(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia da litteratura portugueza [recapitulação]"

iifp Mm 



m 



mmm mWmíi 



BB 



ESEBESta 



• 



©^ 



Obra» dt COELHO NETO 



Strtflt. 

A Bico d» Pena. 

Agua it Juventa. 

R»mancêirt. 

T**tr», Tol. I, (O Rtlitário, O» 
Haioê X, O Diab9 no corpo}. 

Ttatro, vol. IV, (Quebranto, co- 
média • o taloAte Núttm). 

Ttatro, TOI. V iO dintuiro, Bo- 
nança, $ • Inlruto), 

Fabuluri: 

/ardim tag OHwtirat. 

Inttrn» $m FIòí. 

Apologot, contai para orlaafai. 

Miragem. 

MytlTí» i9 Nulal. 

O Morto. 

Rti tlégro. 

Capital FUiorml. 

A Con|uisr«. 

A Tormtnt*. 

Triva. 

Banzo. 

Turbilhão. 

O mtu dia. 

Aê Sttt D6r$idtSotfS«nkor», 

BmllaiUhmê. 

Poêioral. 

Vida Mundana. 

Patinho torto. 
Át quintas, 
Sartaa « P«r/U. 
Ftira Livra. 



Ê3 



mm 



BBSEaea 



Smmll*! \G^S91 iMinirl V^SB^J v^lAIHU/ l^sã^V tt!rt'R',ll ILj 



0BRA5 C0MPLETA5 



hecapitulação 

DA 

HISTORIA DA LITTIÍKATDKA PORTUCrEZA 

OS ÁRCADES 



RECAPIIULAÇÃO 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



I — Edade Média. 1'orto. 1909. ln-8° de vni-624 p. 1 vol. 
II— Renascença. Porto. 1914. In-8." de viii-69G p. 1 vol. 

III — Seiscentistas. Porto. 1918. In-S." de viri-638p. 1 vol. 

IV — Os Arcadas. Porto. 1918. la-S.» de viii-538 p. 1 vol. 
V — Romantismo. Porto. 1919. 






THEOPHILO BRAGA 



RECAPITULÂÇAO 



Historia k Littcratura Portiipeza 

o 



os ÁRCADES 




^■^ 

/^- 



PORTO 
LIVRARIA CflARDRON, 
DE LkijO & Irmão, roitores 

RdA das ('AUAfKMTAH. 144 



It) l H 



A propriedade literária e artística está garantida em todos os 

países que aderiram à Convenção de Berne — (Em Portuçfal, 

pela lei de i8 de março de iOM. No Brasil pela lei n." ?577 de 

11 de janeiro de 101 '21. 



PoKTO — Impbknsa Moderna 



Abrange o presente estudo o impor- 
tante quadro do Século xviii em Portu- 
gal, no seu duplo aspecto de ultimo reflexo 
da Renascença sob o pseudo-classicismo 
francez; e na corrente^ da Oivilisação mo- 
derna, a crise violenta da grandiosa lucta 
mental e social, (pie desde o século xíí 
actuou na dissolução do Regimen ( ^atho- 
lico feudal. É por isso cpie o Século xvrn, 
é considerado na Instoria como o Século 
c.rcepcional ])elas sTias grandes audácias. 

O estudo áo^ Árcades é um laborioso re- 
sumo dos livros em que Já tiatammos os 
factos e os individuos <|uc em l*oi'tugal 



singularisam esta época. ' Os livros que 
eonsubstacciamos, são: Historia do Tliea- 
tro portuguez (Século xviii), 1871, de 
VI 1-401 pag. ; a Arcádia Lusitana, 1899, 
com 644 pag., Filinto Elísio e os Dissiden- 
tes da Arcádia, de 1901, com 732 pag. ; Bo- 
cagc, sua Vida e Época, de 1902, com 611 
pag.; e especialmente, sob o aspecto men- 
tal (seientifico e pedagógico) a Historia da 
Universidade de Goimhra, tomo iii, de 
1898, com 619 paginas. A Becapittdação 
da época arcadica, contem os factos prin- 
cipaes expostos n 'estas 3017 paginas, que 
laboviosamente conseguimos condensar em 



''):>S j>agiiias creste livro. Seria isto in- 
differentc ao leitor, se Oh Árcades fos- 
sem apenas \\m apanhado; tem outro 
âmbito, retoco com materiaes novos, as 
hiographias de António José, o l)r. Judeu, 
Oarção, Diniz, Qnita, 1). Leonor de Al- 
meida, Alcipe, 3o^ê Anastácio da Cunha, 
h'ilinto, Gonzaga, Bocage, morahnente, e 
José Agostinho de Macedo. 

Uma parte do trabalho fez-se ao estam- 
pido do bombardeajnento de Lisboa... (5 a 
í) de Dezembro de 1917) ; mas sih^icio, 
diante dos assaltos dos apaches. 



Historia da Litteratura Portugueza 



SEQUNDA KPOCA 

(Conclusão) 



3.° Período — Os Árcades 

(século XVlll) 

No seu espirito e acção revolucionaria, o sé- 
culo XVIII é o térrainus de uma trajectória, ini- 
ciada no século xii, em um constante confiicto 
social e mental, em que da barbárie gothica re- 
surge o mundo moderno pela Renascença Greco- 
Romana, pelas revoltas communaes e terceiro es- 
tado, pelo Protestantismo, pela livre critica, até 
que pela dissolução do Regimen Catbolico-feu- 
dal irrompe a explosão temporal que se denomina 
— Revolução Pranceza. Os seus effeitos foram 
vastos, pois que o assombroso phenomeno não 
era simplesmente local, mas a consequência da 
solidariedade do Occidente, do concurso europeu. 
José de Maistre considerava o século xvni como 
a continuação do século xvi, em que o Huma- 
nismo e o Jesuitismo disputam a disciplina dos 
espíritos, e o Protestantismo vem acordar duas 
fortes Nacionalidades; e como um prolongamento 

I 



2 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

do século XVII, cujas syntheses philosophicas do 
Cartesianismo e do Baconismo vêm systematisar o 
saber encyclopedico e generalisal-o na instrucção 
polytechnica, alargando os moldes das Universi- 
dades medievaes e das Academias da Renascença. 
Em uma phrase luminosa synthetisou Comte esse 
periodo dos impulsos simultâneos do pensamento 
e da acção — o Século excepcional, e Guizot 
confessava, que se lhe fosse dado destacar na 
historia o século da sua sympathia, apontava o 
século xviii. E' quando a França retoma a sua 
hegemonia medieval, influenciando de novo na 
mentalidade e na sociabilidade da Europa, pelos 
livros e pelas modas elegantes. As ideias fran- 
cezas designavam entre as classes cultas esse 
estado de emancipação de todos os preconceitos 
religiosos e políticos, que os Free-thinkers ingle- 
zes fundaram mas não souberam universalisar. 

§1 
O pseudo-Glassicismo francez 

Desde o século xvi as nações da Europa es- 
queceram-se das suas origens medievaes; resulta 
d'aqui a dupla decadência da liberdade politica 
no cesarisnio e das litteraturas no maneirismo e 
affectação sob os cânones rhetoricos. A França 
chegou a desconhecer totalmente as suas tradi- 
ções épicas, a ignorar a existência das Can- 
ções de Gesta, e a considerar os escriptores rhe- 
toricos da Corte de Luiz xiv como o seu maior 
titulo de gloria; a Itália e a Allemanha seguiam 
esses modelos convencionaes de um pseudo- 
classicismo francez, que se reflectia em Ingla- 
terra, em Pope, Drj^den e Addison, abafando a 



SESUNDA tPOCA: OS ÁRCADES 



impetuosidade do génio saxonio nas suas formas 
pautadas esterilisadoras; e pela dependência po- 
litica da Hespanha para com a França, no rei- 
nado de Philippe v, esta nação fecunda e origi- 
nal na sua litteratura torna-se traductora, Luzan 
legisla para o Parnaso hespanhol subserviente ao 
gosto francez. Quando nações fortemente consti- 
tuídas pela tradição ethnica perderam no sé- 
culo xviíi as legitimas feições da sua individua- 
lidade litteraria, como resistiria a essa decadência 
a litteratura portugueza tão separada do povo? 
A subserviência ao gosto francez datava do sé- 
culo XVII, desde que Richelieu julgou a bem da 
sua politica fomentar a revolução em Portugal 
contra a incorporação castelhana, plano conti- 
nuado por Mazarin com menos intelligencia. Nas 
luctas religiosas do Protestantismo, a Casa de 
Áustria servindo a sociedade catholica, adquiriu 
essa extraordinária preponderância politica, que 
os hábeis políticos francezes souberam demolir, 
nas largas intrigas e luctas que terminaram na 
paz de Westphalia. Luiz xiv, continuando esta 
politica, foi levado pela ambição pessoal a ex- 
plorar a unidade catholica entregando-se aos Je- 
suítas, tornando-se o seu instrumento de perse- 
guição religiosa, extinguindo ^a liberdade de 
consciência pela revogação do Edito de Nantes, 
forçando um milhão de francezes a exilarem-se 
na Suissa e Allemanha, na Hollanda e Inglaterra. 
A litteratura, sem uma intima liberdade mental, 
limitou-se á imitação ostentosa das obras primas 
da Antiguidade, tendo por ideal a bajuhição de 
um monarcha, que concentrava ^e substituía a 
nação na sua personalidade, VÈtat cest moi. 
O absolutismo despótico de Luiz xiv e a pompa 
oflieial da sua corte, reproduziu-se nas outras 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGTTEZA 



cortes europeias, onde a litteratura franceza era 
lida e admirada como a expressão d'essa gran- 
deza exterior, que mascarava uma orgânica de- 
cadência. Como Luiz XIV, os outros monarchas 
.também procuraram proteger officialmente a lit- 
teratura, desconhecendo que os escriptores da 
plêiada que dera nome ao Século de Luiz xiv, 
ou eram anteriores a esse deprimente reinado, ou 
foram n'elle desconhecidos quando não persegui- 
dos. A verdadeira influencia intellectual da 
França do século xvii, raanifesta-se nas doutri- 
nas philosophicas de Descartes, foragido da sua 
pátria e nas luctas doutrinarias da moral e da 
pedagogia dos Padres de Port Royal contra os 
Jesuítas, que dirigiam o ensino pubhco fran- 
cez, imprimindo nas gerações escolares esse typo 
medíocre, em que a compressão mental apagava 
todos os impulsos de individualidade; d'ahi o 
pseudo-classicismo francez do século xviii. 

A politica da restauração da nacionalidade 
portugueza levara o ministro Castello-Melhor, 
pelo casamento de Dom Affonso vi, em 1666, a 
approximar-se da corte faustosa de Luiz xiv; 
imitava o viver dissoluto do bom tom palaciano, 
e os Jesuítas, á sombra do casamento real, fo- 
ram-se tornando senhores d'este pequeno estado, 
e por torpes intrigas para pôr termo ao governo 
de Castello-Melhor, fomentaram t) partido do 
Encoberto, que era o Infante D. Pedro, com 
quem manobraram para apearem D. Affonso vi, 
entregando o throno e a mulher ao irmão, D. Pe- 
dro II, em cujo reinado não mais se convocaram 
as Cortes. As ideias francezas ou o philoso- 
phismo foram duramente abafados pelos poderes 
conservadores do estado. Desde a Renascença, 
em que fomos grandes, até á primeira metade do 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



século xvm, Portugal persistiu em uma deplorá- 
vel decadência, na apathia resultante da sophis- 
maoão da liberdade politica. O século xviii tão 
rico de homens de talento e de sciencia, con- 
trasta com a profunda irracionalidade das insti- 
tuições, por esse desaccôrdo entre as liberdades 
civil e politica. O próprio ministro reformador^ o 
Marquez de Pombal, extremamente regalista, 
tornou essa liberdade um crime de lesa-mages- 
tade, a ponto de punir com cárcere e degredo o 
natural direito de representação. 

N'estas condições depressivas, qual seria o 
destino do homem de lettras? Em Portugal, no 
século xviii, o poeta era um ser miserável, que 
se admittia á mesa dos creados, nas casas fidal- 
gas, e como disse Nicolau Tolentino, retratando- 
se inconscientemente, terminava sempre as suas 
composições pedindo esmola; era um vestígio 
dos antigos bobos dos solares senhoriaes, metri- 
ficando encómios hyperbolicos sobre todos os 
successos da realeza ou da aristocracia; as com- 
posições mais apetecidas eram as emphaticas sem 
pensamento, recitadas nos intervallos dos opípa- 
ros banquetes, applaudidas nos Outeiros poéti- 
cos dos abbadeçados, constituindo o género yoco- 
serio, que se degradou até á obscenidade. A he- 
roicidade épica descambava no género heroe- 
comico. Os poetas, os primevos instituidores, 
tornavam-se populares, não por se inspirarem 
nas fontes vivas da tradição, mas como fabula 
da gente, chegando o nome de poeta a tomar-se 
na accepção de sórdido, desbragado e truão. 
Os vultos mais conhecidos brilharam na corte de 
D. João V, como Thomaz Pinto Brandão, Ale- 
xandre António de Lima, o padre Braz da Costa, 
Fr. Lucas de Santa Catharina, Caetano da Silva 



HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



Soutomayor, o Camões do Rocio. Este symptoma 
de degradação intellectual, é representado sob o 
reinado de D. José por António Lobo de Carva- 
lho, poeta da Madragôa; e Tolentino^ Filinto Ely- 
sio e Bocage ainda malbarataram o seu talento. 

1.'^ A protecção official da Litter atura. — 
E' durante o longo reinado de D. João v, que 
em Portugal se macaqueou os hábitos faustosos 
da corte de Luiz xiv, a ponto de serem comba- 
tidas as modas francezas na pragmática do mo- 
narcha, o que era infringido pelos embaixadores 
era Paris, encarregados das encommendas e 
remessas dos figurinos das modas dominantes. 
O reinado de D. João v de 1707 a 31 de julho 
de 1750, para ser bem comprehendido tem de 
dividir-se em dois períodos mui caracterisados: 
um sob a influencia dos Jesuitas, até 1742 em 
que o rei ficou paralytico pelo abuso dos praze- 
res, e o outro dominado pelo devocionisrao de 
Fr. Gaspar da Encarnação, que por assentimento 
da rainha, afastava a interferência jesuítica. 
D. Maria Anna de Áustria, filha do imperador 
Leopoldo II, bem conhecia que a queda da Casa 
de Áustria em Hespanha, e o predomínio politico 
da França eram devidos ao influxo dos Jesuitas. 
Torna-se explicável, como por indicação da rai- 
nha foi chamado Sebastião José de Carvalho ao 
ministério do novo reinado. O historiador João 
Muller, traceja assim o aspecto do reinado de 
D. João V, em que se continuava a acção da in- 
triga da Companhia, dominando o joven monar- 
cha pela sensualidade tolerada e absolvida pela 
sua moral capciosa. No reinado de D. João v, 
os jesuitas eram também ministros de estado e 
confessores, occupados em distrahir o monarcha 



SEGUNDA época; OS AliCADES 



na sensualidade molinista galante dos conventos 
das freiras, e em absolvel-o d'essas venialidades ; 
entretinham-o com as extraordinárias e dispen- 
diosas festas da canonisação dos beatos Stanislau 
de Kotska, Luiz de Gonzaga, de Toribio Morove- 
jo, de Peregrino, de Vicente de Paula, de Camillo 
de Lellis. Os jesuítas, como pedagogos littera- 
rios, aproveitavam a tendência litteratesca de 
D. João V, e querendo ir de encontro á corrente 
scientifica do século^ fizeram com que o rei man- 
dasse vir da Itália os dois jesuítas padre Do- 
mingos Cappace e padre João Baptista Carbone, 
para fundarem em Portugal o ensino da Mathe- 
raatica. O Padre Carbone teve a habilidade de 
tornar-se o mentor politico do monarcha, ou^ 
como dizem os escriptores do tempo : — aprovei- 
tando do grande talento d'este ultimo para o ex- 
pediente dos vários negócios do monarcha. Durou 
vinte oito annos este intervencionismo governa- 
tivo do Padre Carbone, embaraçando que entras- 
sem em Portugal as doutrinas de Bacon, como o 
revelou em carta Jacob de Castro Sarmento, que 
fora encarregado por D. João v de traduzir e im- 
primir o Noviun Organum Scientiariim. O in- 
fluxo deprimente da direcção pedagógica dos 
jesuitas era a natural consequência do seu metho- 
do formal e immutavel; tudo era typico e tradi- 
cional; tinham cristalisado na Ratio ^fudioruni de 
1588; por isso dizia o auctor da Universidade, 
o Clero e os Jesuitas: «Um caracter de esterili- 
dade assignala tanto os seus actos mais impor- 
tantes como os mais secundários. O seu systema 
de educação é em muitos pontos admirável, 
Comtudo nunca os jesuitas tiveram uma grande 
eschola nem um grande homem. ExamiiuMu-se as 
sciencias e os diversos geiíeros de iitteratura, 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vêem-se os mesmos resultados. A historia dos 
Estudos clássicos em França é um exemplo. No 
século XVI a França estava no primeiro plano 
d'estes estudos; no século xvii elles caem princi- 
palmente nas mãos dos jesuítas, que os cultivara 
a principio com seriedade, mas a contar dos pri- 
meiros annos do século xviii, estavam já quasi 
reduzidos a nada. O espirito de Bèze, de Budée 
e dos Etienne tinha passado para a Hollanda pro- 
testante e para a Allemanha protestante.» E que 
diremos de Portugal, com os Gouvêas no Coíle- 
gio de Santa Barbara, no de Bordéus; de Ayres 
Barbosa, introduzindo o hellenismo em Hespanha, 
de Damião de Góes e de André de Resende co- 
municando com Erasmo; o gosto litterario e o 
génio philologico esterilisou-se no esgotamento 
cerebral do methodo alvaristico. Pelo seu lado 
o poder temporal só se fazia reconhecer em gas- 
tar. Que fazia D. João v ás enormes riquezas de 
ouro e brilhantes que vinham annualmente do 
Brasil? O pensamento de Rivarol o explica: «as 
modas acompanham os nossos melhores livros 
para o estrangeiro, porque em toda a parte se 
procura ser rasoavel e frivolo como em França.» 
D. João V resolveu proteger officialraente a litte- 
ratura; mas a opulência do seu reinado contrasta 
com o atraso miserável da nação, arrasada pelo 
tratado de Methwen, reduzida em 1732 á cifra 
de mais de dois milhões e meio de habitantes, 
em geral indigentes, porque a terra pertencia 
aos morgados, aos titulares, á Casa real, á Casa 
do Infantado, á Casa de Bragança, ás corpora- 
ções monachaes; a cultura mental entregue á mo- 
nopolisação fradesca era a estupidez crédula, e a 
industria ou o trabalho mechanico era uma man- 
cha de indignidade. A riqueza publica, dispen- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



dida á doida em construcções pharaónicas de 
egrejas e conventos, era o producto casual das 
minas de ouro do Brasil e não producção da 
força transformadora da industria pela acção do 
trabalho livre. 

As minas do Brasil produziram de 1714 a 
1746, em ouro amoedado, 9rD.000:415í^608 contos 
de réis; e em diamantes 12:000.000 contos. Com 
taes recursos á disposição arbitraria, um mo- 
narcha era um poder sobre-humano, um presti- 
gio ante o qual se quebrava a vontade indivi- 
dual, a dignidade, a consciência, na espectaliva 
de uma graça régia. Esse extraordinário capital 
corrompia, não fecundava; isso se manifestou 
tanto na Arte como na Litteratura. A Basilica 
de Mafra e a Patriarchal de Lisboa, não produ- 
ziram uma eschola artística, e o gosto de rdcocó, 
a chinoiserie, tomada da moda franceza com o 
chato estylo jesuítico, acabaram de perverter 
todas as noções do bello que eram immanentes na 
alma portugueza. A construcção da esplendida 
Bibliotheca da Universidade de Coimbra, come- 
çada em 10 de Maio de 1712 e terminada era 
1728, custou 66:622(#129 réis e a compra dos li- 
vros de Francisco Barreto por 5:600j'000 réis; 
a do P. Le Rue, em Paris, e a de João Baptista 
Lerzo, bem como as remessas de Lucas Seabra 
da Silva, tudo foi improfiquo, porque os lentes 
estacaram no aristotelismo dos Conmientadores 
jesuíticos que anathematisaram as ideias novas, 
tendo de ser arrancados á somnolencia medieval 
em 1772, já sob o influxo das ideias francezas. 
A fundação, em 1720, da Academia de Historia 
portugueza parodiava a Academia das l?iscri- 
pções e Bellas Letras nas suas investigações, 
mas não creou o critério l,iistorico apesar do rei a 



10 HISTORIA DA LIITERATURA PORTUGUEZA 



dotar com os maiores privilégios, mandando-lhe 
patentear os Archivos e cartórios do reino, no- 
meando-lhe paleographos para tirarem copias 
exactas, libertando as suas publicações da Cen- 
sura, e impondo por um decreto de 14 de Agosto 
de 1721 o respeito a seus vassallos por todos os 
monumentos architectonicos. Máo grado tão be- 
néficos influxos, a decadência intellectual paten- 
teia-se no estylo e resultados das Noticias^ Pra- 
ticas, Orações, Elogios, Dissertações e Catálogos 
dos seus associados. 

Uma cousa faltava para que esses generosos 
esforços fructificassera — a liberdade. A nação 
não tinha parlamento, o povo não tinha terra, o 
trabalho mechanico era considerado degradante, 
a instrucção publica era propinada pelos jesuí- 
tas, a consciência era abafada por ura clero faná- 
tico canibal, o espirito critico apagava-se ante a 
espionagem do Santo Officio, que o extirpava nas 
fogueiras dos Autos de Fé, a Realeza era um 
fetiche respeitado pelo terror das forcas e a aris- 
tocracia exhibia-se em uma prostituição galante. 
Era um meio excellente para a indignidade cam- 
pear infrene, nunca para se crearem concepções 
artísticas ou se revelarem génios fecundos. Um 
povo sem opinião, submisso a um regimen que 
corta toda a manifestação do pensamento acerca 
dos actos do governo descricionario, os espectá- 
culos destinados a desviarem as attenções da 
causa publica, as ideias consideradas como um 
perigo social, tudo impellia para o cretinismo, 
para a idiotia, a degradação de mna raça. Esta 
decadência nacional aggravava-se mais com os 
desvairaraentos de um rei epiléptico, faustoso 
como Luiz XIV, devasso como Luiz xv, fanático 
como Filippe ii; tal era D, João v, que o seu 



SEGUNDA Época: os árcades 11 

contemporâneo Frederico ii, o violador da Pra- 
gmática Sancção, e portanto seu inimigo, retra- 
tava em phrases sarcásticas: '^Ses plasirs étaient 
des fonctions sacerdotales ; ses bálinients des 
convents; et ses armées des moines, et ses mai- 
tresses des reUgieuses». Isto dá o sentido das pa- 
lavras do P.® Theodoro de Almeida, na Oração 
inaugural da Academia das Sciencias de Lisboa 
em 1779: «Que admirados ficaríeis, senhores, se 
soubésseis quam vil é o conceito que muitos es- 
trangeiros fazem injustamente de vós. Quando 
lá fora apparece casualmente algum portuguez 
de engenho mediocre, admirados se espantam, 
como de phenomeno raro : — E como assim ? 
(dizem) de Portugal? do centro da ignorância? — 
Assim o cheguei a ouvir. — B onde estão os 
vossos livros? (me perguntam;) onde os vossos 
auctores ? as vossas Academias ? os vossos des- 
cobrimentos? As gazetas litterarias que correm 
guardam do vosso Portugal o mesmo silencio 
que de Marrocos. Ouvindo estes injustos oppro- 
brios, os olhos se me fechavam cora o pejo, emu- 
decia a lingua e a face se me cobria de confusão. » 

As tentativas de reforma litteraria de João v, 
caducaram pela esterilidade do meio social e 
official, posto que d'ahi vieram os impulsos para 
novos esforços; germens de iniciativa particular 
e individual, que se contagiam, se multiplicam e 
se tornam potencias moraes. 

Para melhor actuar na subserviência do gosto 
francez, o quarto Conde da Ericeira, D. Fran- 
cisco Xavier de Menezes traduziu a Poética de 
Boileau, e para estabelecer relações litterarias 
com o dictador do Parnaso, onviou-lhe a sua ver- 
são acompanhada de uma Epistola, no género 
horaciano; passava-se isto por 16V)7, quando o 



12 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Conde da Ericeira celebrava no seu palácio as 
Conferencias discretas. Boileau escreveu cortez- 
mente ao académico fidalgo a seguinte carta, 
que anda impressa nas suas obras desde 1716: 
«Posto que minhas obras tenham feito ruído pelo 
mundo, não me tenho por isso em grande conta; 
e se me desvanecem agradavelmente os elogios 
que me fazem, com certeza não me cegam; 
declaro, porém, que a traducção da minha Arte 
poética, que v. ex.^ se dignou fazer, e os elogios 
que com ella me dirigiu, me provocaram verda- 
deiro orgulho. Como poderei considerar-me um 
homem vulgar, veiido-me tão singularmente exal- 
tado? Tinha para mim que um traductor da vossa 
capacidade e gerarchia me conferia titulo de 
mérito para distinguir-me entre os demais escri- 
ptores d'este século. Eu apenas conheço o vosso 
idioma imperfeitissimamente, sem nunca ter feito 
d'elle qualquer estudo particular ; não obstante, 
pude comprehender bem a vossa versão para a 
mira mesmo me admirar e julgar que sou mais 
hábil escriptor em portuguez do que em francez. 
E de facto, os meus pensamentos expressos por 
vós opulentam-se. Transmutaes em rico ouro 
tudo em que tocaes. Os mesmos termos, di- 
gamol-o assim, em vossas mãos tornam-se em jóias. 
Como quereis, depois d'isto, que eu vos indique 
as passagens em que vos afastastes do sentido 
original? Se, em logar das minhas ideias, tivés- 
seis empregado as vossas, bem longe de revindi- 
car as minhas, antes me aproveitaria do vosso 
descuido e desde logo adoptando-as para com 
ellas me honrar. Não vejo ensejo nessa prova. 
Tudo na vossa traducção é justo, exacto e fiel. 
E embora com adornos me exalçaes, por agora 
em tudo me entrevejo. Não digaes, pois^ senhor 



SEGUNDA ÉPOCA-: OS ÁRCADES 1.1 



não me haver entendido. Dizei-me, antes, como fi- 
zestes para me perceber tão bem, e para alcan- 
çar na minha obra até essas cambiantes, que eu 
julgava que só podiam ser sentidas por pessoas 
nascidas em França e que frequentassem a corte 
de Luiz, o Grande. Manifestamente reconheço 
que não sois estrangeiro em paiz algum; sois de 
todas as cortes e nações, graças ao vosso con- 
summado saber. A carta e os versos francezes 
com que me honrastes são óptimo testemunho. 
Aqui, estrangeiro deparo apenas o vosso nome^, 
e em França não ha homem de superior espirito, 
que não quizesse tel-os escripto. Mostrei-os a 
muitos dos mais notáveis escriptores. Não houve 
um único que os não admirasse bastante, e me 
não declaríisse que, se taes louvores recebesse, 
vos teria dedicado volumes de prosa e verso. 
Em que conta me tereis, pois eu tão somente vos 
respondo com uma carta de mero agradecimento? 
Increpar-me-heis de ingrato ou descortez? Ne- 
nhuma d'essas cousas sou, senhor. Dir-vos-hei, 
francamente, que não faço versos ou prosa quando 
me apraz. ApoUo é para mim uma divindade 
caprichosa, que me não concede, como a vós, 
audiência a toda a hora. Importa esperar o ensejo 
favorável. Quando acontecer de vir, aproveital-o- 
hei e mal me vae se morro sem desempenhar 
parte do debito dos vossos elogios ! O que desde 
já vos asseguro, é que na primeira edição das 
minhas obras será incluida a vossa traducção, e 
não perderei a occasião de dar a saber á terra 
inteira, que desde os confins do nosso continente 
e tão longinquo como das Columnas de Hercu- 
les, me vieram os applausos de que mais me 
ensoberbeço, e a obra de «pie mais me honro. » 
(1G97), Boileau, imprimindo as suas obras em 



14 HISI(iRI\ DA l.riTKRATURA rORTUGUEZA 



1701, não incluiu a traducção da Arte poética 
pelo Conde da Ericeira, allegando o ter-se por 
um empréstimo extraviado em mãos de um 
amigo o primeiro canto; á parte esta politesse 
française, Boileau escrevia particularmente a 
Brossette confessando o motivo de faltar á pro- 
messa, < além d'isso, não acho que a versão seja 
digna da publicidade. E' empreza d'alto cothurno 
escrever em lingua extranha, quando não tenham 
convivência com os naturaes do paiz, e tenho 
por indiscutivel, que se Terêncio e Cicero vol- 
tassem ao mundo, ririam a arrebentar das obras la- 
tinas dos Frenel e dos Sannazaros e de Muret. 
Não ponho em duvida que haja nos versos fran- 
cezes do illustre portuguez bastante espirito, 
mas, com franqueza, são portugueses de mais, 
pelo mesmo theor que ha mais francezismo nos 
poetas francezes que hoje em dia escrevem lati- 
namente. » Camillo, que aproximou esta carta 
das túmidas lisonjas ao Conde da Ericeira, de- 
duz: « Esta carta appareceu pela primeira vez 
na edição de 1716, feita por Brossette^, a quem 
ella fora escripta. Ò Conde da Ericeira, falecido 
em 1743, provavelmente viu a carta, e compa- 
rando-a com a outra, resolveu não publicar a 
sua versão da Arte poética, desgostoso do seu 
trabalho e ferido no seu amor próprio pelo pane- 
gyrista de 1696 e detrahidor de 1701.» (Curso de 
Litt., p. 143). As imitações da litteratura fran- 
ceza iniciam o bom gosto; Pina e Mello, imita 
João Baptista Rousseau, como Garção as suas 
Cantatas; Cruz e Silva imita o Liitrin de Boi- 
leau, no Hyssope, Cândido Lusitano traduz a 
Athalie de Racine e o capitão Manuel de Sousa 
o Telemaco de Fenélon. 

Pina e Mello no Prolegomeno do seu poema 



SEGUNDA Época: os árcadks \Tí 



Triumpho da Religião, diz dos poetas francezes : 
«Eu não tenho visto mais que alguns modernos: 
o Abbade Gneist no poema da Philosophie, 
Racine no da Religião e da Graça, Voltaire no 
da Henriade, nas Tragedias e em outras poesias. 
Porém Despréaux me parece melhor que os 
outros. » 

a) A persistência das Academias seiscentis- 
tas. — Em uma sociedade sem representação po- 
litica nem liberdade mental, sob a espionagem 
das consciências e da censura clerical, continua- 
ram a subsistir automaticamente esses focos 
do máo gosto, como já se consideravam essas 
tertúlias ou distracções das pessoas cultas. Do 
século XVII veiu a Academia dos Generosos cora 
varias metamorphoses, persistindo mais pelo po- 
der da tradição do que pela evolução das ideias 
inaugurada em 1647 para a discussão dos pre- 
ceitos da Oratória e Poética, regularmente con- 
gregada até 1667; por morte de seu pae, restau- 
rou-a D. Luiz da Cunha em 1685-86, tendo por 
secretario o conde de Villar Maior, Em 1696, no 
seu palácio da Annunciada, o Conde da Ericeira, 
D. Francisco Xavier de Menezes continuava essa 
praxe académica com o titulo de Academia das 
Conferencias discretas e eruditas, celebradas 
aos domingos, á noite, discreteando sobre ques- 
tões physicas e moraes e sobre a significação de 
Vocábulos da lingua portugueza. Duraram pouco 
tempo estas Conferencias, desde 19 de Fevereiro 
de 1696 até ao tempo da Guerra de 1703. 
O theatino D. José Barbosa, no Elogio do 2° 
Conde da Ericeira, escreve sobre a sua suspensão: 
«porque a entrada das armas, a que nos levou a 
guerra declarada de 1704 contra Castella e 
França, foi sempre contraria ao socego e silencio 



1(i HISTORIA DA LlllT.RAJlinA PORTirnUEZA 



que pedem as Sciencias. Socegados os ânimos 
pela renovação da paz em 1717, tornou a flores- 
cer a Academia dos Generosos, da mesma 
forma que d'antes tinha florescido, e só com 
a differença de se ver acompanhada de vinte 
doutissimos mestres^ que nas quintas-feiras em 
duas cadeiras successivamente Ham alguns dis- 
cursos sobre assumptos que elles mesmos esco- 
lhiam ...» O mote da Academia Ne extinguetiir, 
realisava-se na nova transformação de 1717. 
D'isso falia o Conde da Ericeira no Elogio de 
D. Manuel Caetano de Sousa: «A Academia por- 
tugiieza, que na recente Livraria se renovou no 
anno de 1717, foi o theatro em que este athleta 
dominou . . . Incorporou-se esta Academia e ele- 
voii-se muito na Academia real, prevalecendo 
ambas algum tempo separadas, e quando El-rei 
a honrou, querendo que no dia do Evangelista 
de 1717 fosse ao paço...» Para solemnisar os 
annos de D. João v, no dia de S. João Evange- 
lista em 1719, pediu a rainha ao Conde da Eri- 
ceira para celebrar no paço uma sessão de 
Academia portugueza, creada dois annos antes. 
«Por emulação dos Scientes de França, ou com 
o exemplo do Cardeal de Richelieu, que no anno 
de 1635 estabeleceu em Paris a Academia fran- 
ceza, formou o Conde outra com o titulo de por- 
tugueza, no seu palácio da Annunciada.» (Oraç., 
p. 8.) N'essa sessão apparatosa, a que concorre- 
ram consummados litteratos, recitando discursos 
e Odes, o rei lisongeado dignou-se conceder-lhe o 
patrocínio official, mandando que se regulamen- 
tasse a Academia portagueza, tomando-a sob a 
sua protecção em 4 de Novembro de 1720. Por 
decreto de 8 de Dezembro d'este mesmo anno, 
manda que se estabeleça uma Academia real da 



SEGINDA KPOCA: OS ÁRCADES 



Historia portugueza, «em que se escrevesse a 
Historia ecclesiastica doestes reinos, e depois tudo 
o que pertencesse á historia d'este e das suas 
conquistas». A primeira sessão solemne, já com o 
titulo de Academia real da Historia portugueza 
celebrou-se em 9 de Dezembro de 1720, tendo 
além dos quarenta sócios da primeira fundação 
(os sócios da Academia dos Anongmos e os 
membros das Conferencias discretas) mais ou- 
tros dez escolhidos pelo rei. Por decreto de 4 de 
Janeiro de 1721 são confirmados os estatutos, 
com a divisa: Restituet omnia. Não era plató- 
nica a empreza; por decreto de 6 de janeiro de 
1721 é dotada com o subsidio annual de um conto 
1.000^000 de réis; e por Carta rég:ia de 11 de 
Janeiro e Avisos de 16 e 18 de Marco d'este 
mesmo anno facilita-se á Academia as copias 
de documentos dos archivos e cartórios do reino. 
E no decreto de 29 de Abril de 1722 ha o es- 
pirito revolucionário, isemptando das licenças do 
Desembargo do Paço para serem impressos todos 
os livros da Academia real da Historia apenas 
examinados pelos censores académicos. Quanto 
ás despezas da impressão das luxuosas edições 
dos trabalhos especiaes dos académicos, das lâ- 
minas e ornatos, tudo era auxiliado por D. Joã ) v. 
Pela primeira vez a Academia real da Historia 
portugueza, como observou Emilio Hubner, «apre- 
sentou investigações propriamente históricas e 
archeologicas em substituição á litteratura, por 
assim dizer, monástica, em que se haviam ba- 
seado até então. . .» Percorrendo-se uns quatorze 
volumes de in-tolio grande, encontram-se obras 
ainda hoje de consulta permanente, como a Bi- 
bliotheca Lusitana de Diogo Barbosa Machado; 
as Memorias para a Historia de D. Judo I, 

2 



18 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



por José Soares da Silva; o Catalogo-chrono- 
logico das Rainhas de Portugal, de D. José 
Barbosa; Historia de Malta, por Fr. Lucas de 
Santa Catharina ; Memorias de El-Rei D. Se- 
bastião, de Diogo Barbosa Machado; Memorias 
para a Historia da Universidade de Coimbra 
(apenas publicadas as Noticias chronologicas da 
Universidade de Coimbra) por Francisco Leitão 
Ferreira. (Descobriram-se cadernos dos quaes uns 
existiam na Bibliotheca nacional, outros pos- 
suia-os Teixeira Aragão^ e d'elles foi extrahida a 
biographia de André de Resende impressa no 
Archivo histórico.) E' gigantesco o trabalho da 
Historia genealógica da Casa real de Portugal 
por D. António Caetano de Sousa, contendo nos 
seis volumes das Provas muitos documentos que 
foram destruídos pelo terremoto de ITõõ. Obras, 
de Bluteau, que fora da Academia, mas auxi- 
liado pelos três irmãos Barbosa, publicou o gran- 
dioso Vocabulário da lingua portugueza, do 
qual Moraes e Silva extrahiu o Diccionario mais 
consultado no uso corrente. Nenhum lexicologo 
tomou a pôr em pratica o processo de Bluteau, 
consultando a linguagem oral portugueza, tão 
rica e tão desconhecida. Bluteau passou a França 
para imprimir o Vocabulário. Como ensaio deu á 
estampa na imprensa real do Louvre um volume 
de Sermões; mas diante do preço e dos erros 
typographicos regressou a Portugal, quando se 
quebrou a paz com a França. Julgaram-o espião, 
sendo mandado custodiar no convento de Alco- 
baça, onde durante três annos retocou continua- 
mente o Vocabulário. Pelo favor official de 
D, João V foi terminada a impressão do Voca- 
bulário: « Se com auxilio do real Erário não 
accudia V. M., no meio da carreira parava a 



SEGdNDA Época: os árcades • 19 



obra e a suspensão cVella era por agora uma 
espécie de suffocação e morte para a lingua por- 
tugueza. » A riqueza da lingua era desconhecida, 
e a primeira condição para a transformação da 
Litteratura consistia no seu conhecimento. Blu- 
teau confessa: «depois de ajuntar as matérias 
para esta obra, eu mesmo fiquei admirado e jus- 
tamente oprimido pela multidão de vocábulos 
que achei nos auctores antigos e modernos. >' 
Quando a Arcádia lusitana tentou restaurar a 
poesia portugueza, o seu sócio Cândido Lusitano 
(Francisco José Freire) pelas Reflexões da Lin- 
gua portugueza, aproximou os Litteratos do 
conhecimento dos escriptores mais considerados 
das differentes épocas. 

A munificência de D. João v fez desvairar o 
critério aos que almejavam uma nova orientação 
dos espíritos; proclamavam que só elle é que 
podia pela omnipotente vontade decretar as trans- 
formações da intellectualidade, José de Macedo 
(pseudonymo António de Mello da Fonseca) no 
Antídoto da Lingua portugueza, publicado em 
1710, appella para a intervenção official do mo- 
narcha para o aperfeiçoamento da lingua portu- 
gueza: «Se alguma pessoa de auctoridade fallar 
ao nosso monarcha sobre a reformação da nossa 
lingua, mui facilmente se moveria o seu gene- 
roso animo a fazer-nos tocante a este negocio 
algum favor tão grande que parecesse dos maiores 
que um príncipe ])ode fazer a seus vassallos, e 
que por isso bem se podesse contar entre as 
acções memoráveis de sua magestade, e as mais 
dignas do amor pátrio que se deve mostrar, e da 
summa propenção e benevolência com que nos 
deve favorecer. » {Op. cit., p. 416.) Este Macedo 
confessa «que no seu tempo se julgava a lingua 



J;ÍO HISTORIA DA LITTERATURA PORTLGUEZA 



portugueza inferior á castelhana pela grande fre- 
quência cora que usamos do diphtonsfo ão. que faz 
a nossa lingua mui tosca e grosseira. Isto con- 
fesso, que nunca n'ella me pareceu bem; mas nem 
basta que eu a julgue inferior a alguma das vul- 
gares, nem cuido, como cuidam geralmente todos 
os portuguezes, que é irremediavelmente defeito.» 
Era aqui que recorria á omnipotência do rei 
para que se substituísse a forma em ão pelo no- 
minativo latino, como solitude por solidão, man- 
suetude por mansidão. Não chegou á insensatez 
do que decretou, anctoritate qua fungor, uma 
ortographia da lingua portugueza um século 
depois. 

Na fusão das duas Academias dos Anonymos 
e Conferencias discretas, na Academia de His- 
toria portugueza, a preoccupação dos eruditos e 
dos archeologos deixou de parte a Litteratura, 
quando começavam os estudos humanisticos a 
renovarem-se na Philologia. Em uma Oração re- 
citada na Arcádia por Garção, allude a esta 
falta e aos esforços tentados para suppril-a: 
«A teimosa guerra em que nos vimos obrigados 
a rebater a fúria dos hespanhoes, ainda não per- 
mittia que entre o ruído das armas e o motim 
dos tambores se desse ouvidos á harmonia das 
Musas; continuava a decadência. Ajustou-se a 
Paz; socegaram-se os ânimos; mas tão invete- 
rado estava o contagio, (do máo gosto) que, se 
houve quem a intentou, não houve quem não 
desesperasse da restauração das Bellas Let- 
tras, das Artes e das Sciencias em Portugal. 
O negocio era tão importante e de tão difficil 
êxito, que nem ainda o grande espirito e pródiga 
mão do magnifico D. João v^ pôde conseguir 
mais do que lançar os primeiros fundamentos. 



SEGUNDA Época: os árcades 



Estimou os sábios, premiou os mestres, enrique- 
ceu as livrarias do reino e fundou a Real Aca- 
demia de Historia. Roubou-lhe a morte esta 
gloria, quando principiavam a amanhecer em 
Portugal as primeiras luzes do bom gosto, da 
verdadeira erudição e da verdadeira critica. > 
Era uma corrente nova, animada pelo espirito de 
iniciativas individuaes. D. João v ainda protegeu 
essas quatro Academias dos Anonymos, Appli- 
cados, Escolhidos e Occultos, que tanto o baju- 
laram na sua grave doença pelas imaginarias 
melhoras, e depois na sua morte, na esperança 
de obterem a protecção generosa que se esten- 
dera até a Arcádia de Roma. 

Esta celebre Academia poética, que offuscou 
todas as numerosas Academias italianas, cele- 
brava as suas sessões no palácio da phantastica 
rainha Christina da Suécia; D. João v estendeu a 
sua desvairada protecção offerecendo-lhe o capi- 
tal para construir o palácio sumptuoso da sua 
sede. A Arcádia de Roma deu-lhe em homena- 
gem o titulo de Pastor Albano. O Conde da 
Ericeira, que era a alma das Academias littera- 
rias do seu tempo, também foi eleito árcade ro- 
mano com o nome bucólico de Ormano Palisco; 
outros portuguezes figuram na lista dos seus só- 
cios, como Luiz António Verney, Verenio Or- 
giano ; Ignacio Garcez Ferreira, Gelmedo; José 
Peres de Macedo Tavares, Libenco Orentejo, 
e bem assim o beneficiado Francisco Leitão Fer- 
reira, Philippe José da Gama, e o padre Se- 
raphira Pitarra. A morte de D. João v malogrou 
a aspiração d'essas quatro Academias, Applica- 
dos, Anongmos, Escolhidos e Occultos, de se 
fundirem em uma Arcádia Ulgssiponense, tal 
como se fizera para a Academia real de Histo- 



22 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



lia portugiieza, largamente dotada pelo monar- 
cha, á imitação do que em Inglaterra dotava 
officialmente a Sociedade real de Londres, em 
1660, e anteriormente a Academia Franceza em 
1635. O favor concedido á Arcádia de Roma 
veiu acordar a aspiração de uma Arcádia res- 
tauradora das Lettras, que pela dotação regia 
faria brotar os talentos, sublimar-se a lingua e 
brilhar a poesia. 

h) A Academia dos Occulfos, precursora 
da Arcádia. — Entre as Academias que particu- 
larmente se formavam continuando o inveterado 
Seiscentismo, a dos Occiíltos foi assim referida 
por Garção : '< E' verdade que alguns espirites 
mais fortes, tentaram uma empreza ainda hoje 
árdua, e então impossível; mas, como nas pri- 
meiras escholas reinava certo espirito de opinião, 
que soberbamente sustentava o espirito do mão 
gosto, o verdadeiro methodo ou se não conhecia 
ou se despresava. Fundaram-se Academias. Al- 
gumas permaneceram sem mais fructo que o da 
propaganda do contagio. Nos últimos annos do 
próprio reinado de D. João v, appareceram os 
primeiros crepúsculos do hom gosto. Já então a 
sociedade dos Occultos, estabelecida em um pa- 
lácio em que sempre habitaram as Musas, e fun- 
dada por um génio extraordinário, herdeira não 
só do sangue, mas também dos raros talentos e 
virtudes dos seus progenitores, trabalhava n'este 
tempo na restauração da Litteratura portugueza, 
do estylo e da boa poesia. Podia ser que a ella 
se devesse toda a gloria, se a publica desgraça 
(terremoto de 1755) não sepultasse tão útil e 
sabia companhia. Em um tempo de calamidades 
e afflicções, quando parecia que os portuguezes 
só tratavam de reedificar Lisboa e de restabele- 



SEGUNDA Época: os árcades 23 



cer os seus particulares interesses, — quando se- 
ria desculpável que as musas fugissem do nosso 
continente, quando se julgava que as Artes ja- 
zessem sepultadas nas ruinas da cidade — n'uma 
palavra, quando era irapossivel tratar da restau- 
ração das Sciencias, então^ oh Árcades^ chegou 
o momento feliz de nos ajuntarmos, então fun- 
dámos esta Sociedade.» Sem estas reminiscências 
de Garção, perdia-se a noticia da Academia dos 
Occiíltos e a correlação histórica continuada na 
Arcádia Lusitana. 

Na bibliotheca das Casas Alegrete, Penalva 
e Tarouca, guarda-se o Archivo da Academia 
dos Occultos, cuja inauguração se fez em 9 de 
Abril de 1745, chegando o registo dos trabalhos 
até Dezembro de 1751. Em uma folha impressa 
estão os Estatutos que a Academia dos Occul- 
tos deve observar para melhor direcção das 
suas Conferencias e duração da mesma Acade- 
mia. Consta de nove artigos, que resumimos. 

A assembleia conserva o titulo de Congresso 
dos Occultos; haverá vinte e quatro académicos, 
que se ajuntarão uma tarde em cada mez, para 
fazerem suas Conferencias, tendo um Presidente 
e dois Problemáticos ou Lentes, todos feitos por 
sorte, discursando os Problemáticos e dissertando 
os Lentes. Em poesia, tratam-se assumptos he- 
róicos, lyricos e joco-serios. O resto dos artigos 
são meramente regulamentares. Celebrou-se a 
primeira sessão em 28 de Abril de 1745. D'esta 
Academia escreveu Francisco de Pina e Mello, 
pondo em foco o seu fundador: * Merece um lo- 
gar muito distincto o Conde de ViHar Maior, 
Manuel Telles da Silva, não só por cultivar com 
felicíssimo génio a affluencia hereditária da sua 
casa, mas pelo egrégio putrocinio que tem dado 



24 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



á poesia com a Academia dos Occultos, de que 
se tornou Mecenas e Secretario ; aonde se ouvem 
todos os raezes as obras dos melhores engenhos 
da Corte, de quem produzo o Catalogo da 
mesma sorte que me foi communicado». {Trium- 
pho da Rei., p. iv). Pode determinar-se a data 
d'este Catalogo, porque aponta entre os sócios 
falecidos o Marquez de Valença, D. Francisco 
de Portugal e Castro; presidindo a uma sessão 
académica, celebrada no paço pelo anniversario 
da Rainha em 10 de Setembro de 1749, ao soltar 
as primeiras palavras cahiu fulminado por um 
ataque apopletico. A falta dos nomes de Pedro 
António Correia Garção e de Manuel de Figuei- 
redo n'este Catalogo^ revela que não eram asso- 
ciados em 1749. 

2.° Apparecimento do espirito critico. — 
Eraquanto a cultura humanista dos Jesuítas con- 
servada pela sua direcção pedagógica exclusiva, 
mantinha Portugal afastado do movimento intel- 
lectual europeu, e as Academias litterarias entor- 
peciam as vocações com a monomania de uma 
atrasada rhetorica, alguns espirites como Jacob 
de Castro Sarmento, em Inglaterra, Luiz António 
Verney, em Roma, Francisco Xavier de Ohveira, 
na Hollanda, e o Dr. Ribeiro Sanches, em Fran- 
ça, comprehenderam a situação da sua pátria 
reconhecendo a urgência de abrir-se ás correntes 
da civilisação moderna. Possuídos do espirito 
critico do século xvui, as suas iniciativas bem 
nos comprovam o juizo de Guizot sobre o Século 
excepcional: «No século xviii é a universalidade 
do livre exame o caracter dominante : a religião, 
a politica, a philosophia, o homem e a sociedade, 
a natureza moral e material, tudo se torna ao 



SEGUNDA Época: os árcades 



mesmo tempo assumpto de estudo, de duvida, 
de systema; as antigas sciencias são demolidas, 
e sciencias novas são architectadas. E' um movi- 
mento que se expande em todos os sentidos, em- 
bora emanado de um mesmo e único impulso. 
Este movimento apparente, que porventura não 
se encontrou uma segunda vez na historia do 
mundo, é o de ser puramente especulativo. Até 
ali, em todas as grandes revoluções humanas, a 
acção misturava-se promptamente com a especu- 
lação. Assim, no século xvi a revolução religiosa 
começa pelas ideias, pelas discussões puramente 
intellectuaes, mas rapidamente passou ao domí- 
nio dos factos. Os chefes dos partidos intelle- 
ctuaes bera promptamente se tornaram chefes 
políticos ; as realidades da vida envolviam-se 
com as realidades da intelligencia. Assim acon- 
teceu tamljiem na Revolução de Inglaterra. Em 
França no século xviii, vimos o espirito humimo 
exercer-se sobre todas as cousas, sobre as ideias, 
que, ligando-se aos interesses da vida, deviam 
ter sobre os factos a mais immediata e a mais 
poderosa influencia. E comtudo os agitadores, os 
actores d'estes grandes debates, observando 
como especuladores puros, julgam e faliam sem 
nunca intervir nos acontecimentos. Em nenhuma 
época o governo dos factos, das realidades exte- 
riores, foi assim tão completamente distincto do 
governo dos espirites. A separação da ordem es- 
piritiuil e da ordem temporal, não foi realisada 
na Europa se não no século xviii. 

«Pela primeira vez, porventura, a ordem es- 
piritual desenvolveu-se inteiramente á parte da 
ordem temporal. Facto gravíssimo, e que exerceu 
poderosa influencia no curso dos acontecimentos.» 
{Hist. gen. de la Civil., Leç. xliv.) 



2G HISTORIA DA LirrERATURA PORTUGUEZA 



Eraquanto que em Portugal o governo maras- 
mava sob a intervenção jesuítica, o Conde da 
Ericeira promovia junto de D. João v a resolu- 
ção official de mandar traduzir para portuguez 
o Noviun Organum Scieníiarmn, como meio de 
operar um impulso de renovação do critério na 
intellectualidade portugueza. O jesuita João Ba- 
ptista Carbone, que era o dirigente mental do 
monarcha, não se oppoz áquella audácia, mas 
contraminou com os seus meios. Por intermédio 
do Conde da Ericeira recebeu ordem o medico 
Jacob de Castro Sarmento para fazer a traducção 
do Novnm Organum e tratar da sua impressão 
typographica. Começou-se o trabalho em 1735, 
e imprimiram-se as primeiras folhas para se ajus- 
tar o custo e a tiragem dos exemplares. Jacob 
de Castro Sarmento esperou debalde a deter- 
minação do monarcha. Depois do falecimento 
seu, queixava-se em 1751 o sábio em carta ao 
Dr. Sachetti: «Se v. m. lhe servir de algum 
modo o dizer que sabia que el-rei defuncto me 
havia ordenado, pelo Conde da Ericeira, que 
Deus haja, traduzisse as Obras de Baconio na 
língua portugueza; e que este negocio estando 
tão avançado, que foi uma folha de papel im- 
pressa in-folio e outra em quarto, para que Sua 
Magestade elegesse era que forma se havia de 
fazer a impressão, se suspendeu e lançou de 
parte... Se v. m. digo, quizer fazer uso d'esta 
noticia, o pode fazer livremente. Eu bem creio 
que não só das Universidades hão de sahir as 
setas contra v. m.'^'^ e o seu projecto; mas de 
cada cadeira ou Collegio d'esse reino ha de brotar 
contra v. mercê a mesma paixão ou o mesmo 
fogo.» (Ap. Comp. histor., p. 360). E em carta 
dirigida em 1750 ao Dr. António Nunes Ribeiro 



SEGUNDA Época: os árcades 



Sanches, revela-lhe a acção retrograda do jesuíta 
P/ Carbone, que faleceu em 5 de Abril d'esse 
anno: «Se v. m. lera duzentas e tantas cartas, 
que tenho do famoso P/ Carbone, que já lá está 
descansando; os serviços que lhe fiz em annos 
de correspondência, e o que tirei de conveniên- 
cia em fructos, não foi outra cousa que a falta 
de fé, de que me queixo. Não necessitarei de 
mais vivo exemplo para proceder com a maior 
cautela e não fazer caso algum nem de pro- 
messas nem de esperanças. » 

Que perda, essas duzentas cartas em que Jacob 
de Castro Sarmento expunha o movimento intel- 
lectual, que em 1735 se passava em Inglaterra e 
se contagiava á França! O Conde da Ericeira, 
que da França tomara o modelo da Academia 
portugueza, o código disciplinar do gosto tradu- 
zindo a Poética de Boileau, quando se dirigiu a 
Jacob de Castro Sarmento bem saloia que a re- 
novação philosophica era em França ainda um 
trabalho secreto, reflectindo-se de Inglaterra. 
A influencia que a liberdade de pensamento no 
dominio da politica exercia sobre todo o século 
xviii e em todos os paizes, começou a fortale- 
cer-se em uma associação especulativa de livres 
pensadores chamada Club de V Entresol, da qual 
falia o Marquez de Argenson nas suas Memorias: 
« Era uma espécie de Club d inyleza formado de 
individuos, que goíjtando de discorrer sobre o 
que se passava, podiam reunir-se e communicar 
sua opinião sem terror de se comprometterem, 
porque se conheciam bem uns aos outros, e sa- 
biam com quem e diante de quem fallavam. Esta 
sociedade chamava-se o Entresol (sobre-loja) 
pelo local onde se reuniam, que era a sobre-loja 
em que habitava o Abbade Ahuy. AUi se acha- 



28 HISTORIA DA LFÍTERATURA PORTUGUEZA 



vam sempre gazetas da França, da Hollanda e 
mesmo jornaes inglezes». D'Argenson historia em 
suas Memorias esta associação iniciadora da pri- 
meira Esciíola dos liiconomistas francezes e dos 
próprios Encyclopedistas ; muitos dos seus mem- 
bros eram altos funccionarios da politica e do 
clero, mas basta citar esse typo extraordinário 
de evangelisador da humanidade, o Abbade de 
San Pedro, auctor da Paz perpetua, para deter- 
minar a Índole da elaboração mental que se es- 
tava passando nos espirites que precederam Mon- 
tesquieu e Rousseau. Era a incubação da socie- 
dade européa a orientar-se pelo problema da 
liberdade politica. Da Inglaterra se propagou 
para a França este espirito especulativo revolu- 
cionário dos Free thinkers, os Thomas Chubb, 
Wallaston, Tindal, Bolingbroke e Schaftesbury; 
foi n'esse meio da liberdade Ifgal, da imprensa 
livre e do julgamento pelo Jury, que Voltaire 
hauriu o ideal que serviu com o seu ironismo; 
era d'ahi que Jacob de Castro Sarmento escrevia 
as suas cartas. 

Por influencia raysteriosa, ou da rainha D. Ma- 
ria Anna de Áustria, o monopólio do ensino pelos 
Jesuítas, foi confiado aos Padres Congregados do 
Oratório das Necessidades, de Braga e Porto, «es- 
tendendo os seus privilégios a todas as Escholas 
publicas de Philosophia das Casas da dita Congre- 
gação de S. Filippe Neri de todas as cidades e 
villas, já concedidos pela provisão de 25 de Ja- 
neiro e 3 de Septembro de 1747, ao Hospício 
junto á egreja de N. S. das Necessidades.» A 
Companhia aparou este golpe, da provisão de 
15 de Março de 1755^ com apparente garbo: 
« em nada tem desmerecido a Companhia, e os 
Congregados devem também reconhecer que o 



SEGUNDA Época: os Ánc\DES i.".i 



Venerável Bartholomeu de Quental, fundador do 
Oratório de Lisboa, recebeu biístantes auxílios da 
Companhia para esta admirável fundação, essen- 
cialmente nos P. P. Sebastião de Magalhães e 
Luiz Alvares, e se valeu de entrar com quem 
tinha conhecimento do tempo em que foi Colle- 
gial na Purificação de Évora, que tem uma 
grande gloria de ter sido alumno um espiritual 
tão benemérito e tão digno de uma eterna lem- 
brança. » (Pina e Mello, Resposta Compulsória, 
p. 11). As duas disciplinas Philosophia e Gram- 
matica iam ser desenxertadas da Lógica Conim- 
bricense e do opaco raethodo alvaristico, que 
resistiam como blocos inabaláveis ante as corren- 
tes do pensamento moderno. No Ritual theolo- 
gico do Collegio das Artes, de Coimbra, impu- 
nham os jesuítas o seu automatismo auctoritario : 
«Não se defendam opiniões contra a Lógica Co- 
nimbricense; e, quando muito, se poderá propor 
a questão dogmaticamente, mas poucas vezes.» * 
O jugo aristotélico dos commentaristas Coimbrões 
sustentava a auctoridade peripatetica que ti- 
nham contraposto á Renascença; mas esse pres- 
tigio dissolvia-se em França pela discussão dos 
jansenistas de Port Royal, que renovavam o en- 
sino pelas doutrinas philosophicas de Descartes. 
Generalisava-se o conhecimento da lingua fran- 
ceza, que era uma primeira condição para a re- 
novação scientiíica. O próprio Luiz xiv, protector 
dos jesuítas, teve em 1670 de increpar a Univer- 
sidade pela acanhada rotina dos seus antigos 
methodos. A Portugal chegaram as doutrinas })e- 
dagogicas dos P. P. de Í\)rt Royal, primeira- 



^ Ms. da Moza Cesaria. Ap. Cenáculo, Morn. hist. 



30 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mente applicadas á Graramatica portugiieza por 
Contador de Argote; em 1718, renovam-se na 
ordem franciscana os estudos pela ihtroducção 
das disciplinas mathematica e physica; em 1730, 
outras ordens monásticas, dos Cruzios, Benedi- 
ctinos e Gracianos, abandonam o jugo aristotélico, 
admittindo o ensino da philosophia moderna, das 
obras de Bacon, Descartes, Gassendi e Locke. 
Os Padres da Congregação do Oratório tomaram 
em Portugal a mesma missão renovadora do Port 
Royal em França. No livro do P.*" Manuel Alva- 
res, da Congregação do Oratório do Porto, Ins- 
trncção sobre a Lógica ou Dialogo sobre a 
Philosophia racional^ ataca essa velha escholas- 
tica, essa faculdade, « que com o nome de Ló- 
gica, em que o seu instituto são entes da razão, 
primeiras e segundas intenções, conceitos obje- 
ctivos, proemiaes, universaes, signaes e outros 
tratados d'este género, próprios para perturbarem 
a nossa mente e diminuir o nosso engenho. » 
E contrapõe-lhe toda a corrente da philosophia 
moderna: « E' pois a Lógica que exponho a 
mesma, que no passado e presente século segui- 
ram homens de grande merecimento na republica 
litteraria; a mesma com que fizeram adiantados 
progressos Francisco Bacão, Renato Descartes, 
Pedro Gassendi, João Lockio, o auctor da Arte 
de Pensar, Mariotte, António Genuense, e ainda 
outros que desterraram das Escholas as mons- 
truosas chimeras dos antigos e admittiam em 
seu logar um novo corpo de doutrina, próprio 
para guiar o nosso entendimento para o conheci- 
mento da verdade. » Essa livre critica que fulgu- 
rava em Hespanha com Benito Feyjó e em Itália 
com Genovesi, applicava-a a Portugal Luiz Antó- 
nio Verney nas Cartas sob a auctoria anonyraa 



SEGUNDA KrnCA: os ÁRCADES 



de um Frade Barbadinho, atacando de frente 
os jesuítas, dando base concreta para a reforma 
pedagógica pombalina. 

a) Verney e o Verdadeiro Methodo de Es- 
tudar. — O auctor das Cartas, em que com todas 
as formas de uma exterior respeitabilidade pelos 
jesuítas analysa implacavelmente os livros dos 
seus methodos de ensino, Luiz António Verney, 
nasceu em Lisboa, em 23 de Julho de 1733, 
filho de Dion3'-sio Verney, francez, e de D. Maria 
da Conceição Arnaut, de Penella. Graduou-se 
pela Universidade de Évora em Theologia e em 
Artes, sendo nomeado Arcediago para o arcebis- 
pado. Conhecia intimamente todos os processos 
pedagógicos da Companhia. Na Universidade de 
Roma doutorou-se em Cânones, e pela Itália via- 
jou em 1736, fixando depois a sua residência em 
Roma, trabalhando como secretario da Legação 
portugueza, junto da Curía. De Roma dirigiu as 
celebres Cartas de um Frade Barbadinho ao 
Provincial dos Jesuítas em Portugal, cora o titulo 
de Verdadeiro Methodo de Estudar, fazendo o 
confronto do deplorável atrazo das Escholas n'esta 
Província de Portugal, com a marcha dos conhe- 
cimentos na Europa. Verney tinha uma cultura 
encyclopedica, o que dava á sua critica um in- 
tuito de reforma, A sua parte negativa é para 
nós hoje documento histórico das formas do en- 
sino jesuítico em Portugal. Do ensino nas escho- 
las baixas, pela Grammatica do P." Mamiel Al- 
vares, escreve: «Quando entrei n'este reino, e vi 
a quantidade de Carfapacios e Arte, que eram 
necessários para estudar somente a Grammatica, 
fiquei pasmado. — Sei que em outras partes onde 
se explica a Grammatica do P.' Manuel Alvares, 
também lhe accrescentam algum livrinho; mas 



32 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tantos como em Portugal, nunca vi. A.s declina- 
ções dos nomes e verbos estudam pela Gramma- 
tica latina; a esta segue-se um Cartapacio por- 
tuguez de Rudimentos, depois outro para géneros 
e pretéritos, muito bem comprido; a este^ um de 
Syntaxe bem grande; depois um livro a que 
chamam Chôrro e outro a que chamara Prom- 
ptuario pelo qual apprendi o escholio dos nomes 
e verbos, e não sei que mais livro ha. — Depois 
d'isto devo dizer, que occnpavam seis e sete 
annos estudando GramTnatica ; e que a maior 
parte d'estes discipulos, depois de todo esse 
tempo, não era capaz de explicar por si só as mais 
fáceis Cartas de Cicero.» {Op. cit., t. i, p. 48). 
E nota o absurdo de estudar latim decorando 
materialmente a volumosa Gramraatica escripta 
em latim, e com regras em versos. Na Resposta 
ás Reflexões apologéticas, vae declarando que o 
Rei da Sardenha na Reforma dos Estados tiron 
todas as escholas aos Jesuitas e lhes prohibiu 
de ensinar a, mocidade, dando a incumbência a 
outros que praticam outro methodo latino. «Não 
vos contarei, que nas melhores Universidades e 
escholas de Itália, se ensina o Novo Methodo da 
Língua Latina Real; e que os particulares fa- 
zem o mesmo. Já em Hollanda, Inglaterra, Fran- 
ça, grande parte da Germânia e reinos septen- 
trionaes, é certo que no Porto Real ou o Vossio 
ou outro semelhante, é que se estuda. » {Ib. p. 21). 
Esta revelação acordava a anciedade das re- 
formas. 

A Lógica conimbricense era ensinada por ou- 
tros cartapacios entregues á memoria, as revol- 
tantes Lógica Barreta e Lógica Carvalha, 
usando os mestres do estimulo da pancada. (Op. 
cit., II, 214). A Rhetorica ensinava-se por cader- 



SEGiiNDA Época: os ÁncADES 33 



nos manuscriptos do Padre Cypriano Soares, de 
Pomey e Jiiglar, em exercícios de recitações pe- 
dantes, declamadas em voz chorosa com accio- 
nado cómico. O livro de Verney provocou uma 
extraordinária reacção da parte dos Jesuitas, 
que atacaram com fúria o Frade Barbadinho, 
pseudonymo do atilado critico, acobertando-se 
elles com outros pseudonymos, taes como Frei 
Arsénio da Piedade (Padre José de Araújo), 
Uom Aletophito Cândido de Lacerda (Padre 
Joaquim Rebello), Theophilo Cardoso da Sil- 
veira (Padre Francisco Duarte), Theotonio An- 
selmo Brancanalco, anagramma de Manoel An- 
tónio de Castello Branco, e Padre Severino de 
S. Modesto. Esta polemica litteraria é um dos 
factos importantes da nossa historia intellectual 
no século xvin ; os jesuitas sophismaram a defeza. 
As consequências da critica de ^^erney foram 
immediatas (1750). Os Padres da Congregação 
do Oratório obtiveram a Casa e Hospício de N. S. 
das Necessidades para abrirem escholas ao pu- 
blico, e para isso compuzeram novos compêndios, 
alcançando privilégios exclusivos da propriedade 
(Telles em resolução de 26 de março de 1747 e 
18 de abril do mesmo aimo. A' medida que a 
lucta pedagógica i)roseguia, os Padres do Orató- 
rio iam-se aproximando dos intuitos de Port 
lioyal^ e traduzindo os seus principaes livros ele- 
mentares. O systenia alvaristico, das escholas 
(los Jesuitas, U^vou um golpe mortal no Novo 
Methodo para se aprender a (íramnintica la- 
tina, (lo Padn» António Pereira de Figueiredo, 
(jue imitou a grammatica de Cláudio Laneelloto ; 
por ultimo Pombal, nas lnstrucç(-)es regias de 
1759, mandou adoptar nas aulas publicas, um 
líesumo do Novo Methodo. PcSde-se concluir que 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



r.s reformas da instrucção publica feitas era 1770 
pelo Marquez de Pombal, tomaram por base o 
Verdadeiro Methodo de estudar. Em uma carta 
de Verney, de 8 de fevereiro de 1786 a um amigo 
da Congregação do Oratório, queixa-se elle da 
falta de reconhecimento pelo seu trabalho ; só em 
1790 foi nomeado deputado honorário da Meza 
da Consciência e Ordens, falecendo em Roma 
a 20 de março de 1792. 

b) Estado da Poesia portugueza antes da 
Arcádia. — Verney descreve no seu livro monu- 
mental o estado mental dos versificadores : 
«quando escrevem dez versos lhe chamara De- 
cima; e quando unem quatorze charaara-lhe So- 
neto, e assira das raais composições. De sorte 
que compõem antes de saberem o que devem di- 
zer e corao o devera dizer. . . Geralmente enten- 
dera que o corapôr bera consiste em dizer bera 
subtilezas, e inventar cousas que a ninguém 
occorressem ; e com esta ideia produzera partos 
verdadeiraraente raonstruosos, e que elles raes- 
mos, quando os exarainam sera calor, desappro- 
vara. Os mestres de Rhetorica, em cujas escholas 
se faz algum poema. . . envergonhara-se de poe- 
tar era portuguez, e tera por peccado raortal ou 
cousa pouco decorosa fazel-o na dita lingua. » 
(i, 177). Caracterisando o falso engenho, Verney 
determina quaes foram as fórraas poéticas raais 
predilectas da primeira metade do século xviii: 
« o falso engenho consiste na semelhança de al- 
guraas letras, corao os Anagrammas, Chrono- 
grammas, etc, ás vezes na semelhança de algu- 
mas syllabas, como os Eccos, e alguns consoantes 
insulsos; outras vezes na semelhança de algumas 
palavras, corao os Equívocos; finalmente consiste 
também em composições inteiras, que apparecera 



SEGUNDA Época: os Árcades 35 



com differentes figuras ou pintura...^ (p. 179). 
E diz da persistência d'estas formas : « aquellas 
ridiculas composições que tanto reinaram... no 
fim do século xvi e metade do século xvii, e des- 
terradas dos paizes cultos, ainda hoje se conser- 
vam em Portugal. . .» iVttribue Yerney a intro- 
ducção dos poemas pintados ao P.'' Bluteau, 
quando já os achamos usados por D. Francisco 
Manoel no louvor da academia dos Generosos ; 
falia da estultícia dos poemas lipogramjnaticos, 
nos quaes não se empregava imia dada letra do 
alphabeto. No seu bom senso critico Verney ex- 
clama: «Mas não se pode soffrer que homens mo- 
dernos, e que mostraram doutrina em muitas 
cousas, caíssem n'esta rapaziada, condemnavel 
ainda em um rapaz ; e que fizessem composições, 
expressamente para mostrar que sabiam fazer 
Ecco. Eu vi Eccos que respondiam em latim e 
outras linguas, e tive compaixão com o poeta 
que se cansara com aquillo. . . Quando eu li al- 
gumas das Jornadas de Jeronymo Vahia, tive 
compaixão do dito religioso (escreve em Equívo- 
cos) e assentei que a jornada que devia fazer era 
da sua casa para o hospital. Esta sorte de poetas 
são doidos, ainda que não furiosos, ... eu ainda 
conheço quem o pratica, e quando se lhe offerece 
occasião de dizer ura Equivocosinho,. . . estes 
chamados doutos, frades, seculares, sacerdotes e 
estudantes .. etc. » ' (p. 182.) « Acham-se além 
d'isso mestres, que fomentam isto, dando prémios 
aos rapazes, que nas escholas ouvindo alguma 
palavra, descobrem n'elhi um anagramma puro. 
Seria isto nada, se se contivesse dentro das es- 
cholas; mas o máo é que sáe para fora e se in- 
troduz nos discursos graves. . . > Vae enumerando 
outras formas insensatas : « Os Acrósticos, são 



36 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



primos coirmãos dos Anagrammas ;.. . Acham-se 
engenhos tão mariolas, tão infatigáveis, que no 
mesmo Soneto põem três vezes o mesmo nome, 
duas nas extremidades e uma no meio. . .» «Mas 
vulgar é em Portugal outra sorte de engenho 
falso, a que chamam Consoantes forçados. 
Quando querem experimentar um homem se tem 
engenho, dam-lhe consoantes estrambóticos para 
que complete os versos, e como isto seja o mesmo 
que obrigar um homem a que diga despropósi- 
tos, já se sabe que saem composições dignas de 
se verem. » (p. 185). « Também os Laberynthos 
de Letras são mui mimosos em Portugal. . . 
Outros tem por cousa grande fazer Laberyntos 
de quartetos, dispostos em certa figura, de sorte 
que se lêem por todas as partes, e sempre con- 
servam a mesma consonância. Outros fazem ver- 
sos que se lêem para diante e para traz; de 
uma parte fazem um sentido, de outra, outro 
contrario; empregam n'isto tempo considerável, 
não só em fazel-o, mas em decifral-o ; e chamam 
a isto emprego do sublime engenho, > (p. 186). 
«Egualmente é estimada n'este paiz uma espécie 
de Sonetos, em que se repete a mesma palavra 
em todos os versos. . . Podia^ citar mil exemplos, 
mas nenhum melhor que o Soneto que so attribue 
ao Chagas, e começa: O tempo já de si me pede 
conta, etc.» (p. 187). Muitas d'estas formas eram 
restos da poética provençal, outras da italiana, 
mas a falta de comprehensão do elemento tradi- 
cional levava os poetas para o esmero exclusivo 
da forma forçando-os a absurdos que hoje vemos 
repetidos nos modernos parnasianos. Era contra 
este atrasado culteranismo que se erigia a Arcá- 
dia Lusitana, desvairada pelo seu lado com o 
pseudo- classicismo francez. 



SEGiVDA kpoca: os arcadks 



Em uma carta de Verney, dirigida de Roma 
ao oratoriano Fr. Joaquim de Foyos, em 8 de 
Fevereiro de 1786, narra-lhe as crises das luctas 
anti-jesuiticas em que entrara: <'Eu, sim, tive no 
principio particular ordem da Corte de illuminar 
a nossa nação em tudo o que pudesse; mas nunca 
me deram os meios para o executar. Tive largas 
promessas de prémios, de rendas e ajudas de 
custo; e vieram recommendações aos ministros 
para me darem um conto de réis sobre os bene- 
fícios do reino, que cá se provessem. Mas tudo 
isto ficou na esphera dos possiveis, e nunca se 
verificou por culpa dos ministros e de outras 
pessoas, as quaes sempre embaraçaram, para adu- 
lar os Jesuítas, que me perseguem com ódio im- 
mortal. — E como eu tinha composto algumas obras 
em todas as faculdades (tirando a Medicina) para 
uso da nossa nação, e tinha gasto muito dinheiro 
n'isso, e não tinha as rendas necessárias para 
tantos gastos, foi necessário que parasse, e me 
puz a observar o que lá e cá faziam, para assim 
vêr o que eu devia fazer.» Em Junho de 1760 
viu-se obrigado a sair de Roma, quando foram 
interrompidas todas as relações de Portugal com 
a Cúria. Veniey, n'este êxodo forçado foi para 
Pisa : Escrevi então d(> Pisa ao Marquez de 
Pombal, que tendo-me o rei D. José promettido 
de me pagar a importância de todas as minhas 
obras, como já tinha pago os primeiros tomos, 
mandasse verificar a dita ordem, para imprimir a 
P/ujsica. Mas o Marquez não respondeu nada, e 
somente me nomeou pouco depois (18 de Abril 
de 1708) secretario régio para servir a corte com 
o ministro Almada, que então tornou para cá. 

< Logo eu previ os desgostos e desgraças que 
me podiam succeder. Porque o Almada era meu 



38 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



antigo inimigo, por causa de certos benefícios; 
não sabia escrever o seu nome; era soberbo, in- 
vejoso e muito máo, e fiava-se no parentesco do 
Marquez, o qual defendia todos os despropósitos 
do Almada. Comtudo isso acceitei o cargo, e me 
recommendei á providencia. Imprimi então com o 
meu dinheiro a Phijsica, (1769) que me custou 
muito, sem utilidade, porque as esperanças que 
me deram de se introduzir nas escholas, se des- 
vaneceram. 

«Succedeu pontualmente o que eu tinha pre- 
visto. O Almada não quiz obedecer a nada do 
que eu lhe dizia. Fazia despropósitos de conse- 
quência; dizia sempre muito mal de mim; fazia- 
me pirraças todos os dias, para que eu me des- 
gostasse e despedisse. - E vendo elle que nada 
disto fazia o effeito que desejava, recorreu ás 
calumnias e escreveu ao Marquez; e depois pu- 
blicou por toda a parte que os jesuítas me ti- 
nham comprado por trinta contos de réis, para 
lhes revelar os segredos da corte, e que o Papa 
por esta razão me tinha por suspeito. 

«O Marquez não creu isto, porque conhecia a 
falsidade ; mas para contentar o Almada, mandou 
ordem para que me despedissem e mandassem 
para a Toscana, onde estive dez annos, onde es- 
tive na cidade de San Miniato; e debaixo da 
capa me tirou algumas vendas de livros, e de 
outras cousas que me ajudavam a viver. Despe- 
dido que foi Pombal, o novo governo reconheceu 
e publicou a minha inuocencia, e me permittiu 
tornar a Roma. D'estG modo ficou salva a minha 
honra; mas os gravissimos prejuízos em todos os 
géneros que sofíri e soffro nunca me salvaram, 
— N'isto vieram a parar as fadigas litterarias de 
cincoenta annos que estou cá. Arruinei a saúde, 



SEGUNDA Época: os árcades 39 



destruí as posses, e não concluí nada. Contrahi 
dividas para poder viver com decência e accudir 
a outros gastos, e d'estas nunca pude pagar to- 
das. Cresceram com o tempo as moléstias, e com 
ellas o desgosto e repugnância de escrever mais 
em taes matérias e com tal intuito. ■■> Esquecido 
dos homens públicos de Portugal, narrava estes 
factos para se eximir aos convites da Academia 
das Sciencias : « sou já velho e doente, e não me 
posso metter em estudos e matérias novas. » 
Ainda o nomearam para a Mesa da Consciência 
e Ordens em 11 de Setembro de 1790. Faleceu 
em Roma em 20 de Março de 1792, este eman- 
cipador da intelligencia portugueza. 

c) Alexandre de Gusmão e a Arte de Fur- 
tar. — E' um dos mais lúcidos espíritos do sé- 
culo xviH, dotado de uma visão critica dos cara- 
cteres e da sociedade, que elle sabia desenhar no 
mais pittoresco estylo epistolar, e nos conside- 
randos com que acompanhava os Avisos régios, 
quando despachava junto de D. João v, como 
seu escrivão da puridade. Todas estas excepcio- 
naes qualidades, e a situação particular como 
secretario quando o rei avocou a si as questões 
de politica internacional, e o encarregava de in- 
terpretar as cifras diplomáticas e explicar-lhe as 
intrigas das cortes estrangeiras, tudo isto lhe 
suscitava a imaginação para uma Sátira da sua 
época, como a fizeram Rabelais, Cervantes e 
Pascal. Mas aonde existe essa obra? Só depois de 
um processo de critica negativa se chegou á con- 
clusão, de que a Arte de Fartar, não íoi escripta 
pelo P.'' António Vieira, nem por nenhum dos 
preclaros espíritos do século xvii, Thomé Pi- 
nheiro da Veiga, João Pinto Ribeiro, António de 
Sousa Macedo e Duarte Ribeiro de Macedo; e que 



40 IIT.STOUIA DA LITTKRAIIJRA l'n|!ll Cl iK/. \ 



nos achamos com a Arte de Furtar já citada 
em 1742, reflectindo a corrente anti- jesuítica e 
affirmações de regalisino, um clarão intuitivo 
para reconhecer o ironismo sensato e dominante 
de Alexandre de Gusmão. Os dados l)iographicos 
é que conduzem a essa prova. Nasceu em Santos, 
no Brasil, em 1695, filho do cirurgião-raór do 
prezidio militar, e foi educado ahi no Collegio 
dos Jesuitas; muitos dos seus irmãos foram fra- 
des franciscanos, carmelitas, e um padre secular 
Bartholomeu Lourenço de (jusmão, celebre pela 
invenção de uma machina aerostatica, que lhe 
mereceu a perseguição monachal e a alcunha 
irrisória de Voador. Alexandre de Gusmão veiu 
frequentar os estudos de Coimbra, formando-se 
em direito civil, acompanhando em 1715 como 
secretario da embaixada o Conde da Ribeira 
Grande para Paris. Alli continuou os seus estu- 
dos juridicos, tomando o gráo doutoral, e no seu 
regresso a Portugal em 1720 incorporou-se na 
faculdade jurídica como lente; não se demorou 
em Coimbra, porque D. João v o despachou para 
a assistência em Roma, substituindo seu irmão 
junto da Cúria, em que revelou a sua eximia ha- 
bilidade diplomática, compondo todos os confli- 
ctos e resolvendo facilmente todos os negócios 
pendentes. Foi elle que obteve do papa Benedi- 
cto XIII, o titulo de Fidelissimo dado a D. João v, 
para não parecer menos considerado i)ela Egreja, 
do que eram o rei Catholico, de Hespanha, e o 
rei Christianissimo, de França. As duas cortes 
de Hespanha e França melindraram-se com esta 
egualação pontifícia, mas Alexandre de Gusmão 
soube manter a dignidade nacional. O papa con- 
feriu-lhe o titulo de principe, que não acceitou, 
porque D. João v negou-lhc o exequatur ; mas 



SF.crXDA KlHif.A: os Aisr.ADF.s 



chainou-0 para a sua escrevaninha; ahi viu de 
perto o influxo jesuíta lisonjeando as galanterias 
do sensual monarcha. Desde 1734 ficou encarre- 
gado dos despachos da secretaria do Estado para 
o Brasil; foi n'este complicado serviço que elle 
descobriu as variadissiraas fraudes e continuados 
roubos da Fazenda, a que oppoz hábeis regula- 
mentos e expedientes successivos, que melhora- 
ram as receitas do estado. Acabou com o sys- 
tema das devassas abertas que occasionavam 
prisões e confiscos, e tanto embaraçavam o com- 
mercio, estabelecendo em vez do pagamento do 
Quinto a capitação pelo numero de escravos e 
censa o numero dos homens brancos. N'este ser- 
viço se conservou até 1742 era que foi nomeado 
cavalleiro de capa e espada para o Conselho 
Ultramarino. E' n'estes curtos annos do despacho 
do Brasil^ que elle experimentalmente foi colli- 
gindo os casos e circumstancias, que coordenou 
n'essa ficção artística de engenhoso apocryphiiimo, 
que tem o titulo Arte de Furtar, pelo Padre 
António Vieira. Como se conheceu este livro? 
Em 1740, o auctor da Bibliotheca Lusitana, 
Barbosa Machado, escrevera a Alexandre de Gus- 
mão pedindo-lhe noticias dos seus escriptos para 
o incluir no seu tomo bibliographico ; Alexandre 
de Gusmão desculpou-se, dizendo que embora 
membro da Academia de Historia Portugueza, 
não tinha escriptos por causa da sua laboriosa 
vida administrativa e politica. Publicado o tomo i 
da Bibliotheca Lusitana ern 1741, ahi se encon- 
tra a biographia do Padre António Vieira com o 
catalogo (h\3 suas obras, mas não vem apontado 
qualquer impresso ou inanuscripto com o titulo de 
Arte de Furtar. 

E' pois entre 1742 e 1744, que se impri- 



4-2 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



miu subrepticiamente em Lisboa o tomo intitu- 
lado : 

Arte de Furtar, Espelho de enganos, Theatro 
de verdades, Mostrador de horas minguadas, 
Gazúa geral dos Reynos de Portugal, Offere- 
cida a El-Rei D. João IV, para que emende. 
Composta pelo Padre António Vieira, zeloso da 
Pátria. Amsterdam. Na Off. Elzeviriana, 1652. 
1 V.-4.0, de XII fl. prelim., s. n.. e 512 p. (Retrato 
do Padre Vieira). 

A leitura d'este titulo denuncia logo o em- 
buste editorial ; por que no contexto do livro con- 
signa-se ura facto acontecido em 1664, isto é, pas- 
sados doze annos ! Eis o facto : « Furtar o que 
vos hão de demandar e fazer pagar, isso quo vos 
pesa, é a maior tolice de todas, como se viu no 
que succedeu ao Carvalho, na semana em que 
compunha este capitulo. Era guarda da Alfan- 
dega e guardava as fazendas alheias muito bem, 
porque as punha em sua casa como se foram 
suas ; foi recommendado por isso, e porque não 
deu boa rasão de si, o puzeram por postas repar- 
tido ; pretendeu levantar cabeça á custa alheia, 
e levantaram-a dos hombros á sua custa. » Ca- 
millo apenas viu n'este facto de 1664 a prova de 
que o livro « não foi composto de um fôlego, se 
não a pedaços. » {Curso, p. 121.) Mas a incon- 
gruência entre as datas 1652 com a de 1664 é 
que é capital para se reconhecer quem é o '^auctor 
enygmatico e até hoje occulto e talvez indeci- 
frável. » {Curso, p. 119). A critica, sem a vista 
do conjuncto torna-se estéril ; sabendo-se que Ale- 
xandre de Gusmão fora ministro do despacho da 
secretaria de estado dos Negócios do Brasil de 
1734 a 1742 em que entrara como membro do 
Conselho de Fazenda Ultramarino, entende-se 



SEGUKDA Época: os árcades 4;J 



esta passagem era que refere um incidente de 
queixa contra a probidade dos ministros ultra- 
marinos, e diz que — esse caso lhe passara pelas 
mãos. Esta ordem de processos incumbia aos 
Conselheiros da Fazenda. » Camillo citava esta 
passagem pela edição de Londres, p. 60, para 
aventar a hypothese de Duarte Ribeiro de Ma- 
cedo, que logo regeita por não ser o numeroso 
esty lista da obra que se attribue a Amieira. 
{Curso, p. 122). 

Foi essa edição simulada de 1652, de Amster- 
dam, da Arte de Furtar, a que entrou na publi- 
cidade, por 1744. Contra a attribuição d'esse 
escripto ao P.' Vieira, appareceu logo um opús- 
culo anonymo Carta apologética, em que se 
mostra que não é auctor do livro intitulado 
Arte de Furtar o insigne Padre António Vieira. 
Por um zeloso da illustre memoria doeste grande 
escriptor. Lisboa, 1744. In-4.o, de 25 p. 

Em breve se soube que o auctor da Carta 
apologética era o sábio philologo oratoriano Fran- 
cisco José Freire, que brilhou quatorze annos 
depois, com o iiome de Cândido Lusitano, na 
fundação da Arcádia. Revelou-o Barbosa Ma- 
chado no tomo IV supplementar da Biblioiheca 
Lusitana. O oratoriano argumentou com as di- 
versas graphias das trez edições simuladas e in- 
congruência de datas históricas das duas dedica- 
tórias, e quanto á determinação do presumível 
auctor lembrou-se de Thomé Pinheiro da Veiga. 

Conhecido o apocryphismo da Arte de Fur- 
tar, vulgarisada nas trez tiragens, em Março de 
1744, apparece uma circumstancia esclarecendo 
um pouco a combinação para a sua publicação, 
que remonta ao anno de 1741, depois de publi- 
cado o tomo 1 da Bibliotheca Lusitana. Existe 



niSroKIA DA J.IJTERATURA l'OUTL(il EZA 



lia Bibliotheca de Évora, uma copia da Arte de 
Furtar, que pertenceu ao P.' João Baptista de 
Castro com uma Advertência por elle assignada 
em que declara: O original d'este tratado ma- 
nuscripto comprou Jo?o Baptista Lerzo, mercador 
de livros, genovez, que morava defronte do Lo- 
reto no espolio de um desembargador. Como eu 
era seu amigo, m'o participou, e eu o tive quasi 
um anno em meu poder; tanto assim que, com- 
pondo n'aquelle tempo a minha Hora de Recreyo, 
me aproveitei de algumas historias do tal tras- 
lado, que introduzi, e se imprimiram no anno de 
1742 na officina de Miguel Manescal, muito antes 
que sahisse á luz a tal Arte; a qual se imprimiu 
subrepticiamente na Officina que o mesmo Lerzo 
tinha em sua casa, dizendo que era obra do 
P.** António Vieira. Depois que sahiu a publico 
fez ura grande estrondo e se começou a duvidar 
do auctor.;> Vê-se como se fizeram trez tiragens 
simulando de Amsterdam, a Elzevireana de 1652, 
a de 1744, in-4.o de xii — 508 pag., e a de 1744, 
de 409 pag., com o retrato e com a data de 1745, 
e outro typo. E' natural que o livreiro itahano 
não soubesse a provcjiiencia do livro ; mas as trez 
tiragens revelam a interferência de alguém que 
não olhava a despezas, e o interesse de conserv-ar 
ignorado o facto na proveniência vaga do espolio 
de um desembargador. Alexandre de Gusmão, 
que fora escrevendo os casos anecdoticos das 
fraudes que observara na administração relativa 
ao Brasil de 1734 a 1741, atirou esses aponta- 
mentos por essa forma engenhosa para a publici- 
dade. Quereria elle simular o estylo do Padre 
Vieira? Porque o attribuiria ao Padre Amieira? 
Os críticos acham analogias com o estylo de 
Vieira, rias não imitadoras; o que quer dizer 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



que não houve artificio, porque Alexandre de 
Gusmão, brasileiro, educado entre os Jesuitas do 
Collefçio de Santos, possuia essa mesma elocução 
(|ue a longa residência de Vieira ahi lhe incu- 
tira. E' mesmo admissivel, que o Sermão de Santo 
António, do Padre António Vieire, praticando 
casos de moral sobre esse peccado, e notando a 
Arte de Furtar variadissima nos seus processos, 
lhe sugeriria também o titulo. Aqui deu-se o 
caso de ter o titulo determinado a obra. Além 
d'isso era frequente attribuir-so ao Padre Vieira 
pela sua audácia critica folhetos apocryphos, e 
n'essa corrente fora também arrastado Alexandre 
de Gusmão. 

Muito devera rir-se ao vêr o affinco da Carta 
apologética de 1744. ainda então anonyma, e 
em 1746 a Disnertação apologética e dialogis- 
tica que mostra ser o andor do livro Arte de 
Furtar o digno desvelado engenho illustre do 
P.^ António Vieira, em resposta a uma Carta, 
escripta por um ignorado zeloso da memoria do 
dito Padre. Por dois curiosos génios, residentes 
em Madrid. Pertence este follieto ao padre metri- 
ficador Francisco Xavier dos Seraphins Pitarra, 
sócio da Arcádia d(í Roma. Na sua discussão 
(juasi (|ue reconliece maliciosamente o apocry- 
pliismo da Arte de Furtar. Mas despreoccupado 
de quem fosse o auctor, Francisco José Freire 
volta á sua negação com outro opúsculo. Vieira 
defendido. Dialogo apologético etn que se mostra 
que não c o verdadeiro auctor do livro intitulado 
Arte de Furtar o Padre António Vieira : respon- 
dendo ás rasõcs d(í uma nova Oissertação, em 
t|ue se pretendi' mostrar cpie a dita Arte é obra 
do mesmo l^adro. Lisl)oa, 174(), in-4.^'. José Pe- 
reira de Sampaio (iíruno) accentuon e^íi nlu^asc 



4G HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



do P." Pitarra: «Demais, tudo isto é arenga; a 
verdade do caso he, que se houve este grande 
raanuscripto de uma livraria, vendeu-se a um 
homem, que informado por quem sabia da sua 
raridade, o imprimiu, fosse em Hollanda ou na 
China, não faz ao caso. » (Ib. p. 9.) Faz todo o 
caso ; porque Alexandre de Gusmão era hábil 
diplomata para manobrar n'este meio crédulo em 
que lhe convinha fechar-se no anonymo. E em- 
quanto os críticos combatendo a attribuição a 
Vieira, ou substituindo-o por escriptores do sé- 
culo xvii, nenhum tratou de desvendar quem era 
o regulista e o anti-jesuita do século xvni, que 
tanto se aproxima pelo seu estylo e graça do 
Padre António Vieira, Francisco José Freire 
roçou pelo problema inconscientemente: «A Arte 
de Furtar não pode ser do Padre xA.ntonio Vieira, 
porque o contexto do livro implica uma noticia 
miúda da administração, da politica e da jus- 
tiça, que não se coaduna com a isenção sacerdo- 
tal do supposto e pretendido auctor. > Esse conhe- 
cimento coaduna-se com a situação em que se 
achava Alexandre de Gusmão, no governo de 
D. João V. E' d'este aimo de 1746 o quadro, que 
em duas cartas esboça Alexandre de Gusmão, 
mostrando-nos o monarcha já paralytico e o seu 
governo sob a omnipotência de Frei Gaspar da 
Encarnação. O embaixador D. Luiz da Cunha 
escrevera-lhe da corte de Versalhes para fazer 
sentir a D. João v, quanto para credito do mo- 
narcha era opportuna a sua intervenção para a 
paz, entre os principaes belligerantes, e por todos 
tão anelada. A' carta de 6 de Dezembro de 1646 
com o bello alvitre de D. Luiz da Cunha, res- 
pondeu Alexandre de Gusmão : « Sempre faliei a 
SuaMagestade e aos Ministros actuaes do governo: 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



« Primeiramente o Cardeal da Mota me res- 
pondeu, que a proposição de V. ex.^ era inadmis- 
sivel em rasão de poder resultar d'ella ficar el-rei 
obrigado pelo cumprimento do tratado, o que não 
era conveniente. 

«Bmquanto falíamos na mesma matéria se 
entretinha o Secretario de Estado, seu irmão, na 
mesma casa em alporcar uns craveiros, que até 
isto fazem fora do logar e tempo próprio. 

«Procurei fallar a Sua Rev.™'^ (Pr. Gaspar da 
Encarnação) mais de três vezes, primeiro que 
me ouvisse, e achei a Apparição de Sancho a seu 
Amo, que traz o Fr. Carmo na sua Corte santa, 
cuja historia ouviam com grande attenção o 
Duque de Alafões e o Marquez de Valença, 
Fernão Martins Freire e outros. Respondeu-me, 
que Deus nos tinha conservado em paz, e que 
V. ex.''^ queria meter-nos em guerra, o que era 
tentação a Deus. 

«Finalmente fallei a El-rei. (Seja pelo amor 
de Deus!) estava perguntando ao Prior da fre- 
grezia, por quanto rendiam as esmolas das Almas 
e pelas Missas que se diziam por ellas. 

« Disse, que a proposição de V. Ex."' era 
muito própria das máximas francezas, com as 
quaes V. Ex.^ se tinha como naturalisado, e que 
não proseguisse mais. 

« Se V. Ex.'» cahisse na materialidade (de 
que está muito livre) de querer instituir al- 
gumas Irmandades, e me mandasse fallar n'ellas, 
havíamos conseguir o empenho e ainda nie- 
recer-lhes alguns prémios.» (2 de Fevereiro de 
1747). 

Em outra carta, ao mesmo embaixador es- 
creve Alexandre de Gusmão : 

^ Nem a proposição de V. Ex.» nem a do 



4S HISTORIA DA LITTERATURA PdHTir.l KZA 



Marquez de Alorna mereceram a menor attenção 
aos nossos Ministros de Estado. 

«A primeira foi tratada na presença de El-rei 
com o Cardeal, o Prior de vS. Nicolau, Monsenhor 
Moreira e dois Jesuitas a quem se tinha comrau- 
nicado. Antes que nenhum d'elles fallasse resol- 
veu El-rei com maior facilidade que uma jornada 
das Caldas, porém, não obstante aquella resolu- 
ção, sempre votaram que era ditada pelo espirito 
da Soberba e da Ambição, com que foi bem jul- 
gado. 

« A segunda mereceu a convocação de uma 
Junta, mas foi para maior castigo. Ahi se acha- 
ram os três cardeaes, os dois Secretários, Sua 
Ex.'^ Rev.'"'\ eu e muita gente, não sej como. 
Desencadernaram-se as Negociações e se bara- 
lharam com a superstição e com a ignorância, 
iechando-so a decisão com o ridiculo da 

Guerra com todo o mundo 
E paz com a Inglaterra. 

cuja Santa AUiança me era muito conveniente, 
e finalmente que V. Ex.''^ não era muito certo na 
religião, pois se mostrava muito francez. Aca- 
bado isto se fallou no soccorro da índia e que 
consta de duas náos e três navios de trans- 
porte. 

« O Mota disse a El-Rei, 3 esta esquadra 
ha-de aterrorisar a índia. O reitor de Santo An- 
tão (CoUcgio dos Jesuitas): — Tomara já ler os 
progressos escriptos com miudeza pelos nossos 
padres. E' o que se passou na Junta... Como 
V. Ex.'^ me pede novidades, ahi vão fielmente. 
Devemos ao Ex,™" Snr. Cunha o livrar-nos dos 
raios, tempestades e trovões, i|ue desterrou das 



SEGUNDA Época: os árcades í.i 



Folhinhas do anno, com pena de negar-lhe as 
licenças. 

«Devemos a Sua Kev.'"'' o haver proposto a 
El-Rei que conseguisse do Papa o livramento 
dos Espirites malignos e de Feitiços, que causa- 
vam tanto damno n'este reino, e não ouvia que 
os sentissem outras nações.» 

« Os Padres Tristes (os Jesuítas, assim cha- 
mados por acompanharem os sentenciados á forca) 
deram parte a El-Rei da confissão prodigiosa de 
uma feiticeira, que cahiu em seu poder, e creio 
que será este negocio o maior do Estado d'este 
governo. . . » 

«Isto não são Contos orahicos, mas sim acon- 
tecem dentro da Europa culta.» 

Assim era governado Portugal por osta barca 
da carreira dos tolos desde a paralysia que aco- 
metteu D. João v em 22 de Maio de 1742. 
Gramoza, nos Siiccessos de Portugal, descre- 
vendo este quadro, notava: '< n'aquelle tempo 
havia também empregado no Ministério um 
homem, que pelos seus talentos, instrucção e 
conhecimentos vastos de todos os negócios civis 
e políticos, pudera sustentar e conservar o cre- 
dito da monarchia, para o (jue elle cooperava 
com as suas representações, grandes e esforçadas 
diligencias; era elle Alexandre de Gusmão. Conhe- 
cia por desgraça, aquelles miseráveis árbitros da 
vontade de El-rei e cheios de uma terrível hypo- 
crisia, de pasmoso fanatismo e de uma ignorân- 
cia ínvencivel despresavam todas as ideias (jue 
elle propunha, fazendo s(5 validas as suas gros- 
seiras decisões.» {Ohr. cit., t. i, 7.) 

Pelo falecimento de D. João v em Hl de Julho 
de 1750, extinguiu-se o cargo de escrivão da pu- 
ridade, e Alexandre de Gusmão volveu á vida 

4 



50 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



particular; os oito annos que teve ainda de exis- 
tência dedicou-os á organisação económica de 
sua casa, tendo para isso de contrahir dividas 
que lhe amarguraram a alegria domestica. Suc- 
cumbiu era 1758, depois do incêndio do seu palá- 
cio, a perda de seus dois filhos e esposa. Parece 
um lance rocambolesco, digno das tenebrosas vin- 
ganças dos Padres da Apanhia, que não perdoa- 
riam a Arte de Furtar, que em 1755 era prohi- 
bida em Hespanha por um Edital da Inquisição. 
Não teve o gosto de ver a sua substanciosa Sá- 
tira incluida no tomo iv do Suppleraento da Bi- 
hliotheca Lusitana, de 1759. Nos seus Subsídios 
para a Historia litteraria de Portugal, Frei 
Fortunato de S. Boaventura, considera Alexandre 
de Gusmão como o melhor prosador da primeira 
metade do século xvaii, e fundava-se apenas nos 
Decretos e Avisos régios que officialmeute redi- 
gira. Hoje, restituída a Arte de Furtar ao seu 
auctor, forma-se uma ideia nitida do seu talento 
litterario. 

d) As Cartas do Cavalheiro de Oliveira, e 
do Abbade Costa. — Dois espirites superiores se 
acham n'esta época homisiados de Portugal : 
Francisco Xavier de Oliveira, refugia-se na Hol- 
landa, que era então o asylo de todos os livres- 
pensadores da Europa, e d'onde veiu o impulso 
de emancipação mental da geração que formou a 
Encyclopedia; António da Costa, depois de ter 
chegado a Roma através de mil trabalhos, e de 
seguir os cursos musicaes de Veneza, fixa a sua 
residência em Vienna de Áustria, onde é admi- 
rado pelo seu pasmoso talento artístico. As Car- 
tas do Cavalheiro de Oliveira exprimem a sua 
situação desolada, e foram desde muito cedo 
admiradas como modelos de familiaridade. 



SEGUNDA KPOCA: OS ÁRCADES 



O Abbade António da Costa, que Biirney 
comparava a Rousseau, escreveu algumas Cartas 
a amigos que deixara em Portugal, e era tal a 
graça, vivacidade e colorido das suas descri- 
pções^ que o erudito António Ribeiro dos Santos 
tratou de colligil-as, obtendo ainda umas treze, 
que se acham actualmente impressas. Nada ha 
na lingua portugueza mais bem escripto; nunca 
a prosa dos nossos homens de lettras conseguiu 
essa naturalidade graciosa^ esse vigor de impres- 
sões, essas pinturas dos caracteres, das emoções 
e do aspecto das cousas. O pouco que se sabe da 
biographia de António da Costa acha-se implicito 
n'essas Cartas, modelos inexcediveis para quem 
pretenda escrever portuguez. 

o CAVALHEIRO DE OI^IVEIRA 

Nome por que é conhecido Francisco Xavier 
de Oliveira, que tendo convivido com os sábios 
e doutos da Academia Real de Historia, com 
a sua revolta de consciência e curiosidade de es- 
pirito, aproveitou um ensejo para sahir de Portu- 
gal, vivendo em Vienna de Áustria, em Amster- 
dam e em Londres^ acompanhando a liberdade 
mental da sua época, principalmente como critico. 
As noticias da sua movimentada vida encontram-se 
dispersas pelas suas obras, principalmente no pro- 
cesso inquisitorial d(í ITOl e no Discoiirs pathe- 
tiqiie, publicado em 1756. N'este raríssimo livro, 
reimpresso em edição fac-simile em 1893, lê-se 
em uma nota: «Nasci em Lisboa em 21 de Maio 
de 1702 e fui eu administrado a baptismo na Pa- 
rochia de San Mamede, em 1 de Junho do mesmo 
anno pelo rev. P.'' Prior Thomaz António Ma- 
deyra.» [Disc, p. 32, nota) Sentindo-se esquecido 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



era Portugal, lembra a respeitabilidade da sua 
família e as relações que tinha com altas perso- 
nagens: « A vaidade de me prevalecer do meu 
nascimento e dos serviços que seguindo o trilho 
dos meus antepassados eu possa prestar á Coroa 
seriam condemnaveis e fora do propósito. Mas é 
importante para mim o lembrar a V. M. que seu 
falecido pae me honrou ha vinte e seis annos 
{ITóO) com a mesma real Ordem que ornou sem- 
pre o seu peito, como o de V, M. E como eu só 
podia tomar o habito d'esta Ordem (de Christo) 
depois de cumprir todas as formalidades e todas 
as prevanças exigidas pelos Estatutos, nenhuma 
duvida pôde haver da antiguidade da minha fa- 
mília e da pureza do meu sangue. Não sou pois, 
Mahometano nem Judeu nem mesmo idolatra. » 
{Ib., p. 9.) E aponta o facto de ter tomado o ha- 
bito de Christo na Capella Real da Egreja Pa- 
triarchal de Lisboa, em 11 de Dezembro de 1729. 
A sua educação litteraria no CoUegio dos Je- 
suítas deixou-lhe uma perenne sympathia pela 
Companhia de Jesus, e uma admiração que era 
um culto pelo Ff António Vieira. Compilara to- 
das as suas obras e colligira importantes inéditos, 
que lhe ficaram em Lisboa. A sua familia era 
numerosa, e era escriptor um d*elles, Thomaz de 
Aquino, Abbade de San Bento da Victoria no 
Porto. O antagonismo entre a Companhia e a 
Inquisição reflectiu no seu espirito, sentindo-se 
humanamente incompatível com as barbaridades 
monstruosas do Santo Officio. Este estado de 
consciência tornava-se um perigo; e comrauni- 
cou-o a pessoas de importância e de dignidade, 
já falecidas ao tempo em que pensava em sahir 
de Portugal; foi uma d'essas José da Cunha 
Brochado, membro da Academia real de Histo- 



SEGUNDA época: OS A Hf! ABES 



ria, Conselheiro de Fazenda e Enviado extraordi- 
nário á Corte da Gran-Bretanha; Martinho de 
Mendonça de Pina, de Proença-a-Nova, grande 
hebraisante, hellenista e latinista que malbaratou 
o seu saber em combater o Aristotelismo, também 
o P." Hypolito Moryra, jesuita, liberto dos precon- 
ceitos dos seus collegas, sendo ao mesmo tempo 
da Academia real de Historia e Qualificador do 
Santo Officio; o P.'' Manuel Guilherme da ordem 
dominicana, grande pregador^ e Qualificador e 
examinador da Inquisição, e cita também seu tio 
o P." Manuel Ribeiro, da Congregação do Orató- 
rio, de que era Propósito, Qualificador e exami- 
nador do Santo Officio, e presidente diplomático 
na Corte de Madrid em logar do Marquez de 
Abrantes. A esta lista de confidentes ainda accres- 
centa o bispo de Lamego, filho do Duque de Ca- 
daval: « disse-me uma vez, a propósito de tantos 
bons livros, cuja leitura era prohibida em Portu- 
gal, que os Inquisidores eram umas bestas. > 
{Ib., p. 34.) No texto do Discours pathetique, 
aponta também : « Dois ministros públicos, e por 
ventura os dois mais famosos que tem servido a 
Coroa de Portugal no ultimo reinado, entravam 
tanto nos meus sentimentos sobre este ponto, que 
podem-se considerar como suas próprias as pala- 
vras que hei-de dirigir aos Inquisidores.» {Ib., 
p. 35.) E declara em nota, o Conde de Tarouca, 
falecido em Vienna e D. Luiz da Cunha, falecido 
em Paris. E depois de ennumerar estes esteios 
ainda apresenta a confiante benevolência com 
que o tratava o Inquisidor Geral Nuno da Silva 
Telles, da casa do Marquez do Alegrete, e ex- 
Reitor da Universidade de Coimbra: «Pondo de 
parto a qualidade de Inquisidor, elle constante- 
mente me honrou com a sua amisade, principal- 



54 HISTORIA Í5A LITTEÍIATURA PORTUGUEZA 



mente pela occasião da minha partida de Lisboa 
em 1734. Durante três annos consecutivos elle 
sustentou commigo uma correspondência regular. 
Escrevia-me por quasi todas as festas. Apesar das 
suas grandes occupações, elle tinha a bondade e 
o cuidado de me communicar tudo o que de mais 
particular se passava na familia, na capital e na 
corte.» {Ib., p. 51.) O motivo da sabida de Por- 
tugal, seria em parte determinado pelo faleci- 
mento de sua mulher D. Anna Ignez de Almeida, 
acquiescendo ao convite do Conde de Tarouca 
para o acompanhar como secretario da embai- 
xada na corte de Vienna. O conde escolheu bem, 
e parece que a resolução de Francisco Xavier 
de Oliveira foi inesperada, porque se separou dos 
seus livros usuaes, como os Manuscriptos do P.^ 
Vieira. « O maior ornamento dos Jesuítas, esse 
homem capaz elle só de illustrar a nação portu- 
gueza. Os seus Manuscriptos, que nunca viram a 
luz publica, acham-se actualmente na vossa Bi- 
bliotheca real; e ahi está uma parte copiada pela 
mão de meu pae e uma outra pelo meu punho. 
Estes manuscriptos são muito raros em Portugal, 
comtudo ha alguns em mãos de grandes fidalgos 
e dos mais instruídos do reino. Ao sahir de Lis- 
boa lá me ficaram todos os meus, e eu conto esta 
perda no numero das não menores, que me tem 
acontecido na vida.» [Ib., p. 62.) Em uma carta 
dirigida pelo Cavalheiro de Oliveira aos Censores 
e Académicos, dizia-lhes: «Ha vinte annos que 
vós me honraes com a vossa amisade, e mesmo 
de uma amisade bem intima, e vós vos lembraes 
ainda dos úteis recursos que encontrastes para o 
augmento dos vossos estudos na minha numerosa 
e famosa Bibliotheca, no tempo em que o falecido 
rei fundou a Academia real de Historia. Só pelo 



SEGUNDA Época: os árcades 55 



serviço d'este monarcha tendo de me afastar 
de Lisboa, é que me impediu de ser um dos 
vossos collegas. Os dois Senhores Marquezes do 
Alegrete e Marquez da Fronteira, José da Cunha 
Brochado e particularmente o Conde da Ericeira, 
D. Francisco Xavier de Menezes e alguns outros 
estão todos dispostos a conferirera-me esta honra; 
e eu tinha de antemão o privilegio de receber 
um exemplar de todas as producções da Acade- 
mia, presente que ella fazia a um limitado nu- 
mero de sábios, que eram considerados como aca- 
démicos supranumerários. {Disc, p. 92.) A vida 
diplomática, cheia de frívolas impertinências pro- 
tocolares, não se harmonisava com o caracter 
reconcentrado do já então denominado Cavalheiro 
d''01iveira. A ^ôrte de Vienna era severa nas for- 
malidades, e o Embaixador carecia da interven- 
ção permanente de um secretario, que era um 
verdadeiro contra-regra, que tudo preparava pre- 
viamente. De mais, acima da etiqueta aulica es- 
tava ainda o rigorismo religioso, que o Cava- 
lheiro de Ohveira, liberto da boçalidade dos 
Inquisidores, se sentia asphixiar pelo pietismo aris- 
tocrático. E' certo que ao íim de seis annos, 
Francisco Xavier d'01iveira abandonou o logar 
de secretario, sem causa ostensiva, a que se pro- 
curou ligar certo mysterio. Bile queria respirar 
na corrente das ideias modernas, e passou para a 
Hollanda em 1740.. Perdidos os seus recursos eco- 
nómicos, pela sabida do serviço de Portugal, 
viu-se obrigado a defrontnr-se com infindas im- 
pertinências desde então (1740) até hoje.^ (1751.) 
Em Amsterdam achou-se em um meio liberto de 
todas as censuras e no foco d'onde sabiam todas 
as obras da mais avançada doutrina moral, poli- 
tica e religiosa. Approxiniou-se dos ricos Judeus 



líISTOniA DA LrnKH\llli\ Pnin I GUEZA 



portuguezes, que na Hollaiida se linhain refu- 
giado das perseguições da Inquisição de Portu- 
gal. No Disconrs pathetiqae falia dos grandes 
serviços que a familia Nunes da Costa tem pres- 
tado a Portugal. O Cavalheiro de Oliveira apre- 
senta este quadro histórico, digno de ser conhe- 
cido: «Ha mais de cem annos, quasi sempre um 
Judeu, na qualidade de Agente do Rei de Portu- 
gal^ se emprega no serviço d'essa Coroa em Ham- 
burgo, -im Livorno, em Ferrara e em outras par- 
tes. Desde esse tempo a Familia Nunes da Costa 
k.\ destinada ao mesmo serviço em Hamburgo e 
em Amsterdam. Eduardo Nunes da Costa, no 
começo do reinado de D. João iv, e quando este 
Príncipe tinha falta de recursos para se sustentar 
no throno, foi o primeiro que enviou de Ham- 
burgo, onde o rei o tinha nomeado seu presidente, 
dois navios carregados de todas as espécies de 
munições, — Jeronymo Nunes da Costa, seu filho 
mais velho, tendo-lhe succedido partir para Ham- 
burgo e para a Haya, para assistir com seus con- 
selhos a Tristão de Mendonça, que o Rei de Por- 
tugal tinha enviado aos Estados Geraes. Os bons 
officios que elle prestou a este ministro e a Fran- 
cisco de Sousa Coutinho, seu successor, mereceu- 
Ihes, da parte d'estes dois embaixadores, o glo- 
rioso titulo de Braço direito dd Coroa de Portugal. 
E' gloriosíssima a pagina dos serviços relatados, 
em que dado o estado de guerra entre Portugal 
e a Hollanda, por causa das luctas no Brasil, em 
que o Presidente continuou as relações de Portu- 
gal com os Estados Geraes, vencendo a perfídia 
do embaixador hesparihol Germano, e a traição 
de Fernão Telles de Faro, que se bandeou para 
os castelhanos. Na sua casa se hospedou Colbert, 
e de Thou confessava que não havia caracter 



SEGUNDA KPOCA: OS ARC \DES 



mais puro e affavel. N'este posto succedeu-lhe 
seu irmão Álvaro Nunes da Costa, que viveu 
muito tempo nos reinados de D. Pedro ii e 
D. João V. Escreve o Cavalheiro de Oliveira: 
■< Foi este agente que eu conheci pessoalmente, 
ao chegar de Lisboa a Amsterdam no anno de 
1734. Confesso, que á vista do Escudo das Armas 
de Portugal, arvorado sobre o grande pórtico da 
casa d'este Agente, eu fiquei um pouco enleiado, 
ignorando então o que acabo de referir, e impre- 
gnado dos preconceitos da minha nação contra 
os Judeus. Mas eu mudei de ideias immediata- 
mente a seu respeito. Desde que tratei com Mr. 
da Costa, eu me apercebi do seu mérito e soube 
dos iminensos serviços que elle tinha prestado e 
continuava a prestar á minha pátria. A Coroa de 
Portugal acabava de o embolsar dos grandes ser- 
viços que lhe devia, e tinha ainda além d'isto a 
receber mais de cem mil florins de atrasados. 
Mr. da Costa era visitado continuadamente por 
toda a nobreza do paiz e por quasi todos os mi- 
nistros estrangeiros, que passavam por Amster- 
dam para irem para a Haya. Dois grandes minis- 
tros de Portugal, o Conde de Tarouca e D. Luiz 
da Cunha, tinham por elle uma grande admira- 
ção, que por mil modos procuravam manifestar- 
Ihe. Por sua morte, o neto Nathan Nunes da 
Costa e seu genro Eduardo Nunes da Costa, her- 
daram toda a sua fortuna; porém, mais levados 
para o bem estar do que para a gloria, ambos 
tomaram o partido de viverem tranquillamente 
dos seus rendimentos, renunciando o logar de 
Agentes da Coroa de Portugal, que era heredi- 
tário na sua familia havia já um século >. {Ib., 
p. 70.) O Cavalheiro de Oliveira afíirma que os 
outros Judeus portuguezes que conhece não são 



58 HISTOni\ DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



inferiores aos Nunes da Costa, e que até para 
prova dá grandes sábios, principalmente na Me- 
dicina e na Jurisprudência. Elle chega a escre- 
ver que o grande terremoto de 1755, foi o sangue 
innocente derramado pela Inquisição durante dois 
séculos, que fora ouvido nas alturas. Vê-se que o 
Cavalheiro de Oliveira achou entre os Judeus 
portuguezes auxilio para a nova carreira da sua 
vida. Em 1742 se publicam as suas Cartas fami- 
liares, que eram lidas em Portugal com interesse 
pela sua livre critica, mas como Farpas erudi- 
tas, O credito para a impresscão dos seus traba- 
lhos, e sobretudo a expedição para Portugal e 
toda a Europa, só os Judeus portuguezes lhe 
podiam prestar esse auxilio. Esses lucros prove- 
nientes das publicações que ia fazendo equilibra- 
ram-lhe a existência, e assim logo no anno de 
1743 contrahiu segundas núpcias com Eufrozina 
de Puschburg em Vienna, que o acompanhou 
nos annos mais escassos até quasi ao fim da sua 
torturada existência. A exploração das Cartas 
cessou subitamente, pelo poder inquisitorial; elle 
mesmo explica o fracasso: « Disse eu na minha 
Carta 56, e ainda agora repito: que — alguns 
Padres da Egreja, levados de certos princípios 
(emprestados, se pode dizer, dos pagãos, que ti- 
nham reconhecido a excellencia do celibato) pre- 
feriam este estado ao do matrimonio . . . — O padre 
Inquisidor Frei Manoel do Rosário, revendo o 
2.'* tomo das minhas Cartas, faz a censura que 
vae lêr-se. Tal censura que me alcunha de hereje, 
apesar de lá me chamar catholico romano, fez 
eíYeito e acertou o tiro. Não somente occasionou 
a próhibição dos meus escriptos em Portugal, 
mas deu azo a que os Inquisidores se apossassem 
de todos os exemplares das minhas obras, que 



SEGUNÓA ííPOCA: OS ÁRCADES 59 



existiam em Lisboa. Este roubo que me fizeram 
in nomine Domini, e sem escrúpulo, causou-me 
grande perda.» B em nota: «Esta perda orçou 
por 6.000 cruzados ou 500 libras esterl. » 

A prohibição inquisitorial provinha especial- 
mente do foco do livre pensamento, da Hollanda, 
onde o Cavalheiro de Oliveira assentara o seu lar. 
Portugal estava-lhe absolutamente fechado para 
a sua actividade litteraria, e teve d'isto tão clara 
intuição, que em 1744 foi assentar arraiaes em 
Londres, onde o foco do livre-pensamento era 
mais reservado, mas intenso. Em Londres se en- 
contrava representando Portugal o ministro Se- 
bastião José de Carvalho, depois de ter servido 
na embaixada de Vienna. Sebastião José de Car- 
valho ahi acabava de disciplinar o seu génio 
politico. O, Cavalheiro de Oliveira teve relações 
frequentes com o diplomata sócio da Academia 
real de Historia portugueza, como se deduz de 
uma carta, que acompanha o Discurso pathetico 
de 1756, quando elle era já o omnipotente mi- 
nistro. Na forte orientação intellectual em que 
ambos se achavam havia uma cambiante que os 
separava, o Cavalheiro de Oliveira detestava e 
combatia a Inquisição como causa da ruina de 
Portugal e era um convicto admirador dos Je- 
suítas; pelo seu lado Sebastião José de Carvalho 
tinha essa visão invertida, como o manifestou nos 
seus actos de governo: fez a expulsão dos Jesuí- 
tas e deu officialmente o tratamento de Mages- 
tade á Inquisição. A sociedade ingleza era muito 
falada, e os Judeus eram de nma ignorância tão 
crassa em Inglaterra, como nas outras partes ; 
elle imaginara que esse caracter especialissimo 
do Judeu portuguez era conuiium a toda a raça; 
em todo o caso confessa que em Londres o Dr. 



GO HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Jacob de Castro Sarmento, Rebello de Mendonça, 
Abraham Vianna e Jacome Ratton eram doutos 
e de larga instrucção. O seu espirito soffre dece- 
pções que o desalentam e o revoltara; é sob esta 
pressão que elle em 1746 resolve abjurar da reli- 
gião catholica-romana e por uma forma solemne. 
No Discoiirs pathétique refere esla nova e 
angustiosa situação da sua vida: << Verdade é que 
tendo abjurado da Communhão da Egreja Ro- 
mana para abraçar a Religião Protestante, os 
vossos preconceitos devem-vos naturalmente in- 
duzir contra mim, e tornar-me odioso aos vossos 
olhos; caros parentes e amigos, desenganae-vos e 
dignae-vos de me ouvir. Mudando de Religião eu 
abandonei as delicias e o bem-estar da minha 
Pátria, bem-estar e delicias que eu nunca mais 
encontrei em parte alguma; eu me separei para 
sempre de uma digna e respeitável mãe, de mui- 
tos irmãos, e de vós todos. Nem o adiantamento 
da minha fortuna, nem as vantagens reaes, nem 
as esperanças lisongeiías que me sorriam do lado 
de Lisboa não puderam fazer-rae mudar de reso- 
lução, » {Op. cit., p. 35.) Essa esperança risonha 
do lado de Lisboa, seria a importância de Sebas- 
tião José de Carvalho junto da rainha austriaca, 
anti-jesuitica e protectora da Congregação do 
Oratório. Pela apostasia solemne o Cavalheiro 
d'OHveira afastara todas as boas vontades que o 
podiam patrocinar; não podia continuar a publi- 
cação das Cartas familiares, das quaes conser- 
vava duzentas, inéditas, que completavam o 8.° 
volume, e occupariam os volumes 4.° e 5.°. Re- 
correu á assignatura para assegurar as despezas 
typographicas, e em 1751, encetou a publicação 
das (Euvres morales, tendo de abandonar a lín- 
gua portugueza para alcançar alguns leitores, 



SEGUNDA Época: os Árcades 61 



mas estimulado pelo sentimento patriótico nas 
Memorias de Portugal, replica e combate contra 
as deprimentes opiniões que appareciam na Eu- 
ropa aviltando a sua degradada nacionalidade. 
O effeito intellectual da apostasia, fazendo-o 
absorver-se no biblicismo monomaniaco dos pro- 
testantes, produziu no seu estylo uma chateza, 
pelas phrases sacramentaes unctuosas de uma 
elocução presbyteriana, sempre allegorica e mora- 
lisante. Teve de concentrar-se na vida domestica 
e na obscuridade de um confinado logarejo para 
resistir ás difficuldades económicas. No Discurso 
pathetico escreve : « Fortalecido pela graça de 
Deus em um partido tomado cora um inteiro 
conhecimento de Causa, e reduzido a não comer 
de outro pão senão aquelle que os Fieis me for- 
necem, eu me retirei para a aldeia, e ahi vivo em 
um logarejo a que vós charaaes em Portugal um 
recanto do Mundo. Ahi occupo o meu tempo 
com a cultura de um pequeno jardim. Mas eu 
não cesso de louvar a Deus, no estado em que 
elle me collocou, e bem convencido de uma vida 
futura, eu o bemdigo por tudo quanto me acon- 
tece, repousando inteiramente sobre a sua mise- 
ricórdia pela qual somente espero me salvar. » 
{Ib., p. 37.) Este recanto do mundo em que vivia 
era Hachney em que sua esposa o confortou até 
ao anno de 1783, essa triste Euphrosina de Pus- 
chburg. 

N'este retiro, escrevendo contra a Inquisição 
de Portugal, desde 1751, elle teve o goso intimo 
de vêr que a sua ideia se manifestava na acção 
do governo, lendo na Gazeta de Londres que 
não mais se executariam sentenças de morte da- 
das pela Inquisição para serem effectuadas pelo 
Braço secular, sem qu'> ellas fòsscin revisadas 



62 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



por um Conselho judiciário que as homologasse, 
e sendo assignadas pelo rei. Elle confessa que 
não esperava tão cedo vêr esta intervenção do 
Poder real, que Sebastião José de Carvalho col- 
locava acima da Inquisição e da Aristocracia, 
para base das suas reformas. Foi n'este seu re- 
canto de Hachnev, que o surpreheiídeu a noticia 
fulminante do grande cataclysmo sismico do 1." 
de Novembro de 1755: < As calamidades que aca- 
bam de acontecer era Lisboa^ a perturbação e 
confusão em que vós todos vos achaes, e o me- 
donho castigo que a todos vós ameaça, só ellas 
me poderiam arrancar á tranquilhdade do meu 
retiro. Abandonei immediatamente todas as mi- 
nhas occupações, a minha sensibilidade e o meu 
dever me transportaram em ideia ao meio da mi- 
nha querida e desgraçada Pátria, e me impeliram 
a vos dirigir a minha triste e débil voz, para 
vossa consolação e para vossa felicidade eterna. 
Eu emprehendi esta penosa visita em um tempo 
em que a minha cabeça branca, minha mão tre- 
mula e o meu corpo alquebrado pelos soffrimen- 
tos vos são seguras garantias de que á beira da 
sepultura não pode entrar n'este passo nenhum 
intuito de interesse mas em outra cousa apro- 
priar-vos, de que contribuí com todo o empenho 
para a salvação das vossas almas, pelas reprehen- 
sões que vos dirijo e pelos avisos que vos dou e 
pelas verdades que tendes ignorado até ao pre- 
sente e que eu vos annuncio.» (p. 37.) Tratou de 
escrever um opúsculo intitulado — Discours pa- 
thetique aii sujet des Calamiiés presentes, arri- 
vés en Portugal. — Addressé à Jiies Compatriots 
et en pnrticnlier, a Sa Magesté très-fidele 
Joseph, Roi de Portugal, por le ChevaVer 
d' Oliveira. Foi cora este titulo impresso em Lon- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 6.] 



dres em 1756, e enviado para Portugal para os 
Académicos da Real Academia de Historia e a 
Sebastião José de Carvalho. N'este mesmo anno 
foi traduzido em inglez: Pathetic discourse on the 
present Calamitie of Portugal. Ahi se declara 
era nota (p. 36) que o rei de Inglaterra, sabendo 
do terremoto de Lisboa, dirigiu ao parlamento 
britannico uma mensagem para que se enviem a 
Portugal «cem mil libras esterlinas, mais de um 
milhão de cruzados, para acudir ao povo.» O Ca- 
valheiro de Oliveira accentua a acção moral do 
protestantismo; o Discurso pafhéfico funàsL-sa no 
castigo do céo, pelo sangue innocente das victi- 
mas dos Autos de Fé nas fogueiras do Santo 
Officio. Desde que o Discours pathétique se espa- 
lhou fora do circulo reservado a quem fora enviado, 
appareceu ura Académico da Real Academia de 
Historia Portugueza (!) o Dr. Joaquim Pereira 
da Silva Leal, a denuncial-o ao Santo Officio de 
Lisboa, declarando que lh'o mostrou um inglez 
Lucas Foreman « homem verdadeiro e de bom 
comportamento, apesar de hereje. > O processo do 
Santo Officio começou logo., por citar Francisco 
Xavier de Oliveira, e intimar todas as testemu- 
nhas de longa data apontadas, para virem depor o 
que d'elle sabiam ou ouviram dizer, estando con- 
cluido o processo, julgado á revelia, e senten- 
ciado á morte em 12 de Junho de 1761. O Conde 
de Oeiras servia-se então do poder terrorifico da 
Inquisição para atacar a Companhia de Jesus, 
(jue mutuamente se odiavam como o gato e o 
rato. Em 1761 celebrou-se em 20 de Septembro 
em Lisboa, um solemne Auto de Fé, em que a 
Inquisição queimou o jesuita P." Gabriel Mala- 
grida, um mystico algo irresponsável; n'esse es- 
pectáculo canibal, como o Cavalheiro de Oliveira 



(jí HISTORIA DA 1,111 Kl! MUr.A l^ORTUGUEZA 



estava a salvo em Inglaterra, teve de ser o seu 
retrato queimado, ou na linguagem profissional 
queimado em estatua. 

N'esse processo se deparam curiosas noticias 
sobre o Cavalheiro de Oliveira; não se encontra 
no Archivo nacional. Era 1875, Camillo tirou al- 
gumas noticias para a sua biographia pelo con- 
teúdo da Sentença; do processo completo teve 
conhecimento Joaquim de Araújo, por tel-o en- 
contrado entre a papelada inútil do Conselho de 
Districto do Porto, tencionando imprimil-o era 
um projectado estudo que intitularia O Cava- 
lheiro de Oliveira e a Sociedade portugneza no 
Século XVIII \ O Discours pathêtique, foi des- 
conhecido de J. Heliodoro Rivara, Innocencio e 
Camillo *; ao fim de pacientes pesquizas soube 
Joaquim de Araújo da existência de três exem- 
plares na Bibliotheca de Paris, do Museu Britâ- 
nico e Rebello Fontoura, fazendo sobre elles uma 
edição fac-simile da edição de 1762, impressa em 
Londres. Depois d'este opúsculo, publicou um 
folheto Le Chevalier d' Oliveira hrulé en effigie, 
que foi considerado, como Appenso da segunda 
parte do Discurso. Depois do falecimento de Xa- 
vier de Oliveira em 1783, foram alguns trechos 
reproduzidos no Gentleman Magazine em 1784. 



' Perderam-se as esperanças de ser escripto este li- 
vro; Joaquim de Araújo inutilisou-se com um suicidio 
frustrado, por uma doentia imitação do suicidio de An- 
thero, que elle tanto exaltara na poesia Morrer é ser ini- 
ciado. 

8 O titulo de Dlsrnrsos patheticos. no plural, mos- 
tra que consideravam unia série; e como não lograram 
lêr esse manifesto dirigido ao roi depois do terremoto, 
não puderam utilisar as allusões pessoaes autobiogra- 
phicas. 



SEGUNDA Época: os árcades 65 



A sua longa vida, cheia de amarguras e dece- 
pções, fêl-o contemplar de longe as reformas pom- 
balinas, e assistindo á sua queda e á demolição 
systematica da sua obra, sob o intolerantismo da 
rainha D. Maria i, dominada pelo Arcebispo- 
Confessor, a quando já a Inquisição era um refu- 
gio para as perseguições tenebrosas e arbitrarias 
da Intendência da Policia. Vinte e dois annos 
ainda viveu o Cavalheiro de Oliveira queimado 
em estatua pela Inquisição em Lisboa em 1762 
até 1783, em que faleceu octogenário. Essa vida 
de isolamento apparece-nos illuminada por um 
sentimento sereno que o alentava com reminis- 
cências da querida pátria. 

Quando Garrett esteve refugiado em Ingla- 
terra na sua primeira emigração politica, em 1823, 
communicaram-lhe a noticia da existência de Ma- 
nuscriptos do Cavalheiro de Oliveira, que foi exa- 
minar com extrema curiosidade. E deixou noticia 
de umas annotações á Bibliotheca Lusitana, que 
revelam a sua moral, pensando na pátria^ recor- 
dando as suas tradições populares, vivendo em 
espirito com essas reminiscências sympathicas. 
Escreveu Garrett, no prologo do seu RomanceirOy 
formado quasi nas mesmas angustias do pobre 
Cavalheiro de Oliveira: «Havia entre esses livros 
um exemplar da Bibliotheca de Barbosa, enca- 
dernado com folhas brancas de permeio, e escri- 
ptas estas assim como as amplas margens do 
folio impresso, de letra muito meuda mas mui 
clara e legivel, com annotações, commentarios, 
emendas e addições aos escriptos do nosso e la- 
borioso mas incorrecto Abbade (de Sever). — 
Via-se por muitas partes que o longo trabalho 
fora feito depois da publicação das suas Memo- 
rias, porque a miúdo se refere a ellas, confir- 

5 



(;'■) HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mando e ampliando, corrigindo ou retractando o 
que lá dissera. Nos artigos D. Diniz, Gil Vicente, 
Bernardim Ribeiro, Fr. Bernardo de Brito, 
Francisco Rodrigues Lobo, Dom Frajicisco Ma- 
nuel de Mello e em outros que vinha a propó- 
sito, as notas manuscriptas citavam e transcre- 
viam como illustração muitas Coplas, Romances 
e trovas antigas e até Propliecias, como as de 
Bandarra, fielmente copiadas, asseverava elle, de 
Mss. antigos que tivera era seu poder na Irlanda 
e em Portugal, franqueados uns por Judeus por- 
tuguezes das familias emigradas^ outros havidos 
das preciosas collecções que d'antes se conserva- 
vam com tão louvável cuidado nas livrarias e 
cartórios dos nossos fidalgos. — Foi-me logo con- 
fiada a inestimável descoberta; percorri com avi- 
dez aquellas notas, examinei-as com escrupulosa 
attenção e extractando uma por uma quantas 
Coplas, Cantigas, Xácaras achei completas e in- 
completas; accrescentei assim os meus haveres 
com umas cincoenta e tantas peças, d'ellas ano- 
nymas e verdadeiramente tradicionaeS;, d'ellas de 
auctores conhecidos e que nas edições das suas 
obras se encontram — taes como Bernardim Ri- 
beiro, Gil Vicente e Rodrigues Lobo, mas que 
differiam das impressas, consideravelmente ás ve- 
zes, muitas até na linguagem da composição, 
pois que algumas vezes ali achei em portuguez, 
e manifestamente antigo e da respectiva época, 
as quaes só andavam impressas em castelhano. 
Com este auxilio corrigi de novo muitos dos 
exemplares que já tinha e completei alguns fra- 
gmentos que já desesperava de poder nunca vir 
a restaurar. » (Rom., t. i, p. xi.) Os Romances 
restaurados pela lição do Cavalheiro d'01iveira, 
são Dom Aleixo, Dom Gaifeiros, Dom Duardos 



SEGUNDA Época: os árcades 67 



originalmente escripto em castelhano, mas colli- 
gido da traducção oral açoriana em portuguez, e 
o principio do Marquez de Mantiin de Balthazar 
Dias; são estes os especialmente notados por Gar- 
rett; a proveniência de alguns d'esses cantares 
tradicionaes colligidos das familiaí-: dos Judeus 
portuguezes de Arasterdam coraprova-se agora 
com as excellentes collecções dos romances dos 
Judeus levantinos já hoje impressos nas collecções 
hespanholas, e que tanto vivificam a tradição 
portugueza. 

AS GAKTAS DO ABBADE ANTÓNIO DA COSTA 

Nos escriptos do celebre musicographo inglez 
Burnay, sobre o estado da musica na AUemanha, 
depara-se a noticia de um portuguez totalmente 
desconhecido entre nós. que era extraordinaria- 
mente admirado na alta sociedade de Vienna em 
1772 pelo caracter tão independente como o de 
Rousseau, e pela originalidade do seu génio ar- 
tístico. O retrato que d'elle faz o erudito Burnay 
revela um typo notável, que honrou bastante o 
nome portuguez, e provoca um vivo desejo de 
onhecel-o de mais perto; apenas se sabia que se 
chamava António da Costa, mas em Portugal 
nem o seu nome se conservava na tradição da 
arte r cional. Na Bibliotheca de Lisboa encon- 
trou j dr. Ribeiro Guimarães um manuseripto 
doado pelo antigo l)ibliothecario Doutor António 
Ribei.n dos Santos com o titulo : Cartas curiosas 
que escreveu António da Costa de varias terras 
por onde andou a varias pessoas da cidade do 
Porto, (iv p. iim. 110 p. in-4.") O dr. Guimarães 
era bastante curioso de documentos históricos 
para deixar de explorar o conteúdo d'estas Car- 



68 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tas, e lendo-as não poderia resistir á seducção 
crescente que ellas inspiram pela franca lingua- 
gem em que se revela um caracter verdadeira- 
mente extraordinário. As Cartas haviam sido 
transcriptas pelo sábio Ribeiro dos Santos, umas 
de copias secundarias e outras de autographos, 
d'onde se vê que ainda no fim do século xviii se 
conservava entre alguns indivíduos do Porto me- 
moria de António da Costa, e se sabia apreciar a 
sublime originalidade d'aquelle caracter. Da cora- 
municação do achado de Ribeiro Guimarães ao 
sr. J. de Vasconcellos, veiu para este ultimo o 
ensejo de verificar se o auctor das Cartas era ou 
não o typo descripto por Burnay, e do resultado 
affirmativo seguiu-se o dever de publicar essas 
Cartas, não só como um monumento autobiogra- 
phico do grande artista sobre quem pezava ura 
injusto esquecimento, como de dotar a litteratura 
nacional com as paginas mais vivas que possue 
a lingua portugueza do século xviii '. Foi um du- 
plo serviço; podem exaltar as Cartas de Beckford, 
mas as de António da Costa são ainda mais bel- 
las, mais cheias de traços de uma individualidade 
exclusiva. 

Na época em que o Abbade Costa viveu acha- 
mos apenas um caracter histórico capaz de nos 
fazer coraprehender pela comparação o seu supe- 
rior desinteresse; é o auctor do Projecto da Paz 
universal, o predecessor dos Economistas, o 
Abbade de S. Pedro; em quanto á franqueza das 
ideias e do seu criticismo é elle um digno con- 



1 Cartas curiosas do Abbade António da Oosta. 
Annotadas e precedidas de um ensaio biographico por 
Joaquim de Vasconcellos. Porto, Imprensa Litteraria 
Commercial, 187y. 1 yol. in-8.° xxvi— 80 p. e 22 de notas. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 69 



temporaneo de lord Bolingbrocke, o que inspirou 
a Voltaire a liberdade de pensamento, e a Pope 
a Oração universal. O Abbade Costa merece ser 
conhecido como artista e como escriptor, mas o 
homem que sobresáe das suas Cartas é ainda 
mais sympathico. Tiraremos das treze Cartas que 
chegaram até nós os elementos biographicos que 
se entremeiam por ellas. 

O Abbade Costa nasceu na cidade do Porto 
no anno de 1714; esta data, importante para de- 
terminar o meio social em que se desenvolveu, 
acha-se determinada por quatro passagens das 
suas Cartas; em 20 de maio de 1754 escrevia: 
«e eu como já passo dos quarenta» (p. 35); re- 
petindo outra vez: <f^vi-me com quarenta annos, 
e com uma inclinação natural desde criança á 
vida descançada e retirada de todas as arengas 
do mundo ...» (p. 40.) Em outra carta ao seu 
amigo, o dr. Luiz Gomes da Costa Pacheco, da- 
tada de 30 de agosto do mesmo anno, allude mais 
uma vez á sua edade : « Saiba y. M. que cheguei 
ao banco auctorisado dos quarenta; louvado seja 
Deus! que já somos homens, e largamos os cuei- 
ros para sempre. » (p. 48.) Por ultimo, em outra 
Carta ao citado Doutor, de 24 de dezembro de 
1774, enviando-lhe o seu retrato, accrescenta: 
«na edade de vita hominis sexaginta annis;> 
e termina com um certo bom humor: « peço-lhe 
que se fartem de rir, como eu faria, se visse os 
seus retratos com o accrescentosinho de vinte e 
cinco annos.» (p. 68.) Se a data da saída de Por- 
tugal não estivesse bem authenticada em uma 
outra das suas Cartas, por esta se determinaria 
com certeza o anno de 1749. 

António da Costa era filho de um negociante 
do Porto, de pequeno trato, e cuja fortuna se 



70 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



achou arruinada; tinha um outro irmão, bastante 
dissipado de costumes, e elle próprio tentou pri- 
meiramente dedicar-se ao commercio antes de 
começar a condescender com os amigos de sua 
famiha que o persuadiam com instancias que se- 
guisse a vida ecclesiastica. Na Carta ix diz, allu- 
dindo aos bens que deixara o irmão: « Sei que 
d'essas poucas terras, se ainda eram suas_, se 
assenhoreariam os credores antigos da casa. . .» 
(p. 69.) Na Carta x refere-se á mediocridade de 
meios de fortuna cora que nasceu : * mas vae 
grande differença de viver n'um estado pobre 
em que se pôde dizer se nasceu, e tornar para 
elle de outro menos pobre. » (p. 60.) 

Costa detestava a vida do commercio, como 
quem se vira condemnado pela familia a sacrifi- 
car-lhe a sua vocação artistica: « mas que geito 
tinha eu para mercador? Pouco desejo ou nenhum 
de riqueza; pouca habilidade para comprar; para 
vender não fallemos; pouca agilidade para acu- 
dir ás fazendas, a vêr umas, a acondicionar ou- 
tras, a surtir outras, e enfeital-as ; pouco animo 
para pedir dinheiro, para o arriscar em grande 
quantidade, e para o metter em negócios incer- 
tos, deixando-me ficar sem elle, em perigo de não 
ter com que pagasse as lettras que viessem sobre 
mim.> (p. 40.) 

Costa descreve todas as operações commer- 
ciaes que conhecia por ter vivido entre ellas ; e 
póde-se inferir que os seus primeiros annos foram 
passados na pratica do commercio, porque só isto 
é que explica o facto da sua viagem a França, 
alguns annos antes da saída definitiva de Portu- 
gal em 1749. D'esta primeira viagem, de que re- 
gressou ao fim de pouco tempo, sem que ella 
influenciasse no seu caracter exageradamente 



SEGUNDA Época: os árcades 



franco, escreve : «já quando da outra vez vim a 
França me deram pelo caminho mil arrependi- 
mentos da seccura com que muitas vezes tinha 
tratado, ao sr. Pedro Pereira, e fiz mil propósitos 
de me emendar quando lá chegasse; contive-me 
com trabalho os primeiros tempos, depois logo 
tornei ao meu natural. » (p. 39.) Esta circumstan- 
cia fundamenta o facto, de que foi depois do re- 
gresso de França que António da Costa viveu 
dois annos no Marco de Canavezes, porventura 
occupado no commercio : « Eu pasmo ás vezes 
quando considero na moderação com que me 
havia nas conversações aquelles dois annos e 
meio que estive em Canavezes, e na imprudência 
com que vim a fallar diante de toda a casta de 
gente pelos annos adiante. » (p. 39.) Estes dois 
annos e meio devem fixar- se antes da saída defi- 
nitiva de Costa em 1749, e a começarem depois 
da primeira viagem de França; portanto esta não 
deveria ter sido anterior a 1745, e póde-se mesmo 
inferir que foi esta primeira viagem que lhe des- 
pertou o desejo de subtrahir-se um dia ao meio 
asphyxiante da sociedade portugueza catholico- 
cesarista. Os amigos de Costa, conhecendo o seu 
natural sincero, desinteressado e com profundas 
faculdades artísticas, empenhavam com elle to- 
dos os esforços para que se fizesse padre ; era o 
caminho mais seguro para se precaver contra as 
ciladas do Santo Officio, e para se elevar pelo 
talento musical, porque então D. João v dispen- 
dia rios de dinheiro com as pompas exteriores do 
culto. António da Costa chegou a receber as pri- 
meiras ordens ; na Carta vi o declara : « Nunca 
fallo n'este ponto de demissorias que me não lem- 
brem os argumentos ou as perseguições com que 
me apertava o sr. Fernandes^ com tanto zelo, 



72 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



para que me acabasse de ordenar, pondo-me o 
caso em escrúpulo de consciência; o magano pa- 
rece que adivinhava a minha transplantação para 
Roma, onde não é máo ser clérigo para um caso 
de necessidade, e é certo que, se eu o fosse, es- 
cusava de andar até agora a buscar modos de 
viver por rebecas, francez (que até mestre de 
francez fui aqui de dois portuguezes !) e outras 
jangadilhas bem contra o meu génio ; conheço 
que n'este sentido tinha mil razões; mas que lhe 
hei de fazer, se me não vinha a cubica dos tos- 
tões das missas, nem adivinhava o que me havia 
de succeder?* (p. 37.) O que succedeu foi o ter 
de sair repentinamente de Portugal, a pé, pelo 
caminho de Galliza, porventura para escapar a 
alguma perseguição. E' este o principal problema 
da sua vida. 

Porque motivo saiu António da Costa do seu 
paiz, sem recursos, entregue a todas as inclemên- 
cias da sorte? Aqui dividem-se as opiniões; seria 
António da Costa christão novo, e como tal sus- 
peito de mancha de judaísmo? O nome de Costa 
é peculiar de famílias de origem judaica; o abbade 
ridiculisa por vezes o preconceito dos portugue- 
zes por trucidarem estupidamente esses pobres 
christãos que em Roma eram tão bem conceitua- 
dos; mas nada justifica que fosse este o motivo 
da sua fuga, porque seu irmão morreu por causa 
de uma vida dissoluta sem que nunca fosse in- 
commodado pelo Santo Officio. 

O caracter de António da Costa, franco na 
linguagem, um pouco raciocinador em uma época 
de intolerância religiosa e de obscurantismo sys- 
tematico, qualidades de que adverte os amigos 
para se absterem com reserva, posto que contri- 
buísse para lhe difficultar a vida em um meio tão 



SEGUNDA Época: os árcades 73 



deprimente, não basta para explicar a sua fuga do 
Porto. Se lhe houvessem tentado qualquer começo 
de perseguição como livre pensador, ter-lhe-ia sido 
impossível obter as cartas demissorias do bispado 
do Porto para poder receber em Roma as ordens 
sacras e fazer-se clérigo de missa. Isto é obvio. 
Para nós o motivo é outro ; basta descrever o 
seu caracter impressionista, o meio artístico em 
que vivia, emfim as condições da sua mocidade, 
para procurar o motivo da saída repentina de 
Portugal como produzido por intriga de amores. 
Na mesma Carta vi, em que Costa descreve a 
reluctancia em que estava, resistindo ás mais 
apertadas instancias dos amigos para completar 
as ordens, allude também á influencia de certa 
pessoa, que assim como por causa d'ella se não 
ordenava, também se com ella houvesse fallado, 
não se homisiaria no estrangeiro. Nem de um 
nem de outro facto se arrepende; se tivesse fal- 
lado com essa pessoa não teria deixado a pátria, 
mas não se ordenava; é assim que entendemos a 
collisão dos dois motivos que se debateram na 
determinação da sua vontade. Eis o texto, que 
melhor se coraprehende recordando que António 
da Costa tinha trinta e cinco annos de edade, 
quando tomou a resolução inconsiderada de sair 
do Porto : « O mais é que nem agora^ depois que 
conheço quam prejudicial ao meu descanço e 
modo de viver foi o não me ter ordenado, me 
arrependo nem pouco nem muito de o não ter 
feito, assim como também me não arrependo de 
não ter fallado com uma pessoa, por cuja porta 
passei quando saí d'ahi, ou ao menos lhe vi a 
casa; que era a mesma pessoa que me fez sair; 
desejava fallar-lhe; podia-llu' fallar n'aquella occa- 
sião; já então esperava que me serviria de umito 



74 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O fallar cora ella; e hoje, pelo que soube aqui, 
entendo que o mais certo era não sair de Portu- 
gal se lhe fallava.» (p. 38.) Havia já cinco annos, 
que António da Costa estava ausente de Portu- 
gal; isto que relata, escrevia-o ao seu intimo 
amigo o dr. Luiz Gomes da Gosta Pacheco, 
grande amador de operas e comedias, satyrico de 
costumes^ bailador de minuetes, em cuja casa se 
davam excellentes concertos. 

O Doutor conhecia o caracter amoroso e apai- 
xonado de Gosta, como este se retrata: «Quando 
eu era rapaz, o amor e outras algumas paixões 
que me, moviam, me faziam muitas vezes arre- 
pender dp algumas cousas; etc.» (p. 38.) A edade 
dos quarenta annos, como Gosta a define, era 
aquella em que se deixava os cueiros de vez; 
por isso não erraremos em considerar como causa 
de se não ter ordenado e de haver deixado o 
Porto uma questão de amores. Sabendo-se como 
Costa era inconciliável com a necessidade da ba- 
julação, resistindo até ao heroísmo, como nos pri- 
meiros annos da sua vida em Roma, bastava uma 
simples recusa da parte da familia da mulher que 
elle amava para quebrar para semipre qualquer 
ideia de dependência, ainda mesmo que lhe cus- 
tasse a vida. Isto provou-o na sua vida desinte- 
ressada e isenta nas grandes capitães da Europa, 
onde os príncipes o cortejavam para obter, tantas 
vezes debalde, a attenção do pobre artista. 

Precisamos accentuar o caracter de António 
da Costa, como o orientador da sua vida, e re- 
compor a melhor parte da sua mocidade no Porto, 
para conhecermos o meio artístico d'onde saiu. 
Gosta retrata-se com. traços espontâneos: «o meu 
natural, que certo em muitas cousas é bem esqui- 
patico, e contra o comraum do que se vê nos 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



homens; não por estudo ou affectação, senão por- 
que já nasci com estas inclinações, ou ao menos 
as tenho desde que me entendo, e sempre senti 
que se me foram cada vez arreigando mais no 
coração com os annos.» (p. 38.) Condemna em si 
próprio a sua «demasiada seccura e aspereza, ou 
outros erros semelhantes que em si mesmo são 
cousa má, como abrir a todos o meu peito com 
demasiada sinceridade, dizer aos outros os seus 
defeitos na cara, sem mais rodeios nem voltinhas, 
etc. Ora supponhamos que me nascia esta grande 
liberdade no fallar por eu sentir que me não mo- 
viam a isso paixões, senão o amor da virtude e o 
aborrecimento do vicio ; poderei deixar de conhe- 
cer (e sempre o conheci mais ou menos, que é o 
peior) que era uma imprudência despropositada? 
— Uns homens têm uns defeitos, e outros, outros; 
eu tenho os meus. Se não faço mal aos homens 
por andar atraz das honras e do interesse^ faço- 
l!i'o pela minha imprudência e demasiada austeri- 
dade, e outros desfaropatorios semelhantes. Não é 
pouco que eu ao menos me conheça, ainda que 
bom seria que também me emendasse como de- 
via; maS; como já disse, não está na minha mão.» 
(p. 39.) Costa attribuia este seu caracter ao 
«■pouco caso que» eu fazia de quanto tinha apren- 
dido, e de quanto aprendem os homens, e do 
grande desejo que sempre tive de ver homens 
que dissessem e fizessem o que entendiam, e que 
não fallassem, nem se metlessem a fazer nada, 
quando não entendiam nada. ^ íp. 39.) Era uma 
natureza espontânea, assim um pouco á Neven de 
Uaineau, um caracter um tanto parecido com o 
musico Berlioz; esto caracter devia determinar- 
Ihe os principaes actos da sua vida, taes como a 
saída brusca de Portugal, e o al)andono do pro- 



76 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



jecto de fixar-se definitivamente em Inglaterra e 
não era Roma. (p. 40.) 

Pelas Cartas de Costa se pode recompor o 
meio artístico em que vivera no Porto até 1749, 
e até certo ponto a vida da mocidade a cuja ge- 
ração pertencia. Explicando o gosto musical dos 
portuguezes, diz : « naturalmente são inclinadis- 
simos a ouvir tocar cousas bonitas, suaves e de- 
licadas, mas de ordinário não sabem qiiasi nada 
da Arte, porque não se applicam a conhecel-a. 
V. M. bem sabe que a espada e os amores levam 
quasi todo o tempo aos portuguezes emquanto 
são moços.» (p. 16.) Vivia-se ainda em Portugal 
com o platonismo do século xv, de um petrar- 
chismo extemporâneo, e com a valentia do sé- 
culo XVI imitada dos temerones de Hespanha. 
O exemplo partia de cima; D. João v era um 
Lovelace ideal, e o príncipe D. António ura tu- 
nante de marca. Os bailes francezes e as modi- 
nhas brazileíras facilitavam uma sociabilidade que 
o génio serumbatico portuguez chamava com 
desdém estrangeirismo. Em um paiz em que do- 
minava o fanatismo, o culto tornou-se também 
sensual; nas egrejas representavam-se Oratórias 
tão boas como as operas italianas. Um dos com- 
panheiros de Costa n'esta sua vida de amores, 
de theatro, de saráos e festas de egrejas, era o 
Dr. Luiz Gomes da Costa Pacheco, a quem elle 
ainda de Roma pergunta: «as funcções de Mar- 
tinho Velho bera sei eu que estão acabadas; diga- 
me em que alturas está era matéria de vita et 
morihus, e se lhe vera ainda alguns longes de 
desejo de sermão, ou de poesia, ou de bailar o 
araable, que se o faz ainda é signal que ainda 
tem alguma substancia, e que ainda se não pode 
dizer que já está acabado.» (p. 36.) 



SEGUNDA Época: os árcades 77 



Podemos saber quem era este letrado, o Dr. 
Luiz Gomes, que até á morte foi sempre o amigo 
predilecto de Costa. Na Carta v, retrata-o: «V. 
M. foi sempre desde pequeno tão tentado com 
estas cousas (Operas e Comedias) . . . > (p. 24.) 
A mulher do Doutor, D. Quitéria, também era 
apaixonada por musica, e de Roma lhe enviara 
Costa algumas composições, (p. 47.) Queixando- 
se da impossibilidade de humor para bajular po- 
derosos, elle escreve ao velho amigo, alludindo 
talvez a um dos seus antigos amores : « e sabe 
muito bem que vae grande differença de eu po- 
der viver muitos annos em boa harmonia com 
uma rapariga portugueza, que não pretende nada 
de mim, e me deixa de coração em toda a minha 
liberdade, a saber tratar um amo . . . > (p. 63.) 
A paixão que Costa conservou sempre pelas por- 
tuguezas em geral, dando-lhes vantagem sobre 
as italianas, allemãs e francezas, ajuda a dar 
corpo a esta allusão amorosa; parece pelas suas 
palavras que conservou uma correspondência di- 
recta com essa a que eile chama — Ager hacel- 
dama — talvez pelo motivo dos desgostos da sua 
vida: « vSempre me tem esquecido dizer-lhe uma 
cousa: aquelle Doutor, em que já lhe fallei que 
foi um dos namorados de M. M. M. hoc est — 
Ager haceldama — » ... (p. 5.) Na época dos seus 
amores Costa foi perturbado por outros rivaes, e 
foi talvez pelo despeito de algum pretendido casa- 
mento da que namorava, que desertou do Porto. 
A sua reluctancia em tomar ordens maiores pro- 
viria d'esses amores. Costa cultivava já a musica 
com o affinco exclusivo do amador; frequentava 
a convivência de alguns amigos, também distin- 
ctos; a nmsica era uma necessidade do culto e da 
distincção profana; os padres (la Companhia da- 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vam largas á sua liturgia espectaculosa com Ora- 
tórias cantadas na canonisação dos seus, santos. 
Fallando da Opera em Roma, diz elle: «As vezes 
tenho comparada uma opera d'estas com a tra- 
gedia que fizeram os Padres da Companhia na 
canonisação dos seus santos, e não sei se lhe diga 
que antes a veria hoje do que uma opera.» (p. 27.) 
Um dos amigos Íntimos de Costa era João 
Peixoto, a quem elle era uma carta de Roma 
chama « capador insigne » (p. 6), isto é, seductor 
uzeiro e vezeiro; João Peixoto tocava trios com 
um excellente solista de rebeca, António Nunes, 
(p. 9) e o Costa, e em sua casa se reunia também 
o Dr. Luiz Gromes, que eram os da palesira. 
(p. 9). João Peixoto apresentara em casa de Hen- 
rique Verne, já notável pelo seu talento, o joven 
Costa (p. 8) e ali se encontrou com um capitão 
inglçz, que tocava admiravelmente viola. Parece 
que os dois artistas se comprehenderam, porque 
passados annos, quando Costa se achava em 
Roma, vivendo em uma extrema indigência^ teve 
ideia de ir viver para Inglaterra, e procurou sa- 
ber o nome do capitão inglez, com quem tratara 
no Porto. A musica era cultivada com esmero no 
Porto, e pela Carta v se sabe que alli se chegou 
a representar uma Opera^ composta por um frade 
de S. Domingos: «ps vestidos dos homens são 
pelo estilo dos que V. M. ahi viu era S. Domin- 
gos, na Opera portugueza que fez Frei xVnto- 
nio...» (p. 25.) As pessoas da palestra musical 
eram, além das que já citámos, José Lopes, João 
Alves Nogueira, e Santos; entre elles o grande 
mestre de rebeca, era António Vieira : « Ah ! 
Vieira^ onde estás ! . . . Vieira com os olhos fe- 
chados pode ensinar musica e bom gosto a Brba.;> 
(p. 11.) «Chamara cá a estes dous tocadores (Ghi- 



SEGUNDA Época: os árcades 7'j 



larducci e Erba) de que lhe tenho fallado_, os 
dois violinos primos de Roma, nem mais nem me- 
nos, como Vieira e José Caetano.» (p. 11.) Outros 
artistas figuravam n'este tempo no Porto, como 
D. Pedro (p. 14j, e estes que cita na sua Carta: 
«Antes o que creio quasi como certo é que ne- 
nhum italiano depois de taludo poderia aprender 
a tocar um minuete, ou outra cousa como lá toca 
(não (ligo a V. M.) Vicente, Thomaz Rocha, Tho- 
maz Cypriano, como tocava António Aniceto, 
Simão e o celebrado Cranner, etc. Certo que me 
parece impossível que nenhum tinha gosto para 
conhecer aquelle geito com que lá concertam as 
mãos, e vão pulsando as cordas com aquella certa 
graça; ora se o não conhecerem, como o hão de 
imitar, e por fim aprendel-o? V. M. reparará em 
eu metter no rol Thomaz Cypriano ? tem razão ; 
mas foi porque cá tocam o cravo pelo mesmo 
modo que a rebeca. . . » (p. 15.) 

Preoccupado com amores e musica, António 
la Costa mal teve tempo de completar os estu- 
dos para clérigo; foi com esses parcos conheci- 
mentos humanistas que se encontrou nos transes 
difficeis de sua vida, o a sua animadversão con- 
tra o saber especuhxtivo e exagerado fanatismo 
pelos livros, que sempre conservou, leva-nos a 
inferir, que elle não era um livre pensador, eque 
a sua saída de Portugal não deve attribuir-se a 
uma perseguição religiosa. Os seus amores é que 
lhe fizeram addiar indefinidamente a ordenação; 
o seu caracter isempto e inconciliável é que fez 
com que por qualquer insign.ificante despeito amo- 
roso abandonasse para sempre a sua pátria. Con- 
tava então trinta e cinco anno&: tinha mãe viva 
ainda, e seu irmão administrava a pequena casa 
que veiu a arruinar por causa dos seus excessos 



SO HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



com mulheres, morrendo também prematura- 
mente. Foi nos fins de março de 1749 que elle 
abandonou o Porto, seguindo a pé para a Galliza, 
e d'ali para Castella, caminho de França até che- 
gar a Roma. Em uma das suas cartas aUude aos 
cantares do Minho, que «a cada flóreo que fazem 
parece que querem quebrar as cordas ou arran- 
car o cavallete.» (p. 14.) Emquanto se demorou 
na GalHza, Costa serviu-se do seu talento da re- 
heca. para resistir ás asperesas da situação des- 
provida em que se achava; em Santiago tomou 
:amizade com o sobrinho de um cónego, que era 
tentadissimo com a rebeca (p. 10), e talvez lhe 
devesse por isso pousada e cartas de recommen- 
dação para Castella; mais tarde foi encontral-o 
em Roma tomando lições do violinista Erba. Em 
uma carta a João Peixoto, de quem se não des- 
pediu, conta algumas peripécias de sua jornada 
aventurosa, que em uma carta ao dr. Luiz Go- 
mes (de julho de 1749, perdida) descrevia mais 
miudamente. Eis alguns traços bastante pittores- 
cos d'essa viagem estouvada: «Até Galhza vim a 
tremer com medo de que me seguiriam. Em Gal- 
liza passei tristemente, sempre na duvida se es- 
taria ali seguro ou não; até que me desenganei 
de que me era forçoso sair de Hespanha. Pedi 
um passaporte em Santiago, e não m'o deram por 
não mostrar outro. Não tive remédio senão met- 
ter-me a caminho sem elle. Em Castella, ao pé 
de uma cidade que chamam Santo Domingo de 
la Calçada, quiz-me prender um official, e d'ali 
por diante vim sempre esperando todos os ins- 
tantes o metterem-me n'um castello ; assim vim 
atravessando a França quasi até ao fim, quando 
me começaram a perseguir por passaporte, e duas 
vezes estive prezo, se não foram as minhas men- 



SEGUNDA Época: os árcades 81 



tiras, que me fazia dizer a necessidade. Tornei 
para traz trinta léguas onde havia uma grande 
feira, que me tinham dito que estavam lá ingle- 
zes que haviam de vir á Itália; mas não achei 
nenhum que quizesse fazer tal jornada. Emfim, 
senhor, eu não posso dizer n'uma carta o que 
passei em quatro mezes e tanto de vida de no- 
vellas ; por isso só lhe vou dizer duas palavras de 
substancia. Alcancei um passaporte com muitos 
trabalhos, vim andando com calmas, fomes, sedes, 
suores, cançassos e outras misérias, até que che- 
guei a Roma a vinte e três de agosto pela ma- 
nhãsinha.» (P. 1 e 2). Por este trecho se vê que 
partira do Porto por fins de março, e que a vida 
aventurosa de novellas foi durante abril, maio, 
junho e julho. Costa, lembrando-se da Índole do 
seu amigo João Peixoto, «capador insigne», dá- 
Ihe logo a seguinte noticia: «As mulheres são- da 
cor das portuguezas, formosas, alegres, e póde- 
se-lhe cá chegar muito melhor do que lá.» (p. 2). 
Porém logo na primeira carta ao amigo lem- 
bra-lhe que é preciso ser muito reservado na lin- 
guagem: «Aqui entra toda a substancia da minha 
carta: Sr. João, um conselho, que lhe quer dar 
ura homem que naturalmente sempre foge de 
dar conselhos inda quando lh'os pedem. Vem a 
ser que trabalhe comsigo quanto podór para mo- 
derar a sua lingua. Veja as tolices e as velhaca- 
das dos homens, mas não dê a entender que as 
conhece por modo nenhum; tape a bocca e fuja 
d'elles; senão mais hoje, mais amanhã lhe succe- 
derá o que me succedeu a mim. Perder a sua 
terra, os seus conhecidos, as suas. . . e dar em 
uma cadeia de misérias continuadas, que V. M. 
nunca passou na sua vida.» (p. 4). Em uma carta 
ao dr. Luiz Gomes, diz : « Quando lhe escrevo a 

6 



82 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



V. M. esta carta e outras semelhantes, é com a 
esperança de que V. M. as não mostre a outrem, 
para não me fazer mais ódio do que já lá me 
fazia. . .» (p. 28). D'estas passagens não ?f> pode 
inferir uma perseguição religiosa, mas sim uma 
certa indisposição com pessoas poderosas. 

Por novembro de 1749 encontrou Costa era 
Roma o sobrinho do cónego gallego, que era dis- 
cípulo do rabequista Erba: «Veiu aqui dar com- 
sigo poucos mezes atraz de mim, e mo agarrou 
de repente um dia na rua com um tal grito que 
me metteu forte medo, porque entendi que era 
outra cousa bem differente. » (p. 11) Costa refu- 
giara-se no Hospício de Santo António dos Por- 
tuguezes, onde apenas achou abrigo e a conver- 
sação de alguns patrícios; a sua vida era então 
de uma quasi extrema miséria. Na Carta a .João 
Peixoto descreve-a: «De mim não tenho que 
contar-lhe depois que estou em Roma; porque 
não faço mais que passear por essas ruas, e á 
noute vir-me deitar no Hospício e conversar com 
cousa de uma dúzia de portuguezes . . . Tenho 
feito diligencia para vêr se podia achar em que 
ganhar um par de vinténs a copiar, mas não é 
possível. Até hoje tenho passado com sete tos- 
tões, porque vendi as flvellas, e com seis tostões 
que dão de esmola a todos os portuguezes, e 
d'aqui paguei lavagem de roupa e comprei cor- 
das para a rebeca, mas sabe V. M. como passo? 
dez réis de pão ao jantar e dez réis á noite e se 
alguma vez comprei cinco réis de fructa era um 
banquete. Conto-lhe isto para que V. M. se con- 
sole das suas misérias pondo os olhos na minha; 
todavia eu me dera por contente se sempre pas- 
sasse como até aqui, mas o peior é que hoje se 
acaba o dinheiro e fico á providencia. » (p. 4). 



í 



SEGUNDA Época: os árcades 88 



Os trabalhos de copista em Roma eram encom- 
mendados por D. João v, para a Symicta luzi- 
tana, mas essa exploração estava acabada; a data 
d'esta carta é de 6 de outubro de 1750, e por- 
tanto este 'assedio da indigência durava desde 23 
de agosto de 1749, em que chegara a Roma. 
A sua situação porém não melhorava; debalde 
projectou ir estabelecer- se em Inglaterra, mas 
repugnava-lhe o comniercio, até que por fim re- 
solveu-.se a tomar ordens para se fazer padre de 
missa. (p. 40 e 41). O Dr. Luiz Gomes soccorreu-o 
emprestando-lhe algum dinheiro, (p. 46) e procu- 
rou obter-lhe cartas demissorias do bispado do 
Porto (p. 29, 30, 32 e 37). Costa fez-se conhecer 
e estimar pelo seu grande talento musical em 
casa do Cardeal Spinelli; acompanhou Nardini 
em quatro sonatas, (p. 12), frequentando os thea- 
tros^ ouvindo Gizziello e Cafarelli, e condemnando 
a insipidez da comedia dei arte, do génio italiano. 
Apesar do seu génio severo e franco, Costa 
podia abrir caminho em Roma; ali recebeu or- 
dens, achando-se já em 17Õ4 capellão do hospício 
de Santo António dos Portuguezes: «já estou ca- 
pellão de Santo António, de certos que chamam 
supranumerários, que não tem mais paga do (pie 
a casa, cama, quem lhe cosinhe e dez paulos 
cada mez com a obrigação de chzer cinco missas 
se é clérigo; esta foi a minha renda este mez, 
mas para o de junho me disse o governador que 
serei capellão numerário, que é o mesmo que ter 
a commodidade da casa e três escudos cada mez 
do coro, e três da missa. . ,» (p. 42). Parece que 
a este tempo ainda não havia recebido as demis- 
soria; . talvez por difnculdade das communica- 
ções. As cartas eram em geral levadas por Dis- 
pensantes, isto é, por procuradores que iam a 



84 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Roma com o encargo de negociarem dispensas 
canónicas, absolvições de peccados reservados; 
escreviam-n'as em cifra (p. 46) ou com nomes 
suppostos, porque em Portugal tudo servia para 
produzir uma desgraça de lesa-magestade divina 
ou humana: «se quizer que lhe escreva com mais 
liberdade me mande dizer um nome de mulher 
fingido, para lhe fazer assim o sobrescripto e lhe 
escrever dentro como a tal, para que, dado caso 
que a venham a ler, não saibam para quem ella 
ia. V. M. me avise quando tiver occasião ; e se 
quizer, para maior segurança, escreva o tal nome 
na cifra com que escrevia algum dia, que assim, 
ainda que a sua carta tenha descaminho, não en- 
tenderão. > (Ibid.) 

A vida de António da Costa era Roma com- 
prehende-se entre 23 de agosto de 1749 até 
pouco mais de 30 de agosto de 1754. As impres- 
sões novas em uma natureza tão irapressionavel 
como a sua, são relatadas aos amigos com uma 
espontaneidade que torna o seu estylo um primo- 
roso documento litterario. Transcreveremos esses 
traços descriptivos ,em que desenha Roma e a 
sua vida moral : « E muito grande, mas não en- 
fada andar por ella, porque é quasi toda plana. 
As ruas são formosissimas^ compridas, largas, di- 
reitas, limpas, cheias de palácios, de fontes pelo 
meio e pelas portas. A gente não é muita, pouca, 
assim como no Porto. As carroças também não 
são muitas; anda uma pessoa a seu gosto; atra- 
vessam-se os palácios e egrejas para sair de umas 
ruas ás outras; serve-se cada um pelas suas mãos; 
vai-se buscar pão, carne, fruta, peixe, tudo quanto 
é necessário. Os homens são pacificos e muito 
para a vida. As mulheres são de cor das portu- 
guezas, formosas, alegres, e pode-se-lhe cá chegar 



SEGUNDA Época: os árcades 85 



muito melhor que lá. Emfim, cá para mim, Roma 
é uma terra excellentissiraa, e o Porto não vale 
em sua comparação. Basta aqui uma casa de café 
ou uma loja, de barbeiro para ver a differença 
nas casas de cá ás de lá, no aceio e no adereço. 
Quem gosta d'isso e de pinturas e de estatuas, e 
de pedras preciosas, e de grandes edifícios não 
se pode sair de Roma. Que por mim também 
nunca d'aqui sahiria se tivera com que comera 
ura bocado de pão, não por gostar de vêr gran- 
dezas, mas pelas commodidades que vejo aqui 
para levar vida regalada e descansada.» (p. 2.) 
As difficuldades que António da Costa encontrou 
em Roma, vivendo primeiramente com o capital 
de sete tostões e entregando-se á providencia, 
acolhendo-se ao Hospicio de Santo António dos 
Portuguezes, resistindo á mais desprovida misé- 
ria, esperando conseguir as cartas demissorias do 
Porto para se poder ordenar de missa, as suas 
lições de francez, e o fazer-se conhecido pelo ta- 
lento na rebeca, resumem o ^eu esforço para as- 
segurar a permanência em Roma até ao ultimo 
quartel de 1754. Ainda n'este anno escrevia Costa 
sobre a resolução de se jlxai^ de vez em Roma : 
«Resolvi-me a ficar aqui em quanto não ha cousa 
que me obrigue a sahir, como houve lá. Já me 
importa pouco que seja assim a companhia d'estes 
clérigos de Santo António; jd me acho com va- 
lor para este ou aqnelle despropósito; porque 
em rezando ou cantando com elles no coro, não 
estou obrigado a mais ; metto-me na minha casi- 
nha, e ponho-me a brincar n'uraa viola, ou a 
olhar para os verdes, que tenho excellente vista 
da janella. . . » (p. 41). Por este trecho se vê que 
António da Costa não era indifferente aos des- 
propósitos dos clérigos do Hospicio, e ao despeito 



8tí HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que lhe causava a decadência do gosto musical 
em Roma, de tal modo que, quando era convi- 
dado para tocar em alguma Academia « vinha 
para casa como a noite e com a paz do coração 
derrancada ás vezes para um par de dias»; 
(Ibid.) 

Já a rude inteireza do seu caracter^, e a aspi- 
ração a um elevado meio artístico se compraziam, 
n'esse meio artístico que lhe faltava em Roma, 
como elle o declara tão frequentemente nas suas 
cartas, criticando com mordacidade o systema ou 
estylo do canto italiano, as operas, os libretos, a 
miséria do scenario, a irreverência das plateias, e 
ainda por ultimo o estylo dos violinistas, taes 
como Erba e Ghilarducci, que dominavam o en- 
thusiasmo do publico. N'ura momento inespera- 
damente viu-se Costa forçado a sair de Roma, 
apesar das explicações ou promettimentos do em- 
baixador portuguez, o visconde de Villa-Nova 
de Souto d'El-rei, Francisco de Almada e Men- 
donça. O caso era extraordinário; o embaixador 
de Portugal mandou affixar um edital para que 
todos os portuguezes que residissem era Roma 
se retirassem rapidamente! Em 1759 tinham sido 
expulsos de Portugal os Jesuítas, e o cardeal 
Razzonico, nepote do Papa, que os protegia, ía- 
zia sentir a sua má vontade ao governo de Por- 
tugal. Em 6 de Junho de 1760 declarou-se na 
corte o casamento da Princeza D, Maria cora seu 
tio o Infante D, Pedro, irmão do Rei; fez-se o 
casamento n'essa tarde na Capella da Ajuda, pelo 
Patriarcha Cardeal Gama, e não foi convidado o 
Núncio Accinoli, que foi expulso da corte, inti- 
mado a sahir em três horas e de Portugal era 
três dias. A retirada dos portuguezes de Roma 
era 1760 foi um acto de força de Pombal. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



O Abbade António da Costa teve de obedecer 
ao terrível edital; foi para Veneza, sendo de 22 
de Novembro de 1761 a carta que subsiste, tendo- 
se extraviado outras. Assim esse periodo què vae 
de 1754 a 1761 comprehende seis annos de vida 
pacifica em Roma e deixa de ser mysteriosa e 
enygmatica a sabida repentina, a que todos os 
outros portuguezes obedeceram, pelo confl.icto 
com a Guria ^ Bile teve de justificar aos amigos 
a sua instabilidade; em uma carta ao dr. Luiz 
Gomes declara-lhe: «V. M. terá gosto de ver que 
eu até agora sou o mesmo António da Costa 
duro que fui lá, e quanto se enganam os que cui- 
daram, talvez lá como em Roma^ que eu torcia 
as orelhas, e não me deitavam sangue, por não 
ter querido servir o sr. visconde de Villa-Nova, 
(Souto d'M-rei).» (p. 56). E quando mais tarde, 
em Paris, não acceitou a protecção do embaixa- 
dor D. Vicente de Sousa, também escreve: «Aqui 
pertence o eu ter recusado servir os dous senho- 
res, que V. M. sabe» (p. 61); «mas não foram es- 
tas considerações as que me arredaram de servir 
aquellas duas pessoas, em quem não via certa- 
mente senão muitos signaes de o serem muito de 
bem ; foi o considerar eu seriamente no meu prés- 
timo e no meu natural, e o parecer-me verdade 
clarissima o que sempre ate ali tinha entendido 
de não ter nenhuma capacidade para formar res- 
postas, dar parecer quando m'o pedissem, etc, 
sobre negócios do mundo, nem a minima sombra 
ainda da boa politica que é necessária para saber 



^ No opúsculo Triunfo delia Virtn, de Leonor da 
Fonseca Pinientol. ratificou este facto o nosso desgra- 
çado amigo Joaquim d'Araujo. 



88 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



conservar-se no agrado do amo, e das pessoas a 
quem elle desejaria que o criado agradasse. » 
(p. 62). O homem que tinha resistido a todos os 
desalentos da miséria, achava nas considerações 
dos fidalgos seus patrícios mais um pretexto para 
o seu isolamento; depois que o artista portuguez 
começou a ter em Roma a reputação bastante 
para ser convidado para as academias ou saráos 
musicaes do cardeal Spinelli, (p. 12) e mereceu a 
honra de acompanhar quatro sonatas ao eminente 
Nardini, então a maior gloria musica] de Roma, 
é que tardiamente o embaixador Francisco de 
Almada e Mendonça lhe prestava consideração, 
mui officialmente importante. 

O génio leva-o para o foco da maior activi- 
dade musical do século, para Vienna de Áustria; 
tendo-se fixado n'esta capital era 1772, depois de 
haver feito uma viagem a Paris, ao fallar d'esta 
viagem duas vezes allude á sua ida e regresso 
para Vienna antes de 1774; diz elle, acerca de 
D. Vicente de Sousa : « intentou primeiro raan- 
dar-me para Lisboa; e depois, ao mesmo tempo 
que eu lhe ia dando negativas, para o Porto, 
para Inglaterra (para onde eu queria ir quando 
parti para Vienna)» (p. 55). E ainda este outro 
facto: «e por saber que eu não tinha aceitado 
aqui uma carta de recommcM dação que me quiz 
fazer para elle o sr. D. João de Bragança, é que 
se esquentaria mais a sua generosidade»; {Ibid.) 
Por estas passagens se conclue que António da 
Costa partiu de Vienna, não tendo querido accei- 
tar do duque de Lafões uma carta de recommen- 
dação para o embaixador portuguez em Paris; 
é que ao sair de Roma em 1760 o seu intento 
era ir para Inglaterra, como em tempo revelara 
ao seu amigo do Porto. (p. 40). A attracção para 



SEGUNDA Época: os árcades 89 



a Inglaterra póde-se explicar pela influencia ex- 
traordinária que então exercia em Londres o gé- 
nio portentoso de Haendel com os seus Orató- 
rios; estas composições, executadas no Convent- 
Garden, sob a direcção, depois de 1751^ de Smith, 
discípulo de Haendel, fariam conceber a espe- 
rança de ser admittido e distinguir-se como vio- 
linista em Inglaterra, onde os grandes concertos 
musicaes estavam em moda na aristocracia. A pre- 
ferencia por Vienna pode explicar-se cabalmente 
pelo encontro com Gluck, o grande reformador 
da musica dramática, que em 1754 fora a Roma, 
onde escreveu a Clemenza di Tito e Antigono. 
A amizade de Gluck e o duque de Lafões, a cuja 
vontade Costa não sabia resistir, o antagonismo 
que Costa professava pelas doutrinas musicaes 
de Rameau, como notou Burney (ap. Vasc, em 
Bum. I, 257) e a convivência com o próprio 
Gluck em casa do embaixador inglez lord Stor- 
mont, são factos bem positivos para se inferir 
qual foi o impulso que levou por fins de 1761 o 
pobre clérigo portuguez ])ara Vienna, que Burney 
chama tão pittorescamente the imperial seat of 
masic. Quando Costa se achou em Paris antes 
de se fixar definitivamente em Vienna, diz de 
D. Vicente de Sousa: «e por fim quando conhe- 
ceu que eu queria deveras voltar para Vienna, 
quiz era todos os modos dar-me dinheiro para a 
jornada...» (p. 56). D'aqui se conclue que a 
viagem para Vienna em 1774 foi simplesmente 
um regresso. 

O silencio d'este período da sua vida, de 1754 
a 1761, pode explicar-se pela falta de communi- 
cações postaes, como elle mais tarde o declara, 
desculpando-se para com o dr. Luiz Gomes: «fa- 
cilmente lhe podia fazer o gosto de lhe escrever 



90 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



dilatadamente, porque o furor de fallar, quando 
não olho para as pessoas a que fallo, nem ellas 
para mim, ainda é como de antes; mas aqui não 
ha dispensantes que levem os maços ou livros, 
que eu lhe mandava por elles de Roma...» 
(p. 52). N'este período viveu António da Costa 
ignorado, assistindo ao movimento de transfor- 
mação artistica, conhecendo mas não querendo 
aproveitar-se do alto valimento do duque de La- 
fões, que era immensamente considerado em 
Vienna como um príncipe. Em casa do duque 
de Lafões reuniam-se as maiores summidades ar- 
tísticas; Gluck dedicava-lhe as suas mais revo- 
lucionarias composições, e é por isso que António 
da Costa consentiu em aproximar-se, sem quebra 
de independência, do sèu illustre conterrâneo. 
Em Vienna acolheu o artista o ecco das gigan- 
tescas reformas do marquez de Pombal, taes 
como a queda dos Jesuítas pela lei de 3 de se- 
tembro de 1759: «Quem, (se. diria algum dia) 
que o£ Padres da Companhia haviam de perder 
em pouquíssimo tempo o credito e auctoridade 
que tinham adquirido injustissimamente no mun- 
do, principiando dos príncipes a acabar no povo; 
e serem desfeitos inteiramente para sempre?» 
(p. 54.) E referindo-se á extincção das ominosas 
e fanáticas distincções de christãos novos e chris- 
tãos velhos, accrescenta: «E não obstante tudo 
isto e outras cousas incríveis, vemos hoje e ve- 
remos ainda mais, graças ao sr. Marquez de Pom- 
bal; pois assim, nem mais nem menos, o meu ne- 
gocio^ que algum dia era impossível de ajustar, 
agora se pode dizer fácil, ou ao menos tal o pa- 
receu ao sr. Visconde de Vílla Nova, quando se 
me offereceu em Roma cora a sua costumada ge- 
nerosidade para o fazer...» (p. 55.) Qual seria 



SEGUNDA Época: os árcades Ul 



este negocio não o podemos suspeitar, porque ao 
terapo que se achava em Roma ainda sua mãe 
não tinha morrido, e por tanto não consistiria em 
liquidação de lierança; levantamento de seques- 
tro também não era, porque não estava proces- 
sado pelo Santo Officio; suppômos que ainda 
seria o negocio das demissorias, que nunca che- 
gavam, e a que allude constantemente nas suas 
cartas. Ainda em 1754 escrevia de Roma: «Não 
tenho logar para lhe dizer senão que espero pe- 
las demissorias sem nunca chegarem; se V. M. 
puder concorrer para que ellas venham depressa, 
fazia-me grande serviço para me armar capellão.» 
(p. 29.) E no mesmo anno : « Tornando á demis- 
súria, monsenhor de Almada ^ me prometteu ha 
quasi um anno de escrever ao bispo governador 
d'ahi a pedir-lh'a, mas até aqui não veiu res- 
posta. . . » (p. 32.) E outra vez ainda, roferindo-se 
a outra carta: «N'ella lhe repetia a V. M. o im- 
pertinente ponto das demissorias...^ (p, 37.) 
E' possível que a difficuldade de obter do bispo 
do Porto as demissorias fossem provenientes dos 
escrúpulos da sentença de genere, em que appa- 
recessem parentescos de christão-novo; isto se 
justifica com a allusão ás reformas do Marcpiez 
de Pombal, e ao facto de se ter por i<so tornado 
fácil o ajustar esse negocio, annos antes im- 
possível. 

No periodo de. 1761, em que pela primeira 
vez reside em Vienna, António da Costa pouco 
se correspondeu com os seus bons amigos do 
Porto por falta de correios, e a sua vida não foi 



' Franoiscio do Almada e Mendonça, Visconde de 
Villa Nova de Souto d'El-Rei. 



92 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



menos dura do que no periodo subsequente, em 
que era procurado pelos príncipes e embaixado- 
res, não deixando por isso de ser o clérigo mais 
pobre de Vienna, tendo por único rendimento 
dois tostões por dia. Antes de entrarmos n'este 
segundo periodo, importa accentuar o facto da 
sua estada era Venesa por 1761; sabemol-o por 
uma carta sua de 22 de julho d'esse anno, ao seu 
bom amigo Pedro Pereira de Sampaio, postoque 
se houvesse perdido uma outra de data anterior, 
(p. 49.) A descripção que faz de Venesa, a sua 
topographia, o viver, os typos dos homens, acti- 
vidade mercantil, a illuminação publica, tem um 
vivo relevo, forma uma pagina que bem merecia 
ser transcripta; mas as noticias musicaes interes- 
sam-no muito mais, e pelas suas palavras inferi- 
mos que elle viera frequentar um dos celebres 
conservatórios de Venesa: «A musica da cidade, 
ou de Sam Marcos, é uma peste, mas ha quatro 
conservatórios, ou seminários, em que aprendem 
esta arte Piiellce Puellarum, que tocam como 
homens e cantam bellamente, especialmente no 
dos Incuráveis (todos estamos annexos a hospi- 
taes) onde ha uma tal gregheta, que me tem 
feito chorar algumas vezes com a graça e suavi- 
dade da sua voz; se eu fora a V. M., sabendo 
que havia algum navio em Lisboa para estas 
partes, embarcava-me e vinha ouvil-a.» (p. 51.) 
A actividade musical de Viènna, onde então vi- 
via Porpora, onde Gluck começava a revolução 
da musica, e despontava o génio de Haydn, esti- 
mularia porventura o enthusiastico António da 
Costa a vir aperfeiçoar-se a Venesa; o seu modo 
de fallar, referindo-se ao Conservatório dos Incu- 
ráveis « todos estamos annexos a hospitaes » só 
tem um sentido, e é que elle também o frequen- 



SEGUNDA Época: os árcades 93 



tava; a gregheta a que se refere é uma d'essas 
ciganas, ou grega, como ainda então se lhes cha- 
mava, que saíam das escholas de Venesa para 
deslumbrarem o mundo pelo canto e pela desen- 
voltura, como em 1770 a Zamparini em Lisboa. 
E' possível mesmo que esta cantora venesiana 
acceitasse o vir para Portugal por suggestão do 
abbade Costa. E' entre a saída de Venesa e a fi- 
xação definitiva de residência em Vienna, antes 
de 1772, que collocamos a viagem de António da 
Costa a Paris. O duque de Lafões offerece-lhe 
em Vienna («aqui» d'onde escreve) uma carta de 
recommendação para D. Vicente de Sousa, em- 
baixador em Paris, para onde Costa partira com 
intuito de ir para Inglaterra em seguida; (p. 55) 
parece que o clérigo artista viera por Strasburgo. 
E' difficil distinguir se Costa desejava ir para 
Inglaterra, quando saiu de Roma, se quando foi 
de Vienna a Paris ; propendemos mais para a pri- 
meira hypothese. Em 26 de junho de 1761 mor- 
reu o irmão primogénito de D. João de Bragança, 
D. Pedro, succedendo-lhe na casa e titulo de 
Lafões; depois d'esta data é que foram mais in- 
timas as relações do novo Duque com Gluck, que 
lhe dedicou a sua opera Paride ed Helena. 

O duque de Lafões, D. João Carlos de Bra- 
gança, era uma das grandes figuras da sociedade 
de Vienna, e desde 1767 a 1777 o seu palácio era 
o centro onde se encontravam os primeiros artis- 
tas do século, como Gluck, Metastasio, liasse, 
Faustina Bordoni, Burney o celebre critico in- 
glez, Costa e o próprio Mozart, recebido nos seus 
salões aos doze annos de edade. O duque de La- 
fões, que fundou em Lisboa a Academia das 
Sciencias, nascera a 6 de maio de 1719, sendo 
seu pae o infante D. Miguel, filho natural legiti- 



94 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



raado de Pedro ii e de D. Luiza Casimira de 
Sousa, primeira duqueza de Lafões e segunda 
marquesa de Arronches; D. João de Bragança 
frequentou a Universidade de Coimbra como por- 
cionista do collegio de S. Pedro, e depois da 
morte de D. João v, teve de sair de Portugal 
por ordem de el-rei D. José, a titulo de fazer aca- 
bar uma paixão amorosa que elle desapprovava. 
A princeza ? Viajou D. João de Bragança por quasi 
toda a Europa, França, Inglaterra e Itália antes 
de se fixar na Allemanha, sendo voluntário aus- 
tríaco durante a Guerra dos Sete annos, e distin- 
guindo-se na batalha de Maxen. Era amigo in- 
timo do rei-philosopho Joseph ii, com quem mais 
tarde veiu a relacionar-se o príncipe D. José, 
primogénito de D. Maria i, falecido prematura- 
mente. O duque de Lafões fixou a sua residên- 
cia em Víenna, em 1767, e pela queda do Mar- 
quez de Pombal (fallecimento de D. José em 24 
de fevereiro de 1777) regressou de vez a Portu- 
gal, E' presumível, que na sua viagem por Itália 
encontrasse em Venesa António da Costa, convi- 
dando-o a que o acompanhasse para Víenna em 
1767. O duque era um eminente amador de mu- 
sica; o erudito Burney chamava-lhe « nn excel- 
lent juge of music. » (i, pag. 255; ap. Vasc.) 
Gluck na sua dedicatória de Paride et Elena, 
era outubro de 1770, acha n'elle, « meno d'un 
Protettore, che un Giudice. Un anima sicura con- 
tro i pregiudizi delia consuetudine, sufficiente 
cognizione de gran principi delFarte, un gusto 
non tanto su'grand modellí, quanto suglí inva- 
riabíli fondamenti dei Bello e dei Vero^ ecco le 
qualítà chio ricerco nel mio Mecenate, e che 
rítrovo riuniti in V. K. * Este retrato do duque 
como artista, feito por dois homens eminentes 



SEGUNDA Época: os árcades 95 



como Burney e Gluck, explica-nos o apreço em 
que elle tinha o pobre clérigo António da Costa. 
Seria fácil attrahir desde 1767 a António da Costa 
para Vienna, como o primeiro foco de elaboração 
musical; mas o que lhe foi sempre impossível foi 
submetter esse caracter inflexível e melindroso a 
acceitar o seu dinheiro ou mesmo ainda o mí- 
nimo favor. O duque de Lafões é que se julgava 
favorecido era poder apresentar no seu salão o 
conterrâneo Costa, que nem uma simples carta 
de recommendação acceitava. 

A permanência de Gluck em Vienna attraíria 
ali António da Costa, e o faria entrar na convi- 
vência do duque de Lafões. Ignoramos a cir- 
cumstancia que o levou a emprehender a viagem 
a Paris. O embaixador portuguez em Paris D. Vi- 
cente de Sousa, poeta da Arcádia Lusitana, 
onde tinha o nome bucólico de Mirtilo, accolheu 
o pobre clérigo artista, que não quiz acceitar fa- 
vor algum do ministro. Nas suas cartas Costa 
falia de D. Vicente, como « um fidalgo da casa 
de Redondo e presente embaixador de Portugal 
em França, que quando eu estivo om Paris pro- 
curou de me tomar á sua conta e fazer bem com 
tal fogo e eíficacia, que não tenho palavras com 
que lh'o explique; isto sem eu pretender nada 
d'elle, nem ninguém lhe pedir por mim... » (p. 55) 
D. Vicente de Sousa também se offereceu para 
tratar do seu negocio, pedindo-lhe que se dei- 
xasse estar era Paris até chegar a resposta; não 
se trata n'esta vida de um artista verdadeira- 
mente heróico, de nenhum homisio por crime, 
nem de pretenção ambiciosa, como se vê pela 
sublime rudeza do seu caracter, e por isso insis- 
timos outra vez nas demissorias. Sem ellas o 
simples clérigo de missa não podia ter cargo de 



!)G HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



capellão ou qualquer logar na hierarchia eccle- 
siastica. A offerta de D. Vicente de Sousa « que 
me deixasse estar em Paris, senão em sua casa, 
em uma que me pagaria; e o comer, se eu não 
quizesse servir-me da sua mesa » bastou com cer- 
teza para elle não querer ficar em Paris o tempo 
sequer de uma ida e volta do correio a Portugal. 
Costa não queria contrair dependência moral de 
ordem alguma; D. Vicente offereceu-lhe recur- 
sos para o mandar para Lisboa, depois para o 
Porto, para Inglaterra, para Madrid; mas o pobre 
clérigo tinha já a nostalgia da arte, e não que- 
rendo esperar pela resolução do seu negocio, re- 
gressou antes de 1772 para Vienna. Então D. Vi- 
cente^ quando conheceu que elle só queria tornar 
para Vienna, empregou todos os meios para lhe 
dar dinheiro, pedindo-lhe por ultimo que levasse 
uma letra a cobrar em Strasburgo; (p. 56) «todos 
os verdadeiros intentos do sr. D. Vicente eram 
que eu estivesse em sua casa, e para que? Deus 
pergunte pelas suas causas. E é certo que elle é 
muito bem visto do sr. Marquez de Pombal, cujo 
segundo filho foi casado alguns annos com uma 
filha do sr. D. Vicente. » A impressão que Paris 
produziu n'aquelle espirito agitado pelo génio, 
foi muito má; a descripção da cidade plana, dos 
palácios escondidos para dentro de muros lisos, 
as egrejas pobres, as cadeirinhas de rodas puxa- 
das por homens esfarrapados «fazem fugir a gente 
com os olhos pela sua porcaria. » (p. 57.) « Os 
seus casquilhos tão louvados não apparecem, mas 
não andarão a pé como muitos de Lisboa andam; 
as mulheres fazem nojo; parece que todas trazem 
o peito emprastado, porque não somente não 
usam de espartilho, mas de vestidos tão largos, 
que poderiam metter uma criança entre elles e a 



SEGUNDA Época: os árcades 97 



carne; coifas, camisas^ vestidos, rnáos e tudo 
porco; pouco elevadas de juizo e menos ainda de 
coração; serias, tristes, etc. ; o mesmo digo dos 
homens com toda a sua leveza de juizo. » (p. 58) 
Mais tarde Mozart também veiu a ser duro na 
expressão dos seus desalentos em Paris. António 
da Costa resignou-se á miserável posição de clé- 
rigo pobre e voltou para Vienna. 

A primeira carta datada de Vienna d'Austria 
para o seu amigo Dr. Luiz Gomes é de 23 de 
julho de 1774, mas a sua residência é muito an- 
terior; no livro do musicographo Burney, The 
present state of Music in Gennany, Netherland, 
and the United Provinces, é que se acham as 
mais preciosas noticias sobre este extraordinário 
artista portuguez, que o erudito considerava tão 
original como Rousseau, mas com melhor cara- 
cter. No estudo do sr. J. de Vasconcellos, que 
acompanha a edição das Cartas Curiosas, a 
parte baseada sobre o livro de Burney é a mais 
interessante, e aproveitaraol-a na impossibilidade 
de alcançar o livro. Burney chegou em setembro 
de 1772 a Vienna; o Duque de Lafões, tendo-o 
encontrado em casa do embaixador inglez lord 
Stormont, fallou-lhe no celebre artista portuguez, 
caracter indomável, que vivia na convivência 
dos grandes génios musicaes da corte, sem accei- 
tar favores dos principes, simplesmente com os 
dois tostões da sua niissa, não pagando visitas a 
ninguém, embirrando que o louvassem, e detes- 
tando a musica da eschola de Rameau. M. d'x\n- 
gier, que conhecera em Portugal Scarlatti, tam- 
bém fallara com enthusiasmo no exquisito Abbade, 
de modo que o illustre musicographo inglez an- 
elava conhecel-o. O Duque de Lafões prometteu 
satisfazer esse empenho difficil, e trouxe o abbade 

7 



98 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Costa a um saráo musical em casa do lord Stor- 
mont; o facto de apparecer ali Gluck ao lado de 
Costa revela-nos o meio empregado pelo Duque 
de Lafões para o pôr em contacto cora Burney, 
Costa entrou na sala, onde já estava a melhor 
aristocracia de Vienna_, os Condes de Thun, de 
Briihl, o príncipe de Poniatowsky, e ao primeiro 
convite pegou na guitarra e tocou um andante 
e um presto, cuja originalidade, pela ondulação e 
pelo rythmo, impressionaram Burney, que trans- 
creveu os themas dos dois tempos. A' mesa Bur- 
ney achou-se intencionalmente collocado entre 
Gluck e António da Costa; imagine-se o erudito 
entre aquelies dois vultos, o fundador da musica 
moderna no drama, e o caracter original do ar- 
tista portuguez. Burney escreve : « todos três fal- 
íamos mais do que comemos. » Depois de jantar 
recomeçou o concerto, tocando Costa outra vez 
então na rebeca um duo, composição sua, com o 
violinista Stantzel, que este não pôde desempe- 
nhar. Passados dias, Costa procurou Burney, para 
lhe dizer que detestava os concertos com mais 
de dois ou três ouvintes, e convidava-o para ir á 
sua trapeira ouvir algumas peças de guitarra. 
Burney captou assim o génio indomável de Costa, 
que lhe serviu para relacional-o com outros ar- 
tistas, taes como Wagensell, Gassman, e vários; 
e emquanto se demorou em Vienna conviveu 
com elle, encontrando-se duas vezes em casa de 
Wagensell, e na despedida prometteram-se mu- 
tuamente, para alimentar a amizade, uma corres- 
pondência litteraria. Se não fossem as palavras 
que Burney consagra a este ignorado artista por- 
tuguez, palavras motivadas pela impressão que 
lhe produziu aquelle extraordinário caracter, o 
seu nome perder-se-hia na historia, e faltaria o 



SEGUNDA época: ()S ÁRCADES í)',) 



motivo para o fazer reviver pelas suas cartas 
A situação de Costa depois de 1772 até 1780, 
anno em que terminara as suas cartas, e em que 
se suppõe cora razão ter falecido, é profunda- 
mente desolada. 

A miséria trazia comsi^o a doença e o des- 
alento; em uma carta de Vienna, de 23 de julho 
de 1774, escreve para o Porto ao seu amigo 
Doutor : « acabou-se a minha saúde de vento em 
popa. » (p. 52. ) O pobre clérigo soffria de uma 
inflammação chronica da bexiga. Por outro lado, 
o seu amigo o Dr. Luiz Gomes não estava em 
melhor situação, achava-se paralytico. As noti- 
cias que o artista recebia do Porto eram também 
lamentáveis, morte de sua mãe e irmão, e dos 
principaes amigos: «As mortes de casa não me 
fizeram a grande impressão que V. M. temia; 
minlia mãe já ha muito que eu fazia de conta 
que ella não vivia, visto a sua edade e pouca 
saúde; quanto a meii irmão, também quasi que 
esperava que tivesse saído do mundo, porque 
ainda que parecia robusto, e se achava em annos 
de poder viver algum tempo, o seu grande des- 
governo com mulheres promettia o não chegar 
elle a grande velhice;» (p. 53). Pela morte do 
irmão, António da Costa pede ao Dr. Luiz Go- 
mes que lhe receba o seu património, a que o 
irmão sempre poz embaraços, para assim lhe po- 
der pagar o quanto lhe deve. O seu desprendi- 
mento por tudo, como mostrou em Roma com 
Francisco de Almada e Mendonça, em Vienna 
com o Duque de Lafões e em Paris com D. Vi- 
cente de Sousa, continuou sempre, apezar de se 
achar na extrema penúria. O filho do Dr. Luiz 
Gomes, Maimel Gomes da Costa Pacheco, conti- 
nuou a interessar-se pelo velho amigo de seu pae, 



100 HISIORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cultivando a mesma affectilosa correspondência; 
em carta de 4 de dezembro de 1779, Costa res- 
ponde-lhe a certas perguntas : «■ vamos ao que 
V. M. quer saber dos meus teres e haveres, que 
se reduzem todos a meio florira, (dois tostões) da 
missa, que me bastam, porque na nossa mão está 
o ser-nos necessário pouco ; quanto a essas casas 
e campos, ainda que eu soubesse que tinha grande 
justiça para pretender d'isso alguma cousa, não 
queria por nenhum modo demandas. > (p. 71). 
Já quando o seu velho amigo Doutor o convi- 
dava para regressar a Portugal, escrevia elle em 
24 de dezembro de 1774: <' com eu ser um dos 
clérigos mais pobres de Vienna, por não ter mais 
que a missa, posso passar aqui muito melhor que 
no Porto, pela conveniência e pela quietação: 
se eu quizer posso comer todos os dias em mais 
de uma casa, de modo que me ficam os dois tos- 
tões da missa para pagar a casa, que também 
podia ter sem dinheiro se quizesse, e para me 
vestir; e este ganho, sem mais trabalho que o de 
dez minutos de uma missa, e sem politicas nem 
rapa-pés, que antes na egreja me ficam obriga- 
dos; de modo que me fica todo o outro tempo 
livre para as minhas escrevinhaduras de musica 
e para beliscar com grande gosto na viola. » 
(p. 60). Costa referia-se sem duvida ás relações 
com o opulento Duque de Lafões, que tanto de- 
sejava auxilial-o. O retrato que o artista fez do 
seu próprio caracter é de uma encantadora es- 
pontaneidade: «é natura] ter-lhe chegado lá a 
V. M. aos ouvidos, como é de crer pelo que me 
sôa até ás vezes pelos meus, conA^ém a saber: 
que sou pobre, porque sou philosopho; que podia 
andar em carruagem; que podia ter thesouros, e 
outras cousas assim ; o que a V. M., com tudo 



SEGUNDA Época: os árcades 101 



que me conheça, não lhe parecerá talvez desti- 
tuído totahnente de fundamento; e por isso lhe 
direi duas palavras na matéria. . . Certo que te- 
nho estudado em musica mais do que ninguém 
poderá crer; bem; e então que se tira d'ahi? 
Que conheço mais de rebeca para tocar com 
companhia de modo que se deleite mais o ouvido 
que se faz ordinariamente, ainda pelos que tocam 
melhor este instrumento; que toco viola, dizem 
alguns que bem, por esses ares : e que componho 
para rebecas, viola, cantar, etc, dizem alguns 
também que com grande mestria, profundidade e 
até gosto; ora supponho que digam verdade, pa- 
rece-lhe a V. M. justo, como parece a tantos, que 
eu, que nunca suspirei por alcançar dinheiro e 
nome no mundo, me metta agora a isso, e á custa 
de fazer-me homem muito menos de bem do que 
sou, que por taes tenho eu todos os que andam 
mostrando as suas habilidades em publico ou em 
particular, quasi sempre a quem não entende 
nada das suas sciencias, arrastados vergonhosa- 
mente do interesse e vaidade que lhe roem o 
coração?-" (p. 61.) N'este estado moral António 
da Costa, apesar do seu génio, havia de cair na 
obscuridade; quem vê adiante tem de se impor 
ao seu tempo, e essa lucta é o maior estimulo 
para as creações da arte. Costa submettia-se ao 
juizo dos outros e não reagia, porque, «na rebeca 
ninguém quer ouvir senão moscas por cordas; 
quanto á viola os mesmos que gostam muito 
d'ella, confessam que a toco de modo que a pou- 
quíssimos pode agradar pela demasiada suavi- 
dade da voz que eu lhe tiio e das peças em si 
mesmas; das composições dir-lhe-hei somente que 
ninguém as sabe cantar, nem tocar. » (Ib.) Em 
uma sociedade, em que surgia Gluck e após elle 



102 HISTORIA DA LITTERATURA RORTUGUEZA 



Haydn, e despontava o génio pasraoso de Mo- 
zart, que vasto campo para o conflicto da con- 
cepção artística! Costa amesquinhou-se na sua 
lucta obscura com a miséria. Costa julgava a ri- 
validade como inveja, alludindo a um caso que 
lhe contara o mestre da Capella da Imperatriz; 
(p. 66) e por isso reduziu a arte a servir-lhe de 
consolação intima: repugnava-lhe o tocar diante 
de mais de três ouvintes, como confessou a Bur- 
ney. Em 1777 o Duque de Lafões deixara a so- 
ciedade de Vienna, regressando de vez a Portu- 
gal; em 1778 o seu amigo Dr. Luiz Gomes, já 
paralytico desde 1774, morreu; (p. 69) a saúde de 
Costa declinava a olhos vistos, sendo-lhe difficil 
escrever, (p. 70) chegando a noticiar ao filho do 
seu velho amigo : « Eu ceguei do olho esquerdo 
com uma cataracta, e, conforme o parecer do 
nosso lente oculista, cegarei cedo do outro_, de 
gotta serena.» (p. 72.) A sua ultima carta, de 7 de 
outubro de 1780, diante d'esta declinação pro- 
gressiva, seria talvez a derradeira que escreveu 
para Portugal, expirando ao abandono na sua 
agua furtada em Vienna. O filho do seu velho 
amigo offereceu-lhe casa no Porto, (p. 69) mas o 
velho artista levava a iserapção até ao heroismo. 
A situação de Portugal sob o intolerantismo 
ou rigorismo de D. Maria i não lhe era desco- 
nhecida: «V. M. saiba que quanto mais me afasto 
de Portugal, em mais horrendo conceito acho es- 
tarem os portuguezes era matéria de costumes. 
Chamam-nos aqui os homens mais bárbaros de 
todo o mundo, os mais odientos, mais vingativos, 
mais desconfiados, mais cruéis, e emfim de que 
se deve fugir como de uma nação de diabos, se 
a houvesse no mundo. » (p. 70.) No Discurso de 
inauguração da Academia das Sciencias o Duque 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 103 



de Lafões repete por outras palavras esta mesma 
accusação. Por ultimo Costa sabe que as cartas 
são abertas em Lisboa, na mesa da Inconfidên- 
cia, (p. 77) e diz com uma certa ironia ao filho 
do seu defunto amigo: «V. M. se vá regalando 
com essas beatices, que, quando parece que vão 
a extinguir-se em Portugal, revivera com mais 
força e maior descaramento ; » (p. 79) a esta re- 
crudescência do fanatismo sob o governo do Ar- 
cebispo Confessor, que imbecilisara D. Maria i, 
corresponde a fuga de Portugal dos maiores es- 
piritos, como José Corrêa da Serra, Pelix de Ave- 
lar Brotero, Filinto Elysio, a perseguição de José 
Anastácio da Cunha, de Mello Franco, de Bocage 
e de outros mais. N'este coro das victimas da 
obscuridade, surge o vulto do Abbade Costa, con- 
siderado por Gluck; perderam-se as suas compo- 
sições musicaes, mas a prosa das suas Cartas 
fixou a belleza typica da lingua portugueza. 

3.0 A baixa. Comedia e a Opera. — A Come- 
dia portugueza creada por Gil Vicente com os 
costumes e typos populares, que caracterisaram a 
burguezia, estacionou na forma rudimentar do 
Auto, pelas circumstancias sociaes que motiva- 
ram a invasão das Comedias famosas, no sé- 
culo xvn, pela introducção da Opera nos come- 
ços do século xvui, e pelas traducções das come- 
dias italianas e tragedias philosophicas francezas 
no fim d'esse mesmo século. A littoratura dramá- 
tica não podia florescer, porque faltava um thea- 
tro estável, sem essa miséria dos Gorros e Fateos; 
e ao génio artistico faltava essa independência 
moral que inspira a graça, e ao actor a digni- 
dade profissional, que o torna um interprete con- 
sciente, um creador. Persistiam ainda os velhos 



104 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Pateos do século xvi, como o Pateo das Arcas, 
Gil da Praça da Palha, e o Pateo da Bitesga 
ou da Mouraria, que vieram até ao anno do ter- 
ramoto ; eram occupados por Companhias volan- 
tes, de cómicos de la légua. Como explicar esta 
extraordinária persistência? Pela circumstancia 
de se tornarem os espectáculos theatraes um pri- 
vilegio do Hospital de Todos os Santos, pela con- 
cessão de licença, arrendamento e quota-parte 
nos lucros das recitas. Esta influencia caritativa 
rebaixava o theatro a uma exploração exclusiva, 
sem o mininio intuito de arte ; mas, sendo ura 
mal, era o único meio pelo qual o theatro resistia 
aos ataques da insânia theologica e da phobia 
catholica dos moralistas. 

a) O Theatro do Bairro AZío.^ Pelos do- 
cumentos de ordem administrativa do Hospital 
de Todos os Santos é que se conhecem factos 
concretos que envolvem a evolução do theatro 
portuguez. Desde 1588 até 1790 apparece o Hos- 
pital de Todos os Santos com o privilegio das li- 
cenças de espectáculo ' ; licenciava e contractava 
Companhias hespanholas, approvava a escolha 
das Comedias famosas com mais probabilidades 
de êxito, e cobrava dois quintos da receita. De 
um tal regimen resultava a depressão das voca- 
ções dramáticas, a esterilidade e quasi o apaga- 
mento do theatro nacional. A própria administra- 
ção do Hospital de Todos os Santos reconheceu 
que lhe era mais conveniente a estabilidade dos 
Pateos, e por escriptura de 9 de Março de 1591 
contractou com Fernão Dias Latorre a construc- 



1 Archeologia do Theatro por iuguez, por J. M. A. 
Nogueira. {Jornal do Commercio, n." 3736 e segs.}. 



SEGUNDA KPOCa: OS ÁRCADES 105 



ção de dois Pateos cobertos, com pedra de alve- 
naria e lavrada. Datam d'este tempo os dois Pa- 
teos da Bitesga e das Arcas, que foram dirigidos 
pelo mesmo Latorre, e mantiveram-se por todo o 
século xviT. O Pateo das Arcas era situado no 
segundo quarteirão da rua Augusta, e por male- 
volencia dos seus visinhos da rua da Praça da 
Palha, foi devorado por um incêndio em 1698. 
D'este accidente data o desenvolvimento de pe- 
quenas Casas para exhibições de Bonecos ou Boni- 
frates, em differentes iocaes, em que o Hospital 
mantinha o seu privilegio; esses espectáculos ba- 
ratos e fáceis de Mogigangas, Entremezes, Boni- 
frates e Presépios, entraram então em voga no 
velho Pateo da Bitesga, mais conhecido pelo ti- 
tulo da Mouraria, e um outro que substituía o 
Pateo das Arcas, em que documentos de 1707, 
de 1711 e 1712 revelam os seus rendimentos, 
apparecendo já ahi uma companhia portugueza 
de José Ferreira. Como a exploração d'estes es- 
pectáculos se complicava com a administração 
do Hospital, D. João v, para alliviar o Provedor 
e Mesarios, e também para facilitar a entrada das 
Companhias de Opera italiana, converteu o privi- 
legio exclusivo do Hospital era um subsidio annual 
de 1:300^000 réis, em 1727. Este expediente do 
Poder real fez-se sentir no apparecimento da Aca- 
demia da Praça da Trindade, para a Opera ita- 
liana, e para o desenvolvimento do Paleo da 
Comedia, em terreno do Bairro Alto, ao fim da 
rua da Rosa. De 1727 a 1733, ahi no Pateo da 
Comedia, é que floresceu a Companhia hespa- 
nhola de António Rodrigues, com grande applauso 
e enthusiasmo. O seu prestigio fez com que o ti- 
tulo restricto do Pateo da Comedia se conver- 
tesse no vulgo em Theatro do Bairro Alto, de- 



lUO HISTORIA DA I.ITTERATI!R.\ PORTUGUEZA 



signação que não apparece em documento algum, 
e d'ahi o problema de saber qual o local em que 
as Operas do Judeu foram representadas no 
Bairro Alto. . O problema esclarece-se pelo pro- 
cesso da Inquisição, em que se refere que Antó- 
nio José da Silva morava ao Pateo da Cofnedia 
e que elle o frequentava muito; d'isto infere 
Fernando Wolf, que esta visinhança actuaria so- 
bre a manifestação do seu talento dramático. 
{Bresil Utteraire, p. 30.) Podemos concluir, em 
vista do processo inquisitorial, que o titulo de 
Pateo da Comedia era dado ao local em que, de 
1734 a 1737, foram representadas todas as peças 
do Doutor Judeu António José da Silva; e que 
em 1742, reimprimindo-se o Theatro Cómico, do 
desgraçado escriptor, já o titulo de Pateo da Co- 
media estava general isado no de Theatro do 
Bairro Alto. 

Desconhecendo esta deducção histórica, o Dr. 
Ribeiro Guimarães, formulou um problema, por 
sua maneira de vêr insolúvel: <'Em que local foi 
fundado o Theatro do Bairro Alto anterior ao 
terremoto de 1755? Em que local existiu? Durou 
até ao 1.° de Novembro d'aquelle anno? São in- 
terrogações estas a que, parece, não ha quem possa 
dar uma resposta decisiva ou ao menos plausivel. 
Depois de ter consultado o auctor da Archeolo- 
gia do Theatro portuguez, e de vagas noticias 
do auctor do Ensaio biographico critico impro- 
ficuamente, embalde também. — O sr. Teophilo 
Braga, sem embargo das suas incansáveis inves- 
tigações para a Historia do Theatro portuguez 
no século xvni, também nada apurou a seme- 
lhante respeito, refere-se a Costa e Silva.» {O 
Theatro do Bairro Alto, Jornal do Com., 1873.) 
O Dr. Ribeiro Guimarães não ligou a nossa nar- 



SEGUNDA ÉPOC, \: OS ÁRCADES 107 



rativa do incêndio do Pateo das Arcas era 1698 
com o apparecimento do Pateo da Comedia, em 
que depois da Companhia portugueza de José 
Ferreira, veiu a exploração de António Rodri- 
gues, chefe da Companhia hespanhola, de 1727 
a 1733; é apoz elle que surgiu António José da 
Silva, de 1734 a 1737. Não basta lêr ou colligir 
factos; é preciso relacioual-os e tirar-lhes deduc- 
ções. Vejamos como se fez a transição da Com- 
panhia castelhana de António Rodrigues para o 
talentoso e original António José da Silva, que o 
publico, pela sua apotheose, empurrou inconscien- 
temente para a fogueira da Inquisição. E' n'esta 
passagem que se estabelece a continuidade do 
Pateo da Comedia no Tlieatro do Bairro Alto, 
destruído pelo terremoto de 1755. 

O Cavalheiro de Oliveira, nos Amnsements 
périodiqiies (t. i, p. 41) dá noticia do cómico hes- 
panhol António Rodrigues n'esse periodo de 1727 
a 1734: «António Rodrigues, hespanhol, susten- 
tou-se com felicidade, muitos annos, no theatro 
de Lisboa. Era bonissimo ])oeta, philosopho, his- 
toriador e palaciano. Era homem de l>em tanto 
ás direitas como actor de mérito. Do seu porte 
honrado rendeu-lhe uma pensão annual de cento 
e vinte moedas de ouro quu ihu Juva o rei. Que- 
rido das mulheres, estimado da nobreza e rela- 
cionado com muitos prelados do reino, até do 
povo se fez idolatrar...» O poeta satírico Tho- 
maz Pinto Brandão, o auctor do Pinto renascido 
era intimo de António Rodrigues; e por certo 
António José da Silva, escrevendo, em 1729, a 
zarzuela epithalâmica Amor vencido de Amor 
nas festas do casamento do Principe do Brasil, 
I). José, com a Infanta D. Marianna Victoria de 
Bourbon, faria a sua estreia no Pafèo da Come- 



108 HISTORIA DA I.ITTER ATURA PORTUGUEZA 



dia, e ao influxo de António Rodrigues obedecia 
ao gosto hespanhol na farça Os Amanies de 
escabeche. 

D. João V, nas suas aventuras amorosas era 
excitado pelo exotismo das damas das compa- 
nhias estrangeiras; a fidalguia seguia-lhe o exem- 
plo, O Marquez de Gouvêa apaixonou-se pela 
dama da Companhia hespanhola Isabel Gamarra, 
de quem o Cavalheiro de OUveira allude a esta 
aventura: «Gamarra étoit certainement la plus 
belle actrice que nous avons vu sur le Théatre 
de Lisbone; elle étoit jeune, enjouée, engajante, 
elle avoit beaucoup d'espr!t, de vivacité et de 
grand charmes dans toutes ses manières. Elle 
avoit son mari et un amant declare. Elle n'evoit 
donc qu'un seul defaut, c'etait celui d'etre affecté 
on infidele; elle trahissoit et son mari et son ga- 
lant; elle avoit de Taversion pour Tun et seule- 
ment Testime pour Fautre...» E o malicioso 
Cavalheiro de Ohveira conta nos Amusemenfs 
périodiqnes, como a Gamarra, arrependida, foi 
professar no convento das Agostinhas ou de 
Santa Mónica, até que, expirando o Marquez de 
Gouvêa, ella apagou da mente a scena dos votos 
da clausura, e safou-se para Hespanha^ congras- 
sando-se com o marido e continuou na vida des- 
envolta do theatro. O poeta chocarreiro Thomaz 
Pinto Brandão celebrou em uma Decima a con- 
versão d'essa Magdalena : « ISÍa- profissão de Isa- 
bel Xamarra, representante famosa, que foi 
n'esta Corte e primeira Dama»: 

De seguir melhor estrella 
dão hoje em distincta voz, 
El juramento ante Dios 
Las firmezas de laabella ; 
no theatro de uma sélla 



SEGUNDA Época: os árcades 10'J 



com Deus se quer desposar, 
e em melhor papel mostrar, 
que foi todo o seu viver 
Querer por solo querer. 
Gaer para levantar. 

{Pinto renasc, p. 954.) 

A Decima tira a graça do seu conceito dos 
quatro titulos de Comedias castelhanas, em que a 
Gamarra teria feito o papel de primeira Dama. 
Estava era moda esta forma satirica; já nas intri- 
gas da corte da regente Dona Luiza de Gusmão, 
de D. Affonso vi e D. Pedro n foram representa- 
dos todos os personagens d'essas luctas partidá- 
rias por simples titulos de Comedias castelhanas, 
que eram geralmente conhecidas na segunda me- 
tade do século XVII. A's vezes estes titulos de 
Comedias synthetisavara uma vida, um caracter, 
como o de Lances de Amor e Fortuna para de- 
signar D. Francisco Manoel de Mello. Thomaz 
Pinto Brandão publicou doze Decimas em Res- 
posta a uns Titulos de Comedias, que aqui sahi- 
rani em uma folha de papel, a pplioados mal ás 
Senhoras de Lisboa, que algumas attribuiram 
á obra. de Thomaz Pinto. . . O poeta chocarreiro 
glosou vinte e quatro d'esses titulos com o sen- 
tido lisongeiro ás Senhoras de Lisboa, ajuntando- 
Ihes em sigla á margem de cada Decima dois 
titulos de Comedias castellianas, reforçando o seu 
pensamento. Pelo exame d'esses titulos se pode 
formar o reportório das Comedias famosas mais 
conhecidas do publi(!o. N'este género satírico tem 
um valor de Documento histórico a Comedia fa- 
mosa intitulada La Comedia de las Comedias, 
cujo titulo precedeu Thomaz Pinto Rrandão com 
esta rubrica: « Qaeriendo los Seítores dei Hospi- 



110 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



tal despedir la CompaTiia, en fé de que vénia 
la de Valência, de que era Autor Garcez com- 
puso el amigo Thomaz Pinto la Comédia se- 
guinte por los titulos de otras muchas. » O facto 
histórico para a evolução do theatro portuguez, 
foi que o Hospital d(! Todos os Santos, voltou ao 
uso do privilegio dos espectáculos scenicos em 
vez do subsidio régio. Por este motivo despediu 
António Rodrigues e coiitractou um emprezario 
de Valência, chamado Garcez, para vir com a 
sua companhia para o Pateo da Comedia. Pinto 
Brandão figura na Comedia de las Comedias, o 
assombro da Companhia de António Rodrigues, 
vendo-se forçado a abandonar Portugal e a de- 
mora de Garcez em partir de Valência. Todos os 
actores da Companhia de António Rodrigues são 
designados por titulos de Comedias famosas, o 
que nos dá o seu elenco em 1733. Transcreve- 
mos os nomes com os titulos allusivos: 

António Ruiz, El Rico hombre de Alcalá. 

Ignacio, El hombre pobre tudo es trazas. 

Mandisla, El Ganapan de desdichas. 

António Bela (gracioso) El Cavallero de la 
Gracia. 

Juan Lopes (barba 1) Las canes en el 
Papel. 

Mexia (barba 2) El Diablo predicador. 

Diego de Leon (vejete) Don Diego de 
noche. 

Mathias (danzante) El Maestro de danzar. 

Ferreira (musico) El Licenciado Vidriera. 

Perro (musico) El Chico de GrcCnada, 

Criados, Monteros y Capelotes. 



SEGUNDA Época: os árcades iii 



Damas 

La Seiiora Mariana (que era gangosa) La des- 
dicha df-. la roz. 

Francisca, La Cismo de Inglaterra. 

Juana Orosca, El Encanto sin encanto. 

Rita, La Dama duende. 

La hija de Mexia, La nina de Gomes Árias. 

Maria, Maria Hernandes la Gallega. 

La hija dei Barba (que la tiene médio cerrado) 
Abrir el ojo. 

O chefe da Companhia, diz na Comedia: 



Pues no pueden tus gemidos 
ni yo, vencer tanto mal. 
vamonos de Portugal 
Obligados e ofendidos ; 
que Dios castigue a quien 
nos expone a tal rigor. 



Desdenhando da Companhia do Garcez, diz a 
Mexia, barbas (Diahlo predicador) : 



ai Corral me fui ai instante 

y en lo que vi de Garcez, 

para todos lances es 

El THPJor representante; 

con Ia Cisneros ya veo 

que andubo certo la fama, 

por que es una grande Dama 

La Estatua de Promeíeo. (Por sor alta o magra) 

De las de mas. sondo abono 

la torcera es buena allaja; 

puesto que con voz tau baja 

que canta El secreto a vocês. 



112 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGIEZA 



El Garcez no hade enojarse 
que Ileguen a conocellas, 
ptrque es lo intento de ellas 
Madarse pnr mejorar-se. 
Los mas acabado ol afio, 
se daran a conocer; 
y el Hospital hade ver 
A su tiempo el desengano. 

RITA y que dirá el Hospital 

quando llogue de Valência 

esta innumble dolência. 
MEX. Diral-a : Bf>n vongas. mal. 

Depois dei bnen .Retiro da Companhia de Ro- 
drigues, em 1733, não cheorou de Valência a 
Companhia de Garcez e o Hospital de Todos os 
Santos viu-se privado dos rendimentos do seu 
privilegio, ficando deserto o Pateo da Comedia. 
E' n'esta crise, que acode o talentoso António 
José da Silva, com as suas Comedias-Operas, 
carregadas de pilhas de graça, que deram vida 
ao theatro, em um período áureo que vae de 
1733 a 1738, deixando a inolvidável lenda do 
Theatro do Bairro Alto. Com actores rudes e 
sem eschola, elle tirou partido dos seus defeitos 
como caracterisação dos typos cómicos, fez paro- 
dias mythologicas, com uma intuição offenba- 
chica, mantendo a gargalhada franca. Lisboa so- 
rumbática tinha necessidade de se desopprimir 
pelo riso. O effeito d'esse acontecimento, aponta-o 
Simão Thadeu Ferreira: «foi tão grande o ap- 
plauso e acceitação com que foram ouvidas as 
Operas que no Theatro Publico do Bairro Alto 
de Lisboa se representaram desde o anno de 1733 
até ao de 1738, que não satisfeitos muitos dos 
curiosos cora as ouvirem quotidianamente repetir, 
passavam a copial-as, conservando ao depois es- 
tas copias com uma tal avareza, que se faziam 



SEGUNDA Época: os árcades 113 



invisíveis para aquelles que desejavam na leitura 
d'ellas, uns apagarem o desejo de as lerem, pelas 
não terem ouvido, outros renovar a recreação 
com que no mesmo theatro as viram represen- 
tadas. » Andava o poeta arrebatado na alma po- 
pular que o consagrava com o titulo de Doutor 
Judeu, e trabalhava em uma nova Comedia Os 
Princípios de Phaetonte, quando o Santo Officio 
lhe lançou as garras, afferrolhando-o nos seus cár- 
ceres em 5 de Outubro de 1737, onde jazeu sob 
os maiores tormentos physicos e moraes até sair 
para a fogueira, no Auto de Fé de 18 de Outubro 
de 1739. Na sua vida se reflecte o espirito de uma 
época, que não podendo libertar-se por uma re- 
volução, achou na convulsão de um cataclysmo 
geológico o impulso para a sua regenerescencia. 

ANTÓNIO J09É DA SILVA 

A desgraça que victimou este talento, que 
depois de Gil Vicente soube achar a graça da 
comedia nacional, devemos o conhecer-se os tra- 
ços característicos e íntimos da sua vida. N'ella 
reverbera toda a iniquidade das instituições que 
atrophiavam Portugal, destruindo as classes so- 
ciaes mais activas, intelligentes e productoras. 
António José da Silva nasceu no Rio de Janeiro, 
em 8 de Maio de 1705, tendo por pães o advo- 
gado João Mendes da Silva e D. Lourença Cou- 
tinho; pelos seus avós e tios, vê-se que pertencia 
a uma família de christãos-novos, e isto resume 
a causal de todas as suas desgraças e persegui- 
ções. O que era o christão-novo ? era um descen- 
dente d'aquelles judeus expulsos de Hespanha e 
de Portugal, cujos filhos lhes foram arrancados á 
força, baptizados e espalhados pelas províncias 

8 



HISTORIA DA LITTERVTURA PORTUGUEZA 



(lo reino, e tarabem aquelles que para poderem 
trabalhar e viver, optaram em ura prazo de horas 
entre o extermínio ou o baptismo. Essa classe 
civil tornou-se um elemento de ordem pela sua 
honesta sociabilidade, distinguindo-se espirites 
cultos na medicina, na jurisprudência, no com- 
mercio e industria, na riqueza e sua circulação 
internacional. A Inquisição viu ali um excellente 
espolio para o confisco, e a Monarchia deixava 
de conivência encherem-se os cárceres inquisito- 
riaes, não só participando de uma quota parte, 
como vendendo aos christãos-novos os Perdões 
geraes, cobrando previamente sommas avultadís- 
simas, e por vezes faltando vilmente ao compro- 
misso. Os avós paternos de António José da 
Silva eram André Mendes da Silva e Maria de 
. . .? nascidos em Portugal e falecidos no Brasil; 
tios paternos, Bernardo Mendes, André e Luiz 
Mendes e Apollinaria de Sousa, Josepha da Silva^ 
Isabel Correia e Anna Henriques. Pelo lado ma- 
terno eram seus avós Balthasar Rodrigues Cou- 
tinho, natural do Rio de Janeiro e Brites Cardosa, 
natural de Lisboa; e tios maternos, o medico 
Diogo Cardoso, Manuel Cardoso, Branca Maria, 
Maria Coutinho, Jeronyma e Francisca Coutinho. 
Não é banal este detalhe genealógico para se 
conhecer esta familia de christãos-novos, que no 
Brasil exerciam a sua actividade, attrahindo pela 
sua riqueza e importância a avidez da Inquisi- 
ção. De facto, toda esta parentela soffreu os 
cárceres do Santo Officio, com excepção de Diogo 
Cardoso e Manuel Cardoso, que « moravam em 
Lisboa, mas ansentaram-se não se pahe para. 
onde. » Chegou também o raio infernal ao lar do 
Dr. João Mendes da Silva, em 10 de Outubro 
de 1712, em que os Familiares do Santo Officio, 



SEGUNDA Época: os árcades 115 



prenderam a esposa Loiírença Coutinho, sendo 
ainda n'esse anno remettida para a Inquisição de 
Lisboa por culpas de Judaísmo. E que culpas 
eram essas? Simples denuncias de visinhos ou 
serviçaes da casa, accusando de vestirem roupa 
lavada á sexta-feira, de limparem, os candieiros 
também n'esse dia e não comprarem porções 
grandes de carne de porco, em fallarem em Deus 
sem nunca nomearem Santos! Tudo isto era in- 
terpretado por praticas cultuaes em apostasia 
do catholicismo e perfídia judaica, e por isto se 
encarceravam familias, lhes confiscavam os bens^ 
e as queimavam em Autos de Fé! 

Segundo o processo inquisitorial, a prizão do 
accusado importava o despejo immediato da casa, 
pregando-se as portas com travessas, e nomean- 
do-se curador para arrolar os bens, pelo confisco 
dos quaes se teriam de pagar as despezas do Tri- 
bunal do Santo Officio. Isto explica, porque mo- 
tivo o Dr. João Mendes da Silva se viu forçado 
a mudar-se com seus filhos André Mendes, Bal- 
thazar Mendes e uma criança ainda não bem de 
oito annos, António José da Silva, que no des- 
abrochar do talento soffreria as maiores cala- 
midades. 

Na Inquisição de Lisboa correu o processo de 
Lourença Coutinho; e como ella tosse extranha a 
questões theologicas ou dogmáticas^ e as culpas de 
Judaismo eram actos domésticos, saiu peniten- 
ciada om Auto publico de Pé, em 9 de Julho 
d'este mesmo anno do 1713, com a designação de 
reconciliada. 

O Dr. João Mendes da Silva facilmente achou 
clientela, porque então os principaes advogados, 
preferidos pelas casas opulentas e Ordens ricas, 
eram christãos-novos. Os Jesuitas, antagonistas 



116 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



da Inquisição, desde o século xvii defendiam esta 
prestantissima classe social; persuadimo-nos de que 
a cultura de humanidades de António José da Sil- 
va, como preparatório para a Universidade de Coim- 
bra, se fez nas escholas do CoUegio de Santo An- 
tão, como estorninho ou alumno externo. A ma- 
tricula nos cursos universitários era só admittida 
depois dos quinze annos; só podia portanto effe- 
ctual-a António José da Silva depois de 1720. 
Ha depois de 1713, em que a mãe voltou ao lar 
domestico, uns treze annos de insegura tranquil- 
lidade e de susto permanente da espionagem, em- 
boscadas e machinações sangrentas do Santo Offi- 
cio. E' n'este apaziguamento fugaz, que se en- 
contram as condições para António José da Silva 
frequentar a Universidade de Coimbra. N'esse 
meio confinado era intensa a malevolencia entre 
a Companhia e a inquisição, e o objectivo das 
hostilidades era a protecção ou defesa dos chris- 
tãos novos pelos Jesuítas. As relações de intimi- 
dade com seu primo João Thomaz, estudante de 
Medicina, serviram para a Inquisição urdir a sua 
teia, que já de 1625 ia envolvendo aquella famí- 
lia. Sua tia paterna Anna Henriques, casada com 
o negociante Simão Carvalho, estabelecido na Co- 
vilhã, fora a Salamanca acompanhada por sua filha 
Leonor Maria de Carvalho, em negócios mercan- 
tis; ahi foi preza com sua filha pela Inquisição 
hespanhola em 18 de Novembro de 1725, sendo 
transferidas da prizão para Valladolid em 8 de 
Dezembro; passam para os cárceres secretos em 
29 de Julho de 1726; são julgadas pelo tribunal 
horrendo, em 26 de Janeiro de 1727, sendo Anna 
Henriques conduzida á fogueira do Auto de Pé, 
e a filha degradada de Valladolid, distante oito lé- 
guas para a Villa de Bergadino. Este processo re- 



SEGUNDA Época: os árcades 117 



ílectiu-se pelas referencias pessoaes obtidas nos 
interrogatórios sob a tortura, sobre a familia do 
Dr. João Mendes da Silva; em 8 de Agosto de 
1721, é arrastada ao cárcere da Inquisição de 
Lisboa, sua mulher Lourença Coutinho, pela se- 
gunda vez. Com a data de 7 de Agosto fora pas- 
sada ordem de prisão contra António José da 
Silva, agarrado pelo familiar do Santo Officio, o 
Conde de Villar Mayor, que o foi entregar ao al- 
caide Fernando Cardoso e n'esse dia nomeado seu 
curador o beneficiado Filippe Nery. Em 16 de 
Agosto começou o interrogatório pelo inquisidor 
João Alves Soares, que encetou as suas pergun- 
tas para que declarasse os bens de raiz que pos- 
suía; confessou ser filho-familia, possuindo apenas 
a roupa de seu uso. Já estava no cárcere inqui- 
sitorial desde 1 de Agosto seu primo, estudante 
de Medicina, João Thomaz, e irmã Brites Euge- 
nia; em 22 de Agosto era prezo seu irmão Bal- 
thazar Rodrigues, casado cora Anna Maria, de 
quem já tinha um filho, e n'esta mesma data é 
passado contra António José da Silva o libello 
declarando-o apóstata, hereje, fido, falso, con- 
fitente, diminuto e impenitente, incorrendo na 
pena de excommunhão maior e confiscação de 
todos os seus bens. Começam as interrogações 
para a prova do libello, recorrendo-se para as 
confissões á tortura; em 8 de Setembro de 1726 
forçavam-o a novas confissões; em 4, requere o 
promotor que so lhe dô conhecimento de suas cul- 
pas; em 7, novas confissões extorquidas, e em 9 
requer o promotor notificação ao réo de outras 
provas. B' ahi que conhece que é o seu delator, 
um Luiz Torres Soares, a (juem impedira o casa- 
mento com uma prima sua, por ser fillio de um 
pescador, talvez a Brites Eugenia, também preza. 



118 ÍIISTOniA n\ LltTERATURA PORTUGUByA 



Em 18, passou a Inquisição ordem para que seja 
o joven escholar de vinte e ura annos subníet- 
tido á tortura, por ser confitente diminuto. Isto 
se lê no Auto do tormento : 

« Aos vinte e três dias do raez de Setembro 
de 1726, em Lisboa, nos Estáos e casa depu- 
tada para o tormento, estando ainda em audiên- 
cia pelas nove e meia da manhã, os srs. Inqui- 
sidores João Alves Soares e Filippe Maciel e 
deputado D. Francisco de Almeida, mandaram 
vir perante si a António José da Silva, réo 
prezo conteúdo n'estes autos, e sendo presente 
lhe foi dado o juramento aos santos evangelhos 
em que poz sua mão, sob o cargo do qual lhe foi 
ordenado dizer verdade e ter segredo, que tudo 
prometteu cumprir ; e logo lhe foi dito, que pela 
casa em que estava e instrumentos que n'ella via 
entenderia facilmente quão rigorosa e perigosa 
era a dihgencia que com elle se queria exercitar; 
a evitaria se quizesse acabar de confessar todas 
as suas culpas. E por dizer, que não tinha mais 
culpas que confessar, foi mandado para baixo, e 
chamados á Meza os Médicos e Cirurgiões, e 
muitos ministros da execução do tormento aos 
Santos Evangelhos em que puzeram as mãos, de 
bem e fielmente fazerem seus effeitos e terem se- 
gredo ; o que tudo prometteram cumprir. E sendo 
o réo despojado dos vestidos que podiam servir 
de embaraço ao tormento, foi lançado no potro 
e, começado a atar lhe foi protestado por mim 
notário, em nome dos srs. Inquisidores, que, se 
n'aquelle tormento morresse, quebrasse algum 
sentido, a culpa seria sua e não dos srs. Inquisi- 
dores e mais ministros que foram na sua causa, 
que a sentenciaram conforme o merecimento 
d'ella; e por dizer que não tinha mais culpas 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 11-' 



que confessar, se lhe continuou o tormento ; e 
sendo atado em outras partes e levando n'ellas 
meia volta, que corresponde a um trato corrido 
a que tinha sido julgado, foi mandado desatar e 
levar a seu cárcere, e duraria o seu julgamento 
um quarto de hora, o qual gritou muito e só 
chamou por Deus e não por Jesus ou Santo al- 
gum. » D'este trato corrido da polé ficou o des- 
graçado António José da Silva sempre soffrendo 
das brutaes luxações; e passado esse transe de 13 
de setembro, saiu penitenciado no Auto de Pé 
de 15 de Outubro, que se celebrou na egreja de 
S. Domingos, sendo solto com a condição de dou- 
trinar-se. 

A pobre de sua mãe, Lourença Coutinho, con- 
tinuou a jazer no cárcere mais dois annos, até 
que foi transferida em 12 de Maio de 1728 para 
os cárceres secretos onde gemeu maii um anno, 
sendo submettida a tormento esperto, ás voltas 
completas da polé, saindo no Auto publico de Pé 
de 16 de Outubro de 1729. 

Como n'estas refregas escapou o Dr. João 
Mendes da Silva á garra inquisitorial? Por Bar- 
bosa Machado soube-se que o advogado era tam- 
bém poeta, e dá a noticia bibHographica de com- 
posições suaS; o Officio da Cruz, em verso, um 
Hgmno a Santa Barbara, Christiades, poema 
lyrico, e o Retrato de Leandro e Ero, em oitava 
rima. Fernando Wolf, nota que estas composi- 
ções revelam que elle era un juif três rusé. 
E se este recurso o salvou, elle inicia o talento 
poético do filho, que em 1729 compoz uma Zar- 
zuela para ser cantada nas núpcias do Principe 
D. José com a Infanta hespanhola D. Mariana 
Victoria de Bourbon, e da Infanta D. Maria Bar- 
bora de Bragança com o Principe das Astúrias 



iJiU HISTORIA DA LITTERATURA PORTUG¥ÉZA 



(Fernando vi). Foi na vida estudantesca de Coim- 
bra que António José da Silva se entregou á 
poesia e adquiriu essa prega sarcástica da sua 
visão subjectiva. Quando cursou elle a Facul- 
dade de Cânones, que era a mais fácil e que 
abria prompta carreira na sociedade? Em Junho 
de 1726 acha-se era Lisboa, como confessou na 
Inquisição, e só se vki livre depois do Auto de 
Fé de 15 de Outubro de 1726. Seria portanto o 
curso de 1727 a 1732; não se achará no archivo 
da Universidade a matricula de António José da 
Silva na Faculdade de Cânones, porque n'esse 
tempo usavam-se as matriculas incertas, de trez 
chamadas dos estudantes repentinamente por or- 
dem do Reitor, e provava-se a frequência por 
declaração testemunhal. E' mesmo natural, n'es- 
tas circumstancias, que o poeta praticasse durante 
os annos da formatura no escriptorio de seu pae, 
apresentando-se nas chamadas das matriculas in- 
certas em Coimbra, ou também abrindo matri- 
cula em Outubro, seguindo o costume geral dos 
demais estudantes^ que apoz a matricula deban- 
davam para casa. Mas na sua vida ha a feição 
da Coimbra escholastica, o Ímpeto da troça ou 
investida, do sarcasmo diante do pedantismo au- 
ctoritario e da burla de uma sciencia formalistica 
e convencional. Demais, a residência em Coim- 
bra facultava-lhe a visita á Covilhã, onde vivia 
sua prima Leonor Maria de Carvalho com sua 
irmã na Fabrica real de Pannos, combinando o 
seu anciado casamento. 

A Universidade atravessava uma terrivel cri- 
se de depressão intellectual ; desde que os lentes 
em claustro pleno juraram em 4 de Fevereiro de 
1717 a doutrina da bulia In Coena Domini, re- 
conhecendo a auctoridade do papa nas doutrinas 



SEGUNDA Época: os árcades 121 



dogmáticas, allegarara para justificar tamanha 
subserviência^ ser a Universidade considerada 
communidade religiosa, como é notório e se tem 
por certo e determinado ; e sendo as rendas 
d'ella pela maior parte ecclesiasticas, e que os 
Reitores era?n também ecclesiasticos.> N'esta 
opaca atmosphera ficou obumbrada a Universi- 
dade de Coimbra, até tiraral-a d'esse pezadello 
medieval a reforma pombalina de 1772, Em 1722, 
vê-se este estado da disciplina escholar : « Não 
havia ainda n'aquelle tempo o costume de apon- 
tar-se faltas aos estudantes ; frequentava-a quem 
queria; a consequência necessária d'isto era, que 
os estudantes, depois de se matricularem, vinham 
para suas casas; ahi estudavam como e com 
quem lhes parecia, e só voltavam no fim dos an- 
nos para os actos; é verdade que, para remediar 
este inconveniente, havia duas chamadas extra- 
ordinárias, que o Reitor podia fazer quando lhe 
parecesse ; e todos os estudantes que faltassem a 
estas chamadas, porque duravam só três dias, per- 
diam o anno; mas isto não era bastante porque 
sempre transpirava com antecedência o dia em 
que 'tinha de fazer-se a chamada. ■> (Doe. ap. 
Hisi. da Univ., t. iii, p. Iõ9,) Dominava o uso das 
Investidas aos Novatos no começo dos seus cur- 
sos, por uma forma tão bestial, que o Reitor Fi- 
gueirôa pediu a intervenção do poder real em 
carta de 4 de Fevereiro de 1726; na provisão 
de 7 de Fevereiro de 1727 se refere, que em ra- 
zão de serem muito antigas na Universidade as 
chamadas Investidas de Novatos, e de alguns 
annos a esta parte se faziam com tal excesso que 
padeciam barbaridades, de que resultava resi- 
direm pouco os Estudantes no seu primeiro aimo 
da Universidade, ou porque temem estas investi- 



HtSTOniA Da 111 TKliXTURA 1'0RTUGT'E7,A 



das ou porque buscaram este pretexto para não 
residirem; e ainda alguns faltam no segundo 
anno, porque n'elle os perseguem de não terem 
sido investidos no primeiro, e além do dito mez 
de fevereiro na Egreja do CoUegio dos Padres 
da Companhia mataram um estudante, do qual 
se dizia fora origem uma investida que na mesma 
egreja se fizera a um novato. » {Hist. da Univ., 
t. III, p. 167.) Vê-se que o escholar que se refugiou 
da investida na Egreja dos jesuítas seria christão 
novo, com quem a Inquisição era implacável como 
provocação á Companhia. Foi n'este meio terrí- 
vel que António José da Silva, ainda dorido da 
tortura da Inquisição de Lisboa, se viu em Coim- 
bra, n'essa atmosphera de ódio inconsciente. Ti- 
nha-se operado uma transformação benéfica n'es- 
tas troças tradicionaes, que se chamava boa fei- 
ção : « Não é como algum dia, quando receavam 
todos vir a Coimbra só com medo das investi- 
das; porque o mais barato que se lhe fazia era 
pôr-lhe uma albarda ou metter-lhe palha na boc- 
ca, dar-lhe uma dúzia de açoites e leval-os com 
cabresto ao chafariz . . . não diziam palavra sem 
serem perguntados nem sabiam fora de casa sem 
veterano. » E nas regras da boa feição, parece que 
não queriam campar por valentes; era praxe : «dar 
coices, comer muito doce, dizer pulhas, dar opios, 
testilhas por nenhum caso. » Assim se codifi- 
cou na Macarrónea. Entre os livi^os que deve 
ler, deixando os compêndios com a nota de li- 
vros prohibidos. « Não lhe escape Gil Braz, o 
Diabo coxo, o Bacharel de Salamanca, D. Qui- 
xote e Gusmão de Alfarrache, e tudo o mais que 
faz o entertenimento dos sábios. » Era no gos- 
to das Novellas picarescas do século xvji, que 
António José da Silva recebia a graçola ulebeia 



SF.GUxr)\ r:i'ii<:\: os árcades í2;í 



com que elle faz empolgante pela gargalhada a 
baixa Comedia portugiieza. Ribeiro Sanches dei- 
xou-nos uma descripção do typo estudantesco 
d'este periodo em que ainda eram vivas as tradi- 
ções do Rancho da Carqueja na sua criminosa 
turbulência : « Cada estudante era o senhor de 
alugar casa onde achava mais da sua conveniên- 
cia, — conheci muitos que se levantavam so- 
mente da cama para jantar, estando de boa saú- 
de, outros passando dia e noite a tocar instru- 
mentos musicaes, a jogar as cartas e fazer versos. 
Quasi todos matriculados em Canomes, nunca 
estudaram nos primeiros quatro annos; o primeiro 
estudo era a Apostilla pela qual haviam defen- 
der Conclusões no quinto anno. Não havia noite 
de inverno sem Oiteiros diante dos CoUegios de 
S. Pedro e de S. Paulo; rondavam armados de 
noite^ como se a Universidade estivesse sitiada 
pelo inimigo...» Verney, no Verdadeiro me- 
thodo de estudar, resume o estado da Faculdade 
de Cânones: «O primeiro anno passa-se com as 
Instituições de Justiniano, se é que se abrem. 
Depois devem frequentar algum tempo as Leis 
civis. D'aqui passam para as Escholas de Cânones 
e estudam uma ou duas Postillas triviaes. De 
Clerico venatore ou De Voto, etc, e no quinto 
anno fazem Conclusões n'ellas. Depois bacharel, 
formatura pelo mesmo methodo dos actos de 
Leis, e pode formar-se em Direito civil ou Canó- 
nico, segundo lhe parecer. Peito isto parte d'alli 
para o seu paiz mui consolado e com determina- 
ção de ser advogado ou concorrer aos logares de 
Juiz. ^rambom D. I^^rancisco de Lr^mos, o braço 
direito de Pombal na reforma da Universidade, 
descreve esta atonia mental: < Todo o exercício 
litterario se reduzia aos Actos, para os quaes não 



124 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



era necessário ter estudado, mas sim que cor- 
ressem os annos do curso e chegar-se á medida 
de tempo n'elle marcada; porque os Pontos e Ar- 
gumentos eram sabidos e muito vulgares, e além 
d'isso o estudante na mesma occasião dos actos 
era instruído na matéria d'elles por um Doutor, o 
que acabava de consumar a obra de negligencia 
inspirando-lhe em casa e na mesma sala dos 
Actos o que elle havia de responder e dizer.» B' 
presumível que praticando António José da Silva 
no escriptorio de seu pae tivesse conhecimento 
normal dos Cânones. Contaminado pela vida de 
estúrdia escholaresca, na sua vida em Lisboa fre- 
quentava com assiduidade o Pateo da Comedia, 
de que era visinho, para admirar as numerosas 
Comedias famosas representadas pela excellente 
Companhia castelhana de António Rodriguez, que 
explorava o theatro pagando dois quintos da re- 
ceita ao Hospital de Todos os Santos. Esses es- 
pectáculos acordaram-lhe a vocação. Como se 
lançou o Doutor Judeu n'esta sua actividade 
litteraria e artística ? 

N'este anno de 1733 ainda a Companhia de 
António Rodriguez representou a tragedia de 
D. Ignez de Castro, Reynar despues de morir, 
por Velez de Guevara, da qual falia Manuel de 
Figueiredo, com a emoção que lhe acordou a 
paixão pelo theatro. Tinha então oito annos de 
edade : « Taes foram os berreiros em que entrei, 
quando de uma forçura do theatro — me pareceu 
que via morta na scena da morte de D. Ignez de 
Castro, uma gentil rapariga que a figurava, que 
meu pobre pae foi obrigado a pôr-me na rua a,os 
bofetões; e era de ver como se enfadou em casa 
com minha mãe. . . pois ella o obrigou a condu- 
zir ali o pequeno, pois elle não era d'esses, levado 



SEGUNDA ÉPOCy\: OS ÁRCADES 125 



das perseguições que eu lhe havia feito.» * N^este 
anno de 1733 apparece em scena no Pateo da 
Comedia, no Bairro Alto, a Vida do grande 
D. Quixote de la Mancha por António José da 
Silva, que até 1737 dominou a attonção e o en- 
thuziasmo de Lisboa. Esta pericia e vocação re- 
veladas quando o Hospital de Todos os Santos, 
tendo despedido a Companhia de Rodriguez, se 
viu ludibriado pela Compaidiia de Garcez, fez-se 
sentir extraordinariamente, porque essas Come- 
dias portuguezas salvaram as receitas do Hospi- 
tal. Com certeza António José da Silva teria 
feito os seus primeiros tentames por essas repre- 
sentações familiares, que estavam muito em voga. 
Acha-se nos versos de Pinto renascido esta refe- 
rencia : « A uma Comedia dramática intitulada 
— Opponerse a las Estrellas — que se represen- 
tou em casa de João Correia Manuel, toda de 
moças graciosas e bonitas. {Op. cit., p. 92.) E na 
dedicatória de um Romance : « Fazendo annos a 
Ex:""- Sr.^ Marqueza de Marialva, uma Come- 
dia em sua casa e Dansas com bizarro estrondo. y> 
{Ib., p. 312.) No prologo das Ojteras portugue- 
zas, queixa-.se António José da Silva de escrever 
para actores sem cultura e sob o impulso alheio, 
que era a preoccupação caritativa do Hospital de 
Todos os Santos ■■■■ a difficuldade da cómica em 
um theatro donde as representações se animam 
do impulso alheio; donde os affectos e acciden- 
tes estão sepultados na sombra do inanimado es- 



' Theatro de Manuel de Figueiredo, t. vi, p. 147. 
O diMiiiiiUn-go colluou osta anedocta no Theatro da ma 
das Arcas, por equivoco, porquo em H)98 tinlia ardido, 
succedendo-iho o Pateo da Comedia., onde ropreseutftva 
António Rodrigues. 



126 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGIJEZA 



curecendo estes muitas partes da perfeição que nos 
theatros se requere, por cuja causa se faz incom- 
parável o trabalho de compor para semelhantes 
Interlocutores, que, corao nenhum seja senhor de 
suas acções, não as podem executar cora a perfei- 
ção que devia ser; por este motivo surprehen- 
dido muitas vezes o discurso de quem compõe 
estas Obras, deixa de escrever muitos lances, 
por se não poderem executar.» Em Outubro de 
1733 appareceu em scena A Vida do grande 
D. Quixote de la Mancha, em que os mágicos 
levara o heroe da Triste Figura a vêr o pagem 
Sancho Pança sob a imagem de Dulcinea; com 
muitas mutações scenicas que encantaram o pu- 
bhco e o Hospital ganhou. N'esta corrente com- 
poz e fez representar em Abril de 1734 a Eso- 
paida ou Vida de Esopo; no meio da chalaça 
exhibiam-se as mutações e tramóias dos machi- 
nismos de Simão Caetano Nunes e de outros sce- 
nographos que abrilhantavam os espectáculos. 
António José da Silva já dominava o pubhco, 
consagrando-o com a antonomásia de Doutor Ju- 
deu. Era Maio de 1735 compõe e representa-se a 
comedia magica dos Encantos de Medea, uma 
espécie de cosmoraraa grandioso. Os novos espe- 
ctáculos tornarara-se prestigiosos e o poeta acha- 
va-se com bons recursos económicos; é então que 
se consorcia com sua prima Leonor de Carvalho, 
que contava agora os seus vinte e dous annos. 
O talento e o amor, suscitaram o ódio theologico 
e o ciúme da rivalidade, que começaram a coUa- 
borar no processo em aberto de 1726, archivado 
da Inquisição. 

Em Maio de 1736 representa-se o Amphjj- 
trião ou Júpiter e Alcmena, thema já tratado 
por Camões, em que .se podia ver uma aliusãA 



SEGUNDA Época: os árcades 1^7 



aos amores de D, João iii, quando príncipe com 
a mulher de D. António de Athayde, e agora 
de D. João v e os seus devaneios cora a Flor da 
Murta. E' certo que António José da Silva já 
sentia minarem-lhe o chão debaixo dos pés, pelas 
calumnias propaladas por um tal Duarte Rebello 
por via de uma alcayote Maria Valença. As de- 
nuncias á Inquisição realisavam as mais terriveis 
vinganças. B' n'esta comedia de Amphytriâo, que 
o poeta solta este intimo protesto: 

Sorte tyranna, estrolla ríe:orosa, 
Que maligna influis com luz opaca; 
Rigor tão fero contra um innooente! 
Que delicio fiz eu, para que siuta 
O pezo d'esta aspérrima cadeia, 
Nos hí.rfores de um cárcere penoso. 
Em cuja triste, lôbrega morada 
Habita a escuridão e o susto mora. 
Mas. 80 acaso tyranna estrella, impia 
E' culpa o não ter culpa, eu culpa tenho; 
Mas S8 a culpa qiio tenho não é culpa. 
Para que mo usurpaes com impiedade 
O credito, a esposa e a liberdade? 

António José da Silva perdera em Janeiro de 
1736 seu pae, o Dr. João Mendes da Silva; fal- 
tava essa força moral; mas, ainda n'este anno, 
nasceu-lhe uma filha, a que poz o nome de Lou- 
rença, da avó já duas vezes arrastada aos antros 
do Santo Officio! E que destino seria o d'essa 
criança? Todas as recordações transpiram d'esses 
versos. 

Na corte dera-se um lucto compungente; fal- 
leoera prematuraiuente a gentilissima infanta 
D. Francis(^a; as composições poéticas eram as 
dores imm.ircessiveis que podiam com mais senti- 
mento eslblharem-se sobre o seu féretro. Ao las- 



12S HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



timoso caso appareceu a coUecção dos Accentos 
saudosos das Musas portagnezas. 1.* Parte. Lis- 
boa, 1736. In-4.0. Ahi vein assignada por António 
José da Silva uma Glosa ao Soneto de Camões 
— Alma minha gentil, que te partiste — na qual 
exprime Portugal seu sentimento na morte da 
sua beUissima Infanta e Senhora D. Fran- 
cisca. 

Tocaria esta homenagem o 'rei D. João v, tão 
ostentoso, defendendo o desgraçado poeta dos 
chacaes tonsurados que farejavam o seu sangue? 
Terminado o luto official da corte, ainda em 
Novembro de 1736, representou-se no Pateo da 
Comedia O Labyrintho de Creta. Como podia o 
poeta calcar tantas angustias, para divertir o pu- 
blico enthusiastaP O Hospital de Todos os San- 
tos não podia perder a sua exploração theatral, 
€ as necessidades da familia obrigavam ao tra- 
balho insano. Para satisfazer a urgência da Admi- 
nistração hospitalar, teve de compor para os effei- 
tos das tramóias As Variedades de Proteu, sal- 
gando o prazer das mutações com as pilhérias 
que fazem rebentar de riso. Assim compõe a sua 
comedia typica das Guerras do Alecrim e Man- 
gerona, dos confiictos dos ranchos de peraltas 
que veraneavam em Cintra. Essa Comedia que 
foi o encanto do carnaval de 1737, manteve-se na 
scena e ainda se exhibe hoje para estudo como 
modelar no seu género. Estas duas peças impri- 
raia-as n'este mesmo anno de 1737 sem nome de 
auctor, na officina de António Isidoro da Fonseca. 
No prologo ao Leitor desapaixonado revela a in- 
tenção de compilar as outras suas obras, e acom- 
panha o volume com duas Decimas em acróstico, 
em que deixou authenticado o seu nome. 



SEGUNDA Época: os árcades 129 



> migo Leitor, prudente 
i2l ão critico rigoroso, 

>^ e desejo, mas piedoso 

O s meus defeitos consente, 

*2i orne não busco excellente 

i-i nsigne entre os escriptores, 

O s applausos inferiores 

c_ ulgo a meu plectro bastantes; 

O s encómios relevantes 

oo ão para engenhos maiores. 

B esta cómica harmonia 

T) assatempo é douto e grave, 

ffl onesta, alegre e suave, 

tJ ivertida a melodia. 

> pollo, que illustra o dia 
CO oberano me reparte 

t-" deias, facúndia e arte, 

f eitor, para divertir-te, 

<J ontade para servir-te, 

1> ffeoto para agradar-te. 

Quando Simão Thadeu Ferreira colligiii nos 
volumes do Theatro cómico estas Comedias, em 
1742, não desvendou o auctor anonymo, por não 
ter conhecido o acróstico que foi revelado pas- 
sado um século pelo bibliographo Innocencio. 

Andava António José da Silva trabalhando 
nos ensaios da comedia Precipícios de Phceton- 
te, ' quando foi subitamente prezo em 5 de Outu- 
bro de 1737, á ordem do Santo Officio pelo Mon- 
teiro-mór Inquisidor Thomaz da Fonseca Souto 
Mayor '^ ; sua mulher, com uma filhinha de me- 



* Representou-se em Janeiro de 1738. 

"* O Cavalheiro de Oliveira descreve em uma nota 
do Discurso pathetico (p. 31) como os Fidalgos e os Bur- 
guezes ricos formavam esta classe dos Familiares do 
Santo Officio, promptos á primeira voz a irem prender 
qualquer individuo por ordem do execrando Tribunal, 
quer fosse amigo, irmão ou mesmo o pae. O titulo de 

9 



HISTORIA DA LITT?:RATURA PORTUGUEZA 



zes, foi preza no mesmo dia pelo familiar do Santo 
Officio o Conde de Athouguia; sua mãe Lou- 
rença Coutinho, na viuvez de pouco mais de um 
anno, foi pela terceira vez preza no dia 12 d'esse 
Outubro. Qual o motivo d'este attentado? Secre- 
tas instigações levaram uma preta escrava, que 
Lourença Coutinho trouxera do Brasil, chamada 
Leonor Soares, a ir fazer denuncia d'aquella fa- 
mília á Inquisição. Que percebia a boçal escrava 
de praticas cultuaes de ritos catholicos ou judai- 
cos? E para evitar que se reconhecesse o embuste 
de tal denuncia, deram cabo da preta no terror 
do cárcere em 11 de Maio de 1738. O cárcere in- 
quisitorial era uma permanente e prolongada tor- 
tura; era um cubículo não tendo mais do que 
trez a quatro metros, lageado e recebendo a luz 
de uma fresta alta, sufficiente para não morrer 
asphyxiado; dormia-se sobre palha, e em um ca- 
neco de páo se conservavam os dejectos durante 
oito dias, em que se fazia a limpeza, e em que se 
varriam os bichos desenvolvidos na immundicie. 
A demora e lentidão dos processos levava ao de- 
sespero e ás febres pútridas muitas vezes antes 
do supplicio de ser queimado vivo para gloria de 
Deus. N'esses cubículos cabiam apenas duas pes- 
soas, sendo uma d'ellas escolhida para exercer 
espionagem secreta, no meio das angustias e la- 
mentos do companheiro. António José da Silva 
teve em Abril de 1738 um companheiro chamado 



Familiar tornara-se honorifico, porque era uma affirma- 
ção da pureza de sangue, de raça sem mestiçagem. O fa- 
natismo, que era o estado agudo d'esta pandemia reli- 
giosa, tornou-se um caracteristico da alta nobreza, que 
se deixara rebaixar á insânia de fornecer os esbirros de 
um tribunal de sicários. 



SEGUNDA ÉI'(JC.\: OS ÁRCADES VM 



José Luiz de Azevedo: era um supposto prezo, 
que prestou informações do que vira e ouvira, 
no julgamento ; em 10 de Setembro foi substi- 
tuído por um soldado de cavallaria dos Dragões 
de Beja, chamado Bento Pereira. Este serviu por 
tal modo os intentos da Inquisição, que foi posto 
em liberdade no mesmo Auto de Fé, em que An- 
tónio José da Silva era levado á fogueira. E não 
bastando ainda este esmagamento, Leonor Maria 
de Carvalho, que entrara para o cárcere gravida 
de mezes, ahi abortou pelo terror do seu nascituro 
filho. Uma testemunha depunha no tribunal que 
António José da Silva não queria comer; outra, 
que apesar d'isso estava bem disposto, embora ma- 
cilento ; os familiares, que o espreitavam no cár- 
cere, declaravam que elle pegara em umas Horas 
e não lera, nem se benzera depois de comer; ou- 
tra, que estivera de joelhos virado para a porta 
do cárcere; e o tal soldado Bento Pereira, seu 
companheiro até Fevereiro de 1739, levou a mal- 
vadez a accusal-o que o incitava a não rezar pe- 
las contas e que não comia carne. Leonor de 
Carvalho, desde 5 de Outubro de 1737 a Feve- 
reiro de 1738, gemeu na escuridade de uma en- 
xovia, sem saber por que estava alli; e como ne- 
gou tudo de quanto a accusavam, foi posta a tor- 
mento corrido em 10 de Outubro de 1739. Em 
28 de Setembro d'este mesmo anno, Lourença 
Coutinho também foi submettida á tortura. 

Sempre ignorado o dia em que os prezos eram 
sentenciados, lia-se-lhes a sentença na festa so- 
lemne do Auto de Pé, quando sabiam processio- 
nalmente para a morte aviltante e cannibalesca. 
Asssim n'esta pávida surpreza se achou António 
José da Silva, enfeitado com uma mitra de papel 
chamada carocha e sambetulo, uma ()pa ama- 



132 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGTJEZA 



relia pintada com chammas e diabos, a ouWr lêr 
a sentença de morte, que o satânico Tribunal, 
não lhe competindo fazer effusão de sangue, en- 
carregava a Justiça civil de effectuar a ominosa 
execução. A esta degradação affrontosa do poder 
civil, chamava-se no formulário inquisitorial — 
relaxar ao braço secular. No Auto de Pé cele- 
brado solemnemente na Egreja de S. Domingos 
em 18 de Outubro de 1739, ouviu António José 
da Silva lêr a sentença que o relaxava ao braço 
secalar, e as sentenças que conderanavam sua mu- 
lher e sua mãe a cárcere a arbítrio da aiictori- 
dade ecclesiastica. N'este transe, era que o sen- 
timento humano estava abaixo do estado moral 
do homem das cavernas, veiu um padre jesuita 
Francisco Lopes fazer o ludibrio de confortar o pa- 
decente com o palavriado theologico, missão pela 
qual eram chamados os Padres Tristes. Aca- 
bado o Sermão do Auto de Pé, sahiu a procissão 
da Egreja de S. Domingos; os familiares nobres 
acompanhavam os penitenciados a cárcere a ar- 
bítrio, e os familiares burguezes acompanhavam 
os que eram relaxados ao braço secular. Na fila 
d'estes que iam ser queimados vivos era o n.° 7 
António José da Silva. Publicou-se uma Lista 
das Pessoas que sahiram condemnadas no Auto 
publico de Fé, que se celebrou na egreja do Con- 
vento de San Domingos de Lisboa, no domin- 
go, 18 de Outubro de 1739, sendo Inquisidor 
Geral Nuno da Cunha. Era como o bando de 
uma tourada, mas em que o sêr humano era cha- 
cinado. Lia-se na lista das: 

« Pessoas relaxadas em carne : 

« N.° 7. Idade 34 anos, António José da Silva, 
X. n. (quer dizer christão novo) advogado, natu- 
ral da cidade do Rio de Janeiro, e morador na 



SEGUNDA Época: os árcades 133 



cidade de Lisboa Occidental, reconciliado por cul- 
pas de judaísmo no Auto de Fé que se celebrou 
na egreja do Convento de S. Domingos d'esta 
mesma cidade em 13 de Outubro de 1726. Con- 
victo, negativo e relapso.» 

Desde 1713 deixaram de se fazer as fogueiras 
dos Autos de Pé no Rocio, passando para o 
Campo da Porca ou Terreiro da Lã (hoje Ter- 
reiro do Trigo) ; ahi estavam sete postes com pe- 
destaes de lenha, e a elles eram amarrados os des- 
graçados entregues ao braço secular, em seguida 
simultaneamente asphyxiados e devorados pelas 
chamraas, que lentamente se ateavam, de sorte, 
que era um favor especial o degolar-se a victiraa 
previamente antes de ser pasto das charamas. 
António José da Silva teve este favor inquisito- 
rial; o espectáculo horripilante acabava entre 
vaias dos fanáticos quando as cinzas dos execu- 
tados eram espalhadas ao vento ou atiradas ao 
Tejo. ' Segundo a praxe, no dia seguinte á exe- 



' Quando em 1871 traçámos a biopraphia de Antó- 
nio José da Silva, funda<la sobre o processo da Inquisi- 
ção, que se puarda na Torre do Tombo, escrevemos sob 
angustiosa emoção moral estas palavras: « Bastava esta 
violação da natureza e da verdade, para que a justiça 
eterna envolvesse a nova Babylonia no grande cataclismo 
de 17ÒÕ. » (Hist. do Theatro portuguez, t. iii, p. lH(í.) Pas- 
sados trinta annos, era 1901, referindo-se ao terremoto 
de 18 de Abril de M^b, escrevia o Dr. Sousa Viterbo: 
« Que admira, porém, que o povo ignorante e fanatisado, 
suggostionado por interesses ruins e paixões inconfessá- 
veis, procurasse uma victima expiatória, se um dos mais 
fecundos e notáveis escriptores da actualidade conside- 
rou o terremoto de 1755 como pena merecida por se ha- 
ver queimado, annos antes, nas fogueiras inquisitoriaes, o 
poeta António .José da Silva, cognominado o Jadea, o 
mais genuíno successor de Gil Vicente. 

« Hoje, a não ser uma intelligencia completamente 



134 HISTORIA DA í.lTrKHATURA PORTUGUEZA 



cução, foi exposto o retrato de António José da 
Silva (a cabeça sobre brazas) na egreja dos do- 
minicanos, tendo inscripto o seu nome e por bai- 
xo: Convicto, negativo e relapso. Pelo processo 
sabe-se que era de estatura mediana, magro e 
alvo, com cabello castanho escuro. A mãe, então 
de 61 annos, morreu poucos mezes depois. 

O abbade de Sever, publicando em 1749 o 
tomo IV da Bibliotheca Lusitana, teve de incluir 
o nome de António José da Silva como come- 
diographo, não alludindo á sua execranda morte 
na fogueira inquisitorial. O bispo do (iram Pará, 
Frei João de S. José Queiroz, nas suas Memo- 
rias, elogiando o theatro de Goldoni, ousa justi- 
ficar a morte de António José da Silva: < Se o 
judeu António José da Silva soubesse- as regras 
do theatro e aproveitasse seu grande engenho, 
seria um dos primeiros homens; mas a sua igno- 
rância e falta de probidade fizeram que, atten- 
tando somente em fazer rir, perdeu de vista o 
aproveitar. Não attingiu o alto ponto de mistu- 
rar o útil com o doce, antes cahiu tanto que en- 
xafurdou na immundicie, e deveriam ser quei- 
madas suas Operas, imitadoras da fortuna do 
seu author, que expirou tragicamente no fogo 
em Lisboa, por desertar da lei de Christo. > 
(Mem., p. 120.) E com este nariz de cera, legi- 
tima o crime de lesa-humanidade. Para refutar o 
seu critério sobre a imperícia do renovador da 
tradição cómica de Gil Vicente, copiamos as pa- 
lavras do Arcebispo de Évora (Frei Fortunato de 
San Boaventura) nos Subsidios para se escrever 



rude, ninguém seria capaz de attribuir a causas sobrena- 
turaes os phenomenos que estamos observando.» (Diário 
de Noticias, 29-iv-901.) 



SEGUNDA KPOCA: OS ÁRCADES 135 



a Historia litteraria de Portugal: « O theatro 
do judeu António José da Silva não é uma obra 
prima n'esse género; mas é todavia farta de bel- 
lezas que fazem lembrar Aristophanes, Terêncio 
e Molière..., (op. cit., p. 192.) Respirava-se já 
na atmosphera do século xix. 

Que mais se podia pedir a quem a morte arre- 
batou aos trinta e quatro annos, e nos bieves in- 
tervallos de liberdade, viveu em uma sociedade pri- 
vada de opinião publica, para a qual a ordem era a 
estabilidade do constituido, mantida pelas forcas do 
rei e pelas fogueiras do Santo Officio I O theatro, 
só podia ser um espectáculo de deslumbramento 
ou a facécia equivoca da farça e a surpreza das 
tramóias ou mutações de scenario, por actores 
cuja actividade artística era mister infamante. 
António José da Silva fez a fusão heteróclita da 
baixa Comedia e da Opera, que o povo acceitou 
com o titulo de Operas do Judeu; a ellas allu- 
dira Garção: 

As portuguezas Oparas impressas 
De Encanto de Medea, Precipícios 
De Phcetonte. Alecrim e Mangerona, 
Em outras nunca achei galanteri-a. 

Eram estas as principaes Comedias do brasi- 
leiro António José da Silva, em que retrata os 
typos populares^ empregando em situações gro- 
tescas ou picaras os seus modismos peculiares da 
lingua portugueza melhor conservados na coló- 
nia longínqua, parodiando os costumes e mati- 
zando os lances cómicos com melodias tradicio- 
naes, as Modinhas, que ouvira com encanto na 
sua juvenilidade. O prestigio das Árias das Ope- 
ras italianas, e o imbróglio das Comedias de Gol- 
doni, impeliram-no a essas parodias da Comedia 



136 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



popular com a figuração mythologica, temperando 
as situações burlescas com a graciosidade de tre- 
chos lyricos, adaptados ás melodias nativas das 
Modinhas, que se vulgarisaram em Lisboa, e da 
Corte se generalisaram a todo o paiz. Quando 
Beckford estacionou em Portugal, estava a Mo- 
dinha na maior influencia, e o atilado lord assim a 
define: « Quem nunca ouviu este original género 
de musica, desconhecerá para sempre as fasci- 
nantes melodias que tem subsistido desde o tempo 
dos sybaritas. Consistem em languidos e inter- 
rompidos compassos, (robatus, como lhes chamou 
Chopin), como se faltasse o fôlego por excesso de 
enlevo e a alma anhelasse de unir-se a outra alma 
de algum objecto querido; com infantil desleixo 
insinuam-se no coração antes de haver tempo de 
o fortificar contra a sua voluptuosa influencia; 
imaginaes saborear o leite, e o veneno da sen- 
sualidade vae calando no intimo da existência ...» 
(Carta viii.) António José da Silva, mais conhe- 
cido pela graça portugueza da tradição estudan- 
tesca, era um poeta lyrico sinceramente apaixo- 
nado, e muitas das pequenas Odes ou Árias, que 
foram a letra das Modinhas, lembram as Lyras 
de Gonzaga, do fim do século xviii. Transcreve- 
mos algumas d'essas Árias, que se cantavam na 
intriga da Comedia; ária do Lahyrinto de Creta: 

Se foges, tyranna 
De ouvir meus suspiros, 
Suspende os retiros; 
Porque de meus ecos 
Não podes fugir. 

Oh quanto te enganas 
No mal com que abrazas, 
Se amor, que tem azas 
Te sabe seguir. 

(Theatro cómico, ii, 13.) 



SEGUNDA Época: os árcades ISI 



O navegante 
Que combatido 
De uma tormenta, 
Logo experimenta 
Quieto o vento, 
Tranquillo o mar. 

Como eu, nem tanto 
Se alegra, vendo 
Que vae crescendo 
Minha ventura 
E vae cessando 
De meu gemido 
O suspirar. 

(76., p. 75.) 

N'uma alma inflammada, 
Em amor abrazada, 
Cruel Labyrinto 
Fabrica o Amor; 

Porém quem espera 
O bem de uma fera, 
Acertos de um cego, 
De um monstro favor V 

(Ib., p. 89.) 

Confusa e perdida 
Sem alma e sem vida, 
Allivio em meus males 
Aonde acharei ? 

Se infiel tyrannia 
De um cego me guia 
Em tantos enleios, 
Que acentos terei ? 

(16., p. lOi.) 

Pazia-se uma linda Anthologia d'estas letri- 
Ihas, que se cantavam a duo e em minuete. 
Strafford, na Historia da Musica, considerou este 
typo do Lied portuguez : « Possue o povo portu- 
guez um grande numero de Árias lindíssimas e 
de uma grande antiguidade. Estas árias nacio- 
naes são os Lunduns e as Modinhas. Em nada 
se parecem com as de outras nações; a modulação 



IÍ«S HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



é absolutamente original. As melodias portuguezas 
são simples, nobres e muito expressivas. E' para 
sentir que os compositores portuguezes abando- 
nem o estylo da sua musica nacional para ado- 
ptarem a maneira italiana. » {Op. cit., p. 265, 
trad. franc.) Assim como o Auto vicentimo esta- 
cionou sem se desenvolver na Comedia famosa, 
e nem esta se transforma na Comedia de cara- 
cter, molièresca, também a Modinha ficou ru- 
dimentar, sem formar a Suite que conduziu á 
estructura da Sonata. Esta atonia era a conse- 
quência da atrophia nacional. A Corte, dispen- 
dendo a riqueza publica em construcções pharaó- 
nicas de conventos e palácios, abrilhantava a sua 
sumptuosidade com as Operas italianas, ficando 
sem expressão e apagado o sentimento nacional. 
O titulo vulgar de Operas do Judeu, define a 
sua forma histórica: simples Comedias declama- 
das, tendo intercalados vários cantares melódicos 
de Árias então conhecidas. Tal a forma rudimen- 
tar da Opera Cómica, a que em França no prin- 
cipio do século xviii se dava o nome de Vaiide- 
ville. Como Piron, Vadé e Pavart, gosavam do 
fervor publico n'este género, também António 
José da Silva obteve a sympathia geral. Paltou- 
Ihe quem musicalmente lhe desenvolvesse as Mo- 
dinhas, sem as suas se substituírem por composi- 
ções italianas. Ficaram as suas Operas subsistindo 
apenas pela declamação dramática. Não aconte- 
ceu assim em França, porque as poesias de Vadé, 
Pavart e Sedaine, inspiraram as bellas Árias de 
Duni, Philider, Gretry e Monsigny, creadores 
da Opera Cómica. Perdemos o momento evolu- 
tivo para a creação da Opera portugueza. 



SEGUNDA Época: os árcades 13í) 



b) A Opera na Corte — Theatro da Rua 
dos Condes. — Depois de 1682, em que pela pri- 
meira vez se ouviu em Lisboa musica italiana 
dramática, segundo descreve Arcourt Padilha nas 
suas Memorias, ficou interrompido esse novo 
gosto artístico, já dominante nas Cortes de Vienna 
e Paris. Padilha revela que a Opera italiana pro- 
vocara bastante escarneo. E' fácil explicar o phe- 
nomeno; os Jesuítas exhibiam nas suas festas so- 
lemnes representações declamadas e cantadas, 
em latim, com apparatosos scenarios, mutações, 
tramóias e valentes coros, as suas Tragi-comedias. 
A Opera italiana vinha amesquinhar este espectá- 
culo, já consagrado desde o século xvi; para sus- 
tar a nova corrente, reimprimiram em Lisboa, em 
1690, o celebre livro do jesuíta P/ Ignacio de 
Camargo, Discurso theologico sobre los Teatros 
y las Comedias deste siglo. Ahi se dá largas ao 
protesto contra a musica dramática: « a doce har- 
monia dos instrumentos, a destreza e suavidade 
das vozes, a conceituada agudeza das letras, a 
variedade e doçura dos Tonos, o ar e sabor dos 
estribilhos, a graça dos quel)ros, a suspensão dos 
redobles e contrapontos, fazem tão suave e deli- 
ciosa harmonia, quo tem os ouvidos suspensos e 
como fascinados. A qualquer letrilha ou Tono 
que cantem no theatro, llie dão tal graça e um 
sal, que Hidalgo, aquelle celeberrimo musico da 
Capella Real, confessava com admiração, que 
nunca elle pudera compor cousa de tanto pri- 
mor; e dizia elle com graça, que sem duvida o 
Diabo era nos Páteos mestre de Capella. Todos 
os Tonos, que se cantam nas Comedias, sem que 
n'isto haja apenas qualquer variedade, são de 
matérias amorosas, ternuras e friezas loucas, ex- 
pressões de affectos o de cuidados, queixas de 



140 HISiuRIA DA LITTERATURA fORTtJGUEZA 



amantes, pinturas de damas, louvor de formosu- 
ras, — tyrannias de amor, milagres de belleza, vi- 
gores de mocidade, divinos impossiveis, laços de 
cabello, neve de mãos, flexas dos olhos, coraes 
dos lábios, Ethna dos peitos, prisão das vonta- 
des, fogo dos corações. Não é isto?. . . Especial- 
mente ouvindo soar entre aquellas vozes amoro- 
sas, os accentos doces e suaves das mulheres, 
cuja enganosa voz encanta e perverte as almas, 
como bem pondera Hugo de San Victor, assim 
como a sua mentirosa formosura inflamma a carne 
era torpes concupiscências.» {Op. cit., p. 82 a 8õ. 
Ed. Lisboa, 1690.) Contra a admissão da Opera 
italiana, era preciso vencer o costume e predi- 
lecção pelos Villancicos, cantados nas festas re- 
ligiosas sobre letras de apaixonado lyrisrao; exis- 
tem varias collecções impressas dos Villancicos, 
cantados na Capella Real de Villa Viçosa, de 
1669 a 1706 e de 1690 a 1715. D. João v tinha 
uma paixão exclusiva pela musica religiosa, 
merecendo-lhe a maior sympathia o Cantochão, 
para o qual fundou uma eschola em S. José de 
Ribamar, dirigida por um frade veneziano. Os 
seus principaes cuidados foram para o engrande- 
cimento da sua Capella Real e a transformação 
sumptuosa da Patriarchal em competência com 
a capella pontifícia. Como se tornou o reinado 
de D. João v o mais faustoso protector da Opera 
italiana? Casou com a princeza Maria Anna de 
Áustria em 21 de Outubro de 1708; tinha ella 
vinte e cinco annos, e fora creada na corte de 
Leopoldo I, em que predominava em absoluto a 
Opera italiana. O prestigio dos cantores italianos 
era tal, que repelliam a cooperação com cantores 
allemães. Só no reinado de Leopoldo i se canta- 
ram quatrocentas Operas italianas, como refere 



SEGUNDA Época: os árcades 141 



Oscar Teube, historiando o Theatro de Vienna. 
Este prestigio prevaleceu sob Joseph ii. Não 
admira portanto o influxo da joven rainha Maria 
Anna de Áustria, continuado pelo atavismo dos 
Braganças. Para Mestre da Capella Real veiu o 
mais celebre clavecinista europeu Domenico Scar- 
lati, que foi o educador da talentosa princeza 
D. Maria Barbora, futura rainha de Hespanha. 
Pelos libretes das primeiras Operas representa- 
das na corte, vê-se como D. Maria Anna de Áus- 
tria foi dando entrada nas festas da corte á 
Opera italiana; apontaremos alguns d'esses do- 
cumentos: 

Fabula de Alfeo y Aretusa. Piesta harmo- 
niosa con toda la variedad de instrumientos, con 
que la Reyna, nuestra Senora D. Maria Anna de 
Áustria, celebro el real nombre Del Rey, nuestro 
SeSor D. Juan v, a 24 de Junio d'este ano de 
1712. 

El poder de la Harmonia. Fiesta de Zar- 
zuela que à los fehces anos Del Rey nuestro Se- 
nor D. Juan v, se represento en seu real palácio 
el 22 de Outubro de 1713. 

A vinda de cantores italianos para a Capella 
da Patriarchal, tornou mais frequente esta forma 
dos espectáculos da corte de D. João v. Em 1720 
representa-se no dia 24 de Junho a Cantata Pas- 
torale, serenata em duas partes. Em 27 de De- 
zembro de 1723 a serenata Le Neinfe dei Tago; 
em 31 de Março de 1726, Drama Pastor ale pelo 
nascimento da infanta de Hespanha, D. Marianna 
Victoria, futura rainha de Portugal; em 22 de 
Outubro de 1728, aos annos de D. João v, a Se- 
renata a seis vozes Gli Sogni amorosi. 

Seguia-se o costume da corte de Vienna de 
Áustria ; « Todos os annos nos dias de carnaval 



142 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



se representava um Componimento dramático, 
Drama cómico ou Fiestas theatrales; nos dias de 
solemnidades, taes como anniversarios, consór- 
cios, etc, executava-se uma Serenata ou Can- 
tata allusiva ; erafim, a própria Oratória, inven- 
ção dos Padres Congregados de S. Filippe Nery, 
constituia propriamente uma variante religiosa 
das Festas profanas. > (B. Vieira, Mus. port., 
t. i, 14.) Cyrillo Volckraar Machado, na Collecção 
de Memorias, escreve : « Os Padres do Oratório 
também tinham um Theatro, em que os seus es- 
tudantes representavam pelo Carnaval, cujo ar- 
chitecto decorador era Ignacio de Oliveira...» 
(Op. cit., p. 197.) Estas representações carnava- 
lescas eram do próprio Instituto Oratoriano, como 
escreve Nacci Aretino, na Vita de S. Filippe 
Nery : « Nel tempo dei carnevale per levare loro 
roccasione di andar ai corso, ò alia comedie las- 
cive era solito farfare delle representazione. > 
(p. 130.) E assim se creou esta bella forma de 
Opera sacra. 

Uma das causas mais directas do desenvolvi- 
mento musical; sobretudo da Opera italiana, foi 
resultante do casamento da Infanta D. Maria 
Barbora de Bragança (1711-1758) com o principe 
das Astúrias (depois Fernando iv) em 19 de Ja- 
neiro de 1729 e do principe D. José cora a in- 
fanta D. Marianna Victoria de Bourbon. Nas fes- 
tas em Évora representaram os Jesuitas uma 
extensa Tragicomedia intitulada Lusitanice Au- 
gustam, Victoria coronatam, que levou dois dias^. 



1 Fr. Joseph da Natividade publicou um grosso vo- 
lume Faalo de Bgmenea ou Historia paneggrica dos 
Desposorios de D. José l e de D. Mariana Victoria de 
JBourhon. Lisboa, 1753. (Pags. 301, 303 e 328.) 



SEGUNDA Época: os árcades 14.5 



A infanta D. Maria Barbora de Bragança, foi 
discipula genial de Domenico Scarlati ; levou 
para a corte hespanhola a sua paixão pela mu- 
sica; era de uma technica assombrosa como cla- 
vecinista; revelou-se também como compositora 
eximia. Domenico Scarlati, que deixara Portugal 
pela occasiâo do casamento da Infanta, partiu 
para a Itália a pretexto de visitar seu velho pae; 
mas em breve foi chamado para a corte de Ma- 
drid. Ainda Princeza das Astúrias, D. Maria Bar- 
bora de Bragança compoz uma Salve-Rainha, 
extremamente admirada pela pureza e graça 
d'aquella saudação religiosa. O Mestre principal 
da Capella Real D. Joseph de Torres, mandou 
uma copia ao Mestre da Capella de Évora Pedro 
Vaz Rego; este escreveu um romance assonan- 
tado em louvor da Salve-Rainha, em que fez 
sentir os antecedentes atávicos do génio musical 
da princeza : 

Esta musica no es de lo terreno . . . 
Para esta provinieron sus influxos 
Las Leonoras, los Joanes, los Leopoldoa 
y la sabia Maria Ana, augusta madre, 
que ilustraran los números sonoros. 
De Áustria y de Portugal la soberana 
agradecida ai Supremo Sólio, 
procurando el mayor divino culto 
fiimientan Ias peanas de sus tronos. 
Assi nuestra doctísima í^rinceza 
seguiondo el preclarissimo en notório 
exemplo de sus padres, tios y abnelos 
gloriosamente imita, excede a todos. 
La continua tarea en que lidiando 
anda siempre su espirito estudioso. 



toma por diversion todo el trabajo 
y en lo que lida encuentra el desahuego. 
Por esto ai expressar sus divisiones 
sob esto formar obra de su trono. 



144 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



que el de la Imperatriz de ciclo y tierra 
riende en primicias de sus sábios ócios. 
Salve pués, sorenísima Princeza. . . 
Simulacro de gracias especiales, 
de virtudes riquíssimo tesoro. 
Salve Y mil vezes salve, o prodigiosa 
esperança de Espaãa. que en sus votos, 
anhelante suspira en flor tan bella. . . 
sus príncipes, belíssimos pímpollos. 

O Mestre da Capella de Madrid Joseph de 
Torres, respondendo em ura romance encomiás- 
tico ao de Évora, allude á technica assombrosa 
de D. Maria Barbora: 

Tan nunca vista singular destreza 
tiene en herir las teclas, que ai tocarias 
a los dedos los ruegom que las pise 
por besar su real mano quando passe. 

Joaquim de Vasconcellos, que encontrou estas 
poesias em folha avulsa na Bibliotheca da Ajuda, 
fixa-lhe a data em 1731, mostrando a importân- 
cia mutua das escholas peninsulares da Musica. ' 

A acção da rainha D. Marianna Victoria de 
Bourbon, desde o seu casamento com D. José, 
ainda príncipe herdeiro, sobre o esplendor da 
musica na corte portugueza, foi verdadeiramente 
extraordinária. Transcrevemos aqui o retrato feito 
pelo magistrado Gramoza, nos Siiccessos de Por- 
tugal, da individualidade artística de D. Marianna 
Victoria: «Na Musica, que soube fundamental- 
mente, excedia a todas as princezas do seu tempo, 
e chegou a possuir a mais sublime Orchestra, 
que nenhum príncipe da Europa teve, nem será 



i El-Rei D. João IV, p. 138 a 166. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 145 



fácil juntar outra semelhante pelo concurso dos 
músicos raros, tanto em vozes como em instru- 
mentos, que então floresciam, e os mandava vir 
de toda a parte, principalmente de Itália, dando- 
se-lhes avultados ordenados, como foram Gicieli 
(Gizzielo) Cafareli, Raff, Baptistini, Leonardi e 
outros muitos, que representaram no real Theatro 
que o Senhor Rei Dom José edificou, o qual, 
pela sua grandeza verdadeiramente real, foi uma 
das maravilhas mais assombrosas d'aquelle tempo, 
como foi constante em toda a Europa. E porcjue, 
além das representações theatraes, a mesma se- 
nhora em repetidas vezes os mandava cantar na 
sua Gamara, alcançou com este exercício de tanto 
gosto e apreço, as maiores luzes e as mais deli- 
cadas passagens da musica, que executava na 
sua mesma Camará, não só cantando como egual- 
mente tocando no Cravo as Tocatas mais diffi- 
cultosas e de melhor gosto, que oram as de Scar- 
lati (Domenico) mestre de musica da senhora 
D. Maria Barbora, rainha de Hespanha, o maior 
homem n'este género, que então se conhecia. » 
(Mem. hist., t. ii, p. 48.) Em uma carta de Ale- 
xandre de Gusmão ao Arcediago de Oliveira, de 
5 de Outubro de 1744, vê-se a importância de 
Domenico Scarlati na corte portugueza: «Da 
vinda de Scarlati (da corte de Madrid) não tenho 
por ora esperança, porque o intento que o cá tra- 
zia, que era a pedir a El-Rei que o ajudasse para 
metter seus filhos em um seminário, S. Mag. lhe 
fez serviço mandando-lhes assistir com o neces- 
sário para este fim em Madrid mesmo. ^ (5 de 
Outubro de 1744.) « Como v. m. me pede, lhe 
certifico o que houver sobre a vinda de Scarlati 
e lhe digo que por ora está desvanecida essa 
ideia, porque de lá alcançou o que cá vinlia bus- 

10 



146 HISTORIA DA LITTERATUR.\ PORTUGUEZA 



car, que era assistência de S. Mag. para pôr seus 
filhos em um Collegio. - (31 de Maio de 1745.) 
{Rev. Litteraria, t. x, p. 374. Porto, 1843.) 

Nas festas do paço real já se iniciavam as 
composições portuguezas segundo o gosto ita- 
liano; o nome que primeiro brilha é o de Fran- 
cisco António de Almeida, que compoz para o 
Carnaval de 1733 o drama cómico La pazienza 
di Sócrates, que se cantou na corte; no anno de 
1735, para uma egual festa, compoz La finta 
Pazza, drama por musica; e para o Carnaval de 
1739, compoz e fez cantar-se La Spinela o vero 
il Vecchio Mattiy em trez actos. Já o moderno 
estylo apparece iniciado por Francisco António 
de Almeida, a melodia moderna, e onde já não 
se encontra sombra sequer do contraponto fla- 
mengo. E' muito notável este facto, porque pou- 
cos annos antes o estylo polyphonico servia de 
base ao trabalho dos nossos compositores, entre 
os Villancicos de Marques Lesbio, que trabalhou 
até 1709. > (E. Vieira, op. cit.. t. i, p. 15.) Para 
facilitar o desenvolvimento dos espectáculos me- 
lodramáticos, D. João V revogou o privilegio do 
Hospital de Todos os Santos para a exploração 
das representações theatraes. 

O violinista do paço, Alexandre Paghetti, que 
tinha quatro filhas lindas e boas cantoras, obteve 
em 1733 o privilegio de dar espectáculos públicos 
de operas italianas; para isso formou um theatro 
ou Academia de Musica, junto ao convento da 
Trindade, defronte da praça. D'esta celebre com- 
panhia Ij^rica fala Volkmar Machado: «Vieram 
as Paquetas, famosas cantarinas, que represen- 
taram Alexandre na índia, para cuja peça poz 
o Anibalinho, que fez o templo de Baccho . . . > 
As Paqnetas eram Anna, Helena, Adriana e 



skgijxdv ki-oca: os árcades i47 



Francisca Paghetti, filhas do emprezario Alexan- 
dre Paghetti. Ahi se representara em 1735 a 
opera Farnaces. A fidalguia da corte enthuzias- 
mara-se, e o Paghetti dispendeu trinta e cinco 
mil cruzados para scenarios e tramóias, e tudo 
corria ás mil maravilhas, quando pelo faleci- 
mento da joven infanta D. Francisca, pelo luto 
da corte, teve de ser fechada a Opera da Tiin- 
dade. Foi então a mesma Companhia estabele- 
cer-se no Theatro da Rua dos Condes, o Theatro 
Novo, patrocinada pelos fidalgos. Alexandre Pa- 
ghetti, no principio de 1738, passou os seus direi- 
tos a António Ferreira Carlos, continuando-se as 
representações nas Hortas dos Condes, em 1738. 
Em 1739 já se representava a opera Merope, no 
Theatro Novo, como então se chamava ao Theatro 
construído na Rua dos Condes ; foi a recita Dedi- 
cada d Nobreza de Portugal. D. João v manda 
construir no palácio de Belém um theatro desti- 
nado á representação de Operas, inaugurado em 4 
de Novembro de 1739; e deu toda a grandeza ao 
theatro chamado da Casa da Itidia, que se tornou 
celebre pela sua sumptuosidade com o nome de 
Theatro da Ribeira e Opera do Tejo. Alli appa- 
receram os maiores cantores, os grandes compo- 
sitores, os extraordinários scenographos, como 
Servardoni. Esse prestigio da realeza tornou-se 
para o ministro Sebastião José de Carvalho um 
recurso para acobertar a acção ministerial com a 
raagestade absoluta do Poder real, e convertendo 
os theatros populares em um recurso para dis- 
trahir a opinião publica desinteressando-a do juizo 
dos acontecimentos políticos. 



I'i8 HISTORIA DA LITTERATURA PORIUGUEZA 

/ 
§11 

O Século excepcional — As Ideias francezas 

Se o facto- mais capitíil do século xvi foi a 
dissidência ou manifestação do Protestantismo, 
dando consequentemente logar á organisação das 
forças reaccionárias com a fundação da Compa- 
nhia de Jesus, que se apoderou da disciplina das 
intelligencias, concentrando em si a direcção da 
instrucção publica europêa; no mesmo espirito 
da corrente revolucionaria, o facto mais decisivo 
do século xvni foi a abolição da poderosa Com- 
panhia, iniciada nos paizes que mais incondicio- 
nalmente mantinham o regimen catholico-feudal, 
e tendo por effeito d'essa abolição de prover ao 
estabelecimento de uma instrucção publica com 
o caracter secular e nacional. Estes dous succes- 
sos estão intimamente ligados, e não se poderá 
explicar a profunda transformação pedagógica 
sem observar as condições sociaes era que se rea- 
lizou a queda dos Jesuítas. Saint Priest mostra 
com toda a clareza, que não foram os philosophos 
do século xviii com o seu negativismo critico, 
nem os ministros com as suas ideias philosophi- 
cas, que levaram os reis a derrubarem os mais 
fortes esteios da sua conservação, achando-se de- 
pois isolados na grande crise revolucionaria; es- 
creve o auctor da Histoire de la chute des Je- 
snites au XVIIl siècle: «Os panegyristas da 
Companhia mostram-nol-a succumbindo a uma 
conspiração preparada com arte, conduzida muito 
de longe, tornada inevitável por maquinações 
complicadissiraas. A dar-se-lhes credito, os reis, 



si;(;i..\ijA kpuca: os Árcades U'.) 



os ministros e os philosophos colligaram-se con- 
tra ella, ou, o que vem a ser o mesmo aos seus 
ollios, contra a religião. 

«Este ponto de vista é inexacto: para derrubar 
a Companhia, não houve no principio nem plano 
nem concerto. Indubitavelmente, muitos interes- 
ses diversos desde longo tempo se reuniram con- 
tra os Jesuítas, que haviam provocado vivas ini- 
mizades; mas, o que os perdeu não foi nem a 
philosophia, nem a politica. O signal para a sua 
queda não partiu nem de Perney, nem de Ver- 
sailles. Apezar das reminiscências da bulia Uni- 
ffenitus, ninguém em França pensava na des- 
truição da Companhia; os únicos que tinham 
interesse em proscrevêl-a, os Jansenistas, con- 
tavam muitos inimigos para estarem por auxi- 
liares. 

'<Quasi afastados egualmen te dos dous partidos^ 
os Philosophos não desejavam a destruição d'esse 
instituto, porque muito menos queriam o triumpho 
do Parlamento de Paris e a resurreição do Port 
Royal. Não existia em França, embora mais tarde 
se sustentasse o contrario, um partido previa- 
mente combinado contra os Jesuítas, nem houve 
conspiração ministerial; o Duque de Choiseul 
não lhes suscitou inimigos no meio-dia da Eu- 
ropa, não procurou testa-de-ferro para uma in- 
triga de que elle não foi instigador. Não foi a 
França, nem os seus escriptores, nem os seus 
homens de Estado que tiveram o erro, ou a honra 
de proscrever os Jesuítas. A própria Philosophia 
não pode ser accusada d'isso senão indirecta- 
mente. E, o que é mais ainda, este acontecimento 
effectuou-se fora da sua influencia. » Coube essa 
fundamental iniciativa a Portugal, então a mo- 
narchia mais arreigada á subserviência catholica, 



150 HISTORIA DA LJITERATURA PORTUGUEZA 



e na qual os Jesuítas tinham dominado durante 
dous séculos como senhores absolutos da politica 
e da instrucção publica. Singularmente extraor- 
dinário! Comte explica este facto pela inevitável 
dissolução do regimen catholico-feudal, em que 
os próprios depositários dos poderes retrógrados 
cahiram no desconhecimento das condições ne- 
cessárias ao seu conservantismo egoista. Guizot 
caracterisa também o século xviii como uma 
edade das mais aventurosas e arrojadas audácias, 
em que ao mais vivo espirito critico no campo 
especulativo correspondia a impetuosidade refor- 
madora na acção ministerial. Effectivamente, o po- 
der real ou monarchico, scinde-se no século xviii 
em um novo poder ministerial, que governa 
como absoluto emquanto o rei se diverte e gosa 
o prestigio sagrado da soberania. A iniciativa do 
Marquez de Pombal foi uma resultante d'esta 
corrente, nitidamente caracterisada por Saint 
Priest. «A tendência dos governos no século xviii 
pode traduzir-se por esta fórmula: — o reformar 
pela arbitrariedade; todos os príncipes, todos os 
homens de Estado de um' valor qualquer, proce- 
deram assim e marcharam para tal scopo; para isso 
empregaram mais ou menos hypocrisia na appli- 
cação do seu systema, e se elles recorreram para o 
poder absoluto, deram-se também ares de pedir 
perdão á philosophia. Pombal era pouco instruído 
e não entretinha relações com os Kncyclopedis- 
tas. Na immensa correspondência de Voltaire não 
se encontra uma única carta dirigida ao Conde 
de Oeiras. Pombal adiantou a obra dos Encyclo- 
pedistas sem os consultar, 

«Excedendo-os em actividade e franqueza, não 
renegou, nem os desculpou, nem mesmo intentou 
balbuciar a palavra liberdade e proclamou a ci- 



SEGUNDA ÍPOCA: OS ÁRCADES 151 



vilisação legitima filha do despotismo. N'elle não 
ha reticencias nem applicações, nem palinodia; 
e seu espirito tacanho mas pertinaz, não quiz en- 
trar era compromissos doutrinários. Levou até ao 
fim o seu arbítrio e tirou d'elle tudo quanto po- 
dia dar. Os destinos geraes da espécie humana 
não tocavam este sceptico em acção; a sua intel- 
ligencia não ia tão longe nem tão alto; somente 
as chagas, as misérias particulares de Portugal é 
que o feriam vivamente; abrangeu-as no seu con- 
juncto com a vista e com a mão. D'aqui, uma 
multidão de decretos lançados uns após outros, 
que não tardaram a tirar os Portuguezes da sua 
lethargia secular. > Este retrato está traçado com 
a mestria e verdade com que Saint Priest co- 
nhece a historia social e politica do século xviii; 
attribuindo a Portugal e ao seu arbitrário Minis- 
tro a iniciativa de um dos factos mais capitães 
d'essa época, põe em relevo uma tal anomalia: 
« Os homens que primeiro atacaram os Jesuítas 
não eram adeptos da Philosophia franceza; eram- 
Ihes extranhas as suas máximas; causas inteira- 
mente locaes, inteiramente particulares, inteira- 
mente pessoaes, attingiram a Companhia no seu 
poder por tão longo tempo incontestado; e, para 
cumulo de assombro, este corpo tão vasto, cujos 
braços se estendiam, como muitas vezes se disse, 
até ás regiões outr'ora inexploradas; esta colónia 
universal de Roma, tão temivel para todos, ás 
vezes mesmo na sua metrópole; finalmente, esta 
Companhia de Jesus, tão brilhante, tão polida na 
apparencia, recebeu o seu primeiro golpe, não de 
alguma grande potencia, não em nm dos princi- 
paes scenarios da Europa, mas em uma das suas 
extremas, em uma das monarchias mais isoladas 
e mais enfraquecidas. 



102 HISTORIA DA i,iTTF.n\Trn\ i>oi',ti;guf.za 



<^ — Foi de Portugal que partiu este golpe. 
Poderia ser d'alli esperado? Não, se se pensa no 
poder da corporação, que n'este paiz dominava a 
monarchia e o povo, o throno e o altar. Sim, se 
se considera o quanto uma tal situação tinha de 
excessiva, e por consequência de pouco durável; 
se se recorda sobretudo ás circumstancias que, 
quer fortuitamente, quer por um nexo lógico 
posto que secreto, se ligou a introducção dos 
Jesuítas na corte de Lisboa. — O estabelecimento 
da Companhia coincide com a decadência da mo- 
narchia portugueza. Para a desgraça de Portugal, 
os Jesuítas e a influencia estrangeira entraram 
n'esta nação ao mesmo tempo. A decadência não 
foi lenta e progressiva, mas rápida e instantânea. 
Contra o testemunho de todos os escriptores não 
a attribuiremos aos Jesuítas ; constatamos so- 
mente que foi para elles lamentável o assistirem- 
Ihe como testemunhas activas. Com ou sem ra- 
zão, a responsabilidade dos acontecimentos recae 
sobre aquelles que exercem o poder e, ninguém 
pôde negal-o, o poder pertenceu-lhes em Portu- 
gal, sem interrupção, nem lacuna, em todo esse 
período de duzentos annos (1540-1750.)» Nos pre- 
âmbulos dos decretos do audacioso Ministro esta- 
belece elle sempre em diffusissimos períodos a 
responsabilidade histórica dos Jesuítas na deca- 
dência das instituições e da nação portugueza, 
até ao ponto de forçar a nota cahindo nos absur- 
dos do ódio cego. No seu duello com a Compa- 
nhia de Jesus,, elle serviu-se da arma do processo 
histórico, mais ainda do que da antiga politica, e 
no meio de uma complicada actividade ministe- 
rial empregava o melhor de seu tempo em redi- 
gir a Dediicção chronologica e analytica dos 
estragos jesuíticos, para assim melhor fundaraen- 



SKGIJNDA Kl'i»( \; 



tar perante as nações da Europa o que praticava 
em nome de El-Rei seu Senhor pela força da 
razão de Estado. A primeira consequência do 
grande acontecimento da expulsão dos Jesuitas 
foi a necessidade immediata e inadiável de sup- 
prir e reformar o ensino médio, depois de fecha- 
dos os seus Collegios, e de proceder a uma re- 
forma da Instrucção superior ou universitária, 
tratando por ultimo da creação de escholas popu- 
lares. Eis como surgiu o problema pedagógico 
moderno. O grande Ministro atacou o problema 
de frente; sob os aspectos pratico e theorico, 
urgia crear receita para pagar aos mestres^ que 
não podiam ser gratuitos como ardilosamente 
eram os Jesuitas, e determinar as disciplinas que 
deviam constituir a instrucção secular dos cida- 
dãos. A superioridade do Ministro revela-se no 
alto interesse com que acudia a todos os traba- 
lhos pedagógicos para a reforma integral. 

Durante o seu tempo a acção do Ministro foi 
atacada e exaltada pelas diversas correntes par- 
tidárias; Choiseul não se conformava com os seus 
processos, nem o applaudia. Escreve Saint Priest: 
«Estes dous estadistas não estavam unidos, não 
se entendiam, nem se poderiam entender. Nada 
havia de commum entre o pezado e vingativo 
Ministro portuguez, e o brilhantt?, o frivolo, o 
gracioso Ministro de uuiz xv. Nunca Choiseul 
applaudiu os actos de Pombal; nem falava d'elle 
senão com frieza, muita- vezes mesmo com des- 
preso. A sua rudeza parecia-lhe grosseira, a sua 
emphase deslocada, a sua audácia impertinente. 
Mofava d'elle muitas vezes com o príncipe de 
Kaunitz: — Este senhor, diziam elles, tem sem- 
pre um Jesuíta escarranchado no nariz. — Como 
ministro, como favorito, mais ainda, como grão- 



54 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



senhor, o Duque repellia toda a comparação com 
o Marquez de fresca data. Tudo em Pombal cho- 
cava Choiseul, que o achava injusto, cruel, e o 
que é peior, de máo gosto. > Sabendo Pombal, 
por D. Vicente de Sousa, que Choiseul dissera 
que em França e na Europa debatiam-se negó- 
cios mais importantes do que o dos Jesuítas, re- 
plicou-lhe indirectamente de cá: < A^ão ha nego- 
cio tão grande, que não seja menor que este, 
barateado pelo Duque de Choiseul. > Os aconte- 
cimentos deram razão ao ministro de Portugal, 
desde que Choiseul e Aranda, expulsaram de 
França e de Hespanha os Jesuitas. Para a poli- 
tica portugueza, o facto era capital, porque a 
Companhia de Jesus era o apoio firme da acção 
do Castelhanismo sempre preoccupado com a 
absorpção de Portugal, e de mais, pelo facto do 
Pacto de Família fortificando-se com a França, 
ficando Portugal <' abandonado em preza ás cu- 
bicas e ás terribilidades castelhanas. » Assim 
escreveu em 1774 a Luiz Pinto de Sousa quando 
enviado á Corte de Londres. O primeiro golpe 
que Portugal deu no Castelhanismo foi a Revo- 
lução de 1640; também então abandonado pela 
França pelo casamento de Luiz xiv com uma 
princeza hespanhola, teve de procurar-se apoio 
em Inglaterra pelo casamento de uina infanta 
com Carlos n. A expulsão dos Jesuitas por Pom- 
bal, foi o segundo golpe no Castelhanismo, e 
para o seu pleno effeito assim fundamentava a 
alliança da Inglaterra: se um dia viesse infeliz- 
mente a SLicceder, — se se fizesse executar o sys- 
tema da união entre Portugal e Castella, estabe- 
lecido pelo imperador Carlos v, que durou tantos 
annos; e se com elle se conciliasse a outra incom- 
patibilidade^ que se tem considerado em ser a 



SEGUNDA Época: os árcades 155 



côrte de Lisboa alliada da de Madrid, debaixo da 
interposição e garantia da de Paris, á qual certa- 
mente não conviria nunca, em que Castella se 
fizesse mais poderosa do que França pela união 
do continente de Portugal e de todos os seus vas- 
tíssimos domínios ultramarinos; se esta grande 
metamorphose desgraçadamente viesse a appare- 
cer um dia, quaes seriam as consequências d'ella 
para a Gran-Bretanha? E elle próprio respon- 
dendo a este problema mostra o quadro de um 
completo bloqueio á actividade marítima, mer- 
cantil e militar da Inglaterra. (Biker, — O Mar- 
quez de Pombal, Doe. inéditos, p. 30.) 

Para Portugal a expulsão dos Jesuítas era a 
defeza do commercio no Brasil e a segurança do 
seu território; era a reforma da instrucção publica 
em Portugal; era a libertação da espionagem e 
das intrigas no paço e nas famílias fidalgas, e 
d'essa infiltração do Castelhanismo. Choiseul 
não podia conhecer este alcance. Pelo seu lado os 
Philosophos não eram mais amáveis para com 
esse instrumento de demolição ; no Século de 
Luiz XIV Voltaire allude aos processos políti- 
cos misturados com as cerimonias inquisitoriaes, 
em que Vexcès dn ridicule était joint à Vexcès 
d'horreur. Pombal incoramodava-se muito cora 
as opiniões emittidas acerca do seu Governo, e 
entendeu amordaçal-as em Portugal creando por 
decreto de 17 de Agosto de 17Õ6 ura Juizo Ca- 
raerario para sentenciar summariament \ ficando 
uraa devassa < serapre aberta sem lini tacão do 
tempo nem deterrainação de numero de teste- 
munhas.* Muitas pessoas foram prezas por infa- 
raissiraas denuncias, como a (\ne causo-i a morte 
do generoso poeta da Arcádia, Garção, o auctor 
da primorosa Cantata de Dido. — Mas peior do 



156 HISTORIA DA LITlERATLliA PORTUGUEZA 



que o Juízo Camerario forjararn-se leis da im- 
prensa em Portugal feitas por ministros liberalis- 
tas, para impedir que se desvendassem os roubos 
e delapidações dos Governos de bacharéis pe- 
dantocratas, e mais abjectas, porque degradavam 
o poder judicial applicando-as. 

Ao cabo de um século, apagara-se as paixões 
e d já fácil apreciar o que houve de definitivo 
nas reformas pombalinas, e determinar a missão 
histórica do super-homem. Como os grandes 
Ministros do século xvin, Pombal representa a 
ultima transformação da realeza no poder minis- 
terial. Comte formulou lucidamente esta synthese 
sociológica: «Os reis, anteriormente simples che- 
fes guerreiros na Edade-média, deveriam sem 
duvida ser cada vez mais incompetentes para 
exercerem de um modo effectivo as iramensas 
attribuições que tinham gradualmente, conquis- 
tado sobre os outros poderes sociaes. E em re- 
sultado d'isto que, quasi desde a origem d'esta 
concentração revolucionaria, se vê por toda a 
parte surgir espontaneamente, pouco a pouco, 
uma nova força politica, o poder ministerial, ex- 
tranho ao verdadeiro regimen da Edade-média, e 
que, posto que derivado e secundário, se torna de 
mais em mais incompatível á nova situação da 
realeza, e posteriormente vem adquirir uma im- 
portância do mais em mais distincta, e mesmo 
independente. » O Marquez de Pombal exercendo 
toda a sua enérgica actividade para fortalecer o 
poder monarchico absoluto, tornou subalterna a 
pessoa de D. José, revestiu-o de uma soberania 
theatral á altura de uma mediocridade^ exercendo 
elle em nome do rei uma soberania effectiva. 
Augusto Comte deduziu as consequências conti- 
das n'este phenomeno da marcha politica da Eu- 



SEGUNDA Época: os árcades 157 



ropa em que o poder ministerial se torna pre- 
ponderante: «Ora, uma tal instituição constitue 
necessariamente a confissão involuntária de uma 
espécie de impotência radical da parte de um 
poder que, depois de ter absorvido todas as attri- 
buições politicas, é assim levado a abdicar espon- 
taneamente a direcção effectiva, de maneira a 
alterar gravemente e conjuntamente a sua digni- 
dade social, e a sua dependência.» Pela extincção 
dos Jesuítas e pela subalternidade da Realeza 
vê-se que no Século excepcional, os dous poderes 
se achavam em uma decadência espontânea, an- 
tes mesmo da demolição revolucionaria. O cardeal 
Pacca, nas suas memorias, observava que nunca 
o poder do papado se achara em uma situação 
mais fraca do que no século xviii, obedecendo ás 
imposições das monarchias catholicas, dos Bour- 
bons e Braganças, e em que as doutrinas do re- 
galismo se propagavam pelos escriptos de Febro- 
nio. O que se nota no enfraquecimento do poder 
espiritual catholico, manifesta-se também no poder 
temporal das dynastias reinantes como o define 
Cournot. «O século xviii era um enfraquecimento 
da hereditariedade dynastica. > Extinguindo-se a 
dynastia hespanhola, succedendo-lhe as pequenas 
dynastias italianas, depois o ramo austríaco, indo 
parar nos ramos collateraes, em Portugal, á im- 
becilidade de D. José segue-se sua filha demen- 
tada D. Maria i, e é sob a regência do idiotice e 
devasso D. João vi, que a nacionalidade portu- 
gueza se encontra diante da grande crise da 
Revolução franceza e das reacções conservantis- 
tas que suscitaram a orgia militar napoleonica. 
A lição dos factos impõe-nos a marcha a seguir: 
acaba um século que não cumpriu o seu destino 
proposto pelo século revolucionário : fundar o 



158 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



novo poder espiritual na Sciencia, e organisar o 
poder temporal pela Democracia. 

l.o As reformas pombalinas. — A entrada de 
Sebastião José de Carvalho para o ministério por 
favor da rainha viuva, significava o primeiro 
triumpho contra o elemento jesuitico. A catas- 
trophe instantânea do terremoto de 1755, que 
subverteu Lisboa, dando largas ao ministro para 
pôr em pratica a sua capacidade reformadora, 
coadjuvou-o no plano de se tornar o Mazarin 
d'este joven Luiz xiv. Sebastião José de Carva- 
lho tinha vivido em Yienna de Áustria e Ingla- 
terra, conhecia as formas do Cesarismo, que se 
convertia em despotismo legal, e as novas formas 
de administração que se systematisavam em dou- 
trinas económicas. Na situação em que se achava, 
já não podia ser um Mazarin, mas imitou á risca 
o seu discipulo Colbert; como elle, era também 
brutal e impassível, como elle procurava casar 
os filhos nas famílias mais opulentas do reino, 
como elle regulamentava tudo, instituia Compa- 
nhias de commercio e industria, decretava mono- 
pólios, contractava operários estrangeiros para o 
aperfeiçoamento das artes, e o plano da ruina de 
Pouquet tem analogias com a perseguição cani- 
bal contra a poderosa Casa de Aveiro. O golpe 
vibrado contra os Jesuítas em 1757, obrigou o 
activo ministro a acudir ao vácuo deixado na 
instrucção publica, decretando a reforma dos es- 
tudos menores até á hierarchia superior do en- 
sino na Universidade de Coimbra. Na longa série 
das leis, decretos, cartas regias, avisos e regula- 
mentos que mandou redigir, apparece sempre a 
França como um modelo do seu ideal politico e 
económico; na creação da Intendência geral da. 



SEGUNDA Época: os árcades 159 



Policia em 25 de Junho de 1760, elle confunde a 
organisação militar com o poder judicial como 
no systema de Luiz xiv, assim como nos alvarás 
sobre os interesses e acções das Companhias, e 
sobre os juros do dinheiro, põe era jogo o credito 
trazido por Law em 1720 ao conflicto económico 
da intervenção do estado; o seu decreto contra 
os monopólios de trigo e milho, lembra o effeito 
reflexo da obra do abbade Galliani, Diálogos so- 
bre o commercio dos Trigos, na lucta doutrina- 
ria das duas escolas exclusivinistas, de Quesnay 
ou do Systema agrícola, e~de Gournay ou do 
Sijstema mercantil. Voltaire, fala com a sua phi- 
losophica ironia do prurido d'estas questões eco- 
nómicas em França: «Pelo anno de 1750, a nação 
farta de versos, de tragedias, de comedias, de 
operas, de romances, de historias romanescas, de 
reflexões moraes mais que romanescas ainda, e 
disputas theologicas sobre a graça e sobre as 
convulsões, poz-se por fim a arrasoar sobre os 
trigos. Puzeram-se de parte as vinhas para não 
falar senão de pão e centeio. » {Dicc. phil., vb.» 
Blé.) x\s difficuldades financeiras a que o regi- 
men perdulário do Cesarismo arrastara os esta- 
dos, obrigavam á consideração da matéria col- 
lectavel, e ao modo da percepção dos impostos; 
d'aqui nasceu a sciencia da Economia, chamada 
politica pelos physiocratas, pela sua confusão 
com a acção governativa. A reacção contra os 
monopólios, barreiras e alcavalas do fisco na troca 
dos productos do trabalho, synthetisada na for- 
mula Laissez faire, laissez passer, levou os no- 
vos Economistas a discutirem a origem, formas e 
condições de existência do Estado, á proclama- 
ção dos direitos individuaes, estabelecendo-se 
assim uma transição lógica e evolutiva para a 



160 HISTORIA DA LrriKRATURA PORTUGUEZA 



critica revolucionaria dos Encyclopedistas. Con- 
vém conhecer estas correntes geraes da Civilisa- 
ção da Europa, sem o que é impossivel com- 
prehender qualquer manifestação artística, scien- 
tifica ou philosophica em um povo occidental. 
O ministro de D. José não comprehendeu esta 
nova phase das doutrinas económicas, e man- 
dando destruir vinhas para que se semeasse trigo, 
prohibiu o coramercio individual para monopoli- 
sal-o em Companhias privilegiadas. Ao exercer a 
sua forte iniciativa na reforma da instrucção pu- 
blica, os litteratos esperaram receber do impe- 
tuoso ministro a protecção officinl para a Litte- 
ratura, como se viu nas homenagens servis que 
lhe dirigiu a Arcádia Lusitana. O Ministro 
despresou-os, servindo-se dos eruditos que po- 
diam defendel-o nos libellos contra os Jesuítas, 
nas questões do regalismo contra Roma, como na 
Tentativa theologica do P.*" António Pereira, ou 
no Compendio histórico e Deducção chronolo- 
gica. Ainda sob este aspecto, transparece o ca- 
racter do litterato no século xviii, que, como o 
jurisconsulto da Edade-média, combate pela li- 
berdade politica e pela autonomia individual. 
O Marquez de Pombal não permittia esta liber- 
dade mental da critica; prendia os poetas como 
Garção, e prohibia a entrada das obras dos En- 
cyclopedistas, pelos Editaes da Meza Censória. 
Como o regimen medieval das Universidades ti- 
nha sido extincto pelos Jesuítas, que as molda- 
ram pelos seus CoUegios, Pombal atacou-lhes 
esse reducto, organisando a Junta de Providen- 
cia litteraria, e procedeu a um inquérito funda- 
mentado. E a opportunidade doesta reforma re- 
sulta pela decadência semelhante das Universida- 
des de Hespanha e França no século xviii. 



SEGUNDA Época: os árcades KIl 



a) A Arcádia Lusitana. — A terrível catas- 
trophe de Lisboa, a par das ruínas materiaes, de- 
via reflectír-se na depressão dos espíritos. Con- 
traditando esta natural consequência, apparece 
ura grupo de homens illustrados, quatro mezcs 
depois d'esse cataclysmo inolvidável, tratando de 
fundar uma Academia destinada a aperfeiçoar a 
Poesia, a Eloquência e a Língua portugueza. 
Não escapou ao espirito do preclaro Garção esse 
immedíato contraste, e era uraa Oração que veiu 
a recitar n'essa Acaderaía observava: «Era terapo 
de calamidades e afflicções, quando parecia que 
os portuguezes só tratavam de reedificar Lisboa, 
e de restabelecer os seus particulares interesses 
— quando seria desculpável que as Musas fugis- 
sem do nosso continente, quando se julgaria que 
as Artes jazessera sepultadas nas ruínas da ci- 
dade, — n'uraa palavra, quando era impossível 
tratar da restauração das Sciencias, então funda- 
mos esta Sociedade ...» Foi era 1 1 de Março de 
1756, que os trez bacharéis, recentemente che- 
gados de Coimbra, António Diniz da Cruz e Silva, 
Theotonio Gomes de Carvalho e Manuel Nicoláo 
Esteves Negrão deram realidade ao pensamento, 
que vinha continuar o influxo da Sociedade dos 
Occultos, que funccionara de 1745 a 1755, dis- 
persada pelo terremoto. O projecto para o esta- 
belecimento de uma nova Academia, que com o 
nome de Arcádia se pretende fundar n'esta 
corte de Lisboa, em Setembro de 1756, é já uma 
consequência dos trabalhos da vida associativa. 
A prova authentica da data hiícial de 11 de 
Março de 1756, foi desconhecida a todos os crí- 
ticos. Acha-se na Oração da Ismeno Cisalpino, 
que se guarda inédita na Bibliotheca de Évora, 
de que apontamos o extracto : * Oração que fez 



162 HISjTORIA DA I.ITTERATTTRA PORTUGUEZA 



na Arcádia de Lisboa Ismeno Cisalpino, com 
assistência de muita parte da Corte, em 11 de 
Março de 1758, por occasião de contar a dita 
Academia dois annos depois do sen estabeleci- 
mento." Começa: < Permitti-me, oh pastores da 
fértil Arcádia, que hoje me possa suppôr total- 
mente esquecido da grosseria da nossa i)rofissão. . . 
Dois annos ha que gosamos a pureza do cHma a 
que nos conduzimos. . . Oh, que sereno ambiente 
temos descoberto ...» 

Por esta Oração conhece-se a actividade dos 
Árcades, dando noticia da versão da Poética de 
Horácio, por Cândido Lusitano ÍP.*" Francisco 
José Freire, da Congregação do Oratório) e da 
Tragedia Édipo. Vê-se^ que a preoccupação dos 
Árcades era a lucta contra o gosto seiscentista 
contaminado pela poesia castelhana; e exemplifi- 
cava as demasias metaphoricas com o verso : Ni- 
nhos de ouro em troncos de cristal — aos cabelios 
louros de uma dama; e Sombras sigilatas em tú- 
mulos de escuma, designando as letras no papel. E 
mostra d'onde provinham os obstáculos contra a 
Arcádia. A Arcádia Lusitana surgia: «no tempo 
em que no reino dominava o ardor das Acade- 
mias de Bellas Letras, das quaes umas foram aca- 
badas pela critica ou invectivas mal soffridas. > 
(Cenáculo, Mem. hist., t. ii, p. 180.) Mas no tempo 
de calamidades e afflicções, como as do terre- 
moto, a chamada das Musas espavoridas, torna-se 
explicável diante da narrativa de Sebastião José 
de Carvalho em carta de 13 de Novembro de 
17ÕÕ a D. Luiz da Cunha, em que diz ter-se con- 
seguido o restabelecer-se a frequência da cidade. 
Os trez bacharéis, achavam-se em Lisboa para 
fazerem a sua leitura para o despacho na magis- 
tratura; Theotonio Cf ornes de Carvalho e Manuel 



SECUNDA KPOCX: OS Arcades 163 



Nicoláo Esteves Negrão pouco se importaram 
com as Musas; e António Diniz da Cruz o Silva 
recatava-se da versificação como do cousa repa.- 
ravel n'um magistrado. 

Do terremoto de Lisboa, escreveu um hespa- 
nhol contemporâneo do successo, que era a des- 
graça mais feliz, que podia acontecer a Portugal. 
Essa felicidade não foi tanto a reedificação prom- 
pta e alargamento da cidade de Lisboa, como de 
investir o ministro com a dictadura, que elle uti- 
lisou nas extraordinárias reformas politicas, eco- 
nómicas, industriaes e pedagógicas, identificando 
Portugal com as nações cultas do século xviii. 
Era carta de 18 de Novembro de 1755, dirigida 
a D. Luiz da Cunha, em Londres, communicava 
esta impressão : « do calamitoso dia primeiro do 
corrente, em que esta corte foi surprebendida por 
um terremoto tão violento, que em cinco minutos 
arruinou quasi todos os templos e casas de Lis- 
boa, com tão grande horror dos seus habitantes, 
que desamparando todos a cidade, se seguiram 
n'ella muitos incêndios que causaram outro grande 
estrago. Depois d'aquelle dia se ficaram sentindo 
sempre outros abalos, que, posto que menos vio- 
lentos, sempre inquietaram muito, achando-se tão 
vivas e recentes as impressões que deixou o pri- 
meiro.» E tendo já investigado os effeitos do ca- 
taclysmo na nobreza, que lhe era geralmeiíte ad- 
versa, escreve ainda : « Não consta que do corpo 
da nobreza falte mais do que a mar(jueza de 
Louriçal, a condessa do Lumiares e sua filha 
D. Anna de Moscoso, e o principal I). Francisco 
de Noronha, irmão da marqueza de Angeja. Nos 
outros estados também foi muito menor o numero 
dos mortos do que se entendeu ao principio, re- 
gulando-se o arbítrio pelas ruinas dos edifícios, 



164 HISTORIA DA LITTKRATUHA PORTUGUEZA 



que foram tantas e tão consideráveis . . . Tem-se 
conseguido o restabelecer-se a frequência da ci- 
dade; conservara-se n'ella abundância de manti- 
mentos ao mesmo preço que valiam o mez de 
Outubro próximo passado, extin<íuiram-se os in- 
cêndios e extirparara-se os roubos e insultos a 
que deu occasião o desamparo em que os seus 
habitantes deixaram a cidade, cujos moradores 
pernoitam na maior parte em barracas nos su- 
búrbios e praças principaes.» 

Parece ser redigida por Sebastião Josó de 
Carvalho a noticia do terremoto, que publicou a 
Gazeta de Lisboa no dia 3 de Novembro de 1755: 

« O dia 7.0 do corrente ficará memorável a 
iodos os séculos pelos terreinotos e incêndios que 
arruinaram grande parte d'esta cidade, mas 
tem havido a felicidade de se acharem entre as 
ruinas os cofres da Fazenda real e da maior 
parte dos particulares. > 

Quem teria a insensibilidade moral para no 
segundo dia do tremendo cataclysmo, visionar a 
desgraça flagrante e clamorosa, que exprimem 
essas palavras sem alma? 

Somente aquelle que tudo mandou após a 
derrocada da cidade. 

Fora de Lisboa, em Bemfica, os trez iniciado- 
res da restauração da Poesia, da Eloquência e da 
Lingua portugueza «se fingem Árcades, e esco- 
lherão cada um o nome e sobrenome adequado 
a esta ficção, para por elles ser conhecido e no- 
meado em todas as funcções da Academia. «^ Era 
o estylo da Arcádia de Roma, na qual D. João v 
tivera o nome de Albano, o Conde da Ericeira, 
Osmanio Palisco, e Verney o de Verenio Or- 
giense. - A divisa que terão os Árcades nos dias 
de Conferencias será ura Lirio no qual mystica- 



SEGUNDA ÉPf)C/\: OS ÁRriADES ICif) 



mente se figura a Virgem, Senhora nossa, que a 
Arcádia toma imraediataraente por sua Prote- 
ctora, com o titulo de Conceição, em cujo dia 
haverá sempre uma sessão, e n'ella serão todos 
os Árcades obrigados a repetir composições em 
louvor d'este mysterio.» Com certeza os Árcades 
hisos desconheciam a origem litteraria d'esta 
usança medieval. Data do principio do século xn, 
quando se instituiu a ordem dominicana dos Ir- 
mãos da Virgem. Estava-se no furor fanático da 
perseguição contra os Albigeiís-s, que tanto re- 
pugnava aos trovadores ocitanicos. Como era lei 
da galanteria trobadoresca, dirigirem ás Damas 
as suas saudações poéticas, que denominavam 
Aubades alvoradas, e Serenadas ou Serenas, es- 
tabeleceu-se que essas saudações poéticas fossem 
exclusivamente dirigidas á Virgem; eram os Cân- 
ticos das Avè-Marias. Os trovadores que segui- 
ram este piedoso estylo foram Bernardo Auriac, 
Guido Polquet, (depois papa Clemente iv), Pedro 
Corbiac, Pedro Cardinal, Perdigon, Lanfranc Ci- 
gala e Guilherme Autpen. D'aqui nasceram as 
Ladainhas, séries de epithetos os mais deslum- 
brantes dirigidos á Virgem, e as Saudações an- 
gélicas metrificadas pelo trovador que as valo- 
risou quando papa. A organisaçâo era mais ou 
menos moldada pela da Academia de Historia 
portugaeza, presentindo a necessidade da unifi- 
cação das Academias littc^rarias com as scienii fi- 
cas, que tarde se estabeleceu. Em resumo, dispõem 
os estatutos da Arcádia Lusitana: Uma sessão 
particular cada mez e duas sessões publicas, não 
contando as extraordinárias. Os cargos d ■ Presi- 
dente, dois Árbitros e dois C(Misoros temporários, 
eram eleitos á sorte (riíutre os membros. Henova- 
ção do segundo Censor em cada Conferencia. 



KÍCi iiTSTnniv n\ i.m i-.n \ n iv\ ponTTTrjF.ZA 



Eram perpétuos os cargos de Secretario, Vice- 
Secretario e Guarda. Admittiam-se sócios indiví- 
duos de capacidade provada, por escrutinio se- 
creto e unanimidade de votos. Obrigando a apre- 
sentarem os sócios em cada sessão uma peça de 
prosa ou verso em latim, hespanhol, francez ou ita- 
liano, sendo preferida a escripta em portuguez; 
eram depois distribuídas aos respectivos Censo- 
res, que apresentavam parecer escripto na sessão 
immediata, e admittida a defeza do auctor, fi- 
cando a decisão ao Presidente e Árbitros e im- 
postas as emendas. As Conferencias eram secre- 
tas, podendo adraittir-se convidados. O Livro dos 
Registos dos Pareceres e das Resoluções em ca- 
sos controversos só podiam ser lidos pelos Árca- 
des, e tinha pena de exclusão o sócio que os re- 
velasse. A divisa da Arcádia symbolisada por 
um podão era Triincat inutilin, condizendo no 
seu intuito de aperfeiçoamento, com a divisa da 
Academia de Historia, Restituet omnia, salvando 
tudo pela investigação. A sala das Conferencias 
denominava-se Mente Ménalo, usando ahi a in- 
sígnia allegorica de um Lirlo. 

Todas estas simulações anachronlcas impri- 
miam um espirito de futilidade deplorável entre 
homens graduados, magistrados e professores, ve- 
lhos cultos, suppondo-se em uma edade patriar- 
chal, extranha á clvilisação. A linguagem torna- 
va-se caricata pela convenção, e os assumptos 
dos Idyllos, Eglogas, Dithyrambos e Odes os- 
tentavam-se productos falsos, sem gosto nem 
senso. Condizia com a metaphora catholica- 
apostolica-romana, em que o Papa se diz o Pas- 
tor dos rebanhos, os povos a quem trata por oves 
meãs. Demais, o excesso de regulamentação aca- 
démica matava toda a espontaneidade que exi- 



SKr.uNDA kpoca: (js árcades 1G1 



ge a inspiração em qiiaesquer creações artísticas. 
O fim da Arcádia era imitar a perfeição clás- 
sica das litteraturas greco-romana, e reagir com 
toda a vehemencia contra essa liberdade meta- 
phoriea da rhetorica dos Seiscentistas. Garção 
filiou este contagio do Culteranismo na occupa- 
ção castelhana, desde o desastre de Africa até á 
expulsão dos Filippes. « Estas successivas des- 
graças — afugentando as boas artes até ali esti- 
madas e conhecidas em Portugal, introduziram 
tão estranha desordem nas escholas, que em pou- 
cos annos perdeu a Poesia portugueza seu an- 
tigo génio. A nobre simplicidade e pureza da 
phrase, a verosimilhança dos pensamentos e ma- 
ravilha das ideias, a energia das figuras, tudo foi 
tratado com dospreso. Jactava-se a liberdade 
d'a((uelles tempos, que assim sacudiu o jugo das 
regras criminosamente austeras e que só serviam 
de opprimir a força do espirito tão prolixos eram 
em pontos de liberdade homens que arrastavam 
grilhões! Correu o tempo, e chegou o grande 
mouKMito quc! (juebraram os portuguezes os cepos 
em que gemiam. — A teimosa guerra com que 
nos vimos obrigados a re])ater a fúria dos hespa- 
nhoes, (27 annos) ainda não permittia que entre 
o ruido das armas e motim dos tambores, se 
desse ouvidos á harmonia das musas; continuava 
a decadência. Ajustou-se a paz, socegaram-se os 
ânimos; mas tão inveterado estava o contagio, 
que se houve quem o intentou, não houve quem 
não desesperasse da restauração das Bellas Let- 
tras, das Artes e das Sciencias em Portugal. — 
E' verdade que alguns espirites mais fortes ten- 
taram esta empreza ainda hoje árdua e então im- 
possível; mas como nas primeiras escholas rei- 
nava corto espirito de opinião, que soberbamente 



108 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



sustentava o espirito do máo gosto, o verdadeiro 
methodo ou se não conhecia ou se despresava. 
Fundaram-se Academias. Algumas permanece- 
ram sem mais fructo que o de propagarem o con- 
tagio. Nos últimos annos do prospero reinado 
de D. João v appareceram os primeiros crepús- 
culos do bom gosto. Já então a Sociedade dos 
Occultos — trabalhava n'este tempo na restaura- 
ção da lingua portugueza, do estylo e da boa 
poesia. Poderia ser que a ella se devesse toda a 
gloria, se a publica desgraça não separasse tão 
útil e tão sabia companhia. » Estas palavras de 
Garção fazem comprehender porque muitos dos 
membros da Sociedade dos Occultos entraram im- 
mediatamente na fundação da Arcádia Lusi- 
tana, a começar por elle. 

Garção em uma das suas Orações, de 1758, 
fala d'esta phase dos estudos: «Adoptamos o sys- 
tema da critica, da critica! phenomeno litterario, 
se lhe posso assim chamar, — que era em Portugal 
espantoso prognostico de desastres, e que não era 
visto entre nós com menos susto do que um ecli- 
pse entre os godos! Pois veiu a ser recebida com 
sereno gosto, veiu a ser desejada, conheceu-se 
que era esta a estrella que nos devia guiar; e que 
sem as luzes da critica não podia descobrir-se o 
verdadeiro gosto. Persuadimo-nos que era ami- 
zade e não ódio a reciproca correcção das nossas 
obras, e quem expunha ao publico os seus escri- 
ptos sem este dar com esta lima o ultimo poli- 
mento, sujeitava seu nome ao despreso do mundo.» 
Diniz cae implacável sobre os modismos ple- 
beus do Pina, afoga-os entre os modelos de va- 
rias litteraturas, e pelos do seiscentismo em 
D. Francisco Manuel de Mello e em Rodrigues 
Lobo, vae encorporando na série o auctor da 



SEGUNDA Época: os ÁRCAnES 169 



Bucólica. Elpino não estava na verdade ; pode-se 
escrever em linguagem archaica, quando artisti- 
camente se quer produzir um effeito pittoresco, 
como fez Littré vertendo um canto da Illiada 
em velho francez. Também os modismos e pie- 
beismo vulgar tem Manuel de Figueiredo, Ama- 
ral França, D. Joaquim Bernardes. A' sombra 
d'(;stes nomes os poetas seiscentistas pretendiam 
ser admittidos na academia nova. D'aqui uma 
lucta que foi uma das primeiras crises que poz 
em perigo a constituição da Arcádia Lusi- 
tana. 

O mais cotado dos pretendentes era o exube- 
rante polygrapho Francisco de Pina e Mello, que 
já figurara nas polemicas do Verdadeiro Methodo 
de estudar, com o seu livro intitulado Balança 
intellectual e acérrimo partidário dos Jesuítas. 
Pina e Mello nascera em 1795, e como sexagená- 
rio mal adoptaria as doutrinas dos jovens refor- 
madores da litteratura. Era um dós membros da 
Sociedade dos Occultos em magnificas relações 
com os fidalgos a quem lisongeava em pomposos 
Epithalamicos em Genetliacos e odes. Garção tra- 
tava-o pelo nome de Corno do Mondego, Vala- 
dares e Sousa criticara asperamente o seu poe- 
ma A Conquista de Goa, e Diniz em suas Con- 
ferencias na Arcádia discutiu largamente sobre 
a sua Bucólica. Para ser recitada na sessão de 
30 de Setembro de 1757 por Elpino Nonacriense, 
escreveu Diniz atacando a expressão rústica das 
Eglog^s de Pina e Mello: «muitos presados de 
críticos — pondo que a Poesia era uma imitação 
da Natureza, assentaram firmemente que se não 
pode chamar perfeita uma Egloga, nem imita a 
Natureza, se n'ella se não encontram injustos 
barbarismos e grande munero de acções e phra- 



170 íiisinnn rt\ littkratura purtcigueza 



ses toscas e grosseiras, a que elles dão o nome 
de estylo rústico. Um homem que em quasi todo 
o Portugal á respeitado como oráculo da Poesia, 
e a quem se não pode negar uma excellente 
phantasia ou grande engenho, dez são as Eglo- 
gas d'este estylo, que deu á luz, e não contente 
com isto, no Prologo d'ellas, sem mais funda- 
mento ou authoridade que a que suppõe em si, ma- 
gistralmente decide, que as Eglogas que se apar- 
tarem d'este estylo, não merecem este nome. » E 
examinando o estylo rústico, segundo o entendia 
o erudito Muratori, diz Elpino sobre as de Pina 
e Mello: «Eu, senhores, n'elle não encontro mais 
que acções muito vulgares, vis, grosseiras e in- 
dignas de entrarem n'um Poema, cujo fim é ex- 
citar em nós um vivo prazer com a imagem de 
simplicidade declarada e algumas sentenças e 
moralidades triviaes. . . E porque não parece que 
sentenciamos á revelia, citaremos alguns logares 
d'estas novas Eglogas. 

«Um pastor chamado Nuno, que na Egloga vn, 
vem acordar o outro seu amigo, vendo que este 
se enfada de elle o chamar, lhe diz : 



Com mui pouco te quebrantas ; 
E se o houvesse presumido, 
Não te vinha erguer das mantas, 
Mas estarás aborrido, 
Que inda agora te levantas. 

Está, como te aprouver. 
Como gostas, como queiras, 
E já que te fiz erguer, 
Se has de ir vêr as sementeiras, 
E' o que quero saber. 



Ao que o tal Pastor, responde; 



i<i 



Hei-do ir, porque hei-de dar rega 
E deitar á fêmea o macho, 
Que llíB dei hontem uma esfrega; 
E vêr os homens lio Shclio, 
E liei-de pôr outros ua sega. 

Ao que Nuno replica: 

Por Dous, que quem tanto havia 

Do fazer, estar de hôrco 

Na cama até alto dia 

A resonar como um porco, 

Foi boa calaçaria. 

Effeitos pittorescos de liní^uagem que bons poetas 
como vSá de Miranda ou D. Francisco Manuel de 
Mello, empregaram com fino gosto artistico nas 
suas Eglogas. Manutd de Faria e Sousa tem na 
sua Fuente de Agaripe duas Eglogas em lingua- 
gem popular do Miniio, que bem mereciam ser 
estudadas pbilologicaniente. Pina e Mello fez o 
mesmo para a linguagem popular da Beira Alta, 
nas suas dez Eglogas, (jue intencionalmente com- 
puzera. Em sessão de 29 de Outubro de 1757, 
leu Elpino a segunda parte da sua Dissertação 
sobre o Estylo da Egloga. A(|ni outra vez con- 
demna os modismos da representação da vida 
campestre, e cita estas passagens de Pina e Mello: 

Se cansares pelo atallio, 
Antes de entrar na chacota, 
Para empurrar uma gota. 
Cá levo broa e mais alho. 

Mas adiante muda de ataque, para mostrar 
como Pina e Mello, põe na bocca de seus pasto- 
res linguagem philo.sopliit'a e politica. « Quem 
haverá, que lendo n'uma Egloga d'estas: 



]7'-.^ lUSTOP.IA l>\ Lin FR ATURA PORTUGtlEZA 



A'8 acções, que na memoria 
Se tem fundado somente, 
Não se deve alguma gloria; 
Porque foi o seu agente 
Não a virtude, a vangloria. 



imagina que está ouvindo um Pastor e nâo um 
Filosofo?» Não contente com as reflexões criticas 
lidas no Menalo, Elpino também satirisava Pina 
em sonetos: 



Alma triste do Pina, que orgulhosa 
Em torno do Hypocrene andas vagando, 
Por duas consoantes borregando, 
Occupação aos vates trabalhosa. 



Se lá na sua margem pantanosa 
Com as mãos e focinhos chafurdando 
Do negro fundo alguns fores achando. 
Bem m'os podes mandar para uma Glosa. 



Tu que foste no mundo forte asylo. 
Da rimada poesia, e firme affecto 
Mostraste ao sábio imitador d'aquillo; 



Bom m'os podes mandar, que eu te prometto 
Ao teu nome compor em teu estylo 
Um túrgido e enigmático soneto. 

(Poesias, I, 13í.) 



A este Soneto e a outras composições análo- 
gas^ respondeu Pina e Mello, por este: «Aos Ár- 
cades de Lisboa, Odistas e novissimos introdu- 
ctores do seu chamado Verso branco, que o não 
podem fazer mais escuro: 



SEGUNDA KHOCA: OS AHCADES iiò 



Dizei-me o que vos fiz, Árcades fracos, 
Que tendes tanto empenho em destruir-me, 
Se confessaes que não podeis seguir-me. 
Pedi a Deus vos dê melhores cacos. 



Contra os vossos espíritos opacos 
Tonho Flaco o Camõos em que mo íirme. 
(Jom que, se haveis depois om vão seguir-me 
Vivei como as corujas nos buracos. 

Cita-so o auctor da Enfíida. Eu, sim. venero 
Tão grande authoridade, e a grega phima, 
De Homero em louvor vosso considero, 

Porém, que intentaos vós, que se presuma? 
Virgílio foi Virgílio, Homero Homero 
E vós, Árcades meus, cousa nenhuma. 

Ao Dr. João Gomes Ferreira, que fora juiz 
em Moiitemór-o- Velho, a quem Pina offereceu a 
sua ultima publicação de 1755, a Bucólica, for- 
temente censurada na Arcádia, escrevia : « Aqui 
notará V. m. hum admirável impulso da Provi- 
dencia, permittindo, que V. m. me louve, ao 
mesmo tempo que tem sahido contra mim tantos 
Aristarcos no nosso Reino, que se tem convertido 
em Momos, não só para atassalharem as minhas 
Poesias, mas as minhas prosas. — Dizem que os 
críticos mais cruéis que tem sahido a campo são 
os famosos Pastores da nossa Arcádia Lusitana; 
e tendo noticia (|ue a maior parte d"estes senho- 
res se acham ainda n'a(juella edade que o rosto 
anima com tinta vegetante e sem preludio, pare- 
cia-me que seriam necessários uns bigodes pos- 
tiços para fazerem o papel de Censores, imi- 
tando o Author do Kovo Mefhodo, com o nome 
de Barbadinho. 

« Lastima é que as creanças que cahera aos 



17Í HISTORIA DA I.ITTERATrR A TORTUCUEZA 



pés das parteiras lhes nasçam logo as barbas! 
E ainda ha peior para accrescentar a monstruosi- 
dade, que com as barbas lhe venham logo os 
dentes para morderem na clava de Hercules. 
Clava tão dura, que todos os que a mordem 
sabem feridos e com os beiços ensanguentados. 

«Eu quando ouvi, (jue se estabelecia uma 
nova Arcádia em Portugal, julguei seria para 
que os seus Pastores cultivassem os brejos incul- 
tos, e agora vejo que accrescentam espinhos nas 
terras maninhas. 

« V. m. cuidará (jue eu me mortifico com es- 
tas surprezas dos engenhos da nossa éra. Posso 
dizer a V. m. que desejo rir-me, e que m'o im- 
pede a lastima que sem])re tenho d'esta e de ou- 
tras ninherias; e por mais (jue pretendo fazer a 
figura de Demócrito, sempre ajunto as sobrance- 
lhas e fico com o semblante de Heraclito. Que 
cousa mais digna de chorar-se, do (jue um Menino 
que ainda fede aos cueiros, queira empunhar a 
vara censória e queira ser mestre antes de ser 
discípulo. Porém, saiba V. m. que, auida crian- 
ças como são estes nossos Poetas a que lhes he 
necessário trazerem babadouro para não sujarem 
a camisa, ainda assim imitam a velhacaria de 
Tibério . . . 

« Pois aquelle mesmo Árcade de que V. m. 
me manda n'este correio, entre elles parece 
que faz a primeira figura, me está consultando 
quasi todas as semanas sobre as suas Prosas e 
Versos, pedindo-me que lh'os emende, com a 
maior efficacia, e posso encarecer a \ . m. o 
que não tenho feito por modéstia própria. 

«Emfim, este ajuntamento he uma Prance- 
zada, que intentou passar a moda dos vestidos 
para a Eloquência; e que por falta de espirito q 



SECUNDA P.rnr.A: os árcades 175 



de verdadeiro conhecimento d'esta faculdade em- 
prehendem constituir um Novo Meihodo em que 
até as saloyas possam ser espirituosas e discre- 
tas. Isto succede o succederá a todos aquelles 
que, chegando á raiz do Pindo não se esmorecem 
com a altura do Monte, mas não podem levantar 
os olhos para a altura do seu cume. E como não 
tem azas, pretendem que todos sejamos reptis 
j)ara arrastarmos o peito pela terra. Miserável 
pedantaria, e que não merece outra vista mais 
que a do despreso. 

« Deixe V. m. caminhar esta gente sobre as 
suas muletas, que a posteridade ha-de fazer jus- 
tiça, posto que os bizouros queiram suffocar as 
vozes da fama cora o seu importuno zunido. 
V. m. agradecerá da minha parte ás Pessoas 
que se oppõem a esta carcavelada toda, a mercê 
que me fazem. O correio é grande, e por isso 
m<í não posso demorar mais com V. m. a cujas 
ordens fico, etc. Francisco de Pina e Mello." 

A allusão (pie faz n^esta carta ao árcade que 
o consultava frequentemente, condiz com Manuel 
de Figueiredo, Lycidas (Jynthio, que se abalan- 
çava á empreza da reforma da litteratura dra- 
mática. Em uma carta datada de 15 de Dezem- 
bro de 1758, mostra a Pina o que conhece das 
suas obras: «não tenho mais que os papeis vo- 
lantes, se não fora notória a minha ausência d'este 
reino, a diligencia ({ue fiz por furtar os que li, 
que são as Rimas, a Ethica pastoral, que me 
emprestou o meu amigo Negrão, e o poema da 
Religião que era de um fulano Gomes, que foi 
ministro n'essa villa, etc. » Referia-se aos nume- 
rosos folhetos-polemicos e ás quatro partes das 
Rimas em que termina com a Bucólica, ou 
Ethica pastoril, de 1755, e o Triíwipho da Re^ 



176 HISTORIA DA LrJTKHATUHA 1'ORTUGUEZA 



ligião, poema epico-polemico, de 1756. Manuel 
de Figueiredo pede-lhe o seu juizo sobre um 
poema dramático, «e se dê ao trabalho de iiotar- 
Ihe os erros. » Trabalhava Pina e Mello no seu 
poema Conquista de Goa, que publicou em 1759 
depois do seu rompimento com o árcade Valla- 
dares e Sousa, Sincero Jerabricense. Em carta 
de 1758, escrevia-lhe Pina: «N'esta semana tive 
uma carta de Joseph Freire Montarroyo, era que 
me dava a noticia, de que V. m. estava fazendo 
uma cruelissima critica áquella obra, e por este 
aviso alcanço a razão de V. m. m'a não ter res- 
tituido. Pobre Conquista de Goa, que foi buscar 
um azylo e achou a indignidade de um Libello 
diffamatorio ! — Do que tem servido a V. m. o 
nascer em um Reino civilisado, o dizer-me que 
está instruído em todos os dictames da critica; 
e estar já em uma edade avançada, aonde com- 
mumente se esfriara os impulsos mais ardentes 
de uma mocidade inconsiderada, etc. » Pina am- 
bicionava desde novo, fazer uma Epopêa e tra- 
tar o assumpto tradicional do Abbade João de 
Monte-Mór; não contente, queimou os seus ras- 
cunhos e tomou o da Conquista de Goa por 
Affonso de Albuquerque, a que deu publicidade 
depois de tirado das garras do Capitão-mór de 
Alemquer, o velho árcade. No meio d'estas arre- 
lias escrevia a Manuel de Figueiredo, a quem 
dava umas explicações de Versificação : « Eu eS' 
tou envergonhado de me declarar com V. m. 
quando me consta por muitos amigos meus de 
Lisboa o despreso que faz das minhas trovas na 
nova Arcádia Lusitana, de que V. m. é um 
digno consócio; e adraira-me que Y. m. queira 
ouvir uns homens que estão em tão pouca conta 
n'esse sublime Congresso ; que bem pudera adver- 



SEGUNDA ÉI'0CA: OS ÁRCADES 177 



tir, que para ser bom não era preciso dizer mal 
dos outros. Os que reconhecem as difficuldades 
da Arte e génio poético, perdoam e não recusam 
as producções que sahem d'este divino enthu- 
siasmo: eu bem sei que todo o motivo d'estas 
accusações he quererem que os Poetas de Portu- 
gal sigam a simplicidade franceza ; porém, os que 
adquiriram as brancas em um contínuo estudo 
tem para elles maior auctoridade os antigos que 
os modernos; e á vista de tantos Poetas de espi- 
rito, que produziu o Pyreo e o Lacio, não valem 
nada os Despréaux, os Rousseau, os Racines, os 
Corneilles, etc; e eu não tenho visto de poeta 
francez cousa alguma que me contente. . .» (No 
tomo XIV, do Theatro de Figueiredo.) 

Pina e Mello também revela a sua hostilidade 
contra Domingos dos Reis Quita, Alcino Mice- 
nio, em uma carta a Valladares e Sousa, de 15 
de Agosto de 1757; fere-o com a sua profissão de 
Cabelleireiro : «O Cabelleireiro bem pudera dei- 
xar de metter-se também a critico, visto não ter 
chegado ainda a ser poeta. Bile não tem outro 
instrumento de que se possa aproveitar senão da 
çanfonina; a trombeta ou a vara censória são 
insignias que pertencem á valentia de outro 
pulso. Estou vendo que os sopros que alguns pe- 
dantes dão a este pobre homem, o hão-de deitar 
a perder, fazendo-o pendurar o psalterio para tan- 
ger a Lyra, não tendo algum gosto para cila ...» 
Apesar do seu sentimento poético e gosto deli- 
cado, Quita « foi atacado com criticas e invecti- 
vas, que até o insultavam pela sua pouca ven- 
tura, mais ditadas pela inveja do que pela razão.» 
Assim se expressa Diniz em nota a uma poesia; 
o satírico Nicoláo Tolentino, tratava-o pela chufa 
de Cabelleireiro da Travessa do Pastelleiro 

12 



178 HISTllRIA DA IJTTERATURA PORTUGUEZA 



(onde tinha a sua officina.) Tolentino revela-se 
n'isto um dos dissidentes da Arcádia. 

A hostilidade da Arcádia contra Pina e Mello 
podia porventura encontrar no omnipotente mi- 
nistro apoio pelas relações litterarias que com elle 
tinha. No Epithalamio Palácio do Destino, ás nú- 
pcias do primogénito do Conde de Oeiras, escreveu 
Pina e Mello na dedicatória: «Quantas acomettia 
a empreza, mais difficil m'a propunha a descon- 
fiança; porém, não podia revocar o meu arrojo en- 
tre os generosos affectos com que V. Ex.» tem fa- 
vorecido este humilde Solitário, e a vivíssima lem- 
brança d'aquelles scientificos golpes, que algum 
dia receberam as minhas trovas delicada lima. 

«Ainda por esta parte pedia a gratidão que 
eu empregasse tão proveitosas liçõens em hum 
assiuTipto que tanto arrebata o applauso da Corte 
e o gosto de V. Ex.*.» Isto escrevia Pina e Mello 
de Montemór-o-Velho em 20 de Setembro de 
1765; coadjuva assim a frieza que o ministro 
omnipotente mantinha ante a iniciativa da Ar- 
cádia Lusitana. 

Contra essa pretensão da auctoridade dos 
annos, protestou Manuel de Figueiredo na sua 
Sátira ii: 

Olha a Velhice, 
Que fiada nas brancas e nas rugas, 
Queria levantar-so c'os respeitos 
Dirigidos á sabia Antiguidade, 
Que figura ridicula parece 
A' vista da robusta Mocidade ! 
Olha o maldito agouro já pisado 
Pela altiva constância. . . 

E annotando este penúltimo verso elucida-o: 
«Todos assentaram que a Arcádia duraria quatro 



SEGUNDA KI'(lf;A: OS ÁRCADES 171) 



dias, quando muito. > (Oh. poslh., i, p. 86.) Em 
uma Epistola de Garção a Olino, José António 
de Brito, aconselha-o: 

Nfiu busques ponsamontos esquisitos, 

Em denegridas nuvens embrulh:i(lo.s 

Nom tragas, nem inetaphoras violentas 

Imitando esse ('nrvo do M<>nde(jo. 

Que entre os Cysnes do Tejo anda grasnando 

Em uma Epistola de Cândido Lusitano diri- 
gida a Garção, relata-lho a conversa que tivera 
com um afamado seiscentista, cpu; suppómos ser 
D. Jon(piim de Sant'Anna ]k'rnardes, de se mos- 
trar desdenhoso das Censuras dos Árcades: 

Quanto (juizores 
fodes fallar de mim. nSo desconfio, 
Porque o teu goriio sei. Dos teus amigos 
Sabes ser soffreilor ; ob. irial o baja 
Essa Arcádia, a quem segues e apregoas 
l*ela mana mais intima das Musas, 
Essa senliora sempre desdoidiosa 
Tudo despreza ; nem em flor se adorna 
So a não semeiam Gregos o Romanos 
E a rega do Hipocrene o licor puro, 
Jaeta-se do ser bella por si mesma, 
E posturas não quer ou vãos enfeites. 

Dos primeiros trabalhos |)ara a formação da 
Arcádia em 11 de Março de ITõC», até á j)rimeira 
reunião na Conferencia de 12 de julho de 1757, 
decorreu um tempo em (pie se manifestaram « os 
terríveis embaraços que foi necessário vencer^, 
a que allude Garção. 

A primeira Conferencia inaugural da Arcádia 
está authenticada no primeiro Idylio de Diniz, 
em 12 de Julho de 1757: 



180 HISTORIA DA LITTKRATUr.A PORTUGUEZA 



Oh dia mais feliz, mais venturoso, 
Que quantos tem o Menalo contado! 
Sempre o sol com seus mios te illumina. 
Oh Árcades! notae com hranca pedra 
Dia tão fausto, o seja por famoso 
A's vossas festas sempre consagrado! 

Que doces ecos ferem meus ouvidos! 
Al), já vejo os ptistores; já escuto 
O suavissimo (íanto, ah Almeno, 
Aíjui Siveno está; nh Alcino, 
Tirse, Gorydon e Nemeroso. 

Ali tarfibem — o doce canto 

Do Fido, de Silvano e da Sioeno 

Suspensos ouvireis; canto suave 

E que egual nunca ouviu o Isinaro Thraeio. 

No seu texto autographo deixou Diniz perso- 
nificados estes nomes arcadicos ; ampliamos aqui a 
sua lista, com novos sócios eleitos: 

Dr. Theotonio Gomes de Carvalho, Tirse Minteu, 
Presidente. 

Dr. Manoel Nicoláo Esteves Negrão, Almeno Sin- 
cero^ Secretario perpetuo. 

Dr. António Diniz da Cruz e Silvia, Eipino No- 
nacriense, Censor. 

Dr. Pedro António Joaquim Correia Garção, Co- 
rijdon Erimanteu. 

Manoel de I^^igueiredo, Lycidas Cijnthio. 

Domingos dos Reis Quita, Alcino Micenio, 

P." José Caetano de Mesquita, Metalezio Klas- 
menio. 

P." Francisco José Freire, Cândido Lusitano. 

Beneficiado José Dias Pereira, Silvano Ericino. 

João Gonçalves de Moraes, Fido Leucacio. 

Silvestre Gonçalves da Silva Aguiar, Siveno Ca- 
rio, 



SEGUNDA IÍPOCA: OS ÁRCADES 181 



Feliciano Alves da Costa, Nemeroso Cyllenio. 
Prof. B^rancisco de Sales, Titiro Partheniense. 
José Xavier de Valladares e Sousa, Sincero Jera- 

bricense. 
Manoel Pereira de Paria, Sylvio Aquacela.no. 
Dr. Damião José Saraiva, Dameta. 
D. Vicente de Sousa, Myrtilo. 
Abb. Marianno Borgonzoni, MirtiUo Felsineo. 
Dr. José Rodrigues de Andrade, Montano ((luarda 

da Arcádia.) 
P." Caetano Innocencio, Melibeo. 
Manuel José Pereira, Albano Melino. 
Pr. Joaquim de Poyos, Fábio. 
Gaspar Pinheiro da Camará Manuel, Err/aMiilo 

Herculano. 
,José Soares de Avellar, Leucacio. 
P.'' Manuel de Macedo, Lenia.no. 
D. Joaquim de Santa Anna Bernardes, Fido Me- 

nalio. 
Fr. José do Coração do Jesus, Almeno. 
Fr. Alexandre da Silva, Silvio. 
Dr, Ignacio Tamagnini, Alceste. 
Cura José de S. Bernardiíi Botelho, Albano. 
Miguel Tibério Piedegache Brandão Ivo, Almeno 

Tagidio. 
P.'' D. António de Bettencourt, Tjusi.^to. 
Pedro Josíí da Fonseca, Veri.s.^imo Lusitano e 

Lereno. 
? — Lsnieno Cisalpino. 
? — Silva ndro. 

D. Francisco InnoctMicio de Sousa. 
Luiz Pinto de Sousa (Visconde de Balsemão.) 

A Arcádia Lusitana, com(>ça sob o regimen 
sangrento com que Sel)astião José de Carvalho 
mandou uma Alçada ao Porto em 12 de Outubro 



18i? IITSTORIX T)\ r.ITTERATLílU ronTTTGTIKZA 



de 1757, por uma arruaça de pobres homens e 
mulheres, akigados para protestarem contra a 
fundação da Companhia dos Vinhos do Alto 
Douro. A Alçada cannibal condemnou á morte, ás 
galés, aos açoites, ao degredo e ao confisco, sem 
provas, tudo quanto lhe cahia na rede varre- 
doura. Em 29 de Outubro d'esse anno, na Con- 
ferencia da Arcádia, Elpino Nonacriense leu 
uma Ode exaltando Sebastião José de Carvalho 
pela gloria do sen governo, do solto vulgo — a 
fúria e a licença refreando. Atravessando as cri- 
ses das luctas da expulsão dos Jesuitas, conspi- 
ração ficticia dos Tavoras, a invasão castelhana, e 
os arbítrios do Marquez de Pombal, a Arcádia fez 
a sua ultima sessão em 1774 no palácio do Mor- 
gado de Oliveira, genro do terrivel ministro. 
A historia da Arcádia Lusitana resume-se em 
quatro nomes dos seus alumnos, em factos bio- 
graphicos que irradiam luz moral, na sua activi- 
dade sempre perturbada. 

Garção — Corydon Erymanteo 

Pedro António Joaquim Correia Garção nas- 
ceu em Lisboa em 29 de Abril de 1724, segundo 
Trigoso indica na Memoria sobre o estabeleci- 
mento da Arcádia. No registo dos baptismos da 
Preguezia do Soccorro, vem o assento do dia em 
que lhe impuzeram a unção. Lê-se a fls. 69 v. do 
Livro n.o 8: «Em treze de Junho do anno de 
mil setecentos e vinte e quatro puz os frantos 
óleos a Pedro, o qual foi baptizado em casa por 
necessidade, pelo padre Bernardo dos Santos, fi- 
lho de Philippe Correia da Silva e de sua mulher 
Dona Luiza Maria da Visitação, moradores na 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 183 



rua de Bemformoso d'esta freguezia, e recebidos 
na de Santa Marta; padrinho o Marquez Mor- 
domo-Mór, e madrinha D. Maria Ferreira Xavier 
por seu procurador D. José Joaquim da Silveira, 
de que fez este assento o Vigário Balthazar 
Ferreira de Aguiar. » Era pois um dos treze fi- 
lhos d'esse casal, que «vivia em muita limpeza e 
abastamento > como se vê das provanças para os 
gráos lionorificos. Philippe Correia da Silva era 
natural de Braga, onde fez os seus estudos para 
padre, e em cuja Sé tinha um irmão^ cónego, e 
também seu filho Luiz António Roberto Correia 
Garção, que em 1751 renunciara a Commenda de 
Christo e a tença de 12(^*000 réis em seu irmão 
Pedro António Correia Garção. Por vezes nos do- 
cumentos tabelionicos apparecem traços pitorescos, 
que importa aproveital-os; assim em um d'elles 
se declara, que Philippe Correia da Silva, pela 
muita devoção com Santo António, dava a seus 
filhos por vezes o cognome de António. Como 
intelhgente, os estudos para a carreira ecclesias- 
ticay latinidade, lógica, moral e noção de historia 
sagrada e profana, deram-lhe elementos que cons- 
tituiram uma cultura normal, de que soube tirar 
todo o partido pratico. Conhecia bem a lingua 
portugueza, redigia com correcção e clareza, o 
era de uma prudente reserva em todos os negó- 
cios de que o encarregavam. Elogiando o árcade 
Diniz ao poeta Garção o purismo da sua lingua- 
gem, respondera-lhe : «Devo isso a meu pae, por- 
que, emquanto fui pe(iueno só queria lesse Vieira. ^ 
Pelas relações e serviço especial de uma família 
fidalga fez o seu casamento com D. Luiza Maria 
da Visitação d'Orgier, em 1720, neta de uma 
dama franceza, que acompanhara para Portugal 
a Duqueza de Cadaval. Por esta influencia aris- 



HTSTOrSTA D\ T.TTTF.RATfRA PORTTir.UF.ZA 



tocratica, entrou em serviço publico, como offi- 
cial de Secretaria, e nos actos soleranes dos con- 
tractos de casamento da Infanta D. Maria Bar- 
bora com o Principe das Astúrias, e do principe 
D. José com D. Marianna Victoria^, foi Philippe 
Correia da Silva que redigiu e assistiu á entrega 
mutua dos noivos, não se poupando a despezas 
para a pompa do acto ofíicial. D'este modo obteve 
varias tenças e a thesouraria da Bulia da Cruza- 
da, e como ofíicial de secretaria ponderado e co- 
nhecedor das linguas foi despachado Assistente 
do Bufete, isto é, secretario particularíssimo do 
ministro, e que lhe preparava toda a papelada dos 
despachos. Era official maior das secretarias do 
ministério dos Estrangeiros e da Guerra. Mas a 
que vem estas minúcias? Para authenticar que 
Sebastião José de Carvalho, na sua actividade 
ministerial de 1750 a 1755 esteve em contacto, e 
com a mais segura confiança com Philippe Cor- 
reia da Silva, e conhecia mui bem o valor do 
poeta seu filho. O ministro tinha um outro filho 
do official maior, Joaquim Manuel Correia Gar- 
ção, também official na mesma secretaria, e de 
uma confiança tão pessoal, que o escolheu para 
ir a Paris em uma missão secreta extraordinária. 
Sabe-se que só ura dos alliciados para os tiros 
contra a carruagem do rei, fora José Polycarpo 
de Azevedo que escapou ás garras da justiça po- 
licial militar, tornando-se mysterioso e inexplicá- 
vel o seu desapparecimento; em Lisboa constou 
que apparecera em Paris um portnquez qualquer 
e logo o ministro, sempre attento, encarregou o 
official da sua secretaria Joaquim Manuel Correia 
Garção de ir a Paris verificar se esse typo extra- 
nho seria o Polycarpo. A missão foi sem resul- 
tado, Rí^fere o dosíMiibargador Gramosa este fa- 



SEOTiNDA r.ror.A: ds árcade^ IHÍ 



cto. Ainda mais; Philippe Correia da Silva, na 
sua intimidade com Francisco ^avier de Men- 
donça, irmão e braço direito do ministro. Capitão 
General e Governador do Grão-Pará, escreveu- 
Ihe em carta de 12 de Junho de 1751, recommen- 
dando-lhe uns parentes, e accrescenta : <■ V. Ex.'*^ 
sabe muito bem que com o casamento de meu 
filho, SC lhe seguiu ter a Quinta da Fonte Santa, 
junto ao Convento do Senhor da Boa Morte, e 
que necessita de algumas pranchas e varas para 
as parreiras; queira encommendar a algumas pes- 
soas pelo meu dinheiro ahi compre d'estas duas 
qualidades, até quatro ou cinco dúzias^ e das 
varas até 200, . . . sacando-se lettra sobre mim . . , 
e (!m ausência a meu filho Pedro António Joa- 
quim Correia Garção.» (Ap. Are. Lu,s., p. Iõ9.) 
No seu regresso a Lisboa, Francisco Xavier de 
Mendonça entrou como Adjunto para o Ministé- 
rio e governou até á sua morte o Arsenal da Ma- 
rinha. Tudo isto conduz-nos ao conhecimento, 
que Sebastião José de Carvalho, ou já quando 
Conde de Oeiras ou no supremo favoritismo de 
Marquez de Pombal, conhecia muito bem o valor 
litterario e moral do desgraçado Corijdon, e que 
só por um resentimento pessoal, é que aproveitou 
um fútil pretexto para o (^smagar sob o seu rancor. 
Nasceu Garção com debilidade congénita o 
que actuou na sua infância enfermiça dependente 
dos cuidados femininos, desenvolvendo uma sen- 
sibilidade delicada, que constitue o sentimento 
artístico e o gosto litterario, que o eleva acima da 
banal corrente do Arcadismo. Era uma natureza 
contemplativa, inhabil para as luctas da vida, 
quer na carreira da magistratura judicial, (píer 
na faina das secretarias e funcções ofti(Maes. Os 
annos de Coimbra, no seu curso de direito, só lhe 



18(i HISTORIA DA LITTERATURA PORITTGUKZA 



serviram para mais augmentar essa tendência apa- 
thica. A renuncia que n'elle fez seu irmão cónego 
em Braga de uma tença de doze mil réis, era 
uma previdente e sympathica protecção. Conhe- 
cedor das linguas clássicas, e instruido nas mais 
importantes linguas da Europa, elle viria a ser 
um bom official de secretaria de estado, como 
seu pae e irmãos. Mas a sua delicadeza moral 
diante dos actos impetuosos e violentos do go- 
verno levou-o ao retrahimento, apesar das boas 
relações que com Sebastião José de Carvalho e 
seu irmão Francisco Xavier de Mendonça man- 
tinha seu diligente pae. O conhecimento da poe- 
sia moderna ingloza, franceza e italiana abria-lhe 
novos horisontes; mas o seu temperamento, de 
acceitar a vida como ella é, vencendo-lhe as con- 
trariedades pela complacente sociabilidade e eíTu- 
são sincera e intima de franca amizade fel-o iden- 
tificar-se com Horácio, nas suas Odes e Epistolas 
e Sátiras, e ura critico consciente das litteratu- 
ras. Esse gosto horaciano, harmonisava-se com 
os hábitos e tom sensualista da boa sociedade do 
século xvni ; as damas provocavam-lhe os sone- 
tos de galanteio, e os fidalgos eruditos colhiam 
os bons conceitos e odes philosophicas. Por maio 
de 1751 casou Garção cora a joven e recente 
viuva D. Maria Anna Xavier Proes de Sande e 
Salema, proprietária do Officio do Escrivão do 
Consulado da Casa da índia, que andava na sua 
íamilia desde o tempo de D. João iv. Foi Garção 
investido n'este cargo por eífeito do legitimo ca- 
samento por decreto de 19 de Maio de 1791, 
com a obrigação de pagar o encarte de Carlos 
Deleiro, primeiro marido falecido, e o seu dentro 
de um anno. Com este casamento veiu-lhe a pro- 
priedade da Quinta da Fonte Santa, que logo o 



SEGUNDA época: OS ÁRf.ADF.S 1S7 



envolveu em despezas de grangeio, como revela 
a carta de seu pae ao Governador do Gran-Pará, 
mandando vir de lá duzentas varas para as ra- 
madas da quinta. D. Maria Anna Salema poude 
crear em volta do poeta uma atmosphera de paz 
e alegria moral; no lar domestico cantava-se, e 
Garção enchia os seus ócios com trabalhos de 
pintura e de poesia. Vieram os primeiros filhos, 
Maria da Porta e José de Sande, mas os acon- 
tecimentos desencadearam-se em volta do poeta 
terrivelmente. Seu pae é uma das victimas do 
terremoto do 1.° de Novembro de 1755; e essa 
perda lança-o nos embaraços da administração da 
sua casa, com demandas odientas com os bens 
de sua mulher, com os pagamentos de encartes 
ante o rigor do fisco. Pela derrocada de Lisboa 
refugia-se na Fonte Santa, e ahi como na sua 
Tibur, respirava no suave remanso n'essa encosta 
sobre o Tejo, d'onde se gosa os mais esplendi- 
dos occasos. 

B' então que alguns companheiros da Univer- 
sidade o convidam para cooperar na fundação da 
Arcádia Lusitana, na qual elle sem intenção se 
torna o Arbitro da critica, a alma da Academia, 
que por elle ficou memoravpl na nosí^a historia 
int(41ectual. Apesar do sua nuiavel relrahimento 
em u?n meio social de perseguições pohticas, de 
violências da auctoridade em lucta c^m classes 
poderosas, ainda assim ibi quem mais trabalhou 
na Arcádia^ doutrinando nos seus D. -cursos e 
Orações, em bella <* casta prosa portupueza f em 
um Lyrismo modelar, de que derivara ii as duas 
corrcMites do Fhilintismo e do Elmanismo. Do 
todos os árcades foi elle o que com nm seguro 
critério, dava á Arcádia uma n^conhecida au- 
ctoridade. Na traducção da Arte poética de Ho- 



188 TTTRTOniA DA T,ITTF,nATURA PORTUOURZA 



rácio, Cândido Lusitano que explicou certa liber- 
dade na variante de uma metaphora, justifica-se 
escrevendo no seu Discurso preliminar: «O mesmo 
parece a diversos amigos nossos, que n'esta ma- 
téria são bons contrastes, especialmente alguns 
de que se compõe a Arcádia Lusitana^ Acade- 
mia que honra a nação, com inveja á de Roma, 
quando seus Pastores publicarem as suas obras.» 
Infelizmente, as obras de Garção só vieram á luz 
depois da sua morte, ficando dispersas muitas 
composições inéditas, hoje reunidas na perfeita 
edição de 1888. Também foram publicadas pos- 
thumamente as Obras de António Diniz da Cruz 
e Silva, as de Manuel de Figueiredo, e as de Do- 
mingos dos Reis Quita. A extrema reserva com 
que Garção communicava as suas poesias, tudo 
revela que se vivia em uma atmosphera hostil á 
floração do pensamento. B por esta circumstan- 
cia foi Garção victima da implacável descon- 
fiança do ministro a quem desagradou uma poe- 
sia, segundo a tradicção contemporânea, que re- 
validaremos. 

As Sossões da Arcádia, que se realisavam 
com caractor offi<"ial, apparatoso, versavam sobre 
os mais anti-liltcrarios assumptos, como os annos 
de D. José, ou as suas mollioras dos tiros na 
carruagem, os annos de P^tederico ii da Prússia, 
e as congratulações ao omnipotente ministro 
quando foi agraciado com o titulo de Conde de 
Oeiras em 1758 e com o de Marquez de Pombal 
dez annos depois, em sessões pomposas na sala 
da Junta de Commercio, á Cotovia ou na Livra- 
ria do convento dos Oratorianos nas Necessida- 
des. Isto influiu no espirito da vaidade estéril, 
que faz ambicionar o titulo de Árcade, e á am- 
bição de obter uma dotação regia, que conver- 



SKGlíNDA ÉrUCA: OS ÁllCADES 189 



tesse os académicos em cónegos prebendados. 
Garção que tanto trabalhava com dedicação sin- 
cera, conheceu estes inconvenientes, e clama em 
uma das suas Orações: «Conhecemos, que sem 
imitar os antigos era impossivel enriquecer as 
nossas composições das infijiitas bellezas poéticas 
que descobre a cada passo quem frequenta a li- 
ção dos gregos e latinos, e que n'este dictame de 
Horácio consistia o máximo segredo do hom 
gosto. Principiamos a famiUarisarmo-nos com 
Homero, Virgilio e Terêncio; e estes nomes, 
que entre nós eram extranhos, e unicamente 
so viam nas Dedicatórias, passaram a ser os Ído- 
los de nossos estudos. E que deviamos, oh Árca- 
des, esperar de tão súbita e feliz mudança? Ga- 
nharam as nossas obras nova reputação, conciliou 
respeito o nome de árcade e desejou o publico 
assistir ás nossas Conferencias. Atrevemo-nos a 
louvar o principe a quem PHnio podia sem li- 
sonja recitar o famoso Panegyrico de Trajano. 
O mesmo foi ouvirem-nos que estimarem-nos os 
homens mais sábios e prudentes. Olharam para o 
fructo do nosso trabalho como para uma vanta- 
gem da nação. B a grande alma d'aquelle vigi- 
lante Ministro, que não tira a attenção do adian- 
tamento da Pátria, com publicas demonstrações 
lios honrou e animou, para não desistirmos da 
difíicultosa, mas illustre empreza a que sacrificá- 
vamos os nossos estudos. > Referia-se á sessão de 
30 de junho de 1758, celebrando o auniversario 
de D. José, á qual assistira o Ministro officiosa- 
mente. Proseguindo no seu discurso: -Segunda 
vez nos ouviu, segunda vez nos honrou; da sua 
mesma bocca ouvimos expressões com que em 
Portugal não costumam falar os ministros. Pode- 
mos asseverar que vimos aquelle grande coração 



11)0 HISTORIA DA LÍTTERXTURA PORTUGUEZA 



e que n'elle estava vivamente impresso o incan- 
sável zelo com que trabalha pelo bem dos seus 
compatriotas, com que honra e com que estima 
os portuguezes beneméritos. Não tardará muito 
que o publico reconheça que este género de le- 
tras lhe merece uma séria protecção^ e que as 
estima porque as conhece.» Esta segunda vez, a 
que o Ministro assistiu a uma sessão publica da 
Arcádia, foi a que se celebrou no Convento das 
Necessidades pelas melhoras do rei D. José dos 
seus pretensos ferimentos. Annunciara-se para 
todos os tribunaes e municípios, que o rei já es- 
tava melhor, e a Arcádia não podia ficar extra- 
nha a esse jubilo encommendado. Na Gazeta de 
Lisboa, de 22 de Março de 1759, lê-se a conve- 
niente noticia: «A Sociedade académica àa Arcá- 
dia Lusitana, estabelecida n'esta corte, determi- 
nou fazer publico o gosto de vêr conservada a 
vida do nosso clementíssimo soberano e restabe- 
lecida a sua saúde, em uma sessão académica e 
conseguiu fazer a sua assembleia na Sala da Li- 
vraria do real Hospício de N. S."*^ das Necessida- 
des, no dia 14 do corrente, a qual durou desde 
as 4 horas da tarde até ás 10 da noite. A decora- 
ção da sala estava magnifica, a quantidade de 
luzes prodigiosa. Recitaram-se excellentes Poe- 
sias em differentes idiomas, e todas alternadas 
com as musicas das melhores vozes e instrumen- 
tos. Foi o seu presidentf! Pedro António Correia 
Garção que lhe deu principio cora uma elocjuen- 
tissima Oração, que o publico desejara já vêr no 
prelo, como se prometteu. Assistiram a esta ma- 
gnifica e obsequiosa funcção o eminentíssimo e 
reverendíssimo senhor Cardeal Patriarcha, e os 
excellentissimos e illustrissimos Secretários de Es- 
tado de S. M., Sebastião José de Carvalho e 



SEGUNDA ÉrorA: os ÁnCADES 191 



Mello e Thomé Joaquim da Costa Corte K(!al, 
muytos da principal nobreza e um extraordinário 
concurso de gente. » [Gaz., n." 12, p. 95.) No in- 
tuito de ser publicada a Oração inicial, teve Gar- 
ção de eiitregal-a á censura official, recebendo 
differentes cortes. Está hoj(^ impresso o autogra- 
pho conservado pelo cónego Figueiredo, e incor- 
porado na (^dição de 1888; com referencia aos 
trechos alterados, Garção achava-se em uma si- 
tuação delicada, depois das camiibalescas execu- 
ções patibulares com todos os horrores da mais 
germânica invenção, de toda a familia dos Tavo- 
ras. A festa das melhoras do rei cobriu a inegua- 
lavel monstruosidad(; de iníquos supplicios. Gar- 
ção estava forçado pela terrível situação que lhe 
impunha a sua auctoridade na Arcádia. 

A execução do Duque de Aveiro e familia do 
Marqui;z de Távora, foi o desfecho trágico do 
máximo horror, emergente de um conflicto de 
])ragniaticas de primazias ])ahitinas entre esses 
orgulhosos fidalgos e o ministro Sebastião José 
de Carvalho (? Mello. Este teve o re(;urso de um 
hábil manejo para converter uma tentativa de 
ataque á sua pessoa, em um crime de lesa-mages- 
tade — o regicidio, na pessoa soberana de D. José. 
O ministro fizera com que o rei não consentisse 
a revalidação e regresso das antigas Commendas 
da Casa de Aveiro, o que ia augmentar a riqu(>za 
do L)uqu(>. Depois d'isto fez com que o j»odrr 
real não consentisse no casamento do Manpiez 
d(í (louviúa, Jilho do Duque, com a íilha do Du- 
que de Cadaval. Diante d'estas provocações ex- 
tremas de Sebastião José de Carvalho, só havia 
um recurso possivtd, a sua morte. Obsei-varam-se 
os passos do Ministro, que da sua habitação nos 
altos da Ajuda, vinha em sege própria ao pala- 



192 HlSlDlifA DA I.ITTERATURA PHRTl'GUEZA 



cio, pela meia noite até ás quatro horas da ma- 
nhã fazer o despacho, que o rei assignava. Um 
excellente ensejo para um assalto feliz. Ninguém 
suspeitava que este despacho singular, principal- 
mente aos domingos, servia para cobrir a aven- 
tura amorosa do rei. Muito ciumenta a rainha, o 
rei esperava que no palácio da Ajuda estivesse 
tudo recolhido, e então fechando-se com o Mi- 
nistro, deixava-o no gabinete, e sahia na sua 
sege pela calçada do Galvão abaixo, indo encon- 
trar-se com a joven Marqueza de Távora, D. The- 
reza, no palácio de Belém. Acompanhava-o um 
guarda-costas destemido, o sargento-mór Pedro 
Teixeira. Estes amores do rei com a esposa do 
filho do Marquez de Távora, datavam das caça- 
das de Salvaterra, quando se achava ausente na 
índia o velho Marquez de Távora, como Vice-rei. 
A familia lisongeava-se com esta distincção regia; 
para ella coadjuvara o Duque de Aveiro (d'ahi o 
ódio da rainha), o ministro Sebastião José de Car- 
valho auxiliara a aventura com despachos da 
meia-noite ás 4 da madrugada. Era moralmente 
impossível qualquer attentado contra o rei D. José 
por pontos de honra da parte dos grandes fidal- 
gos. Um emissário francez, Malouet, escreveu nas 
suas Memorias (ii, 302) que « A Marqueza velha 
e seu marido desde muito sabiam das amorosas 
relações da nora com o rei; não eram escrupu- 
losos n'este ponto, e até se compraziam emquanto 
d'elle esperavam vantagens.» De súbito este sce- 
nario tão bem preparado, transforma-se na mais 
execranda e monstruosa tragedia. Na noite de 3 
de Setembro, quando o rei regressava da sua 
aventura, são atiradas trez cargas de baca- 
marte contra a sege em que se cria que iria o 
ministro Sebastião José de Carvalho, por isso que 



SEGUNDA Época: os árcades 103 



a corte estava de lucto rigoroso pelo falecimento 
da rainha de Hespanha, irmã do rei D. José, que 
se conservava em nojo official, não sahindo dos 
seus aposentos. Natural illusào. Mas o rei, no ter- 
ceiro dia do lutO; sahiu para a aventura amorosa, 
sendo os tiros apontados á sege ! O grito do bo- 
leeiro : — Vae aqui o Rei! fez desapparecer imme- 
diatamente os sicários. Foi sobre este equivoco 
que Sebastião José de Carvalho organisou du- 
rante trez mezes o processo, para cahir de chofre 
sobre essas duas poderosas familias. Deixou di- 
vulgar os boatos que os seus agentes propalavam; 
mystificou os embaixadores, com informações se- 
cretas de anonymos ; fez o Tribunal Camerario, 
á porta fechada, com juizes que prepararam as 
peças simuladas do processo que conduzia ao 
extermínio dos seus inimigos pessoaes. No fim dos 
seus triumphantes manejos, condecorou-se com o 
titulo de Conde de Oeiras. Quem não tremeria 
diante de um poder tão discrecionario ? 

Já depois dos tiros da noite de 3 de Setem- 
bro, quando o mysterio e silencio da corte dava 
logar a alarmantes boatos propalados intencional- 
mente, celebrou a Arcádia duas sessões em 8 e 
28 de Dezembro, n'essa atmosphera de terror, 
era que o Tribunal da Inconfidência dava cum- 
primento ao decreto de 9 do mesmo mez, que 
mandava prender toda a família do Duque de 
Aveiro e dos marquez^s de Tavoja. A rapidez do 
processo não dava logar a reflexões; em 11 de 
Janeiro de 1759 foram cxautorados da sua no- 
breza e das Ordens militares, de que eram pro- 
fessos, em 12 reune-se o Tribunal Camerario 
no paço real da Ajuda, lavra-se a sentença de 
morte com todos os re(|uintes medievaes e in- 
quisitoriaes, que se executaram no dia 13, com 

13 



194 HISTORIA DA LITTERATLRA PORTUGUEZA 



eterna affronta da civilisação e da humanidade. 
Passados dois mezes, sob pressão moral cele- 
brou a Arcádia em 13 de Março de 1759 uma 
sessão apparatosa de congratulação pelas melho- 
ras do Rei, á qual teve de presidir Garção, pe- 
rante o senado official como o vulto mais cathe- 
gorisado d'essa Academia de Eloquência e poesia. 
Em 6 de Junho foi agraciado o sangrento minis- 
tro com o titulo de Conde de Oeiras com largas 
jurisdicções e rendimentos. A Arcádia tinha de 
celebrar officiosamente o novo titular, em pom- 
posa sessão na Sala da Junta de Coramercio. 
Ahi leram composições Diniz, Theotonio Gomes 
de Carvalho, Silvestre Gonçalves de Aguiar, e o 
terno Domingos dos Reis Quita, leu a Egloga 
Carvalho, e uma Ode alludindo ao sangue de 
execranda rebeldia; Amaral França lê também 
uma Egloga e uma Ode visando Cromwell, cha- 
ma ao novo Conde «Oh nobre Protector do Luso 
estado ! » No meio d'esta miséria moral, leu Gar- 
ção uma Ode ao Ex.™» Conde de Oeiras, a qual 
depois da sua desgraça foi conservada inédita. 
Começa: 

Tu, difficil virtude, dom celeste, 

Tu me chamas aqui para em meus versos 

Da venturosa Oeiras 

Cantar a nova gloria 
Do magnânimo Conde, o amor da l^atria. 

Não me instiga a lisonja, nem invoco 

As Musas fabulosas, 
O céo, o céo me inspira 

Não era a lisonja^ mas o terror, os presenti- 
mentos aziagos que allucinavam o seu espirito e 
um meio de avivar as boas relações com Pran- 



SEGUNDA ÉIdCa: ns ÁRCADES V.)' 



cisco Xavier de Mendonça, o irmão do ministro 
adjunto do Conde de Operas: 

« Abriu o Grão Pará aos fulos braços. » E 
alludindo ao premio pela repressão do imaginário 
regicídio: 

As nove ricas pérolas que brilham 

No coronel dourado, 
Que teu semblante plaei'lo guarnecem 
Por premio te são dadas, não exemplo, 

Virtudes corôão. 
tC virtudes, que impávidas domaram 
A craenta discórdia, a vil cubica 



No Ménalo, se a Arcádia não levanta 

Em honra do teu nome 

Uma soberba Estaina 
De rico jaspe, como tu mereces, 

Seus bymnos to consagra, 
E n'elles louvará tua memoria 

Teu nome escrevêramos 
Em nossos corações, em nossos versos. 

Esta estrophe ia acordar o interesse pela elo- 
quente Falia do Infante I). Pedro, Duque de 
Coimbra, aos Portuguezes, querendo-lhe levan- 
tar uma Estatua pelo seu bom governo, e que 
elle não consentiu. Garção com grande tino ar- 
tistico, tomou este facto de Ruy de Pina, na 
Chronica de D. Affonso V ; e já na Academia 
dos Anonymos tratado em um soneto e um epi- 
gramma latino. A Falia do Infante D. Pedro 
escreveu-a Garção em 1754; corria inédita. Mas 
na colligação dos fidalgos contra Sebastião José 
de Carvaíbo, elles faziam o seu ponto de apoio 
acercando-se do Infante D. Pedro, o pobre lôrpa, 
irmão do rei D. José. estabelecendo uma dissi- 
dência, que se apagou com o casamento do 
Infante com a sobrinha Princcza do Brasil. 



196 HISTORIA DA LITIKRATURA PORTUGUEZA 



Qualquer copia da Falia do Infante D. Pedro 
(ha traslado de 1778) e oiiiittido o titulo de Du- 
que de Coimbra, bastava fazel-a chegar á mão do 
Ministro, para suspeitar que o poeta Garção per- 
tencia á parcialidade fidalga do Infanle D. Pe- 
dro, ante o qual foi representada a sua Comedia 
Assembleia ou Partido. Não foi esta poesia a 
causa exclusiva da perseguição contra o árcade, 
como se transmittiu na tradição ; outras suspeitas 
se foram desastradamente accumulando, para se 
liquidarem subitamente aproveitando um equi- 
voco opportuno. 

Em 31 de Janeiro de 1760, terminou a Ga- 
zeta de Lisboa^ pelo falecimento do seu redactor 
e proprietário Francisco Ferreira Montarroyo Mas- 
carenhas; publicação privilegiada, o governo con- 
cedeu-a aos Officiaes das Secretarias dos Negó- 
cios Estrangeiros e da Guerra. O poeta Garção, 
hábil interprete de linguas vivas e clássicas, e 
acatado pelo reconhecido saber philologico, foi 
incumbido da redacção da Gazeta de Lisboa, 
apparecendo o 1.^ numero ein 22 de Junho de 
1760 (continuava a serie iniciada em 10 de 
Agosto de 1715) com o titulo de Gazeta dos 
Officiaes das Secretarias. Garção possuia todas 
as qualidades para se desempenhar d'esta missão, 
traduzindo e abreviando as noticias das cortes 
hespanhola, franceza, ingleza, austríaca, resu- 
mindo os acontecimentos com um laconismo cau- 
teloso, segundo a Índole paterna, e primoroso na 
linguagem sóbria e correcta. Era um recurso eco- 
nómico, por isso que os rendimentos da escriva- 
ninha da Alfandega eram repartidos por um ser- 
ventuário. Cora o n." 15 de 1762 foi por ordem 
do Conde de Oeiras suspensa a publicação da 
Gazeta dos Officiaes das Secretarias. Qual o 



SEGUNDA fAH>r.\: OS ÁRCADES 197 



motivo d'essa resolução do Ministro? Segundo 
uma nota de Pr. Vicente Salgado, fallando de 
Garção: «era o que fez as ultimas Gazetas por- 
tuguezas antes da guerra de 1762 com Castella, 
em que se mandaram suspender.» (Ms. n." 35 
da Bibl. da Academia, G, 5; est. 8.) Não foi 
portanto ódio do ministro, mas urgência politica^ 
porque a Guerra velha, como se designou esta 
de 1762, resultara do Pacto de Família, era que 
França e Hespanha se colligaram contra Ingla- 
terra, forçando Portugal a entrar n'essa liga. 
O Conde de Oeiras sentia-se da politica ingleza, 
que abandonara Portugal por mais de dez annos, 
e que só agora nos vinha acudir com uma ins- 
truída officialidade. A suspensão da Gazeta era 
para evitar conflictos ou resentimentos diplomá- 
ticos. O Conde de Oeiras mandou perguntar ao 
poeta qualquer preterição que lhe conviesse, por 
ventura por seu irmão official da Secretaria da 
Guerra. Garção retraíu-se em excusas de ordem 
moral, de que o ministro teve vago conheci- 
mento, o bastante para consideral-o um adver- 
sário incurso no seu rancor. 

O sentido politico d'esta guerra de 1762, fri- 
sou-o o ministro em carta ao nosso embaixador 
em Inglaterra, mostrando como ella resultara da 
indifferença com que o governo britânico « nos 
tem abandonado em preza ás cubicas e ás ter- 
ribilidades castelhanas, e que expoz no anno de 
1762 os seus domínios a succurabirem debaixo do 
pezo das forças com que Hespanha sustentada 
pela França, invadia este reino, causa da maim- 
tenção da antiga allíança com a Coroa da Gran- 
Bretanha. » Durou este estado de angustia por 
dez annos, e portanto era matéria perigosa para 
converíjas particulares, que suscitaria a Gazeta 



lí)8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGLEZA 



de Lisboa, logo supprimida. O ministro era im- 
placável contra os bons ditos sobre a sua perso- 
nalidade, e em especial contra versos satíricos. 
O Conde de Óbidos foi mettido nos cárceres da 
Junqueira, por constar que dissera: — Que D. Se- 
bastião já não viria reinar em Portugal, como se 
cria, porque já cá estava outro. Por se encontra- 
rem versos satíricos em casa do juiz do Pisco, 
Salvador Soares Cotrim, e também em poder do 
P/ António Rodrigues, foram atirados ao cárcere 
duro da Junqueira, onde morreram. Garção es- 
tava sujeito a que os inimigos da Arcádia e as 
invejas da sua superioridade litteraria, fizessem 
chegar ás mãos do ministro a Falia do Infante 
D. Pedro (pela confusão do nome do heróico Du- 
que de Coimbra com o do irmão do rei D. José.) 
Garção não renegava a sua amizade com o cele- 
brado 'Conde de S. Lourenço, que se achava fe- 
chado no convento das Necessidades, e applaudia 
o talento da joven poetisa Aleipe, D. Leonor de 
Almeida, filha do Marquez de Alorna, prezo na 
Junqueira, e sua esposa e filhas fechadas na clau- 
sura do convento de Chellas. Sob esta atmos- 
phera asphyxiante Corydon confinou-se quanto 
pôde na sua vivenda isolada da Fonte Santa, 
onde o P.*" D.elphim, capellão do Loreto, o ia en- 
cantar com a tocata da sua afamada rabeca^ en- 
tregando-se á pintura e a composições poéticas, 
que tanto lucravam na expressão da objectividade 
que vivificava as suas idealisações, como se vê 
na maravilhosa Cantata de Dido. ' A officiali- 



' • O Conde de Caylus, que conhecia melhor a Pin- 
tura do quj a Poesia, queria que o pintor tomasse os 
seus assumptos dos poetas, e considerava o ^oeía waia 



SEGUNDA Época: os árcades 199 



dade estrangeira, que viera formar os quadros do 
exercito portuguez para resistir á invasão caste- 
lhana, reorganisado e disciplinado pelo Conde de 
Lippe, veiu influir na sociedade pelos casamen- 
tos, conservando-se muitos dos seus appellidos nas 
famílias que constituíram. Officiaes de artilheria 
e engenharia entraram na intimidade de Garção 
pela vivacidade do seu espirito culto, ao corrente 
do movimento politico e intellectual da Europa. 
A Fonte Santa era um éden para esses officiaes, 
como Mardel, Mac Bean, Weinholtz, nos bellos 
serões de inverno, á luz azulada e cariciosa dos 
ponches. A galanteria entre as damas não era 
um retrahimento desconfiado e temeroso das ten- 
tações da carne, mas essa cousa delicada e con- 
fiante do flirt, tão differente do coquetismo. Nos 
versos de Garção ficaram os deliciosos quadros 
d'esta sociabilidade distincta e intima, em um 
ambiente de alegria moral. A musica, principal- 
mente de Domenico Scarlatí, dava um tom de 
corte ás reuniões; mas os versos tinham uma 
preferencia excepcional, para a adulação empha- 
tica das festanças. Francisco Coelho, no volume 
que fecha a collecção do Theatro de seu irmão, 
allude a este costume: Ha cincoenta e sete 
annos, quando tratavam de ajuntar-se os alumnos 
para formarem a Arcádia de Lisboa, conheci um 
curioso, que desejando introduzir-se em algumas 



perfeito aquelle que apresentava os seus quadros inteira- 
mente compostos á imitação da pintura. » (Crouslé, Lea- 
sing et le Gont. franç., p. 188) Isto explica-nos a belleza 
das poesias de Garção, mesmo nos Sonetos do deslavado 
assumpto mytliologico, nos das relações da vida domes- 
tica, como o chá e torradas, até á emoção subjectiva da 
dignidade moral nao suas incomparáveis Odes boraoianas. 



2U0 HISTORIA DA LITTEKATLRA PORTUGUEZA 



assembleias distinctas — o seu pensamento era 
copiar os versos mais conhecidos e mais celebra- 
dos, — e lá quando a occasião o pedisse, entrar 
a lêr os versos á maneira dos Entremezes e dos 
Sainetes, em musica dos hespanhoes, pois ainda 
não tinha chegado nas assembleias ao zenith o 
frenesi do Jogo de Whist, a musica, a dança, que 
absorveram depois todo o tempo. » {Obr., t. xiv, 
p. 464.) Estes traços revelam-nos o meio em que 
compoz Garção a sua comedia em verso Assem- 
bleia, em que ura personagem recita a Cantata 
de Dido; e a parte cómica ,d'essa composição, 
veiu a dar-se com elle que, quando menos o es- 
perava, achou-se falho de recursos, tendo de re- 
correr a empréstimos de amigos e a confiar nas 
esperanças do tio rico, o cónego de Braga, O 
poeta tinha de manter a sociabihdade da Fonte 
Santa, para assim — zombar da má fortuna, 

Quo illustrps bons amigros o buscavam. 
Como allivio da barb:^ra tortura 
De conversar com Getas e Tapuyas. 

(E'pist. III) 

Quita, no seu Idylio vi esboça esse sitio e vi- 
venda do poeta, como quem ali se repassou da 
suave intimidade: 

Lá no valle da Fonte, so divisa 

De Corydon a cbóça rodeada 

De altos loureiros enredados de bera; 

Ab. sábio Corydon, que em doce abrigo, 

Ao amigo calor de um brando fogo, 

Gosas da paz que babita com um justo. . . 

Corydon, o pastor da Arcádia, diante da vida 
quotidiana, deixa as ficções rhetoricas, e pinta o 



SEGUNDA Época: os árcades -''i 



realismo da vida que tem também a sua poesia, 
que poucos sabem sentir, e que elle com tanta 
arte representa em alguns Sonetos: 

O louro chá, no bule fumegante 
De Mandarins e Brâhmanes cercado, 
Brilhante assuoar em torrões cortado, 
Vermelhas brazas. alvo pão tostando. 

Ruiva manteiga em prato mui lavado, 
O gado feminino arrebanhado 



Depois de cochichar o chá se toma, 
Eis aqui o Long-Room da Fonte Santa. 

[Son. 16. 71.) 

Era n'esse cochichar antes do chá, que o flirt 
se animava, e emquanto o P.^ Delphim fazia ge- 
mer a sua rabeca com as Modinhas travessas e 
desenvoltas. Esse flirt rpvela-o o poeta no So- 
neto xlvií: a uma Senhora a quem o Auctor 
chamava sua mãe: 

Commigo minha mãe, brincando um dia 
A namorar com os oUios me ensinava. 
Mas Amor, que em seus olhos mo esperava, 
Com mil brilhantes farpas me feria. 

De quando em quando, mais formosa ria, 
Porque incapaz do ensino me Julgava ; 
Porém, tanto a lição me aproveitava, 
Que suspirar por ella já sabia. 

Em poucas horas, aprendi a amal-a; 
Ditoso se tal arte não soubera, 
Não me custara a vida não logral-a, 

Certo, que aprender menos melhor ora; 
Pois não soubera agora desejal-a, 
Nem de um louco amor enlouquecera. 



202 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Este tratamento de mãe e de filho como era 
então característico da affectiva familiaridade in- 
gleza. Corj^^don no Soneto ix deixa qualquer ele- 
mento de realidade do seu estado passional: 

Ao som da Fonte Santa que corria, 
Na alva borda do tanque debruçado, 
De cansados desejos já cansado, 
O tristo Corydon adormecia. 

Que doce sonho, imaginando, via 
De Belleza gentil o rosto amado, 
Que na tremula veia retratado 
Dos olhos cubiçosos lhe fugia. 

Na sua comedia Assembleia ou Partido, in- 
tercalou Garção um Soneto, que é recitado se- 
gundo o estylo da época pelo personagem cari- 
cato Gaspar Picote como glosa do verso: 

E ter um velho amor não é toucara. 

Caraillo imaginou em 1875 que esse Soneto, 
que vem na edição de 1778, era inédito, bordan- 
do sobre elle a scena de um escandaloso amor 
do poeta, e allegando um fictício coramentario 
manuscripto do cónego Figueiredo, que o sábio 
editor de 1888, dá como simples invenção do ro- 
mancista. Transcrevemol-o, para acclarar a si- 
tuação, que não vae além de um gracioso fiirt: 

Estavam as trez Graças penteando 
Os cabellos subtis de Amor um dia; 
Qual co' marfim assyrio lh'os abria, 
Outras andam mil gemas preparando. 

Amar. como rapaz, de quando em quando, 
Co'a dourada cabeça lhe fugia, 
Porém, vê que Eiiphrosine se sorria 
Porque Aglae lhe está as cans atando. 



SEGUNDA Época: os árcades '^)^ 



O Menino, pasmado, vê no espelho, 
Por entre os anneis de ouro reluzente, 
Branquear a saraiva da velhice, 

Suspira e diz : — Ah ! saiba a cega gente 
Que Amor, nascendo moço se faz velho; 
Ê am velho ter amor não é tontice. 



Para applicar o caso a Garção, que contava 
então quarenta annos, Carnillo pinta o vulcão do 
amor que arquejava ainda debaixo dos flocos 
de neve, que llie listravam os cabellos; e no arre- 
batamento da sua phantasia, conclue: «Eis aqui 
a funesta historia referida em poucas palavras 
pelo cónego Manuel de Figueiredo, commentando 
o Soneto que fica transcripto » (Curso de Litt., 
p. 184.) Azevedo Castro, que fez a edição de 
1888, tendo obtido os alludidos manuscriptos do 
cónego Figueiredo: «Nisto, nada encontrei sobre 
o assumpto. ■> {Ed.. cit., p. lix.) E da allegação 
de Camillo diz: «O alludido manuscripto, pare- 
ce-me pois carecer de authenticidade. » (Ib., p. 
i^xxni.) Qualquer flirt-por Miss Elisabeth {Belisa, 
do Soneto ix) se teve realidade não passou do que 
era normal na boa sociedade portugueza, pelas 
relações com famihas estrangeiras, não passou 
isso além de 1764. Garção sentia o grande des- 
gosto da desmembração dos Árcades, que se não 
reuniam. Francisco Coelho ao imprimir o di.scurso 
de seu irmão Lycidas Cijnthio, allude a (^ste fa- 
cto: «sendo maior a mania de poesias lyricas, no 
tempo que durou a Arcádia de Lisboa desde 
1757, que principiaram a reunir-se os alumnos, 
até que se desvaneceu em 1764, pouco mais ou 
menos, como dá a conhecer no terceiro Discur- 
so.» A vinda de Diniz de Castello de Vide a Lis- 
boa em fins de Dezembro de 1763, conseguiu in- 



204 HISTORIA DA LITTER.\TURA PORTUGUEZA 



sufiar o enthuziasrao pela Academia, que se tomou 
por uma restauração da Arcádia. Na sessão de 13 
de Maio de 1764, Quita proclama o influxo de 
Difiiz e Garção n*esse resurgimento. Ainda se ce- 
lebrou uma sessão era 19 de Junho d'esse anno; 
mas a nomeação de Diniz despachado juiz Audi- 
tor do 2.0 regimento da praça de Elvas, foi como 
o golpe de misericórdia na Arcádia. Aragão 
Morato, na sua Memoria sobre o estabelecimento 
da Arcádia, revela a acção depressiva do Conde 
de Oeiras, estimulado por odiosas intrigas: «Um 
ministro poderoso e retraliido, cujas heróicas vir- 
tudes ella (a Arcádia) mil vezes cantara, que 
mostrara amparar até com a própria presença 
seus felizes trabalhos — dem fáceis ouvidos a VO" 
zes da cahimnia, e incautamente pretendeu sub- 
jugar a Arcádia, tomando por intermédio doesta 
sujeição, um dos seus menos distinctos sócios. * 
Percebendo essa malevolencia do ministro, os 
Árcades aterrados foram abandonando aquella 
Academia, que em 1759 Garção proclamara 
triumphante. Innocencio considera que o árcade 
que espionava em serviço do ministro era o mu- 
lato P.e José Caetano de Mesquita, que fora re- 
centemente nomeado mestre de rhetorica. Garção 
deixara passar o successo do casamento do pri- 
mogénito do Conde de Oeiras, bem festejado 
com uma Ode epithalamica, tendo-lhe prestado 
essa homenagem Pina e Mello no poema allego- 
rico do Palácio do Destino. A Paz celebrada em 
Paris, pela qual nos eram restituídas as praças e 
cidades occu padas pelos castelhanos, fora o obje- 
ctivo d'esse lampejo final da Arcádia em 19 de 
Junho de 1764, no opulento palácio de Lazaro 
Leitão Aranha. Seria isto o que desagradou ao 
ministro; pelo que, observou Aragão Morato; 



SEGUNDA É1'0C.\: OS ÁRCADES <iUr) 



« que mal se podia recear dos Árcades porta- 
guezesf> Na Odo do Garção A' restauração da 
Arcádia, vem a poética imagem que suscitou o 
antagonismo de poetas conhecidos pelo titulo 
Orupo da Ribeira das Náos, por se reunirem na 
habitação do P." Francisco Manuel do Nasci- 
mento {Filinto Niceno): 

Soberbo galeão quo o porto largaa 
Aonde o férreo dente preza tinh^i 
A cortadora proa, que rasgava ' 
De um novo mar as ondas. 

Ao alto pego torrão, nunca asado 
Dos fracos lenhos quo no Tojo surgem; 
Já ferve a brava chamma o se levanta 
A náutica celeuma. 

Os cabos passarás mais tormentosos, 
Sem que as crespas torrentes te atropellem, 
An pólo chegarás aonde brilha 
A luz da eterna Fama. 

Em vão ronceiras, barbaras galeras 
Forçando os débeis remos, com que açoitas 
O mar que lhe resiste e as affrontas 
Trabalham por seguir-te. 

Era um cartel de desafio aos jovens poetas 
que se lançaram no delírio das Sátiras pessoaes, 
que se prolongou ainda por 17B7 como indica 
Manoel de Figueiredo no seu Discurso vni, em 
nota: «Pelos annos de 1767, pego na penna, es- 
crevo o prologo da Eschola da Mocidade, prin- 
cipio a Comedia, d'ahi a dias visitei o Bispo de 
Beja (D. Fr. Manuel do Cenaíuilo) tallo nas com- 
posições em que gastavam o tempo os moços de 
génio, que tinha Lisboa, pois naquelle tempo se 
devoravam com Sátiras uns aos outros, e o 



206 HISTORIA DA LtTTEUATURA PURTUGUEZÂ 



Theatro sustentando-se com traducções . . . » (Obr. 
posth., II, 211.) Do Grupo da Ribeira das Nãos 
falia Aragão Morato: «finalmente, uma nova So- 
ciedade formada á imitação da Arcádia, e em 
cujo grémio entravara alguns moços de muita 
capacidade e engenho, contribuindo não pouco 
para fomentar a consolação litteraria e grangear 
aos Aícades a maior celebridade. » (Mem. cit., 
p. 75.) Na lucta de Sonetos e Sátiras, que se 
desencadeiam, chega-se até ás insinuações pes- 
soaes; em alguns se esboça o retrato de Garção e 
parodiam-se versos seus em que pinta a sua po- 
breza domestica. Assim metrifica José Basilio da 
Gama: 

Ao Garção 

Lisboa, tres de Abril. Cheio de sarro, 
Roto o vestido, hirsutos os cabellos, 
A bocca negra, os dentes amarellos, 
Envolto em homem gira um certo escarro. 

Reger das Musas o soberbo carro 

Quiz; mas porém frustraram-so os desvelos, 

Mudo no chão, arranha-se de zelos 

A frágil criaturinha que é de barro. 



Em um Soneto de Domingos Monteiro de Al- 
buquerque e Amaral (Motiizio) a allusão á sua 
vida domestica é pungente, mas convém fixar 
esses traços que dissolvem a lenda da aventura 
de amores com que quizeram explicar a sua per- 
seguição iniqua. 

Quem visse um máo Poeta atassalhado 
De Odes mouras, e em torno um bonito indino, 
De lapuzes crianças sem ensino 
Brincar-lhe c'os papeis, ter-lh'os rasgado V 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES -07 



Quem o visse c'o lenço entabaeado 
Enxotar um, porém outro maliuo, 
Limpar o oú do irmão mais pequenino, 
Com Soneto que estava começado? 

Quem mais visse entre tanta porcaria 
Um esqueleto em forma de macaco, 
Poetando em phrase turca, obscena e fria 

Quem mais visse d'aquell6 estulto caco 
Sahir tanta obra má, — Este (diria): 
Garção, nojento escarro de tabaco. 



Domingos Monteiro de Albuquerque conhecia 
a vida desconfortada da Fonte Santa, causada 
pelas complicações das difficuldades económicas 
que envolviam o poeta, que nos seus versos se 
lamentava: 



Mas do poeta, amigo, só me resta 
Desastres e misérias, filhos rotos 



O Chico mostra rotos os sapatos; 

Um quer lenços, outro quer roupinhas ; 

A' porta está batendo o alfaiate 
Se alguém aos cães lançar os pátrios ossos, 
Se fôr traidor á pátria, se é falsario. 
Seja lançado a filhos e credores. 

Pela data em que irrompeu e se prolonga 
a Guerra dos Poetas, ve-se que ignorando a 
vida de Garção^ doente, pobre, torturado por 
credores, com uma numerosa família, é que se 
formou a lenda de uns amores com luna senhora 
ingleza, cobrindo assim o arbitrio do Marquez de 
Pombal pondo no segredo de cárcere ad libitiim 
o indefezo poeta. Pilinto Niceno, que comman- 
dava o novo Rancho, quando teve de fugir de 



208 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Portugal ao intolerantismo que o perseguia, no 
seu angustioso exilio de Paris, lia com recolhi- 
mento as poesias de Garção copiadas por sua 
mão era trez cadernos e citava esse nome como 
de um iniciador e modelo. A Guerra dos Poetas 
prolongou-se por 1770, tomando por objectivo" o 
delirio causado pela cantora italiana Zaraperini, 
que veiu mais aggravar os ódios dos medíocres 
contra Garção, e envenenar mais a raalevolencia 
do Marquez de Pombal. 

O começo das hostilidades contra a Arcádia 
proveiu de alguns de seus sócios que pertenciam 
á Congregação dos Oratorianos das Necessida- 
des, e em 17B0 ter-se dado o conflicto do minis- 
tro com essa corporação que tanto õ auxiliara 
nas reformas do ensino publico apoz a expulsão 
dos Jesuítas. O esclarecimento d'esse conflicto 
porá em evidencia como o desgraçado Garção se 
achou envolvido no ódio do Conde de Oeiras. 
Pelo rompimento das relações de Portugal com a 
Cúria romana em 1760, para resolver quaesquer 
impedimentos matrimoniaes ordenou que o fossem 
pelos bispos diocesanos, sem recorrer ás dispensas 
de Roma, e ficando validos os casamentos sem 
esse requisito. Para sustentar esta prerogativa do 
regalismo foi encarregado Ignacio Ferreira Souto 
de publicar um livro De Potestate Regis, que 
este jurisconsulto escrevera. Não podia effectuar- 
se a publicação sem a prévia approvação do In- 
quisidor Geral (um dos Meninos de Palhavan). 
A censura inquisitorial ordenou que o livro fosse 
examinado pelo P." João Baptista, da Congrega- 
ção do Oratório, que demorou tanto o seu exame, 
que o desembargador foi pessoalmente á cela do 
Padre inforraar-se do andamento. O oratoriano 
declarou que não approvava essa extorsão do 



SEGUNDA Época: os árcades "^'3 



poder do Regalismo. O jurisconsulto agarrou no 
livro, indo contar o caso ao Conde de Oeiras, que 
ante esta affronta do seu poder absoluto foi pes- 
soalmente entender-se com o Inquisidor Geral, 
do que resultou ordem de prisão para os Meninos 
de Palhavan e internados no convento do Bus- 
saco. Por esta causa, como familiar do Santo Offi- 
cio foi encarcerado na Junqueira o Conde de 
S. Lourenço, onde jazeu dezoito annos. As seis 
Casas da Congregação, por auctoridade episcopal 
foram suspensas de confessar e de pregar. O P." 
António Pereira de Figueiredo, em carta para o 
Propósito de Goa, de 25 de Março de 1769, des- 
creve este desagrado era que cahiu a Congrega- 
ção perante o monarcha, oppondo-se áquellas 
doutrinas. Por este tempo, o ministro publicava 
um decreto real, offerecendo 40.000 cruzados a 
quem denunciasse os murmuradores do seu go- 
verno. Quem estaria livre de uma malevolente 
emboscada? Pelas amizades de Garção com os 
seus collegas da Arcádia é natural que em con- 
versa particular ouvisse fallar do caso jurídico e 
expendesse reservadamente qualquer reflexão. E' 
certo que foi essa sua familiaridade cora os P. P. 
das Necessidades, que se considerou a causa da 
sua perseguição. Dil-o António Joaquim de Mello, 
no seu livro Biographias de Poetas e homens 
illustres de Pernambuco: «O Marquez de Pom- 
bal o não olhava bera por ser parcial dos Padres 
Congregados e outros murmuradores do seu mi- 
nistério. » (Op. ciú., I, 13.) O auctor citado não 
examina as circumstancias, que são a prova do 
facto; o mesmo aconteceu com Innocencio, cobrin- 
do a sua falta de informação com a referencia 
vaga: «Parece que este (Marquez de Pombal) 
andava desgostoso cora o Poeta, pelas suas inti- 

14 



210 HISTORIA DA LITTER^TURA PORTUGUEZA 



midades com os Padres da Casa das Necessida- 
des, que elle Marquez olhava como inimigos do 
seu ministério, e não sem razão. » {Carta part. 
de 18 de Fevereiro de 1861.) Garção tinha o pre- 
sentimento do ódio que contra elle ia desabar, e 
com um natural instincto de defeza, escreveu 
uma extensa e pomposa Epistola ao Senhor 
Marquez de Pombal, glorificando-o pela occa- 
sião em que era elevado á hierarchia nobiliar- 
chica de Marquez, proclamando o seu espirito de 
justiça e commentando os feitos dos seus antepas- 
sados heróicos. 

Nas copias manuscriptas d'essa época, appa- 
rece esta composição com o titulo: Carta: Ao 
lll."^ e Ex."^ Snr. Sebastião José de Carvalho 
(ms. de 1772), e em outro da mesma data com 
a rubrica: Ao Snr. Marquez de Pombal. ' As 
Sátiras dos poetas do Grupo da Ribeira das 
Nãos, não podiam ser desconhecidas do Marquez 
de Pombal, porque seu irmão Francisco Xavier 
de Mendonça ahi governava como Director. No 
seu fundado susto, Garção contava com a defeza 
d'aquella antiga amizade; talvez que elle tivesse 
sustado qualquer golpe. Desde 19 de julho de 
1759, que Francisco Xavier de Mendonça Furtado 
fora despachado Ministro de Expediente junto de 
seu irmão o Conde de Oeiras, e no anno seguinte 
feito Ministro do Ultramar e Marinha. Era dotado 
de um caracter integro e humano. Garção podia 
contar com elle para lhe acudir n'alguma sur- 
preza. Por fatalidade, tendo de ir acompanhar o 



^ Na ediçilo de 1888. traz a rubrica Ao Ex.'^' Snr. 
Gonds de Oeiras. Secretario d" Entado, talvez escripta 
em 1769, antes da nomeação de Marquez. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 211 



rei D: José a Villa Viçosa, ahi foi victimado por 
uma febre maligna. Outro accidente veiu tornar 
mais delicada a sua situação ante o omnipotente 
ministro, que sabia vingar-se apoiando-se sempre 
nas circumstancias imprevistas. Em 1770 Paulo 
de Carvalho e Mendonça, que desde 19 de Se- 
tembro de 1764 exercera o cargo die Presidente 
do Senado de Lisboa, com a mais intelligente e 
honrada administração, no reconhecido desenvol- 
vimento da cidade, entendeu retirar-se d'esses 
instantes trabalhos. A opinião pubHca não ficou 
indifferente a essa resolução, estando preoccupada 
sobre a nomeação da nova Presidência, para a 
qual se apontava já o Conde de Oeiras^ primo- 
génito do Marquez de Pombal. Garção escreveu 
um Soneto Ao Senado de Lisboa^ em que exal- 
tava o seu antigo Presidente. Eil-o: 



Fiel á pátria, ao rei, a si, a tjudo, 
Sincero sempre e sempre contundido, 
Tão amplo bemfeitor. quanto offendido 
Pelo dente voraz do um po\o rudo; 

Da viuva, do órfão soiupre escudo, 
Por parte da razão sempre attendido. 
De insultos vãos por máxima esquecido. 
De culto nas acyões sempre sisudo; 

Columna de antiquissimos direitos, 
Voz da nação, que exactamente sôa, 
Qual ecco pela estrada dos preceitos; 

Este, o Senado, a quem perdeu Lisboa I 
Vede pois. cidadãos, com novos feitos 
Se a Camará que vem vos é tão boa. 



O Conde de Oeiras que suecedeu a Paulo de 
Carvalho em 1770 na Presidência do Senado de 



212 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTIIGUEZA 



Lisboa, fez logo taes desvarios, que seu' pae o 
Marquez de Pombal, conhecendo este Soneto, 
percebeu sob esse compromisso uma sátira pes- 
soal. Foi a loucura pela cantora italiana Zampe- 
rini, que se continuou na Guerra dos Poetas, 
sendo ura dos heroes o P/ Manoel de Macedo, 
na Arcádia Lemano. O Conde de Oeiras para 
arranjar dinheiro para manter a empreza apenou 
os capitahstas da cidade, arbítrio legalisado pelo 
Alvará de 17 de Julho de 1771, e Instrucções 
para o estabelecimento de uma Sociedade para 
a representação de Operas em San Carlos. O 
Marquez de Pombal, quando viu claro os desva- 
rios do filho, deu uma ordem de expulsão da se- 
ductora Zamperini, causadora da versalhada dos 
seus apaixonados. 

Este escândalo acha-se pittorescamente rela- 
tado por Thimoteo Lecussan Verdier, a propósito 
do verso do poema o Hyssope, allusivo á extre- 
mada Zamperini. Destacamos algumas linhas, 
que farão sentir o alcance moral do Soneto de 
Garção : 

« Zamperini, actriz cantora, veneziana, que 
veiu a Lisboa em 1770, com a qualidade de 
prima dona e á testa de uma companhia de có- 
micos italianos, ajustados e trazidos da Itália pelo 
sr. Galli, notário apostólico da Nunciatura e ban- 
queiro dos negócios da Guria romana. Entregou- 
se a esta virtuosa sociedade o Theatro da Rua 
dos Condes. Como havia tempos que não se ou- 
vira opera italiana em Lisboa, foi grande o alvo- 
roço que causou esta chegada. Sendo forçoso 
custear esta especulação theatral, os Agentes in- 
teressados n'ella lembrarara-se de recorrer ao fi- 
lho do Marquez de Pombal, o Conde de Oeiras, 
então Presidente do Senado da Gamara de Lis- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES "^13 



boa, que já prezo e pendente da encantadora voz 
da sereia Zamperini annuiu sem difficuldade ao 
plano que lhe foi proposto. Sob os seus auspí- 
cios, ideou-se uma Sociedade com o fundo de 
100 mil cruzados, repartido em 100 Acções de 
400 mil réis cada uma. Para alcance prompto 
d'esta quantia, lançou-se uma finta sobre alguns 
negociantes nacionaes e estrangeiros, que em dia 
assignalado e em horas fixas, sendo juntos no Se- 
nado, sem saberem a que eram chamados, ouvi- 
ram da bocca do Conde Presidente as condições 
d'essa nova sociedade theatral. N'uns o receio de 
serem mal vistos do governo, n'outros a vontade 
de agradar ao filho do primeiro ministro, foram 
as poderosas considerações que os arrastaram 
todos a assignar as ditas condições, das quaes a 
mais penosa era a da somma, que logo preenche- 
ram. Parece que os inventores e agentes d'esta 
Sociedade tiveram por alvo singular o de multar 
a austera sisudeza de alguns negociantes ve- 
lhos, — que nunca haviam sido vistos em públi- 
cos divertimentos. — Antes de findos dois annos, 
o fundo da sociedade theatral achava-se exhaus- 
to, e as receitas montando a tão pouco, que mal 
cobriam as despezas indispensáveis do serviço 
mais ordinário . . . Esta negociação theatral ape- 
nas durou até meados de 1774 em que o Mar- 
quez de Pombal fez sahir de Lisboa a Zampe- 
rini . . . achando-se a empreza empenhada e deve- 
dora a infinitos cròdores . . . > Theotonio Gomes 
de Carvalho foi um dos quatro administradores e 
inspectores da empreza, e no camarote da adminis- 
tração apparecia algumas vezes Diniz, o auctor 
do Hjjssope. O Soneto de Garção Ao Senado de 
Lisboa, aíigurou-se ao Marquez de Pombal um au- 
gúrio das burricadas do Conde-Presidente seu filho. 



HISTORIA DA LITTER.ATURA PORTUGUEZA 



Desde a noite de 8 de Abril de 1771, que o 
Garção fora arrancado á sua família e mettido no 
segredo do Limoeiro. O facto provocou lacónicos 
rumores: qual o motivo da prizão do poeta? Um 
motivo fútil. Outros adiantavam: Uns versos que 
desagradaram ao Marquez de Pombal. Mas, 
que versos? Ninguém conhecia o Soneto ao Se- 
nado de Lisboa que fora presidido por Paulo de 
Carvalho ; foram examinar a Falia do Infante 
D. Pedro, escripta em 1754, sobre o facto histó- 
rico do Duque de Coimbra, e sem notarem que 
os melindres do Infante D. Pedro, irmão do rei, 
já desde 1760 estavam sanados pelo seu casa- 
mento com a sobrinha Princeza do Gran-Pará. 
O Marquez de Pombal, cobriu o seu resentimento 
pessoal cora uma circumstancia fortuita. Como a 
ordem de prizão ficara até ao nosso tempo igno- 
rada, desconhecia-se que mais duas pessoas ti- 
nham sido também prezas. Apenas constou por 
tradição de Domingos Maximiano Torres (Alfeno 
Cynthio) que chegara até ao bibliographo Inno- 
cencio: «que a tal carta, havia por fim. nada 
menos que convidar para a fuga a menina, 
cujo estado de gravidez ia já sufficientemente 
adiantado. » Pelas tradições da familia de Gar- 
ção é que um seu bisneto J. M. de Salema Garção, 
contava que essa menina era uma filha do Coro- 
nel escocez Mac-Bean, e que a carta era de um 
tal Lobo de Ávila, que seu bisavô por favor tra- 
duzira em inglez. Foi sobre estes elementos, em 
parte errados, que Garrett escreveu a apreciada 
nota no seu drama, que tanto interessou a atten- 
ção da critica pela morte do árcade insigne. Ca- 
raillo Castello Branco, serve-se da tradição errada 
da nota sobre Garção, deturpando iniquamente o 
seu sentido moral: A mulher que o poeta amava. 



SEGUNDA Época: os árcades <í1í> 



era sua visinha, filha do Intendente de artilheria, 
Mac-Bean, escocez ao serviço de Portugal. For- 
mosa e leviana, diz a tradição colhida por um 
neto de Garção; porém, esfie descendente do 
poeta amoroso, em vez de dar a seu avô a per- 
sonalidade activa e directa, na historia dos 
amores da escoceza ou ingleza, como elle dizia, 
constituiu-o simplesmente secretario dos affectos 
de um seu hospede, em uma carta de grande 
consideração escripta á menina. Louvável dis- 
farce, se o intento dn seus pães foi resguardar 
da irrisão um homem que delinquira contra a 
honra em edade imprópria de desvarios eró- 
ticos.» {Curso de Lilt., p. 182.) E depois d'este 
crime, novas deturpações da verdade histórica, 
porque a ordem simultânea da prizão de Lobo 
de Ávila não é um louvável disfarce, ainda 
acha generosa a vingança do Marquez de Pom- 
bal, deixando-o morrer na cadeia sem julga- 
mento judicial: «Não se lhe instaurou processo 
para evitar dois opprobrios, o de Garção, chefe 
de famiha na edade de quarenta e nove annos, e 
o da filha do queixoso, mulher cuja deshonra 
ficaria occulta, se o prezo expirasse com o se- 
gredo do motivo da sua prizão...» (Ibid., p. 
183.) N'este seu atientado moral, Camillo desco- 
nheceu o mandado de soltura que o Marquez de 
Pombal assignou quando já Garção estava nos 
paroxismos. Medonho accordo moral do ministro 
e do romancista. 

Na Torre do Tombo existem os mandados da 
prizão do poeta, nos Avisos, Liv. 10 a 14, fls. 42 
e 47, com data de 8 de Abril de 1771: «Ordem 
de prizão para Francisco António Lobo de Ávila, 
filho do Escrivão da Guarda (Real); para Fedro 
António Correia Garção e Manoel José, que se 



216 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



chama creado grave d'este, devendo ser encer- 
rados era separado.» ^ 

Na familia do poeta ignorou-se quem era o 
official que se apresentara ao Marquez de Pom- 
bal reclamando as trez prizões; como o filho José 
Maria Salema Garção era então muito criança, 
nada pôde precisar, e seu neto Pedro Salema 
Garção é que vendo versos a um Coronel Mac- 
Bean e a um outro chamado Mac-Lean, confun- 
diu os dois. A critica de bom senso veiu a reco- 
nhecer que o irmão do poeta que dirigiu a edição 
das poesias em 1779, eliminaria esses nomes, se 
tivessem cooperado na desgraça de Garção, como 
fizera á Ode ao Conde de Oeiras de 1759 e á 
Epistola ao Marquez de Pombal de 1769. Pelos 
documentos militares Mac-Lean, official inglez, 
viveu sempre longe de Lisboa, aonde veiu já 
brigadeiro em 1772. O Coronel Mac-Bean, estava 
em 1766 em serviço era Valença. Por aqui se vê 
a inanidade da lenda familial e do roraanticismo 
improvisado de Caraillo. 

No livro já citado Poetas e Homens illustres 
de Pernambuco, por António Joaquim de Mello, 
aponta-se o facto positivo: * Pretextou a prizão 
com a traducção que fez de escriptos dos amores 
de uma filha do brigadeiro inglez Elsden, com 
um amigo do Poeta. » Com esta indicação preci- 
sara-se factos e datas iraportantes era Avisos da 
Torre do Torabo. Era Guilherme Elsden pouco 
culto, que se insinuara no animo do Marquez de 
Pombal, que o fez de simples Ajudante de Infan- 
teria (isto é sem curso scientifico) e despachou em 



^ Estes Avisos, em separado, estão publicados na 
Arcádia Lusitana, p. 411. 



SEGUNDA época; OS ÁRCADES -T' 



16 de Janeiro de 1762 em Engenheiro, pela prom- 
ptidão cora que em quinze raezes de serviço cum- 
priu com felicidade as ordens; e em 23 de De- 
zembro de 1767 era despachado Tenente Coronel 
da absoluta confiança de Pombal que em 17 de 
Outubro o encarregou de assistir em Coimbra á 
entrega do Collegio dos Jesuítas. Quando Gui- 
lherme Elsden se ausentava de Lisboa em ser- 
viço, encerrava sua mulher Francisca Thereza 
da Conceição Elsden no Recolhimento do Sacra- 
mento. Tinha este official uma filha, que veiu a 
casar em 1782, e uma irmã com quem vivia em 
1784. O caso da gravidez só podia entender-se 
com uma d'ellas; a menina não carecia de que 
lhe traduzissem em inglez a carta para a fuga, 
mas sim a irmã de Eísden, que não deixara de 
fallar a sua lingua. Demais, o caso não era único; 
em Aviso de 4 de Fevereiro de 1772, ordena-se o 
recebimento da miss Maria da Piedade Dodd no 
recolhimento de San Christovam, filha do inglez 
Theophilo Dodd. Elsden tinha grandes entradas 
junto do Marquez de Pombal; em carta de 12 de 
Fevereiro de 1772 ao Reitor da Universidade de 
Coimbra, diz-lhe que envia pelo Tenente Coro- 
nel Guilherme Elsden o Laboratório de Chimica 
e o Observatório Astronómico, « de cuja dés- 
tridade se aproveitará o Reitor tão utilmente, 
pois lhe tem mostrado a experiência dos serviços 
que lhe faz o referido official.» Foi sob a influen- 
cia d'esta hábil criatura, que o Marquez de Pom- 
bal deixou cahir o pezo da sua auctoridade sobre 
Garção. Jazeu o poeta longos mezes incommuni- 
cavel no segredo do Limoeiro; e só depois de 
muitos choros nas audiências publicas que o rei 
dava ao publico, segundo o estylo, é que a deso- 
lada esposa conseguiu que Garção fosse mudado 



218 HISTORIA DA LITTFHATURA PORTUGUEZA 



para os quartos altos. A prizão de Francisco An- 
tónio Lobo 'd'Avila, conhecido por aventuras de 
Lovelace, denota que era o signatário da car- 
ta, que elle enviara pelo creado Manoel José, 
por qualquer gorgeta, sem Garção saber. O nome 
de Elsden não foi mencionado depois da morte 
do poeta, porque saiu em 1772 em commissão para 
Coimbra, e em varias commissões de engenharia 
em Leiria e Alcobaça em 1775 e em fazer a 
planta para as obras de resguardo era Valada em 
1777, acabando a sua actividade com a queda de 
Pombal, pelo falecimento do rei. 

Garção era absolutamente extranho á aven- 
tura de amores porque estava prezo. No cár- 
cere escrevia um Soneto: A sua mulher a Snr.'^ 
D. Maria Anna. Xavier de Sande e Salema, 
era que transluz a sua consciência: 



Ao som dos duros ferros que arrastava, 
Na lyra de ouro Corydon tangia. 
De Macia o doce nome repetia. 
Mas no meio do canto soluçava. 



No rosto macerado que enfiava, 
O lacrimoso pranto reluzia, 
E nos olhos que aos altos céos erguia, 
O pensamento intrépido voava. 



Não se assombra de ventos insoffridos, 
Nem com ousado lenho arar intenta 
O polo do futuro nebuloso, 



Menos choro terrenos bens perdidos. 
De pouco um peito grande se contenta. 
Antes quer ser honrado que ditoso. 

{Son., Lv, Ed. 1888.) 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES '-iW 



Quem exprimo este estado de consciência cora 
tanta firmeza moral, e á esposa onde reflectia 
toda aquella desgraça, era um justo esmagado 
pelo crime triumpharite. 

O Soneto Kxiv a Theotonio Gomes de Carva- 
lho, repassado da longa tortura physica e moral, 
revela a esperança da sua influencia junto do 



algoz : 



E só tu, qual santelmo na tormenta, 
Sereno tornas o fuior das aguas, 
Lhe dás alegres mostras de bonança. 



Nas lentas, tediosas e desesperadas horas do 
cárcere. Garção entretinha-se a organisar a col- 
lecção dos seus versos, como quem prosentia a 
morte próxima. O Ms. das suas obras de 1777 
(Catalogo Azambuja, n.» 2862) tem a seguinte 
nota: '<Como esta Collocção foi copiada d« origi- 
nal, que Pedro António Correia Garção (estando 
prezo no Limoeiro) deu a José Pedro de Medina, 
e que se copiou annos antes que se imprimissem, 
conferindo-os depois, se achou estarem algumas 
imperfeitas, ou que o Auctor na prizão as emen- 
dara, ou quem as mandou imprimir, e por esta 
causa se fez a seguinte advertência.» 

Por esta nota se nos revela como o desgra- 
çado poeta procurava na arte a anesthesia con- 
tra a desgraça a que não pôde resistir. Diniz, 
lembrado da ultima reunião de 1764, em que se 
celebrou a Restauração da Arcádia, enviou-lhe 
de Elvas uma Ode sentida em que descrevia a 
Arcádia, sob a allegoria de um Monte ermo e 
devastado pelas intempéries, som vegetação, sem 
pastores; incorporamol-o a(pii como uma syn- 
these poética: 



220 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Ode 
A Garção estando prezo 

Quando te observo, descarnado Monte, 
Onde o céo nunca se declara amigo, 
Nem erva brota, nem rebenta fonte, 
Quasi dos ermos infeliz mendigo ; 

Se os olhos corro 

Do cume á falda, 

Assim discorro: 

— Que mal fizeste, mísera montanha. 
Que a natureza, sempre mãe piedosa, 
Contra ti »} ostra ser madrasta extranha, 
N'essa que nega desnudez pasmosa. 

For certo, espanta, 

Que nem te cubra 

Rasteira planta! 

Nunca rebanho te buscou faminto, 
Nunca colono te surcou avaro ; 
^ue mesmo ao longe, se te observo, sinto 
Que a vista foge d'esse horror tão raro. 

Vendo que brutos 

De teus abrigos 

Fogem astutos. 

Mas, oh! que estranhos eccos repentinos, 
Os ares ferem, longe retumbando, 
Ou são combates de esquadrões ferinos 
Ou é torrente campos alagando ? 

Mas claras soam 

Do Monte as vozes 

Que assim atroam. 

« Oh, não me chores, néscio caminhante, 
Tantas misérias não são meu desdouro; 
Cubram mil plantas o vaidoso outeiro, 
Que eu no meu seio guardo mil thezouros. 
Avaros venham, 
E a vil cobiça 
Em mim mantenham. 



SEGUNDA Época: os árcades 



n. Sim ! felizmente, liberal pobreza, 

Garção ditoso n'esse estado pobre, 

A sorte adversa, sabia contrapeza 

Com as ricas minas que a tua mento encobre. 

Em tanto ultraje 

E's d'este Monte 

A viva image. 

Pela sua debilidade coní^enita de valetudiná- 
rio e delicadeza moral do seu temperamento de 
artista, Garção ia cahindo em um marasmo, que 
denunciava o passamento. Sabendo do caso, o 
Marquez de Pombal, ordenou por Aviso de 10 de 
Novembro de 1772, assignado por José de Seabra 
da Silva, dirigido ao Cardeal da Cunha para 
«que mande soltar a Pedro António Correia Gar- 
ção o a Francisco António Lobo de Ávila, prezos 
na cadeia da corte, assignando os ditos prezos 
um termo perante o Corregedor do crime do 
bairro da Rua Nova, de sahirem da referida Ca- 
deia para fora d'esta corte, á qual não poderão 
voltar emquanto S. M. não mandar o contrario.^ 
{Avisos, t. 11, fl. 109. -Arch, nac). 

Quando este Aviso foi lavrado e posto em 
execução, já estava falecido o desgraçado poeta, 
e a clausula de sahirem da cadeia para fora da 
corte foi posta com o fim de manifestar desconhe- 
cimento de que o Garção já estava morto, tendo- 
se illudido sempre a viuva com promessas da sol- 
tura do marido. O termo do Óbito de Garção, no 
Registo Parochial de San Thiago, fl. 40, mostra 
a má fé do mandado de soltura: «Aos dez dias 
do mez de Novembro de mil setecentos e setenta 
e dois, faleceu na, cadeia da Corte, em uma ca- 
marata, Pedro António Correia Garção, professo 
na ordem de Christo, casado com Dona Marianna 
de Sande Salema, filho de Pilippe Correia da 



222 HISTORIA DA LITTERATURA fORTUGUEZA 



Silva, natural de Lisboa, na edade de quarenta 
e nove annos, e prezo na Cadeia da Corte em 
nove de Abril de mil setecentos e setenta e ura, 
e recebeu todos os sacramentos. Do que fiz este 
assento que assignei, eva ut supra. — O Cura Dâ- 
maso Leal.» A' margem, lia-se: « N.^ 60. Pedro 
António Correia Garção, jaz sepultado n'esta 
egreja. » Ha n'este ponto equivoco do parocho 
sobre o local da sepultura, porque Garção foi en- 
terrado na egreja de Santa Marta, que fora demo- 
lida em 1835. » 

Celebrando a morte de Garção o estudioso e 
sincero Francisco Dias Gomes em uma sentida 
Elegia, appensou uma nota, que só hoje é cabal- 
mente explicada: «O Garção, insigne restaura- 
dor da Poesia portugueza em nosso tempo, aca- 
bou a vida no fundo . de uma prizão, motivada 
por uma causa de si tão fútil, que é vergonha 
expressal-a. " Uma inoffensiva poesia, que se 
confundiu com a Falia do Infante D. Pedro, 
era esse Soneto ao Senado de Lisboa glorificando 
Paulo de Carvalho, quando o Conde de Oeiras, 
filho -do Marquez, na sua presidência desde 1770 
só praticava vergonhosos desvairaraentos. 

Estas particularidades tornam sympathico o 
nome de Garção, em cujos versos se reflecte a 
singeleza da sua vida conformada em grande 
parte com o ideal horaciano. São bellos os Sone- 
tos, como expressão de uma intima familiaridade, 
as Odes e Epistolas tem um tom sentencioso 
sempre affectivo, encobrindo pelo effeito pitto- 
resco a imitação clássica; as suas duas Come- 



' Informfiç.ão de C. F. Borges, em carta de 23 de 
Outubro de !U09. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



dias em verso endecassylabico, Theatro Novo e 
Assembleia ou Partido são sátiras realistas, qua- 
dros dos costumes burguezes de Lisboa, onde a 
mania das representações particulares e em re- 
uniões de familias eram a simulação de uma so- 
ciabilidade, que não estava nos babitos do viver 
portuguez e se implantava pela corrente da moda 
e era condemnada como modernismo e peraltice. 
Garrett considerava esta forma de comedia de 
Garção como um excellente modelo, em que o 
verso endecassylabo solto e a dimensão, de um ou 
dois actos, tornavam um verdadeiro Provérbio. 
No lyrismo, a Cantata da morte de Dido, Garção 
deixou-nos a mais bella composição de toda a 
época arcadica; conheceria, talvez, a expressão 
musical dos compositores do século xviii, e pode- 
se dizer, que pela palavra recitada deu toda a 
emoção a esse quadro, em que o effeito descri- 
ptivo se reforça com o seu gosto pela pintura, a 
que se dedicava. A correcção da forma e o sen- 
timento profundo e trágico com um tom religioso 
conseguiu-os pela comprehensão do espirito da 
Arte grega, que revelara nos Discursos lidos nas 
Conferencias da Arcádia. Este género poético a 
Cantata, seguido por outros árcades, recebemol-o 
da imitação da forma adoptada por João Baptista 
Rousseau ; este neo-classieo francez descreve a 
sua iniciativa: «Os italianos chamam-lhe Canta- 
tus, porque dependem particularmente do canto; 
tem por costume dividil-a em trez Recitativos 
cortados por Árias de movimento, o que obriga a 
variar a métrica das estrophes, das quaes os ver- 
sos são inteiros ou quebrados, como nos Coros 
das antigas tragedias e na maior parte das Odes 
de Pindaro. Eu ouvi algumas d'estas Cantatas, 
e isto me deu desejo de ensaiar se poderia, ú imi- 



224 HISTORIA DA LU TKRATUR \ PORTUGUEZA 



tacão dos gregos, reconciliar a Ode com o Can- 
to...» O discipulo de Boileau limitou-se «a dar 
uma forma a estes pequenos poemas, encerran- 
do-os em uma allegoria exacta cujos recitativos 
constituissem o corpo, e as Árias as almas ou 
applicação ...» {Oeuvres, i, p. xciii.) Bocage se- 
guiu o modelo de Garção, na sua Cantata de 
Inez de Castro. Mas, a acção das academias ex- 
clusivamente litterarias é esterilisante, porque o 
seu canonismo das regras e norma do gosto, apaga 
o individualismo na arte. 

Diniz {Elpino Nonacriense.) — Pela gloriosa 
iniciativa da fundação da Arcádia Lusitana, e 
principalmente pela composição do bello poema 
heroi-comico O Hyssope, a biographia de Antó- 
nio Diniz da Cruz e Silva tem interesse histórico 
em todas as suas particularidades, que envolvem 
o aspecto geral do seu tempo. Tendo exercido 
funcções publicas como magistrado, e muitas ve- 
zes em situações inolvidáveis, os documentos offi- 
ciaes guardados nos archivos encerram datas 
capitães da sua vida. Os investigadores, como 
Ramos Coelho e Brito Rebello, que lograram o 
exame d'e3ses documentos, fixaram datas e factos 
para a sua nitida biographia. Em uma sociedade 
dominada pelos preconceitos de nascimento e de 
classe, nenhum passo podia ser dado sem que se 
procedesse a um inquérito de sangue, para pro- 
var que não tinha raça de judeu ou de mouris- 
co, nem que pertencia a farailia operaria, a que 
se chamava ter mancha de mechanico. Duas 
vezes teve Diniz de requerer estes dois inquéri- 
tos á sua geração, para poder ser admittido á 
leitura de bacharéis no Desembargo do Paço, e 
para receber o habito de cavalleiro da Ordem de 



SEGUNDA ErOCA: OS ARCADF.S 



San Bento de Avi.^í. Dos depoimentos testemu- 
nhaes d'estes inquéritos, que muitas vezes emba- 
raçavam a carreira de um individuo, provém 
noticias preciosas sobre a personalidade de Di- 
niz. Como teve despachos vários na sua carreira 
de magistrado, esses diplomas, registados nas 
Chancellarias, fixam-nos as principaes datas da 
sua vida official, que se ligava com os ócios poé- 
ticos, (]ue revelaram o seu talento litterario. Taes 
são os livros da Chancellaria de D. José, os das 
Mercês de D. Maria i, as residências, do Des- 
embargo do Paço, Livro das Profissões do Con- 
vento de Jesus, do Conselho Ultramarino, e o 
das Mercês do Principe-Regente. Todas essas 
datas illuminam ora o meio domestico em que se 
formou a sua personalidade, ora as circumstan- 
cias em que elaborou as suas obras litterarias. 

Para julgar Diniz pelo seu influxo na funda- 
ção da Arcádia, pelas relações pessoaes com ca- 
pacidades principaes do seu tempo, e pela acção 
directa (íoino alto magistrado, e preciso recompor 
o quadro, histórica e philosophicamente, do seu 
meio; as duas datas — 1731 e 1799 — do seu nas- 
cimento e morte, abrangem a parte mais caracte- 
rística do século xvni. D'entre estes limites é que 
apparece a individualidade de Diniz. A desorga- 
nisação dos estudos clássicos pela acção dissol- 
vente dos Jesuítas sobre D. João v; o processo 
critico instaurado aos methodos de ensino da 
Companhia pelo corajoso Wrney, e as medidas 
postas em pratiiui pela audácia relormadora do 
Marquez de Pombal explicam-nos esse humanis- 
mo extemporâneo do século xviu, que rompendo 
com o aristotelismo dos Jesuítas, tinha ao mesmo 
tempo medo de adoptar o encyclopedismo scien- 
tifico e critico do génio francez. A preoccupação 

15 



22G HISTORIA DA T.TTTERATITxA TORTÍJGUEZA 



principal era manter-se n'esse meio termo, para 
não incorrer na suspeição de jesuitismo nem 
também de philosophisTno ; os espirites educados 
sob este regimen mental ficaram atrophiados e o 
seu humanismo de banal erudição foi estéril. 
N'esta situação equivoca e deprimente para a in- 
telligencia portugueza, a arte foi uma conven- 
ção meramente formal, como se pode fazer ideia 
pelas Odes pindáricas de Diniz, pelos seus Di- 
thyrambos, e pelo juizo que elle tinha da poesia, 
nada publicando, por ser cousa incompativel com 
a dignidade de um magistrado. Assim o revelara 
a Nicoláo Tolentino : * que um magistrado se 
deslustrava cultivando as Musas. > Mas estes 
dois poetas espontaneamente nos revelaram, que 
alguma cousa natural existia como reacção de 
protesto: foram os versos satíricos, picarescos e 
obscenos, que então abundavam na litteratura, 
porque esse era o legitimo producto de uma so- 
ciedade sem direitos, sem liberdade, sequestrada 
ao movimento europeu, e entregue ao arbítrio e 
caprichos da auctoridade (graça regia) que se 
impunha como a graça de Deus. Nos productos 
mórbidos ha também manifestações relativamente 
perfeitas como expressão do condicionalismo: no 
Lutrin de Boileau, e no Hgssope de Diniz reve- 
lam-se as condições do meio social era que foram 
produzidos, porque o despotismo de Luiz xiv era 
um ideal para D. José, realisado á risca pelo seu 
omnipotente ministro. O largo reinado da de- 
mente rainha D. Maria i, as imbecilidades orde- 
nadas pelo seu director-ministro, o boçal Arce- 
bispo-Confessor, caracterisam-se pela palavra apre- 
goada no seu tempo, como synthese da situação 
moral e politica o Intolerantismo. Era um novo 
abysmo que se abria á intelligencia; e os mais 



âEGUNDA 1ÍP0C\: OS ÁRCADES 



distinctos espíritos tinham de inevitavelmente pro- 
curarem azylo nos paizps pstrangeiros. Seguiu-se 
depois doesta violência obcecada, a inauguração 
do regimen policial garantido pelo terrível Pina 
Manique, sendo a sua Intendência geral mantida 
acima dos próprios ministros; a este mal, que es- 
tabelecia na sociedade portugueza a espiona- 
gem e a delação, vieram os esforços para con- 
servar Portugal isolado da corrente das ideias 
francezas ou do philosophismo, para que as 
ideias da Soberania nacional não penetrassem 
na consciência portugueza. E' esta imposição que 
determina Diniz, a dar as tremendas sentenças 
contra os pobres poetas de uma inventada pavo- 
rosa da Conjuração de Minas. Somente a vista 
de conjuncto é que faz comprehender como uma 
alma de poeta distribuo a justiça com a insensi- 
bilidade moral do carrasco. 

Pelo Livro dos Baptismos da Preguezia de 
Santa Catharina principiado em 1721, a fls. 292, 
se regista que António Diniz da Cruz e Silva 
nascera aos quatro dias do mez de Julho de 
mil setecentos e trinta e um, ser filho legitimo 
de João da Cruz Lisboa e Eugenia Thereza, re- 
cebidos em 5 de fevereiro de 1713. N'('stes deze- 
sete annos de consorcio nasceram, o primogénito 
Francisco Caetano e duas meninas, sendo este 
quarto filho baptizado em 23 de julho, quando 
já seu pae se ausentara para o Brasil a procurar 
meios de fortuna, d'onde do arraial de Thabira e 
depois de Paracatú, mandava subsídios, até 1739, 
em que cessaram as remessas pecuniárias, por 
falecimento. Aqui temos a situação da família, 
nas angustias de acanhados recursos: Eugenia 
Thereza vivia com suas lilhas nuiito recolhida- 
mente, e pelas singulares prendas de costura e 



2?^ HISTORIA D\ I.ITTi:R\Tnn\ romUGUEZA 



bordados, trabalhavam para casas nobres, como a 
do Conde de San Vicente. O filho mais velho, 
Francisco Caetano, professou no Convento de 
Jesus com o nome de Fr. Francisco de Sales, e 
pelas suas diligencias junto de sua avó paterna, 
que tinha logar official no Terreiro do Trigo 
(medideira), acudiu solicitamente a sua mãe e 
dirigiu a educação do irmãosinho. Uma das tes- 
temunhas para as provanças de admissão á lei- 
tura de Bacharéis, diz que sua mãe Eugenia The- 
reza e avó materna Catharina Maria: «viviam 
com muito recolhimento, usando do trabalho de 
suas mãos, e que por serem prendadas em toda 
a qualidade J,e costura, vinham muitas vezes a 
casa da ex.'"^ Condessa de San Vicente a ajudar- 
Ihe na factura dos seus vestidos e outras seme- 
lhantes alfaias; mas que d'isto não percebiam 
paga alguma, e o faziam tão somente por obse- 
quiar a mesma fidalga; e que se sustentava e a 
mãe do que lhe mandava annualmente seu ma- 
rido, que havia muitos annos, residia no Brasil. » 
Vê-se por pste depoimento o intuito de afastar 
toda a suspeita de trabalho, porque isso inhibia 
de subir na escala social por importar mancha 
de mechanico. Mas, ai! que uma outra testemu- 
nha, mulher talvez invejosa, depoz que o pae, 
João da Cruz Lisboa: «fora n'esta cidade car- 
pinteiro de casas, mas que deixando este officio, 
sua mulher e filhos, se ausentara para as Minas 
a mudar de fortima, aonde falecera ...» E de 
Eugenia Thereza, diz a malévola visinha: «depois 
de seu marido se ausentar, se exercitava em cos- 
turas, que uns e outros encommendavam, e de 
que percebia o justo estipendio; e da mesma 
sorte ganhava a sua vida a avó materna Catha- 
rina Maria, sendo ambas occupadas por varias 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES !i^'^' 



senhoras para simples costureiras, por serem 
muito prendadas n'este exercicio;. . . que a avó 
paterna Josepha da Silva — vivendo em casas 
próprias na rua da Cruz fora Medideira, tendo 
um logar no Terreiro (do Trigo) em que vendia 
pessoalmente ...» Uma testemunha que o conhe- 
cera sendo Sargento-mór de Ordenança em Pa- 
racatú, atravessador de cargas, accrescenta (jue 
João da Cruz Lisboa : ^fôra carpinteiro de casas, 
porque elle mesmo lh'o dissera repetidas vezes. » 
Outra testemunha dej)õe que o avo «fora official de 
calafate na ponte da Ribeira das Náos, onde traba- 
lhou até morrer. » Todos estes factos mostram a 
estreita malha para ser admittido á leitura de 
Bacharéis e ao provimento em logar de Letras ; 
mas quanto á mancha de mechanico, para obter 
o habito da Ordem de San Bento de Aviz, foi 
preciso depois de muitos aimos de embaraços, re- 
querer em 1779 dispensa da irregularidade, só 
concedida em 9 de julho de 1790. Por estas in- 
quirições o professor de latim João Rodrigues da 
Rocha declara ter sido seu mestre de latim, na 
aula então na rua da Oliveira. Diniz foi completar 
os seus preparatórios de Lógica e Rhetorica nas 
aulas dos PP. Oratorianos do convento das Ne- 
cessidades, os Manigrepos {Mann-grpcos, ap. 
Link) como lhes chamava o vulgo. i^]sta fre- 
(luencia de 1745 a 1747 foi-lhe mandada to- 
mar em conta para o curso da Universidade 
de Coimbra. No livro das Provas dos Cursos, 
apparece matriculado no L" de Outubro de 
1747 no primeiro anno da Faculdade de Leis. 
Esta época da sua formatura foi uma das mais 
agitadas, sob o governo do Reitor Figueiroa. A 
cultura da Poesia foi para elle um refugio no 
meio da desvairada turbulência; já então usava 



230 HISTORIA DA r.ITTERATURA PORTUGUEZA 



O nome arcádico de Elpino e o de Ergusto, appa- 
recendo entre os seus autographos uma compo- 
sição de 1750. A araisade com Theotonio Gomes 
de Carvalho e de Manoel Nicoláo Esteves Ne- 
grão data d'esses tempos de Coimbra. O manus- 
crito de Jornadas^ em prosa e verso, continuava 
a tradição de Francisco Rodrigues Lobo, que 
abandonara para se apropriar das formas da poe- 
sia franceza. Competia- lhe agora entregar-se á 
faina da vida; suas duas irmãs já se achavam 
professas no mosteiro das Clarissas de Santarém, 
cujos dotes lhe seriam alcançados por influencia 
da Condessa de San Vicente e pela solicitude de 
Fr. Francisco de Sales, a quem Diniz retribuía 
com o mais entranhado carinho. 

Em Lisboa, em 1756, veiu encontrar-se com 
Diniz o seu condiscipulo e poeta José António de 
Brito, com quem tomara o gráo de bacharel no 
mesmo dia. Em um Soneto ao Conde de S. Lou- 
renço, que o protegera em Coimbra, escreve José 
António de Brito : 



Eu, Senhor, fiz as minhas Conclasões 
Na alta Postilla do Senhor Diniz, 
Com elle mesmo o mou Banharei fiz. 
Bem ou mal, isso são opiniões. 



Foram amigos Íntimos, como consta de ou- 
tras poesias, que aqui transcrevemos para evitar 
o erro de um Soneto, que desde 1812 anda em 
nome de Garção, erro ainda seguido pelo solicito 
Azevedo Castro na edição de 1888. Transcre- 
vemol-o do ms. n.° 1728 da Torre do Tombo, 
contendo as Poesias de José António de Brito: 
fl. 44: 



SEGUNDA Época: os árcades '^31 



A hum seu Amigo — Estando prezo o Autor 
na Cadeia da Universidade 

Quinze vezes a aurora tem rompido 
L accendo outras tantas a candeia, 
Depois que prezo estou n'esta cadeia, 
Soffrendo o que ninguém cá tem soffrido. 

De todo trago o estômago perdido, 
Como frio o jantar, mal quente a ceia, 
E este mísero ornato que me arreia, 
De noite é cama, de manhã vestido. 

A um canto da bocca arrumo um dedo. 
Subo os olhos ao tecto, ao chão os mando, 
Sem saber o que faço me arremedo. 

Commigo mesmo estou philosophando, 
Nego os mesmos principies que concedo, 
Vê tu, meu bom Diniz, quam louco eu ando. 

E no verso d'esta folha 44 elle se parodia 
pelas mesmas rimas: 

Ao mesmo intento, pelos mesmos consoantes 

Diniz, a minha mágoa tem rompido 
Em fazer tristes versos á candeia, 
Assim divirto o tempo da cadeia. 
Tão mal passado, como bem soffrido. 

Tudo o que gasto em versos é perdido 
Porque com versos não se aduba a ceia, 
Nem a Musa gentil que o verso arreia 
Me cose as rotas mangas do vestido. 

Se tenho fome rôo a unha a um dedo. 
Que como em vão buscar a côdea mando, 
Aos que vejo comer nunca arremedo. 

Em jejum sempre estovi philosophando. 
Os èrgos da pobreza não concedo, 
Mas prova-se a miséria em que ando. 



232 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A Universidade de Coimbra tinha e continuou 
a ter Poro privilegiado para disciplina penal aca- 
démica. As suas prizões eram nos baixos quasi 
subterrâneos do edifício da Livraria, com todo o 
aspecto inquisitorial. O pobre poeta Brito ahi ge- 
meu as semanas ou mezes por qualquer troça es- 
cholar. Brito, que teve o nome arcádico de Olivo, 
faleceu prematuramente, muitos annos antes de 
ser prezo Garção no Limoeiro em 1771. Faeil foi 
attribuir o Soneto a Garção, escrevendo no se- 
gredo e incommunicavel ao seu amigo Diniz que 
se achava em Elvas na Auditoria militar, e isto 
aos quinze dias, sob o mais acabrunhante abalo 
moral e physico I Innocencio e Azevedo Castro 
foram atraz da attribuição do Jornal poético de 
1812, andando o soneto anonymo em copias de 
1802. Fique aqui memorado o companheiro de 
Diniz no curso de Leis e nos seus tentames poé- 
ticos, mas impedido pela morte de figurar nu Ar- 
cádia Lusitana, que elle engrandeceria. 

Apenas regressara a Lisboa, requereu Elpino 
em 23 de Julho de 1753 ao Desembargo do Paço 
apresentando a carta da sua formatura com o 
nome de António Diniz da Cruz. Tendo reque- 
rido admissão a um logar de letras, é em 5 de 
Julho de 1754 que se manda proceder á inquiri- 
ção de sangue, não infecto de raça judaica ou 
mourisca. E' por esta exigência legal, que nos 
chega o conhecimento dos seus quatro costados, 
e d'ahi as mudanças que o poeta apresenta nos 
seus appelHdos, como António Diniz da Cruz e 
Silva Castro, ou da Cruz e Silva Borges, e Cruz 
e Castro. Não era prurido de affectar nobrezas de 
estirpe, mas a necessidade de evitar embaraços 
por causa da mancha de mechanico fechando- 
se-lhe a escala nobiliarchica. Por isso não adoptou 



SEGUNDA Época: os árcades 



os appellidos de seu pae Cruz Lisboa, nem de 
seu avô materno Borges; prevalecendo offioial- 
mente Cruz e Silva, porque sua avó paterna Jo- 
sepha da Silva, Medideira no Terreiro do Trigo, 
exercia um logar de grosso trato. Todas estas 
vesânias sociaes explicam a decadência d\íste 
resistente povo sob o regimen absolutista. A feliz 
desgraça do terremoto do 1.» de Novembro de 
1755, como já llie chamaram, veiu despertar a 
acção do seu governo e suscitar iniciativas indi- 
viduaes. Diniz, amigo intimo de Theotonio Go- 
mes de Carvalho seu condiscípulo e outro joven 
bacharel Manoel Nicoláo Esteves Negrão, ela- 
bora os Estatutos de uma Arcádia Lusitana, 
activando uma faina mental, emquanto se reedi- 
ficava rápida e esplendidamente a cidade de Lis- 
boa. Desde a inauguração da prestigiosa Arcádia 
até a sua entrada no quadro da magistratura ju- 
dicial, fre(iuentou as sessões meiísaes e solemnes, 
lendo Discursos de critica litteraria contra o seis- 
centismo, recitando poesias no novo estylo íran- 
cez, e nos regosijos realengos. Esta parte da sua 
obra conservou-nos datas e nomes de poetas, que 
muito auxiliam o quadro histórico da existência 
da Arcádia na sua iiistal)ilidade, sustentada p(>la 
auctoridade de Garção. Em 5 de Dezembro do 
1759 é despachado Juiz de Póra para Castello de 
Vide; achavu-8(í, então, muito doente e de uma 
magreza (ísípieletica, o (pie se explica })elas fe- 
bres j)(\stilentes endémicas no Poço Novo e ruas 
próximas da regueira de estrume liquido da rua 
de S. Bento, posteriormente aterrada. Do con- 
vento de Santa Clara, de Santarém, pedia-lhe sua 
irmã D. Anua do Paraiso unui composição dra- 
mática da Degolação do Baptista, para se re- 
presont3,r, e uma Loa a San Sebastião para se 



234 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



recitar. Somente em 2 de Fevereiro, é que o 
poeta parte para Castello de Vide a occupar o 
cargo de Juiz de Póra (de comarca, na organisa- 
ção moderna), durante um triennio. Ahi, nos seus 
ocios^ metrificou por desfastio a celebração do 
consorcio da Princeza do Brasil com seu tio o 
Infante D. Pedro. Porventura esta bajulação lhe 
facilitou o accesso; porque em 19 de Dezembro 
de 1763, lhe foi concedida licença para vir a Lis- 
boa. O motivo d'esta licença explica-se pela cria- 
ção das antigas Auditorias militares, estabele- 
cidas em 1614^ que o Conde de Lippe fez renovar 
por lei de 18 de Fevereiro de 1764. Os Audito- 
res militares junto de cada regimento, tinham a 
patente e o soldo de capitão. A amizade entre 
Diniz e Theotonio Gomes de Carvalho, muito li- 
gado ás regiões do poder, o informaria do que 
se passava, para entrar nas novas nomeações. 
A presença de Diniz na sessão da Arcádia de 13 
de Maio de 1764, em que recitou a sua Egloga 
Androgeo, em um esforço de restauração da 
enfraquecida academia, auxiliou por certo o seu 
despacho de Juiz Auditor do 2.» Regimento de 
Infanteria estacionado em Elvas, importantíssima 
praça de Armas, de que era Governador Ber- 
nardo de Mello e Castro. Para Elvas acompa- 
nhou o poeta seu irmão e- protector da sua moci- 
dade Fr. Francisco de Sales, tão doente^ que ahi 
faleceu quatro mezes depois, em 17 de Novem- 
bro de 1764, na sua habitação na rua de S. Fran- 
cisco n." 24. 

Para alliviar sua tristeza, tomou Diniz conhe- 
cimento do estado conflictuoso que existia entre 
o Bispo de Elvas D. Lourenço de Lencastre, me- 
galómano, com fumos de sangue real pela bas- 
tardia de um filho de D. João ii e o Governador 



SEGUNDA Época: os árcades '2235 



das Armas, que se ria por elle se ter declarado 
Coronel dos Cónegos da sua Collegiada. Elvas 
abundava em uma galeria de figuras ridículas e 
personalidades grotescas, que eram o pabulo 
contra a monotonia da vida provinciana; tudo 
isso produziu em Diniz uma disposição para a 
sátira, que uma anecdota prolongada o impelli- 
ria para um poema heroi-comico. Actuavam as 
mais auspiciosas circumstancias era Elvas, sob o 
influxo da Arcádia, e moldando-se pelos seus es- 
tatutos, inaugurara-se em 20 de junho de 1761 
a Academia dos Applicados Elvenses, em casa 
do bacharel Francisco José da Silveira Palcato. 
Formavam parte (Telia os concidadãos Joaquim 
José da Silva, António Caetano Falcato, D. Diogo 
Pereira Forjaz Coutinho, Bernardo José de Mira 
e Fr. Fernando. Segundo os seus Estatutos, que 
deviam ser observados inviolaveUnente, o numero 
dos académicos será até trinta, entre quem rei- 
nará a melhor harmonia; adraittiam-se ás sessões 
obrigatórias no ultimo dia de cada mez, pessoas 
extranhas mas em logar separado. Na 3.''' Sessão 
da Academia dos Applicados Elvenses, em 2 de 
Agosto de 1761, leu o Dr. Joaijuim José da Silva 
uma Oração demonstrando a utilidade das Scien- 
cias, e ahi louva o bispo D. Lourenço de Len- 
castre por abrir o Seminário de Elvas: «Emfim, 
sem sahirdes da terra onde tivestes o berço, atpii 
estaes vendo um sublime príncipe da egreja, 
abrindo com chave de ouro aquellas aulas onde 
estava fechado o maior bem dos seus súbditos ...» 
Na sessão de 31 de Agosto, leu Francisco José 
da Silveira Palcato umas Oitavas Ao feliz nas- 
cimento do Príncipe da Beira (o mallogrado 
D. José.) O Dr. Falcato era Ouvidor da Comarca 
do Crato, e por accesso Desembargador da Casa 



236 HISTORIA DA LITTEUATURA PORTUGUEZA 



da Supplicação com exercício de Provedor na 
Comarca de Elvas. * Diniz achou-se cercado de 
velhos amigos da Universidade e recebido cora 
a máxima intimidade em casa de Silveira Falcato, 
celebrando em 1765 em uma Ode os annos de 
sua esposa D. Maria Bernarda Mendes da Sil- 
veira. As reimiôes formaes da Academia dos 
AppUcados Elrenses restringiam-se ao fim de 
cada mez e a themas peculiares seiscenti.stas, 
com soporifera leitura e prosa erudita de banal 
ostentação; as palestras vivas e agradáveis, com 
as novidades chistosas da terra, constituíam o 
chamado Sota/n do Falcato, onde chispava a li- 
vre critica. Ao Soíam do Falcato não faltava 
Diniz, a ponto de, mesmo com o incommodo de 
uma ophtalmia, comparecer ao agradável conví- 
vio. Ahi tomou Diniz conhecimento d'essa inte- 
ressante galeria de excêntricos e grotescos per- 
sonagens elvenses, cpie dão as vivas e festivas 
caricaturas do seu poema; ali se discutiriam os 
prognósticos da tempestade com que tonsurados 
intrigantes fomentavam a dissidência entre o so- 
berbo bispo D. Lourenço de Lencastre e o espa- 
ventoso Deão José Carlos de Lara, que a qual- 
quer propósito fallava da sua viagem a Roma. 
Diniz já tinha quatro annos de residência e de 
extensas relações pessoaes em Elvas, quando em 
1768 irrompeu o conflicto das contumelias entre 
o Bispo e o Deão da Sé; conhecia todas as anec- 
dotas e pequices de cada uma d'essas figuras da 
classe clerical e burgueza. Tudo isso vivia em 
qualquer simples verso da sua veia satírica, já 



^ Victorino de Almeida, Elementos para nm Dic- 
cionario de Geographia, t. u, p. 48ti. 



SF.r.iiNDA r';i'(»r.A: os Áur.ADF.s ~H7 



ensaiado no Pina r Mello, sustentando os crédi- 
tos da Arcádia Lusitana. 

O mundo clerical já estava bem representado 
no poema heroi-comico de Boileau, o Liitrin, a 
estante do coro, a que rezavam os Cónegos ; em El- 
vas surgia-lhe esse mundo com os mesmos aspe- 
ctos caricatos; todas as dignidades do Cabido pas- 
saram diante dos seus olhos; o cónego prebendado 
João Alberto de Barros, e o cónego vigário Pe- 
dro António de Sousa; com os seus dois manos 
alcunhados Aponos, um barulante e o outro ce- 
ruferario; o cónego doutoral João d'Andrade da 
Fonseca, também prior e vigário geral, o cónego 
penitenciário António Luiz d' Abreu, e o esquelé- 
tico cónego prebendado Lourenço Marques; o 
Cónego magistral Francisco Rodrigu(^s Rama- 
lhete, theologo chapado ; o thezoureiro-mór An- 
tónio Mendes Sacheti, e o chantre Mathias Franco 
Barreto; o beneficiado Manoel Mendes Milheira; 
e o Mestre de Cerimonias Frei Caetano Roquete, 
carmelita e Reitor do Seminário de Elvas; o 
Prior de Alcáçova Frei José da Costa Aragão, e 
o seu companheiro nas devassidões António Nu- 
nes, outr'ora official do correio. N'esta íarandula 
visual prepassam-lhe diante da retina, o creado 
particular do Bispo, José António de Almeida e 
Silva, o barbeiro do prelado o Casadinho, alcu- 
nha de António José de Mello. Não é menos gro- 
tesca a bicha dos militares reformados, dos advo- 
gados, dos músicos e empregados burocráticos. 
Todos elles davam elementos de risota nas con- 
versas desenfadonhas do Sotam do Falcato. Di- 
niz vivia o seu poema heroi-comico em estado 
virtual. Um momento basta; e o (jue seria ele- 
mento para uma simples risada de anedocta chula, 
cristalisa em um poema. Fixemos esse momento 



238 HISTORIA DA TTTTER ATURA rORTUGUEZA 



de imperecível emoção em que se quebrou a 
doce paz, em que: 

O Bispo e o Deão ambos confessam 
Em dar e receber o beato Hyssope, 
A vida em ócio santo consumiam. 

Essa conformidade consistia em o Deão ir 
apresentar o Hyssope ao Bispo quando entrava 
na Sé, sem apparato, por uma porta particular, 
dispensando a presença dos Cónegos capitulares. 
Havia tolerância mutua e affectiva entre os dois 
dignitários. O Mestre de cerimonias, o intrigante 
Pr. Caetano Roquete fez sentir ao Prelado, que o 
Deão Lara não registara uma ordem que deter- 
minara. Melindrado, o bispo chama o Lara, que 
se justifica por ter sido a ordem meramente ver- 
bal. Não satisfeito, o Bispo chama dois Cónegos, 
encarregando-os de regularisarem o assumpto. 
Ante esta offensa pessoal, o Deão Lara deixa de 
ir á porta particular apresentar ao Bispo o Hys- 
sope, que só lhe impende esse dever e obrigação 
canónica fazel-o em entrada solemne á porta da 
Sé á frente de toda a Collegiada. O Bispo insiste 
na frivola exigência, os Cónegos capitulares põem- 
se do lado do Bispo, que condemna o Deão a uma 
multa, em Accordam do Cabido. Agrupam-se os 
partidários das altas partes, o Deão Lara escreve 
uma carta intima em 22 de Julho de 1768 ao 
prelado metropolitano D. Frei Manoel do Cenácu- 
lo, narrando-lhe a mesquinha peripécia. O bom do 
Arcebispo sorriu-se e deixou-se ficar na inércia; 
no anno seguinte, em situação de angustia moral, 
o Deão envia~lhe uns requerimentos, com escla- 
recimentos extra-officiaes, em 17 de Maio de 1769. 
E como o Arcebispo deixasse correr as multas 



SEGUNDA Época: os árcades í::w 



impostas pelo Accordam do Cabido, que o obri- 
gava a ir entregar o Hyssope á porta reservada 
em data de 23 de Dezembro de 1768, e diante de 
um indeferimento do metropolitano, Lara faleceu 
de desgosto em 14 de Setembro de 1769. Todas 
estas peripécias se contavam na cidade e no So- 
tam do Falcato. Diniz seguiu os accidentes da 
campanha clerical. E ao improvisar uns endecas- 
syllabos pittorescos, os amigos não o deixaram 
mais, para que elaborasse o poema de Hysso- 
paida. Escrevia em casa e nas sessões do Sotam 
lia, ampliava, retocava, compondo o primeiro es- 
boço do bello poema heroi-comico em pouquíssi- 
mas semanas. O poema ficou um organismo vivo; 
acompanhou a existência de Diniz, retocando-o 
sempre; os amigos Íntimos obtiveram copias, a 
sua noticia chegou a Paris, a Londres, e nenhum 
texto existe escripto pela mão de Diniz. Leu-se 
sempre escondidamente e clandestinamente se im- 
primiu em 1802, trez annos depois da morte de 
Diniz. Mas nunca deixou de ser lido com inte- 
resse, e o que mais é, sempre commentado com 
dados históricos, investigando o realismo das fi- 
guras caricatas que perpassam no Poema. E' uma 
creação vivida, e que sempre vive pela impres- 
são que deixa em quem o lê, e que hoje mal 
supporta as Odes pindaricas, os Dithyrambos e 
Bglogas do considerado árcade, sectário fervoroso 
do pseudo-classicismo francez. 

Como uma sátira do clericalismo, e como tal 
sujeita a terríveis penalidades, o Hyssope diffun- 
diu-se em copias e traslados vários, incorporando 
versos accrescentados pelo auctor, ou ampliando 
o texto primitivo. Assim, desde 1760, em que o 
poema estava escripto, até á edição de Paris de 
1802 (com a indicação de Londres) e sua vulga- 



240 HISTORÍA DA LITTERATURA TORTUGUEZA 



risação depois das edições de 1817 e 1821, de 
Paris, annotadas por Verdier, o seu texto soffreu 
muitas remodelações, que bastante interessam para 
o processo esthetico. Na sua primeira redacção o 
Hgssope constava de sete cantos; Diniz que nos 
últimos annos de sua vida ainda o retocara, au- 
gmeutara-lhe mais um canto, e cortara certas 
amplificações deslocadas. Entre os onze manus- 
criptos consultados pelo erudito Ramos Coelho 
para a sua fundamental edição do Hijssope de 
1872, descreve um exemplar da Bibliotheca da 
Ajuda, de letra característica do ultimo quartel 
do século xvui e com todas as sátiras, que reve- 
lam as remodelações do poema. Assim o descreve 
Ramos Coelho : « Consta no principio de sete 
cantos, escriptos pela mesma mão, posterior- 
mente intercalou-se-lhe por letra diversa o que o 
poeta compoz quando dividiu a sua obra era 
oito cantos, isto é, parte do canto 4.^ e quasi 
todo o õ.". > B mais adiante prosegue: «A ideia 
que primeiramente occorre, vendo só a parte 
mais antiga do traslado em questão emendado 
por Diniz, é que essas emendas foram feitas 
quando o poeiua o Hyssope constava apenas de 
sete cantos, que depois alguém lhe ajuntou a 
parte augmentada pelo poeta; e que as emendas 
d'este foram escriptas entre 1780 e 1790, pois a 
sua letra trémula e incerta denuncia semelhante 
época. » Crê-se que fora recensão do antigo bi- 
bliothecario da Ajuda Santos Marrocos. Foi este 
texto o que prevaleceu nas edições, salvo as va- 
riantes dos versos, em geral, Lecussan Verdier, 
affirma também que o canto 5.° fora dividido por 
Diniz em dois, por forma que vinha o Hyssope a 
constar de nove cantos; mas esta estructura não 
prevaleceu, porque com a eliminação da parte do 



SEGUNDA Época: os árcades íJ^i 



canto II, em que tratava do elogio do Marquez 
de Pombal, reedificação de Lisboa, expulsão dos 
Jesuitas e reforma da Universidade de Coimbra, 
isto depois da queda do ministro, voltava o poema 
aos seus oito Cantos definitivos. Quizeram d'aqui 
inferir, como aponta Verdier, que o poeta soffrera 
também da vertigem da viradeira, de que o sa- 
tírico Lobo da Madragoa increpara os poetas 
doesse tempo. Mas não deve prevalecer tal sus- 
peita, porque no Canto v do Hyssope conservou 
Diniz estes versos: 

Por certo, que não pode duvidar-se 
Do augusto Senhor, que em nossos dias 
Tem tido Portugal por alto influxo 
Do grande e forte e nunca assas louvado 
Kei, primeiro no nome e nas virtudes, 
E do sábio Ministro que lhe assiste. 

Pelo exame comparativo das edições do Hys- 
sope, todas ellas se reduzem ao typo das trez pri- 
meiras 1802, 1817 e 1821, não sendo nenhum 
texto do poema proveniente de manuscripto di- 
rectamente pertencente a Diniz. Foi talvez por 
este motivo, que Ramos Coelho formou um texto 
composto, com a escolha das melhores variantes 
dos onze manuscriptos que examinara; confessa 
ingenuamente ter-se collocado na situação em que 
Diniz vendo esses diversos textos procederia, ado- 
ptando os melhores versos e mais intelligiveis e 
desenvolvendo a situação: vendo-nos limitados a 
meras cópias e más, tivemos de substituir o 
poeta — sem a faculdade de inventar cousa al- 
guma, e somente guiado pela luz da razão no 
meio da perplexidade resultante de tão numero- 
sos e incorrectos traslados. » Não é louvável este 
laborioso processo, já usado por Manoel de Faria 

16 



242 HISTORIA DA LITTERATURA TORTUGUEZA 



e Sousa, retocando as ly ricas de Camões com as 
melhores variantes que escolhia nos diversos tex- 
tos manuscriptos. Lecussaii Verdier, na sua edi- 
ção do Hyssope também cita este processo. Para 
nós a melhor recensão critica do Hyssope será a 
que tiver por base o texto manuscripto da Bi- 
bliotheca da Ajuda, accumulando no fim do 
volume todas as variantes de textos manuscri- 
ptos e impressos, que se prestam a elucidar a 
critica, mas não a falsear a impressão esthetica. 
Era já conhecido o afamado poema heroi-comico 
lambem nas espheras officiaes, peio chiste do ridí- 
culo com que Diniz revestiu essa questão de sa- 
cristia; o ministro Martinho de Mello de Castro, 
obtivera um traslado pelo Dr. Caetano José Vaz 
de Oliveira, e o Conde de Oeiras mandou receber 
noticia por carta de 23 de Dezembro de 1773 de 
uma copia que mandara tirar por um tal Al- 
meida. Por certo o Conde de Oeiras satisfazia a 
curiosidade do ministro, sou pae, pela questão do 
Hyssope, que teve o devido desfecho. O Deão 
Lara resignara o seu alto cargo em um filho de 
sua irmã D. Caetana Maiu*icia Joaquina de Lara; 
tomando posse do Deado Ignacio Joaquim Al- 
berto de Mattos, recusou-se a pagar as multas 
do Accordam do Cabido, e a ir entregar o Hys- 
sope ao prelado ao entrar na Sé de Elvas pela 
porta reservada. A' caprichosa imposição, Mattos 
bem aconselhado, dizem que por Diniz, interpoz 
recurso para a Coroa. O governo mandou que o 
Juiz de Póra de Elvas tomasse conhecimento da 
questiúncula e procedesse como de direito. Bispo e 
Cabido, diante d'esta determinação íançaram-se de 
rojo, engulindo accordáos, multas e reprimendas. 
O poeta começou a ser lido com um novo inte- 
resse; era uma jóia litteraria, que refulgia a par 



I 



SEGUNDA fJPOCA: OS ÁRCADES 243 



do Liitrin de Boileau, como uma obra prima do 
género heroi-(3omico. Existia já a Benteida, por 
Alexandre António de Lima, cujo herói era o 
bobo do Infante D. Francisco, Bento António. ^ 
E' um poemeto bem metrificado, mas insulso, 
sem uma ideia a que vise. Só merece attenção 
por accentuar o costume medieval de todas as 
cortes, casas nobres e altos personagens, terem 
sempre um bobo ou bufão para distracção domes- 
tica. Frei Fortunato de San Boaventura nos seus 
Siibsidios para a historia litteraria de Portu- 
gal, fala da Benteida, com certa mordacidade 
contra o Hyssope pelo seu espirito de classe: 
« o poema burlesco Benteida, mostra que já a 
esse tempo havia entre nós quem seguisse as pi- 
zadas do Liitrin de Boileau, e que não era ne- 
cessário que esperássemos o decantado Hyskopr, 
afim de possuirmos alguma cousa que nos acre- 
ditasse n^este género de poesia.» {Op. cit., p. 192.) 
Como a Benteida^em trez cantos, foi publicada 
em 1752 por Andronio Meliante Laxaed (ana- 
grama de Alexandre António de Lima) e o ilys- 
sope escripto entre 1709 a 1773, o ex- Arcebispo 
de Évora dava a alfinetada na prova do Hyssope 
quanto á prioridade do género. Diniz acabara a 
sua commissão de Auditor em lillvas, para ser 
promovido na escala da magistratura. No alles- 
tado passado pelo Governador das Arnuis, diz 
([ue durante o tempo que exerceu o seu logar, 
« foi sempre com honra, exacção e desinteresse, 
sendo um dos mais hábeis ministros que tem ha- 
vido n'esta Província, em (jue se distinguiu pela 
sua litteratura. » Ao fim de dez aimos regres- 



* Escrevia disparates com o nome do Estevuni Pe- 
reira de Penharanda, 



HISTCIRIA DA LITTFRATIRA PORTUGUEZA 



sava Diniz a Lisboa em 1774; a sua presença fez 
com que se acordasse o enthuziasrao poético, 
dando um caracter de solemnidade académica á 
festa celebrada em 20 de Janeiro de 1774 no pa- 
lácio do Morgado de (31iveira em honra do seu 
sogro o Marquez de Pombal, no dia do santo do 
seu nome. Não foi a ultima sessão da Arcádia 
Lusitatia como se tem imaginado, mas apenas o 
ensejo para a organisação de uma nova Acade- 
mia sob o influxo do Conde de Oeiras. Assignarara 
esta petição alguns antigos árcades: D. Francisco 
Innocencio de Sousa Coutinho, Gaspar Pinheiro 
da Camará Manoel, Theotonio Gomes de Carva- 
lho, António Diniz da Cruz e Silva, José Basilio 
da Gama, Ignacio José de Alvarenga. Manuel 
Phito da Cunha e Sousa, João de Saldanha de 
Oliveira e Sousa. Não foi propriamente uma ses- 
são da Arcádia, pias uma homenagem pomba- 
lista. Não concorreram a ella os árcades Manuel 
de Figueiredo, Manoel Nicolau Esteves Negrão, 
Luiz Corrêa do Amaral França, Feliciano Alves 
da Costa, Manoel Pereira de Faria, Francisco de 
Sales, P.*" Manoel de Macedo. No anno seguinte^ 
em 6 de Junho de 1775, fez-se o grande festival 
da inauguração da Estatua equestre do Terreiro 
do Paço, a que concorreram os poetas com odes, 
sonetos, canções, epistolas ; n'essa cohorte inter- 
veniente figuram individualmente alguns árcades, 
mas não a sua academia. Entre a alluvião de 
versos á Estatua equestre, lá se ajuntaram os de 
Theotonio Gomes de Carvalho, António Diniz da 
Cruz e vSilva, Luiz Corrêa do Amaral França, 
P.* Manoel de Macedo, Dom Joaquim Bernardes, 
Bergtmzene Martelli, que, se a Arcádia Lusitana 
ainda existisse, encontraria azado evento para 
uma sessão apparatusa. 



SEGUNDA Época: os árcades Si-íó 



Diniz, no seu regresso de Elvas a Lisboa, ain- 
da ouviu a extremada Zamperini era camarote 
da erapreza, junto de Theotonio Gomes de Car- 
valho, um dos administradores. Pela expulsão da 
Zamperini, Theotonio Gomes de Carvalho teria 
ensejo para revelar a Diniz o angurio do Soneto 
de Garção ao Senado de Lisboa, quando Paulo 
de Carvalho foi substituído pelo sobrinho e joven 
Conde de Oeiras, o motivo fútil do encarcera- 
mento de Garção e sua morte. 

No pouco tempo que Diniz se demorou em Lis- 
boa, escreveu a Comedia em verso O Falso he- 
roísmo, na forma fixada por Garção. Elpino es- 
tava então submettido ao inquérito de sangue, 
para lhe ser conferido o habito de Aviz, em que 
testemunhou Theotonio Gomes de Carvalho. Mas 
a mancha de mechanico difficultava a resolução 
do tribunal ; Diniz, na sua Comedia reagiu contra 
esse preconceito genealógico, na figura do fidalgo 
D. Thadeu de Montalto, que arrota baforadas das 
suas genealogias. No seu manusoripto achou Mo- 
rato a nota: «Composta em Janeiro de I77õ.> Pe- 
las boas relações com a familia do Morgado de 
Oliveira e solicitude de Theotonio Gomes de Car- 
valho, foi Diniz por carta regia de IG de Al)ril 
de 1776 despachado desembargador para a Re- 
lação do Rio de Janeiro. A sua partida foi no se- 
mestre immediato. Em um bello Soneto descreve 
a sua viagem: 

Sahirnos pela barra com bom vento, 
Mas ao terceiro dia de viagem, 
Se alçou do noroeste tal aragem, 
Que as vergas arrojou ao tirmamonto. 

Soeogado este borrendo movimento, 

Em que roncava o mar como um selvagem, 

Vimos ao sexto dia de passagem 

A viçosa Madeira a salvamento. 



24G HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



Na barba da oruel Serra Leôa, 

Oito dias soffremos calmaria, 

E o crebo fuzilar com que o Céo troa. 

Passamos logo a Linha ao quarto dia, 
B surp:imos cora toda a gente boa 
Aos sessenta do Rio na babia. 

{Soneto XXI, 2.^ série). 

Era de sessenta dias a viagem, que os trans- 
atlânticos hoje realisam em doze dias. Já no Rio 
de Janeiro soube que por despacho de 6 de 
Agosto de 1776 fora ordenado o inquérito para 
as provanças da sua habilitação ao gráo de Ca- 
valleiro de Aviz; e como eram intermináveis os 
embaraços, teve de requerer em 1779 á real cle- 
mência que lhe fossem perdoadas as irregulari- 
dades; e ainda apesar d'este aviltamento, se lhe 
procrastinou essa honra até 1790! 

N'esta mesma viagem seguia também para o 
Rio de Janeiro o poeta Ignacio José de Alva- 
renga Peixoto, que usava o nome arcádico Eii- 
reste Fenício, despachado Ouvidor do Rio dos 
Mortos. E' natural que n'esse trajecto de sessenta 
dias com tempestades e calmarias, os dois poetas 
se familiarisassem, o que torna esse futuro mo- 
mento em que Elpino teve de sentenciar cruel- 
mente Enrfíste, n'um tenebroso drama judiciário. 
Diniz não foi indifferente ás maravilhas da flora, 
da fauna e da paizagem americana, n'este pri- 
meiro^periodo da sua permanência, de 1776 a 
1789. Na collecção dos seus versos documentam-se 
com varias composições as suas viagens no inte- 
rior do Brasil, por vezes em syndicancias officiaes. 
Na fundação da Academia das Sciencias de Lis- 
boa era 1779, foi incluído na lista dos seus sócios 
o nome de António Diniz da Cruz e Silva; este 



SEGUNDA Época: os árcades "i'*' 



facto, achando-se Elpino ausente de Portugal, é 
explicado por Aragão Morato, por se ter conside- 
rado que a nova Academia era uma continuação 
da Arcádia Lusitana. Ao governo duro e inintel- 
ligente do Marquez de Lavradio succedeu na vice- 
realeza o joven D, Luiz de Vasconcellos e Sousa, 
sempre preoccupado em libertar o Rio de Janeiro 
da febre endémica que o devastava, e que donomi- 
navara por irrisão a Zamperini. Diniz conheceu o 
alto espirito de D, Luiz de Vasconcellos, como 
homem culto e fomentador das letras, exaltando-o 
nos seus versos por differentes vezes. Mas essa 
harmonia moral que Diniz vira perturbada em 
Elvas pelo Génio das Bagatellas, foi perturbada 
no Rio de Janeiro por uma futil questão de etique- 
ta, em 178L Em Elvas, Diniz ria-se á farta no Sô- 
tam do Falcato ; no Rio de Janeiro elle tomou 
parte na refrega em (jue os Desembargadores da 
Relação protestavam pelo ahsenteisnio, pela prece- 
dência que lhes competia de occuparem o lado di- 
reito da sala do docel nas recepções ofíiciaes do 
Vice-Rei. Nos documentos que se trocaram com 
os Desembargadores e com o Governo da Metró- 
pole, se extrae a nitida narrativa, com o tom so- 
lemne que o acontecimento teve e que dá relevo 
heroi-comico aos factos. Segundo a phrase do 
Vice-Rei ao seu governo, era «costume e pratica 
sabida não só n'esta capital, mas em qualquer dos 
governos da ^merica, festejarem-se os dias do 
feliz nascimento de Suas Magestades e Real Fa- 
mília — com um publico ajuntamento na Casa do 
Docel do Vice-Rei ou Governadores, que ahi 
recebem o Cortejo {\uo lhe fazem em memoria 
d'a(juelles grandes dias todos os Ministros, Ofíi- 
ciaes militares, e mais pessoas ecclesiasticos e se- 
nhores, que pela razão do Emprego, dignidade ou 



248 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



alguma outra, não costumam faltar a este acto 
sem impedimento legitimo, esperando na mesma 
Sala a salva de artilharia — retirando-se todos ao 
costumado sinal de cortezias cora que os Vice-Reis 
ou Governadores lhes dão a conhecer que está 
acabado o mesmo acto.» Declarara Luiz de Vas- 
concellos, que em conversa familiar sobre este 
motivo, lhe disseram : « Que na Bahia ia o corpo 
da Relação para a direita, e a Tropa para a 
parte esquerda.» Aproximava-se o dia 21 de Agos- 
to, do anniversario natalício do príncipe D, José, 
e como o Marechal Chixorro ficou, por accidente 
casual, acima do Chanceller da Relação, fallava- 
se em que os militares o acompanhassem na pró- 
xima recepção. Bem se quiz. precaver o Vice-Rei, 
mandando declarar que na recepção se havia de 
praticar o mesmo, que no tempo dos seus ante- 
cessores. Os desembargadores da Relação, ante 
a philaucia militar, não compareceram. Narra o 
Vice-Rei: «Com effeito houve cumprimento no 
dia 21 (de Agosto) em memoria do feliz nasci- 
mento do sereníssimo senhor D. José, Príncipe do 
Brazil, porém só appareceram a elle três ministros 
da Relação e todos os mais (outo) faltaram, no- 
vidade que necessariamente devia dar nos olhos 
de todos ...» O Vice-Rei ofnciou a cada um dos 
absenteistas perguntando-lhes os motivos ; três 
estavam reconhecidamente doentes, e os cinco 
ladearam nas respostas. Diniz, na sua resposta, 
declara que se não tinha lembrado do dia do an- 
niversario do príncipe, nem ter recebido convite 
para um acto que não fazia parte do seu dever 
de magistrado, sendo natural o esquecimento de 
quem «tantas cousas do seu officio tinha para 
cuidar», nem era para estranhar o facto, por não 
conhecer lei, decreto ou ordem regia que declare 



SEGUNDA Época: os árcades '«i^y 



aquella assistência uma das funcções especiaes do 
seu officio. Diniz correspondia pelo seu desdém 
ao tribunal que o inhabilitara pela mancha de 
mechanico. O Vice-Rei relata tudo bem documen- 
tado para a Metrópole, e foi-lhe respondido man- 
dando que sejam prohibidas todas as questões de 
precedência de logares na sala do Docel, limitan- 
do-se a que sejam reprehendidos severamente. 

Brito Rebello, tendo encontrado estes docu- 
mentos no Archivo Ultramarino, publicou-os no 
Archivo histórico portuguez ; ao trasladar as li- 
nhas referentes á reprehensão severa, escreve : 
«N'esse dia, o Génio tutelar das Bagatellas, o Bis- 
po e o Deão, de commum accordo riram a bom rir, 
exclamando satisfeitos : «Também caiu na mesma 
rede. Mas se o Gallo da ceia do Deão pudesse 
ainda levantar-se e fazer novos vaticínios, prog- 
nosticaria de certo ao Diniz, o pesado e ingrato 
encargo com que, d'ahi a dez annos, voltaria a 
esse mesmo Brasil.^ AUude ás tremendas sen- 
tenças contra os suppostos conjurados de Villa 
Rica. Ao Brasil chegou a noticia da morte do 
esperançoso Príncipe D. José, em 21 de Setembro 
de 1788; Diniz, como a totalidade dos poetas 
portuguezes, celebrou em sentidos sonetos aquella 
fatalidade dynastica. Não deixaria Theotonio Go- 
mes de Carvalho de fazer valer esses versos. Por 
Decreto de 22 de Agosto de 1789 foi despachado 
Diniz Desembargador da Relação o Casa do Porto, 
regressando á metrópole ; durou pouco tempo o 
seu serviço na Relação do Porto, sendo promo- 
vido por Decreto de 21 de Julho de 1790 para a 
Casa de Supplicação. Vivia então Elpino na rua 
Formosa, já com relações litterarias com a Con- 
dessa de Vimieiro, D. Thereza de Mello Brey- 
ner, com José Basílio da Gama e o árcade Feli- 



250 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ciaiio Alves da Costa ; mas não se passaram bem 
cinco mezes, que graves acontecimentos se deram 
no Brasil, na Capitania de Villa Rica. Foi nomea- 
da uma Alçada de três Juizes, entre os quaes An- 
tónio Diniz da Cruz e Silva, para irem julgar sum- 
mariamente (sem appellação nem aggravo) os 
réos da Conjuração. Partiu na Alçada em 15 de 
Outubro d'esse mesmo anno de 1790, na fragata 
Golfinho. A Alçada ia possuída de uma ideia que 
aterrava a monarchia. A proclamação da Repu- 
blica na America ingleza, e o contagio das ideias 
revolucionarias no Brasil. Era pois preciso, por 
absoluta necessidade de ordem e segurança da 
coroa, extirpar pelo terror, quaesquer vislumbres 
de republicanismo. Eram os ráos da Conjuração 
de Villa Rica, já prezos e processados, que o 
Desembargador António Diniz tinha de ir senten- 
cear suminariamente. 

Mas essa Conjuração não aconteceu, esse cri- 
me de alta traição da Inconfidência Mineira não 
se praticou ; porém a justiça regia fez prizões por 
mera denuncia de um militar desconsiderado, fez 
inquéritos, interrogatórios e autos de processo, e 
sob as formulas dos tribunaes condemnou á morte 
e a degredo perpetuo homens de grande mérito 
pela sua capacidade intellectual e valor moral. 
Como foi possível tecer essa horrenda intriga? 
E por que é que as narrativas históricas lhe dão 
corpo ? 

Comecemos pelo facto primordial : 
«^Em 1783 foi nomeado Capitão General da 
província de Minas D. Luiz da Cunha de Mene- 
zes. Este homem vaidoso, tornara-se tão odiento 
quanto ridiculo pelos actos culposos que commet- 
teu, de tal sorte, que em nove epistolas em verso, 
as Cartas Chilenas, escriptas por um poeta de 



SEGUNDA ÉrOCA: dS ÁRCADES Si51 



Villa Rica sob o pseudoiiymo de Critillo, e en- 
dereçadas a um tal Dorotheo^ residente na capi- 
tal. Estas Cartas, que appareceram em 1786_, 
continham uma serie de accusações contra o máo 
governo do Capitão General, dando logar a pa- 
tentear-se o descontentamento geral, contribuin- 
do para sustentar e augmentar a fermentação, 
dando-lhe o caracter de uma conjura (protesto). 
Com a chegada do successor de Menezes, o Vis- 
conde de Barbaoena, em 1788, espalhou-se o boa- 
to que este exigiria ao mesmo tempo as 700 ar- 
robas de ouro, que formavam a capitação da 
provincia, que estavam em divida.» (Fernando 
Wolf, Brésil liitéraire, p. 48.) Os interesses dos 
exploradores das minas auríferas estavam amea- 
çados, e para evitar a cobrança da capitação em 
atraso de setecentas arrobas de ouro, era preciso 
embaraçar o Capitão General e o Governo da me- 
trópole com os perigos de uma exaltação revolu- 
cionaria, fomentada por homens cultos que co- 
nheciam as ideias económicas de Adam Smith, 
e as doutrinas politicas de Mally. Era justamente 
o meio de envolver os suppostos auctores das Car- 
tas Chilenas, que eram lidas desde 1780. Os indi- 
víduos accusados e ridicularisados n'essas Cartas, 
foram pelo seu rancior levados a fazerem ligar um 
sentido revolucionário a essas epistolas satíricas. 
Nas Cartas Chilenas atacava-se o privilegio da 
nobreza, (jue fruía os altos cargos da vice-realcza 
e das Capitanias das províncias. Ahí com energia 
moral proclamava-se a doutrina das democracias: 

Polo osornlinio »la virtudo esporo 
Que regulados os seus votos sejam. 

De uma estéril mortal genealogia 
Que o mérito produz de seus maiores 



252 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Elles, amigo, argumentar não devem 
Propagados talentos. A virtude 
Nem sempre aos netos por herança desce. 
Pode o pae ser piedoso, sábio e justo, 
Manso, affavel, pacifico e prudente, 
Não se segue (i'aqui que um impio filho 
Preverso, infame, discolo e malvado 
Não desordene de seus pães a gloria. 

Para reger, ó Reis, a vossos povos, 
Debalde ides buscar brazão e escudos. 
Entre os vossos dynastas, Roma, Roma, 
As faxas, as segures, mais as outras 
Imperiaes insígnias só tirava 
Da provada virtude. 

Os Césares d'aqui, que os fastos ornam, 
Ouo differenles hoje os nossos grandes ! 
E' filho do Marquez, do Conde é filho? 
Vá das índias reger o vasto Império, 
Oh Deus ' e que infelices os vassallos 
Que tão longe do throno prostituo 
O vosso império aos abortivos chefes. 
Lá vae aquelle que de avara sede 
E por genip arrastado, que thezouros 
Não espera ajuntar E de teu cofre 
Se hade esgotar a aferrolhada somma, 
Desgraçada Justiça! Da Egualdade 
Tu nem sabes o ponto : e o balanço 
Do interesse, que só por ti decide. 
Que despachos injustos, que dospezas, 
Que mercês. . . e que postos se não compram 
Ao grave pezo da sellada firma? 
Outro vae, que lascivo e desenvolto 
Só da carne as paixões adora e segue. 
Honras, decoros, vós sereis despojos 
Do seu bruto apetite. Em vão, cançados, 
Paes de famílias, de zelar vós outros, 
De vossa casa o pundonor herdado; 
Aos vis ataques do atrevido orgulho 
Hão de ceder as prevenções mais fortes, 
Victimas da voraz sensualidade 
Vossas filhas serão, vossas mulheres, 
Que direi do soberbo, do vaidoso, 



SEGUNDA Época: os árcades '^d'ò 



Do colérico e de outros vários monstros, 
Que freio algum não conhecendo, passam 
A sustentar no auctnrisado cargo 
Tud í quanto a paixão lhes dita e manda. 



O ataque ao privilegio genealot^ico resultava 
da Sátira dirigida a D. Luiz da Cunha de Mene- 
zes; e embora estivesse já substituído, ellas, as 
Cartas Chilenas, feriam: 

Mas ah Critillo meu. que eu estou vondo 
Oue já chegam a lêr as tuas Cartas 
Lstes bárbaros monstros são cobertos 
De vivo pejo ao ver os seus delictos, 
Em tão disforme vulto hoje appare(!em. 
Destro pintor, em um só quadro a muitos 
A maldade de todos comprehende. 



Pela força brilhante da virtude, 

Que nos defeitos de ura castiga a tantos. 

Para combater esta doutrina os próprios vi- 
sados nas Cartas Chilenas, fizeram denuncia 
de conversas democráticas, de aspirações de in- 
dependência provincial, o para aproveitarem dos 
sustos dos devedores da capitação das TOU arro- 
bas de ouro, incluíram na denuncia o secretario 
da Capitania, Dr. Cláudio Manoel da Costa, e o 
desembargador Thomaz António Gonzaga, Ouvi- 
dor da Capitania e Ignacio José de Alvarenga 
Peixoto, bom poeta, que indigitavam como au- 
ctor das satiricas epistolas. Recebida a lista de 
pessoas indifferentes das relações d'estes homens 
probos e ponderados, foram prezos em conse- 
quência das noticias de que se premeditara 
uma conjuração. Vieram esses trinta e cinco 
homens de Villa Rica, trazidos a pé para o Rio 
de Janeiro e arrojados ás masmorras da ilha das 



HISTORIA DA I.ITTERATURA 1'ORTUGUEZA 



Cobras, onde diariamente o terrivel juiz Ma- 
chado Torres vinha fazer insolentes interrogató- 
rios, passando-se a auto todas as phrases troca- 
das, durante dois annos. Cláudio Manoel da Costa, 
o secretario da Capitania, foi assassinado no cár- 
cere de Villa Rica, e d'esse accidente fizeram ar- 
gumentos para dar realidade a responsabilidades 
revolucionarias. Preparado o processo e partici- 
pado para a Metrópole, a Alçada dos três juizes 
foi mandada de Lisboa, simplesmente para homo- 
logar as sentenças de pena maior sem mais appel- 
iação, ou fazer as commutações. Lendo-se as re- 
ferencias pessoaes das Cartas Chilenas, pelos 
críticos que as tem interpretado, lá se acha o 
nome do coronel denunciante Joaquim Silvério 
dos Reys, Silvario. 

O fanfarrão Minezio, designa o Capitão-Ge- 
neral D. Luiz da Cunha e Menezes; Marquezio, 
é o Capitão de Cavallaria auxiliar José Maria 
Marques; Maltiizio, José António de Mattos; 
Alberga, João de Freitas Braga, camarista, an- 
teriormente estalajadeiro; Padolla, José de Vas- 
concellos Parada de Sousa, Sargento-Mór do re- 
gimento de Cavallaria. Todos estes envolveram 
no seu plano de vingança esses três homens de 
letras, excellentes poetas e honrados funcciona- 
rios, explorando o exaltado Tiradentes Joaquim 
José da Silva Xavier, que em um jantar fizera 
um brinde á independência da Província de Mi- 
nas. A proclamação da Republica dos Estados- 
Unidos foi considerada como um estimulo para 
realisar a independência da Colónia, e os intri- 
gantes, tendo apavorado o Vice-rei D. Luiz de 
Vasconcellos e Sousa, propagaram a ideia de que 
esses três homens simples eram uns audaciosos 
revolucionários. Os chronistas que só lêem o que 



SEGUNDA Época: os Árcades 



se escreve no papel e não vêem o lado esotérico, 
consafçram esses três nomes como os martyres 
precursores da Independência do Brasil e da for- 
mação da sua Republica. Pobres revolucionários 
"feitos á força de estylo patriótico. Camillo Castello 
Branco, em um relance psychologico sentiu, que 
elles não eram revolucionários: «Nenhum d'estes 
conjurados tinha alma aparelhada para emprehen- 
dimento de tal porte. Desde o momento em que 
foram prezos retraíram-se a dimensões tão aper- 
tadas, que não ha senão a piedade que possa dc- 
plorar-lhe o trágico destino. — Mas os poetas de 
Minas, que apenas tinham de Chénicr a qualifica- 
ção, decerto nada sentiam arfar-lhe no cérebro, co- 
mo a(pielle outro que cantava o hynmo da morte 
no caminho do cadafalso. Nenhum manteve o 
alento de um brioso plano em frente dos juizes. — 
Todos deploráveis na sua grande miséria em que 
resaltam relevos irrisórios inseparáveis do mais 
lamentável infortúnio, quando a catastrophe se 
não sustenta magestosa. » (Curs. Litt., p. 251.) 
Camillo no seu critério histórico fiava-se na ver- 
dade das formulas judiciarias; mas a sua obser- 
vação psychologica punha em evidencia a iimo- 
cencia d''".oes três homens de talento, monstruo- 
samente sacrificados pelo egoismo covarde á ra- 
zão de estado. Fazem estremecer de horror as 
palavras do Accordam da Relação em Alçada de 
18 de Abril de 1792 a (jue o condenmado i)elo 
baraço e pregão seja conthizido jxdas ruas pul)li- 
(;as ao logar da forca, e n'elia morra morte na- 
tural para sempre; e depois de morto lhe ser 
cortada a cabeça, pregada em poste alto no logar 
mais publico da Villa de .... até que o tempo 
a consuma; declaram a este réo infame, e infa- 
mes seus filhos e netos e os seus bons por eon- 



256 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



fiscados para o fisco e camará real. » E feita a 
pavorosa cerimonia até ao pé da forca, dava-se 
ao réo a surpreza de lhe ser coramutada a pena 
em degredo perpetuo para os logares mais inhos- 
pitos de Africa para morrer de doença e miséria. 
Tal foi o papel que n'esta clamorosa tragedia so- 
cial coube a António Diniz da Cruz e Silva, que 
foi agraciado pelo governo com o cargo de Chan- 
celler da Relação do Rio de Janeiro por decreto 
de 4 de Novembro de 1792, que o obrigou por 
mais alguns annos a não mudar a residência para 
exercer a sua magistratura como profissional da 
Justiça com novos horrores. 

Ainda sob o governo do Vice-rei Luiz de 
Vasconcellos e Sousa, formou-se uma academia 
poética, por iniciativa de Manoel Ignacio da Silva 
Alvarenga, conhecido pelo nome arcádico de 
Alcindo Palmireno ; tendo seguido o curso juri- 
dico em Coimbra, ahi publicou em 1773 o poema 
heroi-comico O Desertor das Letras exaltando a 
reforma da Universidade pelo Marquez de Pom- 
bal, e por ordem sua foi o poema publicado. 
Alcindo Palmireno tomou parte na Guerra dos 
Poetas contra a Arcádia Lusitana e era uma 
das suas sátiras ataca a corrente que impunha o 
gosto francez e a auctoridade de Boileau. Da sua 
terra natal, S. João de El-rei, viera estabelecer 
no Rio de Janeiro uma aula de Rhetorica, era 
1782, e pela convivência litteraria com alguns 
amigos, como José Basílio da Gama, as suas Con- 
ferencias de eloquência e poesia vieram a ter o 
titulo de Arcádia Ultramarina (d maneira da 
Arcádia de Roma) como elle declara. O governo 
de Luiz de Vasconcellos achava-se já occupado 
pelo brutal Conde de Resende, para quem as 
associações litterarias eram ura perigo, porque 



SEGUNDA Época: os árcades '-iS? 



mascaravam clubs políticos e revolucionários. Os 
frades franciscanos foram denunciar ao Conde 
Vice-Rei aquellas reuniões poéticas, e sem meias 
medidas essa suprema auctoridade atirou cora 
todos aquelles poetas para um cárcere em 1795, 
pretendendo continuar assim o processo da inven- 
tada Conjuração de Minas. O-! desgraçados forara 
supportando a prizâo, em(]uanto esperavam os 
despachos dos seus requerimentos, para serem 
soltos por não existir processo instaurado. O go- 
verno mandou que fosse consultado o Chanccller 
da Relação do Rio de Janeiro, o desembargador 
António Diniz da Cruz e Silva. Assim cum|)riu o 
Conde de Resende, em officio de 16 de Junho de 
1796, se devia ou não soltar esses esquecidos 
prezos. A resposta dada por escripto pelo Chan- 
ccller dois dias depois, é de arripiar os cabellos. 
A' pergunta se entendia que as culpas se acham 
sufficientemente purgadas com o dilatado tempo 
da sua prizâo? Responde, que não ha senão cum- 
prir a insinuação piedosa da Rainha, pelo que se 
dêem por perdoadas as culpas e soltados os réos, 
cumprindo a piedosa vontade de 8. Mag. 

«Ao que accresce, que segundo a crise era 
que se acham os governos públicos da Europa, 
me parece mais prudente e útil — antes soltar os 
prezos, do que expol-os a serem representados 
pelos Prancezes, e virem estes ao conhecimento 
de que os seus abomináveis princípios tem apai- 
xonados n'este continente. Sendo certo que para 
se enviarem com mais segurança seria necessário 
dilatarem-se por mais tempo em suas prizões, 
contra a vontade de S. Mag. tão significante- 
mente declarada. . . » 

E' o profissional da justiça, que pelo exclusi- 
vismo das formalidades perde o senso moral e a 

17 



Í58 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



consciência da Justiça. A demora de Diniz no 
Rio de Janeiro, como Chanceller da Relação, ex- 
pol-o a este abysmo, em que se afundou. O iso- 
lamento e a anciedade de ref^ressar a Portugal 
acabrunharam-O; falecendo em 5 de Outubro de 
1799, sendo ahi sepultado na egreja da freguezia 
de San José. As suas obras ficaram inéditas, 
vindo para Portugal os manuscriptos trazidos 
pelo Cónego Manoel de Figueiredo, que com os 
manuscriptos da livraria Vimieiro, e do Marechal 
Mathias José Dias Azedo se fez em 1807 a edi- 
ção conscienciosamente dirigida pelo sábio aca- 
démico Aragão Morato. 

Quita {Alcino Micenio). — Na actividade da 
Arcádia Lusitana, este poeta acompanha com 
fervor Garção e Diniz, na restauração da littera- 
tura, entre eruditos, latinistas, magistrados e pa- 
dres cultos, elle, pobre, sem estudos regulares, e 
vivendo do seu trabalho mechanico, um simples 
cabelleireiro. E' um phenomeno curioso na so- 
ciedade do século xviii, que merece ser explicado 
pela sua estranheza, e nos dá o nexo da sua bio- 
graphia, em que o talento realça sobre a des- 
graça pessoal. Nasceu Domingos dos Reis Quita 
em Lisboa (freguezia de S. Sebastião da Pe- 
dreira) era 6 de Janeiro de 1728; seu pae, José 
Fernandes Quita negociava em pannos brancos, 
com o que sustentava familia composta de seis 
filhos. Por difficuldades no coramercio teve de se 
ausentar de Portugal, em 1735, indo para o Bra- 
zil cora intuito de resarcir a parca fortuna. Sua 
desolada mulher, Maria Rosaria, foi mantendo os 
filhos com alguns recursos que o marido ia re- 
mettendo, até que de vez cessaram, cora a falta 
completa de noticias. Esse filho, que então con- 



SEGUNDA Época: os árcades í55Ví 



tava treze annos, votou-se ao trabalho, compatí- 
vel com a sua fraqueza, para obter um pequeno 
salário: a profissão mais accessivel, era a de ca- 
belleireiro, então com uma feição artística, com a 
perspectiva de relações com indivíduos podero- 
sos. Já dizia Addisson, que uma boa cabelleira 
actuava muitas vezes no êxito das pretenções. 
Em 1741, ainda a imaginação de Quita estava 
longe d'aquella época, em que o cabelleireiro 
Leonardo tinha um pleno prestígio na corte. Nos 
ocíos e tranquillidade da officina ia-se entre- 
gando á leitura, encontrando uma seducção ex- 
trema nas Eglogas de Francisco Rodrigues Lobo ; 
foi como caminhante sequioso que encontra uma 
veia de agng límpida. Andava então nas mãos 
de todos a Corte na Aldeia, a Primavera, Pastor 
peregrino e Desenganado, na edição in-4." pe- 
queno, de 1722; assa leitura bastava para lhe 
coramunicar o bom estylo florido e sentencioso, 
e as formas lyrícas mais apaixonadas. Privado da 
cultura latina, não foi derrancado pelo pedan- 
tismo escholar, conservando-se na saudável na- 
turalidade diante dos moldes petrificados da ran- 
çosa mythologia. A poesia do pastor Lereno fas- 
cinou-o, mas suscitando-lhe o desejo de ler os 
poetas hespanhoes e italianos, que lhe eram acces- 
siveis com um pequeno esforço. A imitação le- 
vou-o aos ensaios de versificação, que, segundo 
a opinião de Comte, se adquire a sua technica 
em seis mezes. Quita em uma Egloga da sua 
puerícia já usava o nome arcidico de Alcino, da 
mesma forma que Diniz, ainda e tudante em Coim- 
bra, usava o de Elpino, e o seu amigo Brito o de 
Olivo, á maneira da Arcádia de Roma, que tinha 
alguns sócios em Portugal. Quita mostrava os 
seus tentames, como obra de um frade das ilhas; 



2fiO HISTORIA DA I.IL-TKRATURA PORTUGUEZA 



lembra esta fraude da sua modéstia esse outro 
frade escocez Rowley, que o desgraçado poeta 
Charterton inventara para se fazer valer. Ao 
passo que ia Quita dando expressão de realidade 
aos seus versos, a emoção amorosa trahiu-o com 
composições que já não condiziam com o estado 
de alma de um frade. No Epitome da vida de 
Quita, descreve Piedegache, como se reconheceu 
o seu talento poético: « Apparecendo, porém, o 
Soneto — Benigno Amor, os Ímpios que te 
offendem, e começou a descobrir-se o segredo ; e 
finalmente em certezas se tornaram as suspeitas 
n'um divertimento que se fez na Moita, na quinta 
chamada de Santo António. Desde aquelle tempo 
começou a dar brado o engenho de Domingos 
dos Reis, e todos os que eram inclinados á poesia 
procuraram conhecel-o. > Piedegache nada mais 
accrescenta, ficando o facto sem relevo. Essa 
quinta da Moita pertencia a Manoel Gonçalves 
de Aguiar, pae da decantada Tircéa, D. Thereza 
Theodora de Aloim, que tão Hgada se acha na 
vida de Quita^ amigo e companheiro poucos 
annos depois na Arcádia Lusitana de Sylves- 
tre Gonçalves de Aguiar (Siveno Cario) irmão 
da celebrada dama. Esta intimidade de Quita na 
familia Gonçalves de Aguiar era devida ás anti- 
gas relações com o honrado negociante de pan- 
nos brancos, e d'ahi a benevolência pelo talen- 
toso moço. O Soneto revelador ainda hoje nos 
intriga, porque é uma confissão de amor: 



Benigno Amor, os ímpios que te offendem 
E contra teus decretos se conspiram, 
E' p )rque os laços inda não sentiram 

D'éstas ducGS ciideiats ijuo me prondom. 



SEGUNDA Época: os árcades ^61 



Os peitos, que a teu jugo se não rendem 
E cheios de ternura não suspiram, 
E' porque os resplendores nunca viram 
Que em viva chamma o coração me aocendem. 

Vinde vêr, desgraçados e queixosos, 
O bem porque suspiro de contino, 
E terois uns instantes venturosos, 

Mas nunca mudareis vosso destino, 
Nunca, que aquelles ollios tão fervorosos 
Outra Juz não vêem mais que o seu Alcino. 

(Soneto xxix). 

Esta illusão amorosa dissipoií-se pouco de- 
pois, como o revela magoado na Egloga Alcino, 
feita fin sua puericin; ahi descreve a margem 
do Tejo caudalosa, o bosque sombrio e intrincado: 

Aqui me lembra quanto me dizias, 
E tudo o que entro nós então passava, 
Quando tão enganado me trazias, 

Lembra-me, quando as flores apanhava 
Pela verde campina da floresta 
Com que os louros cabellos te toucava. 

E lembra-me também, que junto a esta 
Fresca fonte, debaixo d'esta faia 
Passávamos a calma pela sesta, 

Lembra-me, quando andámos pela praia 
As luzentes conchinhas apanhando, 
Que o mar lança na areia, quando espraia. 

Eu sei que estava triste e descontento. 

Mas não sei se de amor era o costume, 

Ou se já receinva o mal presente. 
Sentia a alma abrasar-se em vivo lume, 

Mudar-me o coração também sentia, 

O áspide venenoso do ciúme. 

Oh, oomo então soubeste, na ternura, 
Occultar os rigores ieshumanos 
Da tua condição tyranua e dura ! 



262 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Dize, cruel, porque de mim te escondes? 
Já segues outro Amor, outra vontade? 
Tyranna, enleada estás, que não respondes? 

lEgloga xni). 



Na Egloga ix descreve Alcino os sítios onde 
se passaram os seus amores por Tircêa, na quinta 
de Santo António, na Moita: 



AUi, junto das margens do ribeiro, 
A' fresca sombra de uma rocha dura, 
Foi o logar aonde a vez primeira 
Me criou com seus mimos a ventura. 

Tão modesta, commigo aqui passava 
A bella ninfa em pratica amorosa, 
Que, quando respeitoso llie beijava 
A delicada mão branca e formosa. 
Vergonhosa ficava um breve espaço. 
Com os olhos cabidos no regaço. 

Quantas vezes dizendo que me amava, 
No seu formoso rosto conhecia 
Que cheia de ternura desejava 
Inda dizer-me mais do que dizia; 
Porém não lhe deixava o honesto pejo 
De todo declarar o seu desejo. 

Uma tarde me disse na floresta 
Que lá junto da praia eu a esperasse, 
Que ali iria vêr-me pela sesta 
Depois que das serranas se apartasse; 
Que sem guarda o rebanho deixaria 
Só por estar na minha companhia. 

O caminho da praia fui seguindo, 
Sentei-me sobre uns côncavos rochedos 
Onde do prado estava descobrindo 
Os verdes e frondosos arvoredos; 
Té que depois da sesta já passada 
A vi ao longe vir muito apressada. 



SEGUNDA Época: os árcades "^OS 



Vinha por entro or ramos tão nirosa, 
Que dava graça a ludo quanto via; 
Com a pressa de andar a oôr formosa 
Nas bellas faces mais se lhe accendia; 
Os cabollos, que de ouro a cor mostravam 
Pelo nevado collo se espalhavam. 

No Idyllio IX descreve Alcino esta anciedade 
da espera de Tircéa, cujo rumor as folhas das 
avelleiras simulam. Em uma Canção evoca a sua 
preoccupação exclusiva, com que se alenta na 
prolongada ausência: 

Doces, doces cuidados, que á memoria, 
Me trazeis n'um momonlo tanta gloria 
Que vivamente estão na conjectura 
AquBlles graciosos olhos vendo, 
Que movondo-so cheios de ternura 
Mil segredos do atnor me estão dizendo. 

Os dourados cabollos, que voando 
Representam do sol os resplendores, 
Aquella gentil bocca, que fallanclo 
Me diz n'um pó suspiro mil amores; 
Aquella formosura incomparável 
Mais que tudo, a meus olhos agradável. 

Para quem vive ausente suspirando, 
Não ha gloria maior, não ha ventura 
Como estar solitário recordando 
Da bem amada a graça, a formosura! 
As promessas, a fé, os juramentos, 
A ternura, as finezas e os agrados. 
Oh causa de tão doces pensamentos! 
Oh motivo gentil de meus cuidados! 

Oh, graça de meu canto e minha lyra, 
Esperança, ventura, luz e gloria; 
Por quem meu coração tanto suspira 
Sempre te trago impressa na memoria. 



2(54 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mas este grande amor tinha de ser perjurado ; 
Alcino ignora o que se passa na familia de Tir- 
cêa, e preságo o coração lhe inspira este soneto 
do mais puro camonisrao : 

Aqiielie gesto, que em teus olhos via, 
De amorosa piedade ou doce agrado, 
Já não está n'aquelle mesmo estado, 
N'aquelle puro extremo de algum dia. 

Não sei que vejo em ti, que n'uma fria 
Tristeza denuncia o meu cuidado; 
Parece que em teu rosto retratado 
Vejo quanto receia a phantasia. 

Não sei como cruel, menos amante 
Se me afigura teu rosto formoso, 
Que em mil receios ando vacilante. 

O coração palpita duvidoso 
E só dizer-te sei, que o teu semblante 
Náo era assim emquanto fui ditoso. 

{Soneto xvn. Ed. 1766). 

Concretisando as allusões, D. Thereza Theo- 
dora de Aloim apparece casada com Thomaz José 
Xavier Pimenta. O pobre Alcino para o abas- 
tado burguez era apenas um bom rapaz. A fama 
do seu talento poético espalhava-se, e um con- 
discípulo de Diniz, o protegido pelo Conde de 
S. Lourenço, viera a Lisboa, José António de 
Brito; chegou á fala com o poeta cabelleireirò, e 
ficaram Íntimos amigos. E' mesmo natural, que 
Oiivo desse alguns conselhos a Alcino, como ins- 
truído em boa litteratura. Essas relações foram 
truncadas pela morte do auspicioso e engraçado 
Brito, muito da intimidade de Garção. A este fa- 
lecimento inesperado escreveu Quita uma sentida 
Elegia, em que invoca os pastores do Lima ; 



SEGUNDA ÉPOC\: OS ÁRCADES 



Olivo, aquelle Olivo que alguns dias 
Os vossos frescos valles habitava 

Aquelle que deixando o rude emprego 
A ser por outros mestres ensinado 
Passou aos férteis campos do Mondego. 

Aquelle que, por sábio respeitado 
Foi n'aquella cidade antiga e forte 
Por onde o Tejo passa a sor salgado ; 

Este vosso paotor, o fatal oórte 
Na mais perfeita flor da breve edade 
Experimentou da feia e dura morte. 

Aparte as phrases convencionaes do estylo 
pastoril, a Elegia á morte de José António de 
Brito Magalhães, tem verdade de sentimento. 
Garção, que também presava muito Olivo, na 
sua intimidade com o erudito Conde de S. Lou- 
renço, que tanto protegeu Brito, mostrou-lhe a 
Elegia feita por Quita. Confirma-o Piedegache : 
« informado o excellentissimo Conde de S. Lou- 
renço, cujo merecimento se fazia respeitável pela 
litteratura, do novo phenomeno, que apparecia 
na republica das letras, este sábio cultor das boas 
Artes, desejou ouvil-o. Na primeira conversação 
que com elle teve, ficou tão satisfeito da sua vi- 
veza e subtil penetração que muitas vezes o pro- 
curou em sua casa e lhe deu sempre, depois, as 
mais demonstrativas provas de affecto e amizade.» 
Pelo seu lado Quita, pelo desabrochar do seu ta- 
lento, correspondeu á auspiciosa espectativa. Tudo 
isto se passara antes do terremoto do 1.° de No- 
vembro de 1755; esta catastrophe fel-o approxi- 
mar-se de novo da familia Gonçalves de Aguiar. 
Escreve o seu intimo amigo Piedegache: ^ De- 
pois da funesta catastrophe do tremor de terra 
que assolou Lisboa, viu-se desamparado, sem casa, 
sem abrigo, sem vestidos, sem dinlieiro. • Foi 



5Gr. . HISTORIA DA LITTERA.TURA PORTUGUEZA 



n'este transe extremo, que D. Thereza Theodora 
de Aloim o accolheu em sua casa, com carinhoso 
amparo. Assim o declara Piedegache: « Desde 
esta época viveu experimentando os effeitos 
d'aque]le animo generoso, que desvelado preve- 
nia, não só as precisões, porque nunca mais as 
conheceu, sim as cousas que podia apetecer.» 
Estava a dedicada senhora já viuva do seu pri- 
meiro marido e foi já no remanso d'esta santa 
hospitalidade que o Quita escreveu a Sijlva so- 
bre o lamentável terremoto de Novembro de 
1755, que imprimiu em folha volante e dedicou 
ao Conde de S. Lourenço, pelo grande desejo de 
mostrar-se agradecido : « Intentei n'esta Sylva, 
dar uma verdadeira ideia do lamentável estrago 
a que vemos reduzida Lisboa; conheço que não 
ficou completa, porque me falta o talento para 
formar imagens tão distinctas. » No meio da ver- 
salhada que celebrou o terremoto, a Sylva esca- 
pou á banal rhetorica pela emoção sentida e pela 
impressão da realidade: 

Doirava o Sol nas terras do Occidente 
As montanhas das partes do nascente, 
E nos profundos vales inda as flores 
Não gosavam seus bellos resplendores; 
N'aquelle grande dia em que festeja 
Os Santos todos a romana Egreja; 
Quando a Terra as entranhas revolvendo, 
Com forte impulso, com estrondo horrendo. 
Dentro em seus próprios âmbitos se abala, 
E em medonlias gargantas tudo estala. 
Move-se o Monte e move-se a Cidade 
Como as ondas na grande tempestade. 
Da imminencia da terra se despenha 
Em pedaços desfeita a tosca penha. . . 
Precipita-se a torre e faz a ruina 
Maior do edifício em que se inclina. 
Caem os templos; pórticos se abatem, 
Os mares com os mares se combatem . . . 



SEGUNDA Época: os árcades íí<j7 



E aos homens este estrago, esta desgraça 
A uns sepulta, a outros despedaça. 
O pó se espalha em nuvens denegridas, 
Ficam do sol as luzes escondidas. 
Toda a região do ár se desfigura 
Torna-se o dia claro em noite escura. . . 
Em confusos tumultos levantados 
Andam todos de sustos trespaçados. 
Braços, pernas se vêem espodaçadas. 
E cabeças dos corpos separadas. 

Ainda os olhos bem não se informaram. 
Da causa porque as lagrimas choravam, 
Quando na confusão dos alaridos. 
Correndo ainda mais espavoridos, 
— Fujam! fujam! — gritando vem da praia. 
Que já pela cidade o mar se espraia. 
Aqui. de novos sustos combatido 
Confuso, cada um perde o sentido. 
O coração de todo se esmorece 
O sangue gela, o alento desfalece. 

Quando o hórrido fogo a chamma ateia, 
E da cidade os âmbitos rodeia, 
Assim logo se accende, assim se enreda 
Por toda a parte a horrenda labareda. , 
Agora só de horror a vista atroa 
O largo campo aonde foi Lisboa. 
Vêem-se os campos, montes, povoados, 
De feridos, affiictos e magoados. 
Aqui, faliam e abraçam-sfí os amigos, 
E também já sem ódio os inimigos. 
Os irmãos uns aos outros apparecein, 
Em tal estado, que se não conhecem. 

Não foi indifferente ao Conde de S. Lourpnço 
esta revelação de talento de Quita, e convinha 
conhecel-o, porque no anno seguinte de 1757, ao 
tratar-se do instituir uma academia litteraria á 
maneira da Arcádia, o Conde de S. Lourenço 
lembrara ii (xarção, amigo também de Brito, o 
nome de Domingos dos Reis Quita para soeio da 



'íns HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



projectada Academia. N'essa crise de mutua affe- 
ctividade apagavara-se as differenças de nasci- 
mentos e gerarchias. Alcino Micenio foi do grupo 
constituinte da Arcádia, trabalhando sempre com 
fervor junto de Garção e de Diniz nas phases de 
restauração, por que ella teve de passar. Quita 
recitou enthuziasticas composições nas sessões 
publicas da Arcádia, e o seu talento era reco- 
nhecido. Desde o terremoto, em que foi hospe- 
dado em casa de D. Thereza Theodora de Aloim, 
tendo por coUega na Arcádia Silvestre Gonçal- 
ves de Aguiar (Siveno Cario), irmão d'ella, não 
careceu mais de se entregar ao mister de Gabel- 
leireiro. Entregue aos otia tiita, tão necessários 
á elaboração artística, o seu talento desabrocha 
cora esplendor diante de um amor piedade. Pelo 
lado de Quita as aspirações litterarias e applauso 
dos homens cultos substituíram o amor desejo. 
Decorreram assim alguns annos de plena felici- 
dade. De repente toda aquella existência paradi- 
síaca se desmorona; em 1761 apparece o pri- 
meiro ataque da implacável phtysica. D. Thereza 
Theodora de Aloim emprega todos os esforços 
para salval-o; a esle tempo já casada em segun- 
das núpcias com o Dr. Balthazar Tara, interessa 
seu marido para estas luctas, a que piedosamente 
se applicou por nove annos, ininterruptamente até 
1770. 

Em 1766 os intelligentes livreiros francezes 
Borel e Rolland publicaram em dois volumes as 
Obras poéticas de Domingos dos Reis Quita, alle- 
gando a intenção de salval-as da contingência 
de se perderem e « erigir-lhes um monumento 
indelével pelo meio da impressão. Estas pala- 
vras significam que a vida do poeta estava 
ameaçada pela terrível doença que se lhe mani- 



SEGUNDA É1'0CA: OS ÁRCADES 26'.» 



festara em 1766, a tuberculose, a que succumbiu 
quasi quatro annos depois. Os dois bellos volu- 
mes foram exacerbar odiosas invejas contra o des- 
graçado poeta. Na Censura obrigatória do Santo 
Ofíicio, Ordinário e Paço, o Dr. Caetano Fran- 
cisco Xavier de Zuniga, censor episcopal, não se 
conteve na sua approvação sem malévolas unha- 
das: «se n'elle leio obras e Sonetos excellentes, 
também achei outros errados nos processos da 
arte com lunares de simultoantes, e simulcaden- 
tes, defeitos que os antigos não conheciam e 
quasi todos os modernos ignorara; e este meu re- 
paro não deve impedir a licença que se pede.» 
Zuniga só tinha encargo de Ordinário para o 
exame da ortodoxia e da moral; o dislate dos 
lunares, dos simultoantes e simulcadentes, acom- 
panhou-o, como lata ao rabo de um cão. 

Quita dirigiu um «Soneto Ao Dr. Zuniga cri- 
ticando-lhe os seus Poemas: 



Em métricos preceitos não repares, 
Contraste não te faças de Thália, 
Se outras regras não sabes da Poesia 
Mais que simalcadente e lunares. 

Era que Horácio ou puros exemplares 
Fundas a tua errada phantasia? 
Sentir simultoantes são mania 
De talentos incultos e vulgares. 

Estas regras que antigos desprezaram 
De que os sábios modernos se estãu rindo 
Só rançosos pedantes praticaram. 

Estuda-as Aristóteles abrindo, 

8ueima as artes que a tinha te pegaram, 
u de absurdo em absurdo irás cahindo. 

{Soneto xi.vii. Ed. IISI). 



270 HISTORIA DA LITTERATUR A PORTUGUEZA 



O censor replicou, accentuando na sua cathe- 
goria de poeta: 

Senhor mestre, o seu livro não o exalta, 
Tome as lições, porque ellas não são minhas, 
A Musa já que a tem, metta-a nas linhas 
Dar-lhe-hão o estylo crespo que lhe falta. 

E' mui boa a censura, é grande, é alta, 
Não tenho aquellas cousas por cousinhas, 
São erros grandes, sim; não são casquinhas 
Se quer defenda-as; não se chame á malta. 

Se é poeta também d'os.=;es conversos 
Leigos do Pindo, Padre de frioleiras 
D'Apollo filhos mansos e perversos, 

Tome um conselho, e não dirá asneiras. 
Penteie sempre antes do prelo os versos, 
Assim como penteia as cabelleiras. 

Resposta de Quita pelas mesmas consoantes: 

Quanto, amigo Doutor, quanto te exalta 
O Soneto; mas sabe que são minhas 
Estas sabias lições; e estas linhas 
Verás quanto mais tenho que em ti falta. 

Se cuidas que me offendes, por ser alta 
A pedante censura, taes cousinhas 
Ainda são mais ridículas casquinhas 
Que os brincos pueris que vem da Malta. 

Poetas pode haver ainda conversos 

Mas não que, como tu, digam frioleiras, v 

Por costumes antigos e perversos, 

Tu mesmo o considera: Olha, que asneiras 
São, dizeres: que emfim penteio os versos 
Só porque me exercito em cabelleiras. 



SEGUNDA Época: os Árcades t7\ 



O poeta brasileiro Silva Alvarenga tomou 
parte n'esta refrega, com três sonetos contra o 
Zunifffj, exaltando Quita : 

Dormindo, vi a cândida Poesia 
Junto do Tejo aurifora sentada, 
Virgíneo tinlia o rosto, e adornada 
De verde louro a fronte se lhe via. 

Um alvo Cyene junto d'ella erguia 
A grata voz, tão doce e concertada, 
Que com terna saudade és lembrada 
Do teu Alcino, Arcádia, a melodia. 

Já a delphica Virgem sem demora 
O louro descingindo mais glorioso 
Coroava esta feliz ave canora. 

Quando um Zuniga, insecto paludoso, 
Gritou das verdes aguas d'onde mora, 
E me acordou do sonho deleitoso. * 

Sobre as azas do Tempo equilibrado, 
Guardar vi, que estava cauteloso 
Um áureo vulto a que elle respeitoso. 
Ficando á velha foice reclinado. 

Absorto, louco, o heroe representado 
Na imagem a quem dava culto honroso, 
Castas Musas em canto sonoroso 
Espalhavam seu nome venerado. 

Quando um Zaniga cheio de vaidade, 
Procurando offuscar tilo alta gloria, 
Que observou na festiva variedade ; 

A misera ignorância fez notória, 

Deixando entre nós sempre a saudade 
De teus versos, Alcino, na memoria 



* Na edição de 1781, vem em nome de Quita, com o 
i.xxv. 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O satírico mestre de rhotorica, Niooláo Tolen- 
tino, também envolveu o mavioso Quita nas suas 
animadas facécias, como se vê pelas quadras 
aconselhando a um Cahelhireiro que não conti- 
nuasse a fazer versos: 



Mas, se de Auctoros antiííos 
Tens tido pouco exercicio. 
Eu te aponto um bem moderno 
E até do teu mesmo officio. 

Foi este o famoso Quitn 
A quem triste fado ordena 
Que a fome lhe traga o pente 
E da mão lhe tire a penna 

E emquanto na suja banca 
Pobre tarefa teoia, 
Que espirito sublime 
Sobre o Parnaso se erguia. 

Cosendo sobre o joelho 
Em dura e falsa caveira, 
A sua alma conversava 
Com Bernardes e Ferreira. 

Mil vezes travessas Musas 
Da baixa obra o desviam; 
E mostrando-lhe o tinteiro 
Pós e banha lhe escondiam. 

Mas de que servem talentos 
À quem nasceu sem ventura? 
Vale mais que um soneto 
A pobre penteadnra. 



Quita, na sua pobreza, nunca pediu esmola 
em verso, como Tolentino mascarando ignobil- 
mente a pedincbice com o falso pretexto de acu- 
dir a suas irniãs. Piedegache, que collaborara 



SEGUNDA Época: os árcades '<í73 



com Quita na tragedia Megara, protesta contra 
o desdém dos criticos: «Alguns zoilos invejosos 
da grande reputação que o deu a conhecer até 
aos extranhos, intentaram com pestilentas sátiras 
desassocegar a paz ditosa que gosava no regaço 
das musas e nos braços da amisade, deslustrando 
os seus escriptos e o seu nascimento.» O neo- 
árcade Francisco Joaquim Bingre {Francelio 
Vouguense), idealisou o amoroso culto de Alcino 
por Tircêa, em um bello soneto, que bem caracte- 
risa a situação do poeta: 

Os fios de ouro de Tircêa bella 
O namorado Quita penteava; 
E sobre o seu tapete lhe formava 
Uma pyra de Amor com uma estrella. 

Movendo a mão subtil, e os olhos n'ella. 
As rosalinas faces lhe beijava; 
N'um espelho o toucado lhe mostrava 
Que fazia bradar com gosto a ella : 

«Que penteado é este? Oh oéos! que vejo. 
Uma pyra? uma estrolla? E' uru thezouro 
Que comtigo, meu Quita, ter desejo. • 

Disso e gostosa c'um prazer vindouro 
No pente de marfim pregou um beijo, 
E o pente transformou em Lyra de ouro. 

Desde o megaeismo de 1755, não trabalhou 
mais o poeta cabdleireiro na sua officina da 
Travessa do Pastelleiro, á qual alludiu Tolen- 
tino; accolhera-o em sua casa D. Thereza Theo- 
dora de Aloim, talvez ainda não viuva do seu 
primeiro marido. A amizade com que o distin- 
guia o Conde de S. Lourenço, a Arcádia rece- 
bendo-o por seu sócio em 1757, só provocavam 
os chascos dos medíocres. Tircêa soube dar-lhe 

18 



274 HISTORIA DA LITTER.\TURA PORTUGUEZA 



até á morte aquelle bem estar de que tanto ca- 
rece o génio artístico. As filhas de Silvestre Gon- 
çalves de Aguiar (Siveno Cario), D. Maria Rita 
e D. Maria Antónia, acompanhavam Tercêa na 
^ua viuvez; acceitando o casamento com o Dr. 
Balthazar Tara, em 1760, seria pelo empenho 
que mostrava em salvar o poeta da doença, que 
veiu subitampnte fcril-o. Transcrevemos aqui as 
palavras de Piedegachí^. seu intimo amigo e bio- 
grapho: <No anno de 1761, enfermou gravemente 
Domingos dos Reis Quita, quebrando-se-lhe as 
forças o avisinharam da morte. Nada pôde ata- 
lhar a caridade com que D. Thereza Theodora 
de Aloim o tratou na sua doença, nem o perigo 
de ser assaltada por um mal tão contagioso . . . 
Os caldos, os remédios com a sua própria mão lhe 
ministrava. De dia o alimentava solicita, de noite 
o velava cuidadosa, suavisando o tormento da 
moléstia, com maternal assistência. O Dr. Bal- 
thazar Tara, seu marido, não se mostrou menos 
assíduo, nem menos affectuoso. Restabeleceu-se, 
porém, qua-;i milagrosamente depois de luctar 
mais de um anno entre a vida e a morte, de- 
vendo e>ta admirável cura á experiência e perí- 
cia do Dr. Tara. » Aproveitando esta convales- 
cença e existência de valetudinário, os amigos de 
Quita anímaram-o a organisar as suas Obras poé- 
ticas, que em Junho de 1766 já estavam submet- 
tidas á censura da Inquisição e nas licenças do 
Desembargo do Paço em Junho de 1767. Pare- 
cerá minúcia apontar estas datas; mas no epi- 
tome da sua vida lê-se: «Domingos dos Reis 
Quita, no anno de 1767, depois de uma terçã im- 
pertinentíssima, de que precedeu uma febre ma- 
ligna — que degenerou era febre lenta, chegou 
quasi á meta da mortal carreira. . . » Não faltaria 



SEGUNDA Época: os árcades '<í75 



quem chamasse a attenção do Dr. Balthazar Tara 
para os amorosos Idylios e Eglogas a Tircêa, des- 
pertando-lhe um latente ciúme por aquelle pas- 
sado, embora anterior a 1760. A leitura d'essas 
quadros bucólicos ainda hoje impressiona pelo 
ingénuo realismo que os inspirou. O Dr. Tara era 
dado a experiências pharmacologicas e fazia con- 
sultas á Faculdade de Medicina da Universidade 
de Coimbra sobre os seus Pós antifebrifugos; por 
duas vezes salvou o Quita. Mas o poeta revela 
em um Soneto o desalento da situação deses- 
perada : 

Sem piedade de minhas mortaes dores 
De mim ligeira foges mais que o vento; 
Depois de enlouquocer-me o pensamento 
Cos bellos olhos teus encantadores. 

Para que com desprezos e rigores 

Pagas os tristes ais com que lamento, 
Se os espinhos cruéis do mou tormento 
Mudar podias em suaves flores. 

Vem, crua ninfa, onde Amor te chama. 
Vem consolar um peito quo suspira. 
Que em vão ardentes lagrimas derrama. 

Um instante sereno o rosto virai 

Que a Tigre seu consorte terno brama, 
Muda em afagos a terrível ira. 

{Soneto Lvii. Ed. 1181.) 

B' já com a apprehensão da morte, a que se 
vê arrastado, que nscreve o Soneto Liv, dos iné- 
ditos que deixara, colligidos por Piedegache para 
a edição de 1781: 

Depois de longo tempo ter pizndo 
Medonhos valos, serras cavernosas. 
Ora fugindo n serpes espantosas, 
Ou de altos rochedos despenhado; 



276 HISTORIA DA LITTERATLRA PORTUGLEZA 



Sulco do bravo golfo dilatado 

As desertas campinas procellosas, 
O vento silva, as ondas escumosas 
Me combatera de ura lado a outro lado. 

Sem piloto, que destro leme reja, 
Contra a negra tormenta denodada, 
A rota, débil quilha em vão forceja. 

Mas lá descubro terra levantada! 

Oh queira o Céo que amigo porto seja! 
Ai! que é de Sylla a hórrida morada. 



Em 1769 ainda teve o gosto de ver represen- 
tado o seu drama Hermione , em trez actos em verso 
no Theatro do Bairro Alto, que estava na sua 
nova phase. Em 13 de Julho de 1770 sae o poeta 
para a companhia de sua velha mãe, mas aggra- 
vando-se o seu estado por um ataque, é trazido ao 
fim de nove dias outra vez para casa do Dr, Bal- 
thazar Tara, succumbindo em 26 de Agosto de 
1770. A morte de D. Thereza Theodora de Aloim 
occorreu em 11 de Novembro de 1773, e é de 1774 
o requerimento do Dr. Tara á Faculdade de Me- 
dicina consultando-a sobre os seus Pós. Era uma 
nota do poema didáctico O Passeio, Costa e Silva 
escreveu : < Um sobrinho de Domingos dos Reis 
Quita me affirmou que o marido d'esta senhora, 
que era medico, envenenara o poeta, para vingar 
os zelos que d'elle concebera. > Um poeta con- 
temporâneo, José Ignacio Barbosa, em um So- 
neto á morte de Quita descreve a sepultura do 
poeta visitada pela mulher amada, e termina com 
este terceto : 



Este letreiro Amor deixou gravado, 
Em memoria dos cândidos amores; 
Alcino amou Tircêa, e foi amado. 



SEGUNDA Época: os árcades "'ít? 



B' para notar como Piedegache, observando 
a morte tranquilla de Quita, e encarecendo no 
Epitome da sua vida os cuidados extremos com 
que o Dr. Tara o tratou, publicasse na edição de 
1781 a Egloga A' morte de Domingos dos Reis 
Quita por Domingos Maximiano Torres (Alfeno 
Cynthio) em que descreve o seu transito nas 
convulsões de um envenenamento: 

Ceava rnn dia (dia desgraçado I) 

Dos sous fructos alegre o brando Alcino, 

Come um pomo, talvez envenenado, 

Do mortiforo dente viperino. 

Súbito, o accomettem cruéis dores, 

Anciãs mortaes e frigidos suores, 



Jaz trabalhado do lethal veneno 
Fitos os olhos, fitas as pestanas. . . 
Com o semblante angélico, sereno. 



Na Carta Sohre a utilidade da Poesia que 
appareceu na edição das Poesias de Quita de 
1766, vera este final: < Mas que esperança não 
proraette o nosso vigilantíssimo monarcha e o 
seu incançavel ministro de vermos a poesia res- 
taurada á sua primitiva?» A vida de Quita é o 
desmentido absoluto d'esta faina magestatica e 
ministerial; celebrou o Rei tios seus anniversa- 
rios, o Marquez de Pombal, seu irmão ministro 
adjunto, os casamentos dos filhos e das filhas. 
A nada se moveram; vexava-os o talento do Ca- 
belleireiro. 

Manubl db Figueiredo {Lycidas Cynthio). — 
Deveu a Garção a sua entrada na Arcádia Lu- 
sitana, ao constituir-se ; esta circumstancia re- 
vela-nos um merecimento, que ainda em 1757 
não estava justificado, e que só no tempo em i]ue 



278 HISTORIA DA i.itti:ratura portugueza 



esteve em Coimbra, na convivência escholar, po- 
deria ser avaliado por Corydon. Importa esboçar 
a sua actividade litteraria, que explica as aspi- 
rações a reformador do theatro portuguez; ape- 
sar do seu medíocre talento e deficiência da arte 
de escriptor. Manuel de Figueiredo nasceu em 
Lisboa em 15 de Julho de 1728, e fez os seus es- 
tudos menores nas aulas do Oratório das Neces- 
sidades; recebeu lições de caligrapho como quem 
se prepara para as secretarias de estado, e estu- 
dou desenho com o pintor André Nunes. A refe- 
rencia em um Soneto á sua estada em Coimbra 
em 1745 e á importância que mereceu a Garção, 
levam á inferência de ter frequentado a Univer- 
sidade. Teve de partir para Madrid, n'esse anno, 
quando se começou a negociar o tratado diplo- 
mático dos limites das fronteiras portuguezas e 
hespanholas na America, que os Jesuitas tanto 
embaraçavam. Em 1753 regressa a Lisboa com 
esse tratado, tendo-se patenteado a acção malé- 
fica dos Jesuitas, que foi uma das causas da sua 
expulsão. Durante esses sete annos de vida fol- 
gada de Madrid, frequentou Manuel de Figuei- 
redo todos os espectáculos e viu como a Co- 
media hespanhola interessa pelo seu movimento 
da acção e pelos caracteres. Lembrava-se da 
musica do Pateo da Bitesga e do Theatro do 
Bairro Alto, sustentado pelas Comedias do Judeu. 
Ao regressar a Lisboa em 1753, veiu encontrar o 
theatro portuguez ainda mais degradado, pela 
exclusiva paixão pelas Operas italianas, e a scena 
portugueza desvairada pelos arreglos que fazia 
Nicoláo Luiz para o Theatro do Bairro Alto, na 
sua segunda phase. Esta situação o impelia á sua 
audaciosa empreza. Despachado official da secre- 
taria dos Estrí)ngeiros e Guerra, fruía a tranquil- 



SEGUNDA época: 03 ÁRCADES li7y 



lidade de uma vida em que podia dar largas á 
imaginação. N'este remanso, reconheceu que não 
lhe faltavam elementos para crear a Comedia 
portugueza, tendo lido o melhor do theatro euro- 
peu e visto representar boas peças por excellen- 
tes actores. Mas, confessa-o elle próprio, o senti- 
mento e conhecimento da lingua portugueza ti- 
nham sido prejudicados por sete annos de Madrid, 
que o castelhanisaram. A sua vida isolada, sem 
convivência, tornou-lhe a expressão litteraria e a 
linguagem dramática sem brilho e sem plastici- 
dade. Essa concentração fel-o esboçar á farta come- 
dias, tragedias, farças e poesias, que elle deixava 
em borrão para produzir mais ; faltava-lhe o ef- 
feito da scena, para reconhecer os seus recursos 
dramáticos. Toda essa papelada, um dia foi met- 
tida e recalcada n'um sacco, na occasião do terre- 
moto do 1." de Novembro de 1755, e transpor- 
tada para fora de Lisboa para um barracão de 
Alcolena, onde estabeleceu a sua morada no sitio 
que ainda hoje conserva o nome da Travessa do 
Figueiredo. Na perturbação da grande catastro- 
phe Manuel de Figueiredo perdeu a memoria 
d'esse sacco de papeis, que só passados annos veiu 
a encontrar entre as cousas inúteis de um cadoz. 
Ao recomeçar-se a vida litteraria e fundada a 
Arcádia Lusitana, Lycidas Cijnthio foi um dos 
alumnos que mais traballiou, com fé e eiithuzias- 
rao lendo memórias criticas sobre a forma da Co- 
media, esboçando tragedias, seguindo a linha de 
Garção, como quem o comprehendia e secundava. 
Os seus numerosos Discursos doutrinários ficaram 
inéditos, até que diq)ois da sua morto em 27 de 
Agosto de 1801, o seu dedicado irmão Francisco 
Coelho de Figueiredo os reuniu nas Obras pos- 
thamas, onde se encontram curiosas noticias para 



280 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



reconstruir a vida da Arcádia. Esta época da 
sua actividade de 1757 a 1774, passou-se toda 
identificada com a vida da corporação que elle 
estimulava nas crises de apathia e de dispersão. 
Sob o reinado de D. Maria i o theatro sofireu as 
terriveis consequências do Intolerantisrao, prohi- 
bindo mulheres na scena, e somente farças alvares. 
Manuel de Figueiredo perdeu de todo a esperança 
de vêr representar qualquer das suas composi- 
ções, diante da omnipotência de Nicoláo Luiz 
com empreitadas de imitações e traducções hes- 
panholas, francezas e italianas. Recolhido, apoz, 
ás funcções automáticas da secretaria de estado, 
empregava-se todo a escrever variadíssimas Co- 
medias e tragedias para a gaveta, com um fervor 
digno do cumprimento de uma missão. Todo esse 
trabalho se perderia e ficaria ignorado se seu ir- 
mão mais novo Francisco Coelho, que o respei- 
tava muito pelo seu tino critico e caracter, não 
tivesse a convicção da seriedade e importância 
d'aquelles escriptos. Manuel de Figueiredo, que 
era parco no seu viver e os seus ordenados se 
accumulavam, ainda imprimiu trez volumes do 
seu Theatro; como nenhum exemplar achasse 
comprador nos livreiros, abandonou a sua tenta- 
tiva, e requereu desistência das gratificações que 
recebia da secretaria, por não lhe serem necessá- 
rias. Depois da sua morte o irmão resolveu dei- 
xar impressos todos esses trabalhos, e falecendo 
contente, depois de ter gasto todos os seus have- 
res e satisfeito o seu sentimento. Manuel de Fi- 
gueiredo datava as suas composições; seguindo 
essas datas melhor se aprecia o seu esforço sem 
estimules. 

Eschola da Mocidade — l de Abril de 1773; 
Perigos da Educação — lõ de Agosto de 1773; 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



(representado no Theatro do Bairro Alto em a 
noite de 8 de Maio de 1774); O Dramático afi- 
nado — 12 de Maio de 1774; Os Paes de famí- 
lia — 25 de Abril de 1775; Apologia das Da- 
mas, 27 de Julho de 1773; Osmia lusitana — 
31 de Outubro de 1773; Fastos do Amor e Ami- 
sade — 21 de Setembro de 1773; Mappa da Serra 
Morena — 10 de Julho de 1774; O Fatiiinho em 
Lisboa — 21 de Outubro de 1773; Poeta em 
annos da prosa — Lisboa, 30 de Novembro de 
1773; A mulher que o não parece — 20 de Ja- 
neiro de 1774; Ignez — Lisboa, 30 de Maio de 
1774; Os Censores do Theatro — 29 de Agosto 
de 1774; As Irmãs — 15 de Outubro de 1775; 
As Sciencias das Damas — Lisboa, 17 de Maio 
de 1775; O Jogador -Lisboa, 8 de Junho de 
1775; O Cid de Corneille — Lisboa, 4 de Se- 
tembro de 1775; Cinne ou a clemência de Au- 
gusto — 4 de Dezembro de 1775; Catão de Addis- 
son — 20 de Janeiro de 1776; O Impostor Ra- 
derverto — (Sem data) ; O Bristo de Ferreira — 
Lisboa, 4 de Agosto de 1776; A mocidade de 
Sócrates, 29 de Abril de 1776; Iphijgenia em 
Aulida — 11 de Abril de 1777; O Acrédor — 4 de 
Dezembro de 1776; Andromaca — 11 de Abril 
de 1777; Grifaria — de 1777; O homem que o 
não quer ser — (Sem data); Fragmento d'uma 
Comedia (intitulada O Urso); O Avaro dissipa- 
dor — (Sem data); O opulento miserável — (Sem 
data) ; O Fidalgo da sua própria casa — (Sem 
data); Lúcia ou a Hespanhola — (Sem data); 
Os Amantes sin ochavo — (Sem data). 

Dando conta da impressão d'estas obras, es- 
creve seu irmão piedoso, Francisco Coelho : 
«Quando em 1803 comecei esta empreza, subindo 
a grande preço o papel, todos me aconselhavam 



282 HISTORIA DA LITTERATURA PORTtTGUEZA 



que suspendesse e esperasse que diminuísse 
aquelle grande valor. . . ainda me não arrependo 
da minha constância. » (Obras posth., ii, 299). 
<A mim, que me faltava o tempo, pelo receio da 
minha edade, fiz aceleradamente imprimir aquel- 
les escriptos com tanta fortuna, que o consegui 
em õ annos ; e quando a 29 de Novembro de 
1807 me entraram em casa os francezes, acha- 
va-me com aquella parte das Lyricas toda feita...» 
Que pensar sobre a obra de Manuel de Fi- 
gueiredo? Temos o juizo do homem mais compe- 
tente n'esles assumptos — Garrett. Compondo a 
sua tragedia Catão, falia do Catão de Addisson 
traduzida por Manuel de Figueiredo, e d'ella es- 
creve : ^Um homem sem talento, mas de grande 
tino, juizo e erudição de cujo volumoso Theatro 
poucos sabem até que existe; lêl-o é para exem- 
plares paciências. Pois ganha muito quem o fi- 
zer, que ha alli ouro de Ennio com que fazer 
muitos Virgilios, » E nas Viagens na minha 
terra escreve outra vez sobre Manuel de Figuei- 
redo « que tinha inquestionavelmente o instinto 
de descobrir assumptos dramáticos nacionaes, 
ainda ás vezes a arte de desenhar bem o seu 
quadro, de lhe grupar não sem mérito as figu- 
ras; mas ao pôl-as em acção, ao coloril-as, ao fa- 
zel-as fallar. . . boas noites! era semsaboria irre- 
mediável — mas rara é a que não poderia ser 
arranjada e apropriada á scena. . . Que mina tão 
rica e fértil para qualquer mediano talento dra- 
mático ! Que bellas e portuguezas cousas se não 
podem extrahir dos treze volumes, e grandes, do 
Theatro de Manuel de Figueiredo. Algumas 
d'essas peças, cora bera pouco trabalho, com um 
dialogo mais vivo e cora estylo mais animado, 
fariam comedias excellentes. > Garrett aponta ai- 



SEGUNDA Época: us árcades "^«3 



guinas d'essas Comedias, e ao falar da que se in- 
titula Poeta em annos prosa, e rindo-se da in- 
genuidade familiar e sympathica do seu tom ma- 
goado e melancholicamente chocho, exclama: 
«Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande liíjmem 
tu foste, quando imaginaste este titulo, que só 
elle é um volume!» {Viagens, cap. ix). A sua 
tragedia Ignez de Castro, é a única que apre- 
senta situações tomadas cm paixões naturaes 
pela sua realidade, como a do velho D. Affonso iv 
receando que os filhos da amante do principe ve- 
nham a afastar do throno seu neto D. Fernando. 
Contra a comedia seiscentista de capa e espada 
de Velez de Guevara, do caso de D, Inez de 
Castro, traduzida por Nicoláo Luiz, oppoz a Ar- 
cádia, na sua obcecação clássica, a tragedia fran- 
ceza de Lamothe Houdart, que tantas polemicas 
suscitara em França. Manuel de Figueiredo, o 
auctor d'outra. Domingos dos Reis Quita, remode- 
laram a peça de Lamothe. N'este género, viu 
Figueiredo surgir a Tragedia philosophica, mas 
já lhe era impossível ensaiar esse estylo revolu- 
cionário pela sua edade e isolamento social em 
que vegetava. 

b) O Theatro do Bairro Alto e o Theatro 
da Rua dos Condes. — O calamitoso terramoto 
do L" de Novembro de 1755, causara a derro- 
cada do palácio do Conde de Soure. Essa parte 
arruinada foi tomada de arrendamento por uma 
sociedade composta por José Gomes Varella, João 
Luiz da Silva Barros e Francisco Luiz, para ahi 
edificarem o theatro do Bairro Alto, pagando 
annualmente 240i'000, durante quatorze annos, 
renováveis, salvo se o proprietário quizesse conti- 
nuar a reedificação do palácio. Celebrou-se a es- 



284 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



criptura de arrendamento era 1 de Outubro de 

1760. Para fazerem a construcção de uma Casa 
de Opera, entrou Varella com metade do capi- 
tal, e a outra pelos dois sócios. Ha tradição de 
que os Marquezes de Marialva e de Castello Me- 
lhor auxiliaram o Varella, que pela sua intelli- 
gencia e habilidade veiu a achar-se proprietário 
do Theatro do Bairro Alto. Começadas as obras 
em fins de 1760, «outo dias antes do carnaval de 

1761, foi o primeiro dia que se representou 
n'ella^, como se lê no Appendice ás Contas da 
Casa da Opera do Pateo do Conde de Soure. 
Para reaUsar-se esta rápida transformação, a Ta- 
vares e José Duarte, por escriptura de 13 de Ou- 
tubro de 1760 arrendaram '^toda a fabrica e pre- 
paros que tinham para a Opera dos bonecos, que 
antes tinham tido na rua dos Condes.» Varella, 
como entendido em cousas theatraes, formulou' 
condições leoninas, e como senhor da caixa, ten- 
do acudido ás perdas nos annos de 1762 e 1763 e 
supprido ás despezas (ia factura do edifício, pre- 
paros de opera e scenarios, achava-se o principal 
proprietário, tanto mais que os outros dois sócios 
eram um entalhador e o outro pedreiro. D'elles es- 
creveu o próprio Varella, < eram iam J90HC0 práti- 
cos das contas e das suas formalidades, que nem 
sabiam como era a pratica.» A despeza com a 
construcção da Casa da Opera, accomraodação e 
abrigos, importou em 6:523(i'853 rs. ; vê-se que 
Varella dispunha de capital de opulentos protec- 
tores. Garção, em uma Ode pindarica Aos Fidal- 
gos que protegeram o Theatro do Bairro-Alto, 
enaltece esses potentados, cujos nomes a tradição 
conservou : 

De tão honrados, inclytos maiores, 
Vós, netos generosos 



SEGUNDA Época: os Árcades 



Do fado das batalhas sois senhores; 
Illustres cavalleiros virtuosos, 

Espíritos briosos 
Vos inspira o ardor que vos inflamma. 
'Té o grão Templo conquistar da Fama. 

Tempo, tempo virá, que as despresadas 

Musas do pátrio Tejo, 
Por vossas mãos benignas levantadas 
No porto vão surgir, qiie inda não vejo; 

Então, então sem pejo. 
Em grave scena adereçando a Historia 
Mostrarão quanto pode o amor da gloria. 

Calcando o humilde sócco, ao feio Vicio 

A mascara arrancando, 
Hãode ensinar ao cómico exercício. 
Como verdade do alto céo mandando. 

O jugo vergonhoso, 
O cepo. em que jazom prisioneiras. 
Como escravas das Musas estrangeiras, 

Com animo brioso 
Desejam sacudir, serão louvadas. 
Dignas então de vós, de vós honradas. 

Pelas palavras sublinhadas n'esta ode vê-se 
que o poeta já allude ao theatro edificado, vati- 
cinando a revelação da Comedia nacional, e ao 
pejo ou anonymato dos Fidalgos que protegiam o 
Theatro do Bairro Alto. No Journal de Littera- 
ture et des Sciences et des Arts, de 1781, ura 
artigo do Estado actual do Theatro em Portugal, 
consigna estes traços descriptivos do Theatro do 
Bairro Alto, ao referir-se á grande actriz Cecilia 
Rosa de Aguiar: «O Theatro do Bairro Alto é o 
mais antigo, e o seu nome vem-lhe do bairro em 
que está situado. E' espaçoso ; a platéa divide-se 
em duas ; tem uma ordem de camarotes ao nivel 
da platéa, a que dão o nome de forçuras (do fran- 
cez frissare, hoje friza) ; é raro vêr mulheres n'es- 



28G HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tes camarotes, sendo onze de cada lado e cinco 
de fundo. De quarta ordem, somente metade do 
lado da scena tem camarotes, a outra metade 
forma galeria. O ponto, como é costume, está na 
bocca da scena, mas em logar elevado, de modo 
que de toda a parte se vê.» Era maior do que o 
theatro da Rua dos Condes, construído mais tarde 
em 1770, tendo somente nove camarotes de cada 
lado, como consigna a descripção referida. O Dr. 
Guimarães, no seu estudo sobre o Theatro do Bairro 
Alto opina, que esse theatro tivera uma ampla 
sala de espectáculo, e conclue: «A despeza feita 
na sua construcção, mostra que não era solida 
nem grandiosa ; as suas ruínas desappareceram de 
todo. Pessoas edosas lembram-se de terem visto 
apenas alguns vestigios do Theatro ; . . . » Teve 
de succumbir diante da corrente do gosto da 
Opera italiana que alenta o Theatro da Rua dos 
Condes, e é substituído pelo Theatro do Salitre, 
explorado pelo Varella. Mas o Theatro do Bairro 
Alto, tornou-se importante pelas bellas paginas 
que offereceu á Historia da Litteratura e da Arte, 
com o seu fecundo comediographo Nicoláo Luiz, 
e com a assombrosa actriz Cecilia Rosa de Aguiar, 
que illuminavam as suas épocas theatraes. ^ 



' Transcrevemos para aqui um Soneto inédito em 
que se elogia a fundação do Theatro novo : 

AO MAGNIFICO 

THEATRO 

QUE NO PLANO DO PALÁCIO DO ILLUSTRISSIMU E 

EXCELLENTISSIMO SeNHOR CoNDE DE SoURE NOVAMENTE ERIGIU 

O Senhor 
João Gomes Varella 

PELA ideia do insigne ARCHITECTO, O SENHOR 

Lourenço da Cunha 



SEGUNDA Época: os árcades ■■íx? 



No anno de 1764-65 os emprezarios do Thea- 
tro do Bairro Alto associaram-se com o empreza- 
rio do Theatro da Rua dos Condes, Agostinho da 
Silva, para darem récitas alternadamente em con- 
juncto das duas companhias. O resultado foi ópti- 
mo, tendo de lucro 1. 227^*938 rs. Não continuou 
esta prestimosa exploração por falecimento de 
Agostinho da Silva e João da Silva Barros. Os 
espectáculos exhibidos, segundo as contas, foram 
Comedias portuguezas, danças e alguma comedia 
iialiana pelos dançarinos, em 136 récitas. Entre 
as Comedias representadas apontam-se nos róes 
de despeza A criada astuciosa, o Medico hollan- 
dez, CodrOy Lavrador honrado, Amor da Pátria, 



OKFERECE 

O Baibro Alto 

ESTE 
SONEXO. 

Outra sala do Sol n'esta se inaugura, 
Oh, quanta gloria d'ella se desata! 
Quando esse César João maior se retrata. 
Em Dédalo Lourenço se affigura. 

D'este assombra a famosa Arquitectura v 
D'aquelle o generoso so dilata, 
Au)bos são liarmonia de luz grata, 
Egrégio mixto quo o primor apura. 

Qualquer de vós, illustres primorosos, 
Já nos lembra de brio som segundo, 
Sustendo um globo do Safir vistoso. 

E oste Bairro tão Alto e tão jocundo. 
O parabém vos dá. não duvidoso. 
De que os vivas tens de todo o mundo. 

O valor d'e8te Soneto está em revelar- nos quem foi 
o architecto do Theatro do Bairro Alto. 



288 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

A Dalmatica. No anno de 1765-66, os primeiros 
trez mezes foram de comedias portuguezas e dan- 
ças; e de 5 de julho por deante começaram as re- 
presentações de Operas italianas. O Theatro entra- 
va na sua phase de esplendor. O grande composi- 
tor David Perez ensaiava e eram cantadas as suas 
operas Didone, Zenohia e Semiramis riconos- 
ciuta. Entre os cantores italianos figura já a ce- 
lebrada Cecília Rosa de Aguiar, contando então 
dezenove annos de edade. Na Opera cómica 
Uarnor artegiano, de Labilla, faz Cecilia um 
papel secundário, mas n'esse mesmo anno de 1776, 
substitue a prima-dona Berardi, na opera Tamire. 
Mas a par do talento musical revela-se o talento 
dramático de Cecilia Rosa de Aguiar e deixa o 
canto pela declamação, em que se tornou extra- 
ordinária. Em 1766-67, os Cómicos do Theatro 
do Bairro Alto arrendaram-o por sua conta por 
8$000 rs. por noite, com parte dos lucros para a 
casa e os vestuários feitos; deram 164 récitas 
com o lucro, cabendo á casa 1.211(^000 rs. Isto 
explica-nos a preferencia que Cecilia Rosa deu á 
sua vocação dramática. Nas contas dos cómicos 
portuguezes do anno de 1767-68, ahi nos apparece 
entre o pessoal contratado : 

«Cecília Rosa e sua irmã, ajustadas com 

casas pagas por 708$000 rs.» 

Em seguida, vem a sua rival 

«Maria Jesuina e seu pae 500$000 rs.» 

B antes de ensaiador e ponto : 

«NiooLÁo Luiz ajustado para dar as Co- 
medias 200$000r8.. 



SEGUNDA Época: os árcades ~S'J 



Nas Contas d'este anno acha-se também uma 
verba interessante, pela deducção a que se presta: 



"Por uma Ária, ao Pae da Sezilia . . . 1$440 rs.„ 
*Musica para a Sezilia e D. Ignez, Rol da 

Musica a Manoel José 2$560 rs.. 



Este pae da Cecília é Manoel José de Almei- 
da, copista de musica, e segundo o musicographo 
Ernesto Vieira, porventura compositor ; era pro- 
fessor, por isso que ensinou a musica a suas trez 
filhas Cecilia Rosa de Aguiar, nascida em 6 de 
Septembro de 1746; Luiza Rosa de Aguiar (a 
Todi) e Isabel Iphygenia. * Foi talvez pelas suas 



^ O erudito setubalense Portella, communicou-nos 
estas certidões authenticas das trez insignes artistas, que 
engrandeceram o Theatro Novo: 

"No livro n.° 14 dos termos de baptismos da fregue- 
zia de Nossa Senhora da Annunciada de Setúbal, a folhas 
17(), consta que : 

*Ao8 seis dias de setembro de mil setecentos qua- 
renta e seis baptisou de minha licença o P.'' Manoel Bello 
de Freitas a Cecilia, filha de Manuel José d'Aguiar e de 
Anna Joaquina d'Almeida, recebidos n'esta freguezia, 
nasceu em vinte e três d'agosto ; e foram padrinhos Vic- 
torino José d'Almeida e D. Francisca Josefa Navel. O 
Prior Clemente Rodrigues Montanha. „ 

A fl 141 v do livro 15 " dos baptismos da freguezia de 
Nossa Senhora da Annunciada de Setúbal, está o assento 
seguinte : 

"E aos trinta e um dias de janeiro de mil setecentos 
o cincoonta e três baptisei a Luiza, lilha do Manoel Joseph 
de Aguiar e de Anna Joaquina de Almeida; nasceo om 9 
do dito mez; e foram padrinhos D. Luiza de Sousa e So- 
ror Ignaoia Jacintha. O Prior (Clemente Rodrigues Mon- 
tanha.„ 

Isabel Iphygenia d'Aguiar: 

Nasceu em Setúbal em 5 do novembro de I7õ0, — Co- 
19 



290 HISTORIA DA LlTlERAIliRA PORTUGUEZA 



relações corno professor em casas fidalgas, que 
obedecendo á sugestão dos altos protectores do 
Theatro do Bairro Alto, elle trouxe para a scena 
do theatro em que trabalhou como copista, as 
suas trez bellas filhas, artistas geniaes. Cecilia e 
Luiza representaram em 1767-68, a comedia Tar- 
tufo, de Molière, traduzida pelo capitão Manuel 
de Sousa, em que o papel principal era desempe- 
nhado pela irmã mais velha, e Luiza representava 
de lacaia. Com estas duas artistas dá-se o pheno- 
meno notável : pelo canto, Cecilia revela o seu 
génio determiaando-se pela declamação ; e Luiza, 
começando a sua carreira pela declamação, torna- 
se surprehendente no canto, recebendo lições de 
David Perez quando ensaiava as suas Operas, As 
trez irmãs appareceram em varias peças musicaes, 
o que leva a inferir que tinham recebido uma 
cultura especial de seu pae. Em 1770, na opera 
II viagiatore ridículo, de Scolari, Cecilia cantava 
o papel de dama seria, Luiza, o principal papel 
de jocosa, e Isabel Iphygenia de creada ; e no ou- 
tono d'esse anno a opera U injusta pprseguitata. 
Em 1771, cantaram as trez filhas de Maimel José 
de Almeida pelo carnaval a opera-bufa de Scolari 
// Berjglierbei de Caramania. fazendo Cecília 



meçou a figurar nas Operas nantaiias de 1770-71, jimta- 
mente com Cecilia e Luiza. '^ Formosa, como suas irmãs, 
attraliiu-a o casamento, consorciou-so era 18 de agosto 
de 1771 com Joaquim de Oliveira, tenor, cantor da Pa- 
triarchal. D'aqui o apagamento do seu nome, comparado 
com a aura gloriosa de suas irmãs. Chegou a cantar na 
Itália, com applauso. como iuíormara os jorii les da época. 
A vida domestica levou-a a deixar a scena muito cedo. 
Ainda vivia em 1833; uma sua filha, casou com o coronel 
Turiani. e consta ter sido insigne pianista.,, {Dr. Ribeiío 
Guimarães.) 



SEGUNDA Época: os árcades 2')1 



de galan, Luiza o papel de dama, e Iphygenia 
uma parte secundaria. Terminaram em 1771 as 
representações da Opera italiana no Theatro do 
Bairro Alto, ficando o Theatro da Rua dos Con- 
des sob a exploração da empreza que se iormára 
por causa da Zamperini. 

E' na exibição das Comedias portuguezas cujo 
reportório era fornecido por Nicoláo Luiz com inex- 
gotavel abundância, (í no esplendido desempenho 
de Cecília Rosa, que o Theatro do Bairro Alto 
mostra essa vitalidade que em breve foi conti- 
nuada pelo Theatro do Salitre pelo mesmo João 
Gomes Varella, que se separara da antiga em- 
preza. A lei de D. Maria I, que prohibiu a repre- 
sentação theatral por mulheres em 1789, foi o 
golpe de morte no Theatro portuguez. O arren- 
damento do Theatro do Bairro Alto cessou e o 
Conde de Soure deixou-o desmoronar-se em breve 
tempo^ e em 1782 erigiu-se o barracão do Salitre 
para a baixa Comedia. Garção, na sua comedia 
Theatro Novo, descreveu esta crise que desde 
1770 determinara o desenvolvimento do Theatro 
portuguez : 

Inda o Fado não quer. inda não chega 

A época feliz e suspirada 

De lançar do Theatro alheias Musas, 

De restaurar a Scona portugueza. 

Vós, manes de Ferreira e do Miranda, 

E tu. oh Gil Vicente, a quem as Graças 

Embalaram no lierço e te gravaram 

Na honrada campa o nome de Terêncio; 

Esperae, esparae ; que inda vingados 

E soltos vós serei.s do esquecimento 

Illustros portuguf zcs I ao Theatro 

Não negueis um legar ás vossas Musas; 

Elias, não as alheias, publicaram 

Dos vossos bons avós os grandes feitos > 

Que oternoB soarão em seus esoriptos ; 



292 HISTORIA DA LUTKRATURA PORTtíGLEZA 



E podeis esperar paga tão nobre 
Se detestando parecer ingrato, 
Lhe defenderdes o paterno ninho, 
Quizerdes com honra agasalhal-as. 

Por este eloquente protesto se vê que nâo po- 
dia Garção conforniar-se com o plano em que en- 
trava Theotonio Gomes de Carvalho, patrocinado 
pelo Conde de Oeiras, para se organisar uma So- 
ciedade estabelecida para subsistência dos Thea- 
tros públicos da Corte e Cidade de Lisboa, mas 
tendo por fim exclusivo fixar por longo tempo em 
Lisboa a Zaraperini no Theatro da Rua dos Con- 
des. O Marquez de Pombal mandou prender Gar- 
ção e mettel-o no segredo do Limoeiro em 8 de 
Abril de 1771, e em 1 de Julho assignava as ba- 
ses d'essa sociedade, que estourou pelas burlas, 
maculando o Presidente do Senado de Lisboa, e 
o ministro seu pae, que teve de expulsar a Zam- 
perini. 

Na época em que o Theatro do Bairro Alto 
estava no seu esplendor, em que se cantavam as 
Operas de David Perez, e CeciUa de Aguiar arre- 
batava o publico pelo seu génio dramático. Gar- 
ção escreveu para essa scena a sua primorosa 
comedia. Assembleia ou Partido, ridicularisando 
o novo costume das soirées dispendiosas, que es- 
tavam no furor da moda. Em uma das scenas um 
dos visitantes recita a bella cantata de Dido, uma 
das jóias da poesia lyrica. Garção ouvira a Opera 
de David Perez Didone abandonata e deu a esse 
quadro musical e scenico a expressão verbal des- 
criptiva e impressionante. Em um dos Manus- 
criptos a Assembleia ou Partido, traz a seguinte 
declaração : « Este finalisado drama se represen- 
tou no Theatro do Bairro Alto, em 22 de Ja- 
neiro de 1766, e o Povo espectador não deixou 



SEGUNDA -POC.a: OS ÁRCADES 52'.»:j 



acabar com pateadas e assobios ■■> (Arcad. Lu- 
sit., p. 471.) A comedia de Garção como modelar 
não podia ser apreciada por uma plateia que era 
arrebatada pelas declamações cavernosas e retum- 
bantes do Capitão Belisario de Nicoláo Luiz. 
Manuel de Figueiredo, que sofíreu egual desacato 
cora a sua comedia Perigos da Educação, elle 
mesmo descreve o estado montai d'esse publico: 
*Gentes que estavam loucas com, o Belisario e 
que sabem o theatro dos bonecros.^ — «Pez a ca- 
sualidade que achando-me a jogar a um rober em 
casa de um amigo com quem jantara em Lisboa 
se moveu a conversação sobre o Belisario ; e es- 
tranhando eu que ainda durasse, me respondeu um 
d'esta maneira : — B durará sempre ! Nunca se viu 
uma obra como aquella, para quem entende de 
trágico. — E disse-o com valentia!... acabei o 
rober e parti para o theatro. — Ao romper por elle 
(um grupo no corredor) fiquei vexado, e por en- 
tender que não se representava a tragedia, ouvin- 
do uma risada semelhante á que presenceei em 
outra occasião, quando no Esposo fingido appare- 
ceu o burro no theatro. Com effeito, porém, era 
o Belisario que os fazia rir.» Em outra passagem 
refere a sua ida ao theatro da Ajuda (do Espirito 
Santo) aonde também viu representar o Belisario : 
«achei-me em uma fressura visinha ao camarote 
onde estavam muitas senhoras da corte. Ainda o 
Belisario me pareceu peor que quando ali, mas 
as risadas e os applausos eram os mesmos que no 
outro theatro. . . . Prodigiosamente, uma voz que 
vinha do alto e que não era de homem, mal pec- 
cado, me consolou os ouvidos, pois articulava 
estas palavras, . . . (cita algumas phrases de des- 
dém e quando chega o Belisario eis que lhe que- 
rem tirar a mulher). Ja não posso mais! E dizia 



294 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



isto a Senhora, senão com ira, com aborrecimen- 
to.* (Obr.^ t. II, discurso 6.) Outra peça, que dava 
sempre enchfMites, era a tragedia de Ignez de 
Castro, arranjada por Nicoláo Luiz da Comedia 
famosa de Veilez de Guevara Reynar después de 
morir. Nicoláo Luiz eliminou certas grosserias 
do poeta castelhano e com vantagem para o êxito. 
Cecilia Rosa de Aguiar representava o papel de 
Ignez de Castro tão profundamente sentido, que 
as recitas se suspendiam, porque adoecia com os 
abalos moraes. No Jonrnel de Litteratiire, des 
Sciences et des Arts lê-se, acerca da extrordina- 
í*ia actriz: «A sua figura é verdadeiramente thea- 
■ tral, tem naturalidade na acção, o que a singula- 
risa nos papeis de ingénua, mas conhece a fundo 
as regras da arte e não pode representar papeis 
affectados. Finalmente deixa-se dominar tanto 
pelo sentimento, que compenetra-se por tal modo 
do seu papel, que tem acontecido adoecer depois 
das representações da Ignez de Castro, sendo 
necessário descansar alguns dias.» Manuel de Fi- 
gueiredo allude a esta tragedia, quando causava 
o maior enthuziasmo : «Findo algum tempo, visi- 
tando a senhora Cecilia Rosa, a achei vestindo-se 
para ir ao ensaio, e fallando-lhe eu em assumptos 
de Theatro, me disse, que se punha em scena o 
Belisario, vertido pelo mesmo poeta que tradu- 
zira em portuguez a comedia castelhana Reynar 
despiies de morir, que tempo atiLes me tinha em- 
prestado para lêr ; mas a hora do ensaio era che- 
gada, despedi-me, ella partiu. ^ Por este testemu- 
nho de Manuel de Figueiredo é que se sabe per- 
tencerem a Nicoláo Luiz, porque todas as peças 
que traduziu, ou adaptou ou corapoz, foram im- 
pressas em folhetos, que os cegos exploravam na 
venda, pelo privilegio que lhes fora concedido 



SEGUNDA ÉPOCA : OS ÁRCADES 2'à5 



constituídos em classe ou irmandade do Menino 
Jesus. José Maria da Costa e Silva no Ensaio bio- 
graphico critico, deixou os traços vivos d'esta fi- 
gura singular com a paixão exclusiva por cousas 
theatraes : «Se era pouco zeloso da sua fortuna e 
bem estar, não o era menos da sua gloria litteraria; 
nunca houve homem que menos caso fizesse dos 
seus escriptos e da fama que d'elles podia provir- 
Ihe; as suas versões apenas compostas, passavam 
logo para as mãos dos actores ; vendia os manus- 
criptos das suas comedias aos cegos, que as im- 
primiam e vendiam sem que elle sequer tomasse 
o trabalho de corrigir as provas ou exigisse que 
o seu nome fosse estampado no frontispício. B' 
indubitável, pelo menos um terço dos Comedias 
de cordel, assim chamadas, porque os cegos as 
expunham á venda em papel (pliego suelto) pen- 
dentes de um barbante pregado na parede ou nas 
portas, pertencem a Nícoláo Luiz.» Apenas appa- 
rece o seu nome no comedia intitulada Os mari- 
dos peraltas, em 1783, quando entrava em acti- 
vidade o Theatro do Salitre. O cego Romão José, 
que tinha o seu estendal de Comedias de cordel 
á esquina do convento de S. Domingos, ao Rocio, 
publicou o catalogo d'essas peças sob o titulo No- 
ticia aos curiosos, no folheto Vingança de Al- 
cmena, de 1791. Ahi se encontram enumeradas 
51 Comedias, que na maior parte pertencem a 
Nicoláo Luiz, segundo testemunho dos auctores 
e contas do Theatro do Bnirro Alto. Os maridos 
peraltas fecham a collecção do cego Romão José, 
que comprava os manuscriptos a Nicoláo Luiz 
Para guiar as investigações entre as comedias 
anonymas. Costa e Silva apontou aquellas que 
conhecia romo attribuidas a NicoLáo Luiz pelos 
contemporâneos com quem tratou: «/>. Ignez de 



296 HISTORIA DA T.IJ' rKHATÍJRA POHTUGUEZA 



Castro, Amor e obrigação, Aspasia na Syria, 
Dom João de Alvarado, Alarico em Roma, Es- 
cravo em grilhão de ouro. Córdova restaurada, 
O Conde Alarcos, A Restauração de Granada, 
Bella selvagem, A Ilha deshabitada.» (Ens. 
biogr., t. x, 291.) Nas Contas do Theatro do 
Bairro Alto de 1767-68, figura: Nicoláo Luiz 
ajustado para dar as Comedias 200^*000 rs. ; e 
em 1768-69 : Nicoláo Luiz com obrigação de dar 
algumas Comedias entre novas e velhas 70^*000 
rs. Nas contas de José (jromes Varella, vem apon- 
tadas duas Comedias pagas a Nicoláo Luiz, a Fi- 
lha obediente e Constância do futuro. Pela gran- 
de quantidade de Comedias, cujos titules appare- 
cem nas contas do Theatro do Bairro Alto, que 
eram apresentadas por Nicoláo Luiz, vê-se que 
elle não tinha tempo para elaborar composições 
originaes ; traduzia do theatro hespanhol do sé- 
culo XVII e do theatro italiano do século xvm, sem 
responsabilidade litteraria, por isso não assignan- 
do as suas imitações nem sequer revendo as pro- 
vas das que o cego Romão José ou outros da ir- 
mandade lhe compravam. Entre as comedias ve- 
lhas, que tinha de escolher, acham-se a Guerra 
do Alecrim e Mangerona, ^ e o Proteo (Varie- 
dades.) 



' Em uma carta de Goubier de Barrault ao Conde de 
Oeiras, de 9 de Fevereiro de 1771, lê-se: *Tous les minis- 
tres et dames vent ce soir au théatre da Graça voir Ale- 
crim e Mangerona, ainsi qu'un fandango dansé par la 
Joanna, qui. à oe qu'on dit, Temporte sur la Pepa., 

E n'outra carta do mesmo, de 1 1 de F'tívereiro : "Sa- 
medi J6 fiis au Théatre de la Grace, oíi il j avait un mon- 
de prodigieux do dames, et les ministres étrangers s'y 
trouvairent. Ou noas douna Alecrim e Mangerona, et 



SEGUNDA í-POCA: OS ÁRCADES 21)7 



Niooláo Luiz continuava António José. Con- 
servava no sen espirito a impressão das Operas 
do Judeu do Pateo da Comedia, e foi sobre esse 
modelo que escreveu Os Maridos Peraltas, typo 
cómico e caracteristico da comedia portugueza do 
século xviii, amplamente explorado pela comedia 
de cordel. Por occasião do terremoto de 1755, fi- 
gura um Juiz do Povo em Lisboa, Nicoláo Luiz 
da Silva, que Innocencio identifica e bem com o 
poeta cómico ; e este facto colloca a sua mocidade 
na época do enthuziasmo pelas Operas do Judeu, 
cuja feição litteraria continuou, segundo os gos- 
tos dramáticos. 

Toda a paixão e enthuziasmo era empolgada 
pela Opera italiana, que dominava nos theatros 
régios de Queluz, de Salvaterra, da Ajuda e no 
da Rua dos Condes, chegando mesmo a occupar o 
theatro popular do Salitre. O desastre vergonhoso 
da Sociedade, decretada em 1771, de que resultou 
a expulsão da Zamperini, originou o plano para 
a fundação do Theatro de San Carlos. O Theatro 
portuguez achou-se rebaixado aos espectáculos 
dos idiotices Elogios dramáticos, e somente quasi 
ao fim de um século é que a aspiração de Garção 
pôde ser coraprehendida e realisada. 

2.0 O Intoler autismo sob D. Maria 7.— Bem 
comprehendia o Marquez de Pombal, que todo o 
seu poder acabaria por morte do rei ; e sabendo 
que se lhe tinham fechado as ulceras das pernas, 
teve logo o abalo da ameaça fatidica. Não tardou 



ainsi Tan noiível iuterinedo intitule O velho pcralía. (\\ú 
est salmigonrii detestable et aussi irun fandango insipi- 
de „ (Gollecç. Pomb.J 



?0S HISIOIÍIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



muito o golpe; em fins de 1776 foi atacado com 
«uma paralysia na lingua, que a fez sair do seu 
logar para fora da bocca, muito inchada, de modo 
que lhe prohibiu o uso da falia. ^ (Gramosa, Succ. 
de Port , I, 52.) Em decreto de Novembro de 
1776, transferiu os seus poderes magestaticos á 
rainha D. Marianna Victoria, sendo essencial- 
mente referendados pelo Marquez de Pombal. Em 
11 de Dezembro, quando o Marquez, segundo o 
costume, abriu a porta da camará real para tratar 
de interesses de ordem publica, D. José acenou- 
Ihe com a mão para que se retirasse. D'ahi até 
24 de Fevereiro de 1777, em que faleceu o mo- 
narcha, o omnipotente ministro sentiu a contra- 
riedade da sorte, preparando a papelada referente 
aos actos mais graves do seu governo, sob a ru- 
brica e guarda de seu amo e senhor, como égide 
nas responsabilidades de que lhe tomariam conta. 
Em 4 de Março estava investida da soberania D. 
Maria I. Acabou instantaneamente o terror da 
Junta da Inconfidência, podendo expandir-se opi- 
niões sobre o governo do Marquez de Pombal. 
Os chascos livres, os insultos sangrentos recebe- 
ram a expressão mais mordente na alluvião de 
versos satiricos, de que existem collecçôes ma- 
nuscriptas nas bibliothecas publicas. Tolentino 
designou esta crise moral dos espirites a vira- 
deira. Escreveu Gramosa nos Successos de Por- 
tugal: -e tanto foi avante esta desenvoltura, que 
apenas el-rei faleceu, appareciam todos os dias 
pela cidade uma quantidade espantosa de obras 
poéticas contra elle, contra as suas acções, e en- 
volvendo n'ellas além dos factos criminosos que 
lhe accumula\^am, todos os seus parentes, amigos 
6' ministros a quem elle mais beneficiou. > (Ib., p. 
94. j 



SEGUNDA Época: o» Árcades * 'i'à'^ 



O Marquez de Pombal, conhecedor das nor- 
mas protocolares, representou á rainha que a sua 
avançada edade e moléstias lhe não permittiam 
continuar no real serviço, sendo exonerado por 
decreto de 5 de Março de 1777. Para comprazer 
com a aristocracia e com o clericalismo, a rainha, 
mais para resalvar a memoria de seu pae, accedeu 
a mandar metter em processo o Marquez, e a con- 
ceder a revisão no processo dos Tavoras, para li- 
bertarem da infâmia a sua geração. Pelo seu lado 
os jesuítas reclamavam a sua reinstallação em Por- 
tugal, com atrevidas ameaças. Mas a rainha, ape- 
sar da sua pusilaniraidade, e fanatismo, resistiu a 
todas estas correntes pela sua própria fraqueza, 
tendo junto de si o génio hesitante de seu marido e 
tio. O Arcebispo-Confessor, Prei Tgnacio de S. Cae- 
tano, sendo sempre seu director espiritual até fale- 
cer em 1788, fora escolhido para esse cargo pelo 
Marquez de Pombal; tinha a absoluta confiança 
da débil rainha, a quem alentava no meio das cor- 
rentes palatinas. Prei Ignacio de S. Caetano, na- 
tural de Chaves, ahi seguira a vida soldadesca e 
subira a postos militares; como quatro irmãos seus 
tinham adoptado a carreira ecclesiastica, este se- 
guiu também o mesmo pendor. Para elle a reli- 
giosidade não era um devaneio mystico mas uma 
disciplina explicita. Foi esta qualidade que lhe 
conheceu o Marquez de Pombal, e com essa dis- 
cij>lina susteve a exaltação da rainha, demorando- 
Ihe o accesso de loucura, que a derruiu em 1792. 
Gramosa explica o prestigio do Arcebispo-Confes- 
sor pela sua admirável moderação e louvável des- 
interesse. 

Acabaram-se as perseguições politicas, mas 
começaram as perseguições religiosas, crea;ido-se 
a Mesa Censória para o exame e censura dos li- 



300 • HISTOHIA DA 1.1 1 TIMíATUR \ 1'ORTbGUEZA 



vros, cuja entrada no reino estava entregue á al- 
çada do Intendente da Policia Pina Manique. . 
Escreve Gramosa : < Introduziram-se por este tera- 
pa em Portugal as obras de João Jacques Rous- 
seau, de Voltaire e de outros seus sequazes, cujas 
opiniões arriscadas e libertinas mascaradas com o 
Evangelho, inoculavam a liberdade e a indiffe- 
rença nas matérias de fé e de religião. Doutrinas 
abraçadas pelos philosophos modernos, que se 
denominavam Espíritos fortes (^ illiiminados, e 
que se jactam de só elles saberem ser christãos, 
e na verdade abomináveis, e tanto mais pernicio- 
sos quanto disfarçados e encobertos.» (Ib., ii, p. 76.) 

No meio das convulsionadas correntes da re- 
acção anti-pombalina e restabelecimento da in- 
fluencia de jesuítas, o espirito sobreexcitado de 
D. Maria i amparava-se na intervenção de seu 
tio e marido D. Pedro ni, nas questões politicas, 
e especialmente na confiança absoluta no Arce- 
bispo-Confessor Pr. Ignacio de S. Caetano, que o 
Marquez de Pombal escolhera para seu director 
espiritual, e a quem ella fizera tomar parte nos 
conselhos dos ministros. Pelas ideias dominantes, 
a nação era o conjuncto dos vassalos, e os inte- 
resses da sua familia dynastica é que mais a pre- 
occupavam. Por esse egoismo instinctivo se viu 
D. Maria i ferida successiva e fortemente cora 
desastres que abalaram profundamente o seu sen- 
timento, lançando-a n'uma loucura attonita. 

Depois da morte do rei D. José, foi a rainha 
viuva á corte de Madrid sob o pretexto de sau- 
dades, combinar os casamentos do infante D. João 
com a infanta Carlota Joaquina, filha de Car- 
los IV ; e da infanta D. Marianna Victoria, sua neta, 
com o infante D. Gabriel. Estas ligações com a 
monàrchia castelhana foram a fonte dos desastres 



SEGUNDA Época: os árcades •%! 



políticos que a Hespanha fez cahir sobre Portu- 
gal: tratados leoninos, guerra da invasão, guerra 
civil e traições dynasticas desmembrando a Pá- 
tria. Nada d'isto poderia impressionar o espirito 
de D. Maria i; mas os seus escrúpulos religiosos 
forçaram-na a consentir no casamento morganático 
de sua mãe a rainha D. Marianna Victoria com 
o cirurgião veterinário Queiroga. Succedem-se os 
acontecimentos que mais a contristam; em Maio 
de 1786 falece D. Pedro iii; em 1788 morre de um 
ataque de variola sua filha D. Marianna Victoria 
e poucos dias depois seu marido; e em 10 de Se- 
tembro falece mysteriosamente o príncipe D. José, 
que tivera a leviandade de confessar o seu pom- 
halismo a lord Beckford, e certa antipathia pela 
influencia ingleza; e em 20 de Novembro d'este 
mesmo anno falece o Arcebispo-Confessor, o único 
amparo moral no meio de tão inconsoláveis deso- 
lações. Quem poderia substituir Fr. Ignacio, que 
pela pratica de longos annos de confessor e di- 
rector espiritual da rainha, conseguira fortifical-a 
com palavras que a levantavam da apathia? N'esta 
crise de coincidências de tantos desastres pes- 
soaes, era consequência fatal a loucura, que os 
acontecimentos europeus, como a Revolução fran- 
ceza de 1789, e o seu reflexo doutrinário no Bra- 
sil, onde se discutiam ideias e instituições republi- 
cas, crearam na corte portugueza uma atmos- 
phera de terror. Era preciso nomear-se um Con- 
fessor e director espiritual ; escolheram o bispo 
do Algarve D. José Maria de Mello, ex-orato- 
riano. Porque motivo? Elle era irmão de D. The- 
reza de Mello, filha do Monteiro-Mór que durante 
o tempo de solteira da princeza fora até 1760 
sua dama de quarto com a maior dedicação. 
Quando a princeza casou com seu tio a There- 



f,02 HISTOFUA DA T.II TEliATl ^ I! \ I'( )IiTUr.UEZA 



zinha professou e foi prioreza do convento de 
Carnide; e quando D. Maria i foi ao throno, man- 
dou erigir a sumptuosa basílica do Convento 
novo do Coração de Jesus, uma devoção da moda, 
sendo madre Thereza de Mello a abbadessa. Por 
estas influencias se escolheu o bispo do Algarve, 
que logo renunciou a mitra, sendo pouco depois 
nomeado Inquisidor Geral do reino. Com a di- 
recção espiritual de D. José Maria de Mello 
aggravou-se o estado mental da rainha, cujos 
escrúpulos e ideias obsidiantes a atormentavam; 
culparam o Inquisidor Geral d'esse estado. Elle era, 
como toda a gente official em volta, ignorante dos 
phenomenos mórbidos da psychologia. Queriam 
distrahir a rainha e levavam-na a passear pelo 
Tejo em estrondosas regatas, em excursão em esca- 
leres reaes, e no theatro de Salvaterra exhibiram 
um dia uma Opera do seu antigo professor Da- 
vid Perez, Zanobia, rainha com dois filhos, des- 
thronada e captiva do imperador romano. Quando 
ella sahiu do theatro foi no delirio, em que ficou 
até á morte. O príncipe D. João^ ficou regente, 
subordinado ao castelhanismo de sua mulher Car- 
lota Joaquina, que o arrastou a todas as indigni- 
dades, até ao ponto de abandonar Portugal á in- 
vasão napoleonica, e tentar unir esta pátria a 
Hespanha pelo casamento de sua filha D. Maria 
Thereza com o primo D. Pedro Carlos, quando es- 
tavam no Rio de Janeiro. Sem este quadro mal se 
comprehendem os factos que são a historia dos 
últimos cinco annos do século xviii e a acção 
automática do Principe-Regente D. João vi, ccmo 
synthetisou o pasquim : Faço o que me dizem, e 
como o que me dão. De facto, elle estava em Ma- 
fra, deliciando-se com o cantochão, quando teve 
de abandonar Portugal aos maltrapilhos de Junot. 



SEGUNDA i':poca: tis ÁucADKs 30:5 



A leitura dos escriptores do fim do século xvii 
e principalmente dos que precederam a Revolu- 
ção, era prohibida pelo poder ministerial. Em 
data de 15 de Setembro de 1770, e Consulta da 
Meza de Consciência, publicou-se uma extensa 
lista das obras philosophicas, scientificas e litte- 
rarias absolutamente prohibidas, com ordem de 
serem apresentadas na secretaria d'aquella Meza, 
no periodo de sessenta dias. A conservação de 
esses livros era punida como um crime, e alguns 
d'elles foram queimados pela mão do carrasco na 
Praça do Comraercio; executou-se esse auto em 
6 de Outubro de 1770, em presença de um Des- 
embargador e do Corregedor do Crime do Bairro 
Alto, que assignaram o termo authentico d'esta 
execução. O preambulo do Edital termina com 
esta justificação : ^ Tem ultimamente 'chegado ao 
nosso Real conhecimento a narração de todos os 
horrorosos estragos, que n'este século, mais que 
todos os outros, terá causado na maior parte da 
Europa o espirito da Irreligião e da falsa Fi- 
losofia, o qual tem excitado as mais vigorosas 
providencias — procura prescrever os funestissi- 
tiios efíeitos d'esse disfarçado veneno, parece que 
elle consegue augmentar-se e diffundir-se ao 
mesmo tempo que uma inundação monstruosa dos 
mais Ímpios e detestáveis Escriptos para atacar 
os princípios mais sagrados da Religião, para in- 
vadir os mais sólidos fundamentos do Throno. . . 
E porquanto me constasse, que muitos dos Ímpios 
Escriptos são abomináveis producções da incredu- 
lidade e da libertinagem de homens temerários e 
soberbos, que se denominam Espíritos fortes e se 
attribuom o especioso titulo de Filósofos — ha- 
viam chegado a penetrar n'este Reino por cami- 
nhos indirectos e occultos; havendo mandado 



;304 HISTORIA DA I.IT TEH.VTURA PORTUGUÈZA 



proceder com a mais exacta diligencia ao exame 
d'elles, constou pelas Censuras conterem doutri- 
nas Ímpias só próprias a estabelecer os grosseiros 
e deploráveis erros do Ateísmo, Deísmo e do 
Materialismo...^ O Intolerantismo do reinado 
de D. Maria i, mantido pelo Arcebispo-Confessor, 
aggravou-se por causa do terror politico das 
ideias revolucionarias, que levaram ao estabele- 
cimento da Intendência Geral da Policia, com 
poderes descricionarios exercidos por um d'esses 
Desembargadores, que o Marquez de Pombal ti- 
nlia sempre á mão quando exercia clamorosas 
iniquidades. Pina Manique foi a incarnação d'esse 
novo poder policial independente do ministerial, 
acobertando-se com a realeza. 

Era uma carta do Dr. António Ribeiro dos 
Santos, relata a um amigo intimo as repressões 
furiosas que succederam aos medonhos processos 
da Inconfidência sob o Marquez de Pombal : 
« Pedis novidades, eu vos mando uma, que não 
pode deixar de vos ser inesperada; também me 
foi a mim. Corre aqui constantemente como certo, 
que o Arcebispo-Inquisidor inculca a necessidade 
de Tribunaes, prizões e castigos da inquisição 
para manter-se systema que (D. Thomaz de Lima, 
visconde de Villa Nova de Cerveira), propõe 
para o mesmo fim o systema dos quatro //, que 
querem dizer: Inquisição, Inconfidência. Igno- 
rância e Indigência» {Mss., vol. 121, Bibl. nac.) 
Pina Manique fazia caça aos livros perigosos nas 
alfandegas, mandando abrir os caixotes e exami- 
nar o seu conteúdo, chegando mesmo a notar 
que obras eram destinadas ao Duque de Lafões 
e a José Correia da Serra. Os livros de doutri- 
nas politicas democráticas eram solemnemente 
queimados pela mão do carrasco ; davara-se va- 



SKGLNDA KPOCA: OS ÁRCADES 30" 



rejos ás livrarias particulares e apprehendiam-se. 
Alguns dos livros que Pina Manique deixou na bi- 
bliolheca herdada por seu filho, provieram d'essas 
apprehensões policiaes. Bocage foi prezo por 
constar ter escripto papeis incrédulos e sediciosos. 
Os homens de Scienoia, como Correia da Serra e 
Avellar Brotero, e o humanista Pilinto EUsio vi- 
ram-se forçados a refugiar-se em paizes estran- 
geiros. A Intendência da Policia, sob as pre- 
venções de Pina Manique tornara-se mais teme- 
rosa do que a Inquisição sob o governo do 
inquisidor-geral D. José Maria de Mello. A In- 
confidência, nome que se dava ás doutrinas poli- 
ticas da liberdade democrática, produziu tremen- 
das perseguições, em que os Desembargadores 
pombalistas affrontaram a justiça com as mais 
cruentas iniquidades. E' n'esta asphyxia nacional, 
que o génio portuguez produziu excelsos poetas, 
altos jurisconsultos, eximios naturalistas e sérios 
eruditos. Sublime protesto. 

Proto- Romantismo 

O prestigio das imitações da forma clássica 
soffreu um primeiro offuscamento pelos estudos 
das Sciencias naturaes considerando os pheno- 
menos physicos e orgânicos como bellos quadros 
para a renovação da poesia descriptiva. Assim se 
multiplicaram os poemas do género didáctico, 
rhetoricamente por falta de uma verdadeira com- 
prehensão dos phenomenos naturaes substituída 
por uma contemplação passiva. A essa nova sen- 
sibilidade melancholica deu-se o nome um tanto 
irónico de ronianticisnio, sem preoccupação lit- 
teraria. Os Lakistas em Inglaterra generalisaram 

20 



306 HISTORIA DA I.nil-:HA'1L'P.A PORTUGUEZA 



este estylo de poesia, que affinava com a sensible- 
rie do fim de uma grande revolução social. O alar- 
gamento dos estudos moraes e politicos, das via- 
gens e explorações geographicas, trouxeram o 
conhecimento dos costumes de povos longínquos, 
das manifestações da sua cultura, provocando o 
gosto do exotismo, que o rei Salomão gosava 
com as mulheres syrias, cananêas e idumêas. Imi- 
taram-se as obras das litteraturas estrangeiras, 
de povos alheios ao gasto classicismo. Voltaire e 
Diderot alentavam esta fascinação do exotismo, 
depreciador dos modelos greco-romanos. A Alle- 
manha, pelo effeito da Guerra dos Sete annos, foi 
suggestionada pela vida das tradições anglo-nor- 
mandas, que inspiraram a litteratura ingleza, a re- 
correr ás suas origens germânicas, libertando-se 
da influencia franceza. Reflectiu-se essa orienta- 
ção nos povos meridionaes, coincidindo esta cor- 
rente do Romantismo com a expansão politica 
do liberalismo constitucional. 

Estas duas correntes do Romantismo appa- 
recem-nos já iniciadas nos fins do século xviii 
em Portugal. A necessidade de resistir contra as 
odiosas guerras castelhanas, trouxe-nos o con- 
tacto da ofíicialidade ingleza, illustrada, das ar- 
mas de artilharia e engenharia. Garção, perito no 
conhecimento das linguas modernas, conviveu 
com alguns d'esses officiaes e suas farailias. En- 
tre 03 seus versos ha uns a ura pintor inglez, tra- 
duzidos. A profunda impressão da litteratura in- 
gleza apparece nas composições de José Anastá- 
cio da Cunha, tenente de artilharia, que nos longos 
contactos com esses homens cultos, lia, imitava 
e possuia as principaes obras dos grandes poetas 
inglezes. Garrett conheceu muito cedo as poesias 
inéditas do genial niathematico, comprehendendo 



SF.GUNDA KPoCA: f)S ÁRCADES *i07 



O sentimento realista do seu lyrisrao. Por esta 
primeira impressão nasceu em Garrett a sympa- 
thia pelo romantismo inglez, que a emigração de 
1823 e de 1829 tornou a expansão fecunda do 
seu génio litterario. 

O outro reflexo proto- romântico, foi iniciado 
por D. Leonor de Almeida {Alcipe) que no seu 
arcadismo teve um primeiro vislumbre da poesia 
allemã, era Klopstok, Wieland e Voss, e cha- 
mando a attenção dos poetas portuguezes para 
essa nova fonte. Por influencia da illustre dama, 
Filinto traduziu muitas das Odes do poeta prus- 
siano Ramler, que andam inclusas nas suas obras. 
Ramler era um imitador de Horácio e de Ca- 
tulle e tendo por ideal a apotheose de Frederico, 
o Grande, que nunca fez caso d'elle. O conheci- 
mento de Ramler, no pequeno circulo de Alcipe, 
seria talvez devido ás relações que na grade do 
Convento das Albertas tinha então com o official 
prussiano com quem veiu a casar pouco depois da 
libertação da clausura. Bocage também tem uma 
canção traduzida de Lessing, que proviria da com- 
placência com Alcipe, que elle tanto admirava. 
Effeito ainda d'essa influencia germânica proto- 
romanticn, é a traducção em verso solto do faceto 
poema Oberon, de Wieland, por Filinto, já quasi 
na indigência de Paris. Como Garrett, também Ale- 
xandre Herculano esteve sob a influencia do 
proto-romantismo allemão, como elle confessou 
em uma noticia bibliographica das Obras da Mar- 
queza de Alorna: < eu devi-lhe incitamentos e 
protecção litteraria, quando ainda no verdor dos 
annos dava os primeiros passos no estudo das 
lettras. Apraz-mo confessal-o aqui. — As criticas 
<la senhora Marqueza de Alorna não affectavam 
o tom pedagógico e qiiasi insolente de certos lit- 



808 HISTORIA DA LITI KliATUlíA POUTUGUEZA 



teratos, que ás vezes nem sequer entendera o que 
condemnara e tomam a brancura das suas pró- 
prias cans por titulo de sciencia, de gosto, e de 
tudo. » Alexandre Herculano referia-se aqui ao 
sábio D. Pr. Francisco de San Luiz, que achava o 
gosto romântico desvairado, e em uma carta fri- 
sava o excessivo orgulho do redactor do Pano- 
rama. Preconisando a acção da Marqueza de 
Aloriia, continua Herculano : « Como Madame de 
Staél, ella fazia voltar a attenção da mocidade 
para a arte da AUemanha, a qual viera dar nova 
vida á Arte occidental, a qual vegetava na imi- 
tação servil das chamadas lettras clássicas, e 
ainda estas estudadas no transumpto indirecto da 
litteratura franceza da época de Luiz xiv. » Nas 
palavras de Herculano já vislumbram os antago- 
nismos dos pseudo-classicos contra o Romantis- 
mo. Um relance biographico de D. Leonor de 
Almeida (Alcipe) de José Anastácio da Cunha, 
e de Francisco Manoel (Filinto) dá-nos o sentido 
do Proto-romantismo em Portugal, abafado pe- 
las reacções politicas e desgraças do começo do 
século XIX. 

D. Leonor de Almeida ( Alcipr) — Nasceu 
em Lisboa em 31 de Outubro de 1750 e faleceu 
em 11 de Outubro de 1839 quasi nonagenaria; 
achou-se envolvida nos grandes successos do seu 
tempo, tendo vivido dezoito annos em um con- 
vento clausurada como prisioneira de estado, 
brilhou na corte de Vienna dAustria na época 
de José II, viu Paris e residiu em Londres, e 
depois do triumpho das instituições liberaes exer- 
ceu em volta de si uma syrapathica influencia 
litteraria. E' esta parte da sua vida a que mais 
interessa, porque tendo convivido com os poetas 



I 



SEGUNDA Época: os árcades -^d^ 



da Arcádia Lusitana, que a lisonjeavam, passou 
da escola arcadica para o gosto da poesia didá- 
ctica franceza, e foi uma iniciadora do Proto- 
Romantismo em Portugal. Foi pena que os docu- 
mentos da sua actividade litteraria se limitassem 
a estas correntes do gosto- dominante, não tendo 
aproveitado o seu talento elaborando as suas me- 
morias pessoaes, pela sua larga sociabilidade e 
participação dos acontecimentos históricos. Era 
filha de D. João de Almeida, 2.° Conde de Alorna, 
e de D. Maria de Lorena, e neta da orgulhosa 
Marqueza de Távora, executada pela forma mais 
horrenda com seu marido, envolvidos pelo Mar- 
quez de Pombal no caso dos tiros dados contra a 
carruagem do rei D. José, que os desembargado- 
res converteram em crime do alta traição. Assi- 
gnado cm 3 de Dezembro d^ 1758 o decreto man- 
dando prender o Duque de Aveiro e o Marquez de 
Távora, com suas familias, em 13 de Dezembro 
deu-se-lhe cumprimento, sendo prezo o Marquez 
de Alorna^ pelo facto de ser casado com a filha 
do Marquez de Távora, recolhido no cárcere da 
Junqueira, e sua mulher, com duas filhas clausu- 
radas no Convento das Albertas em Cheias. 
J). Leonor de Almeida, contava então oito annos, 
e D. Maria de Almeida seis annos, ficando uma 
criança de quatro annos, D. Pedro de Almeida, 
amparado pelo Conde de Arcos, que a mãe só 
conseguiu vêr em 1768, já um rapaz distincto e 
estudioso. A clausura do mosteiro das Albertas 
era violada por pretextos banaes, mas a familia 
do Conde de Alorna era espiada pelas freiras ma- 
levolentes, e pela prioreza, que cumpria as aper- 
tadas ordens do Vigário Geral e Arcebispo de La- 
cedemonia, D. António Caetano Calheiros Maciel, 
que informava o Marquez de Pombal do que se 



310 HISTORIA DA LITI Kf! ATin A rORTIGUEZA 



passava com aquellas prizioneiras de estado. 
D. Maria de Almeida viveu sempre doente, e por 
certo desconheceu os horrores a que a Marqueza 
de Távora sua mãe fôra submettida, quando exe- 
cutada em Belém. Foi ii'aquelle meio odioso e 
traiçoeiro que se desenvolveu o espirito da crian- 
ça de oito annos; ella era a enfermeira de sua 
mãe e a mestra de sua irmã. D. Leonor de Al- 
meida escrevia a seu pae, que do cárcere da Jun- 
queira dirigia as suas leituras. Ella e sua irmã 
tornaram-se dentro em poucos annos duas for- 
mosas senhoras, D. Maria loura e branca, e 
D. Leonor alta e levemente trigueira, ella apai- 
xonada pelo estudo das linguas e do desenho, a 
mais nova pela musica. O brusco Arcebispo de 
Thessalonica, queria que ellas cortassem o ca- 
bello, ao que reagiu Leonor, declarado que não 
eram noviças; e o impertinente prelado exigindo 
que não usassem vestidos de cores, dizia-lhes que 
ellas não careciam de enfeites porque eram 
muito bonitas. Isto consta da correspondência 
com seu pae, em que relata os seus estudos e lei- 
turas philosophicas. D. Leonor de Almeida teve 
um momento de desalento, vendo prolongar-se a 
clausura das Albertas, e pensou em professar. 
Salvou-a doesse fracasso Pr. Alexandre da Silva, 
seu director espiritual. O frade, missionário de 
Braneanes, era poeta, e D. Leonor de Almeida 
manifestou-lhe essa prenda, que elle lisonjeava, 
e o afastamento da ideia dos votos obedecia a 
uma reacção contra o amor divino. Frei Ale- 
xandre da Silva, que tinha o nome arcádico de 
Sylvio, traduzia-lhe odes de Alceu e Anacreonte, 
de que ella também deixou versões. O fradinho 
era um açoreano, que foi bispo de Malaca, e trans- 
ferido depois para a Sé de Angra, na Ilha Ter- 



SEGUNlDA KfOr.v: OS ÁRCADf.S ."{H 



ceira, e lembrado hoje por s^r tio de Garrett, 
cujos primeiros estudos dirigiu. Um outro frade, 
Frei José do Coração de Jesus, que tinha o nome 
arcádico de Alnieno, também trocava poesias 
com D. Leonor de Ahneida, que em breve se 
tornou conhecida com o nome de Alcipe, cora 
que a chrismou Niceno, o P.** Francisco Manoel 
do Nascimento. 

Alfeno Cynthio, Domingos Maximiano Tor- 
res, na Egloga Os Pomareiros deixou a des* 
coberto a paixão d'estes dois poetas pelas reclu- 
sas fidalgas. Filinto, P." Francisco Manoel do 
Nascimento, amava loucamente D. Maria de Al- 
meida, que usava o nome arcádico de Daphne, 
endereçando-lhe admiráveis Sonetos, e compondo 
cançonetas que ella cantava. Barroco amava fer- 
vorosamente Alcipe e também lhe dirigia ver- 
sos. Quando D. Leonor começava a entrever um 
futuro, em que se visse liberta da clausura, o Dr. 
Sebastião José Ferreira Barroco apparece despa- 
chado desembargador para a Bahia, partindo 
quasi immediatamente. Nos seus versos Filinto 
informa Alcipe da partida de Albano, que assim 
esquecia a contumaz janella do convento aonde 
vinha fallar-lhe. D. Leonor de Almeida allude á 
grave doença, que tivera por 17G8, que coincide 
com a partida inesperada de Albano. Contra este 
abalo moral encontrou remédio encarregando-se 
com os mais pressurosos cuidados de uma desva- 
lida criança que andava polo convento ; educou-a 
desde a leitura, ensinou-lhe todas as prendas que 
sabia, e promettera fazel-a companheira da sua 
vida. Mas aos quinze annos a sua protegida, em- 
bahida pelo fanatismo estúpido de algumas frei- 
ras, começou a evitar a sua protet-tora ! Em uma 
carta a seu pae, D. Leonor narra-llu' «'sta de- 



312 HISTORIA HA l.ri 1!;HATUHA POKTIJGLKZ\ 



cepção de uma alma ingrata e inferior. Na vida 
ordinária do mosteiro das Albertas, a filha da 
Marqueza de Távora *e suas duas filhas soíTriam 
privações, de que se nào queixavam; Francisco 
Manoel, na sua intimidade litteraria, conheceu 
esses soffriraentos e acudia-lhes com alguns re- 
cursos pecuniários, para satisfazer necessidades 
de toilettes de formosas donzollas, que teera 
horror ao ridículo. As freiras edosas não deixa- 
ram de intrigar venenosamente o chefe do va- 
lente grupo da Ribeira das Náos, da celebrada 
Guerra dos Poetas. O nome de Filinto por inter- 
venção de Alcipe, ficou substituindo o de JSÍiceno, 
e cora elle se iramortalisou Francisco Manoel do 
Nascimento. Em volta das duas formosas meni- 
nas formou-se uma corte de amor, junto da 
contumaz janella do convento, onde os poetas 
galanteadores formavam torneios métricos com o 
nome usual de Outeiros, privativos dos Abbades- 
sados. A impressão da formosura de Alcipe acha- 
se celebrada por Garção na Ode xiv" Aos annos 
da ill.^^ e ex.™^ Senhora D. Leonor de Almeida: 



Ciim doce riso e celeste agrado, 
Que os ventos serenava, lhe dizia : 
Hoje do céo dourado o Sol dourado 
De Alcipe o claro dia. 

Foi hoje, foi, que em seu gentil semblante 
Amanheceu a luz da formosura 
Nunca tão bella Aurora, o tão brilhante 
Rompeu a noite escura. 



As lindas Graças, os fieis Amores, 

As Virtudes gentis dos Céos baixaram, 
E cantando as acçõea doa seus maiores 
O berço lhe embalaram. 



SEGUNDA Época: os árcades .'JK 



Nos olhos vencedores lhe infundiram 
O tyranno poder da e:entileza, 
Humanos corações logo sentiram 
A liberdade preza. 

Crescem co'a edade os raios sons brillianteB, 
Quo o8 fecundos suspiros tião attendem, 
Apezar dos desejos anhelantes 
Que em seu altar accondem. 

As quinze estrophes desta Ode de Garção 
versam sobre a belleza de Alcipe, nos seus deze- 
seis anos ; o afamado árcade não hesitou em allu- 
dir ás acções dos seus maiores, o que se fosse 
levado ao conhecimento do Marquez de Pombal 
o envolveria na rede das suas implacáveis vin- 
ganças. Além de Silvio, de Almeno e de Cory- 
don, da moribunda Arcádia surgia o grupo da 
Ribeira das Náos. Filinto tornou-se o mestre ado- 
rado^ e com Albano, o Dr. Sebastião José Fer- 
reira Barroco. 

Em uma extensa carta a seu pae referindo as 
leituras que fazia, D. Leonor de Almeida explica- 
Ihe o caracter das suas relações litterarias, como 
resposta a qualquer solicita advertência: «Cuidei 
de distinguir bastanteraente o caracter das pes- 
soas H quem falo, e com quem estabeleço muito 
acauteladamente as minhas relações litterarias, 
debaixo da inspecção adorável da minha querida 
mãe. Assentei que o numero devia ser nmito pe- 
queno, e com effeito o é. Mas, fixo este, tudo 
aquillo que não contradiz a ideia que eu tenho 
da virtude e da felicidade, que são para mim o 
mesmo, livremente o pratico e com isso me re- 
creio. Assentando fixamente que os meus versos 
não encontram o parecer de nenhuma das pes- 
soas a quem os mostrar, de quem quero o premio, 
ora os dirijo a um ora a outro dos três amigos 



314 HISTOltn DA T.llTKHATrHA l'ORTLGUEZA 



nossos que me entendem, e gosto de o fazer 
assim, porque me agradavam os inglezes bons e 
os alleraães, onde vejo este methodo estabelecido, 
como um mek) para facilitar e acender mais a 
imaginação e as circumstancias do objecto a que 
dirijo as minhas palavras. O gosto das moralida- 
des também me persuade a isto, porque mais fa- 
cilmente se offerecem reflexões suppondo haver 
quem nos escuta, do que só falando com as pa- 
redes. Parece-me além d'isto que o meu trabalho 
não é uma honra nem uma lisonja que faço 
áquelles homens, mas um signal da minha grati- 
dão pelo que elles contribuem para o meu adian- 
tamento com as suas conversações, com os seus 
livros e com a emulação que me dão com as suas 
obras. Nenhum d'elles estima essas cousas vans, 
que só tem valor entre as que sabem possuir. 
PiLiNTO é de um caracter original para a nossa 
terra. Conhece bem que a felicidade está em si, 
que lhe não vem das honras que lhe fazem os 
fidalgos; não os distingue senão pelas virtudes 
ou pelos talentos, é um philosopho incapaz de 
sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar- se das que 
recebe. V. Ex.^^ o conhecerá e verá, que dista 
muito da ideia que V. Ex-^* forma. N'estes termos, 
achando de portas a dentro quanto me era ne- 
cessário para me occupar agradavelmente, para 
aqui é que escrevo; não quero que me leia nin- 
guém^ que possa reparar no que digo, porque 
quero falar o que entendo e o que me inspira a 
rasão e a virtude ; não quero senão isto, que é o 
meu Ídolo, quero paz, amizade, irmãos e pães. 

« Toda esta perlenga se reduz a assegurar a 
V. Ex.^ que em dizendo alguma cousa, ó na opi- 
nião de ser bom ; sabendo porém perfeitamente 
— que em lhe achando defeitos, — estou prompta 



SEGUNDA F.POCA: OS ÁRCADES 315 



a sacrificar as composições mais de meu agrado. 
Só a ternura e a submissão de que me preso, e 
que faz toda a minha felicidade, me pode dar 
forças para este sacrifício, porque tudo custa me- 
nos que o perder um verso que se não julga máo». * 
Esta carta é de excepcional valor, porque jus- 
tifica as allusões de Filinto Elísio contra a per- 
seguição que lhe moveu o Marquez de Alorna 
logo que em 1777 sahiu dos cárceres da Jun- 
queira, e maquinou a intriga para o processo c(ue 
contra o poeta correu pela Inquisição de Lisboa, 
vendo-se forçado a expatriar-se. Servindo-se da sua 
influencia junto de D. Maria i e o Príncipe Re- 
gente, D. José de Almeida, tornou inefficazes todas 
as reclamações que o exilado Filinto fazia para 
revindicar as propriedades de que se achava es- 
poliado. O Marquez de Alorna serviu-se dos 
ódios clericaes contra Filinto, e por traz d'essas 
influencias manobrou com tenacidade. As três 
pessoas a que allude D. Leonor de Almeida, que 
a dirigiam nos seus estudos litterarios são : Fi- 
linto (Francisco Manoel do Nascimento) o dire- 
ctor espiritual, que a defendia da estupidez ma- 
lévola das freiras de Cheias, Frei Alexandre da 
Silva (Silvio) e o Dr. Ignacio Tamagnini, medico^ 
e também poeta. Estes bons amigos faziam a re- 
putação litteraria da joven reclusa e prisioneira 
de estado, que lia as obras dos poetas francezes 



' Marquez d' Ávila e de Bolama, A Mahqukza. pk 
Alorna (Alcipe), p. 106. E* valioso este livro pelas Car- 
tas inoditas da celebrada escriptora. Infolizmente o auc- 
tor desoonlieoia a arte de escrever, porque a educaçílo 
matheniatica sobrepujou a cultura litteraria; e a execu- 
ção typographica acusa desconhecimentos á esthetica do 
livro. 



;ll(í HISlOniA i)\ l.n IKltATI 1!A FOirrUGDEZA 



e italianos e as obras philosophicas dos Encyclo- 
pedistas. Pr. Alexandre da Silva empenhava-se 
com o sábio Doutor António Ribeiro dos Santos 
(Elpino Duriense) para ir a uma grade de Chel- 
las admirar o extraordinário prodigio da douta 
Alcipe. O sábio cathedratico eximiu-se por uma 
carta, que esclarece esse meio litterario : < Quei- 
xas grandes dá de mim a Senhora D. Leonor 
porque não appareço a sua companhia, e vós 
m'as repetis com ar de compaixão por mim, que 
estou perdendo tanto bera. Que quereis que faça? 
Hei-de dizel-o, bem que por ventura não gos- 
teis, pelo muito que a ajnais; apresenta-se com 
um livro de Poesias ; lê-as, e a cada verso espera 
os meus applausos; eu não os posso dar a todos; 
canso-me quando os louvo, canso-me quando os 
não gabo; e no fim de tudo saio mais moído que 
salada, e venho para minha casa doente para 
dois mezes. Já ficaes sabedor porque não fre- 
quento esta assembleia ; se comtudo julgaes que 
o faço por ser gothico, julgae-me embora como 
quizerdes, comtanto que me deixeis viver a meu 
sabor, e escapar das causticações de D. Leonor 
e do livro dos seus versos. Estou ha muito com 
Juvenal : 

mentiri néscio : librum 
ot malus est, neque laudare et pescara 

e se quereis que vol-o diga com ura dos Poetas 
francezes de que rauito gostaes, 

,Je ne sai ni tromper. ni ne foindre ni mentir. 
(Boileau, Sátira D- 

Conhecendo os factos Íntimos, razão tinha o 
Dr. António Ribeiro dos Santos em não ir per- 



SEGUNDA j';pu(:a; 0:5 aucades 



der tempo á grade do convento das Albertas ; 
D. Leonor de Almeida estava no esplendor da eda- 
de e queria deslumbrar os seus admiradores. Filin- 
to, que fôra o seu mestre, conheceu que a admirada 
discípula estava entre dois fogos, que desperta- 
vam a attenção da formosa dama. Eram os ga- 
lanteadores^ Pr. Alexandre da Silva, o túrgido ca- 
pucho, que estava eleito Bispo do Malaca, e o 
tolaz militar, com mais audácia e fundadas pre- 
tenções. Filinto, na sua sátira Esfuziote, em 
forma de epistola a Albano, o namorado de Al- 
cipe, que estava na Bahia juiz desembargador, 
fez-lhe esta magoada revelação: 

Tu bem sentiste quanto é máo este uso. 

Namorado Barroco; a tua dama 

Que tão grandes finezas te devia, 

Trocou por um soldado o amante vate 

Não soube o que trocou; que a estas horas 

Lhe teriam as casas entulhado 

Sacas de Odes, canastras de Sonetos 

Aos seus annos, a ausência e saudades, 

Tu o sofEreste, porque assim se usava; 

Mas. que hoje nm. . . (tapa a boca Musa) 

Não digo as vezes do tolaz marido 

Que casou por negocio ou fidalguia, 

Mas as vezes do túrgido Oapucho 

Do Cadete taful aperaltado 

Não é posto em rasão. 

Ora. tu, que és Doutor, que foste a Coimbra I 

Este tolaz militar era o afidalgado conde 
palatino de Oyenhensen, um allemão de 11 ano ver, 
que em 1768 appareoeu aqui em Lisboa, acom- 
panhando o Conde de Lippe, que veiu com vá- 
rios jovens fazer uma revista ao exercito para 
ver como que estava desde 1762, em que o reorga- 
nisara, O Marquez de Pombal approvou a iiieia 
do Conde de Lippe, e fez-se uma extraordinária 



318 HISTORIA DA LITTERATURA l'OitTLIGUEZA 



parada com artilharia e cavallaria e alguma in- 
fantaria, nos Campos dos Olhos d' Agua, entre 
Azeitão á Moita. Reuniu-se ali toda a corte e fa- 
milias fidalgas para assistir ás manobras, que du- 
raram três dias, com marchas, contramarchas, as- 
sédios, ataques, tomadas de reducto, triumphos^ 
salvas e apresentação de armas triumphalmente. 
O Conde de Lippe sabia bera todas as marcas da 
estratégia, e encantou o mundo official, que am- 
pliou a festa com o contingente de banquetes, 
danças, um delirio marcial. Garção tem umas 
quadras a esta vertigem bellica amorosa. Aca- 
bada a festança, Lippe partiu com os seus aven- 
tureiros moços allemães, mas o hanoveriano, com 
os seus trinta annos (n. 1738) conheceu que Por- 
tugal era uma Canaam do Occidente, e deixou-se 
ficar em um paiz fortunoso ; pediu para assentar 
praça no exercito portuguez. Aqui subiu postos, 
sempre encostado ao favor do paço, e reconhe- 
cendo que entre a aristocracia fanática, a sua 
apostasia do protestantismo, e o baptismo catho- 
lico seriam um excellente reclamo para um casa- 
mento fidalgo. Palava-se nos talentos litterarios 
de D. Leonor de Almeida, filha do segundo Mar- 
quez de Alorna e quarto Conde de Assumar, pri- 
sioneiro politico no forte da Junqueira. Oyenhen- 
sen facilmente achou apresentação para assistir 
ás leituras da famosa Alcipe. Apesar de ter um 
filho natural, elle lançou olhares languidos a 
Alcipe, que se esqueceu do seu Albano, lá longe, 
na Bahia, e foi correspondendo aos galanteios do 
Cadete taful, talvez como um recurso para pôr 
termo á sua clausura. O militar interessou o In- 
fante D. Pedro, casado com a Princeza real sua 
sobrinha, para conseguir este casamento ; nas 
cartas de. D. Leonor de Almeida a seu pae, fala- 



SEGUNDA Época: os árcades :íI9 



lhe no único protector que a família Alorna tinha 
no Infante D. Pedro. Quando em Fevereiro de 
1777, faleceu o rei, e D. Maria i herdou a sobe- 
rania, em 25 de Fevereiro d'esse anno, abriram-se 
as prizões. 

K doença progressiva do rei, tornara-se uma 
esperança para os desgraçados prezos políticos, 
que ha dezoito annos atulhavam as masmorras. 
A sua morte era inevitável, mas lenta. Era uma 
angustiosa anciedade para os que aguardavam o 
fim dos seus soffrimentos iníquos. Em uma carta 
de D. Leonor de Almeida ao pae que jazia nos 
cárceres da .Junqueira : « A doença d'el-rei, que 
nfio tem ido a melhor nem a peior, tem posto os 
negócios na sua louvável inacção ; porém, não 
deixa de encher de esperanças a muita gente, e 
de sustos o Marquez de Pombal. — El-reí conti- 
nua a repousar sobre uma falsa virtude, que é 
talvez a única que se conhece n'esta terra. Tudo 
se leva pelo cerimonial e com isto se contentam». 
(Ap. A Marqiieza d' Alorna, p, 74.) Em outra 
carta torna a dar noticias da doença do rei, já 
em estado de completo desalento : « A el-reí pro- 
puzeram-lhe o despacho de alguns papeis ; res- 
pondeu que não estava para nada, que o seu 
corpo pedia ócio, que não queria, e que entre- 
gassem lá isso a quem quizessem. Tem conti- 
nuado a achar-se peior; fez-se uma junta, de que 
resultou a continuação dos banhos ao Estoril, 
mas também se fala em Caldas. > (76., p. 94). 
Respirava-se já uma aragem de esperança com 
aquella morte, que (sra uma desobstrucção da jus- 
tiça e da liberdade. Por estes últimos tempos da 
reclusão de Chellas, escrevia D. Leonor de Al- 
meida, em um diário pessoal, balanceando o seu 
passado desdp 17õ8: < Estes 18 annos e quatro 



320 HISTORIA DA LITTERATLiRA i'ORTL"GUEZA 



raezes e meio junto do leito de rainha amável e 
infeliz mãe, foram um espaço em que só tinha 
exercício a minha imaginação, o meu desejo de 
conhecer meu pae, de consolar e distrahir minha 
mãe; estes foram os incentivos que crearam em 
mira a vontade de saber mais alguma cousa do 
que sabia para os poder aliviar. Depois que se 
incendiou e destruiu-se a Torre de Belém, trans- 
portaram meu pae para o Forte da Junqueira — 
ficou só, n'um cárcere quasi sem luz ...» Dava- 
se este facto por 1768: « eu teria então dez para 
onze annos, e como já sabia escrever ainda que 
mal, lembrou-rae fazer um plano de educação 
para as donzellas portuguezas ...» Essa ideia foi 
o estimulo para conhecer o que ignorava, e in- 
teressar-se pelas leituras, que lhe suggeriam no- 
vas curiosidades mentaes. Acordara a sua vocação 
litteraria a um apoio moral na terrivel apathia 
de uma crassa atmosphera de mulheres beatas : 
«eu não sabia nem francez nem italiano^ mas en- 
trei com tal zelo a estudar uma e outra lingua, 
que aos 13 annos entendia tudo. Li o Telernaco e 
varias outras obras de Mr. de Fénelon e a de mr. 
Ramsai, que traduzi toda em portuguez, e que 
ficou nas mãos do Bispo de Malaca, homem 
muito instruído e de muito engenho.^ Alludia a 
Fr. Alexandre da Silva, o seu apaixonado dire- 
ctor espiritual, tio de Garrett, que lhe manteve o 
gosto da poesia: «começou-me a tentar a leitura 
de Ferreira e finalmente Camões; elle quasi me 
fez endoudecer de enthuziasrao e fez desenvolver 
em mim esse tal qual estro que tanto recreava 
meu pae ; fui lendo tudo quanto achei e pude 
adquirir, — 600 volumes meus, quasi todos cheios 
de notas, para meu estudo e instrucção.> 

A parte mais interessante das cartas de 



SEGUNDA Época: os árcades 821 



D. Leonor de Almeida a seu pae, e o que refere 
acerca das suas leituras na reclusão das Alber- 
tas: « Procurei minorar o horror d'esta melan- 
cólica inacção com a lição que me é permittida. 
Leio todas as manhãs Bourdalone ou Penelon, e 
depois d'isto Historia, Poemas, Lógica, Mathe- 
matica e Physica. São as matérias de que gosto, 
e creio que me são perraittidos os livros em que 
me instruo, porque nenhum d'elles deixa de ser 
nomeado por V. Ex.^; a Historia natural faz as 
minhas delicias, e se V. Ex.» me privar d'isto, 
seguro que me priva d'aquillo que mais me 
recreia. Comtudo estou prompta para queimar 
Mr. de Buffon e todos os que me vierem á 
mão d'essa espécie. Eu creio bom que para uma 
tola seria prejudicial o conhecimento de alguns 
segredos de que tratam os naturalistas. . . A na- 
tureza desnudada e presente aos meus olhos não 
é mais do que uma maravilhosa obra do meu 
Creador que eu olho com respeito, com modéstia 
e com o receio que nas almas sensíveis produz a 
sublimidade. . . » N'esta mesma carta confessa que 
nunca lera as obras de Voltaire, mas tem um 
grande ajjpetite de lêr o Século de Luiz XI V. 
Em outra carta coinmujiica ao pae a nota dos 
sábios, de que tem conhecimento : « Mr. de Vol- 
taire, que é famoso ha mais de meio século, 
ainda agora se conserva á frente de uma multi- 
dão de sábios que o adoram como oráculo do 
gosto. — Um grande numero de obras suas tem 
apparecido depois da prizão de V. Ex.* ; sei que 
tem escripto sobre a Physica, a Moral, a Poli- 
tica, a Agricultura e sobre tudo (pianto se acha. 
Uma das mais celebres obras são as (luestões da 
Encijclopedia que por virem sem nome de auctor 
eu U, e \', Ex.a terá a bondade (le perdoar-me, 

21 



322 HISTORIA DA T ITTl- n \TT'ir\ TOIÍTUGUEZA 



se lhe parecer que a rainha humilde confissão o 
merece. J. Jacques Rousseau é, depois de Vol- 
taire, o mais famoso pelo seu eloquentíssimo es- 
tylo unido a uma profundidade de conhecimen- 
tos muito grande e a um génio philosophico o 
mais raro e o mais estranho, que o tem levado a 
umas singularidades, que ou a visão ou as pre- 
occupaçõcs chamam ridicularia. O caracter d'este 
homem é virtuoso, mas desgraçadamente segue 
essas ideias que não concordam com o christia- 
nismo e se concordam estão expostas de um modo 
que revoltam o mundo christão . . . Seguem-se Mr. 
D'Alambert e Diderot, dois homens raros, o pri- 
meiro do caracter mais amável que é possível, 
os seus escriptos são a rasão mesma, o seu estylo 
é claríssimo e mostra sem difficuldade a qualquer 
pessoa aquellas cousas que até agora eram só 
para um pequeno numero de escolhidos. A ma- 
thematica é o sou forte, mas elle com egual ha- 
bilidade maneja todos os escriptos e tanto nas 
sciencias como nas bellas letras escreve excellen- 
temente. Li d'este auctor quatro tomos, que con- 
tém diversas obras, e todos me encantaram. Di- 
derot, menos encantador que o seu amigo e 
collega, é também estimável ; tem composto ura 
prodigioso numero de artigos da Enciclopédia, 
é auctor de um tratado celebre chamado Código 
da Natureza, e attribuem-lhe os dois mais cele- 
bres livros que tem sabido n''este século, o Sys- 
tema da Natureza e o Sistema Social, os quaes 
são admirados e combatidos pelos dois partidos 
philosophicos e anti-philosophicos, em que está 
dividido o mundo litterario. Mr. de Buffon vive 
ainda e compõe obras excellentes, agora sahiu 
uma muito boa, Acrescentamento d Historia na- 
(t^ral. Marmontel, Tliomas, Dorat, Colardeau^ Arr 



tJEGiiNDA kpcica: i i.s ai;<:ades 



iiaud de Baculard, Disnieric, Sedaine, (Gresset). . . 
mas confesso em boa verdade que de nenhum 
gostei como de Boileau, Racine, Lafontaine o os 
do século precedente. » As cartas visavam a dis- 
trahir seu pae na estreiteza do cárcere da Jun- 
queira ; a par dos seus juizos litterarios, também 
lhe enviava composições poéticas e planos de 
obras litterarias ; ufanava-se do pequeno circulo 
com quem convivia na frequência do mosteiro, 
como Filinto, a quem dava o nome do poeta in- 
glez Prior, e Albano (Sebastião Ferreira Bar- 
roco) com o cyptonimo de Delille. O Marquez 
preoccupava-se com aquellas intimidades ; o seu 
talento litterario era uma condição para brilhar 
no mundo, e não consentiria que ella dispuzesse 
do seu futuro pelo impulso da phantasia. E' este 
o problema, quanto mais se accentuava a pró- 
xima libertação do cárcere da Junqueira. 

Abertos já os cárceres dos desgraçados prezos 
políticos, o militar Conde de Oyenhansen abjura 
do protestantismo e é baptisado no Oratório real 
de Salvaterra, diante de SS. MM. que foram 
seus padrinhos, tomando elle o nome de Pedro 
Maria José, e sendo depois reconhecido titular 
portuguez o Coiide de Oyenhansen. No anno de 
1778 realisa-se o casamento de D. Leonor de Al- 
meida com o allemão, ficando o Marquez de 
Alorna de mal com a filha que estimava, e que 
tão interessantes cartas lhe escrevera alumiando 
o seu tenebroso cárcere. O Marquez trabalhava 
incessantemente para conseguir a rehabilitação 
de seus sogros e cunhado, os marquezes de Tá- 
vora, sempre em agitação mrlancholica. Para 
evitar-lhe o contacto, D. L(>onor de Almeida acom- 
panhou o marido para o Porto, encarregado do 
connnando de uni regimento. Ella levou a aua 



324 HISTORIA DA LnTKR\ri'KA Í-OHTUGUEZA 



pequena livraria de 600 volumes, e ahi teve o 
seu primeiro filho. Apoz o coraraaiido no Porto, 
que era de commissão, o Conde de Oyenhansen 
foi nomeado para a Embaixada de Yienna, vaga 
pelo falecimento do velho diplomata pae de Go- 
mes Freire; com esse despacho de 1780 obteve 
da rainha, sua madrinha da conversão, a com- 
menda de Villa-Mean. Durante a assistência em 
Vienna, é que D. Leonor de Almeida conseguiu 
reconciliar-se com seu pae. A transição da vida 
claustral durante dezoito annos de terror politico 
para a corte faustosa de Vienna, que era então a 
capital da arte e do deslumbramento aristocrático, 
davam ensejo para a poética Alcipe brilhar com 
o seu talento, cultura e belleza. Essa phase, na 
corte de Vienna, passou-a com ininterruptas gra- 
videzes e doenças emergentes. Tinha cessado a 
austeridade da corte pelo falecimento da impera- 
triz Maria Thereza; reinava José n, inspirado 
por um fervoroso idealismo politico reformador. 
N'esse meio o exhibir espirito era prova de raáo 
gosto, como notara Varnhagen nas suas Memo- 
rias. As intimas relações que o imperador tivera 
com o Duque de Lafões, que então se occupava em 
Lisboa na fundação. da Academia das Sciencias, 
influíram nas manifestações de estima que pres- 
tou á Condessa de Oyenhansen dando-lhe a in- 
sígnia da Cruz Estrellada. Vivia então em Vienna 
o celebrado Abbade António da Costa, o amigo 
de Gluck, e insigne violinista ; em uma das suas 
bellas Cartas fez uma preciosa referencia á con- 
dessa, que merecera a distincção do velho poeta 
cesáreo Metastasio. Bis o que se lê na sua carta 
de 7 de Outubro de 1780: * O novo ministro de 
Portugal chegou aqui nos primeiros dias de Se- 
tembro ; para allemão, é agradável no trato, coin 



SEGUNDA v.ror.\: os árcades 3?5 



seus laivos de portuguez. Falei já comi a fidalga 
três vezes, e bastante, mas não tanto quanto é 
necessário para formar conceito d'ella, com acerto ; 
tem o agrado de portiigiieza ; e á primeira vista 
parece certo ser uma mulher de juizo ; faz bem 
versos, sabe francez, italiano, inglez e latim, e já 
principia a entender allemão.» íCarta xm). Viveu 
reconcentrada em Vienna^ entretendo-se, nas suas 
convalescenças, a pintar o seu quadro da Saudade, 
com que conseguira a reconciliação com seu pae. 
Nomeado o marido em 1788 marechal de campo, 
veiu com licença a Lisboa em 1790; e para íicar 
em Portugal, foi encarregado o palatino Conde 
de visitar nas três províncias do norte as forta- 
lezas e tropas respectivas, Miranda, Bragafiça, 
Chaves, Valença, Vianna e Porto, sendo por de- 
creto de 13 de Maio de 1791, nomeado tenente- 
general e inspector geral de infantaria. A con- 
dessa ficou viuva em 3 de Março de 1798, na 
fresca edade de quarenta e três annos. A sua 
actividade foi ^randomente dispendida em reha- 
bilitar seu irmão o marquez de Alorna, e rev in- 
dicar a Casa e titulo de que era herdeira. Assis- 
tiu a todas as grandes crises politicas europeias 
que se reflectiram em Portugal ; as brutalidades 
da Intendência da Policia, as invasões napoleóni- 
cas, a queda do Império, da Santa AUiança e a 
implantação do liberalismo de outorga, falecendo 
no agitado periodo de 1889, precursor do cabra- 
lismo. A sua vida litteraria confina-se n'esses 
dezoito annos da clausura politica nas Albertas 
de Chellas. Conviveu e foi admirada pelos poetas 
arcádicos e viu brilhar os iniciadores do Roman- 
tismo, mas só rhetoricamente é que se pode de- 
nominar a Stael portugueza. 



326 TiisTonix n.\ tjtí'í:r\tt-r\ portiioiieza 



José Anastácio da Cunha, (1744-1787).— 
Filho de um pobre pintor (brochante) do Alem- 
tejo, Lourenço da Cunha, e da sua consorte Ja- 
cintha Ignez, das proximidades de Thomar; nas- 
C(Hi em Lisboa, om 11 de Maio de 1744, esta 
criança, quasi desvalida pela precoce perda de 
seu pae, mas revelando-se como um assombro in- 
tellectual. Para que este obscuro producto do 
proletariado fulgisse através dos preconceitos de 
uma aristocracia de orgulho idiotice e de uma 
atmosphera de intolerantismo clerical deprimente, 
era preciso que as suas faculdades excepcionaes 
fossem reconhecidas. Um momento histórico poz 
em relevo o seu génio, mas para o tornar o alvo 
de todas as malévolas invejas, que o envolveram 
nas redes da Inquisição e da morte, aos quarenta 
e três annos, no vigor da edade e pujança do seu 
talento. O apparecimento de um génio é um phe- 
nomeno psychologico, que merece o máximo in- 
teresse ; um bloco de ouro ou um enorme bri- 
lhante, que deslumbra o mineral oi^ista, não reve- 
lam mais profundamente as forças da natureza 
physica, do que este complexíssimo accordo entre 
as forças orgânicas e as energias moraes. A bio- 
graphia é a forma d'este estudo psychico, que 
tira toda a sua luz dos detalhes e accidejites que 
accumula. Nada é banal n^esta ordem de pheno- 
menos. José Anastaeio da Cunha na orfandade 
foi protegido pela disciplina moral de sua pobre 
mãe, que fazendo notar o extraordinário talento 
do filho, obteve admissão na Congregação do Ora- 
tório, que substituia no ensino publico os Jesuítas 
expulsos pela reforma pombalina. Essas escholas 
do mosteiro das Necessidades tinham magníficos 
professores e excellentes compêndios elementa- 
res. José Anastácio da Cunha ahi estudou até 



SEGUNDA Épnr\: os árcades 327 



aos dezoito annos (1762) a Grrammatica latina, 
Rhetorica e Lógica ou Philosophia. Elle não se 
contentou com esse saber verbalista ; as doutrinas 
da Pliysica, então denominada Philosophia na- 
tural, interessavam-o, como se vê pela forma da 
Recreação philosophica do oratoriano P.*" Theo- 
doro de Almeida. A physica newtoniana levou-o 
para os estudos mathematicos, que elle realisou 
sem mestre, por sua curiosidade, como o decla- 
rou no interrogatório na Inquisição de Coimbra. 
Pascal notara que a Mathematica era uma scien- 
cia tão deductiva, que um espirito lúcido, por uma 
normal reconcentração, pode realisar os seus pro- 
cessos. Assim se passou com José Anastácio da 
Cunha; tendo recebido uma regular cultura phi- 
lologica dos notáveis humanistas da Congregação 
do Oratório, a sua aptidão mathematica tornou- 
se mais reparavel, pondo em evidencia aquelle 
excepcional talento. 

Em 1762, por ordem do governo, organisava 
o Conde de Lippe o (íxercito portuguez. mere- 
cendo o s(!U principal cuidado as armas scientilí- 
cas de Artilharia e Engenharia, para cujos qua- 
dros foram contractados ofticiaes inglezes e escos- 
sezes pelo seu saber technico ; é n'este esforço, 
que o talento mathematico de José Anastácio da 
Cunha é aproveitado pelo Conde de Oeiras, indo 
occupar o logar de segundo tenente de artilha- 
ria depois de organisado o Regimento da praça 
de Valença do Minho. Ahi entre a ofíicialidade 
ingleza encontrou a mais calorosa sympathia pela 
facilidade com que se tornou perito na lingua in- 
gleza, e pela maravilhosa facilidade com que tra- 
duzia para versos portuguezes os trechos lyricos 
de Pope, e as scenas trágicas de Shakespeare, 
que recitava, de uma maneira impressionante. 



328 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O coronel do regimento Perrier, o major Prazer 
estavam sempre em intima convivência mutua, 
conversando de litteratura franceza, ingleza e 
italiana, e com expansões philosophicas dos livre- 
pensadores, que dirigiam o espirito criticista do 
século, como Hobbes, Shaftesbury, Rousseau, Vol- 
taire e Diderot. Mas os estudos profissionaes da 
sua arma, occupavam-lhe o espirito, exercendo 
as suas considerações mathematicas sobre a ba- 
lística, então exercitada pelos livros especiaes de 
Belidor e Dulac. Estes auctores eram tão consi- 
derados theoricos^ que o Conde de Lippe os tor- 
nava obrigatórios no Exercito, como completos 
cânones da sciencia. José Anastácio da Cunha 
fez um estudo particular d'estes problemas em 
uma Carta physico-mathematica, refutando as 
ideias correntes de Belidor e Dulac. O Marechal 
Macleane, homem duro e de caracter implacável, 
quiz ver esse estudo do joven segundo tenente, 
e remetteu-o para Lisboa ao Marechal General 
Conde de Lippe. Este, deu ordem immediata, 
para que fosse prezo o official atrevido ; mas o 
Conde de Lippe, no seu intimo examinou a Carta 
physico-mathematica, e reconheceu que o joven 
official tinha razão, estava na verdade, e decla- 
rou-o a Macleane, para que restituísse José Anas- 
tácio da Cunha á liberdade e o louvasse. Passava- 
se isto em 1768, quando o Conde de Lippe re- 
gressara a Portugal, para verificar a efíicacia da 
sua reforma do exercito. Por sua influencia, o mi- 
nistro escreveu ao Marechal Macleane, para Va- 
lença, recommendando-lhe que nomeasse três jo- 
. vens officiaes portuguezes para irem fazer estudos 
mathematicos na Allemanha, e indicava ao mesmo 
tempo o nome de José Anastácio da Cunha. 
O Tenente-General Macleane, respondeu ao mi- 



SEGUNDA i':roc\: os árcades P.?9 



nistro acerca do seu recomraendado : < que o não 
mandasse, porque elle sabia mais que a maior 
parte dos Marechaes dos Exércitos de França, 
de Inglaterra e da Allemanha. E que he um 
d'aqnelles homens raros, que nas nações cultas 
costumam apparecer ". Quando o Marquez de 
Pombal fez a reforma da Universidade de Coim- 
bra em 1772, serviu-se d'estas palavras de Ma- 
cleane, para fundamentar a nomeação e incorpo- 
ração de José Anastácio da Cunha na Faculdade 
de Mathematica, e lente da cadeira de Geometria. 

A impressão produzida pelo contacto e conhe- 
cimento d'esse potentoso génio appareceu rela- 
tada com assombro em um jornal de Londres em 
1768, por um official inglez, em carta que vamos 
transcrever a uma nova e inesperada luz. E isto, 
é que nos. explica as invejas que entre os officiaes 
portuguezes da Praça de Valença surgiam, tra- 
mando a sua ruina em denuncias á Inquisição de 
Coimbra. N'aquella ingenuidade de homem de 
génio, José Anastácio entregava-se á idealisação 
poética, revelando novas formas de emoção ly- 
rica, inspirada pelo amor na sua florescente edade 
por uma rapariga da villa da Barca, d'esse typo 
admirável da belleza das mulheres do Minho, de 
perfeitas formas plásticas, estatura acima da meã, 
pelle tina, cabellos abundantes e pretos, fortes, 
saudáveis e delicadas, cantadeiras e confiantes. 
O seu génio mathematico, só pode ser reconhe- 
cido por profissionaes ; mas o seu lyrismo é domi- 
nante, para conhecer a elocução portugueza. Eis 
os dois aspectos em que se nos desvenda a sua 
vida. 

Este génio extraordinário, qui^ aos vinte annos 
é conhecedor das Mathematica» e da Physica 
newtoniana, que estudara por sua curiosidade. 



S;Vl III-TOUTA n.\ T.IT1FRATI'R\ rORTIJGIIEZA 



sem mestre, foi descripto em um jornal inglez, 
em ura admirável perfil de quem com elle tra- 
tara de perto e cora assombro. Esse juizo e apre- 
ciação psychologica foi traduzido pelo Dr. Vi- 
cente Pedro Nolasco e publicado no Investigador 
portiigaez, era Londrtís. Desconheceu o auctor 
anonyrao para fixar as suas impressões em tão 
vivas paginas, e também a época em que tratara 
intimamente com José Anastácio da Cunha. Pelo 
estudo do processo da Inquisição de Coimbra, 
viemos a fazer essa descoberta; o juizo fora es- 
cripto pelo Major Prazer, que em 1764, estava 
no Regimento de Artilharia de Valença, e José 
Anastácio da Canha contava vinte e quatro annos 
de edade. Picam valendo mais as paginas que 
vamos transcrever, pela sua authenticidade : 

« Não posso deixar Valença sem falar de um 
dos génios mais extraordinários, que jamais se 
ouviu. E' um moço de quasi vinte e quatro 
annos, Í1768) portuguez, e tenente de artilharia 
n'aquplla praça. E' de uma famiha pobre e sera 
alguma collocação; veiu a ser por força do seu 
engenho e grande applicação, um prodígio d'este 
século. E' tão grande raathematico, que o coro- 
nel B^errier, profundo n'esta sciencia, rae diz que 
este moço o excede em muito. Elle é senhor de 
todas as obras de sir Isaac Newton, * ainda n'aquel- 



' No catalogo dos cem volumes sequestrados pela 
Inquisição de (Coimbra, vem enumerados: 

Newton, Arimetica universal, em um volume de 
quarto máximo. 

Newton, Opnscula mathematice e Filosófico, etu. 
em seis volumes. 

Ahi se apontam as Obras de Euclydes, em latim e 
grego, e quasi todos os mathematicos do século xvii e 
xviii em inglez e francez. 



sKr.TTNDA Kror.A: os áiíc.xdes .'W1 



las partes mais escuras, que os mesmos mathe- 
raaticos julgam difíicultosas ; conseguintemente, 
é um algebrista completo, e um bom astrónomo. 
Tem-se applicado á sciencia particular ([ue se re- 
quer na sua profissão, que incluo engenharia, ar- 
tilharia e outras muitas cousas pouco necessárias 
em mathematicas puras. Mas, o que éVmdamais 
extraordinário, este moço accrescentara a esta 
applicação (que absorve a attenção de todos os 
que as estudam), um perfeito conhecimento da 
Historia, das Linguas e das Bel las Lettras. E' 
excellente poeta e bom critico, nas linguas mor- 
tas; sabe muito bem a' italiana, franceza, hespa- 
nhola e ingleza ; e o coronel Ferrier, que possue 
perfeitamente estas linguas e pode ser juiz compe- 
tente, affirma que este moco escreve a sua pró- 
pria lingua com mais pureza que muitos, e tal- 
vez que qualquer dos auctores mais celebres 
d*este paiz. Tem traduzido em elegante portu- 
guez, não só algumas das melhores obras de Pope, 
mas também algumas das nossas mais famosas 
Comedias. Também traduziu no mesmo idioma al- 
gumas peças <lo celebre poeta grego Anacreonte, 
por onde diz o coronel Ferrier, bem conhecedor 
do grego, que lhe parece que as graças d'estas 
peças, não só se conservam, mas se aperfeiçoam 
na sua traducção. — Parece que não emprega o 
seu tempo em estudar e pela sua grande timidez, 
não conversa ainda nas matérias mais indifferen- 
tes senão com os mais Íntimos amigos. E' tosco 
(desalinhado) na sua pessoa e familiaridades, e 
parece desconhtícer tampouco os termos da civi- 
lidade, quanto é versado em todo o género de 
sciencia e litteratura. Com seus amigos varias 
vezes re(!Íta algumas das molhores obras dos nos- 
sos poetas inglezes, particularmente Shakespeare 



í]33 HISTORIA DA LITTF.RATURA PORTUGUEZA 



e faz n'ene tal effeito a sua recitação que parece 
arrebatar-se ; e n'essas occasiões uma só gota de 
vinho do Porto, de que elle gosta, o faz inebriar. 
Este homem extraordinário parece a qualquer 
desconhecido um simples. Ri-se muito, e em todo 
o seu proceder não se descobre nenhuma d'aquel- 
las excellencias de que é ricamente adornado». 
Esta bella pagina, suggerida por impressões 
directas, recebe todo o seu relevo sabendo-se 
quem foi o inglez que a escreveu e em que época. 
Pelo processo da Inquisição "de Coimbra esclare- 
cera-se estas circumstancias. Em 17 de Janeiro 
denunciava o tenente de artilharia José Leandro 
Miliani da Cruz, que o tenente José Anastácio 
da Cunha tratava-se com grande amisade com o 
coronel do regimento Perrier, protestante, «o qual 
lhe pedia traduzisse algumas peças e versos de 
alguns livros francezes e inglezes, que elle fazia 
em verso portuguez, e d'estas traducções viu elle 
duas Orações, que continham algumas impieda- 
des e se vulgarisaram na dita praça de Valença, 
entre uma grande parte dos officiaes, e elle as 
viu na mão de D. Anna Bezerra, mulher do Go- 
vernador, — a qual as deu a elle réo para as ler; 
convém dizer, que o Major Frazer, inglez e pro- 
testante, que ao dito tempo residia na dita praça, 
d' onde se ausentou para Inglaterra, sua pátria, 
lisonjeara com a dita obra a dita Governadora >. 
[Process., íl. 76). A mulher do Governador Pinto 
Ribeiro não era ainda viuva, e ao tempo da par- 
tida do Major Frazer para Inglaterra José Anas- 
tácio da Cunha ainda não tinha completos os 
vinte e quatro annos, podendo fixar-se a partida 
do Major Frazer por meados de 1767. Ninguém fez 
esta descoberta, porque só em 1896, na Historia 
da Universidade de Coimbra (t. iv, p. 698) é que 



SEGUNDA Kr(»<:A: os ÁRCJAUES 'Sò?y 



divulgámos este elemento do processo inquisito- 
rial. Na Carta do Major Frazer, aponta-se com 
toda a naturalidade um facto, que no Processo é 
apresejitado com forma degradante. Refere Pra- 
zer, que José Anastácio da Cunha recitava poe- 
sias admiravelmente, e com tanta exaltação, que 
um cálix de vinho do Porto, bastava para ine- 
brial-o ; no processo inquisitorial relata-se que elle 
se embriagava, que estava por vezes bêbado. 
Esse génio incomparável, occupava-se a este 
tempo no estudo da Arithmetica universal de 
Newton. Prazer escreveu de José Anastácio da 
Cunha dez annos antes da execranda e brutal 
perseguição de Coimbra em 1778. Como seria se- 
vero o seu protesto se soubesse d'esse crime, que 
não se apagará da historia. 

No processo inquisitorial faz referencias á sua 
intimidade com o Major Prazer, < em que quasi 
todos os dias, e, muita parte da noite passava 
com os dois protestantes Perrier e Major Frazer, 
lendo algumas passagens de Voltaire, e mais de 
Horácio,* Ovidio e Pope, as traduzia para se en- 
treterem e divertirem, as quaes não tem lem- 
branças fossem de pontos de religião, mas ou de 
matérias amorosas ou indifferontes. . . » 

Em carta de 4 de Novembro de 1775, escre- 
via D. Joaima Isabel Forjaz para Coimbra a José 
Anastácio da Cunha, desculpando-se da demora 
da sua resposta: «Os seus versos, que eu tenho 
lido muitas vezes, achando-lhe seinpn^ uma nova 
b(ílleza, bastam para dar um grande merecimento 
ao seu Auctor; em que arrebatamenio era neces- 
sário (pie a Alma estivesse (piando se fizeram, 
((uanto soffria o coração! além d'isso as informa- 
ções de um tão bom conhecedor (;omo o seu 
amigo (João Baptista Vieira Godinho) e agora 



.334- HiSToruv, da littfp.stira portugueza 



de mil outras itessoas me falam no seu nome 
com respeito, tudo concorre para eu formar um 
justo conceito a seu respeito. Tenho uma grande 
curiosidade de saber toda a sua historia ; Jião 
haverá umas férias que me dêem occasião ? e 
será certo o (lue me disse o D. Rodrigo (de Sousa 
Coutinho, Linhares) : Um Filosofo! (um Filosofo!) 
traça um casamento ! e eis aqui, a meu vêr, uma 
contradicção da Filosofia. A sua correspondência 
fará menos triste a minha solidão; eu espero que 
sempre m'a continue : sempre terei a satisfação 
de confessar-me — muito sua verdadeira — Joanna 
Isabel. Lisboa, 4 de Noveml)ro de 1775.- 

Porque razão não fizeste, 
Justo Céo, por(]iio razilo 
Meuos áspera a virtude 
Ou rruiis forte o coração? 

* Quem sabe tão bem defender os direitos da 
Natureza, glosará muito bem este quarteto*. 
{Process., í\. 45). 

Esta carta foi (;nc(mtrada entre os papeis do 
Dr. José Anastácio da Cunha, quando 'a Inquisi- 
ção de Coimbra fez a apprehensão e sequestro de 
quanto o sábio illustre tinha em casa. Serviu de 
carga para o julgamento, sendo interrogado sobre 
o caso. Pelas respostas á inqtiirição, sabe-se que 
o Dr. José Anastácio da Cunha viera nas férias 
de 1777 a Lisboa, e que visitara D. Joanna Isa- ^ 
bel Porjaz, á qual entregara alguns Sonetos 
amatorios^ talvez com intuito de revelar-lhe o 
seu passado sentimental, ioda a sua historia, 
que esta tinha tanta curiosidade de saber. Bis o 
qtie se lê no processo : 

« Perguntado se elle réo traçou algum casa-^ 
monto, e, sabendo-o alguma pessoa o arguiu d'e3te 



SEGUNDA época:. OS ÃRrADES 035 



intento, dizendo que elle contradizia a sua Filo- 
sofia? — Disse, que se persuade ser isto ponjue 
se lhe pergunta, o que se passou com Dona joanna 
Isabel Porjaz, a qual em uma occasião lhe man- 
dou dizer, escrevendo-lhe de Lisboa para esta 
Universidade, lhe parece que haverá trez annos, 
que tinha ouvido dizer que este casava e que 
isto contradizia a Filosofia, ou que se admirava 
que um Filosofo quizesse casar_, mas não sabe 
em que sentido ella dizia isto, pois elle réo nunca 
lhe deu noção alguma de Filosofia que contra- 
dissesse o estado de Matrimonio ; e que com a 
dita senhora teve muito pouco trato, e só o de a 
visitar algumas vezes por cerimonia e a temi)o 
que estava assistida de outras visitas ; e se per- 
suade que esta carta se adiou entro os seus pa- 
peis e também a resposta minutada que lhe fez, 
na qual resaUava o nome de Filosofo, que ella 
lhe dava. E que n'uraa das occasiões que a visi- 
tou em Lisboa lhe deu uns Sonetos amatorios, 
que havia muito temj)o tinha feito, e nada con- 
tinham contra a religião, por ella lhe ter pedido 
com instancia que desejava ver alguma obra 
sua, e que nada mais se lembra a respeito d'esta 
pergunta >. (Process., fl. 108). 

Como a illustre dama conhecia o grande va- 
lor intellectual do Dr. José Anastácio da Cunha, 
um génio mathematico que se revelara sem mes- 
tre, pelo seu esforço pessoal, e que aos vinte e 
nove annos o Marquez de Pombal o incorporara 
como lente na Faculdade de Mathematica, um 
fervoroso interesse lhe inspiraram as poesias Iv- 
ricas d'esse extraordinário espirito, arret)atado 
por um realismo empolgante. Era toda esta his- 
toria, que tanto desejava saber. E' natural que 
os amigos de José Anastácio lhe falassem da 



330 HISTORIA DA I,HlEl!VnH\ l'URTUGUEZA 



Margarida, a Marfida que celebrara nos seus 
versos, o que era notado no regimento de arti- 
lharia de Valença. Como essas relações eram do 
tempo da guarnição de Valença, e a Margarida 
lhe escrevia para Coimbra, d'aqui a pergunta in- 
sidiosa do casamento do Filosofo. 

No seu interrogatório voltam os Inquisidores 
ao caso da glosa pedida por D. Joanna Isabel 
Forjaz : «Perguntado se alguma pessoa lhe pediu 
que glosasse este quarteto : — Porque razão não 
fizeste, dizendo-lhe que quem sabia defender tão 
bem os direitos da Natureza, glosaria muito bem 
este quarteto ; se o glosou ? e como ? 

«Disse que este quarteto lh'o mandara a sobre- 
dita senhora, para glosar, do que elle se excusou, 
porque nunca se occupou n'este género de com- 
posição de glosar Motes, e o que também ella 
na mesma carta dizia — attribue a ter-se elle con- 
tradicto do systema que lhe queriam attribuir de 
Filosofo, e da extravagância de não querer casar 
por systema de Filosofia. . . » (Fl. 108, v.) 

O sábio e poeta defendia-se do pharisaismo 
inquisitorial ; mas é certo que glosou vários Mo- 
tes, e no Manuscripto dos seus versos, coUigidos 
por João Baptista Vieira Godinho, lá se encon- 
tra este Mote com a sua glosa : 

Quando te não conhecia, 
Nada de ti so me dava, 
Sem pensamentos dormia, 
Sem cuidados acordava. 

A que ajuntou : o- Glosa pedida^. Achamos em 
muitos manuscriptos dos fins do século xvni muito 
glosada esta estrophe. O que incitaria 1). Joannalsa- 
bel de Lencastre Forjaz a pedir ao poeta philoso- 
pho o desenvolvimenlo da tiiese implicila no Mote: 



SEGUNDA época: OS AHCADES 



Porque rasão não fizeste, 
Justo Céol porque rasão, 
Menos áspera a virtude, 
Ou mais forte o coração? 

Ella vira uma Glosa, com sentido amoroso, 
dirigida a Tirse, D. Thereza de Mello Breyner, 
poetisa do grupo de Alcipe, em que se lia : 

E' mais forte que o preceito 
A minha terna paixão; 
Por Tirse o meu coração 
De amor e ternura estalai 
Ha-de ser crime adoral-a? 
Jnslos Céos l porque rasão f 

Rasão tinha D. Joanna Isabel Forjaz em que- 
rer saborear o conceito philosophico d'aquelle 
alto espirito. A glosa fez-se ; em uma collecção 
poética de 1802, vem apontada no índice pag. 
162, mas a pagina respectiva foi bifada d'esse 
volume encadernado em pergaminho. Na Pequena 
Ghrestomatia portiigueza, de Hamburgo, de 1809 
(pag. 162) vem transcripta sob o nome de José 
Anastácio da Cunha : 

Triste humana geração 1 
Das ohras da Natureza 
Se tens a mesma bellezn, 
Tens a peior condição. 
Na tua mesma rasão 
Mil estragos concebeste. 
Tyranno Céo ! se quizesto 
Só homens de peitos broncos, 
Tudo pedras, tudo troncos. 
Porque rasão não fizeste ? 

Se uma Lei severa o dura 
Contraria á lei do prazer, 
Haria de desfazer 
A doce lei da ternura, 
De outra mais forte ostruotura 
22 



338 HISTUHIA DA LimíRATURA PORTUGUEZA 



Fora o nosso coração; 
Insensível da paixão 
Ao suave.' brando effeito, 
Porque rasão não foi feito? 
Justo Céo! porque rasão ? 

Em que pode ser culpada 
Uma alma terna, innocente, 
Se de uma paixão ardente 
E' victima desgraçada? 
Não tem culpa em ser formada 
De cera e não seixo rude ; 
O Céo que a fez, a mude. 
Se não quer sua desgraça, 
Ou mais Compassivo faça 
Menos áspera a virtude. 

Toda a rasão se despresa 
Com o fogo das paixões, 
Só furiosos dragões 
Tem por si a Natureza. 
A nossa alma vê-*e preza, 
E acha suave a prizão. 
Torne o Céo por compaixão, 
Por lei branda, lei affavel 
O crime menos amável 
Ou mais forte o coração. 

O manuscripto das Poesias, que se guarda na 
Bibliotheca Municipal do Porto, começa por uma 
Ode sob a rubrica: Tendo 16 annos. Vê-se que 
já nas escolas do Oratório, em 1760, começara os 
seus ensaios poéticos, que foram dirigidos com 
felicidade, porque tomou conhecimento dos dois 
grandes lyricos Camões e Francisco Rodrigues 
Lobo, que conservava na sua bibliotheca appre- 
hendida pela Inquisição. Em Valença foi susci- 
tado a exhibir a sua habilidade poética pela Aca- 
demia dos Unidos á qual dedicou uma Ode pin- 
darica. Ha também alii trez .Sonetos Ao Rancho 
do Alecrim^ cm opposiçÕM ao das Ferpetiias, de 



SKC.INDA l.rDCA: os AKCADF.S 



Valença. Ahi também se encontra um Elogio ao 
Marquez de Pombal, que deve attribuir-se a 
1770. Mas a sua revolução poética foi provocada 
pela leitura das poesias philosophicas de Pope, 
\"oltaire e Shakespeare, e na expressão amorosa 
incomparável com os amores da rapariga da villa 
da Barca, Margarida, que se lhe entregou em abso- 
luto dominada pelo génio surprehendente que 
ella adivinhava e admirava. Os versos que ella 
inspirou, como A Espera, Noite sem somno, O 
Abraço, Saudades, espalharam-se pelos curiosos, 
e foram colligidos, por ai)reciadores vários, com 
que Innocencio Francisco da Silva em 1839 fez a 
sua edição, que hoje bem merecia ser ampliada 
com a parte que está inédita no textí) de João 
Baptista Vieira Godinho. D. Joanna Isabel de 
Lencastre Porjaz, sendo visitada por José Anas- 
tácio da Cunha, que ella tanto admirava, recebeu 
da mão d'elle alguns Sonetos amatorios. Assim 
o declarou o poeta em uma audiência da Inqui- 
sição. Esses Sonetos amatorios eram já no estylo 
camoniano ; perderam-se pelas coUecções dos in- 
conscientes curiosos^ Em um Manuscripto de 1802, 
em que vem Motes que José Anastácio da Cunha 
glosou, vimos os seguintes Sonetos que bem con- 
dizem com o começo dos seus amores com a Mar- 
garida. No que vae lêr-se o matliematico transpa- 
rece na expansão do poeta : 

Em ti mil graças soinpre estão chovendo; 
Se falas, graças mil se estão ouvindo; 
Mil graças n'essa booca se ostão rindo, 
Graças mil n'ess6s olhos so ostão vendo. 

Utnas beijam-te as mãos; outras, correndo 
A teus mimosos pós to vão seguindo. 
Umas por tuas faces vem subindo, 
Outras por teus cabellos vem descendo. 



o40 HISTORIA DA 1,11'] EKATI i|!A rORTUGUEZA 



Não são só Trez as Graças ! milhões d'ellas 
Que te acompanham a gentil figura 
Ficam, postas em ti, sendo mais bellus. 

Já quiz oontal-as; mas achei loucura 
Que é reduzir a numero as Estrellas 
Contar as graças n'essa formosura. 



Ondeados, lindíssimos cabellos, 
Um rosto encantador enamorado. 
Em cada face um pomo sazonado, 
Das purpúreas flores são modelos. 

Um meigo coração que faz ter zelos. 
Ao coração mais terno e socegado ; 
Uma voz carinhosa, ura doce agrado. 
Um riso natural, uns dentes bellos. 

Tudo possue Marfida! Oh quem pudera 
Doces prizões rompendo do segredo, 
Explicar-te a paixão que n'alma impera. 

Emfim, soltar-se a voz ; mas,^oh que medo, 
De mais um desengano que me espera, 
Mais immovel me deixa que um rochedo. 



Vão-se os leves instantes, vão-se as horas 
Que vivo sempre em tristes esperanças; 
Sem que tuas injustas esquivanças 
Deixem de sor da mim perseguidoras. 

Dize, alma gentil, porque demoras 
Minha sorte feliz? porque descansas? 
Acaso tens de mim desconfianças? 
Inda a firmeza de meu peito ignoras? 



SEGUNDA KPOr.v: os ÁRCADES 341 



Ah, quão louco te illude o pensamento 
Mas para que não julgues que te engano 
Escuta meu sincero juramento : 

" Se eu deixar de te amar, fio lôr tyranno. 
Contra mim seja o Céo, Mar, Terra e Vento, 
Conspirados por ti sempre em meu damno , 



Contra o poder de vossas mãos. senliora. 
Quem lia-de resistir? Se basta vêl-as. 
Para morrer de amor por gosto n^ollas, 
Para vos declarar por vencedora. 

A mesma Natureza se enamora 

De tão formosas mãos. de mãos tão bellas, 
E se eu sou digno de jurar por ellas 
tluro que outras eguaes não faz já agora. 

Por ellas deixa Amor da Mãe os braços, 
E beijando-as, os férreos passadores 
N'ellas vos põe já feitos em pedaços. 

Pois acha vossas mãos mais superiores 
Mais suaves farpões, mais doces laços 
Para prender, para matar do amores. 

Nos proce.^sso.s <la Inquisição exigia-so ao dos- 
graçado i)rezo a confissão declarando de quem 
era filho, quando nascera o os factos lembrados 
da sua vida ; é nos documentos auto-biographi- 
cos que se acham esses factos. Em sessão de 1 
de Julho de 1779 fez José Anastácio da Cunha 
essa confissão, que é uma base segura e authen- 
tica para a sua vida. Era natural de Lisboa, de 
trinta e cinco annos de edade (nascido em 1744) 
e filho de Lourenço da Cunha, já falecido, natu- 
ral do Alenitejo, pintor, i.sto é, i)rochante ; e sua 



TITSTnr.TA DA LITTERATURA POnTITr.TIF.ZA 



mãe se chama Jacintha Ignez, natural de Tho- 
iiuxr, e fora baptizado na íreguezia de Santa Ca- 
tharina. Pelo Assento do baptismo publicado por 
Innocencio, fixa-se o dia do seu nascimento em 
11 de Maio de 1744: «E que elle estudou Gram- 
matica, Rhetorica e Lógica na Casa da Congre- 
gação do Oratório de Lisboa de N.^ S/* das Ne- 
cessidades, e Física e Mathemnticn por suas 
curiosidades e sem mestre. — Que tendo sido elle 
bera educado e muito christãmente nos seus pri- 
meiros e tenros annos, por sua mãe, que é vir- 
tuosa, e depois até á edade de dezoito annos 
(1762) pelos Padres da Congregação do Oratório 
de Lisboa, onde fez os seus estudos, e com os 
quaes tinha um trato muito familiar e intimo. 
Na edade de dezenove annos_, por lho offerecerem 
a patente de Tenente (Bombeiros artilheiros) para 
o Regimento de Artilharia que se formava para 
a praça de Valença do Minho, a acceitou e par- 
tiu para a dita praça, a exercer n'ella o seu posto; 
e como era instruído na lingua franceza, e sem 
difficuldade apprendeu também a ingleza, foi 
tendo muito trato, familiaridade e amisade com 
o Chefe e Ofíiciaes do mesmo regimento, protes- 
tantes, e especialmente com o seu capitão Ri- 
cardo Moller, com o brigadeiro Diogo Ferrier, e 
com o barão de Hermenthal, e com os quaes an- 
dou quasi inseparável, em todo o tempo que re- 
sidiu n'a(|uella praça, que foi de nove para dez 
annos, e lhe parece que até o de 1773 em que 
veiu para Lente de Geometria, (Kesta Univer- 
sidade. 

« Disse mais, que o seu génio, não só em Va- 
lença, mas nVsta cidade, tem sido sempre reti- 
rado e de pouco trato familiar», B explicando a 
omissão de varias particidaridades, elle confessa 



SKnu.vnA r-;pfir\: os árcades 343 



« que ordinariamente lhe succede não fazer me- 
moria de cousas passageiras, e ter ainda um 
grande descuido pelo que respeita á sua econo- 
mia e interesses particulares, pois occupado todo 
em suas meditações no seu estudo de Mathema- 
ticas, pois muitas vezes lhe succedia estar dis- 
trahido das mesmas conversações que ouvia e 
não respondia a ellas a propósito. . . -> 

Do João Baptista Vieira Godinho, que fez 
uma compilação dos seus versos, a qual se acha 
hoje na Bibliotheca Municipal do Porto, declara 
José Anastácio da Cunha, no processo : « que em 
Valença teve alguma amisade com um tenente 
do seu regimento, chamado João Baptista, ou 
para melhor dizer, este a procurava ter com elle, 
mostrando que muito a desejava, ainda que elle 
não se lhe entregou muito e se retirava d'isto 
por ser conhecido no regimento de génio intri- 
gante ; e tendo o sobredito muita paixão pela 
Foesin, fazia copias e collecções de todas as 
obras poéticas que podia haver á mão, e elle réo 
lhe deu algumas que tinha feito de versos ama- 
torios, e então lhe parecia que também lhe deu 
a traducção das duas Orações de Voltaire e de 
Pope, que tem declarado, e foi tão astuto, que 
estando em Lisboa, e elle réo em Almeida, sa- 
bendo de um sargento que copiava a obra de 
Mathematica, que andava trabalhando, conseguiu 
d'elle lhe mandasse uma copia para Lisboa, sem 
que elle réo soubesse, e tudo alli mostrou a seu 
mestre o P.^ Joaquim de Foyos, da Congregação 
do Oratório ou parte ; de que resultou escrever- 
Ihe o dito Padre, e mandar-lhe outro prologo 
para a dita obra, por não gostar do que elle tinha 
feito, e elle réo lhe respondeu e lhe parece lhe 
escreveu n'esta occasião duas cartas, e recebeu 



344 HISTORIA DA LITTKHATITRA I^OliTUGlIEZA 



d'elle outras duas, e tem alguma remota lem- 
brança que o dito Padre, ao mesmo tempo que 
lhe louvava a obra, o repreheudia de alguma li- 
berdade nos versos, que julgo serem os amato- 
rios, ainda que não pode com certeza dizer se 
o dito João Baptista veria a obra intitulada Ve- 
ritati Sacrurn, ou por lh'a mostrar o Brigadeiro 
ou porque elle réo lh'a mostrasse estando bêbado, 
porque não tem lembrança alguma de lh'a ter 
mostrado. E que também não pode dizer com 
certeza se o dito P.** Poyos chegaria a vêr a dita 
obra porque o João Baptista lh'a mostrasse, mas 
por lhe parecer se a visse, por ser muito escru- 
puloso, e muito seu amigo, não descansaria até 
não conseguir d'elle réo que buscasse o remédio 
da sua alma. 

« Disse mais que o dito Padre reteve em seu 
poder todos os versos que lhe mostrou o dito 
João Baptista, pelo escrúpulo que fez d'elles se 
divulgarem por estarem muito livres nos costu- 
mes; e em uma occasião em que elle foi a Lis- 
boa, no primeiro anno em que elle veiu para esta 
Universidade (1773) buscando ao dito seu Mes- 
tre, este não cessou de o exhortar a que tivesse 
uma vida christã e virtuosa, e que não esque- 
cesse os bons princípios que tivera n'aquella Casa, 
e lhe mandou fazer e repetir uma confissão de fé, 
que elle réo fez, segurando-o de que o seu discí- 
pulo não o enganava». Estas boas relações com 
os padres oratorianos de Lisboa, fizeram que na 
sentença a reclusão claustral de trez annos fosse 
no mosteiro das Necessidades, tendo anteriormente 
escolhido para seu director espiritual o P.' Theo- 
doro de Almeida, auctor da Recreação philoso- 
phica. A copia dos seus versos, feita por Vieira 
Godinho, que se guarda na Bibliotheca do Porto 



SEGUNDA EFOrX: 05í ÁRCADES 



tem os versos Veritati Sacrum. Vieira Godinho 
faleceu no Rio de Janeiro em 11 de Fevereiro 
de 1811, no posto de tenente-general. O livro es- 
teve na livraria do Conde de Linhares, D. Ro- 
drigo de Sousa Coutinho, d'onde por seu faleci- 
mento o rouharam, e adquirido por Caniillo Cas- 
tello Branco, veiu pjor doação do Conde de 
Azevedo para a Bibliotheca municipal portuense. 
O exemplar das suas poesias, que possuía só José 
Anastácio da Cunha, passou para o poder do In- 
tendente Pina Manique, quando o desgraçado gé- 
nio ensinava mathematica elementar na Casa Pia, 
e nas ajjprehensões de livrarias particulares passou 
do filho herdeiro do Intendente para a Bibho- 
theca nacional, como se lê no relatório de Fer- 
reira Gordo. 

Assim que o Marquez de Pombal, pelo faleci- 
mento do rei, ficou afastado do poder, começou 
immediatamônte a reacção contra a sua obra re- 
formadora da Universidade de Coimbra. E o que 
é para reparos é reconhêcer-se que esse impulso 
de retrocesso partiu do seio da })ropria Universi- 
dade, da sua alta direcção. Pela acclamação, 
vindo a Lisboa o reitor I). Francisco de Liamos, 
ficou exercendo as suas funcções o Dr. José Mon- 
teiro da Rocha, vice-rtntor. O ex-jesuita tratou 
logo de preparar a intriga para entregar José 
Anastácio da Cunha á Inquisição de Ck)imbra; 
retirado desde logo do seu logar de lente da Fa- 
culdade de Mathematica. Lê-se na carta regia de 
5 de Fevereiro de 1778: 'Con.-ítando a S. M. — 
pela noticia (jue ultima mente participou o Vice- 
Reitor da Universidade, que no Bispado de 
Coimbra se tinham espalhado muitos Livros de 
perniciosa doutrina, não só capazes de corromper 
os bons costumes, mas et;ualmente contrários á 



340 HISTORIA DA T.ITTERATURA FORTUGUEZA 



santidade da religião catholica, e ao socego pu- 
blico ; ordena — apprehensão de todos os Livros 
que se puderem descobrir d'aquella depravada 
doutrina em qualquer parte, onde e om poder de 
qtiaesíjuer pessoas em que forem achados, sem 
excepção alguma d'ellas e applicando todos os 
meios mais efficazes para se evitar semelhante 
abuso >, O meio jnais efficaz seria a intervenção 
do Santo Oíficio, que era descricionario e abso- 
luto. Pela forma dos seus processos, a Inquisição 
tinha sempre meios de lançar as suas redes a 
qualquer individuo, porque a simples referenciada 
um nome bastava para esse nome ficar inscripto 
em canhenho especial, o dando-se o caso de uma 
segunda referencia, isso bastava para instaurar 
processo forçando esse individuo a declarar quem 
eram os seus accusadores, ou na giria do tribu- 
nal, quem lhe batia. 
' No anno anterior de 1777 foram prezos para 
a Inquisição de Coimbra alguns officiaes do re- 
gimento de artilheria de Valença; a Margarida 
(Mar/ida) dos versos de José Anastácio da Cu- 
nha escreveu-lhe sobresaltada para Coimbra, por- 
(]ue ouvira dizer que elle iria fazer companhia ao 
Miliani. Com data de 12 de Dezembro lhe escre- 
via: «e quando n'isto fallaiam também te invo- 
caram, perguuiavam-me se eu sabia da tua 
vida ». A pobre rapariga presentia que se tra- 
mava iia sombra, e escrevia-lhe : «tomara saber 
o fim d'estas cousas, e se é certo o mais do mais 
que te relato, eu fico cora grande cuidado». 
O joven lente não suspeitava que andava es- 
piado por alguns lentes e estudantes, vivendo na 
intimidade de pessoas cultas que frequentavam 
esses serões litterarios no bairro de San Bento, e 
escreveu á apaixonada Margarida afugentando- 



SFGiTNínA r:pon\: os arcader 



lhe os terrores. Em data de 1 1 de Fevereiro de 
1778, escrevia ella ao adorado José: «fiquei 
mais descansada da paixão que tinha havia 
poucos dias antes de receber a tua carta, que me 
affirinaram tu estares fazendo companhia a Lean- 
dro e aos mais todos. Estas malditas noticias me 
chegaram ». O processo estava a ser organisado 
sobre as denuncias. Em 7 de Janeiro de 1778, 
entrava no cárcere (hi Inquisigão de Coimbra o 
Tenente de Artilharia aquartelado em Vianna 
José Leandro Miliani da Cruz, e dez dias depois 
denunciava no interrogatório do tribunal o in- 
signe lente de Geometria, pela sua grande ami- 
sade com o brigadeiro do regimento Perrier e 
outros officiaes inglezes protestantes, e que lhe 
pedia traduzisse algumas peças e versos de alguns 
livros francezes e inglezes, que elle fazia em 
verso portuguez, e d'estas traducções viu elle 
duas Orações^ que continham algumas impieda- 
des, e as vulgarisou na dita praça de Valença, 
entre uma grande parttí dos officiaes e elle as viu 
na mão de I). Anna Bt?zorra, riudher do llover- 
nador. . ., e declara que quando a vira (n Oração) 
lhe não percebera logo o veneno que ella em si 
continha, mas que só admirou a elegância e en- 
genho com (jue estava feita, e que por este mo- 
tivo a apprenderam de cor, e se bem se lembra 
eram concebidas n'esta3 ])alavras, a sal)er: a pri- 
meira: 

Pae tio tudo, a quem sotnpro, oiu U)iia a paito 

Tributa os oulLos sons, 
O Santo, ou o aolvageui ou Filosolo, 

.lehovah, Jovis ou Deus. 

Tn, oh l'rirneira Cous«, a mais ooculta 

líin cujo immenso pt^go. 
Submergido, a minha alma só conhooe 

Que tu Ó8 bom o ou oego. 



.Vi8 HISTORIA DA T.TTTF.H \TrRA TORTUGUEZA 



No Auto de denuncia da Oragão universal, de 
Pope, apenas se lembrou Miliani de outras estro- 
phes, alteradas e estropiadas, em relação ao texto 
impresso, que se publicou em 1839, tendo mais sete 
estrophes. Mas isto basta para fundamentar a 
accusação de Deísmo. No interrogatório de 12 
de Fevereiro, cita o nome de todos os officiaes 
inglezes com quem convivia José Anastácio da 
Cunha < com os quaes em differentes vezes, tra- 
tavam-se pontos de religião, extrahidos de livros 
Ímpios, de que frequentemente se fazia ecco, al- 
gumas vezes cahiu na miséria de confirmar com 
palavras de approvação o mesmo que elles di- 
ziam...» Este facto de ura réo vir delatar ou- 
trem era uma pratica generalisada pelos Sigillis- 
tas de Coimbra, o que tornava o tribunal de 
Coimbra mais terrível do que os de Lisboa e 
Évora. 

No processo do cadete de Artilharia Henrique 
Leitão de Sousa, em data de 7 de Janeiro de 
1778, amplia a denuncia contra José Anastácio 
da Cunha, referindo a Oração poética, a Oração 
de Voltaire: «que haverá um anno vira nas mãos 
de José Leandro — entre outras obras manus- 
criptas de versos . . . huma Oração, que a elle lhe 
parecera, ter alguns erros i»npios contra a ver- 
dade da Religião christã, a quem ouvira também 
depois repetir a alguns dos mesmos officiaes pro- 
testantes, e achou finalmente em um dos livros 
de Volter, e ouviu dizer («ue havia annos a tra- 
duzira do original francez na lingua poriugueza 
o tenente que então era do mesmo regimento, 
José Anastácio da Cunha, hoje lente de Geome- 
tria n'esta Universidade, e pela ouvir repetir mui- 
tas vezes, como tem dito, a aprendeu de cor. . . 
e é como segue : 



SEGUNDA j:j'o(:a; <»s árcades ;j4lJ 



Oh Deus ! a quem tão mal o homem conhece 
Oh Deiisl a quem todo o universo acciama 
As palavras escuta derradeiras 
Que a minha bocca forma. 

Se me engano, foi tua santa Ley buscando, 

Pode o meu coração da boa estrada 

Perder-se; mas de ti sempre está cheio. 

Sem me atemorisar. diante dos meus olhos, 

A Eternidade vejo, o crer não posso, 
Que um Deus, que o ser me deu 
Que um Deus, que tantas bênçãos 

Lançado tem sobre os meus dias, 

Agora, extinctas elles, finalmente 

Haja de atormentar-mo eternamente. 

São estes dois factos, a simples versão portu- 
gueza das poesias de Pope e de Voltaire, os dois 
typos de lyrisrao do futuro, as Orações que ser- 
viram de fundamento ao processo inquisitorial e 
condemnação de relaxe ao braço secular (eu- 
phemismo de queimado vivo) que serviram para 
engendrar a sentença contra José Anastácio da 
Cunha. As outras denuncias espontâneas, de que 
entrara na egreja de Santa Clara e sahira sem ter 
ajoelhado; que offerecia em sua casa chá e tor- 
radas ás visitas com leite e manteiga, sem se im- 
portar com o preceito da abstinência. Organisado 
com todas as formalidades, começou o processo 
em 19 de Setembro de 1778. Ahi lhe fez carga 
ura sargento Freire, de Valença: « que elle es- 
tava publicamente amancebado com uma moça 
chamada Margarida, que se dizia ser da villa 
da Barca, e tendo-a fim sua casa contirmamente; 
e nas suas poesias e versos que fazia se lembrava 
da sua Margarida, o que mostra bem clara- 
mente que elle fazia gala do seu peccado-. 

Com animo sincero elle declara o seu senti- 
mento deista, que tanto se manifestara nos n^ais 



'S){í HISIOUIA DA l.iíItliAlbHA VUHLViiVK/.A 



altos espíritos do século xviir, como se vê era 
Voltaire e Rousseau : < que no tempo dos seus 
erros se persuadiu muitas vezes, ser a Ley Natu- 
ral a melhor, e a que só bastava para a salva- 
ção ; e que todo o que obrava em observância 
d'ella, como a sua razão lh'o dictasse, lhe faria 
merecer o premio eterno, pois que também con- 
siderava haver um Deus Justo e Remunerador, 
mas que não fizera d'esta crença systema fixo, 
porque muitas vezes mudava de opinião, lem- 
brando-se de não ter sufficientes estudos...» 
No interrogatório inquisitorial, de 27 de Ju- 
lho de 1778, inquiriram qual era o valor que li- 
gava aos philosophos do livre-pensamento : «Per- 
guntado se esteve persuadido de que os Filóso- 
fos, taes como tem sido o apóstata Voltaire, o 
atheu Spinosa, o irapio Hobbes, o sceptico Bayle, 
o fatalista Uollins", o temerário auctor dos Pen- 
samentos philosophicos e toda esta multidão de 
escriptores modernos, copistas e mestres de im- 
piedades, não faliam mais que a favor da Rasão, 
e que elles amam a Religião e detestam a su- 
perstição, e que é necessário, não somente tolo- 
ral-as, mas respeital-as como os Mestres e os 
bemfeitores do género humano ?> José Anastácio 
da Cunha declarou que especialmente a Voltaire 
é que reconhecia como um bemfeitor do género 
humano pelos seus sentimentos de liberdade po- 
litica e de consciência, como um puro Deista. 
Ainda tinha de passar-se um século para que a 
Historia do Materialismo pudesse ser feita lar- 
gamente, como a realisou Lange. Essas doutri- 
nas alarmaram todos os espiritos; e José Anastá- 
cio da Cunha declarou mais: « Que haverá um 
anno, (1777) achando-se em Lisboa, e indo uma 
manhã á cerca dos Padres da Congregação do 



SEGUNDA ÉrOCA: OS ÁRCADES .i"»! 



Oratório e Casa de N.^ S.* das Necessidades, d'esta 
cidade, em companhia de João Pinto Bezerra Sei- 
xas, estudante n'esta Universidade, e D. Rodrigo 
Henriques, casado — na conversação que alli tive- 
ram perguntou este a elle réo se tinha visto o 
Systema da Natureza, e mais alguns outros livros 
que nomeou e de que agora se não lembra, mo- 
dernos, e se não lembra da resposta que deu ...» 

Conclusos os autos em 15 de Setembro de 
1778, foram de parecer os Inquisidores de Coim- 
bra, que elle era — convicto do crime de Heresia 
e Apostasia, por se persuadir dos erros de Deismo, 
Tolerantismo e Indifferentismo, tendo para si e 
crendo que se salvaria na observância da Ley 
Natural, como a sua rasão e sua consciência lh'a 
ditassem ...» 

Em 6 de Outubro de 1778, o Conselho geral 
da Inquisição de Lisboa, dava a sentença: «que 
vá ao Auto de Fé publico em habito peni- 
tencial e se declare que incorreu em excommu- 
nhão maior e em confiscação de todos os seus 
bens, recluso por trez annos na Casa das Neces- 
sidades da Congregação do Oratório, e degradado 
por quatro annos para Évora, não podendo tor- 
nar mais a Coimbra fe Valença. Foi este accor- 
dam lido no Auto publico celebrado em 11 de 
Outubro de 1778. 

O sábio mathematioo José Monteiro da Ro- 
cha, que já em 1772 reclamava contra as ideias 
subversivas que corriam no bispado de Coimbra, 
cumpriu as indicações do Marcjuez de l^ombal, na 
incorporação do lente de vinte e outo annos, José 
Anastácio da Cunha na Faculdade de Mathema- 
tica. As relações dos dois ct)llegas foram anuga- 
veis. José Monteiro da Rocha emprestava livros de 
mathematicos gregos; e José Anastácio da Cunha 



m.srujuA DA Lii ii;ii Al i'i;\ rdirnjGUKZA 



dirigia-lhe Epistolas em verso, a Montezio. A que 
está publicada tem a rubrica: Contra os vícios 
que impedem o progresso das Sciencias. E apre- 
senta a antithese entre o processo das investiga- 
ções e o verbalismo da ostentação doutoral: 

QuG te serve, Montezio, envelheceres 
Curvado sobre os livros noite e dia 
Vendo esconrler-se o sol. rniar a aurora, 
Convulso, de cansado, o débil peito? 
Que esperas de trabalhos tão continuos ? 
Acaso esperas, que a thiara ou toga 
Os teus duros cuidados premiando. . . 

Como enganado estás 1 Que mal conheces 
O mundo sabichão como procede ! 
Para pingues prebendas disfructarias 
E rendosas eommendas, não careces. 



Que tu do Pórtico ou do Lyceu saibas 
O sábio machinismo — porque forma 
O cérebro os idolos que te amostram 
As essências reaes dos contingentes; 

Toma por graduação borla e capello, 
Em todos seus Direitos enfronhado, 
Farás bem so fizesses um pecúlio 
De engraçadas novollas do Supico, 
Dos ditos agudíssimos galantes. . . 

Este espirito achou a sua verdadeira expres- 
são no poema heroi-comico O Reino da Estupi- 
dez, que a reacção anti-pombalina provocou. 
Monteiro da Rocha era um jesuíta, que o Mar- 
quez de Pombal tolerou na Universidade pelo 
seu saber mathematico; organicamente odiava 
José Anastácio da Cunha, que elle occultava por 
temor do grande ministro. 

Logo que pela morte do rei acabou o poder 
do Marquez de Pombal, irrompeu esse ódio, que 
çr^. por elle considerado como um espirito des- 



SEGUNDA Época: os árcades 353 



vairado, com o miolo desconcertado. Teve sufficien- 
te astúcia para não ir depor no Santo Officio, que 
arrancou da sua cadeira o mathematico insigne e 
ao espectáculo de indignidade e repugnância de 
um Auto de Pé. A sentença inhibindo-o perpe- 
tuamente de entrar em Coimbra, visava a servir 
o rancor do ex-jesuita José Monteiro da Rocha. 
Para o auctoritario lente de astronomia José Anas- 
tácio da Cunha tinha um damnado coração. In- 
dispozera-o a Sátira em tercetos ao Dr. Botija, 
que escrevera contra Francisco Dias Gomes, que 
tivera de deixar o seu curso da Universidade 
para vir gerir uma loja de seccos e molhados em 
Lisboa, por exigência de um tio. Dias Gomes, 
raáo grado a apreciação exagerada que Hercu- 
lano lhe fez, bem mereceu a Sátira, pela provoca- 
ção que fizera ao poeta livre pensador. Na His- 
toria da Universidade de Coimbra fica traçado 
o quadro da sua vida com importantes transcri- 
pções do seu processo inquisitorial. Sahiu no Auto 
de Fé de 11 de Outubro de 1778, dando n'esse 
dia o Cardeal da Cunha, que renegava Pombal, 
que o fez gente, um lauto jantar aos padres e 
personagens que assistiram á odiosa cerimonia. 
A discussão mathematica que teve com José 
Monteiro da Rocha foi entre 178Õ e 1786 e poz 
mais em evidencia o ódio do ex-jesuita, que se 
serviu da Inquisição para o lançar fora da Uni- 
versidade de Coimbra. Morreu de um ataque de 
stranguria, em 1 de Janeiro de 1787, respondendo 
no seu paroxismo a um amigo que lhe perguntava 
se soffria muito no prolongado estertor, confundiu 
palavras inglezas, portuguezas e francezas : Some 
dreams of humanitij qai me dechirent plntôt 
qu'ils me consolent. E apagando-se o seu espi- 
rito, illuminou esta verdade da consciência. 

23 



354 HISTORIA DA LITTERATURA PORTIJGUEZA 



Francisco de Mello Franco e o poema O Reino 
da Estupidez — Depois da queda do Marquez de 
Pombal deu-se uma forte reacção contra tudo 
quanto estabeleceu na sua longa administração ; 
a Universidadt^ de Coimbra reformada fundamen- 
talmente em 1772, e que estava confiada á intel- 
ligente direcção de D. Francisco de Lemos, foi 
também atacada como utti baluarte pombalino, 
sendo nomeado para Reitor e Reformador d'ella 
o estúpido Principal da egreja patriarchal José 
Francisco de Mendonça. 

Todos os actos do Principal Mendonça repre- 
sentavam um manifesto intuito de retrocesso, o a 
Universidade parecia volver aos tempos medie- 
vaes. Aggravavam-se os conflictos contra os len- 
tes mais instruídos que sustentavam o espirito 
moderno, como Monteiro da Rocha e Ribeiro dos 
Santos. 

N'este momento critico appareceu manuscri- 
pto em Coimbra um poema em quatro cantos, 
em verso solto, intitulado O Reino da Estupidez, 
descrevendo o estado mental dos lentes da Uni- 
versidade e do seu Reitor o Principal Mendonça. 
Era era principios de 1784; o poema correu ano- 
nymamente em copias manuscriptas, quc^ foram 
lidas com avidez, provocando replicas e Sátiras, 
que espalhavam suspeitas acerca do raysterioso 
auctor. Quando o governo do Principal Mendonça 
em uma situação tensa, e o corpo docente se di- 
vidiam uns a favor da Universidade que Deus 
haja, outros pela Universidade que Deus guarde, 
segundo as phrases do tempo, o poema do Reino 
da Estupidez foi como uma bólide cabida n'aquel- 
le mesquinho microcosmo. Comprehende-se que 
tempestade levantariam em uma tí^rra pequena, 
fechada aos interesses do resto do inundo, (íssea 



SEGUNDA r:POC\: os ÁRCADES 355 



arrastados e mal metrificados versos endecasylla- 
bos, mas que transudavam o mais fundamental 
desdém sobre o pedantismo doutoral e monachal, 
que imperava na Universidade de Coimbra. 

Attribuiu-se o poema ao Doutor António Ri- 
beiro dos Santos, homem grave, erudito, mas pri- 
vado de todo o espirito irónico ; attribuiu-se tam- 
bém ao joven poeta brazileiro António Pereira de 
Souza Caldas, que sahira da Inquisição de Coimbra 
e se achava em 1784 em Paris ; também se chegou 
a attribuir ao lente Ricardo Raymundo Nogueira, 
e ainda aos dous Malhões, tio e sobrinho. Esta- 
vam todos innocentes d'esse louvável peccado. 

Ninguém imaginava que O Reino da Estupi- 
dez era uma sublime vingança do estudante de 
medicina Francisco de Mello Franco, que jazera 
nos cárceres da Inquisição de Coimbra pela accu- 
sação de encyclopedista. O seu poema heroi-co- 
mico teve o poder da Nemesis, da implacável 
justiça:, lançou por terra o governo do Principal 
Mendonça e provocou as novas reformas enceta- 
das pelo Principal Castro, continuando o espirito 
pombalino. 

Hoje, passados cem annos, são os versos d'es8e 
poema um quadro pittoresco, vivo, sarcástico, 
pintado do natural e com flagrante realidade. 
Aqui a Arte serviu dignamente o progresso, em- 
pregando a sátira como instrumento de demoli- 
ção contra o que prepondera além do seu tempo. 
Como o som da trombeta que fez ruir os muros 
de Jericó, agora o poema do Reino da Estupi- 
dez teve o prestigioso poder de libertar a Uni- 
versidade, apeando o Principal Mendonça. 

Isto basta para justificar a necessidade de 
conhecer este valioso documento litterario que 
se tornou histórico. 



356 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Consta o poema de quatro cantos era verso 
solto, cuja estructura geral lembra o Laus Stul- 
titice de Erasmo ; a situação era análoga, apesar 
de três séculos de distancia. A Estupidez, enti- 
dade allegorica, sente-se repellida do norte, vem 
descendo pela Europa, e não achando abrigo na 
Allemanha, na França e na Inglaterra, paizes em 
que prevalece a civilisação, resolve, acompa- 
nhada do Fanatismo, da Superstição e da Hypo- 
crisia, procurar as amenas regiões das Hespa- 
nhas. O bando chega a Lisboa; é o assumpto do 
canto segundo, em que se descreve a petulância 
dos fidalgos impunes era seus attentados, a ex- 
ploração dos Padres Capuchos, exorcistas de mu- 
lheres, e a sensualidade de um bispo galante. 
B' então que a Superstição sustenta que deve 
em Lisboa assentar a Estupidez o seu throno. 
Mas o Fanatismo oppõe-lhe uma objecção geral: 
em Lisboa já funccionava a Academia das Scien- 
cias, fundada em 1779. A' vista da situação re- 
solveu assentar arraiaes em Coimbra. O canto 
terceiro é uma descripção de Coimbra, cercada 
de apraziveis campinas, apresentando « os mais 
bellos passeios da Universidade.» Espalha-se por 
Coimbra a fama da próxima chegada da Estupi- 
dez. Começa a carga ao Principal Mendonça, 
que convoca a Universidade para era Claustro 
pleno ser recebida condignamente a Estupidez, o 
que os theologos e outros doutores declararam 
n'esse ajuntamento magno é a critica do espirito 
escholastico que pretendia impôr-se á Universi- 
dade. Ahi se debl aterá contra «A barbara Geome- 
tria tão gabada — Historias naturaes, Phorono- 
mias — Chimicas, Anatomias, e outros nomes — 
difficeis de reter. . . > Quando chega a vez de 
fallar Tirceu, o lente de m9.thematica José Mon- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 



teiro da Rocha, faz uma eloquente invocação á 
memoria do Marquez de Pombal, e repelle cora 
desassombro o culto da Estupidez, que agora se 
implanta. 

No canto quarto o Reitor manda pregar um 
Edital na porta da sala dos Actos grandes para 
irem em Préstito receber a Estupidez, que se 
vae hospedar no Convento dos Cónegos regran- 
tes de Santa Cruz, e que alli dá beija-mão, rece- 
bendo as mais enthusiasticas felicitações. Reci- 
tam-lhe uma Oração de Sapiência, e a Estupidez 
acceitando: «a geral confissão de vassalagem» 
abençôa-os, dizendo : «continuae, como sois^ a ser 
bons filhos.» 

O poema appareceu firmado pelo pseudonymo 
Felício Cláudio Lucrécio. Suspeitaram que seria 
escripto por algum lente partidário da reforma 
pombalina ; como Ribeiro dos Santos incorrera 
nas iras do Principal Mendonça, foi elle por isso 
o mais visado. Escreve em uma carta inédita Ri- 
beiro dos Santos: «O argumento de que princi- 
palmente se valeram foi quo fallando-se no Poema 
no Collegio de San Pedro, e apparecendo pelo 
seu nome alguns indivíduos do de San Paulo, 
havia alto silencio a respeito do Collegio dos Mi- 
litares ; logo, diziam elles, o auctor pertencia a 
este Collegio ; e como sabiam que eu tinha íeito 
algum verso n'outro tempo, concluiram que tam- 
bém agora havia escripto esta sátira. ♦ 

Para contraminar o effeito do Reino da Es- 
tupidez compuzeram um outro poema em sete 
cantos, em sextinas rimadas, intitulado O Zelo, 
offerecido aos admiradores da Estupidez, por Pa- 
trício Prudente Calado (evidentemente pseudo- 
nymo). Na copia do Reino da Estupidez, quo se 
guarda entre os manuscriptos da Bibliotheca de 



358 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Évora, o poema traz como auctor Francisco de 
Mello Franco. A attribuição a outros nomes, como 
Souza Caldas e Francisco José d' Almeida, que se 
acharam com Mello Franco no Auto de Fé da 
Inquisição de Coimbra em 26 de Agosto de 1780, 
obedecia a uma suspeita dentro do grupo de li- 
vres pensadores da Universidade perseguido pelo 
Principal Mendonça. Mello Franco foi auxiliado 
pelo seu patricio José Bonifácio de Andrade e 
Silva, sendo O Reino da Estupidez escripto e 
copiado em quinze dias e subrepticiamente dis- 
tribuído por occasião de umas festas da Univer- 
sidade. 

O poema só veiu á publicidade pela imprensa 
em Paris em 1819; em Hamburgo em 1820; ou- 
tra vez em Paris em 1821, e em Lisboa em 1822 
e 1823. Mello Franco tendo falecido em uma via- 
gem de regresso ao Rio de Janeiro em 22 de ju- 
lho de 1823, ainda teve o gosto de ver esta con- 
sagração ao seu poema, que foi continuada nas 
edições de 1833, 1834 e 1868. 

Esse poema revela-nos a missão da Arte, na 
sua funcção negativa: não sendo uma obra pri- 
ma, ha-de pelo seu destino ser sempre admirado. 

FiLiNro Elísio 

Francisco Manuel do Nascimento, conhecido 
pelo nome poético de Filinto Elísio, exerceu uma 
íbrte influencia na poesia, antes de se extinguir o 
arcadismo, não no sentimento e concepção das 
imagens com que se manifestava o Romantismo, 
mas pela estructura da versificação. Sob este as- 
pecto o Filintismo contrabalançou-se com o El- 
manismo, ou a versificação de Bocage, reflectiu- 



SEGUNDA F.POf.A: (C. ÁRCADES 309 



do-so este gosto no primeiro quartel do século 
XIX em Garrett e em Castilho. Tentou reagir a 
esta influencia José Agostinho de Macedo, pro- 
pondo a Francisco Freire de Carvalho a forma- 
ção de uma academia poética contra as Nicena- 
das e Bocageadas, como designava as imitações 
do estylo d'estes dois pofítas. Filinto actuou ex- 
clusivamente na íbrma da versificação, que se 
sublimou em Garrett. A vida de Filinto é muito 
desconhecida ; mas pelo processo que lhe fez a 
Inquisição de Lisboa, pelas denuncias e pelas no- 
tas avulsas que espalhou em volta dos seus ver- 
sos, conhecem-se particularidades, que revelam 
todas as manifestações da sua individualidade, 
quanto á evolução psychologica e estímulos do 
meio social. Nasceu em Lisboa, em 23 de Dezem- 
bro de 1734. D'esta circumstancia tirou o apellido 
de Nascimento, allusivo ás vésperas do Natal e 
gracejando da progénie dos antepassados pelo 
nascimento. Seus pães, naturaes de Ílhavo, per- 
tenciam a esta colónia aveirense, que ainda hoje 
moureja em Lisboa ; o pae, Manoel Simões, era 
fragateiro, occupado na carga e descarga de na- 
vios, no Tejo ; a mãe, Maria Manoel, era uma 
linda rapariga, que vendia peixe de canastra á 
cabeça pela cidade^ explorando também a venda 
de tremoços, burrié e pevides, como ainda hoje 
é costume na referida colónia. Como gentil, de 
uma pelle branca e traços finos, o patrão dos es- 
caleres reaes, João Manoel, encantou-se com a 
tricana, fácil, como as congéneres. Nasceu o me- 
nino, criado entre as mulheres, comadres de sua 
mãe. A certidão de baptismo, fixa o dia do nas- 
cimento em 21 de Dezembro, declarando (|ue fora 
baptizado vxa casa por se achar em perigo de 
vida pela sua fraqueza; mas isto foi um embuste 



360 HISTORIA DA LITTRR ATURA PORTUGUEZA 



de Maria Manoel para evitar que o seu filho 
fosse mergulhado brutalmente pelo cura da fre- 
guezia, que dias antes tinha amolgado a cabeça 
de um neophyto, que não mais teve saúde. Fi- 
linto, nas amorosas poesias em que allude ao seu 
dia natalício, fixou sempre a data verdadeira^ que 
contradicta o documento official. A sua infância 
passada entre as mulheres comadres, visinhas e 
amigas de sua mãe, pôl-o em contacto com toda 
a litteratura de cordel do começo do século xviii; 
elle lia-lhes a Imperatriz Porcina e a Egloga de 
João Xavier de Mattos Albano e Damiana, e os 
Autos do Presépio, e deliciou-se com as repre- 
sentações espectaculosas da Greação do Mundo, 
do velho theatro hierático. Também foi emba- 
lado com os Contos de Fadas e com as anecdo- 
tas picarescas de frades. Francisco Manoel foi 
estorninho, isto é, alumno externo das escolas 
baixas dos Jesuítas do Collegio de Santo Antão, 
e descreve o costume dos Jesuitas, que tinham 
substituído o Pendão negro da Santa doutrina, 
com que arregimentavam os rapazes pelas ruas, 
por um Padre Doutrineiro, que do pedestal do 
Pelourinho, e cercado de innumero rapazio, d'alli 
perguntava o Credo, dando áquelle que melhor o 
recitava uma medalhinha de latão, favor que 
também concedia aos meninos louros, por myste- 
rio só conhecido pelos jesuitas, como maliciosa- 
mente escreveu Pilinto. Mostrando talento, Fran- 
cisco Manoel continuou os seus estudos, pelos 
auxilies do patrão dos escaleres reaes, que tinha 
um amor filial ao pequeno. João Manoel foi des- 
pachado Patrão-mór da Ribeira das Náos, onde 
tinha residência official; para a sua companhia 
levou Maria Manoel e o seu marido Manoel Si- 
mões. N'esse amoravel convívio, fez Francisco 



SEGUNDA Época: os árcades 3(>1 



Manoel os seus estudos para se ordenar de clé- 
rigo ; elle mesmo confessa quaes foram os seus 
estudos, que consistiram quasi exclusivamente em 
muita latinidade e em solfa, ou musica. Começou 
a dar-se á curiosidade de escrever e fazer versos 
ahi pelos dezasseis annos, a pretexto de aparar 
as pennas de pato e experimental-as no papel. 
A escripta suggestionava-o para a expressão da 
ideia ao pobre aprendiz do clérigo. Em 1752 já 
era padre de missa, e por influencia do Patrão- 
Mór da Ribeira das Náos, foi provido no logar de 
tiiezoureiro da Egreja das Chagas, pertencente á 
Coi]fraria dos Mareantes da carreira do Brasil, 
cuja confraria era rica e bem dotada pelos que 
regressavam das longas e trabalhosas viagens do 
Brasil. Francisco Manoel reconhecia a paterni- 
dade do Patrão-mór da Ribeira das Náos, allu- 
dindo aos seus serviços ao rei e á pátria, o que 
não podia entender-se com o fragateiro Manoel 
Simões. Na catastrophe do terremoto de 1755, 
foram viver promiscuamente. Ao fundar-se a Ar- 
cádia em 1757, Francisco Manoel não tinha no- 
toriedade litteraria para ser convidado para sócio 
da nova Academia. Mas por esse influxo também 
formou um Grupo da Ribeira das Náos, e ado- 
ptara o nome de Niceno. O seu saber e gosto lit- 
terario resumiam-se em estudos exclusivos de La- 
tinidade, que se prestavam a larga erudição que 
mais tarde vem systhematisar-se na Philologia. 
O seu mestre de latinidade António Félix Mendes 
era um auctoritario grammaticão, que embirrava 
com as novidades do classicismo francez; Niceno 
também se tornou partidário do purismo arehaico 
da linguagem dos Quinhentistas. 

A Sátira de Garção, dedicada ao Conde de 
San Lourenço, foi um protesto contra a imitação 



HG? HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



dos Quinhentistas. Padre Niceno, como é desi- 
gnado Francisco Manoel em um Soneto attri- 
buido a Garção, nada tinha publicado ; mas exer- 
cia um certo impulso no Grupo da Ribeira das 
Náos. Comtudo, escrevera muito desde 1752 até 
1778, em que teve de fugir de Portugal ante a 
perseguição in(}uisitorial ; na relação dos seus 
bens moveis e immoveis que lhe foram confisca- 
dos pela Inqtiisição. declara também : < Todos os 
meus Manuscriptos, trabalho de 28 annos. » 
Que manuscriptos seriam os que lhe foram con- 
fiscados, da sua actividade de 1750 a 1778? Pro- 
vavelmente notas grammaticaes, extractos dos 
escriptores quinhentistas, copias de livros portu- 
guezes de raridadt», e a parte poética seria satí- 
rica um pouco entre o realismo do dicaz António 
Lobo de Carvalho e o faceto Tolentino. Alguns ver- 
sos que apparecem nas collecções inéditas foram 
mais tarde colligidos por Innocencio Francisco da 
Silva sob o nome do Lobo da Madragôa. O des- 
graçado poeta não poilia evadir-se aos Familia- 
res do Santo Officio com os manuscriptos rabis- 
cados em 28 annos. Com certeza muitas noticias 
curiosas ahi se perderam. O seu espirito satírico é 
que acordaria o faccinorismo fradesco, represen- 
tado no soneto Christo morreu ha mil e tantos 
annos, em que alludia aos peditórios para o Santo 
Sepulchro. Mas, o que mais aguçava o faro dos 
Inquisidores para um fácil e precioso confisco, 
eram os bens que Francisco Manoel possuia, dei- 
xados pelo Patrão-Mór João Manoel, ou compra- 
dos com o seu dinheiro em nome do thezoureiro 
da Bgreja das Chagas. Esses bens foram como o 
thezouro dos Niebehingen, guardado por Fafnir. 
que causava a desgraça de quem o possuísse. Bis a 
mdicação summaria, que Filinto escreveu em 



SEGUNDA Época: os árcades 363 



1807, e que importa conhecer para avaliar bem 
as suas relações protectoras com as meninas Alor- 
nas, na sua desconfortada reclusão politica em 
Chellas, na sua intimidade com ellas desde 1768. 

«Lista dos bens que foram confiscados desde 
1778: 

Immovhiis: Uma Casa na rua do Telhai. 

Uma Casa na rua do Valle, 

Uma Casa situada na Cotovia de Cima, virada 
ao muro do picadeiro do Conde de Soure, e do 
Theatro do Bairro Alto. 

Uma Casa de campo, situada em Camarate; 
uma em frente da egreja, rua do Rigueirinho ; a 
outra em San Pedro, perto da mesma villa de 
Camarate; cada uma d'estas casas tem seu jar- 
dim, com celeiros e aposentos. 

Os títulos e contractos da compra d'estes pré- 
dios foram egualmente confiscados pela Inquisi- 
ção, elles acham-se nos archivos e os seus tras- 
lados nos cartórios dos tabelliães. 

Movwis: Cada uma d'e.stas Casas estava mo- 
bilada de todas as qualidades de trastes e uten- 
sílios próprios de uma habitação luxuosa. Mas o 
principal mobiliário de Francisco Manoel, acha- 
va-se na casa da sua residência, que possuia na 
rua da Calçada do Combro, á esquina da travessa 
das Chagas. 

Era um mobiliário variado e completo, com 
leitos, secretárias, commodas, armários, mesas de 
madeiras preciosas, canapés, poltronas, tapetes, etc. 

Um guarda-roupa considerável, contendo as 
que foram de seu pae (Não alludia ao pobre 
fragateiro Manoel Simões). 

Uma rica baixella de prata, roupa de meza e 
cobertas, uma grande parte ainda na peça, e mais 
algumas peças de seda. 



8G4 HISTORIA DA litteraturA portugueza 



Dois serviços de porcellana da China, um em 
azul, dourado, o outro vermelho, dourado. 

Os ornamentos completos de ura Oratório, va- 
zos em grós, quadros, tapeçarias, etc. 

Um sacco cheio de esmeraldas, amethystas, 
topázios, rubis, e alguns diamantes, tudo ainda 
em bruto, de considerável valor. 

Algum dinheiro na secretária. 

A sua bibliotheca de perto de 2:000 volumes, 
entre os quaes todos os clássicos gregos e latinos, 
que tinham pertencido aos Jesuítas de Lyon, e 
de outros livros preciosos pela sua raridade, sobre 
tudo uma collecção de obras portuguezas. 

Todos os seus Manascriptos, trabalho de 
28 annos. 

Palta-lhe ainda tornar a pedir (e é o objecto 
mais recente, e o mais disponível n'este momento) 
o preço completo de uma traducção de Osorius, 
De Rebus Emaniielis, traduzida por elle em 
portuguez, 3 vol. in-12, imprime à Tlmprimerie 
Royale, de Lisbonne, dont le Docteur Domingos 
Monteiro de Albuquerque e Amaral est Admi- 
nistrateur. 

O Príncipe Regente tinha promettido entre- 
gar ao Auctor a edição completa, salvas as des- 
pezas. » 

Além d'esta relação que se perdera, por não 
ter sido achada no espolio de Filinto, também 
encontramos declarações de dividas, e declarações 
de pessoas a quem elle poeta emprestava dinheiro 
a juros. 

Tudo isto nos revela quanto Francisco Ma- 
noel recebera do Patrão-Mór da Ribeira das Náos, 
e os ódios que a parentella de João Manoel nu- 
triria contra elle ; mas para o momento bas- 
ta-nos considerar as condições excepcionaes em 



SEGUNDA Época: os árcades 365 



que o poeta Nlceno vivia para se entregar aos 
seus ócios litterarios, sem cuidar no pão quoti- 
diano. Em volta d'ellfi reuniam-se vários poetas, 
e os seus versos satiricos manifestando ruidosa 
vivacidade contra a Arcádia Lusitana, á qual 
chamavam o Arcadão. 

Os nomes d'i9stes dissidentes da Arcádia fica- 
ram enfeixados em um Soneto, attrihuido a Gar- 
ção, e hoje incorporado na ultima edição das 
suas obras: 

Pinto fidalffo, embaixador da Mancha, 
Tu. Monteiro roaz, que na baralha 
Vales por espadilha da canalha, 
Que a fama alheia e )m ferretes manchas; 

Padre Niceno, tu patrão da lancha 
Carregada de drogas da antiqualha. 
Que o Bandeirinha alvar á toa espalha 
Potro, que n'outro potro se escarrancha ; 

Capitão Archimedes, tu, zarolho 
Manoel de Sousa, que parecias Mendes, 
Que da recua aproveitas o restolho; 

Ulpiano venal, tu bom me entendes 
Se para estas cousas tenho dedo e olho, 
Em peralvilho jubilado tendes. 

Este Soneto merece ser commentado, para se 
conhecer as principaes figuras do Grupo da Ri- 
beira das Náos. O };rimeiro caracterisado é Pe- 
dro Caetano Pinto, (pie estivera em Hespanha 
em aventuras, d'onde trouxe uma mulher bonita. 
D. Leonor de Almeida falia d'elle nos seus ver- 
sos, dando-lhe o nome de Pierio. A embaixada 
da Mancha é um traço grotesco para ridicularisar 
a insignificância do poetastro. Caniillo não dis- 
cerniu identiticando-o com o personagem politico 



566 HISTORIA DA LITTERATdRA PORTUGUEZA 



importante Luiz Pinto de Sousa Coutinho ; a sua 
fidalguia, repelle a.< pretenções parvoas de Pedro 
Caetano Pinto, que tinha aspirações diplomáticas. 

O Monteiro roaz é o Dr. Domingos Monteiro 
de Albuquerque e Amaral, cujas poesias chega- 
ram a suscitar a rivalidade de Bocage, como o 
revelou a Lord Beckford, Camillo mais uma vez 
claudica, confundindo-o com o Bandeirinha, re- 
ferido no segundo quarteto, sendo este propria- 
mente o Domingos Pires Monteiro Bandeira, tam- 
bém metrificador e amigo de Nicoláo Tolentino. 
Tinha o Bandeirinha tanto de ingénuo (alvar) 
como o Monteiro, maçónico e de influencia pessoal. 

Padre Niceno é o nome poético que antes de 
1768 usava Francisco Manoel do Nascimento, do 
qual ainda se lembrava José Agostinho de Ma- 
cedo, reagindo contra as Nicenadas, ou o prurido 
dos imitadores do seu estylo poético. Quando 
Niceno, junto com Albano, Sebastião José Ferreira 
Barroco, entrou em intimas relações litterarias 
com D. Leonor de Ahneida, a joven poetisa á 
qual deu o nome de Alcipe, com que fica conhe- 
cida, deu-lhe ella também o nome de Filinto, a 
que accrescentou o foragido poeta, na magoada 
saudade da pátria o apellido Elisio, que designa 
esta phase da sua vida. Assim o nome de Niceno 
comprehende toda a sua actividade de 1752 a 
1778, cujos maniiscriptos se perderam no seques- 
tro da Inquisição. Filinto define a sua época ins- 
pirada e accentuadamente lyrica, de 1768 a 1778, 
em que apaixonadamente celebrava Daphne, a sua 
amada discípula de musica D. Maria de Almeida, 
reclusa com sua mãe em Chellas. Também D. Leo- 
nor de Almeida fora sua discípula de Latinidade, 
e com muita admiração pelo seu caracter, lhe 
pediu que não dispendesse o seu talento em S&- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 361 



tiras, com que o Grupo da Ribeira das Ndos 
bombardeara a Arcádia, com quem Alcipe tinha 
relações. Filinto confessa em uma nota a uma 
Ode : « A ex.™'^ snr.» D. Leonor de Almeida íbi 
quem em Chellas deu ao Poeta o nome de Fi- 
linto, e por tal o nomeou sempre em todos os 
versos que lhe dedicou. » {Ob., t. xr, p. 111. Ed. 
1838). No verso em que chama a Niceno, patrão 
da lancha ha a allusão affrontosa a ser filho do 
Patrão-Mór João Manoel, cotn quem c()hai)it.ava 
no Arsenal, em cujos aposentos reunia o Grupo 
dissidente, por isso chamado da Ribeira das Náos. 

O Capitão Archimedes fmathematico) Manoel 
de vSousa, grande purista e tido por bom tradu- 
otor, é no Soneto comparado pela circumstancia 
de ser zarolho, com o contínuo das Bsc;holas do 
Collegio de Santo Antão, ridicularisado pelos 
estudantes como Cocles. Manoel de Sousa entrou 
na Arcádia Lusitana na ultima camada de só- 
cios, pelo que se infere de ajuntar ao seu íiome 
esse titulo no frontispício da traducção da His- 
toria Antiga de Rolin. 

O Ulpiano venal, segundo as notas que acom- 
panham o Soneto é o Dr. Jeronymo Estoquete, 
advogado em cujo escriptorio se reunia Niceno, 
para os seus actos jurídicos de compras de pré- 
dios, arrendamentos e escripturas de emprésti- 
mos. No processo da Inquisição de Lisboa contra 
Filinto, lê-se : « Foi seu professor António Félix 
Mendes, que a 3 de Julho de 1778, o accusou ao 
Santo Offlcio, com os seus companheiros ,Tero- 
nymo Estoquete e Manoel Coelho de Lima, de 
que todos estes três sujeitos estavam exercitados 
e instruidos na lição dos Livros prohibidos. . . 
digo, d(í Livros de Philosophias modertms. . . que 
^tíectam seguir a Rasão natural. » N'este depoi- 



368 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mento do velho mestre de Latinidade, que então 
contava setenta annos, insinua-se que em volta 
d'elle, além de muito estimado pelo bispo Cená- 
culo, se reunia uma pequena Academia poética : 
«geralmente é reputado por homem douto, e que 
por esta razão é muito procurado por varias pes- 
soas para conferirem com elle algumas obras que 
compõem, principalmente em verso... e entre 
outras pessoas é frequentemente visitado por al- 
guns religiosos do Convento de Jesus, maior- 
raente por um religioso por nome Barroco. » 
{Process., n." 14048). Referia-se a Fr. Plácido de 
Andrade Barroco, irmão do amigo intimo de Fi- 
linto, Sebastião José Ferreira Bariôco, o Albano, 
que tanto galanteava AJripe. Por esta referencia 
a Inquisição chamou Fr. Plácido Barroco a depor, 
declarando que vira uma traducção da tragedia 
Mahomet por Filinto. 

N'esta Guerra dos Poetas appareceu uma Sá- 
tira, que nos manuscriptos da época ora se attri- 
bue a Francisco Xavier Lobo ora ao Dr. Joaquim 
Ignacio de Seixas : 

Deixa amio^o Bandeira de seccar-nos 
Co'a antiga locução áspera e dura. 
Confessamos que tem graça e energia 
Ijida nos bons Auctores que nos honram ; 
Mas as palavras são eomo a moeda, 
O uso unicamente é o rei, que faz 
Que ellas valham e que elle quer que valham. 
Como ellas corram eo'a presente marca, 
Fazem outra vez viver as esquecidas. 
Adopta embora as novas, funde as velhas, 
Lima as informes, pulo as escabrosas. 
Enriqueça-se a lingua portugueza 
Com prudente licença e boa escolha; 
Porém, nunca vocábulos nos digas 
Que arranhem o bichinho dos ouvidos. 
Nem a todos concede a natureza 
Como sucoede a ti e á tna aeita, 
Orelhas de aço, tímpanos de bronze. 



SEGUNDA Época: os árcades 369 



Vê-se que Filinto, patrão da lancha dos an- 
ta,í>;onistas da Arcádia era accusado de uma ver- 
sificação dura ; completo engano. São do mais 
bello lyrismo os Sonetos, Canções, Madrigaese 
Odes que llie inspirou Daphne (D. Maria de Al- 
meida, depois Condessa da Ribeira), n'esses annos 
das grades, outeiros e lições musicaes no mosteiro 
das Albertas. Essas poesias só appareceram pu- 
blicadas já no século xix, poucos annos antes do 
falecimento de Filinto Elísio, perdidas em uma 
salsada de composições indigestamente compila- 
das por Solano Constâncio. Se um dia se impri- 
mir um livro das poesias a Daphne, reconhecer- 
se-ha um lyrico do mais puro camonismo, sem 
ser imitador, porque viveu essa poesia, como os 
bons abbés do século xviii. D. Leonor de Almeida 
era cortejada por Sebastião Barroco, e professava 
por Filinto a veneração que se tem por um alto 
espirito, e nas cartas a seu pae, o Marquez de 
Alorna, falla-lhe descrevendo o seu caracter, 
como quem responde a quaesquer observações 
paternaes suscitadas por intrigantes invejosos das 
distincções de Alcipe. Filinto, como se vê pelo 
arrolamento dos seus bens, era rico, e com toda a 
humanidade acudia ás meninas Alornas com au- 
xilies pecuniários, não só para as suas necessida- 
des domesticas, porque toda a Casa de Alorna 
estava em sequestro, pela sentença dos Desem- 
bargadores manobrados pelo Marquez de Pom- 
bal, mas também as presenteava com jóias, ves- 
tidos e toucados, que o Arcebispo d(í Lacedemo- 
nia queria impedir que usassem, e quasi obri- 
gando-as a cortarem os cabellos ! Esta phase da 
vida de Filinto, de 176S a 1778, é a mais radiosa 
da sua existência, a que elle podia applicar o 
verso de Garrett : alli foi um céo na terra. Es- 

24 



370 TirSTORIA D\ I IITERVTIIU POHTlíJlEZ \ 



clarece-se hoje esta phase pelas cartas de D. Leo- 
nor de Almeida, escriptas a seu pae, que vem 
intercaladas no estudo biographieo da Marqueza 
de Alorna pelo general Marquez de Ávila e Bo- 
lama. Deu-se ujna certa sombra entre Alcipe e 
Filinto ; o poeta, por occasião da elevação da 
estatua equestre em 1775, appareee inesperada- 
mente entre os poetas da manada, que escreveram 
Odes, Silvas e outra cascalhada enaltecendo a glo- 
rificação do rei D. José pelo Marquez de Pombal. 
Alcipe estranhou aquella bajulação pombalista 
da parte de um caracter tão philosophicamente 
independente. Ninguém sabe que pressões ver- 
garam Filinto áquelle acto ; mas conhecidas as 
relações com que o distinguia o bispo de Beja 
D. Fr. Manoel do Cenáculo, também litterato de 
polpa, vê-se que só o mestre do Príncipe D. José 
é que podia actuar sobre o presbytero para que 
escrevesse qualquer Ode. Elle também não via 
com bons olhos o militar hanoveriano, conde pa- 
latino de Ovenhansen, o tolaz militar fazer o seu 
pé de alferes a Alcipe, e escrevia para a Bahia 
ao seu intimo amigo Barroco, que ahi occupava 
o cargo do Desembargador. Ia continuando a es- 
crever Cançonetas em mimosos versos, que elle 
mesmo punha em musica, a cousa que mais sabia 
além da latinidade, como de si próprio confe.ssou, 
e que Daphne cantava, en.saiada pelo poeta. Al- 
cipe reconheceu a situação forçada em que se vira 
Filinto, escrevendo-lhe uma epistola — A respeito 
de uma Ode que lhe mandaram fazer, e fez ao 
Marquez de Pombal : 

Não te esqueças, Filinto, o acerbo caso 
Lateja-me no peito um fo^o intenso. 
Se eeperdiças as jóias do Parnaso 
Dando ao tyranno o teu sublime inuencio. 



SEGUNDA época: ' iS AliCADES 



Bem sei que as Musas quando vão comtigo 

Ern cativeiro, afflictas. als^emadas, 

E' por 8alvar-so dn oxtremn pVig^o 

Que soffretn vêr-se nsisim tãu degradadas. 

A Ode em que Filinto representa o rei D. José 
— do malévolo combate sahiu radiante do ven- 
cido assalto, foi acordar no espirito do Marquez 
de Alorna a dor de todas as torturas e iniquida- 
des soffridas pela familia dos Tavoras e pela des- 
membraçâo da sua própria lamilia em reclusão 
claustral, (iurante dezoito annos, e elle na escu- 
ridão da Bastilha da Junqueira. Filinto Elísio, 
tarde reconheceu a origem insistente da sua per- 
seguição, que Sane consignou no estudo que es- 
creveu : « A trama urdia-se a occultas ; desven- 
doii-se por uma rircumstancin tão pequena, 
como essas ridículas pretenções littorarias que 
outr'ora lhe suscitaram. Elle teve urna discussão 
vivíssima com um personagem de alta catego- 
ria. . . » Não declarou quem era este personagem, 
mas Filinto nos seus versos chama-lhe o Naire, 
nome que .se dá aos javanezes que juram vin- 
gança até á morte, e em nota desvenda nas ini- 
ciaes M. de A., o Marquez de Alorna. 

Abertos os cárceres dos prezos políticos de- 
pois de dezoito annos pelo falecimento do rei 
D. José, em Fevereiro de 1777; logo em 4 de 
Julho de 177S, viu-se Filinto forçado a fugir do 
modo mais dramático á garra do familiar da In- 
quisição de Lisboa, que o envolvera em um trai- 
çoeiro processo, de que resultou immediatamente 
o sequestro de todos os seus bens moveis e im- 
moveís. Esses momentos trágicos da sua fuga 
são emocionantes, mas mais terríveis são as tra- 
mas com que converteram o ávido poder inqui- 
sitorial em instrumento de rancorosos ódios pes- 



372 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



soaes. Serviram-se do estado de demência senil 
de sua mãe Maria Manoel denunciando o próprio 
filho. Filinto o authentica em uma Ode : 

Nova Megera, ao filho qne gerara, 
Den (quem pensal-o pódel) o duro golpe 
0'o braço novereal, c'o hervado alento. 
Bafejon-lhe a innocencia. 

Em nota á phrase — hervado alento — escla- 
rece o poeta : « Induzimentos do seu Confessor^ 
que lhe intimou revelações de uma freira da Ma- 
dre de Deus, que vira no inferno n'uma cadeira 
de braços de ferro em braza, que me esperava. » 
{Obr., t. IV, p. 146.) E em uma Ode a Billing re- 
fere outra vez a denuncia da mãe : 

Eu, da calumnia e inveja alvo patente, 
No seu bojo aparei ódio de frades, 
Angustias, perdas, ameaçados fogos, 
E a novereal Megera ! 

Em uma Ode ao seu anniversario em 23 de 
Dezembro de 1779, na desolação de Paris, vendo 
mais a claro os seus desastres, allude a mais dois 
personagens cooperadores poderosos. 

Maldito o Bonzo e mais maldito o Nngre 
Que. calumniosos urdiram o meu desterro, 
Malditissimo o estúpido fanático 
Que encomendou a queima. 

(Ib., p. 150). 

O Nayre personifica o Marquez de Alorna, 
cujo nome revela nas iniciaes da nota á Ode 
commemorando passados outo annos a sua fuga 
em 4 de Julho de 1778, descrevendo a saída da 
barra : 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 3715 



Vê no monte os amigos que derramam 
De prazer, de saudade muito pranto, 
Vê a masmorra, o Delator raivoso 

K 08 verdugos mordendo 
As mãos, a que magnânimo reparte, 

Vê a feroz calumnia 

Que nos teus bens se vinga. 

(Id., p. 192.) 

Em nota á phrase Delator raivoso, poz em 
iniciaes O M d'A, que se lê o Marquez de Alorna, 
como se comprova por testemunhas directas. Eis 
o personagem de alta cathegoria, caracterisado 
por Sane, que accrescenta : •í Francisco Manoel 
tinha prodigalisado a este individuo as mais acti- 
vas consolações em uma época em que elle in- 
correra na desgraça do Príncipe e na de um mi- 
nistro omnipotente. Este fidalgo, de um caracter 
pouco nobre, julgando-se ferido no seu orgulho, 
concebeu baixas ideias de vingança. Os inimigos 
de Francisco Manoel alentaram as paixões (Veste 
ingrato e incenderam-lhe o rancor, e tendo re- 
adquirido outra vez as graças fez-se o indigno 
instrumento de suas maquinações. Carregou de 
falsas accusações um súbdito submisso, calumniou 
a sua religião, influiu na soberana actuando nos 
seus escrúpulos, e servindo-se da mão regia para 
vibrar o golpe mais inevitável e o mais mortal. 
A Inquisição, fortalecida com o assentimento ré- 
gio, não guardou mais attenções. » (vSané, op. ciL, 
p. xui.) Costa e Silva conheceu e alludiu a estes 
factos ; e o Dr. Paulo Midosi, nas Cartas ao 
Compadre Lagosta (alcunha do P.'' José Agos- 
tinho de Macedo) é bem explicito : « Os mesmos 
vampiros [os Padres tristes) por satisfazer um 
Naire, (o Conde: lêr Marquez de Alorna) a quem 
elle na sua desgraça sustentara e que então fe- 



374 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



chara os olhos nos amores d'elle com sua filha, 
estiveram a ponto de empolgar Francisco Manoel 
do Nascimento, que foi^acabar pobre e desvalido 
era França, confiscados seus bens na pátria, a 
quem dera tanta gloria era seus escriptos.> {Car- 
ta 10.*^. Ms. hoje na Acad. das Sciencias, por 
doação de H. Midosi). 

No Ramalhete (t. iv, p. lOi), narra Costa e 
Silva este caso : « Este Naire (é o nome com 
que Francisco Manoel o designa em seus versos) 
talvez cioso de honra, talvez affrontado de que a 
familia tivesse sido soccorrida por um pU;beu, 
quiz perder o poeta, e para este fim usou de ma- 
nejos verdadeiramente aristocráticos. Foi-lhe fá- 
cil achar um frade, o instrumento de que preci- 
sava. Ura franciscano, confessor e director espi- 
ritual da mãe do poeta, que era uma mulher 
crédula e supersticiosa [a peixeira de Ílhavo) — 
fazendo persuadir a pobre velha da visão de uma 
freira grila, lhe fez crer que o único meio de sal- 
var o filho estava em ella própria o denunciar 
ao Santo Officio. > Tendo Filinto fugido em 4 de 
Julho de 1778, e immediatamente confiscados os 
seus bens, a velha mãe e seu marido foram pos- 
tos na rua por expulsão inquisitorial, e por in- 
formação de 23 de Março de 1779, se lè : < os di- 
tos pães Manoel Simões e Maria Manoel vivem, 
elle se acha cego e pedindo esmola . . . e a mãe 
s^ acha com pouco jaizo em casa de uma afi- 
lhada». Os bens que formavam o património do 
clérigo, feito pelo Patrão-mór, estavam na posse 
de uma sobrinha doeste. 

Depois de ter escapado ás garras dos Fami- 
liares, esteve Filinto escondido por casas de ami- 
gos, indo embarcar em Paço de Arcos, no navio 
Nicoido Jorge, em que também ia foragido Félix 



SEGUNDA i':poca: os árcades 375 



de Avelar Brotero, o creador da Flora portu- 
giieza. A 13 de Agosto de 1778 chega a Paris. 
A Inquisição procura attrahil-o a Portugal, como 
fizera no século xvii com Manoel Fernandes Villa- 
real, queimando-o ; mas Filinto preferiu ir am- 
parando a vida com algumas lições de Portuguez. 
Todas as tentativas para lhe restituírem os seus 
bens foram baldadas, porque o Marquez de Alor- 
na, até 1803, em que faleceu, actuou incessante- 
mente: na Rainha até 1792, em que irrompeu a sua 
loucura, e depois no Principe Regente, que não 
tinha vontade própria, e os ministros sempre aris- 
tocratas eram pelo ódio do Alorna, e sabiam que 
Francisco Manoel tivera sempre boas relações 
com o Dr. Paulo de Carvalho, tio do Marquez de 
Pombal, e com o ministro da Marinha, Francisco 
Xavier de Mendonça, irmão do poderoso favorito. 
Os pequenos valores que pôde trazer comsigo de 
Portugal foram perdidos com a fallencia do ban- 
queiro Jullien. Os grandes successos que se pas- 
savam no mundo, a Revolução da America in- 
gleza e os prodromos da Revolução franceza não 
passaram indifferentemente, reflectindo essa emo- 
ção nos seus versos. António de Araújo, embai- 
xador na HoUanda, convidou -o para ir para a sua 
companhia, como secretario particular. Filinto 
foi com todas as difficuldades do transporte. O 
clima da Hollanda, húmido e sombrio, minava de 
uma tristeza nostálgica a sua natureza de meridio- 
nal. O embaixador facultava-lhe a sua valiosa col- 
lecçào de livros portuguezes ; mas tinha pretenções 
litterarias e uma d'ellas era fazer uma traducção 
de Horácio em versos portuguezes. Filinto Elisio, 
que era a alma transmigrada da corte imperial 
de Augusto para o século xvni, achava falhas e 
muita ganga no estylo venasino. As reflexões, os 



376 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



retoques, as emendas, as substituições não agra- 
davam á pretenção de António de Araújo, e uma 
atmosphera de antipathia com a tristeza de Hol- 
landa fizeram regressar o poeta para a sua livre 
indigência em 1797, de Paris. Cora o falecimento 
do Marquez de Alorna em 1803, ainda teve es- 
peranças de regressar a Portugal, mas esse sonho 
desvaneceu-se ante a indifferença do meio offi- 
cial, mais pela sátira de D. Catherina Michaela de 
Sousa, esposa do ministro intrigante Luiz Pinto 
de Sousa, que era hostil a António de Araújo. 
EUe resentiu-se intimamente que a Condessa de 
Oyenhansen ao passar por Paris para Londres, 
não lhe desse noticia da sua passagem. Ella tinha 
consciência da ingratidão com que seu pae pro- 
movera a ruina do homem que mais elevara o seu 
espirito na cultura humanista. De Londres man- 
da-lhe a sua traducção da Poética ou Epistola 
de Horácio aos Pisões, por sua filha a Condessa da 
Ega. Nas Cartas que Filinto lhe escreveu, man- 
tém o culto respeitoso e admirativo da época de 
Chellas. EUe saúda com enthuziasmo o appareoi- 
mento de um astro novo na poesia portugueza. 
Bocage, ao ler os calorosos versos de Filinto, ex- 
clama na sua resposta: «Zoilos, tremei! Posteri- 
dade, és minha». E soffreu pouco tempo depois 
o golpe da morte prematura d'aquelle génio ex- 
cepcional, em 1805. Com ideia de auxiliar o des- 
graçado poeta, que não sahia á rua por não ter 
nem calçado, imprimia pequenos folhetos com 
poesias avulsas que mandava para Lisboa aos 
amigos, que pela venda lhe enviavam algum di- 
nheiro. Lamartine, um dos renovadores do lyrismo 
romântico, foi seu discípulo da lingua portugueza, 
dehcado pretexto de soccorrel-o, e dedicando-lhe 
uma elegia, que é uma jóia na coroa de Filinto. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 377 



As traducções dos Martyres de Chateaubriand, 
augmentando a sua belleza pela forma versifi- 
cada, e a traducção do poema Oberon de Wie- 
land, tornara-o um verdadeiro precursor do gosto 
e época do Romantismo em Portugal. Elle vati- 
cinou a queda e extincção da Inquisição; não 
teve o prazer de vêr realisada a sua previsão, 
pela Revolução de 1820, falecendo em 25 de Fe- 
vereiro de 1819, cora oitenta e cinco annos, tendo 
assistido á publicação das suas Obras completas, 
material accumulado para dar bellos volumes, 
quando lhe for feita uma edição critica. 

Filinto desenha a traços lancinantes a impla- 
cável miséria em que vivia em Paris, em 1799, # 
aos sessenta e cinco annos : « desvalido e só, vi- 
vendo em Paris como n'um descampado, em- 
brulhado no manto da pobreza, e diante d'elle 
todos os cuidados da vida — as lembranças do pas- 
sado, e mais que tudo a secca melancholia — sem 
me poder valer de outra arma que da penna. . . ;> 
Pazia traducção de tragedias francezas, escassa- 
mente pagas. Bm 1804, em nome do Principe 
Regente, encommendaram-lhe a traducção em 
portuguez do livro De Rebiis Emmanaelis, do 
bispo D. Jeronyrao Osório. A obra é uma inferior 
narrativa rhetorica de falso estylo ciceroniano. 
Filinto pòl-o em portuguez castiço, e ficaram de 
lhe pagar o trabalho, quando as despezas na Im- 
pressão Regia estiverem pagas pela venda da obra. 
Nunca recebeu um ceitil pela sua fadiga. As tris- 
tezas intimas tomaram um maior relevo com as 
desgraças que sobre Portugal cahiram : a inva- 
são das hordas napoleónicas, tendo o Principe 
Regente preparado a fuga para o Brasil, antes 
da chegada do Junot. Quem, na corte do Rio de 
Janeiro, que fazia continues saques de dinheiro 



378 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



do espoliado Portugal, attenderia a voz do velho 
clamando pela sua justiça? EUe, pelos emigrados 
portuguezes, que fugiam ao draconiano Beresford 
para Franga, ouviria a narrativa do enforcamento 
do heróico general Gomes Freire. Todas essas 
amarguras lhe encheram as medidas da aniqui- 
lada existência durante o anno de 1818, vindo a 
expirar em 25 de Fevereiro do novo anuo. Não 
viu a aurora do anno de 1820, da Revolução do 
sul da Europa, Portugal, Nápoles e Grécia mo- 
derna; mas a sua sepultura no cemitério de Pére 
La Chaise, eomeçou a ser visitada como um altar 
da Pátria, e ahi se foram fortificar nos seus des- 
* alentos, os grandes renovadores do génio nacio- 
nal, o pintor Sequeira, o compositor Bomtempo, 
e o poeta Garrett. Ahi tinha Filinto Elísio a sua 
consagração ; mas, um prurido patriótico, fez que 
officialmente, em 1842, quando irrompia o Cabra- 
lismo, marca do Coburgo real-consorte, os ossos do 
poeta fossem importados «e aqui esperaram qua- 
torze aiuios, (1856) que lhe abrissem uma cova no 
cemitério do Alto de S. João anteposta a um in- 
signiíicantissimo anonvmato». (Camilio, Curso de 
Litt., p. 209). 

§ ÍII 

O Negativismo encyclopedista 
e a explosão temporal da Revolução 

A convulsão contínua, em que desde o século 
XII, se organisa a sociedade moderna, chegou ao 
seu termo, no fim do século xviir, pela explosão 
temporal da Revolução franceza. E' lógico esse 
percurso determinando-lhe as causas. A organi- 



SEGUNDA KPOCa: OS ÁRCADES o71> 



sacão da sociedade moderna foi iniciada pelos ju- 
risconsultos do fim da Edade Média, que funda- 
ram a egualdade civil, a lei egual para todos, ou 
como lho chamaram os gregos a isonomia. Ata- 
cajido a prepotência dos barões feudaes, ou a or- 
ganisação senhorial, que se impunha pela influen- 
cia arbitraria, procuraram estabelecer alei explici- 
ta que formulando as garantias locaes ou fazendo 
renovar as leis romanas, como norma prescripta 
a que se subordinavam as vontades. Assim forti- 
ficavam a vida das populações trabalhadoras dos 
campos e dos burgos, e formaram o poder real 
tomando do imperiahsmo romano as j)rerogativas 
soberanas. Acordava a consciência da individua- 
lidade, proclamada nos cantos vulgares. JSÍoiis 
somes hommes come ils sont, que suscitava estes 
movimentos revolucionários das communas, que 
deram em terra com a desegualdadr^ feudal. Era 
o grande facto da obra que fundava a ordem na 
estabilidade do direito; o terceiro estado ou a 
existência jurídica do proletariado tornou-se a 
condição para o desenvolvimento de um poder 
central, a quem convinha reconhecer e manter o 
natural principio da Egualdade civil. 

Esse poder era a Realeza, definindo-se, tor- 
nando-se independente, como elemento pondera- 
dor entre o poder catholico- feudal e o povo, ou a 
totalidade da nação. Estabelecida a hereditarie- 
dade dynastica e o patronato da coroa, indepen- 
dente do feudaUsmo e egreja, a Monarchia ira- 
poz-se como absoluta. O trabalho dos Juriscon- 
sultos coadjuvara esta dictadura monarchica pela 
renascença erudita do Direito romano, copiando 
os direitos reaes, e pela tradição histórica da 
Monarchia universal, utopia mórbida, que pre- 
dominou no século xvi. 



380 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Preoccupados excliisivaraente com a noção ju- 
rídica da Egaaldade civil, os jurisconsultos aban- 
donaram o outro elemento orgânico do indivi- 
dualismo humano, a Liberdade politica, ou au- 
tonomia, na justa expressão do génio grego, que 
teve a noção nitida d'este elemento imprescindí- 
vel de todo o progresso, realisado na Civilisação 
hellenica. D'este abandono resultou que as Re- 
publicas da Edade Media e as Communas foram 
cahindo pela absorpção do poder raonarchico, e 
por ultimo, a mesma Egaaldade civil ficou ex- 
posta aos caprichos da graça régia e do arbítrio 
irresponsável. O Protestantismo, acordando a li- 
berdade de consciência, induziu o espirito critico 
para a discussão dos poderes políticos, e essa ex- 
pansão doutrinaria ou theorica avançava para 
uma explosão temporal. O que se não fez pela 
força da tradição e evolução histórica, comple- 
tou-se pela especulação philosophica e pelas as- 
pirações sentimentaes que inspiraram os littera- 
tos. E' por isso que o problema da Liberdade 
politica pertence ao século xvmii, ao século dos 
Encyclopedistas, que satisfazem a necessidade do 
saber geral, a clarté de tout, esse poder do génio 
individual. Esse espirito brilha nos litteratos como 
Voltaire e Rousseau, e nos philosophos, como 
Montesquieu, Diderot^ Condorcet e Turgot, vindo 
as revoltas communaes a encontrar o seu comple- 
mento decisivo no grande phenoraeno, acciden- 
talmente local, da Revolução franceza. 

Em Portugal tinha-se vindo da vida local, 
pelos Foraes e Behetrias; para a lei civil geral das 
Ordenações de D. Duarte e de D. Affoiíso v, no 
século XV ; trabalharam n'esse movimento da re- 
organisação social moderna os grandes juriscon- 
sultos codificadores João Alendes, Ruy Fernan- 



SEGUNDA Época: os Árcades 381 



des, Ruy Boto e João Façanha. Mas a dictadura 
monarchica manuelina atacou todos os elementos 
da liberdade politica, e só no meado do século 
XVII é que Valasco de Gouvea^ afíirma o princi- 
pio da Soberania nacional, base de toda a liber- 
dade politica, para justificar a Revolução de 1640, 
que restabeleceu a autonomia de Portugal. A dy- 
nastia dos Braganças mentiu ao seu mandato, 
attribuindo a sua soberania á graça de Deus, e 
portanto irresponsável no seu absolutismo. O nosso 
século xviii não teve philosophos, e os litteratos 
eram imitadores banaes de cânones rhetoricos 
provindos de épocas de decadência clássica, esta- 
vam submettidos a trez censuras, inquisitória!, 
episcopal e real, bajulando todos os poderes que 
os aliciavam ou abafavam com a rasão de estado. 
Os raros espirites, que no meio do horror official 
áo . Philosophismo, conheceram as doutrinas dos 
Encyclopedistas e dos Physiocratas, calaram-se 
com o terror da repressão policial, ou emigraram 
de Portugal, ainda antes do mandarinismo da In- 
tendência do terrivel Pina Manique, que fechava 
os portos á entrada dos livros francezes, man- 
dando-os apprehender nas lojas dos livreiros Borel, 
Roland e Semiod, mandando (queimar na praça 
publica pela mão do carrasco os livros heterodo- 
xos em politica e religião, ou devassando mesmo 
as livrarias particulares, como a de Fr, Joaquim 
de Santa Clara. Bocage era prezo por se lhe en- 
contrarem papeis sediciosos, meras poesias philo- 
sophicas, e os livros que vinham do estrangeiro 
para o Duque de Lafões, eram examinados na 
Alfandega, e o fundador da Academia das Scien- 
cias de Lisboa, denunciado como sectário do phi- 
losophismo, apesar de ser tio da rainha D. Maria i. 
O sentimento ou manifestação de liberdade poli- 



382 HISTORIA DA T.ITTERATURA PORTUGUEZA 



tica era duramente abnfado como Ideia franceza 
e Philosophismo. Desde a Renascença, em que 
fomos a par com a civilisação europeia até ao 
primeiro quartel do século xix, Portugal resvalou 
era uma deplorável decadência, pela apathia men- 
tal, mantida por todos os modos de sophismaçào 
da liberdade politica. O próprio Marquez de 
Pombal, que deve a sua iniciativa ministerial ás 
ideias económicas, era um regalista tão exal- 
tado que castigava com o cárcere a arbítrio quem 
ousasse exercer o natural direito de represcnita- 
ção. Este terror das ideias não era privativo da 
sociedade portugueza ; mesmo em França, o tra- 
balho de reorganisação mental fizera-se secreta- 
mente. A influencia que a liberdade de pensa- 
mento exerceu sobre os phenomenos políticos, 
era todos os paizes, no século ^vni, coraeçou a 
exercer-se em uma associação de alguns lívre- 
pensadores, denominada Glub de Ventre sol, que 
assim descreve o Marquez d'Argenson, em suas 
Memorias : « Era uma espécie de club á íngleza, 
formada de indivíduos que gostando de discursar 
sobre os acontecimentos, podiam reunir-se e com- 
municar sua opinião, sem terror de se compro- 
raetterera, pois se conheciam bem uns aos outros, 
e sabiam bem com quem e diante de quem falla- 
vam. Esta sociedade chamava-se o Entresol, (so- 
bre-loja) logar onde se reunia, que era a sobre- 
loja em que habitava o abbade Allary. Allí se 
achavam sempre gazetas de França e de Hollan- 
da, e mesmo jornaes ínglezes. > Nas suas Memo- 
rias dá d'Argenson noticia histórica d'esta asso- 
ciação iniciadora da primeira eschola dos Econo- 
mistas francezes e dos próprios Encyclopedistas ; 
muitos dos seus membros eram altos fimcciona- 
rios da politica e do clero ; basta porém citar o 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES MS:! 



nome d'esse extraordinário evangelisador do Pro- 
jecto da Paz universal, o Abbade de San Pedro, 
para que illuminasse a norma da elaboração men- 
tal que se estava fazendo nos espiritos ()ue pre- 
cederam Montesquieu e Rousseau. Era a incuba- 
ção da sociedade europeia inclinada para o pro- 
blema da Uberdade politica, mesmo sem o con- 
tacto com esta nova corrente da critica, da 
philosophia e da litteratura; em Portugal mani- 
festam-se caracteres altamente salientes, como 
Jacob de Castro Sarmento indicando o Novum 
Orgarium Scientissime de Bacon a D. João v, 
revelando-lhe uma das fontes do espirito moderno, 
para o faustoso rei orientar as suas reformas litte- 
rarias, ou no Dr. Ribeiro Sanches, um dos inicia- 
dores da Anthropologia, dando elementos scienti- 
ficos a Buffon, e communicando ao Marquez de 
Pombal as bases para as reformas scientificas da 
pedagogia portugueza, e pelas suas descobertas 
celebradas por Vic d'Azir, um dos fundadores da 
physiologia moderna. Em Portugal tel-o-hiam 
queimado. Mais tarde, quando as ideias philoso- 
phicas se accentuavam, começou uma reacção 
tremenda, primeiro pelo esperançoso principe 
Dom José, o amigo de José n e do Duque de 
Lafões, morto mysteriosamento depois dií ter re- 
velado a lord Beckford as suas opiniões potnba- 
listas e as ideias philosophicas ; José Anastácio 
da Cunha arrastado da sua cathedra de tnathe- 
niatica para a Inquisição, ou também Félix de 
Avelar Brotero, Pilinto Elysio, José Corrêa da 
Serra, secretario geral da Academia das Sciencias, 
procurando refugio expatriando-se. 

Apesar da sua grande e poderosa iniciativa, 
Poml)al não pôde actuar sobre o desenvolvimento 
da Litteratura, porque expungiu o sentimento da 



384 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



liberdade politica pelo seu exagerado regalismo, 
com que mascararia a atroz dictadura ministerial. 
O que inspirou os génios superiores da littera- 
tura do século xvin, e os fez era relação á inde- 
pendência da sociedade os verdadeiros coopera- 
dores dos Philosophos e continuadores dos Juris- 
consultos da Edade Média, só penetrou em Por- 
tugal com o regresso do Duque de Lafões, 
fundando a Academia das Sciencias, a qual che- 
gou a commemorar cora veneração a morte de 
D'Alerabert, o auctor da synthese-prologo da En- 
cyclopedia. A Academia era observada com hos- 
tilidade pelas classes conservadoras, que a consi- 
deravam corao propagadora das ideias francezas 
em Portugal, e despedida da sala do palácio das 
Necessidades, onde celebrava as suas sessões, não 
tendo então subsidio official, nem a chancella de 
real. Era Portugal reflectirara-se todos os abalos 
da reacção contra a grande Crise ; depois da per- 
seguição de Corrêa da Serra e do faleciraento do 
Duque de Lafões, a Acaderaia perdeu a consciên- 
cia e a coragem da sua raissão synthetica. 

A falta de coraprehensão da continuidade his- 
tórica assira como fez (jue a Edade Media rene- 
gasse a dependência da Civilisação heleno-ro- 
mana, levou a Renascença a por seu turno rene- 
gar e despresar a Edade Media, como barbara e 
indigna de estudo ; egual contrasenso actuou na 
mente dos philosophos do século xviit, que no 
seu negativismo revolucionário, despresaram as 
duas grandes épocas da historia moderna, Edade 
Media e Renascença, ficando desorientados sem o 
critério da continuidade. Renegando conjuncta- 
raente as duas bases da Civilisação moderna, re- 
gressavam á Natureza, entidade que nem mesrao 
comprehendiam. Procurando entrar em uma phase 



SEGUNDA Época: os árcades 385 



de organisação remontavam em tudo á simplici- 
dade da Natureza. O Contracto social de Rousseau 
é absurdo em coUocar os homens das cavernas 
a codificar os progressos gradativos de cinco mil 
annos. No seu Emilio, Rousseau funda um sys- 
tema de educação natural, ante este negativismo 
doutrinário : « A litteratura e o saber do nosso 
tempo, tendem muito mais para destruir do que 
para construir.» Os phenomenos sociaes mais im- 
portantes são subordinados a essa entidade, que 
os complica, pela phantasia litteraria e metaphy- 
sica, como Religião natural^ Direito natural, 
Rasão ou lógica natural, e até as Sciencias cosmo- 
logicas e biológicas se denominam ainda Scien- 
cias naturaes. N'este fervor de contemplação 
subjectiva, a Natureza deu os themas poéticos da 
litteratura do século xviii, que se desentranhou 
em poemas didácticos, sem gosto nem vida^ gé- 
nero parasitário do pseudo-classicismo francez de 
Delille, Gastei, Chenedolé, Esnenard, Lebrun, 
Luce de Lancival, Campenon ; os imitados ou 
traduzidos pela Marqueza de Alorna, Bocage, No- 
lasco da Cunha, José Agostinho de Macedo, Costa 
e Silva e Mousinho de Albuquerque. 

A decomposição do regimen catholico-feudal, 
que dirigiu pelo racionalismo a transição affectiva 
da Edade Média, chegou á crise violenta da Re- 
volução franceza. A manifestação foi local, mas 
pela generalidade da crise a todo o Occidente, ó 
que os Reis, como José ii, e ministros como Pom- 
bal, Aranda c Choiseul cooperaram pondo em 
acção as ideias ; por este impulso, a crise revolu- 
cionaria encontrou ecco em todas as nacionalida- 
des da Europa, A Revolução franceza, ficou 
assim chamada pelo logar da explosão ; mas é or- 
ganicamente de toda a Europa, que ainda está 

25 



;jS(i HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tirando as suas consequências. Em Portugal, Pina 
Manique, um magistrado auctoritario por officio, 
fez da Intendência geral da Policia, instrumento 
para por todas as violências ol)star á propagação 
das noticias da Revolução que se passava em 
França, e denunciava a presença de um conven- 
cional Brussonet, refugiado na Academia das 
Sciencias por permissão do Duque de Lafões. 
Perdia a cabeça ao ouvir cantar em botequins 
as Canções francezas, chegando ura grupo de po- 
pulares a cantarem o Çà ira, debaixo das janellas 
do paço real. Espionava com furor a propaganda 
dos livreiros francezes, que espalhavam exempla- 
res da Constituição da Republica. O theatro, que 
servira sempre para entreter o espirito burguez, 
affastando-o do «interesse das questões publicas, 
agora era o vehiculo das ideias revolucionarias. 
Entrava-se era um mundo novo. 

Academia das Sciencias de Lisboa. — Na 
grande reforma pedagógica da instrucção supe- 
rior de 1772, comprehendeu-se a insufficiencia do 
ensino universitário, fechado no quadro docente 
das Faculdades, quando as descobertas modernas 
traziam novas conclusões, que revolucionavam as 
doutrinas estal)elecidas ; no reconhecimento do 
espirito dogmático e conservador das Universida- 
des, os diligentes reformadores planearam nma 
Congregação trimestral das Faculdades scientifi- 
cas para a ratificação dos factos novamente adqui- 
ridos, conjugados cora os elementos doutrinários 
dominantes. Não se realisou esse pensamento, 
pela terminação da acção ministerial do Marquez 
de Pombal. Essa funcção critica pertencia espe- 
cialmente ás Academias, fundadas em França e 
Inglaterra no século xvm; a Congregação das 



SEGUNDA Época: os árcades HSl 



Faculdades scieiítificas não podia ter essas ini- 
ciativas criticas e renovadoras. Essas Academias 
obedeciam na sua fundação a um novo espirito 
scientifico, claramente revelado por Bacon quando 
mostrou que era necessário dar aos materiaes 
scientificos a luz synthetica. Assim mostrou como 
os phenomenos sociaes de línguas, litteraturas, 
Artes, Religiões, Instituições sociaes^ politicas, 
económicas e industriaes, eram elementos de or- 
dem moral tãa importantes como os phenomenos 
cosmologicos, e portanto, sciencias especiaes que 
só se comprehenderiam no conjunto pela genera- 
lisação. Esta moderna ideia suggere a Viço a con- 
cepção da Sciencia Nova, que era a coordenação 
do variado saber dos eruditos, tendo era vista o 
seu destino e condição philosophica. Por esta 
alliança dos conhecimentos encyclopedicos com 
a Philosophia, é que a velha erudição humanís- 
tica de Curiosidades ou Amenidades banaes, do 
meado do século xvii por deante a Erudição se 
transformou em Philologia. As Academias foram 
este organismo de generalisação e de synthese. 
Uma Academia sem o espirito dirigente de um bom 
Secretario perpetuo, cáe na estreiteza das me- 
morias especiaes das monographias, confina-se no 
pedantismo livresco, incapaz de acção social. 
N'esta actividade especialisada ou synthetica se 
concentra toda a historia das Academias. No fim 
do século xvni, na agitação de novas ideias e de 
generosos ideaes, Portugal só podia participar da 
marcha da civilisação pelo impulso de uma Aca- 
demia. Isto illumina o appareci?nento da Acndf- 
niia (his Sciencias de Lisboa em fins de 1779. 
() philosopho Fichte compreliendeu em 1812 o 
poder de um tal recurso íntellectual, quando ex- 
po7 á yVUenianha devastada e impotente pela m- 



388 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



coherencia dos espíritos, a necessidade de uma 
fundação que vivificasse os elementos espirituaes 
d'aquelle seu marasmo ante a orgia militar na- 
poleonica. Fichte renovava a ideia de Leibnitz, 
que um déspota retardou até á fundação da 
Academia de Berlim, por Frederico ii. Um cara- 
cter nacional é o elemento primário d'estas insti- 
tuições, na sua urgência immediata; mas como o 
mais elevado factor pedagógico, a xVcaderaia mo- 
derna, tinha de ser o quadro da systematisaçâo 
dos. Conhecimentos scientificos. Essa realisação 
tornou-se fácil e necessária depois da introducção 
de D'Alembert na Encyclopedia. O seu alto es- 
pirito soube conciliar as Classificações subjecti- 
vas das sciencias com a classificação histórica, 
que foi levada á perfeição por Comte, que evi- 
denciou o estado de positividade a que chegara 
cada sciencia na evolução das sociedades anti- 
gas, como a Mathematica, a Astronomia e a Phy- 
sica, e na civilisação moderna o seu complemento 
theorico, na GUimica, sciencias de organisação 
(Biologia) e moraes e politicas (Sociologia). Como 
este segundo grupo de sciencias se desenvolveu, 
a começar do século xvii, é justamente n'esse 
século que se estabelece o novo typo das Acade- 
mias fundadas em Inglaterra e França, propa- 
gando-se por os outros povos cultos. 

A reforma pombalina da Universidade de 
Coimbra de 1772 reconheceu a necessidade d'esta 
orientação académica, bacompativel com o ensino 
universitário essencialmente dogmático em lições 
concretas destinadas a um fim exclusivo, a habi- 
litação; para vencer este óbice, projectou-se a 
Congregação geral das trez Sciencias naturaes. 
Foi inexequível o intento, porque de 1772 a 1779 
não se redigiu essa Parte iv dos Estatutos. Fora 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 389 



da Universidade é que poderia ser realisado o 
pensamento de uma Academia moderna, que di- 
rigisse a regeneração nacional, e portanto com 
uma orientação synthetica. E' interessantissima 
esta origem da Academia das Sciencias de Lis- 
boa, sendo o seu brilho alcançado quando os seus 
dirigentes tiveram a comprehensão do critério 
synthetico. Os primeiros esforços partiram dos 
dois lentes da Universidade, Vandelli e Visconde 
de Barbacena, que actuaram sobre o espirito de 
Corrêa da Serra, que obteve a influencia absoluta 
e decisiva no meio official e palatino do Duque 
de Lafões. 

A Universidade estava entregue ao governo 
do boçal Principal Mendonça, ao serviço da re- 
acção anti-pombalina. Era impossível formar a Con- 
gregação geral das Sciencias. De Lisboa, escrevia 
o Visconde de Barbacena ao Dr. Domingos Van- 
delli acerca dos Doutores Philosophos (naturalis- 
tas) : « A nossa Sociedade poderia ser bem sup- 
prida pela Congregação geral das Sciencias, que 
se intenta fazer em Coimbra ; mas receio que este 
estabelecimento se não execute tão cedo. > Para 
norma da nova Academia, Vandelli reraetteu-lhe 
os Estatutos da Sociedade scientifica de Londres; 
Barbacena escrevia-lhe : «A nossa Sociedade não 
me esquece, e já cuido em convidar os primeiros 
sócios, porém, a sua abertura não se fará sem 
V. S.* vir, o para esse tempo espero que tudo es- 
teja prompto. Queira V. S.*^ ir fazendo lembrança 
das cousas mais necessárias, em que a Sociedade 
deverá primeiro occupar-se e dos assum[)tos dos 
primeiros prémios ^^. Estas cartas eram de 1778 e 
em carta de 27 de Maio, escrevia: «todo o prin- 
cipal trabalho me parece estar prompto, porém 
confesso a V. S.* que com tudo isto sinto dentro 



390 HISTORIA DA LITTF.RATURA PORTUGUEZA 

» 



em mim uma tal frieza, causada não sei se pelo 
estado das cousas, se pelas poucas luzes da Na- 
ção, sobre as matérias que fazem o nn>so objecto, 
que me não tenho com animo a pôr-lhe a ultima 
mão ». Barbacena soffria o collapso da grande 
crise intellectual que se passava na dissolução do 
regimen catholico feudal. Esta frieza resultava 
das contrariedades que surgiam contra a Acade- 
mia: em Ponte do Lima inaugurou-se em 8 de 
Maio de 1779 uma Sociedade económica dos Ami- 
gos do Bem publico, coin sua sede no palácio do 
Visconde de Villa Nova de Cerveira, omnipotente 
ministro. O vaidoso fidalgo, para dar a prepon- 
derância á associação da sua terra, embaraçava 
com os seus conStervantismos a creação da Aca- 
demia das Sciencias de Lisboa. Em uma carta 
do P.e Theodoro de Almeida para um dos funda- 
dores da Sçciedade económica de Ponte de Lima, 
allude a estas difficuldades, que tanto alquebra- 
vam o Visconde de Barbacena. Escrevia o P.** 
Theodoro de Almeida para Ponte do Lima : - se 
com effeito levamos avante uma grande empreza 
era que andamos de formar na Corte uma Aca- 
demia Real das Sciencias, como bom seria que 
nos Estatutos mutuamente nos ligássemos, para 
nos ajudarmos mutuamente. Ha grandes difficul- 
dades, como sempre em tudo que é bom; com- 
tudo, temos esperanças que se desvanecerão. — 
Tenho demorado a resposta, imaginando que po- 
desse n'ella dar essa alegre noticia da fundação 
da Academia ; porém ainda não pode ser. Ainda 
que esse segredo ainda se quer guardar até vêr o 
que sáe, para uns sócios tão merecedores não o 
deve haver. Lástima má, que tão bons principios 
caiam por terra;. . . » Este segredo era o recurso 
achado para vencer o cabeçudismo do Visconde 



SEGUNDA KroCA: OS ÁRCADES .'!'.) I 



de Villa Verde que embaraçava as primazias glo- 
riosas de Ponte do Lima, e o esperado regresso 
do Duque (ie Lafões a Lisboa, realisado em Ja- 
neiro de 1779, tendo vindo José Correada Serra, 
de Serpa d capital para saudar o seu grande e 
generoso amigo. Estava-se em um momento cri- 
tico, eni que o êxito dependia das mais cautelo- 
sas reservas. 

Importa consignar aqui alguns traços biogra- 
phicos d'este vulto superior. José Corrêa da 
Serra nasceu era 6 de Junho de 1750 em Serpa 
(Alemtejo) sendo seu pae o Dr. Luiz Dias Cor- 
rêa, medico pela Universidade de Coimbra, e 
D. Francisca Luiza da Serra. Como seu pae sahiu 
para Roma em 1758, com sua familia, o filho se- 
guiu ahi os estudos, revelando logo uma grande 
precocidade. Os seus interesses mentaes foram o 
conhecimento da Botânica e das línguas france- 
za, ingleza, allemã, grega e latina, a portugueza 
e italiana, que lhe eram nativas. Ao tempo d'es- 
tes seus estudos, o Duque de Lafões visitou Roma 
e conviveu com o Dr. Luiz Corrêa, tendo occa- 
sião de conhecer de perto a criança intelligente 
e dócil, o que o levou a pedir ao pae para leval-o 
em sua conipanhia na excursão (jue ia fazer pela 
Itália e Allemanha. Foi incomparável o offeito 
d'estas excursões, recebendo as maneiras distin- 
ctas do Duque e o alargamento da sua intelle- 
ctualidade, pelo horisonte que se lhe abria. Du- 
raram um anno estas viagens, voltando a termi- 
nar os seus estudos, graduand()-s(i em cânones e 
seguindo a clericatura, como o bom typo do 
Abbade do século xvni. Assim se estabeleceram 
as circumstancias para a creação da Academia. 

Para o acto solemne da acclamação de D. Ma- 
ria 1, D. Francisco de Lemos, reitor-reformador 



392 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



da Universidade de Coimbra, veiu officialmente a 
Lisboa, e durante os mezes em que se demorou 
na corte, percebendo a corrente de reacção que 
se estava formando contra a reforma universitá- 
ria, escreveu uma longa Relação geral do estado 
da Universidade de Coimbra desde 1772 (da 
nova fundação) a setembro de 1778. N'este qua- 
dro valiosíssimo para a nossa historia pedagógica 
em Portugal, mostra que as trez Faculdades de 
Mathematica, de Philosophia natural (Astrono- 
mia, Physica e Chimica) e Medicina, careciam 
que se estabelecesse uma quarta Faculdade com 
o titulo de Congregação Geral das Sciencias, 
para o adiantamento, progresso e perfeição das 
Sciencias naturaes, cuja organisação viria a for- 
mar a Parte iv dos Estatutos da Universidade. 
Este trabalho não chegou a ser realisado, por 
complicados successos; mas ficou manifesto o in- 
tuito dos reformadores, que bem reconheceram 
que o ensino das Universidades carecia de ser 
ampliado nas novas Academias. D, Francisco de 
Lemos frisa o problema fundamental da natureza 
improgressiva das Universidades : « que todas es- 
tas sciencias se aperfeiçoam cada vez mais e se 
enriquecem com descobrimentos novos, que logo 
devem encorporar-se nos respectivos cursos das 
lições publicas, — tem mostrado a experiência 
que as Universidades nem tem infelizmente pro- 
movido estes conhecimentos, nem tem recebido 
com a promptidão necessária os descobrimentos 
que de novo se tem feito em todas estas Scien- 
cias, porque sendo destinadas ao Ensino publico, 
S8 julgam limitadas a um curso de lições positi- 
vas e só trabalham e se occnpam em conservar e 
defender as que uma vez começaram a ensinar, 
com grande prejuízo do Bem pubHco e do 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 393 



adiantamento das Letras ». {Relaç. ger., p. 61). 
Isto foi confirmado por um facto capital, quando 
em 1872 a Universidade de Coimbra celebrou o 
Centenário da fundamental reforma pombalina, as 
Commemorações das Faculdades nos seus rela- 
tórios affirmaram com orgulho que a obra do 
grande ministro se mantivera intacta. 

Dom Francisco de Lemos, não vendo realisa- 
vel em 1777 a Congregação geral das Sciencias 
das trez Faculdades, lembra o grande influxo das 
Academias em Inglaterra, França e até na Rús- 
sia, alludindo ao que «se tem praticado e pratica 
nas Academias mais conhecidas da Europa, me- 
lhorando os conhecimentos adquiridos e adqui- 
rindo outros de novo, os quaes logo se fizessem 
passar aos cursos respectivos...» A experiência 
das outras nações da Europa não nos deixa duvi- 
dar já do successo. A quem deve a Inglaterra a 
sua opulência e o florescente estado das suas 
Artes da Paz e da Guerra senão á Sociedade 
real de Londres e á Academia real das Scien- 
cias ? A quem devem os mais Estados o melhora- 
mento e vantagens, que todos os dias vão receben- 
do em todos os objectos do seu Governo, senão ás 
muitas Sociedades e Academias que n'ellas se tem 
instituído á semelhança das de Paris e Londres ? 
Quasi em nossos dias, ainda estava ao Norte da 
Europa um vasto paiz submergido nos horrores 
da barbaridade, a Rússia. Quiz Pedro- o-Grande 
introduzir as instituições politicas, civis e milita- 
res, que pessoa alguma tinha observado nas regiões 
do Meio Dia. Que medidas tomou ? Levantou-se 
a Academia de Petersbiirg e tudo foi feito. > 
(7^.., p. 63). 

O austero reitor-reformador, (jue salvou a Uni- 
versidade da reacção boçal do novo reinado, che- 



IWÍ HISTOHIA DA f.ITTERATURA PORTUGUEZA 



gara a este perfeito julgamento pelos esforços 
que empregavam os dois lentes de Mathematica 
e Astronomia, Visconde de Barbaoena e Van- 
delli, para realisarem a instituição de uma Aca- 
demia de Sciencias. Importa conhecer este facto 
sobre que assentou a influencia de Corrêa da 
Serra actuando no animo do Duque de Lafões, que 
dispunha do máximo valimento palatino. Em 1771 
o Dr. Luiz Corrêa regressou a Lisboa, por negó- 
cios de família^ e achando influencias favoráveis 
para o lilho, que se ordenara de presbytero em 
1773^ chamou-o a Portugal, por lllQ; a viagem 
foi demorada por falta de navio, e só pôde chegar 
a Mertola em 29 de Novembro de 1777. Cessara 
o poder do Marquez do Pombal e seu pae fale- 
cera. Demorou-se em Beja junto do erudito Bispo 
da diocese D. Fr. Manoel do Cenáculo, que manti- 
nha um certo fervor litterario, a que se acolhera 
Filinto. Depois de rainha D. Maria i, o Duque de 
Lafões pôde regressar a Lisboa e readquirir a an- 
tiga sympathia da princeza, de que Pombal o 
afastara. Em 3 de Janeiro de 1779 chegava a 
Lisboa o Duque de Lafões, e os iniciadores da 
Academia viram n'elle o único e poderoso influxo 
para se realisar esse pensamento. Corrêa da Serra, 
pela intimidade com o Duque, é que podia con- 
vencel-o a conceder a sua excepcional influencia; 
chamaram Corrêa da Serra a Lisboa, obtendo da 
clara intelligencia do Duque a acquiescencia, e 
em Agosto de 1779 realisava-se no palácio de 
Queluz a primeira reunião preparatória. Era este 
êxito o trabalho que estava em segredo, de que 
fala o P."" Theodoro de Almeida a ura consócio 
da Sociedade económica de Ponte de Lima. 

Durante vinte e dois annos estivera D. João 
Carlos de Bragança afastado de Portugal, vivendo 



SEGUNDA KFOCA: OS ÁRCADES Í5^>r 



sumptuosamente nas cortes de Vienna, de Lon- 
dres, Paris e Roma, vendo tamhem o Oriente, 
convivendo com os grandes artistas como Gluck, 
e gosando a confiança do imperador philosopho 
José II. Distinguira-se como verdadeiro cavalleiro 
na Guerra dos Sete Annos, merecendo a Frede- 
rico 11 a referencia de que os seus granadeiros 
confessaram que nunca tiveram na sua frente 
homem mais intrépido e mais generoso. O Duque 
de Lafões, vendo de perto o atrazo do paiz e a 
boçalidade dos seus governos, tornou-se mais do 
que um protector da Academia das Sciencias^ 
foi o seu Presidente, defendendo a nova institui- 
ção dos assaltos do Intendente Pina Manique, que 
em tudo via o perigo do Philosophismo. Os Es- 
tatutos foram approvados por Aviso de 24 de 
Dezembro de 1779, celebrando-se a sessão inicial 
particular na Sala da Junta dos Três Estados, no 
paço das Necessidades em 16 de Janeiro de 1780. 
Era dividida em três classes: Sciencias naturaes^ 
Sciencias exactas e Sciencias moraes, segundo o 
espirito de D'Alembert. O Visconde de Barbacena, 
secretario gerai, escrevia a Vandelli, ausente na 
Universidade: «Tenho o gosto de dizer a V. S.'* 
que tudo o que pretendiamos para a Academia 
está conseguido. A Rainha approvou o novo Pro- 
jecto por um Aviso do Secretario de Estado — 
e nos dá casas no Palácio das Necessidades, com 
o que estamos contentes*. O Patriarcha de Lisboa 
recusou-se a' acceitar o titulo de sócio honorário, 
o que revela d'onde provinham as hostilidades 
contra a Academia das Sciencias. A' excepção 
de Pascoal José de Mello, de António Ribeiro 
dos Santos e José Monteiro da Rocha, os lentes 
da Universidade também mostravam malevolen- 
cia contra a Academia. 



396 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A sessão solemne foi celebrada em 5 de Julho 
de 1780, no Paço das Necessidades, depois da re- 
cepção pela Rainha, e sendo encerrada pelo Du- 
que de Lafões. Desde que D. Maria i deixou o 
governo, em 1792, immediatamente a Academia 
foi expulsa do Paço das Necessidades, estabele- 
cendo-se no palácio do Beco do Carrasco até 
1797. N'este deplorável meio social a Academia 
para exercer uma influencia progressiva, tinha 
de elevar-se acima dos trabalhos especiaes, tra- 
çando planos de uma actividade synthetica. Isso 
comprehendeu bem José Corrêa da Serra, que 
ficou secretario effectivo desde que o Visconde 
de Barbacena foi como Governador para a Pro- 
víncia de Minas. A nação carecia da Historia lit- 
teraria de Portugal, do Diccionario da Lingua 
portugueza, de um Corpo de Auctores clássicos : 
Historiadores, Viajantes, Poetas, em edições ac- 
cessiveis ao publico. Com esse espirito apontava 
a necessidade da formação de uma Historia civil 
de Portugal ; a obra jurídica de Pascoal José de 
Mello, systematisando a Legislação portugueza, 
começava fundando as bases da historia da Lusi- 
tânia. Os trabalhos dos dois decennios da Acade- 
mia são ainda hoje o melhor e mais glorioso do- 
cumento da sua acção nacional. Em 1797, Corrêa 
da Serra viu-se perseguido. O Duque de Lafões 
teve de soffrer derrotas dos invasores castelhanos, 
porque a indigna Carlota Joaquina obrigava o ma- 
rido, o Príncipe Regente (D. João vi) a dar contra- 
ordem e a retirada no momento dos triumphos. Fe- 
chada nas especialidades, a Academia que consa- 
grara o falecimento de d'Alembert, prestava home- 
nagem a Junot, e tornava-se o baluarte da reacção 
do Infante D. Miguel. Em 1781 tornou-se a submet- 
ter as Memorias á censura ; conseguiu a sua in- 



SEGUNDA Época: os árcades 397 



dependência, realisando a liberdade intellectual e 
scientifica. 

Thomaz António Gonzaga e a Marilia de 
Dirceo. — No ultimo quartel do século xviii, ma- 
nifesta-se um cnthuziasmo pelas cançonetas deno- 
minadas Modinhas, do gosto brasileiro, pela ex- 
pressão musical languida e commovente, e pela 
poesia vehemente e terna. A alma portugueza, 
na sua amorosa emotividade, recebeu n'esse clima 
da America meridional uma sobreexcitação, que 
se reflectiu no seu lyrismo. A modinha, corres- 
pondeu a um estado physiologico geral, po- 
pular e litterario ou artístico. Veiu-nos da colónia 
americana para a metrópole actuar sobre o apa- 
gado lyrismo arcadico, e recebeu na corte a sua 
consagração que a fez actuar nos costumes. Lord 
Beckford na sua carta de 1787, descreve a fasci- 
nação que lhe causaram as Modinhas, cantadas 
pelas açafatas ou meninas fidalgas, que acompanha- 
vam a Rainha: «divisamos as duas formosas irmãs 
Lacerdas, damas de honor da rainha, — duas jo- 
vens mui elegantes, as quacs acompanhadas do seu 
mestre de canto, um frade baixo e atarracado e 
de óculos verdes, garganteavam Modinhas bra- 
sileiras. Quem nunca ouviu este original género 
de musica, ignorará para sempre as mais feiti- 
ceiras melodias que tem existido desde o tempo 
dos sybaritas. Consistem e;m languidos e inter- 
rompidos compassos (robatu) como se faltasse o 
fôlego por excesso de enlevo, e a alma anhelasse 
unir-se a outra alma idêntica, de algum objecto 
querido. Com infantil desleixo insiíiuam-se no co- 
ração antes de ter tempo de o fortificar contra a 
sua voluptuosa iiifiuencia : imaginaes saborear 
leite e o veneno da sensualidade vae calando no 



398 HISTORIA DA l-llTERATliRA PORTIT.UEZA 



mais intimo da existência, pelo menos assim suc- 
cede áquellas que sentem o poder dos sons har- 
moniosos... Uma ou duas horas correram quasi 
imperceptivehilente no dehoioso delírio, que áquel- 
las notas de sereia inspiravam, e não foi sem ma- 
goa que eu vi a companhia dispersa e o encanto 
desfeito. » O grave o ponderado erudito Dr. An- 
tónio Ribeiro dos Santos insurge-se com cólera 
contra as Modinhas, e tendo assistido na grade 
do convento de Chellas ein reunião dada por 
D. Leonor de Almeida (Alcipe) escrevia ao apai- 
xonado bispo de Malaca D. Pr. Alexandre da 
Silva: «Tive finalmente de assistir á assembleia 
de Alcipe, para que tantas vezes tinha sido con- 
vidado: que desatinos não vi. Mas não direi tudo 
quanto vi; direi somente que cantavam mance- 
bos e donzellas cantigas de amor tão descompos- 
tas, que corei de pejo... Hoje — só se ouvem 
cantigas amorosas de suspiros, de requebros, de 
namoros refinados, de garridices. Esta praga é 
hoje geral, depois que o Caldas começou de pôr 
em uso os seus romances e de versejar para as 
mulheres. Eu não conheço um poeta mais preju- 
dicial. . . a tafularia de amar a meiguice do Bra- 
sil e em geral a raolleza ajnerioana, que faz o 
caracter das suas trovas, que respiram os ares 
voluptuosos de Paphos e de Cythera, e encantam 
com venenosos philtros a phantasia dos moços 
e o coração das damas. Eu admiro a facilidade 
da sua veia, a riqueza das suas invenções. » Em 
uma variante a este texto, accentua mais: «em 
seus cantares somente respiram as imprudências 
e liberdades do amor, os tonilhos extenuados da 
molleza americana ». E contrapõe ao Caldas 
Barbosa o satírico Nicoláo Tolentino : « os seus 
yersos são o retrato do que se passa no mundo e 



SEGUNDA ÉPOfW: OS ÁRCADES orr.1 



são uma viva censura dos costumes corrompidos 
do nosso século.» (Ms. 100, íl. 156. Bibl. nac). 
O quadro dos costumes dominados pela seducção 
das Modinhas brasileiras é assim traçado artis- 
ticamente por Tolentino: 

Em bandolim marchetado, 
Os ligeiros dedos promptos, 
Louro peralta adamado 
Foi depois tocar por pontos 
O doce lundum chorado. 

Já d'entr6 as verdes murteiras 
Em suavíssimos accentos, 
Com segundas e primeiras 
Sobem nas azas dos ventos 
As modinhas brasileiras. 

Aquelle padre baixo e atarracado, de óculos, 
de que falia Beckford, parece ter sido retratado 
por Tolentino, como um typo característico: 

UAbbé que encurta as batinas 
Por mostrar bordadas meias, 
B presidindo em matinas. 
Vae depois ás assomblei^ . 
Cantar Modas com as meninas. 



Cantada a vulgar Modinha 
Que é a dominante agora. . . 

(<)h., p. 140). 

N'este fervor do gosto, em que a musica do- 
minava a letra das canções, appareceu em 1792 
em Lisboa um pequeno folbeto em 8." pequeno, 
de 118 paginas, impresso na Typographia Nune- 
siana. com o titulo Mnrilia de Dirceo, por T. A. G. 
Contém apenas a Parte i. N'este mesmo anno, 
(sem data) é publicada a Marília de Dirceo, por 
T. A. G., pela Orn.-in;, RuIliòP^. Traz já esta 



400 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



nova edição a Parte ii. A tiragem foi de dois mil 
exemplares, que se venderam em seis mezes. 
Eram bellas Modinhas, a inspirada letra poética, 
sem musica que as realçasse. Vê-se por estas 
duas edições do mesmo anno, que a Marília de 
Dirceo suscitou a attenção publica. Que poeta 
designavam aquellas iniciaes T. A. G. ? Simples- 
mente um grande desgraçado, que viera con- 
demnado do Rio de Janeiro a dez annos em Mo- 
çambique, e esperava na Torre do Bugio, que 
partisse para Africa uma náo que o levasse. Esse 
desgraçado poeta era o Doutor Thomaz António 
Gonzaga, que estava despachado Desembargador 
da Relação da Bahia, depois de ter exercido o 
cargo de Ouvidor junto do governador de Villa 
Rica, por ser homem de letras e de toda a con- 
fiança, como se lê no decreto da sua nomeação. 
Tinha ainda vivo seu pae o Desembargador Aggra- 
vista, e uma irmã, á qual coramunicava os seus 
versos, remettidos com as suas cartas familiares 
de Villa-Rica, onde exercera o seu alto cargo de 
1784 a 1789. Mas, qual foi o seu crime, para ta- 
manha derrocada? Uma pavorosa ou Conjuração 
inventada, de que nada se provou ao fim de trez 
annos de devassa, e de ferrenhos interrogatórios. 
Uma atrocidade da Rasão de Estado mais violenta 
do que a intolerância e rigorismo do Dogma 
catholico, duas forças desvairadas, uma pelo ter- 
ror pânico, a outra pela exaltação fanática. A Ma- 
rília de Dirceo é a collecção dos versos em que 
Gonzaga declarava o seu amor a uma menina, 
com quem tinha justo o seu casamento, antes de 
ir tomar posse na Relação da Bahia. A biogra- 
phia de Gonzaga é a explicação da terrível cala- 
midade que lhe desmoronou a existência, atiran- 
do-o para a morte afrontosa^ com a insensibilidade 



SEGUNDA Época: os árcades 401 



moral e profissional da justiça, e com a severida- 
de implacável das formulas tabellionicas. As Can- 
ções da Marília de Dirceo com esta luz tornam- 
se um goso eterno pela verdade do sentimento. 
A sua biographia, embora assente sobre datas 
seguras, tem-se escripto erradamente pela incom- 
prehensão dos factos lendários considerados his- 
tóricos, e com a ausência completa do critério 
psychologico. 

Thomaz António Gonzaga, filho do desembar- 
gador João Bernardo Gonzaga, e de D. Thoma- 
zia Isabel Clark, o pae de origem brasileira e a 
mãe de origem ingleza, nasceu no Porto, em Mi- 
ragaia, em 11 de Agosto de 1744. Na freguezia 
de S. Pedro de Miragaia foi baptizado, guardan- 
do-se ahi o livro do registo parochial, que pas- 
sou, para o archivo ecclesiastico. Quando em 1850 
se tirou uma copia d'esse registo, declarou o pá- 
roco ou cartorário, que se não podia indicar o dia 
certo do nascimento por se achar illegivel. Feliz- 
mente o dia 11 de Agosto está hoje determinado 
pelas investigações do açoriano Canto Moniz. * 



* O critico brasileiro José Veríssimo, na biographia 
de Gonzaga, que acompanha a sua edição da Marilia de 
1912, oinittiu a data 11 de Agosto, e diz a pag. 30: 
« Ignoro o que auctorisou a assentar o dia 11 de Agosto 
de 1744 como o do sou nascimento. Não conheço docu- 
mentos que justifiquem esta exactidão ». No jornal A Fo- 
lha, n.o 141, 3° anuo, que se publica em Ponta Delgada, 
(Ilha de S. Miguel) deu o sr. Canto Moniz noticia d'esse 
achado, em 1905. O escrivão da Camará ecclesiastica do 
Porto, Júlio Albino Ferreira, mandou-lhe uma copia 
exacta da attestação, ahi encontrada. No numero 145 da 
Folha, narra o investigador os trabalhos que empregara 
para essa descoberta. José Sampaio (Bruno) também em 
um artigo biographioo publicado na Voz Publioa, do 
26 



402 HISTORIA DA LITTERATIRA PORTUGliEZA 



Nas Instrucções dadas ao Visconde de Barba- 
cena, quando era 1788 veiu governar a Capitania 
de Minas, insiste-se n'este caracter da população : 
« Entre todos os povos de que se corapõeni as 
differentes Capitanias do Brasil, nenhuns talvez 
custaram tanto a sujeitar e reduzir á obediência 
e submissão — como foram os de Minas Geraes». 
No seu estudo biographico de Gonzaga, notou 
José Veríssimo esta circurastancia que trazia 
sempre em alarme os Governadores da Capitania, 
e até certo ponto na attenção aos coronéis de 
tropas milicianas, que era um outro factor, por- 
que traziam contractos com o estado : < D'aquel- 
les habitantes, grande parte eram grosseiros co- 
lonos reinoes, ávidos emboabas, rudes caipiras, 
restos dos descendentes dos Bandeirantes, que ti- 
nham vindo de Taubaté — havia para menos de 
um seculO'. {Op. cit., p. 19). Ainda estava fresca 
a memoria de dois levantamentos seus no pri- 
meiro quartel do século xviii. Era uma camada 
social, que devia as 700 arrobas de ouro dos 
quintos, que pagavam da lavra das minas. Ao In- 
tendente do Ouro competia o tratar d'esta Co- 
brança, e Gonzaga, como Ouvidor só podia dar a 
sua opinião e mais nada. Os vários Coronéis de 
regimentos milicianos abusavam d'este espanta- 
lho revoltosO; impondo-se aos Governadores. No 
meio d'esta anarchia intima, que tudo dissolvia, 
Gonzaga organisou em 1.786 uma Relação dos 
Contractos que se achajn por pagar, pertencen- 
tes a esta Capitania de Minas Geraes, cuja im- 



Porto, n.^ 745, anno xiii, de 20 de Agosto do mesmo 
anão, também descreve a descoberta, e pôl-a em circula- 
ção. Eis pois a authentieidade; não admira que o critico 
brasileiro desconheça estas notas avulsas de tão longe. 



SEGUNDA Época: os árcades 403 



portancia em 22 do Setembro de 1786, montava 
a 2.460:787J'813 réis. Todo esse elemento mili- 
ciano e j)roprietario, explorador das arrematações 
dos trabalhos de estradas custeadas em mais de 
trezentos contos annuaes, trataram de se colliga- 
rem com o Governador Luiz da Cunha Mene- 
zes, <^ritando : Comam todos! e mostraram, pela 
marcha dos acontecimentos da fundação da Re- 
publica em 1787 na Amerioa ingieza, que o pe- 
dido dos quintos envolvia a ideia de atear a Re- 
volução na America brazileira. O procedimento 
desaforado da clientella de Luiz da Cunha Me- 
nezes suscitava a exhibição de typos caricatures- 
cos, e espontaneamente começaram a correr umas 
Sátiras anonymas, manuscriptas, em nome do 
Grilillo, pseudonymo arcadico, com o titulo de 
Cartas Chilenas. São Epistolas juvenalescas em 
verso solto endecasyllabo, com um vago senti- 
mento democrático, e dando nomes em alcunhas. 
No decreto da nonif^acão de Gonzaga allude- 
se á necessidade de um ministro de lettras e de 
toda a confiança para aquelle logar, que occupou, 
com a entrada do novo Gov(írnador em fins de 
1783, Luiz da Cunha Menezes. A administração 
do seu antecessor fora froixa, no meio d'a(iuelle 
conflicto de ambições, diminuindo sensivelmente 
o rendimento do quinto de ouro, e desconheciam- 
se os devedores ao estado, e as obrigações de 
seus contractos. Com a entrada de Luiz da Cunha 
Menezes as cousas peoraram, porque elle era fac- 
cioso, com favoritos (pie o lisongeavam, e pelos 
seus vicios pessoaes, o poder arbitrário tornara-se 
impudente, provocando as sátiras pessoaes. Gon- 
zaga conhecia intimamente a vida brasileira, e 
ada))tava-í5e bem a esse meio tão caracteristico 
de Villa Rica. Foi também ahi encontrar homens 



404 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cultos, contemporâneos da Universidade de Coim- 
bra, que conheciam as bellas lettras e se davam 
á poesia. Cláudio Manoel da Costa, que fora se- 
gundo secretario do governador antecedente, ad- 
vogava em Villa Rica; e Ignacio Alvarenga Pei- 
xoto, proprietário, alli vinha constantemente, 
sendo coronel de um regimento miliciano. Era 
em casa de Gonzaga, que se reuniam para se 
distrahirem nos seus ócios litterarios, conversando 
sobre os acontecimentos da Europa. E' em 1784, 
que Gonzaga assume também a funcção de Pro- 
vedor dos defuntos, ausentes, capellas e órfãos. 
Novo, com talento e um claro espirito de jus- 
tiça, tudo lhe augurava prosperidades. Perdera 
sua mãe em 1778, e esse affecto fazia-lhe sentir 
a necessidade moral de instituir o seu lar domesti- 
co, tendo no fim do triennio de ir tomar posse do 
logar de Desembargador na Bahia, em 1788. 

Como, n'este meio em que Gonzaga conhecia 
perfeitamente as pessoas e classes com quem tra- 
tava, se enleiaram os fios da mais inesperada e 
estupenda tragedia, que lhe demoliu toda a sua 
elevada carreira social, com o ferrete de penas 
infamantes e a morte pela angustia, mas isto 
tudo sem haver um facto praticado, sem teste- 
munha authentica, que fundamentasse a mons- 
truosa e execranda sentença ! Diante d'este qua- 
dro, é que os factos apparentemente banaes se 
conjugam, para esclarecer a trama das intrigas 
locaes, manobrando a inintelligencia dos Governa- 
dores e dos Vice-Reis fidalgos. A povoação de 
Villa Rica, de quinze mil habitantes, formada 
em grande parte dos antigos bandeirantes pau- 
listas, que vieram á procura de ouro e aqui esta- 
beleceram o seu arraial sedentário ; a classe dos 
adventícios era extremamente irrequieta, e dava 



SEGUNDA Época: os árcades 405 



sempre cuidado ao governo da metrópole. Nas 
Leituras de Bacharéis, no Desembargo do Paço, 
concorreu Gonzaga aos logares da magistratura 
judicial. Em 1777 tinha-se acabado o poder do 
Marquez de Pombal com o falecimento do rei 
D. José, e sendo Gonzaga ura Pombalista, como 
o revela a dedicatória do seu Tratado de Direito 
Natural, reconheceu que tinha contra si todo o 
fervor da reacção, capitaneada pelo Principal 
Mendonça. Saudou o sol nascente, em uma Ode, 
que nos revela que cultivara a versificação du- 
rante a vida académica, onde por ventura já 
usara o nome arcádico de Dirceo, como Diniz 
usara ahi o nome de Elpino. Nos Manuscriptos da 
Bibliotheca da Universidade de Coimbra (n.» 340) 
encontra-se uma sua composição inédita, Con- 
gratulação do Povo portuguez na feliz Accla- 
inação da muito alta e muito poderosa Senhora 
D. Maria l.*^, JSÍossa íS*.», pelo Dr. Thomaz An- 
tónio Gonzaga. Pela primeira vez se consigna 
este facto, porque leva a inferir da authentici- 
dade da parte terceira da Marília de Dirceo. 
Foi esta Rainha que assignou a truculenta sen- 
tença da clamorosa desgraça do Poeta na incon- 
sciência do seu poder soberano. Gonzaga, como 
Doutor-Oppositor para encetar carreira, entrou no 
quadro da magistratura judicial como Juiz de 
Fora de Beja_, ou de primeira instancia. Termi- 
nado o seu quadriennio, foi nomeado Ouvidor 
junto do Governador da Província de Minas Ge- 
raes, cuja sede era em Villa Rica. Em 1782, em 
12 de Dezembro, competia-lhe também a pro- 
vedoria dos bens dos defuntos, ausentes, órfãos 
e capellas, competindo-lhe ao fira do seu qua- 
driennio o despacho de Desembargador para a 
Relação da Bahia. Parecerá isto uma cousa de 



406 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



favor, mas conhecendo-se as terríveis difticulda- 
des da Administração de Minas Geraes, em que 
os Governadores consentiam ou exploravam to- 
das as traficancias, vê-se que Thomaz António 
Gonzaga foi atirado a esse barathro, onde pelo 
seu caracter affavel, sincero e natural ingenui- 
dade, ia destinado a terriveis catastrophes n'esse 
meio anarchico, e tão perturbado pelas differen- 
tes camadas sociaes dos colonos, dos conflictos 
de interesses dos exploradores de ouro e dos erros 
de administrações imbecis e corruptas. 

A infância e primeira mocidade de Gonzaga 
passou-se em Miragaia, isolada do Porto velho, á 
margem do Douro e em contacto com campos 
cultivados; pela situação official de seu pae vi- 
veu n'essa classe media activa e honesta, com 
uma educação e trato de sociabilidade primorosa. 
O desembargador, terminada a sua commissão da 
Ouvidoria, foi despachado Desembargadbr para a 
Bahia^ a antiga capital do Brasil, onde ainda se 
conservam os velhos costumes portuguezes ; tinha 
então quinze annos Gonzaga, em 1759; e nos 
seus versos allude a esta quadra da juventude 
passada na Bahia, onde se identificou mais com 
os costumes brasileiros. Ahi cursou os estudos pre- 
paratórios para seguir o curso de Leis. Terminado 
o tiennio de seu pae, veiu com a família para a 
Europa em 17(32, instalando-se em Coimbra, fre- 
quentando as disciplinas de Direito civil. Não se 
limitava á habilitação de simples magistrado judi- 
cial ; interessavam-o as questões geraes da Juris- 
prudência, estudando as formas dos poderes do 
estado. Estava então o Conde do Oeiras no fer- 
vor do seu favoritismo, que se fundava no en- 
grandecimento do Poder real. Era a doutrina do- 
minante, e Thomaz António Gonzaga deu-se ao 



SEGUNDA Época: os árcades 407 



trabalho de escrever um Tratado de Direito na- 
tural, em que sustentara as doutrinas do Bega- 
lismo, que dedicou ao omnipotente ministro. 
N'essa obra, que se conserva entre os Manuscri- 
ptos Pombalinos na Bibliotheca nacional, assigna- 
se como Oppositor ds Cadeiras na Faculdade 
de Leis, na Universidade de Coimbra. Vê-se 
que terminado o curso em que se matriculara em 
1 de Outubro de 1763, achava-se habilitado para 
concorrer aos logares do magistério. Chamava-se 
Opposição á inscripção dos Doutores na serie dos 
concorrentes, que pelos precedentes de antigui- 
dade do gráo assim iam occupando as vagaturas 
na Faculdade. A este direito para o despacho de 
lente, chamava-se longa opposição. Gonzaga ma- 
triculou-se no Livro dos Oppositores na Facul- 
dade Juridica da nova Reforma da Universidade, 
isto é, em 1772, como consta de um attestado do 
Dr. Paschoal José de Mello, de 20 de Setembro 
de 1778. Vê-se por estas datas, que se operara 
uma transformaçcão no plano da vida do poeta. De- 
sistindo da serena carreira do magistério, vemol-o 
defrontaudo-se com os vários personagens ahi re- 
tratados pelas suas anecdotas pessoaes e trafican- 
cias conhecidas. Quem seria o auctor das Cartas 
Chilenas, que chegaram a onze, e não sendo obra 
artística, tem comtudo o alto merecimento de re- 
tratar ao vivo o meio moral em (|ue se inventou 
a denuncia de uma Conjuração de Villa Rira, 
com o fim exclusivo de envolver o poeta Cláudio 
Manoel da Costa, Ignacio de Alvarenga Peixoto, 
e principalmente o Doutor Tliomaz António Gon- 
zaga, em cuja casa esses poetas, em uma pequena 
Arcádia de Minas, se desenfastiavam lendo ver- 
sos, emendando-os e recordando-se dos bons tem- 
pos de Coimbra? Em uma terra sem interesses 



408 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mentaes e longe do convívio da civilisação que 
tratava agora do problema social, as Cartas Chi- 
lenas provocaram resentimentos e a intenção de 
armar qualquer intriga odiosa contra os conside- 
rados poetas. Gonzaga estava então era um es- 
tado de espirito de uma serenidade e harmonia 
moral, apaixonado por uma menina, órfã de pae 
e mãe, tutellada por seu tio João Carlos da Silva 
Ferrão, segundo ajudante do General Governa- 
dor. Como em 1785 entrara Gonzaga no exercício 
do logar de Provedor dos Órfãos, teve occasião de 
ver de perto D. Maria Dorothea Joaquina Bran- 
dão Seixas. Foi por occasião das espectaculosas 
Festas, que se fizeram em Villa Rica ordenadas por 
carta regia de 19 de Abril de 1785, para regosijo 
publico pelo casamento da Infanta de Portugal 
D. Marianna com o infante de Hespanha D. Ga- 
briel (que tão desditosos foram) e do Infante de 
Portugal João com a infanta castelhana Carlota 
Joaquina, que tanto infelicitara Portugal com as 
suas intrigas reaccionárias e clericaes. Esses ca- 
samentos foram celebrados em Maio de 1785. Na 
Carta v^ de Critillo, foram descriptas estas fes- 
tanças estrondosas, que deram logar a despezas 
de verdadeira pilhagem official : 4000 cruzados 
na illuminação, consumindo-se 11 arrobas de 
cera, em 6000 luminárias e foguetorio. Gonzaga 
teve de assistir officialmente á recepção do palá- 
cio do Governador, e n'este jubilo em uma ci- 
dade morta, em que as famílias viviam confinadas 
em pequenas casas, detraz das adufas e gelosias. 
Da casa de Gonzaga, construída sobre um morro 
da antiga exploração mineira, via-se a casa do 
tenente coronel Silva Ferrão_, onde habitava sua 
sobrinha e pupilla. Foi n'estes dois annos, de 
1785 até 1787, em que já estava ajustado o seu 



SEGUNDA Época: os árcades 409 



casamento, que Dirceo escreveu as Cançonetas 
que mandava á gentil Marília, de pelle branca e 
de fino cabello preto, tornando-se mais sympa- 
tico para ella o namorado, cujo cabello e barba 
era louro, provinha da origem ingleza de sua 
mãe D, Thomazia, filha do inglez João Clarck. 
Os versos de Gonzaga eram a correspondência 
mutua dos seus amores, cujo realismo deu alma e 
eterna belleza ás lyras, moldadas no velho typo da 
Modinha bahiana, com que fora embalado desde 
17Õ9 a 1762, na velha capital brazileira. O poeta 
trazia o seu coração cheio, e a poesia era a sua 
confidente. Durante este tempo, mandava a sua 
irmã para Lisboa copia d'estas Lyras, que eram 
como que as noticias que lhe dava do seu amor 
e do destino risonho da própria vida. Estas cousas 
passavam-se no meio da tranquillidade provin- 
ciana, em que nenhum symptoma de perturbação 
se manifestava na população ; Luiz da Cunha 
Menezes ia deixar o seu governo em condições 
normaes, findo o triennio. Mas, ura facto myste- 
rioso se estava passando sem que alguém pen- 
sasse em explical-o. Estavam-se construindo no 
Rio de Janeiro numerosos cárceres nas Fortale- 
zas da Ilha das Cobras, em Villegaignon e Con- 
ceição, nos palácios da Relação e do Vice-Rei ; o 
implacável Conde de Resende de combinação com 
o novo Governador de Minas, Visconde de Bar- 
bacena, que trazia ordens draconianas nas Instni- 
cções que recebera em Lisboa. Uma d'essas or- 
dens secretas era a extincção dos regimentos 
milicianos, se fosse necessário, caso teiita.ssem in- 
surgir a província feita a exigência do paga- 
mento de 70!) arrobas d« ouro em divida ao Fisco. 
E essa previsão era suggerida pelo que se estava 
passando na America ingleza, e para atalhar de 



410 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



uma forma absoluta esse incêndio de autonomia 
colonial. No seu enlevo de amor, ledo e cego, 
Gonzaga tratava de obter a auctorisação regia 
para o seu casamento, mandara alugar e mobilar 
casa na Bahia, onde ia occupar o sou Jogar de 
Desembargador, e com o seu talento artistioo 
bordava a fio de ouro o vestido de seda branca 
para a sua noiva. Antes de vêr-se a mutação ou 
tramóia, da assombrosa desgraça do poeta, con- 
vém conhecer o scenario, o aspecto de Villa Rica, 
o essencial para melhor avaliar esses transes. 
Muitos dos nomes cryptonimos que figuram nas 
Cartas Chilenas, hoje laboriosamente personali- 
sadas, apparecem nos depoimentos da devassa 
acerca da sonhada Conjuração de Villa Rica. 

Uma breve mas exacta descripção de Villa 
Rica, o antigo arraial de Ouro Preto, tornada a 
sede da Capitania de Minas Geraes é indispensá- 
vel conhecer para reconstruir o drama amoroso 
da Marilia de Dirceo. .Servi mo-nos dos traços 
corographicos de José Verissimo no prologo á 
edição de 1912: «Situada irregularissimamente 
nos morros e cabeços adjacentes ao pequeno e 
torrentoso rio de Ouro Preto, tinha a Viila um 
aspecto tão pittoresco como extravagante. Er- 
guia-se entre gargantas e grotas e grotõés ou 
sobre serras de penedos, uns cobertos de escassa 
vegetação, em que já sobresáom os frigidos pi- 
nheiros, outros inteiramente nús, muitos d'elles 
cavados ou com a rocha arrebentada pelos ga- 
rimpeiros na ávida rebusca do ouro. Suas mes- 
quinhas casas baixas, ou apenas de um escasso 
andar, com as janellas tapadas por gelosias ou 
empanadas, erguiani-se «sobre um solo negro ou 
escuro da pedra minerea que o constituía, abun- 
dante em ferro. — Quasi sempre enevoada a ci- 



SEGUNDA KPOCA: OS ÁRCADES 111 



dade, com um aspecto sombrio e melancholico. 
Aquelle milheiro de casas espalhadas pelas an- 
fractuosidades no sopé, nas faldas e até nos cimos 
e cabeços dos morros, penduradas das suas en- 
costas, escorregando-lhe pelas íngremes ladeiras 
do chão negro, mas isoladas entre verduras, ou- 
tras amontoadas, enfileirando-se em ruas e viel- 
las, todas mais ou menos eguaes, na sua medio- 
cridade e feitio ; apenas conteriam no máximo 
uns quinze mil habitantes. A maior parte d'ellas, 
muito grosseiras barracas ou casebres de sapupo, 
palha ou sapé, tinham quintaes compridos e des- 
curados. Cercavam-as páos a pique... Nenhum 
edifício notável, mais que a casa dos Governado- 
res, iim grande e grosso quadrilátero alongado, 
massa de edificações incoherentes, pezadissimas e 
feias, ... a da cadeia em frente do palácio, um 
pobre quartel. . .» (Ed. March., p. 17 a 21). 

As Cartas Chilenas, sátiras juvenalescas, que 
atacam todo o governo da Capitania de Minas 
Geraes, sob a gerência de Luiz da Cunha Mene- 
zes, desde 10 de Outubro de 1783 a il de Julho 
de 1788, pintam com traços realistas essa galeria 
de figuras intrigantes, alicantineiros e devassos 
que lisongeavam o Capitão general e exploravam 
a sua vaidade despótica e desvairamento admi- 
nistrativo. Só poderia escrever esse extraordiná- 
rio documento litterario e histórico, um homem 
de talento, que de perto fosse notando toda essa 
tragicomodia que envolvia o desmoroname?ito 
económico da colónia mineira. As Cartas Chile- 
nas corriam anonymas, mas a incerteza do seu 
auctor fazia que se attribuissem ora a Cláudio 
Manoel da Costa, que era um bom poeta, ora a 
Ignacio José de Alvarenga Peixoto, que manti- 
nha a tradição areádica. Thomaz António Gon- 



412 HISTORIA DA LITTERATURA TORTUGUEZA 



zaga, também empregava a peesia para expres- 
são das suas emoções amorosas, que parecia afas- 
tal-o do ironismo e exprobações da Sátira poli- 
tica. Não se fallava no nome de Dirceo, mas é 
certo que se desenvolveu contra Thomaz Antó- 
nio Gonzaga uma malevolencia surda^ que se con- 
verteu em denuncias, que chegaram até ao Go- 
verno da metrópole, e muitas das testemunhas 
que apparecem depondo contra elle, são figuras 
accentuadas das Carias Chilenas, como o Salté- 
rio, o infamissimo Coronel Joaquim Silvério dos 
Reis, que entregou ao novo Governador Visconde 
de Barbacena, uma denuncia de uma imaginaria 
Conjuração, apontando nomes e tornando Gon- 
zaga o principal caudilho I E' contra Gonzaga 
que dirigem as imputações vagas de outros mili- 
tares de Villa Rica, e nas Instrucções que traz 
da metrópole o Visconde de Barbacena, já vem 
visado o Ouvidor Thomaz António Gonzaga. 
Conhecido o viver intimo do poeta da Marilia, 
em que concentrava toda a sua vida affectiva, e 
nada constando contra elle durante a Devassa no 
Inquérito aberto durante trez annos, e conside- 
rando a enormidade da iniqua sentença da Alçada, 
que o condemnou e o privou da amnistia de atte- 
nuações do poder real, defronta-se o espirito cri- 
tico: Porque tão profunda malevolencia? Seria 
Gonzaga o auctor d'esse honroso e sympathico 
peccado das Cartas Chilenas ? Uma allusão for- 
tuita em certos versos, levam a inferir que Dirceo 
molhara o calamo na tinta de Juvenal. 

Alberto Paria no seu estudo Cartas Chilenas 
— seus principaes Cryptonimos, inclina-se para 
este ponto de vista: «Ao concluir apresentaremos 
por ultimo o da Epist. iii, fl. 19-22. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 413 



O nosso bom Dirceo talvez que esteja 
Com os pés envolvidos no capacho 
Mettido no capote, a lêr gostoso 
O seu Yirgilio, o seu Camões e Tasso 

«Por associação dos dois, em que se menciona 
egualraente uma peça commum á guarda-roupa 
de Gritillo e á de Dirceo, infere-se que o conviva 
de Cláudio Manoel da Costa era o seu incompa- 
rável amigo Thomaz António Gonzaga, empra- 
zado para o destroço gastronómico de um quarto 
de mamota (vitella) humedecido — com bom vi- 
nho das Canárias», Ágape, que alguém julgou in- 
compatível com a indigência de Glauceste. 

« Até a vecchia zimarra do grande lyrico in- 
vocada nos autos processionaes da Inconfidência 
sacudida agora do pó de mais de um século, con- 
corre para nol-o denunciar como o glorioso ata- 
gantador do Fanfarrão Minezio et reliqua. 

«Imitando os cães do Nilo, que bebem de cor- 
rida, os nossos antecessores não repararam n'esses 
elementos algo significativos para os avezados a 
analyses ineudas, nem sempre despresiveis». {Re- 
vista de Sciencias, Lettras e Artes, de Campi- 
nas, 1912, p. 31). 

No attestado do desembargador Monteiro Bar- 
bosa, Intendente do Ouro (fundição da Comarca 
de Villa Rica), refere-se a uma situação de Gon- 
zaga, em que se acha envolvido no capote : « te- 
nho lembrança de que um dia jantando em casa 
de Cláudio Manoel da Costa, em companhia de 
Thomaz António Gonzaga e outros, se levantava 
da meza cora uma dôr de cólica, que lhe costu- 
mava dar ; por isso se foi deitar na varanda das 
mesmas casas, em uma esteira junto á escada que 
vae para o quintal, sem me lembrar se estava de 
capote ou — sem elle, — e apertando mais a dôr o 



ÍJ4 HISTORIA DA LinERATURA PORTUGVEZA 



conduzi logo para sua casa. » (Cii. Rev., de 1913). 

No processo judicial, esta minúcia era indi- 
cada para justificação de Gonzaga, como alheio 
ás conversas que se passavam inter pocula em 
casa de Cláudio Manoel da Costa ; no estudo lit- 
terario tem a summa importância para provar 
que o poeta satírico das Cartas Chilenas, foi 
Gonzaga, escriptas no período do Governador de 
Minas, Luiz da Cunha Menezes, e consequente- 
mente, que esse Tole, cracifiye eum, das denun- 
cias e falsos testemunhos contra o poeta como 
réo de alta traição ou Inconfidência, preparando- 
Ihe a morte; foi uma represália que de longe se 
vinha tramando, envolvendo os seus mais intimes 
amigos e os que lhe frcípientavam a casa. 

Um dos cryptonimos, Marquezio, sócio do 
Fanfarrão Minezio, reconhece-se ser o capitão 
de cavallaria auxiliar José Pereira Marques, que 
figurava na tratantada da arrematação das estra- 
das, que era uni dos escândalos do Governador 
Luiz da Cunha Menezes, que o protegia n'estes 
arranjos. O procurador da Fazenda Monteiro Bar- 
bosa, e o Ouvidor Doutor Thomaz António Gon- 
zaga, oppozeram-se ao voto do Governador, que 
queria se lhe entregasse o ramo, pelo lanço : 
Pugnava o Governador por José Pereira Mar- 
ques (Marquezio) em razão do seu maior lanço ; 
oppunham-se os ministros (Procurador da Fa- 
zenda e Ouvidor) asseverando que elle não tinha 
fundos, nem credito, nem fianças tão idóneas». 
O Governador não se levava com razões, e re- 
solveu pelo seu arbítrio, como se lê nas Instrn- 
cções : «e nesta determinação contiimando as con- 
testações — determinou o Governador-presidente, 
de sua própria e particular auctoridade, que o 
contracto se desse a seu afilhado José Pereira 



SEGUNDA riPòCA: os ÁRCADlvS 41.' 



Marques, de que resultaram os protestos e mais 
procedimentos que constam ». O (lue é de tremer 
é vêr u 'estas Instrucções os dois altos magistra- 
dos equiparados nas suas reclamações a favor da 
Fazenda ao Fanfarrão Minezio e como explora- 
dores da afilhadagem - porque não (juerem per- 
der os seus emolumentos e propinas >. Vê-se que 
o infamador, tendo alludido aos escândalos pa- 
tentes do Fanfarrão Minezio e do Marqaezio, 
malsinava traiçoeiramente os dois honrados ma- 
gistrados, que cumpriam o seu dever. D^aqui a 
prevenção malévola com que o Visconde de Bar- 
bacena, entrara no governo de Minas, esperando 
cair com o pezo da sua auctoridade sobre o ingé- 
nuo Doutor Thomaz António Gonzaga, e a vileza 
com que o nobre fidalgo empregou logo a espio- 
nagem, aliciando um amigo de Cláudio Manoel 
da Costa. As Instriicções recoiumendavam-lhe : 
« Esta é emíim a forma, e methodo com que se 
administra a Fazenda real na Junta d'aquella Ca- 
pitania. Não são os interesses da mesma P^azenda 
os que alll se promovem ; são os particulares em 
que somente se cuida >. 

O Visconde de Barbacena, mathematico aca- 
démico, e extranho a assumptos sociaes e de 
administração publica, estava assim habilitado 
para acreditar nas denuncias politicas contra 
Gonzaga, que fora visado nas Instrucções que 
trouxe da metrópole. Em 2U de Janeiro de 1788 
vae ser o contraregra da horrenda tragedia. 

- Chegara ao Rio de Janeiro o novo Vice-Rei 
Conde de Resende, homem estúpido e auctorita- 
rio, que comprehendia o poder como prepotên- 
cia; com o Visconde de Bari)acena, Capitão ge- 
neral da província de Minas, mathematico entre- 
gue a observações, desconhecendo os homens e fa- 



416 HISTORIA DA LITTEP.ATURA PORTUGUEZA 



cilmente sugscerido pelos intrigantes militares em- 
preiteiros de Villa Rica, era inevitável uma grande 
catastrophe de perversão e deshonra da Justiça. 
Trazia o Visconde de Barbacena a indicação da 
cobrança das 700 arrobas de ouro dos Quintos, em 
divida. Gonzaga como Ouvidor era uma auctori- 
dade consultiva, porque o funccionario respectivo 
era o Intendente do Ouro, Desembargador Mon- 
teiro Barbosa, e por isso deu-lhe a sua opinião 
da inopportunidade e perigo de tentar essa co- 
brança no momento em que os povos da America 
do Norte se tinham revoltado do poder da metró- 
pole e constituido uma Republica. Como Juris- 
consulto e Oppositor na Faculdade de Direito da 
Universidade de Coimbra, competia-lhe fali ar 
assim. E quando se tratava de lançar uma Der- 
rama, cotisação especial de certos milhões, pe- 
didos aos proprietários da provincia, também 
observou o perigo de q.ue isso seria o melhor im- 
pulso para um levante ou sublevação d'essa irre- 
quieta população mineira. Pois levaram estas opi- 
niões ao mathematico Visconde de Barbacena, 
mostrando-lhe por a mais b, que Gonzaga prepa- 
rava uma Revolução na provincia de Minas. 

No artigo 50 das InstrucçÕes que trazia o 
novo Governador, vinha a de dissolver os Regi- 
mentos territoriaes pagos pelo povo e annullar as 
patentes dos seus coronéis milicianos, de que 
tanto abusara o antecessor Luiz da Cunha Me- 
nezes. A noticia espalhou-se entre essa classe, 
rosnando alguns farroncas de resistência. Foi um 
d'esses o coronel Joaquim Silvério dos Reis, al- 
cunhado pela sua boçalidade e traficancia o Sal- 
tério, que gosou a protecção do ex-governador 
na arrematação do contracto das estradas, e tendo 
incorrido no despeito d'esse Capitão general, attri- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 417 



buiu esse desvalimento a Gonzaga, e é natural 
que soubesse como nas Cartas Chilenas estava 
representado o ignóbil Saltério. E' certo que elle 
tendo fallado desabridamente contra a reforma 
militar, para se salvar da queixa de que fora 
ameaçado, escreveu uma carta ao Visconde de 
Barbacena denuncia ndo-lhe uma Conjuração em 
Minas, planeada em Villa Rica, apontando nomes 
de todos os amigos de Gonzaga, sendo elle o que 
tudo organisava. Pez esta denuncia em carta da- 
tada de 13 de Março de 1789, sendo-lhe passado 
attestado da miseranda vilania em 20 de Novem- 
bro de 1791. O Visconde de Barbacena enguliu 
a suja pilula do execrando Yago, recebendo ou- 
tra denuncia especial contra Gonzaga, feita pelo 
tenente coronel Basilio de Brito, em 15 de Abril; 
este facto levou o Visconde de Barbacena a lan- 
çal-o como espião á cola de Cláudio Manoel da 
Costa de quem se dizia amigo, para por essa 
circumslancia apanhar algumas palavras que cora- 
promettessem o desgraçado suicida. Gonzaga co- 
nhecia bera quem era este delator, mas ignorava 
em absoluto a primazia do Saltério, um mez 
antes. Como se trabalhava na treva, já de accordo 
com o Vice-Rei Conde de Resende, para se uti- 
lisarem as masmorras feitas no Rio de Janeiro 
para o esperado levante pela cobrança dos Qiiin» 
tos? Já prezo Gonzaga em 12 de Maio de 1789, 
interrogado acerca da Conjuração e dos motivos 
porque estava prezo, respondeu : «que para estar 
prezo bastava ter sido denunciado, o que lhe 
consta por assim ter ouvido diz^-r na véspera da 
sua prizão — que sua deiumcia fora dada por Ba- 
silio de Brito, homem de muito má conducta e 
seu inimigo, pelo prender em virtude de uma 
precatória de Tejuco, conluiado com o sargento- 

27 



418 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mór José de Vasconcellos Parada (o Padela das 
Cartas Chilenas?) seu maior inimigo — chegando 
o excesso da sua paixão a dizer publicamente na 
parada, que havia de perseguir-me até ás portas 
da morte. » (Interrogatório de 18 de Novembro, 
em 1789, na masmorra da Ilha das Cobras). Era 
gente d'esta laia que o Visconde de Barbacena 
ouvia, encoramendava denuncias e era mano- 
brado 1 D'essas palavras revoltosas do Saltério 
ao referir o boato de que seriara annulladas as 
parentes aos coronéis dos regimentos territoriaes, 
foram ouvidas pelo tenente coronel João Carlos 
Xavier da Silva Ferrão, tio e tutor da formosa 
Marilia, e ajudante do Capitão General; sabia 
por tanto a denuncia que deu causa á prizão de 
Gonzaga, e acobertadamente cooperando para 
embaraçar o casamento da sobrinha rica, á qual 
tinha de entregar a riqueza que administrava. 
Nada d'isto via o exacto espirito mathematico 
do ex-lente da Universidade de Coimbra. 

Todos os actos e situações da vida de Gon- 
zaga, eram na transmissão oral interpretados no 
intuito e plano de uma conjuração politica; re- 
feriam-se phrases soltas ouvidas á toa, mas com 
o único fundamento banal — diz-se. Predomina- 
vam n'esses depoimentos os militares, como quem 
descarregava sobre o preclaro magistrado as 
suspeitas era que se envolviam figuras da intima 
confiança do Saltério. Assim o Tenente-coronel de 
cavallaria de Minas, Domingos de Abreu Vieira, 
repetiu as atoardas que ouvira : « que o desem- 
bargador Thoraaz António Gonzaga entrara — 
n'aquella Confederação (o levante na Capitania) 
prestando o seu conselho; e que todos se junta- 
vam algumas noites para esse fim. — Que em 
casa do desembargador Gonzaga se formavam as 



SEGUNDA Época: os árcades 419 



Leys para o novo governo da nova Republica». 
Por aqui se vê como as reuniões litterarias dos 
velhos amigos dos tempos da Universidade de 
Òoimbra, e cultores descuidados da poesia arcá- 
dica, MO suave convívio sodalicio, se convertiam 
em tenebrosas conjuras. E como Gonzaga era 
Doutor de Capello e Oppositor, conhecia além 
das Ordenações do Reino, as obras juridicas de 
Grocio e Puffendorf, d'isso tiravam a base para o 
criminarem de planear a constituição da sonhada 
Republica. Pelo primeiro interrogatório feito a 
Gonzaga, declarou elle que havia dois aimos que 
contractara o seu casamento, em 1787, que não 
foi logo realisado, porque dependia da licença re- 
gia, que esperava pela vinda do novo Vice-Rei 
Conde de Resende. Como ao terminar o seu trien- 
nio em Villa Rica, a licença para o consorcio 
não chegasse, pediu era requerimento ao Viscon- 
de de Barbacena, cfiie lh'a supprisse pela sua au- 
ctoridade, para poder partir para a Bahia cora 
sua esposa. A deraora por parte do Visconde foi 
interpretada nas denuncias miseráveis corao uraa 
habilidade de Gonzaga, para estar em Villa Rica 
até ao levante da província de Minas. Foi exclu- 
sivaraente cora estes elementos tolos, em denun- 
cias de falsidades militares como o coronel Saltério 
(Silvério dos Reis) que o Visconde de Barbacena 
mandou o seu Rulatorio participando ao novo 
Vice-Rei, o bronco e malvado Conde de Resende, 
para que desse as suas ordens terrainantes. Se um 
do Rio de Janeiro dizia — raata! o outro berrava: 
enforca! E das enxovias de Villa Rica, fronteiras 
ao palácio do Governador Visconde de Barba- 
cena, foram arrancados, algemados e esfranga- 
lhados, a pé por sertões e povoações perdidas, 
esses homens exautorados das suas po>ições so- 



420 HISTORIA DA IJTTERATURA PORTUGUEZA 



ciaes durante trinta e cinco dias, como um rancho 
de piratas, até serem baldeados nas masmorras, 
de longe preparadas para a eventualidade de le- 
vante do elemento civil por causa da derrama, 
ou do elemento militar, pela suppressão dos Re- 
gimentos territoriaes e annullação das patentes 
dos seus coronéis. Estes viraram o bico ao prego, 
denunciando os homens cultos, que eram a honra 
e a gloria da Capitania. O Visconde de Barba- 
cena, seguindo as doutrinas do direito cesáreo, 
mandou immediatamente fazer sequestro em to- 
dos os bens dos denunciados, e apprehensão im- 
mediata dos seus papeis e do que tivessem era 
casa. Era a forma do processo inquisitorial ado- 
ptado pela rasão de estado. D'este sequestro viu- 
se com toda a evideiicia que Thomaz António 
Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga 
Peixoto não possuiam dinheiro além dos meros 
recursos domésticos ; e nos seus papeis, colhidos 
em saccos cosidos e lacrados, não appareceu um 
único documento suspeito, proclamação ou plano, 
além dos seus versos de que eram dignos aucto- 
res. E para coroar a obra, os desgraçados prezos 
por Inconfidência, isto é, apostasia da vassalagem 
á monarchia, jazeram três annos nos cárceres da 
Ilha das Cobras, emquanto se manteve aberta a 
devassa para receber as denuncias publicas, para 
sobre isso se fazer o processo judicial de accusa- 
ção. E para vergonha da magistratura, nada 
appareceu de positivo pondo de parte o pobre 
louco Tiradentes, (excitado ad hoc) que funda- 
mentasse as sentenças tão escuras e monstruo- 
sas, tendo o próprio poder real, de motu-pro- 
prio, de ordenar que fossem atenuadas as odiosas 
sentenças. 

Para se vêr como se mente á historia, tran- 



SEGUNDA Época: os árcades 421 



screvemos a noticia em que se torna official a ima- 
ginaria Conjuração de Minas, conforme a refere 
o desembargador Ferraz Gramosa, nos Successos 
de Portugal: 

*No anno de 1789, sendo governador o Capi- 
tão General Luiz António Furtado de Mendonça, 
sexto Visconde de Barbacena, foi-lhe denunciada 
uma Conjuração contra o Estado, intentada por 
varias pessoas d'aquelle continente, constituidas 
nos maiores postos militares e nos logares dos 
Governos civil e ecclesiastico, tendo ajustado en- 
tre si subtrahirem-se ao Dominio de S. M. e for- 
marem no mesmo continente uma Republica in- 
dependente e sendo governada por elles mesmos. 

« Fez o Governador suas pesquizas sobre o 
caso, e vindo na certeza dos auctoies d'ella, os 
fez prender e formar processos de culpa. Imme- 
diatamente fez presente a S. M. este successo, 
informando-a de todas as particularidades até 
áquelle tempo sabidas ; resultou a mesma Senhora 
enviar áquelle continente o Desembargador Se- 
bastião Xavier de Vasconcellos Coutinho, Conse- 
lheiro da Real Fazenda.» {Op. cit., ii, 04). Tudo 
isto phrases abstractas. Nomeada a aterradora 
Alçada para obter factos, nada se apurou. O 
mesmo se repetira em 1817 com o processo de 
Gomes Freire. Beresford, também sentindo essa 
falta, exclamava: — Tenho juizes! A Alçada do 
Rio de Janeiro procurou dar corpo á formula ab- 
stracta de Barbacena; e para cobrir o degradante 
fiasco revestiu as sentenças de uma atrocíssima 
barbaridade. Como possível engaiuu' tanta gente? 
O governo da metrópole, que se viu forçado a 
ordenar attenuantes e commutações, e mesmo os 
historiadores? Por uma circumstancia única, por- 
que o processo foi secreto, e os seus autos fica- 



42:2 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ram archivados e por isso illegiveis, desconheci- 
dos em absoluto. O sexto Visconde de Barbacena 
foi ofíici ai mente glorificado, sendo elevado a Con- 
de do mesmo titulo, e ainda viveu tranquillo na 
sua inconsciência moral mais quarenta annos; em 
1831, Silvério recebeu a Ordem de Christo e tença. 

No julgamento dos incriminados, o Chanceler 
seguiu á risca a Carta regia de 18 de Julho de 
1790, dando em resultado a condemnação de onze 
réos á morte na forca, e os restantes a degredo 
perpetuo em Africa. Prevendo a implacável in- 
terpretação que dariam a essa carta regia, em 
nome da rainha foi enviada para o Rio de Ja- 
neiro uma outra Carta regia datada de Queluz, a 
25 de Outubro de 1790, apontando as circura- 
stancias em que ordenava que as penas fossem 
comrautadas. E' por isso que Gonzaga tendo sido 
condemnado a degredo perpetuo para Angoche 
de Angola, lhe foi commutada em degredo por 
dez annos em Moçambique. E receando a rai- 
nha que não chegasse a tempo essa carta, man- 
dou-se aprontar uma fragata, que saiu imraedia- 
tamente para o Rio de Janeiro,, com ordens 
peremptórias: «Foi felicidade dos mesmos réos 
chegar a fragata ao Rio de Janeiro ao tempo em 
que tinham sido sentenciados em pena ordinária 
onze réos do mesmo delicio, os quaes estavam 
no Oratório dispostos a soffrer a pena ultima 
em que foram julgados, em cumprimento da 
mesma carta de 15 de Outubro de 1790, foi rela- 
xada a pena de morte em degredo perpetuo para 
presidies da costa de Africa, com pena de morte 
se voltarem aos domínios da America». 

Deu-se n'esta coramutação da parte dos jui- 
zes um acto tão atroz como a execução da pena 
ultima; oxize réos saíram do .Oratório gara o 



SEGUNDA Época: os árcades 423 



campo da forca, e alli se lhes leu a nova conclu- 
são aberta nos Autos pela Carta regia relaxando 
a pena de morte em degredo perpetuo. As feras 
mais sedentas de sangue não tem d'estes requin- 
tes de malvadez moral. Tiveram de assistir á 
única execução do Alferes Joaquim José da Silva 
que foi enforcado e espostejado. Um testemu- 
nho da época allude a ter Gonzaga dado uma 
volta em roda da forca para assim se lhe impri- 
mir o ferrete da infâmia. Depois de alterado o 
Accordam (PI. 74 dos Autos crimes) que con- 
demnava Gonzaga pelo meditado levante de Mi- 
nas, em degredo perpetuo para Angoche, no 
Accordam de fl. 114, que transfere o degredo 
para Moçambique por dez annos, requereu Gon- 
zaga que se admittissem os fundamentos, pelos 
quaes esperava a sua absolvição completa. Admit- 
tidos por via de advogado, elle desfez completa- 
mente esses boatos da Devassa. São compungen- 
tes as palavras com que conclue : «que ainda que 
não estivesse, como está, nos termos de uma to- 
tal absolvição, estaria assas punido com a dila- 
tada prizão de três annos de rigoroso segredo^, 
desde 17 de Maio de 1789 até ao Accordam final 
de condemnação de 1792 incommunicavel. E da 
mudança do degredo de Angola para Moçambi- 
que, oppõe : « não tendo contra si mais que al- 
guns leves indicies e isso mesmo destruidos, pa- 
rece que a justiça da Soberana o não podia con- 
templar na ordem da pena de morte, que são 
os que só manda degradar para Moçambique e 
Ricos de Seman ». E ainda observa: «que n'este 
mesmo degredo de dez annos se devem compu- 
tar os annos da sua rigorosa prizão >. No caso 
de lhe negarem a absolvição completa, pedia a 
mudança do degredo para Angola. Vê-se que os 



424 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



juizes da Alçada serviram-se da carta regia, que 
mandava alterar a conclusão dos autos, para 
aggravarem mais a situação do seu collega ati- 
rando-o para uma região mortífera da Africa 
oriental. Proferidas as condemnações das victi- 
mas da imaginaria Conjuração em 13 de Abril 
de 1792, mandaram embarcar os degradados para 
Africa na náo da carreira da índia, Nossa S.* da 
Conceição, Princeza de Portugal, que partiu para 
Lisboa em 23 de Maio d'esse mesmo anno, para 
alli esperarem saída de navio para a Africa. Nos- 
Successos de Portugal, o desembargador Fer- 
raz Gramosa, com os nomes d'esses condemna- 
dos, com os seus cargos formando três grupos, os 
militares, os civis e os ecclesiasticos, transcreveu 
o trecho referente aos civis: «Por effeito da sen- 
tença foram perpétuos para os Presidies das Pe- 
dras Negras, os seguintes réos : o Desembargador 
Thomaz António Gonzaga, o Capitão Vicente 
Vieira de Mello, o Capitão João Dias da Motta, 
o tenente-coronel Francisco José Vieira e o coro- 
nel José Ayres. 

« Vieram conjuntamente com estes alguns 
réos condemnados a pena ultima, mas que 
por virtude do perdão de S. M. lhe fora relaxada 
na de degredo perpetuo para os prezidios de 
Africa. Todos foram reclusos na Torre de S. Lou- 
renço da Barra, até que se passavam para os 
prezidios que lhes foram determinados *. {Op. 
cit., II, 67). Aqui esteve recluso Gonzaga em si- 
tuação ainda mais angustiosa do que na mas- 
morra infecta da Ilha das Cobras, esperando a 
occasião de ir qualquer navio do estado para a 
Africa Oriental, longa e temerosa viagem. Nas 
semanas ou mezes que jazeu na Torre de S. Lou- 
renço da Barra, conta-se que seu pae o Desem- 



SEGUNDA Época: os árcades 42c 



bargador João Bernardo Gonzaga, octogenário, 
ia ver em ura bote, de longe, seu desventurado 
filho. Passava-se isto era meados do anno de 1792, 
eis que apparece um pequeno in-8.o de poesias 
lyricas intitulado Marília de Dirceo, impresso na 
typograpliia Nunesiana, com as iniciaes T. A. G. 
Consta de 118 paginas contendo a Parte i, ou 
propriamente as Lyras que compozera entre 1785 
a 1787 em que contractara o seu casamento cora 
a gentil D. Maria Dorothea, que contava os seus 
dezesete annos. Norberto de Sousa, na sua edição 
da Marília de Dirceo de 1802, desconhecia a 
edição Nunesiana, que chegou a ser posta em 
duvida. Esta publicação, em 1792, quando o 
poeta estava sob a pressão da auctoridade mili- 
tar da Torre de S. Lourenço, na Barra, foi por 
certo feita com intenção piedosa. Quem em Lis- 
boa, possuia essa Parte i da Marília de Dirceo, 
a não ser sua irmã, á qual dera noticia do seu 
amor e do já tractado casamento? Ninguém 
suspeitaria que aquellas iniciaes T. A. G., desi- 
gnavam uma individualidade illustre, victima de 
uma Alçada de juizes obcecados. Pouco antes 
da chegada ao seu degredo de iVIoçambique, 
ainda em 1792 appareceu em Lisboa uma edição 
mais completa que a Nunesiana, feita na Officina 
Bulhões (sem data) em cadernos com uma Par- 
te II das Lyras. Sabe-se que fora de mil a tira- 
gem dos exemplares. Com certeza, esse augmento 
de texto é anterior ao sequestro dos papeis de 
Gonzaga, cosidos em um saco e entregues á 
Alçada do Rio de Janeiro. Esse augmento con- 
tem pois composições já concebidas na masmorra 
da Ilha das Cobras, copias de canções avulsas 
que o poeta comnuinicaria a algum amigo. Mas, 
o que é iiUiniameute conunovente é lembrar-nos 



426 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que essas Lyras se cantavam em Lisboa e por 
esse paiz fora, emquanto o Desembargador Tho- 
maz António Gonzaga, desembarcava em Lou- 
renço Marques arrojado ao degredo infamante e 
privado de quaesquer recursos. Todos esses abalos 
desde 1789 até 1792, quebrantavam a organisa- 
ção mais robusta, quanto mais a um tempera- 
mento affectivo e de uma delicada sensibilidade. 
Em ura dos interrogatórios do carrancudo des- 
embargador Coelho Torres, alludiu Gonzaga aos 
frequentes ataques de cólicas biliosas;'á chegada 
pois a Moçambique foi assaltado por essa febre, 
aggravada pelo clima africano, e succumbiria 
no infecto prezidio, se alma piedosa lhe não 
acudisse com natural compaixão de tanta misé- 
ria. O negociante portuguez Alexandre Roberto 
Mascarenhas, casado com uma mulata D. Antó- 
nia Maria, levou o desgraçado poeta para o seu do- 
micilio, dando-lhe todo o conforto; tinha elle uma 
filha, que estava nos seus dezenove annos, D. Ju- 
liana de Sousa Mascarenhas, que se tornou dedica- 
da enfermeira, e por seu cuidado o salvou. Alexan- 
dre Roberto era abastado de meios, mas a filha 
completamente inculta era analfabeta, predomi- 
nando n'ella o elemento negroide, porque acabou 
a vida dissipadamente e na dissolução moral. Já 
por aqui se vê o valor de um simulado Auto de 
Justificação de 9 de Maio de 1793, que se fabri- 
cou para authenticar um ajuste de casamento 
entre o Desembargador Thomaz António Gon- 
zaga e D. Juliana de Sousa. Entre a chegada do 
poeta a Lourenço Marques em fins de 1792 e a 
data da Justificação de 9 de Maio de 1793, como 
é que o poeta mal convalescido de uma grave 
doença biliosa, poderia pensar em casar-se? O do- 
cumento foi fabricado com o fim de produzir o 



SEGUNDA Época: os árcades 427 



seu effeito era Villa Rica, porque D. Maria Do- 
rothea esperaria o curaprimento da pena em 1802. 
A phrase que se lhe attribue revela isto tudo : 
Gonzaga alienado, é que poderia faltar ao que 
promettera. E era essa a realidade ; Gonzaga pas- 
sava pelas ruas, exposto ás fortes calmas, com a 
cabeça descoberta, monologando com vehemen- 
cias bruscas, a que chamavam fúrias. Peio fale- 
cimento do pae já octogenário, faltaram-lhe os 
soccorros, e d'ahi a ideia de tentar abrir escripto- 
rio e advogar no tribunal ; mas não lh'o perrait- 
tia o seu estado mental, em que se afundava na 
inconsciência e na morte obscura em 1807. Esta. 
data precisa é estabelecida por Norberto de Sou- 
sa, que coUigiu noticias da sua vida era Moçam- 
bique de individues que de lá regressaram e lá 
o conheceram. A incerteza dos outros biographos 
em 1808, 9 ou 10, proveiu de desconhecerem a 
amnistia dos sobreviventes, em 1808, que não 
incluiu o seu nome. O poeta não teve conheci- 
mento das edições da Marília de Dirceo, que se 
fizeram em Lisl)oa, em constante interesse: 

1199 — Marília de Dirceo, por T. A. G. Pri- 
meira parte na Officina Nunesiana. — Anno de 
MDCCXCix. Com licença da Meza do Desembargo 
do Paço. In-8.0 cora 118 pag., contendo só 83 Lyras. 

1800 — Marília de Dirceo. Terceira Parte, 
na Officina de Joaquim Thoraaz de Aquino Bu- 
lhões. Lisboa, in-8.0 pequeno de 110 pag. Com- 
prehende poesias da época anterior aos amores 
de Gonzaga, que elle queimara em 1787, e que 
escaparam por curiosidade de amigos, ou de sua 
irmã. (Vem esta Parte lu reproduzida no Rolan- 
diana de 1820). 

1801 — Id., na Officina Nunesiana. Compre- 
beiíde j.á a Parte ui. 



428 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1802 — Na Officina Nunesiana, (designa-se 3.* 
edição). In-8.<^ de 110 pags. — Parte ii. Ib., com 
108 pags. (Traz as 37 Lyras), 

1804 — Segunda Parte. Lisboa. — Na Typo- 
graphia Lacerdina. Vende-se na Loja da Gazeta. 
In-16.° (Na CoUecção Rodrigues). 

Foram estas as edições feitas era vida de Tho- 
raaz António Gonzaga, que tinha expiado a sua 
iniqua pena em 1802. Porque não regressou elle 
á metrópole? Elle estava completamente aliena- 
do, desconhecendo a acclamação gloriosa da Ma- 
rília de Dirceo, cujas Lyras eram postas em mu- 
sica pelo grande' compositor Marcos Portugal. 
Para que servia repatriar o desgraçado se elle já 
não tinha familia? As edições feitas da Marília 
em sua vida são aqui apontadas para justificar o 
seu dito: que no meio das suas desgraças e ca- 
tastrophe pessoal, tudo supportava lerabrando-se 
que era amado por uma mulher bella. 

Bocage {Ebnano Sadino) 

Quando o Arcadismo ou a poesia pseudo-clas- 
sica estava condemnada, ante o espirito da reno- 
vação romântica, esse gosto anachronico recebia 
um vigor sustentado por Pilinto Elisio e Elmano 
Sadino, que actuaram unicamente na versifica- 
ção. E' numerosa a corrente dos seus imitadores, 
os philintistas e os elmanístas, que chegaram 
nas suas differenças até Garrett, que ainda se 
assignava Jonio Duriense, e Castilho que se de- 
signava Mémníde Eginense. A versificação de Pi- 
linto tinha o vigor que dá á phrase e sentido 
ideológico, o conhecimento da syntaxe latina, e 
os efíeitos das transposições que impõem o la- 



SEGUNDA Época: os árcades 429 



conismo essencial á expressão poética; Bocage 
era tambera ura latinista educado sob o regimen 
do orbilianiiiin ou da pabnatoada do professor 
régio D. Juan de Medina, e também a belleza 
dos seus versos vem d'essa construcção, mas a 
cultura rhetorica perverteu-lhe a expressão natu- 
ral com todo o guarda-roupa da velha e incom- 
prf>hendida mythologia grega, e com as figuras de 
rhetorica que mais lhe facilitavam a improvisa- 
ção, e tornassem mais brilhante a recitação, em 
que era surprehendente. E' por isso que Bocage 
impressionou a sociedade do seu tempo, que o 
considerou um génio extraordinário, um assombro. 
Mas lendo-se hoje a obra poética de Bocage, já 
obliterado esse gosto tradicional do arcadismo, 
vê-se que este génio tem duas fulgurações, a ver- 
dadeira, sentida e incomparável inspiração que 
vem da sua vida affectiva, dos seus amores, dos 
abalos moraes que soffreu, e essa outra retum- 
bante e declamatória versiticação escripta, como 
elle confessa, pela mão da dependência^ imposta 
pela sociabilidade que o acclamava e se via arre- 
batado pelo raro improviso irreflectido, sobre as- 
sumptos banaos e transitórios. Quem conhecer 
Bocage pelos documentos ofíiciaes, que nos dão 
o quadro biographico, verá esse génio sob um 
aspecto pouco justo, como um desvairado, em 
revolta com o meio social, de que é victima, sem 
plano de vida; só conhecendo-o nos seus amores, 
é que apparece o espirito genial, sincero^ que 
por vezes se identifica com Camões, por um ideal 
que ia revigorar a alma de um povo em um novo 
século. E' este génio que á critica philosophica 
compete esclarecer d'ejitre os enigmas da sua 
vida, que os contemporâneos incompletamente 
comprehenderam. E p:ira julgar um vulto d'esta 



430 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



importância, é preciso seguir a observação de 
Maudsley, que o individuo só pode conhecer-se 
na sua família e parentes, ainda os mais remotos, 
pelo poder do atavismo. Em Bocage dá-se feliz- 
mente a circumstancia de serem conhecidas as 
duas linhas genealógicas, a paterna e a materna, 
avós, tios, primos e sobrinhos; d'esse exame, res- 
salta logo um facto fundamental: todos esses ty- 
pos ou personalidades eram creaturas pondera- 
das, moralisadas, honestas e activas. Como sahir 
d'esta trama hereditária ura sêr impulsivo, in- 
coherente, provocador satírico, aventureiro, aca- 
bando prematuramente vlctima da sua agitação? 
E' este o primeiro problema ou enigma da sua 
vida. No quadro da sua vida affectiva deu-se uma 
decepção moral, ao despontar da Ingénua senti- 
mentalidade. O seu primeiro amor foi uma catas- 
trophe, que para um organismo vulgar o arrasta- 
ria ao suicídio ou ao crime. Fixado este facto 
capital, por elementos históricos que os seus con- 
temporâneos não podiam conhecer, a vida inteira 
de Bocage deriva por uma fatalidade psycholo- 
gica d'essa decepção. 

Importa conhecer a genealogia do poeta; o 
seu avô paterno, Luiz Barbosa Soares, que nas- 
cera em 1686 e falecera com 86 annos, coUigiu 
muitas noticias da família, sendo continuado esse 
trabalho por seu primo. O poeta desconheceu o 
valor d'esta ascendência paterna dos Soares Bar- 
bosa, e elle e seus cinco irmãos adoptaram o 
appellido materno de Dii Bocage, de seu avô 
Gilles Hedois du Bocage, que chegou a Vice- 
Almlrante, na Armada portugueza. 

Quando o poeta no Idylio maritimo A Ne- 
reida, diz que para merecer a sua amada, vae 
seguir a vida do mar, como os seus Antepassa- 



SEGUNDA Época: os árcades 431 



dos, desconhecia o que o seu bisavô paterno des- 
empenhara nas guerras do Aletntejo contra os 
Castelhanos, que duraram vinte e sete annos : 

E se o que di^o é pouco, e mais desejas, 
irei, pois, outros méritos ^canhando, 
Até que tu de mim contente estejas. 

Tentarei por fazor teu génio brando 
Nunca tentadi)s, nunca vistos mares, 
Os meãs Antepassados imitando. 

Referia-se ao francez Gilles Hedois, que em 
1701 viera servir na Armada portugueza contra 
os Castelhanos, e continuando ao serviço de Por- 
tugal depois da Paz de Utrecht; batendo no Rio 
de Janeiro o assalto do aventureiro Duguay Trouin 
em 1711, e ainda em 1717 combatendo contra os 
Turcos na expedição naval vencedora em Ma- 
tapan. 

B celebrando em um bollo Soneto a revolu- 
ção de 1640, invocando Viriato e os heroes que 
lactaram contra os Romanos, termina cora pompa, 
que os restauradores — «Fizeram mais, salvarara-a 
n'um dia». A libertação de Portugal levou 27 
annos de campanhas, e n'ellas batalhou esse bis- 
avô João António Barbosa, que tendo sentado 
praça em Elvas, combateu na batalha de Arron- 
ches, na tomada de Valência de Alcântara, na 
Asseiceira, na retomada de Évora, nas batalhas 
da Asseiceira e dos Montes Claros. Do casamento 
d'este heróico patriota com Barbara Barbosa Soa- 
res, em Lisboa, servindo na Armada, que foi a 
Saboya. Assim, a imitação dos seus Antepassa- 
dos, na vida náutica coiii{)rehendo bem as duas 
linhas. Já esta referencia se liga aos seus amo- 
res, sem revelar no Idylio o nome de Geiruria, 



432 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que apparoce com o mesmo intuito em outras 
composições poéticas. 

O Avô paterno do poeta, Luiz Barbosa Soa- 
res, adoptou como appellido Soares, de sua mãe, 
mas o pae o Dr. José Luiz Soares Barbosa, ado- 
ptou o apellido paterno, como seus irmãos Bgidio 
Soares Barbosa e Francisco António Soares Bar- 
bosa. Este avô do poeta comprou em 1710 um 
Officio judicial (escrivão-tabellião) que serviu por 
mais de trinta annos, passando-o depois a seu 
filho Francisco António Soares Barbosa. Este fa- 
cto mostra o que o levou a cursar a Universi- 
dade e graduar-se em Cânones José Luiz Soares 
Barbosa, que seguiu a carreira da magistratura ju- 
dicial, sendo despachado Juiz de Fora para a 
comarca de Castanheira de Pêra, chegando a 
Ouvidor em Beja, Nascera em 29 de Setembro 
de 1726 e casara em 1758 com D. Marianna Joa- 
quina Xavier Lestoff, filha de Gil L'Hedois, en- 
tão capitão de mar e guerra, e de Clara Fran- 
cisca Lestoff, filha de Leonardo Lestoff, cônsul 
de Hollanda, e proprietário em Setúbal. D'este 
consorcio houve o Dr. José Luiz Soares Barbosa 
os seguintes filhos: 

— D. Maria Agostinha, nascida em 1759, que 
casou com um rico proprietário de Olhalvo, Souto- 
mayor, de que existem os Góes de Bocage. 

— D. Anna das Mercês, nascida em 1760, que 
casou com o filho do Governador da Fortaleza 
de San Thiago do Outão, e se chamava José do 
Prado da Cunha e Eça. Não é indifferente tal 
facto, porque por este enlace, as duas famílias do 
Governador do Outão e do Dr. José Luiz muito 
se intimaram, como se vê : 

— Gil Francisco Xavier de Bocage, nascido 
em 1762^ frequentou a Universidade de Coimbra, 



SEGUNDA Época: os árcades 433 



e graduou-se em Leis. Era também cultor da 
poesia, e casou com a filha do Governador de 
Outão, D. Gertrudes Homem da Cunha e Eça. 
(Na noticia genealógica, que acompanha a ver- 
são de Paulo e Virgínia por Bocage, em 1905), 
incluímos acerca d'este Gil, irmão do poeta: <^do 
qual se contam as aventuras amorosas com a 
filha do Governador da Fortaleza do Outão*. 
O que foram essas aventuras? Lidas as Rimas 
de Manoel Maria (Elmano Sadino), de 1791, vê- 
se que a Getruria tão celebrada nos seus versos, 
com a mais ardente inspiração, e com as pungen- 
tes queixas da sua versatilidade e do poder de 
seducção do seu rival, a que em um verso chama 
Infame, era essa menina D. Gertrudes Homem 
da Cunha e Eça, que Elmano tanto idealisara. 
E' este facto inteiramente omisso nos biographos 
do Poeta, a que não demos o seu relevo, porque 
o obtivemos, quando estava quasi impresso o es- 
tudo de 1902. 

— Manoel Maria Barbosa du Bocage, nasceu em 
15 de Setembro de 1765. Esta differença de trez 
annos, actuou na preferencia de Getruria, vendo 
no bacharel em Leis melhor garantia de felici- 
dade conjugal*. O poeta nascera já em Setúbal, 
depois de seu pae se aposentar no quadro da ma- 



* Manoel, filho legitimo do Dr. José Luiz Soares e 
de D. Marianna .Joaquina Xavier du Bocage, nasceu a 15 
de Septembro de 17t>5, e foi baptisado na froguezia de 
S. Sebastião a 29 do dito mez e anno, como consta do 
Livro 8.0 dos Baptismos da mencionada Freguezia a 
fls. 176, V. 

" O que acima transcrevo foi por mim verificado em 
presença do respectivo termo No nome do pae falta o 
appellido Barbosa, omissão talvez devida a quem lavrou 
o termo „. 

M. M. PORTKLLA. 

28 



434 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



gistratura, e estabelecer banca de advogado era 
Setúbal, onde seu irmão carecia do seu saber 
para as questões forenses e mercantis. Apesar de 
não viver com largueza, recorrendo a alguns em- 
préstimos, ainda lhe floriu a prole: 

— D. Maria Eugenia, nascida em 8 de Setem- 
bro de 1768, que faleceu em tenra edade. 

— D. Maria Francisco, nascida em 13 d' Abril de 
1771, e acompanhou o poeta nos seus últimos annos. 

Este quadro genealógico dá-nos a desolada 
situação em que ficou a familia sem a providen- 
cia materna, falecendo era 1775 D. Marianna Joa- 
quina Xavier Lestoff. As duas filhas mais velhas, 
emquanto não casaram, é que continuaram a 
acção maternal; Bocage (Elmanoj tinha, como 
elle declara, dois lustros, (dez annos), e ellas fo- 
ram suas mestras, antes de ir aos doze annos atu- 
rar o boçal professor de latim, e decorar a rheto- 
rica. As faculdades poéticas irrompiam n'elle, 
como confessa : < Versos balbuciei na voz da in- 
fância >. Recitava poesias de seu pae, em geral 
do género satírico, e a sua prematuridade era 
uma consequência atávica. Cabe aqui uma mostra 
da musa paterna : 

<A certo pregador, que orando nas exéquias de 
João Thomaz Farinha, chamou á eça, que estava 
ao centro da egreja um — fúnebre armazém de 
saudade : 

Soneto 

Meu padre Pregador, largue o capêllo, 
Feche a coroa, ajouje-se aos donatos, 
Tempere ou lave na cosinha os pratos, 
Que em púlpitos não ha quem possa vêl-o. 

Vá na horta plantar alface e grelo, 
Tome o bastão e vá pedir chibatos, 
Pregue lá aos pastores insensatos, 
Que entre burros é sábio inda um camello. 



SEGUNDA Época: os árcades 435 



Nas exéquias do bicho da cosinha 
E de outros figurões d'esta entidade, 
Pode pregar, que tem licença minha. 

Ali, meu padre, espoje-se á vontade, 

K se houver urna, a João Thomaz Farinha 

Empurre-lhe o armazém da saudade. 

Dr. Jos.è Luiz Soares Barhosa.y * 

Além de seu pae, também um tio avô ma- 
terno Ficquet du Bocage, inspector fiscal em 
Rouen, escrevia e imprimia versos, e era casado 
com a auctora do poema Colomhiade (traduzido 
em portuguez para as festas do Centenário de 
Colombo pelo Visconde de Seabra, aos 95 annos!) 
Na fainilia de E/mano, também seu irmão Gil e 
sua irmã D. Maria Francisca cultivam a poesia, 
segundo testemunhos contemporâneos. A familia 
do poeta frequentava a intimidade da familia do 
Governador de Outão, — Suave habitação da mi- 
nha amada — como começa o Adeus a Getruria. 
Em um verso pinta Bocage a belleza d'essa man- 
são principesca, a uma légua de Setúbal, tendo a 
leste a encosta verdejante da serra, defendendo-a 
dos ventos de leste, tendo em frente o Atlântico, 
com todo o seu aspecto ora azul, ora plúmbeo, 
gosando os mais surprehendentes occasos, que 
nenhum artista imita, os luares espelhados ar- 
genteamente nas aguas, o clima sempre egual, e 
os bellos passeios de mar, e as divertidas maris- 



1 Revista litter. do Século, n.° 216. — Barbosa Ma- 
chado, no tomo IV da Bibliotheca Lmàtana nomeando 
José Luiz Soares de Barbosa, aponta-lhe o Epioedio á 
morte do Rev. P.' Joseph de Fúria, sem data nem logar 
de iinpro,s.são. Innuceiíoio e Brito Aranlia nfto fazem 
niengAo d'tíste poeta, pao de bJlmano. 

% 



436 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cadas. N'este meio edénico era innpossivel não amar. 
Elmano serviu-se da poesia para declarar o seu 
amor a Getriiria, tão creança como elle ; mas dois 
ou três annos fazem uma grande differença de 
uma rapariga para um adolescente. Elmano começa 
a sentir retraimentos da que tanto correspondera 
aos seus Ímpetos. O casamento de D. Maria das 
Mercês, veiu dar alento á esperança de um en- 
lace. Elmano via seu irmão seguir a carreira ju- 
ridica na Universidade, e os seus regressos mais 
estreitavam a confiança; o poeta sentia que o ir- 
mão possuia também na sua distincção e delica- 
deza o dom da seducção por uma linguagem ani- 
mada e lisongeira. E' n'estas crises de sentimento, 
que pensa em um plano de vida, e aos dezeseis 
annos, em 1781 foi sentar praça como Cadete, no 
Regimento de Setúbal (hoje n." 7). Depois de se 
achar em uma arma de vasta promoção, e creart- 
do-se nova organisação de estudos para o quadro 
da Marinha, fácil lhe foi a concessão da sua 
transferencia, vindo para Lisboa em 1782 fre- 
quentar essas disciplinas. 

Este acordar do sentimento, manifesta-se pela 
consciência da perda de sua mãe em 1775: 

Aos dois lastros, a morte devorante 
Me roubou, terna mãe. teu doce agrado. 

Em um Soneto, celebrando o falecimento de 
Armania (anagrama de Marianna) consagrou 
Bocage a memoria de sua mãe D. Marianna Joa- 
quina Xavier, com estes traços do uma impressão 
indelével : 

Os garsos ollios. em que Amor brincava, 
Os rubros lábios em que amor sorria, 
As longas tranças de que amor pendia. 
As meigas vozes onde Amor soavaj 



SEGUNDA Época: os árcades ' 43" 



As melindrosas mãos que Amor beijava, 
Os alvos braços onde Amor dormia. 
Foram dados, Armania, á terra fria, 
Pelo fatal poder, que a tudo aggrava. 

Seguiu-te Amor ao tácito jazigo, 

Entre as Irmãs, cobertas de amargura 

E eu que faço? ai, de mim, como os não sigo. 

Que ha no mundo que ver, se a formosura, 
Se o amor, se as graças, se o prazer comtigo 
Jazem no eterno horror da sepultura? 

{Rimas, p. 79. Ed. 1791). 

Este Soneto é a forma bella de uma viva re- 
cordação dos seus dez annos, em que viu a cons- 
ternação de suas irmãs D. Maria Agostinha, de 
dezeseis annos, e D. Anna das Mercês de quinze 
annos. Os traços descriptivos accentuam a ori- 
gem hollandeza e o seu caracter de providencia 
domestica. 

Pelo registo dos Officiaes inferiores do Regi- 
mento de Setúbal, Bocage jurara bandeira em 22 
de Setembro de 1781, como cadete. Por esse 
mesmo assento se declara a sua passagem a 
Guarda-marinha por despacho de 5 de Setem- 
bro de Í783. O que motivou esta mudança de 
Infantaria para a Armada, os factos o explicam. 
Por decreto de 14 de Dezembro de 1782, foi 
creado o Corpo de Guardas-marinhas, com o fim 
especial de instruir a mocidade nobre com as 
sciencias náuticas e militares, sendo admittidos 
apenas quarenta e outo alumnos, que não exce- 
dessem a edade de dezouto annos, e provassem 
ser cadetes. Bocage ia fazer dezouto annos em 
1783 e por isso foi-lhe permittida a transferencia. 
Para estas passadas necessárias ainda obteve li- 
cenças registadas em Julho e Setembro de 1783. 



438 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



No Archivo militar, encontrou o snr. General 
Brito Rebello, no Livro 3° do Regimento de 
Setúbal, fls. 77, as seguintes notas referentes a 
Bocage : 

Registo dos Ofpiciaes inferioiíes, 
cadetes, tambores b soldados da 6.^ companhia 

Numero .... 84. 

Nome — Manoel Maria Barbosa du Bocage. 

Idade — 16 annos. 

Altura — 5 pés e 4 polegadas. 

Praça - A 22 de Setembro de 1781. 

Sinaes — Cabellos castanhos, olhos pardos. 

Logar do nascimento — Setúbal. 

Tempo do juramento — 22 de Setembro de 
1781. 

Passagem ou baixa e a rasão — A Guarda- 
Marinha 1." do 8, por despacho de 5 de Setem- 
bro de 1783. 

Licenças 

De 10 até lõ de Agosto de 1782. 

De 26 de Junho até 15 de Julho de 1782. 

De 16 até 31 de Julho de 1783. 

De 31 de Agosto até 13 de Setembro de 1788. 

(Publicada no numero do Diário de Noticias, 
de 21 de Dezembro de 1905, no artigo : Bocage 
no Exercito). 

Foi, portanto, Bocage um d'esses 48 novos 
Guarda-raarinhas da primeira fundação, que teve 
depois de 1792 a 1836 varias remodelações. As 
disciplinas scientificas eram frequentadas na Aca- 
demia real de Marinha, creada no anno de 1779. 



SEGUNDA Época: os árcades 439 



Vê-se que o pensamento da Companhia dos 
Gaarda-Marinhas, destinada aos cadetes, era 
interessar a mocidade dourada para a carreira 
raaritima. Bocage sentiu acordar-se a tradição 
dos seus antepassados, e acabados os três annos 
do curso era 1786 é que requere a sua passagem 
para a Armada da Índia. O Curso constava, no 
1.0 anno : Álgebra, Calculo e Mechanica ; no 2.°, 
Trigonometria espherica ; e Náutica, ao 3.» anno. 
No Idyllio marítimo, descreve a sua amada o 
aproveitamento do seu curso no Collegio dos 
Nobres : 



Não devo á natureza um grato aspecto, 
E' verdade ; o meu mérito consiste 
N'nm claro entendimento, e puro affecto. 



Que mais provas, que as lagrimas que choro 
Dar pôde um terno amor? E finalmente 
Do meu mister, que requisito ignoro ? 

Na manobra, quem ha mais dihgente 

Que eu? Quem tem do mar melhor o prumo? 

Quem no leme e na Agulha ha mais sciente ? 

A carga no porão com regra arrumo, 
Sei pôr á capa, sei mandar a via 
Como qualquer piloto, e dar o rumo. 

Sei como hei- de correr com travessia 
E pela Balestilha e pelo Outante 
Achar a latitude ao meio dia. 

Sei qual estrella é fogo o qual errante, 
A Lebre, o Cgsne, a Lyra, a A^áo conheço 
E Orion, tão fatal ao navegante. 

Talvez muito vaidoso te parpQo 

Mas dovo assim failar, pura que vejas 

Que teus desdéns, oh Nympha, nâo mero(;o. 

{Rim., p. 139). 



440 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O decreto que nomeia o poeta Guarda-Mari- 
nha da Armada do Estado da índia, em 31 de 
Janeiro de 1786, traz o seu nome official Manoel 
Maria Barbosa Hedois du Bocage. Começou a 
usar o appellido de seu avô materno, que deixou 
depois cair em desuso, empregando-o no pseudo- 
nymo de Lidio {U Hedois e Le Doux). O Con- 
selho Ultramarino o despachou em 4 de Feve- 
reiro, e em 15 do mesmo mez concedeu-lhe o 
adiantamento do soldo de cinco mezes, por Aviso 
da Secretaria de Estado, para lhe serem descon- 
tados. Até 14 de Abril, em que embarca na Náo 
de viagem N. S* da Vida, Santo António e 
Magdalena, commandada por José Rodrigues de 
Magalhães. Este período do seu despacho até á 
partida foi passado nas emoções da despedida 
dos seus amigos Íntimos, condiscípulos, e da sua 
amada Getruria, verdadeiramente inspirado. 

Na Canção i, invocava a Fortaleza do Outâo 
«Suave habitação da minha amada», de Getru- 
ria, D. Gertrudes Homem de Noronha Eça, filha 
do Governador, apontando o seu destino : 

Quer a sorte, propicia a meu desejo, 
Manda-me a honra, cujas aras beijo, 

Que com férvido brio 
Contemple os mares da invôncivel Dio. 

Adeus, sooioS fieis ; e tu, querida 
Cujos olhos n'esta alma, á tua unida 

O primeiro empregaram 
Amoroso farpão, que dispararam, 
Abafa os tristes, férvidos suspiros 
Com que me vibras perigosos tiros. 

Eu te levo. meu bem, no pensamento. 
Não me armes contra mim n'este momento 

O novo e doce encanto 
Que recebem teus olhos do teu pranto. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 441 



Um generoso amor é quem me afasta 
De ti, Getruria. Adeus; não chores, basta. 

A Epistola de Elmano a Getruria, em que 
descreve a sua viagem para a índia, e já receoso 
do génio versátil da namorada, recorda-lhe a 
scena do adeus da despedida : 

Ai, gesto encantador, face amorosa 
Que me inspiraste da paixão mais pura 
A doce chamma, a chamma deleitosa 

Que torrente de goso e de ternura. 
Fizeste borbulhar no meu semblante. 
Emquanto permittiu minha ventura. 



Oh lúbrico prazer I fortuna instável, 
Apenas fui feliz, fui desgraçado 1 
Oh catastrophe acerba, deplorável. 

Mas tu, Oetmria bella. idolo amado 
Tu, meu único bem, cuja mudança 
Me fará acabar desesperado ; 

Por piedade, não percas da lembrança 
O terno adeus, e as lagrimas e os motos 
Com que elle vigorou minha esperança. 

Vê. que entregue ao furor de horríveis Notos 
Vim, só por me fazer de ti mais digno, 
A climas do meu clima tão remotos. 

Semblante, para mim sempre benigno. 
Reserva-me um sorriso; elle, somente 
Pode o meu astro serenar maligno. 

Este só me fará viver contente. 

Só n'e8te está suspensa a minha gloria, 

Só d'elle o meu socego está pendente. 

Obra. a mais singrular da natureza. 
Erário dos seus dons. conheça o mundo 
Que és tão rica em amor. como em belleza. 



442 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Abunda nas saudades em que abundo, 
Manda-me lá d'esses ditosos Lares. 
Nas azas da ternura um ai profundo. 

Na sua viagem para a índia, o poeta achava 
allivio na lembrança de Getriiria e na esperança 
de tornar a vel-a: 

Pelas túmidas ondas arrojado, 
Ora aos abysmos, ora ao firmamento, 
Aberto o peito, o coração rasgado 
Pelo agudo punhal do apartamento ; 

Mas, tantas afflioções. tantos pesares 
Tudo é pouco, Getruria. tudo é pouco 
Se inda eu vir os teus olhos singulares. 
(7ft., p. 29). 

O poeta, já durante a viagem presentia a ins- 
tabilidade do génio de Getruria e o seu effeito 
lethal : 

Emquanto os bravos formidáveis nótos 
Por entre os cabos trémulos zunindo, 
O fendente baixel vae sacudindo 
A climas do meu clima tão remotos; 



Ao meu idolo amado, ausente e lindo 
Formo nas mãos de Amor sagrados votos. 

Mordaz tristeza o coração me corte, 
Soffra tudo. oh Getruria, por amar-te, 
Farte-se embora a cólera da sorte. 

Mas, talvez (ai de mim !) que se não farte, 
Que, ou tua variedade ou minha morte 
Me roube as esperanças de lograr-te. 
(76., p. 43) 

E comparando-se ao avarento, sempre pre- 
occupado na guarda do seu thezouro, volve á 
ideia, que se torna fixa: 



SEGUNDA ÉPPCA: OS ÁRCADES 



Tal eu, meu doce amor, minha esperança. 
De suspeitas craeis atormentado. 
Receio que a distancia, o tempo e o fado 
Te arranquem meus carinhos da lembrança. 

Receio, que por minha adversidade 
Novo amante, sagaz e hsongeiro 
Macule de teus votos a lealdade. 

Ah, crê bella Getruria, que o primeiro 

Dia fatal da tua variedade 

Será da minha vida o derradeiro. 

(ib., p. m). 

Parece que conhecia o rival pelas qualidades 
de sagacidade e poder de adulação, pela convi- 
vência. Em outro Soneto Bocage accusa mudança 
na sensibilidade : 

Temo que a minha ausência e desventura, 
Vão na tua alma. docemente accesa, 
Apoucando os excessos da firmeza 
Rebatendo os assaltos da ternura. 

Temo que a tua singular candura 
Leve o tempo fagaz nas azas preza, 
Que é quasi sempre o vicio da Belleza 
Génio mudável, condição perjura. 

(Í6.). 

Este receio, impiamente se confirmava, por- 
que em outro soneto allude ao próximo casa- 
mento de Getruria : 

Os fructos que produz tua ternura 
São (que assombro!) a vileza, a tgrania. 
Sacrihcas a tua idolatria 
Com tuas próprias mãos em Ara impara 

Que louco coração! quo torpe amante! 
vende o seu gosto! oh misera Bolloza, 
Eu te choro, eu te choro, outrem te cante. 



444 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Excedeu-se em formar-te a Natureza, 
Divina te julguei pelo semblante, 
Humana vejo que és pela fraqueza. 

(Ib., p. 44). 

Esta vileza, denuncia a crua realidade, por- 
que era o próprio irraão de Bocage que despo- 
sava Getruria ; e a tyrannia denuncia a inter- 
venção do pae d'ella, o velho governador da for- 
taleza de San Thiago de Outão, que via melhor 
futuro para a filha no irmão do poeta de vinte 
e cinco annos e frequentando a Universidade de 
Coimbra, do que no volúvel guarda-marinha da 
Armada da índia, cora vhite e dous annos e todo 
poeta. A ideia da morte obsidia-o : 

Se a minha lastimosa desventura 
Irremediável é, se trago escripto 
No rosto côr da morte o meu delioto 
Que louca ideia os passos me segura? 

(76., p. 56). 

Em um dos Sonetos em glosa, faz sentir as 
torturas do ciúme que lhe causa Getruria por 
uma forma lancinante: 

Eu deliro, Getruria, eu desespero, 
No inferno de suspeitas e temores, 
Eu. da morte as angustias e os horrores 
Por ti mil vezes sem morrer, tolero. 

Na Canção i O Adeus, reconhece que fora in- 
justo muitas vezes contra Getruria: 

Quantos injustos ciúmes 
Me arrancavam mil prantos, mil queixumes, 
Quando á bella constância de Getruria 
t iz com suspeitas vãs cruel injuria. 

{Rim., p. 148). 



SEGUNDA KPOCA: OS ÁRCADES 



Estas suspeitas e ciúmes do joven poeta não 
eram phantasias de um temperamento vibratil ; 
Manoel Maria, mais novo trez annos que seu ir- 
mão Gil Soares Barbosa; achava-se este em grande 
intimidade com a familia do Governador da Torre 
de San Thiago do Outão, pelo casamento de sua 
irmã D. Anna das Mercês com José do Prado 
Homem da Cunha e Eça, filho do Governador. 
Os dois irmãos acharara-se ambos enleados pela 
formosura de D. Gertrudes Homem de Noronha, 
que os tratava com a mesma afabilidade e des- 
envoltura de criança. Gil Soares teve longas au- 
sências em Coimbra, onde seguia o curso de 
Leis, e Manoel Maria, vivendo até 1782 em Se- 
túbal, estava a uma légua da Torre do Outão. 
Pela sua imaginação poética e sensibilidade mo- 
ral apaixona-se pela menina, idealisando-a com o 
nome de Getruria. O irmão habilitava-se para 
seguir carreira na magistratura, e Elmano en- 
tendeu que para tornar-se digno do seu amor 
comprehendeu que era forçoso ir servir com o 
seu posto de guarda-marinha na Armada da índia. 
A preparação para a larga ausência enternecia 
Getruria, acendendo mais a paixão de Elmano. 

O motivo da sua viagem para a índia é con- 
fessado no bello Soneto : 

Olhos suaves, que em suaves dias 
Vi nos meus tantas vezes empregados. 
Vista, que sobre esta alma despedias 
Deleitosos farpões no Céo forjados. 

Tçoquei-vos pelos ventos, pelos mares 
Cuja verde arrogância as nuvens toca 
Troquei-vos pelo mal que me suffooa, 
Troquei-vos pelos ais. pelos pesares, 
Oh cambio triste ! oh deplorável troca. 
{Rimas, p. 16). 



446 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Nas poesias publicadas era 1791 por Bocage 
apenas se encontram dirigidas ou alusivas a Ge- 
truria, as expressões da saudade do apartamento, 
o receio da versatilidade d'ella pela ausência, e 
o ciúme despertado por novos amores, de que 
suspeita, o desengano atroz, que lhe desnorteou 
a vida. E' indubitável que aos seus primeiros 
amores, conhecida a sua espontaneidade e im- 
pressionismo, que Getriiria lhe inspirou as suas 
composições lyricas ;• ella devia tel-as recebido, e 
o poeta pela sua dura decepção, ou por motivo 
intimamente moral, abandonou-as, não as incor- 
porou nas suas Rimas. Da mão de Getriiria ter- 
se-ia espalhado. No Livro curioso de 1803, de Se- 
túbal, vera muitos Sonetos, tão bellos, e descre- 
vendo situações do primeiro amor de Bocage, que 
levara quasi a affirmal-o. Transcrevemos alguns : 

Uns graciosos olhos matadores. 
Que ás vezos por amor ficam mais bellos, 
Uns douraios, finíssimos cabellos, 
Das madeixas de Sol despresadores; 

Uma face, onde as purpúreas cores 
Da matutina luz tiram modelos, 
Uns agrados tão doces, sem fazel-os, 
Que por elles Amor morre de amores; 

Um riso, tão parcial da honestidade. 
Que no insensível causava destroço, 
Quanto mais na rasão e na vontade ! 

Esta é a minha. . . Oh tímido alvoroço ! 

Eu tomo de dizel-o a liberdade; 

Esta é a minha. . . a minha. . . Mas não posso. 



Por mais que faça um aturado estudo 
De expor á excelsa. . . o meu desejo, 
Buscando vêl-a só, só porque a vejo, 
Era logar de dizer-lh'o fico mudo. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 447 



Animo-me outra vez, fallo, e comtudo 
Não sei se por temor se por cortejo 
Abaixo os olhos, enoho-me de pejo 
E fico então mais triste que sisudo. 

Ella, que estes affpctos me tom visto 
Pergunta-me : — Que tens ? — Para explical-o 
De mais valor o animo revisto. 

Vou a dizel-o, balbuciando fallo, 
Formo algumas razões, ateimo, insisto, 
Mas de novo suspiro, tremo e calo. 



E' tão grande em ti a formosura, 
E tão rara a belleza. o agrado, 
Que a teu império feliz, sujeitado 
Tem minha liberdade com ventura. 

Infilinação tão suave como pura, 
Busco sempre adorar-te com cuidado 
Procurando com anciã desolado 
Significar-te o affecto e ternura. 

Não pretendo do ti mais que o amar-te, 
Que desinteressado te venera, 
E desejo somente o explicar-te. 

Nada mais apeteço, nem quizera 
Que continuo o ser eu adorar-te 
Como quem n'isto e n'isto só se esmera. 



Do vosso amor me vejo penhorado, 
Penhorado por vós ando perdido; 
Perdido, pois me vejo sem sentido 
Sem sentido, que em vós anda empregado 

Empregado, meu bem, trago o cuidado, 
Cuidado, que mo traz tão di.straído. 
Distraído, em tal sorte, que esquecido 
Esquecido de mim, do vós lembrado. 



448 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Lembrado estou tão bem. que ando pensando 
Pensando qup por vós ando morrendo, 
Morrendo emfim por vós vou acabando. 

Acabando, me vejo padecendo 
Padecendo, bem vejo o não ser quando 
Quando tivesse a gloria que pretendo. 

Estes versos revelam uma paixão nascente 
em que desabrocha o génio do poeta. As Rimas 
de 1791, só contem a phase amorosa na decepção 
da pérfida Getriirin. O periodo das primeiras 
emoções foi apagado pelo roubo dos seus cader- 
nos, talvez por effeito dos melindres das duas 
famílias aparentadas. Agora acompanhemos Bo- 
cage na viagem para a índia, sempre embalado 
nas reminiscências de Camões. 

Em 14 de Abril de 1786 partia de Lisboa a 
Náo de Viagens Nossa Senhora da Vida, Santo 
António e Magdalena^ para Goa, levando escala 
pelo Rio de Janeiro, para conduzir o Governador 
geral Francisco da Cunha Menezes, que ia suc- 
ceder no poder a D. Frederico Guilherme de 
Sousa (o Calhariz) que terminara o seu tempo. 
Bocage ia despachado Guarda-marinha da Ar- 
mada da índia; levava o intuito de se adiantar 
na promoção de postos e poder realisar os seus 
amores (tornar-se digno de Getruria). As sauda- 
des do lar paterno, a que se vê arrancado, a se- 
paração de amigos Íntimos, que celebra com emo- 
ção nas estrophes, os perigos do mar e dos inhos- 
pitos climas são excedidos pela preoccupação que 
assalta a cada momento a incerteza da constân- 
cia do amor de Getrnria. Confessa-o o soneto, 
que explicará toda a sua vida : 

Temo, que a minha ausência e desventura 
Vão na tua alma. docemente accesa, 
Apoucando os excessos da firmeza, 
Rebatendo os assaltos da ternura. 



SEGUNDA Época: os árcades 4i9 



Temo. que a tua singular candura 
Leve o tempo fugaz nas azas preza, 
Que é quHsi sempre o vicio da belleza, 
Génio mudável, condição perjura; 

Temo, e se o fado máo, fado inimigo 
Confirmar impiamente este receio 
Que no meu coração gemendo abrigo; 

Com o rosto, alguma vez, de magoas cheio, 
Reeorda-te de mim, dize comtigo: 
— Era fiel. amava-me, e deixei-o. 

(^Rimas, p. 45). 

Sobrevem, na viagem, uma forte tempestade, 
que Bocage descreveu nos seus versos, mas mais 
profunda era esta procella moral, que lhe desmoro- 
nava o sonho dos seus vinte e um annos. Elle faz o 
confronto do seu curto mas ditoso passado : 

Olhos suaves que em suaves dias 
Vi nos meus tantas vezes empregados, 
Vista, que sobre esta alma despedias 
Deliciosos farpões no céo forjados. 

Sanctuarios de amor, luzes sombrias, 
Olhos, olhos da côr dos meus cuidados, 
Que podem inflammar as pedras frias, 
Animar os cadáveres mirrados ; 

Troquei-vos pelos ventos, pelos mares. 
Cuja verde arrogância as nuvens toca, 
Cuja horrisona voz perturba os ares; 

Troquei-vos pelo Mal, que me suffooa, 
Troquei-vos pelos ais, pelos pesares, 
Oh, cambio triste! Oh deplorável troca. 

{Rimas, p. 20). 

Na Epistola a Getruria, descreve o tempo- 
ral 6 chegada ao Rio de Janeiro, em tercetos 
deliciosos, comparáveis oom a Elegia iii de €a- 

29 



í-50 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



mões, inspirada por idêntica situação. Os traços 
autobiographicos revelam-nos quão profunda te- 
ria de ser a decepção ou conformação dos seus 



receios 



Se o teu íiel caracter não desmentes, 
Se inda em teu coração não teve entrada 
A variedade, o vicio dos ausentes; 

Se, do voto reciproco lembrada 
Suspiras por me vêr como suspiro 
Por oscular-te a dextra delicada; 

Chorando escutarás o que profiro : 

Do santo abrigo de meus deuses Lares 

Pela sorte cruel desarreigado, 

B exposto em frágil quilha aos bravos mares, 

Sobre as espaldas do Oceano inchado, 

Dirigindo tristíssimo lamento 

Contra o céo, contra o amor. e contra o fado; 

4 

Puz finalmente os pés onde murmura 
O plácido Janeiro, em cuja areia 
Jazia entre delicias a ternura. 



Elmano referia-se á seducção ou condonga 
das gentis creoulas, com um toque da fascinação 
da raça amarella. A paragem no Rio de Janeiro 
não foi rápida, porque o Governador Francisco 
da Cunha Menezes, e o secretario de estado e 
desembargador Sebastião José Ferreira Barroco 
tiveram de ser festejados pelo faustoso vice-rei 
do Brasil Luiz de Vasconcellos e Sousa, prolon- 
gando-se esse jubilo ofíicial até á partida para a 
índia : paradas militares, recepções^ banquetes, 
bailes, sessões litterarias, digressões e passeios. 
Bocage produziu o deslumbramento pelas suas 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 451 



surprehendentes recitações, pelos improvisos ful- 
gurantes dos brindes e saudações, pelo fogo amo- 
roso e vaga melancholia que o inspirava. Este 
poder moral é-nos revelado por lord Beckford, 
artista opulento e desdenhoso, que nenhum typo 
vulgar poderia impressionar. Luiz de Vasconcel- 
los e Sousa, cora os seus sorrisos mais affectuosos, 
distinguiu o joven Guarda-Marinha, o rapazola 
de vinte e um annos, mas desabrochando na ex- 
pansão genial. Na sua Ode iv, Bocage refere-se 
a essas syrapathicas distincções : 

Vaseoncellos. que ainda 

Na dilatada America opulenta 

Pela intacta justiça. 
Pela terna saudade é suspirado, 
Que de um sorriso, oh Musa, honrou teu Canto, 

Lá na tépida margem 
Do limpido Janeiro 

O desembargador Sebastião José Ferreira Bar- 
roco, que terminara o seu triennio na Relação da 
Bahia, que partia para Goa como secretario de 
Estado e como braço direito do Governador Cu- 
nha Menezes, também foi empolgado por uma 
grande sympathia por El/nano. Poucos poderiam 
apreciar Bocage, como Barroco, que também era 
poeta, e usava o nome arcádico de Albano, 
quando frequentara as conferencias discretas das 
grades do Convento de Chellas, e Alcipe o amava 
a ponto de ter ficado doente, quando elle, en- 
trando no quadro da magistratura, obteve um 
despacho para o Brasil. A intimidade de Barroco 
tinha um fundamento especial; Elmano sabia 
toda a historia de Alcipe, desde 1777, em que 
saiu da clausura, seu iramediato casamento com 
o tolaz militar, e a sua partida para Vienna de 



452 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Áustria pela enviatura do marido. Foi esta amizade 
de Barroco, também companheiro de viagem para 
Goa, que se tornou para Bocage uma salvação, 
no angustioso lance dos seus amopes. E' a essas 
semanas passadas no Rio de Janeiro, de folgue- 
dos entre attractivos femininos, que allude na sua 
Epistola a Getrnria : 

Alli, como nas marg^eiis de Ulysseia, 
Prendendo corações, brincavam, riam 
Os filhinhos gentis de Cytherêa. 

Mil graças, que a vangloria trocariam 
Em vergonhosa inveja a tua vista. 
Usurpar-te meus cultos presumiriam ; 

Eis, olham como fácil a conquista 

Mas a fé me acompanha, a fé me alenta 

E constância me dá com que resista 

Este combate a gloria me acrescenta; 
Conhece-se o valor do Navegante 
Em tenebrosa, horrisona tormenta. 

Contemplando na ideia o teu semblante 
Pude evitar o escolho onde naufraga 
O coração mais livre e mais constante. 

A formosa Getruria não devia ter gostado 
d'esta gaboiice de ÍJlmano na passagen\ pelo 
Rio de Janeiro. E' natural que o irmão do poeta 
Gil Francisco Soares Barbosa, que cursara a Uni- 
versidade, fizesse sentir á namorada D. Gertru- 
des Homem de Noronha e Eça, a impressionabi- 
lidade do poeta, e que sua irmã D. Maria das 
Mercês, casada com o filho do Governador de 
Outão, patrocinasse a mudança dos affectos para 
o irmão que melhor garantiria o futuro de uma 
esposa, O poeta piesentia esses effeitos da au- 



SEGUNDA Época: os árcades 453 



sencia que docemente se infiltrava e actuaria no 
animo de Getruria. 

Em 29 de Outubro de 1756 chegou a Goa a 
Náo N.<* Senhora da Vida, Santo António e Ma- 
gdalena, que partira de Lisboa em 14 de Abril. 
Em 17 de Novembro é registada a sua carta- 
patente, com o Cumpra-se do Governador, em 
18. ., e com o visto de guarda-marinha incorpo- 
rado na Armada da índia. Entra em serviço de 
embarque, em 20, saindo na fragata 'femivel 
Portugueza. No idyllio A Nereida, celebrando o 
Mandovi sereno e brando, allude ao serviço naval: 

Topamos ha trez dias o inimigo, 

Na altura de Cliaul; travamos guerra 

Sentiu do Portuguez o esforço antigo. 

Fez-se uma preza; repartiu-se em terra 
Inda agora; o quinhão que lá me deram 
Este pintado cofresinho encerra. 

Nas mãos um oollar de ouro me puzeram. 
Sobre aljôfares mil, vi que, por bollos 
De teu eollo e teus pulsos dignos eram. 

O mesmo foi pegar-lhe que trazel-os 
Para offerecer-t'os; vem (não é desdouro) 
Vem aeceital-os. ou sequer, vem vêl-os. 

Mas, que precisas tu, se és um thezouro 

Se tens mais lindas pérolas na boeca, 

Se tens ouro melhor nas tranças de ouro ! 

Em Fevereiro de 1787, acha-se Bocage ma- 
triculado na Aula real militar, de Pangin ; ahi 
cursaria especialmente a carreira da pilotagem. 
Em uma indicação do registo escholar aponta- 
se : « não fez exame, por causa legitima ». N'esta 
nota começa a accentuar-se a situação extraordi- 



454 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



naria, que é o enigma da sua vida. Bocage an- 
dava com a preoccupação dos amores de Getru- 
ria; exprime-o bem a phrase do versiculo dos 
Cantares — amore langueo. Elle bem queria for- 
tificar-se no seu sentimento, e descrevia no se- 
guinte Soneto essa profunda anciedade : 

Pelas túmidas ondas arrojado 
Ora aos abysmos, ora ao firmamento, 
EIscutando o furor e o som violento 
Do Bóreas, de Aquilão, de Noto irado. 

Aberto o peito, o coração rasgado. 
Pelo agudo punhal do apartamento, 
Qual o punho que foi de aços cruento 
Pelas guerras mortaes atravessado. 

Assim de um cego amor já cego e louco, 

Envio, alma querida, envio aos ares. 

De quando em quando um ai tremulo e rouco. 

Mas tantas afflicções. tantos pesares. 
Tudo é pouco, Getrnria, tudo é pouco 
Se inda eu vir os teus olhos singulares. 

[liim., p. 29). 

Em outro Soneto, glosando-o acerca dos rou- 
bos que lhe fez a má ventura, exclama: 

Eu deliro.. Getrnria. eu desespero, 
No inferno de suspeitas e temores. 
Eu da morte, as angustias e os horrores 
Por ti, mil vezes, sem morrer tolero. 

Pelo céo, por teus olhos te a.ssevero 
Que serve esta alma em cândidos amores 
Longe o prazer de illicitos favores, 
Quero o teu coração, mais nada quero. 

(16., p. 106). 



SEGUNDA Época: os árcades 4n5 



A paixão caminha para a catastrophe ; as sus- 
peitas vão-se tornando temerosa realidade : 

Alva Getraria minha, a quem saudoso 
Mando magoados ais enternecidos. 
Getraria, que encantas os meus sentidos 
Com um meigo riso. cora um Amor piedoso. 

Amor. o injusto Amor, nunca doloso. 
Insensível penedo a meus gemidos 
Me repete sobre os tímidos ouvidos 
Estas vozes cruéis em tom raivoso. 

Tu. que já desfructaste os meus favores, 
Tu, que na face de Getraria bella 
Néctar bebeste, mítígantes ardores; 

Não tornarás, não tornarás a vêl-a, 
Lamento, desgraçado, os teus amores, 
Accusa desgraçado, a tua estrella. 

, (Rim., p. 60). 

Elmano tem a certeza de Getrnrin ter accei- 
tado o amor de outrem, d'aquelle de quem temia 
o effeito das palavras serenas sobre o animo da 
ingénua criança e pela frequência e contacto 
das duas famílias. Ainda lhe falta o desengano 
brusco, e o resultado irremediável do seu consor- 
cio. Bile sente-se invadir pela lethal doença, 
e pensa no suicídio. E' n'esta desolada situação 
que achou justas sympathias no secretario de 
Estado, Sebastião José Ferreira Barroco, que era 
poeta sem comprehender o genial Elmano. 

Nada pode exprimir o desalento moral que 
lhe desvairou a vida, como esse Soneto, que tem 
o valor de documento histórico : 

Da perlida Getraria o juramento 
Parece-me que estou todo escutando, 
E que índa o som da voz suave e brando 
Encolbe as azas, de encantado, o vento. 



456 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



No vasto, infatigável pensamento 
Os mimos da perjura estou notaniio. . . 
Eis Amor, ei-s as Graças festejando 
Dos ternos votos o feliz momento. 

Mas, ah ! Da minha rápida alegria 
Para que accondf>r mais as vivas eôres, 
Lisonjeiro pincel da phantasia? 

Basta, cega paixSo ! loucos amores, 
EsqneQ;im-se os prazeres de alirujii dia, 
Tão belloá, tão duráveis, como as flores. 

(Rim., p. ''il). 

Na Canção O Desengano, era que chega a 
affrontar a leviana, quasi que aponta o rival, a 
quem chama Infame, epitheto que n'esta crise 
affectiva não poderia dar-se a um estranho. E ex- 
clama a si próprio : 

Conhece o baixo Objecto 
Que em triumplio te arrasta, 

Cuidas que um meigo, deleito-<o aspecto 

A desculpar os teus excessos basta? 

Cuidas que um bello riso. um ar benigno 

Filho da Infâmia, da ternura é digno ? 

Que engano ! A formosura 

Sem modéstia, sem pejo, 
Tédio, tédio merece, e não ternura, 
Eis. porque, de um frenético desejo 
Emfim, apaga os Ímpetos, a chamma 
E lava a nódoa com que Amor te infama. 

Na Canção iv, o Delírio amoroso desvenda 
os deliciosos momentos que lhe devia: 

Vae, fementida, que a paixão perfeita 
Os seus dons não reparte; 
Vae gemer n'outro peito e n'outros braços 
Pérfidos mimos d'esse Infame acceita 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 457 



Emquanto .juro aos céos do abominar-te, 
Emquanto arranco meus indignos lagos 
Emquanto, ah! que fallei? Meu bem, désfarte 
Abafa a minha voz, — dize que mente. 



Bocage sabe que seu irmão Gil Francisco Bar- 
bosa du Bocage vae casar coni D. Gertrudes 
Homem da Cunha Eça, a Oetruria de seus pri- 
meiros amores. Ninguém da sua familia, as irmãs 
e o pae teriam animo de dar-lhe essa angustiosa 
noticia. Mas pessoa da edade de Elmano, tam- 
bém poeta e apaixonado, é que lhe poderia com- 
municar essa traição da Getruria e de Gil Bar- 
bosa. O Josino da Epistola em que allude a 
lethifera doença, é que saberia esse segredo de 
familia ; .Joaino, é seu primo João José Barbosa 
du Bocage, filho do tio Francisco António, casado 
com uma sobrinha da mãe de Elmano. Bocage 
pensou em vir a Portugal para certificar-se por 
si da intrigante noticia. No livro das notas do 
curso de que não fez exame por causa legitima, 
lê-se : «24 de Fevereiro (de 1787) esta palavra: 
Partiu*, e como observa o sr. Ismael Gracias, 
no seu importante trabalho já citado, sem se di- 
zer para onde veiu e em que navio. 

A ideia de vir a Lisboa conhecer de perto a 
situação creada pelo casamento de Getruria com 
seu irmão, leva-o a conseguir a excepcional per- 
missão de ausentar-se de Goa por alguns mezes ; 
no Soneto allude ao ir expUcar-se ao doce 
objecto : 



Medroso coração, recebe o alento. 
Seca as inúteis lagrimas que choras, 
Tu cevas o teu mal, porque demoras 
Os vôoa ao feliz Atrevimento. 



HISTORIA DA LITTÉRATURA PORTUGUEZA 



Inflama, inflama a voz, que o pejo esfria, 
Um Deus tão suspirado e tão subido. 
Como se ha-de ganhar sem ousadia? 

Ao vencedor affoite-se o vencido 
Longe o respeito. longe a cobardia 
Morres de fraco? Morre de atrevido. 

{Tb., p. i% 

Quando sustentávamos a permanência de Bo- 
cage em Goa em 1787, a Epistola de Elmano a 
Josino, em que allude á Conjuração dos Pintos, 
denunciada e perseguida n'esse anno, e narrando 
que escapara por se achar retido por lethifera 
doença, pareceu-nos irrespondivel este argumento. 
O sr. Ismael Gracias acha suave esse fundamento, 
notando que essa Epistola fora escripta em fins 
de 1788: «N'esta (Epistola) trata Elmano de vá- 
rios assumptos, e entre outros da tal Conjuração, 
resumindo em 18 versos apenas toda a historia 
do gran caso, desde a sua descoberta — Agosto 
de 1787 — até ao seu julgamento e a execução 
dos réos — Dezembro de 1788*. E conclue d'este 
facto : "■ Bocage podia muito bem ter estado au- 
sente de Goa em 1787, e voltando no anno ira- 
mediato saber dos princípios e do termo da Con- 
juração, cujo processo ainda estava correndo, 
inserindo depois tudo isso — desde o começo até 
ao fim — na Epistola em que muito pela rama 
a descreveu >. {Ib., p. 25). O sr. Ismael Gracias 
tira a conclusão de que Bocage não saíra de Goa, 
nada consta do registo de licença, nem nos livros 
das Monções, nem do seu destino. E quanto ao 
seu regresso, apresentando-se era Fevereiro de 
1788, também nenhuma referencia nos documen- 
tos officiaes ; e até nas promoções ulteriores, se 
allega merecimento e serviços. Com toda a pro- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 459 



bidade consigna os factos contrários á sua opi- 
nião : « diz-se no Documento e Archivo da Fa- 
zenda — que Bocage partia em 24 de Fevereiro 
de 1787 (sem se declarar para onde) e que se 
apresentou em 28 de Fevereiro dê 1788 (sem se 
declarar também d'onde vindo). Não será licito 
supprir esta dupla omissão, accrescentando-se que 
tal partida foi para Lisboa, e a apresentação 
feita de volta '?> {Op. cit., p. 27). 

A esta pergunta, o sr. Ismael Gracias diz pe- 
remptoriamente — não. Passou-se um facto extra- 
ordinário, que por isso mesmo não foi registado 
officialmente, conforme as praxes normaes. Por- 
tanto a omissão das formalidades, não importa 
negação do facto, mas a causa excepcional que 
motivou um tal favor, e o motivo tarabem exce- 
pcional que impelliu o génio impulsivo de Bo- 
cage a vir pessoalmente a Lisboa, n'esse periodo 
de 24 de Fevereiro de 1787 a 28 de Fevereiro de 
1788. Se o sr. Ismael Gracias, tão leal na sua cri- 
tica, conhecesse o motivo intimo, que impelliu 
Bocage, reconheceria a verdade do facto, e ape- 
nas trataria de explicar como materialmente se 
effectuou a viagem a Lisboa, e como estando em 
Lisboa em 8 de Novembro de 1787, poderia 
achar-se de regresso em Goa em 28 de Fevereiro 
de 1788. Emquanto não conhecemos esse motivo 
intimo que actuou de um modo absoluto na vida 
de Bocage, também tinliamos como hypothetico 
esse facto, isolado e insignificativo. 

O sr. Ismael Gracias fundamenta e bem a data 
da carta, 8 de Novembro de 1787, e portanto o 
jantar a que assistiu Bocage. O abbade Xavier 
elogiando o heroísmo dos portuguezes, dizia a Be- 
ckford: «D. Frederico vos pode contar as proezas 
de alguns dos vossos heroes, ainda não ha muito, 



460 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



contra os gentios de Goa, o que deixa a nitida 
impressão de que o jantar se realisou pouco de- 
pois do regresso do ex-governador. ..» {Op. cit., 
p. 24). 

Este juizo reforça-se com outras passagens da 
carta de Beckford, era que representa Bocage 
« um pallido e exqiiisito mancebo >, expressão que 
exclue a edade da completa varonia. Pelo seu 
lado estranha a condescendência com que lhe 
prestava attenção, a um moço obscuro, a um no- 
vel versejador ». Bocage, em 1787, contava vinte 
e um annos, e ainda nada publicara. As Rimas 
publicadas em 1791 começam pelo verso : < In- 
cultas producções da mocidade >; tinha elle en- 
tão vinte e quatro annos, e essas composições 
pertencem á época da sua adolescência. Ainda 
uma outra circumstancia fixa chronologicamente 
a data de 1787: depois de jantar, Beckíord saíra 
para ver as luminárias e fogos de vistas, cora 
que se festejava ofncialraente o nascimento de 
ura príncipe, filho da Infanta portugueza D. Ma- 
rianna, filha de D. Maria i^ e casada com D. Ga- 
briel, filho de Carlos iii e irmão de Carlota Joa- 
quina. A criança era D. Pedro Carlos, que foi 
trazida para Portugal com 5 annos, em 1792, por 
lhe terem morrido pae e raãe de bexigas con- 
fluentes com poucos dias de differença. 

O sr. Ismael Gracias oppõe ao facto da vinda 
de Bocage a Lisboa a impossibilidade do regresso 
no decurso da segunda semana de Novembro de 
1787 ao ultimo dia de Fevereiro de 1788. Parte 
do ponto de vista exclusivo de ser feita essa via- 
gem era Náos de viagem das carreiras do Estado, 
que apenas n'este anno saíram duas Náos, San 
Luiz e Magdalena, em Abril, chegando em Ou- 
tubro a Goa, e Santíssimo Sacramento (a Cam- 



SEGUNDA Época: os árcades 4(51 



pelo) em 8 de Julho e chep:ando em 8 de Mar- 
ço de 1789. Conclue-se d'aqui, não ter Bocage 
regressado a Goa em Náo do Estado. Existia a 
carreira de dois navios de Calcutá a Lisboa, es- 
tabel-ecida em Fevereiro de 1787 por Estevam 
Lucatelli, com permissão do Governador Fran- 
cisco da Cunha Menezes. Em um d'esses navios, 
o Mediterrâneo ou o Tejo, veiu Bocage a Lis- 
boa e partindo em outro, sabendo perfeitamente 
as escalas da dupla carreira. O sr. Ismael Gracias 
é que achou o facto do estabelecimento da car- 
reira de Estevam Lucatelli, sem lhe tirar as 
illacções. Também a intimidade do Conde de 
Lucatelli com o ex-governador D. Frederico 
Guilherme de Sousa, que só se apresentou na 
corte em Agosto de 1787, nos revela que viera 
para a metrópole no grande navio Mediterrâneo 
da carreira de Lucatelli, porque estava então 
despeitado com o desfavor da corte. Eis ahi, pois, 
porque não ha registo da partida nem do re- 
gresso de Bocage, e porque o encontramos apon- 
tado na Carta de Beckford de 8 de Novembro 
de 1787, acompanhando o Conde de Lucatelli 
então inseparável de D. Frederico. A ausência de 
Bocage considerada um serviço e tempo de ser- 
viço, seria por ter sido destacado como official 
ás ordens do ex-governador D. Frederico Gui- 
lherme de Sousa em navio mercante. Deduzimos, 
portanto, que Bocage se achava em Lisboa em 
Agosto de 1787, tendo tido tempo para se escla- 
recer da realidade do facto do casamento ajus- 
tado de Oetrurin (D. Gertrudes Homem da Cunha 
Eça) com seu irmão o Dr. Gil Francisco Barbosa 
du Bocage. Quando Beckford o conhc^ceu em S 
de Novembro, d'esse anno, estava o poeta em 
uma agitação nervosa excepcional, ora sombrio e 



4fi2 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



triste, ora fulgurante de espirito, de ironia, e sem- 
pre apoiado em uma idealisação poética, que lhe 
deu alento para dominar a sua emoção. 

Para a solução do enigma bocageano o sr. 
Ismael Gracias trouxe no seu opúsculo Bocage 
na Índia, a provada saída do poeta era 24 de 
Fevereiro de 1787, e a sua apresentação em 28 
de Fevereiro de 1788; trouxe a noticia do esta- 
belecimento da carreira de dois navios em 1787, 
de Calcutá a Lisboa, por Estevam Lucatelli. Por- 
que é pois que conclue : « O enigma continua e 
continuará sendo um verdadeiro casse-téte para 
os investigadores >? (Ib., p. 28). Se o sr. Gracias 
conhecesse o caso da pérfida Getruria, e as poe- 
sias da raríssima edição das Rimas, de 1791, e 
depois a vida dissoluta do poeta desde 1789, 
com certeza diria — eureka! 

Depois de conhecido o determinante motivo 
que impelliu Bocage a vir disfarçadamente a Lis- 
boa (n'esse periodo da sua ausência provada de 
Goa entre Fevereiro de 1787 a 28 de Fevereiro 
de 1788), é que a carta de Lord Beckford que 
descreve a impressão que lhe causara Bocage, se 
torna um documento histórico ^. 



^ Somente depois de formado o quadro biographico 
é que se pôde notar a problemática congruência dos fa- 
ctos. N'esse quadro, Bocage, sua vida e Época, publicado 
em 1876, anotamol-o. Passados vinte e seis annos. publicou 
o prof. Ad. Coelho, na Revista critica d^ Historia e Litte- 
ratura, de Madrid (Septetnbro de 1896) uma indecorosa 
objurgatoria Um enigma tia vida de Bocage, de que 
trata em quatro linhas: * Não ba motivo para registar o 
testemunho de Beckford nem a data d'6lle Assim, torna- 
se admissivoi a segunda bypotbese da vinda de Bocage 
de Goa a Lisboa em 1787 ». 

O sr. Augusto de Castro dá-lhe as honras da inioia- 
tiva do problema, que nlío foi além da oasual íaformação. 



SEGUNDA Época: os árcades 463 



Devem aqui ser encastoados os trechos da 
carta de 8 de Novembro de 1787, em que Beckford 
nos dá a physionomia moral do joven poeta, que 
passava pelo transe angustioso que lhe desorien- 
tou a vida. 

Deixando o seu architecto Verdeil entregue á 
contemplação dos Medalheiros dos P. P. Caeta- 
nos, Beckford dirigiu-se no seu coche para ir 
ver os corvos da Sé, encontrando no seu cami- 
nho o Abb. Xavier, depois um popular pregador 
da Boa Morte (Fr. João de Nossa Senhora), Gran- 
Prior e por ultimo o Marquez de Marialva, que 
não quiz ficar de fora : "■ encheu-se completa- 
mente a carruagem, e toda esta carregação foi 
jantar commigo. Verdeil já tinha voltado com o 
seu reverendo numismata, e havia também recru- 
tado o vice-rei da índia, D. Frederico de Sousa 
Calhariz, o Conde Lucatelli, fanfarrão piemon- 
tez ou saboyano, seu inseparável companheiro, e 
um moço pallido, franzino e de aspecto singular, 
o sr. Manoel Maria, o mais extravagante e talvez 
o mais original dos poetas que Deus tem creado. 

« Aconteceu estar elle n'unia d'essas extraor- 
dinárias e exaltadas disposições de espirito, que, 
como o sol no rigor do inverno, apparecem quan- 
do menos se esperam. Mil agudos conceitos, mil 
alegres e estouvados registos, mil dardos satíri- 
cos saíam de sua bôcca, e nós estávamos em con- 
vulsões de riso ; porém, quando elle começou a 
recitar algumas das suas composições, em que a 
grande profundidade do pensamento se allia aos 
mais patheticos lances, senti-me commovido e 
agitado. D'este estranlio e volúvel caracter é que 
se pode dizer, que possue o verdadeiro condão 
magico com que, segundo lhe apraz, ora nos ani- 
ma, ora nos petrifica I 



464 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



« Percebendo quanto eu me sentia attrahido 
para elle, disse-rae Manoel Maria: 

<: — Eu não esperava que ura inglez condes- 
cendesse em prestar attenção alguma a um ver- 
sejador moço, obscuro e moderno. Os senhores 
pensara que nós não temos nenhum outro poeta, 
além de Camões, e que Camões não escreveu 
nada digno de menção senão os Lusíadas. . . 
Aqui está um Soneto que vale metade dos Lu- 
síadas : 

A formotura d'esta fresca serra, 
E a sombra dos verdes castanheiros, 
O manso caminhar d'estes ribeiros. 
D'onde toda a tristeza se desterra, 

O rouco som do mar, a extranha terra, 
O esconder do sol pelos outeiros, 
O recolher dos gados derradeiros, 
Das nuvens pelo ar a branda guerra. 

Emfim, tudo o que a rara natureza 
Com tanta variedade nos offerece. 
Me está, se não te vejo, magoando ; 

Sem ti. tudo me enoja e aborrece, 
Sem ti. perpetuamente estão passando 
Nas mores alegrias mór tristeza. * 



' Na primeira versão portuqrueza incompleta, das 
Cartas de Lord Beckford, publicada no Panorama, o tra- 
ductor deixou de parte este Soneto de Camões, deixando 
ao cuidado litterario da redacção o restituil-o ao seu lo- 
gar. Por descuido ou inconsciência, o Soneto ficou sup- 
primido. Annos depois o compilador Bernardes Branco, 
publicou no seu livro Portugal e os Estrangeiros esse 
texto incompleto e truncado das Cartas de Beokford. 
Começa agora a eruiição postiça. No artigo da Reoiata 
critica da Historia e Litteratura, de Madrid. Adólpho 
Coelho, no seu adio cego. acousa-nos de ©nganarmos os 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 465 



« — Nem uma só imagem da belleza rústica 
esqueceu ao nosso divino poeta ; e com que pro- 
fundo sentimento elle as transporta da paizagem 
para o coração ! Que fascinadora languidez en- 
volve, como os últimos raios do sol poente, toda 
esta composição ! Se eu sou alguma cousa, foi 
este Soneto que me fez o que sou. Mas, quem 
sou eu, comparado com Monteiro ? — Julgue, (con- 
tinuou elle, passando-me ás mãos versos manus- 
^criptos d'este auctor, de quem os portuguezes 
são ardentes admiradores). 

< Eram, na verdade, cheios e sonoros ; porém, 
devo confessar, que o Soneto de Camões e mui- 
tos dos próprios versos do sr, Manoel Maria, me 
agradaram infinitamente mais, mas de facto, eu 
não conhecia sufficientemente a peça e proprie- 
dade da lingua portugueza, para ser juiz compe- 
tente, e foi somente imaginando que eu o podia 
ser, que este poderoso génio manifestou alguma 
falta de penetração. 

«O jantar foi animado e alegre». Terminado 



leitores impinpin<io-Hi6s um Soneto de Camões, interca- 
lado por nosso arhitrio n'e-!ta carta. Citámos-lhe as odi- 
çõe.s ingiezas de lsH4 e 18H9. com esto Soneto de Camões. 
Publicando pelo Centenário de Bocage, em 1805, a sua 
versão inédita de Paulo e Virgínia, o sr Cândido de F^i- 
gueiredo, nas aprecinQõe.s litterarias do Diário de Noti- 
cian, tamt em repele a estulta increpação de Ad Coelho. 
As aves do Capitólio continuaram a avisar da ratoeira. 
B em 1917 o sr Ismael Gracias no seu opúsculo Bocage 
na índia, omittindo o Soneto de Camões, explica se em 
nota: « N'este lognr o sr Theophilo Braga intercalou o 
soneto descriptivo de Camões, que não se lê no Pano- 
rama nem no Pnrtuqal e os Estrangeiros, mas que diz 
transcreveu das edições inglezas de 18U e 18H9. das Car- 
tas de Beckfi-rd ». Isto é amostra dos meus erros e dos 
meus julgadores. 
80 



466 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



O opiparo jantar foram todos vêr os lendários 
corvos sustentados pela Sé em honra de S. Vi- 
cente, e d'alli foram - dar uma volta pelas prin- 
cipaes ruas, para vêr as illuminações em honra 
da Infanta casada com D. Gabriel, a qual aca- 
bava de dar á luz um príncipe. Caminhávamos 
com difficuldade, tantos eram os vadios que 
sahiram á rua com o mesmo fim que nós ». "Beck- 
ford descreve o fogo de vistas. Mas, o que inte- 
ressa é a referencia ao parto da infanta D. Ma- 
rianna Victoria, filha da rainha, que precisa a 
data irrefragavel d'esta carta alludindo ao regosijo 
official pelo nascimento de D. Pedro Carlos. * 

E' um precioso testemunho esta impressão re- 
flectida em um alto espirito como o de Lord 
Beckford, excellente observador psychologo. Ahi 
se vê o estado de agitação nervosa em que se 
achava Bocage, já conhecedor da traição de Ge- 
truria, instigada pelo irmão casado com D. Anna 
das Mercês a preferir o cunhado bacharel. O poeta 
ahi allude á sua mocidade ; e recitando ao lord 
os versos, que imprimiu em 1791, dava-lhe ao 
recital-os o máximo da comraovente expressão. 
O Soneto de Camões lembra-lhe aquella pai- 
zagera do valle de Azeitão, que elle tantas vezes 
contemplara, quando ia ao castello dé Ontão 
fallar a Getruria. Tendo-se apresentado á corte 
D. Frederico Guilherme de Sousa em Novembro 
de 1787, podemos suppor que a intimidade com o 
ex-governador da índia seria estabelecida em 
viagem, Bocage agora não tinha tempo a perder 
para o regresso a Goa, só possível em quatro me- 
zes em uma carreira mercantil. 



* Na traducção portugueza das Cartas de Beckford, 
publicada em 1901, com o titulo A Corte de D. Maria II, 
esta carta tem o n,° xxiv, e na traducção ingleza xxi. 



SKGUNDA época: OS ÁRCADES 467 



Em Goa o poeta malquistava-se com os pode- 
rosos elementos locaes pela irreflectida expansão 
do seu gonio satírico e pelas intrigas suscitadas 
pelos versos amorosos com que deslumbrava. 
A saliida de Goa tornava-se uma necessidade, 
mais para o salvar das consequências da sua au- 
dácia, do que por ideia de castigo. Assim acon- 
teceu a Camões quando despachado para Macáo. 
Bocage foi despachado em 25 de Fevereiro de 
1789 tenente de infantaria da 5.^ companhia da 
guarnição de Damão com o fundamento de ser- 
viços ; deixou os mil feitiços das filhas delicadas 
dos magnates de Goa, partindo em 8 de Março 
na fragata Santa An?ia, e entrando em serviço 
do seu posto a 6 de Abril d'esse anno. 

Depois do registo de 24 de Fevereiro de 1787, 
em (jue se lê : Partiu sem se declarar para onde 
fora Bocage, apparece matriculado pela 2.^ vez 
na Aula. real de Marinha, em Fevereiro de 1788 
(sem dia designado) e adiante a nota : Não fre- 
quenta por cau^sa legitima. Em 23 de F'evereiro 
de 1788 lê-se : apresentou-se, também sem se de- 
clarar d'onde viera. Nas informações officiaes, 
é-lhe contado um anno de serviço e são-lhe re- 
conhecidos merecimentos para a promoção de te- 
nente. Que serviços tão especiaes foram, que ape- 
nas são alludidos? Para nós, esses serviços foram 
o ter sido nomeado official ás ordens do ex-gover- 
nador D. Frederico Guilherme de Sousa, e acom- 
panhal-o até Lisboa officialmente. Assim se ex- 
plica como obteve licença e recursos para vir a 
Lisboa em 1787, e acompanhar o ex-governador 
da Índia ao jantar de lord Beckford, como o seu 
prompto regresso a Goa. O (jue elle soube em 
Lisboa da pérfida Getruria, desorientou-lhe a 
existência. T;ançou-se ao tabaco, ao álcool e como 



468 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



diz — ao tropel das paixões. A sociedade de Goa 
repelliu-o. Na sua sobreexcitação, Bocage fez ter- 
ríveis Sonetos a Goa e aos fidalgos pobres da 
classe dos velhos reinoes. Suscitou ódios que 
machinaram vinganças. Em 17 de Novembro de 
1788 embarca na fragata Santa Annn e S. Joa- 
quim, sendo em 25 de Fevereiro de 1789 no- 
meado tenente de infantaria da õ.* companhia do 
regimento da guarnição de Damão. Lê-se na por- 
taria referendada pelo desembargador Sebastião 
José Ferreira Barroco : em attenção aos seus me- 
recimentos e serviços. Em 6 de Abril de 1789 
tomou posse do seu cargo. Dois dias depois, em 8 
de Abril, Bocage, no seu desvairamento, deser- 
tava de Damão *. O governador da praça, em 
officio de 6 de Abril, communicava ao governo 
de Goa : « Com a chegada da fragata Santa 
Anna, desembarcou para esta praça Manoel Ma- 
ria Barbosa, provido por v. ex.^ em tenente para 
a 5.^ companhia do regimento d'ella, e sentando 



' " A antiquissiraa cidade de Damão oompõe-se de 
trea bairros conhecidos pelos nomes de Damão Pequeno. 
Praça e Damão Grande. O primeiro está situado na mar- 
gem direita do caudaloso rio Sandaloal ou Demanganqa, 
e 08 restantes na outra margem, mas separados pelas 
portas da cidadella denominada da T^rra Quem vem de 
Damão Pequeno encontra ao lado do rio o antigo cães 
da Trapicha ; e a seguir as Portaft do Mar. junto ás quaes 
vimos nós em 1906, as ruínas do vetusto convento de 
S. Francisco — antiga succursal da extincta e ominosa 
Inquisição de Goa. Depois sesue a extensa rua de D. Cons- 
tantino de Bragança, onde demoram o palácio do governo 
e varias repartições, a qual termina junto ás Portas da 
Torre, seguindo-se-lbe o Campo dos Remédios e outros 
largos e ruas do populoso Damão Grande. „ 

> OWVEIBA MaSCABBKHAS. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 469 



praça no dia que desembarcou, se ausentou no 
dia 8 do corrente cora o alferes da 1.» companhia 
Manoel José Dyonisio, indo ambos pela Porta do 
Campo. Não posso dizer a v. ex.* do motivo do 
primeiro, e do segundo attribuo a muitas dividas 
para seus jogos. . . » 

Sobre os motivos da deserção de Bocage, de 
Damão, coUigiu o official Oliveira Mascarenhas, 
quando esteve em Damão a seguinte tradição : 

« Foi, e ainda é crença dos habitantes mais 
illustrados d'esta nobilíssima cidade, que n'ura 
guddon ou pequena casa que alli vimos ha cerca 
de dez annos (189ô) — guddon que fica junto ás 
referidas Portas da Terra, se encontrava certo 
dia de guarda o tenente Manoel Maria Barbosa 
du Bocage, quando elle vira e lhe disseram de 
seguida que um frade de S. Francisco — munido 
d'uma precatória da Inquisição de Goa — seguia 
a rua D. Constantino, na direcção da guarda, 
afim de intimar ao poeta um mandado de ca- 
ptura. 

«Bocage, segundo a tradição, ficou como que 
fulminado. 

« E porque a sua consciência lhe dissera que 
havia nos seus versos praticado irreverências con- 
tra a fé, desafivelou a espada, muniu-se de al- 
guns recursos, e correu a esconder-se no Pragana, 
até que — protegido por um amigo — conseguira 
transportar- <e ])ara a hedionda Surrate (Forta- 
leza no Golfo de Cambaia), onde embarcara para 
a Indo-China. 

«Firmar-se-ha em base solida esta antiga tra- 
dição do Guzerath ? 

« Cremos que sim. Porque a nossa bella índia 
portugueza — mercê da illustraçào dos seus filhos, 
e por effeito da distancia a que se encontra de 



470 HISTÓRIA DA LITTER ATURA PORTUGUESA 



irrequietos iconoclastas", — não só é o fiel reposi- 
tório dos nossos costumes de outr'ora, como é 
também o archivo venerando das nossas velhas 
tradições ^. 

Esta tradição é mais verdadeira do que a no- 
ticia crua dos documentos officiaes, apontando a 
deserção como conivência com o alferes Dyonisio, 
jogador e caloteiro incorrigível. Bocage tinha 
offendido em terríveis Sonetos as famílias de 
Goa. A vingança achou o seu instrumento-^ 
a Inquisição, denunciando o poeta por qualquer 
verso ou phrase de philosophismo. No Soneto em 
que Bocage narra como se viu forçado a aban- 
donar a margem do Mandovi, como o poeta Oví- 
dio aponta como causa: «Da vil Calumnia a Vin- 
gança viperina», e a Serpe que devora tantos mil. 
A fuga de Damão tem certa analogia com a de 
Filinto, dez annos antes : 

Do Mandovi na margem reclinado 
Chorei debalde minha negra sorte, 
Qual o mísero vate de Gorina, 
Nas tironeanas praias desterrado. 

Mais duro foi ali meu duro fado, 
Da vil calumnia e lingua viperina, 
Até que aos mares da longínqua Ghina 
Fui por bravos tufões arremessado. 

Atassalhou-me a Serpe que devora 
Tantos mil; perseg:uiu-me o grão Gigante 
Que no terrivel Promontório mora, 

Por bárbaros sertões gemi vagante, 
Falta-me inda o peor, falta-me agora 
Vêr Gvtruria nos braços de antro amante. 

{Rim., p. 81). 



* Illustração portagueza, n.® 113. — 1 de i 1906. 



SEGUNDA Época: os árcades 471 



Vê-se, que n'esse pouco tempo que Bocage 
se demorou em Goa, á margem do Mandovi, já 
sabia que estava justo o casamento de Getruria, 
(D. Gertrudes Homem de Noronha Eça) com seu 
irmão Gil Francisco Soares Barbosa, recem-gra- 
duado em Leis. Todos esses soffrimentos da vida 
errante pelo Cantão, em que a piedade humana 
lhe faltava (phrase de Camões em egual situa- 
ção) eram mais do que ver a eleita do seu co- 
ração e destino, desposada, pelo braço de seu 
irrrião. Bocage, anotando este Soneto autobiogra- 
phico, indica a «peregrinação por terras barbaras 
em que supportou os horrores da penúria». Bo- 
cage dirigira-se a Surrate para se refugiar em 
Bombaim, contra o assalto da Inquisição de Goa, 
e n'esta pequena viagem é que foi arrebatado 
pelos tufões para o mar da China e desembarcou 
depois no Cantão. 

A vida da guarnição, e o espectáculo deso- 
lador da ruina do império portuguez no Oriente, 
levava-o a um desespero tal, que ao fim de dois 
dias desertou da fortaleza pela Porta do Campo 
em companhia de um estouvado alferes cheio de 
dividas, um tal Manoel José Dionysio, que facil- 
mente o suggestionou. Esta parte da vida do 
poeta é conhecida apenas pelos versos que fizera 
á celebre Manteigui que fora amasia do passado 
governador D. Frederico Calhariz, e que elle en- 
contrara em Surrate ; d'ahi, aproveitando as mon- 
ções, seguiu para Bombaim, e arrojado pelas 
tempestades do mar da China foi parar a Can- 
tão, onde andou errante e mendigando. Nos ver- 
sos á morte do príncipe Dom José, cheio de es- 
perança de pôr um dia em pratica as ideias do 
Marquez de Pombal, escreve Bocage : 



472 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



Triste povo ! e mais misero eu, qne habito 

No remoto Cantão 

Misérrimo de mim. que em terra alheia, 
Cá onde ruge o mar da vasta Qhina, 
Vagabundo praguejo a morte feia ! 

E comparando a sua vida errante com a ma- 
levolencia que encontrara em Goa, exclama em 
traços que elucidam a sua vida : 

Mais duro fez alli meu duro fado 
De vil calumnia a lingua viperina, 
Até que aos mares da longinqaa China 
Fui por bravos tufões arremessado. 

Bocage chegou ao fim da sua prolongada mi- 
séria a Macáo por fins de Julho ou Agosto de 
1789. O negociante Joaquim Pereira de Almeida 
o acolheu em sua casa e o relacionou com as 
famílias macaistas ; alli o protegeu o desembar- 
gador Lazaro da Silva Ferreira, sendo então go- 
vernador interino de Macáo, por parte do Capi- 
tão general Francisco Xavier de Mendonça Corte 
Real. Pôde Bocage alli comprehender a tradição de 
Camões, cotejando o seu destino com o do cantor 
dos Lusíadas, quando em Moçambique se encon- 
trara em tão pura pobreza, que comia de amigos. 

Por auxilio de alguns amigos obteve Bocage 
recursos para regressar a Lisboa, aonde chegou 
por Agosto de 1790, trazendo apenas como fructo 
das suas viagens mais originalidade de caracter, 
emfim uma liberdade de critério, que tinham de 
completar-lhe a desgraça. A chegada a Lisboa 
em 1790, fixa-se pela Elegia que fez á morte des- 
graçada do filho do Marquez de Marialva, afo- 
gado no Tejo, quatido seguia rio abaixo para a 
romaria da Nazareth. 

Durante a ausência de Bocage tinham-se pas- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 473 



sado extraordinários successos na Europa : o mun- 
do moral assentava era novas bases. Em 17 de 
junho de 1789 constituira-se a Assembleia na- 
cional ; em 14 de Julho a tomada da Bastilha 
symbolisava a queda do despotismo ou do direito 
divino.; em 4 de Agosto decretava-se a abolição 
dos privilégios, e iniciava-se a egualdade civil e 
politica perante a lei. Essa aurora dos tempos 
modernos era a Revolução franceza. Em 21 do 
Março de 1790 decretara a Assembleia nacional 
a suppressão das gabelas ; a 5 de Abril institue o 
Jury, e em 13 de Maio decreta a alienação dos 
bens nacionaes, por onde a França inteira coopera 
na dissolução do regimen catholico-feudal. A Re- 
volução franceza reflectia em todos os estados da 
Europa, assim como as ideias dos Encyclopedis- 
tas encontraram sectários nos thronos dos déspo- 
tas, em Catharina da Rússia, Frederico da Prús- 
sia, e José II, imperador da Áustria. Contra esta 
corrente das ideias, o cesarismo bragantino abra- 
çou o systema da policia franceza, creando a 
Intendência geral da Policia da corte e reino 
por alvará de 25 de Julho de 1760. Como as 
ideias modernas espalhavam-se em Portugal pe- 
las associações maçónicas, a Intendência da Poli- 
cia exercia a sua actividade incessante, perse- 
guindo e expulsando do território portuguez os 
Free-Maçons (Flamações, na linguagem popular). 
Do terror d'esse tempo íicou o habito de consi- 
derar pedreiros-livres os liberaes de 1820 e 1831. 
O desembargador Diogo Ignacio de Pina Mani- 
que, nomeado em 1764 Intendente Geral da Po- 
licia, exerceu este cargo com a mais terrivel pre- 
potência ale ao anno de 1805. Pina Manique era 
de uma actividade satânica: desembargador do 
Paço, administrador da Casa do Infantado e das 



474 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



Alfandegas, das estradas, encarregado da cen- 
sura, tinha um poder descricionario, chegando 
por vezes a invadir os poderes dos ministros ; e 
quando se alkidia ao facto de dispor dos dinhei- 
ros públicos nos trabalhos de uma apertada es- 
pionagem, Manique mostrava-se fortalecido com 
umas instrucções secretas dadas por alvará de 15 
de janeiro de 1780, que o isemptavam de toda a 
responsabilidade. Com esta carta branca para 
todo o arbítrio e tropelia, Manique tirou partido 
da sua situação excepcional, principalmente desde 
que se deram os factos capitães da Revolução 
franceza, e que alguns emigrados e a tripulação 
de navios francezes cantavam pelas ruas de Lis- 
boa o Çà ira. 

Foi n'este meio oppresso, que Bocage se achou 
repentinamente envolvido. Os successos da Re- 
volução haviam de impressionar aquelle espirito 
muito amante da sua liberdade e figadal ini- 
migo da escravidão ; elle celebrou-a em alguns 
versos. Não era preciso mais para o Intendente 
Manique se apoderar da sua pessoa, sumil-o em 
uma enxovia, eliminal-o. Em bem pouco tempo 
cahiu sobre Bocage a garra da policia. Bastava 
a sua figura, a sua linguagem e araisades pes- 
soaes, para se tornar suspeito a Manique. 

Beckford revela-nos que Bocage exercia etn 
volta de si a fascinação de um génio deslum- 
brante, e que para elle Camões era um ideal que 
o alentava nas decepções pessoaes e no senti- 
mento da pátria. 

Quem era este poeta Monteiro que o pre- 
occupava como uma obsessão ? Esse versejador 
era Domingos Monteiro de Albuquerque e Ama- 
ral, (Dorindo) que veiu a ser um dos grandes 
partidários das ideias liberaes, tendo-se distin- 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 475 



guido na Oiierra dos Poetas nas sátiras contra a 
Arcádia lusitana. Lord Beckford, na sua Excur- 
são a Alcobaça e Batalha, em 7 de Junho de 
1794, declara que levava então na algibeira para 
o acompanharem na viagem as poesias de Mon- 
teiro e Bocage. Vê-se pela Excursão a Alcobaça 
que se harmonisa no mesmo syncronismo cora a 
Carta xxx, em que a data de 1787 manifestamen- 
te se justifica. A rivalidade de Monteiro era sus- 
citada pelas luctas dos Neo- Árcades, versejadores 
mediocres que elevavam os méritos de Dorindo. 
Logo que chegou a Lisboa, em 1790, teve 
Bocage relações intimas com José Agostinho de 
Macedo, frade graciano, que foi expulso da sua 
ordem, por discolo, e influindo no desequilibrio 
do caracter do recem-vindo. Macedo mostrara- 
Ihe a traducção que fazia da Tliebaida de Stacio; 
a vida litteraria era quasi nulla, e apenas alguns 
versejadores se reuniam na Academia das Hu- 
manidades de Lisboa, sem sede definitiva. Es- 
tava cortada toda a communhão intellectual de 
Portugal com a Europa ; era perigoso ter ideias ; 
mas para passatempo de amigos, a Academia 
das Humanidades foi transformada na Acade- 
mia de BtíUas-Lettras pelo mulato brasileiro, o 
P.'' Domingos Caldas Barbosa, reunindo-se ás 
quartas-feiras no palácio do Conde de Pombeiro. 
Contirmando o espirito da Arcádia lusitana cha- 
maram-lhe JSÍova Arcádia ; Bocage e Macedo 
foram ahi as principa(^s figuras, ambos irasciveis. 
Dentro em pouco tempo Bocage feria em um ti- 
roteio de sátiras pungentes os Neo-arcades, que 
o acoimaram o Sultão do Parnaso. Foi victima 
das sátiras oT." Caldas, que presidia ás sessões 
litterarias, e á maneira italiana brindava os neo- 
arcades com chá e bolos, cantando Modinhas 



476 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



brasileiras, tornando falladas as quartas-feiras de 
Lereno. Bocage não podia supportar tanta cha- 
teza, caricaturando o velho Amaral França, o 
Nestor das Academias, atacando os dythirambos 
de Curvo Semedo, e as traducções do Abbade de 
Almoster. As replicas foram violentissimas ; e de- 
pois de o terem ferido pelo lado fraco, o abuso 
das tautologias ou ehnnnismos (do nome arcadico 
que adoptara Elmafio Sadino) e a decadência da 
sua inspiração depois do regresso do Oriente, 
para o arrojarem á desgraça denunciaram ao In- 
tendente Manique os versos de Bocage em que 
se espalhavam as ideias francezas. A Kova Ar- 
cádia tinha passado do palácio do Conde de Bom- 
beiro para uma sala no Castello de San Jorge, 
cedida pelo Manique, sob os auspícios de D. Ma- 
ria I, com obrigação de celebrarem os régios an- 
niversarios. 

Repellido da Nova Arcádia desde 1793, a Aca- 
demia de Bocage era nos botequins de Lisboa, 
então centros das conversas politicas, que o Ma- 
nique espiava constantemente com as suas mos- 
cas, e contra os quaes chegou a propor que se 
abrissem os theatros e se jogasse a tômbola para 
evitar que os cidadãos fallassem das cousas pe- 
rigosas da govertiação. Era n'estes centros de 
convivência que Bocage lançava os seus arreba- 
tados improvisos, segundo os Ímpetos da emanci- 
pação religiosa e politica; estão n'este espirito os 
Sonetos Contra o Despotismo, Aspirações do 
Liberalismo, e a bella Epistola das Verdades 
duras, que começa: «Pavorosa illusâo da eterni- 
dade >. Manique andava acirrado pelas Cantigas 
francezas revolucionarias, pelo uso dos cocares, 
pela entrada de caixões de livros francezes para 
a Academia das Sciencias ; trazia de olho o Du- . 



SEGUNDA Época: os árcades 477 



que de Lafões, apesar do seu parentesco com a 
rainha, accusava de jacobinismo o Abbade Cor- 
reia da Serra, desconfiava das relações do P," 
Theodoro de Almeida, e julgava evidente o libe- 
ralismo de Ferreira Gordo, e até do revisor da 
Gazeta de Lisboa, onde encontrava um certo re- 
levo na descripção dos triumphos da Republica. 
Os Neo-arcades aproveitaram-se da garra de Ma- 
nique, entregando-lhe papeis impios, sediciosos e 
críticos, que haviam de causar a ruina de Bocage. 

Bocage, depois da repulsa inflexivel de Anarda, 
sua namorada, fora refugiar-se em Santarém em 
casa do morgado José Salinas de Benevides. 
Pode fixar-se este facto por 1795 a 1796. Mani- 
que, sempre em combate contra as ideias fran- 
cezas, querendo defender Portugal da corrente 
revolucionaria, fazia espionar Bocage; o poeta 
sentiu-se visado e fugiu para bordo da corveta 
Aviso, do comboio que partia para a Bahia. Foi 
preso immediatamente e mettido no segredo do 
Limoeiro, em 10 de Agosto de 1797. No Officio 
d'esta data, dirigido pelo Intendente ao Juiz do 
Crime do Bairro de Andaluz, no qual declara 
que Bocage já está prezo, manda fazer-lhe appre- 
hensão « em todos os seus papeis, assim manus- 
criptos como impressos, e ainda aquelles que es- 
tiverem em poder de terceiros seus sequazes, que 
devem ser egualmente prezos, e averiguada a 
sua vida e costumes, para vêr se imitam por elles 
o referido Manoel Maria Barbosa du Bocage, etc.» 

O poeta morava então com o cadete do pri- 
meiro regimento da armada André da Ponte do 
Quental* e Camará, (avô do poeta Anthero do 
Quental) que foi também remettido para o Li- 
moeiro, e apprehendidos «livros inipios e sedi- 
ciosos» que eram os de Rousseau, Helvetius, Di- 



478 HISTÓRIA DA r.lTTERATURA PORTUGUESA 



derot e mais alguns Bncyclopedistas. Entre os 
papeis de Bocage encontroii-se. o que se intitu- 
lava Verdades duras, mais tarde conhecido pelo 
titulo de Pavorosa, e que hoje anda impresso 
com o titulo de Epistola a Marília. Em um ma- 
nuscripto de 64 paginas, que possiie o sr. Abreu 
Malheiro, de Ponte do Lima, traz esta Epistola 
o titulo de Cartas a Dona Maria Margarida. 
E' um raio de luz sobre a situação moral de Bo- 
cage em 1797, revelando o novo amor, com que 
procurou curar-se do despeito. Essa a quem de- 
dicara a Epistola inspirada pelo livre pensamento, 
D. Maria Margarida, era filha do celebre cirur- 
gião de D. Maria i, Manoel Constâncio. Era então 
um exaltado amigo de Bocage e companheiro de 
aventuras Pedro José Constâncio, prior em Cin- 
tra, e também poeta. No Estudo litt erário sobre 
Bocage, Rebello da Silva conservou inconsciente- 
mente a tradição d'estes amores, referindo-se a 
— «Irmã de uni amigo, formosa, da belleza que 
attrae os sentidos, e das graças de espirito que 
elevam a intelligencia ; capaz de entender a 
existência attribulada, que vinha domar-se a seus 
pés, etc. >. Rebello da Silva servindo-se sempre 
das indicações de José Feliciano de Castilho e 
de Innocencio no seu Estudo litterario, afasta-se 
d'elles n'este ponto, por lhe ter chegado outra 
tradição. Bocage, dirigindo-se na Epistola a Ma- 
rília a Dona Maria Margarida, irmã de Pedro 
José Constâncio, allude ao velho cirurgião, pae 
d'ella, homem austero que não via o poeta com 
bons olhos : 

Escuta o corafjão, Marília bella, 
Escuta o coração que te não mente; 
Mil vezes te dirá: 

« Se a rigorosa, 



SEGUNDA Época: os árcades 470 



Carrancuda expressão de nm pae austero 

Te não deixa chegar ao caro amante 

Pelo perpetuo nó, qne chamam sacro, 

Que o bonzo enganador teceu na ideia. 

Para também no amor dar leis ao mundo; 

Se obter não podes a união solemne, 

Que allucina os mortaes. porque te esquivas 

Da natural prisão, do terno laço 

Que em lagrimas e ais te estou pedindo? 

Reclama o teu poder, os teus direitos 

Da justiça despótica extorquidos. 

Kão chega ao coração o jus paterno, 

Se a chamma da ternura se affogueia. 

Dona Maria Margarida Constâncio era um 
espirito illustrado, na communhão intellectual de 
uma família de homens cultos, como esse outro 
seu irmão o Dr. Francisco Solano Constâncio, 
que iiiipriraiu as Obras de Filinto. Confiado na 
sua rasão clara, Bocago assim lhe escrevia : 

Eia, poisl do terror sacode o jugo, 
Acanhada donzella. e do teu pejo; 
Destra, illudindo as vigilantes guardas, 
Pelas sombras da noite a amor propicias, 
Demanda os braços do ancioso Elmano, 
Ao risonho prazer franqueia os lares. 
Consiste o laço na união das almas. 
Caladas trevas testemunhas sejam. 
Seja ministro o Amor e a terra o templo. 
Pois que o Templo do Eterno é toda a terra. 

Dona Maria Margarida estava já sem mãe, e 
o cirurgião Manoel Constâncio, conhecendo por 
ventura os versos de Bocage, ou para afastar da 
filha o poeta, não deixaria de usar a sua grande 
influencia no paço, principalmente junto do In- 
tendente Manique, sempre [)ronif>to a exercer a 
repressão desvairada. Quando Manique officiou 
ao Juiz do Bairro de Andaluz, em 10 de Agosto 
de 1797, para ir dar busca á casa onde morava 



480 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



Bocage, refere a denuncia dos versos Ímpios: 
« Consta n'esta Intendência, que Manoel Maria 
Barbosa dii Bocage he o aiictor de alguns pa- 
peis Ímpios, sediciosos e críticos. . .» Bocage co- 
nheceria d'onde lhe ventava a perseguição ? A 
série dos seus Epigramnias contra os Médicos 
obedece ao resentimento contra o pae austero de 
Dona Maria Margarida. Duraram estes amores 
até pouco depois da sabida de Bocage do cár- 
cere; na época de 1801, em que Bocage susten- 
tava uma nova pugna litteraria com José Agos- 
tinho de Macedo, escreveu era ura Soneto diri- 
gido a Marília (Ms. de Ponte do Liraa) : 

Em veneno lethifero nadando, 

No roto peito o coração me arqueja; 

Ante mene olhos hórrido negreja 

De mortaes afflieções o espesso bando. 

Por ti, Marília, ardendo e suspirando 
Entre as garras aspérrimas da inveja. . . 

Peíor do que estas garras da inveja do Ma- 
cedo, parece-lhe ainda mais atroz o ciúme. De 
facto, D. Maria Margarida, obedecendo ás obser- 
vações do pae, pensou em ura casamento sério, e 
deixando o idylio amoroso, casou-se com Braz da 
Silva Consolado. Era umas Quadras glosadas, que 
encontramos entre os papeis de Quintanilha {Eu- 
rindo Nonacriense) refere-se Bocage a esta si- 
tuação de Marilia : 

Ao ditoso Alcipe unida, 
Vive sem um só pesar; 
Elle o teu doce amor seja, 
Emquanto eu vivo a chorar. 

Corações como*o de Elmano 
Assim se sabem vingar; 
Sê feliz, caro inimigo, 
Emquanto eu vivo a ohorax. 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 481 



Quando Bocage chegou a Lisboa em 1790, 
ainda não tinha pubUcado pela imprensa nenhum 
dos seus versos. A fatalidade da morte do ter- 
ceiro filho do Marquez de Marialva afogado no 
Tejo, levou-o a concorrer com os outros poetas 
com uma Elegia, impressa com as iniciaes M. M. 
B. B. Esses sentidos fercetos abriram-lhe as por- 
tas da Academia de Bellas Lettras, onde recitou 
os seus Idijlios 7?iaritimos, publicados n'esse 
mesmo anno com as iniciaes de Manoel Maria 
Barbosa du Bocage. Admiraram o poeta; e elle 
provou o prazer de se vêr em lettra redonda. 
Então em 1791, imprime em opúsculo in-4.o de 
14 paginas os Queixumes do Pastor Elmano 
contra a falsidade da pastora Urselina. — E foi 
esta Egloga impressa em 1791, na officina de 
Simão Thadeu Ferreira. Esses versos exprimem 
a intensa magoa da dura realidade, de vêr a pér- 
fida Getruria casada com seu irmão o Dr. Gil 
Francisco Barbosa du Bocage. N'essa vehemen- 
cia de expressão ha por vezes cruezas de rea- 
lismo, que fizeram que esse idylio da falsidade 
de Urselina, não entrasse na coUecção das Ri- 
mas que imprimiu na officina de Simão Thadeu 
Ferreira. A sua historia amorosa começava a ser 
conhecida; d'ahi o offerecerem-lhe iOj^OUO réis" 
pelo tomo I das Rimas, em que adiante do seu 
nome põe : Na Academia de Bellas Lettras de 
Lisboa — Elmano Sadino. Contém esse tomo i 
todos os seus versos da mocidade, em que a musa 
inspiradora fora Getruria. As allusões amargas e 
referencias indiscretas, fizeram com que o vo- 
lume, apesar de approvado com as Licenças da 
real Mesa da Commissão geral para o Exame e 
censura dos Livros, se tornasse desde logo rarís- 
simo na circulação ; e o tomo ii das Rimas só 

31 



482 HISTÓRIA DA I.TTTERATURA PORTUGUESA 



veiu á luz em 1800 ; e quando em 1801 se íez 
nova edição d'esse tomo i, foram eliminados dez 
Sonetos e duas Canções. Seriam resentimentos de 
farailia; Bocage allude ao roubo do manuscripto 
dos seus versos, quando esteve era Santarém em 
casa do morgado José Salinas de Benevides. 
Seria esse caso que demorou até 1800 a publica- 
ção interrompida. 

Pelo enthuziasmo poético que as Rimas de 
1791 causaram, e pela sua preponderância na 
Academia de Bellas Lettras, Bocage entrou na 
intimidade de António Bersane Leite, que com o 
nome arcádico de Teonio também se entregava 
á versificação. Na maior confiança moral Bocage 
com o pseudonymo de Lidio {UHeddois, appel- 
lido de seu avô materno) dirigiu a Anelio as 
quadras da Voz dã Rasão, do mais acerado ^ãí- 
losophismo, de uma critica negativa racionalista, 
expressão do bom senso, a que deu o nome de 
Verdades singelas, cujas copias correram sob o 
nome de José Anastácio da Cunha, falecido em 
1787. Essa Voz da Rasão nas copias manuscri- 
ptas correu sob o nome do desventurado mathe- 
matico, e só se imprimiu em 1822, fora de Por- 
tugal. Tal era a depressão mental em que se 
estava, que em 1839, ainda foi chamado ao tri- 
bunal criminal Innocencio Francisco da Silva 
por publicar a Voz da Rasão com os versos de 
José Anastácio da Cunha. Por isto se vê os pe- 
rigos novos a que se expunha Bocage, escre- 
vendo poesias revolucionarias no espirito critico 
do fim do século xvíii, e também o gráo de in- 
tima confiança com António Bersane Leite. O 
poeta convivia intimamente com a familia d'esse 
funccionario administrativo, que era numerosa. 
Entre esses seus sete filhos, teve quatro meninas 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 483 



formosas. Bocage apaixonoií-se por uma d'ellas, 
que logo cantou com o nome de Analia. Era 
D. Anna Dorothoa, nascida em 24 de Dezembro 
de 1773. Tinha dezouto annos quando inspirou 
este novo amor a Bocage '. Esses amores foram 
tormentosos, porque D. Anna Dorothea era na 
sua belleza extremamente leviana. Dil-o este So- 
neto inédito : 

Promottendo a Lemano Dorothea 
Guardar-lhe a íé que a seu amor devia, 
Tomou por testemunha a luz do dia. 
E o juramento escreveu na areia. 

O vento que a revolve e que a meneia 
Pouco a pouco a esoriptura desfazia. 
Vendo isto a Senhora! o que faria 
Lemano, que tam bem riscou da ideia. 

Vejam lá como a fé está tão segura 
Em peito feminil, e que elle mente, 
Ao que crê na mulher ou na ventura. 

Pois essa que desdiz sem fundamento 
Quanto diz, quanto escreve, quanto jurt^ 
W areia que move qualquer vento. 

Bocage empregou aqui o nome de Lemano, 
em vez de Eltnnno, empregado nas Rimas de 
1791 ; também D. Amia Dorothea, filha de An- 
tónio Bersane Leite, tornou-se mais conhecida 
entre os poetas contemporâneos pelo nome de 



* O sr. Augusto de Castro, nas suas investigações dos 
Cartórios lindos, achou todas as datas do nascimento dos 
filhos de António Morsano Ijoite, fixando-so assim os 
amores de Analia antes dos que sentiu por Alaria (Ma- 
ria Vicencia) confundidos polo Morgado de Assentis, por 
D. Gastão o por iniiocencio. 



484 HISTÓRIA DA IITTERATURA PORTUGUESA 



D. Anna Perpetua, celebrada pelo nome arcádico 
de Analia. Este Soneto inédito pertence ao Li- 
vro Curioso de 1803. Todos os versos em que 
celebra a sua paixão por Analia exprimem esse 
estado de alma a que chamou o inferno do 
Ciatne. Como criança, nos seus dezouto a vinte 
annos, D. Anna Perpetua ficou fascinada pelo 
espirito fulgurante do poeta, admirado por todos, 
e admittido na intimidade da familia na quinta 
de Arroios, em Colares. Seria a leviandade de 
Analia, que a levou a mostrar-se arrefecida e 
varia f Bocage era um doente, debilitado pelos 
excessos passados e sem occupação, que lhe ga- 
rantisse o futuro. Sua mãe, D. Thereza Dorothea, 
comprehendeu a situação, e Analia tratou sen- 
satamente do seu casamento. O idylio amoroso 
transformou-se no seu consorcio com Manoel Joa- 
quim de Moura Leitão, escrivão em Lisboa e 
também da Casa da Supplicação. Este facto des- 
troe completamente todos os equívocos em que 
cahirara o Morgado de Assentis, D. Gastão Fausto 
da Camará, Bingre, Innocencio (e nós com elles) 
que consideravam Analia como o ultimo amor 
de Bocage. O poeta allude a este casamento : 

Foi dos cuidados meus primeiro objecto, 
Analia desleal, encantadora 
Que do vário Martinio te cegaste 
Ouvindo que morri, talvez tu julgues 
Depois que a Morte amiga houver cortado 
Dos meus dias fataes a débil têa. 

Ide. Amores gentis, onde verdeja 

A amena, salutifera Colares, 

De mil benignos zéfiros lavada, 

E ante a Deusa que adoro, alli passando, 

Dizei-lhe : 

Exulta, ingrata; Elmano é morto. 

(Epist. I.) 



SEGUNDA l':Pf)f:A: os ÁRCADES 485 



As queixas de amor, como diz o provérbio 
hespanhol, são oonio a mancha da amora, que 
com outra verde se tira. Elmano borboleteou 
para outra flor humana, a Analia seguiu-se Ma- 
rilia, no ultimo quadriennio de 1790; a formosa 
e intelligente D. Maria Margarida, filha do cele- 
brado cirurgião Manoel Constâncio, e irmã do 
intimo amigo de Bocage Pedro José Constâncio, 
também poeta critico e livre pensador. Com estes 
amores continuaram os ciúmes de Bocage, e 
d'aqui o equivoco dos seus contemporâneos^ que 
desconheceram este facto, encabeçarem em Ana- 
lia todos os versos em que Bocage exprimira 
este estado de alma nos fins do decermio. Bocage 
reuniu estes dois tormentosos amores, glosando a 
quadra : 

Ponbain-me na sepultura 
Aonde enterrado fôr, 
A cada canto unia Letra: 
A — M — O — R — Amor. 

Olha o A, que significa 
Analia, cruel e vária; 
M. — Marília contraria, 
E por enigma se explica: 
O, por ódio e furor; 
O È, mostra o rancor, 
Que eu tivo emquanto vivo, 
Sendo de tudo motivo 
A — M — O — H. : Amor. 

Era com o joven morgado André da Ponte 
de Quental e Camará, cadete da Armada, que 
morava á Praça da Alegria, que vivia Bocage, 
quando fugiu para bordo da corveta Aviso, que 
estava a largar para a Bahia ; foi prezo a bordo, 
em 7 de Agosto, como so authentica pelo livro 
de entrada dos prezos do Limoeiro n'esse anuo 
de 1797, com o seguinte termo: 



'l<S6 HISTÓRIA DA IITTER\TUR\ PORTUGUESA 



«Manoel Maria de Barbosa Bocage, solteiro e 
filho do Bacharel José Luiz Soares Barbosa, na- 
tural da villa de Setúbal, de edade de 31 annos, 
morador á Praça da Alegria. — A' ordem do Sur. 
Intendente Geral da Policia da Corte e Reyno, 
executada pelo juiz do crime do Bairro da Rua 
Nova Francisco Manoel Pinto de Mesquita e con- 
duzido pelo alcaide do l.o Bairro Caetano Alberto 
da Silva em 7 de Agosto de 1797. 

Palluio ' * 

As circurastancias da prizão de Bocage acham- 
se authenticadas no officio do Intendente Mani- 



* Rocha Martins, que publicou este documento igno- 
rado por occasião do Centenário de Bocage, accresconta- 
Ihe: « A' margem da folha n'unia letra agatafunhada ha 
uma observação que parece indicar ter sido entregue na 
secretaria qualquer documento relativo á prizão do 
poeta, e que elles registraram em 10 de dezembro, do 
mesmo anno. Na mesma letra do registro de entrada, 
vê-se também na margem o seguinte sg — o que parece 
indicar que o poeta, como de resto elle confessa hos setis 
versos, foi mettido no segredo : 

Para a casa dos Assentos 
Caminho com pés forçados; 
Aqui meu nome se junta 
A mil nomes desgraçados. 

Para o volume odioso 
Lançando os olhos a medo, 
Vejo pôr Manoel Maria 
E logo á margem Segredo.^ 

Vê-se pois, que emquanto o juiz do bairro de Anda- 
luz procedia á busca nos papeis, Bocage estava no Li- 
moeiro, onde fora conduzido pelo Alcaide do bairro da 
Rua Nova, o que nos faz julgar que a corveta Aviso onde 
elle tentava embarcar estava a levantar ferro. 



SEGUNDA Éror.X] oS ÁRCADES 487 



que ao Juiz do Crime do Bairro de Andaluz para 
apprehender os papeis do poeta na casa em que 
morava, á Praça da Alegria. 

No artigo Bocage no Limoeiro, o st. Rocha 
Martins diz que a prizão «^parece ter sido a 7 do 
mesmo mez e não a 10, como no mesmo livro 
affirma aquelle erudito homem de letras». Não 
sou eu que o affirmo, mas o próprio Bocage que 
nos Trabalhos da vida humana descreve a sua 
entrada no Limoeiro : 

A dez de Agosto, esse dia, 
Dia fatal para mim. 
Teve principio o meu pranto, 
O meu socego deu fim. 

A prizão a bordo da corveta Aviso effectuou- 
se, como o prova o documento inédito em 7 de 
Agosto, ficando o poeta detido pelo Juiz do 
Crime do Bairro da Rua Nova até ao dez de 
Agosto, em que deu entrada no Limoeiro. Os 
quarenta e trez dias de segredo * contam-se de 



^ O segredo do Limoeiro fica nos subterrâneos do 
edifício, sob o corredor que era a antiga prisão do car- 
rasco. Tem entrada por umas portas de pesadas grades e 
ferrolhos, pelo pateo das officinas. recebendo luz por ou- 
tras grades que dão para os corredores das prisões. 

Antigamente, chamava-se áquelle recinto a casa 
forte, por ser constituído por um casarão enorme, onde 
08 presos indisciplinados eram mottidos a monte, indo 
aquelles que não acatavam o castigo para um cubículo 
annexo conhecido pelo segredo escuro, o qual ainda hoje 
subsiste, sem luz, mas arejado e amplo. 

A casa forte foi, porém, dividida em sete celias, para 
evitar a promiscuidade dos presos e os desatinos a que 
elles se entregavam, dos quaes eram sempre victimas os 
mais fracos e menos conhecedores dos hábitos da cadeia. 
Essas celias ficaram sendo conhecidas pelos segredos, 
cada qual com o seu numero de ordem. 

{Século, 14-V-1911). 



488 HIS']Ói;U D\ I.ITTER ATURA PORTUGUESA 



10 de Agosto a 22 de Setembro, era que termi- 
nou a sua narrativa. 

111.™° e Rev.™° sr. bispo inquisidor geral: 

« Constando-me que n'esta corte e reino gira- 
vam alguns papeis Ímpios e sediciosos, mandei 
averiguar quem seriam os auctores d'elles, e en- 
contrei que de uma parte dos mesmos era o seu 
auctor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, o 
qual vivia em casa de um cadete do regimento 
da primeira Armada, André da Ponte, que é na- 
tural da Ilha Terceira : mandei proceder contra 
um e outro, e á apprehensão dos seus papeis, e 
não se achando o sobredito Manoel Maria, se en- 
controu somente o André da Ponte, que foi prezo 
e apprehendidos os papeis, entre os quaes se 
achou um infame, impio e sedicioso, que se inti- 
tula Verdades duras, e principia : 

Pavofosa illusão da eternidade 

e acaba por 

Opprimir seus eguaes com o ferro e fogo 

como consta do auto do achado, que acompanha 
a conta que me deu o juiz do crime do bairro de 
Andaluz, a quem eu havia encarregado esta di- 
ligencia. Do mesmo auto verá v. ex.* os mais 
papeis e livros, Ímpios e sediciosos que se appre- 
henderam ao dito André da Ponte, os quaes re- 
metto inclusos cora a devassa a que mandei pro- 
ceder para averiguação da verdade, e as pergun- 
tas que se fizeram aos ditos Manoel Maria de 
Barbosa du Bocage, que passados alguns dias 
também foi prezo a bordo de uma embarcação 



SEGUNDA época: OS ÁP.CADES 489 



em que hoje ia fugindo no comboio para a Bahia, 
e André da Ponte do Quental da Gamara. Re- 
metto também a declaração que me fez da cadeia 
o dito Manoel Maria de Barbosa du Bocage, para 
que esse santo tribunal lhe dê o pezo que me- 
rece. V. ex.^ me insinuará o mais que quer que 
eu faça sobre estes dois réos, os quaes conservo 
na prizão, esperando a restituição d'estes papeis, 
logo que forem examinados por esse santo tribu- 
nal pela parte que lhe toca. Deus guarde a v. ex.^ 
Lisboa, em 7 de Novembro de 1191. — Diogo 
Ignacio de Pina Manique >. ' 

Fora também com Bocage prezo André da 
Ponte do Quental e Gamara, cadete ; mas o poeta 
pela altura moral que manteve não renegou a sua 
amizade, quando foi ao interrogatório do juiz do 
bairro de Andaluz. Exalta também a dedicação 
de António José Alvares, que lhe acudiu com o 
preciso emquaiito esteve na masmorra. Bocage 
sabia de quanto era capaz o Maniíjue, pois que 
para agarrar os refractários refugiados em Capa- 
rica incendiara os palheiros da povoação ; o menos 
que o esperava era o degredo das Pedras Negras, 
então reservado aos que seguiam as ideias fran- 
cezas. O desalento assai tou-o um instante, mas 
recorreu aos seus versos formulando pedidos aos 
potentados para que lhe acudam ; assim, escreve 
belhssimas Quintilhas a D. Marianna Joaquina Pe- 



' Entrou no cárcere da Inquisição em li de No- 
vembro de 1797; n'elle so demorou, saindo em 17 de 
Fevereiro de 1798 para o Mosteiro do S. Bento da Saúde, 
d'onde foi, em 11 de Março de 17!)S, transferido para o 
Hospioio das Neoesíiidados, aíim de ser doutrinado peloí 
P. P. do Oratório. (Soriauo, Prim. Epooa, t. ii, p. 104). 



490 HISTÓRIA DA I,ITTERATl'RA PORTUGUESA 



reira Coutinho, mulher do ministro José de Seabra 
da Silva, versos também ao Marquez de Ponte 
do Lima, ao filho do Marquez de Pombal, ao 
Marquez de Abrantes, ao Conde de San Louren- 
ço. Era tudo baldado ; o Manique não largava a 
preza. Foi preciso uma subtileza, fazendo consis- 
tir o crime dos versos sediciosos ou politicos, em 
criticos, ou peccado de philosophismo ,• e a seu 
requerimento, por bem aconselhado, Bocage re- 
clamou para ser entregue á Inquisição. 

Tal era o estado de Portugal, que a própria 
Inquisição estava mais benigna que o Cesarismo 
bragantino ; e recebido o requerimento do poeta 
em 14 de Novembro de 1797, foi entregue pela 
Intendência á Inquisição que o reclamara, man- 
dando-o doutrinar no Mosteiro de San Bento, em 
17 de Fevereiro de 1798. Ahi foi tratado com o 
esmero que merecia o seu singular talento ; os 
frades Bentos inscreveram o seu nome no livro 
do Dietavio, ou das epheraerides históricas, me- 
morando a entrada. Seis niezes depois era trans- 
ferido para o Mosteiro das Necessidades, em 22 
de Março, melhorando de situação pelo valimento 
do ministro José de Seabra da Silva. Durante 
este remanso entregou-se Bocage ao estudo, co- 
meçando a traducção das Metamorphoses de Oví- 
dio. Pouco depois era restituído á liberdade, dan- 
do-lhe o Manique uma esmola de roupa em nome 
do Príncipe Regente, recommendando-lhe que 
empregasse os seus talentos para lustre da pátria 
e dos amigos. Bocage, que até aos mais humildes 
e obscuros amigos se patenteou sempre reconhe- 
cido, nunca alludiu a esta degradante esmola do 
Intendente, que lhe era defezo regeitar. 

Em 1801, restituído á sociedade civil, e occu- 
pado pelo P.'^ José Mariamio da Conceição Vel- 



.SEGUNDA Kr<".\: nS ÁRr.ADK.S V.M 



loso, director da Imprensa régia, em fazer traduc- 
ções de Poemas didácticos francezes, rompeu por 
causa d'isso a terrivel polemica com José Agos- 
tinho por vêr pouco considerados os seus poemas 
didácticos, como a Contemplação da Natureza, 
de 1801. Em volta de Bocage reuniu-se uma nova 
phalange de poetas elmanistas, que se encon- 
trava na Arcádia das Parras, como se chamava 
ao botequim de José Pedro da Silva, no Rocio, 
em um gabinete denominado Agulheiro dos Sá- 
bios. Tendo de ausentar-se para França a Mar- 
queza de Alorna, em casa de quem vivia a irmã 
do Poeta, D. Maria Francisca, veiu ella para a 
sua companhia, encetando elle então uma vida 
regular de trabalho, principalmente fazendo tra- 
ducções do francez. Por 1788 fora publicado o 
romance de Bernardin de Saint Pierre Paulo e 
Virgínia, que produziu uma grande emoção por 
causa das descripções da natureza tropical, co- 
meçando então o gosto do exotismo na littera- 
tura, adoptado por Chateubriand na Atala. A pe- 
quena novella de Paulo e Virginia, mesquinho 
arremedo do idyllio amoroso de Daphnis e Ghloé, 
lisongeava a sensiblerie do fim do século xvni, 
e ao atheismo encyclopedista contrapunha o Deis- 
mo rhetorico de Rousseau, de quem Saint Pierre 
era muito admirador e amigo. Alguém encarre- 
gou Bocage da versão d'esta novella, que deixou 
inédita. Seria talvez por esse mesmo deísmo ba- 
nal, que não teve publicidade, apezar de Bocage 
ter attenuado as passagens em que se referia á 
tyrannia. Emfim essa versão tem o mérito de ser 
um dos seus últimos trabalhos. 

Parece que um novo amor illuminou a vida 
de Bocage n'esta crise de forçada actividade. De- 
pois do falecimento da esposa de Bersane Leite, 



'l92 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



O poeta restabelecera a sua convivência na famí- 
lia de Teonio. O Soneto ao falecimento da mãe 
de D. Maria Vicencia era commovente; terminava 
com o verso incomparável : « E' nos eleitos ura 
sorriso a morte. > D. Maria Vicencia entendeu 
acatar os conselhos da mãe, e sacrificando o seu 
amor, votou-se a acompanhar com a dedicação 
de filha a viuvez de seu pae. Já então a irmã mais 
velha, D. Anna Perpetua Bersane, Analia, se 
casara. Deslumbrada pelo talento de Bocage, o 
seu enthusiasrao toma a apparencia de amor; 
Mareia é a nova e ultima musa do Poeta, e a 
que lhe faz sentir uma ternura que contrastava 
com os mais desolados ciúmes, que lhe causara 
Analia. 

O Morgado de Assentis Francisco de Paula 
Cardoso e D. Gastão Fausto da Gamara Coutinho, 
companheiros de Bocage e que lhe sobreviveram, 
affirmaram que a Analia celebrada no ultimo 
periodo da vida do poeta era D. Anna Perpetua 
Bersane Leite. Innocencio, annotando os Sonetos 
CLvii a CLXi, segue esta opinião : « durante o ulti- 
mo periodo da sua moléstia foram endereçados 
(conforme a indicação e auctorisado testemunho 
de D. Gastão e do Morgado de Assentis) á se- 
nhora D. Anna Perpetua, filha de António Ber- 
sane Leite, constante e familiar amigo do Poeta. 
Esta menina parece ter sido o derradeiro objecto 
das mais ternas e carinhosas affeições de Elmano.* 
E' inadmissível tal opinião, porque D. Anna Per- 
petua era casada. 

D. Maria Vicencia, Mareia, a alma Suave, 
que convertera o seu amor por Bocage em uma 
immensa piedade, mostrou-se para elle carinhosa 
na angustia da doença. Foi a ella que Bocage 
dirigiu um dos seus últimos Sonetos e dos mais 



SEGUNDA FPOCA: O.S ÁRCADES 493 



profundamente sentidos. No Brasil, para onde em 
1807 Bersane Leite se retirara com a familia, pela 
invasão napoleonica, ahi sobreviveu ein Minas 
por muitos annos D. Maria Vicencia, e na tradi- 
ção dos seus parentes ouviu José Feliciano de 
Castilho, que a Mareia tão celebrada por Bocage 
era D. Maria Vicencia. (Excerptos, ii, 262.) O 
amor de Mareia, na sua ideal pureza, tinha sido, 
ainda quando era uma irrealisada esperança, uma 
aura moral de pacificação. 

Bocage teve ainda o prazer da maior glorifi- 
cação a que podia aspirar ; Pilinto proclamára-o 
como seu continuador, e depois das objurgatorias 
de Macedo pôde exclamar: «Zoilos, tremei! Pos- 
teridade, és minha.» Na atmosphera de fanatis- 
mo em que se vivia, novos desastres se lhe pre- 
paravam ; em 23 de Dezembro de 1804 é accu- 
sado ao Santo Officio por pedreiro-livre por uma 
mulher fanatisada Maria Theodora Severiana 
Lobo Peneira. Instaurou-se o processo secreto, 
que não teve andamento, por se conhecer o esta- 
do da grave doença de Bocage. Um aneurisma 
nas carótidas perturbava-lhe a circulação, de 
modo que por vezes esteve em perigo de morte. 
Durante a sua doença Bocage era visitado por 
todos os poetas seus contemporâneos ; para acu- 
dir á falta de recursos, o antigo dono do Ho/e- 
qiiim das Farras colligiu os versos que lhe diri- 
giam, e imprimiu os Improvisos de Bocage na 
sua mui perigosa doença, vendendo os folhetos 
e entregando-lhe o dinheiro. Bocage, glorificando 
essa generosa sympathia, dizia em um Soneto: 
«que pagava em verso o que devia em ouro. > 
Na folha 156 da acceitação de doentes, no 
Hospital de S. José, sendo então Enfermeiro-mór 
o Visconde de Mesquitela, lê-se depois de dois 



/|94 HISTÓRIA DA T.TTTF.RVTTIR\ rORTUGTJESA 



nomes de desconhecidos: «Manoel Maria de Bar- 
bosa du Bocage, que disse ser solteiro, e filho de 
José Luiz Soares Barbosa e de D. Marianna Joa- 
quina du Bocage, defuncta, baptizado na fregue- 
zia de S. Julião, da Villa de Setúbal, d'este pa- 
triarchado, sem occupação ; morador no Terreiro, 
de 34 annos, fatos usados. Entrou na enfermaria 
Jesus, Maria José em 24 de Agosto e teve alta 
em 31 do mesmo mez (1799)». O Terreiro aqui 
designado, era junto ao convento dos Paulistas, 
onde era a travessa de André Valente, na qual o 
poeta teve morada nos seus últimos annos (1802 
a 1805). A irmã mais nova do poeta, D. Maria 
Francisca, que era dama de companhia em casa 
da Marqueza de Alorna veiu, por occasião d'esta 
se ausentar para Londres, para a sua companhia. 
O poeta allude a hyperborea mana, ao seu trato 
frio, o que se explica pelo bigotismo rehgioso 
junto do irmão livre-pensador ^. 

O ultimo amor de Bocage, como uma aurora 
vespertina pacificadora foi D. Maria Vicencia, a 
quarta filha de António Bersane Leite, nascida 
em 10 de Agosto de 1783. Tinha ella dezesseis 
annos, quando o poeta saiu do hospital. A pie- 
dade levou-a a interessar-se pelo glorioso Elniano, 
que ella desde os dez annos admirara nos des- 
lumbrantes improvisos, na graciosidade impres- 
sionante, que até dominava o temperamento do 
millionario lord Beckford. Os amigos de Bocage 



* Em Outubro de 1812, ella denunciou á Inquisição 
de Lisboa .José Diogo Contador de Argote, pela sua incre- 
dulidade da Virgem depois do parto, o que fez por ordem 
do seu confessor, e por escripto, por não poder ir pessoal- 
mente, por sor donzella e viver em casa de sua irmã. 



SEGUNDA KIMICA: OS' ÁRCADES /jítf) 



mal conheceram este amor que foi um lampejo 
de serenidade na sua agitação nervosa exacer- 
bada pelo despotismo policial e pelo deslumbra- 
mento das ideias revolucionarias. Mareia era o 
rrome arcádico com que a designava nos seus 
Sonetos, e também Armia, que é um dos seus 
mais inspirados idylios e inegualavel na poesia 
portugueza do século xviii. D. Maria Vicencia o 
visitava e acompanhava na sua prolongada doença 
de 1800 a 1805. N'este periodo occupou-se Bo- 
cage em traducções de poemas didácticos, e o 
trabalho remunerado dava-lhe dignidade e força. 
Na Epistola a Mareia descreve a situação mo- 
ral, que o vivifica : 

Cândida amiga do extremoso Elmano, 

Minha Mareia gentil, se eu a teu lado 

Te entretinha os ouvidos e te influía, 

Por elles, no formoso e ebúrneo peito 

O encanto da suave melodia, 

A maga sensação das almas boUas. 

Se te aprazem meus versos incessantes, 

Se teus olhos brilhantes, como os astros, 

Volves benignamente ao grato amigo 

Que em termos perfeitos, de que és tão rica. 

Que o virgineo candor te não profana. 

Com torpes, sequiosos pensamentos, 

E nos dons da tua alma embellezado. 

Como se ama no céo, no nnindo te amo. 

A admiração pelo génio levou D. Maria Vi- 
cencia a dulciíicar as decepções que soffrera 
Bocage : 

Descansei mansamente os olhos n'ella, 
Mudo lhe expuz meu mal. e vi, o achei-a 
Fagueira, maviosa além de bella 

Tu, toda nos mous versos so recreia. 
Minha lyra Ilie apraz, e em meus louvores 
Não Hofiro so antocipe a lingua alheia. 



496 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



Eis se arma em nosso dano, eis se conjura 
Contra a nossa alegria um maldizente 
Tão mordaz, como as feras na espessura. 

Este pois. com sagaz aleivosia. 

Sem que de mim, jamais, soffresse offensa, 

Um seductor me finge á mãe de Armia. 

Ella acredita o monstro, em raiva intensa 
Arde contra a paixão que em nós conhece, 
Olha-nos já com ríspida presença. 



As perseguições policial e inquisitoriaes de 
Bocage, o ódio de José Agostinho de Macedo, e 
sobretudo a doença mortal do aneurisma das ca- 
rótidas, tocaram profundamente a piedade de 
D. Maria Vicencia. A sua visita á morada do 
poeta, tornara-se um allivio. No í^íito Curioso, 
de 1803, compilado em Setúbal, encontramos 
esse Soneto inédito em que define o seu conforto : 

Fugi, prazeres de quem chora e sente 

Não vêr de Mareia a divinal figura ; 

De alegres corações não falta gente 

Que em vão por vós trabalha e vos procura. 

Mostrae-me, se podeis, a formosura 
Da minha Mareia, por quem choro ausente, 
E vinde; então chamar-vos-hei ventura, 
Que antes não me podeis fazer contente. 

Pois se nenhum alivio podeis dar-me. 
Para que vindes, tendo esta certeza, 
Para que vindes sem razão cansar-me? 

Mostrae-me Mareia, eu diante da surpreza. . . 
Porque sem ella, sempre haveis de achar-me 
Posto á sombra das azas da tristeza. 

Os poetas contemporâneos de Bocage que só 
conheceram a paixão por Analia, por ignorarem 



SEGTTNDA época: OS ÁRCADES /i97 



que ella casara com o escrivão Moura Leitão, 
não coraprehenderam este protesto final que o 
angustiado poeta pouco antes de falecer dirigira 
a Mareia: 

Comtigo, alma suave, alma formosa. 
Celeste imagem de que o céo me priva, 
Que eu vivesse não quiz. não quer que ou viva 
Lei, (sendo etheroa) ao coração penosa. 

Vendo sumir-me por morada sombrosa 
Ah, não desmaies, a constância aviva. 
E por artes de Amor, de Amor. oh diva, 
• Do não gosado ausente os mares gosa. 

Mais doce orvalho de teus olhos desça 

A', linda como tu, melhor das flores. 

Que em torno á campa se abotoe e cresça. 

Passeia entre os meninos voadores, 
Une a mãe aos filhinho.s. e pareça 
Da Morte a solidão jardim de flores. 

Dona Maria Vicencia visitou o poeta na sua 
angustiosa doença, no miserável terceiro andar 
do prédio n." 10 do Beco de André Valente, em 
que desde 1802 residia * ; o poeta ainda lhe diri- 
giu os versos : 

Meu mal dorme, repousa embriagado 
Das mil delicias quo mo dá teu pranto. 

Em 21 de Dezembro de 1805 succumbia o 
poeta no fim da sua prolongada doença do aneu- 



^ No estudo sobre a llasa onde faleceu Bocage, pelo 
sr. António César Mena Júnior vem a seguinte descri- 
PQão: €0 terceiro andar, onde habitou i' faleceu Bocage, 
tem trez janellas de peito. — Consta de quatro comparti- 
mentos: uma casa do entrada (a maior de todas) commu- 

32 



408 HISTÓRIA DA irHKHATLiRA PORTUGUESA 



risraa das carótidas, sendo o seu enterro notabi- 
lisado por ura grande vendaval. Tendo feito o 
parallelo da sua vida com a de Camões, perfeita- 
mente, foi mais feliz na morte, porque não assis- 
tiu á invasão napoleonica em 1867 e á ignominia 
das classes dirigentes. 

Em volta do leito de Bocage se agruparam 
Pato Moniz, Pimentel Maldonado e outros que 
seguiram a corrente liberal do Constitucionalis- 
mo, que vieram a morrer pela traição do absolu- 
tismo ou jazeram fechados nas masmorras até á 
implantação de um novo regimen politico. Em 21 



nicando á esquerda com um pequeno vão sobre a escada, 
e á direita com a cosinha e com um quarto que tem 
porta de caixilhos com vidros pequenos. E' provável que 
fosse este o quarto do poeta A casa de entrada tem duas 
janellas de peito, e o vão sobre a escada uma janella tam- 
bém de peito. 

A cosinha recebe luz de uma pequena janella que dá 
para iim saguão estreitíssimo; tem uma porta para o 
quarto e outra para a escada. 

Os tectos são de madeira. Os pavimentos estão muito 
carunchosos; devem ser os primitivos. 

O pé direito é muito baixo, tem talvez 2,"8. 

Eis aqui minuciosamente deseripta a casa onde pas- 
sou os últimos quatro annos da sua existência, onde pa- 
deceu 6 se finou um dos maiores poetas portuguezes ». 
{Diário de Noticias, de 14- de Junho de 190Õ). 

No Livro do Arruamento e Descripção dos Pré- 
dios, e outros Objectos da CoUecta da Decima e Novos 
Impostos da Freguezia das Mercês pelo presente anno 
em conformidade do real Decreto de 8 de Junho de 180õ, 
e das Leis anteriores a que elle se refere. 

Paginas 88 v. 

Beco de André Valente n ° 297.>^ 
Casas dos Herdeiros de Maximiano Fernandes de Oli- 
veira, n."' 10, 11 e 12. 
Lioja — Veríssimo José de Oliveira — Criado de 

§ervir, dezoito mil rei? 1S<S000 



SEfiUNDA ÉfuCA: OS ÁRCADES /l99 



de Dezembro de ] 805 expirava Bocage ; n'este 
mesmo anuo terminara também a actividade re- 
pressiva do Intendente Manique, como se tivesse 
cumprido o detestável destino de comprimir e 
atrophiar aquella alta expressão do génio portu- 
guez. O juizo sobre Bocage resume-se em poucas 
palavras: as coincidências pasmosas entre as va- 
rias situações materiaes da sua vida e a de Ca- 
mões levam a concluir — que, em uma época de 
decadência nacional como o século xviii, Camões 
não teria sido mais do que Bocage ; comprimido 
em uma sociedade apathica, sequestrada ao con- 
vívio europeu pelo regimen policial, se a sua 



Sobrado — Francisca Magna — vinte e quatro 

mil reis 24tS000 

Sobrado — Jos/i Caetano — Archeiro — vinte 

mil reis 205000 

Sobrado — Manoel Maria da Bocage — Sem 

officio — vinte e um mil e seis centos . . 215800 

Sobrado — Hum Embarcadiço — dez mil reis . 105000 

(No Arcbivo do Tribunal de Contas). O sr. António 
Cosar Mona Júnior no artigo A Casa onde faleceu Bo- 
cage, accrescenta a este documento : « Compulsando o 
Livro de Arruamento e Desoripção dos Prédios ante- 
riores a 1805, fiquei sabendo que o nosso poeta residia 
n'aquelle andar desde 1802, pagando sempre a mesma 
renda; e desejando saber quem ficou morando na casa 
depois da sua morte, vi que foi sua irmã D. Maria Fran- 
cisca de Barbosa du Bocage, companheira inseparável do 
vate e que recebeu o seu ultimo suspiro. 

« Aquella senhora residiu ali até o fim do primeiro 
semestre de 1810, pagando de renda nos annos do 180(J e 
1807 a mesma importância que sou irmão pagava, a qual 
foi elevada a 245000 reis desde 1808 até o anno em que 
deixou do habitar a casa. 

« A histórica propriedade é h<\je do sr. conde de Si- 
mas, abastado capitalista residente na ilha Graciosa». 
{Diário de NoticiaH de I í do Junlio do 1905, p 3). 



500 HISTÓRIA DA I.TTTERATURA PORTUGUESA 



obra ficou abaixo do seu talento, ella ha-de ser 
sempre na historia da civilisação portugueza o 
mais eloquente protesto. Foi esse o espirito da ce- 
lebração do Centenário de Bocage. 

O nome de Bocage é conhecido pelo povo 
portuguez, que por uma pasmosa intuição o asso- 
cia ao de Camões ; o povo tem os profundos pre- 
sentimentos, e por uma espontânea sympathia 
revela a relação moral que existe entre a indivi- 
dualidade do génio e a coUectividade anonyma. 
Sem lêr as obras de Camões, sabe que esse nome 
synthetisa a voz das grandes glorias e dos pro- 
testos da nacionalidade portugueza ; também não 
conhece de Bocage mais do que uma ou outra 
anecdota pittoresca do seu espirito em revolta, 
mas pela sympathia adivinha que era um génio 
fecundo atrophiado pelo meio deprimente de uma 
sociedade impellida a extrema decadência. Sob 
este aspecto, quasi negativo, é um dos represen- 
tantes da civilisação portugueza. Bocage não foi 
um iniciador e instaurador de uma época, mas 
subordinou a sua vida ao motivo ideal, que de- 
termina sempre a acção das individualidades su- 
periores, como os heroes ou os martyres, e por 
isso em uma sociedade imbecilisada pelo obscu- 
rantismo religioso e pelo terror do cesarismo, a 
sua vida consumiu-se na revolta contra o erro 
constituído, no protesto irrepremivel que o pre- 
cipitava na desgraça. « Meu sêr evaporei na lida 
insana», synthetisara o poeta no seu ultimo so- 
neto ; os amigos que o conheceram na intimidade 
desprevenida, como o Bingre, deixaram traços 
que o definem : « Foi honrado, verdadeiro, libe- 
ral, muito amante da sua liberdade e figadal 
inimigo da escravidão». Possuia todos os dotes 
para ser esmagado sob uma avalanche de iiiiqui- 



SEGUNDA Época: os árcades 501 



dades, em uma sociedade degradada em que a 
espionagem policial e a inquisitorial eram os sus- 
tentáculos da ordem publica; em que a bajula- 
ção tornava a mentira ura recurso de segurança 
e de bem estar pessoal, em que a liberdade em 
todas as suas manifestações era um attentado, 
que se abafava sangrentamente como ura perigo 
que podia perturbar a irresponsabilidade das insti- 
tuições anachronicas. 

Bocage, pelas qualidades moraes descriptas 
por Bingre, com o relevo de um excepcional ta- 
lento e um temperamento impulsivo, achou-se á 
entrada da vida em conflicto com esse meio so- 
cial; sem o appoio da noção da dignidade hu- 
mana, que é a força das sociedades livres, baju- 
lou também, como todos os outros poetas cesá- 
reos, e nos Ímpetos da indignação que lhe irrompia 
da alma, os protestos audaciosos eram a sublime 
inspiração d'esse repentismo admirável, que as- 
sombrava lord Beckford, a que dava forma poé- 
tica nas Sátiras racionalistas e lhe abriram os 
cárceres da Policia preventiva e do Santo Offi- 
cio. A vida de Bocage resume-se n'estas palavras 
com que um génio egualmente impetuoso, By- 
ron, se retrata na Epistola a Augusta: «A minha 
vida inteira não foi senão uma íucta, desde que 
recebi o ser e com elle alguma cousa que devia 
destruir-lhe o beneficio — um destino e uma von- 
tade caminhando fora da estrada batida - . Na sua 
lucta da vida inteira, Byron defronta-se com um 
poderoso meio social, em que a noção ideal con- 
trasta com o egoismo de uma aristocracia orgu- 
lhosa, e com a materialidade do industrialismo 
exclusivista ; podia avançar livremente fora da 
estrada batida, sem succumbir ao pessimismo 



502 HISTÓRIA DA LITTERATIIRA PORTUGUF.SA 



doentio, porque a opulência dos seus rendimen- 
tos dava-lhe á ironia o tom de um soberano des- 
dém. Na lida insana em que Bocage dissipou a 
existência, poeta pobre, creado prematuramente 
sob a disciplina militar, favorecido proteccional- 
mente por dignatarios ofíiciaes e eruditos eccle- 
siasticos, elle próprio reconheceu que os seus ver- 
sos eram — 'cscriptos pela mão do fingimento, — 
Cantados pela voz da dependência». E esse es- 
pirito honrado, verdadeiro, liberal, ao romper 
com a chateza geral da sua época, teve de ficar 
supplantado, passando deslumbrante como ura 
asteroide, queimando-se em uma improvisação de 
momento, sem deixar as creações da arte impe- 
recível. A sua influencia directa na poesia portu- 
gueza foi vasta, embora meramente formalista, 
sem sair do gosto ou eschola arcadica; chamou- 
se-lhe o Elmanismo. 

No fim do século xviíi e primeiro quartel do 
século XIX, duas correntes de gosto dominavam 
na poesia portugueza, o FiUntismo e Elmanis- 
mo ; uns poetas seguiam as normas e elocução 
de Filinto Elisio, imitando-lhe as Odes horacia- 
nas com as suas transposições alatinadas e pala- 
vras compostas e archaicas; outros admiravam 
cegamente Elmano (anagrarama de Manoel, e 
nome arcadico de Bocage) e reproduziam a pom- 
pa emphatica dos seus versos, nos quaes sacrifi- 
cava a ideia á cadencia perfeita, ás figuras de 
rhetorica Anaphora, Simploca e Epanadiplosis, 
combinando as repetições das palavras no prin- 
cipio e fim dos versos^ que facilitavam a impro- 
visação e lisonjeavam o ouvido. Vê-se que estas 
duas correntes não penetravam a essência da 
poesia, não se elevando acima de banaes effeitos 



SEGUNDA i-.i'(ji.A; US AUi.AUES 50)] 



de linguagem, e da raechanica da versificação. 
No primeiro quartel do século xix, ainda Garrett 
(Jonio Duriense) sustentava a corrente philin- 
tista, e Castilho (Mémnide Eginense) reproduzia 
as resonancias métricas do elmanismo. Pela sua 
obra e influxo litterario, líocage occupa logar 
primacial, que lhe assignala a critica e a historia. 

Nicoldo Tolentino de Almeida. — O erudito 
Dr. António Ribeiro dos Santos desdenhando do 
lyrismo das Modinhas, cantadas de uma maneira 
impressionante pelo mulato Joaquim Manoel, e 
escriptas pelo brasileiro Caldas Barbosa, contra- 
punha-lhes como dignas de serem hdas e admi- 
radas as sátiras de Nicoláo Tolentino, porque 
moralisara os costumes. Vistas as causas na rea- 
lidade, Nicoláo Tolentino era uma natureza pa- 
rasitaria, que fez da poesia um instrumento de 
bajulação aos fidalgos, para obter favor dos po- 
deres pubhcos, mentindo por forma indigna^ di- 
zendo que nascera nas faixas da pobreza, e que 
pedia para acudir ás necessidades de uma irmã e 
de tristes sobrinhos. Os factos biographicos pro- 
vam que era de uma familia distincta, bem apa- 
rentada na melhor fidalguia, e contra essa abje- 
cta pedinchice protestou sua irmã com abundan- 
tes documentos. Nasceu Tolentino em 10 de 
Setembro de 1740, em Lisboa, sendo seus pães o 
Dr. José Soares de Almeida, advogado da Casa 
da Supplicação, e D. Anna Thereza Froes de 
Brito, vivendo á lei da nobreza, com certa abas- 
tança. Nicoláo Tolentino partiu para Coimbra, 
para seguir o curso de Leis, matriculando-se em 
1760. Era na época de maior desolação mental 
na Universidade, em que a vida estudantesca era 
uma troça desvairada. No Palito métrico ou 



504 HISTÓRIA DA I.nTEHATUIlA J'ORTUGUESÂ 



Macarronea acham-se desenhados ao vivo esses 
hábitos escholares. N'esse meio é que Tolentino 
adquiriu a usual feição de poeta jocoso, de pedinte 
impertinente, e essa visão da vida social, que o 
povo exprime na máxima: «O céo, é de quem o 
ganha; e este mundo é de quem mais apanha >. 
A vida estudantesca contagiosa e apathica ociosi- 
dade inhibiu Tolentino de se conformar com a faina 
peculiar da advocacia. Pela expulsão dos Jesuítas, 
o grande ministro teve de reorganisar a instruc- 
ção secundaria, que era exclusivamente da Com- 
panhia. Crearam-se numerosas cadeiras de Latim, 
de Lógica e de Rhetorica. Tolentino lançou-se a 
essas Cadeiras novas, sendo nomeado substituto 
de Rhetorica em Évora em 1765. Concorre á 
cadeira em Lisboa, sendo provido em Agosto de 
1767, voltando a Coimbra em 1769 para terminar 
o curso de Leis. A sua vida em Lisboa passou-se 
frequentando as Casas fidalgas, e as tendências 
litterarias foram-lhe despertadas por essa convi- 
vência, em que era signal de bom gosto a apre- 
ciação da poesia. Assim é um dos frequentadores 
da casa de D. Joanna Isabel Forjaz, que tanto 
admirava o genial espirito de José Anastácio da 
Cunha. Como elle veiu a cultivar os versos de 
redondilha e a forma da antiga quintilha, reve- 
la-o na carta dirigida ao conde de Villa Verde : 
«as proveitosas lições dos nossos dois portugue- 
zes Bernardim Ribeiro e Francisco de Sá de Mi- 
randa^ cora que v. ex.'*^ fazia úteis no seu espirito 
aquellas horas que a natureza, e muito mais a 
moléstia lhe tinham destinado ao descanço do 
corpo, insensivelmente no meu coração amor a 
esta espécie de poesia. V, Ex.» me fazia a honra 
de mandar que lhe lesse estes dois preciosos 



SEGUNDA Éror V os ÁRCADES 50r 



livros, e a rausa que preside ás minhas trovas, 
affeita áquella lição, rimou, rimou em quintilhas e 
carregou de moralidades, talvez intempestivas, o 
memorial que ponho nas mãos de V. Bx.^*. 
Elle tinha achado a forma bella das Sátiras mi- 
randinas, elevando-o da improvisação faceta ao 
quadro de costumes e ridículos dos typos cari- 
catos. Mas essa forma era cultivada para fazer 
lidos os seus Memoriaes, pedindo sempre, ignobil- 
mente assoalhando a indigência das irmãs e so- 
brinhos, e lamentando incessantemente o purga- 
tório de aturar rapazes na aula de Rhetorica, 
suspirando pelo dia em que podesse pendurar a 
palmatória, e assentar-se em uma repartição pu- 
blica como official de Secretaria. Era o seu ideal 
e conseguiu-o depois de muita choradeira, em 21 
de Junho de 1781. Teve portanto, de tomar parte 
na viradeira, fazendo versos contra o decahido 
Marquez de Pombal, e seguir as parcialidades 
que davam, e por isso, apesar de nomeado sócio 
da Academia real das Sciencias de Lisboa, sati- 
risava o Duque de Lafões pela retirada diante 
do exercito hespanhol, quando o triumpho era 
certo, sem saber que essas ordens do Príncipe 
Regente eram exigências da esposa Carlota Joa- 
quina, filha de Carlos iv, que assignara com 
Bonaparte o tratado de Fontainebleau, para a in- 
vasão e partilha de Portugal. Tolentino dava a 
forma de Modinha ás sátiras contra o Du(|ue de 
Lafões. Os seus versos acham um verdadeiro 
commentario nas Cartas de Lord Beci<.ford, que 
podiam ser annotadas com os typos caricatos da 
corte de D. Maria i. Tolentino viu dasapparecer 
todo esse mundo official, na fuga do Rei com a 
sua corte para o Rio de Janeiro em 1S07. N'essa 
debandada, apenas resistiu trez annos, finando-se 



500 TTTSTÓRI\ DA t.íTTKP.ATTjr! \ POnTUGUESA 



na tristeza em 22 de Junho de 1811, era que a 
nossa nacionalidade ia súccumbindo '. 

José Agostinho de Macedo (Elmiuo Tagideo) 
— Nasceu era Beja em 11 de Setembro de 1761, 
na época em que o absolutismo pombalino estava 
no seu esplendor, e faleceu em 1831, quando o 
regimen liberal, que elle combatera polemica- 
mente, se implantava em Portugal pela força das 
armas, pelo exercito formado na emigração. Lu- 
ctou sempre ; íizeram-o professar aos dezesete 
annos no mosteiro dos frades da Graça, raas a 
sua mocidade impetuosa e talento natural o lan- 
çaram na indisciplina, soffrendo as torturas do 
cárcere penitencial e por fim a expulsão por dís- 
colo. Por uma vasta leitura adquiriu essa erudi- 
ção encyclopedica, viciada pelo seu theologisrao, 
e sem uma ideia philosophica, a rhetorica foi a 
exhibição exterior com que se tornou um prega- 
dor inexgotavel, e ardente polemista acirrado pela 
vaidade pessoal, e temivel pelo vocabulário adqui- 
rido na adolescência plebeia. Como orador, como 
poeta e como escriptor doutrinário é exclusiva- 
mente rhetorico, declamador, exagerando as pai- 
xões, que as facções reaccionárias exploraram, 
lisonjeando-o. No fim da sua vida de lucta, 
disse de si : Eu não fui mais do que um escriptor 
com imaginação. 



' Sanches de Baena publicou sob o titulo de Memo- 
rias de Nicolau Tolentino, as mais interessantes noti- 
cias que a irmã do poeta D. Joaquina Thereza Froes de 
Brito reunira, repelliudo as indignas lamurias assoalha- 
das nos seus versos. Esta senhora foi durante cincoenta 
annos Regente do.s Expostos, e pela sua admirável ge- 
rência, D. Maria i a visitou attenciosamente. 



SEGUNDA í;i'oca: os árcades r»07 



Tendo professado no mosteiro da Graça em 
1778, ao fim de doze annos de revolta contra a 
disciplina claustral, foi expulso solemnemente da 
commimidade em 18 do fevereiro de 1792. Passou 
então a presbytero secular, fazendo da predica o 
seu <^anha-pâo, vindo a ser nomeado pregador 
régio em 1802. Acompanhou a revolução de 1820, 
tendo sido eleito deputado ás cortes constituin- 
tes, pondo-se desde 1823 até á sua morte ao ser- 
viço da reacção absolutista. A sua vida litteraria 
foi uma constante e virulenta polemica pessoal, 
dando largas aos sentimentos mais deshumanos e 
á linguagem a mais abjecta. O seu orgulho pes- 
soal levou-o a pretender acabar com a gloria de 
Camões, elaborando em 1811 o poema O Gama, 
para supplantar os Lusíadas ; trez annos depois 
refuíidiu este acervo de oitavas rhetoricas accres- 
centando aos dez mais dois cantos, com o titulo 
mais sonoro O Oiieníe. O padre em um longo 
prologo fez-se o éco da critica de Voltaire no 
Ensaio sobre a Poesia épica. 

As falsas ideias sobre poesia levaram-no para 
imitar esse enfadonho naturalismo didactico-clas- 
sico dos sempre deslavados Delille, Chenedollé, 
Esmenard, Lebrun, Luce de Lancival, Campenon, 
que eram lidos e apregoados pelos que cultiva- 
vam as Sciencias naturaes. José Agostinho se- 
guiu esta corrente, no seu poema didáctico 
Newton, e na Viagem extactica ao Templo da 
Sabedoria. Em 1812 as paixões politicas fizeram- 
Ihe escrever um poema heroi-comico Os Burros, 
emendado e adaptado ás novas crises politicas 
do constitucionalismo. Dom Miguel nomeou-o 
Chronista-mór do reino, cm 1830, exerceu a Cen- 
sura litteraria official, e morreu quando trium- 
phou no cerco do Porto' o regimen mprcsíMitativo. 



508 HISTÓRIA DA I.ITTERATTTRA PORTUGUESA 



Entre os espirites superiores do fim do século 
xviii que aspiravam á transformação de uma nova 
época social, este escriptor poz o seu talento ao 
serviço da retrogradação, dando á propaganda 
odiosa a impetuosidade do seu temperamento 
plethorico, em que a sinceridade das ideias era 
supprida pela intolerância das affirmações. Foi 
por isso rancorosamente odiado pelos que serviam 
a corrente progressiva do século xix, e fanatica- 
mente divinisado pelos que luctavam pela esta- 
bilidade do regimen absolutista. Torna-se difficil 
a apreciação d'esta individualidade, cuja biogra- 
phia é recheada de factos vergonhosos, pondo em 
relevo um caracter baixo, uma intelligencia su- 
perficial, uma moralidade affrontosa; mas esse 
temperamento impetuoso é o próprio a reconhe- 
cer os seus defeitos, a amesquinhar o seu orgu- 
lho, e a confessar a sympathia que o animava 
quando os ódios da occasião o não empolgavam. 
Em José Agostinho verifica-se este grande prin- 
cipio de Maudsley, na Pathologia do Espirito: 
« Na etiologia das desordens mentaes, as investi- 
gações devem fazer-se sob o ponto de vista so- 
cial». Macedo nasceu em^ Beja, em 11 de Setem- 
bro de 1761 e faleceu em Pedrouços em 2 de 
Outubro de 1831, quasi nos últimos arrancos do 
governo absolutista de D. Miguel. Entre estas 
datas comprehendem-se profundos abalos sociaes, 
que se reflectiram na sua organisação e desen- 
volvimento individual. Foi gerado ainda sob a 
emoção do terremoto de 1755 e sob o terror pom- 
balino das prisões de estado e execuções tremen- 
das ; creado sob o regimen da loucura de D. Ma- 
ria I e da boçalidade do Principe Regente, quando 
o Intendente Manique reagia canibalmente con- 
tra a entrada das Ideias francezas. Bastava o 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 509 



grande facto da Revolução de 1789 para des- 
orientar o cérebro da pobre criança feita frade 
graciano por vontade regia. A invasão napoleo- 
nica e a fuga de D. João vi para o Brasil que- 
braram-lhe todo o equilíbrio da disciplina de cos- 
tumes ; a estupidez da Regência e o despotismo 
militar de Beresford em contraste com a Revolu- 
ção de 1820 que vindicava a independência na- 
cional, fizeram-o pender momentaneamente para 
as ideias liberaes, que elle abandonou servindo a 
reacção dos Apostólicos, que explorou o seu ta- 
lento até ao esgotamento e morte. No meio d'es- 
tas correntes desencontradas é que se lhe mani- 
festaram todos os defeitos pessoaes e se pratica- 
ram os actos que constituem a sua biographia, 
convertendo todos os ódios que provoca em uma 
piedosa sympathia final. O temperamento de lu- 
ctador expande-se nos factos decisivos da sua 
existência : reagindo nos seus primeiros annos 
contra a situação da clausura fradesca ; contra 
Bocage c os poetas elmanistas, que elle atacou 
no primeiro esboço do poema Os Burros ; contra 
os sebastianistas e pedreiros livres, contra a Carta 
constitucional e os liberaes ; contra os admirado- 
res de Camões, visando principalmente Garrett, 
então redactor do Portugaez. Transcrevemos aqui 
uma nota autobiographica posta por Macedo ao 
poema dos Burros, em que elle próprio se in- 
cluiu: «José Agostinho de Macedo, natural de 
Beja, onde nasceu a 11 de Setembro de 1762 
(aliás 1761) filho de Francisco José Teixeira e de 
Angélica Freire de Andrade : o pae foi prateleiro, 
e a mãe era illustre, mas pobre ; é pregador de 
Officio, come sem dever cinco reis; falia sempre 
verdade, dorme sem remorso de crime algum ; 
ralha e ralhará scin[)re, porque tem a mania de 



510 HISTÓRIA DA l.ITTEíiATURA PORTUGUESA 



amar sinceramente este Reino. B' digno de um 
logar n'este poema dos Burros, por se haver 
mettido cora elles>. Por esta nota se verifica a 
raalevolencia dos seus criticos ; do pae disseram 
que se chamava Tegueira e não Teixeira, que 
era pastelleiro ; a mãe, ainda parente do illustre 
bejense Jacintho Freire de Andrade, é acoimada 
de trato ilHcito cora o pae do desembargador 
Francisco Eleutherio de Faria e Mello, ajudante 
do Intendente geral da Policia. Innoccncio era 
uma copia das Me7?iorias para a vida de Macedo, 
apontou que esse individuo pagou a sua educa- 
ção e o metteu a frade graciano. Estas iraputa- 
ções odiosas azedaram-lhe o caracter. Nos apon- 
tamentos colligidos pelo grande admirador de 
Macedo Francisco de Paula Ferreira da Costa, 
tomamos estas linhas curiosas sobre os seus pri- 
meiros annos : « O pae, ourives de Beja, passou a 
Lisboa, onde se tornou grande official de ourives 
e cravador de diamantes, e também em Lisboa 
casou com Angélica dos Seraphins Freire, natu- 
ral de Lisboa. Faleceram em Beja na rua da Ca- 
pellinha, em casa própria e decente para aquelle 
tempo». Sobre a entrada da pobre criança para 
frade, refere Ferreira da Costa : 

« O P." José Agostinho aos seis annos promet- 
tia já um talento raro, de sorte que ouvindo um 
serraão o repetia no dia seguinte (a substancia) 
com atavios seus e tão engenhosamente, que 
admirou os seus ouvintes ... O sermão era o pre- 
gado na festividade de S. Braz. Vendo D. Pe- 
dro III o pae do padre, pediu a este (porque quiz 
satisfazer o alto eiupenho dos Gracianos) para 
que consentisse na entrada do filho para aquella 
Ordem, o que teve effeito, não obstante não se- 
rem esses os desejos do pae e do filho . 



SEGUNDA KlTtCA: US ÁRCADES 511 



D'este facto se explica todo o percurso da 
sua existência de revolta. Em 1778 professa nos 
Gracianos de Lisboa com o nome de Fr. José de 
Santo Agostinho. Na Sátira Elmiro, conta Pato 
Moniz que fora reprovado em latim pelo seu 
mestre Fr. António de S. Luiz, e depois também 
reprovado em philosophia e theologia. (Nota 6). 
Não era a falta de intelligencia, mas a reacção 
dos dezesete annos contra a apathia e estupidez 
claustral, que o tornavam um cábula e um dís- 
colo. Foi mandado para o Convento de Coimbra, 
onde se demorou junto do bondoso poeta brasi- 
leiro Fr, José de Santa Rita Durão, o auctor do 
poema O Caramuru ; alli adquiriu o gosto pela 
poesia, conservando agradabilíssimas impressões 
d'essa convivência litteraria. Procedendo-se á 
eleição do Provincial, veiu José Agostinho a Lis- 
boa para a votação, sendo por esse tempo o co- 
meço da sua lucta com os frades. Lô-se em uma 
nota do citado Ferreira da Costa: «foi por alguns 
annos residir em Coimbra. Veiu a Lisboa, e pela 
eleição do Provincial, faltando Orador, elle subiu 
ao púlpito pela primeira vez, e improvisou uma 
oração tão eloquente, que espantou a todos ». 
Bastava isto para o assaltarem as invejas frades- 
cas. Diz Ferreira da Costa : « Algumas travessu- 
ras de rapaz e intrigas fradescas, deram motivo 
a bastantes máos tratamentos, que recebeu dos 
Frades ». As travessuras reduziram-so ao furto de 
umas gulodices, e o castigo a prizão no tronco. 
Em 1780 foi mandado para Braga para uma ca- 
deira no Convento do Populo, d'onde fugira em 
1782, sendo sentenciado em 17 de Agosto no 
Convento de S. João Novo no Porto, por aposta- 
sia e roubo do livros na livraria do Populo. 
Sendo removido pura o Convento da (Iraça, em 



5i2 HISTÓRIA D\ LITTERATURA PORTUGUESA 



Évora, por segunda sentença em 21 de Março de 
] 785, ahi escreveu o seu Panegyrico ao arcebispo 
Cenáculo, primeira manifestação do seu talento 
litterario ; voltando a Lisboa, mas fugindo da 
violenta clausura em que se achava, foi remetti- 
do por castigo para o convento de Torres Ve- 
dras, d'onde se evade. Por terceira sentença dada 
no convento da Graça,^ de Lisboa, era 22 de ju- 
lho de 1788, por apostasia, roubo de livraria e 
fuga do cárcere, metteram-o outra vez no in-pace 
do mosteiro ; ahi se dedicou á poesia começando 
o esboço do poema épico Descobrimento da Ín- 
dia, que veiu com o tempo a desenvolver no 
poema O Gama, que transformou depois no 
Oriente. José Agostinho recorreu para o Núncio 
contra a terceira sentença, em 1789, sendo em 7 
de Agosto de 1790 dado accordão contra a reso- 
lução do Núncio. N'este anno é que se fixa a 
chegada de Bocage de regresso da índia ; do seu 
cárcere saudou-o José Agostinho, com emphase 
de admirações, tornando-se pouco depois seu 
companheiro e communal na vida desenvolta. 
Pelos documentos officiaes que precederam a sua 
expulsão da Ordem graciana em 1792, é que se 
recompõe a vida tormentosa de anarchia moral a 
que o impelliram; era 1790 estava sob a alçada 
do Intendente Manique. O Núncio em carta de 9 
de Julho de 1791, pede ao Reitor do Convento 
de S. Paulo para mandar prender com o auxilio 
da policia Pr. José de S. Agostinho, que fugira 
d'aquelle convento onde fora depositado ; por 
ura officio de 14 de julho de 1791, ao juiz do 
crime do Bairro de Santa Catharina, sabe-se que 
elle furtara na Livraria dos Paulistas vários li- 
vros que vendera a João Baptista Reicend, li- 
vreiro francez. E por officio do Intendente Ma- 



SEGUNDA KPOCA: OS Arcades 513 



íiique de 8 de Outubro de 1791 dirigido ao Prior 
do Convento da Graça, manda-lhe entregar Pr. 
José de S. Agostinho, apanhado em trajos de se- 
cular e descomposto pelas ruas. Por fim é ex- 
pulso solemnemente da Ordem, que era o que 
elle pretendia, Sf^ndo irapellido para a vida airada 
em 1792. A predilecção da litteratura serviu-Ihe 
de equilíbrio, emquanto não irromperam outros 
Ímpetos de vaidade pessoal; em 1793 já elabo- 
rava o poema O Gama, e fazia parte da Nova 
Arcádia, onde tinha o nome poético de Elmiro 
Tagideo, que também usava como membro da 
Arcádia de Roma. Não acompanhou Bocage, 
quando em 1794 Elmano rompeu com os poetas 
da Nova Arcádia, começando ahi a muda dissi- 
dência que veiu a irromper em 1801, entre os 
dois, por motivo da poesia didáctica. Em 1794 
por breve de 27 de fevereiro ficou considerado 
como presbytero secular ; seria a necessidade de 
manter-se em eípiifibrio moral que o afastou os- 
tensivamente de Bocage ; duraram as suas lela- 
ções até 1797, quando José Agostinho trabalhava 
na versão do poema a Thebaida de Stacio, que 
Bocage retocava, como se gaba na sátira Pena 
de Talião. 

* Sem recursos para se manter, José Agostinho 
lançou-se á prédica, fazendo d'isso uma industria 
lucrativa ; lia muito, e com uma tendência ency- 
clopedica, adquiriu o entono de pedantismo eru- 
dito, e a emphase rhetorica, que tanto influiu 
nos seus versos. Os seus sermões eram facilmente 
improvisados, e com o seu temperamento vio- 
lento exaltava-se impressionando o auditório. 
Teve occasiões de pregar no mesmo dia cinco 
sermões; e essa fonte de receita tornava-o inde- 
pendentemente orgulhosQ. Em uma Epistola a 
33 



514 HISTÓRIA DA LITIERATUHA PORTUGUESA 



Francisco Freire de Carvalho, elle próprio se ri 
dos seus Sermões e da armadilha que fazia aos 
vinténs dos saloios. Como suspenso de missa, só 
lho restava a prédica; e tanto se assignalou na 
popularidade, que em 1 de dezembro de 1802 foi 
nomeado pregador régio. Conta Ferreira da Gos- 
ta: «Por este tempo foi o P.'^ Macedo um açoite 
constante contra as extravagâncias de Jacobinos 
e Maçons, com os multiplicados escriptos que 
publicava, e por isso todos o temiam, e procura- 
vam escapar-se ás chicotadas introduzindo-se á 
sua conversação». Ferreira da Costa, que tanto o 
admirava, e que corrigiu pacientemente todos os 
seus escriptos, escreveu em outra nota ao poema 
dos Burros: <;Isto é segredo; mas é necessário 
aclarar o sentido do verso: José Agostinho teve 
a fraqueza de se apaixonar por duas freiras, am- 
bas de Cister; a primeira extinguiu-se o fogo; 
ficou porém a segunda. Por muito tempo foi dia- 
riamente a Odivellas, e o facto é que ella existe 
ha uns poucos de annos fora do claustro, e a 
murmuração publica o argúe de viver na sua 
companhia com o titulo de sua irmã». A freira 
de Odivellas era D. Joanna Thomasia de Brito 
Lobo de Sampaio, sendo os seus amores substi- 
tuídos pelos de D. Maria Cândida do Valle, que 
viera do convento de Coz transferida para o de 
Odivellas, e d'ahi para a casa de José Agostinho, 
em cuja companhia elle falleceu. O facto de se- 
rem estas duas freiras da Ordem dos Bernardos 
influiu na actividade polemica de José Agosti- 
nho, quando em 1826 os frades de Alcobaça lhe 
pagavam para elle escrever os folhetos da Besta 
esfolada, com que era combatida a Carta cons- 
titucional. Depois d'estes amores freiraticos, e 
quando já D. Maria Cândida do Valle estava 



SEGUNDA i:rOCA: os ÁRCADES 



desfeiada por moléstia de pelle, virou-se José 
Agostinho para uma freira trina do Convento 
do Rato, que o admirava, e com ella conservou 
uma activa correspondência desde 30 de janeiro 
de 1820 até fins de 1822, em que transpira um 
certo idealismo; (*) chamava-se ella D. Feliciana, 
e quando estava para falecer José Agostinho 
pediu para ser enterrado no Convento do Rato. 
As suas aventuras cora mulheres constam dos 
documentos officiaes, como o de 12 de junho de 
1788, em que se authentica a sua mancebia com 
Claudia Maria Benigna, e o de 25 de abril de 
1807 em que é denunciado ao Santo Officio por 
Domingas Eberard, e pela creada do padre por 
nome Josefa. 

Depois das terríveis sátiras trocadas com Bo- 
cage, reconciliou-se com elle á hora da morte, e 
fez-lhe um vehemente Epicedio ; mas Pato Moniz, 
que desde as luctas do Botequim das Parras, 
nunca mais se reconciliara, espalhou que Macedo 
furtara á irmã de Bocage os manuscriptos de 
Elmano, a pretexto de formar um volume em be- 
neficio da desvalida senhora. Em 1806 escreve 
Macedo o poema A Natureza, que o tribunal 
da Censura entendeu mandar mudar-lhe o titulo, 
para A Creação, porque a palavra natureza im- 
plicava a ideia de atheismo. José Agostinho pelo 
seu influxo pessoal entra nas intrigas politicas; 
em 1807 é empregado como policia secreta para 
se descobrir a conspiração de Mafra, pela qual 



* Por favor de Brito Aranha, obtivemos as Cartas a 
Soror Feliciana, freira trina, o inipriniimolas a expensas 
(la Academia Real das Scienoias. em I9(.)0, nos inéditos. 
de José Ajfostinho do Macedo. Sfto 57 Cartas, que datam 
desde 1820. Revelam o estylo affectivo do polemista. 



516 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



D. Carlota Joaquina pretendia desthronar seu 
marido D. João vi. Accusara-o de ter denunciado 
o seu amigo o Dr. Sepúlveda. A publicação do 
poema O Gama, terminado em 27 de março de 
1811, acordou todos os ódios dos amigos e discí- 
pulos de Bocage, distinguindo-se entre todos 
Nuno Alvares Pereira Pato Moniz, que o ridicu- 
larisou no poema heroe-comico — Agostinheida, 
e refutou as doutrinas de Macedo contra os Lu- 
síadas, que elle tentava substituir pelo Oriente. 
No anno de 1820, o anno decisivo da vida 
politica de Portugal, Macedo, que servira a ine- 
pta regência, que embaraçava a elevação de uma 
estatua a Camões, conservou-se em completo si- 
lencio ; mas em 1822 chegou a ser eleito depu- 
tado, dando-se logo em seguida a restauração do 
absolutismo de D. João vi em 1823 por imposi- 
ção dos Apostólicos de Hespanha. Elle não se 
determinou logo na orientação politica a se- 
guir, porque em officio para o Intendente geral 
da Policia, se diz que José Agostinho invectivou 
publicamente em 1824 o governo, e que seria 
conveniente mandal-o para um convento do Mi- 
nho ou do Algarve. Nomeado n'esse mesmo anno 
de 1824 censor litterario do patriarchado por in- 
dicação de Monsenhor Rebello, ' tornou-se imme- 
diatamente o paladino da reacção {)olitica reli- 
giosa que irrompeu desvairadamente desde a 
morte de D. João vi, com a regência da hyste- 
rica Isabel Maria até ao sanguinário governo de 
seu irmão D. Miguel, que ella ajudara a implan- 



1 Obtivemos por favor de Brito Aranha esta colle- 
CQão das Censaras de 1824 a 18-9, o pub!icáinol-as a ex- 
pensas da Academia Real das Seie>ncias era 1908. com 
um Estudo ^obre a Historia da Gensara em Portugal. 



SEGUNDA ÍPOCA: OS ÁRCADES 517 



tar. José Agostinho foi um dos mais ferrenhos 
inimigos de Garrett, fazendo com que o cantor 
de Camões, como redactor do Portuguez fosse 
encarcerado durante trez mezes no Limoeiro. Por 
ordem do odioso Intendente da Policia, José 
Joaquim Rodrigues de Bastos, o soperifero au- 
ctor da Virgem da Polónia e dos banaes Dis- 
cursos religiosos, José Agostinho foi encarre- 
gado de intimidar a opinião pubhca incutindo-lhe 
o horror do liberahsmo, identificando-o com o 
maçonismo, e pervertendo a apreciação da Carta 
constitucional outorgada, de 1826. Assim elle 
preparava as vias para a revolução absolutista 
de D. Miguel e do império das forcas do Cães 
do Tojo e da Praça Nova. A barbaridade dos 
actos políticos do governo de D. Miguel foi 
acompanhada pelo doutrinarismo violento de José 
Agostinho de Macedo, que era então o espirito 
dirigente do partido conservador. A sua violên- 
cia de phrase fez receiar o próprio poder migiie- 
lino, a ponto de na censura prévia lhe ser emba- 
raçada a publicação de certos números do jornal 
O Desengano. D. Miguel encarregava-o de tra- 
duzir os artigos com que o defendiam os absolu- 
tistas francezes, e encommendava-lhe folhetos e 
objurgutorias contra o que escreviam os emigra- 
dos portuguezes no Padre Amaro e no Chaveco 
liberai. Chamavam-lhe então o Padre Lagosta, 
por causa da sua face plethorica, e da sua resi- 
dência do Forno do Tijolo, elle fazia fronte a 
todos 03 follicularios do liberalismo. Pela sua 
grande influencia no animo de I). Miguel, elle 
estava semj)re rodeado de pretendentes, explorado 
na sua actividade e talento, no arr(^batainento de 
quiím se sentia com iniia missão social, ('omba- 
ter a pedreirada, como elle chamava aos Uberaes 



518 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUHSA 



e esfolar a besta, corao elie denominava a Carta 
outorgada, era para José Agostinho de Macedo 
o ideal a que votara a existência. Apesar da sua 
robustez hercúlea, este estado de violência e de 
rancor moral alteraram-lhe o organismo, pros- 
trando-o era poucos annos. 

Escreve Ferreira da Costa nas citadas notas 
ao poema dos Barros: «desde 1825 padece grave 
moléstia de A)exiga. Primeiro deitou sangue e 
depois pedras. Tem soffrido fortes inflaramações, 
mas tal é o seu espirito e tal a natureza da mo- 
léstia, que nos intervallos dos seus ataques não 
deixa de escrever.» Como o único espirito pen- 
sante no regimen miguelista, ao passo que elle 
foi combatido e se ia desmoronando pela selva- 
geria e pelos attentados diplomáticos, mais re- 
crudesceu o trabalho polemico de José Agosti- 
nho de par com a doença. E' angustioso o quadro 
era que nos apparece, revelado nas suas cartas, 
hydropico, dormindo á força de laudano duas 
horas por noite, bebendo na febre contínua chá 
preto, e no meio das dores da sua stranguria, 
escrevendo sempre para raanter as polemicas 
cora o doutrinarismo liberal. E' n'este soffrimento 
que elle se retira da casa do Forno do Tijolo, 
para Pedroiços, nos arredores de Lisboa ; mas 
nem ahi o deixam. D. Miguel passa-lhe pela 
porta para o lisonjear, os Jesuitas recera-introdu- 
zidos em Portugal vão pedir-lhe vénia, a Pedroi- 
ços o vão buscar para os Sermões politicos. Em 
Pedroiços começou a ser atacado peia gotta, e 
afflige-o a hematúria, mas o trabalho é já de um 
forçado. D. Miguel nomeia-o em 1830 Chronista- 
mór do Reino, para attenuar o effeito de lhe 
pedirem moderação nos artigos da Besta esfo- 
lada ; em 14 de junho de 1831 é-lhe dada por 



SEGUNDA época: OS ÁRCADES 519 



decreto a pensão de 300^000 réis annuaes como 
chronista. A sua morte foi o prenuncio da derro- 
cada do systeraa absolutista. Em ura artigo da 
Gazeta de Lisboa, n.» 243, lê-se : <0 Padre José 
Agostinho de Macedo, residente no sitio de Pe- 
droiços, falleceu no dia dois do corrente Outubro 
(1831) depois das 11 horas da manhã, por effeito 
da enfermidade vesical, que havia annos pade- 
cia, compHcada cora a da gotta, a que no dia 17 
de seterabro sobrevierara sezões, provavelmente 
symptomaticas, precipitando a doença a sua car- 
reira...* Sepultado por seu pedido na Egreja 
das Trinas, do Rato, foi a chave do caixão entre- 
gue a D. Miguel, para lembrança do seu defen- 
sor. Macedo, em um relâmpago de bom senso, 
confessou que não fora mais do que um homem 
com imaginação ; que não tinha ódio pessoal a 
ninguém, mas que a única cousa que lhe fazia 
perder a cabeça era a Carta constitucional. Lit- 
terariamente apreciado, Macedo foi um dos escri- 
ptores que empregou o mais numeroso e varia- 
dissimo vocabulário, com que enriqueceu a lingu^ 
portugueza; n'este ponto de vista está a par de 
Vieira e de Camillo. Tinha a graça popular com 
toda a espontânea grosseria da chalaça ; o seu 
estyllo é fundamentalmente rhetorico com em- 
phase ora da eloquência do púlpito, ora dos ver- 
sos pautados pelas normas arcádicas : discursa 
em verso nos seus poemas didácticos, e devaneia 
na critica como censor ofíicial. E' um vulto que 
synthetisa uma época, como essa deplorável re- 
gressão de 1823 a 1834, cuja comprehensão está 
dependente da sua biographia. Innocencio, que 
estudou longoíi annos e reuniu materiaes para a 
Vida intima de José Agostinho de Macedo, 
desde 1848 a 1863, ainda o tratou com ódio, 



520 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



como inimigo do liberalismo. ^ A bibliographia 
das suas Obras é vasta, pelas suas numerosas 
edições, e também pelas polemicas que provocou 
e que sustentou. Infelizmente não se fez ainda 
uma edição das suas Obras completas, e quando 
na Academia das Sciencias se iam imprimindo 
os seus Inéditos, um académico em sessão da 
Assembleia geral de 5 de Abril de 1900, incre- 
pou esses livros como pornographicos ! Assim 
ficou interrompida essa valiosa publicação. 

As Tragedias philosophicas. — A decomposi- 
ção do regimen catholico-feudal, que dirigiu a 
transição affectiva da Edade média, chegou ao 
seu periodo violento na Revolução franceza ; a 
manifestação era local, mas pela generalidade do 
phenomeno a todo o Occidente, é que os reis, 
como José II, e os grandes ministros, como Pom- 
bal, Aranda e Choiseul, cooperaram pondo em 
acção as ideias; pelas mesmas causas a crise re- 
volucionaria encontrou ecco em todas as nacio- 
nalidades da Europa. Em Portugal o Intendente 
Manique obstava por todas as violências para se 
não espalharem as noticias da Revolução fran- 
ceza, e nas Contas para as Secretarias accusa o 
Duque de Lafões de dar abrigo na Academia das 
Sciencias ao convencional Brussonet, e delata 



"^ Salvámos osta obra e conseguimos imprimil-a 
sobre trez redacções incompletas, com o titulo de Memorias 
para a vida intima de José xigostinho de Macedo, pu- 
blicada a expensas da Academia Real das Sciencias, l 
vol. in-8.° grande com xxui-435 pag. 1908. — Ajuntámos- 
Ihe documentos da Inquisição completando a Bibliogra- 
phia, interrompida desde a noticia do Diccionario Bi- 
bliographico. 



SEGUNDA Época: os Árcades 



cora espanto o crime de se cantarem cantigas 
francezas nos botequins, chegando a audácia ao 
ponto de entoarem o Ça ira debaixo das janellas 
do palácio real. Espalhavam-se por todas as mãos 
exemplares da Constituição, e Manique espiava 
com furor a propaganda dos livreiros francezes 
estabelecidos em Lisboa. Todos os homens cultos 
adheriam ás novas ideias philosophicas, que se 
vulgarisavara pelas representações em theatros 
particulares ; as peças preferidas eram as trage- 
dias de Voltaire, que apparecem traduzidas com- 
pletamente em folhetos avulsos. De facto n'essas 
tragedias debatiam-se novos problemas, que li- 
sonjeavam a aspiração de independência moral, 
na decahida sociedade portugueza; Alzira é o 
protesto a favor da liberdade de consciência e a 
condemnação da intolerância religiosa; Zaira é 
o combate entre o amor o a religião, Merope é a 
apologia do suicídio, Semiramis apresenta o par- 
ricidio em nomo da divindade, e Mahomet a 
hypocrisia cynica impondo-se triumphante pelo 
prestigio de uma entidade monotheista. A trage- 
dia philosophica prestava-se também á propa- 
ganda politica ; em Coimbra, onde a sciencia 
doutoral mantinha o respeito peio antigo regi- 
men, formigaram os theatros particulares, onde 
03 estudantes davam largas ao seu jacobinismo. 
O reitor D. Francisco de Lemos mandou fechar 
todos esses theatros particulares, e foi mais tarde 
n'esta corrente das tragedias philosophicas que 
se formou o talento de Garrett, servindo com a 
sua tragedia Catão o movimento revolucionário 
de 182(). O século findou com os grandes desas- 
tres da Oryia militar napoleonica, que pezaram 
duramente ei7i Portugal, sendo a(iui o ponto de 
apoio da resistência (jue destruiu tissa monstruosa 



522 HISTÓRIA DA LITTÊRATURA PORTUGUESA 



anomalia guerreira. Sem o conhecimento d'estes 
factos não se comprehendem, nem as novas ins- 
tituições parlamentares implantadas no século xix 
em Portugal, e muito menos a acção politica 
exercida pelos litteratos portuguezes sob o regi- 
men liberal, simultâneo com a transformação do 
Romantismo. 



[NDICE 

HISTORIA DA LITTEBATURAPORTUGUEZA 

( KEOAPITXJJ^ AÇAO) 



SEGUNDA ÉPOCA 

(Conclusão) 

3° Período : Os Árcades 

(Século xvin) 



Prelimiriares v-vii 

Caracteristica do sennio xviii 1 

Termo da trajectória revolucionaria 2 



SI 

■Ê0 

O pseudo Classicismo francpz 

Esquocimonto das origens rnedievaos 2 

Subserviência ao gosto franí^ez H 

Os poetas na corte do D. João v H 

1." — A protecção offícial da TJUeratnrn — Hois pe- 

riocios do reinado de D. .lofio v . . . fi 

AcQfto depressiva dos .loeuitas 7 

Como se dispendiam as riquezas do Brazil ... S 

Caracter do D, João v I(> 

As tentativas do reforma litteraria 11 

Prestigio de Boileau 1') 



524 HISTÓRIA DA LITTERATURA PORTUGUESA 



Pag. 

a) A persistência das Academias seiscentistas . 15 

A imitação da Academia franceza 16 

A Academia de Historia 17 

Effeitos da munificência régia 1'J 

Influencia da Arcádia de Roma 21 

b) A Sociedade dos Occalios 22 

Sua organisação 23 

Precursora da Arcádia Lusitana 24 

2.» — Apparição do espirito critico 24 

Projecto de traducção do Novum Organum . . 26 

Perfídia do jesuita Carbono 27 

O ensino passa dos Jesuitas para os Oratorianos . 28 

a) Vernég e o Verdadeiro Methodo de Estudar . 31 
A polemica com os Jesuitas. 33 

b) Estado da Poesia portuguesa antes da Arcá- 
dia 34 

c) Alexandre de Gusmão e a Arte de Furtar. . 39 
Como se descobriu este apoerypho do P.e Vieira . 43 

O processo bibliographico 45 

As Cartas de Alexandre de Gusmão 47 

d) As Cartas do Cavalheiro de Oliveira, e do 
Abbade Costa 50 

o CAVALHEIRO DE OLIVEIRA 

Sua biographia 51 

O motivo da sabida de Portugal 55 

O processo do Santo Officio 64 

AS CAKTAS DO ABBADE ANTÓNIO DA COSTA 

Noticia dada pelo niusicographo Burnay. ... 67 

Dados autobiographicos das Cartas 68 

O meio artístico em quo viveu 76 

Suas relações com o Duque de Lafões .... 93 

Encontro com Gluok 97 

3.° — A baixa Comedia e a Opera 103 

a) O Theatro do Bairro Alto Corro ou Páteo . 104 



iNDicp; ')25 



Hag. 

O problema da sua ideatiíioação 106 

Patoo da Comedia, de 1734 a 17H7 107 

Depois do terramoto, é reedificado o definitivo 

Theatro do Bairro Alto 107 

O eniprezario António Rodri^ífuez arrendatário do 
theatro do Pateo da Comedia, onde ae revela o 

talento dramático de António José .... 112 

ANTÓNIO JOSÉ DA SIliVA 

Nasce no Rio de Janeiro em 1705 113 

Todos os seus parentes homens cultos .... 114 
Vem com a família para Lisboa, para sua mãe en- 
trar na Inquisição 115 

Frequenta a Universidade de Coimbra .... 116 

Amor por sua prima Leonor Maria do Carvalho 117 

Prezo em 7 d'Agosto de 1721 117 

Subinettido á tortura 118 

Seu pae era poeta 119 

Vem para Lisboa, em 1726, formado em Cânones . 120 

A vida ostudantesea 123 

O Doutor Juflea começa a escrever para o Pateo 

da Comedia 1-4 

A Comedia de D Quixote 126 

Impressões da primeira prizão 127 

O Lahyrintho de Creta 12iS 

O nome de António José da Silva em um ana- 

grama 129 

Prezo subitamente em 7 de Outubro de 1737 . 130 

Leonor de Carv;dho. sua mulher, é também preza. 131 

Sentonça de morte em 18 de Outubn- de 11^9 . . 132 

O Bispo do Grani Pará m(<fa da sua execuç5o . 134 

As ModinhMR hr;isiloiras, no theatro 138 

A forma rudimentar da Opera Cómica .... 138 
Domonico Scarlati, mostre da infanta I). Maria 

Barbora 141 

Influencia d'e8ta Infanta na corte hespanliola . . 142 

Talento musical da Infanta 144 

Carta do Alexandre de Gusmão, referente a Scar- 
lati 145 

O gosto italiano, nas festas da oôrte 146 

As quatro irmãs Paghetti (as Pagaeta"). 147 



526 HISTÓRIA n\ LITTERATLRA PORTUGUESA 



§11 

O Século excdpcional — As Ideias francézas 

CaracteriRa-i) h queda dos Jesuítas 148 

Seouio dns grandes audácias lÕO 

Ministros e não phiiosophos atacam a Companhia 

dtí Jfc*.sus 151 

O golpe parte do Portupal Iõ2 

Ghoiseul o Aranda. seguem oiu Franga e Hespanlia 

6680 acto 154 

O poder ministerial 157 

1.° — As reformas pombalinas — C<>adjuvou-o o 

lerraniolo de 1755 ... 158 

Cria a Intendência p^eral da Policia 159 

Companhias mercantis o monopulios 16U 

a) A Arcádia LusUana — Ideia do nttrahir para 

Lisboa as famílias dispersas pelo terramoto . 161 

Os Ires bacharéis fundadores da .Arcádia . . 1(32 

Restabelecimento da frequência da cidade . . 164 
A Virgem, protectora da Arcádia, é tradição troba- 

doresca 165 

Organisação da .Arcádia 166 

Sua continuidade com a Sociedade dos Occaltos . 168 

Pina e Mello, contrario á Arcádia 109 

Diniz ataca as 8uas Bglogas 170 

Replicas acerbas de Pina e Mello 171 

Garção chama-lhe Corvo do Mondego .... 178 

Sócios da Arcádia Lusitânia 180 

Gabção — Gorjjdon Erijmanteo 

Nasce em 29 de Abril de 1724 182 

Notas pittorescas de sua familia . . . . . . 183 

Debilidade congénita do (jarçãu 185 

Casamento do poeta 186 

Faz parte da Arcádia, vivificardo-a 187 

Seu primeiro logar na sessão ofticial da .\rcadia . 189 
O caso dos Tavoras. celebrado pela .Arcfadia — Ode 

de Garção ao Conde de Oeiras 191 

A Arcádia celebra as melhoras do Rei .... 194 
Garção encarregado da redacção da Gazeta de Lis- 
boa em 1760 



5i7 



Ha». 

O Ministro manda suspendel-a em 1762 por causa 

da guerra com Hespanha 196 

Sob o terror do implacável ministro GarySo con- 

fina-se na Fonte Santa 199 

Descripção pittoresoa doa Serões '201 

Convivência com familins ingleziís '203 

A restauração da Arcádia . 204 

A (luerra dos Poetas (Grupo da Ribeira da Náos) . 205 

A Congregação do Oratório hostilÍKada pelo ininist ro 208 
O chamado crimo dos Tavoras celebrado em sossão 

da Arcádia 209 

Epistola de Garçfto oli)giando o Marquez de Pombal 210 

Que versos causaram a perseguição de Garção. . 211 

O escândalo da Zamperini 212 

Garção é prfzo om 8 de Abril do 1771 no Segredo 

do Tjinioeiro ... 214 

Caiiiillo interpreta o caso difamando o poeta . 215 
O facto positivo colhido pelo auctor dos Homens 

alastres de Pernambuco 216 

Amores da tilha (ou irmã) do coronel Elf-den 217 
Lobo d'Avila e o creado de Garção prezoc* pelo al- 

ludido caso 21vS 

()d<i de Diniz a Garção estando prezo .... 220 
() Maríjuez de Pombal, sabendo que o poeta está 

moribundo, dá ordem de soltura 221 

O motivo fútil, aliegado por Erancisco Dias Gomes 222 

A Cantata do Dido . 22.3 

Dtviz (Elpino Nonacriense) — Um dos fundadores 

da Arcádia 224 

Noticias sobre a sua personalidade 2 

Nasce em 4 de Julho de 1731 227 

Neto da Medideira 22H 

Completa ob estudos de lógica o rhetorioa com os 

^lanigrepos 229 

Um Soneto erradamente attribuido a Garção . . 231 

Concorre a um logar de lettras 2.H2 

Seu influxo nas sessões da Arcádia 233 

Juiz de Fora em Castello de Vide 2-4 

Nomeado .Auditor militar para Elvas 235 

Academia dos Applicados Klvenses 2^-^ 

Frequenta as pale.stras do Sotam do Falcato . . 236 

O caso celebrado no poema o Hyssopo .... 237 

Elaboração do texto de Hyssope 240 



528 iíisróRiA DA LirrER-vriiRA portuguesa 



A suposta ultima sessão da Arcádia 244 

Despacho de Diniz, em 1771. desombargador da 

Relação do Rio de Janoiro 24.T 

Como o Génio das Bagatellas se vingou de Diniz . 247 
Membro da Alçada que julga a imaginada Conjura- 
ção de Minas 250 

As Sátiras contra o Governo de Minas ^ Cartas 

Chilenas 251 

Pretexto de repressão contra as ideias politicas 

norte-ameri canas 253 

Os Poetas da Arcádia de Minas perseguidos . . 256 

Falecimento de Diniz em 5 de Outubro de 1799 . 258 

Quita (Alcino Micenio) — Nasce era G de Janeiro 

de 1728 258 

Aos treze annos trabalha para auxiliar sua m3e e 

irmãos 259 

O seu talento poético fez com que o Conde de 

S. Lourenço o recomendasse aos homens cultos kBO 

A sua descripção da torrente 261 

Revelação do seu génio lyrico 262 

Tircéa, a musa dos seus amores, casa com Tliomaz 

José Xavier Pimenta 264 

D. Thereza Theodora d'Aloiin protege-o. . . 2H8 

O Dr. Tara, segundo marido do Tircêa, tratava da 

tysica 268 

Zuniga e Tolentino satirisam Quita 270 

A publicação do uns versos em 1760 274 

Seu falecimento a 26 d'Agosto de 1770 .... 
Tircêa morre em 1773 274 

Manuel de Figukibedo (Lycidas Cgnthio). . . 277 

Nasceu em 15 de Julho de 1728 278 

Vida em Madrid em commissão official do governo. 

seu intento de reformar o theatro portuguez 279 
Não consegue vêr representar no Bairro Alto as 

suas Comedias 280 

Escreve para a Gazeta . 281 

Juizo de Garrett sobre o Theatro de Manuel de 

Figueiredo 282 

b) O Theatro do Bairro Alto e o Thentro da 

Rna dos Condes 283 

Fidalgos que protegeram a fundação da Casa de 

Opera do Pateo do Conde de Soure .... 2tí^ 



ÍNDICE Õ29 



Pag. 

Revelam-se ahi Cecilia Rosa e sua irmã Luiza Tódi 286 

Ouriosas contas do Theatro do Bairro Alto . . . 288 
Golpe de morte no Theatro portuguez pela prohi- 

bição de representarem mulheres .... 291 

Garção aspira ao resurgimento do Theatro . . 292 

O publico do Theatro do Bairro Alto 293 

Cecilia Rosa de Aguiar representa a D. Ignez de 

Castro com assombro 294 

Nicolau Luiz, comediographo, continua António 

José , . 297 

O Arcebispo-Confessor e a perseguição ás ideias e 

aos livros 299 

A nova devoção do Coração de Jesus .... H02 

A reacção inquisitória! e policial 304 

2." — O Intolerantismo aob D. Maria / . . . . 304 

Abalos suocessivos que levam a rainha á loucura . 304 
A impressão de uma Opera em Salvaterra . . . 302 

Pboto-Romanti8mo 

A influencia do estudo da philosophia da natureza. 'M)ò 

José Anastácio da Cunha 306 

Filinto P]lÍ8Ío 3UH 

D. Leonor de Almeida (Aloipk) — Nasceu em 31 

de Outubro de 17.50 308 

Prisioneira do estado no Convento das Albertas, 

aos 8 anos 309 

Ahi passa com sua mão (filha do Marquez de Tá- 
vora) e outra irmã mais nova até 1777 . 310 

E' n'este periodo que se educa a si própria e faz 

leituras 311 

Garção sauda-a nos seus annos 312 

Filinto Niceno, e Sebastião Barroco, tem as duas 

irmãs por suas musas 313 

Correspondência com seu pae, prezo no CastoUo 

da Junqueira 314 

Consulta o pae nas suas leituras e communioa-lhe 

o juizo sobre os auctores 316 

Volta do Coude de Lippe a Portugal o a grande 

parada do exercito uos Olhos d'Agua ... 318 
;í4. 



530 HISTÓRIA DA UTTERATURA PORTUGUESA 



Pag. 

Ura joven hanoveriauo. que acompanha Lippe, vae 
á grade do Convento das Albertas (o tolaz 

militar) 318 

Abrem-se as prizões pela acclamação de D Maria i 319 
Alcipe, esquece Albano (Barroco) e casa cora Oyen- 

hansen 323 

O novo periodo depois da clausura é apagado e com 

pouco interesse 324 

Ficou viuva aos quarenta e trez annos .... 325 

O Abbade Costa cita-a nas suas Cartas .... 324 

José Anastácio da Cunha 326 

Nasce em 11 de Maio de 1744 325 

Estudo de humanidades na Congregação do Oratório 327 

Nomeado tenente para o Regimento de Artilheria 328 

Revela-se um génio extraordinário em Mathomatica 380 

O artigo publicado em Londres era 1768. . . . 330 

Como descobrimos este facto 332 

O seu singular talento poético 832 

D. Joanna Isabel Forjaz pede-lho a glosa de uma 

celebre quadra 334 

Seus amores com uma rapariga de Caminba . . 335 
Os seus versos são a única base de accusação no 

Santo Officio 337 

Versos seus doe 18 annos 338 

Revelação do génio poético. 339 

Bellos Sonetos a Margarida 340 

As declarações autobiográficas na Inquisição de 

Coimbra 341 

João Baptista Vieira Godinho colligiu todos os 

seus versos 342 

O manuscripto existente na Biblíotheca do Porto. 343 
Fr. Joaquim de Foyos, oratoriano, seu antigo mes- 
tre 344 

Depois da queda do Marquez de Pombal, é perse- 
guido pela Inquisição 345 

Monteiro da Rocha preparava-lhe a denuncia . . 345 
A Margarida, de Caminha, avisa-o das pesquizas 

que se fazem em Valença 347 

A traducção da Oração universal, de Pope, base 

de aceusação de Deismo 348 

Começo do processo oní 19 de Setembro de 1778 . 349 

Referencia á sua viagem a Lisboa em 1777 . . . 350 

O julgamento pelos Inquisidores de Coimbra . . 351 



ÍNDICE 531 



Pag. 

Sentenciado em 6 de Outubro pelo Conselho da 

Inquisição de Lisboa 351 

Suas antigas relações poéticas com Monteiro da 

Rocha 3õ2 

Sae no Auto de Fé de 11 de Outubro de 1778 . . 353 

Angustiosa morte d'esse homem extraordinário . 353 

Francisco de Mello Franco e o poema O Reino 

da Estupidez 354 

A que poetas foi attribuido o poemeto .... 355 

A ficção heroe- cómica 356 

O Zelo. poema contraposto pelo partido anti-pom- 

balista 357 

Como se veio a conhecer o verdadeiro auctor . . 358 

Missão da poesia satírica 358 

FiLiNTO Elísio 

Os dois modelos da Poesia arcadica 359 

José Agostinho tenta ridioularisar as Nicenadas c 

Bocageadas 359 

Nasceu em 23 de Dezembro de 1734 359 

Sua origem plebeia e sou goslo litterario . . . 360 
Musica e latinidade foram os seus estudos exclu- 
sivos 360 

Pela catastrophe do terramoto vem habitar com 

sua mãe e pae em casa do Patrão-mór . . . 361 

Torna-se conhecido polo nome de Niceno . . . 362 
Os I)(»n8 que herdou do Patrão-mór, atiçaram a 

perseguição inquisitorial, que lh'os confiscou . 363 
Protege as fiUias do Marquez do Alorna, prezas em 

Chollas 363 

Importância dos bens que lhe foram sequestrados 

pela Inquisição 363 

O grupo lia Kihoira das Náos 364 

D. Leonor lio Almeida é denominada Alcipe por 

Filiuto 366 

Ella muda-lho o nomo arcadico de Niceno pelo do 

Filinlo 367 

A Guerra dos Poetas 3(vS 

Na grado do cunveiito dns Aliiortas 36í> 

Alripe increpa Filinto pela Odo á oloviufio da os- 

tatnii o(]>iostre 370 

Trama urdida contra Filinto 371 



532 HISTÓRIA DA LITTERATURA. PORTUGUESA 



Pag. 

Emigra para França. em 4 de julho de 1778. . . 371 
O Marquez de Alorna persegue-o pela garra inqui- 

sitorial 372 

A mãe de Filinto, dementada, vae aceusal-o á In- 
quisição 373 

O facto referido por Midosi 374 

O terrível lance da sua fuga 374 

Chega a Paris a 18 de Abril de 1778 ..... 375 
António de Araújo, embaixador na HolJanda. con- 

vida-o para ir estar com elle 37õ 

Regressa á sua livre indigência em Paris em 1797. 376 
Pelo falecimento de .Morna em 1803, pensa cm 

voltar a Portugal 376 

Alcipe, ao passar por Paris, evita e^contrar-se com 

Filinto 376 

A traduoçãj dos Marfgres de Chateaubriand . . 377 

Paris é um descampado para Filinto 377 

Morre desvalido em 25 de Fevereiro de 18 '8 . . 378 

^' III 

O Negativismo encyclopedista e a explosão 
temporal da Revolução 

A Revolução foi o desfecho d'uma convulsão men- 
tal e social europeia 379 

Todo o movimento do século xii a xviii é demo- 
crático 379 

Reflexo na historia portugueza 380 

O Philosophismo . 381 

O Club de Ventre sol H83 

O esquecimento da solidariedade histórica, levou 

os investigadores para a Natureza .... 382 

Os poemas didácticos 38"i 

Academia das Sciencias de Lisboa HSi) 

O que faltou nas reformas pedagógicas pombalinas 385 

Necessidade de uma Faculdade de Letras . . . 385 
A doutrina de d'Alembert e o saber geral ou philo- 

logia moderna 382 

Barbacena e Vaudelli 382 

Reitor da Universidade, projectou a fundação de 

inna Academia 393 

Difíiculdade que lhe oppoz o governo .... 394 



ÍNDICE Õ33 



Pag. 

Regresso do Duque de Lafões a Lisboa em Janeiro 

de 1779 391 

José Corrêa da Serra suggere ao Duque o pensa- 
mento da Academia 391 

D. Francisco de Lemos comprehende a importân- 
cia da fundação de uma Academia em 1777 . 392 

Appiovação dos Estatutos por Aviso de 24 de De- 
zembro de 1779 395 

Suas Memorias submettidas á Censura em 1781 . 396 

Thomaz António Gonzaga 397 

A Marília de Dirceo empolga o enthuziasmo . . 399 

R(»lação das Lyras de Gonzaga com a sua vida. . 400 

Nascimento de Gonzaga em 11 de Agosto de 1774. 401 

A Capitania de Minas .... .... 402 

As Cartas Chilenas e os escândalos do Governador 403 

A pequena Arcádia de Villa Rica 403 

Carreira judicial de Gonzaga , 405 

Despachado Desembargador da Bahia .... 406 
Sua paixão pela sobrinha do segundo ajudante do 

governador 408 

A gentil Ma,rilia 4<'8 

As intrigas e ódios do Arraial de Ouro Preto . . 410 

Gerência escandalosa do Luiz da Cunha Menezes . 411 

O novo governador- Visconde de Barbacena . . 412 
Denuncia ciontra Gonzaga pelos fraudulentos ofíi- 

ciaes territoriaes 41:5 

Pelas allusões das Carias Chilenas, descobro-se o 

Iro da irítriga . 418 

O infame coronel Silvério dos Róis 41() 

O Visconde do Barbacena ilUidido na sua inipnri- 

cia 417 

Cooperação do tio o \\iUtr de Marília .... 418 

Os Poetas do Minas envolvidos na rode da denuncia 420 
Como se participou para Portugal a inventada 

Conjuração 421 

.Julgairientd dos incriminados 422 

Atrocidade das sontenças 424 

Gonzaga desterrado por dez antios para Moçambi- 
que 425 

A lenda infame do seu casamoTito om Afrit-a . . 426 
Faleceu alienado em 1807, não tendo usado a am- 
nistia geral dada aos sobreviventes .... 427 



534 HISTÓRIA DA T.ITTERATURA PORTUGUESA 



Bocage (Elmano Sadino) 

Pag. 

Ultimo fulgor do Arcadismo 428 

Antepassados de Bocage, todos ponderados e nor- 

maes 429 

O problema do caracter insubraisso do poeta . . 43U 

Sua orfandade aos dez annos 431 

O amor de Getruria na sua adolescência ... 431 

Nascimento de Bocage em 15 de Setembro de 1765 433 

O pae de Bocage era também poeta 434 

Gil e Maria Francisca, seus irmãos, também oram 

poetas 435 

Getruria, filha do Governador do Outão .... 430 
Cadete do Regimento de Setúbal, Bocage jura ban- 
deira em 1781 437 

Creado o logar de guarda-Marinha, Bocage requere 

para ser admittido 437 

A tradição marítima dos seus antepassados. . . 43U 
Requere passagem como guarda-Marinha para a 

Armada da índia 440 

Embarca em 14 do Abril de 1786 com escala pelo 

Rio de Janeiro 440 

A Epistola a Getruria 441 

A instabilidade da namorada 442 

Ciúmes causados por seu irmão que cursava a Uni- 
versidade 445 

Sonetos inéditos a Getruria 447 

Tempestade durante a viagem 44Í1 

A seducção das crioulas no Rio de .lanoiro . 450 
O novo governador da índia, Francisco da Cimha 

Menezes 451 

Intimidade com Barroco, secretario geral . 452 

Chegada a Goa em 29 de Outubro <le 1786 . . . 453 

O poeta pressente a perfídia de Ghtriiria . . . 454 
Grandes tormentos de espirito pela.s suspeitas que 

tem recebido 456 

Sua vinda de novo a Lisboa, a verificar as suas dçs- 

coníianQas 457 

Apparece em 7 de Novembro de 1787 em lii.sboa, 

segundo uma carta do lord Beckford . . -lOO 
No exame dos documentos da .secretaria tie Goa. 

lê-se /»arím (Fevereiro de 1787) 467 

O regresso a (loa, na carreira mercantil de Calcutá 406 
Alteração profunda do seu carafiter, afastado de 

Goa pelo despacho de 27 de Fevereiro de 1789, 



1NDICK Ò'ò5 



Pag. 

como tenente, para Damão 467 

O que motivou sua deserção de Damão .... 469 

Partida de Surrate, errante pelo Cantão clioga a Macáo 472 

Os sucoessofi da Europa, durante a sua ausência . 473 

Chega a Lisboa em 1790 475 

As quartas-feiras de Lereno e a Nova Arcádia. . 476 

Começa a perseguição . 477 

Amores com D. Maria Margarida 478 

A publicação das Rimas om 1791 481 

Analia, novos amores do poeta 483 

Sua prizão em 7 de Agosto de 1797 487 

A apprehensão da Pavorosa 488 

Para salvar-se de Manique, requereu para ser en- 
tregue á Inquisição 4ÍK) 

Entregue ao Mosteiro de S Bento e d'ahi ao das Ne- 
cessidades 490 

Os amores com Mareia (D. Maria Vicencia) . . 492 
A habitação do Bocage no Terreno de André Va- 
lente I» 497 

Descripção do prédio e do andar em que habitara. 497 

Sua morte em 21 de Dezembro de 1805 .... 499 

Observações sobre o caracter litterario de Bocage. 500 

NlOOLÁO TOLKNTINO 1)B AIjMEíUA 

Seu nascimento em 10 de Setembro de 1740 . . 503 

Matrit!ula-se no Curso de Leis em 17í)0 .... 504 
Concorre á cadeira de rhetorica em 1 765. sendo pro- 
vido para Évora o transferido para Lisboa em 

1767 504 

Os seus versos, de metrificação correctissiina, vi- 
sam a obter favores dos fidalgos governantes . 505 
As lamurias, para acudir á pobre irmã e desvalidos 
sobrinhos são repudiadas por sua irmã no 
seu livro de Memorias 506 

José Agostinho dk Mackdo (Elmiro Tagideo) 

Nasceu em Beja. em 11 de Septembro de 1761. . 50(5 

Professa aos 17 annos, nos frades da (íraga . . . 507 

O seu talento pormaturo para a prédica. . 507 

Tropelias do rapaz tornaram-o in(íonipativol com a 

vida motuical ... n()7 

Euvilece-o a anarcbia mental do sou tempo. . 507 

Juízo de Maudsley 608 



536 HISTÓRIA DA I.ITTERATURA PORTUGUESA 



Pag. 

Primeiro esboço do poema O Gama 509 

Ferreira fia Costa presta noticias sobre sua mocidade 510 

Factos aludidos na sua sátira Elmiro 511 

Seu desterro para o Convento de Coimbra ... 5il 

Influencia poética do autor do Cnr«A/ítt77Í . . . 511 

Desterrado para o Populo, em Braga . . ^ . . 511 

Os castigos absurdos tornam-o insubmisso ... 512 
E' expulso da Ordem graciana e faz-se presbytero 

secular 512 

O talento litterário torna-se o f<eu recurso . 513 

Sooio da Nova Arcádia 518 

Insurge-se contra as Nicenadas e Bocageadas. 514 
Amores com a freira de Odi\ ellas D. Joanna Tho- 

mazia do Brito Lobo de Sampaio. .... 514 
Destbrona-a D. Maria Cândida do Valle (do Con- 
vento de Cós) 514 

As cartas de Amor á freira trina Feliciana, do Rato 515 

Mais aventuras amorosas 515 

Mudança do titulo do seu poema A Natureza . . 515 
A conspiração de Mafra para a deposição de 

D. João VI 516 

Seguiu a Revolução de 1820 516 

Torna-se vinagraste, isto é absolutista .... 51B 

Trabalba para a usurpação miguelista .... 517 

Historia physiea e moral da sua propaganda . 518 

Os absolutistas pedem-lhe moderação 518 

A sua morte foi um golpe decisivo no partido de 

D. Miguel 519 

Expira em 2 de Outubro de 1831 519 

As Memorias para a Vida intima de José Agos- 
tinho 519 

A riqueza do seu vocabulário . ..... 520 

Necessidade da edição das suas obras Completas . 520 

AS TRAGKDIAS PHILOSOPHICA8 

O espirito revolucionário em Portugual. . . ,. 520 
As Tragedias de Voltaire traduzidas e represen- 
tadas pelos estudantes de Coimbra .... 521 
O Theatro é fechado pelo Reitor D. Francisco de 

Lemos 521 

As theses philosophicas das Tragedias de Voltaire 521 
O Romantismo irrompe da crise social de uma nova 

Qdado^ . :...., ., 522. 



c//^rx^/&3^/^^^^ 




^i^S^í^^.