Montesquieu, que começou a 
publicar o Instituto do Rio de Janeiro. 



492 FLORILÉGIO. 



Ao homem selTagem- 



Ó homem, que fizeste ? tudo brada : 

Tua antiga grandesa 
De todo se eclipsou ; a paz doirada, 
A liberdade com ferros se \ê preza, 

E a pálida tristeza 
Effi teu rosto esparzida desfigura 
De Deus, que te creou, a imageai pura. 



Na cilhara, que empunho, as mftos grosseiras 

Nfto pôz cantor profano ; 
Emprestou«m'a a verdade, que as primeiras 
Caoçdes nella entoara ; e o vil engano, 

O erro deshumano, 
Sua face escondeu espavorido, 
Cuidando ser do mundo em fim banido. 



Dos céus desce brilhando 
A altiva independência, a cujo lado 
Ergue a razSo o sceptrò sublimado. 

Eu a ouço dictando 
Versos jamais ouvidos : réis da terra, 
Tremei á visla do que ali se encerra. 



SOUSA CALDAS. 493 

Que montão de cadéas vejo alçadaa 

Com o nome brilhante 
De leis, ao bem dos homeni coosagradas. 
A naturesa simples e constante, 

Com penna de diamante, 
Em breves regias, escreveu no peito 
Dos humanos as leii, qoe lhes tem feito. 



O teu firme alicerce eu nio pertendo, 

Sociedade santa, 
Indiscreto abalar : sdbre o tremendo 
Altar do calvo tempo, se levanta 

Uma vot que me espanta, 
E aponta o denso féu da antiguidade, 
Que á luz esconde a tua longa idade. 



Da dor o austero braço 
Sinto no AflQiçto peito carregar-me, 
E as trémulas^ entranhas apertar-me. 

Ó céus I que immenso espaço 
Nos separa daqnelles doces annos 
Ba vida primitiva dos humanos ! 



Salve dia felis, que o loiro Apollo 

Risonho alumiava. 
Quando da naturesa sobre o collo 
Sem temor a innoceneia repousava, 

E os hombros não curvara 
Do déspota ao aceno enfurecido, 
Qne inda a terra não tinha conhecido 



494 FLORILÉGIO* 

Dos férFÍdoB Ethonles debruçado 

Nos ares se soslinha , 
£ contra o tempo de furor armado, 
Este dia alongar por gUSria tinha ; 

Qnando nuvem mesquinha 
De desordens seus raios eclipsando, 
A noite foi do aTerno a fronte alçando, 



Saiu do centro eseuro 
Da terra a desgrenhada enfermidade, 
E os braços com que, unida á crueldade, 

Se aperta em laço duro, 
Estendendo, as campinas vai talando,' 
B os míseros humauos lacerando. 



Que augusta imagem de explendor subido 

Ante mim se figura ! 
Nu ; mas de graça e de valor vertido 
O homem natural nào teme a dura 

Feia mSo da ventura : 
No rosto a liberdade traz pintada 
De seus sérios prazeres rodeada. 



Desponta, cego amor, as seitas tuas : 

O pálido ciúme, 
Filho da ira, com as voses suas 
N'um peito livre n2o acceude o lume. 

Em v&o bramindo espume. 
Que elle indo após a doce natureia 
Da fantaxia os erros nada preza. 



SOUSA CALDAS. 49< 

Severo rolleaiido 
As asas denegridas, nSo lhe pinta 
O nnblado fotoro em negra tiota 

De males mil o bando, 
Que, de espectros cingindo a viJ Agnra, 
Do sábio tomam a morada dura. 



Eu vejo o molle somno susurrando 

Dos olhos pendurar-se 
Do frôxo caraiba que, encostando 
Os membros sobre a relva, sem tnrbar-se, 

O sol vé levantar-se, 
E nas ondas, de Thetis entre os braços, 
EInlregar'8e de amor aos ddces laços. 



Ó raxSo, onde habitas ? . . . na morada 

Do crime furiosa. 
Polida, mâs cruel, parameirtada 
Com as roupas do vicio ; ou na ditosa 

Cabana virtuosa 
Do selvagem grosseiro ? • . . Dixe . • . aonde ? 
Eu te chamo, ò pbilosopho ! responde. 



Qual o astro do dia, 
Que nas altas montanhas se demora, 
Depois que a Ins brilhante e creadora. 

Nos valles Já sombria, 
Apenas apparece ; assim me prende 
O homem natural, e o estro accende. 



498 FLOBILBGIO. 

De tresd obrado bronze tinha o peito 

Aqaelle ímpio tyranno, 
Que primeiro, enrugando o torvo aspeito, 
Do meu c teu o grito deshomano 

Fes soar em seu damno : 
Tremeu a socegada natureza, 
Ao ver deste mortal a louca empreza. 



Negros vapores pelo ar se viram 

Longo tempo cruzando, 
Té que bramando mil trovões se ouviram 
As nuvens entre raios decepando. 

Do seio seu lançando 
Os cruéis erros, e a torrente impía 
Dos vícios, que combatem, noite e dia. 



Cobríram-se as virtudes 
Com as vestes da Itoite ; e o lindo canto 
Das musas se trocou em triste pranto. 

E desde então só rudes 
Engenhos cantam o feliz malvado, 
Que nos roubou o primitivo estado, 



SOUSA CALDAS. ' 497 



Sobre o ancor. 

NSo foram, caro Soata, as Ijras de oiro 
De Orpheo e de Amphion, qae og ledef bravoi, 
E os indómitos tigres amansando, 
As cidades fnndaram. 

Bmbora finjam mentirosos vates, 
Qae as torcidas raiaes desprendendo 
As arvores annosas, que os penedos, 
Apoz elles correram. 

Tu, só tu, poro amor, despir podeste 
Da estnpida broteta a hamana espécie ; 
Só tu soubeste unir em firmes laços 
Ós dispersos humanos. 

Sem ti insociáveis vi viriam, 
Nas escarpadas serras, embrenhados ; 
Ou 008 sombrios, verde-negros bosques, 
Em pasmada tristeza. 

As fugitivas horas passariam, 
Em languido lethargo submergidos, 
Té que o pungente estfmuio da fome 
Lhes espantasse o somno. 

Os singelos prazeres da amizade, 
Prazeres suavíssimos, só dados 
Aos peitos generosos e sensíveis, 
Provar não poderiam. 



488 FLORILÉGIO. 

Aa iciencias, as artes sepultadas, 
No seio da ignorância inda jazeram ; 
Qne inerte e frózo a nada se atrevera 
Um peito enregelado. 

As bellas' Mareias, as gentis Ljcores, 
Em Tão dos vivos olhos fnsilaram 
Accesos raios, com que audaz (uLmiiiam 
Rebeldes esqnivanças. 

Suas vermelhas, engraçadas bòccas. 
Em vão, meigos sorrisos soltariam, 
Tingindo as juvenis, mimosas faces 
De pudibundas rosas. 

Anbelantes suspiros, brandas queixas. 
Ternos agrados, carinhosos gestos, ' 
Nada mover os peitos poderia 
Dos animados troncos. 

Dos risos e das graças rodeada, 
Vénus com farta mSo nSo derramara 
Em seus rústicos leitos brandas flores. 
Flores que tu b6 colOes. 

O gosto de abraçar a cara esposa. 
De se ver renascer nos doces filhos, 
De educar cidadãos, nutrir virtudes, 
Coitados ! n&o sentiram. 

Víra-se em breve co*o volver dos annos. 
Ermo de novo, o povoado mundo, 
Té que do seio da feeuuda terra 
Outros homens brotassem. 



SOUSA CALDAS. 4f9 

Ab ! cré-me, Sonsa» amor, amor, 10016016 
A vasta naturesa ▼i?ifiea : 
AoBor ocasos praxeres lodos gera, 
Nossos males adoça. 

O soldado animoso, qae s« arroja 
Com brio denodado a eipor a vida, 
Em defensa da pátria ameaçada 
De inimigas phalaoges; 

Depois de harer soffrido loogas marchas 
Por áridos sertSes, por frias serras, 
Arrastrando eaoçado os caTOS brootes 
Nas pesadas carreias ; 

Depois de oayir nas hórridas batalhas, 
Troando a furiosa artilheria. 
Pelos ares silvar os férreos globos 
Que a morte envoLla levam ; 

Depois de ver os rápidos ginetes 
Atropelando os fulminados corpos 
Dos caídos guerreiros, que em vão pedem 
Vingança, ou piedade, 

Entre os braços da tímida donzella, 
Que amor lhe prometléra, prompto esquece 
As passadas fadigas, os horrores 
Da guerra sanguinosa. 

O mísero cultor, que industrioso 
Do fértil seio da benigna terra 
Faz abrolhar os preciosos frutos, 
Que a vida nos sustentam. 



»00 FLOBILEGIO. 

Ou já soffra no frígido janeiro, 
Em quanto o arado rege, os finos sopros. 
Com que lhe tolhe os calejados dedos 
O gelado norde9t€; 

Apenas desenvolve o denso manto 
S<^bre a face da terra a noite amiga. 
Se o repouso procura aos lassos membros 
Na rústica morada, 

Vendo a fiel consorte, [que saudosa 
Ao encontro lhe sae, e o caro filho, 
Que, largando da mii o doce peito. 
Lhe estende os tenros braços, 

Em ternura suavíssima desfeito, 
Que o casto amor no coraçSo lhe entorna, 
Contente já de sua humilde sorte 
Bemdis a Providencia. 

Assim, 6 Sousa, na fiel balança, 
Onde a razão os bens e os males pesa, 
Se vé que, sem amor, a vida humana 
Seria insupportavel. 



SOUSA CALDAS. <(0I 



A creaçSo. 

Já do lempo voras §e dJFJMTa 
A férrea, corva foice relaiindo ; 

Def piedado, umas ?e«ef meDea?a, 
Ontras Teies ao longe desferindo, 
Em torno de si mesmo a agitava ; 

Quando o Nomen potente 
A cujo aceno o tempo audas nascera, 
Fea retumbar a tos, que tudo impera ; 
Os abjTsmos do nada estremeceram 

E ao Deus grande e clemente 
Os possireis tremendo obedeceram : 
Atónito levanta a escura frente 

O cabos rodeado 
De confusão e horror : inda a bellesa 

Com pincel Yariado 
NSo ornava a recente natureza. 

Tranqiiillas jazendo, 
As ondas dormiam 
Que a face cobriam 
Do cabos horrendo. 

Ao leve soprar 
De um zeflro brando, 
Vida rai cobrando 
O languido mar : 

Do vasto Oceano 
No seio se encerra ; 
E a mádida terra 
Deixa respirar. 



ItOfi FLOBILEGIO. 

A lui resplandeceu, e o firmamento^ 
Qiie em denigridas sombras se invoivia, 
Mostrou formoso o seu soberbo assento : 
De graças e esplendor se revestia 

O majestoso dia; 
Quando cheio de pompa o losimento, 
O sol rompeu dos ares, dardejando 
De animante calor celestes raios» 
Enternecido, triste sentimento 

Bfagda o rosto lindo 

Da noite descontente, 
Que a ausência de Phebo luminoso 

Assim terna annuncía: 

Emtanto desferindo 
Escassa lui èm tfarono tenebroso, 
Sdbre nuvens o sceptro recKnando, 
A lua os céus e terras alumia. 



Fulgentes estrellas 
Nos céus resplandecem' 
Na terra verdecem 
Mil arvores bellas. 

Os montes erguidos 
Os valles retumbam 
Ao som dos rugidos. 
Dos feros leòcs. 

Nas aiaa sustidas, 
As aves revoam : 
Nos ares entoam 
Sonoras canções. 



SOUSA CALDAS. *»<>' 

Ó terra I 6 céus 1 6 moda natureza I 
Trasbordai de alegria : triuoiphaate 
Da« entranhas do nada sarge o liomem : 
Elfl apparece ; e a cândida belleia 
O sisudo semblante lhe ennobrece. 

Seo magestoso porte 
Soberano do mundo o patentea. 
Orayada mostra n*alma a augusta imagem 

Do Senhor adorável 
Que o immenso universo senhorea : 
De sua porá carne se teceram 
As meigas graças, que no rosto amável, 

Da mulher cariohosat 
Com suave doçura resplandecem. 
Apenas a divisa transportado, 
Tn és o meu piaaer, que novo encanto 
Eu vejo ! lhe dixia ; e arrebatado 

Em delírio amoroso. 
Mil veses em seus braços a apertava, 

B todo o extenso mundo, 
por ella só, deixar pouco julgava. 



Qual rosa engraçada 
Que zéfiro adofa, 
Terna e delicada. 
Enredo de Flora : 



Assim é mimosa 
E linda a mulher 
£ o homem se gosa 
Em se lhe render. 



»04 FLORILÉGIO . 



Qual grita entre as ferat 
Leão rugidor, 
Derramando em tdrno 
Gélido terror : 

Tal se mostra o homem 
Sobre toda a terra ; 
Tudo rende e aterra 
Em arte e valor. 



O miúddo era creado, e traslnaia 
Em toda parte o braço omnipotente, ' 
Qne fizera raiar a noite e o dia. 
Da frígida semente 
Outra ves novo ser se produzia, 
Animada áo calor do sol ardente : 
Tudo em vida fervendo parecia. 

Fecundo recebera 
Virtude ^ crescer, miiUiplicar-se, 

O animal que á fera 
ímpia morte soubera sujeitar-se. 
EntSo o Creador arrebatado 
Em divino prazer, almo, infinito, 
Olhou dos céus o livro sublimado 
Que com as suas mãos havia escripto, 
E assim falou : Ouvi cheios de susto, 
Mortaes, a voz do Deus ímmenso e justo. 



SOUSA CALDAS. K0< 

Os céuff entoam 
Minha grandesa, 
Oà seres todos 
Jiiotos pregoam. 
Por vários modo», 
Do eterno ser 
O incomparável. 
Grande, inefável, 
A Uo .poder. 

A minha glória, 
Homem, respeita ; 
Rendido, acceita 
Meu mandamento : 
Traze á memória, 
Qne o firmamento 
Por ti criei ^ 
Que o mar e a terra, 
E o que ella encerra 
Tudo te dei. 

Se me adorares 
Com vivo ampr, 
E me offertares 
Santo temor ; 
^ Por mim o juro, 
Minha presença 
Ao peito puro 
£u mostrarei, 
£ recompensa 
Tua serei. 



»0C FLOIIILEGIO. 

Más se quebrares 
O meu preceito, 
£ sem respeite 
O profanares, 
Da morte fera 
A mão severa 
Ta sentirás, 
£ em ?3o gemendo, 
No averno horrendo, 
Me chamarás. 



A iaiinorkaUd«d« da alma. 



Porque choras, Fileno? Enxuga o pranto 
Que rega o teu semblante, onde a amisade 
Deisens dedos gravou o terno toque. 
Ah I não queiras cortar minha esperança, 
E de dor embeber minha alegria. 

Tu cuidas que a mSo fria 
Da morte, congelando os f roxos membros, 
Nos abysmos do nada inexcrutareis 
Vai de todo afogar minha existência ? 
É outro o meu destino, outra a promessa 
Do espirito quejem mim vive e me anima. 

A horrenda sepultura 
Conter não pôde a luz brilhante e pura, 
Que soberana rege o corpo inerte 



8008Â CAU)A8« tsa? 

Não descobres em ti um lentimeBlo 
Sublime e grandioso, que parece 
Toa vida estender além da morte ? 
A (tenta. • . escuta bem. . . Olha. . . examina. . . 

Em ti deve existir : eu oSo te engano* 

Tu me dizes que existe. ... Ah 1 meu Filenoi 

Comoé doce a lembrança 
Dessa vida immortal em que, banhado 
De inefável praser, o justo goaa 
Do sen Deas a presença magestosa ! 

Desperta, 6 morte: 
Que te detém? 
Teu cruel braço 
Esforça, e vem. 

Vem, por piedade, 
Já transpassar-me, 
E avi$inhar-me 
Do summo Bem. 

E queres que eu prefira 
Humanos passatempos ao momento, 
Em que raia a feliz eternidade? 

Um Deus de amor m'inflarama ; 
E já no peito meu mal cabe a chamma 
Que docemente o coração me abraza. 
Eu vôo por elle : elle s6 pôde 
Minha alma, sequiosa do infinito, 
De todo saciar : este desejo 

Me torna saboroso 
O cálix que tu julgas amargoso. 
Fileno, doce amigo, a mSo estende, 

T • 



^08 FLORILÉGIO. 

A minha aperta : n3o te assuste o vé-Ia 
De mortal frio já passada e languida. 

Mais durável que a vida, 
É da amisade a teia delicada, 

'Se a virtude a teceu Em fim, 6 morte, 

Tu me mostras a foice inexorável. 
Amarga este momento : eu nSo t*o nego, 
Meu amante Fíleno : a voz já pr^ 

Sinto faltar-me ; o sangue 
Nas veias congelar-se ; pelo rosto 
Me cae frio suor ; a lux mal posso 
Das trevas distinguir ; e suffocado 

O coração desmaia. 
Vem, iramortalidade — veni, 6 grande. 

Sublime pensamento. 
Adoçar o meu último momento. 

Ó Nume infinito, 
Que aspiro a gozar, 
O meu peito afflicto 
Enche de valor. 

Suave esperança 
De sorte melhor, 
Quanto deste instante 
Adoças o horror ! 



S0C8A CALDA8. 800 



Sonetoi* 



Oito anoofl apenas eu contava. 
Quando á fúria do mar, abandonando 
A vida, era frágil lenho e demandando 
Novos climas, da pátria me ausentava. 

Desde então á tristesa começava 
O tenro peito a ir acostumando ; 
E mais tjrranna sorte adivinhando 
Em lagrimas o pai e a m&i deixava. 

Entre ferros, pobreza, enfermidade 
Eu vejo, 6 céus ! que dor I que iníqua forte ! 
O começo da mais risonha idade. 

A velhice cruel, (ó dura morte I) 
Que faz temer tão triste mocidade, 
Pára poupar*me descarrega o corte. 

A immortalidade da alma. 

Sim, eu sou mortal. Bramindo espume 
A maldade cruel ; e desgrenhada 
Morda-se embora, pois não p6de irada 
Extinguir da razão o vivo Inme. 

Crede, caros amigos, não consume 
Do tempo estragador a foice errada 
Esta viva faisca, que abrasada 
Caiu do sdpro do Supremo Nume. 

O justo sobre a terra, aos céus erguendo 
Os algemados braços, e o tyranno 
Vício no throno com o pé batendo. 

Fazem fugir o refalsado engano 
Que em vão forceja, pára ver gemendo 
Da verdade o sisudo desengano. 



IS 10 FLORILÉGIO. 



Na presença de orna grande trOTOada. 

Tremei, bomanos : toda a naturexai 
Do seu Deus ao aceno convocada, 
Sdbre negros trovões surge sentada. 
Em cruel fúria contra nós accesa. 

Do rosto seu escondem a belleza, 
Medonha escuridade acompanhada 
De abrasadores raios, e pesada 
Saraiva que no ar estava presa. 

Agora perde a côr de medo cheio, 
O monarcha felis e poderoso, 
Que o vil orgulho abriga no seu seio. 

Tu descoras também, athco vaidoso, 
E menos cego sem achar esteio, 
A mSo, que negas, beijas duvidoso. 



FREI FRANCISCO DE S. CARLOS. 



TREI FRANCISCO DE S. CARLOS. 



A 



LiTTBR ATURA bracileíra conta tami>eai 
uma epopéa sagrada. Téoi por assumpto a as- 
sumpção da Virgem pelos anjos considerada na 
cidade de Epbeso : tem por auctor um religio- 
so franciscano reformado da província da Con- 
ceiçdLo do Brasil, Fr. Francisco de S. Carlos. 
Nascea este poeta sagrado no Rio de Janei- 
ro em Agosto de 1763 : no seu próprio poema 
se lembra elle de sua pátria : 

d Nai ribeirai do plácido Janeiro, 
Preaado berço meu, qae fes • tort« 
Do anrifcro Brasil o centro e a cArte. » 

Contava apenas treze annos de idade, quan- 
do, destinando-se á religião, entrou desde loiro 
no convento de S. Boaventura de Macacú; 
'e, seguindo «eus estudos, professou quando 
teve idade, dando como noviço mostras de 
grande talento, e como religioso professo deci- 
didas provas de sentimentos religiosos e condu- 
cla exemplar. Como pregador se destinguia 
tanto, que ao entrar deste século foi nomeado 
professor de eloquência sagrada, e quando ao 
Rio cbegou a cdrte, o escolheram pára pregador 



BI 4 FLORILÉGIO. 

(la casa real. Nilo é como pregador que agora 
o lemos que considerar: sua voz forte e clara, 
sua fi^^ura nobre, e ao mesmo tempo expres- 
siva, sua eloquência fácil, fecunda e accommo* 
dada aos assumptos, furam dotes que o fizeram 
considerar o primeiro pregador do Rio. Nâo 
lemos nenhum de seus sermões, e delles raros 
chegaram a imprimir-se ; mâs a facilidade de 
sua eloquência confirmámos pela fluidez, pela 
expotaneidade de seus versos, viveza de suas 
imagens e colorido de suas pinturas, no poema 
que o fará immortal. 

A jitgumpçãúf em oito cantos, foi impresso 
em 1819. Parece incrível como o poeta crea- 
d d' soube ferliliiar com seo génio um assum- 
pto que nSo o é, e que além disso estava já 
bastante tratado, pára ainda sair-se delle seu 
auclor com tanta glória. NSo que o poema se 
tornasse popular; em Portugal nem sequer o 
nome é conhecido ; no Brazil apenas ha quem 
o léa. Concorre pára isso talvez o julgar-se a 
obra mystica, e por tanto mais ascética que 
amena ; mfts não concorre talvez menos a na- 
tureza das rimas pareadas , que infelizmente 
adoptou o poeta, e que, como elle mesmo diz, ^ 
aó advertiu demasiado tarde que causavam ex- 
cessiva monotonia. Assim, quanto a nós, é 
nm poema que ganhará muito se alguma vez 
chega a ser traduzido ; pois é repleto de gran- 
des imagens , cheio de episódios variados e 
descrípções das bellezas americanas, ás qnaes 
o auctor teve o feliz pensamento de dar um 
justo logar no i>eu paraíso terreal. 



8. CARLOS. SSiK 

Fr. Francisco de S. Carlos falleceu do Rio 
de Janeiro a 6 de Maio de 1829, e jaz no 
convento de Santo António. Sen retrato se rê 
em uma estam|>a do frontispício do ])oema, of- 
ferecendo á Virgem de joelhos este, que tem 
aberto na mão. 



ma FLOBILEGIO. 



America. 



» Além dos mares vejo, além da« ilhas, 
Ah ! que immeiíso paiz ! que maravilhas! 
Vejo um novo hemispherio, novos alres, 
Outros céus, outros bosques, outros mares, 
Aves estrauhas, flores nos matizes 
Diversas, das que vi nos meus paizes. 
Pelo longo da costa demandando 
As regiõfs austraes, debaixo estando 
Do semicapro peixe, que é patente 
Meta meridional do sol ardente; 
N'um braço do oceano, que ali morre, 
Pulquerrima cidade logo occorre 
De nobres edifirios ; torreada 
De bronze e revelins a augusta entrada. 
Inda mais vejo ali, se não me engana 
Em painel tão escuro a mente humana. 
Que pela praça vai a generosa 
Dei para em triumpho ; e populosa 
Companhia com tochas mil accesas 
Parece celebrar suas grandezas. 
Dizei-nos, nobre arcfaanjo, o que isto intima. 
Pára mim é myslerio, é tudo enigma, 
Tudo sombras escuras, e tão densas 
Que as azas da razão me tem suspensas. » 
O rasto continente que afflgura 



S. C4BL0S. Si 7 

(Diz O nnocÍG do Eterno) éola gravura, 

£ ura grande paii quasi deierto : 

No trato ao mundo antigo índa eucoberlo. 

Màs em fim por um génio denodado 

Será das dentas trevas arrancado 

Co*o soccorro da agulha e do astrolábio, 

Novo invento subtil do engenho sábio. 

Ó Ligure immor4al, nesta árdua empreia 

Tornaste a abrir a porta á natureza ; 

E obrigaste a adorar do mundo a gente, 

Como de novo, a m&o do Omnipotente* 

Que cylhara tão doce, ou que profundo 
Engenha poderia oeste nnodo 
Uma parte cantar de tua gkSria I 
Não mais , oSo mais blasono a antiga história, 
As] proexas do grego e do troiano ; 
Nem a fabula desse t&o ufano 
Pelos doze trabalhos. Os seus feitos 
Com os teus confrontados s&o defeitos. 
Ou antes um pigmeu, ou uma aranha 
Á visla do gigante, ou da montanha. 
PoF ti um grau de glória soberana 
Recebe, e mais se exalça ecrpecie humana. 
Nova serie de cousas eis que assoma, 
E o orbe inteiro nova face toma. 
Aplanadas dos golfos as passagens 
Novos meios se abriram, mil vantagens 
Aos tratos mercantis ; e os bons talentos 
Dictaram-se de luzes e de inventos. 
Tocaste a meta da terráquea esfera, 
Rasgado o véu dos secMos que a eâcondéra, 
EnISo do Creador novos primores 
Resplenderam, pregões] dos seus louvores. 



^18 FLOBILEGIO. 

Que quando o seu salier mais palentea, 
Delle nos cresce o amor, cresceodo a idéa. 
Em fim, mostrada em parte a naturesa, 
A<;ora tn lhe expões toda a riquesa; 
Mâs conressa, que a honra asíim o ensina. 
Que aprendeste os segredos e a doolrina 
Dos bravos, dos affoilos Luzitanos, 
Que primeiros traçaram-te os teus planos. 

£ tamanho o paiz, t&o vasto o solo, 
Que se estende de um polo a outro polo. 
Ali vegetam várias alimárias, 
Varies troncos e frutas ; flores várias. 
Acham*se ricas pedrarias finas, 
Oiro, prata e mil drogas peregrinas. 
Os três- reinos aqui, que .a opulência, 
E bazes são da humana subsistência ; 
Em minas, animaes e vegetantes. 
Tão ubérrimos são e tão prestantes ; 
Que não resolve a sábia tubtUesa, 
Pára onde mais pendeu a natureza. 

Cria rudo, que o mundo velho envia ; 
E o mais, que o velho mundo jamais cria^ 
Porque, como uma e outra zona apanha, 
Produz Lieu, e a fructa d'oiro estranha, 
No jardim das Hespérides nascida, 
Por quem foste, atalanta, já veucida. 
E o caixo, que de Rhodes gera o seio, 
Melhor tornado neste clima alheio. 
Abrilhanta o ananaz, sanzona a pêra, 
E o pomo, que discórdia já tecera 
Entre as deusas do Olympo no monte Ida, 
Que fez Dardania em cinzas reduzida 
Os dons da Ceres loira, em competência 



S. CABLOS. Kl 9 

Co'o8 celeiros Egypcios na afluência. 

Quando o próvido Hebreu amontoava * 

Nelleá o grão, que aréas igualava. 

Além das farináceas e das raízes, 

Que os povos fazem fartos e felizes, 

Que direi desse reino vegelanie 

Em dilatar a vida tão prestante ? 

Aqui colheita salutar descobre 

O fármaco, em vigi lias úteis nobre. 

Rica mina por certo, grão thesoiro 

De mais alto valor, que a prata e oiro, 

E o lustre vão de pedrarias finas ; 

Do nume de Epidauro prendas dignas. 

A palmachristi, a nova Ipecacuanha 

Do velho Dioscorides estranha. 

Da cupaiba o oloo precioso, 

Que vence a dor e o golpe mais perigoso. 

Hervns, plantas em suecos e virtude, 

Férteis de vida, fontes de saúde. 

Encontram-se também tribus errantes 

Nos bosques; que entre si belligerantes 

Vivem de singular e estranho povo. 

Que parece outra raça, germe novo. 

Antropophagos são, que a tão sobido 

Grau de horror chega humano embrutecido I 

Pintam o rosto seu mal encarnado 

De verde, croceo, roxo e de encarnado. 

E por fugir á vespa o corpo todo 

De resinas agrestes, ou de lodo. 

Tecer ignoram ; mas as suas tellas 

São as plumas dos aves, cores betlas. 

A vida passam em contínuas festas 

De crápulas e dduças inhonestas. 



S-flO FL0BILC6I0« 



Rio de Janeiro. 



k cidade, que ali vedes traçada, 
E que a meote vos traz tão occupada, 
Será nobre coionia, rica, forte. 
Fecunda em génio», que assim quiz a sorte. 
Será pelo seu porto desmarcado 
A feira do oiro, o empório frequentado. 
Amplíssimo ao commercio ; pois profundo 
P6de as frotas conter de todo o mundo. 
Será de um povo excelso, germe airoso 
Lá da Lysia, o logar mais venturoso. 
Pois dos Lusos Brazilicos um dia 
O centro deve ser da mouarchia. 
Alçarão outras no porvir da idade 
Os trofeus, que tiverem por vaidade. 
Umas nas artes levarão a palma 
De aos mármores dar vida, aos bronzes alma* 
Outras irão beber sua nobreza 
Nos tratos mercantis. Tal que se preza 
De ver nas suas scenas e tribunas. 
Maior brazão, mais ínclitas columnas. 
Aquellas dos Timantes o extremoso 
Pincel com estro imitará fogoso. 
Muitas serão mais destras no compasso, 
Que as l|nhas mede do celeste espaço. 
Mâs cuidar de seu rei, ser sua corte. 
Dar ás outras a lei : eis desta a sorte. 

Gravaram do rigor de impostos novos 
Os dynastas cruéis a terra e os povos 
Egypcios, por alçar maças estranhas^ 
Que tu, transpondo o leito, 6 Nilo, banhas, 



8. CABL08. *^** 

Foase BuperstiçSo ou êó vaidade 
Da fama dilalar por loD|[;a idade : 
É certo que o sentiu o povo santo, 
Que tanto ali gemeu por tempo tanto. 
Hoje busca o viajor o immenso lago 
De Mexis, e só topa um campo vago. 
£ se restam taes obras peregrinas. 
São sobejos do tempo, e wS ruínas. 
Aqui, pelo contrário, pôs natura, 
Por brazões da primeva architeclura. 
Volumes colossaes, corpos enormes, 
Cylindros de granito desconformes 
Massas, quç não erguerSo nunca humanos, 
Mil braços a gastar, gastar mil annos. 
Vedes na fo» aquelle, que apparece 
Pontagudo e escarpado ? Pois parece. 
Que deu-lhe a providentc naturesa, 
(Além das obras d'arle) por defesa, 
lia derrocada penha transformado 
Tíubigena membrudo ; sempre armado^ 
De face negra e torva ; e mais se o c'rôa 
Neve, trovões e raios, com que alrôa. 
Que, co*a frente no ce'u, no mar os rastro», 
Atreiido ameaça o pego e os astros. 
Se os delirios da vS mythología 
Na terra inda vagassem ; dir-se-ía : 
Que era um desses Alóidas, gigante. 
Que intentou escalar um céu brilhante. 
Que das deusas do Olympo namorado 
Foi no mar por audaz precipitado. 
E as deusas por acinte lá da allura 
Lhe enxovalíiam de neve a catadura. 
Do seio, poia, das nuvtns, onde a fronte 



»S2 FLORILÉGIO. 

Esconde, vendo o mar, até o borisonte ; 
Mal que espreita surgir lenho inimigo, 
Prompto aviza e previne-se o perigo. 

Por uma e outra parte ao céu subindo 
Vão mil rochas e picos ; que existindo 
Desde o berço do mundo, e d* então vendo 
Os secMos renascer e irem morrendo ; 
Por tanta duração, tanta firmeza, 
Deuses parecem ser da naturesa. 
Ossos da grande mãi, que ao ar saíram 
Na voz da creaç&o ; e mai que ouviram 
Que deviam parar, logo pararam 
Nas formas e extenções, em que se acharam. 
Que aíTiguram exércitos cerrados 
De mil negros tipheos petrificados. 
Ao resto sobresae co*a fronte erguida 
Dos órgãos a montanha, abastecida 
De grossas matas, de sonoras fontes. 
Que, despenhando-se de alpestres montei, 
Vem engrossar o lago da agoa amara 
Do grão Netheroy, do Ganabara. 
Tal a fabula diz, de Alfeo que o rio i 

Faz por baixo do mar longo desvio j 

Té Ortygia, em demanda de Aretbusa, ( 

Que abraçar-se com elle não recusa. 

O Brasil, «eus fracto* « pasaaros. 

Então, Brazil, verá tua ventura : 
O secMo d*oiro teu, tua cultura. 
Petas largas espadoas penduradas 
Não te verão mais settas aguçadas. 
Nem de pennas multicolor textura 



8. tABLOS. Í$S3 

Teus braços cingirá, tua cintura, 
Debalde o Caiman se pinte enorme 
De rdjo a tuas plantas, qual o informe 
Do Ichn^umon riral, que gera o frio 
Em lodosos paiies septempfalno rio. 
Correa-se o panno á scena : roçagante, 
Esteliifero palio, auríflammánle, 
Desenho do primor, obra de cusio 
Adornará teu vulto baço e adusto. 
Sceptro na mão terás, e na cabeça 
Coroa, donde santa resplandeça 
Cmo raios de rubis a cruz erguida ; 
A cruz, que é tua crença querida. 
Os frnclos de teus bosques, de teus prados. 
Mais doces hSo de ser ; porque cantados 
Dos títyros serfto na agreste avena, 
Nas silvas resoando a cantilena. 
O áureo cambocá, frucla que unida 
Nasce á casca da rama : a denegrida 
Jaboticaba doce. que bem vinga 
Nas frescas várzeas da Piratininga. 

Vós também, 6 alados, que em plumagens 
Da filha de Tbaumante sois imagens ; 
Vós sereis celebrabos, que girando 
Lindos jardins no céu andais pintando, 
O psitaco loquaz, grossas araras, 
Os loiros canindez de plumas raras : 
O trombudo tucano, que no peito 
A côr formosa traz, daquelle geíto. 
Que Daphne já trouxera nos cabellos. 
Em crespos fios d*oiro rico e bellos ; 
A iraponga nivea, que nos montes 
Arremeda em tinir sórdidos brontes. 



SS4 FLORILÉGIO. 

Os cerúleos sahís, e também verde», 
Oade tu, esmeralda, o preço perdes. 
Os róseos colhereiros, e os vermelhos 
.Guarás, que pennas trajam sendo velhos 
De escarlate, se bem que negros nascem j 
Mâs quando as salsas conxas do mar pascem, 
Rubras cores recedem tão sobejas. 
Que tu, rei dos jardins, o cravo, invejas. 
O raro carajoá, que gruo Ihesoiro 
Tem na gorja de azul, de roxo e d*oiro. 
Que beatifica os goylacaces prados 
De sons angélicos, de mil trinados, 
£ a tuas margens ama, e as agoas liba 
O sereno e austrino Paraíba. 
E o thié, que o murice escurece. 
Com que a praia de Tyro se ennobrece ; 
E outras muitas, em fim, que sSo diversas 
No canto e formas, pelo ar dispersas. 

Províncias do Brasil. 

Também colónias mil serão fundadas 
De praças e lugares : alTamadas 
Por nobreza e commercio ; da maneira 
Que qualquer julgará ser a primeira. 
Da latitude austral no grau trezeno, 
N'um rico e fertilistimo terreno, 
A primeira cidade o navegante 
Saudará do mar, ninho importarte: 
Que no cume de um monte se sublima ; 
Qual o da águia, que alturas tanto estima. 
Mãí de nobres colónias, que algum dia 
Serns o Soteropole Bahia 



8. CARLOS. ' »2i* 

É daqui qne tu, inclyto Janeiro, 
Tomas o berço e o fundador primeiro. 

Assim matrona illustre, grave e aonosa 
Vê, prolifica em fructos gloriosa, 
Cem fillios dos sens filhos desposados. 
Esgalhos de um 8<5 tronco derivados. 
Assim arvore exótica estimável, 
Que restou singular, inesgotável 
De si reparte garfos a milhares 
Pára mil hortas, pára mil pomares. 
Do porto seus baixeis empa vexados 
Irão cortando mares empolados 
O paíi demandar fronteiro a este, 
Por onde corre o Zaire, sopra o leste. 
Conservamlo no seio em sen proveito 
O oiro das naçdes : como tem feito 
Antes de se abrazar, Tyro e Carthago : 
Esta em Ansonio, aquella em grego estrago. 

Subindo um pouco mais, verão Olinda 
Surgir das ondas marcial e linda ; 
Cujos trofeus, com q*as Dunas se ennobrccem. 
Em vão o leão fero das Astúrias 
Castigar jure b^gicas injurias. 
Inútil tentativa ! vSo reforço 
Só Olinda arrostar pôde a tanto esforço. 
Ao resto do paiz, oomo engrenhadas* 
Matas tiver, cidades isoladas, 
(Prosegue o archanjo) e Amphitrite em meio. 
Todo o ardil será vão, todo o bloqueio. 
Se algum porto, on logar for esbulhado, 
Não será pelas hostes conservado. 
Que tendo além dos mares a esperança, 
Não soffre o instante mal menor tardança. 



^^^ FL0ftILB6I0« 

Mais acima a cidade se descobre 
Em lares não humilde, em cópia nobre 
Do arminho vegetal, da casca ardente. 
Com que tu, Maranhão, éa excellente. 
Colónia que o Gaulez sagaz fundara, 
E dos Brazís corrido não gozara. 
Quando do Ebro seguia a infausta estrella 
A princesa do Tejo, Lyzia bella. 
Viuva de legítimos senhores 
No jugo e nos grilhões de usurpodores. 
Mâs lá por onde a noite iguala o dia, 
Linha e(]ninocial na hydrographia, 
Por ijltímo a cidade nobre imper», 
Com o nome, onde o verbo á luz viera. 
Bem sdbre a foz de um rio, que no mun<io 
£ capitão das agoaS sem segundo. 
O Tejo, que já pérolas da aurora 
£ hydaspicos mares houve outr*ora ; 
O Tybre, que nos giros, que rodéa, 
Trofeus volvia, como agora aréa ; 
O Rheno, cujas margens se gloriam 
Do roxo néctar, que fecundas criam ; 
A vista do Amazonas, reprezentam ^ 

Quaes ramos sobre os troncos qu'o8 sustentam. J 

ó nautas, qne coutaes cousas tamanhas, i 

Vendo extranhos paises, novas manhas, 1 

Dizei ao morador do velho mundo. 
Que n* outro um rio vistes tão profundo, 
Que no seu vasto seio uma ilba aponta 
Que três vezes cincoenta milhas conta. 

Paiz quasi ao desdém ; até que um dia 
Lhe imprima dextra mão nobre energia. 
Análogo rival, qnadro imitante 



S. CABL08. **Í7 

Do cheiroio terreno, do abundante, 
Que o Iodo rega, morador da aurora, 
£ o Ganges, cuja fonte em éden mora. 
Aqni as plantardes tSo lindas crescem 
Do extremo Chim, que indígenas parecem : 
A estomacal rais, acre e pungente ; 
A negra pipereira^ o craxro ardente ; 
O muscado, odoriferante fructo. 
De que as aves recebem gr&o tributo. 
E aquelle, cuja amêndoa cria a massa 
Da potagem balsâmica, que passa 
Em delicias o néctar delicado, 
Dos immortaes nas mezas só brindado. 
A cânfora, antevermis precioso, 
O áloes, o sândalo cheiroso ; 
E a salutar cortiça da caneto, 
Com que tu, Taprobana, és rica e bella. 
Bem poderiam, pois, ser transplantadas 
Estas substancias todas : trasladadas 
Aqui Tantagens taes; e deste geito 
Mais profícuo o Brasil, de mais respeilo. 
Quem ouzára affrontar golfos tSo altos. 
Expondo o peito a tantos sobresaltos ? 
Quem ver quisera a horreoda catadura 
Do gigante, ao presente rocha dnrn ; 
Tendo aqui lastro promplo, fresco e certo, 
Por mar mais social, rumo mais perto ? 

Voltando ao Austro, os bosques senho rea 
A illustre povoação de Paulicea ; 
Aprazível logar, cuja campanha 
O Tamandslay cercando banha. 
Cujos alumnos fortes e briozos, 
Rios transpondo, montes escabrosos, 



898 FLORILIQlO. 

Atropos insultanda e os teus perigos 
Sem rotina segura, sem abrigos, 
De pantheras e serpes assaltados, ' 
E do indígena bruto ; em fim cançados 
DarSo com terras pingues e abundantes 
Das veias d 'oiro ricas e diamantes. 
Aquelles que furando o peito duro 
De triplicado bronze, o mar escuro 
De Helte na aventureira faia arando 
Voltam de Colcos ledos, transportando 
D*oiro a 13 ; não disputem as conquistas, 
Que Mo de tentar os inclytos Paulistas 

Contigua a esta terra, a terra pega 
Do meta], que a fortuna a muitos nega. 
Tudo quanto de Ophir se tem falado 
£ de riquezas d* oiro exaggerado; 
Em grau aqui se encontra tão sobejo, 
Que p<5de terminar qualquer desejo. 
Nunca tamanhas, tão exuberantes 
Cópias de metaes finos e diamantes 
Em cofres eclipsaram chapeados 
Da riqueza os heroes : nem celebrados 
Senhores foram já de tanto preço, 
Âtalo em Pergamo, e na Lydia Cresso. 
E se nada exaggero ou dissimulo. 
Em vão se aggrave contra mim Lucolo. 

Descendo a costa um pouco ao meio«dia 
A Ilha Linda se verá que um dia 
Nomeada será florente e culta 
Da illustre martyr que o Sinai sepulta. 
Por quem a antiga Grécia esquecera 
De Chipre, Chio, Samos e Cithera. 
Emfim nas margens de um sol)erbo rio, 



S, CABLOS. Utft 

Quasi lérmioo Mistral do seollorio 

I4US0 ; em geslíf • (ieleitoaot prados 

Dos dons da flava Ceres lourejadoí : 

Ficará Porlalefre, cujo nome 

Natura deu-lhe, que Bin;[:upm lb*o lomc 

E tu, ioclyta ?l|la da Yictoria, 

Oue já em teu nome ofienlas 4ua gkíria ; 

Nilo penses qiie de ti se esquece a muwi, 

Que o mérito exaltar jamais recusa. 

Tu ergueste soberba os teus |iavéses 

Contra o Belga e o Tamoie muitas veze^* 

Tu abundas de aromas e retinas, 

E, o que é louvor, de mentet peregrinas. 

Mâs se algum «ontradita quanto «Hego 

Venham viogar-te as musas do Mondego. 

Cnllos á Virgem; a I^gv^ja da Gloria ao Rio àt ^aneiv». 

A bella estatua, que com bello arranjo 
Sobre áureos serafins (prosegue o arclianje) 
É levada entre a turma, que abraiada 
De amor, laudes Ibe rende em vos alçada ; 
Já mostra, que será da vencedcM 
Do Brebo a cidade grSo cuUora. 
R é por ásia rasfto, e é neste intentoy 
Que mereceu aqui dislineto atsf^to. 
Ella fará subir á clara, esfera 
Em seu nome trofeus, onde a arte impera. 
Soar&o pelos lares e nas ruas 
Hjrmnos míl^ e canções em gkSrias suas. 
N3o vedes acolá como apartada 
Colina, ora de silvas erriçada, 
Ninbo de serpes, plácida guarida 

X 



KSO FLOBILBQIO. 

De feras ? Será enlSo no cume ergiti«lii 
Ca9a á Virgem, medíocre mi aUiir», 
Mâs no risco primor da srebileelura. 
Que ostentará por titttife de memória, 
O titulo pomposo desta glória. 
Trofeu, que inda será, da piedade 
Do trato mercantil desta cidade. 
Celebrarfto & volta deste dia 
Nella os povos oom fogos- de alegria. 
Por marmóreas esradas a subida 
ConduB ao alto e ao portic» da ermida. 
Sobre lagedos de granito em quadro 
Descança a baie, que ali> ten um adro. 
Dos lados peitoris ; descanço e meio 
Dos olhos pastearam seu recreio. 
SituaçSo risonha, sobranceira 
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira. 
De rochas e de serras mil erguidas. 
De palmas e arvoredo- «tostecidas. 

Oh ! que novo fulgor ( Oh 1 que sereea 
Lux innuoda e abriliwjitii a riea seen»! 
De piedade inuiHado eiempio 
Eu vejo, eu vejo oeste augusto templo. 
Este dia, Brasil, com Ijrpos d'oiro 
Transmitiam tens annaes até o viadoiro% 
Marcha a pompa dos nobres e senhores, 
Brilha o oiro, o ostro e os seus prtmofes. 
Entre todos levanta o magestoso 
Collo o Príncipe, qual ergue frondoso 
Plátano a verdejante oopa ingente 
Sobre a vergonlea deliil; Bis que co«tenlet 
Vem ao templo oflortar com fé que' espanta, 
A nova Imperatris dos céus a planta 



«. CA1L08. «3t 

Bragantina. Dicando agradecido 
Áqiiella, por quem iiniia recebido. 
Arde a panchaia, êóbt o odor aos ares 
Deacança a linda offerta noa aliares. 
Entre as grynpas da torre ao oéa erguidas 
Festejam bronseas boccas retangidas. 
A vária côr purpúrea das bandeiras 
Nutre os olhos, das vistas mil fagueiras* 
Rebomba pelo espaço do oceano 
Em crebras explosSes ronco Voleano. 
Sobem votos de amor ao céu propício 
Porque ria de cima ao natalício. 
Clama o povo, e no longe ot arradorcs 
Tao repetindo' os ercos di s clamores. 
Em fim tudo é festivo e prasenleiro 
Nas venturosas ribas do Janeiro. 
Aqui nautas tirão cumprir o veAo, 
Trasendo em hombros o velacho roto : 
Oo*a roupa mal enxuta^ inda assustemos 
Dos euros e esearceus encapellados. 
Virfto também remipetas, tMaidos 
Da devoçSo, de oflbrtas opprimirios 
Assim que por tal fé^ t2o extremada, 
Bem poderá esta pniça serchiuBada 
A cidade da Virgem ; bem como eila 
£ cidade de Deus risonha e bella. 

CivilisaçSo da Capital éo Brazil. 

E tu, fausto logar, queinda algum dia 
Nobre assento §eri» da monarchia ; 
Tu que já foras inclyto e florente 
Nas artes, d» riqnesa e il lustre gente ; 

X * 



í»32 Fl.ORlLKGtO, 

fisciila a!;ura os úom esclureciílo», 
Que a ti (lo ccii estSo apercebidos. 
VtriU soberbas fitbus do oceaoo, 
Prenhes de rko peso, que cada aouo 
Feudos te pairarão das rk^as téas 
Oas plagas orientaes, das europcas. 
Veras do reino physico aclarados 
Seus segredos, té-lt nHo revelados, 
Madeiros de fabrico primorosos, 
Cascas de tintas, óleos preciosas, 
Tantas rezinas, massas e perfumes 
Que ora desprezam bárbaros eoslumcs. 
E outras mil raridades descobertas, * 
Reduzidas a ciasse e a regras certas. 
Thesoiros a roeu ver, mais importantes, 
Do que teu oiro, do que teus brilhantes. 

Verás brilhar as artes, florescendo 
Novos inventos : máquinas nascendo : 
O premio htinrado do talento e zdlo, 
£ este o premio a honrar com merece>lo* 
Respeitado o t Hitel dos Praxitelles, 
Com lettras de nobreza a arte de Apelles. 
Verás das santas leis ao doce abrigo 
Da donzella o thcsoiro sem perigo. 
A orfft lacrimosa consolada, 
A viuva de insultos resguardada. 
Do ávido tutor o desvalido, 
Innocente pupillo protegido. 
Verás, verás, entXo, com grande lustre, 
Renascer do teu seio prole itlustre: 
Nova raça de lien^es, bravos guerreir<.s 
Dos herors da na(;Xo filhos e herdeiros. 
ttivaci dos. Magalhães, ri^aes dos Gamaa>i 



8. CARLOS. ttSS 

Qiie fiirSo renascer «■ lutas famas, 

Qiie farão resfieUar a pátria cara, 

Tornando-a por seiís feitos (çraode e cíara. 

Licvando, a ser preciso, o fogo e a gii<-rra 

A iilia mais loogiqna, aos fins da terra. 

Verás do santo culto a lei sagrada 

No último esplendor depositada. 

Ao céti subir sagrado, puro incenso. 

Por mSos mais puras, dado ao Deus immenio. 

O santo sacerdócio irreprehentivel, 

O templo venerando, o altar terrível. 

Que todos estes bens em fim se esperam, 

Quando as virtudes n*um logar imperam. 

Verás ... mâs ah ! nSo quer o ccu qu'a humanos 

Eu revele ioda mais os seus arcanos. — . . 



1 



MANOEL JOAQUIM RIBEIRO. 



OUTROS DESTE SÉCULO. 



MANOEL JOAQUIM RIBEIRO. 



Ao conde 4«»'Sarx^a*. 



r 

A 



SOMBRA de um alto freixo. 
Quando o sol cresta as bonina», 
Almeno a sesta passava 
Em uma selva de Minas. 

Seu gado jynlo de nm riu 
Que, mansamente corria, 
Por entre frescos arbusloii 
Um brincava, ou Iro dormia. 

* ríeahainai noUeias .^•^uimoi dâsle .potía, maU 
qae, tendo professor rcgio de philosophia eui Blinatt 
mandou ao pAbltco, debaixo dot aospicios do ex-gover- 
nador daqnella provinda Becnard* Joaé d« Lorena, conde 
ã9 Sar^edna, at tnaa Obras Potticas, as qnaet tetmpri' 
miram em 180S na impreitto régia cm LUboa em nm 
tomo de lo 9 paginai de 8.**. De algumaa delias se vé, 
que o poeta já «onheõil as lyras de Dircen^ que algnma 
vri quix imiUo - 



^^^ FL0R1LE1S10. 

Pélas folkiiriías dos ramos 
Brandos zéfiros trepavam, 
E suaves domideiras 
Sobre o pastor espalhavam. 

Morfeu, que «scoadido eslava 
Entre o teu cabello loiro, 
Pouco e pouco Itie estendia, 
As snas algemas de oiro. 

Té que sdbre a relva molle 
Na dextra mSo encostado, 
Uma aura doce o prendeu 
Em qne ficou sepultado. 

Ledos sonhos voadores 
Junto ao rosto Hie adejaram, 
£ lindos painéis brilhantes 
Na idéa lhe pintaram. 

Entilo sua fantasia 
Batendo as asas de fogo, 
A bel la por quem sospira 
Presente lhe trouxe logo. 

Elle viu a sua Jonia 
Ir após do manso gado. 
Duas brancas ovelhinhas 
Levando junto a seu lado. 

M Estas ovelhas, que estimo, 
Como estimo o claro dia, 
SSo pára o meu doce Almeuo^^ 
A paâtoim asaina dista. 

« Eti lhe apanho a branda reka 
péla minha própria mão, 
Descançnngt no nieu regaço» 
P« vim sempre junto estfto 



PBOrKSSOR HlBfiltO. U39 

» Mil veteà já me tem dito, 
Quando etHà no meu ctftal, 
Qae ama e receita «n exlremo, 
Ao nesso Aaioral. 

u As virtudes e as graças, 
Ornaram tanto a Lorena, 
Que me 4 t3o grato, dizia, 
Como a tna face amena. 

« Estas oreNias, que imiiau 
A alvura áa braaea neve, 
Tálvee, qif em signal de affeeto 
O meu Almeno lhe leve. 

» De várias, ckeirosas flores 
Uma capella virente, 
Ali guardo pre|>arada, 
Pára lhe eHfí ovnar a frente, 

« Tomara que já crescessem 
O» medronhos rabinsadoe, 
E os rdxos museateifi 
Estivessem sasonado*. 

u Estes sestinho» de jiineos. 
Que ornam pintados amores, 
Almeno ob levara cheios 
Todos cobertos de flores. 

« En bem sei que nada vakMu 
Nossos msticos presentes, 
Mâs sua alma bem conhece. 
Que sXo brindes innocent^e. 

«Se éar-lhe todo o meu gaílo 
O meu Almeno quizera, 
Como dou estas ovelhas 
Oe bosiiiente th 'o úvtã. 



tf 4(1 PtOUlLEtSlO. 

MS'eii vira, que o oieii Almeno 
Deixava de ser pastor, 
E que n*uinas ricas mioas 
Dominava, era o senhor. « . . 

u Qu*em cintados cofres tinha 
Guardadas pedras brilhantes, 
Braçados de liarras de oiro, 
Mãos cheias de diamantes. . . . 

«Tudo, Almeno, tu lhe deras, 
Qu*eu sei o teu coração ; 
Mâs que ha de ser, s^iuda tens 
De pastor a condição. 

u Pêlo affecto que te gfuarda 
Ésla alma de que éê senhor. 
Vai, meu Almeno, vai dar-lhe 
As prendas do meu amor. 

« Dá-lhe as brancas ovettiÍ4ihas, 
Dá-lbe a capella tamlmm. . . . 
Mâs, que menino gentil 
Pára aqui andando vem ? 

tf As loiras, compridas trançai, 
De rosas traz ennastradas, 
Nas suas faces de neve 
Vem as papoiUs pintadas. 

(I Lá no horobro lhe diviso 
Áurea aljava, estar pendente : 
Acaso será cupido? 
Esse deus que fere a gente ? 

uQue fazes aqui menino, 
Tjío só por entre c*tas brenhaj» ? 
Não tomos que de hirtas fera* 
Tu pasto a ser lhe venhas?» 



ti Nio Imo. . • . amor Ibe loroou : 
Naf arma« que véa comigo. 
De quem quiíer offeoder-me 
Eu trago prompto o caslígo. 

«Minha mSi que em Chipre mora, 
Como tu, formoM e bel la, 
Te manda por mim diser. 
Que Lorena é couia delia. , 

« Junto ás aras qu'ella occupa 
Do praser no templo ameno, 
Prata, oiro, diamantes, 
Qu*ella tem, dirás a Almeno. 

a Que Lorena tem uma alma 
De régio sangue animada, 
K qne de humildes pastores 
Estima o amor, mais nada. 

tt Essas brancas ovelbinhas, 
Qne pára Almeno destinas, 
Veaus manda que as n&o leve 
Ao maioral de Minas. 

« De leu affecto extremoso, 
Que as guarde sempre em penhor. 
DíMhe-has, pastora, de qu*é9ta 
Foi a vontade de amor. n 

E logo as azas batendo 
Nos leves ares subia. 
Em tanto Almeno gritava 
Vendo que amor lhe fugia. 

«Suspende, Jonia adorada, 
Suspende, delem amor. . . . h 
E neste bradar afflicto 
Acorda o pobre pastor. 



Hat. '^^ ■ » 
1/ '*^. 





II doce À) 
inho a brn 



■ IBEItO. 

I mcn peito, 
o HTeilo. 
iraiwporiti mel 

Mçoioi niatloi 

t e BTCfíatiai 
lu minliaE, 



im ao Ri«. 

Jonía bella, 

|Ue sauifade, 

cidade, 

ia terna e amRule, 

m, diilanle. 



tf42 VLOItftBClO. 

Olba a um* e a onlro tado, 
Mede a sotitiirJa êélva, 
E apenas vé seo relAirtfto 
Pastando nu brattda relva. 

Neste sòiliio, quê à ídéa 
Lfae f»kitAvA verdadeiro, 
Conheeeil Mtaéno tfaB, 
Nem dormiifdo, Ma gdtilo iDt«iro. 



Que ÍATÁ o meu bem, a ninba lonm. 
Os meus lindos amores, 
Depois qae os resplandofes 

Dos seus olhos deixei, mais as camivinas 
Das áureas, rieas Hhias ! 

luda o pranto, que ardente as faces rega. 
Verterá por Aulindo ? 
Inda cst«rá sentindo 

Aquelle vivo golpe, activo e forte, 
Que quosi a pôs á morte? 

Ab ! quem podem agortt fiielgo e terno, 
Aperta*!» em meus braços, 
Depois coirtar-lfee' os passos 

Que Já dei, desde a hora denegrida 
Da nofsa debpedida. 



1>aOFeS«OB ftlBEIRO. «4' 

Dir-le-ia, sim, meii bem, dir-te-ia o como 
Trespassado o mcn peita, 
Senti da dor o efTeito. 

Quando nas mágoas e fntnsportes meus 
Te det o Atím<y adeus. 

Quando nos longos, espaçosos matlos 

Por onde camioliaTa, 

Por ti, ioilia, cbamava, 
Contando átjnelliw feras e avestolias 

As tristes penas minbas. 

Quando d^agresle, despenhada serra, 

Que ardente sol batia, 

Pélas pedras descia, 
Té chegar, doce bem, á suspirada, 

AgradaTel calçada. 

Quando á Estreita cheguei, e em curvo barco 

Por negros governado, 

Entrei no mar salgado, 
E nas velas SQprando o vealo ÍVio» 

Cheguei em fim ao Bie. 

Minha querida, minha Jooia bella, 
Que mágoa, que saudade, 
Ao eirirar na cidade. 

Não sentiu a minha alma tema e amante, 
De ti, meu bem, distante. 

Ah ! se nos Tdos] do vek>s desejo 

Podéra, ó Jonia ! ir ver-te. , . . 
Que tíuha. que dizer-te ! 

Do que ausente soffri, 6 minha* cara ! 
Que eouBasf nfto eofltánra ? 



^^* FLOKltEaiO. 

Por«iu a sorle, que me leva errante 

Longe de li, ó bella ! 

Se agora me atropella, 
Virá lempo em que deixe inda juntar-no«, 

E felizmente amar-nos. 

EntXo te conlarei quanto hei soflfrido 
Distante do teu roslo : 
As penas, o desgosto, 

E a mágoa devorante, em que fluctua 
Esta alma — • que é só tua. 



Jiinto de lUD freixo copado 

Com OMnfaa Jonia adorada, 

Sobre a relva matizada 

Doces horas vou passar. 
Quem disfrucla, o que eu dísfruclo, 
^fão tem mais a que aspirar. 

Não vem ali bravas feras 

Dessas alpestres montanhas, 

Só lu, amor, acompanhas 

Nosso gosto singular. 
Quem disfructa, o que eu dísfruclo, 
Nio tem mais a que atfpirar. 



NaqtieUe Mtio, s^oieate ^ 

Aos praieret conmgfado, 

N&o entra inhumano fado, 

Nem deigdsto ehega a Mirar. 

Quem disfrueta, o que cu dísfriirlo, 
Não tem mais a que aspirar. 

Ali, de um manso regato, 

Se escuta o susurro braodo. 

Como quem vai murmuraado 

Do que nos vé praticar. 

Quera disfrueta, o que eu disfructo, 
Não tem mais a que aspirar. 

Cantam ternos passarinhos 

Nos altos ramos pousados, 

£ com suaves trinados 

Vem nosso gosto aufnnenlar. 
Quem disfrueta, o que e» disfrnclo, 
NSo tem mais a que- aspirar. 

Quando pego n'alva mão 

Onde a brancura admira, 

Sd o favonio respira 

Naqnelle ameno logar. 
Qnem disfrueta, o que eu disfruclo, 
Não tem mais a que aspirar. 

- * 

As rosas cm torno naseem 

Da minha Joaia formosa ; 

Quando me deixa amorosa 

Nos seus braços recostar. 

Quem disfrueta, o que eu disfruclo, 
Não tem mais a que aspirar. 



^*^ VL01IILS6IO. 

Su«is lindas, «kas faeefl, 

S'eu Jbe expresso alçiin ciesej*), 

Logo cobertas de pejo 

MostRam a côr de oacár. 
Quem disfruela, o que eu disfníclo, 
Não tem mais M.qae asphar. 

Baado de geotís amores, 

Nas bniacas a^as suspensos, 

Os nossos gostos intensos 

Vem alegras contemplar. 
Quem disfrucU, o cpie eu disfnícto, 
Nfto tem mais a qne aspirar. 

Permitia amor que ésla dila, 

Qu'eu gòso e amis Joaia bella, 

Assim em mim, como netta^ 

Nunca se chegue á acaiiar. 
Quaniiocstou icoai mbin amada, 
Mais nSo tenho a que aspirar. 



Aqui nesta balça escura, 

Da trisiesa imagem feia, 

T^embranças de um bem qne adoro 

Vou revolver na u\è&, 
Ai, ai, 6 dores ! 
Qoem p6de river alegre 
Ausente dos seus amores. 



PBOPBtSOm BIBiaKO. S47 

A terna roUa «uifiíra 
Quando nSo fé o c^iworte: 
Eu loofe da minha Jcmia 
Siiptperto âooiai de morte. 

At, ai,'<S doreti 

Quem páée viver «legM 

AiMMile dos MUS amores. 



Brutas penhas se me ouvires 
Algum amanle segredo, 
Ó penhas ! nSo sei se o diga, 
Aié de v^ tenho medo; 
Ai, ai. 6 dores ! 
Quem pôde viver alegre 
Ausente dos ieui amores. 

Anda a sahiá eaftlando 
De «aminho, em raminho, 
Alegre |Kir ver defronis 
A sua amada no unho. . . . 
Ai, ai, 6 àoieê l 
Quem pôde viver alegre 
Ausente dos seus amores. 

£a, posem, «em ter soeégo, 
Ando .por testa espessura, 
Inúteis queixas fonoMiilo 
Da minha pouca ventura. 
Ai, ai, 6 dores ! 
Quem jpÃde viver alegre 
Ausente dos «eus amores. 



»48 FLOftlLKGIO. 

Tu, limoeiro, que viste 
Aquelle beijo suave.. .. 
Folhinhas, guardai silencio. 
Só v<Ss, DÍnguein mais o sabe. 
Ai, aí, 6 doreil 
Quem pôde viver alegre 
Ausente dos seus amores. 



Doces, amantes promessas 

Pala minha Jonia feitas, 

Qual será o felix dia 

Que vos veja satisfeitas. 
Ai, ai, ó dores I 
Quem p<Sde viver alegre 
Ausente dos seus amores. 

O mais vil d*eBtre os bichiuhoi 
Vê e logra o bem qué adora, 
Só eu, infelii, bSo posso 
Ver a quem nesta alma mora. . 
Ai, ai, 6 dores! 
Quem pôde viver alegro 
Ausente dos seus amores. 

Deixai-me tristea lembranças, 
Deixai-me infelii morrer : 
Não é justo tenha vida 
Quem seu liem não pôde ver. 
Ai, ai, 6 dores ! 
Eu morro de saudades 
Se nio vpjo aos meus amores. 



pnoFE^son mBKifto. «*» 



CanU o pailor^tminofado 
Da pattura os olhos bellos, 
Cantu-lhe o ro^to nevado, 
Os longos, pretos cabellos 
Onde amor anda enredado. 

Sdbre a borda do saveiro, 
Canta o terno pescador 
Of grillides do capttveiro, 
BemdiíeMto o dens d'amor 
Por se ver prisioneiro. 

Sua linda, ao som da lyrn, 
Canta o soldado na guerra ; 
Ora geme, ora snspira ; 
Nunca Ibe esquecendo a terra, 
E a dltima vei que a vira. 

Eu também dentro em mim siulo 

Igual férvida paixão; 

Dos mais eu nflo sou díslinclo ; 

Do men bem a perfeiç&o 

Mil veses na idéa pinto. 

Amor a tudo avassalbi, 
Ninguém dclle vive isento : 
Alguém ha que soffre e cala ; 
porém o seu fogo lento 
Tudo mina, a tudo iguala. 



a&O FLOBILKGIO. 

Ao rei no (hrono tentado, 
No inculto monte ao serrano, 
A todos fere o vendado : 
Ninguém se isenta do damoo, 
Que faz o far])ão doirado. 

Achilles com peiio de a<2o 
É 8ensiv«l á ternura: 
Do rei Lai i no no paço 
O teucro heroe, por ventura 
D*amor não caiu no laço ? 

Alexandre ostenta fovie 
Não ver de Dário as fiJhas^ 
Mâs depois segue- oufcro norte : 
Entre as amante» qoadriUuw 
Tu o vais piliiar^ 6 morte. 

De GartliagQ o vencedor 
Também sente a drajooia acliva: 
Perdido todo o valurt 
A vista de uma C9ptiva 
Chora nos ferros d*amor. 

Quem levou Helena, a Troy-a? 
Den a Lucrécia o punhal? 
Quem urdia a vil tramóia 
Com que no Uraguay fatal 
Morreu a gentil Lindoia? 

Quem a Cleópatra envia 
Do throno ao cahos profundo ? 
Leva Dido á canpa fria? 
Quem alTamada no mundo 
Fex a lusitana Osmia ? 



PBOFEftSOK aiBBIBO. »ttt 

SÓ tu ésy ídalio niiHie, 
A caiitn- déait». effeilcNi : 
Ningruem livre ae presume ; 
Til pões em lodoa of peito» 
Teu actÍTo, ardente Ijum^. 

Jonia, a iflinlia Jouia bella. 
Me fas seotjr igual cbanina ; 
O seu amor me diAvela ; 
Venturoso aquelie que ama 
S*é correspondido deUa. 

No meu coraçilo cravada 
Tem amor a seita dura, 
Mâs não é envenenada : 

> 

£ setta que, com ternura, 
Sempre foi por mim l)eijada. 

S*é erro, Junia, adorar-te, 
A natureza o protege : 
Quem censura nesia parle, 
Talvex seja por que inveje 
Eu ser feiii em amarele. 

Que querem de mim qu*cu faça, 
Vendo teu ro«to divino ? 
Tudo, Jouia, tudo enlaçn, 
Tudo prende o deus menino 
A vista da tua graça. 

Se aqtielicSi guerreiros fortes, 
Perdido o mareio furor, 
Muduram seus duros portes. . . . 
Se no domínio de auior. 
Sentiram doces transportes. 



tm t t » 



à\ii PLOKILKGIO. 

Se aoa mesmos padres ruDScri|>Íos 
A gentil Virgínia ioflamma ; 
S*em Fioren^ aott pátrios grilos 
Sacrifica Laura a fama, 
Sem temer da crise os ditos. . , . 

Fale o mondo o que qniser, 
Hei de amar-te, Jonia linda ; 
O deus Pafio as^im o quer ; 
Té agora ninguém ainda 
Resistiu ao seu pod^r. • 



SoDCtOl. 



As rédeas to«A o inelyto Lorena, 
A pai nos Inixa da justiça ao lado. 
Geme a maldade no grithfto pesado 
Victima digna da mais dura pena : 

A sábia dextra, que o castigo ordena,^ 
LcBge afuiçentn todo o monstro irado, 
Da sagrada virtude acompanhado 
As rédeas toma o inclyto Lorena : 

A nurem do terror ao criminoso 
Entre as brenfaai persegue e nas campinas, 
Té que vindo a seus pã é veaturoKO : 

Com governo felis de acções tão dinas, 
Melhora sua sorte o desditoso, 
Exulta alegre a afortunada Minas. 



PB0FES60R RIBEIRO. ^'^^ 



Mais pode o sol deixar de ser luzenle, 
E com 8 noite mwturar-se o dia ; 
Ser a calma, bem como a neve fria, 
E ser por naturesa o gélo quente : 

Mais pôde o mar deixar de ser movente, 
E de ser rocha a bruta penedia, 
Tornar-se em trevas tudo o que alumia, 
E a mesma terra ser resplandecente : 

Mais pode o mundo em nada ser desfeito, 
A matéria perder a gravidade, 
Deixar o fogo de queimar o effeito : 

Maia pode, emGm, ser íombra a claridade, 
Qireu deixar de sentir no terno peito 
O golpe que me fere da saudade. 



JOAQUIM JOSÉ LISBOA. 



Deicripçio cntiot*. 



M, 



.fNHA Marília, eu Dào f{M;o 
Do Brasil uma pinlura, 
De sublime archilectura, 
Como a que tem Portugatl. 

* Quaei tio eccaMas, como do precedente, «io as oo- 
'iictaa qne temos de Joaquim José Lisboa;, alferes do Re- 
gimento regular de Villa Rica de Minas. Em 1804 pn- 
Hioon o teu interessante folbetOy em S.SintitfldadoDei' 
<ripção euriotUf em que pinfa a sua «provinoia nas qua- 
dras que adiante traascre vemos. 

Com a invAsio dos franceses em Portugal^ declarou- 
•e com o maior eatfansiasmo contra estes, pablicando 
f>oesi as patrióticas, etc. •— -Em IdOtt (typograpbia d« 
StmSo Tbaddea Ferreira) publicou uma od# ao Silveira 
e um soneto á guerra. Logo depois (impressto régía^ou- 
■fro intitulado — ^ProfeeçSo dos Ingle%e%~— com um so- 
neto, trinta e duas quadras e quatro decimas^ que offe- 
>recen ao novo corpo conimbricense. — Em 1810, lob 
o titulo de — Obras Poéticas — Timpresslo regia) impri- 
miu dois sonetos e uma ode ao bispo do Algarve. — . Em 
1811 (impressio régia) também com o tituio de Obras 
Poéticas f consagrou a WcUiagton uma ode, um tonctt?^ 
um dialogo e quatro dcctma». 



iSJ6 FLORILÉGIO. 

Pinto com pobre discurso, 
Coiii pouca arte e lem belleza, 
Os dotes que a natureaa 
Lhe deu com mão liberal. 

CamptM nativos lhe deu, 
Deu-lhe bosques, mattus, serras, 
E fez fecundas as terras, 
De profícuos vegetaes. 

Ornam aos cam|)os e aos raatlus, 
Engraçadas, tenras flores. 
Com difierença nas cores, 
No feitio e em tudo o mais. 

Serpeando regam tudo 
Claros, frígidos ribeiros. 
Que descem d'aUos oiteiros, 
E d*entre rochedos nascem. 

Tudo o anno ha primavera : 
Fosse agosto ou fosse abril, 
As arvores no Braz il, 
Nfto me lembro que seccas&em. 

Seu clima é o mesmo que este, 
Porém muito mais sadio. 
Porque o inverno é menos frio, J 

Menos calmoso o verão* J 

Tão benigna a natureza 
Neste paiz nos costuma. 
Que gozámos sempre d* uma 
Deliciosa estação. 

Os campos, minha Marilia, : 

Seud», como são, regados, 
Nutrem numcrofos gados ^ 
Sem precisão de pastor. 

I 



ALFERES LISBU. «ií^ 

Uiu fó alqiioire de iníllio, 
Na fértil terra plantado, 
Dá diizenlog ao can^ailo, 
Falídico agricultor. 

Temos nas nossas monlaRbns, 
Ilida nas que sSo mais bruta», 
Saborosíssimas friiçlas. 
Que poiícos conhecem c». 

N(Ss temos a gabiroba, 
O araticum, a mangaba, 
A boa jal>oticaba, 
O saboroso aras4. 

O nigado genipapo, 
A guaial>a, o bom caju, 
Pitanga, azedinha, ambú, 
Cambocá, baco-parí. 

Os joazes exccllentes, 
Coco espinho, jambo, angu, 
Temos o manda pusá, 
Mnrmellada e rooricS. 

A silvestre sapocaía, 
As bananas, os mamões, 
Lima& da China, limões, 
Tomos manga e jatot)á. 

Temos a fnicta de conde, 
Gunirnixamas delicadas; 
R temos posto cm latadas 
Mimoso maracujá. 

Temos áta, jaca, cocos, 
Cabacinhas a ma rei las, 
Ananás e outras belias 
rrnctas do mosroo paiz. 



ÍÍS8 FLORILÉGIO. 

Islo junto ao génio áoelt 
Da fí«l, brazilia gente, 
Faz uma idade excellenle, 
Produz um tempo feliz. 

SSo fartas as nossas terra» 
De palmitos, guarirobas, 
Coroa cheiroso, taiobas, 
E bolos de carimans. 

Destes l}olinhos, Mariiia, 
Usam muito aquelles povos, 
Fazendo um mingau com oto», 
Quasi todas us manhSs. 

Temos o cará mimoso. 
Temos raiz de mandioca, 
Da quaí se faz tapioca, 
£ temos o doce aipim. 

Temos o caraelé 
Caraju, cará barbado, 
O inhame asselvajado, 
A junca, o amendoim-. 

Mangarítos redondinhos, 
Batatas doces, andús, 
Quiabos e carurtSs, 
I>e que se fazem jambés. 

Temos qui bebes j quitutes, 
Moquecas e quingombôs, 
Gerzellm, bolos d*arrôiF, 
Abarás e manaué». 

Temos a cangiea grossa, 
Pirão, bobds, caragés, 
Temos os jocotupés, 
Orapronobis, tutu». 



ALFBKES LISBOA. »•*» 

Taitibem (asemos em lempo 
Do milho rerde o corá, 
Mojangu^s c yaUpá, 
Pés de iDuleque e cuscús. 

Os rios, que ha lá mais ricos, 
Marília, eu te vou dizer. 
Se os oSo chegares a ver. 
Ao roenos sabes quaes s&o. 

A Giquiliahonha é um, 
Rio do SoDO, Abaelhé ; 
Porém maior, que estes, é 
O que passa em S. Romão. 

Ha sítios em que é mais lorgo, 
Que a distancia de três milhas, 
Basta dizer, que tem ilhas. 
Que dâo pasto para os gados. 

Slo tâo fecuodas de frnctos, 
\a estaçào de vários mezes. 
Que nutrem porcos monteses, 
Anta, lobos e viados. 

Temos o rio das Contas, 
Temos o rio da Prata, 
Que em vários sílios se trata 
Pêlo rio Parãcatá. 

Temos o Parai bu na, 
Yisinho da Parai t>a, 
E temos a Parnaíba, 
E o rio Peraoasú. 

Temos, o rio das Velhas, 
Que pafsa por Sal>ará, 
E o rio Preto que está 
Vísinho ao Arasuahí. 



tf GO FLOBILCGIO. 

Do alto moDte do lUmbé', 
Morada de chuva e frio», 
Nascem algBiu sete fios, 
Além do Capivarí. 

Temos o rio das Mortes, 
O prudente rio Verde, 
Porém Beste niaguen perde, 
Nem Tida, nem cabedal. 

Soouleolo fax sen giro, 
N&o ha quem delle se queixe, 
É riquíssimo de peixe, 
E por manso nao fas mal. 

Ha no Serro o rio Pard*^, 
> ' R ha ou Iro Tijncosii : 
Rio Escuro em Paracatú. 
Orocuia em S. RomSo. 

Torno ao Serro e mostrarei, 
Que um rio Inbaciea, ha, 
E a Paracatú onde está. 
De S. Pedro o Ribeirllo, 

O rio Doce lá ternos^ 
Que está contíguo Gentio, 
E lemos no Serro frio 
O In]\ahi e a Paraúna. 

O Fanado é em Minas Novas, 
E perlo de Macaábas, 
Rio Jaboticalubas, 
Rio Manso e rio Duna. 

Temos o rio das Guardas, 
O da Aréa, o Burraxndo, 
Que corre tranquillo e mudo, 
£ lemos o Andaiá. 



ALFERES LfSfiOA. ^>^^ 

TemoB o rio dos Tiros^ 
O rio Gequitoiíí, 
K o rio de Pelanqiú, 
O qual se chama o Pará. 

Ha certo monte, Marília, 
Junto á Comarca do Serro, 
Que tem em si prata e ferro, 
Mesmo em cima do seu ciime^ 

E no Itacambirosú, 
Junto á diamantina serra^ 
Se. faz exlrahir da terra 
Kxcellente pedra hume. 

Ha salitre em abundância, 
Barro para luíça, cal, 
E extrahe-se da terra sal, 
N 'alguns sítios do sertão. 

D* uma côr assucarada^ 
Bem como a ganga de cá, 
J)a mesma c6r temos lá. 
No sen caiulo, algodão. 

Vamos, Marília, observar 
Outras muitas producçdes^ 
Daquelles vastos sertões, 
Por onde em soldado andei. 

Se eu comtigo for fel is, 
£ ambos no» formos embora., 
Quanto aqui te pinto agora. 
No Brazil te mostrarei. 
^ Tu ?^fás naquellcs campos 
Grande número de emas, . 
Verás cantar seríemffs, , 
Verás negros oxubús* 



KC 2 FLORILÉGIO. 

Verás os pombos astutos, 
E verás outra perdiz, 
DifTerente codonitz, 
E verás roxos fihambás. 

Verás um pássaro lindo, 
Todo de peito amarelfo, 
Cujo canto é muito bello , 
Porque exptica — *gm te vi — . 

Grande tucano verás, 
Que t€m pajmò, oa m«is de bico, 
Verás ave que diz — tico — , 
£ verás o arasarí. 

Gordo, cinzento macnco, 
O jacutinga, o jaca, 
O nocturno cnriangii, 
O difí^rente pavão. 

Verás eneariiadà arara, 
Outra azul, as mexeriqueiras, 
Que sfto assas chocalheiras 
Em todo o nosso sertão. 

Verás oas oossas lagoas 
Colhereira côr de rosa, 
A branca garça formosa, 
O tristonho jaború. 

Verás ave, que bíIo vAa, 
Sem correr um longo espaijo. 
Tem bico de ferro e aço, 
O 8eu nome é tuiiiiá: 

Tu verAê rolinha azul, 
K outras mais, que nunca víslr, 
K ouvirás a pomba triste. 
Dizendo que só ficou. 



ALFKRES USBOl. ^StiS 

Verás roliriha cinzenta, 
Que airusameole pasfieaodu. 
Anda co*ai oulras eaolando 
Mesmo assim — foqo pagôu^^. 

Oá papagaios verás, 
E de muitas qualidades, 
E ou Iras variedades 
D*ave8 e ferac tampem. 

Tu verás ó JoSo de Barrcti 
A sua casa arranjar, 
Onde elle deve morar 
Co'a família e mais ninguém. 

Verás negra cara ú na, 
Curicáca e sabiá, 
Que imita ao melro d^ cá., 
Só no canto, n&o na cdr. 

Verás catingnente guaciic 
Abrir um leque amarello, 
Verás o canário bello, 
E o pequeno beija-flor. 

Tu verás sabíá<8iea, 
A juriti, zabelé,. 
Nos mesBlos sítios em qiue 
Ás vezes anda .o muliuu. 

Verás soc(S-boi, iporrecas, 
Nos lagos do rampo ou iHatli>., 
Os massarioosy o pati», 
Narcejas, carriça, a num. 

Eu, Marília, em Salvaterra 
Das aves na casa entrei, 
£ com vagar observei 
O feitio dos f9Íci)es. 



**^4 FLORILRGIO. 

^ ToUus lem bico rc\Alto, 
Uobas e dedos compridos, 
E são muito pareeidos 
Com os nossos gaviões. 

Temos ave no Brazii, 
Que ao galeirão se figura, 
É o seu nome — saracura — , 
E nos pautanos habita. 

Temos o jaó mimoso, 
O minhoto, ave rasteira, 
A saborosa capoeira, 
Que á perdiz de cá imita. 

Uma ave pequena temos, 
Que viuva se appeltida, 
Anda de luto vestida, 
Traz capello e diz — viuva — . 

Nos lugares os mais sombrios 
ComtDumroenle é onde assiste, 
Observa-se sempre triste, 
Haja sol oa haja chuva. 

Com um pássaro pequeno, 
Marília, se viajámos, 
Todos nós nos enganámos, 
Ao qual chamam — ferrador-^. 

Com Ifto grande força bale, 
Que na verdade figura, 
Que atarraca a ferradura, 
Pois fai o mesmo estridor. 

Temos o pássaro que entoa, 
Por mil difierentes modos, 
Porque elle arremeda a to<los, 
Seu próprio nome é — corrUê ~ , 



Tem eiicontros ainarellos», 
£ «ao pasMiros pe(|ueiios : 
Serão pouco mais oti fiieiii>« 
Do tamanho d 'um cochicho. 

Supersliciosaa velhas, 
Das que benzem do quebranlo, 
EscondemHie ouvindo o eanto 
D*ave chamada caumhtl. 

E dizem a outras (aes 
Que ns canmhiSs e os bíioiros, 
AnnuDciam maus agoiros, 
Quando se ouvem de manha. 

Naquelias maltas espessas 
Ha ferozes aoímaes, 
Vai (e dou deiles sigoaes, 
£ das SUAS condições. 

Quatro qualidades d* onças 
Nós temus, e lemos lobos, 
Propensos a fazer roubos. 
Pois são do ^ãúo os ladrões. 

Entre estas diversas onças, 
Ha nellas diversas cores, 
Porém Iodas são maiores, 
Que o cruel lobo traidor. 

É parda a sosuarana, 
Porém mais deslra em cilladas, 
Ha duas que são pintadas, 
E o tigre de negra côr. 

Ao que rú se cbnma gamo, 
Lá c viado campeiro, 
Ha outro que é catingueiro, 
Outro chamado virá. 



S<i6 FLOISILEGIO, 

Ha rapoBi, ba papaiuel, 
E ha do campo e do mattu» 
De negras mesclas iim galo, 
Chamado malacaiá. 

Temos o cai tatu, 
O tiririca, o queixada, 
Os qnaes deixam destroçada 
A planta ao agrícnUor. 

Também faz mil prejuízos 
O astuto macaco, a auta ; 
Porém o porco é da plaola 
O peior perseif^uidor. 

Temos dois tamanduás, 
Um bandeira, outro merim, 
Temos o mono, o saguim, 
O ^ambá e a capivara. 

Ha onfra onça pequena,' 
Que é do tamanho d' um evn), 
E ba também pelo sertSo 
A frrande suçuapara. 

Ha rooc^Ss, faa (tereás, 
Ha qnatís, e ba cotia, 
Ha paca^ que foge ao dia, 
Oeritícáca e tiiií. 

Temos menor que o saguim, 
Um tal caximguemguelé, 
Que raras vezes le vé, 
CamaleSo e talú. 

Temos animal felpudo, 
De curtos, nervosos braços, 
Que em quanto dá aó dois passos 
Póáe um hooieni dar Ires mil. 



ALFERES U6B0A. <S(i7 

Maldito este Mcbo seJH, 
Que tão mán costume tem, 
Pois (lelle o nome nos vem 
Da priguiça do Braztl. 

Também, Marília, lá temos 
Cobras muito Venenosas, 
E por isso awás damnosas 
A Ilido quanto é vivente. 

Más mesmo nos nossos maltoii, 
Nos norsós campos ame!i«^8, 
Temos eontra estes venenos 
O antídoto excelienie. 

Lá tenos col}ra que engole 
Um viado, tendo fome : 
É amphibia ; e o seu nome 
É — o grande ivcftriiú — . 

O cascavel venenoso 
É a que f«% miiot mal ; 
A gereráca coral, 
E o temível surúoiicá. 

Mâs estes coirtrarios nossos 
NSo *stao rtiS' povoaçdeSí 
São dos inenltOB sertffes 
Os próprios habitadores. 

É certo qne em Porlngal 
Ha lobos, mâs tiHo na corte, 
Pois lambem da mesma sorte 
São aquelles malfeitores. 

Nos nossos rios, Maril^, 
Ha militas variedades, 
Oe peixes de qualidades, 
Que em Porlngat nunca vi. 



Temos a peripUinga^ 
O pacó atselvajado, 
Piranha, ba^re, doirado, 
Piampára e iMnbarí. 

Temos a coruBiatá, 
A trairá, o «orubi, 
A piabanha, o mandí, 
A coroTÍna, o piáii. 

A escamosa matrinxara. 
Que no veio d*agoa alveja ; 
K bem, que mais rijo seja, 
O cascudo não é máu. 

Os escravos pretos Ul, 
Quando dão com maus senhores. 
Fogem) são solteadoreti, 
£ nossos contrários são. 

Entranham-se pelos mattos, 
E como «riam e plantam, 
Divertem-se, brincam, cantam, 
De nada tèem precisão* 

lias inda que nada criassem, 
Ou que não fisessen rossas, 
Beniji^nas as terras nossas. 
Mil silvestres fructos tem. 

E como «lies sejam ágeis. 
Descobrem naquellas maltas 
Carajá, cará, batatas, 
K muito mel que ha também 

Vém de noite aoa arraiaes, 
E com industrias e tretas, 
Sedusem algumas pretas, 
Com promessas de caiar. 



ílfcacs u«iioa. ifO>» 

Elegem logo rainha, 
E rei, a quem obedecem, 
Do eapliveiro se esquecem, ^ 
Toca a rir, toca a roubar. 

Eis que a ooiicia se espalha 
Do crime e do desacato, 
Cahem-lbe os capilSes do matlo, 
E destroem tudo emfim. 

Ora abi ?em o pobre preto 
Entre cordas, preso e QÚ, 
V3o-lhe os l^acalháus ao e. • . 
E o seu reino acaba assim. 

Os Índios daqueiles mattoi, 
Por outro nome — o gentio, 
Andam nus- na calma e frio, 
Do tempo n&o se Ibes dSo. 

NSo tem casas, nfto Dabricam, 
Vivem da eaça e dos roubos, 
Sfto peiores do que os loboa, 
Peiores que as cobras sSo. 

A uns chamam bolicudos^ 
A outros chamam charantes^ 
Que silo no valor cousiantes, 
O que não sao caia pós. 

SSo os ca ia pós traidores. 
Porém assas timoratos; 
E ha também nos nossos maltor, 
Maconís e bororós. 

Nio lêem rei, porém respeitam 
Entre si um maioral, 
Que traz um |)eoacho, ao qual 
Dão o nome de cacique. 



2S70 FLOKILE6IO. 

Quando uns com outro» guerreiam, 
Este 08 commandat ^^tc os ^^S^ ; 
E, pemando que os protege, 
Fiam déUe o seu despique. 

Logo que a gentia pare, 
Haja calma ou haja frio, 
Metle-se toda no rio, 
E o tenro filho também. 

Este banho é-lhe saudável, 
Do vento nSo se reserva, 
Assim viv« e se conserva, 
Assim nutre e se mantém. 

A e^te mesmo Iwticndo 
Dão o nome de emboré. 
Ha capax<>, o qual é 
Sempre opposto aos mala lis. 

O panháme e o mariquita 
Giram por diversos mattos, 
Ha purís e ha croatos, 
Monaxós, machacalís. 

ps botieudos, Marília, 
Téera beiço e narii furado ; 
E nelle téem pendurado 
Grnnde pedaço de páu. 

Se gigantes haver podem, 
Estes 08 gigantes s3o, 
Téem" forças e coração 
Inexorável e roáu. 

Deixa explicar- te, Marília, 
Quaes são daqueiles |iaixes 
As virtuosas raiies, 
E olees medicinaes. 



ALFBBKS LMSOA. S? < 

E depo(8 te eoD tarei, 
Se me deres atten^o, 
Pára que remédios são 
Os segtttntes vegetaes. 

Pára o gafíco é a sa!sa 
Remédio ha muilo approvado, 
E appliea-se ao constipado 
Raiz de carapiá. 

A çasea d^anla, a chapada, 
Pára dores de barriga, 
Diz a gente mais antiga 
Que melhor, que ellas, dSo ha. 

Também é muito exeellenle 
A butua ttOfa, a biquiba, 
O óleo de copaíba, 
Fumo bravo e fedegoso. 

O barbasco, o geribSo, 
A vassourinha mioda, 
Congonha, earqba, arradn^ 
E o vellame precioso. 

Temos a Ungoa de vacea, 
Que é d' ama folha comprida, 
A qual posta s^bre a frida, 
£ remédio^ especial. 

A berva Santa Maria, 
Quente e posta sobre a dor, 
Tem virtude superior. 
Não ha outra a elta igual. 

Temos o si pó de chumtK), 
Temos figueira terreste, 
O páu terra, e as fructas dáste, 
Remédio dos beiços s&o. 



t^T^ FLORILÉGIO. 



Temos abobara do maUo, 
Trapoiraba, herva do bicho, 
Que se appUca por esguicho 
Aos que seDlem corrupção. 

O nhambú, herva rasteira, 
Dá um botio amarello, 
Qne é remédio muito bello 
Pilra o dente que oos doe. 

O mesmo dente o maslig^a, 
E aquelle sueco excellenle, 
O faz sarar de repente, 
E a podridão lhe destroe. 

Nós temos mamona branca, 
Temos alnieciga fioa. 
Que é uma espécie de resina, 
Mâs d*um cheiro especial. 

Posta em parchos junto aoi olhos, 
Quando nos doe a calieça, 
Sua virtude <lepres8a 
Promplo aIIi?io nos vai dar. 

Virtuosa epiquaquaoha. 
Cujo nome é bem notório, 
E purgante e é vomitório, 
Do Brazil todo em geral. 

Barbatimiio pára banhos ; 
E a experiência nos ensina, 
Que contra a febre malina, 
A ca peba é cordeal. 

Cor pólen lo, alto coqueiro 
Produz o nosso sertuo. 
Dá cortiça, c la lhe âKo 
O nome de borilí. 



ALFEBE8 U8B0&. ^^' 

Do feitio da ronift, 
Silvestre fracla lá Irmoi, 
A qual cuatda comemos, 
E lhe Gham&mog pequi. 

Anda, Tamot ver, Marília, 
De Portugal o Ihesoiro, 
Vem ver a extracção do oiro, 
Vem ver de tudo a extracção. 

Vem ver fabricar o aatucar, 
Os engenhos de ptUar. 
Verás também fabricar 
Alvo, macio algodão. 

Verás exlrabir da terra 
As safiras, os brilhantes. 
Os rnbins, os diamantes, 
ProducçÕes de alegres vistas. 

Verás o ígneo topasio, 
A grixulita amarella,'' 
A esmeralda verde e bella, 
Verás réxas atUatistas. 

Os pingos d^agoa caseudos, 
E verás outras pedrinhas, 
Chamadas agoas marinhas, 
Que são azues por signaK 

Lá verás também granadas, 
Pingos d*outras qnalidades ; 
E verás mil raridades 
No interior do cristal. 

Todas estas prodncçdes, 
Ha, Marília, no Brasil ; 
Mâs além destas ha mil, 
Que com mais vagar direi. 



^74 FLOKI1.&6IO. 

Só posso affirinar-te dgpra 
Que os fiéis patrícios meus, 
Adoram no céu a Deus, 
£ adoram na (erra O rei, 

C que as agoas, peixes, CAmp« 
Pedras, frnctas,' oiro, prata, 
E o mais que aqui se retrai^ 
De indisireis cabednes. 

Nada tem taato valor. 
Como a ftel producçfto, . . 
D*um sincero coração, 
Que te adora sempre mais. 

Que neUe moraf^ e vives, 
Eu te posso segurar, 
Já nasceu |iâra te amar, 
Pára te servir nasceu. 

Cumpre-te agora, Marília^ 
A grata correspondência, 
De dar sempre preferencia 
A um corado como o meu. 

Se o real regente augusto 
Fosse bonrar nosso pais, 
Faria ao povo felic, 
E o seu império faria. 

No logar mais precioso 
Das braailias regides, 
Ou dos nosso.4 corações, 
Um throno se lhe ergueria* 

Mâs se eUe não quer piedotu^ 
Cheio d 'alta mageslade, 
Ir ver na nossa amisade 
O mai« innocenle amor« 



ALFRB£S LISBOA. ^'''^ 

Vamos, Marília, gosar-nos 
D*ttiii paii que julgam bravo, 
Que bem p6de o bom escrav* 
Servir de longe ao senhor. 



ANTÇNIO MENDES BORDALLO. • 



A D. Joào cCAimeida. 



C 



ANÇADá a vista, O rosto macilento, 
A pelle quasi rota sobre os ossos ; 
Perdido o grão succorro dos humanos 
A santa paciência. 

* António Mcndci BordalKor nesceu noRíò de Janeiro 
em 24 de Outabro de I7i>0. — Foram scoí pais, Fran- 
cisco Mendes Bordallo (nascido em Portugal, e Gover- 
nador do Ca«tello de S. Januário^, e D. Anoa Maria Al- 
vares e Astúrias, nascida no Brasil. 

Veiu de 16 ânuos de idade pára Portugal, cOm todos 
os preparatórios pára a Universidade, ahi se niatricnloU| 
formando- íc em direito canónico em 1771. — Em Lis- 
boa principiou a praticar a advocacia, cm que se fex 
rmincote, sendo o teu nome citado a par do do Silveira 
da Motta, Saturnino (ambos igualmente braiileirosj Bar- 
hoza e Araújo, e outros, que naqaelle tempo eram orna- 
mentos do foro portuguez. 

Teve relações intimas com as pessoas mais notáveis 
de Lisboa, como José de Seabra, e sen irmão Lucas de 
Sealira, e Martinho de Mello e Castro, e com os bomeot 
mais distinctos em «ciências e litteralara com Stocklrr, 
e Almeida (depois barSo), Bocage, Sebastião Xavier Bo- 
tMbo, morgado de Assentis, e os brasileiros Sonsa Cal- 
das, e desembargador Velloso. 

A estas svas relaçOes deveu o bIo ser envolvido nas 
perseguições do célebre Manique. 

Foi casado cem D. Thercsa Claudia d*Almeida. 

Falleceu «m Lisboa a f 7 de Fevereiro de 1806; com 
o6 anoos de idade. 

Z 



^'78 nOAILECriO». 

Almeida iltintre, qaal o furioso 
Que perdeu a rasSo na ?ioleota, 
Na crite mais crue) da infelis aanba^ 
Se morde, se espedaça. 

Accuso os fados— ' corro delirante 
Á fonte dos meus males : fates lifros f 
Desde os primeiros, innocentes anno», 
PaixSo, doee cuidado l 

Fixos os tristes, macerados ollios 
Nos sublimes, nos eélebrefi escriptos, 
Onde achei a rasSo, d* onde a mÍDh*alma 
Maruviibada, absorta, 

Ãm esferas subiu, no ímmenso espaço 
Viu os astros girar } da naturesa 
Os arcanos, que o vulgo desconhece, 
Penetrou atrevida. 

Arranco mil suspiros— > que funestas 
Idéas, na enletada fantasia, 
Se chocam, se confundem, sem que possa 
Formar um só discurso I 

O pranto se desprende ; a dor ímmensa 
Os gemidos soffoca, das virtudes 
A mais bella me empresta a sua heróica 
Constância inalterável. 

Os mesmos que m*opprimem, qne m>ntrcgani 
No seio tragador da vil miséria, 
O buído punhal que toca o peito 
Siiiipendem, me desviam. 



MENDES BOEDALLO. «79 

Os livros onde lia moral pura 
Coodemoam de Catão o lang^ue, a morte, 
Sou forçado a viver, a ser Indibrío 

Dos h améns que me allrajam. 

Neste de aiBicç6es duro combate 
Se exaltam, se reânam mais peiares : 
Os gregos, os romanos Já não vivera 
Pára honrar os talentos. 

A mísera, infelii bibliotlieca 
Condemno ao fogo, juro inconsiderado 
OíTertar nos altares da ignorância 
Frequentes sacrificios. 

Porém que injusta, barbara deidade 
A sentença revoca ? Me apresenla 
Do bravo Acfailles, do piedoso Eneas, 
Os immortaes cantores ? 

O furor se mitiga, não te espantes 
Da súbita mudança, caro Almeida ; 
Se fosse acato rapital delicto 
A lição de taes livros. 

Com elles entre os braços subiria 
Os lúgubres degraus do cadafalso, 
C diria ao tyranno : — Vil, aprende 
A ter alma sensível — ! 

O primeiro logar qiie «d oflfereoe 
Aos olhos mal enxutos, quebrantados, 
Narra 09 desastres, miserandos casos 
Do genitor de Paris. 

z « 



ISSO FLOBILEGtO« 

Então a mente como absorta pára, 
Com aqiielies combina os meus snccesdus 
Que remédio efficaz pára os nfflictos 
Achar damnos maiores ! 

Tu, que em herança dos avós preclaros, 
Recebeste os brasões, o património ; 
Tu, que nSo viste o pavoroso aspecto 
Da faminta pobreza ; 

Que cheio de afflicçSo, de enrolhimenta, 
Nfto ensaias, nSo forças o teu rosto, 
Pára ouvir do ministro inaccessivel 
Um desabrido — logo — . 

Que á custa de fadigas, de despresos, 
Não buscas o padrinho que te insulta ; 
Que não és reputado pelos grande» 
Animal de outra espécie. 

O fértil génio, sólidos talentos 
Ancioso cultiva, reinvidica 
Do |H)dér do fatal esquecimento 
A lusa, antiga glória. 



A cata de jogo. 

Brindemos, Chapelain, a companhia 
Dos guerreiros tafues, que denudados 
Investem do cadete o louro campo, 
Que encaram mil azares. 



MENDFS BOHDALLO. ^^i 

Que importa que o crnel, surdo destino 
Desprese do Morão os ais, os Totos ; 
Q4ie importa que o cadete inexorável 
Kmbote nossas armas ! 

Não afTrouxa a constância, no?o aproxc 
Tu e eu dirigimos : péla esquerda 
Eis que a dama apparece, qual Santi*lnio 
Ao náufrago marinho. 

l^m pirolOf uma paz, um casamentú, 
Annuncia a derrota; já vacilla. 
Já fluclua, 6 talves peça armistício 
O medroso banqueiro. 

Mâs ah i que a scena muda \ horror, carnagem 
O valete nos mostra ! os teus suspiros 
Só servem de aggravar males tamanhos, 
Morão endiabrado. 

Fujamos, Chapelain, nada nos resta, 
Alem da paciência; novo esforço 
Façamos com os dados, oitos, setei, 
Mudaram nossa sorte. 

K igual a desgraça ! tudo c^de 
Ao bravo campeão, íilho das musas : 
Mais trezes, mais qvatorzes, mostra o da<lo, 
Do que pulgas em maio. 

Os fados nSo se forçam, não se abrandam, 
Imprelcrivel é sua carreira : 
Embora Gloso fe o sábio Motla, 

Co*a sciencia de Euclides, 



i(89 FIX>BiLEG10. 

É precito ceder, mudar de esgrima, 
Unamos nossas armas contra as adens, 
Que a par do lombo, em lôrno da chouriça^ 
Pacíficas descançam. 

Ali em batalhão todos unidos, 

Qual Cezar de Pompeu ferindo a» tropaSf 

Arremessemos amoladas faca», 

Os garfos empunhemos. ^ 

EolSo o bom Faustino, mai4 afloito 
Do que Annibal em Cannas, vai fendendo 
Os fartos peitos da perdia cevada, 
Com o durasio trigo. 

Entio o Bernardino espaventando. 
As trigueiras bochechas Baccho invoca, 
Invectiva o Duarte, narra os casos 
Do desertor de Boston» 

A táctica de bel)er rnbro falerno, 
Qu*os copos transbordando em grossa espuma, 
Alegra os coraçde», eleva as a>mas, 
Fará grandes conquista». 

Ou praguejem, ou nÍo os maldiaentes, 
Esta nova invenção de colher louros : 
É certo que riremos do cadete, 

Sem perder um sd chavo. 



MKNDRS BORDALLO. ^^^ 



S4lyra m>s ai>«M>s da lf«§I»tr atura. 
(Fr»gmtntc d*mm» tpittolait MurtínhoJê iUUv ê CtUtrm^ 

Que devo, pois, temer ? 

Os tristes zoilos, cam pedes d« iaveja, 

Qae podem reuponder ? Que se enfureçam, 

Que vomitem negruras, que me insultem, 

Porque Pegas despréso e leio Horácio f 

Porque digo e direi nas grandes praças, 

Com seguro semblante, que a origem, 

A fonte inexhauri?el das trapaças 

Com que Mevio retém injustamente 

Do afflicto Lélio o pingue património; 

Que o plausível pretexto com qve Silvio, 

Juiz iníquo, digno da calceta, 

S6 porque no processo falta acaso 

Uma insignificante palavrinha, 

Dá ao direito aspérrima tortura ; 

E o que é mais torpe (tu crerás apenas !) 

Prefere Acursio á Ordenação do Reino t 

São esse da ignorância monumentos, 

Livros sem melhodo, sem nenhum critério, 

Que prohíbem o mesmo que aconselham 1 — - . . 

Porém um sábio professor antigo 

De calómnias, de meios odiosos ; 

Hábil consulto, que de c<5r sabia, 

Folha por folha, Sanches e Molína. 



S84 FLORILÉGIO. 

Me fa]ou desta sorte ha poucos dias : 
— «Rapaz sem tino, falto de experiência, 
Francez da moda, louco rematado : 
Queres reformas, ama? novidade^:, 
Sem pczar suas tristes consequências ? ! 
De três mil bons e maus advogados^ 
D'outros tantos fiéis e requerentes, 
De mais de cinco mil procuradore9. 
Que Ti?em nesta corte, do que cliamas 
Ladroeiras, calúmnins e trapaças, 
Dize, reformador, o que seria ? 
Mette o teu modernismo n'alj!:ibeira. 
Os teus e meus av<Ss assim viveram, 
Esses costumes, que detestas tanto, 
Teem o séllo da prisca antiguidade... » — 



JOAQUIM JOSÉ DA SILVA. • 



Amei a ingrata a mãi» belloj 
Que o mundo todo em si tem : 
Eu morri sempre por ellu^ 
Ella nunca me quiz bem. 



GLOSA. 



\^UAi«DO eu era mau rapai, 
Que jogava o meu pião, 
Andava o Centurião 
Dando a todos sotta e az. 
Nesse tempo aos sabiás 
Armava a minha esparrella ; 
Comia caldo em paneila 
Por ter os pratos quebrados ; 
E até por mal de peccados, 
Jmei a ingrata a mais bella. 

* A respeito déile versejador confetsânioi ler cicastes 
rompleta de noticiai biograpbicai. Era çapaleiro no Rio. 



*8* rLORlLBGIO. 

Depois de mais al|[^uiig meies 
Já por baixo de sobcapa, 
' Pélas calçadas da Lapa 
Pernoitaya muitas veièS. 
NSo bastaram os arnezes, 
Que herdei de Matnsalem ; 
S6 sei que quereodo bem 
Me achei como Antfto ao ermo^ 
E o mais galante estafermo. 
Que mundê todo em si tem» 

Com os aasos, com a idade. 
Na festa e seu oita vario, 
S6, em passo imaginário, 
Andava p^a cidade. 
Se é mentira, se é verdade, 
Diga-o a minha maxella, 
Que n%o sendo bagalella 
Bem mostra de cal>o a rabo, 
Qne por artes do diabo 
Eu morri sempre pêr ellm» 

Depois de velho e caduco. 
Já cheio de barbas brancas, 
Eu bispeí-a dando ás trancas 
Nos sertões de Pernambuco. 
Ali trabalho e trabuco 
Por lhe abrandar o desdém ; 
Mâs o mau toodo qne tem, 
Procedido da vil prole, 
Faz crer que nem a pão mole 
Ella nnn/ca me quiz 6^m. 



^iPATElRO SILVA. »»* 



Jo pé do HimUe Siâê 
ff a um pé de 4!ajurú^ 
\)itd€é •••••••••••• 

O ádmiramte Bolas, 



GLOSA. 

Despretou MaliinleM 
Duzentos aoaos de vida, 
Por nSo ver oa amante lida 
O gosto que o lamba tem. 
O juis de Santarém 
Quasi estala de patxto : 
Das montanhas do Japão 
Ungil-o vein o seu cura, 
Mâs desceu-lbe a quebradura 
Ao pé do monte Sião 

Sem dar accôrdo de si 
Na dura terra prostrado, 
Acndíu-lbe o deus vendado, 
Com a funda de David. 
Uns daqui, outros dali 
Já chegam do Calundu ; 
Levado de beUebii 
Confirma o bom Juvenal, 
Que na nossa cathedral 
Hn um pé de cojurú. 



^^9 FLORILÉGIO. 

Éstà mentira tamanha 
Que soou no Oriente, 
Fez abortar de repente 
A imperatriz de Allemanba. 
Veiu a parteira de Hespanha 
Montada n'um baiacu: 
Faz-se a guerra no Perd 
Por se saber que Mavorte 
Vende a gadanha da morte» 
Onde 

No romano capitólio 
Todas estas tradições 
Se dão a ler ás naçòes 
N'um grosso livro de folio. 
Sentado, enlSo, no seu sólio 
Sem ter alguma attençSo, 
Deu tremendo caxação, 
No tempo dos três Filippes, 
Em sua filha Florípes 
O almirante Balãa. 



ÇAPATEIEO SILVA. »*» 



Alminhoê do purgatório^ 
Que estaiê na beira do rio^ 
Virai'to» da outra banda 
Que vos dá o sol nas costas. 



.GLOSA* 

Alraz da Porta Otíomana 
Se conserva um bacamarte, 
Com que Pedro Malasarle 
Defende a Curía romana. 
Nas margens do Guadiana 
Dá Gastella o reportório : 
Um tal^rade frei Gregório 
Nas ventas do seu nariz 
Tem um letreiro que diz : 
Alminhas do purgatório. 

No passar do Helesponto, 
Esta nossa athmosphera 
O seu ambiente altera, 
Por nâo achar barco promplo 
Em falsete ou contraponto 
O tempo passa do estio; 
O mestre inverno com frio 
Manda accender o pharol, 
Pois vé de ró-roi-fa-sol 
Que estais na beira do rio. 



'i 

Depois do geral diluvio, 
Inda nos ficaram mágoas, 
Porque no tempo das agoas 
Innunda mais o Danúbio. 
Qualquer átomo ou ef&uvio 
Sempre fede que tresanda ; 
Renasce o mal de Loasda* 
Na cidade de finin^ ; 
fie quereis tomar caíTé, 
Virai-vos da outra bania. 

I 
Raia ftfora a lua cheia, 

A nova faz seu eclipse : 

£ galante parvoíce 

Deitar-se a gente sem c^. 

Junto da Palma Idnmea 

Estão as cousas disposta» 

Pára evitar as propostas 

Em que estSo sobre a vindima *, 

Ponde a l>arriga p*ra cima 

Que ro9 dá o tol nat castas. 



ÇAPATBIKO íatTA. ^9i 



Tenho um §tUanU éhinello 
Cem que r«* a 800 MãttíieuSf 
Tenho o. minha frMa rota^ 
Ninguém me bote quekrãnU* 



GLOSA. 



Se vós tendes um baíjâ 
Com seus babados de chUa, 
Ku tenho agora a marmita, 
Semi-rubra de ourocij. 
Se tendes de gorgutá 
Um macaquinho amarelto, 
Eu nas casas do castello, 
Como é público é notório^ 
Por baixo do consistório 
Tenlio vm galante chineUo- 

Se vós tendes de cambraia 
Camiza fina e bordada, 
Eu tenho a minha rendada 
Que veiu da Marambaia : 
Se de selim tendes saia, 
Eu só tenho os calções meus ; 
Se com esses trastes teus 
£)e mim toda te desunes, 
Eu lenho os pannos de Tuuck» 
Com que vou a Síío Mattheus. 



»9â FLOBILEGIO. 

Se tendes capa lo justo, 
E pòes as mãos nas ilhargas, 
Eu tenho as boltas mui largas, 
Com que passeio sem cuslo. 
Se tendes de raios susto. 
Eu caço da vella a escota ; 
Se tendes no frasco a gota 
Como mestra das crioulas, 
Eu por baixo das ceroulas 
Tenho a minha fralda rola. 

Se tendes novo capote 
Mais chibante do que o relho, 
Eu tenho um torto chavelho. 
Que me faz Tezes da pote. 
Se a cavalio andais de trote, 
Eu do chSo não me levanto, 
NSo me assusto, nem me espanto, 
Serei sempre pé de boi ; 
Ora ahí está cumo foi, 
Ninguém me bote quebranto. 



BARTHOLOMEU ANTÓNIO 
CORDOVIL • 



Sonho. 



s. 



'ÒBRB 08 braços do som do recostado, 
Que objectos me não mostra a phantasia l 
Pelos vastos espaços do universo 
Dilato a vista a um lado e a outro lado, 
Quando da parte austral vejo um gigante 
Que um pé tinha na terra, oulro nos mares, 
Ia a cabeça a se esconder nos ares. 

Verdes cabellos de robustos troncos 
A frente circulavam bronzeada : 
Do collo lhe pendiam por ornato 
Amphibios jacarés e acara pepes ; 
Cada pulso prendia uma manilha, 
Onde o topázio e os diamantes brilha. 

Era rispida a barba, hirsuta e negra, 
Povoada de esquálidas serpentes, 
Que em torno do pescoço se enroscavam ; 



* Tio pouco possaimos dados para a sua biograpliia. 
£ra> segando parece, de Goyaz. 



tf 84 FLOaiLRGlO. 

Por cajado na mSo tinha um coqueiro, 
Cuja ponta nas nuvens se occullava, 
E a base no abysmo se enterrava. 

Longa aljava nos bonibros lhe carrega 
De seitas emplumadas guarnecida, 
Sustenta a esquerda mão por arco um tronco 
De peiado madeiro extenso e bronco : 
O peito lhe apertava uma esmeralda 
Com certas lei trás de rubíns gravadas, 
Que nSo pude entender o que disiam, 
Por mais que os meus sentidos applicasse : 
£u lhe pergunto, e elle a vos erguendo 
Deste modo lallou com som horrendo : 

— a Eu soa o Maranhio, soberbo rio 
Que nas minhas entranhas lenho e crio 
Tmmensa cópia de metal luEente ; 
Altivo piso, com terror da gente. 
Brilhante pedraria e mais riquezas, 
Até hoje aos indígenas de/esas ; 
Âpezar do furor, a que me inclino, 
Devo ceder á. força do destino. 
Chega o tempo por elle decretado, ^ 

Em que manda que cu seja navegado : ] 

TrislSo, o bom Tristão, que hoje governa, 
Com fama e glória, que ha de ser eterna, 
E cujo nome é este, que não lias. 
Traz aos meus nacionaes ditosos dias. 
Elle o primeiro foi, que providente 
Fez explorar do meu poder a euchente ; 
Elle tenta primeiro os meus desertos, 
E poz os meus aertões de todi} abertos. 



B. A. GOEDOViL. tf»^ 

Ao novo navegante e viageiro 
NIo ha de aMombrar mait o canoeiro ; 
EUe desiste da cruenta guerra, 
Com que assufcta nas agoas e na terra ; 
£, deixando as pirogas e as covas, 
Tristão sdbre a cervis lhe pde leis novas : 
Eu quero obedecer aos seus accenos. 
Vós geraes moradores dos terrenos, 
Que com meus braços sem terror retalho, 
Vinde abraçar o próvido trabalho, • 
Que Trist&o vos offerta, e em breves annoa 
Subjugados tereis os vossos damnos. 
Do meu descobrimento ezpde a história, 
A quem de descobrir quisera a glória. 
Seus desígnios declara e patentéa 
A Francisco, a importância desta idóa. 
Tristão conhece a força e vé a essência 
De uma nova e geral correspondência ; 
Mâs antes que o eommereio estabeleça. 
Como prático e sábio, quer que cresça 
Uma firme e legal civilidade. 
Sem a qual nSo persiste a sociedade. 
Só quando etle prtncípio se conhece, 
Se faz indispensável o interesse. 
Communicam-se os povos mutuamente 
Péla troca que fazem differente ; 
As máximas e as leis introduzidas 
Vâo pouco a pouco nas naçdes vencidas 
A operação firmando sem excecso, 
Que facit torna todo o seu progresso. 
Se povos que. não pensam^ nem discorrem 
Com firme actividade» inda não correm 
A buscar as riquezas, que lhe oíTerlo 



1 

890 FLORILÉGIO. 

No Ihesoiro, que lem TrislSo aberto, 
Tempo virá que busquem iofelises 
As ricas producçSes dos meus paizes, 
£ que fiquem depois involuntários 
Da oppressão e miséria tributários. 
Syslema regular e reflectido 
Da bocca de Tristão eu tenho ouvido ; 
E p*ra vosso constante beneficio, 
Sobre solida base ergue o edificio 
De uma 1'utura e doce sociedade. 
A industria, a paciência, a sobriedade, 
A mutua confiança perdurável, 
São de uma precisão indispensável 
à nascente colónia que se forma : 
Tristão regra vos dá, preceito e norma ; 
E sem que mais palavras eu repita, 
Nos suaves costumes que exercita, 
Melhor firmeza e ordem achareis. 
Do que na força e no vigor das leis. n 

Assim o monstro fala, meneando 
A virente cabeça, e suspirando, 
O beiço, então, mordeu — a cara volta, 
E de novo esta voz aos ares solta : 

— «Finalmente Tristão quebrou o império 
Que tinha o meu poder neste hemisfério. 
De ardentes febres uma audaz cohorte, 
Que atacando era certa e prompta a morte, 
Pára o averno intrépido desterra : 
Com fogos novos purifica a terra, 
Alimpa-se a athmosphera e as matinas 
Pára longe se vão destas campinas. 



B. A. CORDOVIL. '^9^ 

Benignos ares sSo substituídos, 
E alimentos saudáveis produzidus, 
Em vez das hervas más e venenosas : 
Sibilantes serpentes perigosas 
Vão a fúria cevar n'outros togares 
Distantes de meu leito e de meus ares. 
E terão os meus nobres navegantes 
Outra saúde que não tinham dantes. 
Sinto o que posso. ...» 

-^<t Basta I lhe repilo : 
Não quero escutar mais as luas vozes : 
Antepões a crueza á humanidade ? » 

— «Perdoa, me responde, crueldade 
Não chames ao que é pura natureza : 
Tu louvas de Tristão d 'alma a grandeza, 
Eu sigo a inclinação, que o céu me inspira, 
Sem que o louvor denigra com a ira. 
Do teu heroe conheço a illustre alma, 
Digno, pelo que faz, de loiro e palma : 
EUe, só elle rompe-me as entranhas, 
Quer-me abater as lateraes montanhas, 
Intenta-me arrancar todo o Ihesoiro : 
Coçíio posso occultar a pedra e o oiro, 
Se cede o meu poder á sua força? 
Quem ha, que o seu mandato evite ou torça ? 
Quer q'o8 meus hombros com valor supporlem 
O pêzo que me impõe, e que o transportem 
Aos desejados fins do seu destino ; 
Quer que me sulque o nauta peregrino, 
E que tome por fim até ao mar 
A volta e direcção que me quer dar. »> 



*** PLOBILEGtO. 

Em quftito assim comigo conversa va^ 
Vollei a face, e ?i que branquejava 
Um soberbo edificio, a qaem adornam 
Marmóreos balaustres, encrustados 
De laminas brilhantes, d*oiro e prata : 
Péla elevada porta, immenso povo, 
Alegre ora sahia, ora tornava, 
E mutuamente os parabéns se dava. 

Ao gigante pergunto o que contemplo, 
Qiuindo elle me responde : 

— «É este o tempio 
Da immortal gratidão : esse congresso, 
Que vés sahir e entrar com tanto excesso, 
E que ser povo iamenso tu suppunhas, 
São os faeroes, que as aauladas cunhas 
Ao teu illustre protector deixaram, 
E que tanto com elle melhoraram ; 
Mutuamente se estão congratulando, 
E uns aos outros os parabéns se dando, 
Por ver que em beneâcio dos humanos 
Enche TristSo o giro dos seus annos^ 
E que a mSo poderosa da alegria 
Jnda trouxe a Gojaa tSo bcUo dia. n 

Ouvi a esle tempo un grande viva, 
Que nos côncavos ares retumbava : 
Acordo, deixo o templo, e n'um instante 
Vejo em agoa tornado o meu gigante ; 
Porém pára louvar a Tristão forte, 
Tomara sonhar sempre desla sorte. 



BA. COBDOVIL. »»• 



Dythirambv. 



Nymplias goyanas, 

NymphaB forinoMU, 

De cdr de rosas 

A face ornai. 

Vossos cabellos 

Com imiitas flores 

De várias cores 

Hoje enastrai. 
Sim, ny mphas, apptaudi iSo grande dia I 
E tu, doce Lyen, pai da alegria 

Vem-me influir, 
Que os annos de Trisia© quero applaudir. 

Ò lá, trase do Pheno 
O suave licor grato e sereno ; 
Traze os doirados copos cristalinos, 

Tenham falemos, 

Venham sabinos. 
Deita, deita, enche o copo — gr<5, gró, gró : 
Nfto entornes, espera, que este só 

NSo é qtie havemos 

Hoje beber ; 

Mais vinhos temos 

Sem confeição, 



000 FLOlilLtGlO. 

Pára brindar 
Ao bom Tríslão. 
Hoje á sua saúde 
Preleodo de beber mais de um ahnude ! 

Evoé 
Ó padre Leneu 

Saboé 
Evan Bassareu. 

Neclar suave, oh 1 quaoto me consolas ! 

De mim se ausentem 

Rixas, temores, 

Mágoas, tristezas, 

Penas e dores. 
Venlia outro copo de Bacclio espumante, 

Que ferva no peito, 

B a mente levante. 
Nos lusos fastos não ge leia agora 
Dos seus maiores a brilhante história : 
Com alheias acções nSo condecora 

A sua alta memória 
O bom Tristão delicias dos humanos. 

O curso dos seus annos 
Cheios não são deste furor guerreiro, 
Que nos campos de Marte desbarata, 
Rende, saqueia, obriga, assola e mala ; 

Mâs e»'perem, que escuto! 
Vejo os troncos bulir ! Ah ! sim, bem vejo 
Os Saljros brincÕes, Faunos auritos, 

Que cheios de desejo, 
Soltando aos ares vem ruidosos gritos, 
Os rnpripedes deuses que diriam? 



B. A. COft^OVlL. ««* 

Se nSo me engano, em 6Ua companhia 
Vem bistasidas Thracias ululando, 
Agitadas da nibida ambrqzía, 
Gm choreag sinciíinas Tolteando 
£btas doces «antigas modulando : 

Goyanos louvemos 

Tristão immortal, 

Bebamos^ dancemos, 

Ausenle-se o mal. 

E os doces licores 

Do bom Niclelen, 

Em taras se entornem 

De claro cristal. - 

Eroé 
Ô padre Leneu 

Saboé 
Cvan Bassareo. 

Pois já que Tristão 

De paz nos encheu, 

Gostosos bebamos 

O sumo de Oreu. 
Traze, traze depressa o Peramanca, 
Empine-se a botelha toda inteira. 

Mâs que chamma ligeira, 

Ao modo de uma tropa, 
Pélas túmidas véas me galopa? 
És tu, Bromio gostoso? Eu bem le entendo. 
Bebamos mais aquelle, que das ilhas 

Me mandaram de mimo 
Do profundo oceano as verdes filhas. 
Ko licor forte o coração me nada, 



602 FL0BILE6IO. 

Baccho, Baccho, evoé ! 
O que terei nos pés ? Eu cambaleio ? 

Cahíodo eslou de sono do : 
Depois que esvasiei quatro botelhas, 
Rúbidas tenho e quentes as orelhas, 
O nariz frio, os braços estendidos, 
Parece*me que gyra a casa toda. 
Já não posso suster-me — nos ouvidos 

Sinto um leve susurro : 
O corpo tremilhica, o chSo me falta, 
E julgo que esta casa estcd mais alta. 

Como o teu elixir 
Tão depressa, 6 Leneu, me faz dormir? l 
Agora que eu queria 
Cantar do bom Tristão 
O seti cândido génio, 
O terno coraçSo, 
A presaga prudência, 
A profunda modéstia, 
A serena clemência, 
A justa temperança. 
Agora é que me fazes tal mudança } 

Evoé 
Ó padre Leneu 

Saboé 
Evan Bassareu. 

Tenha um copo, dois copos, três copos, 
Retinem nos ares . 
Mil brindes contentes, 
E os povos ardentes 
De summa alegria, 



B. A. COEPOTIL. «OS 

Nas aras do gosto 
Com férrido mosto 
Entoem gostosos 
Sem mais dilação 
Os annos ditosos 
Do terno Tristão. 

Evoé 
Ó padre Leneu 

Saboé 
Evan Bassareu 

Sim, do grande Tristão tantas yiitudes 
O poto lhe louve, 

O Neiva lhe dará muitos almudes 
Deste espirito rubro, 
Que colhe no moinho, 
Que 08 pezares desvia. 
Que o somno concilia. 
Que alegra a mocidade. 

Que faz vermelha a envelhecida idade. 

Evoé 
Ó padre Leneu 

Saboé 
Evan Bassareu. 



AA» 



LUIZ PAULINO.» 



DeicripÇ^o d'uin paofrtgio. 



Uo vento açoitado 
O oceano geme; 
Desarvora o mastro, 
E nos rouba o leme. 

Já rasgada a Tela 
Pelos ares vôa, 
Nas ondas mergulha 
Soçobrada a proa. 

Matéria inflammada 
' Do ar se despega, 
Clartlo côr d' enxofre 
A vista DOS cega« 

* Luís Paulino segui» * carreira daf armas» e sér- 
vio em Portugal até gentral. Era filho d» Bahia, e pai 
do actual risconde da Fome No»a, Bento da França. 



606 FLORILÉGIO. 

Raio combustivel 
Nosso barco arromba, 
No bojo dos roárea 
O ecco rebomba. 

Três vezes Neptuno 
Com âocia implorámos : 
Neptuno está surdo, 
Em vão o chamámos. 

O terror e o susto 
De nós se apodera, 
O medo da morte 
Só em nós impera. 

Montdes d* infelizes 
Nas ondas sorvidos, 
Intentam salvar-se 
Por entre alaridos. 

Um disputa ao outro 
A taboa partida, 
E qual mais ligeiro 
Vai perdendo a vida. 

Acaba a contenda, 
A taboa fogiu. 
Ao longo dos mires 
Boiando se viu. 

FelíB o qne vive 
Naaofída terra. 
Que negra borratca 
Jamais Ibe faa guerra I 



LUIZ PAULINO. 607 



Soneto». 

A teufl p^s, fundador da mooarchia, 
Vai ser a lusa gente desarmada : 
Hoje rende á traição a forte espada, 
Que jamais se rendeu á valentia. 

Ó rei, se minha dor, minha agonia, 
Penetrar podem sepulchral morada, 
Arromba a campa, e com a mão myrrada 
Corre a vingar a affronta deste dia. 

Eu fiel, qual te foi Moniz, teu pagem, 
Fiel sempre serei : grata esperança 
Me sopra o fogo de immortal coragem ; 

E as lagrimas, que a dor aos olhos lança, 
Recebe, grande rei, por vassallagem, 
Acceita-as em protesto da vingança. 



Daas liorat antei de espirar. 

Eis já dos mausoléus silencio horrendo 
Me impede o respirar, a voz me esfria ; 
Eis chega a morte eterna ; eis morre o dia, 
E ao nada a natureza vai descendo. 

No, da anniquilação, passo tremendo, 
£scndo-me da sã philosophia ; 
Terror humilde o rosto não m*enfia. 
Como Catão morreu, eu vou morrendo. 

Mâs ah I tu, d'alma nobre qualidade, 
Saudade cruel, co'o soffrimento 
Me arremessas a mares de anciedade. • . . 

Mulher... filhos... amigos... n'um momento^ 
No momento do adeus p'r*a Eternidade, 
V<$8 sois o meu cuidado, e o meu tormento. 



JOSÉ DA NATIVIDADE SALDANHA. • 



A André Tídal de Negreiros, aaioral de Peraambuco, 
e «ea reiUarador em f 6S4* 



E 



lu (mil graças aa céu !) 8*em largoa campos 
Não aro, nao semeio 
Com malhados bezerros trigo> loiro, 
Pedindo ao vate Argivo a lyra d*oiro. 
Semeio nas campinas da memória 
Cançdes credoras do perpétua glória. 

As rédeas toma do cantor do Ismeno, 

Musa canora e belia, 
Iguivomos Ethontes atropella, 
Quia a tua carroça luminosa ^ 

Ao bipartido cume : 
Os cantores do Pindo que emudeçam, 
Ao teu império os astros obedeçam. 



* Foi um pardo de grande talento: deitingnin^te <m 
Coimbra, onde estudava. Fra filho de Pernamboco e 
de principiot ullra rrpnblicAaoi. 



^i^ PLORlLECrlO. 

R mais ligeiro 

Do qae o ribeiro, 

Que accelerado 

Discorre o prado, 

Serpenteando, 

Vai tu levando 
O teu carro á azul esfera, 
Onde Febo $6 impera. 

Fuja o profano Tulgo, inepto e rude. 

Pára ouvir os mysterioa, 
Que o altitoquo vale patentéa, 
Quando alegre bebendo a clara véa. 
Da encantadora, diva Cabalina, 
Troca a vida mortal péla divina. 

Oh monte ! oh monte ! ao vulgo ínaceeMÍv^l* 

Onde floréa ApoUo 1 
Quero, do Ethonte domando o bravo coUo, 
No teu cume fusila brando ^canto? 

Quem cinge a douta frente, 
P<Sde affoito dispor da humana sorte, 
Dar vida ao sábio, dar ao néscio morte ? 

Se o grande Homero 

De Achilles fero, 

Que Heitor procnra, 

A paizJlo dura 

N2o ar pejara, 

Na Ijrnfa amara 
Desse lago celebrado 
Jazeria sepul{ado. 



NATIVIOUMB SAUUNHá. .611 

Se torvos, lopeiando iavicla lança, 

Ó musa, não podemos 
No campo sanguinoso de Mavorte • 
Espalhar de uma vea terror e mwte, 
Podemos, fulminando excelsos hjmiios, 
Dos humanos mortaes faaer divinos. 

Levemos dos heroes pernambucanos 

A rutilante glória 
Ao templo sacrosanto da memória : 
Não deixemos em mudo esquecimento 

Tantos varões famosos, 
Que da inveja a pesar em toda a idade 
Entregaram seu nome á eternidade. 

Assim de Roma 

A glória assoma. 

Que do Latino 

Em som divino 

Relampeguéa 

De graça cheia, 
Quando fere a doce lyra, 
Por quem Orion suspira. 

Porém, 6 Musa bella, o carro volta 

Aos altos Guararápes, 
Nelles procura o forte brasileiro. 
Tigre sedento, lobo carniceiroi 
Que, dardejando a espada em dura guerra, 
Fas tremer, ao seu nome, o mar e a terr$. 



®<^ FLORILÉGIO* 

ÀDte 01 muros de Tróia fumegantes, 

Pélides furioso 
Péla morte do amij^o bellicoso 
Mais estragos n&o vibra, nem ruinas ; 

Nem o Aquilão fremente, 
Que o pego raarullioso revolvendo, 
Vai montanhas de espuma ao céu erguendo. 

Brava procella 

Tudo atropella ; 

Ao belga forte 

Fluraine a morte, 

£ o meu Negreiros 

Co- os brasileiros 
Augura cheio de glória 
£!m seus brios a vict<Sria 

Por cem boccas de fogo devorante. 

Vulcão impetuoso, 
Vomita o bronze atroador e forte, 
Por enlre denso fumo a negra morte ; 
£ o nitridor ginete atropellado 
Respira fogo em sangue misturado. 

O vibrado corisco, tripartido 

Péla dextra divina, 
Ou súbita estalando occulla mina, 
Tão rápida não é, nem tão ligeira, 

Como o nosso Camilio, 
Que leva enfurecido ao mareio jogo 
Fogo no coração, nos olhos fogo. 



NATIVIDADE SALDANHi. (^iS 

Prova, 6 tyranoo, 

Pernambacano 

Valor preclaro : 

Negreiros caro 

Consegue o loiro 

De heroes Ihesoiro, 
Conservando a invicta espada 
No teu sangue inda banhada. 

Será preciso, ó musa, que sigamos 
O beroe a toda a parte ? 
Que ao Rio Grande vamos e á Bahia, 
Onde calcou Vidal a força impía 
Do tyranno hoUandes, que ao seu aspeito 
Sente o sangue gelar no durQ peito ? 

Descancemos do claro Paraíba 

Na margem abundante. 
Onde brinca favonio susurrante j 
Brilhe também na vasta redondeza 

Esta illustre cidade, 
Pátria feliz do impávido Negreiros, 
Terror do belga, amor dos brazileiros. 

Porém em tanto 

Suspende o canto ; 

Do teu auriga 

A dextra amiga 

Confia o leme ; 

O rysne teme 
Que do heroe cantando a glórin, 
Talvez lhe manche a memória. 



614 FLORILBfifO. 



A D. António Filipp« GamarSo, f «tarai d« P«raambKco, 
c «ea reitaorador em 1604. 



Dulcisono ÍDstrumeiíto, 
Que de claros heroes levaste o nome 
Ao alto firmamento, 
Quando o cantor do Ismeno 
O plectro audaz vibrava ; 
Eleva agora ao templo da memória 
Novo heroe, que brilhou no céu da glória. 

De sacro enthusíasmo arrebatado 
Além da humana esfera, 

O argivo cisne, em metro n&o ouvido, 
Celebra o combatente, 

Que o bravo corredor domou valente ; 

Ou nos pitios combates valoroso 

O triumpho colheu victorioso. 

No Pégaso, correndo o vasto campo 
Dos nobres feitos do brazilio Marte, 
Vou colher sem demora 
Flores em toda a parte, 
E tecer-lhe depois em Dirce bella, 
Ao brilhar do meu canto, uma capella. 



NATITIOADE 8AL9ÁNHÁ. 6liS 

D^eotre lar^a espessura, 
Ouvindo a yoi da pátria, a quem opprime 

A tyranDta dura, 

Sái Viriato forte, 

lavicto lusitaoo, 
E, clamando vingança e liberdade, 
Regôa a vos na elherea immensidade. 

Qual da Sicília o monte pairoroio. 
Que, chammas vomitando, 

Entre nuvens de fumo tudo abrasa ; 
Qual Boreas furibundo, 

Que, aberta a porta ao cárcere profundo, 

Com estampido atroador soando, 

Vai as altas montanhas abalando. 

Tal Viriato, a pátria defendendo, 
O Quirino soberbo desbarata; 

E, tigre furioso. 

Fere, atassalha e mata. 
O império quirinal ao vêl-o geme, 
De susto cheio o capitólio treme. 

O Camarão potente, 
índio famoso, illustre brasileiro, 

Negro Aquilão frementei 

É, de8l*arte, que busca 

O batavo em Goianna ; 
E um dia inteiro em hórrida batalha, 
Chovendo mortes, o inimigo espalha. 



616 PL0BILB6I0. 

Tanto valor nSo tem, constância tanta, 

O grande heroe troiano, 
Quando, montado no veloz ginete, 

Péla pátria peleja: 
Troveja mortes, damnos mil troveja ; 
Brilha o férreo pavez auribordado, 
Açoita as ancas o cocar doirado. 

Patrocolo denodado, que atrevido 
Ante os muros troianos apparece, 

Cedendo ao braço duro, 

Succumbe, desfalece ; 
E o bravo heroe, inda apesar dos annos, 
Marcha na frente dos heroes troianos. 

O Sei pião famoso, 
O belga em Santo Amaro derrotando. 

Cinge o loiro ditoso, 

Seu aspeito annuncia 

A fugida ou a morte 
De um lado a outro qual peloiro \ôa, 
Sôa a victòria quando o bronze sôa. 

Mais velozes nSo foram na Sicilia 

De Pompeu os triumphos, 
Que avassailou innumeras cidades, 
Com deshumano estrago : 
Nem do heroe, que de glória encheu Carthago, 
E que, sendo o terror da invicta Roma, 
Flaminio, Scipião, Marcello doma. ~ 



NATIVIOADI SALDANHA. 617 

NSLo pôde estar em ócio descançado 

O heroe, a quem Mavorte inflamma o peito. 

No illiislre Paraíba 

O hoUandez é desfeito ; 
Cunhaú, onde o belga é triplicado 
Vé Camarão, e o belga subjugado. 

Sobre teu alto cume, 
Erguido Guararape, altivo moote, 

Qual fulgurante lume 

Por Jove dardejado. 

Brilhar lambem o viste, 
Quando todo em furor, desfeito em ira, 
Vingança e liberdade só respira. 

Quanto é grato suster da pátria cara 

A fugitiva glória ! 
Deste modo se alcança no futuro 

Cubiçoso renome. 
Que o tempo estragadpr jamais consome I 
É credora de inveja, é felis sorte, 
Péla pátria acabar em doce morte. 

Agora, musa minha, em Porto Calvo, 
Culheremos a flor mais fresca e bella, 

Que ha de ornar do guerreiro 

A brilhante capella : 
Escape de uma vez o heroe famoso 
Do cego tempo ao ferro sanguinoso. 



C18 FLOBILEGIO. 

Vibrando a longa espada, 
Ao lado marcha do brazilio esposo 

A nobre esposa amada. 

No campo dos troianos 

Camilla furiosa, 
Voando sobre a grimpa da fteara, 
Mais triumpbos á morte oão prepara. 

Assoberbam o batavo nefando, 

O quente sangue espuma ; 
Qual belga foge, qual brazilio fere ; 

Quem evita o Mavorte, 
Na espada feminil encontra a morte: 
Ambos assim cobertos d* alta glória 
Alcançam do hollandez clara victória. 

Brazilio Camarão, indio Mavorte, 
Recebe com prazer ^sta capella, 

Que te cansagra o vate ; 

Com ella adorna a frente ; 
E da fama loquaz no excelso templo 
Aos futuro? heroes dá nobre exemplo. 



NATITIDADB SALDANHA. «iO 



A Henrique Diat» natural de Pernambaco, 
e seu reitanradoc cm I6tt4. 



Não posso, egrégio Henrique, em larga cópia, 
As lagrimas da aurora offerecer-te ; 

Nem de marmor luzente 
Padrões eternos contra o tempo erguer>te ; 
Porém ao som do plectro, que desfiro, 
Com áureo canto elernisar-te posso : 

Dom de maior valia, 
Que cem columuas do opulento Efiro. 

Quando no olympio circo, 
M2o mortal, todo numen o argivo cisne 

Da atropellada bocca 
NoTOS vibrava audaciosos bymnof , 

Quanto a rival Corina 
Raivara de escutarlhe a voz divina ! 
Quanto o mesmo ginete, que a vic(6ria - 
Conseguiu ao Senhor, se encheu de glória ! 

Nem BÓ de Ilio bateu neptunios muros 

O indomável Achilles, 
Quando em torno correu do argivo campo, 
Largo ribeiro, o sangue de Patrocolo : 
Nem o velho Nestor, que honrara Pilof, 
Transpoz somente á vida o curto espaço. 



65fO FLORILÉGIO. 

Oh 1 mil vezes ditoso, o que da Ijra 
Tirando sons, milagres de harmonia, 

Que o Patareu inspira, 
Rouba os heroes do tempo á foice impía l 
Ditoso, o que n*um frio esquecimento 
Não deixa sepultar a pátria glória t 

Assim Camões divino, 
Ergueu-le, 6 Gama, eterno monumento. 

Assim outr*ora Elpino, 
Alropellando os Evos fugitivos, 

Da immensa eternidade 
As bífores abriu formosas portas, 

Quanta d*ali rutila 
Brilhante glória em Azamor e Arzila ? 
Viste de novo Adamastor, ferrenho 
Sulcar teus mares lusitano lenho. 

Qual furor divinal de mim se apossa ! 

Que sacro enlhusiasmo 
Km grossos turbilhões me assalta á mente ! 
Onde me elevas, impeto divino I 
Oh passado I oh futuro I eu vejo Indo, 
Abrem-se os penetraes aos meus accentos f 

Henrique f lá me assoma em densa treva 
Do fero belga a alta trincheira invicta ! 

Que clamor que se eleva ! 
Que terror nos cercados que se excita I 
O bipene cutello a Parca afla 
No fuzilo dos elmos, das espadas ; 

Troa o bronze inflammado, 
Que em chuveiros a morte despedia. 



TVATITIDâDB SALDANHA. 6-81 

Como debalde intentas, 
Belga soberbo, te esquivar ao raio ! 

Como ! ... já se arremessam 
Altas escadas áá trincheiras altas ; 

Já tremula a primeira 
Sobre as muralhas porluguez bandeira , 
Já curvas, hollandez, com fado escai^so, 
Altiva fronte do africano ao braço! 

Freme na e8tan«>ia o liellico Mavorle, 

FiUminando minas. 
Lá Dias apparece. . . ah ! qiiSo azinha, 
Foge ao vêl-ô a bataria atrocidade, ^ 
Assim de Heitor fugia o grego iml)elle, 
Que as muralhas de Tróia acommettia. 

Que confusão, 6 musa, que alarido I 
O cén se encobre de negrume horrendo } 

Que estrondo nunca ouvido I 
Que sangue péla terra vai correndo ! 
Que é isto I . . . Más lá sôa. . . « O belga forlt 
Mas Salinas fugir em vão intenta ; 

Henrique os atropella, 
E a seu lado se espraia a negra morte. » 

Tat do heroe de Carthago 
Fugia 4 viBta a quirinal cohorte ; 

Quando em Tresbia valente 
O cônsul atrevido derrotara. 

Tal foge temeroso 
Do açor cruento á garra furibunda 
O aéreo bando de mimosas pombas : 
Tanto do Heitor brazilio assusta o braço ! 



6112 FLORILÉGIO. 

Como lá foge ao vêl-o nas Tabocas 

O batavo medroso ! 
Como sem côr, sem vkla, espavorido, 
De susto cheio, no Afogado foge! 
Como tresúa, navegando os mortos. 
Na feia barca o sórdido Charonte ! 

Guararápes ! abaixa o nobre cnme; 
O iliustre Scipião lá vai subindo, 

Que nunca visto lume 
Da fulgurante espada vem saindo ! 
Relincha o nitridor atropellado, 
Sangue e fogo no freio mastigando ; 

Lá sôa ! . . . lá começa 
Dos peloiros o estrondo repelido. 

Qual do cavallo vôa, 
Qual sem cabeça corpo vai rolando. 

Qual decepado braço, 
Inda tremendo aperta a quente espada, 

Qnal sem dono ginete 
Pisa e repisa galopando o campo. . . 
Lá dá costas o belga, lá procura. . . 
Nas densas mattas o mesquinho abrigo. 

Musa ! . . . porém já basta, descancemos 

Um ponco a lyra d 'oiro; 
E entretanto conheça o mundo todo. 
Que entre o remoto povo brasileiro 
Também se criam peitos mais que humanos, 
Que não invejam grego», nem romanos. - 



NATIVIDÀDB SALDANHA. 621 



Ao Blestre de Campo Francisco Rebello, nataral 
de Pernambuco, e aen reataorador em 16S4. 



Brazileíroâ ! . . . de novo aGno a lyra, 

E o numen de Patara, 
Que 08 lisongeiros vates nao inspira, 

A minha mente inflamma. 

Tecei-me nova corda, 
Filhas do céu, rasJlo, ingenuidade; 

Pois agora acordando 
 lyra brazileira os sons argivos, 

Vou estampar o nome 
De Rebello immortal na eternidade. 

Já da apoUínea chamma 
Acceso turbilhão me desce ao peito ! 
Como um tropel de id^as magestosas 

A mente me confunde ! 
Eu vejo, eu nSo me engano, o Dclio Numen, 
Que aos ouvidos me entoa altivos hymnos : 

Ó Pindaro ! esmorece I 
Tu já tens nm rival no amor da pátria, 
No canto, que aos heroes dá nome e vida. 



624 FLOKILB«IO. 

Longe de mim o vulgo boquiaberta. 
Que não pode escutar os sons cadentes, 

Que o vate desencerra ; 
Longe de mim a turma aborrecida, 
Que á lyrica não sobe, e que derrama 
Versos sem alma, e só no nome versos ; 
Longe, sócios de Mevio, e não de Elpino, 
Não de Filinto, Coridun e Ai feno : 

Meiga pompa ululante 
Não segue os voos da ave do tonante. 

Vem, Aonio, a meu lado ouvir meus hymnos ; 

Vem a prestar-me a ijra. 
Que hoje tem de troar com sons divinos, 

Qunes Diniz, que nos guia, 

Outr'ora modulara; 
Vem comigo cantar, deixa de parle 

A arrufadiça Uiina. 
Se devemos á pátria a nossa vida, 

D6mos-lbe a nossa fama, 
Dêmos vida aos beroes, que á pátria a deram. 

ó vós, sombras divinas, 
Man(>8 dé Henrique, manes de Negreiros, 
As campas sacudi, erguei a frenie, 

Pára escutar o cisne. 
Que roubou vosso pome ás mãos do Lelhes. 
Exultai ! novo beroe vai hombrear-vos 

Sobre as azas da fama. 
Teve parte comvosco nos perigos, 
Vai ter comvosfco seu quinhão na glória. 



Natividade saldanha. oss 

Qual de Roma o guerreiro, que ioda JoTen, 
Emulando de Marte a valentia, 

Venceu Nu maneia fera, 
Carthago derrotou,- deu leis ao mundo, 
Foi doce á pátria, horrivet ao imigo : 
Qual Conde, cujo nome portentoso 
Fai de Alcides lembrar os nobres feitos, 
E que, quando Toavâ ao mareio campo, 

Le?ava no seu braço 
O augúrio nfto fali?el da yictòrta. 

Rebelio assim desfeito em chamma, em ira, 

A toda a parte voa, 
E onde aasoma valor, audácia inspira. 

Treme de ouvir-ihe o brado 

O belga esmorecido. 
Tu, Santo Amaro, o viste, quando inerme. 

Provocando o inimigo, 
Co*a espada trovejou raios de mortes, 

E) Hercules imitando, 
Rouba a vida a um Anlbeu co'os rijos braços. 

Foge o belga medroso. 
Foge á vista do beroe ; porém aonde 
Pdde escapar ao raio ? O heroe o segue, . 

* Assoberbando tudo. 

Nnda Ibe embarga os passon, nada o prende ; 
Chameja, espuma, brama, e os campos ta*a, 

Desmorona os redutos; 
£ de sangue, e de gldria, e pó coberto. 
Entre impios ossos caros ossos piza. 



OB 



Mtsmépe ! ji voa em teu aoccorio, 
Dos olhos scintillando fogo ardente, 

SedeDto do ioimigo, 
O herqe, a cuja fama é pouco o mundo. 
Já ! . . . Que horror 1 entre fogo, entre alarido, 
Chove o broQEe mortífera granada ; 
Cruiam lanças, a hoste se derrama. , . • 
Exulta, ó Biasurépe I O belga cede, 

Ante o brazilio raio 
Tudo é p<S, tudo é cinza, tudo é nada 

Noto campo de glória se offerece 

Ao brasileiro tigre: 
Sígismundo a víngar^se lhe apparece. 

Ó belga desgraçado 1 

Porto Calvo famoso 
Por três vezes te viu deixar-lhe o campo, 

Quando Rebello forte, 
Á dextra o raio, o terrorismo á frente, 

Impávido assomando, 
Tudo era pouco a saciar-Hie a fúria. 

Assim o antigo persa, 
No esquadrio numeroso confiando, 
Aos da Grécia guerreiros se apresenta ; 

Assim Flaminio bravo 
Á ghSría de Carthago, ao fero Annibal , 
Tal em Neméa os bravos sicilianos 

A Péricles se offerçcem ; 
Assim nas margens férteis do Garona 
A águia soberba foi lançada em terra. 



NATIVHSADF SALDANHA. éf f 

TapariCA infells ém ií «leria 

Com a morte tòróáf faiifas vlclòriai. 

Pefoito penetrante, 
Rompendo o peito forte, foi beber-lhe 
As fumanteí entranhas inda quentes, 
£ envolvido 6m Uotéus do seu trinmpho^ 
Na campina mavórcia teve a morte. 
Porém quando se chega ao céu da glória 

A existência é pesada : 
Assim Tarena sobre o campo expira. 

Ó pátria minha e delle ! enxuga o pranto ; 

Morreu ; mâs libertou-te, 
E de novo revive no meu canto* 

Inda hoje a sombra sua 

Te cerca a todo o instante, 
E co'os olhos em ti, assim te brada: 

— u Exulta, 6 Pernambuco ! 
Dei a vida por ti — fui doce a morte I 

Não te falta o meu braço, 
Tu génios inda tens, que me assimilham. » 

Ó jovens brazileiros, 
Descendentes de heroes, heroes vós mesmos, 
Pois a raça de heroes não degenera, 

Eis o vosso modelo ; 
O valor paternal em vós reviva ; 
A pátria, que habitaes, comprou seu sangue, 

Que em vossas véas pulsa ; 
Imitaí-os, porque elies do sepulchro 
Vos chamem com prazer seus caros filhos. 



BB» 



6t8 FLORILÉGIO. 

Assim em Roma o brio dos Horacioi 
Nos recemmàdos filhos vegetava ; 

Assim o egrégio sanga e 
£m Termopilas dura derramado 
Antolhava em seus filhos vingadores : 
Tomai delles o brio, a fôrça, a manha ; 
Sede sempre fiéis á pátria cara ; 

Yóè sereis brazíJeiros ; 
Sereis pernambucanos verdadeiros. 



PADRE SILVÉRIO DA PARAOPEBA. • 



•X 



Fabula do Morro do Ramoa. 

V^UAL Dom QaiicoU 
No Rocinante, 
Já cavalleiro 
Me fiz andante. 
Apenas raia 
A lus phebea. 
Não busco encantos 
De Dulctnea. 

A estrada busco 
De Yilia Rica, 
Que doze léguas 
Distante fica. 

* Era filho de Mínat « ftoeta fecundo por natareia. 
Morreu cego. — Segundo o ir Paulo Barbosa, tio mni- 
titiimai as conipo»iç5ei que deixou, e «m todatellas ha 
bastante originalidade. — N'nma delias conta «i maneira 
como fet fortuna nas Min^s. 



ese FLOBILEGIO. 

Só por beijar 
Neste almo dia 
A niSo piedosa 
'I>'iiHA'MalrÍ8. 

Passo a Ttabira, 
Passo a Caxoeira, 
£ a mesma Serra 
Subo á carreira. 

Aonde o conde 
De cavalleiros 
Deixou a fonte 
Aos passageiros. 

Que ali descançam 
Junto á corrente, 
Quando .08 abraaa 
Jl caljQia ardenle. • 

Logo presago 
Meu coração 
Cá palpitou^me. 
Nem era em vão. 

Porque chegando 
Ao fim da Serra, 
Ouço um rtiido 
Que ali me aterrai 

De espessa gruf a 
Do sol isempta. 
Figura horrenda 
Se me apresenta. 

Tostado o corpo 
Tinha a figiHra, 
Mais de mil palmos 
Tinha de altura. 



PAPns siLVBmo. «»i 

Os olhos fundos, 
Faces chupadas, 
As barbas brancas, 
As mSLos mjrradas. . 

Mal se apresenta 
Pasma o ca?allo: 
Cheio de espanlo 
Assim lhe falo : 

«-^uQuem és, me dize, 
Ó monstro horrendo ? » 
Mal lhe pergunto 
Fiquei tremendo. 

Depois de ura pouco 
Estar calado. 
Como quem soffns 
Um mal pesado. 

Abrindo ã bocca, 
Onde se viam 
Três velhos dentes, 
Que já boliam. 

Alçando aos ares 
A carantonha. 
Com voz cançada^ 
Porém medonha : 

— (« Soo Ranun n disse, 
{« Filho da terra, 
Que aos altos deuses 
Também fii guerra. 

« Com Filia Rica 
Tomei BiBores, 
Que hoje me causam 
Mágoas maioret 



y 



«'2 FLOBILEGIO. 

«Ella me fes 
O Jeito d' oiro, 
£ fei-ine entrega 
Do «eu thesoiro. 

«Vivia farto, 
Alegre e cheio, 
E dos amores 
Em doce enleio. 

«Porém 08 deuses. 
Que se aggravaram, 
Logo a soberba 
Me castigaram. 

M Neste alto morro, 
Precipitado, 
Por meo castigo 
Fui transformado. 

« Meus longos ossos, 
Que aqui jazeram, 
£m duas pedras 
Se converteram. 

« Por maior pena. 
Maior castigo, 
Tenho a Velloio 
Por inimigo. 

« Elle me estruge, 
Elle me aterra, 
Fasendo sempre 
Contínua guerra. 

M Agudos ferros, 
Forças estranhas. 
Me. vão rompendo 
Estas entranhas. 



PADRE SILVEBÍO. •'* 

«Tenho defronte 
A minha bel la ; 
Mâs ah ! não posso 
Chegar-me a ella. 

u Deito-lhe os olhos, 
Votos lhe oflTreço, 
Nem um aceno 
Sequer mereço. 

«Nos seus ouvidos 
Por meus sugpiros, 
Soam medonhos, 
Horrendos tiros. 

u Lagrimas tristes, 
Correndo ^em flo, 
Nas repuchadas 
Daqui lhe envio. 

«Porém debalde 
Suspiro e choro, 
Por essa imagem, 
QuMnda hoje adoro. 

«Entre prazeres 
De mim se esquece. 
Ou por enorme 
Me desconhece. 

•u Pois que com ella 
Falar nSo posso. 
Pelo destino 
Ou fado nosso : 

« Dize-lhe que hoje, 
Bem que se occulla, 
O seu amante 
Também exulta. 



«S* t^LOBILEGIO. 

«àoe, pois, lhe ]»ede, 
Como em penhor 
Do seu antigo, 
Fiel amor, 

u Que ãêttèe nobre 
Metal luzente, 
Que do seu seio 
Vai na corrente, 

«Um padrão alto 
Mande erigir, 
Onde ^stas leiras 
Faça insculpir: 

(f = A par de íedro, 
Com alegria, 
Por longos ann«s 
Viva Maria. = j» 



JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA 
E SILVA. • 



^o* S'*goi< 



O 



MUSà do Brazíl, tempera a lyra, 
Dirig^e o canto meu, Tem inspirar-me : 
Accende-me na mente estro divino 

De heróico assumpto digno ! 

Se comigo choraste os negros maless, 
Que a saudosa, cara pátria opprimem, 
Da Grécia renascida altas façanhas 
. As lagrimas te sequem. 

* O nome de José Bonifácio, no Braiil e em Portug»! 
como cm geral na Europa, é tSo conlieciJo nas leltras, 
na» tcienciaae na politica, que a saaTÍda comprehende 
a liiitiSria d'um grande período, primeiro dekittoria lit* 
tevaria de Portugal, depois da história do Brazil. Aqui 
nos limitaremos a dizer que nasceu em Santos a I 3 de 
Janho de 1763, e faleceu aos 6 d' Abril de 1838, e 
qne tuas grandes occnpaçSes a3o o impediram de TOtsir 
ás masa» ama parte do tempo. Estaodadeilerrado.em 
Botdcua ena 1889 ahi publicou nm tomito de poesiat 
aTulsas, intitidaado*>e Américo £lyiio. Oatras andam 
dispenai. 



jT 



«S6 FLORILÉGIO. 

Se ao curvo alfange, se ao pelouro ardente, 
Politica malvada a Grécia vende ; 
As bandeiras da crui, da liberdade, 
Farpadas inda ondeam* 

Ai; bayonetas que os servis amestram, 
Carnagem, fogo, nSo assustem peitos, 
Que amam a liberdade, amam a pátria, 
£ de helenos se presam. 

Como as gotas da chuva o sangue ensopa 
Árido pó de campos devastados ; 
Como do funeral, lúgubre sino. 
Gemidos mil retumbam. 

Creancinhas, matronas, virgens puras, 
Que á apostasia, que á deshonra vota 
O feros Moslemim, filho do inferno, 
Como martyres morrem. 

£ consentis, 6 Deus ! que os tristes filhos 
Da redemptora crus, árabes, turcos, 
Exterminem do solo antigo e santo 
Da abandonada Grécia ? 

Contra algoses os míseros combatem ; 
Contra bárbaros crus, honra e justiça : 
A Europa geme — só tyrannos frios 
Com taes horrores folgam. 

Rivalidades, ambIçSo, temores, 
Sujo interesse a inerte espada prendem , 
E o sangue de christftos, que lagos forma, 
Um ai lhes não arranca ! 



JOSÉ BONIFÁCIO. 63 7 

Perecerás, 6 Grécia, mâs comlígo 
Murcharão de Albion honra e renome : 
O sórdido egoismo, que a devora, 
É já do mundo espanto ! 

N&o desmaies, porém : a Divindade 
Roborará teu braço ; e na memória 
Gravará pára exemplo os altos feitos 
Dos illustres passados. 

Eis os mjrrados ossos já se animam 
De Mélciades ; já da campa fria 
Ergue a cabeça, e grito dá tremendo 
Pára acordar os netos. 

— «Helenos!» brada: u6 v<5s, prole divina, 
Basta de escravidão i^ não mais ^oppobrios ! 
É tempo de quebrar grilhão pesado^ 
£ de vingar infâmias. 

« Se arrasastes de Tróia os altos muros 
Pára o crime punir, que amor causara, 
Então porque soflTreis ha largos annos 
Estupros e adultérios ? 

tt Foram assento e berço ás doutas musas 
O sagrado Helicon, Parnaso e Pindo : 
Moral, Sibedoria, humanidade, 
Ftz vecejar a lyra. 

tt Ante helénicas proas se acamava 
Euzino, Egeu, e mil colónias iam 
Levar artes e leis ás rudes plagas, 
E da Lybia e da Europa. 



y 



<Í58 rLOBILBGlO. 

«Um punhado de heroes então podia 
Tingir die «angne persa o vasto Ponto : 
Montões de corpos inda palpitantes 
£stn]mavam os campos. 

« Ah I porque n5o sereis o que já fostes ? 
Mudou-se o vosso céu e o vosso solo ? 
E nSo são inda os mesmos estes montes, 
Estes mares e portos ? 

«Se Esparta ambiciosa, Alhenas, Thébai,, 
O fratricida braço não tivessem 
Em seu sangue banhado, nunca a 'Grecíà 
Curvara o coilo a Roma. 

« B se de Constantino a infame prole 
Do fanatismo cego não houvera 
Aguçado o punhal, ah ! nunca as luas 
Tremularam tifanas. 

«Depois que foste, 6 Grécia miseranda, 
De déspotas brutaes brutal escrava, 
Em a esquerda o horam^ na dextra a espada, 
Barbaria prega o turco. 

M Assas sorveste já milhões de insultos. 
Já longa escravidão pagou teus crimes : 
O céu tem perdoado. — Eia, já cumpre 
Ser helenos, ser homens. 

M Eia, gregos, jurai, mostrai ao mundo, 
Que sois dignos de ser quaes fostes d*anles ; 
Eia, morrei de todo, uu sede livres ! m 
Assim falou — calou-se. 



JOSÉ tONIÍACIÒ. «S» 

E qual li^ra tieVoa, sacudida 
Pelo tuffto do norte, à aombra augutta 
Desappaiece. A Grécia inteira brada : 
« Ou liberdade oti morte, w 



Aot babianõ*. 

' Altiva mttta, 6 to, que nunca incenso 
Queimaste em nobre altar ao despotismo, 
Nem insanos encómios proferiste 
De cruéis demagogos. 

AmbíçSLo de poder, orgulho e fausto, * 
Que os servis amam tanto, oh ! nunca, musa, 
Accenderam teu estro — a 8<5 virtude 
Soube inspirar louvores ! 

Na abobada do templo da memória 
Nunca comprados cantos retumbaram: 
Ah! vem, 6 musa, vem ! na lyra d'oiro 
Nfto cantarei horrores. 

Arbitraria fortuna I despresivel 
Mais que essas almas vis, que a ti 8'humilham, 
Prosterne-se a teus pés o Brazil todo, 
Eu nem curvo o joelho. 

Beijem o pé que esmaga, a mSo quê açoita, 
Escravos nados — sem saber, sem brio; 
Que o bárbaro tapuia, deslumbrado, 
O deus do mal adora. 



640 FLORlLEaiO. 

NSo ! redaiir-me a p6, roubar-me tudo, 
Porém nunca a?íltar-me pôde o fado : 
Quem a morte não teme, nada leme ; 
Eu nisto sò confio. 

Inchado de poder, de org^ulho e sanha, 
Treme o visir, se o gr&o-senhor carrega, 
Porque mal dirigiu sobrolho iroso. 
Ou mal dormiu a sesta. 

Embora nos degraus do excelso throno 
Rasteje a lesma, pára ver se abale 
A virtude que odáa, só me alenta 
Do que valho a certeza. 

E vós também, bahianos. despresastes 
Ameaças, carinhos — desfizestes 
As cabalas que pérfidos urdiram, 
Inda no meu desterro. 

Duas vezes I bahianos, me escolhestes 
Pára a voz levantar a pró da pátria, 
Na assembléa geral ; mâs duas vezes 
Foram baldados votos ! .... 



Porém em quanto me animar o peito 
Este sopro de vida que inda dura, 
O nome da Bahia, agradecido. 
Repetirei com jubilo. 

Amei a liberdade e a independência 
Da doce, cara pátria, a quem o luso 
Opprimia sem dó, com riso e mofa : 
Eis o meu crime todo ! 



JOSÉ BONIFÁCIO. 611 

Cingida a fronte de sanguentos loiros, 
Horror jamais inspirará meu nome : 
Nunca a viu?a ha de pedir- me o esposo, 
Nem seu pai a criança. 

Nunca aspirei a flagellar humanos ; 
Meu nome acabe, pára sempre acabe, 
Se pára o libertar do eterno olvido 
Forem precisos crimes I 

*Morrerei no desterro em terra estranha, 
Que no Brazil s<S vis escravos medram : 
Pára mim o Brazil não é mais pátria. 
Pois faltou á justiça. 

Yalles e serras, altas mattas, rios, 
Nnnca mais vos Terei ! Sonhei outr*ora 
Poderia entre v<Ss morrer contente ; 

Más não ! monstros o vedam. 

Não verei mais a viração suave 
Parar o aerio vdo, e de mil flores 
Roubar aromas, c brincar travessa 
Co' o trémulo raminho. 

Oh ! paiz sem íguaK paiz mimoso ! 
Se habitassem em ti sal)edoria. 
Justiça, altivo brio, que ennobrecem 
Dos homens a existência. . . • 

De estranha emulação acceso o peito. 
Lá me ia formando a fantasia 
Projectos mil pára vencer vil ócio, 
pára crear prodígios I 



Jardios, vprgeis, umbrosas alameda,», 
Frescas grutas enlâo, piscosos lagos, 
E pingues campos, sempre verdes prado* 
Um novo edeu fariam. 

Doces vlíSes, fugi I Ferinas almas 
Querem que em França um desterrado morra! 
Ja vejo o gejiio da certeira morte 
Ir afiando a foice. 

Gallíeana donzella lacrimosa. 
Trajando roupas lucluosas, longus^ 
JJo meu pobre sepulcliro a tosca lousa 
S<5 cobrirá de flores. 

Que o Braiil inclemente, ingrato ou fraco, 
As minhas cmaas um buraco nega 
Talvea tempo virá qu'inda prantée 

Por mim com dor pungente I 

Exulta, velha Europa, o novo império, 
Obra prima do céu, por fado Ímpio. . . . 
Nâo será mais o teu rival activo 

Em commercio e marinha. 

Aquelle que gigante inda no berço, 
Se mostrava ás nações, no berço mesmo, 
E lá cadáver de cruéis harpias. 
De malfazejas fúrias I 

Como, 6 Deus! qne pcirlentol a Uraoia, Veaut 
Ante mim se apresenta ? Riso meigo 
Banhalhe a linda bocca, que escurece 
Fino coral nas cáre«. 



JOSA BONIFÁCIO. «43 

— uEu ooivuUei 08 fados que nfto mentem *> 
Assim me fala a piedosa deusa. 
M Das trevas surgirá sereno dia 
Pára li, pára a pátria. 

u O constante varão que ama a virtude, 
Co*os berros da borrasca não se assusta , 
Nem como a follia do akmo fremente 
Treme á face dos malet. 

» EIscapaste a cachopos mil occultos, 
Em que ha de naufragar, co|no até-gora, 
Tanto aulico perverso. Em França, amigo, 
Foi leu desterro um porto. 

u Os teus bahianos, nobres e briosos, 
Gratos scr&o a quem lhp8 deu soecorro 
Contra o bárbaro luso, e a liberdade 
Metteu no solo escravo. 

u Ha de emfim essa gente generow 
As trevas dissipar, salvar o império : 
Por elles liberdade, paa, justiça, 
Serão nervos do estado I 

u Qual a palmeira que domina ufana 
Os altos topes da floresta espessa, 
Tal bem presto ha de ser no mundo novo 
O Brazil bem fadado. 

M Em vão de paixSes vis cruaados ramos 
Tentarão impedir do sol os raios : 
A lui vai penetrando a copa opaca, 
O chão brotará flores. » 



644 FLOBILEGIO. 

Caloti-se, então — voou ; e as soltas tranças 
Em torno espalham mil sabens perfumes, 
E os lefiros, as azas adejando, 
Yasam dos ares rosas. 



Cantigai bacchicai. 

A Baccho brindemos. 
Brindemos a Amor : 
Embora aos corcundas 
Se dobre o furor. 

Em bródio festivo 
Mil copos retinam; 
Que a n<5s nfto nos minam 
Remorfos ertieis. 
Em jubilo vivo 
Juremos constantes 
De ser como d^antes 
A pátria fiéis. 

A Baccho brindemos, ete. 

Consócios amados, 
Se a pátria affligida 
Por nós clama e lida, 
Pois longe nos vé ; '^ 
Jamais humilhados 
Ao vil despotismo. 
No meio do abjrsmo 
Fiquemos em pé. 

A Baccho brindemos, ete* 



JOSÉ BONIFiCIO. MK 

Gritemos, unidos 
Em santa amisade : 
Salve, 6 liberdade 1 
E viva o Bnizil ! 
Sim, cessem gemidos, 
Que a pátria adorada 
Veremos vingada 
Do bando servil. 

A Baccho brindemos, etc. 

A nau combatida 
Da tormenta dura, 
Furores atura 
Do rábido mar. 
Já quasi sumida, 
Resurge, e boiando 
Lá vai velejando. 
Sem mais soçobrar. 

A Baccho brindemos, etc. 

Bem prestes, amigos, 
Vereis vossos lares, 
TSo tristes azares 
Jamais voltarão. 
Os vis inimigos 
Só colhem vergonha ; 
E negra peçonha 
Distiliam em vão. 

A Baccho brindemos, etc. 



ei« PL0KlL1t«I0. 

Se a pátria nos ama 
Amal-a sabemos r 
Por ella eslivemos 
O sangue a verter. 
Se a pátria nos ehama, 
Iremos contentes 
Com peitos ardentes 
Por ella a morrer. 

A Baccho brindemos, etc^ 

Patrícios honrados. 
Aos ternos meus braços 
Em mútuos -abraços 
A unir- vos correi. 
Co*08 copos alçados 
De novo juremos 
Que amigos seremos, . . . 
Já bebo — e bebei. 

A Baccho brindemos, eU» 

A Venns fagtieira, 
A Baccho risonho, 
Ninguém por bisonho 
Se esqueça brindar t 
Moafa ligeira 
Tomemos agora : 
Amigos, vão fora 
Tristeza e pezar. 

A Baccho brindemos, ete. 



FRANCISCO VILLELLA BARBOZA, 
MARQUEZ DE PARANAGUÁ. * 



Lyrat. 



A, 



.URAS, que mansas vibrais 
As azas nestes retiros, 
Manda amor, vos alimentem 
Meus ternissimos suspiros. 

Mas se quereis 

Matar ardores, 

Temei suspiros 

Abrasadores. 



* Francisco VillelU Barboca, maricá d« Paraná - 

SBÍi nasceu em 20 de IToTembro de 1769» e faleceu no 
ia i 1 de Setembro de 1846. — Veja-se a sua biogra- 
phia pelo Ex."*<* Sr. Cândido Baptista d'OIÍTeira, na 
Rer. fio Instituto do Rio, T. 2.« da 2.' serie, p. 508. 



y 



618 FLOBILEGIO. 

Eceos, que nestes rochedos, 
Ha muito estais escondidos, 
Manda amor, que vos despertem 
Os meus ais, e os meus gemidos^ 
Mas se causar 
Não quereis dor, 
Não repitais 
Queixas de amor. 



Regatos, que ides correndo 
Tão pobres de vossas agoas. 
Manda amor, que vos augmentem 
O meu pranto, e as minhas mágoas. 

Mas se quereis 

Puros cristaes, 

Prantos de amor 

Não recebais. 



Auras, eccos e regatos, 
Pois amor pôde em vós tanto, 
Recebei compadecidos 
Meus suspiros, ais, e pranto, 

Amor vos dé 

Frescura amena, 

Alegres sons. 

Onda serena. 



PARAMA6I7À. «49 



Viite-me, Anarda, e gemeste. • • . 

Mâs ea que também gemia 

Of teui ais attribuia 

A dó de me Ter penar. 

N8o Jalgueí que de amor fosiem ; 

Este em Gelía estar cuidava : 

Cego, então, que o procurava 

Tão fora de sen togar I 

NSo recets, pois, que n*a]ma 
Mais es»a Gelia persista : 
Já sou teu>, e esta conquista 
Quem te p<$de disputar ? 



Sim, Anarda, amor julguei 
Existir no peito delia, 
E no teu estava, iS bella, 
Que a mais bella é o seu altar. 
Mas alfim em ti o achei, 
Foi-se o encanto, e acabou Gelia; 
Assim perde o brilho Delia, 
Se Phebo chega a raiar. 
NSo receis, «to. 



cc 



y 



Se elía tem longos cabellos, 
De côr de ébano, e anel lados, 
Dize os teus não são doirados, 
NSo fazem tu«io cegar ? 
O sol, meu basm.. que aos mais astros 
Por brilhante causa zelos, 
Também tem loiros cabellos. 
Como os teus se vêem brilhar. 
Mâo recQÍA,; Ota» 



Se os seus elhos ^. XmremPh 
E «ideates coiqp o8 de Yenusi^ 
N&o faHam cercos aceno»» 
Certa expressão singular? 
Quando amoroseji S9 volvem, 
S mostram. d*alffia a. tAiniiEt, 
Teem a languida doçura, 
Em que iM teus vejo. nadar? 
Não. mceú» et«. 



Nos teufltolbpa quaea <]AÍf aatrmi 
Marco as horaa.precicNa«) 
Em que as vagas amorosa» 
Meu baikel dev» luiciip. 
Pois se demo Beveeiro 
Gyifl. nielle» do ciiim«k 
Fujo ao trepido negruiM 
Vou-me no porto aowMkr. 
Não riecAis, €itc. 



Se » ses roiko é.bem talhado, 
Se é mimosa a face sua, 
Tem acafo a eòt da tua, 
Yeem-se as rosas rebentar? 
Tu nio vés cono já murchos 
No sea rosto os jasmins |»eiidemy 
NSo vés como os tens receadeiiy 
Quaes estrelias do alvejar ? 
Não receis, etc 



Se ella têm a beeca breve; 
Por ventura tão jucundo 
Vé-se o coral rubicundo 
Como na tua rasfar? 
A tua boeca, neu hemv 
É de pen»laa Ihesoiro : 
Tuas palavras sft» oirv, 
Que a tempo 'saiyes fottas* 
Não receis, ele. 



Se tem a «eío jespafòso, 
As ondas nelie espraiadas. 
Já batidas a cançadas, 
Dormem como em itiotto mar. 
No teu, meu beai^ ao oonfrário 
Empoladas oadas vagaaci, 
Onde as voatades nau/rafsm, 
Que ardentes se vio baidmr. 
Não receis, etc. • 



GM* 



/ 



êSS FLORILBCaO. 

Se 08 seus braços sXo roliços, 
Breye a mão, o pé escasso, 
Seus moTÍmeotos, seu passo, 
Teem teu garbo regular? 
Ah ! se tu nos teus me prendes, 
Sinto de amor as cadeias ; 
Se danças, ou se passeias, 
Yejo-te as graças cercar. 
NSo receiS) ele. 



Em fim, Anarda, de Gelia 
No que toca a formosura, 
Tenho>te feito a pintura ; 
£ tens tu que recear i 
Não tens, além de mais bel la. 
Uma alma em tudo completa 
Que sabe nobre e discreta, 
Tantas graças realçar? 
Não receis, etc. 



Se por acaso inda á Gelia 
Alguma homenagem cabe, 
É de néscio, que não sabe 
O que é digno de se amar. 
Assim ao barro formow, 
Sem alma, sem movimentos. 
Mil profanos rendimentos 
Yé-se o mundo tributar. 
Não receis, ele. 



PABANAGUA. 



6tf3 



Á PrimaTcra. 



Lá onde em luas margens, pátrio Rio, 

Que do primeiro mes tomaste o Dome, 

PASce o sidéreo Capro o verde esmalte, 

£ de teus cristais biebe a onda pura, 

(Mdia antiga do sol, centro hoje de outro. 

Cujo lúcido império abrange os pólos) 

Com proYÍdenle mSo a natureza 

Oasylo preparou da primavera. 

Al i n&o murcha a rosa : ali os troncos 

De flores sempre novas se ataviam. 

Ali (em quanto as negras tempestades 

Sobre as asas de Boreas carrancudo 

Arripiam do inverno a hirsuta grenha, 

Nos céus r<$la o trovão^ cái o diluvio, 

E do septenlriSo alaga as plagas) 

Se acolhe a deusa com as graças todas : 

Más apenas viçosa a amendoeira 

Dá si^nal de acordar ás nuas plantas. 

No pressuroso carro Phebo a toma : 

Dali volta com elle alegre e rindo. 

Qu&o doce é véNa entSo com mSo cnrioia 

Toucar a densa coma do arvoredo, 

£ sobre o verde dos macios valles 

Desdobrar a cheirosa bordadura, 

£m que arte e mimo despendera Flora 1 



6114 FLOtllSGIO. 

QoSo doce é Tél-a do sanbudo inferne 
Triampbante correr em róseo carro 
Os tapizados campos ! VSo ante ella 
Os capripedes satyros dançando : 
Fasem-lhe corte as graças prazenteiras : 
Namorados de vél-a os boS(|(ies cantam : 
Os arbnstos, os plátanos florescem 
Com seu balito doce perfumados ; 
E os virgíneos boldes, abrindo 00 khíoi, 
Com pudibundo riso se frattqueiam 
Ao pranto crcador da madre aurora. 

Cantai, 6 pastorai, 
A deusa da selva, 
Que veste de relva 
As vossas campinaa, 
£ os valles matiia 
De soltas boninas, 

E ta, que a natnreia estadas e amai, 

jindrada^ êscnta o canto : ser-te*hiõ gratos 

Os sons dà pátria musaf e o nobre assomplo 

Com a lyra nas mSos, na bocoa os b/mnot, 

E no peito a virtude, ella te acena, 

£ te convida pára os flóreos valles 

A saudar as matutinas graças 

Da formosa estaçSo, aurora do anio. 

Yenlaroso o moMal, qae oomteapkil«a 

Pôde longe dà corte estrepitosa, 

E se apraz de trocar os áureos tectos 

Pelos verdes dóceis da umbrosa sdTa ! 

Das sy métricas praças abborrido, 

Corre estai teigas plácidas, sem onlea, 



Habitadas da framca sniyélesa. 
Das flores pelo oalice «rralhadb 
Do traoquillo pras^r o néctar gtosta : 
E se adornado de vírent«a folhas 
No cnrvo ramo amadurece o o^fò ; 
Encetado sem crime, entfto lhe deixa 
A fragrância nas mãos, o mel nos labioi. 

Mas que augusto especlacttlo sè osttslt ! 

Eis das moças titScs a primc»geiiia, 

Que do primeiro sol Mrán^ o «berço, 

E o fulgido Oiifnte «ssigoalára 

Com acceso rubim stibre o horizonte ! 

De brincado lavur vistosas galas 

Trajam ot téM ; e os campos a esraelàlda ; 

£ as montanlias de pérolas «e toucoBi« 

Taes do éden os jardins se nos pintaram, 

Que a innocencia enflorou, «oitrchou a culpa : 

De cujos restos sempre preeiotos 

Saudosa a natureta, de anno a anno. 

Com pincel im mortal reforma o quadro ; 

N&o de teiia eamarii)t,.iiiertal vaitkMto, 

Pára ornar at paredea ociosas : 

No sancluario está «la aatufvsa, 

£ mui longe de vóa, luneiu Tulgares, 

Pftra quem sobre os valtes ctoialtaéoi 

Não tem cdr a tulipa, ou cheiro a rosa. 

Sal?e, pois, «staçlo linde^ 
Que álna nova dáa«o mudol 

Tua vinda. 

Teu Jucttlida 
Rifo alegn a teira e to* 



> 



•M FLORILECIO. 

Já dos ígneos horiíonlei 
Desce á teira alma «centelha 
Sobre as fonles 
Já se espelha 
O ferdejante pomar. 



Já nao mnge o trovSo rouco 
Nas profandas cavidades : 

Nem Uo pouco 

Tempestades 
Sobre a costa ouço roncar. 



Já co'o9 sóccos quebra a neve 
O corado lavrador : 

Já se atreve 

Sem pavor 
A seus campos visitar. 



Sob o jugo os bois meltendo 
Canta a amor ; mâs sem apego : 

Descrevendo 

Torto -régo,- 
Que ha de breve semear. 



Rejeitando o tojo bravo. 
Tenros prados tosa a ovelha : 

Vai o favo 

Loira abelha 
Fabricando a susurrar. 



PARANAGUÁ. «tfT 

Cobre povo de mil flores ' 
Todo o Talle, e monle agreste : 

Traja as cores, 

Que o celeste 
Arco em chuvaa lhe vem dar. 

Salve, pois, eslaçSo linda, 
Que alma nova dás ao mundo ! 

Tua vinda, 

Teu jucundo 
Riso alegra a terra e ar. 

lias que fogo divino, que ar mais puro 

Me inflamma o coração, me esperta o sangue ? 

QuSo formosa maabà coroa os montes ! 

Espargindo oiro e lírios se annuncia 

O rei dos astros. Como alegre surge 

Em pompa conduzindo a primavera ! 

Sda nos bosques emplumada orcbestra: 

Ardem aromas sdbre o altar de Flora : 

E adora ao sol alvoroçada a terra ! 

O tu, fonte de luz, alma do mundo, 

Princípio omniparente, e bemfazejo, 

Tu, que fazes volver a roda ingente 

Da carbunclea carroça luminosa. 

Onde as quatro estações gyram perennes. 

Sentado no teu sólio de diamantes, 

Os meus hymnos protege, ngora que alto 

Lá, do animal lanígero celeste 

Ambos 08 pólos vés equidistantes, ' 

E igualmente nos dás a luz e as trevas. 

Foste de adoraçfto o digno objecto 

Das profanas nações, que te incensaram ? 



Recebendo de ti àXmáo e Tid«, 
GratidSo Hms dklDu emtícos tacros.: 
Lerantaram-te altar tev» b«iefcios. 

Loorai, pois, vitrentef, 
O lúcido nume, 
Quo próvido hme 
Reparte entre 99 tmÍM : 

E o frouxo enlirISo 
Na nHtdre profunda 
Anima e fecunda 
Da terreá extenuSo. 

Já no árctico pdio 
Omd jasmim e oiro 
Do celeste toire 
Orna e fulvo colle : 

Qae aubmino 
Edi amor aeceao, 
Ao formoso páso 
Da Ag:eaopia filha. 

E a terra, a qve dera 
Nome a gentil moça, 
Com graças remoça, 
E folga na spbera. 

Depois ledo mora 
Ge'os lumes irm3os, 
£ os fructos touçios 
Kos ramos colora. 



PàMÀMAWL •»• 



Pân ellet copeia 
Da tenra domella 
A eòr da tei bella« 
Que o pejo afogueia. 



Mas eis a tafde de primoret rical 
Em minoi com a maah& rivalizanda. 
Da creadora ettaç&o varia o ornatq. 
Com diversos pntoeís vestido o templo 
Seguida dos favonios innocentes 
Desce do phebeo carro, e a par co'a deusa 
Em floridos vergéis paseeia e brinca. 
A amisade a entretém, amor a encanta. 
Aqui tece grinaldas ; lá sem ordem 
Labyrinthos enreda, enleia sombras : 
Eotre o mirtho cheiroso o arroio escota, 
£ em cochins de verdura afaga os fomaoi. 
Engolfada em taes lidas nXo receia 

A paa da natureza ver turbada , 

Quando do oocítso súbito negrume 
Surge; e sobre o horisonte a névoa poisa. 
Do inverno fugitivo auslro juntando 
Os dispersos destroços, a reforça : 
Cresce, as axas estende, avulla, e voa. 
É cerrado esquadr&o de feias nuvens : 
Cobre parte dos céus: feros ameaça 
Disputar do hemispherio a posse á deusa, 
Ai dos encantos seus 1 Quem os defende ? 
Dá signal o trov&o : começa a luela. 
Quanto me agrada ver estes combales ! 
Tudo é bello nos céus, té seus furores . 
Ioda eotre elles relot da deusa a iomgem I 



-v. . .^ .. . y 



660 . FLCHULEGIO. 

Em seu auxílio Phebo acode prompto : 

Ardente >eUa rápido dardeja, 

Que o seio rasga da assombrosa treva. 

Disaipa-se a tormenta : as nuvens fogem, 

Dando em tributo aljôfares á terra. 

Venceu a deusa emfim, e a luz resnrge. 

Como é mimosa então a naturesa 

Co' a bocca em riso, e as faces orvalhadas 1 

Tal a donzela, que travesso amante 

Em amorosos brincos magoara : 

Chora, e se ri, e alegre entre queixosa 

Lhe embebe na alma divinaes delicias : 

De pavuneas plumagens guarnecido 

íris levanta o arco do triumpho. 

O sol lhe doira a pompa: as flores le erguera 

Adornadas de líquidos diamantes, 

De enfeitar-lhe a coroa cubiçosas : 

E das aves, que altonitas nos bosques 

Pela densa ramagem se esconderam, 

Harmonioso bando os ares cruia. 

Celebrando a victoria, a pai, e a deusa. 



Os ledos pastores 
De tantos 
Encantos, 

E ricos primores. 



Das frautas nos sons 
Com bjmnos 
Divinos 

Descantam os dons. 



PASANAiQUÁ. eei 

E tu, ecco, as phrasei, 

Que escutas, 

Ás grutas 
Eosiuas loquazes. 



Nas azas ent&o 
Os ventol 
Attentos 

Suspensos esiSo. 



Porém já lança languido sorriso 
Phebo' sobre os outeiros empinados, 
Augusta sombra a natureza in volve, 
E doce luz a escuridão prateia. 
Eis no theatro da noite a scena posta, 
E nocturnos festins tecendo e Acantos. 
Seus mysteríos, então, amor celebra. 
Do ethereo pavilhão se estende o panno 
Bordado da mais rica pedraria. 
Do centro pende do soberbo tecto 
Argênteo lustre, que i Ilumina a scena. 
Eu vos saúdo, 6 noite, 6 lua, 6 astros, 
Que da quadra gentil sois ornamento 1 
Nos festejos co*a terra o céu compete. 
E fulgores disputa a noite ao dia. 
Em áureo e vasto círculo os planetas 
Formam attentos nítido cortejo, 
A formosa estação reconhecidos, 
Nella o primevo impuli»o receberam. 
Quando do mundo na mimosa infância, 
As prescriptas carreiras ensaiando. 



/ 



ft«l FLOMLlfiia. 

Pela abobada aial promptos rodaram. 
Veneranda memoria, anciã, sagrada, 
Que repetem fiéis á vos do Eterno ! 



Fervem mil lumes 
No céu sereno. 
Que ao brilho ameno 
Fazem ciumei 
Do verde prado. 
Também bordado 
De seus fulgores : 
SSo estrellas no céu, no campo flores. 



Ventos mais doces sobre as crespu vagas. 
Sobre as verdes searas se derramam, 
As perfumadas szas estendendo* 
Quaes se repartem do oceano o império : y 
Quaes se dividem as amenas vaneas. 
Suaves viraçSes, aquelles cruzam 
Os undusos districlos socegados : 
E ao voto ardente e saudosa esposa 
Prósperos sopram, borrifando os denset., 
E os pintados lieroes da erguida poppa. 
BrincÕes- favonios, e»tefl se divertem, 
Ora levando ás sequiosas plantai 
A amiga geração nas férteis azas; 
Ora brincando co*os anaeis dispersaa 
Da loura camponeia, que cantando 
Entre os dedos de neve o fuso volve, 



FAmASàfiUÀ. «6S 

lf<pl«iio brando 
As TagaR doBM. 
Dos mares toma 
Zepkyro o maado, 
Que euro eicewiTo», 
E Africo allÍTO, 
Blierci(a?am 
Nas salgadas campanhas, que guardaTou. 

BotSo desperta 
Oyra a ambiçfto. 
Oh como vfto 
Por via iooerta 
Gravidas qnithas, 
Das ttãis e ftlhaa 
Sempre choradas; 
Das recentes esposas detestadas ( 

Já a Dovoa portos 
A frota aborda ; 
A industria acorda 
Nos geslos mortos : 
£ ao mutuo bem 
Correndo vem, 
Inda singelas. 
Firmes dando-se as mâoa as artes bellas. 



Porém qnem como tn, illustre jÊnàmda^ 
Na malfadada, ingrata idade nossa, 
Ha que assim possa sempre estudioso, 
E proveitoso despender da vida 
Em melhor lida o seu melhor thesoiro : 



7 



<iff4 FLOBILBGIO. 

Na 1/ra de oiro ora altos sons Ungendo, 
Ora regendo os lusitanos choros, 
Donde sonoros alvos cysnes voam, 
Que o mundo atroam com eterno brado, 
O tempo, o fado, ameaçando, e a inveja, 
Qae em vão pragueja vendo a lus phebea. 
Salve, assembléa de vardes sapíenles, 
Astros luzentes sois du lusa sphera : 
Vá de era em era vossa fama e glória. 
Fiel história põe a salvo os que amam, 
E a pátria afamam por trabalhos nobres. 
Que nSo descobres, 6 sagaz talento I 
Cada elemento submettendo a normas, 
As artes formas, e dás leis aos usos. 
Em vão reclusos seus thesoiros tinha 
Com mfto mesquinha a natureza ignava. 
Industria cava as preciosas minas : 
Cria officinas pertinaz trabalho : 
Retine o malho, range a lima, e ruge 
Eólo, e muge a lavareda ondeando. 
De quando em quando geme a selva ; e ás praias 
Baixam as faias das frondosas serras, 
£ a estranhas terras levam úteis seres. 
Pomona e Ceres orna a mâi Cybele ; 
E de Semeie guia o filho as danças, 
Prendendo as tranças pampinosas vides. • 
Sempre assim lides, geração humana ! 
Riqneia mana das profícuas artes. 
Que mal repartes, caprichosa sorte, 
porém importe para o bem de tudo 
Primeiro o estudo, que nos trai ventura. 
Formosa e pura só a dá sapiência 
Á consiencia, que despiu cuidados, 



PARANAGUÁ. ^^^ 

Por livres prados estendendo a vida* 

Al i guarida foi achar verdade, 

Quando á cidade de entre ardis fugindo, 

No seio lindo a recatou virtude, 

E ao pastor rude a confiou em guarda. 

Muito, pois, tarda para ser ditoso. 

Quem cuidadoso aUi nlo busca abrigo; 

Onde o perigo da ambiçSo salvando, 

E contemplando a universal belleia, 

Qae a naturesa tem tfto rica ornado, 

Por seu doirado código instruído, 

Cante embebido na lição celeste 

A mfto que veste á primavera as flores, 

E á aurora as galas de gentis primores. 



"íio palácio da riquesa 
Não habita a sS ventura : 
Só a encontra o que a procura 
No seio da naturesa. 

Lé, pois, Anãrada ditoso. 
No grande livro do mundo. 
Em quanto o somno profundo 
C^rca o Jeito do ocioso. 

Nas puras manhãs suaves, 
Quando o sábio o campo estada, 
Rouxinol o saúda, 
E ledas cantam-the as aves. 

Nas longas tardes calmosas 
O abriga docel frondoso, 
E brincar no leito hervoso 
Té as sombras buliçosas. 



y 



••• rLOMLMIO. 



Ijogo «nle^ado o 
Co'os olhos nos borisnrtet, 
Qwi«dD o «<kl feirando m nwole* 
Lhes dá o éllimo sonito^ 

Depoia no nocturno véu 
Em conicItreB trUlHiDlea 
Laem oa sei» oNksa «rranlcs 
At marafiUiai do eén. 



CÓNEGO I. DA CUNHA BAR0OS4. 



O Hidert^. 



N, 



OS Ktaçoí niaternaes, nnicido apenft*, 
Jaiía Nicteroy, Mturnea prcAt, 
Quando Mimas, aen pai, gigante eúomiv, 
Que ao céu com ttio «oberba arremesaára 
A flaminigera Lemdos, arrancada 
Dos mares no furor de guerra impla^ 
Tingiu de sangue as aguas, salpicando 
De sen cérebro o Ossa, o Olynipo e o Oirys, 
Ferido pelo ferro, com que Matte 
Vingou de Jove a injúria em morl« acerba. 

Lamentando-se Atlântida, apertava 
Ao peito <t filho, pálida temendo 
Trisolcot raios, qii'inda accéíos via. 
Ouvki aett pranto o rei do argênteo lago, 
£ o tenro infonle eompassivo acolhe. 
No choque horrivel, qne dos Plilegro» cainpoi 
O mundo sobre os pólos abalara, 
Surgiram nofat terraSi noto! nátti 



y 



06 8 FLORILÉGIO. 

Cobriram reinos, ilhai, caboi, brenhat. 
Neptuno aponta á plaga rica e vasta 
Do tepulcliro do soi erguida lia poueo, 
Inda mádida e nova, ind* ignorada 
Dos homens e do mundo ; aqui se abriga 
A estirpe illustre em Mimas profligada 
Que o Justo e paternal intento herdara. 

Cresceu coMdade a força, a raiva, e^ brio ; 
D a illustre geração fervendo o sangue 
Nas veias da tilanea, occulta prole. 
Reforça o braço, que árduas feras doma. 
Que troncos mil escacha, abate e arranca. 
Mudando o assento ás rdchas alterosas. 
Cinge a frente ao robusto, altivo joven 
Cocar plumoso, ornado de amathystas ; 
Diamantino fulgor contrasta o t>rílho 
De esmeraldas, rubins, topaiios loiros, 
Que a rica lona marchetando enfeitam* 
Negra coma lhe desce aos ventos sdlta 
Repartida vestindo os largos bombros ; 
Nas faces brilha mocidade imberbe, 
E a côr , que as tinge, por que o soi as cresta, 
Símilha o cobre lúcido, polido.. 
Nos olhos ]em«se os vividos intentos, 
Que de Mimas herdara, e ocrultos Jaiem 
No grande coração, qu'a injdria abafa. 
O esbelto coUo três gorgeíras prendem 
D*oiro e prata, e manilhas d*oiro e gemas 
Os musculosos braços lhe gnarnecem. 
Aperta o ventre ná, reveste a cinta 
Fraldão tecido de vistosas penuas; 
Mosqueada pelle um tiracollo f<Srma, 



CON^ÉOO BÀBBOÍA. ^69 

De qne pende em carcas cavado debte 
De monstro horrendo pelo mar geradp. 
Nicteroy daqui tira herdadas seitas, 
Em que ás feras certeiro a morte en?ia, 
Qoãdo as brenhas perlostra, e o l>oique,e oprado. 
Empunha a dextra mSo robusto tronco 
Dos ramos mal despido ; é esta a claTa, 
Que abate os tigres, os dragdes, e as serpes, 
Mais promplo do que em Lema o fero Alcides. 

Grato a Neptuno pressuroso entorna 
Dos altos montes rios caudalosos, 
Qne pujantes ao mar tributos levam ; 
Tortuosa marcha Nicteroy lhes sulca 
Por onde correm' plácidos os campos, 
Depois que em negras, firmes penedias 
Tropeçando furiosos s* indignaram, 
De branca espuma as margens alagando. 
Surgem co'as agnas, do Ihesoiro occullo 
Nas entranhas da terra intacta e nova, 
Luientes pedras e oiro, qu*abrilhantam ' 
As curvas, brancas, arenosas praias. 
Em que o fendo iXeptiino acceita e guarda* 
Já pretende vingar a ia fausta morte 
Que ainda Phlegra eternisa, e Marte accuta ; 
Nem perde a vista do syderio throno, 
Herança paternal, de qu*expenida 
Fora por Jove de Saturno a prole. 
Justiça e força os ânimos lhe accendem, 
Cauteloso se apresta, e dá-se á empren, 
Dis^ndo aos céus o ataque occulto e forte» 

Treieotoi Megaterios, cen Bilaiiiothsy 



/ 



•7ft tlOlILBtlO. 

Domado* por «eu bm^d- «4»^ mar arvMiani 
lof éntefs,. negras pedraa, qa*eii6orpaiia 
Promontório* formando, <l*oade et|»reitA 
De Jo?e o ciúme, e de Mavorte ai ira*» 
Atui le affondam lago», ralwlçando 
Estofas, negras aguas somnolentaii, 
Que habiAam brooseos jacaré*, e moMtcos 
De boiveada e torpe aspecto ; d*BÍi suf^^NU. 
BKanpad«is rochedos, em q«i'as oodai. 
Rebentando furiosas o ar atroam, 
Mugindo horriveii, revolveodo aa eoitas. 
Altas serras do norte ao sul prolongai 
Sobre as nuvens erguendo^se asuladna; 
Recortados penedos Ibes guarnecem 
Mil cabeços, <|oe os e^us roçando afiTronUm^ 
De guerreiros merlSe», vestindo os «mitoí. 
Novas rochas ao mar d^aqui se ajuotam^ 
De espaço a espaço o reino dividiadot 
Possantes totareos, que a mSo robutfa 
Do soberbo gigante ás serras dera :• 
Fechada* selvas cotarem amplos valias, 
D*onde avultam mil iagrems* caslellaa 
Subiâdo de uma, e de ontra }iarle áawivess. 
Urram tigre* furio*os, que retousam 
Na* horríveis eavemas* aballande» 
Pedras, trotneos, rochedo*,, valias, rio*'; 
Silvam negra* giboias corpulenta*, 
Yedando ao bosque emaranhado a entrada. 

Contente Nicléroy o ensejo agaania ; 
Da empresa a glória o «nleva, e racditaiiéa 
Na syderea conquista, devanea» 
Lá quando o *el ao* nárcc meffulhaira 



CONMO BAIIIMNCA. «Vi 

Os leai fogMoi rápidos Ethoates» 
Corrido já de Gapro o reiao em circ*lo 
Ás brenhas prompto o joveo se eDCaminha. 
D*aqjal raidoso a vista aos céus erguendo 
Dos astros marca a lúcida pbalaDge. 
Daquelle a força, e deste a raiva observa 
Prudente os golpes calculando e os tiroti 
Qne em breve disparar pretende ousado*. 

De Marte o aspecto horrível se lhe antolha 
Scintillando guerreiro, irado e forte ; 
Inda a lança, qne enri«tra, o sangue empana 
De Mimas qu*á vingança o filho eicita. 
Arde o peito em furor ; é fogo, e chamma, 
Que abrasa*, queima, e devorando assdma ; 
Penedo grave arranca, a Marte o assesta, 
Firmando os pés, os braçoa retorcendo. 
Encravados no imigo o intento e os olhes. 
Atalha o eéu a estólida ousadia; 
Eis fitbtto clarão do ethereo assento 
As nuvens rasga rápido e estrondoso ; 
firamt Jojie iracundo, sacudindo 
Da rubra dextra o raio uccdsu e prompto* 
Baqueai o $rÍo colosso, arqu«>jar e treme. 
Varado o peito e o coração, qu'eB tornam 
BorbotSes d* atro saneuc espumeo e quente. 
Mordendo as rochas urra e se delietn, 
Mâs a vida Ibe foge, • a força, e a miva. 
Tomba d*ftltas montanhas despenhado. 
Frondosos troncos, pedras, ar ni»taiido« 
Que ao corpo enorme^ enorme estrada abrimiD. 
Ao baque horrivel tremem tf rra o roáres^ 
E largo bsm ao longe ressoando » 



y 



«72 iTLOBILEfilO. 

Noi fuodos vítreos paços apavoram 
Amphitritef Nereidas, Tethis, Qlauco. 
TritSo ligeiro á flor das aguas nada, 
Voltando á praia o rosto observa e admira 
Fulgurando d*inslante a instante a serra, 
Que a chamma cresta, e negro sangue escorre. 
Horrendo corpo ressopino avista, 
Que entaliam terra e pedras, qu*enche e oecapa 
Do feio bosque ao mar estenso espaço. 
Ioda o grande penedo, qu^arrojava 
Segur a 9 dextra morta ; ind*liorrorÍSB 
Medonho e fero o aspecto aos céas voltado. 

BIs carpindo-se Atlântida commove 
Do eqooreo reino o lindo coro á mágoa ; 
Perdida a côr das faces, desgrenhada, 
Transida e bella os olhos lhe retratam 
Ternura maternal, que o peito nutre. 
Convulsa move os passos, misturando 
Com pranto amargo as voaes, que lhe troDcam 
Amiudados suspiros ; eis, Neptuno, 
Eis de Jove o rancor (exclama, e chora) ; 
Nicterof insepulto, e sobre um campo 
De um raio jaz ferido I A estirpe anguita 
Do pai dos Deoses, hoje acalm, expira 
No forte surprebendido il lustre joven. 
Vingar paterna ínjária foi seu crime, 
Ao crime excede a pena, se nSo vales 
A mal fadada Atlântida, que escudas. 
Pôde Encetado aos céus arremessar-se 
Com força e raiva, altivo presumindo 
Privar do throno a Júpiter supremo. 
Recobrando o direito ao scepiro avito. 



i 



I 



CONB«0 BàEBOZá. 67 S 

Typfaeu, Adamastor, Otho, poderam 
Soberbos guerrear na empreza affuilos ; 
CoBtnrbaram, mudando a face á terra « 
filontaobas, máreii, rioi, astros, deuses. 
Baixou dos céus terrífica vingança, 
Mercúrio, Palias, Marte, converteram 
Dos ímpios em castigo, penhas, ilhas 
Que leves sobre as nuvens revoavam. 
Do fundo avemo aquelles bramam ; estes 
A graves montes sotopostos vivem. 
Mâs inda sobem do Etna inflammado 
Fumo e chammas, qu*attestam força c brio 
Do opprimido gigante, inda tremendo 
Em Rhddope, Inarrima, e greta as torres 
De seus corpos erguidas eternizam 
Dos Titftes a memiSria, a empreza, e a estirpe. 

Nicteroy de Saturno 4 prole, é sangue ; 
E o nome seu a morte ao Lethes dando. 
Inglório o roubará do mundo á fama ? 
Raivosas feras Já talves devorem 
Seu corpo exangue, e já crocitem perto 
£m bandos mil carnívoros abutres ; 
Branquejando ot seus ossos talvez mostrem 
Em dias, que o futuro esconde aos homens 
De ingente monstro horrífico esqueleto ; 
E a tanto subiram de Jove ai íras ? 
Dá que a fama o celebre, dá Neptuno. . . . 
Recresce o pranto, a fraca voz Ih^embarga, 
As miios supplice estende, e afflictos vertem 
Os lindos olhos lagríman que supprem 
Confuzos termos, qn'em seus Inbioa morrem. 



DD 



y 



«74 FLORILÉGIO. 

Siigpíra, enUo Neptuno, e meigo abraça 
A lastimosa Atlântida, rompendo 
Morno silencio, que suspende e enhila 
A maritima côrie. — « É justo ! n exclama : 
*'É justo, sim, que vi?a eternizado 
No mundo o filho teu, qu*outr*ora fora 
Por mim da morte injusta occulto e salvo. 
O pranto enxuga, pois : Neptuno attende 
A mãi de Nicteroy, formosa e mesta ; 
Castiga Jove um crime, e não consente 
Que sobre a terra acabe o nome, a fama 
De um filho, que a vingar seu pai serguéra ; 
Foi de Mimas herança a força e o brio, 
Mimas Tive lembrado em Pblegra, em Lemnoii , 
Vivirá Nicteroy, lembrado c eterno 
Na serra, e valle, e r<5cha, que apontara 
Ao terrífico Marte, em fúria accéso. 
A um justo pranto, um justo apreço é dado. 
Ternura maternal te affoita, e eu quero 
Do morto filho a glória eternísando, 
Mostrar que abrigo heroe, de heroes nascido. » 

De Phebo a lui doirava a serra e as brenhas, 
Dos picos mais erguidos dissipando 
Nocturna, branca névoa, que descia 
Ao verde prado, eutSo Neptuno surge 
Na argêntea concha, que Hyppocampos tiram 
Os crespos mares, aplainando e abrindo 
Ruidosa marcha, qu*alva espuma cobre. 
Daqui Y^aidosos, negros phocas nadam, 
No dorso sobre as ondas levantando 
Cymodocc, Melite, Spio, Nisea ; 
Escamosos delphins dalli se ostentam. 



CONBGO BAKBOZA. <iYK 

Que em torno as aguas assoprando espargem 
Dos ares sobre as nymphas ; Glanco» Phorco, 
Palemon e os Tritdes em turmas seguem. 

Defrontam já co*a praia, o campo e serra : 
Desmaia a linda Atlântida, banhando 
Em noTO, acerbo pranto a face e o peito ; 
Qual flor nocturna e bella, qne orvalhada 
Nos jardins se aprasia, e ao sol murchando, 
A gala perde, iuclina-se impellida 
Do brando vento ao sopro, que a affagava. 
Neptuno as mãos lhe toma, aperta, beija, 
£ ao hirto corpo, entXo, a vista alonga : 
Oh virtude d* um Deus ! oh força I oh pasmo ! 
Desfas-se o grSo cadáver prompto em agua, 
Qne ferve, salta, muge, avulta e açoita 
Os valles, selvas, montes, brenhas, ròchau. 
No extenso mar, qne o verde campo alaga. 
De espaço a espaço avistam-se Os penedo», 
Derrocados por Júpiter tonante. 
Ao novo mar garganta nova se abre, 
Ferindo a costa o válido tridente, 
.Tunto á rocha, que a Marte se assestara, 
E qu'índa ao mar voltada as nuvens busca 
Em confuso marulho, em grossas ondaís 
Descendo as aguas rápidas enfiam 
A estreita fos, qu^as solta aos mares: Glauco, 
Qu*em cem rios banhar-se Thetys manda, 
Porqu*este só faltava, alegre, salta, 
Exp^Ke ligeiro á túmida corrente 
O peito largo e cérulo, qn'a quebra, 
Forçando as nguas, dividiíido a espuma. 
Da hirsuta grenha verdes algas descem , 

DD» 



7 



«76 FLOUILKGIO. 

Assombrando-ihe a testa, a foce e os olhos, 
(Os olhos, em qne Scylla encantos via 
Rairoso ciúme em Circe despertando,) 
A bart» negra, esquálida goteja 
Salgada lympha d'entre os limos pfenhes. 
Ramoso tronco de coral na dextra 
Levanta aos ares, co'a sinistra rema. 
Pairando sobre as ondas, que Ih* escondem 
D^atro peixe escamosa cauda e longa. 

Ind'aUo pasmo os ânimos enlera, 
£ Já murmura plácida a corrente, 
Igualando-se ao mar soberbo o lago 
Na foz, que a ròcbá fraldejando aSaga, 
Quando Glauco o silencio rompe, exclama, 
Do peito alegres vozes desprendendo. 
Que o trespasso d'Atlantída terminam. 

— «Eis divino furor m^impelle e agita, 
Deuses, Nereidas, escutai meu canto ; 
Celeste fogo os ossos me percorre. 
Divina inspirâçflo na mente eu sinto, 
Vigor mais nobre e santo me arrebata. 
Do qu*esse, que d*Anthedon me arrancara 
De occultas hervas, por virtude occulta. 
Das novas aguas mago influxo tenho. 
Já iou propheta e deus — ea vejo, eu vejo 
De par em par abertas aos mens olhos 
As férreas portas d*um porvir distante. 
Exulta, exulta, Atlântida, que a fama 
Do morto filho teu sublima a glória, 
E eterno o lago faz, eterno o nome. 
Troveje em vão Mavorte sobre a serra, 



CONBQO BABBOZÂ. 67 V 

Em ySo raivoso empregue a lança e a força, 
No grão rochedo, qu*aUo feito attesla : 
Immortal ficarás, 6 pedra, e ao longe 
Do novo rio a barra assignalando 
Nicteroy lembrarás aos c^us e ao mando. 

M Mysterio novo e grande eu vejo e admiro ; 
Brilhantes feitos surgem, refulgindo 
Das urnas, quMnda o fado aos homens veda. 
Rompem quilhas soberbas negros márcs, 
Pasmosa marcha endereçando afoitas ; 
Domada a fúria aos euros, lusos fortes. 
Nos céus pregada a vista, e as mãos no leme, 
D*aurora ao berço impávidos proejam. 
Eis siibita procella o fado excita, 
Propicia e rija os lenhos empuchando 
A nova plaga e occulta : eu ouço, eu ouço 
O alegre som dos vivas com qu* arvora 
Sobre as praias Cabral a cruz e as quinas. 
(A cruz, que á plaga dá virtude e nome 
Nome, qu'atr'amblçJlo trocando, vive 
Nos penedos, qu*á dextra o rio apertam 
Desta abra ingente, qu*alta glória espera.) 
Lobriga Marte a lúcida grandeza, 
Que do imigo o recinto abrilhantando, 
Da victória o valor lhe abate e a fama: 
Eis prompto Alectríon, mandado espreita, 
Do verde lago em meio, em torre erguida, 
O mar, a terra e as brenhas ; mâs que piSde 
Da vingança o furor, se o fado é contra ? 
Mem de Sá daqui surge, é fogo e raio : 
Desmantella-se a torre, o gallo escapa ; 
Lá cresce a grS cidade, qne nas aguas 



.y 



•7tt FLORILÉGIO. 

Do famoso gigante relralada, 
D^allos montes as fraldas borda, e as praias 
D*am jovçn bravo e santo o nome acceita, 
Sôm perder o de rio ao lago imposto ; 
Aqui se ostenta pró?ida a natura, 
Tbesoiros novos d*alto preço abrindo 
No florido matis do campo e selva. 
Aqui do inverno a ríspida melena 
Não sacode a saraiva, a neve e o gelo. 
De eterna pompa as arvores se arream, 
Pomos e flores de seus ramos pendem, 
Quaes nunca o borto hesperido guardara. 

(« Oh com*avuUa em gloriai oh como a illusiraiu 
Heróicos filhoSi que o seu grémio adornam ! 
Nem só Roma verá Sulpicios nobres, 
Comprando a gr& cidade a peso d*oifo, 
Que de Breno a ambição e a espada aggravam. 
A mesma ingente g|<5ria, qu*as8ignala 
De Rómulo o sepujchro, illustra e marca 
As auriverdes, nícleroicas aguas, 
Da pátria e da nação o amor floresce 
Do rio sobre as margens. Ah I são lusos 
D*antigo tronco ramos, que prosperam 
Sem perder a virtude, a força, e o brio. 

M Oh com'avulta!em glória! oh como a illustraiii 
Do seu governo as rédeas manejando, 
Incansáveis Andrades, Cunhas duros ! 
Tu pacato Rolim í activo Almeida, 
Que mais amplo poder regendo elevas 
A cultura, o commercio, as armas, tudo 
A um lustre, que o teu nome aclara, afama. 



COrfEGO BÁ&R0Z.4. 079 

Nem cede cm zelo iim Vasconcellos dextro, 

Que o vício espanca, e as arles acolhendo, 

Anima o génio, qu*eterntza a glória 

Da florente cidade. Um Castro eu vejo 

Melancólico e forte. Um sábio admiro 

Do rei, da palria amigo ; esteio adorno 

Do tronco da Nação ; thezoiro excelso 

De virtudes sublimes ; que ama o sábio, 

O justo abraça, Portugal seu nome 

Na lembrança dos bons fulgura e vive. 

Tu guerreiro Noronha a» rédeas tomas, 

Prudente, firme, e proseguindo ostentas 

Saber profundo, amor, virtude e génio. 

Oh como avulta em glória ! Ah I novos fastos 

Do filho teu, Atlântida enobrecem 

No mundo o lago, qu*hcje occulto admiras^. 

Dias mais bellos no provir s^antolham, 

E o fado aponta um século ditoso, 

Em qu*a Elisía disputa a fama o Rio. 

Eis amplo assento e base d*aureo throno, 

Qu*escoltam sempre lúcidas virtudes ; 

Aqui medra c floresce em força em glória 

Esse tronco, que o céu plantara outr'ora 

No heróico solo em que troveja a guerra. 

Já d*entre as mitos d*nm Pelias, qu'empoIgava 

Nova lolcos no Tejo astuto e forte, 

Um mais nobre Jason mais sábio escapa. 

Perdendo o nome, ao Rio inveja Colchos, 

YarSo mai4 digno d*aurea fama ; surge 

Das negras mSos d*horrenda tempestade 

Um dia, que do mundo a sorte muda. 

Salve, o dia felíi ! ditoso dia, 

Que mais ampla carreira ao génio abrindo, 



.J" 



<<80 FLOHILECilO. 

No velho laundo o esforço díspertando, 

A pas do globo proiima assegurai. 

Salve, príncipe excelso, qae abrilhantas 

Com justo sceptro e c*rôa a phiga e o lago. 

Em qn^hoje o (ado o leu poder m*inculca. 

Eternizam-te o nome a história a fama, 

EpcSca illuslre assígnalando aos povos 

No vasto e rico império, qu'ergue8 sábio. 

Vejo as quinas, qu'ao Indo, e ao Ganges davam 

Terror, desmaio, floreando ovantes 

Das naus dos Albuquerques, Castros, Gama:;, 

Sublimadas na esphera, agora dando 

Do novo reino brazileiro o indicio. 

Vejo um rei acclamar-se oh pasmo I oh glória ! 

SerSo d 'Ourique os campos estas margens, 

Que só natura esmalta agora e veste ? 

Revive ACTonso acaso l £ este o Tejo ? 

É este o luso heroe, qu*um throno funda 

Sem dos evos temer o estrago, e a fôrça ? 

Fulgura o cóu d*Ourique ; a crus se adora 

D*igneos raios vertida, santa, e bella. 

D*alta noile rompendo o vóu nubloso. 

Reflecte a luz nas armas luzitanas. 

Cerrados esquadrões desmaiam fogem 

Eclipsadas as Luas, cresce o esforço 

Que o novo reino portuguez eleva. 

Ferindo o escudo e as armaf mil guerreiros 

Lá saúdam monarca Aflbnso, o invicto. 

Que o céu protege, e a terra admira, e acclama, 

Auspicio igual aqui respeita o Rio ; 

Luminoso cruzeiro ao sul refulge. 

Do novo Reino a glória eternizando, 

Que um príncipe esforçado assenta c firma, 



CONBCIO BiAftOZA. 681 

Cingindo a c*rda e a purpura, que adornam 
Eternos brilhos de Tirtude avita. 

M Ao grande, ao sexto Joio, que n^esta plaga 
Primeiro ao régio throno sobe, o mundo, 
Erguendo as vistas respeitoso acata : 
l<Sicteroy, Nicteroy, um throno, um reino, 
Que a cruz defende, e um sábio escora, e afama, 
Do lago teu nas margens brilha, e cresce. 

u Vejo a glória esmaltando a Estirpe augusta 
Do régio brigantino c excelso tronco ; 
Nora estreita enriquece o céu do Rio, 
Tão bella como a d*alva, tSo formosa, 
Como a gema engastada em oiro ou prata. 
Do mar desponta, é Vénus, e os Amores 
Em torno brincam, do Danúbio a seguem ; 
Já d* um príncipe heróico aos braços chegft, 
E o céu que os liga d'hymineu co*os laços, 
Em reciproco amor, em grato auspicio, 
Perdurável grandeza ao Rio augura. 
Nem me occulta o futuro ou fado arcanos, 
Que a mente em santo fogo ardendo anceam : 
^Prospera, 6 par ditoso ! Exulta, ó plaga ! 
Qne o céu de bençSos enriquece e assalta ! 
Clarão de eterna glória os eros doira, 
Despontam mais brilhantes novos dias, 
Marcando a cruz a duração, qu*escapa 
Aos frouxos olhos d' indagar cançados. 
Penhor augusto vejo; acato e admiro ! 
Ternura conjugal o afaga, o abraça ; 
Nas faces brincam risos, sobre o berço 
Adejam votos do Brasil, do mundo ; 



y^ 



682 FLOaU.EGlO. 

Xr«z no sangue de heroea virtude e graça ; 
Lamego o sceptro de seus pais lhe off'rece. 
Concentra a gldria de Bragança e d' Áustria. 
Nunca ao sol, que desponta a linda rosa 
D*entre as flores, qu'esmaltam prado ou selva. 
Do cerrado botão rompeu t&o bella; 
Nunca, Atlântida, estretla igual fulgindo. 
Nas frescas aguas do Danúbio ou Tejo, 
Dos povos m<Sr applauso obteve — exulta I ** 

Tremeu de novo a terra e o mar : Neptuau 
A Glauco impõe silencio, ao ar levanta 
O grão tridente, abysmam^se as Nereidas > 
E a mUi de Nycteroy ao coro unida 
É nos mares por deusa conhecida. 



ÁLVARO TEIXEIRA DE MACEDO. 



A FesU de Baldo. 



(Canto último. J 



J\,i 



.gora maior graça, e novo alento, 
Generoso derrama nesta empreza, 
Engenho meu, e dá-roe no remate 
Benigno fogo que, ao princípio deste, 
Qual,no meio, ardente me infundiste. 
Voa soberbo, ou vem comigo junto, 
Ganhar, si nSo me engano, a nobre dita 
De yêr o feito oofso percorrendo 
Essa terra felit que chamo patriá. 

Já que os rijos boléus de má ventura. 
Até, por fim, a porta me encerraram 
Do templo da justiça, rasga ousado 
Engenho meu, caminho triumphante, 
Por meio das fileiras indiscretas 
Daquelles que a fortuna caprichosa. 
Cega sem tacto, p*ra teus fins protege. 
Eu, que de tal senhora nSo recebo 
Mil favores, que n vejo dar aos outros, 



y 



684 FLORILÉGIO. 

Qac t&o n^l concebi suas promessas, 
Que lancei pelas geiras do futuro, 
Sem proveito, sementes d^esperanças, 
Pretendo que meu nome, ora esquecido, 
Meu nome, que o poder tão mal afaga, 
Viva longo nas aras do conceito. 
Talvez no coração da minha gente. 
Viva sempre seguro na memória, 
Daquelles que applaudirem meus esforços-. 
Eis a sorte feliz que tanlo anhelo, 
E o maior galard&o porque tralialho. 
Eis o forte incentivo que, em meu peilo. 
Faz nascer este amor do imaginário, 
Esta nobre missão de ser poeta, 
Creando pelo mundo novos entes, 
Novos homens e coisas aprazíveis, 
Que se tornam reaes pela memória, 
Que vivem pela terra em tal certeaa. 
Qual vive com a matéria a sombra delta. 

Mas é tempo, leitor, que entres comigo 
Na festa que em ganha teus sorrisos. 
Observa d* uma vez meu Cleto Baldo, 
Dando realce a tudo por seus modos. 
Observa Dona Clara em seu triumpho, 
Qual vistosa rainha de comedia, 
Com formas estudadas pelas salas. 
Olha benignamente, e attento escuta, 
Que nem sempre taes coisas se fizeram, 
Quaei essas que narrei p'ra teu recreio, 
E estoutras que direi no seguimento. 

A casa apparatosa do vigário, 



TEIXEIRA DE MACEDO. 03» 

Defrofitava com um bosque de maogoeiraSf 
Onde o pomo da índia, eov maior glória, 
Mostra ao sol do Brazil as duas cores, 
D*uma face doirada, e d*outra, rubra. 
Nos salões ao convivio dedicados, 
Era tudo bem pftsto, e apresentava 
Certo aspecto iofliiindo de ventura 
Que os humanos ostentam, raras vezes, 
Em dias de alegria, mâs que os anjos, 
Ou aquelles que o céu tem por morada, 
Constante mostram, porque sempre gozam 
Prazer sem fel que o mundo nÍo conhece. 

Já no festivo solho percorriam 
Numerosos senhores convidados, 
Louvando a bella ordem e elegância* 
De tudo que seus olhos avistavam. 
Com igual sentimento várias damas, 
Formosas no semblante ali vagavam, 
Concertando engraçadas seus vestidos, 
E quer nas vozes, quer nas várias cores/ 
De araras lindo bando pareciam. 
Soberbas dando ao sol as pennas de oiro. 
Em pequenas distancias, a pé firme. 
Vários grupos ficaram reunidos. 
Conservando, entre si, devidamente. 
Se o thema contemplado era sciencia, 
Ou arte rasoavel, definida, 
Aquelles que falavam pareciam 
Circumspeçtos, civis e comedidos, 
Ouvindo com attençSo e cortezia, 
Cedendo, quando a força do argumento 
Continha convicções bem ponderadas. 



7 



686 PLOKILBGIO. 

Se O -assinupto, porém, era politica, 

Vaidosa profissão de certa g^entc, - 

Que se occupado Estado, e do Governo, 

NSo sei que gering^onça de máu toque, 

Se ouvia proferir de muitos lábios, | 

E n&o sei duvidoso, como pinte, 

O complexo de frases, e sentenças, | 

Dos grandes palavrões, da muita audácia, I 

Dos arei, e donaires de tal gente. 

Crente que tanto fala, e pouco escuta, 

Gente, que escuta mais, do que devera, 

Gente, que mais esquece, do que lembra, 

Gente inconstante e má que aos povos hoje. 

Umas vezes dá cVda soberana, I 

E mil outras condemna a vil desprezo ; ' 

Gente, que até dos thronos vai fazendo I 

Naus de viagem, das rainhas fusos, 

E dos reis seus discipUos de oratória ! . . . 

Gente, emfim, que p*ra tudo é~ convidada, 

E que Baldo pedio fosse ao festejo. 

Pelos claros espelhos suspendidos. 
Alguns senhores se miravam ledos, 4 

Namorando as feições que possuíam, ^ 

Seguros de agradar ao outro sexo. 
Bellas modas de calças e casacas, 
Faziam snmma glória de seus donos, 
E apezar que nos talhes divergissem, 
Concordes eram lodos lá comsigo, 
De serem, petos rostos e elegância, 
Narcízos, sem senão, e mais sensíveis, 
Que o frio matador de Echo amoroia. 
Nnda inútil creou a Providencia, 



TEIXEIBÁ DK MACEDO. 6S7 

Aaimaeii exquititos, passarolas 

De máu aspecto, e monstros singuhrei», 

Amphibios numerosos e macacos 

Hirsutos e travessos, tndo serve, 

E todos teem seu préstimo. Aquelles 

Que sò nos vultos curam, esses homens, 

Que César conkeceu, vendo em Pharsalia^ 

Preenchem seus Ugares nos banquetes, 

Servem a certos fins, e também prestam 

Pára adubo de risoR, p'ra recreio 

Da gente mais cordata que os contempla. 

Sem elles mal iriam os festejos, 

E, sem elles, eu juro, que ha doniellas 

(De taes pares condignas totalmente), 

Que tristes dormiriam pelos bailes. 

Oh ! gente afortunada, se soubesse. 

Conhecer seu valor, e grande peso I 

No entretanto gozai do largo mundo, 

E, por fim, quando a morte vos alcance, 

Ireis todos p*ra o céu, que é o vosso reino. 

Brilhavam, nesse tempo, em toda a parte, 
Mil adornos de Flora, não riquezas 
De prata burilada. Puros vidros , 
Com agua inda mais pura, recebiam 
Ramos verdes, e flores da floiresta, 
TSo lindas, tão mimosas, e suaves, 
Qne dos olhos levavam dentro d*alma, 
Brando sentir, hnmano e bemfasejo. 

As flores companheiras são do homem, 
E só delle recebem doce trato : 
Os brutos seus encantos não percebem ; 



y 



0U8 FLOAILEGIO. 

Não tendo a lui do céu, e Deug no peito, 
Mal podem ver bellezas na matéria, 
O rigido tapir tae das ribeiras. 
Corre pélas campinas matizadas, 
Pisa os ricos tapetes de natura, 
Da gentil açucena morde a face, 
E rompe mil capellas engraçadas, 
Com que Alonso enfeitara a linda Cora. 

Do festim os salões naquelle dia, 
Estavam convertidos n*um bosquele, 
Idéa natural de mestre Berto, 
Pára trazer dos campos a frescura 
Do tecto hospitaleiro que o honrava. 
Ramos cheirosos do araçá bravio. 
Tecidos co'a limeira, e co*a pitomba, 
Faziam linda trança co*a folhagem 
Da vermelha pitanga, e da mangaba. 
Yergonteas de canella, e da baunilha, 
Diziam, que o Brazil também é Ásia. 
Galhos de cajueiros, e do arlocapo, 
E palmas reluzentes do alto coco, 
Completavam o arranjo deleitavel 
Do campestre recinto simulado, 
Por fructos, e por arvores da terra. 

Niveas toalhas cobriam largas mesas, 
Onde, por duas filas, se avistavam, 
Sobre parras, e flores escolhidas, 
O ananaz soberano e aromático, 
Do MaranhSo trazido áquelles lares. 
Fructas de conde (cujo mel cheiroso 
E' nata vegetal) estavam postas, 



TBIXBIBA DE MACEDO. «89 

Defronte de quadrados ainareilos 
De suaves baimnas delicadas, 
Linda pêra dos trópicos felizes. 
Laranjas, abacates, verdes lima^. 
Morenos sapotis, qne o bom Filinto 
Em vea de trouxas d'o?o8 comeria, 
Tomavam seu lograr ao pé de cestas, 
De mangas soberbissimas e raras, 
Que de Itamaracá recebem nome. 
Outras fructas formosas é fragrantes, 
Com mil doces, e pratos delicados, 
Prefaziam o quadro mais completo, 
E o mais grato dessér do mundo inteiro. 

Sobre as mesas, desta arte, guarnecidas, 
Trascalando os effluvios de Pomona, 
Escravos apurados assentaram. 
Grande cópia de pratos fumegando. 
Com viandas e molhos de appetite. 
Appareceram quartos de viteíla, 
Alvo lombo do cerdo e gorda vacca. 
Várias aves, e caça peregrina. 
Cujo sabor lhe vem da vida alpestre, 
Pescado e camarões do manso rio, 
Em loiras frigideiras borbulhando. 
Empadas de palmito, grandes tortas, 
Arroz de forno com jardim de salsa. 
E, p'ra timbre final do rico apresto. 
Avultava o melhor dos grandes pratos. 
Leitão de espeto, glória dos banqneles. 

Com tal disposição tudo era prompto, 
Quando Baldo, acenando a mestre Berlo, 



V 



y 



^90 FLOBILBGIO. 

Coníttiou ser incerto e Tacíllaale, 
Sobre qual dos senhores reunidos, 
Teria logar de honra ao pé de Clara. 

— u Hoje voga o principio de igualdade.») 
Sisudo reflectia o heroe da festa, 

u Receio dar offensa neste trance, 
£ no enleio cruel depreco aviso. » 
Mt^slre Berto faiou desta maneira : 

— c( As sciencias, as armas, e as riquezas, 
Disputam a miúdo a primazia, 

E 08 homens arrolados em taes classes, 

Para si tém querido a precedência, 

N8o s<$ nos actos sérios e distinctos, 

Porém inda nos l>aileB e banquetes, 

Onde ás vezes se encontram misturados, 

Cede tudo, porém, á cortezia, 

Quanto a igreja se mostra em qualquer parte. 

As armas, e as lettras retrocedem t 

Os ricos, e os soberbos se desviam, 

Os próprios diplomatas dfto-lhe o passo, 

Pois de tudo sabendo nSo ignoram, 

Qne o dizer, que seu reino é do outro mundo, 

Importa que eila sempre é sobranceira, 

Com as azai estendidas, e voando, 

Qual sublime condor, sempre elevado 

Por cima do que é grande cá da terra. 

Dé, pois, ao seu fiel representante 

O logar mais distincto que lhe cabe : 

EZntregue Dona Clara ao bom vigário, h 

Assim se fez, e musicas do bosque. 

Tangeram a entrada pára o banquete, 

E todos com semblantes de alegria, 

Tomarnm pelas mesas seus aíuientoF, 



TEIXEIHA DE MACEDO. 6Ul 

Applaudtndo o soberbo lanço d 'olho, 
O gosto, a novidade do apparato, 
£ tudo emfim que ali se descobria. 

Depois de curta pausa tioem pratos, 
Retinem garfos, facas e colheres, 
Susurro de festim alto começa, 
CMhos scintillam, mSos soccorrem boccas, 
Mestre Berto comia, e nSo falava, 
E Baldo, sempre alerta em seus deveres, 
Âllendia ao serviço das senhoras, 
Affavel presidindo ao seu convívio. 
Doua Clara, vertida em ricas sedas, 
Seu bom gosto mostrava nos cabellos. 
Enorme, coruscante e alto pente, 
De artístico lavor tinha cravado 
Pélas tranças luzentes de azeviche. 
Conta-se que era tal o seu tamanho, 
Que o vigário, por vezes, qual Damocles, 
Temendo que caísse, deu suspiros ! 
Era porém o andaime bem seguro, 
E a matrona, soberba do enfeite, 
Para todos olhava com sorrisos, 
I^inguagem do prazer que a possuía. 

Passa va-se o banquete alegremente, 
Cosme contava histórias divertidas. 
Reinava um tiroteio de bons ditos, 
Corria o loiro vinho effervescente. 
Oh ! que festa ditosa era a de Baldo ! 
Que prazer, que gracejos, que doçura, 
Que toque divinal lhe caia o- peito r !. . . 



y 



«es FLORILÉGIO. 

Glorioso escri?So, si o teu empenho, 
Me foi dado cantar a teo contento. 
Si tua alma pintei qual tu a gentes, 
Perdoa ao bom chronista si nfto pôde 
Deixar de publicar tua derrota. 
Culpa tua nfto foi, que foi urdida, 
Causada unicamente pelo fado. 
Péla trista ousadia de partidos 
Cm tempos duros, tempos revoltosos, 
Que tudo impedem, tudo precipitam ! 
Cantarei o final de teu banquete, 
P*ra que o rijo clarim que te dedico. 
Soando imparcial teu desconcerto 
Sej% crido por todo, quando yibra 
O sincero louvor bem merecido, 
Das virtudes singelas que tiveste, 
E da honra, sem par, do teu cartório. 

Em quanto, pois, a festa progredia. 
Rouco volume de medonhas vozes, 
Com tropel e nitrido de ginetes, 
Os ares atravessa, e passa ao Ixisque 
Incutindo temor nos convidados. 
Adeus bello prazer, adeus convívio, 
Sobresalto cruel êm todos lavra, 
E o sexo da brandura colhe medos ! 
Que berreiros sSo estes que escutámos ? 
Que tiros já tXo perto sSo aquelles ? » 
Perguntou altamente o bom vigário. 
— «Nova rusga, » respondem muitas voies. 
D'um novo presidente quer-se a queda ! n 
— M Maldita estreita nossa, clama Berto 
Onde iremos parar com taes mudanças? 



TEllEIRA 0K MACBDO. «83 

Qualquer que seja o bem que á pátria venha 

Desta rusga infernal agora em campo, 

Deliam tél-a feito ha quinze dias, 

Ou então adial-a p'ra mais tarde, 

Que o nosso Apollo assim ficara salvo : 

Eu te odeio, ambiçSo de baixo intento, 

£ TÓs, 6 patriotas de taverna, 

ó Grachos de comedia, vis escravos, 

Vosso deus e senhor ctiama-se — oiro — 

Vosso mestre não foi César clemente, 

Nem Augusto sagaz, correndo ao mando. 

O heroe quo imitais é Catilina, 

Mâs, como elle, achareis forte Petreio, 

Que vos cdrte a carreira fatricida ! » 

Adeus, bosque gentil I flores do campo ! 

Adeus, Baccho e Pomona deleitosos ! 

E vós, bello peru, leitão intacto, 

Fofos pasteis, áureas frigideiras, 

Ficareis pára pasto de guilhotes. 

Que deshonra p*ra \6s, . . . sereis comidos, 

Por homens esfaimados sem fineza, 

Que com carne, e feijão foram contentes ! 

Oh ! meu rico l^anquete adeus p*ra sempre, 

Minh*alma aqui vos fica, eu levo os queixos? 



• ■ • • 



Bradando estas sentenças singulares, 
Mestre Berto saiu sem ser mais visto : 
Debandada geral seguiu-se logo, 
£ o próprio escrivão, dono da festa, 
Tratou da retirada, e sem bagagem, 
Fugiu airosamente pelos fundos 
Do amigo, escuro bosque das mangueiras. 
Não consta qne este heroe, qual o de Tróia, 



./' 



69 4 FLOBILEGIO. 

Volume na^procuru da consorte. 

Consta s6, que, depois de gramtes i iãco5, 

Unidos foram ter á nobre vi lia, 

Concordes d^esperar pela ventura 

De uma pat duradoura, e sem perigos. 

De dias mais serenos e seguros. 

E, si bem que viveram mais á larga, 

Por mais que examinasse, nao me consta, 

Que o escrivSo de Goyana e Dona Clara 

Procurassem jamais dar outra festa. 



FIM DO FLOBILEGIO 



NOTAS 

AO 

FLORILÉGIO. 



y 



NOTAS. 



1." 



Pag. 1.* da latrodMeSo. 

Áo avaliar o estado das Ungiras e lettras 
eaatelliaiias e portuguesas na época em qae se 
descobriu o Braeil, se p^de ler coin inleerésseo 
segiiiBte documeoto, qite contara alguns frag* 
mentos curiosos em prosa e verso, os quacs 
devem migmenlar em estiniaçSo (apesar du des- 
cuido' com que parece haverem sido transcri^ 
ptos), quando nos lembremos que alguns delies 
podem ser obra dos poetas Gil Víceirte e Ber«> 
BBffdim Ribeiro, que floreceram ne reinado éó 
ventiuroso Manoel. Esl« documento, qte copia* 
nos em Simancas, é uma carta original dè Ocboa 
de Ysasaga, embaimdor dos reÍB cathoiicos ent 
Portugal^ quando o rei português recebeu por 
eipdsa em segundas núpcias a rainha D. M»^ 
ria. Nesta carta se descrevem por extenso as 
fastas que tiveram logar no real paço de Lis- 
boa , na noite da missa do gallo desse anno 
da- boda. Tio importante jnlgâmos tal doeu* 
mento, que passámos a reproduzil-o na inte* 

BB 



^ 



698 FLORILÉGIO. 

gra, certos de qae o leitor nos ficará por éíle 
agradecido, embura tenhamos pára isso de en- 
grossar de algumas paginas este tomo : 

Ccpia de unia caria autografa de Ochoa de 
Ysasaga ao9 Reys Catholicoz. 

Muy CaliSlicos, muy altos é muy Poderosos 
Príncipes é Senores el Rey é la Reyna Nues- 
tros Senores. 

Aunque yo sere alia presto queriendo Dios 
para haser relacion de las cosas de aca por 
menudo á Y. as. porque Juan Orlia Heyador 
desta Itegará alia antes qae yo, paresckS que 
era bien dar parte á Y. as. de las fiestas t}ae 
han pasado ai^ui en esta fiesta de la natWidft- 
de nuestro.Seõor.'- 

Jueves veinte y cuatro deste Dicieiíibre bies- 
pera desta santa fiesta, la Se nora Reyna oyo 
misa en su oratório e se confesó con fray Gar- 
cia de Padilla y despues comio relrayda. £1 
SenoT Rey «yo misa en su capilla é dicieron- 
me que tambien se babia confesado y á la tar- 
de el Rey é la Reyna juntos fueron á capilla 
k oir las biesperas y acabaronse despues de no- 
checido, y. despues el genor Rey, fue com la 
Senora Reyna hasta su posentamiento y dejaa- 
dola alli se fue derecho á la sala grande de su 
aposeatamiento que estaba muy bien atabiada 
j fecho un estrado grande con su doser de bro- 
cado encima y debajo puesta uiUi siUa rka 
grande com su mesa delanle y asentose alli y 



NOTA^. 609 

traxieronle la collacioii con grande triuâfo el 
mafordomo mayor y los maestres salas que di- 
sen aca yeedores, j mucho» pages con platos 
grandes de conservas y fruta de sarten, e el 
Duque de Coymbra se ynco de rodíilas delante 
dei Senor Rey y estobo asi con unas toallas en 
el honibro hasta que acabo de haser collacion 
y en lugar de copa un caballero llevó al^SeSoi 
Rey un yernegal de agua com unas toallas en 
el liombro. 

Despues de esto dieron collacion á todos los 
caballeros é fidalgos que estaban ai derredor 
dei Senor Rey de la misma manera que esta* 
ban en pie y despues dellos á toda la gente 
que estaba en la sala sobre que andoTo grande 
regocijo como se suele hacer en semejantea 
tiempos y para segund la noche que era la ce- 
rimonia fué real y paresciò muy bien á todos. 

La Sefíora Reyna hiao collacion en su câ- 
maras y despues las damas y á la saion la in- 
fanta DoSa Beatris le embió ciertos platos de 
fruta de sarteií y despues de echa la collacion 
la Senora Reyna vido que la casa no estaba 
adrezada como era rason para tal fiesta mando 
que Ia adrezasen luego y de noche colgaron 
los paiíoB y el doser y fisieron el aparador. 

Despues de esto á las ocho horas vinò el 
Sefior Rey á la camará de la Senora Reyna y 
fueron á los maytines de la misma manera que 
fueron á la biesperas y el Senor Rey dejando 
á la SeSora Reyna en Ia tribuna decendiò abajo 
donde estaba puesto su sitiai con cortinas y 
oyeron los maytines solepnemente con horga- 

BB « 



y 



74H> FL0B««O|0. 

Bw j dumiMneta^. y. pusjtares que faimnoi é 
U 8QS0B ea Ja c«pUla daiiMQdo. y eantendo 
G<0r»0 in excelna. Sl^a y dij^ I«kiiiÍ8i^ delGaUa 
potttifioal ei Obispo de F«8 y eu aoabanioi let 
majtioef ^ las dos hocas despu^ de la media 
Wfíche e) Rey é U Bejma se yAlyieRMft á mi 
apotfeffUmvento. 

Ho; dia de la Nalividade de nnestro SeBof 
autos que amanesciesei ia Sefíora Reyiia oytí 
mísa en su oratório y se comulgq é dijo, Im 
■Usa fray Gsarcia da Fadilla. 

£U Biey, é la Reyna se fueron á ousa ca» 
suf ffiiigereg y daqaaa e^t«e las aueve .4 dias 
horas é iban vertidos en esta iiiaaefa« 

£1 Sedor Rey traJbia jubon anoho de cebli 
earmesi á la francesa y calzaa- de. grana y bvrt 
ceguíB bkHiCos en soletas y una cinta de. oro 
y una espada con sm guarnieioa de oro Hco é 
im; cellafi de oro mediaiio c^ muebiia piedras 
y un beoete de terciopelo doblado y en^elunoa 
joyeles de diamantes y encima nua lakaidebi»^ 
eade pdo n^gro alcar/eào&do abierta por hm 
lados. 

La SeSora Reyna irahia ufia faldiiU de hstr 
eiopelo ne^o con tira^ de brocado y un cda 
de punias de brocado pelo morado oro titailQ 
y una delantera de Io mvsmo y un abito de 
terciopelo earmesi de m«iclms perlas con um» 
lacadas que vestio . el dia que se casi^ en Aicasar 
y una cinta de masorcas de oro de maotillo 
muy rinca y linda y un colar de las esmemklaa 
y en la cabeaa ecba la clencha« y un (ocadjio 
de oro de martiUo todo de emie» muy rico y en 



ta g&rgtfnta un liilo de parlasi 'guesfu con iina 
crlB -de diamnte» colgada dei y mochas axor* 
eas eu las vmnés, Ybati dftras diex j siete éa^ 
aias todas mny bien ataviadas y perfiladas. 

£1 SeSor Rey fíevó á la Seltora Reyna dei 
braso eiqaierdo hasta H tribuna y dejandola 
alli deceadió abajo á m flfitral y dijo Ut misa 
• pontifical ei Obispo -de Fez que áijo la dei 
Gallo, y estaba eb «cA alfear un retaWo devoto 
como en If lesia y lura t)nn g^rafeide rica y cua« 
tn> candeleros de plata y el aparejo de los hor-» 
namentM de brocado pelo la mitra y el vacu* 
to bien ríoos con mocha pedreria y predied un 
clérigo mny bien el nascimento de naestroSefior 
-y ei Senor Rey ofreció en laofrendadijeromne 
qne doce dneadés • h» seis pbr st y los ofros 
seis por Ia Senora Reyiia^, y el evaagelio y to 
pa< dieron ai Seiior Rey con Cerimonia com» 
se acostnmbra yno UevaronálaSe&oraReyaft; 

Aeabese la misa -cerca de la ufta hora y des4> 
piies el Rey e la Reyna ftieron á srus- apoéeii^ 
•tanisentos cada uno por Su parte y el Sefiov 
Rey fuá en esta uiaiiera, Iban ton' el todos km 
«abaifteros y dela&te uno coa «T ein«q(ie que te 
«mbio el^pad^-e Santio y masadlsIanteloSTaUai* 
teoos de maaa que son' aca eoMo porteros dfe 
Oáfliara y 0MDÍ6 -en* ima quadra «donde svele 
comer los otros dias asentado en una ^lla de^ 
bajo de doser de briyeàdo y éstaban ai detre- 
dor todos los caballeros y tms minvstriles altos 
que tocaban ua poço desviados. El apârradol: 
em mediano trajieron el manjat cyon trompetas 
f at«liftles f no eontíá carne sino peseado. 



70t FLOftltMlO. 

La Senora Reyna ai tiempo que iba desdtf 
la capiiia á comer á la cuadra baja encoiitrò 
oon la infanta Dona Beatriz que le vénia- á 
ver y á dalle buenas pasciias y un pag<e traa ti 
con un plato grande cululerto oon manjar pares- 
ciome que era eapirolada é hisieron la una á 
la otra sendas referencias bien bajas j fueron 
de mano á mano la Sefiofa Reyua á la msuM» 
derecha y la Infanla.á la mano izquierda j á 
la entrada de la puerta rogabanse la una á la 
otra y entraron casi á la par pêro paresciome 
que la infanta todabia se detúbo atra* un po* 
quito y fueronse á asentar á camita donde es- 
tobieron hablando y holgmndo hasta que tra« 
jieron el manjar. 

£1 aparador de la Seilora Reyna estaba pues* 
to muy lucidamente aunque estaba la plata 
muy apretada que habieôdo mucha paiâtres 
gradas la pusieron en dos pêro mucha é muy 
buena é muy lusida parescio á todos los que 
venian á verJo y menester fué habella pueato 
que no han puesto ninguna ?es despuesqueve^ 
nieron á esta cíbdad ya desian algnnòs que ia 
Se&ora Reyna no trahia plata y que la que te 
puso en Alcaaar de Sal cuando se cas6 era de 
y. as. y que la havian trahido alii para hacer 
muestra y que desde alli la habÊan vuelto para 
'CastUla. 

£1 manjar de la Senora Reyna trajierov ai 
aparador con trompetas yllevd las fuentes Do Sa 
I^nor de Milan y poniendolas en la mesa la 
infanta se levanto sobre las rodillas para servir 
con ellas y estonces la Se&ora Reyna levantose 



NOTAS. i^t 

iiB poqaito j astole dei braiío é hi^olè tornar 
& sentar graciosamente ; en el servicio de la 
mesa no hobo mas diferencia que en los otros 
dias que Lope Valdivteso hasia la salva. Doia 
Angela cortaba y Dona Leoilor de Milan ser- 
bia cbn las fuentes y con la copa. El maestre 
ftila oon los pajés trahia el manjar á la mesa y 
esttòan todas las Damas ai derredor y en las 
postreras fuentes la Infanta no- hiso ninguno 
mobimiento como primeto y los menestriles b^ 
tos tocaron durante la comida altamente. 

En acabando de comer vino el Senor Hey. 
á la Câmara de la Senora Reyna é yendose 
la Infanta mando despejar la Câmara y des- 
pues estobiecon el Rey é la Reyna solos oyen- 
do musica de Rodrigo Donayre y sus com- 
paiíeros. 

Despues de ido el Senor Rey venieron la 
Duquesa de Breganza y Dona Felipa á dar 
buosas pascuas á la Senora Reyna y estobieron 
asi holgando basta la hora das viesperas y por 
que el Senor Rey eslaba adrezandose para la 
fiesta de la noche mando á los de su capiila 
que veniesen á desir las viesperas en la sala de 
la Senora Reyna donde las dijieron cantadas 
soiepnemente. 

La Senora Reyna se piíso en su sitiai para 
oir las Tiesperas y la Duquesa dei Breganza 
un poço desviada mas atras por la parte de- 
recha y mas atras todas las damas é mugeres. , 

Despues de acabadas las viesperas vino la^ 
infanta Dona Beatriz y asentaronse ella y la* 
Seiíora Reyna en almóadas arrimadas á la Cá* 



y 



W^ FLOIIUB8IO. 

viara ; lá Sefiíora Reyna á la mono deret^apor 
Ia parte de la cabecera j la iitfaota por la par- 
te eaquierda y la Duquesa un poço desviada 
Itecial lado de la Senora Reynaj^estobieron 
ati hasta Ias odbo horas de la noche esperando 
4ue se Adrexaseii los momos j las seis danas 
que habiaa de-sailir á la francesa j ea este 
tiempo yenieion la marquesa de Tillarieal j 
la muger dei o yaiíano ée alvito á dar bueaos 
pascuas á la Seõora Reyna 7 habhmdo entre 
otras rasones le suplioaron les' diese licencia 
para rer suas Damas porque despnes qne nino 
s« aitesa á cabsa delias sus maridos no hasiaa 
easo delias y d caso porque se sieuten ellas es 
que el marques sirve á DoSa Maria de Carde- 
nas y el varon á DoBa Leonor deMiUan. Cnas» 
do ya se acabaron de ad rezar los motnos el 
Senor Rey hiso saber á la Senora Reyna para 
que se fuese y despidiendose de la infanta se 
fuá con fitts damas á la sala grande dei ape* 
sentamiento dei Srâor Reyqueestaframnyllena 
de gente con grand estrueõdo como para la ftes- 
ta que se esperaba y fiiese derecho ai estrado 
donde estaba un doser de brocado y debaja 
seis almóadas de brocado en rencle de dos ea 
dos y asentose en cabo por la parte deredia 
dejando el logar bacio para el Seior Rey 7 las 
mugeres y las damas se asentaron desde el pie 
dei estrado adelante y luego eomemaroa tocar 
los menestrilles muy altanAenté 7 despnes sa- 
lieron muchos momos con ynreacionescada jm- 
nencion con trompetas detante 4tomo aqui seid. 
declarado. En cabo de la stia estat» -lectio ou 



NWA8. tíHl 

fctraijmdiftto grande con panoB de donde sftlié 
un huerto de encantetmÍ6Dto qilé renia ^Qti9 
un arbol membrillo grande muy bien eèhò con 
mucliaís ramas etpedas Uenas de canddas ar- 
diendo y encima dei arbol «n dragon muy et^ 
pantable con três cabezas feroces f seis mano« 
grandes y con Ia cola tenia rebi^^do todo «1 
cuerpo dei arbol y todo d huerto estaba ca- 
bterto ai derredor con paramentos de lienso 
tlelgado y venian dentro seis damais DoSa Le«h 
nor de Milian y Dofia Maria de Cardenas é 
Dona ácUgeia^ é Dofia Leonor Enrriques é DoSa 
Guiomar Freire é Dona Maria de Silva testl^ 
das á la francesa trahian en Ias cabezas unos 
chapirones de cebti carmesi como miras Ilenos 
de mucha pedreria y perlas y cadenas é otras 
joyas BÉuy relusi^tes y encima unos Teloí co- 
mo Se pintan en los paSos franceses y unas ro- 
pat de terciopelo negro con mangas anchas y 
con colas largas trepadas y con unas letras j^or 
las oriilas con cebti blanco debajo dei téi-^io- 
pelo y en las manos unas achas pintadas de 
cera ardiendo y en cabo dei huerto renia ecbò 
OD asentamiento principal con almóadas de bro- 
cado f pregunté para quien se habia echo a^êlll) 
y diseronme que el Sefior Rey tenia acofdftdò 
ma rez de yenir alli y que.dei^ues ledijieron 
<|tte mejor era yenir despues con sus momos^ 
trás el huerto porque no fuera honesta para 
el venir alli sin la Seãora Reyna y Uegando el 
huerto delante de la Senora Reyna de la ttâ,^ 
nera que reniá parescia muy real imbenciotl f 
iMliendo foera la^ DawAsDona Angela eu n^nt'» 



\ 



T 



706 FLOaiLBGlO. 

bre de todas dió un escripto á Senora Rejma 
que desia en esta manera : 

«Estando en Itiopia en nuestro huerto da- 
more Sagrado guardado por ei Dragon usando 
de aquel poder que por los Dioses nos fué otor- 
gado de dar remédio á todos los verdaderos 
amadores vino á nos lo pidir un príncipe tan 
enamorado que el so he comparacion de si 
mismo porque la grandeza de »ua pena es nayor 
que nosa sabeduria y porque en tua alte- 
za que he merecedor de seus amores está o 
remédio deles é no en n6s o tracemus aqui á (e 
•pidir que o quieras remediar porque á tua soy- 
gecion estima mays estar, que á todos seus 
Senrios é todos os cavaileros de sua compafiia 
en poder de tuas damas é uoso sean soygetos 
é sendo coza tan nova aquela que á todas 
podian dar remédio o viren pidir a ty por ver 
una princesa de tanta escelencia ouvemos por 
probeyto a perda deste poder á te pidimus que 
nos lo queras otorgar por que otraballo deste 
camião se torne «n muyto seu é noso descanso 
€ teu servicio. 

« Despues de esto quitandose de alli el 
carro vino el SeSor Rey con veinte Cabal- 
.leres de los principales de sua Corte echos 
momos còn sus caratulas e cimeras con grande 
estruendo de trompetas e dieron dos bueltas 
por la sala danzando y despues el Senor Rey 
comenz<S yr ai estrado y la Senora reyna des 
que sentio que era el levantose y salio á reci* 
birle á la meytade dei estrado j juntandose el 
Senor Rey quit<$ la caratula y el bonete y en 



NOTAS. »07 

grand piacer reyendose hisieron sondas reve- 
rencias bien bajas el imo alotro ydespues fue- 
ron á danzar una alta y una baja y dansaron 
muy bien y volvieron á sentar á su estrado y 
lo que trahia vestido el SeSor Rey era un ju- 
bon muy trepado y calias negras é Ia derecha 
hasta la rodilla con unas barras de chaperia 
espesas y debajo de la rodilla donde suelen 
apretar las calzas dos hilos ensartados de dia- 
mantes é piedras que relucian mucho y zapatos 
de cuero negros puntiagudos e una cinta de 
oro de martillo con una daga pequenita colga- 
da dei é un coUar de oro sin piedras y un 
sòmbrero francês lleno de joyeles con una ci- 
mera grande deplumages y el cerco delbonete 
doblado lleno de chaperia y joyeles que relu- 
cian y todos los otros momos venian desta 
misma librea é muy bien atabiados cada uno 
segund su estado y especialmente el Duque de 
Coimbra trahia un collar de oro con mucha 
pedreria y perlas muy gruesas y la calza es* 
quierda muy Uena de piedras y perlas de la 
rodilla arriba y el sòmbrero con sucimera con 
muchos joyeles y encima dei bonete trahia dos 
sartales de perlas gruesas y lo que trahia cada 
uno de los otros no pongo aqui porque seria 
prolicidade. Salro que despues de asentados el 
Rey é la Reyna en su estrado cada uno dellos 
Uegando á sudamaquit<S lacaratula ediò cada 
uno á la suya su escripto y despues danaaron 
con ellas y esta misma forma tenian cada uoo 
de todos los otros que venieron despues de es- 
tos* Despues de esto venieron otros cuatro ca- 



y 



Tot FL(^ttemo. 

tkfttleros echos aomoB muy Incido» exm sus ca- 
ratulas y un* «n nonibre Âe todos dio un es* 
cript» á la Sefiora reyna que decia S0i : 

*i MviA^ alta é m.w Cflceleate. 
R«yná é m;t« poderosa Seiora. 

Teimos á este Seran 

Cada un por sm, dama 

£ vimos a sin raaon 

Que se fat a qaen beD'ama 

£ tornamos á pldir 

Por merced á vosa Alteza 

Que nos de a qtien dos fia venir 

Para que de praxer á tal tristeza. » 

Despues de esto vioo una con caratitla que 
trahia encadenado un gigante muy grande é 
muy feroz y detrás dei três »omo» muy hui* 
ée» con sus caratula«i y Hegaado delaale dei 
estrado el que trahia el gigante dio un eacripto 
A la Senora Reyna que desia asi. : 

« M.<» alta y ecelente Reyna 
é m.^ poderoza SeSora 

Yo soy embiado á ti dei] poderoso Copido e^ 
cual sabendo que el Rey tu marido eslá en dei 
terminacion de haser guerra á mis ene»%os 
deseando mas feborescervos que A todos asi por 
ambos ser los mays, mas magníficos principet 
que nunca fueran com« porqne en tu casa ser jus* 
ta to>4a la fernkosura que sufe (sic) en el mundo 



baee êer ioftda te ofrece para «n servicio al«8o 
^i^ante que por amores de yiorfele fúé trahido 
á 9tt8 presiones y cott 9u f^ema te notifica por 
muf cierta la Tictoria é t« pkle en Batisfaccion 
de ta mafio beneficio que mandes ^ las damas 
de estos três suyos á que mas q«e á todos debe 
por bnen&os amadores que suscrtietas eft elles 
RO nsen porque sino se emeiídon, muy presto 
seran culpa-las en sn mnerte y e\ los terá per? 
didos. n 

Despues de esto yenieron oeho roméros que 
HMin á Santiago con suS bordones j eoncias 
en un bergantin fecho artificialmente y Uegando 
á la puerta de la saia desemb^rcaron y itno en 
nombre de todos dio tin eseripto ai Sejior Rey 
qne desia asi. » 

Las nueyas ^an tan creeidas 
Rey Santo de tu pasage 
Que siendo po¥ nos sabidas 
Feeha la pelegrmagen 
Te frecemos kts ridas 

r 

A seguirmos tu Tiagen 

Sabe que nuestra tencknt 

En esta guerra que tanfamas 

Que eè servirmos las dos damas 

De las muy famosas Enrriquei y de Milkui,» 

Y despues de esto cada tino de estos romeros 
echaron sus ropetas y caratulas é dieroo sus 
eseriptos & las damas y^dancaron con ellas. 

Despues desto venieron ocho enemigos uà« 
lilios muy feroces y trujeroii euatro momos 



y 



Tio PLOMLB«IO. 

muy lúcidos con sua Garatulas encadenados j 
iin eaemigo de aqnellos fné á dar un escripto 
á la Sennra reyna qae desia en esta maaera : 

u En el ynferno temos sabido ha muUo tempo 
que por tua vinda á estes reynos seriamos de- 
les lansados fora é de todo destruidos é agon. 
soubemos por estes desesperadus que nos suas 
damas les embiaron que tinan ja nelas recibida 
por Senora, é como de cosa tua non podemos 
aber parte foy nos mandado trazer á estes avo^ 
sas damas é á te pidir mandes a ellas que les 
den alg^m descanso poys por ello son mayt 
atormentados que os otros que nos la fican. » 

Despues desto venieron ocho almas con can- 
deias encendidas en las manos que sinificaban 
la misericórdia y detrás un momo muy bien 
adreaado, y las almas Uegando delante de una 
dama que se llama Doiía IiConor Enrriqueif 
incaronse de rodillas é disieron dos vexes á alta 
vos ave mUerieordia ave misericórdia y luego 
se bolvieron y el momo dio á la Senora Reyna 
un escripto que desia en esta manera : 

u M.^ poderoia Reyna Senora. 

Yo soy uno de los três que este otro dia pi- 
dimos á su Real aitesa mandase á duas damas 
no nos tratasen tan mal y porque ya soy ofres- 
cido para siempre servir una de su real corte 
le suplico mande guardar elcostumbre que sus 
antepassados tobieron que era en tales fiestas 
no consentir á suas damas Uevar guantes es- 
quierdos en la mano é agora segund be vi^ 



' NOTAS. 711 

es -por k> contrario y si á tal com vuestra real 
alteza diese lugar los de estraSas tierraB deses^ 
perarian de tan escelente corte, n 

Degpues de esto túio un page pequenito cou 
caratula y con una ropeta Uena de manillas 
doradas y detrás dei dos cabaUeros con ropas 
rozagantes de guadameci verde y dorado á la 
francesa con sus caratulas y el page dio un es* 
cripto á la Senora reyna y el traslado dei do 
embio aqui porque no lo pude haver. 

I>espues de esto vino un hermitano con su 
bordon y barba grande y detrás unabreSa echa 
á manera de encantamiento donde vénia ine< 
tido un momo y dio un escripto á la Senora 
Reyna que desia asi. » 

u M.^o alta é m.^o ecelenle Princesa. 
É m,*^ poderoza Reyna Senora. 

Querendo mina ventura dar fin á mina vida 
ofereoioseme por enamorado en esta real corte 
de vosa alteza onde creceo tanta mina pena 
que cuydey que pacencia á podece resistir é 
fuyme aos montaiías onde me achey tan com> 
batido de cuidado que por leyxar alguna me- 
moria de mina tristeza é sentimento comencey 
de caminar en esse encantamiento en que ve- 
ngo topando con ese hermitano per esconjura' 
coes piadosas me pidio á ícabsa de mina pena 
respondile que me fasia asi andar á mays fer- 
mosa dama do mundo que estaba en lã Real 
Corte de vosa alteza é hele mobido de piadad 
mo dixo que 6 seguise. n 



y 



71B PLOULSfllO. 

De^pne» desto tího oiro momo da* 1» miseri'* 
oprdift que Vino antes disf^azado con otm ma- 
nera de habito con su caratula é áió á ià Se- 
Sora Reyna iin escripto que d«iia a»i : 

ccM.to poderosa Reytta Senòra. 

Dds ^ecet M ja venido delante tu real alf e^ 
sa & que pido pormei^ed noitte fenga p&t âo- 
brado en le tanto importunar por lot gimitte§ 
efquierdos porque floy^ venido de nmy lexos j 
á gfTandeâ peli^roe. » 

Despues de eito tíxio una mn^et muy fefosa 
con un encantamiento fecho arteftcialmeHfe que 
parescia una cueva metida es una brefia aspe* 
ra y venian dentro cuatro momos muj bien 
ataviados con sus cai^tulas y esta muger dan- 
do un eseripto que trahia á la Sefiora Reyna 
tom<$ una porra y quebr<$ esle encantamento y 
loi nvdnoB que venian dentro soltaronde 4 dio 
cada UBO de ellos snescripto á sudama f dan* 
taran y el escHpto que dio la muget á ia Se* 
(loTti tUyna desta asi : 

Rey y Reyna y ecelente 

A queii regnos non nombradM 

OcuttoB nunca fatiados 

Desde el cabo de oriente 

Obedeceu noevamente 

Á quien islãs 

Y tesoros 

Bncubiertos 

Por caminos 



NOTAS. TI3 

NnnCa cíértos 

Conquistando 

'Muchos moros 

Te 8on todos 

Descuhiertes 

Dina de mas eaeetencia 

Pues teneis merecimenlo 

Qne se quíebre en tu presencia 

Contra mi consentimento 

Este foerte encantamiento 

Et cnal tocando la damas 

De las que tengo nombradas 

Seraa sueltas de mis llamas 

JLbiertas y quebrantadas 

Sereis presiones encenadas. » 

Despues de esto vino el Marques de Villa 
Heal echo momo con su caratula con cuatro 
pajés delante tambien. con sus caratulas é ro- 
petas é dio un escripto á la Senora reyna que 
dcsia asi. 

uMM alta e m.^ «celente firiaeask» é 
m.to poderosa Senora. 

Eu- sor o marques que en esta Césiá de rosa 
altesa nosoSenor quesdreytojnes por sortes me 
der por servidor de vna dama de Yosa alteza 
per saber que yo era mays que todos á quale 
dama mejor tomaron duas yec'e8 por tanto me 
vengo á quejar á vosa alteza que esta terceyra 
me mande restituir áseu servicio vna danza. » 

Despaes de acabada la ftesta dadas las doce 



y 



Til nosiLEdio. 

horas de la media noche el Sefior Rey danzo 
con todos los momos en una dansa qne diceu 
aca Serau ydespues subieron elRey é laRej- 
na á su Camará con mucho placer é triunfo 
y asentaronse en la Camará y cenaron juntos 
muj alegremente el SeSor Rej de la mísma 
manera que estaba becko momo y porque era 
ya sábado Tolvlerons el manjar delaeame dela 
Senora reyna desde el aparador y comieron am- 
bos pescado y despues decepiar mandaron des- 
pejar la Camará y quedaron solos para se aços- 
'tar. Nuestro Senor les de hijos de vendicion, 
é á Tuestras alteias guarde y prospere como 
sus reales corazones lodesean de Lisboa S5 de 
Diciembre=:Muy homil Servidor de V. as. 
que besa sus reales manos é pies=;=Ochoa de 
Ysasag^a. a 

2.* 

Pag. XTII. 

Os neimot mollfòs qiie tlTcmos pára nlo 
considerar as obras de Roftim de Mvura neita 
coliecçSo, milílaram ácérca deAndré Nunes da 
Sílvat thèalino, natural, segundo Barbosa, de 
I^ijtboa, e, segundo Sisinondi, da Bahia. 

3.- 

Pag. 14 a lagulnte. 

Mattos ioitlou muito nlo s<^ de Ooogorn, 



I como de Ooevedo, 0eu nodel». O verto (p«f. 

Ift) 

u Mal direito e bem giboio. » 

lembra o de Googora 

M Mal herido y bien curado. » 

A sílTa de pa;. 1 7 é, no teu começo , um verda4 
deiro plagio da eançKo de Quevedo (Mimh 6.*^) 

M No 08 etpanteif , jefiora Notomia, 

Que me atreva este dia 

Con etprimida voz convaleciente » 

Igualmente a dlliroa decima da pag. 39 é feita 
sobre a 1.* de Quevedo, na fe^ta de toiros ao 
Priocipe de Galles : 

«Floris, la fiesta pasada 
Tan rica de cavai ieros 
Si la bicieran taberneros 

No lattera más aguada. » 

» 

Á ffátfra ao Cometa, na pag. 51, é pareèida 
com a letrilla de Quevedo 

«Mal haya quien lo consientew 

E a da pag. 65 faz lembrar a do Chiten do 
mesmo Quevedo. AS.* decima da pag 44 é 
de tdl despropósito, que nos justifica o que di- 
zemos na IntrodttcçSo de que Gregório sit vezes 



y 



7ltf FLOliUtCaO. 

pUDiíft so lad* de Algom ceneéito «^ ^aadke^/l 

sem sabor. 

4/ 

Pag. 127.. 

O S^ «oDeta que se reETere ácanonisaçao de 
Santo SUiDÍsIáo temo lo hoje por mpocr^pko; 
pol4 que segundo nas consta UÍ ^eanoaitação d 
se effecluou no principio do século passsdo, 
quando já eran mortos >4m dois irmSes Maltoi. 



5.* 



Pag. 329 • seguintes. 

Ésla biographia de Cláudio n^fceiÉita em al- 
guns legares mais correcção de estylo que é h- 
cil de fazer, e a -isso aulhotisâinc» a quem a 

^^^ÇJI^-vStóiW «48 deve ppéf^rir-se a 
féàill^fl^ ^jr$% afugou no carcete com uma 
)i|[^'4|pniámo« a liberdade de pdf cantes da 
Fabúta do Ribeirão, na pag. 950, outro sone* 
'to de Claitdlo, oomi maÍ8-tôrn|óèal,<do qoe ele 
destinou pára abi. Da labthi eortimos Mm pe- 
daço, onde isso vai marcado no fim da pagi- 
.-AaSâltt?' I- ■ ,• } K. ,. t . 

•' *^* '-''^ ' ' Pag. 265. 

Em ¥êi de Bri«i>«f, diiem iM|tr«« lesfos ( 



NOTAS. 717 

i Ih>èàsii&.. CflciDOB que «ão deve estar Dem- dei 
um. nem d^oitfro modo. Não seria má leiluya- 



7.' 



Paf. 306 e se^iute*. 
'. i 
ÈsiB. primeira composição é não só feita ao 
poema Uraguay , cojuo á Arte Poética em ge- 
ral. A do Templo de Neptuno (pag. 310) pa- 
rece 'vma epÍBli»]^^ emriadactf» fáo a Joté Ba- 
sílio»; e delia se vé que o ifmâo d^ste acompa- 
Dliira Alivreoga. A compósito da pag. 3 IX 
é uma ode á paz. 



L* 



Paf . 3i8. 

ConMfrámosio nome rondáf áffáty^por Alva- 
renga ^' «lOB AoaereQnlieAg, pala jtlop^deixar- 
mos de 4ar aos^ filhosi os.- nome» escolkid^peEiD 
pai ; mâs a palavra é francesa, e melhor sé 
ditia. rondei f como -no- castelhano antigo; mâs 
verdadeiramente são cantigas, similbantes ás 
dd troraduresi. ^ 

O aasninplo ào GoraBHifilié maia -proiirio 






719 FLQSILBGIO. 

pára uvMi noTeliii, ou pára um romtnee histd- 
rico. I>é«te úUimo modo emprehendeiiios tm- 
lal-o, aob o titnio = O Matrimonio de tmt Bi- 
«ao^ss apresentando o assumpto como nos pa- 
rece mais natural que elle se passaria. ' 



10/ 

Pag. 369. 

Ésta ode fai farle da compoMçlo e=s O &• 
MAtf=:t)ue, por eofano, passou pára* a pag. 
385. Assim s<S se de?e íer< depois da pag. 386. 

11.' 

Pag. 4&3. 

As ddze primeiras Kohas desta pagina devem 
achar-ie no fim delia, pois sEo a eontinua^o 
da Qota, que começa na pagina anterior. 



Teríamos que estender nosso trabalho, senos 
proposessemos a apontar as bellesas pârá se* 
guirem os principiantes, ou os vícios pára dei- 
les fugirem, em muitos logares desta collecçio 
de poesias. O nosso fim nfto foi publicar unut 
obra didáctica: foi reunir em corpo, e oom 
certa ordem, moilas peças eilraviadas;- fui 



MOTAS. 't» 

acompanhar de alguni modelos a resumida bis- 
iúria litleraria do Brazil, que publicámos, e 
que tem por fim indicar ao público nossas ri- 
quezas liUerarias, pára que os curiosos possam 
dedicar-se a formar delias coUecção, e salvar 
as que ainda se possam salvar ; «o passo que 
08 principiantes, com esles dois pequenos to* 
mof , poderão ter uma idéa de toda a nossa lil- 
teratura, e dos poetas, que tem produzido o 
Brazil.- • 



FIM. 



■ 


ERRATA. 


Paginas, 


. Linhas. Erros. Emendas. 


18 


antepen. de fora fora 


fi« 


24 Edo Vo 


S5 


1 .* branco bronco 


«6 


17 balaltia baralha 




i Theohgia, e da 


341 


. 18 1heoiog\SL< compeUnte borla, 




l^gue da cabeça 


448 


penult. Prado Pardo 


449 


15 chegou chegam 


453 


As déxe primeiras Unkas devom ir 




pára afim da pagina como nota. 



/ 



ÍNDICE 



DÈièTB BBGimDO ITOlfO. 

AdV«rteDcU ....«•...•..•• m 

I. J. de Alvarenga Peixoto a6I 

Crítillo 398 

T. A. GoMaga .<-. 40T 

D. C. garbosa .....•«... 441 

Padre A. P. de Sousa Caldas 487 

Fr, Francisco de S. Carlos. 511 

JH^J. Ribeiro ., 535 

rrr LísUòa. 555 

A. M. Bordallo 577 

J. J. da Silta ^... 585 

B. A. Cordovil ; 593 

L. Paulino. .^ . • • . 805 

J. da Natividade Saldanha 609 

Padre Silvério ds Paraopeba .......... 629 

J. B. de Andrada e Silva « ». 6S5 

F. y. Barbosa, . Marques de Paranaguá. . 647 

Cónego J . da Cunha Barboasa 667 

A. T. de Macedo 683 

Notas ao Fioiritegio .»..,......• 695 



GENER^^QOK^UMOINQCQ,, ^ 



y 



RROWER WILL BE CHARGED 

IDUE FEE IF THIS BOOK IS NOT 

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-sw\^H.E THE tAST DATE STAMPED 

BELOW. NON.RECEIPT OF OVERDUE 

NOTICES DOES NOT EXEMPT THE 



(7 



•«ÇZlí