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Historia da Litteratura Portugueza 



FiLINTO ElYSIO 



DISSIDENTES DA ARCÁDIA 



Francisco de Mello Franco, 
José Rasilio da Gama, Frei José de Santa KiU Durão, Alvarenga Peholo, Gonzaga 



THEOPHILO BRAGA 




PORTO 

LIVRARIA CHARDRON 
Casa editora 

SLCCESSORES LELLO & IRMÃO 

1901 



OBRAS COMPLETAS 



Historia da Litteratura Portugueza 



FILINTO ELYSIO 
E OS DISSIDENTES DA ARCÁDIA 



HISTORIA DA LITTERAIORA PORTUGiZA 



EDIÇÃO INTEGRAL 



í Introducção e Theoria da Historia da Littera- 

tura portugueza 

2 Trovadores portuguezes 

3 Amadis de Gaula. 

4 Poetas palacianos 

5 Os Historiadores portuguezes (hieãito) .... 

6 Bernardim Ribeiro e o Bucolismo 

7 Novellas de Cayalleria e Pastoraes (Inédito) . . 

8 Gil Vicente e as origens do Theatro nacional . 
8-A Gil Vicente, sua Eschola e desenvolvimento do 

Theatro nacional. . . . ., 

9 Sá de Miranda e a Eschola italiana 

10 Ferreira e a Plêiada portugueza 

11 A Comedia e a Tragedia clássicas 

12 Vida de Gamões . " 

13 Lyricos camonianos 

14 Epopêas históricas . 

15 Bibliographia camoniana 

16 Os Culteranistas (Inédito) 

17 Épicos seiscentistas (Inédito) 

18 As Tragi comedi as dos Jesuitas 

19 A Arcádia Lusitana 

20 Filinto El y si o e os Dissidentes da Ai-cadia. . . 

21 A baixa Comedia e a Opera 

22 Bocage, vida e época li Iteraria 

23 José Agostinho de Macedo (Inédito) 

24 Garrett e o RomantisniO 

25 Os Dramas românticos 

2i\ Alexandre Herculano 

27 Castilho e os Ultra-Roman ticos 

28 Joào de Deus e o moderno Lyrisnio (hwddo), . 

29 A ICschola de Coimbra . . ' 

30-31 Recapitulação da Historia da Litt. portugueza . 2 

32 índice geral analytico (Inédito) ....... 1 



vol. 



iV. B. Kesta reedição continua-se de preferenciei 
pelos volumes a refundir, e especiahnente pelos que 
estão ainda inéditos. 



Historia da Lilteratura Portugueza 



FiLINTO ElYSIO 



DISSIDENTES DA ARCÁDIA 



Francisco de Mello FraDco, 
Josí Basílio da Gama, Frei José de Santa Hita Durão, Alrarenga Peíioto, Gonzaga 



THEOPHILO BRAGA 




PORTO X 

LIVRARIA CHARDRONI 
Casa editora 

SLCCF.SSORES LELLO & IRMÃO 

1901 

Todos u$ direitos resar^das 



Porto —- Jiiiprensa Moek^iia 



DISSIDENTES DA ARCÁDIA 



Vinte e sete annos de violenta pressão go- 
vernativa do ministro favorito de el rei Dom 
José attingiram o seu termo com a doença e 
morte do monarcha. A queda do Marquez de 
Pombal era esperada com anciedade pelas 
victimas do seu despotismo irresponsável, e 
mais ainda pelos velhos fidalgos que ante- 
viam a herança do poder para o exercerem 
na reacção das suas vinganças e ambições 
pessoaes. E' curiosa, como phenomeno moral, 
a transição de uma para outra época, caracte- 
risada por uma palavra de um pittoresco ple- 
beismo, a viradeira, empregada pelo servi- 
lismo inconsciente do poeta satírico Tolenti- 
no. Em memorias contemporâneas acha-se 
descripta essa transição em que por toda a 
parte irrompeu uma desenfreada vertigem de 
insultos em prosa e verso contra o decahido 
ministro : « Continuou o Marquez o serviço 



6 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

real até á morte de el rei, conservando sempre 
o maior respeito e auctoridade, como não se- 
rá fácil achar exemplo na historia de Portu- 
gal, pelo que se fazia temido de todos ; como 
porém El Rei, sendo accommettido de para- 
lysia (na lingua) ordenasse que elle não en- 
trasse na sua camará^ o que elle até agora 
fazia todas as vezes que ia tratar os negócios 
do reino, os quaes haviam passado para a 
rainha por decreto de 29 de Novembro de 
1776, este acontecimento foi bastante para 
afrouxar e destruir totalmente toda a sua au- 
ctoridade, influencia e respeito ; por tanto, se 
até áquelle tempo se fallava mal de seu go- 
verno era com a maior cautella e segredo, 
porque o Juizo da Inconfidência não estava 
ocioso; agora porém diziam publicamente 
quanto a sua malévola intenção lhe suggeria, 
sendo uns factos verdadeiros, outros adulte- 
rados, outros finalmente destituídos de ra- 
são ; e tanto foi avante esta desenvoltura, que 
apenas faleceu El Rei, appareciam todos os 
dias pela cidade uma quantidade espantosa 
de obras poéticas contra elle, contra as suas 
acções, e envolvendo n'ellas, além dos factos 
criminosos que lhe accumulavam, todos os 
seus parentes, e amigos e ministros a quem 
elle mais beneficiou.» ^ A emphase rhetorica 
que esgotou a litteratura portugueza durante 
esses vinte e sete annos de governo pombalino, 
convertia-se na obscena palinodia, salvando- 
se poucos caracteres d'essa miserável man- 
cha, que se tornou um aspecto do tempo. As 



Gramosa, Successos de Portugal, t. i, p. 93. 



FILINTO ELYSIO 



lettras nada aproveitaram d'essa liberdade 
momentânea ; a estupidez da reacção gover- 
nativa cahiu sobre os homens que pensavam, 
desencadeando-se as perseguições religiosas 
pelos processos da Inquisição, e as persegui- 
ções por causa das ideias politicas com a es- 
pionagem da Intendência geral da Policia, e 
com os processos judiciaes condemnando á 
morte e ao degredo pela rasão de estado. O 
poder de um só déspota com intelligencia foi 
dividido entre imbecis e mesquinhos caracte- 
res, como o Visconde de Villa Nova da Cer- 
veira, o Marquez de Angeja, o Arcebispo 
Confessor, o Intendente Pina Manique. A som- 
ma de desconcertos da sua acção sem plano 
produziu em um ditado popular esta synthe- 
se espontânea do bom senso : Mal idor mal, 
antes o Marquez de Pombal, Só se avaliam 
bem as obras dos poetas e escriptores pela 
sua vida ; mas^sta nunca será bem compre- 
henHMaT sem o conhecimento do meio social, 
da época dentro da qual se desenvolveram, 
ou em que foram comprimidos. Este ultimo 
quartel do século xviii é medonho pela in- 
consciência com que Portugal chegou quasi a 
achar-se alheio aos interesses da civilisação, 
podendo symbolisar-se a sua existência n'essa 
deplorável e prolongada loucura da rainha. 
A litter atura torna-se um documentojhistori- 
co da época, e a vida dos escriptores um elo- 
quente protesto. 



Sob o Rigorismo do reinado de D. Maria I. 
Fundação da Academia das Soiencias 



Foram de uma agitação intensa esses dias 
do falecimento do rei D. José e da suspen- 
são temporária do luto para a festa da ac- 
clamação de sua filha D. Maria i. O que 
aconteceria ao Marquez do Pombal? seria 
castigado pelo seu sanguinário governo? se- 
riam chamados ao poder os fidalgos seus ini- 
migos? Para pintar esta incerteza dos espíri- 
tos, só a penna de um Saint Simon, que sa- 
bia definir as transformações da corrente das 
intrigas da corte. Transcreveremos por isso 
aqui, adaptando-os á situação portugueza, os 
períodos das suas Memorias^ quando descre- 
ve o que succedeu na morte do Delphim, fi- 
lho de Luiz XIV: «E' preciso confessar que, 
para quem anda ao corrente da carta intima 
de uma corte, os primeiros espectáculos de 
acontecimentos raros d'esta natureza são de 



10 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



uma satisfação extrema; cada rosto vos lem- 
bra os cuidados, as intrigas, os esforços em- 
pregados no adiantamento das fortunas, na 
formação, na força das cabalas; as habilida- 
des em se sustentar, em afastar as de outros, 
os meios de toda a espécie postos em pratica 
para este fim; as ligações mais ou menos 
adiantadas, as friezas, os ódios, as más von- 
tades, os manejos, os avanços, as cautellas, 
as delicadezas, as baixezas de cada um, o 
desconcerto de uns no meio de seu caminho, 
ao meio ou no cumulo das suas esperanças ; 
o pasmo d^aquelles que gosavam á farta; o 
pezo de um mesmo golpe dado aos contrários 
e á parcialidade opposta, o poder da mola 
que impelle n^este instante os seus manejos e 
concertos a sairem-lhe bem ; a satisfação extre- 
ma e inesperada de uns, a raiva que com isso 
têm outros, os seus embaraços e despeito em 
occultal-o, a promptidão dos olhos em vaguea- 
rem por toda a parte sondando as almas com 
a ajuda d'esta primeira perturbação da sur- 
preza e do desarranjo súbito, a combinação 
de tudo o que alli se observa, o espanto de 
não achar o que se havia acreditado de uns 
por falta de coração ou de bastante espirito 
n'elles e mais em outros do que se não pen- 
sara; todo este amalgama de objectos vivos e 
de cousas tão importantes, forma um prazer 
para quem o sabe apreciar, que apesar de se 
tornar frivolo, é um dos maiores que se pode 
gosar em uma corte.» Esta observação do du- 
que j)alaciano, á falta de memorias secretas, 
dá-nos ideia da corte portugueza, quando os 
servidores de Pombal tiveram de ceder o pas- 
so á camarilha despeitada, que se apoderou 



FILINTO ELYSIO XI 



de D. Maria i. Temos porém documentos de 
uma ordem especial com todos os traços rea- 
listas ou pittorescos da liberdade poética, no 
sentido mais amplo doesta phrase, em uma al- 
luvião enorme de versos satíricos com que foi 
atacado, deprimido, ultrajado o Marquez de 
Pombal e todos os seus favoritos. ^ N^esses 
versos ha verdadeiros primores artísticos; 
obras em grande parte anonymas, algumas 
d'ellas assignadas pelos poetas mais sarcásti- 
cos da época, como António Lobo de Carvalho 



^ Este aspecto histórico da época impõe-se aos 
que estudara a Historia de Portugal no fim do século 
xviii; eis como Latino Coelho o apprecia : 

« O estro dos poetas desentranhava-se inexhausto 
em odientas imprecações ou chistes e apodos contra o 
velho ministro, a quem a dicacidade asseteara com os 
farpões da sátira politica, em quanto se não apparelha- 
va contra elle a perseguição e a vingança, em nome da 
justiça criminal. A musa culta e a rude inspiração an- 
davam á competência sobre qual seria mais affrontosa 
ou mais cruel contra o marquez. Umas vezes era o So- 
neto artisticamente cinzelado, em que Pombal era dado 
como sócio dos Neros e Caligulas. Outras vezes nar- 
ravam-se no laconismo do grosseiro tetradecastichon 
as malfeitorias que o ódio popular, e principalmente o 
das classes privilegiadas, recontava do severo legisla- 
dor. Após uma série de cruéis execrações, a composi- 
ção poética cerrava-se não raro com a chave de oiro de 
uma sentença capital, que os vates impetravam da real 
justiça contra o que era geralmente capitulado pelo mi- 
nistro prevaricador. E de facto, uma das principaes 
accusações contra Pombal era a de haver abusado dos 
seus altos officios e da sua poderosa auctoridade para 
locupletar-se e enriquecer aos que haviam grangeado 
o seu favor. As poesias burlescas e satíricas vibravam 
esta corda predilecta, que em todos os tempos tem si- 
do a mais fácil e bem soante á calumnia e diffamação 
contra os grandes homens decahidos do poder. Muitas 



12 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

OU Nicoláo Tolentino; em todas essas composi- 
ções ha um traço moral que dá vida á crise 
histórica. O excesso da efflorescencia critica 
difficulta a escolha ; nem por isso deixaremos 
de empregar essas tintas de flagrante reali- 
dade. Quando muitos esperavam que a Rai- 
nha mandasse metter em processo o Marquez 
do Pombal, foi grande a surpreza de verem 
que pelo decreto de 3 de Março de 1777 se 
lhe acceitava a demissão do real serviço con- 
cedendo-lhe licença «para poder retirar-se á 



vezes o poeta figurava o Marquez reprehendendo-se 
acerbamente e penitenciando-se contricto em grave ou 
faceto solilóquio, se não era que o estro maligno dos 
poetas odientos preferia dar-lhe por interlocutor o es- 
pirito das trevas. Fingia-se em algumas doestas sátiras, 
que o Marquez era chamado perante um inexorável 
tribunal e lhe era comminada em termos severos ou 
burlescos a pena de suas extorsões e maleficios. O li- 
bello popular, sedento de vingança tomava todas as 
formas, já em coplas e sonetos mais ou menos aprimo- 
rados, já em prosa nem sempre correcta e exemplar. 
Eram vulgares os poemas, em que se paraphraseava 
em ódio ao marquez a Oração dominical, e sacrilega- 
mente se parodiavam em nome do rancor politico as 
palavras sacrosantas, em que Jesus Christo ensinava 
o perdão das injurias e dos aggravos. Abundavam os 
epitaphios satíricos á memoria de Pombal. — Em al- 
guns dos poemas era visivel o selo jesuítico. A^s mal- 
dições lançadas contra o Marquez, associava-se o pane- 
gyrico dos Jesuítas e a apotheose do Bispo de Coimbra, 
a imagem perfeita da reacção religiosa. Era tão extra- 
ordinária a saffra de poesias anti-pombalinas, e tão 
obrigados se julgavam os engenhos mais humildes a 
despejar a aljava contra o alvo perpetuo da nobreza, 
da cleresia e do vulgacho, que algumas composições de 
aquelle tempo reprehendem a sobejidão e a insânia dos 
vingativos poetastros.» Latino Coelho, Historia poli- 
tica e militar de Portugal^ t. i, p. 161. 



FILINTO ELYSIO 18 



sua quinta de Pombal.» Um soneto satírico 
pôz em relevo esta situação benigna. ^ 

A impressão de alegria pela libertação 
d'esse férreo jugo do ministro, apparece em 
cartas particulares do tempo: « Lisboa parece 
outro mundo; é incrível a mudança; é a sce- 
na a mais cómica ...» Vem em uma carta jun- 
ta ao processo de José Anastácio da Cunha. 
Nos versos acha-se também esse ecco. ^ As 



1 



Demitiu do serviço a Magestade 

Esse Marquez, assombro de tyrannos, 
Pondo termo do reyno a tantos damnos, 
Com prudência, politica e piedade. 

Castigar perdoando a iniquidade, 
E' grandeza dos sábios soberanos, 
Dispender beneficios por enganos 
Só para confusão da atrocidade. 

Se elle foi da ambição monstro insolente, 
Se tão pobre deixou o povo afflicto. 
Se tantos encarcerou injustamente; 

Que castigo maior n^este conflicto 
Que desterrar da graça o delinquente. 
Para o fazer pensar no seu delicto ! 

Do antigo cativeiro os grilhões duros 
Pelas benignas mãos despedaçados, 
No tempo do resgate pendurados 
Faliam por nós aos séculos futuros : 

Ensinam que o Governo tem mais puros 
Quilates do que o ouro dos estados ! 
Oh, quantos, sendo máos foram culpados 
De se crearem corações prejuros! 

Dos cárceres e torres vem surgindo 
Innocentes ovelhas, que ao raivoso 
Lobo escaparam, que ficou latindo. 

Lysia feliz, no jugo vergonhoso 
Já não gemes, o colo sacudindo 
Torna ao perdido tempo venturoso. 



14 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

parodias das orações religiosas serviam de 
molde ás sátiras as mais virulentas. O predo- 
mínio de D. Pedro iii, tio e marido da rainha, 
a glorificação do bispo de Coimbra D. Miguel 
da Annunciação, e dos Meninos de Palhavã, 
D. José e D. António, fazem-se públicos em 
tom prophetico, proclamando a queda de Se- 
bastião asseteado, do bom ladrão Mansilha, 
geral dos Bernardos, e do bispo de Beja Dom 
Frei Manoel do Cenáculo: 



Jesus Christo deu a Pedro 
Sua Egreja a governar; 
Outro Pedro escolhe agora 
Para haver de a exaltar. 

Sahirá Miguel com espada 
Para também o ajudar; 
Quem como a Deus, tem seu nome 
De tudo hade triumphar. 

Virá para o seu bispado 
As lagrimas enxugar, 
Das ovelhas que por elle 
Inda estão a suspirar. 

José virá do desterro, 
Seu officio exercitar ; 
Que a Inquisição sem elle 
Estava para acabar. 

Desterrarão muitos erros. 
Que a adulação fez brotar ; 
Os máos livros irão fora 
Para a fé se conservar. 

A Anto7iio certamente 
Deus hade também premiar 
Os trabalhos que padece 
Pela verdade affirm-ar. 



FILINTO ELYSIO 15 



Um ducado lhe é devido, 
E não se lhe hade negar, 
Cuido será o de Aveiro, 
Por ser de sangue real. 

Sebastião terá settas 
Que o povo lhe hade atirar, 
E inda que morra martyr. 
Se não ha d'elle resar. 

Também ao do Carrocim 
A roda hade desandar, 
Mandado para a Palmella, 
Para lá a vida acabar. 

S. Bernardo d'esta vez 
Também entra a governar; 
Mandando certo Mendonça 
Para Roma a confessar; 

Inda^que seja absolvido 
Se hade crucificar, 
E morrerá Bom Ladrão, 
Quem ao máo sabe imitar. 

Na sua campa ou sepulchro 
Se lhe porá por signal : 
Porque jogou com senhoras. 
Ficou vencido o Geral. 

S. Francisco é grande Santo, 
E da corte hade tirar 
Ao senhor Bispo de Beja 
Para sé poder salvar. . 

No Cenáculo esteve Judas, 
Não se soube aproveitar; 
Olhe o Cenáculo também 
Não o vá acompanhar. 

S. Francisco disse a Pedro 
Governasse a sua Egreja; 
Outro Pedro agora escolhe 
Para que exaltada seja. 



16 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Por Maria mãe de Deus, 
Foi nossa dita segura, 
De outra Maria se espera 
Felicidade e ventura. ^ 



Em um Soneto inédito da época da accla- 
mação de D. Maria i, allude-se a queda dos 
favoritos pombalistas e ao levantamento da 
abatida fidalguia : 

Ruins vilões ha pouco antes piolhosos. 
Recto o publico pune, e sem que as alvas 
Virtudes manche de heroes famosos. 

Pois honra exalta aos inclytos Penalvas, 
Sábios Limas, Valenças generosos. 
Fortes AngejaSj grandes Marialvas, ^ 

W d'entre esta gente longo tempo oppri- 
mida, despeitada e ávida, que sáe o novo 
governo, que hade empunhar a clava hercú- 
lea cahida da praguejada mão, como diz To- 
lentino em um dos seus sonetos da ignóbil 
viradeira. Um Epigramma conceituoso pinta 
em traços rápidos as figuras do novo minis- 
tério, com o seu caracter próprio, embaraçan- 
do-se todos pelas hesitações da incapacidade 
mental: 

Um negocio se propõe ; 
Duvida ELRey meu Senhor; 
Atrapalha o Confessor, 
Rainha nada dispõe. 
Angeja a pagar se oppõe. 



^ Collecção dos Mss. da Academia. 
2 Poesias varias, ms. vol. ii, p. 2. 



FILINTO ELYSIO 17 



Martinho marra esturrado, 
Ayres não passa de honrado, 
E o Visconde, em conclusão, 
Pede nova informação. 
Fica o negocio empatado. 

N'este mesmo e&pirito epigrammatico en- 
contrámos outra Decima comprovando os re- 
tratos d^essas figuras bysantinas : 

O Marquez todo é manhoso, 
Ayres só não se affoita, 
O Martinho está na Moita, 
O alparca engenhoso, 
A Rainha toda é fé ; 
El Rey^ se sabe o que é, 
E em quadratura tal 
Que será de Portugal, 
Se o Leão lhe põe o pé? * 

A Rainha compartilhava o governo com 
•seu tio e marido, que assignava com o titulo 
de D. Pedro iii; a intelligencia apagada do 
soberano condizia com a figura grotesca, que 
o viajante Costigan, fallando da sociedade e 
dos costumes portuguezes, descrevia sob o 
aspecto de um inglez embriagado. A estupi- 
dez levava-o á apathia, occupando o tempo 
em festas rehgiosas e em resas de devoção 
pessoal. Tendo vivido no longo governo de 
Pombal em uma suspeição reservada, as fa- 
mihas que se acercaram da corte viam n'elle 
o seu ponto de apoio, e a reacção fanática 
uma certa garantia. D. Pedro iii assistia ao 
conselho, mas não percebia as questões, e 



^ Poesias varias j t. vui, p. 218. (Mihi.) 



18 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

para resalvar os seus escrúpulos, tinha sem- 
pre na bocca como remate de todos os argu- 
mentos: Eu, cá, não vou para ahil 

Depois do rei, seguia-se na importância o 
Confessor da Rainha, Frei Ignacio de San 
Caetano, Arcebispo de Thessalonica e Inqui- 
sidor Geral, que se tornou omnipotente no 
governo, sendo por um decreto nomeado mi- 
nistro assistente ao Desi3acho do Gabinete; e 
n^esse documento se lê : « Ordeno outrosim 
que por elle se expeçam as ordens que eu for 
servida encarregar-lhe.» Estava-se na corren- 
te do fanatismo; a rainha caminhava para a 
loucura e idiotia em que se afundou, e a so- 
ciedade portugueza avergava-se sob o chama- 
do rigorismo, ou extirpação de todas as ideias 
philosoi)hicas, que poderiam perturbar as con- 
sciências. Frei Ignacio de S. Caetano fora pri- 
meiramente soldado em um regimento de Cha- 
ves, e repugnando-lhe a vida militar, fugiu 
para Salamanca para ahi frequentar a theo- 
logia ; os irmãos o foram buscar, e o pae re- 
conhecendo-lhe a vocação claustral, permittiu 
que entrasse para a ordem dos Carmelitas 
Descalços. Pelo caminho da abnegação e da 
humildade é que Fr. Ignacio chegara em 1759 
a ser escolhido para Confessor da Princeza 
do Brasil e das Infantas suas irmãs. O minis- 
tro omnipotente achou-o sufficientemente acco- 
modaticio, no meio das grandes luctas que 
teve com a Cúria romana, e também o nomeou 
vogal da Mesa Censória para o exame dos li- 
vros que poderiam ser vendidos, lidos ou im- 
pressos. Nomeado bispo de Penafiel em 1770, 
renunciou a esse encargo depois da morte de 
Dom José, sendo reconduzido Arcebispo de 



FILINTO ELYSIO 19 



Thessalonica para ficar junto da Rainha como 
seu director espiritual. Foi talvez pela influen- 
cia doeste Confessor que D. Maria i não obede- 
ceu á corrente dos inimigos do Marquez de 
Pombal, exigindo que fosse levado ao cada- 
falso. O carmelita grosseiro mas ingénuo tor- 
nou-se uma potencia diante de quem se curva- 
vam todos os ministros. Lord Beckford, nas 
suas Cartas deixou retratos vivíssimos da corte 
de D. Maria i; em accentuadas linhas esboça a 
figura d'este alentado personagem ; « O Arce- 
bispo-Confessor de sua magestade ostentava 
n'uma das sacadas o seu volumoso vulto : da 
classe de homens rústicos, este personagem 
agora muito importante, veiu a ser soldado 
raso, d'ahi passou a cabo de esquadra, de ca- 
bo de esquadra a frade, e n^esta ultima pro- 
fissão deu tantas provas de tolerância e bom 
génio, que o Marquez de Pombal topando 
com elle por uma das qualidades que se es- 
quivam a todos os cálculos, julgou-o sufficien- 
temente astuto e jovial e ignorante para fa- 
zel-o innoxio e accommodado Confessor de 
sua magestade, então Princeza do Brasil; 
pela accessão doesta senhora ao throno foi 
despachado Arcebispo in partibus e Inquisi- 
dor-mór ; é a primeira mola do actual gover- 
no portuguez. Nunca vi um sujeito mais ob- 
stinado e obtuso : parece ungir-se com o óleo 
do contentamento, folgar e engordar a de- 
speito da critica situação dos negócios doeste 
reino.» ^ Beckford chegou a ser recebido pelo 
Arcebispo-Confessor, e admittido como signal 



Carta VIII. (Trad. Panorama.) 



20 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



de uma distincção especialíssima á sua mesa ; o 
lord descreve com graça este jantar significa- 
tivo do politico Gargantua: «Entrou o leigo 
com três leitões assados, n'uma bandeja enor- 
me de prata, e com uma torta de correspon- 
dentes dimensões ; estes pratos nunca variam, 
e tal é sempre o jantar do Arcebispo, salvo 
nos dias de magro. Porém, a simplicidade da 
primeira coberta foi resgatada pela profusão 
das sobremezas, que eni variedades de frutas 
e doces nada podia egualar. Em vinhos não 
fallemos, eram delicados e escolhidos, tributo 
de todos os domínios portuguezes á mesa de 
sua Reverendíssima : a Companhia, do Porto, 
que então sollicitava a renovação de seus pri- 
vilégios, contribuía com a flor das suas co- 
lheitas ...» ^ Entre as açafatas da rainha 
dava o Arcebispo-Confessor largas aos seus 
arrobos mysticos ; o próprio Beckford deixou 
este traço malicioso da physionomia do muito 
poderoso prelado: « Disseram-me que o Con- 
fessor, ainda que um tanto adiantado na car- 
reira dos annos, está longe de ser insensível 
aos" engodos da belleza, e segue de janella em 
janella as nymphas moças do paço com jovial 
alacridade.»'^ Era entre as açafatas que se 
cultivava a mvisica das Modinhas desenvol- 
tas, que tanto impressionavam os viajantes 
estrangeiros. 

Depois do Arcebispo-Confessor seguia-se 
no governo o ministro dos negócios do reino 
o Visconde de Villa Nova da Cerveira, fi- 



1 Carta XXL 

2 Carta X. 



FILINTO ELYSIO 21 



lho de uma victima do Marquez de Pombal 
muitos annos presa em cárcere duro no cas- 
tello da Foz. Imagine-se como elle hasteava 
altivo o estandarte da reacção; mas era dota- 
do de uma insondável mediocridade, abonada 
com um fervor de devoção religiosa e exces- 
siva paixão pelas matérias theologicas. Acha- 
va-se em harmonia com o estado mental do 
Arcebispo-Confessor, e desculpava-se no pu- 
blico a sua incapacidade para cousas de go- 
verno allegando-se a sua honradez e affabili- 
dade de trato. Contra este desinteresse escre- 
ve um historiador consciencioso: «Os factos 
não respondem porém á sua preconisada ab- 
negação. Logo nos primeiros mezes de seu 
longo ministério fazia expedir pela sua repar- 
tição, além do titulo, a mercê de uma tença 
de quinhentos mil reis para seu filho primo- 
génito, invocando como pretexto doesta graça 
os serviços de sua tia D. Victoria Isabel Xa- 
vier de Lima, como dama da rainha mãe.» ^ 
Era vingativo contra os pombalistas, como 
manifestou no procedimento contra o bispo- 
conde D. Francisco de Lemos e Fr. Joaquim 
de Santa Clara; sendo de uma acção froixa e 
inconsequente, a sua passagem no poder foi 
inexplicavelmente prolongada. Nos versos sa- 
tíricos da época acham-se traços inolvidáveis 
do Visconde. 

António Lobo de Carvalho, o mais terrível 
dos poetas satíricos do século xviii, que cele- 



^ Latino Coelho, Historia politica e militar de 
Portugal, i, 196. (Decretos de 1777, no Archivo do 
Min. do Reino.) 



22 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



brou em virulentos Sonetos a queda do Mar- 
quez de Pombal, não poupou os fidalgos que 
formaram o novo governo sob D. Maria i; tran- 
screvemos esse escorso tirado do natural: Re- 
trato do Visconde de Villa Nova da Cervei- 
ra^ Secretario d^ Estado : 

Os olhos vesgos, a cabeça torta. 
Mil tregeitos fazendo a cada instante, 
Por entre as partes cavalleiro andante, 
Dando a todos respostas d'Inez d^Horta; 

Sempre em ár de parlenga, mosca morta. 
Que não vae para traz nem para diante. 
Sábio nos ossos, mas emfim pedante. 
Tão rombo como faca que não corta; 

Com as contas na mão, missa e mais missa. 
Joelho em terra a todo o relicário. 
Mas cahindo a pedaços de priguiça; 

Este é um dos do nosso kalendario, 
Que os despachos do Reino nos enguiça. 
Este o torto Visconde Secretario. * 

Gramosa nas suas Memorias Successos de 
Portugal, > f aliando de uma lei af)presentada 
por este ministro para Bem, melhoramentos e 
dignidade civil e politica das três Ordens mi- 
litares, escreve: « Esta lei urdida e inventada 
pela pueril e ambiciosa vaidade do Visconde 
de Villa Nova da Cerveira, teve por objecto 



^ Ms. de Poesias varias, vol. ii, p. 806, assigna- 
do por Francisco Xavier Lobo ; mas Innocencio tral-o 
na collecção que imprimiu sob o nome de António Lobo 
de Carvalho, Poesias joviaes e satir^icas, p. 109. Ms. 
da Bibl. nac, fl. 3 t (anonymo). 



FILINTO ELYSIO 23 



condecorar a primeira Nobreza do reino com 
o distinctivo de Grão-Cruzes, enxerindo sobre 
a Cruz ou insignia d.'ellas e chapa o Coração 
de Jesus, lisongeando por este modo a rainha 
pela grande devoção que a mesma senhora 
professava ao sobredito Coração de Jesus, e 
em cujo obsequio tinha edificado o Convento 
da Estrella; estendendo-se o privilegio da cha- 
pa sobredita aos Commendadores, com exclu- 
siva porém dos Cavalleiros, que podiam usar 
da chapa, mas sem o distinctivo do Coração.» 
(ii, 91.) Assim se dispendia a acção governa- 
tiva. 

No ministério e no quadro epigrammatico 
segue-se o Marquez de Angeja, que pela cor- 
tezania bajulatoria se fizera valer na intimi- 
dade de D. Pedro e da rainha sua esposa: 
Presidente do Eeal Erário, fazia-se notar pelo 
rigor da economia das despezas publicas, com 
excepção dos «numerosos parciaes, muitos 
d^elles conjunctos e parentes por sangue ou 
alhança. O próprio Marquez de Angeja não 
escapava á nota de approveitar a própria con- 
junctura para accrescentar a sua casa e opu- 
lentar a sua familia.» ^ O Marquez de Angeja 
era um velho obeso de sessenta e seis annos, 
sem pratica de governo, e por isso um egoista 
e um irresoluto. Contra a sua administração 
financeira corriam varias sátiras, servindo de 
amostra este soneto anonymo : 



^ Latino Coelho, iby p. 191. Cita o Aviso régio de 
12 de Março de 1777, mandando entregar ao Marquez 
de Valença os rendimentos de varias commendas su- 
periores a vinte mil cruzados. 



24 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Que seja este ou aquelle o governante 
Na ausência do Marquez, nada me importa ; 
Seja elle Salomão ou Inez d^Orta, 
Traga ao Povo alívios abundantes. 

Seja no bem, na fé muito constante, 
Não traga a gente na pobreza morta, 
Deixe-lhe para o bem aberta a porta. 
Não queira as mãos fechadas do Reinante. 

Tenha temor a Deus como é devido, 
Não seja cavilloso e interesseiro. 
Ignorante, soberbo e mal soffrido ; 

Emfim, para haver gosto verdadeiro, 

N^este novo governo apetecido 

Hajam menos pensões e mais dinheiro. * 

Martinho de Mello e Castro, ministro e se- 
cretario dos negócios da marinha e dominios 
ultramarinos, tinha já servido no governo do 
Marquez de Pombal, na vaga deixada pelo 
falecimento de Francisco Xavier de Mendonça 
em 1770. Era o homem de mais valor do mi- 
nistério, apesar de ter cursado os estudos phi- 
losophicos na Universidade jesuítica de Évo- 
ra, quando se dedicava ao estado ecclesias- 
tico, que não proseguiu ; ficou-lhe comtudo a 
prega da argumentação syllogistica e discur- 
siva a que dava largas nos seus extensos re- 
latórios. A sua emulação secreta com Pombal 
foi a causa da chamada para o novo governo, 
onde se mostrou o mais servil admirador da 
acção da Inglaterra. Era activo e severo no 
meio de uma immensa vaidade; do seu des- 
interesse escreve Latino Coelho : « A abnega- 



Poesias varias, Ms., t. ii, p. 310. 



FILINTO ELYSIO 25 



ção do ministro da marinha não era porém 
tão intemerata, que se não deixasse contagiar 
pelos exemplos dos seus collegas em o novo 
ministério. . . Logo nos primeiros dias do go- 
verno da rainha recebia Martinho de Mello a 
mercê lucrativa de secretario do Estado e Ca- 
sa de Bragança.» (Ib., i, 207.) Seu irmão 
Manoel Bernardo de Mello, governador das 
armas no Alemtejo, por decreto de 8 de agos- 
to de 1777 era nomeado Visconde da Louri- 
nhã com o senhorio doesta villa, e mais a Al- 
caidaria-mór de Sernancelhe, uma Commenda 
da Ordem de Christo e uma pensão de oito- 
centos mil reis para sua mulher. 

Do gabinete de Pombal também passou 
para o novo 'governo Ayres de Sá e Mello, 
antigo ministro dos negócios estrangeiros e 
da guerra, de quem o marquez se servira como 
um inconsciente instrumento. O irlandez Cos- 
tigan faz o retrato doeste honrado ministro, 
que não renegou o Marquez de Pombal ; « de- 
screve-nos o modesto secretario de estado dos 
negócios estrangeiros e da guerra assistindo 
com devota compostura a uma solemnidade 
religiosa na capella da Ajuda, attento ao seu 
livro de orações, piedosamente absorto na lei- 
tura, persignando-se e benzendo-se com fre- 
quência demasiada. Ainda que investido no 
officio de ministro dos negócios da guerra, 
ninguém (acrescentava o malicioso viajante) 
lhe fazia a injustiça de o suppôr mais compe- 
tente na arte militar do que em outra profis- 
são que não fosse o accompanhar procissões 
e beijar o escapulário a quantos monges des- 
alinhados encontrava no caminho. Os que na 
corte eram mais facetos e dicazes, affirmavam 



26 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

que ao mystico Ayres de Sá antes convinha 
uma cadeira de monsenhor na quadratura da 
egreja patriarchal do que um assento raso 
nos Conselhos da rainha. A sua notória devo- 
ção e o profundo acatamento que votava ao 
estado clerical, não eram bastantes para lhe 
conciliar o favor dos jesuítas, que depois de 
principiada a reacção se obstinavam a nume- 
ral-o entre os adeptos de Pombal. ^> ^ Não 
admira que um dos primeiros actos da sua 
gerência fosse o de regular as resas da tropa, 
indicando o terço do rosário, e recommen- 
dando aos officiaes mais demora n'este acto 
piedoso ; ao mesmo tempo em outro aviso ré- 
gio mandou regular as honras militares que 
se deveriam prestar aos bispos e arcebispos. 
Pelo seu lado o Visconde de Villa Nova leva- 
va á assignatura da rainha um alvará conce- 
dendo o tratamento de senhoria ás açafatas 
da camará. O leigo Fr. Bernardo do Monte 
do Carmo, creado do Arcebispo-Confessor, 
que era a alma do ministério, resumia em pou- 
cas palavras a situação da corte portugueza 
n'este fim do século xviii : « três castas de 
pessoas encontram mais fácil entrada n'este 
palácio : homens de superior talento, bobos e 
santos ; os primeiros, cedo se desgostam da 
habilidade que possuem ; os santos vêm a ser 
martyres, e só os bobos prosperam.» " Os sá- 
bios eram perseguidos pela Inquisição ou se 



1 Latino, ih.j p. 208. Cita vários despachos diplo- 
máticos de Blosset e do Abb. Garnier. 

2 Colhido por Beckford na conversa com o dito 
leigo e com a acquiescencia do Arcebispo-Confessor. 



FILINTO ELYSIO 27 



homisiavam de Portugal, como vemos em Jo- 
sé Anastácio da Cunha e Filinto Elysio; os 
honestos eram intrigados ; para viver em 
um tal meio idiotico em que tudo se fazia pelo 
favoritismo pessoal, era preciso ter um gran- 
de estigma de bobice. Os principaes fidalgos, 
os Marialvas, o conde de San Lourenço, Pe- 
nalva, o conde dç San Vicente, agora domi- 
nantes, appresentavam nas suas excentricida- 
des características essa feição que o leigo 
apontava como condição para prosperar na 
corte. Os retratos que Beckford faz doestes 
illustres fidalgos não ficam menos distinctos 
com colorido grotesco ante o do celebre bo- 
bo do paço Dom João da Falperra, que an- 
dava á solta por todas as salas regias arreia- 
do com penduricalhos representativos das Or- 
dens nobiliarchicas portuguezas, ^ cuja digni- 
dade civil o Visconde tentou regulamentar, 
com chapa e coração. Este vento de insânia 
communicara-se da corte ao povo, incitado 
para reclamar em alaridos que fosse apeado 
o medalhão de bronze do Marquez de Pom- 
bal, que o Senado de Lisboa mandara collo- 
car na frente do pedestal da Estatua equestre. 
Gramosa descreve essa manifestação popular: 
«Três dias se conservou n'aquelle sitio uma 
grande quantidade do referido povo claman- 
do pelo dito arranco, atirando-lhe com pedras 
e hmiiiindicies. Do que de tudo dando-se par- 
te a rainha D. Maria i, determinou a mesma 
senhora, que se tirasse o dito busto, e que 
em seu logar se fixasse uma tarja também de 



1 Beckford, Carta XXL 



28 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



bronze com as armas da cidade de Lisboa . . . 
o que assim se executou promptamente com o 
que cessou o ajuntamento e as injurias que 
lhe irrogavam.» ^ Sobre este destempero vul- 
garisou-se um Epigramma anonymo, com des- 
dém sarcástico : 

No bronze está retratada 
A carranca do Marquez, 
Porém ella doesta vez 
Foi mui bem apedrejada : 
Por parecer já condemnada 
Todo o povo lhe quer mal ; 
Mas, imprudência fatal, 
Vendo estou n^esta canalha 
Partirem contra a medalha 
Havendo inda o original. ^ 

As armas da cidade de Lisboa constam de 
um galeão; quando disseram ao Marquez de 
Pombal que por ellas tinha sido substituído o 
seu medalhão, disse com prophetica ironia : 
«Agora e que Portugal vae á vela.y> Tal foi a 
marcha de decadência a que o governo arras- 
tou esta pobre nacionalidade. Sob a acção po- 
tente de Pombal do mais inquebrantável rega- 
lismo, submettendo á lei civil as ambições cle- 
ricaes, espalhou-se o anexim vulgar: Da In- 
quisição para o Rei não vae lei. Agora sob o 
governo do ministério beato que cercava a fa- 
nática rainha D. Maria i, a Inquisição retomou 
a sua antiga ferocidade como um poder do es- 
tado. O terror das denuncias ao Santo Officio, 
e das visitas dos Familiares, que eram os prin- 
cipaes membros da nobreza que se orgulha- 



* Successos de Portugal^ i, 249. 

2 Ms. da Academia, G. 5; E. 23; n.« 38. 



FILINTO ELYSIO 29 



vam do papel de esbirros do execrando tribu- 
nal, deu logar a um outro anexim popular, em 
que esses dois poderes se equilibram: «Com 
o Rei e a Inquisição . . . Ghitão! yy Esta inter- 
jeição impositiva de silencio cauteloso, expri- 
mia o confisco dos bens dos sentenciados, e a 
fogueira na praça do Rocio. Agora não eram 
as denuncias de judaisante que davam matéria 
prima aos processos secretos, eram as ideias, 
o philosophisino, contra o qual era só por si 
impotente a Real Mesa Censória para o exame 
e censura dos livros, creada por lei de 5 de 
abril de 1768. Sobre a Índole e intuito d'esta 
instituição . escreve Gramosa, nas Memorias: 
«Introduziram-se por este tempo em Portugal 
as obras de. . . Rousseau, de Voltaire e dé ou- 
tros dos seus sequazes, cujas opiniões arrisca- 
das e libertinas, mascaradas com o Evangelho 
inculcavam a liberdade, e a indifferença nas 
matérias da Fé, e da religião; doctrinas abra- 
çadas pelos Philosophos modernos, que se 
denominavam Espiritos fortes, e illuinina- 
dos, e que se jactam que só elles sabem ser 
christãos ; e na verdade abomináveis, e tanto 
mais perniciosos, quanto mais disfarçados e 
encobertos.» ^ Contra esta corrente das ideias 
era urgente um extremo rigo7nsmo ; não admi- 
ra que o omnipotente Arcebispo-Confessor, 
que era Censor régio extraordinário da Real 
Mesa Censória, que «o encarregava continua- 
mente dos negócios mais árduos e complica- 
dos com as matérias da religião » procurasse 
nos processos da Inquisição o meio de extir- 



Successos de Portugal, ii, p. 76. 



30 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



par a philosophia moderna. N'este espirito se 
proclamava no preambulo do alvará de 21 
de junho de 1787, que reformou a Mesa Cen- 
sória: «que a Igreja somente pertencia o po- 
der de declarar e definir o dogma e a doutri- 
na, e consequentemente o direito de conde- 
mnar os livros prejudiciaes oii suspeitosos á 
religião ...» Logo no anno de 1778 começa- 
ram os processos da Inquisição contra o insi- 
gne mathematico José Anastácio da Cunha, 
lente da Universidade de Coimbra, contra 
João Manoel de Abreu e Manoel do Espirito 
Santo Lima, que foram lentes distinctissimos 
da Academia de Marinha. Sobre estas prisões 
escreveu o sarcástico Lobo um soneto: 

Aos Philosophos de caldo de unto e broa que sahiram 
da Inquisição em 1778 : 

Que sectários nutrisse a antiga Roma, 
Verdugos capitães da tenra Egreja; 
Que enxugue Londres rios de cerveja, 
Que venda o bacalhau, que a carne coma ; 

Que um sepulchro flammante ao seu Mafoma 
Façam turcos e mouros, vá que seja; 
Tem Turquia algodão, que lhe sobeja, 
Cera a Mourama, que isso tem de somma ; 

Mas, que de Portugal livres-pedreiros 
Que á fé christã abrissem o jazigo 
No sórdido paiz dos sardinheiros ! 

É caso raro : cheguem-se ao castigo. 
Que a maior pena para os taes broeiros 
Era obrigal-os a comerem trigo. ^ 



* Poesias joviaes e satíricas de António Lobo de 
Carvalho, p. 67. — No Ms. 88 da Acad. das Sciencias, 
traz a rubrica : A tropa de hereges galegos que foram 
processados em Outubro passado na sala da Inquisição, 



FILINTO ELYSIO 31 



Por esta mesma occasião fugia ás garras 
do Santo Officio, em 4 de julho de 1778, o 
poeta Francisco Manoel do Nascimento (Fi- 
tinto Elysio) quando o ia prender o conde 
de Eesende. A violência do rigorismo conti- 
nuava-se com a prisão de Francisco de Mello 
Franco, auctor do Reino da Estupidez, e do 
poeta António de Sousa Caldas. Como de um 
paiz de bárbaros, fugia de Portugal Félix de 
Avellar, que se immortalisou com o nome de 
Brotero ; teve de exilar-se mais tarde o exí- 
mio naturalista José Correia da Serra, e ainda 
sob a mesma pressão, quasi ao findar do sé- 
culo o sapiente Silvestre Pinheiro Ferreira. 
Sobre este regimen do rigorismo escreve um 
outro foragido de Portugal, o afamado Abba- 
de Costa, o amigo de Gluck, nos seus últimos 
dias de residência em Vienna de Áustria, para 
um amigo do Porto em data de 7 de Outubro 
de 1780: «V. M. se vá regalando com essas 
beatices que, quando parece que vão a extin- 
guir-se em Portugal, revivem com íuais força 
e mais descaramento ; não lhe farei nenhuma 
das minhas pregações n'esta matéria que tanto 
me convida a isso ; ...» ^ Na Carta xii, de 29 de 
julho de 1780, escreve ainda o singular mu- 
sico portuguez: «V. M. se regale com essas 
hypocrisias descaradas ; também cá ha d'isso, 
mas que differença, meu Deus ! V. M. me creia, 
que em comparação das nossas não no pare- 
cem.» O rigorismo não se exercia somente 
contra as ideias por causa da religião; o po- 
der real também fazia listas de proscripção de 



Carta XIII, p. 79. Porto, 1879. 



82 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



livros por causa das ideias politicas, sendo 
alguns d'esses livros queimados na praça pu- 
blica pela mão do carrasco pela acção da 
Intendência geral da Policia da Corte e Rei- 
no, que Pina Manique converteu em uma ter- 
rível Inquisição do Estado. ^ 

Toda a acção governativa do Marquez de 
Pombal era attribuida á posse secreta das 
Obras de Macchiavelli, A moderna insurrei- 
ção dos espíritos, ou criticismo, na Mesa Cen- 
sória era attribuida a Descartes: «Antes de 
Descartes vir ao mundo, todos os povos da 
Europa, todos os homens educados no grémio 
do christianismo seguiam aquella Religião que 
seus pães ou seus pastores lhes ensinaram. 
— Veiu Descartes estabelecer na sua Philoso- 
phia este espirito de duvida e de exame sobre 
todas as ideias e opiniões desde a infância 
recebidas, e d'aqui se seguiu uma grande re- 
volução, não só na Philosophia e mais nas 
sciencias humanas, mas também na mesma 
religião revelada. — Tal é o Deismo, o Natu- 
ralismo, e o Materialismo, que depois de 
Descartes tem inundado a Europa e talvez o 
mundo todo, cujo primeiro principio é : Des- 
amparar as ideias recebidas dos homens, e 
seguir as ideias de um espirito creador.» "^ A 



* Ao sombrio fanatismo d^esses primeiros annos 
do reinado de D. Maria i, é que se pode attribuir o ca- 
samento clandestino da rainha viuva D. Marianna Vic- 
toria de Áustria com o cirurgião algebrista António de 
Carvalho Quiroga. ( Papeis do genealogista Feo.) 

^ Papeis da Mesa Censória. (Historia da Uiiiver- 
sidade de Coimbra, t. ni, p. 49.) 



FILINTO ELYSIO 33 



Mesa Censória entendia que o povo portuguez 
não estava acostumado a ler este género de 
escriptos, que poderiam «facilitar qualquer 
excesso contra o Estado ou contra a Reli- 
gião.» Por isso o terrível satírico Lobo, chas- 
queando da obra de Fr. Luiz de Monte Car- 
mello sobre Orthographia, mostra como essa 
lucubração do pedante vogal da Mesa Censória 
se pode medir com as leituras mais desoppilati- 
vas da época. ^ E' curiosa a censura de Frei 
Ignacio de San Caetano (o Arcebispo-Confes- 
sor ) appresentada como vogal da Eeal Mesa : 
«Já ha muito tempo que eu tenho feito bas- 
tante reflexão sobre a Filosofia de M. João 
Locke, no seu celebre livro Tratado do En- 
tendimento humano. — Eu sempre tive para 



Nem os Contos sem conto de Trancoso, 
De Florinda a novella divertida, 
De Carlos e Rosaura, outra assim lida. 
Nem ainda o Peralvilho gracioso; 

Nem o Palmeirim celebre e animoso, 
Nem do afamado Dom Quixote a vida, 
Nem toda a grande Historia encarecida 
Do grande Carlos Magno tão famoso ; 

Nenhum dos Livros taes tem desbancado 

O que hoje um Padre orthógrapho ou asneiro, 

Para mais Crystaes da Alma assim tem dado; 

Pois de tal sorte move a riso inteiro. 
Que só elle assim fica acreditado 
Ser o Alivio de tristes verdadeiro. ^ 



Poesias varias, t. ii, p. 183. Ms. 



34 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

mim que, entre muitas cousas boas que Locke 
disse, ensinou outras nocivas, que umas são 
puras reverias, se posso explicar-me com esta 
palavra. — M. Locke no juizo de muitos eru- 
ditos é notado de favorecer o MaterialisinOy 
esse monstro que tanto domina no século pre- 
sente com ruina grande da Religião. E na 
verdade é bem fundado o juizo doestes críti- 
cos, porque da doutrina que elle ensina, que 
pode sem ser juntamente material entender 
e pensar, por consequências não muito remo- 
tas se pode estabelecer o Materialismo, Nem 
basta que elle em muitas partes conheça e 
confesse a espiritualidade e immortalidade da 
nossa alma, e que também conceda espíritos 
puros. Porque também Russo, (Eousseau) 
que em controvérsia é o chefe dos Irrehgio- 
narios e Materialistas doeste século, no seu 
Emilio falia muitas vezes como pode fallar o 
mais são catholico, e nascem estas contradic- 
ções já de se quererem encobrir para mais 
seguramente enganar, já de que a verdade 
tem tanta força que obriga muitas vezes a 
que confessem aquelles que menos a tem.» Já 
se vê que quando Fr. Ignacio foi nomeada 
Inquisidor Geral não podia gastar tempo com 
estes argumentos; nem mesmo se contentava 
em mandar fazer Editaes como os de 15 e 24 
de Septembro de 1770, com longos catálogos 
de livros dos modernos philosophos : « abomi- 
náveis producções da incredulidade e da liber- 
tinagem de homens temerários e soberbos, que 
se denominam Espiritas fortes e se attribuem 
o especioso titulo de Filósofos...» N^essas 
longas listas figuravam os materialistas ingle- 
zes do século xvii, Chubb, Oollins, Hobbes, 



FILINTO ELYSIO 35 



Shaftesbury, Tindal, Toland e Wollaston, e 
os seus continuadores em França La Mettrie, 
Argens, Eousseau, Diderot, Voltaire, Holbach, 
Helvetius e outros. Era mais expedito o tra- 
balho do Santo Officio; os argumentos pelo 
terror foram sempre empregados nas situa- 
ções transitórias pelos sacerdócios e pelos go- 
vernos. Kespirava-se porém um espirito de 
emancipação da consciência, e mormente exer- 
cia-se uma critica de ironia, ou voltairianis- 
7110, sem sequer ter lido as obras do auctor do 
Diccionario philosophico. Em uma censura 
official do regalista P.® António Pereira de 
Figueiredo appresentada á Real Mesa, admi- 
ra-se « de que estando as Obras de Mr. de 
Voltaire cheias de tanto veneno e de doutri- 
nas tão perniciosas... seja ainda assim este 
Autor o que ordinariamente anda nas mãos 
da mocidade portugueza, e o que fornia o 
gosto e base dos seus primeiros estudos; 
quando eu, pelo contrario, em toda a exten- 
são de livros que tenho lido (e he notório 
que tenho lido muitos e de diversas matérias) 
posso e devo affirmar que ainda não achei 
outros mais impios, mais capciosos, mais no- 
civos que os de Mr. de Voltaire. Elle é pés- 
simo ainda quando parece bom; elle diffunde 
o veneno ainda quando faz oração a Deus ; 
elle insjjira insensivelmente um desprezo de 
tudo o que é Religião e piedade...» Mas o 
P.^ António Pereira de Figueiredo, que assim 
fallava e escrevia no governo pombalino, n'es- 
ta crise do Rigorismo era responsável por ter 
na Tentativa theologiea sustentado as doutri- 
nas regalistas contra a pretenção ultramon- 
tana. Em um Soneto inédito do tempo se lê: 



36 HISTORIA DA LtTTERATURA PORTUGUEZA 



O premio teve emfim que merecia 
Aquelle impio Marquez tão afectado, 
Que contra a Lei de Christo sempre armado 
Aos Ministros do altar guerra fazia. 

N'esta empreza ao Marquez fiel seguia 
O Pereira, fugitivo congregado, 
Que contra o Papa repetia ousado 
As expressões da pérfida heresia. 



Como doeste o castigo não tens visto, 
Do pranto teu o dique se destapa, 
E clama o teu furor por causa dMsto ; 

Mas, amigo indiscreto, a bocca tapa. 

Se era o feroz Marquez um Anti-Christo, 

Que muito fosse o Pereira um anti-papa ? ^ 



E' sobretudo na poesia satírica, geralmen- 
te anonyma da época do Rigorismo, que se 
encontra a mais franca expressão do livre 
pensamento, e do estado de revolta em que 
estavam as consciências. 

As Ordens monachaes, que se alastravam 
sobre o território portuguez como uma bi- 
charia parasitaria, eram tratadas n^esses ver- 
sos satíricos com um voltairimiismo intuiti- 
vo; em um Soneto de António Lobo de Car- 
valho encontra-se o quadro da sua vitalidade: 



Desterrado lamenta o Jesíiita^ 
O Dominico seu logar pretende ; 
O Neri Novos Methodos defende, 
E ás confessadas ricas faz visita. 



* Ms. da Academia, G. 5, est. 23 ; n.^ 33. 



FILINTO ELYSIO 37 



Intrometter-se o Grillo premedita, 
O Cruzio que está só, francez apprende ; 
Em casa do juiz de que depende 
Entra com pés de lã o Carmelita, 

O Capucho no estrado toma assento, 
Exorcisma ou responsa em qualquer dano, 
E depois sempre traz para o convento, 

O Loyo é fofo ; triste o Graeiano, 
Grosso o Bernardo; comedor o Bento ^ 
Emfim, o Franciscano é Franciscano. » ^ 

N'este género era inexcedivel o mais sar- 
cástico dos poetas coevos António Lobo de 
Carvalho; basta qualquer dos seus Sonetos 
para se vêr a libertação do bom senso, como 
n^este Aos diversos meios por que os frade- 
pios attraheni a si as bolsas dos devotos : 

Milagres mil publica do Rosário 
O padre Dominico, e da Coroa 
O Franciscano muito mais entoa, 
Jurando que a benzeu sobre o Calvário. 

Mostra o Cruzio em Coimbra o sanctuario, 
Que com effeito é cousa muito boa, 
O Agostinho a corrêa, e nos pregoa 
O Carmelita o santo Escapulário, 

Com estes e outros modos de piedades, 
E com mil indulgências sem fadigas, 
Se fazem venerar todos os Frades; 

Até co^os seus escriptos das lombrigas 

Os Capuchos têm taes habilidades 

Que enchem as mangas, e enchem as barrigas. ^ 



1 Ms. da Acad., G. 5 ; E. 8 ; n.^ 35. Na edição de 
Inn., Soneto lxxxvii. No Ms. da Academia vem três 
Sonetos em resposta, sendo dois inéditos. 

2 Poesias joviaeSy p. 126. Ed. Inn. 



88 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Entre a multidão dos Sonetos d'este géne- 
ro das collecções manuscriptas, encontra-se 
anonyma ^ esta peça expressiva do estado mo- 
ral do tempo, attribuida ao Lobo e reprodu- 
zida mais tarde por Filinto Elysio como pró- 
pria nas suas Obras : 

Christo morreu ha mil e tantos annos, 
Foi descido da cruz, logo enterrado ; 
Mas de pedir té^qui não tem cessado 
Para o Santo Sepulchro os Franciscanos. 

Tornou Christo a surgir entre os humanos, 
Subiu da terra ao Reino affortunado ; 
E á saúde do Christo sepultado 
Comem á tripa forra estes maganos. 

E cuidam quantos dão a sua esmola, 
Que elles a gastam em acção tão pia ; 
Quanto vos enganaes, oh gente tola! 

O altar com dois cotos se alumia, 

E o fradinho co^a moça que o consola 

Gasta de noite o que tirou de dia. 

Passavam de mão em mão estes papeis, 
provocando réplicas pelas mesmas consoan- 
tes ; ^ e até as damas davam a glosar aos poe- 
tas motes com pensamentos racionalistas, 
como o dos Justos céos, enviado a José Anas- 
tácio da Cunha. Para o Arcebispo Confessor 
e para o ministério de idiotas validos dos 
quaes elle era a mola, não havia outro meio 
de resistência para salvar a fé e os costumes 



1 Poesias varias, Ms. t. ii, p. 156. — Ms. da Bibl. 
nac, fl. 38. Em Filinto, t. iv, p. 149, tem muitas va- 
riantes. 

* Poesias varias, t. vm, p. 654. Ms. 



FILINTO ELYSIO 39 



senão a Inquisição. Mas em breve se reconhe- 
ceu que, não sendo já exequivel uma appara- 
tosa fogueira no Rocio, a Intendência da Po- 
licia estava mais á vontade com as suas mos- 
cas e com .o assassinado preventivo e irre- 
sponsável diante da rasão de estado. 

Como obra do Marquez de Pombal a Uni- 
versidade de Coimbra também não podia es- 
capar a onda reaccionária do Rigorismo ; de- 
fendeu-a com fervor, esse que fora o braço 
direito do ministro na reforma universitária 
D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Cou- 
tinho. No Relatório geral do estado da Uni- 
versidade appresentado ao Visconde de Villa 
Nova da Cerveira em 1777, depois da coroa- 
ção de D. Maria i, o Reformador-Reitor de- 
fende a Universidade resumindo o conteúdo 
dos ataques : « Pelo que pertence á doutrina, 
consta-me também que são accusados os estu- 
dantes da Nova Reforma de pe7isarem livre- 
mente em pontos de religião, concorrendo 
muito para se espalhar este rumor falso as 
declamações vagas que têm feito nos púlpitos 
alguns pregadores incautos e pouco adverti- 
dos, os quaes estando até aqui tranquillos e 
socegados sem fazerem movimento, agora é 
que sahem a campo a opporem-se â torrente 
de todas estas novidades, que, segundo di- 
zem, se espalham e se ensinam na Univer- 
sidade.^^ 

O Bispo Conde resistia contra este zelo 
pharisaísta que pretendia fazer regressar a 
Universidade ao escholasticismo ; e ousada- 
mente e com nobreza representa na referida 
Relação: «Quem conhece e reflecte sobre os ef- 
feitos que produz no espirito humano toda a 



40 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



revolução litteraria, quem vê a difficuldade que 
têm os homens de largar as preoccupações 
com que foram creados, e quem é instruído 
das guerras que em todo o tempo fizeram fal- 
sos sábios aos verdadeiros, enchendo-os de 
calumnias no ponto da religião, concitando 
um e outro poder contra elles, e até chegan- 
do a dar martyres ás Sciencias, não se admi- 
ra do enthusiasmo doestes pseudo-prophetas, 
e do montão de palavras injuriosas que se 
tem proferido contra o ensino publico, e o 
fervor com que a mocidade livre das trevas e 
das prisões Scholasticas procura ornar o seu 
espirito de conhecimentos sólidos na Theolo- 
gia, no Direito e nas Sciencias. — E como no 
meio da escuridão espessa, em que se poze- 
ram os conhecimentos humanos não é fácil 
logo divisar a luz e distinguir a verdade da 
mentira, assim conseguem mais facilmente os 
seus intentos. 

« Não é crivei o mal que tem feito este fal- 
so zelo ou esta mania. A elle se deve attri- 
buir o pouco progresso das Sciencias, e a 
persistência por tantos séculos no ensino das 
cousas vãs, inúteis e falsas... Não é para 
sentir que estivesse a Philosophia fazendo re- 
volução nos paizes septemtrionaes, que cami- 
nham rapidamente para a sua perfeição, que 
se fizessem descobrimentos admiráveis desde 
a Terra até Saturno, que se examinassem 
Princípios, que se adiantassem Theorias, que 
estendessem os limites dos nossos conheci- 
mentos em todas as matérias, e nós (por que 
não ha remédio se não eonfessar a verdade) 
estivéssemos tão alheios de tudo, eomo se vi- 
vêssemos no meio do século decimo quinto ? 



FILINTO ELYSIO 41 



« E donde nasceu este atrazamento tão ex- 
traordinário senão de supprimir a luz que 
nos podia allumiar, e de se reputar por here- 
je e suspeito na fé todo aquelle que procura- 
va indagar a verdade em cada uma das Scien- 
cias a que se applicava. — Não se está vendo 
já que tantas declamações vagas de heresia 
e de erro são palavras vazias formadas no 
seio das trevas e tendentes a suffocar a luz 
que vae allumiando a Nação e diffundindo- 
se por todas as partes da monarchia? — Estes 
conhecimentos, tão úteis e tão saudáveis, não 
podiam deixar de fazer uma grande fermen- 
tação nos espiritos da mocidade, e de intro- 
duzir n'elles outro modo de pensar nas Scien- 
cias differente d^aquelle porque se havia pen- 
sado até aUi. N'isto se via por uns a utilida- 
de e vantagem dos Novos Estatutos; e se via 
por outros o perigo e o damno dos mesmos 
Estudos. O que parecia áquelles verdade, pa- 
recia a estes erro: o que era para estes im- 
portante, era para áquelles inútil. N'este con- 
flicto de pareceres fez-se o que se costuma 
sempre fazer em taes casos, que foi cobrij^-se 
com o zelo da Religião os desejos de susten- 
tar os delirios da Eschola. Logo se entrou a 
espalhar um rumor vago de que os estudan- 
tes eram imbuídos em doutrinas novas, per i- 
grinas e perigosas. Este rumor tomou corpo 
e chegou até o ponto de ser declarado dos 
púlpitos, que é um dos maiores excessos que 
procura commetter o zelo fanático.» O Bispo 
D. Francisco de Lemos, atreve-se a procla- 
mar : « A faculdade de pensar é livre no ho- 
mem, por isso não deve ter outros limites que 
não sejam os da rasão e da religião.» Define 



42 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O ponto em que se estriba a corrente do Ri- 
gorismOj agora audacioso : « Descubramos fi- 
nalmente a mascara aos declamadores contra 
os Novos Estatutos. Este é o ponto que mais 
toca: Não querem que a Egreja se encerre 
nos limites que prescreveu o seu divino legis- 
lador; querem que estes se estendam sobre o 
temporal das monarchias. . . querem que a 
cabeça visivel d'ella seja também a fonte visí- 
vel de todo o poder, e que d^ella dim.ane tudo 
quanto ha de jurisdicção e auctoridade no 
mundo. — Eis aqui a doutrina dos declama- 
dores.» E' certo que o Visconde-Secretario 
não se atreveu directamente a demolir a Uni- 
versidade reformada cinco annos antes pelo 
Marquez de Pombal, mas o governo da Uni- 
versidade foi-lhe tirado e confiado ao Princi- 
pal Mendonça, que se tornou o centro de todo 
o velho espirito escholasticista e levou a insti- 
tuição docente a ser marcada com o estigma 
de Reino da Estupidez, por um poema ano- 
nymo de um então ignorado estudante cabido 
nas garras do Santo Officio de Coimbra por 
constar que lia livros dos Encyclopedistas. ^ 
Desde que a Mesa Censória foi considera- 
da impotente para oppôr um dique aos livros 
do philosophismo, como chamavam ás doutri- 
nas modernas que derivavam da synthese car- 
tesiana e baconiana, procedeu-se a reforma 
doeste tribunal por lei de 21 de junho de 1787 



^ Toda esta lucta doutrinaria se acha amplamente 
tratada na Historia da Universidade de Coimbra, t. 
III, p. 577 a 765 : (Reacção contra as reformas pomba- 
linas.) 



FILTNTO ELYSIO 48 



com o titulo de Mesa da Commissão geral 
sobre o exame e censura dos Livros^ e com a 
preponderância do elemento clerical, elimi- 
nando quanto possível a acção regalista da 
fundação pombalina. 

Era presidente da Mesa da Commissão 
um ecclesiastico qualificado, com quatro vo- 
gaes theologos, ficando assim em maioria so- 
bre os vogaes seculares; nas licenças para a 
impressão, no exame dos livros appresenta- 
dos á venda a sua auctoridade ia além da cen- 
sura prohibitiva até á imposição de multas, 
prisão e degredo. Era uma succursal da In- 
quisição, a qual rehavia agora o antigo mister 
de antepor o seu exame ao dos bispos ; e ao 
mesmo tempo submettia Portugal a obediên- 
cia immediata em assumptos de lettras á Con- 
gregação do Index e da Inquisição romana. 
E como se isto não bastasse, para impedir o 
espirito dissolvente das Sciencias modernas, a 
Mesa da Commissão podia mandar fazer va- 
rejo nas Livrarias dos particulares e dos con- 
ventos, nas lojas dos mercadores livreiros e 
ahi arrestar as obras condemnadas com va- 
rias penalidades. Assim sob o Rigorismo a 
Mesa da Commissão, agente da Congregação 
do Index em Portugal, conservou-se no cum- 
primento da sua missão obscurantista até á 
carta de Lei de 17 de dezembro de 1794, em 
que se voltou outra vez ás três jurisdicções 
do Desembargo do Paço, do Ordinário e do 
Santo Officio. Através doesta malha os livros 
só podiam propagar-se clandestinameiíte ; en- 
travam muitos pela barra de Setúbal, como 
o declarava Pina Manique, que fazia caça aos 
caixões de livros que entravam pela alfande- 



44 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ga de Lisboa, com o mesmo empenho com 
que dava caça aos assassinos. As obras dos 
escriptores ficavam anonynias, e tendiam 
para o protesto sarcástico. 

No meio d'esta espessa abobada de obscu- 
rantismo religioso e monarchico, sob a omni- 
potência do Arcebispo-Confessor, é que se 
rompeu uma brecha, por onde entrou a luz 
do século XVIII, a Academia das Sciencias de 
Lisboa, em 1779. E' esta a sua nobilíssima 
tradição, infelizmente obliterada entre os nul- 
los que lhe usufruem esterilmente os seus sub- 
sídios. O pensamento da fundação de uma 
Academia de Sciencias revelara-se em toda a 
sua importância a D. Francisco de Lemos, 
quando reconheceu que além dos quadros pe- 
dagógicos da Universidade de Coimbra, con- 
vinha organisar uma Congregação geral para 
o adia?itamentOy progresso e perfeição das 
Sciencias natiiraes, formada pelos lentes das 
três faculdades de Mathematica, Philosophia 
e Medicina. Assim ao ensino pratico mas im- 
progressivo das aulas alliava-se a renovação 
theorica na Congregação geral. Era o reco- 
nhecimento da funcção das Academias dian- 
te das corporações docentes, suggerido pela 
noticia da Academia real de Lo7idres, da Aca- 
demia real das Sciencias de Paris, e da Aca- 
demia de Petersburgo, O solicito Eeformador- 
Reitor queria proceder: «de modo que feliz- 
mente se tem praticado e pratica nas Acade- 
mias mais celebres da Europa, melhorando 
os conhecimentos adquiridos e adquirindo 
outros de novo, os quaes se fizessem logo 
passar aos cursos respectivos das ditas Facul- 



FILINTO ELYSIO 45 



dades.» ^ Infelizmente não pôde ser levada 
logo a ef feito a Congregação geral das Scien- 
cias, depois da queda pombalina. O pensa- 
mento fecundo não morreu ; e o Visconde de 
Barbacena, em uma carta ao Dr. Vandelli, 
iniciava o esforço da nova fundação de uma 
Academia escrevendo-lhe : «A nossa Socieda- 
de poderia ser bem supprida pela Congre- 
gação geral das Sciencias, que se intenta fa- 
zer em Coimbra ; mas receio que este estabe- 
lecimento se não execute tão cedo.» ^ Effecti- 
vamente, regressando a Universidade ao es- 
cholasticismo sob a reitoria do Principal Men- 
donça, a Congregação geral das Sciencias 
ficou em simples esboço. Barbacena enviara 
a Vandelli os Estatutos da Sociedade econó- 
mica de Londres para typo da nova Acade- 
mia. Por este mesmo tempo se organisava em 
Ponte do Lima uma Sociedade económica dos 
Amigos do Bem, no palácio do Visconde de 
Villa Nova da Cerveira. Por ventura foi esta 
coincidência um óbice que se appresentou 
logo a nascença da Academia das Sciencias, 
a que alludem vagamente as cartas de Bar- 
bacena, e que só se venceu quando o Duque 
de Lafões, tio dilecto da Rainha foi interessa- 
do n'esta gloriosa iniciativa. Em uma carta 
do P.® Theodoro de Almeida a um dos inicia- 
dores da Sociedade económica dos Amigos 
do Bem, declara-lhe : « Não remetto ainda os 
Estatutos que com grande honra minha me 



^ Relação do estado geral da Universidade, p. 62. 
2 Collecção das Cartas do Visconde de Barbace- 
na. (Mss. da Academia.) 



46 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

mandaram ; porque se com effeito levamos 
avante esta grande empreza de formar na 
Corte uma Academia real das Sciencias, 
como ha em todas as nações cultas, bom seria 
que os Estatutos mutuamente nos ligassem 
mas para nos ajudar mutuamente. Ha gran- 
des difficuldades, como sempre, em tudo o 
que he bom ; comtudo temos esperanças que 
se desvanecerão. Então este edifício scientifi- 
co tendo escoras por todos os lados será fir- 
me. Tenho demorado a resposta imaginando 
que pudesse n^ella dar essa alegre noticia da 
fundação da Academia; porém, ainda não 
pode ser. Ainda que esse segredo ainda se 
quer guardar até ver o que sáe, para uns só- 
cios tão merecedores não o deve haver. Las- 
tima será, que tão bons projectos caiam por 
terra; ...» Em carta de 27 de Março de 1779 
escrevia o Visconde de Barbacena, recente- 
mente doutorado em Philosophia, ao lente 
Vandelli sobre as difficuldades da organisa- 
ção da Academia das Sciencias: «Todo o 
principal trabalho me parece estar prompto, 
porém, confesso a V. S.^ que com tudo isto 
sinto em mim uma tal frieza, causada não sei 
se pelo estado das cousas, se pelas poucas 
luzes da nação sobre as matérias que fazem 
o nosso objecto, que me não tenho com ani- 
mo a pôr-lhe a uJtima mão.» O regresso a 
Portugal do Duque de Lafões em principio de 
fevereiro de 1779, e seu encontro com o na- 
turalista José Corrêa da Serra, com quem via- 
jara na Itália, actuaram na realisação do pen- 
samento da Academia das Sciencias de Lis- 
boa effectuado pelo Alvará de 24 de dezembro 
de 1779. Sem o seu perstigio e favoritismo, 



FILINTO ELYSIO 47 



Barbacena e José Corrêa da Serra ficariam 
impotentes contra a reacção do obscurantismo 
dominante. Depois do Aviso régio de 24 de 
dezembro de 1779 que fundava a Academia, 
escrevia Corrêa da Serra ao Doutor Vandelli 
explicando-lhe o que mais estimulara o Du- 
que de Lafões para tomar essa gloriosa ini- 
ciativa : « Quantas cousas teria que lhe dizer 
se a gente podesse fiar-se ao papel, mas fi- 
cam para a vista. Ahi vae a copia do Aviso, 
que, bem vê, foi mesquinho, e se não deve 
mostrar; mas o vir elle assim foi a nossa 
saúde, porque o Duque tomou a cousa a pei- 
to e faltou â Rainha, que mandou logo dar 
o apartamento do Palácio das Necessidades 
aonde tinha estado a Junta dos Três Estados, 
e hontem á tarde foi o Snr. Visconde de Pon- 
te do Lima a pôr-nos de posse.» Em uma car- 
ta dos primeiros dias de janeiro de 1780 es- 
crevia Barbacena a Vandelli : «tenho o gosto 
de dizer a V. S.^ que tudo o que pretendía- 
mos para a Academia está conseguido : A 
Rainha approvou o nosso Projecto por um 
Aviso do Secretario de Estado, o qual se nos 
entregou já, e nos dá casas no Palácio das 
Necessidades, com o que estamos contentes. 
Amanhã nos ajuntaremos provavelmente em 
casa do Duque para prepararmos e resolver- 
mos particularmente os primeiros negócios, 
que depois hão de ser approvados n^uma As- 
sembleia particular de todos os sócios actuaes^ 
sendo o principal motivo a escolha de alguns 
sócios.» Em um Post-scriptum também se re- 
fere á hostiUdade dos palacianos contra a no- 
va Academia: « O Aviso chegou dia de Natal 
á noite, e tivemos algum descontentamento ^ 



48 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



por nos não vir logo determinada a casa, mas 
no dia seguinte o Duque fallou a Eainha, e 
logo se destinou o Palácio das Necessidades.» 
Accentuaremos alguns traços biographicos 
sobre esta alta figura do fim do século xviii 
em Portugal. Dom João Carlos de Bragança 
e Sousa Tavares Mascarenhas da Silva e Li- 
gue, segundo Duque de Lafões, nascera em 6 
de Março de 1719, graduando-se em Coimbra 
em 1742. Quando o ministro Sebastião José 
de Carvalho começava a sua influencia abso- 
luta sobre o rei D. José, D. João Carlos de 
Bragança ausentou-se de Portugal em 1757, 
dizem uns que por ordem regia motivada em 
uma paixão amorosa; n'esses vinte e dous 
annos de ausência da pátria viajou por quasi 
toda a Europa, pelo Egypto, Turquia, Ásia e 
Laponia, fixando a sua residência na corte de 
Vienna de Áustria onde era singularmente 
considerado. Fora voluntário austríaco duran- 
te a Guerra dos Sete Annos, distinguindo-se 
na batalha de Maxen. Frederico da Prússia 
exaltava a sua bravura militar e o imperador 
José II mantinha com elle relações intellec- 
tuaes. Succedeu na Casa de Lafões a seu ir- 
mão primogénito D. Pedro de Bragança e 
Sousa, em 26 de junho de 1761. Era tratado 
nas cortes de Vienna, Londres, Paris e Roma 
com honras principescas usando o titulo de 
Duque de Bragança. O mahcioso lord Beck- 
ford, que nas suas Cartas desenhou do vivo 
a corte portugueza, revela este facto com cer- 
to tom sarcástico: <^o Duque de Lafões, o 
mesmíssimo personagem bem conhecido em 
toda a Europa pela denominação de Duque 
de Bragança, postoque não tenha direito a 



FILINTO ELYSIO 49 



este illustre titulo, que anda unido á coroa. 
Chamasse-se elle duqueza-viuva, não seria eu 
quem lhe disputasse a propriedade do titulo, 
conhecendo-o por uma espécie de camareiro 
velho, com eguaes ninherias e melindres ;. . . » 
(Carta XIL) Burney, o celebre musicographo 
inglez, fallando da cultura artística do Duque 
descreve a sua casa como um centro onde se 
reuniam os poetas como Metastasio, o incom- 
parável lyrico libretista, compositores como 
Oluck, o creador do Drama musical, e o não 
menos talentoso Abbade Costa ; elle também 
se refere a esse titulo com que era então co- 
nhecido na Europa. ^ O generoso e inteUigen- 
te Duque animou a revolução musical de 
Gluck, que em 1770 lhe dedicou a sua opera 
Paride et Elena, declarando: «meno d'un 
Protectore, che d'uri Giudice.» Quando se vê 
hoje a importância da obra de Gluck integra- 
da na Opera de Wagner, é que se avaliam as 
palavras da dedicatória em todo o seu alcan- 
ce: «Una anima sicura contro i pregiudizi delia 
consuetudine, sufficiente cognizione de' gran 
principi deirarte, con gusto formato non tanto 
su' grand modelli, quanto sugliinvariabilifon- 
damenti dei Bello e dei Vero, ecco le qualità 
ch'io ricerco nel mio Mecenate...» Entre os 
frequentadores do palácio do Duque de La- 
fões em Vienna, figuravam, segundo os mu- 
sicographos Burney e O. Jahn, o princepe de 



^ « But before we set out, the duke of Braganza 
and much other company come in, etc.» The presente 
state of Music in Germamjy i, 255. Bibl. critica^ pag. 
109. 



50 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Poniatowsky, a condessa de Thun, o abbade 
Metastasio, Hasse, Faustina Bordoni, o prin- 
cepe de Kaunitz, e ahi foi recebido com as- 
sombro Mozart, que então contava doze annos 
de edade; ahi também encontrou Burney esse 
génio ignorado o abbade António da Costa, 
altamente considerado por Gluck. Quando o 
Duque regressou a Portugal, afastado doesse 
meio esplendido, forçosamente sentiria uma 
profunda asphyxia intellectual; dominava um 
frade boçal, que fora tarimbeiro, dirigindo 
uma rainha que ia cahindo na demência, a 
qual se acompanhava «com todas as suas da- 
mas de honor, secretários de estado, anões e 
negrinhos, e cavallos brancos, pretos e ma- 
lhados.» ^ O esplendor artístico da corte por- 
tugueza estava completamente apagado ; a 
rainha viuva D. Marianna Victoria, occupa- 
va-se toda na obra do convento de S. Francis- 
co de Paula. '^ O Duque voltou-se para o in- 
teresse scientifico que alguns homens distin- 
ctos manifestavam, obedecendo á corrente 
que actuava na Europa; a grande nobreza 
entregava-se á Sciencia, como vemos em Buf- 



1 Beckford, Carta XX. 

2 Da influencia artistica doesta rainha pode julgar- 
se pelo que escreve Gramosa: «Na musica, que soube 
fundamentalmente, excedia a todas as princezas do seu 
tempo, e chegou a possuir a mais sublime orchestra, 
que nenhum princepe da Europa teve ; nem será fácil 
juntar outra similhante pelo concurso de músicos ra- 
ros em vozes como em instrumentos, que então flores- 
ciam e se mandaram vir de toda a parte, principalmen- 
te da Itália, dando-se avultadíssimos ordenados, como 
foram Ègizielli, Cafarelli, Rafy Battistini, Leonardiy e 



FILINTO ELYSIO 51 



fon, organisando a Zoologia, em Lavoisier, 
fundando a Chimica moderna, apesar do seu 
cargo de Fermier General; Robert Boyle era 
filho do conde de Cork e d'Orrery; Caven- 
dish era neto do segundo duque de Devon- 
shire e bisneto do duque de Kent. A sciencia 
era então uma distincção nobiliarchica ; foi 
por este lado que o Duque de Lafões patro- 
cinando a creação da Acadeinia das Scien- 
cias veiu relacionar Portugal com o audacio- 
so século XVIII. Em uma carta de José Corrêa 
da Serra ao Doutor Vandelli, em data de 6 
de Maio de 1780, se revela a animadversão 
que havia contra a nova Academia : « Cá o 
espero com todo o alvoroço para ver com os 
seus olhos a neonata Academia, que se tem 
achado ao entrar n^este mundo sem padri- 
nho e sem ama que lhe desse leite, mas isso 
não impedirá que cresça e viva,» Sem o per- 
stigio do Duque de Lafões a Academia estava 
morta á nascença. A escolha dos seus sócios 
aggremiou homens que pertenceram a Acade- 
mia da Historia portugueza, como Gonçalo 
Xavier de Alcáçova Carneiro; á Acadefnia 



outros muitos que representaram no Real Theatro, que 
o senhor rei D. José edificou... além das representa- 
ções theatraes a mesma Senhora em repetidas vezes os 
mandava cantar em sua camará, alcançou com este 
exercício de tanto gosto e apreço as maiores luzes, e 
as mais delicadas passagens da musica, que executava 
na sua mesma camará, não só cantando como egual- 
mente tocando em cravo as Tocatas mais difficultosas 
e do melhor gosto, que eram as de Scarlati mestre de 
musica da senhora D. Maria Barbara, rainha de Hes- 
panha, o maior homem n^este género que então se co- 
nhecia.» Success, de Port,, ii, 48. 



52 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

dos OcGultos, como D. Miguel Lúcio de Por- 
tugal e Castro e o conde de San Lourenço; 
á Arcádia lusitana, como o P.® Joaquim de 
Foyos, António Diniz da Cruz e Silva, Pedro 
José da Fonseca e Manoel Ignacio Alvaren- 
ga. Era um meio de trazer á disciplina esse 
delirio das Academias que esterilisara tantas 
aptidões ; ^ a Classe de Litteratura acabava 



1 Eis o elenco dos primeiros Sócios que forma- 
ram a Academia das S ciências : 

Os três iniciadores Barbacena, Corrêa da Serra, e 
Vandelli, trataram em 1779 de convidar sócios para a , 
projectada Academia e obter a sancção official. Uni- 
ram-se-llie os poucos sócios que ainda sobreviviam da 
Academia da Historiay fundada em 8 de Dezembro 
de 1728. Formaram o primeiro núcleo, além dos três 
fundadores : 

P.^^^ Theodoro de Almeida, Oratoriano 

P.C João Faustino, » 

P.^ Joaquim de Foyos > 

Conde de Tarouca 

Bartholomeu da Costa, tenente general 

Pedro José da Fonseca, professor de Rhetorica no 
Collegio dos Nobres 

Fr. Vicente Ferrer da Rocha, Dominicano, e depois 
Bispo de Castello Branco 

Principal Mascarenhas, D. Domingos José de Assis 
Mascarenhas 

D. Miguel Lúcio de Portugal e Castro, Monsenhor 
da Êgreja Patriarchal e Embaixador em Madrid 

Gonçalo Xavier da Alcáçova Carneiro, ultimo Só- 
cio da Academia da Historia. 

Estes sócios discutiram o Plano da organisação e 
Estatutos apresentados ao governo de D. Maria i, sen- 
do a approvação official em 24 de Dezembro de 1779. * 



* Aviso do Secretario de Estado Visconde de Villa Nova de 
Cerveira, dirigido ao Duque de Lafões. 



FILINTO ELYSIO 53 



com esse espirito frivolo das Tertúlias, resol- 
vendo pela seriedade das investigações phi- 
lologicas o que a Arcádia lusitana não poderá 
conseguir. E' por isso verdadeiro o pensa- 
mento de Aragão Morato quando considerava 
a Acadejnia das Sciencias de 1779 a conti- 
nuadora da Arcádia extincta em 1777. Na 
Classe dos sócios honorários entram o Arcebis- 
po Confessor e todo o Ministério, mas ainda 



A sessão inicial, com caracter particular, effectuou-se 
no Paço das Necessidades na Sala da Junta dos Três 
Estados em 16 de Janeiro de 1780 com os sócios fun- 
dadores, para procederem á eleição dos sócios effecti- 
vos para as três Classes de: 

Sciencias iiaturaes 

Sciencias exactas 

Sciencias moraes e Bellas Lettras, 

Constava de 24 sócios effectivos, sendo 8 por cada 
classe. A' esta primeira sessão faltaram Domingos Van- 
delli. Lente de Historia Natural na Universidade de 
Coimbra, Dom Miguel de Portugal e Frei Vicente Fer- 
rer da Rocha. Em consequência da eleição, ficaram 

Presidente — Duque de Lafões 

Secretario — Visconde de Barbacena ; 

Vice- Secretario — Corrêa da Serra 

Orador — P.^ Theodoro de Almeida 

CLASSE DE SCIENCIAS NATURAES 

Domingos Vandelli, Director da Classe 

José Corrêa da Serra 

João Faustino 

Bartholomeu da Costa 

Fr. Vicente Ferrer 

Visconde de Barbacena 

Dr. António José Pereira 

Dr. António Soares Barbosa 



54 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



assim o Cardeal Patriarcha não quiz perten- 
cer á corporação, que como scientifica acha- 
va menos orthodoxa. Bastava o privilegio de 
serem as suas Memorias isemptas da Censu- 
ra ! A animadversão contra a Academia ir- 
rompeu tomando por objectivo o Discurso 
inaugural lido pelo P/ Theodoro de Almeida 
na sessão de 4 de junho de 1780; foram-lhe 
dirigidas, assim como ao Visconde de Barba- 



CLASSE DE MATHEMATICA 

O Marquez de Alorna, Director 

F.^ Theodoro de Almeida 

Conde d^Azambuja 

José Joaquim de Barros 

Dr. José Monteiro da Rocha 

Dr. Miguel Franzini 

Dr. João António Dalla-Bella 

CLASSE DE LITTERATURA 

D. Miguel de Portugal, Director * 

P.C Joaquim de Foyos 

Conde de Tarouca 

Pedro José da Fonseca 

Principal Mascarenhas 

Gonçalo Xavier d^Alcaçova 

P.e António Pereira de Figueiredo 

SÓCIOS HONORÁRIOS 

Ayres de Sá e Mello 

Arcebispo de Thessalonica 

Cardeal da Cunha 

Cardeal Patriarcha (não acceitou) 

Conde de S. Lourenço 

Conde da Ponte 



* Sul)stituido por Gonçalo Xavier de Alcáçova, por ter ido 
como Embaixador para llespanha. 



FILINTO ELYSIO 55 



cena, differentes cartas anonj^rnas, das quaes 
transcreveremos alguns trechos característi- 
cos. De uma, datada da Eibeira nova, e diri- 
gida ao P.^ Theodoro de Almeida : 

«Tão ávido era o desejo que tinha de ou- 
vil-o, quam excessivo o desgosto que experi- 
mentei quando consegui na tarde de hontem, 
em que V.^ R."^^ recitou a Oração da abertu- 
ra da Academia das Sciencias com tanta sa- 
tisfação como jactância. Dos primeiros perío- 
dos logo inferi, que em logar de uma Oração 
grave, decorosa, instructiva e eloquente, tinha 
de ouvir uma invectiva falsa, atrevida e in- 
juriosa, não só aos indivíduos do seu corpo 



Marquez de Angeja 

Marquez de Marialva 

Marquez de Penalva 

Martinho de Mello e Castro 

Principal Almeida 

Visconde de Villa Nova da Cerveira 

SÓCIOS SUPRA-NUMERARIOS 

António Ferreira de Andrade Encerrabodes 

Conde da Ega, D. Diogo de Noronha 

D. Fernando José de Portugal 

Fr. José Maine 

José Maria de Mendonça 

José de Vasconcellos 

D. Thomaz Caetano de Bem 

António Caetano do Amaral 

Dr. António Ribeiro dos Santos 

Custodio José de Oliveira 

D. Fernando de Lima 

Francisco da Cunha 

José António Raposo 

Dr. José Corrêa Picanço 

José Henriques de Paiva 



56 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

académico mas ao estado j^^esente de toda a 
Nação.» Pela critica que transpira da carta 
vê-se que era de um exaltado pombalista; 
ha ahi trechos que interessam á historia lit- 
teraria; assim: «V.^ R."^^ mesmo conhecerá 
a sincera verdade com que lhe fallo, se com- 
migo for maduramente reflectindo no que dis- 
se : ^= Graças ao céo, já Portugal respira da 
ignorância em que jazia, etc. = Com estas 
palavras deu principio V.^ R.^^^^ á sua Oração, 
e com ellas começou egualmente o escândalo 
em os que lh'as ouvimos ; perguntávamos a 
nós mesmos porque motivo respira Portugal 
agora da ignorância ? e não achando outro 
mais do que ser V. R.^"^ a elle restituído do 



Luiz José da Costa 
Nicoláo Tolentino de Almeida 
Paschoal José de Mello 
Ricardo Luiz An.t« (António?) 
António Henriques da Silveira 
Conde de Vimioso 

SÓCIOS CORRESPONDENTES: 

Citaremos os nomes mais celebres : 
António Ribeiro Sanches 
António Diniz da Cruz e Silva 
Joaquim Corrêa da Serra 
Dr. Fr. Joaquim de Santa Clara 
Luiz António Verney 
Luiz Pinto de Sousa Balsemão 
Manoel Ignacio Alvarenga 
D. José Maria de Sousa 
Agostinho José da Costa Macedo 
Bento José de Sousa Farinha 
Frei Joaquim Forjaz 
Dr. José Pedro Hasse de Belém 



FILINTO ELYSIO 57 



seu degredo, e fallar-nos de alto, conhecemos 
claramente do nosso grande Orador a vã e 
escandalosa jactância. Esta depois nos feriu 
mais os olhos e penetrou os corações, quando 
V.^ E."^^ se declarou por aquelles Portugue- 
zes dotados de luzes para quem olhando os 
estrangeiros em os seus paizes como um phe- 
nomeno raro o admiraram como surgido do 
centro da ignorância ou do Reino de Portu- 
gal, egualado por V. R.'^^ na barbaridade ao 
de Marrocos, porque os papeis litterarios fa- 
ziam de um e outro egual menção.» Depois 
d^isto compara o estado em que o P.® Theo- 
doro de Almeida fugiu de Portugal, com o de 
Portugal depois das reformas pombalinas, 
que veiu achar: 

« V. R.^"^ via pouco quando fugiu do de- 
gredo aonde o poz quem o conheceu a fundo; 
andou por Biscaya, a escoria da Hespanha, 
onde o honraram com a carta de académico, 
com que tanto se vangloria; passou a -Bayo- 
na, a escoria da França, cidade sim de algum 
commercio, porém muito celebre por ter sido 
pátria áo joMseiiista Abbade de Oiran; teve a 
fortuna de achar em o Bispo de Biscaya acco- 
Ihimento e exercitou com V. R.'^^ o preceito 
de uma das obras de misericórdia; d'aUi vol- 
tou para este Reino, e entra n'elle não só 
falto de vista mas cego de todo. V. R."^^ está 
em Portugal, mas não vê; cuida que é aquel- 
le mesmo d'onde saiu, e miseravelmente se 
engana. Então fazia algum vulto a Recreação 
j)hilosophica ; hoje, quem hade olhar para 
ella quando em outros cursos philosophicos 
muito mais perfeitos e completos trazem os 
portuguezes entre as mãos S'Gravesand, Mas- 



58 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

chenbroock, Nolet, de quem V.^ R."^^ se 
servia plagiarimente e servilmente. — Lem- 
bra-se V. R."^^ do tempo em que andava pelas 
casas das fidalgas doesta corte com uma pe- 
quena Machina eléctrica, e trabalhando n^ella 
as divertia com os seus interessantes como 
prodigiosos e inexplicáveis effeitos? Então 
lhes chamavam ellas o Newton dos nossos 
tempos; mas hoje lendo as Cartas do Dr. 
Franklin reputam por fraqueza pueril o que 
viam obrar n'aquelle tempo a V. R.'"^ — Por- 
tugal está presentemente de sorte que não 
encontrarei ainda algum portuguez estudioso 
e intelligente, dos muitos que vivem entre 
nós, que pegando no seu Feliz independente 
para o ler com curiosidade passasse das pri- 
meiras folhas... o mesmo a seu respeito me 
tem asseverado alguns estrangeiros instruí- 
dos.» E' n'este período que se revela mais 
claramente o pombalista: «Se V.^ R."^* em 
logar de ter hido áquellas duas províncias de 
Hespanha e França, dirigisse os seus passos 
a Petersburg, Berlim, Paizes Baixos, Can- 
tões Suissos, etc. e depois viesse a Coimbra e 
visse alli em sumptuosos edifícios já em uma 
parte a Chimica, em outra a Astronomia, n'ou- 
tra a Physica, emfim, exercitarem-se todas as 
Sciencias Naturaes, e reduzida a Faculdade a 
Mathematica, ditada por quatro professores 
de primeira ordem, e ouvida por discípulos 
da primeira applicação e talento, admiraria 
(se fosse capaz d'isso) com os estrangeiros 
d'aquellas illustradas Cortes e paizes a Uni- 
versidade como uma das primeiras da Euro- 
pa, e em logar das stolidas e petulantes ne- 
cedades que babujou em sua Oração, lhe ou- 



FILINTO ELYSIO 59 



viríamos os elogios que aqiielles lhe fizeram 
dignos do reino que atrevidamente V. R."^^ 
descompoz em publico.» ^ O Visconde de Bar- 
bacena também recebeu outras cartas anony- 
mas, como se affirma em uma em que se re- 
jeitava o convite para sócio da Academia: 
« Eu sei que V. Ex.^ tão longe está de se es- 
candalisar dos papeis volantes que se tem es- 
palhado sobre a Academia, que antes os bus- 
ca e os recolhe. Esta é uma das provas da 
grande capacidade de V.^ Ex.^, pois sabe co- 
nhecer a estimação e o logar que se deve 
conferir á critica e que sem ella nada se aper- 
feiçoa ; porém os miseráveis representantes 
ficam nas lanças. EUes se expõem á risada do 
Theatro, como os cómicos das peças de Mo- 
lière; e V.* Ex.^ no ridículo das figuras e ao 
som das palmadas da platéa vae compondo e 
reformando o seu plano, na sua secretaria. 
— Eu entrei acaso em certa assembleia de 
homens cordatos a tempo em que se tratava 
da abertura da Academia, e ouvindo criticar 
asperamente o seu estabelecimento, sahi, 
como se a causa fosse minha, em sua defeza; 
porém finalmente não tive mais remédio que 
calar-me, por que me fizeram argumentos a 
que não soube responder. 

< Diziam elles: Onde se forma esta Acade- 
mia? Não é em Portugal? E' verdade. E de 
que sugeitos? De portuguezes. O seu funda- 
dor não nos consta que se proponha a dar- 
Ihe Leis, e apenas se compromette a prote- 
gel-a, por que nasceu em Lisboa. 



Nos Succ, de Portugal, ii, 159 a 162. 



60 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

« Elle sim, é capaz de formar os seus Es- 
tatutos, e de lhe subministrar todas as luzes 
que adquiriu com tanto trabalho e tanta des- 
peza nos annos que foi incansável viajor. Os 
seus estudos, os seus talentos não se limita- 
ram á arte da guerra, em que fez honrosos 
progressos. Elle foi um curiosíssimo indaga- 
dor de tudo o que era bello, admirável, e até 
útil nas cortes estrangeiras. Elle soube dar 
credito á sua Pátria em todas as aldeias em 
que se ouvia o seu nome. Mas de que serve 
isto entre os seus compatriotas, se não de ini- 
misade? Se o Duque de Alafoens, se o amá- 
vel D. João de Bragança quizesse mostrar 
n'esta cidade o que sabia lhe chamariam pu- 
blicamente um ignorante. Elle bem conhece o 
terrível costume da nação. Aqui todos presu- 
mem de mostrar; o apprender passa por uma 
injuria depois que põem navalha na cara. — 
Isso é para rapazes, diriam uns tantos que 
conhecemos, e que nunca sahiram do ninho. 
Ora este homem entende que nos vem cá dar 
regras? Que sabe elle, que nós não sabíamos ? 
Estes viajores pensam, que quem não sáe da 
Pátria não é homem? Bem aviados estáva- 
mos se assim fosse. . . Os homens também se 
fazem beneméritos á porta fechada sobre seus 
livros, e se houver um pequeno Museu de 
Historia natural, em que se tomem algumas 
lições, até de um cepo se fará um ministro de 
estado. Com que, meu amigo, me diziam elles, 
se este é o caracter dos Portuguezes, que 
D. João de Bragança conhece muito bem ; e 
se este, em rasão não fez mais que mettel-os 
na estrada dizendo-lhes — que cada um pode 
caminhar como bem lhe parecer, que podemos 



FILTNTO ELYSIO 61 



esperar de semelhante ajuntamento? Aquillo 
é um enxame dentro de um cortiço, sem Abe- 
lha mestra...» Depois d'isto, dá o critico a 
entender que para fundar a Acadeinia das 
Sciencias era indispensável chamar um sábio 
estrangeiro : 

«Por ventura El Rei da Prússia não é um 
dos Princepes bem instruídos do nosso sécu- 
lo? Não tem elle dado de si estes créditos 
nas suas Memorias? O seu exemplo não pro- 
duziu no seu reino homens famosos ? Não ha- 
veria entre elles um de grande lição com ple- 
no conhecimento de todos os tratados acadé- 
micos ? Pois este grande rei, de um governo 
admirável e de uma capacidade prodigiosa, 
qtiando estabeleceu a Acadeynia das Scien- 
cias em Berlim, pediu para a sua fundação e 
direcção a El rei de França que lhe mandas- 
se a Monsieur Maupertuis, distincto sócio da 
Real Academia de Paris. Quando eu vir que 
a Rainha de Portugal faz o mesmo, então 
trataremos de Académicos e de Academias ! » 
E depois de alludir á Oração do P.'^ Theodo- 
ro de Almeida, chasqueada em prosa e verso, 
diz : « o estylo declamatório é que lhe deitou 
a perder aquella peça. Todo o erro esteve em 
não conferil-a dentro do seu próprio claustro, 
com quem era capaz de lh'a castigar.» Que- 
ria referir-se ao ex-oratoriano pombalista o 
P.® António Pereira, ou a P.^ Joaquim de 
Foyos. E sobre o valor de alguns académi- 
cos: «Porem, eu conheço huns tantos Acadé- 
micos, que quando lhe entregaram a Carta 
da Academia (que não sei por que capricho 
se lhe expediu em latim) elles foram ter com 
alguns amigos, que lh'a construíssem. Não 



62 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



digo por isto que para ser benemérito é pre- 
ciso ser bom latino ; muitos conheço eu que 
sabem admiravelmente essa lingua, e não sa- 
bem mais nada. . .» E chega a insinuar a ne- 
cessidade de fazer exclusões dos ineptos «e 
ver se na Academia se lhe podia dar remédio 
descartando-se de uns tantos que não lhes fa- 
zem honra, nem proveito, antes lhe servem 
de obstáculo ; pois que gloria pode resultar a 
um homem de merecimento de ser chamado 
para essa illustre e douta Sociedade, achan- 
do-se na mesma classe uns poucos de pedan- 
tes. . . » Termina sarcasticamente : « Deus illu- 
mine os Senhores Académicos e os livre das 
más lingoas, que, se se salvam, pregam uma 
forte peça ao diabo pela vida que levam.» * 
E salvou-se a Academia, encetando os seus 
trabalhos por forma que toda a sua gloria 
ainda hoje consiste n^esse meio século de sin- 
cera actividade. Foi um dos seus mais lúcidos 
impulsos a tentativa de uma Historia litte- 
raria de Portugal, publicando logo na Con- 
ferencia de 30 de janeiro de 1780 um nitido 
Programma, que infelizmente não foi compre- 
hendido. * Esse trabalho nunca mais foi ten- 



1 Ibid., p. 223 a 234. 

« Programma 

«A Academia das Sciencias de Lisboa, querendo 
dar a conhecer o estado da Literatura, das Artes, das 
Sciencias, e de toda a sorte de conhecimentos da Na- 
ção portugueza em diversos períodos de tempo, deter- 
mina colligir monumentos da Historia Literária do 
nosso Reino. Para a execução de hum projecto tão lou- 
vável convida a todas as Pessoas eruditas, e zelosas do 



FILINTO ELYSIO 63 



tado, pela inintelligencia das gerações que se 
foram succedendo. 

Constituida a Academia, foi admittida á 
presença de D. Maria i em 20 de Junho de 
1780; a sessão publica solemne effectuou-se 
no Paço das Necessidades em 4 de Julho 
doesse anno. Foi Orador o P.^ Theodoro de 
Almeida, e encerrou a sessão o Duque de La- 
fões com um pequeno discurso. Os program- 
mas de trabalhos scientificos foram publica- 
dos na Gazeta de Lisboa, (de 8 de Julho de 
1780). Leram-se na sessão os Estatutos, e lis- 
ta dos Sócios; José Joaquim Soares de Bar- 
ros annunciou umas Novas reflexões sobre o 
movimento progressivo da luz nos espaços 
celestes, e Pedro José da Fonseca leu o Plano 
do DiGcionario da Lingua portugiteza, para 
o qual já estava organisada a commissão. 



bem, e honra da Pátria, assim de Portugal, como das 
Conquistas, que commodamente possão para ella con- 
correr; e lhes pede queirão communicar as noticias, 
que tiverem, conducentes a este fim ; mas muito parti- 
cularmente, e em primeiro lugar as de quaesquer Es- 
critores, e Obras, assim impressas, como manuscritas 
desde o principio do Reinado do Senhor Rei D. José i., 
que santa Gloria haja, até o tempo presente, de que 
ou se não faça menção na Bibliotheca Lusitana do 
Abbade Diogo Barbosa Machado, ou fazendo-se, seja 
por hum modo diminuto, ou pouco exacto. Nos Autho- 
res se pede a noticia de seus Pais, Parentes, tempo de 
nascimento. Mestres ; de quaesquer meios, e occasiões, 
que tiverão para sua instrucção, e de tudo o mais que 
parecer digno de referir-se: nos Livros manuscriptos 
huma relação circumstanciada do numero, e forma dos 
seus volumes, dos seus possuidores, da matéria que 
tratão, com hum extracto breve, mas quanto possivel 



64 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Em 18 de Outubro de 1780 celebrou-se 
outra sessão publica, como abertura do novo 
anno académico; orou o Marquez de Penalva. 
N'esta sessão leu Gonçalo Xavier de Alcáço- 
va uma Introducção a uma obra Sobre os 
Progressos do Espirito humano desde a de- 
cadência do Império do Occidente até aos 
nossos dias. Como se vê pela data, a obra de 
Condorcet ainda não estava escripta. ( Gaze- 
ta de 24 de Outubro de 1780.) Formulou-se 
o Programma de trabalhos. (Id., 28 de Ou- 
tubro de 1780.) 

N'este primeiro anno a Academia não ti- 
nha subsidio official, e era sustentada pela 
contribuição voluntária dos sócios, (12|800 
reis) que tinham uma patente de Beneméri- 
tos, e principalmente pelo Duque de Lafões. 

Por Decreto de 18 de Novembro de 1783 



for completo, do que contém. E finalmente nos im- 
pressos será conveniente, que se declare a sua forma, 
o lugar, e anno de impressão, e onde poderão achar-se, 
se por algum caso se tiverem feito raros. Estas Memo- 
rias se remetterão ao Secretario da Academia, a qual 
agradecerá este beneficio publico, fazendo imprimir 
juntamente com a Historia uma Lista dos Sogeitos be- 
neméritos, que para ella tiverem concorrido com qual- 
quer auxilio digno de consideração. Palácio de Nossa 
Senhora das Necessidades, em Conferencia de 80 de 
Janeiro de 1780. 

Visconde de Barb acena Luiz António 
Furtado de Mendonça 

Secretario da Academia, 

Lisboa. Na Regia Officina Typographica. 1780. 
Com licença da Real Mesa Censória, 

(Âcadem, das Sciencias, Papeis Vários, vol. 24.) 



FILINTO ELYSIO 65 



foi dotada a Academia com a terceira parte 
do producto liquido annual da Nova Loteria 
do capital de 144 contos de rs., estabelecida 
a favor do Hospital de S. José, e Expostos; 
mas somente em 1785 é que tocou este sub- 
sidio, que acabou com a Loteria em 27 de 
Maio de 1797. Outra vez lhe acudiu o Duque 
de Lafões, com o seu auxilio pecuniário, em 
1799. Por Decreto de 4 de Novembro foi-lhe 
arbitrada uma dotação annual de 4:800|000, 
pagos aos quartéis pelo- Subsidio litterario. 

Em 13 de Dezembro de 1783 é que a Rai- 
nha se declarou Protectora da Academia, e 
somente em 1810, por Aviso de 9 de Abril, 
se determinou que fosse sempre Presidente 
2oerpetuo um Príncipe da Casa real. 

Em 1792 sahiu a Academia do palácio 
das Necessidades para o palácio do becco 
do Carrasco, ^ onde se deteve até 1797, em 
que passou para o do Monteiro Mor, na cal- 
çada do Combro; e d^aqui em 1800 para o 
palácio do Duque de Palmella, no largo do 
Calhariz, onde esteve até 1823. Soffreu ainda 
duas trasladações, antes de se instalar em 
fins de 1833 no Convento de Jesus dos Ter- 
ceiros franciscanos. O perstigio régio e a do- 
tação official degradaram-na ; tornou-se um 
foco de reacção depois de ter provocado pela 
sua liberdade mental as denuncias do Inten- 
dente Manique. 

São de alto interesse as referencias de Pi- 
na Manique sobre o jacobinismo de Corrêa 
da Serra e do Duque de Lafões, em uma Con- 



^ Ao Poço dos Negros. 

, 5 



66 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

ta escripta para o Marquez Mordomo-mór, 
em que denuncia a existência de um conven- 
cional «n'esta corte nas casas da Academia 
das Sciencias ao Poço dos Negros, hospeda- 
do segundo me dizem pelo Abbade Corrêa da 
Serra... e aqui foi accolhido e introduzida 
ao Duque de Lafões, na qualidade de agricul- 
tor, e hospedado nas casas da Academia das^ 
ScienciaSy d^onde frequenta as casas do so- 
bredito Duque, e do Abbade Corrêa, que é 
amigo mui particular do Ministro e Cônsul 
da America do Norte e dos mais jacobinos, 
que aqui se acham. .. Estas testemunhas in- 
felizmente mascarram o Duque de Lafões^ 
que estou certo he arrastado pelo máo ho- 
mem do dito Abbade Corrêa.» E termina 
apontando Corrêa da Serra como homem- pe- 
rigosíssimo ; em outras Contas para as Se- 
cretarias relata que encontrara vários caixões 
de livros peiHgosos e incendiários, wdi alfan- . 
dega de Lisboa, taes como de Reynal, Bricot^ 
Voltaire «vindo alguns d'elles dirigidos para 
o Duque de Lafões com este titulo por sobre- 
scripto impresso em alguns jogos de volu- 
mes.. .» Também na mesma caixa vinham li- 
vros para Corrêa da Serra, e por isso lembra- 
va o Intendente: «que pareceria útil que lá 
mesmo se perguntasse ao Abbade Corrêa 
quem era que lhe fazia estas encommendas, 
que talvez se tenham espalhado pela mesma 
via em Lisboa. . . » Corrêa da Serra já se vira 
forçado a ausentar-se de Lisboa em 1787, e 
pela espionagem insistente de Manique tornou 
a emigrar em 1797, quando Silvestre Pinhei- 
ro Ferreira por causa das ideias philosophi- 
cas sensualistas fugia também de Portugal. 



FILINTO ELYSIO 67 



A mesma suspeição pesava sobre o académi- 
co Ferreira Gordo, o P.® Theodoro de Almei- 
da, P.^ António Pereira de Figueiredo e João 
Guilherme Christiano Muller, todos da Aca- 
demia das Sciencias; e doestes dois últimos, 
embora membros da Real Mesa Censória da 
Commissão geral, diz: « qualquer doestes dois 
suspeitos e conhecidos por muita gente por se- 
diciosos e perigosos ; . . . » A corrente do Rigo- 
rismo que começara pelo fanatismo religioso 
com processos inquisitoriaes, revigorava-se 
pelo despotismo policial tornado systema de 
governo ; ás vezes estas duas pressõss contra- 
riavam-se. Assim quando irrompeu a reacção 
systematica no começo do reinado de D. Ma- 
ria T, foram prohibidos os theatros como um 
foco de corrupção dos costumes; e já no do- 
mínio de Manique escrevia elle para o minis- 
tro sobre a conveniência de dar licença aos 
emprezarios do Theatro nacional da rua dos 
Condes: «não se pode duvidar que emquanto 
o povo se entretém n^estes theatros, não fre- 
quenta as casas de café, nem de bilhar, e as- 
sembleias, conversando no que lhe não im- 
porta: evitam os jogos, com que ás vezes se 
arruinam, e outros entretenimentos em que se 
precipita a mocidade.» Na poesia satírica da 
época encontra-se o reflexo do contraste dos 
costumes, em que augmentava o numero dos 
roubos e dos assassinatos depois do decreto 
rio'orista contra os theatros : 



Vêr Comedias Lisboa já não calsa, 
Que isso é soltar ao povo muito a rédea ; 
Pois no tempo presente haver Comedia 
E' peor do que haver moeda falsa. 



68 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Agora o que na corte mais realça 
E' de roubos e mortes a Tragedia, 
Com elles muita gente vive nédia 
E nunca de dinheiro anda descalça. 

Lisboa está de santidades centro, 

E em louváveis costumes se melhora, 

Mas eu na educação d^ella não entro. 

Cada um como pode faz agora 

A Comedia com fêmeas porta a dentro, 

Com roubos e Entremez de porta a fora. 

[Poesias varias, t. vut. Ms.) 



A ladroagem e os assassinatos tornaram- 
se o modo de existência ordinária da capital, 
como se lê nas correspondências dos embai- 
xadores para os seus governos. Latino Coe- 
lho traçou um quadro escuro sobre esses tes- 
temunhos: «Lisboa á noite era então uma 
das terras mais perigosas para o viandante 
inoffensivo. As pessoas graves e timoratas 
mal se aventuravam a sahir depois que a 
grande metrópole com as suas trevas, os seus 
muladares, os seus entulhos, as suas encru- 
zilhadas, as SLias quelhas, se povoava de cães 
e de mendigos, de mulheres perdidas e de 
frades mundaníssimos, de numerosos malfei- 
tores e de mihtares indisciplinados que iam 
correr suas errantes aventuras, ou perpetrar 
livremente suas façanhas criminosas.» ^ 

A prohibição contra os theatros manteve o 
seu rigorismo até 1780, permittindo-se a re- 



1 Historia j^olitica e militar de Portugal, t. i, p. 
826. 



FILINTO ELYSIO 69 



presentação por bonecos, por que também ti- 
nham sido excluidos da scena os rapazes que 
substituíam o papel de mulheres. 

Não escapou á mordacidade do dicaz Lo- 
bo a prohibição dos espectáculos theatraes ; é 
curioso o Soneto A'' prisão dos rapazes que 
representavam nos Theatros, mandando a 
Rainha fechar os ditos: 



Sanctissima Rainha, a vossa graça 
Não merecem vassallos doeste mundo ; 
Sois dotada de um proceder profundo 
Para o céo, que p^ra terra sois escassa ; 

O vosso ministério tudo abraça, 
Sem olhar que de todo vae ao fundo ; 
Ah ! se vivera um Dom João Segundo, 
Castigara os motivos da desgraça ! 

Os Theatros, senhora, prohibidos! 
E os pobres rapazinhos na cadêa! 
São os fins sem os meios conhecidos. 

Venham mulheres, que a culpa é menos feia; 
Haja Opera, vivamos divertidos, 
E fique o diccionario para a cêa. ^ 



Em fins de 1780 foi appresentado ao go- 
verno da rainha um requerimento de Paulino 
José da Silva e Henrique da Silva Quintani- 
lha, um emprezario e o outro dono do Thea- 
tro da rua dos Condes para se lhes conceder 
a faculdade de «poderem expor ao publico 
algumas peças cómicas e trágicas representa- 



1 Nas Poesias joviaes e satíricas, p. 154. Ed. de 
Innocencio. 



70 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



das por homens» alleganclo os mesmos per- 
das pelas prohibições a que estavam sujeitos. 
Foi enviado o requerimento a Pina Manique 
para informar; é suggestivo o seu parecer, 
por que alludindo aos anathemas dos Santos 
padres contra o theatro, conclue: 

« Os politicos mais celebres da Europa che- 
gam até a julgar preciso e necessário nas 
Cortes um egual divertimento, para se en- 
treterem innocentemente aquelles indivíduos 
que, faltando-lhe, empregavam o tempo da 
sua ociosidade em commetter grandes crimes, 
em prejuiso da tranquilidade publica e em 
desprezo da santa e respeitável rehgião catho- 
lica romana. Sirvam de exemplo as cortes de 
Madrid, que tem actualmente dois theatros; 
na de Paris ha três; em Veneza sete; Parma 
tem dois ; e até o empório do mundo, a cabe- 
ça de toda a egreja, a respeitável Roma tem 
cinco; e postoque o summo sacerdote na fa- 
culdade que permitte aquelles theatros não é 
como princepe e cabeça da egreja, mas sim 
como potentado secular, é certo a não per- 
mittiria se se encontrassem com a auctoridade 
dos santos padres, ou destruíssem os bons 
costumes. Até nas próprias religiões (se. con- 
ventos) onde os homens são todos dedicados 
ao serviço de Deus poderoso e omnipotente, 
se permitte para refrigério, em tempo a que 
chamam carnaval, que representem algumas 
eruditas peças, que divertindo os espectado- 
res lhe influem a moral. 

«Por todos estes motivos me parecem os 
supplicantes dignos da graça que pretendem, 
muito principalmente sendo as representações 
todas feitas por homens, com o que não pode 



FILINTO ELYSIO 71 



haver receio de que aconteçam aquelles dis- 
túrbios que são infalliveis quando se dá um 
grande ajuntamento de pessoas de ambos os 
sexos. E para cortar qualquer abuso que se 
possa introduzir, será preciso que debaixo de 
qualquer pretexto que se allegue, se não con- 
sintam mulheres algumas para dentro das 
portas do theatro da representação, bastido- 
res e casas de scenario e vestuário ; e que nos 
camarotes não haja cortinas, nem se consin- 
tam mulheres meretrizes, que vão servir de 
escolho á virtude; e que as peças cómicas e 
as mais da representação sejam primeiro vis- 
tas e examinadas no tribunal da Meza Censó- 
ria, para serem purgadas no que respeita á 
religião e aos bons costumes. Com estas cau- 
tellas, que farei executar com toda a exacção, 
por serem os theatros e a sua economia um 
dos objectos da policia, me parecem os suppli- 
cantes dignos da graça que pretendem. V. M.^® 
porem mandará o que for servido. Lisboa, 15 
de Dezembro de 1780. — Diogo Ignacio de 
Pina Manique.» ^ 

Outros documentos policiaes nos mostram 
o estado de imbecilidade governativa com que 
se legislava para o theatro a pretexto dos 
bons costumes e da moral. Era o theatro a 
parte viva da litteratura; mas era impossível 
manifestar-se ahi qualquer talento pela de- 
gradação em que se achava o meio social, e 
pela pressão estúpida da Intendência. Tran- 
screvemos algumas das suas Contas para as 
Secretarias. 



1 Contas para as Secretarias^ Liv. i, fl. 82 a 86 
t. (Ar eh. nac. ) 



72 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

« Dando-me parte o Ministro Inspector do 
Theatro da rua dos Condes, que os estran- 
geiros que n'elle trabalhavam com os Boné- 
eros, representando algumas peças sem for- 
ma, a que denominam representar de impro- 
viso, envolviam algumas acções obscenas, e 
ao mesmo tempo repetiam algumas vozes 
contra a modéstia e offensivas aos ouvidos 
das gentes, principalmente do sexo feminino, 
chegando também a repetirem alguns peda- 
ços de Comedias, como eram Arte da Feitiça- 
ria, animando-as com palavras em que invo- 
cavam o demónio, instrucção perigosa para 
se consentir em semelhantes logares, os man- 
dei advertir, e como continuaram do mesmo 
modo, chegando o mesmo povo a dar-lhe re- 
petidas pateadas, para evitar que chegasse a 
mayor excesso os mandei noteficar para sus- 
penderem as ditas representações, pois o Avi- 
so que S.^'^ Ex.^ me expediu era somente para 
as consentir, e não até segunda ofdem, de 
d'onde inferi que a mente de sua Magestade 
era só para serem conservados em quanto 
não praticassem o que acabo de referir ; pois 
aliás era perverter o fim com que se permit- 
tem as representações que he o de reprehen- 
der o vicio e ensinar a Moral deleitando. 

«Não me fallou em cousa alguma João 
Gomes Varella, nem Paulino José da Silva, 
nem me requereram a este respeito ; e só pro- 
cedi por effeito das obrigações do cargo que 
S. Mag.^® me confiou, e na inteUigencia de 
que o Aviso de V.^ Ex.^ não era até segunda 
ordem, me ficava permittido o pôr em prati- 
ca a minha commissão, em evitar tudo o que 
fosse contra os bons costumes e que não offen- 



FILINTO ELYSIO 73 



desse com acções peccaminosas a modéstia das 
gentes que concorriam a assistir áquelle di- 
vertimento. A' vista de tudo S. Mag.^^ deter- 
minará o que lhe parecer mais acertado e jus- 
to. Lisboa, 20 de Dezembro de 1782, 111."^^ 
Ex."'^ Sr. Marquez de Marialva.» ^ 

«Manda-me V.^ Ex.^ o informe de quem 
foi que expediu ordem ao Desembargador 
Guilherme Baptista Zarco a que elle se refe- 
re, para mandar vir os Cómicos portuguezes 
que se achavam dispersos pelos Theatros do 
Reino. 

« O que posso dizer a V.^ Ex.^ é que áquel- 
le Ministro como Inspector do Theatro da rua 
dos Condes, mandou vir os Cómicos na certe- 
za de que S. Mag.^^ tinha mandado abrir o 
mesmo Theatro para se representarem n'elle 
Operas com figuras i?ianimadas, como consta 
dos Avisos que ficam n'esta Intendência, e 
depois por permittir El-rei nosso Senhor que 
houvessem Entremezes e Pantominas, para o 
que me fez a honra de me mandar chamar á 
sua real presença para assim m'o determinar, 
e também para que sustasse no despejo que 
eu tinha mandado fazer aos Cómicos que nas 
peças que executavam de improviso envol- 
viam matérias que não eram convenientes 
se exposessem ao Pubhco por serem obsce- 
nas, indecentes, contrarias aos bons costu- 
mes, e que faziam renascer o Theatro dos Gre- 
gos, contra o qual declamaram os Santos Pa- 
dres; e que finalmente não eram da natureza 
d'aquellas que servem de instruir o publico 



^ Contas para as Secretarias, Liv. i, fl. 494 v. 



74 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

reprehendendo o vicio e metendo-o a ridiculo 
com as cores as mais vivas e que influem sua- 
vemente nos ânimos a Moral santa, a Policia, 
a urbanidade, d'aquellas que as nações civi- 
lisadas e christãs expõem nos seus Theatros, 
e que até dentro dos mesmos claustros mais 
austeros se representam; d'aquellas emfim 
que n'este Reyno correm impressas á face de 
um Tribunal como o da Mesa Censória e com- 
posto de Varões litteratos e que foi instituido 
para velar se não publiquem cousas contra a 
Moral, contra a Religião ou contra os bons 
costumes. 

«Estas permissões pois de Suas Magesta- 
des foram as razões que houve para aquelle 
Ministro assim proceder e he o de que posso 
informar a V.^ Ex.^ para o representar aos 
mesmos Senhores e elles resolverem o que for 
de seu real agrado. Lisboa, 18 de Fevereiro 
de 1784. Ex."^o Snr. Arcebispo de Tessaloni- 
ca.» ^ 

Segundo a ideia do leigo que acompanha- 
va o Arcebispo Confessor, os sábios, os san- 
tos e os bobos que formavam a corte de 
D. Maria i foram soffrendo modificações se- 
gundo os acontecimentos: perseguidos os sá- 
bios, e afastados os santos, ficaram preponde- 
rando os bobos. E n'essa onda de demência 
se affundou a rainha D. Maria J, não poden- 
do resistir a uma serie de desgostos pessoaes 
que successivamente a accabrunharam : em 
25 de Maio de 1786 a morte de seu marido: 
em 10 de Septembro de 1788 a de seu filho o 



1 Contas 2) (tr a as Secretarias, Liv. ii, fl. 84. 



FILIÍ>TO ELYSIO 75 



Princepe D. José, e conjunctamente a da sua 
irmã D. Maria Anna Victoria e seu esposo o 
Infante de Castella D. Gabriel; e como se isto 
não bastasse para abalar-lhe a rasão, veiu 
em 29 de Novembro de 1788 o falecimento 
do seu director espiritual, o Arcebispo Con- 
fessor, que possuia o dom de tranquillisar a 
alma da attribiilada rainha. 

Era a rainha D. Maria i immensamente 
amiga de sua irmã D. Maria Francisca Bene- 
dicta, mais nova do que ella doze annos 
(25 de Julho de 1746); como signal de uma 
affeição quasi maternal consentiu no plano de 
Pombal, que a casou com seu filho primogé- 
nito, o princepe do Brasil, Dom José, que 
a devia substituir no throno. O princepe era 
intelligente e bem intencionado, e já sobre 
elle concebera o Marquez de Pombal grandís- 
simas esperanças: a causa do desterro de Jo- 
sé de Seabra da Silva para Africa era attri- 
buida á revelação do seguinte plano do terrí- 
vel Ministro: Conhecendo a fraqueza de ca- 
racter de D. Maria i, que não saberia conser- 
var as instituições fundadas por Dom José, 
nem manter as reformas económicas e admi- 
nistrativas impostas dictatorial e despotica- 
mente, o ministro persuadira o monarcha a 
que obtivesse de sua filha uma renuncia á 
successão do throno a favor de seu filho o 
princepe Dom José. Dona Maria facilmente 
entregaria a seu pae essa renuncia, se José 
de Seabra não tivesse avisado a rainha mãe 
D. Marianna de Áustria do que se tratava; a 
soberba austríaca impoz á filha a promessa 
de não assignar papel algum sem primeiro 
lh'o mostrar. Foi assim que Pombal viu de- 
struído o seu plano de lei salica. 



76 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O princepe Dom José não occupou o thro- 
no de sua mãe, mas participava do governo 
nos intervallos das longas doenças da rainha. 
Era um espirito ávido de saber, seduzido 
pelas experiências physicas que então eram a 
base positiva da sciencia, apaixonado pelas 
collecções de museu, interessando-se pelas no- 
vas theorias económicas, e propondo-se como 
modello para a sua vida esse typo phantasti- 
co e generoso do rei José ii. Era além d^isto 
um gracioso protector dos poetas, attendendo 
aos seus memoriaes, que lhe iam entregar ao 
palácio de Queluz. Comprehende-se que no 
meio fradesco em que vivia existia uma luz 
que o dirigia para novos horisontes; de facto 
o Duque de Lafões é que o dirigia, relacio- 
nando-o com José ii, e mostrando-lhe o esta- 
do de degradação até onde descera Portugal. 
O princepe conhecia as reformas de que ca- 
recíamos, a necessidade de refrear o clerica- 
lismo, de sopear as ambições da politica in- 
gleza que nos reduzia á condição de colónia, 
e de manter as ideas económicas postas em 
pratica pelo Marquez de Pombal. Não admira 
que os espíritos mais illustrados estivessem 
voltados com as suas esperanças para este 
princepe, que ambicionava tornar-se um outro 
José II para Portugal. Mas se a revelação de 
José de Seabra da Silva o afastou do throno, 
uma revelação de Lord Beckford ao Arcebis- 
po Confessor parece ter sido causa da sua 
morte prematura, não obstante haver-se pro- 
palado que morrera de um ataque de variola. 
O Princepe commetteu a indiscrição de reve- 
lar os seus planos a Beckford, que comoinglez 
entendeu dever contraminar essas doutrinas 



FILINTO ELYSIO 77 



antagónicas aos interesses do seu paiz, dela- 
tando-o á reacção clerical. 

Na Carta xxxi (de 19 de Outubro de 1787), 
conta Beckford o seu encontro com o prince- 
pe herdeiro «figura pensativa, mais bello e 
avermelhado que muitos dos seus conterrâ- 
neos.» — «A primeira pergunta com que sua 
Alteza real me honrou foi se eu havia visita- 
do o seu Gabinete de instrumentos.» Na sua 
ingenuidade o princepe D. José revelou-lhe 
o seu ideal politico; e um certo resentimento 
contra a Inglaterra : « — Aquella soffreguidão 
commercial que a Inglaterra desenvolve em 
cada um dos seus tratados tem-nos custado 
caro em mais do que uma circumstancia. — 

«EUe então correu sobre o caminho que 
o decahido Pombal tantas vezes seguia nos 
seus papeis de estado como em varias publi- 
cações que foram espalhadas durante a sua 
administracção, e eu logo percebi de que es- 
chola sua Alteza Real era discípulo.» E sem 
attribuir toda a decadência de Portugal ás 
exacções inglezas, continuava o princepe: 
«mas não admira, abatidos e humilhados 
como estamos por gravosas e inúteis institui- 
ções. Emquanto houver tantos zangãos n'uma 
colmêa, é debalde que se espera o mel. Não 
estaes vós surprehendido, não vos choca o 
encontrar-nos tantos séculos atraz do resto da 
Europa ? » E animado com um sorriso com- 
placente do lord, o princepe começou a fallar 
com enthusiasmo do Imperador-philosopho 
José II: «Eu tenho a fortuna de correspon- 
der-me frequentemente com este illustradissi- 
mo soberano. O Duque de Lafões, que tam- 
bém tem a vantagem de communicar com 



78 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

elle, nunca deixa de me dar os detalhes d'es- 
tes actos salutares. Quando teremos nós a 
sufficiente valentia para o imitar!» Beckford, 
como inglez matreiro, fingiu certa admiração 
para o ouvir detalhar alguns projectos «siíi- 
guiar is sinios e perigosissintos ;» «elle deixou 
cahir algumas vagas insinuações de medidas 
que me encheram não só de surpreza, mas 
de uma sensação que tocava quasi o horror.» 
O inglez viu que elle attribuía a decadência de 
Portugal em grande parte < a uma cega e erra- 
da confiança politica interesseira da nossa 
Ilha dominante. Ainda que não poupou o 
meu paiz, não se mostrou nimiamente parcial 
do seu. Pintou com cores vivas os defeitos da 
milicia e do governo do clericalisjno.» Depois 
d'isto, Beckford foi conferenciar com o Arce- 
bispo-Confessor : «e dirigindo-me para o palá- 
cio chamei o Arcebispo-Confessor, que se en- 
cerrou uma meia hora no seu gabinete inte- 
rior. Contei-lhe tudo o que se passara n'esta 
não buscada e inesperada entrevista. As con- 
sequências desenvolvem-se por si mesmas com 
o tempo.» Terrível phrase esta, porque não se 
passava um anno e o princepe falecia re'penti- 
namente, attribuindo-se officialmente a morte 
a um ataque de bexigas confluentes. ^ 

Depois da morte do princepe Dom José, a 
rainha hallucinada pela direcção espiritual do 
seu novo confessor o Bispo do Algarve Dom 



* A morte do princepe D. José foi muito celebra- 
da pelos poetas contemporâneos, sobresahindo a ses- 
são fúnebre da Academia de Humanidades de Lisboa, 
que então continuava a tradição da Arcádia ; eis um so- 
neto satirico contra esses imitadores : 



FILINTO ELYSIO 79 



José Maria de Mello, tinha visões horrorosas 
representando seu pae e o ministro favorito 
a arderem no inferno ; corria pelas salas do 
palácio n'uma afflicção de paroxismo gritan- 
do debaixo da impressão de invencíveis ter- 
rores. Em um Soneto satírico da época faz-se 
uma carga ao Bispo do Algarve D. José Ma- 
ria de Mello, e á freira Prioreza do Convento 
do Coração de Jesus, D. Thereza, filha do 
Monteiro-mór, que de dama do quarto da rai- 
nha passara a freira de Carnide, e era então 
desveladissinia protectora de Anselmo José 
da Cruz Sobral: 

O Bispo-Confessor, nome de alcunha 
Que nem talentos, nem virtudes tinha, 
Que dos astutos Manigrépos vinha, 
E com elles ao Reino tudo impunha ; 



RETRATO AO NATURAL, DO NATURAL DOS SENHORES 
MODERNOS DO TEMPO 

Com um botão na copa apresilhado, 
Chapéu com bico largo, olhando estrellas, 
Gravata do lençol, curtas fivellíis, 
Trancinhas no cabello, aspecto inchado; 

Vestido d Arcádia ; o modo desmanchado, 
Grossas abotoaduras amarellas, 
E andar muito direito das canellas, 
Com boldrié de fora meio aspado ; 

Grande sobrecasaca, e de amostrinha 
Os canhões de veludo; erguida a proa, 
Calção faminto, andar de ventoinha : 

Roca em cima a mamar junto á pessoa, 
Esta é hoje a figura, ou figurinha 
Dos Patetas, Peraltas de Lisboa. 

iPoes. varias, Ms., t. vii, p. 4.) 



80 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Quando altos projectos só propunha 
Sua alma fraca, mísera, mesquinha, 
Enferma, apezar nosso, uma Raynha, 
Que os sentimentos d^alma a elle expunha. 

Chora esta soberana a Nação inteira, 

E só vós, justo Deus, é que sabeis 

Se foi causa o Confessor e mais a Freira. 

Aprendei d'aqui, augustos Reis, 
Que a vossa fortuna verdadeira 
Só pende da escolha que fazeis. 

(Ms. da Acad, Est. 8, n.« 41.) 

Lord Beckford descreve esta phase, em 
que a vida do palácio de Queluz se tornava 
insupportavel. A rainha caíra n'uma comple- 
ta demência, e o princepe Dom João começou 
a reger os negócios públicos servindo-se da 
assignatura de Dona Maria i; Portugal já es- 
tivera sob o sceptro da que depois de morta 
foi rainha, e obedecia agora á mesma fatali- 
dade governado em nome de uma rainha vi- 
ctima do fanatismo. A morte do princepe 
Dom José foi uma segurança para o partido 
clerical e aristocrático ; o princepe Dom João 
tinha uma grande dose de imbecilidade para 
ser dominado, e garantir a posse da nação e 
das riquezas publicas a estas duas facções. 
Como seu bisavó D. João v, elle tinha a mo- 
nomania das festas de egreja, e um dos seus 
prazeres era resar com os frades no coro o 
canto-chão monótono, em quanto sua mulher 
a princeza D. Carlota Joaquina jogava as es- 
condidas com os fidalgos do paço nos laran- 
jaes de Queluz, como descreve Beckford. A 
sua incapacidade para sequer perceber qual- 
quer necessidade administrativa ou politica, 



FILINTO ELYSIO 81 



fazia com que fosse um páo mandado com 
que exerciam a soberania os ministros da rai- 
nha louca. CoUigiram-se nos manuscriptos 
d^essa época os seguintes epigrammas : 



Senhor, o Paiz está são, 
Quem diz o contrario mente; 
Os Avisos do Intendente 
São cousas de um toleirão ; 
Dos que ao vosso lado estão 
D^esses, Senhor, vos guardae, 
E de todo acautellae 
Essa Fidalga quadrilha, 
Que tira o juizo â Filha, 
E intentou ynatar o Pae. 

( Bibl. nac, 3/s. 7008.) 

Pinto é gato, 
Marquez mentecapto, 
Seabra estudante, 
Martinho é chibante; 
Sobre este andor 
Vae o Princepe nosso senhor, 
Frei Mathias vae atraz. 
Leva o sceptro do rapaz. 

Dom Filippe 

Espera o repique. 
(Ih,) 



Ainda aqui é apontado o Marquez, já na 
idiotia senil; mas passado pouco tempo cor- 
ria o seguinte epitaphio Ao Marquez de Pon- 
te de Lima, em um soneto: 



Sepultado — aqui jaz — quem tal diria ? 
Que a parca se atrevesse sem respeito 
Prostrar de um golpe só em um sujeito 
Poder, soberba, empregos, fidalguia! 



82 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Um cargo não vagava, e um só havia 
A que não fosse realmente eleito ; 
Manejava os negócios com tal geito 
Que até elle ignorava o. que fazia. 

Foi egual Presidente em Tribunaes, 

Secretario, Ministro, Conselheiro, 

Foi Grão-Cruz e Inspector dos seus eguaes. 

Foi contra votos nosso Thezoureiro, 
E dizem muitos, que se ainda vive mais 
Não nos ficava peça em bom dinheiro. 

(Bibl. nac, Ms. X. 5, 50.) 



O povo com o seu bom senso rabelaisiana 
fez a synthese doeste governo em nome de 
D. Maria i no seguinte pasquim tradicional : . 



— Que fazes, João ? 
« Faço o que me dizem, 
Como o que me dão, 
E vou para Mafra 
Cantar canto-chão. ^ 



Se OS reaccionários temiam as consequên- 
cias das aspirações liberaes do princepe Dom 
José, que desejava imitar José ii, com a sua 
morte não fizeram mais do que chamar sobre 
Portugal uma successão tremenda de catastro- 
phes. No conflicto europeu que se dava entre 



Existe esta variante, que colhemos no Porto : 

Nós temos um rei 
Chamado João, 
Faz o que lhe dizem, 
Come o que lhe dão . . . 



FILINTO ELYSIO 83 



a Republica franceza e os outros estados col- 
ligados, a verdadeira politica de uma peque- 
na nação como Portugal devia ser uma rigo- 
rosa neutralidade, seria mesmo esta uma con- 
dição do seu desenvolvimento mercantil ; os 
que se serviam da chancella do princepe Dom 
João fizeram-n'o adherir no 1.^ de Septembro 
de 1793 ás exigências do gabinete de Lon- 
dres entrando na collisão. As consequências 
foram acharmo-nos envolvidos em uma guer- 
ra, alliados com a Hespanha, dispendendo mi- 
lhões com a Divisão auxiliar, atacados no 
nosso commercio pelo corso francez, espolia- 
dos indignamente pelo contrabando inglez, 
desorganisados na administração, e recorren- 
do ao expediente de sophismar as despezas 
da nação com o papel moeda. E d'esta serie 
de males não se descobriu o fim, por que esse 
acto impolitico de 1793 tinha implícito em si 
a invasão futura, a devastação do paiz e a 
extincção da nacionalidade. 

Que comprehendia Dom João vi de tudo o 
que se passava? Nada; estava diante dos 
acontecimentos como «boi diante de palácio.» 
A face devota do génio austríaco preponde- 
rava n^elle por uma revivescência atávica ; 
mais tarde viria o tino philosophico de Ber- 
tholdo, que lhe dava relâmpagos de bom 
senso, ensinando-o a lograr os mais espertos, 
como o ideólogo Silvestre Pinheiro Ferreira. 
A poesia continuava a produzir-se de uma 
maneira espantosa em folhas volantes, e os 
pretendentes enchiam as escadas de Queluz a 
espera das moedas de 4S800 rs. pelos versos. 

« Os reis portuguezes dos últimos tempos 
são quasi todos derivados da Casa de Au- 



84 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



stria, meio devota, meio philosopha, que im- 
poz como sello de raça aos seus descendentes 
a hypocrisia, uma politica falsa e uma sensua- 
lidade suina. Michelet caracterisa admiravel- 
mente esta raça no seu typo : — Tem uns 
assomos de demência, mas uma feição per- 
manente transparece debaixo de um signal 
eminentemente sensível, o beiço austríaco, A 
commedida Maria Thereza descobre-se nos 
seus filhos: recatada e graciosa algum tempo 
em Maria Antonietta, libertina em Leopoldo, 
desbravada na rainha de Nápoles na suabac- 
chanal ao pé do Vesúvio. — La lèvre autri- 
chienne, como caracterisa o historiador fran- 
cez, resalta na sua imbecilidade ou no seu 
sensualismo em Dom João v. Dom José, e 
Dom João VI ; tal é a origem do beiço da Ca- 
sa de Bragança.» ^ Beckford, quando esteve 
pela segunda vez em Portugal em 1794, ob- 
servou no caracter do Princepe Regente cer- 
tas qualidades que elle foi o primeiro a ex- 
plicar pelo beiço austriaco : « Elle estava de 
pé, só, no meio d'este vasto salão, pensativo, 
assim me appareceu, e aério. Pareceu comtu- 
do attencioso com a minha aproximação, e, 
ainda que elle era certamente o avesso da 
formosura, ali tinha uma expressão de petu- 
lância e ào mesmo tempo de benignidade, no 
rosto extravagante, singularmente agradável: 
isso me impressionou, por que tem uma de- 
cidida parecença particularmente no que re- 
speita á bocca com os avós maternos de seu 
pae. Tendo D. João v casado com a Archidu- 



Obras primas de Balzac, Introducção. 



FILINTO ELYSIO 85 



queza, filha do imperador Carlos vi, elle tem 
por conseguinte um. jus hereditário a esses 
compridos e aitctoritarios beiços, que caracte- 
risam notavelmente a Casa de Áustria antes 
de se confundir na de Lorena.» ^ 

Em 1799 Dom João vi teve uns Ímpetos 
de individualidade e de resistência contra os 
ministros intrigantes, e começou a assignar 
os actos governativos como Regente; caiu 
José de Seabra da Silva, e substituiu-o Luiz 
Pinto, menos intelhgente mas mais dissimula- 
do. No meio doeste tripudio, figura o phan- 
tasma do prepotente Manique, o fac-totum do 
absolutismo, tendo um decreto com poderes 
discrecionarios que o dispensava de dar con- 
ta dos. seus actos e até do emprego dos dinhei- 
ros públicos! O commando das armas fora con- 
fiado ao octogenário Duque de Lafões, e por 
fatahdade pouco antes de Bonaparte mandar 
a Hespanha declarar guerra a Portugal em 
1801. O que era o generalíssimo das tropas 
em 1801, o decrépito Duque de Lafões, pode 
vêr-se n'este retrato que d'elle deixou em 
1787 o espirituoso Beckford: « conhecendo-o 
por uma espécie de camareira velha, com 
eguaes ninharias e melindres ; põe ainda cor 
e signaes, e postoque já tenha setenta inver- 
nos, ainda procura fazer rodopios sobre os 
calcanhares e mexer-se com juvenil agilidade; 
muito me abysmou a faciUdade dos seus mo- 
vimentos, por quanto me haviam dito que era 



1 Beckford, Alcobaça and Batalha^ p. 211. Ed. 
de 1839. O viajante inglez relata uma recepção em 
Queluz em 1794. 



86 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



martyr da gota. Depois de ciciar em francez 
com a mais requintada accentuação queixas 
contra o sol e as estrellas e o estado da ar- 
chitectura, abalou graças a Deus, para ir mar- 
car o acampamento da cavalleria que hade 
guardar a sagrada pessoa da rainha durante 
a sua residência n'estas montanhas (de Cin- 
tra.)» ^ O Duque de Lafões militara brilhan- 
temente na Guerra dos Sete annos, mas a ve- 
lha táctica já nada valia contra as novas cam- 
panhas inauguradas pelos exércitos da Repu- 
blica franceza. A sua velhice nestoriana tor- 
nava-o irresoluto, e incapaz de um acto de 
coragem; era o verdadeiro symbolo das for- 
ças defensivas da monarchia. O sábio José 
Monteiro da Rocha, diante das ameaças da 
invasão franceza, escrevia em carta de 21 de 
junho de 1801: «Sem energia e sem enthu- 
siasmo nada se faz, e com ella se fazem mila- 
gres.» E ao mesmo tempo reconhece que o 
Princepe Regente era « tão mal servido por 
esses ainstocratas ineptos e orgulhosos, que o 
conduziram e a toda a nação a circumstan- 
cias tão criticas e desastradas.» 



Cartas de Beckford, xx. (Trad. do Panorama.) 



II 



FILINTO ELYSIO 



Um simples erudito, distrahindo o celibato 
clerical com a cultura de amenidades littera- 
rias, e collocando-se extranho aos interesses 
sociaes de uma nação comprimida pelo des- 
potismo, procurando comprehender e imitar o 
ideal horaciano pelo seu lado sceptico e sen- 
sual, eis o que era Filinto Elysio, a quem a 
perseguição religiosa forçou repentinamente a 
fugir de Portugal. O contacto inesperado com 
o grande mundo, a entrada no foco activo on- 
de se elaborava a crise mental que se ia trans- 
formar em breve na explosão temporal da Re- 
volução do fim do século xviii, não lhe apa- 
garam essa feição que lhe imprimira a pro- 
fissão de clérigo e de latinista. Através de 
uma existência atormentada pela penúria em 
terras extrangeiras, viveu sempre no isola- 
mento e sempre na idealisação do passado. 
A vida de Filinto abrange o vasto periodo 
de outenta e cinco annos (1735 — 1819), 
dentro do qual se passou o movimento mais 
demolidor do Século excepcional, e os angus- 



88 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

tiosos primórdios do século decimo nono; tu- 
do isso foi uma vaga miragem para esse es- 
pectador indifferente. Ao contrario da vida 
do também octogenário P.® António Vieira, 
que se achou envolvido em todas as intrigas 
diplomáticas da Companhia de Jesus na re- 
stauração da nossa pequena nacionalidade de- 
pendente dos accidentes da lucta entre a Casa 
de Áustria e a França, a existência de Filinto 
passou sem a minima parcella de auctorida- 
de, refugiando-se das incertezas do presente 
na recordação do passado, que a longevida- 
de tornou mais intensa e regressiva. A luz do 
século deslumbra-o, e apenas allude aos ex- 
traordinários successos que abrem uma éra 
nova: a proclamação da Republica da Ame- 
rica, a Revolução franceza, a Defesa nacio- 
nal, as Guerras napoleónicas, a invasão de 
Portugal, a deserção da dynastia dos Bragan- 
ças e entrega do reino ao protectorado da In- 
glaterra, tudo isso deixa uma remota reso- 
nancia nas suas lucubrações litterarias. E 
emquanto em volta d'elle se iniciava o Ro- 
mantismo, que procurava a revivescência das 
litteraturas nacionaes nas suas origens esthe- 
ticas da Edade media, Filinto Elysio conti- 
nuava a imitar Horácio nas suas Odes e Sá- 
tiras, e sem comprehensão da nova corrente 
de idealisação traduzia em vernáculo o Obe- 
ron de Wieland e os Martyres de Chateau- 
briand, para mostrar as riquezas lexicologi- 
cas da lingua portugueza. Por isso quando 
Lamartine saudava o exilado poeta em uma 
Elegia immortal, Filinto sorria-se sem com- 
prehender o que o aproximava do iniciador 
da poesia romântica em França. 



FILINTO ELYSIO 89 



A influencia de Filinto foi comtudo impor- 
tante; quasi todos os poetas portugiiezes do 
ultimo quartel do século xviii se confessaram 
seus discípulos; e mais do que isso, o génio 
de Garrett attingiu a perfeição da forma poé- 
tica no estudo dos seus escriptos e na pre- 
occupação do purismo clássico. Bastava isto 
para dar-lhe direito a um logar proeminente 
na historia litteraria. Mas Filinto era mais do 
que um erudito, um humanista; os desastres 
da vida, a ausência da pátria, o isolamento 
na miséria deram-lhe á expressão pessoal das 
suas emoções uma vibração verdadeira, que 
fizeram consideral-o um grande Poeta, como 
o affirmou o critico Villemain. A quasi indi- 
gência leva-o á renuncia ; o desterro fel-o com- 
prehender Camões ; o recordar-se do passado, 
por uma natural revivescência das impressões 
da mocidade, revela-lhe a belleza dos modis- 
mos o locuções da linguagem popular, que se 
tornam a parte viva da novação archaica do 
seu estylo; acordam-lhe na lembrança as tra- 
dições da vida portugueza, que embora já tar- 
de tenta elaborar litterariamente. Emfim, elle 
elevou- se acima da suffisance livresque, que 
ataca todos os eruditos, servindo um alto 
ideal: propugnou pela cultura da Língua e 
da Litteratura portugueza, duas creações ad- 
miráveis de um povo eguaes á importância 
das descobertas marítimas que o eternisam na 
historia. ^ A influencia de Filinto proveiu d'es- 



^ Lúcida aff ir mação do Dr. Wiliielm Storck no 
seu Estudo sobre Camões, traducção impressa a espen- 
sas da Academia real das Sciencias. 



90 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

ta intuitiva missão, que o fazia exclamar com 
emphase : 

Abra-se a antiga veneranda fonte 
Dos genuínos Clasicos, e soltem-se 
As correntes da antiga, sã linguagem. 

§ I. Cultura e actividade litteraria. — Fuga de Portuga! 

(173Í — 1778) 

Nos depoimentos do processo do Santo 
Officio contra o P.® Francisco Manoel e nas 
notas espalhadas pelo poeta em muitos loga- 
res das suas obras, encontram-se valiosas in- 
formações sobre a sua filiação e mocidade, 
que explicam o génio do escriptor, e mesmo a 
direcção de toda a sua existência. Nasceu 
Francisco Manoel em 23 de Dezembro de 
1734, conforme o confessa tantissimas vezes 
em referencias dos seus versos consagrando 
o próprio anniversario; porém na certidão do 
parocho da freguezia de S. Julião, lê-se: «o 
qual baptizei em casa, por estar em perigo 
de vida, o qual nasceu em 21 de Dezembro, 
de 1734. . .» Confiamos mais na retentiva do 
poeta, tanto mais, que a circumstancia de se 
achar a criança em perigo de vida foi um pre- 
texto para fazer-se o baptisado em casa, liber- 
tando-a assim da brutalidade do parocho Ber- 
nardino do Couto, que convertia esse sacra- 
mento em um terrível mergulho. Dil-o o poe- 
ta: «Mergulhavam (não sei se ainda hoje é a 
moda) as crianças na pia. Lembro-me ter vis- 
to o Padre (pelo nome não perca) Cura então 
da minha freguezia, metter um filho de J. K. 
tão atabalhoadamente na agua, que lhe amol- 
gou a testa com um encontrão que lhe deu na 



FILINTO ELYSIO 91 



quina da pia do baptistério, de que o rapaz 
nunca sarou.» ' Essa debilidade congénita não 
se coaduna com a resistente constituição, que 
através de todas as luctas de uma tormento- 
sa existência foi além dos outenta e quatro 
annos. Sane, alludindo ao seu tardio desen- 
volvimento intellectual, explica-o mais pela 
imperfeição do systema de ensino da época. ^ 
Pela certidão de baptismo sabe-se que foram 
seus pães Manoel Simões e Maria Manoel, 
ambos naturaes de Ílhavo, baptisados e casa- 
dos na freguesia de San Salvador d'essa vil- 
la, e então moradores em Lisboa na rua da 
Ferraria, freguezia de San Julião. ^ Pelos de- 
poimentos do processo da Inquisição, sabe- 
se que Manoel Simões era fragateiro, e tivera 
uma fragata sua, e que a mulher vendeu pela 



1 Obras, t. v, p. 188. 

* « La nature Tavait richement dote ; mais sll 
montra dans les prémiers temps de son adolescence 
ces symptomes de stupeur, d'inactivité d'ésprit, qui 
motiverent des jugements si hatifs et si légers, il faut 
en attribuer principalement le tort au système d^études 
que Pon suivait alors en Portugal...» Poesie lyrique 
portugaise. 

3 Transcrevemos aqui essa Certidão, que fora por 
publica-forma extrahida do seu processo de ordenação 
para ser reunida ao processo que lhe promovia a In- 
quisição de Lisboa, em 16 de junho de 1779. (Torre 
do Tombo, Processo N.» 14:048): 

« Certidão do Baptismo de Francisco M.*'^ extrahi- 
da da sua sentença de genere, fl. 41 : = Theotonio Go- 
mes, Cura da Parochial Egreja de S. Julião de Lisboa, 
certifico, que vendo os liuros dos Baptismos doesta mes- 
ma Egreja, em um, que teve principio no anno de 1780 
e findou no anno de 1748, a fl. 96 v. está um assento 



I 



92 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



rua peixe e outras cousas comestíveis. Maria 
Manoel era uma lépida e desenvolta tricanay 
como as que ainda hoje vendem peixe pelas 
ruas de Lisboa, e a sua belleza influiu na si- 
tuação do casal. Conta outra testemunha do 
processo do Santo Officio, que antes do Ter- 
ramoto moravam conjunctamente com João 
Manoel, Mestre das Fragatas reaes na rua da 
Ferraria, freguesia de S. Julião, nas casas de 
José Rodrigues Torres, e também na rua dos 
Mercadores. Segundo as informações doesta 
Torres, e de outras testemunhas juradas «era 
voz publica que o dito P.® Francisco Manoel 
era filho de João Manoel; «este o protegera 
arranjando-llie o património para a sua orde- 
nação, e lhe alcançara a Thesouraria das 
Chagas pertencente á Confraria dos Marean- 



do theor seguinte: — Aos dois dias do inez de Janeiro 
de 1735 annos, eu o Padre Cura, puz os Santos Óleos 
a Francisco, o qual baptizei em casa, por estar em pe- 
rigo de vida, o qual nasceo em 21 de Dezembro de 
1734, filho de Manoel Simões, natural e baptisado na 
freguesia de S. Salvador da Villa de Ílhavo, Bispado 
de Coimbra, e de sua mulher Maria Manoel, natural 
e baptisada na sobredita Freguesia, e n'ella recebidos, 
moradores na Ferraria, Padrinho Gregório Mendes 
Pinto, e Madrinha D. Catherina de Ares, por procu- 
ração feita a Félix Monteiro da Rocha. O Cura Bernar- 
dino do Couto. — E não consta mais do dito assento ao 
qual me reporto. S. Julião, de Lisboa, 12 de Septem- 
bro de 1753. O Cura Theotonio Gomes. Reconheço, 
Rocha. =A^ margem acha-se uma declaração: He de 
Sant^Iago da Mouta, Bispado de Coimbra ^ 

Por esta certidão se vê que Francisco Manoel to- 
mara ordens de presbytero em 1754. Os livros da fre- 
guezia de S. Julião tinham sido destruídos no terra- 
moto de 1755. 



FILTNTO ELYSIO 93 



n tes. Depois do Terramoto foram todos morar 
I para uma barraca á Cotovia, e depois na rua 
do Valle, freguezia das Mer^s, até que sendo 
João Manoel" despachado Patrão-Mór da Ri- 
beira das Náos os levou comsigo para as ca- 
sas que lhe dera o estado. ^ Ahi na Ribeira 
das Náos reunia o poeta os seus amigos por 
1767, até que pelo falecimento do Patrão- 
Mór, veiu morar para umas casas de Monsieur 
Pedro, marceneiro, quasi defronte do Palácio 
do Calhariz, com seus pães. Pelo processo in- 
quisitorial também se diz com malignidade, 
que o P.e Francisco Manoel pretendera habi- 
litar-se á herança do Patrão-Mór, provando 
que era filho d^elle, mas que d'isso o dissua- 
dira o Cura das Chagas. E' certo, que em uma 
Ode escripta em 1800 (seis lustres depois do 
exilio ) allude o poeta aos serviços públicos de 
seu pae, que com certeza não eram os de 
fragateiro no Tejo: 

Servindo ao Rei e á Pátria, sessenta annos, 
Deixou meu pae com que Filinto á larga 
Vivesse independente, e ao ócio e ás Musas 
__ Cedesse mansos dias. 

(Ohr., Ill, 97.) 

Foi com o dinheiro do Patrão-mór, que 
'Francisco Manoel já ordenado comprara va- 
rias propriedades, como uma quinta em Ca- 



^ Á sua residência na Ribeira das Náos allude o 
poeta : « ouvia da minha janella, na Ribeira das Náos, 
os algarvios arrematar tão soltamente, que cavallos 
desenfreados não davam mais corrente aos pés, que 
elles á lingua.» ( Obr.^ t. vi, p. 249.) 



94 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



marate, e casas em Lisboa, nas ruas do Val- 
le, do Tilhal e de S. José; ^ algumas teste- 
munhas mais serias do processo inquisitorial 
davam-no como sobrinho do Patrão-Mór, sen- 
do isso elemento de chasco entre os poetas 
satíricos contemporâneos, quando o chama- 
vam Patrão da lancha do grupo dos versistas 
que adoptavam o emprego dos archaismos. 

Francisco Manoel do Nascimento, chas- 
queava das presumpções heráldicas assoa- 
lhando o plebeismo da sua estirpe : « A famiha 
dos Nascimentos é antiquíssima. Na sua car- 
ta genealógica se estende como chefe Adão, 
seu filho Caim foi o primeiro a quem assen- 
t(ju o apellido de Nascimento, por quanto seu 
pae não fora nascido, mas creado. D'este pri- 
mogénito pois vem a fidalga linhagem dos 
Nascimentos, que o Auctor do Pentateuco traz 
muito de longe individuando-se de Pae a fi- 
lhos. As armas doesta famiha são Em campo 
de prata uma Mulher parindo (a qual é 
Eva);... A famiha que contar Avós mais 
atrazados pode-se gabar de antiga.» ^ Este 
plebeismo de origem, influiu no seu profundo 
contacto com as camadas populares, no conhe- 
cimento do mundo tradicional e dos costu- 



^ Explica-se o erro de Sane, quando escreve : 
«Seus pães eram de uma classe elevada, e gosavam de 
um grande bem-estar ; puderam dar á educação doeste 
filho único os cuidados que foram gloriosamente re- 
compensados.» Filinto o induzira em erro indicando a 
paternidade do Patrão-Mór da Ribeira das Náos. Na au- 
sência de Filinto, uma sobrinha do Patrão-Mór apos- 
sou-se de todos os bens que dizia terem ficado de seu tio. 

« Obras, t. 1, p. 263. 



FÍLINTO ELYSIO 95 



mes pittorescos da rua, deixando-lhe uma im- 
pressão indelével de poesia que não pôde ser 
apagada pela cultura humanista, e que revi- 
veria no isolamento do exilio na desalentada 
edade octogenária. 

São deliciosos os traços pittorescos da in- 
fância de Filinto esboçados com aquella simpli- 
cidade das reminiscências dos outenta e dois 
annos: « Era eu pequeno, e um tamalavez cu- 
rioso e perguntativo ; lembra-me bem que era 
um dia de Endoenças, e que me deram um 
papeliço de pastilhas ; aponto isto, por que 
hoje que me acho nos meus 82 annos, ainda 
não perdi o affecto que sempre tive ao doce. 
Mas, vamos ao ponto. Era dia de Endoenças, 
e a nossa comadre Maria Pereira toucava mi- 
nha mãe para ir correr as egrejas: entre vá- 
rios diches, como pingentes, arrochador, etc. 
poz no espartilho, bem no meio dos que ti- 
nham nome de globos de neve (minha mãe 
era muito branca) certas flores de diamantes 
que tremiam c'o andar. Perguntei á comadre 
como se chamavam, e ella me respondeu: Cha- 
mam-se trémulas, Francisquinho. > ^ Fihnto 
consignava esta reminiscência para abonar a 
palavra ou designação ignorada; mas é o 
quadro de interior da seductora peixeira de 
Ílhavo, muito branca e enfeitada, que nos in- 
teressa. Mais tarde o Francisquinho tirou 
d'esse meio plebeu em que se desenvolvia um 
vasto conhecimento das riquezas da lingua- 
gem vernácula. Assim, ao usar a palavra fon- 
tes (temporaes), diz: «fundei-me em aucto- 



Obras, ii, p. 91. 



96 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ridade maior que quantas Prosódias e Fonse- 
cas ahi ha ; na auctoridade de minha mãe, a 
quem, cada vez que a nossa afilhada Joanna 
Margarida Rosa se queixava de enxaqueca, 
ouvia eu logo, e tanto a ella, quanto ás mais 
visinhas, á comadre Maria Pereira, e ainda ao 
Confessor, que era um frade Grillo muito en- 
tendido : — Rapariga, põe um parche n'essas 
fontes ; e a visinha de uma Jeronyma Maria, 
que era muito boa mulher, e padecia muito 
de flatos, se queixava a minha mãe: — Ai, 
visinha, estão-mo as fontes a latejar de modo, 
como se os miolos me quizessem sahir da ca- 
beça, etc.» ^ Foi no soalheiro das visinhas 
Maria Pereira, Joanna Margarida Rosa e Je- 
ronyma Maria, que vinham ouvir o frade 
Grillo a casa da sua mãe, que Filinto come- 
çou a saborear a grande poesia das tradições 
populares e a vernaculidade da linguagem 
portugueza. «Ainda vi em Lisboa ir gente 
consultar Medico, que via o doente por den- 
tro, pondO'0 contra a réstea do sol : vi mui- 
tas outras abusões, em que não quero fal- 
lar.» ^^ 

Doeste soalheiro das pobres mulheres se 
lembra elle a propósito da Fontaine de Ju- 
vence: « Vae senão quando! era eu rapaz, e 
contava-me a nossa comadre Maria Pereira, 
e a nossa visinha Jeronyma Maria, que essa 
mesma virtude tinham as aguas do rio Jor- 
dão; e que os peregrinos que iam a Jerusalém 



1 Obras, t. ii, p. 293. 

^ Ib., t. II, p. 806. Notável intuição dos raios Rõn- 
tff en ! 



FILINTO ELYSIO 97 



visitar os Logares santos, voltavam mais mo- 
ços do que foram, porque todos se lavavam 
n'esse rio.» (Ob., vi, p. 258.) 

« Vendera meu pae ao conde de Castello 
Melhor, um mulato, chamado José, excellente 
cocheiro. Este que nunca perdeu o amor que 
me tinha, n'um dia de beija-mão tomou azo, 
emquanto durava a etiquetissima cerimonia, 
guia a minha casa a dourada berlinda, em- 
barca-me n'ella, infante de sete annos, e me 
alardeia a seis poderosas urcas, e trez agal- 
loados lacaios, a todo o fiel patife que quizes- 
se ver uma criança mechanica nos coxins 
de um Conde, que apostava nobreza c'os mais 
luzidos astros.» ^ O nome de criança mecha- 
nica, para designar o seu confesso plebeismo, 
tem o valor histórico que lhe imprimira uma 
sociedade que julgava inferior ou desprezível 
o trabalho industrial. A sympathia do mulato 
José, por ventura remador da fragata de Ma- 
noel Simões, pinta-nos a convivência dos pri- 
meiros annos do poeta, que tanto se embebeu 
nas tradições populares, obliteradas depois 
por uma exclusiva educação humanista. 

Uma outra reminiscência da infância, re- 
ferindo os seus primeiros estudos deixa-nos 
perceber o estado mental dos seus parentes: 
« Veiu um parente nosso lá de Aveiro visitar- 
nos. Emquanto, depois da cêa, ficaram meus 
pães conversando com elle, peguei eu na Ar- 
te de Manoel Alvares (tinha eu então onze 
para doze annos) e puz-me a estudar a lição 
para o outro dia. Olha o parente para mim, 



1 Obras, t. m, p. 28. 



98 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

deixa a conversação em meio e me diz:— Fa- 
zeis muito bem, menino; assim se fazem os 
homens; estudae ; mas já d^aqui vos digo, que 
por mais que estudeis, nunca chegareis ao 
bico do sapato do meu Ambrósio ; isso é que é 
saber! Todos os dias pega na teiga dos seus 
Kvros, e vae para a estrebaria, lê, lê, lê, e 
d'ali vem para cima, falia, falia, falia, mais 
de um quarto de hora sem se callar. E é tão 
fundo o que elle diz, que nem eu, nem tua 
tia, que todos os dias lê por um livro gordo, 
que está na prateleira (creio que se chama o 
Florio santorio), nem eu, como digo, nem tua 
tia comprehendemos nada do que elle diz. E' 
um prodígio aquelle rapaz. Mas, estudae, es- 
tudae; que se lhe não chegaes ao bico do sa- 
pato no saber, sempre sereis alguma cousa na 
nossa familia.» ^ 

Este quadro domestico completa-se com 
uma reminiscência das visinhas de sua mãe: 
« Nunca deparo com esta fabula das três Deu- 
sas assanhadas por uma maçã, que me não 
lembre (teria eu 13 para 14 annos) minha 
comadre Maria Pereira, e um painel que ella 
tinha, em que estavam figuradas três moce- 
tonas nuas como a palma da mão ; e um ra- 
pagão em trajos de pastor, que offerecia uma 
maçã áquella das três, que mais tinha rosti- 
nho de tauxia^ (como Camões, n'uma Carta 
que escreveu da índia, chama o rostinho de 
uma lisbonense) que chia, eomo pucarinha 
novo ao deitar-lhe agua. Succedeu pois (por 
tornarmos ao ponto) que vindo-a visitar um 



Obrasy t. iii, p. 126. 



FILINTO ELYSIO 99 



dia O Padre Frei José da Penha de França, 
primo em quarto ou quinto gráo de seu ma- 
rido, que andava embarcado; depois que mi- 
nha comadre lhe deu de almoçar, etc. etc. etc, 
estando ambos conversando a mão, acertou 
por acaso os olhos para o painel, de que nun- 
ca soube a significação. — Bem sei, (disse ella) 
que são três Sanctas Virgens, e talvez Marty- 
res ; mas não lhes sei os nomes ; e reparo que 
não é uso pintar as Sanctas nuas. San Seb- 
bastião, sim, porque é um homem. Peccado- 
ras, vi eu já nuas, mas Sanctas ! . . . O Padre 
Pregador, depois de ter parafusado um pouco, 
respondeu : o Pastor era o Dragão, que com o 
pomo enganara Eva no Paraiso, que. . . Mas, 
explicou minha Comadre: — Eva era uma só, 
e não três. — O Padre embatucou, mas logo 
com cara de frade retrucou : — O pintor figu- 
rou n'esse painel Eva antes do peccado, Eva 
no peccado, e Eva depois do peccado, e assim 
as três Evas são só uma. São pontos da Es- 
criptura, que mulheres não devem esquadri- 
nhar.» ^ Desde muito criança, Francisco Ma- 
noel começou a conhecer de perto a devassi- 
dão dos frades e o pharisaísmo das suas dou- 
trinas. O Soneto : « Christo morreu ha mil 
e tantos annos» ^ «é a relação histórica do 



RI Obras, t. m, p. 138. 
8 Obras, t. iv, p. 149. Na traducção das Fabulas 
;.afontaine { Obr., t. vi, p. 171) diz : « O mesmo nos 
, w^ccv^viedeu a mim, e ao frade Arrabido, andando pedin- 
\ do para o Santo Sepulcliro. O sacco foi quem pagou o 
almoço na loja de bebidas, e o jantar na casa de pasto. 



100 HISTOPwIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

que succedeu a certo frade coan quem eu e 
outro estudantinho meu camarada andámos 
pedindo esmola para o Sepulchro.» E' possí- 
vel que o Soneto fosse parar ás mãos dos 
Franciscanos, porque d'elles partiu a intriga 
que forjou passados annos a denuncia do 
poeta á Inquisição. Em outra passagem falia 
de um outro costume fradesco da sua infân- 
cia : 

Sobre os costumes de uma sociedade fa- 
natisada, em que fora creado, escrevia Filin- 
to o Soneto : 



Sobre o nobre poial do Pelourinho 

C^uma cana na mão o Doutrineiro : 

— Quem diz o Credo ? — Logo mui lampeiro 

Subia a espevitar-se um rapazinho. 



Persignava-se ; e o Credo enfiadinliOy 
Se vinha a lume o parto dianteiro, 
Tinha o rapaz os vivas do Terreiro, 
E a Verónica loura, de caminho. 



Também tinha Verónica ( sem Credo 
Saber de cór) mas só por cortezia 
Rapaz louro. Jesuítico segredo. . . 

(Oh)\, 111, 201.) 



Era ainda o costume do Pendão da Santa 
Doutrina, conservado desde o século xvi. Em 
notas explica Filinto, que chama nohre ao Pe- 
lourinho, « porque alli eram degollados os fi- 
dalgos>^. Que o P.® Doutrineiro trazia a cana na 
mão « Com que dava coques nos rapazes in- 



FÍLINTO ELYSIO 101 



quietos ou ignorantes.» ^ E que para apanhar 
a verónica de latão: «Para merecer o premio, 
importava, que o rapaz espevitasse muito 
bem o que papagueava». 

Em outra composição torna a referir-se a 
esse costume fradesco: 

Lembrou-nie ver o Padre Doutrineiro 

Que oiferece uma Verónica machucha 

A quem melhor disser um bom Exemplo 

Do Báculo Pastoral^ do Anno Virgíneo^ 

Cuidei que via em soffrega assuada, 

C^o dedo para o ar trinta meninos ; 

— A mim ! a mim ! (gritarem ) Senhor Padre. » 

iOh)\, IV, 224.) 

Já para o fim do século decahira este cos- 
tume, como elle próprio observa : « A maior 
parte dos que me lerem não tiveram a distin- 
cta de verem estas doutrinas, estas escholas, 
estes rosários e verónicas. Ah tempo, tempo ! 



^ Sobre este costume das escholas dos Jesuítas 
falia José Agostinho de Macedo em uma carta a Frei 
Fortunato de S. Boaventura, quando no governo de 
D. Miguel se tratava de restabelecer os Jesuitas em 
Portugal : 

« Também creio que estes que vêm e alguns mais 
que vierem, quando d^aqui a annos souberem portu- 
guez, se acaso é lingua que os estrangeiros fallem sem 
fazerem rir quem os ouve, e sahirem a ensinai' a dou- 
trina aos rapazes, pelos recantos das ruas e escadaria 
dos adros, não levarão, segundo costumavam, empu- 
nhada na mão uma cana muito comprida para darem 
coques nos que, ou não responderem (e hão de ouvir 
boas cousas ! ) ou não estiverem quietos. Um coque ri- 
jo na cabeça de um rapaz é fazer dar gargalhadas a 
todos os outros; e senão com a deliberada vontade^ 



i 



102 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Então, era eu rapaz, 
E jogava o meu pião ; 
Diziam-me as moças todas 
« Rapaz, deita-m^o na mão.» 

E das Procissões, que eram o espectáculo 
querido da época, escreve: 

Também lembrou-me a Procissão devota 

Do rico San Francisco d^Enxobregas, 

Que as almas vae tirar do Purgatório 

D^entre as chammas de papelão pintado : 

Aqui uma Alma roxa, outra trigueira, 

Acolá um fradinho barbeado, 

Crespo e louro o cercilio, nú em pêlo, 

( Como estão no outro mundo as almas todas) 

Mais perto um Cardeal, uma Viuva, 

Ou Donzella de carnes pudibundas 

Se apegam ao Cordão, a qual primeiro. 

[Ibid,, p. 225.) 



A Charola da Ajuda era também uma das 
funções queridas da infância de Filinto: «Se 



por certo machinalmente; eu mesmo, que ando bem 
pouco para me rir, obedeceria ao impulso da natureza, 
ou ao excesso do ridiculo, e ainda o fiz ha poucos dias 
na sacristia de S. Roque, contemplando os painéis de 
S. Francisco Xavier, pintados pelo leigo jesuita Fran- 
cisco Pereira; alli está a scena da canada; não é o 
santo que a dá, é um leigo executor; e o artista estu- 
dou tanto a natureza, que o rapaz está em acto de ir 
com as mãos á cabeça, o que dá a conhecer que o irmão 
leigo carregara a mão contra vontade do santo, que a 
não queria tão rija, e muito mais do rapaz que não 
gostou d'ella tão forte. Venham pois os Jesuítas, mas 
não venham porteiros da cana, porque se lhes pode 
metter na cabeça serem camaristas.» (Obras inéditas i 
Cartas e Opusc, p. 114.) 



FILINTO ELYSIO 103 



já não vem pela quaresma a Charola da Aju- 
da dar um descante ao divino, pelas ruas de 
Lisboa, necessário será contar aos rapazes 
de agora a composição d^ella. Pelo pouco que 
me recordo, que era um andorsinho assenta- 
do em dois varapáos, cangado nos hombros 
de dois saloios, acobertado c'uma toalha de 
mãos, como carro de romagem, com muitos 
Senhorinhos dos Passos; muitas penitentes 
brancas, todas de barro pintado e tudo por 
dentro allumiado com rolinhos de cera; e em 
roda, por detraz e por diante muito aldeão 
berrando certa lenga-lenga devota; e pedindo 
muita esmola, que espalhadas pelas mãos e 
algibeiras dos cantores e mais matula (por 
que alli n^aquella confraria todos são thesou- 
reiros ) iam diminuindo pelas baiiicas até che- 
gar á Ajuda sem pada.» ^ 

O quadro completo de uma procissão lis- 
boeta acha-se descripto na Carta ao Marechal: 



Dão três horas. Começa-se o fadário ; 

Espreitam-se as janellas, povoadas 

De deusas, nymphas, damas e rascôas ; 

A rua entra a ferver de ponta a ponta 

Com soldados, com frades, com lacaios, 

Com garotos, com cães, com ratoneiros. 

Tiririn, tiririn, retine ao largo 

O agudo som das louras charamellas, 

Cos rufos dos timbales rebatidos. 

— Lá rebenta o Pendão junto ao Rocio. ^ 



1 Obras, t. v, p. 403. 

2 Ibid,, p. 410. 



104 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

E passageiramente allude ao costume de 
irem «as pretas e as regateiras que acompa-^ 
nham, berrando o bemdito, o Senhor dos Pas- 
sos á Graça, ou os padecentes á forca...» ^ 

Por esta nota de Filinto se vê qual era o 
estado da instrucção popular: «No tempo em 
que eu ia á eschola, havia duas Cartilhas, 
uma do Mestre Ignacio (única que os Jesuitas 
consentiam aos rapazes) e outra desapprova- 
da por elles, apezar de ser intitulada a Car- 
tilha do Menino Jesus, Doesta gostava eu 
mais, porque além de outras cousas diverti- 
das, trazia o ABC todo figurado (como hoje 
usam os francezes.) Unia arvore tinha por 
baixo um A., uma Besta por baixo um B^ 
et coeteris até ao Z, que tinha por cima um 
Zodiaco, a que nós chamávamos Z pandeiro^ 
pela muita parecença que com o pandeiro ti- 
nha; poisque até os doze signos nos re- 
presentavam as soalhas.» (Trad. Lafontaine^ 
p. 301.) 

A educação de Filinto acha-se por elle de- 
finida em poucas palavras, e que bem caracte- 
risam a sua Índole apathica: «excepto a Mu- 
sica e o Latim, que aprendi com bons mes- 
tres, as outras noções que colhi como ás den- 
tadas, foram tam de percalso, e tão sem estu- 
do fixo, que se me não podia arrumar no cé- 
rebro, em modo que pudesse eu d^ellas tirar 
fio. Caqui vem estranhar-me eu do apreço 
que por ahi fazem de versos, que eu como ás 
tontas escrevi.» Em seguida dá como motivo 



1 Ibid,y t. XI, 226. 



FILINTO ELYSIO 105 



de muitos dos seus versos : « Também nos 
annos em que eu olijn aparava as pennas, 
vinha, "por acaso, no proval-as, versinho ou 
phrase em que eu achava geito, e d'essa phra- 
se e doesse versinho se desfiava de strophe 
em strophe toda a Cantilena.» ' Fihnto allude 
ao bom professor de Latim que tivera; pelo 
processo do Santo Officio sabe-se que fre- 
quentara a aula de António Félix Mendes, 
professor régio de Grammatica latina. No 
seu depoimento (5.^ testem.) diz que fora seu 
Mestre de Latiniclade e «que elle é beminstrui- 
do n^ella.» 

Em uma das notas autobiographicas, que 
Filinto espalhara com os seus versos, ás ve- 
zes frivolas e com a impertinência da edade, 
vêm referencias que auxiliam o estudo da sua 
vida litteraria ; ahi diz elle « que desde a eda- 
de de qiiatorze annos faço versos,-» ^ Metrifi- 
cava com facilidade e a cada instante : «De 14 
annos até 64, que hoje tenho... houve dias 
em que fiz duzentos versos e mais. . .» (Ib,) 
O poeta referia-se á época comprehendida 
entre 1749, em que estava no seu maior fer- 
vor o gosto das Academias em Portugal, e 



1 Obras, t. iv, p. 197. 

2 Obr.y I, p. 22. Em uma das suas Odes allude 
o poeta á precocidade com que metrificara : 

Darei pasto á mania 
De versejar, que me tomou bem tenro, 
Que zombar de remédios. 

[T. I, p. 120.) 



106 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

quando fixara a sua residência nos arredores 
de Paris, 

Em outra nota refere-se aos seus primei- 
ros estudos de latim : « O Padre António Ta- 
vares, com quem aprendi toda a Arte de Ma- 
noel Alvares ajoujada de Chorros, Cartapa- 
cios, Pro77iptua7Hos, e mais mixordia synta- 
xistica...» ^ Vernej^ criticando os methodos 
jesuíticos allude a esta somma de compêndios, 
que reforçavam a já volumosa Grammatica 
do P.® Manoel Alvares, que dominava nas es- 
cholas menores desde o século xvi. Diniz tam- 
bém allude sarcasticamente < á longa e jesuí- 
tica syntaxe.» Em outra nota cita outro livro 
escholar: «Pae-velho, chamavam no meu tem- 
po de estudante, a uma versão litteral, que se 
aprendia de cor para fazer exame ; e que (se- 
gundo meu parecer) era a respeito do exame 
de latim, o que a respeito do exame de Moral 
era o Larraga.» ^ 

Falia o poeta da sua morada na rua dos 
Mercadores: «Morava eu então na rua dos 
Mercadores, por detraz da Eua novaMos Fer- 
ros, ruas que lá se perderam em Lisboa, como 
o Calçado velho, Mata-porcos, etc. Todo o 
bem se perde !» (Obr., t. v, 42.) Falia do Xan- 
cudo : « Certo pateo, por detraz do Calçado 
Velho, onde morava, antes do Terramoto uma 
Parteira muito conhecida, chamada Catherina 
Lopes; que, cahindo em edade, e desviando- 
se-lhe por essa causa a freguezia de seu par- 
tejo, se metteu a cristaleira, e dizia um Auto 



* Obr,, t. 1, p. 105. 

2 Ib„ p. 227; t. VI, p. 206. 



FILINTO ELYSIO 107 



ie Catherina Lopes, que eu vi impresso com 
IS Licenças necessárias — Que para perto se 
tmudoií. — O tal Auto, que me não deixará 
ímentir, traz na face o retrato da Cristaleira, 
Icom seus óculos mui magistraes, e nas mãos 
|o folie e o tachinho.» ^ 

A litteratura popular appresenta-nos no 
[século XVIII uma feição curiosa, indicada nos 
Iversos de Tolentino na sátira do Bilhar: 



Todos os versos leu da Estatua equestre, 
E todos os famosos Entremezes, 
Que 710 Arsenal ao vago caminhante 
Se vendem a cavallo 7i'um barbante. ^ 



Esta litteratura vendia-se, como diz Boca- 
ge, ao « mercenário pregão do cego-andante; » 
havia um privilegio real para os cegos explo- 
rarem a venda das folhas volantes, e os lo- 
gares em que penduravam essa alluvião de 
folhetos políticos, noticiosos, sylvas métricas, 
milagres, glosas e comedias famosas era nas 
escadas do Hospital de Todos os Santos antes 
do terremoto, e depois no Rocio e na Arcada 
do norte do Terreiro do Paço. Esta industria 
privilegiada constituía um grémio, que n'a- 
quelle tempo se chamava Irmandade sob a in- 
vocação do Menino Jesus, e pelo seu compro- 
misso ou estatuto se definia o exclusivo da 
venda dos Cegos, como se vê no cap. 2.^: 
« folhinhas, historias, relações, repertórios, 



1 Obras, t. v, p. 402. 

2 Obras completas, p. 278. Ed. J. Torres. 



108 HISTORIA DA LITTERAIURA PORIUGUEZA 



comedias portuguezas e castelhanasy Autos e 
livros usados, . .» Quem violava este privile- 
gio era multado em 60$000 rs., além da per- 
da das folhas volantes, ^ e uma provisão de 7 
de Janeiro de 1749 regulava os privilégios 
da Irmandade do Menino Jesus. A litteratura 
popular tinha uma existência legal reconheci- 
da, mas alguns Autos hieráticos, como os de 
Balthazar Dias, tornaram-se verdadeiramente 
clássicos, e ainda são procurados pelo povo. 

Infelizmente no século xviii ninguém sou- 
be sentir a degradação moral do povo portu- 
guez, nem inspirar-se das suas tradições ; quem 
fizesse isto fundava uma litteratura. Mas exi- 
stiam tradições, sobre que se creassem obras 
individuaes? Existiam, porque no Romantis- 
mo, soube Garrett achar esse thezouro, e inau- 
gurar uma época litteraria. Nós indicaremos 
aqui apenas alguns factos, como prova da 
existência de um elemento tradicional, como 
mostraremos que nenhum escriptor o soube 
conhecer, nem tampouco a sua importância: 

«Lembraram-se das canoras conversações 
d'este género, onde se junta todo o jarra de 
humor peripatetico, como v. g. o Balcão do 
Livreiro de Sam Domingos, o Adro do Mon- 
te, a Ribeira das Náos, o Oaes da Pedra, o 
Cano real aos Domingos de tarde. AUi se re- 
petem historias, que succederam a Danadana 
avó da antiguidade, tão compridas como lé- 
gua da Povoa; alli se traz á memoria a His- 
toria de Valdevinos, a morte da imperatriz 



^ Dr. Ribeiro Guimarães, Summario de varia 
Historia, iv, p. 58. 



FILINTO ELYSIO 109 



^orcÍ7ia, e cada jarreta d^aquelles quando re- 
)ete aquellas tristes tragedias deita tamanha 
lagrima como punho, sem advertirem os tolos, 
jue aquillo passou ha muitos tempos, e pode 
ser que seja mentira. Alh se murmura da Ma- 
iicia das Mulheres, dão-se Conselhos para 
fbem casar, e até querem governar Barca do 
p Inferno: etc.» (Folheto diambas Lisboas, nu- 
mero 2.) 

« Canta hndamente pela solfa do Tyranno 
amor aquella delicada Xácara, que lemos 
tantas vezes no Auto da Emparatriz Porci- 
na,. .)> (N.^ 25.) 

Embalado entre a simplicidade e creduli- 
dade popular, Francisco Manoel conservou 
um rico thezouro poético na sua imaginação, 
que um severo estudo do latim e dos clás- 
sicos lhe não deixou desenvolver artistica- 
mente. 

Foi também entre o povo que estudara a 
linguagem, que revivescia na sua memoria 
pela velhice: « Em ponto de dar nomes a Pei- 
xes são Juizes do Officio os pescadores, e sa- 
bem mais, que quantos diccionarios ha ahi. 
Ora, a elles é que eu ouvi sempre chamar ca- 
garria o que os francezes chamam fretin : 
etc.» ^ «eu ouvia da minha janella, na Ribei- 
ra das Náos, os algarvios arrematar tão sol- 
tamente, que cavallos desenfreados não da- 
vam mais corrente aos pés, do que elles á lín- 
gua.» ^ «Na Ribeira das Náos o davam aos 



1 Ohr., t. VI, p. 197. 

2 Ih,, p. 249. 



110 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



espeques, que sustentam pelo bojo os navios 
que estão ainda no estaleiro (se. cachorros)». ^ 

Alludindo ao conto de Peau d'ane^ da Fa- 
bula de Lafontaine, diz: «Conto em França 
tão conhecido, como entre nós o das Três Ci- 
dras do Amor.y> ^ 

« Emquanto me lembrar o Auto do Infante 
D. Pedro, que correu as sete partidas do 
iiiundOy nunca porei outra palavra em logar 
d^ella.» 3 

« Contos de in illo tempore, — Como os 
Contos de Trancoso, do tempo dos nossos 
avoengos. Rico tempo ; em que choviam per- 
dizes assadas, e em vez de granizo pucari- 
nhos de molho; quando as arvores davam 
confeitos de erva doce e talhadas de cidrão; 
e o mar peixes fritos. . . Oh tempos gabados 
e tão saudosos.» * 

N'uma Carta ao naturalista José Bonifá- 
cio de Andrada, Filinto descreve-lhe sob a 
impressão das suas infantis reminiscências, 
esse mundo poético das Fadas e Cavallerias, 
que tanto lhe embalaram a imaginação, an- 
tes de irromper o dissolvente Philosophismo : 

Emquanto nossos pães, nossos avós, 
Encostados na fé do padre cura, 
Criam Fadas, Duendes, criam Bruxas, 
Quão felizes que foram ! Que socego 
Lhe adormentara então o entendimento ! 



í Ib., p. 453. 

2 Ib., p. 324. 

» Ib., p. 361. 

4 Ib., p. 444. 



FILINTO ELYSIO 



111 



Junto do lar ardente, em curvo cerco, 
Baixas as testas, corpos bem cerrados, 
Toda a família nos serões de inverno 
Embellesada n^estas ventoinhas 
Inquilinas do mundo imaginário, 
Não sente o como ronca esbravejando 
O vento pelo tremulo arvoredo, 
Nem como a telha-vã remeche e grita 
Por saltante pedrisco fustigada. 

Um Cavalleiro, que a viseira cala, 

Embraça o seu broquel de amante mote, 

E vae correr o mundo, confiado 

Na aguda lança e na brilhante espada ; 

Que acomette arriscadas aventuras 

Por livrar encantadas formosuras 

De mimosas Princezas; de esquecidas 

Masmorras retirar ao claro dia 

Um Montesinos, guapo Cavalleiro, 

(Saudades da misera Belermal) 

Que para o conquistar em campo affronta 

Gigantes, Malandrins, Dragos, Duendes, 

E de toda a refreí^a sáe com brio. 



De Carlos Magno o folheado livro 
Co^s Doze Pares de esforçado pulso 
Pariu mais valentões a nossa Elysia. . . 
Em duros corações que ternos golpes 
Não deram sempre as lagrimas pudicas, 
Os saxifragos rogos da formosa 

Lastimada Floripes? 

Que cousa ha nos mattos espinhosos 

D^essa magra e subtil Philosophia, 

Que emparelhar se atreva c^um bom Conto 

De Fadas, c^o condão de uma varinha? 

N^uma volta de mão, c'um leve toque 

D'essa bem dita vara milagrosa, 

Nos faziam sahir lá das entranhas 

Da terra obediente altos Palácios 

De alabastro com seus capiteis de ouro, 

Engastados de fina pedraria. 

Sumptuosos jardins, fontes, passeios 

Que recheiam, que servem, que afformosam 

Mil Pagens cortezãos, mil Nymphas bellas, 



112 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



D\ima casca de noz cahir a rodo 

As perlas em chuveiro, as esmeraldas, 

São prodígios que pasmam, que divertem. . . 

Nem conto os mimos, musicas e amores 

Surdindo da caverna mais escura. 

Que as Princezas amantes, pensativas 

Na solidão maviosa deleitavam 

Oh ricas Fadas, rico encantamento, 
Enleio dos sentidos agradável, 
Com que saudade crua, com que pena 
Vos choro, d^entre nós affugentadas 
Por esses mãos Philosophos esquivos. 

{Oh)\, 1, 148-154.) 

Descobrem-se n 'estes versos aquelles segre- 
dos da forma dos endecasyllabos empregados 
por Garrett no poema de Dona Branca, Em 
uma Ode refere-se ao conto da Gata Borra- 
lheira, que sua mãe lhe contava na infância, 
e que elle veiu a conhecer na forma franceza 
da Cendrillo7i ; no mesmo espirito de protes- 
to contra a philosophia negativista do século 
XVIII, escreve: 

Mas, ruim Philosophia estro-tolhente 

Rasgou os véos á Fabula ; 

Seccou as Hypocrenes, 
Corta as azas ao Pégaso, e poz ermos 

Olympos e Parnassos. 
E fez mais. Destruiu altos poderes 

Das amparáveis Fadas. 
Já não pode por ellas protegida 

Menina maltratada. 
Por mil prodígios, vis, Cendrillon nova 

A cabo de seus gostos. 

Mal, engoiados, hajam os Philosophos 

Que tão gratas Chi meras 
Nos tolhem com perluxos argumentos 

De tyrannas verdades. 

( Obr., III, 00.) 



FILINTO ELYSIO 113 



Em nota consigna a reminiscência sympa- 
thica : « Coip o titulo de Gata borralheira, me 
contava minha mãe a historia de Cendrillon, 
E nunca minha mãe soube francez.» Filinto 
estava também longe de suspeitar da univer- 
saHdade dos themas da novellistica tradi- 
€Íonal. 



Vi mulheres ( respondo ) e muitos viram 
Que em leitura e juizo valem homens, 
E mais que certos homens, que censuram 
Por inveja, por ódio, ou fraco engenho. 
Mas inda essas mulheres que se empregam 
A lêr prosas ou versos -corriqueiros. 
Quantos, sem entender, passaram termos 
Latinos, ou na corte pouco usados, 
E contrictas choraram i^iaviosas 
As angustias penaes de Jesus Christo, 
Ao lerem a Divina Fortaleza; 
Ou lendo as mágoas, queixas e amarguras 
Da Imperatriz Porcina, ou Mangalona ? 
Ou c^os Zagaes, c'os Reis se comprazeram 
Do nosso Redemptor na fausta Aurora, 
Lendo as Loas, que no Natal divino 
Em tempos mais singelos que os de agora. 
Diante de Presépios mui vistosos 
Representámos já? E eu fui um d^esses 
Que no Auto dos Pastores^ e em mais outros 
Fiz meu papel a gosto dos visinhos. ^ 



E' um precioso quadro das leituras do po- 
vo e seus divertimentos hieráticos na primei- 
ra metade do século xviii; em uma nota au- 
tobiographica Filinto accentúa mais : « Certo 
Auto impresso, que começa — A Fortaleza cli- 



^ Obras, t. iv, p. 236. 

8 



114 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vina, Grandemente aqui tremeu. ^ — ^ Nunca o 
li (quando era pequeno) a minha mãe e a sua 
comadre Maria Antónia, que lhe não escor- 
ressem as lagrimas em pinga; e mais ha no 
tal Auto varias palavras, que nem eu nem 
ellas entendiam. Que bom tempo era esse! 
Cada vez que lhes lia o tal Auto ou o Fios 
Sanctorum rendia-me alguma gulodice.» 

Eis as primeiras quadras do alludido Auto: 

A fortaleza divina 
Grandemente aqui tremeu, 
A alegria dos Anjos 
Muito aqui se entristeceu. 

Aos discípulos mandou • 
Que o esperassem aqui, 
E vigiassem com elle 
Em quanto foi orar ali. 

Louvado sejaes. Senhor, 
Por o temor que tomastes. 
Pois a vós entristeceste 
E a nós nos alegrastes. 



São ao todo setenta e uma quadras que 
vem no Tratado dos Passos, gi&e se ajidani 
na Quaresma, pelo P.® Frei Rodrigo de Deus, 
Guardião do Convento de Nossa Senhora da 
Arrábida, natural de Bretiande, junto a La- 
mego. Lisboa, impresso por Pedro Craesbeeck, 
1618. Acham-se estas quadras no Cap. ii, dos 
Hymnos em romance, fl. 35 a 60. 

Os espectáculos do theatro popular da 
Mouraria também o embalaram com esse en- 
levo dos Autos hieráticos, das comedias de 
bonecos e das exhibições de Presépios : 



FILINTO ELYSIO 115 



Quanto me não lembrei da Mouraria, 
De seu nobre Presépio divertido, • 
Quando Lusbel com San Miguel dansava, 
Uma briga ao compasso do Canário, 
Té que d^im golpe de espadão vencido, 
De Lusbel, que era, em Satanaz trocado, 
Cahia c^os diabretes nas profundas! 
Ficava escuro e mudo o Cahos, e o Nada ; 
Depois vinha descendo o Padre Eterno 
Com opa roxa e divinal triangulo. 
Fazia o Sol e a Lua. — Oh, que era um pasmo ! 
Que lindeza era vêr Sol, Lua, Estrellas, 
Vêr sem milagre, a Noite e o Dia juntos ! 
Crear nos bambolins, nos bastidores, 
Nos pannos de espaldar, e no tablado 
Tanta arvore com fructo, tanto bicho, 
Que se arrasta, que pula, ou se remexe, 
Tanta ave que voando os ares fende; 
Aqui mar, com golfinhos resfolgantes, 
Alli veigas, lagoas, lá mais longe 
Cucurutos de serras . . . Perdoae-me 
Biscates de saudosa meninice. 

(Obr,, V, 390.) 

Em uma nota explicativa conta o que era 
a dansa do Canário : « Era um Outavado mui 
repinicado na viola, e dansado com muitas 
posturas difficeis, e de muita gravidade. Eram 
raros os que o dansavam com perfeição; e o 
que mais admirava os bons dansantes era vêr 
com que destreza os que buliam os arames o 
executavam nos dois bonecos de San Miguel 
e de Lusbel com sciencia e com graça.» Para 
justificar a mistura dos seus versos, Sonetos 
com Odes horacianas, volta a reminiscência 
da infância: «Assim vinha no Presépio da 
Mouraria depois da Creação do Mundo, a Ri- 
beira das Náos; vinha com as suas pachou- 
chadas Manoel Gonçalves; ...e que é o que 
não vinha? vinha a Dansa dos Galleg ninhos, 



116 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vinha a Grade de Freiras com o Doutor Es- 
tevão Siringa, e depois mui refastellada a 
victoriosa Judith. Feliz tempo.» ^ 

Dos Sermões que ouvira nos seus primei- 
ros annos deixa-nos estes traços syntheticos : 

E nos tempos da minha adolescência 
Ouviu-se algum Sermão dos gabadinhos # 
Em que por fas ou nefas não viessem 
Três passos da Escriptura? 

A Escada de Jacob coalhada de Anjos, 
Descendo, outros subindo ; a de Nabuco 
Allegorica Estatua; o olhudo Carro 
De Ezechiel Propheta? 

E coitado do Pregador garraio 
Que os taes três pontos não trazia á feira 
Na enxarca do Sermão ? Batiam n^elle 
Como saraiva as mofas. 

f0bi\, III, 109.) 

Em uma nota á traducção das Fabulas de 
Lafontaine: «no meu tempo os Pregadores 
garraios, de fabrica franceza, mettiam todo o 
seu cabedal em retratos (quasi sempre tradu- 
zidos) por irem assim com a moda. ..» (Obr,, 
t. VI, p. 534.) 

Em uma Carta ao Marechal Luiz de C. 
descreve Pilinto como a nova mais palpitante 
o Sermão recentemente pregado, sobre a for- 
ma rhetorica dos t7^es pontos : 

Que em Lisboa (a, Deus graças!) só se cuida 
Em Procissões, em Bulias da Cruzada, 
Em Te DeumS; em musicas d 'estrondo. . . 
Fui pois ouvir um tal Sermão vasado 
Do púlpito das Chagas milagrosas. . . 



Obras, t. xi, p. 91. 



FILINTO ELYSIO 117 



Guinchavam más rebecas no coreto, 

Fungava o rebecão, roncavam trompas, 

E no meio da orchestra, entabacado 

Cantava o Fanha um squalido Motêto. 

Eis sobe garanhão pela escadinha 

Do púlpito o tremendo Padre Mestre 

Perada, lente-mór de theologia. 

Emquanto elle ajoelha entufa o collo 

Nas dobras do seraphico gargalo, 

E dão fim do Motteto as alleluias, 

Te encampa o figurão do reverendo 

O seu alto saber, destra inventiva. . ^ 

Eil-o, que estende as mangas, compõe^ pregas, 

Derrama um douto olhar pelo auditório; 

E inculca nos affagos de circilio 

No remenear a guela, estar dizendo 

— Aqui está Salomão; aqui quem campa. . . 

Benze-se, escarra, e o texto deita aos mares, 

E o cabeçalho do Sermão empurra. .. 

Vae se' não quando, o Pregador se assoa, 

Com estrondo de Lente jubilado, 

Mette o lenço na manga ; e d^outra manga 

Tira outro lenço de subtil cambraia 

Com que o suor enxuga do Evangelho ; 

E embetesgando-o com desdém no bolso 

Nos solta em peso a grossa baforada 

Dos três pontos, mui novos, mui do trinque. 

Como dentro do gral se espanejava. 
Bracejando vermelho, em grossos mares 
De apocryphos milagres, flos-sanctorios, 
E outras lendas de credito falido I 

( Oh}\, V, 412. ) 

O quadro está pintado magistralmente ; 
era ainda uma impressão viva da mocidade, 
que elle fixa : « Advirto, que era então rei 
Dom José Primeiro, e secretario de Estado o 
Marquez de Pombal pae, não este de hoje.» 
Em uma simples comparação poética deixa 
elle transparecer a impressão dos Autos de 
Fé a que assistira na mocidade: 



118 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Sacode a hedionda Fúria o torpe lume. 
Em roda de meus olhos opprimidos ; 
Já a labareda as carne me consume. 

Tal vê, soffrendo a pena vergonhosa 
No erguido cadafalso, o delinquente, 
Lamber-lhe os membros chamma vagarosa; 
Sente a nuvem de fumo grossa e ardente, 
Cegar-lhe os olhos, suffocar-lhe a vida, 
E estalar-lhe c^o fogo as carnes sente. 
Já a paciência, com a dôr, perdida 
Um veneno, um punhal deseja ; e insano 
A morte de um só trago quer bebida. 

(1,440.) 



Tendo nascido entre o povo, Filinto con- 
servou muitas cantigas de cór; mas quando 
allude a ellas é sempre com o desdém do eru- 
dito: «Esta passagem me recorda certa can- 
tiga de singela devoção que ha mais de 50 
annos ouvi cantar: 



San Gonçalo de Amarante 
Feito de páo de amieiro. 
Irmão doestes meus tamancos, 
Criado no meu lameiro. . 



«D'esta cantiga me nasce outra lembran- 
ça, e é ella a do mote, (como lhe chama Frei 
Luiz de Sousa) com que os da serra de Bar- 
roso, na sua devota e festival ignorância, re- 
ceberam o Arcebispo : 

Benta seja a Santa Trindade 
Irmã de Nossa Senhora.» ^ 



* Obras, t. vi, p. 546. 



FILINTO ELYSIO 119 



Para ridicularisar os versos de arte menor 
usados nas Modinhas, compara-os com os de 
outra cantiga popular : 

Nós somos da Adalha 
E não de Rabelho, 
Viemos aqui 
Ver o estrambelho. 

Filinto falia de um seu visinho entalhador 
que improvisava sátiras : « Lembra-me por 
este verso, e por este uso do que n'esta figu- 
ra, outros semelhantes versos, que o meu vi- 
sinho entalhador, Manoel Martins, cunhado 
de uma desempenada moça, a que fiz certo so- 
neto, que acaba (segundo minha lembrança) 
<3om uma prophecia de Cupido — Nos braços 
te hei depor de Marianna. — O tal Martins 
cantava a certo medico, que passava todos os 
dias bons e máos por diante da sua loge, ves- 
tido á moda antiga (era eu rapaz) de capa e 
volta, montado n'uma mulinha ética, cuja gual- 
drapa preta padecia varias roturas, e um pal- 
mo de chocas : 

Que chova, que vente, que escalde, que gele, 

Sempre o Paschoal hade ir ao rio, e a mula co'elle.» ^ 

São curiosos estes typos, como o do medico 
em trajo perpetuo de estudante, a que já al- 
lude Diniz ; como o ensamblador trocista, que 
improvisava sátiras na sua officina aos que 
passavam; ou como o Boticário de Alverca: 
« não achando nas gavetas pedra hume que 



ObraSy t. vi, p. 185. 



120 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

lhe pediam, deu pedra ^ome^, dizendo: Pedra 
por pedra, tanto vale uma como outra.» ^ 

« Quando eu era rapaz, não montavam os 
médicos de Lisboa senão mulas com gualdra- 
pa da cor das mulas.» ^ 

As correntes dominantes na litteratura 
reflectiam-se geralmente nos hábitos sociaes, 
na linguagem e nas leituras predilectas. Fi- 
linto traça rapidamente o caracter de duas 
correntes litterarias, que conheceu, em 1747^ 
quando as Academias mantinham o cultera- 
nismo seiscentista, e em 1770, quando teve 
maior desenvolvimento a litteratura de cor- 
del : «Nada era mais trivial nos romances he- 
róicos d'essa era (tinha eu então 10 a 12 
annos ) que — zenith do engenho — quiíitcu 
esphera — douta pluma — a todas as luzes 
grande^ etc. Como também n'outra era depois 
(tinha eu então trinta por quarenta annos) 
saberem as regateiras de cór as outavas da 
Écloga de Alba?io e Damiana, e a Paixão 
que na Quaresma lhe iam cantar os cegos por 
doze vinténs.» ^ Nas Comedias de cordel apa- 
rece apontada a monomania pela Écloga de 
João Xavier de Mattos: «eu aprendi de cór em 
dois dias a écloga de Albano e Daniiana, e a 
repetia a meus visinhos de escada com tal 
graça, que todos diziam : a rapariga é o de- 



1 Ib. p. 197. 

2 76., p. 206. 

3 Obras, t. iii, p. 130. 

* Entremez dos Curiosos punidos. 



FILINTO ELYSIO 121 



Filinto nunca se esqueceu das suas primei- 
ras leituras, como a Écloga de Albano e Da- 
mianay de João Xavier de Mattos, ou a Fo?-- 
taleza divina. Diz elle acerca da irregulari- 
dade dos accentos do endecasyllabo : « Quem 
tem as orelhas avezadas aos versos campea- 
dores de Albano e Damina, e não dá por 
verso o que não bate o pizão na sexta, quar- 
ta, outava, risque alguns centos de versos de 
Camões, e risque estes meus também. . .» ^ E 
commentando os versos: 



Ampla matéria, em verso campesino 
De seis folgadas Éclogas Albanas, 



accrescenta em nota: «Sempre tive cetrina 
co'a tal Écloga de Albano e Damiana; não 
tanto por que ella não vale nada, quanto 
porque poz a parir tantos engenhos, que nos 
inçaram de Éclogas más.» ^ 

Talaya, Alpoim, Macedo, eram os Bavios 
que Filinto appresentava como documentos 
cia decadência poética, ciija eschola era com- 
batida pelo Grupo da Ribeira das Náos: 

« Eu assim sempre 
Que ouvi strophes pindaricas do Pina, 
Ou Soneto á Tarouca, do Vahia, 
Bem campanudo, bem aconsoantado, 
Por bem fogueteada noite o tinha 
Em arraial bizarro, onde se esmera 
Cirio de Nazareth, ou da Atalaya, 

(V, p. 61.) 



* Obras, t. ii, p. 387. 
2 Id., t. V, p. 393. 



122 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



As festas populares embalaram com toda 
a sua poesia a infância de Filinto; em 1808, 
em uma Ode relembra elle todo esse passado 
querido dos divertimentos do Entrudo: 



Que tristeza aqui lavra. . • 
Um dia de Comadres sem filhozes! 
Dias de Entrudo, conchos e soturnos 
Sem pós, sem rabo-léval 



Viva o meu Portugal ! Viva a laranja, 
Que derriba o chapéo ; viva a seringa, 
Que ensopa o passageiro, e viva a bola 
De bairro, pespegada 

Na saresma do Ginja, ou carapuça 
Da farfante Saloia cavalleira ; 
Viva a folha, rascando pela esquina. 
Que assusta a velha zorra ! 

Que esplendido, na mesa, não blasona 
O encostellado lombo, e o arroz doce, 
E as murcellas monjaes accompanhadas 
Co^as louras trouxas de ovos! 

Oh feliz Portugal I Que saudades 
Me não dás, n^estes ermos da Thebaida ! 
Lusas meninas, peralvilhos lusos, 
Todos luzente talco. 

Como brilham, com visos multi-côres ! 
Como se dão as mãos, co^os pés se tocam ! 
E que abraços, que beijos se não furtam 
N^essa indulgente quadra ! . . . 

(Ohr., 111, 335.) 



Em uma Ode a Manoel José d'Herman 
avivam-se-lhe na memoria os encantados cos- 
tumes da festa do Natal : 



FILINTO ELYSIO 128 



Hoje, que as boas-festas e as bandejas 
Na Elysia as portas cruzam dos amigos. . . 

Hoje, que a devoção e que o namoro 
Lá, da missa do gallo, os olhos fitam 
No fresco lombo, no adubado sangue 
Do túrgido chouriço . . . 

D^aqui fartes, d'alli caseiros bolos, 
Dos açafates de pintada verga 
Desemborcam, rodando atropellados 
Sobre a fumante mesa. . . 

Eis chama o cravo, ao longe retinindo, 
As besuntadas boccas cantadoras; 
Eis já a poesia accende em seus alumnos 
As frágoas da lisonja. . . 

Amor a dansa inculca, escolhe pares, 
E, pelas mãos, que enlaça, manda ao peito 
Meigos farpões, que em toda a santa noite 
Aguçara na egreja. . . 

{Obr., I, 427.) 

Todas estas reminiscências dos costumes, 
das crenças e tradições da pátria distante, 
mostram-nos o sentimento poético da alma de 
Filinto, que espontaneamente seria levado 
para a elaboração dos Fastos portuguezes. 
Esse fragmento, que invoca o Sol, tratando 
«das festas, dos costumes revolvidos — Na 
annual carreira,» é a prova de que obedecia 
a esta intuição esthetica ; ahi descreve algu- 
mas feições do Natal : 

Já dos Bons Annos férvida cohorte 
Busca as portas dos ricos, invejadas ; 
Bandejas de xarão lhe vem no alcance, 
Co^as trouxas-louras, com os pardos fartes, 
E c'os antigos bolos de refego. 
Caseiro dom dos nossos bons maiores. 



124 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



E depois de descrever com os traços mais 
grotescos as felicitações no paço da Ajuda, 
com cores dignas de um poema heroi-comico, 
remata: 

Oh quanto é mais feliz o villão tosco 
De rubicunda, prazenteira face, 
Que em torno da lareira co'as saloias 
Canta ao som da viola, que reclama 
As simples trovas das pagãs Janeiras; 
Que o cangirão empina, a sertã meche 
Do saboroso lombo, que rechia; 
Sem pretender do Céo maior riqueza 
Que uma farta colheita, e um manso Cura! 

Ahi esboça também as festas populares de 
Santo António, em Junho: 

Dias treze, a que a vã Gentilidade 
Deu o nome da bella e impura Deusa, 
Convidam as Donzellas lisbonenses 
A buscar d'esse Santo as puras aras; 
Devotas umas vão, outras não tanto. 
Mas todas confiadas na valia 
Do Intercessor do casto matrimonio. 
Único voto das não-frias nymphas. 
Vós o sabeis austeros cenobitas, 
Que recebeis os ovos, e as pescadas, 
Insigne dom da piedosa força 
Com que ao Céo esta graça quasi arrancam. 

(iv, 24.) 

Acompanha o fragmento poético com uma 
nota preciosa: «Tinha, á imitação de Ovidio, 
começado estes Fastos^ onde desse conta das 
nossas festas christãs, das nossas romarias, 
cirios, festejos que as acompanham, e outros 
ritos que são de nosso uso ; quando uma doen- 
ça, e depois outras occupações me atalharam 
de as continuar. Deito este bosquejo a Deus 



FILINTO ELYSIO 125 



<3 á ventura; se me constar que agrada, pro- 
seguirei, incluindo n'elle os avisos que me 
vierem das pessoas que quizerem concorrer 
para consagrar n'um poema nacional, os usos 
que recebemos dos nossos maiores, ou os que 
nós instituímos.» ^ 

A dansa era também uma das paixões da 
sociedade do século xviii; Filinto falia nos 
SjBus versos das Dansas altas, chatés, quartas 
e outavas: «Era eu rapaz, e aprendia eu a 
dansar com M. Rigaudon, um visinho meu de 
cabelleira loura de crespo cortado, homem 
que já dobrava além de cincoenta annos, mui 
boa pessoa, se lhe descontaes o amor de Vé- 
nus e de Baccho. . . ; apenas já um pouco des- 
emburrado em passapié quiz começar o Ama- 
ble e n'elle passar a dansas altas. . . Eis (sal- 
vo tal logar) as primeiras quartas que passei 
tal estro se me accendeu no animo, que fui 
trocando pés e pernas, que fui subindo, e 
o mestre a gritar que baixasse;... vim ba- 
queando ao chão, e não tornaria a mim tão 
cedo, se a visinha de baixo, que ouviu o ba- 
que, e assustada vinha ver o que era, não 
trouxera comsigo um frasquinho de agua de 
virtude, com que me lavou o sangue e refres- 
cou as fontes da cabeça. Louvores sejam da- 
dos á visinha Jeronyma Maria e á sua agua 
de virtude.» ^ 



1 Obras, t. iv, p. 29. Castilho também chamava a 
attenção de Garrett para a descripção esthetica doestes 
quadros de costumes portuguezes. Sob o ponto de vis- 
ta ethnologico fica estudado este assumpto no O Povo 
portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições. 

2 Id., t. m, p. 324. 



126 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Outra vez falia d'essa paixão da juventu- 
de: «Mui raras vezes dansei; e fiz bem. Era 
moço, fervia-me o sangue nas veias, esquen- 
tava-se-me a cabeça com o ruido da Musica, 
davam-me abalos de atrevido enthusiasmo 
( oh que enthusiasmo ! nunca, nem por som- 
bras, eu tive tal para a Poesia, que se o ti- 
vesse, oh Deus da minha alma). . . Digo pois, 
davam-me atrevido enthusiasmo as Formosu- 
ras, as piruetas, os carinhos das Damas es- 
pectadoras ; e alli é que eu entrava a bater 
chatés, a passar quartas e outavas e decimas 
sextas ; aligeiravam-se-me os membros, ia su- 
bindo, subindo, subindo... até me esquecer 
do chão, e muitas vezes tocar co'a cabeça no 
tecto, e n^aquelle arrobamento dos sentidos 
o ser necessário tirarem-me os circumstantes 
pela roupa, e com bastante custo me desce- 
rem.» ^ 

Da sua paixão pela musica na mocidade : 

A musica, que amou 'com summo gosto, 
A quem deu com fervor juvenis annos, 

(V. 26.) 

Os passatempos de Francisco Manoel limi- 
tavam-se a alguns passeios nos arredores de 
Lisboa, com quatro amigos de predilecção, 
para quem as conversas eruditas eram um 
enleio : « Era cousa muito para edificar o in- 
nocente divertimento de quatro pessoas estu- 
diosas, que sahiam a espairecer, e passeando 



1 Obr,, t. VI, p. 469. 



FILINTO ELYSIO 127 



repassavam seus estudos, conversando, e in- 
struindo-se, e com proveito. Compravam para 
a merenda um bolo em Santa Martha, e iam 
comel-o ao campo. AUi era para vêr a singe- 
leza de seus ânimos contentes, accommodan- 
do á circumstancia ditos e historietas engra- 
çadas, largando todas as velas á eloquência 
jovial, para peitarem o juiz (i. é, o que re- 
partia o bolo) e terem mais avultado quinhão. 
Os quatro ingénuos sujeitos eram Sacchetti, 
Roberto Nunes, Sebastião Barroco, e Fran- 
cisco Manoel.» ^ Era recente «o Jardim do 
passeio publico por detraz da Inquisição » ^ 
Foi n^esta ingénua intimidade que Francisco 
Manoel se ia libertando do pedantismo escho- 
lastico, e propendendo para a liberdade de 
pensamento do odiado philosophismo, D'esta 
primeira crise falia Sane na citada biogra- 
phia : « A' philosophia escholastica succedeu 
a theologia escholastica ; esta sciencia não dei- 
xou profundos vestígios na sua memoria ; de- 
spertou-lhe uma repugnância invencível, e 
uma inaptidão radical.» Os Contos philosophi- 
cos de Voltaire levaram-o á emancipação men- 
tal, como se infere pela traducção que fez do 
Zadig : « Esta traducção feita em Lisboa para 
comprazer com uma menina, que m'a pedira, 
em tempos que ainda sabia menos francez do 
que agora. . .» ^ A sociabilidade na aristocra- 
cia facultou-lhe o assistir a alguns espectacu- 



^ Obras, t. iv, p. 345. 

2 Id., t. VI, p. 406. 

3 Id., t. XI, p. 163. 



128 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

los da corte, na época em que a Lisboa con- 
correram as grandes constellações da musica 
vocal. 

Filinto ao ver a Opera de Paris, que de- 
screve em uma ode a um amigo, consigna as 
reminiscências que lhe deixara o estupendo 
Theatro da Eibeira, onde cantaram as assom- 
brosas constellações da musica no século xviii: 

Estão longe do mimo, e da doçura 

Com que o bom Metastasio e o Perez brando, 

Os cantos e as palavras animando, 

Se deram vida, além da sepultura. 

Guadagni, Egizzielli ( que saudade ! ) ^ 

Com que extasi escutei o sonoroso 

Canto vosso no Templo magestoso 

Que a amor ergueu Joseph, e á heroicidade. 2 

Nas Cartas do Abbade António da Costa 
encontramos ampliada esta recordação de Fi- 
linto, com traços que descrevem a época : 
« Ora é chegado o tempo de Lisboa ter outra 
vez Opera ; diz-se que el rei de Portugal faz 
como o de Nápoles : theatro para si, e para o 



1 Egizzielli, ( Gizziello, nome que Joachim Conti 
tomou de seu mestre Gizzi) foi um dos mais admi- 
rados cantores do século xvni ; tendo estado em Lis- 
boa em 1743, regressou a esta capital em 1752, can- 
tando no Theatro da Ribeira a opera Demofoonte de 
David Perez. 

Também teve uma grande celebridade nas cortes 
europêas o extraordinário contraltista Caetano Guada- 
gni, para o qual Gluck escreveu o papel de Telemaco. 

2 Obras, t. iv, p. 818. 



FILINTO ELYSIO 129 



povo e corte ao mesmo tempo; não sei se é 
assim ; sei que estão já justos muitos músicos, 
bailarinos, etc. Vae um que se chama Gizielo, 
que tem cá a fama de ser logo abaixo de Caffa- 
relli, que é o mesmo que ser o segundo mu- 
sico de Itália ; dizem que tem uma voz de an- 
jo. Eu nunca o ouvi, mas pode ser que o ou- 
^a, porque hade, pelo que dizem aqui, pagar- 
Ihe despropositadamente. Vae um Venturini, 
que cantou aqui nos theatros o anno passado, 
e mais este tem boa voz e canta muito bem. 
Vae um celebre bailarino que chamam Mori- 
ni . . . » ' 

As leituras que Francisco Manoel fazia 
eram desde muito tempo com intuito philolo- 
gico. Empregando a palavra vendaval na 
traducção de uma fabula de Lafontaine : «Frei 
Pantaleão de Aveiro na sua relação da Ro- 
maria á Terra Santa usou d'ella, e talvez que 
elle não fosse o primeiro que usasse d^ella ; 
que lendo eu a sua Romaria, ha mais de 40 
annos, (1766) bem comprehendi que não era 
elle homem, que se affoutasse a compor pa- 
lavras novas.» ^ 

Francisco Manoel fizera o seu estudo mais 
particular da lingua portugueza nos sermões 
de Vieira ; e comtudo, ao encomiar os escri- 
ptores mais puristas, accentua o seiscentismo 
do padre : 



^ Carta datada de Roma, em 28 de Fevereiro de 
1752. Ed. Porto, p. 7. 

2 Obras ^ t. vi, p. 164. 

9 



130 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Entr^ abobadas longas, intrincadas, 
Labyrinthos recôncavos e escusos, 
De conceitos agudos predicáveis, 
De bastardo saber, de ingenho vesgo, 
Ha por cantos escuros, por desvios 
De Sermões requintados do Vieyra 
Desprezados terrões de ouro encoberto, 
Que enriquecer mil paginas poderam 
Por artífices mãos melhor lavrados. 

(Oòr., I, 60). 



O seiscentismo, o máo gosto do culteranis- 
mo tornara-se para Filinto o pezadello que o 
atormentava. Mesmo em Paris ali o foi perse- 
guir esse phantasma odiento : « Pois que fal- 
lei no tal Fr. Jeronymo ( Vahia ) direi, que 
aqui me trouxeram a vender um manuscripto 
seu mui aceiado, mui bem encadernado, que 
continha alguns milheiros de Sonetos, dos 
quaes tirei uns quatro ou cinco trasladados, 
para mostrar um rasgo da poesia do auctor, 
(que foi mui gabado, e creio que anda im- 
presso) aos que não têm noticia d'elle, e com 
effeito merecem que os ponham no Pelourinho 
do Parnaso, para vergonha do auctor e do 
século que tanto o estimou.» ^ 

Mas, ao mesmo tempo falia com certo des- 
dém da Acadeíiiia dos Occultos, que iniciara 
a reacção contra o Seiscentismo : « Ah ! minha 
rica Academia dos Occultos, que mandava 
riscar estes quatro versos, por terem todos 
quatro na penúltima a letra a. Aquillo, é que 
era Academia, para dar regras de bom gosto^ 



Obras, t. n, p. 420. 



FILINTO ELYSIO 131 



e adiantar as bellezas da Poesia ; não estas 
engoiadas Academias de agora. :í ^ 



1 Ib., t. VI, p. 254. 

Consignamos aqui os nomes de algumas Academias 
litterarias do século xviii, que além das já mencio- 
nadas revelam a intensidade doesta preoccupação da 
época : 

Academia dos Illustrados. De 1 7 1 7 ; figura em 
um Certame a D. João v. (Bibl. nac, Cat. de Bellas-Le- 
tras = Numeração azul : 1803.) 

Academia portugueza e latina. Na sessão de 
1733 presidiu D. Manoel Caetano de Sousa; era sócio 
d'ella o grammatico António Félix Mendes. (Cat. de 
Bellas Letras — Num. vermelha: 1007.) 

Palestra Litteraria, de Ponte de Lima, funda- 
da pela nobreza da -terra em 1746. Falia d^ella o Padre 
João Baptista de Castro. (Ms. 522, da Bibl. nac.) 

Academia dos Enfarinhados. Falia d^ella Filinto 
Elysio. Obras, t. iv, p. 353. 

Academia dos Insurgentes. Citada nas Poesias 
Ms., fl. 34, de José António de Brito Magalhães. 

Academia dos Efficazes. Citada nos folhetos nu- 
mero 2234 e 2235 do Cat. Nepomuceno. 

Academia real da Historia ecclesiastica e se- 
cular DO Reino de Portugal. Celebrou uma sessão 
em 1759 por ter o rei D. José escapado dos tiros. ( Cat. 
de Bellas Letras, Num. vermelha, 964.) 

Academia Marianna, de Bellas, instituída em Lis- 
boa, pelo Dr. António Wever. Em sessão de 1 de Agos- 
to de 1756 recitou ahi uma Oração Frei Manoel do Ce- 
náculo. 

Academia dos Judiciosos. Por occasião da festa 
da elevação da Estatua equestre em 1775 publicou o 
seu sócio P. A. F. B. uns Duetos métricos. 

Academia dos Applicados elvenses. Em 1761 
funccionava a Academia dos Applicados elvenses, inau- 
gurada em casa de Francisco José da Silveira Falcato, 
n'esse mesmo sótão, onde deveria passados poucos an- 



132 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A corrente do máo gosto era caracterisa- 
da pelo abuso de palavras tomadas da língua 



nos ter origem o delicioso poema O Hyssope. Vê-se que 
essa Academia era um reflexo da Arcádia lusitana, 
cujos estatutos reproduzia, em quanto aos cargos de 
Presidente, Árbitros e Censores, e Secretario, e uma 
sessão mensal. Pelos Discursos manuscriptos que se 
guardam sabe-se dos nomes de alguns sócios; taes são 
o Dr. Joachim José da Silva, Francisco José da Silvei- 
ra Falcato, António Caetano Falcato, D. Diogo Pereira 
Forjaz Coutinho, Bernardo José de Mira e Fr. Sesi- 
nando. 

Na 3. a sessão de 2 de Agosto de 1761, leu o acadé- 
mico Dr. Joaquim José da Silva uma Oração sobre a 
utilidade do estudo das Sciencias, e incidentemente faz 
a apologia do Bispo de Elvas D. Lourenço de Lencas- 
tre por ter inaugurado o Seminário diocesano ; doesse 
mesmo sótão devia partir a sátira que o fez immortal 
pelo ridículo. Na sessão de 31 de Agosto, Francisco 
José da Silveira Falcato leu umas Outavas ao nasci- 
mento do Princepe da Beira. Falcato, o intimo amigo 
de Diniz, era commendador professo da Ordem de 
Christo, e tendo sido Ouvidor da Comarca do Crato, 
em 1783, passou a desembargador da Casa da Suppli- 
cação com exercício de Provedor na Comarca de Elvas, 
de 1808 a 1820. 

Quando Diniz deu entrada em Elvas como Auditor 
não podia deixar de ser attrahido para esse foco de 
distracção litteraria da Academia dos Apjjlicados el- 
venses; bastava-lhe a qualidade de sócio da Arcádia 
lusitana para ser considerado como um chefe. E' pos- 
sível que quando começaram em Elvas as intrigas com 
o bispo D. Lourenço a Academia se não reunisse fican- 
do apenas no sótão do Falcato o grupo dos que se 
riam dos ridículos do prelado. Foi n^essa crise local 
que Diniz entrou em Elvas. * 

Academia de Humanidades de Lisboa. Fez-se no- 



* Elementos para uni Diccionario de Chorogyaplua e his- 
toria portugueza : Concelho d'Elvas, t. ii, p. 483-89. 



FILINTO ELYSIO 133 



franceza; Filinto, que combatia os sectários 
doesse estylo, a quem dava o nome de tarêlos, 
personificava a eschola em Francisco de Pina 
e Mello, João Xavier de Mattos, Domingos 
Caldas Barbosa e P.^ Manoel de Macedo: 

« E^ grande affectação (assim me argúem) 
Usar da antiga phrase, antigos termos. 
Que o Marquez de Pombal não usou nunca ; 
Usar de termos que não usa o Pina, 



tada pela sessão poética pelo falecimento do Princepe 
D. José em "1788. Em 1790 transformou-se na Nova 
Arcádia, 

Academia de Bellas-Letras, ou Nova Arcádia. 
Floresce depois de 1790. 

Academia Real Palermitana do Bom Gosto. 
Apontada em uma Ode A^ Rainha Fidelíssima por Da- 
fni Trinacrino. Regia Officina, 1790. In-4.^ 

Academia dos Obsequiosos do logar de Sacavém. 
Fundada pelo capitão João Dias Talava, muito ridicu- 
larisado pelos poetas do seu tempo, principalmente 
António Lobo de Carvalho. 

Academia dos Pouco Occultos. Cita-a Filinto Ely- 
sio. (Obras, t. v, p. 73.) Dá como um dos seus presi- 
dentes J. C. de F. Podemos ler estas iniciaes por José 
Cesário da Fonseca. Segundo informações de Filinto, 
d'elle escreveu Sane : « Poeta portuguez, natural de Se- 
túbal, que se distinguia no género faceto. Depois de ter 
divertido Coimbra, onde exercia a medicina, faleceu 
chorado pelos amigos ha pouco mais ou menos nove 
annos. Poès, lyrique, p. 352. Paris, 1808. — Parece que 
o titulo doesta academia parodiava a Academia dos 
Occultos, da qual falia Filinto, Obr,, t. iv, 353. 

Academia Ortographica. 

Academia dos Cobertos de Lisboa. Ha na Livra- 
ria do actual conde de Tarouca um Epithalamio por 
um versista doesta corporação, o Dr. Damião Crespim 
de Salceda. 



184 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Nem os nossos garridos Pregadores : 
Comesses termos que vogam, bem falíamos, 
Co^elles verseja o Mattos, canta o Caldas, 
E o Macedo no outeiro se espaneja. . . 

Por vezes Filinto tem rasgos de eloquên- 
cia, quando suscita o estudo dos clássicos 
gregos, romanos e quinhentistas portuguezes, 
e protesta contra a censura litteraria dos crí- 
ticos alvares : 



Um, porque mais não leu em sua vida 

Que as gordas odes do cerval Talaya, 

Os versinhos anãos a anãs Nerinas 

Do cantarino Caldas, a quem parvos 

Põem alcunha de Anacreonte luso, 

E a quem melhor de Anacreonte fulo 

Cabe o nome : pois tanto o fulo Caldas 

Imita a Anacreonte em versos, quanto 

Negro peru, na alvura, ao branco cj^sne, 

Outro, que só de Albano e Dainiana 

Tomou de cór as modorraes Outavas ; 

E inda outros, que no Chagas, na Henriqueida . . . ^ 

Na espécie de Arte poética á maneira de 
Horácio, Filinto reage contra os restos do 
seiscentismo, e exclama : 



Inda em bem, que o Diniz e alguns de escolha 

Nos vingam d^essa corja, e desaggravam ; 

Inda em bem, que os extranhos dão estima 

A Barros e a Camões, que ruins insultam ! 

Afortunada Edade de Quinhentos, 

Quando os teus te põem nódoa, alheios te honram ! * 



1 Obras, t. i, p. 96. 
3 Ibid., p. 104. 



FILINTO ELYSIO 135 



O culto de Filinto por Horácio era quasi 
um fetichismo ; o seu estado moral, diante 
de um despotismo invencível, a indifferença 
pelos successos sociaes, uma inércia contem- 
plativa, e o desejo de tirar de cada momento 
que passa a satisfação ou prazer que elle 
comporta, aproximavam-n'o por vezes nas 
suas Odes do tom e do ideal horaciano. Não 
era tanto o conhecimento erudito, como a con- 
fraternidade de espirito que o fazia compre- 
hender, amar e imitar Horácio. No seu quar- 
to, Filinto tinha por espelho o retrato de Ho- 
rácio: «Sim, senhores; que da estatua de Ho- 
rácio que está em Koma tirou Le Moine uma 
pintura, que eu possuo, e a tenho pendura- 
dinha ao pé do espelho, para no meu Venu- 
sino me rever a toda a hora ; etc. ^ 

A admiração de Horácio, quando Filinto 
contava os seus dezoito annos, afastou-o d'es- 
sa aberração dos Romances endecasyllabos 
que alastravam as academias poéticas da pri- 
meira metade do século xviii, e revelou-lhe 
uma missão. Escreve o poeta: « Agoniado dos 
muitos Romances endecasyllabos et reliqua, 
que andavam então em voga; e em cuja poe- 
sia (por alcunha) eu achava tanta diff crença 
da Poesia de Horácio e de Virgílio, que eu 
usualmente lia n'esse tempo, lancei-me a uma 
tentativa, que foi arremedar Horácio em por- 
tuguez. A mocidade é muito atrevida ; eu ti- 
nha dezoito annos, e n'esse tempo não tinha 



1 Obras, t. iv, p. 352. 



186 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que temer dos críticos; que ainda elles não 
sabiam, que eu fazia versos. Verdade era^ 
que eu só para os gastos caseiros os fazia. 
Ainda me não tinham vindo á mão, e até 
creio, que ainda não eram nascidas as bellas 
Odes de Garção e Diniz. Ora, a Ode de Ho- 
rácio, Cur me querelis, composta em caso si- 
milhante ao meu, me fez negaça para a imi- 
tar. Que se perdia n'isso? Provável era que 
não sahisse da algibeira da menina, nem ap- 
parecesse á vergonha do mundo. Fatal imita- 
ção ! que me empurrou a penna para a cater- 
va de Odes {trovas^ lhe devera eu chamar) 
de que tenho as pastas cheias, sem contar 
as que uma vez soltas da mão não terão re- 
torno.» ^ 

Em 1755 estava Francisco Manoel orde- 
nado clérigo de missa; na commemoração 
dos fieis defuntos achava-se na sé de Lisboa^ 
quando se deu o extraordinário cataclysmo 
do 1.^ de Novembro doesse inolvidável anno. 
Nas memorias communicadas ao seu traduc- 
tor Alexandre Sane fixa-se este facto : « O 
terremoto de 1775 poz a vida de Francisco 
Manoel no maior risco. Achava-se n^este mo- 



^ Obr,, t. IV, p. 378. Falando das suas primeiras 
traducções horacianas diz : « Esboços foram, a que me 
deu affouteza a ignorante mocidade que nada teme, por 
que não conhece os perigos. Quiz á força de trasla- 
dal-o, vêr, se depois de passados annos n^este exercicio, 
chegaria a arremedal-o na nossa lingua. Hoje que es- 
tou certo do contrario, darei todavia conselho aos no- 
vos vates lusos, que traduzam Odes de Horácio, e que 
assim consigam um estylo lyrico.» ( 06., t. xi, 75.) 



FILINTO ELYSIO 137 



mento terrível na Egreja Patriarchal, e deveu 
o salvar-se á feliz temeridade com que elle 
para chegar aos arrabaldes transpoz as ruas 
derrocadas, no meio de uma chuva de pedras, 
vinte vezes tombado pelos solavancos, e jul- 
gando-se morto a cada instante.» ^ Esta tre- 
menda crise lhe temperou o caracter para as 
resoluções immediatas, e outra vez o veremos 
dever a salvação a uma determinação repen- 
tina. 

Em volta de Francisco Manoel reunia-se 
um pequeno grupo de estudiosos, que espon- 
taneamente reconheciam a sua auctoridade 
litteraria; d'elle falia nas reminiscências com- 
municadas a Sane: «Uma fortuna indepen- 
dente bastava para os seus gostos estudio- 
sos ; podia compartilhar as suas doçuras com 
alguns amigos Íntimos, homens de espirito 
cultivado, d'entre os quaes alguns o auxilia- 
vam pelos seus talentos a restaurar a Escho- 
la de Camões; porque os Dorat e os Pezai 
d'esse tempo não liam já esse divino poeta; 
e se os inglezes aprenderam de Addisson a 
apreciar o seu Milton, póde-se dizer, que Fran- 
cisco Manoel contribuiu poderosamente para 
lembrar aos portuguezes que elles tinham a 
honra de possuir um poema épico. Alguns 
negociantes francezes, allemães e italianos, 
estabelecidos em Lisboa, e reunindo o gosto 
das letras á sciencia commercial, augmenta- 
vam o pequeno Grupo. Os celebres escripto- 
res dos dois séculos anteriores constituíam as 
suas delicias; gostavam de discutir as suas 



Sane, Poèsies lyriques, p. vii. 



138 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



ideias profundas e generosas, mas estas dis- 
cussões eram calmas e solitárias. Esta peque- 
na sociedade dava exemplo de submissão á 
auctoridade soberana ; os homens que a com- 
punham amavam a sua pátria por ella mesma, 
e os votos que faziam pela sua felicidade, pela 
extirpação dos abusos, não ultrapassavam os 
limites das salas em que se reuniam.» ^ 

Como aqui se nota, o Grií^po da Ribeira 
das Náos era pombalista, emquanto que na Ar- 
cádia havia um retrahimento de animadver- 
são contra o omnipotente ministro; exercia uma 
certa liberdade mental, imitada do Club de 
Ventresoly que veiu a provocar suspeitas mais 
tarde ; e proclamava-se ahi o culto absoluto dos 
Quinhentistas, como modelos da boa littera- 
tura portugueza e meio exclusivo para a sua 
regeneração. Foi por 1760, que começaram a 
regularisar-se as reuniões do Grupo da Ri- 
beira das Náos, e a constar as suas doutrinas 
litterarias de purismo quinhentista. E' d'esse 
anno a celebre Sátira de Garção dedicada ao 
erudito conde de San Lourenço D. João José 
Ansberto de Noronha, ^ combatendo o exces- 
so do prurido clássico ; eis como toma o pro- 
blema da imitação dos antigos : 



1 Poèsie lyrique, p. xv. 

2 Era 20 de junho de 1760 foi o Conde de S. Lou- 
renço arremessado ao cárcere politico da Junqueira, 
onde gemeu dezesete annos. Por isto se fixa a data do 
poema de Garção. 



FILINTO ELYSIO 139 



Não posso, amável Conde, sujeitar-me 

A que ás cegas se imitem os anUgos; 

Quero dizer, aquelles portuguezes 

A que hoje chamamos Quinhentistas. 

O bom Sá, bom Ferreira, o bom Bernardes, 

Foram grandes poetas ; qualquer d^elles 

Foi discreto e foi sábio; emfim, as Musas, 

Lhe embalaram o berço 

Têm suas faltas, 

Têm seus altos e baixos, têm sedeiros 
Onde dá com os focinhos um pedante. 
Que, vá por onde for, hade seguil-os. 
Que hade furtar-lhe tudo quanto dizem, 
E seja bom ou máo, isso que importa? 
O ponto está que o diga algum d^aquelles 
Que Craesbeck imprimiu! Ha maior teima? 

Toda esta Sátira de Garção é um primor 
de gosto e tino esthetico, mas completamente 
impessoal ; sente-se n'ella a preoccupação do 
pintor, nas suas comparações: 

O raro Apelles, 

Rubens e Raphael, inimitáveis 
Não se fizeram pela cor das tintas ; 
A mistura elegante os fez eternos. 
Quem não percebe bem este segredo 
Cuida que em dizer mór tem dito tudo. 
Que muito, se não ha discernimento, 
E reina a affectação ! Vejo pedantes 
Trepados em cadeiras, descompondo 
Os mais honrados cidadãos de Athenas, 
Sem rasão, sem vergonha ; e vejo gente 
Prudente e sabia embasbacar nos gestos 
Do mono petulante! Muito pôde 
A opinião, a teima ou o capricho! 
E o pedantismo pode mais que tudo, 
Pois arrasta a rasão, pisa a verdade ; 
E em sabendo servir-se da lisonja, 
Voa por esses ares, sobe ao cume 
Onde a vaidosa ideia ergueu o templo 
Da phantastica fama. Alli se abraça 
A soberba, a vaidade co^a priguiça. 
Vive a ignorância alli, d^alli pretende 
Ditar as leis ao mundo. Mas que digo ? 



140 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Garção ia fazendo um retrato ao vivo; 
mas suspende, dizendo: «Que demónio me 
inspira allegorias ? » A gente sabia e pruden- 
te que se deixava embair era o bispo de Be- 
ja D. Frei Manoel do Cenáculo, e mesmo o 
afamado grammatico António Félix Mendes, 
que considerava muito o seu discípulo Fran- 
cisco Manoel. Em 1760 ainda elle nada pu- 
blicara; d'ahi a increpação de priguiça, que 
lhe faz Garção. Na biographia por Sane le- 
se: «Aos vinte e seis annos (1760) occulta- 
va ainda ao publico, com mil cautellas os poe- 
mas numerosos que tinha composto.» ^ Era 
uma affectada gravidade, que contrastava 
com a sua hilaridade sarcástica ; elle usava 
entre os amigos o nome litterario de Nice- 
no, e é por esse nome que o trata Garção, 
quando em um Soneto verberou quasi todos os 
do Grupo da Ribeira das Náos que o mordiam 
no escriptorio do Dr. Jeronymo Estoquete, 
e que lhe não perdoavam essa Sátira impagá- 
vel. Francisco Manoel lembrando-se da sua 
seriedade d'esse tempo, escreve : « Ah ! que 
se elles me tivessem conhecido em Lisboa tão 
sisudo como um Padre Niceno! Quem mais 
sério do que eu ? Melanchohco por complei- 
ção, pelo vestido preto, e agora mais por in- 
fortúnios ...» ^ 

Em uma Sátira inédita sobre a mudança 
dos costumes, dirigida a Filinto, descreve-se 
a sua vida despreoccupada diante dos ridícu- 
los do tempo : 



1 Poèsie lyrique, p. xii. 

* Obras completas, t. i, 296. 



FILINTO ELYSIO 141 



Que certos são, Filinto, os teus ditames !• 
Com lentos passos tudo ao fim caminha : 
Aos passa-tempos poz Lisboa a meta. . . 

Loquaz pedante de britano aspecto 

Com redonda luneta sobre o olho, 

De passeio em conversa trava e enxerta 

O luso idioma c^o francez mesclado ; 

Agora o génio e natura louva 

Do avelhentado e já contricto Albano, 

Agora applaude o equivoco intrincado 

Que nada diz, porém que brilha muito; 

E contra a antiga locução clamando 

O grosso traço de La^tim escarra 

Jubilado Doutor Guardião tremendo 

D'oculos fixos, solidéo de couro, 

Trilha a sereno passo as brancas lagens 

Assoberbando em torno as gentes, que olham 

Do sério Padre a nitida gordura. 

Grande Filinto, em que afumadas sombras 

O revoltoso mundo não se engolfa ! 

Ditoso tu, que sempre reclinado 

Nos mórbidos colxões, de noite e dia 

Deixas vagar pelo cerúleo ether 

A livre phantasia, se é que aspiras 

Dar ao teu nome posthuma memoria. ^ 

Entre os negociantes estrangeiros, estabe- 
lecidos em Lisboa, dados ao gosto da littera- 
tura, destacava-se o francez António Mathe- 
von de Curnieu, intimo amigo de Francisco 
Manoel desde 1759, data que fixamos dedu- 
zindo-a de varias referencias das poesias. Ma- 
thevon de Curnieu estava estabelecido com 
loja de fazendas de linho e algodão na praça 
do Pelourinho, e d'alli começou a frequentar 
o Grupo da Ribeira das Nãos, e a revelar o 
seu grande conhecimento da poesia latina. 



1 Poesias V árias y t. ii, p. 428. Ms. 



I 



142 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Era mais novo do que Niceno sete annos ; 
mas não deixou de influir nos conhecimentos 
da litteratura franceza espalhados n'esse pe- 
queno Grupo. António Mathevon de Ournieu 
foi na época da Revolução franceza expulso 
de Portugal pelo discricionário Intendente 
Pina Manique. N'esse anno de 1794 dedicou- 
Ihe Filinto uma Ode confessando ter doze lus- 
tros, ( I, 303 ) e em outra Ode exclama com 
emoção : 

Quaes nos viu Portugal, nos veja a França 

Além dos sete lustros 
Constantes na virtude e na amisade. 

[Oh., I, 250.) 

Gaspard Bertrand Pilaer (cujo filho foi 
cônsul dos Paizes Baixos em Portugal) era 
também celebrado em uma Ode, em que cita 
outros estrangeiros que frequentavam as suas 
reuniões litterarias: 

Quando nas margens do sereno Tejo 

(Em dias mais felizes) 
Tomava destemido a lyra de ouro, 

Que as musas enramaram . . . 



Âlfeno, altisonante e grão valido 

Do poderoso Phebo, 
Pedindo vénia á contumaz priguiça, 

Deixava o leito amigo, 
Seis passos dava, e vinha ouvir meu canto. 

Do Loire o agudo vate 
Que estima ao Venusino e o traz no peito ; 

D^Irlanda o ameno cysne 
Que Apollo inspira com trilingue oráculo 

Ao lado meu os via. . . 

[Oh., 111, 9-06.) 

Assim, a par do seu discípulo dilecto Do- 
mingos Maximiano Torres, citava além de Pi- 



FILINTO ELYSIO 143 

laer, a Mathevon, e a Guilherme José Billing, 
eminente hellenista. 

A publicação em 1766, das Obras poéti- 
cas de Quita, discípulo dilecto de Garção, ape- 
sar de lhe faltar uma qualquer educação 
clássica, veiu acordar malevolencias contra a 
Arcádia onde não figuravam latinistas como 
Tolentino e Francisco Manoel. Alguns pedan- 
tes, como o doutor Caetano Francisco Xavier 
Zuniga, assaltaram o talentoso Quita por não 
"conhecer as leis do Soneto, verberando-o em 
versos satíricos, mas charros. Francisco Ma- 
noel ria-se das observações do Dr. Zuniga, e 
referia-se com desdém a essas regras dos si- 
mui cadentes e» lunares: « Se, nada obstante, 
prevalece o máo gosto, e vinga o constrangi- 
mento, que dá semelhantes exemplos de pre- 
ceitos, cá os assentarei no meu canhenho, com 
os sirnul-cadentes, e simiil- soantes e luna- 
res, do doutor Caetano Francisco Xavier Zu- 
niga.» ^ 

Appareceu também com as Obras de Qui- 
ta uma Carta anonyma, com irónicos remo- 
ques ao poeta, a qual se imprimiu sem data. A 
essa Carta refere-se com desdém o sarcástico 
António Lobo de Carvalho, em um Soneto : 



Leu a anonyma Carta feita ao Quita, 
E os escriptos mais da puritana troça. 
Pinto Palma, Garção, Bandeira, e glosa 
Phrase do Sousa, que por Barros grita. ^ 



^ Obras completas, t. v, p. 815. Falta este nome 
no Diccionario bibliographico e seu Supplemento. Vid. 
Arcádia lusitana, p. 505.) 

^ Poesias joviaes e satíricas, p. 93. 



144 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Embora este soneto pertença á época da 
effervescencia métrica da Estatua equestre, 
dá-nos ideia dos resentimentos que se agita- 
ram nos litteratos que tinham visto a restau- 
ração apparente da Arcádia, Garção era o 
mais visado pelo seu fino gosto e aucíorida- 
de; a Sátira ao conde de San Lourenço so- 
bre a imitação dos Antigos, verdadeira na 
doutrina esthetica, era pungente. Deviam dis- 
cutil-a ; e também revoltar-se contra o império 
que ia exercendo. Um dos Íntimos de Fran- 
cisco Manoel, o talentoso José Basilio da Ga- 
ma, a quem revia as traducções das trage- 
dias, vibrou-lhe um Soneto negando-lhe auc- 
toridade de mestre, e alludindo á sua alcu- 
nha (Escarro de tabaco) « . . .um certo escar- 
ro.» Por um documento da Junta do Commer- 
cio sabe-se que José Basilio da Gama, depois 
de ter estado em Roma e regressado ao Rio 
de Janeiro, em 30 de Junho de 1768 embar- 
cou no navio Nossa Senhora da Penha de 
França com destino a Lisboa. Foi portanto 
ii'esse anno que tomou parte na Guerra dos 
Poetas, Garção chamava-lhe Senhor qita-qui, 
(cá aqui, contraposto á phrase brasileira di 
lá) e dizendo que vinha de Roma feria-o 
como antigo discípulo dos Jesuítas aos quaes 
acompanhara, na sua expulsão, para Roma. 

Em seguida a Basilio, Domingos Monteiro 
de Albuquerque e Amaral ataca também Gar- 
ção pela alcunha picaresca, fechando um So- 
neto com o virulento verso: — Garção, nojen- ; 
to Escarro de tabaco, — ^ Garção replicou 



Arcádia lusitana, pag.. 335 a 354. 



FILINTO ELYSIO 145 



indirectamente na Sátira i fazendo a carica- 
tura do fallador Matusio, nome usado por 
Monteiro de Albuquerque, como o confirmam 
os versos de Anacleto da Silva Moraes ; mas, 
além dos Sonetos já conhecidos e que tanto 
feriram o Grupo da Ribeira das Náos, escre- 
veu uma Sátira em tercetos contra o — rábi- 
do furor do Pedantismo. Elle descreve os no- 
vos bandos poéticos, que pullulam cada dia 
em Lisboa, vomitando mais versos em um 
Outeiro do que Thomaz Pinto Brandão me- 
trificava em um anno : 

Mas, perguntae a um d'esses parladores 

Muito cheio de si por ter brindado 

Com descante a uns olhos matadores ; 
Ou áquelle outro, com o dedo apontado, 

Por haver vinte Glosas repetido 

A certo consoante endiabrado : 
Que Horacios, que Aristóteles tem lido? 

Que Virgilios? que Homeros? que famosos 

Antigos exemplares remexido? 
Yereis com que risadas, desdenhosos. 

Vos respondem ; talvez com sentimento 

De vossos crassos erros lastimosos. 

E logo para prova vos enfia 

Uma lauda de nomes e apellidos. 

Em que furor sem letras só havia ; 
Nomes só d^elle e d^outros taes sabidos, ^ 

Que quando a bocca abriam nos Outeiros, 

Sempre eram como Oráculos ouvidos. 

Olha com que irmandade e sem diffrença 
Vão OdeSy Elegias e Epigrammas, 
E tudo o mais que casa sem dispensa. 

Mas se por ser Poeta assim te inflammas, 
Dize, bom homem, quem te fez deixar 
Acrósticos, Enigmas e Anagrammas ? 

Também tinha o Romance o seu logar; 
De quando em quando a Outava o tinha, 
A Quintilha f o Elogio lapidar. 



146 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Porém Éclogas ? Cuidas que a cabrinha, 
O cajado, o surrão, o arrabil, 
O dizerem boféj cá, home, asinha; 

Que o fallar Bieito, Braz, Gonçalo, Gil, 
Que a vaca mansa, a ovelha, o pegureiro 
Basta a formar o estylo pastoril? 

Meu amigo, outro officio ! etc. 



E depois de dar uma ideia nitida dos des- 
tinos e missão social da Poesia, Garção au- 
gura aos seus antagonistas que sejam esfran- 
galhados pelos rapazes, apupados com vaias, 
ou mettidos nas Casinhas, Era este o nome 
das cellulas estreitíssimas dos cárceres da In- 
quisição no Rocio, (onde hoje é o Theatro de 
D. Maria) e ainda usado no anexim popular: 
« Quem adivinha — vae para a Casinha,» Pre- 
visão terrível, que envolveu todo o destino de 
Francisco Manoel do Nascimento. A Sátira de 
Garção não teve a publicidade do seu Soneto 
contra os que o abocanhavam no Escrip tório 
do advogado Jeronymo Estoque, xio qual pas- 
sou revista a essa galeria de peralvilhos. Com 
certeza a prisão repentina de Garção na noite 
de 9 de Abril 1771 veiu sustar este furor sa- 
tírico; a causa mysteriosa, e a morte desgra- 
çada do poeta na cadêa do Limoeiro ^ em 10 



^ O amor de Garção por uma senhora ingleza 
aos quarenta annos de edade (1764) coincide em 
muitas das suas circumstancias com os dados históri- 
cos relativos ao Coronel de Engenheiros Guilherme 
Elsden. 

E^ de 26 de Septembro de 1766 o Aviso régio, 
para que a Regente do Recolhimento de S. Christovam 
receba D. Thereza Francisca Elsden, mulher do Sar- 
gento-mór de Infantaria com exercicio de Engenheiro 



FILINTO ELYSIO 147 



de Novembro de 1772, fizeram ver o vulto do 
árcade a uma nova luz, prestando-se justiça ao 
seu gosto litterario, erudição segura, e extre- 
mada correcção de forma na expressão de um 
ideal horaciano com vivo sentimento da rea- 
lidade. Francisco Manoel, que fora o mais 
aggravado por causa dos archaismos e das 



Guilherme Elsden, sendo conduzida por Guilherme 
Stephens. 

De 1767 a 1771, andou Guilherme Elsden em 
grandes ausências de Lisboa, como Tenente Coronel e 
Quartel Mestre-general dos Exércitos, tendo escripto o 
Livro de Ordens e Manobras que foram dadas e exe- 
cutadas nos Campos dos Olhos da Agua ( 18 de Julho 
de 1768 ); e o Mappa militar, que por ordem de S. A. 
o Conde de Lippe se tirou de uma parte do Alemtejo 
(8 de Outubro). 

E' de 8 de Fevereiro de 1771, o Roteiro das Es- 
tradas de Salvaterra e Pancas, como se vê em carta 
sua datada de Salvaterra. 

Seria n'este intervallo de 1767 a 1771, que Garção 
manteve relações affectuosas com D. Thereza Francis- 
ca Elsden ; sua filha D. Francisca Thereza da Concei- 
ção Elsden, que não entrou para o Recolhimento, fi- 
cando em casa com uma tia irmã de seu pae, é que 
teria os amores com o peralta Francisco de Paula Lo- 
bo de Ávila, pela forma a que allude o testemunho de 
Domingos Maximiano Torres. Seria este o motivo da 
carta de Garção em inglez a D. Thereza Elsden, sur- 
prehendida pelo regresso do marido a Lisboa, na mão 
do creado Manoel José. Semanas antes da morte de 
Garção no Limoeiro, Guilherme Elsden partiu para 
Coimbra por Aviso de 16 de Outubro de 1772 a tomar 
entrega do Collegio das Artes e proceder ás obras da 
sua incorporação na Universidade, demorando-se ainda 
até 1773 para a conclusão do Convento de Santa Cla- 
ra. Era o engenheiro favorito do Marquez de Pombal; 
e cabe-lhe a gloria de ter deturpado o monumental 
Mosteiro de Alcobaça em 1777. (Accentua os factos da 
pag. 441 da Arcádia lusitana.) 



148 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

referencias á sua paternidade, esqueceu tudo 
e inflammou-se em uma admiração sempre 
crescente, a ponto de em uma Ode A' mi7iha 
morte, ^ desejar vêr-se lá nos Elysios: cEntre 
o Garção e Horácio.» 

A Guerra dos Poetas continuava em pe% 
quenas escaramuças, como vemos pelos Sone- 
tos de José Basilio da Gama e João Xavier 
de Mattos (Albano Erythreo), apodando-se 
acremente. Transcrevemol-os, além do seu va- 
lor histórico como inéditos. Eil-o o de João 
Xavier de Mattos a José Basilio: 

Se o grego Vate, se o Cantor latino 
Sustentar o caracter não souberam 
Dos dois grandes Poemas que fizeram, 

" De que tu foste imitador indino ? 

Se o grande Tasso, se o Camões divino, 
Milton, Voltaire, e os que depois vieram, 
Réos do mesmo delicto appareceram 
No tribunal d^um critico malino ? 

Se o Pina foi pedante ; se antiquário 
Garção, e Quita, dize-nos, responde, 
Dos Poetas qual tens por formulário ? 

Ora de envergonhado o rosto esconde, 
Ou é o teu Poeta imaginário. 
Ou se inda existe, dize-nos aonde ? 

Resposta de José Basílio: 

Amo o grego Cantor, gosto de ouvil-o. 
Dando ao filho de Thet^^s peito de aço; 
Amo o piedoso Heroe, que immenso espaço 
Correu, buscando em terra extranha azylo. 

Notei de Anf rizo o pedantesco estylo ; 
O mesmo que então fiz agora faço ; 
Tu entendes Voltaire, Milton, Tasso, 
Como eu os geroglificos do Egypto. 



Obras completas^ t. i, p. 120. 



FILINTO ELYSIO 



149 



[Lê pelo teu Camões, canta Amor cego, 

Que ainda que arte não tens, amigo Albano, 
Alguma natureza eu não t^a nego. 

lOlha: apprende o francez, o italiano, 
Dous dedos de latim, pouco de grego, 
E depois fallaremos para o anno. 

Resposta de João Xavier de Mattos : 

j Lerei no meu Camões como até agora, 
E de imital-o seguirei a empreza, 
Pois tu me dás alguma natureza, 
E o bom Luzan já na arte me melhora. 

[Tu, que expões das Linguas a Pandora, 
Não sabendo se quer a Portugueza, 
Rasga o canto sem graça e sem belleza, 
A falta de Arte e Natureza chora. 

; Em retalhos de Prosa trasladaste 
O que tens dos Francezes traduzido. 
Eis por que extranhas linguas nos gabaste. 
Tornaste a declamar ; foste prohibido ; 
Não me assustam os Gregos, que affectaste, 
Do leite que mamaste me intimido. 

De um anonymo 

Faze, oh Albano, os versos doutamente, 
Dá-nos sabias lições, como até agora; 
Faze, faze, que a inveja sem demora 
Quebre raivosa o denegrido dente. 

í Não te confundas, porque ao bom sciente 
Perseguiu sempre a inveja falladora 
Pois até a Garção, que o mundo chora, 
Mil vezes criticou um maldizente. 

\ Tu, meu grande Macedo, continua. 
Os teus versos são versos superiores, 
Tu nasceste Poeta, a arte é tua. 
Deixa fallar os vis criticadores. 
Pois se ha algum pedante que te argua, 
Exaltado te vês pelos melhores, i 



Poesias varias, Ms., t. ii, p. 187 a 190. (Mihi). 



150 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Esse ultimo Soneto de João Xavier alludia 
á educação jesuítica de José Basilio como 
aquillo que n'elle temia ; por este Soneto ano- 
nymo, escripto sob a impressão da morte de 
Garção e da mordacidade de José Basilio, 
vê-se a transição da Guerra dos Poetas para 
a refrega provocada pela Ode do Padre Ma- 
noel de Macedo á cantora italiana Zamperini. 
Em muitos manuscriptos do século xviii o 
P.e Manoel de Macedo é considerado auctor 
do Soneto aos heroes da Assemblea do Dou- 
tor Estoquete, o que significa que como árca- 
de lhe tomaram a responsabilidade de acadé- 
mico, moendo-o com pungentíssimas Sátiras. 

Em uma Ode Ao tempo passado ainda al- 
lude Filinto a um dos antagonistas da Guerra 
dos Poetas, o P.c Manoel de Macedo: 



Macedo comporá os Epinicios 

Em zamperino metro, e Hebe engilhada 

Já Maria da Costa lhes confeita 

Summarentas ambrósias. 

Em nota falia d'esta criada do padre, que 
possuia as mais recônditas receitas para fazer 
doce. 

Um Poeta, é nada. 
Pois que verceja Alpoim, Macedo embóca 
A gaita, em zamperina farfalhada. ^ 

Na rubrica explicativa do Soneto de Gar-, 
ção contra o Grupo da Ribeira das Náos, vê-í 



1 Obras completas, t. v, p. 252. 



^^ FILINTO ELYSIO 151 

^B que o compozera para zurzir vários heroeSy 
^^ue o abocanharam na assembleia do Dou- 
tor Estoquete; mas visava especialmente o 
Padre Niceno, patrão da lancha, como sar- 
sticamente' lhe chama pela influencia que 
ercia em volta de si. Antecipando o depoi- 
ento do velho professor de Grammatica la- 
a António Félix Mendes, conhece-se mais 
vivo o que era a Assembleia do Doutor 
'Stoquete, e a causa da superioridade de 
'rancisco Manuel : « António Félix Mendes, 
jatural do logar de Pernes, termo de Santa- 
m, de edade de setenta annos, pouco mais 
menos, casado com D. Maria Magdalena 
ufens, morador aos Poiaes de San Bento e 
rofessor régio de Grammatica latina. — Dis- 
, que achando-se em casa do Advogado Je- 
nymo Estoquete^ morador na rua larga de 
an Roque, onde estava também Manoel Ooe- 
o de Lima, que presentemente é creado gra- 
do Secretario de Estado Ayres de Sá e 
ello, dissera este...» Allude em seguida á 
assagem do Mar Vermelho, milagre de Je- 
é. Diluvio etc, e continua: «Disse que ou- 
ira estas mesmas doutrinas em casa do Pres- 
"bytero secular Francisco Manoel — morador 
ao presente na Travessa das Chagas» — e con- 
clue: «que elle formou juizo que todos estes 
três sujeitos estavam exercitados e instruídos 
na lição dos livros prohibidos, digo de Livros 
dos Philosophos modernos, que... affectam 
seguir a Rasão natural.» O respeitado mestre 
de Grammatica depondo em 3 de Julho de 
1778, referia-se a factos do tempo em que 
Francisco Manoel ainda morava na Ribeira 
das Náos: «Disse mais, que sabe pelo conhe- 



152 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cimento que tem com o dito Padre Francisca 
Manoel, por ser seu mestre da Latinidade, 
que elle é muito bem instruido n'ella, como 
também na Philosophia e na leitura ecclesias- 
tica, e é geralmente reputado por homem dou- 
to, e que por esta rasão é muito procurado 
por varias pessoas para conferirem com elle 
algumas obras que compõem, principalmente 
em versos, em Sermões e outras quaesquer 
duvidas, que lhes occorrem ; e entre outras- 
pessoas é frequentemente visitado por alguns 
religiosos do Convento de Jesus, maiormente 
por um Religioso por sobrenome Barroco ou 
Marrocos, e que pela rasão da sua boa in- 
strucção era estimado pelo Bispo de Beja» 
(D. Fr. Manoel do Cenáculo). ^ 

Francisco Manoel teve conhecimento d'esse 
Soneto attribuido a Garção, rimado contra o 
Grupo da Ribeira das Nãos; elle nunca se 
esqueceu dos dois versos : 

Padre NicenOy tu, patrão da lancha 
Carregada de drogas da antigualha. . . 

Assim ao escrever o verso : — N'este ense- 
jo entra Amor co'a Formosura, — subscreve 
em nota : « Eil-o lá vem co'as drogas da an- 



^ Este grammatico aff amado nascera em 14 de 
Janeiro de 1706 e morreu em 1790. Publicou em 1737 
a Grammatica latina do Bacharel Domingos de Á7^aU' 
jo, reformada, accrescentada e redusida a methodo fa- 
cil para que em menos de um anno se aprenda por 
ella, etc. Na reforma pedagógica pombalina foi esta 
Grammatica, já transformada em 1749, mandada ado- 
ptar por decreto de 28 de junho de 1759. António Fé- 
lix Mendes era membro da Academia Latina e Portu- 
gueza. 






FÍLINTO ELYSIO 153 



tigualha! Ouço eu já d'aqui dizer a alguns 
bonecos afrancezados. — Esse ensejo, que elle 
metteu aqui á queima-roupa, pilliou-o elle de 
Azurara, ou Castanheda. Quiz-nos campar 
por erudito encampando-nos palavras affonsi- 
nhas. Ao que respondo: ..Escrevo a pala- 

^^^ra que melhor significa o que intento dizer, 

^^nm me apurar em modernices nem antigua- 

^^Ras.» (i, 109.) 

||P Quando mais tarde Filinto combatia não 
]á pelos Archaismos, mas contra os francê- 
Ihos, ainda se refere ao primitivo Soneto : 

Eis que, como Quevedo, me resolvo 
A debicar comvosco, meus Francelhos, 
Que vos desempulhaes de meus socátes 
Cum baboso dizer — Patrão da lancha 
Carregada das drogas da antigualha, 
Cuidaes que me insultaes; e eu tenho em honra 
Ter os Clássicos lido, e ter lembrança 
Das suas nobres phrases quando escrevo. 

(0&,, t. V. 137.) 

Toda a clássica phrase que ignoramos 
Gritemos logo — Drogas da antigualha — 
Insultemos as Obras de Filinto, 
As de Alieno, Bocage e outros sédiços ! . . . 

{Ibid., p. 146.) 

E em uma Carta em verso, datada de 6 
Je janeiro de 1788, recordava-se da phrase 
3rrivel do soneto: 

Uma nódoa é que affeia os meus escriptos. 
Que enxovalha o melhor das minhas Odes. 
Termos novos ou drogas da antigualha, 
Que se acham só em Barros, em Lucena, 
Velhos Sebastianistas, que este mimo 
De fallar luso-gallico não provam . . . 

ílhid,, p. 315.) 



154 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Quando irrompeu o desafio métrico por 
causa da cantora Zamperini, o P.® Manoel de 
Macedo, que lhe chamara divina em uma Ode, 
foi espantosamente apodado por todos quan- 
tos metrificavam em Lisboa ; elle conheceu 
que os ataques provinham dos Poetas do Gru- 
po da Ribeira das Nãos, e dá-o a perceber 
alludindo a marca de fogo do Soneto de Gar- 
ção contra a monomania dos Archaismos : 



Grande Barros, 

Que affronta te não fazem, quando entendem 
Que de escudo lhe serves ! Tu fallaste 
Do teu século a lingua, fabricando 
Nobres palavras ; tu enriqueceste 
Da carunchosa edade sacudindo 
As bolorentas phrases, e ha quem queira 
De a esmo, de abastança, de uma grosa 
De ferrugentos termos fazer pompa ? 
Toda a sua riqueza consistindo 
N^estas drogas? Ainda que quizera 
Não conter-me, não posso ; é desaforo. 
Não duvido que uma vez ou outra 
Tal qual palavra antiga logar tenha. 
Exprime ás vezes mais ; por peregrina 
Pode ás vezes passar. Mas com que sabia 
Cautella estas licenças se concedem I 
Eu de algumas me sirvo, outros conheço 
Que de algumas se servem ; a prudência 
E' quem a luz nos dá para podermos 
Com destra economia governar-nos, 

Bem hajas tu, meu Mattos, meu Basilio, 

Corromper-vos 

Não vos deixastes das mouriscas vozes 
Da rançosa antigualha. Vossos versos 
Com applauso de todos serão lidos. . . 



E alludindo ao Monteiro roaZy do Soneto 
de Garção, escreve Macedo na mesma Sátira: 



FILINTO ELYSIO 



155 



Quantos juizos tens escurecido ! 
Da quadrilha roaz, tal ha que affirma 
Que passados tem já todos os livros. 
Que já não tem que ler. Tal, assevera, 
Do nariz mastigando o sêcco ranho. 
Que para conhecer do mundo a edade 
Necessário seria calcularmos 
Os Terramotos. Ora eu já não posso 
Demorar-me com tanta baboseira ; 
Charlatães importunos, já vos deixo. 
Por agora vos deixo, Pintos^ SousaSy 
Monteiros, Estoquetes, BandeirinhaSy 
Valente Chefe do famoso tronco 
Da Ribeira das Nãos, até á primeira. 
Se ao dissabor da Sátira forrar-vos 
Quizerdes, acceitae o meu conselho, 
E' santo. Conhecei-vos, e calae-vos. ^ 

A questão da Zamperini, que occupava a 
ísegunda phase da Guerra dos Poetas, trans- 
[formou-se em uma pugna philologica sobre 
fArchaismos e Neologismos, sem se despren- 
[der do azedume das personalidades. Francis- 
[co Manoel que não se destacou do Grupo da 
iRibeira das Náos ante o Soneto satírico de 
[Garção, nem ainda na alluvião de versos a 
hZamperini, tornou-se o paladino da renova- 
tção da lingua portugueza pelo emprego das 
|palavras archaicas contra os neologicos dos 
Ifrancelhos e tarêlos. 

O Capitão Manoel de Sousa, que traduzi- 

[ra o Telemaco sob a direcção de Francisco 

^Manoel, bem como a comedia de Molière, o 

Peão fidalgo, merecendo gabos de purista, 

.era visado como um elemento activo do Gru- 



^ Poesias varias, t. ii, 459. Ms. (Tem variantes.) 
tVid. Arcádia lusitana, p. 351. 



156 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

po da Eibeira das Náos ; foi por isso mais 
tarde responsável perante a Inquisição pela 
sua intimidade com o poeta. No horroroso 
tribunal declarou ter quarenta e um annos de 
edade (nascido em 1737), sendo seus pães 
João Gonsalves e Maria Isabel da Conceição. 
Ahi confessa o trato e cojnmunicação que 
com elle tivera por alguns annos, e calando 
agora a covarde accusação de atheismo, ter- 
mina affirmando que « a maior cominunica- 
ção que com elle teve era sobre pontos de 
Bellas Lettras, só por acaso e incidentemente 
tocavam em alguns pontos de religião . .» Na 
época das luctas contra o Arcadão, como ir- 
risoriamente chamava Domingos Monteiro á 
Arcádia, o Capitão Manoel de Sousa tomava 
parte com o P.® Francisco Manoel em discus- 
sões de livre-pensamento, como o declarou 
um frade paulista dos do Collegio de Évora 
no horrendo tribunal, que também accrescen- 
ta lerem ambos os livros prohibidos : « Disse, 
que eram as duas, que já acima deixa referi- 
das, o P.® Francisco Manoel e o Capitão de 
Engenheiros Manoel de Sousa, e Domingos 
Pires Bandeira ; e a rasão que tem de o saber, 
é porque visitando algumas vezes aos sobre- 
ditos P.® Francisco Manoel, Domingos Pires 
Bandeira, via que elles tinham nas suas es- 
tantes os ditos livros, e outras vezes abertos 
em cima das suas bancas, e por vezes lhe re- 
petiam algumas passagens, que n'elles tinham 
lido ; e a respeito do Capitão Manoel de Sou- 
sa, é porque conversando outras vezes com 
elle, em muitas o ouviu formar argumentos 
fundados nos sentimentos oppostos á Reli- 
gião...» Na traducção da Historia antiga. 



FILINTO ELYSIO * 157 



do Abbade Rollin, o capitão Manoel de Sou- 
sa inscreve-se no frontispício da obra como 
Sócio da Arcádia; sendo essa edição em dois 
volumes de 1767-1768, não é plausível que 
n'esta mesma data Garção o ridicularisasse, 
)mparando-o com o Mendes, bedel zarolho 
lo Collegio dos Jesuítas. E' mais natural que 
arreiasse com o titulo da Arcádia mãe, 
)mo usavam José Basilio da Gama e outros, 
|[ue não particularisavam a de Roma. 

E' certo que na traducção do Tartufo de 
lolière, do capitão Manoel de Sousa, quize- 
im ver a mão de Francisco Manoel, como 
lie mesmo confessa ao seu biographo Ale- 
fcandre Sane: «Esta reunião modesta, em que 
lomens pacíficos gozavam em commum das 
luas luzes e da sua amisade, despertou a 
jittenção de alguns frades. Francisco Manoel 
busava algumas vezes motejar da sua incrível 
jnorancia, das suas prédicas barbaras, con- 
lemnando a hypocrisia de uns, e a intoleran- 
Bia de todos ; uma traducção do Tartufo de 
lolière, e algumas outras obras tomadas das 
^itteraturas estrangeiras circulavam na socie- 
iade da capital; julgaram descobrir n'ellas a 
ma 77ianeira ; d'ahi lhe adveiu a funesta fa- 
ia de philosophOy arma envenenada de que 
56 serviram para o perder. Já todos os seus 
>assos, todos os actos indifferentes de uma 
rida que não se occultava, por que era irre- 
)rehensivel, eram curiosamente espiados. Di- 
ja-se a phrase terrível : Francisco Manoel era 
suspeito á Inquisição.» ^ As traducções de 



Poésie lyrique portugaisCj p. xvi. 



158 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Operas e Tragedias philosophicas, que elle 
revia aos seus amigos, appareceram mais tar- 
de como terrível carga accusatoria. 

A primeira publicação de Filinto foi a tra- 
ducção de uma Opera de Metastasio, que lhe 
pediram, e a que allude em um Epigramma: 

Mandou-me Amor, que esta Opera vertesse ; 
Ou sábio, ou néscio a Amor tudo obedece ! 
Censor que lês a traducção do drama. 

Os erros meus desculpa, 

Amor tem toda a culpa. 
Não vê erros um cego ; e é cego o que ama. 

(i, 173,) 

Eis o titulo da Opera traduzida e impres- 
sa avulso em 1768, mas nunca incorporada 
nas suas Obras completas: 

Antigone em Thessalonica ; Opera do se- 
nhor Metastasio, traduzida em verso portu- 
guez por Marcellino da Fonseca Minê's Noot, 
na Officina de José da Silva Nazareth. Lis- 
boa, 1768. In-8.^ de 91 pag. 

O nome de Francisco Manoel do Nasci- 
mento está occulto no anagramma de Marcel- 
lino da Fonseca Minê's Noot, como observa- 
ra Innocencio. 

E' também d'este anno de 1768 a publi- 
cação pela imprensa do 

Entremez intitulado : O Cinto magico, do 
sr. João Baptista Rousseau, traduzido em 
vulgar por Marcellino da Fonseca Minê's Noot. 
In 8.^ de 44 pag. 

O apparecimento da traducção portugueza 
da immortal comedia O Tartufo, de Molière, 
effectuou-se n'este mesmo anno de 1768 em 
nome do Capitão Manoel de Sousa, mas para 



FILINTO ELYSIO 159 



OS effeitos da malevolencia foi attribuida a 
Francisco Manoel, conforme as reminiscências 
que chegaram até Costa e Silva. A data que 
a bibliographia aponta explica a referencia de 
Manoel de Figueiredo á Guerra dos Poetas, 
condemnando as « Composições em que gas- 
ivam o tempo os moços de génio que tinha 
Ésboa, pois n^aquelle tempo se devoravam 
^m Sátiras uns aos outros, e o Theatro su- 
entando-se com traducções ; etc.» 

Outras traducções fez Francisco Manoel, 
le ficaram inéditas, mas incompletas e pu- 
blicadas já depois da sua morte na edição in- 
tegral ; taes são a Androinaca, de Racine, as 
duas primeiras scenas da Iphigenia em Au- 
lis, do mesmo, e do primeiro acto da tragedia 
Coriolano, de La Harpe. Alguns d'estes ma- 
nuscriptos ficaram na mão do livreiro Jorge 
Rey, em Lisboa. Referindo-se aos fragmentos 
publicados, escreveu Francisco Manoel : « Eu 
bem acabara a traducção d'esta, (Iphigenia) 
e também a do Coriolano, mas o preço tão 
limitado que me deram pela Medêa, de Lon- 
gepierre, e pelo Mithridates de Racine, me de- 
cepou a vontade.» (xi, 104.) 

No depoimento de Frei Plácido de Andra- 
de Barroco, irmão do amigo intimo de Fran- 
cisco Manoel, Sebastião José Ferreira Barro- 
co, falla-se ainda outra vez nas Tragedias phi- 
losophicas, que o poeta emendava: «Disse 
mais que em outra occasião viu na sua mão 
uma tragedia de Voltaire, feita por elle, que 
julga ser a intitulada O Mahometismo ; e que 
por estas rasões se persuade que o dito Pa- 
dre era um homem de pouca religião.» Se- 
manas depois tornou a depor, explicando-se 



160 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

mais : « Que pelo que respeita a ter referido, 
que a tragedia intitulada Maho77ietismo a tra- 
duzira o sobredito Padre; agora com mais 
exacto exame se recorda, que este a não tra- 
duzira, mas sim um José Basílio da Ga^na, 
Official da Secretaria de Es-tado dos negócios 
do reino, mas que elle depoente vira esta tra- 
ducção na mão do mesmo padre.» 

Na Sátira de Garção contra o rábido furor 
do Pedantismo, depara-se com uma referencia 
aos dois poemas de José Basilio da Gama, 
Quitiíbia e Uruguay, e ás traducções de tra- 
gedias francezas por Francisco Manoel : 

Que julgas tu ? Que a Arte o seu principio 
Teve em subtis caprichos ? A Rasão 
E' sobre que se firma este edifício. 

Oh, se não fosse assim, um charlatão 

Dentro em dous mezes sem temor ousara 
Talvez dar Epopêas d impi^essão, 

O estrangeÍ7'o Drama, se mostrara 

Com muito maior pejo do que agora, 
Se a atrevida ignorância o Estro peara. 

Entre os poetas do Grupo da Ribeira das 
Náos figurava Pedro Caetano Pinto de Mo- 
raes Sarmento, citado no primeiro verso do 
celebre Soneto de Garção; o terrivel poeta 
satirico António Lobo de Carvalho vibrou-lhe 
um Soneto com esta rubrica explicativa: Ao 
illustre Pedro Caetano Pinto, enfronhado em 
poeta^ eiijo pae fora barbeiro : 



Odre de vento, Pinto desázado, 
Peralvilho por toda a eternidade. 
Da honra, da innocencia e da verdade 
Acérrimo inimigo declarado ; 



FILINTO ELYSIO 161 



Da família dos Pintos o morgado, 
Primeiro tolo sem contrariedade, 
Mais velhaco que o mais velhaco frade, 
Infamador do sexo delicado; 

Cônsul geral de toda a Cotovia, 
Que da famosa Mancha no cartório 
Guardas padrões da tua fidalguia ; 

Tudo vaida-de, tudo farelorio ; 
Quem te hade disputar a primasia 
Dos Poetas no vasto Consistório ? ^ 



Vê-se que a referencia á Mancha, allusiva 
viagem de Pedro Caetano Pinto a Hespa- 
la, aonde casara, servia de truque sarcásti- 
co aos poetas satiricos. As cargas foram fre- 
quentes, deparando-se ainda entre a alluvião 
de [versos inéditos do século xviii esse Ro- 
mance em forma seiscentista : 



Pinto bolas, Pinto pato, 
Pinto fofo. Pinto — erdas. 
Das tuas poucas vergonhas 
Ouve as grandes insolências. 

Porque a pobre Cantora 
Com tanta basofia aterras. 
Aborrecida entre nós 
Só tu podias fazel-a. 

Não ha quem não a crimine 
Por cahir na esparrella 
De que és artífice destro 
Fabricando muitas petas. 



^ Rimas varias^ Ms., t. vii, p. 400. — Poesias jo- 
viaes e satíricas, p. 117. Ed. Inn. 
11 



162 >. HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Para que é empanzinal-a, 
Dizendo que tens de renda 
Trinta mil cruzados, fora 
Quasi um milhão porque esperas? 

De uma propinqua herança 
Que te hade vir de Castella, 
De que já tens alcansado 
Não sei se meia sentença. 

Para que é o espalhafato 
De outenta vestidos ? Esta 
E' a mentira mais tola 
Que inventou a tua ideia. 

Vinte de veludo, vinte 
De preciosíssimas sedas, 
Trinta de pano, e mais dez 
De algumas drogas ligeiras. 

Sendo para que a verdade 
Te diga núa e singela, 
Como eram teus os vestidos 
Ser de camelão deveram. 

Para que é articular 
Contra teu pae mil blasphemias, 
Por te dar todos os mezes 
Tamsómente cem moedas ? 

Tomaras tu a estas horas 
Teres quatro na algibeira. 
Não farias . . . Mas . . . Chiton ! 
Faz-se precisa a modéstia. 

Para que é de fidalguia 
Encher as pobres orelhas 
De quem com razão ignora 
De teu principio as mazellas ? 

Não é melhor que na seje 
Lhe tragas gallinhas e ervas 
Com que da bella cantora 
Guisar possas a Minestra ? 



FILINTO ELYSIO 



163 



Que ás vezes lhe mandas luvas 
E alguns pares de meias, 
Com que cubra as tenras mãos 
E as escanifradas pernas ? 

Não é melhor que por timbre 
De tanta amante fineza 
Leves os teus bofetões 
Como pacifica ovelha ? 

Que dando-te uma facada 
O teu sangue correr vejas, 
E que o perdão lhe suppliques 
Curvando o joelho em terra ; 

Que mato oiças chamar-te, 
Beco fututu, pateta, 
Deshonra da tua casa, 
E outras infâmias doestas ? 

Que a trambolhões pela escada 
Dando mil suspiros desças, 
Dizendo que a amas mais 
Que a tua alma e o teu Deus ? 

Que já desejas quebrada 
Do matrimonio a cadêa 
Que por agora te prende, 
Para casares com ella? 

Ora toma o meu conselho, 
Que é justo: cuides de veras 
Em dares ao mundo todo 
Satisfação co^a emenda : 

Se não, direi que tu és, 
Mais piegas, que o piegas, 
Que mereces muito açoite, 
E que vás beber da ^ 



1 Poesias varias, Ms. t. vii, p. 399. 



164 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

A figura caricata representada nos versos 
satíricos de Garção, Lobo e do anonymo ro- 
mancista, apparece-nos exaltada por Filinto, 
que no exilio ainda se lembrava d'elle, e nos 
versos de D. Leonor de Almeida, que dedi- 
cou uma Epistola A P. C. P., iniciaes que es- 
clarece em nota: Pedro Caetano Pinto de 
Moraes Sarmento. Alcipe trata-o pelo nome 
pastoril de Pierio, referindo-se a lucta litte- 
raria, que a assustava: 



Não cuides, não, Pierio, que insensível ^ 
Os teus versos suaves não escuto; 
Ouço, percebo, gosto, porém temo 
Responder-te ; receio que trasborde 
A bilis que reprimo, e que afogara 
Em torrentes amargas erros tantos. 

O profanado Phebo hão de insultal-o 

Os semi-sabios, presumidos néscios,' 

Hão de os casquilhos enterrar a lingua 

Que Ferreira fallou, falia Filinto, 

Mas taes males não são mais que symptomas 

De outros maiores, pois Doutores bestas 

Só nascem de fortuna e poder grande, 

E de trevas, que a luz do engenho apagam. 

Não me divertem 

Histriões sem costumes, dramas oucos, 
Que no Theatro as almas envenenam. ^ 



Pedro Caetano Pinto frequentava o peque- 
no circulo de amigos de Filinto, e tomava 
parte nos festejos Íntimos dos seus natalícios, 



Marqueza de Alorna, Obras poéticas, t. n, p. 39. 



FILINTO ELYSIO 165 



^mo O consigna o exilado poeta em uma re- 
Drdação da velhice : 

Onde te foste, dia egual ao de hoje, 
Em que PintOj Barroco e os dous Domingos, 
Com versos, com sainetes engraçados 
Celebraram meus annos. 

{Obr,, t. lu, 80.) 



E em nota escrève-lhes os nomes por ex- 
tenso: «Pedro Caetano Pinto de Moraes Sar- 
mento; Sebastião José Ferreira Barroco; Do- 
mingos Monteiro ; Domingos Maximiano Tor- 
res. » Em 1790 era Pedro Caetano Pinto escri- 
^ v ão do Registo geral das Mercês. ^ 

Já no iim da vida, na sátira Os últimos 
leos ás Musas, lembra-se Filinto dos poetas 
átimos do Grupo dá Ribeira das Náos: 

Embora nos mantenham companhia 
Um JorreSy um Bandeira, um Figueiredo, 
Um Monteiro, um Diniz, validos vossos. 
Do vosso intimo arcano secretários, 
E de aónias mercês dispensadores. 
Com delgado pincel Monteiro pinta 
Astrêa, que ao fugir da iniqua Terra 
Deixa saudosa os últimos vestígios 
Nos athlanticos hombros estampados. 
Descreva o Templo occulto do Segredo ; 
O Casquilho, que vem na sege a trote, 
E o Soldado, que impede entrar no Carmo 
O mesmo General ; que assim as ordens 
Recebeu do pateiro do Convento: 
E ora faceto ao povo douto alegre. 



^ Vid. Sentença de 19 de Junho de 1790 absol- 
jBndo o official maior João Tiburcio Barbosa, accusa- 
por elle. 



166 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Ora ás auras sublime se remonte, 
Pois que ao génio do vate ajuntar sabe 
Porfiada lição, critico gosto. 

Basílio em canto altiloquo forceje 
Cantar Freire, na America famoso ; . . . 

O Barroco arrojado tome a tuba 

Que emborcaram Poetas tão divinos, 

E que ainda quente está dos seus furores ; 

E apesar das nações que mais se illustram, 

E são longe de nós na épica altiva. 

Dará mais um motivo á sua inveja. 

Uma Sátira anonyma, e inédita, pinta-nos 
a transição da Guerra dos Poetas do thema 
picaresco da Zamperini para o do puritanis- 
mo da linguagem. E' interessante, por que 
nos falia nos indivíduos que entraram no 
debate : 

Que haja eu sempre de ouvir linguas mordazes 

Em prosa e verso, n^um e n^outro estylo. 

Arbitras das Sciencias, dos juizos, 

A critica co^a Sátira envolvendo 

Decidirem de plano altivamente 

Das obras, das acções da demais gente ! 

N'um pleito grave, n^um assumpto serio 
Em que interessa o bem dos Litteratos, 
Todo o debate é justo. Nós não temos 
Outro meio mais próprio, que do centro 
Das cousas mesmas a verdade pura 
Extrahir, até^li envolta e obscura. 

Mas sobre Zamperini tanta bulha ? 
Assoalhar defeitos, e com o dedo 
Mostrar ao Povo objectos de desprezo 
Homens sábios e doutos ! Dia e noite 
Consumir em poéticas fadigas, 
Creando ódios, fomentando intrigas ! 



à 



FILINTO ELYSIO 167 



Essa bella Cantora, que trouxera 
A sorte a Portugal com tanto estrondo, 
As attenções nos rouba, nos encanta 
Co'a doce voz, co^o estylo harmonioso; 
Mas nunca pôde ser motivo nobre 
Que furores mil entre os Poetas obre. 



Louve-se muito embora : é digna dMsso, 
E quem o affecto seu traz manietado 
Exprima o seu amor de qualquer sorte, 
Não perdoe a desvellos, a finezas. 
Sempre foi livre o amor. Se nos agrada. 
Pouco importa que aos mais pareça nada. 



Que muito, que Macedo possuído 
D^essa terna paixão Ode fizesse? 
E' acredor por isso que outra Ode 
Cheia de enigmas mil e de imposturas 
Lhe atalhe o gosto seu? Tempos cansados, 
Em que até ha Juiz dos namorados ! 



A discórdia semêa seu veneno. 

Chovem de um lado e de outro mil Sonetos 

{Muito boa poesia para a Sátira! ) 

E' o pobre Macedo descomposto, 

Basilio e Mattos tomam seu partido, 

Não soffre cada qual o ser vencido. 



Mas, já mudam de phrase: é mais pequena 

Poesia o Soneto. Elles pretendem 

Fazer doeste duello uma passagem 

Para a Sátira audaz, em que os costumes 

De uns e de outros se mostre, e a acção primeira 

Serve só de Episodio á derradeira. 

Bom Horácio! que voltas não levaram 
Tuas discretas Sátiras ! Já todos 
Transcrevem d^ellas versos infinitos ; 
As provas de que usastes, as pinturas 
São fielmente as mesmas. Seu engenho 
Não imita, produz o teu desenho. 



168 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O Macedo começa ; logo o segue 

Autor ultramarino, ^ que do Entrudo 

A figura nos pinta : os seus talentos 

Vem de Horácio e Serrão. Ha pouco próprio, 

Fazendo reviver os esquecidos 

Conceitos, que já n^outros foram lidos. 

Elle crimina por seus mesmos nomes 

Alguns com quem por certo hombrear não pode ; 

Seus versos são picantes ; seu estylo 

E' mais acre que a Sátira, e pretende 

Apontar com maledica prudência, 

A que faz resurgir nova insolência. ^ 

Monteiro lhe responde em Elegia 

De erudição estranha carregada. 

Que semelhança tem este combate 

Cos de França, da Grécia e Roma antiga ? 

Principiara a bulha em Zamperina, 

Que vale o mesmo que lana-caprina. 

Reprehende por erros de Grammatica, 
E de lingua, também quaes nunca foram; 
Se o verso não permitte liberdade ; 
Se a syntaxe da lingua é sem figuras, 
E' justa a reprehensão, mas não tolero 
Explicar-nos pastel com tanto esmero. * 

Não se livra a Elegia de resposta. 
Vem Antero e Davates, logo á praça 



^ Manoel Ignacio da Silva Alvarenga; mas essa 
Sátira publicada em seu nome no Ramalhetey t. vi, no 
manuscripto que possuímos traz o nome de Francisco 
Xavier Lobo, assignando também muitos Sonetos de 
António Lobo de Carvalho. 

* E' a Elegia inédita de Theotonio Gomes de Car- 
valho, que a Sátira supra transcripta attribue a Mon- 
teiro (Matusio) bem como as Outavas do Dr. Joaquim 
Ignacio de Freitas ; e no Ramalhete a José Basilio da 
Gama, 



FILINTO ELYSIO 169 



Virgílio o faz entrar, e de outra parte 
O velho Adamastor, Camões o guia; 
Em consoantes forçados nos adverte 
Que o gosto depravado inda diverte. 



A bulha toda cifra-se em palavras, 
Se as antigas preferem ás modernas : 
Apparece-nos tres-pontualmente 
O que Horácio nos diz na Arte poética ; 
Aqui nada se inventa ; o já proposto 
E^ mil vezes na praça outra vez posto. 

Que nobre assumpto! que fecunda ideia 
P^ra mentes illustradasl se consome 
O tempo em ninharias, que pudera 
Gastar-se com mais gloria e mais proveito 
Em descobrir a cândida verdade! 
Mas esta é sempre a nossa inf licidade. 



Eu poeta não sou ; a phantasia 

A tanto não me chega. Que doutrina 

Não pede a Poesia ! O céo apenas 

Reparte entre os mortaes em longos tempos 

A belleza doesta arte. Não me é dado 

Pensar sublime, engenho delicado. 

Só me lastimo vêr que uns homens doutos, 
Que podem úteis ser a si e á pátria. 
Contendam entre si com fúria insana 
Por motivos tão vis, por bacatellas. 
Mas siga cada qual a sua teima, 
Que eu para declamar não tenho fleuma. ^ 



Como complemento d'esta phase da Guer- 
ra dos Poetas, transcreveremos alguns trechos 
ia Sátira do virulento Francisco Xavier Lo- 



1 Poesias varias, t. ii, p. 453 a 58. Ms. 



170 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

bo, (António Lobo de Carvalho?) que começa 
pela comparação descriptiva do Entrudo: 

Que alegre era o Entrudo n^outro tempo, 
Geronte amigo! Quanto a edade muda! 
Está tudo acabado. Já não vemos 
Arrojarem -se as cêlhas de agua immunday 
De braricos pós aos céos erguer-se nuvens, 
As ruas retumbar em sujas pulhas, 
Dos marotos as vastas laranjadas, 
A pelota de barro, o esguicho^ o rabo. 
Do gallego servil a cara informe 
De lama emporcalhada; e de tal cousa 
Hoje apenas se vêem algumas gotas 
Exprimidas cahirem das janellas 
Por mãos mimosas de gentis donzellas. 
Mas, oh! Das cortes e cidades grandes 
Destino providente ! Nunca faltam 
Sempre ao publico novos espectáculos. 
Quanto não riu este verão Lisboa 
Vendo posto na Praça da Parada 
O vaidoso Talaia, Capitão, 
Doutor, Almotacé, Poeta, etcétera. 

Zamperini apparece ; adeus, Talaia, 
Zamperini em francez, em prosa e verso:... ^ 
D'aqui Macedo Sátiras fulmina, 
D'ali Monteiro, qual outro Lucilo. . . 
Basilio faz lunático o Macedo . . . 
Mattos fal-o pastel de carne e massa. . . 

Tempo já houve, em que a discórdia fera 
Que nos pequenos corações domina 
Derramou o seu hórrido veneno 
Nos peitos dos brejeiros e rapazes ; 
Então da Alfama e da Pampulha viram-se 
Tremolar as bandeiras, e os exércitos 
Marcharem com furor á civil guerra 
Que os campos infestou da Cotovia. ^ 



^ D'aqui em diante vid. Arcádia lusitana, p. 360. 
2 E' o jogo da Purria, ou pedrada, ainda hoje 
usado pelo rapazio em Lisboa. 



FILINTO ELYSIO 171 



VÓS, egualmente divertis Lisboa 

Cuidando acreditar-vos com discórdias. 

Sois do Entrudo as figuras, sois do inverno 

Os Talaias e a Fabula do povo ; 

Por mais que a gente ria ás gargalhadas, 

Moteje á vossa custa dos máos versos. 

Vós vos credes Homeros e Virgilios, 

Por vêr que quatro estúpidos vos louvam ; 

E se algum vos não grita: — Viva! Bravo! 

— Este verso é em phrase horaciana ! — 

Sem vergonha vós mesmos applaudis. 

As casas atroando com palmadas 

Festas felizes, bem aventuradas ! 

Deixa, amigo Monteiro, de secar-nos 

Co^a antiga locução áspera e dura; 

Confessamos que tem graça e energia 

Lida nos bons Autores que nos honram; 

Mas as palavras são como a moeda, 

O uso unicamente é o rei que a faz 

Que ellas valham o que elle quer que valham. 

Como ellas corram co'a presente marca. 

Faze outra vez viver as esquecidas, 

Adopta embora as novas, funde as velhas, 

Lima as informes, pule as escabrosas, 

Enriqueça-se a lingua portugueza 

Com prudente licença e boa escolha. 

Porém, nunca vocábulos nos digas 

Que o bixinho arrancam dos ouvidos. 

Nem a todos concede a natureza 

Como concede a ti e á tua seita 

Orelhas de aço, tympanos de bronze. 



E tu, Macedo, fallo-te sincero : 
Dou-te licença de queimar teus versos ; 
Não nascestes Poeta, tem paciência. 
Emprega o tempo a ler as Escripturas, 
Os Basilios, Chrysostomos, Gregorios, 
Pois é pena, que tendo algum talento 
Não saibam teus Sermões a nada d^isto: 
Um estylo affectado e corrompido 
Não é a phrase simples do Evangelho: 
Admiram-te ignorantes, mas aos doutos 
Não podes agradar, nem compungir; 
Isto de Poesia é bacatella 



172 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Própria de outro caracter, de outra edade. 
Vê que a aurora do tardo desengano 
Já começa a raiar nas tuas fontes. 
Deixae ambos de ser alvo das gentes 
Quixotes cada um por seu feitio, 
E agora, que chega a primavera 
Navegae para Antyciras, que tendes 
Precisão ambos de tomar o electro 
Musa, porque rasão me não concedes 
Para encher de vergonha e confusão 
A incorrigivel raça dos pedantes 
Um espirito egual ao de Cervantes? ^ 

Provocou esta Sátira uma extensa replica 
em tercetos, que encontramos attribuida a 
Theotonio Gomes de Carvalho com outra sua 
composição elegíaca ao Terremoto. Transcre- 
vemos alguns excerptos, que interessam á his- 
toria litteraria: 

Tu, magoada tristissima Elegia, 
Desgrenhado o cabello, envolta em pranto. 
Dos Litteratos chora a sorte impía. 

Vê como estende o empestado manto 
A isolente ignorância, a mão da inveja. 
Que nos ânimos vis domina tanto. 

Chora o sincero sábio, que deseja 
Dos erros no intrincado labyrinto 
Achar um fio porque os passos reja. 

Vemos da vida o lume quasi extincto, 
E inda ignoramos quanto em torno vemos. 
Eu mesmo ignoro o como penso e sinto. 

Para acertar, esforços mil fazemos. 
Notam nossas acções, nossos escritos; 
Impulso é natural se os defendemos. 



1 Ib,, p. 467 a 75. 



FILINTO ELYSIO 173 



Ainda escuto os descompostos gritos 
De graves ecclesiasticos Doutores, 
Os dos profanos são quasi infinitos. 

Antigos e modernos Escriptores 
Tem disputado sempre azedamente 
Sem se pouparem aos mortaes rancores. 

Dá um Luiz Grande a França o céo clemente, 
Raiam Sciencias, vão brotando as Artes, 
Alteia-se a disputa de repente. 

Já Boileau, já Pérrault, diversas partes 
Tomam, defendem, passam logo á injuria, 
E tu Alecto o estro lhe repartes. 

De Lamothe e Dacier sopra outra fúria, 
Le Clerc e Huet vão contra Longino, 
Não se perdoa ainda a menor incúria. 

Ao lêr isso, Rousseau trouxe o destino 
Para ferir Voltaire, que outros maltrata, 
E alli lavra o veneno mais malino. 

De Argens solto, egualmente nos relata 
Da republica douta nas Memorias 
Que egual paixão a todos arrebata. 



Depois da narrativa da Querella dos An- 
tigos e modernos, do século xvii, e das pu- 
gnas litterarias na Grécia e em Roma, ataca a 
Sátira incorrecta de Francisco Xavier Lobo: 



Não é de Apollo filho verdadeiro 
Esse baixo censor ; em vão o pobre 
Ladra ao Macedo, em vão ladra ao Monteiro. 

O sujo metro seu autor descobre ; 
Dá-me, oh Phebo, das Musas em defeza 
Sonoro verso, para estylo nobre. 



174 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Quem de satirisar tomou a empreza 
E leis promulga em Sátiras, devia 
Saber qual é da Sátira a belleza. 

O grande Horácio já de si dizia, 
Que ainda em suas Sátiras correctas 
Não era próprio o nome de Poesia. 

Tosco montão de phrases indiscretas, 
De erros grammaticaes, Sátira infame, 
Tu do nosso Parnaso o ár infectas. 



Macedo, que as suas obras defendia, 
Monteiro, que ás censuras replicava, 
Qualquer — discórdias evitar devia. 

Quem a satirisar te provocava? 
Tua soltura voluntária accusa 
O que defeza em outro desculpava. 



Se a Ode de Macedo é má ou boa 
Tu não o entendes, nem para julgal-o 
Ha tantos, como crês, ainda em Lisboa. 

Se elle é sagrado, deves respeital-o. 
Com injurias não hasde escurecel-o, 
E ainda erras muito para critical-o. 

Um papel, que não veiu á luz do prelo, 
Que não é contra os Céos, nem contra o Estado, 
Só litterariamente entra em duello. 

Tu tens os dos Sonetos censurado, 
Que em Letras como tu, nada disseram 
Mas nas affrontas vás emparelhado. 



E^ justo que o Monteiro se maltrate, 
Pois que os teus máos escritos tem poupado. 
Mas não com implicado disparate. 



FILINTO ELYSIO 175 



Por Forense dialéctico apressado 
Tu hoje o taxas, sendo já primeiro 
Pelo contrario ha pouco condemnado. 



Com que, o uso é o rei auctorisado 
Para cunhar um termo, ainda que seja 
Só por ti, e por outros taes usado? 

Se conseguires que essa regra reja 
Algarvios, Ilhéos, Beirões, Minhotos, 
Não terás ao fallar da corte inveja. 

Dirás que a teu favor tens muitos votos, 
Mas, uma giria que lhe poupa o estudo 
Por força hade encontrar muitos devotos. 

Nem eu sei como já não estás mudo ; 
Não sentiste os — bixinhos — arranhados 
Com tanto verso exdrúxulo e agudo ? 

Para os termos francezes estanhados 
Tens os ouvidos, para Italianismos, 
Para os nossos, que ignoras, delicados. 

Se o uso néscio cunha Gallicismos, 
De antigos mestres o uso auctorisado 
Merecer não pode os nossos idiotismos ? 

Para os termos extranhos de bom grado 
Se te abre o ouvido; para as nossas phrases 
Cumpre tel-o de bronze bem forrado. 

Varias censuras ao Macedo fazes. 
Negas a tudo o nome de poeta. 
Um só não louvas, nenhuns ha capazes. 

Saes então c^uma Sátira indiscreta, 
Que da lingua, da historia, da poesia 
Erro baixo não ha que não cometta. 



176 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Deixa cantar os filhos de Thalia, 
Compõe tu para as Musas da Ribeira^ 
Espreme as gotas, mette chularia. 



Sobre a Poesia fazes tanta bulha, 
E olhas com mais rancor a mimosa Arte 
Que os teus Roldões da Alfama aos da Pampulha. 

Chegam do mundo a mui remota parte 
As artes do prazer ; lá cantam, dansam, 
Com outros Phebo dos seus dons reparte. 

Sábios ecclesiasticos descansam 
Nos braços da poética harmonia ; 
Só néscios a accusal-os se abalançam. 

Diga a Romana Arcádia^ se aprendia 
De Ottobono e Pamphilio, heroes sagrados, 
A sujeitar rochedos á poesia ? 

Finalmente, a Quixote comparados 
São Monteiro e Macedo; oh caso raro! 
São Quixotes, e são desafiados? 

Aquelle bravo heroe, varão preclaro, 
Nunca esperou dos outros desafios, 
Buscava elle os encontros pelo faro. 

Tu, que alardeas semelhantes brios, 
Põe teu nome, responde ao que te noto, 
Não deixes tudo aos leitores pios. 

Se és lido, se abominas o alvoroto 
Cala-te, ou falia em Letras, e não digas 
Vis equivocos torpes de maroto. ^ 



1 



Poesias varias, Ms., t. ii, p. 476 a 495. No Rama- 
Ihete^ t. VI, p. 394 é attribuida a José Basilio da Gama. 



FILINTO ELYSIO 177 



A esta Sátira replicou o medico das Cal- 
das Dr. Joaquim Ignacio de Seixas: Respos- 
ta á Sátira — Tu magoada tristíssima Elegia, 
— Parodia, Camões, Cant, -í .^, Est, 94 e se- 
guintes. Consta de vinte e uma outavas paro- 
diando o pequeno episodio do Velho de Res- 
tello, dirigindo-se a Matusio, na ideia de que 
era Domingos Monteiro de Albuquerque e 
Amaral o auctor dos tercetos. Transcrevemos 
algumas outavas : 

Mas um velho de aspecto venerando, 
Que escutara os Tercetos entre a gente, 
Torcendo-lhe o nariz e meneando 
Três vezes a cabeça descontente ; 
A voz pesada um pouco levantando, 
Poz occulos por ver mais claramente 
As trovas que Matuzio tinha feito, 
E taes vozes tirou do esperto peito : 

« Oh fúria de rimar ! Oh vã cubica 
De ter de máo Poeta o nome e a fama ! 
A dizer isto o ódio não me atiça. 
Quem de versos entende assim te chama ; 
E faz-te n^isso altíssima justiça. 
Creio foi vicio que bebeste da ama 
A dureza com que nos atormentas, 
E nos férreos ouvidos experimentas. 

Segue, segue do Foro a loquaz vida, 
Faze punir os crimes e adultérios ; 
Que a tua eterna prosa é conhecida 
Já pelos rabolisticos Impérios ; 
Vê que do Findo a Íngreme subida 
Só te pode cubrir de vitupérios. 
Em vez de fama e gloria soberana, 
Nomes com que seu povo néscio engana. 

Da Sátira vingar-te determinas 
Que te faz apupar de toda a gente ; 
E são estes os versos que destinas 
Para mostrar-te sábio e preeminente ? 

12 



178 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



A taes despezas tens mui fracas minas, 
Dou-te um conselho, acceita-o facilmente, 
Ou do Pátrio Direito arrota historias, 
Ou pensa em macedonicas victorias. 



Deixas criar ás portas o inimigo 
Por ires buscar outro de mais longe ? 
Gastas em vão teu portuguez antigo 
Pedradas pelo ár deitando ao longe. 
Buscas o incerto e incógnito perigo 
Por que a fama te espalhe e te lisonje. 
Fazendo de más rimas larga copia 
Quasi em lingua da Arábia ou da Ethiopia. 



Louco papalvo, moço miserando, 
Tens de miolo o caco bem vasio, 
Pois a o Povo estas escusas dando 
Que não te leva em conta e de que eu rio, 
Porém, tenho por ócio o mais nefando 
Combater sério c^um poeta frio. . . » 

Isto foi quanto disse o honrado Velho, 
O mais, MatuziOy agora a mim me toca. 
Vendo que não obstante o meu conselho 
Sempre a metromania te provoca; 
Sei que o teu rosto nada faz vermelho. 
Nem rolha ha tal que sirva a encher-te a bocca, 
E se em versos sem conto não te alargas, 
Vêr-te-hemos rebentar pelas ilhargas. 



Confesso não ser fácil que hoje se ache 
Algum varão de estudos tão distinctos, 
Nem que saiba mais regras de syntaxe. 
Nem que melhor construa os cursos quintos ; 
Tu sabes a theorica e a praxe. 
De fazer Anagra?nmas, Laberintos, 
Acrósticos retrógrados j e tudo 
Quanto sabe um rapaz que anda no estudo. 



FILINTO ELYSIO 179 



Seja a Sátira má ou seja boa, 
Ou tenha ou não defeitos mil diversos, 
Cinja-me a fronte civica coroa 
Em doce recompensa de meus versos ; 
Elles fizeram, rindo bem Lisboa, 
Que inverecundos Satyros perversos 
Formassem logo da aíliança o pacto, 
E tivesse emfim paz o cão c'o gato. 

Pouco importam os loucos desvarios 
Com que abater meus versos intentaste, 
Que tu mesmo lhe deste os elogios 
N^essa indigna união que contractaste ; 
Pois te obrigaram, abatendo os brios 
O ídolo incensar que já pizaste ; 
Nunca no ouvinte fez tal compunção 
Uma obra tua, nem um seu sermão. 

(Poesias varias, Ms., t. viii, p. 605.) 

Correu também anonyma uma Sátira em 
forma de Edital, caracterisando o estado da 
Poesia e extrema mediocridade dos rimadores: 

Faço saber a todos os humanos • 
Máos Escriptores, Poetas medianos, 
Como á minha presença tem chegado 
Obras feitas de verso sonso e aguado, 
Sem mais ficção, mais arte ou mais belleza 
Que algum geito a que chamam Natureza; 
Que posto na Poesia tenha parte. 
De pouco serve sem ajuda da Arte; 
Pelo qual já cantou com meu auxilio 
Do illustre Gama o portuguez Virgílio; 
Louvou Quevedo o Heroe da Mauritana, 
Tremeu de Nuno a Gente castelhana, 
E outros que gosam já perpetua gloria 
No eterno Templo da im mortal Memoria. 
Elles cantando Heroes assignalados, 
Vós, cantando Pastoras e cajados. 
Traduzindo Comedias frioleiras. 
Fazendo rir as gentes estrangeiras, . . . 
Descrevendo apesar dos bons Autores 
Termos humildes, phrases inferiores. . . 



180 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



AUi se encontra sempre o sublimado 
Camões ingente, n'elles trasladado, 
Tão desegual em tudo á phrase sua 
Como é do vitreo Phebo a ebúrnea Lua, 
Da Poesia as bellezas transtornando 
Com versos máos as moças namorando. . . 

Oh época infeliz ! Quem tal diria ? 
Desditosa e infeliz, triste Poesia ! 

papalvos rimadores » 

Que em pintando do prado as verdes flores, 

Da negra noite o manto carregado^ 

Da branca aurora o rosto prateado^ 

E outras cousas caseiras e suadas, 

Estão vossas ideias acabadas ; 

Por cuja rasão só fui resolvido 

Que o vosso trovejar seja punido, 

Sem fazer distincção doeste ou d^aquelle. . . 

/76., p. 616.) 

No meio doesta polemica o nome de Nice- 
no, ou do P.^ Francisco Manoel, não torna a 
ser citado, mas parece que se suspeitava a 
sua influencia cáustica. Pelos seus versos vê- 
se que conhecia o dicaz Lobo; o despeito 
d^essas sátiras foi uma das causas que coope- 
raram na intriga para a sua perseguição, 
como elle o revelara a Sane: <^ K facção dos 
ruins consoanteiros, dos Cotins e Pradenspor- 
tuguezes, facção poderosa pelo numero, pois 
que ella constituía quasi completamente toda 
a litteratura, e pelo apoio que ella encontrava 
em alguns fidalgos e mesmo damas, que le- 
vadas para esta ridícula carreira, julgavam 
assim defender o seu amor próprio, — esta 
facção ligou-se contra o poeta. Pode-se mesmo 
dizer, que souberam avaliar a sua esmagado- 
ra superioridade; na sua estrêa despertara 
uma viva e agradável surpreza; obtivera os 



FILINTO ELYSIO 181 



applausos desinteressados e illustres; os inve- 
josos não podendo desconhecel-o, odiaram-o. 
Pela sua parte o poeta, involuntariamente en- 
volvido n'esta guerra, não recuou. Um nobi- 
lissimo orgulho, e sentimento natural das pró- 
prias forças exaltaram-lhe o animo ; retorquiu 
a sarcasmos com sarcasmos, dente por dente, 
não poupando ridiculos doestes pequenos e 
perigosos inimigos, exprimindo com franque- 
za ora acerba ora faceta o seu desprezo pelo 
miserável systema de Poesia que elles preten- 
diam defender. Satisfeito com o êxito das suas 
primeiras escaramuças contra o máo gosto e 
as falsas pretenções, proseguiu na marcha 
com um passo firme pela estrada antiga para 
onde o tinha levado muito cedo uma intuição 
felicissima, um delicado sentimento do bello 
verdadeiro, e a lucidez do seu espirito. 

«Cessou a inveja de escrever, mas não de 
detestal-o e de o perseguir. E' deplorável 
confessar que as desgraças de Francisco Ma- 
noel começaram com a sua reputação littera- 
ria, e que as vinganças implacáveis de que 
foi tempos depois victima, tiveram realmente 
origem nas paixões vis de alguns amores pró- 
prios irritados, nos covardes resentimentos 
doestes poetastros que elle apenas fustigava 
pelos seus exemplos. — . . .os rancores littera- 
rios atiçaram de longe os ódios sacerdotaes e 
políticos sob os quaes succumbiu.» ^ 

Filinto descreve em uma Ode a lucta con- 
tra o elemento seiscentista, depois já de ex- 
tincta a Arcádia: 



Poésie lyriq^ie, p. xiii. 



182 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Irritado da dôr de ver zombada 

Por insulsos pichotes 
A lingua de Camões sonora e pura, 

Que nos deu tanto nome, 
A phrase nobre e tersa, com que a Castro 

Derramava seu pranto. 

Fui sentar-me cuidoso e magoado 

Nas ribeiras do Tejo. . . 
Então em mim fitando a clara Déa 

O angélico semblante: 
— Filinto, com rasão mui justas queixas 

Apaixonado espalhas. . . 
Inda ha pouco Garção, Elpino, Alfeno 

Por Apollo animados, 
E nos nossos regaços instruídos, 

As Lyras receberam 
Dos cantores mais altos do Parnaso. . . 

E as Musas, que corridas 
Da rançosa académica cohorte 

Fugiram enojadas, 
Que de mil semi-vates aprosados 

Escuros e espinhosos. 
Desdenharam influir os Anagrammas, 

Acrósticos, Enigmas, 
Ou góticos, freiráticos Conceitos^ 

Já canoras do Pindo 
Vinham descendo a bafejar os Hymnos 

Dos viçosos alumnos, 
Nos gregos prados, nas latinas veigas, 

Medrados co^a cultura 
Do apurado saber, ferrenho estudo. . . 

Eis que de negros Corvos 
Um bando iniquo em torno d^elles grasna 

Invejoso, molesto, 
Moteja a lingua d^aspera e de antiga; 

De sentido enleado ; 
Acha bronco o Camões, charro o Ferreira ; 

Camões ! a nossa gloria. 
Por quem somos só lidos e estudados 

Nas terras estrangeiras ! 
Erguem no povo rude alto ruido 

Contra os novos Orpheos. 



FILINTO ELYSIO 18í^ 



Até aqui Filinto referia-se á lucta com o 
elemento seiscentista excluido da Arcádia lu- 
sitanay pondo esta nota : « Ne pouvant entrer 
dans le sanctuaire des Lettres, ils vomissent 
des blasphemes contre les pontifes.» E apre- 
sentando o convite para ferir pelo ridículo 
essas gralhas, consigna a referencia ás sáti- 
ras virulentas de António Lobo de Carva- 
lho: 

— Mas tu podes 

Novo Boileau severo, 
Cortar Scuderis, Cottins, La Serres, 

Descoser seus escriptos, 
Ou novo LobOy de engraçado pico, 

Pôl-os tão desprezíveis 
Que nem os olhos levantar se atrevam 

Para os que os sons mellifluos 
Anciosos bebem na agua do Parnaso, 

Alta esperança lusa.» 

[Obras, i, 345.) 

Em uma Epistola A Filinto, a famosa AU 
eipe allude á traducção da Pliai^salia de Lu- 
cano, que elle começara, e á lucta de sátiras 
virulentas em que se envolvera : 

Como pagas, Filinto, ao gentil sexo ? . . . 

Ah ! que índa ardentes lagrimas me banham 

O rosto descorado pelo susto. 

A lyra que cantar devia os Numes 

Canta os erros das Tágides sinceras V 

E as grinaldas virentes de assucenas 

Com sêcca mão a Sátira desfolha? 

Ah, Filinto, piedade ! não, não roubes 

Em versos immortaes, a immortal nuvem 

Com que abafa a Cautella melindrosa 

Do travesso Cupido insanos fructos. 

Mas tu, longe de ti, nada me escutas, 
Ao furor da Poesia o peito aberto, 



184 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Agitado, arquejando, communica 

O fogo que te abrasa, ao verso altivo : 

A torrente de ideias puUulantes 

D'essa mente fecunda, onde combatem, 

D^onde opprimidas, férvidas se expulsam 

Variadas pinturas da desordem, 

Prodigamente aos olhos teus presentam. 

Do enthusiasmo ardente conduzido 

Ergues o panno á scena pavorosa, 

E arrazando segredos, me recordas 

A ousada mão de César derrubando 

A Floresta dos medos, respeitável 

Ao Druida, que a investiga desmaiado. 

Dos Mysterios, que aos Lusos hoje escreves, 

Desviarão os olhos temerosos 

Os heroes que a nação inda celebra. . . 

(V, 248.) 

A exuberância de Odes e Epistolas metri- 
ficadas em 1775 para a Elevação da Estatua 
equestre, formando essas vastas collecções, a 
que allude Nicoláo Tolentino, forneceu um 
thema fecundo para a effervescencia das Sá- 
tiras pessoaes, tornando-se no fim do gover- 
no do Marquez de Pombal um prolongamento 
da Guerra dos Poetas, Filinto também escre- 
vera forçado uma Ode, que pezou gravemen- 
te na balança do seu destino. 

O terrível poeta satirico António Lobo de 
Carvalho, que nos seus Sonetos algumas ve- 
zes obscenos deixou a estampa viva dos ridícu- 
los e crimes da sociedade portugueza na épo- 
ca do Terror da Inconfidência pombalina, e 
do Rigorismo do reinado de D. Maria i, diri- 
giu em um Soneto duros chascos — A' alluvião 
de mãos versos^ que appareceram por oeca- 
Sião da Inauguração da Estatua equestre. 
Começa : 



FILINTO ELYSIO 185 



Trovejando os Poetas da manada, 
Veiu uma grande chuva, e muito fria 
De versos, que nos campos da Poesia 
Mui grande perda fez com a enxurrada. 

Mandou Phebo chamar toda esta asnada 
Para os corrigir d^isto, e da ousadia 
De fallarem na Estatua, que devia 
Por elle unicamente ser cantada. ^ 

Fecha o Soneto com uma chulice ; provo- 
cou uma resposta pelos mesmos consoantes, 
que foi attribuida a Domingos Monteiro de 
Albuquerque, e também ao Engenheiro capi- 
tão Manoel de Sousa ; eil-a : 

Oh tu, que também és d^ess^ manada 
Dos Poetas, que em má locução fria 
Mil estragos fizeram na Poesia, 
Vomitando mil versos de enxurrada ; 

Tu, que augmentas a corja d'essa asnada, 
Tendo também como elles a ousadia 
De cantar uma acção, que só devia 
Por Homero ou Virgilio ser cantada. 

Quando teus versos li centos a centos, 
Gralha me pareceste vir da esquerda, 
Entre os cysnes cantar teus pensamentos. . . 

O dicaz Lobo cahiu a fundo sobre Montei- 
ro e Manoel de Sousa; diz que anda derra- 
mado por vários sitios o miolo d'aquelle e o 
do sórdido Engenheiro: 



1 Poesias varias y Ms., t. ii, p. 191. (Em nome de 
Francisco Xavier Lobo). Vem nas Poesias joviaes e sa- 
tíricas, p. 92, ed. Innocencio, com variantes. 



186 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



E julgam de Poetas? São bem patos 

Á manda-os o livreiro, 

Quita, Alvarenga, Pedegache e Mattos. ^ 

E atacou também em outro Soneto As 
Obras em prosa^ que na mesma occasião se 
publicaram celebrando a elevação da Esta- 
tua; ahi fere o Grupo da Ribeira das Náos, 
annos antes verberado por Garção por causa 
dos abusos dos archaismos ou a « droga da 
antigualha » ; começa o Lobo: 

Completa dos Poetas a visita 
Voltou Apollo a visitar a prosa, 
Entra a rever a historia volumosa 
De Barros, a quem Brito louva e imita. 

Leu a anonyma Carta feita ao Quita - 
E escriptos mais da puritana troça, 
Pinto, Palma, Garção, Bandeira e glosa, 
Phrase do Sousa, que por Barros grita. 

Gostou muito dos termos puritanos. 
Louva as obras, porém somente emenda 
Dicções, que tinham já centenas de annos. 

Quero dizer, que ao uso só se attenda ; 
E Clio notifique aos taes maganos, 
Não usem phrase que se não entenda. 

Nicoláo Tolentino, na sátira O Bilhar 
também descreve essa lucta dos Poetas dos 
Outeiros e das Odes emphaticas eriçadas de 
archaismos e de mythologia. Elle conheceu 
António Lobo de Carvalho, a quem cita nos 



^ Poesias j o viaes e satíricas, i^. 94. 
' Vid. Arcádia lusitana, p. 522. 



FILINTO ELYSIO 187 



3US versos, e parece retratal-o nas seguintes 
kutavas : 



Mais ao longe, com pálida viseira 
Sujo poeta está vociferando; 
Da nojosa, empeçada cabelleira 
Varias pontas de palha vejn brotando. 
Os papeis, que lhe pejam a algibeira 
Vão pelo forro larga porta achando; 
Faz da vestia camisa; e é collarinho 
Torcido, solitário pescocinho. 

Fora cem vezes em nocturno Outeiro 
Da sabia Padaria apadrinhado ; 
E diz-se que glosava por dinheiro, 
Mas creio que até aqui não tem cobrado. 
Seguindo em moço o officio de barbeiro, 
E das filhas de Jove namorado, 
Abriu ao m.undo aspérrima batalha 
Tanto co^a penna, como co'a navalha. 

Fallou por affectar musa campestre 
Em surrão e cajado muitas vezes ; 
Era flagello este tyranno mestre 
Dos ouvidos e faces dos freguezes. 
Todos os versos leu da Estatua equestre, 
E todos os famosos Entremezes 
Que no Arsenal ao vago caminhante 
Se vendem a cavallo n^um barbante. 

De cansada, rançosa poesia 
Grosso volume na algibeira andava; 
Em vendo gente, logo lá corria, 
E o fatal cartapacio lhe empurrava; 
Acrósticos, Sonetos repetia. 
Que só elle entendia e só louvava ; 
Punha em prosa também muita parola, 
E acabava por fim pedindo esmola. 

Depois doesto retrato tirado do vivo, dan- 
do-nos o typo de António Lobo de Carvalho, 
expõe as suas doutrinas poéticas, motejando 
assim indirectamente das Odes horacianas e 



188 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

do estylo archaico, que caracterisava o chefe 
do Grupo da Ribeira das Náos: 

« Debalde (diz) o povo vil, perverso 
Sobre mim descarrega tiros rudos ; 
Que eu não só sou poeta desde o berço, 
Mas também tenho sólidos estudos. 
Sei que syllabas leva cada verso, 
E não misturo graves com agudos ; 
Rompi Outeiros em Sant^Anna e Chellas, 
Chamei sol á prelada, ás mais, estrellas. 

Co^as sonoras palavras Findo e Plectro 
Ponho em meus versos locução divina; 
E sei, para cumprir as leis do metro 
Quanto a historia das fabulas me ensina; 
Sei que dos céos tem Júpiter o sceptro, 
Que nos infernos reina Prosérpina; 
A' madrugada sempre chamo Aurora, 
Sempre chamo a um jasmim mimo de Flora. 

Sei de certo em que tempo viu ó mundo 
Filhos da terra os quatro irmãos gigantes; 
Sei finalmente conhecer a fundo 
O que são consoa?ites e toantes; 
Sei tudo; e unicamente me confundo 
Cuns taes versinhos, que eu não via d^antes, 
Aos novos ursos todo o povo acode, 
O estylo é sybilino, o nome é Ode, 

Fazel-as eu, não posso, nem desejo, 
Porém, sei conhecel-as facilmente: 
Co as verdes mãos o serpeado Tejo 
Alça o trilingue mádido Tridente; 
Mas que Gorgona filtra'^, eti vejo, eu vejo. . . 
Em dizendo isto, é Ode certamente. 
E' filha d^arte a escuridade d^ellas, 
E^ um preceito das desordens bellas. 

As taes poesias, que a entender não chego, 
Podres palavras tem desenterrado; 
Se levam nó, é tão occulto e cego 
Que quem quer desatal-o vae logrado ; 



FILINTO ELYSIO 



189 



Dizem que imitam nisto um certo grego, 
Gloria de Thebas, Pindaro chamado; 
Se isto é assim, a sua língua de ouro 
Seria grega, mas fallava moiro. 

Quatro rapazes estendendo o panno 
Deixam as gentes ao redor absortas ; 
Fallando em Venusino e Mantuano, 
As Musas portuguezas põe por portas ; 
Aprendendo francez e italiano 
E umas taes linguas a que chamam mortas, 
Trazem com ellas perigosas modas; 
Mas ainda bem que eu as ignoro todas. 

Diz um sábio, que o século presente 
Ia emendando os erros do passado; 
Mas que das Odes á infeliz corrente 
Tinha a lingua outra vez estropeado ; 
Que amontoam com mão impertinente 
Quantas palavras velhas tem achado ; 
Que se envergonham das que usamos todos. 
E vão buscal-as muiio além dos Godos. 

Como a caruncho e podridão condemna 
A licção affectada dos antigos, 
Não leio Barros, Sousa, nem Lucena, 
Por que sempre foi bom fugir dos perigos ; 
Ou sempre escreveu mal a sua penna. 
Ou nunca os leram bem os taes amigos ; 
E por cautella arreda bolorentos 
Ginjas fataes do tempo de Quinhentos. 

Não podem crer os génios lusitanos 
Que as modas como as vidas são pequenas; 
Que já murchou esse estro dos Romanos, 
E influem sobre nós outras Camenas ; 
Que o tempo tragador, volvendo os annos,. 
Fez cahir Roma, fez cahir Athenas ; 
Que jaz no pó a Illiada envolvida, 
E que alça a frente a Phenix i^enascida. ^ 



^ Obras completas de Nicoláo Tolentino, p. 278 a 
Í81. (Ed. Torres.) 



190 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Muitos dos truques d'esta Sátira referem- 
se evidentemente a António Lobo de Carvalho, 
que misturava no verso solto os graves com 
os agudos, que evitou a forma das Odes, e 
proclamava o império absoluto do uso no 
gosto e nas modificações da linguagem, e que 
nos seus Sonetos pedia esmola aos fidalgos. 
O auctor do Bilhar servia-se doeste Pasquino 
para por detraz d^elle vibrar algumas chufas 
de auctoritario mestre de Khetorica contra os 
quatro rapazes, do Grupo da Ribeira das 
Náos, que estudavam os poetas francezes e 
italianos, renovavam os archaismos da lin- 
guagem, e representavam a espontaneidade 
por uma desordem bella. 

Somente no fim da vida é que Filinto fez 
uma referencia directa a Tolentino a par de 
um outro poeta satírico da Guerra dos Poetas 
Dr. Joaquim Ignacio de Seixas: 

Sim, se eu poclesse emparelhar ao menos 
C^um Seixas no engraçado e no festivo, 
Cum Tolentino, que diverte e instrue. . . 

{Obras, i, 420 ) 

A inauguração da Estatua equestre em 
6 de junho de 1775 foi o ultimo lampejo da 
omnipotência do Marquez de Pombal; dois 
cardeaes, outo bispos, com os grandes do rei- 
no e todas as entidades officiaes, tropas e du- 
zentos mil espectadores enchiam a Praça do 
Commercio, onde o rei com a familia assi- 
stia á sua glorificação. Além das illuminações, 
banquetes e representações scenicas, foram 
publicados numerosíssimos folhetos com Odes 
emj)haticas por todos quantos em Lisboa sa- 
biam fazer versos; os pombalistas e não pom- 



FILINTO ELYSIO 191 



balistas viram-se forçados a metrificarem n'es- 
ta apotheose. Pelas suas intimidades com a fa- 
milia do Marquez de Alorna, preso no cárcere 
da Junqueira, não era muito natural que Fi- 
Unto se sentisse com inspiração para celebrar 
em verso o faustoso acontecimento ; mas a 
respeitosa dependência para com o Bispo de 
Beja D. Frei Manoel do Cenáculo, collocava-o 
na situação forçada de trovar com os demais 
metrificadores. Algumas pessoas se admira- 
ram de ver entre a caterva de papeis volan- 
tes a Ode á feliz inauguração da Estatua 
equestre do fidelissimo rei de Portugal Do7n 
José I.'' No dia 6 de Junho de 1775. Em uma 
nota, escreveu Filinto passados muitos annos: 
Esta Ode, que foi feita e mandada imprimir 
para o dia da tal função, sahiu da imprensa 
tão deformada, que eu mesmo a não conheci. 
Louvores dados sejam a quem me fez essa 
mercê. Foi fortuna minha ficar-me na pasta o 
borrão, pela qual a tirei a limpo tal qual ella 
ahi vae. . .» (Oòr., v, 189.) Vê-se que Filinto 
reconhecera que o tinham mettido em diffi- 
culdades. Dona Leonor de Almeida (Alcipe) 
magoou-se com o conhecimento da Ode, e es- 
creveu uma Epistola a Filinto — A respeito 
de uma Ode que lhe mandaram fazer, e fez 
ao Marquez de Pombal. Lêem-se ahi estas es- 
trophes cheias de resentimento : 

Não te esqueça, Filinto, o acetbo caso. . . 
Lateja-me no peito um fogo intenso, 
Se esperdiças as jóias do Parnaso, 
Dando ao tyranno o teu sublime incenso. 

Bem sei que as Musas quando vão comtigo 
Em cativeiro, afflictas, algemadas, 
E' por salvar-te só de extremo perigo 
Que soffrem vêr-se assim tão degradadas. 



192 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Porém tu, que és por ellas escolhido 
Para em verso divino honrar verdades, 
Receia que o futuro espavorido 
Te accuse de infiel ás divindades. 

A fortuna usurpada é que hoje toma 
Direitos que á innocencia o céo concede ; 
A fraude, a crua fraude afoita doma 
Almas a quem justiça a rasão pede. 

Assim, qual nova Euménide, a impostura 
Cruelmente de um fero açoite armada, 
Doesta terra infeliz toda a ventura 
Fez voar, contra os Céos arremeçada. 

Mas, se um Vate sublime, revolvendo 
Da escura antiguidade os casos vários, 
Em Sócrates Anitos convertendo, - 
Chama a Sejamos Solons, Belisarios ; 

Que fructo tira o justo quando grita? 

A cadêa dos erros dilatada. 

Fabricada por homens, necessita 

Ser por força de um Deus despedaçada. ^ 



Alcipe inspirava-se na verdade do senti- 
mento, vendo Filinto, testemunha das mon- 
struosas iniquidades do Marquez de Pombal, 
celebrar o rei — Adorado dos bons, dos máos 
íe77iido, — e invocar uma das Tágides, para 
bordar em um quadro, em que o rei : 

Calcando com pé firme ásperos abrolhos 

Do malévolo erabuste, 
Saia radioso do vencido assalto. 



^ Obras poéticas de D. Leonor de Almeida, etc, 
t. I, p. 232. 



FILINTO ELYSIO 198 



Depois da queda do Marquez de Pombal, 
e no período da viradeira, essas palavras 
haviam de ser tomadas em conta a Filinto ; 
tanto mais que a alluvião dos versos á Esta- 
tua Equestre se tornou objecto das mais vi- 
rulentas sátiras. Parece que os versos foram 
a origem do ódio que determinou a denuncia 
á Inquisição, como escreve Sane: «A trama 
urdia-se a occultas ; desvendou-se por uma 
circumst anciã tão pequena, como essas ridí- 
culas pretenções litterarias que outr^ora lhe 
suscitaram os seus primeiros inimigos. EUe 
teve uma discussão vivíssima com um perso- 
nagem de alta categoria...» E embora não 
declare o nome do fidalgo, pelas referencias 
particularíssimas se conhece ser o Marquez 
de Alorna, pae de Alcipe. 

No esboço biographico que acompanha as 
Poesias da Marqueza de Alorna descrevem-se 
os Outeiros que se celebravam no Convento 
das Albertas em Chellas: «Estavam n'aquelle 
tempo muito em moda os chamados Outeiros, 
pela corte e particularmente nos conventos; 
e além dos sócios da Arcádia, havia muitos e 
bons poetas, entre os quaes se distinguia 
Francisco Manoel do Nascimento com o nome 
de Filinto. . . Este e os seus amigos começa- 
ram a encaminhar-se para Chellas, repetindo 
ahi os seus versos, pedindo Motes ás freiras, 
esperando n'essas occasiões encontrar esta 
Senhora e ouvil-a n^alguma grade. ^ 



^ O auctor da biographia fingia ignorar as ante- 
riores relações de Francisco Manoel com a familia do 
Marquez de Alorna. 

13 



194 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

«Com effeito appareceu, brilhou e confun- 
diu alguns dos seus admiradores. Data d'ahi 
o nome de Alcipe com que elles a celebraram 
e com que ficou sendo conhecida entre os 
Poetas portuguezes; assim como pelo de Da- 
phne sua irmã a senhora D. Maria d'Almei- 
da, que foi depois condessa da Eibeira.» Os 
poetas que então frequentavam os Outeiros 
poéticos e as grades do convento de Chellas 
eram além de Francisco Manoel, o Dr. Se- 
bastião José Ferreira Barroco, conhecido n^es- 
se pequeno grupo pelo nome de Albano, o 
Dr. Ignacio Tamagnini com o nome de Alces- 
te, e os dois religiosos Frei José do Coração 
de Jesus, missionário de Brancanes, conheci- 
do pelo nome arcadico de Almeno, e Frei 
Alexandre da Silva, que foi bispo de Malaca^ 
e usava o nome arcadico de Silvio. Este dou- 
to padre, seu confessor, obstou a que D. Leo- 
nor de Almeida com pouco mais de quinze 
annos professasse; ella lhe dirigiu algumas 
composições poéticas. Lê-se na referida bio- 
graphia: «A este Padre de juiso, também 
poeta e sócio da Arcádia portugueza, dirigiu 
a sua confessada a Epistola que principia : 



Quem me diria, oh Silvio, que moravam 
Comtigo as bellas Nymphas do Permesso, 
Quando austeras ideias nos privavam 
.Do prazer de sentir-lhe ou dar-lhe o preço?» 



Respondia a uma Epistola de Silvio, que 
a animava a cultivar a poesia, dizendo-lhe : 



FILINTO ELYSIO 



195 



De teus sons á divina suavidade 
Ministre assumpto a varia Natureza 
Mais digno Canto o Sol, a actividade 
Dos seus raios ardentes que a viveza 
De teus esgares rastrear presume. . . * 

O árcade Silvio convidava o erudito poe- 
didactico António Ribeiro dos Santos (El- 
Hno Dwnense) a frequentar as grades de 
^helias; e por uma carta inédita d'este se vê 
jue lhe não quadrava ao seu temperamento 
iquella suggestiva graciosidade. Embora sem 
nome do destinatário essa carta era dirigida 
|o seu intimo amigo Fr. Alexandre da Silva: 
« Queixas grandes dá de mim a Senhora 
Leonor, porque não appareço na sua com- 
Danhia, e vós m'as repetis em ár de compai- 
xão por mim que estou perdendo tanto bem. 
"iue quereis que faça? Heide dizel-o, bem 
|ue por ventura o não gosteis pelo muito 
|ue a amaes : appresenta-se com um livro de 
^uas poesias; lê-as, e a cada verso espera os 
leus applausos ; eu não os posso dar a todos, 
não os sei dar a nenhum ; canso-me quando 
bs louvo, canso-me quando os não gabo ; e no 
im de tudo saio mais moído que salada, e 
renho para minha casa doente para dois me- 
fes. Já ficaes sabendo por que não frequento 
bsta assembleia ; se comtudo julgaes que o 
faço por ser gotliico, julgae-me embora como 
juizerdes, comtanto que me deixeis viver a 
leu sabor, e escapar das causticações de Leo- 
lor, e do livro de seus versos. Estou ha muito 
)m Juvenal: 



Obras poéticas, t. i, p. 213 e 215. 



196 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mentiri néscio : librum 
si malus est, nequeo laudare et poscere 

e se quereis que vol-o diga com um dos Poe- 
tas francezes, de que muito gostaes : 

Je ne sai ni tromper, ni feindre, ni mentir. 

BoiLEAU, Satir. i.» ^ 

Os Outeiros dos abbadessados eram um 
dos mais fortes estimulos para o desenvolvi- 
mento da metromania. Filinto, frequentou na 
mocidade estas tertúlias talvez por ser amigo 
de doce, gosto que na edade de outenta e 
dois annos assoalhava como persistente. Ao 
soneto de romper outeiro em abbadessado 
poz a nota : « Os Outeiros de Abbadessado 
são as forjas da mais impudente lisonja; por 
acerto, e sem animo de tal, se diz n^elles a 
verdade. Assim sabem todos o que é um so- 
neto a uma abbadessa, que de ordinário não 
são meninas nem moças. Eu por mim o digo, 
por mais que lhes queria dar um reboco pra- 
senteiro, sempre a imaginação me pintava 
uma Abbadessa com óculos no nariz; e um 
diurno entabacado nas mãos.» ^ Emquanto 



* Ribeiro dos Santos, Maniiscriptos^ vol. 180, fl. 
169 V. : Carta sobre não apparecer na assembleia de 
uma Senhora poetisa. Sobre Almeno, ibid., fl. 49 e 58, 
em que Ribeiro dos Santos falia das suas composições 
poéticas. 

2 Obras, t. i, p. 365. Em uma collecção de poe- 
sias manuscriptas encontramos essas trovas da eleição 
de um abbadessado em Chellas: 

Sobre a eleita Prelada 
As Graças vejo descendo. 



FILINTO ELYSIO 197 



Filinto frequentou esse meio freiratico, em 
que existia uma linguagem especial, cultivou 
também a metrificação dos acrósticos, ana- 
grammas, enigmas e consoantes forçados; 
dando uma amostra doeste género, vestígio 
do decahido seiscentismo, diz : « Ajudou-me 
porém muito com seus conselhos um Padre 
Mestre Capucho, que toda a sua vida empre- 
gou em finuras predicáveis, e em Acrósticos 
de enigmas. Elle ^nesmo me tinha ,dado o 
motte, para tomar o pulso ao meu talento ; e 
com effeito, não se descontentou da glosa, 
que quasi comprehendeu do primeiro lanço 
de olhos.» ^ 

Nas Obras poéticas de D. Leonor de Al- 
meida (Âlcipe) encontra-se um Soneto A Fi- 
lÍ7ito, sobre a Écloga dos Pomareiros, no 
qual se acha o fio da intriga amorosa que 
animava os Outeiros do convento de Chellas. 
Lê-se em uma Nota da auctora: «Quando fiz 



Glosa com colchêa 

Lá d^essa espliera azulada, 
Lá doesse empyreo céo, 
Fortuna e graça desceu 
Sohre a eleita Prelada. 
E^ Chellas hoje exaltada, 
Como claro se está vendo, 
Por se achar aqui regendo 
Thereza este mosteiro, 
Sobre o qual todo inteiro 
As Graças vejo descendo. 

(Poesias varias^ Ms., t. viii, 234,) 
Ib., t. 1, p. 403. 



198 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

este Soneto estava muito doente, sem espe- 
rança de vida.» ^ Contava ella então quatro 
lustros, vinte annos, como declara no Soneto 
a El Rei. A referencia á Écloga Os Pomarei- 
ro5, é preciosa: 

Apenas de Filinto a voz divina 
Fere alegre o selvático terreno, 
Galam-se as Musas, 'té se cala Alfeno, 
Que o grande vate todo o Pindo ensina. 

Brilha suspenso o delphico luzeiro ; 
Doce aroma, que os ares embalsama, 
Gira em torno do sábio Pomareiro ; 

E Alcipe absorta, bem que o assumpto tema, 
Faz resoar no monte sobranceiro 
Do rouco cysne a voz talvez extrema. 

Passava-se isto em 1770. O bacharel Do- 
mingos Maximiano Torres, (Alfeno Cynthio) 
que frequentava as grades de Chellas e sabia 
dos amores de Francisco Manoel por Dona 
Maria de Almeida (Daphne) e do Dr. Sebas- 
tião José Ferreira Barroco por D. Leonor de 
Almeida (Alcipe), teve a ideia de celebrar 
em uma Écloga este episodio galante, apro- 
veitando um incidente para um Cármen ame- 
beum. Fora dado o verso — Ajnor ao mundo 
dá, doce Amor gera, de um dos coros da tra- 
gedia Castro do Dr. António Ferreira, para 
ser glosado pelos dois poetas apaixonados. 
Alfeno preparou a situação bucólica, compon- 
do a Écloga Os Pomareiros, na qual interca- 
lou os versos das glosas de Filinto e de Al- 



Obras poéticas, i, 36. 



FILINTO ELYSIO 199 



bano; elle os convida a revezarem o canto 
campesino : 

Antes em novas rimas sonorosas 

Descantae nossas deusas tutelares, 

Alcipe e Daphne, mais que o sol formosas; 

A quem humildes sobre os seus altares 
Offertámos, apenas raia a Aurora, 
As maduras primícias dos pomares. 



Nada temaes ; que o seu poder divino 
E' capaz de elevar 'té ás estrellas 
O vosso humilde verso campesino. 

Se os seus olhos brilhantes, e se aquellas 
Faces mimosas contemplaes na mente, 
A graça, o brio e as loiras tranças bellas ; 

Vereis as santas Musas de repente 

Dar-vos a sua doce melodia, 

Crear em vós um novo engenho ardente. 

Já tu o experimentaste. Albano^ um dia, 
Quando em louvores seus a voz alçando, 
(Aquella voz, que ainda mal se ouvia) 

Tão altamente foste modulando, 
Que absortos se calaram os Pastores ; 
E não sei que entre dentes murmurando. 

Logo ao numero honrado dos cantores 

Te agregaram os nossos Pomareiros, 

E as nymphas te coroaram d^hera e flores. 

Alterna-se o canto em Outavas, em que 

Sebastião Barroco e Francisco Manoel glo- 

im o verso da tragedia Castro, confessando 

seu amor a cada uma das gentis irmãs, 

itão prisioneiras de estado : 



200 HISTORIA DA I.ITTERATURA PORTUGUEZA 



Albano : 

Se Alcipe canto, a bella Alcipe invoco: 
Esta frauta me deu, com que fiado 
Rústico sim, porém sincero toco 
Seus louvores no meio d'este prado; 
Mal seu nome repito, eis que provoco 
Os Satyros do fundo do silvado ; 
Seu nome humilha a mais bravia fera, 
Amor ao mundo dâj doce amor gera, 

FiLINTO : 

Formosa e meiga Daphnéj differente 

Doesta Daphne que a Phebo foge esquiva. 

Tu, alumna das Musas, sê contente 

Inspirar em meus versos chamma activa; 

Accenderei em teu louvor a gente. 

Que de te ouvir e ver o fado priva. 

Teu rosto, em que Amor poz de Amor a esphera. 

Amor ao mu'?ido dáy doce amor gera. 

Cada um dos poetas continua a glosa em 
mais cinco estrophes; e são essas Outavas da 
numero das poucas composições poéticas co- 
nhecidas de Sebastião José Ferreira Barroco ; 
n'ellas confessava Albano: 

Alcipe, ou solte ao ár a voz mimosa. 
Ou toque a doce lyra, entretecendo 
Loiros cabellos com a coroa dMiera, 
Amor ao miiiido dáy doce amor gera. 

Filinto mostra-se mais exaltado por Da- 
phne, e isso explica a belleza de um grande 
numero de Madrigaes e Sonetos affogados de- 
baixo do pezo das suas imitações horacianas 
e sátiras discursivas: 

Mais que os alvos narcisos Daphne alveja, 
Corou mais que as maçãs melhor coradas, 
Nos seus olhos, que são do sol inveja. 
Tem o seu throno as Graças delicadas. 



FILINTO ELYSIO 201 



I 



Daphne, se em brando verso Amor festeja, 
Ou da irmã as tranças delicadas, 
(Que Amor captivam) em louvar se esmera, 
Atnor ao ')nundo dá, doce amor gera. 



Eu amo só o espirito divino 

Da \ò^Vidi Daphne, a quem mil cultos rendo 



A Écloga termina com os tercetos de Al- 
feno, que se calara para escutar os dois can- 
tores ; emprega a imagem: 

Qual no fértil Aorosto a escassa chuva 
( Quando no céo aponta a fria Aurora) 
Ao verde figo e á dourada uva ; 

Tal me foi a harmonia encantadora 

Com que a engraçada Alcipe e Daphne bella 

Celebrastes em doce verso agora. ^ 

Não é indifferente este episodio dos dias 
prolongados de Chellas ; por elle se compre- 
henderá o sentido de muitas poesias intimas 
de Francisco Manoel, e o mysterio que envol- 
veu a sua desgraça. A combinação de refe- 
rencias vagas dos poetas contemporâneos col- 
loca-nos em foco luminoso um certo numero 
de successos mais eloquentes do que todas as 
confidencias de uma autobiographia. 



1 Versos do Bacharel Domingos Maximiano Torres, 
pag. 121 a 131. Em.uma época de perseguições Alfeno 
dirigiu em Memorial um Soneto A' Illustrissima e Ex- 
celleiítissima Senhora D. L. d. L. C. de O. ( D. Leonor 
de Lorena, Condessa do Oyenhausen) e outro a D. M, 
d, L. C. da R. ( D. Maria de Lorena, Condessa da Ri- 
beira (p. 60 e 61) com os nomes de Alcipe e Mareia, 



202 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Os dois poetas, Filinto e Albano, dirigiam 
os seus exaltados versos ás duas gentis irmãs 
Daphne e Alcipe; confessavam-se mesmo na- 
morados d'ellas. D. Leonor de Almeida falia 
dos dois poetas com enthusiasmo na Ode A 
Filinto e a Albano, a respeito dos seus ver- 
sos : 

Albano, em cuja voz as Musas faliam, 
Em cujos beiços canta Philomela; 
Filinto, que em seu voo Pindaro alcança 
Quando as palmas o adornam. 



Nos ignotos segredos de meu peito. 
Onde sopra tristeza seu veneno, 
Descer vede, guiado das cantigas, 
O suavissimo alivio. 



Não receies, Albano, que na Thracia 
Haja cantor que só tal gloria obtenha, 
Se abrandaes de meus damnos a dureza, 
Já fica Orpheo vencido. . . ^ 

Esta paixão incipiente em um coração de 
vinte annos foi truncada por um despacho 
que nomeou Sebastião José Ferreira Barroco 
Juiz de fora para a Bahia. Alcipe escreveu 
uma Ode A Albano partindo para o Ultra- 
mar, aonde ia exercer um emprego da ma- 
gistratura, imitação horaciana da Ode á par- 
tidfi de Virgilo. ^ E dirige uma outra Ode A 
Filinto, «Para saber se já tinha partido Al- 
bano . . . » : 



^ Obras poéticas, t. i, p. 175. 
« Ibid., p. 178. 



FILINTO ELYSIO 203 



Ah, Filinto, que tristes me retinem 
Dos náuticos as vozes clamorosas ! 
Aqui resôa o golpe que vibraram 
Sobre a forçosa amarra. 

Quantas vezes choroso, memorando 
A pátria, volverá suspenso Albano 
A vista para os céos de novo aspecto, 
Que adornam novos signos ! 

Mas onde vou, Filinto ! a dor ferina 
Qual elástico pomo, em mim reflecte 
A dôr que despedaça dos amigos 
Os corações sensíveis. 

Volver a mente afflicta a novo objecto 
E* difficil no seio da amargura : 
Mas a austera rasão conduz a ideia 
Após o frouxo alivio. . . ^ 

Filinto respondeu com outra Ode, em que 
fálla com enlevo de Daphne, sua dilecta ins- 
piradora : 

Albano não partiu, mas breve parte; 
Gosal-o-ha pouco tempo a Lysia terra. 
Que alargando chorosa os tristes braços 
Prepara as despedidas. 

Já de Filinto, Alcipe e Daphne os peitos 
Ameaçados da imminente ausência, 
Estremecem aos ululantes pios 
Das assanhadas fúrias. 

Tu tens, Alcipe, o teu Alceste, e AlmenOy 
Com que abrandas os golpes da saudade; 
Ai do triste Filinto, se o seu pranto 
Lh'o não enxuga Daphne. 



1 Ibid,, p. 181. 



204 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Enxuga, oh Bapline^ as lagrimas causadas 
Que abrem nódoas no descorado rosto. 
Sejam teus versos lenitivo á chaga 
Doeste rasgado peito. 



Começa a condoer-te de meu pranto, 
Afugenta este bando famulento 
Que me agoiram centenas de desgraças 
Quaes nojentas harpias, ^ 



E' interessante esta Ode pela estrophe fi- 
nal, em que o poeta presente a futura des- 
graça pela denuncia dos Padres de Rilhafolles. 
E se seria por este amor de Daphne! Uma Ode 
de Filinto, em que ao nome de Albajio põe a 
nota: «O senhor Desembargador Sebastião 
José Ferreira Barroco» celebra a partida do 
namorado de Alcipe, e os agradáveis dias de 
Chellas : 



Com olhos não enxutos, caro Albano y 

A« Tágides tristonhas 
Te verão arrancar do seu regaço 



E tu, perdido o amor á pátria, a Chellas 

( A Chellas savidosa ! ) 
Contra o gosto de irmãs, e dos amigos, 

ís\)S pinhos voadores 
Co^as pandas azas ao galerno francas, 

Desamoroso Albano, 
Irás, rompendo as costas de Neptuno, 

Ver a curva Bahia. 



1 Ibid., p. 184. 



FILINTO ELYSIO 



205 



A mui formosa Alcipe descorada 

Cos sopros da doença, ^ 
Cansada chamará o seco Albano 

Quando ler seus poemas. 
Quem fará resoar em roda os montes 

C^os louvores de Alcipe, 
Quando os applausos da Prelada eleita 

Em nocturno Parnaso 
Pozeram franca a contumaz janella, ^ 

Coro das Musas lysias. 
Não ouviremos mais como arrancava 

Alcides o membrudo 
O ladrador trifauce a bocca abrindo 

D'entre as exiles sombras. 



1 Pode fixar-se esta doença em 1770, segundo o 
3neto A El Rei, estando eu muito doente em Chellas: 



Quatro lustros passados na amargura, 
Comprehende somente a minha edade; 
Entro no quinto, e mais na sepultura. 

Ah, consente, Monarcha, por piedade, 
Que a mão paterna beije com ternura; 
Mate o gosto quem morre de saudade. 

[Obr. ^joeticas, i, 34.) 

E em um Soneto a Filinto poz a nota : « Quando 
Iz este Soneto* estava muito doente, sem esperança de 
|ida.» Em um Idylio poz Alcipe esta rubrica : « Quan- 
|o, pela moléstia de peito que então soffria, me desen- 
ganaram de que não tinha remédio em quanto estives- 
íe em Chellas, e havia inteira impossibilidade para mu- 
|ar de sitio.» (Ib., p. 135.) 

^ Em uma nota a este verso explica Filinto: «A 
iveja, a superstição, a tyrannia formaram culpa de 
|im innocente divertimento ; prohibiram por longo tem- 
bo a Alcipe e Daphne chegarem a uma janella conven- 
íual, para d^alli darem mottes a Poetas escolhidos, e 
i^ahi veiu o epitheto de contumaz á tal janella.» (Obras 
omjyletas de Filinto, t. v, p. 151.) 



206 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Nem como a Pt/thonissa rabeando 
Na trípode sagrada. . . 



Gloria de Elysia, gloria do alto Pindo, 
Formosa e douta Alcipe, 

Não terás quem te diga : — Se estou triste, 
Mal volto á mente a vista, 

Iranstorno-nie de triste em ser contente. 



E em nota : « Toda a letra ( aqui ) grypha 
pertence a Sonetos doesse Outeiro de Chellas.» 
E termina a Ode consolando-se por poder 
louvar Daphne em seus toscos versos. Antes 
d'este nome poético de D. Maria de Almeida, 
era com o de Mareia, que elle a celebrava 
•mysteriosamente : 



Qual corrente de lympha cristalina 
Dos alpestres rochedos debruçada, 
Beija a raiz da faia levantada, 
Salpica a folha á rosa purpurina ; 



Já rasgando em meandros a campina, 
Ora foge, ora volta, ora abraçada 
Co pé do tronco amante, remansada 
Se demora, que Amor assim Ih^o ensina ; 



Tal desce a minha Mareia aquelle outeiro. 
Mais cândida que a spuma da corrente, 
Vindo a Filinto, seu amor primeiro ; 



E ora esquiva, ora meiga, me consente 

Ou nega um beijo, um furto aventureiro, 
Reclinada em meus braços brandamente. 

( Obras, IT, 343. ) 



FILINTO ELYSIO 207 



Ao ver rodar no céo a argêntea lua, 
E os claros lumes marchetar a esphera, 

Lembram-me as mansas noites 
Bafejadas dos mimos saborosos 

Com que me prendeu Mareia^ 
Na quadra mais feliz da edada minha. 

{ Tb., IV, 273.) 

Não era somente para experimentar a pen- 
na aparada que Filinto escrevia versos; Sane 
faz uma vaga revelação, que nunca foi com- 
prehendida : « O arnor completou o despertar 
doeste talento, que devia honrar a sua pátria. 
Elle compoz primeiramente alguns romances 
que não tinham outro mérito senão o de um 
sentimento verdadeiro naturalmente expres- 
so. Uma joven menina que elle amava com 
todo o fervor doesta edade feliz é que os can- 
tava; e na sua bocca estas palavras ingénuas, 
esta musica sem arte pareciam-lhe superiores 
aos accordes magistraes dos mais sublimes 
virtuosi de Itália. A vaidade da joven namo- 
rada interessava-sepor estes pequenos succes- 
sos. Ella pedia versos a Francisco : Francis- 
co obedecia-lhe com encanto.» ^ Um Soneto 
de Filinto, na edade dos dezouto annos d^ella, 
pinta-nos esse amor, na angustia de quem se 
via fechado na vida clerical ; transcrevemol-o, 
por que encerra o fio que nos desvendará uma 
parte interessante do drama da sua vida : 

Tristes cyprestes de agourada rama, 
Horror doesta feíssima espessura, 
A vós me envia a minha desventura, 
O meu mortal destino a vós me chama. 



^ Poésie lyrique-portugaise, p. in. 



208 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



N^esta rocha, em que o mar rebenta e brama, 
Elejo abrir medonha sepultura, 
Em que enterre commigo a magoa dura 
Com que a alma lucta, ausente de quem ama. 

Vós, troncos, inclinae com dôr sentida 
Maviosa sombra a meu penar sobejo; 
Frio punhal, que me atravessa a vida ! 

Ternas aves, cumpri com meu desejo; 
Tristes, cantae, na amarga despedida 
Que já vos dou, se Mareia vir não vejo. * 

Já na velhice poz Filinto a este Soneto a 
nota : « E' muito usual na edade de 18 annos 
sentir as penas tão agudas da saudade ; estão 
as carnes mais brandas, e o coração com as 
portas abertas para receber os tiros.» Por 
certo o Soneto correspondia a uma realidade, 
que o nome arcadico de Mareia nos desvenda. 

Em umas Lyras faz o retrato de Mareia, 
de uma belleza sublime e pura : 

Com lyrios, que estendeu, vestiu ufana 

A forma divinal ; 

Em accenso coral 
Tingiu, sorrindo, a bocca soberana. 

As madeixas tomou das veias de ouro. 

Nos olhos poz saphiras, 

Que das settas que atiras 
São, fero Amor, o mais caudal thezouro. 

Todos os seus dons lhe poz o Céo no peito ; 

Como orna o régio esposo 

Co enfeite mais custoso 
A princeza, a quem rende a alma, sujeito. . 



Obras, t. v, p. 332. 



FILINTO ELYSIO 209 



Das sereias o canto deleitoso 

Lhe nasceu sem estudo; 

E o dom de enlevar tudo 
Envolto veiu em seu sorriso airoso. 

{Obr., I, 139.) 

Em um Soneto apaixonado descreve com 
graciosidade delicada essa mesma mulher: 

Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados, 
Um garbo senhoril, nevada alvura ; 
Metal de voz que enleva de doçura. 
Dentes de aljôfar, em rubi cravados ; 

Fios de ouro, que enredam meus cuidados, 
Alvo peito, que cega de candura; 
Mil prendas ; e (o que é mais que a formosura) 
Uma graça, que rouba mil agrados. 

Mil extremos de preço mais subido 

Encerra a linda Mareia, a quem offereço 
Um culto, que nem d^ella inda é sabido : 

Tão pouco de mim julgo que o mereço, 
Que enojal-a não quero de atrevido 
Co^as penas que por ella em vão padeço. 

[Ohr., I, 170.; 

Em nota a um Soneto em que Filinto exal- 
ta a formosura de Mareia, escreveu o seu edi- 
tor Dr. Solano Constâncio : « Verdade é que a 
tal Mareia, de quem Filinto faz tantos elogios, 
era (eu a vi algumas vezes) uma moça bas- 
tantemente alva e loura, com lindos olhos, 
muito derretidos; mas eu é que não a via 
com os olhos amantes de Fihnto, não fizera 
por ella tanto Soneto e tanta dúzia de Odes, 
como o nosso Autor compoz a seu respeito.» 
{Ob7\, V, 213.) 



210 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Nas Obras poéticas da Marqueza de Alor- 
na (Alcipe) nos Sonetos em que collaborou 
Mareia, vem a nota : « Minha irmã D. Maria 
de Almeida, que depois foi Condessa da Ki- 
beira. Nota da auctora.» ^ 

Para avaliar o talento poético de Mareia 
podem lêr-se as composições incluídas nas 
Obras da Marqueza de Alorna. No Idyllio 
De Mareia (irmã de Alcipe) falia no amado 
nome de Agrário ; e em nota explica : « Allude 
ao Marquez d'Alorna, D. João de Almeida, 
pae da auctora, que se achava então preso 
no Forte da Junqueira, por effeitos da politi- 
ca do Marquez de Pombal.» ^ A mudança do 
nome de Mareia para Daphne parece ter sido 
feita por Filinto logo que elle soube do seu 
talento poético, ou leu alguma das suas com- 
posições. 

A graciosa poetisa, dotada de uma voz 
maviosa com que cantava as Cançonetas de 
Filinto, também lhe enviava os seus versos ; 
elle se felicita em uma Ode a Daphne, á qual 
repetiu a nota: «A Ex."^^ Senhora D. Maria 
de Almeida, condessa da Ribeira»: 



Eu sou feliz : que mereci a Daphne 
Doces versos, por sua mão escriptos, 
Nobre mão, que ora meiga e que ora esquiva 
Dar, e não dar queria. 



1 Op, cit, t. I, p. 40, 42. 

2 Ib,, p. 129 



FILINTO ELYSIO 211 



Feliz mil vezes quem pelos ouvidos 
Bebe, oh Daphne, teus versos sonorosos, 
Feliz quem bebe a meiga melodia 
De teu suave canto. 

Eu cantarei tão grato o dom precioso 
De teus versos ; que a ouvir-me as Musas desçam, 
E o louro Apollo d^elles namorado 
Me affinará a Lyra. 

Assim jurou Petrarcha á sua Laura, 
( E foi fiel ao juramento santo) 
Celebral-a em seus versos amorosos 
Até ao extremo instante. 

/Oòr., XT, 191.) 

Não pode haver duvida entre a identifica- 
ção dos nomes de Mareia e de Daphne na 
mesma dama. Uma paixão platónica, mas ve- 
hemente, inspirou a Francisco Manoel versos 
de um incomparável lyrismo, e deixou-lhe na 
alma uma emoção, que lhe acompanhou a 
existência em todos os seus desalentos : 

Foi mais vivo o meu jubilo 
Que vi a Mareia, longo tempo ausente, 

E a vi, quando perdida 
Tinha esperança de tornar a vel-a. 

Tive em meus braços Mareia, 
Quando ia só verter saudoso pranto 

Ao tristíssimo sitio 
Que viu nossa penosa despedida. 

Os ares, que enlutados 
Ameaçavam lúgubres chuveiros. 

De novo o azul vestiram 
C^um gracioso olhar da alegre Mareia. 

Depois de tantas magoas ! 
Ditoso padecer ! magoas ditosas, 
Que taes gostos renderam! 

(Ohr., I, 293.) 



212 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Em um Soneto allude á clausura de Chel- 
las em que se acha: 

Embora venha a ausência despiedada 
Encobrir-te a meus olhos saudosos, 
E os meus tristes suspiros amorosos 
Leve apoz do teu gesto, oh Mareia amada; 

Embora a meu constante amor roubada 
Te cinjam tristes Argos odiosos : 
Rondarão meus affectos extremosos 
Os umbraeSj em que vives encerrada, 

{Ob)\, IT, 332.) 

Em uma Canção confessa a Mareia um 
amor inquebrantável, mesmo apesar da in- 
constância e de ella ir enlaçar-se pelo casa- 
mento em braços de outro : 



Bem, como quando aponta o sol radiante 
Pelos hervosos cumes dos outeiros, 

Fogem bruscos nevoeiros 

Da roxa luz brilhante ; 
Assim, mal vi teu rosto, assim fugiam 
As magoas, que de lucto a alma cobriam. 



Amor, quanto é maior, é mais medroso; 
Descora, que lhe fuja o bem ganhado. 

Quasi vejo roubado 

O Bem mais precioso . . . 
Das mãos ?n'o a?'rancam! Mareia! e tu consentes 
Ah, não digas que me amas . . . Mareia ! ai, mentes. 

Quero deixar-te. Antes que tu te enlaces 
Nos braços d^esse^ que de ti me priva. 

Resgato a alma cativa 

Antes que a elles passes. 
Não quero ver, em teus grilhões atado, 
Lograr-se outrem d 'um Bem a mim roubado. 



FILINTO ELYSIO 213 



Irei vertendo lagrimas iradas 
Por essas nuas praias arenosas ; 

A^s Nayadas piedosas 

Minhas queixas magoadas 
Irei contar. Irei cravar no peito 
Um punhal, vingador do meu despeito. 

Não, linda gloria d'esta vida tua; 
Despe os temores de eu querer deixar-te, 

Eu ! que jurei amar-te ! 

A sorte amarga e crua 
Não fará que perjure a sã vontade 

De amar em ti a minha divindade. 

Não a inconstanciay não os desfavores 
Menos puro farão meu culto amante. 

Que eu falte a ser constante 

Aos olhos roubadores, 
A's faces de carmim, madeixas de ouro, 
Em quem Vénus e Amor põem seu thesouro. 

Vivas ausente, ou vivas sempre á vista, 
O teu Filinto hade adorar-te puro. 

Tens meu peito seguro, 

Tens segura a conquista ; 
Nem d^outra sorte esses teus olhos rendem. 
Nem estes meus outra adorar pretendem... 

iOh)\, \, 242.) 

Depois que D. Maria de Almeida ficou clau- 
surada com sua mãe e irmã no convento de 
Chellas, Filinto mudou-lhe o nome poético de 
Mareia no de Daphne] qm uma Ode allude 
a esta crise: 

Também Filinto escuras saudades 

Supportou solitário em crua ausência; 
Ferradas portas lhe fechou irado 
Tyranno Desconcerto. 

Em uma nota a esta estrophe escreveu 
o Dr. Solano: «D'esta estrophe nunca o A. me 



214 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

quiz declarar o sentido.» O Tyranno Descon- 
certo alludia á ordem do Marquez de Pombal, 
que tendo mandado prender o Marquez de 
Alorna na Junqueira, atirou com a esposa e 
filhas para o convento de Chellas. Filinto co- 
meçou então a frequentar a grade, como se 
vê: 



Entre as sombras da esquálida amargura 
Me abriu alvo clarão amigo Génio, 
Onde vi a formosa, meiga Daphne 
Cortejada dos numes; 

E AlcipBy a vate, pelo céo voava. 
Chamando á Lyra os orbes estrellados, 
Quaes ao Thebano promptas acendiam 
As arvores e as penhas. 

[Ohr,, IV, 54.) 



Sua mãe D. Leonor de Lorena, filha dos 
Marquezes de Távora, e por isso enclausura- 
da, soffreu em 1768 uma grave doença, ^ á 
qual allude Filinto, na Ode : 

Não esperes, formosa e meiga Daphne, 
Que com discreta mão, previstos olhos 
Bens ou males espalhe a Deusa de Antio, 
Que n^este globo impera. 

Sempre insensata na inconstante roda, 
A parvo atira a c^roa, a um bobo a mitra ; 
Nos sábios, nos virtuosos caem raios 
De desprezo e miséria. 



^ Obras da Marqueza de Alorna, t. i, p. xviii. 



FILINTO ELYSIO 



215 



A amável Mãe, ás lanças da doença 
Cede o peito não digno de pezares ; 
E, á que nasceu para aditar humanos, 
Sempre a dita liie foge. 

Assim, nas terras de Solyma santa, 
A real, a formosa Marianna 
Yiu a morte dos seus, sentiu cravar-lhe 
Pungentes penas a alma. 



Crê firme, oh Daj)hne, que se a cega Deusa 
Os seus dons emborcasse nos mais dignos. 
Ninguém melhor que a Mãe^ que Alcipe e Daphne 
Os cofres lhe exhaurira. 

(Ohr., IV, 71.) 

E para que não haja duvida na interpre- 
tação, á phrase amável Mãe vem a nota : « A 
Marqueza d'Alorna, encerrada então em Chel- 
las.» Em uma Ode deseja ter por arbitro a 
Daphne: 

Destemido . 

Disputarei a Apollo a primazia ; 
Daphne o árbitro seja 
Do intrépido certame. 



Verei aquelles astros 
Que lúcidos revolve entre as pestanas, 

De brando amor banhados, 

Fitar compadecidos 
Em Filinto, por premio do seu canto. 

(Ob,\, IV, 112.) 



E ao nome de Daphne põe a nota: «A Se- 
nhora D. Maria de Almeida, então no Con- 
vento de Chellas, e depois Condessa da Ri- 



216 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

beira.» A Òde A Alcipe e Daphjie, depois de 
larga ausência, {w, 113) refere-se a esses 
tempos de clausura. 

Lè-se na Biographia de D. Leonor de Al- 
meida: «A edade de Alcipe,.. era então de 
pouco mais que 18 annos. O Arcebispo de 
Lacedemonia D. António Caetano Calheiros 
Maciel, Vigário geral, sabendo que por moti- 
vo de doença da Marqueza mãe a poetisa fi- 
zera entrar no Convento seu irmão D. Pedro 
de Almeida, reprehendeu-a asperamente con- 
demnando-a a dois annos de reclusão, a cor- 
tar os cabellos, e a trajar vestes escuras. 
Como ella não obedecesse, dizendo que era 
secular, o Arcebispo ameaçou-a com o Mar- 
quez de Pombal, a quem iria contar tudo. 
D. Leonor retorquiu-lhe com uns versos de 
Corneille : 

Le coeur d^Eleonore est trop noble et trop franc 
Pour craindre ou respecter le bourreau de son sang.^ 

Sobre este caso escreve o biographo: «é 
a este facto e ás suas precedências que se re- 
fere a bella Ode de Francisco Manoel — Não 
esperes, formosa e meiga Daphne — dirigida 
á irmã de Alcipe. . .» 

As duas filhas do Marquez de Alorna cul- 
tivavam a poesia n'esses ócios angustiados 
de Chellas ; Filinto allude a esta revelação do 
seu talento: 



Já Alcipe e Daphne lançam mão ás Lyras, 
Já pelas áureas cordas, temperadas 
Por Phebo, os hymnos andam resoando, 
Bafejados das Musas. 



FILINTO ELYSIO 217 



SÓ VÓS, mimo de Pindo, em doce canto 
Direis de Vénus as meiguices ternas, 
Os subidos prazeres regalados 
O poderoso Cesto... 

( Obr., IV, 61) 

Em nota esclarece: «Tinham Alcipe e 
Daphne composto um Hymjio a Vénus, assum- 
pto que Filinto tomou para esta Ode.» Em 
umas deliciosas quadras Retrato de Daphne, 
poz Filinto a nota: «A 111."^^ e Ex.^^^ D. Ma- 
ria de Almeida, depois Condeça da Ribeira.» 
Ahi allude outra vez ao seu talento poético e 
génio musical: 

Que pincel ha, que em seu louvor intente 
Imitar, sobre intrépido arrogante, 
Uma Musa, que enleve de eloquente. 
Uma Sereia, que suave cante? 

( Ohr., IV, 367.) 

Do nome de Alcipe diz a própria Marque- 
za de Alorna: « Lilia, Lize e Laura são no- 
mes poéticos que a auctora adoptou para si 
antes de se chamar Alcipe, nome que lhe foi 
posto por Francisco Manoel do Nascimento, 
segundo elle mesmo diz em uma nota.» ^ E 
em outra nota : « Daphne é o nome que lhe 
poz Filinto Elysio » referindo-se a sua irmã. ^ 

Daphne era o nome poético com que Fran- 
cisco Manoel tratava nas suas Odes «D. Ma- 
ria de Almeida, então no Convento de Chel- 



1 Obras 'poéticas, t. i, 69. 

2 Ih., p. 170. 



218 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



las, e depois Condessa da Ribeira.» ^ Era no 
tempo dos terríveis processos de Inconfidên- 
cia com que o Marquez de Pombal metteu nos 
cárceres por dezouto annos os principaes fi- 
dalgos portuguezes. A familia do Marquez de 
Alorna, dispersou-se, indo o chefe para as 
masmorras da Junqueira, e a esposa e filhas 
para o Convento de Chellas. 

Por este tempo Francisco Manoel usava 
um nome pastoril ou arcádico, Niceno, com 
que fora apodado na Guerra dos Poetas em 
1768 ; depois da sua convivência com as duas 
filhas do Marquez de Alorna, que muito admi- 
ravam o seu talento poético, é que começou a 
chamar-se Filinto. EUe próprio o confessa: 
« A Ex.'"^ D. Leonor de Almeida foi quem 
em Chellas deu ao Poeta o nome de Filinto, 
e por tal o nomeou sempre em todos os ver- 
sos que lhe escreveu.» {Obr., xi, 194.) Com 
tal nome se tornou o poeta conhecido, quando 
pelo seu desterro da pátria completou esse 
nome carinhoso com a emoção da saudade em 
Filinto Elysio, 

Como pode ser avaliada a intimidade ex- 
pressa em Odes convencionaes entre o padre 
faceto e as fidalgas reclusas não se nos depara 
elemento sufficiente para a critica ; é certo 
porém que o Marquez d' Alorna apparece-nos 
como um perseguidor de Filinto logo que foi 
solto do cárcere da Junqueira. Segundo a 
tradição, que chegou a Costa e Silva, o orgu- 
lho do Marquez de Alorna ficara ferido por 



1 Obras, t. iv, p. 112. 



FILTNTO ELYSIO 219 



causa dos soccorros de dinheiro que Francis- 
co Manoel prestara a sua familia durante o 
período do terror pombalino. Filinto allude 
ás relações litterarias que manteve com as 
duas fidalgas poetisas, pondo na bocca d'ellas 
estes versos : 



«Aqui te desejámos; toma assento 
«Junto de nós, qual já tomaste outr^ora 
« Quando em nocturno délphico Parnaso 
« Te ouvimos discantar altos conceitos. 
Ficae vós, minha AlcipCj minha Daph?ie, 
Gloria e brazão dos vates luzitanos. . . ^ 



Bastava o poeta ter celebrado as reformas 
pombalinas para apparecer condemnado no 
governo idiotico de D. Maria i e do Arcebis- 
po Confessor. Mas celebrando essas reformas, 
não era o déspota que o poeta bajulava, era 
a adhesão ás modernas doutrinas philosophi- 
cas que assim affirmava. Isso o inspirara na 
Ode No tempo da i^efoi^ma da Univei^sidade 
de Coimbra^ em 1772: 



Viste chorar de raiva e dôr acerba 
A ignorante Soberba, desbulhada 
Dos thronos, dos altares, que occupara 
Cortejada de todos. 

E como rias tu, quando avistaste 
As dez Cathegorias de Aristóteles 
Aos murros, umas pondo a culpa ás outras 
Do súbito desastre ? 



1 Obras, t. i, p. 421. 



220 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Sem fasto ia a rançosa Theologia 
A pé, co'a toga suja, mal traçada; 
Carregada de tomos grandes grossos, 
Que mais não serão lidos. 

Que nuvem de papeis despedaçados 
Vae sem gloria voando pelos ares ? 
Vão grossas ConclusõeSj de latim crespo 
Bolorentas Postillas, 

Que tropel de Thomistas e Escotistas 
Arrepellam as barbas e os cabellos ; 
Porque estes Estatutos os privaram 
De gritar sobre nada. 

Olha o Bedel, e o rústico Meirinho 
A dar co^a vara no ronceiro Sanches, 
Durandos, Busembáums, Lullos, Cayados, 
Aranhas e Barretos. 

Diverte-te, meu Sousa^achorrento, 
Em ver este entremez, a cuja scena 
Os Gothicos de raiva se amarguram, 
Os modernos se riem. . . 

( Ohr., IV, 64.) 

Tem esta Ode os traços pittorescos que 
inspiraram o poema heroi-comico O Reino da 
Estupidez, quando depois da queda de Pom- 
bal se procurou volver a Universidade de 
Coimbra ao velho formalismo medieval. Em 
outra pequena Sátira a que chama Garatuja 
poética, falia « De enfadonhos, chimericos de- 
lírios » d'essa sciencia fradesca : 

Que direi dos profundos volumaços 

De Lógica, aguçada de argumentos 

Em Barbara, em Barroco, em Baralípton ? 

Que direi eu com vozes competentes 

De pontos melindrosos da Escriptura, 

Tratados, discutidos, explicados. 

Encadeados sempre, e sempre escuros ? 



FILINTO ELYSIO 221 



Junto ás paredes, em comprido fio 
Postos em rumas pela mão do tédio, 
Os Feitos, os Sermões, Genealogias, 
No pálido salão de enjoo eterno, 
Somnolentas fumaças vaporando, 
Dão vagados de illusa doutorice 
A leitores de crassa catadura, 

( Obr,, IV, 72. ) 

Quem assim fallava rompera com a Edade 
media theocratico-feudal e abraçara o espiri- 
to revolucionário do século xviii, e admirava 
os Eeis-Philosophos. Diz elle em uma Ode: 
«N^esse tempo o Imperador José ii traçava 
certas reformas no tocante aos Ecclesiasticos, 
das quaes tomou tanto susto o Papa, que acu- 
diu a Vienna, na intenção (se podasse) de 
lhe deitar agua na fervura.» ^ O Príncipe Dom 
José carteava-se então com José ii. 

A acclamação da rainha D. Maria i era uma 
alegria para todos aquelles que tinham gemi- 
do nos cárceres duros sob o terror pombali- 
no ; Filinto, que celebrara as reformas do rei- 
nado de D. José, teve de acompanhar essa 
alegria em uma Ode A^ acclamação de Ma- 
ria /, de Portugal. Começa pela relação ar- 
tística do mundo physico para o mundo mo- 
ral : 

Vão-se as nuvens rasgando; os horisontes 
Já com feias carrancas não se abafam ; 
Viçosa, verdejante a primavera 
Os campos desenluta. 



Obras, t. iv, p. 39, nota. 



222 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 



Junto a Maria, a angélica virtude 
Com o conto da lança de Minerva, 
Quebranta invicta as hórridas cabeças 
Dos saní^uinosos vicios. 



Sobre o throno estendendo as alvas pennas 
A Sapiência esparge immortaes raios 
Que, em luminosa chuva as mentes banham 
De Maria formosa. . . 

{Obr,, III, 498.) 

Uma outra Ode escreveu A' feliz accla- 
mação da fidelissiína rainha de Portugal, a 
serenissima Senhora D, Maria /.^ no dia 13 
de Maio do anno de 1777 ; é retumbante e 
emphatica, mas vê-se que elle procurava 
apoio contra os que tramavam a sua ruina. 
Em nota diz Filinto : «Nunca esta Ode teve 
a dita de chegar aos pés do throno.» Impri- 
miu-a pela primeira vez em 1787 em Paris, 
em um folheto de 10 paginas com uma dedi- 
catória em prosa, na qual diz : « O acanha- 
mento me impediu então de lh'a offerecer;» 
Imprimindo-a em 1787, era como um reque- 
rimento para ser repatriado, mas não chegou 
a Ode ao seu destino, como confessa no resto 
da nota: «Bem houve ruins que lá (aos pés 
do throno) levaram calumnias contra mim; 
mas não haverá quem desteça o mal que ruins 
tramaram ? Quem levante um desterro de 38 
annos! Quem socorra a penúria de um velho 
de 82! em tão desmerecido desamparo?» ^ 



^ Obras, t. v, p. 132. 



FILINTO ELYSIO 228 



Em uma Ode a Domingos Pires Monteiro 
Bandeira, descreve Filinto a época do Rigo- 
risniOj como reacção á « Restauração das Le- 
tras sob D, José /» e de que resultou a « Per- 
seguição contra os litteratos, que despovoou 
Portugal de muitos bons engenhos :» 

Eis quando se abraçavam 
Alviçaras reciprocas pedindo, 

E ás doutrinandas gentes 
Descobriam as faces radiosas 

Nos Lyceos franqueados 
Do septigero Tejo e do Mondego ; 

Fanático graniso 
Cahiu pesado nos pimpolhos tenros 

Que a seus olhos creava 
Solicita a Sciencia, para ornarem 

O Josephino século. . . . 
Fostes Lusos; e a gloria dos Maiores 

Mal doira inda os escudos 
Dos descuidados netos, té que a apague 

A mão caliginosa 
Da bronca Barbaria, companheira 

Do ardente Fanatismo.» 

{0b)\, IV, 51.) 

Depois da acclamação de D. Maria i o seu 
Confessor e director espirituaUD. Fr. Ignacio 
de San Caetano, que sempre residira no con- 
vento de S. João da Cruz de Carnide veiu assi- 
stir no paço, e alli tomava parte no governo 
achando-se presente ao despacho dos minis- 
tros. Tendo resignado o cargo de Bispo de 
Penafiel, ficando com a pensão annual de dez 
mil cruzados e a quinta e palácio do Prado, 
foi-lhe dado o titulo de Arcebispo de Thessa- 
lonica, com que é conhecido n^essa época do 
Rigorismo. O Arcebispo-Confessor era tam- 
bém Inquisidor-geral, e o seu influxo sobre a 



224 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



pessoa da pusilânime e depois dementada rai- 
nha era absoluto. Convinha captar as graças 
do Arcebispo-Confessor, n'esta terrível trans- 
ição do governo pombalino ; Filinto escreveu 
uma Ode Ao Ex."''' e i2.'"° Senhor D, Fr, Igna- 
cio de San Caetano, Arcebispo de Thessalo- 
nica, Confessor da Serenissima Senhora Do- 
na Maria /, Rainha de Portugal; compre- 
hende-se o intuito, sabendo-se das intrigas 
que se armavam em volta do poeta por cau- 
sa das suas conversas e leituras : 

Vibre contra elle lanças a calumnia, 

No broquel da innocencia 
As apare soffrido e des-sombrado. 

Não ha farpão tão rijo 
Que não quebre no muro da constância. 

Depois de descrever a metaphora horacia- 
na da náo do Estado, assoberbada com o em- 
bate das cansadas ondas, e segurança com 
que a guia um Varão maduro, termina com 
a estrophe, requerimento e lisonja directa ao 
Arcebispo-Confessor : 

E eu, que do igitimo assombro em mim tornava, 

Fitando no alto vulto 
Os olhos respeitosos, vi o intacto 

Moderador prudente 
Da alma da virtuosíssima Maria. 

{Oh}\, 111, 247.1 

Nada pôde a emphase da Ode encomiásti- 
ca; e foi mesmo do elemento clerical que par- 
tiu a accusação ao Santo Officio contra o des- 
abusado poeta horaciano. 

O poeta sentia que lhe faltava o chão de- 
baixo dos pés, e procurou defender-se junto 



FILINTO ELYSIO 225 



de D. Frei Manoel do Cenáculo, figura do 
mais alto valimento do Marquez de Pombal, 
que, incompatível com o novo governo de 
D. Maria i, apenas foi mandado recolher ao 
seu bispado de Beja. Filinto chegou a acom- 
panhal-o, como confessa na Ode ao Ex:'''' e 
i2.^° Senhor D, F)\ Manoel do Cenáculo e 
Villas-BoaSj Bispo de Beja : 

A amisade, que pisa as vãs riquezas, 

Que desdenha das coroas, 
E tem em pouco o infido valimento, 

Vae buscar na desgraça 
O peito sãOf que as penas não amolgam. 

Ella co^as forças, que houve da virtude 

Me arrebatou nas azas ; 
E trafispondo com^tnigo longas terras, 

Sobre os tectos illustres 
Da famosa Paz Júlia me sosteve. 

Não sei que paz interna respirava 

O puro e ledo seio 
D^aquellas terras sanctas e singellas ; 

(Obr., IV, 215.) 

O refugio de Filinto em Beja junto do Bis- 
po Cenáculo seria poucos mezes antes da sua 
accusação ao tremendo Tribunal do Santo 
Officio. No depoimento de Fr. Simão da Con- 
ceição contra Francisco Manoel declarou, que 
sob a impressão da suspeita de denuncia dos 
Padres de Rilhafolles que o fazia andar triste, 
o encontrara depois alegre, e perguntando-lhe 
a causa da mudança elle lhe respondera: 
< Fui ter com o meu Bispo de Beja, narrei-lhe 
a historia, e disse-me que não fizesse caso 
d'isso. . . » Passava-se isto antes de 177Ò, por 

15 



226 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que estava ainda vivo Francisco Xavier de 
Mendonça, com quem Francisco Manoel con- 
tava como seu amigo pessoal, e que o alentou 
n^essa apprehensão. 

Depois da queda de Pombal, o terror da 
hiGonfidencia foi substituído pelo rigorismo 
da Inquisição^ imposto pelo Arcebispo-Con- 
fessor de accordo com o ministério. A instru- 
cção publica regressava ao formalismo escho- 
lastico; a situação desesperada em que se 
achavam Filinto e outros sábios vê-se pelos 
traços realistas d'essa carta inédita do Dr. Ei- 
beiro dos Santos: 

«Meu Amigo — -Recebi a vossa carta e fol- 
go que passeis bem. Pedis novidades, eu vos 
mando uma, que não pode deixar de vos ser 
pezada; também m'o foi a mim. Corre aqui 
constantemente como certo, que o Arcebispo- 
Inquisidor inculca a necessidade dos Tribu- 
naes, prisões e castigos da Inquisição para 
conter os povos ; e que D. propõe 

para o mesmo fim o systema dos quatro I I, 
que querem dizer: Inquisição^ Inconfidência y 
Ignorância e Indigência, Se me jurassem 
Rey, no momento em que recebesse o scep- 
tro, honraria o começo do meu reinado pela 
mais formosa acção da minha vida: livraria 
a terra doestes dois monstros. Desejo-vos saú- 
de, como a elles a outra vida em que já nos 
não possam desejar nem fazer mal. Deus vo& 
guarde d'elles, e a mim também.» ^ 



1 Ribeiro dos Santos, Mss., vol. 181, fl. 161 t. O 
nome riscado parece ser D. Thomaz Xavier de Lima^ 
o ministro Visconde de Villa Nova da Cerveira. 



FILINTO ELYSIO 227 



Filinto andava espiado pelos esbirros da 
Inquisição, e é crivei que tivesse preparado o 
seu plano de fuga; mas repentinamente foi 
appresentado ao Inquisidor António Veríssi- 
mo de Larre a seguinte denuncia, que serviu 
de base ao Processo e á ordem de prisão: 

«Aos 22 de Junho de 1778, pelas cinco 
horas da tarde, o P.® José Manoel de Leyva, 
presbytero secular, natural da Freguesia de 
Sam Payo, da villa de Guimarães, e morador 
na cidade de Lisboa, ao Arco do Carvalhão, 
freguesia de S. Sebastião da Pedreira, foi 
para descargo de sua consciência declarar ao 
Tribunal do Santo Officio: — que João da 
Silva, morador junto do dito Arco do Carva- 
lhão, e em cuja casa assiste elle denunciante, 
lhe dissera, que estando em conversação com 
o Padre Francisco Manoel, Proprietário da the- 
souraria da Egreja das Chagas de Christo, e 
sobrinho de João Manoel, já falecido, que foi 
Patrão-rnór, em casa de um Letrado chamado 
Luiz da Silva de Almeida, morador na Praça 
do Commercio, nas casas de Anselmo José da 
Cruz, onde e em cuja occasião mais algumas 
pessoas, digo, estavam mais algumas pessoas, 
proferira o dito Padre Francisco Manoel a se-- 
guinte proposição : = que não dessem credito 
a que o Padre Eterno houvesse de ter man- 
dado ao mundo o seu unigénito filho para re- 
mir o género humano, isto é, (disse elle de- 
nunciante que) Estando-se tratando na dita 
conversação doesta matéria, que o dito Padre 
Francisco Manoel dissera : — Para que estão 
vocês cansando-se, nem quebrando a cabeça 
com isso? Pois isso é possível? E se não, di- 
gam; supponham vocês que era um homem ri- 



228 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



CO, e que tinha uma quinta ou fazenda, onde 
tinha, por exemplo, uma nogueira, na qual, de- 
pois de mandar ao caseiro da quinta não bolisse, 
elle, quebrando o preceito e ordem de seu do- 
no, tirou d'ella uma noz e a comeu; era pos- 
sível que o dono da quinta mandasse castigar 
seu filho pelo delito que commetteu o casei- 
ro?... e já lhe tinha ouvido outras seme- 
lhantes libertinagens, como eram: — que os 
três Prophetas todos tinham rasão, cada um 
pela sua parte.» Accrescentava o denuncian- 
te, que depunha «sem ser por ódio, nem por 
vingança.» Tal foi o que passou a auto o No- 
tário do Santo Officio o beneficiado Florêncio 
da Costa Pereira, Mestre de Cerimonias na 
Patriarchal, morador a S. Pedro de Alcân- 
tara. 

Immediatamente foram intimadas a virem 
as pessoas referidas fazer o seu depoimento 
secreto á Inquisição; e passou-se isto de 1 de 
Julho a 3, resultando o mandado de prisão 
para a madrugada do dia 4. Eis os depoi- 
mentos da assentada d'esses três dias : 

— Em 1 de Julho de 1778, em Lisboa e 
casa da segunda Audiência da Inquisição, ahi 
appareceu o P.® José Manoel de Lej^va, de 
edade de 33 annos : « não teve mais trato fa- 
miliar com elle (se. P.^' Francisco Manoel) 
nem mais communicação do que a que teve 
por civihdade e politica.» Ratificaram este 
depoimento os Padres Mestres Doutores Fr. 
Manoel Baptista Durando, e Fr. Francisco 
Xavier de Lemos, da Ordem de S. Domingos. 

N'este mesmo dia 1 de julho foi interroga- 
do de manhã perante o Arcebispo-Inquisidor 
o dito João da Silva, cavalleiro professo da 



FILINTO ELYSIO 229 



Ordem de Christo, natural de Lisboa, de eda- 
de de 50 annos, casado com D. Maria Antó- 
nia de Sousa: «Disse, que elle por ter conhe- 
cimento e amisade com o Padre Francisco Ma- 
noel, sacerdote do habito de S. Pedro, que 
morava em algum tempo em casa do Patrão- 
Mór da Ribeira das Náos, que era seu tio, e 
que hoje mora no bairro alto, segundo tem 
ouvido dizer : conversava frequentemente com 
elle, e n'estas occasiões observou que elle fal- 
lava com muita liberdade contra a nossa Santa 
Fé catholica; e entre outras, está lembrado que 
uma vez fallando-se sobre a Religião dos Mou- 
ros, e dizendo elle testemunha, que esta seita 
era entre todas a peior, a mais mal fundada 
por conter muitos despropósitos e parvoíces, 
respondeu o dito Padre : — Cale-se lá, que 
assim como nós entendemos que a religião 
catholica romana é verdadeira e em que ha 
salvação, da mesma sorte os Mouros e os 
Chins crêem e entendem que só a sua é ver- 
dadeira, e que só n'ella ha salvação ; que cada 
uma d'ellas fora fundada por um Propheta, 
assim como a nossa por Jesus Christo, que é 
um Propheta como os outros.» A testemunha 
narrou também o exemplo do pomareiro, com 
que ridicularisava o peccado original. «Disse 
mais, que esta conversação passara entre elle 
e o dito Padre, haverá anno e meio pouco 
mais ou menos, em casa do Dr. Luiz da Silva 
e Almeida, Advogado nos Auditórios de Lis- 
boa, morador na Praça do Commercio, no pri- 
meiro andar das de Anselmo José da Cruz.» 
Disse mais, que indo com elle P.'' Francisco 
Manoel ao Convento de Sobral, junto da Villa 
de Alhandra, entrando em uma noite em con- 



280 HISTORIA DA LlTTEKATURA PORTUGUEZA 



versação com alguns PP. do dito Convento; 
« que não tinha havido um Diluvio universal, 
por que se não podia dar rasão d'onde estava 
d^antés e onde se recolhera depois tanta quan- 
tidade de agua, quanta era necessária para 
causar um diluvio tão grande como referem 
as Escripturas.» Os PP. replicaram que bas- 
tava a Escriptura dizel-o; e P.® Francisco 
Manoel disse-lhes: «Se fugis da rasão e vos 
accolheis á Escriptura sagrada isso era o 
mesmo que metterem-se em um bêcco sem sa- 
hida.» — «tudo queria mostrar com rasões na- 
turaes e philosophicas.» Os frades que discu- 
tiram com elle eram Fr. Jorge e Fr. Simão, 
que ulteriormente foram interrogados. « Disse 
mais, que em outra occasião ouvira dizer ao 
mesmo Padre Francisco Manoel, que elle ti- 
nha um Livro impresso em Hollanda, no 
qual se mostrava clara, evidentemente que o 
Tribunal do Santo Officio não procedia com 
rectidão e justiça nas provisões e castigos que 
dava aos réos, porque sendo os crhnes d^elles 
públicos também deviam ser publicamente 
processados.» Keferia-se inconscientemente ao 
livro das Noticias recônditas, attribuido ao 
P.® António Vieira e hoje incorporado nas suas 
Obras. — «Disse mais, que em outra occa- 
sião, succedendo de fallar com o dito Padre 
no sancto Sacrifício da missa, lhe dissera isto: 
que isto da Missa era um officio que tinham 
e exercitavam os Sacerdotes, da mesma sorte 
que os Çapateiros e Carpinteiros executa- 
vam os seus.» «Disse mais, que elle testemu- 
nha em muitos tempos tivera amisade e trato 
frequente com o dito Padre pelo achar e por 
lhe parecer muito curioso e bem instruído na 



FILINTO ELYSIO 231 



Historia ; mas porque com este trato foi co- 
nhecendo que elle não era seguro sobre as 
cousas que pertenciam á Eeligião, e obser- 
vando mais, que nas jornadas que fazia não 
levava Breviário, nem o viu nunca resar por 
elle, e que aos Livrinhos de Orações chama- 
va Besbelhos espirituaes, se foi pouco a pouco 
afastando d'elle e aborrecendo a sua commu- 
nicação. Foi n'esta crise que consultou o seu 
capellão, P.^ José Manoel de Leyva, e haverá 
cousa de cinco dias, que tendo resolvido con- 
sultar os Padres de San Domingos sobre o 
caso, fora citado para comparecer no Tribu- 
nal da Inquisição.» Indicou uma outra teste- 
munha, Joaquim José de Sousa, morador nas 
casas de Anselmo José da Cruz. 

Ainda n'esse dia 1 de Julho depoz o Dr. 
Luiz da Silva e Almeida, advogado nos au- 
ditórios da corte, natural da cidade de Leiria, 
morador na Praça do Commercio, e casas de 
Anselmo José da Cruz, casado com D. Maria 
Caetana : «Disse, que formou conceito de que 
o P.« Francisco Manoel era um pouco liberti- 
no em partes de Religião, faltando n^ellas 
com largueza e menos piedade, não notando 
comtudo proposição alguma particular e de- 
terminada que fosse contra a verdade e dou- 
trina da S. Madre Egreja, e ai não disse.» 
Foi classificada esta testemunha por dimi- 
nuta. 

Intimou-se para o dia seguinte uma quar- 
ta testemunha, o referido Joaquim José de 
Sousa— «natural de Lisboa, de edade de 33 
para trinta e quatro annos, escrivão do eivei 
da cidade, e morador na Praça do Commer- 
cio, freguezia de S. Julião, nas casas de An- 



232 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



selmo José da Cruz, e casado com D. Marian- 
na Rosa de Amorim e Sousa.» Disse, — «que 
em particular somente ouviu uma vez em ca- 
sa de seu tio João da Silva, Familiar do San- 
to Officio, morador ao Arco do Carvalhão, ao 
Padre Francisco Manoel do Nascimento, so- 
brinho do Patrão Mor...» Refere o exemplo 
do pomareiro. Disse que não pôde tirar a 
conclusão do que ouvira, porque andava en- 
tretido a preparar a meza em que se havia de 
jantar — sempre o julgou bom catholico e 
muito temente a Deus, além de ser bem in- 
struído e versado nas sciencias e nas línguas 
Francezay Italiana e higleza, que postoque 
nenhuma falia as entende comtudo.» Foi con- 
siderada esta testemunha condescendente com 
o denunciado, e como tendo deposto com po- 
litica e diminuição^ segundo a medonha 
phraseologia do formulário do Processo inqui- 
sitorial. 

No dia 3 de julho compareceu a depor 
uma quinta testemunha, o afamado Mestre 
de Grammatica latina António Félix Mendes, 
com setenta annos de edade; declarou que 
fora mestre de Latinidade de Francisco Ma- 
noel, bem instruído n'ella, e refere conversas 
que lhe ouvira no Escriptorio do advogado 
Jeronymo Estoquete, inferindo que era dado 
á leitura dos Livros prohibidos dos Philoso- 
phos modernos que seguem a rasão natural. 
Já vimos o conteúdo do seu depoimento acer- 
ca das relaçõs litterarias. A Mesa da Inquisi- 
ção, depois da assentada doestas cinco teste- 
munhas, passou ordem ao seu Familiar o 
Conde de Resende, e ao Famihar do numero 
Manoel Caetano de Mello para na madrugada 



FILINTO ELYSIO 233 

do dia 4 de Julho, ás cinco horas da manhã 
irem á morada do P.® Francisco Manoel e tra- 
zerem-no preso para os cárceres do Rocio. 

O drama intenso que se passou n'essa ma- 
drugada de 4 de Julho, em que Francisco Ma- 
noel conseguiu pela sua presença de espirito 
escapar ás garras da Inquisição, deixou-lhe 
uma impressão indelével, celebrando essa da- 
ta em uma commemoração annual com os ami- 
gos que encontrou longe de Portugal. Mas 
essa scena tremenda pode hoje ser reconsti- 
tuída ao vivo pelas referencias de Filinto nos 
seus versos e cavacos com Alexandre Sane, 
e principalmente pela Participação da fuga 
do Padre, feita no dia 13 de Julho de 1778 
ao Conselho da Inquisição. 

Ainda Francisco Manoel estava escondido 
em Lisboa, e já na participação para o sum- 
mario da fuga se considerava tendo-se esca- 
pado no Paquete de Inglaterra. Este rumor 
chegou aos ouvidos de Filinto, como vemos 
pela relação de Sane. Transcrevemol-a aqui 
primeiramente, intercalando-lhe os nomes his- 
tóricos : 

« No dia 4 de julho de 1778, um Cavallei- 
ro da Ordem de Christo (homens de cathego- 
ria honravam-se em exercer as funcções do 
Santo Officio) appresentou-se em casa de 
Francisco Manoel ás seis horas dá manhã. ^ 
A catadura d'este homem, o seu ár alterado, 
a sua visivel atrapalhação foram um raio de 



^ De facto o familiar Manoel Caetano de Mello era 
Cayalleiro professo da Ordem de Christo ; no seu rela- 
tório diz que fora ás cinco horas. 



234 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

luz para o Poeta ; o sangue frio e a coragem 
salvaram-no n'este terrível momento. — Já sei 
o que vos traz aqui, disse-lhe o P.® com pla- 
cidez ; nada de escândalo ; eu vou-me vestir e 
acompanho- vos. — Vestiu-se então apressada- 
mente, abriu a -sua papeleira, tirou algumas 
letras de cambio, algum dinheiro, agarrou em 
um punhal, d'estes de ponta de diamante e 
de fina tempera, e arremete para o Familiar, 
que com physionomia de réo se conservara 
de pé junto de uma umbreira, apontou-lh'o 
ao coração, e disse-lhe: — Se fazeis um qual- 
quer movimento, se proferis uma palavra, es- 
taes morto! — ^O Cavalleiro empallideceu, fi- 
cou mudo e immovel. Manoel cobriu-se com o 
seu capote, sae, fecha á chave o seu inimigo, 
e desfila pela escada abaixo. O cocheiro e 
lacaio do emissário fazem geito de lhe impe- 
direm a passagem; Francisco Manoel era ex- 
tremamente robusto, com um murro deita por 
terra o cocheiro, segue para diante, atravessa 
a rua que estava ainda deserta, alguns pas- 
sos mais adiante vê aberta a porta do palácio' 
do Conde de *** (lede: Conde da Cunha) en- 
fia por ella, transpõe os saguões, encontra 
uma sabida e passa para outra rua pouco 
trilhada, d'onde se refugia em casa de um 
negociante francez, (lede: Thimoteo Lecussan 
Verdier) e que o acolhe com empenho. 

« Tinha escapado ao perigo o mais eminen- 
te; mas que perigos ainda a defrontar e que 
angustias! Pode-se affigurar o que soffreu 
durante os onze dias que elle ainda passou 
em Lisboa. O nobre sentimento da amisa- 
de manifestou n'estas circumstancias cruéis 
quanto possuia de elevação, de ternura e de 



FILINTO ELYSIO 235 



magnanimidade. A resolução de Francisco Ma- 
noel e o seu vigor physico tinham-n'o salva- 
do das garras do Familiar ; a dedicação dos 
seus amigos conseguiu o resto. Ao passo que 
elle se furtava a todas as vistas, no azylo 
mais secreto da casa do negociante, estes ho- 
mens generosos percorriam os diversos bair- 
ros da cidade, os cafés, os passeios e as as- 
sembleias, e andavam escutando e sondando 
os rumores públicos. Elles souberam em casa 
do Conde de *** (de Vimieiro?) que amava 
e estimava o nosso poeta, ^ um^a feliz noticia : 
o paquete inglez acabava de dar á vela, e 
dizia-se que Francisco Manoel se escapara a 
bordo d'elle. Os seus amigos fingiram logo 
acreditar n'este boato, que lhes trazia uma 
vantajosa diversão. Vieram tranquillisar o 
proscrito, é só pensaram em preparar os meios 
para o fazer sahir de Lisboa e do reino. Um 
navio francez estava prestes a dar á vela para 
o Hâvre de Grace; mas elle não podia levan- 
tar ferro senão d^ahi a onze ou doze dias, 
caso houvesse vento favorável. 

« Estes onze dias, estes onze séculos, Fran- 
cisco Manoel passou-os em uma anciedade que 
facilmente se avalia. Os seus amigos pensa- 
ram que era extremamente necessário a sua 
segurança o mudar muitas vezes de azylo. 
Esconderam-no alternadamente em casa uns 
dos outros. Todas as noites sahia sob diffe- 
rentes disfarses, evitando os bairros populo- 



^ Filinto celebrava a Condessa de Vimieiro, Dona 
Thereza de Mello Breyner, como poetisa, a Tirse, amiga 
de Alcipe e Daphne. 



286 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



SOS, indo passar a noite nos arredores de Lis- 
boa. Os seus amigos o precediam e seguiam 
n'estas excursões perigosas, sempre com os 
olhos n^elle e promptos a sacrificarem-se para 
o defenderem. De dia continuavam a infor- 
mar-se dos ditos e a reparar para os rumores 
públicos. A aventura de Francisco Manoel 
com o Familiar, a fugida audaciosa do pro- 
scrito, eram o assumpto do dia. Dizia-se baixi- 
nho, que o malaventurado emissário solto da 
prisão fora dar conta do seu insuccesso ao 
Inquisidor geral, que o reprehendeu de um 
modo esmagador ; ou por vergonha, ou por 
tristeza ou por covardia elle não sobreviveu 
muito tempo á impressão terrível que isto lhe 
causara. 

«Muitas vezes os homens generosos que 
velavam pela salvação de Francisco, observa- 
ram tremendo os olhares ferozes e impreca- 
ções cruéis dos seus perseguidores. Um dos 
seus mais fervorosos amigos, o Conde de ** 
(de Vimieiro?) tendo ido fazer uma visita 
officiosa a um dos Inquisidores, ouviu com 
uma alegria secreta, com um sentimento de 
terror, o seu descontentamento pela evasão do 
desgraçado poeta: — Elle fez bem! — Esca- 
param-lhe estas palavras, e por ellas o conde 
previa o destino do seu amigo, se lhes cahisse 
nas mãos ou se fosse descoberto.» ^ 

Depois doesta narrativa da parte das re- 
miniscências de Filinto, vamos ver a descrip- 
ção do próprio Familiar do Santo Officio Ma- 



Poésie lijrique, p. xviii a xxii. 



FILINTO ELYSIO 287 



noel Caetano de Mello na Participação da 
Fuga do Padre: 

« 111."^^ Sr. Consta geralmente que o Padre 
Francisco Manoel, Presbytero secular con- 
frontado no summario junto feito ex-officio 
n'esta Meza, se absentara d'esta cidade de 
Lisboa no Paquete de Inglaterra, e por que 
em tal caso é indispensável proceder-se a sum- 
mario de fuga nos termos de Direito contra o 
delato, se faz preciso que seja chamado a es- 
ta primeira audiendia o Familiar do Numero 
Manoel Coelho (sic) de Mello com mais duas 
testemunhas que elle aponta, e que bem pos- 
sam depor da referida absencia para que este 
procedimento se execute com a maior brevida- 
de, a fim de que a justiça não continue a pa- 
decer com grave detrimento do mesmo dogma, 
pela esperança que resultará aos seus contrá- 
rios, e de egual credulidade para o delato. 
Por isso pede por parte da justiça etc.» (13 
de Julho de 1778.) 

A 17 doeste mez fez-se o summario da fu- 
^a, comparecendo Manoel Caetano de Mello, 
FamiUar do numero da Inquisição, homem de 
negocio da praça, Cavalleiro j)rofesso da Or- 
dem de Christo e morador na rua de S. Ben- 
to. — Perguntado se conhece ao Padre Fran- 
cisco Manoel, Thezoureiro proprietário da 
Egreja das Chagas e morador na travessa 
da mesma Egreja, disse: 

«Que não tem conhecimento d'elle ; mas 
que sendo encarregado por esta Mesa de 
acompanhar ao Excellentissimo Conde de Re- 
sende, para o prender da parte do Santo 
Officio, fora no dia 4 do corrente examinar 
as casas em que morava e saber se com effei- 



288 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



to assistia n'ellas, tendo avisado antes ao 
mesmo Exceli. "^^ Conde de Resende, e ajusta- 
do com elle que se achasse no sitio da sua 
morada, pelas cinco horas da manhã, para 
fazerem a .diligencia; e adiantando-se elle 
Depoente, a entrar nas mesmas casas, para o 
ter seguro, evitar que não fugisse, succedeu 
que apparecendo-lhe o mesmo Padre mal ves- 
tido, sem meias nem calções, embrulhado so- 
mente em um capote, como elle Depoente o 
não conhecia, imaginando que seria algum 
creado da casa, lhe perguntou pelo dito Pa- 
dre, dizendo-lhe queria fallar sobre uns ne- 
gócios que lhe tinham hido de encommendas 
de Goa, cujos papeis se achavam em poder 
do Patrão-Mór, já defunto e tio do mesmo 
Padre; e respondendo-lhe que o dito Padre 
ainda estava recolhido, mas que elle lhe iria 
dar parte do negocio em que se f aliava ; e en- 
trando com effeito em um quarto em que fin- 
giu estar o dito Padre, viu elle Depoente que 
logo abrira uma papeleira, da qual tirou uns 
papeis que lhe veiu entregar, dizendo que 
aquelles eram os papeis que procurava, e que 
podia ver muito á sua vontade; e receben- 
do-os elle Depoente, e estando a examinal-os, 
desconfiando que o dito sujeito que lh'os en- 
tregou era o próprio que procurava, lhe dis- 
se, sem lhe dar comtudo a parte do Santo 
Officio, se fosse vestir, porque andava por 
aquelle modo indecente ; e entrando por effei- 
to doeste recado para o referido quarto, dan- 
do a entender que se ia vestir, observando 
elle Depoente, que tardava, e não sentindo 
movimento algum, nem acção de se estar ves- 
tindo, entrou em o dito quarto para se affir- 



FILINTO ELYSIO 239 



mar, e então conheceu que o mesmo sujeito 
não estava no quarto e tinha descido por uma 
escada que dava serventia para outros quar- 
tos inferiores, e d'ahi para a porta da rua, 
por cuja causa correu logo a mesma porta, 
na qual tinha deixado um creado seu ; e per- 
guntando-lhe se por ella tinha sahido alguma 
pessoa, lhe respondeu que tinha sahido um 
homem embrulhado em um capote alvadio 
com uma cabelleira na cabeça; e entendendo 
elle Depoente, que era o mesmo que procura- 
va, por lhe ter apparecido também com um 
capote alvadio, partiu immediatamente com o 
mesmo creado em busca d'elle, mas já o não 
pode encontrar, de sorte que quando d'ahi a 
pouco chegou o dito Exceli."'^ Conde de Re- 
sende, elle Depoente lhe contou tudo o que 
tinha passado, e se certificaram que a diligen- 
cia estava perdida, e que já não podia ter 
effeito ; porque aquelle homem que sahiu pela 
porta fora, e que com a sua fugida se occul- 
tara, 'era o próprio Padre Francisco Manoel, 
de cuja prisão estava encarregado da parte 
d'esta Meza.» 

« Que ouviu publicamente dizer, que elle 
se retirara para o Paquete, e que no dia se- 
guinte partira para Inglaterra ; e que não 
sabe parte certa em que presentemente as- 
sista. 

« Perguntado por que rasão não deu im- 
mediatamente parte a esta Meza do máo suc- 
cesso que tivera na sobredita dihgencia, para 
que a mesma Meza tomasse a este respeito as 
diligencias que parecessem necessárias, disse : 

« — Que não fizera assim, porque como 
não tinha dado a parte do Santo Officio 



240 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



áquelle sujeito que lhe appareceu, nem a ou- 
tra pessoa alguma da mesma casa, e tinha 
usado do pretexto do negocio da índia, como 
acima deixou dito, ficou entendendo que elle, 
nem outra pessoa alguma podia suspeitar que 
a diligencia a que ia era ordenada por esta 
Meza; e se persuadiu, que elle tornaria a vol- 
tar á mesma casa, e esperava então prendel-o, 
para cujo effeito poz vigias, e elle mesmo fi- 
cou vigiando as casas n'esse e no seguinte, 
até que finalmente se desenganou pelas vozes 
publicas, que corriam, que elle se tinha refu- 
giado no Paquete, e partido para Inglaterra, 
e mais não disse.» 

O esbirro não falia na scena do punhal, 
porque isso o prejudicaria diante do horrendo 
Tribunal. O depoimento do creado de Manoel 
Caetano de Mello fixa o dia da visita domici- 
liaria em 4 de julho, e é elucidativo: 

Chamava-se Manoel Dominguez, solteiro, 
natural da Galliza, de edade de 40 annos, 
pouco mais ou menos, e era boleeiro do fami- 
liar Manoel Caetano de Mello ; declarou que 
não conhecia o referido Padre, porém na occa- 
sião de o ir procurar seu amo ,«a sua própria 
casa, em o dia 4 do corrente pela manhã, 
convidara a elle egualmente, para que se po- 
zesse na porta das casas onde morava, recom- 
mendando-lhe se em cima no sobrado ouvisse 
vozes ou signaes de briga, elle mettesse as 
portas dentro se estivessem fechadas, e lhe 
desse soccorro contra quem o quizesse acom- 
metter, e que praticando-o assim, e achando- 
se n'esta vigia, vira descer um homem cober- 
to com um capote e lhe parece que com cabel- 
leira, e este sahira para fora sem lhe dizer 



FILINTO ELYSIO 241 



cousa alguma ; e que ao depois descendo seu 
amo e perguntando-lhe se tinha sahido al- 
guém, elle lhe referira ter sahido aquelle ho- 
mem, a quem elle depoente por uma parte, 
e seu amo por outra procuraram nas ruas 
visinhas para o apprehenderem ; o que com 
effeito não poderam executar pelo não terem 
achado. . .» 

Em vários logares das suas Obras Filinto 
aponta o nome do Familiar do Santo Officio 
que fora para o prender ; por ventura o co- 
nheceria de vista, ou de Portugal lhe revela- 
ram quem era o sujeito: « ás 6 horas da ma- 
nhã me bateu á porta o Famihar do Santo 
Officio, Manoel Caetano de Mello.» ^ Na nota 
em uma Carta em verso ao seu intimo amigo 
Mathevon de Curnieu ainda lembra os onze 
dias em que esteve escondido, antes de con- 
seguir escapar-se de Portugal. ^ Sane, na bio- 
graphia de Filinto, conta assim as remini- 
scências do poeta: «Estes onze dias, estes on- 
ze séculos, Francisco Manoel passou-os em 
uma anciedade fácil de avaliar. — Estes lon- 
gos dias de angustia e de terror corriam com 
uma lentidão acabrunhante. O navio, prestes 
a largar, esperava o vento em Paço d'Arcps, 
pequena bahia do Tejo, a duas legoas de Lis- 
boa. 

«Finalmente, no undécimo dia (15 de ju- 



1 Obras, t. xi, p. 23. 

2 Ib.y t. v, p. 860: «Nos onze dias que estive ho- 
misiado, nunca o socego de espirito foi tão sobejo que 
desse largas ao somno.» 



*242 HISTORIA DA LlTTEKATURA PORTUGUEZA 

lho de 1778) o Marquez de *** (de Marialva?) 
amigo fervoroso, homem instruído, militar 
cheio de coragem e brio, entrou no asylo de 
Francisco Manoel, abraçou-o e disse-lhe : — 
Ides partir para França. — Ainda bem, para 
França; mas, ah! Portugal... — Não tendes 
um instante a perder; tomae ainda este ulti- 
mo disfarse. Eram os trajos dos marujos que 
trabalhavam no carregamento do navio. En- 
traram para a carruagem do Marquez, pucha- 
da a quatro possantes cavallos, e rodam com 
a maior rapidez. Passaram por diante da ca- 
sa de Francisco Manoel, ainda guardada por 
numerosas sentinellas; ^ bem penoso foi esse 
momento; nunca mais alli entraria; o coração 
confrangeu-se-lhe. 

v< Chegaram a Paço d' Arcos. O navio esta- 
va a uma só amarra. Francisco misturou-se 
com a marujada na praia, e conduziu para 
bordo uma canastra cheia de laranjas; eil-o 
sobre o convés. Desfralda-se o panno ; mas^ 
que perigos ainda! Os signaes do fugitivo ti- 
nham sido enviados a todos os postos das 
fronteiras; era preciso passar por diante das 
baterias das torres do Bugio e de San Julião, 
que defendem as duas margens do Tejo na 
sua embocadura, e ahi ser revistado. O pro- 
scrito apoquentava-se. — Estae tranquillo, dis- 
se-lhe o capitão ; os commandantes são meus 
amigos, e não visitarão o navio. E effectiva- 
mente as sentinellas contentaram-se em bra- 



^ Concorda com a narrativa do Familiar Manoel 
Caetano de Mello. 



FILINTO ELYSIO 243 



dar : — ■ Quem vem lá ? — Navio portuguez ! 
respondeu o piloto. (Trazia essa bandeira.) 
Já se está ao largo, abraçam-se, choram de 
alegria: — Estaes salvo, meu amigo! disse o 
capitão; agora, vamos almoçar. 

«Novos sustos ! O velho navio tinha per- 
manecido muito tempo ancorado, e era ron- 
ceiro ; as madeiras tinham-se fendido com o 
ardente calor do sol, e descobriu-se que fazia 
agua. A tripulação l3otou-se toda ás bombas. 
Fallava-se já em arribar ao Porto, onde Fran- 
cisco Manoel devia estar apontado pelos si- 
gnaes com mais insistência, porque d'essa 
cidade era o ponto d'onde partiam mais na- 
vios ; porém, á força de trabalho conseguiu-se 
calafetar a fenda, e o perigo desappareceu. 

«No alto mar, occorreram ainda perigos; 
avistaram os chavecos barbarescos, aos quaes 
fugiram. Muitos navios americanos o visita- 
ram, de espada desembainhada, a Guerra da 
Independência proseguia com encarniçamen- 
to. Um tufão os arroja quasi para as agoas 
dos Açores ; e julgaram-se quasi perdidos so- 
bre os recifes de Jersey. Alfim, depois de 
uma longa viagem de vinte e sete dias, che- 
garam ao Hâvre. Francisco Manoel dirigiu-se 
para Paris a 23 de Agosto doesse mesmo 
anno.» ^ 

Juntamente com Filinto, fugia também 
para França ás garras da Inquisição e do Ri- 
gorismo do reinado de D. Maria i, Feli^ da 
Silva Avellar, acolyto e capellão da Patriar- 



Foésie lyriqiie, p. xxiii a xxv. 



244 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

chal, moço que pela sciencia se havia de im- 
mortalisar com o nome de Brotero, Por ami- 
sade e recursos do negociante e industrial 
Thimoteo Lecussan Verdier, ^ embarcaram os 
dois perseguidos na Trafaria, a bordo do na- 
vio sueco Nicolâo Roque, que os deixou no 
Hâvre de Grace. D'alli seguiram ambos para 
Paris, onde fixaram residência, encontrando 
alguma protecção no embaixador D. Vicente 
de Sousa Coutinho, e valiosa intimidade no 
Dr. António Nunes Ribeiro Sanches, sábio 
medico de reputação europêa. Silva Avellar 
(Brotero) começou a frequentar as aulas de 
Sciencias naturaes, que seguiu por doze an- 
nos, tornando-se amigo intimo de Vicq de 
Azyr, de Daubanton, Brisson e Jussieu, sen- 



1 Era filho do negociante francez Miguel Lecus- 
san Verdier, negociante francez estabelecido em Portu- 
gal, e de D. Antónia Thereza Vieira, natural de Porto 
de Moz. Nascera em Lisboa em 5 de Outubro de 1758 
(em 1808 declara no Assento do Livro da Antiga Ca- 
dêa da Corte, ter 54 annos.) Teve uma esmerada cul- 
tura litteraria, explicável pela convivência com Fran- 
cisco Manoel. Juntamente com o francez Jacome Rat- 
ton fundou a Fabrica de Fiação de Tliomar, a qual na 
invasão de 1807 soffreu destroço, sendo elle preso por 
ordem da Regência em 6 de Dezembro de 1808, e ex- 
pulso do reino em 29 de Janeiro de 1809. Passou para 
Tanger, onde diz ter encontrado mais justiça e huma- 
nidade do que em Portugal. Fez grandes serviços á 
Litteratura portugueza, como o attestam a publicação 
do Hyssope em 1817, as edições dos Lusíadas de IS 19 
e 1823, e a prefação do Cancioneiro do Collegio dos 
Nobres em 1823. Voltou a Portugal em 1825; foi só- 
cio da Academia real das Sciencias, e correspondente 
do Instituto de França. Faleceu em 10 de Novembro 
de 1831. 



FILINTO ELYSIO 245 



do admitticlo na convivência de Buffon, Con- 
dorcet, Cuviei^ e Lamarck. ^ 

Emquanto o foragido Filinto levava já 
cinco dias de viagem, no dia 20 de Julho 
eram interrogadas duas testemunhas na In- 
quisição para a prova da sua fuga: — José 
Luiz António Fernandes, official de sapateiro 
com loja aberta na Travessa chamada das 
Chagas, de edade de 37 annos, natural de 
Lisboa ; disse que conhecia o Padre Francisco 
Manoel « por ser seu visinho haverá anno e 
meio pouco mais ou menos» — «que no dia 
de sabbado, 4 do corrente mez, pelas seis ou 
sete horas da manhã, chegou á sua porta o 
Familiar do Santo Officio Manoel C. de Mel- 
lo, e lhe perguntou. . . » « sahiu para fora o so- 
bredito Padre Francisco Manoel, embrulhado 
em um capote alvadio, e caminhou apressa- 
damente pela rua que vai para as Chagas. . . » 
V Declarou mais, que passados dois ou três 
dias, veiu um Sargento de Artilheria, que 
dizem mora em Belém, ao qual não sabe o 
nome, ás mesmas casas, e fez metter em uma 
sege ao Pae e Mãi do dito Padre, que se 
achavam doentes e ?nuito velhos, e os condu- 
ziu para o dito sitio de Belém; e no dia se- 
guinte fez da mesma sorte conduzir por uns 
gallegos todos os trastes e fato que se acha- 
vam nas mesmas casas do dito P.^ Francisco 



^ O nome de Brotero é formado do grego Broto 
e Eros, que significa Amigo dos 7nortaes ; Av^ellarado- 
ptou-o por aquelle espirito que dirigia a nomenclatura 
botânica, em que se tornou eminente. Vid. Instituto de 
Coimbra, vol. xxxvii, 367. 



246 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Manoel a elle pertencentes, que eram bastan- 
tes, e alguns preciosos e ricos, como dois es- 
pelhos grandes de vestir, placas, papeleira, 
cravo, cadeiras, mezas de jogo, e outras mais 
cousas ; ficando somente nas casas um homem 
que se chama Joaquim, com familia, que pre- 
sentemente ainda nas mesmas casas assiste.» 

Em 23 de julho foi interrogado Bazilio 
Oristador, genovez de nação, casado com Isa- 
bel dos Anjos, de edade de 55 annos, official 
de entalhador, e com casa de bilhar, morador 
na travessa da Egreja das Chagas; declarou 
que « era visinho da mesma escada ; circum- 
stancia por que o conhecia.» Com isto ficou 
«provada a fuga do P.® Francisco Manoel do 
Nascimento. j> 

Continuaram a inquirir-se novas testemu- 
nhas para correr o processo á revelia, e 
depois da condemnação se fazer o confisco 
dos bens do ausente ; são preciosos os factos 
allegados para o conhecimento da vida intel- 
lectual do meado do século xviii, mas antes 
de os transcrever pelo seu valor histórico, 
importa desvendar d^onde proviera esta infa- 
missima perseguição religiosa e politica con- 
tra Filinto. 

Nos versos que elle escreveu, passado um 
anno, commemorando o dia 4 de Julho, con- 
signa de um modo positivo ter sido sua pró- 
pria mãe, velha e dementada pelo fanatismo 
de um frade explorador, que o accusára á 
Inquisição; transcrevemos algumas estrophes 
d'essa Ode: 

Morreram os meus bens, e a minha fama ; 
Nem doce Orpheo, nem arrojado Alcides 
D^esses Cerberos crus ouse arrancal-os 
A's garras cubiçosas. 



FILINTO ELYSIO 247 



Nova Medéa^ ao filho que gerara, 
Deu (quam pesado poude!) o duro golpe 
C^o braço novercal; c^o hervado alento 
Bafejou a innocencia. 

Que prazer da calumnia bem medrada 
Não colheram devotos Embusteiros, 
Que em chammas cevam de christãs fogueiras 
Caridadç aleivosa ! 



Em nota ao hervado alento, esclarece o 
facto : « Induzimentos do seu Confessor, que 
lhe intimou revelações de uma freira da Ma- 
dre de Deus, que vira no inferno uma cadei- 
ra de braços, de ferro em braza, que me es- 
perava.» (IV, 146.) Em Ode dirigida ao seu 
erudito amigo Guilherme José Billing allude 
outra vez ao facto da delação de sua mãe: 



Quanto vai calejada paciência 
Contra um mundo embebido de ignorância! 
Égide adamantina, em que despontam 
As flechas do infortúnio. 



Eu da cahimnia e inveja alvo patente, 
No seu bojo aparei ódio de frades. 
Angustias, perdas, ameaçados fogos, 
E a maternal Megera ! 

(Ob)\, IV, 164.) 



A pobre e estúpida velha Maria Manoel 
foi induzida por um miserável frade a accu- 
sar o próprio filho! Em uma Ode ao seu an- 
niversario, datada de Paris em 23 de Dezem- 
bro de 1779, allude Filinto a mais dois per- 
sonagens que trabalharam para a sua ruina : 



248 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Maldito o Bonzo, e mais maldito o Nayre 
Que calumnioso urdiu o meu desterro; 
Malditissimo o estúpido fanático 
Que encommendou a queima ! 

(Oòr., IV, 150.) 

O Naire torna-se nos versos de Filinto um 
personagem importante, um fidalgo acérrimo 
pelo seu orgulho; o poeta chega mesmo a 
apontal-o pelas iniciaes do seu titulo, e essa 
revelação ata o fio de uma intriga suscitada 
pelos venturosos dias dos Outeiros poéticos 
de Chellas. 

Na Ode em que Filinto commemora o dia 
4 de Julho, em que fugira ás garras da In- 
quisição, eram já passados outo annos, des- 
cobre elle por iniciaes o nome do Marquez de 
Alorna como o seu denunciante ao tremendo 
tribunal : 

Vê no monte os amigos, que derramam 

De gosto e de saudade muito pranto; 

Vê a masmorra, o Delator raivoso 
E os Verdugos mordendo 

As mãos, a que magnânimo escapaste; 
Vê a feroz calumnia 
Que nos teus bens se vinga. 

(Oòr., IV, 92.) 

E em nota ao Delator raivoso põe as ini- 
ciaes O. M. d' A... que hoje se lêem irrefraga- 
velmente O Marquez d' Alorna, 

Alexandre Sane, no esboço biographico de 
Francisco Manoel, ifaz allusão a esse fidalgo 
sem revelar-lhe o nome, mas dá-o como o 
perseguidor do poeta : « Elle teve uma dis- 
cussão accalorada com um personagem de 



FILINTO ELYSIO 249 



alta gerarchia ; as famílias de ambos eram 
amigas; Francisco Manoel tinha prodigalisa- 
do a este individuo as mais activas consola- 
ções, em uma época em que elle incorrera na 
desgraça do Príncipe e na de um ministro 
omnipotente. Este fidalgo, de um caracter 
pouco nobre, considerou-se ferido no seu or- 
gulho; concebeu baixas ideias de vingança. 
Os inimigos de Francisco Manoel alentaram 
as paixões doeste ingrato, e encenderam-lhe 
o rancor; e, tendo readquirido as graças, fez- 
se o indigno instrumento de suas maquina- 
ções. Carregou com falsas accusações um súb- 
dito submis'so, calumniou a sua religião, in- 
fluiu na soberana actuando nos seus escrúpu- 
los, e serviu-se da mão regia para vibrar o 
golpe o mais inevitável e o mais mortal. — A 
Inquisição, fortalecida com o assentimento ré- 
gio, não guardou mais attenções.» ^ Paulo 
Midosi em uma Gaiata ao Compadre Lagosta 
(José Agostinho de Macedo) revela este mes- 
mo facto, nomeando o Alorna, e levantando 
um fio da intriga : 

« O celebre Doutor Sanches, honra da Me- 
dicina portugueza, teve de emigrar para a 
Rússia se quiz escapar ás garras dos Padres 
tristes! Os mesmos vampiros, por satisfazer 
a certo Naire (o Conde — lêr Marquez — de 
Alorna) a quem elle na sua desgraça susten- 
tara, e que então fechara os olhos aos amo- 
res d'elle com sua filha, estiveram a ponto 
de empolgar Francisco Manoel do Nascimen- 



Poésie ly Tique, p. xvii. 



250 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

to, que foi acabar pobre e desvalido em Fran- 
<^a, confiscados seus bens na pátria, a quem 
deu tanta gloria em seus escriptos.» ^ 

Também José Maria da Costa e Silva col- 
ligiu esta tradição corrente no seu tempo, 
escrevendo acerca da denuncia de Filinto : 
« Com a morte de El rei D. José e a demis- 
são do Marquez de Pombal, foram soltos os 
presos de estado, e entre elles o pae da mo- 
derna Laura restituído ás suas honras e á 
fruição do seu solar e riquezas. * Este Naire 
(é com este nome que Francisco Manoel o 
designa em seus versos) talvez cioso de hon- 
ra, talvez affrontado de que sua familia ti- 
vesse sido soccorrida por um plebeu, quiz 
perder o poeta, e para esse fim usou de ma- 
nejos verdadeiramente aristocráticos. Foi-lhe 
fácil achar nos frades o instrumento de que 
precisava. Um franciscano, confessor e direc- 
tor espiritual da mãe do poeta, que era uma 
mulher crédula e supersticiosa, se offereceu 
para dirigir a intriga, fazendo persuadir a 
pobre velha da pretendida visão em que uma 
freira grilla baixando em espirito ao inferno 
tinha alli visto uma cadeira de ferro em bra- 
za para a alma de seu filho então alli eterna- 
mente sentado; abusando da sua simplicida- 
de lhe fez crer que o único meio de salval-o 
da condemnação eterna estava em ella pro- 



^ Carta 10.^, ao Compadre Lagosta j datada de 
Londres em Junho de 1829. — Inédita na Academia 
das Sciencias por offerta do Dr. Henrique Midosi. 

2 Decreto de 17 de Maio, de 1777. 



FILINTO ELYSIO 251 



pria o denunciar ao Santo Officio ; ella assim 
o fez, e se passaram as ordens para elle ser 
capturado.» ^ Todo este horror se attenúa 
diante da informação extra-judicial, de 23 
de Março de 1779, assignada por Mathias de 
Andrade de Almeida: «os ditos pães, Ma- 
noel Simões e Maria Manoel são vivos, elle 
se acha cego e pedindo esmola e se recolhe 
pelo amor de Deus em casa de um barbeiro 
ao Chiado, . . .e a mãe está com pouco jiiizo 
em casa de uma sua afilhada.» Dos bens que 
constituíam o património de Francisco Ma- 
noel tomou posse uma sobrinha do Patrão- 
Mór. Uma enfiada de crimes e torpezas, em 
que a pobre familia além de espoHada de re- 
cursos era moralmente infamada, como se vê 
por essa malevolente informação extra-judi- 



cial. 



^ Ramalhete, tom. iv, p. 101. 

2 « Convém saber-se na Meza do Santo Officio 
doesta Inquisição de Lisboa, por informação extra-ju- 
dicial, que se tirará em segredo, e com maior cautelia, 
de pessoas antigas, noticiosas e fidedignas, se o P.«^ 
Francisco Manoel do Nascimento, Thesoureiro Proprie- 
tário da Egreja das Chagas, e hoje ausente d'este Rei- 
no, foi sempre nomeado pelo sobredito nome, sobre- 
nome e apellido, ou se em algum tempo foi conhecido 
com alteração ou diminuição n^elles. Outrosim d\)nde 
he o sobredito natural, como se chamavam seus Paes, 
onde foram moradores, que occupação tiveram, e se 
são vivos ou mortos, e onde assistem. 

«V. m.cí' se informará do referido com a maior ex- 
acção, cautelia e brevidade, e do que resultar n^esta 
expenderá: como também passando á freguezia de que 
houver noticia ser natural o dito Padre, e buscando os 
Livros do Baptismo do mesmo ; declarando ultimamen- 



252 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

Na Inquisição de Lisboa proseguia o pro- 
cesso, sendo em 30 de Julho de 1778 passa- 
da ordem para serem interrogados Fr. Plácido 
de Andrade Barroco, Frei Jorge de S. Fran- 
cisco, Fr. Simões da Conceição e o boticário 
Thomaz de Aquino. Nada pode substituir as 
delações espontâneas d'esses cérebros obtu- 
sos, para representar o estado do espirito no 
fim do Grande século e a reacção contra as 
ideias modernas. Transcrevemos como texto 
histórico esses extraordinários depoimentos. 

A 4 de Agosto de 1778, Fr. Jorge de 
S. Francisco, natural de Lisboa e actualmen- 
te Guardião do Convento de N. S.^ dos An- 
jos, do Sobral, junto da villa de Alhandra; 
de 53 annos de edade ; disse: «que haverá 
quatro para cinco annos, viera o dito Padre 
(Francisco Manoel) com outras pessoas da 



te os dias que gastou n^esta diligencia, e os livros que 
sem effeito buscar.» «Ao Comm.o Mathias de Andrade. 
Lisboa, Santo Officio, em Meza, 2 de Março de 1779. 
Larre. » 



«Procedendo á diligencia extra--judicial retro, que 
V. S.^^ foram servidos commetter-me, sobre o contheu- 
do na mesma pertencente ao P.*^ Francisco Manoel do 
Nascimento, me informei meudamente das pessoas re- 
feridas no fim doesta, fidedignas, legaes, noticiosas e 
antigas, e dos mesmos consta, que conheceram sempre 
ao dito Padre, com nome e sobrenome e apellido, e 
assim nomeado, e que em nenhum tempo souberam 
fora conhecido com alteração ou diminuição n^elles: 
ouviram uns e outros, entendem ser o dito Padre na- 
tural da Freguesia de S. Julião d'esta cidade, e uma 
disse ser natural da dita freguezia ; que o dito Padre é 



FILINTO ELYSIO 253 



€idade de Lisboa, a este convento onde pas- 
sou a noite..,» Seguiu-se a depor o P.® M. 
Fr. Simão da Conceição, natural da Villa da 
Olivença, de edade 53 annos, e continuou: 
« que o P.® Francisco Manoel alli viera na 
companhia do Dr. Luiz da Silva, Ouvidor da 
Casa da Moeda, João da Silva, Joaquim José 
de Sousa, e que ahi não disse cousa contra a 
Fé. . . mas que na sua casa lhe ouvira dizer, 
que não eram precisas pinturas do Espirito 
Santo e dos Anjos; e que de outra vez olhan- 



I 



^ Thesoureiro collado da Freguezia das Chagas, e mora- 
dor, quando se ausentou, em umas casas de Monsieur 
Pedro, Marcineiro, quasi defronte do palácio de ca- 
LHARiz, com seus pães, e com Joaquim José Pereira 
de Sousa; ouviram alguns dizer que o dito Padre se 
embarcara no Paquete para Londres, e muitos ouvi- 
ram que se acha em Paris de França, e que se corre- 
sponde com o dito Joaquim José Pereira de Sousa, mo- 
rador presentemente ao cães doSodré, rua do Arsenal, 
e que também escreve ao Padre Frei Fiiippe de San 
Thiago, do Convento de S. Paulo doesta cidade; conhe- 
cem seus pães, Manoel Simões e Maria Manuela, elle 
foi Fragateiro e teve sua fragata, ella vendeu 
PELAS RUAS peixe c outras cousas comestíveis ; foram 
moradores antes do Terremoto com o dito P.^* e João 
Manoel, que morreu Patrão Mór, e então era Mestre 
DAS Fragatas reaes, na rua da Ferraria, freguesia de 
S. Julião, nas casas de José Rodrigues Torres, infor- 
mante n^esta Diligencia, e também na rua dos Merca- 
dores da dita freguesia ; depois do terremoto foram 
todos assistir em uma Barraca á Cotovia, e na Rua do 
Valle, freguesia de N. S. das Mercês: quando o dito 
João Manoel saiu Patrão Mór, levou todos comsigo 
para as Casas da Ribeira das Náos, que lhe dá El-rei ; 
os ditos pães, Manoel Simões e Maria Manuela são vi- 
vos, elle se acha cego e pedindo esmola, e se recolhe 
pelo amor de Deus em casa de um Barbeiro ao Chiado 
junto á Egreja de N. S. da Boa-Hora; e a mãe está 



254 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



do para uma pintura de Adão, disse que era 
sonho de Moysés ; em outra vendo uma pes- 
soa do sexo feminino, em casa do dito Joa- 
quim José de Sousa, olhou para uma imagem 
de N. S. em a acção de dar de mamar a seu 
bento filho, olhou para a sobredita mulher^ 
por nome Marianna Rosa, mulher do sobre- 
dito Escrivão, como quem fazia escarneo: 
— Olhe para aquella Senhora, que está dan- 
do de mamar a seu filho, está celebre pintu- 
ra! E permitte a egreja isto?=E em outras 



com pouco juizo em casa de uma sua afilhada, casada 
com Maximiliano Gomes, Carpinteiro da Ribeira das 
Náos, ao Terreirinho, freguesia de Santa Catherina; 
ouviram muitas pessoas informantes dizer, que o pae 

CERTO DO DITO PADRE ERA JOÃO MANOEL, QUE MORREU 

PATRÃO MOR; O Reitor da Egreja da ('onceição nova, 
diz que o dito P.^ lhe dissera, que era filho do referido 
Patrão Mór; o Cura da Egreja das Chagas, diz que o 
dito P.^' lhe dissera, que elle era filho do mencionado 
Patrão Mór, e sua mãe Maria Manuela era n^aquelle 
tempo amiga d^elle, e casada ao mesmo tempo com 
Manoel Simões; o dito Cura tirou do sentido ao P.^* 
Francisco Manoel do Nascimento, que queria, pela mor- 
te do referido Patrão Mór, juntar papeis, em que mos- 
trasse ser filho d'elle, para herdar os bens que ficaram, 
allegando-lhe o dito Cura, que não fizesse isso por ser 
mulher casada. Também Francisco da Silva de Carva- 
lho, ouviu dizer que o dito P.^ proferira — Sou filho 
de João Manoel, Fatrão-mór. í]ste teve intento de or- 
denar ao dito Padre, como seu filho, e como viu que» 
não podia conseguil-o, o fez ordenar filho de M.^i Si- 
mões e Maria Manoela, e lhe alcançou a Thezouraria 
da Egreja das Chagas. 

O dito Padre chamava em casa Mano ao referido 
Patrão Mór; e por fora Thio, (Comprou o dito Padre 
em vida do Patrão Mór, uma quinta em Camarate, 
além de outras propriedades em Lisboa, na rua do 
Valle e do Tinhal a S. José, e em uma d'ellas tem o 



FILINTO ELYSIO 255 



occasiões: — Estamos em um Reyno, em que 
não pode a gente escrever por o medo doeste 
Santo Officio.» — «Em outra occasião achan- 
do-o bastante melancholico lhe perguntou elle 
testemunha, que tinha ? Respondeu, que tendo 
umas historias com dois Padres de Rilhafolles 
em casa de um Kvreiro, cujas historias não 
quiz relatar, só disse que os Padres de Rilha- 
folles tinham amisade com o Santo Officio, 
que já d'ali o iam denunciar, e que indo ao 
outro dia a ter com elle testemunha, o achou 



seu património, e dizem que o referido Patrão Mór, 
lhe deu o dinheiro para estas compras. O mesmo Pa- 
dre e M.»^! Simões seu intitulado Pae, e M.^ Manoela 
sua mãe, por morte do Patrão Mór, tomaram posse 
dos seus beus, porém dizem, que pela ausência do di- 
to Padre appareceu em Juizo um Procurador com Pro- 
curação de uma sobrinha legitima do mesmo Patrão 
Mór, e tem tomado posse de tudo que ficou por morte 
do referido Patrão Mór; e o P.^' Sebastião José da Pie- 
dade, informante, me disse escrevera ao P.'- Francisco 
Manoel do Nascimento, a Paris de França, por via do re- 
ferido Joaquim José Pereira de Sousa, avisando-o does- 
ta Posse, e que se quizesse lhe mandasse procuração, 
para se oppôr a isto, e até agora não lhe deu resposta. 
Procurei a certidão do Baptismo do dito P.*^ na fregue- 
sia de S. Julião, e não achei, porque os livros todos se 
queimaram no incêndio successivo ao Terramoto de 
1755, como também procurei os que servem depois do 
dito Terrem.oto, e não se acha no referido Assento ; e 
passando ao Cartório da Gamara Ecclesiastica do 
Patriarchado, para tirar a dita Certidão dos Autos da 
ma habilitação, disse-me o Official da mesma Camará, 
que os mandara em Fevereiro próximo passado para 
este Santo Tribunal, por ordem que lhe veiu do mesmo. 
E^ o que posso informar a V. S.''^ que mandarão o que 
forem servidos. Lisboa, 23 de Março de 1779. De V. 
S.^^« obediente súbdito O Comissário Mathias de An- 
drade Almeida.» 



256 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



já muito alegre, lhe perguntou em que tinha 
parado o seu dissabor? Respondeu: Fui ter 
com o MEU Bispo de Beja, narrei-lhe a histo- 
ria, e disse-me não fizesse caso d^isso, e não 
ficando eu descansado, fui ter com o meu 
amigo Francisco Xavier de Mendonça e 
narrei-lhe o caso, respondeu o mesmo, que 
não fizesse caso d'isso, e não ficando descan- 
sado, fui ter com o meu amigo Paulo de Car- 
valho, e narrando-lhe o caso, me respondeu: 
Descansa, Padre Francisco Manoel, o Santo 



Pessoas informantes : 

O Reverendo Reitor da Egreja da Conceição nova. 

O Rev.^o Cura da Egreja das Chagas. 

José Rodrigues Torres, homem de negocio, freguez 
do dito Reitor, na rua da Barroca, freguesia da Encar- 
nação. 

Francisco da Silva Carvalho, Patrão do Escaler do 
Bem-commum, na rua de S. João da Mata, freguesia 
de Santos. 

Rev.^^o Prior de S. Julião. 

Rev.^^o M.í^i de Sousa, cura de S. Julião. 

Rev.^o Sebastião José da Piedade, Thez.<> interino 
da Egreja das Chagas. 

Ant.** Francisco Rosa, Mestre das Fragatas reaes, 
morador na rua da Enveja, freguesia da Pena. 

Calixto José Cardoso, Contramestre das ditas Fra- 
gatas, morador junto á Egreja das Chagas. 

António Lourenço, morador á Mouraria, defronte 
das Hortas, mestre das Fragatas reaes. 

O Rev.^^^ José Pedro. 

O Rev.^''' António José. 

O Rev.*^*^ M.t-^ José de Sousa, todos estes três pa- 
dres em occupações na Patriarchal.^= Certifico que gas- 
tei na expedição doesta Dilis^encia três dias e mais duas 
buscas nos Livros, sem effeito. Dia, mez e éra, ut su- 
pra. O Comm. Mathias de Andrade e Almeida.» 

(Torre do Tombo, Processo do Santo Officio, n.° 14:048.) 



FILINTO ELYSIO 257 



Officio não está hoje como estava algum dia.» 
Disse este tratante de Frei Simão, que em ca- 
sa de Marianna Rosa, havia uma vida de 
S. Francisco de Assis com estampas, e com 
notas de Luthero ; que P.® Manoel, explicava 
a estampa de S. Francisco «estar parindo 
Christo crucificado por uma teta » — « que a vi- 
da do dito P.® Francisco Manoel não era mui- 
to ajustada nem conforme com o seu estado, 
vivendo luxuriosamente; que nam he falto de 
juizo, nem o viu nunca inebriado.» (6 de 
Agosto de 1778.) 

Em Coimbra, a 8 de Agosto de 1778, na 
casa do despacho da Inquisição de Coimbra, 
diante do Inquisidor Pedro Carneiro de Fi- 
gueirôa, foi interrogado como testemunha 
D. Rodrigo da Cunha Manoel Henriques Mel- 
lo e Castro, natural de Lisboa, e de 27 annos 
de edade ; disse que se achou umas três vezes 
com elle, e que lhe repetia os mesmos argu- 
mentos, que elle não refutava. 

Este depoimento é de alta importância, 
porque descreve o estado dos espíritos no sé- 
culo xviii; elle havia escripto ao Inquisidor 
uma carta da sua quinta do Almegre, datada 
de 11 de julho de 1778, dando conta do que 
passara com José Anastácio da Cunha, pre- 
so já na Inquisição: 

«Que elle declarante contraiu amisade com 
José Anastácio da Cunha, . . .e com elle teve 
communicação frequente, indo a sua casa, 
onde praticavam publicamente sobre Poesia, 
Eloquência e Bellas Letras, e como n'esse 
tempo, que já haverá dois annos, estavam in- 
festadas as conversações pela corrupção da 
época, que admittia tratar-se de pontos de 



258 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

disciplina, de Dogmas, de matérias tocantes á 
nossa Religião Catholica, ainda que elle de- 
clarante antes de ter entrado na dita casa,, 
ignorava tudo o que era pernicioso, ...» « Dis- 
se mais qije as pessoas que commumente fre- 
quentavam a dita assembléa eram José Anas- 
tácio, João Paulo Bezerra, seu companheiro, 
que he natural de Lisboa, filho de uma se- 
nhora que é casada com Rubim, o Doutor 
José Francisco Leal, lente de Medicina, n'esta 
Universidade, os filhos do Morgado de Ma- 
theus, D. Luiz de Sousa, os filhos de D. Fran- 
cisco Innocencio de Sousa, Embaixador em 
Madrid, o P.^ Apollinario José Vieira da Sil- 
va, natural de Lisboa, d'onde é morador, e o 
Doutor Luiz Coelho, digo Luiz Cechi, lente 
de Anatomia, os quaes se juntavam para fim 
honesto e indifferente, qual o de passeio e de 
passatempo, e a nenhum d^elles viu cousa 
que o fizesse persuadir de que elles viviam 
apartados da nossa santa Fé catholica,...» 
« Disse mais elle declarante, não tem livro al- 
gum de seu prohibido, mas leu a trancos, sem 
ordem de alguns, como o Candide, Dicciona- 
rio Filosophico, e do Evangelho do Dia, 
que andava por cima das mezas na casa do 
dito José Anastácio ; não sabe se eram seus, 
nem se tinha mais, nem também se lembra se 
todos ou se alguns teve em casa d'elle decla- 
rante, por algum tempo emprestados.» «Disse 
mais, que em outra vez que se tratou de 
Atheismo no eTardim das Necessidades, es- 
tando presente o dito José Anastácio, dito 
João Paulo Bezerra, e um francez chamado 
Monsieur Vachi, cirurgião-mór do regimento 
de Valença, e o Dr. Cechi, onde o francez se 



FILINTO ELYSIO 259 



calava, e o Cechi não sabe que partido tomar : 
José Anastácio e João Paulo Bezerra segui- 
ram a verdade dos Deistas, isto é, que ha 
um Deus,...» «Disse mais, que em outras 
vezes se achou em Lisboa, com o P.e Fran- 
cisco Manoel, sobrinho do Patrão Mór da ri- 
beira das Náos, com o qual elle declarante 
lhe produziu os mesmos argumentos, elle so- 
bredito, não só os não contradizia, mas até 
os apontava e annunciava.» 

«Disse mais, que em outras vezes tratou 
as ditas matérias com o Dr. Leal, em outras 
com José Anastácio, e João Paulo Bezerra, e 
outras pessoas que lhe não lembram, indo de 
passeio junto a Santo António dos Olivaes, 
e em uma d'estas está certo elle declarante, 
que acerrimamente defendeu o partido da nos- 
sa Religião...» «Disse mais, que n'estas e 
outras similhantes palestras, fallava elle de- 
clarante em Hobbes, Helvetius, e outros li- 
vros Ímpios, que nunca lera, nem tinha visto, 
mas sabia d'elles pelos ouvir referir em casa 
do dito José Anastácio.» «Disse mais, se lem- 
brar não querer emprestar João Paulo Be- 
zerra um livro de author anonymo, intitula- 
do: Le bon sens, do P.c Meslier, que elle sa- 
bia e elle declarante tinha em seu poder, o 
qual era de José da Silva Moreira, filho de 
um ourives do mesmo nome, morador na 
quinta da Conchada, cujo livro é atheista e 
tão horroroso, que elle declarante o não quiz 
ler, nem o quiz emprestar ao dito, pelo so- 
bresalto que recebeu o seu espirito pelo que 
encontrou na lição da primeira folha.» E 
accrescenta: «se tratou as ditas matérias, foi 



260 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

arrastado do gosto do século, da politica de 
esse tempo e da inconsideração dos annos. . .» 
(Depoimento de Manoel de Sousa:) A 26 
de Agosto, de 1778 foi interrogado o Capitão 
Manoel de Sousa, Engenheiro, natural da 
cidade de Lisboa, e n'ella morador em o sitio 
de Buenos Ayres, de edade de 41 annos, fi- 
lho de João Gonsalves, e Isabel Maria da 
Conceição: «Disse, que por agora lhe não 
lembra pessoa alguma particular, que tenha 
commettido semelhante delicto, exceptuando 
somente a de P.^ Francisco Manoel do Nasci- 
mento ; do qual na denuncia que de si mesmo 
fez a esta Meza no dia 16 de Julho do pre- 
sente anno, disse que elle o tinha por um ver- 
dadeiro atheo; ou que tinha suspeitas que em 
nenhum ponto da religião era seguro.» «Disse, 
que os motivos eram os que veiu a entender 

do TRATO E COMMUNICAÇÃa QUE COM ELLE 

TEVE POR ALGUNS ANNOS, obscrvaudo em ge- 
ral, que tratava tudo o que pertencia á Reli- 
gião como um ponto politico, necessário para 
a sua conservação, porque sempre conheceu 
n'elle, que n'este mundo nenhuma cousa lhe 
importava mais que a sua pessoa, preferin- 
do-a a tudo que n'elle havia; observando. em 
geral, que elle nenhuma Religião seguia em 
particular, por que via pelo que pertence á 
nossa Catholica Romana, dizia frequentemen- 
te missa, sem se confessar antecedentemente, 
ao mesmo tempo que suspeitava que elle ti- 
nha a sua consciência bastantemente emba- 
raçada pela liberdade com que fallava do cre- 
dito e reputação das pessoas mais auctorisa- 
das, e principalmente do recto procedimento 



FILINTO ELYSIO 261 



doeste tribunal. E em uma occasião lhe ouviu 
dizer, que elle se confessava com certa pessoa, 
somente para o desabusar do máo conceito 
que julgava fazia d'elle, do que ficou enten- 
dendo, que elle não usava doeste sacramento 
como manda e prescreve a nossa Religião. 
Via mais, que elle nenhum preceito observa- 
va da nossa Ley, nem da Santa Madre Egre- 
ja; do que tudo fez conceito, que elle somen- 
te no exterior, para escapar dos castigos 
que lhe podiam ser dados, mostrava ser ca- 
tholico ; porém que no interior não tinha ab- 
solutamente Eehgião alguma, mofando de 
todas com indiff crença» «porque como a maior 
communicação que com elle teve, era sobre 

PONTOS DE BELLAS-LETTRAS, SÓ por acaSO C 

incidentemente tocavam em alguns de Reli- 
gião ...» 

— 18 de Fevereiro de 1779: chamado 
Thomaz de Aquino Bulhões, boticário, mora- 
dor em a Calçada de Santa Anna, de edade 
de 55 annos, natural de Lisboa e casado com 
Maria Josepha; declarou, que o que sabia lhe 
tinha dito outro boticário seu amigo, Wen- 
ceslau Martins do Valle, morador á Mouraria, 
nas casas do Marquez de Alegrete. 

— Data id. = FREi Plácido de Andrade, 
da Terceira Ordem, mestre de Estudantes do 
Convento em Lisboa, de edade de 28 annos: 
«Disse que conhecia muito bem ao referido 
Padre Francisco Manoel, o qual era morador 
n'esta corte, e Thesoureiro da Egreja das 
Chagas, doesta cidade, com quem tinha ami- 
zade e algum trato, postoque não demasia- 
damente frequente.» «Disse, que tinha certeza 
de que o Padre Francisco Manoel proferira^». 



262 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que O Sexto Mandamento do Decálogo, era 
um mandamento chimerico, como opposto á 
natureza; e que elle depoente se não conven- 
ce, se lh'o ouviu dizer a elle próprio, por isso 
mesmo que se não lembra, nem tempo, nem 
occasião, nem maneiras ; ou se lhe referiu um 
irmão d'elle depoente, que actualmente é 
Juiz de fora na cidade da Bahia, chamado 
Sebastião José Ferreira Barroco, ter ou- 
vido o mesmo Padre Francisco Manoel pro- 
ferir a mencionada proposição por este ter 
mais communicação com o referido Padre.» 
«Disse, que a não fizera (delação) por ser um 
estudante n'esse tempo com pouca reflexão ; 
e depois communicando-os passado algum 
tempo, sendo então religioso, ouvira queixar 
o mesmo P.e de que os seus amigos tinham 
abusado da sua sinceridade desacreditando-o 
por hereje...» «Disse mais, que agora se re- 
corda, que o dito P.^ fallara da inutilidade do 
Tribunal do Santo Officio, dizendo que se 
não fazia preciso, que era rigoroso, e que 
França se não governava por elle, o que era 
muito digno de louvor.» 

« Disse mais que em certa occasião, antes 
de elle depoente ser religioso, lhe vira nas 
suas mãos a Historia das diversas Religiões 
do mundo, com as estampas de Picar ; e que 
se persuade que elle os lia sem escrúpulo, e 
outros mais livros prohibidos.» «Disse mais, 
que em outra occasião viu na sua mão uma 
tragedia de Voltaire, feita por elle, que julga 
ser a intitulada O Mahometismo ; e que por 
estas rasões se persuade que o dito P.^ era 
um homem de pouca religião, de cujas acções 
poderá plenamente depor o P.^ Frei Filippe, 



FILTNTO ELYSIO 26t3 



religioso da Congregação de S. Paulo, hoje 
residente em o Convento de Évora, com quem 
o dito Padre Francisco Manoel tinha uma in- 
tima amisade, com frequência se tratava e 
communicava. . . » 

Em 1 de Março de 1779, este Frei Pláci- 
do de Andrade pediu audiência, e disse: « Que 
pelo que respeita a ter referido, que a trage- 
dia intitulada Mahometismo a traduzira o 
sobredito P.^, agora com mais exacto exame 
se recorda, que este a não traduzira, mas sim 
um José Bazilio, hoje Official da Secretaria 
de Estado dos negócios do reino, mas que elle 
depoente vira esta traducção na mão do mes- 
mo Padre.» 

A 18 de Fevereiro de 1779, passou-se or- 
dem ao vigário Manoel Curado Diniz, da Pa- 
rochial egreja da Conceição para interrogar 
Marianna Rosa de Amorim e Sousa, casada 
com Joaquim José de Sousa, escrivão do eivei, 
^ de 35 annos de edade: «E sendo pergunta- 
da que se tinha algum conhecimento e amisa- 
de, ou tratamento com o P.« Francisco Ma- 
noel, disse — que muito bem o conhecia, e 
sabia que era Thezoureiro da Egreja das 
Chagas e morador na Ribeira das Náos, em 
casa do Patrão Mor, a quem sempre tratou 
por seu tio, e sabe pelo ouvir dizer, que 
É FILHO DE Maria Manoel, casada com Ma- 
noel Simões, mas é voz publica, que o dito 
p.^ Francisco Manoel era filho do Patrão 
MÓR defunto João Manoel, que se diz o ti- 
vera de Maria Manoel, digo o tivera da so- 
bredita Maria Manoel, mas que ella testemu- 
nha nunca nem viu que o sobredito P.*^ disses- 
se ou fizesse cousa alguma contra a nossa 



264 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Santa Fé Catholica, e que nas repetidas ve- 
zes que vinha a casa d'ella testemunha, e com 
elle e seu marido conversava consistindo pela 
maior parte a sua conversa em comedias, 
VERSOS AMATORios, E SONETOS, c que uas ve- 
zes que o dito vinha a sua casa era quasl 
sempre de levante, por ser o seu génio jovial 
de pouco assento.» — «disse, que era bem no- 
tório, que elle tinha fugido d'este reino, e 
ouviu dizer estava em Paris.*. .» 

— 15 de Maio de 1779, interrogado Frei 
Nicolau de N. Senhora do Valle, de edade de 
61 annos: «disse que haverá quatro para 
cinco 'annos, veiu a este convento o dito Pa- 
dre (Convento dos Anjos, no termo de Alhan- 
dra) na comp.^ do Dr. Luiz da Silva, e Joa- 
quim José de Sousa, moradores em Lisboa, e 
aqui se demoraram alguns dias, e em uma 
das occasiões que elle testemunha os visitou 
na hospedaria, moveu-se com o dito P.^ Fran- 
cisco Manoel uma questão a respeito de ser 
ou não ser Adão pae de todos os viventes, 
apontou o dito P.^ algumas opiniões de diver- 
so parecer.» 

— 8 de Julho de 1779. Frei Filippe de 
S. Thiago Travassos, natural de Lisboa, reli- 
gioso professo na Ordem de San Paulo, mora- 
dor no Collegio de Évora, aonde era lente de 
Philosophia, de edade de 33 annos: «Disse, que 
haverá quatro annos teve conhecimento e 
amisade com algumas pessoas, que sabia ti- 
nham uso e lição de alguns livros prohibidos,. 
como são Voltaire, Rousseau, e outros seme- 
lhantes, ás quaes ouviu por vezes algumas 
proposições suspeitosas, contra alguns costu- 
mes da Religião que elles deduziam dos prin- 



k 



FILINTO ELYSIO 265 



cipios errados dos mesmos Livros ; e que elle 
se julgou sem obrigação de os vir denunciar 
a esta Meza, por dois motivos; primeiro, por 
que ainda que n^esse tempo estivesse a porta 
d'este Tribunal aberta para receber as de- 
nuncias, sabia elle testemunha que eram me- 
nos bem olhadas do Ministério as pessoas 
que intentavam as referidas denuncias, (como 
ouviu dizer a estes e a outros seus conheci- 
dos, sobre uma disputa havida entre o capi- 
tão MxVNOEL DE Sousa, e Padre Francisco 
Manoel e dois Eehgiosos de Rilhafolles, os 
quaes por susterem o partido da Religião 
contra os sobreditos, dizem foram persegui- 
dos.) O segundo, porque nunca elle depre- 
hendeu pertinácia ou teima no proferir das 

ditas proposições » Quanto ás pessoas 

que liam livros prohibidos: «Disse, que eram 
as duas que já acima deixa referidas o P.^^ 
Francisco Manoel e o Capitão Engenheiro 
Manoel de Sousa, e Domingos Pires Ban- 
deira; e a rasão que tem de o saber, é por 
que visitando algumas vezes aos sobreditos 
P.^ Francisco Manoel e Domingos Pires Ban- 
deira, viu que elles tinham nas suas estantes 
os ditos livros, e outras vezes abertos em 
cima das suas bancas, e por vezes lhe repe- 
tiam algumas passagens que n'elles tinham 
lido ; e a respeito do Capitão Manoel de Sou- 
sa, é porque conversando outras vezes com 
elle, em muitas o ouviu formar argumentos 
fundados nos sentimentos oppostos á Reli- 
gião . . . >> 

Na Carta a Mathevon de Curnieu, ainda ao 
fim de muitos annos, descreve Filinto com 
traços palpitantes a sua tormentosa partida : 



266 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Quão poucos vi no meu desterro duro 
Lastimar-me sinceros, dar-me alivio, 
Com mavioso seio, amiga sombra! 
Os mais se deslembraram . . . Talvez folgam 
Que os Satélites torvos da Calumnia 

Me despojem 

cortejos e os protestos 

(Douradura bem falsa de alma iniqua!) 
Eram pérfida aragem, que ajuntava 
Nuvens, e dava forças á tormenta, 
Que desferiu depois com raios, pedra 
No misero baixel que navegava 
Descuidado, inexperto, em mar de leite 
Entre infindas voragens e cachopos. 

Quando, as velas soltando, á foz do Tejo 

Já atraz de si deixava o pio lenho, 

Que os fados meus, commigo carregava; 

Subindo á tolda, e o tresnoitado corpo 

Encostando ao debrum das amuradas. 

Para a fulgente Elysia os longos olhos 

Estendendo á morada dos amigos, 

Commigo debuxava a saudade. 

Que lhes anciava os peitos saudosos ; 

E pela minha dôr media a sua. 

Já dizia entre mim : — Agora, juntos 

O meu funesto caso deplorando 

E os sobresaItos,^e os bebidos sustos, 

Se consolam no meigo pensamento, 

Que ás mãos da Tyrannia e inveja cruas 

Salvou-se illesa victima votada. 

Quando da Elysia os tectos alterosos 

Co^a fuga do baixel, vão abatendo, 

E da alva Cynthia o pedregoso pico 

Apenas mostra, em mal distincta sombra 

A verde fralda de áspera espessura 

Té que inteira se esconde em roxas nuvens 

Que o sol pintava, entrando saudoso 

No húmido seio do inquieto Oceano: 

Outra nuvem de lôbrega tristeza 

Os olhos me abafou desconsolados, 

E sobre o peito me pesou escura. 

(Obr., Y, 358) 



FILINTO ELYSIO 267 



§ 11. Refugio em França. (1778-1792) 

Residência na Hollanda. < 1792 — 1797) Regresso definitivo 

a Paris e morte. (1797 — 1819) 

Filinto chegou a Paris em 13 de Agosto 
de 1778; «nos primeiros tempos do seu exi- 
lio, a tristeza, os desgostos, o isolamento sú- 
bito em que se achava, as recordações da pá- 
tria quebrantaram-lhe a coragem ; esteve bas- 
tante doente, e um anno decorreu sem ter 
força para procurar uma distracção necessá- 
ria, na novidade dos logares em que se acha- 
ra lançado e no encanto do estudo.» (Sane, 

XXV.) 

Desde que FiUnto receiou as denuncias dos 
Padres de Eilhafolles e andava apprehensivo 
pelo terror da Inquisição, é natural que pre- 
parasse o plano da fuga, tendo á mão qual- 
quer quantia importante para poder susten- 
tar-se em terra estrangeira; a intimidade com 
negociantes francezes como Lecussan Verdier 
e Curnieu, facihtar-lhe-ia a remessa de dinhei- 
ros que houvesse depositado em suas casas. 
Assim os primeiros tempos do exilio não 
se apresentam sombrios pela solidão e extre- 
ma penúria. Encontra communicação moral 
com espíritos superiores como o grande Dou- 
tor Ribeiro Sanches, e a situação degradante 
de Portugal não o leva ao desalento, mas á 
cólera. A poesia offerece-lhe um agradável 
pretexto para continuar as antigas relações 
de amisade, e adquirir outras, sem recorrer á 
imprensa, o que só fez a começar de 1786, 
quando os recursos lhe iam escasseando. Na 
sua revolta contra Nayres devotos e Padres 
tristes, pouco depois de chegar a Paris ence- 



268 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tou a traducção do poema burlesco a Pucelle 
(VOrleans de Voltaire, a que poz o titulo de 
Virginidos ou a Donzella^ enviando o primei- 
ro canto para Portugal a Domingos Pires 
Monteiro Bandeira, acompanhado de uma 
Ode. (Obr., iii, 279.) Elle então usava o pseu- 
donjj^mo de Agostinho Soares de Vilhena e 
Sylva; mas quando em 1783 se imprimiu 
esse primeiro canto em tiragem limitadíssima, 
pozeram-lhe o pseudonymo que usara em 
Lisboa, em 1768, Marcellino da Fonseca Mi- 
neis Noot. A versão da Pucelle foi levada até 
ao canto iii. Outros pseudonymos empregou 
em varias poesias satíricas, como Ignacio de 
Sequeira Massuelos, Clemente de Oliveira e 
Bastos, Lourenço da Silveira e Mattos, José 
Pinheiro de Castello Branco. Era-lhe preciso 
um trabalho em que absorvesse o espirito, um 
pensamento em que se apoiasse no vácuo re- 
pentino em que cahira ; lembrou-se de traduzir 
a Pharsalia de Lucano, verdadeiro modelo da 
epopêa histórica; diz elle: «Comecei esta tra- 
ducção pouco tempo depois de ter chegado a 
Paris; mas duas rasões me atalharam de conti- 
nuar, a 1.^ os desmesurados e tão indignos en- 
cómios que a um tyranno se dá; 2.^ as volun- 
tárias e mal merecidas mortes cios Opitergi- 
nes, sem contar os defeitos que os críticos as- 
sacam a este Poeta.» (Obr,, xi, 61.) Abando- 
nou a traducção do poema, porque o não con- 
solava; e para desabafar a impressão pro- 
funda em que vivia é nas Odes que encontra 
a forma para as suas expansões vehementes : 



FILINTO ELYSIO 269 



Eu vi, meu caro Freire, com tranquillo 

Desassombrado rosto, 
O braço alçado, co' punhal luzente 

A coberta^Calumnia 
M^o apontar ao peito ; os grilhões promptos. 

As lôbregas masmorras 
Co^ seio aberto, accesa a infame têa 

Sem demover os olhos: 
Vi ao longe a Pobreza, a aguda Fome 

Que os braços alargavam-me ; 
A má Fama, o viver desconhecido 

Que o manto espesso, escuro 
Abriam peias pontas, e envolver-me 

Nas dobras pretendiam ; 
Os gemidos do pobre, da viuva 

Ouvi na despedida 
Os abraços da Pátria, dos amigos 

Sem derramar um pranto, 
Sem que o passo me atalhem resoluto. 

Para o nobre degredo. ^ 

O poeta descreve com pungentíssimos ac- 
centos o momento em que teve de escapar 
com audácia á garra da Inquisição ; esses ver- 
sos encerram emoções psychologicas que vi- 
braram profundamente diante da atroz rea- 
lidade. Descreve a desolada partida, más não 
allude á mãe, que abandonara para sempre, 
á familia que se achava ainda completa. 
N'esta omissão ha um facto ainda mais dolo- 
roso do que a expatriação forçada. O espirito 
philosophico com que encara os acontecimen- 
tos e desconcertos da sorte, aproxima-o do 
ideal horaciano, e a emoção do sentimento 
que o desterro lhe suscita leva-o á compre- 
hensão de Camões e de Garção nas suas des- 
graças pessoaes, com os quaes se compara, 
►como se vê na Ode Ao Estro: 



Obras ^ t. i, p. 112. 



270 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Corydon^ Corydon! que ímproba estrella 
Te dá nome immortal, fonte de invejas? 

Pelos salões das honras 

Te arremessa ás masmorras 
Onde os annos consummas, que deveram 
Ser de ampla gloria e louros assombrados. 

Lá vae de atroz calumnia perseguido 
Correr mares, trilhar extranhas terras 

O cândido FilintOy 

Que tanto tinha a peito 
O seu Camões grandíloquo, a quem lia 
Com gosto, com respeito ás musas grato. 

Lá, comtígo abraçado em seu desterro, 
Em ti bebe a corrente nobre e pura 

Com que os seus versos banha. 

E ainda ausente brada 
A^s novas águias da soberba Elysia, 
Que o teu canto e dicção tomou por norte. 

[Obr,, I, 132.> 



Na sua longa existência no desterro, que 
se foi tornando cada vez mais angustiosa até 
á extrema miséria, Filinto seguiu este pro- 
gramma, que o tornou o mestre de uma gera- 
ção : o estudo continuo de Horácio fortificou-o 
dando ideal a sua situação pessoal; a sauda- 
de da pátria levou-o a proclamar o génio de 
Camões, produzindo essa sympathia que co- 
meçou em 1817 entre os expatriados que fu- 
giam de Portugal á tyrannia de Beresford; e 
a consciência de que era indispensável uma 
transformação na litteratura portugueza fez- 
Ihe comprehender os generosos impulsos de 
Garção interrompidos pela sua desgraça, e ve- 
nerando sempre esse nome continuava, mesmo* 
no exílio, o pensamento do árcade. Assim, á 
medida que Filinto se afundava na indigência. 



FILINTO ELYSIO 271 



mais se lhe engrandecia o ascendente moral, 
constituindo os seus admiradores uma escho- 
la poética, que em Portugal era representa- 
da por Domingos Maximiano Torres (Alfeno 
Cynthio.) Foi com este poeta que elle conser- 
vou de longe, no seu exilio, as mais calorosas 
relações ; é a elle que communica as impres- 
sões de Paris : 

Que Paris, meu Alfeno ! Que passeios ! 
Que ricos trajes! Damas roçagantes! 
Mesuras de primor ! Risos amantes ! 
Cortezes, melindrosos galanteios ! 

Que theatros, de mil bellezas cheios ! 
Que jardins asseiados e elegantes! 
Que sombras tácitas, que os mui flagrantes 
Furtos cobrem, de amantes devaneios! 

Viva Paris ! Aqui a Lyra ociosa 
Porei c'os louros nos edosos dias 
Abhorridos do Amor, da Formosura. 

E escreva em baixo a gratidão forçosa : 
«Aqui Filinto, contra as tyrannias 
Colheu abrigo, e na soidão doçuras.» 

( Ohr., IV, 307.) - , 



O que era Paris no tempo em que alli se 
accolheu o expatriado Filinto, pode ser perfei- 
tamente descripto pelas impressões recebidas 
pelo Abbade Costa, que em 1774 escrevia 
para o Porto ao seu amigo Dr. Luiz Gomes 
da Costa Pacheco: «Como v. m. quererá sa- 
ber o que me pareceu Paris, dir-lhe-hei que 
muito mal, e que v. m. não se fie no que lhe 
dizem do mundo todos os que têm andado 
por elle. Creia-me que quasi toda a gente in- 



272 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



forma das terras que vê, ou o que já cria d'el- 
las por fama e por lêr, ou o que lhe gritam 
aos ouvidos e lhe metem na cabeça por mil 
modos, os que as habitam. Grande miséria, 
que até para os puros olhos, só nos hade ser- 
vir o juizo alheio! Paris é uma cidade vasta 
posta n'uma planície, atravessada de um rio 
grande, com três ou quatro pontes formosas, 
em que, e no Palácio do Rei, que está á bor- 
da do rio, consiste toda a sua magnificência ; 
o resto compõe-se de bastantes ruas compri- 
das, largas, e direitas, mas nenhuma que se 
possa dizer bonita, antes todas feias propria- 
mente melancholicas. Quer saber porque? 
Porque em toda aquella grande quantidade 
d'ellas, grandes e pequenas, não encontram 
os olhos um só palácio, ou casa limpa, senão 
todas ordinárias, e do mesmo feitio, que tam- 
bém ó ordinarissimo, por não constar que de 
janellas, portas e paredes, tudo liso e de fracas 
proporções. Como? — não ha palácios no 
grande Paris?! E onde está tanta nobreza? 
dirá V. m. O que eu lhe digo é certo, sr. Dou- 
tor, mas V. m. pergunta bem ; em Paris ha 
uma cousa que elles lá chamam palácios; mas 
não os encontram os olhos nas ruas, tirando 
o grande dei Rei, que eu disse, e outro pe- 
queno também seu, que se vê de fora em 
parte; os outros todos estão escondidos para 
dentro das ruas, isto é, indo v. m. por ellas, 
dá ás vezes fé de uma falta de casas, e, em 
seu logar, de uma parede baixa com uma por- 
ta no meio, lisa, e descoberta por cima ; e, se 
lhe vem a curiosidade de olhar para dentro, 
vê um pateosinho, e defronte da porta uma 
cousa que nós chamaríamos casa de campo, 



FILINTO ELYSIO 273 



pequena, baixa, de um só andar, janellinhas 
pequenas, poucas, e de architectura ordina- 
rissima; aqui tem v. m. o bom gosto dos fran- 
cezes em formar as ruas do seu grande Paris. 
Nas praças, que são poucas, e pequenas, 
ainda que bonitinhas pela sua regularidade, 
e nos largos, com a sêcca, não ha fontes, nem 
chafarizes. As igrejas já se sabe que ou são 
feias ou pouco dignas de attenção; este é o 
material da cidade ; pelas ruas vi raríssima 
carruagem nobre, e poucas que se podessem 
chamar lindas; os fiacres, isto é, as seges de 
aluguer, e umas cadeirinhas com rodas, tira- 
das por um homem esfarrapado, em logar de 
cavallo, fazem fugir a gente com os olhos, 
pela sua porcaria ; os homens vestem muito 
ordinariamente; os mercadores, e outra gente 
assim, de panno negro, e (quem tal diria!) 
com cabelleiras redondas, e de nós, pequenas; 
os seus casquilhos tão louvados não me appa- 
recem, mas não andarão como muitos de Lis- 
boa andam ; as mulheres fazem nojo ; parece 
que todas trazem o peito emprastado, porque 
não somente não usam de espartilho, mas de 
vestidos tão largos, que poderiam metter uma 
"criança entre elles e a carne: coifas, camisas, 
vestidos, máos e tudo porco; pouco elevadas 
de juizo, e menos ainda de coração, sérias, 
tristes, etc. ; e o mesmo digo dos homens com 
toda a sua leveza de juizo! Mas, onde vou eu 
dar commigo, tendo tão pouco papel e tanto 
que dizer! ?» ^ Este quadro de Paris em 1774 



I Cartas curiosas do Abbade António da Costa, 
ii.« IX. Ed. 1879. Porto. 



274 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



não resultava do pessimismo do foragido ar- 
tista o Abbade Costa; antes d'elle já Saint- 
Evremond, Boileau, Montesqiiieu fallavam da 
sua sordidez, mais accentuada depois por Vol- 
taire e Mirabeau. Foi n'este meio sombrio que 
se encontrou arrojado pelos acontecimentos 
Francisco Manoel ; Paris, então mal allumia- 
do, cheio de regueiros de estrume liquido, e 
com excrecencias de casebres infectos, não 
poderia senão suscitar tristeza em um meri- 
dional acostumado a sociabilidade expan- 
siva. 

Filinto também observou a vida do povo 
francez; explicando a palavra GuinguettaSy 
mostra conhecer de perto esses retiros análo- 
gos ás hortas dos arredores de Lisboa: «são 
casas de pasto nos subúrbios de Paris, a& 
quaes são também tavernas e casas de baile. 
São tantas e tão diversas, que seria d'ellas 
difficil a descripção. Algumas tem salão e jar- 
dins tão vastos, que folgando dansarão n'el- 
las quatrocentas pessoas. Tempos houve (em 
1760) em que os príncipes vinham dansar 
n'ellas, acompanhando-se de varias Actrizes, 
Dansarinos, Dansarinas e outras Oortezãas. 
A esta frequência de toda a casta de povo, e 
á celebridade de certas Guinguettas e de seu 
taverneiro allude Palissôt no canto 3.^ da sua 
Dmiciada,. ^ . O commum é, que aos domin- 
gos e festas se enchem todas de immenso po- 
vo, de ambos os sexos, que sentados ás me- 
zas, bem servidos por diligentes criados de 
Guinguetta comem fino, bebem largo, riem 
de escancara, dansam á fivelleta, e deitam 
uma cã fora todas as semanas. Findo o fol- 
guedo, abraçam com vigor novo, na segunda 



FILINTO ELYSIO 275 

feira, o usado trabalho. Não sei se estes re- 
gabofes tomarão pé em Portugal.» (Obr.y i, 
228.) Outros costumes francezes descreve an- 
notando a Ode ao nascimento do Delphim de 
França, Luiz Joseph, prematuramente faleci- 
do em 1789: «Costume antigo de França, nas 
festas de arromba, é pôr toneis de vinho nas 
praças, arremessar de vários tabernáculos 
queijinhos quadrados, que chamam mai^olleSy 
chouricinhos que chamam cérvelas, pãesinhos 
de vintém, ao vulgacho, que ahi se ajunta em 
tão cerrada balbúrdia, que abafam de aper- 
to. Ora n'esse anno para augmentar o festejo 
deram soltura ás mais brejeiras marafonas, 
que toldadas de vinho, convidavam de graça, 
ou quando muito por um copinho de agua- 
ardente, a seu conchego a mais gafa marota- 
gem. Todos esses desaforos permittia a Poli- 
cia no publico regosijo. Era um desatino e 
um azoamento universal nas praças e pelas 
ruas. A gente honrada não podia dormir; 
tantos eram os distúrbios e a algazarra, que 
vinha acompanhada com os ladridos dos cães 
e com o estrondo dos foguetes. — Sahiu o 
Duque de Oossé, governador de Paris, com 
toda a sua comitiva a cavallo, a quem deu 
ordem de arremessar alguns mil cruzados ás 
manchêas.» (Obr., iii, 300.) E na Ode em for- 
ma de Sequencia, annota: «Quando se espa- 
lha o dinheiro ao povo, andam certos arga- 
nazes álérta, e arremessam-se como milhafres 
a apanhal-o. Eu vi um dos taes rasgar o len- 
ço do pescoço a uma rapariga, em cujo seio, 
(por desgraça sua) tinha cahido um escudo 
de 6 francos, metter-lhe entre as m... as 
mãos até o. . . para desentranhar de lá o di- 



276 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



nheiro.» Descreve a visita das peixeiras ao 
Palácio : « Depois que as taes regateiras fa- 
ziam certo cumprimento de boa laia, manda- 
va El Eei dar-lhes um beberete n'uma sala 
baixa do Palácio de Versailles, onde ellas, 
depois de bem comerem á tripa forra e bebe- 
rem melhor ainda, ensacavam os restos em 
mui amplas algibeiras feitas de propósito para 
essa funcção.» (Ib., 304.) A forma da Ode 
parodiando a Sequencia do Dies irae, é re- 
passada de sarcasmo, que reflectia o desdém 
do espirito publico em relação á rainha Maria 
Antonietta e aos seus partos tardios : 



Dia alegre e folgazão ! 
Que a Rainha um rapagão 
Nos deitou de trambolhão. 

Do ventre, como outro Jonas, 
Saiu fazendo gaifonas 
A's mesuradas matronas 



Sinos, tiros, luminárias. 
Foguetes de formas varias, 
Foram festas necessárias. 



Chovem chouriços nas praças. 

Saltam mochachins, caraças. 

Que o ventre enchem de vinhaças. 

A^s manchêas o dinheiro 
Sae dç) régio mealheiro 
Para o povo piolheiro. . . 



Em novembro de 1782 foram tratados em 
Versailles os preliminares do acto em que a 



FILINTO ELYSIO 277 



Inglaterra reconhecia a Independência da 
America, já reconhecida pela França desde 6 
de Fevereiro de 1778. Filinto celebrou em 
uma Ode enthusiastica esse grande successo 
da humanidade, tornando assim o seu nome 
grato aos cidadãos americanos : ^ 

Como risonha e destra 

Treze Regiões discorre ; 
Como, co'as alvas mãos lhes quebra o jugo, 
E as toma, a Liberdade, em annel firme! 

Como as dextras lhe enlaça. 
Sopra em seus peitos brios, esperanças ! 

Soltam-se os pendões livres 

Ao sizudo aceno, 
Philosopho Francklin, que arrebataste 
Aos céos o raio, o sceptro á Tj^rannia; 

E, ao teu aviso, em Boston, 
O Lyrio ajudador tremóla, ovante. 

De honra e valor armado, 
Washington, alli te ergues, 

E ao Congresso indeciso a fé abonas. 

Tu és sua muralha, e seu escudo, 
Qual, outr^ora no Lacio 

O Fábio tardador á afflicta Roma. 



N'esse limpo terreno 
Virá assentar seu throno 

A sã Philosophia, mal acceita; 

E Leis mais brandas regerão o mundo, 

Quando homens mais humanos 

C^o raio da verdade a luz espalhem. 



1 Refere Ferdinand Denis, que um cidadão da Pen- 
sylvania, George Harrisson levantou á sua memoria 
um monumento ou busto em uma propriedade, com a 
inscripção de alguns versos da famosa Ode. Nouvelle 
Biographie general, vb.^ Nasciínento, 



278 HISTORIA DA LITTERATTJRA PORTUGUEZA 



Já de sapiência ricos 
Enxames philadelpbios 

Vão conquistar com almo ensino a Europa ; 

Sem ba^^onetas, sem canhões escravos, 
Vão plantar generosos 

Ramos da restaurada Liberdade. 



Em uma Carta em verso a Timotheo Le- 
cussan Verdier, datada de 3 de Septembro 
de 1785, em que o felicita pelo casamento, 
descreve também os seus passeios solitários 
no Luxembourg, «o jardim mais campestre 
de Paris, e o de menos bulicio.» Eis um tre- 
cho pessoal da carta : 



Quando do Luxembourg a lentos passos 

Magoado enfio as tácitas lamedas, 

Vou mudo e só, sem ter a quem corteje, 

A quem gostoso falle, amigo abrace, 

Quaes os tinha na Elysia em tanta copia, 

Quando o fado galerno me soprava. 

Sobe-me á mente logo o desamparo 

Que me aperta innocente em terra extranha. 

Os bens perdidos, a manchada fama, 

E Q que vai mais que os bens, — os meus amigos. 

— Meu caro Verdier, c^um livro aberto. 

Aqui (digo entre mJm) as verdes ruas 

Pisava n'este bosque ; elle m^o disse 

Quando eu tão mal cuidava de pisal-as. 

Que bem lembram palavras dos amigos 

Nas longas horas da calada ausência ! 

Alli quizera vêr-te, a mim tornado, 

Como quando em Lisboa entre os sabores 

Da lhana companhia prazenteiro 

Debicávamos pontos delicados. . . 

(Obr., IT, 208.) 



Em uma Ode a Baccho, — «No dia 23 de 
Dezembro, dia dos meus annos, em 1783, es- 



FILINTO ELYSIO 279 



^ando á mesa com dois Portuguezes » Filinto 
entre as formas clássicas do dithyrambo, mis- 
tura a sua profunda saudade: «vivendo reti- 
rado e só, occupo o meu ócio, (que é largo) em 
versejar. — estava á mesa com Portuguezes 
que estimo, e cujo idioma gosto de ouvir fal- 
lar em terra extranha ;. . . » (Ob., i, 376.) 

A impressão do dia 4 de Julho de 1778, 
em que fugira á Inquisição avivava-se-lhe a 
cada momento: 

Canta este dia, fausto á Liberdade 

E ás cívicas coroas ; 
Fausto dia, em que incólume Filinto 

Se desprendeu das garras 
Do hórrido truculento Fanatismo. 

Eu vi o infame Monstro 
Sopesado nas azas sanguinosas, 

Amedrontando tôrvò 
Da enfiada Elysia as cúpulas soberbas, 

Rebentar a seu lado 
Com penetrantes, assanhados silvos 

O negro bando infame 
De satellites seus, com voz pezada 

Designar a masmorra. 
Os fuzis dos grilhões já os ouvia 

Rugirem arrastados. 
Ranger equleos, e os ministros duros 

Entrançar os cordéis. . . 
Já lá se ergue a despótica fogueira 

Que convence a Innocencia 
Com cem linguas de fogo abrazadoras. . . 

[Oh)\, IV, 213.) 

A noticia do casamento de Alcipe fel-o 
escrever uma sátira a Sebastião Barroco. 

Em uma carta do celebre Abbade António 
da Costa, datada de Vienna de Áustria de 7 
de Outubro de 1780, falia da recente chega- 
da áquella corte da formosa Alcipe, D. Leo- 



280 HISTORIA DxV LITTEKATURA PORTUGUEZA 



nor de Almeida, filha do Marquez de Alorna, 
e então casada com o Conde de Oeynhausen- 
Groevemburg, que fora nomeado Ministro En- 
viado de Portugal. Eis o que escreve o Abba- 
de: «O ministro de Portugal chegou aqui nos 
primeiros dias de Septembro; para allemão é 
agradável no trato, com seus laivos de por- 
tuguez. Fallei com a fidalga três vezes, e 
bastante, mas não tanto quanto é necessário 
para formar conceito d'ella com acerto; tem 
o agrado de portugueza ; e á primeira vista 
parece ser mulher de juizo; faz bem versos ; 
sabe francez, italiano, inglez, latim, e já prin- 
cipia a entender allemão.» ^ Na Sátira intitu- 
lada Esfuziote, Filinto dirige-se ao seu ami- 
go Barroco fallando-lhe do casamento da Al- 
cipe, que elle anjara : 

Tu bem sentiste quanto é máo este uso, 

Namorado Barroco ; a tua Dama, 

Que tão grandes finezas te devia 

Trocou por um soldado o amante Vate, 

Não soube o que trocou ; que a estas horas 

Lhe teriam as casas entulhado 

Sacas de Odes, canastras de Sonetos 

Aos seus annos, a ausências e saudades. 

Tu o soffreste, por que assim se usava ; 

Mas que hoje um. . . (Tapa o bico. Musa) suppra 

Não digo as vezes do tolaz marido, 

Que casou por negocio ou fidalguia, 

Mas as vezes de túrgido Capucho, 

Do Cadete infiel aperaltado 

Não é posto em rasão 

Ora tu que és Doutor, que foste a Coimbra, 



^ Carta xiii. Cartas curiosas do Abbade António 
da Costa. Porto, 1879. Um volume in-8.^^ de xxxiv-80 
pp. e mais 22 pp. no fim com outras não numeradas. 



FILINTO ELYSIO 281 



E gastaste a teu pae grosso dinheiro, 
Tu que lês pelos livros da fitinha, 
Não me dirás quem dá este desejo 

De amar o que é vedado? 

A variedade, 

Crê, n'isto, meu Barroco, vem comnosco, 
E^ congénita á nossa natureza. 
Cada instante mudamos de desejos. . . 
Cojifessemos, Barroco, e com lisura 
Que somos vários, por que em nós varia 
Co' gyro do composto, a ideia, a ordem 
Doeste nosso querer; não ponham culpa 
A causas arredadas de nós mesmos. 

(06r., V, 241.) 

Alheio aos grandes acontecimentos que se 
davam na sociedade franceza, pelo seu força- 
do isolamento, nem por isso elles deixaram de 
ter um ecco nos seus escriptos. Assim allude 
ás operações financeiras de Law: «Lêam a re- 
volução que nos Cabedaes fez o Systema de 
Laio, como em nossos dias os Assignaclos ou 
Apólices francezas.» (Obr., vi, 211.) 

Em um artigo publicado em Paris sobre o 
Centenário de Garrett, aponta-se uma circum- 
stancia que interessa á biographia de Filinto; 
transcrevemos as palavras : «Celui-ci s'était 
attiré la persécution de son gouvernement 
par des satires politiques qui lui valurent 
enfin Téxil, un exil adouci par le devoíiement 
d'une jeune religieuse qui s^etait attachée à 
sa 7nisere,» ^ Este episodio não é conhecido, 
mas por certas referencias do poeta fixa-se- 
Ihe a data e mesmo uma cor de sentimentali- 
dade, apesar de contar então os seus cincoen- 
ta e tantos annos. 



La Liberte (7 fevrier, 1899.) 



282 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Esta joven Religiosa é celebrada por Ti- 
linto com o nome de Delmira; em uma Ode 
aos annos d'ella, datada de 20 de julho de 
1785, confessa o seu amor: 

Delmira houve por sorte, em seu oriente 

Um coração composto 
Por mão de amenas fadas virtuosas, 

Que sentadas em torno ► 
Do gracioso berço, estes annuncios 

Na mente lhe entornaram : 
«Dê extranhas terras^ por austero Fado 

A teu amor trazido 
Filinto renderás c'os ternos olhos, 

Co vencedor recato. 
Tu no seu coração serás soberana ; 

No coração que nega 
Entrada a novo ardor, quando o cativa 

Desvellada ternura. 

(Oòr., V, 255.) 

Filinto não estava seguro em França con- 
tra os planos da Inquisição de Lisboa ; diz 
elle: «Veiu de Lisboa um lobo (Familiar) ha 
vinte e cinco annos, bem amestrado por meus 
inimigos, inculcar-me que partisse com elle 
para Portugal, que nada tinha que temer. Eu 
fiz como o Cabritinho : Mostra-me pata bran- 
ca (sciHcet) a Inquisição destruída.» * A este 
facto allude Sane : «muitas vezes a Inquisição 
empregou ardis e miseráveis rodeios para se 
apoderar da victima e attrahil-o a Portugal. 
Viajantes bem suspeitos, alguns frades, vi- 
nham visitar Francisco Manoel no seu retiro : 
a sua linguagem era benigna e avelludada. 
Admiravam-no, lastimavam-o. — Elle devia 



Obras j t. vi, p. 176. 



FILINTO ELYSIO 283 



regressar depressa ; seria recebido de braços 
abertos ; teria uma espécie de triumpho ; os 
seus bens ser-lhe-iam restituidos ; viveria fe- 
liz, estimado e querido de todos... Diremos 
que um dos membros da Inquisição não se 
pejou de lhe escrever sobre este ponto uma 
carta meliflua e pérfida. Mas Francisco Ma- 
noel conhecia bem o monstro, e não se deixou 
envolver n'estes laços.» ^ Era então Inquisi- 
dor o Bispo do Algarve D. José Maria de 
Mello, que attenuara um tanto o rigorismo do 
Santo Officio; e assim como elle foi brando 
com Bocage, quando lh'o entregou o Inten- 
dente Manique, é também crivei que quizesse 
mostrar a mesma brandura em relação a Fi- 
linto, que exercia um grande influxo entre os 
homens cultos. 

Nos primeiros folhetos que Filinto impri- 
miu em Paris, soltava as queixas da sua si- 
tuação, remettendo-os para Portugal ; em uma 
Ode d'essas impressas em 1788, descreve ás 
m-usas todas as suas desgraças : 

Tão quebrantado (lhe respondo) e turvo 
Me trazem meus pezares, que não vejo 

Mais que Dor e Penúria. 
A funesta desgraça, pela coma 
Um dia me tomou (quando innocente 

Me dava por seguro) 

E, abalando-me, irada, sobre a roda 
Da volúvel Fortuna, d^um encontro 

Me despenha por terra. 
Ajudada da Inveja e da Calumnia 
Foi manchar os ouvidos do Monarcha 

Com pérfidos embustes ; 



Poésies ly Tiques j p. xxxvi. 



284 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Lançou iniqua as varredouras redes 
Nos caros bens, tão justamente havidos 

Pelas Leis conservados, 
Na paternal herança recolhida 
Com tanto zelo e honra no serviço 

Da Pátria e do Monarcha, 



E poz-me fugitivo, e desterrado 

Dos Penates, da Pátria e dos Amigos, 

Criminoso sem crime ; 
Se já é crime dar-se a austero estudo, 
Entre longas fadigas disvelladas 

Para adornar o engenho, 



Dez longos annos de miséria amarga 
Não amolgam ainda os implacáveis 

Ânimos inimigos, 
Dos que me diff amaram, me despiram, 
E no meio do peito me cravaram 

O punhal da pobreza. 



Ah! se a bella, a piedosa Soberana 
Que rege o luso Estado, enternecida 

Volvesse os brandos olhos 
A um vassallo, que correu sem mancha 
Os caminhos da honra mal seguidos, 

E os da árdua virtude ; 

O seu volver benéfico e sagrado 
A vida, a honra, os bens, a pátria, a fama 
Resgatara a Filinto. 

{Obr,, in, 252.) 



Em uma Carta, ou Epistola horaciana ao 
seu amigo Brito, datada de 6 de Junho de 
1790, Filinto descreve uma sessão da Acade- 
mia franceza, aonde fora ouvir uma confe- 
rencia de Marmontel: 



FILINTO ELYSIO 285 



No sacro templo, que á pureza e lustre 
Da lin.o^uagem franceza ergueu eterna 
Pelo Richelieu, Luiz o Magno, 
Ouvi eu (e inda a voz no ouvido tôa) 
Um sábio, em toda a Europa acceite e lido, 
E inda mesmo entre nós não ignorado. 
N^uma lingua tão farta (como dizem) 
De cabedaes de Autores tão egrégios. 
Que não soffre desfalques, bastardias, 
Como a nossa, nas eras derradeiras: 
N^uma lingua, que engrossa e se enriquece 
Cada dia c'os rios de eloquência 
Que tão caudaes de todo o monte manam, 
Este sábio escassezas lhe achacava, 
Pedia atrevimentos generosos 
Nos que a colher os fructos se abalançam 
Nos vergéis das sciencias. 

( Obr., I, 39.) 

Apezar de todas estas distracções de Pa- 
ris, Filinto sente o pezo do desterro, e com a 
comparação clássica de Ovidio exclama: 

Paris é o meu Tormes, onde choro 
Os que ver me é vedado, amigos firmes ; 
Lisboa a minha Roma, onde tem prezas 
A alma as raizes ternas. 

( Oh)\, IV, 260.)- 

O phenomeno da Revolução franceza é 
comprehendido e saudado por Filinto: 

Mas, eis que se ergue em França 
A esquiva tempestade, ameaçadora 

Das despóticas frentes . . 
Já roncam os trovões, já raios rasgam 

O núbilo regaço ; 
E já nos ares pezam os chuveiros 

Que hão de inundar a Europa. 
Tremei, Tyrannos, que opprimis em dura 

Escravidão os Povos, 
Não se erga, em vosso qtiente sangue tinta, 

Da Liberdade a palma. 

{Ohr,, I, 424.) 



286 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Os successos da Revolução inspiram-lhe 
referencias poéticas, que revelam o interesse 
por aquella estupenda crise. Em um Epi- 
gramma á moda das unhas grandes, como 
distincção aristocrática, allude ao Decreto da 
Assembleia naeional que aboliu a nobreza. 
(Ob,, III, 140.) ^ 

Elle celebra com enthusiasmo a queda da 
Bastilha, em uma Ode horaciana: 



Cahiu por terra derrocada a rocha, 
A Caverna de Caco, mais sumida; 
A furna d^anthropopbagos Cyclopes 
Estalou nas entranhas. 

Essa Sphynge sacerdotal, que enigmas 
Propunha aos Povos, acertou em França 
C^o Édipo, que os soltou; que lhe deu morte 
Pelos bons desejada. 

Onde corre em tropel tanta Nobreza 
Ajoujada de Titulos, de Cruzes?. . . 
Cansados ares troam com vinganças 
Que arquejam de impotentes. 

Tu, feliz dia, lhe cortaste o braço, 

Quando o dos Cidadãos desalgemaste; 
E a Bastilha a teus olhos devassada, 
Lhe afracou os impulsos. 



Oh dia de prodígios ? Tu rompeste 
Do alicerce republico o alto rego, 
Que o Dez de Agosto encheu ; Fleurús com gloria 
Carregou de columnas. . . 

iOhr,, III, 283.;) 

Em outra Ode refere-se á Convenção na- 
cional: 



FILINTO ELYSIO 287 



Eu vi numerosissimo Congresso 
De Sábios, como taes do Povo estremes, 
Parar em furna dos mais vis malvados, 
Dos mais facinorosos. 

(/ò., 344.) 

Allude também em uma Ode ás guerras da 
Defesa nacional contra a colligação europêa 
urdida pela Inglaterra: 

De exércitos brutaes trilhada a Europa, 
De hostis baixeis o Oceano retalhado, 
Armas luzem, relincham os ginetes, 
Ribomba a artilharia. 

Onde ides de tropel, aonde algozes, 
Matar vossos irmãos com arte e canio? 
Brotou o Inferno pois milhões de Alectos 
E,vol-os poz nos peitos ? 

Contra uma só Nação, que de Senhora 
A duros Déspotas ceder desdenha ; 
Que destrama a traição, que conspiraram 
Malévolos Ministros? 



Reis, que accurvaes com orgulhoso sceptro 
O miserando Povo ignaro e dócil, 
Dobrae a alta cerviz á voz mais alta 
Do cavilloso Pitt. 

Esse Rei das soberbas Potestades 
Abre as azas ao Despotismo, e manda 
Das Ilhas da afogada Liberdade 
Ameaças e insultos. 

( Ohr,, IV, 134. ) 

Em outra Ode falia da proclamação da 
Republica franceza : 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Inda hontem tantos Reis ajoelhados 
Pedindo paz a insólitos Burguezes, 
Não são lições que calem no juizo 
De impróvidos monarchas. 

Que Pyrrho, nem que Antiocho poderam 
Destroçar a Republica de I^ruto ? 
Um com todo o saber da arte da guerra, 
Outro co'as forças da Ásia? 

E sois mais sábios vós, mais poderosos? 
Vós, Reis de pouca terra e pouca arte ? 
Que ouseis luctar (vencidos tantas vezes!) 
C^os Repúblicos Francos ? 

Não sois vós quem luctaes : lucta arquejando 
Contra a Rasão robusta o vão orgulho ; 
Luctam fogueiras, cárceres, verdugos 
Contra forros escravos. 

Quando França estender dois longos braços, 
Um que abarque Vienna, outro Bengala, 
Onde ireis vós fugir? Que Pitts astutos 
Vos salvarão os thronos ? 

[Tb., 181.) 



E' soberba a Ode Ad Gallos, descrevendo 
o Terror do anno vii. 

Oh desatino! oh fúria! 
Qual (tristes !) cego vórtice vos volve? 



Que lanças, que fogachos 
Empunhaes co' essas mãos despiedadas? 

Será quem ponha o fogo 
A' França a dextra vossa ? Ái ! mais que muito 

Com stragadores ódios 
Se combateu té^qui. Poupae, magnânimos, 

Sangue francez, francezes ! 



FILINTO ELYSrO 289 



Acuda quem destrua 
ímprobas fraudes, cívicas vinganças; 

Acuda quem se atreva 
A ter nome de Pae da Pátria, e as rédeas 

Aos devassos terrores 
Encolher alentado; e pôr balizas 

De bronze aos desmandados 
Co'a Liberdade nova, aos seus (presente) 

Amado assumpto e a extranhos... 

(06r., y, 115.) 



«Falia o Poeta do governo dos 5 Directo- 
res, que se viam abarbados com obra. Guer- 
ras exteriores, facções de opinião diversa, no 
interior, dissabor entre os Povos, que se jul- 
gavam mal governados, faltas de dinheiro.» 
(iii, 266.) N'esta Ode a que se refere a nota 
supra vem a estrophe : 



Se escapa a rapariga de outo annos 
D^essa tão complicada macacôa, 
De cera uma Republica, ao' meu rico 
Sancto Amaro, penduro. 



As obras avulsas de Filinto, que começa- 
ram a circular em Portugal em pequenos ca- 
dernos impressos em Paris depois de 1786, 
chamaram a attenção dos que se interessa- 
vam pela litteratura portugueza. António de 
Araújo de Azevedo, que veiu a ser Conde da 
Barca, e que tanto se enthusiasmara pela fun- 
dação da Academia das Sciencias de Lisboa, 
era também poeta, e admirador de FiUnto; 
em 1789 foi nomeado ministro plenipotenciá- 
rio na Haya. Por esta circumstancia visitou a 
Inglaterra, passou por Paris frequentando a 
sociedade de Montmorin, Bailly, Necker e 



290 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



outros políticos, seguindo depois para Haya. 
Foi então que travou relações com Filinto ; 
elle mesmo como poeta era um apaixonado 
por Horácio, de que deixou uma traducção 
inédita, e usava nas suas composições o no- 
me arcadico de Olinto, António de Araújo 
colligia todas as preciosidades de manuscri- 
ptos e de livros raros, adquirindo então um 
manuscripto do jesuita Pêro Paes, que mis- 
sionara na Abyssinia e no qual segundo o 
P.® Kircher se descrevem as fontes do Nilo. 
Comprehende-se que António de Araújo, com 
relações constantes com Paris para enrique- 
cimento da sua bibliotheca, tratasse de attra- 
hir Filinto para Haya. O poeta só accedeu ao 
convite em 1792, por ventura quando a mar- 
cha da Revolução garrava para o Terror. A 
demora de Filinto na Hollanda até 1797, em 
que regressa a Paris, coincide também quando 
António de Araújo foi encarregado por Dom 
João VI de ir negociar a paz com o Directório, 
sendo o tratado assignado em 17 de Agosto 
de 1797 (23 thermidor, anno v.) Seria com 
António de Araújo que Filinto voltou a Pa- 
ris ; mas essa . liosa amisade tornou-se-lhe 
algum tempo ini oficua, por que Araújo ten- 
do procedido por ordens do Princepe Regen- 
te qne não eram conhecidas pelo ministro 
L: z Pinto de Sousa, e não sendo acatado o 
tratado, foi encarcerado na prisão do Temple. 
Filinto, em um Adeus de curta ausência, 
dirigido aos seus livros, falia da partida para 
a Hollanda: «Quando me preparava para 
ir á Haya, fiz um pacote dos poucos alfarrá- 
bios que tinha, livraria de poeta pobre! E era 
minha intenção mandal-os adiante ; mas o 



FILINTO ELYSIO 291 



custo do transporte me fez recuar a resolu- 
ção». (Obr.j I, 382.) E allude á opulenta li- 
vraria de António de Araújo : 



Que ingrato galardão, mal merecido 
Fora o deixar-vos, por que lá me acena 
Com mais riqueza, com faustosos nomes 
Um thesouro de livros campanudos, 
Que com alto desdém vos olhariam, 
Se pedísseis logar entre os seus ouros, 
Entre os farfantes rótulos e fitas ? 



mas nao perco 

Lembranças do potente auxilio vosso 
Nas refregas do aspérrimo infortúnio. 
Sereis sempre a meu lado agradecido 
Companheiros n'esta aura de ventura 
Que nos bafeja a próxima partida^ 
Quaes o fostes nos roncos da borrasca. 
Ireis commigo â Casa bemfeitora 
D^onde vos veiu o raio da bonança. 



(Ih,, 384.) 



Tendo intima convivência com o Dr. Ri- 
beiro Sanches, discipulo querido do grande 
Boerhaave, é natural que Filinto sentisse um 
certo prazer em ver a Hollanda, accedendo 
assim ao convite de António de Araújo. 

Em uma Ode de 1794, em que diz : «Orço 
co's sessenta annos», descreve Filinto a sua 
chegada a Haya e falia do gabinete de estudo 
de António de Araújo, em que andavam duas 
pombas: «A primeira vez que lhe entrei no 
quarto, mal que cheguei a Haya, vi junto da 
banca do dito senhor, duas lindas pombas ou 
rolas.» Araújo estava então occupado na sua 
traducção de Horácio: 



292 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Olha-0 na lucta, as forças ensaiando 
Entre versões perluxas do árduo Horácio, 
Hoje o traduz ; e já amanhã o iguala. 
Quem sabe, se inda o vença ? 

Passados annos annotava esta estrophe: 
«Rodeado o achei de 15 traducções de toda a 
laia, de 10 Diccionarios, e 8 Commentarios de 
Variorum.>y (Obr., iii, 177.) Era iVeste meio 
litterario que Filinto acharia um plácido con- 
vívio, se as incertezas da politica não per- 
turbassem a sociedade hollandeza. A doen- 
ça azedou-lhe o humor contra a terra : 

Que me rendeu vir cá morar na Hollanda ? 
Vermelhos olhos, dentes abalados, 
E o do siso, com tanta dor nascido, 
Com tanta dor tirado. 

Que tinheis vós que ver por estes brejos? 



Frio sol, longa neve, escuros ares, 
Máo fructo, e peco e pouco, com mil lidas 
Extorquido ás areias. 



Que haviam de elles ver? Viram areias. 
Viram charcos, lagoas verdoengas, 
Animaes de dois pés sem pluma ou cauda 
Pasmados da visita. . . 

(Ih., V, 221.) 

A' Paz de Bale, celebrada em 1793, escre- 
ve Filinto a Ode datada de Haya em 9 de 
Afí-osto de 1795: 



•^fc)^ 



Já a Paz firmou um pé na turva Europa, 
E co'a florida mão vae afastando 
Do Mosa e do Pyrenne as broncas lidas 
Do hórrido vulcão. 



FILINTO ELYSlO 298 



De mãos dadas co'a san Philosophia 
A meiga Humanidade vae roçando 
Os maninhos da estúpida ignorância, 
E á Paz franqueando via. 

(Olr., IV, 142.) 

Em uma Ode ao dia 23 de Dezembro de 
[1794, Filinto ainda tem uma esperança de 

jue a Rainha o indulte, e regresse a Portu- 
Igal; a protecção de Araújo levava-o a esse 

sonho : 

Já rasgos de ventura 

Vão lavrando na têa 
Dos annos de Filinto agradecido 
Vivo matiz de generosas flores. 

Se os doze lustros meus erguer-se podem 
Doeste cargo de maguas, de pobrezas; 

E as correntes quebradas 

Dos pulsos sacudindo, 
Podem ver da alegria a loura face. . . 
Viverei longos annos n'um só dia. 



Da augusta mão, do mavioso peito 
Um bálsamo virá, com que eu ainda 

N^essas inertes horas 

De recobrado somno 
Cobrirei de jucundo esquecimento 
As cicatrizes dos rasgados golpes. 

Ah ! quão tardio ! Que a rugosa dextra 
Da pesada velhice já na fronte 

Me gravou seus ferretes. . . 

{Obr., I, 304.) 

Era perdida esta esperança, pois que jun- 
to da rainha influirá o Marquez de Alorna até 
ao seu falecimento em 1802. Em uma Ode 
datada de Haya 4 de Julho de 1796, consa- 
grada á sua fuga á Inquisição, Filinto exalta 
a liberdade que gosa na Hollanda : 



294 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Tres lustres e três annos revolvidos 
Tem o meu fado, com austera dextra, 
Depois que aos Lares dei o adeus magoado 
Na eterna despedida. 

E descrevendo a vida farta da terra accre- 
scenta : 

E sobretudo falla-se rasgado 
De Tartufos, de Procissões, de Terços ; 
Ri-se de momos, de beija-mãos, sem medo 
Da Junqueira ou Rocio. 

Bem padeci desterros, desamparo 
Tédio. Porém Delmira, Olinto e Brito 
São mimos da benévola amisade 
Que douram meus desterros. 

(Ohr., 1, 441.) 

Já conhecemos Delmira, a freira que se 
commoveu com a desgraça do poeta ; Olinto, 
o ministro de Portugal António de Araújo, 
que em 1792 tinha prompta a sua traducção 
de Horácio ; Brito, era o secretario da lega- 
ção portugueza na Hollanda, Francisco José 
Maria de Brito (1759 — 1825) a quem Balbi 
attribue o esboço de historia litteraria que 
precede a traducção de Sane Poésies lyriques. 
Possuia bellos livros, como confessa Filinto : 
«Samuel Usque, escriptor portuguez do sécu- 
lo xvr, no seu livro das Tribulações judaicas, 
mui pouco conhecido. ^ O único exemplar que 



^ Entre os papeis de Filinto, possuídos pelo snr. 
Conselheiro Alfredo Tavares de Macedo e examinados 
por J. de Araújo, está uma copia feita por Filinto com a 
declaração: «Não sigo a ortographia original, porque 
jO não merecia.» Eis o titulo: 



FILINTO ELYSIO 295 

1'elle vi, m'o emprestou o cavalheiro Francis- 
co José Maria de Brito.» (Obr., vii, 124.) Es- 

|<;reveu no Padre Amaro, 

Como ardente meridional, Tilinto não se 

[conformava com a natureza da Hollanda o 

Isatirisa-a duramente: 



As terras, que desama o louro Apollo, 
De sapos fartas, fedorentos brejos 
Sem louros, sem searas. 



E emquanto o Caldas, «que enfermou de 
|uma desynteria de versinhos anõesinhos e 
Ichôchosinhos» gosa a veia do Tejo, Fiiinto 
|cae de tristeza n'essa região bassa: 



E eu, comestes gansos, que em grasnar porfiam, 
Queres que aprenda a fabricar cachimbos, 
Batatas adubar, ferver cervejas; 
Cos gansos seja eu ganso? 



^Consolação ás tribulações de Israel, composta por 
Samuel Usque. Impresso em Ferrara em casa de Abra- 
ham a ben Vsque, 5813 da Creação.» 

Este Samuel Usque é o traductor da lyrica de Pe- 
trarcha com o nome Salusque LusrrANO : «De los So- 
netoSy CancioneSy Mandriales y Sextinas dei gran poe- 
ta y orador Fr. Petrarcha, tradtizidos de toscano por 
Salusque Lusitano, con breves su7narios ó argumen- 
tos en todoSj con dos tablas una castellana y la otra 
toscana y castellana con Privilégios. En Venecia, en 
casa de Nicola Bevilacqua. 1567; Id. 1568.» 

O impressor da Consolação de Israel, é o mesmo 
*que estampou em Ferrara, 1554, a raríssima edição da 
Menina e Moça, que traz o seguinte colophão : « Em- 
pressa en Ferrara en casa de Abraham a ben Vsque, 
Õ318 da criaçam a 7 de Sete?nbro.» 



296 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Pois ouvir-lhes a falia ! . . . Vade rétrô. 
Antes ser mouco. Os meus ouvidos puros 
Onde Horácio cantou, cantou Virgílio 
Sujos com nighe naghe! 

Onde ha Castalias! Onde ha aqui Parnasos? 
Terra sem fontes, terra sem montanhas, 
Terra de solidão, sem trato amigo. 
Cartuxa de avarentos! 



Depois de caracterisar o povo : «Falto de 
dansas, falto de folguedos,» accrescenta em 
nota : «E' o divertimento dos taes Piúgas, 
nos domingos e festas de manhã, ir ás bode- 
gas da estrada, que lhes servem de parrei- 
ral, tomar uma ou duas cachimbadas de ta- 
baco, á chucha calada, comerem crú um tal 
peixe secco que não tem mais que pelle e as 
espinhas, beber a cerveja ou zimbro; e os 
mais chibantes jogarem a choca, a que dão a 
alcunha de Taco rasteiro, ^^ (Obr,, iii, 183.) 

Na Ode em que retrata o typo do hoUan- 
dez lapuz, mazorro, com guedelhas cabidas 
pelos hombros, fumegado de arenques e em- 
plastado de batata ensossa, escreve em nota, 
alludindo ás intrigas de 1793, quando Araú- 
jo trabalhava para manter a neutrahdade de 
Portugal: «Foram estes versos labaredas de 
enojadis^imo despeito em que eu rompia na 
triste solidão da Haya ; onde em casa tudo 
era segredo diplomático; tudo eram partidos 
OrangistaSy ou Sans-cidottes, Eu, que não 
conheço outro partido, senão o da paz e do 
socego, adoeci de silencio, e quando vinham 
os crescimentos febris, tresvaliava, e sabiam 
destemperos taes como este.» (Ib,, 134.) E 
abjurando doestes tresvallos, pede que não fa- 



FILINTO ELYSIO 297 



çam «injvisto conceito dos hollandezes.» Em 
outra Ode, apresentando a sua situação peor 
do que a de Ovidio entre uns Getas mais Ge- 
tas que os de Tomes, esboça em uma nota o 
aspecto da Hollanda: «Supponha o benévolo 
leitor, que sobe da Haya n'um aerostat, e 
que peneirando-se entre as nuvens, deita uma 
olhadela contemplativa para as Sete Provín- 
cias da Hollanda. A ideia que súbito se lhe 
põe ás cabritas no entendimento é a repre- 
sentação de Belzebut, Astarot et reliqua 
(depois do banquete e saúdes, que Voltaire 
conta que elles fizeram a Grisbourdon) sahi- 
rem a espairecer pelos ares e vasar por filis- 
tria, n'essas areias as retezadas bexigas, fa- 
zendo aqui e além pocinhas de mijo fedoren- 
to, quaes são as de Maei^dikj mar de Haar- 
lem, etc, onde se refrescam nas grandes cal- 
mas os batatiphagos casmurros.» (76., p. 147.) 
As impressões desagradáveis de Filinto 
poderiam justificar-se em parte pela vida la- 
boriosa de Amsterdam e de Rotterdam, porém 
a Haya appresentava já um tanto do espirito 
francez, que lhe era sympathico. No seu livro 
La Néerlande et la vie hollandaise^ Esqui- 
ros caracterisa assim as três cidades: «Em 
Amsterdam descobre-se principalmente a in- 
fluencia germânica, na Haya a influencia 
franceza, em Rotterdam a influencia ingleza; 
comtudo, n'estas três cidades o elemento in- 
dígena prevalece sempre.» (i, 82.) E sobre o 
espirito pratico e fleugma do povo hoUandez 
ainda observa o mesmo viajante perspicaz : 
« Na Hollanda o homem é incessantemente 
reconduzido ao sentimento da realidade pelo 
cuidado da sua própria conservação e pelos 



298 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



obstáculos materiaes que tem a vencer a cada 
passo. D'isto resulta uma disposição moral 
que não deixa de ter valor. A qualidade do- 
minante do hollandez, que elle exagera mes- 
mo, é o bom senso. Conforme este bom senso 
se associa ao espirito, á rasão encyclopedica 
ou ao génio medico, assim dá Erasmo, Hugo 
Grotius ou Boerhaave.» (i, 87.) Alphonse Es- 
quiros, escrevendo em 1859, consigna obser- 
vações que nos explicam as exagerações pes- 
simistas de Filinto : «A Hollanda para ser 
bem conhecida e appreciada carece de ser ob- 
servada de perto; as suas qualidades não são 
d'aquellas que se alardêam, nem das que se 
impõem a attenção e á sympathia. Um dos 
estrangeiros que melhor viu e julgou os Pai- 
zes-Baixos, é ainda ao fim de dois séculos o 
inglez William Temple; diz o celebre estadis- 
ta:— A Hollanda é uma terra em que o ca- 
racter nacional inspira mais a estima do que 
o amor. O que mais se gosta nas nações, como 
nas mulheres, é muitas vezes não as suas qua- 
lidades, mas os seus defeitos. O hollandez 
tem poucos defeitos, e quanto ás suas quali- 
dades ellas são mais solidas do que brilhan- 
tes.» Mas, consignemos as observações de 
Filinto : 

«Vi, na Haya, um trenél correndo por ci- 
ma do gelo. E' como uma caixa de sege, sem 
tejadilho, quanto mais rica e aformoseada po- 
de ser : não tem rodas ; vae tirada de rojo 
por um soberbo e ponderosissimo cavallo, 
ajaezado ás mil maravilhas, guarnecidos os 
arreios com muita campainha e cascavéis de 
prata. No assento vae uma formosa senhora 
mui entuffada de pelles zibellinas, na taboa 



FILINTO ELYSIO 299 



O seu amante, em pé, sustendo os braços, a 
meio cesto, no debrum do espaldar do assen- 
to; dizendo-lhe cousinhas agradáveis, talvez 
finos requebros, se os elle sabe.» (Ob7\, v, 94.) 
Em uma outra nota, em que lamenta a de- 
mora de quatro mezes na remessa da sua pe- 
quena bagagem «dous bahus de um pobre 
vate» escreve : «Estive cinco annos em Hol- 
landa, e não tinha com quem fallar, senão 
com Judeus portuguezes ; por que da lingua 
hollandeza, ainda que alli vivesse cem annos, 
nem palavra.» fObr., iii, 307.) E' datada de 
1796 a Ode em que se despede da HoUanda, 
imitando a celebre phrase de Voltaire:. 



Ficae em hora má, lagoas, charcos. 
Aposentos de sapos, de canalha, 
De avaros batatiphagos, casmurros. 
De estatuas que cachimbam. 



E fazendo sentir a falta de montanhas na 
Hollanda, diz: «Vê-se um brejo verde de en- 
fastiosa planura, com algumas empolas de 
areias, quando se costêa o Oceano. — E' uma 
consoleza, para quem passeia no bosque da 
Haya, ver diante dos pés os ranchos de sapi- 
nhos irem correndo e saltando.» Annotando o 
verso: «Tens de um ramo de peste a annual 
visita — para o teu desenfado» explica em se- 
guida: «Este anno de 1795 foi assas grosso o 
ramo da peste; houve dia em que morriam 
17, outro 18, e para o fim morriam só 8, 10 
ou 12.» (Ib., IV, 97.) De regresso a Paris, 
elle celebra em 1796 em um jantar intimo os 
seus sessenta e dous annos de edade : 



300 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Passemos, Aguiar, em festa e riso 
Este dia, que o sol viu já sesse?ita 
E dons hynvernos ir precipitar-se 
No golfão das edades. 

Risquemos este dia de contento 
D'esse aranzel de dias enfadonhos 
Perdidos entre a çafia casmurrada 
Da sepulchral líollanda. 

{Ohv„ I, 254.) 

Na Ode virulenta de despedida á HoUan- 
da datada de Leyde, saúda alegre o seu re- 
gresso a Paris: 

Como acenar-me vejo lá de longe 

Co' alegre desenfado 
O umbroso Sena, de cantada veia! 

Lá me espera a saúde, 
(A filha da alegria) com risonho 

Prazenteiro agasalho. 
Lá vou despir o lucto que trajava 

Meu peito ha quasi uon lustro. 
{Ib„ 302.) 

N'esta terrivel crise foi com a liberalidade 
de Francisco José Maria de Brito que o poe- 
ta pôde resistir; assim o confessa em uma 
bella Ode : 

De desterro em desterro poz-me em Haya, 
Povo de estatuas, de enleado idioma, 
Soturna gente falia, qual de cafres 

Confusa algaravia. 
Depois doenças, pleitos de Megera, 
Fallida de Banqueiro; e a fome entrando 
A passos largos pela porta. . . Ai, misero 

Que era de mim, sem Brito ! 

(06/'., III., 51.) 



L ,,,^ ^ 

■p Quando o poeta começava a organisar a 
*ltia vida, tendo collocado algum dinheiro em 
casa do banqueiro Jullien ahi perdeu tudo 
por uma falência fraudulenta. A sua criada 
Chicoineau, que estava em casa havia trinta 
annos, também lhe roubou tudo quanto tinha 
de portas a dentro : 

Eu, que ia, mar de leite, deslisando 
Na agua mansa da vida amena e honrada, 
Naufraguei nos escolhos da Calumnia, 
Perdi os bens e a pátria. 

Co^ estudo, co' favor das doutas Musas, 
Grangeio um sábio, um generoso amigo ; 
Não entrei, não, no templo da riqueza, 
Mas, despedi a inópia. 

Eis, n^um pegão de vento vem Marfisa, 
Turva-me a mente, o soffrimento apura, 
Almoeda-me os bens, de mim diz males 
Quaes nunca ouviu Mafoma. 

Vem apoz Jullien, que estraga quanto 
Com lida e com suor, juntei poupado. 
Foi segundo naufrágio. E eu sem braços 
Com que a nadar me salve! 

{Obr., Ill, 27.) 

Em nota diz acerca da creada: «Tanto me 
valeu tiral-a do estado de costureira, susten- 
tal-a e vestil-a 30 annos ; e ter com ella toda 
a complacência, e ainda amisade.» E de Jul- 
lien commenta: «Banqueiro, que faliu com 
um deficit de dous milhões e meio, em cuja 
mão tinha eu posto quanto me produziram os 
versos que imprimi.» A este facto também al- 
lude Pedro Vicente Nolasco da Cunha em 
uma Ode, publicada no Investigador portii' 
giiez, n.o 28 : 



302 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mais outro Jullien não tenha o vate 
Em mim 



Celebrando em 1814 os seus outenta an- 
nos, Filinto alliide ao roubo que lhe fez a 
Chicoineau, e accrescenta o de outra criada 
sua chamada Michel : 

Mas hoje, que encetei cansado e pobre 
Sexto-decimo lustro, e que a experiência 
Rasgou inteiro o véo, que despintava 
As cores dos succesos. 

E em uma estrophe compara a Chicoineaii 
a Megera, e a Michel a Erynis. (iii, 34). E 
em outra Ode descreve a sua ida ao tribunal: 

C^um génio pachorrento e descuidado 
Quem crera que demandas me arrastassem 
Por pó de tribunaes citado e ouvido? 
Arrastam-me hoje, e alquebram-me. 



No lustro quasi toco sexto decimo, 
Desterrado indigente, desvalido. 
Que me valeu viver ? Prendesse-me antes 
No seu scondrijo o nada. 

[Obr., rii, 116.) 

Era o processo da Michel, em que o poe- 
ta se viu expoliado de tudo, ficando quasi nú ; 
i curiosa a descripção do tribunal nos versos 
ititul.idos perspectiva cómica «Em que mui 
concho fez papel Filinto.» (Ib,, 114.) O senho- 
rio da casa de Filinto chamava-se Gastei, e 
era implacável na cobrança do aluguer : 

Castel vem co^a quitança embandeirada 
Mal abre Jano as portas do Anno novo. 

(Ih., III, 62.) 



FILINTO ELYSIO 803 



Seria o poeta didáctico Gastei? Era a casa 
em Choisy-sur-le-Seine ^ que elle habitava, 
onde vivia em completo retiro: «depois de lá 
morar dous annos, não tive mais conhecimen- 
tos que o de uma pessoa e meia.» (iii, 163.) 

Em uma nota da traducção dos Martyres 
(1812) escreve Filinto: «Pela quarta vez me 
vejo destituído de livros e obrigado a citar de 
memoria. Perdi, pelo terremoto, quantos li- 
vros então possuia. Pela segunda vez perdi 
quanto meu pae ganhou no serviço d'el-rei 
em 60 annos que foi marítimo, e os bons li- 
vros clássicos, gregos, latinos, italianos, alguns 
francezes, castelhanos e muitos portuguezes, 
que com bem custo e trabalho tinha junto, 
lá m'os sequestraram em Portugal. Pela ter- 
ceira vez perdi moveis e 700 volumes, o mais 
injustamente, desde que o mundo é mundo, 
penhorado por sentença de juizes. Pela quar- 
ta e ultima vez (digo ultima, porque já não 
tenho que me penhorem) a minha tal e qual 
Livraria, fato e moveis os perdi, pela perfí- 
dia de uma mulher, que tomei para me ser- 
vir, a qual os juizes condemnaram a restituir 
tudo e a dous annos de prisão ; e outros ar- 
bitraram, que ella ficasse com tudo; e a que- 
rer eu resgatar o que era meu, pagasse 940 
francos, que eu nunca devi.» ^ 



^ Ferdinand Denis escreve Choisy-le-Roy. (Biogra- 
phie nouvelle.) 

2 Obras, t. vii, p. 228. Entre os papeis de Filin- 
to, hoje em poder do snr. Conselheiro Alfredo Tavares 
de Macedo, conserva-se o seguinte Memorial, que nos 
revela mais uma das suas desgraças económicas : 



804 HISTORIA DA LlTTEKATURA PORTUGUEZA 



Duas datas apparecem celebradas nos ver- 
sos de Filinto: 23 de Dezembro, ^ em que 
nascera, e 4 de Julho em que se salvara das 
garras do Santo Officio. São muitas as odes 
em que apparecem referencias e dolorosas re- 
flecções do horaciano a estas datas. Era este 
um motivo aproveitado pelos amigos para o 
distrahirem. Desculpando-se de fazer versos 
em uma edade já provecta, diz Filinto: «Além 
de que, posso eu deixar de condescender com 
os amigos, que vêm festejar commigo o dia 
4 de Julho, e o de 23 de Dezembro, e que 
assim engelhada e velha, como ella é, querem 
ouvir cacarejar a minha Musa?» ^ A sua con- 
formação e quasi renuncia da vida, davam-lhe 
á linguagem uma sentimentalidade sentencio- 
sa, que o aproximava de Horácio : 



«A Monsegneur le Comte de VergenneSj Ministre 
et Sécretaire WEtat, 

«L^Abbé François Emmanuel du Noêl, Partugais, 
a prété au Sieur Baillot sous la cautioti du Sieur de 
Tour, la somme 8:000 fr. moyennant la rente viagere 
de 100 écus par an. Mr. Homme Notaire en a passe 
Tacte. Le Sieur Baillot ne paye point les interets, et 
vient tout recemment de vendre au S.^' Collenot le seul 
bien qu'on lui connaissait. Le S.»' Collenot doit faire 
son premier payement en Avril prochain. Tout est per- 
du pour TAbbé Noêl, si un Ministre dontles Etrangers 
ressentent journellementla bienfaisance n^interpose son 
autorité pour le faire rembourser de cette modique 
somme, seul reste d^une fortune considerable, que des 
malheurs non merités lui ont enleve.» 

1 A certidão de baptismo diz: 21 de Dezembro. 

2 Ih,, t. IV, p. 3. 



FILINTO ELYSIO 805 



Eu que além piso a raia a doze lustros, 

Que de alterna fortuna 
Com sombra egual provei penas, favores, 

Que bebi proveitoso 
Sazonadas lições da experiência 

Na carreira da vida : . 
Que co' fanal da reflexão attenta 

Vi no pego do nada 
Cahir tantas Cordas, subir tantas 

Que impróprias frontes curvam; 
Tanto desejo ardente não cumprido, 

O morto apenas nado; 
Tantos ricos, illustres, poderosos, 

E tão pouco felizes, 
Só peço ao Céo dourada mediania, 

Em plácido remanso, 
Saúde alegre, e Lyra, com que cante 

Louvores da amisade. 

(0??r., I, 138.) 

A situação desolada em que se achava Fi- 
iinto, sem interesses na sociedade do seu tem- 
po, a que era completamente extranho, sem re- 
lações com o passado a que fora abruptamente 
arrancado e cujas recordações eram profun- 
damente dolorosas, fel-o n'este vácuo moral 
procurar o alento da Poesia. E foi em Horá- 
cio que Filinto encontrou a expressão mais 
adequada a esta situação desgraçada. Parece- 
rá absurdo, que um poeta da corte de Augus- 
to, de uma civilisação extincta, podesse tra- 
zer consolos a uma alma solitária ! Crêr-se-ha 
que era a cultura erudita que levava Filinto, 
como eximio latinista, para a leitura constante 
de Horácio ; mas não, dava-se entre elles uma 
affinidade mais intima, e d'ahi é que resultou 
a perfeita comprehensão e a clara imitação 
do lyrismo horaciano. Filinto viveu em uma 
época em que o gosto arcádico ou pseudo- 



806 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

clássico estava decahido e um tanto ridicula- 
risado ; a renovação do Eomantismo nas lit- 
teraturas modernas ainda não se accentuava 
nitidamente: em que corrente de Poesia se 
deixariam levar, n'este periodo de esgota- 
mento de um ideal antigo e indeterminação 
de um ideal moderno? Elle só por si não po- 
dia fazer essa creação, por que um ideal é 
sempre uma synthese das concepções geraes. 
Em Horácio encontrou Filinto resolvido o 
problema : também Horácio surgira no fim de 
uma edade esgotada, e antes da renovação 
social e sentimental do Christianismo. A sua 
intuição artística suprema levou-o a divisar 
a poesia na natureza, na espontaneidade affe- 
ctiva, procurando nos prazeres intelligentes 
e delicados o esquecimento das amarguras 
inevitáveis da vida : sollicitae jucunda obli- 
via vitae, 

Lamennais, no seu Esboço de uma Philo- 
sophiay caracterisou Horácio e Virgílio por 
este aspecto naturalista e sympathico, que os 
torna ainda modernos: «No tempo em que 
elles viveram, quasi todas as fontes da poe- 
sia primitiva estavam esgotadas. Não pode- 
ram por tanto crear obras doestas que appa- 
recem nas origens como revelações do bello 
infinito e como typos eternos da Arte; mas 
ambos encontraram em si riquezas bastantes 
para se elevarem a uma categoria quasi pri- 
macial. Foram poetas pela única maneira que 
se pode ser, quando a fé está apagada, e 
quando os costumes perderam a sua simplici- 
dade ingénua, pelo sentimento da natureza e 
da humanidade, unidos a uma ternura de co- 
ração em Virgílio, e a uma fina penetração e 



FILINTO ELYSIO 307 



extrema delicadeza de pensamento em Horá- 
cio. O bulicio das cidades, os ruidos banaes 
incommodavam-os egualmente. — Embora a 
lyra de Horácio vibre sons melancholicos e 
ternos, elle interessa-nos quasi sempre, e sabe 
encantar por outros recursos. A rasão, a ex- 
periência das cousas, um espirito liberto das 
illusões vulgares, sem humor tristonho nem 
azedume, eis o que predomina n'elle. Lançou 
sobre a vida humana um olhar profundo; 
viu-a passar como o sonho de uma sombra, e 
rindo-se d'aquelles que confiam no dia seguin- 
te, convida o atilado a tirar partido da hora 
presente, a única que lhe pertence, a semear 
de flores o curto trajecto que separa o berço 
da sepultura. Seja qual for o vicio d'esta phi- 
losophia semi-stoica, semi-epicurista, que não 
leva em conta os deveres do homem, nem o 
seu destino providencial, tem ella comtudo um 
lado verdadeiro, um lado que corresponde 
aos nossos instinctos Íntimos : porque, tudo 
quanto nos recorda a fuga rápida da nossa 
existência de um momento, a incerteza do dia 
que segue, a insânia dos nossos votos, a ina- 
nidade das nossas esperanças, tudo isso tem 
para nós um attractivo mysterioso, que nun- 
ca se extin'gue. A pureza, a perfeição da for- 
ma appresentam um outro attractivo não me- 
nos poderoso, e encontram-se no mesmo gráo 
nas producções, aliás tão differentes, doestes 
dois grandes poetas. Com elles acaba o perío- 
do da arte que precedeu o Christianismo.» ^ 
As Odes de Filinto são perfeitamente ho- 



De VArt et du Beau, p. 255. Ed. 1885. 



308 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



racianas por esse sentimento de naturalidade 
com que representa situações simples da sua 
existência ; ^ o momento passageiro da ef fusão 
de antigas amisades; recordações dolorosas 



^ Colligimos aqui a série bibliographica das tra- 
ducções e imitações portuguezas de Horácio. Por esta 
lista de auctores poder-se-ia formar uma edição á ma- 
neira da que fez Menendez Pelayo no seu Horácio em 
Hespanha. 

Traducçoes das Poesias de Horácio em verso portuguez 

SÉCULO XVI 

JORGE FERNANDES (Fr. Paulo da Cruz, o Fradinho da Rainha) 

Livro m, Ode 24. (Ms. do Visconde de Jurumenha, 
fl. 98; publicada por D. Carolina Michaêlis, 
na Zeitschrifte fur rofnaniseh Philologie, 
vol. VIII, p. 628.) 

ANDRÉ FALCÃO DE RESENDE ^ 

Livro I, Ode 1.^ (Nas Poesias de André Falcão, ed. 
de Coimbra (incompleta) p. 189. 
* Ibi, p. 192. 
195. 
198. 
200. 
202. 



Ode 
Ode 
Ode 
Ode 
Ode 
Ode 
Ode 



2. 
3. 

6.' 



Ib., p. 

Ib., p. 

Ib., p. 

Ib., p. 
7.^ Ib., p. 204. 
8.^ Ib., p. 206. 
Ode ll.-^Ib., p. 208. 
Ode 19.-^ Ib., p. 209. 
Ode 22.^^ Ib., p. 211. 
Ode 24.^ Ib., p. 213. 
Ode 26.^ Ib., p. 215. 
Ode 28.a Ib., p. 216. 
Ode 31.Mb., p. 219. 
Ode 34.^ Ib., p. 221. 
Ode 35.'^ Ib., p. 223. 



FILINTO ELYSIO 309 



avivadas para não doerem as magoas e misé- 
rias do dia presente. Filinto queixa-se sem 



Livro II, Ode 2,^ Ib., p. 225. 

Ode 2,^ Ib., p. 227. 

Ode 10.^ Ib., p. 229. 

Ode 14.'-^ Ib., p. 231. 

Ode 18.'-^ Ib., p. 233. 

Ode 20.^^ Ib., p. 236. 
Livro m. Ode 1.* Ib., p. 238. 

Ode 2.a Ib., p. 242. 

Ode 3. a Ib., p. 244. 

Ode 6.'^ Ib., p. 248. 

Ode 16.^ Ib., p 251. 

Ode 23.a Ib., p. 254. 

Ode 24.^ Ib., p. 256. 

Ode 29.^ Ib., p. 259. 
Livro IV, Ode 7.^ Ib., p. 262. 

Ode lO.a Ib., p. 264. 
Epodo II, Ib., p. 265. 

Livro I, Sátiras 2.» Ib., p. 343. 

ANONYMAS 

Livro I, Ode 3.=^ Ed. Caminha, p. 235. 

» I, Ode l.« Ib., p. 222. 

» I, Ode 3.^ » p. 221. 
Livro II, Ode 14. ^ Ed. Caminha, p. 238. 
Livro III, Ode 5.^ » p. 225. 
Ad Sodales p. 229. 

PEDRO DA COSTA PERESTRELLO 

6 Odes (Ed. Caminha, p. 17 a 26.) 

SÉCULO XVIIl 
FRANCISCO JOSÉ FREIRE 

Sátiras e Epistolas de Q. Horácio Flacco, trad. e 
illustradas. 1765, 1 vol. ms. inédito na Bibl. de Évora. 

— A Sátira 1.* do Liv. i; está impressa na versão 
de António Luiz de Seabra. 



810 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



amargura e sem rancor, mas conforma-se com 
as desgraças, com as decepções. Horácio tor- 



Arte poética^ de Quinto Horácio Flacco, traduzida 
e illustrada em portuguez. Lisboa. 1758. In-4.^ (com o 
retrato do Conde de Oeyras.) — 2.» Ed. 1778; 3.^ de 
1784. 

P.'' THOMAZ JCSÉ DE AQUINO 

Traducção portugueza da Ode iv, do Livro iv de 
Quinto Horácio Flacco, princepe dos Poetas latinos, 
por Paulo Germano. Lisboa, na Officina de Manoel 
Coelho Amado. 1761, in-4.o de xxxv-17 p. 

Traducção portugueza da Ode xi do Livro i, e da 
V do Livro iii, de Quinto Horácio Flacco, por Paulo 
Germano. Vão juntamente as analyses das mesmas 
Odes, e vão também umas notas tumultuarias. Lisboa, 
Off. de M. Coelho Amado, 1762, in-4.o 

A Poética de Q. Horácio Flacco restituída á sua 
ordem, com a interpretação paraphrastica em portu- 
guez, e uma Carta do editor a certo amii^o sobre o mes- 
mo assumpto. Lisboa, na Regia Offic. Typ., 1793. 
In-4.<^ de xxvn-167 pp. (E^ em prosa; e segue a dispo- 
sição arranjada pelo italiano Pedro António Petrini.) 

A Epistola l.a do Livro segundo de Quinto Horá- 
cio Flacco a Augusto, com a interpretação em verso 
portuguez. Accresce a Poética do mesmo Horácio resti- 
tuída á sua ordem, e traduzida em verso vulgar. Lis- 
boa. Regia Offic. Typ. 1796. In-4.o de 111 pag. (Segue 
a disposição do texto como na prosaica.) 

MIGUEL DO COUTO GUERREIRO 

Arte poética de Horácio, traduzida em rima vul- 
gar. Lisboa, na Regia Officina Typ. 1772. In-8.^ de 
xvn-35 p. (Em endecasyllabos emparelhados.) 

JOAQUIM JOSÉ DA COSTA E SÁ 

Odes de Quinto Horácio Flacco, príncipe dos Ly- 
ricos romanos, traduzidas em portuguez com o texto 
em frente, enriquecidas de notas e commentarios, etc. 
Lisboa. 1780. In-8.« 3 tomos. (Em prosa). 



FILINTO ELYSIO 



311 



la-se-lhe um companheiro, um confidente, e é 
luasi sempre de um hemistychio ou de uma 



— Outra edição, de Lisboa, Offic. regia, 178 p. To- 
10 i: os Cinco Livros das Odes, illustradas com eru- 

iitas notas. Tomo 2.° que contem as Epistolas e Sati- 
raSy illustradas com commentarios selectos. 

— Outra do tomo ii, da mesma Officina em 1790. 
tn-8.0 

— Outra de 1805 (o tomo i). 
Arte poética, ou Epistola de Q. Horácio Flacco aos 

Pisões, vertida e ornada no idioma vulgar, com illus- 
|rações, notas e regras analyticas. Lisboa, 1794. In-8.^ 

MANOEL IGNACIO SOARES LISBOA 

Sátiras (em prosa.) Ap. Inn. 



JOSE ANTÓNIO DA MATTA 

Odes de Quinto Horácio Flacco^ traduzidas litte- 
Iralmente na lingua portugueza. Lisboa, 1783. Tomo i. 
•1786. T. n. In-8.o. 

ANTÓNIO DE ARAÚJO (Conde da Barca) 

[ Odes de Horácio, traducção (Ms. escripto na lega- 
bão de Hollanda, ao qual allude Filinto Elysio.) 1792. 
|Inedito). 

JERONYMO SOARES BARBOSA 

Poética de Horácio, traduzida e explicada metho- 
iícamente para uso dos que aprendem. Coimbra, Reg. 
officina Typ. 1781, In-8.o 

D. RITA CLARA FREIRE DE ANDRADE 

Arte poética de Q. Horácio Flacco, traduzida em 
^erso rimado. Reg. Offic. da Univ. 1781. In-8.o 

ANTÓNIO DINIZ DA CRUZ E SILVA 

SatyraSy Liv. i, Sat. 4.* {Poesias, t. iv, p. 65.) 



312 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



phrase de Horácio que sae a faisca poética 
que o leva á idealisação e á espontaneidade 



PEDRO JOSE DA FONSECA 

Arte poetiea de Q. Horácio Flacco. Epistola aos Pi- 
sõeSj traduzida em portuguez, e illustrada com esco- 
lhidas notas dos antigos e modernos interpretes, e com 
um commentario critico sobre os preceitos poéticos^ 
lições varias e intelligencia dos logares difficultosos. 
Lisboa, na Officina de Simão Thadeo Ferreira, 1790. 
In-4.o de xix-272 (o texto da Epistola é em prosa, e 
occupa o livro até p. 95 ; tudo o mais é commentario.) 

FILINTO ELYSIO 

Liv. I Ode 2. a (Parodia) Obras completas, t. i, p. 444. 

Liv. i Ode 3.^ (Ib., xi, 81.) 

Liv. I Ode 11.^ (Ib., xt, 74.) 

— Ode 38, a (Ib., 75.) 

— Ode 28.« (Ib., 83.) 
Liv. I Ode 22.a(Ib., 84.) 

— Ode 31.a (Ib., 86.) 

— Ode 9.^ (Ib., 85.) 
Liv. I Ode 12.a (Ib., iii, 189.) 
Liv. i Ode 13.^ (Ib., iii, 202.) 

Liv. II Ode 8.^ (Imitação ; ib. iii, 226.) 

Liv. II Ode lO.a (Ibid., t. i, 447.) 

Liv, III Ode 5.^1 (Ib., 78.) 

Liv. IV Ode 2.a (Ib., iv, 77.) 

Liv. V Ode 3.a (Ib.,iv, 82) 

Epodo VII (Ib. in, 293.) 

Epistola 2.a Liv. i, (Ib., v, 154.) 

FR. JOSÉ DO CORAÇÃO DE JESUS (Almeno) 

Livro i, Ode 1.^ (Poesias de Almeno, 1. 1, p. 61.) 

JOSÉ DIAS PEREIRA 

Livro II, Ode 17.* (Na versão do Dialogo de Cicero 
Catão ou a Velhice, pelo P.^ Tho- 
maz de Aquino, p. 109.) 



FILINTO ELYSIO 313 



de uma Ode. As poesias de Horácio foram 
estudadas e imitadas por alguns dos nossos 



ANTÓNIO ISIDRO DOS SANTOS 

Arte poética de Horácio. (Attribue-se-lhe a traduc- 
ção que anda em nome de D. Rita Clara Freire de An- 
drade, que também se julga ser de seu marido Bartho- 
lomeu Cordovil de Sequeira de Mello, professor de 
Grammatica latina em Algodres.) 

BARTHOLOMEU SOARES DE LIMA BRANDÃO 

Liv. 1, Ode 13. a (Obras poéticas, p. 32, e 40.) 

Epodo 2:' 

DOMINGOS CALDAS BARBOSA 

Liv. 1, Ode 1.* (Almanach das Musas, P. m.) 

FRANCISCO DIAS GOMES 

Liv. 1, Ode 14.^ (Obras poéticas, p. 356.) 

FRANCISCO MANOEL DE OLIVEIRA 

Liv. 1, Ode 1.^ 2.% 5,^^ 6.^ e 22. -^ — (Na Collecção poé- 
tica, t. 11, p. 84 e seg.) 
Liv. 11, Ode 3. a 
Epodos 1.0 e 15.<^ 

FRANCISCO ROQUE DE CARVALHO MOREIRA 

Liv. 1, Ode l.a (Poesias varias.) Ap. Inn. 

SÉCULO XIX 
JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO 

(1812 — 1813) 

Livro I, Ode 2.^ {Semanário, vol. ii, 397 a 400.) 
Ode 3.a (Ibid., » ii, 264 a 265.) 

Ode 5.^ (Ibid., » i, 417 a 418.) 

Livro II, Ode 12.-^ (Ibid., » i, 152 e 153.) 

Ode 14.a (Ibid., » i, 373 a 375.) 



814 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



quinhentistas ; no século xvii perdeu-se o gos- 
to doesse modelo, e pode-se concluir que Fi- 



Livro II, 



Ode 16.a (Ibid., 
Ode 30.^ (Ibid., 



vol. I, 287 a 290.) 
» I, 279 a 280.) 



Obras de Horácio, traduzidas em verso portuguez. 
Tomo I. Os 4 Livros das Odes e Epodos. Lisboa. Im- 
pressão regia 1806. In-8.o de xxx — 222. Tomo ii — 
Epistolas j Sátiras e Arte poética (Entregue ao Dire- 
ctor da Impressão regia, mas actualmente perdido o 
autographo não tendo chegado a imprimir-se.) 

BENTO JOSÉ DE SOUSA FARINHA 

Analyse da Epistola aos Pisões^ vulgo Arte j)oeti- 
ca de Quinto Horácio Flacco, feita em Í801. Ms. iné- 
dito (Cita-o Innocencio.) 



Epodo 2.0 
Epistolas, 



Livro 1, 
» 11, 
» 111, 

» IV, 

Epodo 2; 



Livro 1, 



JOSE MARIA DANTAS PEREIRA 

(Diversões métricas, p. 78.) 
Liv. 1, Epistola 2. a (Diversões métricas, 
p. 78.) 

NUNO ALVARES PEREIRA PATO MONIZ 

Ode 8.a 
Ode 19.^ 
Ode 3.a 
Ode 2.a 
(Todas no Observador portuguez de 1818, 

1819, e em vários números do Ra- 

malhete.) 



ANONYMO 



Ode 3.^ 
Ode l.« 



2. a, 4 % 6.a, 7.a 8.% e 14.^ (Nos 
Annaes das S ciências, das Artes 
e das Letras. (Vid. Diccion. bibl., 
t. 111, p. 206.) 

> Ode 1.* No Beija-flory jornal de versos^ 

p. 99 e 111. 

^ 111, Ode 2.a Ib. 



FILTNTO ELYSTO 



315 



ito é que restabeleceu no ultimo quartel do 
feculo XVIII de uma maneira franca a reno- 



MARQUEZA DE ALORNA (Alcipe) 

I, Ode 2. a (Imitação) Obras poéticas, vol. ii, 
119. 

» Ode 4.a(Ib., p. 132.) 

» Ode 21.a Imitação. (Ib. 122.) 

» Ode- 6.»(Ib., p. 135.) 

» Ode 30.a (Ib., p. 124.) 

» Ode ll.a (Ib., p. 131.) 

» Ode 28.a (Ib., p. 137.) 

II, Ode 2.» (Ib., p. 129.) 
» Ode 17.a (Ib., p. 141.) 

|iv. 111, Ode 2.a (Ib., p. 127.) 
» Ode 9.» (Ib., p. 139.) 
\rte Poética (Ib., t. v, 9 a 55.) 

DR. ANTÓNIO RIBEIRO DOS SANTOS 

A Lyrica de Quinto Horácio Flacco, trasladada em 
verso portuguez. Lisboa. Imp. regia. 1807. In-8.« 2 to- 
mos. (Com o nome de Elpino Durie?ise. J — Foram sup- 
primidas 16 Odes n^esta traducção, e feitas modifica- 
ções por causa da intenção moral. 

D. GASTÃO DA CAMARÁ 

Paraphrase da Epistola aos Pisões, commummente 
denominada Arte Poética de Quinto Horácio Flacco, 
com annotações sobre muitos logares. Lisboa, 1853. 
In-8.« (Posthuma) 

ANTÓNIO LUIZ DE SEABRA 

Sátiras e Epistolas de Quinto Horácio Flacco, 
traduzidas e annotadas. Porto, na Typ. Commercial. 
1846, 2 tomos in-S.^ de xvi-321; e iv-320 pp. (Com 
duas estampas.) 

DR. ANTÓNIO JOSÉ DE LIMA LEITÃO 

Arte poética de Horácio, traduzida em verso. Bahia 
1817. In-8.«— Lisboa, 1821. In-8.'^ 



816 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



vação tentada por Garção do espirito hora- 
ciano. 



ANONYMOS 

Liv. 1, Sátiras: Sat. i Ç^o Interessa7itej t. i, p. 156.) 

» 1, Sat. 7.^ » p. 86. 

» 1, Sat. 8.^ » p. 108. 

» 11, Sat. 1 Ibid., p. 39. 

Epistolas, Liv. i, Epist. 1.» (No jornal o Interessaíitey 
t. 1, p. 16.) 

D. FRANCISCO ALEXANDRE LOBO 

Liv. 1, Ode 7.* (Obras, t. i, p. 410, e seg.) 
» 11, Ode 14.* 

FRANCISCO DE BORJA GARÇÃO STOCKLER 

Liv. 1, . Ode l.-'^ (Poesias lyricas, p. 49 e seg.) 
Ode 14. a 

JOÃO BAPTISTA DE ALMEIDA GARRETT 

Liv. IV, Ode 2.* (Flores sem fructo.) A Glycera, ib., p. 
49 e seg. 

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO 

Liv. Ill, Ode XIII. (Nas Excavações poéticas^ p. 72 e 73 ; 
vem uma parodia á mesma.) 

JOSÉ AUGUSTO CABRAL DE MELLO 

Odes de Q. Horácio Flacco, traduzidas em lingua 
portugueza. Angra do Heroísmo. Typ. do Angrense. 
1853. In-8.o gr. de 412 p. (Parte da edição, de p. 232 
em diante realisada em Lisboa.) 1 vol. 

Avulsa : 

Ode 3.^ do Liv. iii das Odes de Horácio, traduzida 
em verso portuguez. Angra. Imp. do íris. 1841. In-8.^ 
de 8 p. 



FILINTO ELYSIO 817 



^Bqueria estar no paraíso. A desgraça do poe- 
^Bta, cujo nome fora iniquamente infamado, ^ 
avivou no desterro de Filinto um sentimento 
de piedade e de admiração. Eram irmãos na 
adversidade, victimas ambos, um do Despo- 
tismo e o outro do Fanatismo. Longe de Por- 
tugal é que Filinto começou a estudar a obra 



FRANCISCO EVARISTO LEONI 

Liv. m, Ode 9.^ (Obr, poéticas, p. 28.) 

PICOT 

Obras de Horácio (Traducção completa, em prosa com 
o texto. Paris, 1898.) 

* Transcrevemos aqui esse Soneto inédito de Gar- 
ção elogiando o Senado de Lisboa, que foi substituído 
pelo presidido pelo filho do Marquez de Pombal : 

Fiel á Pátria, ao Rey, a si, a tudo, 
Sincero sempre, e sempre contendido, 
Tão amplo bemfeitor, quanto offendido 
Pelo dente voraz de um povo rudo; 

Da viuva, do órfão sempre escudo, 
Por parte da Rasão sempre atrevido, 
De insultos vãos por máxima esquecido. 
De culto nas acções sempre sisudo; 

Columna de antiquíssimos direitos. 
Voz da Nação, que exactamente sôa 
Qual ecco, pela estrada dos preceitos ; 

Este o Senado, a quem perdeu Lisboa' . . 
Vêàe pois, cidadãos, com novos feitos 
Se a Camará que vem vos é tão boa. 

[Ms, da Colf. Merello.J 



318 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



de Garção e a reconhecer-lhe o intuito reno- 
vador. Elle não tinha a edjção impressa em 
1778; entre os papeis do seu espolio, hoje 
em poder do conselheiro Alfredo Tavares de 
Macedo, encontram-se quatro cadernos das 
Obras poéticas de Garção, copiados por letra 
do próprio FiUnto, na livraria de António de 
Araújo, quando esteve na Hollanda. Foi so- 
bre esses manuscriptos que o estudou e releu, 
recebendo o impulso para continuar a sua em- 
preza truncada pela fatalidade. Nas Obras de 
Filinto ha uma obsessão admirativa por Gar- 
ção, e d'essas referencias deduz-se o pensa- 
mento que lhe deve. 

Na sua admiração por Goridon, Filinto 
encara-o como um continuador de Sá de Mi- 
randa, de Ferreira, Bernardes e Caminha : 

Coridon, Coridon, nos braços doestes 
As Musas te visitam, te bafejam 
Co^a harmonia do Pindo; e em ti as Graças 
Canto de Horácio vertem. 

. (Obr,, IV, 405.) 

E por via doestes poetas, Filinto estabele- 
cia a solidariedade esthetica com os poetas 
clássicos : 

Os que como Diniz, Garção, Ferreira 
Meditam, folheando noite e dia 
Os Gregos e Romanos, de alto preço, 
E dão moldados versos n^estes cunhos. 
Dignos de entrar no Templo do bom gosto, 
São os que estimo só, de quem recebo 
Com gosto e com respeito o bom reparo. 

(Obr., V, 317.) 

Na extensa Carta a Brito, espécie de Arte 



FILINTO ELYSIO 819 



poética sob a reminiscência da Epistola aos 
Pisões, Filinto aponta a influencia de Garção 
sobre o seu tempo: 

Taes eram approvados e bemquistos 
Por nobre imitação de almos traslados 
Do pindarico Elpino as cultas Odes; 
E a facúndia bebida nos Antigos 
Que vertia o Garção nos seus poemas, 
Quando na Arcádia outr^ora os escutava 
De atilados varões o estreme ouvido. 

(Ohr., I, 38.) 

Combatendo aquelles que advogavam o 
emprego dos neologismos na lingua portu- 
gueza mofando das phrases sediças do cadu- 
co Lucena e do aguado Barros, inflamma-se 
Filinto e para dar todo o relevo aos seus ar- 
gumentos em uma prosopêa appresenta Gar- 
ção doutrinando :" 

Cuido que o vejo erguer-se arreminado 
Lá da campa onde jaz seco e moido, 
O meu Garção, e azedo e zombeteiro 

Responder-lhes assim : 

«A elocução é tudo. Uma sentença 
Que tosca refugaes por desagrado. 
Se com phrase concisa, ornada e culta 
Vem ferir n^alma, o ouvido amaciando, 
Abalados ficaes, ficaes absortos, 
Namorados da sua formosura. 



Dar com vozes valor ao pensamento, 
Dar-lhe côr, dar-lhe vida é o grande estudo, 
A gram venida de immortaes Autores. 
Que não basta dar pasto são á mente, 
Se não vem adubado de bom gosto ; 
E assim é que a verdade cala na alma. 
Louçã, c^os atavios da Eloquência ; 
E assim também resvala dos ouvidos 



320 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



Se vem seca, ou ensôssa ou mal trajada. 
Uma palavra nova, ou renovada 
Desperta o ouvido, é saudável toque 



Canoros despertae co^a novidade; 
Beliscae meigamente o seio da alma ; 
Inventae, renovae, usae translatos, 
Convidae o appetite, dae-lhe forças, 
Envidae o saber, obtereis graças 
De quem bem instruístes, deleitando-o. 

{Ib., p. 42 a 48.) 

E para fundamentar esta doutrina, que põe 
na bocca de Garção, vae Filinto deixar em evi- 
dencia as bellezas da deliciosa Cantata de 
Dido : 

Olha o Garção, tão rico na pintura 
Da infeliz Dido, as cores assignala, 
. Quando perecedora, entregue a Clotho, 
« Com a convulsa mão súbito arranca 
A lamÍ7ia fulgente da bainha^ 
E sobre o duro ferro penetrante 
Arroja o tenrOy cristalino peito: 
Em borbotões de espuma murmurando, 
O quente sangue da ferida salta; 
De roxas espadanas rociadas 
Tremem da sala as dóricas columnas.» 
Não ha termo que não traslade ao vivo 
No 'sprito do leitor o fiel quadro 
Que o Garção debuxou na clara ideia. 
Sim ; que Estudo e Rasão lhe persuadiram 
Que ao vate acceito a Apollo, acceito ás Musas, 
Cabe espertar no ouvinte imagens vivas 
Com valente pincel, accesas cores. 
Arrojado nos rasgos, lumes, sombras, 
E ardente como esse Estro, que o inflamma. 

(Ihid., p. 54.) 

E da linguagem simples, mas repassada 
de poesia com que o Garção descreve situa- 



FILTNTO ELYSIO 321 



ções domesticas e intimas aponta Filinto o 
modelo Nos últimos Adeus ás Musas: 

Assim GarçãOj seguindo o Venusino, 
Toma o vôo, co^as azas estendidas, 
Quando canta a progénie illustre e fera 
Dos que na paz dourada ou guerra dura 
A si ganharam claro nome, e aos netos : 
Ou, amansando o vôo, busca o trilho 
Do Teio Anacreonte, quando escreve 
Vermelhas brazas, alvo pão tostandOy 
Ou do Delphim a calva loura e lisa, 
Da carroça dos annos não trilhada. 
Assim perde também de vista a terra 
Diniz, que emular Pindaro contende. . . 

(Ibid., p. 415.) 



Junto com Garção cita sempre Filinto como 
uma trindade renovadora da poesia portu- 
gueza Diniz e Domingos Maximiano Torres: 
Coridon, Elpino, Alfeno, Sobre o emprego 
das palavras compostas, abona-se com esses 
três poetas: 

Que enfeite e gala não recebe a língua 
Quando são por mão sabia collocadas 
Compostas^ que nos forram largas prosas ! 
E que dão novidade e dão deleite 
A quem lhes sabe dar o preço e estima ! 
Tão peco é o Camões quando descreve 
Do stellifero polo os moradores, 
E a bellicosa gente? E despiciendo 
O Garção, o Diniz, quando com duas 
Já conhecidas vozes compõem uma. 
Imitando a Camões e antigos Vates ? 
Que bem pintou Alfeno, alumno doestes, 
O carro, que briosos vão tirando 
Os auri-verdeSy bi-pedes cavallos! 

{Ib., 74.) 



31 



322 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 

Filinto filia n'estes três poetas a renovação 
que destruiu o estylo seiscentista das Acade- 
mias: 

Inda ha pouco Garção, ElpinOj Alfeno. . . 

As lyras receberam 
Dos Cantores mais altos do Parnaso, 

E sobre as doutas cordas 
Já renovaram as Canções dircêas. 

António Diniz da Cruz e Silva não ficou 
indifferente a estas homenagens de Filinto, 
e escreveu-lhe uma carta cerimoniosa, que es- 
tá publicada ; os elogios a Domingos Maxi- 
miano Torres parecem-nos hoje excessivos, 
mas justificam-se: Filinto fora o seu guia, e 
amava-o como discípulo, que mesmo na pátria 
não foi menos desgraçado do que elle. Com 
Alfeno conservou uma viva correspondência 
com que suavisava as saudades de Portugal. 
São aqui cabidas duas linhas sobre este deli- 
cado poeta, que vivera em Lisboa na intimi- 
dade de Filinto. 

Em uma Ode ao anniversario de Filinto, 
em 23 de Dezembro de 1777, confessa Do- 
mingos Maximiano Torres dever-lhe a eman- 
cipação do seu espirito : 

Meu doce salvador, tu me arrancaste 
Das mortíferas garras sanguinosas 
Do ávido Rigo7'is7iiOy que intentava 
Roubar-me a luz do. dia. 

Co^a tocha da Verdade deslumbraste 
Os vesgos olhos da tartárea Fúria, 
E mostraste-me as bordas que pisava 
Do immenso precipício. 



FILINTO ELYSIO 323 



Como amigo benéfico me ensinas 
A desandar as hórridas ambages 
Do cego labyrintho inextricável 
Em que me poz o monstro. 

No tempo em que convivia com Filinto, 
Alfeiio estava empregado na catalogação da 
Livraria da Casa real, de que foi despedido 
pelo Marquez de Pombal, por não lhe agra- 
dar a letra, E' interessante este episodio da 
sua vida para a historia litteraria. 

Depois do incêndio da Bibliotheca da Ca- 
sa de Bragança, o Marquez de Pombal tratou 
de fazer a acquisição de uma nova livraria 
para o paço. O modo como se fez essa acqui- 
sição está mascarado por uma doação liberal 
do grande bibliographo Abbade Diogo Bar- 
bosa Machado a el rei Dom José em 1770. 
O transporte da livraria do Abbade, auctor 
da Bibliotheca Luzitana, fez-se ainda em sua 
vida, e elle mesmo e o seu commensal padre 
Francisco José da Serra Xavier presidiram 
ás remessas para a bibliotheca real. A corre- 
spondência da entrega dos livros é entre Bar- 
bosa Machado e um tal Nicoláo Pagliarini ; 
por uma carta do illustre bibliographo ao 
Bispo de Beja, sabe-se que este partidário do 
Marquez de Pombal é que induziu aquelle 
venerando académico a fazer esta cedência da 
sua querida bibliotheca: «Como por V. Ex.^ 
começou este negocio, he de razão que tam- 
bém acabe. Está concluída a remessa dos Li- 
vros, e pelas Memorias inclusas se verá quaes 
faltaram e quantos se remetteram, que não 
estavam no rol. Se se reparar que entre elles 
faltaram a Historia genealógica da Casa real 
do P.C Sousa, o Tractado analytico de Leitão, 



824 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

e outro algum livro, he de advertir, que como 
meu irmão os tinha, e vivíamos juntos, nunca 
quiz dobrar o que tinha de casa.» ^ Separado 
da sua Bibliotheca, o erudito abbade pouco 
sobreviveu, falecendo a 9 de Agosto de 1772; 
a tença de 600S000 rs. que lhe cedeu o mo- 
narcha não lhe dava a consolação das suas 
prodigiosas coUecções. ^ 

Um amigo intimo do poeta Garção, preso 
no Limoeiro pela arbitrariedade do Marquez, 
trabalhava na catalogação da Bibhotheca 
real, e de repente se achou incurso também 
na animadversão do omnipotente ministro: 
era Domingos Maximiano Torres, sócio da 
Arcádia, onde tinha o nome de Al feno Ciju- 
thio. Por um documento pubhcado pelo dou- 
tor Galvão Ramiz, se reconstituem alguns 
traços da biographia de Al feno : era filho de 



^ Ap. Annaes da Bibl. nacional do Rio de Janei- 
rOy p. 40. (Artigo do Dr. Galvão Ramiz.) 

^ Depois da incorporação da Bibliotheca formada 
pelo Abbade Barbosa Machado na Livraria real, foi 
também reunida a este centro a Bibliotheca afamada 
do Cardeal da Cunha, depois de seu falecimento em ja- 
neiro de 1783. Eis como a Casa real se apossou doesse 
thezouro bibliographico, conforme o conta o desem- 
bargador Gramosa : « Como porém, o Cardeal não ti- 
vesse pago os novos direitos do logar de Regedor das 
Justiças em o espaço de vinte annos, ordenou a rainha 
D. Maria i, que a sua Livraria, que era selecta, não 
pela boa encadernação dos livros, mas pela sua rarida- 
de e abundância, fosse para o Palácio de Nossa Senhora 
da Ajuda para formar alli uma Bibliotheca real, fazen- 
do-se o desconto á vista do seu valor, e do que se de- 
via dos novos direitos.» 

(Successos de Portugal, J, p. 125.) 



FILINTO ELYSIO 325 



Julião Francisco Torres, e estava já formado 
em Direito em 1768. Regressando de Coimbra 
foi empregado em Lisboa na arrumação das 
Livrarias do paço e do CoUegio dos Nobres, 
até 1770, em que o Marquez o mandou de- 
spedir por não lhe agradar a sua lettra. Ha 
aqui mais ou menos uma certa hostilidade 
contra os Árcades, ou contra os amigos de 
Garção. Os documentos relativos a Alfeno são 
curiosos e devem archivar-se na historia pelo 
que encerram de pittoresco: 

«S."^ Dj Domingos Maximiano Torres. — 
Hontem recebi vinte moedas de quatro mil e 
outocentos, que fazem noventa e seis mil reis, 
as quaes me mandou entregar o 1\\J^^ e Ex."^^ 
S.^'^ Conde d'Oeiras para dar a V. M. em pre- 
mio de ter ajudado na arrumação das Livra- 
rias do Paço e doeste CoUegio : desde Novem- 
bro de 1768 até Outubro de 1769, cuja quan- 
tia remetto pelo Amanuense Feliciano Mar- 
ques Perdigão, de que V. M. me passará re- 
cibo auctoinsado por seu Pay. — Também lhe 
participo, que como a Lettra de V. M. não 
agradou a sua Ex.'^'^ para as circumstancias 
de fazer os Catálogos, S. Mag.® foi servido 
nomear outro, que occupasse o lugar de V. M., 
e por tanto de V. M. entregar a chave da Ca- 
sa aonde habitou alguns dias no Paço ao di- 
to Feliciano Marques Perdigão. — Desejo sem- 
pre occasiões de servir a V. M. que Deus 
guarde muitos annos. Coll.^ real dos Nobres, 
5 de Agosto de 1770. De V. M. Certo Vener.r 
Nicoláo Pagliari7ii.» Segue-se este outro do- 
cumento por onde se sabe o nome do pae de 
Alfeno, para quem o facto de ser formado 
não bastava ainda para a maioridade: «Re- 



326 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

cebi do S.^ Nicoláo Pagliarini, Fidalgo da Ca- 
sa de S. Mag.^® a quantia de noventa e seis 
mil reis, os quaes me entregou o dito Senhor 
por mandado do 111."^^ e Ex.^^'' S.^"^ Conde xie 
Oeiras, em remuneração e premio de eu ter 
ajudado na arrumação das Livrarias do Paço 
e do Real Collegio dos Nobres desde Novem- 
bro de 1768 até o de 1769, e por estar entre- 
gue da dita somma lhe passei o presente re- 
cibo. Lx.^ cinco de Agosto anno mil e sete 
centos e setenta. (Julião Francisco Torres) 
Domingos Maximiano Torres. — São 96:000 
por conta.» ^ 

Visto que falíamos da Bibliotheca de Bar- 
bosa Machado, cumpre deixar também al- 
gumas noticias da livraria que pertencia a 
seu irmão o theatino D. José Barbosa, a qual 
foi deixada á sua communidade de San Cae- 
tano, que em 1797 a cedeu para a formação 
da Bibliotheca nacional mediante a pensão 
annual de seiscentos mil reis, que essa com- 
munidade disfructou até 1834. ^ 

Nos seus versos, que ficaram na maior 
parte inéditos, Maximiano Torres pagou a 
divida da amizade celebrando Garção e Quita 
pelos seus desastres; e mal saberia elle que 
tinha também de morrer não abafado em um 



^ Annaes cit., p. 185 e 186. 

2 j)y Guimarães, Summario de varia Historia, 
t. III, p. 161. A Bibliotheca de Diogo Barbosa Machado, 
cedida a Dom José i, foi transportada juntamente com 
a Livraria do paço para o Rio de Janeiro, quando em 
1808 Dom João vi fugiu deixando este paiz á devasta- 
ção napoleonica ; essa Livraria é hoje a maior riqueza 
^a Bibliotheca nacional do Rio de Janeiro. 



FILINTO ELTSIO 327 



•cárcere, nem envenenado, mas no desterro, 
por conspirador aos outenta e outo annos ! 
Pelo seu caracter conciliador, Alfeno fora um 
dos poucos árcades que vivera em boas rela- 
ções com o grupo dissidente da Ribeira das 
Náos. 

Alfeno Cynthio era filho de um pae abas- 
tado e por isso não sentiu a má vontade do 
déspota ; o seu natural excessivamente timido 
fez com que escapasse ás miseráveis suspei- 
ções de critico, jesuítico, e por essa timidez 
não deixou vestígios da sua passagem na Ar- 
cádia, postoque Costa e Silva affirma ter 
pertencido a essa corporação ^ Apezar de 
tudo, envolveram mais tarde a sua fortuna 
em uma demanda judicial, capciosa, e Maxi- 
miano Torres viu-se reduzido á pobreza ; vi- 
vendo de um emprego de secretaria, d'isso 
mesmo o privaram por suspeitas de partidá- 
rio das ideias francezas, ou jacobino. Por 
esta causa foi desterrado de Lisboa para a 
Trafaria, onde morreu passados poucos dias, 
com outenta e outo annos de edade. 

Filinto intercalou nas suas Obras muitas 
composições poéticas de Alfeno, e ainda lhe 
sobreviveu: «Se fados máos e vis calumnias 
me não houvessem tão distante de ti arremes- 
sado, tão cedo te não perdera : e na tribula- 
ção injusta que te acarreou a Inveja, o Ódio 
e o Fanatismo, ou te salvara, ou comtigo fe- 
necera.» (Obr,, III, 446.) 

Em uma Ode a Francisco Manoel do Nas- 
cimento, também Sebastião José Ferreira Bar- 



Ramalhetey t. iii, p. 133. 



828 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



roco confessa quanto deve a essa direcção in- 
tellectual : 

Assim, Filinto meu, tu cultivaste 

O meu engenho agreste, 

Tu as azas me deste 
Com que dos ares sulco o vasto pego. 
A lyra marchetada, o pletro de ouro 

(Oh dadivas celestes) 

Das tuas mãos as tenho ; 
Por ti sou vate, sou de Apollo filho. 

iObr., Ill, 465.) 

Como estes testemunhos poder-se-iam col- 
ligir muitos outros entre os poetas do fim do 
século XVIII e primeiro quartel do século xix, 
patenteando a influencia de Filinto, que além 
de apostolar a imitação de Horácio e o estu- 
do de Camões, conseguira renovar o gosto 
artístico de Garção, e restituir a lingua por-- 
tugueza a um purismo consciencioso. ^ Mas 
em vez d'esses testemunhos, agruparemos os 
nomes dos mais conhecidos 



1 Escreveu Garrett, a propósito da edição rollan- 
diana das Obras de Filinto : 

« Ninguém hoje duvida de que Filinto fosse o ver- 
dadeiro restaurador da lingua portugueza. Levantou e 
firmou este estandarte de reacção contra os gallicis- 
mos invasores e as estrangeirices de toda a espécie, que 
tinham corrompido, deturpado, perdido de todo a lin- 
gua. Accudiram ao seu brado imitadores, auxiliadores 
e proselytos; a reacção foi talvez mais longe do que é 
justo — se ella era reacção ! mas foi precisa e útil : o 
tempo a corrigirá do excessivo. Os escriptos porem de 
Francisco Manoel foram e são os mais poderosos in- 
strumentos doesta importante revolução; etc.» (Rev, uni- 
versal lisbonense, t. ii, p. 329.) 



FILINTO ELYSIO 329 



FlLlNTlSTAS 

Domingos Maximiano Torres, Alfeno Cynthio, 

Sebastião José Ferreira Barroco, Albano, 

José Basilio da Gama, Termindo Sepilio. 

Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral, Ma- 
tíisio. 

António de Araújo, Conde da Barca, Olinto, 

Dr. Ignacio Tamagnini, Alceste. 

D. Leonor de Almeida, Marqueza de Alorna, Laura 
e Alcipe. 

D. Maria de Almeida, Condessa da Ribeira, Mar- 
eia e Daphne. 

D. Thereza de Mello Breyner, Condessa de Vimiei- 
ro, Tirse. 

Pedro Caetano Pinto de Moraes Sarmento, Pierio. 

Domingos Pires Monteiro Bandeira, Dorindo, 

Fr. José do Coração de Jesus, Almeno. 

Dr. Ricardo Raymundo Nogueira. 

Francisco de Borja Garção Stockler. 

D. Francisco Raphael de Castro (Principal Cas- 
tro), 

José Peixoto do Valle. 

João Baptista de Lara, Albano Lisbonense. 

Bernardino Justiniano de Oliveira Pombinho. 

P.e Matheus da Costa. 

P.«^ José Theotonio Canuto de YoY]6yLeucacio Fi- 
do, 

Fr. Alexandre da Silva, Silvio. 

Fr. Plácido de Andrade Barroco. 

Capitão Manoel de Sousa. 

Dr. Joaquim Ignacio de Seixas. 

Dr. Jeronymo Estoquete. 

António Mathevon de Curnieu. 

Guilherme José Billing. 

Francisco José Maria de Brito. 

Dr. António Ribeiro dos Santos, Eljnno Duriense. 

Bento Luiz Vianna, Fílinto insula7io. 

Timotheo Lecussan Verdier. 

Vicente Pedro Nolasco da Cunha. 

António José de Lima Leitão, Almiro Lacobri- 
cense. 

José Maria da Costa e Silva, Elpino Lisbonense. 

A. J. F. Marreco. 



330 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



José Caetano de Figueiredo. 

Francisco Freire de Carvalho, Filinto Júnior. 

Domingos Borges de Barros, Visconde da Pedra 
Eranca. 

António Ribeiro Saraiva. 

P.e Apollinario da Silva. 

Nuno Alvares Pereira Pato Moniz, Oleno. 

T>. Francisca de Paula Possolo, Francilia. 

Dr. José Monteiro da Rocha, Tirceu. 

Dr. Félix da Sylva de Avellar, Brotero. 

Dr. José Ferreira Borges, Josino. 

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, 
Jonio Duriense. 

Levantara-se um astro novo, que resplan- 
decia intensamente na Poesia portugueza, e 
agrupava em volta de si outros poetas que 
imitavam a sua elocução, constituindo a pha- 
lange ou eschola dos Elmanistas, Filinto sau- 
dou com enthusiasmo o fulgente .^-enio: «o 
novo e amado cysne» : 



i=>^ 



Quão muito, e muito mais do que eu valiam 

Garção, Elpino, Alfeno ! 
E tu, Bocage, a quem negou-me o Fado 

Ouvir-te, quando as Musas 
Te emborcavam no peito as ondas todas 

Da facunda Castalia ! 

(Oòr., ni, 126.) 

Encanta vêr a sinceridade do velho e des- 
valido poeta, com que elle acclama um génio 
que deslumbra, e que as paixões devoraram 
na sua desvairada mocidade ; como elle põe 
em contraste na sua Ode verdadeiramente ho- 
raciana, a situação de Filinto e de Elmano: 

Lendo os teus versos, numeroso Elmano, 
E o não vulgar conceito, e a feliz phrase, 
Disse entre mim : — Depõe, Filinto, a Lyra 
Já velha, já cansada; 



FILINTO ELYSIO 331 



Que este Mancebo vem tomar-te os louros, 
Ganhados com teu canto na áurea quadra, 
Em que o bom Coridon, Elpino e Al feno 
Applaudia UUyssêa. . . 

{Obr,, I, 232.) 

Bocage estava então n^aquella lucta de sá- 
tiras virulentas contra os poetas da Nova Ar- 
cádia, á frente dos quaes surgiu mais tarde 
José Agostinho de Macedo, também dotado 
de forte impetuosidade de temperamento; sen- 
tindo-se amesquinhado por esses versistas 
mediocres, a Ode que lhe endereçou Filinto 
foi um triumpho, uma apotheose. Bocage en- 
viou a Francisco Manoel uma Ode em agra- 
decimento, de uma emphase que caracterisa 
a sua expressão satírica: 



fv 



Zoilos ! estremecei, rugi, mordei-vos ; 
Filinto, o grão Cantor, prezou meus versos, 
Sobre a margem feliz do rio ovante 

O immortal corypheo dos Cysnes lusos 
Na voz da Lyra eterna alçou meu nome 



Fadou-me o grão Filinto, um vate, um nume; 
Zoilos ! tremei. Posteridade ! és minha. 

Elmano Sadino. 



Mal suspeitava Filinto que bem cedo cele- 
iDraria em um epicedio^ elle já septuagenário, 
a morte prematura do génio apto a continuar 
a alta missão poética. A admiração por Bo- 
cage concitou-lhe a malevolencia dos que se 
revoltavam contra o gosto elmanista ; por 
1798 publicava Filinto o primeiro volume das 
suas Obras, e sobre elle se exerceram as la- 



832 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

tentes hostilidades. Appareceu uma sátira 
anonyma com o titulo de Apologia das Obras 
novamente 'publicadas por Fraiicisco Manoel 
em Paris ; ahi o atacavam pelos seus archais- 
mos de linguagem e translações de palavras, 
e principalmente pelo abandono da rima: 

Deixe de parte pompa apparatosa 

De palavras que muitos não conhecem^ 

Que se louvor pretende 
Só o terá de quem o não entende. 



Se queres pois (comtigo agora fallo), 
Armazém novo de rebusco antigo, 

Seguir sábio conselho 
Para nada não faças apparelho. 

Falia como fallaram teus passados, 
E se Poeta éSy ajunta a rima; 
Porém, eu que de ti penso o contrario 
Conselho-te a fazer um Diccionario. . . 

Filinto sentiu-se d'essas ironias, e tendo 
combatido tantos annos pela restauração do 
purismo clássico da lingua portugueza, agora 
viu surgir um outro problema: o emprego da 
rima na Poética moderna. Sobre este proble- 
ma concentrou a sua extensíssima resposta 
em verso solto, com o titulo Molhadura de 
certa obrinluiy referindo-se á Apologia, Em 
uma nota inicial dá-nos valiosas informações; 
«Muitos annos depois de correrem por esse 
mundo algumas trovas minhas, que primeiras 
imprimi, me veiu á mão uma Sátira contra 
ellas ; e o Amigo que m'a deu, nunca me quiz 
nomear a pessoa que a fez ; somente me disse 
(rindo) que a fizera tuna mulher^ e que a 
emendara um frade ; que a mulher era velha 



FILINTO ELYSIO 333 

e tinha cara de bruxa, e que o frade era de 
coroa, porem leigo. Não fiz então caso algum 
da Sátira, nem da velha, nem do frade;... 
Um amigo porém, de quem eu respeito muito 
as advertências, me intimou, que, não para 
responder á Sátira, mas para desabusar os 
que todo o merecimento poético julgam nullo 
se lhe falece a rima (principal pedrada que 
me atira a tal Sátira) devia eu dizer o que 
na matéria sentia. Peguei na penna e sahiu 
isso que ahi vae.» {Obr., v, 38.) Cremos que 
foi António de Araújo que lhe revelou ser mu- 
lher a auctora da Sátira; Fihnto, que ridicu- 
lisa Dona Fufia de Rebique e Barambazes, 
como auctora da Apologia, que annotou com 
chascos sob o pseudonymo de Clemente de 
Oliveira e Bastos, escreve na rápida nota: 
«se soubera o nome de quem me satirisou, 
não o derreara co'o tal papel, e deixaria pas- 
sar esse destempero...» A Sátira ou Apolo- 
gia fora escripta pela poetisa D. Catherina 
Michaela de Sousa César e Lencastre (Natér- 
cia Carinthea) casada com o ministro dos Ne- 
gócios estrangeiros e da guerra Luiz Pinto 
de Sousa Coutinho (Visconde de Balsemão). ^ 
E' natural que António de Araújo, victima 
da soberba de Luiz Pinto, revelasse ao seu 
amigo Filinto parte da verdade. Quem era o 
frade de coroa, que emendara a Sátira? Pelo 
despeito revelado pelo ex-frade graciano e 
clérigo secular José Agostinho de Macedo 
contra a eschola Filifitista, em uma carta par- 
ticular, é que se completa o esclarecimento. 



^ Innocencio, Obras de Bocage, t. i, p. 423. 



334 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

N^essa carta, dirigida a Fr. Francisco Freire 
de Carvalho (Filinto Júnior) em data de 20 
de Septembro de 1806, escrevia-lhe: «Eu 
trago em vista uma pequena Arcádia, onde 
poucos opponham uma barreira ao veneno 
das Bocagiadas e das Nissenadas, que infes- 
tam o Tejo e o Mondego. Veja se attrae o não 
sabido Costa, moço de génio, e se acorda ou- 
tros.» ^ 

Este Costa, aqui alludido, era José Maria 
da Costa e Silva (Eliniio Lisbonense), satiri- 
sado por Macedo por exagerado philintista. 
Da réplica da Molhadura de certa obrinha 
resulta a exposição nitida das ideias de Fi- 
linto contra o emprego da rima na poesia 
moderna, e a cultura ou preferencia exclusiva 
de verso solto. Filinto sobre este ponto la- 
borava em erro pela ignorância da historia 
da Poesia moderna e da historia das Linguas 
românicas, em que se creou uma nova métri- 
ca em harmonia com o génio analytico d^essas 
linguas. Importa comtudo transcrever os seus 
argumentos : 

Maldito consoante, ensôsso filho 
Do bastardo saber presumptuoso, 
Ind^hoje por poetastros perfilhado, 
Para aleijado espeque de más trovas, 
Para entufar Soneto campanudo, 
Ou de um Outeiro a Decima rançosa. 
Como súa, e tres-sua o triste orate 
Quando teimosa, oh Rima, lhe escoucinhas 
No peccante toutiço amartellado ! 
Quantas penas forraras, quanto enojo 



1 Obras inéditas de José Agostinho de Macedo — 
Cartas e Opúsculos, p. 135. Ed. da Academia. 



FILINTO ELYSIO 385 



Com mandar á tabúa a Rima arisca, 
Com gastar o esperdicio d'essas horas 
Em bons versos, que soltos brilhariam! 



Digam que usou Camões, usou Bernardes 
E Ferreira e Caminha, e tanta gente 
Pôr, nas fraldas do verso esses cadilhos 
Pendurados; — que em Odes muito guapas 
De Diniz, de Garção campam colleiras 
Quem vos tolhe (digo eu) dar-lhes como elles, 
Medindo e modulando o rythmo vosso 
Egual canto, ou diverso no conceito. 
Tão ríiimoso aos ouvidos, que bem valha 
Sem rima, o canto grego ou já latino? 
Não deu a Itália canto harmonioso 
Sem soccorro de ensôssos consoantes? 
Não o deu a Castella? e nós, os Lusos, 
Não cantámos também sem sua rima?» 

N'este ponto vê-se que Filinto discreteava 
por impressões ; a poesia clássica é baseada 
na métrica da quantidade, a qual por isso 
que se liga a um vestígio das raízes é extra- 
nha ao ouvido moderno, que desconhece esse 
elemento formativo da linguagem; a poesia 
moderna é baseada sobre o accento, em con- 
sequência do caracter analytico das linguas 
modernas em que a ordem grammatical coin- 
cide com a ordem lógica e o accento prosodi- 
co com o accento métrico. A critica tem reco- 
nhecido a impossibilidade de derivar-se a ver- 
sificação moderna da métrica latina; e é um 
artificio estéril o querer metrificar por pés 
spondeos e dactylos, o que só pode dar effeito 
de cadencia por syllabas contadas. A queda 
das flexões casuaes e o empobrecimento das 
flexões verbaes é que obrigaram a substituir 
pela rima o effeito procurado na expressão; 
vê-se isso de um modo espontâneo nos rifões 



S36 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



populares; a aliteração, a assonancia e a 7^i' 
ma foram uma creação lenta e simultânea em 
todas as línguas românicas, e não invenção 
exclusiva dos Trovadores, como repetia Filin- 
to seguindo as ideias do seu tempo: 

A rima é um cascavel, que os Trovadores 
Punham na cauda a certa prosa insulsa. 
Ignorantes do verso harmonioso 
E pés cadentes dos poemas nossos. . . 

{Obr., V, 58.) 

Mui garridas de chocalheiros guizos, — 
Que eu direi que os não louvo, nem reprendo. 
Se esses Poetas bons, que amo e estimo 
Inda, máo grado seu, grudam a rima 
A bons versos, quem sabe se assim usam 
Por ameigar co^essa lisonja, ouvidos 
Estragados ; ou se é que poz a penna 
Chocalhinhos no verso, affeita ha muito 
De usança antiga, a cônsonos badalos ; 
Ou por irem co^as turbas; ou por pejo. . . 



A rimay que te enleva, e que assim gabas, 
Quando achada, depois de mil torturas, 
Fez perder ao Poeta o pensamento 
De mais valor, que cem milhões de rimas. 
Deslavou toda a côr, mareou o brilho 
Do verso, que ia enérgico sem ella. 



Para a rasão quadrar c^o consoante 
Era força estirar o pensamento, 
E o que n^um verso cabe sem apêrto^ 
Toma logar sobejo em dois, que a Rima 
W doesse desperdício a causadora. 



A rima tudo, e o pensamento nada? 
O pezado grilhão do consoante 
Arrastra as azas do Estro sempre altivo, 
E quebra o soffrimento co^aturado 
Oavar da rima ; embota-lhe a agudeza 
Com que penetra no âmago do assumpto. 



FILINTO ELYSIO 887 



Depois de esgotar os chascos contra o Um- 
Uin dos consoantes, esquecendo que a rima é 
um elemento suggestivo do pensamento, a que 
dá relevo, emprega Filinto o argumento da 
falta de rima na poesia clássica ! 

Que se conforme fora da Poesia 

A* natureza a rima, a natureza 

A dera a Gregos e a Latinos, quando 

Lhes deu benigno o metro harmonioso. 

— Mas (me direis) os Gregos e os Latinos 

Tinham os espondeos, tinham os dactylos, 

Com que a seus versos davam formosura? — 



A rima é a característica da poesia moder- 
na, que por forma alguma pode ser despre- 
zada ; mesmo o verso solto, que Filinto tanto 
-exalta e a que deu uma indubitável perfeição, 
para evitar a impressão de uma prosa banal, 
tem de ser frequentemente quebrado nos seus 
hemistychios e variadas as vogaes nas sylla- 
bas tónicas de cada verso, recorrendo mesmo 
a effeitos de aliteração, e por ultimo ao accen- 
to oratório. No emtanto Filinto, que rimara 
excellentemente na mocidade, insiste sob a in- 
fluencia do pseudo-classicismo : 

Ponde ante os olhos sempre este axioma, 
Que estro é quem faz bons versos, não a rima 
Que esta os versos tão pouco afformosêa, 
Que antes lhe é ridículo flagello ; 
E que é um phrenesi disparatado 
Teimar contra a razão que a desapprova, 
Contra o bom gosto e santa Antiguidade, 
Que nunca conheceu taes consoantes, 
E que se os conhecera os apupara. 

{Ohr., V, 49. 



888 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 

Quebrada a relação de continuidade da 
Edade media para os tempos modernos, Fi- 
linto trazia para a Litteratura moderna o 
mesmo rancor contra as origens medievaes^ 
como os politicos revolucionários contra as 
instituições sociaes ; assim une as duas reac- 
ções : 

Pois vae Philosophia cerceando 
A escravidão feudal, os desafios, 
Desmedrêmos também os altos cantos 
Do cativeiro do insensato emprego 
De andar ao faro da fugiente rima, 
Qual podengo a perdiz afforoando. 
Cortemos-lhe esses feios barambazes 
Dos consoantes, que nas mesmas eras 
A litteraria Europa acco»ietteram . . . 

[Tb., p. 60.) 

Era o contrario d'isto o que se ia passar 
na Europa, n'essa transformação do Roman- 
tismo, que buscava renovar as Litteraturas 
nacionaes na fonte viva da tradição medieval. 
Tilinto, como veremos, cooperou inconsciente- 
mente n'este impulso de renovação. 

Apezar do seu desprezo pela rima, Filin- 
to, á medida que apurava o gosto litterario 
sentia uma admiração mais profunda por Ca- 
mões, que nunca empregara o ve7^so solto. 
Na Ode ao Estro e em outra a um traductor 
de Camões, resume com enthusiasmo os gran- 
des quadros dos Lusíadas, (i, p. 126; 269) 
Além da intuição do sentimento nacional, que 
inspira a obra de Camões, as desgraças pes- 
soaes do poeta tornavam-no também um con- 
solador de Filinto, que se fez o sectário e pro- 
pagandista exaltado da sua gloria. Pode-se 
affirmar, que essa revivescência de admira- 



FILINTO ELYMO 339 



ção pela obra de Camões, que no século xix 
começou com a edição monumental dos Lu- 
síadas do Morgado de Matheus, foi devida á 
eloquência das consagrações de Filinto; elle 
restabeleceu em Portugal e no estrangeiro o 
culto camoniano. 

Ha um episodio na vida de Filinto em que 
a penúria angustiosa em que se achava o for- 
çou a tentar a exploração do nome de Ca- 
mões ; é o caso da posse da copia de uns 
Lusíadas emendados pela mão do próprio 
poeta. Eis a carta em que Filinto propõe a 
venda d'esse texto único ao bibliomano Vis- 
conde de Villa Verde : 

« IlL"^" e Ex."^ Sr. D. Diogo de Noronha. 

«E' m.uito do meu agradecido dever o pro- 
curar noticias da sua boa disposição e dese- 
jar-lhe continua prosperidade. 

«O Senhor Ligeret, Deputado que foi da 
Convenção, e com quem tive bastante conhe- 
cimento, sabendo que eu era Portuguez, e 
que amava as boas lettras, me convidou um 
dia para ver a livraria da Duqueza de B. . . 
cujo advogado seu pae fora, e me inculcou que 
havia n'ella vários manuscriptos hespanhóes 
e portuguezes. Considere V. Ex.^ qual foi 
minha alegria quando puz os olhos em Ca- 
mões, e logo n'uma nota, que o dava por 
trasladado dos Lusíadas emendados pelo 
AuetoT l Corro á primeira Outava e leio 
assim : 

As armas e o Barão assinalado 
Que da Occidental praya Lusitana 
O pego nunca de outrem navegado 
Cortou affouto a ver a plaga Indiana ; 



840 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA. 



E O berço Oriental tendo avistado 
Ao reino trouxe a nova soberana, 
Cantando espalharei por toda a parte 
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 



« O meu primeiro impulso foi pedir licença 
de o ler alli na Livraria, quando levasse com- 
migo outro Camões impresso, para melhor 
cotejar as variantes. Mas o Senhor Ligeret 
acudiu logo, dizendo-me, que com tanto que 
o restituísse em pouco tempo á Livraria, me 
era dado conferil-o em minha c^sa muito a 
meu prazer, sem que necessário fosse pedir á 
Duqueza essa faculdade. 

< Oonferi-o todo ; e vendo que iam além 
de 2.000 variantes, o copiei de minha mão 
com a mais fiel pontualidade. 

«Morreu no emtanto o Senhor Ligeret; e 
a Livraria da Duqueza, no desarranjo das 
famílias nobres da França, foi de tal modo 
desbaratada, que é de presumir que taes ma- 
nuscriptos inintelligiveis para Vândalos (que 
estragavam quanto cahia em seu poder), ou 
fossem rasgados para embrulhos, ou tam des- 
encaminhados e perdidos, que valha hoje a 
minha copia o referido manuscripto. 

« Esta copia, Ex."^^ Sr., quiz eu imprimir 
em Paris para satisfazer o desejo de alguns 
amigos que sabiam que eu a possuia, e a 
quem era mais fácil contentar com exempla- 
res impressos, que com multiplicadas copias 
de amanuenses muito dispendiosas e prova- 
velmente não isentas de erros. Mas, a mes- 
quinhez das minhas posses me atalhou pôr 
I)or obra os meus desejos. 

« Soube um homem de bastantes cabedaes, 



FILINTO ELYSIO 341 



que eu por falta doestes o não imprimia, e 
mandou-me commetter por uma terceira pes- 
soa, que no caso que eu me resolvesse nenhu- 
ma duvida teria de m'o comprar. Mas eu que 
amo a Pátria, apesar do descuido que ella de 
mim tem, não quizera que o manuscripto cor- 
recto do Poeta (que tanta honra nos dá entre 
os homens litteratos) parasse em mãos estran- 
geiras. 

«V. Ex.^ que herdou de seu digníssimo 
Pae o gosto das boas lettras e o desejo de 
augmentar a sua Livraria com edições e ma- 
nuscriptos raros, me levaria muito a mal, que 
eu (obrigado da necessidade) entregasse a 
outras mãos, que não as de V.^ Ex.^ tão pre- 
cioso deposito. A V.^ Ex.^ pois o offereço, 
antes que dê resposta a quem m'o quer com- 
prar, e V, Ex.^ me dará a saber a sua vonta- 
de e o preço que lhe parecer mais proporcio- 
nado, não digo á raridade e intrínseca valia 
do manuscripto, mas somente á desgraçada 
circumstancia que me obriga a desfazer-me 
d'elle. 

«Como me vali do sr. Cavalheiro Azara 
para remetter a V. Ex.^ esta noticia, pela 
mesma via me pode V. Ex.^ dar a mais breve 
resposta. 111."^° Ex.^"^ Sr. D. Diogo de Noro- 
nha. — De V. Ex.^ muito obrigado Capellão 
e Creaão = Francisco Manoel,» ^ 

Fora ao Conde de Villa Verde, que Filinto 
offerecera á venda o manuscripto dos Lusia- 
das; D. Diogo José de Noronha, 8.^ Conde de 



^ Apud Obras de Camões, edição Juromenha, t. k 
p. 387. 



842 HíSTOKIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



Villa Verde, além de ter no seu appellido o 
nome de Cmnões de Albuquerque, era Inspe- 
ctori da Bibliotheca publica de Lisboa, do 
Jardim Botânico e do Museu real, e sócio ho- 
norário da Academia real das Sciencias; pre- 
sidente honorário da Sociedade real Marítima 
militar e geographica. Todos estes requesitos 
o tornavam um digno freguez para o singular 
manuscripto. Seria em 1798, no periodo mais 
angustioso da sua miséria, que Filinto inten- 
tara essa ingénua fraude; por que em 1798 
é que o Conde de VilIa Verde foi nomeado 
embaixador junto da Republica franceza para 
ajustar pazes com Portugal. ^ 

Corria tradição de que Filinto encontrara 
na Haya na livraria de ilntonio de Araújo 
um manuscripto dos Lusíadas ; mas facilmen- 
te se apurou que era um exemplar da 1.^ edi- 
ção de 1572. Foi talvez sobre copia d'esse 
texto que Filinto fez emendas de versificação 
por todo o poema, como faria um Castilho ou 
João Félix Pereira. A ideia de explorar esse 
traslado como de obra inédita e authentica. de 
Camões só poderia ser provocada pela misé- 
ria extrema em que luctava, sabendo da pai- 
xão bibliographica de D. Diogo de Noronha. 
O fidalgo não cahiu no logro, porque os es- 
tudos camonianos não desconheciam factos 
análogos de obras de Camões apocryphas, e 
o achado na bibliotheca da Duqueza disper- 
sada na época do Terror era demasiado ro- 
manesco. 

Fihnto não descorsôou do seu plano fa- 



Gramosa; Successos de Portugal^ vol. ii, p. 37, _ 

I 



FILINTO ELYSIO 843 

zendo crer que guardava um thesouro ; mas 
^m 1819 o Morgado de Matheus na edição 
los Lusíadas de Paris denunciou essa frau- 
íe, provocado pela pertinácia do poeta, que 
se não lembrava ter affirmado que vira o 
lanuscripto na Haya. ^ Em uma Ode a Rou- 

pez, a quem ensinara a lingua portugueza ^ e 
j[ue o « criminava de priguiçoso em escrever» 

responde : 



1 Na edição dos Lusíadas, p. 420, escreveu o Mor- 
gado de Matheus: «O anniincio de um Manuscripto do 
poema de Camões, com muitas variantes, que pretende 
o seu auctor ter descoberto em Paris, e dar ao publico, 
obriga-me a prevenil-o contra a fraude litteraria de um 
segundo Montenegro, esperando que este aviso (funda- 
do no meu conhecimento ha muitos annos d^aquelle fin- 
gido ms.) seja sufficiente para evitar o escândalo que 
occasionaria a sua publicação, com tanto desdouro do 
grande Poeta, como da nação portugueza. O manu- 
scripto de que este se diz copia jamais existiu; as sup- 
postas variantes são indignas de Camões; o que de 
tudo tenho exuberantes provas. Leio, e apenas acho 
estancia que as sacrílegas mãos não profanassem. A 
nação deve pôr debaixo da sua salvaguarda este mo- 
numento nacional, para defendel-o de semelhantes 
attentados.» 

2 Por uma Ode de Filinto a Routiez, sabe-se que 
este andava occupado em uma traducção dos Lusía- 
das. [Obr.y I, 269.) Entre os papeis de Filinto está uma 
carta de Routiez datada de Amsterdam, 30 de Maio 
(1800 ? ) : «... Je ne sais plus que penser de votre si- 
lence. Ne seriez vous plus à Paris ? Auriez-vous cede 
au désir de visiter les rives du Tage? Je me perds en 
conjectures. Écrivez-moi donc: avez-vous oublié que 
notre amitié n^est plus un enfant ? Cest déjà une filie 
de vingt-deux ans et plus. . . » (Coll. do Conselh. Tava- 
res de Macedo ; communicação de J. de Araújo.) Filinto 
-estava então occupado com a primeira edição dos seus 
versos. 



844 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Trazei por meus authenticos abonos 
Quatro cantos de Silio traduzidos, 
E a Copia de Camões limpa de nódoas 
Dos ignorantes prelos. 

E em nota explica : « Manuscripto raríssi- 
mo de Camões copiado na Hayapor inteiro.» 
{Obr., III, 286.) 

Quando Filinto Elysio revia em 1817 o 
poema de Oberon para a edição das suas 
Obras completas, torna a alludir ao Manu- 
scripto dos Lusiadas que possuia, emendado 
pela mão do próprio Camões; abonando o 
emprego da palavra alparca, diz : « N^um Poe-^ 
ma como este, que não desponta do sublime, 
não é termo baixo e vil a voz Alparca. Nãa 
o teve por tal Camões nos heróicos Lusia- 
das, quando cantou, no Canto segundo, es- 
tancia 95 : 

Cobre ouro, cobrem grãos de aljôfar tudo; 
E cobre ouro as alparcas de velludo. 

« Cito um manuscripto raríssimo, que se 
diz emendado por Camões mesmo; e cuja 
Copia também raríssima, eu possuo, porque 
ainda não acertou com um curioso compra- 
dor.» ^ Filinto deixa transparecer aqui o pe- 



^ Obr., t. II, p. 11. Os versos authenticos de Ca- 
mões são estes : 

Nas alparcas dos pés, em fim de tudo 
Cobrem ouro e aljôfar ao veludo. 

Timotheo Lecussan Verdier, que tentara uma tra- 
ducção em grego dos Lusíadas, falia de um exemplar 



FILINTO ELYSIO 84S 



zar de não ter tirado bom effeito doeste expe- 
diente económico, ou logro que armara ao 
curioso Conde de Villa Verde. O manuscripta 
ficou no seu espolio. E' encadernado em per- 
gaminho. ^ O Dr. Solano Constâncio procurou 
defender Filinto nos Anjiaes das ScienciaSy. 
das Artes e das Letras, mas, a parte o logro, 
o facto litterario não é mais censurável da 
que o de João Félix Pereira pondo as outa- 
vas dos Lusíadas em verso solto. Uma falta 
de critério. 

Se é censurável este expediente emprega- 
do por Filinto na estrangulação da miséria 
em que se achava, a despeito da amisade com 
os homens mais importantes da sociedade por- 
tugueza que o deixavam ao abandono, mais 
censurável é que a benevolência do Principo 
Regente que chegou a manifestar-se a favor 
do poeta exilado, fosse por influencias pala- 



da edição de 1572, que pertencia á Casa de Vimioso,, 
e que era annotado pelo próprio Camões ; também pos- 
suía um outro exemplar copiado por sua mão a tinta 
vermelha e com correcções. (Juromenha, Obr, de Ca- 
mões, 1, 213.) Ligam-se com certeza, com a falsificação 
de Filinto. A pista doeste pretendido texto revisto por 
Camões depara-se em uma nota de Thomaz Northon 
ífl. 54 V. do Catalogo das suas Edições camonianas).- 
«Em Julho de 1845, participaram-me de Lisboa, que 
tinha apparecido o autographo dos Lusíadas, e offe-^ 
reciam por elle 2:000$. Ignoro até que ponto seja exa- 
cto.» 

^ O seu possuidor, o sr. conselheiro Alfredo Ta- 
vares de Macedo, tenciona publical-o, porque o códice 
começa a damnificar-se, como nos communica o sr. J. 
de Araújo. 



346 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

cianas tornada inefficaz. António de Araújo 
chegou a obter para Filinto um real A vaso 
pelo qual podia voltar á pátria, sendo-lhe re- 
stituídos os bens que ainda estivessem em se- 
questro. Mas no paço foram sempre contra- 
minados estes intentos, acoimando-o de revo- 
lucionário ; sabido o antagonismo feroz de 
Luiz Pinto contra António de Araújo, e a ma- 
levolencia de D. Catherina Michaela de Sousa 
contra o poeta, deprehende-se d'onde lhe so- 
prava a hostilidade. Eis o Aviso régio : 

« Sendo-me presente que a ausência do 
padre Francisco Manoel do Nascimento não 
fora puramente voluntária, e querendodhe 
fazer graça e mercê, hei por bem que possa 
recolher-se a este reino, logo que lh'o perrnit- 
tir o estado da sua saúde, e desde já o decla- 
ro por reintegrado em todos os seus direitos, 
como se tivesse sabido com a minha licença, 
e ordeno que se lhe entreguem os rendimen- 
tos que se lhe apprehenderam e se acham em 
deposito, e os bens que ainda estiverem em 
sequestro. 

«O Conselho da Fazenda o tenha assim en- 
tendido e mande passar os despachos neces- 
sários. 

«Paço de Queluz, em 21 de Maio de 1796.» 

A este decreto allude Innocencio Francis- 
co da Silva : « Postoque o seu amigo Araújo 
lhe obtivesse em tempo a reintegração dos 
foros de cidadão portuguez, que perdera pela 
fuga, não quiz utihsar se do decreto, que lhe 
permittia voltar para a pátria, pondo como 
condição para o fazer a restituição dos bens, 
que lhe tinham sido confiscados em seguida 
á sua evasão do reino.» Vê-se que Innocencio 



FILINTO ELYSIO 347 



tinha noticia do decreto, mas não o conhecia, 
por que n'elle se ordena que os bens ainda 
em sequestro lhe sejam entregues. 

Este importante documento foi publicado 
por Martins de Carvalho, ^ oppondo á expli- 
cação de Innocencio a observação : <^Por tanto 
alguma outra causa houve para Filinto Ely- 
sio, apesar das disposições doeste decreto, não 
querer voltar para Portugal. 

«Em seguida ao mesmo decreto, acha-se 
uma nota, escripta pelo copista, que bem 
mostra a má vontade que elle tinha ao insi- 
gne poeta. 

«Essa nota é a seguinte: 

= JEste clérigo fugiu quando já havia or- 
dem do Santo Officio para o prender por 
lihertino. 

Era curaj ou cousa que o valha, das Cha- 
gas de Lisboa, 

Depois se disse que estava na Assembléa 
de França da revolução. 

Se agora vem é para ensinar o que de 
mais aprendeu lâ.-^= 

Filinto já podia voltar á pátria, e os poe- 
tas escreviam-lhe pedindo-lhe que deixasse o 
exilio, estimulando-o com as mais doces recor- 



1 No Conimbricense, n." 5.153 (anno 50.®) com o 
esclarecimento: «Entre outros volumes manuscriptos 
que possuímos, uns com documentos originaes e ou- 
tros contendo copias, se acha um com o seguinte titulo: 
— Memorias ecclesiasticaSy que prineipiam no anno 
de 1787 y do que occorreu 7io expediente da Relação pa- 
triarchal de Lisboa, N'esse volume se lê o seguinte 
decreto. » (Fica acima transcripto.) 



848 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

dações ; em uma Ode escrevia-lhe Francisco 
Borges da Silva: 

Quando entrares de novo o pátrio Tejo 
Vires saltar do Moura a branca espuma, 
Aonde o teu Alfeno via em Nise 
O transumpto de Cypria ; 

Do pátrio rio os mudos habitantes, 
Os que librados sobre as azas vivem, 
De novo reverás parar suspensos 
Por te escutar a lyra. 



Os mimosos das Musas nos seus braços 
Receberão seu mestre ; a pátria ingrata 
Escreverá tal dia entre os ditosos 
Dos fastos luzitanos. 



Referindo-se á protecção de António de 
Araújo, para lhe serem restituídos os seus 
bens, escrevia Filinto em Ode datada de 4 de 
Julho de 1804: 

Elle que pôde, e que obra o que promette. 
Mandará em dobrões auri-luzentes 
As Quintas e Casinhas, que lá fructos 
E i-enda a extranhos largam. 

Em nota desfaz essa esperança: «Mais de 
dous annos ha, que espero pelo promettido.» 
(IV, 101.) Em uma Ode dirigida ao Conde do 
Funchal em 1808, allude aos Decretos da sua 
repatriação. 

Revolvidos emfim seis lentos lustros 
De penoso desterro, vi lavrado 
Nas brônzeas folhas do Destino, o frio 
Desejado Decreto. 



FILTNTO ELYSIO 84^ 



Mas em nota accresceiíta : « Lá o vi, como 
os Poetas vêem. Mas também, annos depois, 
me desceu inspirada noticia, que cora as atu- 
radas chuvas tomou a tal brônzea folha tão 
ferrenho mugre, que sumiu o Decreto.» {Obr,, 
XI, 57.) 

Em uma Ode ao dia 4 de Julho de 1817, 
allude aos abafados decretos que o amnistia- 
ram: 

Ver na Pátria, que máos hoje assoberbam 

Com ignorante orgulho, 
Succeder a Justiça á Tyrannia ; 

Vêr delidas as nódoas 
Que á Innocencia monstros lhe imprimiram 

Com fanático aleive ; 
Innocencia tão pura, que attestaram 

Já dois reaes DecretoSy 
Mas réos Ministros, froixos nas bondades 

Quão prestos nos rigores ; 
Mas com descuido ingrato, protectores, 

Desleixão de cumpril-os; 
Desleixam ter a gloria sobrehumana 

De reparar o injusto. 

( Ob)\, ui, 557. ) 

Em nota: «Por duas vezes se dignou Sua 
Maj.^^^ reconhecer a minha innocencia, man- 
dando-me restituir os bens injustameate con- 
fiscados ; porém, apezar das solicitações e di- 
ligencias de amigos poderosos, nunca foi pos- 
sível desencantar os Decretos dos cartórios 
da Secretaria de Estado dos Negócios do 
Reino. Ignoro por tanto, se se lhe poz pedra 
em cima, ou se á incúria e pouco caso que 
faziam da sorte de Fihnto deve só attribuir o 
sumiço que levaram. Algum dia talvez os des- 
cubra algum antiquário, quando já o pobre 
Filinto tiver cessado de soffrer. Bom proveito 



350 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



façam a quem os achar.» Na Dedicatória dos 
Martyi^es ao Conde da Barca, escrevia-lhe em 
1818: «Lembrado de que a intervenção de 
V.^ Ex.^ me alcançou da munificência real, 
ha vinte annos, a minha reintegração nos 
foros de cidadão portiiguez perdidos por in- 
felicidade não merecida. . .» Mas tudo isso fi- 
cou em phrases de chancellaria. 

Entre as amarguras das decepções e mi- 
séria, achou-se Fihnto levado incousciente- 
mente para a corrente do Romantismo, que 
desconhecia, mas que era a revivescência da 
tradição poética da Edade média, que elle 
detestava. Fez a traducção em verso solto do 
poema Oheron^ de Wieland. Como teve ori- 
gem esta empreza? Escreve elle no seu pre- 
facio : « N'um inverno, em que me viu solitá- 
rio e triste (como acontece a quem não dá boa 
meza em Paris) Mr. La Tour, compadecido 
de mim me trouxe este Poema, ao qual me 
lancei (perdoe-me a expressão que não é no- 
bre, mas que é enérgica e pittoresca) me lan- 
cei, digo, como gato a bofes, alinhavada tal e 
qual, deu comsigo na imprensa, sem mais 
emenda que o borrão nu e cru.» (Obr., ii, õ.) 
Passara-se isto em 1802, e era esse Mr. La 
Tour o fiador dos 3.000 francos roubados a 
Filinto ; a versão do poema era o inicio de 
um novo gosto litterario. O Oberon está liga- 
do ao renascimento do génio poético medie- 
val, tanto na AJlemanha como em França e 
Inglaterra ; em relação a Portugal tornou Fi- 
linto um proto-romantico da nossa Litteratu- 
ra, máo grado seu. Pode-se estabelecer a ge- 
nealogia do ideal romântico derivado do Obe- 
ron: nasceu este Poema da Canção de Gesta 



— ,,^.^ — ^. 

kon de Bo7%ieaiiXy e doeste ponto de partida 
que lord Berners fez a versão ingleza, e 
Shakespeare o seu Sonho de uma noite de 
primavera ; no século xviii o Conde de Tres- 
san resumiu a gesta em uma novella em pro- 
sa, e Wieland compoz em allemão o seu poe- 
ma, talvez suscitado pelo resumo de Tressan, 
como julga Léon Gautier. O poema de Wie- 
, land voltou á França traduzido em prosa fran- 
ceza por Borch, e doesta metrificou Filinto a 
versão portugueza em endecasyllabos. Até á 
revolução musical, em que Weber attingiu a 
expressão do génio germânico na Opera, se 
estendeu o influxo do thema do Oberon, cujo 
libreto (1824) foi extrahido da traducção in- 
gleza do poema por Sotheby. Quando Filinto 
reproduziu novamente o Oberon em 1817 
(Obr.j ii) retocou fundamentalmente a sua 
versão, que fixa época na historia da littera- 
tura portugueza. ^ 

No fim do século xviii o Conde de Tressan 
emprehendeu uma Bibliotheca de Romances 
formada das Canções do Gesta francezas já 
dissolvidas em prosa no século xv e desnatu- 
radas pela falsa comprehensão da Edade me- 
dia ; Tressan extractou do Huon de Bordeaux 
apenas a primeira parte ; sobre este texto in- 
completo e degradado se julgava ter o poeta 
allemão Wieland composto o seu i^oema cava- 



^ Filinto falia das suas relações com Guilherme 
Schlegel « com quem fallei aqui em Paris;» e allude aa 
celebre critico do Romantismo saber os Lusíadas de 
cór. 



352 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 

Iheiresco Oberon, ^ Saint-Marc Girardin con- 
siderava o poema allemão inferior ao roman- 
ce francez; Gaston Paris não se conforma com 
este juizo pessimista: «Inquestionavelmente, 
é uma agradabilissima leitura, e as addições 
que o poeta allemão fez ao seu assumpto não 
são sempre más; assim o episodio da perma- 
nência dos dois amantes na ilha a que os ar- 
rojou o naufrágio parece-me interessante e 
gracioso... Wieland ahi levou á perfeição o 
seu estylo fácil e puro que o distingue ; em 
summa, tirou um partido feliz do seu assum- 
pto, e apenas pode ser increpado da escolha, 
por que as qualidades que lhe faltam, como 
lamenta Saint-Marc Girardin, a ingenuidade, 
a candura, a incojiscieiteia (admitta-se esta 
palavra) do auctor e dos personagens, estas 
qualidades não se podem encontrar na obra 



1 Wieland protesta contra a increpação de ter-se 
aproveitado da reducção do Huo7i de Bordeatix em 
prosa pelo Conde de Tressan : « Mais adiante encontro 
na mesma folha (Bíbliotheca dos Romances de 1781) 
um esqueleto do meu pobre OberoUy a propósito do 
qual se diz que eu tomei este assumpto dos velhos ro- 
mances ^aulezes do mesmo Conde de Tressan. Assim 
a obra não é mais do que uma simples imitação de um 
■original francez. D'este modo, o Orlando áQ Aviosto não 
passaria de uma imitação da historia do arcebispo Tur- 
pin, e Roland não seria mais do que uma copia dos li- 
vros de cavallaria dos tenipos de Carlos Magno. Con- 
fesso que uma tal censura me é indifferente. Não faço 
d'isso segredo, e todos os poetas, pelo que sei, desde 
Homero, nunca procuraram tirar dos seus próprios 
-cérebros o thema de seus versos ; se o critico tivesse 
um pouco mais de leitura, teria visto que o velho tro- 
veiro francez ao qual tomei o Huon de Bordeaíix, já 
o tinha tomado de antigas lendas orientaes, e aos con- 



1 



FILINTO ELYSIO 853 



de um poeta do século xviii ; ellas pertencem 
exclusivamente á primeira edade dás littera- 
turas.» Não admira que a própria França do 
século xviíi apreciasse o poema allemão in- 
spirado pelos seus velhos troveiros ; o Obe- 
ron appareceu traduzido para francez pelo 
Conde de Borch, em 1798; foi esta traducção 
que chegou ao conhecimento de Filinto Ely- 
sio, o qual em momentos de distracção o trans- 
formou em versos endecasyllabos soltos, sem 
a consciência do ecco apagado da viva poesia 
da Edade média, e que continha a faisca in- 
cendiaria do Komantismo. 

Em uma Ode, datada de 4 de Julho de 
1803, celebrando a fuga á Inquisição havia 
vinte e cinco annos, mostra-se o poeta con- 
formado com a sorte : 



tos árabes, dos quaes quasi todos os romancistas hes- 
panhoes, francezes e italianos da Edade media hauri- 
ram os assumptos das suas composições. Feia minha 
parte consinto voluntariamente em deixar revindicar a 
honra da invenção, e a contentar-me com o que ver- 
dadeiramente me pertence.» * O que pareceria de simi- 
lar entre o resumo de Tressan e o poema de Wieland 
seria uma falta de comprehensão da Edade media em 
que estavam os espíritos no século xviii; mas Wieland 
tinha na sua idealisação bellezas próprias indiscutíveis. 
O Oberon appareceu em 1780, no Mercúrio; o resumo 
de Tressan é de 1778. Wieland podia conhecer muitas 
das edições em prosa do principio do século xvni, taes 
como a de 1707, 1726 e de 1728, que reproduziam a 
edição gótica de 1615 Les prouesses et faits merveil- 
leux du noble Hiion de Bordeaux. 



* Mélatujes lUlcvalres^ politiques, ele, trad. Loeve-Veimars, 
et Saint Maurice^ p. 259. 



854 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Para que heide fallar sempre ferrenho 
N'esse quatro de Julho malfadado ! 
Já são vinte e cinco annos revolvidos 
Depois doesse infortúnio. 

Não ha hi que temer Clérigos tristes ^ 
Nem os algozes seus, suas masmorras; 
Nem terão de me aspar com sambenitOy 
Nem onitras com carocha. 

Bispo de Auto-da-Fé. Perdi a Pátria? 
Azylo aqui achei. Perdi amigos? 
Não perdi os amigos verdadeiros ; 
Dos outros nem me lembro. 

Perdi os bens ? — Perdi muito em perdel-os ! 
Senti o que é miséria. Mas em troco 
Apprendi a ser parco, a ser com honra 
Independente e pobre. 

[Ohr,, T, 434.) 

António de Araújo não podendo conseguir 
que se lhe restituíssem os bens confiscados, 
obteve que fosse Filinto encarregado pelo go- 
verno de fazer a traducção da obra do bispo 
Osório, Da vida e feitos de el-rei D, Manoel. 
Filinto auxiliou-se da traducção franceza de 
Simon Goulart, impressa em Genebra em 
1610, e a obra estampou-se na Impressão re- 
gia de 1804 a 1806. Filinto na dedicatória 
dos Martyi^es ao Conde da Barca, excusando- 
se de os imprimir em Paris, allude : « Para 
precaver não só erratas, mas também altera- 
ções que desfiguraram a minha traducção da 
Historia d'El rei D. Manoel pelo Bispo Dom 
Hieronimo Osório, fui obrigado a imprimir 
este Poema em Paris.» O favor quepresagia- 
va esta commissão litteraria desappareceu 
diante dos grandes desastres pubHcos da fu- 



FILINTO ELYSIO 355 



ga do Príncipe Regente com a corte para o 
Brasil ante a invasão napoleonica, e cia occupa- 
Qão ingleza. N'esta Ode allude á dextra bem- 
feitora de um amigo, e em outra, em que ce- 
lebra os seis lustres em que se vê arrojado em 
misero desterro, (1808) diz mais francamente 
quem fora esse bemfeitor: 

Houve um brioso coração, que terno 
A vida me escorou por alguns annos, 
Mas com que magoa, oh céos, hoje lastimo 
Ausente ahna tão nobre ! 

(Obr., ni, 99.) 

Em nota escreve: «Araújo, hoje Conde 
da Barca.» O illustre diplomata achava-se 
então na corte do Rio de Janeiro. Em uma 
outra Ode celebrando os quatorze lustros, 
descreve as suas longas misérias e solta a pro- 
phecia do acabamento da Inquisição : 

Quantos bebi venenos de amargura 
Das mãos de meu desterro calumnioso! 
Vingados devem star os ruins Bonzos, 

E a stupida sequela. 
Vingados não se crêem ; — que me não viram 
Passear o Rocio com carocha. 
Tisnar nas chammas, e chiar-rne as carnes 

Co' fundido da enxúndia. 
Vingados se não crêem ; — antes enraivam. 
Que amparado de mui fieis amigos 
Hoje, em vez do Rocio, dou passeios 

Na França, que os assusta. 
Em Paris, — onde os raios se trabalham 
(Nas forjas da prudente Liberdade) 
Que hão de abrazar masmorras e carrascos 

Do infame Santo-Officio. 
Tempo virá (e Deus me outorgue yêl-o) 
Em que os Clérigos tristes despedidos 
Da infernal Guria, corram apupados 
Dos réos, que encarceravam ; 



356 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Arrasada essa Cúria, esses segredos, 
Lacerada a perfídia dos Cartórios, 
Queimados os cordéis, os cavalletes 
E os utensis dos tratos, 



Veja o Povo a vorage^ onde ha três séculos 
Se tem sumido o Engenho; de quem tremem 
AUeivosos Tartufos — não lhes rasgue 
As embusteiras mascaras. 



Lá lhes irá fazer largas visitas 
Esta Luz, que d^aqui veloz caminha 
Co's seus raios rompendo destemidos 
As barreiras do engano. 

fib,, III, p. 276.) 



Foi esta previsão realisada pela Revolu- 
ção de 1820, vibração resultante das ideias 
francezas; Filinto por poucos mezes não che- 
gou a ver este triumpho da rasão e da justi- 
ça. Elle reconhece que da França é que hade 
partir esse influxo de libertação : 

Vem, vem, solar Verdade; ás róseas portas 
Te esperam philosophicos disvellos; 
Já para o throno te prepara a entrada 

Apurada Leitura. 
Os Reis (a pezar seu) lições mais rectas 
Têm de beber da fonte que hoje mana 
De erguida rocha, onde se assenta em França 

Briosa a Liberdade. 

(Tb., 298.) 



Os versos de Filinto eram também um 
veio por onde se infiltravam as ideias france- 
zas em Portugal ; comprehendeu isso o terri- 
vel Intendente Manique, que em 180-3 prohi- 
biu por um edital a leitura da Epistola, que 



FILINTO ELYSIO 85'i 



começa: « — Emquanto piines pelos sacros 
foros — Da lesa humanidade. . .» N'essa Epis- 
tola combatendo o canibalismo sacerdotal glo- 
rifica a Revolução da America e a da França : 

America feliz ! Nação briosa, 

Que rompeste os grilhões do cativeiro! 

Tu os fachos viste, viste as labaredas 

Que os livres pensamentos, que os da pluma 

Rasgos mais nobres, linhas mais valentes 

Com soffrega violência consumiam. 



Oh França illustre, das nações rainha, 
Tu sacudiste o vergonhoso encargo 
Que á imprensa abafava o claro grito, 



Povo feliz, que resgataste os foros 

Da Liberdade, a tantos desvestida 

Só vós sois homens. Sim, que os mais quaes brutos^ 

Enfreados por mão do despotismo, 

De ouça Superstição, de enredo cego 

De tantas leis dolosas e oppressivas, 

Sentem nas curvas, fustigados costas 

Do açoute despiedado os vergões roxos 

Por mãos impiedosas sacudido. . . 

Quem forjará na nossa Elysia, (oh Pátria, 

Claro nome) quem forjará os raios 

De livre ideia 

Raios que assustam pálidos Tyrannos ? 
De vós nos venha, oh Povo generoso. 
Que em vós achou azylo, em vós impera 
A Verdade, a Rasão, a Estima, Brio, 
Avexados no mundo e foragidos. 

[Obr,, V, 424.) 

Filinto descreve minuciosamente as rela- 
ções com Alexandre Sane, que fez a traduc- 



858 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZÂ 



ção das suas principaes Odes para francez : 
«Em 1805, um visinho meu, francez, que fi- 
zera louváveis estudos, quiz lêr no original 
alguns versos meus. Como sabia bastante 
grego, e mais ainda latim, com seus laivos 
de castelhano e italiano, fácil lhe foi entrar 
pelo portuguez. Tomado de affeição por essa 
lingua, lançou-se a traduzir algumas Odes. 
Até aqui não ha que dizer; mas quando o le- 
vou essa necessidade a imprimir a traducção, 
e por estandarte doesse regimento de Odes, 
lhe poz certa noticia acerca da Vida e Obras 
de Filinto... Quanto á verdade histórica da 
sua vida, entre algumas circumstancias since- 
ramente escriptas, vão entresachadas desme- 
suradas mentiras bebidas em destampados 
boatos que amigos e inimigos d'elle derrama- 
ram.» ^ Em uma Ode datada de 4 de Julho 
de 1805, recordando os amigos que o salva- 
ram da Inquisição, acrescenta: 

Venham também os novos ( que graciosa 

Me deu a França ) amigos. 
Entre honrados louvores, entre brindes 
Um Sane, um Fouinet virão seus nomes, 



Que é meu prazer colher nos meus alumnos 
O premio de benévolas fadigas, 
Quando o gosto lhes vejo, o empenho assiduo 
Com que as entranhas sondam 

Da lusitana Lingua, dos bons versos 
Que a Diniz, que a Garção tanto affamaram, 
Fundados em Camões, na lição pura 
De Gregos e Latinos. 

{lb„ IV, 138.) 



1 Obrasy t.xi, p. 74. 



à 



FILINTO ELYSIO 359 



Por este tempo Filinto era também recebi- 
do com intimidade na familia do lusitano- 
philo Ferdinand Denis, cujas impressões pes- 
soaes consignou. ^ Na traducção das Fabulas 
de Lafontaine lamentando não ter á mão a 
Eneida de João Franco Barreto para abonar 
o uso da palavra brete, escreve: «e se eu o 
não tivera vendido, para comer, como vendi 
outros livros portuguezes, que um francez, 
(amigo velho de ha 36 annos) me mandou 
de Lisboa, citaria o exemplo, — já é queixa 
velha em mim, vêr-me obrigado a escrever 
em portuguez desde o anno de 1778, em que 
sahi da pátria até o de 1505, em que estamos, 
sem ter um Clássico, por onde recorde esse 
pouco que lá d'elles apprendi.» (Obr., vi, 
147.) 

Em 1804 publicara Bocage o tomo tercei- 
ro das suas Rimas e enviara-o a Filinto, que 



^ No seu livro Portugal, Ferdinand Denis descre- 
vendo o terremoto de 1755, allude ao testemunho de 
Pilinto, com quem convivia, e dá-nos estes traços vi- 
vos : 

« O auctor d'esta noticia ouviu na sua infância o 
maior poeta portug^uez que produziu o nosso tempo, 
contar este acontecimento; e com certeza, todas as 
expressões portuguezas que pôde prestar a poesia, 
todas as palavras enérgicas que inspirava uma viva 
lembrança, Francisco Manoel as fazia vibrar na alma 
dos seus ouvintes. Homem privilegiado, elle tinha em 
si todas as potencias do enthusiasmo ; mas possuia 
também o accento da verdade, e era este o segredo das 
emoções que elle fazia sentir. E' que effectivamente é 
preciso ter sido testemunha de um tal espectáculo para 
íazer comprehender o seu horror; nenhuma narrativa, 
ainda que empregue os recursos da arte, não vale a ex- 
posição sincera de uma testemunha.» (Op, cit.y p. 362.) 



360 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

tanto o fortificara contra o bando dos médio* 
crés versistas; doesse livro tirou Filinto a epi- 
graphe para o Epicedio â morte do exímio 
poeta Manoel Maina Barboza du Bocage^ 
falecido em 21 de Dezembro de 1805. A com- 
posição elegíaca pecca por excesso de arrebi- 
ques mythologicos; mas a sua admiração por 
Bocage é sincera : 

Olha um Bocage, gloria do áureo Tejo, 

N^esta éra alto prodígio, 
Brazão doeste orbe. Ascosos vermes pasce 
(Ultraje inevitável!) no jazigo. 

Nada lhe aproveitaram 
Raios de Phebo, mimos das Piérides; 
Bem que, por lhe assistir, deixado houvessem 

O vocal gémeo cume. 

Teus sacros versos, que silencio e pejo 
Plantam nas linguas, plantam nos semblantes 

Dos Mestres do áureo plectro ; 
Que as dextras lhe 'entorpecem ; que, de inveja 
Lhes deslisam das mãos papel e pluma, 

Perderam a toada 
Que lhes vinha do peito altivo e forte. 
Onde as Musas os sons lhes affinaram 

Co' delphico alaúde. 

{ Ohr., ui, 149.) 



N'esta glorificação dos mortos, restava-lhe 
a elle que sobrevivia a consolação de contri- 
buir para tornar sympathica a sua memoria ; 
em 1806 publicava em folheto a traducção do 
magnifico Elogio do Dr. Ribeiro Sanches pelo 
insigne Vicq d^Azir; fora esse foragido sábio 
portuguez, que cooperara nas reformas pe- 
dagógicas pombalinas, com quem convivera 
nos annos mais desolados do desterro e com 



FILTNTO ELYSTO 361 



elle celebrava o anniversario da sua fuga á 
Inquisição. 

Ia o poeta distrahindo o isolamento da 
velhice com a versão das Fabulas de Lafon- 
taine, e espalhando notas autobiographicas 
por desabafo. Não se recordando de um cos- 
tume de Portugal, volta á sua ideia fixa : 
« Não é muito ter perdido depois de trinta 
annos essa lembrança. O, de que eu me lem- 
bro ainda muito bem, é de duas moradinhas 
de casas, e de duas quintinhas, etc. etc. que 
lá possuia, e que contra toda a rasão e hu- 
manidade me não restituem, e que com 73 
annos de edade me vejo ainda obrigado a vi- 
ver do meu trabalho e dos dons de alguns 
amigos ; quando tinha com que viver n'uma 
abastada mediania, sem necessidade de nin- 
guém, e podia ainda socorrer algum necessi- 
tado.» (Obr,, VI, 196.) Assim sp lamentava 
em 1808; a situação de Portugal abandonado 
pelo monarcha bragantino á invasão napoleo- 
nica, não dava azo para que a sua voz fosse 
ouvida. Nos grandes desastres irrompem os 
Ímpetos egoístas. 

A paixão pela lingua portugueza, o culto 
pelos modismos e locuções populares do meio 
em que nascera, e da edade feliz da sua exis- 
tência que passara, eram a preoccupação ex- 
clusiva do seu espirito: «Já me veiu ao pen- 
samento fazer um Manual de Phrases e ele- 
gâncias da nossa lingua, como Manucio e ou- 
tros já compuzeram das da lingua latina^ 
querendo assim soccorrer os que querem es- 
crever bem em portuguez. — Estou velho, 
com setenta e dous annos, nem creio que terei 
vida i)ara trabalho tão longo. Agradeçam-me 



262 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

a boa vontade, etc.» ^ O desterrado sentia que 
se esquecia da linguagem corrente, e por uma 
recorrência da senectude avivam-se-lhe na me- 
moria todas as locuções que ouvira na moci- 
dade. Offereceram-lhe os Apologos dialogaes 
de Dom P>ancisco Manoel de Mello; era uma 
mina de riqueza de elocução e modismos por- 
tuguezes : « Cito af fouto, por que me fizeram 
mimo d'elle portuguezes compadecidos, que 
viam que eu perdia a minha lingua natural 
por falta de Autores onde eu pudesse restau- 
rar com a leitura d^elles, a perda da phrase, 
e do tom d'ella, ganhada pela ausência de 30 
annos, da minha saudosa Pátria.» ^ Filinto 
falia das promessas dos patrícios que o visita- 
vam: «quando d'aqui partiram, que me man- 
dariam Barros, Lucena, etc. E até mesmo os 
Autos dos Pastores, da Paixão, de Santa Bar- 
bara, etc. etc. E nenhuma d'essas promessas, 
depois de muitos annos se cumpriu ainda.» ^ 
Eram os Autos de Frei António da Estrel- 
la, do P.C Francisco Vaz, e de Balthazar Dias, 
que Filinto citava das recordações da infân- 
cia, que promettiam enviar-lhe ; a memo- 
ria das boas impressões não lhe atraiçoava a 
justa apreciação d'esses Autos populares. 
Conhecia que ali estava a genuina fonte da 
dicção portugueza: «leiam a ópera dos En- 
cafitos de Circe, eruditíssimo parto de um en- 
genho judaico. Houve editor que moderna- 



1 Obras, t. vi, p. 180. 

2 Ibid., p. 231. 

3 Ibid., p. 236. 



FILINTO ELYSTO 868 

mente deu á luz esses non plus ultra do gé- 
nero dramático; e Gil Vicente e Prestes, e 
outros clássicos ficarão para sempre no ca- 
doz ! » ^ 

A fuga de Dom João vi com a corte para 
o Brasil em 30 de novembro de 1807, en- 
contra no velho poeta uma glorificação, em 
que a verdade da arte está em antinomia com 
a verdade moral. Muitos versejadores exalta- 
ram essa covardia, que foi um erro politico 
estimulado pela Inglaterra para sua vantagem; 
Filinto desceu com a senilidade e a fome a 
essa idealisação : 

Houve Homem jiisio das virtudes molde, 
Que ancioso, em terra estranha 

De ir d^ellas desparzir esplendidos raios 
Deixou da Pátria o seio. 

Partiu da Elysia illustre 
Co^a esposa, que em méritos o eguala. . . 



O nome de João, suas virtudes, 

Seu digno esforço no deixar a Pátria 

( De saudades centro !) 
Deixar os Povos que amUj e ir ser amado 
Dos que vae aditar c'o real semblante 

{Obr., V, 21.) 

Apezar doesta abjecção, o desgraçado poe- 
ta afundava-se cada vez mais na indigência 
em terra estrangeira ; os poderes públicos não 
o conheciam, ou antes não esqueciam que elle 



Ib., p. 494. 



864 HISTORIA DA LTTTERATTTRA PORTUGUEZA 



tinha glorificado Rousseau, e o Emílio e o 
Contracto social (v, 198, 200). 

Nos Papeis Íntimos de Filiato, hoje pos- 
suidos pelo sr. conselheiro Alfredo Tavares 
de Macedo, acha-se o seguinte fragmento de 
carta : 

« Ainda Alcipe não tinha sahido de Portu- 
gal, quando os meus amigos me escreviam 
cartas de parabéns pelo gosto que eu teria de 
vêr em Paris aquella que tanto celebrei em 
meus versos; aquella que = ^mor ao mundo 
dáj doce amor gera ^^= aquella que, se eu 
creio as promessas me devia fazer feliz quan- 
to pode ser um desterrado. Já de Castella me 
escreve com muito empenho e todo segre- 
do outro amigo annunciando-me a felicidade 
quasi raiando n'este meu triste tugúrio. Che- 
ga emfim uma Carta de Alcipe; reconheço a 
mão que me fez tantas vezes venturoso, en- 
cho o peito de esperanças, tomo de novo 
aquella alegria de que me despira ha tão lon- 
go tempo; e quando o cuidava menos, vejo 
cabidos e em pó todos os meus prazeres de 
ventura. Foi este um tiro da fortuna, para o 
qual não tinha ainda (depois de tantos desas- 
tres) a alma preparada. D. Vicente de Sousa 
me estranhou não ter-lhe escripto a Vienna, 
e me pediu carta para a metter em uma sua: 
não sei a que attribua a falta de resposta. . . 
Se esta a não tiver, eu saberei a causa e co- 
nhecerei Alcipe.» Parece que esta carta se 
refere á época em que a Condessa de Oyen- 



* Explica-se a referencia d'este verso a pag. 200 
e seguintes. 



FILTNTO ELYSIO 365 



hausen esteve em Paris em 1785, de passa- 
gem para Vienna. 

A Condessa da Ega, D. Juliana, filha da 
Marqueza de Alorna, e celebrada nas canti- 
gas populares pelos seus amores com Junot, 
ao passar por Paris foi visitar Filinto; dedi- 
cou-lhe o poeta uma Ode, em que lembra as 
antigas relações com a poetisa de Chellas : 

Filinto soube, que lembrada Alcipe 
Do antigo adorador de seus talentos, 
Premiar quiz o não cessante culto, 
Com flor do seu engenho, i 

Filinto, entre as angustias de um desterro, 
Falto de bens, distante dos amigos 
Fita os olhos na Pátria, vê na ideia 
Presente a Sapho Alcipe. 

E quanto a Alcipe não magoara vêl-o I 
Com que amigável dextra, as tão pungentes 
Penas não lhe adoçara ! E o estro extincto 
Lhe resurgira meiga ! 

(Ohr., iTi, 66.) 

As promessas da Condessa da Ega não 
poderam ser realisadas; então Alcipe estava 
também refugiada em Inglaterra e nada podia 
fazer. Pelos acontecimentos de 1814, e feita 



^ Refere-se ao presente da versão da Poética de 
Horácio. ( Obras poéticas da Marqueza de Alorna, t. v, 
p. 9 a 55.) Em um fragmento de carta de Domingos 
Borges de Barros (Viscoi]de da Pedra Branca) a Filin- 
to, datada de 17 de Ago'sto de 1810, vem este trecho, 
que tudo elucida: - Cá me deram outra noticia; e vem 
a ser, que certa Ex.'"^^ Snr.» lhe ia levar da parte da 
Ex."'* sua Mãe nova traducção da Poética de Horácio.» 
iObr., t. m, p. 162.) 



866 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



a Restauração em Luiz xviii, Alcipe pas- 
sou por Paris, para seguir para Vienna de 
Áustria;^ Filinto enviou-lhe uma Ode (iii, 117) 
á qual respondeu a poetisa, datando-a de 
Janeiro, de 1814, com a assignatura: «Al- 
cipe, Reconhecida e inspirada pelos versos 
harmoniosos que recebeu.» São duas Odes de 
exagerados truques mythologicos. A talento- 
sa dama desejou ir visitar Filinto a sua casa; 
mas o Embaixador portuguez junto de Luiz 
XVIII entendeu que era impolitico esse passo. 
Filinto lamenta a intervenção do ministro em 
uma Ode a Alcipe : 

Alcipe, não me ver? Ao seu Filinto 
Depois de longa ausência a vista breve 
Negou (avara do divino gesto) 
Vós o crereis, vindouros? 

Filinto, a quem ornou a sacra rama 
Do tronco da puríssima amisade. 
Suaves falias não trocou ditoso 
Co^a des-saudosa Alcipe. 



E Alcipe enternecida se lembrara 
De Chellas saudosa 

(Ob)\, XI, 194.) 

O editor Constâncio aimotou esta Ode : 
« Com paixão falia aqui o Autor ; por quanto 
folheando entre seus papeis, deparei com 
duas cartas de Alcipe, uma em francez e ou- 
tra em portuguez ; em ambas demonstrava 
grão desejo de lhe fallar. Sei eu, d'aliás, que 
o Embaixador de Portugal que então residia 
em Paris, de nimio acautellado aconselhou a 



^ Ode a Elia voltando da Gram Bretanha, iii, 210. 



FILINTO ELYSIO 367 



Filinto que não fallasse a Alcipe, porque ti- 
nha rasões mui sisudas para lh'o assim en- 
commendar.» 

Em 1812 realisara Filinto a traducção em 
verso solto do poema em prosa Os Martyi^es 
de Chateaubriand. Pela segunda vez o velho 
poeta clássico dava um impulso inconsciente- 
mente á renovação romântica portugueza. A 
obra de Chateaubriand lucrou com a forma 
em verso. Chateaubriand foi surprehendido 
pela excepcional consagração do seu Poema, 
e em carta de 5 de Septembro de 1812 agra- 
dece-lhe a honra « en traduisant Les Martyrs 
dans la langue du Cariíoêns.» E mostra-se 
convencido, que n^esta bella lingua «Eudore 
et Cyniodocée paraitront beaucoup plus no- 
bles et plus touchants sous les habits de Ga- 
ma et d'Ines.» A versão de Filinto chamou a 
attenção dos litteratos francezes para o pobre 
poeta desterrado, mas nem por isso o gover- 
no da Restauração o soube attender. Filinto 
pela separação dos seu» amigos na corte do 
Rio de Janeiro, e pela expulsão de outros de 
Portugal pela reacção contra os francezes^ 
achava-se cada vez mais desamparado e não 
tendo para quem appellar. 

Descrevendo o seu anniversario em 1812, 
o poeta percorre a lista dos amigos mortos, e 
Paris parece-lhe insípido : 

No quarto anuo do lustro sexto-decimo, 
Entrei; quem sabe se eu findal-o obtenha? 
Não m'o dá a crer ruim melancholia 

Que em solidão me rala. 
Paris, para Filinto, é ermo insípido, 
Se dos lusos que vêm, já stantes Lusos 



268 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Lhe falta a aliviosa companhia 
Que elle única apetece. 

Onde estaes, Mathevon^ ^ Araújo, Alfeno ? 
Cortou-vos immaturos crua foice: 
Cortou minha alegria, e o laço estreito 
Da constante amisade. 



Tenho o meu Verdier, o meu Constâncio, 
Mas ferrenha a priguiça m'os mallogra; 
Só Vianna se doe do triste velho; 
Tal qual vês traz-lhe alivio. 

{Ohr„ XI, 238.) 

Em 1814, então na mais profunda penú- 
ria dirigiu um Memorial a um dos ministros 
de Luiz XVIII, contando que sahira de Portu- 
gal aos 44 annos, como lhe foram roubados 
os seus bens, e pedia que sobre elle cahisse 
«un regard bienfaisant de Sa Magesté.» E 
termina : « Cest dans cette situation, Monsei- 
gneur, que ]'ai recours à la generosité de ma 



1 António Mathevon de Curnieu. 

Negociante francez, n. 1741, m. 1807: estabelecido 
em Lisboa com negocio de fazendas de linho e algodão, 
na praça do Pelourinho. Era da intimidade de Fran- 
cisco Manoel. lía época da Revolução franceza Mani- 
que expulsou-o de Portugal. No tempo da Regência 
(1802 a 1820) seus netos vieram pedir-indeninisação. 
Sua filha M.'^^^ Ditmer, em 1816 imprimiu em volume 
as poesias latinas de seu pae : Lyrici Lusus A Mathe- 
von de Curnieu. Parisiis, 1818. In-8.« max. de 61 fl. 
Contém 13 Odes : a 2.% 5.^ 6.*, 11.% e 12.^ andam nas 
Obras de Filinto, ficando algumas fora da collecção. 
— Pilaer, de que falia Filinto, era Gaspar Bertrand Pi- 
laer ; seu filho Gaspar João foi cônsul dos Paizes Bai- 
xos em Lisboa. 



FILINTO ELYSIO 369 



patrie adoptive; j'ai 78 ans: les malheureux 
•ont peut de temps pour esperer.» Embora 
não tenha data este documento, a referencia 
do poeta á sua edade, fixa-o no primeiro an- 
no da Restauração. Em 1815, para estar mais 
próximo dos seus amigos, veiu fixar a re- 
sidência no bairro du Roule, .onde era soc- 
corrido por alguns portuguezes. 

Em uma Ode emphatica celebrou Filinto o 
oasamento de Dom Pedro, primogénito de 
D. João VI, com a Archiduqueza Leopoldina, 
de Áustria; era um meio para ver se attrahia 
a protecção regia, como o dá a entender em 
uma nota: «E' para lastimar que a Serenis- 
sima Archiduqueza, que (ao que me disse o 
meu amigo Francisco José Maria de Brito,) 
aprendia portuguez pelas Obras de FiUnto 
Elysio, não estendesse a mão ao velho Poeta, 
que lhe cantou os festivissimos desposorios.» 
<xi, 54.) Pela versão da Ode de Voltaire Ao 
Fanatismo deu-lhe o então Conde de Palmei- 
la 64$000, como o poeta confessa. A situa- 
ção dolorosa do velho poeta exilado e pobre, 
<íom outenta e dous annos de edade, commo- 
veu Lamartine que surgia na Litteratura f ran- 
ceza. Também em Portugal, Garrett, que ain- 
da estava longe da iniciativa da renovação 
romântica na nossa litteratura, celebrava em 
1817 o anniversario de Filinto Elysio em 
uma Ode, assim datada na Lyrica de João 
MÍ7iimo. 

A influencia de FiHnto exercia-se mesmo 
sobre aquelles que o combatiam ; a versifica- 
ção e a linguagem tinham-se aperfeiçoado no 
seu exemplo e com a sua critica. Elle pró- 
prio justifica a propaganda com o appareci- 

34 



370 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

mento do poema O Oriente, de José Agosti- 
nho de Macedo, em 1814: «Quando eu me 
dava a perros escrevinhando tanta nota... 
não tinha ainda hdo o novo Poema do Orien- 
te, e o do Gama, em que o erudito A. com 
larga mão esparge por todo elle, novos, an- 
tigos, compostos e latinos termos, sem lhe im- 
portar o que dirão os praguentos.» (vii, 
p. XIX.) Em que pese a José Agostinho de 
Macedo, venceram as Nicenadas. 

O culto por Horácio via-o radicado em 
Portugal, e em 1814 publicava no Investiga- 
dor jportuguez em Londres offerecido ao Dou- 
tor António Ribeiro dos Santos o seu Discur- 
so acerca de Horácio e suas Obras, ^ 

A Ode de Lamartine exaltando Filinto 
Elysio foi o resultado da intimidade do. excel- 
so poeta francez com o vate portuguez, exi- 
lado e vivendo na miséria. Em um estudo pu- 
blicado em Paris a propósito do Centenário 
de Garrett, aponta-se o facto de ter Lamarti- 
ne tomado lições da lingua portugueza com 
Filinto Elysio, e ser o seu primeiro escripto 
em prosa um Discurso lido na Academia de 
Macon sobre as obras poéticas doeste mestre 



^ Prefaciando este Discurso, escrevia o redactor 
do Investigador portuguez, a pag. 344 : « o nosso amá- 
vel e honrado compatriota o P.^ Francisco Manoel, que 
ainda depois de contar 81 annos de edade, vive em 
França não cessando de trabalhar por dar nome e fa- 
ma litteraria á sua Pátria, apesar de todas as ingrati- 
dões que d'ella recebeu. Este velho Nestor da nossa 
Poesia e Litteratura, tem sempre direito a tomar um 
assento mui distincto entre todos os nossos litteratos...>- 



FILINTO ELYSIO 371 



que lhe revelara as bellezas de Camões. ^ Po- 
de-se fixar essa época, que coincide com a 
vida de elegância e dandysmo de Lamartine 
em 1817, quando regressou a Paris, apaixo- 
nado por esse typo ideal da Elvira das Me- 
ditações e da Júlia do romance Raphael, uma 
creoula de 17 annos casada com um velho 
erudito. Lamartine começava então com os 
seus vinte e cinco annos a entregar-se ao es- 
tudo, e ensaiava a poesia elegíaca; frequen- 
tava os salões da elegância aristocrática, das 
Madamas de Saint Aulaire, La Tremouille, e 
duqueza de Broglie, onde encontrava Suard, 
Bonald, Lally-Tollendal e outros litteratos. O 
interesse pela lingua portugueza ligava-se ao 
empenho de conhecer a poesia meridional, 
que o libertou d'essa vaga sensiblerie das 
composições ossianescas que tanto o tinham 



1 « Lamartine, à Pépoque oíi 11 débutait dans le 
dandysme, emploj^ait les rares heures sérieuses de son 
existènce à Tétude de la langue et de la litterature por- 
tugaises, sous la direction d^un maitre compétent, Ma- 
noel do Nascimento, Celui-ci s^était attiré la persécu- 
tion de son gouvernement par des satires politiques 
qui lui valurent enfin Téxil, un éxil adouci par le dé- 
vouement d^une jeune religieuse qui s'était attachée à 
sa misere. Le proscrit apprit à son eleve à admirer Ca- 
moêns, et en fut recompense par Fhommage dans les 
Meditations. Le prémier ouvrage en prose du grand 
poete est un Discours lu devant rAcademie de Macon, 
et relatif aux osuvres de son maitre ; l'Academie en son 
procès-verbal, felicite Monsieur Alphonse (n^oublions 
pas que la chose se passe entre gens de connaissance 
et tout à fait en famille) par son érudition et Péiegance 
de son jeune talent.» (La Liberte, 7 fevrier, 1899: 
PaRTUGAis DE Paius, artigo por occasião do Centená- 
rio de Garrett.) 



872 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



fascinado na mocidade. Lamartine achava-se 
pois diante de um velho de outenta e três an- 
nos, pobre, isolado, mas apoiando a existên- 
cia desamparada com um raio de luz poética, 
com que elle dava relevo á obra de Camões. 
Era impossível que a organisação superior- 
mente delicada de Lamartine escapasse ao 
perstigio doesta situação commovente de Fi- 
linto; e pode-se dizer, que o poeta que achou 
a sua vocação na elegia do Lago, entrava na 
posse definitiva do seu génio quando compoz 
a Ode ao Poeta desterrado. As Meditações, 
que revelaram Lamartine, appareceram em 
março de 1820, quando Filinto já estava mor- 
to; o pobre desterrado teve conhecimento de 
tão bella apotheose da Meditação XIV em 
copia manuscripta. No tomo v das suas Obras 
completas com data de 1818 o editor incluiu 
essas Stances. Á un Poete portugais exile ; 
Filinto pondo-lhe uma das suas notas catur- 
ras, confessa-se assoberbado com o enfastia- 
do argel de elogios, e escreve: «Nem o divifi, 
que o Autor das Stanees me imbute, nem a 
alcunha de Horácio lusitano qúe descarados 
me encampam, valia commigo tem. Um lou- 
vor moderado mas sincero que me viesse de 
Elpino, de Garção, ou de hum Duriense (se. 
Dr. António Ribeiro dos Santos) me conten- 
taria mais, que todas essas encarecidas exu- 
berancias.» (v, 10.) Parece que esta nota che- 
gou ao conhecimento de Lamartine, por que 
na edição modificou esta estrophe: 

Cest là qu'est ton séjour, c^est là qu^est ta patrie, 
C^est ]à, divin Manoel, que seront tes autels ; 
C^est là que Tavenir prepare à ton genie 
Des honneurs immortels. 



FILINTO ELYSIO 873 



Variante : 

Les siècles sont à toi, le monde est ta patrie, 
Qiiand nous ne somines plus^ notre omhre a des autels, 
Ou le juste avenir prepare à ton genie 
Des honneurs inimortels. ^ 

O texto primitivo da Ode de Lamartine 
tem mais outo estrophes, que foram suppri- 
midas na edição das Meditations. 

Em 1817, annotava Filinto a Carta ao seu 
amigo Brito, espécie de testamento litterario; 
ali pinta a sua situação moral e material aos 
outenta e dois annos : « Mas, misero de mim 
que 82 annos me quebram os brios, e tão 
desazado tenho o juizò, que pegar eu na pen- 
na e sahir-me por ella um chorrilho de des- 
temperos, é tão corrente cousa, como cheirar 
a alho quem de alho comeu assorda.» ^ «Po- 
dem accusar-me (e talvez com bem razão) de 
serem longas de sobejo, e de serem muito 
amontoadas as notas d'esta Carta. Mas peço- 
Ihes que me perdoem; e certo estou que o 
farão logo que considerem, que estou velho e 
pobre, e por conseguinte solitário e triste ; 



^ Não transcrevemos aqui a Ode de Lamartine, 
porque está muito vul^arisada pelas seguintes traduc- 
ções : de Bento Luiz Vianna, Poesias^ p. 88; Marqueza 
de Alorna, Obras poéticas^ t. iv, p. 221; Francisco de 
Castro Freire, Revista académica, n.« 4, p. 49 ; P.«^ An- 
tónio Marques da Silva, Pantologo, p. 69 ; nos Novos 
Annaes das ScienciaSy das Artes, Paris, 1827, p. 178; 
José Augusto Cabral de Mello, da ilha Terceira, folhe- 
to avulso. Estão apontadas por Innocencio. 

* Obras, i, p. 107. 



874 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 



que não tenho amigos que me divirtam, nem 
posses para ir aos theatros, ou jogar nas as- 
sembleias ; que todo o tempo emprego a ler 
quatro alfarrábios, que comprei a vintém, e 
os mais caros a tostão; e se não leio, escrevo ; 
e só d'este modo me posso forrar de enojos 
e enfadamentos da solidão. Um amigo único, 
que aqui tenho A. M. de Curnieu ri ás vezes 
doestes meus destemperos poéticos, e essa é a 
única consolação da minha mesquinha vida. 
— Far-vos-hia compaixão ver um velho de 
65 annos, (1800) que algum dia viveu abas- 
tado, e estimado de seus conterrâneos (e con- 
terrâneas) desvalido e só, vivendo em Paris, 
como n'um descampado, embrulhado no man- 
to da pobreza, e diante d'elle e pelos lados os 
cuidados da vida, o trafego da casa, as la- 
mentações do passado, e mais que tudo a sec- 
ca melancholia estendendo a cada instante os 
braços para me apertar n^elles e me levar de 
rastos até aos umbraes do passamento.» ^ 
Estas notas comprehendem o periodo de 1800 
a 1817; em uma d^ellas ainda allude á época 
ante-revohicionaria: «Quando eu escrevi esta 
Carta ainda havia Bispos em França; e eu 
os via vir ao Collegio real assistir a estas li- 
ções por gosto de ouvir a Pnblio Virgílio De- 
lille, como Voltaire lhe chamava. E com effei- 
to era delicioso ouvil-o explicar as bellezas 
dos Clássicos francezes, e as notas que alli 
da cadeira lhes ajuntava.» ^ 



1 Ib,, p. 96. 
« Jb., p. 34. 



FILINTO ELYSIO 375 



A desgraçada situação de Portugal sob a 
occupação ingleza duramente exercida pelo 
inflexível Beresford, fez que muitos cidadãos 
emigrassem da pátria para França; homens 
de sciencia e fidalgos portuguezes achavam 
em Paris um centro de Hberdade e cultura, 
reunindo-se áquelles que já alli se haviam re- 
fugiado depois de expulsos como jacobinos 
pelas alçadas rancorosas. Esta primeira emi- 
gração pode-se dizer que influiu na compre- 
hensão do moderno direito politico que veiu 
a ser inaugurado em Portugal pela Revolu- 
ção de 1820. Essa corrente de emigração 
para França fez com que Filinto sahisse da 
sua profunda obscuridade, sendo bastante vi- 
sitado por portuguezes, que chegavam a en- 
íadal-o com o epitheto de Horácio portiigiiez. 
Por ventura, por influencia do culto de Ca- 
mões, que elle de longos annos sempre pro- 
clamara, se originou esse pensamento do Mor- 
gado de Matheus (D. José Maria de Sousa 
Botelho Mourão e Vasconcellos.) que o levou 
a emprehender a edição monumental dos Lu- 
síadas, em 1817, na qual dispendeu reis 
10:0008000. Filinto consagrou essa inexcedi- 
vel homenagem ao nosso épico; em uma Ode, 
exalta-o: 

Oh Sousa, 
Viverás, quanto vivam os Lusíadas, 
A' Pátria, aos Lusos caro. 

{Obr., XI, 52.) 

Filinto vivia em communhão poética com 

Morgado de Matheus (v, 231, 348); era 

)nsiderado pelo Conde de Palmella, pelo do 



376 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Funchal e Marquez de Marialva, que o pre~ 
senteavam mas nada conseguiram para reali- 
sar a sua aspiração de voltar á pátria. A exe- 
cução infamissima do general Gomes Freire 
ordenada por Beresford com a connivencia 
da torpe Regência, em 13 de Outubro de 
1817, e as forcas e fogueiras do Campo de 
Sant^Anna, tornaram-se os germens da eman- 
cipadora Revolução de 1820. Foi em Paris^ 
que o sentimento da pátria portuguezavibrou^ 
tendo a epopêa de Camões sido como a ex- 
pressão ideal. A influencia patriótica de Filin- 
to sobre o purismo da lingua e cultura do gos- 
to sendo também conhecida, alguns homens 
práticos trataram de fazer uma edição das 
Obras completas do desterrado poeta em 
1817; o Club dos Negociantes portuguezes. 
de Inglaterra enviara-lhe uma letra de 1.200 
francos para a impressão das suas obras; e 
um negociante portuguez do Havre de Grace 
coadjuvou o livreiro portuense que realisou a 
edição de 1817, dirigida pelo Dr. Solano 
Constâncio, seu medico e admirador acérrimo. 
Pode-se dizer que essa crise moral da nação, 
que presagiava a Revolução de 1820, que 
deu a Portugal entrada na civilisação do sé- 
culo, influiu directamente no reconhecimento 
da importância litteraria de Fihnto. Mas o 
poeta achava todas essas glorificações impro- 
fícuas e tardias, importunas e exageradas. 

Começava o anno de 1819, e o poeta ence- 
tava o octogésimo quinto anno da sua eda- 
de; em uma Ode a este anniversario reconhe- 
ce: «Na avançada edade em que me vejo, não 
tardarei a pôr-me a caminho. . .» e resigna-se 
a abandonar a esperança de tornar a pátria: 



FILINTO ELYSIO 877 



Ser-me-ha feliz este anno outenta e cinco 
Que, de hoje, avança? Ou tem de vir cortar me 
A Morte, co^a luzente fouce a trama 
Da desbotada vida? 

Não verei inda a cara pátria? os Lusos? 
Os Lusos, Pátria, que inda amo; eu, mais que a vidat 
Do infame Tribunal inda a caverna 
As prezas me arreganha. J 



E descrevendo a acção da Santa Alliança 
depois da queda do império napoleónico na 
sua rápida phase de transigência com a liber- 
dade, aponta Portugal ainda sobre o predo- 
mínio obscurante da Inquisição: 

Quando Prússia, quando Áustria, e os Reis do Pola 
Dão Leis, que dictou branda sapiência. 
Gemeis Hispanos, Lusos, sob o açoute 
Da arteira Hypocrisia. 

Adeus, desejos vãos de ir ver a Pátria; 
Fica-te, oh Monstro, oh tragador Busiris; 
Calca aos pés, despedaça ânimos fortes, 
Que o colo te não cortam. 

{Oh)\, XI, 188.) 

Não foi esta a ultima composição poé- 
tica de Filinto ; o illustre Eaynouard, o eru- 
dito compilador das poesias dos Trovadores, 
e secretario perpetuo da Academia franceza 



^ Em 1818 Pato Moniz publicou no Observador 
portuguezj t. i, p. 160, 183 e 212, uma traducção da 
biographia de Filinto, escripta por Sane, mas pela si- 
tuação em que se vivia, teve de supprimir tudo o que 
se referia á perseguição religiosa eao episodio da fuga. 



S78 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

€ompozera uma Ode glorificando Camões, 
para ser recitada na próxima sessão publica 
das Quatro Academias do Instituto de Fran- 
ça, em 24 de Abril, e sendo communicada an- 
tecipadamente ao Dr. Solano Constâncio, este 
dedicado amigo entregou-a a Filinto para que 
a traduzisse: «Elle assim o executou com a 
maior promptidão, e dentro em poucos dias 
terminou a traducção. . . » Logo que a deu 
prompta, Filinto poz-lhe uma nota bonachei- 
rona, em que diz : « dons dias trabalhei n'ella 
de affogadilho. Eil-a ahi tal e quejanda. Lem- 
bra-me, que dizia minha mãe, que obras fei- 
tas a pressa eram sempre atrapalhadas.» (xi, 
287.) Quando Kaynouard recitou a sua Ode 
na sessão solemne das Academias já Filinto 
tinha expirado. 

Atacado de uma anasarca ou hydropesia 
•do peito, succumbiu Filinto apesar de todos 
os cuidados que lhe prodigalisou o Marquez 
de Marialva, então embaixador em Paris ; foi 
a sua morte em 25 de Fevereiro de 1819. 

No mez de Abril, o Dr. Francisco Solano 
Constâncio, que tratara o poeta na sua doen- 
ça e o auxiliara na extrema miséria, ao dar 
conta da monumental edição dos Lusíadas 
pelo Morgado Matheus, nos Aiinaes das Scien- 
eias e das Lettras, (t. iv) escrevia estas pa- 
lavras frisando o deplorável contraste: «Taes 
monumentos, postoque nada sirvam aos mor- 
tos, podem talvez aproveitar aos vivos, se, 
envergonhando as nações da ingratidão dos 
maiores, as ensinam a não conimetter com os 
contemporâneos o que tão asperamente cen- 
suram com os antepassados. Se d'elles não 
transluz esta lição, então nada mais são do 



FILINTO ELYSIO 879 



<jue vãos padrões de vaidade, com que de- 
balde procuram os seus auctores palliar o me- 
noscabo que fazem do msrito desvalido dos 
vivos, affectando tanto maior veneração para 
o engenho dos mortos.» E alludindo a portu- 
guezes existentes ou já falecidos que viveram 
vida pobre e angustiada, e vaticinando-lhes 
mausoléos, indubitavelmente visava Filinto 
nos seus últimos dias, expirando quasi ao 
abandono. 

O Cônsul de Portugal em Paris, Bernardo 
Daupias officiou para a Junta do Commercio 
em Lisboa, em 29 de Maio doesse anno dando 
parte do acontecimento em um relatório que 
foi publicado na Gazeta de Lisboa, n.^ 191, 
de sabbado, 14 de agosto de 1819. Ahi se 
acham particularidades que merecem conhecer- 
se. ^ Fez-se o seu enterro á custa do illustre 



^ Eis o officio dirií^ido á Eeal Junta do Commer- 
cio, Agricultura, Fabricas e Navegação: 

«Senhor. Cumpre-me, em observância do Regimento 
doeste Consulado geral, participar com o mais profun- 
do respeito a V. M. ter n'esta cidade falecido aos 25 
de Fevereiro do presente anno o presbytero Francisco 
Manoel do Nascimento, vassallo portuguez. 

«Em rasão do meu cargo, communicado que me foi 
o falecimento do referido vassallo, apresentei-me no 
aposento que lhe servira de residência ; dei fé de estar 
de corpo presente ; tomei as correspondentes declara- 
<}ões do medico e mais gentes que na sua doença, até 
que expirou, lhe tinham assistido; fixei o sello d'este 
consulado sobre tudo aquillo que debaixo de juramen- 
to me fora declarado pertencer á succesão do defuncto; 
do que lavrei auto. 

« No interesse dos herdeiros do falecido exami- 
nei attentamente os seus papeis ; elles nenhuma ideia 
dão nem de bens alguns, que n'este ou n^outro paiz 



S80 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Marquez com exéquias na egreja de San Phi- 
lippe du Eoule, sendo sepultado no cemitério 



lhe pertencessem, nem ainda de que família fosse. 
Estes papeis nada significara, além de uma correspon- 
dência estéril. O referido vassallo não me consta que 
fizesse testamento ou codicillo. 

Ausente depois de muitos annos do reino, era não 
obstante conhecido n^elle entre os litteratos ; as suas 
obras poéticas tinham-lhe grangeado lá celebridade, 
n^esta a estima dos portuguezes os mais capazes e dis- 
tinctos ; por esta rasão, postoque não apparecem do- 
cumentos que provem qual fosse o seu paiz natal para 
que eu o indique officialmente, sobeja noticia ha para 
que seu nome, e quem este homem fosse não fiquem 
sepultados na obscuridade, e hajam seus parentes, se os 
tem, de reclamar seus direitos, sendo necessário. 

« Francisco Manoel do Nascimento, presbytero, 
morreu pobre ! 

Os objectos inventariados e depois vendidos em 
leilão publico, com as formalidades que em taes casos 
se requerem, renderam, como da nota inclusa, o liqui- 
do producto de 100 francos, 20 centésimos. 

« Não será alheio do assumpto do presente officio, 
que reverentemente tenho a honra de levar á real pre- 
sença o relatar, que n^esta occasião não só me prestei 
como me cumpria, á execução das funcçÕes do meu 
cargo, mas também acceitei de boa vontade a honrosa 
incumbência, que o Marquez de Marialva, embaixador 
de V. M. n^esta corte, se serviu dar-me para haver de 
correr com as necessárias disposições do funeral do 
referido vassallo. A sua extrema indigência teria pre- 
cisamente feito que ficassem as suas cinzas confundi- 
das com as de tantos sem nome nem reputação conhe- 
cidos, em o cemitério commum d'esta capital, se a ge- 
nerosidade do Marquez de Marialva, personagem di- 
gno da representação que exerce, não tivesse im me- 
diatamente vindo accudir a honrar as mesmas. O fu- 
neral fez-se com a decência correspondente ao caracter 
do falecido presbytero : ao officio de corpo presente 
assistiram portuguezes da maior distincção, que se 
achavam n^esta, a cuja frente esteve o Embaixador, a 



FILINTO ELYSIO 381 



do Père-Lachaise, tornando-se d'ahi em dean- 
te a sua sepultura «pour tous les Portugais 



secretario da embaixada e outros empregados da mes- 
ma. Uma lapide distinguirá o logar onde jazem os seus 
despojos. Assim que em honra do bom nome, e do me- 
recimento d'este seu poeta lyrico, a acção do Embai- 
xador de V. M. irá a par da memoria de Francisco Ma- 
noel do Nascimento até á posteridade, que lerá com 
gosto na historia dos seus poetas, que uma mão bem- 
ieitora desceu com honra nacional á sepultura os res- 
tos d'este. 

«Resta-me presentemente observar com o devido 
acatamento, que as instrucções que a Real Junta do 
Commercio tem dado aos cônsules para por ellas ha- 
verem de regular-se, não abrangem no presente caso, 
que applicação deva dar-se a sommas provindas de 
bens de vassallos falecidos. 

« Parece-me em consequência acertado que a dita 
somma de 100 francos e20 centésimos entre no cofre 
da Real Junta: a cujo fim dou, n'esta mesma data or- 
dem á Casa de commercio Diogo Ratton, d'essa cidade, 
para que entregue o contra-valor da mesma ao thezou- 
reiro d'ella, e hajam d'este modo os herdeiros do de- 
iuncto, ou quem de direito, de reclamal-a, quando se 
íizer publicar por editaes o falecimento mencionado. 

« Também no interesse dos mesmos herdeiros exa- 
minei, como me cumpria, se n^esta cidade existiam al- 
guns bens que pertencessem directa ou indirectamente 
á successão, porém, não me constou haver a bem d'el- 
les cousa alguma reclamavel. 

«Para segundar, como pude, os officios do excel- 
lentissimo Marquez embaixador para com o falecido 
vassallo de V. M., o Consulado não leva emolumentos 
alguns n'esta occasião, se bem que se lavraram os com- 
petentes autos, e se fizeram varias outras diligencias 
de minha alçada. 

«No Livro 1.°, que serve para os autos públicos 
que se lavram n^este Consulado, ficam lançados os que 
a respeito do dito vassallo se tomaram, para do mesmo 
Livro dar os competentes treslados quando se reque- 
rerem, e que o real serviço de V. M. assim o exija. 



382 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



le biit d'un pieu pélerinage » como notou Fer- 
dinand Denis. ^ Ahi se conservaram os seus 
Testos até 1843, em que foram sob guarda de 
Filippe Ferreira d'Araujo e Castro official- 
mente trasladados para Lisboa, ^ ficando até 
1845 no claustro da Sé, votando-se por de- 
creto de 5 de Maio doesse anno um tumulo no 
cemitério do Alto de S. João, que se terminou 
em Junho de 1856. Ao emprehender-se a pu- 
blicação do Parnaso lusitano em 1826, em 
Paris, Garrett no seu substancioso prologo, 
expressa com nitidez a apreciação da obra de 
Filinto : « Nenhum poeta desde Camões havia 
feito tantos serviços á lingua portugueza ; só 
por si Francisco Manoel valeu uma academia, 
e fez mais do que ella ; muita gente abriu os 
olhos, e adquiriu amor a um tão rico e bello, 
quanto desprezado idioma; e se ainda hoje 
em Portugal ha quem estude os clássicos, 
quem se não envergonhe de ler Barros e Lu- 



« Consulado geral do Reino-Unido, em Paris, aos 
29 de Maio de 1819. 

« Senhor, aos reaes pés de V. M., o mais humilde 
e fiel vassallo — Bernardo Daupias, > (Reproduzido 
no Conimbricensey n.^ 3684 = 1882.) 

^ Ahi se encontravam foragidos de . Portugal o 
pintor Domingos António Sequeira, o compositor Do- 
mingos Bomtempo, e o poeta Garrett. 

2 Rodrigo da Fonseca Magalhães consultara Sil- 
vestre Pinheiro Ferreira sobre o modo de realisar esta 
trasladação. (Rev. universal lisbonense^ t. n, p. 539.) 

Na citada revista de 1841, vêm calorosos artigos 
de Castilho, sobre Os restos mortaes de Filinto (p. 539) 
e a Sepultura de Francisco Manoel do Nascimento. 
(p. 30.) 



FILINTO ELYSIO 383 



cena, deve-se ao exemplo, aos brados, ás in- 
vectivas do grande propugnador de seus fo- 
ros e liberdades.» ^ Bastava a transformação 
na versificação portugueza realisada por Gar- 
rett, e devida ao seu estudo de Filinto, para 
consagrar-se a sua obra, e dizermos como Tá- 
cito: «A fama nem sempre erra ; por vezes ella 
acclama — (Non semper errat fama; aliquan- 
ão eligit.)>y 

§ III. Historia externa do texto 
das Obras de Filinto Elysio 

Antes da fugida de Portugal já o poeta ti- 
nha impresso algumas comedias traduzidas^ 
e por mãos particulares ficaram vários inédi- 
tos de que elle nunca mais teve conhecimen- 
to. ( Vid. Obras da Marqaeza de Alorna, o 
a edição de Filinto da Livraria Eolland.) Um 
certo numero de folhetos com poesias avulsas 
começados a imprimir em 1786 ficaram da 
tal modo raros, que o próprio poeta poucos 
pôde reunir na sua edição de 1798. Quando 
o Dr. Solano Constâncio se prestou a dirigir- 
Ihe a edição de 1817-1819, Filinto oppoz-se 
tenazmente a todo o plano systematico de co- 



1 Contra a eschola elmanistaj que se procurava 
contrapor á influencia de Filinto, escrevia Garrett : « E 
taes (monótonos) são os versos de Bocage, que nos pre- 
tendem dar para typo seus apaixonados cegos ; diga 
cegos, porque muitos tem elle (e n'esse numero que 
conto) que o ^o mas não cegos.» (Obr., t. xxi. 219.> 
Castilho, que era um exaltado elmanista sentiu-se does- 
ta referencia de Garrett e feriu-o na celebre carta a 
Ferdinand Denis chasqueando da Dona Branca. 



884 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

ordenação dos seus versos. Elle dava uma ra- 
são apparente — a monotonia das formas mé- 
tricas repetidas ; mas no fundo havia uma 
<5ausa intima não confessada. Nas Poesias de 
Filinto ha uma porção grande de composições 
apaixonadas e bellas, que separadas das Odes 
horacianas e das Epistolas eruditas e Sátiras 
sarcásticas, deixariam a descoberto a realida- 
de d'essa ardente idealisação da mocidade. 
Estava morta a Mareia ou Daphne, mas eram 
lembrados os Outeiros de Chellas em que Al- 
bano exaltava Alcipe. Eram ainda muito 
<íonhecidos os Bonzos da Inquisição que o 
perseguiam, e o Naire que lhe suscitou o pro- 
cesso; por tanto, os versos baralhados não 
deixavam descortinar os factos que formaram 
o drama feUz ou desgraçado de sua vida. E 
assim como fora escrevendo sem plano, tam- 
isem queria a obra descoordenada, o que tan- 
to prejudica a sua verdadeira apreciação. 
Como está, acha-se apenas o erudito offascan- 
do o poeta apaixonado, o ardente sectário 
dos princípios philosophicos do século xviii 
e testemunha consciente da Revolução france- 
za. Estes dois aspectos davam á sua obra 
systematisada uma importância decisiva. 

A desgraça e o desterro de Francisco Ma- 
noel é que motivaram os seus primeiros es- 
criptos impressos: «Bem capacitados creio 
todos os que me conheceram, que nunca pe- 
guei na penna com intenção de que fossem 
impressos os meus escriptos. Fiz versos por 
desenfado, e para descarregar a mente das 
ideias, que se amotinavam de encerradas. — 
Comecei por uma Ode á Rainha N. S., para 
lhe lembrar (no caso muito duvidoso que lhe 



FILINTO ELYSIO 885 



chegasse ás mãos) que um vassallo seu, victi- 
ma cia calumniosa inveja padecia um longo 
desterro, trabalhos e penúria, de que não era 
merecedor; dos quaes S. Magestade podia 
por sua justiça e sua benignidade libertal-o. 
Este, o motivo da primeira Ode impressa. O 
<3aminho uma vez aberto, e franqueado o pri- 
meiro passo, veiu a amisade requerer os seus 
direitos, e sahi á luz com segundo folheto; 
d'ahi um segundo e mais terceiro et reliqiia^ 
continuando sempre na supposição que não 
chegaria o cabedal de minhas folhas a avultar 
em livro; por quanto nunca me conheci com 
juizo para tanto. Vae se não quando, eis que 
folha sobre folha foi medrando o Volume; e 
quando menos me precatava, achei-me proge- 
nitor de um tomo impresso com mais de tre- 
zentas paginas inchado.» (Ohr,, i, 211.) 

Da extrema raridade dos folhetos avulsos, 
que imprimiu Filinto, escreve elle próprio : 
<^ E que fora, se o editor houvesse colhido 
mais de doze dos primeiros caderiiinhos que 
imprimi, e que eu não pude haver mais á mão ! 
— Oh, que do editor não vem a falta ; que 
empenhou elle todo o seu disvello em os ha- 
ver; e mal que os haja, dal-os quer de graça 
aos assignantes. Dêem graças á Fortuna os 
pientissimos e pacientíssimos leitores, que 
os livrou ella doesse molestissimo camarço.» 
(Obr., t. IV, p. 168.) 

E em nota á Ode : Descia por um valle, 
!'scripta em 1788, diz: «Esta Ode, com algu- 
mas outras, que já foram impressas nos pri- 
meiros caderninhos, que mandei a Portugal, 
longos tempos ha, são hoje tão raras, que 
nem eu mesmo conservo a maior parte d'ellas ; 



386 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



por tanto as re-imprimo, e certo sou que para 
muitos leitores passarão por inéditas.» (Ib,, 
t. III, 254.) Da raridade das primeiras poe- 
sias suas impressas, repete: «Muitas me vie- 
ram a mão já impressas, para a correcção das 
provas, que então, e só então as vi pela se- 
gunda vez, depois que as escrevi.» (Ib., t. v, 
p. 217.) 

Filinto começou uma edição geral dos seus 
versos em 1797, que levou até ao outavo vo-^ 
lume; é presumível que a perda das suas eco- 
nomias pela falência do banqueiro Jullien, e 
os dois processos que o defraudaram injusta- 
mente embaraçassem o complemento da edi- 
ção ; esses outo volumes são comtudo bastan- 
te raros, e nem sempre se topam completos. 

A edição de 1817 a 1819 das Obras de 
Filinto Elysio, em 11 volumes, dirigida em 
Paris pelo Dr. Francisco Solano Constâncio, 
que acompanhou o poeta na sua decrepitude 
e doença, é um aggregado indigesto e sem pla- 
no de tudo quanto andava impresso com o 
nome do exilado, e de quanto foi encontrado 
nos canhenhos, borrões e apontamentos de 
um velho que se distrahia da solidão e da mi- 
séria lançando ao papel as emoções vagabun- 
das de um espirito atormentado. O corpo das 
Obras completas assim atirado á luz prejudica 
a gloria do poeta, porque entre as bellas 
Odes do mais bem comprehendido espirito ho- 
raciano, abundam os aleijões métricos, os dis- 
parates de uma phantasia separada da reali- 
dade da vida activa do fim do século xviii, 
as notas impertinentes, as prosas traduzidas, 
os poemas de differentes épocas litterarias 
vertidos ao acaso. Comtudo, para o critico, 



FILINTO ELYSIO 887 



que estuda a evolução mental do artista, e 
procura deduzir da obra a vida moral do que 
a sentiu, a edição tal como está é documento 
facilitado á leitura pela impressão typogra- 
phica. Sobretudo as Notas com que Filinto 
acompanha á ventura passagens dos seus ver- 
sos, que lhe avivam reminiscências do passa- 
do, têm o valor de deliciosos traços autobio- 
graphicos. Pelo estudo das Obras de Filinto 
chega-se á formação de um plano racional e 
orgânico de coordenação das suas poesias, 
constando : 

I. Sonetos, Canções , Odes e Epistolas (2 volumes): 
a) Antes do exilio em 1778. b) Em Paris : 1778 
a 1792. c) Na Haya: 1793 a 1797. d) Em Pa- 
ris : 1798 a 1819. 

II. Imitações e Versões das Odes de Horácio. 
(1 vol.) 

III. Poemetos, Cartas, Sátiras; e algumas tradu- 
ções de Poetas modernos. (1 vol.) — Tudo o 
mais deixado á paixão dos bibliophilos. 



I 



Bibliographia das Obras de Filinto Elysío 

1768 



Antigo7ie em Thessalonica, Opera do senhor Metasta- 
sio, traduzida em verso portuguez por Marcellino 
da Fonseca Mineis Noot. Na Officina de José da 
Silva Nazareth. Lisboa, 1768. In-8.«, de 91 pp. 
( Não entrou na edição geral.) 

Entremez intitulado: O Ci?ito magico, do sr. João 
Baptista Rousseau, traduzido em vulgar por Mar- 
cellino da Fonseca Mineis Noot. Ibi, In-8.^ de 44 
pag. (Não entrou na edição geral.) 



]S8 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1775 

Ode á feliz inauguração da Estatua equestre do fide- 
líssimo rei de Portugal Dom José i.^ No dia 6 de 
Junho de 1775. Lisboa. Impressão regia. (Saiu 
muito errada, como confessa o próprio Fiiinto. 
Obr., V, 189.) 

1780 

Ode â feliz inauguração da Estatua equestre do Fide- 
líssimo Rey de Portugal D. José i.» No dia 6 de 
Junho de 1775. (Emblema) Sem logar. 1780. In-8.^ 
pequeno. Segue a paginação até 29. 

1783 

Virginidos ou a Do7izella. Poema por Marcellino Mi- 
neis Noot. Anno do Senhor, 1783. Folheto avulso 
da traducção do 1,^ canto da Pucelle d'OrleanSy 
de Voltaire. Dá noticia doesta edição limitadíssima 
Bento Luiz Vianna em um Post-scriptum das suas 
Poesias.) Fiiinto continuou a versão até ao canto 
111, e remetteu-a em manuscripto para Portugal; 
vimos o autographo nas Miscellaneas de Merello. 

1786 

Ode A' feliz acclamação da Fidelissima Rainha de 
Portugal a Sereníssima Senhora D. Maria i.^ No 
dia 13 de Maio, do anno de 1777. (Emblema) Pa- 
ris. Anno de 1786. — In-8.« de 10 p. 



Na dedicatória á rainha, lê-se : « Esta Ode 
inspirou-ma a presença de V. M. a primeira 
Eainha sentada no throno lusitano. . . O aca- 
nhamento me impediu entam de lha offerecer; 
depois, infortúnios e desterros,» Etc. Assigna- 
se : Francisco Manoel. 



FILINTO ELYSIO 389 



1786 

Os Novos Gamas. Ode Ao Sereníssimo Príncipe do 
Brazil. (Sem logar) 1786. (O mesmo typo, e offici- 
na de Paris.) Segue a paginação de 11 a 19. 

Na Dedicatória ao Princepe D. José escre- 
ve: «Um vassallo de V. A. que vive tão lon- 
ge da Pátria, tem ainda maiores rasões de 
implorar a Sua benignidade para cantar os 
novos Gamas, e ensayadas as forças no novo 
assumpto tomar mais alto o voo para cantar 
a Vossa Alteza. . . » Assigna-se : Francisco 
ManoeL 

Os 710V0S Gamas. Ode (p. 1) Ode a Vénus (p. 5); Hy- 
mno a Baccho (p. 12); Ode em 23 de Dezembro 
de 1784, dia de meus annos (p. 21) ; In-8.^ peque- 
no, sem 1. nem d. 



Ode Ao Se7iho7' Antojiio Mathevon de Curnieu, (p. 1); 
Ode ao Tempo passado (p. 6) ; Ode a Marfisa, No 
dia 20 de julho de 1785, (p. 9); Ode A' Fortuna, 
do senhor João Baptista Rousseau (p. 12); Ode 
Ad Sodales (p. 18.) Ode ao Senhor António de Mo- 
raes e Sylva (p. 22); Epigrammas (p. 24.) In-8.« 
pequeno sem 1. nem d. 



Epistola Ao muito Rev.^^^ Snr. Fr. José do Carmello 
(Londres, 29 de Novembro de 1791.) In-8.^ peque- 
no de 14 paginas assignadas pelo pseudonymo de 
Ignaeio de Sequeira Massuelos. 



Ode do Senhor João Baptista Rousseau Ao nascimen- 
to do Duque de Bretanha, trad. dedicada ao Rev. 
senhor Carlos Francisco Garnier (p. 1); Nova Au- 
rora (p. 6) ; Juramento valioso (p. 7) ; Dithyrambo 
Aos annos da Senhora D. Maria Luísa Antonietta 
Mathevon (p. 8) por Alfeno Cynthio ; Ode (p. 23); 
Madrigal (p. 24.) In-8.<> pequeno, sem 1. nem d. 



390 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Ode A^ Liberdade. Dedicada ao ill."^» e Ex."^o Senhor 
Marquez de I^ombelles, Embaixador de S. Mag/^'' 
Christianissima em Portugal. (Pa^. 1 a 7.) — Ly- 
ras (8); Ode Ao Senhor Augusto Marquet D^Urtu- 
bise (p. 9; Astúcia contra amor (p. 12); Epistola de 
Alfeno a Filinto (p. 13) ; Ode A' minha Musa, appe- 
titosa de correr mundo. (p. 23.) In-8.« pequeno, sem 
frontispício, sem logar, nem data. O mesmo aspe- 
cto das edições avulsas, de Paris. 



Ode Ao Senhor Timotheo Verdier L'Ecussan (p. 1); O 
Doutor medico (p. 4) ; Dithyrambo á Senhora D. F. 
G. X. de S. (p. 5) é de Alfeno Cynthio. Oaffogado 
resurgido (p. 8) ; Ode Ao senhor Henrique Leitão 
de Sousa (p. 9); Soneto íp. 11); Ode a Marfisa, 
No dia 20 de Julho de 1788 (p. 12); A Manhan 
(p. 14) ; Ode ao Senhor João Daniel de Bruyn 
(p. 16); Medêa, tragedia de Séneca, acto i, se. 1, 
Choro de mulheres corynthias (p. 18); Epitaphio 
(p. 24.) In-8.^ pequeno, sem front. nem 1. e d. 



Ode Ao senhor Gaspar Bertrand Pilaer no seu despo- 
sorio (p. 1); Cantata A' noite, assign.; Alfeno Cynthio 
(p. 5) ; Ode A Elia, voltando da Gran-Bretanha 
(p. 11) ; Ode a Filinto, por Alfeno Cynthio (p. 13); 
Orpheo despedaçado pelas Bacchantes (p. 16); 
Ode A Cupido (p. 19); Enigma (p. 20); Ode ao 
senhor Doutor António Ribeiro Sanches (p. 21). 
Ode a Marfisa (p. 23) ; Queixas a Apollo (p. 24); 
In-8.o pequeno, sem 1. nem d. 



Ode Ao illustrissimo Senhor Anselmo José da Cruz So- 
bral, Fidalgo etc. No dia 4 de Julho de 1786 (p. 1); 
As substitutas das Três Fúrias (p. 7); Bons e maus 
Juizes (p. 8) ; A^ feliz Acclamação da Fidelíssima 
Rainha de Portugal, a Sereníssima Senhora D. Ma- 
ria i.^ No dia 18 de Maio de 1777, (p. 9.) por Alfe- 
no Cynthio) ; Saudades de um amigo que a morte 
me roubou (p. 17); Ode ao ill. senhor Domingos 
Pires Monteiro Bandeira, fidalgo etc. e Escrivão 
da sua real Camará (p. 18); Ode á Senhora D. A. 
F. de S. (p. 22). In-8.^' peq. sem 1. nem d. 



FILINTO ELYSIO 391 



Ode Ao senhor Bacharel Anacleto José Pereira (p. 1); 
Epigramma; Écloga, (p. 6); Desengano para os 
Poetas (p. 10); Ode a Marfisa. No dia 20 de Ju- 
lho de 1786. (p. 11); Enigma (p. 13); Ode a Fi- 
linto, por Seixas Brandão (p. 14); Soneto (p. 16); 
Ode á Saudade (p. 17); Anciã de distinguir-se 
(p. 20) ; Carta Ao senhor Timotheo Verdier L^Ecus- 
san. Paris, 3 de Septembro de 1785 (p. 20); Ode 
á Senhora V. B. (p. 28) ; Enigma (p. 24.) In-8.o pe- 
queno sem 1. nem d. nem assignatura. 

1788 7 

V 

Carta ao Senhor * * * 6 de Janeiro de 1788. Começa: 
«Tu dizes que meus versos são mordidos... In-8.« 
pequeno de 24 pag. Sem logar, nem data, nem as- 
signatura. 

1792 

Epistola Ao muito RevA^ Snr. Fr, José do Carmello, 
Londres, 29 de Novembro de 1791 (p. 1); assig. 
Ignacio de Sequeira Massuellos. — Denuncia (p. 12); 
Anonymo. — Ode (p. 15); assignado AgostÍ7iho 
Soares de Vilhena e Sylva. Ode (p. 21); Do mesmo 
Author. In-8.<> pequeno, sem 1. nem d. nem assi- 
gnatura. 

1797 

Ode ao ill.^^'^ sr. João Paulo Bezerra^ (p. 1); Machia- 
velice de um Pregador sueco (p. 3) ; Ode a Myrtil- 
lo (p. 4); Soneto (p. 6); Ode ao ill."^» D. Rodrigo 
de Sousa Coutinlio (p. 7); Enigma (p. 16); Ode ao 
sr. Ernesto Biester (p. 17); Canto (p. 19); Carta 
Ao sr. Dr. Manoel C. J. P. (p. 20); Sonho (p. 21); 
Dialogo entre mim e a D. Minerva (p. 22) ; Soneto 
(p. 32); Ode (p 34); Prodigios do atrevimento 
(p. 37); Ode (Lugduni Batatiphagorum, 16 de No- 
vembro 1796 (p. 38); Lyras (p. 40); Soneto aos 
annos do Senhor Marg. Ch. (p. 41); Ode (p. 42); 
Soneto aos annos da sr.^ D. E. V. M. J. M. (p. 48); 
In-8.° pequeno sem 1. nem d. nem assignatura. 



892 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



Sonho j dedicado ao sr. P. M. da M. (p. 1.) Carta ao 
M.ai Luiz de C. (p. 28); Soneto (p. 85); Carta do 
M.^i Luiz de C. (p. 86); Ode 'em 28 de Dezembro 
de 1800, dia de meus annos (p. 46.) In-8.o peq. 
sem L nem d. 

1798? 

Segunda Guerra púnica. Poema de Silio Itálico. Paris. 
(Talvez tiragem em separado da edição de 1802.) 

1797 a 1802 (l.^ edição) 

Versos cleFilÍ7ito Elysio. Paris. Anno de 1797. Tomoi, 
in-8.'' pequeno de 239 pp. (Começa com a Carta de 
António Diniz da Cruz e Silva.) 

— Tomo 11. Paris. Anno 1802. De 240 pp. (Foram es- 

tes dois tomos incorporados na edição geral de 
1817, no volume l.*') 

— Tomo III. Ibi. De 240 pp. 

— Tomo IV. Ibi. De 240 pp. Traz a Segunda Guerra 

púnica, datada da Ha^^a, de 1795. (Foram incor- 
porados no 4. o volume da edição geral.) 

— Tomo V e vi. Ibi. (Foram incorporados no volu- 

me 5.®, juntamente com composições avulsas, for- 
mando uma collecção de poesias livres.) 

— Tomo vil e viii. In-12.«. Allude a esta collecção 

Ferdinand Denis, que a censura : « elle est fort im- 
parfaite, et se compose en partie de pièces deta- 
chées, que Pauteur avait reunis avec paginatioii 
particulière.» A Sátira de D. Catherina Michaela 
de Sousa intitulada Apologia foi feita a esta edição. 

1802 

OberoUj Poema de Wieland. Paris. Anno de 1802. To- 
mo i, in'8.<> grande, de 156 pp. (Contém: Prelimi- 
nar a quem ler; e chega até ao vii canto.) 

— Tomo 11. Ibi. de 153 pp. (Reproduzido no vol. 2.^ 

da edição geral.) 

1803 

Aventures d'Arminde et de Florise, Histoire véritable, 
écrite en France em 1588. Par Rodrigues Mar- 
ques, Pun de leurs parens. Avec le texte portugais. 
A Paris. Anno 1808. In-8.« de 188 pp. E' dedica- 



FILINTO ELYSIO 893 



da a D. Domingos de Sousa Coutinho por Fran- 
cisco Manoel. (Vem no vol. 9.® da edição geral : a 
Verdadeira Historia d' Armindo e Florisa, 



Epistola: Emquanto punes pelos sacros foros. Lisboa. 
1803. Folheto. (Prohibido por Edital da Intendên- 
cia da Policia; vem no vol. 5.^ da edição geral, 
p. 424.) 

1804 

Da Vida e feitos del-rei D, Manoel, xii Livros dedica- 
dos ao Cardeal D. Henrique, seu filho, por Jerony- 
mo Osório, Bispo de Silves, vertidos em portu- 
guez pelo Padre Francisco Manoel do Nascimento. 
Lisboa, na Impressão regia. 1804 a 1806. Tomos 
1, 11 e III, in-8.® {Edição á custa do governo e feita 
por influencia de António de Araújo; Filinto quei- 
xa-se muito da deturpação do seu texto.) 

1806 

Elogio do Doutor António Nu7ies Ribeiro SancheSy 
composto em francez por Vicq^Azyr. Paris. Typ. 
Louis Desveux. Folheto, in-S.® de 55 pp. 

1808 

Ode aos Portuguezes de animo condoido. Começa: 
« Tinha com que viver independente.» Folheto avul- 
so, de 1808. (Não foi incorporado na edição geral; 
fez-se nova reproducção em 1843.) 

1809 

Discurso acerca de Horácio e suas Obras. — (Repro- 
duzido em 1814 no Investigador Poi^tuguez em In- 
glaterraj p. 344.) Ahi se faz referencia a outra 
obra : « D^elle temos ainda uma pequena Novella 
original e de assumpto portuguez, que também 
publicaremos em números seguintes. Se muitos lei- 
tores não acharem porém n^ella todo aquelle inte- 
resso^ que de ordinário costumam excitar as pro- 
ducções d'este género, ao menos alli acharão a clás- 
sica^ pureza do nosso bom estylo e linguagem ; e 
será um modelo ou um estimulo de mais conti- 
nuarmos a ser Portuguezes em nossos Livros e es- 
criptos, assim como tão afo7'tunadamente o conti- 



894 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



nuamos a ser coju a nossa politica independên- 
cia.» Com certeza a novella era a de Armindo e 
Florisa, já publicada em 1803. 



1814 



Fabulas escolhidas entre as de J. Lafontaine, traduzi- 
das em verso. Londres, 1814. In-8.o 2 vol. (Incor- 
porados no vol. 6.« da edição geral.) 



1816 



Vert-Vert. Poema de Gresset. Paris. 1816. In-S.^ gr. 
de 60 pp. (Vem acompanhada de varias Odes, So- 
netos e outras composições.) 

1816 

Os Martyres ou Triumpho da Religião christã. Paris. 
1816. Dedicada ao Conde da Barca. Traz um re- 
trato de Filinto differente do das Obras completas. 
(Foi incorporado no vol. 7.^» e 8.° da edição geral.) 

1817 a 1819 (2.a edição) 

Obras completas de Filinto Elysio^ emendadas e accres- 
centadas com muitas obras inéditas e o retrato do 
Auctor. Paris, 1817. Imprensa de A. Bobée. In-8.^ 
grande, 11 volumes. Foi dirigida pelo Dr. Fran- 
cisco Solano Constâncio ; Filinto reviu o texto até 
ao vol. 8.^. 

Vol. 1. (448 p.) Comprehende o tomo i e ii da edição 
de 1797. 

Vol. II. (461 p.) O Oberon; e 4 cantos da Segunda 
Guerra púnica. 

Vol. III. (560 p.) Poesias avulsas até então inéditas. 
— Vert-Vert j etc. 

Vol. IV. (432 p.) Reproduz o tom. iii e iv da ed. de 
1802. 

Vol. V. (448 p.) Comprehende versos publicados em 
folhetos avulsos, já raros; e composições diversas. 

Vol. VI. (556 p.) Fabulas de Lafontaine. 

Vol. VII. (379 p.) e viii. (461 p.) Os Martyres. (Fi- 
linto morreu depois doesta publicação.) 

Vol. IX. (476 p.) Prosas: Elogio de Ribeiro Sanches; 



FILINTO ELYSIO 895 



Verdadeira Historia de Armindo e Florisa ; Dis- 
curso acerca de Horácio. Tentame e Reflexões, 
trad. de d^Alembert. 

Vol. X (555 p.) Prosas: Successos de M.^ie goneterre; 
Heroicidede de amor. Cartas de uma Religiosa 
portugueza. Os heroes de Novella, apolog. trad. de 
Boileau 

Vol. XI (619 p. ) Poesias inéditas até á pag. 288; 
Andromaca, de Racine; CoriolanOj de Laharpe, 
2 actos ; Pharsalia, frag. Iratado do Sublime, ap. 
Boileau. Ode de Raynouard a Camões. ^ 

1819 

Vida de Jesus Christo conform,e os quatro Evangelis- 
tas: posta em portuguez pelo Padre Francisco Ma- 
noel do Nascimento. Dada á luz pelos devotos con- 
gregados da Santa Via Sacra e Caridade do Archan- 
jo San Raphael. Lisboa Na Impressão regia, 1819. 
In-8.0 gr. de 382 p. (Foi feita sobre Ms. de Filinto, 
anterior a 1778, cedido a Cravoé pelo seu possui- 
dor Joaquim José Pedro Lopes.) 

1820 

Odes ao Marquez de Marialva, e a José Maria da Cos- 
ta e Silva. Paris, 1820. (Publicadas no Contempo- 
râneo, t. II, p. 147 e 320.) 

1821 

Epistola de Francisco Manoel do Nascimento, impres- 
sa pela primeira vez em Lisboa. Na Officina de 
António Rodrigues Galhardo, impressor do Con- 



* Da edição dos 11 volumes, escreveu Garrett: 
«um livreiro do Porto, o sr. França, ajudado e favo- 
recido de algumas pessoas patrióticas e especialmente 
do sr. Viamonte, negociante portuguez no Havre-de- 
Grace, emprehendeu em 1816 (vindo a completar-se 
em 1819) a grande e uniforme edição de 11 volumes 
em 8.0, que se fez em Paris na Officina A. Bobée. Esta 
edição, não isempta de faltas, e cujo systema posto que 
approvado pelo auctor m,e não parece o mais acerta- 
do.,, (Rev. universal lisbonense, t. ii, p. 329.) 



896 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



selho de Guerra. Com licença da Commissão de 
Censura. 1821. Começa: « Emquanto punes pelos 
sacros foros.» In-4.o de 12 pp. 

1826 

Parnaso lusitano. Paris. (As poesias de Filinto esco- 
lhidas para esta coUecção foram do texto de 1797 
emendado pela mão do poeta, com que brindara 
José da Fonseca.) 

1836 a 1840 (3.^ edição) 

Obras completas de Filinto Elysio. Typ. Rollandiana. 
In-16.", 22 volumes. (E^ a reproducção da edição 
de 1817 a 19. E^ a mais vulgar, e traz versões de 
Filinto anteriores a 1778.) ^ 

1843 

Ode aos Portuguezes. Reproduzida novamente na Re- 
vista universal lisbonense, t. iii, p. 31, de uma co- 
pia de M. B. Lopes Fernandes. 



1844 



i 



Ode a Alcipey em resposta: «Albano não partiu, mas 
breve parte.» (Não foi incorporada nas edições de 
1817 e 1836; acba-se nas Obras poéticas da Mar- 
queza de Alorna, t. i, p. 185; vid. p. 164, 210; e 
no t. II, p. 95.) 

1847 ^ 

Vida de Jesus Christo. Paris. In-8.® i 



1 Da edição Rolland escreveu Garrett: «e junta ao 
mérito de uma grande correcção o da extrema modici- 
dade de preço, e o de incluir algumas obras inéditas, 
que na edição franceza se não acham. Entre estas são; 
duas tragedias Mithridates ^ de Racine, e a Medêa, que, 
lamentavam perdidas os curiosos da nossa lingua e os; 
apaixonados de Francisco Manoel.» (Rev. universal lis- , 
bonense, t. ii, p. 239.) 



FILINTO ELYSIO 397 



BMANUSCRIPTOS 
Em 1834 Manoel de Araújo Portalegre 
comprou para Sérgio Tavares de Macedo, 
então secretario da legação brasileira em Pa- 
ris, «uns manuscriptos de Francisco Manoel 
do Nascimento que estavam em poder de 
umas senhoras em casa das quaes viveu o 
poeta muitos annos e alli "morreu^ e onde era 
conhecido pelo nome de Mr. Manoel. 

«Estes manuscriptos estavam dentro de 
uma carteira ingleza e eram: Os Lusiadas, 
Duas Memorias cynicas offerecidas á Acade- 
mia das Sciencias de Lisboa com um prologo 
faceto. Vários versos traduzidos e originaes. 
As memorias e outros versos eram da própria 
mão do poeta ; porém o Camões não, por que 
era de outra mão, e com emendas da sua.» 
(Nota de Araújo Portalegre, apud Jurome- 
nha. Obras de Gamões, i, 389.) Estes manu- 
scriptos conservam-se em poder do sr. Alfre- 
do Tavares de Macedo, cônsul do Brasil em 
Génova, que galhardamente facultou ao meu 
amigo Joaquim de Araújo o exame d'elles 
para comprazer com o meu empenho. 

Entre esses papeis acha-se o seguinte re- 
querimento, que interessa á biographia do 
poeta : 

«Diz o P.G Francisco do Nascimento, natural dafre- 
guezia de S. Julião d'esta cidade, que elle se acha or- 
denado de Prybitero (sic) e para dizer sua primeira 
Missa, e exercitar suas Ordens ; precisa licença sendo 
primeiro approvado de cerimonias. P. a V. Ex.^ se di- 
gne a referida licença, sendo approvado das Cerimo- 
nias. E. R. M.c<'.» 

(Sem data, nem assignatura) ; segue-se : 



398 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



— Examinei o supplicante e o approvo nas cerimo- 
nias da Missa. Lisboa 10 de Julho, de 1758. O b.^i» An- 
tónio da Sylva e Faria. 

— P. Licença. Lisboa, 11 de Julho de 1758. Costa.» 
(Este requerimento é acompanhado das Cartas do pres- 
bytero impressas, com o nome e mais informações em 
manuscripto.) 

Filinto tomara ordens de presbytero em 1754; 
(vid. p. 92, nota) pelo documento supra, vê-se que es- 
teve até meado de 1758 sem dizer missa nova, talvez 
pela perturbação do terremoto, ou outra qualquer^cir- 
cumstancia intima. 

Manuscripto dos Lusíadas, emendados por mão de Fi- 
linto, (Começa a damnificar-se.) Encadernado em 
pergaminho. 

Consolações ás tribulações de Israel. Copia do impres- 
so de Samuel Usque, por letra de Filinto, feita na 
Hollanda. 

Da Religião christã. Dissertação. 

Odes, Épodos, e Cármen seculare, de Horácio (em ita- 
liano). Copia de Filinto. 

Poesias de Anacreonte, versão italiana, e copia de Fi- 
linto. 

Introducção d Historia da Revolução franceza, letra 
de Filinto. 

Vert-Vert. Ms. chant prémier. Id. 

Fabulas latinas de Charles le Beau. Id. 

Notas, extractos e apontamentos de diversos auct. Id. 

Copias de poesias italianas. Id. 

Cartas persianas ; versão id. 

Prosas e versos picarescos. Id. 

Adele de Senange ou Cartas de Lord Sydenham, prin- 
cipio de versão. Id. 

Observações sobre traducções. Id. 

Zulima, começo de versão. Id. 

Catão de Addisson, trad. italiana de Anton Maria Sal- 
vini. Copia id. 

Copia dupla da Oração que recitou o Cura de *** Dou- 
tor em Medicina pela Universidade de *** em dia 
de entrudo, depois de jantar, aos confrades de 
S. Baforinho (letra de Filinto). 

Dissertações acerca de uma antiga usança, lida na Aca- 
demia das Necessidades em 28 de Maio de 1783, 
por D. J. M. F. P. de Mathosinhos. Id. 



k 



FILINTO ELYSIO 399 



Cartas do Cavalheiro de C. *** em resposta ás Cartas 
da Religiosa portugueza. (Começo de traducção.) 

La Prima.vera de Signor Kleist. (Copia de Filinto.) 

Poesias de Melchior Dias Ribeiro. (Um dos muitos- 
pseudonymos de Filinto.) 

La Cantica delle Cantiche. Copia de Filinto. 

Papeis Íntimos, letra de Filinto ; junto com certas de 
amigos ; representação ao Conde de Vergennes, em 
francez ; fragmento de um memorial em francez, 
de 1813. 

Copias de versos francezes. 

Quatro cadernos das Obras de Garção. (Copia de Filin- 
to.) 

Notas avulsas, aproveitando todos os pedaços de pa- 
pel, como sobrescriptos, mas illegiveis. 



Da CollecçIo Merello : Duas Cartas autographas 
de Filinto : 

Mr. Pilaer 

Paris, 6 de Junho 1780. 

A amisade me pede de lhe escrever mais a miúdo 
e ao amigo Math. mas d^uma parte as minhas conti- 
nuadas melancholias, d^outra o temor de o enfadar e 
de lhes tirar o tempo devido a outras occupações mais 
úteis ou mais divertidas, me retém a mão resoluta a 
escrever-lhe. Além de que faltam-me novidades, que 
possam interessal-os, e em falta doestas fallar-lhe de 
mim e dos meus negócios é um bem pobre regresso : 
assim contento-me de escrever pouco, e de imaginal-os 
mais, pois a saudade m'os representa a todo o in- 
stante tanto ao vivo como se conversara, e nem todo 
Paris é poderoso para apagar a ideia que as suas qua- 
lidades e o meu agradecimento debuxaram. Esperarei 
esta primavera desenfados á minha solidão corrigin- 
do os meus versos, que Math. me tinha promettido de 
me enviar depois do inverno; mas talvez não pôde, 
talvez se descuidou ; embora, paciência ! ao menos a 
leitura d^elles poderia avivar em mim as desbotadas 
phrases da minha lingua, e dar-me cabedal para novas 
composições, seriam tão mingoadas como as três ul- 



400 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



timas que remetti ultimamente a Alf. Verd. e Biest. 
Pode ser que elle e Vm. no seu descuido perdem... 
mas pouco perdem. Nunca perderão para mim a ami- 
zade e agradecimento 



A Monsieur 



do infeliz 

FiLINTO. 



Mons.r A. Mathevon, negocíant Français, poitr remet- 
tre a Mj G, B. Pílaer. 

Lisbonne. 



Paris, 2 de Junho de 1784 

Em fim, desempenhou a Musa, que tão dureira re- 
cusava o ministério. Permitta N. Senhor que este fru- 
cto de benção ache mais graça nos olhos de seu padri- 
nho, que os que o precederam na nascença. Ou que ao 
menos tenha eu doeste algumas novas, pois que não as 
tive dos outros, que semelhantes aos desgraçados, que 
saem do Limoeiro em perenne gargalheira a embarcar 
na náo da índia, d^onde nunca mandam noticia, ou já 
por que morreram no mar e foram pasto de carangue- 
jos, ou porque em terra se meteram com gentio e bo- 
laverunt in seculum secul. 

Aqui espero por Mathevon esta semana, que lhe 
levará os cadernos, para com elles se obterem as per- 
missões de more. Somente lhe lembro, que para lh'os 
mandar, atalhei logo, desde o seu primeiro aviso, 
quanto estava começado tocante á impressão. V. n^isso 
obrará o que a sua amisade e o estado das cousas re- 
quer ; não me deixando em falta com tratantes de Pa- 
ris, que V. conhece de raiz, e para com quem um es- 
trangeiro sem saccos de Luizes — é tido por ti7i escroc 
qui est venu attraper les honiiêtes gens qui font leur 
co7nmerce avec probité. 

«Junto com a Ode do Ill.^^o g^^ Anselmo, vae ou- 
tra, que ditou a amisade ; a lembrança dos riscos que 
passei, e as esperanças que V. me deu n^ella tem muito 
o prazer que me assaltou, de poder dar-lhe um dia um 
abraço bem apertado na quinta dos Gerifes. 



to 



FILINTO ELYSIO 401 



Lembre-se que não escreve a Fay ha muito tempo, 
e que elle merece toda a attenção. Blanchet se acha em 
Paris com a filha mais velha para ser Mesnierizada ; 
um doestes dias jantei com elle, e toda a sua conversa- 
ção versou sobre o seu merecimento e desejos que sua 
filha tem que V. vá passar a Rennes alguns dias em 
sua casa (se Deus o traz a França) para terem o gosto 
de ver um ser portuguez tão estimável quanto os ou- 
tros o são menos. Vauxlandry continua ubique a la- 
dainha de seus elogios, e Fuquet e todos se tem por 
muito honrados com as suas memorias. Se eu me quei- 
xo por que não as tenho tão amiudadas e tão compri- 
das, que a leitura d^ellas me enchesse os dias e as noi- 
tes. 

Seu am.^*' sou 

FiLiNTO Elysio. 

Ao IlL"io Snr. Domingos Pires 
Monteiro Bandeira 
meu am.o e Snr, D.s G, m. ann. 



Lixboa. 



^6 



III 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 



Em uma Ode, em que Filinto recordando 
ao fim de vinte outo annos de desterro como 
se escapara ás garras da Inquisição, falia das 
victimas illustres, como Ribeiro Sanches e 
Brotero, e a lembrança de José Anastácio da 
Cunha exalta-o: 

Quando virá um Hercules que affouto 
Os Queimadores queime? Que as serpentes 
Da mais podrida Lerna, em duros braços 
Suff oque vingativo ? 

Vingue Anastácio, vingue o bom Lourenço, 
E Sanches e Filinto, e Varões tantos 
Que a Pátria illustrariam, se essa Pátria 
Não salariasse o crime. 

(Ohr,, IV, 84.) 

E accrescenta em nota : «José Anastácio, 
honra da Universidade, honra do exercito, a 
quem é curto todo o elogio.» Filinto não o co- 
nhecia como poeta; em 1808 os seus versos 
estavam inteiramente inéditos. Mas é sob este 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 403 



aspecto que aqui consideramos o seu pheno- 
menal talento. Assim como fora autodidacta 
para penetrar o systema das Mathematicas, 
em que o proclamaram eminente, também a 
Poesia lhe appareceu como uma expressão 
necessária para as emoções intensas do sen- 
timento, e fez-se poeta, revelando estados de 
espirito que impressionam e encantam. Seria 
um poeta de primeira grandeza, se a sua ac- 
tividade scientifica e a desgraça que lhe des- 
moronou a existência o não tivessem desvia- 
do da serenidade contemplativa necessária a 
toda a idealisação esthetica. Para caracteri- 
sal-o, basta dizer que era um poeta que lia e 
admirava Shakespeare em Portugal èm 1768 ! 
Pelo processo da Inquisição de Coimbra pe- 
netraremos a sua vida intima. 

Na praxe do processo inquisitorial era obri- 
gatória a narrativa do réo expondo os factos 
da sua vida. Em audiência de 10 de Julho 
de 1778 fez o Dr. José Anastácio da Cunha 
a sua autobiographia : 

« que seu pae se chamou Lourenço da Cu- 
nha, já defuncto. Pintor, natural do Alemte- 
jo, não sabe de que terra ; e sua mãe se cha- 
ma Jacintha Ignez, natural de Thomar, ou de 
alguma d^aquellas terras visinhas, e assisten- 
te actualmente n^esta cidade (Coimbra). 

«baptisado na Freguezia de Santa Cathe- 
rina, não sabe se pelo parocho da mesma, e 
foi seu padrinho António Caetano. ^ 



1 No Livro 11, fl. 186 dos Assentos de Baptismo 
de S. Catherina, fixa-se authenticamente o seu nasci- 
mento em 11 de Maio de 1744. Vem reproduzido no to- 
mo xn, do Dicc. bibliographico, (Supplemento) p. 211. 



404 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



«E que elle estudou Grammatica, Rheto- 
rica e Lógica na Casa da Congregação do 
Oratório de Lisboa de Nossa Senhora das 
Necessidades; e Física e Mathematica por 
sua curiosidade g spau mestre — «que nunca sa- 
hiu fora do Reino, e n'elle se foi de Lisboa a 
Valença, e d'esta praça, sendo Tenente de 
Bombeiros (artilheiros) como tem declarado, 
foi destacado para a de Almeida, da qual vol- 
tou outra vez á sobredita e d'ella para esta 
cidade com o emprego de Lente de Geome- 
tria da Universidade.» (Fl. 79.) Também ahi 
declara: «que é solteiro, e não tem filhos al- 
guns illegitimos.» No termo de confissão na 
audiência de 1 de julho de 1778, dá alguns 
promenores que fixam épocas da sua vida: 
«Lente de Geometria n'esta Universidade de 
Coimbra, solteiro, filho de Lourenço da Cu- 
nha, natural de Lisboa, de trinta e cinco an- 
nos de edade. 

«Que sendo elle bem educado e muito 
christãmente nos seus primeiros e tenros an- 
nos por sua mãe, que é virtuosa, e depois 
até á edade de dezouto annos (1762) pelos 
Padres da Congregação do Oratório de Lis- 
boa, onde fez os seus estudos e com os quaes 
tinha um trato muito familiar e intimo. Na 
edade de dezenove annos (1763) lhe offerece- 
ram a patente de Tenente de Bombeiros para 
o Regimento de Artilheiros que se formava 
para a Praça de Valença do Minho, a accei- 
tou e passou á dita praça a exercitar n'ella 
este posto ; e como era instruído na lingua 
franceza, e sem difficuldade aprendeu tam- 
bém a ingleza, foi tendo muito trato com o 
Chefe e Officiaes do mesmo Regimento, pro- 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 405 



testantes, e especialmente com o seu Capitão 
Eicardo Moller, com o Brigadeiro Diogo Fer- 
rier, e com o Barão de Heimenthal, e com os 
quaes andou inseparável em todo o tempo 
que residiu n'aquella praça, que foi o de no- 
ve para dez annos, e lhe parece que até o de 
1773, em que veiu para Lente de Geometria 
n^esta Universidade. » Eis aqui o rápido pro- 
specto autobiographico, até ao momento em 
que reconhecido o seu génio extraordinário, 
que como autodidacta se tornara eminente 
nas Mathematicas, o Marquez de Pombal teve 
a alta superioridade de chamal-o ao magisté- 
rio. 

Quando se constituiu em 1772 a Faculda- 
de de Mathematica na Universidade, a cadei- 
ra de Geometria fora provida no priraeiro 
anno no Dr. Franzini, e no segundo no Dou- 
tor Oiera; mas por carta de 19 de Outubro 
Franzini ficou com a propriedade da cadeira 
de Álgebra, e Ciera, em carta regia de 13 do 
mesmo mez ficou com a propriedade da ca- 
deira de Astronomia. Era preciso um lente 
para a cadeira de Geometria ; o Marquez de 
Pombal acudiu á urgência da nova reforma, 
nomeando para a regência d'essa disciplina o 
segundo tenente cie Artilheria José Anastácio 
da Cunha, que estava na Praça de Valença, 
por carta regia de 5 de Outubro de 1773. O 
Marquez em carta particular informava Dom 
Francisco de Lemos, reitor-reformador da 
Universidade: «O dito militar é tão eminente 
na Sciencia Mathematica, que tendo-o eu des- 
tinado para ir aperfeiçoar-se em Allemanha 
com o Marechal General, que me tinha pedi- 
do dois ou três moços portuguezes para os 



406 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



fazer completos: Me requereu o Tenente Ge- 
neral Francisco Macleane, que o não man- 
dasse, porque elle sabia mais que a maior 
parte dos Marechaes dos Exércitos de França, 
de Inglaterra e de Allemanha. E que he um 
d^aquelles homens raros que ?ias nações cultas 
costumam apparecer, 

«Sobre este e outros egualmente authenti- 
cos foi provido na primeira Cadeira do Curso 
mathem atiço, de Geometria. . . A falta de gráo 
do referido José Anastácio lhe não deve ser- 
vir de impedimento, por que além de me lem- 
brar que meu Tio, o senhor Paulo de Carva- 
lho, foi n'essa Universidade Lente antes de 
ser Doutor, se pode o dito Professor doutorar 
depois, da mesma maneira que se doutoram 
os outros Professores.» ^ A portaria de no- 
meação de 5 de Outubro de 1773, assignada 
pelo Marquez Visitador, consigna: «sendo 
bem informado de que Joseph Anastácio da 
Cunha, que até agora occupou o posto de Te- 
nente da Companhia de Bombeiros do regi- 
mento de Artilheria da Praça de Valença do 
Minho, ha os talentos necessários para ser o 
professor doesta Faculdade com bom aprovei- 
tamento dos discípulos: Hey por serviço de 
S. Mag.^® nomeal-o como nomeio Lente de 
Geometria para a dita Universidade, onde de- 
verá logo dar principio ás suas respectivas 
lições ainda antes de se achar incorporado 
n^ella, e á qual incorporação se procederá 
pela mesma maneira com que foram incorpo- 



* Historia da Universidade de CoÍ7nb7'a, t. iii, 
p. 500, e seg. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 407 

rados os outros Professores, ao tempo da sua 
abertura e nova Fundação.» 

Como se tornou José Anastácio da Cunha 
€onhecido do Marechal General (Conde de 
Lippe), que o fez notar ao omnipotente mi- 
nistro? Em uma pequena Memoria sobre 
Ballistica José Anastácio considerava falsas 
as doutrinas de Belidor e Dulac, que o Mare- 
chal General recommendara para uso dos 
officiaes portuguezes de artilheria; este sa- 
bendo do escripto, deu ordem de prisão para 
o official, mas examinada a Memoria, viu que 
era scientificamente verdadeira, e reconhe- 
cendo a severidade recommendou-o ao briga- 
deiro Ferrier como digno de accesso na pri- 
meira promoção. ^ A alta appreciação dos 



^ Stockler, Ensaio histórico sobre a origem e pro- 
gresso das Mathematicas em Portugal^ p. 163. Esta 
Memoria supracitada foi publicada por José Victorino 
Damásio e Diogo Kopke no Porto em 1838, com o ti- 
tulo: Carta Physico-mathematica sobre a theoria da 
Pólvora em geral, e determinação do melhor comyri-^ 
mento das peças em particular, escripta por José 
Anastácio da Cunha em 1768. In-8.« de vm-31 pp. e 
uma estampa. 

Na prefação escrevem os editores : «A ella deveu 
José Anastácio a attenção do Marechal General com- 
mandante em chefe do Exercito, assim como chegou 
seu subido merecimento á noticia do Protector de quan- 
to illustrasse a sua Pátria — o Marquez de Pombal; e 
se reflectirmos na prohibição imposta aos officiaes do 
exercito pelo Alvará de 1763, de não recorrer a outros 
Autores do que aquelles que n^elle vêm mencionados, e 
na modificação a esta prohibição que se encontra a 
pag. 19 da Memoria sobre os Exercidos de meditação 
militar, (1763) — talvez a este escripto devesse o Exer- 
cito portuguez o maior gráo de conceito que, em quan- 
to a sua illustração, evidentemente se formou desde 
essa época na mente do Marechal.» 



408 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



méritos de José Anastácio da Cunha entre a 
officialidade ingleza do Eegimento de Artilhe- 
ria de Valença transpoz os limites de Portu- 
gal, e em uma carta de 1768 publi(^da em 
um jornal inglez, escripta j)or um viajante 
que passara por Valença, apparece um retra- 
to doesse desgraçado homem de génio. ^ 



Pela dedicatória do opúsculo de José Anastácio ao 
Major Simão Frazer, vê-se que o escreveu para re- 
sponder á sua consulta : «V. S.^ quer saber a minha opi- 
nião sobre as matérias, de que ultimamente ouviu tra- 
tar na Aula do Regimento do Porto, a saber : Theorica 
da pólvora em geral. . . » 

^ Foi traduzida no Investigador portuguez em 
LondreSy vol. iv, p. 81 : «Não posso, deixar Valença sem 
fallar de um dos génios mais extraordinários, que ja- 
mais se ouviu. E' um moço de quasi vinte e quatro 
annos, portuguez e tenente de Artilheria n'aquella pra- 
ça. E' de familia pobre e sem alguma educação : veiu 
a ser por forças do seu engenho e grande applicação 
um prodígio doeste século. — E' tão grande mathema- 
tico, que o coronel F.errier, profundo n^esta sciencia, 
me diz que este moço o excede em muito. Elle é senhor 
de todas as obras de Sir Isaac Newton, ainda d^aquel- 
las partes mais escuras, que os mesmos mathematicos 
julgam difficultosas ; conseguintemente, é um algebris- 
ta completo e um bom astrónomo, tem-se applicado á 
sciencia particular, que se requer na sua profissão, 
que inclue Engenharia, Artilheria, e outras muitas cou- 
sas pouco necessárias em Mathematicas puras.. Mas, o 
que ainda é mais extraordinário, este moço accrescen- 
tou a esta applicação (que absorve a attenção a todos 
os que estudam) um perfeito conhecimento da Histo- 
ria, das linguas, das bellas lettras. E' excellente poeta 
e bom critico nas linguas mortas ; sabe muito bem a 
italiana, franceza, hespanhola e ingleza, e o coronel 
Ferrier, que possue perfeitamente estas linguas, e po- 
de ser juiz competente, affirma que este moço escreve 
a sua própria lingua com mais pureza que muitos, e 
talvez que qualquer dos mais celebres auctores doeste 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 409 



A entrada de um lente com vinte e nove 
annos na Faculdade de Mathematica, assim 
recommendado pelo Marquez de Pombal, e 
com a fama de espirito genial, devia desper- 
tar uma certa malevolencia secreta no animo 
do auctoritario e ex-jesuita José Monteiro da 
Rocha, que era então o braço direito do Rei- 
tor-Reformador. José Anastácio da Cunha en- 
tendeu que para subir á sua cadeira de lente 
não era necessário despir a farda militar; 
oppozeram-lhe indicações de uso escholar da 
batina, e elle alheio a pequices regulamenta- 
res dava lições com a sua farda de tenente 
de artilheria. Isto, em uma terra pequena, 
cheia de pedantões invejosos, avergada ao re- 
gimen das delações inquisitoriaes, fez com 



paiz. — Tem traduzido em elegante portuguez não só 
algumas das melhores obras de Pope, mas também al- 
gumas das nossas mais famosas Comedias... tradu- 
ziu no mesmo idioma algumas peças do celebre poeta 
grego Anacreonte, por onde diz o coronel Ferrier, bem 
conhecedor do grego, que lhe parece que a graça does- 
tas peças não só se conservou, mas se aperfeiçoou 
com a sua traducção. — Parece que não emprega o seu 
tempo em estudos; e pela sua grande timidez não con- 
versa ainda nas matérias mais indifferentes senão com 
os seus Íntimos amigos. E' tosco na sua pessoa e fa- 
miliaridade ; e parece conhecer tão pouco os termos da 
civilidade, quanto é versado em todo o género de scien- 
cia e litteratura. Com seus amigos varias vezes repete 
algumas das suas melhores obras dos nossos poetas 
inglezes, particularmente Shakespeare ; e faz n^elle tal 
effeito a sua repetição, que parece arrebatar-se; enfes- 
tas occasiões uma só gota de vinho do Porto, de que 
elle gosta o faz allienar. Este homem extraordinário 
parece a qualquer desconhecido um simples. Ri-se 
muito, e em todo o seu proceder não se descobre ne- 
nhuma d^aquellas excellencias de que é adornado.» 



410 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



que dia a dia a sua vida fosse expiada. Pelas 
denuncias ulteriores feitas á Inquisição de 
Coimbra, sabemos da sua vida intima, em 
companhia de sua velha mãe viuva, e das 
pessoas que lhe frequentavam a casa, das 
conversas e dos livros que ahi se tratavam. 
O Bispo-Conde Reitor Reformador, escreven- 
do ao ministro em data de 12 de Outubro de 
1773 allude ao grande merecimento de José 
Anastácio da Cunha <(^tcbo claramente provido 
com a approvaqão de F. Ex,, posso assegu- 
rar a V.^ Ex.^ que logo principiará o Reino 
a encher-se de insignes geómetras.» ^ Se ha 
sinceridade n'estas palavras de D. Francisco 
de Lemos, sénte-se n'ellas a ironia do ex-jesuita 
Monteiro da Rocha, que não reconhecia outra 
superioridade além da sua. Vejamos a forma 
da espionagem: um estudante de Leis, José 
Jacintho de Sousa, notou que José Anastácio 
entrara em sexta feira santa na egreja de 
Santa Clara e que sahira sem ter ajoelhado; 
os Padres Capuchos de Valença espalharam 
em Coimbra que elle era libertino, e o Doutor 
José Joaquim Vaz Pinto, seu visinho no bair- 
ro de San Bento, notava que tinha o syste- 
ma da vida de Filosopho ; um outro estudan- 
te, D. Rodrigo da Cunha Manuel Henriques 
Mello e Castro, que frequentava a casa de Jo- 
sé Anastácio, também sentia aggravos de 
consciência ao vêr por cima das mezas livros 
como o Candide e Diccionario philosop>hico 
de Voltaire, e ouvir fallar em auctores como 
Hobbes e Helvetius; e causava-lhe verdadeiro 



1 Hist, da Universidade j t. m, p. 514. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 411 



horror ver que ao chá «se fazia uso de tostas 
de manteiga, ainda em dia de jejum» e mes- 
mo de leite no chá. Fallava-se em poesia e 
bellas lettras, frequentando esse pequeno foco 
intellectual alguns lentes de medicina e jovens 
fidalgos, como os filhos de D. Innocencio de 
Sousa, seus sobrinhos, o filho do Marquez de 
Penalva. Emquanto Pombal conservou o po- 
der ninguém se atreveu a menoscabar José 
Anastácio, que vivia absorto na composição 
da sua obra Princípios de Mathematica^ ou 
em memorias especiaes, em que meditava pas- 
seando em quanto as suas visitas jogavam 
e discutiam. José Monteiro da Rocha sabia 
que livros formavam a pequena bibliotheca 
de José Anastácio da Cunha, e não foi isso 
indifferente para o plano da sua ruina. Depois 
da queda do Marquez de Pombal, em 3 de 
Março de 1777, cahiu sobre a Universidade 
um impulso de reacção já contra as novas 
formas pedagógicas, já contra o espirito mo- 
derno que se ia manifestando na Universida- 
de. A Inquisição recrudescera em Lisboa, e 
em Coimbra começava a estender as garras 
em 1778; José Monteiro da Rocha, ou o Vice- 
Reytor da Universidade, officiou ao ministro 
do reino. Visconde de Villa Nova da Cerveira, 
participando « que no Bispado de Coimbra se 
tinham espalhado muitos Livros de pernicio- 
sa doutrina, não só capazes de perverter os 
bons costumes, mas egualmente contrários á 
santidade da religião catholica e ao socego 
publico.» O estúpido Visconde mandou pro- 
ceder a inquérito das pessoas e dos livros ; 
em' 5 de fevereiro de 1778, como era em Va- 
lença que viviam muitos officiaes inglezes, e 



412 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



que de lá viera para a Universidade José 
Anastácio da Cunha, a Inquisição de Coimbra 
mandou um Commissario a Valença previa- 
mente, ainda em Dezembro de 1777, e alli fo- 
ram prezos nove militares, sendo outo do 
mesmo corpo, que deram entrada no começo 
do anno de 1778 nos cárceres inquisitoriaes 
de Coimbra. Com data de 12 de Dezembro 
(1777) uma rapariga. Margarida, natural da 
Barca, namorada de José Anastácio, em cuja 
companhia vivera em Valença, escrevia-lhe 
para Coimbra, avisando-o que tinham sido 
presas duas outras pessoas do seu regimento 
por diversas cousas: «e quando n'isto me f al- 
iaram também te invocaram.; perguntaram 
se eu sabia de teu viver.., tomara saber o 
fim doestas cousas, e se é certo o mais do mais 
que te relato, eu fico com grande cuidado.» 
Vê-se que já em Dezembro de 1777 se urdia 
a trama para envolver na rede inquisitorial 
José Anastácio. Margarida (a Mar fida dos ver- 
sos do poeta) em 11 de Fevereiro de 1778 
escrevia ao adorado José: «fiquei mais des- 
cansada da paixão que tinha havia poucos 
dias antes de receber a tua, que me affirma- 
vam tu estavas fazendo companhia a Leandro 
e aos mais todos. Estas malditas noticias me 
chegaram.» De facto José Leandro Miliani da 
Cruz, tenente de artilheria, fora preso em 7 de 
Janeiro de 1778 na Inquisição de Coimbra 
por culpas de libertinismo. N'esta mesma da- 
ta tinham sido presos também José Madorra 
Monteiro, do regimento de artilheria de Va- 
lença, o cadete de artilheria Henrique Leitão 
de Sousa, e o cirurgião-mór Aleixo Vachi. 
Na carta de Margarida lê-se: «Também se 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 413 



diz que hade ir breve o Canadi.» Referia-se 
ao capitão Keniri, um official intimo amigo de 
José Anastácio. A estas prisões e processo 
inquisitorial é que o mordente satirico Antó- 
nio Lobo de Carvalho fez o Soneto Aos Phi- 
losophos de caldo de unto e boroa. . . ou com 
outra rubrica: A'' tropa dos Hereges gallegos 
que foram processados. . . (Vid. supra, 30.) 
Desde 7 de Janeiro até 1 de Julho de 1778, 
em que foi preso, o Dr. José Anastácio viveu 
cinco mezes sob a espectativa doesse attenta- 
do infamissimo, que o arrancou do seu ma- 
gistério e o arrojou a um cárcere e ameaças 
do fanatismo. Não fugiu, como Filinto Elysio; 
o seu temperamento philosophico fel-o espe- 
rar o golpe : impavidum ferient ruinae. Eis 
o que se passou na sua alma, como o decla- 
rou no interrogatório: «Disse que depois que 
teve noticia das prisões em Valença por or- 
dem do Santo Officio, e por n'ella ter sido 
elle réo reputado hereje. . . se temeu lhe suc- 
cedesse o mesmo, e abalado por este motivo 
buscou o senhor Inquisidor da primeira cadei- 
ra, que não achou em sua casa, e já antes. . . 
tinha buscado no CoUegio Novo ao P. M. 
Dr. D. Francisco da Madre de Deus, da Con- 
gregação de Santa Cruz, para com elle fazer 
uma confissão, e para que elle o dirigisse e 
instruísse, do que se excusou pelas suas occu- 
pações. E por este motivo differiu para o tem- 
po das férias buscar em Lisboa o remédio ás 
suas angustias e affhcções por meio de seus 
Mestres da Congregação do Oratório d'aquel- 
la cidade, os Padres Valentim de Bulhões, 
Joaquim de Foyos, Manoel Ferreira, António 
Soares, e seu amigo Theodoro de Almeida, 



414 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



e a este tinha elegido para seu director, e es- 
perava patentear-lhe o seu interior e pedir-lhe 
se quizesse encarregar da sua consciência e 
da sua alma. . .» Comprehende-se porque mo- 
tivo o Conselho geral da Inquisição de Lisboa 
determinou que fosse preso em Coimbra antes 
das férias. 

Pelo interrogatório dos outros presos, é 
que lhe organisaram o processo ; assim o te- 
nente Leandro, referiu que havia dez annos 
(1768) que convivera com José Anastácio, 
que a pedido de Ferrier fazia traducções em 
versos portuguezes, e que andaram muito 
vulgarisadas duas Orações, uma de Pope e 
outra de Voltaire: «que admirara a elegância 
e engenho com que estavam feitas, e que por 
este motivo as aprendera de cor...» E reci- 
tou no Tribunal da Inquisição de Coimbra a 
Oração universal, com omissão de quatro 
estrophes : 

Pae de tudo, a quem sempre, em toda a parte 

Tributa os cultos seus, 
O Santo ou o selvagem, ou Philosopho, 

Jehová, Jovis ou Deus ! 

O texto que vem junto ao processo diver- 
ge dos publicados em 1809 e 1839: 

Pae de tudo, adorado em toda a edade 

Dos pólos ao equador. 
Por bárbaros, por Santos e por sábios, 
Jove, Jehová, Senhor. ^ 



1 Collecç, de Poesias inéditas, p. 123. Composi- 
ções poéticas do Dr. José Anastácio da Cunha, p. 76. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 415 



No depoimento de Madorra Monteiro, diz- 
se: «que não tinha outra lição mais que a de 
livros prohibidos, digo francezes e inglezes.,,y> 
O cadete Leitão de Sousa também se refere á 
Oração de Voltaire traduzida por José Anas- 
tácio, que os officiaes repetiam «e pelos ouvir 
repetir muitas vezes, como tem dito, a apren- 
deu de cor...» Não era preciso mais para 
prender José Anastácio, do que três referen- 
cias, e em data de 1 de julho de 1778 o fa- 
miliar do Santo Officio foi a casa d^elle ao 
Bairro de San Bento e o trouxe prezo e en- 
tregou ao alcaide dos cárceres José António 
de Oliveira. O Conselho da Inquisição de Lis- 
boa mandara apressar a prisão de José Anas- 
tácio antes de se retirar em férias para Lis- 
boa, porque na corte era estimado e tinha a 
influencia de amigos. Depois de prezo viu-se 
a suprema torpeza de Doutores e estudantes 
denunciarem o eximío philosopho ! porque en- 
trara e saíra em uma egreja sem se ajoelhar; 
porque comia tostas com manteiga, porque 
fallara em Hobbes e Helvetius, e lia livros 
francezes e inglezes ; porque se dizia que ti- 
nha vida de philosopho. Tal era o aspecto da 
reacção que se seguiu a queda do Marquez 
de Pombal. 

A Inquisição de Coimbra fez auto de se- 
questro aos seus livros e papeis, em 2 de ju- 
lho de 1778, que foram avaliados por loeri- 
tos ; entre as obras scientificas estavam as de 
Newton, de D'Alembert, de Lalando, de Boer- 
haave, de Linneu, de Hervey, de Hobbes. 
Em litteratura possuia as obras completas de 
Shakespeare, que lia com enthusiasmo, de Mil- 
ton, de Sterne, de Yung; possuia Eabelais, 



416 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Molière, Voltaire; Tasso e Metastasio; Cer- 
vantes, Gongora; nas línguas clássicas Home- 
ro, Virgílio, Horácio, Petronio, Suetonio, Tá- 
cito e Cicero ; e na lingua portugueza as obras 
de Camões, a Historia Tragico-inaritima, as 
obras do Padre Vieira. Todos esses livros re- 
velavam um fino gosto artístico que se reflec- 
tia na sua expressão litteraria. Entre os livros 
scientificos havia um «Euclides em grego, do 
lente José Monteiro da Eocha» (fl. 67 do Pro- 
cesso.) Era o vestígio de uma anterior com- 
munhão scientifica; em uma Epistola Contra 
os vícios que impedem o progresso das Scien- 
cias, é a José Monteiro da Rocha que se di- 
rige : 

Que te serve, Montezio, envelheceres 
Curvado sobre os livros, noite e dia. 
Vendo esconder-se o sol, raiar a aurora. 
Convulso de cansado o débil peito ? 
Que esperas de trabalhos tão contínuos ? 
Acaso esperas que a thiara ou toga 
Os teus durc»s cuidados premiando, 
O sangue requeimado adoce e accaíme ? 

O sábio benemérito, prudente 

Louros não cinge, quando a audácia impera : 



Para tornar os considerandos philosophi- 
cos mais poéticos, José Anastácio finge uma 
resposta de Montezio, em que com certo mo- 
vimento dramático lhe devolve : 



O ser útil ao rei, á pátria, ao estado, 
O respeitar das leis o mando augusto, 
Soccorrer, quanto posso, o pobre oppresso, 
Abraçar da virtude o nobre influxo, 
Fartar o coração de altas ideias, 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 417 



Bebidas da moral na fonte pura, 
Eis aqui, meu Alcino, a grande meta, 
Que devemos tocar, se pretendemos 
De palmas immortaes cingir as frontes 
E ter nome na posthuma memoria. 

fComp, poet., p. 90.) 

José Anastácio enganara-se na sua simpli- 
cidade genial; Montezio era um espirito ári- 
do, disciplinador, inflexível e invejoso. Foi 
principalmente por causa dos versos philoso- 
phicos que José Anastácio soffreu os interro- 
gatórios inquisitoriaes ; é natural que dirigin- 
do uma composição poética a Monteiro da 
Kocha, o ex-jesuita conhecesse as outras re- 
velações do seu talento litterario. 

No processo que a Inquisição de Coimbra 
promoveu contra o insigne mathematico insis- 
te-se sobre a traducção que fizera da Ora- 
ção com que termina o poema Sobre a Lei 
Natural, de Voltaire. Esta poesia não se acha 
colligida nas Composições poéticas do Dou- 
tor José Anastácio da Cunha pubhcadas em 
1839 por Innocencio Francisco da Silva; vem 
inclusa no processo em duas variantes. No 
depoimento do cadete do Regimento de Va- 
lença, Henrique Leitão de Sousa, também 
preso por livre-pensador (Hbertinismo) na In- 
quisição de Coimbra, recitou elle a Oração 
traduzida por José Anastácio da Cunha: 

Oh Deus, a quem tão mal o homem conhece, 
Oh Deus, a quem todo o universo acclama, 
As palavras escuta derradeiras 
Que a minha bocca forma. 
Se me enganar foi tua (santa) Lei buscando; 
Pode o meu coração da boa estrada 
Perder-se, mas de ti sempre está cheio. 

27 



418 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Sem me atemorisar, diante dos meus olhos 
A eternidade vejo, e crer não posso 
Que um Deus, que o sêr me deu, 
Que um Deus, que tantas bênçãos 
Lançado tem sobre os meus dias. 
Agora extinctos elles, finalmente 
Haja de atormentar-me eternamente. 



Eis a outra versão, recitada de memoria 
por José Anastácio da Cunha no tribunal : 

O^ Deus, a quem tão mal o homem conhece, 

O' Deus, que o universo todo acclama, 

Se vivi enganado sempre foi 

Minha tenção buscar a tua Lei. 

Sem me assustar, diante dos meus olhos 

A Eternidade vejo, e não posso 

Julgar que um Deus que o sêr me deu. 

Que um Deus, que tantas bênçãos 
Sobre os meus dias tem lançado, 

Agora extinctos elles 
Me haja de atormentar eternamente. ^ 



1 Esta variante, recitada pelo desgraçado mathe- 
inatico, é inferior á versão denunciada pelo cadete Lei- 
tão, que a conservara melhor de memoria. Aproximan- 
do-a do texto de Voltaire vêr-se-ha que não é propria- 
mente uma traducção, mas uma bella paraphrase : 

Priêre 

Ó Dieu,,qu'on meconnait, ò Dieu, que tout annonce, 
Entends les derniers mots que ma bouche prononce i 
Si je me suis trompé, c^est en cherchant ta loi. 
Mon coeur peut s^égarer, mais il est plain de toi. 
Je vois sans m^alarmer Téternité paraitre ; 
Et je ne puis penser qu^un Dieu qui m^a fait naitre, 
Qu^un Dieu qui sur mes jours versa tant de bienfaits 
Quand nies jours sont éteints me tourmente à jamais. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 419 

Transcrevemos da acta da audiência de 
13 de Julho de 1778 a parte do interrogató- 
rio sobre estas traducções que fez José Anas- 
tácio da Cunha : 

«Perguntado, se está lembrado ter confes- 
sado que em Valença no tempo, dos seus er- 
ros fizera a. traducção de huma Oração que 
Voltaire traz no fim do seu Poema da Ley 
natural, o que fez por lhe parecer no dito 
tempo que a referida Oração nada tinha dis- 
sonante da Religião catholica, ainda que ao 
depois conheceu que podia ter muito máo sen- 
tido? 

«Disse, que lembrado está. 

«Perguntado, se antes de fazer a dita tra- 
ducção leu o dito Poema da Ley natural, de 
Voltaire? 

«Disse, que sim. 

«Perguntado, que conceito formou d'elle, 
pelo que respeita ao fundo de Religião, que 
n'elle pretendeu estabelecer o seu Author? 

«Disse, j^ue agora não poderá dizer com 
certeza por se ter passado muito tempo, o 
conceito que então formou do dito Poema 
quando o leu, mas sempre conheceu n'elle 
que o Author se afastava da crença da nossa 
santa Religião. 

«Perguntado, se he verdade que o dito Au- 
thor no sobredito Poema não ensina mais que 
os principies do Deismo, e se o seu Deismo 
não he outra cousa mais que uma Irreligião 
sem princípios? 

«Disse, que ha muitos annos que o não lê, 
mas cre que assim he. 

«Perguntado, se he verdade que elle com- 
bate no dito Poema as verdades mais bem 



420 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA * 



estabelecidas, sem outras provas mais que a 
sua petulância em decidir, se elle mesmo se 
não contradiz e cae no precipício dos que bus- 
cam a origem da verdade que se não acha 
mais que na Eevelação, e em uma rasão a 
ella submettida? 

«Disse, que com especialidade se não pode 
bem lembrar de que se achem todos estes er- 
ros no dito Poema, e só de que elle quer es- 
tabelecer n'elle a Tolerância e o Deismo; mas 
se lembra que nas mais obras que do mesmo 
Author tem lido se manifestam muito bem 
todos estes defeitos. 

«Perguntado, pois sendo doeste caracter as 
obras do dito Author, e tendo o dito seu Poe- 
ma os erros oppostos á Religião revelada 
que elle réo confessa lhe conheceu quando o 
lera, como podia deixar de ser concebido nos 
mesmos sentimentos a Oração que remata o 
dito Poema, e como podia deixar de os co- 
nhecer elle réo quando a traduziu? 

«Disse, que quando elle fallara que lhe não 
conhecia o veneno, se não explicara bem, pois 
queria dizer que lhe parecia ella podia ter 
hum sentido estando separada do dito Poe- 
ma ; e que quem a lesse assim separada como ' 
elle réo a traduziu lhe não conheceria o ve- 
neno que em si occultava. 

«Perguntado, se pelo primeiro verso : 

Oh Deus, a quem tão mal o homem conhece, 

se não manifesta bem o sentido que o Author 
teve n'esta expressão, excluindo a Revelação 
e todas as verdades da Ley Evangélica, na 
qual se nos annunciou o Mysterio da Santis- 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 421 



sima Trindade e a Incarnação do Divino Ver- 
bo, e se se pode dizer em bom sentido, que o 
homem conhece mal a Deus, depois de ter es- 
tas luzes e este conhecimento em que deve 
crer sem duvida ou hesitação alguma ? 

«Disse, que lhe parecia ter ouvido a pes- 
soas doutas e christãs que o Mysterio da San- 
tíssima Trindade se não podia comprehender, 
e que por isso se poderia dizer a Deus ainda 
por qualquer christão : 

Oh Deus, a quem tam mal o homem conhece, 

no sentido de excederem os seus attributos a 
sua comprehensão. 

«Perguntado, se entende que este foi o sen- 
tido que teve o Author n'esta expressão? 

«Disse, que julga que não, e que só seria 
de excluir a Revelação e de fazel-a incerta. 

«Perguntado, se pelo segundo verso : 

Oh Deus, que o universo todo acclama 

se não está bem vendo o espirito do Author 
e os seus sentimentos de Religião, e se não é 
isto uma recopilação do systema que quer es- 
tabelecer em todo o seu Poema, de que todos 
os homens se salvam, de qualquer nação que 
sejam, e de qualquer Religião que seja? 

«Disse, que n'este verso entendia, que to- 
dos de qualquer nação e de qualquer Reli- 
gião que fossem, adoravam um Deus, porém 
que não se seguiria d'ali que houvessem todos 
de se salvar. 

«Perguntado, se todas as nações adoram 
ao verdadeiro Deus? 



422 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



«Disse, que lhe parecia, que todos adora- 
vam ao mesmo Deus, que nós adoramos, só 
com a differença de que nós o conhecemos 
melhor e a sua verdadeira Ley pela fé. . . 

«Perguntado, se pelo terceiro verso: 

Se vivi enganado, sempre foi 
Minha tenção buscar a tua Ley 

se não manifesta também a incredulidade da 
Eevelação, que por ser authorisada por Deus 
exclue todo o engano; e se Voltaire podia di- 
zer a Deus com verdade, que sempre a sua 
tenção fora buscar a sua Ley para respeital-a 
e cumpril-a, quando das suas infernaes obras 
se mostra não ter outra mais que deshonral-a, 
ultra jal-a e combatel-a ? 

«Disse, que .quando fez a traducção lhe 
não percebeu bem este erro, que com effeito 
lhe conheceu muito bem depois. 

«Perguntado, se no verso: 

Sem me assustar a Eternidade vejo 

se não vê outra prova doesta incredulidade, 
pois ainda que hum verdadeiro christão pela 
grande confiança em Deus junto cora as boas 
obras diminue muito o susto ou temor da 
Eternidade por não saber depois de peccar 
se recuperou a graça de Deus, sempre se as- 
susta e sempre teme o passo por que entra na 
Eternidade, como tem succedido aos maiores 
Santos do Christianismo, e o impio Voltaire 
nada teme por que nada crê, e por que reputa 
fabulas espalhadas pelos ministros do Evan- 
gelho tudo quanto pregam da Eternidade. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 428 



«Disse, que confessa que este he o mais na- 
tural sentido do verso, e que bem lh'o conhe- 
ceu depois de ter feito a traducção; mas que 
quando a fizera julgou que podia ter bom 
sentido. 

«Perguntado, se nos outros versos: 

E não posso julgar, 

Que um ^eus, que o sêr me deu, 

Que um Deus, que tantas bênçãos 

Sobre os meus dias tem lançado, 
Agora, extinctos elles. 

Me haja de atormentar eternamente 

não estão ainda manifestas todas estas, impie- 
dades? Que outra cousa diz n'elles a Deus 
Voltaire mais do que isto ? Que mal com effei- 
to te fazem nossos prazeres, e nossos brincos 
e zombarias? Tu não pensas como os devo- 
tos, e Tu não és tão impeccavel e tão bárba- 
ro como elles se esforçam de te representar. 
Não posso julgar que tendo-me feito tantos 
benefícios hajas de me negar este, e me hajas 
de atormentar eternamente, obre como obrar, 
segundo os ditames da minha rasão, ainda 
sem a sujeitar a algumas Leys e preceitos. 

«Disse, que bem reconhece e reconheceu 
depois de feita a dita traducção, que este 
era o natural sentido que se manifestava dos 
ditos versos; mas que fora tal a sua hallucina- 
ção que quando fez a dita traducção enten- 
deu que podia ter bom sentido, e declara que 
não diz isto para diminuir a sua culpa, porque 
se considera egualmente culpado em não pro- 
curar destruir a dita traducção, para que não 
corresse pelas mãos de outros a quem podia 
servir de escândalo.» (Fl. 91 a 94 f.) 



424 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Agora sobre a Oração universal de Pope, 
de que o acciísara o tenente Meliani, elle pró- 
prio confessa : 

«Disse mais, que também de Pope tradu- 
ziu outra Oração, que lhe pareceu uma Para- 
phrase do Padre Nosso, e na qual não perce- 
beu erro algum, e se o tem é bem occulto, 
imperceptível, e lhe parece era concebida n'es- 
tes termos: 



Pay de tudo, adorado em toda a edade 

Dos Poios ao Equador, 
Por bárbaros, por santos e por sábios, 

Jove, Jehovah, Senhor! 

Tu, a primeira Causa, e a mais occulta, 
Em cujo alto, immenso pego 

Submergida a minha alma, só conheço 
Que tu és bom, e eu sou cego. 

A distinguir o bem do mal me ensina, 

Em tão grande ^scuridade; 
A Natureza ao Fado prende, e livre 

Deixa do Homem a vontade. 

Ensina-me a sentir o mal alheio, 

A alheia falta occultar; ^ 

E a compaixão que eu sinto com meu próximo 

Commigo a queiras usar. 

Livra-me tanto da vontade néscia 

Como do Ímpio desprazer, 
Pelo que, o teu amor outorga ao homem, 

Ou lhe nega o teu saber. 

Sustento e paz hoje te peço, e quanto 

O sol doira com a luz sua; 
Se é melhor que m^o dês ou não, bem sabes, 

Faça-se a vontade tua. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 425 



Vil SOU, mas não em tudo, pois me alenta 
Teu sopro. Oh ! tu me guia, 

Na passagem qualquer que fôr, da vida 
Ou da morte n^esse dia. 



«Disse mais, que nas sobreditas Orações 
faltam alguns versos de que agora se não 
lembra, e que estes mesmos que repetiu não 
estão pela sua ordem ...» 

Na mesma audiência de 13 de Julho de 
1778: 

«Perguntado, se está mais lembrado de ter 
dito em suas confissões que fizera outra tra- 
ducção de Pope, que lhe pareceu ser uma Pa- 
raphrase do Padre Nosso, e não só lhe não 
percebeu erro algum contra nossa santa Reli- 
gião quando a fizera, mas que ainda agora se 
persuadia que não tinha ? « 

«Disse, que lembrado está. 

«Perguntado, se elle leu as obras de Pope; 
que conceito faz d'ellas e da religião do seu 
Author? 

«Disse, que elle não tem lembrança, pelo 
ter lido ha muito tempo, do conceito que for- 
mou da religião do Author, e só se lembra 
que em outro que leu, que não está bem certo 
qual era, viu uma critica á obra do dito Po- 
pe intitulada Ensaio sobre o Homem — na 
qual parecia refutar o erro que elle na dita 
obra mostrava ter, de que não digo ter, ou 
da qual se deduzia por incompatibilidade da 
sua Filosofia, que não havia o peccado origi- 
nal no Systema Leibnitziano, e que tem ou- 
vido dizer que o dito Pope sempre vivera e 
morrera ,catholico romano; e se nas suas 
obras ha doutrina errada, lhe parece he muito 



426 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



occuita ao menos a respeito d'elle reo, pela 
falta que tem de conhecimentos theologicos e 
moraes, como tem confessado. 

«Perguntado, como se pode dizer em sen- 
tido canónico, que. Deus he : 

adorado em toda a edade 

Dos Poios ao Equador, 
Por bárbaros, por santos e por sábios. 

«Se não são estes os mais claros sentimen- 
tos da Caballa Filosófica, que Deus he e foi 
em toda a edade, ou em todo o tempo egual- 
mente adorado pelo pagão, nas impudicicias 
que authorisou e prescreveu para as Festas 
da Boa Deusa, de Vénus, de Adónis, e de 
tantos outros que adorou por Deuses a cega 
Gentilidade ; pelo que o Africano, Mexicano 
e outras barbaras Nações, nos sacrificios de 
victimas humanas, que como actos de pieda- 
de têm offerecido e ainda offerecem a Deus 
por culto de sua Eehgião; pelo Judeu, que 
amaldiçoa e detesta a Jesus Christo, funda- 
dor da Religião dos christãos ; pelo Socinia- 
no, que o não respeita mais que como hum 
grande homem amado de Deus; pelo Mouro, 
que só o respeita como hum Propheta ; pelo 
Deista, que não tem respeito ás suas Leys; 
como pelo Christão que o adora como seu 
Deus e serve como um Legislador divino su- 
premo e absoluto. E que Deus olha com a 
mesma egualdade as impudicicias do Pagão, 
as crueldades do Bárbaro, as maldições do 
Judeu, a indifferença do Sociniano, o fraco 
respeito do Turco, o desprezo do Deista, ou a 
adoração do Christão? 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 427 



«Disse, que o pensamento que formou da 
expressão dos ditos versos foi de que quasi 
todas as Nações reconheceram a hum Deus 
Creador de tudo, e que isto era verdade; que 
ellas nos Cultos que lhe tributavam bem vê 
que erraram, não sendo regulados pela Fé e 
Eevelação; mas a fraqueza do seu discurso 
lhe não fez ver no tempo d'esta traducção que 
ella podia ter este máo sentido. 

«Perguntado, que outra cousa contém o 
verso : 

Jove, Jehovah, Senhor, 

se não a mais execranda blasphemia e profa- 
nação do sacrosanto nome de Deus Jehovah, 
posto de par a par com o de Jove ou Júpiter, 
e dando-se a ambos o nome de Senhor, ou 
seja o que adoram os Gentios, ou os Ghris- 
tãos? Se não he isto ajuntar a luz com as 
trevas, Christo e Belial? Se não são animadas 
estas expressões pelo mesmo espirito de To- 
lerantismo? e se isto, está occulto debaixo de 
algum véo, e se não conhece logo que hum 
Christão lê taes impiedades, que só ao que 
por taes não as tem, e o não he, se podem 
occultar ? 

«Disse, que pelo nome de Jove ou Júpiter, 
queria o Author expressar que Deus fora e 
era adorado pelos Bárbaros, de que acima 
fallava, nos outros versos, e com este nome, 
e que o mesmo Deus era adorado depois de 
se revelar aos Judeus com o nome de Jeho- 
vah ; e que com o mesmo, e também com o 
nome de Senhor he que entendeu se podia 
denominar Deus com os sobreditos nomes, 



428 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



sem offensa da Religião catholica, mas agora 
detesta toda a má intelligencia que não só 
n'este, mas em-todos os mais versos se mani- 
festa. 

«Perguntado, se esta Oração era feita para 
com ella deprecar a Deus o Pagão, e o Bár- 
baro ou o Christão? 

«Disse, que Ibe parece, que por ser huma 
Paraphrase do Padre Nosso, ao menos em 
alguma parte era só feita para o Christão com 
ella deprecar a Deus; ainda que lhe parece 
que sempre a julgou mais como huma compo- 
sição meramente poética, do que como uma 
oração para com ella se deprecar a Deus 
nosso Senhor. 

«Perguntado, se também esteve persuadi- 
do de que qualquer christão que d'ella uzas- 
se e com ella deprecasse a Deus nosso Senhor 
lhe offereceria um muito agradável culto? 

«Disse, que nunca semelhante cousa lhe 
viera á imaginação, que alguém se lembrasse 
d^ella para deprecar a Deus, e só a reputava 
sempre como um dito, como uma mera com- 
posição poética. 

«Perguntado, se os outros versos : 

Tu, a primeira Causa e a mais occulta, 

Em cujo immenso pego 
A minha alma submergida, só conhece 

Que tu és bom e eu sou cego, 

não são marcados ao mesmo cunho dos da 
Oração de Voltaire, em que exclue a Revela- 
ção pela qual se nos descobrem as perfeições 
de Deus que o distinguem das Deidades fin- 
gidas? 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 429 



«Disse, que tal foi a sua cegueira que não 
conheceu todo este veneno que agora conhe- 
ce se occultava nos ditos versos. 

«Perguntado, se sendo todo o resto' dos 
mais versos huma Oração que falia em hum 
Deus incerto, seja qual for, e se devendo nós 
orar não a Deus desconhecido mas áquelle 
que nos annunciaram os Apóstolos, não he 
toda ella digna de censura, e indigna de ser 
proferida por hum christão ? 

«Disse, que assim o crê agora, e que a sua 
cegueira lhe não fez vêr isto ha mais tempo. 

«Perguntado, se está lembrado ter confes- 
sado mais, que na dita Oração faltavam alguns 
versos que não repetira por não estar d'elles 
lembrado ? 

«Disse, que sim. 

«Perguntado, se serão alguns d'elles estes : 

Tudo aquillo que dita a consciência 

Oh, faze-m'o apetecivel 
Mais do que o céo e tudo que prohibes, 

Mais que o mesmo Inferno horrivel? 

«Disse, que sim, era. 

«Perguntado, que outra cousa se pode de- 
duzir d^elles mais que os mesmos erros em 
que elle réo tem confessado cahiu, persuadin- 
do-se que obrando conforme os dictames da 
sua Rasão e consciência, ainda que errasse, 
não seria réo de eterna condemnação e se 
salvaria como não obrasse por malicia, mas 
somente por falta de conhecimento, que he o 
mesmo que reconhecer só como regra de 
obrar a consciência ou a luz da Rasão e não 
a da Fé, que dá a Revelação? 



480 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



«Disse, que agora se persuade ser este o 
mais natural sentido dos ditos versos combi- 
nados com os mais, o qual a sua cegueira lhe 
não deixou ver bem. 

«Perguntado, se serão também mais alguns 
dos versos da dita traducção que diz lhe es- 
quecem, estes : 

Não presuma esta mão fraca, ignorante 

Os teus coriscos vibrar, 
E cuidando que são teus inimigos 

Homens, Nações condemnar? 

«Disse, que sim, eram. 

«Perguntado, que sentido bom e christão 
considerou, e ainda agora considera têm estes 
versos ? Que outra cousa indicam elles mais, 
que o não crer que Deus tenha por inimigos 
as Naç&es e as differentes sociedades e sei- 
tas do Pagão, do Bárbaro, do Selvagem, do 
Deista, do Atheo, do Materialista, do Indiffe- 
rentista e de outro qualquer, que não era o 
Evangelho, e que Deus os haja de conde- 
mnar ; e se não he tudo isto opposto á mesma 
doutrina do Evangelho — qui vera non cre- 
de7'it condemnabitur ? 

«Disse, que elle confessa agora lembrar-se 
de quando fizera a dita traducção não deixa- 
ra de conhecer que o mais natural sentido dos 
sobreditos versos era o que se lhe tem refe- 
rido ; mas que considerou que também pode- 
riam ter algum bom, qual era poder-se dizer 
com verdade, que os homens muitas vezes se 
enganam nos seus juizos, julgando que talvez 
se condemne o que se salve e que se salve 
o que elles julgam se condemne, pois que ao 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 481 



maior peccador podia Deus dar na hora da 
morte efficazes auxilios com que elle mere- 
cesse a graça final ; mas que bem viu que esta 
intelligencia aos ditos versos era arrastrada e 
violenta. 

«Perguntado, como he possível que elle 
Réo se esquecesse doestes versos e dos penúl- 
timos, que agora lhe foram lembrados, para 
deixar de os repetir, quando repetiu os mais, 
ao mesmo tempo que confessa que bem co- 
nhecera que n'estes estava mais claro o ve- 
neno, de que se mostra que pela pouca since- 
ridade com que faz as suas confissões deixou 
maliciosamente de os declarar e não por que 
d'isso se esquecesse? 

«Disse, que elle estava persuadido que entre 
os seus papeis seria achada esta traducção, 
que bem se lembrava ainda entre elles con- 
servara, e que por isso se não podia occultar 
a esta Meza, e o não repetil-a toda inteira- 
mente foi unicamente por não ter de toda ella 
lembrança. 

«Perguntado, se está mais lembrado ter 
confessado que estas Orações se publicaram 
e espalharam em Valença, e que elle só teve 
na traducção d'ellas o fim de lisongear o seu 
Brigadeiro por fazer apreço das suas Obras? 

«Disse, que lembrado está. 

«Perguntado, como quer ser acreditado, 
de que (estando elle réo no tempo que fez 
estas traducções persuadido dos mesmos er- 
ros que d^ellas se manifestam, tendo-as dado 
ao Tenente João Baptista, e tendo-se ellas di- 
vulgado e espalhado na Praça de Valença,) 
fosse só o seu fim n'esta traducção o que 



432 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

quer inculcar, de lisongear com ella o seu Bri- 
gadeiro e o de condescender com o seu gosto, 
e não o que se faz palpável, de que elle só 
quiz fazer sequazes dos seus erros e da sua 
Ímpia Filosofia, que tinha bebido nas corru- 
ptas fontes de Voltaire e outros Filósofos de- 
clarados inimigos do Ctiristianismo, Heresiar- 
cas e Dogmatistas da impiedade, da irreligião 
e da mais perversa e monstruosa Moral ; que 
declare os verdadeiros fins que a isso o mo- 
veram, para desencarregar inteiramente a sua 
consciência, pôr a sua alma em estado de sal- 
vação e fazer-se merecedor da misericórdia 
que pretende. 

«Disse, que tinha declarado os verdadeiros 
fins que o moveram a fazer as ditas Traduc- 
ções, e lhe parece que quando traduziu a 
Oração de Voltaire, que foi muito no princi- 
pio da sua assistência em Valença, ainda não 
tinha cahido nos erros em que cahiu, e tem 
confessado; e pela falta de reparo e reflexão 
própria dos poucos annos que então tinha lhe 
não conheceu o veneno que continha ; e a de 
Pope, supposto a traduziu já tinha cahido em 
alguns erros, nunca o seu animo foi dissemi- 
nal-os, nem lhe pareceu que elle se manifes- 
tava tanto na dita Oração, que corresse risco 
não só de alguém se perverter com ella, mas 
de ser elle réo reputado herege e Dogmatista, 
o que bem provava não se occultar por Au- 
thor das ditas traducções ; agora porém, re- 
conhece o mal que fez, em não procurar que 
as ditas Orações não corressem, quando ad- 
vertiu que muita parte d^ellas tinha tão máos 
sentidos. 

«Perguntado, se está mais lembrado ter 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 433 

confessado, que tendo dado as ditas Orações 
e outras obras poéticas amatorias ao sobredi- 
to Tenente, este as mostrara, e as suas Com- 
posições de Mathematica (que ardilosamente 
conseguiu sem elle réo saber do sargento que 
lh'as copiava em Almeida) a seu Mestre o 
Padre Joaquim de Foyos, da Congregação do 
Oratório de Lisboa ; que este o reprehendera 
da liberdade dos seus pensamentos indicados 
em algumas das ditas obras, que julga serem 
as amatorias, pois a outra intitulada — Veri- 
tati Sacrum — não tinha lembrança a mostra- 
ra, nem dera ao dito Tenente? 

«Disse, que lembrado está,» etc. ^. 

Embora considerado como um génio ma- 
thematico, era José Anastácio um vibrante e 
apaixonado poeta: bastava o seu profundo 
temperamento philosophico para o tornar 
eminente em qualquer manifestação do espi- 
rito, como observara Diderot. Os seus versos 
são de duas cathegorias : as traducções de 
Odes que exprimem a libertação da consciên- 
cia segundo o negativismo do século xviii, 
que os seus amigos da guarnição de Valença 
recitavam de cór, e os idylios Íntimos em que 
descrevia os seus amores com uma rapariga 
do povo em um naturalismo paradisíaco. No 
seu depoimento José Maria Freire, sargento 
do Regimento de Artilheria, diz de José Anas- 
tácio: «que elle estava publicamente amance- 
bado com huma moça chamada Margai^ida, 
que se dizia ser da villa da Barca, e tendo-a 



1 Fl. 94 t a 100. Processo n.» 8087, na Torre do 
Tombo. 

28 



434 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



em sua casa continuamente, e só na véspera 
que se havia de confessar pelo preceito qua- 
dragesimal a lançava fora, mas logo ao outro 
dia a mandava chamar; e nas poesias e ver- 
sos que fazia se lembrava da sua Margarida, 
de que se mostra bem claramente que elle fa- 
zia gala de seu peccado.» (Fl. 28 %) A histo- 
ria d'estes amores de uma mocidade ardente 
imprime nos seus versos uma faisca de vida, 
que o põe acima de todos os lyricos do seu 
tempo. Vence sem difficuldade os artificios*da 
metrificação, que não conhece completamente, 
mas infunde nos versos uma emoção realista, 
e profundamente humana. Como descreve a 
revelação da vida que lhe deu o amor: 

Oh meu, oh meu amor, onde fugiste? 
Onde estou eu agora, e aonde estava?... 
A ahna começa a conhecer que existe. 
Que até agora sabia só que amava. 

Não estive n'um mar quasi afogado 
De ineffavel angélica ternura ? . . . 
Respiro apenas — inda estou cercado 
Da estranha, grossa nuvem de luz pura. 

De amor prodigios, inda não ouvidos, 

Que absorto sinto, e que entender não sei!... 

Solta-me a alma dos mortaes sentidos. 

Ou acordo de um sonho ? . . . Ah ! não sonhei. 

Não, não sonhei ; que estes teus braços vejo 
Inda na acção de te abraçar pasmados ! 
Não sonhei, não ; que inda o celeste beijo 
Góso nos lábios mais que namorados. 

Faz de duas visinhas gotas de agua 
Uma só a invencível attracção ; 
Forma amor em celeste ardente frágoa 
De nossos corações um coração. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 435 



Mesma vontade, mesmo pensamento, 
Mesmos desejos, mesmo terno ardor; 
Somos emfim (que gloria ! que protento !) 
Não dois amantes, mas um mesmo amor. 



Sim ; do terrestre corpo libertado*s 
Viver emfim (que amor o diz, não mente) 
De Deus no seio iremos abraçados 
Doce, estreita, continua, eternamente. 

Esta ode, intitulada O Abraço, faz lembrar 
as futuras Meditações de Lamartine ; quando 
José Anastácio escreveu essa deliciosa com- 
posição já se sentia visado pelo intolerantis- 
mo : 

O misérrimo, e triste mal sonhava 
Que de dentro da horrenda escuridão 
De uma nuve^ infernal y já levantava 
Sobre elle a desventura a cruel mão. 

{Comp. poet., p. 8.) 

A Espersa amorosa faz lembrar uma ode 
de Schiller, que exprime a mesma anciedade : 

Coração terno, quando presentires 
Que ella já se avisinha; quando a vires, 
Quando junto ao seu peito te apertar, 
Quando o seu também vires palpitar, 
Temo que de ternura o forte effeito 
Te faça rebentar dentro no peito. 

Quando virdes voar-me arrebatado 
Em a vendo — e em seus braços apertado, 
Nada poder dizer-lhe, e só no peito 
Sentir de amor o coração desfeito, 
E ambos de um só fogo consumidos. 
Ambos sem cor, sem falia, e sem sentidos; 

(Ib,, p. 9.) 



436 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Na ode Noite sem somno descreve como o 
poeta e Margarida fizeram a sua união peran- 
te a Natureza : 



Amor, de espécie mais sublime e pura 
Respira quanto em sua formosura 
A minha alma contempla, quasi louca. 
Face attractiva e attractiva bocca ; 
Rosto que encanta, affavel e sisudo. 
Olhos, palavras, movimentos, tudo!... 
Pode esquecer-nos nunca aquelle dia 
Em que, por mais que humana sympathia 
Sentimos nossas almas attrahidas, 
E para sempre, para sempre unidas? 
Tosca, estreita palhoça afortunada, 
Em que a nossa união foi celebrada; 
Tosca, estreita palhoça!... Em ti contemplo 
De todo o mundo o mais augusto templo. 
Que mais augusto e esplendido apparato? 
Que mais solemne e respeitável acto? 
Oh céo!. . . dize, meu bem, do céo não vias 
A mão em tudo quanto em nós sentias ? . . . 
Sim ; nosso amor o céo n^ella approvou, 
As mãos e almas o céo nos enlaçou. 
Pergunte o vulgo vão, que amor jurámos, 
Que fé? — Dêmos as mãos e suspirámos. 
Querer prender do instincto a liberdade 
Com promessas, ridicula vaidade ! 



Amor, se o mundo vis prisões lhe tece, 
Sacode as azas, e desapparece. 
Jurar! e o que?... Qualquer de nós não via 
Tam claro no outro quanto em si sentia?... 
Cheio de amor, admiração, respeito 
Quando a mão me tomou e a uniu ao peito 
Não via, oh céos, não via a luz divina 



Não via absorto a affavel magestade 
O amor, amor angélico, a verdade ? 

(76., p. 27.) 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 437 



As odes Despedida e Recordação de um 
objecto ausente, lembram a situação em que 
José Anastácio fora destacado em 1772 para 
a praça de Almeida. Margarida, quando o 
poeta regressou a Valença, foi viver na sua 
companhia, em recolhimento absoluto; os de- 
nunciantes da Inquisição notaram que ella 
não ia á missa, e consideravam-na o objecti- 
vo dos versos de José Anastácio da Cunha, 
de que já alguns curiosos faziam collecção. 
Sabe-se pelo processo e por uma carta de 
Fr. Joaquim de Foyos, que o tenente João 
Baptista, camarada de José Anastácio, gran- 
de apaixonado de versos, coUigia em volume 
todas as composições poéticas do seu amigo: 
«Disse agora, lhe occorria declarar mais, que 
em Valença teve alguma amisade com um te- 
nente do seu Regimento chamado João Ba- 
ptista, ou para melhor dizer, este a procura- 
va ter com elle réo, mostrando que muito a 
desejava,... e tendo o sobredito muita pai- 
xão pela poesia j fazia copias e collecções de 
todas as obras poéticas que podia haver á 
mão, e elle réo lhe deu algumas que tinha 
feito de versos amatorios, e entre elles lhe 
parecia que também lhe deu a traducção das 
duas Orações de Voltaire e Pope, que tem 
declarado, mas em tempo em que ainda lhe 
não pareciam más; e foi tão astuto, que estan- 
do em Lisboa, e elle réo eju Almeida, saben- 
do de um sargento que copiara a obra de Ma- 
thematica, que andava trabalhando, conse- 
guiu d'elle lhe mandasse uma copia para Lis- 
boa, sem que elle réo soubesse, e tudo alli 
mostrou a seu Mestre o P.^ Fr. Joaquim de 
Foyos, da Congregação do Oratório, ou par- 



438 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



te ; de que resultou escrever-lhe o dito Padre, 
e mandar-lhe outro prologo para a dita obra, 
por não gostar do que eíle tinha feito, e elle 
réo lhe respondeu, e lhe parece lhe escreveu 
n'esta occasião duas cartas, e recebeu d'elle 
outras duas, (1772) e tem alguma remota 
lembrança, que o dito Padre ao mesmo tempo 
que lhe louvava a obra o reprehendia de al- 
guma liberdade nos versos, que julga serem 
os amatorios, ainda que não pode com certe- 
za dizer se o dito João Baptista viu a obra 
intitulada Vei^itati Sacrum, ou por Ih^os mos- 
trar o Brigadeiro, ou por que elle réo lh'a 
mostrasse estando bêbado, por que não tem 
lembrança alguma de lh'a ter mostrado, e lhe 
parece impossível tel-o feito estando em sea 
accordo.» (Fl. 81 %) Vejamos alguns trechos 
da carta de Frei Joaquim de Foyos, que inte- 
ressam para o conhecimento da vulgarisação 
dos versos de José Anastácio: «O tenente João 
Baptista, em que V. m. tem hu grande admi- 
rador e um amigo, que conhece e sabe ava- 
liar o seu merecimento, foi quem me deu no- 
ticias individuaes, e isto muito por acaso, por 
que eu não tinha conhecimento algum do tal 
João Baptista, mas vindo aqui á Livraria 
d'esta Casa me falou na sua Arithmetica uni- 
versal e me repetiu alguns versos dos que 
V. m. tinha feito ; depois me trouxe a Arithme- 
tica e os versos, os quaes actualmente paraíu 
na minha mão, 

«Quanto á confissão que V. m. faz dos 
seus erros, creio que é em parte necessária, 
e em parte não. E, primeiramente, pelo que 
toca aos versos, prescindindo da matéria, não 
são indignos de apparecer, por que em todos 



JOSÉ ANASTÁCIO D\ CUNHA 439 



elles os pensamentos são verdadeiros, e muito 
frequentemente nobres e poéticos ; assim a 
uns sustenta-os a verdade, a outros levanta-os 
a novidade, a belleza e ainda a sublimidade. 
A Ode sobre a Empreza da Academia de Va- 
lença é um Dithyrambo de que gostei muito. 
Os heróicos, que têm por epigraphe Veritati 
Sacrum contém muita cousa boa, e verdadei- 
ramente poética. Porém, a matéria de quasi 
todos os outros versos, não sei eu nem saberá 
ninguém desculpar. Corrompe e perde não só 
o christão, mas até o homem. Sim, estão de 
cousas doeste género cheias as obras dos poe- 
tas, mas a ninguém salvam os peccados dos 
outros. A Oração universal de Pope contém 
cousas que não cabem no animo christão. Ve- 
jo que V. m. hade dizer que brincava como 
poeta; porém, quando tornar a trazer á me- 
moria aquelles bons princípios que V. m. al- 
gum dia teve, e pelos quaes se escrupulisava 
até de abraçar aquelle género de vida, que 
não é de si máo, mas estava sujeito a alguns 
perigos da consciência, . . . conhecerá com o 
claro entendimento que tem, que fez mal.» 
Depois, tratando do manuscripto da Arithme- 
tica, no resto da carta allude á reforma da 
Universidade: «Estimarei que n'estes novos 
estudos da Universidade o empreguem a V. 
m., por que me persuado que hade ficar o 
publico bem servido, e a V. m. tiram-no da 
vida mais miserável que eu considero, que é 
a de soldado. — Tinha muito mais que dizer, 
mas é forçoso acabar, se fizer primeiro uma 
advertência, que nascerá do escrúpulo e não 
seria necessária, e é, que a verdade dos pen- 
samentos, de que falo acima, é a verdade pre- 



440 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



cisamente poética.» Esta carta de Fr. Joaquim 
de Foyos é datada de 17 de julho de 1772. 
(Fl. 46 e 47.) 

Effectivamente, a nomeação de José Anas- 
tácio para lente da Universidade em 5 de 
Outubro de 1773 era a consagração da fama 
da sua alta capacidade. A reputação de talen- 
to poético espalhara-se entre as damas da 
aristocracia, e D. Joanna Isabel de Lencastre 
Forjaz, da casa do Conde de Camaride (n. 23 
de Maio de 1745) com quem José Anastácio 
se correspondia, escreveu-lhe uma carta em 
4 de Novembro de 1775: «Os seus versos, 
que eu tenho lido muitas vezes, achando-lhe 
sempre uma nova belleza, bastam para dar 
um grande merecimento ao seu Autor ;, em 
que arrebatamento era necessário que a Alma 
estivesse quando se fizeram, quanto soffria o 
coração ! além d'isso as informações de um 
tão bom conhecedor como o seu amigo (se. o 
tenente João Baptista) e as de mil outras pes- 
soas que faliam no seu nome com respeito, 
tudo concorre para eu formar um justo con- 
ceito a seu respeito. Tenho uma impaciente 
curiosidade de saber toda a sua historia; não 
haverá umas férias que me dêem essa occa- 
sião? e será certo o que me disse o D. Eodri- 
go: Um Filosofo; traça um casamento? e ei& 
aqui a meu vêr uma contradicção da Filosofia. 
A sua correspondência fará menos triste a 
minha solidão; eu espero que m'a continue; 
sempre terei a satisfação de confessar-me — 
muito sua veneradora — Joanna IsabeL Lis- 
boa, 4 de Novembro de 1775. 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 441 



«Por que rasão não fizestes, 
Justos céos, por que razão, 
Menos áspera a virtude. 
Ou mais forte o coração ? 



«Quem sabe tão bem os direitos da Na- 
tureza, glosará muito bem este quarteto.» 
(FI. 45.) 

Esta illustre dama também dava motes ao 
poeta José Basilio da Gama; é provável que 
ella se referisse a qualquer boato de casa- 
mento do poeta philosopho com a Margarida. 
No interrogatório inquisitorial, explicando o 
que se passara com D. Joanna Isabel, diz: «E 
que em uma das occasiões que a visitou em 
Lisboa lhe deu uns Sonetos amatorios, que 
havia muito tempo havia feito, e nada conti- 
nham contra a Religião, por ella lhe ter pedi- 
do com instancia que desejava ver alguma 
obra sua;...» (fl. 108.) — «Perguntado, se al- 
guma pessoa lhe pediu que glosasse este 
quarteto. . . Disse, que este quarteto lhe man- 
dou a sobre dita senhora para glosar, de que 
elle se excusou, porque nunca se occupou 
n'este género de composição de glosar Mot- 
tes...» Pela sua simplicidade genial José 
Anastácio exercia involuntariamente um as- 
cendente moral sobre as naturezas femininas ; 
«Perguntado, se teve algumas discípulas da 
sua Filosofia, se lhes deu alguns livros, quaes 
foram, se lhes fez algumas traducções das 
obras de Vulter (sic) ou outros, e quaes fo- 
ram?» (Perguntas extrahidas do conteúdo de 
uma carta de 9 de Novembro de 1776, appre- 
hendida no seu espolio.) 

«Disse, que elle nunca tivera discípulas de 



442 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Filosofia, nem nunca admittira o nome de Fi- 
losofo ; e que só teve uma discipula chamada 
Dona Maria Ignacia Ferreira Souto, filha do 
Intendente geral da Policia, Ignacio Ferreira 
Souto, á qual ensinava a lingua ingleza, a 
qual sabe as linguas latina e franceza, e tem 
muitos conhecimentos e muita applicação ; e 
€onfessa que não fez eleição de livros correctos 
para lhe dar as sobreditas lições, e que lhe 
mostrou n'essa lingua Pope na Epistola a 
Luisa e Abelardo, na qual não havia cousa 
que elle conhecesse contraria á Religião, e 
lhe levou outros, como os Contos mojmes de 
Marmontel, Belisario, o SpectadoTy e uns vo- 
lumes de Voltaire, e que não deixou de lhe 
advertir antes que n'elles havia alguma cou- 
sa contra a religião que era preciso ser lida 
€om cautella, e que ella o segurou que nenhu- 
ma impressão lhe faziam as ditas cousas...» 
(fl. 109.) 

Conclusos os autos em 15 de Septembro 
de 1778, os Inquisidores de Coimbra lavra- 
ram o seu parecer, que o Dr. José Anastácio 
da Cunha era réo «convicto no crime de he- 
resia e apostasia, por se persuadir dos erros 
do Deismo, Tolerantismo e Indifferentismo, 
tendo para si e crendo que se salvaria na 
observância da Ley natural, como a sua rasão 
e a sua consciência lh'a ditasse...» O Conse- 
lho geral da Inquisição de Lisboa decidiu em 
6 de Outubro de 1778, que fosse ao Auto pu- 
blico de Fé, onde ouvirá a sentença, e depois 
da abjuração em forma. . . «será recluso por 
três annos na Casa das Necessidades da Con- 
gregação do Oratório... e degradado por 
quatro annos para a cidade de Évora, e não 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 443 



tornará mais a entrar na cidade de Coim- 
bra. . .» Celebrou-se o Auto publico de Fé na 
sala da Inquisição de Lisboa em 11 de Outu- 
bro de 1778 sob a presidência do Cardeal da 
Cunha. Um curioso que assistira a esse Auto, 
escreveu em mui^l Noticia presencial : «Emfim 
acabou-se a farça ; sahiram d'ahi os peniten- 
ciados para os logares das suas reclusões, e 
nós para o abundante jantar que nos deu o 
Cardeal.» ^ Perdoado o anno de reclusão, e o 
resto da pena em 1781, o despótico Intenden- 
te Manique chamou José Anastácio para a 
Casa Pia do Castello, para ensinar mathema- 
tica aos alumnos do Collegio de San Lucas; 
entre 1785 e 1786 teve o illustre mathemati- 
€0 uma polemica scientifica com José Montei- 
ro da Rocha, que assim o julgava: «tem o mio- 
lo desconcertado ou damnado o coração.» Jo- 
sé Anastácio da Cunha sentira um profundo 
abalo moral, que lhe minou a existência, 
soffrendo um ataque de stranguria, e conse- 
quentemente um derrame bilioso, que o victi- 
mou em dois dias, saccumbindo em 1 de Ja- 
neiro de 1787. Em uma carta de D. Domin- 
gos António de Sousa Coutinho, descreve-se 
a sua longa agonia, e estorcendo-se no leito, 
respondia aos que lhe perguntavam se soffria 
muito: « — Non, monsieur, je craindrais de ne 
mépriser assez la vie. — Some dreams of hu- 
manity, qui me dechirent plutôt qu'ils me con- 



1 Esta Noticia foi publicada em 1821 por João 
Bernardo da Rocha, no PortugueZy vol. 15 ; Innocencio 
deu uma copia a Camillo, que a reproduziu nas Noites 
de Insomniay (Novembro) p. 95 a 99. 



444 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



solent... — Foram as ultimas palavras que 
deu, e já não conhecia ninguém! 

«A sua morte foi lamentada e chorada em 
Lisboa. — Até no Paço era um homem incom- 
parável depois que o viram morto.» ^ 

Um companheiro do^Auto de fé de 1778, 
o mathematico portuguez João Manoel de 
Abreu (n. 16 de Abril de 1757, m. 1815) pu- 
blicou os Princípios de Mathematicas, que 
José Anastácio da Cunha estava escrevendo 
antes de morrer; appareceram em Paris em 
1811. ^ Da sua obra poética f aliou pela pri- 



1 Vid. Historia da Universidade de Coinihray 
vol. Ill, p. 685. — No Cartório da parochia de S. Pedro 
de Alcântara, está o assentamento do seu óbito no Li- 
vro III, fl. 50. 

*^ Sobre esta obra escreve Stockler no Ensaio his- 
torico sobre as Matheniaticas em Portugal: «Este li- 
vro, aonde brilha a mais admirável concisão, aonde ha 
sem duvida uma disposição inteiramente nova na dis- 
tribuição das doutrinas e sua deducção, e aonde se no- 
tam mesmo algumas ideias originaes, tem sido o ob- 
jecto de adfiiiração e louvor exagerado de alguns, e de 
censura acerba e desapprovação de outros. João Ma- 
noel de Abreu, sócio da Academia real das Sciencias de 
Lisboa e professor jubilado da Academia real da Mari- 
nha da mesma cidade, e do Real Collegio dos Nobres, 
que servira com José Anastácio no regimento de arti- 
Iheria do Porto, e fora seu companheiro de desgraça, 
traduziu e fez imprimir em francez o seu Compendio 
de Mathematica; e fazendo assim mais conhecido o no- 
me de José Anastácio, deu occasião a que o redactor 
do jornal inglez iwútnl^áo Edimburg Revieiu, ^iHoXy^^^- 
se aquelle livro, e proferisse o juizo em parte favorá- 
vel e em parte desfavorável, que d'elle fizera. Não agra- 
dou a João Manoel de Abreu a censura doeste jornalis- 
ta, e para convencel-o da falta de justiça com que pro- 
cedera, tomou o trabalho de o refutar em um escripto 
que publicou em os números 30, 31 e 32 do Investiga- 
dor portuguez em Inglaterra.^ (Op. cit.y p. 166.) 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 445 



meira vez Garrett na introducção do Parna- 
so lusitano, em 1826: «De José Anastácio da 
Cunha, que das mathematicas puras nos deu 
o melhor curso que ha em toda Europa, does- 
se infehz engenho (que talento houve já feliz 
em Portugal?) a quem não impediram as re- 
ctas de EucUdes, nem as curvas de Archime- 
des de cultivar também as musas; de tão il- 
lustre e conhecido nome que direi eu, senão 
o muito que me pesa da raridade das suas 
Poesias? Todas são philosophicas, ternas e 
repassadas de uma tam meiga sensibilidade 
algumas, que deixam n'alma um como ecco 
de harmonia interior que não vem do metro 
de seus versos, mas das ideias, dos pensa- 
mentos.» E alguma cousa lhe deveu Garrett, 
em uma vibração nova que apparece em par- 
te das Flores sem fructo, e n'esse realismo 
idealisado nas Folhas cahidas. 



Biblíographia das Poesias de José Anastácio da Cunha 

1809 

Na Collecção de Poesias inéditas dos melhores Autores 
portúguezes. Lisboa, na Impressão Regia. Anno 
1809, vol. i: 

Espera amorosa (p. 107); A ausência (p. 119); A 
Saudade (p. 110) ; Morrer de amor (p. 134); No 
intervallo de uma dolorosa doença (p. 115); A 
solidão do campo (p. 122); Mareia inconstante 
(p. 128); Falsidade de Altiza (p. 159); Um Epita- 
phio (p. 148); Oração universal (p. 123); Monolo- 
go de Voltaire (p. 145) ; Uma scena dramática (136); 
Os bosques de Amor (p. 89j. 



446 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1819 



No Investigador portugiiez em Inglaterra^ vol. iv, p. 33 
e seguintes : O Abraço ; — Noite sem somno ; — No 
intervallo de uma doença. 



1839 



Composições poéticas do Doutor José Anastácio da Cu- 
nha, natural de Lisboa, Lente de Mathematica na 
Universidade de Coimbra, falecido no annode 1787. 
Agora colligidas pela primeira vez. Lisboa, 1839. 
In-8.0 gj.^ de xiii — 207 pp. (Não declara o nome 
do colleccionador, mas Innocencio Francisco da Sil- 
va a si se declara no Dicc. bibl., t. iv, p. 221.) 

Inclue pela segunda vez, as poesias acima indi- 
cadas, e as seguintes : 

— A Declaração íp. 10); A Despedida (p. 29) ; Re- 
cordação de um objecto ausente (p. 32); Amor não 
correspondido (p. 51); O Presagio (p. 59); Lem- 
brançaí^ de um trespasso (p. 67); Idylio de Ges- 
ner (p. 72); Monologo de Racine (p. 79); Contra 
os Vicios (p. 90) ; Madrigal (p. 97) ; ,0s amores de 
Montano e de Euzelia (p. 98). Epistola de Eloisa a 
Abeilard (p. 143.) 

N^esta edição foi incluída a Voz da Rasão (ed. 
1822, 1826, 1834) attribuida a José Anastácio da 
Cunha; d^sso resultou o delegado do ministério 
publico Dr. Emygdio Costa dar querella por abu- 
so de liberdade de impreiísa em matéria religiosa 
contra Innocencio, sendo absolvido pelo Jury, como 
consta de certidão de 18 de Septembro de 1839. 

Innocencio reconheceu que a Voz da Rasão não 
foi escripta por José Anastácio. (Bicc.j t. iv, p. 225.) 



NAO INCORPORADAS! 

Traducção de uns Versos inglezes. ( Coll. de 1809, 
p. 142.) 

Sátira ao Dr. Botija (Francisco Dias Gomes.) Nas Noi- 
tes de Insomnia (n.« 10, p. 36 a 47.) 



JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA 447 



MANUSCRIPXOS: 

1.0 Do Tenente Baptista, em poder de Frei Joaquim de 

Foyos. (Í772.) 
2.0 Ms. in-8.^ pertencente a Francisco José Maria de 

Brito. 
3.*^ Ms. da Bibliotheca Nacional de Lisboa (X, 5, 50, fl. 

13 a 26.) Apenas três poesias: Epitaphio; O Pre- 

sagio ; A infeliz noticia. 
4.0 Ms. visto por Innocencio; continha: Versão da& 

Odes 1.% 2.^ e 3.^ de Anacreonte; e da 3.»doliv. 3 » 

de Horácio. 

— Carta a Doris, trad. de Haller, com 157 endecasyl^ 

labos ; 

— Perdidas : Sonetos amato7'ios (confiados a D. Joan- 

na Isabel Forjaz) : e Dithyrambo á empreza da Aca- 
demia de Valença. 



IV 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 



Sob o governo do Reitor Eeformador Dom 
Francisco de Lemos fora perseguido e arran- 
cado ao ensino da Universidade de Coimbra 
o insigne mathematico José Anastácio da Cu- 
nha; mas, apezar de auctoritario, o Bispo- 
Conde, como pombalista, não dava garantias 
de êxito do novo regimen de intolerância re- 
ligiosa e intellectual na Universidade, e foi 
substituído pelo Principal da sé patriarchal 
de Lisboa Francisco Xavier de Mendonça, 
em 25 de Outubro de» 1779. Como se não 
bastasse o impulso da sua própria boçalida- 
de, dirigiu-lhe o Visconde de Villa Nova da 
Cerveira um Aviso em data de 22 de Dezem- 
bro de 1779, fazendo-lhe sentir o cuidado que 
causa «o ver a mocidade que a ella (Univer- 
sidade) se vae instruir, muitas vezes levada 
do inconsiderado amor de saber mais, se 
applica â lição voluntária de Livros de er- 
rada doutrina, e perigosos para os ânimos in- 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 449 



cautos e ainda mal instruídos, e por esta cau- 
sa se precipita em desatinos, que insensivel- 
mente OS levam a perigar nas cousas contra- 
rias á nossa santa religião...» Além de re- 
commendar toda a vigilância sobre os estu- 
dantes, mandava-lhe que admoestasse os len- 
tes de todas as Faculdades para vigiarem so- 
bre este mesmo assumpto os seus alumnos; 
em carta regia de 17 de Janeiro de 1780 in- 
sistia o ministro na necessidade de apartar os 
estudantes de tudo o que os podesse prejudi- 
car na religião. A par das disposições do mi- 
nistro trabalhava a Inquisição de Coimbra, 
estendendo a rede e encarcerando os estu- 
dantes que liam livros francezes, e que por 
isso incorriam no crime de Encyclopedistas, 
Naturalistas, e especificadamente de lerem 
Rousseau! Entre esses estudantes, foram al- 
guns que tinham o talento poético, e um, que 
escreveu um poema heroi-comico, que correu 
anonymo, em que se descrevia o retrocesso 
da Universidade sob a reacção anti-pombali- 
na, e em que o Principal Mendonça era mar- 
cado com o ferrete da sátira immortal. Es- 
cripto em 1782, em quinze dias, o poema caiu 
como uma bólide em Coimbra, no meio do hie- 
rático boçalismo doutoral. Não foi possível 
abafar o seu effeito ; era como um gaz dele- 
tério que se infiltrava, que dissolvia essa sa- 
tisfação do pedantismo inconsciente. D'onde 
viria a sátira? D'entre alguns lentes pomba- 
listas? D'entre os estudantes críticos ou da 
boa-feição? 

O poeta personifica a Estupidez em uma 
divindade, que se sente banida do norte da 
Europa, aonde as nações civilisadas repellem 



450 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O seu culto pelo progresso das sciencias, e 
convocando o conselho do Fanatismo, da Hy- 
j)ocrisia e da Superstição, deliberam e resolvem 
refugiar-se nas Hespanhas. Chegados a Lis- 
boa, hesitam se devem ficar na capital do lu- 
so reino, se irão para Madrid ; começam a fa- 
zer as suas pesquizas, notam os roubos e as- 
sassinatos nas ruas, os exorcismos rendosos 
de frades capuchos, romarias, novenas, via- 
sacras, mas em conclusão, Lisboa não offere- 
ce estabilidade: 

N^esta corte, annos ha, se tem fundado 
Uma cousa chamada Academia. . . 

E então o Fanatismo opina, que se fixem 
em Coimbra, d'onde ha poucos annos tinham 
sabido : 

O meu voto é que vamos demandando 
O mesmo assento, d'onde foi lançada 
A mansa Estupidez injustamente; 
Cobrar novos esforços é preciso, 
Que por fim a victoria está segura. 

Em Coimbra começa o alvoroço entre os 
estudantes e o corpo docente para receberem 
magestaticamente a Estupidez ; os Conventos, 
que abarrotam a cidade, fornecem-se de pre- 
suntos e de vinho, e o Principal Mendonça, 

Da Universidade o grande Chefe, 
Um Claustro universal convoca logo. 

Ahi, na Sala dos Capellos faz o discurso 
inaugural o lente de prima de Theologia, su- 
stentando que por direito divino e humano se 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 451 



devem restituir á Estupidez a sua dignidade 
e soberania de que fora esbulhada, e n'um 
transporte exclama, ainda lembrado do pro- 
cesso do lente José Anastácio da Cunha : 

De que podem ^ervir estes estudos 
Que mais da moda se cultivam hoje? 
A barbara Geometria tão gabada, 
Que mil proposições todas heretic^ 
Aqui faz ensinar publicamente, 
Sabeis para que presta n^este mundo ? 
Diga-o a Inquisição, e mais não digo. 

Historias Naturaes, Phoronomias, 
ChhnicaSj Anatomias, e outros nomes 
Difficeis de reter, são as sciencias 
Que vieram trazer os Estrangeiros. 

Quando chega a vez de José Monteiro da 
Rocha (Tirceo) fallar, elle nota a contradição 
em que se acham, e pela referencia á morte 
(lo Marquez de Pombal, vê-se que o poema 
fora elaborado em 1782: 

Das vossas mesmas boccas retumbaram 
Cânticos de louvor n'estas paredes. 
O triumpho cantastes na presença 
Do zeloso Ministro respeitado. 
Que differente linguagem hoje escuto ! 

Oh tu, sombra immortal, oh grão Ministro, 
Da face do teu Deus, onde repousas. . . 
Vem um instante apparecer agora. . . 
Blasphemias ouvirás . . 

Xos Collegios dos Borras e dos Mangan- 
chas (de S. Pedro e de San Paulo), trata-se 
dos preparativos da recepção, e o Ptcitor 
manda lavrar o Edital chamando os Lentes, 



452 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Doutores e estudantes para irem em Préstito 
receber a Estupidez á chegada. O ultimo can- 
to é a recepção da Deusa, e sua hospedagem 
no mosteiro dos Cruzios, os discursos de feli- 
citação, a offerta do poema A Joaneida ^ e a 
vassallagem dos doutores, que são accolhidos 
com benção pela phrase: — « Continuae, como 
sois, a ser bons filhos.» O despeito causado 
pelo poema, que apenas circulava manuscri- 
pto em pequeno numero de exemplares, foi 
enorme, como se verifica pela quantidade de 
versos em réplica, que provocara. Transcre- 
vemos alguns d'elles, ainda inéditos, por onde 
se avalia a intensidade da impressão : 

— Poema, d^onde vens? 
«De perto venho. 

— Quem te trouxe com sigo? 
«Não direi. 

— Tens patrono na terra? 
« Alguns tenho. 

— Que nomes são os seus? 
«Calar jurei. 

— Nasceste ha muito tempo ? 
«Ha mais de um mez. 

— Quem te gerou ? 

«A mesma Estupidez. 

Ao Epigramma acerbo, seguiam-se Sone- 
tos virulentos, com incerto objectivo: 

«Vendo em silencio estar suas façanhas, 
A velha Estupidez ardendo em ira. 
Da culta Europa vários povos gira, 
Até que emfim aporta nas Hespanhas. 



1 Poema de José Corrêa de Mello e Brito d^Alvim 
Pinto, impresso em Coimbra em 1782. 1 vol. in-12.o 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 453 



Algumas horas, róem-lhe as entranhas 
Ver que não acha quem os ares fira, 
Cantando ao som da harmoniosa Lyra 
Suas grandes acções, artes e manhas. 

Corre a Coimbra, e achando o que deseja, 
Off^rece a certo vate uma coroa, 
Que de seus versos digno premio seja. 

Eis que elle a trompa dissonante entoa, 
A Deusa invoca, suas plantas beija, 
Canta seus feitos, e com elle vôa. 



Com effeito chegou a Estupidez ? 

E' certo, e mais que certo, e vem aqui 

Parir um filho, que anda por ahi 

Tal como a mãe e como o pae que o fez. 

E' insulto grosseiro e descortez ; 
Esconde-se, e apparece aqui e ali, 
E quem quer que o vê d^elle se ri. 
Mas ninguém o quer ver mais que uma vez. 

E' monstro, na verdade, o tal rapaz 
Que não sabe o que faz, nem o que diz; 
Mas quer morder em todos por detraz. 

Se a torpe Estupidez lograr-nos quiz. 
Foi desgraça parir; mas vá-se em paz, 
Tal foi o parto como o seu nariz. 

E' também como expressão de surpreza 
que começa o Dialogo do bacharel António 
Izidoro : 

— Viu, amigo, um papel famigerado 
Que se lê por ali muito em segredo, 
Por sátira subtil acreditado ? 

< Que papel ? — Um papel. . . mas tenho medo 
De fallar n^estas cousas, por que alguém 
Não succeda metter-me n^este enredo. 



454 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



« Pois tal é o papel, cousas contém 
Que é crime publical-as ? Certamente 
Obra não pôde ser de homem de bem. 



— Dizem que o tal papel é destinado 

A castigar zombando o damno horrendo, 

Que a velha Estupidez tem motivado. . 

« Tenha mão, meu amigo, agora entendo 
^ Do que me quer fallar ; já toda inteira 
Li essa papelada, e me arrependo, etc. 

No poema satírico O Zelo, offerecido aos 
amadores da Estupidez, descrevem-se os vá- 
rios pasmatorios aonde se discutia o valor do 
poema e quem seria o seu auctor: 

Era a loja do Alves ; lá se achava 

Uma corja de mestres de guedelha, 

Que batendo nas mezas recitava 

A^cerca do Poema quanto a orelha 

Pescar pôde por casa dos freguezes, 

Que o peito lhe abrem pelas mais das vezes. 

O Silva sustentava, que a obra fora 
Engendrada em cabeça de mais pezo; 
O Santos diz, que ouvira a uma senhora, 
Oh, cáspitè ! que o traz em ferros prezo. 
Que sabia quem era, e não passava 
D^aquelles a que a malha fofa honrava. 

O magro Bruxo erguendo a voz cansada 
E dormente, dizendo que o fizera 
Um sujeito assistente na Calçada. 
O Martins praguejando, affirma que era 
O Caldinhas, que em doce paz descança 
Nas regiões da astuta e sabia França. 

Outro disse d^alh*, que tinha sido 
O pequeno Malhão^ outro, que o velho; 
Outro disse, que fora produzido 
Por homens de saber e de conselho. 
Que nas letras ha muito floresciam, 
Opinião que os mais todos seguiam. 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 455 



Na Kesposta á Ode a Fileno, em que Fá- 
bio descreve a antiga Universidade e a mo- 
derna da reforma pombalina, também se 
apontam os auctores do poema da Estupidez : 

Eli, de um lente moderno 
Que fabricou aqui a Estupidez, 
Por gentil e por terno 
Quizera perdoar-lhe doesta vez. 



A' memoria me vem, 

Fileno, pensamentos efficazes, 

Que a Estupidez é mãe 

De dois estupidantes, dois rapazes. , . ^ 

Embora se não soubesse quem fora o au- 
ctor do Poema, por um vago indicio se nota- 
vam dois collaboradores, pelas differenças de 
estylo. Em uma Sátira de António Izidoro da 
Silva, bacharel em Cânones, e que foi bedel 
d'essa Faculdade, lê-se : 

Mas é certo que encontro differença 
Nos estylos da obra, e que é forçoso 
Que a suppôr dois Autores me convença. 

Qualquer dos dois é pouco venturoso; 
Mas um mais infeliz, bem que ambos tenham 
Negação para o verso numeroso. 

Talvez que por disfarce elles se empenham 
Em fazer versos máos, porque os leitores 
Suspeitas de homens doutos nunca tenham... ' 



^ Ms. apud Historia da Universidade de Coim- 
bra, t. Hl, p. 688, e 695. 

2 Poesias varias, t. viii, p. 389. Ms. (Mihi.) 



456 ' HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Em outro logar doesta Sátira em dialogo, 
dá António Izidoro a entender que escreve- 
ram o poema homens conceituados: 

Por certo, meu amigo, estou pasmado, 
Do que lhe tenho ouvido ; outro conceito 
Do apontado papel tinha formado. 

Dito me haviam, que elle fora feito 

Por homens de iiistrucçãOy de quem o gosto 
Devera produzir mais bello effeito. 

Eu não sei quem o fez. Isto supposto, 
Fallo mais livre, pois que a verdade 
Não temera dizer-lh^a rosto a rosto : 

Serão Mestres em outiva Faculdade^ 
Mas, em ponto de versos certamente 
Inculcam muito pouca habilidade. 

Os preceitos ignoram totalmente 

Prescriptos aos Poemas, ou se esquecem, 
Dos mesmos que aprenderam torpemente. 

A Sátira provocou dois Sonetos virulentos 
contra o bacharel bedel, insultando-o como 
filhote (natural de Coimbra) : 

Que provas tens, praguejador maldito, 
De que foram Autores os que apontas 
N^esse fértil montão de vis affrontas. 
Sem graça feito, e só por ódio escriptoV 

Dize mal do Poema, eu t'o permitto. 
Dos preceitos lhe pede exactas contas ; 
Mas, vãs suspeitas de cabeças tontas 
Por certas espalhar é grão delicto : 

Se tivesses, acaso, tal certeza, 
Deveras em teu peito il-a occultando, 
Que assim faz sempre quem a honra presa. 

Mas estou sem reparo cogitando ! 
Como não entrará em ti vileza. 
Se a honra em filhote é contrabando ? 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 457 



Ao MESMO Autor 

Que fizeste, Izidoro? Estás perdido. 
Foram-te ao folP ? Quebraram-te o espinhaço ? 
Mordeste ; porém tu em breve espaço 
Ficaste por desgraça remordido. 

No Dialogo logo foste conhecido; 
E vê de que serviu o teu cansaço; 
Queres fazer versos de mestraço, 
E ficas por Dom Félix conhecido. 

De fazer versos deixa ; porque juntas 
Nos Sonetos Inez morta em garrote, 
Com grosseiro pincel, grosseiras tintas. 

Embrulhado no sórdido capote, 
A vida vae gastando, não consintas 
Que te lancem no rosto o ser Filhote, ^ 



As suspeitas esboçadas no Dialogo de An- 
tónio Izidoro foram postas em claro em um 
Soneto anonymo, que apontava como au- 
ctores do Poema os Doutores Ricardo Ray- 
mundo Nogueira e António Ribeiro dos San- 
tos, um legista, outro canonista, ambos do 
CoUegio dos Militares : 

Ricarte ^ de Normandia e Oliveiros, ^ 
Do grande Rei de França illustres Pares, 
Não fizeram acções mais singulares, 
Que do Poema os nobres Cavalleiros. ^ 



1 Ihid., p. 391 e 392. 

' Ricardo Raymundo. ^ António Ribeiro. * Dos 

Militares (se. Collegio). 



458 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Aquelles, a exércitos inteiros 

Destruiram, niatando-lhes milhares ; 
Do Poema os valentes Militares 
Obraram ainda mais que os primeiros. 

Para aquelles não houve fino arnez, 

Corpulento Gigante, armas de Marte, , 
Que a espada não cortasse de uma vez. 

A lingua d'estes teve melhor arte ; 
Porque, cantando a sua Estupidez ' 
Feriu mais que Oliveiros e Ricarte. 

Eicardo Eaymundo Nogueira ^ teve a ha- 
bilidade de afastar de si a imputação, com 
aquella solercia com que conseguiu passar 
como um grande homem, e entrar no Conse- 
lho da Eegencia do Eeino de 7 de Agosto de 
1810 até 15 de Agosto de 1820. José Agos- 
tinho de Macedo, que escrevera o seu Elogio 
histórico, ao refazer o Poema Os Burros cha- 
ma-lhe chocho Mecenas. Também se lhe attri- 
bue o ter-se opposto em 1818 a que se levan- 
tasse em uma praça publica um monumento 
a Camões. 

António Eibeiro dos Santos ficou sósinho 
sob o pezo d'essa imputação perigosa e de 
terríveis vinganças; fizeram-lhe vários Sone- 
tos acrósticos: 



1 Natural do Porto, onde nasceu em 81 de Agosto 
de 1746; morreu em Lisboa em 7 de Maio de 1827. 
Traduziu as Pastor aes de Gessner (1778) e a Poética de 
Aristóteles (1779); imprimiu em 1814 ^ Serra de Cin- 
tray em 70 septinas; na Collecção de Poesias inéditas, 
t. n, o Sonho (p. 68 >; Epicedio (p. 71); Canção (p. 168), 
segundo affirmação de Nolasco da Cunha 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 459 



Ao AUTOR DA Estupidez: 

í> vossa má conducta descoberta 

í^ o publico está, sábio maldito! 

Hu, pae da Estupidez e filho és dito, 

O mundo todo por teu castigo aperta. 

í^ o PreTado poderoso tu acerta, 

h-i ndifferentes acções has irritado, 

O Bezerra, Bustoque e mil has censurado, 

casões não busques; tua crise é certa. 
HH ulgavas que se não conheceria 
W em o Autor ? não viste que o diabo 
H ra quem taes cousas logo descobria! 
i-" nfame ! a tuas Sátiras põe cabo, 
falhar de tudo não queiras, e sacia 
O furor da tua lingua no meu r... 



Não transcrevemos um Soneto acróstico 
em defeza, por estat imperfeitamente metri- 
ficado. Publicamos outro, que tem esta no- 
ta: «Suppõe-se que a Estupidez foi feita por 
dois Collegiaes das Ordens Militares, que têm 
querido annullar o voto para casarem; e ca- 
sando ambos, concebeu hum e veiu a parir a 
Estupidez, pois se suppõe que hum fez os 
dois primeiros cantos, que estão mais traba- 
lhados, e outro os outros dois» : 

Casemos ambos, já que não podemos 
Casar com outrem ; (então propuzera 
A Arrogância, de si vaidosa e fera, 
A seu irmão Rancor, que diz) — Casemos ! 

Que a Dissimulação fazendo extremos 
Ali medianeira interviera, 
E que por paranymphos escolhera 
O Orgulho, a Inveja, a Raiva, bem sabemos. 



460 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Accende o Orgulho o facho nupcial ; 
A noiva conduzida pelos três, 
Sobe do irmão ao thálamo fatal. 

Preside ao parto, que o incesto fez, 
A Calumnia infiel, fúria infernal, 
E nasce o horrendo monstro Estupidez. 

[Ib,, p. 401.) 

António Ribeiro dos Santos estava fora 
de Coimbra, e ao Porto chegaram os eccos da 
malévola imputação, que conseguiram inquie- 
tal-o. Transcrevemos dos seus Manuscriptos 
algumas cartas, que esclarecem este capitulo 
de historia litteraria e pedagógica : 

« Meu amigo, — as noticias que me man- 
daes, não são de contentamento; corre já por 
lá o Poema da Estupidez, e sou abocanhado 
por autor d'elle. Com effeito houve quem se 
atreveu a imputar-me essa obra : fundou-se 
em conjecturas, que outros colheram como 
certezas sem mais exame ; o que serve de mos- 
trar quanto é crédula a mahgnidade humana. 
Porto, etc.» ^ 

N'esta outra carta diz d'onde nasceu a 
calumnia : 

«Meu amigo — Já que me interrompeis o 
meu profundo silencio e me inquiris sobre a 
origem que deu occasião a me imputarem o 
Poema da Estupidez que tanto arruido fez 
em toda a parte, fallarei uma vez por mim, 
e a um amigo : Appareceu em Coimbra o Poe- 
ma da Estupidez, filho supposto de quem 
nunca se conheceram ao certo os verdadeiros 



Mss., vol. 130, fl. 93. (Na Bibl. nac. de Lisboa.) 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 461 



paes. Esta peça é hoje desprezada quanto 
então applaiidida; que esta é a sorte de todas 
as obras que não tem outro merecimento que 
o da Sátira. Ella, com effeito, não tinha ou- 
tro, nem era notável se não pelas descripções 
pueris mas picantes com que espalhava o ri- 
dículo sobre algumas pessoas, e isto foi o que 
lhe deu um prodigioso concurso e voga ; es- 
queciam os defeitos do estylo e da poesia á 
sombra da malignidade da obra; alguns m'a 
imputaram por malignidade para me perde- 
rem, outros por beneficência para me exalta- 
rem; estes últimos, que a admiraram de boa 
fé como ao Lutrin de Boileau, e a julgavam 
útil para a correcção dos costumes, entende- 
ram que só eu era capaz de a ter feito. Assim 
um Poema, que eu não tinha feito e que nem 
tinha ainda visto até então, me atrahia de to- 
das as partes louvores e maldições. O Padre 
Luiz Roiz Villares, ex-jesuita, collegial do Col- 
legio de San Pedro, foi o primeiro que se lem- 
brou de me aquinhoar com esta obra.., 
. . . sobre apparencias frívolas e conjecturas 
miseráveis precipitou o seu juizo, e sem mais 
exame me deu por author da que sobre este 
juizo vago e incerto do primeiro calumniador 
se fundaram e estenderam todas as invecti- 
vas dos segundos; fui abocanhado, persegui- 
do, satirisado, e posso dizer com Sá de Miran- 
da no seu soneto : 

Dei que f aliar em mim ao longe e ao perto.» ^ 



1 Mss., vol. 131, fl. 140. 



462 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Era conhecida uma grande malevolencia 
do Principal Mendonça, Reitor Reformador 
da Universidade, contra o lente canonista Ri- 
beiro dos Santos, tendo por pretexto o não 
se querer este dar por suspeito na questão 
da censura prévia das theses ou Conclusões 
magnas. Em uma das suas cartas intimas es- 
creve Ribeiro dos Santos acerca do Principal 
Mendonça, o heroe do Poema da Estupidez: 

«Este fidalgo é muito afferrado aos estu- 
dos e opiniões com que foi creado, e é muito 
sensível á adulação ; sempre o governou quem 
teve a baixeza de o lisongear, por mais gros- 
seira e sórdida que fosse a adulação e lison- 
ja; é por extremo teimoso, e reputa por alti- 
vez e attentado sacrílego a mais leve diffe- 
rença de opinião que encontra nos outros. 
Ultimamente é parcial declarado do seu Col- 
legio de San Paulo, e assenta que deve seguir 
o partido do Collegio em todas as occasiões 
que se offerecerem. 

«Havendo no Principal estas disposições, 
logo desde o principio do seu governo me foi 
desaffeiçoado, primeiramente, porque o puze- 
ram logo na persuasão de que as minhas 
opiniões eram diversas das suas; depois, con- 
siderava-me como creatura do seu antecessor 
(D. Francisco de Lemos) a quem elle aborre- 
cia como declarado Pombalista; além d'isto 
eu era do Collegio das Ordens Mihtares e não 
de San Paulo, a que elle pertencia, e sabeis 
as intrigas dos CoUegios. Demais, supposto 
que o tratasse sempre com o respeito e reve- 
rencia devida ao seu logar, nunca comtudo 
me humilhei a lisongeal-o com abatimento e 
a fazer-lhe elogios aduladores e rasteiros. 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 463 

'orque as pessoas que elle tinha ao seu lado, 
imbiciosas de o dominarem sem competidor, 
conjuradas contra todos os que não se- 
guiam o seu partido, fomentaram estas mi- 
nhas ideias, e se approveitaram de todas as 
occasiões de me malquistarem com elle, re- 
presentando-me como um homem soberbo 
í:iue queria passar por superior aos demais 
homens. 

«Estas eram as disposições do Principal- 
Reformador, quando desgraçadamente appa- 
receu o chamado Poema da Estupidez, Pare- 
(3 impossível que houvesse pessoa que me 
onhecesse, a quem podesse occorrer bapti- 
ar-me por autor d'este Poema. Eu, certamen- 
0, não presumo de Santo, nem de Poeta; 
nas cuido que nem me reputam tam maligno 
3 insolente, que me atrevesse a escrever uma 
Sátira que desacredita os meus companheiros, 
) meu Prelado e a minha Nação; nem tão 
gnorante que, resolvendo-me a pegar na pen- 
la para compor taes desatinos, tivesse a lou- 
cura de publicar versos tão miseráveis. Com- 
ando, houve quem aproveitasse a occasião de 
ne infamar; e apesar da summa improbabi- 
idade para semelhante imputação, da opinião 
jontraria de todos os homens sensatos e des- 
apaixonados, e da gravidade do caso, consta 
que algumas pessoas das que mais figuram 
ia Universidade tiveram a ousadia de dize- 
em ao Principal que eu era o autor cio Poe- 
aia, e de fazer circular a calumnia entre os 
seus parciaes e apaniguados. 

«O argumento de que principalmente se 
valeram foi, que fallando-se no Poema em 
CoUegio de S. Pedro, e apparecendo pelo seu 



464 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



nome alguns indivíduos do de S. Paulo, ha- 
via alto silencio a respeito dos Collegios Mi- 
litares ; logo, diziam elles, o autor pertencia 
a este Collegio; e como sabiam que eu tinha 
feito algum verso n'outro tempo, concluíram 
que também agora havia escripto esta Sátira. 
Se esta casta de gente fosse capaz de proce- 
der de boa-fé, e com desejo sincero de desco- 
brir a verdade, conheceria á primeira vista: 
1.^ que f aliando o Poema indistinctamente em 
Collegios, comprehendia também n'esta gene- 
ralidade o das Ordens Militares ; 2.^ que ainda 
quando a respeito d'este se guardasse silen- 
cio, podia isto proceder ou do acaso ou ainda 
da affeição que o auctor da Obra tivesse 
áquelle Collegio, sem d'ahi se poder concluir, 
que elle pertencia áquella casa; 3.^ que se o Au- 
tor fosse Collegial dos Mihtares por isso mes- 
mo havia de tocar no seu Collegio para remo- 
ver toda a suspeita e evitar que se f aliasse 
n'elle; 4.° ultimamente que, ainda quando 
contra a rasão e verosimilhança se podesse 
conjecturar que o autor pertencia aos Mihta- 
res, não havia fundamento algum para se pôr 
o dedo em mim, sendo constante que eu era 
naturalmente sério e mui recatado em fallar 
das pessoas da (Universidade?) 

«Estas provas, e outras ainda peiores in- 
culcadas com arte, em occasiões opportunas, 
e ora em tom persuasivo, ora em ár de com- 
paixão, como quem se condoía de que eu ap- 
plicasse tão mal os meus talentos, produziram 
ao que julgo todo o effeito que os calumnia- 
dores pretendiam. O Principal estava costu- 
mado a crer cegamente quanto elles lhe di- 
ziam, e as provas mais fracas, a que talvez 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 465 



accrescentariam factos absolutamente falsos, 
lhe pareceriam na sua bocca argumentos de 
irresistível evidencia; e como tudo isto acha- 
va já um animo disposto e preoccupado, as- 
sentou francamente que eu tinha sido o au- 
tor d'aquella obra ; cresceu por conseguinte 
aquella sua aversão, desejou ter meios de se 
desaggravar, e assentou em approveitar toda 
a occasião de me mortificar e opprimir. Offe^ 
receu-se log^ na Congregação de 7 de janeiro. 
Os seus validos, que me tinham representado 
como homem altivo, insolente e desattento 
quando me deram por autor do Poema, lhe 
haviam dito que eu era um dos que pensa- 
vam suscitar na Faculdade de Cânones que o 
Presidente devia subscrever as theses antes 
da censura, só a fim de vexar e descompor 
os lentes de prima, e de censurar e desappro- 
var o que elles tinham authenticado com a 
sua firma ; e que todo o meu systema era sin- 
gularisar-me dos outros, desprezar a sua lit- 
teratura e o seu methodo e mostrar-me supe- 
rior; cheio d'estas preoccupações entrou, o 
Principal na Congregação, e com taes dispo- 
sições nem é de admirar que tudo o que eu 
dissesse, por mais commedido e ajustado que 
fosse, lhe parecesse cheio de acrimonia e al- 
tivez, nem que depois exagerasse as minhas 
acções na presença de S. Mag.^^ figurando-as 
como factos insolentes, altivos e tumultuosos. 
Dei-vos conta de toda a historia, e ficae sa- 
bendo cada vez mais o que são os homens.» ^ 
Transcrevemos ainda uma outra carta de 



1 Mss., vol. 130, fl. 27 a 31. (Bibli. nac. 

30 



466 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Kibeiro dos Santos, em que allude á velha 
mania religiosa ou seita da Jacobéa, que o 
Principal Mendonça considerava. Em um dos 
manuscriptos do Reino da Estupidez encon- 
trámos a seguinte dedicatória: — O e C, A'' saii- 
dosissima memoria do Ex:''"" e Rev/"" D. Fr. 
Gaspar da Encaríiação e Moscoso, devoto Re- 
formador da Universidade, Anno de 1785. 
Fora este augustiniano o iniciador da Jaco-^ 
béa na Universidade. 

«Meu amigo — Perguntaes-me de d'onde 
vem tamanho ódio, que me tem o Principal 
Keformador, que assim sollicitou vêr-me fora 
de Coimbra? Dir-vos-hei. A Aristides no os- 
tracismo, só por que era varão justo, deseja- 
va um que fosse desterrado ; não sou eu tão 
louco, que me compare nem ainda mui de lon- 
ge com este homem; mas, é certo que o que 
demoveu o coração do Principal para me fa- 
zer todo este mal, foi o conceito que lhe me- 
reci de ser homem com quem se não podia 
contar para partidos. Eu não era collegial do 
seu Collegio, e nunca podia ser um Decreta- 
lista e Ultramontano, nem Jacobéo!» ^ 

«Meu amigo — Cá me chegam as noticias 
de Coimbra, postoque vós m'as recataes. Sei 
que os meus inimigos cantam victoria, e que 
não contentes de me terem longe espalham 
sobre a minha memoria sarcasmos e criticas 
violentas, mas taes que depressa caem no 
mesmo lodo de que sahiram. Sabei comtudo, 
que se houve Lentes e Oppositores, que se 
alegraram com a minha retirada, houve estu- 



1 Mss., vol. 181, fl. 19. 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 467 

dantes que choraram saudosos de mim; e se- 
riam necessárias muitas criticas e sátiras para 
me extinguirem o prazer que uma só doestas 
lagrimas me tem dado.» ^ 

Como vimos pela referencia do poemeto 
O Zelo, também se attribuia a composição da 
Estupidez ao Caldinhas. Se nos lembrarmos 
que no Auto de Fé que se celebrou na Sala 
do Santo Officio de Coimbra em 26 de Agos- 
to de 1781, figura com o numero 5 — «Antó- 
nio Pereira de Sousa Caldas, Estudante, na- 
tural do Rio de Janeiro, Hereje, Naturalista, 
Deista e blasphemo :>> vê-se que a malevolen- 
cia da terra lhe imputava o poema, por que 
elle se achava a salvo em Paris. A imputação 
era boçal, pelo que se conhecesse da passivi- 
dade da sua organisação. Sousa Caldas tor- 
nou-se uma das glorias da poesia brasileira, 
e por isso competem-lhe algumas linhas bio- 
graphicas. Nascido no Rio de Janeiro em 24 
de Novembro de 1762, aos outo annos de 
edade veiu para Lisboa confiado a uns paren- 
tes, por motivo da sua debilidade. Apezar da 
sua reconstituição, ficou-lhe essa Índole me- 
lancholica, que explica as manifestações e o 
destino da sua vida. Aos dezeseis annos foi 
frequentar a Universidade de Coimbra, n'esse 
mesmo anno em que José Anastácio da Cu- 
nha era arrastado ao cárcere inquisitória), e 
a reforma pombalina sustentada por D. Fran- 
cisco de Lemos era atacada pelo Principal 
Mendonça. N^esse vórtice de insânia, Sousa 
Caldas denunciado ao Santo Officio como 



Ihid,, fl. 19 t' 



468 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

pedreiro-livre era abruptamente preso. Em 
um Soneto descreve a sua vida até essa ter- 
rível data : 



Outo annos apenas eu contava 
Quando á fúria do mar abandonando 
A vida em frágil lenho, e demandando 
Novos climas, da pátria me ausentava. 

Desde então á tristeza começava 
O tenro peito a ir acostumando ; 
E mais tyranna sorte adivinhando 
Em lagrimas o pae e a mãe deixava. 

Entre ferros^ pobreza e enfermidade, 

Eu vejo, ó céos ! que dôr, que impia sorte ! 
O começo da mais risonha edade. 

A velhice cruel (oh dura morte ! ) 
Que faz temer tão triste mocidade, 
Para poupar-me descarrega o corte. 



O poeta contava então dezenove annos, 
e em attenção á sua pouca edàde, foi senten- 
ciado a ir clausurado para os PP. catechistas 
de Rilhafoles, a arbítrio. Ahi viveu com a se- 
renidade do retiro que lhe era castigo, impres- 
sionando os próprios catechistas. Por princí- 
pios de 1782 recebeu a noticia da morte do pae; 
veiu-lhe então uma doença nostálgica, e como 
único tratamento foi aconselhada uma via- 
gem a França. Em Paris se achava quando 
appareceu o Poema da Estupidez; de regres- 
so a Portugal foi completar o curso de leis a 
Coimbra, sendo-lhe offerecida a nomeação de 
Juiz de fora de Barcellos, que recusou, seguin- 
do em piedosa viagem a Roma, onde recebeu 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 469 



ordens de presbytero. O seu talento poético 
deu expressão ao sentimento religioso, cul- 
tivando o género sacro e traduzindo vários 
Psalmos. Em 1801 foi ao Rio de Janeiro visi- 
tar sua mãe; era já então muito distincto 
como pregador; em 1807 acompanhou a Fa- 
mília real portugueza, que fugia para o Bra- 
sil ante a Invasão napoleonica, e sendo-lhe 
offerecido o bispado do Rio de Janeiro recu- 
sou-o na sua simplicidade, terminando a vida 
em 2 de Março de 1814. ^ 

Entre os indiciados auctores do poema da 
Estupidez apontavam-se os dois Malhões, am- 
bos conhecidos como poetas, que frequenta- 
vam por este tempo a Universidade. O Ma- 
lhão pequeno era o mais novo, António Go- 
mes da Silveira Malhão; nascido em Óbidos 
por 1758, filho do bacharel Agostinho Gomes 
da Silveira e de D. Maria da Conceição Diniz ; 
morreu em dezembro de 1786, e seu irmão 
colligiu os seus versos, publicando onze So-. 
netos, sete Odes, uma Epistola, e quatorze 
Sextinas. O Malhão velho era Francisco Ma- 
noel Gomes da Silveira Malhão, nascido em 
22 de Septembro de Vlhl ^ em Óbidos, e o 
primogénito de seis irmãos ; era um poeta de 
humor aventuroso e um continuador das tra- 
dições escholares do Palito métrico, ^ Pela 



1 Revista trimensal, t. ii, p. 126. (1841.) As suas 
Obras poéticas imprimiram-se em Paris, 1820-21. 

2 Na Macarronea foram incorporados estes seus 
escriptos : A vaidade ridícula ; Sátira em louvor das 
Modas: Sábio em mez enteio; Economia escholastica. 



470 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



morte de sua mãe, e recusa de seguir o esta- 
do ecclesiastico, viu-se abandonado pelo pae, 
vivendo em Coimbra como o sopista medie- 
val, e conseguindo formar-se em Leis em 
1789. Escrevera em 1788 a Mondegueiday 
poema estrambótico, em quatro^ cantos em 
quintilhas, sob o pseudonymo de António Cas- 
tanha Netto Kua, e foi o heroe da Malhoada, 
poema satírico de um poeta cáustico seu con- 
temporâneo Anacleto da Silva Moraes. Ape- 
zar de lhe attribuirem a Estupidez, prompta- 
mente se reconheceu, que a concebera cabeça 
de mais pezo, e por isso não chegou a ser 
encommodado. Malhão, terminada a formatu- 
ra, voltou para Óbidos, ahi poz banca de advo- 
gado, e casando em 26 de Novembro de 1792, 
continuou o seu nome no celebrado pregador 
Malhão. Faleceu por 1816., 

Nas varias suspeitas acerca dos auctores 
da Estupidez, predominava a ideia de dois 
coUaboradores, como vimos pelo Dialogo de 
António Izidoro. No poema O Zelo, indicava- 
se «um sujeito assistente na Calçada.» Entre 
os estudantes que sahiram no Auto de Fé de 
1781, vem com o numero 13 — «Francisco Jo- 
sé de Almeida, Estudante mathematico, filho 
de José Francisco, natural de Lisboa: Here- 
ge, Naturalista, dava casa de lupanar para 
divertimento dos Estudantes, seguia os mais 
erros dos seus sócios, lendo pelo Auctor Ros- 
só (Rousseau) e outi^os Hereges,» Por que lhe 
não attribuiriam também o crime do poema 
heroi-comico ? José Agostinho de Macedo, 
quando esteve por castigo em Coimbra, colheu 
essa tradição, que consignou no poema Os 
Burros (canto único, de 1813): 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 471 



Tu, que ao prosa Diniz ditaste o Hyssope, 
E a Estupidez ditaste a Almeida e Franco. 

Nas annotações que ao poema de Macedo 
fez o seu amigo Ferreira da Costa, lê-se: nu- 
mero 153: «Francisco José de Almeida, me- 
dico muito pequeno de corpo, muito verboso, 
e ainda que inintelligivel nas expressões e 
até nos discursos escriptos, os quaes eram de 
uma linguagem obscura e particular. Foi 
membro da Junta de Saúde publica. Era só- 
cio da Academia, que lhe premiou um Trata- 
do de Educação physica, . ,» Por esta tradi- 
ção mantinha-se a attribuição a dous aucto- 
res, e Macedo, melhor informado (1813) já ci- 
tava o nome de Franco, que no manuscripto 
do Reino da Estupidez, pertencente á Biblio- 
theca de Évora, vem apontado como auctor 
do poema. Na Lista dos presos que sahiram 
no Auto de Fé da Inquisição de Coimbra em 
26 de Agosto de 1781, apparece com o n.^ 9 : 
«Francisco de Mello Franco, Estudante medi- 
co, natural de Paracatú, Bispado de Pernam- 
buco; Herege, Naturalista, Dogmático ; ne- 
gava o Sacramento do Matrimonio,» 

Nascera este illustre homem de sciencia, 
em Paracatú (Minas Geraes) em 17 de Se- 
ptembro de 1757, filho de João de Mello Fran- 
co e de D. Anna Caldeira, que de seu consor- 
cio houveram onze filhos, contando entre elles 
nove meninas. Deixou a terra natal aos doze 
annos, indo frequentar no Rio de Janeiro em 
1769 o Seminário de San Joaquim, vindo 
depois dos primeiros estudos para Portugal 
encetar o curso medico da Universidade de 
Coimbra. Matriculou-se em 1775 no primeiro 



472 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



anno mathematico e no quarto anno philoso- 
phico. Na forte reacção de 1778 foi preso pela 
Inquisição de Coimbra, com outros estudan- 
tes, jazendo no cárcere quatro annos. Ahi se 
lhe acordou a veia poética, compondo as 
Noites sem somno, Accusado de negar o sa- 
cramento do matrimonio, foi chamada uma 
senhora de Coimbra para testemunha, e como 
se recusasse a depor como os Inquisidores 
queriam, ficou como castigo reclusa por um 
anno no Santo Officio. Mello Franco desposou 
essa nobre victima. Foi-lhe permittido por 
Aviso régio de 29 de agosto de 1782, que 
completasse o curso de Medicina. A indigna- 
ção e o desdém pelo meio universitário inspi- 
raram-lhe o poema da Estupidez, que escre- 
veu em quinze dias, ajudado no trabalho das 
copias manuscriptas, que se lançaram na cir- 
culação clandestinamente, pelo seu patrício 
José Bonifácio de Andrade e Silva. ^ O poe- 
ma não tem a perfeição artística, mas a ver- 
dade das descripções e dos typos dá-lhe va- 
lor e ao mesmo tempo a importância de um im- 
pagável documento histórico. Ninguém suppo- 
ria tal d'aquelle modesto estudante de Medici- 
na ; mal imaginava o boçal Reitor-Reforma- 
dor d'onde vinha a pedra que derrubava o 
colosso da reacção na Universidade. 

Completado o curso medico, e não tendo 
Mello Franco recursos para transportar-se 
com sua familia para o Brasil, demorou-se em 
Lisboa, entregando-se á clinica, em que se 



^ Usava o nome poético de Américo Elysio; era 
philintista. 



FRANCISCO DE MELLO FLANCO 473 



tornou eminente. Em 1789 publicou o Trata- 
do de Educação physica, impresso por ordem 
da Academia das Sciencias, em que serviu de 
secretario-geral na ausência do Dr. José Bo- 
nifácio de Andrade. 

A obra intitulada Medicina theologica ou 
Supplica feita a todos os senhores Confesso- 
res e Directores sobre o modo de proceder 
com os seus penitentes^ principalmente da 
lascivia, cólera e bebedice, appareceu em 
1794, completamente approvada pela Real 
Meza da Commissão geral sobre e exame e 
Censura de Livros. A obra appareceu ano- 
nyma, e apesar de examinada suscitou nos 
poderes públicos taes apprehensões, que ella 
foi supprimida, e a própria Eeal Meza dissol- 
vida e extincta em decreto de 17 de Dezem- 
bro de 1794. Eram membros d^essa Meza, 
além de frades conceituados, o P.^ António 
Pereira de Figueiredo, Paschoal José de Mel- 
lo e João Guilherme Christiano Muller. O In- 
tendente geral de Policia Pina Manique, poz 
em campo todos os seus recursos para desco- 
brir quem era o auctor da Medicina theolo- 
gica, mas n'este ponto falhou a sua feroz 
perspicácia. O auctor era esse mesmo que es- 
crevera o Reino da Estupidez ; tinha o poder 
de agitar as almas; eis como Innocencio des- 
cobriu o nome de Francisco Mello Franco : 
«Em uns papeis que a fortuna me deparou, 
escriptos da mão do P.« Joaquim Dâmaso, 
congregado do Oratório e bibliothecario que 
foi d'elrei D. João vi, achei esta noticia, com 
algumas outras, abonadas todas de verdadei- 
ras pelo caracter honrado e fidedigno de 
quem as escreveu. Conta elle, que o próprio 



474 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mello Franco* lhe declarara no Eio de Janeiro 
por sua aquella obra, mostrando-lhe por essa 
occasião um exemplar d'ella, com algumas 
correcções e copiosíssimos argumentos, a qual 
se propunha reimprimir; sem duvida o fizera, 
se a morte sobrevinda entretanto lhe não cor- 
tasse a execução d'este e de outros projectos.» 
(DiGC. bibL, VI, 178.) Nas Contas para as Se- 
cretarias ha um Officio de Manique datado 
de 17 de Dezembro de 1794, ao Marquez 
Mordomo-mór, ministro do reino, no qual re- 
lata os seus esforços para descobrir quem. se- 
ja o auctor da Medicina theologica : «agora 
tenho averiguado que este papel, que saiu 
impresso, denominado Medicina theologica^ 
íoi levado á imprensa por Caetano Bragace, 
o qual escreve e assiste em casa do Cônsul da' 
America ; e é de reflectir também, que este 
Caetano Bragace é aquelle que eu prendi por 
sedicioso, e que fez o outro papel de que dei 
€onta, e remetti o original, que lhe achei em 
sua casa, á rainha, que Deus guarde, que se 
intitulava — Dissertação sobre o estado pas- 
sado e presente de Portugal — e caracter, que 
a seu arbítrio inventou, pouco favorável dos 
seus ministros, e do seu confessor ; ao qual 
também achei o numero de quesitos da copia 
inclusa, que passo ás mãos de V. Ex.^, das 
perguntas feitas pelo ministro residente da 
America, e as respostas dadas ao mesmo pa- 
pel ; tendo este egualmente ganhado a um 
francez chamado Vautier, para de commum 
accordo satisfazerem ás respostas, que servia 
de guarda livros a Braz Francisco Lima, ca- 
sado com a sobrinha do Marechal de Campo 
Bartholomeu da Costa, que dava as relações 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 475 



dos estados em que se achavam os arsenaes e 
as forças do exercito. 

«Mostrando eu a letra do papel intitulado 
• — Dissertações sobre o estado passado e pre- 
sente de Portugal — que obriguei indirecta- 
mente a restituir o ministro residente da Ame- 
rica, quando fiz executar a diligencia, e pri- 
sões do dito veneziano Caetano Bragace e do 
francez Vautier, de que fallo, ao impressor 
António Rodrigues Galhardo; declara sem 
duvida ser a letra própria do original do pa- 
pel intitulado — Medicma theologica — que 
está na Real Mesa da Commissão geral. 

«Aqui tem V. Ex.* combinados estes dois 
papeis perigosos, e que ameaçam tristes con- 
sequências, d'onde saem ; e coadjuve V. Ex.^ 
o que eu tenho informado a V. Ex.^ nas 
Contas dadas, que accuso (5 e 6 de Nov., e 7 
de Agosto de 1794) e que param na Secreta- 
ria de V. Ex.^, e de outras que tendem ao 
mesmo fim, e se formará um juizo das tristes 
consequências que podem acontecer infeliz- 
mente; e n^estes dois papeis sediciosos que 
aqui accuso — Medicina theologica, e Disser- 
tações sobre o estado passado e presente de 
Portugal — com o mais de que tenho dado 
conta a V. Ex.^ como tenho dito, nas sobre- 
ditas Cartas, verá V. Ex.^ o quanto vão avan- 
çando os passos, para por uma parte atacarem 
a religião que temos a fortuna de professar, 
na parte mais essencial ; e no outro papel o 
throno, e os ministros de estado ! 

«Confesso a V. Ex.^ que lembrando-me do 
que acontecia em Paris, e em toda a França, 
cinco annos antes do anno de 89, pelas taber- 
nas, pelos cafés, pelas praças e pelas assem- 



476 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

bleias ; a liberdade e indecencia com que se 
fallava nos mysterios mais sagrados da reli- 
gião catholica romana, e na sagrada pessoa 
do infeliz rei, e da rainha; e lendo as Memo- 
rias do Delphim, pae d'este infeliz rei, do me- 
morial que appresentou a seu pae Luiz xv, 
já no anno de 1755, que foi estampado em 
1777, digo a V. Ex.^ que julgo ser necessário 
e indispensável, que S. Mag.^® haja de mandar 
tomar algumas medidas, para que de uma vez 
se tire pela raiz este mal, que está contami- 
nando o todo, e insensivelmente. 

«Não mortifico mais a V. Ex.^ com as mi- 
njias reflexões e combinações, porque V. Ex.^ 
melhor do que eu, e com outras luzes, dará o 
pezo e a força que merecem, a estas minhas 
reflexões e combinações na presença de Sua 
Mag.^e^ que eu satisfaço a minha commissão 
cheio de zelo que tenho do real serviço, e a 
real f amiha ; e estes mesmos motivos me obri- 
gam a repetir a V. Ex.^ que em Lisboa ainda 
(me informam) se acha Brossonet, sócio de 
Robespierre, e egualmente me dizem que este 
terrível homem ficou algumas vezes na Casa 
do Espirito Santo de Lisboa, com o P.^ Theo- 
doro de Almeida ; e outras com o Abbade Cor- 
rêa, e me suscitam novas ideias que o dito 
francez com as suas mal intencionadas inten- 
ções queira por este lado entrar a ganhar o 
conceito de algumas pessoas do sexo frágil, 
com o fim de que seja este o meio d'elle dis- 
seminar as suas erróneas e sediciosas doutri- 
nas, e contaminar o todo; e não posso passar 
em silencio, e de marcar a V. Ex.^ que o Po- 
de correr, que pára na mão do impressor An- 
tónio Rodrigues Galhardo, que eu vi, do infa- 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 477 



me papel que saiu á luz approvado pela Eeal 
Mesa da Commissão geral é rubricado só pelo 
Principal presidente e pelos dous Deputados 
António Pereira de Figueiredo, e João Gui- 
lherme MuUer; qualquer d'estes dois suspei- 
tos e conhecidos por muita gente por sedicio- 
sos e perigosos ; e do ultimo em outras diver- 
sas passagens tenho informado a V. Ex.^ já, 
que o seu espirito é republicano; e para pro- 
va disto lêam-se as Gazetas portuguezas, que 
em algumas passagens de algumas d'ellas se 
conhecerá o referido, pelo que põe, e deixa 
passar, de quanto são bem tratados e contem- 
plados os prisioneiros portuguezes pelos fran- 
cezes ; e as cores vivas com que pinta as ac- 
ções dos francezes ; e a morte-côr com que re- 
fere na Gazeta as acções dos hespanhoes e 
portuguezes, em todo o sentido ; que ainda a 
serem verdades, se deviam omittir; e não re- 
pito mais a V. Ex.^ quanto é pouco favorá- 
vel ao serviço de S. Mag.^c que corra uma 
Gazeta nacional, pondo em temor aos vassal- 
los, e dizer-lhes por outra parte o bem que 
são tratados pelos francezes, e malquistar o 
alliado no tratamento que faz á nação; etc.» 
E' datado de 17 de Dezembro de 1794 este of- 
ficio dirigido ao Marquez Mordomo-mór pelo 
Intendente D, I, de P, Manique. Foi copiado 
por Innocencio dos livros da Policia, que esta- 
vam no Governo civil de Lisboa, hoje deposi- 
tados na Torre do Tombo. 

Mello Franco é apontado como um dos fun- 
dadores da Academia de Geographia^ em 
1799, e foi eleito vice-presidente da Academia 
das Sciencias, sendo por elle escripto o relató- 
rio de 1816. Como medico do paço, foi encarre- 



478 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



gado de ir a Leorne esperar a Archiduqueza 
Leopoldina, consorciada com o principe D. Pe- 
dro, e de acompanhal-a para o Rio de Janei- 
ro, em fins de 1817. O seu enorme perstigio 
fez com que o intrigassem na corte, persua- 
dindo D. João VI que Mello Franco era um 
dos conjurados da Conspiração chamada de 
Gomes Freire ; e que era partidário da eman- 
cipação do Brasil. Dom João vi acreditou o 
que lhe disseram, sobretudo quando lhe se- 
gredaram que elle como medico attestaria a 
demência do rei. Foi-lhe logo prohibida a en- 
trada no paço, e demittido de medico da real 
camará. Os haveres que alcançara pela clini- 
ca, depositados na casa commercial de um 
amigo, perdeu-os em uma falência fraudulen- 
ta. Sobre estas pressões repentinas veiu-lhe 
uma febre adynamica, tendo por esse motivo 
de retirar-se para San Paulo. O isolamento 
aggravava-lhe a doença, tendo de regressar 
ao Rio de Janeiro ; porém ao passar por Uba- 
tuba, desembarcou com grande agonia, que 
se tornou mortal, expirando em 22 de Julho 
de 1823. ^ Durante a sua vida fizeram-se cin- 
co edições do Reino da Estupidez, mas sem 
nome de auctor, nem explicativa histórica do 
assumpto; é provável que não tivesse conhe- 
cimento de uma tal homenagem. O poema 
merece fixar-se na historia litteraria, como 
affirmação do poder da obra esthetica quando 
verdadeira, e opportuna. 



Revista trimensal, vol. v, p. 346, 



FRANCISCO DE MELLO FRANCO 479* 



Bibliographía do Poemeto de Mello Franco 

1810 

Epicedio á morte do Dr. José Ferreira Leal. (Na Col- 
lecção de Poesias inéditas dos melhores Auctores 
portuguezeSy t. ii, p. 71.) 

1819 

O Reino da Estupidez. Poema heroi-comico em quatro 
cantos. Paris, 1819. In-18.^ (Sem nome de auctor.) 

1820 

Reino da Estupidez, Poema. Hambourg. 1820. in-16.<* 
de p. xi-62. (Sem nome de auctor.) 

1821 

O Reino da Estupidez : poema. . . Nova edição correcta. 
Paris. Officina de A. Bobée. 1821. In-18.o, de x-62 
pp. 

1822 

A Estupidez. Poema em três Cantos. Na Impressão de 
João Nunes Esteves. Anno 1822. Rua dos Correei- 
ros, Ti.^ 144. In-ie.*', de vi>45 pp. 

Parece ter sido este titulo o primitivo, como se 
vê da Carta do Dr. António Ribeiro dos Santos, e 
das referencias das Sátiras contemporâneas. Não 
traz o nome do auctor. 



— Aponta-se uma outra edição doeste mesmo anno, é 
logar. 

1833 

O Reino da Estupidez. Lisboa. Imprensa de João Nu- 
nes Esteves. In-lô."" 

1834 

O Reino da Estupidez. (Formando parte do tomo vi do 
Parnaso lusitano: Os Satíricos, de pp. 139 a 197. > 
Paris, Aillaud, 1834. In-32. — (Sem nome do au- 
ctor.) 

1868 

Reino da Estupidez. Poema por Francisco de Mello 
Franco. Barcellos, Typ. da Aurora do Cavado. 
1868, In-8.0 peq. de xii-52 pag. (E' edição do 
Dr. Rodrigo Velloso.) 



y 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 



No ultimo quartel do século xviii a poesia 
portugueza recebe um impulso de renovação, 
impresso por alguns talentosos brasileiros 
embora ainda ligados ás normas do Arcadis- 
mo. Fazem lembrar em relação a Portugal a 
situação de Roma, quando os talentos littera- 
rios das Gallias, da Hespanha e da Africa do 
norte enriqueciam a Litteratura latina com 
novas creações, como o Satyricon de Petro- 
nis, gaulez, ou poemas históricos como a 
Fharsalia de Lucano, tragedias como as de 
Séneca, e Epigrammas como os de Marcial, 
hispânicos. Sob a pressão do cesarismo, com 
a Inconfidência e Inquisição, o génio portu- 
guez apagava-se na imbecilidade ou na indi- 
gnidade ; a colónia brasileira fortificava-o com 
organismos fecundos, vigorosos, como vemos 
desde António José (o Judeu) até Dom Fran- 
cisco de Lemos, que levou á pratica a refor- 
ma pombalina da Universidade. A Arcádia 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 481 



lusitana não conseguira apresentar um esbo- 
ço de epopêa moderna; realisou esse empe- 
nho o génio brasileiro, inspirando-se nas tra- 
dições coloniaes e na paizagem americana, 
nos dois poemas Uraguay, de José Basílio da 
Gama, e Caramurú, de Frei José de Santa 
Rita Durão. Por terem vivido na Europa, e 
principalmente em Portugal, é que o senti- 
mento pátrio estimulado pela ausência os le- 
vou a idealisarem as impressões da terra na- 
tal e á sympathia pela sua historia. 

José Basilio da Gama, amigo intimo de 
Filinto Elysio, acompanhara-o na Guerra dos 
Poetas quando o Grupo da Ribeira das Nãos 
combatia contra a Arcádia. ^ No processo que 
a Inquisição de Lisboa formou contra FiUnto, 
apparece o frade franciscano terceiro Fr. Plá- 
cido de Andrade Barroco, de vinte outo an- 
nos, ratificando o seu depoimento em 1 de 
Março de 1779: «que a tragedia intitulada 
Mahometis7no a traduzira. . . um José Basí- 
lio, hoje official da Secretaria dos Negócios do 
Reino, mas que elie depoente vira esta tra- 
ducção na mão do mesmo Padre.» Era quan- 
to bastava para envolver em perseguição o 
poeta, que fora alumno dos Jesuítas e depois 
protegido pelo Marquez de Pombal, agora 
decahido do poder. Interessam os factos par- 
ticulares da sua biographia, por que se refle- 
ctem nas manifestações do seu talento. Nasceu 
José Basilio da Gama em 1742 na villa de 
San José, de Minas Geraes, sendo seus pães 



1 A Arcádia lusitana^ p. 887. Porto, 1899. Con- 
tra João Xavier de Mattos, vid. supra, p. 148. 

31 



482 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



O capitão-mór Manoel da Costa Villas Boas^ 
que perdeu muito cedo, e D. Quitéria Ignacia 
da Gama. Enviado pela familia para o Rio 
de Janeiro aos cuidados do brigadeiro José 
Francisco Pinto de Alpoim, este o entregou 
aos Padres jesuítas, aonde se conservou qua- 
tro annos (1755 — 1759) até que foi expulsa 
a Companhia. Na refutação que os Jesuítas 
fizeram ao seu poema Uraguay, vem como 
prefacio uns traços biographicos de José Ba- 
sílio, valiosos apesar do despeito que os di- 
tou; embora publicados ém 1786, transcre- 
vemol-os já porque nos relatam os primeiros 
annos da vida do poeta. 

Na Resposta apologética ao Poema intitu- 
lado O Uraguay, começando por apontar Jo- 
sé Basílio da Gama «entre as muitas pennas 
venaes, de que se serviu Sebastião José de 
Carvalho, primeiro ministro da corte de Por- 
tugal, para infamar os Jesuítas», vem os se- 
guintes apontamentos biographicos sob a epi- 
graphe: «Previa noticia da vida e caracter do 
Author do Poema: 

«Nasceu este novo Poeta, que mais deve 
ser contado entre os Satíricos da gentilidade 
do que entre os Árcades de Roma, no Arraial 
de S. José do Rio das Mortes, no Estado da 
Brasil, aonde, passada miseravelmente a pue- 
rícia, o entregou a pobre viuva sua mãe a 
um Religioso leigo franciscano, para que por 
caridade o conduzisse comsigo para o Rio de 
Janeiro, a fim de aprender alli latim. N'esta 
cidade o recebeu em sua casa certo bemfeitor, 
que sustentando-o e vestindo-o por esmola, a 
mandou estudar ás aulas dos Jesuítas. Aqui, 
depois de estar bastante imbuído por estes- 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 483 

religiosos nos preceitos da Latinidade, pre- 
tendeu entrar na Companhia ... O certo é, 
que admittido no Noviciado. . . parte por com- 
paixão da sua grande pobreza, parte por es- 
perança de que crescendo em annos, cresces- 
se n'elie a madureza, consentiram finalmente 
que acabado o biennio, fizesse os votos reli- 
giosos. 

«Passado apenas seis mezes depois do 
noviciado, chegou ao Brasil o tremendo e 
horrível Decreto, em virtude do qual eram 
desterrados e desnaturalisados os Jesuítas 
existentes nos domínios de S. M. F., pelo 
supposto e nunca jamais provado crime de 
áttentar todo o corpo doesta Rehgião contra 
a vida do F. R. D. José i, izentando-se doesta 
pena os que solemnemente não tivessem pro- 
fessado, no caso que quizessem despir o ha- 
bito e ficar no Reyno, aonde seriam tratados 
como vassallos fieis e gosariam a quotidiana 
^côngrua de 100 rs. 

«Tendo aproveitado pouco na Escola do 
lEspiríto este recente jesuíta, acceitou logo a 
lofferta; ...se viu este pobre mancebo quasi 
ide todo indigente, . . . sem a pensão que se 
Ipromettera aos que sahissem da Companhia. 
IQuíz n'esta conjunctura applicar-se a Filoso- 
ffia em um Seminário ^; mas resoluto o Rey- 
jtor d'elle a castigal-o por uma Sátira que fez, 
|agitado já n'aquelle tempo do espirito de ma- 
ledicência, com a fuga evitou a pena, mas au- 
ymentou a miséria. 



1 Allude ao Seminário de S. Joséy creado em 3 de 
í^evereiro de 1739. 



484 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 

«Cahiu finalmente em si, como o Pródigo, 
e determinou ir a Roma prostrar-se aos pés 
do Geral da Companhia, e pedir-lhe quizesse 
segunda vez admittil-o á religião. Para este 
fim servido em dinheiro e cartas recommen- 
daticias, que lhe deram algumas pessoas ca- 
ritativas, se embarcou para Lisboa, e de Lis- 
boa para Itália. Logo que chegou a Roma é 
incrível o grande bem que lhe fizeram os Je- 
suítas... Eiles... lhe alcançaram um logar 
em certo Seminário... para lhe darem honra 
e fama o fizeram alistar entre os Académicos 
da Arcádia, fazendo-lhe talvez ou emendan- 
do-lhe as composições que ali havia de reci- 
tar... correspondeu mal a todos estes bene- 
fícios; porque calumniando. . . com um escri- 
pto satírico o Seminário em que estava por 
caridade, improvisamente se retirou para Ná- 
poles ; de Nápoles veiu a Lisboa, e de Lisboa 
partiu para o Brasil. Ali sendo conhecido por 
ex-jesuita foi preso e remettido a Portugal, 
por virtude de uma nova ordem regia, a qual 
estendia o extermínio ainda aos que tinham 
sabido da Companhia. 

«Desembarcado em Lisboa foi presentado 
ao Tribunal da Inconfidência, e n'elle obriga- 
do a fazer termo de ir para o Reyno de An- 
gola. Mas este desterro evitou elle valendo-se 
das suas habilidades, isto é, compondo não 
sei que versos, que dedicou a uma filha de 
Carvalho, a qual alcançou de seu pay o livra- 
mento. D'esta época começou a este Poeta a 
sua não sei se lhe chame fortuna, se desgra- 
ça; por que, penetrando, que aquelle Ministro 
a ninguém premiava mais, nem remunerava 
melhor que aos Authores de escriptos satiri- 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 485 



COS e infamatorios contra os Jesuítas, occor- 
reu-lhe que para ter que comer o meio mais 
fácil e certo era dar á luz um Poema. . . con- 
cluída a obra lh'o fez (o ministro) imprimir 
em bom caracter na Estamparia real e appro- 
var pela Mesa Censória. Além d'isto vendo 
que o Author tinha escripto tão bem, ou para 
dizer melhor, tão mal contra a Companhia, o 
premio que lhe deu foi o de Escrivão da sua 
Secretaria.» 

N'esta noticia jesuítica faltam as datas; 
por occasião do falecimento de Gomes Freire 
em 1 de Janeiro de 1763 por desgostos da 
perda da Colónia do Sacramento, conseguira 
José Basílio da Gama vir a Portugal, partin- 
do pouco depois para Koma. Quereria regres- 
sar á Companhia o noviço? Em 1763 figura 
como membro da Arcádia romana, com o no- 
me de Termindo Sepilio; o seu talento litte- 
rario já o havia revelado nas exéquias de 
Gomes Freire. Esteve em Roma até 1767, 
tendo lá convivido com o poeta Frei José de 
Santa Rita Durão, que as hostilidades politi- 
ticas também tinham afastado de Portugal. 
José Basílio da Gama indispoz-se com os Je- 
suítas, deixou Roma, dirigiu-se a Nápoles, e 
d'ahi para Portugal ; em uma nota do Ura- 
guay, dá a entender a situação em que se 
achara: «Os Jesuítas tem tido a animosidade 
de negar por toda a Europa o que se acabou 
de passar na America nos nossos dias á vis- 
ta de dois Exércitos. O Author o experimen- 
tou ejn Roma, onde muitas pessoas o busea- 
vani só para saberem com fundamento as no- 
ticias de Uraguay; testemunhando um estra- 
nho contentamento de encontrarem um Ame- 



486 HISTORIA BA LTTTERATURA PORTUGUEZA 



ricano, que os podia informar miudamente 
de tudo o succedido. A admiração que causa- 
va a estranheza de factos entre nós tão co- 
nhecidos, fez nascer as primeiras ideias d'este 
Poema.» ^ 



Que do premeditado occulto Império 
Vagamente na Europa se fallava. 



Eram as terras que a Companhia de Jesus 
possuia na parte oriental do rio Uraguay, 
que governava como suas, que constituiam 
o occulto IinperiOy que pelo tratado de limites 
de 16 de Janeiro de 1750, entre Portugal e 
Hespanha, nos ficaram como restituídas ao 
nosso dominio. O occulto Império, que os Je- 
suítas renegavam, era um thema com colori- 
do poético, como o presentiu José Basílio; se 
não deixasse Roma rapidamente, com certeza 
teria cahido com a punhalada mysteriosa de 
algum bravi. Na sua volta a Portugal, o poe- 
ta pouco se demorou em Lisboa; ainda assim 
tomou parte na lucta então vehemente entre 
a Arcádia lusitana e o Grupo da Ribeira d.as 
Náos ; Garção, no soneto em que lhe replica, 
allude ao seu regresso: «Passe o senhor qua- 
qui, que vem de Ro7na.» Diniz chama-lhe o 
vão Termindo. Por falta de recursos voltou 
para o Rio de Janeiro, onde parece ter con- 
seguido algum auxilio, para vir estudar na 
Universidade de Coimbra. Na Relação das 
Pessoas que em 30 de Junho de 1768 vieram 



I 



O Uraguay, poema, p. 11, nota. 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 487 



¥ 



para o reino no navio Senhora da Penha de 
França, está o seguinte assento: 

«José Basílio da Gama Villas Boas, sol- 
teiro, natural de Minas, do Eio das Mortes, 
filho de Manoel da Costa Villas Boas, e de 
D. Quitéria Ignacia da Gama, de idade de 
26 annos. Estatura ordinária, de cabello cas- 
tanho e crespo, rosto comprido, moreno, olhos 
pardos, nariz pequeno grosso, pouca barba, 
com falta de um dente na frente do queixo de 
cima; Estudante, vai para Coimbra.» ^ 

Por este assento vê-se que não viera pre- 
so para Portugal; pouco tempo depois de 
achar-se em Lisboa é que foi denunciado como 
jesuíta, e preso por ordem do Marquez de 
Pombal, concedendo-lhe porém soltura depois 
de assignar termo na Inconfidência em como 
partiria para Angola dentro do praso de seis 
mezes, e ahi ficaria ás ordens do governo. 
Toda esta perspectiva de desgraças se mudou 
em 1769; n'este anno casara uma filha do 
Marquez de Pombal, e José Basiho dedicou 
im Èpithalamio ás núpcias de D. Maria Amé- 
lia, em um in-4.^ de 10 paginas : 

Eu não verei passar teus doces annos, 
Alma de amor e de piedade cheia, 
Esperam-me os desertos africanos, 
Áspera^ inculta e monstruosa areia, 
Ah! tu faze cessar os tristes damnos, 
Que eu já na tempestade escura e feia... 
Mas diviso, e me serve de conforto 
A branca mão que me conduz ao porto. 



* Junta do Commei^cio. Maço 1.° (Na Torre do 
rombo.) Communicação do sr. Pedro A. de Azevedo. 



488 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A sensível senhora intercedeu pelo poeta 
junto do rigoroso ministro, seu pae ; a ordem 
de desterro foi annuUada, e n'esse mesmo 
anno de 1769, José Basilio da Gama impri- 
mia na Régia Officina typographica O Ura- 
giiay — dedicado ao i\\J^^ ex."^^ sr. Francisca 
Xavier de Mendonça Furtado, ministro de es- 
tado de S. M. (irmão do Marquez de Pombal) 
precedido de um Soneto encomiástico ao Con- 
de de Oeyras. O ministro soube apreciar o 
merecimento do poeta, sem que a pecha de 
ter estudado com os Jesuítas o prejudicasse; 
o mesmo fizera a José Monteiro da Rocha, 
que brilhava na Universidade de Coimbra. 
Em 1773 era supprimida a Companhia de 
Jesus por Clemente xiv; como que satisfeito 
com este successo, o ministro despachou por 
portaria de 25 de Junho de 1774 José Basí- 
lio da Gama Official da secretaria do ministé- 
rio do reino; por vezes o chamava para tra- 
balhos especiaes no seu gabinete. Assim com 
a vida organisada, entregava-se a traduzir 
tragedias, como a de Mahomet, de Voltaire, e 
offerecia-se a Manoel de Figueiredo para lhe 
emendar os versos das suas tragedias; gosa- 
va a convivência Htteraria de Fihnto, e as da- 
mas, que então estimavam a poesia davam-lhe 
motes para glosar, segundo o gosto dominan- 
te, como se vê pelo seguinte inédito: 

— Glosa ao Mote dado por D. Joanna Isa- 
bel de Lencastre For jaz: 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 489 



¥ 



Tocando numa çanfona, 

Cupido, tempo hade vir 
Em que acabando os patetas, 
Que não hão de as tuas setas 
Nem penetrar, nem ferir. 
Ainda te hão de ver cobrir 
De grossa e parda japona, 
E tua mãi fanfarrona, 
Que dirá, vendo-te então. 
Roto e cego atraz de um cão 
Tocando nhima çanfona. 

José Basílio da Gama. 



' A morte d'el-rei D. José e a queda do Mar- 
quez de Pombal vieram perturbar este re- 
ímanso, vendo-se o poeta outra vez exposta 
íaos baldões do rancor do partido reacciona- 
|rio. Em um Soneto, impresso em folha avul- * 
|ga, celebrou a acclamação da rainha D. Ma- 
Iria I ; e quando se operou a viradeira, ou a 
palinodia dos metrificadores que tinham exal- 
tado o grande ministro, José Basilio da Gama 
teve a coragem de pugnar pela gloria da 
Marquez de Pombal. Eis um soneto inédita 
em que revela este sentimento digno: 

Poeta portuguez, bem que eloquente. 
Suspende o mordaz verso que recitas, 
Não vês que no teu corte não imitas 
A conducta de um principe prudente. 

Ser ferino o Marquez, ser insolente 
De horroroso partido, acções malditas 
Inventar mil clausulas exquisitas, 
E ser réo, ser indigno, delinquente ; 



490 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mas, que importa o Marquez não fosse digno, 

Pela soberba vil, pela fereza. 

Se achou para o perdão um rei benigno! 

Não cortes, oh vassallo, que é vileza 
Celebrar um vassallo por indigno 
Quando achou no seu rei tanta grandeza. ^ 

O partido clerical tinha a attenção sobre 
José Basilio, como se vê d'essa denuncia de 
Frei Plácido de Andrade Barroco acerca da 
traducção de uma tragedia de A^oltaire, em 

1779. Em uma carta de P.^ António José 
para o jesuita F.^ José da Silva, datada de 

1780, dá-lhe noticia dos passos de José Ba- 
silio da Gama, e diz que o Marquez de Pom- 
bal atacado de lepra está tomando caldos de 
vibora. Em uma carta do P.^ Lourenço Kau- 
len ao Ps José da Silva, ambos ex-jesuitas, 
trata-se do poema O Uragiiai/, e da pessoa 
do poeta; é datada de 19 de Maio de 1780. ^ 
G mesmo P.e Kaulen, em carta datada de 20 
de Maio do referido anno, e dirigida ao ex- 
jesuita Bento da Fonseca, falia de José Basi- 
lio da Gama como exercendo ainda o cargo 
de Official de Secretaria, e revela-se como 
auctor da Resposta apologética ao poema in- 
titulado O Uraguay, que estava escrevendo, 
e que se imprimiu anonyma em Lugano em 
1786. Transcrevemol-a aqui pelo seu valioso 
testemunho : 



* Mss. da Academia, G. 5, Est. 28. N.« 33. 
2 Collecção pombalina, Ms. n.o 640, fl. 385 ; 387 
a 389. (Bibl. nac.) 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 491 



«M. R. P. Bento da Fonseca. 

«Alegrei-me muito quando entendi da sua, 
que me fez graça no dia 1.^ de Abril passa- 
do, que vai vivendo, e que ainda se acha com 
força e animo para trabalhar para o credito 
da Companhia, mãe nossa... A minha obra 
está na mão do P.® Domingos António, para 
elle a augmentar e emendar, e depois a tor- 
narei a copiar, para correr. Entretanto visto 
que V. R. não me mandou a Resolução da 
Relação abreviada, puz a mão a refutação ou 
Resposta de hum Hvrinho infamatorio contra 
nós, que aqui'corre com o titulo de Uraguay, 
Poema em verso portuguez, cujo author é um 
homem que agora aqui he official da Secre- 
taria de Estado, chamado Joseph Basilio da 
Gama, que foi jesuita recolleto, homem inso- 
lente com o qual me vejo ás vezes obrigado 
a estar á mesa. Parece-me que lhe faço as 
barbas e que lhe desaponto os dentes. V. R. 
verá; já tenho doze folhas promptas etc. Elle 
foi companheiro de José Leitão no gabinete 
do Marquez e d'el Rey etc.» 

A Resposta ^ô appareceu passado seis an- 
nos, contradictando certos detalhes de factos 
históricos a que no poema se allude, mas 
sempre em tom de argumentação capciosa; 
quando trata do personagem o Padre Balda, 
explica a morte de Oacambo como resultante 
de suspeita de traição, e sobre o bello episodio 
da morte de Lindoya apenas declama dizendo 
que na tribu uraguayana não existiu mulher 
alguma com esse nome ! As impressões artís- 
ticas não se apagam com argumentos dialécti- 
cos, e n^esse episodio, José Basilio attingiu a 
emoção ideal. 



492 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O episodio de Lindoya, em que fulge o 
delicioso verso — Tanto era bella no seu ros- 
to a morte — impressionou os poetas contem- 
porâneos ; o Dr. Joaquim Ignacio de Seixas, 
no Soneto ao auctor, proclama : 

Não é presagio vão : lerá a gente 

A guerra do Uraguay, como a de Troya ; 

E o lacrimoso caso de Lindoya 

Fará sentir o peito, que não sente. 

Filinto nos Últimos Adeos ás Musas accla- 
mava o seu antigo companheiro da Guerra 
dos Poetas: 

Basilio, em Canto altiloquo forceja 
Cantar Freire, na America famoso. . . 

(Obr., I, 417.) 

Os Jesuitas tratavam de introduzir em Por- 
tugal a refutação ao Poema ; e em uma Conta 
dada pelo Intendente Pina Manique para a 
Secretaria do Reino em 1784, escreve: «achei 
um grande numero de volumes impressos em 
portuguez, cuja obra se intitulava — Resposta 
critica a uma obra intitulada Paragttay 
(sic) feita por José Basilio da Gama, E len- 
do poucas palavras, e abrindo em diversas 
partes um dos mesmos volumes, vi que era 
um libello famoso infame contra a memoria 
do Augusto Pay, o Snr. Dom José i, e de seu 
Ministro.» ^ Conforme informava o Intenden- 



^ Contas para as Secretarias, Livro ii, fl. 294 t. 
(Na Torre do Tombo.) 



JOSÉ BASTLTO D\ GAMA. 493 



te, era por via da Embaixada da Allemanha, 
que os papeis jesuiticos se introduziam em 
Portugal. Uma das cartas do P.^ Lourenço 
Kaulen era dirigida para a Allemanha ao P.® 
Anselmo Eckart, fallando-lhe também do poe- 
ma O Uraguay e da propaganda jesuítica. 
Em 1788 foi apresentado á Mesa da Censura 
e exame dos livros esta Resposta apologéti- 
ca ; o parecer dado em 5 de Março, é contra- 
rio á sua circulação. Transcrevemos parte 
d'elle: 

Na Censura — da «Resposta apologética ao 
Poema intitulado o Uraguay se propõe o seu 
auctor mostrar serem falsos todos os vicios e 
crimes de que são accusados no mesmo Poe- 
ma os Jesuítas. . . Sem advertir o A. que de- 
via somente ter em vista para combater e ata- 
car o Poema do Uraguay e não a pessoa de 
seu auctor, procura descobrir comtudo nos 
primeiros annos da sua vida, na sua educa- 
ção e adversa fortuna matéria para o humi- 
lhar, e desacreditar. Faz por escurecer o seu 
merecimento litterario e a opinião dos seus 
talentos, tratando-o de inepto e ignorante. O 
seu caracter moral descreve com as cores mais 
negras, que lhe podia subministrar o seu 
ódio, accusando-o de ingrato aos Jesuítas, a 
cuja sociedade se accolhera, como a um asylo 
da sua pobreza e miséria, e de quem recebe- 
ra soccorros para remediar a sua indigência, 
ainda em Roma, para onde o levara a sua 
necessidade a buscar segunda vez o refugio 
e amparo da Companhia. Trata-o de escriptor 
mahgno e calumniador, que prostituiu e fez 
venal a sua penna escrevendo contra os Je- 
suítas seus bemfeitores só a fim de merecer a 



494 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



protecção e favor do Marquez de Pombal seu 
inimigo, do qual comtudo foi tão mal remune- 
rado, que apenas teve por premio do seu in- 
fame serviço a ténue Escrivania.» (Meza, 5 de 
Maio de 1788.) Apparece entre os signatários 
o nome de Paschoal José de Mello. ^ 

O ruido que os Jesuitas fizeram em volta 
do poema era um meio de lembrar ao partido 
do Eigorismo o poeta; effectivamente José 
Basilio da Gama foi forçado a deixar tempo- 
rariamente o cargo de Official de Secreta- 
ria, e a ausentar-se de Portugal, regressando 
outra vez ao Eio de Janeiro, onde governava 
como vice-rei o illustre D. Luiz de Vasconcel- 
los e Sousa, que formara em volta de si uma 
espécie de corte litteraria. Aproximou-se José 
Basilio da Gama do seu velho amigo Manoel 
Ignacio da Silva Alvarenga (Alcindo Palmi- 
reno,) professor de Rhetorica no Rio de Ja- 
neiro, e influiu no seu animo para a fundação 
de uma Arcádia brasileira. Era este um so- 
nho querido de Silva Alvarenga, que já em 
1774, no Desertor, se dava como membro da 
Arcádia Ultramarina; e no Templo de Ne- 
ptuno, em 1778 se assignava, Alcindo Palmi- 
reno. Árcade ultramarino. ^ Era esta tradi- 
ção que José Basilio fez re vivificar na Socie- 
dade litteraria pouco depois de 1782 e que 
também foi chamada Arcádia brasileira. Im- 



1 Papeis da Mesa Censória. (Na Torre do Tombo.) 

2 Lisboa, na Regia Offic. Typograp. mdcclxxvdi. 
In-4.^ 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 495 

porta explicar a continuidade d'esta tradição^ 
sempre mal comprehendida. 

A Arcádia ultramarina não constituo uma 
associação individualisada, mas uma tradiçãa 
que foi tomando differentes corpos em varias 
épocas e logares. Em Agosto de 1758 chegou 
ao Rio de Janeiro o desembargador José de 
Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Mel- 
lo, o tremendo e ignóbil juiz da Alçada da 
Porto, que também fora membro da Acade- 
mia dos Occultos. L(ègo que este magistrada 
teve noticia de que na Bahia existira em tem- 
po a Academia dos Esquecidos, fundada em 
1724 por Vasco Fernandes César, ^ empregou 
todo o seu empenho para restabelecel-a, e se- 
gundo uma memoria do tempo: «Tratou esta 
matéria como muitos do grande numero que 
ha na cidade, e especialmente com o P.^ An- 
tónio de Ohveira, que tinha sido académico e 
presidente dos Esquecidos, com o sargento- 
niór António Gomes Ferrão... e com o P.^ 
António Rodrigues Nogueira. Designou-se a 
Academia brasílica dos Renascidos ; ^ a pri- 
meira junta particular effectuou-se em 19 de 
Maio de 1759, e a primeira Conferencia pu- 
blica em 6 de Junho do mesmo anno, no an- 
niversario do rei Dom José. O desembarga- 
dor Mascarenhas Pacheco Pereira não tinha 
sido convidado para a Arcádia lusitana, e 
ficou por isso hostil a essa corporação ; fazen- 
do referencias honrosas á Academia dos Oc- 



' Mss. de Alcobaça, Cod. CCCLXV, — vi, — vii. 

'^ Os seus Estatutos e lista dos Sócios, Ms. 630,. 
da Bibl. Nacional. 



496 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cultos, á Academia Litúrgica de Coimbra, á 
Scalabitana de Santarém, á Mariauna de 
Bellas, á dos Unidos da Torre de Moncorvo, 
e á Metropolitana do Porto, o silencio ou 
omissão do nome da Arcádia lusitana é bem 
significativo da dissidência. Entre os acadé- 
micos renascidos supranumerários encontra- 
se o nome de Cláudio Manoel da Costa, e isto 
explica o titulo de Árcade ultramarino nas 
Obras impressas em Coimbra em 1768. Tam- 
bém jjertenceram honorificamente a esta aca- 
demia o auctorisado grammatico António Fé- 
lix Mendes, Francisco de Pina e Mello, dos já 
debandados Occultos^ e o P.e Manoel de Ma- 
cedo, o da celebre Ode á Zamperini. O rei 
Dom José foi considerado Protector, celebran- 
do-se uma sessão publica em apotheose do 
ministro Sebastião José de Carvalho como 
membro da Academia da Historia, Desde 
que os crimes de Mascarenhas na Alçada do 
Porto foram provados, a sua prisão e castigo 
fez com que os Renascidos se desligassem, e 
extinguiu-se essa tentativa de uma Arcádia, 
que no Rio de Janeiro parodiava a de Lis- 
boa. N'essa Academia appresentou o P.^ Do- 
mingos Telles da Silva o projecto de uma 
epopêa, a Brasileida, celebrando o feito de 
Pedro Alvares Cabral. ^ Felizmente não foi 
escripto o Poema, mas a ideia de tratar epi- 
camente os elementos da civilisação brasileira 
preoccupava os verdadeiros poetas, como Jo- 



1 Publicámol-o por occasião do Centenário do des- 
cobrimento do Brasil no Brasil-PortugaL p. 26 a 28. 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 497 

sé Basílio da Gama e o seu amigo Fr. José de 
Santa Kita Durão. 

A renovação de uma Arcádia ultramari- 
na era outra vez tentada pelo Dr. Manoel 
Ignacio da Silva Alvarenga ao fixar a sua 
residência na capital. «Abriu Alvarenga um 
curso de Ehetorica no Eio de Janeiro em 
1782, sob a protecção do Vice-rei Luiz de 
Vasconcellos e Sousa... prestou-se de bom 
grado aos conselhos do seu particular amigo 
José Basilio da Gama no estabelecimento de 
uma Arcádia, que se ramificou em Minas 
Geraes, Essa associação foi logo accrescenta- 
da com outros ramos de Philologia, que a 
tornaram mui útil e de honra á nossa pátria. 
Cláudio Manoel da Costa pelos seus Poemas 
que se podem ler no Parnaso brasileiro, dá 
provas d'essa Associação de Árcades, que 
por algum tempo abrilhantou a comarca do 
Rio das Mortes, em Minas.» ^ Doeste ramo da 
Arcádia ultramarina é a figura culminante o 
desgraçado cantor da Marilia de Dirceu, 
Thomaz António Gonzaga, de quem adiante 
tratamos. 

Com a chegada de José Basilio da Gama 
ao Rio de Janeiro, a fundação de Alvarenga 
toma o caracter de «uma Academia á ma- 
neira da Arcádia de Roma,» A de Lisboa 
estava então extincta ; Cláudio Manoel da Cos- 
ta saúda a José Basilio e «a outros novos Ár- 
cades, y> A essa Arcádia ultramarina, perten- 
ceram o P.^ Domingos Caldas Barbosa, que 



I 



i Revista trimensal, vol. iii, p. 310. 

33 



498 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



em Lisboa veiu dar alento á Nova Arcádia 
inaugurada em 1790, e José Marianno da 
Conceição Velloso, valioso amigo de Bocage. 
A Arcádia do Eio de Janeiro teve como a 
de Minas uma sorte desgraçada; acoimaram-a 
estólidamente de Club de Jacobinos, e se- 
guiram-se as prisões d'esses inoffensivos ho- 
mens de letras. Na biographia de Diniz está 
tracejado este lamentável episodio; mas fica- 
ria truncada a historia da Arcádia ultrama- 
rina sem o conhecimento do seu inspirador 
José Basilio da Gama, que já encontrámos fi- 
gurando na Guerra dos Poetas, Alvarenga 
fora o secretario da corporação, como se vê 
no opusculo=^5 Artes, Poema que a Socie- 
dade LITTERARIA DO RiO DE JaNEIRO recitOU 

no dia dos annos de Sua Magestade Fidelís- 
sima — por Manoel Ignacio da Silva Alvaren- 
ga, Secretario da Sociedade. Lisboa, Na Ty- 
pographia Marozziana. Anno 1788. Com li- 
cença. . . ^^In-IG.*", com 15 paginas não nume- 
das; começa: 



Já fugiram os dias horrorosos 
De escuros nevoeiros, dias tristes 
Em que as Artes gemeram desprezadas 
Da nobre Lisia no fecundo seio. 
Hoje cheias de gloria ressuscitam 
Até n^estes confins do Novo Mundo. 



Propriamente com o titulo de Arcádia bra- 
sileira apparece designada em 1789, no fo- 
lheto :== Saudosa Cantilena que repetiram os 
Pastores Limbrano, Anodino e Lisardo, na 
Arcádia brasileira, pela perpetua ausência 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 499 



que fez a sua Pastora Armelina. Por Joaquim 
José de Santa Anna Esbarra. = ^ 

Sob o governo do Conde de Resende a 
Arcádia brasileira não foi menos desgraçada 
do que a de Lisboa: 

«Parece que a providencia quizera contras- 
tar o brilhante Vice-reinado de Vasconcellos 
com o taciturno do Conde de Resende, que 
lhe succedera.. . A intriga, então acastellada 
nos Claustros, ralando-se pela inveja de ver 
roubarem-lhe os louros das sciencias, que os 
frades ainda queriam exclusivamente mono- 
polisar, ...e interessando em sua baixa vin- 
gança a imbecilidade de um vice-rei suspeito- 
so, inclinado a ver como insulto a sua pessoa 
a falta de elogios tão justamente offerecidos 
ao seu antecessor, pintou como criminosos 
aquelles que por suas letras illustravam a 
pátria. O despotismo colonial folgou de achar 
na estúpida denuncia de um malvado rábula, 
que o ódio fradesco incitara na mais vil intri- 
ga, um pretexto para aferrolhar nos subter- 
râneos da Ilha das Cobras por mais de dois 
annos e com inaudita barbaridade, não só o 
nosso poeta Manoel Ignacio, como também 
outros muitos sócios da Academia litteraria 
do Rio de Janeiro, que na grey franciscana 
satiricamente se appellidava Club de Jacobi- 
nos.» ^ 

Alvarenga depois de solto volveu ao ensi- 



* Lisboa, Offic. de Francisco Borges de Sousa. 
Anno MDCCLXXXix. In-4.o de 14 pp. 

2 Rev, trimensaly vol. ni, p. 338, e vol. xxviii, p. 
137. 



500 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



no da Rhetorica, morrendo no l.^ de Novem- 
bro de 1814 com perto de 80 annos. ^ 

Pelo influxo do intelligente vice-rei Luiz 
de Vasconcellos e Sousa, José Basilio da Ga- 
ma viu-se congrassado com o mundo offi- 
cial, obtendo por sua via, por carta regia de 
6 de agosto de 1787 o diploma de escu- 
deiro fidalgo da Casa real. ^ Substituído em 
1790 este homem superior pelo Conde de Re- 
sende, desalmado perseguidor de todos os que 
eram affectos a ideaes de liberdade, José Ba- 
silio da Gama retirou-se para Lisboa. Publi- 
cou em 1791 o poemeto Quitubia, celebran- 
do as façanhas de um soba africano. Já muito 
doente em 1792, debalde foi ás aguas de 
Mó, perto de Coimbra ; eleito sócio corre- 



1 « Sua Magestade attendendo ao dito José Basilio. 
da Gama estar servindo ha 13 annos, 2 mezes e 8 dias 
contados de 25 de Junho de 1774 até o presente de 
Òfficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Rei- 
no, mostrando sempre muito préstimo, aptidão e zelo 
no real serviço, satisfazendo em tudo as obrigações do 
mesmo exercício em que continua ; em consideração do 
que, e do exemplo que allegou ; Ha Sua Mag.^^" por 
bem e lhe praz fazer-lhe mercê de o tomar por Escu- 
deiro fidalgo de Sua Casa, com 450 rs. de moradia por 
mez, e juntamente o accrescenta logo a Cavalleiro fi- 
dalgo d^ella com 300 rs. mais em sua moradia, para 
que tenha e haja 750 rs. de moradia por mez de Ca- 
valleiro fidalgo, e hum alqueire de cevada por dia, pa- 
ga segundo ordenança e he moradia ordinária. — E o 
Alvará foi feito em 6 de Agosto de 1787. 

— José Basilio da Gama, natural da Freguesia de 
Santo António da Villa de S. José do Rio das Mortes, 
do Estado de Brasil, e filho do Capitão Mór Manoel da 
Costa Villas-Boas. (Registo das Mercês de D. Maria i, 
Livro 22, fl. 134.) 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 501 



spondente da Academia das Sciencias (11 de 
Fevereiro de 1795) e sendo-lhe também ante- 
riormente conferido o habito da ordem de 
San Thiago, ^ faleceu em 15 de Julho de 
1795, e sepultou-se na matriz da Boa Hora 
(Belém) de Lisboa. 

Apesar de todas as considerações do mun- 
do official, o partido jesuítico não podendo 
prejudicar em vida o poeta aproveitou o mo- 
mento da sua morte para apagar-lhe as ma- 
nifestações do talento; lê-se no Diccionario 
de Brasileiros illustres : «Um frade que assi- 
stiu a seus últimos momentos, lançou fogo aos 
preciosos manuscriptos das suas Tragedias e 
Poesias ! Só pôde escapar a esse desastre as 
bellas poesias feitas á morte do Conde de 



^ «D. Maria, por graça de Deus, etc. Faço saber 
aos que esta minha Carta de Padram virem, que em 
satisfaçam dos serviços de José Basilio da Gama obra- 
dos no emprego de Official da Secretaria de Estado dos 
Negócios do Reino e no Gabinete do Marquez de Pom- 
bal, dando boa conta de tudo que lhe foi encarregado, 
por espaço de mais de 13 annos desde 25 de Junho de 
1774 até 20 de Agosto de 1788, em que ficou conti- 
nuando sempre com honra e desinteresse; Houve por 
bem fazer-lhe mercê do habito da Ordem de San Thia- 
go da Espada, e 8Ò$000 rs. de tença effectiva de que 
se lhe passaram Padrões, que se assentaram nos Al- 
moxarifados do Reino, onde couberem, sem prejuizo 
de terceiro, e não houver prohibição, com o vencimen- 
to na forma das minhas reaes ordens, das quaes logra- 
rá 121000 rs. a titulo do Habito da dita Ordem, que 
lhe tenho mandado lançar, e isto por Portaria de 29 
de Abril de 1790. Para complemento do que, Hey por 
bem e me praz fazer mercê ao dito José Basilio da Ga- 
ma de 68$000 de tença effectiva cada anno em sua vi- 



502 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Bobadella.» Das suas composições existem as 
que imprimira em vida, e uma ou outra iné- 
dita por collecções e miscellaneas manuscri- 
ptas, em que prevalece o arcadismo. Garrett, 
na introducção do Parnaso lusitano, synthe- 
tisa em poucas palavras o mérito da obra de 
Basilio «verdadeiramente nacional e legitima 
americana.» O poeta tinha a consciência* da 
superioridade do poema, quando ao termi- 
nal-o escrevia: 



Serás lido, Uraguay ! Cubra os meus olhos 
Embora um dia a escura noite eterna; 
Tu, vive, e gosa luz serena e pura. 
Vae aos bosques de Afcadia, e não receies 
Chegar desconhecido áquella areia : 

(Canto V, p. 101.) 



da, com que foi deferido pelos seus serviços ; e os di- 
tos 68^000 rs. de tença lhe serão assentados em um 
dos Almoxarifados do reino em que couberem sem pre- 
juízo de terceiro, e não houver prohibição e o venci- 
mento d'elles de 29 do mez de Abril do anno presente 
em diante, dia da data da Portaria doesta mercê até a 
do assento será na forma das minhas ordens, tudo na 
conformidade do Alvará de 17 de Abril de 1789. Lis- 
boa, 1 de Maio de 1790. — P. Portaria do Secretario 
de Estado dos Negócios do Reino de 29 de Abril de 
1790. (Registado em 5 de Maio de 1790.) Livro 25 das 
Mercês de D. Maria i, fl. 157. — A folha 239 t- vem re- 
gistada a parte relativa á Ordem de San Thiago. 

Por carta regia de 31 de Agosto de 1793 foi conce- 
dido a José Basilio da Gama o transito da Ordem de 
San Thiago para a Ordem de Christo, tal couio na 
mesma data se concedera ao poeta Nicoláo Tolentino 
de Almeida. (Registro geral das Mercês de D. Maria i, 
Invi*o^7„il. 166 )ír.) 



ft 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 503 

* 

Bibliographia das Obras de José Basilío da Gama 

1769 (1.^ edição) 

O Uraguay ; Poema. Lisboa, na Reg. Off. Typ. In-8.<^ 
Appenso no mesmo formato : Relação abbreviada 
da Republica que os religiosos Jesuitas das Pro- 
vindas de Portugal e Hespanha estabeleceram nos 
do?ninios ultramarinos das duas Monarchias, etc. 
(Esta Relação anda junta á Collecção dos Breves 
pontifícios e leis regias.) Também se publicou em 
refutação d^elle : Resposta apologética ao poema 
intitulado Uraguay, comj^osto por José Basílio da 
Gama, e dedicado a Francisco Xavier de Mendon- 
ça Furtado, irmão de Sebastião José de Carvalho e 
Mello, conde de Oeiras e marquez de Pombal. Lu- 
gano, 1786. Com lie. dos superiores. In-8.« de 
300 pp. 

1769 

Epithalamio ás núpcias da sr.^ D. Maria Amélia, filha 
do Marquez de Pombal. Lisboa, na Offic. de José 
da Silva Nazareth. 1769. In-4.o de 10 pag. (Em 15 
Outavas.) 

1772 

A Declamação trágica: Poema dedicado ás Bellas Ar- 
tes. (Consta de 238 versos alexandrinos.) Lisboa, 
na Reg. Off. Typ. In-8.« de 12 pp. 

1773 

A Liberdade^ do sr. Pedro Metastasio, poeta cesáreo, 
com a traducção franceza de Mr. Rousseau, de Ge- 
nebra, e "a portugueza de Termindo, poeta árcade, 
Lisboa, na Reg. Off. Typ. 1773. In-8.<^ — Id. Bur- 
gos. De 15 pag. 

1776 

Os Campos Elysios, Outavas de Termindo Sepilio 
aos ill."*os e ex.'""« senhores Condes da Redinha. 
Reg. Off. Typ. In-4.o de 7 pp. 

1777 

Soneto á acclamação da Rainha D. Maria i. (Folha 
avulsa.) Assigna: Termindo, Pastor da Arcádia, 



504 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1788 

Lenitivo da Saudade, na morte do ser."^« sr. D. José, 
Princepe do Brasil, por um anonymo. Lisboa, na 
Offic. de Godinho. 1888. In-4.« de 7 pag. 

1791 

Quituhia, Lisboa, na OfL de Galhardo. 1791. In-4.^ 
gr. de 13 pp. 

1809 

Na Collecção de Poesias inéditas dos melhores Aucto- 
res portuguezes, Lisboa, 1809, vem no tomo i: — 
Ode ao sr. D. José (p. 5), Odes (p. 86 e 153) ; dois 
Sonetos (tomo iii, t). 126 e 127.) Quitubia (tomo i 
p. 97.) 

1811 (2.^ edição) 

O Uraguay. Rio de Janeiro. Impr. Regia, 1811. In-8.<> 
de vii-87 ; 2 p. com dois sonetos em louvor do poe- 
ma. — Reproduz a de 1769. 

1814 

No Jornal de Coimbra, vol. vn, n,^ xxxv. P. 1.* p. 213 : 
Glosa improvisada em decimas, ao mote: <?; Muitas 
terras tenho andado... (Anonyma.) Innocencio 
tem-na por indubitavelmente de José Basilio, affir- 
mando que o mote fora dado pelo Duque de Lafões. 

1820 

No Jornal Encyclopedico de Lisboa: Vem a Declama- 
ção trágica. 

1822 (3.^ ecliçào) 

O Uraguay; Poema. Lisboa, 1822. In-8.<> 

1829-30 

No Parnaso brasileiro, ou Collecção das melhores Poe- 
sias dos Poetas do Brasil, tanto impressas como 
inéditas. Rio de Janeiro. Typ. imp. e nac. 1829 e 
1830. In-4.o— Soneto auma senhora (1.® caderno, 
p. 21); Epithalamio, (ib. p. 27); Canto ao Mar- 
quez de Pombal (ib. p. 31); Soneto ao Inca do Pe- 
ru (ib. p. 64.; A Declamação trágica (2.» cad., 
p. 3) ; Soneto ao Marquez do Pombal (3.^ cad. 



JOSÉ BASÍLIO DA GAMA 505 



p. 13); Soneto dedicatorio do Uraguay (ib. p. 14) ; 
Soneto a N.^ Senhora (ib. p. 15) ; — á Rainha (ib. 
p. 16); — á Náo Serpente (ib. p. 25); — a elrei 
D. José (ib. p. 68.) 

1839 

O Romancista (jornal) em 1839, p. 147 : Soneto contra 
o P.6 Manoel de Macedo. (Attribuido.) 

1844 (4.^ edição) 

Uraguay. Rio de Janeiro. Typ. Austral. In-8.<» de 70 
pp. (Forma o tomo i da Èibliotheca brasílica, da 
Minerva Brasiliense.) 

1845 (5.^ edição) 

Uraguay, (Impresso juntamente com o Caramuru, na 
collecção — Épicos brasileiros, por F. Adolpho de 
Varnhagen.) Lisboa, 1845. — Substituiram-se anti- 
gas notas do auctor por outras do editor, por me- 
lindres. 

1853 

Xa Miscellanea poética ou Collecção de Poesias diver- 
sas. Rio de Janeiro. 1853. Vem : — Soneto a el rei 
D. José, p. 116; e a p. 155 o Soneto ao P.^^ Mace- 
do. 

1855 (6.^ e 7.* edição) 

raguay. Rio de Janeiro. (Na Empreza typographica 
Dois de Dezembro.) 1855. In-8.o de 95 pag. — E' 
reproducção em separado do texto do poema que 
vem na Marmota fluminense^ periódico de Paula 
Brito. 

1895 (8.^ edição) 

Uruguay, precedido de um Estudo critico por Fran- 
cisco Pacheco. Livraria Clássica de Alves & Comp.-^ 
Rio de Janeiro — S. Paulo, 1895. — 1 vol. in-8.« 
peq. de xxiv-78 pp. — Esta edição foi feita «por 
occasião do Centenário de Basilio da Gama. O 
exemplar enviado foi impresso com quinze dias de 
antecedência...» (Carta particular de F. Pacheco.) 
Tem o retrato de José Basilio da Gama, e um va- 
lioso prologo biographico e bibliographico. 



yi 

FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 



Servindo o mesmo pensamento de dar á 
poesia brasileira o colorido dos aspectos da 
natureza americana, e os themas tradicionaes 
da época colonial em que se revelava uma 
aspiração de nacionalismo, apparece-nos li- 
gado pela amisade e idêntico enthusiasmo 
com o cantor do Uragiiay, o idealisador do 
Caramurú, Frei José de Santa Rita Durão. 
Pertence a essa plêiada dos Poetas da pro- 
víncia de Minas, que apoiaram o seu senti- 
mento esthetico no sonho de uma Pátria bra- 
sileira. Nasceu na localidade de Oata-Preta, 
quatro léguas distante da cidade de Marian- 
na, diocese e arraial de N. S. de Nazareth do 
Inficionado; ^. foram seus pães o Sargento- 



^ No poema Caramurú^ explica Durão a origem 
doeste nome : «Inficionado. Povo importante das Mi- 
nas de Mato a dentro; chamado assim, porque o ouro, ; 
que tinha mui subido, perdeu os quilates mais altos, ^:, 
e ficou chamado ouro ifificionado. Assim o soube o ' 
Poeta dos antigos d^aquella parochia, de que elle é na- 
tural.» (Cant. IV, not. 4.) 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 507 

mor Paulo Rodrigues Durão, e Dona Anna 
Garcez de Moraes. A data do seu nascimento 
pode hoje fixar-se entre 1718 a 1720, rela- 
cionada com successos decisivos da sua vida. 
Os primeiros annos foram passados no Rio 
de Janeiro, frequentando o Collegio dos Je- 
suítas ; sendo alli admittido aos doze annos 
(1730) e terminando o curso passados seis 
annos (1736), temos para a vinda de Durão 
para Portugal, e o noviciado na ordem dos 
Gracianos, o intervallo que vae ate a sua pro- 
fissão em 12 de Outubro de 1738. Innocencio 
achou esta data documentada, que obriga a 
considerar, que devendo entrar na maior eda- 
de para a Ordem de Santo Agostinho teria 
então, pelo menos vinte annos, quando jurou 
a regra da reforma nas mãos do Prior Fr. 
Francisco de Vasconcellos. Seu pae entregou 
á Ordem uma tença de 2:000 cruzados para 
sustento do filho; sabe-se isto por uma 
carta intima do poeta ao bispo Cenáculo. No 
Livro da Receita e Despeza da Graça, de 
Lisboa, vem os seguintes apontamentos: 

«Gastou-se: 

«Em pagar a tensa ao P.^ Fr. José de 
S.^^ Rita Durão, vensida em Novembro de 
1746, e foi o primeiro anno em que começou 
a cobralla: quarenta e oito mil reis. (Fl. 38.) 

«Gastou-se em pagar ao Irmão Fr. José 
de Santa Rita Durão a tensa do l.<^ anno; 
quarenta e outo mil reis. (Fl. 51 ^.) 

« — Em pagar ao Irmão Fr. José de San- 
ta Rita Durão, quatorze mil e quatrocentos, 
á conta da sua tensa do 2.<^ anno. (Fl. 56 ^.) 

« — Em acabar de pagar ao Irmão Fr. Jo- 
sé de Santa Rita Durão do 2.^ anno, trinta e 



508 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tres mil e seiscentos reis, que juntos aos 
14.400, a fl. 56, fazem os quarenta e oito mil 
reis. (Fl. 62 %) 

« — Em pagar ao Irmão Substituto Fr. Jo- 
sé de Santa Eita Durão a tensa vensida em 
Novembro do 8.^ anno, quarenta e oito mil 
reis (Fl. 73 %) ^ 

Por estes apontamentos vê-se, que Frei 
José de Santa Rita Durão depois de ter se- 
guido os estudos theologicos no convento de 
Lisboa, foi á custa da sua tença para o Oolle- 
gio da Graça de Coimbra, d'onde fez os exa- 
mes e formatura na Universidade. Os Jesuí- 
tas tinham publicado em 1746 o seu celebre 
Edital em que prohibiam no ensino a discus- 
são das doutrinas de Descartes, Gassendi e 
Newton; as Ordens monásticas reagiram nos 
seus Oollegios proclamando a Philosophia 
moderna. Cenáculo falia d'este movimento 
que em Coimbra antecedeu muitos annos a 
reforma pombalina. 

Em um quadro dos estudos litterarios na 
Ordem Terceira de San Francisco em Portu- 
gal, pelo Arcebispo D. Frei Manoel do Cená- 
culo, referindo-se á cultura da lingua hebrai- 
ca, allude ás suas relações de intimidade com 
Frei José de Santa Rita Durão, em 1750: 
«Mas no principio das tentativas (interesse 
pelas linguas orientaes) pareceu-nos unir as 
forças de Coimbra, fomentando-se, emquanto 
á lingua hebraica, a competência reciproca en- 
tre mim e os doutores Frei Nicoláo de Belém 



1 Torre do Tombo, B. — 46— 8. Nota offerecida 
pelo sr. Pedro de Azevedo, digno official do Arch. nac. 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 509 

e Fr. José de Santa Rita Durão, eremitas de 
Santo Agostinho, pelos annos de cincoenta. 
Começamos o estudo pela Arte do P.® Qua- 
dros, e depois pela de Buxtorfio e seu Lexi- 
con.» ^ Esta referencia importante, revela-nos 
a intimidade para a qual vinte e três annos 
depois appellou Santa Rita Durão, foragido 
de Portugal. Como se vê pelo texto transcri- 
pto, era já Doutor em 1750; isto se coaduna 
com o titulo de Substituto, junto de seu nome 
no Livro da Receita e Despeza da Graça; 
demais, Cenáculo, graduado em 26 de Maio 
de 1749, e concorrendo á Ostentação na Fa- 
culdade de Theologia (Cadeira de Scotto) em 
1751, dá a entender que os outros Doutores 
que com elle se empenhavam no estudo da 
lingua hebraica era com o intuito do magisté- 
rio. Na lista dos Oppositores de 1751 apparece 
Fr. Nicoláo de Belém, graduado em 23 de Maio 
de 1741. ^ Pereira da Silva (Var. illustr., i, 
301) diz que Durão se graduou em 24 de 
Dezembro de 1756, em theologia, sendo mais 
plausível pelo facto da substituição, em 1746. 
O systema da longa Opposição e o numero 
excessivo de Oppositores ás cadeiras da Fa- 
culdade de Theologia, tornava-lhe muito tar- 
dia a entrada no magistério. Em Coimbra se 
conservou entregue a estudos litterarios, se- 
gundo o costume lendo no seu Collegio da 
Graça cadeiras da Universidade, cuja fre- 
quência para os alumnos internos era valida 
para os exames e gráos officiaes. Cultiva- 



^ Ms. reproduzido no Panorama, vol. vni, p. 179. 
2 Hist, da Universidade, t. ni, p. 225, n.° 59. 



510 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



va a poesia, e por ventura a presente Ode 
inédita, pertence a essa época anterior á sua 
viagem á Itália: 

Defendendo Conclusões de Rhetorica um Menino 
de edade de sete annos 



Ode lyrica 

Ser eloquente a lingua de um menino, 

E' maravilha do poder divino, 

E' Deus mesmo que o disse em lances vários, 

Que, para confusão de seus contrários 

Prova não pode haver mais evidente 

Que dar-lhe infantil bocca balbuciente, 

Soltando apenas o materno peito 

Com innocente voz louvor perfeito. 

Não é, menino meu, que eu já consagre 
O que estamos a ouvir-te a algum milagre ; 
Que, milagre será que ainda tenrinho 
De um raminho saltando outro raminho 
Salte o rouxinol ; em nada estranho 
Balir o cordeirinho entre o rebanho. 
Porque urra o lobo, ou porque brame a fera, 
Se do ecco que escutou não apprendera 
Na vossa espécie quem na infância ouvira 
As vozes da rasão que proferira. 
A tenra edade como imita e escuta. 
Ou vive racional ou morre bruta. 
Foras milagre, e monstro te mostraras 
Se a lingua de teus pães nos não fallaras. 
Filhos de sábios ha, mas sábios taes 
Que o são, como homens sim, não como pães, 
Que dando ao filho o sêr, dando o sustento. 
Nada lhe dão do próprio entendimento ; 
Que todo o amor lhe põem, toda a vontade, 
Mas negam-lhe a rasão e a humanidade; 
Que em vez do necessário justo lume 
A ignorância lhe inspiram no costume. 
Filhos assim ! . . . Que filhos desgraçados ! 
Quanto Ih^era melhor não ser gerados. 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 511 



Tu, menino feliz, tiveste a dita 

De nasceres de um sábio que medita, 

Que estuda, pensa, indaga, e creio, sonha 

Como toda a grande alma em ti reponha; 

Em ti se pinta e mira, em ti se expende 

Quanto vê, quanto estuda e quanto emprehende. 

Hora não ha, de que elle desvelado. 

Não roube alguma parte ao seu cuidado. 

Se lê, se escreve ou falia, sempre é d^arte 

Que em tudo o seu menino hade ter parte. 

A avesinha que nutre a tenra cria 

Que dentro em o ninho por sustento pia. 

Não a vedes girar pela espaçosa 

Vasta, etherea região, que cuidadosa 

Que sollicita vae, discorre e-em pressa 

Torna ao filhinho e volta, e jamais cessa, 

E ora no bico leva ao caro ninho 

O apetecido insecto, ora o grãosinho, 

Logo no curvo bico agua lhe colhe 

Com que a prole querida as fauces molhe. 

Tal de amor mole o Pae de estudos rico 

Quanto ao menino ouvis, meteu no bico. 

Pae, que tanto aos filhos se consagre. 

Dos" filhos não me admiro. . . elle é milagre ; 

Milagre inda maior pareceria 

Se não acontecera cada dia 

Como vemos que a infância anda educada 

Que haja menino algum que entenda nada, 

Sem milagre e por lei da natureza 

Nunca falia na lingua portugueza. 

Que ouviu só o inglez : o italiano 

Não nasce em Roma no idioma hispano. 

Como pode nascer qualquer que escuto 

Creado na ignorância como um bruto. 

Postoque ouvem e vêem, mas não são poucos 

Alguns que por lição se fazem loucos. 

Com fátua educação, néscia e profana 

Sem sombra ao menos de rasão humana, 

Vêr-lhe aos sete annos uso de rasão ! 

-Se ha tal, não é milagre, é milagrão. 

Misera humanidade, em que profundo 

Te precipitas nas paixões do mundo ! 

Fallar não sabe o tenro pequenino, 

Não se sabe benzer falto de ensino, 



512 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Ideia elle não tem, nem sentimento 

Que o faça racional um só momento. 

E vês com que paixão e com que fogo 

Já toma as cartas e conhece o jogo. 

Vêr-lhe-heis por suggestões, que ouvem, malignas 

Palavras proferir livres e indignas. 

Chega assim o infeliz néscio e perverso, 

Ao uso da rasão por modo inverso, 

Monstro horrível, a quem o entendimento 

Serve a toda a maldade de instrumento, 

E se inquiris do réo de tanta culpa. 

Qualquer d^elles sobre outro se desculpa: 

A mãe crimina o mestre; o mestre ao pae, 

O pae queixa-se de ambos, e assim vae 

Perdida a infausta prole por mil modos, 

Por culpa (esta é a verdade) d'elles todos. 

Que empenho, que despeza, que desvello. 

Não logra um tal cãosinho porque é bello ! 

Tral-o no colo a mãe, que o filho entrega 

A uma immunda, uma rústica, a uma cega. 

Que nada entende ou sabe, e apenas falia; 

Mas isto é crear prole, ou engeital-a ? 

Emtanto, o cão se beija, o cão se amima. 

Na meza o bocadinho que se estima; 

Hade ir na sege, e pode ser no seio. 

Bem que talvez de máos aromas cheio. 

Não pega em somno, se o não tem na cama, 

E se o filho lhe mostra a bruta ama 

Nunca ouviste o desdém doestas deidades: 

-^Ai, tira isso d'ahi! Que sugidades. — 

Pranto se quer, não riso em tal matéria, 

Grande desgraça em fim, fatal miséria, 

Que tamanho desvello a taes só leve 

A um vil animalsinho ! E a quem o deve, 

A própria imagem sua a quem deu vida. 

Tratar a mãe e pae como homicida ! 

No exame d'este filho o pae se approva, 
E é lastima que seja cousa nova. 
Que um quasi só cumprisse na cidade 
O que todo o pae deve á humanidade. 

Fr, José de Santa Rita Durão * 



Ms. X. 5. 50 (Caixa) fl, 35 a 37. Bibl. Nac. 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 513 



A estes ócios litterarios também pertence 
o poemeto em latim macarronico em 76 exa- 
metros, intitulado: Descripção da Funcção 
do Emperador de Eiras, que se costuma fa- 
zer todos os annos em o Mosteiro de Cellas, 
junto a Coimbra, dia do Espirito Santo, em 
verso macarronico pelo R.^° P. Mestre Frei 
José de Santa Rita Duram. ^ E' curiosíssima 
esta festividade tradicional, comparada com 
o costume ainda vivíssimo no archipelago dos 
Açores, denominado Impérios do Espirito 
Santo, ^ 

A vida de remanso que Durão passara ia 
perturbar-se na convulsão e reacção das lu- 
€tas pombalinas. Tendo de pregar na sé de 
Leiria o sermão de acção de graças por el-rei 
D. José ter escapado dos tiros da emboscada 
de 3 de septembro de 1758, foi mui longe a 
fama da sua eloquência, e por tanto a ani- 
madversão da parte dos sectários da Compa- 
nhia de Jesus, á qual se começava a imputar 
a tentativa ou plano do regicídio. O bispo de 
Leiria D. João Cosme da Cunha, para lison- 
gear o terrível ministro, publicou em 1762 
uma violenta Pastoral contra os Jesuítas ex- 
pulsos. Não faltou quem dissesse que Santa 
Rita Durão se inculcava como auctor da Pas- 
toral, o que feriu profundamente a vaidade 
do bispo, que transferiu para Évora o frade 
graciano. O Provincial da Ordem de Santo 



1 Ms. da Bibl. da Universidade ; alguns excerptos 
publicados no Portugal pittoresco, t. i, p. 158 a 161. 

2 Cantos populares do Archipelago açoriano, p. 
592 a 394. 

G3 



514 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Agostinho era Frei Carlos da Cunha, irmão 
do bispo, e não deixou de pezar n'esta vin- 
gança. E como o bispo fosse em premio da 
Pastoral nomeado Arcebispo de Évora, en- 
tendeu Frei José de Santa Eita Durão fugir- 
lhe ao rancor saindo de Portugal. Era o fita 
da sua viagem ir por Hespanha a Roma; 
pensamento que de longe o seduzia. Mas es- 
tavam então em hostilidade Portugal e Hes- 
panha, na chamada Guerra velha, por causa 
do Pacto de Familia; o frade poeta foi consi- 
derado suspeito, e como espião encarcerado 
no Castello de Segóvia. Na carta a Cenáculo 
precisa o facto: «As minhas desgraças me le- 
varam inconsideradamente a Cidade Rodrigo 
no anno de 1762, a 6 de Janeiro; ahi me de- 
tive sempre na obediência religiosa até rom- 
per-se a guerra.» Depois de ter sido assigna- 
do o tratado de paz em Paris, em 10 de Fe- 
vereiro de 1768, é que lhe restituíram a li- 
berdade, dirigindo-se segundo o seu primeiro 
intento para Roma. Ahi na Cidade eterna con- 
viveu em intima familiaridade com o seu pa- 
trício e amigo José Basilio da Gama, no con- 
vívio dos mais cultos espíritos italianos, tae& 
como Alfieri, Pindemonte, Cesarotti, Soave, 
Casti, Parini, Verri, Pecaria e Filangieri. Por 
influencia do Cardeal Justiniani, em 1764 
conseguiu secularisar-se, ficando como clérigo 
sujeito á auctoridade episcopal. Como meio 
de subsistência, tendo cessado a tença que 
seu pae lhe estabelecera na Ordem augusti- 
niana, d'onde sahira, alcançou o ser biblio- 
thecario da Livraria pubHca Lancisiana, em 
que se occupou nove annos; tomara parte em 
vários Congressos e Academias. Chegou-lhe 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 515 



em 1772 a noticia da reforma e nova funda- 
ção da Universidade de Coimbra pelo Mar- 
quez de Pombal; e que o seu patrício e con- 
temporâneo nos estudos D. Francisco de Le- 
mos estava nomeado Reitor-Reformador da 
Universidade. Durão pensou em regressar a 
Portugal e concorrer ás vagas existentes na 
Faculdade de Theologia, em consequência das 
jubilações forçadas dos antigos lentes. Longe 
de Portugal, lembrou-se das suas antigas re- 
lações de Coimbra com D. Fr. Manuel do Ce- 
náculo, que fora mestre do Princepe D. José 
e que era bispo de Beja; e appellou para o 
sapiente e sempre benévolo prelado, que es- 
tava na confiança do Marquez de Pombal, e 
fizera parte da Junta de providencia littera- 
ria, escrevendo-lhe a seguinte carta : 

«Ex."^^ e Rev."^o Senhor. — Creio que V. 
Ex.^ se lembrará de fr. José de S. Rita Du- 
rão, Religioso da Graça em Coimbra ; sei que 
este nome lhe fará vir á memoria hum obje- 
cto, que não pode deixar de mover compai- 
xão á sua piedade, (e se me dá licença para 
gloriar-me) á sua antiga amisade. As minhas 
desgraças me levaram inconsideradamente a 
Cidade Rodrigo no anno de 1762 a 6 de Ja- 
neiro; ahi me detive sempre na obed.^ religio- 
sa até romper-se a guerra. Esta circumstancia 
me obrigou a passar-me á Itália, e não achan- 
do modo de estabelecer-me pedi no anno de 
1764 a Monsig.c Justiniani Bispo de Monte- 
fiascone a sua intercessão p.^ viver em algum 
logar in habiht Clerici usque ad regressuni 
pacificum ad Ordinem, Este Prelado recom- 
mendou-me ao Senhor Cardeal Erba Odes- 



516 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



calchi que por accidente se achava enfermo, 
(do que morreu) e pediu por servir a M. Jus- 
tiniani ao S. Cardeal Ganganelli, hoje Papa, 
que se achava visitando-o, que me obtivesse 
a graça sobredita. 

«O Senhor Cardeal Ganganelli em conse- 
guinte o fez, e fui posto Bibliotecário na Li- 
vraria publica Lancisiana, onde servi nove 
annos com muito favor de todos estes sugei- 
tos literatos de Roma, donde sou associado 
aos mais respeitáveis Congressos e Acade- 
mias tanto de Historia Ecclesiastica como de 
Cânones. Agora fui jubilado na sobredita li- 
vraria, e sahi da CoUegiata de S. Spirito com 
animo de concorrer a hua cadeira das que se 
esperam vagantes na próxima abolição dos 
Jesuítas. 

«Tenho boa esperança pela circumstancia 
dita, na boa propenção do Papa. SuppHco a 
V. Exc.^ que pela sua generosa piedade me 
obtenha hua recommendação n'esta matéria, 
e que diga hua palavra a meu favor. 

«Além d'isso lhe peço com summo empe- 
nho e igual necessid.*^' que se digne de prote- 
ger-me a cobrança dos cabidos da minha ten- 
ça, que montam em 456 mil rs. ; os quaes eu 
mando cobrar pelo Senhor António Galli; 
supposto que eu não tenho outros alimentos, 
e que a Religião recebeu 2000 cruzados que 
meu Pai me poz de tença ; a qual por ser por- 
ção alimentaria e liberal é annexa á pessoa. 
Confio na pied.^ e> poder de V. Exc.^ que se 
dignará fazer-me executar sendo necessário 
com a sua protecção a dita cobrança para po- 
der meter-me em estado de continuar a pre- 
tenção já dita e de poder subsistir com decen- 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 517 

cia. Beijo a mão de V. Exc.^ cheio de respeito, 
e de novo imploro a sua piedade, e compaixão 
por hum am.^ antigo e opprimido com 12 an- 
nos de trabalhos e desgraças. 

«Eoma 10 de Ag.« de 1773.= De V. Exc.« 
Servo e humilde creado= /r. José de S, Rita 
Duram,» 

Sobr.^ = Ao Ex.^^o e R."^^ Senhor Bispo de 
Beja do Cons.° de S. M.c f.» Lisboa. = ^ 

Tendo voltado a Portugal em 1774 acha- 
mol-o em 1778 recitando a Oração de Sapiên- 
cia na abertura das aulas da Universidade, 
que se imprimiu com o titulo Oi^atio jyro an- 
nua studiorufiz instauratione, in Academia 
Conimbricensi (ex Tj^p. Académica regia) 
In-4.^. Sob o seu nome Josephi Duram, vem 
Theologia Coiiimbricensis, O. E. S. A (Or- 
dinis Ègressus Sancti Augustini.) E' natural 
que os Gracianos não quizessem perder um 
lente tão conceituado, e que para o attrahi- 
rem ao seu grémio lhe restituíssem a tença 
que lhe deviam, ou o compensassem com a 
dignidade de Prior. E' n^esta situação que se 
encontra o poeta influindo, pela sua auctori- 
dade, mansuetude e perstigio litterario em um 
joven frade discolo, de impetuoso tempera- 
mento, Frei José Agostinho de Macedo, que 
se revelava já como poeta, e que por castigo 
fora desterrado de Lisboa para o Collegio 
dos Gracianos de Coimbra. Durão occupava- 
se então em metrificar o seu poema épico o 
Caramurxi ; e segundo a tradição, que che- 



^ Na Correspondência de Cenáculo, da Bibliothe- 
ca de Évora ; vem publicada no Diccion, bibL, voL xui^ 
(6.0 do Supp.) p. 194. 



518 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



gou até Costa e Silva, José Agostinho de Ma- 
cedo servia-lhe de amanuense, como o mula- 
to Bernardo, que Durão trouxera do Brasil. 
Muitas vezes Durão ditava do banho as ou- 
tavas do poema; outras vezes na frescura e 
silencio do valle de Cuzelhas, para onde ia 
passear, metrificava na composição que o ab- 
sorvia. José Agostinho de Macedo acompa- 
nhando-o, entrou em um regimen de brandu- 
ra, e recebeu as primeiras noções de gosto 
litterario, que decidiram a sua vocação. 

Era companheiro de José Agostinho no 
Oollegio da Graça Fr. Domingos de Carva- 
lho, que chegou a lente de prima de Theolo- 
gia, ao qual escrevia em 1829 recordando 
esse tempo feliz: «a tua presadissima carta, 
que despertou em minha alma as mais enter- 
necedoras recordações. Coimbra! O CoUegio! 
A quinta de Valmeão ! Isto para o meu cora- 
ção, que tem as fibras tão irritadas!» E no 
meio das suas terríveis doenças e polemicas 
politicas e litterarias, que o arrastam, um so- 
nho o consola: «que era o de reverter para a 
Ordem, com uma única condição, de perma- 
necer para sempre n'esse Collegio, e ahi em 
ócio absoluto, seguir o impulso que me deu a 
Natureza para o estudo das boas-lettras, em 
uma cidade conhecida pela sua cultura.» ^ 

Algumas das composições que nos manu- 
scriptos do fim do século xviii apparecem em 
nome de Macedo, como O Ouro, a Caducida- 
de da belleza humana, e A Morte, é prová- 
vel que sejam de Durão, e copiadas no tem- 
po da sua convivência; Macedo nunca as in- 



* Obras inéditas: Cartas e Opúsculos, p. 164. 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 519 



corporou nas suas obras. ^ A queda do Mar- 
quez de Pombal, e a sabida de D. Francisco 
de Lemos da reitoria da Universidade, influi- 
ram na retirada de Fr. José de Santa Rita 
Durão de Coimbra. Não estava para defron- 
tar-se com a reacção anti-pombalina, e tratou 
de recolher-se á sua Ordem, em Lisboa, em 
1779, indo viver para o Hospicio do Collegi- 
nho. Aili, como jubilado, entregou-se ás suas 
predilecções litterarias, e dirigiu a impressão 
do poema Garamurú, por conta de Du Beux, 
livreiro francez. O poema não fez emoção no 
publico, assoberbado pelo Intolerantismo e 
recrudescência da Inquisição; é natural que 
o receio das perseguições, mais do que o de- 
speito pela indifferença pela sua obra, o levas- 
se a rasgar os seus versos lyricos inéditos. 
Escreve Varnhagen: «em mãos de um ex- 
frade existiram copias de muitos Sonetos, ver- 
sos lyricos e até jocosos do mesmo Durão, 
que este não consentira que fossem impres- 
sos, e que naturalmente se perderam...» " 
Durão faleceu em 24 de Janeiro de 1784, 
como se verificou pelas Memorias obituárias 
dos PP.^^ Gracianos que foram eseriptoreSy 
sendo sepultado na egreja do mesmo hospicio 
do Colleginho. José Agostinho de Macedo foi 
accusado pelos seus antagonistas de ter con- 
servado silencio em relação aos méritos d'este 
seu insigne mestre, e assacavam-lhe imitações 
que no poema Oriente fizera do Caramurú. 



1 Inéditos de J. A. de Macedo : Censuras, Coinpo- 
sições lyricas, p. 125, e seg. 

2 Revista trimensal, vol. viii, p. 276 a 283. 



520 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 

E' certo, que só no fim da vida fez referen- 
cias elogiosas a Durão na Viagem extática. 
O argumento do poema Caramurú foi esco- 
lhido d'entre as varias tradições dos tempos 
coloniaes coUigidas pelos narradores P.® Si- 
mão de Vasconcellos, Francisco de Brito Frei- 
re e Sebastião da Rocha Pitta; o poeta resu- 
me-as nas seguintes linhas: «A acção do Poe- 
ma é o descobrimento da Bahia, feito quasi 
no meio do século xvi por Diogo Alvares Cor- 
rêa, nobre viannez, comprehendendo em vá- 
rios Episódios a historia do Brasil, os ritos, 
tradições, milícias dos povos indígenas, como 
também a natural e politica das colónias. 

«^Diogo Alvares passava ao novo descobri- 
mento da Capitania de S. Vicente, quando 
naufragou nos baixos de Boipeba, visinhos á 
Bahia. Salvaram-se com elle seis dos seus 
companheiros, e foram devorados pelos gen- 
tios anthropophagos, e elle esperado por vir 
enfermo, para, melhor nutrido, servir-lhes de 
mais gostoso pasto. Encalhada a não, deixa- 
ram-no tirar d'ella pólvora, bala, armas, e 
outras espécies, de que ignoravam o uso. Com 
uma espingarda matou elle caçando certa 
ave; de que, espantados os bárbaros o accla- 
maram Filho do Trovão^ e Caramurú, isto éy 
Dragão do Mar, Combatendo com os gentios 
do sertão, vence-os, e fez-se dar obediência 
d'aquellas nações barbaras. Offereceram-lhe 
os príncipes do Brasil as suas filhas por mu- 
lheres; mas de todas escolheu Paraguaçu, que 
depois conduziu comsigo a França ; occasião 
em que outras cinco brasilianas seguiram a 
náo franceza a nado, por accompanhal-o, até 
que uma d^ellas se affogou, e intimidadas as 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 521 



outras se retiraram. ...Passou á França em 
náo que alli abordou d'aquelle reino, e foi 
ouvido com admiração de Henrique ii, que o 
convidara para em seu nome fazer aquella 
conquista. Eepugnou elle, dando aviso ao 
Snr. D. João iii, por meio de Pedro Fernan- 
des Sardinha, primeiro bispo da Bahia. Oom- 
metteu o monarcha a empreza a Francisco Pe- 
reira Coutinho, fazendo-o donatário d'aquella 
Capitania. Mas este não podendo amansar os 
Tupinambás, que habitavam o Recôncavo, re- 
tirou-se á Capitania dos Ilheos ; e pacificados 
depois com os Tupinambás, tornava á Bahia^ 
quando alli infaustamente pereceu em naufrá- 
gio. Em tanto Diogo Alvares assistiu em Pa- 
ris ao baptismo de Paraguaçu, sua esposa, 
nomeada n'elle Catherina, por Catherina de 
Medicis, rainha christianissima, que lhe foi 
madrinha, e tornou com ella para a Bahia, 
onde foi reconhecida dos Tupinambás como 
herdeira do seu Principal, e Diogo recebido 
com o antigo respeito.» 

E' sobre esta extraordinária e poética 
aventura, que Durão fundou uma Epopêa na 
forma odyssaica ; nada podia accrescentar á 
belleza da realidade, limitando-se a ampliar a 
parte descriptiva com o defeito dos discursos 
rhetoricos, que prejudicam a ingénua espon- 
taneidade primitiva. A forma da outava en- 
decasyllaba, que obriga ao mesmo arranjo 
das rimas e ás cadencias epigrammaticas da 
parelha final, imprimem uma certa monotonia 
fatigante ao poema, que se salva pelo intuito; 
diz Durão: «Os successos do Brasil não me- 
reciam menos um Poema, que os da índia, 
Incitou-me a escrever este o amor da Pátria. y> 



522 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

Estava creado nas almas o sentimento de uma 
Pátria brasileira; e existia a intuição de que 
esse sentimento se converteria em consciência 
de uma Nacionalidade autónoma. Durão não 
teve coragem para idealisar esse espirito de 
independência revelado no elemento indíge- 
na; abandonou o resto da tradição do Cara- 
murú, que é extremamente poética. Trans- 
crevemol-o do resumo de Wolf : 

«Alvares regressou á Bahia com sua es- 
posa, então já chamada Catherina, mas des- 
avindo-se com Francisco Pereira Coutinho, 
que tinha sido feito Donatário da costa da 
Bahia, foi feito prisioneiro pelo seu adversá- 
rio, que fez correr a nova da sua morte. Pa- 
raguaçu desesperada, e querendo vingar o 
marido, incita os Tupinambás á revolta contra 
Coutinho, vence-o em uma lucta tenaz e aca- 
ba por matal-o. Diogo Alvares libertado por 
sua mulher, submette-se ao novo Governador 
geral Thomé de Sousa, e morreu de edade 
avançada (1557) deixando uma numerosa 
posteridade.» ^ 

Fernando Wolf aponta os motivos por que 
esta importante acção não foi tratada no Poe- 
ma, a vingança de Paraguaçu: «Não proveiu 
isto somente do pouco talento de composição 
do poeta, mas principalmente de uma causa 



^ O Dr. Sousa Viterbo, sob titulo de A família do 
Cara7nu7my publicou três cartas regias de D. João iii, 
datadas de 1554, confirmando o gráo de cavalleiro que 
o Capitão geral Thomé de Sousa concedera aos filhos 
e genro do Caramurú ; vê-se por esses diplomas que 
eram Gaspar Alvares, Gabriel Alvares e Jorge Alvares 
filhos de Dioguo Alluarez Caramurú, e «Johani de Fi- 



FREI JOSÉ DE SANTA RITA DURÃO 523 



mais profunda, impessoal, e por esta rasão 
importante para a historia litteraria. E' que 
então o sentimento da dependência da metró- 
pole e da honra de colonos prevalecia ainda 
bastante sobre o patriotismo brasileiro, para 
que se podesse representar os jjortuguezes 
sob um aspecto desvantajoso nas suas rela- 
ções com os indígenas.» E sob esta caracte- 
rística aprecia syntheticamente José Basilio 
da Gama, e Santa Rita Durão: «Este facto 
exerceu uma grande influencia sobre o des- 
envolvimento da litteratura do Brasil, que 
não pode deixar de apontar-se e constatar 
n'estes dois poetas, de um lado o amor da 
pátria e os primeiros symptomas do sentimen- 
to nacional, e de outro a dependência da me- 
trópole e as suas consequências inevitáveis.» ^ 



gueiredo, jenro do sobredito Dioguo Alluarez Caramu- 
TÚ» (Chancell. de D. João m, Liv. 3.^ dos Privilégios, 
fl. 103 s' e 104.) Diário de Noticias, n.» 12.359: O 
quarto Centenário do Brasil. — Varnhagen, na Revis- 
ta trimensal, t. x, p. 129 a 152, em um estudo Cara- 
7nurú perante a historia, fundamenta a existência 
d'este vulto singular bem como a sua viagem a França. 

1 Le Brésil litteraire, p. 59 e 60. Berlin, 1863. 
Esta Historia da Litteratura brasileira ainda não foi 
excedida nos seus contornos geraes ; ahi se encontra 
formulada a base ethnica: «E^ só, indirectamente, que 
estes habitantes primitivos do paiz pelas suas uniões 
com os colonos e pelas raças mestiças que resultaram, 
exerceram sobre o desenvolvimento do caracter brasi- 
leiro e por consequência sobre a Litteratura doeste povo 
uma influencia, que vinha mais augmentar a natureza 
rica e grandiosa do paiz. Assim ao fim de dois séculos 
o caracter nacional dos brasileiros e consequentemente 
da sua Litteratura differia essencialmente dos portu- 
guezes.» (1862.) 



524 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Bibliographla do Poema 



1781 

Caramurií, Poema épico do descobrimento da Bahia, 
composto por Fr. José de Santa Rita Durão. Da 
Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural 
da Cata Preta nas Minas Geraes. Lisboa. Na Re- 
gia Offic. Typ. 1781.In-8.o (Imprimiram-se 2000 
exemplares.) 

1836 

Caramurú. Poema épico . . . Lisboa. Na Imprensa na- 
cional. 1836. In-8.o. (Com uma gravura em cobre). 

1837 

Caramurú. Poema épico... Bahia. Reimp. na Typogra^ 
phia de Serra e Comp. — In-8.^, de 313 pag. ; e 14 
não numeradas com lista dos Subscriptores. — Na 
Avertencia falla-se na raridade do Poema «devida 
á falta de impressões desde a primeira edição.» O 
exemplar para a reproducção foi emprestado por 
Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva, que no tomo 
I e 111 das Memorias históricas e politicas da Pro- 
vinda de Minas commenta passagens doeste Poe- 
ma. 

1845 

Reproducção nos Épicos brasileh^os^ de Francisco Adol- 
pho Varnhagen. Lisboa, 1845. In-16.'' — No Parna- 
so lusitano já tinha apparecido o episodio de Moe- 
ma. 



YII 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 



§ I. A Marília de Dirceu e a Conjuração de Minas 



Para retratar a mulher amada, julgava o 
cantor de Marília insufficientes a coloração 
das flores, as auroras, as estrellas ; mas a 
desgraça de Dirceu, monstruosa pela estúpi- 
da violação das leis da humanidade, para ser 
referida não encontra nas linguas falladas 
uma expressão á altura do protesto que pro- 
voca a brutal iniquidade das leis e dos juizes 
que o victimaram. Essas pequenas canções da 
Marília de Dirceu, que fixaram o ideal entre- 
visto e que a fatalidade impediu de conver- 
ter-se em realidade, ficaram aureoladas pela 
dor inulta, e foram o eterno grito da nature- 
za estrangulada pelo boçalismo de transitó- 
rias convenções sociaes. O conhecimento da 
vida de Gonzaga é que nos determina o nó 
de vibração das suas lyras, e faz comprehen- 
der a verdade do sentimento, que esponta- 



526 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



neamente se impoz e extasiou as almas since- 
ras. E apesar de estar mal tracejada ou re- 
construída a sua vida, os versos da Marília 
de Dirceu foram separados das producções 
do incolor arcadismo com a intuição que com- 
prehendeu a queixa ignorada. 

Thomaz António Gonzaga nasceu na cida- 
de do Porto, freguezia de Miragaia, em Agosto 
de 1744, sendo seu pae o Desembargador 
João Bernardo Gonzaga, natural do Rio de 
Janeiro, e sua mãe 1). Thereza Isabel Clark, 
também portuense de nascimento. Além das 
provanças de filiação para ser admittido á 
leitura de bacharéis na Casa da Supplicação, 
existe a certidão de baptismo do poeta reque- 
rida por elle mesmo, que desfez para sempre 
o equivoco de o darem como brasileiro. ^ Seu 
pae fora Juiz de Fora em Angola, em Cabo 
Verde e Pernambuco ; casou no Porto quando 
para aquella cidade foi despachado Ouvidor, 
em cuja effectividade entrou em 1745. Quan- 



1 Eis o assento baptismal existente na freguezia 
de S. Pedro de Miragaia : 

«Thomaz, filho legitimo do licenciado João Ber- 
nardo Gonzaga e de D. Thereza Isabel Gonzaga ; nas- 
ceu a... de Agosto, de 1744, e foi por mim baptisado 
a 2 de Septembro do mesmo anno, sendo seu padri- 
nho o reverendo Domingos Ferreira de Abreu, assi- 
stente na cidade de Lisboa ; tocou por elle com procu- 
ração o reverendo licenciado António de Deus Campos, 
cónego magistral da sé doesta cidade, e tocou também 
o menino o doutor Desembargador doesta Relação João 
Barroso Pereira, assistente na rua dos Ferradores da 
freguezia de Santo Ildefonso, subúrbios doesta fregue- 
zia.» Apud Pereira da Silva, Varões illustres do Bra- 
sily vol. 11, p. 77. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 527 



do em 1759 foi despachado Desembargador 
para a Relação da Bahia, para alli levou sua 
famiha ; alli passou o poeta alguns annos da 
mocidade, e não deixou de influir este facto 
na forma poética das Lyras suscitado pelo 
tom das modinhas bahianas. Na Lyra vii 
(ii), quando elle já estava despachado para a 
Eelação da Bahia em 1787, e pensava em 
levar comsigo a futura esposa, escrevia : 

Pintam, que os mares sulco da Bahia j 
Onde passei a flor da mocidade; 
Que descubro as palmeiras, e em dois bairros 
Partida a gram cidade. 

Na Justificação feita em Moçambique, em 
1793, também declara ter residido na Bahia. 
Tendo passado a flor da mocidade na Bahia, 
Gonzaga veiu, por ventura tendo seu pae 
acabado o triennio na Relação, para Portu- 
gal com o fim de cursar a Faculdade de Leis 
na Universidade de Coimbra. Na Lyra xxix 
(i) descreve essa viagem transatlântica, pelas 
emoções que lhe ficaram : 

Bruto peixe verás de corpo immenso 
Tornar ao torto anzol, depois de o terem 
Pela rasgada bocca ao ár suspenso ; 

Os pequenos peixinhos 

Quaes pássaros voarem ; ^ 

De tóninnas verás o mar coalhado, 
Ora surgirem, ora mergulharem, 

Fingindo ao longe as ondas 

Que forma o vento irado. 

Verás que o grande monstro se apresenta, 
Um repuxo formando com as aguas 
Que ao ár espalha da robusta venta ;. . . 



528 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Na lijra xxxv (i) repete o quadro da im- 
pressão que lhe deixara a sua primeira via- 
gem, e a entrada na barra de Lisboa : 



Parece vão correndo as negras aguas 
E o pinho qual rochedo estar parado, 
Ergue-se a onda, vem á náo direita, 

E quebra no costado ; 

O navio se deita, 

E ella finge a ladeira 

Saindo do outro lado. 



Já sobe ao grande mastro o bom gageiro. 
Descobre arrumação e grita : — Terra ! 
A' murada caminha alegre a gente, 
*" Alguns entendem que erra; 

Pelo im movei somente 

Conheço não ser nuvem. 

Sim o cume d^alta serra. 

De Mafra já descubro as grandes torres, 
(E que nova alegria me arrebata !) 
De Cascaes a muleta já vem perto. 

Já de abordar-me trata ; 

Já o piloto experto 

Inda debaixo manda 

Soltar mezena e gata. 

Eu vou entrando na espaçosa barra, 

A grossa artilheria já me atroa; 

Lá ficam Paço d' Arcos, e a Junqueira; 

Já corre pela proa 

Uma amarra ligeira, 

E a náo já fica surta 

Diante da grão Lisboa. 

De Lisboa seguiu Gonzaga para Coimbra, 
matriculando-se na Faculdade de Leis no 1.^ 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 529 

de Outubro de 1763; ^ pelo seu requerimento 
para habilitar-se para os logares de lettras 
fundamenta o ter-se graduado em Leis em 
1768. Não concorreu logo á magistratura; 
proseguiu na frequência da Faculdade para 
ser considerado Oppositor e dedicar-se ao ma- 
gistério. Davam-lhe fervorosas esperanças as 
transformações que se iam operar no regimen 
da Universidade pela grande reforma do Mar- 
quez de Pombal, effectuada em 1772. Gonza- 
ga chegou a matricular-se no Livro dos Oppo- 
sitores da Faculdade jurídica, como se vê 
pelo seguinte attestado, com que se abonou 
quando trocou o magistério pela magistra- 
tura : 

«Pascoal José de Mello Freire dos Eeys, 
Deputado do Santo Officio da Inquisição de 
Coimbra, Dez.o»' honorário da Relaçam do 
Porto, e Lente substituto da Cadeira de Direi- 
to Pátrio. 

«Atesto que o Dr. Thomaz António Gon- 
zaga se matriculou no Livro respectivo dos 
Oppositores da Faculdade Jurídica da Nova 
Reforma e Fundação da Universidade, e como 
tal satisfazia as obrigações que lhe eram im- 
postas. Lx.^ 20 de Sbr.« de 1778. 

Pascoal José de Mello Fr,^ dos Eeys,» 

Porque alteraria Gonzaga a sua carreira? 
Para se fazer recommendavel ao Reformador 
e Visitador da Universidade, Gonzaga escre- 



^ Livro das Matriculas da Universidade de Coim- 
bra do anno de 1763, fl. 201 : lê-se ahi «natural do 
For to.» 

34 



530 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

veu um Tratado de Direito Natural e dedi- 
cou-o ao omnipotente ministro,, offerecendo-o 
em um volume de boa calligraphia, e enca- 
dernado. E' certo que esse manuscripto se 
conservou entre os papeis do archivo pomba- 
lino; mas a queda do poder do ministro em 
1777, e a corrente de retrocesso que pezou 
sobre a Universidade para demolir a obra 
pombalina, foram evidentemente a causa de 
Gonzaga procurar um outro rumo para a sua 
habilitação jurídica. 

Antes porém de o seguirmos n'este ca- 
minho, por onde iria á desgraça, vejamos o 
aspecto d'essa obra inédita e desconhecida. Eis 
como Gonzaga explica o que o levou a em- 
prehender o seu Tratado de Direito natural: 

Na Dedicatória doesse livro, que intitula 
Direito natural accommodado ao Estado ci- 
vil catholico, escreve Gonzaga, referindo-se á 
Reforma da Universidade: «Todos sabem ser 
V. Ex.^ aquelle heroe, que amante da verda- 
deira Sciencia, e desejoso do credito dos seus 
nacionaes, os estimulou aos Estudos dos Di- 
reitos naturaes e Públicos, ignorados, senão 
de todos, ao menos dos que seguiam a minha 
profissão, como se não fossem os sólidos fun- 
damentos d'ella. E sendo eu um dos que me 
quiz aproveitar das utilíssimas instrucções de 
V. Ex.^ fora ingratidão abominável o não lhe 
retribuir ao menos com os fructos d'ellas.» 
No frontispício doeste livro Gonzaga assigna 
como Oppozitor ás Cadeiras na Faculdade 
de Leis, na Universidade de Coimbra, 

No prologo ao leitor, justifica a publicação 
do seu tratado : «Resolvi a dal-o á luz incita- 
do de dois motivos. O primeiro foi o ver que 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 531 

não ha na nossa língua um tratado d'esta ma- 
téria ; pois a: traducção de Burlamaque, sendo 
mui diffusa, não dá senão uma noticia dos 
primeiros principios, o que ainda não o faz 
de todos. Esta falta me pareceu que se havia 
remediar, pois sendo ó estudo do Direito na- 
tural summamente útil a todos, não era justo 
que os meus nacionaes se vissem constituídos 
na necessidade, ou de o ignorarem ou de 
mendigarem os soccorros de uma lingua ex- 
tranha. 

«O segundo motivo foi a necessidade que 
ha de uma obra que se possa metter nas mãos 
de um principiante sem os receios de que be- 
ba os erros de que estão cheias as obras dos 
Naturalistas, que não seguem a pureza da 
nossa Religião. Sim, não lerás aqui os erros 
de Grocio, que dá a entender que os Cânones 
dos Concilios podem deixar de ser rectos. Que 
estes e o Papado pertendem adulterar as pri- 
meiras verdades. Não verás chamar aos Pa- 
dres do Conciho satélites do Pontífice, como 
verás nas notas ^ mesmo Grocio. Não ouvi- 
rás dizer que o matrimonio é dissoluvel em- 
quanto ao vinculo, como em Pufendorfio. Não 
lerás que as Leis divinas não obrigam antes 
a morrer do que a quebral-as no foro intimo ; 
e mesmo, que é licito em muitos casos o matar 
cada um a si próprio directamente, o que sup- 
põé ser licito em alguns, como lerás em Tho- 
mas Christiano. Nem também seguir, que o 
matrimonio não he um sacramento, e que se 
o he, que elle se acaba, dissolvido o contra- 
cto, como lerão em Oocceo a Grocio.» ^ 



1 Ms. 29 da Coll. Pombalina. In-4.o de 138 fl. (au- 
tographo.) 



532 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Pelas doutrinas d'este livro vê-se que Gon- 
zaga era um 7'egalista por tal forma exagera- 
do que tudo submettia ao poder summo confe- 
rido por Deus aos monarchas, que domina- 
vam até sobre o poder pontifical! Com certe- 
za o Marquez de Pombal devia comprazer-se 
com esta theoria ; e foi este homem estupida- 
mente accusado de conspirar em uma revolu- 
ção democrática, e condemnado sem uma úni- 
ca prova ! A corrente anti-pombalista fel-o 
abandonar a Universidade de Coimbra, e em 
1778 concorria aos logares da magistratura, 
como se vê pelos seguintes documentos : 

«Senhora 

«Diz o D.^'^ Thomas António Gonzaga, na- 
tural da cidade do Porto, graduado na Facul- 
dade de Leis no anno de 1768, que elle sup- 
plicante se pretende habilitar para os Loga- 
res de Varas ; 

P. a V. Mag.^^ seja 
servida mandar pas- 
sar as ordens necessá- 
rias para a sua habili- 
tação. 

E. E. M.^e.» 
(Passe ordem para o 
Porto, em 22 de Agos- 
to ; e para esta Corte.) 

= «Declara o supplicante, que pela parte 
paterna he filho legitimo do Dz.*^"^ João Ber- 
nardo Gonzaga, cuja filiação pertende justi- 
ficar; e pela parte materna he filho de Dona 
Thomazia Isabel Gonzaga natural da cidade 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 533 

do Porto, freguezia de Miragaia ; ^ e neto de 
João Clarque de nação ingleza, e de sua mu- 
lher Marianna Clarque, ella filha e elle assi- 
stente na mesma cidade e freguezia. 

«Declara o supplicante que he filho legiti- 
mo do Dz.^' João Bernardo Gonzaga, natural 
da cidade do Rio de Janeiro, e de sua mulher 
D. Thomazia Isabel Gonzaga, natural da Ci- 
dade do Porto, freguezia de Miragaia ; neto 
pela parte paterna de Thomé do Souto Gon- 
zaga, e de sua mulher D. Thereza Jação, na- 
tural do Rio, e pela materna, de João Clar- 
que, e de sua mulher Marianna Clarque, ella 
da dita cidade do Porto, e elle natural de 
Londres.» 

«Depositando trinta mil reis, se passem as 
ordens do Estylo para os Ministros das Co- 
marcas respectivas. Lx.^ 29 de Julho de 
1778. C. P. — Freyre — Ao Dez.°^ B."^^" José 
Nunes Cardoso Geraldes, em 23 de Sepbr.° de 
1778.» 

Na entrega do Auto de investigação a que 
procedeu o D.""" Manoel António Freire de An- 
drade, Corregedor do Crime da corte, apon- 
ta-se — «o Bacharel Thomaz António Gonzaga 
natural da Cidade do Porto, e morador n^esta 
cidade de Lisboa, aos Anjos, de edade de 
trinta e quatro annos. . .» 

Na Informação do Corregedor do Civel da 
Cidade de Lisboa, em 18 de Septembro, lê-se: 
«ser o D.oi' Thomas António Gonzaga, que 



1 Escrevemos a pag. 526 Thereza em vez de Tho- 
mazia por confusão do nome da avó paterna, na certi- 
dão transcripta. 



534 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



pretende habilitar-se para os logares de Le- 
tras, natural da Cidade do Rio de Janeiro (!) 
e filho do Dez.oi' João Bernardo Gonzaga... 

«Neto pela parte paterna de Thomé do 
Souto Gonzaga... foi Advogado na referida 
Cidade, aonde se tratou á ley da Nobreza.» 

Gonzaga requereu dispensa do processo 
de investigação no Porto, porque na corte 
«como Pátria commua, existiam pessoas que 
podiam depor concludentemente nas suas ha- 
bilitações.» Foi-lhe isto concedido por despa- 
cho da Eainha, em 12 de Agosto de 1778, pre- 
cedendo informe do Corregedor do Civel. ^ 

Nas investigações effectuadas no Porto 
pelo Corregedor da Comarca, em data de 3 de 
Setembro de 1778, dá-se o Bacharel Thomaz 
António Gonzaga por natural da cidade do 
Porto^ do bairro de Miragaia^ sendo já fale- 
cida sua mãe e seus avós maternos ; que era 
solteiro, e de boa vida e costumes. 

Pela Justificação feita em Moçambique em 
1793, ahi se allude á residência de Gonzaga 
em Beja, aonde esteve um triennio como Juiz 
de Fora. Entrando na posse do seu cargo em 
1779, apparece-nos em 27 de Fevereiro de 
1782 nomeado com a mercê de Ouvidor de 
Villa Eica, no Brasil. No registo do decreto 
na Chancellaria dá-se-lhe já o titulo de Des- 
embargador, o que é explicável pelo gráo su- 
perior que attingira para ser Oppositor na 
Faculdade de Leis. Na mesma data foi tam- 
bém nomeado Provedor da Fazenda dos De- 



1 Leitura de Bacharéis, M. 1, — T — N.« 14. (Tor- 
re do Tombo.) 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 535 



funtos e Ausentes, Capellas e Eesiduos da 
Comarca e Capitania de Villa Eica. Era um 
logar importante pela riqueza da terra, mas 
trabalhosissimo pelas terríveis luctas entre os 
grandes exploradores das minas de ouro e de 
diamantes com os Governadores generaes 
para a cobrança dos impostos, ou o quinto 
da producção mineira. Eis os documentos alle- 
gados : 

«O Dezembargador Thomaz António Gon- 
jzaga: 

«S. Mag.^ Houve por bem por seu real 
Decreto de 27 de Fevereiro do presente an- 
no, fazer mercê ao dito Dezembargador Tho- 
maz António Gonzaga do logar de Ouvidor 
da Capitania de Villa Rica, para o servir por 
tempo de três annos, e o mais que decorrer 
emquanto não mandar o contrario ; o qual lo- 
gar elle servirá na forma do seu Regimento 
e Ordenações do Reino, assim e da maneira 
que o serviram as mais pessoas que antes 
d'elle o occuparam ; e com elle haverá o orde- 
nado, prós e precalços que direitamente lhe 
pertencerem. Do que se lhe passou a Carta 
que foi feita em 15 de Maio de 1782. ^ 



«Sua Magestade etc. por estar vaga a ser- 
ventia do Officio de Provedor da Fazenda 
dos Defuntos e Ausentes, Capellas e Resíduos 
da Comarca de Villa Rica, e ser necessário 
servir-se por Ministro de letras de toda a sa- 



1 Chancellaria de D. Maria i, vol. xii, fl. 882. 



536 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tisfação ; e havendo respeito ao que lhe re- 
presentou o dito D.^ Thomas António Gonza- 
ga, que ora vae servir no logar de Ouvidor 
na dita Comarca, e esperar d'elle que de tudo 
o de que o encarregar a servirá como con- 
vém ; Ha S.^ Mag.^® por bem fazer-lhe mercê 
da serventia do referido Officio de Provedor 
das Fazendas dos Defunctos e Ausentes, Ca- 
pellas e Residuos da referida Comarca de Vil- 
la Rica pelo tempo e Destrito em que servir 
o logar de Ouvidor d'ella, se antes não man- 
dar o contrario ; e que vença e haja de Orde- 
nado, mais prós e precalços que pelo Regi- 
mento que será obrigado ter lhe pertencerem. 
De que se lhe passou Alvará que foi feito em 
25 de Maio de 1782.» {Ibi, fl. 332.) 

Gonzaga entrou na vaga da Provedoria, 
mas esperou até fins de 1784 para occupar a 
effectividade do logar de Ouvidor, pela saida 
do seu antecessor Manoel Joaquim Pedroso. ^ 
Elle não conhecia as terríveis luctas de inte- 
resses e a irrequieta população em que se acha- 
va, revestido de um poder fiscal odioso. Antes 
de o vermos no encantador convívio com os 
poetas da Arcádia de Minas, Cláudio Manoel 
da Costa (Glauceste) e Ignacio José de Al- 



1 No Almanach de Lisboa, de 1783, a p. 170, le- 
se : 

Thomaz António Gonzaga, Ouvidor de Villa Rica, 
como successor de Manoel Joaquim Pedroso. 

1785, p. 234 : Ouvidor effectivo. 

1786, p. 218: Ouvidor. Passa depois para Desem- 
bargador da Relação da Bahia. 

Nos annos de 1787 (p. 108); 1789 (p. 143); e 1790 
(p. 168) ainda apparece citado o seu nome. 



ft 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 587 

varenga Peixoto (Alceu), torna-se necessário 
conhecer esse meio social de Villa Eica, em que 
se lhe esboçou o sonho delicioso da existência, 
e o derrubou uma tremenda fatalidade. 

As Instrucções dadas em 29 de Janeiro de 
1788 ao Visconde de Barbacena, Luiz António 
Furtado de Mendonça, para o Governo da Ca- 
pitania de Minas Geraes, derramam grande 
luz sobre a vida económica e histórica d^aquel- 
la Província. Depois de relatar a grande avi- 
dez dos padres na Capitania, escreve-se sob 
o n.o 26: «Entre todos os Povos de que se 
compõem as differentes Capitanias do Brasil, 
nenhuns talvez custaram mais a sujeitar e re- 
duzir á obdiencia e submissão de Vassallos 
ao seu soberano como foram os de Minas Ge- 
raes. Os primeiros habitadores d'aquella Ca- 
pitania foram uns aventureiros da Capitania 
de S. Paulo, que penetrando os mattos e ser- 
tões com o fim de descobrirem minas de ouro 
as vieram achar nos sitios aonde se estabele- 
ceram e em que presentemente existem conhe- 
cidos por Minas Geraes, nome que depois se 
estendeu a toda a Capitania. 

«Com a noticia doestes descobrimentos sa- 
hiram do Rio de Janeiro e de diversas partes 
outros aventureiros, e vieram também estabe- 
lecer-se nos mesmos sitios ; houve contendas 
e ataques 'entre uns e outros, e o mais pode- 
roso era regularmente o que mais domina- 
va ... » 

Depois descrevem-se as luctas para esta- 
belecer ali governo e a cobrança dos direitos 
reaes dos Quintos, segundo o Regulamento 
de 1 de Agosto de 1618, imposto a final por 
D. Braz da Silveira, pelo methodo das aven- 



538 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ças de um numero de arrobas de ouro, a que 
se chamou das Bateas. • Descreve as constan- 
tes revoltas por causa d'essa cobrança, e as 
fraudes contra a Fazenda, e violências contra 
o Ouvidor, em Villa Rica, e ao mesmo tempo 
os «golpes de suprema severidade» dados para 
atemorisar os irrequietos. 

Quando Gonzaga fixou residência em Vil- 
la Rica, deixava o governo general da Pro- 
vinda Dom Rodrigo José de Menezes; junto 
doeste funccionario estava o Dr. Cláudio Ma- 
noel da Costa, natural da cidade de Marian- 
na, de uma familia paulista do primeiro tem- 
po da exploração das Minas. Tendo este ju- 
risconsulto -e poeta regressado ao Brasil em 
1765, e assentado banca de advogado em 
Villa Rica, os Governadores-generaes consul- 
tavam-o sempre nas questões administrativas 
até que em 1780 entrando no governo D. Ro- 
drigo 'José ^de Menezes o chamou para o lo- 
gar de segundo secretario de estado. ^ Além 
da convivência poética, Gonzaga teria de con- 
ferenciar muitas vezes por necessidade do seu 
cargo com Cláudio Manoel da Costa. A onda 
dos acontecimentos toldava-se, e a administra- 
ção da província tornava-se calamitosa: «Du- 
rante a administração d'este Capitão general 
(D. Rodrigo José de Menezes, de 1780 a 
1783) é que a diminuição da extracção do ou- 
ro começou a tornar-se sensível, e a arreca- 
dação do imposto de capitação difficultosa 
para o governo e pesada para o povo : as 
terras já estavam lavradas ha muitos annos. 



* Revista trimensal, vol. xiii, p. 533. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 539 

e não podiam produzir as mesmas quantida- 
des de ouro ; os novos descobrimentos que 
então se fizeram de algumas faisqueiras para 
as margens do Rio do Peixe e dos ribeirões 
dos Arripiados, de Santa Anna e de S. Lou- 
renço, de Santo António e Alvarenga, com 
quanto promettessem colheita abundante no 
futuro não podiam de prompto satisfazer a 
importância do imposto annexo, e menos li- 
quidar 03 cômputos atrazados, e que se iam 
accumulando.» ^ A divida a fazenda ou the- 
zouro real era de setecentas arrobas de ouro. 
Entrou no governo um novo Capitão gene- 
ral, Luiz da Cunha e Menezes, e como astuto 
explorou este atrazo dos Quintos, fazendo 
vista grossa segundo a importância dos gran- 
des arrematantes. Thomaz António Gonzaga, 
exercendo a serio o seu logar de Ouvidor, pu- 
gnou pelos interesses, fiscaes, mas incorreu no 
ódio do Governador, que informava secreta- 
mente para o ministro em Lisboa, que o Ou- 
vidor fazia processos de execução fiscal para 
augmentar os emolumentos. Parece que a es- 
tas imputações se referira Gonzaga no soneto 
que fecha a Parte ii da Marília de Dirceu: 



p 



Não foram, Villa Rica, os meus projectos 
Metter no férreo cofre copia de ouro 
Que cresça aos filhos, e que chegue aos netos ; 

Outras são as fortunas, que me agouro, 
Ganhei saudades, adquiri affectos, 
Vou fazer doestes bens melhor thesouro, 

(Ms. 7008. Bibl. nac. 



« Ib., p. 534. 



540 HTSTORTA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

O poeta Ignacio José de Alvarenga Peixo- 
to, que fora Juiz de Fora em Cintra, e em 1776 
Ouvidor na comarca do Eio das Mortes, logar 
que resignou para entregar-se á vida de fa- 
milia e ao trabalho da mineração, era tam- 
bém um dos Íntimos amigos do passado go- 
vernador-general D. Eodrigo José de Mene- 
zes (Conde de Cavalleiros) e por isso não era 
visto com bons olhos pelo governador Luiz 
da Cunha e Menezes. Os abusos e vicios do 
novo governador prestaram thema a uma Sá- 
tira manuscripta intitulada Cartas ohilenas^ 
que como obra anonyma servia para malévo- 
las imputações ora contra Gonzaga, ora con- 
tra Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga, 
ora contra os três em collaboração. Junto de 
Luiz da Cunha e Menezes serviu ainda como 
segundo secretario Cláudio Manoel da Costa 
até 1788, em que aquelle fez a entrega do 
poder ao Visconde de Barbacena; é pois mais 
natural que as Cartas chilenas fossem obra 
de Alvarenga Peixoto. ^ Gonzaga, enlevado 
nos seus amores, não carecia de frisar pela 
sátira os desmandos de Luiz da Cunha e Me- 
nezes ; bastavam os seus relatórios e protes- 
tos na Mesa da Junta administrativa, para 
concitar o ódio do governador. A ruina dos 
três poetas, e Íntimos amigos, por uma de- 
nuncia de Conjuração obedeceu a um plano 
de vingança pessoal. Basta aproximar factos, 
que têm passado sempre desconhecidos : 

Em Mesa da Junta da Administração e 
Arrecadação da Eeal Fazenda, presidida pelo 



' Revista trimensal, vol. xiii, p. 515. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 541 



Governador e general da Capitania Luiz da 
Cunha e Menezes, e dos Vogaes Doutor Tho- 
maz António Gonzaga, Affonso Dias Pereira, 
Carlos José da Silva, Francisco Gregório Pi- 
res Bandeira, e escrivão Carlos José da Sil- 
va, em sessão de 13 de Dezembro de 1784, 
foi proposta a arrematação do Contracto das 
Estradas : «Pelo Doutor Ouvidor doesta Co- 
marca, Juiz dos Feitos da Fazenda e Deputa- 
do da Junta, Thomaz António Gonzaga, foi 
dito na forma seguinte : — Na certeza de que 
os Reaes Contractos se devem sempre arre- 
matar a pessoas idóneas, e na concorrência 
de muitas á de mais idoneidade, não só por- 
que assim o pedem os Reaes interesses que 
devo zelar, mas porque assim o mandam as 
Instrucções do Erário de 7 de Janeiro de 
1775, a que devo religiosamente obedecer; 
sou de voto que a este Contracto das Entradas 
se não pode de sorte alguma admittir o lança- 
dor Capitão José Pereira Marques, pelos se- 
guintes fundamentos...» Tratava-se da arre- 
matação de mais um triennio, pelo lanço de 
reis 380:0008000. Como se vê debatiam-se 
grandes interesses, e Gonzaga foi vencido pela 
determinação arbitraria do Governador. 

Em uma Relação dos Contractos que se 
acham por pagar, pertencentes a esta Capi- 
tania de Minas Geraes, em 22 de Septembro 
de 1786, vem apontados os nomes e os con- 
tractos com as dividas correspondentes, que 
sommavam a importância de 2.460:787$813 
reis. Bastava ter Gonzaga organisado esta 
Relação de vinte e nove poderosos contractan- 
tes das Entradas, dos Dizimos, Passagens do 
Rio Grande, de Porto Real, do Rio das Mor- 



542 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tes, Passagens de Sapucahi, do Rio Grande 
do Sapucahi, do Rio de San Francisco, de 
Minas Novas, Rio Verde, para suscitar contra 
o seu rigor fiscal uma profunda malevolencia, 
que machinaria a sua perdição. ^ 

Em uma Carta do Capitão general Luiz 
da Cunha e Menezes, escripta de Villa Rica 
em 5 de Janeiro de 1785, lê-se: «Igualmente 
a V.^ Ex.^ mostro na attestação inclusa, pas- 
sada pelo Escrivão do Contencioso da mesma 
Real Fazenda, não terem resultado outra uti- 
lidade alguma mais, as noventa Execuções 
que se promoveram no Juizo contencioso em 
todo o decurso do dito anno próximo passa- 
do, do que augmentarem-se as dividas que 
são origem das mesmas Execuções, pelas cus- 
tas e mais emolumentos que percebe das 
7nesmas o Juiz dos Feitos, e o dito Escrivão 
do Contencioso, porque a mesma Real Fa- 
zenda se não embolça de um único real.» Fo- 
ram processadas 67 contas correntes, de que 
se extrahiram 51 Executórias, e mais 11 per- 
tencentes á Comarca de Villa Rica; 23 libei- 
los e penhoras respectivas de devedores fis- 
caes dos seus direitos e acções. Vê-se da in- 
formação, que o Governador hostilisava o 
Ouvidor Gonzaga. O poeta, na Lyra xxxv 
(ii) allude aos seus trabalhos fiscaes : 

Esta mão, esta mão, que ré parece, 
Ah, não foi uma vez, não foi só uma, 
Que em defeza dos bens, que são do Estado 
Moveu a sabia pluma. 



1 ColL Pombalina, n.^ 643, fl. 157 a 165. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 545 



A austeridade de Gonzaga como Ouvidor 
foi aproveitada pelo governador ; no processo 
da Conjuração é o seu nome denunciado por 
um «seu inimigo por causa de uma queixa 
que d'elle fez ao Governador Luiz da Cunha 
e Menezes, . .» A' noticia de que ia entrar no 
governo de Minas o Visconde de Barbacena, 
em 1788, correu o boato alarmante, de que 
elle viria forçar ao pagamento das setecentas 
arrobas de ouro em divida á Coroa. Sobre os 
rumores provocados por esta perspectiva, é 
que se forjou a malvada e estúpida denuncia 
de uma imaginaria Conjuração, em que a ra- 
são de estado desceu a baixo da irracional ani- 
malidade bruta. 

Emquanto se formava esta espantosa ca- 
tastrophe da justiça monarchica, contrasta a 
serenidade de espirito com que os poetas da 
Arcádia de Minas se entregavam á idealisa- 
ção artística, e sobre todos Gonzaga*, absorto 
completamente pela paixão de uma joven me- 
nina, natural do Ribeirão do Carmo, celebra- 
da pela sua belleza singular, a gentilissima 
D. Maria Joaquina Dorotliéa de Seixas Bran- 
dão. Quando Gonzaga chegou a Villa Rica 
tinha ella apenas dezeseis annos; como hoje 
se sabe, nascera a inspiradora de Dirceu em 
8 de Novembro de 1767. Gonzaga sentiu a 
emoção decisiva, a psychose que lhe irisou o 
mundo, e comprehendendo agora a verdade 
da poesia, ajuntou todos os versos que com- 
pozera na mocidade e lançou-os ao fogo ; con- 
ta-o na Lyra xxxiv (i) : 



544 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



N'uma noite socegado 
Velhos papeis revolvia, 
E por vêr do que tratavam 
Um por um a todos lia. 

Eram copias emendadas 
De quantos versos melhores 
Eu compuz na tenra edade 
A meus diversos amores. 



Junto pois n^um grande monte 
Os soltos papeis, e logo, 
Porque relíquias não fiquem 
Os intento pôr no fogo. 



— Depois, Amor, de me dares, 
A minha Marília bella. 
Devo guardar umas Lyras 
Que não são em honra d^ella ? 

E que importa. Amor, que importa 

Que a estes papeis destrua. 

Se é tua esta mão que os rasga. 

Se a chamma que os queima é tua ? — 

Apenas Amor me escuta 
Manda que os lance nas brazas, 
E ergue a chamma c'o vento 
Que formou batendo as azas. 

Esta revelação da actividade litteraria de 
Gonzaga presta-se a uma deducção plausível, 
com que concordamos: «E' mui possível que 
a maior parte das Lyras que se publicaram 
com o titulo de 3.^ Parte de suas poesias, e 
que são extranhas ao romance amoroso de 
Marília de Dirceu, e os bons críticos tem re- 
geitado em varias edições como espúrias, — 
é possível, dizemos, que entre ellas haja va- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 545 



rias legitimamente de Gonzaga, mas do nu- 
mero das que elle diz ter regeitado.» ^ A in- 
tensidade do amor de Gonzaga cresceu diante 
da orfandade em que se viu a joven Mai^ilia, 
agora confiada á tutella de seu tio o Tenente 
coronel Ajudante de ordens João Carlos Xa- 
vier da Silva Ferrão ; na Lyra viii (i) allude 
á sua situação: 

A devorante mão da negra morte 
Acaba de roubar o bem que temos ; 



No enlevo dos seus amores, Gonzaga ven- 
do que D. Maria Dorothéa estava órfã de pae 
e mãe, e a aproximar-se dos vinte annos, sente 
anciedade de desposal-a, receiando que aquel- 
le sonho de tanta felicidade seja perturbado 
pela sorte. Elle evoca o presentimento da des- 
graça implacável, sem imaginar que já vem 
pelo caminho : 

Minha bella Marília, tudo passa, 
A sorte d'este mundo é mal segura ; 
Se vem depois dos males a ventura 
Vem depois dos prazeres a desgraça. 



Ah, emqua,nto os Destinos impiedosos 
Não voltam contra nós a face irada, 
Façamos, sim, façamos, doce amada, 
Os nossos breves dias mais ditosos. 

Um coração, que froixo 
A grata posse do seu bem differe, 
A si, Marilia, a si próprio rouba, 

E a si próprio fere. 



1 Rev. trimensaly vol. xii, p. 123. Importa notar 
que ha duas 8.'^'' partes. 

35 



546 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Que havemos de esperar, Marília bella ? 
Que vão passando os florepentes dias ? 
As glorias que vêm tarde já vêm frias, 
E pôde emfini mudar-se a nossa estrella, 

{Lyra xiii, p. i.) 

O namorado vaticinava inconscientemen- 
te; obtivera de D. Maria Dorothéa o sim, e 
tratava de alcançar da metrópole a auctorisa- 
ção para effectuar o seu casamento. As de- 
longas foram devidas á morosidade official, 
mas em todo o tempo podiam servir de prova 
de que procurando fundar o seu lar pacifico, 
e que escrevendo á mulher querida: — Pren- 
damo-nos, Marilia, em laço estreito, Gozemos 
do prazer dos sãos amores, — ^não podia ter o 
seu espirito voltado para as perturbações vio- 
lentas de uma Conjuração. Chegaram-lhe os 
despachos : 

«Sua Mag.^« attendendo aos merecimentos 
do dito D.^^^ Thomaz António Gonzaga, actual 
Ouvidor da Comarca de Villa Rica; Ha por 
bem fazer-lhe mercê de hú logar de Desem- 
bargador da Relaçam da Cidade da Bahia, 
para n'ella servir por tempo de seis annos, e 
o mais que decorrer em quanto não mandar 
o contrario, com a posse que logo tomará de 
um logar de Desembargador da Relação do 
Porto, que virá exercer findo o dito tempo. E 
ha outrosim por bem dispensal-o para que a 
residência que se lhe mandou tirar do logar 
de Ouvidor de Villa Rica, seja sentenciada 
na Relação da Bahia, e sendo havida por boa 
com certidão do corrente possa perante o 
Chanceller da mesma Relação prestar o jura- 
mento que se faz necessário para exercer o 
referido logar de Desembargador da Bahia, 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 547 



O qual elle servirá assim e de maneira que o 
serviram os mais Dezembargadores da mesma 
Relação e com elle haverá o ordenado, prós 
e precalços que direitamente lhe pertencerem. 
Do que se lhe passou Carta em 28 de Novem- 
bro de 1786.» ^ 

«Sua Mag.^^ attendendo ao que lhe repre- 
sentou o dito D.^'' Thomaz António Gonzaga 
achar-se nomeado em hu logar de Desembar- 
gador da Rellação da Bahia; e por que Sua 
Mag.^^ costumava fazer mercê do logar de 
Conservador dos Moedeiros a hum dos Des- 
embargadores da dita Rellaçam, e no suppli- 
cante concorriam os requisitos necessários 
para servir aquelle emprego com satisfação, 
pedia fosse servida mandar-lhe passar Pro- 
visão na forma do estilo; e tendo visto seu 
requerimento, informação que sobre o mesmo 
deu o Secretario do Conselho Ultramarino e 
resposta do Provedor da Fazenda; tia S.^ 
Mag.^e por bem fazer-lhe a mercê de* o no- 
mear no dito logar de Juiz Conservador dos 
Moedeiros da cidade da Bahia para entrar a 
servir quando vier para este reino o Desem- 
bargador José de Oliveira Botelho e Mosquei- 
ra, ultimamente provido n'este emprego, com 
o qual haverá o ordenado que lhe competir 
(se o tiver) e todos os pi;'ós e precalços que 
direitamente lhe pertencerem. Do que se lhe 
passou Provisão em 23 de Novembro de 
1786.» 

Do exercício das suas funcções de Ouvidor 
occultos inimigos quizeram tirar indícios para 



1 Chancell. de D. Maria i, vol. xii, fl. 832. 



548 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

criminal-o, dizendo que aconselhara que se lan- 
çasse a nova derrama : «tendo chegado ordem 
de S. Mag.^^ para se lançar a derrama, elle 
— disse ao Intendente de Villa Rica, Procu- 
rador da Coroa, que o tributo era grande e 
que temia alguma revolução no povo ; e re- 
spondendo elle, que o não requeria, lhe tornou 
o réo (Gonzaga) que como Procurador da Co- 
roa o devia fazer; mas que não sabia se a 
Junta obraria bem em o executar sem dar 
parte a S. Mag.^c; o que mostra, que quem 
inspira semelhantes ideias de quietação não 
interessa no motim do povo.» « . . .sempre que 
fallou com o seu ex.^<^ General lhe disse, que 
nem se podiam cobrar as dividas da Coroa, 
por serem muitas e estar o povo muito pobre; 
e que se devia representar a S. Mag.^^ q es- 
tado da Capitania para as perdoar, o que não 
faz quem quer ser rebelde, que procura a ve- 
xação do povo.» {Arch. do Districto federal, 
p. 121—1895.) 

O Poeta no auto de perguntas de 3 de Fe- 
vereiro de 1790, relata ainda estas questões 
da cobrança: «Que estando o Doutor Inten- 
dente de Villa Rica Francisco Gregório Pires 
Monteiro Bandeira para requerer a imposi- 
ção da derrama, — elle lhe disse, que esta 
derrama podia causar algum desasocego no 
povo ; e respondeu-lhe o dito Doutor Inten- 
dente, que — então a não requeria. Elle lhe 
tornou : que como Procurador da Coroa a de- 
via requerer, mas que não sabia se a Junta 
da Fazenda obraria bem na sua execução 
sem primeiro dar parte a S. Mag.^«. Que di- 
zendo-lhe em outra occasião o dito Doutor 
Intendente — que requeria unicamente o lan- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 549 



çamento de um anno, lhe respondeu : que elle, 
se fosse Procurador da Coroa a requeria por 
todo o tempo, porque o lançamento de um 
anno não tinha rasão para suspender-se e 
bastava para vexar o povo; e que o lança- 
mento inteiro tinha para se suspender pri- 
meiro o chegar á quantia de nove milhões, 
com que não pode toda a Capitania de Minas; 
segundo, que os devedores pelos annos pas- 
sados não existiam, por que uns estavam 
mortos, outros se tinham retirado para Por- 
tugal, e que a maior parte do resto estava 
falido, e que podia servir de bom pretexto a 
execução do dito lançamento a liquidação da 
mesma divida...» E com relação á avença 
de ce7n arrobas de ouro para o Povo de Mi- 
nas as explorar livremente, declarou que dis- 
sera ao mesmo Procurador da Coroa, que era 
preciso abater a parte que pertencia ao dis- 
tricto do Diamantino, que estava fora da 
avença: «Que tendo o mesmo Ex."^<^ General 
(Luiz da Cunha e Menezes) suspendido o mes- 
mo lançamento, lhe disse o dito Doutor In- 
tendente, que queria despacho publico da 
Junta; ao que o réo (Gonzaga) lhe tornou: 
— que elle o não pediria, porque a dita su- 
spensão era muito útil ao socego publico; e 
um vassallo que inspira estas ideias em um 
Ministro zeloso, e que tem uma grande parte 
na administração da Real Fazenda, não 
interessa senão na fidelidade e zelo a que 
se dirigiam semelhantes praticas... Que em 
todo o tempo antes e depois do ex.^"^ General 
suspender a dita derrama sempre lhe disse: 
que o povo não podia com ella pela sua po- 
breza, e que nem se podia cobrar o outro 



550 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

resto da divida fiscal sem destruição total 
do paiz, e que por isso seria muito útil, 
que o mesmo Ex.^^° General representasse a 
S. Mag.^e a necessidade e utilidade de perdão 
de toda a divida, o que não faria se interes- 
sasse na dita rebelião.. .» {Archivo, p. 156.) 
Os estudantes brasileiros na Europa esta- 
vam libertos do perstigio da monarchia para 
comprehenderem que a emancipação dos Es- 
tados Unidos da America deveria influir no 
destino politico do Brasil facilitando-lhe a sua 
autonomia. José Joaquim da Maia, um d'esses 
estudantes, chegou a encontrar-se próximo 
das aguas d'Aix com Thomaz Jefferson, mi- 
nistro da nova republica da America em Pa- 
ris ; o que elles conversaram a respeito de 
uma futura revolução brasileira consta pela 
correspondência de Jefferson com John Gay, 
em que consigna as opiniões ou informações 
do Maia: «no que respeita a revolução não 
ha senão um pensamento em todo o paiz ; mas 
não apparece uma pessoa capaz de dirigil-a, 
ou que se arrisque pondo-se a frente d'ella 
sem auxilio de nação poderosa; todos receiam 
que o povo os abandone. No Brasil não ha 
imprensa ; os brasileiros consideram a revo- 
lução da America do Norte como precursora 
da que elles desejam, e dos Estados Unidos 
esperam todo o auxilio. — Ha um ódio figa- 
dal entre brasileiros e portuguezes. A parte 
illustrada da nação conhece tanto isto, que 
tem por inevitável a separação.» Pela sua 
parte Thomaz Jefferson mostrando que por 
si não tinha poder para adiantar qualquer 
passo, confessava que os Estados Unidos te- 
riam por uma revolução no Brasil o mais ele- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 551 

vado interesse. José Joaquim da Maia mor- 
reu ainda na Europa, perdendo-se assim o 
impulso pratico, que elle naturalmente podia 
dar á aspiração que se manifestava no espi- 
rito de todos, principalmente nos homens de 
lettras. ^ Era este sopro de independência que 
se temia. 

O Alferes Tiradentes, na rectificação das 
perguntas que se lhe fizeram na fortaleza da 
Ilha das Cobras, em 18 de Janeiro de 1790, 
relata uma conversa que tivera com José Al- 
ves Maciel, que acabara de regressar da Euro- 
pa: «tendo elle chegado de Inglaterra — fal- 
taram sobre os conhecimentos que o dito José 
Alves Maciel tinha aqui tido a respeito de 
manufacturas e Mineralogias, dizendo que os 
nacionaes d'esta America não sabiam os the- 
zouros que tinham, e que podiam aqui ter 
tudo se o soubessem fabricar; passou depois 
a fallar dos Governos, o como vexavam os 
Povos, ... ao que o dito José Alves Maciel 
disse, que pelas Nações estrangeiras por onde 
tinha andado, ouvira fallar com admiração 
de não terem seguido o exemplo da America 
l7igleza...» — «posteriormente, tornando a fal- 
lar com o dito José Alves Maciel, tornaram a 
renovar o projecto de que a America podia 
ser uma Republica e viver independente de 
Portugal,.. >y {Ib,, 281 — 1894.) Gonzaga vivia 
no sonho; idealisando a vida de casado com a 
encantadora Marilia, estando já nomeado Des- 
embargador para a Relação da Bahia, d'essa 



^ João Ribeiro, Hist. do Brasil^ p. 238. (No quar- 
to Centenário.) 



552 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



terra aonde também seu pae fora alto magis- 
trado, e onde elle poeta passara a descuidada 
mocidade, pinta um quadro delicioso d'esse 
mundo domestico, em contraste com a vida 
exterior d'aquelle meio brasileiro; a Lyra 
XXVI (i) é de uma belleza artística excepcio- 
nal, trabalhada como forma symphonica que 
desenvolve dois themas simultâneos : 



Tu não verás, Marília, cem cativos 
Tirarem o cascalho e a rica terra, 
Ou dos cercos dos rios caudalosos. 
Ou da minada serra. 

Não verás separar ao hábil negro 
Do pezado esmeril a grossa areia, 
E já brilharem os granetes de ouro 
No fundo da batêa. 

Não verás derrubar os virgens matos, 
Queimar as capoeiras ainda novas ; 
Servir de adubo á terra a fértil cinza, 
Lançar os grãos nas covas. 

Não verás enrolar negros pacotes 
Das seccas folhas do cheiroso fumo ; 
Nem espremer entre as dentadas rodas 
Da doce cana o sumo. 

Verás em cima da espaçosa mesa 
Altos volumes de enredados feitos ; 
Ver-me-has folhear os grandes livros, 
E decidir os pleitos. 

Emquanto revolver os meus consultos. 
Tu me farás gostosa companhia, 
Lendo os factos da sabia mestra Historia^ 
E os cantos da Poesia. 

Lerás em alta voz a imagem bella. 
Em vendo que lhe dás o justo apreço, 
Gostoso tornarei a lêr de novo 
O cansado processo. 



THOMÂZ ANTÓNIO GONZAGA 553 



Se encontrares louvada uma belleza, 
Marília, não lhe invejes a ventura, 
Que tens quem leve á mais remota edade 
A tua formosura. 

A belleza do quadro, descrevendo as si- 
tuações características da actividade brasilei- 
ra, a cor local, contrastam com o aspecto mo- 
ral da vida intima dos esposos; e o final, to- 
mado do encanto achado em algum retrato 
feito pelos grandes poetas, recebe um tom de 
verdade, porque a realidade da próxima des- 
graça que os separou para sempre imprimiu- 
Ihe essa vibração immortal. 

Absorvido na esperança da felicidade e 
imaginando já terminado o seu sexennio na 
Relação da Bahia, na Lyra xxix (i) quer cos- 
tumar D. Maria Dorothéa á ideia de deixar a 
pátria e acompanhal-o para Portugal : 

Do turvo Ribeirão em que nasceste, 

Deixa, Marilia, agora 

As já lavradas serras ; 
Anda afouta romper os grossos mares, 
Anda encher de alegria extranhas terras, 

Ah, que por ti suspiram 

Os meus saudosos lares. 

Na Lyra xxxv (i) descreve com traços ni- 
tidos a suspirada viagem para Portugal, a sua 
entrada em Lisboa, e sobretudo esse momento 
de emoção piedosa: 

Agora, agora sim, agora espero 
Renovar da amisade antigos laços. 
Eu vejo ao velho Pae, que lentamente 

Arrasta a mim os passos; 

Ah, como vem contente ; 

De longe, mal me avista. 

Já vem abrindo os braços. 



554 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



Dobro os joelhos, pelos pés o aperto, 
E manda que dos pés ao peito passe; 
Marília, quanto eu fiz, fazer intenta ; 

Antes que os pés lhe abrace 

Nos braços a sustenta, 

Dá-lhe de filha o nome, 

Beija-lhe a branca face. 

Vou a descer a escada, oh céos, acordo ; 
Conheço não estar no claro Tejo; 
Abro os olhos, procuro a minha amada, 

E nem sequer a vejo! 

Venha a hora afortunada 

Em que não fique em sonho 

Tão ardente desejo. 

As tropas e força da Capitania de Minas 
constavam em 1788 de um Regimento de Oa- 
vallaria, ou Dragões, de que era coronel o Go- 
vernador, Capitão general da Capitania, e de 
differentes Regimentos de Cavalleria, Infante- 
ria e Terços de Auxiliares, com algumas Com- 
panhias soltas de Pedestres. Antes doesta or- 
ganisação havia só Companhias soltas com 
242 praças, com que se gastavam 38:300$402 
reis. Pelo art.<^ 50 das Instrucções dadas ao 
Visconde de Barbacena, mandava-se dissolver 
todos os Corpos creados pelos habitantes e 
annullar as patentes dos Officiaes. Esta refor- 
ma não deixou de produzir descontentamen- 
to, e o Coronel de Auxiliares, Joaquim Silvé- 
rio dos Reis, que fez a carta de denuncia ao 
Governador general em 11 de Abril de 1789 
e lh'a entregou pessoalmente em 19 do mesmo 
mez, confessa: «Em o mez de Fevereiro does- 
te presente anno, vindo da revista do meu 
regimento, encontrei no Arraial da Lage o 
Sargento mór Luiz Vaz de Toledo, e fallan- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 555 



do-me em que se botarão abaixo os nossos 
regimentos^ por que V.^ Ex.^ assim 'o havia 
dito, é verdade que eu me mostrei muito sen- 
tido e queixei-me que S. M. me tinha engana- 
do, porque em nome da dita Senhora se me 
havia dado uma Patente de Coronel chefe do 
meu Eegimento, com o qual me tinha desve- 
lado em o regular e fardar muita parte á mi- 
nha custa, e não podia levar á paciência ver 
reduzido a uma. . . todo o fructo de meu des- 
velo sem que tivesse faltas do real serviço, e 
juntando mais algumas palavras em desafogo 
da minha paixão.» Pela ortographia e redac- 
ção da carta de denuncia vê-se que o Coronel 
Joaquim Silvério dos Reis era um homem in- 
culto e de rasteira intelHgencia para compre* 
hender o que ouvia. Lembrando-se de que se 
excedera no seu desafogo contra a nova re- 
forma militar, e para render serviços que lhe 
garantissem a patente de Coronel, foi denun- 
ciar os resentimentos de outros militares da 
terra (os não pagos) e com isso persuadiu o 
Visconde de Barbacena da existência de um 
plano de Conjuração. 

Confessou ter dito «que esta terra podia 
ser um império, ser um paiz livre, e que n^esta 
terra não havia homens; e que se os houvesse 
em pouco tempo seriam senhores da terra...» 
O referido sargento mór declarou que o Coro- 
nel Silvério convidando-o para ir aliciar gen- 
te, «oppuzera a isso que elle Coronel se não 
metesse n'isso, que ficava perdido e que o 
despersuadira com razões que se não deixas- 
se de tal intento que dava parte, e que o 
dito Coronel lhe pedira com as mãos postas 
que não fallasse o dito Sargento mór, que elle 



556 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



promettia de nunca mais f aliar em tal.» (Arch., 
p. 23.) Foi o terror da sua situação que le- 
vou o coronel Joaquim Silvério á infame de- 
nuncia, movido pelo outro coronel João Car- 
los da Silva, que para não ouvir semelhantes 
loucuras «picara o cavallo e fora andando.» 
Foram estas misérrimas covardias que tece- 
ram a enorme desgraça ; o golpe, visando 
principalmente a Gonzaga, desvenda d^onde 
veiu o conluio. Foi em 15 de Março de 1789 
que o torpe Joaquim Saltério, como era alcu- 
nhado por irrisão, fez a primeira denuncia ao 
Visconde de Barbacena, do que pediu attes- 
tado, passado em 25 de Novembro de 1791. 
Cumpre notar que este coronel João Carlos 
Xavier da Silva Ferrão, que aqui figura, era 
o tio e tutor da bella Marília, D. Maria Joa- 
quina Dorothéa de Seixas Brandão, e Aju- 
dante de ordens do Visconde de Barbacena. 
Não hesitamos em suppôr, que secretamente 
procurava embaraçar o casamento da sobri- 
nha, tendo de dar contas da tutella ao Des- 
embargador Gonzaga depois d'esse acto. 

E para avaliar da cegueira ou estupidez 
do denunciante, apontava como chefe Thomaz 
António Gonzaga, do qual em todo o decor- 
rer do processo draconiano não appareceu 
uma única prova ou indicio que o criminasse, 
o que se declara na própria sentença que es- 
tupendamente o condemnou. 

N^essa boçal carta de denuncia vê-se que 
era principalmente a Thomaz António Gonza- 
ga que se queria perder, e que as imputações 
vagabundas provinham de despeitos latentes 
contra o integro magistrado. Ahi se lê: «O 
supplicante (?) Thomaz António Gonzaga^ 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 557 



primeiro cabeça da Conjuração, havia aca- 
bado o logar de Ouvidor d'essa Comarca, e 
que se posto se achava ha muitos mezes n^es- 
sa, sem de receber o seu logar do Arojo (sic) 
com o frívolo pretexto de um casamento, que 
tudo é e seja porque yá se achava fabrican- 
do Leys para o novo regimen da sublevação, 
e que se tinha disposto da forma seguinte : 
Procurou o dito Gonzaga o partido e união 
do Coronel Ignacio José de Alvarenga... e 
outros mais filhos de Minas, valendo-se para 
seduzir a outros do Alferes pago Joaquim Jo- 
sé da Silva Xavier...» Vê-se que o imbecil 
denunciante obedecia a uma suggestão malé- 
vola, por que dando-lhe por cúmplice o Alfe- 
res Xavier (o Tiradentes) descobria a intriga, 
pois que Gonzaga tinha o alferes por homem 
dementado e além d'isso como seu inimigo 
pessoal por causa da queixa que cVelle fizera 
ao Governador Luiz de Menezes e Cunha. 
Continuava o denunciante sempre carregando 
sobre Thomaz António Gonzaga com imputa- 
ções em antinomia com a situação e caracter 
d'elle : «que o dito Gonzaga e seus parciaes 
estavam desgostosos pela froixidão que en- 
contraram no dito Commandante (Alvaren- 
ga) . . . Que a primeira cabeça que se havia 
cortar era a de V.^ Ex.^, e depois pegando- 
Ihe pelos cabellos se havia de fazer uma fal- 
ia ao Povo cuja já estava escripta pelo dito 
Gonzaga, e para socegar o dito povo se ha- 
viam descontar os tributos ...» Ainda em ou- 
tros dous logares da carta carrega mais con- 
tra Gonzaga, apontando o Vigário «que vira 
parte das novas Leys fabricadas pelo dito 
Gonzaga, e tudo lhe agradara menos a deter- 



558 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



minação de matarem a V.^ Ex.^. . . ao que lhe 
respondeu o dito Gonzaga, que era a primei- 
ra cabeça que se havia de cortar por que o 
bem commum prevalece ao particular...» ^ 
Tudo isto assim formulado estava tanto em 
contradicção com o caracter brando e cheio de 
ternura do namorado Gonzaga, que taes ca- 
lumnias só podiam ser suggeridas a um idio- 
ta fazendo-o instrumento de uma vingança 
tremenda. Como se vê da denuncia, o Gonza- 
ga é a única figura da Conjuração, fazendo 
de todos os outros accusados os seus agentes 
passivos! Tão ridícula e insólita era a accu- 
sação que o Poeta, seguro da sua innocencia, 
contava que se conheceria a calumnia atroz e 
que ficaria illibado. 

Ainda em outra denuncia, entregue pQlo 
Mestre de Campo Ignacio Corrêa Pamplona 
em 5 de Maio de 1789, diz este que ouvira na 
Villa de S. José «que se tratava de um levan- 
te, avendo de ser o General deposto, e tudo 
fallado, o Regimento, no Rio um Alferes fa- 
zendo séquito, e o Ouvidor que acabou, Gon- 
zaga, inettido nHsso; e que todos os devedores 
que devessem á fazenda real perdoados...» 
(Ih,, 17.) Está-se a vêr coiiio se formava a opi- 
nião ; o denunciante Pamplona era amigo in- 
timo do Coronel Carlos José da Silva, vogal 
e escrivão da Junta de Fazenda, onde estava 
em antagonismo com Gonzaga, como Ouvi- 
dor; e procedia pelos conselhos d'elle. Essas 



* Archivo do Dist7'icto Federal -r— Revista de Do- 
cumentos para a Historia da Cidade do Rio de Janeiro 
(l.« Anno — Abril de 1894) Supp., p. 9 a 11. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 559 

formas vagas de accusação eram pistas com- 
binadas para envolver em inconfidência o in- 
génuo Gonzaga e os seus amigos, principal- 
mente a Cláudio Manoel da Costa. 

A amisade e convivência de Gonzaga com 
Cláudio Manoel da Costa, cuja casa frequen- 
tava na conferencia das leituras poéticas^ 
também isso serviu para dar corpo a suspei- 
tas; e assim o tenente coronel Basilio de Bri- 
to Malheiro do Lago, em denuncia verbal, e 
depois escripta em 15 de Abril de 1789, ap- 
presentou: «que me parecia onde faziam os 
seus ajuntamentos a fallar na matéria era em 
casa do Dr. Cláudio Manoel da Costa, e o 
Dr. Thomaz António Gonzaga, que foi Ouvi- 
dor d'esta comarca...» O próprio Visconde 
de Barbacena, offendido por que o Dr. Cláu- 
dio Manoel da Costa se demittira do logar 
de segundo secretario do governo, encarre- 
gou a Basilio de lhe apanhar qualquer signal 
de descontentamento: «eperguntando-memais 
V.^ Ex.^ se eu por casa d'elles não lhe tinha 
pescado alguma cousa, lhe respondi, que sen- 
do eu amigo do Cláudio, d'esta vez que vim 
a Villa Rica inda não tinha ido a casa d'el- 
le. . . e então V.^ Ex.^ me disse qne disfarça- 
damente procurasse eu fallar coíu o Cláudio 
e que observasse o que alcançava d'elle, e eu 
que lhe escrevesse... Doesta forma estando 
eu já seguro que V.^ Ex.^ não desconfiava de 
minha fidelidade, fallei com o Cláudio, per- 
guntou-me pelos meus particulares, queixei- 
me alguma cousa de V.^ Ex.^, ao que me re- 
spondeu — que nas Minas não havia gente; 
que os Americanos-inglezes foram bem succe- 
didos por que acharam só três homens capa- 



560 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



zes para a campanha ; e que nas Minas não 
havia um só, e que só o Tiradentes andava 
feito corta-vento, mas que ainda lhe haviam 
de cortar a cabeça, e nunca me disse que tinha 
entrado em conselho.» (/6., p. 14.) O denun- 
ciante refere balelas que corriam no começo 
do novo governo do Visconde de Barbacena, 
que bem revelam que havia o intuito de re- 
primir os homens mais notáveis de Minas cora 
um processo de Inconfidência: «e se não ti- 
vesse por onde lhes pegar, que os "preliendes- 
se por inconfidentes,^^ (Ib., p. 15.) Por esta 
denuncia, é também para notar a nenhuma 
importância ligada por Cláudio Manoel da 
Costa ao desvairado Alferes Tiradentes, que 
por umas testemunhas era declarado doido, 
e por outras «já no tempo do governo do 
Ex.^i** senhor Luiz da Cunha e Menezes anda- 
ra com a inania de f aliar em levante n^estas 
Minas.» {Ih., p. 435.) 

O tenente-coronel Francisco de Paula tam- 
bém communicou por escripto em data de 17 
de Maio umas conversas que tivera em janei- 
ro em sua casa com o coronel Ignacio José 
de Alvarenga, o alferes Joaquim José da Sil- 
va Xavier e o vigário Toledo: «depois de me 
haverem cumprimentado passaram a tratar 
do estado actual doeste paiz, das suas produc- 
ções e dos motivos da total decadência, em 
que se acha, e de quanto poderia ser fehz se 
fosse habitado por outra qualquer nação, que 
não fora a Portugueza; ...passados dias 
tornaram... e á matéria que se tinha ante- 
riormente jogado ligaram as presentes refle- 
xões — que os povos se achavam affiictos e 
consternados com a noticia da nova derra- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 561 



7naj e por este motivo dispostos para qual- 
quer acção, que se encaminhasse a favore- 
cel-os, e que até se lembraram de formar uma 
sublevação se não temessem a opposição da 
tropa ; bem que me parecesse isto mais des- 
vario, que reflexões sérias . . . por que logo 
que tornaram a si ridicularisaram a matéria 
de tal forma, que em poucos instantes a ca- 
racterisaram por uma verdadeira scena de 
theatro ; . . . Passando depois o coronel Alva- 
renga quando se retirava d'esta capital, e 
pela minha fazenda, usei com elle de alguns 
meios que julguei mais a propósito para in- 
struir-me do estado doestas cousas, deu-me a 
entender que não só se não tratava de seme- 
lhante matéria mais, que a suspensão da 
Derrama sepultara até a mesma lembrança;» 
(/ô., p. 22.— 1894.) 

Em 21 de Maio de 1789 deu ordem o Vis- 
conde de Barbacena, para que o Dezembar- 
gador Ouvidor geral e Corregedor Pedro Jo- 
sé de Araújo Saldanha fosse «com os offi- 
ciaes competentes fazer apprehensão em todos 
os papeis do Desembargador Thomaz Antó- 
nio Gonzaga, e sequestro nos seus bens;» 
acompanhava-o o bacharel José Caetano Cé- 
sar Manitti, Ouvidor e Corregedor da Comar- 
ca de Sabará. O desgraçado Gonzaga já es- 
tava recolhido no segredo da cadeia de Villa 
Rica, assombrado pelo caso em que se via 
envolvido. Não se sabia a causa d'aquellas 
prisões; discorriam «que as sobreditas pri- 
sões derivavam uns de diamantes, outros 
de extravio de ouro em pó ; mas era voz 
constante que aquelles procedimentos nasciam 



562 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



de noticias de alguma sublevação;...» (76. 
p. 485.— 1894.) 

Em sua casa, em 19 de Maio de 1789, 
achava-se pacificamente Thomaz Antónia 
Gonzaga conversando com alguns amigos 
com quem costumava reunir-se, quando Cláu- 
dio Manoel da Costa deu a terrível noticia de 
denuncias de inconfidência ao novo gover-^ 
nador general; eis as próprias palavras com 
que o poeta descreve esse momento, tiradas 
das respostas ao juiz da devassa : «que estan- 
do na véspera da sua prisão, de tarde em sua 
casa, se juntaram n'ella o Intendente actual 
de Villa Eica Francisco Gregório Pires Mon- 
teiro Bandeira, o. Ouvidor de Sabará José 
Caetano César Manitti, o Doutor Cláudio Ma- 
noel da Costa, e não está certo se também 
assistiu o padre Francisco de Aguiar, e que 
na presença de todos se queixou o dito Dou- 
tor Cláudio Manoel da Costa, por lhe ter con- 
stado que se tinha dado uma denuncia do 
Coronel Ignacio José de Alvarenga, e do có- 
nego Luiz Vieira da Silva, em que o tinham 
envolvido também a elle; e que o dito Inten- 
dente accrescentou, que também 'lhe parecia 
que tinham envolvido na dita denuncia tam- 
bém a elle Intendente, e ao 7'es2Jondente (Gon- 
zaga); e que tomando — isto em menos pre- 
ço, e dando as razões porque lhe parecia isto 
imposvsivel, concluiu dizendo, que quando 
elles sahissem ia fazer uma Ode; que tão so- 
cegado ficava no seu espirito, que sahiram 
todos juntos e já tarde de sua casa, e que elle 
se foi metter na cama, e que no outro dia de 
manhã, estando ainda deitado, o prenderam 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 563 

e conduziram a esta prisão...» ^ Levado ao 
segredo da cadêa de Villa Rica, por ordem 
do Visconde de Barbacena para o Desem- 
bargador Ouvidor geral e Corregedor Pedro 
José de Araújo Saldanha procedeu-se em 21 
de Maio á «apprehensão de todos os papeis 
que se encontrassem em casa do Desembar- 
gador Gonzaga, e ao sequestro dos seus 
bens.» Estava o poeta tão confiado na sua 
innocencia, que durante o tempo em que es- 
teve no cárcere de Villa Eica não deixou de 
compor Lyras as mais encantadoras, inspira- 
das na crua situação á sua bella Marília. 

O poeta estava despachado Desembarga- 
dor para a Relação da Bahia; mas demoran- 
do-se em Villa-Rica para effectuar o seu casa- 
mento com D. Maria Joaquina Dorotheia, 
d'isso fizeram suspeição para o implicarem 
no levantamento : «além dos indícios notórios, 
como eram uma longa demora na terra em 
que tinha acabado de servir^ da qual ordina- 
riamente todos desejam sahir com presteza 
pela differente figura que passam a fazer, 
principalmente o respondente (Gonzaga) que 
não tendo alli rendimentos alguns, estava per- 
dendo os do logar em que estava provido, e 
além d'isso o seu adiantamento, o que não 
faria sem esperança de cousa mais avança- 
da. . .» 

Gonzaga pinta a circumstancia que o fize- 
ra demorar a partida para a Relação da Ba- 
hia: «que o indicio nada faz; porque estava 
justo a casar em Villa Rica, e que tinha pe- 



1 Arch. do Districto federal, vol. ii, p. 1 19.— 1 895. 



564 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



dido licença a S. Mag.^^ para este fim por via 
do seu companheiro, que era Intendente do 
Ouro, e por via do Capitão Francisco de 
Araújo Pereira; cuja licença esperava che- 
gasse na náo que traz o Ex."^^ Vice-Rei (se. 
Conde de Resende), e que por isso lhe era 
mais ^commodo o demorar-se n'aquella Villa 
alguns mezes para levar sua mulher na sua 
companhia, do que ir para a Bahia, e dei- 
xal-a para soffrer as despezas e encommodos 
de outra conducção, e por não ter pessoa que 
melhor a podesse acompanhar do que elle 
próprio, em prova do que mostrava a attesta- 
ção do seu ex."^^ General. . .» (Ib., p. 120. — 
1895.) «logo que chegou a monsão para a 
Bahia pediu — ao ex.™° General da Capita- 
nia, que no caso de não vir a sua licença para 
casar, lhe havia de conceder, e por elle assim 
o prometter se entrou a dispor para o seu ca- 
samento ...» 

Em outra passagem do pérfido e maligno 
interrogatório, consigna «que o seu casamen- 
to está contractado ha mais de dois an- 
nos. . .» o que leva a fixar esse ajuste em fins 
de 1787, quando chegou ao Brasil o decreto 
da sua nomeação para a Relação da Bahia e 
lhe foi depois communicado. 

E na ratificação de perguntas em 3 de Fe- 
vereiro de 1790, nas masmorras da Ilha das 
Cobras, declara : «que elle tratava de se ir 
embora para o seu logar, (Relação da Bahia) 
e que para isso já tinha mandado apromptar 
casas n'esta cidade por via do seu familiar 
Joaquim José; que tinha pedido a José Ro- 
drigues de Macedo, que conservasse algum 
dinheiro, porque no principio de Junho saía 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 565 



e não se valia de outro a ser necessário; que 
tinha pedido licença ao ex."^^ General um mez 
antes da sua prisão para effectitar o seu ca- 
samento, o que não faria se quizesse ficar na 
terra, por ser este o único pretexto com que 
podia disfarçar a ^ua demora.. .» (76., p. 154.) 
E quando lhe disseram que Cláudio Manoel 
da Costa (já morto, sem Gonzaga o saber) o 
apontara como um dos da Conjuração (!) re- 
sponde com os factos: «que o Doutor Cláudio 
Manoel da Costa não podia dizer o contrario 
— porque sabia muito bem que elle tratava 
da sua retirada, gice estava lendo e emendan- 
do as Poesias do réo respondente (Gonzaga) 
que tratavam doesta; que sabia que o réo 
respondente já não fez lucto pela morte do 
Sereníssimo Infante (1788, falecimento do 
Príncipe D. José) com o fundamento de que 
um vestido de lucto lhe não servia na Ba- 
hia. . .» Quando lhe disseram que Ignacio Jo- 
sé de Alvarenga, a quem tratava por primo, 
o considerava sabedor do movimento, decla- 
ra : «Que o coronel Ignacio José de Alvaren- 
ga quando se retirou para o Rio das Mortes 
até já levou a incumbência e certeza de lhe 
fazer a hospedagem na sua retirada, e por 
isso parece que se não deve acreditar o que 
elles disserem como ojjposto a esta verdade, 
visto que se não podem verificar ordens con- 
trarias de ir ser sócio, porque esta sociedade 
requeria a assistência do paiz.» (Ib,, p. 155.) 
«no dito mez de Abril lhe pediu (ao Go- 
vernador general) a providencia da licença 
para casar não chegando a de S. Mag.^®; e 
dando-lhe o dito General a dita licença, não 
restava — nada mais do que o tratar da sua 



566 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

retirada... por ter acabado o tempo que ti- 
nha pedido para demorar-se alguns seis me- 
zes, antes da sua prisão, pedido livre de toda 
a suspeita, pois que — o pediu logo que lar- 
gou a vara de Ouvidor. . .» (Ib., p. 157.) 

Ainda pugnando pela sua defeza, justifi- 
ca-se Gonzaga de não tomar parte nas con- 
versas em que por ventura se fallasse em pla- 
nos de sedição : 

«Que na casa do réo estavam Hospedados 
o coronel Ignacio de Alvarenga, e o vigário 
da Villa de San José José Carlos Corrêa de 
Toledo, e que n'ella era frequente o Doutor 
Cláudio Manoel da Costa, que todos se dizem 
réos, e por isso poderiam conversar n'esta 
matéria sem elle respondente ser participan- 
te, ainda na mesma sala, aonde elle estava, 
por estar entretido a bordar um vestido para 
o seu casamento, do qual entertenimento nun- 
ca se levantava senão para a meza, o que não 
parece compatível com as ideias e paixões de 
uma sedição.» (Ib., p. 158.) 

Na Lyra vii (P. 2.^) allude a esta circum- 
stancia, e revela quanto no cárcere de Villa 
Rica ainda confiava no reconhecimento da 
sua innocencia : 



Os sonhos, que rodêam a tarimba, 
Mil cousas vão pintar na minha ideia, 
Não pintam cadafalsos, não, não pintani 
Nenhuma imagem feia. 

Pintam, que estou bordando um teu vestido, 
Que um menino com azas, cego e louro, 
Me enfia nas agulhas o delgado, 
O brando fio de ouro. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 567 



Enlevado n'esse sonho, vae descrevendo 
a partida para a egreja, o enlace das mãos, 
as flores que lançam sobre os noivos, as de- 
spedidas dos amigos e partida para a Bahia; 
mas um grito inesperado arremessa-o á reali- 
dade, e vê-se alli no cárcere : 

Aqui — Alerta! grita o máo soldado; 
E o outro: Alerta estou! lhe diz gritando; 
Acordo com a bulha, então conheço 
Que estava aqui sonhando. 

Se o meu crime não fosse só de amores, 
A vêr-me delinquente, réo de morte. 
Não sonhara, Marilia, só comtigo. 
Sonhara de outra sorte. 

O Visconde de Barbacena, por officio de 
12 de Junho de 1789, mandara proceder a 
um Auto de devassa sobre a Sedição e le- 
vante que se pretendia excitar, sendo encar- 
regado d'elle o Desembargador José de Araú- 
jo Saldanha, e escrivão o bacharel José Cae- 
tano César Manitti, ao qual se deu começo 
em 15 de Junho de 1789, em Villa Rica de 
Nossa Senhora do Pilar de Ouro preto. No 
officio do Governador-general, em que envia- 
va as denuncias, recommenda-se «toda a cir- 
€umspecção e segredo possível» e sem tempo 
determinado, nem numero certo de testemu- 
nhas. 

Depois de terminada a devassa em Villa 
Rica, o Vice-rei que viera substituir Luiz de 
Vasconcellos, o boçal e façanhudo Conde de 
Resende, mandou do Rio de Janeiro uma es- 
colta para transportar os presos para a For- 
taleza da Ilha das Cobras, e alli serem pro- 



568 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



cessados e julgados pela Alçada. D'entre os 
trinta e três presos chamados para partirem na 
leva, dois faltaram, que mysteriosa?7iente ti- 
nham succumbido no segredo, o Dr. Cláudio 
Manoel da Costa e Eibeiro Pontes ; nem assim 
a ferocidade dos juizes da Alçada affroixou^ 
porque no Accordão de 18 de Abril de 1792 
se refocilam como hyenas sobre o morto : «Ao 
réo Cláudio Manoel da Costa, porque se ma- 
tou no cárcere (?) declaram infame a sua 
m^emoria, e infames seus filhos e netos, ten- 
do-os, e seus bens por confiscados para o 
Fisco e Camará real.» 

Durou trinta e outo dias esse êxodo através 
dos sertões, manietados por algemas, e gri- 
lhetas lançadas dos tornozelos á cintura, ca- 
minhando de noite á luz de archotes, e dor- 
mindo ao relento, descalços e rotos, como se 
não tratam facínoras. Tal é o poder de des- 
humanisação da pandemia da realeza absolu- 
ta. O major José Botelho de Lacerda, tocado 
com o hediondo espectáculo, concedia de vez 
emquando aos presos que conduzia o rápido 
allivio de lhes tirar os ferros, que de prompto 
tornava a lançar-lhes ao entrar nos povoados, 
receioso de alguma denuncia de parcialidade 
diante do terrível Vice-rei. Um silencio mor- 
tal sellou os lábios dos presos desde que sa- 
hiram de Villa-Eica ; a cada passo se absor- 
viam na monstruosa desgraça que os depri- 
mia até á loucura. Gonzaga apoiava a sua 
rasão na consciência plena da manifesta in- 
nocencia, na esperança de ver restaurado o 
sonho da sua vida, e por vezes fallava em 
poesia com Alvarenga. A entrada na fortale- 
za da Ilha das Cobras e a insistência dos jui- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 569 



zes no interrogatório de todos os prezos para 
envolverem especificadamente Gonzaga reve- 
laram-lhe que se poderia considerar perdido. 
Na Lyra xxii (P. 2.^) confessa que o seu 
amor é que lhe dá resistência: 

N^esta triste masmorra 
De um semivivo corpo sepultura, 

Inda, Marília, adoro 

A tua formosura. 
Amor na minha ideia te retrata. 
Busca extremoso, que eu assim resista 
A' dôr immensa que me cerca e mata. 

Na Lyra xxxvi (P. 2.^) recorda-se com sau- 
dade de Villa Eica, e da casa em que habita 
Marilia, e imaginando que lhe manda uma 
mensagem por um passarinho que está can- 
tando junto da sua prisão : 

Toma de Minas a estrada, 

Na Egreja nova, que fica ^ 

Ao direito lado, e segue 

Sempre firme a Villa Rica. 

Entra n^está grande terra. 
Passa uma formosa ponte ; 
Passa a segunda, a terceira. 
Tem um palácio defronte. 

Elle tem ao pé da porta 
Uma rasgada janella, 
E' da sala aonde assiste 
A minha Marilia bella. 

Para bem a conheceres, 
Eu te dou os sinaes todos, 
Do seu gesto, do seu talhe. 
Das suas feições e modos. 

O seu semblante é redondo, 
Sobrancelhas arqueadas. 
Negros e finos cabellos, 
Carnes de neve formadas. 



570 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A bocca, risonha e breve, 
Suas faces côr de rosa, 
N^uma palavra, a que vires 
Entre todas mais formosa. 



Quando Gonzaga, preso nas affrontosas 
masmorras da fortaleza da Ilha das Cobras, 
no Rio de Janeiro, viu pela catadura brutal 
do Desembargador José Pedro Machado Coe- 
lho Torres, que estava sob a accusação forja- 
da por calumnias sangrentas, começou a con- 
siderar a quem interessava a sua desgraça : 

«que lhe consta, por assim o ter ouvido 
na véspera da sua prisão, como já disse, que 
a dita denuncia foi dada por Basilio de Bri- 
to, homem de muito má conducta, e seu ini- 
migo, pelo prender em virtude de um preca- 
tório vindo de Tejuco, colliado com o Sar- 
gento-mór José de Vasconcellos Parada seu 
inimigo, por defender o réo respondente a 
um cadete que o tinha injuriado, chegando o 
excesso da sua paixão a dizer publicamente 
na Parada, que havia de perseguir ao dito 
réo respondente (Gonzaga) até ás portas da 
morte.» (/6., p. 119.) 

No auto de ratificação de perguntas, em 3 
de fevereiro de 1790, Gonzaga reconhece: 
«que não ha duvida que hajam muitas teste- 
munhas inda não inimigas que digam que — 
era entrado na Conjuração, mas que para isto 
bastava que os seus inimigos espalhassem 
esta falsa voz, e que por isso se deve buscar 
a origem d'ella e os mais indícios que a con- 
firmam...» (76., p. 154.) Na Lyra iii (P. 2.^) 
allude ás questões de interesses monetários 
que o envolveram na accusação calumniosa: 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 571 



Podem muito, conheço, podem muito 
As Fúrias infernaes que Pluto move, . • 
Porém, se os justos Céos, por fins occultos 
Em tão tyranno mal me não soccorrem, 

Verás então, que os sábios 

Bem como vivem, morrem. 

E na Lyra xxvii (P. 2.^) insiste em procla- 
mar contra a horrorosa calumnia que o victí- 
ma: 

Embora contra mim raivoso esgrima 
Da vil calumnia a cortadora espada, 

Uma alma, qual eu tenho, 

Não se recêa a nada. 
Eu heide, sim, punir-lhe a insolência, 
Pizar-lhe o negro collo, abrir-lhe o peito 
Co'as armas invenciveis da innocencia. 

O poeta não conhecia a trama em que o 
envolveram, talvez mesmo pelo tio e tutor da 
adorada Marilia, e por isso ainda confiava na 
sua innocencia patente: 

Hade, Marilia, mudar-se 
Do destino a inclemência ; 
lenho por mim a innocencia^ 
Tenho por mim a rasão ; 

Muda-se a sorte de tudo, 

Só a minha sorte não ? 

O tempo, oh bella, que gasta 
Os troncos, pedras e o cobre, 
O véo rompe com que encobre 
A' verdade a vil traição. 

Muda-se a sorte de tudo, 

Só a minha sorte não? 

Qual eu sou verá o mundo. 
Mais me dará do que eu tinha, 
Tornarei a vêr-te minha. 
Que feliz consolação ! 

Não hade tudo mudar-se. 

Só a minha sorte não. 

[Lyr. IV, P. 2.^) 



572 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

No interrogatório de 17 de Novembro de 
1789, na fortaleza da Ilha das Cobras, Gon- 
zaga, depois de explicar a origem das calum- 
nias propaladas pelos seus inimigos mortaes, 
e a situação moral em que o collocava a es- 
perança do seu próximo casamento, recapitu- 
la os fundamentos que o inhibiam de coope- 
rar em qualquer sublevação : 

«Primeiro, o ser filho de Portugal, aonde 
tem bens, e pae no graduado logar de Des- 
embargador dos Aggravos. 

«Segundo, o estar despachado para Des- 
embargador da Bahia, e não ser de presu- 
mir, que quizesse perder este emprego útil e 
certo, por cousa incerta e menos útil, que se 
lhe podesse offerecer. 

«Terceiro, porque estando justo a casar, 
não se havia querer expor a uma guerra ci- 
vil e contra os parentes de sua esposa, que 
todos são militares. 

«Quarto, por que os mesmos da terra o 
não haviam de querer convidar por ser filho 
do Reyno, não ter nenhuns bens, nem présti- 
mo militar com. que os podesse ajudar, e não 
se haverem de sujeitar a expor as suas pes- 
soas e bens para acquirirem empregos que 
dessem ao réo respondente, que não se con- 
tentaria senão com os maiores. 

«Quinto, porque logo que chegou a mon- 
ção para a Bahia pediu ao Ex.^"o General da 
Capitania, que no caso de não vir a sua li- 
cença para casar lhe havia de conceder... > 
O sexto e septimo fundamentos referem-se á 
questão do lançamento da derrama, em que 
mostra ter sempre inspirado ao governador 
ideias de quietação afastando os motivos de 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 573 



alteração da ordem. Como o interrogante Tor- 
res retorquisse deslavadamente a estes fun- 
damentos, Gonzaga continuou respondendo a 
esta insistência: «pois ainda que seja filho de 
Portugal é oriundo doesta America, sendo seu 
pae filho d'esta cidade do Kio de Janeiro, e 
tendo aqui parentes.» Quanto a esta instancia 
respondeu: «que é verdade ser seu pae filho 
do Eio de Janeiro ; mas que casou em Portu- 
gal, nunca mais veiu á sua pátria, indo no 
real serviço, e lá teve ao réo respondente e a 
outros irmãos, que existem, e que esta rasão 
é mais forte do que a do simples nascimento 
de seu pae. Que é certo, que sua mulher e 
parentes d'ella o podiam persuadir a ficar no 
paiz, mas era se fossem entrados na sobredi- 
ta Conjuração, do que se não persuade;...» 
E contra o argumento da sua grande amisa- 
de com Cláudio Manoel da Costa e Alvaren- 
ga Peixoto : 

<Eespondeu, que por isso mesmo que era 
muito amigo do Doutor Cláudio Manoel da 
Costa, e que se tratava por parente do Dou- 
tor Ignacio José de Alvarenga, que reconhece 
terem todo o talento, sabiam estes as rasões 
que o réo respondente tem dado, por onde 
mostra, que não haVia de querer entrar no 
dito attentado, caso de havel-o ; e que por isso 
não haviam de sujeitar o seu segredo, quando 
já tinham a certeza de não tirarem utilidade 
alguma, e que da potencia para o acto vae 
uma grande differença.» (/6., p. 121, 2.<^ an- 
no.) 

No depoimento de ratificação do Alferes 
Tiradentes, em 18 de Janeiro de 1790, de- 
screvendo a conversa em que Ignacio José de 



& 



574 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Alvarenga indicara <^que as armas da nova 
Republica deviam de ser um índio desatando 
as correntes, com uma letra latina», accrescen- 
ta : «n'esta conversação chegou o Desembar- 
gador Thomaz António Gonzaga, e com a sua 
vinda todos se calaram e se foram embora,» 
(Ib.y p. 233.^ — 1894.) Como se queria a todo o 
custo causar a perdição de Gonzaga, o Desem- 
bargador Torres instou com o halluciríado Al- 
feres : «porque sabendo elle que tinha entrado 
n'esta Conjuração o Doutor Cláudio Manoel 
da Costa e o Desembargador Thomaz Antó- 
nio Gonzaga, não o tinha declarado...» — 
«Respondeu, que a respeito do Doutor Cláu- 
dio Manoel da Costa é certo que elle respon- 
dente f aliara ; mas elle não admittiu o convi- 
te, antes disse, que elle respondente andava 
procurando perder alguém, e que não sabia 
no que se mettia... E quanto ao Desembar- 
gador Thomaz António Gonzaga, sobre o qual 
lhe tem sido feitas tantas Í7istancias, declara 
que absolutamente não sabe que elle fosse 
entrado, e que nunca elle respondente lhe 
fallou em tal pelo temer, e lhe parece qtie elle 
não era entrado em rasão de ver, como já 
disse, que quando elle entrou em casa do te- 
nente coronel Francisco de Paula Freire de 
Andrade na occasião em que se tinha estado 
a fallar n'esta matéria, todos se calaram e a 
elle se não contou cousa alguma ; e que elle 
respondente não tem rasão nenhuma de o fa- 
vorecer, por que sabe que o dito Desembar- 
gador era seu inimigo, por uma queixa que 
o respondente fez d'elle ao 111."^** e Ex.'"'^ Ge- 
neral Luiz da Cunha, não obstante o que elle 
respondente confessa que todos o acclamavam 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 575 

por bom Ministro, e elle mesmo respondente 
assim o diz e assim o disse varias vezes até 
ao seu mesmo successor.» (/ò., p. 235.) Quan- 
do o inimigo declarado de Gonzaga, Bazilio 
de Brito Malheiro jurou na Devassa: «que 
as palestras sobre o levante que concitava 
aquelle Alferes, se faziam umas em casa do 
Doutor Cláudio Manoel da Costa, outras do 
Desembargador Thomaz António Gonzaga. . . 
curiosamente pesquizava um e outros, e viu 
algumas vezes o próprio Alferes Joaquim Jo- 
sé na casa do dito Desembargador; e muitas 
e muitas vezes viu juntamente o dito Alva- 
renga e Gonzaga na casa do Dr. Cláudio, e 
estes na de Gonzaga, ora em uma ora em ou- 
tra;...» (Ib., p. 281.) Vê-se aqui o ódio ca- 
lumnioso, pois que o Tiradentes não se atre- 
via a approximar-se de Gonzaga, e a convi- 
vência intima dos três poetas, que conferen- 
ciavam na Arcádia de Minas sobre assum- 
ptos litterarios, acha-se aqui explorada por 
malvada suspeição para acirrar juizes tam- 
bém malvados. 

O P.e Oliveira Rolim «assevera que nem o 
Desembargador Thomaz António Gonzaga^ 
nem... assistiram á conversação sobredita, 
que houve em casa do tenente coronel Fran- 
cisco de Paula Freire de Andrade... que é 
verdade que o alferes Joaquim José da Silva 
disse a elle respondente, que o Desembarga- 
dor Thomaz António Gonzaga também entra- 
va n'esta Conjuração e motim; porém, como 
o mesmo Alferes disse a elle respondente em 
outra occasião, que a alguns dizia entravam 
varias pessoas a qnem elle não tinha falladOy 
nem sabia que entrassem, por isso ficou na du- 



576 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



vida, e ainda hoje está n'ella, de que o dito 
Desembargador entrasse. . .» (76., p. 477.) E' 
patente a situação do innocente envolvido nos 
desconcertos de um louco tomado a serio por 
um governo estúpido. Mas apezar doesta ra- 
tificação vejamos o ecco d'essas vozes: 

A primeira testemunha, Domingos de 
Abreu Vieira, tenente coronel do regimento 
de cavalleria de Minas novas, interrogado em 
16 de Junho de 1789, em Villa Eica, conta 
que ouvira ao P.^ José da Silva de Oliveira 
Eolim e ao alferes Joaquim José da Silva, 
por alcunha o Tiradentes: «que no caso de se 
lançar a Derrama como se dizia, estava justo 
um levante n'esta Capitania, no qual entrava 
também o coronel Ignacio José de Alvaren- 
ga... contando-lhe mais que o Desembarga- 
dor Thomaz António Gonzaga entrava egual- 
mente n'aquella Confederação prestando o seu 
conselho ; e que todos se juntavam algumas 
noites para este fim. . . e que da mesma for- 
ma pretendiam interessar n'aquella rebellião 
ao Ouvidor da Villa do Princepe Joaquim 
António Gonzaga, primo d'aquelle Desembar- 
gador Thomaz António Gonzaga, a quem ha- 
viam de pedir lhe escrevesse para este mesmo 
effeito;...» ^ «Que em casa do Desembarga- 



1 Archivo do Districto federal, p. 226 (Maio de 
1894.) Este primo do poeta era Thomé Joaquim Gon- 
zaga, natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 20 de 
Abril de 1788; depois de formado em Leis em Coim- 
bra, foi Auditor do 2.« Regimento da Bahia; chegou a 
Desembargador honorário da Relação do Porto, fican- 
do sempre em Lisboa, onde faleceu em 21 de Dezem- 
bro de 1819. Era também poeta, e alguns críticos como 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 577 

dor Gonzaga se formavam as Leys para o no- 
vo governo da nova Republica ...» 

O Vigário Carlos Corrêa de Toledo e Mel- 
lo interrogado em 27 de Novembro de 1789, 
já na fortaleza da Ilha das Cobras, também 
diz a respeito de Gonzaga, que tendo fallado 
a seu irmão Luiz Vaz de Toledo: «n'esta Con- 
juração, contando-lhe todos os termos e cir- 
curnstancia d^ella, e as pessoas que n'ella en- 
travam, sendo que entre os que lhe nomeou 
fallou também no Desembargador Thomaz 
António Gonzaga ; porém, e verdade que elle 
respondente não sabe se elle era entrado^ 
nunca com elle falou em semelhante matéria, 
nem por modo algum lhe constou que elle o 
soubesse, e só n'elle fallou para facilitar ao 
dito seu irmão... >y (Ib., p. 498) E foi com ca- 
lumnias confessadas, que houve juizes que se 
prestaram a condemnar este homem prestante! 



Costa e Silva (Passeio, not. 33. Ed. 1842) e Francisco 
Freire de Carvalho em 1845, ainda o confundiam com 
o auctor da Marília de Dirceu, o que explica os erros 
de datas e naturalidade do grande e desgraçado poeta. 
Thomé Joaquim Gonzaga, n^este mesn^o anno da des- 
graça do primo, 1789, imprimira uma traducção do 
Pastor fido, a qual depois de approvada pela Mesa da 
Commissão geral sobre o exame e censura dos livros 
foi mandada apprehender e prohibida. Só pôde expli- 
car-se o caso pelo terror de ser obra de Gonzaga, que 
estava preso. O Pastor fido era ainda prohibido em 
1830! Thomé Joaquim Gonzaga compoz muitas poe- 
sias do género lyrico e bucólico, que ficaram inéditas, e 
imprimiu varias traducções de libretos de operas ita- 
lianas : La Lodaiska (1796); // forbo contra forbo 
(1800); Zaira, (1802); Morte de Cleópatra ; Merope 
(1804) ; La Pulcella di Rab (1804) ; Ginevra di Sco- 
zia (1805) ; II Conte di Saldagna (1807.) 

37 



578 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



E O mesmo vigário, fallando ao Mestre de 
Campo Pamplona, em 29 de Março de 1789, 
declara: «Tmnbem lhe apontou ao Desem- 
bargador Thomaz António Gonzaga como en- 
trado n'^ estes projectos, o que assim não era^ 
e o fez pela rasão que já acima disse; . . .» 
(76., p. 500.) 

Na Lyra xxxiv (P. 2.^) em que o poeta 
relata o desmoronamento da sua vida, com 
que magia conta a Marília o poder calmante 
das cartas que ella lhe escreve : 

Roubou-me, oh minha amada, a sorte impía, 
Quanto de meu gosava 
N^um só funesto dia. 

Honras de maioral, manada grossa, 
Fértil, extensa herdade, 
Bem reparada choça. 

Metteu-me n^esta infame sepultura. 
Que é sepulchro sem honras. 
Breve masmorra, escura. 



Não vejo as tuas faces graciosas. 
Os teus soltos cabellos. 
As tuas mãos mimosas. 



Mas vejo, oh cara, as tuas letras bellas, 
Uma por uma beijo, 
E choro então sobre ellas. 

Tu me dizes que siga o meu destino, 
Que o teu amor na ausência 
Será leal e fino. 

De novo a carta ao coração aperto, 
De novo a molha o pranto 
Que de ternura verto. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 579 



E na Lyra xxxv, allude á accusação de 
que estava fazendo as Leis para o novo Esta- 
do em que tinha de ser supremo : 

Não hasde ter horror, minha Marília, 
De tocar pulso que soffreu os ferros ; 
Infames impostores m^os lançaram, 
E não puníveis erros. 

E' certo, minha amada, sim é certo 
Que eu aspirava a ser de um Sceptro o dono; 
Mas este grande império qúe eu firmava 
Tinha em teu peito o throno. 

Mas, pode ainda vir um claro dia 
Em que estas vis algemas, estes laços 
Se mudem em prisões de allivio cheias 
Nos teus mimosos braços. 

Na Lyra xxv (P. 2.^) descreve o apertado 
interrogatório, a que é submettido : 

A chave lá sôa 
Na porta segura, 
Abre-se a escura 
Infame masmorra 
Da minha prisão. 

Mas, ah ! que não treme, 
Não treme de susto 
O meu coração. 

Já Torres se assenta, 

Carrega-me o rosto ; 

Do crime supposto * 

Com mil artifícios 

Indaga a rasão. 

Mas, ah ! que não treme, 
Não treme de susto 
O meu coração. 



580 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



No interrogatório de 11 de Novembro de 
1789, na fortaleza da Ilha das Cobras, com- 
pareceu Ignacio José de Alvarenga Peixoto 
diante do Desembargador Torres : 

«Respondeu, que se chamava Ignacio José 
de Alvarenga Peixoto, filho de Simão de Al- 
varenga Braga, e de D. Angela Michaela da 
Cunha, natural da cidade do Rio de Janeiro, 
de edade de quarenta e cinco annos (n. 1744), 
casado, coronel do 1.^ Regimento de cavalle- 
ria de campanha do Rio Verde da Capitania 
de Minas Geraes.» E perguntando-se se sabia 
a causa da sua prisão, respondeu : « que es- 
tando em S. João d'El Rey de partida para 
a Campanha do Rio Verde, aonde tem as suas 
lavras, no dia 19 ou 20 do mez de maio do 
presente anno, chegou o tenente António Jo- 
sé Dias Coelho ao quartel de S. João d'El Rey, 
d^onde o mandou chamar a elle respondente 
para lhe fallar da parte de Sua Excellencia, 
e indo immediatamente lhe disse o dito tenen- 
te que havia de acompanhal-o para o Rio de 
Janeiro para certas averiguações na presença 
do 111.™^ e Ex.«i« Vice-Rey do Estado ; e per- 
guntando-lhe elle respondente, se sabia o que 
seria, lhe disse: — que n^esta cidade tinham 
prendido a Joaquim Silvério e ao Alferes Joa- 
quim José, por alcunha o Tiradentes ; que se 
suppunha ser por alguma liberdade, em que 
este fallava em ideias de Republicas e Amé- 
ricas Inglezas. E ouvindo elle respondente o 
que tinha dito o dito tenente, logo lhe disse 
que isto era matéria muito delicada; pelo 
que immediatamente lhe entregou a chave dos 
seus papeis, e ficou entendendo que d'aqui 
nascia a causa também da sua prisão.» 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 581 

E interrogado sobre este assumpto, decla- 
rou: «que não tinha sido convidado por pes- 
soa alguma para que. . . concorresse para que 
a America conseguisse a sua liberdade, e se 
formasse d'ella uma Republica...» E refere 
outras vezes : «que n'esta cidade (Rio de Ja- 
neiro) fallavam em pretender a sua liberdade 
por soccorros da França e de outras Poten- 
cias estrangeiras...» e que explicara, que 
era: «provavelmente a pretenção que a Fran- 
ça e as mais Cortes estrangeiras tinham á 
liberdade do negocio nos Portos da Ameri- 
ca, e que equivocando-se esta liberdade do 
negocio com a liberdade da America...» 
(Ib,, p. 505.) 

Sobre este equivoco do auxilio da França 
a uma revolução no Rio de Janeiro, é que re- 
sultou ir o Tiradentes á corte sondar o facto 
e ser ahi preso. «Recolhendo-se elle respon- 
dente para casa do Desembargador Thomaz 
António Gonzaga, aonde estava hospedado, 
ás onze horas da noite pouco mais ou menos, 
o achou com o vigário da Villa de San José 
Carlos Correia de Toledo e lhes contou em 
summa o que tinha passado... a que elles re- 
sponderam: — Que seria utilidade do paiz pelas 
boas disposições que se podiam fazer sobre 
os seus interesses. Se o Rio de Janeiro inten- 
tasse e conseguisse a independência, por estas 
ou semelhantes palavras, e foram-se deitar. 
No dia seguinte veiu o Doutor Cláudio Ma- 
noel da Costa tomar café com o respondente 
e com os ditos, como era acostumado, e to- 
cando-se na matéria, que não está certo quem 
foi, respondeu o Dr. Cláudio Manoel da Cos- 
ta, que o Alferes Tiradentes já no seu escri- 



582 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



ptorio lhe tinha dito essa historia de França 
e Kio de Janeiro, mas que elle nenhum cre- 
dito lhe dera, por conhecer que elle era um 
tapado,» (Ib,, p. 512.) Esta terrível referen- 
cia a Gonzaga serviu de base para a sua con- 
demnação, por que não fizera logo a denun- 
cia do que ouvira ! Alvarenga também consi- 
derava o Tiradentes um louco, «que tinha de- 
terminado estabelecer a nova Republica de 
Minas em consequência da do Rio de Janei- 
ro,» e que era disfructado entre vários sujei- 
tos que o faziam expor os seus planos phan- 
tasmagoricos de movimentos no Rio de Ja- 
neiro, a publicação da derrama e a conster- 
nação do povo, etc. Era n^estas scerias que 
Tiradentes distribuía os empregos, e em que 
dizia : «que o Desembargador cuidaria nas 
Leys com os Advogados que escolhesse...» 
(Ib., p. 516.) E como n'estes dehrios do Tira- 
dentes elle fallava em armas com uns triângu- 
los entrelaçados, achando-se em casa de Cláudio 
ou de Gonzaga, como poetas que eram phan- 
tasiaram umas bandeiras : «lembrou o Doutor 
Cláudio Manoel da Costa das Bandeiras da 
Republica Americana Ingleza, que era um 
Génio da America quebrando as cadêas com 
a inscripção Libertas a quo Spiritus ,\ e que 
podia servir a mesma; e o respondente lhe 
disse: que seria pobreza; ao que elle respon- 
deu : que podia servir a letra Aut Libertas 
aut nihil; ao que o respondente se lembrou 
do versinho de Virgílio : Libertas quae sero 
tamen, que elle achou e todos os que estavam 
presentes muito bonito ; mas tudo foi sem 
animo de servir e meramente por entreter a 
conversação.» (Ib,, p. 517.) 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 583 



Pobres Poetas ! por uns devaneios inoffen- 
sivos, a rasão de estado applicava a morte na- 
tural na forca, o degredo, o confisco e a infâ- 
mia sobre os seus filhos ! Nas relações de 
Gonzaga com Alvarenga era em poesia que 
elles conversavam. Na Lyra xxxAaii (P. 2.^) 
Gonzaga protesta contra a accusação de uma 
tentativa de independência por um povo que 
se libertou a si e se entregou á Soberania de 
Portugal : 

Americano Povo, 
O povo mais fiel e mais honrado ! 
Tira as praças das mãos do injusto dono, 

Elle mesmo as submette 
De novo á sujeição do Luso Throno. 

Eu vejo nas historias 
Rendido Pernambuco aos Hollandezes ; 

Eu vejo saqueada 
Esta illustre cidade dos Francezes. 
Lá se derrama o sangue brasileiro ; 

Aqui não basta, suppre 
Das roubadas famílias o dinheiro... 



Ha em Minas um homem 
Ou por seu nascimento ou seu thesouro 

Que aos outros mover possa, 
Á força de respeito, á força de ouro ? 
Os bens de quantos julgas rebelados 

Podem manter na guerra 
Por um anno sequer, a cem soldados? 

Ama a gente asisada 
A honra, a vida, o cabedal tão pouco. 

Que ponha uma acção doestas 
Nas mãos de um pobre, sem, respeito e louco ? 



E tinha que offertar-me 
Um pequeno, abatido e novo Estado 



584 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Com as armas de fora 
Com as suas próprias armas consternado ? 
Achas tão bem que eu sou tão pouco esperto 

Que um bem tão contingente 
Me obrigasse a perder um bem já certo? 

Não sou aquelle mesmo 
Que a extincção do Debito pedia ? 

Já viste levantado 
Quem á sombra da paz alegre ria ? 
Um Direito arriscado, eu busco, e feio 

E quero que se evite y 
Toda a rasão do insulto ^ e todo o meio ? 

Não sabes quanto apresso 
Os vagarosos dias da partida ? 

Que a fortuna risonha 
A mais formosos campos me convida ? 
Não, se os houvesse, unira-me aos traidores, 

D^aqui nem ouro quero. 
Quero levar somente os meus amores. 

Na Lyra xxvi (P. 2.^) quando o poeta re- 
cebe a monstruosa sentença que o condemna^ 
cae em um estado de resignação, conforman- 
do-se tanto com a fatalidade que chega a cau- 
sar-nos espanto: 

Se a innocencia denigre a vil calumnia. 
Que culpa aquelle tem que applica a pena ? 
Não é o Julgador, é o processo 

E a Lei, quem nos condemna. 

Eu também inda adoro ao grande chefe. 
Bem que a prisão me dá que eu não mereqo , 
Qual eu sou, minha bella, não me trata, 
Trata-me qual pareço. 

Tu vences, Barbacena, aos mesmos Titos 
Nas sãs virtudes, que no peito abrigas ; 
Não honras tão somente a quem premeias, 
Honras a queyn castigas! 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 585 

Era já o primeiro symptoma da loucura; 
é certo que o feroz Conde de Resende incre- 
para o Visconde de Barbacena de se mostrar 
brando em não envolver na devassa da» In- 
confidência mais gente, pois que o novo gover- 
nador de Minas trazia instrucções para se im- 
por por meio de uma pavorosa. Todas as 
accusações foram irrisórias, e só juizes auto- 
matos do governo é que podiam firmar a iní- 
qua sentença contra esses pobres litteratos. 

Accusado Gonzaga de ter estado em casa 
de um dos conjurados, Coronel Francisco de 
Paula, e ahi encontrado com o Alvarenga, 
diz: «que n'esta occasião conversaram em hu- 
manidades, e lhe lembra muito bem por re- 
petir o coronel Alvarenga umas Oitavas fei- 
tas ao baptisado de um filho do Ex.™^ D. Ro- 
drigo, e por se examinarem alguns livros do 
dito tenente coronel, entre os quaes se acha- 
va um, que contava ao sapateiro Bandarra 
entre os primeiros poetas portuguezes, con- 
versa que parece exclue toda a presumpção 
de se tratar da delicada matéria de uma se- 
dição.» (Ib., p. 159.) 

Alvarenga, como poeta, alentava o sonho 
do Brasil Império, abandonando a dynastia 
de Bragança o território exiguo de Portugal 
e vindo fundar um grandioso estado no con- 
tinente americano. Era o sonho do P.® Antó- 
nio Vieira, a esperança de D. Luiza de Gus- 
mão, viuva de D. João iv, expediente a que 
em 1807 recorria D. João vi para fugir á in- 
vasão napoleonica. Quando se foram appre- 
hender os papeis de Ignacio José de Alva- 
renga, e se fez o seu exame em 11 de junho 
de 1789, separaram uma Ode escripta pelo 



586 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



próprio punho, que se refere a esse pensa- 
mento, e que serviu de corpo de delicto. 
Transcrevemol-a do auto ; parece dirigida a 
D. Maria i : 

Segue dos teus Mayores, 
Illustre ramo, as solidas pizadas, 

Espalha novas flores 
Sobre as suas acções grandes e honradas ; 
Abre por tua mão da Gloria o templo, 
Mas move o braço pelo seu exemplo. 

A herdada nobreza 
Augmenta, mas não dá merecimento ; 

Dos heroes a grandeza 
Deve-se ao braço, deve-se ao talento, 
E assim foi que calcando o seu destino 
Deu Leys ao mundo o cidadão de Arpino. 

Abrase a 7iova ferra 
Para he7^oicas acções um plano vasto. 

Ou na paz ou na guerra 
Orna os triumphos teus de um novo fasto. 
Faze servir aos Castros, aos Mendonças, 
Malhados tigres, marchetadas onças. 

Não ha barbara fera 
Que o valor e a prudência não domine ; 

Quando a rasão impera. 
Que Leão pode haver que não se ensine? 
E o forte jugo por si mesmo grave 
A doce mão que o põe o faz suave. 

Pródiga a Natureza 
Fundou n^este paiz o seu thesouro, 

Das pedras na riqueza. 
Nas grossas minas abundantes de ouro. 
Se o Povo miserável, , . mas que digo, 
Povo feliz, pois tem o vosso abrigo. 

Sobre os densos ares 
Horrenda tempestade levantada 

Abre o seio dos mares, 
Para tragar a Náo despedaçada ; 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 587 



Porém, destro piloto arreia o panno, 
Salva o perigo, e remedeia o dano ; 

Assim a Grande Augusta 
Que vê o mal com animo paterno, 

Em mão prudente e justa 
Vem collocar as rédeas do Governo ; 
Eu vejo a Náo já de perigo isenta 
Buscar o porto livre da tormenta... 

{Ib., p. 29.) 

Até os chistes que se diziam em casa de 
Alvarenga serviram para incriminal-o; um 
pobre homem de Setúbal, que se achava em 
Villa Rica, foi depor: «que achando-se no Rio 
das Mortes em casa de um pardo, mestre de 
musica, que assistia paredes meias e conjun- 
ctamente na casa onde morava o coronel 
Ignacio José de Alvarenga, o qual ensina a 
musica a uma filha do dito por nome D. Ma- 
ria Iphigenia, segundo sua lembrança ; e tra- 
tando-se do seu adiantamento, lhe disse aquel- 
le José Manoel, que a dita menina nunca po- 
deria adiantar-se muito, e isto pelo demasiado 
mimo com que a cercava sua mãe, a qual lhe 
costumava chamar — a Princeza do Brasil; e 
accrescentava, que este continente viesse a 
ser governado por nacionaes sem sujeição á 
Europa, a ella lhe pertencia por antiguidade 
de Paulistas ; sendo a sua famiha e casa das 
primeiras;» (76., p. 436.) Com factos doesta 
ordem é que se procurava incriminar o can- 
tor de Anarda, o enthusiasta Alceu, que por 
imaginar um emblema com um hemistichio de 
Virgílio, foi clamorosamente condemnado á 
morte. Lê-se na medonha sentença : 

«Condemnam o réo Ignacio José de Alva- 
renga Peixoto a que com baraço e pregão 



588 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



seja conduzido pelas ruas publicas ao logar 
da forca, e n'ella morra morte natural para 
sempre, e depois de morto lhe seja a sua ca- 
beça pregada em poste alto, no logar mais 
publico da Villa de S. João d'Él Rey, até 
que o tempo a consumma; declaram a este 
réo infame, e infames seus filhos e netos, e 
os seus bens confiscados para o Fisco e Ca- 
mará real.» 

Alvarenga ouviu ler a sentença de morte, 
que abrangia mais nove presos pela imagina- 
ria sublevação ; e diante d'essa cegueira das 
leis criminaes e da brutalidade dos juizes, ^ 
buscou energia moral nas recordações queri- 
das; nas collecções manuscriptas de versos 
encontrámos esses dois eloquentes sonetos : 

Não me afflige do potro a viva quina, 

Da férrea maça o golpe não me offende, 
Sobre a chamma a mão se não estende, 
Não soffro do agulhete a ponta fina. 

Grilhão pesado os passos não domina, 
Cruel arrocho a testa me não fende, 
A' força perna ou braço se não rende, 
Longa cadêa o colo não me inclina. 

Agua e pomo faminto não procuro. 

Grossa pedra não cansa a humanidade, 
A pássaro voraz eu não aturo ; 

Estes males não sinto, é bem verdade ; 
Porém sinto outro mal inda mais duro : 
Da consorte e dos filhos a saudade. 

Alvarenga 



^ Foi lavrada em Conferencia da Alçada em 18 
de Abril de 1792, que durou até ás duas horas da ma- 
drugada. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 589 



Eu não lastimo o próximo perigo, 
Uma escura prisão estreita e forte; 
Lastimo os caros filhos, a consorte, 
A perda irreparável de um amigo. 

A prisão não lastimo, outra vez digo, 
Nem o ver iminente o duro corte. 
Que é ventura também achar a morte 
Quando a vida só serve de castigo. 

Ah, quem já bem depressa acabar vira 
Este enredo, este sonho, esta chimera 
Que passa por verdade, e é mentira! 

Se filhos, se consorte não tivera 
E do amigo as virtudes possuirá, 
Só de vida um momento não quizera. ^ 

Alvarenga 

Os juizes da Alçada refinaram de cruelda- 
de, quando commutada a sentença de morte 
em cumprimento da ordem regia, por Accor- 
dão de 2 de Maio de 1792, na pena de de- 
gredo perpetuo para o presidio de Ambaca, 
o fizeram caminhar até ao logar da forca, e 
depois de executado o Alferes Tiradentes, em 
seguida foi chamado Ignacio José de Alva- 
renga Peixoto... para ouvir ler a coinmuta- 
ção da pena capital ! ^ 

Segundo o estylo da penalidade da época, 
os outros condemnados, ou davam uma volta 
em roda da forca para ficarem infamados, 
ou assistiam forçadamente ás execuções san- 
grentas. E' de crer que Gonzaga fosse con- 



1 Ms. 7008. (Bibl. nacional.) Temol-os por inédi- 
tos. 

^ Revista trimensal, vol. xiii, p. 516. 



590 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

duzido a esse espectáculo, e que ahi ouvisse 
lêr a commutação da sua pena de degredo 
perpetuo para as pedras de Angoche em 10 
annos de degredo para Moçambique. ^ Trans- 
crevemos em seguida algumas notas descri- 
ptivas contemporâneas d'esse espectáculo offi- 
cial : 

«A tropa d'esta cidade pegou toda em ar- 
mas; 2 Regimentos formaram da cadeia até 
o corpo da execução, e os 3 Regimentos fize- 
ram cerco no corpo do patíbulo, o qual se ar- 
mou muito alto. Depois doesta execução o 
Brigadeiro Pereira Alvarez, chefe do corpo 
militar fez uma falia aos soldados e Povo, 
para exemplo, e o F.^ M. de Santo António 
seguiu com uma pratica. No dia antecedente 
ao da execução e seguinte, meteram os Auxi- 
liares grandes na cidade, 3 dias de luminá- 
rias em acção de graças de se ter descoberto 
os criminosos. Te Deum no Carmo e festa 
pela Gamara.» 

«Depois de estarem os 10 presos no Ora- 
tório, e sahir a sentença, sem embargo dos 
embargos, e promptos a morrerem, apresen- 
tou o Ohanceller um Decreto, que trazia, de 
S. Mag.^® para se abrir em Relação depois de 
decididos os embargos, e entregando ao Snr. 



^ O povo, nas suas cantigas, synthetisava assim 
o governo da bondosa D. Maria i, sem saber do seu 
estado de irresponsável demência : 

Rainha, nobre senhora, 
No throno foi a primeira ; 
Maldita seja a mulher 
Dos povos tão carniceira. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 591 



Vice-Rey Presidente, o abriu, e houve por 
bem S. Mag.^® perdoar o crime da morte aos 
ditos presos, menos o primeiro cabeça, e fi- 
caram livres da forca, e só padeceu o Tira- 
Dentes, Joaquim José, que foi enforcado, e 
esquartejado, e seus quartos postos no cami- 
nho de Minas, e a cabeça no logar das suas 
casas, em Villa Rica, depois de queimadas, 
reduzidas a cinzas e salgadas, como um pa- 
drão para memoria.» ^ 

Áquelles a quem foi commutada a pena de 
morte, a Carta regia de 15 de Outubro de 
1790, por clemência e benignidade deu-lhe 
degredo por toda a vida para os presídios de 
Angola e Benguella. Vejamos o resto da real 
clemência : 

«Quanto aos mais Réos, que não foram 
chefes da referida Conjuração, nem entraram, 
ou consentiram n'ella, nem se acharam nas 
assembleias e conventiculos dos referidos con- 
jurados, mas que tendo somente noticia ou 
conhecimento da mesma Conjuração não o 
declararam em tempo competente; Hey por 
bem perdoar-lhes egualmente a pena capital 
em que tiverem incorrido, e que esta se lhes 
commute na de degredo para outros domínios 
de Africa, comprehendidos os de Moçambi- 



1 Os nove a quem foi commutada a pena de mor- 
te: José de Resende, pae e filho; Tenente Coronel 
Francisco de Paula Freire ; seu cunhado João Alvares 
Maciel; Coronel Ignacio José de Alvarenga Peixoto; 
Coronel Francisco António de Oliveira Lopes; Domin- 
gos Vidal Barbosa ; Salvador Corrêa do Amaral ; Do- 
mingos de Abreu Vieira. (Carta regia de 15 de Outu- 
bro de 1790.) 



592 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

que, Rio de Sena pelos annos que parece- . 
rem...» N'esta categoria, em que estavam 
doze degradados, acha-se : 

«Thomaz António Gonzaga, Ouvidor que 
foi de Villa Rica.» ^ 

Depois de apresentada a Carta regia cita- 
da, os Juizes da Alçada lavraram um Accor- 
dão com a sentença modificando apenas o 
que se referia aos dez condemnados a deca- 
pitação. Assignaram: Vice-Rey; Vasconcellos; 
Gomes Ribeiro; Cruz e Silva; Veiga; Dou- 
tor Figueiredo ; Guerreiro Monteiro ; Gaioso. 

Gonzaga, privado de todos os recursos, 
ficou no cárcere até ao dia 22 de Maio de 1792, 
em que foi enviado com mais seis dos con- 
demnados para Moçambique e Rio de Sena, 
no navio da carreira da índia Nossa Senhoria 
da Conceição Princeza de Portugal, ^ 

Na Lyra iii (P. iii) escreveu esses versos, 
que sangram: 

Leu-se-me emfim sentença 
Pela desgraça firmada; 
Adeus, Marília adorada, 
Vil desterro vou soffrer. 

Ausente de ti, Marilia, 

Que farei ? irei morrer. 



Mil penas estou sentindo 
Dentro d^alma ; e por negaça 
Me está dizendo a d^sgraça^ 
Que nunca mais te heide vêr! 



1 Coll. Pombalina, Ms. 464, fl. 175 t. Sentença 
de 11 de Março de 1792. /ô., N.^ 643, fl. 350. 

2 Officio do Conde de Resende para Martinho de 
Mello de Castro, de 29 de Maio de 1792. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 593 



Não são as honras que perco 
Quem motiva a minha dor ; 
Mas sim, ver que o meu amor 
Este fim havia ter. 

A Lyra xi (P. iii) foi talvez o seu ultimo 
arranco na masmorra da Ilha das Cobras ; 
não ha tristeza comparável a estas palavras, 
em que o refrem adquire em cada estrophe 
uma vibração mais intensa: 

Ergástulo cruento, 
Onde não entra a aurora. 
Pensas que a sombra tua 
A vida me devora ? 

Não penses tal maldade; 

Eu morro de saudade. 

Se pensas que os teus ferros 
Horríveis e pesados. 
Me têm os rijos ossos 
Com dores traspassados, 

Não penses tal maldade, 

Eu morro de saudade. 

Se pensas que a tristeza 
D'esta masmorra escura 
Me leva por momentos 
A' fria sepultura, 

Não penses tal maldade. 

Eu morro de saudade. 



Se a pobre nudez minha 
Tu julgas que me abate, 
E cuidas que me vence 
Tão rigido combate ; 

Não penses tal maldade, 
Eu morro de saudade. . . 



Irritamo-nos sempre que deparamos com o 

nome de António Diniz da Cruz e Silva, o 

! Elpino NonacHense, assignado n'esta mon- 



594 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



struosa sentença, affronta da rasão e da hu- 
manidade. * O governo pagou-lhe o serviço 
nomeando-o em 1793 successor do Chanceller 
da Relação do Rio de Janeiro, em cuja effec- 
tividade entrou em 1794. 

Sob as impressões do feroz julgamento 



^ Accusámol-o na Arcádia Lusitanay p. 599, de, 
sendo Diniz um admirador sincero de Garção, não ter 
deixado um indicio de sentimento pela revoltante ar- 
bitrariedade que causou a morte d^aquelle poeta. Hoje 
temos o gosto de mostrar que essa desgraça tocou a 
sensibilidade de Diniz ; encontrámos uma Ode inédita 
em que synthetisa a Arcádia n^um monte devastado 
depois d^aquella perda. Eil-a : 

Ode 

A Garção estando preso 

Quando te observo, descarnado monte 
Onde o céo nunca se declara amigo. 
Nem erva brota, nem rebenta fonte, 
Quasi dos ermos infeliz mendigo ; 

Se os olhos corro 

Do cume á falda, 

Assim discorro : 

Que mal fizeste, misera montanha, » 
Que a natureza, sempre mãe piedosa, 
Contra ti mostra ser madrasta extranha 
N^essa que vejo desnudez pasmosa? 

Por certo espanta 

Que nem te cubra 

Rasteira planta. 

Nunca rebanho te buscou faminto, 
Nunca colono te surcou avaro ; 
Que, mesmo ao longe, se te observo, sinto 
Que a vista foge doesse horror tão raro. 

Vendo que brutos 

De teus abrigos 

Fogem astutos. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 595 



de uma imaginaria revolução por causa da 
cobrança dos Quintos, á qual se chamou na 
linguagem official do tempo a Inconfidência 
de Minas, escreveu Nicoláo Tolentino um so- 
neto, que é um quadro completo ; tem a ru- 
brica, No dia em que chegou a Não dos Quin- 
tos : 

Se a larga popa trazes alastrada 
Com prenhes cofres de metal luzente, 
Que importa, oh alta náo, se juntamente 
Vens de pranto e penhores carregada ! 



Mas, oh ! que estranhos eccos repentinos 
Os ares ferem, longe retumbando ! 
Ou são embates de esquadrões ferinos, 
Ou é torrente campos alagando ? 

Mas claras soam 

Do monte as vozes. 

Que assim atroam : 

— Oh, não me chores, néscio passageiro. 
Tantas misérias não são meus desdouros ; 
Cubram mil plantas o vaidoso outeiro 
Que eu no meu seio guardo mil thezouros. 

Avaros venham 

E a vil cobiça 

Em mim mantenham. 

Sim ! felizmente ! liberal pobreza. 

Garção ditoso n^esse estado pobre, 

A sorte adversa, sabia contrapeza 

Com as ricas minas que a tua mente encobre. 

Em tanto ultraje 

E^s doeste monte 

A viva image. * 



* Ms. Odea do grande Poeta António Diniz da Cruz e Silva, 
Sócio da Arcádia lusitana e n'ella por nome Elpino Nonacriense. 
Anno de n87. VI 126 (nào numerada). Pertenceu este Ms. ao Dr. 
A. J. Teixeira. No Ms. escreve-se Garson, 



596 HISTORIA DA LTTTERATURA PORTUGUEZA 



Para ver tanta cara envergonhada, 
E pôr no Limoeiro tanta gente, 
Para isto sulcaste a grã corrente, 
Dos ventos e das ondas respeitada? 

Se alegras uma parte da cidade, 
Ergues na outra um sórdido porteiro 
Vendendo trastes velhos por metade. 

Traz bens e males teu fatal dinheiro, 
Uma alta paz aos homens de verdade, 
Um estupor a cada caloteiro. 

(Obr,, p. 33. Ed. 1861.) 

Eram as cem arrobas de ouro do Quinto 
da producção de Minas Geraes, que vinham 
alimentar a faustosa inconsciência do absolu- 
tismo. Gonzaga tinha o pae vivo, o velho ma- 
gistrado da Casa da Supplicação; partira di- 
rectamente do Rio de Janeiro para Moçam- 
bique na Náo da índia, e todo este desmoro- 
namento da sua vida, a importância social, um 
amor correspondido, toda essa serie de ca- 
lumnias e o boçalismo dos desembargadores, 
levaram-no a uma febre violenta desde que o 
clima africano atacou a sua constituição debi- 
litada pelo cárcere e ainda mais pelas violen- 
tas impressões moraes. Ao chegar a Moçam- 
bique viu-se prostrado por doença gravíssi- 
ma, sendo recolhido bondosamente em casa 
de um homem abastado, Alexandre Eoberto 
de Mascarenhas, casado com uma mulher de 
cor D. Antónia Maria; tinham elles uma filha 
de dezenove annos de edade, que o tratou 
desveladamente e o salvou da morte ; chama- 
va-se D. Juliana de Sousa Mascarenhas, e 
sem cultura, pois nem sabia escrever o seu 
nome. Aproveitando-se do estado de depres- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 597 



são mental, que succedia aos accessos de fú- 
ria do desgraçado Gonzaga, tratou essa fa- 
milia de casar a filha com o poeta, e escre- 
veu-se um Termo de inquirição datado de 9 de 
Maio de 179-^, com as declarações de Gonzaga, 
que se dá como solteiro, (com a edade errada) 
e as de D. Juliana de Sousa Mascarenhas, que 
assigna de cruz. Vê-se que abusaram da alie- 
nação do desventurado, se é que esse docu- 
mento não foi forjado para produzir o seu 
effeito em Villa-Eica e truncar assim todas as 
esperanças que alentavam D. Maria Joaquina 
Dorothéa, a bella Marília. Que importa que se 
dissesse que elle effectuara o casamento com 
a crioula de dezenove annos, se informações 
testemunhaes de quem conheceu Gonzaga em 
Moçambique affirmam o contrario. ^ A Justi- 
ficação de 9 de Maio de 1793 é mais uma es- 
tocada do rancor que o perseguia; e se nos 
lembrarmos que o tio da bella Marilia se 
oppoz a que ella casasse com o condemnado 
Gonzaga e o seguisse para o degredo, e que 
esse tio e tutor João Carlos Xavier da Silva 
Ferrão cooperou nas denuncias que produzi- 
ram o processo sangrento da Inconfidência 
de Minas, deprehende-se que essa Justifica- 
ção do casamento de Gonzaga logo que che- 
gou a Moçambique e se restabeleceu da doen- 
ça grave, foi destinada a produzir o seu effei- 
to em D. Maria Joaquina Dorothéa. Quando 



^ «O conselheiro Resende Costa, affirma que elle 
chegou a casar com esta D. Juliana. Do contrario nos 
informam pessoas que o conheceram em Moçambique, 
E louco terminou seus dias em 1809.» Revista trimen- 
sal, vol. xn, p. 136. 



598 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



lhe deram noticia do facto ou lhe leram o do- 
cumento, conta-se que ella dissera: — «Se o 
Gonzaga não estivesse alienado não faltava 
ao que prometteu.» ^ Da vida de Gonzaga em 
Moçambique ha noticias de compungente de- 
solação: «Em Moçambique quiz dedicar-se á 
advocacia. Mas de continuo lhe vinham á 
mente as injustiças dos homens... fez-se hy- 
pocondriaco. — Algum tempo sentia que a ca- 
beça se lhe abrasava. Deixou de trazer cha- 
péo. Mas o calor que soffria não era physico. 
Foi accommettido de uma febre violenta, de 
que esteve á morte. Os soccorros da medicina 
restituiram-lhe a saúde do corpo; mas o es- 
pirito ia de mal a peior. Quando não tinha 
accesso de furor ou de ternura, obedecia em 
tudo á mulher que o tratara na doença.» ^ Os 
dezesete annos que viveu em Moçambique fo- 
ram uma agonia lenta, caracterisando-se os 
quinze annos últimos por accessos de melan- 
cholia e de completa loucura, expirando em 
1809. 

Quando o Gonzaga foi sentenciado e par- 
tiu para o degredo, D. Maria Joaquina Doro- 
theia tinha vinte e cinco annos ; o abalo emo- 
cional, e depois a decepção de todas as suas 
esperanças levaram-na a uma concentração 
moral que sequestrando-a á vida de relação 
lhe converteram a existência em uma vida 
vegetativa : chegou a uma edade provecta, 



* De uma carta de Manoel Bernardes Lopes Fer- 
nandes a José Maria da Costa e Silva. (Da Collecção 
Merello.) 

* Revista trimensalj vol. xii, p. 136. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 599 

sempre solteira, falecendo em 1854 na cidade 
de Ouro Preto. Não depõe contra ella o ter 
morrido com 87 annos ; também Marianna Al- 
€oforado, a Religiosa portugueza, que o seu 
namorado Ohamilly abandonara, morreu octo- 
genária. Em 1896 a casa em que habitou Ma-' 
rilia foi visitada, e ainda alli se conservavam 
o quarto e intacto o leito nupcial destinado á 
união quebrada pela fatalidade ; ^ até á sua 



^ Em um livro intitulado Tímidos Ensaios, pelo 
P.e Euripedes Calmou, descreve- se uma viagem a Mi- 
nas e a visita a Ouro Preto : 

«Vi a casa e o logar onde se suicidara o advogado 
e notável poeta Cláudio Manoel da Costa. Meditei tris- 
temente alguns minutos sobre a conspiração mallogra- 
da... 

«Com curioso interesse fui ás casas onde habita- 
ram o desembargador Thomaz António Gonzaga, Ou- 
vidor de Villa Rica, e D. Maria Joaquina Dorothea de 
Seixas Brandão. 

«O melifluo e eximio poeta não se cansou nunca 
de cantar e decantar a sua pulcherrima e idolatrada 
Marília. 

«Ambas as casas são escrupulosamente conserva- 
das, até a mesma cor antiga das tintas. Em baixo, na 
planície, demora a habitação da formosa Marília, 
donde se avista no alto a de Dirceo. Uma das janellas 
do infeliz apaixonado olha a descoberto para a janella 
do quarto da sua terna Marília. 

«Este quarto não é occupado pelos donos da casa. 

«Deshabitado e mudo o venerável aposento do 
amor! 

«No centro um leito nupcial, cujo cortinado, abra- 
çando-o todo, cerra-se cosido em laços de fita. 

«O leito está significando que a virgem de Villa Ri- 
ca nunca saiu dos braços da esperança. 

«Conservam-se ali uma cadeira e um cabide, únicos 
trastes que ainda existem da formosa amante. 



600 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



morte publicaram-se vinte e nove edições da 
Marília de Direeu, muitas d'ellas no Rio de 
Janeiro e na Bahia, sendo de presumir que 
até ao seu recolhimento chegasse aquelle livro 



«Terno e casto, firme e constante, sublime até ao 
sacrifício, foi este amor, que nunca a adversidade mais 
cruel pôde matar. Arrancado do coração da sua bem 
amada foi o poeta condemnado a degredo para Moçam- 
bique. 

«Ali, sem esperanças de tornar a vêr Marilia, ca- 
sa-se Gonzaga ; mas sua negra melancholia não achou 
allivio e não tardou a degenerar em loucura. A rica fi- 
lha de Alexandre Mascarenhas para o esposo nunca 
poderia ter os encantos de Marilia. 

«Versões desencontradas correm acerca da fideli- 
dade de Marilia. 

«Eu nunca achei argumentos que ao menos me in- 
clinassem a pôl-a em duvida. 

«Ainda agora, de Monsenhor José Augusto e do 
sr. Padre Corrêa de Almeida, que chegaram a conhe- 
cel-a de perto^ bem como do illustre Vigário de Ouro 
Preto, colhi que Marilia nunca se casara e fora um 
exemplo de honestidade e de constância, 

«No tocante aos seus celebrados amores de todo 
incommunicavel ; catholica fervorosa, no templo des- 
abafava o amargurado coração. 

«Morreu muito velha, e até aos últimos dias de tam 
attribulada existência, as saudades do querido e inol- 
vidável Dircêo banharam-lhe de abundantes lagrimas 
a rugosa face. 

«Gonzaga foi amante sincero e dedicadíssimo, mas 
casou-se. (?) 

«Marilia veiu provar ainda uma vez que a constân- 
cia e fidelidade da mulher podem chegar aos rasgos 
sublimes do heroísmo. A mulher ganhou a palma.» * 



Op. cit., p. 518 a 521. Rio de Janeiro, 1896, 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 601 



de horas inolvidáveis, e que ninguém como 
ella comprehenderia. 

Durante a prisão no segredo do cárcere 
de Villa Rica, no angustioso trajecto para o 
Rio de Janeiro, e na masmorra da Fortaleza 
da Ilha das Cobras, nunca deixou Gonzaga 
de celebrar a gentil Marilia contando-lhe as si- 
tuações commoventes da sua desgraça. A poe- 
sia tinha dado expressão ineffavel a tamanho 
soffrimento ; é por isso natural, que nos pe- 
ríodos de serenidade, embora rápidos que 
Gonzaga teve accidentalmente em Moçambi- 
que, procurasse na poesia um desafogo á sua 
oppressão moral; lese: «compoz varias poe- 
sias, sendo a principal um Poema sobre o 
Naufrágio da Náo de Viagem— Marialva, que 
offereceu ao Governador.» ^ Sob o titulo Uns 
versos inéditos de Gonzaga, ^ publicou-se em 



1 Revista trimensal, t. i, p. 308 (segunda série). 

2 Revista africana — Periódico mensal de In- 
strucção e recreio, n.*^ 1, p. 3: «Num exemplar das Ly- 
ras do desventurado poeta Thomaz António Gonzaga, 
que faleceu n^esta cidade de Moçambique em 1809, en- 
contrei em letra manuscripta uns versos, que, embora 
não trouxessem por baixo o nome do auctor, facilmen- 
te mostram pelo estylo e pelo assumpto serem da lavra 
do mimoso e distincto poeta... Entro em duvida se 
esta peçasinha poética está por concluir. Em todo o ca- 
so merece que se bem diga a memoria do poeta que tão 
reconhecido se mostra á consideração que o seu talen- 
to e suas qualidades souberam inspirar aos filhos does- 
ta terra. Nem de outro modo podia proceder, nem de 
outro modo podia ser tratado aquelle coração apaixo- 
nado, aquelle republicano austero (?) victima illustre, 
martyr do amor e da pátria.» Campos Oliveira, 



602 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1881 em Moçambique a seguinte lyra, que es- 
tava escripta em um exemplar da Marília de 
Dirceo, em que o poeta exalta a piedade com 
que foi recebido no degredo : 

A Moçambique, aqui vim deportado, 
Descoberta a cabeça ao sol ardente, 
Trouxe por irrisão duro castigo 
Ante a africana, pia, boa gente ; 

Graças, Alcino amigo, 

Graças á minha estrella! 

Não esmolei, aqui não sou mendigo; 
Os africanos peitos caridosos. 
Antes que a mão o infeliz lhe estenda, 
A soccorrel-o correm presurosos ; 

Graças, Alcino amigo. 

Graças á minha estrella. 

Cremos que esta lyra é um fragmento, 
destinado a servir de começo a uma serie no- 
va, porque contrasta com aquella primeira ly- 
ra em que se pinta feliz, empregando o mes- 
mo refrem: 

Graças, Marilia bella. 
Graças á minha estrella. 

Quando Gonzaga foi sepultado na sé de Mo- 
çambique, já corriam cinco edições ádi Marilia 
de Dirceo, Por certo não foi da sua mão que 
saiu o manuscripto ; desde que a rasão de es- 
tado o prendeu, apprehendeu todos os seus 
papeis e sequestrou-lhe os bens e quanto pos- 
suía. Do espolio explorado para lhe instaurar 
o processo, em que nada appareceu que o in- 
criminasse, é que se destacou esse livro immor- 
tal, que fez com que a sua dor vibrasse para 
sempre nas almas que o lerem. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 603 



§ II. Sobre as formas poéticas da Marília de Dirceo 

Conta o poeta, que passara a flor da mo- 
cidade na Bahia, no tempo em que seu pae 
era alli desembargador da Relação. Não foi 
indifferente este facto para a escolha do typo 
da ModÍ7iha para as suas Lyras apaixonadas; 
a Bahia foi sempre riquíssima d'esse lyrismo 
tradicional e popular. Lê-se em um folheto 
de 1729, sobre ás festas que se fizeram na 
Bahia pelo casamento dos princepes, que á 
noite, 28 de julho, em presença do Vice-rei 
houve «um alegre divertimento musico de can- 
tigas, e Modas da terra, de que ha abundân- 
cia n'este paiz.» ^ Na colónia portugueza revi- 
vescia essa tradição por forma que mais tarde 
se reflectiu na metrópole com um perstigio 
absorvente e invencível. Na Viagem do Du- 
que de Chatelet (i, 78) descreve-se já este 
effeito da regressão brasileira: «As Canções 
portuguezas são muito licenciosas ; acompa- 
nham-se com uma guitarra, que fazem resoar 
com muita graça, mas a musica é alegre e vi- 
va e não sem encanto;...» Gonzaga desen- 
volveu o seu talento poético quando estava 
mais vivo este enthusiasmo, elevando-se da 
Canção popular espontânea a uma expressão 
artística e reflectida; egual transformação se 
operou na musica, derivando-se da melodia 
popular a Monodia ou Canzo7ie a una você, 
que attingiu a forma artística da Ária. Estas 



Ap. Annaes da BibL do Rio de Janeiro, ii, 139. 



604 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



duas elaborações, a poética e a musical, de- 
vem ser estudadas conjunctamente; é nas Ly- 
ras de Gonzaga que se encontram reunidas. ^ 
Uma Lyi^a de Gonzaga lembra na sua es- 
tructura poética uma Canzone italiana como 
nos apparece tratada pelos compositores do 
século XVII, com a mesma rythmica do verso. 
Transcrevemos este trecho do seiscentista 
Frai-icesco Cavalli: 



Donzella fuggite 
lasciva beltà. 



^ No Caricioneií^o de Musicas populares^ publica- 
ção de César das Neves e Gualdino de Campos, foram 
impressas doze Lyras da Marília de Dirceu ; existiam 
acompanhadas de musica em um manuscripto do fim 
do século xviii, pertencente ao professor Augusto Lu- 
so. Quando Gualdino de Campos nos deu esta noticia, 
encarecemos a conveniência de se publicarem no Can- 
cioneiro. Segundo a opinião auctorisada do professor 
César das Neves, pareciam essas musicas ou Árias da 
Marília serem composição de Marcos Portugal; por 
tanto, no gosto italiano. Eram então muito vulgarisa- 
das as Modinhas brasileiras, como descreve o poeta 
Tolentino; e com um leve intuito nacional, e uma com- 
prehensão no que ha de verdade e belleza nas melodias 
populares, chegava-se á forma bella da Canção como a 
definiu Schubert, nos seus seiscentos Lieds. A letra 
poética, como vemos na Mai^ilia de Dirceu, provocava 
a uma tal creação esthetica; mas a preoccupação do ty- 
po da Ária italiana, tendendo a um virtuosismo voca- 
lista, afastava o accordo entre a musica e a poesia. No 
Cancioneiro de Musicas populares, vemos no tomo ii 
dez Lyras de Gonzaga, sob os números 166, 184, 202, 
280, 287, 292, 309, 315, 333 e 334. Quando um dia 
se fizer uma edição monumental da Marília de Dir- 
ceu devem estas musicas ser incorporadas nas respecti- 
vas lyras. -, # 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 605 



Se un lúcido sguardo 
vi penetra il cor, 
fuggite quel dardo 
dei pérfido amor, 
che insidie scaltrite 
tramando vi va: 

Donzella fuggite 
lasciva beltà. ^ 



E esta outra forma estrophica de uma Can- 
zone posta em musica por Alessandro Ghiviz- 
zani, e ainda usada pelos poetas portuguezes 
do ultra-romantismo: 

Filli mia, se vi pensate 

Ch' io mi mora, 

Ch^ io mi strugga in vivo ardor, 

V ingannate, 

V ingannate, o mia signora 
Chè per voi pazzo è chi muor. 

A expansão musical do génio italiano na 
Renascença, aproveitando-se da poesia, cria 
as formas polyphonicas do Madrigal^ que ca- 
racterisa o século xvi. Dos diálogos e das 
phrases poéticas do lyrismo quinhentista sae 
a contextura melódica, que procura livrar-se 
pela expressão dos sentimentos da estreiteza 
das regras contraponticas. O Madrigal di^^vo- 
priava-se da Canção popular, essencialmente 
monodica, envolvendo a sua simplicidade e 
espontaneidade nas combinações rythmicas e 
em acompanhamentos de ornamentação, e em 
effeitos de dialogo, syncopamentos, passos de 
imitação em cânon, em themas fugados, que 



Canzoni ed A7'ie de xvn secolo. (Ed. Ricordi.) 



606 HISTORIA DA LlTTEKATURA PORTUGUEZA 



O levaram a tornar-se o esboço rudimentar do 
Drama musical. Mas, avançando n'este sentido 
no fim do século xvi, afastava-se do seu ele- 
mento primitivo ou simples e espontâneo, a 
Canção de uma só voz, que vinha desde a es- 
pontaneidade popular até ás Bailadas dos Tro- 
vadores, e ás Frotolas italianas, tratadas na 
sua forma monodica pelos compositores erudi- 
tos. O que o Madrigal ganhara de vantagem 
no dominio da expressão, perdia-o na graça e 
ingenuidade encantadora da Canção na sua 
pureza de melodia ; ^ creava-se o Melodrama, 
em que os compositores eram levados a em- 
pregar o virtuosismo dos cantores das novas 
Escholas, sacrificando á mestria dos seus vo- 
calismos a inteUigencia da palavra poética, e á 
riqueza do acompanhamento orchestral de or- 
namentação. Por seu turno a Caíizone tor- 
nou-se também lyrico-dramatica, sendo a Ca- 
vatina na Opera, e a Ária, formada de duas 
partes pela Èschola de Nápoles, attingindo o 
seu complemento na stretta. 

Mas as formas da Canzone a uma voz não 
se perderam ; foram fecundar o génio germâ- 
nico na elaboração das melodias sem pala- 
vras, que deram origem aos prelúdios, ás to- 
catas, ás sonatas, ás symphonias, a todas 



1 Torchi, Canzoni ed Arie ad una você, nelseeolo 
XVII. Riv. Musicais italiana, vol. i, p. 581 a 656.) — 
Escreve Sandberger, em um estudo sobre Orlando di 
Lasso: «O Madrigal primitivo tem uma forma em que 
está vivamente impresso, de um lado o caracter essen- 
cialmente anophono, symetrico, transparente do ele- 
mento italiano, e do outro esse elemento hollandezy 
essencialmente polyphonico.» (T6., p. 705.) 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 607 

essas formas clássicas que são a essência da 
musica allemã. 

Ao passo que no fim do século xvi o Ma- 
drigal, em que se concentraram os themas da 
Canção monodica, se desenvolvia na sua va- 
riedade polyphonica, e acompanhamento de 
varias vozes, o estylo monodico começou a 
ser estudado como uma espécie de reacção 
contra o artificio madrigalesco e mottetista, 
cultivando com esmero a Avia e o recitativo. 

N^este processo havia o quer que é de re- 
gressão ás formas esquecidas das Canções 
dos Trovadores, que inconscientemente con- 
duziam ás Cantigas populares d'onde deriva- 
ram. Ha aqui duas correntes musicaes que 
se accentuam no fim do século xvi, a que 
avança para a expressão, e a que conserva a 
melodia pura, no canto a uma só voz. A Can- 
ção monodica liberta-se do excesso de colori- 
do polyphonico, das complicações de effeitos 
contraponticos desnecessários para a belleza 
da emoção definida pela palavra, emfim não 
abafava a poesia deixando apreciar a belleza 
métrica das estrophes. Tal é a Ganzone dos 
compositores italianos do século xvii, que foi 
no fim d'essa época abandonada por causa 
do extraordinário desenvolvimento das escho- 
las de canto, que obrigavam a formas que se 
prestassem a um maior colorido harmónico. 
Foi por tanto a Canzone seiscentista estacio- 
naria no século xviii, que se conservou em 
Portugal com o titulo de Modinha (nome to- 
mado do Mote, ou Moda, dos Mottetistas) ; e 
esta corrente alimentava-se por um lado tra- 
zendo a esses moldes Cantigas populares, e 
Cançonetas litterarias adaptando-as á musica 



i 



608 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGTTEZA 



instrumental que os organistas e clavicinis- 
tas allemães tinham tomado da rythmica das 
Canzoni italianas como materiaes dos seus 
prelúdios, fugas, sonatas e symphonias. Não 
nos admira pois que a Modinha portugueza 
se desenvolvesse tanto no nosso século xviii, 
chegando á assimilação da familia burgueza 
pelo predomínio dos themas populares da 
Canção, e que se tornasse predilecta na corte, 
onde dominava a alta cultura de um Scar- 
lati e o canto de um Gypcielli e de um Caffa- 
relli. O apparecimento da Modinha brasilei- 
ra, no século xviii, appresentando aos críti- 
cos da arte musical um aspecto de nacionali- 
dade, é explicável pelo phenomeno de sobre- 
vivência archaica da tradição nas colónias 
distantes. Conservou-se na sociedade brasilei- 
ra a tradição musical do século xvi, que era 
a Canção monodica, ou a Canzone italiana 
seiscentista ; e não sendo invadida pela poly- 
phonia madrigalesca, procurou renovar-se nos 
themas da Cantiga popular, durante todo o 
século XVII. D'ahi *a sua característica nacio- 
nal, dando-se também a circumstancia admi- 
rável de muitas Modinhas brasileiras appre- 
sentarem na sua estructura poética a mesma 
contextura estrophica da Canção dos Trova- 
dores portuguezes do século xiv. Os vestigios 
da A7^ia ad una você, ou da Canção italiana 
seiscentista, acRam-se ainda em certas desi- 
gnações musicaes, como a Chaeone (a Cha- 
eotíla, do Alemtejo), e a Frottola, de que os 
hespanhoes se appropriaram na sua Faixando- 
la; a Villanella, a que se refere Miguel Lei- 
tão de Andrade, e os Villancetes dos Cancio- 
neiros. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 609 



Entre os costumes da corte portugueza de 
Dona Maria i, tanto em Portugal como no 
Brasil, um dos mais curiosos era o das Aça- 
fatas ; as meninas de famílias nobres, mas 
cabidas em pobreza, eram recebidas no paço, 
onde se lhes dava sustento, occupando uma 
posição intermédia ás creadas e ás damas de 
honor. Formavam um vistoso séquito á rainha 
e ás infantas, e não eram mais obrigadas do 
que a fazer parada ; formavam uma espécie 
de coro mudo das operas. Educadas no meio 
das intrigas e dissimulação do paço, as aça- 
fatas entretinham a ociosidade nos jardins de 
Queluz, de Caxias, Ajuda ou Eamalhão com 
secretas intrigas amorosas e confidencias; e 
os princepes, criados á solta entre ellas, pro- 
cediam de modo, que o governo paternal ti- 
nha de patrocinar-lhes o casamento com mili- 
tares gratificados com patente superior* ou 
com o governo de algum forte. Pode-se dizer 
que o grande numero de açafatas da corte de 
D. Maria i foi uma das causas da devassidão 
que teve maior incremento na corte de Dom 
João VI ; educadas em tal meio, as infantas fi- 
lhas doeste monarcha sem senso moral, foram 
o que as lendas decameronicas do principio 
do XIX século descrevem,, soberanamente im- 
pudicas. Lord Beckford, que se achava em 
Portugal por 17(S7, não foi indifferente ao es- 
pectáculo d'este coro de nymphas que ás tar- 
des se espalhava pelo jardim botânico do pa- 
ço da Ajuda: «onde não 6 raro encontrar cer- 
tos animaes de pouca edade e de género fe- 
minino, chamados em portuguez açafatas, es- 
pécie entre a camareira e a dama de honor. 
A rainha fizera o favor de levar comsigo para 

30 



610 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



as Caldas as mais feias ; e as que ficaram têm 
rasgados olhos pretos em que scintillam amo- 
rosas tendências, uma exuberante trança de 
cabello azevichado e beicinhos da cor das ro- 
sas. Tudo isto não constitue uma belleza per- 
feita, nem eu quero dizer isso, só quero que 
fiqueis sabendo que as nymphas de que fallo 
são as flores do rancho da Rainha, e que ella 
tem na sua comitiva, pelo menos, quatro ou 
cinco dúzias mais d^essas damas dotadas de 
boccas grandes, olhinhos franzidos e tez mo- 
rena.» ^ Em umas decimas ao conde de Villa- 
Verde, Nicoláo Tolentino descreve o encontro 
com duas açafatas, ás quaes se lhes partira a 
sege na estrada : 

Cuidei eu que eram piratas, 
Que tiram vida e dinheiro ; 
Fui ver se era o clavineiro, 
E achei duas açafatas. 

Traziam a arma mais dura 
Que no peito se tem posto, 
Traziam ambas no rosto 
O respeito e a formosura. . . ^ 

Dominava na corte o gosto e a monomania 
das Operas italianas ; a lingua dos sopranos 
era preferida ao portuguez no paço da Ajuda, 
fallando-se então uma espécie de giria itaha- 
na de que os próprios castrati eram profes- 
sores. Para entreter as açafatas estudava-se 
musica, tocando o psalterio, a viola franceza, o 
bandolim, e cantava-se nos terraços, por entre 



1 Cartas de Beckford, ii, da trad. do Panorama. 
^ Obras completas, p. 285. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 611 



OS buxos recortados e grutas do jardim; rea- 
lisavam-se as scenas ideaes de Metastasio e 
de d^Aponte, e esta necessidade de dar ex- 
pansão a desejos mal abafados ou vagamen- 
te satisfeitos fez desenvolver um género de 
musica nacional chamado a Modinha. A Mo- 
dinha é uma forma poética e também musi- 
cal; a poética liga-se a uma forma lyrica da 
poesia portugueza chamada Serranilha, cujo 
typo se acha no Cancioneiro da Vaticana, em 
muitos versos de Camões e de Sá de Miranda, 
que allude ao seu elemento musical o Soláo, 
A Modinha Gonsevvo\i'Se mais tempo na co- 
lónia portugueza do Brasil servindo de pre- 
texto a árias de uma melodia expressiva mas 
de uma invenção moderna. As açafatas, filhas 
da nobreza que exercera altos cargos no Bra- 
sil, despertaram o gosto pela Modinha, que 
se tornou um género predilecto nas distrac- 
ções do paço. Lord Beckford falia d'esta mu- 
sica como quem sentiu o seu veneno sensual : 
«N^uma janella, immediatamente por cima da 
luzida testa de sua reverendíssima (o Arcebis- 
po Confessor, o fac-totum do governo da Rai- 
nha) divisámos as duas formosas irmãs La- 
cerdas, damas de honor da Rainha, accenan- 
do-nos com as mãos a convidar-nos : era in- 
centivo bastante para galgarmos vastos lanços 
de escadas até ao seu aposento, que se acha- 
va atulhado de sobrinhos, sobrinhas e primos, 
apinhando-se em torno de duas jovens mui 
elegantes, as quaes acompanhadas de seu 
mestre de canto, um frade baixo e quadrado 
e de olhos verdes, garganteavam Modinhas 
brasileiras. Quem nunca ouviu este original 
f, género de musica, ignorará para sempre as 



612 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



mais feiticeiras melodias que tem existido des- 
de o tempo dos sybaritas. Consistem em lan- 
guidos e interrompidos compassos, como se 
faltasse o fôlego por excesso de enlevo, e a 
alma anhelasse unir-se a outra alma idêntica 
de algum objecto querido. Com infantil des- 
leixo insinuam-se no coração antes de haver 
tempo de o fortificar contra a sua voluptuosa 
influencia; imaginaes saborear leite, e o ve- 
neno da sensualidade vae calando no mais in- 
timo da existência: pelo menos assim succede 
áquelles que sentem o poder dos sons harmo- 
niosos : porém não respondo n'este caso pelos 
animaes do norte, fleugmaticos e duros de ou- ' 
vido. —Uma ou duas horas correram quasi | 
imperceptivelmente no deleitoso delirio, qué 
aquellas notas de serêa inspiravam, e não foi 
sem magoa que eu vi a companhia dispersa e 
o encanto desfeito. As donas do aposento ten- 
do recebido aviso para assistirem á ceia de 
sua magestade, fizeram-me uma mesura com 
o maior donaire e desappareceram.» ^ Estes 
descantes no paço eram também usados nas 
chamadas Funções de burrinho, quando se ia ; 
passar o dia em ranchos nas quintas fidalgas 
dos arredores de Lisboa ; Nicoláo Tolentino 
desenha ao vivo a paixão pelas Modinhas 
com a mesma graça de lord Beckford : 

Em bandolim marchetado 
Os ligeiros dedos promptos, 
Louro peralta adamado 
Foi depois tocar por pontos 
O doce Lundum chorado. 



Carta vm, da trad. do Panorama, 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 613 



Já dentre as verdes murteiras, 
Em suavíssimos accentos 
Com segundas e primeiras, 
Sobem nas azas dos ventos 
As Modinhas brasileiras. ^ 

O typo obrigado nas reuniões, cantando 
modinhas, tal como Beckford descreve o frade 
gordo e quadrado, de olhos verdes, também 
se acha nos versos de Tolentino admiravel- 
mente caracterisado : 

L^Abbé, que encurta as batinas 
Por mostrar bordadas meias, 
E presidindo em matinas 
Vae depois ás assembleas 
Cantar Modas co^as meninas ; 

E' quem lhe rouba attenções 
E lhe accende o fogo interno, 
Trata-o com mil expressões ; 
Diz-lhe quanto ha de mais terno 
Nos seus livros de orações : 

Riremos de tal dragão 
Que tantas figuras faz, 
E sabe com hábil mão 
Unir em profunda paz 
Babylonia com Sião. 

Pouco ás filhas fallarei; 
São feias e mal criadas ; 
Mas sempre conseguirei 
Que cantem desafinadas: 
De saudades morrerei . . . 

Cantada a vulgar Modinha, 
Que é a dominante agora. . . 

[Obr., p. 240.) 



Obras completas, p. 250-1. 



614 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Estes versos da Sátira de Tolentino a 
D, Martinho de Almeida foram escriptos em 
1779, e por aqui podemos fixar historicamen- 
te a época em que as Modinhas brasileiras 
começaram a propagar-se do paço para a so- 
ciedade hsbonense ; a carta de Beckford em 
que as descreve com tanto enthuziasmo é de 
1787, e a paixão por ellas era cada vez mais 
crescente, a ponto de se conservar como dis- 
tincção na boa sociedade até ao primeiro quar- 
tel do nosso século, como vemos pela propa- 
gação da modinha de Castilho, a Joven Lilia, 
Na sociedade aristocrática os mulatos brasi- 
leiros eram apreciados pelo gosto com que can- 
tavam as Modinhas pátrias, e o cantarijio 
Caldas, como lhe chamava Filinto, tornou-se 
o centro da Academia de Humanidades ou 
de Bellas Lettras, pela fascinação que exercia 
cantando as Modinhas, que depois compilou 
na Viola de Lereno. O próprio Nicoláo To- 
lentino obedeceu a esta mania escrevendo al- 
gumas modinhas, como esta : 

Não ha nas Caldas 
Melancholia, 
Dão alegria 
Os ares seus ; 

Negras tristezas, 

Adeus, adeus. ^ 

Assim como Tolentino lisonjeou o gosto 
do tempo n'este género frivolo, também para 
comprazer com a predilecção do conde de 
Villa Verde, começou a cultivar as quintilhas, 



Obras, p. 162. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 615 



taes como as escrevia Sá de Miranda e depois 
d'elle Dom Francisco Manoel de Mello. Em 
uma carta em prosa que precede as quinti- 
lhas de um memorial, escreve Tolentino ao 
€onde de Villa Verde: «As proveitosas lições 
dos nossos dois portuguezes Bernardim Ri- 
beiro e Francisco de Sá de Miranda, com que 
V. Ex.^ fazia úteis ao seu espirito aquellas 
horas que a natureza e muito mais a molés- 
tia, lhe tinham destinado ao descanço do cor- 
po, crearam insensivelmente no meu coração 

amor a esta espécie de poesia 

V.^ Ex.^ me fazia a honra de jnandar que eu 
lesse estes dois preciosos livros ; e a musa que 
preside ás minhas trovas, affeita áquella li- 
ção, rimou em quintilhas e carregou de mora- 
lidades, talvez intempestivas, o memorial, que 
ponho nas mãos de V.^ Ex.^ com muito re- 
speito e com muitas esperanças.» ^ Foi assim 
que Tolentino adquiriu a nota mais preciosa 
dos seus versos ; e ao mesmo tempo o critério 
para julgar a decadência da poesia portugue- 
za, a falta de gosto e a incapacidade da se- 
gunda Arcádia para restaurar a litteratura. 
Ribeiro dos Santos condemnava as Modiíihas, 
como se vê por essa c^rta inédita: 

«Meu amigo. Tive finalmente de assistir á 
assembleia de F. . . ^ para que tantas vezes ti- 
nha sido convidado ; que desatino não vi ? 
Mas não direi tudo quanto vi ; direi somente 



Obras completas y p. 182. 

D. Leonor de Almeida (Marqueza de Alorna). 



616 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

que cantaram mancebos e donzellas cantigas 
de kmor tão descompostas, que corei de pejo 
como se me achasse de repente em bordeis, 
ou com mulheres da má fazenda. Antigamen- 
te ouviam e cantavam os meninos cantilenas 
guerreiras, que inspiravam animo e valor • 
eram tempos militares, e quadravam bem es- 
tas cantigas á educação dos moços d'aquella 
edade, que por isso Gil Vicente, no Auto da 
Lusitânia, fl. 263, introduz o Pay de famílias 
dizendo a sua mulher: 



Se a cantiga não fallar 

Em guerra de cutiladas, 

E de espadas desnudadas. 

Lançadas e encontradas, 

E cousas de pelejar. 

Não n^as quero ver cantar. 

Nem as posso ouvir cantadas. 



«Hoje, pelo contrario, só se ouvem canti- 
gas amorosas de suspiros, de requebros, de 
namoros refinados, de garridices. Isto é com 
que embalam as crianças; o que ensinam aos 
meninos ; o que cantam os moços, e o que tra- 
zem na bocca donas e donzellas. Que grandes 
máximas de modéstia, de temperança e de 
virtude se aprendem n^estas Canções ! Esta 
praga é hoje geral depois que o Caldas come- 
çou de pôr em uso os seus rimances, e de 
versejar para as mulheres. Eu não conheço 
um poeta mais prejudicial á educação parti- 
cular e publica do que este trovador de Vé- 
nus e de Cupido: a tafularia do amor, a mei- 
guice do Brasil, e em geral a moUeza ameri- 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 617 



cana ^ que faz o caracter das suas trovas, 
respiram os ares voluptuosos de Paphos e de 
Cythera, e encantam com venenosos philtros 
a phantasia dos moços e o coração das Da- 
mas. Eu admiro a facilidade da sua veia, a 
riqueza das suas invenções, a variedade dos 
motivos que toma para os seus cantos, e o 
pico e graça com que os remata ; mas detesto 
o assumpto, e mais ainda a maneira por que 
elle o trata. Pelo contrario não conheço hoje 
um Poeta mais útil e de approveitar, que o 
Tolentino: os seus versos são o retrato do que 
se passa no mundo ; e são uma viva censura 
dos costumes corrompidos do nosso século. O 
marido, a matrona, o amigo, o mancebo e a 
donzella, que não tem que apprender n^elle ! 
Não seria melhor que em logar de versos 
amorosos, se cantassem os moraes e políticos, 
que instruíssem? Que se cantassem em versos 
as canções virtuosas, ou as leis da religião e 
do estado, como faziam os Agathirsos?» ^ Em 
outro borrador vem este final: «Mas a carta 
degenera em sermão, e vós comtudo não m'o 



^ Variante : 

«em seus cantares somente respiram as impuden- 
cias e liberdade do amor, os tonilhos extenuados da 
molleza americana e os ares voluptuosos de Paphos e 
de Cythera. Eu admiro a facilidade de sua veia, a ri- 
queza de suas invenções, a variedade dos motivos que 
toma, e o pico e graça dos estribilhos e retornellos com 
que remata ; mas detesto os seus assumptos e mais 
ainda, a maneira com que os trata e com que os canta.» 
Ibid,, fl. 66. 

2 Ribeiro dos Santos, Mamcscriptos, vol. 130, 
íl. 156. (Bibl. nac.) 



618 HISTORIA DA LlTTER ATURA PORTUGUEZA 



haveis encommendado. Desejo-vos saiide, e 
que lá tenhaes mais sizudas assembleias do 
que aqui ha.» ^ 

No lyrismo de João de Deus achávamos por 
vezes uma tonalidade sentimental, que lem- 
brava as cançonetas de Gonzaga; dada a 
pouca leitura que o cantor do Campo de Flo- 
res fazia dos poetas portuguezes, attribuia- 
mos essa influencia á vibração tradicional das 
passadas Modinhas. Mais tarde achámos a 
explicação no artigo An?ios de Lisboa ; a pro- 
pósito de João de Deus: «Estava por esse 
tempo preoccupado com a invenção do seu 
Methodo de Leitura . . . e com a adopção de 
um aparo especial de pennas de pato de que 
elle se servia para traçar letras elegantes 
como arabescos. Se lhe fallavamos de algum 
escriptor moderno, o João de Deus encolhia 
os hombros, sem mesmo procurar saber o no- 
me mencionado, e lia-nos com enthusiasmo os 
versos d^ Marilia de Dirceu...» ^ Assim 
como na ordem cosmologica nenhuma energia 
se perde, também no dominio da arte as emo- 
ções bellas continuam-se em immortaes reso- 
nancias. 

§ m. Historia externa das Lyras de Gonzaga 

No mesmo anno em que o Poeta era trans- 
portado para o iniquo degredo de Moçambi- 
que, publicava-se em Lisboa, em 1792, a il/a- 
rilia de Dirceo, em dois cadernos, com as 
iniciaes T. A. G. Provocou o texto d'essas 



1 Ihid,, fl. QQ t, 

^ Anthero do Quental — In 7nemoriamy p. 453. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 619 



Lyras um interesse commovente por se conhe- 
cer a tremenda desgraça que afastara os dois 
namorados. As edições repetiram-se ainda 
na ultima década do século xyiii, tendo 
a primeira parte 33 Lyras ; nas edições ulte- 
riores foram augmentadas com mais 3. Foram 
procuradas collecções particulares, e novas 
Lyras se encontraram, com que se formou 
uma Terceira parte em 1800, que é aquella 
que se tem reproduzido geralmente, e que foi 
reimpressa com o mesmo prologo em 1820. 
Não se pode considerar apocrypha esta ter- 
ceira parte, porque o próprio poeta allude ás 
composições que abandonara depois que co- 
meçou a idealisar a Marilia; e essas cançone- 
tas desprezadas podiam ser colligidas desde 
que dois mil exemplares das outras Lyras se 
esgotaram em seis mezes. 

Em 1812 publicou-se uma nova Terceira 
parte na Impressão regia, na qual se diz, que 
a anterior de 1800 não é de Gonzaga mas de 
outro engenho. E' para notar que quatro does- 
tas Lyras foram incorporar-se na Primeira 
parte, que são a 26, 29 e 37; contém mais 5 
não conhecidas, 16 Sonetos, 2 Canções e 1 
Ode. A Edição de 1817 traz uma Advertência 
declarando a pureza do seu texto conferido 
por vezes sobre os manuscriptos do poeta, 
e considera-se ahi esta Terceira parte como 
inteiramente apocrypha, e de pessoa conhe- 
cida do editor. Kepetiu-se esta mesma Adver- 
tência na edição de 1819. 

A Terceira parte, de 1800, fora acoimada 
de falsa pelo compilador da Terceira parte 
de 1812, e esta desacreditada como apocry- 
pha nas Advertências de 1817 e 1819. Toda 



620 HISTORIA DA LITTEKATURA PORTUGUEZA 



esta incerteza resulta de que o Poeta, como 
preso de estado ficou sem os seus papeis, que 
depois de confiscados se espalharam por va- 
rias mãos, talvez misturados com versos dos 
seus amigos Alvarenga (Alceo) e Cláudio 
(Glauceste) ; a Marília não tem coordenação 
systematica, senão a que deram os aconteci- 
mentos calamitosos da vida do poeta, que pre- 
dominam na segunda parte. Embora o in- 
teresse de livraria provocasse a publicação 
d'essas duas Terceiras partes^ ellas merecem 
ser estudadas, por que nos revelam o modo 
da compilação da Marília, A Terceira parte 
de 1812 ficou abandonada dos editores, e em 
uma edição critica merece ser incorporada ; 
contem alguns Sonetos que se ligam com a 
vida de Gonzaga ainda nos tempos de Coim- 
bra. Algumas das Lyras da Marilia foram 
postas em musica nos princípios do século xix 
por Marcos Portugal, gloria que moderna- 
mente Wagner (professor em Friburgo) pre- 
stou a algumas Canções de D. Diniz, e Rubin- 
stein a uma Cançoneta de Sá de Miranda. 

BibllograpMa da Marília de Dírceo 



1792 

Marília de Dirceo, por T. A. G. Lisboa. Typ. Nune- 
siana. 1792. In-S.^ de 118 pp. (Contém só a Parte 
I. Vendeu-se um exemplar por 12$200 rs.; apon- 
tam-se 3 exemplares conhecidos.) 



— Lisboa. Officina de Bulhões. (Sem data), (Em ca- 
dernos, com as iniciaes T. A. G. Contém, já a Par- 
te 11 das Lyras.) Sabe-se que a tiragem foi de dois 
mil exemplares, que se venderam em seis mezes. 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 621 



1799 



Marília de Dirceo, por T. A. G. Primeira parte. Lis- 
boa. Na Officina Nunesiana. Anno mdccxcix. Com 
licença da Mesa do Desembargo do Paço. In-8.<* 
com 118 pp., contendo só 33 Lyras. 

1800 

— por T. A. G. = Terceira parte. = Lisboa. Na Offi- 
cina de Thomaz de Aquino Bulhões. Anno de 1800. 
Com licença da Real Meza do Desembargo do Pa- 
ço. In-8.« pequeno, de vii-110 pp. 

Traz o seguinte Prologo, justificando a 
publicação d'esta 3.^ Parte: 

«Sem nos constituirmos ingratos, não nos 
podiamos subtrahir á publicação doesta Ter- 
ceira Parte da Marília de Dirceo. A accei- 
tação com que o respeitável Publico recebeo 
a Primeira e Segunda Parte, exigia huma 
impreterível correspondência ; por cujo moti- 
vo não nos quizemos poupar ao excessivo 
trabalho de recolher com a mais exacta lega- 
lidade os Versos de que se compõem estes 
Folhetos, obtidos das mãos de alguns Curio- 
sos, que por saberem avaliar o merecimento 
do seu Autor, conli todo o cuidado os conser- 
varam. 

Poucos Poetas portuguezes até o presente 
tem cantado tão bem o amor e ternura como 
o nosso; elle nos descreve a natureza em toda 
a sua energia ; e com as mais sensíveis e mo- 
destas cores nos pinta os effeitos de uma vi- 
va paixão. Aonde se encontrarão tantas bel- 
lezas, tanto mimo poético, como na presente 
OoUecção ! Nós vemos dispersas por esta Obra 
a brandura dos Mattos, a pureza dos Quitas, 
a sublimidade dos Garções ; emfim a suavida- 



622 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



de e as mais graças que em particular se ad- 
miram em cada um dos mais celebrados Poe- 
tas, encontramos, bem como em compendio, 
nos versos do nosso Poeta. 

A prompta extracção de quasi dois mil 
exemplares da Primeira ^ Segunda parte A' e^- 
tas Lyras em menos de seis mezes, é um ir- 
refragavel argumento, do que acabamos de 
dizer; apenas appareceu a Primeira parte, de 
tal sorte foi recebida dos que amam os en- 
cantos da Poesia, que nos vimos precisados 
a reimprimil-a, para satisfazermos a quem 
nol-a buscava ; motivos estes, que coopera- 
ram para a publicação d'esta Terceira parte^ 
que não só pelo seu merecimento, como por 
completar a CoUecção, esperamos corra a 
mesma fortuna das outras ; ficando por este 
modo satisfeitos os senhores Curiosos, que 
este é só o interesse que desejamos alcançar 
das despezas e longos trabalhos que tivemos 
em proporcionar-lhes a satisfação do seu gos- 
to.» (P. V a VII.) 

Esta Parte iii foi reproduzida em 1820. 
Lisboa. Na Typ. Rollandiana com o Prologo 
acima. In-16.^ Tem 76 pp. 

1801 

— Lisboa. Officina Nunesiana. 1801. In-S.» pequeno. 

Tem já a Parte in. 

1802 

— Por T. A. G. Primeira parte. Lisboa. Na Off. Nune- 

siana. Anno MDCCCií. Com licença da Mesa do Des- 
embargo do Paço. — lerceira edição, In-8.^ peq. 
de 110 p. — Segunda Parte. Segunda edição mais 
accrescentada. Lisboa. Na Off. Nunesiana. Anno 
MDCCCií. Com licença... In-8.^ pequeno de 108 p.- 
(Tem 37 lyras.) 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 623 



1810 

— Rio de Janeiro. Na Impressão regia. Primeira par- 

te. 1810. In-8.o de 118 p. — Segunda parte. Ibi, 
de 108 p. — Terceira parte. Ibi, de 110 p. Doesta 
edição escreve Valle Cabral nos Annaes da Im- 
prensa nacional do Rio de Janeiro: «Como se vê, 
contém as três Partes tendo cada uma d^ellas folha 
especial de rosto. E' a primeira edição brasileira 
das formosas Lyras do desventurado Dirceo, e cu- 
jos exemplares são da maior raridade. A Bibliothe- 
ca nacional possue um.» 

1811 

— Lisboa. Typ. Lacerdina. 1 vol. Contem 2 Partes. 

1812 

Marilia de Dirceo por T. A. G. — terceira parte. 
Lisboa. Na Impressão regia. Anno 1812. Com li- 
cença. — Vende-se na loja da Gazeta. In-8.<* peque- 
no, de 71 pag. 

Traz a seguinte advertência Ao Leitor: 
«A geral acceitação, que a primeira e segun- 
da parte da Marília de Dirceo tem devido ao 
Publico, animou ao seu Editor a dar á luz 
huma Terceira parte da dita Obra, a»qué fez 
juntar outras diversas Rimas, do mesmo Au- 
thor, que lhe fazem honra, e que abonam as- 
sas a distincta opinião que tem adquirido 
n'aquelle género de Poesia. Adverte o Editor, 
que uma Terceira parte da dita Marilia de 
Dirceo ha tempos publicada, he Obra de ou- 
tro engenho, o que facilmente conhecerá ainda 
o Leitor menos intelhgente.» (Pag. 3.) 

Como se vê, renega a Terceira parte de 
1800, como apocrypha. Apontamos o conteú- 
do doesta nova Terceira parte, começando pe- 
las Lyras : 



624 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



I. Convidou-me a ver um templo (E' a 37 da 
P. I.) 

11. Em vão do amado 

III. Tu não verás, Marília, cem cativos (26. i.) 

IV. Amor por acaso 

V. Eu não sou, minha Nise, pegureiro 

VI. Amor que seus passos itraducção) 

vil. Tu, formosa Marília, já fizeste (29, I.) 

VIII. Em cima dos viventes fatigados 

A uma despedida : 

- Chegou-se o dia mais triste 

Canção : 

- Des que vi, formosa Elvira 

So7ietos : 

- W gentil, é prendada a minha Altea 
-N'um fértil campo do soberbo Douro 

- Enganei-me, enganei-me, paciência 
-Ainda que de Laura esteja ausente 

- Ao templo do Destino fui levado 

- Ergue-te, o pedra, e desde a margem fria 

(A' illustrissima e Exceli. Senhora Condessa de 
CavalleiroSy D, Maria José de Eça e Barbosa.) 

- Quantas vezes Lidora me dizia 

-O numen tutelar da Monarchia ( Ao Visconde de Bar- 

baceha.) 
-Nasceu no berço da maior grandeza 

- Mudou-se emfim Lidora, essa Lidora 
-Adeus, cabana, adeus, adeus oh gado 

- Com pezadas cadeias manietado 

- Ouvi quanto o discurso me guiava 

- Quando o torcido buço derramava 

- Sombra illustre dos Varões famosos. . . (Pombal.) 
-As moles azas a bater começa 

Ode ao Senhor Luiz Beltrão de Gouvea : 
-- Se entre as louras areias 

Ode: Imitando o Sonho de Scipião: 
-Já vou tocando, ó Licio 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 625 



Marília de Dírceo, Rio de Janeiro. 1812. Contém a 
Parte terceira. (Na Bibl. nac. de Lisboa.) 

—Bahia. Na Typ. de M. A. da Silva Serra. 1812. In-8.o 
(Dizem que só traz as 2 Partes.) 

1813 

— Bahia. Typ. de Serra. (Citada por Norberto de Sou- 

sa ; tem 2 Partes.) 

1817 

— Por T. A. G. Lisboa. Impressão regia. Nova edição, 

1817. Com licença... In-16.o. Com as 2 Partes: i, 
até p. 122; ii, d^ahi até 226, Traz a seguinte: 

'^Advertência: N^esta Edição, que vamos agora ex- 
por ao Publico, das Obras de um amável Poeta, talvez 
único n'este género de Poesia, temos a satisfação de po- 
der dizer, que se não vão taes quaes elle compozera, 
também ninguém as terá tão exactas ; pois que a troco 
de laboriosas fadigas e por dilatados tempos, nos im- 
pozemos a tarefa de mendigar as Copias mais authen- 
ticas e fidedignas, algumas até pela letra do mesmo 
auctor; e depois de um maduro exame as colligimos 
doesta maneira, substituindo-lhes muito mais Lyras, 
multiplicidade de versos e mesmo palavras trocadas, 
que vinham nas Edições antecedentes. Também deve- 
mos prevenir o mesmo publico de que supposto fosse 
impresso em Lisboa um folheto figurando a Terceira 
l^arte das Obras do mesmo Author, é inteiramente apo- 
crypho, e até feito por penna do meu conhecimento; e 
como BÓ queremos dar á luz tudo aquillo de que temos 
uma cabal certeza ter sido composto pelo nosso amabi- 
lissimo Poeta; rasão porque foi por nós altamente des- 
prezado, não querendo que o Publico o avalie por mais 
do que 

vale.» 

Renegaa Terceira parte de 18Í2, ou a de 1800? — 
A 3.* Parte de 1812 não se tem mais reproduzido. 

1818 

— Lisboa. Impressão regia. (Apontada por Innocen- 

cio.) 

1819 

— Por T. A. G. Lisboa. Typ. Lacerdina. Com licença... 

(Contem as 2 Partes. In-16.<^, com 126 p. Repro- 
duz a Advertência de 1817.) 



626 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1820 

— Lisboa. Typographia Rollandiana, 1820. In-16.^ 

(Contem as 3 Partes, e o prologo da edição de 
1800.) Citada no Cat. Pereira e Sousa, n.« 257; 
76 pp. (Na Bibl. nac.) 

1822 

— Lisboa. Typ. Nunesiana, 1822. (Contem as 3 Par- 

tes.) Descreve-a Norberto de Sousa como derivada 
da de 1800. 

1823 

— Lisboa. Typ. Nunesiana, 1828. 1 vol. 

1824 

— Lisboa. Typ. Nunesiana, 1824. 1 voL 

1825 

— Lisboa. Typ. Nunesiana, 1825. 1 vol. 

1827 

— Lisboa. Impressão regia, 1827. 8 Partes. 

— Lisboa. Typ. Rollandiana, 1827. 1 vol. in-32.o, de 

251 p. Contém as 3 Partes. 

— Bahia. Typ. do «Diário». 1 vol. In-16.o 

1833 

— Lisboa. Typ. de J. Nunes Esteves, 1833. 

1835 

— Bahia. Nova edição. «Typ. do Diário». In-16.o ÍE' 

a de 1833 com novo frontispicio.) Tem 3 Partes. 

1840 

— Lisboa. Typ. Rollandiana. In-32.'^ 1 vol. Contém as 

3 Partes. 

184? 

— Rio de Janeiro. Typ. do «Jornal do Commercio>. 
184? In-8.« 1 vol. 

1842 

— Rio de Janeiro. Na Typ. de Barros & C.^ 1842. 

In-8 .« 

— Pernambuco. Typ. Santos & C». 1842. 1 vol. in-16.^ 



THOMAZ ANTÓNIO GONZAGA 627 



1845 

- Rio de Janeiro. Nova edição mais correcta e au- 

gmentada de Introducção histórica e biographica 
pelo Dr. J. M. Pereira da Silva. — H. Laemert. 
1845. In-8.0 XL-242 p. Tem 3 Partes. (Na Biblio- 
theca dos Poetas Clássicos da língua portugiie- 
za, t. V.) 

* 

- Rio de Janeiro. (Na collecção Florilégio de Poesia 

brasileira.) 1845. 

1850 

'Bahia. Nova edição. Carlos Paggetti. 1850. Ih-16.'^ 
(E' a de 1835 com novo frontispício.) 

1855 

- Rio de Janeiro. Nova edição. Typ. Commercial, de 

Soares & C.^ 1855, 1 vol. in-8.o. 



Rio de Janeiro. Nova edição. Typ. de Soares & Ir- 
mão (Sem data,] E' a antecedente com novo fron- 
tispício. In-8.0 

1862 

- Paris. Marilia de Dirceo — Lyras de Thomaz An- 

tónio Gonzaga — Precedidas de uma Noticia bio- 
graphica, e do Juizo critico dos Auctores estrangei- 
ros e nacionaes, e das Lyras escriptas em resposta 
ás suas, e acompanhadas de Documentos históricos 
por J. Norberto de Sousa S. Ornada de uma es- 
tampa. Rio de Janeiro, Livraria Garnier. — Paris, 
Irmãos Garnier. 1862. 2 vol. in-8.o i, 347 p.; ii, 
348 p. Typ. Raçon. (E' a melhor edição, por causa 
dos Documentos, mas não satisfaz por falta de cri- 
tica.) 

1868 

- Rio de Janeiro. Nova edição, precedida de uma bre- 

ve Noticia critica do Auctor e do Livro, por Fran- 
cisco Adolpho Varnhagen. 1868. Typ. A. G. Gui- 
marães & C.^ In-8.0 (Apenas se imprimiram as pri- 
meiras paginas, segundo a noticia de Valle Cabral 
nos Annaes da Imprensa nacional do Rio de Ja- 
neiro, p. 41.) 



628 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



1885 

■Lisboa. Typ. de David Corazzi. In-S.® de 124 pp. e 
mais 3 inn. (E' o n.^ 6, 2.^ série da Bibliotheca uni- 
versal.) Resume baçamente as noticias da edição 
de 1862; e considerando a 3.* Parte apocrypha, 
transcreve em Addenda as Lyras i, iii e iv. 



TRADUCÇOES 
1825 

Mai^ilie, Chants elegiaques de Gonzaga, traduits du 
portugais par E. de Monglave et P. Chalas. Paris. 
Impr. de C. L. F. Panckoucke, Editeur. 1825. In-16.^ 
de xxvi-122 p. (Em prosa.) 

1844 

Marília di Dirceo. Lire. . . Tradotte dal portighese da 
Giovenale Vegezzi Ruscalla. Torino. Stamp. Socia- 
le. 1844. In-12.« de xvm — 240 pp. (Em verso.) 

1855 

Marília di Dirceo, Torino. In-12.o Stamparia socialede- 
gli Artiste. (E' a 2.^ edição italiana.) 

1868 

Musa latina : Ajnarillidas Dircaei aliquot selecta ly- 
rica in latinum sermonem translata. (Traducção 
das melhores Lyras de Gonzaga pelo Dr. Castro Lo- 
pes.) Rio de Janeiro. 1868. 2 vol. 

1885 

Nos Raggi e reflessi de Adolf Boclhouwer, (a p. 115 
transcreve uma lyra de Gonzaga em verso italiano.) 
Livorno, 1885. 

189? 

Cancioneiro de Musicas populares, publicação de Gual- 
dino de Campos e César das Neves. No tomo ii, sob 
os n.«« 166, 184, 202, 280, 287, 292, 309, 315, 
333 e 334, vem dez lyras de Gonzaga com a mu- 
sica coeva. 

I N ÉDITOS 

Iratado de Direito natural, (Na Coll. ms. Pombalina). 
Tratado sobre Educação, 

Cartas apologéticas sobre a honestidade das usuras. 
Cântico â Conceição, (Citados na ed. de 1862). 



VIII 



NICOLAO TOLENTINO 



Em uma sociedade sem ideias, pervertida 
por falsas noções, atrophiada pela estabilida- 
de mantida pelas formas mais atrazadas da 
auctoridade, espoliada pelo Cesarismo, em- 
brutecida pelo clericalismo, quando o talento 
apparece n'esse meio decadente, e não tem 
abnegação jjara basear o seu ideal no protes- 
to, serve só para mascarar uma alma miserá- 
vel, e eximindo-se á sua missão superior, col- 
loca-se em relação ao seu tempo na passivi- 
dade de um observador chistoso. O século 
xviii abunda em Portugal em poetas satíri- 
cos; mas a graça, o sarcasmo, a ironia são 
expedientes para a irresponsabilidade da lin- 
guagem, e a sua critica não vae além dos re- 
sentimentos pessoaes, roçando por vezes em 
obscenidades. Esses poetas satíricos, como 
António Lobo de Carvalho ou Nicoláo Tolen- 
tino de Almeida retratam ao vivo a sociedade 
da ultima metade do século, e fazem rir como 
seres deformados que representam a com- 



630 HISTORIA DA LITTERATITRA PORTUGUEZA 



pressão de um tal meio. Os versos de Tolen- 
tino, bem metrificados e bem rimados, nada 
sentidos, repassados da rhetorica do profis- 
sional e de subtileza do bacharel legista, são 
mentirosos quando pintam a situação do poe- 
ta, mas de uma verdade flagrante quando re- 
tratam a sociedade portugueza com uma vi- 
vacidade não excedida pelas Cartas de Lord 
Beckford. O talento serviu-lhe para lisongear 
os grandes, os políticos e os fidalgos que con- 
cedem benesses ; elle próprio synthetisa a sua 
acção litteraria : 

Longo tempo em pedir tenho gastado^ 
E gastarei talvez a vida inteira ; 
O ponto está em que quem pode queira, 
Que tudo o mais é trabalhar errado. 

(Obr,, p. 4.) 

A sua obra o testifica. Pediu sempre : pe- 
diu para si, para suas irmãs, para seu irmão, 
para seus sobrinhos, em todas as oceasiões, 
nas acclamações regias, nos natalícios, nos 
anniversarios dos fidalgos, ora procurando 
commover, ora provocando o riso, servindo 
todos os motivos para o peditório incansável. 
E seria elle na realidade um necessitoso, um 
protector desvelado da familia, sacrificando- 
Ihe o seu talento poético para alcançar o vali- 
mento do inundo official? Não; elle mentia 
ignobilmente quando escrevia no Memorial ao 
Princepe Dom José : 

Entre faxas de pobreza 
Meus tristes pães me envolveram ; 
Desde então em crua empreza 
Contra mim as mãos se deram 
A fortuna e a natureza. 



NICOLÁO TOLENTINO 631 



Todos OS dados biographicos do poeta col- 
ligidos irrefragavelmente dos documentos au- 
thenticos que lhe dizem respeito, e são nume- 
rosos, estão em contradicção com os seus 
versos. Por esses documentos reconstitue-se a 
sua vida, e melhor ainda o seu caracter. 

Nasceu Nicoláo Tolentino de Almeida em 
Lisboa, em 10 de Septembro de 1740, sendo 
seus pães o Dr. José de Almeida Soares, Ad- 
vogado da Casa da Supplicação e Familiar do 
Santo Officio, e D. Anna Thereza Froes de 
Brito, os quaes se tratavam abastadamente e 
viviam, segundo as provanças inquisitoriaes, 
á lei da nobreza. ^ Do seu casamento celebra- 
do em 26 de Novembro de 1732, em Ourem, 
na ermida da quinta de S. Gens, houveram 
prole numerosa, a que souberam dar educa- 
ção esmerada. Era o Dr. José de Almeida 
Soares aparentado com varias famílias titu- 
lares, como os Condes de San Vicente, dos Ar- 
cos, de Villa Flor e de Avintes ; sua mulher e 
prima em quarto gráo, também tinha não in- 
ferior linhagem. Eis a série dos seus filhos, 
para se ver a situação em que nos apparece 
o poeta : 



^ Servimo-nos para a parte documental do valioso 
opúsculo Memorias de Tolentino pelo visconde de San- 
ches de Baena, que ahi reuniu todas as suas investiga- 
ções na Torre do Tombo, archivos parochiaes, e as in- 
formações reunidas por D. Joaquina Thereza Froes de 
Brito sobre a vida intima do Poeta seu irmão, que o 
eximio genealogista possue. In-4.o de 100 pag. e um 
schema genealógico. Lisboa, 1886. 



632 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Em 22 de Julho de 1734 nasce D. Anna 
Thereza Fróes de Brito. ^ 

Em 5 de Outubro de 1735 nasce António 
Plácido de Almeida. - 

Em 23 de Abril de 1737 nasce D. Joa- 
quina Thereza Froes de Brito. 



3 



^ Casou com José Thomaz de Aquino Barradas 
(Inn., Dic. hibl., V, 144) e teve um filho único, Gonçalo 
José Maria, beneficiado, sobrinho a quem o poeta allu- 
de. Viuvando D. Anna, voltou para casa de seu pae, 
em cuja companhia viveu até 24 de Novembro de 1780; 
depois que este faleceu foi a companheira do poeta, ao 
qual fez immensa falta quando morreu em 1 de Março 
de 1711. 

2 Fora para Coimbra estudar preparatórios, e fre- 
quentava a Universidade em 1750, abandonando re- 
pentina-mente o seu curso para sei^uir a carreira mili- 
tar na índia ; sollicitando e obtendo por isso o habito 
de Christo com a tença de 308000- rs. effectivos. Na 
índia abandonou a vida militar pela de frade, e profes- 
sou em 1755 no Mosteiro da Madre de Deus com o no- 
me de Fr. 'António da Conceição. Renunciou em seu 
pae a tença e habito de Christo. Entregou-se á vida de 
missionário, indo parar a Manilha, em cuja sé foi ca- 
pellão mór em 1766, e capellão mór do exercito por 
nomeação do rei de Hespanha. 

3 Tendo recebido educação esmeradíssima, casou 
em 22 de septembro de 1756 com o desembargador 
Manoel da Silva Coimbra de Carvalho; ficou viuva ao 
fim de três annos de casada, e com um filho, que ella 
mesma educou, e veiu a casar com uma prima da Mar- 
queza de Alorna. Convolou a segundas núpcias com o 
desembargador António Carrilho da Costa, falecido em 
1779 sem successão. Depois d^isto dedicou-se D. Joa- 
quina á direcção da Real Casa dos Expostos de Lisboa, 
em 1788, gratuitamente, tornando-se admirada pela 
energia e tino com que desempenhou as funcções de 
Regente. Morreu em 3 de Maio de 1824 com 87 annos. 
O manuscripto que redigiu sobre a vida de seu irmão 
visava a desmentir a sua vergonhosa choradeira de 
pobreza, que a envergonhava. 



NICOLÁO TOLENTINO 633 



Em 10 de Septembro de 1740, nasce 
Nicoláo Tolentino de Almeida. No Livro 8.^, 
dos Baptisados da freguezia dos Anjos, a 
fl. 120 t,y certificou o prior: «Aos quinze dias 
de Setembro de mil setecentos e quarenta 
baptisei Nicoláo, filho do bacharel Joseph de 
Almeida Soares, baptisado na Collegiad^ de 
Ourem ; e de sua mulher D. Anna Thereza 
Froes de Brito, baptisada e recebida na dita 
Collegiada de Ourem, e moradores na Calça- 
da de Santo André. Nasceu aos 9 doeste mez. 
Padrinho António Francisco de Sousa, por 
procuração o P.® Belchior da Fonseca Souto 
Maior. Nas Memorias que escreveu sua irmã 
D. Joaquina, lê-se que nascera depois da 
meia noite, já em 10 de septembro, dia de 
S. Nicoláo Tolentino, de quem sua mãe era 
immensamente devota assim como de Santa 
Ptita de Cacia, que se festejava esplendorosa- 
mente no Convento da Graça. O padrinho era 
irmão do Conde de Villa-Flor, em cuja^casa 
era capellão o padre Souto-Maior. 

Em 17 de Abril de 1742 nasce D. Rita 
Michaela de Cacia ; por falecimento de sua 
mãe em 1767 entra para o recolhimento de 
Lazaro Leitão; e por via de seu pae obteve 
uma pensão de 60$000 na Obra Pia, com so- 
brevivência para outras irmãs. 

D. Jeronyma Máxima do Monte do Carmo, 
nasce çm 3 de Março de 1743 ; entrou também 
para o recolhimento de Lazaro Leitão, onde 
como sua irmã chegou a ser regente ; com 
parte da sobrevivência da tença dos 60$000 
e com a pensão de 50$000 que comprou com 
os recursos da sua legitima, vivia sem depen- 
dência do irmão. 



634 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Em 4 de Septembro de 1744 nasce Fran- 
cisco de Paula de Almeida; estudou todos os 
preparatórios para ir frequentar a Universi- 
dade de Coimbra, mas decidiu-se pela vida 
militar, assentando praça em Infanteria 16, 
no l."" de Novembro de 1763, e admittido 
como cadete em 3 de Novembro de 1764. 
Distinguiu-se na expedição auxiliar de 1793 
chamada do Roussillon e Catalunha, e ferido 
com uma bala foi logo promovido a capitão ; 
promovido a Sargento-mór (major) de infan- 
teria e governador do forte de S. Pedro de 
Paço de Arcos em 12 de septembro de 1797, 
foi condecorado com as medalhas da campa- 
nha, com o habito de Aviz com uma tença de 
121000 rs. 

Por esta enumeração dos filhos do Dr. Jo- 
sé de Almeida Soares e pela educação que 
lhes deu, vê-se que da sua profissão de Advo- 
gado auferia recursos para satisfazer os en- 
cargos da familia. As noticias colhgidas pa- 
cientemente por D. Joaquina contradictavam 
irrefutavelmente a pobreza que o irmão as- 
soalhava nos versos, e os fundamentos dos 
seus peditórios para um pae honrado, para 
pobres irmãs e desvalidos sobrinhos. A' parte 
a rhetorica poética, têm graça as quintilhas 
com que o poeta descreve os sacrifícios da fa- 
milia para com decência poder ir á eschola. 
O capotinho feito de panno velho do capote 
que fora de seu pae ; o característico pentea- 
do de rabicho, o biscoutinho na mão para o 
distrair do terror do mestre : 



NICOLÁO TOLENTINO 635 



Depois que plano caminho 
Já meu pé trilhando vae, 
Pobre alfaiate visinho 
De um capote de meu pae 
Me engendrou um capotinho. 

Talhando a obra maldiz 

A empreza que lhe incumbiram, 

Fez nigrom anciãs com giz, 

Sete vezes lhe caíram 

Os óculos do nariz. 



Colchete no cabeção, 
Sahi novo Adónis bello, 
Figa no cós do calção, 
Carrapito no cabello, 
E um biscoutinho na mão. 

Sobre sisudo gallego 

Que vasa barril fiado, 

Já aos trabalhos me entrego, 

E em triste pranto lavado 

A' porta do mestre chego. 

(Obr., p. 170.) 

A eschola infundia terror, pelo orbilianiS' 
mo dos mestres ; a pancada brutal era a ba- 
se do regimen pedagógico. Na aula de latim 
augmentava o rigor; Tolentino descreve ahí 
o seu fadário : 

Entre medos e violência 
Entrar no Latim já posso, 
E jurei obediência 
A um clérigo, que era um poço 
De tabaco e de sciencia. 

D^entre o sórdido roupão, 
Com a pitada nos dedos, 
E o Madureira na mão, 
Revelava altos segredos 
Do Adverbio e Conjuncção, 



636 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Era em grammatica abysmo, 
Honrava o século nosso, 
Porém de tal rigorismo, 
Que poz na rua o seu moço 
Por lhe ouvir um solecismo. 

Nas quadras á poetisa D. Catherina Mi- 
chaela de Sousa (dôpois viscondessa de Bal- 
semão) descreve as tropelias de rapaz de es- 
ehola : 

Zunindo ao sair da eschola 
A usada mutua pedrada, 
Era meu paiz neutral 
A primeira aberta escada. 

Se em honra de uns lindos olhos 
Na esquina o lenço puchava, 
Em vendo brigão cadete 
Logo o campo lhe largava. 

Jurando um ódio eterno 
A turbulentas pancadas, 
As que levei e as que dei 
Foram só palmatoadas. 

' flh,, p. 112.) 

Pela confusão da grammatica figurada com 
a simples arte, como estabeleceram os jesuí- 
tas, o estudo da Rhetorica era um complemen- 
to do Latim; depois da analyse syntaxica se- 
guia-se o exame dos tropos, e ficava-se idio- 
ta para o resto da vida. Tolentino retrata 
esse typo grotesco : 

Teimoso grammaticão. 

Que em longo chambre embrulhado, 

Co^a douta penna na mão. 

Dá á luz grosso Tratado 

Sobre as leis da Conjuncção; 



NICOLÁO TOLENTINO 637 



Que arranca o cabello hirsuto 
Lastimando a decadência 
Do novo mundo corrupto, 
Que quer negar a existência 
Do Abblativo absoluto. 

(Vk, p. 187.) 

Já se debatiam as polemicas pedagógicas 
do Verdadeiro Methodo de estudar ;,Tolen' 
tino esboça a caricatura do padre que ensina- 
va a phiiosophia aristotélica : 

Que em podre Phiiosophia 
Sectário da antiga lei, 
Os Universaes sabia, 
E armado de à parte rei. 
Tudo a eito distinguia. 

Percorrido este trajecto dos preparatórios, 
tratou o diligente advogado de mandar o fi- 
lho para Coimbra ; nas Quintilhas ao Conde 
de San Lourenço allude Tolentino aos pla- 
nos paternos, incutindo o falso alarde, que 
era para proteger os irmãos : 

Em vão paternal ternura 
Com vivo zelo me assiste ; 
Foi trabalho sem ventura, 
Crescia no filho triste 
Com a edade a desventura. 

Das boas artes no estudo 
Bom pae empenhar-me quiz ; 
Traçava o velho sisudo 
Que fosse um filho feliz 
Dos outros filhos escudo. 

flb. p. 192.) 

No livro da Matricula da Faculdade de 
Leis, apparece-nos inscripto no primeiro anno 



638 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



do curso jurico, no l.o de Outubro de 1760 
Thomaz de Tolentino e Almeyda, filho de 
José de Almeida Soares, natural de Lisboa. 
O poeta, sempre preoccupado com a sua pes- 
soa, descreve esta nova phase da vida, a 
viagem para Coimbra, as troças ou investidas 
aos novatos, e a soltura dos tunos : 

Etnquanto a minha alma emprego 

N^estas cangadas doutrinas, 

A' dourada edade chego 

De ir vêr as vastas campinas 

Que banha o claro Mondego. 

Co^as cabeças mal compostas. 
Vejo entre gostos e medos 
Mãe e irmãs á adufa postas : 
Choviam cruzes e credos 
Sobre as minhas bentas costas. 

Já em rápidas carreiras 
Calcava a real estrada, 
Sem chapéo, sem estribeiras; 
Já a catana emprestada 
Cortava o vento e as piteiras. 

Curtay embrulhada quantia, 
Que ao despedir me foi dada, 
Expirou no mesmo dia ; 
E fui fazendo a jornada 
Quasi com Carta de Guia, 

(Ob}\, p. 172.) 

O transporte para Coimbra era uma Odys- 
sea de peripécias, sobretudo para um desgra- 
çado calouro ; as tropelias do arrieiro, em uma 
viagem de outo dias, as immundicies e peri- 
gos das tabernas da estrada, as arruaças dos 
companheiros, e ao fim a recepção burlesca 
entre apupos na ponte, eram provas que tem- 



NICOLÁO TOLENTINO 639 



peravam para sempre um caracter. De ordi- 
nário ficava-se farçola. Tolentino descreve 
essa terrivel chegada a Coimbra : 

Mas já vejo a branca fronte 
Da alta Coimbra, fundada 
Nos hombros de erguido monte ; 
Já sobre a areia dourada 
Vejo ao longe a antiga ponte. 

Povo revoltoso e ingrato 
Dentro em seus muros encerra ; 
Em vão de adoçal-o trato, 
E^ um titulo de guerra 
A chegada de um novato. 

Pão amassado com fel, 

E envolto em pranto, comia; 

Levei vida tão cruel 

Que peior não a teria 

Se fosse estudar a Argel. 

Soffri continua tortura, 
Soffri injurias e acintes ; 
Lancei tudo em escriptura, 
E nos novatos seguintes 
Fiquei pago e com usura. 

iObr,, p. 172-173.) 

N'este meio dissolvente, Tolentino acabou 
de perder a dignidade, tornando-se systeraa* 
ticamente parasita, ocioso e jogador. Para 
bem se comprehender os seus versos, em que 
retrata esta phase da vida, precisamos de- 
screver de um modo detido a vida académica 
e js seus horisontes litterarios. Elle, simu- 
lando sempre pobreza, queixava-se da falta 
de mesada em Coimbra : 



640 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Gemer em segredo pude, 
Que o bom pae falto de meios 
Quanto cheio de virtude, 
Só mandava nos correios 
Novas da sua saúde. 

A vida de Coimbra exerce na mocidade 
uma transformação profunda; adquire-se uma 
repentina espontaneidade, sob a suggestão 
momentânea de impressões imprevistas, ora 
sobreexcitando a imaginação, que se exerce 
em pruridos poéticos, ora provocando turbu- 
lências, que vão dar relevo a qualidades, que 
constituem depois o caracter do individuo. E' 
uma prova terrível; na maior parte das ve- 
zes, os que têm talento ficam inutilisados, fo- 
ra da realidade da vida, subjugados por uma 
apathia invencível; outros adquirem a insen- 
sibilidade moral, como se patentêa nas gera- 
ções de políticos que tem governado esta ter- 
ra. Tolentino ahi soffreu a deformação moral, 
que o fez explorar as protecções officiaes as- 
soalhando descaradamente as misérias imagi- 
narias da família: elle descreve como cum- 
priu as praxes da Logração disfarçada, co- 
mendo doces de graça: 

Da bolsa os bofes liie arranco, 
No fresco pateo de Cellas 
Pedindo com génio franco 
Doces, gratuitas tigelas 
Do famoso manjar branco. 

Sete annos de verde edade 
Fui metendo a destra mão 
Em multas doesta entidade; 
Chamou-se a Boa feição, 
Mas era necessidade. 



NICOLÁO TOLENTINO 641 

Como se descreve na logração disfarçada, 
era assim o typo do estudante: «Merquei em 
logar da Instituía e Expositores uma flauta, 
rabeca e machinho; pelos livros curiosos uns 
dados, e baralhinhos de cartas; ....vestido 
de crepe, gorra de lemiste, relógio na algi- 
beira, a bolça vazia, e com estes excellentes, 
aprestos, vos armei estudante de Coimbra, 
tratante fidalgo.» ^ 

Chamava-se a este viver solto a boa fei- 
ção^ que variou com o tempo, conservando- 
se no século xviii em Coimbra a velha mono- 
mania dos Valentões: «Muitos e diversos gé- 
neros de boa feição tem havido, segundo os 
fins a que cada um a quer accommodar. E' 
filha legitima da ociosidade, e companheira 
inseparável da ridicularia. Muito tempo an- 
dou disfarçada em Coimbra com a sórdida 
larva da Valentia, de tal sorte que não tinha 
feição quem não matava ou feria, ou fazia 
outros insultos, que são effeito de tyrannia. 
Atreveu-se a tanto esta cruel feição, que poz 
editaes, congregou exercito, a que chamaram 
o Rancho da Carqueja (1721-1722). Não me 
detenho a contar o fim que teve esta diabóli- 
ca feição, porque assas é sabido no nosso 
reino. Injuria será sempre da nobreza escho- 
lastica (emquanto permanecer sua memoria) 
similhante feição, que, mais parece de mara- 
butos renegados, que de estudantes enobreci- 
dos. Passada pois esta furiosa tempestade da 
feição Ímpia, tratou cada qual de accommo- 
dar ao seu intento o methodo da boa feição. 



1 No Palito métrico, p. 217. (Ed. 1843.) 



642 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Os fofos quizeram que consistisse na genero- 
sidade das acções : os que presumiam de sá- 
bios, no chiste de dizer uma authoridade e 
versinhos de comedia; os bobos na chocarri- 
ce das graçolas ; os tolos no baralhar e metter 
á bulha todo o acto serio. Ultimamente n 'es- 
tes tempos modernos vieram-nos Lisboetas 
(que sempre são inventores de novas maqui- 
nas) e introduziram por feição metter a bu- 
lha os geraes, não cuidarem em postillas, co- 
mer muito doce, dar opios e dizer pulhas. No 
anno passado também era feição jogar os cou- 
ces, e este era o divertimento dos Lisboetas.» — 
«Outro methodo de feição é hoje também, que 
se chama feição geral, porque de todos é bem 
acceita, a qual consiste em ter muito dinheiro 
e gastal-o depressa com os amigos ; pagar a 
todos o sorvete ou chocolate na logea de be- 
bidas, os covilhetes de ovos, e o cidrão em 
casa do conserveiro, e mandar que assente no 
rol. Dar um cruzado novo de molhadura ao 
sapateiro depois de lhe ter pago os sapatos 
dous mezes adiantados. Não pedir nunca de- 
masias ao moço, nem a ama ; não fallar no 
traste ou dinheiro que emprestou ao amigo e 
outros similhantes arranjos, que não são imi- 
táveis ; porque esta feição é só para aquelles 
que tem cinco moedas de mezada, para filhos 
de mercadores ricos, ou para brasileiros, que 
tem letra aberta no correspondente; etc.» ^ 
Também dominávamos divertimentos brutaes, 
a que no século passado se chamava ijivesti- 
da aos novatos, e ainda actualmente troça : 



1 Ibid,, p. 220. 



NICOLÁO TOLENTINO 643 



«Não é como algum dia, quando receiavam 
todos vir a Coimbra só com medo das investi- 
das; por que o mais barato que se lhe fazia 
era pôr-lhe uma albarda, ou metter-lhe palha 
na bocca, dar-lhe uma dúzia de açoites e le- 
val-os com cabresto ao chafariz. Eram tidos 
na estimação de todos por mero nihil ; não di- 
ziam palavra sem serem perguntados, nem 
saiam fora de casa sem veterano ; faziam com 
toda a submissão cortezias aos que encontra- 
vam, e em tudo obedeciam aos preceitos que 
lhes intimavam.» ^ Era entre a mocidade das 
Universidades allemãs, que no principio do sé- 
culo XVIII se crearam os génios que trouxeram 
o Romantismo; a vida de Coimbra só servia 
para tirar a mocidade todo o sentimento de 
dignidade por meio das investidas, e pelas 
devassidões da chamada boa feição, O talen- 
to dispendia-se em armar logros aos collegas, 
comendo-lhes jantar e cêa; é ao que moder- 
namente se chama andar â lebre : «Para isto 
vos servirão de muito as vossas prendas de 
tocar flauta e rabeca, filhota e Jangomes e 
muchos mas ramplones, e o bom ár do corpo 
para os minuetes... Victor quem canta; lá 
vae : Bella alma misera, ou outro da moda, 
etc.» ^ «sahireis outra vez com o segundo pa- 
pel lançando uma nesga de relação antiga, 
V. g. do Mariscai de Viron ou D. Carlos 
Osório, intimando no furor das acções a va- 
lentia, e nos requebros de voz a ternura, cor- 
tando o hespanhol como queijo do Alemtejo 



1 Ibid.y p. 223. 

2 76., p. 227. 



644 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



com faca flamenga, e no fim correspondendo 
aos vivas com perna trocada.» — «Nos Outei- 
ros de Doutoramento ou Beca, sereis sempre 
apaixonado feito cabide de armas ; porque 
quando pouco, rende uma cêa, outras vezes 
um tiro, ou uma estocada.» ^ O gosto poético 
despontava no meio doeste pandemonium, mas 
era immediatamente pervertido pelas leituras : 
«Faltavam-me n'aquelle tempo os conceitos 
para discorrer, e as fabulas para ingerir na 
poesia : pelo que logo que cheguei á Universi- 
dade, comprei o Theatro dos DeoseSy á lição dos 
quaes me dei com todo o cuidado.» ^ N'este 
meio o estudo tornou-se um pedantismo, para 
o qual se chegaram a estabelecer regras com 
o fim de alardear uma erudição postiça: «Para 
este fim tome de cor o titulo do livro seguin- 
te; vem a ser — Diccio7iario histórico. Este 
Diccionario faz seus juizos sobre o mereci- 
mento dos homens litteratos ; e o melhor que 
tem para o nosso ponto, é fazer menção de 
todas suas obras e de todas as suas edições ; 
applique-se com todo o cuidado a esta scien- 
cia bibliotica. — Deve além d'isto saber de 
cor os nomes, ou para ser mais exacto, os 
titulos dos livros seguintes, a Encyclopedia, 
Grocio, Puffendorfio, Van-Espen, Anacleto, 
Gonzales, Natal Alexandre, Justino Febronio, 
Vattel, Monsieur de Real, Mons. Thomas, 
Montesquiú, Volter, Professor de Felice, e 
Eussó ; escrevo-lhes em phrase portugueza 
para que lhe não succeda o que succedeu a 



1 76., p. 228. 
8 Ib., p. 242. 



NICOLÁO TOLENTINO 645 

muitos, que lendo Voltaire em francez, pro- 
nunciam do mesmo modo em portuguez. Ora 
isto não é para que lêa tudo, que para tanto 
chegam hoje poucas vidas, mas para dizer 
estes nomes á descarga cerrada, sem citar, 
nem allegar, e sempre em tom de melancia 
verde.» ^ «Ultimamente tenha na sua estante 
as Recitações de Heinecio, o Lorri, as Disser- 
tações de Martini; Bachio, e os mais que 
n'este primeiro anno se lhe fazem preciosos : 
mas sem titulos, e muito guardados, sem con- 
sentir que alguém lhes pegue, affectando de 
livros prohibidos, sem os quaes a moda con- 
demna a ignorância inteiramente. Não lhe es- 
cape Gil Braz, o Diabo Coxo, o Bacharel de 
Salamanca, e tudo o mais que fez o enterte- 
nimento dos sábios.» (76., p. 363.) N'este 
meio, adquiriu Tolentino a prega do jogo, de 
que se recorda : 

Bisca coberta, truque fraudulento, 
Que são os jogos com que fui creado. 

[0br„ p. 40.) 

Na desenvoltura da boa feição, em que 
também entrava a prenda de fazer versos e 
dizer pulhas, cultivou Tolentino a metrifica- 
ção em que se tornou hábil, e fixou de vez a 
sua preferencia pelo género epigrammatico ou 
satírico. 

No Livro das Matriculas da Faculdade de 
Leis, encontra-se o seu nome inscripto nos 
dias 1.0 de Outubro de 1760 até 1763, ha- 
vendo um intervallo até ao primeiro de Ou- 



Ib., p. 362. 



646 HISTORIA DA LITTEHATURA PORTUGUEZA 

tubro de 1765. Nicoláo Tolentino concorreu 
aos exames para o magistério das novas ca- 
deiras de Ehetorica, creadas pelo Marquez de 
Pombal depois da expulsão .dos Jesuítas; o 
seu exame foi muito distincto principalmente 
na composição latina, sendo logo empregado 
em uma substituição na cadeira de Ehetorica 
em Évora, que regeu dois annos. Nas mesmas 
Quintilhas em Memorial ao Princepe D. José, 
depois de descrever os sete annos de verde 
edade, toca na sua entrada no magistério : 

Quiz de taes ondas sahir 
E algum bom porto .aferrar ; 
Quiz ao publico servir, 
E mandaram-me ensinar 
As regras de persuadir. 

(Ohr,, p. 173.) 

Nicoláo Tolentino entrava na galharda 
phalange dos professores de rhetorica, como 
José Caetano de Mesquita, Francisco de Sa- 
les, que foram árcades, merecendo ser lem- 
brado a par de Bento José de Sousa Farinha. 

Não constava por um documento official 
que Nicoláo Tolentino tivesse sido professor 
publico de Ehetorica, affirmando-o constante- 
mente nos seus versos. Achámos a sua no- 
meação na Collecção das Ordens para a re- 
forma da instrucção publica; mas antes doesta 
prova, existia um trecho da Memoria de Fran- 
cisco José dos Santos Marrocos Sobre o esta- 
do dos Estudos menores em Portugal, em que 
o colloca entre aquelles memoráveis professo- 
res Francisco de Sales, Bento José de Sousa 
Farinha, e Pedro José da Fonseca : «Em Elo- 
quência são mui dignos de admiração o dou- 



NICOLÁO TOLENTINO 647 



to professor Pedro José da Fonseca, pelos 
vastos conhecimentos que d'esta sciencia pos- 
sue, e no grande trabalho das composições 
litterarias, em que o publico tem utihsado 
com muito adiantamento; Francisco de Sales, 
varão de recommendada lembrança no deli- 
cado tino e judiciosa critica, com que perfei- 
tamente maneja esta e outras mais faculda- 
des, fazendo-se tão distincto no ensino de 
seus discípulos, que será acanhamento e não 
paixão de um d'elles dizer tão pouco, quando 
todos confessam com muito louvor o raro pro- 
dígio da natureza, que em suas producções 
nem sempre he liberal; e Nicolâo Tolentino 
d' Almeida, official da Secretaria de Estado 
dos negócios do reino, exerceu a sua cadeira 
com toda a capacidade, pela viveza de enge- 
nho de que he dotado. Seria finalmente ingra- 
tidão á posteridade terminar com estes o bem 
merecido louvor, de que justamente partici- 
pam os beneméritos Professores, que com el- 
les se distinguiram desde a creação, occupa- 
dos nas Cadeiras doeste reino, muito particu- 
larmente a lembrança que sempre devo con- 
servar do nunca assas louvado o Dr. Bento 
José de Sousa Farinha, primeiro professor 
pubhco de Philosophia ...» ^ 

Apparece Tolentino outra vez matriculado 
na Faculdade de Leis em Outubro de 1765 a 
1766; n'este anno é que elle concorre á ca- 
deira de Rhetorica de Lisboa, vaga pela pas- 



^ Memoria apresentada em 19 de Novembro de 
1799 a D. Francisco de Lemos, pela segunda vez Re- 
formador da Universidade. (Vem na Revista de Edu- 
cação e Ensino f Anno vii, n.« 11 e 12). 



648 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



sagem de José Caetano de Mesquita para 
egual disciplina no Collegio dos Nobres. In- 
serimos aqui esse documento inédito, que o 
comprova : 

«S.^^ Joseph Caetano de Mesquita, que era 
Professor publico de Ehetorica n'esta Corte, 
foi V. Mag.c servido recolhel-o em o Real Col- 
legio dos Nobres para n'elle ensinar a mesma 
Arte aos CoUegiaes do mesmo Collegio. Logo 
devia eu consultar a Cadeira que ficou vaga, 
mas não havendo muitos Oppositores capazes 
para ella, emquanto se instruião mais, quiz 
ver se bastarião os dous Professores que ha 
na Corte, e tenho conhecido que não bastam, 
por que he tal a quantidade de estudantes 
que cada hum d'elles tem, que se não pode 
esperar por não caber no possível serem bem 
instruídos. 

«Entre os Oppositores, que se tem habili- 
tado para semelhantes Magistérios pelos exa- 
mes que teem feito na minha presença, he o 
mais capaz Nicolâo Tolentino, Consta a sua 
capacidade pelo Auto de exame que com a 
composição latina que o acompanha puz na 
presença de V. Mag.^ em consulta de 25 de 
Agosto de 1766. 

«As informações de seu procedimento mos- 
trão que os seus costumes e modéstia o fazem 
digno do Magistério. Além doestas habiUtações 
tem a do serviço que tem feito, substituindo 
a Cadeira de Évora ha dous annos; pelo que, 

«Parece-me consultar a V. Mag.« a Nicoláo 
Tolentino para Professor régio de Ehetorica 
nesta Corte na Cadeira que regia José Caeta- 
no de Mesquita, e que desempenhará bem as 
suas obrigações com utilidade dos Vassallos 



NICOLÁO TOLENTINO 649^ 



de V. Mag.e Lix.^.l6 de Junho de 1767. Dom 
Thomas, Principal de Almeyda, Director Geral 
dos Estudos. 

«S. Mag.c Como parece. N. Sr.^ da Ajuda^ 
a 17 de Agosto de 1767.» ^ 

Sobre esta informação é que se passou a 
Carta regia de 20 de Agosto de 1767, bas- 
tante curiosa para se conhecer o estado men- 
tal do tempo : «Dom Joseph, por graça de 
Deus etc. etc. Faço saber aos que esta minha 
Carta de nomeação virem, que sendo-me pre- 
sente em consulta do Director geral dos Es- 
tudos doestes Reynos e seus domínios, a ca- 
pacidade, procedimento e letras de Nicolâo 
Tolentino de Almeyda, e que seria muito ca- 
paz de ensinar Rhetorica n'esta Cidade de 
Lisboa, pelo methodo que em meu Alvará e 
Instrucções determino ; Hey por bem de no- 
mear ao dito Nicoláo Tolentino de Almeyda 
para Professor régio de Rhetorica n'esta Ci- 
dade de Lisboa, em quanto eu for servido e 
não mandar o contrario. E será obrigado a 
guardar inteiramente as mesmas Instrucções 
por mim ordenadas, e mandadas publicar em 
28 de Junho de 1759, e Alvará meu do mes- 
mo dia e anno, debaixo das penas cominadas 
no dito Alvará ; como também a observar exa- 
ctamente todas as demais determinações, que eu 
for servido prescrever-lhe, e as que o Director 
Geral dos Estudos, em virtude das faculdades 
que lhe tenho concedido determinar. E ha- 



^ Registo das Ordens expedidas para a reforma e 
restauração dos Estudos doestes Reinos, fl. 90 v. (Tor- 
re do TombO; Reform. dos Estudos, n.» 417.) 



650 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



verá de seu ordenado cada anno trezentos e 
cincoenta mil reis, e mais cem para casas. E 
jurará aos Santos Evangelhos em minhas 
Ghancellarias de guardar o serviço de Deus e 
meu, e ás partes seu direito ; e fará a profis- 
são de fé pelo Capitulo — Ego N. de jure ju- 
rando perante o mesmo Director Geral dos 
Estudos na forma em que está determinado 
pelo Santo Padre Pio iv, e egualmente jura- 
rá a Immaculada Conceição da V. Maria N. 
S. especial patrona doestes Keynos e seus do- 
mínios, para- que bem e verdadeiramente sir- 
va, observando em tudo a mais perfeita reli- 
gião, e as minhas reaes ordens. Pelo que 
mando a todos os ministros, officiaes, e mais 
pessoas a que esta Carta for appresentada, e 
o conhecimento d'ella pertencer, deixem usar 
ao dito Nicoláo Tolentino de Almeida plena e 
livremente do exercício de Professor régio de 
Ehetorica, e gosar todas as honras e privilé- 
gios, que por mim lhe são concedidos. E não 
pagou novos direitos pelos não dever na con- 
formidade do meu real decreto de 3 de Sep- 
tembro, como constou por conhecimento dos 
Officiaes dos novos direitos. El Rey nosso Se- 
nhor o mandou por seu especial mandado por 
Dom Thomaz de Almeyda, Principal Primário 
da Santa Igreja de Lisboa, do seu Conselho, 
seu Sumilher da Cortina, e Director Geral 
dos Estudos doestes Keynos, e seus domínios. 
Joseph Maria Barbosa da Silveira a fez em 
Lisboa aos 20 de Agosto de 1767.» ^ 

Em uma Decima com que Tolentino feste- 



* Mem. de Tolentino, p. 55. Doe. 14. 



NICOLÁO TOLENTINO 651 



jou OS annos do Principal Almeida, abusando 
já da choradeira com que repassou todos os 
seus versos, allude reconhecido a este despa- 
cho : 

Teceram-me em baixo estado 
A fortuna e a natureza ; 
Entre os braços da pobreza 
Fui desde o berço lançado. 
Pelas vossas mãos alçado 
Quebrei da desgraça o fio ; 
Se da crua fome e frio 
Livro o pae, livro os irmãos, 
E' obra das vossas mãos, 
E faz o vosso elogio. 

(Obr., p. 293.) 

O poeta mentia aqui desaforadamente ; não 
nascera em baixo estado, sendo o pae e a 
mãe de origem provadamente aristocrática e 
bem relacionados ; o pae ainda mandava para 
Coimbra um outro filho, e duas irmãs casa- 
vam com Desembargadores. Nos manuscrip- 
tos de Tolentino, da Academia, vem a seguin- 
te nota, referindo-se ao despacho da Cadeira 
de rhetorica: «de que depois se queixou tan- 
to,» N'este anno de 1767 faleceu sua mãe 
D. Anna Thereza Frois de Brito depois de 
uma prolongada doença ; e o pae, o Dr. Jo- 
sé de Almeida Soares sentiu tão profunda- 
mente a viuvez, que tomou ordens sacras de 
presbytero secular vestindo o habito de San 
Pedro, e renunciou em seu filho Nicoláo To- 
lentino a tença de 30$000 rs. que tinha do 
habito da Ordem de Christo. E' para notar 
que esta tença fora alcançada por seu irmão 
António Plácido de Almeida, por causa da sua 
partida como militar para a índia, e que em 



652 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



1755 ao fazer-se frade a renunciara em seu 
pae. Vê-se que a fome e o frio de que Tolen- 
tino livrara o pae e os irmãos era uma inde- 
corosa mentira, para angariar protecções. 
Como presbytero secular o Dr. José de Al- 
meida Soares não ficara inhibido de dar con- 
sultas e advogar na Casa da Supplicação; e 
novos recursos se lhe deparavam em missas, 
sermões e officios religiosos, que n'esse tem- 
po eram apparatosissimos. Achando-se a 
filha mais velha D, Anna Thereza Froes de 
Brito viuva, veiu viver para a companhia de 
seu pae, com o filho único que tivera, o bene- 
ciado Gonçalo José Maria. Eram servidos 
por duas criadas, sendo por tanto a lenda da 
fome e protecção irrisória. As outras duas ir- 
mãs solteiras já estavam no recolhimento de 
Lazaro Leitão, e o irmão mais novo Francis- 
ca de Paula de Almeida, que seguira prepara- 
tórios em Coimbra (á custa do pae) até 1763, 
agora achava-se cadete do regimento 16 de 
infanteria, subindo postos com distincção. 
Comprehende-se que o livro de memorias re- 
digido por sua irmã D. Joaquina fosse moti- 
vado pela jactância do poeta, sempre pedindo 
em nome dos irmãos e declarando-se seu pro- 
tector com quem repartia o parco pão ! A esta 
luz os versos de Tolentino perdem todo o va- 
lor moral, ficando apenas os quadros pittó- 
rescos da época, que são incomparáveis. 

Outra vez apparece o nome de Nicoláo 
Tolentino matriculado na Faculdade de Leis 
em 1 de Outubro de 1769; pela imperfeição 
dos assentos, antes da reforma pombalina, 
não se pode saber quaes os actos que fez 
nem se tomou o gráo de bacharel. Nas Deci- 



NICOLÁO TOLENTINO 653 



mas satíricas A certo disfarçado jesuíta, que 
assistia no Paço a titulo de bobo, e lhe cha- 
mavam por zombaria o Cardeal Rosa, vêm 
em um dos textos manuscriptos : 

Com o doutor não entendas, 

E' d^elle esta cutilada; ^ 

Assento-te agora a espada 

Para ver se assim te emendas. . . 

(Ohr., p. 317.) 

Servindo o seu logar de mestre de rheto- 
rica, Tolentino, talvez para comprazer com o 
Principal Almeida, fez-se um exaltado jt?om6a- 
lista; em um Soneto celebrou-lhe as mil vir- 
tudes e a dourada edade que teceu a Portu- 
gal. (Obr,, p. 385.) Isto contrasta com os chas- 
cos que lhe atira depois da queda em 1777. 
Estava o poeta em Lisboa, quando a Arcádia 
depois da sua restauração em 1764 dava no- 
vos alentos de vida ; elle admirava alguns 
árcades, principalmente Garção, e para exal- 
tar a perfeição de uns versos, escreve : 

Inda que para cantal-os 
Lhe desse Garção a lyra. . . * 

{Ih., p. 1-22.) 



1 O sarcástico Lobo em um Soneto ao Duque de 
Cadaval, allude a Garção com elevado respeito : 

Grande Duque, se algum auctor perito 
Qual Voltaire, Boileau, Garção, Monteiro, 
Ou outro, cujo nome o mundo inteiro 
Respeitasse por homem erudito. . . 

Ms. da Bibl. Nac, fl. 47 (é variante do Soneto x, 
da ed. Innocencio.) 



654 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



De Quita, falia desdenhosamente por ser 
eabelleireiro, mas reconheceu-lhe o talento : 



Foi este o famoso Quita, 
A quem triste fado ordena 
Que a fome lhe traga o pentem, 
E das mãos lhe tire a penna. 



Cosendo sobre a janella 
Em dura falsa caveira, 
A sua alma conversava 
Com Bernardes e Ferreira. . . 

ílh,, p. 129.) 

O outro árcade Fr. Joaquim de Foyos, se- 
gundo o testemunho de Costa e Silva, dizia : 
«que entre os Poetas modernos de Portugal 
não conhecia senão dois que merecessem o 
nome de grandes, a saber, António Diniz e 
Nicoláo Tolentino.» E o árcade Melizeu Cy- 
lenio, o nestoreo Luiz Correia de França e 
Amaral, celebrava na sua Carta vii Nicoláo 
Tolentino, quando partia para a Chamusca. 
Era também da Arcádia o seu coUega Fran- 
cisco de Sales (Titiro Parti7iiense)y como elle, 
mestre de rhetorica. Porque não entraria pois 
para a Arcádia ? Tolentino vendo que o mes- 
tre de rhetorica José Caetano tinha sido ex- 
pulso da Arcádia, e que esta corporação per- 
dera o favor do ministro, entendeu mais se- 
guro o conservar-se na dissidência, e mani- 
festar-se contra o lyrismo das Odes. Já Pina 
e Mello satirisara os odiados O distas ; Tolen- 
tino em uma carta inédita ao conde de Villa 
Verde, diz-lhe que não pertence á seita das 
Odes, e na Sátira O Bilhar, para ridiculari- 



NICOLÁO TOLENTINO 655 



sar um poeta, põe-lhe na bocca no fim de 
muitas phrases emphaticas : 

unicamente me confundo 

C^uns taes versinhoSj que eu não via d' antes, 
Aos novos ursos todo o povo acode, 
O estylo é sybillino, o nome é Ode, 

(Ih,, p. 279.) 

Disse um sábio, que os erros do presente 
Ia emendando os erros do passado, 
Mas que das Odes a infeliz torrente 
Tinha a lingua outra vez estropeado. . . 

(Ih,, 280.) 

Parece que Tolentino, na Guerra dos Poe- 
tas propendera para o Grupo da Ribeira das 
Náos, como se pode inferir da sua intimidade 
com Domingos Pires Monteiro Bandeira (Do- 
rindo); este morava na rua da Atalaya, 
Tolentino tinha a sua aula na rua da Rosa, 
e frequentemente se encontravam : 

O nosso bom tempo antigo 
Quando alçando a torva fronte. 
Jantava Quintiliano 
A^ meza de Anacreonte. 

Quando nos brilhantes copos 
Do casto herdado Gorizos, 
Iam mergulhar as azas 
Os prazeres com os risos ; . . . 

E sem haver lindos olhos. 
Sem haver ondadas tranças. 
Doidos com doidos teciam 
Turbulentas contradanças. 

Dorindo era um sybarita, que Filinto cele- 
brava dedicando-lhe a traducção da Pucelle 
de Voltaire ; e é talvez doesse tempo que fi- 
cou a impressão que ditou a Filinto esse ver- 



I 



656 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



so: «Cum TolentinOj que diverte e encanta.» 
Foi na convivência de Dorindo que elle tomou 
parte na querella métrica da Zamperini em 
1774, e na expansão encomiástica cooperan- 
do na alluvião de versos á elevação da Esta- 
tua equestre em 1775. (Obr,, p. 29.) 

Na bella Sátira de Tolentino O Bilhar, 
em que se caracterisa a vida litteraria da ul- 
tima metade do século xviii, ainda se cita a 
chusma infinda dos versos compostos por 
occasião da Estatua equestre; desde os árca- 
des mais eminentes até aos barbeiros que re- 
citavam sonetos e acabavam pedindo esmola, 
tudo escreveu para celebrar esse grande facto 
da historia do cesarismo. Tolentino retratan- 
do o typo do poeta apadrinhado em cem Ou- 
teiros nocturnos, dá-lhe como uma pincelada 
definitiva «Todos os versos leu da Estatua 
equestre,» ^ As festas da elevação da Estatua 
equestre nos dias 6, 7 e 8 de Junho de 1775, 
assim como foram um pretexto para a aristo- 
cracia portugueza devorar em uma noite ao 
município de Lisboa duzentas e cincoenta ar- 
robas de doce, serviu de válvula de seguran- 
ça para dar largas á monomania poética da 
classe media e dos f unccionarios públicos ! Os 
versos á Estatua equestre tornaram-se pro- 
verbiaes; no fim do discurso do Juiz do Po- 
vo em prosa pombalina, rematou com este 
grito que foi immediatamente glosado por um 
chorai immenso : 

Viva José Augusto ! Viva, viva. 



Obras completas p. 278. Ed. J. de Torres. 



NICOLÁO TOLENTINO 657 



O Juiz do povo recitou uma Ode, e o seu 
escrivão um soneto, e todos os deputados da 
Casa dos Vinte e Quatro recitaram Outavas, 
Sonetos, decimas, epigrammas, entremeiando- 
se com coros e doces. A Impressão Eegia foi 
facultada a todos os que quizessem imprimir 
poesias laudatorias para o official regosijo, e 
resta o facto pathologico d'este periodo da 
litteratura portugueza em composições colli- 
gidas em alguns volumes, tendo-se perdido a 
maior parte doesse fluxo da bajulação degra- 
dante. Na minuciosa descripção doestes feste- 
jos, em que o povo de Lisboa soffreu todas 
as extorções para dar ao regosijo um maior 
deslumbramento, nota o Dr. Guimarães : «Uma 
memoria que temos á vista, diz que um cu- 
rioso, possuia uma collecção de todas as com- 
posições poéticas que se imprimiram por a 
occasião da inauguração da Estatua Eques- 
tre; constava a collecção de quatro volumes, 
contendo 659 composições em todas as lín- 
guas. Algumas composições se escreveram 
nas linguas grega, arábica e hebraica, como 
aconteceu na academia, que no primeiro dia 
dos festejos houve no collegio do Convento de 
Jesus; essas poesias saíram traduzidas em 
vulgar.» ^ Diante doesta alluvião de encómios 
métricos comprehende-se o valor do traço mo- 
ral deixado por Tolentino no endecasyllabo : 
«•Todos os versos leu da Estatua Equestre,» Se 
alguma cousa se pode ler no meio de tanta 
torpeza são os versos de um acerbo rimador 
chamado António Lobo de Carvalho, conhe- 



^ Summario de varia historia, t. n, p. 226. 



658 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 



eido entre o vulgo pelo nome de poeta da 
Madragôa, e extremamente obsceno, mas 
n'esses dias illuminado de um bom senso, que 
exprime a eloquência de um povo bestialisa- 
do e explorado. 

Depois da Guerra dos Poetas, em 1774, 
por causa da Zamperini, e da efflorescencia 
bajulatoria da Estatua equestre em 1775, se- 
guiU'Se uma outra recrudescência da veia poé- 
tica, por occasião da queda politica do Mar- 
quez de Pombal em 1777. Se a Guerra dos 
Poetas revela uma negação absoluta de gos- 
to litterario, de incapacidade de ideal; se os 
versos a Elevação da Estatua equestre são 
o cúmulo da indignidade produzida pelo re- 
gimen cesarista, a somma de sátiras accumu- 
ladas sobre a cabeça do Marquez de Pombal 
depois da sua impotência, e pelos mesmos 
que o bajularam tanto, é a prova de que a 
sociedade portugueza se achava desequilibra- 
da, faltava-lhe o senso moral. Esses versos 
foram em grande parte colligidos em um Ma- 
nuscripto que se guarda na Academia das 
Sciencias; ^ o Marquez, que lançava nos cár- 
ceres os poetas e ali os deixava morrer, já 
com receio da sua maledicência já com o ran- 
cor de algum verso incertamente attribuido a 
qualquer desgraçado, devia soffrer o supplicio 
da poesia. Foi o que lhe fizeram com a impu- 
dência da impunidade e do favor da facção cle- 
rical e aristocrática. Já ninguém podia soffrer a 
morte no forte da Junqueira, como Salvador 



1 Collecção de vei^sos ao Marquez de Pombal^ Ga- 
binete 5, estante 23, N. 33, Est. 21, Part. 4. 



NICOLÁO TOLENTINO 659 



Soares Cutrim, escrivão do fisco, e o padre 
António Rodrigues, pelo crime de lhes encon- 
trarem em casa versos satíricos contra o pre- 
potente ministro; ^ os amigos particulares do 
ministro, como Frei João de Mansilha e Frei 
Manuel de Mendonça, e até sua irmã D. Mag- 
dalena de Vilhena, eram desbragadamente 
insultados em Odes, Glosas, e parodias do 
Padre Nosso; o descaro dos antigos bajula- 
dores, não se pejava de preconisar a contra- 
dição, como se vê no soneto do pregador cis- 
terciense Frei Francisco Roballo: 

Dei louvor ao Marquez, mas com v^iolencia, 
Temendo da Junqueira o duro trato; 
Fui forçado a f aliar, já me retrato, 
Por descargo da minha consciência. 

O árcade Lemano, o oratoriano Manoel 
de Macedo, que em 1769 pregara em acção 
de graças pela continuação da vida do minis- 
tro, em 1777 era accusado n'esta quadra: 

Hontem n^essa cadeira da verdade 
Por maior dos lieroes o conheceste, 
E no mesmo logar logo o fizeste 
O monstro mais cruel da iniquidade. 

Latino Coelho, que tirou doesta coUecção 
de versos inéditos a luz moral do começo do 
reinado de D. Maria i, observa: «que algu- 
mas composições d'aquelle tempo reprehen- 
dem a sobejidão e a insânia dos vingativos 
poetastros.» Pertencem a esta corrente de pro- 



1 Breve relaqão do Forte da Junqueira^^\\>, : Dos 
Padres Cruzios. 



660 HISTORIA DA LITTERATTTRA PORTUGUEZA 



testo as endechas que se intitulam Agua na 
fervura dos Satíricos alambicados, e se al- 
gum raio de luz moral nos alegra entre tan- 
tas vilezas é o facto de José Basilio da Gama, 
increpando Nicoláo Tolentino, celebrar em um 
Soneto o Marquez decahido. (Vid. p. 489.) 

No meio de tanta dissolução, comprehen- 
de-se por que ficaria sem efficacia, a acção da 
Arcádia, quando os poetas celebravam as me- 
retrizes e lacaios, como o Lobo da Madra- 
gôa diz de Nicoláo Tolentino ; mas falta-nos 
ver ainda as novas circumstancias que fize- 
ram com que o talento fosse banido de Por- 
tugal, ou perseguido, como José Anastácio 
da Cunha, Corrêa da Serra, Francisco Ma- 
noel, Félix de Avelar Brotero e Silvestre Pi- 
nheiro Ferreira. Também Nicoláo Tolentino 
seguiu a chusma dos poetas, apodando o de- 
cahido Marquez na sua bem feita Sátira, a 
Quixotada, em que ironicamente bate nos 
metrificadores anti-pombalinos por não terem 
graça. N'essas chistosas quintilhas, Tolentino 
imagina Dom Quixote vindo a Portugal para 
fazer um Auto de fé das sátiras insulsas 
como já sob o ditado de Cervantes fizera o 
auto de fé das Novellas de cavalleria: 

Irmão Sancho, põe-te a pé, 
Põe essas rimas a prumo. 
Principio á obra se dê, 
Tolde o ár o negro fumo 
Doeste novo Auto da fé. 

Queima essas sátiras frias. 
Faltas de siso e conselho : 
Queima prosa e poesias : 
Acabe o cansado velho 
Em paz os seus tristes dias. 



NICOLÁO TOLEXTINO 661 



Porém poupa sempre alguma 
Das raras que tem sabor; 
Das outras nem deixes uma 
D^essas que tudo é rancor, 
E poesia nenhuma. 

(Ohr., 271.) 

Depois de descrever o incêndio das insul- 
sas poesias e de lançar as cinzas d'ellas. ao 
Tejo, lembra-se Tolentino de pôr na bocca de 
Dom Quixote uma ordem para que o Mar- 
quez vá agradecer a Dulcinea aquelle acto de 
justiça. Quixote dita-lhe o que elle hade pro- 
ferir; é uma espécie de confissão geral, em 
que o próprio Marquez expõe a serie dos seus 
crimes : 

Disse este povo malvado 

Que eu tinha o reino extorquido ; 

Que era gatuno afamado, 

E que em jogos de partido 

Tinha com todos levado. 

Que no Tabaco levava 
Um quinhão avantajado ; 
Que o Sabão não me escapava, 
E que sem ser deputado 
Nas Companhias entrava. 

Das minhas Leis murmuravam : 
E os seus pequenos juizos 
Tão pouco o ponto tocavam 
Que sempre me eram precisos 
Assentos, que as declaravam. 

Té na lingua sem motivo 
Deram críticos revezes : 
Fiz n^ella estudo excessivo, 
Bebi nos bons portugueses 
Manopolio e respectivo. 

Disse mais o povo insano, 
Que perdi de Roma o trilho; 
Que fui sultão soberano ; 
Que andei casando o meu filho 
Segundo o rito ottomano. 



662 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O retrato do velho Marquez de Pombal 
arrastando os pés gotosos, encostado ao seu 
creado Lopes com ares ainda de ministro, 
mandando em cousas pequenas, é magistral; 
foi assim que Tolentino se tornou sympathi- 
co á aristocracia que empolgava o poder, lan- 
çando-se na onda da reacção. 

Em alguns manuscriptos a Quixotada in- 
titula-se Ao retiro do Marquez de Pombal: 

N^ella vive descansado, 
Porque as aguas vão serenas ; 
Sempre ministro de estado, 
Mandando cousas pequenas 
No teu Lopes encostado. 

[Ih,, 274.) 

No Ms. 516, (Bibl. nac.) vem a seguinte 
nota: «José Lopes j que foi seu lacaio, e depois 
seu guarda roupa.» (P. 273*.) N'esta Sátira 
apparece referencia á praguejada mão do 
ministro outr'ora beijada como bemfeitora ; e 
torna a empregal-a no Soneto Ao Secretario 
de Estado, Visconde de Villa Nova da Cer- 
veira, depois Marquez de Ponte de Lima, 
quando explica o silencio forçado de doze an- 
nos, regendo a sua cadeira de Rhetorica, sem 
se atrever a pedir cousa alguma. Esse Sone- 
to é um quadro pittoresco, mas um documen- 
to moral deplorável-; traça os últimos mo- 
mentos do governo do Marquez de Pombal : 

A longa cabelleira branquejando. 
Encostado no braço de um tenente, 
Cercado de infeliz chorosa gente 
Ia passando o velho venerando. 

Geraes respostas para o lado dando : 
«Sim, senhor... Bem me lembra... Brevemente...» 



Na praguejada mão omnipotente 
Nunca lidos papeis ia apontando. 



NTCOLÁO TOLENTINO 663 



Mas eu, que já esperava altas mudanças, 
Melhor tempo aguardei, e na algibeira 
Metti a petição e as esperanças. 

Chegou, seflhor Visconde, a viradeira ; 
Soltae-me a mim também doestas crianças 
Onde tenho o meu forte da Junqueira. 

No Manuscripto da Academia, traz a ru- 
brica: «Feito por Nicoláo Tolentino, Mestre 
de Rhetorica, que não queria seguir a vida 
de ensinar meninos, >y E' então que começa a 
serie de petições em verso aos ministros da 
reacção anti-pombalina, conseguindo mesmo 
appresentar um Memorial ao princepe D. Jo- 
sé em quintilhas, que produziram o effeito 
desejado. Tolentino ambicionava abandonar a 
palmatória de professor e elevar-se a official 
de secretaria. Tornou-se-lhe uma vesânia, que 
serviu de thema aos chascos do Lobo; Tolen- 
tino pintava assim o seu Sonho: 

Depois que á luz da trémula candeia 
Entre os pobres lençoes me revolvia, 
E ao cérebro dormente já subia ' 

O grosso fumo da indigesta ceia ; 

Brilhante sonho na enganada ideia. 
Por maior mal, venturas me fingia ; 
Fez-me entrar na real Secretaria, 
Fez-me logo deitar sege á boleia ; 

Poz-me na sala um espaldar comprido, 
Um válido lacaio em camisola, 
E um correio com chapa no vestido ; 

Eis que sôa na porta a dura argola, 
Foge-me o sonho, acordo espavorido. 
Era um rapaz que vinha para a eschola. 

(Ih,, p. 48.) 



664 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O terrível poeta satírico António Lobo de 
Carvalho parodiou-lhe este Soneto em um 
outro com a rubrica: «Ao poeta Nicoláo To- 
lentino, que sonhou estar elevado a Official 
de Secretaria : 

Um homem tal e qual, um tal subjeito, 
Nicoláo Tolentino sem mais nada, 
Que com dispensa a veneranda Espada 
De San Thiago traz no inchado peito : ^ 

Sonhou que Official estava feito 
D^uma Secretaria, e n^esta andada, 
Que tinha sege, e moço na escada, 
E um simples panno para a porta feito ; 

Lembrou-lhe o az de copas por escudo, 
Com outras cartas mais de corriola, 
Armas próprias de seu tão grande estudo ; 

Eis que bate um rapaz na dura argola, 
Acorda o Dom Quixote, foi-se tudo, 
E fica como d^antes, mestre eschola ! 

(Son. cxxxi.) 



^ Em 1772 Tolentino comprara a Francisco Go- 
mes Catella a renuncia de uma parte da tença do habi- 
to de San Thiago, de que lhe foi passado alvará : < E o 
sobredito Nicoláo Tolentino de Almeida, logrará os 
mesmos doze mil reis de tença effectiva a titulo do 
mencionado habito da Ordem de San Thiago, que lhe 
tenho mandado lançar: . . .os quaes se assentarão em 
um dos Almoxarifados do Reino, em que couberem sem 
prejuízo de terceiro, e não houver prohibição com o 
vencimento de 24 de fevereiro de 1772, que é o dia 
da data da Portaria d'esta mercê, até o do assentamen- 
to, será na forma que eu for servida resolver na con- 
sulta que se me fez pelo Conselho da minha Fazen- 
da...» Passou-se por Portaria do Secretario de Estado 
José de Seabra da Silva, de 24 de Fevereiro de 1772.» 

Tolentino requereu para se lhe fazerem as habili- 
tações para lhe ser lançado o habito da Ordem de San 
Thiago dando as seguintes indicações para as provan- 
ças : « Declara o supplicante ser natural doesta cidade,, 
baptisado na freguezia dos Anjos, e morador na rua 



NICOLÁO TOLENTINO 665 



O Lobo, que chasqueou de todos esses minis- 
tros da corte de D. Maria i, não podia poupai* 
o seu thuribulario Tolentino, e morde-o allu- 
dindo ao seu vicio de jogador ; ^ Tolentino 
doeu-se, e replicou em um Soneto, que tem 



dos Fanqueiros, freguezia de S. Julião, e filho do Dou- 
tor José de Almeida Soares, Advogado da Casa da 
Supplicação e Familiar do Santo Officio, e de sua mu- 
lher D. Anna Thereza Froes de Brito, naturaes de Ou- 
rem, e baptisados na Collegiada da dita villa. Neto pela 
parte paterna. . . >> Das provanças resultou além dos re- 
quisitos essenciaes : «não teve desde seus principios 
outro exercido que ser estudante, e actualmente é pro- 
fessor régio, com Aula publica n^esta Corte, onde en- 
sina Rhetorica, tendo boa reputação e egual tí^atamen- 
to.» E quanto a seus pães ficou provado além dechris- 
tãos velhos «e que os sobreditos seinpre se trataram e 
tratam nobremente, Lisboa, 23 de Março de 1772 an- 
rios.» (Ap. Sane. Baena, Mem, de Tolentino, p. 58 a 64.) 

1 No Soneto de p. 40, Ao jogo do trinta e um^ 
descreve Tolentino a fortuna que lhe corria n^aquella 
noite : — Já diante de mim o erário via, — mas os ditos 
discretos da senhora illustre eram também um thesou- 
ro de graça. Quem era esta dama? Em um Ms. da Aca- 
demia tem este Soneto a rubrica Ao jogo da banca — 
Em casa de D. Joanna Isabel, perdendo ao jogo.» Era 
esta dama a que dava Motes a glosar aos celebrados 
poetas José Anastácio da Cunha (p. 441) e José Basi- 
lio da Gama (p. 489) ; muitas das decimas de Tolen- 
tino tiveram egual origem. 

D. Joanna Isabel Forjaz era casada com um fidal- 
go muito velho, como se sabe pelo Soneto clvi de An- 
tónio Lobo de Carvalho, que o retrata : 

Da edade não direi, mas sei que faz 
Épocas pelos calos que ha nos pés; 
Só dentes tem perdido vinte e três, 
E o do siso com gosto pela Paz; 

E' um velho, mais velho que o arroz, 
E' ainda mais antigo que os cuscús ; 
Hade andar pela edade do retroz ; . . . 



666 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



a rubrica: Por ocoasião de estranharem ao 
auctor U7n sonho que a ninguein offendia, 
terminando : 

Contra os sonhos desde hoje me conspiro; 
Se ao primeiro me dizem heresias, 
Em sonhando outra vez pregam-me um tiro ! 

(Ih,, p. 49.) 

Ha iim vivo contraste entre o génio satiri- 
co dos dois poetas: Tolentino lisonjeia insi- 
stentemente os poderosos, impingindo-lhes pe- 
tições lamurientas, sem necessidade ; o Lobo, 
em absoluta indigência, embora mais cynico 
e por vezes obsceno na linguagem, é-lhe su- 
perior pelo caracter desinteressado, pela au- 
dácia das opiniões, e pela impavidez com que 
ataca as prepotências do Marquez de Pom- 
bal, as devassidões da aristocracia e dos fra- 
des', os poetas contemporâneos, dando relevo 
ao aspecto moral de um século degradado. E' 
espancado pelos creados dos fidalgos, mas 
vae dizendo tudo ; os seus versos são o pro- 
testo desvairado de um século; em seu nome 
andam espalhados Sonetos de Filinto Elysio, 
de Tolentino, de José Basilio da Gama e de 
outros muitos, porque o Lobo da Madragoa 
tornara-se um pasquim vivo. Parece que To- 
lentino, que lhe provou o dente, o retratou 
fielmente nas outavas da sátira O Bilhar, no 
sujo poeta de pálida viseira, vociferando, com 
a papelada rompendo o forro do bolso. Em 
umas quadras ao cabelleireiro Luiz, que fa- 
zia versos e tocava bandolim, lembra-lhe 
como Camões morreu no hospital: 

Só as musas o choraram, 
E o enterro devia ser 
Como hoje nos pinta o Lobo 
O do João Xavier, 

[Ib,, p. 129.) 



NICOLÁO TOLENTINO 667 



Tolentino referia-sc ao Soneto do Lobo, 
que tem a rubrica : Descripção do fiiuGral 
que João Xavier de Mattos tanto prophetisa 
nas suas Rythmas, alinhavado nas clausu- 
las doeste: 

Que diabo de choro ou de lamento 
De brejeiros irá por essa rua? 
Algum poeta deu a ossada núa, 
Que a dar ais vão as Musas cento a cento ? 

De quem será o embrulho virulento 
Que tão pobre caminha á terra crua, 
Envolto n^uma esteira de tabúa, 
Sem caldeira, sem cruz, sem um Memento ! 

Quem será este heroe que já nos foje 
Dos Deuses para aquella convivência? 
Que dos Bragas excede a fresca loje? 

— Quem será, (diz Apollo) oh dura ausência ! 
E' João Xavier que morreu hoje 
«Abraçado co^a sua paciência.» 

(Son. XXX.) 

Apesar da grande intimidade entre o Lobo 
e João Xavier de Mattos, o tenaz satirico re- 
tratou-o em vários sonetos como um derreti- 
do por mulheres e um bebedor de marca. 
João Xavier de Mattos, filho de um criado do 
Duque de Cadaval, formou-se em leis e se- 
guiu a magistratura ; era Ouvidor na Vidi- 
gueira em 1783, e mantinha relações episto- 
lares com o erudito Cenáculo, sendo a sua 
ultima carta a elle dirigida datada de 15 de 
Maio de 1789. Em uma folha avulsa cele- 
brou-se em verso as exéquias de corpo pre- 
sente que em Villar de Frades fizeram em 4 
de Novembro de 1789 ao Bacharel João Xa- 
vier de Mattos. O Lobo tinha falecido em 26 



668 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 

de Outubro de 1787, ficando os seus nume- 
rosos Sonetos dispersos por mãos de curiosos; 
frequentara também a Universidade de Coim- 
bra, onde talvez encontrou Tolentino e Xa- 
vier de Mattos. O Soneto xliv (ed. Inn.) 
traz no manuscripto da Academia: «Meu rico 
condiscípulo Joam Dias. . .»; e no Soneto xlv, 
vem a rubrica: Quando o Sr, Dr. Talaia 
B,''^ em cânones em Coimbra, > .^^ O Talaia 
tinha-se tornado celebre entre os poetas satí- 
ricos pelo modo caricato como entrou na tou- 
rada pelas festas da acclamação de D. Ma- 
ria I, e depois pela deslavada Academia dos 
Obsequiosos de Sacavém, de que era funda- 
dor e sustentáculo. António Lobo de Carva- 
lho era protegido pelo Provedor dos Arma- 
zéns Fernando de Larre Garcez Palha de Al- 
meida, e a elle dirigia os seus versos, como a 
quem os colleccionava. Transcrevemos aqui 
duas cartas inéditas, que o poeta lhe dirigiu : 

«Ill.^io e Preclarissimo Snr. 

«Todos estes chamados versinhos posso ju- 
rar a V.^ S.^ que são vindos do trinque, e 
que V. S.^ he a quem eu os consagro, e a 
quem primeiro os mostro; não lhe quero ga- 
bar nenhum d'elles, mas quero-lhe pedir que 
lêa mais que uma vez o primeiro Soneto, que 
assim me faz conta. 

«Eu ha mais tempo tivera hido tomar as 
ordens de V. S.^ mas tem-se-me offerecido 
tantos contratempos, que apenas os sei sentir, 
mas não cantal-os. Sempre e por todo o sem- 
pre confessarei á face do mundo que V.^ S.^ 
he meu Mecenas, pelo muito que vale, e tam- 
bém meu Pay pelo muito mais que me acode; 



NICOLÁO TOLENTINO 669 



e se eu fora valido para com o Oéo, lhe roga- 
ra, como rogo sempre pela saiide e prosperi- 
dade de V. S.^ que elle g.^ m. ã. de casa. 28 
de 8.b^° de 1780 

De V. S.a 
M.^0 obrigado Am.» e Servo 

A7if.^ Lobo de Cai^v,''» 

E' sem data esta outra carta, mas também 
preciosa para revelação da vida do poeta : 

«Meu Fidalgo do meu coração. 

«A sua obra não tem de modo algum es- 
quecido, mas para lhe dar mais um ár de co- 
herente resposta, temos de esperar mais um 
par de dias para ella sahir, emquanto não sae 
também a do Xavier de Mattos, que já anda 
na imprensa, e elle não m'a confiou no bor- 
rão, onde eu pretendi ver, para lhe formar a 
resposta; mas emfim V. S.^ descanse, que eu 
como puder o heide servir. 

«Sempre lhe quero lembrar (sendo que 
V. S.^ não necessita de despertador das suas 
promessas) que eu não tenho para a Quares- 
ma o bello fraque de que tanto necessito, e 
como V. S.^ é o meu adoptivo Pay, veja lá se 
para os Passos o heide pendurar nos ossos, 
que não ha outro uniforme para a dita func- 
ção. Ahi vão esses versinhos para a melan- 
cholia, que para estes ataques tem mais vir- 
tude que o coral fino. 

«Dê-me as suas ordens, que saberei obser- 
var como 

seu creado o mais inútil 

António Lobo de Carv,^» 



670 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



A seguinte rubrica indica uma collecção 
enviada pelo Lobo ao seu protector : 

«Segue-se um Caderninho que contem al- 
guns versos em tom de Sonetos, 7nuito úteis 
no seu tanto, a todo aquelle Taful, que ainda 
não tem adquirido um pleno conhecimento 
da matula da Corte; offerecido e dedicado 
ao III:''" aS\^'' Fernando de Larre, Fidalgo da 
Casa de S, Mag.^^ Provedor dos Armazéns 
reaes, para seu regulamento e desenfado, por 
António Lobo de Carvalho, natural de Gui- 
'iuaraens, 1.^ Parte.» 

A sua obra, verdadeiramente corajosa, 
representa todos os extraordinários aspectos 
da sociedade portugueza desde o governo pe- 
zado do Marquez de Pombal até á demência 
completa de D. Maria i sob o ilrcebispo Con- 
fessor; á parte uma ou outra obscenidade, os 
seus versos, tanto os publicados por Innocen- 
cio como os inéditos das Bibliothecas nacio- 
nal e da Academia, são a expressão mais viva 
do nosso século xviii. Ainda uma outra vez 
o encontramos concorrendo com Tolentino em 
um torneio poético ; Perguntando o Princepe 
do Brasil D, José — Que cousa era chanfa- 
na ? o Lobo fez uma série de Sonetos (n.^^ li 
a LV) e Tolentino em um Soneto descreven- 
do-a não se esquece de metter o seu peditório : 

Isto é chanfana, e sei quanto ella custa, 
Deu-me o berço, dar-me-ia a sepultura, 
A não valer-me a vossa mão augusta, 

iOh)\, p. 36.) 

O princepe D. José era muito cultivado, 
e apreciava os lohilosophos e poetas, como con- 
fessa o Duque de Lafões; Tolentino tratou 



NICOLÁO TOLENTINO 671 



de assedial-o para alcançar o seu despacho 
de Official de Secretaria, o sonho dourado 
de toda a vida. Os seus versos aos Angejas, 
Villas Verdes, Oerveiras e Ponte de Lima, 
Arcos e Vimieiro, tudo se encaminha á reah- 
sação doesse mesquinho ideal, que depois de 
attingido tem de ser reforçado com tenças, 
Logo que entrou no governo em 1777 o Vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira, admiravel- 
mente retratado em um Soneto do Lobo, diri- 
giu-lhe Tolentino uma Ode, para que o liber- 
te do ensino da Ehetorica : 

Doze vezes voltando o ardente estio 

C^os férvidos Agostos, 
Quando o quente suor alaga em fio 

Os encalmados rostos, 
Me achou sentado em tripode de pinho 
Gritando a um povo bárbaro e damninho. 

Doze chuvosos^ rígidos Janewos 

Os tectos destroncando, 
Me destruíram pennas e tinteiros . . . 
Tu, carregando a feia catadura 

Que amedronta os humanos. 
Queres que eu chegue á triste sepultura 

C^os dois Quintilianos?. . 

Algum talento que me deu natura. 

Seria a mais alçado, 
Se eu tivesse a grandissima ventura 

De ser 2)or ti mandado; 
Se do alto engenho, de que não presumes, 
As instrucções bebesse e os vivos lumes. 

Se em nome de teus reis a mil tiraste 

Das mãos da crua morte; 
Se as chapeadas portas franqueaste 

Do soterrado Forte; 
Acção maior, e inda mais pia fazes 
Tirando-me das garras dos rapazes. 

(Ib,, p. 366.) 



672 HISTORIA DA LITTER ATURA PORTUGUEZA 



Não contente com a Ode, dirige ainda ou- 
tro soneto ao Marquez de Angeja, para que 
intervenha com palavras efficazes a fim de 
por uma vez dar sueto aos meninos que ha 
treze annos o escutam do alto de úma cadei- 
ra de pinho, commentando os dois Quintilia- 
nos na eschola de Ehetorica do alto da Ajuda. 
Vê-se que em 1778 ainda nada conseguira, 
suspirando pela transformação do seu desti- 
no, para que a mão que até ali riscara the- 
mas «Reaes decretos fosse registando.» (p. 8.) 
Em outro soneto ao mesmo, insiste em forma 
de prophecia : 

, Por vós será a mais fortuna alçado 

Quem viva treze annos por castigo 
A narrações e exórdios condemnado. 

(Ih., p. 11.) 

A missão de professor era para Tolentino 
quasi de galeriàno ; achava mais nobreza em 
ser official de secretaria, e o seu ideal consistia 
em «Ornar com fita preta o meu pescoço.» 
(76., p. 13.) A poesia era estimada pela no- 
breza e no paço pelo que ella se vergava á 
lisonjeria ; era parte obrigada nas festas de an- 
nos e casamentos ou falecimentos reaes. To- 
lentino possuia a Rhetorica, um meio de fal- 
sificar a verdade com graça; serviu-se d'ella 
quando ia começando a descrer na sua effica- 
cia. A poesia tornou-se um meio de entrar na 
intimidade dos ministros pela bajulação, e por 
estes fez chegar os seus versos á mão da rai- 
nha e de seu filho dilecto o princepe Dom Jo- 
sé. Precisamos conhecer esse meio dissoluto, 
insensato, em que Tolentino nos apparece 
como um phantasma famélico, que symbolisa 
o viver de uma sociedade sem destino. 



NICOLÁO TOLENTINO 673 



Alguns personagens celebres da sociedade 
portugueza do fim do século xviii, citados 
por Nicoláo Tolentino só podem ser bem co- 
nhecidos pelos retratos e traços inimitáveis 
do insigne observador Beckford. O celebra- 
do casuista Melgaço, que Tolentino cita nas 
suas decimas (p. 388) : 

Porém seu mestre Melgaço 
Que eu por cá seguido vejo, 
Nos diz que o solido beijo 
Sustenta mais que o abraço. 

Na Excursão a Alcobaça e Batalha, em 
1794, allude-se sarcasticamente á influencia 
doeste incomparável director espiritual, a fina 
nata da imbecilidade casuística. ^ Tolentino 
vivia n'este meio aristocrático, fradesco e re- 
accionário, em que a religião e os sentimentos 
da dignidade eram acatados por simples ex- 
terioridade. Nas Decimas «J. ii7n Pregador, 
(Frei João Jacintho) estando a jantar com o 
auctor, (p. 305) allude-se aos effeitos do vi- 
nho sobre a facúndia doeste notável orador 
sacro da sua época; em uma das suas cartas 
Beckford retrata o pregador na festa popu- 
lar de Santo António em Lisboa, de um modo 
que se imagina em que tintas irónicas tempe- 
rava Tolentino os seus pincéis: «Depois de 
muita musica medíocre, vocal e instrumental, 
executada a galope no mais rápido alegro, 
subiu ao púlpito Frei João Jacintho, famoso 
pregador, elevou as mãos e olhos, e despediu 
uma torrente de phrases sonoras em louvor 



1 Oi9. ci7., p. 58. Ed. 1839. 



674 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



de Santo António. O que não daria eu por 
uma tal voz ! Alcançaria de uns aos outros 
confins da terra de Israel. O padre indubita- 
velmente era dotado de grande vigor de elo- 
cução, e não tinha aquelle accento nasal, la- 
mentoso e hypocrita, tão commum na recita- 
ção dos sermões fradescos. Tratou os reis, te- 
trarchas e conquistadores com indizível des- 
prezo, reduziu a pó os palácios e fortalezas, 
os seus exércitos a formigas, as suas vestes 
imperiaes a têas de aranha, e incutiu em todo 
o auditório, excepto os maliciosos herejes da 
porta, perfeita convicção da superioridade de 
Santo António sobre todos aquelles objectos 
de uma errónea e impia admiração. —Feli- 
zes (exclamou o pregador) eram esses tempos 
gothicos falsamente denominados tempos de 
barbárie e ignorância, em que os corações dos 
homens, não corrompidos pela hallucinadora 
bebida da philosophia, se abriam ás palavras 
de verdade, que manavam, como o mel, das 
boccas dos santos e confessores, taes como 
as que distillavam os lábios de Santo Antó- 
nio.» ^ 

As festas religiosas, que eram o principal 
elemento da alegria publica, deram logar a 
um género poético dos Motes glosados de im- 
provisos em decimas; chamavam-se a estes 
divertimentos Outeiros poéticos. Na Sátira 
do Bilhar falia Tolentino n'estes divertimen- 
tos, indispensáveis para a consagração do es- 
tro ; descrevendo um poeta do tempo, retra- 
ta-o : 



1 Letter xxn, p. 6. Ed. 1839. 



NICOLÁO TOLENTINO 675 



Fora cem vezes em nocturno Outeiro 
Da sabia padaria apadrinhado. . . 
Rompi Outeiros em Sant^Anna e Chellas, 
Chamei sol á prelada, ás mais estrellas. 

E na Sátira do Velho : 

Mas freira que tem dinheiros 
E da Phenix renascida 
Repete tomos inteiros : 
Dois triennios incumbida 
De dar motes nos Outeiros. . . 
[Oh)\, 264) 

Em outi^o logar repete que fora acclama- 
do nas improvisações dos Outeiros poéticos, 
que formam uma boa parte dos seus versos : 

Se eu hoje fosse aos Outeiros 
Onde já tive elogios. . . 

/I6., p. 106.) 

Aborrecido de ensinar Rhetorica o poeta 
procurou no valimento do poderoso Marquez 
de 'Angeja, ministro assistente do despacho 
do Gabinete e presidente do Real Erário, e 
nos vários membros de sua familia apoio para 
entrar como official em uma secretaria do Es- 
tado. Não se farta de dedicar sonetos aos an- 
nos do Marquez de Angeja, «que tinha muita 
lição de Camões», (p. 10) ao Conde» de Villa 
Verde, depois Marquez de Angeja, Dom José 
Xavier de Noronha Camões, (p. 11) a D. Dio- 
go de Noronha, depois Conde de Villa Verde, 
(p. 13) a Dom Caetano José de Noronha 
«quando teve bexigas», (p. 16) ao tio o Prin- 
cipal Almeida, (p. 17) a D. Francisca de As- 
sis Rita de Noronha, Marqueza de Angeja, 



676 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



(p. 18). Todas as pessoas doesta numerosa fa- 
mília são celebradas nos seus versos, como 
vehiculo de sonetos e memoriaes para o Prin- 
cepe D. José, e patronos das suas petições. 
Na Carta ao Conde de Villa Verde D. Diogo 
de Noronha, revela-nos a origem da sua pre- 
dilecção pela forma da Quintilha. 

O Soneto que começa : Emquanto me in- 
flammar fogo sagrado — traz no manuscripto 
da Academia a seguinte rubrica: <iVo dia 
dos annos do Conde de Villa Verde Dom 
José de Noronha,» ^ com uma carta também 
inédita, que aqui archivamos pelo que litte- 
rariamente vale : 

«Os meninos não só me fazem viver triste 
mas também ser impolitico, impossibilitando- 
me de hir hoje beijar a mão a V.^ Ex.^, e cá 
ponho mais no meu rol este motivo de me 
desgostar d'elles: Seja a V.^ Ex.^ muito para 
bem este felicíssimo dia, assim como o he para 
nós os creados de V.^ Ex.^ e muito particu- 
larmente para mim a quem trouxe hum bem- 
feitor, e o que he mais hum amigo. Se eu fos- 
se da seita das Odes já estava com os Desti- 
nos ás voltas, apostrophando-os em grego 
e vendo de certo nas entranhas das victimas 
a razão porque uniram no nascimento de 
V.^ Ex.^ tanta fidalguia e tanta humanidade. 

«Mas de um pobre trovista, queira V.^ Ex.^ 
acceitar os bons desejos, e a fria colgadura 



^ Na edição impressa tem a rubrica Aos annos do 
onesmo, referindo-se a D. Diogo de Noronha ; pela ru- 
brica inédita vê-se que foi dedicado ao Conde de Villa 
Verde que em 1788 foi Marquez de Angeja. 



NICOLÁO TOLENTINO 677 



d'esse Soneto feito á vista de uma palmató- 
ria, e ao som de gaguejadas lições. As nossas 
ideias nos vem muitas vezes mandadas pelos 
objectos exteriores. Cadeira de páo, bancos, 
tinteiros de falsa tartaruga não podem deixar 
de influir versos duros. Queira V.^ Ex.^ fa- 
zer-me mudar de companhia, e a minha Musa 
mudará talvez de estilo. E pois que o dia he 
de mercês, queira V.^ Ex.^ avivar o meu re- 
querimento n'esta conjuncção tão critica e fa- 
zer os meus annos vividos mais gostosamen- 
te sejam o continuo elogio dos de V.^ Ex.^ 
Deus guarde a V.^ Ex.^.» 

Pela influencia de D. José Xavier de No- 
ronha Camões de Albuquerque Sousa Moniz, 
conseguiu Tolentino interessar o Princepe 
Dom José pelas suas anecdotas pessoaes, e 
ditos chistosos, e fazer-lhe chegar ás mãos 
os seus memoriaes em verso. 

Em um Memorial ao Conde de Villa Ver- 
de, que acompanhava em serviço o joven 
princepe, descreve Tolentino as relações que 
chegara a alcançar, entrando no escadem dos 
pretendentes nos corredores do paço de Que- 
luz : 

Vós, illustre Villa Verde, 
Com quem sempre me hei achado, 
Fazei que seja o meu nome 
A seus ouvidos levado: 

Se lhe der acolhimento 
Sigamos de Horácio as traças, 
Façamos que a par das Musas 
Marchem as risonhas graças. 

Dizei-lhe que na folhinha 
Com letras douradas puz 
Aquelles formosos dias 
Das escadas de Queluz, 



678 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Aquelles dias ditosos 
Quando a seus pés ajoelhado, 
Era ao abrigo das musas 
Benignamente escutado ; 

Quando, tendo já traçado 
Melhorar-me os meus destinos, 
Se dignava perguntar-me 
Como estavam os meninos. 

Quando me mandou em verso 
Contasse como escapara 
N'aquelle funesto encontro 
Dos taes carreiros da Enxara. 

E se ainda o favor mereço 
De tão alta protecção. 
Dizei, que mudei de officio, 
Porém de ventura não. . . 

fOb7\, p. 60 e segs.) 

Quando Tolentino descreve em umas deci- 
mas ao Conde de Villa Verde o encontro que 
teve com duas açafatas, torna a alludir a sua 
situação de pretendente nas escadas do palá- 
cio de Queluz: 

Veremos da nova luz 
Minha esperança allumiada. 
Se aqui houver uina escada 
Como a que houve em Queluz, 
[Ohr., p. 286). 

Nas Cartas de lord Beckford acha-se um 
vivíssimo quadro d'essa chusma de preten- 
dentes que se accumulavam nas escadas do 
palácio de Queluz á espera da piedade affron- 
tosa de algum camareiro que fizesse chegar 
ás mãos da rainha ou do princepe os f amulen- 
tos memoriaes ; em um governo paternal em 
que tudo se fazia por arbítrio da personalida- 



NICOLÁO TOLENTINO 679 



de real não havia outra base de justiça senão 
a que se contém n^este anexim portuguez: 
Quem não pede não o ouve Deus. Tolentino 
cumpriu á risca esta máxima da sociedade do 
século xviii. Se a classe media e a aristocra- 
cia arruinada occupavam este logar nas esca- 
das do paço, a plebe também desempenhava 
um papel mais vistoso ; Beckford descreve 
o rancho de pobres com uma variedade arti- 
ficiosa de pústulas, chagas e monstruosida- 
des repugnantes, que se tornavam quasi um 
talento nacional; esse rancho seguia os prin- 
cepes Dom José e Dom João, como realidades 
evadidas da Corte dos Milagres, como mode- 
los do lápis de Calot, e atropellavam-se, en- 
galfinhavam-se para apanharem as pequenas 
moedas que os princepes atiravam ás rebati- 
nhas. E' entre estes dois grupos que nos ap- 
parece Nicoláo Tolentino, o descontente mes- 
tre de Rhetorica, esperando nas escadas de 
Queluz, solicitando também — «sentar-se hu- 
mildemente — n'um banco da real secretaria,» 

Elle não faz esgares como os farroupilhas 
que chamam doesse modo a attenção dos dois 
princepes, atirando para as varandas do 
paço os barretes encrustados de cebacea sor- 
didez á espera de alguns vinténs, mas atira- 
Ihe Sonetos, falia indevidamente da miséria da 
sua familia, do encargo de sustentar o pae e 
velhas manas, sobrinhos orphãos, e remata 
chasqueando a sua própria posição de Mestre 
de Rhetorica, dizendo affectada antiphrase 
que pretende : « Passar de Mestre a ser Offi- 
ciaL» 

Já n'este tempo o ser empregado publico 
era uma situação não menos aprazível do que 



680 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



a de frade sustentado pela ordem. Não con- 
tente de andar de Queluz para Caxias, To- 
lentino seguia a familia real, e mesmo no ba- 
nho fazia chegar á princeza D. Maria Fran- 
cisca Benedicta, mulher do princepe Dom Jo- 
sé, outro memorial, em que pede ás nym- 
phas do Tejo : 

Dizei-lhe, que sustento irmãs donzellas, 
Outras viuvas; e ide-lhe lembrando 
Que o bem que me fizer, é feito a ellas. 

(Ohr., p. 7). 

Depois de tanto pedir, o princepe, que obe- 
decia á monomania do tempo considerando a 
poesia como uma espécie de incenso reserva- 
do á realeza, concedeu-lhe o despacho para 
uma Secretaria em 21 de Julho de 1781. Nos 
seus Sonetos compara-se ao naufrago, e diz : 

de antigas agonias 

Por vossas reaes mãos fui resgatado. 

(Ohr,, p. 5). 

Cada anniversario do princepe tornou-se 
um pretexto para novos pedidos ; compare-se 
o seu caracter com o de Bocage, e a Elegia 
d'este escripta quando andava errante na 
China pelo sentimento da morte do princepe, 
fará avultar o silencio de Tolentino como uma 
vileza. Lord Beckford, que soube apreciar 
magistralmente o caracter de Bocage, não tem 
nas suas Cartas uma única referencia a To- 
lentino; indubitavelmente o conheceu, porque 
elle frequentou a convivência dos fidalgos que 
protegiam o poeta, mas achou-o ignóbil para 
se occupar d'elle. 



NICOLÁO TOLENTINO 681 



A profissão de ensinar rhetorica era-lhe 
insupportavel ; em um Soneto ao Conde de 
Vílla Verde, depois Marquez de Angeja, diz: 

Chega a lacaio o sórdido garoto, 
Cuidadoso anspeçada a galões finos, 
E chega o grumete a ser piloto. 

Ou tarde ou cedo mudam os destinos ; 
Só eu, senhor, supponho que fiz voto 
De não passar de ínestre de meninos. 

iOhr,, p. 12.) 

Emquanto corres, de espingarda armado 
Da fria Salvaterra os campos planos. 
Eu cá fico entre os dois Quintilianos, 
Livrinhos a que vivo condemnado. 

{Ih,, p. 13,) 

Pode-se bem inferir que foi Dom Diogo de 
Noronha, Conde de Villa Verde e Marquez de 
Angeja, quem lhe obteve a protecção do prin- 
cepe Dom José; em outro soneto, quando já 
se acha servido, diz-lhe : 

Vereis uma vencida palmatória . 
Entre as armas de Angeja debuxada. 

[Ih., p. 15.) 

No Soneto Ao filho do Marquez de Ange- 
ja, em desculpa de não entrar no seu quarto 
quando teve bexigas, repete confessando o 
beneficio: «por onde a fortuna em fim me 
veiu.» 

E qual fez maior bem o mundo pense: 
Se teu pae em livrar-me de rapazes, 
Se tu, do cruel mal que lhes pertence. 

(Ih,, p. 16.) 



682 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Prognosticando o horóscopo do filho do 
seu protector, ainda prosegue : 

Lereis que o braço seu tanto podia 
Que trocava cadeiras de meninos 
Por bancos da real Secretaria, 

{Ohr,, p. 17.) 

Tudo era occasião para peditório obstina- 
do e obcecado; aproveitando o ensejo do an- 
niversario da Marqueza de Angeja, prosegue : 

Vae pedir, que descendo da cadeira 
Onde explico os cruéis Quintilianos 
Me ensine a tomar melhor carreira. 

Que emfim ponhaes os olhos soberanos, 
A que me chegue em fim a viradeira 
No faustissimo dia doestes annos. 
(Obr., 18). 

A viradeira era a expressão com que se 
designava a queda de Pombal e o restabele- 
cimento das rotinas aristocráticas ; Tolentino 
também esperava uma viradeira para a sua 
situação mesquinha. Depois de bem servido, 
pede para satisfazer também a vaidade pes- 
soal ; assim no anniversario do princepe Dom 
José, ainda implora : « Só me falta, senhor, 
a fita preta. >^ fObr.,H), 

Foi o Marquez de Angeja, Dom José de 
Noronha, que descreveu ao princepe Dom Jo- 
sé esse typo ratão do Tolentino, contando-lhe 
as suas facécias, e a anecdota dos carreiros 
de Enxara que o varejaram na estrada de 
Mafra. O próprio Tolentino descreve a origem 
d'este favoritismo : 



NICOLÁO TOLENTINO 683 



Ao bom Princepe pediste 
Que com mão compadecida 
Lhes concedesse umas férias 
Que durassem toda a vida ; 

Pedistes depois, senhor, 
Que a sua real grandeza 
Se dignasse de arrancar-me 
D^entre os braços da pobreza. 

Sei que n^elle é natural 
Ter dó das alheias penas ; 
Mas, ouve-as melhor Augusto 
Quando Ih^as conta Mecenas. 

Por este modo alegrastes 
A triste familia minha, 
E em casa nos levantastes 
O interdicto da cosinha. . . 

(Tb,, p. 72.) 

Aqui o poeta mentia indignamente ; o pae 
vivia com a filha viuva e o neto em casa pró- 
pria; duas filhas estavam no recolhimento, e 
Tolentino morava independente frequentando 
as casas fidalgas e convivendo com folgasãos 
amigos. E continuando na sua choradeira es- 
crevia ao Marquez de Angeja, celebrando-lhe 
o anniversario : 

E se em dia de mercês 
Ides de semana entrar, 
Seja a mercê doestes annos 
O meu nome appresentar; 

Ao Princepe, ajoelhando 
Em favorável momento, 
Por mim, senhor, lhe jurae 
Eterno agradecimento. 

E eu largando este leito 
Já sei a hora opportuna 
De poder ajoelhar-me 
Quando elle chega á tribuna . . . 



684 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



O poeta tratava de nppresentar um Memo- 
rial ao Princepe D. José, approveitando a cir- 
cumstancia do falecimento do pae em 24 de 
Novembro de 1780, deixando varias filhas 
orfans, viuvas e donzellas e desvalidos sobri- 
nhos ! A Rhetorica emprestou-lhe todos os 
seus falsos recursos emocionantes, e a verseja- 
ção as conceituosas quintilhas mirandinas. O 
Memorial consta de cincoenta e uma quinti- 
lhas, em que entretece a sua autobiographia : 
nascido nas faixas da pobreza, e educado 
pelo cuidado do pae para amparo dos irmãos! 
E' d'ahi que vem o seu fadário de ser mestre 
de Rhetorica : 

Dezeseis annos gastados 
Já no ingrato officio vão ; 
Tristes versos mal limados 
Puz na vossa augusta mão, 
Em dôr e em pranto forjados. 



Para nova e injusta dor • 

Peço hoje a vossa piedade, 
Prestae-lhe ouvidos, senhor, 
Funda-se na humanidade. 
Merece o vosso favor : 

Rotos os laços do mundo 
Entre palavras truncadas. 
Que bem mostram d^alma o fundo, 
Órfãs em pranto banhadas 
Me entrega o pae moribundo. 

Vae com mão egual cortado 
Entre os irmãos infelizes 
Pão com lagrimas ganhado. 
Que, para os fazer felizes, 
Me deixa a mim desgraçado. 



NICOLÁO TOLENTINO 685 



Pobres, chorosos irmãos, 
Que em mim tem débil columna, 
Não ergam desejos vãos ; 
Vejam na minha fortuna 
A obra das vossas mãos. 

(/ò., p. 17Ô.) 

E não contente de se dirigir ao Princepe, 
entende que produzirá mais effeito pathetico 
o recorrer também á sensibilidade da prin- 
ceza sua esposa, nas seguintes quadras : 

Fundadas sobre a verdade, 
As minhas supf)licas vão, 
Não peço por ambição. 
Peço po7' necessidade. 

Em mim o cuidado cae 
De irmãs postas em pobreza ; 
A piedade e a natureza 
Me fazem irmão e pae. 



São tristes órfãs donzellas, 
E merecem suas dores. 
Que vós, augustos senhores, 
Hajaes piedade d^ellas. 

Vós, oh augusta Princeza, 
Em quem o céo quiz juntar 
O melhor que podem dar 
A fortuna e a natureza. 

Tende dó do seu lamento, 
E dae a mão favorável 
A um sexo respeitável 
De que vós sois o ornamento. 

(Ih., p. 55.) 

Na collecção manuscripta dos versos de 
Tolentino, da Academia, acompanha o Memo- 
rial a seguinte rubrica : «Estas quadras fo- 
ram dirigidas ao Princepe D. José, filho mais 



686 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



velho da Rainha D. Maria i e a sua augusta 
esposa a jPrinceza D. Maria Francisca Bene- 
dicta, irmã da mesma Eainha, de quem o 
Auctor era favorecido, e a quem deveu o lo- 
gar de Official da Secretaria de Estado dos 
Negócios do Eeino.» ^ Tolentino fazia da mor- 
te do pae, e da situação da imaginaria penú- 
ria das irmãs um quadro rhetorico, para al- 
cançar um despacho que lisonjeava a sua vai- 
dade pessoal e sybaritismo. A familia igno- 
rava esta abjecção, que só veiu a conhecer 
quando os seus versos foram publicados ao 
fim de annos. Em outras Quintilhas ao Conde 
de Villa Nova da Cerveira, Ministro do Rei- 
no, repete os mesmos truques de effeito; si- 
mulando a scena do paroxismo de pae que 
em compungente falia lhe entrega as filhas 
á sua protecção : 

Moças irmãs desvalidas 
A quem dou pobre sustento y 
Foram por vós deferidas ; 
Vivem, em santo convento, 
Dignamente recolhidas. 

Pão com lagrimas ganhado 
Lhe adoça a dura pobreza ; 
Por mim ao meio cortado, 
Lhe vae da singela meza 
Com sãos desejos mandado. 



Mas eu pobre e desgraçado 
Sou dos irmãos a columna ; 
Sou infeliz, mas honrado ; 
Dom acima da fortuna, 
Por isso o não tem levado... 



1 Ms. da Acad., G. 3 ; E. 7 ; n.o 4, p. 7. 



NICOLÁO TOLENTINO 687 



De imiteis lagrimas cruas 
Ver os sobrinhos banhar 
As mimosas carnes nuas, 
E ir somente misturar 
Minhas lagrimas ás suas ;. . . 

Dae-me vós, senhor, a mão, 
E n^esta obra ajuntemos 
Vós poder, eu coração ; 
Uma familia tiremos 
De miséria e afflicção. ^ 

Chega a ser impudente; as irmãs que es- 
tavam no santo convento, no Recolhimento 
de Lazaro Leitão, eram D. Rita Michaela de 
Cacia, que entrou para a clausura em 1767, 
depois do falecimento de sua mãe, com uma 
pensão de 60$000 reis na Obra Pia; e D. Je- 
ronyma Máxima do Monte do Carmo, que 
acompanhou a irmã e como ella chegou a re- 
gente do mesmo recolhimento. Os sobrinhos 
eram Francisco da Silva Coimbra, filho de sua 
irmã D. Joaquina Thereza Froes de Brito, e 
o beneficiado Gonçalo José Maria, filho de 
sua irmã D. Anna Thereza Froes de Brito, 
que eram bem aparentadas e com recursos. 



1 Obras, p. 177. No Manuscripto da Academia 
estas quintilhas tem inédito o seguinte final de occa- 
sião : 

Já ferro, senhor, os pannòs. 
Só digo que se os destinos 
Vos põem para evitar damnos, 
Villa Viçosa tem sinos, 
Lisboa Quintilianos. 

Uma nota explicava o sentido : «Todos os dias se 
faziam versos jocosos ao toque continuo e impertinente 
dos sinos de Villa Viçosa.» Vid. o Soneto A' imperti- 
nência dos Sinos de Villa Viçosa, (p. 30.) 



688 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Apesar d'isto Toléntino insistia em outras 
Quintilhas a D. Diogo de Noronha, o Oonde 
de Villa Verde: 

Irmãs com tenras crianças 
Chorando pranto innocente, 
Que enxugam com as soltas tranças, 
Põem em mim inutilmente 
Os olhos com as esperanças. 

Orfâ,s de mãe e donzellas, 
Choram-TYie outras de redor , 
Em vão me condoo d^ellas ; 
O seu triste bemfeitor 
E' outro infeliz como ellas. 

(Obr., p. 184.) 

Tudo isto se resumia, em conclusão : liber- 
tar-se dos Quintilianos, e dos meninos da au- 
la de Rhetorica da rua da Rosa; era a única 
verdade do sentimento que o inspirava. Com 
a mesma teima se dirigiu em outras Quinti- 
lhas ao terceiro Marquez do Lavradio, D. An- 
tónio Máximo de Almeida Soares de Alarcão, 
que era tenente coronel do Regimento de 
Lippe, e deputado da Junta dos Três Esta- 
dos: 

E que egualmente menêa 
Ora as bandeiras de Marte, 
Ora as balanças de Astrêa. . . 

Pintar irmãs desgrenhadas 
Co' as crianças innocentes 
Nos débeis braços alçadas, 
E de lagrimas ardentes 
Quasi sem fructo banhadas : 

fib., p. 198.) 

Todo esse aranzel era para que se visse 
livre do ensino da Rhetorica symbolisado em 
uma palmatória, que se tornaria tropheo das 



NICOLÁO TOLENTINO 689 

armas históricas dos Almeidas! D. Joaquina 
Thereza Froes de Brito, compilando noticias 
particulares da vida e costumes de seu irmão, 
devia repellir com magoa tanta indignidade. 

Até que, ao cabo de muitos peditórios e 
choradeiras, conseguiu Tolentino ser despa- 
chado Official praticante de Secretaria, por 
Aviso de 21 de Julho de 1781. Eis o suspi- 
rado documento: 

«O Visconde de Villa Nova da Cerveira, 
Ministro e Secretario de Estado dos Negócios 
do Reino, etc. 

«Pela faculdade, que S. Mag.^® me conce- 
de, e em conformidade das suas reaes ordens : 
Nomeio a Nicoláo Tolentino de Almeida para 
Official praticante da Secretaria de Estado 
dos Negócios do Reino, sem que em virtude 
doesta nomeação possa entender que tem di- 
reito algum para entrar em logar ordinário 
no caso de vacatura d'elle; nem entender-se 
que lh'o dá a antiguidade da sua admissão, 
e exercício do lugar em que é nomeado. Paço 
de Queluz, em 21 de Julho de 1781. — Vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira.» ^ 

A mercê era insignificante, mas o poeta 
tinha apanhado o fio para pescar o resto; 
assim logo no anniversario do Princepe Dom 
José impingiu um Soneto, não de festival mas 
de peditório, para lhe ser concedida a fita 
preta dos Officiaes ordinários : 



1 Avisos do Min. do Reino, vol. 18, fl. 215 t. Tor- 
re do Tombo. 



44 



690 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



N^este dia em que a corte se alvoroça, 
Também se enfeita o misero poeta. . . 

Só me falta. Senhor, a Ma preta^ 

Mas, vós tendes a culpa ou cousa vossa. 

[Ih., p. 54.) 

As cousas correram favoráveis, e o Vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira, assignava 
em 25 de Outubro de 1783 o seguinte Aviso : 
«Pela faculdade que S. Mag.^^e j^e concede, e 
na conformidade das suas reaes ordens, no- 
meio a Nieoláo Tolentino de Almeida para 
Official ordinário da Secretaria de Estado 
dos Negócios do Reino no logar que vagou 
por falecimento de José Thomaz de Sá, em 
attenção ao bem que n'ella tem servido no 
exercício de Official praticante. Palácio de 
Queluz, 25 de Outubro de 1783. — Visconde 
de Villa Nova da Cerveira.» 

Não se contentando com a protecção da 
Casa de Angeja, dedica umas Quintilhas ao 
Conde de San Lourenço, o erudito amigo de 
Garção, o protector do Quita e de José An- 
tónio de Brito, (Olino) pedindo-lhe também o 
seu valimento como poeta : 

Pois vi outr^ora amparado 
O discreto e doce Brito, 
Triste moço em flor cortado, 
Que ia alevantando o espirito. 
De vossas luzes guiado ; 



Hoje, outro triste vos faça 
Nascer eguaes sentimentos ; 
Com os vossos pés se abraça ; 
Não tem os mesmos talentos, 
Mas tem a mesma desgraça : 

Nascido em baixa pobreza 
Quiz buscar uma columna. . . 

^Jh,, p. 191.) 



NICOLÁO TOLENTINO 691 



Tolentino, sabendo da grande amisade de 
D. Pedro iii pelo Conde de S, Lourenço, cal- 
culou a importância que teria na corte onde 
entrava depois da sabida das prisões da Jun- 
queira; mas o Conde de San Lourenço ven- 
do-se menos considerado no paço atirou com 
a cbave de camareiro á cloaca e recolbeu-se 
ao Convento dos Padres das Necessidades. ^ 

Em 1787, quando Tolentino já bavia rea- 
lisado todas as suas aspirações, ainda não 
perdia ensejo para atacar os amigos com um 
teimoso peditório; no dia 3 de Junbo fizera- 
se a sagração do Bispo do Algarve nas Ne- 
cessidades, com o apparato de uma festa de 
uma corte beata e vaidosa. Tolentino de- 
screve essa festa pelo lado cómico, no que 



^ Era, segundo descreve Beckford, em 1787, na 
Carta xix, um velho fanhoso, gordo, acaçapado e as- 
thmatico. Eis o principal contorno da sua physiono- 
mia: «O velho San Lourenço tem prodigiosa memoria 
e a imaginação escaridecida, ainda mais exaltada por 
um leve toque de loucura. Apresenta-se perfeitamente 
conhecedor da politica geral da Europa, e, posto que 
nunca desse um passo fora de Portugal, narra tão óir- 
cumstanciada e plausivelmente os modernos successos 
e a parte que elle próprio desempenhou no Congresso 
de Aix-la-Chapelle, que eu caí no logro, e acreditei, 
emquanto me não informaram do segredo, que elle 
effectivamente presenciara o que só tinha sonhado. Não 
obstante a subida graça em que estava para com o in- 
fante Dom Pedro, o marquez de Pombal o havia en- 
carcerado com outras victimas da conspiração do Du- 
que de Aveiro, e por dezouto tristíssimos annos achou- 
se a sua ideia activa a se alimentar dos seus próprios 
recursos. 

«Pela exaltação da rainha actual, saiu solto e en- 
controu participante do throno S. A. R., seu intimo 
amigo ; porém, vendo-se recebido friamente e posto 



692 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



respeitava á sua própria pessoa, dizendo que 
lhe lembrou chrismar-se, por ser acto episco- 
pal: 

Lembrou-me trocar o nome 

De mestre em official, 

E mais adiante, com um toque franco de 
realismo : 

O bom Lima me encaminha, 
Foi-me pôr na tal portinha 
Onde os pretendentes vão 
Pôr os joelhos no chão 
E os olhos na rainha. 

{Obr., p. 284.) 

N'esta mesma cerimonia se encontrou o 
acerado e joven lord Beckford, que a descre- 
ve: «Fomos por especial convite ao real con- 
vento das Necessidades, pertencente aos con- 
gregados, ver a cerimonia da sagração do 
Bispo do Algarve, padre d'esta casa: estive- 
mos collocados defronte do altar n'uma tribu- 
na atulhada de figurões de lustrosos trajos, 
pessoas relacionadas com o novo prelado. O 
pavimento estava alcatifado com ricos tapetes 



de banda com vilania, arrojou a chave de camarista, 
que lhe haviam mandado, a um logar pouco limpo e 
decoroso, e recolheu-se á casa religiosa das Necessida- 
des. Certificaram-me que não houve meios que o rei 
não tentasse para o afagar e lisongear; mas todos foram 
infructiferos. Desde esse periodo, posto que largasse o 
Convento, nunca appareceu na corte e recusou todo o 
emprego. Agora só a devoção lhe absorve a alma. Ex- 
cepto quando lhe tocam na corda da prisão e do Mar- 
quez de Pombal; acham-no plácido e rasoavel. . » Tal 
era o erudito da Academia da Historia, que as desgra- 
ças da autocracia de Pombal alquebraram. Foi junto 
d^elle que repousou Bocage, quando perseguido pelo 
Intendente Manique, no convento das Necessidades. 



NICOLÁO TOLENTINO 698 



e cochins de veludo, onde se podia ajoelhar 
muito bem ; mas não obstante esta commodi- 
dade, pensei que a cerimonia nunca acabava. 
Havia um excessivo esplendor de cruzes, 
thuribulos, mitras, báculos em continuo mo- 
vimento, porque vários bispos. assistiam com 
toda a sua pompa... Sentia-me opprimido 
pelo calor e pelo sermão; effectuei a minha 
retirada da esplendida tribuna sorrateira e 
caladamente...^) Descrevendo uma visita á 
casa do Marquez de Penalva, e da sua entra- 
da excepcional no quarto das senhoras, torna 
Beckford a descrever o Bispo do Algarve: 
«E quem havia de encontrar no meio do gru- 
po das senhoras, sentado como ellas no chão 
á moda de Berbéria? O recem-sagrado e ain- 
da com muitos visos de moço, Bispo do Al- 
garve, cujas bochechas morenas, nédias e de 
rapaz de eschola ficavam a sombra de um 
enorme par de óculos verdes! A verdade me 
obriga a confessar, que a expressão de seus 
olhos debaixo d'aquelles formidáveis vidros 
não participava absolutamente do mais sisu- 
do, manso e apostólico caracter.» Tolentino, 
que assistira como pretendente a festa da sa- 
gração do Bispo do Algarve, e frequentava a 
casa dos Penalvas, pelo favor compassivo 
que então a aristocracia dava aos poetas, não 
apparece citado nas Cartas de Beckford, ape- 
zar de ser um typo tão característico que não 
devia escapar á observação do espirituoso 
lord. Nas suas Cartas Beckford cita com en- 
thusiasmo Manoel Maria, e o então seu rival 
no vigor satírico, Domingos Monteiro de Al- 
buquerque e Amaral; porque não conheceria 
Tolentino ? Porque as famílias que frequenta- 



694 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



va não lh'o appresentaram ; Tolentino pelos 
seus constantes peditórios tornara-se despre- 
zível, e só o attendiam para se verem livres 
d'elle. Se o não appresentaram a Beckford, 
foi com medo que lhe pedisse esmola. Duas 
decimas ao Marquez de Penalva fundam-se no 
constante peditório: livral-o dos rapazes, e 
f aliar ao princepe com a mesma eloquência 
com que falia na Academia. (Pg. 292.) Que pe- 
na que Beckford não retratasse este grande 
caricaturista ! 

Por esta decima se cojihece que Nicoláo 
Tolentino também pertenceu á Academia das 
Sciencias de Lisboa, inaugurada em 16 de 
Janeiro de 1780: 

Hontem soube o que podia 
Estilo suave e brando, 
E quanto podeis fallando 
Eu o vi na Academia. 

No Catalogo dos sócios da Academia das 
Sciencias encontrámos ultimamente o nome de 
Tolentino ; ^ estes versos devem considerar-se 
como prova decisiva de que pertenceu a essa 
corporação, pelo menos até ao tempo em que 
os seus principaes membros se tornaram su- 
speitos ao Intendente Manique de espíritos 
philosophicos e liberaes. Tolentino era essen- 
cialmente egoista e não queria ser encommo- 
dado; a Academia das Sciencias fora de 1780 
a 1794 um grande foco de trabalho intellec- 
tual, onde as doutrinas encj^clopedistas acha- 
vam nos nossos principaes homens do século 



* Apparece o seu nome nos Almanacks de Lisboa 
até 1788. 



NICOLÁO TOLENTINO 695 



XVIII uma adhesão sincera ; Tolentino não 
comprehendia esta missão scientifica iniciada 
pela Academia, e só conheceu que entre taes 
sábios poderia incorrer na suspeição do terrí- 
vel Manique; pode-se dizer que se esgiieiroti 
da Academia sem formalidades, fazendo como 
os académicos de hoje, não trabalhando. O 
espect