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Full text of "Historia da poesia popular portugueza .."

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\ 






^ 



\ 



BIBLIOTHECA DAS TRADIÇÕES PORTUGUESAS 



HISTORIA 



POESIA POPULAR PORTUGUEZA 



BIBLIOTHEGA DAS TRADIÇÕES PORTUGUEZAS 



(edição integral e definitiva em IO volumes) 



EM VIA DE publicação: 

t 



I — Historia da Poesia popular portuguesa (3." 

edição) 2 vol. 

II — Cancioneiro popular portugue:[ (2.* edição).. . 2 vol. 

III — Romanceiro gsral portuguesf (2." edição). ... 2 vol. 

IV — Theatro popular portugue^: Reisadas — La- 

pinhas — Mouriscadas — Jogos figurados . . i vol. 

V — Adagiario portuguej i vol. 

VI — Contos tradicionàes do Povo português {2.* 

edição) 2 vol. 



N. B. — A parte histórica e notas comparativas são reescriptas, 
utilisando os materiaes dos grandes investigadores europe-is das 
Tradições populares. Os textos poéticos são enriquecidos cof/i noVas 
collecções, manuscriptos reunidos desde 1870, e completados pe- 
los subsídios dos folklorístas portuguezes, ainda não incorporados. 



THEOPHILO BRAGA 

'\ 

HISTORIA 



POESIA POPULAR 

PORTUGUEZA 



AS ORIGENS 



.' EDÍCÃO REESCRIPTA 



LISBOA 

MANUEL GOMES, EDITOR 

Livreiro de Suas Majestades e Alteias 

6 1 — Ru* Gakkett (Chiado) — 6 1 

1902 






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PREFAÇÃO 



Estão terminados os trabalhos de compilação 
dos Cantos tradicionaes e populares da Europa ; 
existe uma grande somma de materiaes accumula* 
dos, á' espera de que se iniciem a sua systemati- 
sação e interpretação, que se tire a luz contida 
n'essès documentos. Entrando n'este campo de 
nova actividade, na Historia da Poesia popular 
portugueia tentamos a synthese, que de toda a 
parte se reclama. Assim como uma Lingua para 
ser scientificamente conhecida, tem de estudar- 
se comparativamente dentro da família grotolo- 
gica de que faz parte, o mesmo acontece com a 
Poesia tradicional popular de qualquer paiz ou 
grupo ethnico. A Poesia popular portugueza está 
relacionada com a que repetem os outros povos 
peninsulares, e ao mesmo tempo com aquella que 



645915 



VI 

se conserva oralmente entre os povos do meio dia 
da Europa. D'esta dupla relação resulta o metho- 
do do seu estudo, investigando pela similaridade 
dos seus themas e formas poéticas que são com- 
muns ao Occidente da Europa, o substratum an- 
thropologico, que subsiste entre esses povos separa- 
dos politicamente, mas unificados por idênticas tra- 
dições ; e ao mesmo tempo, o nacionalismo persi- 
stente nos cantos de outras regiões historicamente 
separadas. Esse substratum anthropologico, que 
se reconhece na alta Itália, na Bretanha, na Irlan- 
da, em Portugal, é a raça pre-celtica, hoje deter- 
minada no typo ligurico (Belloguet, Celesia, Mor- 
ton, Martins Sarmento) ; e e sse typo nacional é a 
lusismoy que através de séculos de lucta não "pode 
confundir-se com o iberismo imperialista absor- 
vente, apoiando-se sempre na associação local ou 
o municipalismo. O lusismo reflecte-se nas tradi- 
ções poéticas da Galliza, das Astúrias, da Extre- 
madura e da Andalusia, desde tempos quasi im- 
memoriaes separadas arbitrariamente da Lusitâ- 
nia desmembrada petos romanos. 

Não era possível attingir esta synthese, se os 
estudos e investigações dos Cantos populares da 
alta Itália, da Bretanha e da Irlanda, da Galliza^ 
Astúrias e Andalusia se não tivessem realisada 
desde 1867 até hoje. Para seguir este caminho foi 
preciso sacudir a obsessão da theoria histórica da 
supremacia dos Celtas^ e esse outro preconceito 
da origem latina da Versificação popular, como a 



VII 

• 

doutrina philologica da eschola de Diez, que con- 
sidera as Linguas romanisadas como derivadas do 
Latim, A determinação do substratum anthropo- 
logico dá á crítica uma base mais segura para as- 
sentar o principio da não transmissão tradicional 
de povo a povo, mas sim de focos communs de 
persistência e de irradiação. 

Depois de restituir este problema á sua simpli- 
cidade e clareza, pela contribuição de investigado- 
res sinceros, vem o outro problema das formas 
poéticas. Os themas poéticos lyricos, narrativos e 
dramáticos reduzem se por uma synthese reco- 
nhecida pelos eihnologos á concepção primitiva do 
Anno solar, e suas manifestações nos costumes e 
festas sociaes. E' este um dos pontos em que as 
tradições dos povos occidentaes se unificam sem 
que tivessem passado de povo a povo. As formas 
poéticas^ que nas compilações apparecem em ver- 
so, só se comprehendem como ellas nasceram, 
isto é cantadas e dansadas; assim a Canção que 
em um paiz ainda é cantada explica as formas 
que tem em um paiz em que ella é apenas re- 
citada, quando já o Refrem, em vez de ser o 
elemento de um Coro, se tornou o Retornello com 
que o cantador termina a estrophe. Na synthese 
histórica doestas formas poéticas acompanhase a 
sua evolução através de toda a Edade media, e 
nos dois meios activos superiores a Egreja e a 
Corte, chega-se a determinar as formas artísti- 
cas que saíram doestes rudimentos, taes eomo as 



VIU 

Canções dos Trovadores, os Mfsterios e Autos ^ 
os Madrtgaes e Motetes. Sob este aspecto com- 
parativo o estudo da Poesia popular portugueza 
interessa directamente á connprehensão da Poesia 
popular de toda a Hespanha ç das nacionalidades 
occidentaes; n'este intuito a sua Historia contém 
os contornos de uma vasta synthese fundamental, 
que outros irão aperfeiçoando na sua applicação. 
Para o caso portuguez, a determinação do nacio- 
nalismo é a revelação de uma força latente, que 
desde que se torne consciente será um impulso de 
progresso e de energia. 



* 



Quando em 1867 reunimos em volume os es- 
tudos críticos a que puzemos o titulo de Historia 
da Poesia popular portugue\a^ linhamos então 
uma concepção metaphysica do Povo supprindo a 
falta de conhecimento da psychologia collectiva ; 
faltava-nos a educação methodologica para acom- 
panhar o processo formativo da Versificação po- 
pular simultânea com o da creação das Linguas 
românicas ou vulgares. Para a analyse dos themas 
poéticos da tradição portugueza, na nossa vida 
mesquinha de Coimbra, eram-nos quasi inaccessi- 
veis as collecçoes .existentes da poesia popular hes- 
panhola, italiana e franceza. No emtanto n'esse li- 
vro havia o esboço de idèiás fundamentaes, taes 
como a relação do phenomeno linguistico com o 



IX 

da métrica popular; e da Poesia simultânea com 
o canto e a dansa, como funcção viva dos costu- 
mes e instituições sociaes. 

Na dissertação sobre Os ForaeSj de 1867, de- 
terminámos pela primeira vez o substratum ger- 
mânico em que assentavam muitos costumes tor- 
nados direito territorial nesses pequenos códi- 
gos locaes; e nas Epopêas da Raça mosarabe^ de 
1 87 1 , seguindo a mesma these esboçámos sobre esse 
elemento ethnico a formação da classe popular em 
contraposição á classe aristocrática asturo leòneza, 
e a elaboração das Canções heróicas e narrativas 
OU os Romanceiros peninsulares. Infelizmente a 
ideia d'esse livro foi mal comprehendida, fazendo- 
se-nos carga de erudição em delirio ; mas, é certo, 
que a these estava nitidamente formulada e ma- 
gistralmente sustentada desde 1860, por Don To- 
mas Munoz y Romero, que conhecia os textos de 
todos os Cartas pueblas de Hespanha. Sob o ponto 
de vista social o insigne medievista distinguia os dois 
elementos aristocrático e ecclesiastico ou propria- 
mente Asturo'Leone:{^ apropriando-se da legislação 
e cultura romana, e"o popular ou dos Concelhos, 
os Mosarabes^ que mantinham a tradição jurídica 
de costumes e symbolos germânicos. Se então co- 
nhecesse as conclusões de tal mestre, sentir-me-ia 
fortificado com o invencivel sorriso. A ideia do 
gej^manismo appareceu mais intensamente na Theo- 
ria da Historia da Litteratura portuguesa, em 
1872, em contraposição com a cultura latina; um 



X 

illustre critico, Mr. Gaston Paris achou excessiva 
a importância ligada a esse elemento ethnico na 
Litteratura, mas passados annos attribuia á França 
do norte, ou germânica, a origem das Canções ly- 
ricas e narrativas, que na Edade media se canta- 
ram na França meridional, Itália, Hespanha e Por- 
tugal. Era por esta via, que procurava explicar 
o problema da unidade e similaridade das tra- 
dições populares do Occidente entrevista por Gar- 
rett, Nigra, Liebrecht, Mainzer e Paul Meyer ; 
o seu discipulo Jeanroy sustentou a mesma dou- 
trina nas Origines de la Poésie lyrique en France. 
No prosecussão dos nossos estudos viemos a re- 
conhecer que esse elemento ger^manico, tão accen - 
tuado no Mosarabismo^ assentava em um substra- 
tum anthropologico mais antigo, que importava 
definir ; no Prologo do Parnaso portugt4e!{ mo- 
derno^ át, 1877, e na introducção do Cancioneiro 
da Vaticana^ de 1878, avançámos á solução do 
problema. Partindo dos modernos estudos anthro- 
pologicos, que relacionam pela Aquitania as po- 
pulações da França meridional, da Itália e da Hes- 
panha, procurávamos essa unidade das tradições 
lyricas e épicas no povo pre-celtico, que estendeu 
a sua acção pelo Athlantico, tocando na America, 
e atravessando a Africa levou á Ásia anterior essa 
cultura característica da Chaldêa. Estávamos em 
frente d'esse outro problema de uma civilisação 
proto-árica, do Ligurismo; outros trabalhadores 
esclareceram o problema, como Roysel descrê- 



XI 

vendo esta civilisaçâo bronzifera, sua sede na Eu- 
ropa, e irradiação para a America e Ásia ; o mes- 
mo, Cailleux, reconstruindo a expansão d'esse 
povo pelos noQoes geographicos e monumentos ; 
Belloguet destacando da população céltica da Eu- 
ropa a raça dos Ligares^ que a antecedeu na oc- 
cupação da orla occidental doeste continente ; Ma- 
lon e Celesia determinando esse elemento ligurico 
da Itália ; e Martins Sarmento fixando por elle os 
caracteres do povo Lusitano^ até hoje differencia- 
do do Ibero e com elle inconciliável. Todos estes 
sinceros trabalhadores, esclarecendo esse proble- 
ma anthropologico de uma grande e culta raça 
pve-celiica na Europa, davam-nos o substratum 
que unifica nos mesmos costumes e tradições poé- 
ticas as nações occidentaes (Celtas^ de Nigra e de 
Cailleux, etc.), e que os relaciona com -a cultura 
asiática (motivo da hypothese do Turanismo^ em 
contraposição ao Iranismo). Das concepções pri- 
mitivas do Anno solar, nos seus dois solsticios es- 
tival e hibernal, derivaram os críticos os ihemas 
das Canções lyricas e narrativas da Poesia popu- 
lar europêa, e ampliando-os com paradigmas até 
aos cantos oraes da Rússia e da Grécia moderna, 
chegaram á conclusão — que se a França se tor- 
nou um fócp de irradiação d'essas tradições poé- 
ticas depois do século xii, têm taes tradições uma 
origem mais remota e profunda, para lá dos ^Cel- 
tas, em um povo mais civilisado que os precedeu 
na Europa, caracterisado como brachycephalo e 



XII 

trigueiro, de estatura mediana, altamente resi- 
stente, oLigure. 

Todos esses problemas (as minhas theorias ou 
os meus erros) receberam forma mais clara e scien- 
tifica nos trabalhos dos modernos eruditos: Mosa- 
rabismo (Munoz y Romero), Germanismo (Gas- 
ton Paris e Jeanroy) ; Lusismo (no Ligurismo de 
de Belloguet, Celesia, Morton, Martins Sarmento, 
Roysel, que é a base unificadora da Civilisação Oc- 
cidental.) Declinando da minha originalidade, fico al- 
liviado de responsabilidades, podendo utilisar mais 
seguramente na refundição da Historia da Poesia 
popular portuguesa as contribuições dos últimos 
trinta annos, dirigido pelo pensamento de Vauve- 
narguçs: antes mais consequente do que inventivo. 



* 



Um outro aspecto da synthese das Tradições 
populares é o. da Nacionalitteratura^ em que se 
estudam os germens tradicionaes, oraes e anony- 
mos, qpe foram estheticamente elaborados por 
individualidades cultas. Todas as grandes obras 
primas da Arte, e os maiores génios que as crea- 
ram, inspiraram-se sempre de um elemento nacio- 
nal e humano, cujo thema subsiste na tradição. 
Hoje já se pôde seguir na Historia das Litteraturas 
modernas a evolução das suas formas, a partir dos 
três typos da Canção popular : a lyrica^ ou can- 
tada, que se desenvolve no rudimento das Can- 



XIII 



ções dos Trovadores da Provença, na Canione 
italiana petrarchista, que se generalisa na Renas- 
cença, em contraposição com as Trovas e as Re- 
dondilhas hespanholas, da mesma fonte popular ; 
a Canção narrativa^ ou recitada, que attingiu o 
seu vasto desenvolvimento na Canção de Gesta 
franceza, e se conservou rudimentar no Roman- 
ceiro hespanhol, vindo a fixar-se em uma forma 
em prosa na Novella de Cavalleria, nas Pastoraes 
allegoricas, nos Contos decameronicos e Novellas 
picarescas até ao Romance moderno; da Canção 
dansada^ derivam as formas dialogadas, dos Mys- 
tericJs e das Farças, da Comedia sostenuta italia- 
na, aperfeiçoando se no rudimento do Auto vicen- 
tino portuguez, contextura da Comedia famosa 
hespanhola e do Auto sacramental^ até á perfeição 
summa da Comedia molieresca. 

Seguindo esta genealogia das formas litterarias 
é que, pela critica scientifica, se avaliam os escri- 
ptores pela maior ou menor intensidade com que 
se approximaram das fontes tradicionaes e o seu 
consciente nacionalismo; é por esta ordem de 
estudos, na sua origem ethnologicos, que se con- 
seguirá a revivificação das Litteraturas modernas^ 
approximando deliberadamente o povo e o poeta 
para mutuamente se fecundarem, dando á Poesia 
e Arte do futuro uma expressão creadora e edifi- 
cante de Synthese affectiva, como nas épocas pri- 
mitivas da Humanidade em que se formaram os 
esboços espontâneos. 






• . • . • • • . . •*. • •• ' • •' 

« 



HISTORIA 

DA 

POESIA POPULAR PORTUGUEZA 



AS ORIGENS 



*- V 



o c u ^ 









I 



Í-ORMAÇAO E DESENVOLVIMENTO DA POESIA POPULAR 

OCCIDENTAL 



Como expressão espontânea de um estado de sub- 
jectividade inconsciente em que se representa o mun- 
do exterior através de impressões não discutidas, 
e em que as emoções se communicam por compara- 
ções objectivas e pela forma pittoresca das imagens, a 
Poesia popular é um phenomeno psychologico do mais 
alto interesse para o conhecimento do homem pri- 
mitivo, porque é o producto immediato desse esta- 
do de impersonalidade. 

Na Poesia popular conservam-se concepções da 
natureza, mythos quasi apagados, expressões tradi- 
cionaes que revelam a fusão de raças, que se oblite- 
raram na historia sem deixarem outro documento ; 
sob este aspecto anthropologico torna-se cada vez 
mais fecunda a sua investigação reconstructiva, para 
determinar os elementos das nacionalidades prove- 
nientes das grandes migrações das raças. 

Os costumes còino estampas de estados sociaes 
que se transformaram, as festas, os actos cultuaes 
e cerimoniosos, os jogos como imitação dos actos 
da vida ordinária, os cantos, as dansas dramatisa- 



HISTORIA DA POESIA 



das, como o material que a Poesia do povo anima 
":^"^^ela ~j)áht7Fa,: tòrnam-a o documento mais expressi- 

vametite' humano sob o aspecto ethnologico, 
: :.:: rl^É^^láútbem.Tefléctidos na Poesia popular que se 
" âétèrminam-xorfV-^^a maior espontaneidade e verda- 
de os caracteres das nacionalidades, taes como a 
paixão amorosa, o espirito de aventura, a preoccu- 
paçâo do maravilhoso, a graça e a tendência imita- 
tiva ; e como esses caracteres preponderam na mani- 
festação histórica de uma civilisação, é também sob 
o aspecto histórico que a Poesia popular conserva 
a impressão geral dos grandes acontecimentos, sen- 
do essa vibração remota a prova da sua intensida- 
de. Os mythos e lendas do passado são hoje um 
meio de reconstrucção histórica das chamadas épo- 
cas heróicas. 

E estudada emquanto aos seus themas e formas de 
expressão, a Poesia popular, sob o seu aspecto es- 
tketico appresenta-nos os typos rudimentares ou em- 
bryonarios da Poesia artistica, estabelecendo-se a con- 
tinuidade de uma tradição que levou á creação das 
formas lyricas, épicas e dramáticas das Litteraturas. 
E indispensável seguir hoje este critério complexo: 
psychologico, anthropologico, ethnographico, nacional, 
histórico e esthetico para entrar na apreciação d esse 
phenomeno tão tarde comprehendido da Poesia po- 
pular. 

O que é propriamente o povo ? esta entidade ano- 
nyma e impessoal? 

O nome de po7fo era dado na Edade média pe- 
ninsular aos elementos sociaes do proletariado : tpue- 
bio es llamado la gente menuda, asi como menes- 
trales e labradores,» conforme escreve Affonso, o 
Sábio, nas suas L^is de Partidas \ mas o próprio 
monarcha, na integração dos variados elementos da 
sociedade moderna, sob esta designação abrange a 



POPULAR PORTIGUEZA 3 



conectividade • €pueblo es ayuntamiento de todos 
ornes com munal mente ...» Em qualquer dos senti- 
dos, ambos vigentes, o povo comprehende aquellas 
classes activas, que vivem em um estado emocional e 
que se determinam pela espontaneidade do sentimento 
e se apoiam na im mutabilidade dos costumes. É nesse 
grupo social, em qualquer nação, que se conservam au- 
tomaticamente as tradições do passado, embora em 
certa inconsciência, e que se elaboram as concepções 
subjectivas e as impressões de momento sob o aspecto 
de — poesia. Designando o conjuncto de uma nação, a 
palavra povo exprime perfeitamente essa elevada for- 
ma de associação, apoiada principalmente em uma 
consciente solidariedade ethnica ; o sentimento que 
unifíca um povo acha também expressão nas tradi- 
ções do passado, e os seus caracteres ethnicos mais 
ou menos se reflectem nas altas individualidades es- 
peculativas oj activas. O nome de vulgar pode com 
precisão designar a Poesia do povo emocionista e 
inconsciente, sempre manifestada oralmente e sem 
forma reflectida ou artistica ; o nome de nacional 
exprime esse caracter de uma coUectividade humana, 
representado conscientemente pela arte e determi- 
nadamente na politica. No desenvolvimento das crea- 
ções estheticas é no elemento vulgar que se elabo- 
ram os rudimentos espontâneos a que na ordem so- 
cial irão dando forma as individualidades conscien- 
tes, até attingirem uma poesia ou arte nacional. O 
estudo da Poesia popular hade abranger estes dois 
aspectos, o generativo, oral e rudimentar, conduzindo 
para as formas perfeitas fixadas pela litteratura; na 
sociedade medieval ha os Joglares de boea, que re- 
petem oralmente os cantos lyricos e os recitados, 
e os Joglares de peHola, que passam essas composi- 
ções á escripta. Era esta intima e primitiva relação 
constante entre o povo e o escriptor que estabele- 



HISTORIA DA POESIA 



cia a fecunda exuberância esthetica na creação das 
novas Litteraturas românicas. Desde que se operou 
a separação entre a multidão e o poeta, esgotou se 
o poder creador, amesquinharam-se as faculdades 
^estheticas por falta de um estimulo da realidade, e 
o povo ficou repetindo automaticamente os restos 
das tradições que se foram tornando cada vez para 
elle mais incomprehensiveis. Confirma-se pela evolu- 
ção das modernas litteraturas: dos velhos cantos po- 
pulares destacam-se as formas das canções dos Tro- 
vadores, e os jograes vão entoando de terra em ter- 
ra esses cantares mais expresivos, que são escutados 
com interesse ; dá-se, porém, uma antinomia entre 
os Trovadores e os Jograes, aquelles proclamando 
que só cantam por amor mas não por dinheiro, 
estes cahindo na exploração dos baixos instinctos da 
multidão. A cultura humanistica ou latino ecclesiasti- 
ca converte o trovador em homem erudito, destina- 
do ao palácio e á cúria; a lucta pela liberdade ci- 
vil absorve o povo nas suas revoltas communaes, 
estimulando-o á revivescência das suas remotas tra- 
dições. Foi por um longo trabalho de critica que 
se chegou muito tarde a descobrir este elemento 
anonymo da historia moderna da Europa, o Povo. 
Acreditou-se por muitos séculos no poder das altas 
individualidades, creando religiões, nacionalidades, 
linguas e epopêas; faltava o outro elemento impes- 
soal, para reduzir ao natural esses assombros huma- 
nos. Quando se descobria o facto da coUaboração do 
povo hellenico nas epopêas homéricas, nesse mes- 
mo anno, em 1794 começava-se também a com- 
prehender que o movimento da revolução franceza 
vinha mais do povo do que dos philosophos. A cri- 
tica de Wolf correspondia ao interesse especulativo 
de Kant sobre os acontecimentos de França. 
Sciencias subsidiarias da historia, mas de creação 



POPULAR PORTUGUEZA 



recente, como a Anthropologia e a Ethnographia, le- 
varam á comprehensão de que as raças antigas da 
Europa não foram extinctas pela occupação de ou- 
tras raças invasoras, mestiçando-se com ellas, como 
o provam os craneos mesaticephalos; e as formas so- 
ciaes não foram destruídas, prevalecendo nos costumes 
um grande numero de praticas sobreviventes, taes 
como archaismos de linguagem, superstições que são 
restos de cultos decahidos, concepções que são ves- 
tígios de mythos obliterados, e cantares que se vão 
adaptando a novos interesses. 

É neste fundo anthropologico que se devem in- 
vestigar as origens ethnicas de tudo quanto consti- 
tue o saber popular ; e como as nacionalidades da 
Europa são mais recentes no seu agrupamento so- 
cial, politico e histórico do que a mestiçagem dessas 
raças primitivas, os estudos da Poesia popular, e em 
geral de todo o domínio do chamado Folklore, não 
se podem limitar exclusivamente a uma nação, por- 
que nenhuma nação europêa é constituída por um s ó 
elemento anthropologico puro. Tem-se seguido esse 
critério errado de attribuir o lyrismo Occidental ora a 
uma fonte siciliana, ora occitanica, ora franka: a Euro- 
pa, anthropologicamente considerada é uniforme na 
constituição definitiva da sua população; a creação das 
nacionalidades não destruiu no seu separatismo politi- 
co esta similaridade primordial. Pelo contrario, á me- 
dida que as Nações se indivídualisavam hostilmente, o 
desenvolvimento religioso, e poético affirmaram mais 
insistentemente a sua unidade. A Poesia da Edade me- 
dia, irradiando da França nas formas rudimentares, é 
assimilada em todas as outras nações do sul até ao 
norte da Europa; o Christianismo acceitando costu- 
mes e tradições do polytheismo céltico e germânico, 
por uma simples modificação interpretativa, conseguia 
também no seu proselitismo uma unificação de cren- 



HISTORIA DA POESIA 



ças, facil de estabelecer pelo fundo ethnico commum 
em que assentava. A Egreja quando se referia a 
e5te fundo commum em relação aos usos atrazados 
e ás crenças e costumes polytheicos, chamavalhes 
Paganismo, dos Pagi ou as povoações isoladas fora 
do contacto da civilisação, que constituíam os paizes 
ou patrias-locaes; e essas povoações eram chama- 
das genericamente o vulgo, no sentido do povo. San- 
to Isidoro Hispalense referindo -se nas suaô Etymo- 
logias, aos vocábulos populares que nâo eram gregos 
nem latinos, diz sempre: Vulgus vocat, chama-lhe 
o vulgo; corrupte vulgo dicitur, diz-se corruptamen- 
te no vulgo. E n*este Vulgo referia-se o sábio bispo 
ao próprio povo hispânico, que constituía esse fundo 
commum das populações ibéricas e célticas, a que 
em outro logar allude dizendo : Hispani vocant. Es- 
te nome sempre applicado a todas as populações 
europêas tem um sentido originário na anthropolo- 
gia da Europa. Pela extensão do seu emprego pa- 
rece que este nome de Vulgo, que persiste designan- 
do ainda o povo indistinctamente foi dado aos povos 
anteriores da Europa pelas raças áricas quando a 
occuparam. As povoações indigenas da Itália foram 
chamadas Volsqus; é essa mesma forma de Vulgus 
que apparece nos Volkes, Volcae e Volgae, dadas 
pelos Komanos aos Gaulezes meridionaes; de Boi- 
gae, aos Gaulezes do norte, ou Belgae, E entre es- 
tas populações que se acham os Celtae, como uma 
cunha que os separa, manifestando-se como um outro 
elemento anthropologico. Os Welsk, appresentam dif- 
ferenças entre os Galli e os Belgae: (os Welsk actuaes 
da Gram Bretanha occupam o território da antiga 
Belgae; e os Wallons do norte da Gallia fazem parte 
da Bélgica actual.) Liga-se a esta designação com- 
mum os Gallaec, ao oeste da Hespanha, os Vala- 
quês, das margens septentrionaes do Adriático; os 



POPULAR PORTUGUEZA 



Bolg ou Y\X'Bolg na Irlanda; os Bolgari, os Volsq 
na Itália; e nas línguas germânicas Folk e Volk, que 
correspondem nas linguas românicas ao Vtdgo^ signi- 
fica o povo, a multidão, as gentes, indistinctamente. * 
Vulgarisar, divulgar correspondem a dar circulação 
entre o povo, transmittir na tradição. Os gramma- 
ticos romanos referiam-se á linguagem popular si- 



' Eagène Van Bemmel, no sen estudo De la Langue et de la Poe- 
sie provençales, escreve, referindo-se aos povos que constitui m a 
primitiva gen'e céltica: aEram, como lhes chamaram os romanos os 
Volcae^ ao medio-dia, os Celtae, na regfiSo media, e a Belgae, ao nor- 
te; mas não existia entre elles differenciação real ou bem nitida; 
comprehendiam-nos ordinariamente sob a denominação do conjucto 
Galli. - É assim que as paUvras Wall (Wallons), Waeleh^ Welsh^ 
(pron. Welche) appresentam cambiantes iatermediarias, a Gall e 
Belge\ tanto mais visivelmente, que os Welsh actuaes da Gram 
Bretanha occupam o território da antiga Belgae, e que os antigos 
Wallons do norte de GalUa fazem pa te da Bélgica actual ; melhor 
ainda, os Welcfus são precisamente os habitantes do paiz a que 
chamamos Galles e os inglezes Wales. Emfim, temos na Irlanda os 
Bolg ou Y\T'Bolg; temos na Gallia meridional os Volkes, que César 
chaaia Volcae ou Volgae^ Ausonio Bolgae, Cícero Belgae; temos na 
Itália o vulgo.. . Para não omittir nenhum dos povos que compunham 
primitivamente a raça céltica apontamos os Gallaeci, ao oeste da 
HespaTâha, e sobretudo os Valaques sobre as bordas septentrionaes 
do Adfiatico, que appresentam uma nova transição entre os Vol- 
kes e os Galls. 

"Não deverá impressionar-nos o achar desde logo a palavra 
Volk., exactamente entre todas as linguas germânicas, e que esta 
palavra Volk signifique litteralmente o povo, a multidão, as gen- 
tes? De sorte que na origem, longe de ser um nome próprio, não 
é senão uma expressão geral applicando-se a qualquer povo. — Na 
Itália este nome ficou também communi e collectivo. A população 
primitiva, indigena, chamava se vulgOy isto é, o povo, a gente; as 
castas dominadoras continuaram naturalmente a designal-os por 
esta expressão, mas ajuntando lhe mais naturalmente a'nda, uma 
significação desdehosa e aviltante. D'ahi os nomes vulgus, vtdgaris^ 
com a desinancia latina, que se dava á população indígena, isto é, á 
plebe de Roma e aos aldeães dos cstmpos, população que se liga 
necessariamente á grande família céltica; d'ahi o lermo serno vul- 
garis^ rusticus, designando a língua d'esta mesma população.» 

(Pag. 47) 



HISTORIA DA POESIA 



multanea com a dos escriptores e classes cultas dan- 
do-lhe o nome de «sermo vulgaris,^ Do emprego 
quasi exclusivo d'esta linguagem popular, determinado 
pelas convulsões do império romano diante das in- 
vasões germânicas, é que se desenvolveram as lín- 
guas românicas ou novo-latinas. E mais na investi- 
gação deste sermo vulgaris do que na influencia dos 
escriptores e jurisconsultos latinos que se encontra a 
explicação do processo analytico que caracterisa a 
formação das novas linguas meridionaes. Falta appli- 
car este processo ás origens poéticas da Europa, 
ampliando as investigações até aqui sempre nacionaes 
ao grande campo das tradições comuns a toda a Eu- 
ropa implicito na designação de poesia vulgar. E este 
critério é tanto mais scientifico e seguro, quanto as 
formas da Poesia moderna da Europa nasceram e 
se destacaram do desenvolvimento linguistico dos 
dialectos românicos ou vulgares^ como se observa 
no systema da acceniuação e da rima, bases funda- 
mentaes da nova metrificação. Assim como existe 
uma unidade syntaxica nas linguas românicas, sem 
que se copiem umas ás outras, também existe uma 
unidade na versificação, dando um caracter commum 
á sua poesia. E desde que as novas formas métri- 
cas, creadas simultaneamente com o canto e a dan- 
sa entre o povo, se desenvolviam espontaneamente 
acompanhando os actos da vida domestica e social, 
um certo numero de themas poéticos tradicionaes 
haviam de receber expressão com esse novo effelto 
da língua, tendendo com o tempo a adquirir uma 
perfeição litteraria ou artistica. Quanto mais nos apro- 
ximarmos desse fundo anthropologico da população 
europêa, da persistência ethnica dos seus costutnes, 
e das concepções mythicas que actuaram na sua 
poesia dando-Ihe themas universaes, tanto mais nos 
approximamos do conhecimento da unidade do ly- 



POPULAR PORTUGUEZA 



rismo e das narrativas heróicas que apparece como 
base tradicional nas Litteraturas da Europa. Em volta 
da concepção primitiva do anno estival e do anno 
hybernal, as festas da entrada de Maio, das popu- 
lações polytheicas, foram conservadas nos costumes 
das nações christãs, dando origem na Edade media 
a canções lyricas, bailadas e alvoradas de elabora- 
ção popular, que se foram repetindo tradicionalmen- 
te. Aqui temos um facto ethnologico, proveniente das 
raças itálicas, célticas, germânicas e scandinavas, que 
se tornou um thema geral de lyrismo da nova mé- 
trica accentuada e rimada. No importante estudo so- 
bre As origens da Poesia lyrica em França na Edade 
media, Alfredo Jeanroy, tunda sobre este facto da en- 
trada da primavera a derivação do lyrismo popular 
francez, que veiu attingir a forma litteraria na poe- 
sia dos Trovadores, actuando depois nas litteraturas 
allemã, italiana, e portugueza. Mas esta determinação 
da origem ethnica não lhe appareceu logo ao espi- 
rito nitidamente, e só quasi ao terminar o labo- 
rioso estudo é que comprehendeu a sua evidente im- 
portância. Fazendo uma critica deste livro, escreveu 
Mr. Gaston Paris: ^ o pensamento importante do livro 
é o que liga a Poesia lyrica da Edade media, ao 
menos no sua maior parte, ás festas da primavera, 
e ás dansas que a acompanham; somente é expresso 
positivamente no fim do livro (pag. 387 e seg.) sob 
uma rubrica que o não deixa presentir, e na parte con- 
sagrada á versificação, onde raro será o leitor que 
ahi o procure.» * Esta concepção meteorológica e 
cósmica não pertence ás épocas históricas, e é inves- 
tigando-a nas suas manifestações primitivas que se 
comprehenderá o lado pittoresco e dramático per- 
sistente nas costumes populares. Por assim proce- 



1 Journal dos Savants^ Novembre, 1891, p. 676. 



IO HISTORIA DA POESIA 



dermos na investigação da unidade das formas do 
lyrtsmo europeu, Mr. Jeanroy, com certa inconse- 
quência, trata-nos com superior desdém por procu- 
rarmos os vestigios poéticos dos povos que prece- 
deram na Europa a raça árica, e que constituem 
essas manifestações communs ao lyrismo occidental 
(na Aquitania, norte da Hespanha e Itália), dizendo: 
'«Puisque M. Braga est remonte si facilement de la 
pòésie des Aryens à celle des Touraniens, nous nous 
étonnons quil n'ait pas reconstituo également celle 
des races dolichocephaliques, qui avait precede ceux- 
ci. On comprendra notre reserve sur ces questions de 
litterature prèhistorique,^ * Apesar de todas as re- 
servas, Mr. Jeanroy viu-se forçado a recorrer á con- 
cepção da entrada do anno estival, que é anterior 
á civilisação dos Romanos, para explicar as for- 
mas communs do lyrismo europeu, que se ligaram 
a esse costume social polytheico e ante -histórico. 
Mr. Gaston Paris notando a sua discreta ironia, 
mostra com firmeza quanto o esforço da sua re- 
serva prejudicou o trabalho histórico, separado dos 
antecedentes da época romana e dos testemunhos 
de séculos anteriores aos monumentos poéticos. * 



* Les Origines de la Poesie lyrique en Prance au Moyen-Age^ 
p. 311, nota. 

2 «Tendo consagrado na sua obra unaa parte considerável á po- 
lemica, e tendo-a muitas vezes conduzido com uma vivacid8de 
que, por tomar propositalmente uma forma discretamente irónica^ 
não deixa de ser menos sensível, o auctor parece ter-se preoccu- 
pado em elle próprio não prestar o flanco aos ataques que pro- 
voca, e acouta- se detraz das restricções ou meias concessões, que 
não permittem sempre ver bem o seu pensamento. Esta disposição, 
sem duvida inconsciente coincidia no auctor com uma circumspec- 
ção natural, que é ieita de prudência e de abertura de espirito, de 
sorte que em frente de um problema vê as diversas soluções possí- 
veis e não ousa declarar se por uma determinada é uma excellen- 
te condição para exercer uma boa critica, mas é a menos favorá- 
vel para um estudo histórico; é também, como já o entrevi, esse 



POPULAR PORTUGUEZA l I 

Comtudo a necessidade de remontar a uma épo- 
ca ou edade ante-historica para explicar a unidade 
ethnica de certos themas poéticos populares, foi re* 
conhecida por Jeanroy, embora 3e eximisse a essas 
pesquizas« Paliando da influencia ou imitação da ve- 
lha poesia franceza na AUemanha, na Itália e em 
Portugal, caracterisa esse lyrismo sob dois aspectos, 
um subjectivo e metaphysico, o outro narrativo e 
objectivamente dramático; é sobre a origem deste 
ultimo característico que assentam as investigações 
que visam a prioridades nacionaes: «Como na nossa 
própria poesia, encontram-se em todas aquellas que 
a imitaram, duas proveniências bem distinctas; uma 
comprehendendo as peças subjectivas e metaphysicas ; 
a outra zs poesias narraticas ou dramáticas. Os dif- 
ferentes críticos estrangeiros que se têm occupado 
respectivamente da sua poesia nacional, M. M. Bar- 
toli, d'Ancona, Scherer, Richard M. Mayer, Braga, 
entre outros, sustentam unanimemente a opinião, que 
^sías ultimas constituem o fundo original da sua poe- 
sia. Esta parte, sendo nos três paizes, idêntica ou 
muito análoga, não podem ter egualmente rasão. 
Procuraremos mostrar que estão egualmente em erro, 
e que onde elles vêem uma emanação espontânea 
de génio nacional, é preciso vêr a imitação de to la 
uma poesia franceza koje perdida, 

«Isto nos conduz a uma questão que não pre- 



lado propiamente histórico o mais fraco do livro de M. Jeanroy. 
Não teve o cuidado, de dar por introducçSo á sua obra, um 
qtiadro das condições externas (sociedade, civilisação, cbstumes) 
e internas (lingaa, versificação) nas qttaes deveria ter nascido a 
Poesia lyrica em França^ nem precisar em que momento ella nas- 
cera, se elhi datava somente da Edade media ou remontava á épo- 
ca romana; quasi que se não preoccupou dos testemunhos positi- 
vos que em séculos anteriores aos monumentos que nós temos se 
pode recolher sobre a sua existência.» Gsistoa Paris, Journal des 
SavantSy Nov. 1891, p. 676. 



12 HISTORIA DA POESIA 

tendemos resolver, dando-nos por feliz se ajuntarmos 
alguns factos que tornem a solução mais próxima. É 
a da origem dos themas poéticos, que fomos levado 
a determinar. Demonstraremos que esses themas não 
são exclusivamente italianos, allemães e portugueses; 
mas demonstrará isso que são exclusivamente fran- 
cezes ? Não ; seria uma pretenção evidentemente ex- 
cessiva. Só queremos assentar um ponto, e vem a 
ser, x^ue ás peças estrangeiras consideradas como 
autochtones, devem a sua forma actual, alguns dos 
seus traços á imitação franceza, da qual não se li- 
bertam como se tem dito. Mas e certo, que o assum- 
pto mesmo foi importado de França, que o thema 
nos pertence como a forma que a revestiu ? Não. 
É mesmo mais do que provável, que se a nossa 
poesia achou tanto perstigio no estrangeiro é por que 
encontrou ali assumptos análogos aos seus, e que o 
terreno estava como que preparado para receber 
a communidade de certas tradições poéticas. Bem 
longe de affirmai que estes themas são exclusiva- 
mente francezes, nós nem ousamos sustentar que elles 
sejam exclusivamente românicos. Para derrubar uma 
theoiia deste género (o exclusivismo francez) basta- 
ria encontrar na poesia popular das nações slavas . . . 
themas que appresentam certas analogias com os 
nossos, não sendo para isso necessário grandes in- 
vestigações?» * 



* Les origines de la Poesie lyrique en France^ p. XVI. Nas Notas 
em Appendice aponta o facto da similaridade dos themas slavos com 
os franoêzes e italianos ; e diz das pequenas peças a que os itabanos 
chamam Fiari ou StornelU: «Este g^enero existe também na Rússia, 
e M. Wessclofsky, o sábio professor de S. Petersburgo, estudou-o 
na communicação que fez (nas Mem, da Acad, de S. Petersburgo^ 
t. XX VII) de uma collecção de canções populares russas, etc.» E 
cita a comparação que o referido professor faz com o começo de um 
StornelU italiano para restituir ao preludio slavo o pensamento com- 
completo. (Op. cit., p. 450.) E sem indicar qual esse fundo pre-ro- 



POPULAR PORTUGUEZA l3 

Desde que as investigações críticas se coUoquem 
neste campo das concepções primitivas que ainda se 
reflectem nas idealisações poéticas populares, o phe- 
nomeno da entrada do verão ha-de determinar um 
grande numero de composições lyricas semelhantes 
em muitos paizes, sem que se imitassem ou se pla- 
giassem. Sobre o problema se a antiga Pastorella era 
franceza ou provençal, diz Mr. Gaston Paris, criti- 
cando O. Schultz : c sustenta que a antiga pastorella 
não provém da franceza, e egualmente a franceza 
não provém da provençal. Teriam nascido ambas 
espontaneamente nos dois paizes, em laço estreito 
entre si, e com o mesmo nome, o mesmo quadro, 
os mesmos dados essenciaes?» E depois desta in- 
terrogação, accrescenta: «nada menos provável.» * Se 
a concepção do anno estival era commum ás popu- 
lações da Provença e do norte da PVança, se as fes- 
tas consuetudinárias, as dansas e os cantos eram os 
mesmos, porque é que as formas métricas filhas da 
mesma accentuação e da rima tinham de ser procu- 
radas e assimiladas fora do seu meio social? N'esta 



mano, a que fôra extranha a raça slava, escreve Jeanroy : «estes the- 
mas existem não somente entre os povo« românicos, mas nas poesias 
populares, que parecem ter sido quasi subtrahidas a influencias es- 
trangeiras.» £ fazendo alguns confrontos com a velho lyrismo francez, 
diz: «que a poesia popular slava appresenta taes analogias com a fran- 
ceza, que se é tentado a cada instante a concluir por uma assimi- 
lação; estas analogias assentam não somente sobre os assumptos tra- 
tados, o que não seria para admirar; mas estendem se a situações 
muito precisas, a particularidades de scenario, e até a modismos de 
phrases, que ao que parece não se poderiam appresen^ar indepen- 
dentemente a espíritos diíferentes » E uma vez empolgado por es- 
tes factos, vae até reconhecer essa communidade- poética em certas 
analogias da poesia popular franceza com a poesia popular da Gré- 
cia moderna. (Ib., p. 454.) 

As relações dos antigos slavos com a ítalia são explicadas por 
Cailleax na Origtne celHqut de la CiviUscUion^ p. 38. 

* yaumal des Savants *ib- p. 739. 



14 HISTORIA DA POESIA 



duvida de Mr. Gaston Paris ha a preoccupação da 
errada ideia de que um povo pode adoptar a poe- 
sia de outro povo ; e esta ideia é mesmo levada ao 
absurdo por aquelles philologos que pretendem ex- 
plicar as origens da versificação moderna derivan- 
do-a do movimento trochaico e jambico da métrica 
latina, em que a quantidade é incomprehendida para 
os ouvidos populares e mesmo cultos. E desde que 
os philologos chegaram á conclusão scientifica de que 
nenhum povo adopta para a sua lingua a syntaxe de 
outra lingua, embora se approprie de grande parte 
do seu vocabulário, também se vae reconhecendo 
hoje que o mesmo phenomeno se dá na versifica- 
ção e mesmo na adopção dos themas poéticos. As 
relações da concepção do anno estival com os cos- 
tumes populares, deram logar a canções ly ricas que 
persistiram tradicionalmente, e que são similares na 
Itália, na Hespanha, na França meridional e do norte 
até á Allemanha. Este typo do lyrismo não irradia 
de um ponto único e de um só povo, como queria 
Jeanroy, attribuindo-o á França do norte, ou d'Ancona 
attribuiudo-o á Itália insular; deriva de um fundo 
ethnico commum, que se define pela sobrevivência 
de uma vasta camada anthrcpologica. E não é so- 
mente a poesia lyrica que se explica na sua origem 
por este critério; também os versos narrativos, em 
quadras heróicas, e. certas acções dramáticas, deri- 
vam da concepção da Ltieta do Verão com o in- 
verno, ou a concepção do anno hybernal na sua re- 
presentação mythica. Diante deste critério, que pro- 
voca as discretas ironias de Jeanroy, o que se vê é 
que o estudo da poesia popular em cada paiz conduz 
para a reconstrucção deste fundo poético e inicial ; 
e para tal conhecimento a poesia tradicional por- 
tugueza é a que apresenta typos lyricos mais archai- 
cos, embora a nacionalidade como facto politico seja 



POPULAR PORTUGUESA l5 



a mais recente na elaboração social da Edade me- 
dia. 

Convém, antes de tudo, verificar a existência da 
poesia nas camadas populares romanas, e entre aquel- 
las raças occidentaes que incorporadas pelo Império 
foram por elle unificadas sob o nome de Romani; 
reconstituido esse fundo histórico, os seus residuos 
tradicionaes esclarecerão as analogias da poesia po- 
pular nas nacionalidades modernas. 

Horácio (Epist, i, p. 145) falia dos cantos do povo 
dialogados e com chascos mútuos: «Versibus alter- 
nis opprobria rústica fudit » Chamava-se a este gé- 
nero poético verso fescenino ou incomposito, baseado 
sobre a accentuação carateristica do verso saturnino. 
Além destes cantos dialgados, no tempo de Plinio 
existiam já muitas fórmulas rythmicas, análogas aos 
nossos esconjuros para combater o granizo, para cu- 
rar algumas doenças. Plinio (Hist. nattir., liv. xviix, 
c. 5) apontando estes ensalmos, não os transcreve 
por vergonha. Nas Orações populares de esconjuros o 
systema rythmico não é regular ; umas vezes tem um 
âmbito que lhes dá o effeito da prosa, e outras são 
regulares no numero dos accentos, embora deseguaes 
emquanto ao numero de syllabas. Era este o cara- 
cter do antigo verso popular dos romanos, o satur- 
nino. Não se deve concluir que esta forma rythmica 
nos viesse dos romanos, mas que estava implícita na 
prosódia do sertno vulgaris. Nas festas em que os 
Salios andavam pela cidade de Roma, dansando ar- 
mados com umas capas chamadas trabeae, cantavam 
versos, como ainda hoje nas danças dos Paulitos ; os 
trebelhos dos costumes da Edade media devem o 
seu nome a esse distinctivo dos Salios ; e por ven- 
tura a designação de stramb, estribillo deriva d essa 
raiz, uma vez significando a parte dansada, outra o 
verso repetido como pé de cantiga. 



l6 HISTORIA DA POESIA 



Por uma phrase attribuida por Aulu-Gellio a Catão, 
chama-se grassaior, aquelle que ia aos banquetes 
cantar versos, tal como nos apparecem os jograes 
nas cortes plenárias da Edade media e nos casa- 
mentos dos príncipes; e segundo Varrão, também 
eram cantados por crianças nos banquetes certos poe- 
metos tradicionaes, carmina antiqua in quibus laudes 
erant majorum. Este costume que fora primitivamen- 
te praticado pelos convivas, foi decahindo até se 
tornar peculiar do grassator ; CatSo refere-se a esse 
uso, do qual diz Cicero : 'tesse cantitata a singulis 
convivis,^ Eram cantos narrativos das façanhas dos 
homens illustres ; e não repugna aproximar deste gé- 
nero as cantitenas de heroes e santos na Edade me- 
dia, cujos rudimentos fixaram a forma do Romance 
e da Lenda. 

Os banquetes lembram as cerimonias funeraes; os 
Romanos cantavam aos seus mortos Naeniae, en- 
toadas ao som da flauta, segundo Festus, mas este 
costume é commum ás raças da Europa, e por isso 
não admira encontrar esses versos fúnebres entre os 
Gregos com o nome de Tkrenos, entre os Scandi- 
navos com o nome de Drapa, entre os Celtas da 
Irlanda com o nome de Coronach, no Beam com 
o nome de Areyto, e em Portugal e Hespanha com 
o nome de Endechas, Por isto se vê que a persi- 
stência de um costume determina diflerentes ma- 
nifestações poéticas similares, sem que um povo 
imitasse ou reproduzisse as canções fúnebres de ou- 
tro povo. Assim como em Roma este uso das Ne- 
nias se tornou uma profissão mercenária de mulhe- 
Iheres, a que chamaram PreficaSy também na Eda- 
de media as Endechas e os Striboli sicilianos eram 
encommendados ás carpideiras de profissão. Nonius 
falia do verso improvisado da Nenia, carnten in- 
canditunt, pago á mulher que a cantava; e Sallen- 



POPULAR PORTUGUEZA 17 

gre aproximâ-a dos usos italianos actuaes. A Egreja 
combateu este uso de bradar sobre finados por pro- 
vir do passado polytheico, e Prudencio allude com 
desdém ás inanes naenias. 

Apesar da preponderância absoluta da classe dos 
patrícios em Roma, reconhece-se que o povo tinha 
uma poesia ligada aos seus costumes sociaes e do- 
mésticos, que transparece através dos documentos lit- 
terarios; Horácio allude aos cantares dos aldeãos e 
camponezes; Marcial falia do cantar dos remadores 
a que se chamava celfusntãy *e vil celeusnta, diz Ru- 
tiliano alludindo á sua tonalidade ; entre os gregos 
estas cantigas dos remeiros chamavam-se érctica. As 
cantigas dos mendigos ou pedintes, os cantares de 
cegos, que o Arcipreste de Hita cultivava, vêm em 
um scholiaste de Horácio á Epistola xvii, do pri- 
meiro livro, apontados com o nome de Cantilena men- 
dicorum; Atheneo também reproduziu duas cantile- 
nas dos mendigos gregos. Os versos improvisados 
pelos namorados são referidos na comedia Curculio, 
e Tibullo allude a elles em uma das suas Elegias. 
Sobretudo os versos satiricos ou de mal-dizer, como 
as sirventes provençalescas, eram bastante vulgares 
entre o povo romano com o nome genérico de Fes- 
ceninos ; Festus attribuia este nome ao feixe que ar- 
dia (ideó dicti quia fascinum putabantur arcere). Se- 
gundo uma passagem de Sérvio commentando a Ele- 
gia lu, equipara o verso fescenino dialogado ao car- 
men amcebeum. Pela liberdade d*estes cantares sati- 
ricos vieram as prohibições dos triumviros a pretexto 
da moralidade dos costumes, permittindo-os apenas 
nas festas dos noivados. Este caracter desenvolto 
das Vodas e Torna-vodas na Edade media acha-se 
também reflectido nas prohibições ecclesiasticas, e na 
intervenção da lei civil nos Tamos (Epithalamios). 
Nos costumes da Edade media estes cantos nupciaes 

Poès popul. a 



l8 HISTORIA DA POESIA 



eram sempre satiricos e obscenos, quando algum 
dos noivos era velho, indo-se fazer-lhe á porta cho- 
calhada ou charivari. Nas entradas triumphaes dos 
generaes romanos eram permittidos os versos de 
chufas aos soldados alegres que seguiam o carro, 
como conta Suetonio. Os próprios imperadores não 
escapavam aos sarcasmos da plebe, como diz Tá- 
cito de Tibério atacado carmina incertis auctaribus 
vulgata; Suetonio também fala dos maios rumores ç: 
convida famosa contra Tibério, Nero e Galba. Era 
este mesmo génio popular satirico que se expandia 
na Edade media contra os Papas, os Reis, e aucto- 
ridades judiciaes, não resultando tanto de um espirita 
de revolta como de uma tendência ou Índole primi- 
tiva. 

Tendo passado para a vida social moderna muitos 
costumes do polytheismo romano, céltico e germâ- 
nico que a Egreja adoptou mudando-lhes o sentido, 
vieram juntamente com elles as cerimonias mais ou me- 
nos dramáticas, a que se iam adaptando novos can- 
tos nos dialectos românicos em que se cantava. Por 
isso pode-se dizer que este fundo poético nunca se 
extinguiu, mas transformou-se sempre por um traba- 
lho espontâneo de imitação instinctiva. 

Desde que a Egreja era o logar onde se encon- 
trava a multidão dos fieis, os cantos populares acha- 
vam um ensejo para se applicarem á expressão de 
um sentimento commum; e por isso o Discantum 
misturou-se ao Canto litúrgico, que na sua forma gre- 
goriana já systematisada provinha de melopêas greco- 
romanas. Um mundo de poesia ia ser creado, na 
musica celigiosa e na Hymnologia, que adoptava o 
verso latino com a forma popular da accentuação e 
da rima. 

Quando César dominou nas Gallias já a civilisação 
céltica, representada pelo Druidismo, estava a apa- 



i 

I 



POPULAR 1'ORTUGUEZA 10 



L^ 



ar-se diante de uma cultura mais elevada, que es- 
ses povos assimilavam. Nos seus Comnuntarios o 
grande general refere-se á enorme quantidade de ver- 
sos que os Druidas ensinavam oralmente em uma 
disciplina que orçava por vinte annos, sendo inter- 
dicto o passal-os á escripta : < Magnum ibi numerum 
versum ediscere dicuntur; it€ujtíe annos nannulli vi- 
cenos in disciplina perfnanent^ (Comm., vi, 14). De 
que constavam esses versos ? Porventura de tradições 
mythicas, históricas, fót mulas medicas, aphorísmos 
moraes, esconjuros e orações? * A obliteração do 
Druidismo como classe politica diante do poder do 
Império, e como classe sacerdotal diante da propa- 
ganda do Christianismo, dissolveu entre o povo es- 
ses homens que se entregavam á magia, os benzi- 
Ihões, os adivinhos e curandeiros com palavras, os 
ensalmadores, os truões que viviam na drudaria, A 
Egreja condemnando estas praticas supersticiosas, 
aponta um grande numero de factos dos costumes e 
crenças célticas, que persistem ainda hoje nas cama- 
das populares da Europa occidental. Na poesia céltica 
da Irlanda creu d'Arbois de Jubainville encontrar a 
quadra na sua forma popular adtual, em versos de ' 
outo syilabas, e com a mesma disposição de rima. 
Era fácil a iUusão de que a quadra provinha de um 
typo céltico ; mas esse typo facilitava a transmuta- 



1 Festns, definindo a palavra Bardo^ diz: €Bardus gallice cantor 
appellatos, qui viromm fortium laudes canit.» A mesma definição 
deixou Ammiano Marcellino (xv, 9): «Bardi virorum fortium res 
egregie gestas heroicis versibus incluserunt, et suavi cantu ad lyram 
cecinerunt » E' para reparar como esta designação se continua no 
^m da Edade media sob a forma de bardanes e aibardãos, aos que 
contavam historias, e mesmo o nome de bordão dado ao verso. 
Esses elementos poéticos entraram como material histórico nas Chro- 
nicas de Nenins e Geoflfroy de Monmuth, vindo d*ahi a serem ela- 
borados na chamada matière de Bretagne^ ou o Cyclo da Tavola re- 
donda, que foi saboreado por todos os povos da Europa. 



20 HISTORIA DA POESIA 



ção de um grande numero de fórmulas poéticas para 
as quadras da versificação românica. A situação da 
raça céltica na época do Império era egual em todo 
o domínio romano ; tal é a conclusão de Fustel de 
Coulanges: «A intelligencia gauleza, a julgarmos por 
todas as manifestações que nos vêm dessa época, 
tem exactamente as mesmas concepções que a do 
Italiano ou do Hespanhol do mesmo tempo. Por toda 
a parte, neste Império, a vida privada e a vida pu- 
blica appresentam os mesmos hábitos. Escholas, lin- 
guagem, litteratura, trabalhos e prazeres, crenças e 
cerimonias, cultos e superstições, em tudo isto a Gallia 
parece semelhante ao resto do Império. Até os Drui- 
das e as Druidessas desse tempo se parecem, traço 
por traço, com todos os adivinhos e mágicos que 
pullulavam então por todas as provincias.» * Esta 
decadência geral dos Celtas da Gallia, da Hespanha 
e da Itália, adaptando-se á incorporação romana, e 
assimilando o Christianismo em parte pela allegoria 
do sacrifício humano de Jesus e também pela ideia 
ou aspiração da immortalidade, preparava essa grande 
crise d'onde sairam as nacionalidades modernas, com 
as linguas românicas ou vulgares e com uma versifica- 
ção d'essa nova prosódia para exprimir uma grande 
riqueza de ideias e de symbolos poéticos. 

O phenomeno da unidade da poesia lyrica obje- 
ctiva, attribuido por Jeanroy á influencia franceza, é 
também observado por Costantino Nigra em rela- 
ção aos Cantares narrativos ou propriamente roman- 
ces communs á Itália do norte, especialmente o Pie- 
monte, á Gallia meridional representada pela Pro- 
vença, e á parte occidental da Hespanha na zona 
ou faixa portugueza. Nos seus trabalhos de 1854 a 



> Fustel de Coulanges, Nouvelles rechtrches sur qtulqtus Probk- 
mts (THistotre^ p. 212. 



POPULAR POKTUGUEZA 21 

1 86o, proclamou Nigra esta unidade da tradição poé- 
tica romanesca, assentando-a sobre os dados ethnicos 
da persistência da raça céltica fusionada com o ele- 
mento romano. E insistindo sobre esta doutrina, es- 
crevia em i888 no prefacio dos Canti popolari dei 
Piemonte: cFui o primeiro que indicou claramente 
a identidade de uma numerosa série de cantos popu- 
lares que são communs aos paizes românicos que tem 
um fundo céltico^ e que não existem em outros pai- 
zes românicos, taes como a Itália media e inferior e 
a Hespanha castelhana. Os futuros commentadores 
da Poesia çoi^\x\2x francesa, provençal, catalã Qpor- 
tugueza, sabem que d ora em diante nenhum estudo 
sobre essa poesia será possível sem que se occupem 
das canções populares da alta Itália, e entre estas 
principalmente o Piemonte.» Nigra observou o facto,' 
que ha dois géneros poéticos populares que separam 
a Itália em duas zonas: a forma subjectiva dos Stram- 
botti e Síornelli, que é caracteristica da Itália infe- 
ferior e média, e a Canzone ou Romance narrativo, 
peculiar da Itália do norte ; este facto leva-o a re- 
correr a uma differenciação ethnica : < A existência 
no Piemonte e em outras partes da Itália superior 
de uma poesia histórica, narrativa, nacional e popu- 
lar, que falta n'esta forma á Itália inferior, é um novo 
argumento para demonstrar a persistência do substra- 
ctum céltico na Itália. A differença profunda que dis- 
tingue por este respeito as duas poesias populares 
da Itália superior e da inferior, não é o resultado 
de circumstancias especiaes, accidentaes e externas. 
E' um facto ethnico.» * E em outra passagem esta- 
belece essa differenciação celto-romana pela impor- 
tância de Aim fundo anthropologico itálico proveniente 



^ Canti popolari dei PiemonU, p. XXVI. Em nota mostra que o 
Cantos narrativos da Sicília são todos de origem litteraría. 



22 HISTORIA DA POESIA 



da raça pre-historica ou autochthone da Europa : cE" 
possível, é também provável que a raça itsdica e a 
céltica tivessem encontrado nas suas emigrações da 
Ásia para a Europa e sobre o solo em que depois 
se estabeleceram, populações de tronco diverso, com 
as quaes successivamente se mestiçaram. Nós admit- 
tintos em principio, que estas populações pre-histori- 
cas e não aryanas, misturadas com os Italiotas e com 
os Celtas, tenham exercido uma acção ainda dura- 
doura no desenvolvimento da serie continua de idio- 
mas daquellas duas raças.» * Simultâneo com a ela- 
boração das línguas dá-se o estabelecimento da z/er- 
siftcação; é nesse fundo pre-árico que temos assen- 
tado os typos e themas poéticos populares communs 
ao Occidente da Europa em presença de um grande 
numero de paradigmas similares lyricos e épicos ou 
narrativos. Pelo exame das investigações da anthro- 
pologia é que se define essa persistência ethnica na 
Aquitania, estendendo-se á França e ás duas Penín- 
sulas itálica e hispânica, verificada pela tradição in- 
consciente. 

As populações ante-áricas que os emigrantes cél- 
ticos encontraram ao nordeste da Itália, quando a 
invadiram vinte séculos antes da nossa éra, forma- 
vam tribus agrícolas e pastoraes^ denominadas os 
VolsqueSy ou Oscos ; dentre essas tribus algumas eram 
guerreiras, principalmente os Marsios, os Sabinos e 
os Samnitas. O significado ethnonymico do nome ge- 
nérico desse povo já nos deixou apontado Van- 
Bemmel ; para a sua occupação agricola e pastoral 
era a situação poética idealisada na tradição uma 
plena realidade, bem como a concepção mythica e 
as festas sociaes do anno estival e hibernal. A mesma 
raça occupava a ilha da Sicilia com o nome de Tyr- 



* /tó/., p. xviii, nota 2. 



POPULAR PORTUGUEZA 23 



rhenos; e ahi existiu uma poesia pastoral, da qual 
fallaram no seu tempo Diodoro Siculo e Atheaeo ; 
este, referindo-se ao bucoliasma, cantado pelos pasto- 
res, e aquelle cá poesia bucólica e melodia que se 
lhe accommoda, género perpetuado até aos nossos 
dias na Sicilia.» (iv, 84.) D'Ancona, considerando o 
canto alternado ou amoebeo como originário da Si- 
cilia, é contradictado por Jeanroy pela seguinte for- 
ma: cnão sustentaremos que este género era exclu- 
sivamente francez, como também não podemos con- 
ceder a M. D*Ancona que elle seja propriamente si- 
ciliano ; é antes uma propriedade contmum de todo 
o território roínanico.^ * E cita para o comprovar 
as romanellas das aldeãs da provincia de Ferrara, a 
Desgarrada de Portugal em que entram cantadeiras, 
e os Dayemans das seroadas de algumas aldeias da 
Lorena. E* sobre este fundo primitivo da população 
dos Oscos que assentou a invasão dos Ombrios na 
Itália do norte, no xiv século antes da nossa éra, ou 
propriamente os Gaulezes cisalpinos. Pelo conheci- 
mento do habitante primitivo da raça gauleza, se re- 
constituem todas essas similaridades ethnicas; segundo 
a descripção de Diodoro Siculo: cOccupavam já os 
paizes inclinados para o Meio Dia ou para o Oceano, 
já sobre os montes Hercynios, emfim occupavam em 
seguida uns aos outros todo este vasto espaço até 
á Scythia (hoje Rússia^. > (v, 33.) O anthropologista 
Lagneau demonstra que o Gaulez é um ramo scy^ 
thico, e appresenta a conformidade do nome Oesiyi 
(antigos habitantes da Esthonia, provincia marítima 
da Rússia, os quaes, segundo Tácito, fallavam uma 
lingua visinha do bretão,) e os Ostiey, antigos habi- 
tantes da Armorica (a Bretanha actual.) Os Asturios^ 
que tinham ao seu occidente os Gallaicos, onde per- 



1 Op. cit., p- 259. 



24 HISTORIA DA POESIA 



sistiu a tradção lyrica assimilada pelos trovadores, 
ligam-se pelo mesmo radical a esse ramo. Isto ex- 
plica as similhanças observadas pelo professor Was- 
selofsky entre as canções populares russas e os Stor- 
nelli e Fiori italianos, e mesmo com costumes por- 
tuguezes, como tem sido notado por viajantes conn 
estudos de ethnDlogia. Assim a communidade de 
cantares narrativos determinada por Nigra entre a 
Itália do norte, a Provença e Portugal (o grupo As- 
turo galecio-portuguez) corresponde a um facto anthro- 
pologico, aproximando como consequência da rela- 
ção entre os Oscos, os Ausci da Aquitania e os 
Eusk da Hespanha. Pela invasão dos Rasenas na 
Itália, no xi século antes da nossa éra, estabeleceu- 
se a civilisação dos Etruscos sobre todo o Latium, 
impondo-se esse caracter á cultura dos Romanos, 
como notou Noél de Verges, ficando assim Roma 
mais apta a absorver com facilidade as raças brancas 
(berbericas) do norte da Africa, os Iberos da Hes- 
panha e os Gaulezes. 

Sobre a invasão asiática no território a que se cha- 
mou a Gallia, o anthropologista Paulo Broca destaca 
esse triangulo da Aquitania como tendo conservado 
sem mestiçagem a sua autochthonia : «Basta-nos sa- 
ber, sob o ponto de vista da ethnologia gauleza, que 
os immigrantes aryanos se apoderaram de toda a re- 
gião que mais tarde teve o nome de Gallia, d exce- 
pção do triangulo comprehendido entre os Pyreneos, 
o Garonna e o golfo da Gasconha,^ * Observando 
que, apesar da introducção dos seus costumes, reli- 
gião e lingua, não poderam apagar o typo indigena, 
que preponderava pelo seu numero, operando-se uma 
mestiçagem, um typo intermediário á raça menor e 
trigueira dos autochthones, e a raça corpulenta e loira 



* Memorias (T Anthropologia^ t. i, p. 395 



POPULAR PORTUGDEZA 25 



dos estrangeiros, unificados na Céltica. E sobre o 
typo aquitanico que re&istiu á incorporação, Broca 
apoia-se na auctoridade de Strabão (iv, i, § i.); 
« Strabão fallando da antiga diviâão da Gallia em três 
partes, conhecidas sob os nomes de Aquitanta, de 
Céltica e *da Bélgica, diz expressamente que os Aqui- 
tantos formam pela sua linguagem e pelos seus ca« 
racteres physicos um grupo completamente d parte 
dos outros povos da Gallia^ e tnais aproximados dos 
Iberos do que dos gaulezes.i * E d*estas caracte- 
risticas fixadas com intuito scientifico por Strabão, 
accrescenta: c ajuntou á curtíssima descripçâo de 
César uma noção cuja exactidão é confirmada pela 
historia, pela linguistica e pela anthropologia: que os 
Aquilanios eram Iberos pelo typo assim como pela 
lingua; que não eram Gaulezes, e qu^ fortnavam na 
Gallia um, grupo inteiramente especial, » A observa- 
ção do geographo grego confirmava-se com a du- 
plicidade da população dos Celtiberes da Hespanha. 
Sobre esta parte notou Broca : «A nação crusada, que 
proveiu d'esta mestiçagem, adoptando a lingua, os 
costumes, a nacionalidade da raça estrangeira, pode 
esquecer por fim até a existência dos seus antepas- 
sados autochthones, cujos caracteres physicos con- 
tinuam a predominar no seu seio ; mas ás vezes lem- 
bra-lhe, como se vê nos Celto-Sc>'thas, de Plutarcho, 
e nos Celtiberos da peninsula hispânica.» ^ E' n'esta 
civilisação celtiberica que os geographos antigos de- 
terminam certos factos ethnologicos, que explicam a 
persistência das tradições poéticas na peninsula his- 
pânica; Strabão (m, 4, § i6) cita os cantos e as cUm- 
sas dos Celtiberos pelo plenilúnio, costume que pas- 
sou para as vigilias dos Santos, sendo esses cantos 



* lòid., p. 405. 
» làid., p. 368. 



26 HISTORIA DA POESIA 



prohibidos pelo xvi Concilio de Toledo (cânon 23); 
Diodoro Siculo compara estes cantos aos Pean gre- 
gos, tornando-se hymnos de guerra, pela sua relação 
com a dansa; e Marcial, nos seus Eptgrammas (iv, 
55) também allude a cantos choraes; Silio Itálico 
falia de velhos ensalmadores, com orações rythmi- 
cas contra o frio, conservando-se ainda esse typo 
das orações numéricas como a que colligiu Marcello 
Burdigalense ; estes cantares, que se repetem nas pra- 
ticas da bruxaria foram mais tarde condemnados pelo 
Fuero Juzgo. 

Faliam de cantos épicos ou heróicos acompanha- 
dos com dansas, Diodoro e Silio Itálico ; são ainda 
representados nas Dances de Aragão, na Muineira 
da Galliza e na Danza prima das Astúrias. O uia- 
latUy referido por Silio Itálico, é ainda o renchilido 
asturiano, e o apupo minhoto. Dos hymnos de guerra 
dos Lusitanos antes de entrarem em combate falia 
o mesmo Diodoro (v, 44), como Appiano das gestas 
heróicas cantadas na morte dos guerreiros, especial- 
mente no funeral de Viriatho. Os Cantabros prega- 
dos em cruzes pelos Romanos, nos seus hymnos de 
guerra insultavam os vencedores, como refere Stra- 
bão. Deve considerar-se como verdadeira a noticia 
de Asclepiades, que diz conservarem os Turdetanos 
Poemas com mais de seis mil annos de antiguidade; 
o que eram esses Poemas pode-se plausivelmente 
presumir, desde que a erudição moderna descobriu 
as navegações athlanticas dos autochthones da Eu- 
ropa, que levaram a civilisação á America, e trans- 
puzeram a Africa, entrando no Golfo Pérsico e civi- 
lisando a Chaldêa. Essas navegações athlanticas fo- 
ram idealisadas em um cyclo poético do qual os gre- 
gos se aproveitaram, transplantando as lendas dos 
Argonautas e de Vellocino para o Mediterrâneo e 
costas da Ásia Menor e Hellade. Nem de outra forma 



POPULAR POKTUGUEZA TT] 

se explica o conhecimento dos poemas homéricos na 
península hispânica, como aiífirma Strabão, senão pela 
sua similhança com as lendas argonauticas. Estes re- 
síduos poéticos não se perderam, transformaram-se ; 
a BeUa Infanta, e Ndo Catherineta dão -nos uma 
vaga ideia do que seria esse cyclo athlantico. No 
povo portuguez ficou sempre a preoccupação da 
grande Ilha encantada, das viagens para oeste, des- 
de que elle se unificou em nacionalidade prosegum- 
do uma acção histórica. Esse característico da poe- 
sia popular cantada e elaborada por mulheres, como 
notara Sarmiento, e se observa na sua própria con- 
textura, era já apontado por Plínio o moço e por Mar- 
cial, as puetlas gaditanas, das tribus turdetanas e que 
depois no xvi concilio toledano se condemnava por 
Turpê cantus. D. Joaquin Costa no seu estudo da Poesia 
popular hespanhola commenta lucidamente estes ve- 
stígios que authenticam a existência de uma vivíssi- 
ma poesia entre os povos celtiberícos. E' sobre este 
fundo que assenta a similaridade dos cantos italianos 
e francezes ; modifica a theor a de Nigra accentuando 
mais o elemento ibérico ou a persistência da Aqui* 
tania. 

A occupação dos Romanos na Península hispânica 
exerce-se na preponderância militar e administrativa; 
fortificam os costumes socíaes dando lhes a garantia 
de municípios, cujo typo encontraram, mas não in- 
fluem directamente no caracter ethnico das raças. 
Accidentalmente é que implantando o systema do 
Colonato, admittem tribus vagabundas, taes como de 
Alanos e Scythas, a quem dão terras, e estes po- 
vos tornados sendentarios eram restos de calamidades 
de guerra, dos antigos autochthones. Não modifica- 
ram pois o typo ibérico. A acção romana, simultânea 
cora a da Egreja depois do século ii, consistiu na 
disciplina syntaxíca dos dialectos célticos na forma- 



28 HISTORIA DA POESIA 



ção dos novos dialectos, que futuras nacionalidades 
iam transformar nas Lingtias românicas, E' reconhe- 
cido o facto de appresentar a Poesia popular por- 
tugueza um caracter mais archaico do que a dos ou- 
tros estados hispânicos. D. Joaquim Costa, mostrando 
a extensão da Lusitânia, fundado na afíirmação de 
Plinio (iv, 2i) que a do Guadiana ao Promontório sa- 
cro dominam os Lusitanos», e que estes também ti- 
niam sido transplantados pelos Romanos para a região 
á direita do Tejo, (iii, i, § 6) chega á conclusão : 
<^ existe na Lusitana uma região não muito extensa, 
que offerece ao historiador uma importância excepcio- 
nal : i.° Porque nella se conserifaram mais tempo, 
do que em nenhuma outra parte da Peninsnla o culto, 
a lingua e os costumes dos primitivos hispanos ; e 
2.**, porque devido á sua situação, teve de ser co- 
mo medianeira entre a Betica e a Celtiberia ; re- 
ferimo-nos á metade inferior da Lusitânia extreme- 
nha, NO da Tartesside, extensa umas vinte ou vinte 
e duas léguas em quadrado . . . > * Em nota appre- 
senta a observação do archeologo Hubner «que a 
civilisação romana não chegou a penetrar profunda- 
mente nas comarcas montanhesas da Lusitânia fora 
do recinto das suas colónias.» * 

Aos Romanos seguem-se as invasões das tribus 
germânicas na Peninsula ; estas pelo seu numero do- 
minaram por completo, cruzaram-se com a raça e 
população dos Celtiberos, e crearam a Monarchia vi- 
sigótica e ainda a sua restauração neogotica. Esta 
transformação foi profundissima, porque além da mo- 
dificação anthropologica, os chefes germânicos con- 
tinuaram a acção romana na unificação politica im- 
perial, fortificada também pela unidade catholica. Os 



1 Poesia popular espaihla^ p. 319. 

' Ibid. — Boletin de le Acad. de Ia Historia de Madrid, i. 



POPUI-AR PORTUGUEZA 2Q 



povos germânicos que invadiram a Hespanha, já ti- 
nham estacionado por algum tempo na Itália, já ahi 
temperaram a sua barbárie ante a civilisação latina: 
os Vândalos occupavam a Betica, na Andaluzia ; os 
Alanos (que são considerados de raça scythica) fixa- 
ram-se na Lusitânia; e os Suevos na GalUza. Tal é 
testemunho de Idacio. 

Os Suevos acharam-se tempo depois senhores ex- 
clusivos da Península hispânica, porque os Vândalos 
e Alanos foram atacar e destruir o poder romano 
no norte da Africa. Têm fundas consequências estes 
factos ; por que as tribus berbericas que vieram de- 
pois com os Árabes á conquista da Hespanha facil- 
mente aqui se firmaram e se cruzaram, appresen- 
tando por vezes o typo loiro. Os Suevos, sem com- 
petidores estabeleceram-se militarmente como domina- 
dores sobre os povos preexistentes, creando uma aris- 
tocracia ou fidalguia, sendo a Galliza uma das pri- 
meiras cortes das nacionalidades peninsulares. Os 
movimentos politicos da Aquitania que fora occupada 
e governada por povos visigóticos fez com que estes 
desenvolvendo-se se dirigissem para a Hespanha, e 
procurassem fixar-se pacificamente. Antes de se es- 
tabelecer a lucta entre Visigodos e Suevos, ficando 
estes depois de derrotados por Thodorico na batalha 
de Urbius confinados no território Gallaico, a banda 
agrícola compunha-se de komens-livres, os ricos ho- 
mens eguaes em dignidade aos que formaram a 
banda guerreira, Crearam-se cidades autónomas com 
os seus costumes juridicos ou Fará, donde provie- 
ram no século xii os Foraes e nos quaes se con- 
servam tantos Symbolos germânicos. Pelo desenvol- 
vimento da banda guerreira, pelas necessidades da 
lucta, decahirani os homens livres das suas garantias 
n essas classes dos lites ou ligios, os Aldyones, os Li- 
danes^ que egualmente apparecem na organisação so- 



3o HISTORIA DA POESIA 



ciai italiana. O antagonismo religioso também se deu 
entre os Suevos, catholicos, e os Visigodos, sectá- 
rios de Ario ou da humanidade de Jesus. O dogma- 
tismo catholico influiu na queda das tradições cul- 
tuaes em elementos poéticos populares. Desviados das 
guerras os Suevos entregaram-se á industria agrí- 
cola e pacifica, prevalecendo aos Cantos de guerra 
as Canções lyricas, d'onde essa iniciativa impulsora 
que á Galliza attribuiu com tanta lucidez no século 
XV o Marquez de Santillana. Nas cidades visigóticas» 
e nas aldeias entre os lites e classes servas conser- 
varam-se as velhas narrativas heróicas. Morguia na 
sua Historia da ^Galliza (i, 256) accentua o facto 
da falta de Romances populares heróicos ou narra- 
tivos n'aquelle paiz : «Aqui en este paiz, ... puede 
decirse que carecemos dei verdadero romance^ como 
si quiere decir de esta manera, que nuestro pueblo 
que algo de profundo é insuparable le separa dei 
resto de la nacion. — ... casi podemos assegurar 
que no se conoce en Galicia el romance. . . » A Ga- 
liza no século xi dilatava a sua fronteira para o oc- 
cidente até ao sul do Douro e pela orla do mar 
estendia-se até além do Vouga; era nesta região 
pacifica, não occupada pelos Árabes, que se con- 
stituía o Condado e Estado de Portugal. Foi nesta 
Galliza do século xi que se desenvolveu esse lyris- 
mo popular na realidade da vida agrícola e pastoral» 
e que havia de dar os typos poéticos ás imitações 
artísticas e cortezãs dos Trovadores. Os Cantos épicos 
ou Romances eram incitados mais pela vida da guer- 
ra com os exércitos sarracenos; n'este asserto es- 
creve Morguia : «Parece que hacia la parte de As- 
túrias, en Rivadeo y Vega dei Castrapol se conser- 
van algunos (romances) escriptos en una desas varie- 
dades dei gallego, natural a nuestros pueblos fron- 
terizos ...» 



' POPDLAR PORTUGUEZA 3l 

Entrando as diversas migrações e invasões das 
raças germânicas na constituição da população da 
Europa moderna, ellas trouxeram comsigo podero- 
sos elementos das suas tradições, costumes e facul- 
dades poéticas para a nova elaboração da Poesia 
vulgar ou das recentes nacionalidades. Apontaremos 
algumas referencias a essas tradições que tão pro- 
fundamente vieram influir na efflorescencia do génio 
épico, nas numerosas Gestas francezas, que se agru- 
param era volta da grande figura histórica de Car- 
los Magno. Tácito, na Germânia, (cap. ii,) traz a 
celebre referencia: ^Cclébrani carméniâns aníiçuis , . . 
originem gentis, conditoresque. » E tal era a vitali- 
lidade d'estes cantos germânicos, que conforme re- 
fere Egiriíard, (c. 29) o imperador Carlos Magno, 
mandara colligil-os: t Barbara et antiquisssima car- 
mina. . . scripsit memoríaeque mandavit.9 Entre estes 
dois testemunhos distam nove séculos ; mas a inten- 
sidade da emoção poética que se não extinguiu 
foi communicada aos povos com quem esse ele- 
mento germânico se misturou. No mesmo século ix, 
o biographo do milagroso bispo Liudger, contando 
como curara um pobre cego, diz que era este cego 
muito estimado pelos seus visinhos porque andava 
de terra em terra cantando das façanhas dos anti- 
gos reis e dos seus combates. N'esses antigos can- 
tos, como refere Jomandes {De Gotk., iv) transmit- 
tiam-se tradições históricas «pene histórico ritu* ; 
este caracter reflecte-se intensamente nas Cantilenas 
ou rhapsodias que se desenvolveram nas grandes 
Canções de Gesta, e nos Romances peninsulares his- 
pânicos, que ficaram rudimentos aproveitados como 
material histórico nas Chronicas geraes. Nos agiogra- 
phos encontram-se referencias a cantilenas germâni- 
cas durante a Edade media; na Vida de S. Faron, o 
panegyrista confessa que o santo já era celebrado 



32 HISTORIA DA POESIA 



em uma Cantilena do século vn.(62o): tcarmenpu- 
blicum juxta rusticitatem per omnium pene volita- 
bat ora ...» Ahi também se allude aos cantos das 
mulheres em coro: «ita canentium femimuque eho- 
TOS . . . > 

Desde que os documentos nos revelam a exi- 
stência de uma poesia do povo em linguagem vulgar, 
é nella que se esboçam as formas que hão de ap- 
parecer nas Litteraturas como próprias, sem sub- 
servivencia aos modelos clássicos, como se tem pre- 
tendido, E' nesta adaptação aos dialectos românicos 
que essa poesia adquire um novo interesse social, 
incitando a fecunda elaboração épica franceza, e crean- 
do viva sympathia em todas as nacionalidades româ- 
nicas para receberem a matéria de França^ como 
no fim da Edade media se chamava ás Gestas car- 
lingias. * E assim como esses carmina barbara rece- 
beram elaboração erudita entre o elemento latino- 
ecclesiastico, como é prova o poema Walfarius, 
também se infiltraram na memoria popular resumin- 
do-se aos seus themas poéticos, quando não recebiam 
pelo canto a forma da linguagem vulgar ou rústica, 
como acontecia com as lendas dos Santos, segundo 
refere Orderic Vital : « Vu/g^o caniiur de illo (S. Gui- 
lherme) cantilena ...» Da poesia das populações 
germânicas veiu para a versificação românica esse 
ornato característico da aliteração. 

Os romances asturianos, hoje coUigidos da tradi- 
ção oral, parecem-se no thema heróico com os por- 
tuguezes das versões oraes da Beira e Extrema- 
dura portugueza, sobretudo nessas populações qujp 
acceitaram a convivência com os Árabes, a que os 



^ Propagadas no século XI quando se estabeleceram as Coló- 
nias írankas em Hespanha, e proponderou a cultura franceza 
por via do alto clero, 



POPULAR PORTUGUEZA 33 



chronistas dos séculos xi e xii chamaram os Mosa- 
rabes. Era natural que nos nossos primeiros estudos 
attríbuissemos toda a elaboração poética popular da 
Península ao elemento germânico; porém o que havia 
de verdade estava prejudicado pela forma absoluta, 
não tomando em consideração as tradições poéticas 
das raças que precederam a germânica, que tinham 
sido assimiladas, mas não destruídas. Assim, o Colo- 
nato romano, os Visigodos vindos da Aquitania, e 
as tribus berberes que na Africa tinham assimilado 
os Alanos e Vândalos, e a vida pacifica dos Mo- 
sarabes ou o germano da banda agrícola, tudo con- 
duzia para a revivescência d' esse typo autochthone 
ou ibérico tão seguramente descripto e differencia- 
do por Strabão. A importância, que ligámos ao ele- 
mento germânico^ não era um absurdo; factos fla- 
grantíssimos conduziam a essa inferência, mas falta- 
ra-nos o processo comparativo com a poesia popu- 
lar italiana e franceza para fixar esse fundo com- 
mum da unidade da tradição «poética sobre que se 
crearam as Litteraturas românicas. Deu-se, é certo, 
uma fecunda crise social, que foi a existência civil 
ou juridica das populações ntosarabes ; e a este facto 
correspondeu uma intensidade de revivescência poé- 
tica, depois do século vii. Como isto coincidia com 
a invasão dos Árabes na Hespanha, e com a sua 
tolerância religiosa e politica, aconteceu também que 
von Schack na sua obra Poesia e Arte dos At abes 
êtn Hespanha e Sicilia^ fosse levado a attribuir á in- 
fluencia dos Árabes a unidade das manifestações da 
poesia lyrica popular communs á Itália, França, Hes- 
panha e Sicília, determinando a elaboração litteraria 
dos Trovadores, (ii, 202.) Chegou mesmo a vêr o 
typo das Bailadas e Serranilhas na forma estrophí- 



i Epopeas da Raça mosarabt^ Porto, 1871 ; i vol. de 378 pag. 
Pões. popul. 3 



34 HISTORIA DA POESIA 



ca das Muvaschaja. Era uma illusão, em que tam- 
bém cahirâ António José Conde explicando a for- 
mação do verso de redondilha como de origem ára- 
be. É certo que as populações mosarabes, como re- 
vela Álvaro de Córdova lamentandose, se delicia- 
vam com toadas e contos árabes (versibus et faòellis 
suis delectamur); mas no fundo eram esses cantos que 
só muito tarde entraram nas Chronicas diluidos em 
prosa e depois elaborados litterariamente nos Roman- 
ces do século XV. Sabe-se hoje que um povo não 
adopta a versificação de outro povo, embora se in- 
teresse pelos seus themas poéticos; os recitadores ára- 
bes ou Ravah deram o typo do conto em prosa en- 
tremeado de versos como ainda hoje temos nas nos- 
sas Aravias ou Romances velhos. Notadas as rela- 
ções da população berberica (que era o grosso da 
occupação árabe na Peninsula) com os elementos au- 
tochthones ou ibéricos e vindos da Africa do norte, 
e o seu encontro com Alanos e Vândalos, e con- 
siderada a fonte da poesia semita determinada pe- 
los modernos estudos accádicos, é também plausível 
que a influencia árabe cooperasse com a germânica 
n'essa integração do Mosarabe, que tão bem define 
o Povo hispânico desde a invasão até ás novas mo- 
narchias christãs. 

É esse povo que cria os novos dialectos români- 
cos, esboçados no século xi : o Catalão ^ nas regiões 
orientaes dos Pyreneus, suscitando o Valenciano e o 
Mallorquino; o Castelhano, na Hespanha central, em 
que se unificam as Astúrias, Leão, Aragão e Navarra; 
e o Gallego, que abrange o Condado de Portugal, 
o qual tornado nacionalidade autónoma faz-desse dia- 
lecto uma bella lingua litteraria, o Português, Com 
a creação d'estes dialectos formaram-se também as 
normas prosodicas da sua versificação ; de sorte que 
não sendo a poesia accentuada e rimada anterior á 



POPULAR PORTUGUEZA 35 



creação d'essas línguas, vê-se qual é verdadeiramente 
a sua data histórica, tendo em consideração que os 
themas poéticos vêm de um passado remotíssimo, 
adaptando-se sempre a novas situações sociaes e mo- 
raes. Essas linguas correspondiam a organismos na- 
cionaes, que se esboçaram ; a poesia, á medida que 
o separatismo politico se estabelecia, conservava a 
unificação tradicional de um mesmo e grande povo. 
Na Crónica rimada já se destacam individualisados 
os Portuguezes e Gallegos, os Leonezes e Asturia- 
nos, os Castelhanos e os Extremenhos. Todos elles 
têm as mesmas tradições, os mesmos themas e ty- 
pos poéticos, mais archaicos uns, mais obliterados 
outros, mais perfeitos ou artisticos alguns, mas nenhum 
sendo o iniciador poético dos outros povos. Murguia 
notou a differença da tradição poética da Galliza, 
exclusivamente lyrica ; D. Agustín Duran maravilhou- 
se da similhança dos Romances asturianos, aragone- 
zes e castelhanos. Suscitado pelo conhecimento dos 
Romances colligidos em Portugal por Garrett e na 
Catalunha por Aguiló, concluía: «que semelhantes 
composições correram e circularam por toda a Pe- 
nínsula ibérica nos seus respectivos dialectos 

oralmente ainda se referem os Romances entre os 
povos comprehendidos desde o Ebro até aos Pyre- 
neus.> E notando o não se encontrar nas collec- 
ções dos Trovadores a forma de Romances narrati- 
vos, explica o facto pelo desdém dos eruditos e im- 
portância dos documentos escriptos de preferencia 
á compilação dos cantos oraes: «As coUecçÕes de 
Trovas provençaes foram tiradas de Códices e não 
da viva voz do povo; se a esta se recorresse na 
Provença ahi se encontrariam também Romances, 
tão inesperadamente como se encontram na Cata- 
lunha, em Valência, nas Ilhas Baleares e nas faldas 
do Pyrineo limitrophe, onde se conserva a lingua 



36 HISTORIA DA POESIA 



d'oc. Em tal caso pode bem crêrse que a combi- 
nação métrica do Romance chegou a ser em toda 
a Península hispânica e no meio dia da França o 
instrumento mais geral, se não o mais adoptado para 
conservar as tradições vulgares entre o povo que as 
possuía ou inventava. » * Somente no século xv é que 
os Romances castelhanos começaram a ser còUigi- 
dos da tradição oral popular; este tardio interesse 
revela quanta riqueza se perdeu desde que os dia- 
lectos românicos da Hespanha deram expressão ás 
tradições poéticas. Que essa poesia era vivíssima en- 
tre as povoações peninsulares provam -o as referencias 
constantes dos Concilios, que a condemnavam comba- 
tendo-a como ligada aos costumes polytheicos. São 
os documentos ecclesiasticos uma fonte de consulta 
para este trabalho reconstructivo. 

A nova doutrina proselitica do Christianismo 
actuou directamente sobre as formas da poesia e 
da musica popular; a carta de Plinio o moço a 
Trajano (x, 97) refere que os christãos se reuniann 
ao alvorecer e cantavam alternadamente de Christo^ 
como se fosse um Deus ; e conforme o testemunho 
de Philon, apontado por Eusébio, esses cantos 
eram em dois coros separados de homens e mulhe- 
res. Nas Capitulares do arcebispo de Tours no se- 
culo IX, falla-se do estribilho do kirie «z//m inchóan- 
tibus, mulieribus respondentibus» em uma cerimo- 
nia funerária. 

Esta forma chorai apparece reflectida na poesia 
popular, como se vê no canto aragonez Ay un ga- 
lan nesta villa; e por ventura a rima masculina e 
a rima feminina foram assim chamadas desta an- 



* Leyenda de las três toronjasy pag. vi. Somente passados seis an- 
nos é que em 1866, Damase Arbau publicou em Aix, os Cantos, 
populares da Provença, confirmando aquella previsão. 



POPULAR PORTUGUEZA "ÒJ 



tiga fórma musical. A tendência para a poesia po- 
pular invadir o culto christão na sua liturgia era tão 
forte que no século iv, o cânon 15 do Concilio de 
Laodicêa prohibia o canto aos que não fossem psal- 
mistas canónicos. As melopêas adoptadas pelo papa 
S. Dâmaso, oriundo da Lusitânia, e por Santo Am- 
brósio, natural da Liguria, não foram colhidas na 
musica grega, mas nos Descantes populares, gérmen 
de todo o desenvolvimento do canto ecclesiastico, 
deturpado depois pelo cantochão. Pela preponde- 
rância do canto nos versos dos hymnos religiosos, 
como se vê pelo manuscripto de Saint Gall, do se- 
cu'o IX, a accentuação impunha-se simultaneamente 
á métrica latina e á vulgar. * Desde que as linguas 
românicas se tornaram aptas pelo desenvolvimento 
nacional e litterario para a poesia, os cantos reli- 
giosos resentiram se d'esse novo vigor, admittindo a 
differença dos intervallos, caracterisando o Discan- 
tus, libertando-se as melodias das tonalidades gre- 
gorianas. Escreve Félix Clément na Historia geral 
da Musica religiosa- cE para notar que o Des- 
cante foi applicado de preferencia aos assumptos 
profanos, ás canções, ás poesias em lingua vulgar, 
emquanto a Diaphonia era reservada ao canto li- 
túrgico ...» Os que cultivavam esta transformação 
eram os troveiros sabidos dentre o povo, como 
Adam de la Halle, e outros, que ornamentavam as 
melodias simples com neumas e trillos; seguiram 
essa corrente os trovadores aristocráticos, tirando 
assim dos velhos cantos as formas lyricas proven- 
çalescas. Por esta communhão de origem explica-se 



* «In omni textu lectionis, psalmodiae, vel cantus, accentus sive, 
<:oncenttts verborum (in quantum suppetlt facultas) non negUgatur 
quia exinde maximè redolet intelleclus.» — «Si vero convenerint 
n unam accentus et melodia, communiter deponantur.» 



38 HISTORIA DA POESIA 

a relação dos cantos dos troveiros e jograes com 
o povo, e ulteriormente com os trovadores cujas 
canções vulgarisavam. Também a invasão de can- 
ções populares, que se misturavam com o cantochão, 
influiu para se conservar na Egreja o costume das 
dansas hieráticas; no cânon 23 de Concilio toledano 
se estabelece: «E preciso abolir o detestável costu- 
me que tem o povo de se entregar á dansa, e de 
cantar cânticos grosseiros nos intervallos das ceri- 
monias religiosas.» Ma& as prohibições dos papas, 
dos concílios e das constituições episcopaes foram 
impotentes até ao Concilio de Trento, coadjuvado 
na sua execução pelo poder monarchico. 

Reagindo a Egreja contra a civilisação greco-ro- 
mana, também combateu os costumes populares que 
mais se ligavam aò polytheismo. Marciano Capella, 
na De Nuptiis Philologiaey falia da persistência do 
carmen nupcial cantado por crianças; e no concilio 
sy nodal de Vannes de 465, foi prohibido aos eccle- 
siasticos o assistirem ás festas de bodas. Continua- 
vam-se a cantar as Ballistea ou versos emparelha- 
dos rythmados pela dansa; uma Capitular de Chil- 
derico iii, de 744, prohibiu os cânticos injuriosos, a 
que também alludem disposições do Concilio Eliberi- 
tano. Muitas d estas cantilenas rythmicas repetiam-se 
de terra em terra «quae per urbes Franciae ín pla- 
teis et compitis cantitantur,» como diz em uma 
carta S. Ivo, a propósito de um certo bispo.. Para 
comprovar amplamente a existência de uma forte 
poesia popular na baixa Edade media basta per- 
correr os padres da Egreja e os Concilios nacionaes. 

No seu sermão 311, falia Santo Agostinho das 
cantigas e danças nocturnas; o Concilio de Narbonne 
de 589 prohibe as vigilias dos santos, que o povo 
fazia ^saltationibus et turpibus caníicis;> outros con- 
cilios classificavam estes cantares turpia atque lu- 



ií. 



POPULAR PORTUGUEZA 3 9 



xuriosa (Cone. de Mayence, de 813); e o sexto de 
Paris, obscena et iurpta. Estas prohibições revelam 
a intensidade do costume popular; assim no Conci- 
lio de Treves, de 1227, recommenda-se aos padres 
cnon permittant irutanos, et alios vagos scholares^ 
aut goliardos cantare versus... in missis.» Aqui se 
manifestava uma classe intermédia ao povo e aos 
eruditos latino-ecclesiasticos ; nella se conservaram 
os typos poéticos da tradição popular, que pene- 
traram depois nos Cancioneiros aristocráticos. As 
formas do refrem repetido no fim dos versos, e 
mesmo os versos repetidos invertidamente, a que se 
chamava palinod, apparecem transportados das can- 
ções do povo para as Prosas ecclesiasticas e para 
as Canções das cortes. Os Descorts ou a mistura 
de linguas nas canções provençaes apparecem esbo- 
çados nos cantos farsis, que o povo misturava com 
as orações canónicas. As cadencias musicaes impu- 
nham ao verso as cadencias rythmicas por syllabas 
contadas, e assim a acentuaçcU) passava do uso po- 
pular espontâneo para as classes cultas como defi- 
nitivo systema poético. A systematisação da reli- 
gião christã no Catholicismo, estabeleceu-se sobre 
a persistência dos costumes polytheicos de que a 
Egreja por allegorias e evhemerisação fez dogmas 
theologicos e ritos cultuaes. Essa unidade dos cos- 
tumes das raças que occuparam a Europa servira 
para a propaganda da nova doutrina, já pelo culto 
do Fogo, que se adaptava á festa do Natal, já pe- 
las doutrinas mithriacistas que levavam ás cerimo- 
nias da Paixão, já pelo culto hetairista das Deusas- 
Mães, que se renovava mais, tarde na idealisação e 
adoração da Virgem, Mais próximo destes ele- 
mentos polytheistas áricos, avesticos ou chthonianos, 
o Martyr S. Justino podia ver n'elles um presenti- 
mento do culto de Jesus entre gregos e bárbaros; 



40 HISTORIA DA POESIA 



c Santo Agostinho com toda a sua lucidez philoso- 
phica proclamava, que o que se chamava religião 
christã já existia entre os antigos (quae nunc Relt- 
gio christiana nimcupaiur, erat apud antiquos). Os 
bellos trabalhos de erudição de Jacob Grimm, de 
Khun, de Schwartz, de Max MuUer, de Liebrecht, 
accumularam todo o material ethnico para a recon- 
strucção doestes polytheismos, mostrando ainda a sua 
assombrosa persistência nos costumes domésticos e 
sociaes, nas superstições, nos cantos e dansas po- 
pulares da Europa. E Emille Burnouf no livro da 
Sciencia das Religiões, passando das cerimonias vé- 
dicas para o christianismo, mostra como a conce- 
pção primitiva do anno solar, e sua divisão em duas 
épocas ou estações, a estwal ou Entrada do Verão 
e hybernal ou Entrada do Inverno, são a base ge- 
nésica dos ritos da Egreja catholica. Esta concepção 
donde deriva o pensamento commemorativo da Pas- 
choa, annualmente, é representado diariamente na 
alternância do Dia e da Noite, no dualismo anta- 
gónico da luz e das trevas, celebrado na consagração 
da Miâsa. 

Como observa Burnouf, o Solsticio do Inverno é 
quatro dias antes do Natal, e o Solsticio do Verão é 
quatro dias antes do São João ; o nascimento de 
Christo coincidindo com o solsticio hybernal reves- 
tiu-se de todas as manifestações de immemoriaes 
costumes, vivificando-se o mytho que decahia no 
automatismo popular. O renascimento do Fogo, é o 
nascimento de Agni, do cordeiro de São João, cele- 
brado nas festas d'este santo * Os cantos populares 
da Europa da Edade media, e ainda actualmente, ce- 



* Tratado este facto nas Origens poéticas do Christianismo^ 
p. 253 a 296. Porto, 1880. Nove nnnos antes da obra de Jean- 
roy, de 1889. 



POPULAR PORTUGUEZA 4I 

lebram com dansas e melodias estas festas de Abril 
(abertura do anno solar), das Maias (Maieroles) das 
Reverdies, o renascimento da vida campestre. É 
em volta destes costumes populares, de origem po- 
lytheica e allegorisada na organisação cultual do 
Catholicismo, que todas as manifestações do génio 
lyriro europeu se improvisam e repetem, como the- 
9nas tradicionaes^ que já não dependem da concep- 
ção astronómica, mas que ainda subsistem poetica- 
mente á par dos ritos da Egreja. N'este sentido, 
apesar de a Egreja combater muitas costumes po- 
lytheicos que considerava como superstições, por esta 
conformidade dos ritos da Paschoa e Natal imprimiu 
mais indelével esse caracter de unidade aos themas 
lyricos e épicos da poesia popular da Europa. E á 
sombra dos costumes que se não poderam extinguir 
deu-se-lhes uma côr christã nas santificações locaes, 
os Patronos canonisados, que eram os Genius loci; 
e mesmo ampliando as festas de San João, primei- 
ramente solsticiaes, nas de Santo António e de San 
Pedro. Teve portanto o Christianismo, como nova 
synthese affectiva, uma acção de revivescência nas 
faculdades estheticas das populações europêas ; de 
um modo indirecto, procurando pela propaganda de 
uma doutrina monotheica a decadência dos Mythos 
^reco-romanos, dos Mythos das raças dos Celtas, dos 
Iberos, dos Germanos, dos Slavos e dos Scandina- 
vos. Todo este mundo de credulidade ingénua não 
se extinguiu na imaginação popular, subsistiu como 
material poético, tratado com espontaneidade irre- 
sponsável, syncretisando-se, completando-se, divertin- 
do, consolando, aqui dando thema para cantares, além 
para contos maravilhosos e lendas agiologicas, umas 
vezes decahindo em superstições, em allusões mal 
comprehendidas, em jogos e fórmnlas de imitação 
infantil, regressando á confinação domestica ou con- 



4 2 HISTORIA DA POESU 



vertendo-se em divertimentos públicos. Os successos 
do tempo occorrentes, o estabelecimento das classes 
e cathegorias sociaes, emfim a formação espontâ- 
nea de uma nova ordem no mundo civil vão coope- 
rando para uma nova idealisação, donde ha de ful- 
gir a Poesia moderna inspiradora de todas as for- 
mas de uma Arte humana. Este laboratório social 
cria as condições para uma alta floração dos espí- 
ritos: apoia-se no sentimento. 

Na transformação da sociedade antiga para a Eda- 
de media, o movimento catholico é tão importante 
como o intellectual, ou propriamente scientifico e 
philosophico ; sob o aspecto social esse movimen- 
to catholico resulta da idealisação dos costumes 
que tendem á estabilidade, e elabora os germens 
tradicionaes que se tornaram os ulteriores themas 
das altas manifestações artísticas das individualida- 
des geniaes. Comte viu lucidamente a importância 
d'este factor esthetico «em rasão dos germens ne- 
cessários de um poderoso ascendente ulterior.» * As 
faculdades estheticas, na transição para o mundo mo- 
derno encontravam um novo meio social para a idea- 
lisação: primeiramente o Christianismo dava ao crente 
o sentimento da %\x^ personalidade, que se acha re- 
velado nas canções amorosas que foram os germens 
do lyrismo trobadoresco; a existência domestica 
assentava em uma mais pura affectividade, em que 
a mulher se destacava sob o influxo sympathico até 
ao culto da Virgem-Mãe; e em quanto á collectivi- 
dade social, a concórdia das vontades preparando 
para a unificação nacional creava um órgão de ex- 
pressão e de apoio em uma lingua commum, que 
embora rudimentar exercia-se em generalisar espon- 
taneamente esse ideal social para que se tendia. A 



* Curso de Philosaphia positiva^ vi, 145. 



POPULAR PORTUGUESA 



Poesia é a Arte por excellencia, a primeira na sé- 
rie esthetíca, e o elemento inspirador de todas as 
outras pela representação e concepções que elabora 
com a simplicidade natural de seus meios de ex- 
pressão. O phenomeno da Poesia popular, além de 
ser um facto complexo da Ethnologia, é uma base 
essencial de toda a crítica da Esthetica, e uma das 
mais sinceras manifestações subjectivas da humanida- 
de, um inesgotável documento psychologico para a 
Philosophia. 

Como manifestação das faculdades estheticas, dian- 
te dos novos elementos da civilisação moderna que 
começava, era a Poesia a que primeiro se revelava, 
pela generalidade dos seus meios de expressão, e 
singular independência dos recursos technicos. Os 
cultos de expiação e as grandes calamidades sociaes 
de invasões de bárbaros sobrexcitaram no homem 
uma sensibilidade e uma maior intensidade da re- 
presentação subjectiva. Esta sentimentalidade dava 
uma nova visão do mundo, sobre a qual se exer- 
ciam imprevistas idealisasões, principalmente pelo 
syncretismo de velhos elementos mythicos, lendários 
e vulgares que se prestavam na sua decadência ca- 
nónica a interpretações imaginosas. É por isso que 
a Poesia moderna começou por uma excessiva idea- 
lisação popular, por uma riqueza de themas mythi- 
cos, antes mesmo de attingir o desenvolvimento das 
Linguas modernas para exprimir com todas as bel- 
lezas estylisticas essa assombrosa creação da espon- 
taneidade esthetíca. O desenvolvimento subsequente 
das Litteraturas consistiu em dar expressão perfeita 
aos rudimentos ou esboços da idealisação popular. 

Comte viu claro, quando em poucas linhas traçou 
o logar preponderante da Poesia na série esthetica ; 
«Embora as suas impressões próprias sejam menos 
enérgicas, o seu domínio é, evidentemente, o mais 



44 HISTORIA DA POESIA 



extenso, pois que elle abrange toda a nossa exi- 
stência, pessoal, domestica e social. Como as artes 
especiaes, a Poesia representa os nossos actos, e 
sobretudo os nossos sentimentos de preferencia aos 
nossos pensamentos; mas, portanto ella só pode 
exercer-se também sobre as nossas concepções as 
mais abstractas sem se limitar a formulal-as melhor, 
propondo-se a embellezal-as. No fundo, é mais po- 
pular* do que nenhuma das outras Artes, antes de 
tudo por esta sua aptidão mais completa, e depois 
pela natureza dos seus meios de expressão, imme- 
diatamente hauridos da linguagem usual, o que a 
torna desde logo intelligivel a todos. A versificação 
é seiíí duvida, indispensável a toda a verdadeira 
poesia, mas não constitue uma arte especial. Apesar 
da sua forma distincta, a linguagem poética não é 
mais do que um simples aperfeiçoamento do idioma 
vulgar, do qual não differe senão por fórmulas me- 
lhores. — Além de que comporta mais generalidade, 
espontaneidade e popularidade, a Arte por excel- 
lencia é tShibem superior a todas as outras, quanto 
á sua commum formação característica — a idealisação. 
De todas ellas é a que idealisa mais, e ao mesmo 
tempo a que imita menos. Por estes títulos a Poesia 
dominou sempre as outras Artes, e a sua preemi- 
nência sobresahirá cada vez mais á medida que as 
predilecções estheticas se ligarem sobretudo á idea- 
lisação, sem conceder importância de mais á expres- 
são. » * É este característico que aproxima os extre- 
mos, a poesia popular e a poesia philosophica, ante- 
pondo á expressão ou exclusivismo da forma, a con- 
cepção do universo segundo as capacidades respec- 
tivas da idealisação. E por isso que nas fontes gene- 
rativas da Poesia moderna, encontramos na Edade 



• Systcme de PoUtique positive ^ i, 292. 



POPULAR PORTUGUEZA 



media uma amplíssima idealisação popular antece- 
dendo todos os recursos da expressão, porque os 
novos dialectos românicos, incertos pela instabili- 
dade social, mal se definem nos seus organismos 
antes de se estabelecerem as collectividades nacionaes 
e a consequente disciplina grammatical. Todo o tra- 
balho da evolução das Línguas românicas deve con- 
siderar-se como um esforço preliminar e orgânico 
para uma decidida elaboração esthetica, que se re- 
tardava pela dependência da expressão. Comte obser- 
vou com nitidez esta dependência das bellas artes : 
cEste desabrochar espontâneo teve de ser por longo 
tempo embaraçado por uma lenta e penivel opera- 
ção preliminar, cujo indispensável cumprimento de- 
via preceder, necessariamente, a expansão directa 
do génio poético : concebe-se, que se trata da ela- 
boração fundamental das línguas modernas, em que 
se deve ver, pelo que entendo, uma primeira inter- 
venção universal das faculdades estheticas. 

cAs línguas resultam sobretudo, como se sabe, de 
uma lenta elaboração popular, em que se manifes- 
tam sempre profundamente os diversos caracteres 
essenciaes da civilisação correspondente ; isto é so- 
bretudo evidente quanto ás línguas modernas, em 
que o predomínio crescente da vida industrial e o 
ascendente gradual de uma racionalidade positiva 
são fielmente pronunciados. Mas esta origem vulgar 
de nenhum modo impede o concurso necessário da 
influencia mais regular espontaneamente emanada dos 
espíritos de elite, e sem a qual um tal trabalho uni- 
versal não conseguiria adquirir nem a estabilidade, 
nem mesmo a coherencia indispensável ao seu des- 
tino final. Ora, n'esta intervenção permanente do gé- 
nio especial para a sancção e revisão da elaboração 
popular fundamental, logo que esta se acha sufficien- 
temente avançada, importa reconhecer em geral, que> 



46 HISTORIA DA POESIA 



apesar da inevitável participação simultânea dos nos- 
sos diversos modos de actividade mental, a opera- 
ção depende sobretudo, por sua natureza, das fa- 
culdades estheticas propriamente ditas, como sendo 
ao mesmo tempo as menos inertes na maior parte 
das intelligencias e aquellas cujo exercicio exige o 
maior aperfeiçoamento da lingua commum. Esta pro- 
priedade necessária torna-se cada vez mais eviden- 
te, quando se trata não da creação espontânea de 
uma lingua original, mas da transformação radical 
de uma linguagem anterior em consequência de um 
novo estado social.» * É n'esta phase activa de ela- 
boração das linguas românicas, que nem a Egreja 
nem os eruditos comprehenderam quando continua- 
ram a escrever em latim, que Augusto Comte de- 
termina a manifestação do génio esthetico moder- 
no : «Essencialmente destinada á representação uni- 
versal e enérgica dos pensamentos e dos aflfectos 
inherentes á vida real e commum, nunca o génio 
esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua 
morta, nem mesmo estrangeira...» Concebe se en- 
tão facilmente como a sua actividade especial devia 
estar, na Edade media, tão longo tempo occupada 
sobretudo a accelerar e a regularisar a formação 
espontânea das linguas modernas, que deve ser 
principalmente referida aos esforços assiduos destas 
mesmas faculdades, ás quaes uma superficial apre- 
ciação attribue uma espécie de lethargia secular, ao 
mesmo tempo que ellas assentavam também os fun- 
damentos geraes dos monumentos mais característi- 
cos na nossa sociabilidade europêa. O retardamen- 
to inevitável que devia resultar para a expansão di- 
recta das producções estheticas, não affectava in- 
mediatamente senão a poesia, propriamente dita, e 



l Curso de Philosophia positivo vi, 151 



POPULAR PORTUGUEZA 47 



accessoriamente a arte musical ...» É n'este longo 
período da elaboração das línguas românicas para 
a perfeição litteraria, que a Poesia limitada á ex- 
pressão oral, entre o povo, se exerce em uma idea- 
lisação espontânea sobre o passado repetindo as 
tradições, e sobre a vida presente consagrando os 
costumes da nova sociabilidade. Uma Historia da 
Poesia popular de qualquer das nacionalidades mo- 
dernas é o estudo dessa idealisação dos themas tra- 
dicionaes a que as Litteraturas vieram a dar ex- 
presão. 

Os costumes do povo, as suas crenças e super- 
stições, as concepções do mundo e mesmo formas 
mythicas que ainda conserva na sua psychologia mais 
emocionista do que reflectida, correspondem a um 
estado poético bem digno de estudo. São objecto de 
uma sciencia preliminar dos estudos sociológicos, a 
Ethnographia. Devemos porém restringir a Poesia 
popular ás formas definidas pelo verso, á creação 
de uma métrica desenvolvida com o próprio pro- 
gresso da lingua nacional, fixando os typos estheticos 
rudimentares (jue foram os elementos generativos 
dos géneros litterarios e artisticos. 

Se á existência histórica começa na Península his- 
pânica com os Romanos, diS formas sociaes modernas 
começam a definir-se no século viii, pela acção da 
invasão dos Árabes. Essas formas são os rudimentos 
germânicos da Monarchia visigótica, no seu estatuto 
Urritorialy e no seu estatuto pessoaL 

As liberdades territoriaes manifestam-se nas po- 
pulações mosarabes, que se mantiveram em conta- 
cto com os Árabes, nos burgos, nas aldeias, e quando 
mais tarde essas populações foram incorporadas na 
reconquista christã, as suas garantias costumeiras 
foram reconhecidas solemnemente por um contracto 
escripto e jurado — a Carta de Foral, ou Carta puebla 



48 HISTORIA DA POESIA 



O facto da resistência militar do elemento aristo- 
crático contra os Árabes, fez com que o estatuto 
pessoal se definisse nos privilégios da fidalguia, no 
Foro velho de Castello; e a Realeza, procurando re- 
staurar a antiga soberania germânica, formulou um 
supposto Código j que se chamou visigótico j mas 
que não teve realidade histórica. Nesta classe senho- 
rial entra a Egreja hispânica. 

Estes dois elementos tendem a integrar se na for- 
mação dos Estados ou Nacionadades peninsulares, 
separando-se como classes ou ordens, a que mais 
tarde se chamou braço, É neste período que vae 
do século VIII ao século xi, que o Estatuto territo- 
rial se reconstitue, e mesmo na reconquista preva- 
lece. O estabelecimento da Corte como centro da 
vida aristocrática só veiu a preponderar quando as 
necessidades da guerra contra os Árabes foram aca- 
bando. Os reis neogodos especialmente Affonso vi 
de Castella, chamam Cavalleiros francezes para a 
Cruzada anté-islamica, e Colónias frankas para as 
terras conquistadas. A influencia franceza esteve li- 
gada á Egreja romana, que na Peninsula se impoz 
á Egreja mosarabe. E n'esta dupla corrente social que 
se esboçam as phases primeiras da Poesia popular. 

Do século VIII ao século xi, persistindo os velhos 
themas tradicionaes, a estabilidade social dá logar 
a que esses costumes do canto, da dansa e do verso 
se revivifiquem; é neste período, em que as Serranas 
ou Pastorellas estão em harmonia com a vida agri- 
cola e pastoral, e as Orações e hymnos religiosos em 
concordância com o culto christão. Os Cantos nar- 
rativos são themas de uma sociedade extincta, .que 
sobrevivem não comprehendidos, como a Silvana^ 
a Infantinay etc, e as Lendas dos Santos, como a de 
Iria; o Drama consiste nas paradas, como a Dansa 
do Boi, na saudação do Anno novo, nas Endechas 



POPULAR POHTUGUEZA 49 

dos mortos, etc. Estes numerosos documentos poé- 
ticos não foram escríptos, mas acompanhavam a 
formação dos dialectos românicos peninsulares, e 
chegaram a uma época em que ficaram abandona- 
dos á rudeza popular. Novos interesses appareciam : 
os successos maravilhosos da reconquista christã, as 
façanhas do Cid Campeador, de Bernardo dei Car- 
pio, as vinganças terríveis, como o thema dos Sete 
Infantes de Lara, tudo isso suggeria uma curiosidade» 
que só podia ser satisfeita por uma classe de nar- 
radores ou Cantores, que redigindo essas scenas e 
aventuras em um metro declamado ou resado (o 
octonario) crearam esse typo do poema, de que po- 
deríamos considerar um modelo o Poema da Bata- 
lha do Salado, ou de JUfonso Onceno. O narrador 
declama a sua melopêa diante da multidão; como 
essa obra individual é extensa, descriptiva, dialogada 
e com expansões moralistas, aquelles que escutam 
apanham de memoria os trechos que mais impres. 
são causaram reduzindo o quadro aos traços incisi- 
vos, nitidos e fundamentaes da acção. A mesma 
melopêa serve para ajudar a recompor os versos 
esquecidos, deturpados ou aquelles em que as pa- 
lavras cultas são substituídas pelas vulgares mais si- 
gnificativas. E um processo de abreviação, de sim- 
plificação, em que a esthetica popular se imprime 
no incomparável contorno ou quadro épico. É as- 
sim que a obra individual se torna por esta forma de 
assimilação uma obra anonyma, ou propriamente do 
povo. Nos nossos primeiros estudos fixámos estes 
aphorismos, que temos visto confirmados no conhe- 
cimento dos cantos tradicionaes da Europa: 

— A Poesia popular tem sempre uma origem in- 
dividucd (Homerides, Jograes, Menestréis, Troveiros), 
e o povo appropria-se d'ella abreviando-a pela re- 
dacção aos traços geraes simples. 

Poes. popul. 4 



50 HISTORIA DA POESIA 



— O que determina a elaboração poética jogra- 
lesca é a curiosidade grande e o interesse que o 
povo tem em ouvir fallar daquelles successos que 
lhe feriram a imaginação ; esta elaboração foi quasi 
sempre escripta, mas a recitação é de memoria. 

— E pela expressão oral exclusiva, que os cantos 
populares entram na corrente da tradição; acompa- 
nhando as transformações da sociedade e da lin- 
guagem, esses cantos não envelhecem, apesar de 
refletirem muitas vezes costumes extinctos; e ope- 
radas as abreviações iniciaes que se continuam até 
o Canto ficar reduzido a um residuo como o Jte- 
frem em relação ás Canções^ ou como o Romance 
velho, lacónico em relação ás Gestas, começam as 
versões differentes do mesmo quadro a reproduzi- 
rem-se confornie as diversas localidades onde a tra- 
dição persistiu, ou syncretisando variados elemen- 
tos no mesmo quadro poético; e as variantes vão 
também accusando as modificações da linguagem 
nacional e o influxo do ditado individual. 

— N'este syncretismo de themas poéticos, como se 
vê na fusão do Cyclo de Arthur com o do Santo 
Graal, que também se misturam com o Cyclo de 
Carlos Magno, õu como os personagens do Cyclo Car- 
lingio em Hespanha se convertem nos typos de Ber- 
nardo dei Carpio e do Cid, ha uma segunda elabo- 
ração poética popular, em que a degradação dos 
themas tradicionaes é uma renovação effectiva, ten- 
dendo á unificação dos Cantos populares entre na- 
ções que tiveram os mesmos elementos de cultura. 

N'este trabalho de uma psychologia collectiva, a 
Poesia é sempre para o povo um objecto sério ; o 
carmen tem o perstigio sagrado com que se expri- 
me o dogma religioso e a lei civil ou criminal, com 
que se relembra a vida do passado, e se lança a as- 
piração de um ideal messiânico, um Soter, ou Sal- 



POPULAR PORTUGUEZ\ 5l 



vador, quando uma nacionalidade se acha opprímida. 
Viço, fallando das antiqui Júris fabulas dos Roma- 
nos, chama-lhes: tuma severa Poesia.» Estava ahi 
implícita a essência dã vida histórica d esse povo. E 
Jacob Grimm tendo estudado profundamente a Poe- 
sia da raça germânica nas suas crenças, nos seus 
symbolos, costumes, linguagem e tradições, formulou 
a seguinte conclusão, que é a luz methodologica das 
investigações d'este campo : c Podemos afifirmar, que 
nas tradições e Cantos do Povo nós nunca encon- 
trámos uma mentira; o povo respeita-os bastante 
para deixal-os taes como elles são, e taes como elle 
os sabe. Quanto a particularidades e minúcias, que por 
effeito do tempo podem destacar-se e perder-se, assim 
como os ramos isolados se seccam e caem do cimo 
das grandes arvores cheias também de seiva e de 
força, a natureza remediou a cousa n'isso como em 
tudo o mais, tendo o cuidado de reparar as perdas 
por uma eterna renovação.» 

E' complexíssimo este phenomeno em que o cri- 
tério anthropologico, o ethnico e histórico têm de ser 
empregados simultaneamente para a comprehensão 
d*esse vivíssimo documento humano — a tradição poé- 
tica; mas ha um processo psychologico na elabora- 
ção esthetica do povo, mais delicado ainda como 
meio critico a empregar, e mesmo perigoso pelas de- 
clamações metaphysicas de estylismo litterario, a que 
se tem prestado. E' porém imperscindivel esse crité- 
rio, sem o qual nunca será descoberta a verdade his- 
tórica contida nas tradições poéticas. 

O poder de representar o mundo exterior fixando 
a imagem que o synthetisa, constitue a capacidade 
poética ; como facto simples e até certo ponto nor- 
mal chama-se-lhe a faculdade da imaginação. Mas 
não basta representar subjectivamente o mundo ; é 
preciso determinar a imagem como expressão obje- 



52 HISTORIA DA POESIA 



ctiva, tomandoa um symbolo universal, capaz de 
suscitar uma emoção voluntariamente. E' n'esta con- 
versão da imagem em symbolo que começa o tra- 
balho artístico, e em que a ideia de fazer, crear, se 
contém implicitamente na noção de Poesia (poien). 
Exprime a designação de Poesia um estado de im- 
pressionabilidade e de representação subjectiva, sem 
especialisar as formas da expressão das imagens em 
linhas, sons, cores ou movimentos. Pintura e Escul- 
ptura. Poemas, Canções e Dança tudo é matéria de 
Poesia; e conforme o sentimento poético anima es- 
tas expressões, assim são bellas ou mediocres. Como 
a palavra servindo a expressão artistica tem o po- 
der descriptivo da pintura e o rythmo da dança, a 
melopêa da musica e a acção dramática, a palavra 
subordinada á phrase metrificada, pela espontanei- 
dade do seu emprego, e pela relação natural entre 
a imaginação e a rasão, foi denominada quasi que 
exclusivamente Poesia. E' este o uso corrente e de- 
finitivo. 

A mesma linguagem serve para a Poesia popu- 
lar, na espontaneidade das imagens^ e para a Poesia 
artistica em que as imagens tendem a converter-se 
em symbolos universaes. Não ha uma inteira sepa- 
ração entre estas duas manifestações poéticas ; an- 
tes, a Poesia artistica tem de fecundar-se nos recur- 
sos da sua expressão apropriando-se das imagens 
espontâneas com que o povo representa a natureza» 

Na Poesia -do povo ha uma complexidade syncre- 
tica, em que a palavra e o canto, o rythmo da dança 
e a acção se unificam no mesmo destino, mais so- 
cial do que pessoal ; na Poesia artistica, em que a 
emoção se individualisa, as formas implicitas vão-se 
desligando da palavra, que attinge um desenvolvi- 
mento e perfeição própria, constituindo os géneros 
litterarios do lyrismo, da epopêa e do drama. Mas a 



POPULAR POKIUGUEZA 53 

progresso que lhe imprime o génio individual não 
obsta á decadência inevitável, logo que a Poesia 
culta perde o motivo ou destino social, ficando por 
ultÍTno confinada no pedantismo académico. Regres- 
sar ás fontes populares é um processo de saudável 
regeneração; porém esse estado syncretico da Poe- 
sia do povo tem a sua condição psychologica, e é 
n'ella que está a vivacidade inventiva. 

Aristóteles, o extraordinário observador, ao orga- 
nisar a Poética, notou que na nossa natureza existia 
um instincto de harmonia simultâneo com o da imi- 
tação; comprova-se na preponderância de determi- 
nados sentidos sobre as formas de arte. O ouvido e 
a vista são os sentidos da nossa impressionabilidade 
esthetica ; um dá nos o senso musicai, o outro o senso 
pittoresco. Com o decurso do tempo o exercicio de 
cada um destes sentidos pode levar á creação das for- 
mas particulares da Arte, como a Musica, a Dança e 
a Poesia, e como a Pintura, a Esculptura e a Acção 
dramática. Para chegar-se a estas manifestações su- 
premas o senso musical e o senso pittoresco actua- 
ram simultâneos e coadjuvaram-se mutuamente. E' 
na Poesia do povo que se encontra com toda a na- 
turalidade a mutua acção do senso musical com o 
pittoresco. 

A Poesia, a Musica e a Dança nascem do mesmo 
rythmo, que subordina os movimentos, que fixa a 
phrase ou cadencia melódica, e que estabelece a 
métrica do verso e a combinação estrophica. Crea- 
dos estes rudimentos em coiijuncto, as condições so- 
ciaes determinam o seu desegual desenvolvimento, 
conforme as exigências de um culto publico, de fes- 
tas nacionaes, ou mesmo de crises moraes. A pala- 
vra rythmada pode subsistir como memoria tradicio- 
nal nas calamidades de um povo vencido ; a musica 



54 HISTORIA DA POESIA 



pode transmittir-se pela sua belleza e forma vaga a 
povos extr anhos e remotos, e a dança converte -se 
em actos de imitação. 

O senso pittoresco não é menos importante do que 
o musical*; d'elle derivam todas as formas de imita- 
ção, ou condição generativa das creações poéticas po- 
pulares. Deste facto mal interpretado resultou o erro 
de se considerar a imitação como o phenomeno ex- 
clusivo da Arte. A imitação não é uma macaquea- 
ção servil dos aspectos do mundo exterior: é uma 
reproducção automática e especifica dos actos con- 
scientes e necessários. Todos os animaes superiores 
manifestam este poder: imitam automaticamente mui- 
tas das suas funcções de relação, no canto, no fol- 
guedo. Nas crianças é que se observa melhor esta ten- 
dência automática da imitação dos actos da vida so- 
cial, que ellas vêem, que não comprehendem e em 
que não participam. Os jogos infantis são na maior 
parte imitações automáticas; as cerimonias cultuaes, 
as cortezanescas são imitações que ás vezes subsi- 
stem automáticas secularmente, quando já não existe 
a condição ou a concepção que as motivou. E' por 
esta tendência que o povo ama e respeita a tradição; 
por essa sympathia intima repete o que o passado 
lhe transmittiu, mas por esse automatismo, imitando 
as velhas formas vae-as adaptando á situação pre- 
sente. Este processo explica a creação da Poesia po- 
pular : é um fundo primitivo tradicional, adaptando-se 
á expressão de novos sentimentos. 

Temos até aqui traçado rapidamente o quadro das 
formas sòciaes, costumes e civilisações da Europa, 
que actuaram na elaboração da Poesia popular em 
geral, e que determinaram manifestações especiaes 
em cada nacionalidade moderna. Cada raça que en- 
trou no concurso activo dessa civilisação trouxe as 



POrULAK PORTUCUEZA 55 



suas faculdades esthetícas e o thezouro das suas 
tradições do passado, a riqueza dos seus mythos re- 
ligiosos e do seu syinbolisino social. A lei do mundo 
physicOj—nada se extingue nem se cria, tudo se trans- 
forma,— repete-se com a mesma forma absoluta no 
inundo moral; observa-se este phenomeno na per- 
sistência das tradições e na sua adaptação a novas 
concepções e interesses. Assim como o Chrístianismo 
na Europa se apropriou de todos os velhos polythcis- 
mos imprimindo -lhes uma allegoria moral da regene- 
ração humana, também esses mythos decahidos da 
credulidade religiosa não deixaram de encantar a ima- 
ginação popular e tomaram-se matéria de poesia. Na 
grande elaboração social da Edade media compete 
ao Christianismo, pela synthese sentimental em que 
assentava a ordem nova, uma acção fecunda no des- 
envolvimento da poesia : cria se uma emoção de hu- 
manidade, e a poesia de cada raça é esquecida no 
seu particularismo sobrevivendo aquillo que exprimia 
uma generalidade, uma aspiração humana. Sendo o 
phenomeno da Poesia popular europêa resultante 
d'esse vasto syncretismo de crenças e emoções pri- 
mitivas das raças que occuparam este continente e 
se incorporaram na Civilisação occidental, á medida 
que essa poesia for estudada hade revelar-nos um 
fundo commum, uma unidade de tradição, e ás ve- 
zes quasi de formas poéticas, mantida principalmente 
pelo sentimento commum humano que exprimiam, de 
accordo com a doutrina religiosa do Christianismo 
que se impuzera aos povos da Europa. E' certo que 
as novas linguas românicas creadas sobre a tranfor- 
mação da civilisação latina, como órgãos de expres- 
são poética vieram cooperar n'esta unificação tradi- 
cional, por isso que possuíam a mesma prosódia, 
crearam o mesmo systema de metrificação do verso 
por syllabas contadas, accentuadas e rimadas; as- 



56 HISTORIA DA POESIA 



similados os elementos primitivos ou populares da 
sociedade romana, das tribus célticas, das raças ger- 
mânicas e scandinavas, adaptaram-se facilmente ao 
novo systema de versificação das Linguas novo-la- 
tinas, e transição das mais adiantadas para as mais 
rudimentares. Daqui resultou a illusão de pretender at- 
tribuir themas poéticos e formas de versificação a um 
substractum céltico, como Nigra, a uma origem franka 
como Jeanroy, ou árabe como von Schack e Conde. 
Mas quanto mais vasta se provar essa unidade poé- 
tica dos povos da Europa, como se tem conseguido 
pelos recentes estudos, menos admissivel é a influen- 
cia exclusiva de uma raça; Gaston Paris chegou a 
esta conclusão combatendo o substractum céltico. * 
As investigações da poesia popular realisadas tão 



* «As três objecções geraes feitas á constituição de um grupo 
celto-romano no domínio da linguistica renovam-se com mais força 
no domínio da poesia popular, — Elias (as Canções) são, em sum- 
ma, idênticas de iórma em França, Catalunha e Piemonte, e esta 
identidade de forma, em qualquer época ou por qualquer maneira 
que fosse produzida, explica-se pelo estreito parentesco, sobre 
tudo no ponto de vista rythmico dos idiomas romamcvs f aliados nas 
três regiões. Se deixando de lado a forma, attendermos ao fundo, 
encontramos os mesmos themas^ tratados ás vezes de uma ma- 
neira assombrosamente semelhante, não somente nos factos, mas 
na successão, no tòm da narrativa, e mesmo nos detalhes mais 
característicos, em Hespanha, na Bretanha, na Escossia, na Ingla- 
terra, na Neerlandia, na AUemanba, na Scandinavia (sobretudo na 
Dinamarca) e mesmo na Grécia, nos paizes slavos, ou na Hun- 
gria. Emfim, os paizes que permaneceram célticos não são precisa- 
mente aquelles que tomam uma parte preponderante na formação 
d'este thesouro lyrico-épico ; a Bretanha franceza tem os seus 
gwerziou; mas, se me não engano nada se acha que lhes pareça 
nem no paiz de Galles, nem na Escossia gaêlica, nem na trlanda. 
Abstraindo da data das nossas canções, não posso considerar como 
demonstrado que a communidade entre a França, a Catalunha e 
o Piemonte, de um certo numero de cantos tenha por causa o 
substractum céltico commum aos três paizes.» Gaston Paris, Jour- 
nal des SavantSy 1880, pag. 544. 



POPULAR PORTUGUEZA 5y 

enthusiasticamente entre todas as nações da Europa 
sob o (TÍterío estreito mas necessário da compilação 
material, impõe hoje á critica a consideração inter- 
nacional, e vistas theoricas sobre esse phcnomeno 
da sua assombrosa unidade. Hoje não é possivel co- 
nhecer bem a poesia popular de qualquer nação sem 
a comparar com o conjuncto europeu ; o seu estudo 
particular deve ser feito no intuito de servir á solu- 
ção do problema geral. Desta situação dos estudos 
da Poesia popular escreve Gaston Paris: 

cUma questão do mais alto alcance se patentêa 
á investigação. Em frente do grupo de canções, de 
origem e de forma fundamentalmente francezas, que 
nós achamos hoje espalhado em França, na Catalu- 
nha «e na Itália, grupos semelhantes se apresentam 
na Hespanha não catalã (romance), na Bretanha fran- 
ceza (gwerziou), na Inglaterra e Escossia (ballads), 
nos paizes scandinavos (katnpeuiser), nos Paizes bai- 
xos e na Allemanha ( Volkslieder), na Grécia e nos 
paizes slavos. Entre o grupo francez e cada um dos 
outros grupos, ha relações mais ou menos grandes; 
as mais intimas existem com o grupo hispano-por- 
tuguez, do qual muitas peças se encontram em ca- 
talão, e que tem como forma quasi única uma das 
formas mais frequentes do grupo francez (verso di- 
vidido em dois membros de sete syllabas). Com os 
grupos bretão, inglez, scandinavo, germânico, grego 
e slavo, as relações assentam naturalmente só no 
fundo, mas são por vezes muito evidentes. Qual é 
a origem e qual é o caracter d'estas relações? E' 
um objecto de estudo que se pode hoje abordar, 
graças ao numero de documentos publicados e á ex- 
cellencia de alguns dos commentarios de que têm 
sido objecto ; limito-me a indical-o. Lembro somente 
que, se me não engano, nenhum dos grupos exami- 
nados tem uma antiguidade sensivelmente difterente 



58 HISTORIA DA POESIA 



daquella que julguei poder attribuir ao nosso : a cri- 
tica tem pouco a pouco approximado de nós as da- 
tas que se compraziam a assignar aos romances^ aos 
gwerzioUt ás bailads e ás kampeviser. Salvo exce- 
pções isoladas, e que é preciso solidamente estabe- 
lecer, pode-se dizer que toda esta extraordinária flo- 
ração de poesia lyrico-épica surgiu quasi ao mesmo 
tempo, isto é, no xv século, ou antes no século xiv, 
em differentes paizes da Europa. Foi ella por toda 
a parte espontânea, ou propagou-se de uma para ou- 
• tra região? E* o que os estudos critxos vindouros 
chegarão por ventura a revelar-nos. » * 

Nesta altura das investigações da poesia popular 
tradicional importa hoje conhecer a acção que sobre 
esse fundo primitivo exerceram os separatismo^ na- 
cionaes, nos seus conflictos históricos. E' na penin- 
sula hispan»ca, onde sobre um fundo de população 
quasi homogéneo, pelas divisões do território se esta- 
beleceram nacionalidades independentes, que melhor 



* Gaston Paris, yottrnal dis Savants^ 1880, p. 679 — Em nota 
a uma passagem anterior diz : «Nada ha que impossibilite què 
uma canção quasi esquecida no seu paiz de origem, se torne po> 
pular em um outro Temos nas collecções provençaes, piemònte- 
zas. e catalãs muitas canções cuja iórma accusa seguramente a 
origem franceza, e que não tem sido encontradas em França.» 

«O facto de que as Canções írancezas, no sentido próprio da pa- 
lavra, passaram abundantemente para a Provença, Languedoc, Gas- 
conha e d'ahi para o Piemonte e para a Catalunha, é íóra de toda 
a contestação. Estas investigações recentes dirigidas independen- 
temente sobre diversos pontos com critica e imparcialidade, con- 
duzem a esta conclusão, que ha alguns annos ainda teria parecido 
paradoxal, — que a França do norte é o foco principal da Poesia 
popular dos paizes românicos visinhos, no que ella tem de mais 
importante.» Gas on Paris, yournal des Savants, 1880, p. 667. 
— <iícette poesie remonte essentiellement au Xy et XVI sièdeSj nous 
voyons qu'èlle fait son apparition dans le monde avec formes ryth- 
miques qui étaient alors en usage .en France dans la Poesie chantée^ 
et qu'elle s*est approprié.» (Ibid., p. 668). 



POPULAR POKTUGUE2A Sg 

- — - - 

se observa este phenomeno *de uma unidade tradi- 
cional em antinomia com as aversões e separatismos 
politicos. Neste intuito a historia da Poesia popular 
portugueza tem de responder ao problema geral eu- 
ropeu, e ao peninsular, porque d'esse critério é que 
pode resultar a sua verdadeira comprehensão. 

Para o estudo da Poesia popular é tão essencial 
o methodo aymparativo como o estabelecimento da 
continuidade histórica; se por aquelle se observam 
as similhanças que patentêam a unidade das tradi- 
ções, pelas épocas históricas que reflectem as trans- 
formações sociaes se observam as differenças que es- 
sas tradições soffreram, ou obliterando-se no seu sen- 
tido, ou syncretisando-se, ou adaptando-se a novas 
situações. Pelo reconhecimento da unidade das Can- 
ções lyricas e narrativas na Poesia da Europa moder- 
na, principalmente entre as nações occidentaes, tor- 
na-se indispensável o conhecimento d 'esse conjuncto 
para bem apreciar a Poesia popular de uma deter- 
minada nação. A Poesia popular portugueza tem o 
seu commentario histórico na poesia dos differentes 
grupos ethnicos da Península hispânica: no Asturo- 
Galecio-Leonez, no Extremenho-Betico- Algarvio. So- 
mente depois d'este exame complexo, é que se de- 
terminam com clareza a acção das crises ou revolu- 
ções históricas dos estados peninsulares, as quaes se 
reflectiram profundamente nas tradições e sua forma 
poética popular. Este simples contorno das épocas 
históricas da Poesia popular portugueza, idênticas para 
a dos outros estados peninsulares, encerra toda a luz 
methodologica para alcançar o espirito e verdade 
d'este phenomeno sempre maravilhoso. 

Primeira época— fi^^rw^ VIII a XII), Começa 

com a entrada dos Árabes em Hespanha, determinan- 
do pela tolerância politica e religiosa o desenvolvimen- 



6o HISTORIA DA POESIA 



to da sociedade ntosarabe, industrial e agrícola, em que 
se renova a classe dos honiens-livres decahida pela 
preponderância da classe guerreira da monarchia vi- 
sigótica ; elaboram-se os elementos linguisticos que 
produzem os dialectos românicos, e pela persistência 
dos costumes polytheicos sob a acção do Christia- 
nismo, um fundo tradicional ibérico, céltico e romano 
offerece elementos para a creação de Cantos lyricos 
e narrativos, que se transmittem sempre oralmente, 
e segundo formas similares e análogas á poesia tra- 
dicional do meio dia da França e da alta Itália e 
Sicília. A poesia popular durante estes quatro sécu- 
los nunca foi escripta, mas reconstitue-se por três 
formas: i.** Pelos elementos narrativos que foram in- 
corporados como testemunho histórico nas Chroni- 
cas ; 2.** Pelas imitações jogralescas, trobadorescas 
e goliardescas, através da forma litteraria deixando 
transparecer os typos e estylo da versificação po- 
pular; 3.** Pela fixação de um fundo poético com- 
mum aos Povos meridionaes, ampliando-se mesmo 
até certos themas poéticos da Inglaterra, AUemanha 
e Rússia, deduzindo d'essa similaridade alheia a toda 
a contiguidade histórica a sobrevivência d esse fundo 
primitivo nunca fixado pela escripta. 

Segunda época— f^&^wA? XII a XV). E' no sécu- 
lo XII que prevalece a restauração neo-goda e começam 
as monarchias christãs ; o triumpho crescente sobre os 
Árabes, faz com que o poder senhorial dos Asturo- 
Leoneses procure reorganisar se apropriando-se de for- 
mas do feudalismo francez. Cavalleiros e colonos 
francezes são chamados para a cruzada da Hespa- 
nha e para a occupação das cidades; Bispos fran- 
cezes vêm occupar varias sés, estabelecendo-se em 
vez do culto mosarabe a subordinação á disciplina 
romana. E' neste momento histórico que é creado 



POPULAR PORTUGUEZA 6l 



O Condado de Portugal para D. Henrique de Bor- 
gonha, como genro de AfFonso vi ; pouco depois tor- 
na-se estado autónomo sob seu filho O. Afionso Hen- 
riques, que se apoia sob o elemento mosarabe das 
cidades e behetrias. A Poesia popular não se faz co- 
nhecida nem é apreciada, diante do perstigio das Can- 
ções de Gesta da França feudal; entre a corte e a 
praça estabelece-se uma separação moral, preferindo 
os fidalgos as Canções lyricas da Provença para a 
expressão dos seus sentimentos ; e ao mesmo tempo 
as Canções ou Lais da Bretanha e as aventuras no- 
vellescas da Tavola Redonda, fazem com que essa 
Poesia popular tão viva e opulenta não receba forma 
escrípta senão n'aquellas situações narrativas, que os 
compiladores das Chronicas de Affonso o Sábio en- 
tenderam que aproveitava o seu testemunho. É n'esta 
época que a communicação dos Jograes, que frequen- 
tavam as cortes peninsulares leva a imitar as formas 
populares das Bailadas e das Pastorellas ; da mesma 
sorte os Goliardos, eruditos em contacto com o po- 
vo, reproduzem sob a forma latina os typos e gosto 
da poesia popular, como se vê n'esse precioso docu- 
mento das Carmina Burana, A esta época perten- 
cem as Lendas agiologicas populares, mas sob a forma 
litteraria da mestria clerical. Cantada a Canção po- 
pular, abandonada á inconsciência da multidão, se- 
guiu com desenvolvimento artístico na Egreja e na 
Corte, sob a forma musical. 

Terceira é'pOQSL — fSectdo XV a XVI/ÍJ.No mo- 
vimento social em que a Realeza no século xv pro- 
cura apoiar-se no Povo ou terceiro estado, para resi- 
stir á absorpçãò senhorial da nobreza, dá se o espan- 
toso phenomeno de um renascimento da Poesia popu- 
lar em toda a Europa. Todas as Canções francezas 
que se propagaram a differentes nações, nunca se en- 



62 HISTOHIA DA POESIA 



contram escríptas em collecções anteriores ao século 
XV. Todos os Romances viejos, que se coUigiratn em 
Hespanha são do século xv, e nunca se encontra- 
ram em manuscríptos anteriores a esta data. E em 
Portugal ha um documento vivo do que era a poe- 
sia popular n'essa época assombrosa : os vastos Ro- 
manceiros dos Archipelagos da Madeira e dos Aço- 
res ficaram confinados e estáveis com a colonisação 
que ahi se estabeleceu, nunca mais tendo recebido 
novos elementos de população, nem contribuições tra- 
dicionaes. 

E' no século xvi que se vulgarisam as collecções 
impressas dos Romances e Canções populares do typo 
dos Romances viejos, isto é, não anteriores ao sécu- 
lo xv ; e que os escriptores tanto hespanhoes como 
portuguezes tratam os Romances litteraríamente con- 
servando a forma popular da assonancia e do verso 
octonario, mas transformando os em subjectivos, alle- 
goricos, satíricos e de parodia, glosando-os em deci- 
mas e mesmo sendo submettidos á composição mu- 
sical. Gil Vicente foi o que mais se approximou das 
fontes vivas da poesia popular, intercalando nos seus 
Autos, que derivam dos diálogos das Lapinhas^ fra- 
gmentos de Canções e de Romances. 

No século xvu a poesia popular continua na sua 
degenerescência; o Romance heróico celebra os Va- 
lentões, Contrabandistas e facínoras, creando-se o 
género da Xacara, E quanto mais decahiam as in- 
stituições sociaes sob as monarchias absolutas, mais 
o Povo se tornava esse sêr monstruoso e estranho 
descripto por Labruyère. O século xviii na sua eman- 
cipação philosophica não teve o sentimento do pas- 
sado, e até á hora da Revolução o povo foi lhe com- 
pletamente desconhecido. 



POPULAR PORTUGUEZA 63 

Quarta 6poQSi—(&culo XIX). Caracterisado este 
século pela alta e definitiva concepção da Historia, 
o conhecimento da Edade media levou os artistas 
e os sábios ao estudo da origem da sociedade 
moderna. A sympathia pelas tradições medievaes 
operou essa transformação das Litteraturas modernas 
conhecida pdo nome de Romantismo. Uma certa cu- 
riosidade de espirito suggeriu o interesse pelos cantos 
populares; e esse interesse tomou um destino scien- 
tifico, &SÒSÍ que pela Anthropologia e Ethnographia 
se consideraram esses productos inconscientes como 
documentos humanos; e desde que as doutrinas es- 
theticas estabeleceram a relação generativa entre a 
obra individual dos génios e as bases tradicionáes 
da idealisação. Á medida que o trabalho dos col- 
leccionadores dos Cantos e tradições populares se 
ampliou offerecendo um vasto material comparativo,* a 



' Na prefação dos Canti popolari dei Piemonte^ aponta Costan« 
tino Nigra esta necessidade, justiíicando-se de alguns commenta- 
rios comparativos e históricos : <Sei bem que a eschola a que per- 
tencem alguns dos mais recentes colleccionadores de cantos popu- 
lares, especialmente em França, justamente preoccupados da neces- 
sidade de salvaguardar o futuro de contrafacções, aperfeiçoamentos 
e falsas interpretações dos cantos populares, de que o passado oíte- 
rece clamorosos exemplos, parece querer regeitar por ora tudo o que 
não for a simples e litteral transcripção da palavra cantada, dei- 
xando os commentarios á geração vindoura. Esta eschola prestou 
um assignalado serviço ao estudo da litteratura popular, e embora 
animando as investigações, retardou-lhes o progresso. Em todo o 
caso deve-se em grande parte aos seus esforços que e^tes estudos 
tenham d'ora em diante uma base absolutamenle sincera. Agora 
pode-se dizer que o seu trabalho terminou. As collecções de can- 
tos populares estão finalmente feitas por toda a parte qnasi, e em 
geral com inc'mte$'avel fidelidade. Compete aos estudos d'esta ma- 
téria um outro intuito mais difBcil do que colligir os cantos e pu- 
btical-os textualmente: é o de emprehender o exame das questões 
de origem. Pois qae os cantos estão coUigidos, e sinceramente col- 
ligidos, é tempo de procurar como nasceram, d'onde vieram, o que 
é que «igoificam. O persistir na excusa d'estas questões é signal 



64 HISTORIA DA POESIA 



compilação ficaria estéril se não se prestasse á sys- 
tematisação crítica e a vistas syntheticas. Para esta 
phase nova dos estudos, é que se torna urgente e 
fundamental o critério histórico. 

Estes contornos rápidos são o fio conductor na 
complicação dos factos que constituem este livro. 



mais do que discrição, de esterilidade. Já nos últimos aanos foram 
feitas em Itália corajosas tentativas n'este campo de investiga- 
ções. Antes de todos e por todos deve ser apontado Alexandre 
d'Ancona, com o seu magistral trabalho La Poesie popolart italiana. 
(1878). Fora do dominio celto-romano, as investigações prosegui- 
ram com incessante fervor e não sem successo. Os trabalhos de 
Grundtvig, de Bugge, de Child e de outros ainda, mostram que 
d'ora em diante as investigações sobre a génese da Poesia popu 
lar não só são possiveis, mas são sempre profícuas mesmo quando 
não são afortunadas.» (Pg. vil.) 



n 



AS NACIONALIDADES PENINSULARES NA SUA TRADIÇÃO 

POÉTICA 



Para o estudo da Poesia popular de uma nação 
é primeira condição methodologica o processo com- 
parativo nos grupos ethnicos politicamente ou his- 
toricamente differenciados ; só assim é que se pode 
achar o fio das tradições na sua integralidade, e re- 
compor as deficiências, explicando as obliterações 
parciaes e as persistências archaicas. Segundo este 
principio, será sempre incompleto o conhecimento da 
Poesia popular portugueza, se fôr considerada fora 
do grupo Asturo-GaUciú-Portuguez, do qual é ella 
um fragmento do élo tradicional; mas será mais claro 
esse conhecimento, se a comparação seguir-se até ao 
grupo ethnico Exiremenho-Betico-Algarvio', e pela in- 
tegração da península hispânica com o grupo Na* 
varro-Valenciano, vamos tocar as fontes comnriuns 
da unidade da tradição poética occidental nos para- 
digmas similares da poesia do povo francez e ita- 
liano. Para empregar recursos tão complexos é ne- 
cessário um concurso activo de muitos trabalhado- 
res desinteressados; esse concurso effectuou-se na 
segunda metade do século xix, e a tendência para 

Poes« popal. 5 



66 HISTORIA Da poesia 



uma critica synthetica tem-se revelado, embora in- 
segura e máo grado animadversões. 

Trazendo todos esses resultados para o exame da 
Poesia popular portugueza, resalta logo á observa- 
ção que essa creação espontânea reflecte as épocas ou 
grandes crises da nacionalidade, de que ella é uma ex- 
pressão verdadeira sempre inconsciente. Pelo facto de 
se instituir a nacionalidade autónoma no século xii, o 
povo que a constituiu já estava formado, possuia de 
remota data um solo que trabalhava e costumes ci- 
vis que se tornaram leis. Portanto, a primeira época 
da elaboração da Poesia popular de qualquer dos 
Estados peninsulares começa no século viu com a 
invasão dos Árabes, que destruindo o império visi- 
gótico, actuou na formação de uma grande classe 
agrícola e fabril, de uma burguezia sedentária dada 
á cultura da intelligencia. Sendo este o ponto cen- 
tral em que se desenvolvem todos os elementos que 
vão produzir a vida histórica e politica da Hespa- 
nha, dos séculos viii a xii, urge fixar os anteceden- 
tes, em que dominou a unidade romana e a unidade 
catholica, já incorporando as antigas raças ibérica, 
ligurica e céltica, já as raças germânicas, como sue- 
vos e visigodos. 

Basta esboçar essa época preliminar, que é com- 
mum a todos os povos românicos; é principalmente 
pelos costumes e pelos themas tradicionaes que se 
podem determinar elementos da poesia ibérica e cél- 
tica, que chegaram até ás populações modernas, mes- 
mo através do Christianismo. O nome de Povos 
românicos exprime bem esta primeira integração, 
naquelle sentido usado no Edito de Caracalla, que 
sob, o nome de Romani comprehendia os povos 
Gaulezes, os Illyrios, os Gregos, e Hispânicos, am- 
pliando esta designação a todos aquelles povos que 
eram submettidos ao Império. Quando esta unidade 



POPULAR PORTUGUE2A 67 

politica é destruída e substituída pelas invasões ger- 
mânicas e Império visigótico, a classe dos Homens- 
livres decahida diante da prepotência da Banda mi- 
litar, e confundida com as outras decahidas no Co- 
lonato romano, não teve condições sociaes para dar 
vida moral aos seus sentimentos e interesses, expan- 
são de alegria para esboçar as manifestações da 
Arte. E por isso que a vida histórica dos povos mo- 
dernos da Hespanha considera-se começar com o sé- 
culo vm. 

§ // Formação da sociedade mosarabe, ou a classe 
popular nos Estados peninsulares 

Quando Rekaredo se converteu ao catholicismo 
em 587, uma crise social profunda se operou na po- 
pulação hispânica, os germanos invasores e as po- 
pulações subjugadas foram considerados com egual- 
dade perante a mesma legislação, sendo os Códigos ro- 
manos então imitados. As consequências foram, para 
a lingua gótica e tradição da raça uma obliteração 
dos mythos polytheicos diante da religião monotheica 
da Egreja de Roma. É n'esta crise que se inicia a 
decadência dos homens livres em uma classe subor- 
dinada a um poder militar ou senhorial, que firma 
na organisação feudal a sua força. Diez procurando 
o elemento germânico nas linguas românicas de Hes- 
panha, aponta a preponderância das palavras que são 
referantes á guerra (werra) e que designam institui- 
ções sociaes, como : Mahal (o Malhom, a afssembiéa 
ao ár livre, o Jlfa//-publique francez) ; Ordàl (o Or- 
dalio ou prova do fogo, da agua fervente, nos cos- 
tumes jurídicos; o Sago (o Sayão, ou meirinho de 
justiça) : Skepeno (o Scabino) ; o Siniskalh (o Senes- 
cal) ; Marahsçalhy (Marechal) ; Alòd (AUodial) etc. 
As luctas do elemento aristocrático ou senhorial 



68 HISTORIA DA POESIA 



que tinham feito com que o estatuto territorial fosse 
a pouco e pouco obliterado, predominando os privi- 
légios do nascimento ou o estatuto pessoal, embara- 
çaram a formação de um povo livre, determinando 
seus abusos os antagonismos, que vingando-se pela 
traição suscitaram a invasão da Peninsula pelos Ára- 
bes em 711. A tolerância politica dos Árabes, ga- 
rantindo a essas populações sedentárias, agrícolas e 
industriaes a livre actividade, fez com que o seu 
poder se firmasse completamente na Hespanha em 
menos de trez annos, e por uma necessária estabi- 
lidade se fosse creando uma população que avivava 
os seus antigos costumes jurídicos, do municipio ro- 
mano e da fará germânica. É portanto esta época 
o começo característico do Povo hispânico moderno, 
que depois se foi differenciando em Estados políticos 
conforme as suas persistentes condições mesologicas 
e ethnicas. Era natural collocar neste elemento ger- 
mânico, (que de 587 a 711 tinha decahido na situa- 
ção de lites, em um estado intermediário á servidão 
e á liberdade) os elementos de revivescência, nos 
costumes jurídicos e seus symbolos, nas crenças e tra- 
dições poéticas, que esse mesmo elemento germâni- 
co, de 7 1 1 até ao século xi, sob o nome de Mosa- 
rabes elaborara até entrar de novo na reconquista 
neogotica. Esta doutrina que sustentamos no livro so- 
bre Os Foraes, (1867) e nas Epopèas da Raça mo- 
sarabc, (1871) só peccava pela exclusão de todos os 
anteriores elementos ethnicos. Erro natural em um in- 
vestigador incipiente ; mas nem por isso se poderá 
abandonar, uma vez modificada como um simples fa- 
ctor da corrente histórica. Essa these acha-se nitida- 
mente formulada pelo eruditíssimo medievista hespa- 
nhol Don Tomas Munoz y Romero, no seu Discurso 
de recepção na Academia de Historia, de Madrid, 
em 5 de Fevereiro de 1860. Se ao tempo conhe- 






1 



POPULAR PORTUGUEZA 69 

cessemos essa auctorídade fortificar-nos-iamos com 
ella. Escreve Mufíoz y Romero : 

«Depois da invasão é quando apparece já como 
um facto fora de toda a duvida a unidade de legis- 
lação. Porém esta unidade não existiu em Aragão e 
Navarra; durou pouco tempo nas Astúrias, Leão e 
Catalunha; porque as novas circumstancias em que 
se encontraram estes Estados, e as mui especiaes das 
cidades, villas realengas e povos de senhorio, fize- 
ram que desapparecesse essa unidade, localisando-se, 
se é permittido dizel-o assim, a legislação. 

«Alguns escriptores não sabendo como conciliar a 
existência de certos usos germânicos que appatecem^ 
apenas foi destruido o império godo^ como se tem 
indicado com a legislação do Fórum Judicum^ jul- 
garam achar fácil sahida, assegurando, ainda que sem 
darem da sua opinião prova alguma, que aquelles 
usos e costumes foram tomados dos frankos. — A in- 
fluencia dos frankos devia ser insignificante antes de 
Affonso VI. Os Asturianos^ e Leonezes apenas tive- 
ram até então communicação com elles, para que se 
podesse fazer notar em seus costumes. — Na época 
gótica a lei lucta com os costumes germânicos. De- 
pois da destruição do seu império o triumpho cC aquelles 
costumes é completo. Aqui os costumes iam formando 
a lei, ao contrario do que intentaram os auctores do 
Libro de los yueces, > E alguns paragraphos atraz, es- 
crevia Munoz y Romero: «A execução das disposi- 
ções do Fuero Juzgo, quando tratavam de destruir 
certos usos germânicos, ficavam quasi sempre sem 
observação e os costumes dos godos em^ seu vigor. 
Assim se explica como se infiltra o germanismo na 
legislação da Edade media em opposição á d'aquelle 
código. Este facto histórico prova que a civilisação 
romana luctou com os costumes germânicos sem al- 
cançar victoria, e que estes continuaram máo grado 



yO HISTORIA DA POESIA 



OS bispos romanos pela sua raça e pela sua scien- 
cia, e apesar das leis em cuja formação tomaram 
tanta parte. » * Isto formulado pelo homem que mais 
profundamente estudou os documentos da historia so- 
cial da Hespanha, sete annos antes da nossa synthese 
dos Foraes, era para nos salvaguardar dos chascos 
de uma erudição espessa dentro e fora de Portugal. 
Hoje, fortificados com essa auctoridade, retomamos 
o problema da influencia germânica expondo -o com 
maior simplicidade. Munoz y Romero formula com 
clareza: «comquanto no Liber Judiçum predomine 
o elemento romano, os Godos não abandonaram os 
costumes dos povos da sua raça, e transmittiram os 
puros a alguns dos reinos creados depois da queda 
do seu império. Isto explica esse facto que se im- 
põe á attenção, e que por vezes tenho ouvido de- 
signar com o nome de reacção germânica, a consi- 
gnação em Fueros ntunicipaes e em outros documen- 
tos de certos usos dos povos bárbaros , omittidos com 
intenção na legislação \4Ísigoda. Não falta quem o 
considere como um phenomeno histórico, quando não 
é mais do que a sancção legal dos costumes que os 
godos nunca abandonaram e que os seus descenden- 
tes continuaram observando.»* 

É no período da occupação dos Árabes no . sé- 
culo VIII, até ao estabelecimento das monarchias neo- 
goticas no século xii, que se definem os elementos 
da população que hade constituir a sociedade, que 
as condições da reconquista christã levarão a orga- 
nisar em estados. Ha effectivamente duas corren- 
tes de aggregação, a que deriva do estatuto territo- 
rialy dos homens-livres germânicos que formavam a 
banda agrícola e pastoral, e que sob a tolerância 



1 Discursos^ p. 48 o 49. Ma Irid. 1860. 

2 Ibid., p. 8. 



POPULAR PORTUGUEZA 7I 

dos Árabes fortaleceram os seus antigos costumes 
até chegarem a ser reconhecidos e escriptos nas Car- 
tas pueblas e nos Foraes ; e aquella outra que for- 
mando a banda guerreira, só admitia o estatuto pes- 
soal, que se torna exclusivo do nascimento, da no- 
breza feudal ou senhorial em relação de egualdade 
ou de subordinação diante do rei. No quadro das in- 
stituições germânicas, os homens livres formavam a 
assembleia do Mallunt (o Malhom, do nosso direito 
consuetudinário) e os nobres formavam o Placitutn, 
(o Plasso) ; e quando mais tarde sob a acção do po- 
der real se reuniam estes dois elementos, formavam 
a assembleia do Wittenagemot, (as Cortes, as quaes 
através da forma tngleza se reproduziram no regimen 
representativo moderno.) Diante da invasão dos Ára- 
bes estes dois elementos portaram -se diversamente ; 
o guerreiro ou senhorial manteve se pela emigração 
na resistência, e sob o vinculo da unidade catholica 
avançou gradativamente para a reconquista do solo 
invadido ; o elemento agricola e industrial, desde que 
o vencedor lhe respeitou a propriedade e o trabalho, 
submetteu-se á sua soberania. E' neste vasto ele- 
mento em contacto com os Árabes, que se forma o 
povo hespanhol, no sentido moderno d esta palavra ; 
os vencedores islâmicos para manterem sem esforço 
a ordem reconhecem -lhe as suas garantias, os recon- 
quistadores neo-godos para augmentarem o seu numero 
e incorporarem outra vez o território ganhado vêem-se 
obrigados a resignarem privilégios pessoaes em favor 
das liberdades locaes. E' nesta oscillação de quatro 
séculos, que se forma uma forte população chamada 
os Mosarabes, por viverem e terem imitado modos 
e costumes da civilisação dos Árabes (de Mosíarib, 
o que imita ou se assemelha aos Árabes). 

Essa população acha-se designada pelo nome de 
Mostarabe no Foral de Toledo dado por Affonso vt 



72 HISTORIA DA POESIA 



no século xii ; e como collectívidade característica, de 
vulgo, em contraposição com os homens de nascimento 
e illustraçâo, chama-lhe Gonzalo de Berceo Mosarabia, 
no poema dos Milagros de Nuesira SeHorar 

Udieron esta voz toda la clerecia, 

E' mucho de los legos de la Mosarabia. 

Alexandre Herculano estudando a formação da so- 
ciedade neogotica que veiu a constituir o estado 
de Portugal, referindose á imitação das magistratu- 
ras árabes, escreve : «Os resultados definitivos de to- 
dos estes factos, devia de ser, no começo da monar- 
chia, a preponderância do elemento ntosarabe entre 
as classes inferiores, ao passo que entre a nobreza 
preponderava forçosamente a raça asturo-leoneza.» * 
Herculano chegou a empregar com frequência a de- 
signação de raça ntosarabe, somente ádmissivel se 
com o elemento mauresco, berberico, alano e scy- 
thico se operasse uma regressão ao typo ibérico pri- 
mitivo ; foi sempre n'este sentido da integração eth- 
nica que acceitámos a designação. Eis as palavras 
de Herculano: cA repovoação dos territórios ao sul 
do Minho e ao norte do Mondego devia dilatar-se 
não tanto com o refluxo das populações, descendo 



* HUt. dè Portugal^ t. Ill, p. 199. Por termos seguido esta dou- 
trina, nunca soubemos comprehender as ironias desdenhosas de 
Herculano na sua Carta publicada no Almanach das Senhoras. 

Herculano considerava os Mosarabes como formados por clas- 
ses inferiores ; porem Mufioz y Romero mostra que os antigos 
historiadores cdan noticia de indhnduos de aqtulla r^^a,» que sob 
as ordens dos emires sarracenos commandavam tropas e defen- 
diam praças, e em uma doação de 1095 lê-se, que os antepassa- 
dos do doador sob o dominio sarraceno conservaram a sua no- 
breza e as suas propriedades livres è francas. Apesar de se en- 
contrar gente nobre entre os Mosarabes^ não perturba isso a formação 
do elemento popular, porque libertos da influencia romana regres- 



POPULAR PORTUGUEZA jZ 

de novo a Oviedo e Galliza para o meio dia, como com 
a accessão continua das migrações collectivas e singu- 
lares da raça mosarabe, > ^ Em outra parte da sua his- 
toria, lamenta Herculano acerca dos Mosaraòes, a sua 
«especial influencia na organisação primordial da mo- 
narchia portugueza, não tem sido apreciada.» ilb., iii» 
167.) De facto o sentido social da palavra Mosarabe 
foi esquecido pelos eruditos do século xv e xvi, re- 
stringindo-a a designar o culto catholico differenciado 
do romano ; assim na Historia geral de Hespanha 
começou-se a chamar á liturgia isidoriana ou aos 
seus clérigos tnoçarves; e André de Resende na Carta 
a Bartholomeu Quebedo não lhe conhece outro va- 
lor. * 

No exame da população mosarabe faltou indicar 
um elemento : aquelle que renegou o culto catholico 
e se adaptou ao monotheisnio islâmico, sendo por 
isso mal considerado entre os intransigentes da fé 
chri-tã. Estes davam se mesmo o nome de Mosa-- 
rabes como um titulo de orgulho, por se terem conser- 



saram aos seas antigos co tomes germânicos, que prevaleceram no 
estatuto territorial ou Cartas de Foral. Pelo estatuto pessoal vemos 
que esses mesmos costumes se mantiveram entre os nobres mo- 
sarabes^ como o Ordalio ou Juizo de Deus, o Combate Judiciário 
ou as JFaçanhaSt o Wergeld ou a Vindicta pessoal, movei das guer- 
ras privadas e da compensação a dinheiro, que tinham sido ex- 
cluidos do Fnero Juzgo. 

Amador de los Rios, que também combatera as nossas dou- 
trinas, (Revista de la Univfrsidad de Madrid^ t. i, n.® i, p. 21» 
1873) no Discurso em resposta a Mufioz y Romero escreve: «En 
Ia rata mosarabe depositaria de las tracUones visigodas, la mas rica 
y la más ilustrada, como era tambien la más difícil de dominar...» 

(p- 78-) 

* Idem, ib.^ p. 195. 

' «Qui quum inter captivos vidisset aliquam muitos, qui se chris- 
tianos esse dicerent Muzarabes vocatos, hoc est, ut interpretantur^ 
mixtos Árabes, petiisse a rege ut libertate donaretur.» Epistola^ fl. 
12 V. Lisboa, 1567. 



74 HISTORIA DA POESIA 



vado firmes apesar de misturados com os árabes; 
aquelles outros eram denominados os Mulladies, os 
submissos, e figuradamente os infectos de apostasia. 
Esta distincção é essencial para conhecer o povo nas 
suas camadas Ínfimas, em que persistia a tradição in- 
conscientemente, ao passo que os Mosarabes ricos se 
identificavam com os asturo-Ieonezes, sendo cavallei- 
ros e condes. 

Vejamos como se definiu a população hispano- 
goda ao contacto dos Árabes. O modo como os poe- 
tas árabes descrevem a Hespanha, mostra bem a ten- 
dência que os invasores tinham de fixar-se no solo 
da nova conquista; este intuito determinou o cara- 
cter tolerante e conciliador da sua politica ; ao im- 
porem a contribuição de guerra ás populações se- 
dentárias, em vez de sangue, exigiram dinheiro. Os 
colonos godos ou homens-livres decahidos (Aldius, 
Leudes, LazBÍ, Vassu) já no estado de paz pagavam 
aos seus senhores prestações com que remiam a acti 
vidade e a faculdade de trabalhar na terra; portanto 
a invasão árabe, longe de lhes parecer uma extor- 
são, captou-os por uma brandura inesperada em ven- 
cedores. Os poetas árabes exaltavam com enthusias- 
mo a Hespanha : «E' melhor do que todas as re- 
giões conhecidas ; é a Syria pela doçura do clima e 
pela pureza do ár ; é o Yemen pela fecundidade 
do solo ; é a índia pelas flores e pelos aromas ; é o 
Hedjaz pelas produccões da terra; é o Cathay pelos 
metaes preciosos ; é Aden, pelos portos e pelas 
praias. Ju Aquelles que assim pensavam, entenderam 
que o melhor modo de se fixarem nesta região se- 
ria o fraternisar com o maior numero dos seus po- 
voadores. Os godos nobres (Grafy Markgraf t, Pa- 
rones) acudiram ás armas, e depois da derrota nas 
margens do Guadelete, refugiaram se nas montanhas 
formando esse núcleo dos Asturo-Leonezes, que na re- 



POPULAR PORTUGUEZA 



conquista procuravam também restabelecer as insti- 
tuições senhoríaes. 

Os latinistas ecclesiasticos ao descreverem a inva- 
são árabe, pintam-a com as cores da maior atroci- 
dade ; exageram as cousas ao ponto de se tornar evi- 
dente, que o estylo especula á custa da verdade. Isi 
doro de Beja, Sebastião de Salamanca, Sampiro, o 
Silense e a Chronica de Albatda, chamam aos Ára- 
bes bárbaros, equiparamos á peste, insultam-os com 
um furor selvagem ; Lucas de Tuy, Rodrigo de To- 
ledo e Álvaro de Córdova, faliam como fanáticos des- 
esperados, e comprazem-se em ensaiar as regras de 
Quintil ano, dos declamadores da decadência, para pin- 
tarem as ruinas e estragos causados pelos Árabes. 
Os escriptores que seguiram estas fontes quasi con- 
temporâneas dos factos que relatavam, caíram no im- 
menso absurdo de considerarem irreconciliáveis en- 
tre si godos e árabes. Daqui a difficuldade de com- 
prehender certos phenomenos que se deram na or- 
dem social e politica das duas raças, e consequente- 
mente a necessidade de recorrer para a explicação 
a meios maravilhosos. Ora, os documentos legaes, os 
appellidos individuaes, nomes technicos e administra- 
tivos tomados da lingua dos Árabes, bastam para re- 
velarem uma certa assimilação do caracter e da cul- 
tura dos invasores, assimilação que até nas queixas 
dos latinistas ecclesiasticos se aponta como mais um 
desastre, confessando a coexistência pacifica das duas 
raças. 

Os Árabes ao pisarem o solo hispânico deixaram 
de pé as egrejas christãs, permittindo o seu culto ; 
consentiram aos vencidos a faculdade de se regerem 
pelas suas leis ; mas como a população sedentária 
não as tinha, por não participarem dos concilios, ar- 
voraram em lei ou estatuto territorial o seu Costume 
ou Foro. Álvaro de Córdova, no Indiculus lumino-- 



76 HISTORIA DA POESIA 



SUS, queixa-se da adhesSo popular com os inimigos 
da cruz, esquecendo-se da sua fé por transigências 
(alludia aos Mu//adús), combatendo nas próprias fi- 
leiras árabes, decorando-lhes os seus versos e contos 
com que se deleitavam, que os serviam como mes- 
teiraes, lhes imitavam os trajos, usavam os seus per- 
fumes, frequentavam as suas escholas, lendo só li- 
vros chaldaicos, por forma que esqueciam-se da lin- 
gua materna, não havendo já entre mil um que sou- 
besse fallar latim, ou se se escrevia recorria-se aos 
caracteres árabes (a/jamiaj. Tal não se passara com 
os Asturo-Leoneses, apesar do Cid ter um aspecto an- 
ti-aristocratico, c sob as bandeiras do rei de Castella 
e Leão combateram na batalha de Zalaka trinta mil 
sarracenos, indo pela sua parte os cavalleiros christãos 
coadjuvar o almoravide Yussuf ; também Affonso vi 
de Castella queria pôr no throno o filho que tivera 
de Zaida ; e Affonso Henriques seu neto faz uma al- 
liança com Iben Kasi. Mas entre os Mosarabes a fu- 
são era mais profunda. As alfaias das egrejas chris- 
tãs vinham das fabricas árabes ; as alvas sacerdotaes 
eram feitas com o tecido Hraz, com orações em lin- 
gua árabe ; diz Herculano, no seu estudo sobre o Es- 
iodo das Classes sendas na Península: «O tíraz era 
um tecido precioso da fabrica sarracena de que usa- 
vam as pessoas principaes entre os mussulmanos, onde 
se liam bordadas orações do culto islâmico e senten- 
ças de Koran. Quando os sacerdotes da egreja de 
Arcozelo, á qual tinham pertencido aquelles para- 
mentos, ou os da de Vouzela, á qual se doaram, ce- 
lebrassem, revestidos com elles, os ofificios divinos, 
o9 assistentes que não ignorassem a leitura do árabe, 
poderiam ir misturando as preces da egreja com as do 
islamismo, e lendo as sentenças do Koran emquanto 
se repetiam os textos do Evangelho.» (Ib., § av.) Esta 
doação de 1083, consignada no Livro Preto da sé 



POPULAR PORTUGUEZA 77 

de Coimbra, mostrâ-nos que as queixas de Álvaro 
de Córdova não obstaram á intensa aproximação das 
duas raças. Herculano descreve o território em que 
melhor se caracterisa esta sociedade mosarabe : tDos 
territórios de Hespanha, nenhum mudou mais vezes 
de senhores durante a lucta, do que os districtos de 
Entre Douro e Tejo, sobretudo nas proximidades do 
oceano, e porventura em nenhum ficaram mais ve- 
stígios da existência da sociedade mosarabiea, da sua 
civilisação material, das suas paixões, dos seus inte- 
resses encontrados, e até dos seus crimes e virtu- 
des.» E no mesmo estudo sobre as Classes servas : 
«Os districtos do sul deste rio (Douro) que depois 
da invasão de Tarik e Musa tinham pertencido a 
maior parte do tempo aos sarracenos, encerravam 
uma população essencialmente mosarabe. » A Beira é 
a região aonde se concentra o verdadeiro núcleo do 
povo portuguez ; povoações mosarabes ahi exerciam 
o trabalho da lavoura e da industria; os nomes pes- 
soaes, como Venegas, Viegas, (do árabe Ibn, filho, 
e do germano Egas) accusam a fusão dos dois ele- 
mentos. A Beira estendia-se de Villa Nova de Gaia 
até Abrantes, justamente o território que começou 
a ser conquistado quando se tornou independente o 
Condado portucalee, E' na Beira que a tradição poé- 
tica se acha mais viva, como o reconheceu Garrett ao 
apurar as versões dos romances Bella Infanta e Ber- 
nal francez. 

Na magistratura do século xii e xiii encontram-se 
os nomes de Alcaide e Alvasil (depois degradado 
em aguasit)\ o primeiro, do árabe el-vasis, designa 
o ministro ou conselheiro do soberano, que nos Con- 
celhos portuguezes se tomou um chefe da admini- 
stração local * representando por delegação o poder 



1 Herculano, Historia de Portugal^ t. iv, p. 123. 



7^ HISTORIA DA POESIA 



supremo ; o segundo termo, também do árabe //- 
khadiy é o juiz de primeira instancia entre os mus- 
sulmanos. Nos Foraes do typo de Santarém o nome 
de Alvasil dado aos juizes municipaes é um dos seus 
principaes caracteristicos ; rios outros Foraes portu- 
guezes moldados pelo typo de Salamanca, a feição 
distincta está no titulo de Alcaide dado aos magis- 
trados jurisdiccionaes. * D'esta distinção deduz Her- 
culano: cquão profundamente- o elemento mosarabe 
influiu nas sociedades neo-goticas.» E accrèscenta: 
«As designações das magistraturas são árabes nos 
mais antigos Foraes. O typo de Salamanca em que 
nos apparece a palavra alcaides, precedeu aos ou- 
tros ; seguindo-se-lhe o de Santarém ou antes de Lis- 
boa ; depois o de Ávila... Évora, que serviu de mo- 
delo ás organisações análogas, tinha alcaides ainda 
no século xiii. O khadi, o juiz mussulmano, repro- 
duz-se na maioria dos nossos, concelhos perfeitos . . . 
Não são estes factos indicios vehementes, por não 
dizer provas, de que a raça mosarabe predominava 
ahi entre a população inferior ?.., A mesma impro- 
priedade do vocábulo alvasil é ainda um indicio da 
influencia mosarabe. Na Extremadura, e depois no 
Alemtejo meridional e no Algarve...» (Ib., p. 127.) 
Não justificarão estes factos o caracter archaico da 
poesia popular portugueza, apontado pela critica? A 
existência de uma grande população estabelecida an- 
tes da invasão árabe, e que não veiu das Astúrias, 
deprehende-se de um Inventario dos monges da Va- 
cariça feito em 1064 dos bens que tinham entre o 
Vouga e o Mondego antes da conquista de Coim- 
bra por Fernando i; contam-se vinte e três egrejas, 
situadas em outras tantas aldeias christãs, que esta- 



1 Herculano, Historia de Portugal^ t. iv, p. 126. 



POPULAR PORTUGUEZA 79 

vam ainda a esse tempo sob o domínio sarraceno. 
As povoações ruraes mosarabes avultam nos no- 
mes Alfandim, Aduares, Almadanim, Almagede, AI- 
careal, Alcolea, Feitaes, Adernas, Aficema, Alqueivi- 
nhas, Enxarafe, Futaca, Alpendre, Lisiria, nomes que 
ainda subsistem e que foram dados a povoações iso- 
ladas longe da protecção e visinhança de castellos 
senhoriaes. Pelos contractos civis d estes moradores 
se reconhece a influencia árabe principalmente nos 
nomes dos individuos, que umas vezes significam cru- 
zamento excepcional, e quasi sempre uma íórma pa- 
tronymica honrosa para ter direito á protecção ; abun- 
dam os factos no Lwro Preto da sé de Coimbra» 
N este precioso códice falla-se do architecto Zacha- 
rias, cordovez, que construiu nas visinhanças de Coim- 
bra as pontes de Alviastre, (Ilhastes) de Coselias (ri- 
beira de Coselhas), de Latera Buzat (ladeira ou en- 
costas do Bussaco ?) e na ribeira de Forma (Bossão.) 
Eram estes AlvenereSy christãos da classe dos Mui- 
ladies, como prova lucidamente Simonet, apontando 
obreiros que trabalharam nas grandes construcções 
árabes, sendo levados até Damasco. Sem o conhe- 
cimento desta grande classe social, que formava o 
povo agricultor e fabril, será sempre vago o quadro 
da sociedade ntosarabe^ em que se elaboraram os cos- 
tumes jurídicos dos Foraes, e os themas tradicionaes 
dos Romanceiros. 

No seu estudo sobre a Influencia do elemento in- 
dígena na cultura dos Mouros de Granada, do in- 
signe arabista Simonet, é coUocada em relevo uma 
grande classe hispano-goda, que se destaca dos Mo- 
sarabes pelo facto de se terem convertido ao isla- 
mismo para evitarem as perseguições religiosas e 
aproveitarem as vantagens da legislação administra- 
tiva, que nos impostos territoriaes os beneficiava. 
Taes eram os MuUadies, nome derivado da palavra 



8o HISTORIA DA POESIA 



árabe maulas, que quer dizer cliente. Os Mosara- 
òeSy pela intransigência da fé catholica, embora trata- 
dos com tolerância pelos árabes, provocavam ás ve- 
zes perseguições pela sua mesma exaltação religiosa; 
OS Mídladies, entre os quaes predominava a gente 
do campo, os homens de ofificio ou mesteiraes, entre- 
gavam-se ao trabalho, indifferentes a dogmas theolo- 
gicos ou formas cultuaes. Foi por esta communhão 
religiosa que os Mulladies influíram profundamente 
nas cidades árabes e nas populações berbericas e raau- 
rescas, infiltrando os conhecimentos e industrias da 
1 civilisação hispano-goda. Escreve Simonet: c Esta in- 
fluencia exerceram-na mais immediata e poderosa- 
mente os Mulladies ou hespanhoes renegados, que 
ao abraçarem a lingua de Mahoma, vinham a con- 
stituir, apesar da antipathia de raças, um só corpo 
de nação. Como consta pela historia, e o affirma 
Dozy (na Historia dos Mussultnanos de Hespanka, n, 
52, 53 etc.) a propósito das discórdias civis agitarem 
a Hespanha serracena na segunda metade do sé- 
culo IX, os Mulladies constituiam a parte mais nu- 
merosa, mais illustrada, e intelligente da população, 
contavam em seu seio muita gente nobre e abas- 
tada, e conservando o sentimento da sua força ma- 
terial e moral, em mais de uma occasião se suble- 
varam victoriosamente contra o dominio dos sultões, 
quasi causando a ruina da poderosa monarchia cordo- 
veza. Ainda que por differentes motivos tinham de- 
sertado da fé christã, muitos conservavam delia uma 
piedosa lembrança ... Os Mulladies chegaram a ser 
mui numerosos na cidade de Granada, onde muitos 
Mosarabes se tinham islamisado já movidos pela al- 
ciação de certas vantagens que isto lhes proporcio- 
nava, já pelo medo das perseguições e para se exi- 
mirem aos pesados tributos que lhes impunha a cu- 
bica dos seus dominadores. Principalmente a popu- 



POPULAR PORTUGUEZA 8l 

lação agrícola^ que agora abundava muito, graças á 
feracidade do solo, aproveitando-se das franquezas e 
benefícios que a lei mussulmana concedia aos islami- 
zados, tínha logrado por este meio conseguir a sua 
liberdade e livrar-se do odioso imposto de capita- 
ção.» * E um pouco adiante precisa Simonet essa in- 
fluencia : 

«Por via de uns e de outros, Mosarabes e Mui-- 
ladieSy a Hespanha sarracena recebeu dos Visigodos 
os caracteres especiaes que designam a sua pode- 
rosa civilisação, e que a excedem sobre a que se 
desenvolveu entre os mussulmanos de Africa, e ainda 
nas regiões orientaes. > As formas dos ornatos e es- 
tylos da Architectura, e muitos termos do vocabu- 
lário árabe derivam d esta influencia hispano- goda, 
ou propriamente românica. Os Mulladies eram des- 
considerados já pelos Árabes, já pelos christãos, e 
d'ahi a fácil conversão do nome de Mulladies no 
homophono que designava essa raça maldita ou de- 
generada por uma doença repugnante, os Mala- 
dos. Para evitarem esta oflensa elles attribuiam-se 
origens orientaes ; escreve Simonet : « Emquanto aos 
Mulladies, estes naturaes, segundo observaram criti- 
cos competentes, para fazer esquecer a sua origem 
hespanhola e christã, que os expunha aos desdéns e 
insultos dos Árabes e muslimes ferrenhos, costuma- 
vam dar-se por oriundos de tribus árabes ou berbe- 
rescas e fingir avoengos desse jaez, e alguns d*elles' 
para mais desorientar os curiosos figuravam-se nati- 
vos da remota Pérsia.» (Id., p. 53.) Na lucta da Hes- 
panha contra o judaísmo, no tempo da Inquisição, 
dizia-se ter raça ao que pertencia a esse povo ; e 
sangue infecto de judaísmo ao que tinha qualquer 



* Influencia dei elemento mdigena^ p. 36. 
Pões. popul. 



82 HISTORIA DA POESIA 



antepassado judeu na família. Foi neste mesmo sen- 
tido de infecção figurada pelo religiosismo catholico 
que a grande classe hispano-goda dos MfdladUs 
fora confundida malevolamente com os Maladcs ou 
leprosos. Alguns* eruditos, como Amador de los Rios, 
não souberam decompor a homophonia, não compre- 
hendendo por isso o facto social a que se allude no 
Romanceiro popular; assim no romance castelhano 
da Infanta de Francia, se lê: 

Tate, tate, caballero, 

No hagais tal vilania, 

Hija soy de un malato 

Y de una malatia^ 

El hombre que a mi Uegasse 

Malato se tornaria. 

No Romanceiro portuguez é também empregado 
este nome de afastamento de raça, ou social. E' mes- 
mo natural que esse nome se applicasse aos Mosa- 
raies, apesar de terem sido intransigentes na sua fé 
christã, desde que, na subordinação da Egjeja hes- 
panhola á supremacia de Roma, elles queriam man- 
ter a sua independência proto-cathedrica, como se in- 
fere pelo vigor das lendas do Apostolo San Thiago. 
No romance açoriano da Filha do Rei de França, 
diz a donzella ao cavalleiro : 

Não me leves por mulher, 

Nem mais pouco por amiga, 

Leva-me por tua moça, 

Por tua escrava cativa, 

Que eu sou filha de um malato 

Da maior malataria ; 

Homem que a mira se chegasse 

Malato se tornaria. 

O que queria dizer a maior ma/afaria? Já não 
era simplesmente a apostasia como a do Mulkidi, 



POPULAR PORTUGUEZA 83 



mas o cruzamento ou mestiçagem, como exprime a 
palavra árabe MowalUtd^ — o que nasceu de um pae 
árabe e de mãe estrangeira, como o define Engel- 
mann. * No romance do Cavador e a Donzella ha a 
mesma referencia á classe serva: 

Valha-te Deus, oh donzella, 
Valha-te Deus, oh donzilla, 
Disseste que eras malaia^ 
Tu és uma oiana minha. 

A falta do critério sociológico fez com que se não 
visse todo o valor histórico da palavra malado; no 
árabe maulai significava o patrocínio, a clientella, e 
esta palavra era empregada no mesmo sentido na so- 
ciedade neo-gotica, nas formas mallato e maulatum, 
como se vê em documentos do século x. A inter- 
pretação de doença é inepta. Transcrevemos para 
aqui ás palavras de Munoz y Romero, no seu es- 
tudo Do estado das pessoas nos reinos de Astúrias 
e Leão, pelas quaes se vê a importância social dos 
mMatos, que fortificando-se nas BehetriaSy pelo des- 
envolvimento dos Concelhos e dos Municipios con- 
stituíram o povo livre da sociedade moderna: «Em 
épocas de turbulência, como nos tempos medievaes, 
era necessário, como temos dito, que a pessoa que 
se não considerasse bastante forte para defender se, 
se collocasse sob a encommenda ou protecção de 
um homem poderoso. Chamava-se a esta protecção 
benefactoria, maulatum, palavra formada da arábica 
maulat, que significa patrocínio, clientella, e aquelle 
que estava debaixo da protecção de outro, homem 



' No Glossário de palavras hespanholas e portuguezas derivadas 
do arabe^ p. 87 ; Egylas y Yangua?, no Glossário de polabras eS' 
pãfiolas de origen oriental^ deriva também Malado de Maguallad 
— «o nascido de pae árabe e de mãe estrangeira, ou de um pae 
escravo e de mãe livre.» 



84 HISTORIA DA POESIA 

de benefactoria ou ntallatus, que equivalia a maula, 
nome com que os árabes designavam o cliente. Esta 
protecção não a procuravam somente as pessoas, se- 
não também os mosteiros e muitos logares, e outra 
não é a origem dos nossos povos de beheiria, voz 
corrompida de benefactoria, O homem livre, quer 
fosse nobre ou simplesmente ingénuo, ao encomen- 
dar-se ao patrocinio de outra pessoa, submettia-se ao 
mesmo tempo a uma espécie de vassalagem, pre- 
stando ao patrono certos tributos ou prestações em 
recompensa da protecção que devia dispensar.» * Mu- 
noz y Romero cita um privilegio de Ramiro ui, de 
958, e outro de Affonso v, de Leão de 1007, em 
que esta protecção do fptaulatum é concedida a dois 
mosteiros ; e em escriptura de 934, diz-se que os 
Condes D. Gutierre e D. Árias Menendes : «direxe- 
runt ad regem ad Legionem suo tnallato Bera. » Com 
o tempo a palavra árabe foi substituida pela sua tra- 
ducção de behetria (bien hechoria) ; Munoz y Romero 
conclue: «A classe dos homens de benefactoria foi 
diminuindo á medida que se ia desenvolvendo o po- 
der municipal. A protecção que aos nobres e aos 
que o não eram dispensavam era muito mais efificaz 
e desinteressada. — A instituição dos Concelhos foi 
indubitavelmente uma das que mais contribuíram en- 
tre nós para o desenvolvimento da civilisação, faci- 
litando a liberdade e emancipação das classes infe- 
riores. » Este conhecimento do poder dos Concelhos, 
que se defendiam tocando a rebate no sino, que cha- 
mava á revolta, acha-se n este anexim : 

Qual ric*omen tal vassalo, 
qual Concelho tal campana. ^ 



1 Del estado de las personas en los reinos de Astúrias y Lyon 
p. 44 a 48. — Doe. en Florez, Esparta sagrada^ t. xxxvi, p. 276 
€ t. XL, p. 399. 

2 Canc, da Vaticana, Canç. 1082. 



POPUIJIR PORTUGUEZA 85 



A interpretação de malado como sendo o mala- 
tus (aegrotus) da baixa latinidade, e fnalauty mala- 
ptia e malautiay do provençal, francez, catalão e ita- 
liano, significando a elephantiase ou a lepra, não der- 
roga o primeiro sentido ethnico e histórico, porque 
além da homophonia a elephantiase propagara se na 
Europa pela raça semita, e os cruzamentos com ára- 
be ou judeu eram condemnados pela egreja càtholica 
ante a perspectiva da terrivel doença. Nos poemas 
do século XII, quando começava o mister de clere- 
cia^ em que predominava o espirito catholico, como 
na Vida de Santo Domingo, de Berceo, o enfermo 
lazrado ou gafo, é equiparado ao malato, (V 475 a 
478) ; e na Crónica rimada ha o equivoco : 

So la capa aguadera alberga ai malato ; 

Et en siendo dormient, à la oreja le fabló el gapho. 

Mas, essa homophonia, segundo a linguagem figu- 
rada da reacção catholica, que considerava sangue 
infecto o dos cruzamentos com mouro ou judeu, re- 
solvia-se afinal na condição ethnica primitiva dos 
MuUadies, Em todas as classes sociaes decahidas ha 
sempre a perversão pejorativa do nome que as de- 
signa, como se vê nesse outro nome dos Cagots da 
França meridional. * 



^ M. Gaston Paris, fnndando-se no sentido de leproso dado a 
ntalado na poesia popular da Normandia (Gaste, Chansons nor- 
fnandes, n.*» xLíil) e da Provença (Arbaud, Chants pop. de la Pro- 
vence, II, 96), fortifica n'este sentido a palavra do romance caste- 
lhano. £* preciso lembrar que conservando -se a palavra Malado e 
acabando o estado social da clientella inferior que ella significava, 
identificou-se com aquella das palavras homophonas que mais se 
aproximava da ideia pejorativa que continha. Aqui o critério ethnico 
tem de esclarecer o critério philologico. (Vid. Revue critique^ n, 

296.) 
Um facto semelhante se dá com o nome injurioso Arlot (no 



8o HISTORIA D POESIA 



Nos Romances populares da Beira encontram-se 
referencia inconscientes a dignidades e formas so- 
ciaes germânicas ; o que se intitula Dom Garfos con- 
serva a relação com graf, conde, como se confirma 
com a versão castelhana do Conde Grifos Lombar- 
do ; em um outro romance passa-se com o Duque €ia 
Lombardia a aventura amorosa, e com um caracter trá- 
gico no Conde da Allemanha, Aqui o nome de -/í/- 
Utnanha é um abrandamento popular de AritnanúZj 
que designa o cantão formado pelos homens livres 
(os ArintanHy entre os Lombardos), e que segundo as 
Fórmulas de Marculfo existia também fora dos usos 
lombardos. Savigny, na Historia do Direito romano 
na Edade media, explica: tarimann exprimiria o goso 
de todos os direitos dos cidadãos, ao qual se ligavam 
naturalmente todas as ideias de consideração e digni- 
dade. Muitos motivos me fazem preferir esta segunda 
etymologia (a de Moeser). Antes de tudo, esta cir- 
cumstancia, que muitas vezes as mulheres eram cha- 
madas arimannae, titulo inexplicável se arimann si- 
gnificasse homem de guerra.! (Ob. cit., i, 259, trad.) 
Na peninsula hispânica o nome de Arimann identifi- 
cou-se com o de Germão ou irmão, mantendo a tra- 
dição da mutua alliança territorial das Arimania na 
resistência das Yrmandades ou Hermaidades, 

Quando foram redigidos os Foraes, no século xn, 
dando forma escripta aos costumes jurídicos, muitos 
symbolos se acharam dando relevo a esses actos ; a 
raça germânica riquíssima dessa poesia, como obser- 
vou Reyscher, na sua incorporação no povo mosarabe 



Canc da Vaticana, n.° 97, Arlotas ; no Poema da Cruzada con- 
tra os Albigenses Arlot), que deriva de um estado social germâ- 
nico, quando o Ariman, por eífeito da absorpção da vassalagem 
se confundiu com o leude^ e dando logar á designação do Arm- 
kute, por abreviação popular veiu a exprimir sob o nome de Ar^ 
ot o vagabundo, o depravado. 



POPULAR PORTUGUEZA 87 



manifestou-a além dos seus Faraes, também no seu 
Romanceiro. * Nesse symboKsmo, a mulher casada, 
trazia o cabello at£ulo, a viuva usava de iouca, e a 
solteira os cabeUos soltos; assim» lê-se no poema Vida 
de Santo Domingo^ de Berceo: «Los varones ade- 
lante, et apres Ias tocadas,!^ i^ 558.) No romance po- 
pular açoriano D, Helena, a moribunda esposa deixa 
o filho recém nascido á velha avó : 

Com as lagrimas dos olhos 
E' que t*o hade lavar ; 
Com a coifa da cabeça 
E' que.fo hade limpar. 

O symbolo germânico do cabello atacb, como re- 
presentando a subordinação do casamento, ainda se 
reflecte na cantiga açoriana: «Menina ate o cabello, 
— Que atado fica-lhe bem ...» E' uma allusão de- 
licada ; e mesmo na canção trobadoresca de Pêro 
Gonçalves de Porto Carreiro, do século xiv: 

Par deus, coitada vivo, 
Poys non ven meu amigo, 
Poys non ven, que farey ? 
Meus cabellos com sirgo 
Eu non os liarei. 

Poys non ven de Castela, 
Non é viV, ai mesela, 
Ou m'o detém el rey. 
Mhas toucas de Castela 
Eu non vos tragerey. 



^ Quando pela primeira vez tentávamos a investigaçSo na Poe» 
sia do Direito, em 1865, da origem germânica de certos costu- 
mes jurídicos, tamhem Fernando Wolf, no Bátrag zur Rechtssym- 
bolik aus spanischen Quellen, n'esse mesmo anno fazia a compara- 
ção de costumus portugueses com os germânicos. E comtudo esse 
meu trabalho só me serviu de descrédito diante dos cathedraticos 
da Faculdade de Direito. 



88 HISTORIA DA POESIA 



O cabelh solto, ou in capUlo, como signal de sol- 
teira, acha-se no romance insulano de Dom Varão: 

«Venham armas e cavallo, 
Quero ser filho varão ; 
Quero ir vencer as guerras 
Entre França e Aragão. 
— Tendes o cabello grande^ 
Filha, conhecer vos-hão. 

Nas leis saxonias a donzella era chamada capil- 
lata, ou filia in capillo; e segundo a Chronica de 
Roberto de Gloucester, os homens da classe baixa 
eram filhos dos saxões. 

A penalidade symbolica reflecte-se como eífeito da 
vida real no romance popular. No Código Vi.-igoti- 
co, inflige-se a pena de fogo á mulher livre que se 
abandonar a um servo (iii, 2, cap. 2), e no romance 
de Lisarda se lê : 

— Oh Lisarda, oh Lisarda, 

O pae te manda queimar, 

«Não se me dá que me queimem^ 

Que me tornem a queimar, • 

Dá-se me doeste meu ventre 

Que é de sangue real. 

Segundo uma lei dos Ditmarses, citada por Jacob 
Grimm, a rapariga que apparecesse gravida, podia 
ser enterrada viva, por conselho dos seus parentes; 
eis o seu espirito em um romance castelhano : 

Que quien buena fija tíene 
Rico se debe Ilamar, 
E' el que mala la tenta, 
Viva la puede enterrar, 

(Ochôa, Tesoro, 56.) 

A pena infamante do direito germânico, de ir 
montado em um jumento com a cara para traz, le- 



POPULAR POKTUGUEZA 89 



vando na mão o rabo como freio, que se cita no 
Nobiliário, apparece em um romance castelhano: 

Desciendole de una torre 
Cabalgando en su rocin, 
La cola le dan por riendas 
Por mas deshonrada ir; 
Cien azotes dan ai conde, 
E' otros tantos ai rocin. 

E em outro romance com egual symbolismo: 

Una cadena a su cuello, 
Que de hierro era el coílar; 
Cabalgando en una mula 
Por mas deshonra le dar. 

(Ochôa, Tesõro, p. 3 e 23.) 

Nas leis saxonias a mulher adultera devia estran- 
gular-se a si própria *; e no romance popular da 
Silvana, da versão dos Açores, o pae deixa á filha 
que desherdara : 

Aqui tens um punhal de ouro 
Para seu brio guardar. 

Nas Leis lombardas fazia-se o casamento pela es- 
pada ; no romance de Gerinaldo, o rei ao encontrar 
o pagem dormindo com a princeza, deixa o seu pu- 
nhal mettido entre ambos, do mesmo modo que se 
conta do thalamo de Brunhilde e Sigurd: «Que se 
coUoque entre elle e mim a espada de ouro, como 
se coUocou entre nós quando subimos para o mesmo 
leito e nos deram o nome de esposos.» 

E no romance de Gerinaldo, canta o povo do 
acto symbolico de Carlos Magno : 



* Michelet, Origines du Droit f rançais^ p. 389. 



gO HISTORIA DA POESIA 



Pegara do seu cutello 
Deixa-o entre ambos mettidOy 
Com a ponta para a íilha 
Que a morte tem merecido. 

Neste mesmo romance dá-se a distinção senho- 
rial de sentar d mesa como symbolo da egualdade. 
O juramento pela barba, ou inçando a barba, era 
consuetudinário, e característico dos poemas carlingios, 
como observa Michelet. No romance do Marquez 
de Mantua, elle faz o juramento pela barba de que 
hade vingar a morte do sobrinho: 

Las barbas de la su cara 
Empezolas de arrancar, 
Los sus cabellos mui canos 
Cemenzoles de mesare 



Juro por Dios poderoso 
De nunca peinar mis canas, 
Ni las mis barbas cortare. 



(Ochôa, TesorOy i6 e 19.) 

O juramento com a mão descoberta levantctda para 
o dr, como se encontra em um costume de Reims, 
apparece no romance castelhano : 

Aljaron iodos las manos 
En senal que se juro. 

(Ochôa, lesoro^ 118.) 

Na sentença dada no tempo de D. Sancho 11, para 
determinar os limites entre a Covilhã e Castello Bran- 
co, praticou-se este juramento symbolico, alludido nos 
romances populares : * Feito isto, todos os de Cas- 
tello Branco erguerão as mãos para o céo, e farão 
perante Deus a promessa de observar e manter para 



POPULAR POKTUGUC2A QI 



sempre tudo quanto n'este accordo se contem.» * 
No direito consuetudinário do Rheno não se devia 
enterrar, o cadáver do assassinado emquanto a sua 
morte nâo fosse vingada, ou compensada a dinheiro ; 
no romance do Marquez de Mantua ha essa remini- 
scência: 

Prometo de no enierrare 

£1 cuerpo de Baldovinoá 

Hasta su muerte vengare. 

Uma lei anglo-saxonia estabelecia: cSe uma mu- 
lher ou rapariga foi achada em deshonestidade, que 
as suas fraldas lhe sejam cortadas em roda^ á al- 
tura da cinta,- e que seja fustigada e mandada em- 
bora no meio de apupos do povo. » * Num dos ro- 
mances do Cid^ Ximena vae queixar-se ao rei do as- 
sassino de seu pae, o qual lhe jurara : 

Yo te cortaré las faldas 
Por vergonzoso lugar, 
Por cima de las rodillas, 
Un palmo y mucho mas. 

Enviósele á decir 
Envióme a menazar, 
Que me cortara mis haldas 
Por vergonzoso lugar. 

(Ochoa, Testrt^o, 105 ; 131. 

Na comedia Ulyssipo, (fl. 47) também Jorge Fer- 
reiro emprega este symbolo, que provavelmente co- 
nheceu das fontes populares: «e se não bastar isto, 
cortar-voS'hei as fraldas pelos giolhos, e lançar-vos- 
hei a arvor^» E' também germânica a superstição da 
Camisa de soeorro, chamada Notkekendi, que era te- 



1 Herculano, Historia de Portttgal^ t. iv, 444. 

* Michelet, Origines, da Droit f rançais ^ p. 386 e 286* 



92 HISTORIA DA POESIA 



cidã e cosida em uma só noite ; acha-se prohibida no 
Canon lxxv de S. Martinho de Braga, e nas Constitui- 
ções do Bispado de Évora; no Poema de Alexan- 
dre, vem descripta: 

Fecieron la camisa duas fadas en la roar, 
Dieronle dos bordados por bien la acabar, 
Qualquer que la vestiesse ficasse sieropre leal... 

(Est. 89) 

Quem trazia a camisa de soccorro nunca podia ser 
ferido na guerra e era incólume aos perigos ; no ro- 
mance da Silvanay quando o pae a provoca ao in- 
cesto, ella diz : 

Mas deixae-me ir a palácio 
Vestir outra camisa^ 
Que esta que tenho no corpo 
Peccado não o faria, 

E no romance da Donzella que voe á guerra, 
quando resiste ás provocações do filho do capitão 
para se deitarem na mesma cama, diz ella: 

Tenho feito juramento, 
Espero de o não quebrar, 
Emquanto eu andar na guerra 
As ceroulas não tirar. 

E no romance do Conde de Allemanha: 

Mangas da minha camisa 
Não as chegue eu a romper, 
Se meu pae vier pVa casa 
Eu lh'o não fore dizer. 

E' este symbolismo um dos caracteres archaicos da 
poesia popular portugueza ; a ^Aa das kervas e a 
kervoeira, ou o filho da floresta, o champi do direito 



POPLLAR PORTUGUEZA qS 



consuetudioarío francez, apparece com o seu colorido 
germânico e mais ainda oriental na canção da En^, 
g-eitada, do Algarve: 

Não conheço pae nem mãe, 
Nem n'esta terra parentes, 
Sou fJha das pobres ervas, ■ 
Neta das aguas correntes. 

Junto ao symbolo desenvolve se a superstição ; as- 
sim a erva fadada e a fonte mysteriosa têm no ro- 
mance popular o poder de tomar pejadas as mulhe- 
res ; lê se no romance de D. Aasenda (Auseia ou 
Ysetdt) : 

A' porta de Dona Ausenda 
Está uma erva fadada, 
Mulher que ponha a mão n'ella 
Logo se sente pejada. 

E na versão de Coimbra, intitulada D. Ateria: 

A cidade de Coimbra 
Tem uma fonte de agua clara. 
As moças que bebem n'ella 
Logo se sentem pejadas. 

O carvalho sagrado da mythologia teutonica Vg- 
gdrasil, é o carvalho á sombra do qual se fazia o con- 
selho dos homens bons nos Foraes portuguezes e nas 
behetriasi é esse mesmo carvalho que tantas vezes 
se torna o logar da acção nos romances populares. 
As encantadas estavam sempre á sombra de um car- 
valho, como se vê no romance castelhano da Infania 
de França: 

Arrimara-se a un roble 
Por esperar compania. 

Arrimara -se a un roble 
Alto es á maravilla, 
En una rama mas alta 
Viera estar una Infantina. 

(Ochôa, Tesorcy 7.) 



94 HISTORIA DA POESIA 



Nos romances açorianos dò Caçador e da Donstilla, 
Bilha do Rei de França, e Donzelía encantada^ ai- 

lude-se ao carvalho gigante, o Yggdrasil: 

Se sentara a descansar 
De tão cansado que ia ; 
Debaixo de um arvoredo 
Bem alto de françaria. 
Levantou olhos pVa cima, 
Viu estar uma donzilla. 

Em um romance popular da Covilhã ha allusâo á 
fonte de Urda, onde estão as Nomes ou Moire li- 
gadas pelo encantamento: 

Deitou os olhos ao largo, 
Viu lá estar uma donzilla. 
Penteando o seu cabello 
Em um tanque de agua fria. 

Nas crenças populares, as Aguas santas e Fontes 
santas derivam dessa representação mythica da fonte 
de Urda, como se confirma pela presença do Car- 
valho sagrado: «Entre o extincto convento desta 
villa (de Alcarrede) e a freguezia da Mendiga, ha 
um logar que se chama Entre Cabeças, onde ha um 
carvalho, no pé do qual, que poderá ter treze pal- 
mos de altura, abriu-se uma espécie de cova ou 
grande bacia; enche-se de agua pluvial, e n*ella se 
conservaria em grande quantidade por todo o sitio, 
se não fosse colhida pelos habitantes das freguezias 
visinhas para d'ella fazerem uso em differentes occa- 
siões.» * A tradição das Moiras encantadas é um 
syncretismo operado na imaginação popular pela ana- 
logia de Mahra e mahr, que nas linguas do norte 



1 Dicc. abreviado de Chorographia^ t. Ill, 4. 



POPULAR PORTUGUEZ\ g5 

designa o espirito incubo ; a Norne ou fada germâ- 
nica que presidia ao passado tinha o nome de Meyar 
ou Moer^ que Alfred Maury, no estudo Les Fèes du 
MoytM-Age, aproxima da Moira grega e da Maira 
das inscripções latinas; a filiação tradicional explica se 
pela ideia do thezouro enterrado, thema fundamental 
das epopêas germânicas. Na tradição portugueza as 
Moiras encantadas guardam sempre thezouros enter- 
rados, como ainda o refere Gil Vicente : 

Eu tenho muitos thejouros 
Que lhe poderão ser dados, 
Mas ficaram enterrados, 
D*elles do tempo dos moiros^ 
D'elles do tempo passado. 

(Obras, n, 489.) 

Até que ponto o elemento hispano -godo se fusio- 
nou com o elemento árabe? As opiniões têm sido 
vacillantes; uns, como António José Conde, attribuem 
a poesia, o canto, a cultura scienti6ca aos árabes ; 
outros, como Dozy e Simonet restringem essa influen- 
cia. E' certo que festas communs aos dois povos, 
como as Maias, o San JocU) coincidiam com os mes- 
mos aspectos ; certas formas de desafios poéticos são 
eguaes á desgarrada portugueza, ao contrasto italiano, 
e na decadência da raça semita na peninsnla, os jo- 
graes moiros concorriam ás festas publicas. Vejamos 
as theorias como ellas se manifestaram; em 1693, 
Huet, na sua Origem dos Romances assentou que as 
ficções cavalheirescas tinham sido introduzidas na Eu- 
ropa pelos Árabes hespanhoes ; seguiu-se-lhe nesta 
hypothese Masdeu, Quadrio e "Warton. O que Huet 
particularisara, foi ampliado pelo Abb. Andrés na 
Historia dé todas as LitteraturaSy derivando o ly- 
rismo provençal da poesia dos Árabes, considerando 
a versii&cação hespanhola também da mesma origem. 



q6 historia da poesia 

Seguiram a opinião do jesuita hespanhol os histo- 
riadores Ginguené, Sismondi, e os continuadores da 
Historia litteraria da França; António José Conde 
considerava de origem árabe o Romance peninsular, 
e o atilado Fauriel ainda attribuia a cultura da França 
meridional á influencia dos Árabes A questão mu- 
dou de aspecto em 1 849 ; Dozy, nas Indagações so- 
bre a historia politica e litteraria da Hespanha na 
Edade media negou cathegoricamente a influencia 
árabe sobre a poesia nacional, partindo do ponto 
que os Árabes hespanhoes como os da oriente, pos- 
suiam uma poesia artistica, aristocrática, de um sub- 
jectivismo lyrico excessivamente obscuro, por todos 
estes caracteres inintelligivel ao povo ; Fernando Wolf 
emquanto aos romances mouriscos, considerava os ex- 
tranhos ao génio árabe, apesar do seu tom lyrico e 
de um colorido vivo e brilhante que occulta o arti- 
ficio e substitue a espontaneidade do sentimento. O 
insigne arabista D. Pascoal de Gayangos, annotando 
a Historia da Litter atura espanhola de Ticknor, re- 
sponde ás objecções de Dozy: «pêro creemos. aun- 
que el lo niegue, que los árabes espanoles teniam 
tambien su poesia vulgar ai alcanze de las massas 
dei pueblo, y que esta poesia produjo cantares, cuyo 
caracter y asunto tuvo ciertos puntos de contacto 
con la poesia vulgar espanola, atendida Ia diferencia 
de religion y costumbres.» (/^., i, 514.) O testemu- 
nho de Álvaro de Córdova faz suspeitar essa influen- 
cia populaf, e tanto mais, que da lingua árabe se 
formou, um dialecto, a que se acham referencias fre- 
quentissimas na historia da Edade media. Sobre este 
facto escreve o grande semitologo Renan : «O árabe, 
que exerceu uma acção tão profunda sobre a lingua 
dos povos sujeitos ao islamismo, em geral, soffreu 
pouquissimo a influencia das línguas indigenas nos 
paizes que conquistou. A raça árabe, a não. ser em 



POPULAR PORTCGUEZA 97 



Hespanha, não se misturou com os povos vencidos. 
Apenas se citará um ou dois exemplos de dialectos 
árabes completamente desfigurados pela mistura de 
elementos bárbaros. . . Assim, na Hespanha meridio- 
nal, a lingua árabe tornando-se a linguagem da po- 
pulação christã corrompeu-se e formou o Alosaraòe, 
que, pelo que se diz, sobreviveu até ao século pas- 
sado nas montanhas de Granada e da Serra More- 
na ...» * Este dialecto popular do árabe teve o nome 
de Ar avia e Algaravia \ nas iVIemorias ai>ulsas de 
Santa Cruz, referindo-se á tomada de Santarém, le- 
se : cEste Meem Moniz era mui ardido cavalleiro, e 
sabia tnuy bem f aliar a aravia. . . E depois que to- 
dos três foram em cima do muro pozeram a huma 
ponta Meem Moniz : e a vella que estava em cima 
do caramanchão quando sentiu Meem Moniz que se 
hia alargando pelo muro para dar lugar aos que en- 
travam disse-lhe : — manahu, e el respondeu-lhe em 
aravia, e fezeo decer, e logo que foy em fundo cor- 
tou-lhe a cabeça e deitou-a aos de fora.» ^ No ro- 
mance popular do Figueiral, vem: — «Lingua de 
aravias eu las falarei. » Nos poetas do século xv, cu- 
jas obras se acham no Cancioneiro geral de Garcia 
de Resende, a aravia é citada como uma giria po- 
pular e maliciosa : 

D'estas novas não dou mais, 
por que seraa demasya 
querer falar aravia 
com vós que a ensinaes. 

{Canc. ger., II, 300) 

Dois pontinhos de Aravia. 

(lò., i6«.) 



1 Historia geral das Línguas seviiticas, p. 397. 

2 Portugaliae Mon. hist, — Scriptores, p. 28, col. 2. 

Pões. popul. 



98 HISTORIA DA POESIA 






E falia mil aravias. 

{Canc. ger.y III, 186.) 

Pareceys per aravia 
grande couvão de vesugos. 

(IK 617.) 

Na linguagem cómica empregaram esta palavra Gil 
Vicente e Jorge Ferreira sempre no sentido de gí- 
ria popular: «Ninguém me falle aravia> como se lê 
na Aulegraphia (act. ii, se. lo.) E Fr. Filippe da Luz 
nos Sermões emprega-a condemnando-a : «Uns vereis 
que não faliam senão a aravia do inferno, como são 
os que pedem a Deus favor para cousas de offensa 
sua.» E no meado do século xvii D. Francisco Ma- 
noel de Mello referia-se ao canto popular : 

Cantarei algarahia 
Se mandaes. 1 

E' n'esta forma que se encontra no velho romance 

castelhano em uma scena da antiga sociedade mosa- 

rabe : 

Yo me era mora Moraima, 
Morilla de un bel catar, 
Cristiano vino á mi puerta, 
Coitada, por me enganar; 
Hablóme en algarahia^ 
Como quien la sabe hablar... 

Como forma cantada de poesia acha-se nas Rela- 
coes annuaes do P.^ Fernão Guerreiro (1600 a 1609)' 
«EUe começou a entoar huma aravia, de que lhe 
não entendemos nada.» ^ Na investigação dos can- 
tos populares na ilha de S. Jorge (Açores), escrevia- 
nos o Dr. João Teixeira Soares em carta de 24 de 

1 Obras métricas^ t. II, p. 248. 

2 Relates, vol. 11, liv. 4, cap. 3. 



POPULAR PORTUGUEZA ()g 



Novembro de 1868 : c Observarei a v. que o povo 
applica a todos os Romances e Xacaras o epitheto 
de AraviaSy^ E' evidentemente um efíeito do em- 
prego frequente no século xv, através do desdém dos 
poetas cultos do Cancioneiro. Mas este problema tem 
raizes ethnicas que só poderão ser discutidas conjuncta* 
mente com a forma do Romance, que levara Conde 
á illusão de a suppôr de origem árabe. Em contra- 
posição ao dialecto árabe, também o dialecto româ- 
nico, a que chamavam ladinha christenga, era em- 
pregado nas relações da raça vencedora, como ve- 
mos no verso do Poema dei Cid: «Un moro latinado 
nen ge lo entendió ...» (v 2676.) A poesia que po- 
deria ser commum aos dois povos, era somente aquclla 
do período ante-islamico, aphoristica ou gnomica, em 
breves conceitos, como as cantigas soltas ; diz um 
antigo auctor árabe citado por Soyuthi : «Os antigos 
árabes não tinham outra poesia senão os versos des- 
tacadoSy que cada um proferia a propósito. » * Daqui 
também a illusão de que a quadra peninsular fosse 
de origem árabe. Com o apparecimento de Maho- 
met a poética árabe recebeu uma transformação ra- 
dical ; o alto purismo a que fora levada a lingua exi- 
gia o principio da quantidade * como base da metri- 
ficação. Os povos que continuavam a cultura latina 
não compehendiam a quantidade, e os h}'mnos latinos 
já a começar em S. Dâmaso baseavam o seu rythmo 
sobre a accentuação syllabica. Portanto, as escholas de 
poesia árabe em Évora no século v, em Silves e San- 
tarém no século vi, e em Mertola, das quaes falia Ri- 
beiro dos Santos, ^ nenhuma influencia poderiam exer- 
cer no systema da versificação populdr, nem deixar 



* Renan, Op. cit^ p. 356. 

2 Id., ib, 362. 

3 Mem. da Acad,, t. viii, p. 236. 



I o o HISTORIA DA POESIA 

vestígios entre a população mosarabe. Renan escre- 
ve na sua obra capital Historia geral das Linguas 
semiticas, caracterisando a transformação da Poesia 
árabe depois de Mahomet : «ella soflfreu uma transfor- 
mação análoga (se. á da prosa corrente) ; até então 
havia sido entre os Semitas puramente rythmica, não 
se distinguindo da prosa a não ser por um arranjo 
de phrase mais artificioso, por trocadilhos de pala- 
vras e letras, e por um certo capricho de rimas. Des- 
tinada a exprimir sentimentos individuaes e situa- 
ções transitórias, ella fluctuava na tradição sem che- 
gar nunca a um texto fixado syllaba por syllaba. A 
partir do século que precede o islamismo, ao contra- 
rio, a poesia torna-se erudita, complicada, sujeita a 
uma prosódia mais afastada do génio primitivo das 
linguas semiticas. Uma singular originalidade de in- 
spiração sustenta então estas composições um pouco 
artificiaes na forma ; mas depois do islamismo, a Poe- 
sia descurada pelo Propheta, privada das instituições 
que a faziam viver, decae rapidamente, Ella é con- 
tinuada no deserto por duas ou três gerações de poe- 
tas beduinos, quasi extranhos ao islamismo ; depois, 
os progressos da religião nova, as commoções politicas 
e o abaixamento da raça árabe, quasi que lhe extin- 
guem os vestigios. Transportada do deserto para as 
cortes da Syria, da Pérsia, do Khorasan, de Marro- 
cos, de Hespanha, a. poesia árabe nas mãos de Mon- 
ténahbi, d'Abulalá, e de seus imitadores, não é mais 
do que uma curiosidade, e cae, cada vez mais, em 
consequência da influencia pérsica, na afifectação e no 
máo gosto. Mas, importa lembrar, que o génio se- 
mita não entra por nada n*estas subtilezas. O gosto 
semítico é de si mesmo sóbrio, grande, severo, e 
nada tem de commum com esse estylo detestável 
que se acostumaram a chamar oriental, quando a re- 
sponsabilidade d'elle deve pesar sobre os Persas e os 



POPULAR PORTUGUEZA JOI 



Turcos.» * Pela simples exposição d'esta thesc, vc-se 
que os hispano-godos, especialmente as populações 
inosarabes nada podiam receber da poesia islâmica, 
peculiar das cortes e dos eruditos, e cada vez de- 
cahindo mais nas subtilezas que a separavam da rea- 
lidade da vida; não lhe revelava os grandes mythos, 
nem revestia de symbolos as suas representações. 
Dozy tinha rasão, negando a influencia da Poesia ára- 
be nos povos da Hespanha ; não observou o aspecto 
completo da questão, porque a par do árabe litte- 
ral, artificioso e puro, creou-se o árabe oral, fallado 
pelo povo, reduzido á simplicidade, fazendo por meio 
de prefixos o que o árabe litteral fazia pela combi- 
nação de vogaes finaes. Estava este processo em ac- 
ção na morphologia dos dialectos românicos em Hes- 
panha; tinha o árabe oral ou vulgar a prosódia da 
accentuação, que prevalecia na versificação românica, 
emíim formando-se essa araroia ou algarabia, de que 
faliam os documentos, era nella que se exprimia uma 
poesia nascida da communicação popular ou adaptan- 
do se a ella. Emquanto a poesia aral)e das cortes se 
dissolvia em um lyrismo requintado e artificioso, des- 
envolvia-se entre o povo a forma narrativa dos Al- 
hadits, ou contos, relações, historias em verso, como 
que obedecendo a essa corrente em que se elabora- 
vam os Romances hespanhoes ou mosarabes com os 
velhos themas poéticos occidentaes ; assim podia a 
Aravia significar o Romance na sua estructura poé- 
tica e melopêa, porém o génio árico fixava a sua 
narrativa na métrica do verso, e o génio semita aban- 
donado á improvisação do momento pendia para o 
Conto em prosa. A zambra árabe era uma seroada 
ou festa em que os homens passavam a noite con- 
tando Contos, denominados Asaniir, no estylo das 



1 Op. «V., pag. 382 



-w- 102. ".' l HISTORIA DA POESIA 






^í/í?" ^ «/Ãíí ^noites, * Este costume conserva-se em 
muitas aldeias de Portugal, e como continuadores das 
zambras mouriscas ha os Patranheiros, eguaes aos 
Contistori de Nápoles. 

Em outras circumstancias o génio árabe com a 
pompa das suas imagens e tropos arrojados, sem in- 
fluir na morphologia da quadra ou seguidilha mosa- 
rabe improvisada, não deixaria de fornecer bellos tro- 
pos para as comparações subjectivas da cantiga; Re- 
nan considera qssqs pequenos discursos em imerso como 
forma primitiva da poesia semítica, bem authentica 
nas collecções dos monumentos ante-islamicos, e mes- 
mo dos hebreus: eram os versos destacados como a 
cantiga solta, improvisados ou applicados a uma si- 
tuação ou emoção de momento. E' egualmente esta 
a poesia viva dos hespanhoes e portuguezes, que 
acompanha o trabalho e as alegrias da existência. O 
povo tira as suas imagens pittorescas dos phenome- 
nos que se lhe offerecem no mundo exterior para 
exprimir a emoção subjectiva ; por vezes no seu or- 
nato comparativo lembra as preferencias do génio 
árabe na arte decorativa : 

O sol prometieu á lua 
Uma^/a de mil cores ; 
Quando o sol promette á lua, 
Que fará quem tem amores } 

Sobrancelhas como as vossas 
E' impossível havel-as ; 
São laços de fita preta 
Com que se prendem estrellas. 

Quando era moça solteira 
VsdiWdL fitas e laços; 
Agora, que sou casada 
Trago meus filhos nos braços. 



^ Engelmann, Op. cit,^ p. 87. 



PGÍ* l. L-Km. s«: ST-/; • ^ à 



O género dos retrates, e c Í33 z„i In- >.*c"-> :? a 
serie das //•/r^w alrh3.betiras, slo um 2't:*^r:o ': c'^t."» 
arabe que se propago-- a'?s prvcs reri-.-jIires. 

A inriuencia da pesia ani-e *•— —i^-^ --.^ ,-w 
progresso da reconquista chri-tl, itter-jrvse rr. ^is 
com a revivescência das trai:; "es ::í"rmirijas moti- 
vada pelas invasões dos Normar. :.-^ r -^ <e~ '.v: nr e v 
A poesia gótica combati ia p^ia rear:^- cathrlira, 
reflectindo-se nos costumes, nas s-rersti::es. nos 
symbolos jurídicos das pcpuIaçCes mcsarares, retem- 
perou-se cora essas in\-as'es, cje foram p^.^r mjito 
tempo desconhecidas pelos historiadores. Na vida de 
San Rudesindo, descreve se o combate q-e teve o 
santo contra os Normandos, que desembarcaram na 
Galliza: «susteve os Normandos e os Mouros; com 
o auxilio de Deus expulsou os Normandos da Gal- 
liza ... 1 * No meado do século x occuparam os Nor- 
mandos as margens do Minho : eram como os ogres 
dos contos populares, roubavam e devastavam tudo, 
explorando o resgate dos cativos. O castello de S. 
Mamede foi levantado por Mumadona (qoS) para de- 
feza de um mosteiro de que era protectoia; no Elu- 
cidário cita-se ura documento do século xi, em que 
se contracta o resgate de duas mulheres apanhadas 
pelos leudomanos. Os piratas devastavam as costas 
arrogando-se o direito a que chamavam strandhug, 
logo que no mar lhes faltassem os viveres. * Os Nor- 
mandos que invadiram Portugal seriam já os scandi- 
navos sedentários na França; mas pela recrudescên- 
cia das invasões do século ix, vè-se que este movi- 
mento coincide com a proscripçâo do rei Harald Har- 
fagher, que absorveu sob o seu domínio todos os pe- 



^ Portugaliae Mon hist, Scriptores, p. 35, col. 2. 
Depping, Hist. des expedi tions niaritimes des Normands. t. li 
P- 57. 



I04 HISTORIA DA POESIA 



quenos estados da Noruega, de que resultou a ex- 
patriação de muitos guerreiros e famílias, e ao mes- 
mo tempo a prohibição da pirataria e do direito de 
strandkug. * A fundação da villa de Gundarem é at- 
tribuida aos Normandos, do solar de Candarey. So- 
bre estas invasões frequentíssimas dos Scandinavos, 
ha hoje trabalhos especiaes, como os de Mooyer ^ e 
de Kristoffer Fabricius. ^ Os historiadores árabes fo- 
ram os primeiros que descreveram essas invasões; 
é o mais antigo Ibn-al-Kutia, consignando relações 
minuciosas da invasão de 844, e pela segunda vez 
em 858. Ibn-Adhari, descreve a primeira invasão re- 
ferindo-se a uma carta do governador árabe de Lis- 
boa, que annuncia o apparecimento de cincoenta e 
quatro baixeis dos Madjus, como elles chamavam aos 
homens no norte. O terceiro historiador é Nowairi, 
que narra como os Madjus appareceram em Lisboa, 
depois em Cadiz, conta como acamparam perto de 
Sevilha, e como foram combatidos por Abderame 11. 
Dos historiadores árabes é que as noticias das inva- 
sões foram colhidas pelos chronistas christãos; assim 
Kodrigo de Toledo segue litteralmente Ibn-Adhari, e 
o Chronista de Afíbnso o Sábio ao mesmo Rodrigo. 
Tembem nas Sagas do norte ha testemunhos do seu 
conhecimento das costas da Galiza, de Portugal e da 
Andalusia, citando a Span, Spanland, e Yspania, 
Portugal ; e a Galizaland também é chamada pelo 
nome do apostolo San Thiago Jacobsland, Ha três 
relações de viagens d'esses homens do norte. A Saga 

^ Augustin Thierry, Hist, de la Conquete de V Angleterre^ t i, 

p. 136. 

2 Traduzido por Gabriel Pereira, Invasão dos Normandos na 
Península ibérica. Évora, 1876. In- 8.** de 22 pp. 

3 La connaissance de la Peninsule espagnole par les Hofnmes du 
Nord. Lisbonne, 1892. In-8.° de 11 pp. — La première invasion des 
Njr^nands dans VEspagne mulsunwne en 844. tdem, ib. In-8.° de 
22 pp. 



POPULAR PORTCGUE2A i03 



de Santo Olaf contém a primeira narrativa ; a se- 
gunda é a da expedição do joven rei Sii^urvl, e a ter- 
ceira é a da viagem da princesa Christina, que viera 
a Hespanha para casar com um rilho de Aribnso o 
Sábio. As luctás dos Normandos contra os Árabes, 
a vinda de cavalleiros do Norte á cruzada da Pe- 
nínsula e á peregrinação de San Thiago, haviam de 
provocar uma certa sympathia afinal por estes guer- 
reiros e navegadores scandinavos e facilitarcm-lhe o 
estabelecimento de povoações sedentárias. 

Apontámos rapidamente estes factos para definir 
a acção dos Normandos na vulgarisacão das tradições 
poéticas da Edade media, e o que é que elles po- 
deriam ter trazido nas suas invasões em Portugal. 
Extractamos algumas linhas da Historia da Littera- 
iura antiga e niodernay de Schiegel, sobre es>e in- 
fluxo na Europa ; «Alem das Cruzadas, foram os Nor- 
mandos os que mais contribuiram para dar um im- 
pulso novo á imaginação das nações europcas. — A 
crença poética no maravilhoso, nos heroes dotados 
de uma força gigantesca, nos génios das montanhas, 
nas Sereias, nas Fadas, nos Anões hábeis, na magia, 
últimos vestígios da poesia do Norte, ainda provo- 
cam a imaginação ; mas os Normandos trouxeram um 
novo espirito de vida, tirado immediatamente da sua 
origem, e com o qual communicaram como que uma 
seiva nova a todos estes elementos da Cavalleria e 
da poesia já existente. Este espirito não os abando- 
nou quando se converteram ao Christianismo, e quando 
fallaram o francez ; pelo contrario foi então que elle 
se espalhou completamente em França e em toda a 
Europa christã. Este espirito acompanhou os Nor- 
mandos para a Inglaterra e para a Sicilia, e mesmo 
nas expedições á Palestina, em que tomaram uma 
parte tão importante. Não somente o seu espirito, 
mas também o seu género de vida era essencial- 



I06 HISTORIA DA POESIA 



mente fundado sobre o gosto natural e particular pe- 
las aventuras. Escolhendo c ousando sempre o que 
havia de mais atrevido, apaixonados pelo maravilhoso, 
os Normandos exerceram uma influencia immensa so- 
bre a poesia da Edade media. » * Das tribus norman- 
das escreve Max-Budinger : « Como estas tribus eram 
as mais afastadas das sedes da antiga civilisação, ellas 
foram também as ultimas a entrarem no dominio da 
historia. » Sobre a influencia deste afastamento : « Os 
cantos que celebravam os heroes dos Burgundios e 
dos Godos, resoaram aos seus ouvidos ; e muitas das 
antigas tradições allemãs, que se teriam perdido para 
nós, foram conservadas sob a forma que ellas toma- 
ram no Norte. 

«Emquanto as tribus allemãs, que vinham succe- 
der aos Romanos, abandonavam uma parte dos seus 
antigos costumes operando a transformação dos Ita- 
lianos, dos Gaulezes e dos Iberos, os povos do norte 
da Germânia tinham permanecido fieis á vida de tribu 
e cantões isolados, como viveram os seus irmãos do 
Meio dia antes do seu encontro com os Romanos. 
EUes tinham conservado a organisação guerreira que 
lhes era própria ao tomarem possessão do paiz, e a 
divisão das tribus ou fylks, » ^ Este nome explica- 
nos o sentido real de Folk e Vulgus, caracterisando 
povos em tribus independentes, sob chefes que os 
dirigiam na defeza. Comprehende-se como essas tri- 
bus dos Normandos, ao fixarem-se nas costas de 



1 Op. ctt.^ cap. VII, p 202. , 

Gastão Paris allude á influencia dos Normandos na Sicilia : «Já 
que ^stá bem estabelecido que o StrambotU é proveniente da Si- 
cilia, é permittido suppôr que não é outra cousa, pelo menos em- 
quanto ao nome, qut: o estrabot ou estrambot normando, levado 
pelos companheiros de Robert Guiscard.» yournal des Savants, 
(Septembre, 1889) p. 535. 

^ Revue germaniqiíe, t. xviii, p. 64. 



POPULAR PORTUGUEZA I O7 

França, invadindo e conquistando a Inglaterra, de- 
vastando a Hespanha árabe, demorando se na Itália 
e as9oldadando-se em Byzancio, poderam actuar em 
uma revivescência de poesia, sobretudo de caracter 
narrativo. Esses Northmans ao contacto das tribus fin- 
nicas, lettonianas e slavas, crearam o império que sub- 
metteu as tribua^congeneres do sul da Suécia, nas ilhas 
da Dinamarca e da Jutlandia. Os anthropologistas es- 
tabelecem relações do elemento finnico com o ele- 
mento ibérico, separados pelas incursões de outras 
raças ; por esse contacto dos Northmans com as tri- 
bus finnicas, e pelas suas excursões, que tiveram 
uma profunda acção histórica, não é de extranhar que 
n'essa revivescência de poesia elementos tradicionaes 
dos povos autocthones se misturassem com esses can- 
tares narrativos, que se perdiam também" entre os 
Germanos. Essas invasões normandas faziam se por 
bandos aventureiros de mar, chamados os Vikingios, 
e àe terra, ,os Varingios ; eram um prototypo e um 
esboço da cavalleria andan^-e, que o terror das povoa- 
ções não deixou idealisar. Determina-se o seu influxo. 
Na poesia popular portugueza ha este culto pelas 
Fadas (Nornes), pelas Sereias, pelos encantamentos de 
mistura com o maravilhoso christão ; assim no romance 
insulano de D, Pedro Menino: 



Vinde, vinde, minha filha, 
Ouvir tão doce cantar, 
Ou são os Anjos no céo, 
Ou as Sereias no mar. 



Nos cantos populares do Archipelago açoriano ap- 
parece um vestígio dos costumes scandinavos, con- 
sistindo na escripta de versos no bastão riimco ; no 
romance da Pobre viuva lé-se : 



108 HISTORIA DA POESIA 



Toma lá tinta e tinteiro, 
Escreve n'essa bengala ; 
Já que se perdeu o corpo, 
Que se lhe não perca a alma. 

Egualmente em uma variante do romance intitu- 
lado Plorbella: 

Pastores, que andaes aqui, 
Escrevei isto a mi madre, 
Se não tiveres papel, 
No bastão doesta bengala. 

Em uma Saga islandeza tendo o scaldo Egil per- 
dido o seu segundo filho e procurando debalde suici- 
dar-se, seu filho Torgude exclama: «Ainda vos resta 
bastante vida, para que possaes compor um canto so- 
bre Banduar, ^ eu o gravarei sobre o meu bastão.'^ 
Deste modo de escripta diz Pierre Victor, nas Anti- 
guidades scandinavas: «As runas traçavam -se não só 
sobre a pedra, mas também sabre páo... Este uso ainda 
não desappareceu completamente no Norte, e o bas- 
tão runico ainda serve de kalendario em muitos can- 
tões da Suécia. (Op. cit, p. 23.) De ordinário «os 
kaiendarios, orações, meditações, missivas, são traça- 
dos sobre páo, sobre bastões achatados ou arredon- 
dados.» (Ib.y p. 25.) As runas eram empregadas pe- 
los scaldos para ganhar batalhas, resuscitar mortos, 
saber o futuro, alliviar as mulheres de parto, dar 
saúde, vencer rigores de amantes; * é isto mesmo o 
que prohibiram os Indicos expurgatorios, como o de 
1624: «Tratados ou Orações, ou para melhor dizer 
Superstições que permittem a quem as fizer 014 man- 
dar fazer, que alcançarão o que pedirem, corno pri- 
vança, grande vingança de inimigos, vencimento de 
demandas, ou que escaparão de todo o perigo ou 



1 Mallet, Introduction a tHistoire de Dinamarquty p. 93. 



POPULAR PORTLGUEZA lOQ 

cousa semelhante.» * No tempo de D. João i, em 
1403 estabeleceu-se : «Não seja nenhum tão ousado, 
que por haver ouro ou prata ou outro haver lance 
varas, nem faça circo ...» A adivinhação por varas 
apparece entre os Germanos; diz Tácito: «Os Ger- 
manos consultam a sorte por meio de pequenos ra- 
mos de arvore, sobre os quaes se grari^arn certos si- 
gnaes, e os lançam depois ao acaso sobre um pano 
branco. Tomam-se depois ao acaso, por três vezes, 
em successão diversa, e a combinação dos signaes 
serve para formular o presagio . . . > Segundo a cri- 
tica moderna, estes signaes usados pelos Germanos 
eram as Runas mysteriosas do Norte ; e nas Con- 
stituições do Bispado de Évora ainda se prohibe: «lan- 
çar varas para achar haver . . . nem façam para adivi- 
nhar figuras ou imagens . . » Era também prohibido 
no tempo de D. João i, bradar sobre finados, e es- 
ses cantos fúnebres communs aos povos do occi- 
dente eram usados pelos scandinavos com o nome 
de drapa, A lenda de Veland, o ferreiro scandinavo 
é corrente no Minho e outras provincias : Havia um 
ferreiro no monte da Arcella e outro no monte de 
Guisande, que tinham só um malho com que traba- 
lhavam. Quando um descansava atirava ao outro o 
malho, do monte a monte. Da lenda de Veland, de 
que consignamos esse vestigio, escreve Du Méril: «En- 
tre as tradições mais espalhadas dos primeiros tem- 
pos da poesia moderna, ha duas muito mais geraes 
e mais populares do que as outras ( Veland, o Fer- 
reiro e Ogier le Danois) ; provou-se que a Scandi- 
navia era o seu ponto de partida, e que ellas tinham 
uma rasão e uma base na historia. » ^ Em uma mo- 
nographia de Francisque Michel e Depping sobre o 



* Index, p. 1 84. 

'^ Histoirt de la Poésie scandinavc, p. 14, 



lio HISTORIA DA POESIA 



Veland le Forgeron, lê-se: «E' possível que a Hes- 
pankãy a Itália e o Oriente sobretudo, possuam tra- 
dições análogas. Elias nos ficaram desconhecidas ; ou- 
tros terão talvez a boa fortuna de as encontrar. » (P. vii) 
Mal sabiamos que ao ouvir de um octogenário do 
Minho este conto do ferreiro scandinavo, entre sor- 
risos de malicia que o resalvavam da credulidade, 
colhiamos um fio da tradição interrompida da colo- 
nisação normanda. Também o romance açoriano que 
começa — Eu bem quirera, senhora, é um vestígio 
remoto dos poemas de Sigurd ; alli se vê o caval- 
leiro que procura fallar a donzella defendida por bar- 
reiras insuperáveis ; tal a situação de Bruhhilde em- 
quanto se não quebrou o encantamento ; a leoa cor- 
responde ao lobo Fafnir, os dois irmãos que ella tem 
são Hagen e Guterm, irmãos de Gudruna por quem 
Brunhilde fora abandonada. As armas temperadas no 
sangue de um dragão, como se descreve na poesia 
scandínava, também o são no romance castelhano do 
Infante vengador : «Siete vezes fue templado — En 
la sangre de un dragon,» 

A esta influencia scandínava na península, e espe- 
cialmente em Portugal, pôde attribuir-se uma certa 
revivescência de tradições germânicas, que foram ela- 
boradas em cantos populares. Apontaremos alguns, 
embora colligidos da tradição oral em época moder- 
na: O thema poético da Silvaninha tem por para- 
digma um facto contado por Gregório de , Tours : 
Deuteria, mulher de Theodeberto, rei de Metz, ven- 
do sua filha chegar á edade nubil, e receiando que o 
rei a quizesse poUuir, meteu-a em uma carruagem pu- 
chada por touros furiosos e fel-a precipitar; no canto 
portuguez, a mãe, implacável para Silvana, não a ma- 
ta, mas fecha-a em uma torre sem lhe dar agua: 






Que h* >c:è inr.c.i., \ie e:r ci-to 

Xo romarce da .V./^- Catk^rzKíttã. ::«.e se rir eni- 
c:ntra nas ciZecçT-es hesr anh . Ias, apiarere r- rUctcv 

çiTi sortes para um celles ser cev.ra :o re :> com- 
panheiros. Na Vida .u Agrucla. descrever. io Tacit^> 
a ;::rataria cos Us:zi esses, ::je ceva-tavam as c.^-t.is 
fa Bretanha no rcirarxe *c se; JA ztjo Urras jV 
frança , ar^uie a sua anthrcp:rha^.a no ir.ar. «ali;ii- 
mas vezes repelMdos, foram reduzi i^s pela fome a 
comerem principalmente os fracos vle entre elies, do- 
p:Í5 aquelUs a qzum cahia a ser te. Depcis do te- 
rem assim circumdado a Bretanha, pervieram es seus 
navios por não os saberem governar, e cahiram sue- 
cessi vãmente nas mãos dos Suncs e dos Frisios.» 
Cap. xxviii.i No norte de Portugal e vulgvir o ro- 
mance da Xdú Calherineita, e apenas nvis Astúrias exi- 
ste xum fragmento tinal. Xo romance de Bcrnal Fran- 
cez, commum á Itália, achou também Costantino Ni- 
gra o dado histórico do adultério da imperatriz Ju- 
cit com Bernardo, Duque da Septimania, assassina- 
do era 844 *. Também na Itália se encontram cantos 
narrativos semilhantes na forma aos romances penin- 
sulares hispânicos, com um facto histórico dos povos 
germânicos. O celebre romance Dona Lombarda^ 
acha-se contado historicamente por Paulo Diácono 
nas Gestas dos Longobardos, (ii, 29) sob o nome de 
Resemunda e Helmichis, e succedido em 573." Gui- 
lherme Schlegel considera as Chronicas de Jornandes, 
Paulo Diácono, Gregório de Tours e Fredegario, co- 



^ Canti populari de Piemonte^ pag. 187. 



/ 



I 12 HISTORIA DA POESIA 



\ 



mo cheias de narrativas fundadas em poesias góticas, 
lombardas e frankas. Não admira que este mesmo pro- 
cesso fosse seguido pelos compiladores das Chronicas 
geraes organisadàs mais tarde sob Afifonso o Sábio, 
incorporando os Romances populares mosarabes como 
testemunhos históricos. O romance italiano La sorella 
vindicata, colligido também na tradição de Lozère 
com o titulo de Clotilde e na Catalunha com o ti- 
tulo de D, Garino, funda se sobre o facto histórico 
da princeza Clotilde, casada em 526 com Amalarico, 
rei visigodo da Septimania, que seguia a doutrina de 
Ario, e maltratava a mulher por ser catholica, sendo 
vingada por seu irmão Childeberto. Acha-se narrado 
o successo em Gregório de Tours e Procopio de Ce- 
sárea, ambos do século vi. Nigra faz um rigoroso pa- 
radigma entre os dados do romance popular italiano 
com as particularidades referidas nas Chronicas. * Mui- 
tos destes acontecimentos não chegaram a receber a 
forma poética ; ficaram em simples Lendas em prosa 
narrativa. Nigra segue um principio apparentemente 
verdadeiro, mas contradictado pelos processos popu- 
lares : — que os romances são sempre contemporâ- 
neos dos factos que celebram. Assim pretende pro- 
var o seu valor histórico. O aspecto dramático do 
acontecimento tem muitos símiles na successão do 
tempo, e por isso os contornos de um romance nar- 
rativo, aecentuados sempre em uma grande genera- 
lidade, quadram com as situaçõçs de acontecimentos 
passados em differentes épocas. E é por esta fórnna 
que o Romance narrativo umas vezes se fixa de pre- 
ferencia no facto mais impressionante, outras vezes 
esbate-se no quadro de vagas aventuras. Não sé pôde 
estabelecer uma relação immediata do facto contado 
ou escripto nos chronistas germânicos para o romance 



* Nigra, Op, cit.f p. 38. 



POPULAR PORTUGUEZA Il3 

oral que sobrevive na tradição; * mas desde que 
theraas ou situações análogas se repetiram na his- 
toria, foram avivados esses contornos na imagina- 
ção popular, e ao passo que se tornavam mais va- 
gos por isso melhor se universalisavam. A tradição 
persiste, mas sempre em um movimento de adapta- 
ção. 

Assim como a tradição popular serve muitas ve- 
zes de material histórico nos velhos chronistas, des- 
prezando a sua forma poética, dá-se também o phe- 
nomeno reflexo da narrativa escripta volver á curio- 
sidade popular na forma de Lenda {legenda^ para 
ser lida.) A grande riqueza da poesia gótica, que 
o catholicismo atacou, revela-nos o que teria sido, 
pelas lendas intercaladas nas historias que escreve- 
ram Jornandes, Paulo Diácono, Saxo Grammatico, 
Gregório de Tours. Neste periodo fecundo da con- 
stituição da sociedade peninsular, que vae dos sécu- 
los vni ao XII, assim como se conservou uma remi- 
niscência profunda dos Symbolos jurídicos, das Super- 
stições e Costumes^ também as Lendas se transmitti- 
ram como últimos restos da poesia gótica; de facto, 
grande parte das Lendas dos primeiros três séculos 
da monarchia portugueza são apropriações doesse 
fundo germânico. Comprovemos com alguns para- 
digmas: 

Na lenda de Gaya, contada no Livro velho das 
LinhagenSy quando o rei Ramiro vem procurar sua 
mulher que lhe fora roubada por Abencadão: «fre- 
tou seis naves, e meteuse em ellas, e veiu aportar 



* Mr. Gaston Paris em um estudo critico sobre os Canti popu- 
lari dei Piairfntty publicado no yournal dts Savants^ de 1889, 
não ãdmitte relação histórica no romance da Sorella vindicata, 
nem da D, Lombjtrda com a histórica Rosemunda (pag. 615 e 
618). Comtudo acha que da Chfonica Ltiureshamense saisse a 
narratwa para o romance português e castelhano de Gerinaldo, 

Pões. popal. 8 



114 HISTORIA DA POESIA 



a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou 
pela foz, cobriua de panos verdes^ en tal guiza que 
cuidassem que eram ramos, cá entonce o Doiro era 
coberto de uma parte e de outra darvores.» Este 
mesmo estratagema de guerra encontra-se em uma 
lenda franka, extrahida por Jacob Grimra de Aimo- 
nius: «Quando Childcbert entrou com um poderoso 
exercito nos estados de Guntram e Fredegund, a 
' rainha exitou os frankos a defenderem-se com arro- 
jo. . . Fredegund imaginou um estratagema. A meia 
noite, no meio das trevas, o exercito guiado por 
Landerich, tutor do joven Chlotario. poz-se em mar- 
cha e foi para uma floresta; Landerich pegou de 
um machado e cortou para si um ramo de arvore] 
depois> pendurou umas campainhas ao pescoço do 
cavallo que montava. Deu ordem a todos os seus 
guerreiros para fazerem outro tanto: cada um delles 
tomou um ramo de arvore na mão, prendeu cam- 
painhas ao pescoço de seu cavallo, e todo§ logo 
que o dia começou a alvorecer, puzeram-se a andar 
para o inimigo . . . Uma das vedetas do exercito 
contrario os descobriu através da luz duvidosa do 
crepúsculo; gritou logo ao. seu companheiro: — Que 
floresta é esta que aqui vejo, em um sitio aonde 
hontem á noite não havia o menor arbusto ? — Tu 
ainda estas ébrio e de nada te lembras, (disse o 
outro soldado); é gente nossa que achou na flores- 
ta visinha forragens para os seus cavallos. Não ouves 
tu o som das campainhas penduradas ao pescoço 
dos cavallos que pastam ? . . . Emquanto as vedetas 
diziam isto, os Frankos deixaram cahir os ram^s e a 
floresta ficou despojada de folhas, mas eriçada de 
lanças brilhantes que se levantavam como troncos.» ^ 



* Lendas alUmãs^ t. il, pag. 107. Trad. de L'Hérétier (de TAin.) 
1838. 



POPULAR PORTUGUEZA 1 1 5 



A lenda de Gtrcdde sem pavor, que tomou Evo 
ra aos sarracenos por causa dos amores com a don- 
zella filha do alcaide do castello, acha-se no seu 
conteúdo essencial em uma chronica allemS extra- 
ctada por Jacob Grímm : cDidier refugiou-se com 
Adelgis, seu filho, e uma de suas filhas, nos muros 
de Pavia, aonde Carlos o sitiou muito tempo. Di- 
dier era bom e humilde; tinha por costume, segun- 
do se conta, levantar-se sempre á meia noite e ir 
para a egreja fazer oração; as portas abriam-se por 
si mesmas na sua presença. Ora, durante o cerco, 
a filha do rei escreveu uma carta ao rei Carlos, e 
a arrojou á outro margem do Tesin por meio de 
uma besta ; dizia a carta : — Que se o rei quizesse 
tomal-a por sua esposa, lhe entregaria a cidade e os 
thezouros de seu pae. — Carlos respondeu lhe por 
modo a excitar o amor que a donzella concebera 
por elle. Então, tirou debaixo dos travesseiros do 
pae, que estava dormindo, as chaves da cidade, e 
fez saber ao rei dos Frankos, que se preparasse para 
entrar de noite na cidade. Quando o exercito, se 
aproximou das portas e entrou, a donzella saiu con- 
tente ao sèu encontro ; mas apertada pela multidão 
caiu debaixo dos pés dos cavallos; e como era nas 
trevas da noite ficou esmagada. O relincho dos ca- 
vallos acordou Adelgis ; sacou da espada e matou 
muitos Frankos. O pae prohibiu-lhe a resistência, 
porque era da vontade de Deus entregar a cidade 
ao inimigo.» * 

A lenda de Fernão-Rodrigues Pacheco, Alcaide 
de Celorico, que fez com que o Conde de Bolonha 
fD. Alfonso ih) levantasse o cerco que puzera ao 
castello, por meio de um ardil, em que dava a en- 
tender que estava assas provido de munições, en- 



1 Ufid., pag, 135. 



u6 HISTORIA DA POESIA 



controu-a Jacob Grimm nas chronicas germânicas : 
c Quando a rainha Adelheid, mulher de Lothario, 
estava apertadamente sitiada pelo rei Beranger na 
cidade de Canusium, e ella já tratava dos meios de es- 
capar-se, Arduin lhe perguntou : — Quantos alqueires 
de farinha ainda tendes na praça ? — Já não ha mais 
que cinco alqueires de centeio e três quartas de fa- 
rinha, respondeu Atto. — Pois bem ; segui o meu 
conselho : fazei com que um porco coma essa farinha 
e soltae-o para a campina. Assim fizeram. Sendo o 
porco agarrado e morto pelos inimigos, acharam-lhe 
no bucho a grande quantidade de farinha que elle 
tinha comido. Concluiram d'isto que seria impossível 
reduzir pela fome esta praça, e o cerco foi levan- 
tado.» * 

A lenda de Dom Fuás Roupinha, ou de Nossa 
Senhora de Nazareth, appropriada pelos frades de 
Alcobaça para validarem uma doação de que ti- 
nham perdido o titulo, como o demonstrou Frei Ma- 
nuel de Figueiredo, anda na Chronica de Thuringe; 
Jacob Grimm extrahiu-a de Becherer, Toppius e Me- 
lissantes, situação em que Hermann de Treffurt, assim 
como D. Fuás Roupinho, é salvo por intd^cessâo da 
Virgem do abysmo em que o seu cavallo o preci- 
pitava. Transcrevemos a narrativa allemã; descreven- 
do a vida dissoluta do cavalleiro, conclue : « Isto não 
obstava de ser muito recolhido e de ir sempre á 
missa, e de rezar com muita devoção o officio da 
Virgem. De uma vez partira a cavallo para um col- 
loquio de amor, depois de ter convenientemente, 
segundo o seu costume, rezado mui devotamente o 
officio da Virgem; mas como cavalgava de noite, e 
chegou ao mais alto cume da montanha, ali o ca- 
vallo estacou repentinamente; porém o cavalleiro jul- 



i Ibid., pag. 175. 



POPULAR PORTUGUEZA 1 17 

gando que seria medo de algum animal, esporeou- 
Ihe o flanco; o cavallo airojou-se com o cavalleiro 
do alto do rochedo e morreu da queda; a sella des- 
fez-se, a espada do cavalleiro ficou em estilhaços, 
mas na queda o cavalleiro invocou a Mãe de Deus, 
e pareceu -lhe que era tomado por uma mulher, que 
o depoz em terra levemente e sem mal. Depois d' esta 
conservação miraculosa, retirou-se para Eisenach a 
um convento, reformou os seus costumes. . . » * 

A lenda da Roussada de Bemfica, contada por 
Fernão Lopes acerca da justiça implacável de D. Pe- 
dro 1, é a apropriação da lenda lombarda ; eis como 
a extractou Jacob* Grimm: cO rei Otto entrara na 
Lombardia, á frente de um poderoso exercito, to- 
mou Milão, e estabeleceu o uso do dinheiro ottolino. 
Quando o rei sahiu, os milanezes regeitaram a sua 
moeda ; voltou atraz para os punir, forçando-os a ser- 
virem-se de uma moeda de sola velha. Então, sahiu- 
Ihe ao encontro uma mulher, a queixar-se que um 
homem a forçara. Disse-lhe o rei : — Quando eu cá 
tornar far te-hei justiça. — Senhor, volveu a mulher, 
vós me esquecereis. O rei apontou para uma egreja, 
e retorquiu-lhe : — Aquella egreja me avivará a lem- 
brança. Voltou para a Allemanha, submetteu seu fi- 
lho Rodolfo, que estava revoltado. Quando, passado 
tempo tornou á Lombardia, achou-se precisamente 
diante da egreja que mostrara á mulher, promettendo 
fazer-lhe justiça. O rei mandou chamar a mulher para 
receber a sua queixa. — Senhor, disse ella, o culpado 
é hoje meu nlarido legitimo, e tenho d elle filhos que 
eu amo. — Respondeu o imperador . — Eu jurei pe- 
las barbas de Otto, é forçoso que trabalhe o meu 

^ Ibid.y p. 442. — o mome de Fuás não apparece nos Nobiliá- 
rios, nem D. Fuás Roupinha em nenhum documento histórico; é 
uma formação intencional sobre a palavra farroupa e farrotipilha^ 
ambas populares. 



Il8 HISTORIA DA POESIA 



cutello. — E em punição do culpado mandou-lhe cor- 
tar a cabeça, conforme os termos da lei. Assim fez 
justiça áquella mulher bem contra sua vontade.» * A 
tradição do dinheiro de sola também foi collocada 
no tempo de D. João i, por occasião do cerco de 
Lisboa, como refere José Soares da Silva; entre o 
povo teve um sentido mais geral: cOs rústicos quando 
querem provar que alguém tem muito dinheiro, di- 
zem : — Ainda tem dinheiro de sola,^ ^ A lenda do pa- 
gem que devia ser arrojado a um forno por manejo 
de um intrigante, como se conta na vida da rainha 
Santa Isabel, fora tratada em verso por Affonso o 
Sábio, antes da existência da Rainha Santa ; mas, se 
essa lenda era vulgar na Allemanha no conto de Fri- 
dolin, também nos apparece nas fontes orientaes, no 
pagem Ahmed, nos Sete VÍBÍrs;i por este facto se 
vê como a corrente oriental vinha dar relevo a the- 
mas mais ou menos apagados na tradição medieval, 
e como o interesse histórico e agiologico explora- 
ram esse fundo de poesia que não chegara a fixar-se 
na forma do efios. 

Não admira, que o erudito Argote y de Molina, 
no Discurso sobre a Poesia castelhana^ que acompa- 
nha a edição do Conde de Lucanor de 1^75, consi- 
derasse os Romances populares hespanhoes como de 
origem gótica emquanto ao seu caracter epico-histo- 
rico : «La qual manera de contar las historias publi- 
cas, la memoria de los siglos passados, pudiera dezir, 



* Ibid,, p. 20 1. 

^ Dkcionario numismograpkico histórico, r. 31. E accrescenta : 
«Diz-se que em certas casas distinctas ha bahus e cofres cheios de 
moeda de sola."» 

3 Loiseleur des Longchamps, no Essai sur les Fables ináiennes, 
p. 134, nota, cita a lenda da rainha Santa Isabel, e as obras da 
Edade media em que se encontra este thema, taes como a Gtsta 
Jiomanorum^ os Cento Novelle àntiche^ etc. 



POPULAR POKTUGUEZA II9 



que {a heredamos de los Godos, de los quales fue 
costumbre, como escrive Ablavio y Juan Upsalense, 
celebrar seus hazanas en cantares...» * Ha aqui uma 
miragem mental ; de facto, do século viii ao século xn 
a sociedade mosarabe elaborou themas tradicionaes 
germânicos, syncretisados com vestígios tradicionaes 
célticos e ibéricos, com recentes adaptações árabes, 
porém esses themas nunca sahiranr da transmissão 
oral. D'este grande período activo e fecundo nada 
se fixou pela escripta; elle é exclusivamente gene- 
siaco. D'este período oral da poesia peninsular, escreve 
Sarmiento nas celebradas Memoriiis para la Histo- 
ria de la Poesia \ 

«Creio bem que poucos annos depois dos doze 
Pares, Bernardo dei Carpio, do Conde Fernan Gon- 
zales, D. Fernando Magno, do Cid, e de outros, se 
comporiam vários Romances em seu elogio; e seríam 
os que Copleiros, Trovadores e Jograes, e geralmente 
todos os plebeus cantariam nas suas festas. Estes se 
perderam, porque se não escreviam ; e os que pôde 
conservar a tradição oral e a memoria, estariam já 
tão attenuados quando se começou a escrever o vul- 
gar castelhano, que não se pareceriam com os pri- 
mitivos na linguagem, porém mui conformes no sub- 
stancial. Torna-se isto evidente, e se adverte que a 
Ckronica general de Espatía, escripta no meado do 
século xm, e outros livros daquella antiguidade, ci- 
tam frequentemente os ditos Jograes ou Poetas vul- 
gares hespanhoés.» (Mem,, n.° 548.) 

Dos Romances oraes, de elaboração popular, que 
precederam as remodelações jogralescas ou eruditas, 
diz Duran, em uma conclusão fundamentada: «Alheios 
estes Romances a toda a pretenção litteraria, rima- 
dos só para melhor se imprimirem na memoria, não 



^ Conde de Lucanor^ ed. de 1642, íl. 128. 



120 HISTORIA DA POESIA 



chegaram atè nós taes como foram na sua primitizfa 
redacção, nem existem em códice, que saibamos, an- 
terior ao século xvi. Os Romances velhos, reformas 
dos primitivos, taes como os possuimos, poucos pa- 
recem anteriores á segunda metade do século xv, 
ainda que é de presumir que muitos d'elles têm a 
sua origem em outros de tradição oral, muito mais 
antigos.» * E em nota confirma ainda: «Nenhum có- 
dice anterior á segunda metade do século xvi temos 
visto que contenha romances primitivos ou velhos.» 
E fallando dos que foram incluídos no Cancinnero 
general de Hernando dei Castillo : «sãó poucos, e 
ainda na sua maior parte não pertencem á época 
tradicional, mas á artistica do século xv. » E' este fa 
cto que importa bem ter presente no estudo da Poesia 
popular: os cantos tradicionaes lyricos e épicos, que 
se elaboraram na sociedade mosarabe dos séculos vm 
a XII não foram fixados na forma escripta. Assim 
como acontece com as linguas, que se extinguem na 
indisciplina dialectal não sendo fixadas pela escripta, 
também os cantos populares se dissolvem nas varian- 
tes oraes. Quando no século xii prevaleceu o ele- 
mento senhorial pela restauração da monarchia neo- 
gotica e preponderância senhorial asturo-leoneza, foi 
quando os dialectos românicos peninsulares começa- 
ram a ser escriptos ; as relações com a França feu- 
dal, determinaram outra corrente poética, das Ges- 
tas, das narrativas jogralesc as; o Catholicismo romano 
atacava o culto tradicional dos Mosarabes. Não admira 
pois que todas estas circumstancias, que se accumula- 
ram no século xii, influissem no desprezo pelos Can- 
tos e costumes jurídicos da sociedade mosarabe ; ^ fi- 

* Romancero general^ i p. xxv. 

"^ No livro Epoptas da raça mosarabe precisámos este antago- 
nismo com nitidez ; mas os nossos mei< s de exposição eram tu- 
multuarios, sem connexão histórica e com formas dogmáticas so- 



POPULAR PORTUGUEZ\ 121 

caram abandonados á inconsciência popular, donde 
apenas se aproveitaram pelo que continham de in- 
formação memorial aquelles que entraram nas Chro- 
nicas em prosa dos compiladores aflíonsinos. Da poe- 
sia desta grande edade de elaboração nada subsiste 
que directamente se aprecie ; mas faz- se a reconstruc- 
ção, pelas imitações de Canções lyricas que se apo- 
deraram do gosto da côrt& nos séculos xii a xiv, e 
pelos Romances velhos^ que no século xv receberam 
forma escripta para entrarem nas collecções que vie- 
ram a constituir essa imitação terciária dos Roman- 
ceiros. * 

Os organismos nacionaes já começavam a esbô- 
<jar-se no século viii, como se comprova pela inde- 
pendência dialectal. Escreve Duran, apesar de não 
ter aproveitado este facto: «Segundo Luitprand, já 
no anno de 728 contavam-se o Catalão e o Valen- 
ciano por linguas estabelecidas em Hespanha, e por 
consequência, creadas antes da conquista dosÍAra- 



bre o exclusivo germanismo. Hoje collocando os factos no seu 
encadeamento histórico, pasmo da inintelligencia como foi consi- 
derado este problema da elaboração poética mosarabe. O próprio 
Amador de los Rios é um dos críticos que reconheceu o valor 
d'essa grande época que vae dos séculos viu a xii; e os modernos 
trabalhos críticos tem considerado a admissão das Gestas Carlingias, 
e dos Poemas arthurianos e goliardescos como sendo os que aba- 
faram essa efflorescencia mosarabe ou popular sob o domínio po- 
litico dos Asturo-Leonezes. 

* Egual phenomeno se dá na tradição franceza : 
«Se a França, a Itália, a Hespanha tivessem possuído, nos sé- 
culos xn, Xili ç Yiv, as Canções lyrico-épicas, que se vêem appa- 
recer no século xvi, e que hoje se colligem n*estes differentes 
paizes, da bocca do povo, é incontestável para mim, que nós acha- 
ríamos uma outra d'estas Canções em algum manuscripto. 

«Creio portanto, pára concluir esta parte da discussão com o 
eminente editor dos Canii popolari dd Piemonte, que nem os Can- 
tos que elle public<'U, nem os seus congéneres de França e da Ca- 
talunha são mais antigos do que o século xv.» Gaston Paris, 
(Journal des Savants^ 1889, p. 621.) 



122 HISTORIA DA POESIA 



bes.» * São do século viii as Etymologiae de Santo 
Isidoro, nas quaés procurando explicar certas pa- 
lavras da baixa latinidade, inclue algumas palavras 
vulgares da lingua românica que viria a ser escripta 
em Hespanha ; taes como : Acia^ segundo Diez, pro- 
vavelmente radical do portuguez Aza e Az; Adpla- 
narây no portuguez Aplanar; Amma (strix, ave) no 
castelhano e portnguez, Ama^ que dá de mamar ; 
Ascella, no portuguez Azelha ; Astroso, no portuguez 
Des-astroso ; Baburrus (stultus), Bamburrio; Baia, 
no hespanhol e portuguez, Bahia ; Bailar e^ no hes- 
panhol e portuguez, Bailar e Balhar ; Baselus, no 
hespanhol Baxel, Vaxel, e no portuguez Baixel ; Bas- 
tar, curral dos bois, no portuguez Bocal, Bastai; 
Cai, no portuguez Cães ;. Cama, em hespanhol e por- 
tuguez Cama, leito ; Campana, em portuguez Cam- 
pana (com o seu diminutivo campainha); Campio^ 
nes, no hespanhol e portuguez Campeões; Capa, no 
hespanhol e portuguez Capa; Capanna, no hespa- 
nhol Cabatia, e no portuguez Cabana ; Capulum, no 
castelhano Cabia, no portuguez Cabo ; Casa, no cas- 
telhano e portuguez Casa ; Casula, o mesmo em cas- 
telhano e portuguez, de uso clerical ; Ciconia, em 
castelhano Cigiièna, e em portuguez Cegonha, o em- 
bolo com que se tira agua dos poços ; Circare, no 
hespanhol e portuguez Cercar, rodear; Colomellar, 
no castelhano Colmillo, e no portuguez Colmilko ; 
Cortina, o mesmo no castelhano e portuguez ; Cu- 
cus, no portuguez Cuco; Cusire, no castelhano Cu- 
sir, no portuguez Coser; Dativa, no castelhano e por- 
tuguez Dadiva; Esca, no castelhano Yesca, no por- 
tuguez Isca ; Falcastrum, espécie de foice ; talvez de 
um sentido figurado Falcatrua, na giria popular; Fi- 
catum, no castelhano Higado, no portuguez Figado; 



1 Romancero general^ i, p. L, nota. 



POPULAR PORTUGUEZA 123 



Fiasco, no castelhano Fiasco , no portuguez Frasco ; 
Focacius, no castelhano Hogaza, no portuguez Foga- 
ça ; Forão, no castelhano Huron^ no portuguez Fu- 
rão ; Guòia, no castelhano Gubia, no portuguez Goú 
ua; Tncensum, no castelhano Inctenso, no portuguez 
Incenso ; Larandrum, no castelhano Oleandro, no por- 
tuguez Alandro ; Mantunty no castelhano e portuguez 
Manto; Milimindrumy no castelhano Milmandro, no 
portuguez Meimendro»; Sarna, o mesmo no caste- 
lhano e portuguez; Taratrum, no castelhano Tala- 
dro, no portuguez Trado; Truita, no castelhano Tru- 
cha, no portuguez Truta; Turbiscus, no castelhano 
TorviscOy no portuguez Trovisco ; Tordela, no caste- 
lhano Tordella, no portuguez Tordilko, da cor do tor- 
do ; Varicat, o que anda ; talvez origem de Bargante, 
em portuguez. Diez ajuntou a esta lista outras pala- 
vras da baixa Edade média, que vieram dos diale- 
ctos populares até ao presente ; mas aqui o que nos 
interessa é a existência de Ikiguas vulgares na Hes- 
panha, sobre as quaes a tendência para a disciplina 
grammatical fez a fixação da syntaxe latina, coadju- 
vada pela necessidade da escripta, quer dos actos ju- 
rídicos,- quer dos moralistas ecclesiasticos. As escri- 
pturas tabellionicas latinisavam grosseiramente as pa- 
lavras vulgares, e a latino-ecclesiastica imitava na sua 
versificação hymnica a aceentuaçao e a rima popula 
res dominantes nos dialectos românicos. 

Simultâneos os dois phenomenos da creação das 
línguas vulgares e da nova poética, a sua dependên- 
cia conduz a uma melhor comprehensão da origem, 
que os philologos tanto confundem. Assim como a 
versificação assenta sobre a coincidência do accento 
prosodico com a syllaba tónica da palavra, sem ter 
derivado do systema da quantidade da métrica la- 
tina, como erradamente se acreditou, também as Lín- 
guas românicas, que se distinguem do Latim pela 



124 HISTORIA DA POESIA 



identificação da ordem lógica com a ordem gram- 
matical das palavras na sua exposição, não provie- 
ram de uma decadência do Latim como se tem ima- 
ginado, sem indagar da impossibilidade de uma lín- 
gua synthetka se transformar em numerosos diale- 
ctos analyticos, A lingua dos povos célticos nunca 
foi extincta pelos conquistadores romanos ; e ainda no 
século III da nossa éra o imperador Alexandre Se- 
vero a admittia (212) a par do Latim official em actos 
jurídicos das povoações subjugadas. Caracterisada a 
lingua céltica como analytica, comprehende-se como 
as línguas chamadas novo-latinas são também ana- 
fyticas, tendo uma evolução natural que as unifica 
na sua m.orphologia, apesar de só muito tarde se fi- 
xarem na fcrma escripta. O valor significativo de 
vulgar applicado a estas linguas modernas contra- 
postas ao Latim, continua o seu primitivo sentido 
ethnico ; esses povos fallando dialectos de uma lin- 
gua analytica, mantiveram-a na sua estructura em con- 
tacto com povos que tinham linguas agglutinantes 
(de que o Finlandez e o Baseo nos dois extremos da 
Europa são o vestígio) e conservaram-na sob o do- 
mínio de povos com linguas jlexionaes syntheticas 
cojno o Latim, o Germano e o Arabc, tendo pela sua 
lingua flexionai analytica facilidade de comprehendel-as 
e de apropriar-se dos seus vocabulários. * Quando San- 
to Isidoro fallava da linguagem do vulgo em Hespa- 
nha, accentuava o facto da existência d*esses dialectos 
celtibericos, que ainda se manteriam quatro séculos 
na indisciplina e instabilidade oral, ao passo que o 
Latim, supplantando o Gótico e o Árabe pelas ne- 
cessidades da Egreja e da Cúria, por seu turno se- 
ria abandonado no seu morto e degradado macarro- 



1 Doutrina de La Barra, na obra Las Lenguas Cetto- Latinas. 
(Memoria apresentada ao Congresso scientiíico do Chili em 1898.) 



POPULAR PORTUGUEZA 125 

nismo como alheio á vida moderna. E' brilhante o 
phenomeno da simultaneidade da escrtpta dos diale- 
ctos ou ling^uas nacionaes peninsulares com o appa- 
recimento da creação de uma nova poesia, que não 
pro\ánha da latina. Ambas foram largos séculos ela- 
boradas em uma phase absolutamente oral; quando 
linguas e poesia attingiram a forma escripta, não co- 
meçaram n'esse momento histórico, continuaram por 
recursos individuaes um passado popular orgânico e 
inteiramente anonymo. Na sociedade mosarabe con- 
servaram-se elementos sociaes, costumes jurídicos e 
tradições germânicas, como o provou Munoz y Ro- 
mero; porém esse material poético não foi expresso 
em dialectos germânicos mas nas linguas celtiberi- 
cas, que apropriando- se dos vocabulários latino, gó- 
tico e árabe, se mantiveram sempre analyticas, e se 
tomaram como vulgares aptas ás relações das novas 
nacionalidades. 

Fallando-se em Celtas, cumpre distinguir esse fundo 
primitivo ibérico cujo apparecimento na península se 
fixa em 20CX).annos antes da nossa éra, e a inva- 
são de Celtas da irradiação da Gallia, no século vii 
antes da nossa éra, é relativamente mais moderna. 
A fusão fácil destes dois elementos só poderia re- 
sultar da sua origem commum árica. O erro corrente 
c}e confundir com o nome de Celta todos esses po- 
vos caracterisados pelo typo ligurico tanto prejudi- 
cou os Celtomanos do século passado, como os mo- 
dernos celticistas que o querem explicar por meio 
dos dialectos neo-celticos existentes. Dahi o esforço 
de excluir do problema da formação das linguas ro- 
mânicas o elemento céltico, attribuindo-as a uma obli- 
teração do latim, do qual nunca se documentou uma 
phase popular. E' portanto desse fundo pre-celtico 
que proveiu a estructura analytica das linguas româ- 
nicas, e os typos e themas communs da poesia do 



126 HISTORIA DA POESIA 



vulgo. A hypothetica civilisação dos Celtas das in- 
cursões da Hispânia, da Itália e da Grécia não se fun- 
damenta. Ha entre estas tribus dos Celtas das incur- 
sões muitos caracteres dos povos germânicos^ como re- 
conheceu Jacob Grimm, levando-os a uma identificação 
exclusiva a theoria de Holtzmann. Essa tíiese do ger- 
manismo dos Celtas está hoje modificada por Be- 
cker que a torna verdadeira, distinguindo esses dois 
grandes grupos; Teutões e Cimbros entendiam-se com 
os Belgas, Celtas puros ; e para César os povos da 
Bélgica eram germânicos, como Eburões, Coeroesos, 
Paemanos, Carducios, Segnos, Ubios, Nervios, Treve- 
res; dahi os nomes célticos de logares interpreta- 
rem-se pelo germânico. A marcha dos Celtas sobre 
a península hispânica no século vii antes da nossa 
éra trouxe já esses caracteres de um germanismo 
primitivo, que se se apagou na incorporação da civi- 
lisação ibérica, revivesceu quando seguindo o mesmo 
impulso para o Occidente as tribus suevas, e góti- 
cas invadiram a Hespanha no século v da nossa éra. 
Prevalecendo a civilisação occidental contra essas in- 
vasões barbaras do norte, apparecem sobre esse 
fundo celtiberico typos de instituições populares ger- 
mânicas e tradições poéticas germânicas. E quando 
pela theoria de Gaston Paris e Jeanroy se ^ttribue 
a origem do lyrismo moderno á França do norte ou 
germânica, não estará a verdade na distrinça do ele- 
mento céltico, n'essa região mais confundido com 
o germânico? As theorias aperfeiçoam-se tornando 
mais fácil a explicação dos factos complexos. Vê- 
mol-o no lyrismo das populações mosarabes, que só 
conheceram a França depois do século xií. 

É no meado do século xii que começam a appa- 
recer textos escriptos, taes como a Carta da Com- 
muna de Aviles, nas Astúrias, de 1 1 JS ; n'esse lon- 
go periodo que vae da invasão dos Árabes ao esta- 



POPULAR PORTUGUEZA I27 

beleciraento das Cartas-Pueblas, ou Foraes, houve perto 
de cinco séculos em que as linguas hispânicas novo- 
latinas se elaboraram em uma espontaneidade otímI, 
K' «'este longo período, em que a sociedade hispâ- 
nica avançava para uma ordem civil mais adiantada 
do que esse phantastico regimen senhorial que se pre- 
tendia estabelecer no Código WisigoHco^ que á vida 
dos campos e das cidades, dos homens de ofificio, e 
da familia burgueza que vivia em contacto com os 
Árabes, foi associando aos seus costumes uma poe- 
sia, animada pelo canto e estimulada pela alegria da 
dansa. E é capitalissimo esse facto, porque appare- 
cendo no século xii a Poesia culta, litteraria, jogra- 
lesca, aproveitando-se dos typos da Poesia popular 
tradicional, nenhum vestigio oral se conservou inten- 
cionalmente. A sua existência é provada, só pela 
apropriação dos seus theméis lyricos e épicos, mas 
não por um documento, que por qualquer circum- 
stancsa se conservasse. Assim como a antiga poesia 
ibérica, denunciada pelos geographos gregos, se ex- 
tinguiu fundindo-se com a das populações célticas ; 
e como esta veiu a perder-se, por não ser escripta, 
como a da população gótica, em consequência da 
sua conversão ao catholicismo, também a Poesia da 
população dos Mosarabes, incorporando esses elemen- 
tos tradicionaes, floresceu na transmissão oral, até che- 
gar a uma edade em que se reflectiu em formas es- 
criptas, é certo, mas. que visavam á imitação da in- 
fluencia franceza, externa e imposta pela classe aris- 
tocrática e clerical. * 

No primeiro emprego escripto dos dialectos ro- 
mânicos, manifestavam se as differenciações locaes, 



^ Escreve D. Agastin Duran : cQaaes foram essas Canções não 
se pode dizer: nenhoma checou até nós; porém pode affirmar-se 
A sua existbocia dedazindo-a da ordem natural. . . comparando-o 



128 HISTORIA DA POESIA 



como no Poema de AlexandrOy de Segura, do sé- 
culo XIII, em que o dialecto de Leão, pela sua enor- 
me semelhança com o da Galliza, define um grupo 
ethnico que se não apagou na Poesia popular. Aquelle 
, caracter archaico do Portuguez em relação ao Cas- 
telhano, como notaram Delius e Diez, é também do- 
minante na poesia popular, como observaram Nígra 
e Jeanroy. Esse archaismo representa uma menor 
transformação e maior vitalidade dos seus elementos 
tradicionaes, e por isso uma certa prioridade de ma- 
nifestação do génio poético. No Poetna dei Czd, acha 
Duran «um élo intermediário ao dialecto rústico dos 
Asturianos e' á lingua castelhana do século xiii.» 
(Rom. gener,, i, p. lii.) A determinação d'esta edade 
primitiva da elaboração poética não escrjpta abrange 
todos os estados ou nacionalidades peninsulares ainda 
nos seus esboços mesologicos ; quando essa tradição 
chegar a receber forma oral em qualquer dessas na- 
cionalidades em particular, não se poderá concluir 
que essa seja recebida ou transmittida de um outro 
estado melhor dotado de génio poético ou mais con- 
servador da sua tradição ; nem tão pouco, que o 
canto popular cantado em portuguez na velha Cas- 
tella, ou em castelhano nas Astúrias e Galliza, ou em 
gallego em Portugal, seja originário do povo que 
falia a lingua desse cantar, que esteve por algum 
tempo na preferencia da moda. E consequentemente 
é impossivel chegar a um claro conhecimento da tra- 
dição poética de qualquer povo destas nacionalida- 
des peninsulares, se esse estudo não se exercer so- 
bre o seu conjuncto. 



com dialecto bable, que ainda conservam os Asturianos, presumo 
que os Cantos primitivos se construiram coni versos ctirtós (o qui- 
narioP) cuja intonação suppriu o numero exacto de syllabas e a 
liberdade de apoial-as ou abreviai as pronunciando -as, á falta de 
rythmos e de verdadeiras consoantes.» (Rom. gener.y i, p. LIII.) 



POPULAR PORTUGUEZA I2Q 



§ 2f A região GalUcio-Asturo-Portugueza 

No meado do século xv, escrevia o Marquez de 
Santillana na sua Carta ao Condestavel de Portugal, 
§. XIV : «E depois acharam esta Arte, que maior se 
chama, e a Arte commum^ creio, nos reinos de Gal- 
liza e Portugal, onde não ha que duvidar, que o 
exercicio destas sciencias mais do que em nenhumas 
outras regiões e provincias de Hespanha se acostu- 
mou ; em tanto gráo, que não ha muito tempo, qnaes- 
quer Dizidores ou Trovadores doestas partes^ ou fos- 
sem Castelhanos, Andaluses ou da Extremadura, to- 
das as suas obras compunkatn em lingua gallega ou 
portugueza, E ainda é certo que recebemos os nomes 
de arte, como maestria mayor e menor, encadenados, 
lexapren e mansobre.» Vê -se por esta noticia, que 
no século xv, quando Portugal e Galliza estavam po- 
liticamente separados, ainda era conhecida, embora 
sem ser explicada, a unidade da sua tradição poé- 
tica. Explicado esse trecho da Carta, encontra-se : 
i.° A existência da Arte contmum, ou da versifica- 
ção popular usada pelos Dizidores, que compunham 
em maestria menor (redondilha) composições que 
Santillana classifica de € Cantigas, Serranas e Dize- 
res portuguezes e gallegos.^ E' o fundo da tradição 
poética popular, que penetrou por imitação jogralesca 
nos Cancioneiros aristocráticos. 2.° Existia com estas 
formas populares a Arte mayor, usada pelos Trova- 
dores, que escreviam em metro limosino ou endeca- 
syllabo (eschola da Aquitania), sendo as suas compo- 
sições artificiosas, como os encadenados, o lexapren 
€ mansobre. 3.° Que a lingua gallega era empregada 
na poesia lyrica tanto em Portugal como em Cas- 
tella, na Extremadura e Andalusia. Este documento 
de uma primitiva unidade ethnica não era compre- 

Poes. popul. 9 



1 3o HISTORIA DA POESIA 



hendido no século xviii; Sarmiento em" polemica com 
D. Thomas Sanches confessava: «Yo como interes- 
sado en esta conclusion, por ser gallego quisiera te- 
ner presentes los fundamentos que tuvo el Marquez' 
de Santillana; pêro en ningun Autor de los que he 
visto, se halla palabra que pueda servir de alguna 
luz.» (Mem.y p. 196.) E reconhecendo a lingua em 
que escreveram Macias e Padron, conclue : «Ue este 
modo se entiende y se confirma lo que escribió el 
Marquez de Santillana sobre el idioma de los anti- 
guos Trobadores castelhanos, andaluces e extreme- 
nhos.» (Ib,, p. 200.) No tempo de Sarmiento eram 
estudadas as Cantigas de Affonso o Sábio, escriptas 
em dialecto gallego, como já o reconheciam Diego 
Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje está philolo- 
gicamente comprovado. Quando o Marquez de San- 
tillana assignalava esta unidade poética da Galliza e 
Portugal, e o raio da sua influencia aos outros esta- 
dos peninsulares, indicava: *^não ha muito tempo ;^ 
esse limite determina-se quando se introduziu em 
Hespanha a imitação da poesia italiana por Micer Im- 
perial, e em Portugal o gosto castelhano de Juan de 
Mena pelo Infante D. Pedro. O ultime vestigio desta 
unidade poética na Peninsula foi determinado por Sar- 
miento nos elementos tradicionaes dos Adágios : cLos 
Adágios gallegos son los mismos que los de los Por- 
tuguezes y Castellanos mas antiguos, y los Catala- 
nes, que son semejantes á los Francezes . . . » [Ib,y 
173.) Saltando as grandes crises históricas que ope- 
raram a separação dos estados peninsulares e sua 
unificação politica, esses vestigios tradicionaes guiam- 
nos ao facto apontado pelos geographos gregos e 
romanos — uma grande unidade ethnica, a Lusitânia. 
Segundo Strabão, os Lusitanos, os GallegoSy os 
Asturianos e os CantabroSy tinham os mesmos usos 
e costumes, sem analogia com os costumes dos Cel- 



POPULAR PORTUGUEZA l3l 



tas ; e uma grande parte dos Lusitanos eram chama- 
dos Callaicos, O auctor do Chronicon Paschale liga 
os Asturos á Gallaecia; e Paulo Orosio accrescenta- 
Ihes também os Cantabros. Para o sul da Península 
hispânica, ainda a Lusitânia segundo Plinio (xv, 22) 
ia desde o Anãs até ao promontório Sacro ; e segundo 
Stephano de Byzancio a Lusitânia era uma parte da 
Bettcãj d'essa antiga Tartesside que era assento dos 
civilisados Turdetanos. Comprehende-se pois essa af- 
firmativa de Strabão, que apontava os Lusitanos como 
o povo mais poderoso de toda a Ibéria, que pelo seu 
orgulho embaraçava que os outros povos se confede- 
rassem. Quem era este povo, que se impunha ás tri- 
bus ibéricas (Euskes ou Bascos) e resistia aos Celtas 
invasores, * pode inferir-se pela illusão dos geogra- 
phos gregos que classificavam os seus usos more 
graeco. Os povos Hyperboreos eram considerados pe- 
los geographos e historiadores antigos como gregos 
transviados ; Hesiodo só reconheceu Ligurios nessa 
região do norte. O movimento destes povos do no- 



* • Comtudo, os Iberos do noroeste, isto é os Lusitânia os Gal- 
Iniciy os AsturoSy os Cantabri^ e outros menos importantes súbdi- 
tos dos Celtas antes de Hamilcar Barca, tinham aproveitado da 
derrota dos Celtas por Carthago para recobrarem a sua liberdade. 
Os Celtas não poderam tomal-os a submetter ao jugo. Estes Ibe- 
ros do notoéste souberam mais tarde defender a sua independên- 
cia contra os exércitos romanos em uma data na qual os Celtas 
tinham acceitado o dominio de Roma.» Jubainville, Les Celtas en 
Espagne^ Rev. celtíque, vol. xv, p. 48. 

«Os Lusitanos (iberos) sobre o Oceano, occupam a^ costas nas 
regiões entre o Tejo e o Douro que é hoje o centro de Portu- 
gol, e se avançam no interior das terras, Merida, na Extremadura 
hespanhola, sobre o Guadiana estavam no seu território ; . . . tal era 
ao sul e ao sudoeste da Celtiberia a posição da Peninsula ibérica 
da qual a conquista foi o objectivo dos gene'-aes romanos, durante 
o meio século que seguiu a segunda Guerra púnica: 202-152.» 
Ib., p. 55. 



l32 HISTORIA DA POESIA 



roeste da Europa para o occidente, estabelecendo-se 
na Inglaterra, Irlanda e Hespanha, muito antes dos 
Celtas, é demonstrado pela archeològia, que funda- 
menta «que o povo dos Dolmens viera depois de ter 
estacionado nas bordas do Báltico, descendo gradual- 
mente a costa Occidental da Gallia, occupando as 
ilhas desta costa (Inglaterra e Irlanda) espalhando-se 
sobre o litoral do ílorte da Hespanha, occidente e 
sul até aos limites da Andalusia actual.» ^ Depois 
dos trabalhos de Belloguet é que se pôde estabele- 
cer a differença entre os Liguriose os Celtas; a 
estes eram attribuidas todas as manifestações da ci- 
vilisação bronzifera e mesmo o onomástico da Euro- 
pa central e da península ibérica. A doutrina ethno- 
lógica dos Ligurios, sustentada para a França pre- 
céltica por Belloguet, é também estudada em Itália 
por Celesia no seu livro Sull antkhissimo idioma dei 
Liguri, e por Francesco Malon, na obra posthuma 
/ nostri AntenaH ; em Portugal encontrou um lúcido 
propugnador em Martins Sarmento nos seus traba- 
lhos Les Ltisitaniens, os Argonautas, e interpretação 
geographica da Ora marítima de Avienus. Os resul- 
tados doestas investigações explicam a unidade an- 
thropologica já anteriormente entrevista: «primitiva- 
mente a raça hespanhola e a raça italiana eram idên- 
ticas, e se unificavam pelo laço natural da Aquita- 
nia e pelo meio dia da Gallia^ cbmo o indicam to- 
das as relações actuaes.» ^ E' o facto da simultanei- 
dade dos povos liguricos na Gallia meridional, na 
Hespanha e Itália, que authentíca esta unidade ethni- 
ca Occidental. Foi reconhecida nos costumes pelos 
geographos gregos ; e os modernos criticos reconhe- 



1 Martins Sarmento, Les Lusitanuns^ ap. Congress, de 1880, p. 

411. 

2 Charrière, La PcUtique de rHistoire, t. i, p, 81. 



POPULAR PORTUGUEZA l33 



ceram-na nas tradições poéticas do lyrismo popular 
e das narrativas épicas. Sem attenderem ao estado 
dos estudos anthropologicos, quizeram explicar essa 
unidade poética por um substractunt céltico \ mas 
Gaston Paris regeitando essa explicação argumenta 
com a indent ficação do hypothetico substractum cél- 
tico com os dialectos chamados neo célticos, com 
que também argumentam os celtistas nas suas ety- 
mologias e interpretações dos onomásticos pessoaes 
e locaes. Conhecido o estado atrazado de cultura da 
raça céltica, e como ella tarde invadiu a Europa, e 
se fundiu com as populações que atacou, o chamado 
substractum céltico reduz-se ao seu aspecto verda- 
deiro reconhecendo um substractum ligurico. Escreve 
Malon, resumindo o problema: «Nos tempos de He- 
siodo (sec. IX a. C.) confundiam-se os povos do Oc- 
cidente com o nome de Ligurios. Egualmente He- 
ródoto chama Ligurios aos povos da Península ibé- 
rica e de parte da Gallia meridional ; Strabão, diz 
que Eratóstenes no seu tempo (sec. iii a. C.) cha- 
mava a todos os povos do Mediterrâneo com o no- 
me genérico de Ligurios. Plutarcho assignava aos Ibe- 
ros uma primitiva estação nos nossos Alpes. Iberos 
e Ligurios são os adjectivos com que indiíiferente- 
mente os antigos designavam os povos que estan- 
ceavam em volta da bacia do Mediterrâneo, e Es- 
chylo (sec. vi a. C.) faz dizer a Prometheo, que Her- 
cules rodeando a Hespéride encontrara alli ao oc- 
cidente a itnperterrita gente dos Ligures, » Esta dou- 
trina é sustentada por Belloguet, que attribue aos 
Ligurios o grande fundo do elemento trigueiro que 
existe no Occidente, e que teria modificado a raça 
loura dos conquistadores gaulezes (Celtas). * cAs po- 
pulações trigueiras da França e das ilhas Britânicas, 



* Henri Martin, Etudes d* Archeologie eeltiqtu^ p. 19. 



l34 HISTORIA DA POESIA 



e especialmente as que faliam ainda as linguas cél- 
ticas, descendem de unta raça ndb céltica. Os Iberos 
(Euskes, Ligurios) cobriram primitivamente não só o 
meio dia daP Gallia, como se admitte geralmente, mas 
as ilhas britânicas. Os Escossezes, Irlandezes, Gallos, 
Bretãos, são Iberos celtisados e não Gaulezes. » * Por 
estas observações dos anthropologistas se vê a ina- 
nidade das reconstrucções archeologicas por meio de 
uma imaginaria philologia céltica applicada aos no- 
mes geographicos : cSe o fundo primitivo das Gal- 
has fosse ibérico, achar-se-ia sobre a camada céltica 
uma crusta ibérica de velhos nomes geographicos : ora 
esta camada cobre ainda o paiz entre o Garona e 
os Pyreneos, ella está misturada na camada céltica 
ao meio dia das Cavennes, da Durance, bem como 
na Liguria e no Piemonte; mas desapparece inteira- 
mente ao norte d'estas regiões. . .» (Ib,, p. 7.) Mar- 
tins Sarmento mostrando como a Lusitânia foi inteira- 
mente extranha á occupação e influencias célticas, 
observa : «Comtudo, os seus nomes ethnicos e locaes, 
os nomes dos individuos e dos deuses, que transmitti- 
ram historiadores e geographos, assim como dos mo- 
numentos epigraphicos, têm na maior parte uma/A/- 
sionomia céltica, . .» * E' uma apparente antinomia, 
que aquelle archeologo resolve mostrando que se pe- 
los actuaes dialectos neo-celticos se pôde explicar 
esses nomes primitivos, é por que esses dialectos são 
vestigios do primitivo ligurico e erradamente conside- 
rados célticos. Na invasão dos Celtas na peninsula (en- 
tre o século VI e V antes da nossa éra) c algumas tribus 
célticas romperam para oeste, entre o Tejo e o Ana, 
íixando-se ao sul da Lusitânia e cru?ando-se com os 



> ' H. Martin, ib. Aponta as auctoridades de Bodichon, Ware^ 

• Mullié, Manneret, d'Halloy e Mfke. 



* Les LusitanienSf (p. 394). 



POPULAR PORTUGUEZA l35 



Turdulos ; são os únicos Celtas de que a historia faz 
menção na Lusitânia.» Isto nos mostra a impossibi- 
lidade de nos fiarmos exclusivamente nos exames phi- 
lologicos. 

Malon, na obra / nostri Antenati considera os Ibe- 
ro-Liguros como pertencendo á ultima emigração tu- 
raniana ; outros anthropologtstas tinham já aventado 
esta origem, discutindo o problema de uma prove- 
niência uraliana e finlandeza, Pruner Bey na Socie- 
dade de Anthropologia de Paris, e o Dr. Guibert no 
Congresso céltico de 1868. A palavra iuraniana é 
mal comprehendida, e máo grado o desdém de glo- 
tologos exclusivistas, ella tem um grande valor ethnico 
para a questão das raças do Occidente. Em vez de 
se occuparem com as populações uraloaltaicas, é nas 
populações mediterrâneas e do norte da Africa que 
se encontra o seu sentido ethnico. Os documentos 
egypcios citam os africanos brancos, que occupavam 
a costa septemtrional da Africa ao longo do Medi- 
terrâneo até perto do Egypto; deram a esse povo 
o nome de Tahennu ; era dividido em grupos, conhe- 
cidos com os nomes de Rebu ou Leòu, (Libyo) nome 
que Belloguet identifica ao de Lygio\ de Maschtias 
(os Maxies de Heródoto) a que correspondem os ber- 
beres Afnazirghes; o nome de Getule é equiparado 
por Belloguet ao nome Gaidheal dado antigamente 
aos Gaèls. Comprehende-se pois que o nome de Ta- 
hennuy appareça n'esse suffixo itani de muitos no- 
mes de povos peninsulares, - como AusetanU Aele- 
tani, BasHtania, Cerretaniy Edetani, Ilicitani, Itani, 
Lacetani^ Lcdetaniy Lusitânia Maxitani, Suessetani, 
Turdeiani, Unditani, etc. Não é de um suffixo tan 
phenicio, mas do mesmo nome que formou Tunis e 
Tenerife, que deriva essa importante designação eth- 
nica, Dana, que apparece em Danavas (na índia) 
em Danaos (na Grécia) e em Danannios (na Irlanda.) 



■■niir- 



l36 HISTORIA DA POESIA 



Esses povos Danannios^ da Irlanda, eram assim cha- 
mados da sua divindade • eponyma Dana, a Deusa- 
Mãe Ana, e considerados da familia religiosa dos 
Cabiras, Telchines e Dactilos. Assim se determina a 
superioridade dessa raça bronzifera que explorou o 
Oceano atlântico, cujas navegações foram incorpora- 
das pelos gregos nas suas lendas odyssaicas (these 
dos Argonautas de Martins Sarmento) ; que tocaram 
na America, e que levaram a cultura á Chaldêa, pelo 
iniciador Oannes (Huavank, o vencedor das ondas na 
mythologia irlandeza.) Porventura se explica por este 
mesmo nome mythico o de Guancho; o nome de 
Brigid, deus da guerra, entra na formação do da tribu 
pre-celtica dos Brigantes\ e o do deus ferreiro Go- 
bko, apparece no de Gafis e Haf, a região oriental, 
mesmo nos Gupkos os ciganos, e os Gafas dado ás 
raças desprezadas. Por estas deducções ethnologicas 
se precisa a designação de raça turaniana, ou dos 
Povos Dananu (genetivo de Dana^ nesses Tahennu 
do Mediterrâneo, que evolucionaram com o nome de 
Iberos na Europa occidental, e ficaram na Africa com 
o nome de Berberes, e dos Atlantes (os berberes de 
Darana, o Atlas.) 

Explorando a unidade do lyrismo nos povos do 
Occidente fora do substractutn céltico, por incon- 
gruente, mas nesse fundo mais antigo ligurico ou 
ibérico, como impõem os estudos anthropologicos, é 
lógico que se continuem essas comparações até aonde 
se estendeu a sua influencia civilisadora demonstrada 
por Roisel e Cailleux ; e por isso é legitimo o con- 
fronto do Lyrismo occidental com os Cantos accadi- 
cos da velha Chaldêa, e os cantos heróicos das Ara- 
vias com as Yaravi do Mex»co. Este esboço exige 
uma exposição mais minuciosa em monographia. 

Segundo Strabão, (m, 4, 20) era a «Lusitânia a tíll?j 
antigos, situada para além do Douro na direcção do 



POPULAR PORTUGUEZA iSy 

norte, chamada hoje a Callaica, » E* importantissima 
esta tradição colhida pelo geographo grego, que nos 
indica a primitiva occupaçâo das tribus ribeirinhas 
dos Lusitanos, antes da invasão dos Celtas, que de- 
ram o nome definitivo á região gallaica. Esses Lu- 
sitanos prin^arios foram considerados como Ligurios, 
sendo separados por effeito d'essa invasão dos ou- 
tros Lusitanos, que segundo Strabão ctem por limi- 
tes ao sul o Tejo, e a oeste e a norte o Oceano, 
a leste o território dos Carpetanos, Vettões, Vac- 
ceos, Callaicos e outros povos desconhecidos.» (iii, 
3, 3.) Estes também soffreram a invasão céltica no 
século V antes da nossa éra, mas resistiram ao seu 
dominio, que não chegou ao mar nem ao Tejo, con- 
forme Ptolomeu ; . as tribus célticas viviam dispersas, 
emquanto que a Lusitânia conservou as suas nove 
cidades, e apoderara-se dos territórios dos Cem- 
pses, recuperando os. Foi pela conquista romana na 
península, que pela sua organisação administrativa a 
Lusitânia realisa uma certa unidade, como se vê na 
descripção de Strabão, «a de alguns auçtores mo- 
dernos, comprehendendo entre os povos Lusitanos 
essas mesmas tribus limitrophes, Carpetanos, Vet- 
tões, Vacceos, Callaicos . . » Era esta unidade que 
Viriatho procurou firmar por uma Confederação con- 
tra o invasor estrangeiro, e que os Romanos emba- 
raçaram pelo seu assassinato. 

A resistência dos Callaicos á invasão romana fez 
com que elles se refugiassem nas montanhas, e por 
causa da sua resistência deram o seu nome de Gal- 
laica a toda a região noroeste da Peninsula, desde 
o tempo de Decio Junio Bruto. Sob este nome se 
comprehendeu mais tarde a terra gençur, até ao 
Tejo. No regimen do Império a Lusitânia recebe 
uma outra divisão c abrangendo as populações com- 
prehendidas entre a fronteira da Betica e o curso 



l38 HISTORIA DA POESIA 



do Douro, inclusive Emérita Augusta.» (Strab., iii. 4, 
20.) Deixou de lhe pertencer a Lusitânia primitiva, 
do Douro ao mar Cantabrico ; ass m ficou, desmem- 
brada a Gallecia, que no fundo era a mesma raça, 
desconhecendo se na politica, mas sempre unificadas 
na sua tradição poética e costumes. 

Pelo estudo da poesia gallega é que se podem 
conhecer as formas do lyrismo portuguez ; a desmem- 
bração d' esse território, que ethnicamente nos per- 
tence e tem permanecido para nós extranho tantos 
séculos, prova a falta de um pensamento politico. 
E' pois na sua constituição ethnica que se encontra 
a tradição lyrica da Galliza, que se filia nesse fundo 
commum da Aquitania, onde a raça pertencia, con- 
forme Strabão mais ao typo ibérico, do que ao gau- 
lez; sabemos pois o valor que tem este fundo que 
por homophonia se designava por turaniano. Quando 
Silio Itálico, no século i da nossa éra, faz no poema 
histórico da Segunda Guerra púnica a lista dos di- 
versos povos hispânicos que acompanharam Annibal 
na expedição contra a Itália, descreve a sua Galliza, 
nos principaes caracteres, que ainda persistem: 

Fibrarum et pennae, divinarumque sagacem, 
Flammarum, misit dives Gallaecia pubem 
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis, 
Nunc pedis alterne percussa verbere terra 
Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras, 
Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas. 

(Liv. III, V 345) 

Sarmiento, nas Memorias para a Historia da Poe- 
sia, interpreta estes versos ante o estado contempo- 
râneo : «Primeiramente, chama a este paiz da Gal- 
liza rico (dives) porventura pelos vários e preciosos 
metaes que d*alli extrahiam para os romanos, e ainda 
produzem.» Esta actividade metalúrgica condiz com 



POPULAR PORTUGUEZA iSg 



a raça que conservava a tradição cabiríca do bronze. 
Observa Sarmiento: csuppõe (Silio Itálico) que tinha 
idioaia próprio e também idiomas differentes (pro- 
prtris lingtàs,) Isto, em contrario dos que imaginam 
um só idioma nacional em toda a Hespanha em 
tempo dos carthaginezes.» Effectivamente já se dif- 
ferenciavam os dialectos peninsulares antes e muito 
da influencia romana na Hespanha; foram essas va- 
riedades celtibericas que vieram a constituir as lin- 
guas românicas, n esta península. Continua Sarmiento 
commentando o poeta: c considera os Gallegos de- 
votos e religiosos, pois os aponta com sacrifícios e 
de mais a mais destros e sagazes em consultar os 
seus Deuses, e o extispicio das suas victimas, e no 
auspicio das aves, já finalmente na observância, ainda 
que vã dos movimentos, côr, volume, variedade e 
direcção das chammas dos seus holocaustos.» Nas 
Canções trobadorescas galecio-portuguezas é frequen- 
te a allusão ás aves de agouro (avis spitium, auspi- 
cio) se vão para a esquerda, ou siuisiro e sestro \ 
todas essas velhas superstições, que foram objecto 
de legislação penal, ainda subsistem, algumas tem 
similhanças com a magia accádica e com o chal- 
daismo europeu. * Observa Sarmiento : «diz que usa- 



^ Na Canção 1087, do Caucionara da Vaticana^ diz Ayres Pe- 
res Veytorom : 

Poys qae Dom Gomes Çarra qaerria 
con boas aves ante prender mal 
ca ben con oatras, nom lh'y dê Deus ai 
erg* este corvo per que sUl fia, 

£ na Canção 1204 de Pedro Amigo, lê-se em relação ao fogo : 

Pediu oje um ric' ome 
de que eu ey queixume, 
candeas a un seu ome, 
e deu-lhe o ome lume; 
e poys que foy o lume^ 
ficado no esteo 



140 HISTORIA DA POESIA 



vam nos seus divertimentos jogos e festas sagradas 
hymnos, cantos, musica, bailes : ultdantem . . . car-^ 
mina, . , alterne verbere pedis. . . ad numerunt re- 
sonas cetras.^ (Ob. cit, n. 76 e JJ.) 

Os instrumentos músicos a que se cantavam es- 
tes hymnos, eram conforme diz Silio Itálico (liv. x.) 
rittis moris Iberi... barbara cetra. Os cantos po- 
pulares gallegos são ainda acompanhados de pan- 
deiro e ferrinhos (sonajas) com a neuma nacional que 
entra nos refrens, o Alalãla, que os romanos equi- 
paravam ao ulular, ou um pranto cadenciado. Um 
provérbio vasconço falia no Bethico leloa, isto é, o 
eterno leio. Dos cantos de Alaldla, assim chamados 
pelo estribilho que acompanha as coplas, falia Zerna- 
das, o celebre cura de Fruime (n. 1777): 



Porquê de seu falalás 
En el estribilho eterno. 



Nas cantigas gallegas celebra-se o estribilho nacio- 
1 como caracteristico : 



nal como caracteristico: 



O cantar do galleguinho 
E' cantar que nunca acaba, 
Que empeça em t'ailalilay 
E acaba em Vailalála, 

Nos Antos de António Prestes, em que predomi- 
nam elementos populares, apparece este estribilho: 

Le^ léy lé^ Maria Leitoa^ 
Le. léy /e, para que sois boa. 

(Autos, p. 21.) 

Nas Vascongadas, o eterno leio chegou a ser eveh- 
merisado como individuo : 

Lelo^ il leio 

leio il leio 

leloa Zarac (çaray ?) 

il leloa. 



POPULAR PORTUGUEZA I4I 

E na sua forma actual : 

Eta leorí bay leio 
Etoy lelori bay leio 
leloa^ çaray hloa, ^ 

A generalidade d'este refrem era toda a região Oc- 
cidental revela um fundo commum tradicional, que 
coincide cora os dados anthropologicos. Alfred Mau- 
ry, falia de um hymno dos gregos, como expressão 
de dor geral: cEra a lamentação, espécie de ladainha, 
tendo como refrem as exclamações a/ald (àlaXà) re- 
petido pelos homens, e oMu (òXoXu) repetido pelas 
mulheres. Em certos casos estas exclamações per- 
diam o seu caracter de lamentação e só exprimiam 
o assombro ; por vezes eram também um indicio de 
alegria. > ^ O caracter fúnebre do vestígio cantabrico 
persiste nos costumes irlandezes, no estribilho de uma 
canção fúnebre ou areyto com o refrem ullaloo\ 
escreve Smith, na Hisioire des Druides co coronach 
ou ululaith, a lamentação, era o mais commum dos 
seus cantos fúnebres, t (Ob. cit., p. 78) Os saxões ca- 
minhavam para a guerra ao grito de alelá ; de uma 
povoação americana diz o Abb. Bertrand : cOs Chu- 
lulanos nas suas festas cantavam dansando em volta 
de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava 
pelas palavras íulanian, AÚIu/ars, que não pertence 
a nenhuma lingua actual do México.» Na Grécia o 
grito do Hylíu resoava pelas montanhas; e nos Ro- 
manceiros hespanhoes, parece que esta neuma Helo, 
helo, se empregou especialmente nas narrativas épi- 
cas. Em uma Canção portugueza do Cancioneiro da 
Vaticana repete-se o estribilho basco Etoy leloa (Edoy 
lelia); é assignada por Pêro Anes Solaz, que como 
jogral a colheu da corrente popular : 

^ Pays bosque, por Francisque Michel p. 280, 281, 283. 
^ Histoire des ReUgúms de la Grtce antique^ t. li, p. 137. 



142 HISTORIA D. POESIA 



Eu, velida dormia 

le lia, d 'outra ! 
£ roeu amigo vénia 

edoy lelia d'outra 1 
Nem dormia e cuydava 

lelia d'outra ! 
E meu amigo chegava 

edqy lelia d'outra ! 
O meu amigo vénia 

lelia d'outra ! 
E d*amor também dizia 

edoy lelia d 'outra ! 
O meu amigo chegava 

lelia d 'outra ! 
E de amor também cantava 

edov lelia d'outra ! 
Muito desejey eu, amigo, 

lelia d'outra ! 
, Que vos tevesse commigo 

edoy lelta d'outra ! 
LWi, /e/í, por Deus, leli^ 

edoy lelia d'outra ! 
Bem sei eu quem diz leli 

lelia d'outra ! 
Demo ve quem nom diz lelia 

edoy lelia d'outra ! 

(Canç., n.o 415.) 

Lembra a forma da Controbadura do tempo de 
Gonzalo Berceo. 

E' presumível, que andando este refrem sempre li- 
gado ao canto, desse elle a designação aos cantos do 
leoi irlandez, e ao lai bretão, que chegou ás littera- 
turas da Edade media como um género lyrico. Cau- 
sas intercorrentes determinam pela sua similaridade 
a revivescência de certos costumes; as Leilas árabes 
conservaram-se entre o povo hespanhol com uma in- 
tensidade, que bvava Philippe 11 a prohibil-as como 
contrarias á religião, em 1566, bem como os instru- 
mentos músicos, e o falíar e escrever árabe. Estes 
factos collocam-nos em frente do problema da uni- 
dade do Lyrismo occidental, apontado porLiebrecht 



POPULAR POKTUGUEZA I43 



nas AddiçÕes d Historia da Poesia rotnantica, * e por 
Paulo Mayer , e Mainzer, que considera os cantares 
gallegos prolongados em alcUála como parecidos com 
os cantos italianos de Caprera e Terracina ; * nas can- 
ções italianas também se encontra o estribilho oli^ 
ole, olélla. A attribuição do lyrismo tradicional do 
Occidente á região franka, como opinam Gaston Pa- 
ris e Jeanroy é tanto mais inadmissível, quanto se 
reconhece que esse lyrismo é anterior ao substra- 
ctufn céltico, por isso que se encontram paradigmas 
na Rússia e na Grécia moderna. As formas épicas, do 
typo rudimentar do Romance, appresentam a mesma 
unidade, como o comprovam Costantino Nigra, em- 
bora explicando -a pelo substractum céltico, Fernando 
Wolf e Koehler; nos estudos ethnologicos essa uni- 
dade vae até ás superstições populares, provérbios, 
jogos infantis e adivinhas. Na sua invasão tardia a 
raça céltica para se conservar na Hespanha teve de 
confederar-se com os Iberos ; uma neuma caracterís- 
tica como a do Alalala se conserva na Península, é 
o Guay, semelhante áquelle grito céltico Woel Woel 
que ainda hoje se conserva na Escossia como uma 
vehemente expressão natural. Assim começam al- 
guns romances : « Guay Valência, guay Valência, i 
Gil Vicente allude aos cantares guayados\ diS guaias 
(vaias) eram prohibidas pela Inquisição, pois que del- 
las é accusado o Dr. António Homem. Deu por ven- 
tura o nome ao instrumento popufar a gaita gallega, 
semelhante á gaita escosseza. A Canção mais popu- 
lar da Galliza, é a que tem o nome genérico de 
Muinkeira, e os seus versos typicos (endecasylla- 
bos com accento na i.*, 4.* e 7.*) são chamados 
endecasyllabos de gaita gallega; e Zernadas, ó pa- 



^ yahrbuch fur Romanische und Englische Literatur^ vol. u 
fase. 2. 

^ Ap. Murguia, Historia de GaUcia^ I, 259. 



144 HISTORIA DA POESIA 



triotico cura do Fruime, chamava-lhes ai aire antíg'Uú, 
E' esta forma da Muinheira, commum á França, 
Itália, Portugal e Catalunha, e penetrou nos Can- 
cioneiros trabadorescos com a forma que lhe deram 
os jograes nas Cortes peninsulares. Era a estas Ser- 
ranilhas jt Dizeres portuguezes e gallegos que se 
referia o Marquez de Santillana no meado do sé- 
culo XV, vendo lucidamente o problema da manifes- 
tação do génio lyrico moderno n*essa região da Gal- 
liza até ao Mondego. Frederico Diez determinou a 
persistência d'essas formas lyricas em Gil Vicente. 
Encantado por esse género que tinha <i veri carat- 
tere delia poesia portoghese primitiva» Ernesto Mo- 
naci reuniu alguns espécimens em 1873 no opús- 
culo Canti antichi portogkesi^ como do género po- 
pular; * assim no século xiii e xiv reflectiu-se na 
forma escripta o typo das canções populares mais 
antigas, que continuaram na transmissão oral. Paulo 
Mayer dando conta destas canções, diz: cNão de- 
vem ser consideradas, propriamente fallando, como 
populares. Suppondo mesmo que existissem na Gal- 
liza e em Portugal, é pouco provável que se dessem 
ao trabalho de escrevel-as. Além disso, as composi- 
ções do Ms. da Vaticana e pôr conseqnencia no seu 
original perdido (hoje achado e publicado) são acom- 
panhadas do nome de seus auctores, o que não acon- 
teceria se fossem colhidas da bocca do povo, Que 
ellas viessem a tornar-se populares é o que se pode 
olhar como muito provável ; isto aconteceu a certas 
obras dos trovadores e dos troveiros ; não sabemos 
nós que Giraut de Borneil gostava de ouvir as suas 
canções cantadas á compita pelas raparigas que iam 



.1 A pagina X dos Canti anticM escreve : «I trovatori dei ci- 
clo dionisiaco la connobero dalla bocca dei popolo, dal popolo la 
recolsero, ritocandola col magisteri dei arte, e forse auche sepero 
finamente imitaria, como opina Teófilo Braga.» 



POPULAR PORTUGUEZA 145 

á fonte ? » Em Portugal não aconteceu isto ; o lyrismo 
trobadoresco foi rapidamente esquecido, e quando no 
século XVI Gil Vicente reproduziu formas das serra- 
nilhas populares análogas ás dos Cancioneiros do sé- 
culo XIV, fel-o excltòivamente pelo seu contacto com 
o povo. Essa forma tradicional veiu ser reprodu- 
zida nos seus Autos, como os jograes e trovadores 
a imitaram nas Cortes. No Cancioneiro da Vaticana 
falla-se com clareza na poesia popular imitada pelos 
trovadores; em uma sirvente Joham de Guylhade 
apoda o jogral Lourenço «que trobou dovençal,^ 
(Canç. n.*^ iioó); o trovador Rodrigo Eannes falia 
na canção 1032 dos improvisos dos aldeãos: — «ter- 
ras hu en andey— non vi villão tan mal departir . . . » 
Na canção 1024 o trovador João Soares Coelho pre- 
tende separar o gosto popular do aristocrático, di- 
zendo : 

E o villão que irobar souber 

que trobe e chame senhor sa molher, 

e averá cada hun o seu dereito. 

Em uma Canção de Martin Soares, (n.° 965) fal- 
la-se dos jograes tâmboríleiros e da gente para quem 
cantavam : 

Bemquisto sedes dos alfayates, 

dos peliíeyros e dos moedores, 

do vosso bando sou os tropeiros 

e os jograes dos atambores; 

por que Ihis cabe nas trompas vosso som ; 

para atambores ar dizem^ que nom 

acham no mund'outros soes melhores. 

■ A imitação directa das baylatas populares encon- 
tra-se em uma sirvente de João de Gaya, (Canç. 
1062) que termina com a rubrica: ^Esta Cantiga foy 
seguida por uma baylata, que diz: 

Poes. popui. 10 



146 HISTORIA DA POESIA 



VÓS avadel-os olhos verdes, 
matar m^edes com elles. . .» 

Era a revelação indirecta de um mundo de poe- 
sia elaborada na sociedade mosarabe, que se con- 
servara sempre oral até á creação dos novos esta- 
dos peninsulares, e que se continuou a transmittir 
oralmente até aos povos modernos. O dominio dos 
Suevos, na Galliza, a resistência contra os Árabes, 
e a disciplina do Catholicismo não modificaram este 
typo do Lyrismo. «Os Suevos, como nos informa 
Dion Cassius, eram em certa fórmu Celtas, (11, 22) e 
em Tácito (Germ., 43) encontram-se outros indicies 
da nacionalidade céltica dos Suevos, y * E' um facto 
em relação com esse outro tão discutido do germanis- 
mo dos Celtas. Helfrich e Declermont determinam a 
influencia da lingua dos Suevos sobre o galleziano : 
«Comparando a vocalisação do dialecto suabio actual 
á do portuguez julga-se ter achado a solução dò pro- 
blema. Foram os Suevos, que primeiro do que to- 
das as outras tribus germânicas se estabeleceram na 
Galliza . . . não custará a attribuir a intonação nasal 
particular ao dialecto suabio, e que se encontra de 
uma maneira surprehendente no portuguez, á influen- 
cia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que 
acabava de se formar unicamente na Galliza.» ^ Os 
Suevos perderam pelas suas derrotas o caracter guer- 
reiro e subordinaram-se ao Catholicismo ; se influiram 
na prioridade da manifestação do génio lyrico na re- 
gião da Galliza, seria pelos caracteres que lhe assi- 
gnalam Tácito e Paulo Orosio, o que desfaz, a illu- 
são de uma origem franka do Lyrismo occidental. 
Antes porém de determinar a persistência dos Can- 
tos lyricos na tradição popular actual, importa de- 

1 Lemière, Etudes sur les Celtes, p. 439. 

2 Aptrqu de í Histoire des Langue neeo-latínes en Espagne^ p. 36. 



POPULAR PORTUGCEZA 147 



screver essa crise em que a GaUiza é incorporada na 
unidade monarchica, perdendo a sua autonomia e as 
condições para o desenvolvimento de uma litteratura. 
A lingua gallega cedo deixou de ser escripta, e as 
tradições poéticas ficaram abandonadas á inconsciên- 
cia popular. A Galliza existia separada como um 
Condado independente desde 863 ; não tendo sof- 
frido o dominio árabe, era dura a incorporação na 
unidade politica de Leão em 885 por effeito da re- 
conquista christã, e por isso luctou pela sua inde- 
pendência, que chegou a conseguir depois de vinte 
annos, perdendo-a na corrente de unificação dos esta- 
dos peninsulares, depois da mallograda revolta sepa- 
ratista de 981. Como para enfraquecer a Galliza, que 
chegou até ao Mondego e até ao Tejo, foi creado 
o Condado de Portugal em 1109, q"^ em breve se 
ia tornar autónomo como uma pequena nacionali- 
dade cujas fronteiras foram desde o rio Minho até ao 
Mondego. E^tes separatismos politicos não apagaram 
os caracteres lusitanicos da Galliza, nem a cultura 
gallega, que actuou na corte e população de Entre 
Douro e Minho. Importa esboçar esse movimento de 
separação e unificação que constitue a trama histórica 
das nacionalidades peninsulares. Na Crónica rimada 
do Cid apontam -se os organismos autónomos dos Por- 
togaleses, Galisianos, Leoneses, Asturianos, Estreme- 
nhos e Castelhanos; * mas o systema da monarch'a 
neo-gotica trabalhava para apagar estas individualida- 
des nacionaes. 

No solo da Hespanha existem os relevos orogra- 
phicos que dividiram naturalmente a peninsula em 



l Elrey cuando lo oyó, embió por todos sus reynados, 

PortogaUses e Galisianos^ Leoneses e Asturianos, 

e Estremudura con .Castellanos; 

e ally los mando el rey tan ayna judgar, 

los Condes que tal cossa fasian que muerte mereciam ? 



148 HISTORIA DA POESIA 



pequenos estados ; o fácil accesso deste território 
fez com que aqui confluíssem differentes raças, que 
obedeceram a essas condições mesologicas, e no seu 
separatismo crearam dialectos próprios, elaboraram 
no automatismo consuetudinário tradições, que foram 
o elemento de concórdia para essas confederações de- 
fensivas, (Behetrias) primeiros esboços das nacionali- 
dades peninsulares. O empirismo politico pôde des- 
conhecer durante séculos estas condições que actuam 
constantemente na constituição de um povo; ousou 
impor uma unidade material, mais administrativa do 
que politica, tentou apagar as iniciativas locaes, ou 
garantias autonómicas, calar os dialectos provinciaes 
ante uma lingua official, estrangular sob Fernando e 
Isabel, Carlos v e Philippe 11 as antigas nacionalida- 
des, mas o unitarismo e a centralisação nunca pu- 
deram extinguir as tradições populares. Firmin Ca- 



Judgaron Portogalcses a bueltas con Galisiancs^ 
dieron por juysio que fuesen despefiados. 
Judgaron Leoneses con Asturianos, 
dieron por juysio, que fuesen arrastrados. 
Judgaron Castellanos a buelta con Estremadanos 
e dieron por juysio que íiiessen quemados. 

(^ 695 a 704.) 

Por esta rason dixieron: 

El buen don Fernando par fué de Emperador, 

Mando á Castella vieja, e mando a Leon, 

e mando a las Esturias fasta en Sant Salvador ; 

mando a Galicia, onde los cavalleros son, 

mando a Portugal^ essa tierra jensor, 

e mando a Cohimbra de Moros; pobló a Montemayor. 

(^ 759 a 763.) 

AUy finco Ruy Dias la tienda dei buen rey Don Fernando, 
con Ias suyas cuerdas mescladas aderredor de los Castellanos, 
a bueltas con Estremadanos, la costanera Aragoneses, Navarros 
con Leoneses, com Asturyaaos 
por mantener la caga PortogaUses con Galisianos. 

(Crónica rimada^y 1026 a 1030.) 



POPULAR PORTUGUEZ\ 149 

- - - ■ ■ 

ballero, pelas dansas, pelas cantigas e instrumentos 
musicaes, pelas praticas da cultura agrícola, fixa o 
caracter de cada um desses povos que hoje são pro- 
víncias de Castella. Esse antigo individualismo levan- 
ta-se vigoroso ás primeiras investigações da critica, 
e a associação do Folk-Lore de Andafuzia, ao seu 
appêllo á tradição do passado abriu o alvéo a uma 
corrente, que rue e se alastra pelas regiões que con- 
stituem os organismos independentes da nacionali- 
dade hespanhola, a castelhana, gallega, aragoneza, 
asturiana, anduluza, extremenha, leoneza, catalan, va- 
lenciana, murciana, vasconavarra, balear, canária, cu- 
bana, porto-riquenha e philipina. 

Com as tradições, sympathica e religiosamente col- 
ligidas, revivem os dialectos, órgão poderoso do es- 
pirito local, e com este o génio de iniciativa e de in- 
dependência, base para um renascimento da Hespa- 
nha, que a levará a occupar o grande legar que lhe 
compete na Civilisação occidental. 

O estudo das tradições não representa simples- 
mente uma phase scientifica, mas também é uma 
crise moral, em que o espirito da associação local, 
tão admiravelmente estudado e comprehendido por 
Carey, se apresenta com a forma de reconstituição 
de um povo envolvido na longa decadência catho- 
lico-feudal, que se prolonga na pedantocracia parla- 
mentar. 

Sob este ponto de vista as tradições populares da 
Galliza são do mais alto interesse ; a Galliza é a pro- 
víncia mais duramente submettida á unidade politica 
e mais sacrificada pelo centralismo administrativo ; 
ella resiste pela tradição lyrica, em que conserva a 
sua feição ethnica e esse espirito local a que chama 
soidade, espécie de nostalgia em Madrid denominada 
morrinha gallega. Em relação á nacionalidade por- 
tugueza, a Galliza é um fragmento que ficou fora 



l30 HISTORIA DA POESIA 



da integração politica de um Estado gallecio portu- 
guez, desmembrado pelo interesse de Affonso vi para 
fazer o casamento das suas duas filhas com Ray- 
mundo e Henrique de Borgonha. A Galliza seguiu 
a sorte da unificação asturo-leoneza, perdendo cada 
vez mais os seus elementos de cultura e de vida na- 
cional ; Portugal pela autonomia de nação, desenvol- 
veu uma lingua e litteratura, arte, industria e a grande 
acção histórica que o tornou um dos primeiros po- 
^ vos coloniaes, e o iniciador da actividade pacifica da 
Europa moderna. 

Sob o ponto de vista mesologico, a Galliza per- 
tence a esse grupo de pequenos estados divididos 
pela cordilheira dos Pyrenéos que corre de norte a 
oeste, formando os organismos independentes da Ca- 
talunha, Aragão, Navarra, Astúrias, Galliza e Vasco - 
nia. Pela sua situação aqui resistiram mais puras a 
raça lusitana ou ligurica, e as tribus suevicas, e pela 
sua estabilidade social não perturbada pelas invasões 
dos Árabes, aqui se elaborou essa tradição lyrica, 
propagada aos outros paizes da Hespanha, como no 
século XV notara já o Marquez de Santillana. A Gal- 
liza, na reconstituição da sociedade neo-gotica, era 
o foco da civilisação peninsular; aqu' vinham os reis 
completar a sua educação, e a lingua gallega era pre- 
ferida pata as composições poéticas das Cortes em 
que se imitava a poesia trobadoresca, tão delicada 
na casuística sentimental. A Galliza perde a sua 
existência politica, e por tal facto apaga-se lhe a cul- 
tura, e cae n'essa atonia provincial em que só sub- 
siste aquillo que é de origem statica e inconsciente ; 
a Galliza é incorporada na unidade do reino de Leão 
por Affonso i, mas sob Fruela procura revindicar 
pela revolta a independência. Envolvida por Af- 
fonso III na mesma unidade em que entra o reino 
de Leão, a Castella Velha e Lusitânia, essa unidade 



POPULAR PORTUGUEZA lí)I 



quebra-se pela morte do monarcha, vindo a Galliza 
a caber em herança a Ordonho, que a incorpora ou- 
tra vez ao reino de Leão roubado a seu irmão Gar- 
cia. Pela morte de Ordonho, Fruela incorpora a Gal- 
liza e Leão no reino das Astúrias. Três vezes sacri- 
ficada a sua autonomia nacional, a Galliza não perde 
o espirito de independência, e vence em uma lucta se- 
paratista sob Ordonho iii, Sancho i e Ramiro m á 
custa do apoio dado aos conflictos dos outros esta- 
dos entre si. Porém nessa forte corrente de unifica- 
ção politica imposta pela audácia de Fernando o Ma- 
gno, a Galliza é absorvida como os outros estados 
de Navarra, Aragão, Castella e Leão, vindo, pela 
desmembração determinada pelo testamento de Fer- 
nando, a Galliza a caber a seu filho Garcia. Esta si- 
tuação independente foi transitória, porque Garcia é 
desapossado por seu irmão Affonso vi, que realisa a 
quarta unificação peninsular, em que separa da Gal- 
liza o Condado de Portugal, que depois de sua morte 
se torna independente. A Galliza nunca mais saiu 
da situação subalterna, decahindo succéssi vãmente ; 
o estado de Portugal estendeu -se ás extremas fron- 
teiras da Galliza ao sul, até ao Mondego, e até Lis- 
boa, alargando-se progressivamente até aós Algarves 
de além- mar em Africa, explorando o Atlântico e 
achando o caminho maritimo da Ásia. Apesar d esta 
separação politica, continuaram as similaridades ethni- 
cas gallecio portuguezas, que foram persistindo mas 
desconhecendo-se entre si, a ponto de o nome de 
gallego se tornar uma injuria pessoal, mesmo para 
aquelles que, como Sá de Miranda e Camões, eram 
oriundos de famílias gallegas. 

Vê-se portanto, que as tradições populares da Gal- 
liza devem explicar muitas particularidades das for- 
mas tradicionaes portuguezas, e ao mesmo tempo 
são o ultimo vestígio de^um organismo nacional que 



l52 HISTORIA DA POESIA 



ficou atrophiado. A Galliza chegou a ter quasi ex- 
tincto o seu dialecto, fallado apenas domesticamente ; 
e pela emigração forçada dos seus naturaes, foram 
as mulheres que conservaram as tradições, causa 
plausível da preponderância dos cantos lyricos sobre 
os cantos épicos ou recitados. O P.* Sarmiento es- 
crevia em 1745 sobre o estado da lingua gallega : 
cLos Gallegos de hoy tienen su próprio dialecto, di- 
ferente dei Castellano. Pêro enquanto á comtnunica- 
cion per escrito^ unos y otros usan dei f astellano, é 
afectan lo posible para escrivir en este idioma do- 
minante.» (Mem, n.° 285.) O povo é que conser- 
vou sempre a sua lingua natural, com o carinho das 
emoções poéticas. Sarmiento^ falia desses cantos: cO 
género de redondilhas de seis syllabas é antiquís- 
simo, e ainda hoje se usa muito, e poder-se-ha cha- 
mar-lhe Coplas de Perico y Maricá, Usa- se deste 
verso quando se faz alguma sátira. Então introdu- 
zem-se Pedro e Maricá, rústicos com o diminutivo de 
Perico e Maricá, e perguntando-se e respondendo se 
entre os dois quasi ao modo de Pasquino e Marforio 
em Roma. O estylo deve ser conciso, natural e com 
expressões vulgares. > (/<>., n." 448.) Este género tam- 
bém entrou nos Cancioneiros aristocráticos nas sir- 
ventes. Caracterisando a poesia popular da Galliza, 
observou Sarmiento esse facto, que tanto se reflete 
nas canções trabadorescas : «Geralmente fallando, 
assim em Castella como em Portugal, e em outras 
províncias, os homens são os que compõem as co- 
plas e inventam os tonos ou árias; e ahi se vê que 
n'este género, de coplas populares faliam os homens 
com as mulheres ou para amal-as, ou para satiri- 
sal-as. Na Galliza é o contrario. Na maior parte das 
coplas gallegas faliam as mulheres com os homens ; 
e é por que el!as são as que compõem as coplas 
sem artificio algum; e ellas mesmas inventam os to- 



POPULAR PORTUGUEZA I 53 

nos OU árias a que as hão àe cantar sem ter ideia 
da arte da musica.» (/^., n.** 238.) Esta mesma ca- 
racterística tinha sido observada pelo Marquez' de 
Montebello, no século xvii, em relação ás mulheres 
do Minho: «Com grande destreza se exercita a mu- 
sica, que é tão natural em seus moradores esta arte, 
que succede muitas vezes aos forasteiros que pas- 
sam pelas ruas, especialmente nas tardes de verão, 
parar e suspenderem-se, ouvindo os íonos que can- 
tam em córoSy com fugas e repetições, as raparigas, 
que para exercitar ao trabalho de que vivem lhes é 
permittido. Aos que ignoram a musica enganam, fa- 
zendo cuidar que a sabem, e ao que é destro em 
ella desenganam, que de todas as artes é a natu- 
reza a melhor mestra.» 

Nas Baylatas que os jograes gallegos imitaram do 
gosto e typo popular, é em nome de mulheres, que 
cantam simulando o costume. Merecem comparar-se 
uma Baylata assignada por João Zorro com outra de 
Ayres Nunes, jograes gallegos, as quaes pelas suas 
semilhanças revelam um typo popular cowimum, que 
ambos plagiaram: 

DE JOÃO ZOBBO I 



Bailemos agora, por Deus, ai velidas, 
Sô aquestas avellaneiras frolidas; 
E quem for valida^ como v<5s, velidas^ 

Se amigo amar 
Sô aquestas avelaneyras granadas 

Verrá bailar l 



Bailemos agora por Deus, ai loadas, 
Sô aquellas avelaneiras granadas ; 
E quem for loada, como vós, loadas, 

Se amigo amar^ 
Sô aquellas avelaneiras granadas 

Verrá bailar ! 



l54 HISTORIA DA POESIA 



DE AYBE8 NUNB8 

* > Baylemos nós já todas, todas, ay amigas, 
Sô aquestas avelaneiras frolidas, 
£ quem for velida como vós, velidas, 

Se amigo amar, 
Sô aquestas avelaneiras frolidas 

Verrá bailar. 

Baylemos nós já todas, todas, ay yrmanas, 

Sô aqueste ramo d'estas avelanas, 

£ quem for louçana como vós, louçanas. 

Se amigo amar, 
Sô aqueste ramo d'estas avelanas 

Verrá baylar. 

Por Deus, ay amigas, mentr'al nom fazemos, 

Sô aqueste ramo florido bailemos, 

E quem bem parecer como nós parecemos, 

Se amigo amar 
Sô aqueste ramo sol que non baylemos 

Verrá baylar. 

(Canc. Vat., n.° 462.) 

Pelo confronto destas duas baylatas parece que o 
som ou ária musical é que as distinguia, cantando os 
jograes sobre um mesmo thema popular, sem se 
plagiarem ; a aristocracia cultivava a musica e ensoaua 
servindo-se do metro das tonadiihas vulgares para a 
composição melódica, E' o que se deprehende da 
canção do jogral Julião Bolseyro : 

Mais como x'é mui trovador, 
Fe:( umas lirias no som^ 
Que mi sacam o coraçon. 

Uma canção de João de Gaya termina com esta 
rubrica preciosa : tEsia cantiga foy seguida por utna 
BAYLADA, etc. & E cm outro logar o mesmo jogral 
satirisando o alfaiate do bispo D. Domingos Jardo, 
apresenta a rubrica: «Diz hiia cantiga de villãao: 



POPULAR PORTUGUEZA I 55 

O' pée d'huma torre 
bayla corpo e giolo, 
vedei -o cós, ay cavaleyro. 

(Canç. n.*» 1043.) 

Na Poética provençal, que vem junta ao Cancio- 
neiro Colocci-Brancuti, (complemento do Cancioneiro 
da Vaticana) allude-se a este género popular, a que 
chama de Villãos, nome que o aproxima das Vil- 
lanellas de Gasconha e dos Villcti italianos: «Ou- 
tras cantigas fazem os trovadores a que chamam de 
Villàos, Estas cantigas se podem fazer d* Amor, ou 
ó!AmtgOj sem mal algum, nem son per arrabís, por 
que as non estiman muito. » E' claro que no século 
XIII e xiv não podiam ser muito estimadas estas for- 
mas populares, porque o gosto aristocrático pendia 
para a imitação dos artifícios da poética limosina ; 
mas a belleza d'estas formas tradicionaes e a sua 
communhão a todo o Occidente europeu, fizeram 
com que ellas chegassem a penetrar nas litteraturas 
portugueza e hespanhola, e persistissem nos costu- 
mes populares até hoje. Nas composições dos jo- 
graes acham-se por vezes intercaladas estrophes po- 
pulares, por onde se vê a perfeição caracterisca do 
typo poético originário. Em uma Canção de Ayras Nu- 
nes apparecem intercalados fragmentos d essas mui- 
fieiras antigas, e bastante vulgarisadas no seu tempo : 

Oy oj' eu hua pastor cantar, * 
d*u cavalgava per hua ribeira : 
e a pastor estava senlheira, 
e ascondime pola ascuytar; 
e dizia muy bem este cantar : 

Sol'0 ramo verde frolido 
vodas {a:{em ao meu amigo; 
e choram olhos d^amor ! 



* Na lingQíLgem popular do Alemtejo, ainda hoje pastora signi- 
fica rapariga, moça, no sentido mais genérico. 



l56 HISTORIA DA POESIA 



E a pastor parecia muy bem, 
e chorava e estava cantando, 
e eu, muy passo fuy-me achegando 
pola oyr, e sol nom faley rem ; 
e dizia este cantar muy bem : 

Ay estorninho do avelanedo; 
cantades vós, e moyr* eu e peno^ 
d' amores ey mal. 

E eu oya sospirar entom, 
e queixava se estando com amores, 
e fazia guirlanda de flores; 
desy chorava muy de coraçom, 
e dizia este cantar entom : 

Que coyta ey tam grande de soffrer^ 
amar amigu* e nom o ousar ver; 
e pousarey sol -o avelanal. 

Poys que a guirlanda fez a pastor 
foy-se cantando, indo-s' en manselinho, 
et torney-m' eu logo a meu caminho, 
ca de a nojar nom ouve sabor; 
e dizia este cantar bem a pastor ; 

Pola ribeira do rio, 
cantando y a la virgo 

d'amor : 
— Quem amores ha 
como dorm* or\ ay 

bella frol ? i 

(Canç. n.o 454.) 

Aqui temos como as canções populares gallegas 
entravam como centões nas obras litterarias O rei 
Dom Diniz, apesar de uma elevada cultura poética, 
não se pejou de imitar essas formas populares nos 
Cantares de amigOy bem como seu avô Affonso Sábio. 

As Romarias, com que as classes populares con- 
ciliam as crenças com os folguedos, são um estimulo 



POPULAR PORTUGUEZA iSj 



dos seus cantos lyricos; a Galliza e o Minho têm 
as Romarias a vários sanctuarios afamados como as 
suas festas mais queridas, e as Cantigas tradicionaes 
chegaram a constituir um género, que foi imitado nos 
Cancioneiros trobadorescos. Vejamos a descripção 
de Sarmiento, deste costume persistente, tão cara- 
cterístico do Minho e da Galliza: c Ainda hoje exe- 
cutam o mesmo aquelles nacionat-s quando vão a 
alguns santuários oii Romaria. Sempre vão em ran- 
chos homens e mulheres. Estas cantando coplas ao 
assumpto, e tocando um pandeiro; um dos homens to- 
cando flauta; e outro ou outros dansando continuada- 
mente adiante até cansar-se, e entram outros depois. 
E' verdade que não levam armas para batel-as ao 
compasso, levam porém em seu logar um género de 
instrumento rústico, que no paiz chdirmm /errinAos, 
e em Castella sonajas.* {Mem., p. 35.) Por causa 
da sua belleza estes cantos chegaram pelas imitações 
jogralares a penetrar nos Cancioneiros aristocráticos ; 
muitas Cantigas do Cancioneiro da Vaticana são al- 
lusivas ás Romarias de San Salvador, de San Leu- 
ter, de San Mamede, de Santa Cecília, de San Ser- 
vando, á egreja de Vigo * O nome deste género, 
que á parte quaesquer questões etymologicas, merece 
ser conservado, é cantos de ledino. Em quasi todas 
essas Cantigas de romarias entra a palavra ledo (lae- 
tus, alegrej: Leda m*ando eu ; — mays meu coraçon 
muy ledo será (Canç. 871.); e também: 

Hido Tay meu amigo 
ledo a San Salvador ; 
eu vosc'ay hirey leda ; 
e poys eu vosco for, 

muy leda hirey, amigo, 

e vós ledo a com migo. 

(Canç. 851.) 



1 E. Monaci, publicou em 1875 uma pequena collecção com o 
titulo de Cantos de Ledino^ extràhida do Cancioneiro da Vaticana, 



l58 HISTORIA DA POESIA 



Alem d'esta palavra característica, que deu ao gé- 
nero o titulo de Udino, como Dona o titulo ás Can- 
ções de Donayre, também na Poética provencalesca, 
fragmento junto ao Cancioneiro Brancuti, vem a re- 
ferencia: € outra maneira ha hy en que trobam dous 
homens, e que chamam seguir, e chamam-lhe assy 
porque conven de seguir cada huú outra cantiga a 
som, ou em prazer ou em ledo,^ Na graphia do co- 
pista italiano está escripto cedoj que não pôde inter- 
pretasse nem todo nem tedo, porque não dá senti- 
do ; a cantiga era seguida de musica com expressão 
de prazer, ou mais explicativamente em ledo, con- 
forme os refrens. Esta designação apparece-nos no 
principio do século xvi na écloga Crisfal, alludindo 
a uma Cantiga do género de romarias : 

Tendo parecer divino, 
para que melhor lhe quadre, 
cantou canto de ledino : 

— Yo me yva la, mi madre, 
a Santa Maria dei pino. ^ 

A característica dos Cantares em ledo confirma-se 
pelo aspecto social; é na vida rústica que se elabo- 
ram os themas poéticos, na sociedade medieval. O 
Aldius, na Lei dos Lombardos é o habitante dos 
campos, como os Aldyones da Hespanha e os Al- 
diones de Itália, os Litones ou Lidones (dos Lite, 
Lidi, Lige, ou Leude, germânicos.) Os Frankos de- 
signavam os seus cantos lyricos Leud; e segundo Ju- 
bainville o Lai deriva do velho irlandez Loid, mais 



1 D. Carolina Michaelis achou esta Cantiga por inteiro em um 
Cancioneiro castelhano do século iv. Na celebre edição de Fer- 
rara, de 1554, \è-st\ Canto de le dino ; na edição de Colónia de 
1559- ^<'^^<^ de ledino; na edição de folha -volante do século xvi, 
vem : «Cantar canto de si dino.n 



POPULAR PORTUGUEZA i5q 



tarde Laid, * O nome de Lundun, designa ainda 
nos Açores e Brasil um canto que acompanha a 
dansa de roda de mulheres e homens. Cailleux, na 
obra Origine celtique de la Civilisation, (p. 247) es- 
clarece este elemento ethnico donde derivam as for- 
mas poéticas germânicas, bretãs e hespanicas, acima 
apontadas: «Em Inglaterra, a senhora distincta, a 
dona • da casa, distingue-se das outras pelo titulo de 
Lady^ e na velha giria ibérica, chama-se Leuda (Ou- 
DiN, EHct. esp.); ora notando que os Romanos, que 
admittiam três formas de casamento, só reconheciam 
como mulher legitima aquella a que chamavam Du- 
cta uxor . . . Ducta em latim, Lead em inglez, tem o 
mesmo sentido, significando egualmente conducção ; 
a Ducta uxor dos Latinos equivale á Lady dos Bre- 
tãos, sendo uma e outra conduzidas ao domicilio con- 
jugal — nas festas que os Iberos ainda chamam Ro- 
maria acudiam os jovens heroes paramentados com 
os seus trophéos; só elles penetravam no azylo da 
innocencia, designavam para sua companheira uma 
destas Sabinas, ligavam-na a si por laço indissolú- 
vel abençoado pelo sacerdote, e conduziam-na com- 
sigo por que devia ser a uxor^ a dona da. casa.» 
Sendo o canto de Ledino peculiar das Romarias, es- 
clarece-o este aspecto social. 

A característica do. cantar da mulher é também 
commum á França, formando essa canção feminina 
um género a que no velho francez se chamava Jeune 
Pastoure^ e Pastoreia ou Pastorelle. O mais afttigo 
trovador, Cercamons, imitou esse género na forma es- 
cripta, sendo considerado já como muito velho no seu 
tempo : «Trobet verset Pastor etas à la usanza anti- 
ga,% Os jograes peninsulares não imitaram as Canções 
francezas, hauriram esse typo do fundo tradicional. 



* Romaffia, t. vm p. 422. 



l60 HISTORIA DA POESIA 



Estudámos aqui a Poesia popular da Galliza como 
uma parte destacada da Lusitânia primitiva. Sob a 
administração romana os limites da Lusitânia foram 
até ao Douro, estendendo-se até alli a Galliza, sem 
que por isso perdesse o seu anterior caracter ethnico ; 
nas luctas da reconquista christS a Galliza chegou até 
Coimbra, e mesmo até ao Tejo, porém a separação 
e integração do Condado de Portugal não foi mais 
do que uma revivescência histórica da antiga Lusi- 
tânia, realisada inconscientemente. Sarmiento conhe- 
cendo o facto da divisão romana da Galliza, des- 
creve como gallegos caracteres ethnicos que também 
observara em Portugal : «he observado que en la Ga- 
licia las mujeres no solo son poetisas, si no tam- 
bien musicas naturales.» (Mem,,p, 237.) E explica 
esta caracteristica : «los paizes que estan entre los dos 
rios Duero y Mifio, pertenecian á Galida ynoála Lu- 
sitânia, Ptolomeo expressamente pone dos classes de 
gallegos : unos Bracharenses, cuya capital era Braga ; 
y otros Lticenses, cuya cabeza era Lugo. Pêro, des- 
pues que Portugal se erigió en reyno á parte, agrego 
muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado, que 
muchas cosas, que en la realidad son gallegas han pas- 
sado por portuguezas; etc.» (Ib,, p. 201.) Este erro 
ainda prepondera n'aquellas que consideram o gal- 
lego como mais archaico do que o portuguez; por- 
tanto as formas lyricas tradicionaes gallegas perten- 
cem a essa Lusitânia dos antigos, a qual, segundo 
Strabão, comprehendia a Callaica. 

O typo genuino do lyrismo peninsular, e porven- 
tura Occidental, conserva-se ainda hoje na Galliza 
como o canto mais querido do povo, designado pelo 
nome de MuiHeira, que comprehende a forma mé- 
trica, endecasilabo de gaita gallega, e a musica ai aire 
antiguo. D. Manoel Murguia, na sua excellente His- 
toria de Galicia, (t. i, 252) descreve este género: 



POPULAR PORTUGUEZA l6l 



«Lfâs Aítwíeiras tienen una metríficacion sobrado ca- 
prichosa. Se componetn por lo regular, de cuatro ó 
mas versos, siendo el primero de dos hemistiquios de 
cinco silabas, los otro dos seguientes de otros dos he- 
mistiquios uno de cinco y otro de seis y, el cuarto 
de seis, como en este ejemplo : 

Meu maridino foe-se por probe, 
Deixou un filio, topou dezanove. 

Isca d'ahi, galina maldita ! 

Isca d*ahi, no me mate la pita. 

Gracias á Dios y a todos los santos, 
Sequiera me dixo de quen eran tantos. 

Isca d'ahi, galina ladrona ! 

Isca d*ahi prá cas de tua dona. 

D. José Pérez Ballesteros colligiu bastantes fra- 
gmentos d'este género, que define : « Muineiras, de- 
rivadas de muiAo (molino) se llaman las melodias es- 
peciales muy conocidas en toda Espana con el nom- 
bre de galUgada; pêro como esa clase de musica 
se aviene perfectamente con una clase especial de 
metros gallegos, tambien á estes se los aplica aquel 
tiombre. A veces son de doble hemistiquio; otras 
endecasilabos con acento en la i.* 4.* e 7.* silabas, 
y llevan con más propriedad el nombre de endeca- 
silabo de gaita galiega, » * 

Aqui temos o verdadeiro typo da Muineira ; com- 
põe-se cada estrophe de dois versos emparelhados, 
rimando ou assonantando nos seus segundos hemisti- 
chios, e com um estribilho ou retornello que deve 
também assonantar com a parelha. A segunda estro- 
phe é formada pela troca dos hemistichios, em que 
os que eram primeiros ficam segundos, prevalecendo 
a assonancia ou rima d estes, que determina a rima 



* Cancionero popular gallego^ i, 136. 
Pões. popul. II 



102 HISTORIA DA POESIA 



do retornello. D. José Pérez Ballesteros coUigiu no 
Cancianero gallego composições d'este género, algu- 
mas delias reduzidas a simples disticos, e outras sem 
estribilhos. Eis uma d'essas MutHeiras, colligida em 

Lugo: 

Has-de cantar á vetra d' o rio, 

ó son d* as olinas de campo frorido. 

Has de cantar á veira d*o mar, 
ó son d'olinas que soben e van : 

Has-de cantar á veira d*a fonte, 

que eh' hei de dar peros cocidos n'o pote. 

jAi ! has-de cantar, minina solteira, 
jai ! has de cantar alá n'a ribeira. 

{Canc. gall, ii, 205.) 

Nesta Muifíeira falta o retornello, que é improvi* 
sado a capricho. Em geral os colleccionadores da 
poesia popular gallega não descobriram o valor tra- 
dicional desta forma lyrica, e confundiram-na com a 
quadra. * Na collecção de Firmin Casares, n.** 39^ 
acha-se este fragmento de Muifíeira: 

Véndeme os bois e véndeme as vaccas, 
e non me vendas o pote das papas. 

Véndeme a cunca e mai lo cunqueiro, 
e non me vendas lo meu tabaqueiro. ^ 

Uma vez perdida a comprehensão da forma estro- 
phica, acham-se fragmentos deste género de Can- 
ções já na forma epigrammatica, já completamente 
confundidos. Na importante collecção de Pérez Bal- 
lesteros, acham se como epigrammas : 



1 Também Champfleary, nas Chansons populaires des Provinctt 
de France^ p. x,* nota a difficaldade que ha em separar as estro» 
phes das canções quando cantadas. 

2 BibU de las trad, popul. espaUjlas, t. iv, p. 3 1 . 



POPULAR POKTUGUEZA l63 



— Cegp casado con nena bonita 

O susto d'o corpo non se lie quita. 

— Chámasm' amigo, e meu queridino ! 
eu entrementes vou pagando o vino. ^ 

Ou estrophes isoladas, como estas : 

— Panadeira d'aquesta ribeira 
de dia móe e de noite peneira. 

Válgate xuncras ! o estillo d'a terra 
de peneirar pol-a noite sin vela. 

— Fun ó muino d'meu compadre, 
fun pol-o vento, vin pol-aire. 

Esta é cousa de encantamento, 
ir pol o aire e vir polo vento. 

Vejamos como estas formas lyricas tem uma an- 
tiguidade que nos põe em evidencia o seu valor ethni- 
co e tradicional. 

O celebre archeologo Boucher de Perthes, nos Sou- 
venirsdu Pays basque, descreve a improvisação poé- 
tica, em que o refrem é a parte chorai que succede 
alternadamente ao canto: «vimos um grupo nume- 
roso de gente moça, no meio da qual um individuo 
cantava estancias, que parecia dirigir a um magote 
de raparigas reunidas em uma espécie de vestíbulo 
extenso, que o aldeão basco raramente deixa de fa- 
zer ao rez-do-chão da casa. A rua separava os dois 
grupos, sem que ninguém dos que os compunham, 
parecesse procurar transpor este intervallo para se 
aproximar. As raparigas retomavam no fim de cada 
estancia, e cantavam em coro uma espécie de re- 
frem. Durante este tempo, o cantor, recordando as 
suas ideias, achava na sua cabeça basca o assum- 
pto de uma outra estrophe, á qual se respondia da 



* Cancionero gallego^ n, 203. 



164 HISTORIA DA POESIA 



mesma maneira.» Boucher de Perthes mostra um 
certo pesar de não perceber a linguagem do impro- 
visador ; mas aqui o que interessa é a forma do can- 
to, na qual o refrem revela a sua origem primitiva 
de um Lôro, ainda cantado por um grupo de mu- 
lheres, sendo n'esses intervallos que um individuo vae 
inventando a nova estrophe, que segue em um en- 
cadeamento successivo. 

Na poesia popular da Bretanha é que se encon- 
tra ainda a forma viva da nossa Serranilka, que ex- 
plica a sua estructura, mais ainda do que a Muineira 
gallega. Eis como a descreve Villemarqué: cUm mo- 
leiro, que me dizem ser o mais celebre cantor de 
bodas das montanhas, dirigia a dansa e a canção : 
por collaboradores tinha o seu moço do moinho, sete 
cavadores e três farrapeiros ambulantes. O seu me- 
thodo de composição deu me uma ideia exacta da 
dos compositores bretãos. O primeiro verso de cada 
distico da bailada uma vez achado, elle o repetia; 
os seus companheiros repetiam-no também, deixan- 
do-lhe o tempo de achar o segundo, que elles repe- 
petiam egualmente depois delle. Quando um distico 
estava acabado, começava geralmente o seguinte pe- 
las ultimas palavras, muitas vezes pelo ultimo verso 
do distico, de maneira que as estrophes se encadea- 
vam umas nas outras. A vòz ou a inspiração vindo 
a falhar ao compositor, o seu visinho da direita pro- 
seguia ; a este succedia o terceiro ; o quarto conti- 
nuava, e todos os outros, por turno em seguida, até 
chegar ao primeiro que recomeçava a cadêa.» E' 
exactamente a forma da Serranilla, em que acabada 
a primeira estrophe, emquanto se canta o refrem, a 
segunda estrophe começa pelo ultimo verso da pri- 
meira, ou por um hemistichio d'ella, 

Beaurepaire fallando das Canções das Fiandeiras e 
das Colheitas da Normandia, descreve também a si- 



POPULAR PORTUGUEZA 1^5 



tuâção viva, que nos revela a estructura poetiea : t A 
extensão do Refrem, e a sua repetição contínua, que 
quasi consideraríamos como um defeito, formam pre- 
cisamente um dos mais seguros meios do agrado da 
Canção de filasse. EUa exige com effeito pouco es- 
forço de memoria ; ella permitte a todos os trabalha- 
dores de tomar parte frequentemente no canto; e, 
com o seu accento monótono, ella adapta-se mara- 
vilhosamente á marcha lenta e regular dos trabalhos 
do campo. Assim, cremos que é em parte ao pre- 
dominio do Refrem, que a Canção Cueillissoire deve 
a sua voga e popularidade.» * 

Em uma canção popular da Normandia, colligida 
por Le Vavasseur, conserva-se a forma do Refrem 
ainda com o seu typo chorai: cA Canção é can- 
tada a dois Coros. Ordinariamente as mulheres can- 
tam a Canção e os homens respondem pelo Refrem : 

V 

Mulheres : — Au jardin de mon père 

Des orang*s il y a. 

Homens : — Mignonne, je vous aime, 
Et vous ne m*aimez pas. 

Mulheres : — Eirdemande à son père 

Quand on les cuellera. 

Homens : — Mignonne, je vous ainle, 
Et vous ne m*aimez pas. 

Mulheres : — «On les cuellYa, ma filie, 

Quand votre amant viendra. 



— Les orang's, elPs sont mtíres 
Et Tamant ne vient pas. 



* Chansons populaires des provinces de France^ de Champfieurf, 
p. xrv. 



l66 HSTORIA DA POESIA 



Mulheres : — Eir prend son échellette, 

Son panier sous son bras. 

— Eir cueilla les plus mtJIres, 
Les vers elle les laissa. 

— Les porte au marche vendre 
Au marche de Lava. 

— Dans son chemin rencontre 
Le íils d*un avocat. 

— Que portez vous, la belle^ 
Dans ce beau panier-lá ? 

— Monsieur, sont les oranges, 
Ne vous en plait-tl pas r 

— II en a pris deux couples, 
Mais il n'les paya pas. 

— Vous prenez mes oranges, 
Et vous n'les payez pas. 

— Entrez dedans ma chambre, 
Maman vous les patera. 

— Quand eir fut dans la chambre, 
La maman n'y etait pas. . . 

Por esta estructura poética se vê que o Refrem 
acompanha a canção subjectiva, como a narrativa 
ou à toile. Com a obliteração dos costumes o Coro 
deixou de cantar, mas ficou o Refrem, que o pró- 
prio cantor da Canção incorporava musicalmente 
como remate da sua estrophe. E com a usura do 
tempo o Refrem, que se tornara em Retornelo, des- 
appareceu, ficando a Canção mais breve na sua me- 
lodia simples, e o canto narrativo apenas recitado. 
Para quem não estuda a poesia popular compafati- 



POPULAR PORTUGUEZA 167 

vãmente, o Refrem é uma forma inexplicável, e o 
vestígio de uma cantiga. Na tradição portugueza era 
o Pé de cantiga, e sobre elle é que segue a Canção. 
Em uma Canção de bodas, da Normandia, vê-se 
-a forma do encadeamento estrophico, tão caracterís- 
tico da Serranilha portugueza : . 

£n revenanr des noces, j*étais bíen fatigue ; 
Au bord d*uoe fontaine je m'y suis rep.osé. 
. La, la, la ; tra, la, la . . . 

Au bord d'une fontaine je m*y suis reposé, 
£t Teau etait si claire, que je m'y suis bai^né. 
L->o* ^a« ia • • • 

£t Teau etait si claire, que je m*y suis baigné 
A' la feuille du chêne je m'y suis-t-essuyé. 

A' la feuille du chêne je m'y suis-t-essuyé 
Cache dans la feuillage un rossignol chantait. 

Cache dans la feuillage un rossignol chantait : 
Chante, beau rossignol, toi qui as Tcoeur gai. 

Chante, beau rossignol, toi qui as Tcoeur gai ; 
Je ne puis pas de même, je suis bien afíligé. 

Je ne puís pas de même, je suis bien aíHigé, 
Pour un bouton de rose qui trop tôt j'ai donné. 

Pour un bouton de rose qui trop tôt j'ai donné. 
Je voudrais que la rose fut encore au rosier. 

Je voudrais que la rose fut encore au rosier; 
Et que mon ami Pierre fut encore à m*aimer; 

Et que mon ami Pierre fut encore à m'aimer ; 
Que le roi qui Tappelle fut mort et enterre. 

Que le roi qui Tappelle fut mort et enterre, 
Car bientôt par la reine il sera-t-appellé. 

Car bientôt par la reine il sera-t-apoe/Ié, 
Dans sa chambre de marbre on le ter^ monter» 



Et dans son beau lit d'ere ell' me fra t-oublier. 
Puis on le fera pendre pour Tavoir trop aimé.' 

Esta mesma forma encontrase no Auvergne; dei- 
xamos de parte o referen que é em neumas insigni- 
ficatívas, servindo de pretexto á intonaçSo musical : 



Faisons vite et depêchons nous, 
J'ai lant d'ouvrage à la maison. 

J 'ai tant d'ouvrage à la maison, 

La pâte est prêt, le feu au fou I . . . * 

Das Instructions relatives au Recueil de Poesús 
populaires de la Francc, redigidas por J, J. Ampere, 
transcrevemos essa Canção da tradição oral da Ro- 
chelle, cuja estructura estrophica é semelhante á 
MuiHeira gallega e Serranilha portugueza, detinindo 
esse substractiim lyrico : 

Emm'nons la bergère aux champs 
Oú i'y a de Therbe tant! 

1 Chamem pepuUãrcs dts Pravincu de France, de Champften- 



POPULAR PORTUGUEZA 169 



Trois faucheurs y vont fauchant 
Trois faneus's y vont faDant. 

Trois faneus's y vont fanant, 
Le fils du roi les va mirant. 

Le íils du roi les va mirant ; 

— Sir', que regardez-vous tant ? 

— Sir\ que regardez-vous tant ? 
•Vos beaux yeux qui plaisent tant ! 

«Vos beaux yeux qui plaisent tant 

— Tn' sont par pour vous pourtant. 

— Fn' sont par pour vous pourtant, 
Sont pour raon berger des champs. 

Sont pour mon berger des champs, 
Nous nous maríerons à la Saint Jean. 

Nous nous maríerons 'à la Saint Jean, 
Cest le plus beau jour de Tan. 

Cest le plus beau jour de Tan, 
Que le jour de la Saint Jean. 

A forma do Rispeti, na poesia italiana explica-se 
pela persistência de um fundo tradicional, donde 
resulta esse outro característico do. verso endecasyl • 
labo tornado popular na Itália. Transcrevemos da 
coUecção de Pitré o seguinte exemplo : 

— Funtana, ti vurría un pocu spijari 

Si la bedda cci vinni a pigghiarí acqua ? 

«La bedda cci ha vinuto acqua a pigghiarí, 
Li manu si lavau en la stiss' acqua. 

— Funtana, vidiste lu focu addumarí, 
£d era chi addumava accantu alPacqua t 



170 HISTORIA DA POESIA 



Funtana, *un lu putisti no astutari ? 
«Comu astutallu, chi addumava Tacqua ? ^ 

Liebrecht, nas AddiçÕes d Historia da Poesia ro- 
mântica, apresenta exemplos de analogias palpáveis 
entre as poesias lyricas das litteraturas românicas, 
sem que se possa inferir de plagiato ou imitação; o 
mesmo facto notou Paul Meyer comparando varias 
serranilhas gallezianas com pastorellas francezas. * 
Esse flindo tradicional, que vemos tao pe r s i ste nte 
e característico na Muiheira da Galiiza, subsiste 
também na poesia popular da Catalunha ; no seu 
importante Romancerillo catatan, Milá y Fontanals 
traz algumas serranilhas da tradição oral, que coin- 
cidem com os typos que temos definido, porém obli- 
terando a forma no modo da sua transcripção. Eis 
a canção de Marieta: 

— Marieta, lleva't, lleva*t de mati, 
que 1 aygua es clara, el sol vol surti. 

«Com m'en llevaré si gipó no tinch ? 

— Marieta, Ileva^t de mati, lleva^t, 

que el sol vol surti, que Taugua es clara. 
oGom m'en llevaré, s*il gipo m*en falta } ' 



1 Canti popolari skiliani^ t. i, pag. 227. Podiamos augmentar 
os paradigmas. 

2 «Je n'en conclue pas que les poésies "portugaises qui ont cette 
forme soient imitées du (rançais ou du provençal, mais que 'ellts 
sont conçtus cTaprés un type tradiciontl qtã a du ètre commun à dt- 
verses populations romanes^ sans qu'on puisse determiner chez la 
quelle il a été crée». (Rommia, vol. i, p. 265). Evidentemenfe 
o problema colloca-se em uma época anterior ao estabelecimento 
e separatisino das nacionalidades modernas; consequentemente em 
uma edade ante-historica, e na raça que foi elemento commum 
na creacção d'essas nacionalidades, hoje determinada no snbstractaa 
ligurico 

' Romancerillo catalan : n.° 568, var, b. 



POPULAR P0RTUGUE2A I71 



Como a Betica também fazia parte da Lusitânia 
dos antigos ^ é por isso que transcrevemos a seguinte 
Canção com a estructura da Muineira : 

Rio de Sevilla, quien te pasase 

Sin que la mi servilla se me mojase ! 

Rio de Seviiia, arenas de oro, 

D*essa vanda tienes el bien que adoro. 

Rio de Sevilla, de barca» lleno, 

Ha pasado el alma, no pasa el cuerpo. 

Rio de Sevilla, rio de olivas, 
Díle que lloro lágrimas vivas. 

Na tradição portugueza é vulgarissima esta forma, 
como veremos nas Cantigas a San João, e a Santo 
António, e especialmente nas Vigílias ou alvoradas, 
em que, segundo Gonzalo de Berceo, se cantava a 
iícontrobadura dos trufanes,» Exemplifiquemos: 

— Sam João da barba dourada, 
Onde dormiste a madrugada ? 

«Dormi lá embaixo n*aquelía horta ; 

£ acordei entre estas cachopas. 



— Santo António d*aqui doesta villa, 
Quer que lhe pintem a sua ermida 1 

«Santo António, quero-t* eu adorar. 
Pois os meus amores querem- me deixar. 

— Quer que lhe pintem a sua ermida 
Com uma pintunnha muy linda. 

«Santo António, quero- 1' eu adorar. 
Pois os meus amores querem me deixar. 

— Santo António d'aqui d'esta praça, 
Quer que lhe pintem a sua oraga; 

•Santo António, 



172 HISTORIA DA POESIA 



— Quer que lhe pintem a sua oraga 

Com uma pinturinha muy clara. 
«Santo António, quero -t' eu adorar, 
Pois os meus amores querem-me deixar. 

Na poesia da tradição mirandeza (Traz-os Montes) 
conserva-se o mesmo typo estrophico característico: 

Se quies que te siegue la yerba, 
Trae la gadanha cu la tua piedra, 
PVa Taguçar. 

Trae bois e carro 
PVa la Ihevar 
Que s'gada stá. ^ 



Se tu quies que t'anrame la puerta, 
Bida mie de mip coraçõ, 

Se tu quies que fia desanrame 

Les teus amores mios sõ. 

Se tu quies salir de manhana 
A* la tua janêlla, e bVas 

Cum* arranco 

U olmo branco, 

E lo pongo nePquiço 

De Tteu servicio 

E de Tteu balcÓ. 

Se tu quies que t'anrame la puerta 
Les teus amores mios sõ. 

(Ih., p. 22) 

A persistência d estas formas poéticas na tradição 
popular franceza, italiana, hespanhola e portugueza, 
mostra -nos que ellas provieram de um fundo primi- 
tivo do Lyrismo occidental, cuja unidade se conserva 

i Ap. Moraes Ferreira, Dialecto mirandez^ pag. 1 3. 



POPULAR P0RTUGUE2A lyS 

■ ■ » ' ' ' ' ' »^p^— — 

através do separatismo das nacionalidades. Estas for- 
mas transmittiramse oralmente e não foram escriptas, 
perdendo-se alguns dos seus aspectos característi- 
cos, quando se foram pela transformação dos costu- 
mes separando da musica e da dansa. D*esse fecundo 
elemento popular se elaboraram litterariamente pre- 
ciosas formas poéticas, imitadas conscientemente na 
belleza ingénua dos stius typos ; isto que se observa 
hoje tão claramente na Musica, seguindo a evolução 
da Canção popular na Egreja e na Corte, deu-se tam- 
bém com a Poesia. A Canção popular é imitada em 
latim nas Pastorellas ecclesiasticas e goliardescas, con- 
servadas nos Carmina Buraha, e entra nas Cortes pe- 
las imitações dos jograes e dos trovadores aristocrá- 
ticos* São verdadeiramente um reflexo da poesia po- 
pular, que apparece na forma escripta no século xni 
e XIV, e por elle se reconstituem os themas e a ex- 
tructura poética da creação espontânea. Este pheno- 
meno era attribuido á imitação das Pastorellas dos 
jograes francezes ; e dahi a attribuição da origem 
desse lyrismo á França ; mas a transformação jogra- 
lesca que se manifestava em França era synchronica 
com a de outras cortes européas. Para bem conhe- 
cer esse lyrismo perdido na tradição oral, importa 
observal-o no seu vivo reflexo na Egreja e na Corte. 
Na poesia popular latina da Edade media, encon- 
tra-se a forma lyrica da Pastorella, conservando os 
mesmos assumptos, quebros e retornellos das copli- 
Ihas vulgares. Isto prova que este género tradicional 
assim como se impunha á imitação dos trovadores 
palacianos, também era parodiado nos versos latinos 
dos eruditos da Egreja e das Universidades. Em um 
Ms. do século xiii, citado na Histoire litt, de la France 
(t. XXII, p. 1 34) acha-se este typo comparável ao pro- 
vençalesco : 



174 HISTORIA DA POESIA 



Sole regente lora 
Poli per altiora, 
Laedam satis decora 

Virguncula 
Sub ulmo patula 

Consederat ; 

Nam dederat 
Arbor umbracula. 



Virgo decenter satis 
Subintulit illatis, 
Haec, precor, omitatís 

Ridícula ; 
SuQt adhuc párvula, 

Non nubilis 

Nec habílis 
Ad haéc opuscula. 

Hora meridiana 
Transit, vide Titana ; 
Mater est inhumana ; . 

Jam pabuia 
Spernit ovicula : 

Regrediar, 

Ne feriar 
Materna virgula. 

Transcrevemos esta Pastoral litúrgica do século xiv, 
em versos rimados e emparelhados : 

— Pastores, dicite quemnam vidistis ? 
«Vidimus parvulum quem credidistis. 

Manibus plaudite, pedibus territe, 
Natus est parvulus, ergo venite. 

Nuntiat gaudium angelus fulgens. 
Natus est parvulus, crimina indulgens. 



Dulces panniculi, dulce presepe 
Félix est anima que videt sepe. 



POPULAR PORTUGUEZA lyS 



O quam mirabilis rex magestatis 
Nasci de virgine voluit grátis. 

Hic inter bestias positus jacet, 
Hunc stella nunctiat et ipse tacet. 

# 

Matre paupercuia pauper natus, 
Nobis pauperculus nobis est datus. 



Me jam oullatenus possum tenere, 
Cum Ihesum párvulo solo gaudere. 

Venite pauperes, ac transeamus, 

Hunc mundum sordidum jam dimittamus. 

Sit tibi gloria, pater benígne. 
Laudes per secula sint tibe digne. ^ 

E' natural que este canto litúrgico fosse acompa- 
nhado por alguma neuma ou estribilho popular; as- 
sim temos um verdadeiro typo de muitas pastorei- 
las tradicionaes da poesia franceza, italiana e portu- 
gueza. As serranilhas gallezianas constam de dois 
versos emparelhados, em endechas, com um estri- 
bilho ; assim como estas formas da tradição popular 
foram imitadas pelos Cancioneiros aristocráticos, tam- 
bém em uma época em qne o povo tomava parte 
na liturgia, os hymnologos aproveitavam-se dessas 
formas consagradas pelo tempo para moldarem os 
cantos farsis. D esta relação do lyrismo popular com 
ecclesiastico temos as Salvas^ as LoaSy os cantos de 
LedinOj as Prosas, as Orações, etc. 

Vejamos o elemento jogralesco, que introduz nas 
Cortes e nos Cancioneiros aristocráticos as formas 
lyricas das Pastorellas ou Serranilhas, Por esta via o 



^ Ap. Poesie Uturgique du Moyen-Age (Rev. de TArt chrétien^ 
t. I, p. 125.) 



typo da Canç3o popular eh _ 

poetas cultos como Affonso o Sábio, e o rei D. Diniz, 
o Arcipreste de Hita, Gil Vicente e Castillejos, estabe- 
lecendo a continuidade psychica entre o génio indi- 
vidual e a creaçao anonyma popular, 

Milá y Fontanaís no seu estudo da Poesia popular 
da Galliza reconheceu que a construcçâo das Mui- 
Heiras apresenta uma semelhança notável com as 
Canções de indole popular do Cancioneiro portuguez 
da Vaticana, Para comprovar este asserto, transcre- 
vemos mais algumas MuiHeiras ou Serranilkas de 
Martim Codax: 

Ay, donas, sab'ora o meu amiso 

Coin'eu senlheira esiou em Vigo, 

e vou namorada. 

Ay, Deus, sab'ora o meu amado 
Coin'eu en Vigo senlheira manho ; 
e vou namorada. 

Com'eu senlheira estou em Vi)io. 
e nulhas guardns non som comigo ; 



Com'eu senlheira em Vigo manho, 
e nuihas guardas migo trago ; 
e vou namorada. 

E nulhas guardas non é comigo 
erg'os meus olhos que choram migo, 
e vou namorada. 

E nulhas guardas migo non trago, 
erg'os meus olhos que choram ambos, 
e vou namorada. 

(Canc. Vat., n.° 887.) 

A forma da mutneira, ou da antiga serranilha, 
que sao entre si idênticas, também se usava em 



POPULAR PORTUGUEZA I77 



verso de redondilha maior ou octosyllabo ; eis um 
exemplo do mesmo jogral : 

En o sagrad', en Vigo 
baylava corpo velido ; 
amor ey. 

En Vigo, en o sagrado, 
baylava corpo delgado ; 
amor ev. 

Hu baylava corpo velido 
que nunca ouvera amigo ; 
amor ey. 

Baylava corpo delgado, 
que nunca ouvera amado ; 
amor ey. 

Que nunca ouvera amigo, 
ergas, no sagrad* en Vigo ; 
amor ey. 

Que nunca ouvera amado, 
ergas, no Vigo en sagrado ; 
amor ey. 

(Ib., n.° 889.) 

De todas as composições d*este género que se 
acham nos Cancioneiros provençaes portuguezes po- 
deria organisar-se um admirável Cancioneiro gallego, 
reflexo do primitivo lyrismo oral. 

No Cancioneiro portuguez da Vaticana, em que 
figuram os nossos trovadores aristocráticos da corte 
de Dom Affonso iii e Dom Diniz, acham-se tam- 
bém ali Cantares de amigo. Dizeres, Serranas e 
Cantos de Ledino do jograes gallegos que no sécu- 
lo XIV visitavam as Cortes peninsulares. São inapre- 
ciáveis estas composições para recompor por ellas 
as tradições populares da Galliza, quando tudo le- 

pões. popul. 12 



178 HSTORIA UA POESIA 



vava á crer que seria impossível achar qualquer do- 
cumento de uma época tão remota em que a poe- 
sia popular se expandia em uma inconsciência es- 
pontânea. Transcreveremos algumas dessas compo- 
sições que melhor accentuem a forma estrophica e 
o espirito do género. O jogral Pêro Meogo, traz 
no citado Cancioneiro: 

Ay cervas do monte, vim-vos preguntar. 
foy-ss' o meu amigu' e se alá tardar 
Que farei, velidas ? 

Ay cervas do monte, vimvol-o dizer, 
foy-ss' o meu amigu' e querria saber 
Que farei, velidas? 

{Canc, Vai ^ n." 792.) 

E singularmente bella esta outra composição do 
mesmo jogral, e em forma de dialogo, em que o 
typo da Muineira apparece na sua pureza tradi- 
cional : 

— Digades, filha, mha filha velida, 

porque tardastes na fontana fria ? 

«Os amores ey. 

— Digades, filha, mha filha louçana, 
porque tardastes na fria fontana ? 
«Os amores ey ! 

«Tardei, mha madre, na fontana fria, 
cervos do monte á augua volviam; 
Os amores ey ! 

«Tardei, mha madre, na fria fontana, 
cervos do monte volviam a augua; 
Os amores ey ! 

— Mentis, mha filha, mentis por amigo, 
nunca vi cervo que volvesse rio; 
«Os amores ey! 



porui.AR roRTUGutzA 179 



— Mentis, mha filha, mentis por amado, 
nunca vi cervo que volvess' o alto. 
«Os amores ey ! 

(GiMc. Vuf., n." 797.) 

Um outro jogral, Martim Codax, assigna canções 
que conservam o typo galleziano em que as duas 
parelhas se desdobram : 

Mha irmana fremosa, ireydes comygo 
a la igreja de Vigo hu é b mar salido, 
e miraremos as ondas. 

Mha irmana fremosa, treides de grado 
a la igreja de Vigo hu é o mar levado; 
e miraremos as ondas. 

A la igreja de Vigo hu é o mar salido, 
e verrá hy, madre, o meu amigo; 
e miraremos las ondas. 

A la igreja de Vigo hu é o mar levado, 
e verrá hy, madre, o meu amado, 
e miraremos as ondas. 

{Canc. Vat.y n.« 886.) 

O rei D. Diniz, tem nos seus Cantares de ami- 
go imitações mais características para em confron- 
to determinarmos a persistência d'esta forma poética 
nas litteraturas peninsulares : 

— De que morredes, filha, a do corpo vclido? 
«tMadre, moiro d'amores que mi deu meu amigo; 
alva e vay liero. 

. — De que morredes, filha, a do corpo louçano } 
«Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado ; 
alva e vay liero. 



l8o HISTORIA DA POESIA 



Madre, moiro d'amores que mi dej meu amigo, 
quando vej' esta cinta que por seu amor cinjo ; 
alva e vay liero. 

Madre, moiro d'amores que me deu meu amado, 
quando vejo esta cinta que por seu amor trago ; 
alva e vay liero. 

Quando vejo esta cinta que por seu amor cinjo 
e me nembra, fremosa, como falou comigo : 
alva e vay liero. 

Quando vej' esta cinta que por seu amor trago 
e me nembra, fremosa, como falámos ambos ; 
alva e vay liero. 

Outro exemplo em verso de redondilha menor 
de um Cantar de amigo ^ composto pelo mesmo mo- 
narcha : 

Mha madre velida, 
vou-m'a a la baylia 
do amor. 

Mha madre loada, 

vou-m'a la baylada 

do amor. 

Vou-m' a la baylia 
Que fazem em vila 
do amor. 

Vou-me a la baylada 
Que fazem em casa 
do amor. 

Que fazem em villa 
do que eu bem queria, 
do amor. 

Que fazem em casa, 
do que eu muyt'. amava, 
do amor. 



POPULAR PORTUGUEZA l8l 



Do que eu bem queria, 
chamar-m'ã garrida, 
do amor. 

Do que eu muyt' amava, 
chamar-m*ã jurada 
do amor. 

{Canc. Vat ^ u.®» 170 c 195.) 

Nas Cantigas de Santa Marta, Affonso Sábio em- 
prega por vezes as formas populares ; assim no 

n.** CLX : 

Quen boa dona querrá 
loar, lo'a que par non á. 
Santa Alaria 

E par nunca irachará, 
pois Madre de Deus foi já 

Santa Afaria. ^ 

Pois Madre de Deus foi já, 
et virgem foi et seerá, 
Santa Alaria. 

Et virgem foi et seerá, 
porende cabo d'él está 
Santa Afaria. 

Poren* cabo d'él está, 
ú sempre por nos rogará, 
Santa Alaria. 

U por nós lie rogará 
et dél perdon nos ganará, 
Santa Afaria. 

E perdon nos ganará, 
et ao demo vencerá, 
Santa Afaria. 

E o demo vencerá 
et nos consigo levará 
Santa Afaria. 



l82 HISTOUIA DA POKSIA 



A Cantiga CCL appresenta a mesma estructiira 
estrophica : 

Por nós, Virgen Madre, 
Rog' a Deus teu Padre 
et Fiir e amigo. 

— Rog' a Deus teu Padre. 

A Deus, que nos preste 
roga-lle, pois este 

teu Fiir e amigo. 

— Roga-lle pois este. 

Roga que nos valha. 
Pois elle é sen falia. 

teu Fiir e amigo. 

— Pois él é sen falia. 

E verdadeiramente notável como estas formas 
apparecem nos grandes poetas lyricos do século xv 
e XVI, tantos hespanhoes como porttiguezes. O Ar- 
cipreste de Hita traz umas três composições a que 
chama Cânticos de Serrana, em que se conserva 
a forma do distico dialogado, com os seus retomei- 
los; e o Marquez de Santillana compoz umas dez 
Serranillas, algumas delias em forma de dialogo, e 
outras em redondilha menor. Nas poesias do gran- 
de mystico San João da Cruz, acha -se a forma da 
serranilha no cântico da Eterna fonte: 

Que bien sé yo la fuente que mana y corre, 
aunquê es de noche ! 

Aquella eterna fuente que está escondida, 
que bien sé yo do liene su manida ; 
aunque es de noche ! 

Sé que no pueda ser cosa tan bella, 



POPULAR PORTLGLEZA l83 



y que cielos y tierra beben en ella, 
aunque es de noche...^ 

Outros poetas castelhanos conservam esta bella 
tradição lyrica ; achamos nos versos de Castillejos 
este typo de Serranilha popular : 

Madre, un caballero que estaba en este corro 
á cada vuelta hacíame dei ojo ; 

Yo, como era bonica, 

teníaselo en poço. 

Madre, un escudero que estaba en esta baila, 
á cada vueha asíame de la manga ; 

Yo, como soy bonica, 

teníaselo en nada - 



1 Tat/as las Poesias, pág. 31. Ed. Storck. Munster, 1854. 

2 Collecc. Rivadeneirá, Poetas líricos, t. i pag. 114. O P.e Ma- 
noel Bernardes traz nos Últimos flns do homem uns Moíetes espi- 
rituaes líricos : 

Si hermosura y belleza causan amores, 
Como no se enamoran de Dios los hombres ? 

* 

Si hermosura y belleza de amor son causa, 
Como no se enamoran de Dios las almas? 



— Albricias Albrícias os pido, 

Que el Esposo ya es benido ; 
Yo galan y hermoso le vi. 

«Como ansí? 

— En lo blanco le conocí. 

— Yo le vi cercado de amores, 
Yo le vi cercado de flores ; 
Yo galan y hermoso le vi. 

«Como ansi? 

— En lo blanco le couoci. 



■A. 



184 HISTORIA DA POESIA 



Na litteratura portugueza são singularmente bel- 
]as as Serranilhas gallezianas intercaladas por Gil 
Vicente nos seus Autos e Farças: 

— D'onde vindes, filha, branca e colorida? 
«De lá venho, madre, de ribas de um rio ; 
achei meus amores n'um rosal florido. 

— Florido, enha filha, branca e colorada ? 
«De lá venho, madre, de ribas de um alto; 
achei m^us amores n*um rosal granado. ^ 



Madre, um escudeiro da nossa rainha 
fallou-me d'amores, vereis que dizia; , 

Não me firais madre, que eu direi a verdade. 

Fallou-me d'amores, vereis que dizia: 
«Quem te me tivesse desnuda em camisa!» 
Não me firaes madre, que eu direi a verdade.* 

Muitas d'estas serranilhas ficaram como Glosas e 
Motes na poesia palaciana, como se vê nas Redondi- 
lhas de Camões. È notável como os grandes poetas ly- 
ricos perderam depois o conhecimento desta forma 
popular, que se conservou ignorada na tradição oral. 

Tomanios uma das serranilhas que Gil Vicente in- 
tercalou nos Autos, e desdobrando-a na sua alter- 
nância estrophica e assonancia em vogaes diflferentes, 
que o canto exigia, restabelece -se a sua forma po- 
pular de improvisação ; lê-se na Farça dos Almocre- 
ves (Obr,, III, 215 e 218): 

A serra é alta, fria e nevosa. 
Vi venir serrana gentil graciosa. 



* Oòr,^ t. III, pag. 270. 
2 Ibid.^ t. II, pag. 445. 



POPULAR PORTUGUEZA l85 



A serra é alta, oevosa e fria. 
Vi venir serrana graciosa gentil. 

• 

Vi venir serrana gentil graciosa, 

Disse-lhe : — Quereis companhia, senhora ? 

Vi venir serrana graciosa gentil ; 

Disse lhe : — Senhora, quereis companhia ^ 

Disse-lhe : — Quereis companhia, senhora ? 
Disse-me ; «Escudeiro, segui via vossa. 

Disse lhe : — Senhora, quereis companhia ^ 
Disse-me : «Escudeiro, segui vossa via. 

Uma pastorella do poeta italiano Guido Cavalcanti 
traz estes versos quasi idênticos aos da serranilha de 
Gil Vicente : • 

E domandai si avesse compagnia ^ 
Ed ella me rispose dolcemente, 
Che sola, sola per lo bosco gía. 

E' assombroso este encotitro dos dois poetas um 
do século xiii e outro do século xvi, que não po- 
diam conhecer-se, mas que tocaram no mesmo veio 
tradicional do lyrismo^ occidental. Egual phenomeno 
se dá com um poeta do Cancioneiro geraly Francisco 
de Sousa, que em um vilancete escripto para a corte 
se encontra com uma Canção do Bearn, escripta por 
Gaston Phebus : 

Abaix 'esta serra 
Verei minha terra ! 

Oh montes erguidos 
Deixae-vos cair, 
Deixae-vos sumir 
E ser destruydos ! 
Poys males sentidos 
Me dam tanta guerra 
Por ver minha terra. 

(Canc. ger.y iii, 562.) 



1*^6 HiSTOUlA liA rOKSlA 



Eis nos seus elementos tradicionaes, na redacção 
de Gaston Phebus : 

Aqueres mountinos 
Qui ta'hautes soun, 
M' empechen de béde 
Mas amous oun voun. 
Si subi las béde 
Ou las rancountrá, 
Passéri Tayguete 
Chéus peri dem 'nega. 

Em um canto provençal moderno, o poeta Jasmin 
referindo-se aos refrens que o povo repete inconscien- 
temente, intercala este vestigio tradicional, que é quasi 
idêntico ao do poeta por^^uguez : 

Aquelles montaynos 
Que tan hautos sun, 
M 'empashen de beyre 
Mas amus un sun ; 
Baycha bus, montaynos, 
Pianos, hausabus, 
Porque posqui beyre 
Un sun mas amus. ^ 

Nas Chansons populaires des Provinces de France, 
Champfleury falia desta Canção censurando o poeta 
Jasmin por ter feito o mesmo que fizeram os jograes 
do século XIV ; diz o critico: «Os Limosinos revin- 
dicam a honra de ter dado nascença á tão famosa 
canção : 

Baisso te, mountagno, 
levo te, vallouii, 
per me laíssa vere 
lo mio Jeannatoun. 



1 Ap. Rev. des Deux mondes^ 1846,1. iv, p. 402. 



POPULAR PORTUGUEZA 187 



«O Auvergne tem egiialmente a Canção de Bai- 
chate fnontagne, A qual das duas provindas attribuir 
esta poesia . . . Algumas provindas do Meio Dia re- 
clamam egualmente a creação desta bella canção...» 
(p. 129.) Quanto mais vasta fôr a sua vulgarisação, 
mais se radica em um fundo commum primitivo, como 
o indica a forma do Vilancete portuguez do século xv. 
Como a forma da canção da Muitíeira se cara- 
cterisa musicalmente pelo acompanhamento da gaita, 
também pelo pandeiro se particularisa a canção da 
Kuaday antiquissima na sua estructura métrica de ter- 
ceto. A ideia de Schuchardt, que a forma do terceto 
usada por Dante no desenvolvimento escripto das lit- 
teraturas modernas é um encadeamento de retornei- 
los, justifica-se diante d este facto da conservação de 
um género lyrico de formas disticas relacionando-se 
pelo encadeamento dos seus estribilhos. Mais depen- 
dentes do canto ou melopéa e do rythmo da dansa 
são os estribilhos, do que da linguagem metrificada. 
Milà y Fontanals considera esta forma exclusiva da 
Galliza : «que no observamos en las de mas poesias 
populares de Espana ni en !a de Portugal...» * A 
Ruada ou Foliada em tercetos, é cantada por aqiíélle 
que toca o pandeiro, e simultaneamente por homens 
e mulheres que cantam e bailam, terminando com 
o grito estridente do Atruxo, a que no Minho se 
chama o Apupo, e nas Astúrias o Renchilido, Vê- se 
que desvendamos uma forma poética cujo substra- 
tum ethnico a faz apparecer fora da Hespanha, em 
povos impropriamente chamados célticos, mas que 
estão bem caracterisados como liguricos. 

Esta forma estrophica do terceto que distingue a 



* Estudo soò're a Poesia popular da Galliza. (Romania, vol v, 
p. 49) 



a poesia popular da Galliza, e a que vulgarmente se 
chama a Ruada ou Cantar de pandeiro, descrevea 
o historiador Murguia: (El cantar de pandeiro es 
por su parte el que mejor conserva su origen. Se 
canta, como el nombre lo dice, ai son dei pandero, 
y ai de las alegres conchas, como las Ilama Ossian, 
usándose con especialidad en Ias comarcas en que 
predomina el tipo céltico. Co.upárense estas Cancio- 
nes de estrofas de três versos octosílabos, de los cua- 
les el segundo es libre, consonando entre si el pri- 
mcro y el tercero. Admirable continuación de la tría- 
da céltica. Algunas veces se corresponden más otras, 
de manera que, mas que Canciones separadas, seme- 
jan, mejor dicho, son estrofas de un largo poema.» ' 
D, Joaquin Costa, citando o terceto como de ori- 
gem Céltica, persistente na Baixa Bretanha, diz: «Es 
metro por excelência gallego; sin embargo, no lo 
desconocen dei todo las demás literaturas de la Pe- ■ 
nínsula.» * As formas da triada, independentes da 
rima, conservam-se nas tradições mais antigas, como 
anexins, esconjures, adivinhas, fórmulas de jogos e 
cantos populares. O terceto é commum á Galliza e 
Portugal, sobretudo nos bailes de terreiro. O seu es- 
tribilho era o Guai ou Ok, ai', donde veiu o nome 
a este género de Cantares guiados, como os de- 
signava Gil Vicente no século xvi. Comparemos un 
estribilho gallego, que tan'.ben se acha em Portugal; 

Canc. B.h,lbstekos: Veesão do Minho: 

Anton era eu. Então era eu, 

andava na dansa andava no bail; 

non sei que lie deu. não sei que me deu. 



POPULAR PORTUGUEZA 189 



Non sei que Ue deu Não sei que me deu, 

nin que 11' ha de dar, nem se me dá d'isso, 

teno os meus amores trago os meus amores 

n-a véira do mar. no real serviço. 

Nin que 11 ' ha de dar, 
nin que Ue daria, 
teíío os meus amores 
por donde eu queria. 

Nos cantos populares do Minho é onde encontra- 
mos cantigas em tercetos^ improvisados á viola ; 
pela forma gallega da Ruada comprehende-se a 
sua estructura. Apresentamos em seguida uma Rua- 
da ou Cantar de pandeiro, da Ulla, colligido por 

Murguia : 

Vena o pandeiro a ruar, 
Qu'estas son as mazarocas, 
Que hoxe teno de fiar. 

O pandeiro toca ben, 
A ferrenas fanlle o son; 
Vivan os que amores ten. 

Vivan as mozas gallegas, 
Vivan as bonitas mozas 
Y os galans da nosa terra. 

Mocinas, á bailar todos ; 
Mocina, arriba! arriba! 
Ti tamen, meu Furabolos. 

Non t^asanes, non, rapaz, 
Qu'as nenas son para ver, 
Os galans para mirar. 

Cada un é pro que é, 
O pan está pra toucina 
Antoniíío, saca o pé. 

A ruada vaise armando. 
Tiza, Pepa, eí>e candil, 
Qu*están á porta chamando. 



U)0 HISTORIA DA POKSIA 



Virán chuscos, Diol-o queira, 
Pro ese chama no quinteiro 
Y os chuscos ven pola eira. 

Vena por onde quixer, 
Toca pandeirino, toca. 
Mas que ch'o coiro rabée. 

Estira a cofia, Maruxa, 
Dobra as mangas da camisa, 
E qu'o denguino se luza. 

Inês, sacude o mantelo, 
Puniea ben, que ti ben sabes, 
Dalle ó brazo e xunta os dedos. 

Entra, meigo, non atruxes, 
Garda, Xan, as castanecas, 
E cóntame onde oxe fuches. ^ 

O aturuxo é um grito que se solta no meio das 
cantigas ou na ida para as esfolhadas e linhadas ; 
diz delles Barros Sibelo : «aun hoy resuena en las 
revueltas montaíias, valles y canadas de nuestra pá- 
tria, repetido por los campesinos para emprender 
alguna expedición nocturna.» ^ Na poesia castelha- 
na existe a seguidilha em terceto, como vemos em 
Lafuente y Alcântara, mas só na Galliza e Minho é 
que essa forma se apresenta exclusiva. 

Uma outra forma lyrica predominante na poesia 
popular da Xjralliza é a quadra, propriamente cha- 
mada Copra, formada do terceto pela repetição do 
primeiro verso, ou de dísticos aproximados pelo dia- 
logo. Eis um exemplo do primeiro caso : 

Para que me dás o si, 
treidora, sendo casada; 



1 Historia de X^alicia, t. I, pag. 258. 
^ Antiguedades de Galicia, píg. 66. 



POPULAR POKTUGUEZA I9I 



Para que me dás o si, 
non che valendo de nada ? 

Aloméame, aloméame, 
estreliina d'a fortuna, 
aloméame, aloméame, 
mentras que non ven a lua. 

Exemplo do segundo caso, em que do dialogo 
em distijos se forma a quadra : 

— Cantan os galos é dia, 
meu amor, érj4ue-te e vaite. 
«Como m'hei d'ir, queridina, 
como m'hei d'ir e deixarte ? 

E pela espontaneidade d'estes processos generati- 
vos que a quadra é tanto árabe, como céltica ou 
germânica ; constitue a parte do Oaristys, a sauda- 
rão amorosa da Canção popular. Schuchardt achou 
nos Alpes allemães (Stiria, Carintia, Salzburgo, Ti- 
rol e Suissa) quadras semelhantes na forma e pen- 
samento ás quadras da Andaluzia ; * no paiz de Gal- 
les as quadras são o pennill, no Friul as villotas, na 
Toscana é o rispeto. Na Galliza a quadra chama-se 
especialmente Cantar de Alaldla, do estribilho que 
a forma ou completa. Diz Murguia : «Los cantares 
de Alaldla, son como los castellanos, cuartetas octo- 
sílabas; pêro desde luego se advierte en la mayor 
parte de ellas, el empeno de que se correspondan 
unas á otras, tal vez porque conservan las huellas 
de su origen, que son las regueifas, en que los que 
i>e dispatan el premio empie^.an su cuarteta con el 
ultimo verso de la anterior, cosa que sucede igual- 
mente en las luchas que entablan los cantadores. > ^ 



^ Folk-Lore andaluz^ pa^. 260. 
^ Htstoria de Galicioy l.^c. cit. 



I()2 HISTORIA DA POESIA 



Em Portugal, sobretudo no Minho, existem cantadei- 
ras de fama, e este género de cantos chanra-se d 
desgarrada, A quadra gallega, segundo o seu em- 
prego nas festas da vida domestica recebe um nome 
especial ; cantada nos casamentos chama-se-lhe a 
Reguei/a, Este costume é assim descripto por Si- 
belo : «Es la festividad nocturna de las bodas de 
nuestros montaneses, reúnense los mozos á la puerta 
de los contrayentes, y con ellos todo el pueblo de 
las aldeãs inmediatas ; empezando los mejores can- 
tadores á improvisar versos reclamando la Reguei/a, 
que consiste en una hogaza de pan ...» * Em Por- 
tugal existe este uso nas ceremonias do casamento 
na Bairrada e outras localidades ; no Minho também 
se chama ao pão de trigo regueifa^ que se distri- 
bue no dia da boda. Era o Tamo (de Thalamó] 
festa de bodas, cujos gastos excessivos se prohibem 
na Ordenação manoelina, e aos quaes se refere o 
anexim : — Não ha boda sem torna-boda. 

Os cantos dos namorados, a que em Portugal 
chamamos despiques, denominam se na Galliza Encho- 
yádas, ou diálogos de cantadeiras, semelhantes ao 
Contrasto italiano e ao Amoebeum, antigo. Muitas 
d'estas Enchoyadas apparecem na tradição portu- 
gueza, como a nossa Linda Pastora, se repete na 
forma gallega: 

— Mariquina, hermosa, 
ti que fás ahí ? 
«Estou gardando o gado 
ben me ves aqui '. 

A quadra é também a forma estrophica dos can- 



> Antíguedades de Galicia, pag. 72. 
Pérez Ballesteros, Cancionero gallego^ tomo i, pag. 97. 



POPULAR PORTUGUEZA igS 



tos de Ani-novo ou Aguinaldo, dos Reys Magos e 
Nodal, perfeitamente semelhantes aos cantos popu- 
lares portuguezes, coincidindo com os costumes. O 
receio de avolumar esta analyse inhibe-nos de re- 
produzir esses paradigmas. As quadras soltas, a que 
se chama Cantiga, e que parecem ser improvisa- 
das, repetem-se simultaneamente em Portugal e Gal- 
liza ; citaremos algumas da rica coUecção de Pérez 
Ballesteros, como Os cinco sentidos, o Padre nosso 
pequeniflo, e muitas formas dithyrambicas. Assim 
acham-se em Portugal, as mimosas cantigas : 

Estimaba de te ver 
trinta dias cada mes, 
cada semana seis ^ias, 
cada dia sua ves. 

(Canc. gall.^ t. ii, n.® 12). 

Os ollos requeren- oll(5s ; 
O corazón, corazóa ; 
O pano d'o teu mantelo 
Requere o d*o meu calzón. 

(ib.^ n.*» 21). 
Em Portugal esta cantiga tem um sentido moral : 

Os olhos requerem olhos, 
Os corações corações, 
Também as boas palavras 
Requerem boas rasões. 

A poesia lyrica do povo não se separa do canto, 
nem do seu destino domestico ; as Fias, Sachas, Ma- 
ltas e Magostos, são também no Minho as festas das 
povoações, com o nome de Malhadas, Es/olhadas, 
Descamisadas, Linhadas, Espadeladas, Bessadas, e 
todo o trabalho é feito com a expansão das can- 
tigas, como descreve Eça de Queiroz : cesse traba- 

Poes. popii\. i3 



194 HISTORIA DA POESIA 



lho que em Portugal parece a mais segura das ale- 
grias e a festa sempre incansável, porque é todo feito 
a cantar.» * Ao Minho pôde applicar-se a cantiga gal 

lega: 

Déixame de castaftetas^ 
deferrefias e de gaitas^ 
qu 'a melhor fuliada é 
ter a barriguina farta. 

N'estas diversas cantigas predomina quasi sempre 
o espirito satirico ; são as tiradillas para escarnir ^ 
da cathegoria do Vanto italiano, do Gab francez e 
da Chacota portugueza. 

Assim como ha Canções com thema narrativo, 
como se vê pelas mais graciosas pastorellas, tam- 
bém as narrações épicas da tradição popular, des- 
envolvem-se em quadras continuadas, em uma me- 
lopêa que prolonga o recitativo melódico. Embora 
na Galliza a Canção iyrica encontre mais sympathia 
do que o Romance resado ou declamado, nem por 
isso se devem considerar verdadeiras as observações 
de D. Manuel Murguia e Milá y Fontanals, que acha- 
vam esta forma épica muito obliterada n'aquelle paiz. 
Bastava ter sido a Galliza parte da região da Lusi- 
tânia, á qual pertencera também- a Betica (Andalusia), 
para que a tradição do Romance narrativo, sobre- 
vivente n'estes dois povos, se não extinguisse na Gal- 
liza, e em relação de contiguidade com as Astúrias. 
Os factos confirmaram a deducção; e nas investigações 
mais recentes a tradição popular da Galliza appre- 
senta os Romances mais antigos e interessantes para 
explicar o phenomeno da idealisação poética com o 
facto histórico, e ao mesmo tempo a estructura mé- 
trica antes da forma dos octonarios do século xv. 



* A Correspondência de Fradique Mendes, pag. 209. 



POPULAR PORTUGUEZA igS 



Podemos pois fallar dos cantos heróicos na Gal- 
liza; do romance popular gallego diz D. Manuel 
Murguia: «Aqui en este país en donde abundan las 
leyendas, . . . puede decir-se que carecemos dei ver- 
dadero Romance y como si se quisiese decir de esta 
manera que á nuestro pueblo algo de profundo é in- 
superable le separa dei resto de la nacion . . . casi 
podemos asegurar que no se conoce en Galicia el Ro- 
mance. . . Parece que hacia la parte de Astúrias, en 
Rivadeo y Vega de Castropol se conservan algunos 
escritos en una de esas variedades dei gallego, na- 
tural a nuestros pueblos fronteirizos . . . Nosótros po- 
mos decir, que apesar dei grande empeno que en 
ello hemos puesto, nos ha sido imposible adquir en 
gallego un romance de regulares dimensiones.» * 
Quando D. Manuel Murguia exprimiu esta negação, 
ainda a tradição gallega estava pouco interrogada, e 
a portugueza apenas tocada á flor por Garrett. Hoje, 
que a tradição portugueza do Minho, Traz-os-Mon- 
tes, Beira Baixa, Alemtejo, Algarve, Madeira, Aço- 
res e Brasil está bem conhecida, completam-se os 
elementos para a critica synthetica com a publica- 
ção de Menendez Pidal, dos Viejos Romances qtie se 
cantan por los Asturianos '^ Menendez Pidal viu o 
lado importante do problema: «Romances de los 
contenidos en esta obra que no se hallan en las co- 



* Historia de GaUcia^ ibid., pag. 256. Também Milá y Fonta- 
nals, no Estudo sobre a Poesia popular da Galliza, (Romania^ 
vol. VI, p. 52) repete a mesma observação, dizendo dos Roman- 
ces : «não abundam na Galliza ; mas nem por isso admittimos que 
haja n'este povo repugnância a um género tão natural e diífun- 
dido ; porventura compozeram-se na Galliza em menor numero do 
que era Portugal e nas Astúrias.» E nota que a mesma decadên- 
cia se opera em Aragão, em Valência, na Castella e, Ajadalusia, 
«que tão fecundas foram em Romances.» 

2 Madrid, 1885, i vol. in-8.° de 360 paginas. 



196 HISTORIA DA POESIA 



lecciones castellanas, tienen un eco en el Romanceiro 
portuguez, y quizá tambien lo tengan en el inédito 
de Galicia: porque estas três regiones, unidas entre 
si por la naturaleza, se asemejan grandemente por sus 
costumbres y manera de expresion.» * No Ctíestio- 
nario dei Folk-Lore gallego, n.' 95, já se indicam 
os principaes romances tradicionaes, uns locaes como 
o da Abuela, Sylvanina, Girinelda, o Segador, Du- 
que cego. Conde Nilo, Rufina hermosa, outros toma- 
dos os typos a investigar das collecções portugue- 
zas. 

A Galliza em toda a sua poesia tradicional é a que 
apresenta os typos mais archaicos ; vimol-o no lyris- 
mo e o mesmo caracter apparece agora no Roman- 
ceiro. O documento mais antigo que hoje se conhece 
e o romance gallego de Ayras Nunes, intercalado 
no Cancioneiro português da Vaticana, que é um 
daquelles que Affonso o Sábio, que se educou na 
Galliza, dissolveu em prosa na sua Crónica geral, O 
romance de Ayras Nunes que começa : «Desfiar en- 
viaron,» é do século xiv, anterior áquelle limite para 
áquem do qual nunca se tinha encontrado um ro- 
mance tradicional. Mas, antes de o considerarmos, 
archivemos aqui o Romance tradicional do Monte 
Medulio, cantado por dançantes, em que se celebra 
um feito do tempo da invasão romana na Galliza. 
Quem seguisse a doutrina de Nigra, de que a narrativa 
poética é sempre coeva do facto que celebra, teria 
de revocar este Romance ao século 11 antes da nossa 
éra. Sem adoptarmos esse principio, consideramos 
como um extraordinário documento o seguinte: 



i Op. cit., pag. 275, 



POPULAR PORTUGUEZA I97 

Romance cantado por Dançantes 

' Monte Medulio 

Do foron os homes 
filias et pecúlio ? 
intra nostras cobas ^ 
du Monte Medulio. 

E pois o Romão 
a morremos veu, 
morran elos, canes, 
n'as cobas Momao. 

Na monte Biobra ^ 
campan nosos homes, 
et porque sunt poços 
Nengun aló sobra. 

Anxina Pomares ^ 
fortes nos fecimos, 
et cum os paxáres 
nos queimaron vivos. 

Intra nostras cobas 
e intra os hortos 
quedaran os homes 
tooifíos mortos. 

Et nostras mulleres 
e as nostras filias 



i Cobas, povoação da província de Orense, ao sul da cordilheira 
de La Encina designação tomada das muitas cavernas naturaes e 
artificia es dos habitantes. 

2 Biobra^ povoação de Orense, também ao sul da cordilheira de 
La Encina de Lastra. 

3 Pomares^ Momao^ Medulas^ povoações situadas nas gargantas 
do monte Aquiliano, pertencentes umas a Orense e outras a Leão. 

No Monte Medulio, onde estavam reunidos os Cantabros, 
Galaicos, Vaceos e Asturíos, defenderam-se contra o assalto dos 
Romanos, cujas legiões eram commandadas por Antistio; não 
podendo luctar mais, lançaram-se a fogueiras e envenenaram-se. 



198 HISTORIA DA POESIA 



queidaron, cuítadas ! 
tooinas cautivas. 

Et aquelos loubos 
do Quer las mordian, 
et eias, poubrinas 1 
xemian, xemian. * 

Este romance é um ecco da emoção da perda 
da liberdade da Calaecia sob a conquista dos Ro- 
manos. Quando de novo a Galliza foi assaltada pelo 
poder sarraceno, também consagrou na sua tradição 
oral a lenda de Valdoncel, do solar dos Figueiroas, 
que em Portugal se conserva no romance de 'Fi- 
gueiral; e na devastação de Almanzor, que em 
997 entra em Compostella e arrasa a cidade, fu- 
gindo espavoridos os seus habitantes, ainda essa 
impressão se transmittiu aos cantos oraes, a que 
pertence o seguinte, que faz parte da collecção iné- 
dita de D. Manuel de Murguia, Rimas populares de 
Galicia, Pelo refrem que acompanha o roríiance 
vê-se que elle era dançado e cantado^ como o ou- 
tro do Monte Medulio. Segundo Murguia, era esta 
composição destinada a ser cantada na romaria a 
algum sanctuario, e essa circumstancia influiu por 
certo para que se conservasse entre o povo, e me- 
recesse pela sua antiguidade ser escripta por algum 
curioso. Em Padron, cujo sanctuario também foi de- 
vastado por Almanzor, encontrou Murguia fragmen- 
tos de um outro romance sobre este mesmo as- 
sumpto. A revivescência tradicional seria provocada 
pela impressão ulterior dos assaltos dos piratas mou- 
riscos nas costas da Galliza. Eis o singularissimo ro- 
mance : 



4 Ramon de la Braha, Galicia^ Leon y Astúrias^ pag. 222. 
{Bibl.galLy vol. 37.) Commanicado por D. Manuel Garcia Baelto, 
residente em Ponferrada. 



POPULAR PORTUGUEZA I99 



Pól O camino ei ven un faiome 
ainda ven lonxe, lonxe, lonxe. 
£u não sei si anda ou si corre, 
porque ven lonxe, lonxe, lonxe. 

Quen fora galgo, 

quen fora paxaro, 

quen fora vento. 

Fai moito tempo que me deixou 
alá pra lonxe, lonxe, lonxe. 
Anda en guerra pól- o Senor, 
alá moy lonxe, lonxe,.lonxe. 
Quen fora galgo . . 

Vineron os Mouros arrenegados 
lá de muy lonxe, lonxe, lonxe. 
Todo arrasaron, e estaba il 
alá moy lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo . . . 

Aqueles homes eran us demos 
lá de moy lonxe, lonxe, lonxe. 
Todo levaron e nos fuxemos 
alá pra lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo . . . 

altarino de noso Dios 

que mora lonxe, lonxe, lonxe, 
quedou com a noitina sin sol 
luxindo lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo. . . 

Entre penedos y entre touzas 
alá lonxe, lonxe, lonxe, 
levamos ó Cristo e outras cousas 
lá para lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo . . . 

1 os Mouros arrenegados 
foran detrás lonxe, lonxe, 

I aquiles penedos rodeados 
(era moy lonxe, lonxe, lonxe.) 
Quen fora galgo. . . 



i 



Li 



200 HISTORIA DA POESIA 



Pobre de nos todos berraban 
alá moy lonxe, lonze, lonxe, 
válenos, Cristo 1 apelidaban, 
era mov lonze^ lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo. . . 

I os Mouros arrenegados, 
alá moy lonxe, lonxe, lonxe, 
subian ó monte desesperados, 
era moy lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo . . . 

E Cristo, Cristo, apelidaban 
alá moy lonxe, lonxe, lonxe, 
mira que ises por ti non chaman, 
deciamos lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo.. . 

Xa dos penedos na buratina 
alá moy lonxe, lonxe, lonxe, 
vianse as caras de tal xentiiia 
' ~ alá lonxe, lonxe, lonxe. 

Quen fora galgo . . . 

Cristo, Cristo, todos á una 
dixeroos, lonxe, lonxe, lonxe, 
I esmagada aquella xentina 
quedou alá lonxe, lonxe, lonxe. 
Quen fora galgo. . . 

Ben ti vin vir pól-o camiiío 

alá lonxe, lonxe, lonxe. 

O Cristo amparounos, meu queridino, 

e foranse lonxe, lonxe, lonxe ^ 

Separando o elemento narrativo d*este romance 
das repetições exigidas pelo canto e dança, fica re- 
duzido a parelhas e depois á quadra continuada: 



1 Publicado na Revista Gallega^ n.° 279, anno VI (1900) por 
D. Manael Murguia, e copiada de um texto de aforamento do 
Mosteiro de Celanova^ escrípto com letra do século xvni. 



POPULAR PORTUGUEZA 20I 



Pól-o camifío eí ven un home, 
Eu non sei bí anda ou si corre, 
Fai moito tempo cjue nos deixou, 
^ Anda na guerra polo Senor, 
Vinieròn os Moiros arrenegados 
Todo arrasaron e estaba il, 
Aqueles homes eran uns demos 
Todo levaron e nos fuxemos. 

altarino de noso Diós 
Quedou como noitina sin sol. 
Entre penedos y entre touzas 
Levamos ó Cristo coutras cousas. 

1 os Moiros arrenegados 

I aquiles penedos rodeados, 

Pobre de nos todos berraban : 

Valenos Cristo apelidaban. 

I os Moiros arrenegados 

Sobian ó monte desesperados. 

E Cristo, Cristo apelidaban : 

Mira que ises por ti non chaman. 

Xa dos penedos na buratina 

Vianse as caras da tal xentina. 

Cristo, Cristo, todos á una, 

I esmagada aquela xentina ! 

Ben ti vin vir pól-o camino, 

O Cristo amparounos, meu queridino. 

E sempre difficil separar na poesia do povo a nar- 
rativa poética dos refrens musicaes, principalmente 
quando já lhe falta a differenciação dramática dos 
dançantes. Sobre o texto deturpado do Cancioneiro 
da Vaticana conseguimos reconstruir a forma do 
romance do jogral Ayras Nunes, gallego, restituin- 
do-o á estructura do verso quinarioy * e estrophe de 



* Sobre a característica do verso quinaria notámos pela primeira 
vez no Manual de Historia da lAtteratura poriugueza : «Nos Ro- 
mances portug^ezes acham-se duas formas particulares de verso : 
a de redondilha menor, de cinco ou seis syllabas (quinario) e a 
de redondilha maior (octonario). Até ao século xv prevaleceu a re- 
dondilha menor nos cantos populares... Di-se no século xvi a 



202 HSTORIA DA POESIA 



sextilha. Além da importância da forma, á qual o 
chanceller Pedro Lopes de Ayala chamou Cantar 
de antiguo riniar, e portanto já antiga no século xv, 
o romance de Ayras Nunes revela-nos esse material 
poético da versão oral que os chronistas de Aífonso 
o Sábio aproveitaram para compor as narrativas mais 
emocionantes da Ckronica geral, É ainda a Galliza, 
que contribue com o vestigio mais precioso do Ro- 
mance referente á historia de Hespanha; 

Cantar de antiguo rimar 

Desfiar enviaron 
Ora de Tudela 
Filhos de Don Fernando 
D'el rey de Castella ; 
E disse el rey logo: 
. — Hide a lá Don Vela ; 

Desíiade e mostrade 
Por mim esta rason : 
Se quizerem per talho 
Do reino de Leon, 
Filhem por en Navarra, 
Ou o reino de Aragon. 

Ainda lhes fazede 
Outra preitesia, 
Dar-lhe heis per cambo 
Quanto hei em Galiciay 
E aquesto lhe fazo 
Per partir perfia. 

E faço grave dito, 

Ca meus sobrinhos som ; 



ubstituiçâo da redondilha menor pelo verso de sete syllabas^ que 
hoje se tomou exclusivo da cantiga e do romauce.» Consignado 
o facto verdadeiro, não soubemos explical-o então. Desde q^e a 
narrativa poética se separou da dança e do canto, alterou-se a ca- 
dencia para uma íórma mais para recitar do que para cantar- 



POPULAR PORTUGUEZA 203 



Se quixeretn per talho 
Do reino de Leon, 
Filhem por en Navarra, 
Ou o remo de Aragon. 

E veede ora, amigos, 
Se prend*eu encano ; 
£ fazede de guisa 
Que seja sem meu dano ; 
Se quizerem en trégua 
Dade-lh'a por um anno. 

Outorgo -a por mim 
E por elles don, 
E ar tem se quizerem 
Per talho de Leon, 
Filhem per en Navarra 
Ou o remo de Aragon. 

Restituído do texto do Cancioneiro portuguez da 
Vaiicana, n.^ 466 ; já publicado na Antologia por- 
tugueza, n.** 5. D. Joaquin Costa, na Poesia popu- 
lar espaHola, propõe a forma estrophica em tercetos 
monorrimos : «A nuestro juizio, esta composicion acusa 
más bien el ternário monorrimo, de 13, 14 e 15 sí- 
labas, tan características de las literaturas célticas, 
senaladamente de la cámbrica...» (p. 490.) Resti- 
tuindo ao seu valor o nome de céltico, vê-se que 
condiz com a realidade do substratum ligurico. A 
forma estrophica proposta é admissível, porque sem- 
pre os versos grandes nasceram da juxtaposíção dos 
pequenos : 

Desfiar enviaron ora de Tudela 

Filhos de Don Fernando, dei rey de Castella ; 

E disse el rey logo : Ide a lá Don Vela. . . 

Comprova a reconstrucção de D. Joaquin Costa 
uma outra composição de Ayras Nunes, (n.° 468) que 
é também em tercetos monorrimos : 



204 HISTORIA DA POESIA 



O meu sefior obispo na Redondela hun dia 
De noite con gran medo da deshonra fogia ; 
En indo- m*aguysando per ir con el mha via, 

Achei hua compana assas brava e crua, 
Que me deceron logo de cima da mha ruiva 
Azémola, et ca m'a levaromna por sua. . . 

Ha n'este romance a singularidade de ser com- 
posto em metro de redondUha menor ^ quando a to- 
talidade dos romances castelhanos estão em verso de 
redondUha maior. O romance de Ayras Nunes per- 
tence ao fim do século xiii. Um outro romance galle- 
go, no mesmo metro, que não é posterior ao sécu- 
lo XIV, appareceu em Portugal em um Cancioneiro 
do Conde de Marialva, e que começa : No Figueiral 
figueiredo, foi no fim do século xvi publicado por Brito 
na Monarchia lusitana, * Na versão do manuscripto 
do Conde de Marialva, publicada com a notação 
musical por D. Mariano Soriano Fuertes, na Histo- 
ria de la Música en EspaHa, o texto d'este romance 
é em dialecto gallego ; o seu thema é um mytho 
commum a muitos outros povos, e por isso a sua 
elaboração pertence a uma época em que a Galliza 
se estendia ainda até ao Tejo. Delle se deduz o 
typo primordial do Romance peninsular, tal como se 
conserva nas Astúrias e se canta no gosto ainda per- 
sistente do Estavillar, Temos outros romances por- 
tuguezes oraes, que também se repetem ainda hoje 
na Galliza, porém esses são com o caracter funda- 
mental da redondilha menor ou o verso quinaria; 



^ Fernando Wolf, no Studien zur Geschkhte der spanichen und 
poríugiesiscken Nationalitteratur ^ pag 693-4, considera a canção 
do Figueiral como evidentemente antiga apesar de algans retoques. 
Milá y Fontanals, na Romania^ "^^llt P^gf* 53) diz-nos que os 
gallegos consideram este romance como originalmente sen. 



POPULAR PORTUGUEZA 205 



tal é o romance de Iria, considerado por Milá y 
Fontanals como de origem portugueza indubitável : 

Romance de Santa Irena 

Estando cosendo 
Na mina almoada, 
Mina agulla d^ouro, 
Meu dedal de plata, 
Mina texoirina 
De folia de lata ; 
Pasa un caballero 
Pideme pousada ; 
Meu pai era vcllo 
Non me dixo nada. 



De três irmás qu'éramos 
A min me levou 
No médio dó monte 
£1 me preguntou, 

— Que nome me puxo 
Quen me bautizou. 

«Ay 1 na miíia terra 
Ireha me chaman, 
Agora na casa 
Triste e malfadada. 

Sacou ó pufíal 
E ali á matou, 
Cuberta de toxos 
Ali á deixou ; 
D'ali á sete anos 
Por ali pasou. 

Pastorciiíos novos 
Qu' andades có gado, 
Qu' imagen é aquela 
Qu' está nese adro ? 
ftEsa é santa Irena 
Qu' o traidor matou, 
Cuberta de toxos 
Ali á deixou. 

— Mina santa Irena 



2o6 HISTORIA DA POESIA 



Meu amor primeiro, 
Dádemc &aude 
No brazo direito. 
— «Como ch*á eide dar, 
Tirano e traidor, 
Si ti me mataches 
Sm pena e sín dor ? 

(Hist. de Galic,^ p. 579.) 

Merece comparar-se a estructura métrica da Can- 
tilena de Santa Iria, gallecio-portugueza, com a 
Cantilena franceza de Santa Eulália, do século x, 
dando-nos uma idéa das cantigas populares religio- 
sas, que apresentam uma certa unidade : 

VBLHO FRANCEZ : PQBTUGUEZ ABCHAICO : 

Buona pulcella Bona ponceila 

Fut Eulália, Foi Eulália, 

Bel auret corps Bello havia o corpo, 

Bellezur anima. Bella mais na alma. 

Voldrent la vaincra Querem-na vencer 

Li Deo inimici, Os de Deus imigos 

Voldrent la faire Querem na fazer 

Diaule servir. O Diabo servir. 

EUe n'eut eskoutet Ella não escuta 

, Les mais conselliers, Os máos conselheiros^ 

Qu'elle Des ranaiet Que ella a Deus renegue 

Chi morent sur en ciei Que mora nos céos. 

E' curiosa esta facilidade da concordância quinaria 
com a versão portugueza ; podia também transcre- 
ver-se na forma de parelhas em endechas. Da per- 
sistência desta forma ainda popular, aponta Gaston 
Paris uns versos que ouvira na infância : 

Sainte Catherine était filie d'un roi, 
Son père etait paien, sa mère ne Testoit. 



POPULAR PORTUGUEZA 2O7 



Os romances do Cego, * da Linda pastorinha, do 
Estudantínho ou assim como o de Don Bueso, que 
se repete no Minho, têm na versão asturianna o me- 
tro de redondilha menor, bem como na tradição do 
Algarve. Esta característica não tem sido observada 
com cuidado; porque o romance em redondilha 
maior, que veiu substituir o verso quinaria, é uma 
nova elaboração dos cantos heróicos durante o sé- 
culo XV, e com essa forma entraram nas colleccões 
impressas do século xvi. N'este problema é da Gal- 
liza que se devem esperar as mais importantes des- 
cobertas tradicionaes. O romance em octosyllabos 



Romance do Cego 

— Abem 'as portifias 
Abrem'o postigo, 
Dame d'o teu lenzo 

Ay meu ben, que veflo ferido. 

«Pois si ves ferido 
Ves á mala hora, 
Qu'as miflas portifLas 
Non s'abren agora. 

— Si á ningnen as abres 
Abremas á min. 

Sou un pobre cego. 
Que vefio á pedir. 

«Dalle pan ó cego, 
Dalle pan e vifio, 
Dalle pan ó cego, 
Que siga ó camifio. 

— Eu non quero pan, 
Nin tampouco vifio, 
Quero qu'á tua filia 
M'amostre o camião. 



20S HISTORIA DA POESIA 



não penetrou profundamente na Galliza; fallando do 
romance picaresco Elas eran três comadres, diz 
Murguia: cDebemos advertir que los verdaderos ro- 
mances, es decir, los octasilabos, son los que se 
encuentran más mal hechos en Galicia ...» ^. 

Poderíamos ainda faliar dos rudimentos dramáti- 
cos, de que os Villancicos são a forma persistente 
na Galliza, hoje extincta em Portugal; o Jogo da 
Condessa^ que é um verdadeiro esboço de drama, 
acha-se na Galliza ^ e nas versões oraes do Minho 
e Madeira. Um grande numero de Anexins, Parlen- 
das infantis e Superstiçães, similhantes nos dois pai- 
zes, accusam a sua antiga unidade ethnica lusitana, 
quebrada pelas divisões administrativas dos Roma- 
nos, e desconhecida pela boçalidade egoista de uma 
politica sem plano. 

Na sua importante collecção dos Viejos Roman- 
ces que se cantan por Asturianos, reconhece Menen- 
dez Pidal : «Poucos dos nossos cantos proverbiaes 
deixam de ter correspondência mais ou menos fiel, 
nas do visinho povo lusitano ; e bastantes vezes 
acontece que entre uns e outros não ha differença, 
salvo a linguagem em que estão escriptos. — Ro- 



cAnda, vay meflina 
Colle roca e liílo, 
Vai có pobre cego 
Mostralle ó camiilo. 

— Adios, mifía casa I 

Adios, mina terra ! 

Adios, mifia may, 

Ay meu ben, qu'este bóo pasar era! 

Ap. Murguia, Historia de Galicia^ t. i, p. 678, Lugo, 1865. 

* Historia de Galicia, t, i, pág. 578. 

* Bibl, de las trad, populares espaãolas, t. rv, pág, 136. 



POPULAR PORTUGUEZA 2O9 



tnances dos colligidos nesta obra, que não se acham 
tias coUecções castelhanas^ têm um ecco no Roman- 
<:eiro portuguez, e quiçá também o terão no inédito 
da Galliza ; porque estas três regiões, unidas entre si 
pela natureza, assenulkam-se fortemente nos seus cos- 
tumes e modos de expressão. — O idioma portuguez, 
•e os dialectos gallego e asturiano aproximam-se muito 
nas suas origens, t * Investigando-se esta unidade nos 
elementos tradicionae^ persistentes, é que se conse- 
gue determinar as primitivas formas poéticas que exi- 
stiram na região lusitanica desmembrada pelas revo- 
luções históricas desde a época romana. Ha já hoje 
materiaes ethnographicos para esta reconstrucção; Me- 
nendez Pidal sentiu essa unidade, vagamente, mas não 
podia determinar-lhe a base lusitana; a sua compi- 
lação é preciosa para estudos comparativos. 

Uma das causas porque a lingua gallega se tor- 
nou o idioma preferido na poesia lyrica tanto de Por- 
tugal, como de Castella, Extremadura e Andalusia, 
além da primitiva unidade ethnica apontada por Stra- 
bão, proveiu da primeira revivescência politica do 
estado ou reino da Galliza. Castella não tinha ainda 
incorporado as' differentes provincias da Hespanha, 
nem garantido contra a unificação de outras a sua 
própria independência; a unidade soberana ou ibé- 
rica das Hespanhas era disputada por Aragão e por 
Leão. Só no ultimo quartel do século xv, sob Fer- 
nando e Isabel, é que essa unificação politica se con- 
suma ; é então que a lingua castelhana como nacio- 
nal toma um desenvolvimento exclusivo, reduzindo 
as outras linguas a dialectos locaes, podendo por 
isso dizer o Marquez de Santilhana não ha muito 
tempo ainda era o gallego a linguagem corrente da 



Op. cit. p. 275. Madrid, 1885. 
Pões. popul. 14 



210 HISTORIA DA POESIA 



poesia. O seu uso em Portugal, como se vê pelos 
Cancioneiros trobadorescos, proveiu do elemento aris- 
tocrático, e pela adopção dos jograes que afiíluiam á 
corte portugueza, pois sendo bearnezes, catalães, leo- 
nezes, valencianos, recorriam a essa língua comnium. 
A lingua gallega estaciona desde que deixa de ser 
escripta, e a portugueza entra em um progresso suc- 
cessivo como nacional e litteraria. 

Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com 
a Galliza foram desconhecidas, consequência do des- 
prezo que os escriptores votaram íís tradições nacio- 
naes. Os limites da Galliza na époea da constituição 
da nacionalidade portugueza mostram que fallavamos 
a mesma lingua, com variações locaes, e possuíamos 
a mesma poesia popular. Escreve Herculano : cNo 
século XI, a extrema fronteira da Galliza ao occiden- 
te, parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas pro- 
ximidades da sua foz, pela orla do mar até além do 
Vouga; mas seguindo ao nascente o curso d'aquelle 
rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de 
Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.» * 
As povoações do Alemtejo dão o nome de galtegos 
a todos os habitantes do Ribatejo, por uma incon- 
sciente tradição ethnica da unidade primitiva. * N esta 
obliteração o nome de gcdlego tornou-se injurioso em 
Portugal, • usando-o pejorativamente os grandes poe- 



* Hist. de Portugal^ t. iii, p. i8q (1849.) 

2 cA Galliza, antes da divisão que fez Augusto das Províncias 
de Hespanha, pertencia á Lusitânia. Possidonio em StrabSo, cha- 
ma aos Artabros, últimos povos da Lusitânia, e mesmo Strabão, 
faltando da região que corria do Douro para o norte, diz que ella 
no antigo se chamara Lusitânia e nos seus tempos Callaica.'» Ri- 
beiro dos Santos, Mem. da Academ,^ t. vin, p. 236. — O erudito 
académico consignando estes dados verdadeiros deturpava-os pela 
obsessão da monomania da supremacia dos Celtas, que se reno- 
vou mais com uns novos processos philologicos. 



POPULAR PORTUGUEZA 2 1 I 

tas oriundos de famílias gaUegas, como Sá de Mi- 
randa e Camões; assim o iniciador da eschola ita- 
liana : 

Sola me dexaste 
En aquel yermo 
Villano maio, gallego . . . 

Nos Lusíadas deixou Camões essa phrase injusta ; 
«Oh sórdido gallego-^ ; e António Prestes, nos Autos : 
«Amor villano y gallego,^ (p. 400.) 

Effectivamente a Galliza deve ser considerada co- 
mo uir. fragmento de Portugal que ficou fora da in- 
tegração da nacionalidade. Apesar de todos os es- 
forços da desmembração politica contra a absorpção 
ibérica, a Galliza, mesmo decahida náo deixou de 
influir nas formas da sociedade e da litteratura por- 
tugueza ; nas luctas de D. Affonso 11, refugiaram-se 
na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como 
João Soares de Paiva ; e nas luctas de D. Fernando 
refugiaram-se em Portugal muitas familias nobres co- 
mo os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde 
provieram os maiores poetas da esplendida plêiada 
dos Quinhentistas. Nos Cancioneiros trobadorescos 
portuguezes encontra-se a forma gallega xe por te; 
este emprego manifesta- nos a tendência da lingua 
portugueza em converter o grupo consonantal // em 
eh, como em : pltis, chus ; //antar, chantar ; //anto, 
chanto ; pUno, chão ; //atus, chato ; — que perdidos 
no archaismo popular, renovaram-se litterariamente 
em plantar, pranto^ plano, prato. Na época em que 
na lingua portugueza se estabeleceu a disciplina gram- 
matical, ainda bastantes vestigios do gallego appa- 
recem na linguagem dos escriptores quando se apro- 
ximam da dicção popular. No Cancioneiro geral, vem 
em um vilancete do Conde de Vimioso : «querendo 
esquexer-vos» (fl. 85, col. 6.) Nas Comedias de Jorge 



212 HISTORIA DA POESIA 



Ferreira, repletas de locuções populares, abundam os 
gaUeguistnos'. «pagam-se do bem che quero» (Eufros.^ 
259); «fallou o boi e dixo beo» fib. 279.); «Sempre 
fostes d*esses dichos* (Aulegr,, fl. 37, \)\ «o som de 
bem cke farei e nunca lhe fazem.» (ib., fl. 20.); «mi- 
nha madrinha é azougue e joga» o áou- cheio vivo 
com quantas aqui ancoram, (fl. 59 ^.) Nas Éclogas 
de Sá de Miranda, impõe-lhos a feição popular: «On- 
de quer que cko demo jaz» (p. 220) ; «Não sei quem 
cke por famoso» (Ib., 291); «Antre nós che era 
outro tal» (Ib., 223.); «Disse então: E assi cke 
vae? (Ib., 232, ed. 1804.) En^ Gil Vicente torna-se 
o colorido vulgar: ^Cha, cha, cha, raivaram ellas» 
(Obr., I, 131.); «Se xe eu isso soubera» (Ib., 136); 
«Que te dixe, mana, emfim?» (Ib., 142); «Que ho- 
mem ha hide-^«í:A^» (Ib., 172); «A Deus àoucAe 
alma dizer» (Ib., 261.) Mesmo em Camões persistem 
formas gallegas, como na cantiga : ^Hei me de em- 
barcar n'um barco» ; e a expletiva a^ que emprega 
nos Lusíadas, Não é exagerado o estudo da poesia 
gallega, recompondo se por ella o velho lyrismo por- 
tuguez, reflexo das formas oraes perdidas ; a desmem- 
bração d'esse território, que ethnicamente nos per- 
tence e tem permanecido para nós extranho tantos 
séculos, patentêa a irracionalidade politica dos nossos 
chefes temporaes sempre preoccupados com a uni- 
ficação ibérica, E' pela vitalidade das tradições e pelo 
seu conhecimento que as nacionalidades revivem ; o 
seu estudo é sempre um impulso de resurgimento. * 






^ Na decadência da Galliza a sua língua chegou a ser aban- 
donada pelos naturaes, reduzindo-se apenas a um dialecto confi- 
nado nas relações domesticas e familiaridades infantis ; declara-o . 
o anexim popular : «Sei que porque estás em Corufia, xa non que- 1 
res falar en galego.it No século XVIII começou na Galliza um mo- 
vimento nacional tradicionista, pelos erudito Feyjó, o critico Sar- 



POPULAR PORTUGUEZA 2l3 



* 



As relações da primitiva unidade politica asturo- 
lèoneza com o pequeno estado da Galliza, acham-se 
bem intimamente estabelecidas por um grande nu- 
mero de similaridades ethnicas. Escreve o dr. Migue- 
lez, no prologo ao Elogio de Feijó : « ao oeste da 
visinha provincia de Leão, e especialmente desde o 
Orbigo até seus últimos confins com a Galliza, con- 
servam-se certamente alguns usos e costumes, jogos 
e outras antigas reminiscências, que provariam, ainda 
que se houvesse calado a historia, ter formado aquelle 
território por grande espaço de tempo, parte deste 
antigo reino. Ouvem-se com frequência aos habitan- 



miento, o que até então melhor estudou as origens litterarias da 
Hespanha, e Sobreyra, que deixou materiaes para um Diccionario 
da Ungua gallega. As agitações da orgia militar napoleonica em- 
baraçaram este progresso local, e a Galliza ficou abafada pela cen- 
tralisação castelhana. Depois da publicação das Memorias para a 
\ historia da Poesia hespanhola^ escriptas em 1747, só na segunda 
\ metade do século xix é qué recomeçou o renascimento da Gal- 
' liza, cooperando n'este esforço D. António Maria de la Iglesia no 
: jornal La Galieia^ D. Manoel Murguia, na sua excellente Histo- 
ria de la Galida^ D Rosália de Castro, sua esposa, nos Cantares 
, . galUgos^ abrindo caminho a sympathicos poetas, Saco y Arte com- 
pondo uma Grammatica gallega, e Cuveiro Pinhol um pequeno Dic- 
v- cionario; em 1884 constitue-se a associação de JFolk-Lore gallego 
i na Corufla sob a presidência da eximia escriptora Pardo Bazan, e 
I um membro d'essa junta D. José Perez Ballesteros publica o Can- 
I ciotmro popular gallego, em 3 volumes ; o illustre archivista An- 
I dré Martinez Salazar emprehende e leva muito adiantada a col- 
i lecção da Bibliotheca gallega^ e restitue á Litteratura o texto gal- 
lego do século xrv Historia de Troya. A publicação por ordem 
da Academia da Historia das Cantigas de Santa Maria de Affonso 
o Sábio, com o apparecimento dos Cancioneiros da Vaticana e Co- 
. locci vieram completar todo o material para a reconstituição his- 
tórica da cultura gallega. 



214 HISTORIA DA POESIA 



daquellas aldeias, romances^ cantares, adágios, phra- 
ses e palavras que se ouvem na Galliza : o seu grito 
de alegria, depois das suas dansas e cantares é o 
aturuxo gallego ; e se aos pacíficos moradores das 
Ribeiras de Orbigo, de Las Vegas ou de La Cepeda, 
se lhes tirassem a capa parda (auguarzHa) ficariam 
vestidos com polainas, calção, jaleco, jaquet i e cha- 
péo semelhantes aos usados em algumas aldeias das 
montanhas da Galliza, e ainda com differenças menos 
reparáveis do que as que se observam entre os al- 
deãos das diversas comarcas d este paiz encantador. » 
Este fundo ethnico que assimila o elemento leonez 
ao gallego deriva da primitiva população céltica, co- 
mo infere o Dr. Miguelez : f Mais afastados dos gal- 
legos parecem os Maragatos, a julgal-os unicamente 
pelos seus trajos; porém quem os tem visto bailar 
a sua dansa nacional el corro * e comparado com a 
muineira, encontrará analogias na forma circular em 
que bailam as mulheres, no ár grave e severo dos 
seus movimentos, e em que os homens bailam den- 
tro de um circulo destacando- se um delles por seus 
saltos, figuras e piruetas, uma d'estas especialissima, 
que os maragatos denominam sapateta, ^ somente 



* «Que sei eu, se o appellido ou alcunha de Curitos ou Cori- 
tos, com que Castella chasquêa dos Asturianos tem a sua origem dos 
Curetes ? Vivi alt^uns mezes no Concelho de Lianas nas Astúrias, 
e notei que a gente d'aquelles arredores, longe de sentirem que 
lhes chamem Caritos, fazem d'isso alarde por só elles serem os an- 
tigos Caritos verdadeiros. E' verdade que derivam a palavra da 
voz Corium, e da derivada Coriza, que é um género de calçado ; 
e fixam a época no tempo em que foram vencidos os Mouros em 
Cavadonga, paiz immediato.» Sarmiento, Mem., n.*» 82 e 83.) Me- 
rece reparo esta relação do nome nacional com o do calçado e 
com. a dansa do Corro, ou da Zapateta ; também na Catalunha 
dá-se o nome de Corranda á quadra ou cantiga. 

' Na ilha de S. Miguel este baile circular conserva ainda o 
nome de Sapateia, 



POPULAR PORTUGUEZA 2l5 



usada, ao que sabemos, entre elles e os gallegos, a 
qual consiste em um grande salto de hombros, to- 
cando na sua maior altura as solas dos sapatos ; salto 
difificil e perigoso que poucos chegam a dar com pre- 
cisão e limpeza. O traje, o baile e alguns outros cos- 
tumes dos màragatos são mui similhantes aos dos bre- 
tãos francezes ; parecem ser aquelles uma tribu celta 
irmã da bretã, e por conseguinte das gallegas, diena 
por muitas rasões de um detido estudo comparati- 
vo.» ^ Ha porém uma differença entre os Asturos e 
os Cantabros, unificados administrativamente ; o ba- 
òle, dialecto característico das povoações asturianas 
acaba ao entrar-se em Lianas; o dejo, dialecto das 
povoações cantabricas, não passa além do Cué ou 
de Puron. Como aponta J. Perez, nas suas Notas 
de viaje por Astúrias: «ai astur de ancha espalda, 
saliente pecho, mediana estatura, cara redonda y con- 
stitucion solida, sucede el cantabro, delgado, esbelto, 
nervudo. Difficilmente se oyen los ecos de la danza; 
la giraldilla aparece de otra manera, y el curioso 
registra un nuevo baile que se llama tlpericote, des* 
conocido dei resto de las Asturas de Oviedo.» A 
distincção notada pelos geographos gregos e roma- 
nos dos prímitivos habitadores da costa cantabríca 
subsiste através dos tempos, embora desde o século x 
da nossa éra o nome de Astúrias se estendesse a to • 
do o litoral cantabrico. ^ Não admira que com a tradi- 



1 BtbHotheca gallega vol. 12. Pag. xxv. Corufta, 1887. O Bre- 
tão francez é hoje considerado como Ligure. 

' O plural de Astúrias designava no século ix toda a faixa so- 
bre a costa do mar desde Navia até Laredo, bem como tudo o 
<[ue do ladu de áquem das montanhas havia de íormar a Vardulia 
e os Condados de Castella ; assim havia a Asturia d$ Oviedo (com- 
prehendendo Cangas de Onis, Villaviciosa, Rivadesella, LIanes, 
Ponga^ Ânrieles o Cabrales) ; a Asturia de Santillana (abrangendo 



2l6 HISTORIA DA POESIA 



ção poética se dê a mesma persistência, não só nas 
formas da transmissão oral, como observaremos no 
preciosos romances de Esiavillar^ como nos themas 
mythicos de uma raça não árica, que ainda n'esses 
romances se conservam. 

A relação do Condado portucalense, em que se 
estabeleceu a Nacionalidade portugueza, com as Astú- 
rias, determina -se historicamente, na época em que 
se formavam as novas línguas vulgares, e n*ellas se 
elaboravam as velhas tradições poéticas. Consigna- 
mos os factos como os apresenta João Pedro Ri- 
beiro : 

O território do Porto conservou desde o tempo 
dos Suevos a dignidade episcopal, e até ser conquis- 
tado por Abdelasiz em 716, contou uma série de seis 
Bispos; o rei D. Affonso i, das Astúrias, libertou o 
Porto, e % chamou para o interior do reino os seus 
habitantes christãoSy para lhes evitar o risco.» D. Af- 
fonso III das Astúrias, que começou a reinar em 866,. 
repovoou o Porto, e até ao anno de 987, em que 
os reis asturianos conservaram este território, exi- 
stiram Bispos com o titulo de Portugalenses, que fi- 
zeram Concilios, doações e sagrações de egrejas na 
Galliza e nas Astúrias, onde por certo se conserva- 
vam ausentes. Na doação de D. Ordonho 11, de Leão^ 
do anno de 922, da povoação com o nome de Por^ 
tugal é apenas mencionada como villa, situada en- 
tre Mafamude e Coimbrões ao sul do Douro no si- 
tio da antiga Cale (Galliay na doação, e hoje Gaia). 
Foi o Porto novamente conquistado por Almançor 



Liébana e quasi Santander) ; a Asturia de Sanct'Anderíi (a parte 
central da antiga Cantábria) ; e ainda a Asturia de Cuselio e Santa 
Maria dei Porto, abrangendo Cuete e Santofia. Apesar das vicis- 
situdes de outo séculos conservou-se essa demarcação territorail. 
(Juan Perez — Por Astúrias, Notas de viaje.) 



POPULAR POKTUGUEZA 2\y 

(anno de 987), mas reconquistado em 999 pelos filhos 
do Conde D. Gonçalo Moniz com a Armada com 
que vieram da Gasconha D. Inigo (Nonego : Enne- 
gus Portucalensis sedis EpiscopuSy em 1025) e Ser- 
nando, que também governou a egreja do Porto. 

Pelo casamento de D. Urraca com o Conde Ray- 
mundo» francez, Affonso vi deu-lhe o governo da Gal- 
liza até á fronteira serracena, em que entrava Por- 
tugal, designando já não a povoação ao sul do Douro, 
mas um território que se alargava para o norte ; e 
casando D. Thereza, outra filha de Affonso vi, com 
o Conde Henrique de Borgonha, é destacado este ter- 
ritório desde o rio Minho com o nome de Portugal^ 
ficando um Condado egual ao da Galliza. * A trans- 
formação de um exiguo Condado em uma Naciona- 
lidade no século xii, que resiste a todas as tentati- 
vas de incorporação ou unificação ibérica, é um phe- 
nomeno extraordinário e inexplicável, se for desco- 
nhecida a differenciação ethnica, que suppre ainda 
hoje a falta de fronteiras naturaes separatistas. Esse 
individualismo de raça revela-se nas tradições poé- 
ticas, e por ellas remontando á desmembrada uni- 
dade iusiíanica, chega-se á revelação de que a con- 
stituição da Nacionalidade portugueza resultou da 
revivescência de uma perdida autonomia, a qual re- 
cebendo nova forma politica nunca mais se extin- 
guiu, avançando sempre até á ulterior expansão ma- 
rítima em que reapparecia o génio ligurico. 

Em um artigo sobre interesses litterarios portugue- 
zes, escrevia o illustre lusitanophilo Gomez de Ba- 
quero, lamentando «é? afastamento intellectual e mo- 
ral dos dois povos irmãos da Peninsula ibérica ;^^ con- 



* JoSo Pedro Ribeiro, Dissertação historia jurídica^ p. 9. Coim- 
bra, 1834. 



2l8 HISTORIA DA POESIA 



signava o facto, que s'e observa, sem procurar expli- 
cal-o : % Parece que entre ambas naciones se alza un 
invisible muro que trueca su vecindad en aparta- 
mientCTt * 

Effectivamente esse antagonismo existe na raça : 
Iberos e Lusitanos têm troncos diflferentes donde pro- 
vieram; occuparam a península entrando n'ella de di- 
recções oppostas ; as invasões célticas que produzi- 
ram a mestiçagem dos Celtiberos não penetraram na 
Lusitânia, e embora a Galliza e a Andalusia fossem 
integradas na unidade ibérica, a formação do Estado 
de Portugal com autonomia politica foi uma revive- 
scência d'esse lusismo^ atacado e dispersado pelos Ro- 
manos. Portanto, como o antagonismo de Portugal 
com a Hespanha não provenha das separações de 
território, nem de instituições religiosas, politicas 
ou sociaes differentesi ha um instincto latente na 
raça, que lhe ditou este rifão, que é uma synthese : 

De Hespanha^ nem vento, 
Nem casamento. 

Ao que o Ibero, preponderante pelo numero, cor- 
responde com um desdém significativo, porque co- 
bre a sua impotência: 

Portugueses poços, 
Y esses — locos. 

Essa loucura era revelada pelo nosso instincto de 
raça, o génio das expedições marítimas, com que 
desvendámos o Mar Tenebroso, e pelo Sonho do 
Quinto Império do mundo por um Soter, ou salvador 
da nossa nacionalidade depois de bem aniquilada, o 



* La Espafia moderna, de i de Septembro de 1900. 



POPULAR PORTUGLEZA 219 



qual na Edade media já apparecera na lenda religiosa 
de San Thiago, n*esse fragmento da Lusitânia — a 
Galliza. 

Estudada rapidamente a Poesia popular da Galliza, 
em vista d esta unidade ethnica, pode-se hoje avan- 
çar mais, graças ás investigações da Colleecion de los 
Romances que se cantan por Asturianos, de D. Juan 
Menendez Pidal, publicada em 1885. 

Menendez Pidal descreve o estado da tradição poé- 
tica das Astúrias, explicando a sua conservação : «Iso« 
ladas as Astúrias do resto da Peninsula por dilatadas 
cordilheiras de montanhas, guardou incólume a sua 
independência em outros séculos, como até hoje tra- 
ços característicos de passadas civilisações e usos de 
outras edades. — Quem visitar qualquer das nossas 
aldeias mais remotas, julgará achar-se ainda em plena 
Edade media : . . . ouvirá fallar a rude e incipiente 
lingua de Berceo e de Segura ; verá os visinhos con- 
vocados á campa tangida reunirem-se em Concelho 
para tratar do procommum ; e ouvirá resoar por ca- 
nadas e valles canções romanescas, e agitar-se a tra- 
dicional Panza em roda da bysantina egreja no dia 
do santo patrono. — Não é para admirar que um povo 
como este, agarrado a vetustos costumes e isento do 
influxo das correntes novas . . . conserve em sua me- 
moria muitos dos velhos cantares, eccos longínquos 
de outras eras... Ainda hoje sgam na bocca dos 
nossos montanhezes. O labrego no tempo das segas, 
volta para casa a cantar guiando a valente junta ; e 
emquanto o carro chia com monótono e prolongado 
guincho sob o peso da erva cheirosa, elle com a 
aguilhada ao hombro, e a alma embalada em gra- 
tas lembranças, entoa os amores de Gerineldos e da 
Infanta, ao som da Bemdita Madalena. A velha de 
carnes duras canta a meia voz emquanto atiça o fogo 
da lareira, a dolorida historia da Delgadina, que morre 



220 HISTORIA DA POESIA 



de sede, preisa etn uma torre de seu perverso pae. 
O pastor, que ao pôr do sol recolhe dos sombrios re- 
côncavos do monte, anima a infinita calma do cre- 
púsculo com a monótona cantoria de El galan (Testa 
villa; e moços e moças em ruidosas esfoyazas, 
quando arrancam a dourada espiga do milho, ou 
em nocturnas fiadas, emquanto a neve cobre veigas 
e congostas, e o vento assobia pela chaminé, con- 
certam em robusto coro o romance do Conde Ftor, 
ou o que relata a precoce viuvez da innocente Dtma 
Alda,^ * Que o dialecto bable ou popular fosse sub 
stituido pelo castelhano nos cantos tradicionaes, e 
mesmo que velhos themas históricos da época da 
reconquista se tenham obliterado na transmissão oral, 
em nada isso prejudica a reconstrucção das formas 
poéticas primitivas da região galecio-asturoportu- 
gueza. 

Menendez Pidal apresenta um cantar lyrico coUi- 
gido de uma velha de outenta annos, na comarca 
de Grado, que conserva a forma da Muiheira, con- 
siderado já singular «por la metrificacion desusada que 
en él se emplea» : 

— Ay, probe Xuana de cuerpo garrido ! 
Ay, probe Xuana de cuerpo galano ! 

Donde le dexas ai tu buen amigo ? 

Donde lo dexas ai tu buen amado ? 

«cMuerto lo dexo á la orilla dei rio ; 
Muerto lo dexo á la orilla dei vado ! 

— Cuánto me das volverételo vivo ? 
Cuánto me das volverételo sano ? 



«Doyte las armas y doyte el rocino, 
Doyte las armas y doyte el caballo. 



1 VUfos R<tmances, p. ix 



POPULAR PORTUGUEZA 221 



— No he menester ni armas ni rocino, 
No he menester ni armas ni caballo. . . 

Cuánto me dás volverételo vivo, 
Cuánto me dás volverételo sano ? ^ 

A forma lyrica decahindo do uso dava logar a 
uma maãOT vitalidade na forma narrativa ou épica, 
sustentada pelo estimulo da celebrada Danza prima, 
carateristica das Astúrias. E' no romance que acom- 
panha essa dansa, que se observa a repetição do 
mesmo verso alterando a palavra final, para asso- 
nantar alternadamente as vogaes tónicas ; constitue 
o género de Estavillar, designação tomada do ro- 

mence : 

— Ay ! un galan d'esta villa, 
ay ! un galan doesta casa, 
ay ! él por aqui vénia, 
ay ! él por aqui llegaba. 

Ay ! diga lo qu'él queria, 
ay ! diga lo qu'él buscaba. 
«Ay ! busco la blanca nina, 
ay ! busco la nina blanca ; 
que tiene voz delgadina, 
que tiene la voz. delgada ; 
la que él cabello tejia, 
la que él cabello trenzaba. 
— Ay l trenzadicos traía, 
ay ! trenzadicos llevaba ? 
ay ! que non Thay n'esta villa, 
ay ! que non Thay n'esta casa ; 
smon era una mi prima, 
sinon era una mi hermana, 
ay ! de mando pedida, 
ay ! de marido velada . . . 
Ay ! bien qu'ora la castiga, 
ay ! bien qu'ora la castigaba 
ay ! cpn varas las d'oliva, 
ay ! côn varas las de malva ! . . . 



1 Romances asturianos^ p. 245. Pela repetição dos primeiros dois 
versos ou Refrem, desenvolve-se largamente a canção. 



222 HISTORIA DA POESIA 



O romance é extensissimo, porque o seu elemento 
narrativo prolonga-se com a Danza, que o cadenceia 
entre dois grupos. Menendez Pidal diz, que é o Ro- 
mance mais vulgarisado nas Astúrias, o mais exten- 
so, e ao entoal-o chamam estavillar: c Chamaremos 
a attençdo para a forma estranha d'este popularís- 
simo romance, que oíferece a dupla assonancia com- 
binada em monorrimos alternos, de egual maneira 
como se enlaçáramos os pés assonantados dos distin- 
ctos romances, collocando invariavelmente um de 
cada qual em continuação do outro. Ordinariamente 
um verso leva em si a palavra que hade servir de 
assonante ao que segue ; de sorte que a maior parte 
das vezes se repete o conceito enunciado anterior- 
mente com a simples alteração da ordem dos vocá- 
bulos. Esta original estructura adapta-se perfeitamente 
á íórma dicdogada, que predomina na composição, e 
ao processo que empregam na sua recitação : divi- 
didos em dois coros honiens e mulheres^ formam uma 
espécie de dança hebrêa, entoando uns um verso e 
replicando outros com o seguinte.» * Menendez Pi- 
dal descreve esta dança inseparável do Romance : 
fUsa-se desde a antiguidade nas Astúrias, á qual 
chamam Dama prima, cujo nome indica bem clara- 
mente quão remota é a sua origem. Assim o reve- 
lam a sua forma circular, a pratica constante de acom- 
panhar os passos com heróicos cantares, os apellidos 
sagrados e guerreiros em que prorompem os que to- 
mam parte n'ella, . . . Nos dias festivos, religiosos ou 
civicos, em roda da monumental egreja, ou em noi- 
tes de verão, ao luar, e diante das portas das casas, 
formam um corro homens e mulheres de todas as 
condições e nascimento, travadas as mãos pelo dedo 
minimo, que estas tem cingido com um áro de prata 



* íbi, p. 30Í ; nota ao n.o xxx. 



POPULAR PORTUGUEZA 223 

em que tem engastado o mysterioso alicornio, su- 
stentando o homem erguido, entre os dedos da mão 
direita que ficam livres, o páo curto e nodoso eriçado 
de cravos romanos á maneira de maça de combate. 
Ao gemebundo ecco da gaita céltica move-se a dança 
da esquerda para a direita com andar quieto e pau- 
sado, adiantando priiiieiramente os dançadores um 
com o pé direito e retrocedendo dois. A este mo- 
vimento de vae-vem acompanha um outro egual do 
corpo e dos braços que estendem e deixam cair á 
uma com os regulados tempos da marcha ; é então 
que tem que ver os cacetes volverem sem trégua 
produzindo o efifeito de uma selva de lanças que se 
agita. Um homem e uma mulher, geralmente os mais 
antigos, guiam a dansa, dizendo em concertado som 
alguns dos Romances proverbiaes, cuja toada é bas- 
tante parecida com o canto litúrgico; e a cada um 
dos versos que repetem, exclama o Coro uma d es- 
tas differentes invocações religiosas, conforme o aso- 
nante : — Valha-me San Pedro I — Nossa Senhora me 
valha ! — A bemdita Madalena I 

«Nos compassos do silencio não se ouve mais que 
o monótono rumor das pisadas, interrompidas de vez 
em quando pelo selvagem e druidico ki-ju-ju (o ri- 
flido^ em Santander ; o atrujo gallego, e irrinzi das 
Vascongadas) a que seguem os vivorios dos moços 
pertencentes a diversos concelhos, que excitam a ri- 
validade acclamando aquelle de que são naturaes me- 
nosprezando os outros. Os apellidos tradicionaes cos- 
tumam ser Vwa Provia í Muera Pilatía! ou vice- 
versa, povos que por significação histórica reprensen- 
tam os bandos e antagonismos do paiz em épocas pas- 
sadas.» * Pilotía é Covadonga, ponto em que come- 



1 Ib., p. 65. 



224 HSTORIA DA POESIA 



çou a reconquista neo-gothica, e Provia era a corte 
quando a realeza se estabeleceu em Cangas de Onis ; 
em Oviedo como ponto central, é que acabou a ri- 
validade, que. ainda se expressa na tradição popular. 
Os geographos e historiadores antigos e ainda os 
poetas descrevem estas dansas dos povos hispâni- 
cos, taes como Diodoro Siculo e Silio Itálico ; es- 
creve D. Joaquin Costa: «folgava a juventude em 
cantar os seus romances acompanhados de vistosas 
dansas guerreiras, das quaes pôde formar uma ideia 
quem tenha presenciado as Dances das montanhas de 
Aragão, a MuiHeira gallega e a Dahsa prima de 
Astúrias, que perpetuam a tradição daquelle tempo. 
Diodoro diz-nos, que os Lusitanos executam uma dan- 
sa ligeira, que exige grande agilidade de pernas ; po- 
rém Silio descreve-a com detalhes referindo-se á ju- 
ventude gallega que acompanhou Annibal á Itália ; ora 
proferem (ladram) cantares bárbaros em sua lingua 
pátria, ora batem no chão com os pés, avançando 
e retrocedendo alternativamente, e marcando o com- 
passo com os escudos que se entrechocam. (Pun., iii, 
353) — Em muitos logares das Astúrias dançam os 
homens sós, separados das mulheres, como os antigos 
Lusitanos e Gallegos; em outros dansam intercalados 
homens e mulheres, como na Bastetania (Strab., iii, 
I, 6) ; em outros tempos formavam as mulheres a sua 
roda dentro da roda dos homens. —Mui semelhante 
é o modo de cantar os Romances (hoje cavalheires- 
cos, geralmente) no Pyreneo do Aragão; emquanto 
ás Dances aragònezas e Espatadantzas (dansa de es- 
padas) vascongadas, recordam a pyrrica ou dansa 
com armas, que os gregos remontavam aos tempos 
fabulosos, attribuindo a invenção aos Curetes ou aos 
Dioscuros.» * A Danza prima dura duas ou três ho- 



* La Poesia popular espaHola^ p. 40 1. 



POPULAR PORTUGUEZA 225 



ras, em que se vão recitando romances ; e termina 
por um simulacro de batalha, que ás vezes se torna 
perigoso pelas rivalidades locaes que aproveitam a oc- 
casião de se manifestarem. 

£m Portugal temos um antiquissimo Romance in- 
titulado do Figueiral, em verso quinario, e com as 
vogaes differentes nas assonancias ; é um vestigio fra- 
gmentário separado da dança a que fora primitiva- 
mente cantado. E' importante o facto, mas não é 
menos significativa a persistência ainda hoje d'essa for- 
ma métrica nos cantos populares contemporâneos, 
em Portugal. 

No estylo das cantigas de Estavillar são essas de 
Rebordainhos (Moncorvo) em que ha a repetição do 
verso variando as vogaes; tem um pé de cantiga re- 
petido por dois grupos: 

CÔBO : Pela manhaninba, manhã, 

Pela manhã. 

HoMSNs: « Pela mananinha do ser. 
MuiiHBBSs : — Pela mananinha de olhar, 
« Pela mananinha de o Abril, 

— Pela mananinha de o Natal, 
«c Cum tendeiro me quero ir^ 

— Com um tendeiro me quero andar, 
« Emquanto dinheiro lhe sentir, 

— Emquanto dinheiro levar. 



a Inda leva um ceitil. 

— Inda leva um real. 

« Em não no tendo heide fugir-lhe, 

— Em não no tendo heide-o deixar. 

O refrem repete-se entre cada verso, para acom- 
panhar a dança dos dois grupos. Ao mesmo género 
de Estavillar pertence esse outro canto de Rebor- 
dainhos : 

Poes. popul. i3 



226 HISTORIA DA POESIA 



CÔRO : Na ribeirinha, ribeira, 
N*aquella ribeira. 

HoHENs: « Anda lá um peixinho vivo, 
Mulheres : — Anda lá um peixinho bravo. 
« Vamol-o caçar, meu amigo, 

— Vamol-o caçar, meu amado; 
« Comeremol-o cosido, 

— Comeremol-o assado, 

« Com bocado de pSo trigo, 

— C*um bocado de pão alvo ; 

« C*um canabarro de bom vinho tinto^ 

— Cum canabarro de bom vinho claro, 
« Para mim e para o meu amigo, 

— PVa mim e pr*o meu amado. 

A Cantiga da Raposa é nos mesmos moldes as- 
turianos e primitivos: 

Coro : Ferrungando se vae a raposa. 

Ora vae ferrungando. 

Homens : « Ferrungando se vae pela villa, 
Mulheres: — Ferrungando se vae pela praça, 
« Na bocca leva uma pita, 

— Na bocca leva uma pata. 

Cl Raposa, deixa a minha pita, 

— Raposa deixa a minha pata. 
« Antes deixarei a pellica, 

— Antes deixarei a samarra, 

« Que deixar tão gorda pita, 

— Que deixar tão gorda pata. ^ 

Vejamos agora a forma narrativa ou épica ; o ro- 



1 Annuario para \o estudo das Tradições por tuguezas, p. 21 a 23. 
Leite de Vasconcellos não lhe fixou a forma estrophica. No Can- 
ciontro Gallego, de Ballesteros (t. i, p. xxix a xxxm) demos-lhe 
a fórma da MuiUeira^ reunindo em parelhas os versos da mesma 
vo^al ; sem o sabermos então, tirámos-lhe o seu caracter de Es- 
tavillar, mais primitivo, mas d'esse erro resulta o ver-se comumo a 
canção se converte adaptando-se a outra dansa. 



POPULAR PORTUGUEZA 227 



mance do Figueiral, que foi transcripto de um Can- 
cioneiro do século XV, liga-se pela sua estructura a 
este fundo ethnico, considerando o seu thema my- 
thico do rapto das donzellas particularisado em uma 
lenda da sociedade mosarabe explorada na creduli- 
dade popular pela contribuição exigida pelos Votos 
de San Thiago, Não procuramos como as nymphas 
Hespérides, da tradição clássica, presas pelo Dragão 
se convertem nas donzellas do tributo que Aurélio 
e Mauregato pagavam aos sarracenos ; a estructura 
poética do romance, genuinamente popular, é que se 
torna um verdadeiro documento ethnico. Transcreve- 
mos aqui o romance, tal como Ribeiro dos Santos 
o trasladou do Cancioneiro manuscripto do Dr. Gual- 
ter Antunes : 



CÔBO : No figueiral figueiredo, 
A no figueiral entrei ; 

Homens: — Seis ninas encontrara, 
Mtjlhebes: « Seis ninhas encontrei ; 

— Para ellas andara, 
« Para ellas andei ; 

— Lhoraiido as achara, 
« Lhorando as achei ; 

— Logo lhes pescudara 
• Logo lhes pescudei, 

— Quem las maltratara 
c Y a tão mala ley. 

CÔBO : No figueiral figueiredo, 
A no figueiral entrei. 

— Uma repricara : 

« Infanção, nom sei. 
Mal houvesse la terra 

Que tene o marRey. 
S'eu las armas usara 

Y a mi fee nom sei 



2 28 HISTORIA DA POESIA 



Se hombre a min levara 

De tão mala ley. 
A Deus vos vayades, 

Garçon, cá rom sey 
Se onde me fallades 

Mais vos fallarei. 

No figueíral figueiredo, 
A no figueiral entrei ! 

— Eu lhe repricara : 

A mi fee, nom irey, 
Ca olhos d'essa cara 

Caros los comprarey. 
A las longas terras 

En traz vós me irey ; 
Las compridas vias 

Eu las andarei ; 
Língoa d^aravias 

Eu las fallarejr ; 
Mouros se me visse 

Eu los matarei. 

No figueiral figueiredo, 
A no figueiral entrei. 

— Mouro que las guarda 

Cerca lo achey ; 
MhI la ameaçara 

Eu mal mer-anogey. 
Troncom desgalhara, 

Troncom desgalhei ; 
Todolos machucara, 

Todolos machuquey ; 
Las ninas furtara, 

Las ninas furtey ; 
La que a mi fallara 

N'alma la chantey. 

No figueiral figueiredo 
A no figueiral entrei. 

Do Cancioneiro do Conde de Marialva, do sé- 
culo XV, extraiu D. Mariano Soriano Fuertes esta le- 



POPULAR PORTUGUEZA 229 



tra com a musica, que transcreveu na sua Historia 
de la Musica en. Esparía ; temos pois a letra poética 
e a musica, mas nenhum vestígio nos indica a dansa 
a que se entoava. Na tradição popular da Galliza ha 
apenas a lenda oral de Peito burdello ou de Vai 
Z)oncel, ligada ás tradições heráldicas do solar dos 
Kigueirôas. A obliteração destes três elementos ge- 
nerativos Poesia, Musica e Dansa faz-se diversamente: 
ás vezes conserva-se a menção do acto; assim nas 
recitações das narrativas épicas, em que se apaga a 
melopêa contínua, a dansa resume se em um ba- 
lanço cadenciado, como se usa na Finlândia com as 
runot da grande Epopêa do Kalevala, como de- 
screve Léozon Le Duc: fPara cantarem os seus ru- 
not os bardos filandezes escarrancham-se sobre um 
banco dous a dous, em frente um do outro, ambos 
de mãos dadas bamboando-se pausadamente na di- 
recção horisontal. Um dos dois começa cantando uma 
estrophe, que o outro repete, dizendo depois a sua, 
que o primeiro repete a seu turno, e assim por dian- 
. te, emquanto dura o canto, isto é, muitas vezes dias 
e noites inteiras.» * Não nos pode ser indifferente 
este facto, quando se reconhece hoje a relação do 
elemento anthropologico Samo-lassed, lapo-finnico, 
com o ligurico. No Romanceiro asturiano e no por- 
tuguez encontram-se muitos vestígios de uma alter- 
nância de assonantes, que revelam essa primitiva rela- 
ção com a Dança e Canto dialogico : 



Yendo yo cuestas abajo. 

volviera cuestas arriba. . . 
No me nie^ue la verdad, 

no me diga la mentira. 

(Pidal, op, cit p. 81.) 



1 KaUvala p. 2, nota 2. Trad. íranceza. 



23o HISTORIA DA POESIA 



En poder de Moros vá, 

en poder de Moros iba, 
En poder de Moros vá 

la esposa de Don Garcia. 

Dios la guarde, la mi madre, 
Dios la guarde, madre mia,. . . 

(Ib. p. 132.) 

Alia arriba en aquel monte, 

alia en ac^^uella montina, 
Do cae la nieve a copos, 

y el agua muy menudina. . . 

(Ib,, p. 156.) 

Dona Carolina Michaélis, liga um interesse extraor- 
dinario a esta alternância dos assonantes, sobre o que 
funda uma theoria sobre a formação dos Romances : 
cque o parallelismo foi primitivamente completo, e 
que dois grupos de pessoas que cantavam, alterna- 
tivamente uma espécie de canto amebeo, acompa- 
nhado das evoluções da dança, um se servia do texto 
em ia, emquanto o outro empregava os versos em 
ara (ou ar e ara, etc) repetindo quasi com as mes- 
mas palavras as ideias enunciadas pelo primeiro grupo. 
E' claro que n'este caso o parallelismo (de que ha 
restos em muitos Romances) e a alternância entre as 
duas rimas devia abranger todo o romance construi- 
do, se a minha hypothese tiver fundamento, sobre 
o typo seguinte : 

— Por sua bocca dizia 
«Por sua bocca fallava : 
— Esta agua benta fica, 
«Esta agua fica sagrada. 

(Vasc, Rom. ni.) 

«Este antiquissimo e interessante typo, represen- 
tado nas Astúrias pelo celebre texto : Ay ! un galan 
desta villa, e Ay, Juana, cuerpo garrido, recolhido 



POPULAR PORTUGUEZA 23 1 



ena Portugal da tradição popular pelos trovadores da 
•corte de Dom Diniz nos séculos xiii e xiv, e apro- 
veitado para bailados e cantigas palacianas, e imi- 
tado nos séculos xv e xvi pelos músicos das capei- 
las reaes e por Gil Vicente, admitte e merece um 
estudo mais amplo ...» * Encontramos uma imitação 
lyrica jogralesca d'esta forma de estaifillar em uma 
canção do Pêro da Ponte, n.** 567: 

Se eu podesse desamar 

A quem me sempre desamou, 

E podesse algum bem buscar 

A quem me sempre mal buscou. . . 

A tíieoria da alternância contínua na formação do 
Romance cantado por dansantes, verifica-se pela fa- 
cilidade com que qualquer romance oral recitado se 
pôde ampliar estavillando, como se diz nas Astúrias. 
Apresentamos aqui um Romance colligido na ilha de 
San Jorge (Açores) que se liga com as tradições scan- 
dinavas do cyclo poético de Sigurd; os versos com 
o traço — são de proveniência oral, os versos com 
« são os estabulados: 

ROMANCE DE SIGURD 

— Eu bem quizera, senhora, 
«Senhora, bem quereria, 
Um dia fallar com ella, 

— Com ella fallar um dia. 
Isso como pode ser ? 
«Como é que pode ser isso ? 
Se na sala aonde passo, 

— Se na salla aonde assisto, 
«Estariam cinco guardas 

— Cinco guardas estariam ? 
A primeita guarda era 

«A primeira guarda seria 



^ Revista lusitana^ vol. n, p, 215. 



232 HISTORIA DA POESIA 



Um rio cjue bem corre 

— Um rio que bem corria I 
A segunda guarda era 

«A segunda guarda seria 
Uma parida leoa 
— Uma leoa parida ! 
A terceira guarda era 
«A terceira guarda seria 
Uma garrida campana 
— Uma campana garrida I 
A quarta guarda era 
aA quarta guarda seria 
Um velho que nunca dorme 

— Um velho que não dormia. 
E a quinta guarda era 

«A quinta guarda seria 
Dous manos que eu tenho 
•^Os dous manos que eu tinha ! 

Com todos, minha senhora, 
«Com todos,, senhora minha, 
Eu me havia com todos, 

— Com todos eu me haveria ! 
Esse rio que bem corre, 

«O rio que bem corria. 
Eu o passaria a nado 

— Eu a nado o passaria! 
«Essa parida leoa 

— Essa leoa parida. 
«Dava-lhe pão que comer, 

— Dava-lhe pão que comia I 
«Essa garrida campana, 

— Essa campana garrida, 
«Em agua fria a mettera, 

— Mettera a em agua fria ! 
Esse velho que não dorme, 
«O velho que não dormia 
Eu bjsm o adormentara, 

— Eu o adormentaria I ^ . 
E esses dois manos vossos, 

«Dois manos vossos que tinhas, 
Eu dormiria com elles, 

— Eu com elles dormiria ! 

No romance popular asturiano El Penitente^ em 



POPULAR PORTUGUEZA 233 



que se narra o arrependimento do ultimo rei godo 
D. Rodrigo, vem: 

Y dale de penitencia 
conforme le merecia. 
Metirialo en una tumba 
donde una serpientt habia 
c^ue daba espanto de veria, 
siete cabezas tenia . . . 

Menendez Pidal observa sobre esta circumstancia: 
«la dura penitencia de que se encierre con una cu- 
lebra viva en un sepulcro, para lograr asi purificarse 
de sus culpas, trasunto acaso de Gunnar, nos Eddas, 
que é atirado a um poço cheio de serpentes, de cujo 
ataque se livra por algum tempo tocando harpa, fas- 
cinando-as com os seus sons ; por fim uma morde- 
Ihe o coração.» * Já vimos como o bastão runico é 
apontado inconscientemente nos romances açorianos 
da Pobre viuva e de Flor Bella, Não se encontra 
na tradição continental esse Romance açoriano de Si- 
gurd, mas acha-se em outro que pertence ao mesmo 
cyclo, que se intitula El Convito, nas Astúrias, e Ju- 
liana e Jorge em Portugal. Sigurd, segundo a tra- 
dição épica do Edda, esquece-se de Brunhilde com 
quem estava para casar, por efíeito de uma bebida 
magica que lhe deu a mãe de Gudruna (Gudrianay 
na versão da Catalunha), com a qual elle depois casa. 
Como o Jorge dos romances insulano e brasileiro, 
Sigurd também tem um cavallo, Granni, que atra- 
vessa o fogo. Não é forçada a approximação ; os 
dois irmãos de Gudruna, são os que apparecem no 
romance popular da ilha de San Jorge, Gunnar e Ho- 
gni. Este thema tradicional trazido para a peninsula 



* Vi^os Romances que se cantan por los Asturianos^ p. 280. 



234 HISTORIA DA POESIA 



na época das invasões scandinavas, pelos seus nume- 
rosos paradigmas europeus leva-nos á unidade do sub- 
stratum ethnoiogico, e também ao seu sentido my- 
thico. Apresentamos em primeiro logar a versão da 
Catalunha, * pela circumstancia de nos precisar o 
thema tradicional, aproximando depois a versão as- 
turiana das portuguezas : 

LA INNOBLE VENGANZA (vtrsão da Catçtlunha) 

Aqui esta la Gudriana 
En soa jardi delicado, 
Cullintne lindas íloretas 
Per su lindo enamorado. 
Mientras las estay cullendo 
Don Guespo n'es arribado. 
* 

— Deu la guart, la Gudriana ! 
«Don Guespo ben arribado. 

— Domingo en som de bodas; 
Aqui vincn a convidaria. 

' «Que se senti ac^ui, Don Guespo, 

En esta pedra picada, 
Tomará un bocadito 
Y en beurá una vegada. 

Quant Don Guespo ho que begut 
Ya no veya el seu caballo. 

— Qué m*as dat la Gudriana, 
Que no veo mi caballo i 
«L*hi dada una medicina 

Qu* el Doctó no rha ordenado. 

— Si tingués pape y tintero 
Per escriure una carta 

A la triste de mi madre 
Que no'm veurá torna á casa. 



1 Escreve Mafioz y Romero : «A reconquista attrae á Catalu- 
nha frankos e godos, e a população augmenta continuamente com 
os Mosarabes^ que se vão libertando do jugo sarraceno. • {Discurso 
na recepção da Acad., p. ii.) RomanceriUo^catalan^ n.o 256. 



POPULAR PORTUGUEZA 235 



A* diez horas de la noche 
Guespp maio yá n*estaba, 
A las doce de la noche 
Guespo muriendo ya n'estaba; 
La punta de Talba clara 
Guespo enterrado estaba; 
Ya portan la Gudriana 
Que Tanavan á cremaria. 

EL CONVITE (versão das Astúrias) 

— Vengo brindado. Mariana, 
Para una boda el domingo . . . 
«Esa boda, Don Alonso, 
Debiera ser conmigo. 

— Non es conmigo. Mariana, 
Es con un hermano mio. 
«Siéntate aqui, Don Alonso, 
En este escafio florido, 
Que me lo dejó mi padre 
Para el que case conmigo. 

Se sentara Don Alonso, 
Presto se quedo dormido; 
Mariana, como discreta, 
Se fué á su jardin ílorido. 
Três onzas de soliman 
Cuatro de acero molido, 
La sangre de três culebras, 
La piei de um lagarto vivo, 
Y la espinilla dei sapo. 
Todo se lo echó en el vino. 

«Bebe vino, Don Alonso, 
Don Alonso, bebe vino. 
— Bebe primero. Mariana, 
Que así está puesto en estilo. 

Mariana, como discreta, 
Por el pecho lo ha vertido ; 
Don Alonso, como joven 
Todo el vino se ha bebido. 
Con la fuerza dei veneno 
Los dientes se le han caido. 




236 HISTORIA DA POESIA 



— Que es esto, Mariana ? 
Que es esto aue tiene el vino ? 
tTres onzas ae soliman, 
Cuatro de acero roolido, 

La sangre de três culebras, 
La piei de un, lagarto vivo, 

Y la espinilla dei sapo 
Para robarte el sentido. 

— Sáname, buena Mariana, 
Que me casaré contigo. 
«No puede ser, Don Alonso, 
Que el corazon te ha partido. 

— Adios, esposa dei alma, 
Presto quedas sin marido; 
Adios, padres de mi vida. 
Presto quedaron sin hijo. 
Guando salí de mi casa 
Salí en un caballo pio, 

Y ahora voy para la iglesia 
En una cajá de pino. 

Menendez Pidal nos Viéjos Romances asturiamos 
traz dois versos encontrados em um Romance glo- 
sado e desconhecido nas collecções castelhanas: 

Qué me distes, Moriana, 
Qué me distes en el vino ? * 

E' o vestígio do romance obliterado na tradição 
castelhana; a versão portugueza de Traz-os-Montes 
está também em um laconismo de dissolução : 

DONA AUSÊNCIA (versão do Campo das Vinhas) 

«Apeia-te, oh cavalleiro, 
Vamos d'ahi merendar. 
— Tu que tens, oh Dona Ausência, 
Guardado para me dar ? 



1 Na collecçâo dos Pliegos sueltos da bibliotheca de Praga, publi- 
cada porWolf. 1850. 



POPULAR POKTUGUEZA 237 



«Tenho vinho de ha*sete annos, 
Se será muito guardar . . . 

— Dona Ausência, Dona Ausência, 
Que botaste a este vinho ? 

aEu botei-lhe resalgar > 
£ pós de lagarto moido. 

— Oh meus filhos, sem ter pae, 
Minha mulher sim marido ! 
Triste de ti, Dona Ausência, 
Co'o teu credito perdido. * 

JULIANA (versão da ilha de S. Miguel/ 

«Deus te salve, Juliana, 
Sentada no teu estrado ! 
— Deus te salve a ti, D. Jorge, 
Em cima do teu cavalio ! 
lEu venho te convidar 
Se queres ir ao meu noivado ? 
— Espera-me ahi, D. Jorge, 
£spera-me um bocadinho, 
Emquanto te vou buscar 
Uma taça com bom vinho. 

«Que me deste, Juhana, 
N'esta taça com bom vinho ^ 
Que tenho o freio na mão, 
Nãò enxergo o cavallinho ? 

— Ahi servirá de exemplo 
A quem o quizer tomar ; 
Quem deve as honras alheias 
Comsigo irá pagar. 
«Já minha madre o sabe 
Que nio tem o seu menino ! 
— ^Já mia madre o sabe 
Que eu não tenho meu marido 



^ L. Vasc, Roni.^ n. viL 



238 HSTORIA DA POESIA 



JULIANA (bersão de Pernambuco) 

— Deus vos salve, Juliana, 
No teu estrado assentada. 
«Deus vos salve, rei Dom Joca, 
No teu cavallo montado. 
Rei Dom Joca, me contaram 
Que tu estavas pVa casar ? 

— Quem t'o disse, Juliana, 
Fez bem em te desenganar. 
«Rei Dom Joca, se casares, 
Tornae ao bem querer, 
Poderás enviuvar 

E tornar ao meu poder. 

— Eu ainda que enviuve, 
E que torne enviuvar. 
Acho mais fácil morrer. 
Do que comtigo casar. 
«Espera ahi, meu Dom Joca, 
Deixa subir meu sobrado, 
Vou ver um copo de vinho, 
Que p'ra ti tenho guardado. 
— Juhana, eu te peço 

Que não fdças falsidade, 
Vejaes que somos parentes, 
Prima minha da minha alma. 

«Que me deste, Juliana, 
N*este copinho de vinho. 
Que estou co'a rédea na mão, 
Não conheço o meu caminho ? 
A minha mãe bem cuidava 
Que tinha o seu filho vivo ! 
«A minha também cuidava 
Que tu casavas commigo. 

— Oh meu pae, senhora mãe. 
Me bote a sua benção. 
Abrace bem apertado 

O meu maninho João. 
Meu pae, senhora mãe. 
Me bote a sua benção; 
Lembmnças á Dona Maria 
Também á Dona Cellerencia. 



i 



POPULAR PORTUGUEZA 2^^ 



A minha alma entrego a Deus», 
O corpo á terra fria, 
A fazenda e o dmheiro 
Entregue a Dona Maria, 
y— aCale a bocca, meu Dom Joca 
Ponde o coração em Deus, 
Que este copo de veneno 
Quem te hade vingar sou eu. 
Já acabou- se, já acabou-se, 
Oh flor de Alexandria ! 
Com quem casará agora 
Aquella moça Maria ? 
Já acabou-se, já acabou se. 
Já acabou se, )á deu íim, 
Nossa Senhora da Guia 
Queira-se lembrar de mim. 

(Versão do Ceará) 

Dom Jorge se namorava 
D'uma mocinha mui bella; 
Pois que apanhando servido 
Ousou logo de ausentar-se, 
Em procura de outra moça 
Para com ella casar. 
Juliana que isto soube 
Pegou logo a chorar; 
A mãe lhe perguntoi : 

— De que choras, minha filha ? 
«£' Dom Jorge, minha mãe, 
Que com outra vae casar. 

— Bem te disse, Juliana, i 
Que em homens não te fiasses; i 
Não era dos primeiros \ 
Que as mulheres enganasse. J 

— cDeus te salve, Juliana, 
No teu sobrado assentada 1 
«Deus te salve, rei Dom Jorge, 
No teu cavallo montado. 
Ouvi dizer, rei Dom Jorge, 
Que estavas para casar t 

— «E* verdade, Juliana, 
Já te vinha desenganar. 




240 HISTORIA DA POESIA 



«Esperae, rei Dom Jorge, 
Deixa eu subir a sobrado; 
Deixa buscar um copinho 
Que tenho pVa ti guardado. 

— «Eu lhe peço. Juliana, 
Que Dão haja falsidade; 
Olhe que somos parentes, 
Prima minha da minha alma. 
«Eu lhe juro por minha mãe, 
Pelo Deus que nos creou. 
Que rei Dom Jorge não logra 
Esse seu novo amor. 

— «Que me deitas, Juliana, 
N'este seu copo de vinho í 
Estou com as rédeas nas mâos' 
Não enxergo meu rucinho ? 

Ai, que é de meu paesinho ? 
Por elle pergunto eu ? 
Eu morro, é de veneno 
Que Juliana me deu. 

— Morra, morra o meu filhinho, 
Morra contrito com Deus, 
Que a morte que te fizeram 
Ella quem vinga sou eu. 

— «Valha me Deus do céo. 
Que estou com uma grande dor; 
A maior pena que leva 

E' não ver meu novo amor. 

Nos Cantos populares da Ukrania, colligidos por 
Chodakowski, e publicados em 1854 em Moscow por 
Maximowicz, encontra se uma duma, ou narrativa 
tradicional, cujo thema é em tudo similhante ao ro- 
mance portuguez de Juliana e yorge. Transcreve- 
mos da traducção publicada na Revista britânica 
(1845. t. I, pag. 634): 



Ohínãi 



não vás á festa esta noite, 

Gregório, oh Gregório 1 
Ha bruxas entre as raparigas formosas, 
Gregório, oh Gregório 1 



POPULAR PORTUGUEZA 24 1 



Acautella te da de cara trigueira. 

Gregório, oh Gregório I 
Porque ella deita-te o olhado fatal, 

Gregório, oh Gregório ! 
Eiia arrancou a erva ao domingo. 

Ai ! foi para ti, Gregório 1 
Segunda feira de manha lavou -a, 

Ai ! para o Gregório 1 
Na terça feira ferveu a erva venenosa, 

^Ai, para o Gregório ! 
Na quarta a peçonha estava feita, 

Ai ! para o Gregório ! 
Quando na quinta, elle veiu, já não respirava 

Gregório, oh Gregório ! 
Na sexta feira levaram no para a cova, 

Gregório, oh Gregório ! 
A nnãe bateu na nlha, era sabbado, 

Gregório, oh Gregório ! 
— Filha ruim, porque o mataste tu ? 

Gregório, oh Gregório í 
«Mãe, oh mãe, a aílicção não conhece justiça, 

Gregório, oh Gregório ! 
Porque elle fez promessas tingidas a duas raparigas. 

Gregório, oh Gregório ! 
Agora, elle já não pertence nem uma nem a outra, 

Gregório, oh pérfido Gregório ! 
Elle sustenta-se de terra fria e húmida, 

Gregório, oh falso Gregório ! 
Tiveste a paga que mereceste, 

Gregório, falso Gregório ! 
Quatro taboas e um coval estreito e negro, 

Gregório, falso Gregório l 
Que os moços saibam o que os espera, 

Gregório, oh Gregório I 
Quando dão a palavra mentida a duas donzellas, 

Gregório, oh Gregório ! 
Agora a tua sorte é ser pasto dos bichos, 

Gregório, oh Gregório ! 
Emquanto eu vou logrando alegrias da vida, 

Gregório, oh Gregório ! 
Oh judia, vem cá, traze-me o copo de vinho, 

Gregório, oh Gregório, 
Quero entoar o canto funeral do traidor. 

Gregório, oh Gregório !» 

Poe9. popul. i6 



242 HISTORIA DA POESIA 



Na Historia do Liedy ou a Canção popular na 
Allemanha, Edouard Schuré, traz uma bailada de 
origem sueca, intitulada A historia de Olaf, que 
pertence ao mesmo thema tradicional de Juliana e 
Jorge (pag. 106 a ie8) : 

Olaf, de noite pela floresta cavalgava destemido, 
Para o convite da boda; cantarolava divertido. 

Os Elfs, dansando, atravessaram-se-lhe no caminho^ 
E a rainha da selva estendeu-lhe a sua mão branca: 

— Salve, senhor Olafl muito bem vindo seja ! 
NSo foi para dançar commigo que vieste aqui ^ 

fiDansar ? não, eu não posso, não me apetece dansar^ 
A'manhã, ao romper do dia é o meu casamento. 

— Ouve lá, bello Olaf, vem Jansar commigo. 
Tenho duas esporas de ouro destinadas para ti. 

Tenho o mais bello vestido, e o mais rico manto, 
Meus dedos o teceram, e a lua os corou. 

«Dansar ? não, eu não posso, eu não quero dansar, 
A'manhã, ao romper do dia devo estar casado. 

— Ouve lá, bello Olaf, vem dansar commigo. 

No meu verde palácio tenho um montão de ouro para ti. 

«De ti um montão de ouro bem quízera acceitar. 
Mas, por amor de Deus, eu não posso dansar. 

— Pois então, tu recusas-te a dansar commigo ? 
Que sem tardar a morte vá comtigo na garupa. 

Ella levanta o braço e toca-Ihe sobre o coração. 
«Meu Deus, que sinto eu ? Meu Deus, que dor ! 

E depois collocando-o pallido sobre o seu cavallo : 
— Vae dansar amanhã com tua amada no baile. 

E quando elle chegou ao lumiar de seu castello, 
Sua mãe o esperava, e lhe disse logo : 



POPULAR PORTUGUEZA 248 



= Meu filho, o que é que tens ? Filho, metes-me medo. 
Por que trazes os olhos tSo baços; de que é essapallidez.^ 

aSocegue, minha mãe ! minha mãe, não tenha medo, 
Uma Elf das florestas me bateu sobre o coração. 

= Deita-te, filho querido; seja o teu somno socegado, 
A' tua noiva, ai ! o que é que lhe contaremos ? 

«Dizei lhe que eu cavalgo por montes e por valles, 
Que experimento na caça os meus cães e cavallos. 

EUe deitou-se e dormiu. Ao romper da alvorada 
Chegou a noiva, já pelo caminho cantando. 

— «Que é isto ? choraes, mãe ? o que tendes ? dizei-m'o. 
Porque é que o meu amado não está ao pé de ti ? 

= Oh filha, elle cavalga por montes e por valles, 
Experimenta na caça os seus cães e os cavallos. = 

A donzella levantou a coberta bordada a ouro, 
E o senhor Olaf estava ali pálido e morto. 

Nos cantos populares da Escossia, ha um com o 
titulo Lord Randal^ que é o mesmo thema da 7«- 
liana e Jorge: 

— Onde estiveste, lord Randal, meu filho ? Onde é que 
estiveste, meu lindo rapaz. 

«Andei pelo bosque, minha mãe ; fazei-me a cama de- 
pressa, por que venho cansado da caça, e preciso deitar-me. 

— Onde é que jantaste, lord Randal, meu filho ? Onde é 
que jantaste, meu lindo rapaz ? 

«Jantei em casa da minha fiel amada, minha mãe ; arran- 
jae me a cama depressa, por que venho cançado da caça e 
preciso bastante deitar-me. 

— O que é que tu comeste ao jantar, lord Randal, meii 
filho ? Que foi que conieste ao jantar, meu lindo rapaz. 

«Comi enguias cosidas, minha mãe ; arranjae me a cama 
depressa, por que venho cansado da caça e preciso bas- 
tante deitar-me. 

— Que é dos teus cães, lord Randal, meu filho ? Que é 
feito dos teus cães, meu lindo rapaz \ 



244 HISTORIA DA POESIA 



«Elles incharam e morreram, minha mãe ; arran|ae-me a 
cama depressa, por que eu venho cansado da caça, e bem 
preciso deitar-me. 

— Oh ! desconfio que estás envenenado, lord R andai, meu 
filho ? Receio que estejas envenenado, meu lindo rapaz. 

•Oh, sim, eu estou envenenado, minha mãe. Arranjae-me 
a cama depressa, por que estou a arder por dentro, e pre- 
ciso deitar-me. * 

Aproxima-se mais da versão sueca este canto da 
Escossia, Lord William: 

«William era o mais destemido cavalleiro, que a bella Es- 
cossia alimentava ; e, ainda que afamado em França e Hes- 
panha caiu, sob a mão de uma dama. 

Passeava sósinha uma donzella na orla doesta floresta 
sombria, quando ella ouviu telintat umas rédeas ; e desejou 
que este ruido fosse signal de uma aventura feliz. 

« — Vem a meus braços, meu caro William, sê o bem 
vindo na minha casa ; ali terás boa meza, vasta lareira, e 
archotes em barda. 

a — Eu não quero parar, não me atrevo a parar ; não 
quero ir a teus braços : uma donzella mais linda do que tu 
dez vezes espera-me em Castlelaw. 

« — Mais hnda do que eu, Willie ! Donzella mais linda dez 
vezes do que eu, isso nunca viram os teus olhos. 

(ilnclinou-se sobre a sella para abraçal-a antes de partir ; 
e com um punhalsinho muito agudo, ella lhe atravessou o 
peito. 

«—Galopa, galopa, sir William! galopa, crava ambos os 
acicates ; a tua linda menina de Castlelaw desespera por te 
não ver chegar. 

«Então fallou um bello pássaro no alto de uma arvore : — 
Para que mataste este senhor tão nobie ? Elle vinha para 
te desposar. . . . »2 

Também na Bretanha franceza coUigiu o.Dr. Rou- 
lin um romance tradicional sobre este mesmo thema. 



* W alter Scott, Cantos populares das fronteiras meridionaez da 
JSscossia, t. ni, p. 252. Trad. Ârtaud. 

* tb., III, 234. — Bailada Edward^ en Percy, Reliques, 




POPULAR PORTUGUEZA 245 



que J. J. Ampere publicou nas Instructions relati- 
ves au Recueil de Poêsies populaires de la France : 

— J'ai fait un rêve cette nuit 
Que m*amie était morte ; 
Sellez, bridez-moi mon cheval, 
Que j*aiile voir m^amie. 

Son cheval il s'est arrete 
Près d'un buisson de roses; 
De trois Tamant prit le plus beau 
Pour donner à s'amie. 

— Tenez, belie, prenez mon coeur, 
Ce beau bouton de roses ; 

La beir, je viens vous convier 
De venir a mes noces. 
La beir, la beir, si vous m'aimez 
Ne changez pas de robes. 

La première est de satin blanc, 
L'aútre est de satin rose. 
La troisième est de beau drap d*or 
Pour fairVoir qu'elle est noble. 

Du plus loín (]u'on Ia voit venir 
«Voici la manée ! 
=La mariée point ne la suis, 
Je suis Ia delaissée. 

L^amant vient, la prend par la main, 
Et la mène à la danse; 
Après le quatrième tour 
La belle est tombe morte. 

Elle est tombée du côté droít 
L'amant du côté gaúche. 
Tous les gens qui étaient présents 
S'disaient les uns aux antres : 

«Voilà le sort des amoureux 
Qui en épousent d^autres. 

D. Carolina Michaêlis discutindo a versão portu- 
gueza de Traz-os-Montes, indica outros elementos 



24Ô HISTORIA DA POKSiA 



comparativos: «Distingue-se também a parallela sue- 
ca Der Knaò im Rosenhain (germanisada por Moh- 
niche em Wolslieder der Schweden, Berlim, 1830); 
a íórma allemã Die Schlangenkòchin (Wunderhorn, 
16). E entre os representantes turanianos, a finnica, 
admiravelmente imitada pelo poeta inglez Swinburne 
no seu The Bloody Son [Poems and Ballads. Lond. 
1885; o original publicou se em Finnica Velyusmaaja, 
trad. por Schott) e as da Transilvania, dos Szekler, por 
Meltzi. * 

Muitos outros cantos populares das Astúrias appa- 
recém na tradição oral da Extremadura, da Andalu- 
sia e do Algarve; este prolongamento coadjuva por 
si mesmo a procurar a relação ethnica, explicada 
pela extensão da antiga Lusitânia. * 



A creação do Condado portucalense desmembran- 
do-o da Galliza, desde o rio Minho até ao Douro, 
tendendo a alargar as suas fronteiras até ao Mon- 
dego, assegurou a Affonso vi a incorporação caste- 
lhana d'esse estado, enfranquecendo lhe toda a re- 
sistência para recuperar a perdida autonomia, ficando 
desde 1073 reduzida á condição mesquinha de pro- 
vinda. Dividido o Condado portucalense em 1 109, era 



* Garrett, notando na xacara do Cego a phrase : Cego, lo meu 
cego... escreve: «Este é um modo de dizer provinciano bas- 
tante usado do nosso povo em quasi todo o reino. Filho, do meu 
filho ; Madre, la mi madre, etc. occorre em muitas cantigas popu- 
lares, romances e similhantes. Sâo reliquias do antigo asturiano, 
que o nosso dialecto conservou mais do que o castelhano. O mes- 
mo fizeram os nossos visinhos da Galliza. Tem sido tenaz n'estes 
bellos archaismos a poesia do povo ; porque a salva de hiatos, 
que tanto lhe repugnam.» (Rom , ni, p. 180.) 



POPULAR PORTUGUEZA 24'/ 



como um complemento da repressão do movimento 
separatista da Galliza em 981 ; mas este novo ter- 
ritório, apesar da sua exiguidade, era impellido pela 
corrente dos acontecimentos para a aspiração á au- 
i&nomiay no meio das luctas separatistas dos Esta- 
dos peninsulares. A nacionalidade de Portugal con- 
stituída peto filho do Conde Dom Henrique sob a 
forma de monarchia, era a revivescência de uma tra- 
dição lusitana abafada desde a occupação romana, 
e obliterada sob os dominios germânico e árabe. Foi 
esse o movei que coadjuvou a conquista aos sarra- 
cenos de todas os territórios até Lisboa, dando as- 
sim condições de estabilidade ao novo estado. Da 
tomada de Santarém ficou o ecco dos cantos popu- 
lares no refrem da Canção trobadoresca : 



Av sentirígo! ay sentírigol 
Al e Alfanx, e ai sesengo. 



O trovador fa? sentir a antiguidade do refi*em quando 

diz: 

E non sey orne tan entendido 
Que m'o)'entenda o porque digo : 

Ay sentirigo ! ay sentirigo ! 

Al e Alfanxy e ai seserigo ! 



E em outra canção apparece o mesmo refrem já 
mais abreviado : 

Pêro eu vejo aqui trovadores, 
Seííor e lume doestes ollos meus, 
Que troban d'amor por sas senores, 
Non vej'eu aqui trovador, por Deus, 

Que m*oje entenda o porque digo : 

Al e Alfanx e ai seserigo, 

(Trcv, e Cant.^ n.° 1 19 e 120 ) 

Pela victo ia do Campo de Ourique em 1139, o 
reconhecimento da independência do novo estado im- 



248 HISTORIA DA POESIA 

poz-se em I143, terminando toda a suzerania a Cas- 
tella pelo conquista do Algarve por D. Affonso ra. 
A nacionalidade firmada agora no primitivo solo lu- 
sitano» revivescia nas suas qualidades ethnicas; e o 
génio da raça, as expedições maritimas e mercantis, 
das tribus liguricas, apparecia nas expedições do norte 
de Africa sob o governo de D. João i, o eleito da so- 
berania popular, e nos descobrimentos do Mar Te- 
nebroso, com que Portuga! inicia a Era das Desco- 
bertas da America e do caminho marítimo da ín- 
dia. Por este encontro da sua missão histórica, a 
Nacionalidade portugueza transformou o seu territó- 
rio de simples appendice da Hespanha em uma das 
primeiras potencias do mundo. O íusistno contra- 
poz-se ao iberismo, mantendo sempre a autonomia 
portugueza contra a absorpção castelhana. O senti- 
mento nacional era a base da estabilidade portugue- 
za; corrompel-o, obliterai o nas almas era ferir de 
morte este povo, como resultou da pressão catho- 
liça inquisitorial e jesuitica. A tradição era o nexo 
affectivo, que na grande dispersão pelo mundo, dava 
convergência á Pátria portugueza, da qual dizia Ca- 
mões com emoção religiosa: «Esta é a ditosa pá- 
tria minha amada. > D'2ste afferro á tradição escre- 
via Verney, em 1747: «Sei que a maior parte dos 
homens vive mui satisfeita dos estylos e singularida- 
des do seu paiz ; mas não sei se ha quem requinte 
este prejuizo com tanto excesso como os Hespa- 
nhoes e Portuguezes. . .» * O século xviii não com- 
prehendia esta sympathia do povo pela sua tradi- 
ção, mas a ella deve-se a conservação de elemen- 
tos vitaes do passado. Os povos, como diz Augusto 
Comte, necessitam de uma synthese, ou de um sen- 



1 VirdadHro methodo de Estudar ^ t. i, p* 231. 



^ 



POPULAR PORTUGUEZA 249 



timento commum, que lhes dê a consciência da sua 
unidade. Portugal teve esse sentimento intimo, que 
desde a Edade média até hoje o tem separado da 
incorporação hespanhola, máo grado as tentativas 
ibéricas dos seus governantes. Esta faixa territorial 
lusitana ampliando se pelas suas conquistas na Afri- 
ca, pelas descobertas marítimas no Atlântico, Ame- 
rica e Ásia, abriu á humanidade com a posse do 
globo, o inicio da éra pacifica, scientifica e indus- 
trial. A consciência de uma missão histórica, de um 
fim humano, como tiveram Israel e a Grécia, levou este 
povo a embalar-se no sonho do Quinto Império do 
tnunda, um messianismo histórico que alentou Por- 
tugal sob a annexação castelhana. A historia deste 
Povo não é tão explicável pela narrativa dos feitos 
dos seus grandes homens, como pela vitalidade das 
suas tradições, em que se apoia a resistente te- 
nacidade em todos os mtios cósmicos. Foi o povo 
portuguez, que antes do seu Poeta nacional esboçou 
a Epopêa do seu génio marítimo. 

Referindo-se á vulgarisação das tradições troyanas 
e ,das peregrinações de Ulysses na península hispâ- 
nica, escreve Strabão os seguintes factos, que a cri- 
tica moderna esclarece : cNão só na Itália se encon- 
tram passagens d'essas historias, senão íambem na 
ibéria existem mil vestigios de toes expedições, as- 
sim como da guerra de Troya.» (Liv. ni, c. ii, § 12.) * 



* Deniua, no Essài sur ks traces ancUrmts des caracteres des Ita- 
liens^ considera o auctor do poema dos ArgonautcLSy attríbuido ao 
Orpheo nythi:o, como escripto por Orpheo de Crotona ; e que 
em 1787 um litterato italiano c profundamente versado nas anti> 
gnid&des da Itália remota, avançava que a IlUada e a Odyssea fo- 
ram compostas em um d 'estes Collegios pythagoricos de que Po- 
lybio faí menção,» apontando que fora no de Heraclea, junto da 
ribeira de Siris, que corre junto a Tarento. (Op. cit.^ p. 6.) 



25o HISTORIA DA POESIA 



O insigne historiador litterario J. J. Ampere, consi- 
derava o romance popular portuguez da Bella in- 
fanta, ou da volta do Cruzado, como um vestígio 
do thema do Regresso de Ulysses ; e dirigido pelo 
seu critério, o romance da Não Catherineta, é o 
symbolo das terriveis aventuras do mar, cuja emo- 
ção foi avivada na época dos temerosos naufrágios 
da carreira da índia, mas pertencendo a essa primi- 
tiva tradição ethnica do lusitano. E dizemos lusitano, 
porque podemos revocar este thema da Não Cathe- 
rineta para uma edade anterior á existência de Por- 
tugal ; ahi apparecece esse tremendo episodio da an- 
thropophcigia, que Tácito, na Vida de Agrieola, ao de- 
screver a pirataria dos Usipienses, que devastavam a 
Bretanha, referiu: «algumas vezes repellidos, foram 
reduzidos pela fome a comerem primeiramente os 
fracos, de entre elles, depois aquelles a quem cahia 
a sorte. Depois de terem assim circumdado a Bre- 
tanha, perderam os seus navios por não os saberem 
governar ...» No romance portuguez ha o mesmo 



quadro : 



Ha sete annos e um dia, 
Sobre as aguas do mar! 
Já não tinham que comer, 
Já não tinham que manjar, 
Botaram sola de molho 
Para ao domingo jantar; 
A sola era mui dura 
Não a poderam rilhar. 
Botam sortes^ á ventura 
A qual hainam matar? 
A sorte cahiu em preto 
Ao Capitão general. 

{Cant. do arch. aç.y p. 287,) 



Nunca nos horrorosos lances descriptos nas rela- 
ções emocionantes da Historia trágico -tnaritima 
transparece um vislumbre de tentativa de antropo- 
phagia; vê-se que o thema é uma persistência tra- 



POPULAR PORTUGUEZA 25 I 



dicional de uma edade anterior á nossa historia 
moderna. As observações do geographo Strabão 
em relação ao conhecimento das lendas odyssaicas 
e dias lendas troyanas no occidente da Europa re- 
ceberam uma luz nova nos estudos archeologicos 
contemporâneos; Cailleux, na sua obra Poesias de 
Homero feitas na Ibéria^ e descrevendo não o Me- 
diterrâneo mas o Atlântico, synthetisa a conclusão : 
«Que os dois poemas de Homero são inteiramente 
extranhos ao Mediterrâneo: que a Illiada descreve 
utna antiga guerra feita na Bretanha pelos povos 
do continente ; a Odyssèa é uma descripção do paiz 
e da região dos antigos Celtas (se. Ligures,v> Em 
outro trabalho, Os Paizes atlânticos descriptos por 
HomerOy também chega á conclusão, que: «Os pai- 
zes descriptos por Homero são a Bretanha, a Gcdliay 
a Ibéria e todos os Archipelagos do Atlântico; a 
religião que indicam os dous poemas perpetua se 
nas nossas crenças.» No seu outro livro sobre a 
Origem da CivilisaçàOy resume no capitulo final al- 
guns dos seus pontos de vista : cHa já três mil 
annos que possuímos a Odyssèa, e com esta guia 
na mão peregrinamos na bacia estreita do Mediter- 
râneo, procurando infatigavelmente ilhas, praias, 
montanhas, povos, cavernas, portos que por alli não 
existem. Aonde a descripção do poeta nos aponta 
um golfo vamos encontrar um cabo ; para chegar 
a um porto temos de singrar para a direita, e o 
porto fica á esquerda ; uma ilha é annunciada como 
separada da costa por uma grande jornada de na- 
vegação, e nós avistamol-a da praia.» — «Plutarcho 
e Solino, sem se deixarem desnortear pelas ficções 
dos gregos, asseguram que a ilha de Ogygia, em 
que habitava Calypso estava no Atlântico, a cinco 
dias de navegação da ilha da Bretanha; emfim, 
quando se começa a conhecer bem as regiões oc- 



252 HISTORIA DA POESIA 



cidentaes, adquirem-se sobre os paizes homéricos 
noções mais precisas.» ^ Strabão cita em Hespanha 
uma cidade que tem o nome de Odyssea^ e na 
qual se mostravam os restos do navio de Ulysses ; . . . 
Suidas, no seu Lexicon, fallando dos nomes de He- 
siodo e de Homero : — «Pretendem que pertenceram 
tanto um como o outro á nação dos Atlantes.» 
E este o nome do povo da civilisação bronzifera^ 
que fez a navegação do oceano Atlântico, e que 
hoje se identifica com o povo da primitiva liga ma- 
rítima os Ligures. Da persistência das lendas odys- 
saicas cita Cailleux a passagem de Claudiano (In Ru- 
finuniy liv. i): «Ha nos confins da Gallia, sobre as 
bordas do Oceano uma caverna em que Ulysses 
congregou para libações sangrentas as sombras cios 
mortos.» E também a passagem de Tácito, na Ger- 
mania, em que a embocadura occidental do Meuse^ 
Helli osíium, tem o mesmo nome homérico de 
Helion, e em que existia uma inscripção mencio- 
nando a passagem do heroe. Cailleux applica á 
confirmação deste ponto de vista os seguintes prin- 
cípios : quando os phenomenos physicos descriptos,^ 
as distancias dos togares entre si, e a sua posição 
respectiva, não coincidem com nenhum logar do 
Mediterrâneo e se adaptam ao Oceano Atlântico, 
verifica-se a realidade geographica que se conserva- 
ra mal esboçada nas lendas conservadas dos escrí- 
ptores antigos. 

Na Illiada vem citado o promontório do Calpe, 
e o povo dos AlizoneSy * que outros não são senão 
«os LuBones, que habitavam as bordas do Ebro na 
nascente do Tejo, sobre os limites da nova e da 



1 Op. cit., pag. 526. 

^ Jubàinville, Bevue ceitiqtu^ vol. xix, p. 360. 



POPULAR PORTUGUEZA 253 



velha Castella e do Aragão, i * Vê-se que este nome 
nos precisa a forma de Lmso ; e que as relações phe- 
nicias modificando a designação geographica de 
Lusania em Lusiiania, não é que deram o nome 
a esta região. Chega-se ao elemento radical topo- 
logico : o nome Ub, significa segundo Edwards, (nas 
Recherches sur les Lengues celtiqués, pag. 398) a 
borda ou margem. Os terrenos marginaes do Tejo 
tem ainda hoje o nome da Leairia; acham-se na 
Canção n.° 246, da collecção vaticana, empregadas 
as palavras les e Ux nesse mesmo sentido de borda : 

Vi eu mha roadr\ andar 
as barcas en o mar 

e moyro-me d'amor. 
Fuy eu, madre, ver 
as barcas eu a /^^, 

e moyro me d^amor. 
As barca $ en o mar, 
e foi l -as guardar; 

e moyro-me d*amor. 
As barcas en o lex 
e foil-as attender, 

e moyro-me de amor... 

Também se deu este nome léus ás barcas cos- 
teiras, como se vê pelo manuscripto de Antoine 
Conflans: «En la couste de TAndalousie et de Gra- 
nade a toutes ces manières de vaisseaux et áutres 
barques, peschent le courail, presque semblables aux 
léus de gennes, lesquelles barques s'appellent barques 
couraillères.» ^ Não será phantasia applicar este mes- 
mo radical lez a Lisboa, e a muitos logares da penin- 
sula, como Lusaga, Lusera, Luson, Lusio, Lucenses ; 



* Reinach, LEspagne chet Homtre. Revue celiique, vol xv, 
pag. 209 a 215. 
^ ^ Ap. Hisíinre du Commtrce par Octave Noel, p. 10. 



254. HSTORIA DA POESIA 



e na Aquitania Elusates, e Elisyces, um dos povos 
liguricos da Narboneza. Outra palavra apontada por 
Edwards, lezen, limite, condiz com o nome de Lu- 
sones dado aos povos do extremo occidente da Eu- 
ropa ; e por este radical Ub nos remontamos ao tronco 
dos Ligures, vivendo ás bordas do Báltico, o grupo 
Lappo-finnico, Sommdi-lassed, e Sabme-Za^/í. Em uma 
barcarola do século xiv ainda se encontra : 

Em Lisboa, sobre lo les 
barcas novas mandei fazer ; 
ay, mha senhor velida. 

{Can. Vat.^ n.* 754.) 

O archeologo Martins Sarmento, libertando-se da 
iilusâo céltica, tendo trabalhado com sinceridade so- 
bre a origem ligurica dos Lusitanos, publicou em 
1887 a sua interpretação das lendas odyssaicas ou 
argonauticas, revindincando para os exploradores do 
Oceano atlântico os factos attribuidos por Homero 
aos gregos. No seu livro Os Argonautas, conciliando 
os vestígios orphicos com o elemento tradicional con- 
servado por Appolonio Rhodio, prova Mart'ns Sar- 
mento, que as lendas odyssaicas passadas no Mar 
Egeo, no Euxino e na Colchida, só condizem com 
a extensão do Atlântico desde o Cabo Bojador até 
á Gran Bretanha ; e reconstruindo as expedições dos 
argonautas occidentaes, seria uma d'el]as partindo de 
Cadiz para o sul do Atlântico, costeando a Africa, 
ás Ilhas Afortunadas e á Madeira (Ogygia) e d'alli 
regressando a Tartesso. E' tanto mais notável o tra- 
balho de Martins ^armento, quanto elle desconhe- 
cia as theses sustentadas por Cailleux dez annos an 
tes, embora prejudicadas pela miragem céltica; mas 
não tirou toda a luz das suas descobertas, porque ten- 
do attingido a clara comprehensão do substratum ligu- 
rico, ainda concede aos Phenicios as iniciativas argo- 



POPULAR PORTUGUEZA 255 



náuticas dos nossos occidentaes. A persistência das 
lendas chamadas homéricas, na Hespanha, como o 
observou Strabão, foi deturpada pelos eruditos da 
Edade média latino ecclesiastica syncreHsando os 
poemas gregos com a historia. Os chronistas Fre- 
degario, Roricon, Warnefried consideravam os Fran- 
kos de origem troyana ; também Eduardo ni fundava 
a superioridade da Inglaterra sobre a Escossia nas 
suas origens troyanas ; segundo o Edda de Snòrre, 
são de origem troyana os Scandinavos, ampliando es- 
tas origens a todas as nações modernas o celebre 
dominicano Anio de Viterbo, dando logar ás dou- 
trinas seguidas por Fr. Bernardo de Brito da fun- 
dação de Lisboa por Ulysses, admitida pelos huma- 
nistas da Renascença, como vemos em Camões, di- 
zendo de Ulysses: «Cá na Europa Lisboa insigne 
funda,^ (Lus, viii, 5.J 

Que longa evolução critica e histórica para che- 
gar a descobrir o veio aurífero da tradição ; as len- 
das odyssaicas encontradas por Strabão na Ibéria 
eram peculiares dos Lusones, que as conservaram, 
apresentando um caracter archaico nos cantos popu- 
lares portuguezes; a esse cyclo da Ndo Catherineta^ 
ligam se outros Romances populares, como a Bella 
Infanta que interroga o forasteiro acerca de seu ma- 
rido ausente, e a Noiva arraiana, que pela chegada 
repentina do seu namorado escapa ao casamento in- 
voluntário a que a obrigavam. Effectivamente estes 
três romances, encontram se nas coUecções hespa- 
nholas, italianas e bretãs, o que comprova mais o 
seu lusitanismo, ou pureza primitiva. Apontamos aqui 
o romance popular catalão El grumete, para se ver 
a sua relação com a Ndo Catherineta: 



256 HISTORIA DA POKSIA 



Sct bastiroents partiren de Marsella 
Per aná á la ciutat d'Oran, 
Set anys han anat en borrasca 
Eis mantiments van faitant. 
El patró de la galera 
Palias curtas n* ni va tirant. 
Tot tirant n' hi las palias curtas, 
La mas curta li *n perttocá. 
— Qui será 4 gallardo mosso 
Que la vida cn'en salvará ? 
Li 'n dará una de mas filias 

Y un bastiment sobredaurat. 
«Yo seré lo gallardo mosso 
Que Ia vida li vali salva. 

— Qui'm vulg salva la vida 
Cubert' amunt ha de puja. 

Quant es ai mitx de Tarbre mestre 
El gallardo 's posa a* plorá : 
«Yo QO veig sino sol y aygua, 

Y las onas de la mar. 

— Puja, puja, gallardo mosso, 
Molt mes amunt hasde puja. . . ^ 

Tem o contorno do thema portuguez, mas con- 
serva-se menos completo ; o mesmo se dá na ver- 
são asturiana El Marineroy em que o gageiro cae 
na agua. * Encontram -se mais paradigmas da Ndo 
Catherineia na Bretenha, na Provença, em Bordeos, ^ 
o que explica a sua occidentalidade. Na tradição po- 
pular^ brasileira, o romance é cantado e dansado em 
representação, o que nos aproxima bastante da sua 
formação e destino primitivo ; é a Chegança dos Ma- 
rujas, espectáculo que se faz na villa do Lagarto 
(Sergipe) pelas festas do Natal ; a descripção feita 



* Milá y Fontanals, Romancerillo catalã^ n,^ 215. 

* Menendez Pídal, Viejos romances^ n.** Lxxvn. 

5 Numerosas fontes bibliographicas vem referidas por Da Pu- 
maigre. 



POPULAR PORTUGUE2A 257 



por Mello Moraes dá-nos o elemento vivo da tradi- 
çâo, e o motivo da sua persistência. Transcrevemos 
aqui o canto bretão, traduzido por Du Puymaigre 
do Gwersmth-ètmshijsêi : 

«Escutae todos e ouvireis — um gwerz novamente com- 
posto — feito sobre um rancho de marinheiros — que se 
embarcaram sobre o mar profundo 

cVinte e sete annos elles — sobre o mar profundo em- 
barcados, — e no ultimo anno dos vinte e sete— a comida 
lhes faltava. 

«E ao faltar-lhes a comida — pensaram em comer um 
d^elles. . . 

«E quando botaram sortes (tire la courte paille) — foi 
no capitão que cahiu a sorte : — Senhor, Deus ! será pos- 
sivel — que os meus marinheiros me comam ? 

«Gageiro ! meu pequeno gageiro — tu és diligente e li- 
geiro — sobe áquelle mastro grande - para saber aonde é 
que estamos. 

Elle subiu cantando, — e chorando é que descera ; subiu 
ao pino do mastro — não avistou nenhuma terra. 

«Sobe ainda ao mastro grande — para saber aonde é que 
estamos, — será pela ultima vez. 

«Elle subiu outra vez chorando, — mas depois desceu can- 
tando ." — Parece me que chegamos a terra — eu vi a torre 
de Babylonia. . .» * 

Reunindo-se os numerosos paradigmas dos outros 
dois themas da epopêa odyssaica, a Bella Infanta 
e a Nanfa roubada, verifica-se a similaridade de uma 
tradição que deriva de uma raça commum Occiden- 
tal, que não é a céltica, como indicava Nigra, nem 
a germânica, como julgavam Gaston Paris e Jeanroy, 



1 Vieux Chants portugais^ p. 1 74 ; e ahi vem a canção fran- 
ceza : 

Ad bout de cinq à six semaines 
Les vivres vinrent à manquer. 
II fallut donc tirer au sort 
Pour savoir qui será mangé. . . 

Pões. popul. 17 



258 HISTORIA DA POKSIA 



mas uma raça navegadora que antecedeu a estas no 
estabelecimento de uma civilisação bronzifera e na- 
vegadora mercantil. Levou tempo a desvendar esse 
povo Occidental, de que fallaram com tanta clareza 
Hesiodo, Heródoto, Eschylo, Strabão e Plutarcho. 

Das luctas do povo Lusitano com os invasores ro- 
manos temos a figura de Viriatho, celebrada pelos 
historiadores de Roma; o Romance do Monte Medu- 
lio, encontrado na Galliza, vem tornar admissível 
como referente a essa mesma tradição o seguinte 
canto da Serra da Estrella, das festas da Senhora 
do Desterro : 

o VELHO MAIORAL 

(Serra da Estreita — Tábua) 

Voz : «Oh ! como traz botas 
De neve té o joelho, 
No íngreme atalho 
A gente do Velho ! 

Maioral na frente 
Do rebanho andando, 
Com o pezo d*annos 
A rir ou chorando ! 

CÔEO I .° : — San Romão ! San Romãosinho ! 
Nosso firme advogado, 
Tereis óptima ofieria, 
Se nos escapar o gado. 

Voz : «Ah ! que magna turba 
Vem la debaixo ahi ! 
Direito á jugunda 
E os nossos por aqui. 

CÔBO 2 ° : — Virgem do Desterro, 
Nossa boa padroeira ! 
Protegei-nos, defendei-nos 
Da tropa estrangeira. 



POPULAR PORTUOUEZA 



Voz ; «Romanos avançam 



CÕBO : Ai, da Serra I 

Ai, da Estrella I 
Ai, do Alva ! 
Ai do frecheiro ! 

Voz : «Em mãos de africano 
Na Serra Leoa, 

Nos Montes da Lua; 

Do que estou vendo. 
Em Monte de Muro ! 



O gado está s: 
No porto seguro- 



— San Romão ! etc. 

— Virgem do Desterro, etc. 



Voz : íComo é raça de cães. 

Manteigas vao descobrindo. 
Em quanto ficam lambendo 
O Velho se vae sumindo. 

Maioral vae diante 
Co'o pezo da gíria 
Se vae atrazando ; 
Vão iodos contentes, 
Já nenhum chorando. 

Velho o chamaoi. 
Velho é elle, sim. 
Nos annos é tenro, 
Çá para nós 
É o nosso menino. 

Da Serra da Estreita, 
Do Monte de Muro, 
O gado está salvo 
No porto seguro. 



26o HISTORIA DA POESIA 



CÔBO 2.» : — Senhora do Desterro^, 
Bemdita sejaes 1 
Inda hoje no templo 
Nos ouviraes. 

Coro i .® : — San Romão 1 San Romaosinho ! 
Nosso firme advogado, 
Ahi tendei a offerta 
Que é o nosso melhor capado. * 

Desde que estas tradições poéticas pelo canto e 
pela dansa se ligaram aos costumes locaes e ás festas 
religiosas, estava alcançado o meio para garantir a 
sua persistência popular, anonyma e inconsciente. 
Quem conhecer apenas o thema poético na forma 
do verso, vê um producto inerte, que tende a trans- 
mittir se pela recitação, que de cada vez se abrevia 
mais, até cair na narrativa lacónica, prosaica ; pelo 
conhecimento da sua forma cantada e dansada, é 
que se reconstitue a perfeição da estructura poética 
através de todas as suas deturpações. Já apontámos 
themas góticos na tradição portugueza, mas intei- 
ramente reduzidos a lendas em prosa, ou transfor- 
mados em sentido catholico ; os títulos de Conde da 
AlUmanha, (da Arimania?) de Dom Garfos e Gri- 
fos Lombardo (de Graf, Conde) revelam-nos que al- 
guma cousa subsistiu da elaboração poética da época 
visigótica na sociedade mosarabe. Do dominio dos 
Árabes veiu nos o bello thema do tributo das Don- 
zellaSy conservado pela circumstanc'a do canto e da 
dansa no Figueiral, thema vivificado pelo interesse 
religioso com que se quiz justificar o tributo cha- 
mado dos Votos de San Thiago, E' também d essa 
mesma época a lenda metrificada de Santa Iria, vi~ 



i Ap. Alb. Pimentel Musa das Revoluções^ p. 44. 
(Destacámos as estrophes com a indicação de Vozes e Coros.) 



POPULAR PORTUGUEZA 26] 



vificada na tradição popular pela etymologia local 
de Santarém, e pela credulidade do mosarabe. A' in- 
fluencia das invasões scandinavas não errarennos attri- 
buindo themas poéticos do cyclode Sigurd, que se 
manifesta nos romances Eu bem qtuzera, senhora^ 
da Donzeíla guerreira, e de Juliana e Jorge, Toda 
esta' elaboração é anterior á crise que se passou na 
poesia tradicional hispânica, quando appareceu a Nova 
Mestria^ isto é a Matéria de França, com o esta- 
belecimento do poder real, no século xu. Este ca- 
racter archaico dos themas narrativos, também se 
manifesta nas Canções lyricas ou subjectivas, subsi- 
stentes ainda nas versões oraes. 

Nos Cancioneiros trobadorescos portuguezes foram 
collig^das muitas composições de jograes gaUegos, 
leonezes, valencianos e castelhanos reproduzindo as 
formas estrophicas e os themas poéticos das Can- 
ções populares, que andavam na tradição oral ante- 
rior ao século xii. Por esses productos intermédios 
á Corte e ao Povo, se alcança o conhecimento in- 
directo mas positivo da existência de um Lyrismo 
não escripto, que, longe de ser alterado pelo artifi- 
cio trobadoresco, actuou n'elle renovando-o com the- 
mas e formas poéticas encantadoras. O auctor das 
Origens da Poesia lyrica em França, notando nos 
textos lyricos jogralescos portuguezes a influencia da 
poesia cortezã, propõe o problema : «se não se po- 
derá admittir, que essa influencia foi inteiramente 
superficial, e que os assumptos tratados foram pelo 
menos tomados de uma poesia popular e original ? 

«Em verdade, é difficil provar que assim não 
acontecesse, mas será egualmente difficil a affirma- 
tiva. » 

E contra a hypothese formulada apresenta : «Ainda 
que os themas mais habituaes sejam simplicissimos, 
parece-nos portanto que não foram directamente in- 



202 HSTORIA DA POKSIA 



spirados pelo espectáculo da vida como aquelles que 
encontramos em França, e que entre a realidade e 
a poesia ha um afsistamento considerável, em uma 
palavra, que parecem antes ser o ecco de uma poe- 
sia popular y do que essa poesia popular fnesmo,^ E 
das rasões a favor, diz : « As mais decisivas, em nosso 
entender, poderiam ser tiradas das formas próprias 
da poesia popular actual de Portugal, que não deve 
ser sensivelmente differente do que ella fora na Edade 
média.» E' este o processo que temos seguido na re- 
constituição de uma poesia popular oral; não o em- 
pregou Jeanroy pelo motivo que confessa: «a lyrica 
popular nos differentes paizes da Europa tem sido 
mui pouco estudada, os seus elementos estão ainda 
imperfeitamente analysados, conhecemol-a muito me- 
diocremente, é um terreno vastíssimo e movente bas- 
tante para que ousemos procurar ahi um ponto de 
apoio. Comtudo, estamos convencidos, que o estudo 
da poesia popular em Portugal nos daria rasão.» * 
Todos os esforços empregados por Jeanroy para com- 
parar as Canções jogralescas do Cancioneiro da Va- 
ticana com a poesia popular moderna foram infeli- 
zes por esse desconhecimento, que o levou a escre- 
ver: «Mas, o que nos parece certo é que esta poe- 
sia gallega é pobríssima, bastante sêcca para ter po- 
dido servir de modelo ás obras variadas e tão vivas 
dos poetas da corte do rei D. Diniz ; estes, podiam 
encontrar com prazer na poesia popular do seu paiz 
tkemas, que tinham tomado da França ; fizeram-lhes 
algumas imitações de detalhe, mas não foi ella no 
meu entender a fonte primitiva e única da sua in- 
spiração. » Os factos mostram o contrario ; a poesia 



^ Les origines de la P<ésie lyrique en France au Moyen Age^ p. 
322. 



POPULAR PORTUGUEZA 203 

popular da Galliza é riquíssima e bella, inspirando 
ainda hoje os seus poetas, como se vê nas idealisa- 
ções de D. Rosália de Castro, e a imitação popular 
nos Cancioneiros palacianos, ou na época dionisiaca, 
foi uma reacção nacioncd contra os artifícios esgota- 
dos da eschola provençalesca, provocada pela con- 
corrência de todos os jograes de Hespanha a uma 
corte aonde recebiam grandes recompensas. Assim, 
esse typo da lyrica popular sobre que elaboravam 
as novas Canções, tendia a revelar-se commum a 
muitos Estados peninsulares, galecio-asturo-leonez, e 
extremenho betico-algarvio, e a accentuar um fun- 
do primordial lusitano y sympathico e persistente na 
recente nacionalidade de Portugal. As pretendidas 
imitações francezas dissolvem se nessa communhão 
e unidade de typos poéticos similares á Itália, á Si- 
cília, á Gallia e á França, em cujo substractum ethníco 
se integra Portugal. 

Depois de affirmar que a maior parte dos themas 
populares do Cancioneiro da Vaticana passara de 
França para Portugal, Jeanroy hesita, e por fim con- 
fessa: «Mas, a ultima impressão que deixa esta 
poesia não é nítida; effectívamente, acham-se alli 
ao lado de géneros muito modernos, taes como a 
Pastorella, e formas mais artificiosas e mais recentes 
do que a Pastorella, — vestígios mais archaicos do que 
em nenhum outro paiz românico ; os personagens não 
são tomados da sociedade cavalheiresca como na Alle- 
manha, mas do povo; o amor, alli se não é ingénuo, está 
immune das theorias cortezanescas. » (Ib., pag. 354.) 

Este caracter archaico da poesia popular portu- 
gueza, que a destaca d'entre as outras românicas e 
lhe explica as suas formas obliteradas, não podia ser 
compreheodido por Jeanroy por causa do seu exclu- 
sivo ponto cie vista francez ; lançase por isso em phan- 
tasmagoricas explicações: «Será preciso admittir, que 



204 HISTORIA DA POESIA 



a poesia france7.a e a provençal entraram em Portugal 
muito cedo, no fPtomento em que ella era ainda pu- 
ramente popular^ e que foi devido a uma segunda 
infiltração a Pastorella e as outras formas recentes? 
Ou então, é preciso pensar, que a nossa poesia só 
foi transportada para alli muito tarde, pouco tempo 
antes da época a que pertencem os textos conser- 
vados, mas que os poetas d esta época tomaram gosto 
por estas formas, que em França começavam a en- 
velhecer, e que elies fizeram reflorir transportando-as 
para um terreno virgem ? — Parece-nos portanto, que 
os vestígios archaicos que se acham em grande nu- 
mero na poesia portuguesa são devidos, não á per- 
sistência de uma poesia antiquissimamente importada 
em Portugal, mas a uma imitação reflectida e assas 
tardia dos themas que tinham continuado até então 
a viver em França » (Ib., p. 338.) Todas estas pon- 
derações são destituidas do saudável critério histó- 
rico, e refutam-se pelos factos. 

Quando o velho lyrismo francez era ainda pura- 
mente popular y quer dizer, oral, cantado e dansado, 
e em relação viva com os costumes sociaes, ainda 
Portugal estava incorporado na Galliza, mas essa po- 
pulação tinha os mesmos costumes e festas, e os can- 
tos e dansas incidiam sobre os mesmos themas de 
uma tradição commum Occidental. Quanto á infiltra- 
ção mais tardia, ou á predilecção pelas formas já de- 
cadentes em França, também isso está em contradi- 
ção com a situação dos jograes que de todos os pon- 
tos da Hespanha concorriam á corte de D. Diniz, os 
quaes como homens rudes e pobres nunca foram a 
França, e reagiam contra a nova Mestria. A influen- 
cia franceza na formação do Condado de Portugal 
foi exclusivamente aristocrática, e na <:ôrte de Dom 
Diniz exclusivamente limosina, tendo ainda assim de 
transigir com o gosto popular. 



\ 



POPULAR PORTUGUEZA 2Ó5 

■ -^ m- - — - _ _ _ j, - -^ ■ ■ ^ 

Nas conclusões do seu estudo, escreve Jeanroy: 
«nós podemos ao menos fazer uma ideia aproxima- 
tiva do que era a nossa mais antiga poesia (franceza) 
com a ajuda das Canções populares modernas e da 
poesia portugueza, que, de todas aquellas que têm 
imitado a nossa, é evidentemente a menos repassada 
de elementos cortezãos, a mais visinha dos seus mo- 
delos e da natureza. Sobretudo se afastarmos das 
composições portuguezes, que peccam ás vezes por 
falta de simplicidade, tudo o que é requinte de ideia 
ou galanteio de expressão, ellas nos darão uma ideia 
bastante exacta daquellas que imitaram, mais exacta 
talvez do que as nossas Canções modernas.» (Tb., p, 
144.) Volta á hypothese gratuita; os caracteres ar- 
chaicos da poesia popular portugueza conservados 
mesmo através da elaboração semi-litteraria dos jo- 
graes e das imitações dos trovadores palacianos, dão 
uma ideia do que seria o lyrismo francez oral, não 
por o ter reproduzido, (o que é historicamente in- 
explicável, e psychologicamente absurdo) mas por- 
que nos aproxima immensamente desse substratum 
ethnico, que identifica a tradição dos dois povos, que 
Belloguet definiu: «nós temos reconhecido nas Gal- 
has a coexistência de uma roca trigueira^ de cabeça 
redonda, estabelecida nesta região vasta antes da 
chegada da raça loura que a subjugou.» * Ora, tocar 
n'este phenomeno, era remontar até aos brachicepha- 
los, do que Jeanroy faz troça, ao passo que se apro- 
veita dos materiaes que accumulámos, ainda que sem- 
pre mal comprehendidos. N'essa raça loura^ a que 
se chama Céltica, é que Nigra assentava o substra- 
tum ethnico, que unifica a tradição da Itália, França 
e Hespanha ; Jeanroy ainda segue a miragem céltica^ 



* Ethnogenio gauloise^ Preuves intellectuelles, p. i. 



à 



indicando-a apenas. O archaismo das tradições poéti- 
cas de Portugal, explica-se pelo facto da Lusitânia, 
de raça trigueira, ter escapado á invasão da rctça 
loura, conservando-se no seu isolamento mais pura a 
a população. 

Ha uma forma dramática perdida na tradição por- 
jueza europêa, mas conservada no Brasil, na per- 
tencia do elemento colonial do século xvi ; é o Auto 
Bumba meu Boi, com que se dá as boas festas 
começo do anno, diante das casas das pessoas 
ligas. Celso de Magalhães descreveu este rudi- 
:nto dramático: «Um outro grupo pulava e saí- 
ra diante de um Boi, cujo arcabouço era de ma- 
\ra, coberto com panos pintados. No meio de tudo 
j os fadistas, os trovadores da rua, com os vio- 
:s enfitalhados, a cantarem desentoada e lugubre- 
nte modinhas em tons menores. E' o fundo do 
idro, O variegado dos vestuários ajudava a bel- 
a do panorama.» E na Revista brasileira {í, 265) 
n mais accentuada a festa popular do Natal e Reis, 
; se ligava aos costumes primitivos do começo do 
10 solar : lum magote de indivíduos, sempre acom- 
ihados de grande multidão — vão dansar nas casas, 
sendo comsigo afigurade um Boi, por baixo do qual 
:ulta-se um rapaz dánsador. Pedem com cantigas 
:nça ao dono da casa para entrar. Obtida a li- 
iça apresenta-se o Boi e rotnpe o Coro,* Eis al- 
is trechos da representação popular em Pernam- 



CÔRo ; Vem, meu Boi lavrado, 
Vem lazer bravura, 
Vem dansar bonito, 
Vem fazer mesura. 
Vem fazer mysterios, 
Vem fazei belleza, 
Vem mostrar o que sabes 
Pela natureza. 



POPULAR PORTUGUEZA 2O7 



Vem dansar, roeu boi, 
Brinca no terreiro ; 
Que o dono da casa 
Tem muito dinheiro. 
Este boi bonito 
Não deve morrer. 
Porque só nasceu 
Para conviver. 

Vaqueiro, que figura um negro ou caboclo vestido 
oruíescamente : 



O*, ó, meu bóio 
Desce d'essa casa, 
Dansa bem bonito 
No meio da praça. . . 
Toca essa viola 
Ponto bem miúdo. 
Minha bóio sabe 
Dansá bém graúdo. ^ 



As peripécias do Auto desenvolvem-se com a 
doença do Boi, que está para morrer; com a vin- 
da do medico, um padre, seguindo depois todos o 
seu caminho cantando. Aqui, o que interessa é a fi- 
guração exterior do boi e as saudações do anno 
novo ; as palavras, a musica e a dansa são quasi 
que indifferentes. Roisel, no livro L^s Atlantes nota 
o symbolo zodiacal representando a força fecun- 
dante do sol na representação do Touro, (p. 163) 
que em uma civilisação bronzifera marcava o come- 
ço do anno solar e sideral. Este symbolo zodiacal 
do Touro tem o mesmo nome que teve entre os 
Chaldeos TaurOy entre os Syrios Tkauro, entre os 
Gregos Taures, entre os Romanos Taurus, entre os 
Árabes Thaur e Thur, e entre os Hebreos Shor ; 
a semelhança das formas revela uma fohte com- 



1 Cantos poptUares do Brasil^ p. 183. Ed. Rio de Janeiro, 1897. 



268 HISTORIA DA POESIA 

mum de derivação tomada de um symbolo genera- 
lisado por um conhecimento superior. Os bois do 
trabalho, segundo Lélio e Varrão, eram chamados 
Triones em um velho vçcabulo, e os povos septem- 
trionaes eram denominados pelo symbolo do Touro, 
como vemos por Strabão que chamava aos Cimme- 
rios anteriores aos Celtas, os Treres; segundo Ju- 
bainville, os Treres, considerados como um ramo 
dos Thracios, constituem um grupo anthrophologico 
Thraco-Illyro-Ligure, fundo da população mais an- 
tiga das tradições da Grécia, Ásia Menor, Itália, 
Gallia e Hespanha. * E acrescenta o mesmo auctor, 
apoiando-se em Strabão e Plinio, que o nome de 
Taurini era também designativo de um povo Li- 
gure ; Belloguet considera como raça dos Ligures 
do Cáucaso os Tauros da Crimea. * Entre os po- 
vos hispânicos o touro torna-se um symbolo religio- 
so e social, como os Touros de Guisande, em nu- 
mero de trinta e sete, o revelam ; as corridas de 
Touros por cordas, ainda hoje animadissimas na ilha 
Terceira, são uma forma hespanholisada do Auto 
do Bumba meu Boi; na procissão de Corpus-Christi 
em Mação: c Desfilam algumas corporações e apoz 
um boiy a que chamam Boi bento, com as pontas 
douradas e o corpo coberto com um manto de da- 
masco guarnecido de ouro. » ^ Nas prohibições que 
a Egreja fez contra os costumes populares polythei- 
cas, achase uma referencia á figuração do boi com 
sentido astronómico ; em um sermão de Santo Eloy, 
do seculó VII, recommenda o fervoroso missionário: 



1 Lei prémiers habitants de UEurope, p 35. 

2 I^es Cimmeriens^ p. 35. 

3 O Povo portuguez nos seus Costumes^ Crenças e Tradições^ 
t. II, p. 294. 



POPULAR PORTUGUEZA 269 



«Que nas calendas de Janeiro se não representem 
farças ridículas transfigurando' se em bezerro ou em 
veado novo ; e que na mesa se não entreguem a ver- 
gonhosas orgias sob pretexto de festejar este novo 
dia.» * A este costume, que se relaciona com as 
originens ethnicas e civilisação do Occidente, cor- 
responde ou sobrevive ainda na tradição portugue- 
za esse vestígio archaico de um rudimento theatral, 
o auto de Bumba meu Boi, Por isto se desprehen- 
derá, que nos costumes populares e em muitas ma- 
nifestações da actividade portugueza se determinam 
as características do génio lusitano. 

Pode-se estabelecer a continuidade de certas ce- 
rimonias fúnebres que eram acompanhadas de can- 
tos e dansas, que Tito Livio denominava Tripudiis 
hispanorumy (liv. xxv, 17) e Silio Itálico reconheceu 
como endechas nacionaes essas barbara carmina; 
Appiano descrevendo o funeral de Viriatho, íalla 
das dansas guerreiras, que acompanhavam com o 
canto narrativo dos seus feitos: «cavalleiros e infan- 
tes corriam em differentes direcções, em volta da 
pyra, proclamando as virtudes do desventurado cau- 
dilloy segundo era costume entre os hispanos ...» 
(vi, n.° 76,) O Terceiro Concilio de Toledo prohi- 
bia estes cantos aos mortos, dando-lhe o nome 
de fiinebre Cármen, Os Romanos ao conhecerem 
este costume peninsular equipararam as Nenias ás 
suas Laudes sem determinar o fundo ethnico que 
as unificava. Comprovava-o a similaridade conser- 
vada nos costumes populares do occidente euro- 
peu, taes como os Lamenti e Tribuli de Nápo- 
les, as Attitidos da Sardenha, os Voceri da Cór- 
sega, os Aurust do Bearn e as Arrirajo das Vas- 



1 Acta Sanct, BelgU^ iii, 245. 



270 HISTORIA DA POESIA 



congadas, as Endechas e Clamores em Portugal. 
Um alvará de D. João I, de 1385, prohibia o bra- 
dar sobre finados. Para comprehender o lado vivo 
d' este género popular transcrevemos o seguinte tre- 
cho sobre os Aurusta do Bearn ; «nos faneraes, quan- 
do a familia do defunto, para celebrar suas virtudes, 
não pode senão achar lagrimas, duas mulheres, poe- 
tisas de profissão, semelhantes ás Vocerairices da 
Córsega, improvisam coplas cantadas sobre um tom 
lamentoso : uma lembra as boas acções do defun- 
cto, e a outra as más, imagem d'estes dois génios 
do bem e do mal, que parecem conduzir o homem 
na vida ; este uso que se encontra entre outros po- 
vos, mas que em nenhum appresenta um caracter 
tão eminentemente religioso e moral, tem o nome 
de Aurusta,'^ * Frederic Rivares descreve o aspecto 
dramático: «Os funeraes apresentam uma particula- 
ridade. Logo que o doente exhala o ultimo suspiro, 
o seu corpo é estendido no chão, no meio da casa, 
e rodeado de uma multidão de mulheres que oram 
e velam lançando ao espaço gtitos lamentosos e 
medonhos gemidos. A mulher do defuncto e os 
parentes mais próximos estão á frente das carpi- 
deiras e improvisam cantos em que são celebradas 
as suas virtudes. Estes signaes de dor e affeição 
acompanham o morto até á ultima morada, e a 
occasião em que a terra vae cobrir os caros des- 
pojos é indicada por uma explosão de gritos e de 
lamentações. 

«Portanto, o nome de Aurust (é assim que se 
chama este canto) contém outras vezes mais do que 
louvores; é antes um julgamento do que uma ora- 
ção fúnebre, e mais de uma vez os parentes e o 



* Vignancour, Poesies bearnaises, p. VII, ed. Pau, 1852. 



POPULAR PORTUGUEZA 27 1 

clero foram escandalisados por improvisos mais pró- 
prios para denegrir o morto e mesmo os vivos, do 
que a excitar as magoas da sua perda. » * Deste gé- 
nero na Hespanha falia o Marquez de Santillana : 
«En otros tiempos, á las cenizas é defunciones de 
los muertos, nutras elegíacas, se cantaban; é aún 
ahora en algunas partes dura, los cuales son llama- 
dos ErtcUchas, > Segundo Covarruvias, no Tesoro de la 
Lengféa castellana, eram estas Endechas: «cancio- 
nes tristes y lamentables, que se lloran sobre los 
muertos, cuerpo presente, ó en sepultura, ó cenota- 
phio;» e referindo-se á parte cerimonial: «Este mo- 
do de Uorar los muertos se usaba en toda Espana ; 
porque ivan las mugeres detrás dei cuerpo dei ma- 
rido descabelladas, y las hijas trás el cuerpo de sus 
padres, mesandose y dando tantas vocês, que en la 
iglezia no dejaban hacer el oficio a los clérigos.» 
Amador de los Rios declara que nunca pôde en- 
contrar nenhum d estes cantos fúnebres antigos da 
Hespanha; na poesia popular portugueza existe um 
precioso documento, as Endechas que o povo de 
Lisboa cantara sobre a sepultura do Condestavel 
D. Nuno Alvares Pereira. No Agiologio lusitano, 
traz Jorge Cardoso essa noticia: «Em cujo dia (12 
de maip, da morte do Condestavel) costumava o 
povo de Lisboa e seu termo vir á sepultura, com 
grandes demonstrações de alegria agradecer-lhe a li- 
berdade da pátria com a celeberrima batalha de 
Aljubarrota, e outras de que estão cheias as chroni- 
cas, entoando com graça esta letra : 

<El gram Condestabre 
Nuno Alves Perera 
Defendió Portugale 



1 Chansons et Aires populaires àu Bearn^ p. xx. 



272 HISTORIA DA TOE SI A 



Con su bandera 
£ con su p£ndone. 

No me dígades, none, 

Que santo és eí Conde.» 

«Estas seguidilhas eram muitas, de que só achá- 
mos o seguinte pé, com que todas rematavam : 

«No me digades, none, 
Que santo és el Conde.» ^ 

Na Chrcnica dos Carmelitas, ^ Fr. José Pereira 
de Santa Anna, traz o seguinte testemunho: 

«Quando o venerável corpo do Conde jaíáa so- 
terrado no chão ... as mulheres dos cidadãos da ci- 
dade de Lisboa, como algumas d'ellas se juntavam 
na capella maior do mosteiro do Carmo, (que o 
Conde fez) um dia depois da Paschoa florida, que 
era a primeira oitava, com seus pandeiros e adufes, 
e outras tangendo as palmas: e com muito prazer 
e folgança, cantavam e dansavam d roda donde so- 
terrado estava, começando uma das mulheres, que 
melhor voz tinha, e as outras respondiam ao que 
ella cantava ; e diziam d*esta guisa : 

«No me digades. none, 
Que santo és el Conde.» 

«Este estribillo repetiam infinitas vozes ao redor 
da sepultura, sobre a qual punham muitas capellas 
de flores, e as offertas que lhes deixavam em signal 
de gratidão pelas victorias que conseguira, e pela 
liberdade deste reino, da qual fora instrumento.» 

Citamos apenas o facto para se vêr como corre- 



^ Agiol. lusit.f t. ni, p. 217. 
^ Tom. I, p. 406. 



POPULAR PORTUGUEZA 273 



spondendo a poesia á realidade de um costume, é 
da persistência ethnica que se devem derivar as 
formas versificadas em épocas mais recentes. Palian- 
do dos caracteres architectonicos dos mosteiros de 
Santa Cruz de Coimbra, de Alcobaça, e de San 
Vicente de Fora, sem o estylo gótico do seu tem- 
po, nem o estylo árabe do século xi, dizia Sousa 
Loureiro, director da Academia de Bellas Artes : 
«tem um typo, um caracter lusitano; porque a Lu- 
sitânia existiu sempre como uma região, como uma 
nação, como um pot^o particular e separado da união 
geral, mesmo no tempo em que a Hespanha foi 
successivamente invadida por potencias estrangei- 
ras ...» * E é tanto mais evidente este caracter 
quanto essa forma de arte dependia de uma classe 
operaria, e exclusivamente popular. Herculano, no 
rigor critico com que procedeu contra a eschola his- 
tórica dos falsos Chronicões representada em Portugal 
por Fr. Bernardo de Brito, exagerou o seu negativis- 
mo na Historia de Portugal: formulou que é im- 
possivel encontrar relação entre os antigos Lusita- 
nos e os que modernamente se denominam Portu- 
guezes. Máo serviço contra a consciência da nossa 
autonomia ; ficávamos uns hespanhóes sem rasão de 
sêr, subsistindo apenas pela incapacidade unificado- 
ra dos Iberos, Os estudos da anthropologia e da 
ethnographia vieram caracterisar o individualismo de 
uma raça, e dos nossos costumes e tradições. 

D. Carolina Michaélis, referindo se aos romances as- 
turianos colhidos por Munthe a pouca distancia da 
raia da Galliza, diz : « Basta indicar esta situação 
geographica das aldeias que serviram de campo de 
exploração, para fazer surgir no espirito dos conhe- 



^ Ap. Raczynsky, Lettres, vi, p. lo^. 

Pões. popul. i8 



274 HSTOKIA DA POIÍSIA 



cedores a suspeita de que as creações poéticas ahi 
recolhidas se ligam estreitamente com o rico fundo 
de Romances de Segadas, que se cantam ainda 
hoje em Galliza, e em Traz-os* Montes^ e na faixa 
marginal do Douro, que pertence administrativa- 
mente á Beira Baixa (Freixo, Numão, etc), forman- 
do assim um élo entre o folklore castelhano e o por- 
tuguez.í E nota: ao caso de as Astúrias e a Galli- 
za serem as únicas províncias hespanholas, em que 
ainda é costume persistente cantarem-se em coro, 
ao ár livre (nos largos das rua<í, no campo ou na 
eira, em occasião de festa ou romaria e nas sega- 
das) ou dentro de casa (durante as noites da que- 
bra da amêndoa, das esfolhadas do milho e nos 
fiandões de inverno) os bellos Romances históricos e 
novellescos, como egualmente a provincia de Traz- 
os-Montes e a região duriense da Beira são as úni- 
cas portuguezas em que acontece o mesmo. 

«E como a melodia conserva e preserva o texto 
do verso, devem pois estas provincias, — Galliza, 
Astúrias e Trazos-Montes, e talvez parte do Minho, 
— ser as regiões em que a tradição conservou e 
conserva mais pura e menos alteradas e adultera- 
das as antiquíssimas ^cantilenas epo-lyricas.> (Revista 
lusitana, t. n, p. 157.) Estas valiosas observações 
não conduziram o seu espirito á unidade ethnica 
lusitana, embaraçado também no celticismo de Ni- 
gra emquanto á generalidade dos themas poéticos. 

§ 3J* A região Extremenha- Be tico- Algarvia 

Nas bases formuladas para a organisação do Folk- 
Lore hespanhol. Sociedade para a compilação e es- 
tudo do Saber e das Tradições populares, por D. 
António Machado y Alvarez, estabelece-se como me- 
thodo : «Se duas ou mais das regiões mencionadas. 



POPULAR PORTUGUEZA 275 



por sua homogeneidade de dialectos, analogia de 
costunies, condições geographicas, ou qualquer outra 
causa análoga, desejarem reunir-se formando um só 
centro, poderão fazei- o adoptando um nome os das 
regiões componentes, como por exemplo : Extrema- 
dura e Andalusia, seria denominado BetuoExtre- 
menho.^ O que é uma indicação de methodo, tor- 
na-se o resultado final da reconstrucção de uma uni- 
dade ethnica, quebrada pelas compressões adminis- 
trativas ou politicas, e ainda persistente nos costu- 
mes e tradições. 

Em um estudo sobre a Demotopographia ibérica, 
lê-se : «chamavam-se na Edade Média Extremaduras 
ou Extrema Daurii ás extremas do rio Douro, e 
que é por conseguinte um erro o ter applicado um 
tal nome á região fronteiriça a. Portugal, que se es- 
tende desde a Serra da Gata até á Serra Morena. 

cEm uma inédita Historia de Badajoz desde os 
tempos mais remotos^ affirma-se que em 983 ajuntou 
Bernardo 11 de Leão um exercito para combater o 
traidor D. Vela, caudilho christão que se passou para 
os mouros, e que pelo motivo de dar-se a batalha 
na margem do Douro, que foi a extrema de ambos os 
exércitos, se chamou desde então aquella terra Ex- 
tremadura, e proseguiu-se denominando-se assim até 
á que está ao sul. 

cColmenares (na Historia de Segóvia, e Compen- 
dio de las Historias de Castilla,) diz que o nome dè 
Extremadura se applicou somente á castelhana, até 
que os monarchas leonezes conquistaram outra que 
chamaram Extremadura de Leão, e com esta desi- 
gnação se conheciam em 1230, ao verificar-se a 
união das duas coroas.» O auctor da Demotopogra- 
phia concilia estas duas opiniões: 

«Nos começos da reconquista, tanto os Condes gal- 
legos como os Reis de Leão e os Condes de Cas- 



270 HISTORIA DA POESIA 



tella tinham posto a mira em ampliar suas frontei- 
ras até ao Douro, e portanto desde o momento em 
que se aproximavam delle chamavam a esses limi- 
tes Extrema- Durii, o mesmo em Castella que em 
Leão e Portugal, e d'aqui o terem sido chamadas 
cabeças da Extretnadura tanto Soria como Segóvia 
e Salamanca, e o ter-se estendido este epitheto a 
alguma outra povoação mais apartada das Extrema- 
duras actuaes. Aquella tão variável e contigente geo- 
graphia que mudava tanto como os progressos da 
reconquista, acostumou-se a chamar Extremaduras 
ás fronteiras meridionaes dos estados christãos, e da- 
qui o haverem Extremadura de Castella, de Leão e 
de Portugal ; . . . No poema de Las mocedades dei 
Cid, escripto porventura em tempos em que ainda 
não tinha sido conquistada nenhuma povoação da 
provincia de Cáceres, já ahi se mencionam as Ex- 
tremaduras . . . Quando se conquistou Toledo cha> 
mou se á sua região reino de Toledo e então a Ex- 
tremadura de Castella estendeu-se para o oeste, de 
sorte que Plasencia fica-lhes pertencendo, e em troca 
Soria era já da Extremadura leoneza. Assim a de- 
nominação da Extremadura seguiu estendendo-se até 
á Serra Morena, o mesmo em Hespanha como em 
Portugal apartando-se da margem do Douro, que lhe 
tinha dado o nomo * 

Don Joaquin Costa, no seu livro sobre a Poesia 
popular espafíola, refere-se á importância ethnologica 
desta região extremenha: «existe na Lusitânia uma 



. ^ D. Matias R. Martinez, no Bolk'Lore Betico-Extrenitão^ p. 115. 
Garrett notou o característico do t paragogico na poesia popular 
portuguéza : «O rigor do toante pedia qne se escrevesse chegan 
com e no íim, como pronuncia o povo de Lisboa e n'oatras partes 
da Extremadura. Os antigos Castelhanos também assim regularisa- 
vam os seus toantes.» (Rcni., iii, p. 292) 



POPULAR PORTUGUEZA 2 



^n 



região não multo extensa, que merece ao historiador 
uma importância excepcional: i.° Porque n'ella se 
conservaram mais tempo do que em nenhuma outra 
parte da Peninsula, o culto, a língua, e os costumes 
dos primitivos hispanos; 2.° porque por causa da 
sua situação, serviu de intermédio entre a Betica e 
a Celtiberia: referimo-nos á metade inferior da Lu- 
sitânia extremenha, noroeste da Tartessida, da ex- 
tensão de umas vinte ou vinte duas léguas em qua- 
drado, desde o Tejo a Alagon . . Pertencem a esta 
região bastantes inscripções em que se repete um 
certo numero de nome indígenas, parecidos entre 
si, . . .em nenhuma nomes de magistrados romanos; 
o que parece indicar que nella se conservou mais 
pura do que no resto da peninsula a cívilisação pri- 
mitiva. Na Lusitânia, e principalmente n'esta região 
tiveram de refugiar se as tribus primitivas (Kemses f) 
que povoavam o centro da Península no tempo da in- 
vasão dos Celtas, e resistiram mais tempo á fusão com 
os invasores; ha nas inscripções nomes não latinos, 
para cuja interpretação são insufficientes os Vocabu- 
lários célticos. Tt E* nesta região que vamos encon- 
trar a persistência dos costumes primitivos represen- 
tados nos monumentos, como os Touros de pedra, 
com caracter religioso, ainda com a mesma consa- 
gração, tornada catholíca. 

Na tradição popular da Bretanha franceza existe 
uma lenda, que apparece metrificada nos cantos da 
Extremadura hespanhola e também nas Astúrias; 
merece confrontar-se a lenda, deduzindo do seu es- 
tado n'estas regiões a concepção primitiva que a 
produziu : «Tal era a bella Dakut, cuja historia é 
celebre na Armorica. EUa mudava muitas vezes de 
amante, e o seu maior gosto era ir assentar-se com 
o seu favorito sobre as bordas do mar, no alto de 
um rochedo, e depois repentinamente despenhal-o 




278 HISTORIA DA POESIA 



no Oceano.» * Sobre este thema, vejamos a elabo- 
ração do povo asturiano no seu romance : 

LA OATARDA 

Estando un dia Gayarda 
en su ventana florida, 
vió venir un caballero 
por debajo de la oliva. 

— Sube arriba, caballero, 
caballero, sube arriba. 
oNo suba, no el caballero, 
que le han de quitar la vida. 

Al subir el caballero, 
alzó los ojos arriba, 
y vé siete calaveras 
colgadas en una viga. 
Gayarda pone la mesa, 
caballero no comia; 
Gayarda trae el buen pan, 
dei más fino que tenia; 
Gayarda trae el buen vino 

âue es el me^or que tenía; 
rayarda hace la cama, 
caballero bien la via; 
entre sábana y colchon 
pufial de oro le metia. 
Allá por la media noche 
Gayarda se revolvia.j 

= Tú, que buscas ahi, Gayarda, 
que tanto te revolvias ? 
Si buscas el punal de oro 
yó en mis manos lo tenia. 

Diérale três puflaladas, 
De la menor se morria. 
«Abre las puertas, portero, 
ábrelas que ya es de dia. 



Em. Chasles, Hist. de la LÀtterahtre française^ Origines, p, 371. 



POPULAR POKTUGUEZA 279 

— No las abro, el caballero, 
Gayarda me mataria. 
•Abre las puertas, portero, 
que Ciayarda ya está fria. 

— Oh, bien haya el caballero 
y Ia madre que lo paria, 

de cíen faombres aue aqui entraron 
ningun con vida salia. ^ 

Apparece este romance na tradição popular da 
Catalunha, com o titulo de : 

LA SERRANA 

A la montana de Oro, 

ê 

Allí dentro de una cova, 
N*hi havia una serrana 
Blanca y rossa y no es morena. 
Trae el cabello crespado 

Y con una rica trenza. 
Guando qutere hallar un hombre 
Ya se va por la ribera. 

Veu veni un gallardo mozo : 

— Gallardo mozo, deténte. 

S*en prenen mano per mano 

Y s'en van dalt de la cueva ; 
La cueva n*era voltada 

De cabezas de hombres muertos : 

— Son los hombres que yo he muerto 
Allí bax á la ribeira; 

Lo mismo será de ti 
Guando mi voluntad fuera... 



* Viejos Romances asturianos, p. 195. Menendez Pidal coUigíu 
outras versões. O romanista sueco W. Munthe no seu roman- 
ceirinho asturiano Folkt>oesi frao Asturien (1888) n. xi, também 
traz uma versão. D. Carolina Michaelis, no Esttido sobre o Ro- 
mance peninsular, dá-o como obliterado na tradição castelhana. 
Em Portugal, só encontramos esta preciosa referencia nos Contos 
de fadas : 

Torre da Madorna, 
Quem vae lá não torna. 



De tants bessos y abrasadas 
La Serrana s'en aduerme, 
Yo me vuy á poço a poço 
Yo me vuy apartar d ella. 
SJeie Icituas caminaba 
Sen se girarme enderrera. 
Acabadas las siele lleguas 
Yo ro'en girava enderrera. 
Va veig venl la Serrana, 
Vénia coda correnta, 
Ab un perro ai costado 
Qufc feya mes pó que ella. 

— Delenie, gallardo mozo, 
Gallardo moio, deienie, 
Que t'en vuy dona una carta 
Per la geni de la ribera, 
Sino Tesctich de mi sangre 
Ya Tescriuré de la teua. 
■Not poi ser. linda Serrana, 
Que yo ya seré á mi tierra. 

— Ay insta de mi, mes trisia, 
A hora seré descubierta. 



Na Extre madura h espanhol a existe esta lenda 
jcal, conhecida pelo titulo de La Serrana de la 
^era, cujo thema serviu de elemento dramático a 
ma Comedia famosa de Lope de Vega e uma 
utra de Luiz Velez de Guevara. Barra ntes, nas 
jas Narrativas extremehas, traz esta lenda popu- 
if aniiga, que aproximaremos do mytho religioso 
e Istar, resultando do confronto a sua clara com- 
rehensão. Kscreve Barrantes : "Ha na Extremadu- 
i alta uma tradição popular, que o transcurso dos 
ículos não tem apagado da memoria das gentes . . . 
'.' a heroina da tradição uma mulher, circumstan- 



I Ap. MUd y FontRDals, RemanceriUe Catalan, i 



POPULAR POKTCGUEZA íSl 



cia que indubitavelmente contribue para poetisal-a 
e perpetuai a desde os primeiros tempos ; mulher 
formosissima, que por amores mallogrados cobrou 
tal ódio aos homens, que se fez salteadora de es- 
tradas, e não só vencia os viajantes nas lides de 
corpo a corpo, como também os levava para a sua 
caverna, onde depois de gosar com elles os praze- 
res sensuaes em fúnebre orgia, os assassinava des- 
apiadadamente, assignalando com grosseiras cruzes 
sua sepultura, até que a justiça de Plasencia poz 
termo ás suas aventuras com a forca.» (p. i e 2;. 
Em um rarissimo livro de 1667, intitulado Ame- 
nidades, florestas y recreos de la Província de la 
Vera alta y baxa en la Extreínadura, por D. Ga 
briel Azedo de Barrueza (segundo Barrantes, plagio 
da obra de Fr. Gabriel de Talavera, do fim do sé- 
culo xvi) acha-se colligido um romance popular so- 
bre a Serrana de la Vera, em que se reflecte a 
vetusta tradição. Transcrevemol-o segundo a copia 
de Barrantes, que diz faltar em todos os Roman- 
ceiros hespanhóes, e ser ainda repetida por alguns 
velhos; 

Allá en Garganta la Olla, 
En la Vera de Plasencia, 
Salteóme una serrana, 
Blanca, rubia, ojomorena. 
Trae el cabello trenzado, 
Deba/o de una montera, 

Y para que no la estorbára 
Muy corta la faldamenta. 
Entre los montes andaba 
De una en otra ribera, 

Con una bonda en sus manos, 

Y en sus hombros una flecha. 
Tomárame por la mano, 

Y me lie vara á su cueva ; 
Por el camino que iba 
Tantas de las cruces viera. 



282 HISTORIA DA POESIA 



Atrevime y preguntéle 
Qué cruces eran aquellas ? 

Y me respondió diciendo 

Que de hotnbres que muerto hubiera. 
Elsto me responde, y díce 
Como entremedio, risueiia : 

aY asi haré de ti, cuitado, 
Guando mi voluntad sea. 

Dióme yesca y pedernal 
Para que lumbre encendiera, 

Y mientras que la encendia 
Alina una grande cena, 

De perdices y conejos 
Su pretina saca Ilena, 

Y despues de haber cenado 
Me dice : 

«Cierra la puerta.» 
Hago como que la cierro, 

Y la dejé entreabierta ; 
Desnudóse y desnudéme, 

Y me hace acostar con ella. 
Cansada de sus deleites 
Muy bien dormida se cjueda, 

Y en sintiéndola dormida 
Sálgome la puerta afuera. 
Los zapatos en Ia mano 
Llevo, porque no me sienta, 

Y poço á poço me salgo 

Y camino a la ligera. 

Más de una légua había andado 
Sin revolver Ia cabeza, 

Y cuando mal me pense 
Yo la cabeza volviera. 

Y en esto la vi venir, 
Bramando como una íiera, 
Saltando de canto en canto, 
Brincando de pena en peíía : 

«Aguarda, (me dice) laguarda, 
Espera, mancebo, espera. 
Me llevarás una carta 
Escrita para mi tierra. 



POPULAK POKTUGUEZA 283 



Toma, ll^vala a mi padre, 
Dirásie que quedo buena. 
— ^Enviadla vos con otro, 
O' sed vos la mensajera. 

Barrantes copia uma variante d'este romance do 
mesmt) livro das Amenidades, fazendo sentir o gosto 
concettista da época litteraria a que pertence; não 
se afasta dos dados da tradição popular : 

Allá en garganta la OUa, 
En la Vera de Plasencia, 
Salteóme una serrana 
Blanca, rubia, oji-morena. 
Rebozada caperuza 
Lleva, porque asi cubierta 
Su rostro nadie la viese, 
Ni delle tuviese senas. 
A lo galante el vestido 
Con tanta gala y destreza, 
Las basquiiías enfaldadas 
Montes sube y montes trepa. 
Sus cabellos destrenzados, 
Con los arcos de sus cejas 
Flechas arrojan ai aire, 

Y ai aire las flechas vuelan. 
Sus hermosos ojos negros 
Saltean con ella mesma, 
Pues si ella quita las vidas, 
Ellos matan y dan penas. 

Con una flecha en sus hombros 
Saltando de brena en brena, 
Salteaba en los camífíos 
Los pasajeros que encuentra. 
A su cueva los Uevaba, 

Y dupues de estar en ella 
Hacia que la gozasen 

Si no de grado, por fuerza. 

Y dupues de todo aquesto. 
Usando de su íiereza, 

A cuchillo los pasaba 
Poraue no Ia descubrieran. 
Mucnas hacinas de muertos 
Se hallaban por alli cerca, 



284 HISTORIA DA POESIA 



Ya de brutos destrozados, 

Y ya comidos de íieras. 
Nunca las fisras teinió, 
Antes, como si le fuera. 

Por su reina entre ellas mismas 
La levantan y respetan. 
Con una piedra á la barra 
Tiraba con tal destreza, 
Que ninguno la ganó 
Por muy tirador que fuera. 
Era muy grande y pesada, 
Que solo para movella. 
Aun parecia imposible, 
Guando á ella muy ligera. 
De su casa se salió 

Y habito en aquellas sierras. 
Solo por no le dar gusto 
En un empeno que intenta. 
Quiso casarse con quien 
Sus padres se le reprueban, 
E como desesperada 

Se fué á vivir con las íieras. ^ 

O primeiro d'estes romances tem a forma objectiva 
e dramática da elaboração popular ; o segundo como 
individual, é mais subjectivo e descriptivo de elabo- 
ção litteraria. 

Barrantes procurou interpretar os dados da tradi- 
ção com quaesquer elementos genealógicos das fa- 
milias fidalgas de Plasencia, servindose dos versos 
de Lope de Vega e de Velez de Guevara ; proce- 
dendo assim, obedeceu á tendência vulgar que per- 
petua ás tradições adaptando as a novos successos. 

No mytho babylonico da deusa Istar, vemos a 
desposada de Tammuz, separada delle pela morte, 
dar a morte a todos os seus amantes. Escreve Tiele, 



1 Ap. Narrationes extremeOaSj de Barrantes, p. 15 a 18. 
Na Comedia de Velez de Guevara um viajante canta uma ou- 
tra variante d'estes romances, modelada nas formas populares. 



na Historia comparada das antigas Religiões do Bgy- 
pto e dos Povos semitas: «O seu amante ou esposi 
Dumuzi (o filho da vida, Tammuz) assim como 
Adónis de Aphrodile, da Ásia occidental. morre prt 
maturamente. O mesmo acontece a todos aquelli 
que ella ama, todos morrem envenenados por elli 
E" por isto, que, quando ella oíferece a sua mão a 
heroe da epopêa, Tubar, (Gizdhubar) o heroe reje 
ta-a, e enumera aquellei a quem fez successiví 
mente morrer, um homem ou um filho de homen 
uma ave de rapina, um leão, um cavallo, uin re 
um escravo. Quaesquer que sejam os mythos qu 
servem de base a esta enumeração, o sentido nS 
apresenta duvida : o poeta quiz symbolisar o podt 
do amor que se exerce sobre todos os seres. Ista 
furiosa com esta rejeição, vae queixar-se a Anu, 
a Antu, que criam e lhe dão um Touro para con 
bater o heroe que ousou resistir lhe. Porém esl 
mata o Touro, que é chorado por Istar e pelas duE 
servas Samchati e Charimati (nomes que exprimei 
o prazer sensual.) Istar é manifestamente a deusa d 
céo que espalha a fertilidade, que nasce todas e 
primaveras e morre em todos os outonos ; ella coi 
vida debalde o deus ardente do verão a unir-sè 
ella, e este mata, no Touro, a potencia fecundant 
do próprio céo.» ' 

E' pelo poema de ísduÒar ou Namrutu, que s 
conhece este mytho de Istar ; porém na epopêa 
seu sentido naturista tendia a obliterar-se diante c 
lenda moral, com que veiu a perpetuar-se, N'esl 
sentido, prosegue Tiele: «O poeta do notável fraj 
mento de que tomámos eete mytho, parece tan 
bem ter-se já, em certo limite, elevado acima d 



2&Ô HISTORIA DA POESIA 



ponto de vista puramente naturista. Istar não é para 
elle uma deusa amoravel e bemfazeja, ainda que a 
sua ausência (emquanto está na caverna infernal) 
deva fazer cessar toda a. vida sobre a terra. 

«Istar soffre bastante, e o poeta deixa entrever que 
ella é bem merecedora dos solírimentos. Os insultos 
que lhe atira a deusa do império dos mortos, teste- 
munham que Istar era accusada de impudica, de in- 
fiel e dissoluta. — >e a casta e guerreira Istar não 
está separada da Istar voluptuosa, distingue-se delia 
especialmente sendo chamada a Senhora do exercito 
e das batalhas, (Bilit i^mmaniy iachasi) o terror no 
combate, o archeiro dos deuses (qasitti ili) a filha 
primogénita do deus supremo do céo.» * Além do 
caracter sensual da Serrana de la Vera, os roman- 
ces populares extremenhos insistem sobre o seu 
aspecto e hábitos guerreiros, o que legitima a nossa 
interpretação desta importante tradição peninsular. 
Nas superstições da Edade média, a crença no Diabo- 
Vénus, espécie de vampiro da sensualidade, é uma 
transformação intencional do mytho de Istar, que na 
sua forma astrolatrica era identificada com o planeta 
Vénus. Diz Tiele: lO planeta Vénus, era-lhe con- 
sagrado, como estrella da manhã á deusa casta e 
guerreira, e como estrella da noite á deusa fecun- 
da.» (p. 204) Não parecerá a nossa interpretação 
aventurosa, desde que se conhecer que um grande 
numero de Deuses ibéricos, cujos nomes se conser- 
vam nas Inscripções lapidares, apparecem no pan- 
theon chaldeo babylonico e nos cultos de muitas tri- 
bus de raça amarella. ^ 



1 Tiele, Op. cit. p. 206. 

^ A divindade Dingir (no accadico Zu-An-Hur) apparece en- 
tre os Tartar-kuch e Mogol, Tagri e Ttgri ; lairi na Scandina* 
via ; Tangry entre os Turcos ; TangU entre os Hunos ; e Tangara^ 
na biberia e Yokute moderna. 



POPULAR POK.TUGUEZA 287 



Na tradição extremenha, além do romance de- 
scriptivo da Serrana de la Vera, já separado de toda 
a concepção mythica, também o Touro tem uma ex- 
cepcional importância nos costumes populares, rela- 
cionado com o drama hierático das festas de San 
Marcos. São phenomenos de homeoplasias, ou ada- 
ptações dos elementçs tradicionaes antigos ás con- 
dições actuaes ; é o processo da conservação da poe- 
sia do. povo. 

Nos costumes da Extremadura conserya-se a festa 
religiosa do Touro, que é passeado processional- 
mente, e assiste á missa cantada, sendo por assim 
dizer uma forma ainda não decahida em diverti- 
mento popular, como o Bumba meu boi, no Brasil. 
Em Brozas, na egreja de que é orago San Marcos, 
ha uma irmandade, á qual são offerecidos Touros, 
sendo um o escolhido, e na véspera da festa o mor- 
domo com mais seis confrades vão buscal-o á va- 
cada. Dirige-lhe o mordomo uma phrase já sabida, 
para que os acompanhe á egreja, e então sáe o 
Touro mansamente, seguindo com muito concurso 
de povo pelas ruas da villa, entrando em muitas ca- 
sas pedindo-se esmola para o santo ; nessa noite da 
véspera da festa é guardado em um cerrado, sendo no 
dia seguinte conduzido o Touro á egreja aonde as- 
siste á missa cantada, e depois acompanha a procis- 
são levando nos cornos roscas de pão, grinaldas de flo- 



A divindade dias Vascongadas Jaincoa^ (lan-Komé^ nas tribus 
Feta) appresenta-se com o nome dividido em Kami, Kamai no 
Japão e Ainos, correspondendo a Yutna entre os Tchermisses, e 
Homa dos habitantes da Bahia de Saldanha, deturpação da fórma 
accadica primitiva IiJMA. 

A' divindade peninsular Endovelico (em melhor graphia £«-Do- 
YEificu) corresponde entre os Ciganos da Biscaya a divindade Am- 
DuBBBL-í« ; no México An- Tutnel-quen ; na Magolia ^Dubbb ; 
e entre os Bohemios Debel e 'DuveL 



2SS HlSTOhiA DA POESIA 



rcs, e cirios, portando-se sempre com uma mansidão 
espantosa apesar da multidão quc muitas vezes o aba- 
fava. Na província de Huelva foi prohibida a festa do 
Touro, Marcos em 1772, por tmanter-se o abuso de 
levar em procissão o Touro Marcos no dia da fes- 
tividade d este Santo, e que n elle se praticam difte- 
rentes cerimonias supersticiosas, taes como : Que an- 
tes da véspera vae com o estandarte a um cerrado 
aonde está o Touro, inclina diante delle o dito es- 
tandarte sobre o lombo e lhe diz : — Vem, Marcos ; 
effectivamente lhe toca com elle, e obedece como 
uma ovelha ; por vezes embravece se e foge ; que 
para metei- o na egreja hade ser precisamente sobre 
a mão direita, porque se é da esquerda embrave- 
ce-se.>^ * Km Elvas também ha este costume do 
Touro Marcos, sem o cerimonial dramático da pro- 
víncia de Cáceres. Vê-sc que a egreja catholica não 
podendo supprimir o culto do Touro da festa agrí- 
cola do povo, que começava o seu anno solar por 
esse signo zodiacal, deu-lhe uma adaptação alegórica 
ao evangelista S. Marcos. * E' um vestígio ethníco 
importante, característico da raça a que pertence o 
ramo lusitano ; em um Touro de pedra, de San Vi- 
cente de Alcântara, está gravada uma inscripção vo- 
tiva : Burr Magnonis ; e em outro Touro de Ávila : 
Búrr-Macílonís. (Corp. Inscr,, 11, 734; 3052). Dio- 
doro Siculo (vi, 18) falia do caracter sagrado dos 



* Folk-Lorc Betico-Extremeils^ p. 207 e 209. 

'^ O nome de Marcos é tomado da cavalgada ou marcha do 
Touro ; no dialecto bretão Marc'hek, designa o cavalleiro, e Aíarc' 
hekaden^ a cavalgada. Foi pela necessidade de interpretar ou per- 
sonificar os nomes, que o Leão da lenda de S. Marcos se trans 
formou no Touro nos costumes hispânicos. — Nas lendas da Gal- 
Uza, o féretro de S. Thiago é trazido a Compoátella por uns Tan- 
ros bravos. 



POPULAR PORTUGUEZA 289 



Touros na Ibéria, e do saerificio annual de um for- 
moso Touro, ** 

Determinados no3 romances da GayardUy das As- 
túrias, e da Serrana de la Vera, da Extremadura, 
que matam todos os seus amantes, os vestigios do 
antigo mytho da deusa Istar, da civilisação accádica, 
o Diabo- Vénus da Edade média, outros desenvolvi - 
inentos do mesmo mytho apparecem no romance po- 
pular de Juliana e Jorge, commum a quasi todos os 
povos da Europa. Este romance, reduzido á simpli- 
cidade do seu thema, resume-se no castigo que uma 
amante dá ào seu namorado, no momento em que 
lhe annuncia que vae casar com outra mulher. A 
mesma simplicidade ou vulgaridade do assumpto fa- 
ria com que o romance se decompozesse em forma 
anedoctica, se é que elle tivesse origem niima idea- 
Usação da realidade ; a sua conservação em povos 
diversissimos, e sempre na forma poética, explicam- 
nos que essa persistência é devida á universalidade 
de um mytho, que se transformou em lenda popu- 
lar, e se adaptou entre aquelles povos em que exi- 
stiam concepções análogas, apesar da diversidade das 
raças em que elle se encontra. 

As duas mulheres rivaes Istar e Allat, são duas 
manifestações diversas do principio feminino Belit : 
Istar, era adorada no planeta Vénus, com as suas 
apparições ao anoi ecer e de madrugada, * ou á luz 
dos dois crepúsculos matutino e vespertino ; Aliai, é 
a noite, ou o Paiz immutavel da região escura do 
Inferno ; ha antinomia entre as duas deusas, a que 
é a manifestação do mundo das estrellas e a Gran- 
de Senhora da Terra, a deusa chtoniana e infernal. 
Douzi, Douvazi (Thammuz) o esposo mysterioso de 
Istar, apresenta um caracter solar indiscutível ; a sua 



^ Lenormant, La Magie, p. 108. 
Pões. popul. 



290 HISTORIADA POKSiA 



entrada na região das sombras, no Paiz immutavel 
cahindo sob o poder de Allat, mostra como o niy- 
tho nasceu da personificação do phenomeno da na- 
tureza. Lenormant, caracterisando o aspecto planetá- 
rio nas religiões chaldeo-baby Iónicas como consequên- 
cia de uma systematisação de antigos elementos, con- 
clue : lA única divindade, que desde os tempos mais 
antigos appresenta uma physionomia planetária bem 
determinada é Istar. Em contraposição, nada mais 
claro e mais bem estabelecido do que o caracter so 
lar do seu esposo Douzi ou Thammuz; reconheceu- 
se desde longo tempo na religião da Phenicia, onde, 
demais, desempenhava uma acção muito mais con- 
siderável na mythologia babylonica. Estes deuses, que 
morrem e resuscitam periodicamente, próprios do cul- 
to da Ásia anterior, são personificações do Sol nas 
phases successivas do seu curso diurno e da sua car- 
reira annual.» * A idealisação deste phenomeno, a 
Sol descendo ao occaso, ou para as trevas da Noite> 
e para o solsticio do Inverno, deu-se também nos 
povos áricos, e é a base geral da sua mythologia. 
O aspecto planetário é exclusivamente chaldeo-ba- 
bylonico, mas os mythos baseados sobre elle, po- 
dem facilmente adaptar-se ao aspecto crepuscular e 
solar das mythologias indo-europêas. Como Istar, a 
deusa com as duas apparições da estrella da tarde 
e da manhã, e esposa de Thammuz, Allat é tam- 
bém a esposa do Sol. Diz Tiele, na Historia com- 
parada das antigas Religiões: «Os Babylonios tinham 
também a sua Allat, a rainha do império dos mor- 
tos, a esposa do Sol, residindo no mundo infernal, 
a sombria deusa que lança veneno nas zfeias daquel- 
les que violam os seus juramentos^ de sorte que re* 



1 Lenormant, La Magie, p. 120. 



POPULAR POKTUOUEZA 2<ft 

sultam as mais terríveis doenças. > ' No romance de 
JulàoÊtt- t Jorge, é com veneno que ella castiga o 
prejurio do amante quando lhe annuncia que se vae 
desposar com outra muther ; e elle, montado no seu 
cavallo, sente que lhe vae faltando a luz. Esta tra- 
dição apparece em uma duma da Ukrania (Gregó- 
rio), em iim canto da Suécia {Historia de Olafj, em 
um canto da Escossia (Lord Rendai e Sir J^H/iamJ, 
na Bretanha franceza (J'ai fail en réve), nas Astú- 
rias (El coHvito), na Catalunha (La inoble venganza), 
e em Portugal, em Traz-os-Montes (D. Ausenta), ilhas 
dos Açores (O coso de Juliana e Jorge), no Brasil, 
Pará e Pernambuco (Juliana e Jorge) e em um Pliego 
suelto castelhano do secuio xvi [Moriana). A quasi 
universalidade desta tradição entre povos tao diver- 
sos, como slavos, scandinavos, germânicos, bretãos 
e românicos, prova-nos a profundeza primitiva das 
. suas raízes ethnicas, e os vários grãos de transfor- 
mação do thema primitivo fundado sobre uma con- 
cepção mythica. 

A transformação dos mythos chaldeo-babylonicos 
operòu-se ainda na grande civilisa-.ão da Ásia ante- 
rior ; basta recordar a relação entre a lenda de Se- 
miratnis com o mytho de Samouramat, o céo ele- 
vado, do Peixe Oannes com o mytho de Hea ou 
Ea-Han ou Dagan, o peixe- Salvador, que ainda per- 
siste nos Contos populares. Nas dez versões do ro- 
mance de Juliana e Jorge ha differentes gráos de 
elaboração do mesmo thema : na tradição scandina- 
va, a historia de Olaf representa o conflicto de dois 
amores do mancebo entre o Elf e a noiva ; conserva 
ainda o elemento mythico, quando o Sol no seu giro 
atravessando a floresta, é vencido pelo crepúsculo da 



" Tiele, Of. eií., p. 199. 



29'^ HISTORIA DA POESIA 



noite ou a Aurora vespertina sobre os amores da Au- 
rora matutina. Na tradição da. Finlândia, onde os ve- 
stígios mongolóides são mais persistentes como se ob 
serva pelo estudo da epopêa mythica do Kalévala, 
a tradição desenvolve se na forma de lenda, e o 
noivo que sacrifica a sua namorada é envenenado. 
Sabendo como na povoação primitiva da Europa en- 
trou um elemento mongolóide, da mesma raça que 
na Ásia anterior creou a grande civilisação accadica, 
e conhecendo se como persistem vestígios de super- 
stições e cultos chtonianos, que os monumentos da 
Chaldêa hoje explicam, torna-se lógico o acceitar a 
proveniência d'estes vestigios poéticos conservados 
no Romanceiro popular, a que já se referia Strabão, 
maravilhado da sua enorme antiguidade, ou exten- 
são. * 

No prologo do Cancioneiro da Vaticana applicá- 
mos este critério ethnico ás formas lyricas, cuja per-, 
sistencia popular influiu na estructura de certas Can- 
ções trobadorescas de caracter objectivo, e de retor- 
nellos já sem relação com a dansa. Oppert e Le- 
normant traduziram Canções accadicas ou da velha 
Chaldêa, que apresentam formas estrophicas semelhan- 



^ Na obra de Th. Cailleax, Origine ctlHque de la CrtnUsation de 
tous les peuples, These xi, de paginas 137 a 201, sustenta com 
exuberantes provas geographicas, ethnologícae e históricas, as re- 
lações dos Scaldos do Báltico, dos Keltai da Ibéria com os Khal- 
daioi (Chaldeas) da Ásia anterior. Levar-nos-ia longe o resumo da 
sua exposição, em que interpreta a uma nova luz as descobertas 
accadicas e assyriologicas. D 'essa these xi resulta uma compro- 
vação do nosso processo critico sobre estes antigos themas poé- 
ticos peninsulares. 

Em uma passagem da sua obra, (pag. 40) CaiUeux escreve: «nas 
modernas excavações .de Níneve, encontrou -se um pedaço de sino, 
cujo estanho analisado foi reconhecido como pertencendo a Cor- 
nouaiiles. • 



POPULAR PORTUGUEZA 2<)3 



:es ás nossas Serranilhas galecio-portuguezas, e ás 
BalJadas provençaes e italianas ; e traduzindo ho- 
meometrica e homeostnphicamente as Canções chi- 
nezas da coUecção do Chi King, Legge deu -nos tam- 
bém os typos poéticos semelhantes a essas formas do 
Lyrismo occidental popular, que chegou a ser repre- 
sentado no Cancioneiro aristocrático. Esses schemas do 
«parallelismo das ideias e das opposições, que formam 
a essência do estylo poético» na velha poesia dos 
hebreus, como notou Rougé, traduzindo o Canto 
trij4fnphal de Tottnés III, e também na poesia dos 
egypcÍ3S ainda sem determinada metrificação, esses 
cortes symetricos, repetições e parallelismos de phrase 
derivaram da simultaneidade da musica e da dansa 
animadas pela palavra, e cadenciando- a. * ^ - o cri- 
tério ethnico o único meio de entrar na comprehen- 
são das formas mortas da arte, das crenças e das 
instituições sociaes. 



* 



Para os geographos antieos nâo escapou a simi- 
laridade dos povos que hoje occupam Portugal e a 
Andalusia, a que Strabão chama os Turdetanos, e 



* Cancioneiro poriuguez da VaHcana p. c. a cill. As nossas 
observações mereceram a Mr. jeanroy no seu livro Les originas 
de la Poesie lyrique en France a increpãçSo : -'[que era melhor pro«- 
curar esses paradigmas na Allemanha ou na Rússia, e mesmo na 
Itália ou em França.» (p. 311, no» a) E* o que já fica feito n'este 
novo trabalho e com contribuições do próprio critico. Quanto ao 
problema anthropologico e ethnologico, o mesmo estava sob a 
obsessão da origem franka do Lyrismo occidental, reductivel á cél- 
tica de Nigra (pela theoria do germanismo dos Celtas), mas muito 
longe da verdadeira cumprehensão da raça e da civi li sacão dos Li- 
gures, que esclarecem todas estas questões. Fazem tristeza as suas 
jocosas reservas methodologicas. 



2i)4 HISTORIA DA 1'OESIA 



dos quaes diz Sarmiento : csin error, entenaererr.os 
por I^urdetanos d los Portugueses y Andíduces tnãs 
meridionales,^ * Plinio também notara que do Gua- 
diana ao Promontório sacro (Lagos) dominaram os 
Lusitanos. (Hist, nat, vc, 21). Ha nesses escripto- 
res confusas ideias sobre as tribus célticas que con- 
finavam com os Lusitanos, mas com quem não hou- 
ve mestiçagem. Nesta região é que se operou uma 
maior resistência do Lusismo, diante das differentes 
invasões de povos que entraram em Hespanha das 
bandas do Levante. 

No seu estudo La Lusitânia celtiberica. Arenas 
Lopez explica as causas históricas que determinaram 
uma maior resistência do Lusismo em Andalusia e 
x-uriuj^rai : «por causa das quotidianas emigrações dos 
povos PheinCios, Z^^yr^cx^i, Gregos, Carthaginezes e 
Romanos ás nossas costas levantinas, estes povos taes 
como Cunetes, Tartesios, Calpianos, Turdetanos, etc, 
deviam ir diminuindo, á medida que davam impor- 
tância com as suas emigrações. ás regiões de Portu- 
gal e Andalusia, que foram repovoar, concluindo por 
perder-se o seu nome quasi por completo nas costas 
orientaes, para prevalecerem os Turdetanos, Tarte- 
sio$, Cunetes e Lusitanos de Andaluzia e de Portu- 
gal.» fp. 16.) 

Nos prolegoinenos da Historia Universal de íbn 
Jaldum, de Tunis, vem a seguinte passagem trans- 
cripta por Simonet : cUm povo visinho de outro, 
que o excede em cultura intellectual e ao qual deve 
a maior parte da sua própria, não pode deixar de 
copial-o e de arremedal-o em tudo. Acontece isto 
mesmo hoje com os mouros andaluses por causa das 
suas relações com os gallegos ; pois tu verás quan- 



* Afemorúfs para la Historia de la Ihesia, n.o 41 



POPULAR PORTUGUEZA 2^^ 



to se assemelham em trajos e atavios, em usos e 
costumes, chegando ao extremo de coUocarem ima- 
gens e simulacros tanto no exterior como no mais 
confinado dos seus edifícios...» Esta influencia attri- 
buida na Andalusia ao elemento genericamente cha- 
mado Gallego, embora comprehenda os mosarabes 
leonezes e extremenhos, assenta sobre um fundo 
comnium lusitano obliterado ou desconhecido pelas 
successivas invasões. Nos chronistas árabes, escreve 
Dozy : « Galliza designa a provincia portugiieza que 
hoje tem o nome de Beira. Esta provincia tinha sido 
muitas. vezes reino á parte, e Vizeu era a sua capi- 
tal.» * Como a Galliza em relação a Portugal é mais 
do que uma expressão geographica, essas semelhan- 
ças apontadas pelo chronista árabe resultavam de 
um mesmo tronco ethnico. E é significativa a ob- 
servação do grande poeta Lope de Vega, que ten- 
do tomado os Portuguezes como o prototypo do 
amor, (no drama La Dorotèa) escreve em uma das 
suas cartas : «/<c?5 Andaluces verdadèramente son 
atnqrosoSy y gente más liberal y hospitable que los 
castellanos. » * São numerosas as superstições popu- 
lares communs a Portugal e Andalusia, comparadas 
por Alexandre Guichot na revista Folk-Í^re anda- 
luz ; os jogos e parlendas intantis foram também 
comparados por D. Francisco Rodriguez Marin, com- 
probando pontos de contacto resultantes de concep- 
ções e costumes domésticos primitivos, transmittidos 
inconscientemente. Stanislao Prato observa : «quanto 
é a identidade dos jogos e cantigas infantis nos dif- 
ferentes paizes, demonstrativa das estreitas relações 



1 Hist, des mtisulrnans cCEspagne, ill, p. 230, nota. Cf. Recherches^ l, 

p. 163-4- 

2 Obras^ t. i, p. 633. (Carta n.o 112.) Ed. da Acad. 



296 HISTORIA DA POESIA 



que ligam entre si a varies povos da raça novo -la- 
tina ...» (Romania, t. xii, p. 1 5). 

O nome do canto entre o povo das Astúrias, Coreo^ 
é também com pouca differença o mesmo na An- 
dalusia; Garrett observou: «em Andalusia — conser- 
va a gente do campo — os seus Corrios, Corrillos^ 
ou Corriellas, que todas estas appellações tem as 
cantigas que o povo daquella provinda canta ou 
recita de immemorial tradição.» * Na língua portu- 
gueza ainda se conserva a palavra Charolla^ da an- 
tiga Carola ou dansa, e Corriola, já todas com sen- 
tido pejorativo. Todas estas designações acham-se 
no gaulez Carawal e Corelwt, coro e dansa, e no 
gaelico escossez Coiriol, canto, musica. ' Ha um 
valor ethnico nesta designação. 

No Canciopero popular hespanhol, colligido por 
Lafuente y Alcântara observa-se : «o povo hespanhol 
apresenta nas varias províncias diversíssimos caracte- 
res e costumes, e também uma notável differença 
de affectos, instinctos e aptidões. O mesmo se nota 
também em quanto á faculdade poética. Em quanto 
em umas regiões apenas se conhecem unicamente 
os cantos tradicionaes, modificados mais ou menos 
radicalmente, outros apparecem e produzem se a 
cada momento em mil formas differentes. As pro- 
víncias que sob estt: aspecto occupam o principal 
logar, são, índisputavelmente as de. Andalusia e Ara- 
gão, nisto, como em outras muitas círcumstancias, 
offerecem notáveis semelhanças, não obstante os ca- 
racteres que apparentemente apresentam.»^ 

Nas formas lyricas galecío-portuguezas acham-se 



* Romanceiro^ ii. 300. 

* Edwards Recherches sur hs Langues celtíques^ pag. 201 

* Op. cit, p. VII. 



POrULAR PORTUGLJEZA 297 



OS typos que se desenvolveram litterariamente nos 
Cancioneiros trobadorescos e nos poetas quinhentis- 
tas ; nas cantigas Portuguezas andalusas, determinam- 
se os moldes da Canção que se desenvolveu musical- 
mente no S<ãdo e na Modinha, que se relacionam 
com as Canções italianas que produziram a Ária. 
Pelas cantigas populares da Andaluzia se definem 
as formas da cantiga portugueza, nos seus dois ty- 
pos, a SeguidilAa e a Copia. A primeira compõe- 
se de uma quadra em redondilha menor, o i.** e 3 ° 
verso de seis syllabas, e o 2.° e 4.° em versos de 
quatro syllabas ; o pensamento completa-se em um 
terceto de redondilha menor • 

Soné que me querias 
La otra manana, 
Yo soné ai mismo tieropo 
Que lo spnaba ; 

Que para un triste 

Aun las dichas sonadas 

Son imposibles. 

Ksta forma presta-se ás mais delicadas expressões 
do sentimento; constitue o gérmen da Monodia, 
(Cansone a una você) e da Modinha portugueza, 
que pelo desenvolvimento artistico e literário se se- 
pararam da ingenuidade popular. Lafuente y Alcân- 
tara descreve esta transformação artificiosa por tra- 
ços que coincidem com o estado da Modinha por- 
tugueza do século XVIII : «Em tertúlias modestas de 
saltério e guitarra . . . houve tempo em que se deu 
uma verdadeira febre de Seguidilhas, e não havia 
galan que se presasse de algo engenhoso, que não 
aguçasse a mente e desse tratos á imaginação para 
cantar as graças de tal ou tal dama . . . Predomi- 
nam exageradamente nas Seguidilhas d 'este tempo, 
os equivocos, os jogos de palavras, as paranomasias, 



..^r-^ 



2()8 HISTORIA 1»A I^OESIA 



OS conceitos subtis e alambicados, e intercalações 
mythologicas, com muito cego Cupido, e deusa Vé- 
nus, e as indispensáveis setas ...» * Na SeguidzIAét 
andalusa succede perder-se por vezes o terceto, como 
se verifica nas coUecções escriptas, e também na 
tradição oral popular em que só subsiste a quadra. 
Nas Cantigas portuguezas, o terceto que segue a 
quadra torna-se um Refrem, que fecha todos os can- 
tares sem dependência de pensamento; taes são: 

Lori lolé, como vae airosa, 
Com a mão na trança 
Não lhe caia a rosa. 

Aili, aMé, bem te vi estar 
A* beira do rio 
A ensaboar. 

Nas Cantigas do Alemtejo, a esta parte final cha- 
ma-se Requebro ou Remate, e chega á forma da 
quadra, conservando o metro de redondilha menor : 

Oh meu bem, meu bem, 
La vae o requebrOy 
Os dias alegres 
E* que eu celebro. 

Oh meu bem, meu bem 
Lá vae o remate^ 
Os moços de agora 
Todos tem achaque. 

Ailé, 

Seis e cinco onze. 
Tenho o peito de aço, 
Queria-o de bronze. 



Op cit., p. XIII 



A 



POPUUAK PORTUGUEZA 299 



Ai lé, 

Oh amor, troquemos 
Os teus olhos grandes 
Pelos meus pequenos. 

Oh, ai, 

No ár canta a rola, 
Por amor de ti 
Passo vida tola. 

Ai lé, 

Oh penas, oh balas 
Que tens, meu amor. 
Que já me não falias ? 

Ai lé, 

Que eu digo, eu digo. 
Deus me não mate 
Sem viver comtigo. 

Rodriguez Marin, nos Cantos populares espaholés 
reuniu estribilhos soltos, que segundo as exigên- 
cias da musica, são remates subordinados ás repeti- 
ções do canto, (n, 200.) 

A Copla, ou propriamente quadra, é mais fácil de 
improvisar, e por isso mais espontânea; Lafuente y 
Alcântara aponta as modificações que soflfre a qua- 
dra segundo as exigências da musica, como" nas 
Malaguenas, Rondenas e Fandangos , que empregam 
seis versos : repete-se o primeiro verso duas vezes, 
e outra ao concluir a quadra. Dá-se este processo 
na Cantiga portugueza desde o Algarve até ao Mi- 
nho. Pode-se considerar, que a repetição dos versos 
supre a falta do refrem. Por isso diz a cantiga gal- 
lega : 

No hay cantiga n-o mundo 
Que non tina seu refran; 
Nunca ninguen faga conta 
Se non To que t«n n-a man. 



3()0 HISTORIA DA POESIA 



Nas festas e procissões da Pasçhoa, na Andalu- 
sia, cantam-se cantigas allusivas á Paixão entre a 
gente do povo, e têm o nome de Saetas (que tra- 
duz o sentir ideológico das jaculatórias) ; os versos 
que se cantavam em Portugal ao Correr a via-sacra, 
como os da Fortaleza divina, de Frei Rodrigo de Deus, 
correspondem a este costume andaluz, substituído por 
formas litterarias pela intervenção ecclesiastica. 

A cultura da poesia lyrica, acompanhada de dan- 
sa ao som das castanholas e do pandeiro betico crus- 
niata e tartessiaca <Bra, da antiga região que hoje 
se chama Andalusia, era celebrada pelos escripto- 
res gregos e romanos; como as modernas gita^ 
nas, as puellce gaditance cantavam e bailavam com 
uma desenvoltura, que hallucinava os conquistado- 
res romanos, reclamando-as para matizarem os seus 
triumphos militares ; e alguns poetas, como Juvenal 
e Marcial descreviam-as com enthusiasmo. Isto que 
se passava na época romana era já uma decadência 
da antiga instituição religiosa das druidissas degra- 
dadas á condição de bailadeiras das praças, como os 
druidas em frente do christianismo feitos belfurinhei- 
sos e adivinhos. A degradação fôi-se aggravando 
com o predomínio da Egreja, e no Concilio de To- 
ledo, (xvi, 23) a persistência do costume das can- 
ções lyricas foi prohibida como uma torpeza, turpe 
cantus. 



* * 



Na região algarvia a tradição das puell<B canta- 
deiras não decahiu nas jogralessas desenvoltas, mas 
na crença das virgens occultas, como do coUegio 
religioso, as Moer, ou Moiras, que são anteriores á 
occupação mauresca do Algarve. 

Os Kinethes á2ih margens do Anãs (Guadiana), de 



POPULAR PORTUGUKZA 3oi 



que faliam Heródoto e Festus Avienus, são identifi- 
cados por Lagneau ao povo mauritano denominado 
por Ptolomeu pelo nome de Kinithes, (iv, 3, § 22,) 
Admittida esta opinião» que não repugna a Jubain- 
ville * embora não ache provas de seu ligurismo, vê- 
se que as tribus maurescas que se fixaram no Al- 
garve não desnaturaram a população lusitana. £ na- 
tural o equivoco de confundir tribus africanas bran- 
cas com esse elemento europeu que regressou da 
Mauritânia para o extremo sul da Lusitânia; os ve- 
lhos testemunhos foram esquecidos ou incomprehen- 
didos. Heródoto (liv. iv) considerava os Ginetas os 
últimos europeus que viviam ao poente ; e segundo o 
Périplo do Mediterrâneo por Marciano de Heraclea, 
a Lusitânia principia na ponta occidental do Pro- 
fnaniorto Sacro, terminando nas fontes do Douro. . . » 
(Lib. n, n.° 14). Também Ptolomeu nas Taboas geo- 
graphicas aponta uns Turdetanos de Andaluzia e 
outros Turdetanos que occupavam o Algarve; as 
PuellcB gaditano^, vestígios das antigias virgens drui- 
dissas da Andalusia, conservam -se no Algarve na 
crença de Don/.ellàs encantadas, identificadas com 
as princezas Moiras, a que a imaginação popular 
procurou dar actualidade histórica. 

Este thema poético tradicional, mais persistente na 
população do Algarve na crença das Moiras encan- 
tadas» segundo Alfred Maury, na sua monographia, 
Les Fèes au Moyen Age, deve-se interpretar pela ety- 
mologia d este nome no céltico mor, meir, mercA, don- 
zella, idêntico ao scandinavo moer. . .» (p. 11.) E' na 
noite de San João que apparecem as Moiras encanta- 
das, junto das fontes, ou cavernas, penteando se, e 
guardando um thesouro para quem as desencantar. 



* Les prémiers habitans de TEurope, p. 306. 



302 HISTORIA DA fOLSIA 



E' a mesma crença da Bretanha, como observa 
Maury: «Todos os annos, na volta da primavera» 
ellas, as fadas, celebram uma grande festa de noite, 
depois desapparecem aos primeiros raios da aorora. 
Segundo as mesmas tradições, estas bàst» estão or- 
dinariamente vestidas de branco; esta cor lembra a 
das vestes das druidissas, bem como explica o epi- 
theto de Damas òrancas, que se lhes t^ dado. — 
Os aldeãos da Baixa Bretanha, não esqueceram com- 
pletamente a origem druidica das fadas ; e aiiíirmam 
que os korrigans são grandes princezas gaulezas que 
não quizeram abraçar o Christianismo, quando che- 
garam os apóstolos ; foi por isto, accrescentam elles, 
que a maldição de Deus as feriu. Por uma crença 
análoga, os habitantes do paiz de Galles vêem nas 
mesmas fadas as almas dos druidas condemnados a 
fazerem penitencia. > (p. 39.) E' o que se repete 
com a crença poética do Algarve, sobre o homo- 
phono Meir e Moira, explicando o apparecimento 
das fadas como princezas da Moirama, que íicaram 
occultas na região de que os Mouros foram expulsos 
nas guerras da reconquista christã. * Com a crença 
das Fadas (Moiras) liga-se a das Ilhas encantadas, 
em que se recolhiam as almas dos Hèroes ; e pelo 
influxo d'esta tradição dos Elysids, e das lihas afor- 
tunadas é que do Algarve partiram os primeiros ex- 
ploradores do Mar Tenebroso, que mais tarde o In- 
fante D. Henrique subsidiou por uma quota parte 
a receber nos lucros dos descobrimentos. 

A lenda da formação do Âmbar, objecto do com- 
mercio e das expedições dos Ligures, acha-se refe- 



* Sobre esta tradição local é largamente informativa a obra do 
Dr. Athayde de Oliveira, As Moiras encantadat do Algarvet Ta- 
vira, 1898. I vol. de XXV — 304 pg. 



POPULAR PORTUGUeZA 3o3 



rida por Plinio (xxxvii, ii, § 36) segundo uma no- 
ticia de um certo Nicias : c Acreditava-se na Grécia, 
que o Âmbar era- o resultado da acção exercida so- 
bre as aguas do Oceano pelos raios do sol ponente: 
no momento em que o sol desapparecia no hori- 
sonte, os seus raios penetrando immediatamente na 
agua salgada tinham mais força do que durante o 
dia ; dahi no Oceano uma espécie de suor, que era 
arrojado á prata pelas ondas ; era o Âmbar ...» * 
Esta mesma lenda apresenta um vestígio na crença 
dos habitantes da região algarvia (Cuneos), como re- 
fere Strabão, — quando descreve o Promontório Sa- 
cro: «o que se segue é apenas uma trama de fa- 
bulas e superstições populares, e torna-se impossivel 
dar fé ao seu testemunho. A gente do povo, diz 
Possidonio, está em geral convencida que nos paizes 
que marginam o Oceano, osoL . . some -se com um ruí- 
do estridente como se o mar assobiasse apagando os 
fogos do astro mergulhando nas ondas ; ora isto não 
passa de um erro grosseiro ...» Vê-se que o povo 
que narrava a maravilha estava de accordo com a 
origem do Âmbar, segundo a explicação dos nave- 
gadores liguricos. cHesiodo, como observa Jubain- 
ville, associava ao mytho da producção do Âmbar 
o nome dos Ligures...» (Op. cit., 214,) 

Não serão os pomos de ouro do Jardim das He- 
spérides ou Heliades, os blocos redondos do Âmbar 
amarellOy trazidos pelos navegadores liguricos, os 
Cysnes, os Ganços, * como eram chamados segundo 



1 Jubainville, op. cit., p. 210. 

2 De Gkanse veia o nome da li^a fluvlatil e marítima denomi- 
nada ffansa^ que se renovou na Edade média ; os nomes d 'estes 
povos eram era geral tomados de um animal amphibio : os Pho- 
ctanos (da foca), os Siluros (de seal. a foca) ; os Sitqwmts (de 
Schwan, o cysne) ; os Slavos (de Sluyf, pato de ribeira). Cail- 



0O4 HSTORIA DA I>OIí:SIA 



as povoações que iam fundando ? As navegações atlân- 
ticas erani motivadas pela procura d essa resina fóssil 
preciosai e d ahi a crença em uma Ilha mysteríosa, que 
para os gregos era a Eàísion, ou a Andalusia. ^ 

Na Odyssêa (iv, 563-560) falla-se na região ou pla- 
nuras do Elusion nos confins da terra, eiu que não 
ha neves nem chuvas, e as brisas do Oceano refres- 
cam os homens. E' esta a região identificada com a 
Andalusia (de Antíia- Elusion), Segundo as conce- 
pções religiosas aqui eram os Campos Elysios para 
onde iam as almas dos jubtos ; e da ideia dos jar- 
dins se formou o mytho do Jardim das Hespérides, 
e do Vellocino, cuja descoberta e conquista é o the- 
ma das lendas Argonauticas. 

Recapitulando os factos até aqui apresentados, evi- 
dencia se que existiu uma Poesia vulgar na época da 
florescência da Litteratura clássica latina, simultanea- 
mente cantada e dansada, fundada na accentuação, 
base da metrificação moderna. 



leux, op. cit.^ p. 36 a 42 E' por este caracterisiico que o noiLe 
de Lez e Lesiria. margem, beira marítima, nos apparece como ra- 
dical do nome Luso oa Lusitano^ e de LÀsboa. 

1 O -^ome de Elystos teve entre os compositores dos falsos 
Chrontcdes uma relação com hysia e Lisboa. Secundo Bochard, 
Elysio vinha do phenicio Alizut^ terra de delicias; era na Betica, 
^Andalusn) que os auctores antigros coUocavam os Campos Ely- 
siat (de Uz, lezíria) Escrevia Bory de Saint Vincent : «Apesar da 
benignidade do clima, não posso encontrar o Elysio na Andalu- 
zia. . .» (Etsais sur les lies fortunées^ p. ^589.) 

Com o nome de Lez aponta Jubainviíle no seu índice gfeogra- 
phico uma ribeira próximo a Mompellier. Elisa^ Elisah^ designava 
uma região da Elida ; segundo Diodoro, Alesia^ que César tomou, 
era uma cidade heracleaca ; os Elesyca^ dos arredores de Narbo- 
na, referidos por Avieno, os Elustuoi^ que Hecateu chama lígures, 
os Helisucoi^ de Heródoto, revelam pelos seus nomes que havia 
um radical qoe os distinguia d'entre os outros navegadores lí- 
gures. 



POPULAR PORTUGUEZA 3o5 



A incorporação sob o Império romano das raças 
gauleza, britânica, ibérica e céltica, fez com que essa 
poesia popular encontrasse novas condições sociaes 
para se desenvolver sobretudo pela similaridade dos 
costumes, e pela ampliação do léxico nos dialectos 
vulgares chamados novo-latinos. 

O Christianismo com os seus elementos poéticos e 
a Kgreja como corporação politica e docente, trans- 
formando os Polytheismos das raças europêas no Mo- 
notheismo, provocaram a elaboração de um residuo 
de mythos destituídos da crença em themas poéticos 
tradicionaes, sempre condemnados pelo rigor dos Con- 
cilios como superstições, ou adaptados ao culto por 
interpretações alegóricas. E' a começar do iv século 
que se opera este phenomeno, em que esses themas 
poéticos estimulam a sympathia popular e inspiram 
o génio individual, ambos no mais completo ac- 
cordo. 

As invasões germânicas, do norte da Europa, e 
a dos Árabes, ao sul, nos profundos abalos sociaes 
aproximam novas fontes de poesia das raças, ampliando 
a intensidade da Poesia vulgar, e interrompendo por 
longo tempo a disciplina latina. E* n esta crise, que 
recebem forma escripta as Linguas românicas, e se 
fixam as novas formas poéticas, sem relação alguma 
com a métrica latina. 

N'este periodo, que vae do século viii ao xii, 
cria se na Peninsula hispânica uma classe activa, in- 
dustrial e agrícola, a sociedade ntosarabe, elemento 
popular dos modernos Estados peninsulares, d'entre 
os quaes se destacou a Nacionalidade portugueza. Os 
antigos caracteres da raça Lusitana em contraposi- 
ção com a Ibérica, reapparecem na autonomia e ma- 
nifestações do génio nacional, verificando-se a sua ex- 
tensão primitiva pela Galliza e Astúrias, Extremadura 
e Andalusia na persistência das mesmas tradições 

Poes. popul. 20 



poéticas populares. Ksses theinas communs á Itália, ' 
á França meridional, Bretanha, e a Portugal, revelam 
uma unidade ethnica, que os modernos resultados da 
antliropologia determinam na extensão da raça dos 
Ligures, que precedeu e excedeu em civilÍsa<;ão os 
Celtas loiros, corpulentos e errantes ; * a similaridade 
d'esses thenias lyricos e épicos explica-se também pe- 
las conrepções e costumes sociaes, de que existem 
ainda vestígios na vida popular moderna, e mesmo nas 
festas religiosas. 

Pelo critério ethnologico é que a Poesia popular 
pôde ser comprehendida, apesar das suas transforma- 
ções nos dois meios sociaes, a Egreja, que a elaborou 
nas Prosas e cantos litúrgicos, e as Cortes, aonde a 
Canção chegou a exprimir o mais elevado subjecti- 
vismo e a ingenuidade melódica da Ária. 

As nacionalidades peninsulares representam -se tam- 
bém na sua tonalidade musical, destacando-se os dois 
typos anthropologicos predominantes. Transcrevemos 
as seguintes observações : 

«A musica gallega é tão variada; ha no seu ry 
thmo tantas cadencias e melodias... observa-se na 
sua tonalidade tal riqueza de notas, ora alevantadas 
e eloquentes como a Alborada, espécie de hymno 



) Garrett leve a intaiçSu da uniilade da tradifSo dos Roman- 
ces popaUres: 

«E d'aquL se deprehende tamhem uma coisa, qne muilas Tezes 
tenho julgado enirevfr, e de que tenho quasi uma consciência jn- 
tinia, sem ousar dal-a por Certa, porque nBo lia ainda todas as 
provas docum-rntaea que se precisa para uma asserçío que hade 
parecer atrevida i e í — que os Romances primitivos quasi que 
eram communs ás Línguas romanas, e que nenhuma os vindicava 
exclusivamente ; poiqne o trovador catalão ou provençal, portu^ez, 
normando ou c^telhano pertencia mais á republica litleraría e ar- 
tisCica de sua profissão do que a nenhum reino ou naflo ou di- 
visio politica de paiz. 



com que a gaita céltica saúda a natureza ao Íniciar-s 
o crepúsculo matutino ; ora regosijadas e travessa 
revoltosas e picarescas como a MuiHeira. iodispei 
sável etn Ioda a romaria; ora sentimentaes e no; 
talgicas como as que preludiam o terno e apaix< 
nado Aialdla, gemido prolongado como se íôra exh. 
lado por um peito invadido pela pena, e de tal m; 
neira se prestam á coordenação rythmica combiti; 
das com os mil que matizam todos os cantos usi 
dos nas Fobadas- . - 

• Veja-se lambem o Aragão com as variantes c 
sua celebrada jota ; Andalusia com os seus soleare 
seguidilhas t. peteneras ; Biscaya com os seus eortz 
cos ; Catalunha com a sua sardana, e todas as regiõ» 
de Hespanha, menos as duas Castellas, pobres ai 
nisto, pois não tem um só canio que lhes seja pi 
culiar, postoque esse que chamam dos Pastores nâ 
é outra cousa mais do que um reflexo das canções g; 
lega-, que. desvirtuadas ao passar peio crivo da teri 
leoneza se espalham pelos esteppes castelhanos e s 
convertem em alarido monótono e insupportavet. > 
E' de um grande alcance esta observação, que tani 



«Aponto isto aq-jí súmcnte como emeata, para mais devagar 
reflectir e estudar no que indico. Ha grande verdade na indi- 
cio; mas até on1e ella chega, nSo sei dizer pot oia, nem sab 
rei talvei nunca, porque me rAo sobra tempo nem paciência pi 
dar professadamente a estas cousas. Von escrevendo o que r 
occorre como curioso. A sciencia lard o seu oHicio com o tei 
po." (Rem.^ m, p. 127.) 

Depois de Garrett, é que Fernando Wolf, na StUda ãt Roma 
cts populares de Portugal t da Catalunha, e o dr. Koehler, no Jfu 
buch fur remamsche und taglischc Lilttratur, (vol. iii, lasc. I, 
1862) notaram aa relaçííes communs que enistem entre esi 
prodnetos tradicionaes com os outros italiano» e aliemSes ; e I 
gra. procurou a base ou substratum céltico para explicar esta lin 
larídade. 

l Ransla galUga, anno TI, n.° 273, (3 — VI — 900.) 



3o8 HISTORIA DA POESIA 



differenda o génio ibérico^ sombrio e auctoritario, ten- 
dente ao domínio pela unificação. 

Assim como Costantino Nigra procurou determi- 
nar o substratum ethnico que identificava os Roman- 
ces populares do Piemonte com os de Portugal, tam- 
bém fallando da musica das Canções portuguezas es- 
creve Untersteiner : 

cNelle danze lelemento speciíico nazionale è poço 
pronunciato ed esse somigliano nclle Icro ntonotonie 
cfi ritmo, nelle loro melodie facili una piuttosto coni- 
muni, a molte delle canzani deltAlta Itália, e non 
alie migliori.» * E mais um traço accentuado para 
definir o aspecto ligurico no typo lusitano até hoje 
conservado no portuguez, * 



* Rixnsta musicale italiana^ vol. i, p. 550. 

* Contra o substratum céltico de Nigra, escreve Gaston Paris : 
onSo vejo por que systema ethnographico se possa achar um sub- 
stratum céltico ao portuguez ; a Aquitania era povoada de Iberos 
e não de Celtas ; os Ligures nSo eram Celtas ; o veneziano, não 
tem o caracter próprio dos fallares gallo-italicos Se como eu pen- 
so, o património lyrico -épico de que se trata é próprio á França, 
á Catalunha e ao Piemonte, a sua extensão não coincide, nem com 
o substratum céltico, nem com os fallares de accentuação jambica, 
— a communidade entre a França, a Catalunha e Piemonte, de ura 
certo numero doestas Canções, não tem por causa um substratum 
céltico.» ycurnal des Savants, 1889, p. 545. 



m 



A VERSIFICAÇÃO POPULAR E OS GÉNEROS POÉTICOS. 



A linguagem fallada e proposicional, exprimindo 
pensamentos e sentimentos por meio de compara- 
ções e imagens, por tropos e allegorias, tem implí- 
cita nas suas condições normaes uma espontânea 
representação poética; mas diante das fortes impres- 
sões e das emoções profundas, a palavra acentua se 
com vehemencia, as intonações exclamativas dão-lhe 
uma maior intensidade, subordinando-a á cadencia da 
phrase, modulando a instinctivamente em um canto. 
Esta relação entre a palavra e o canto suscitado pe- 
las pa xões violentas, como ainda se observa no la- 
mento e na cólera implacável, levou a achar o rythmo 
da phrase, constituindo o verso, e o seu âmbito ou 
extensão fixada pelo movimento da dansa. Nada se 
comprehenderá acerca da Versificação moderna, se 
esta creação for estudada fora do conjuncto syncre 
tico — poesia, musica e dansa. Somente em épocas 
adiantadas a poesia foi recitada ; da mesma forma 
que a musica se emancipou da palavra, e a dansa 
se converteu em mimica dramática. A Litteratura e 
as Bellas Artes appresentam estas formas superiores, 
sempre como manifestações estheticas individuaes; 



3 IO HISTORIA DA POESIA 



mas na tradição popular é que se encontram ainda 
na sua priniitiva forma syncretica, donde se podem 
seguir os germens nos seus desenvolvimentos suc- 
cessivos. Cada lingua que se cria traz nos seus agru- 
pamentos de sons os caracteres prosodicos e rythmi- 
cos que a differenciam de outra em quanto ao seu 
discurso foliado, e ao seu discurso poético ou canta- 
do; e, o que é verdadeiramente importante, essas 
duas accentuações prosodicas e rythmicas da pala- 
vra e do verso coincidindo sobre a mesma syllaba 
tónica, constituem a harmonia suprema e a mais 
característica da Poesia moderna. O modo como se 
consegue essa coincidência entre o accento proso- 
dico e o r}^thmico dentro de um determinado sylla- 
bismo e âmbito musical, acha-se constantemente em- 
pregado na linguagem popular nas suas ellipses, e 
ecthlipses, syncopes, cesuras e outros variados phe- 
nomenos phoneticos designados pelos rhetoricos. 

Nesta parte a Poesia moderna é fundamentalmen- 
te diíTerente da Poesia antiga, greco romana, pre- 
dominando nestas o accento prosodico, sem coinci- 
dir com o rythmico ; como a palavra pela riqueza das 
suas flexões não tem um logar determinado na phrase 
ou construcção syntaxica, esse ictus faz sentir o ra- 
dical da palavra, e é essa intonação a belleza da 
quantidade da métrica latina. São dois systemas 
poéticos inconciliáveis ; e portanto são absurdos to- 
dos os esforços dos eruditos para derivarem a Poé- 
tica das línguas românicas de quaesquer versos lati- 
nos, trochaicos, jambicos, dactylos ou anapestos, se- 
gundo as suas phantasias. O phenomeno da forma- 
ção das Linguas românicas é simultâneo com o es- 
tabelecimento da sua Poética, e não podem ser com- 
prehendidos isoladamente. 

A Linguagem natural e a Poesia identificam-se na 
intuição do povo : a Falia, como designação da ex- 



POPULAR PORTUGUEZA 3 I 1 



pressão proposicional, deriva de Fabula^ e a Peda- 
lara ou discurso resumido de Parábola, que são ver- 
dadeiras creações poéticas ; o Verbo e o Provérbio 
significaram a sentença gnomica ; o Romance expri- 
miu toda a linguagem vulgar moderna e ao mesmo 
tempo as narrativas poéticas de caracter objectivo; 
assim como laiinado e ladino o homem culto ou as- 
tucioso, contraposto a romancista, ou analphabeto, 
usado ainda no século xvii com este sentido. O 
Mote é a palavra (moi) tomada como pé de cantiga 
e desenvolvendo-se na forma eátrophica ou Glosa, * 
Da identificação da Lingua com a Poesia, provieram 
muitas designações de géneros poéticos entre os po- 
vos românicos; taes são o Dit, o Ditado, o Dizer 
e o Dizidor, 

Esta relação ideológica acha-se também entre os 
povos germânicos e scandinavos ; os velhos poetas 
allemães empregam indistinctamente sagen e singen, 
que significam dizer ou cantar ; tem este duplo sen- 
tido o qveda scandinavo. 

Na Confession rimada de Hernan Perez de Gus- 
man, lê-se : «Tocar estrumentos, é dezir canciones.'* 
Tanto na poesia franceza, como na ingleza é fre- 
quente encontrar se Ditz, Dictie, Dities, que Ede- 
lestand Du Méril relaciona com a palavra allemã 
Dichten, postoque raramente appareça nos docu- 



* O povo chamava ao verso simples e isolado Mote^ por ter 
um sentido completo ; do povo tomaram os trovadores esta desi- 
gnação para sig^nificar Verso, como o reconhece Frederico Diez. 
La Poesie des Traubadour^ p 89. Nas Leyes d' amor s^ o mot é 
substituido por Byrdo^ que se relaciona com o nosso termo vul- 
gar de Bordão ou phrase repetida insistentemente, ou palavra que 
inconscientemente se usa. 

«A lo que los Latinos Uaman verso llaman los Castellanos 
pies 6 Bordones. » Sarmiento, Memorias pira la Hist. de la Poe- 
sia, p. 160 



12 HSTORIA DA POESIA 



mentos anteriores ao século xiv. ^ A designação po- 
pular passou para a poesia da corte, e de Giraud 
de Borneil se lê: cPerque fo appellaz maestre deis 
trovadors, e es ancor per totz aquels que ben en- 
tendon subtils ditz, > ' Em uma Ordonance de Police 
de 14 de Septembro de 1395 vem: cNous defen- 
dons à touts dicteurs e faiseur de Dicts e de Chan- 
çois, et à tous menestriers de bouche et recordeurs 
de Ditz, . . » Em Gonzalo dç Berceo, nos Loores de 
Niustra Seftora (est. 225) lê-se : 

Tal es la tu matéria, Senora, como el mar, 
Todos tus decidons an y que empozar. 

Quando pela primeira vez Fernando e Isabel saí- 
ram á missa, em 1478, descreve o chronista An- 
dreaz Bernaldez : « Ybanles festivando muchos instru- 
mentos de trompetas, é otras muchas é mui açor 
dadas musicas que yban delante dellos, é yban alli 
muchos decidores de Ia ciudad á pie de los majo- 
res. » ^ Em Portugal este nome de Dizidor era dado 
ao poeta satirico, como se infere da alcunha de An- 
tónio Ribeiro Chiado, auctor cómico. O Marquez de 
Santillana. na sua Carta ao Condestayel de Portugal, 
fallando de Gonzalo de Castro chama lhe cgran de- 
cidor,^ e diz ter visto um volume cde Cantigas Ser- 
ranas, e Decires portugueses .e gallegos.» 



1 Histoire de la Poesie scandinave^ p. 290, cita estes versos de 
Denys Pyram : 

Li rey, li prince e li cortur, 
Court, baruni e vavassur, 
Ayment cuntes, chancois e fables, 
£ les Diz^ qui soit delitables. 

* Raynouard, Choix de Poesies des Troubadour^ t. v, p 166. 

3 Crónica de los Rey es Católicos ^ cap.. 33 ; ap. Rios, Hist, à la 
lit esp.^ vn, -438. 



POPULAR POKTUGUEZA 3l3 



De todas estas designações, a que se conservou 
é a que significa a sentença proverbial, ou Ditado, 
Em uma canção do trovador Giraut de Riquier, 
vem : 

En volgra esforçar 
De far beis dictamens, 
Troban los beis dictats, 

E em Gonzalo de Berceo, é frequente este mes- 
mo vocábulo : 

Fiz de controvaduras et de mucho dictadoy 
Para dar a las gentes mucho buen gasayado. 

(Loores^ estr. 17.)- 

Também o Arcipreste de Hita refere-se a este gé- 
nero poético : 

Envióme mandar, que pensasse en fazer 
Algun triste dictado, que pudiesse ella saber, 
Que cantase con tristeza, pues la non podia aver. 

(Ed. Och.. p. 433, col. 2.) 

A ideia de dizer liga se impulsivamente á de fa- 
zer, como se reconhece nas tautologias: Dtto e feito ; 
Seu dito, seu feito; e na phrase : Se bem o disse 
melhor o fez, E' pela concepção poética, que, a 
palavra e o acto se relacionam, embora segundo 
o rifão castelhano: «Del dicho ai hecho vá gran 
trecho.» A palavra grega Poietes significa o faze- 
dor, o fabricador ; o nome Poema significa obra (a 
Opera designa hoje um poema musical.) No your- 
nal dun Bourgeois de Paris sons François /, fal- 
la-se no castigo dado ao P.* Cruche, em 15 15, por 
ser «grand fatiste, compositeur de jeux et novali- 
tés.» * E Etienne Pasquier escrevia : «Au chant royal 



l Ap. Henri Martin Histoire de France, t. vm, p. 22. 



3 14 HISTORIA DA POESIA 



le fatiste etait obligé de faire cinq onzains en vcrs 
de six syllabes, que nous appellons heroiques . . . • 
Não virá o nome de Fadista do canto de Fado 
ou feito ? (factum e não fatuin.) Determinado este 
thema, temos explicada varias formas da poesia po- 
pular : as Carpideiras, que celebravam com lamentos 
os Pleitos (ios mortos (hechos)y eram chamadas En- 
dechaderas ; d'ahi o nome especial do verso elegia 
CO Endhecha, E como as Carpideiras ás vezes po- 
diam lembrar os máos feitos do morto, a par das 
Endechas havia também as Deshechas, Na Relacion 
de los fechos dei Condestable Miguel Lucas, de 
1471, lese, que durante a ceia: cmuy buenos can- 
tores — alli estaban, prosando muy buenas cancio- 
nes y deshechas,^ * Os jograes entre o povo eram 
chamados Trasechadores, a que correspondem nas 
Ordenações Aflíonsinas os Tregeitadores (e ainda a for- 
ma deturpada Estrugeitante) ; lê se na Crónica dos 
Reyes católicos: cias gentes de juglares e trasecha- 
dores e jugadores de esgrima ...» * Faccion designava 
em castelhano a Cantiga ; mas o poder creador de 
fazer, synthetisa-se no hechizo (o Feitiço), em que é 
vivificada a natureza morta, pela poética intuição po- 
pular de que tudo o que existe está em actividade per- 
manente na energia do universo. 

Estabelecidas estas relações, vejamos como do 
génio das Linguas românicas derivou o systema 
completo e perfeito da Versificação popular, que se 
fixou nas Litteraturas. 



' Ap. Rios, Hist. de la LÀt. esp , t. vii, p. 430, — Da ideia de 
fazer, vem a forma social peninsular Befietria (de Bien-hechoria) 
contraposta a Maletria (a malfeitoria.) 

2 A. Rio.s, ib., vil, 438. 



POPULAR PORTUGUEZA 5l5 



§ iJ* As Línguas românicas caracterisadas 

na sua Versificação. 

A construcção da phrase, a sua disposição synta- 
xica no verso ou discurso poético, depende cja na- 
tureza da língua, conforme ella é synthetica ou ana- 
lytica : Quando uma lingua, como o Latim, tem im- 
plícitos nas suas palavras os signaes das suas relações 
grammatícáes, ellas podem agrupar-se caprichosa- 
mente por hyperbatons violentos sem que a ideia 
seja prejudicada, e no verso o accento prosodico 
nunca coincide com o accento ry th mico, baseando se 
este na quantidade de longas e breves em determi- 
nados grupos syllabicos. Nas línguas analyticas, co- 
mo todas as românicas, a palavra sem flexões ca- 
suaes ou desinenciaes, a sua funcção grammatical 
é expressa pelo artigo, pelos pronomes e preposi- 
ções, e pelos verbos auxiliares, e a sua construcção 
syntaxica é rigorosamente lógica, e no verso realí- 
sa-se a coincidência completa do accento prosodico 
com o accento rythmico. Vê-se que uma Versifica- 
ção não podia provir da outra, como também as 
Línguas analytícas não podiam provir de uma língua 
synthetica. Por não terem considerado este dado do 
problema na formação das Línguas românicas, é que 
os sectários de Diez, derivam por processos phone- 
ticos do léxico latino todas essas línguas analytícas. 
Podese affirmar o principio scientifico, de que nun- 
ca uma Língua synthetica se transforma em uma 
língua analytica : o grego antigo conservado na Gré- 
cia moderna soffreu grandes alterações no uso vul- 
gar, mas nem por isso deixou de ser synthetico. 
D*aquí se pode inferir que o latim fallado pela plebe 
romana era tão synthetico como o empregado pelos 
oradores e litteratos. E quando se operaram as in- 



3t6 



HISTORIA DA POESIA 



vasões germânicas, que dominaram em França, Itália 
c na Hespanha, nenhumas d'essas linguas teutonicas 
syntheticas degeneraram em linguas analyticas. Com 
a invasão dos Árabes deu-se o mesmo phenome- 
no, nao se produzindo no seu uso popular na Hes- 
panha ou no norte de Africa a formação de uma 
lingua árabe analytica. Diante d*cstes factos, como 
considerar scientifica a derivação das Linguas româ- 
nicas, absolutamente analyticas, de uma Lingua mãe 
ou o Latim synthetico, quer litterario oii popular? 
O absurdo passou da grammatica para a poética 
vulgar ; assim o verso quinaria era considerado co- 
mo provindo do verso adonico^ o septisyllabo pro- 
vindo do pharecratiano^ o octosyllabo do glicanio e 
do jambo dimetro. Quicherat chegou a considerar 
a forma trochaica como estabelecendo a transição 
entre a quantidade e o accento; e equiparava o 
verso endecasyllabo ao alcaico. Assim procediam os 
antigos grammaticos da Renascença explicando á 
força as formas das linguas vulgares pela grammati- 
ca latina. Contra esta errada imposição contrapoz- 
se a Celto mania, sem o prévio conhecimento do que 
era anthropologicamente a raça céltica, dando assim 
logar a que Diez trouxesse ás doutrinas da Renas- 
cença um certo rigor demonstrativo pela analyse pho- 
netica e morphologica. Mas este processo feito pelo 
confronto morto de grammaticas e de diccionarios, 
fracassava diante dos factos históricos, que mostra- 
vam dialectos românicos onde o poder de Roma 
não chegou, e ausência d'elles aonde esse poder se 
manteve fortemente, como na Grécia, ou na Illyria. 
Como é que linguas da Itália, e da França desappa- 
recém diante do Latim, em remotos valles alpinos 
ou afastadas provincias francezas, e ainda na lon- 
ginqua Hespanha, com tantas linguas nacionaes, (pro- 
priis linguis) ? 



POPULAR PORTUG UE Z A 3lJ 



Kssas linguas eram analyticas, como se vê pelas 
chamadas impropriamente neo-celticas, que usam o ar- 
tigo, os pronomes e preposições para determinarem 
a funcção grammatical da palavra, e a conjugação 
simplificada pelos verbos auxiliares, E' este o orga- 
nismo das Linguas românicas, sem que a abundân- 
cia de vocábulos do léxico latino podesse alterar a 
sua natureza analytica. O nome de Céltico emquanto 
não foi definido anthropologicamente muito compli- 
cou o problema, attribuindo-se a esse typo corpu- 
lento, dolychocephalo, loiro e cosmopolita aventu- 
reiro, a civilisação que pertencia á raça trigueira e 
brachycephala, que foi o substratum da civilisação 
bronzifera, que predominou na Europa bastantes sécu- 
los antes da chegada desses invasores sem cultura. 
As chamadas impropriamente linguas neo-celticas, 
como o irlandez, o gaèlico ou erse, o manx, e o 
welcky o idioma de Cornwald, o Armoricano ou 
baixo bretão, que ainda subsistem, pertenceram a 
esse povo bronzifero, que desceu do norte da Eu- 
ropa, e hoje se reconhece como o Ligure. E' por 
estes dialectos, como se vê pelos estudos de Edwards, 
que se deduzem os caracteres d'essa lingua analytica 
que produziu .em pontos bem afastados da Europa 
um systema tão vasto de Linguas conformes nos 
seus processos de expressão lógica. La Barra com 
este intuito íez estudos sobre as Linguas Celto ro- 
fnanas, com observações verdadeiras, mas envolvi- 
das na falsa miragem da preponderância dos Celtas. 
Também Jubainville estudando a poética irlandeza, 
chega a bellos resultados comparativos, mas sempre 
preoccupado-com a obsessão dos Celtas. E expli- 
cando a unidade dos themas poéticos entre os po- 
vos occidentaes, vemos Nigra envolver-se n'estas 
areias moventes dos Celtas. A critica negativista e 
de detalhe obtém fáceis triumphos, e os mediocres 



3lS HISTORIA DA POESIA 



seggem as boas marcas da erudição, proclamando a 
renuncia de toda a vista de conjuncto. Os Celtas 
foram bem caracterisados pelas investigações dos an- 
thropologistas, e o nome de pre Celtas já admittido 
geralmente é o reconhecimento da importância de- 
cisiva da raça civilisada dos I^igures. Podemos agora 
reduzir á verdade simples os factos complicados pela 
miragem céltica. 

Entre o grupo das linguas áricas, destaca La Barra 
o Celta como afialytico^ com declinações, pertencen- 
do a este grupo como também analyticos o Kymri ou 
Cimbrio, o Galo, o Ibero, o Volg, o Gaiata, o Gaè- 
lico, o Erse, o Gallego, o Bretão ou Armorico ; e 
como este os idiomas itálicos, o Osco, o Etrusco, o 
Umbrio, o Yapigo, e tantos outros dialectos antigos e 
Linguas modernas, que nunca abandonaram a gram- 
matica analytica. (Op. cit., p. ii.) 

Tendo-se formado as linguas românicas sobre os 
dominios geographicos das tribus ou povoações cél- 
ticas, * como é indiscutível, La Barra mostra o con- 
tra senso dos philologos que partem da hypothese 
que esses dialectos, originalmente analyticos, se apro- 
priaram da grammatica synthetica do Latim, esque- 
cendo-se posteriormente da Declinação e das flexões 
verbaes da grammatica clássica. Assim conclue: <0 
Celtiberico da Hespanha, como o Gallo de França 
nunca foram Latim, nunca abandonaram a sua gram- 



i «O apartamento das tribus de uma mesma família, umasnaCri- 
méa, na Valaquia, (xaUitzia, Galecia e na Itália, outras na Bélgi- 
ca, Frai.ça e Suissa, não poucas na Hespanha e algumas nia re- 
mota Bretanha produzia forçosamente notáveis differençds diaU- 
ctats ; porém todas essas variantes se eífectuaram sem sahir d'uin 
circulo determinado, e todas coexistiram debaixo do império de 
uma lei commum ligadas pelo fio inquebrantável da sua gramuía- 
tica, gérmen, vida e unificação da lingua.» (Ib., p.25.) 



'POPULAR PORTCGUEZA 3l9 

matica analyticay que é da sua índole originaria, e 
assim é que nunca necessitarani pôr- se em accordo 
para abandonar as declinações latinas, que nunca usa- 
rann, nem adoptar os artigos ^ preposições e os ver- 
bos auxiiiares, que conheciam e usaram aò initio.it 
(Ib., p. 23.) 

Feita a comparação entre as grammaticas do La- 
tim e do chamado Celta, as suas differengas fundamen- 
taes mostram qual d'ellas se continuou nas Linguas 
vulgares ; vejamos sobre este ponto La Barra : 

«O Latim é lingua synthetica: declina os nomes 
exprimindo os casos por ligeiras variações desinen- 
ciaes ; conjuga os verbos sem auxiliares ; compõe as 
suas palavras pondo primeiro o elemento determi- 
nante ou adjectivo, e depois o determinado ou sub- 
stantivo, e a ordem da sua phrase é arbitraria e pro- 
picia a transposições. 

«O Celta é uma lingua analytica: não declina os 
seus nomes; o substantivo tem uma forma invariável 
nos diversos casos, que expressa por meio de artigos 
e preposições. — Emprega verbos auxiliares na sua 
conjugação, com os quaes forma a voz passiva, e 
carece do depoente ; antepõe o elemento substan- 
tivo ao adjectival, isto é, primeiro o determinante e 
em seguida o determinativo . . » (p. 32.) 

E partindo destas differenças para as Linguas ro- 
mânicas, estabelece a separação fundamental do La- 
tim, sob o ponto de vista syntaxico : «Na syntaxe 
latina, a ordem lógica das ideias nada tem que ver 
com a ordem grammatical, emquanto que nas linguas 
românicas, todas ellas analyticas, ambas as ordens 
se comprehendem em uma só. 

«Sendo pois tão differentes em suas partes essen- 
ciaes (nome, verbo e syntaxe) a grammatica latina 
das grammaticas românicas, todas uniformes entre si, 
não é admissível que estas linguas provenham daquel- 



320 HISTOUIA DA POESIA 



la. Como, por outra parte, as collectividades que as 
faliam são historicamente de origem céltica, natural 
é que as suas linguas também o sejam, e portanto, 
que sempre hajam sido regidas por uma mesmaa lei 
grammatical, o que constitue a sua uniformidade 
actual.» (p. .^4.) La Barra dá ás Linguas românicas 
o nome de Celto -Latinas, pela subordinação gramma- 
tical do celta, e do enriquecimento do vocabulário la- 
tino. Desfeito o equivoco da palavra Celta, a expli- 
cação torna se nitida. 

A persistência dos dialectos pre-celticos diante do 
Latim como lingua offiicial, forçou Alexandre Severo, 
em 212 da nossa éra, a reconhecer e admittir o em- 
prego official das linguas dos povos que Roma sub- 
jugara. Os Legionários romanos que occuparam as 
Gallias, com César, eram gentes da Illiria, Dalmácia, 
Ibéria e Gallicia Cisalpina; não percebiam o Latim, 
e muito menos o podiam communicar ás tribus gau- 
lezas. O Latim foi sempre uma lingua aristocrática, 
curialesca, juridica, e por fim ecclesiastica e erudita ; 
e foi sempre como tal que se corrompeu em um ma- 
carronismo tabellionico, mas nunca em uma simplifi- 
cação orgânica ou analytica entre povos remotissi- 
mos e mesmo alheios a essas influencias especiaes. 

Assim como as conquistas dos Romanos no Occi- 
dente embaraçaram a cultura litteraria dos dialectos 
célticos, como linguas. populares não entraran\ na fi- 
xação da escripta. As invasões germânicas, e três 
séculos depois a dos Árabes, também perturbaram 
as condições de estabilidade social para que esses 
dialectos pre-celticos saíssem da sua instabilidade oral; 
aggravando esta situação de rusticidade, ou indisci- 
plina, a necessidade de uma lingua artificialmente com- 
mum, com o Latim para as relações juridicas dos tri- 
bunaes, e religiosas da Egreja catholica, prevalecendo 
o seu uso exclusivo nas classes isoladas pelos seus 



■ 






POPULAR POKTUGUEZA 32 1 

privilégios, o desenvolvimento das novas Linguas vul- 
gares foi a consequência da estabilidade social creada 
pelas Behetrias, Municípios e Communas, que forma- 
ram os povos da sociedade moderna; então é que 
a Egreja, e a Realeza tiveram de abandonar o La- 
tim, não porque o deixassem de entender, mas para 
serem entendidas pelas populações dominantes. E do 
século IX ao século xn que apparecem as Linguas ro- 
mânicas, justamente no período da regularisação so- 
cial pelo prevalecimento áo povo livre. Mas, muito 
antes que ellas se manifestem na poesia provençal ou 
na traducção dos Códigos, essas linguas eram tratadas 
artisticamente pelos povos cantando as suas emoções 
em composições lyricas, e recitando as suas tradições 
em pequenos poemas épicos ; infelizmente a sua fixa- 
ção litteraria por homens cultos, todos preoccupados 
com fins práticos ou moralistas dos textos que tra- 
duziam, fez com que desprezassem essa profunda /^é'- 
3Ía oral popular^ da qual nada se conservou escri- 
pto desde o século viii ao século xv. 

Simultânea com a creação das linguas vulgares e 
consequência do seu organismo prosodico, deu se a 
creação da sua métrica, em contraposição com a 
quantidade latina, indicando por isso que essas lín- 
guas analyticas não provieram do Latim. * 

Nigra deriva da extensão das populações célticas 
a unidade das tradições poéticas que se manifesta 
nos cantos populares italianos, portuguezes e france- 
zes. Pelo seu lado Eduardo La Barra descrevendo o 
domínio geographico das tribus célticas, diz: «Este 
fluxo e refluxo das tribus galas (refere-se ás migra- 



1 E' tão presistehte esta miragem da origem latina das linguas 
românicas, qae La Barra, que a combate, ainda obedece á miragem 
de derivar a métrica vulgar dos movimentos trochaicos e jambi- 
cos do. latim, na sua obra Literatura arcaica, p. 167 a 193. 

Pões. popul. 21 






i 



322 HISTORIA DA POESIA 



ções do século vi a. C.) explica-nos como é que a 
França, a Itália, a Hespanha, a Valaquia, a Sutssa 
e Bélgica tèm por antiga base das suas populações 
diversos ramos da grande familia céltica, a qual, se 
foi transformando os seus dialectos, nunca perdeu o 
laço que os une em uma familia, a sua grammattca 
analytica.* * 

Aqui o problema linguistico converge para com- 
provar a unidade tradicional, fundando -se ambos so- 
bre o facto eihnologicô da. grande familia- céltica. 
Referindo-se ás migrações de Belloveso, (599 a. C.) 
escreve La Barra : «Os historiadores latinos recor 
dam esta expedição nos seus menores detalhes : pa- 
ra nós basta-nos considerar que destes Galos Ligu- 
res e Senones, que deram o nome ao Sena, descen- 
dem geralmente os povos do Piemonte, Lombardia, 
Emília e Veneto, os quaes, portanto, estão aparen- 
tados ethnologicamente com os francezes, especial- 
mente os do Berri e suas cercanias, ponto de par- 
tida de Belloveso. Por isso hoje, passados 2500 an- 
nos, os dialectos italianos dessas regiões parece m-se 
com certos patois de França.» ^ A doutrina de Mar- 
tins Sarnr.ento, que caracterisa o elemento céltico em 
Portugal como ligurtco, justifica a incorporação dos 
cantos populares portuguezes n'essa unidade italo- 
franceza. Por outro lado, a irradiação das tribus cél- 
ticas da Itália para a Iliria e para a Grécia, esten- 
dendose pela Dardania, Thracia, occupando a Ma- 
cedónia (280 a. C.) e fundando a Galatia, explicam- 
nos também como os Cantos populares da Grécia 
moderna fornecem abundantes paradigmas para de- 
terminar a unidade das tradições poéticas occidentaes. 



1 iflj Lengutis CeltO' Latinas^ p. 151. 

2 Ib., p. 149. 



SvLLABisMO. — Na poesia moderna o verso é for- 
mado por syllaèas de palavras, coincidindo o amb''- 
da phrase com um numero determinado delias ; 
poesia latina o verso consta de pés, ou grupos 
syllabas em que as longas e as breves, segunde 
lí^ar que occupam, caracterisam o verso como l 
chaico, jambico, dactylo, amphibraco, anapestico, i 
E" posíivel que um verso medido por syllabas cc 
cida com um medido por pés. mas nem por isso 
pode concluir que o systema latino da quantidade 
transformasse no vulgar da accentuação. Os latinis 
da Renascença, como Nebrixa. e ainda os moder 
como Quicherat e outros, caíram na ilhisão de d' 
varem a métrica românica da latina. Os poetas 
Edade média conheceram melhor a indole da m 
versificação ; Lorenzo de Segura, no Poema de j 
jandrQ falia no syllabismo: 

Mester trago fermoso no es de iogiaria, 
Mester es sin peccido, ca es de clereciii, 
Fablar curso rimado per la quaderna via 
A sillabas cutiladas, ca es grant maestria. 

Do numero certo de syllabas resulta a naturez; 
o nome do verso ; a contagem das syllabas segui 
o uso francez faz-se até á pausa métrica, desprez 
do-se a syllaba grammatical, e segundo os italia 
comprehende também esta ultima. São os vei 
do mesmo numero de syllabas isométricos ; sei 
de numero differente, heierometricos om Á^ pé queL 
do; t polymeíricos, quando entram na estrophe cc 
hemistichios variados. Como o verso popular é 
mado para o canto e dansa, o numero de sylla 
imp0e-se-lhe á sympathia por esta circumstan 
sendo o quinario, ou de cinco syllabas, e o septt 
rio aquelles empregados nas Cantigas soltas, nas 
guidilhas. Canções e Romances. Segundo a velha 



324 HISTORIA DA POESIA 



menclatura das Poéticas, chamam-se esses versos de 
Redondilha menor os de cinco syllabas, e ainda os 
de péquebrado com quatro ou três, especialmente em- 
pregados nos Refrens ou Requebros, e Redondilha 
maior os de sete syllabas. Podem estes versos, con- 
siderados dichotomos, formarem dois hemistichios de 
um só verso ; assim dois quinarios fundem-se em um 
verso de Endecha ou Mestria mayor^ e mesmo o en- 
dec^syllabo chamado heróico, largo ou italiano, sem 
caracter^ popular. O verso alexandrino, de doze syl- 
labas, ou francez, chamado Gran Maestria, íorma-se 
de dois hemistichios de seis syllabas cada um, tam- 
bém sem condições de popularidade, porque se pre- 
stam á recitação e não ao canto ; na velha poesia cas- 
telhana chamavam-lhe Endechas dobles. Recapitula- 
mos os typos populares do Syllabismo da metr ficaçâo : 

i,^ Quinar io: Accentos na i.* 3.' e 5.* 

(5-í"5) â Endecha de 10 syllabas. 

(5-I-6) o Endecasyllabo, de 10 syll. 
2J^ Senario: Accentos na 2.*, 4." e 6.* 

(6-)-4) o Endecasyllabo, de 10 syll. 

(6-J--6) o Alexandrino, de 12 syll. 
"i,^ Septenario : Accentos na 3.* e 7.* 

> na 2.* 4.* e 7.* 

A passagem dos Cantares antigos ou Romances 
de versos quinarios para septenarios no século xv 
em Portugal e Hespanha, é um phenomeno que re- 
sultou do facto da recitação prevalecendo sobre o 
canto e a dansa. Este verso é tão natural e espon- 
tâneo, que coincidindo com o âmbito da phrase fal- 
lada, n'elle se improvisa inconscientemente, e toda 
a prosa é facilmente reductivel a septisyllabos. Os 
críticos que extraem das Chronicas geraes castelha- 
nas situações tradicionaes, scindindo a prosa em verso 



POPULAR PORTUGUEZA 32 5 



de redondilha maior * cuidando reconstruir os antigos 
Romances oraes, caem em uma illu«ão, porque na 
época em que essas Chronicas foram redigidas, os 
Romances populares eram em verso quinaria, segun- 
do o rythmo do canto e dansa em que eram entoa- 
dos. Milá y Fontanals, observa a naturalidade deste 
metro em relação á lingua castelhana : « Adapta-se tào 
bem á natureza do nosso idioma, e á collocação ar- 
t íiciosa e casual das nossas palavras, que o usamos 
como o metro único que se apoderou bem deveras 
dos ouvidos hespanhoes, se não também indelibera- 
damente na prosa escripta e na conversação fami- 
liar.» * Este mesmo caracter se nota em todas as lin- 
guas românicas, resultando do seu génio prosodico 
alheio ao movimento trochaico da métrica latina. O 
verso septisyllabo, como de prompta improvisação 
presta-se á Cantiga solta (Copla) ; e pela assonancia, 
ou similiter cadens das vogaes finaes, attingia gra- 
dativamente a simiter desinens da rima, E' por isso 
que o Chanceller Ayala, no começo do século xv 
chamava a estes metro Ver setes de antiguo rimar: 
e Nebrixa, equiparando-o ao tetrametro jambico la- 
tino, com a sua preoccupação de humanista, chama- 
Ihe Pies de Romances, porque no fim do século xv 
n'elles se transformavam os romances populares can- 
tados era verso quinario. ^ 



í Sarmiento transformou a prosa de varias leis e Chronicas cas- 
telhanas em versos septisyllabos assonantados, por simples cortes de 
phrases em hnhas métricas. Mem. de la Poes.^ n.o 422 a 425. 

2 Obras completas t. l, n. 410. 

5 Sobre os dois systemas de metrificação quinaria e octonario^ 
empregados nos Romances hespanhoes e portuguezes, Gaston Pa- 
ris escreve em uma nota: 

«Por excepção acham-se versos de cinco syllabas e de outras 
mais, mas que não tem que observar, porque é duvidoso que es- 
tas raras peças em que elles apparecem sejam inteiramente popula- 



320 HISTORIA DA POESIA 



Para que as syllabas contadas abranjam no verso 
palavras bastantes que exprimam uma emoção ou 
ideia, o povo emprega uns certos processos de ab- 
sorpção de vogaes, nas cesuras, elisões, crases, die- 
resis, syneresis, apherese, echtlypse, synéjepha, que 
os rhethoricos definem, mas que se exercem por uma 
subtracção espontânea, e por fusão. Dá-se também 
o facto contrario, em que não bastando a phrase para 
preencher o numero de syllabas do verso, se faz a 
adcfição, com uma syllaba inicial como o a prothe- 
sico, ou com uma syllaba medial ou epenthese, ou 
ajuntando a syllaba final o e paragogico. dando ao 
verso um prolongamento- cantavel. E não bastando 
ainda estes recursos, o génio das linguas românicas 
dispõe das encliticas e procliticas, ou palavras mono- 
syllabicas, como pronomes que se ajuntam aos ver- 
bos, e conjuncções e interjeições, a que os metrifi- 
cadores chamam cunhas. 

As leis fundamentaes da phonetica das linguas ro- 
mânicas, principalmente a queda das consoantes me- 
diaes e a suppresão da vogal atona, exercem um 
activo processo de contracção do corpo da palavra, 
abreviando-a, tornando o verso susceptivel de abran- 
ger muitas palavras ; e essa outra lei inquebrantável 
da persistência da vogal accentuada, da linguagem, 
torna-se a essência da metrificação românica, formu- 
lada na seguinte lei : «O accento prosodico deve coin- 



res, do mesmo modo que os Romances. Alem d'isso, estas peças 
são castelhanas em vez de portuguezas » (yotirnal des Savants. 1889 

p. 542.) » 

E observando a differença do metro nas versões do Moro Sa- 
radno (Nigra, n.o 40) na Provença, na Gasconha, na Catalunha 
e em França, aponta em umas o verso octonario^ em outras o verso 
senario^ dizendo : «E' preciso que uma d'estas duas fó mas seja 
a original, e parece- me provável que é a segunda.» (jfournal des 
Savants ^ 1899, f. 540.) 



POPULAR PORTUGUEZA 327 



cidir sempre com o accento rythmico. > Luciano Mul- 
ler formulou o contrario na métrica clássica, ou da 
quantidade: cO accento rythmico deve diffcrir sem- 
pre do accento prosodico.t Apesar, porém, desta dif- 
ferença orgânica, tanto na poética grega e latina, como 
na vulgar ou românica, os artifícios de suppressão, 
fusão, addição e enclise, são empregados egualmente, 
e d aqui a illusão dos latinistas, querendo derivar a poé- 
tica popular da clássica. 

António José Conde, na sua Historia de la domi- 
nacion dos los Árabes en Espana^ attribuiu o verso 
septisyllabo ou de redondilha maior, bem como a 
forma do Romance ^narrativo á influencia da Poesia 
árabe; transcrevemos a sua affirmativa: «Como a 
sciencia e a poesia eram uma parte essencial da edu- 
cação cavalheiresca dos Árabes, e contribuíam para 
reproduzir o espirito e os costumes d'este povo, não 
quiz privar a minha Historia destes ornamentos e 
gosto oriental, já porque não existe entre os mou- 
ros uma historia valiosa que não traga mais ou me- 
nos versos. Inseri os trechos mais caracteristicos que 
têm relação com os acontecimentos. N'isto mesmo 
quiz imitar os árabes na minha traducção, empre- 
gando o nosso verso de romance, E* o rythmo mais 
usado na poesia árabe, e que, sem duvida alguma, 
nos serviu de modelo. Imprimi os versos como os 
Árabes os escrevem. Dois versos de romance equi- 
valem a uni verso árabe, que é dividido em duas 
partes: O meu primeiro verso forma a primeira me- 
tade ou primeiro hemistichio do verso árabe que se 
chama saldribait, ou entrada do verso ; o nosso se- 
gundo forma o segundo hemistichio árabe, que se 
chama ogrilbait ou fecho do verso. Uma estancia 
dos nossos romances, de quatro versos, corresponde 
a quatro hemistichios ou a dois versos árabes. P^aço 
esta reflexão para que se não estranhe a nova ma- 



é 



328 HISTORIA DA POESIA 



neira de imprimir os versos castelhanos. Imprimi-os 
assim para que esta prova material da origefn araâe- 
dns nossos Romances saltasse aos olhos.» ' Jacob 
Grimm sem se preoccupar com este problema da 
origem árabe, reproduzindo os romances mais tradi- 
cionaes do Cancionero de Ambers de 1555 na sua 
Silva de Romances viejos de 181 5, também ajuntou 
em uma só linha como dois hemisHchios, dando outra 
razão: treduzindo o verso assonantado, propriamente 
fallado, á sua verdadeira e pristina liberdade.» Se- 
gundo o seu entender, «o género épico exige verso 
longo e largo, e lhe repugna todo o corte e entre- 
laçamento, que perturbariam o seu equilibrio e tran- 
quilidade ...» * Os dois motivos apontados são gra- 
tuitos ; Dozy nega a origem árabe do verso de re- 
dondilha, mostrando que a poesia árabe por artistica 
e aristocrática, é incommunicavel ao vulgo. Por ou- 
tro lado, a molopêa a que se cantam ainda alguns 
romances corta a phrase melódica em um âmbito de 
sete syllabas, terminando com a syllaba atona, ou ou- 
tava, sem cesura para o verso seguinte ; e se a se- 
ptima é aguda ou oxytona, ajunta-se um e parago- 
gico para fazer uma syllaba, que é separativa e eu- 
phonica. 

A these de António José Conde e de quantos o 
seguiram sobre a origem árabe do verso de redon- 
dilha é inadmissível, pelas mesmas rasões que se con- 
sideram absurdas a origem gótica e a origem célti- 
ca da versificação românica, Mas independentemen- 
te do principio de que um povo não adopta a ver- 
sificação de outro povo, basta olhar para o artificio 
da poesia árabe para notar a sua impopularidade. 



1 Op. cit. p. xiu. 

2 Silva, p. VII. Ed. 1831. 



POPULAR PORTUGUEZA Dl<) 



icreve Masdtu, recopilando Casiri: «O verso (ara- 
t>e) compõe se de pés, e estes de syllabas tnovidas 
ou quietas^ isto é, de longas ou breves. O pé de sylla- 
b>aL chama-se corda, e o de três chama se pão. Ha 
cardas pesadas e cordas ligeiras; páos unidos e páos 
separados. A corda ligeira tem uma syllaba movida 
e outra quieta ; e a corda pesada duas syllabas movi- 
das. O pão tem sempre três syllabas, duas movidas 
e uma quieta; chama-se /^í?-««Mfo, se as duas sylla- 
bas movidas estão juntas entre si, dando á quinta 
o terceiro logar ; e denomina-se /^^ 5^/^r<?^(í?, quan- 
do as duas movidas estão desunidas tendo em meio 
a quieta. Os versos são de cinco medidas differen- 
tes : o mostafe/on, compõe- se de uma corda ligeira, 
um páo separado, outra corda semelhante; ofaulon, 
de um páo unido e de uma corda ligeira ; o meta- 
faulon, de uma corda pesada, outra ligeira, e um 
páo unido ; o failaton, de uma corda ligeira, com 
páo unido, e outra corda como a anterior ; o mo- 
failaton, de um páo unido, uma corda pesada e 
outra ligeira. Divide se cada verso em dois meios 
versos, que chamam portas, e cada porta em outras 
duas portas, a primeira chamam entrada, a segun- 
da proposição ou assento. O consoante arábico con- 
siste rigorosamente em uma só letra ; pois a de duas 
letras que usam agora na Pérsia e na Turquia, é 
invenção mais moderna, e não mui bem recebida 
pelos Árabes ; nas poesias curtas costuma ir alter* 
nando com variedade, porém nas largas repetem ás 
vezes o mesmo em todos os versos desde o princi- 
pio até ao ultimo ; collocamn'o ordinariamente no 
fim do verso, e ás vezes também ao meio. As ex- 
travagâncias que usam os Árabes em suas poesias 
são muitas. Fazem alguns com versos retrógrados 
que se lêem direito, e ás vessas, tendo os versos 
pelas duas partes o mesmo sentido, e ás vezes di- 



33o HISTORIA DA POESIA 



versos ; outras, em que cada verso comprehende todas 
as letras do alph abeto ; outras, em que acaba sempre o 
verso com a mesma letra com que começou ; e outras 
em que está todo o alphabeto com a sua ordem regular, 
começando ou acabando o primeiro verso com a primei - 
ra letra, o segundo com a segunda, e assim por dian- 
te.» * Em vista deste complicado mechanismo da mais 
exagerada rhetorica, a poesia árabe da corte e dos eru- 
ditos era mesmo incomprehensivel para a população 
árabe, ou mauresca. 

DiCHOTOMiA. — Na série das syllabas que formam o 
verso, ha dois grupos que se denominam arsis e thesis 
pela intonaçâo melódica do levantamento e abaixamen • 
to da voz ; chamam-se hemisHckios, constituindo caden- 
cias perfeitas. Pode-se considerar que os versos grandes, 
alexandrinos, endecasyliaboSj endechas^ e os octonarios 
foram formações artificiaes da juxtaposição de dois ver- 
sos curtos, constituindo os seus dois hemistichios. O pé 
quebrado é um hemistichio isolado, que combinado com 
o verso inteiro produz a estrophe alcaica, a saphica, a 
epodica, e outras da poética clássica ; também isto mo- 
tivou os equivocos das designações dadas inintelligente- 
mente ás estrophes da Poesia moderna. 

A ^/^//<?/<?w/Wcaracterisa principalmente a forma ge- 
radora da estrophe, a parelha ou Dístico, que o povo 
usa nos seus anexins, e a que nas litteraturas correspon- 
de a estrophe epodica. A reunião de dois versos empa- 
relhados, resultava de uma homophonia das vogaes da 
syllaba métrica final, e assim se desenvolveu uma nova 
belleza de versificação, a Assonancia. A Cantiga irlan- 
deza é a quadra formada por parelhas, a qual com as 
neumas e repetições do canto attingiu a forma hispâni- 
ca da Copla, ou juncção de versos. 



^ Historia critica de Espana, t. XIII, p. 190. — Casiri, Biblio- 
teca arábico- hispânica , t. i, p. 84 : Arábica Poeseo? specímen. 



POPULAR PORTCGUEZA 33 l 



A dichotomia typica da Cantiga pode assentar so- 
bre uma pergunta e uma resposta : 

Oh minha mãe Jos trabalhos, 
Para quem trabalho eu ? 

Trabalho, mato meu corpo, 

Náo tenho nada de meu. 

Quem se embarca ? quem se embarca ? 
Quem vem commigo, quem vem ? 

Quem se embarca no meu peito, 

Que linda maré que tem. 

Quem será este senhor 
Que nunca vi, nem conheço ? 

Pela sua boa graça 

O meu coração llie offereço. 

Dize, que mal te fiz eu, 

Oh meu cravo de mil folhas ? 

Sempre pVa ti tenho olhado, 

Só tu para mim não olhas. 

Se os campos todos fallasFtm, 
Que diriam os rochedos ? 

Então se descobririam 

Nossos primeiros segredos. 

Loureiro, verde loureiro. 
Quem te pôz n'este caminho ? 

Quantos passam e não passam, 

Todos tiram um raminho. 

A AccENTUAçÃo. — o génio da erudição, Jacob 
Grimm faz proceder da Linguagem, a Poesia, como 
esta da Musica: «importa ver na recitação accen- 
tuada e cadenciada das palavras a origem de canto y 
e no canto a origem da poesia, A musica saiu do 
canto por meio de um trabalho de abstracção, e 
saccudindo o pezo das palavras, soltou o seu vôo 
para alturas a que a poesia é impotente para se- 
guil a, — antes quizera vêr na musica uma sublima- 



cão da linguagem, do que fazer a linguagem um sim- 
ples residuo da musica.» ' Tratando das Linguas ro- 
mânicas, que sSo uma tran.s formação e adaptação de 
elementos de outros systemas linguisticos, em que 
sob uma norma syntaxica entram diversissimos vo- 
cabulários, o processo formativo é simultâneo com o 
tanto e com a poesia, actuando entre si mutuamente 
pela grande lei glottologica da AccenluaçÕo. 

O prevalecimento da Accentuação sobre a Quan- 
tidade é um phetiomeno característico das linguas 
que se modificam peias necessidades da civilisação, 
ou se modernisam. O accento fixa a syllaba domi- 
nante da palavra, nSo só emquanto ao sentido por 
ella expresso, como mantendo a através de todas as 
alterações phoneticas que essa palavra soffra pela-ac- 
ção do tempo, (Ex. ; Frigidus — frio; Episcopus — 
Bispo.) Quando a palavra pelas formas derivadas ex- 
prime novo pensamento, o accento muda, determi- 
nando esse sentido, Ex. : Pobre; Pobrissimo ; Pobre- 
sinho.) 

E neste desenvolvimento, o accento chega até 
modular a phrase, por forma que o accento prosa- 
dico chega a ser oratório, e especiaiisadamente ryth- 
mico. E' assim que esse plienomeno originalmente 
linguistico, adquirindo uma expressão psychologica, 
veiu a constituir urna nova belleza da Poesia, cujo 
rytlimo e cadencia exige mais do que a euphonia 
discursiva da quantidade fixada em dados grupos de 
syllabas e actuando no conjuncto da phrase. Os dois 
elementos da palavra o som e o sentido, que ten- 
dem a separar -se, são ligados pela accentuofão e por 
ella expriínem o pensamento abstracto e o sentimento 
melódico ou musical. Nas Linguas românicas assi- 
ste-se a este grande phenomeno : no sentido da ex- 

' Dt íori^ttt dtt Langagí, p. 52, 



PORTUCUEZA 



pressão do pensamento, ellas tornam-se analyticas, 
sendo a accentuaçSo o apoio de todas as modifica- 
ções phoneticas, morphologicas e syntaxicas ; e ao 
mesmo tempo nasce o verso da poética moderna 
cadenciado ou, rythmado sobre esse mesmo accento 
grammatical, c simultaneamente com o ambitus me- 
lódico que origina as Canções vulgares ou populares. 
Schleicher caracterisa a substituição da Quantidade 
pelo Accento como uma consequência immediata da 
civilisação ; «Um facto se reproduz em todas as lín- 
guas que avançam com a civilisação, ellas perdem 
a prosódia (as longas e as breves) das suas syltabas, 
substituindo-a pelo aecento ; vede as línguas latinisa- 
das em confronto com o latim.» ' Comprcliende-se 
que desde que a raiz primitiva de breve se tornou 
longa pelo desenvolvimento flexionai, essa quantidade 
tendia a conservar o principio lógico do radical pri- 
mitivo. Com o desenvolvimento das línguas vae-se 
perdendo a noção do radical ; e pela agglutinaçao de 
flexões aos themas, a palavra desenvolve-se extranha 
á sua raiz primitiva, tomando se a syllaba dominante a 
que se aceentúa como acompanhando os novos sen- 
tidos que a palavra exprime. A conclusão final : 
que chegou Benloew no seu estudo Da Accentua 
cão tias Línguas indo-européas é uma synthese glot 
tologica ; oA historia da Accenluação nâo é mais di 
que a do principio lógico que, partindo de fraquis 
simos começos, acabou por invadir todas as forma 
para submetter a si a ordem das palavras, e a ver 
sificaçao de todas as línguas.» * 

A Poesia moderna tomou a sua forma da acce/i 
tuação e da rima, que a separam da poesia clássica 
do génio das novas Línguas desenvolvidas depois d; 



334 HISTORIA DA POKSIA 



queda do Império romano e de sustadas as invasões 
germânicas e árabes, A métrica clássica, baseada na 
quantidade^ fundava a harmonia do verso na refe- 
rencia á raiz, elemento não obliterado nas línguas 
syntheticas; nas línguas analyticas predomina a cla- 
reza da phrase disposta para a nitida expressão da 
ideia, a harmonia do verso e:>tá na concordância do 
accento prosodico da palavra com o accento do âm- 
bito da phrase na dupla cadencia da arsis e thesis. 
Debalde se procurará estabelecer a transição da mé- 
trica ou do verso fundado na quantidade i^diVdi o verso 
baseado no accento syllabico. Alguns philologos mo- 
dernos tem reconhecido esta impossibilidade, apesar 
de continuarem procurando a conformidade nos ver- 
sos anapesticos e jambicos. 

A differença das duas poéticas é a resultante dos 
dois systemas de linguas ; as línguas syntheticas pela 
sua riqueza de formas nas flexões casuacs, nas de- 
sinências verbaeSj nos deis typos fundamentaes da 
Declinação e da Conjugação attingem um laconis- 
mo de expressão tal, que a construcção da phrase 
pôde variar como que a capricho da euphonia, sem 
que se prejudique o pensamento. E' o que se dá com 
o Latim, em que as palavras são em grande parte 
exdruxulas, de um agrupamento difficil sem o artifi- 
cio das transposições. 

Nas linguas analyticas, em que falta a Declinação, 
e as relações casuaes são expressas por preposições; 
e em que a Conjugação é simples, desconhecendo as 
formas passivas, supprindo as deficiências temporaeS 
por meio dos verbos auxiliares, e agglutinações pa- 
raphrasticas, a palavra adquire diíiferentes estructu 
ras ao contacto das preposições : Pelos prefixos, in- 
fixas e suffixos, a palavra augmenta de volume, des- 
locando-se o seu accento e podendo converter-se pela 
enclise e próclise, em palavras graves e exdruxulas. 



POPULAR POKTUGUEZA 335 



Por um certo numero de phenomenos phoneticos, 
como a queda da consoante medial, ou o desappa- 
recimento da vogal muda final, a palavra pode tor- 
nar se aguda, ow grave. Basta esta simples indicação 
para se reconhecer que a origem da Poesia moderna 
é simultânea com o phenomeno da formação das Lin- 
guas vulgares, românicas ou Novo Latinas ou Celto- 
Latinas. Antes destas linguas serem elaboradas litte- 
riarnente, foram desenvolvidas espontaneamente pelo 
povo ; e antes de se manifestar a Poesia artistica 
n'essas lipguas litterarias, foi primeiramente revelada 
conjunctamente com a espontânea versificação popu- 
lar. A creação das Linguas modernas na Edade me- 
dia foi, segundo Comte, um grande trabalho artis- 
tico ; do seu organismo intimo de lingua analyticay 
ao passo que se desenvolvia a sua morphologia e 
syntaxe, e a sua adaptação phonetica dos léxicos 
latino, germânico e árabe, é que resultaram as formas 
prosodicas e a sua construcção na nova metrifica- 
ção. Os (íois phenomenos capitães são solidários : o 
da formação das Linguas roínanicas ou latinisadas, 
com o da sua métrica ou Versificação moderna. Não 
admira que para os humani tas ant gos e alguns 
modernos a métrica da acceníuação fosse uma dege- 
nerescência da métrica por quantidade ; mas este 
preconceito hoje repellido pela critica, corresponde 
a esse outro preconceito de que as Linguas româ- 
nicas provieram da decadência do Latim, cujas ri- 
quezas morphologicos se deturparam entre o anal- 
phabetismo popular, no sermo vulgaris ou rústico. 
E e^ta a these seguida pelos obcecados discipulos 
de Diez, entregando-se a processos de phonologia 
através de formas hypotheticas de palavras, sem se 
preoccuparem com as condições sociaes e históricas, 
que determinaram em diíferentes épocas e logares 
o apparecimento das linguas românicas, differencia- 






336 HISTORIA DA POESIA 



das dialectalmente pela sua phonetica, unificadas 
grammatical mente pela mesma deficiência da Decli- 
nação e importância dos verbos auxiliares. Assim 
como da quantidade não proveiu a accentuação para 
a métrica moderna, também de uma Lingua synthe- 
tica, como é a Latioa, não podiam resultar linguas 
aualyíicas como as chamadas Novo-Latinas. 

Antes da creação do methodo comparativo da 
Philologia românica, os grammaticos e humanistas 
explicaram os phenomenos grammaticaes das linguas 
modernas do Uccidente conformando -as injmediata- 
mente com o latim clássico, especialmente cicero- 
niano ; por um processo privado de toda a luz his- 
tórica juxtapunham duas épocas afastadas como se 
uma fosse a imagem da outra; achavam na con- 
jugação moderna a forma passiva, o gerúndio, o su 
pino, consideravam persistente nos nomes o género 
neutro, e mesmo a declinação completa por meio de 
preposições. Basta ver a grammatica de Nebrixa, 
Arte de ia Lingua castellana, ou a Grammatica da 
Lingua portugueza de Fernão de Oliveira, para notar 
quam longe se estava do methodo philologico, que 
ainda não penetrou no ensino elementar. Em relação 
á versificação moderna, passada no syUabismo, na 
accentuação e na rima, os humanistas entenderam 
também derivar todos estes caracteres funda mentaes 
de uma nova poesia, do systema da quantidade da 
poesia clássica latina; assim Nebrixa explicava o verso 
de redondilha popular, empregado nos romances tra- 
dicionaes: «O tetrametro jambico, que chamam os la- 
tinos octonario, e nossos poetas pies de romance, 
tem regularmente i6 syllabas ; e chamaram lhe tetra- 
metro porque tem quatro accentos, e octonario, por- 
que tem outo pés.» (Cap. 8.) Argote y de Molina, já 
no fim do século xvi derivava o mesmo verso do 
trochaico dos lyricos gregos e latinos. Procurava-se 



POPULAR POkTUGUEZA SSy 



pela contagem das syllabas as analogias com os me« 
tros latinos, chamando ao ver^o de cinco syllabas, 
Adonico; ao heptasyllabo, Pherecratidno ; eao co- 
ctosyllabo, Gliconio e Jantbico dtmetro : o verso en- 
decasyllabo era equiparado ao verso alcaico, e Qui- 
cherat, vendo n'elle accento na quarta e decima syl- 
labas aventa que d'elle se passara para a accentua- 
ção românica. Outros grammaticos, sempre e exclu- 
sivamente preoccupados com a métrica latina, consi- 
deraram o metro irochauo como o que estabelecera 
a transição da quantidade para a accentuação româ- 
nica. Milá y Fontanals da uma origem trochaica ao 
verso de sete syllabas; aos de 6 e de lO (endecas- 
syllabo com o seu hemistichio) deriva-os do movi- 
mento jambico; e aos versos de 9 syllabas, (com 
accento na 3.*, 6." e 9.*) considera-os provindo do 
movimento anapestico. * Amador de los Rios reinci- 
dia- sobre a doutrina de Nebrija, e explicava a Rima 
como o similiíer desinens ou o homoyoteleuton dos 
latinos e gregos, e a Assonancia como o similiter 
eadens, ou o hontoyoptoton da métrica clássica, bem 
como a Aliteração que era o Paroyon^ sendo estes 
factos casuaes empregados systematicamente na hym- 
noiogia da Egreja. ^ Mas que vesânia, em procurar 
phenomenos de vida no que está morto, sendo a ener- 
gia da creação na versificação popular extranha a 
todos os conhecimentos humanisticos e influencias 
eruditas ! Também coadjuvou este errado methodo 
de querer derivar do systema da métrica por quan- 
tidade a versificação accentuada, a classificação das 
palavras românicas seeundo o logar do seu accento 
tónico, com os nomes da poética grega e latina ; á 



1 Obras compUtas^ i, p. 337. 

2 Historia critica de la Uteratnre espafiola^ n, 31 x. 

Pões. popnl. 22 



338 HISTORIA DA POESIA 



palavra grave chamavam trochec^ como em canto; 
á aguda, jambo, como em cantar ; á esdrúxula, da- 
ctylo como cântico; e ás de mais quando tinham 
três syllabas : Amphibraco (ex. cantaram) e Ana- 
pesto (ex. cantarão) E' certo que o accento tónico 
da palavra, que a torna aguda (Oxytona), grave (Pa- 
roxytona) e esdrúxula (proparoxytona) relaciona-se 
com o accento, constituindo a nova belleza e mesmo 
mo as differenças nacionaes da Poesia vulgar ou mo- 
derna. * Mas este phenomeno resultou das modifi- 
cações phoneticas que se produziram nas linguas no- 
vo-latinas muito antes de se prestarem á metrificação. 
Gaston Paris considera todas as relações procuradas 
na métrica latina, como : «ideia atrazada, absoluta- 
mente comparável á dos q^e vêem no francez uma 
corrupção do latim clássico.» E fallando Bartsch do pa- 
rentesco entre a versificação românica e a latina, re- 
truca-lhe o eminente philologo : «Este parentesco não 
é real, nem sequer provável, se nos dirigirmos á ori- 
gem ainda absolutamente intangível do verso latino 
popular, syllabico e rythmico ; mas, segundo a mi- 
nha convicção, do momento que este verso, sahido 
talvez de um verso métrico pouco a pouco trazido 
á forma syllabica e rythmica, se constituiu, nSo houve 
mais contacto entre as duas versificações, a não ser 
nas producções semi-populares dos letrados, que ten- 
taram conservar a forma do verso métrico, adoptando 



1 «Toda a poesia que appreseiica unicamente ou de uma ma- 
neira mais exclusiva rimas planas (femininas, paroxytonicas) per- 
tence á Itália do Sul ; e toda a poesia que appresenta em grande 
abundância rimas tronchas (masculinas, oxytonicas) pertence á Itá- 
lia do Norte — no ponto de vista da poesia popular, separa-se a 
Itália em duas grandes zonas, confirmado tanto pelos factos ex- 
teriores como pelos caracteres intrínsecos que se ligam á própria 
natureza da linguagem n 'estas duas zonas.» Gaston Paris, youT' 
nal des Savants^ i88S, p. 538. 



POPULAR PORTUGUEZA SSç 

mais ou menos o principio rythmico.» * Consignemos 
aqui a ideia de Bartsch : «O verso dactylico, de qua- 
tro pés, é uma forma que não é muito frequente no 
latim, e elle portanto tornou-se no românico a for- 
ma que domina na poesia épica exclusivamente, e 
em uma grande parte da poesia lyrica.» A esta af- 
íirmativa do philologo allemão responde com segu- 
rança Gaston Paris: 

c Não ha verso românico que não possa ser appro • 
ximado de qualquer verso latino mais ou menos usual ; 
mas nada é mais falso do que estas approximações 
inteiramente exteriores. E' bem claro que a poesia 
românica, uma vez de posse dos principios essenciaes 
da sua versificação (syllabismo, accento, dichotomia, 
assonancia, estrophe) devia ensaiar todas as variações 
conciliáveis com a harmonia e o rythmo natural da 
língua, deixando cahir ou empregando pouco as me- 
nos felizes, elevando a um predominio cada vez mais 
exclusivo aquellas que satisfaziam melhor o ouvido 
e o espirito.» (p. 187.) Jeanroy considera o movi- 
mento irochaico empregado no lyrismo, e o jambico 
no rythmo épico ! Continua Gaston Paris : 

«A relação entre o numero dos oxy tonos e dos 
paroxytonos tornou-se um facto inteiramente inverso 
em românico (notavelmente em gallo-romano) do 
que era no latim, e é o que causou sobre tudo a 
transformação do rythmo trochaico do latim popular 
no rythmo jambico do românico.» (p. 189), 

Gaston Paris pondo em desconfiança a adopção de 
palavras celtas nas línguas românicas como bases de ety- 
mología, applíca-a também para a poesia: «Ora não 
se pode conceder á influencia céltica sobre o terreno 
da versificação mais do que sobre a etymologica; 



1 Romania, vm, p. l86. 



340 HISTORIA DA POESIA 



deve-se mesmo conceder-lhe menos. As palavras ado- 
ptam-se mais facilmente do que as formas da ver- 
sificação.» (p. 190.) 

Nesta doutrina Gaston Paris reconhece a «influen- 
cia das Acções célticas na litteratura franceza» como 
também a influencia da musica dos irlandezes e gau- 
lezes sobre a franceza que ainda não tem sido es- 
tudada.» (p. 191.) Vem intuitivamente ao ligurismo. 

A linguagem articulada é uma musica nos seus sons^ 
e uma poesia nas representações ou sentidos. A falla^ 
2l palavra, o mote são abbre viações da Fabula, da Pa- 
rábola, do Mote, creações poéticas, que umas se des- 
envolveram litterariamente, outras ficaram nos mo- 
dismos e locuções populares, chegando pela sua ex- 
trema abstracção a perderem o colorido pittoresco. 
Na palavra fallada os sons longo ou breve dão uma 
harmonia na phrase chamada a quantidade, e os sons 
fortes, fracos, altos e baixos dão a accentuacão, que 
segundo as articulações forma um rythmo espontâ- 
neo da arsis e da thesis^ de que nasce o verso, 
a phrase oratória, e o âmbito da melodia musi- 
cal. Dizia Grétry, com a sua intuição esthetica e 
competência technica, que o canto deriva da pala- 
vra por intermédio da declamação (rythmo oratório) ; 
e Gluck fez a revelação da musica moderna pondo 
em relevo a melodia e a paixão contidas na pala- 
vra, processo que Wagner completou derivando o 
canto do recitativo melódico. Para conhecer o pro- 
cesso formativo da Versificação, tornase necessário 
ligar este phenomeno especial ás modificações pho- 
neticas da lingua em que ella se estabelece ; o modo 
como os sons vocálicos se tornam tónicos ou ato- 
nos, como os sons consonantaes se abrandam ou 
supprimem assim as palavras se tornam oxytonas, 
pàroxytonas, e proparoxytonas. Conforme a tendên- 
cia dá lingua é para a preponderância das òxy tonas. 



POPULAR PORTUGUEZA 841 



como o francez ou proparoxytonas, como o italiano, 
assim a versificação se hade resentir na sua estru- 
ctura dessa característica. A palavra metrífícada 
construe o verso, mas para exprimir um dado sen- 
timento, o qual na sua intensidade se eleva á me- 
lodia e se canta, ou torna Musica^ sendo cadenciada 
pelo rythmo da Dansa, Wagner nos seus importan- 
tantes estudos estheticos, reconheceu que estes trez 
elementos são simultâneos na Poesia popular, sem- 
pre ligados na expressão do sentimento pessoal ou 
tradicional, e das suas relações diversas produzindo 
a morphologia poética, cjue só se tornam formas da 
Litteraturãy quando se quebra ou esquece essa re- 
lação primitiva. Pela sua parte o génio de Comte, 
apoiado na observação de Grétry, chegava ás mes- 
mas conclusões: «Podia-se applicar este principio á 
Arte a mais geral, considerando a elocução oratória 
como ligando a versificação á prosa.» * 

A AssoNANCiA. — Não bastava o numero de syl- 
labas contadas para constituir o verso moderno ou 
vulgar na sua cadencia ; a syllaba final tendo uma 
homophonia vocálica com a syllaba final de outro 
verso, produzia um novo eflfeito melódico, e uma 
certa intenção suggestiva nos adágios ou provérbios 
populares. Essas syllabas finaes dos versos accentua- 
das pelo canto, serviram para differenciar os grupos 
dos cantores ; d ahi veiu o nome de rima masculina, 
á aguda ou oxytona, e feminina á paroxytona ou 
grave. ^ As Canções das Astúrias, ou de estavillar, 
em que estão separados os grupos de homens e de 
mulheres, revelam o lado vivo da Assonancia da poe- 
sia popular. Esta forma foi o esboço rudimentar da 



* Curso de Phihsophia positiva, t. l, p. 289. 

* Na Poética íranccza. 



342 HISTORIA DA POESIA 



Rima; os poetas cultos, como Juan dei Encina, cha- 
mavam ás assonancias Con^afiantes nuMoados, e ou- 
tros caracterisamas como similiter cadens^ e quando 
essa cadencia não era semelhante davam lhe o nome 
de verso branco. Aqui também a designação tomada 
da cor ('^ob color, significa o pretexto apparente) 
corresponde o primitivo uso da poesia cantada em 
commum, como faziam os rhapsodos na Grécia, que 
recitavam a Illiada vestidos de roxo, e a Odyssea 
vestidos de vermelho, * Nos Romances hespanhoes 
em que se alternam as assonancias nas duas vogaes 
difíerentes, este systema está revelando a sua origem 
primitiva quando era cantado por dansantes em dois 
grupos. Nos poucos velhos Romances que entraram 
nas collecções impresas do fim do século xv e xvi, 
Eduardo La Barra vae pela interpolação do systema 
da alternância das vogaes similiter cadens, deter- 
minar a deturpação do Romance, ou mesmo separar 
os que foram amalgamados pelos recitadores e com- 
piladores. A assonancia desprezada pelos lyricos do 
século XV, conservou-se no Romance litterario, e 
teve o seu emprego decisivo, na forma popular do 
Auto vicentino e sobretudo na Comediafamosa^ em 
que o génio hespanhol transformou os themas dos 
seus Romances. Na poesia culteranesca dos sécu- 
los xviT e XVIII a assonancia foi empregada até nas 



* «El recitado en publico do It s Romances, vá ordinaríamente 
acompafiado de la musica. £n la Eda'^e Media se agreg^aba á esta 
una pantomina expressiva y animada, espécie de representacion dra- 
mática en gérmen que hubo de confundir-se á menudo el oficio 
de los juglares con el de los histriones. No habia sido otro en 
los tiempos homéricos el método que para recitar sus rhapsodias 
seguieron los aedos griegos .. hasta en el traje afectava una ciertíi 
pompa y magestad que principalmente se simbolizaòa en el color, 
siendo rojo para declamar la Iliada^ y morado para la Odiséa.-» J, 
Costa, La Poesia popular espatiola, p. 65, 



POPULAR PORTUGUEZA .''43 



quadras endecasyllabicas, ao modo castelhano. A 
assonancia consefva-se exclusivamente como feição 
da poesia popular tanto lyrica como épica, como 
consonantes tnaldoados, porque a rima é um encon- 
tro casual. *" 

O predomínio das palavras oxytonas (agudas em 
portuguez, troncas em italiano, e masculinas, em 
francez) ou das palavras paroxy tonas (grave em por- 
tuguez, plana, em italiano, e feminina em francez) 
tem sido observado para caracterisar a poesia popu- 
lar da Itália, da França, de Portugal e Castella, pe- 
los eruditos Nigra e Gaston Paris. «Na Hespanha 
própria e na Itália do Sul em que a accentuação é 
paroxytonica (grave) os cantos da região oxy tónica 
(agudo) não penetraram senão raramente, difficil- 
TTiente e sofírendo fortes alterações. Assim se repete 
na Península hispânica o que já tinham constatado na 
Península itálica : a região em que as vogaes latinas 
além do a cahiram depois do accento, possue uma 
poesia épica que lhe é própria, que tem por cara- 
cter um rythmo que se pode chamar jamffico, e que 
é desconhecido da região em que as vogaes post-toni- 
cas se conservaram, e em que o rythmo da linguagem 
e dos versos é trochaico, A França pertence inteira- 
mente âo oxytonismo (agudo) e não apresenta esta 
divisão, os cantos épicos encontram-se tanto no Meio 
Dia como no Norte.» ^ 

Segundo Nigra, o Portuquez pertence aos idiomas 
românicos em que predomina o oxytonismo (!) con- 
trapondo o ao Castelhano, e concluindo que os Ro- 
mances hespanhoes com assonancias masculinas (agu- 
das) tem por isso uma origem catalã ou portugueza. 

Gaston Paris sustenta, que em uma e outra língua 



1 yournal des S.vants, 1889, p. 531. 



34^ HISTORIA DA POESIA 



predomina a íDesma lei da queda das finaes : cO por- 
tuguez pela (]ueda frequente das consoantes e pela 
invasão da nasalisação, appresenta hoje mais pala- 
vras oxytonas (sobretudo monosyllabas) do que o 
castelhano, mas é um facto relatit^amente recente 
que não altera o caracter da língua . . . » e contrapõe- 
Ihe o facto de muitos Romances castelhanos passa- 
rem para Poriugal : «les savants portugais pensent 
même que presque toutes leurs Romances leur 
viennent d*Espagne.> * Era uma comprehensão er- 
rada sobre os princípios da invenção peculiar de 
cada povo, e da irradiação dos themas poéticos de 
um único foco. Por fim Gaston Paris conclue que es- 
tas ditferenças das assonancias masculina e feminina 
não separam a poesia castelhana da portugueza. * 

E' outra a importância das assonancias para a ver- 
sificação vulgar, que nisto diverge fundamentalmente 
da versificação latina ; <:omo observa Gaston Paris, 
<a língua latina tem proparoxytonos (esdrúxulos) e 
não tem oxytonas (agudos.)» ^ Na língua franceza 
predomina o oxytonismo, por efftito de uma extre- 



^ Cita em nota: *Voir Braga, Romanceiro geral ^ p. 1^5: Quasi 
todos os Romances portugueses são de origem castelhana.» Em 
1867 estávamos no começo d'estes estudos, e tomámos o pheno- 
meno que se passou no século xvi em Portugal, como um facto 
primitivo e de ordem generativa, 

^ «O thesouro dos Romances éf>\zo% é em grande parte cominum 
á Castella (entendo por este nome toda a Hespanha romana, mes- 
mo a regiSo Galecio-portugueza e região catalã) e a Portugal A 
separação que se nota na Itália entre o Norte e o Sul para a posse 
de uma poesia popular épica não existe aqui. Ainda que fosse pro- 
vado (o que me parece muito contestável) que os Romances hes- 
panhoes em que domina a assonancia masculina provêm de Por- 
tugal, este empréstimo mesmo provaria uma facilidade de troca, 
que se não dá na Itália entre as duas regiões do Sul e do Nor- 
te ..» (Gaston Paris, yaurnal des Savants ^ 1889, p 541.) 

* Romania^ t. vni, p. 147. 



rOfULAU l'OUTUGL'tZA 345 



ma contracção das palavras, facilitando a formação 
dos versos curtos do seu antigo lyrismo. Na lingua 
portugueza as palavras agudas tomam se graves e 
mesmo esdrúxulas pelo processo popular do a expie- 
tivo (galleziano), da prothese, e do r paragogico, bem 
como do emprego dos pronomes e preposições encliti- 
cas. Esta plasticidade da lingua torna-a fácil para a ver- 
sificação, dandolhe variedade na estructura do ver- 
so, o que não acontece hoje com a lingua franceza, 
cada vez mais afastada da expressão poética, entre os 
litteratos, e deturpada por violentas ellipses no laco- 
nismo popular. Vejamos alguns exemplos da asso- 
tiancia nas Cantigas soltas portuguezas : 

A pomba fez juramento 
De não beber agua clara ; 
Está com o bico a bebel-a^ 
Com as azas a toldal-a. 

Aqui temos duas assonancias oxytonas transforma- 
das pela enclitica em paroxytonas. O emprego das 
duas assonancias na mesma cantiga é indifferente : 

Impossível sem ser Deus 
Haver quem de ti me aparte ; 
Só elle é aue lem tal poder, 
Antes venna a mim, me mate. 

Esta quadra mostra também a quantidade de pa- 
lavras monosyllabas da lingua portuguezs, que faci- 
lita a contextura grammatical do verso sem preva- 
lecerem sobre a expressão poética. Embora muitas for- 
mas verbaes dêem excesso de palavras oxytonas, o 
povo modificaas com o prolongamento do e para- 
gogico tornando -as paroxytonas : 

Não entendo o teu amare, 
Não entendo o teu quererc; 
Não entendo o teu amore, 
Nunca te soube entendere. 



346 HISTORIA DA POESIA 



Eu jurei e tu juraste. 
Eu jurei na boa leitf. 
Eu jurei de te ser firme. 
Se juraste assim não seie. 

As palavras esdrúxulas, que tanto caracterisatn a 
língua latina, não existem na linguagem popular por- 
tugueza, sendo reduzidas a graves, como em catn- 
bra de camará, combro, de cômoro, e ahndtio de 
arbitrio. 

A par da assonancia vocálica, deve considerar-se 
a Aliteração como um phenomeno dá locução poé- 
tica, em qne a repetição da mesma letra dá ao verso 
uma intenção aphoristica, e um intuito de fórmula 
jurídica. 

A Aliteração. — E* a repetição de uma mesma 
letra, ou phonema, em uma phrase, dando ao ou- 
vido uma impressão que fixa a ideia. A aliieração 
era considerada como privativa das línguas do norte, 
o allemão e o scandinavo ; mas, esse facto poético 
derivado facto linguittico : a letra é na sua repeti- 
ção uma referencia on vestígio de um radual pri- 
mitivo. Nas linguas que avançam para o processo 
analytico a aliteração vae-se extinguindo ; assim em 
181 1, confessava Jacob Grimm, que a aliteração es- 
tava quasi extincta na Allemanha; predomina na ve- 
lha poesias candínava. O antigo direito germânico abun- 
dava em formulas aliteradas como observa Chassan : 
«principalmente no direito do Norte, e da Frisía, es- 
ses paizes clássicos da poesia aliterada, aonde se 
encontram não somente fórmulas de direito, mas 
também phrases inteiras fortemente carregadas de 
aliteração,^ * Nas linguas em que já não pode ha- 
ver referencia á letra radical, como nas românicas. 



* Essai stir la Symbolique dos Droit^ p. XXXIV. 



POPULAR PORTUGUEZA 347 



a aliteração conserva-se como uma tradição de formu- 
las imperativas, e por isso é nos Anexins ou refrens, 
que ella se encontra empregada inconscientemente 
pelo povo ; abunda nas locuções populares portugue- 
zas, como se vê em uma rápida transcripção dos Adá- 
gios do P.* Delicado, de 1651 : 

i4braçou-se o asno 
A amendieira, 
i4cbaram-se parentes. 

Não é o ^ocn bocado 
Para a ^oca do asno.. 

fiei jo- te, ^ode, 
Porque hasde ser odre. 

Ao ^oi ^ravo 
Terra alheia 
O faz manso. 

Cama de chão, 
Cama de cão. 

Fallem cartas, 
Calem barbas. 

Quem cala consente. 

De contado come o lobo. 

C/iegae-vos á c/rarola, 
E sereis honrados. 

DdiV doe. 

Tal é ò dado 
Como seu dono. 

Fevereiro fê\ eras de frio 
E não de unho. 

i^evereiro, /az dia, 
E logo Santa Maria. 



348 HISTORIA DA POESIA 



Frio de abril, 

Nas pedras vae /erir. 

Lenha de /igueira, 
Rija de/umo, 
Fraca de madeira. 

O desejo /az/ermoso o/eio. 

A/ílha,/arta e despida, 
0/ilho vestido e /aminto. 

De boa /ilha, boa /inndeira. 

De ami^o sem sangue, 
Guar-ce, não te en/^ane. 

A teu ami^o 
Ganha um jo^o, 
E bebe-o lo^o. 

Do mal guardado come o ^ato. 

Gota a ^ota 

O mar se escota. 

Guarda prado, 
Criarás ^ado. 

Em casa de Gonçalo 

Mais pode a galinha que o ^allo. 

f/ontem vaqueiro, 
Ho']e cavalleíro. 

Em /onga geração 
Ha conde e /adrao. 

A mancebo máo 
Com pão e com páo. 

A/enino e moço 

Antes manso, que formoso. 






POPULAR POKTUGUEZA 349 



O melão e a mulher, 
A^áos são de conhecer. 

Por abril 

Dorme o moço ruim ; 

£ por maio, 

Dorme o moço e o amo. 

Quero o azeite mede, 
As mãos unta. 

Esse é meu amigo 

Que moe no meu moinho. 

MÁo é ter moço, 
A/as peior é ter amo. 

Não me pago de amigo, 
Que come o seu só 
£ o meu commigo. 

£m maio, 

Deixa a mosca o boi 

£ toma o asno. 

Este a maçã e amadureça, 
Que lá virá quem a mereça. 

Coi^ar e comer 
Começo quer. 

Nem de cada malha peixe, 
Nem de cada mata feixe. 

Não compres mula manca. 
Cuidando que hade sarar; 
Nem cases com mulher má 
Cuidando que se hade emendar. 

A moço mal mandado, 
Ponde a meza, 
A/andae-o coro recado. 

A mancebo máo 
Com mão e com páo. 



35o HISTORIA DA POESIA 






Quem não tem mulher, 
iifuitos olhos ha mister. 

Beserrinha mansa 
Todas as vacas mama. 

Sol de março 

Péea como pegamaço, 

E ^re como maço. 

Por dia de San ATicoláo 
A neve no chão- 

PSo /7uxa, não erva muita. 

A /^erdiz é /^erdida 

Se quente não é comida. 

Domar /^otros, 
Porém /70UC0S. 

Pão e vinho, 

E pane ao /^araiso. 

Da gallínha a /^reta, 
Da preta a /7arda ; 
Da mulher a sarda. 

Pintura e pe\e']a 
De longe se veja. 

Quem ^uer mais ^ue bem 
A mal vem 

Quem ^uizer comer migue. 

Quem se queima, alhos come. 

Quando o rio não faz ruido 

Ou não leva agua, ou vae crescido. 

Quem hade ser servido, 
Hade ser soífrido. 



POPULAR PORTUGUEZA 35 X 



Deitar 5opas e 5orver, 
Não pode tudo ser. 

Serve a senhor, 
Saberás que é dor. 

Mais 5abe o sandeu no seu, 
Que o sesudo no alheio. 

Soffre por saber, 
E /rabalha por ter. 

Lobo /ardio 
Não /orna vazio. 

Tem -te em teus pés, 
Comerás por três. 

Tempo /raz /empo, 
Chuva traz vento. 

Menos vale ás vezes o vinho, que as borras 

Finha entre vinha, 
Casa entre visinha. 

Fento e ventura 
Pouco dura. 

Fem a ventura 
A quem a procura. 

Quem de verde se veste 
Por formosa se teve. 

Maio couveiro 
Não é vinhateiro. 

O bom vinho 
Fenda traz comsigo. 

O velho põe a vinha, 
£ o velho a vindima. 



352 HISTORIA DA POESIA 



Se chove, chova ; 
Se neva, neve ; 
Que se não faz vento 
Não faz máo tempo. 

Propositalmente seguimos a serie alphabetica da 
Aliteração y para mostrar que o seu emprego nos Ane- 
xins não é casual, mas visa a dar ao pensamento 
um relevo maior do que a rima e até a própria ca- 
dencia métrica. 

A Rima. — A homophonia syllabica ou simiíiter 
desinenSy é a caracteristica por excellencia da poesia 
moderna, dando ao verso uma intensidade de ex- 
pressão com que suppre o prosaismo da construcção 
lógica das linguas analyticas. -Quando os Trovadores 
acharam esta belleza nas Canções populares, conver- 
teram -na em systema na Canção de corte, e dessa 
arte de achar a rima (trouver) fizeram a nova poé- 
tica ou Gay saber. Segundo Diez, as designações 
Rima e Rimo, que costumam derivar do latim rhyt- 
mus, parece-lhe com mais fondamento provir do al- 
lemão rim (numerar) ; ha differença entre os dois ter- 
mos, designando a rima a identidade litteral das syl- 
labas, e rimo a composição poética rimada, a que 
o povo também chama Trobo * e Trova, pela rela- 
ção com o esforço mental de achar essa consonân- 
cia da syllabas finaes accentuadas. E deste esforço 
resultava o caracter do que se dava em espectáculo 
de rimar, Truhano (de truf ou truv, o truão.) 

No Rimado dei Palácio, escreve o chanceler Ayala, 
chamando aos versos em linguagem vulgar ou ro- 
mance Rtmos : 

Quando ensiado é ilaco me sitnto 
Tomo granei espacio mi tiempo pasar, 
En fazer mis rimos, si quier fasta çiento 
Cos liran de mi enojo é pesar. 



* Folk-lore andaluz^ P-'35 » u*ada também em Campo de Víbo- 
ras, em Traz-os-Montes. 



POPULAR PORTUGUEZA 353 



A série de versos monorrimos teve o nome de Ri- 
ntanço, (Rytkmatice) como vemos em phrases do rei 
D. Duarte, de 1428, no Leal Conselheiro, descrevendo 
as causas que modificam o nosso caracter : 

Da terra, compreissom ; 
do leite e vyandas criaçom ; 
dos parentes naçom ; 
das doenças e acontecimentos, occasiom ; 
dos praneias, costellaçom ; 
dos senhores e amigos, conversaçom ; 
de nosso Senhor Deus. per special spiraçom 
nos he outorgada condiçom 

e discreçom. 

(Cap. XXXIX.) 

K explicando esta forma de monorrimos, acrescenta: 
«Àquestas cousas suso scriptas que mudam nossa dis- 
creçom e condiçom escrevy em sim prés rimanço por 
se melhor poder reter.» D'este thema de rimo, em- 
pregado pelos castelhanos, veiu o Rimance, mais re- 
stricto ao seu sentido poético do que Romance, que 
designava as linguas vulgares e todas as composições 
escriptas n'ellas ; Berceo, no século xiii separava as 
duas expressões quando dizia que ia rezar um Romance 
bien rimado. Na Poética provençal portugueza, cap. ix 
(111) lê-se: «que faça a Cantiga nas rimas da outra Can- 
tiga que se segue...» O emprego da rima, como daqui 
se vê, levou a fixar as formas da Estrophe, pelas suas 
variedades de oxytonas e paroxytonas, e pelas repro- 
ducções e encadeamentos, e mesmo a definir os Gé- 
neros poéticos. Os Trovadores, que pela preoccupa- 
ção das rimas ardtias e caras, foram levados a re- 
quintes artificiosos, ainda sobre influencia do canto é 
que fixaram os rudimentos da poesia moderna imi- 
tando as Canções populares. No Cancioneiro de Re- 
zende, lê-se : «pelos rymances e trovas sabemos suas 
estorias ; . . . » 

Poes. popu 1. 23 




354 HISTOHIA DA POKSIA 



A Esl ROPHE. — Dois OU mais versos reunidos cun- 
stituem um Systema, que repetindo se formam a Stro- 
phe ; e quando se ajunta uma outra, á par chama-se 
Antistrophe, Formando o Systema com um verso 
m.ais curto ou de pè quebrado, temos o Epodo, Isto 
vemos reproduzir-se na Canção popular, e definir-se 
na Canção litteraria nas suas três partes, a Fronte, 
a Sirimia e o Cabo, Finida ou Coda, Toda esta es- 
tructura foi estabelecida sob o influxo da melodia, 
como se vê pelas partes constitutivas da Ária, A for- 
mação da Estrophe na poesia popular começa desde 
um só verso ou Catastico, que é um Epiphonema na- 
tural, um pé de cantiga e mesmo um Mote, que se 
pôde repetir como Refrem, Completando o sentido 
do verso pela Comparação, está achada utm, parelha, 
Copla, ou Distico (dichotomia); e pela forma metabó- 
lica do verso, chega-se ás quatro cadencias, que dão 
logar aos dois typos da Quadra, de duas parelhas 
monorrimas * ou alternadas. A Estrophe conforme o 
verso é isométrica, como usa o povo ; heterometrica, 
quando tem hemistichios ou quebrados ; e metabo- 
ca, quando se invertem os hemistichios dos versos, 
como nas Serranilhas e Muineiras. A Estrophe pode 
estudar-se na sua relação com o Canto e a Dança, ou 
na simples recitação verbal originaria dos Anexins. 

A forma da Quadra é a que mais extensamente 
e com mais vigor subsiste na poética popular ; en- 
contrase este typo na Trirech irlandeza e no Fennill 
de Galles, na Villota friulana e no Rispetto da Tos- 



^ Eis o exemplo, n'uma cantiga açoriana : 

Este mundo é uma bola, 
Quem o governa é o Parola. 
O Parola já morreu, 
Quem o governa sou eu. 

(Rev, lusit., II, 47.) 



POPULAR PORTUGUEZA 355 

cana, na Copla da Galliza, na Corranda da Catalu- 
nha, na Corriella e Seguidilfta da Andalusia, na Can- 
tiga de Portugal, e no Quatrain francez. A generali- 
dade deste typo nos povos românicos leva a derival-o 
do substratum ethnico d'onde provieram as Línguas ro- 
mânicas, e portanto d'esse elemento ligurico represen- 
tado ainda pelos brachycephalos da Bretanha e da Irlan- 
da, cujos dialectos são impropriamente chamados celti 
cos (nome que pertence aos dolichocephalos corpulentos 
e louros.) Feita esta observação, é fácil ver claro através 
das miragens dos celtologos e dos romanistas. * 

A.s semelhanças do verso de redondilha e estrophe 
em quadra com a versificação céltica (f), também levou 
alguns philologos a. darem uma origem céltica á mé- 
trica das linguas românicas. Não admira que o histo- 
riador Murguía considerasse a Rudda ou Cantar dei 
pandeiro, em tercetos, como sendo na Galliza «como 
uma continua-ção da tríada céltica ;» ^ o methodo phi- 
lologico exige uma cultura especial. Porém philologos 
como Bartsch e d Arbois de Jubainville, cahiram nesta 
miragem céltica pela semelhança e derivação da quadra 
septisyllaba da trirech irlandeza. Já Zeus e Ebel, na 
Gramntatica celtiea, considerando a aliteração e a rima 
como usadas pelos Bardos e Druidas, entenderam que 
estes eífeitos poéticos penetraram no Latim na deca- 
dência do Império, passando á métrica das Linguas 
românicas ! A Versificação em uma lingua é um des. 



1 Na poesia popular portugueza ha a designação de Chacoina 
(Friellas) e Chacoula (Alemtejo) em relação com a Chacona caste- 
lhana e a Chacont italiana, a qúe se encontra a fórma bretã, Ka- 
naatufiy designando genericamente a Cançon popular. A's palavras 
bretãs Qwerz corresponde o nosso Vorso; a Sonn^ canto elegiaco 
o Son (d'onde Soneto), e a Diskan o Descante. Já vimos a mesma 
relação com a Caro/e e Charola^ (supra, p. 296.) 

2 HisL de GaUàa^ t. i, 252. 



3'^D HISTORIA DA POKSIA 



envolvimento consequente e progressivo da sua Pro- 
sódia, e nunca uma transmissão ou appropriação de 
um povo a outro povo. Não attendendo a este prin- 
cipio, é que Bartsch considerava o verso de sete syl- 
labas commuin ás linguss novo -latinas e ás linguas neo- 
celticas (gaels e irlandez) como de origem céltica. 
Jubainville, estudando a métrica irlandeza, aponta os 
seus caracteres fundamentaes : verso fixado pelo nu- 
mero de syllabas ; modulado pelo ctccento^ no interior 
(cesuras) e no fim de verso ; homophonia de sylla- 
bas accentuadas no fim do verso (rima e assonaneia); 
certas relações do verso entre uma parte das sylla- 
bas iniciaes das palavras do mesmo verso (alitera- 
ção); e a exposição da ideia ou das palavras em di- 
sucos e quadras. Sobre esies caracteres appresenta as 
seguintes considerações: «Quanto aos três primeiros 
pontos as bases da versificação irlandeza são idênti- 
cas ás da versificação românica ; quanto á aliteraçào 
o irlandez aproxima-se das linguas germânicas ; a qua- 
dra, rimando os versos dois a dois é que constitua 
a originalidade da versificação irlandeza.» * Entende 
que a trirech equivale á quadra popular românica. 
Gaston Paris refutando toda a preoccupação cél- 
tica na métrica vulgar, combate a ideia de Bartsch 
com o methodo verdadeiramente philologico :«o prin- 
cipio da numeração das syllabas, junto á accentuação 
de certas de entre ellas, é a essência da versificação 
românica. Ora este principio está já estabelecido nos 
versos populares dos Romanos, dos quaes o Canto 
dos soldados de César é o mais antigo vestigio che- 
gado até nós. — é-se forçado a considerar o verso 
syllabico, rythmico, e mais tarde assonantado, como 
um producto inteiramente latino, órgão da poesia po- 



^ Romania, t. IX, p. 177. (Temol-a na poesia popular portugueza.) 



POI»ULAK POKTUGUEZA 557 



pular, desde o primeiro século antes da nossa éra. 
Depois dos raríssimos exemplos que nos foram con- 
servados, na época imperial, pelos historiadores e nas 
inscripções, elle desapparece, não do verso, mas da 
litteratura que chegou até nós, que nada tem de po- 
pular, e reapparece somente nos mais antigos monu- 
mentos da poesia das diversas nações românicas. As 
formas sob as quaes elle se encontra são diversissi- 
mas, mas appresenta sempre este tríplice caracter, 
sendo : syllaòico, ryíkmico e assonantây (mais tarde 
rhnado). Demais, desde que elle excede sete sylla- 
bas, é dividido em dois membros. Emfim, elle ap- 
presenta se habitualmente como fazendo parte de es- 
trophes. A versihcação céltica, ibérica ou germânica 
não tem absolutamente nada que ver com este des- 
envolvimento.» (Rom., t. IX, p. 185.) Tal é a con- 
clusão scientifica, comprovada pelos factos históricos, 
e que se applica com a mesma verdade á theoria dos 
que derivam a versificação moderna dos metros tro- 
chaico e jambico da quantidade latina ; faltou a Gaston 
Paris a consideração do substratum anthropologiro. 

Quanto á origem germânica, Argote y de Molina no 
século XVI, já considerava o Romance castelhano co- 
mo de origem gótica ; Juan de la Cueva derivava a 
rima da poesia dos godos; e Sarmiento julgava que 
passando a rima da poesia céltica para a dos Sue- 
vos, por via destes fora introduzida na latina. (Mem,y 
n.® 214.) Não surprehende esta indicação vagabunda ; 
mas torna-se reparavel em um philologo como Schu- 
chardt, que alludindo ás quadras friulanas chamadas 
villotaSy diz: «Parece que os versos destas obede- 
cem ao principio germânico que exige uma alternân- 
cia regular dos accentos.» — «Teremos de admittir 
a mesma influencia germânica na métrica dos friula. 



1 R( mania ^ t. ix, p. 185. 



35S HISTORIA UA POESIA 



nos, que se manifesta claramente nos outros ladi- 
nos?» Falia em especial da quadra com dispoçição 
da rima em a b c b: cesta forma da poesia popular, 
se não é de todo desconhecida entre os povos da 
Allemanha, apparece como original e indigena só nos 
Alpes ; de sorte que me não admiraria se se presu- 
misse que os habitantes allemães d'elles.(Stiria, Carin- 
thia, Salzburg, Tirol, Suissa) a tivessem herdado do- 
( eltas romanisados. A maneira como improvisam, e 
desafiando-se alternam as coplas, é a mesma que na 
Itália e na Hespanha. > Estas conclusões resultaram do 
exame da collecção publicada por Ludwig von Hoer- 
mann dos Cantos populares dos Alpes allemães, em 
1882. Schuchardt confronta além das formas da versi- 
ficação, o thema sentimental dessas quadras, compara- 
ções, parallelismos com as quadras andalusas da col- 
lecção de Lafuente y Alcântara. Nesta internacionali- 
dade que tanto impressionou o philologo allemão, elle 
tende para a origem céltica, (?) encontrando a quadra 
de Galles, chamada pennill com semelhança com o 
rispetto toscano, e outros pennilíion reflectidos no seu 
sentido na poesia meridional. * Convém nesta inves- 
tigação reconstituir o substratum ethnico, mas sem 
cahir na illusão de uma contiguidade histórica, como 
acontece principalmente com a determinação da in- 
fluencia dos Árabes. 

Os versos que deviam constituir a Bstrophe, eram 
determinados pelo movimento da Dansa, como a pró- 
pria palavra grega o exprime. A cantiga alemtejana 
o manifesta : 

Vá de roda^ vá de roda, 
Cada um sua cantiga ; 
Que eu também canto a minha, 
Que a necessidade me obriga. 



* El Folkelore andaluz^ p. 259 a 266. 



POPULAR PORTUGUEZA 35g 

E d'este movimento de roda, veiu o nome Ron- 
de/, Rondeau, Rondena^ Rondaylla e Redondilha ; co- 
mo da mesma designação de girar em redor, em volta 
ou em torno, a Volta lyrica, o Tornei trancez, a Tor-- 
nada castelhana, o Retornello italiano, o Estorn pro- 
vençal, e o Stornello italiano, que pela repetição dos 
movimentos correspondiam na estrophe a essa neces- 
sidade como Refrem da Canção. 

O nome de Strophe, embora de origem grega, en- 
trou na corrente popular deformado em Stramp, e 
dando logar á formação de muitas 'designações de 
cantos vulgares occidentaes, em que se notava o Re- 
frem : StrambottOy italiano; Estrabot, citado por Du 
Cange; Striòot, provençal; Estrambote em Hespanha, 
Estrambelho em Portugal (é corrente estribilho) ; e 
Rims stramps, na Provença. 

Por aqui se vê que a formação da Estrophe é que 
foi determinando as características dos géneros poé- 
ticos. E assim como a parelha, das dansas de Mui- 
nheira e Serranilha, deu logar á quadra, da improvi- 
sação, que pela Seguidilha se torna Canção, também 
a quadra conduziu á estructura da Outaz^a, como se 
ve na Outava italiana formada na i.* quadra pelo 
Strambotto siciliano, e na 2.* pela Ripresa toscana. 

O Discurso poético. — Como é que 2^ palavra f al- 
iada se coordena para formar o verso j^ Tal como o 
som, quando forma o accorde perfeito de uma phrase 
melódica. 

Uma ou mais palavras exprimindo um pensamento 
ou sentimento, constituem uma phrase ; mas a inten- 
sidade d'essa expressão simples, adquire pela sua ve- 
hemencia ora o caracter interjecional, ora a emphase 
de uma sentença. Dá-se-lhe o nome de Epiphonèma, 
E' este o elemento gerador da linguagem poética ; essa 
phrase breve appresénta numerosos aspectos emocio- 
naes no, seu sentido : exclamativo, imprecativo, de- 



36o HISTOKIA DA POKSIA 



plorativo, exprobativo, imperativo, dubitativo, suspen- 
sivo, reduplicativo, iterativo, afifirmativo, negativo, etc. 
Destas difiíerentes emoções provêm as accentuações re 
citadas, declamadas, cadenciadas, melódicas ou can- 
tadas, cuja intensiilade constitue a musica. 

O Epiphonema, como exprimindo uma emoção 
abrupta é uma interjeição ; contendo uma phrase 
completa, o seu âmbito, lacónico ou largo, contem 
dois termos ou movimentos, um ascendente, a Ar- 
siSy outro descendente a Tlusts, E, com estes dois 
movimentos que se forma o rythmo do verso, que 
encerra uma phrase fallada; vejamos alguns exem- 
plos de Epiphonemas, formando o verso e a estro- 
phe métrica popular: 

Tanto limão ! tanta lima ! 
Tanta silva ! tanta amora ! 
Tanta cachopa bonita ! 
Meu pae sem ter uma nóra I 

Aqui temos no primeifo verso dois Epiphonemas 
interjeccionaes admirativos, completando a arsis e a 
thesis ; no segundo verso ha o mesmo caso, mas de- 
terminando uma cadencia pelo parallelismo ; o ter- 
ceiro verso é também um Èpiphonema de maior âm- 
bito, com intuito de comparação ; o quarto verso, é 
egualmente Èpiphonema, terminando por uma antithe- 
se irónica. A poesia popular nasce d'estes Ímpetos do 
sentimento, em que o Èpiphonema se desdobra, exa- 
ctamente como a phrase musical : as suas repetições, 
imitações, parai) elismos, respostas^ sentenças, encer- 
ram processos de uma inesgotável invetição. Trans- 
creveremos alguns exemplos typicos : 

Chorae olhos ! — Chorae olhos 1 
Que o choiar não é desprezo ! 
Também a Virgem chorava^ 
Quando viu seu Filho preso. 



POPULAR PORTUGUEZA 36 1 



Chorae olhos I — Chorae olhos ! 
Chorae, que bem tendes rido ! 
E* bem que agora paguem 
Regalos que tendes tido ! 

Na primeira quadra é uma comparação que com- 
pleta a expressão emocional; a segunda é moldada 
sobre o mesmo Epiphonema, fundando o parallelismo 
no contraste. 

Epiphonema desenvolvido pela repetição da pala- 
vra, a que os rhetoricos chamaram anaphora : 

Eu não quero, — eu não quero, 
Eu não quero, tenho dito ! 
Eu não quero o teu amor ! 
Tenho outro mais bonito ! 

Já te quiz, já le não quero ! 
Já te amei, )á te náo amo ! 
A minha pouca assistência 
Dar-te-ha o desengano ! 

Eu heide amar, heide amar, 
Heide amar, bem sei a quem ! 
Eu heide amnr ao meu gosto, 
Namja ao gosto de ninguém. 

Quem tem amores não dorme 1 
Quem os tem não adormece ; 
Quem os tem ao longe chora ; 
Quem os tem ao pé, padece ! 

Muito padece quem ama ! 
Mais padece quem adora 1 
Mais padece quem não vê 
O seu amor toda a hora. 

De um Epiphonema completo, ou sentença, deri- 
va-se um contraste e uma phrase deplorativa : 

O sol para todos nasce ! 
Só para mim escurece ! 



302 HISTORIA DA POESIA 



Desgraçada criatura ! 

Que até o sol me aborrece 1 

A desgraça é nascer 1 
Depois de nascer penar ! 
Depois de penar morrer ! 
Depois de morrer penar ! 

CJma phrase narrativa conduzindo para um Epipho- 
nenia, que motiva um desejo : 

Quando te vi, logo disse : 
Lindos olhos para amar ! 
Linda bocca para os beijos ! 
Se a menina os quizer dar. 

O Epiphonêma desiderativo : Quem me dera! é 
aproveitado na poesia popular em série : 

Oh meu amor! Quem me dera, 
Quem me dera sempre dar-te 
Beijinhos até morrer! 
Abraços até matar-te! 

Quem me dera ver meu bem 
Trinta dias cada me/, 
Sete dias na semana, 
A cada instante uma vez! 

Epiphonêma implícito na phrase, para concluir 
por uma negação : 

Dizem que — o chorar consola I 
Eu , chorar ? não chorarei ; 
Que assim peidia a saudade 
A que já me acostumei. 

Um Epiphonêma como phrase ou como verso ca- 
tastico (raonostichio) pelo valor ligado á sua expres- 
são, pode conservar-se isolado, como Pe de Cantiga ; 
é ó verso perdido, a que na poesia popular italiana 
se chama Stramb. Servindo para o desenvolvimento 



POPULAR PORTUGUEZA 363 



de uma estrophe elle é o Mote; servindo para o fi- 
nal é o Refrem. * Neste isolamento, o seu sentido 
moral ou forma sentenciosa faz com que se torne 
aphoristico, e também se dá o nome de Refrem ao 
Adagio ou Anexim popular. E' no Refraneiro po- 
pular que se encontra toda a variedade de versos 
na sua forma polymetrica, e na sua completa con- 
strucção estrophica. 

Eis a transição do Epiphonema para o Refrem 
verbal ou Provérbio : 

— Quem semeia, recolhe. 

— Melhor é o meu, que o nosso. 

— Quem promette, deve. 

— Pão alheio caro custa. 

— Do contado come o lobo. 

— Pela bocca morre o peixe. 
— Bem jejua quem mal come. 
— O rabo é o peior de esfolar. 
— Em bons dias, boas obras- 

— Antes só, que mal acompaehado. 
— Porfia mata caça. ^ 
— Não são e^uaes os dedos. 

— Não tarda quem vem. 

— A cada ruim seu dia máo. 
— Deixar o certo pelo duvidoso. 
— Agua o deu, agua o levou. 

Os Refrems contendo a synthese philosophica do 



1 Partinho da falsa ideia da derivação da Versificação vulgar da 
latina, Jeanroy -cheg^a a descripÇão do verso catastico ou isolado : 
«Se a nossa ideia é justa, teriam então existido em latim vulgar 
cartissmas peças compostas na realidade de um vtrso só. Ainda 
que pareça disparatada esta ideia, é sustentável : estas espec es de 
poesias, invocações amorosas, ou rds^os satíricos, são d'aquellas que 
se improvisam por exemplo nos desafios poéticos de que falíamos, 
e que só podem sel-o facilmente restringindo-se em estreitissimos 
limites ; também pôde acontecer que esta forma muito análoga dos 
dísticos gregos, seja uma das mais antigas da Poesia popular ro- 
mana; effectivamente encontra-se na GalUza, cuja poesia popular é 
muito archaica ; em toda a Hespanha mesmo, o pequeno couplet 



304 HISTORIA DA POESIA 



povo, a par da sua concepção poética do mundo, 
sao extranhos á influencia da Musica e da Dansa ; é 
por isso que nelles ^e podem estudar certas minú- 
cias da estructura poética generativa, como a Alite- 
ração^ as Tautologias e a Rima, 

As sentenças moraes formuladas em phrases caden- 
ciadas ou Adágios, foram consideradas como um ele- 
mento da morphologia poética, isto é, da estructura 
do verso syllabico e da sua reunião em estrophe ri- 
mada ; é a doutrina do P.* Sarmiento, nas suas Me- 
morias para la historia de la Poesia y Poetas espa- 
Holes: «los primeiras principios de los versos meno- 
res en Espafía, habrán sido los Adágios y Provér- 
bios, y que los mayores se composieron de los me- 
nores.» (N.° 404.) Para confirmar esta doutrina trans- 
creve alguns Adágios dos colligidbs pelo Marquez de 
Santillana e por Hernan Nuftez; e accrescenta : «bien 



de três versos em aba (^tribilho) que se segue muitas vezes á 
quadra, mas que é na realidade distincto, não differe do Storndlo 
italiano, a não ser em ter versos mais curtos o que seria um ar- 
gumento a mais em favor da minha theoria.» Les origines de la 
Poésie lyriqut en France, p. 386. 

Na poesia popular ha Perguntas, com resposta satirica no mesmo 
metro, e constituindo tercetos ; 

— O que ha de novo ? , 
«Muita gallinha 
E pouco ovo. 

— O que diz ? 
«Quem tem cara 
Tem nariz. 

— Que horas são ? 
«Falta de', réis 
Pan meio tostão. 

N'esta forma de Perguntas em Epiphonemas interrogativos, ha nos 
Jogos infantis a pergunta e a resposta sempre em versos isolados 
subordinados á rima leonina. 



POPULAR POKTUGUEZA 3Ó3 



se podia decir, que los Poetas hizieron ó formaron 
tal y tal metro á imitacion de los Adágios.» (N." 405.) 
E depois de exemplificar os vários metros de redon- 
dilha nos Adágios, conclue pela sua unidade tradi- 
cional na peninsula : cLos Adágios gallegos son los 
mismos como los de los portuguezes y castelhanos 
mas antiguos ; y los catalanes, que son semejantes á 
los francezes, se hallan mesclados con los espanoles 
dei Pinciano, y Malara.» (N.** 418.) Recapitula a sua 
opinião, como : «Siendo pués los Adágios, como se 
ha visto, unos como princípios de los metros, ya por 
sus rimas, ya por su cadencia, agudeza, brevedad 
y íinteguedad ; . . . > (N.° 420.) Esta mesma opinião 
foi seguida por Sbarbi; e D. Joaquin Costa adoptan- 
do-a relaciona-os com as formas lyricas. épicas e dra- 
máticas, de que são gérmen, abstrahindo da musica. 
K' certo que alguns Adágios pelo seu sentido jurídico 
ou histórico nos transportam a uma época anterior ás 
línguas escriptas na peninsula ; o symbolo jurídico da 
adopção conserva-se no seguinte Adagio, commum a 
Hespanha e Portugal : 

Filho alheio, 
Mette-3 pela manga, 
Sair-te-ha pelo seio. 

Ou em castelhano, e mudando de metro : 



Entrarásle por la manga, 
saldrá por el cabezon. 



Embora, segundo Ambrósio de Morales- e P.* Ma- 
rianna, se relacione este Adagio com a forma sym- 
bolica como Don Sancho adoptou como filho o Bas- 
tardo de Mudarra, depois da morte dos sete Infan- 
tes de Lara; embora se applique á adopção que fez 
D. Mayor, rainha de Navarra a Don Ramiro, porque 
este a defendera, é certo que o symbolo é da so- 



366 HISTORIA DA POESIA 



ciedade tnosarabe, e a fórmula acompanhava-o na pre- 
visão moral. Portanto, o Adagio é uma forma metri- 
ficada e recitada, de um typo geral e commum. Tam- 
bém Sarmiento, para authenticar a antiguidade dos Adá- 
gios, aponta este : 

Allá van leyes 

dó quieren Reyes. 

E commenta: «Es sentir comun, que este Adagio 
se invento en tiempo dei Rey D. Alonso el vi, quando 
se hizo la prueba da las Liturgias romana y gothica 
ó Mozarabe, echando en una hoguera los dos Códi- 
ces. Dícese que salió mas victorioso el Mozarabe, 
que el romano ; y no obstante, quiso el Rey que se 
admitiese el romano y se arrinconase el Mozarabe ó 
gothico, contra las leys de la prueba, por fuego, ó 
por desafio. Y entonces se formo el Adagio. . . > (N.'' 
411.) Tem importância o argumento da antiguidade 
dos Adágios castelhanos ; em varias Canções dos tro- 
vadores portuguezes do século xiv existem glosados 
alguns Adágios, a que chamaram verbos (^xo-verbios, 
a sentença que vae na frente, ou que resulta do dis- 
curso.) A importância dos Adágios se não é como 
geradores das formas da Versificação, é como uma 
forma poética separada do influxo do Canto e da 
Dansa, e portanto nascendo do génio e do movi- 
mento prosodico das linguas vulgares. E' por isso que 
nos Adágios se devem procurar os versos polymetri- 
cos, e os esboços das estrophes; exemplifiquemos, 
a começar pelos versos de duas syllabas: 

Rey morto, Nem voda 

Rey posto. Sem canto ; 

Nem morte 
# Sem pranto. 

# 
Da mão Marido 

A' bocca Não vejas; 

Se perde Mulher 

A sopa. Cega sejas. 



Da fructa 
A maçé. 



Morrer 
Por ter ; 

Soffrer 
Por valer. 



A abelha, 
E a ovelha, 
E a penna 
De traí 
Da orelha, 

Na Eareia, 
PVo filho 
A velha 
Deseja. 



Versos de três syllabas formando parelhas, terct 
tos, quadras : 



Quem tem bocca 


Casamento 


Vae a Roma. 


D'a par do lar ; 




O Compadre 


Não ha atalho 


D'alem do mar. 


Sem trabalho. 


^ 


Casarás 


Se mal jantas. 


Amansarás, 


Peior cÊas, 




Mingam-te as carnes, 


A p3o duro 


Crescem-te as vêas. 


Denie agudo. 


, 


Tarde dar. 


Em Janeiro, 


E negar, 


Seca a velha 


Sxâo a par. 


A madeixa 




Ao fumeiro ; 


Ata curto. 


E em Março 


Pensa largo. 


■ Peio prado; 
No Abril 


Ferra baixo, 


Tens ca vai lo. 


Vae -a urdir. 



Versos de quatro syllabas 



Antes que cases 
Olha o que fazes. 



368 



HISTORIA Da POESIA 



Quem me quer bem, 
Diz o que sabe, 
Dá-me o que tem. 

# 
O avarento 
Por um real 
Perde um cento. 

* 
Casar, casar, 
Soa mui bem, 
E sabe mal. 

Versos de cinco syilabas: 



Com papas e bolos 
Se engam os tolos. 



# 



Onde o bem me vae. 
Tenho mãe e pae. 



Cavallo alasão, 

Se muitos o querem 

Só poucos o hão. 

Versos de seis syilabas: 

Quem corre pelo muro 
Não dá passo seguro. 

A moço ataviado, 
A mulher ao lado. 



Quem bem está 
E mal escolhe, 
De mal que venha 
Não se anoje. 



Ou para homem 
O para o cão, 
Leva tua *spada 
Sempre na mão. 



Onde me vae bem, 
Tenho mãe e pae. 

# 

Perda de marido. 
Perda de alguidar; 
Um quando quebrado, 
Outro em seu logar. 

# 

Se eu quizera amar 
Tenhomaisqueummoio; 
Mas quero só um. 
Que e trigo sem joio. 



Não se ganhou Çamora 
Em uma hora. 

# 

Comei, mangas, aqui; 

Que a vós honram, não a mi. 



Quem tem mulher formosa, 
Gastello em fronteira, 

E vinha na carreira, 
Não lhe falta canceira. 

# 
Quem semêa em restolho 

Chora por um olho; 
Eu que não semei 

Com os dois chorei. 

# 
Quem tem casal de renda, 

A meias a semente, 

E bois de aluguer. 
Quer o que Deus não quer. 



POPULAR POKTUGUEZA SÓQ 



Versos de sete syUabas: 



A boda, nem baptizado 
Nao vas sem ser convidado. 



O moço por não querer, 
E o velho por não poder. 
Deixam as cousas perder. 

Versos de oito syllaòas: 

Deus me dê pae e mãe na villa, 
E em casa trigo e farinha. 

Versos de dez syllaòas: 

Em ruim villa, briga cada dia. 
De uns fazeis filhos, de outros enteados. 
Não ha tal filho como o nascido. 
Faze barato, venderás por quatro. 
Perdido é, quem traz perdido anda. 
Gente ruim não ha mister chocalho. . 
Perseverança toda a cousa alcança. 
Ruim é a festa em que não tem outavas. 

Versos de onze syllaòas: 

Com aguas passadas não moem moinhos. 
Em má hora nasce quem má fama cobra. 
Da porta cerrada o uiabo se torna. 
De trigo e da aveia minha casa cheia. 
Em meza redonda não ha cabeceira. 
O moço e o amigo, nem pobre, nem rico. 
Vende a esposado, e compra a enforcado. 
Saram cutiladas e não más palavras. 
Não se tomam trutas a bragas enxutas. 
De todos os Santos até ao Natal, 
Perde a padeira o seu cabedal. 

Pões. popul. . 34 



370 HISTORIA DA POESIA 



Versos de doze syllabas^ ou alexandrinos: 

O que te cae da mão dá-o a teu irmão. 
Para prospera vida, arte, ordem e medida. 
Nem todos os que vão á guerra são soldados. 
Traz o trabalho vem dinheiro com descanso. 
O bom coração soffre, e o bom siso ouve. 

A palavra antes de formar o verso, agrupa-se em 
phrases falladas, exprimindo com certo colorido pit- 
toresco estados de consciência, representações do 
mundo exterior, e emoções intensas ; taes são as 
Comparações, as Imagens ou Tropos, que muitas ve- 
zes encerram concepções mythicas ora primitivas, 
ora espontâneas. Na investigação do Folklore tem-se 
colligido as Comparações populares, que encerram 
um verdadeiro material poético ; algumas delias são 
communs aos povos meridionaes ; transcrevenios o 
bastante para reconhecer o seu valor constructivo : 

I Amarello como a cera = Mas amaryo que la será 
(Hespanha) -= 4Am/«^ comme de cire, (França) 

— Bebe como um boi = Come más que un guey, 
(Hesp.) 

— Claro como agua = Mds claro quel agua (Hesp.) 
= Sckietío come el acqua. (Itália) 

— Contente como umas paschoas == Mds alegre 
que unas Pascuas, (Hesp.) = Jouious coumo Falleluia 
de Pascos, (França) = Contento como una Pasqua. 
(Itália.) 

— Direito como um fuso = -Afíij derecho que un 
fuso. (Hesp.) = Dritto co^ne un fuso, (Itália.) 

— Doce como vcit\^=Mds durse que la ;;í/>'.-(Hesp.) 
= Dolce come il mele, (Itália.) 

— Escuro como a noite dos trovões = Mds escuro 
que una noche e truenos. (Hesp.) 

— Falia como um X\vxo^=Iabla como un libro. 



POPULAR PORTUGUEZA ^71 



(Hesp.) = Parla coumo un libre, (França). = Parla 
conte un libre stracciato, (Itália.) 

— Falso como Judas = Mas farso quel armo e Ju- 
tas, (Hesp.) = Tradire come un Giuda. (Itália.) 

—Fino como um coral = Más fino que un cora, 
(Hesp.) . 

— Grande como o mar. = Más grande que la má, 
(Hesp.) = Grande coumo la mar, (França) 

— Ha de tudo,, como na botica. =^ Hay de tò como 
en botica, (Hesp.) 

— Leve como uma penna, = Más ligero que una 
plutna. (Hesp.) = Liggier o come una piuma, (Itália.) 

— Lindo como o so\, = Más bonito que er só, 
(Hesp.) 

— Liso como a palma da mão. = Más yano que 
la parma e la mano, (Hesp.) — Plan coumo la ma, 
(Trança.) 

— Macio como um velludo. = ií/ílr suabe que un 
tersiopelo. (Hesp.) 

— Máo como as cobras. = Más maio que er có- 
lera, (Hesp.) 

— Negro como um tição. = Más negro que un ti- 
son. (Hesp.) 

— Nada como um peixe. = Nada como un pes, 
(Hesp.) 

— Ouve como tisico. = Oye más que un ético, 
(Hesp.) 

—Pesado como çí^\xTCÍoo,=^Más pesao que un pio- 
rno, (Hesp.) = Pesant coumo un ploumb, (Itália.). 

— Pobre como Job. = Más pobre que Job, (Hesp.) 

— Quer-lhe como ás meninas dos olhos. = Lo 
quiere más, que á las niHas e sus ójos, (Hesp.) 

—Redondo como uma bola. = Más reondo que 
una bola, (Hesp.) 

— São como um pkxo,=^ Más sano que una pêra, 
CHesp.) 



/ 

372 HISTOKIA DA POESIA 



— Triste como a morte. = Más triste que un dueio, 
(Hesp.) 

— Vermelho como uma papoula. = Afój rojo que 
una aniapola, (Hesp.) * 

Cantigas populares formadas pelas Comparações : 

Eu não gosto de Francisco, 
Que amarga como o trovisco ; 
Gosto mais de Manuel, 
Que é nome de Jesus Christó. 

Negro é o teu cabello, 
Negro como o azeviche ; 
Dize amor o que fizeste 
No tempo em que me não viste. 

Eu hei de ir, hei de deixar-te 
Como a agua deixa a fonte ; 
Hei de deixar-te tão só 
Como o espargo no monte. 

Andas abaixo e acima 
Como o ouro na balança ; 
Emc^uanto tu n^o fores minha 
A mmha alma não descansa. 

Os teus braços são cadêas 
Mais rijas que o próprio aço, 
Já me tens preso, cativo, 
Só te falta dar o laço. 

Quem a mim ouvir cantar 
Cuidará que estou alegre, 
Tenho o coração mais negro 
Que a tinta com que se escreve. 

A viola sem a prima 

E' como a filha sem pae, 



1 A. Th. Pires — Quatrocentas Cotnparaçffes aUmtejanas. As Com- 
parações hespanholas são colligidas por F. Rodrigues Marin. 



POPULAR POKTUGUEZA SjS 



Cada corda seu suspiro, 
Cada suspiro seu ai. 

Estes lapazes de agora, 
Estes que de agora são, 
São como o ouriço chocho, 
Dá^lhe o vento, cae no chão. 

Quero tanto aos meus amores 
Como a Virgem quer a Deus, 
Como o campo quer ás flores, 
Como o pae aos filhos seus. 

As Compat^açÕes ampliam se até ás reminicencias 
históricas, conservadas na tradição popular ; assim 
em algumas cantigas do Alemtejo : 

Chorava José do Egypto 
Por seu pae, que era Jacob ; 
Também eu choro e grito 
Por me ver no mundo só. 

Bem forte era Roldão. 
E venceuo uma Angélca; 
As almas desejam gloria, 
A minha que se não perca. 

Cativa foi Florinda 
Princeza filha do rei ; 
Cativos foram meus olhos 
Que me cativaram também. 

Depois das ContparaçÕeSy seguem-se outras expres- 
sões poéticas baseadas sobre cis Aniphibologias ou 
equívocos, as Allusões a Symbolos consuetudinários, 
as Allegorias das cores, das flores, e as Perguntas 
em Enigmas, Exemplifiquemos esses recursos da 
elaboração poética popular : 

Com pena pego na penna 
Com pena para te escrever, 
Caiu-me a penna da mão 
Com pena de te não ver. 



374 HISTORIA DA TOESIA 



Não me. atrevo disse o trevo 
A nascer por entre o trigo ; 
Eu, sem ser trevo, me ^trevo 
A trazer amor comtigo. 

O trevo d»z que se atreve 
A trazer amores ausentes ; 
Eu não sou trevo e me atrevo 
A tomar amores para sempre. 

O trevo diz que se atreve 
A apartar corações ; 
Não hade apartar os nossos 
Que estão prezos por grilhões. 

O symbolo do cabello atado como signal da mu- 
lher casada, no direito foraleiro, (Vid. p. Z^) appare- 
ce nestas cantigas do Alemtejo, communs á Beira 
Baixa : 

— Menina ate o cabello, 
Não o traga desatado, 

Dê o desengano ao moço, 
Não o traga enganado. 

«Heide atar o meu cabello 
E viral-o para traz. 
Com uma fitinha vermelha 
Que me deu o meu rapaz. 

— Menina ate o cabello 
Que elle atado está lhe bem ; 
Se não tem fita para elle 

O salgueiro verga tem. 

«Você não é para mim, 
Você para mim não é ; 
Bote o sapato á rua. 
Vista a forma do seu pé. 

A oliveira é a paz, 
Que se dá aos bem casados ; 
A palma aos sacerdotes, 
O alecrim aos namorados. 



POPULAR PORTUGUEZA 3^5 



Trazeis o cravo ao peito, 
E' signal de casamento ; 
Tirae o cravo para dentro 
Que o casar inda tem tempo. 

Como amostra do Enigma com que começam os 
desafios entre os cantadores: 

— Tu dizes que és poeta 
Em matéria de cantar. 
Pois diz me lá por cantigas 
Quantos peixes ha no mar ? 

«Quantos peixes ha no mar 
Eu t*o vou já a dizer : 
São metade e outros tantos, 
Fora os que estão por nascer. ^ 

As Tautologias, tão frequentes na linguagem po- 
pular, como : Dito e feito, encerram a phrase feita, 
a fórmula sacramental dos documentos legaes, como : 
Posso, quero e mando; têm na poesia do povo um 
emprego característico, sem distinguir o anexim sen- 
tencioso ou a cantiga apaixonada. Comecemos pelos 
Anexins com Tautologias a dois termos : 

O amor e fé 
Nas obras se ve. 

Amor e reino, 
Não quer parceiro. 

Com agua e sol 
Deus é creador. 

Preso nem cativo 
Não tem amigo. 



A Ap. Sentinella da Fronteira : Cantos populares do AiemUjo 
n.** 113- (CoUec. de A. Th. Pires.) 



376 HISTORIA DA POESIA 



Tautologias a três termos : 

Mulher, vento e ventura, 
Asinha se muda. 

Amor, fogo e tosse, 
A seu dono descobre. 

Amor, dinheiro e cuidado. 
Não está dissimulado. 

Caça, guerra e amores. 
Por um prazer mil dores. 

Azeite, vinho e amigo, 
O mais antigo. 

Casa, vinha e potro, 
Faça-os outro. 

Queijo, pêro e pão, 
Comida de vilão. 

Manda o amo ao moçoj 
O moço ao gato, 
£ o gato ao rabo. 

Horta sem agua. 
Casa sem telhado. 
Marido sem cuidado. 
De graça é caro. 

Três cousas fazem 
Ao homem medrar: 
Scíencia e o mar 
E casa real. 

Nas Cantigas soltas a tautologia apparece nos seus 
differentes termos, dando intensidade á phrase poé- 
tica: 

Por amar e querer bem, 

Me querem tirar a vida; 

Heide amar e querer bem, 

Dou a vida por perdida. 



A 



POPULAR PORTUGUEZA :>']'] 



O amar e padecer 
Estão no mesmo logar; 
Quem não quizer padecer, 
Hade-se deixar de amar. 

Eu casei-me, cativei-me, 
Inda não me arrependi ; 
Quanto mais vivo comtigò 
Menos posso estar sem ti. 

Amar, morrer, padecer, 
Não pode ser tudo junto ; 
Quem morreu acaba a vida, 
Quem ama padece muito. 

Corpo, alma, vida minha. 
Eu de nada sou ciosa. 
Entendo que procureis 
A outra maii» caprichosa.. 

Alma, vida, coração, 
Já tudo te entreguei ; 
Tens tudo quanto me anima, 
Como sem ti viverei ? 

Oh sol, oh lua, oh estrellas. 
Oh anjos, descei cá abaixo ; 
Vinde ver a sepultura, 
O logar onde me eu acho. 

Suspiros, ais, e tormentos 
Imaginações e cuidados. 
São o manjar dos amores. 
Quando vivem separados. 

As formas do Discurso poético são de uma in- 
venção assombrosa na expressão popular; indicare- 
mos summariamente algumas com os nomes que os 
rhetoricos lhes deram no Discurso oratório : 

Epanadiplosis - quando o período termina pela 
mesma palavra com que começa : 

Amada de Deus, amada, 
Querida de Deus, querida ; 



37^^ HISTORIA DA POESIA 



Mais vale ser desejada 
Do que ser aborrecida. 

Enallage — quando se altera um tempo, numero 

ou pessoa, no verbo ; ou se dá o verbo por um 

nome : 

Cantava, cantei, cantando, 
Cantando, cantei, cantava, 
Chorava, chorei, chorando 
Chorando, chorei, chorava. 

Lindos olhos de matar. 
Sobrancelhas de sorrir. 
Tendes a cor demudada. 
Isso não é de dormir. 

Epizeuxis — repetição da mesma palavra, redupli- 
cação intensiva : 

Tenho penas, tenho penas, 
Eu de penas fiz um feixe. 
Eu não sei que faça á pena 
Para que a pena me deixe. 

Tenho penas, tenho penas, 
Não são pennas de gallinha, 
Dá-lhes o vento não voam, 
Que penas são estas minhas ? 

Zeiigma — suppressão de uma palavra, que se 
subentende na repetição : 

O mar pediu a Deus peixes, 
Os peixes a Deus altura; 
Os homens a liberdade, 
As mulheres formosura. 

Anastrophe — deslocação dos elementos da phrase : 

Casada, não sou casada. 
Nem sei se me casarei, 
Tenho a palavra dada. 
Não sei se a cumprirei. 



POPULAR PORTUGUEZA ^79 



Epanodos — repetição em posição exprimindo pen- 
samento contrario : 

Esta noite vou me ás vinhas, 
Esta noite vou- me a ellas ; 
Quem tiver filhas que as guarde, 
Que eu não me heide guardar d'ellas. 

Ironia — a realidade expressa pela forma contra- 
ria, ou antithese : 

Maria, minha Maria, 
Doestas Marias ha poucas ! 
Umaa são Marias várias, 
Outras são Marias loucas. 

Clionaz — repetindo a palavra com gráos de en- 
cadeamento : 

Aqui n'este canto, canto, 
Aqui n*este recantinho. 
Aqui bate a pomba as azas, 
Aqui faz a pomba o ninho. 

Shnploca — repetição da palavra no fim da phrase : 

Que passarinho á aquelle 
Que está na flor do marmello. 
Com a bocca pede beijos. 
Com as azas, quero, quero. 

Anaphora — repetição da palavra (como a nota 
obstinada) : 

Oh amor, tudo te enoja, 
Oh amor, tudo te oífende, 
Ou eu não te sèi amar, 
Ou tu, amor, não me entendes. 

Oh agua, que estás lá longe, 
Oh agua, quem te bebera 1 
Oh rosa, quem te cheirara. 
Oh cravo, quetp te colhera. 



38o HISTORIA DA POESIA 



Hvperbaton — transposição de elementos da phrase : 

Oh meu amor, meu amor, 
Oh meu amor, nada não ; 
Nada tenho no meu peito 
Em que não tenhas quinhão 

Antanaclusis — palavras idênticas nas letras, ou 

homophonas : 

Os teus olhos negros, negros, 
São gentios de Guiné, 
De Guiné por serem pretos, 
Gentios por não terem fé. 

Euphuismo — adoçamento da phras^ pejorativa : 

Nem toda a arvor' dá fructo. 
Nem toda a erva dá flor, 
Nem toda a mulher bonita 
Pôde dar constante amor. 

Paranotnasia — palavras diversas no significado, 
mas análogas no som : 

Da palmeira nasce a palma, 
Da palma nasce o palmito, 
O amor que nasce na alma 
Nasce para ser infinito. 

Pleonasmo — repetição escusada da palavra para a 
comprehensão da ideia : 

Quem tem pinheiros tem pinhas, 
Quem tem pinhas tem pinhões ; 
Quem tem amores, tem filhos. 
Quem tem filhos tem paixões. 

Podem-se exemplificar abundantemente com as. 
Cantigas populares todas as figuras de dicção obser- 
vadas pelos rhetoricos ; e pelas necessidades da ver- 



N 



POPULAR POHTIJGUEZA 38l 



sificação todas as figuras de transposição, cpmo Me- 
tathese, Hyperthese, Anastrophe ; de addicão, como 
Prothese, Epenthese, Paragoge; e de subtracção, 
como Apherese, Syncope e Apocope ; de ftisãOy 
coaio Sysizene, Synalepha, Synerese, Crase; de 
abrandamento, como Systole; e de significação co- 
mo Synedoche e Metaphora. 

Deixemos essas exemplificações, entrando na parte 
viva da Poesia do povo, proveniente da relação in- 
tima da Palavra pelo seu accento prosodico com as 
formas da Melodia e da Dansa, que determinam a 
creação e desenvolvimento completo da Canção. 

(Ç 2,^ — Os Géneros poéticos, e os Themas universaes 

da tdealisação popular 

Creadas para a expressão dos sentimentos, as Ar- 
tes, embora por diversos meios, encontram-se inti 
mamente ligadas para o mesmo fim ; e quanto mais 
intenso é esse sentimento na inconsciência, mais 
ellas pela simplicidade dos seus recursos se auxi- 
liam, se coadjuvam e até certo ponto se confundem 
sem se invadirem, para alcançarem uma expressão 
ideal. Pode-se comprehender este momento da Arte 
no seu estado syncretico com a linguagem humana : 
articulada pela palavra^ a intonação dá-lhe as suas 
cadencias da phrase, e 2. gesticulação o rythmo que 
accentua e define o movimento da acção. D esta 
simultaneidade resulta a belleza oratória, creada pela 
synergia social. E essa mesma Palavra usual, con- 
vertendo-se em symbolo, para representar nos seus 
tropos a vida das cousas e os estados de consciên- 
cia, as emoções e as concepções subjectivas, forma 
uma nova linguagem, semelhante á usual nos seus 
elementos grammatologicos, mas com um poder 
suggestivo, com um relevo de representação qu3^ 



3S2 HISTOKIA DA POKSIA 



impressiona e encanta : é a Poesia, A intonaçSo da 
palavra apaixonada torna-se melódica, e pela inten- 
sidade da expressão gera a phrase musical ; e esta 
primeira união da Poesia com o Canto manifesta-se 
no verso, que se fixa como estructura da phrase 
poética. Em que situações se emprega a palavra no 
máximo da sua intensidade ? Nos grandes actos so- 
ciaes, nas cerimonias do culto, nas festas publicas 
pelos triumphos nacionaes. A Poesia ligada ao Canto 
nos actos religiosos e festivos, é rythmada pelas 
Dansas e jogos mimicos em que a multidão toma 
parte, cooperando na expressão do sentimento por 
movimentos e attitudes expressivas. Foi neste mo- 
mento syncretico que as três Artes de expressão 
Poesia, Musica e Dansa se exerceram simultâneas, 
fecundando se no desenvolvimento propiio de cada 
uma. E' ao que Wagner com a sua vista philoso- 
phica chama período de cotnmunismo, * que chegou 
no concurso mais harmónico das três Artes á su- 
prema credçâo do génio grego — a Tragedia. A se- 
paração d'estes elementos estheticos fez que as Ar- 
tes se desconhecessem entre si, e até certo ponto 
se desnaturassem, pelo seu . progresso isolado; a Poe- 
sia tornou se uma rhetorica académica, a Musica um 
artificio de distracções contraponticas, e a Dansa um 
espectáculo de acrobatas. Perderam o destino social, 
deixaram de se dirigirem á multidão. Para compre- 
hender a formação da Poesia moderna é preciso exa- 
minal-a n'esse período syncretico em que as popu- 
lações europêas a elaboraram simultaneamente com 
o Canto e a Dansa ; da mesma forma a Musica mo- 
derna na sua phase hodierna será comprehendida 
relacionando-a com a Melodia popular d'onde ella 



1 A Obra de Arte no ftUuro. 



POPULAR PORTUGUEZA 583 

derivou para se desenvolver na Egreja e nas Cor- 
tes. O restabelecimento desta solidariedade artistica 
é verdadeiramente um critério para o historiador e 
uma synthese esthetica para o philosopho. 

Arthur Cornette, professor do Conservatório fla- 
mengo, na Esthetica do Drama lyrico, explica a im- 
portância da palavra para determinar a tonalidade ou 
um systema musical : c Estas tonalidades (inharmoni- 
cas ou com multiplicidade de intervalos) são visivel- 
mente baseadas sobre a instituição da palavra, so- 
bre a alliança da musica e da linguagem nas eda- 
des primi:ivas, e ellas têm na palavra a sua harmo 
nia essencial. O órgão vocal, na palavra, possue effe- 
ctivamente intervallos indeterminados, inapreciáveis, 
inflexões em relação com o senso intellectual que a 
pessoa que falia quer pôr em evidencia e com o 
sentimento ou a paixão que o anima, Mas, á me- 
dida que a musica, auxiliar da palavra na antigui- 
dade, se destacar da linguagem para viver uma vida 
própria e desenvolver-se na sua energia interna e na 
sua esphera particular, foi forçada a procurar uma 
distribuição de intervallos fixos, distinctos e precisos, 
os elementos de um senso próprio que fosse para a 
alma sensivel, o- que o senso da palavra é para a 
alma intellectual. Então o elemento da harmonia ap- 
presentou-se como complemento d*este senso. Tal é 
a tonalidade moderna.» E nas Canções populares, 
que se determina ainda esta relação da palavra e do 
canto, que restabelecida consciente e artisticamente 
se torna a synthese da musica moderna. 

Na Histoire de la Chanson en Francês Julien Tier- 
sot, assenta as modificações dos cantos populares pro- 
vinciaes ou regionaes em um fundo commum primi- 
tivo, reduzindo as originalidades locaes a essas ex- 
clusivas modificações : «O povo cria as suas Can- 
ções. Elle as transforma a capricho, de mil manei- 



3^4 HISTOKIA DA POESIA 



ras e por meios diversíssimos. O numero de ideias 
de que as Canções procedem é restricto e quasi que 
commum a todos os meios populares ; por outros ter- 
mos, os assumptos das Canções populares são em 
pequeno numero, mas os aspectos multiplicamse 
pela estructura que tomam e formas variadas com 
que são tratados. Os caracteres próprios a cada pro- 
víncia assentam portanto mais n esta diversidade de 
apparencias, do que na natureza e espirito dos assum- 
ptos.» (Op. cit., p. 357.) D'este ponto de vista se- 
guro, que se verifica pela determinação de um fundo 
anthropologico, que liga diíTerentes localidades e po- 
vos, vae uma grande distancia para essa outra these 
imaginosa da Canção originaria da França septem- 
trional, irradiando a sua matéria poética e musical 
por toda a Europa, soffrendo modificações fundamen- 
taes nos diversos meios para onde foi transportada 
e adaptada 1 E d'essa outra que considera a morpho- 
iogia poética um producto inteiramente latino ado- 
ptado pelos povos modernos na sua versificação mo- 
tivada pelos costumes e relações sociaes. Gaston Pa- 
ris também aponta em crjterio seguro, sem comtudo 
o ter seguido : « a historia da Poesia lyrica ... é in- 
separável da da Versificação^ como .esta não o é me- 
nos da historia da Musica e da historia da Dan- 
sa, . ,^ ^ 

A poesia popular, com ou seus versos medidos, 
accentuados, assonantados ou rimados, com as suas 
divisões estrophicas, não é um artificio ; simultânea 
com a creação da lingua fallada, a poesia tem a 
mesma origem naturul e espontânea, e com ella re- 
cebe um ulterior aperfeiçomento litterario e artístico. 
Pelo facto da lingua fallada receber na forma escri- 



1 yournal des Savants^ 1891, p. 677. 



POPULAR POkTUGUEZA 385 



pca as bellezas do estylo, nem por isso se poderá 
considerar a lingua um artificio dos rhetoricos ; o 
mesmo acontece á linguagem metrificada, cujos ef- 
feitos, embora desenvolvidos pelos poetas, nem por 
isso esta expressão do sentimento pôde considerar se 
menos natural na versificação do que na phrase com- 
mum. A creação destas duas formas da linguagem 
sendo simultânea em todos os povos, só quem des- 
conhecer tal facto é que verá a Versificação como 
um producto de academia ; assim o poeta Lamartine 
escrevia essas deploráveis palavras, que depõem con- 
tra a sua intelligencia : 

«Se agora nos interrogarem sobre esta forma da 
poesia a que se chama verso, responderemos fran- 
camente, que esta forma do verso, do rythmo, da 
medida, da cadencia, da rima ou da consonancia.de 
certos sons eguaes, no fim da linha cadenciada, pa- 
rece-nos muito indifíerente para a poesia, na época 
avançada e verdadeiramente intellectual dos povos 
mocjernos. » Depois d'isto, confessando que tendo feito 
versos por imitação e por habito, avança : «declara- 
mos que o rythmo, a medida, a cadencia, a rima, 
sobretudo, nos pareceram uma puerilidade e quasi 
uma derrogação da dignidade da verdadeira poe- 
sia.» * Os povos que crearam as linguas sem artifí- 
cios, tombem crearam a versificação sem ser por 
puerilidade. O academismo afastou Lamartine das 
fontes vivas da poesia. Henri Heine, entretendo-se 
no leito da doença a metrificar, dizia que isso o «le- 
vara a descobrir, que a versificação era uma pura 
creancice.» Pôde usar-se como puerilidade ou crian- 
cice, mas na sua origem é um phenomeno orgânico 
a versificação, cuja seriedade primitiva subsiste na 
poesia do povo. 

* Curso fam. de Litt.^ iv Entr. 

Pões. popul. 25 



SSÔ HISTORIA DA POESIA 



As línguas meridiotiaes, como analyticas, na sua 
redacção em prosa exigem na construcção syntactica 
tudo quanto possa tornar mais nitido o pensamento, 
tí»es como as palavras que exercem exclusiva y««r- 
ção gratnmattcal, preposições, pronomes pessoaes e 
relativos, conjunções e advérbios, que supprem as 
flexões casuaes. Na redacç5o poética, sem derro- 
gar-se este processo, ha apenas uma modificação exi- 
gida pelo laconismo do âmbito do verso: evitam-se 
quanto mais ser possa o emprego de palavras de 
funcção exclusivamente ^rammatical, que dão um pre- 
ponderante prosaismo, (observíição de Wagner) tirando 
das transposições impostas pelas necessidades da mé- 
trica o relevo ideológico, que muito se aproxima da 
primitiva quantidade. O povo na linguagem métrica 
attinge o máximo do laconismo ; e é essa uma das 
bellezas da sua poesia ; o culto, aproveitando esse 
effeito, completa- o pela eliminação possivel das pa- 
lavras de funcção grammatical, realisando pela natu- 
ralidade da expressão o accocdo existente entre a 
linguagem da prosa e a do verso. 

Dizia Rousseau : «E* um grande e bello problema 
o determinar até que ponto se pode fazer cantar a 
palavra, e f aliar a musica,^ Este problema foi com- 
prehendido pelos technicos diversamente; uns torna- 
ram a palavra serventuaria do canto, inexpressiva em 
si, para servir de solfejo ao cantor, como fizeram os 
italianos. Outros, reagindo contra esta subordinação, 
e querendo attingir a expressão musical pela in- 
tensidade do drama implicito na palavra, regressa- 
ram ao recitativo melódico, como fizeram Gluck, e 
Wagner, pensando em uma unificação synthetica de- 
duzida da espontaneidade popular. Effectivamente o 
povo, antes do problema proposto pelo audacioso 
Rousseau, achou o segredo de çaniar a palavra e 
f aliar a musica; feio pelo processo simultâneo, em 



POPUI.AH POKTLGUEZA jSy 



que o verso é uma resultante do rythmo da dansa, 
e em que a melopêa e o canto resultam da caden- 
cia do verso, e do colorido implícito na intonação da 
palavra. O povo é o creador dos germens ou themas 
musicaes, a Melodia, Eis a base de toda a critica esthe- 
tica e histórica, que se verifica nas formas da Canção. 

A relação entro a musica e o verso, achase con- 
fessada por Gluck no Exame ou prefacio que poz 
na frente da opera Alceste : «Eu procurei reduzir 
a musica á sua verdadeira funcção, a de secun- 
dar a poesia para fortificar a expressão do senti- 
mento e o interesse das situações, sem interromper 
a acção e arrefecel-a por orname<itos superfiuos ; en- 
tendi que a musica devia ajuntar á poesia o que a 
um desenho correcto ajunta a vivacidade das cores, 
o accordo feliz das luzes e das sombras, que servem 
para animar as figuras sem lhes alterar os contor- 
nos. » 

E em uma carta de Gluck, de 1773 : tSempre sim- 
ples e natural tanto quanto me é possível, a minha 
musica não tende senão á maior expressão e ao re- 
forçamento da declamação da poesia.» * 

A relação da musica com a poesia popular, acha-se 
assim observada por Champfleury: «A estas canções 
anda junta ordinariamente uma melodia particular, 
monótona na apparencia, a qual cantada desempe- 
nha uma parte importante na poesia popular. São 
duas artes que se acham tão intimamente ligadas, 
como a hera á velha parede, e que separadas pa- 
recem aleijadas e incompletas.» E sobre a natureza 
das melodias, nota o seu caracter musical: «As me- 



1 Escrevia o nmsicographo inglez Burney, sobre a naturalidade 
e simplicidade attingida por Gluck : «E pode-se notar que a maior 
parte dis Árias do Orfeo são tao simples, tão ingen-uas ermo BaU 
lados inglezas » (The state of Music in Germany, i, 264.) 



3>8 HISTORIA OA POKSIA 



lodias das Canções populares estão todas fora das 
leis musicaes conhecidas; escapam á notação, por- 
que não têm compasso ; uma tonalidade extravagante 
na apparencia, e comtudo rasoavel por isso que está 
de accor«io com uma poesia fora de todas as regras 
da prosódia, faria gemer os didaticos professores de 
harmonia.» E' pelas desegualdades dos intervallos 
(os robatus) que essas melodias caracterisam a tona- 
lida<Ie dos povos que as cantam e as acompanham. 
«A musica popular é uma mina de intervallos harmó- 
nicos imprevistos, selvagens, delicadissimos, como se 
quizerem » Escrevendo isto, Champfleury observava 
a inflencia das melodias populares na musica mo- 
derna : « De ha dois ou trez annos para cá, espiritos 
distinctos procuram introduzir o quarto de tom na 
musica moderna.» * Referia se a Chopin, a Liszt, ao 
abandono gradativo das cadencias perfeitas. Intima- 
mente ligada a poesia á melodia, as exigências dp 
verso com as suas cesuras e crases é que determi- 
nam essas desegualdades dos intervallos musicaes ou 
robatus. Na esthetica popular, nunca a poesia é a 
escrava da musica, como acontece com os libretis- 
tas em relação aos compositores, os Scribe em re- 
lação a Meyerbeer, ou Quinault em relação a LuUi. 
Mas a Poesia cantada na sua forma primitiva e 
orgânica é simultaneamente dansada; d'aqui o seu 
rytkmo natural, o seu compasso tornando -se vivo e 
expressivo como acompanhamento, pela presteza e 
pela sonoridade. Schubert soube tirar do rythmo to- 
da a riqueza e colorido do acompanhamento, como 
se vê na Canção de Margarida fiando, e na bailada 
do Rei dos Olmos, Isto nos patentêa a importância 
do phenomeno musical do povo. 



1 Lettre à M Ampere touchantla Poesie populaire, (No Realisitu^ 
p. 184 a 197. Paris, 1857.) 



1 



POPCLAR rORTUGUEZA ÒSg 



Kstes trez elementos definidos, revelam nos os dif- 
ferentes processos naturaes da elaboração da Poesia 
popular, apontados em velhos documentos: Nas Can- 
ções dos trovadores algumas indicam-se como feitas 
sobre un son vieil e antic. 

Aqui temos o caso ern que a melodia se conser- 
vou, e se lhe adaptou uma letra nova ; é o que se 
dá com mais frequência, porque a musica pode de- 
corar se e passar de povo a povo, mais facilmente 
do que a poesia. Desde que a melodia passar além 
do seu tempo ou mesmo para outro povo, é inven- 
tado outro acompanhamento rythmico. Aqui a me- 
lodia é obrigada e o acompanhamento livre. 

Prevalecendo a dansa, e sendo a letra e a me- 
lodia um pretexto para lhe dar relevo, o rythmo ou 
acompanhamento é obrigado, podendo ser livre a in- 
spiração poética^ e a sua" melopêa. A Dansa, como 
as outras formas estheticas também evolucionou in- 
dependentemente. 

Uma mesma melodia pôde modificar-se continua- 
mente, alternando-se os seus intervallos pela neces- 
sidade de abranger no âmbito dos seus compassos 
outros versos com vários rythmos prosodicos, com 
syllabas a elidir, ou pelo prolongamento dos seus 
sons. E' por esta alteração dos intervallos, que o 
povo fazendo extraordinárias divisões dos tons exer- 
ce uma constante renovação e creação das suas me- 
odias. E assim como a melodia e o rythmo se con- 
Iservam, impondo-se á tradição, a poesia também per- 
siste inalterável, em certas Canções, taes. como as 
orações religiosas, ou hymnos, e nos Cantares nar- 
rativss ou novellescos, em que o minimo da musica 
é a melopêa, e o minimo da dansa é o balanço com- 
passado do recitador. 

Na formação da Poesia popular dá-se o phenomeno 
da creação simultânea da melodia a que ella hade sei 



J()0 HISTOUIA DA l»OKSIA 



canta-la. Umas vezes a melodia recordada ou inven- 
tada, sujj^í^ere a necessidade da palavra e da situação 
poética, lixando a métrica do verso; outras vezes 
os versos conservaíios pela intensidade da sua ex- 
pressão revigoram-se appropriando-se de uma nova 
melodia. E esta inseparável influencia em que a pa- 
lavra e o canto se ligam naturalmente na Rythmo- 
pêa, que explica o modo da elaboração esthetica po- 
pular. Por um tal processo chega se a observar como 
as duas expressões se tornam independentes para 
novamente se aoroximarem. Escreve O Chilesotti: 

4 

O Uma Canção acclimando se em uma outra provin- 
cia pôde desfigurar-se por variantes que não modi- 
fiquem senão as suas linhas fundamentaes: o rythmo, 
embora accentuado tornase indeciso, o compasso bi- 
nário transforma se em ternário, ou vice-versa, a to- 
nalidade altera-se passando de maior para menor, ou 
ao contrario, a final é a dominante em vez da tó- 
nica ; porém a extensão da phrase é idêntica, as ca- 
dencias ficam nas mesmas notas, o caracter geral 
não muda. 

«E raro encontrar-se. sobre differentes palavras a 
mesma precisa melodia; ao contrario certos fragmen 
tos melódicos apparecem accommodados naturalmente 
sobre um grande numero de poesias diversas — sendo 
estes fragmentos quasi sempre as primeiras phases da 
melodia, como que constituindo a essência do thema, 
a parte que toca e se imprime mais fortemente na 
musica. Assim um dos processos mais evidentes da 
composição popular consiste na adopção, como ponto 
de partida de uma fórmula prompta e fácil e inven- 
tar lhe o seguimento.» * Em certo modo este pheno- 
meno reproduz a lei physica — nada se cria, tudo se 
transforma. 



* Revista miisicale italiana^ i, 544* 



POPULAR PORTUGUEZA 3gi 



E assim como existe um fundo poético tradicio- 
nal é popular para as Canções (Bailadas, Pastorei- 
las, Serranilhas) e para os Cantos narrativos ou re- 
citados, (Romances, Historias, Chácaras) caminha se 
hoje para determinar um fundo commum melódico, 
comprehendendo certa tonalidade caracteristica de 
raça, certos rythmos e tessitura melódica, que se re- 
petem em muitas Canções de povo a povo, e que 
se appropriam e adaptam a novas situações, por 
uma improvisação espontânea cooperando a sugges- 
tão das reminiscências com as invenções genialmente 
achadas. 

O exame desta matéria prima musical levou a fi- 
xar a linha de continuidade da Canção popular ás 
Canções dos Trovadores e Minnesingers, aos cantos 
dos Mysterios, ás Frottolas italianas do século xvii, 
aos Madrigaes, até a Ária de Opera. 

E' ainda pelas melodias populares que se caracte- 
risara as Nacionalidades penin ulares hispânicas, como 
anteriores a toda a influencia árabe. 

Escreve Halarian Eslava: «nenhum adiantamento 
deve a Hespanha aos Árabes respectivamente á pra- 
tica da arte musical, a não ser o excesso de ador- 
nos, que segundo a opinião de alguns escriptores é 
o principal distinctivo das melodias árabes. A cafía^ 
os poios e tyrannas, que se conservaram em Anda- 
Iiisia, até nossos tempos, e que se crêem do género 
arabei são melodias que estão na tonalidade do can- 
to chão, e sobrecarregadas de tão contínuos quebros 
de Voz, que é impossivel escrevel-os todos com exa- 
ctidão. » * Salva Jor Rueda caracterisa as melodias dos 
vários Estados peninsulares, hoje unificados admini- 
strativamente ; foram essas melodias tradicionaes que 



* Breve memoria histórica de la Mmeca religiosa en Espafla^ p 28, 



30)2 HISTORIA DA POLEIA 



na Egreja se tornaram a Cantilena litúrgica, e nas 
Corte -i a Canção trobadoresca : 

€ Catalunha e Aragão, as duas provindas irmãs, 
ambas sabem tocar na viola (espécie de guitarra) um 
brilhante movimento de valsa que se chama 2l joiUy 
e que tanto uma como a outra dansam com tanta 
graça. » 

«Eis a Navarra, as Astúrias, a Galliza. . O povo 
que habita estas alturas parece formar um mundo á 
parte ; os seus costumes são severos, os seus jogos 
audazes, os seus hábitos patriarchaes. Se houvesse 
na peninsula hespanhola uma região consagrada á 
musica seria esta. (.s seus cantos populares têrr. uma 
côr particular. . . » * 

«Os Andaluzes faliam quasi por canções. -»- Para 
cantar e para dansar ha alli a malaguemi, a segui- 
guidiUa sevilhana, a seguidilla gifana, a jabera, o 
polo, o tnedio polo, as caleseras, o vito, as serre- 
nas, a petenera, o tango, as conceleras, o tnerenga- 
zos, o jaleo, o tano, a chacona, o zorangf*, o fan- 
dango, o fandango robao, as alegrias, as panaderas, 
e outros cantos e dansas com profusão.» 

Sobre os divertimentos populares hespanhoes, es- 
creve Perez Nieva : «Não se pôde dizer que exista 
na nossa pátria um canto ou jogo nacional. E' pre- 
ciso empregar o plural e fallar de cantos e jogos na- 
cionaes. 

«A muineira ou alvorada gallega, repassada da 
doce gravidade céltica, é tão nacional como ^pete- 
nera ou a solea andalusas inspiradas pela nostálgica 
paixão árabe. A fogosa jota e as seguidilhas não o 
são menos. Pode-se dizer o mesmo das Dansas. A 



1 Espagne politique et litteraire, p. 214. (Artigo de Salvador 
Rueda ) 



POPULAR PORTUGUEZA SgS 



dansa dos palillos (com castanholas) em Valência é 
tão nacinnal como o Zortzico enskuaro. Cada um 
doestes cantos e cada uma destas dansas exprimem 
fielmente a maneira do sentir da região em que nas- 
ceu. Estudando-os separadamente encontramos a ori- 
gem, a raça. A do Norte c do Noroeste, a partir 
dos montes Cantabros até aos promontórios da Co- 
runha, é uma raça séria, pacifica, contemplativa e 
melancholica. Ella serve-se nas suas manifestações 
populares da gaita, que geme sob os castanheiros se- 
culares. A do Sul, dos golfos do Levante aos roche- 
dos de Gibraltar, é viva, alegre, alerta, ardente. Ex- 
prime se com a sua guitarra, que suspira debaixo 
dos ralos ê da gelosia verdes de uma casa branca 
de Cadiz. No alto, o caracter épico, a tendência para 
a collectividade : o orpheon. Cá em baixo, a tendên- 
cia para o isolamento, a physionomia individual, a 
copla (a quadra^. A qual doestes cantos chamaremos 
o nosso canto nacional ? A nenhum em particular, mas 
todos em conjuncto constituirão o hymno hespanhol : 
serão a Hespanha 

«Dá se o mesmo com os jogos populares. Em cer- 
tas provincias o jogo da péla excita um tal enthu- 
siasmo que passa dos campos á cidade e torna-se 
um espectáculo publico. N'outras joga se a bola, . . 
Ha ainda o jogo da barra e o salto . . . Todos têm o 
direito de representar a sua pátria ; não um jogo na- 
cional, mas muitos jogos nacionaes.» 

A Canção portugueza é também eminentemente 
caracteristica da nacionalidade, que por isso mesmo 
se -destaca dentre os povos peninsulares. Servir nos- 
hemos das observações dos profissionaes estrangei- 
ros ; Margino Roeder, director do Cunservatorio de 
Boston, estudando os Fados portuguezes, achou -lhes 
a poesia mais bella do que a musica, CJs dois factos 
contidos n'esta observação explicam se cabalmente. 



3<)4 HISTORIA DA POESIA 



Em todos OS povos em que a cohesão social assenta 
sobre a associação local ou Municipalismo, ahi se 
manifesta uma poesia pessoal, um lyrismo emotivo, 
que não visa á expressão de um ideal abstracto co- 
mo o de nacionalidade. Na França meridional, cu- 
jas instituições municipaes foram a base da sua ci- 
vilisaçâo, ahi se deu essa extraordinária efflorescen- 
cia do Lyrismo pessoal dos Trovadores, desenvolvi- 
mento litterario dos germens tradicionaes populares. 
A Itália municipalista, rica dessa poesia pessoal vul 
gar, soube sobre os rudimentas das Canções dos Tro- 
vadores attingir a perfeição suprema no Lyrismo pe- 
trarchista, que se tornou o modelo definitivo da poe- 
sia moderna ; como se sabe pela historia, foi pelo 
municipalismo que a Itália durante toda a EdaJe me- 
dia resistiu ás invasões estrangeiras, realisanuo sem 
vantagem a unificação nacional nos fins do reculo xix. 
Portugal pertence a essa raça essencialmente muni- 
cipalista, que na associação local luctou com êxito 
contra a conquista romaiia, e venceria se attingisse 
a Federação ; o que se deu com a Itália e França 
meridional, aqui se repete n'esse lyrismo pessoal po- 
pular que surprehende, e na expressão artistica que 
lhe deram Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, 
Gonzaga, Garrett, João de Deus. Era justa a obser- 
vação dè Roeder ; mas a pobreza da Melodia ? 

Este facto não depõe contra o génio musical por- 
tuguez ; por que se a expressão poética é bella, sendo 
ella inseparável da musica, deve esta ter conservado 
o primitivo caracter. A pobreza ou simplicidade da 
Melodia portugueza provêm-lhe da falta de melismos, 
ornatos, floreios extranhos, como acontece com as 
melodias hespanholas, muito pittorescas, nias cheias 
de ornatos dos Árabes. Esta simplicidade é uma bel- 
leza não desnaturada por alheios artificios, e um si- 
gnal patente da sua antiguidade ; 'Untersttein reco- 



POPULAR PORTUGCEZA 895 

nhece na monotonia do rythmo das Dansas portu- 
guesas e nas suas fáceis melodias semelhança com 
as Canções da Alta Itália. Não está esta concordan- 
ci.i de ermincmdo o fundo ethnico, que nos liga á tra- 
dição Occidental ? 

Na Historia de la Musica espanola, D. Mariano 
Soriano Fuertes falia do genio musical do povo ga- 
lecio portuguez : «Os hespanhoes, principalmente os 
Lusitanos e Gallegos, desde o século vi serviram-se 
das notas rabbinicas para escreverem a musica vul- 
gar ou Canções populares, ás quaes eram natural- 
mente inclinados.» Antes porém desta adopção, exi- 
stia uma notação original e própria, que o mesmo eru- 
dito musicographo descreve : «Por parte dos Lusita- 
nos e Gallegos, gente affeiçoada por natureza não só 
a poesia e a musical vocal, senão também á instru- 
menta! de corda e sopro, inventaram outro género 
de notação musical, própria para indicar os sons dos 
instrumentos, composta de linhas horisontaes, pon- 
tos e números collocados entre ellas. As linhas para 
significar as cordas ; os pontos, os sons, que deviam 
produzir segundo a affinação do instrumento ; e os 
números indicavam os dedos. Se o instrumento tinha 
duas cordas os pomos collocam se sobre as duas li- 
nhas horisontaes somente ; se três, sobre três ; e se 
quatro, sobre quatro, etc. Se a notação musical era 
para algum instrumento de vento, marcavam tantas 
linhas na escripta, quantas era preciso figurar nos 
seus espaços de uma a outra o numero de agulhei- 
ros que tinha o instrumento, collocando nesses es- 
paços outros tantos pontos, uns inteiramente tapados, 
que figuravam os agulheiros, que os deviam abrir, 
outros cobertos á maneira de occulos, que indica- 
vam os que deviam deixar sem tapar. Cestés dois 
géneros de notação musical se formou um terceiro, 
n\ixto dos dois; porque, com o tempo os hebreus de 



3o6 HISTORIA DA POESIA 



Portugal tomaram as linhas dos portuguezes, com a 
nota chamada ponio, ou os Portuguezes e Gallegos 
tomaram dos rabbinos as notas musicaes, resultando 
disto o sj-stema da notação musical, que Beda ex- 
plicou com tanta prolixidade.» * Embora esteja hoje 
reconhecido que o tratado de Musica quadrata sou 
vtensurata pentence a um escriptor do século xiii, 
não deixa de ser verdadeiro o facto de já no sé- 
culo VI existir a musica mensurata, e o próprio Beda 
menciona a harmonia a duas partes ou consonância; 
o facto da notação inventada por Lusitanos e Gal- 
legos para fixar a melodia das suas Canções é o que 
nos revela a vitalidade da sua tradição poética e in- 
fluencia na peniiisula. Essa tonalidade lyrica popular 
veiu a identificar-se com os Lais bretãos, (á tem- 
pradura de Bretanha), quando elles ou como cantos 
de amor ou de aventuras cavalheirescas, penetraram 
nas Cortes peninsulares no século xiii. 

Sob este critério é que o estudo da Canção po- 
pular, lyrica, narrativa e dramática, assentando sobre 
Ihemas universaes de idealisação, appresenta os ger- 
mens fecundos da evolução litteraria e musical mo- 
derna. ^ 



* Op. cit., t. I, p. 6 8 a 70. 

^ Na sequencia do plano dos nossos estudos, ficará tratada m 
volume sobre os Trovado7'es pcrtuguezts esta relação do elemento 
tradicional e popular do lyrismo com as Canções da Corte; nos 
volumes Gil Vicente e as orgiens do Theatro nacirnal, e A Escola 
de Gil Vicente e o desenvolvimento do Theatro Nacional historiámos 
largamente a evolução dos rudimentos dramáticos populares e 
litúrgicos, que pela forma artística do Auto entraram na Littera- 
tura poitugueza. 



A) A CANÇÃO LYRICA 



Viço, na Scienza Nuova, teve a intuição genial da 
relação da çalavra cantada com a palavra faHada 
pela intensidade da emoção : «As grandes paixões 
alliviam-se pelo canto, como se observa no excesso 
da dor e da alegria, As paixões violentas arranca- 
ram os primeiros homens do mutismo, elles forma- 
ram as suas primeiras linguas cantando. Os primeiros 
auctores orientaes, os gregos e os latinos, e os pri- 
meiros escriptores da Edade- média foram poetas. i> * 

O facto na sua realidade confirma-se na simulta- 
neidade da elaboração grammatologica de cada lin- 
gua com a sua versificação ; na baixa latinidade, 
no allemão, no hespanhol, no portuguez, no velho 
francez, cantar e fallar são synonimos. A Canção 
para o povo, que não sabe analysar o seu estado 
subjectivo, torna-se uma expressão synthetica do 
sentimento, tanto mais profunda, quando ella pelo 
perstigio tradicional suscita emoções idênticas ; ou 
quando pela expansão da alegria é motivada pelos 

A Op. dt., L. I, cap. n. Ax. 56-59 Trad. Michelet. 



3()8 HISTOHIA DA POESIA 



themas communs ás concepções da mesma raça. A 
Canção popular Occidental ou românica nasceu con- 
junctamente com as novas Lineuas. adaptando a 
• uma mais larga sociabilidade europêa os materiaes 
niythicos e consuetudinários de um passado remotís- 
simo, nunca extincto, uias sempre transfor.T)ado. 
Apesar de não ter sido escripta, a Canção pela ma- 
gia da melodia entrou na Egreja e nas Cortes, im- 
poz-se a essas duas forças absorventes e egoistas, 
Catholicismo e Feudalismo, que a imitaram na litur- 
gia e na pragmática palaciana; e veiu prestar á 
litteratura moderna através dos rudimentos dos Tro- 
vadores as formas definitivas dQ lyrismo actual. 

No seu ensaio sobre a Origem e funcção da Mu- 
sica, Herbert Spencer relaciona lucidamente os phe- 
nomenos musicaes com os phenomenos physiologicos 
da voz: «Como os músculos que põem em movi- 
mento o peito, a larynge e as cordas vocaes. se 
contraem, assim como os outros, em rasão da in- 
tensidade dos sentimentos : como cada contracção 
particular d'estes músculos comporta uma accomo- 
daçâo particular dos órgãos da voz ; como cada 
accomodação particular destes muda a natureza dos 
sons emittidos : segue-se que as variações da voz 
são effeitos physiologicos das variações dos senti- 
mentos ; segue se mais, que cada inflexão, cada mo- 
dulação é a consequência natural da emoção ou da 
sensação de momento ; e, finalmente, que a rasão 
do poder expressivo, tão variado da voz, deve en- 
contrar se na relação geral que ha entre as excita- 
ções musculares e as excitações mentaes.» E' por 
esta complexidade e simultaneidade orgânica que a 
Canção popular é originalmente versificada, meló- 
dica e dansada, exprimindo a intensidade de uma 
emoção. Spencer, deduzindo a expressão musical 
da linguagem fallada, destaca-a apenas pelo brilho 



POPULAR PORTUGUEZA 399 



das notas extremas, graves ou agudas, ficando as 
medias privativas da falia ordinária, cujos intervallos 
são também menos largos do que os contidos no 
âmbito da phrase cantada. Spencer estabelecendo a 
evolução dos phenomenos sociaes por meio dos fa- 
ctos ethnologicos, não podia deixar de parte a com- 
paração destes principios nos cantos populares . e es- 
creve : «os cantos para dansa dos selvagens são muito 
monótonos ; e por efifeito desta monotonia, têm mais 
de fallados do que os cantos dos povos civilisados. 
Aproximando o facto de conservarem-se ainda no 
Oriente entre os barqueiros e outras classes can- 
tos antigos de um caracter egualmente monótono, 
póde-se concluir que a musica vocal, na sua origem, 
nasceu e se separou da linguagem da emoção gra- 
dativamente e sem violência ; — a historia grega da- 
nos provas em apoio desta conclusão. Os poemas 
primitivos dos gregos eram lendas hieráticas postas 
em linguagem rythmica, cheia de metaphoras, que 
suscitavam um sentimento poderoso, — não se reci- 
tavam, mas cantavam -se ; as mesmas causas que 
tinham feito da falia ordinária um fallar poético tor- 
naram musicaes as notas e a sua cadencia.» 

A designação da poesia entre o povo traz im- 
plicita a unificação com o canto ; é a pequena es- 
trophe solta e independente, suscitada pela emo- 
ção funda ou persistente, a Cantiga (Cantica, d'onde 
Canttcula e Cantigua) que se repete em situações 
análogas, e que serve de molde para outras expres- 
sões. E' o canto que leva longe a palavra e torna 
indefinivel o seu sentir. Fallando das melodias que 
acompanham as Canções germânicas do século xvi, 
escreve Schuré : «Estas melodias nasceram eviden- 
temente com as palavras, de uma mesma e única 
inspiração. Confundem-se tão intimamente entre si, 
formam ambas uma unidade tão perfeita, que uma 



400 HISTORIA Da POESIA 



vez uni(ias já se não podem separar. A's primeiras 
notas da melodia accodem as palavras aos lábios, e 
as palavras prenunciadas tomam sem que se queira 
a doce cadencia da melodia. 

«Está alli a verdadeira poesia lyrica, a que pene- 
tra mais no imo do coração. Porque, mais do que 
todas as artes, a musica exprime o inefável. As 
melodias populares faliam nas suas modulações, o 
que ha de mais intimo no sentimento do povo. As 
palavras expõem o que ha de universal em um co- 
ração e o eternisam pelo pensamento ; mas a mu- 
sica exprime, por assim dizer, o nascimento myste- 
rioso, o movimento instantâneo e a vibração interior. 
Todo o pensamento lyrico sáe de- um estado inde- 
finido de todo o nosso sêr, o qual escapa ao signal 
abstracto da palavra articulada, A Poesia apenas o 
pôde fazer presentir; mas na musica a alma ex- 
pandese inteiramente e communica ás outras o ry- 
thmo da sua vida, como a vaga á vaga. Os que 
não ouviram as Canções populares cantadas pelo 
povo, não lhes conhecem a força e a originali- 
dade.» * 

Como nasce a Canção popular? 

Simultânea a Poesia com a Musica, basta um sim- 
ples verso, ou Refrem, um Pé de Cantiga, repetido 
metabolicamente para formar a dichotomia ; e esta 
pelas cadencias melódicas renovando-se, para com- 
pletar os rythmos da dansa : 

Oh minha caninha verde, 
Oh minha verde caninha, 

Salpicadinha de amores, 

De amorts salpicadinha. 



* Histoirt du Lied et de la Chanson populaire en AUemagne 
pag. 8o. 



401 HISTORIA DA POESIA 



Os teus olhos tem meninas, 
Essas meninas tem olhos ; 
Os olhos d'essas meninas 
São meninas dos meus olhos. 



Oh minha pombinha branca, 
Oh minha branca pombinha, 
Quando hade chegar a hora 
Que te heide chamar minha ? 



Nos Estudos sobre a Poesia dos Hebreus, Aibert 
Réville, fallando da estrophe, attribue a sua estru- 
ctura sy métrica á Dansa : «esta rima do pensamento, 
que foi designada pelo nome de paralielismo, con- 
siste na semelhança da ideia expressa por dois ver- 
sos ou por muitos. A forma mais frequente é a de 
dois versos que se sigam reproduzindo a mes^fua ideia 
em outros termos. Citaremos como exemplo este frag- 
mento do Psalmo 18: 



Os liames da morte me circumdam, 

Os terrores da ruina ferem me de espanto. 



«Outras vezes o parallelismo estende-se a três 
e meKmo a quatro versos. Além d'isso, ainda os 
versos são distribuídos de modo que sobre qua- 
tro, os primeiros dois e os dois últimos rimam 
pela ideia, ou também o terceiro combina-se com o 
primeiro, e o quarto com o segundo (análogo ás 
nossas rimas alternantes). Exemplifica-o o Psalmo 19 : 

A lei do Eterno é perfeita 
Restaurando a alma ; 
O ensino do Eterno é seguro 
Alegrando o coração. 



PO!'ULAR POKTUGUEZA 403 



cSerá temerário pensar que esta forma cadenciada 
se liga originariamente a uma mimica ou antes a 
uma espécie de Dansa, cujos movimentos combina- 
dos dois por dois determinam de certo modo a re- 
duplicação do pensamento ?» * 

A quadra ou Cantiga solta pode continuar-se em 
uma segunda, moldada no mesmo typo e ideia ; assim 
se vae aproximando da forma da Canção : 



A rôIa lá vae rolando, 
Que lhe furtaram o ninho; 
Não o puzeras tu, rola, 
Tanto á beira do caminho. 

A rôlâ lá vae rolando 
Que lhe furtaram os ovos ; 
Náo os puzeras tu, rola, 
Tanto á vista dos olhos. 



A' uma hora nasci, 
A's duas fui baptisado, 
A's três andava de amores^ 
A's quatro estava casado; 

A*s cinco estava doente, 
A's seis estava adoentado, 
A*s sete já estava morto, 
E ás outo sepultado. 



Não quero amor militar, 
Não quero militar não ; 
Não quero á minha porta 
Recados do capitão. 

Não quero amor soldado, 
Nem cabo, nem furriel, 



* Rev, des Dmx Mondes, 1875. (Novembro), pag. 185. 



404 HISTORIA DA POESIA 



Não quero que a minha porta 
Seja porta de quartel. 

Passarinho passa o rio. 
Passa o rio, mas não bebe ; 
Só eu não posso passar 
Sem te ver, cara de neve. 

Passarinho passa o rio, 
Passa o rio ?em o ver ; 
Podes passar sem amores 
Como eu passo sem te ver. 

Na poesia popular brasileira, as quadras ou Ver- 
sos geraes tendem a agrupar-se em duas; na Anda- 
lusia esta forma, que alli estacionou, chama-se Segui- 
dilha. O acompanhamento de um Refreni livre, ou 
de um Cabo ou Finida, completam a forma poéti- 
ca da Canção popular, que se define em um typo 
4)6110 pela melodia, elevando-se até á perfeição ar- 
tística. Foi nesta altura, que os Trovadores nas 
Cortes, e os clérigos nas Egrejas, se apoderaram 
pela imitação d'esse typo incomparável da Canção 
popular. 

O Refrem ou Retornelo, na Canção popular, desde 
que perdeu o sentido malicioso, servindo de pretexto 
ao commentario intencional, passou a ser um apoio 
da imaginação dando tempo ao improvisador para 
fixar um pensamento e continual-o. Assim o explica 
Beaurepaire, em relação ás Canções das linhadas ou 
fiadas, em que os aldeãos tomam parte auxiliados 
pelo Refrem, que na sua repetição da toada lhes dá 
tempo a encadearem a Cantiga. 

E' isto já uma decadência ; porque um Refrem na 
sua forma primitiva representa uma parte chorai ; e 
quando o cantor isolado, trabalhando solitário, canta 
com o retornelo, reproduz imaginariamente a situa- 



POPULAR PORTUGUEZA 4o5 



ção em que o Choro intervinha, ou em que a Dansa 
tomava movimento especial. 

Mas as Canções metabólicas, ou de repetição de 
versos, como vemos nas Serranilhas portuguezas do 
século XIV, cantadas por um jogral, só podem ser 
comprehendidas na sua estructura poética recon- 
struindo a situação em que esse género fora creado 
e cantado por differentes individuos. Hersart de la 
Villemarqué, que estudou a poesia popular da Bre- 
tanha, descreve o modo como uhi moleiro com vá- 
rios amigos seus elaborava a Canção : 

<0 seu methodo de composição dá-me uma ideia 
exacta do seguido pelos versejadores bretãos. Achado 
ó primeiro verso de cada distico di bailada, elle o 
repetia por vezes ; os seus companheiros o repetiam 
egualmente, deixando-lhe o tempo de achar o segun- 
do, que logo retomavam em seguida a elle ; quando 
ura disúco estava acabado, começava geralmente 
o seguinte pelas ultimas palavras, muitas vezes pelo 
ultimo verso de cada distico, de maneira que as es- 
trophes se encadeavam umas nas outras. Vindo a 
voz ou a inspiração a faltar ao cantor, o seu visi- 
nho da direita proseguia ; a este. succedia-se o ter- 
ceiro ; depois o quarto continuava, e todos os de- 
mais por turno, até chegar ao primeiro, em quem 
recomeçava o encadeamento.» 

Na Serranilha portugueza vê -se este processo na 
forma estrophica, mas não se conhecia a série dos 
cantores que tomavam parte n'ella ; comprehende se 
pelo costume ainda actual da Bretanha franceza o 
arranjo poético : Dito o primeiro verso, o cantor po- 
pular repete o simplesmente, ou transforma-o inver- 
tendo os seus dois hemistichios, e fecha a parelha 
com o Refrem ; o segundo cantor repete esse verso, 
completa a segunda èstròphe com verso novo: que 
é invertido na terceira estrophe, e assim seguida- 



406 HISTORIA DA POESIA 



mente. l*or esta forma a improvisação toma-se facil 
e graciosa pelo apoio do Refrem, pela repetição e 
inversões de hemistichios, não exigindo a Canção na 
sua cadencia nenhum esforço de imaginação. E esta 
pouca importância ligada á expressão da ideia, mas 
toda ao rythmo e á toada, revela que é um pretexto 
para acompanhar a Dansa; é significativo o seu nome 
de Bailada^ Ballatina, Rondeis de Carole, 

A forma da Canção sob o ponto de vista poéti- 
co consta de três' estrophes, assim como a Ária 
consta de três partes desde que attingiu o completo 
desenvolvimento musical ; do seu typo commum 
popular é que proveiu esta estructura trichotoma, 
em que sobre a estrophe métrica influiu a melodia» 
e sobre ellas ambas o rythmo da Dansa. * Nos Ron- 
deaux de Adam de La Hale, cada um apresenta 
ires fnelodias; nas Leys trobadorescas cA Dansa. . . 
contém um Refrem, isto é um répons somente, e 
três couplets semelhantes, quanto ás rimas como á 
medida ;...»* Desde que a Dansa separou do Canto 
o Refrem que se cantava como resposta (répons) 
aos couplets, e acabava na Tornada, ficou cantado 
por uma só voz, e foi como Monodia, que começou 



^ Nas festas populares do Maio na Lorraine, ao refrem do Tri- 
ffiazo^ como descreve Champfleury : «Assira vão cantar pelas aldeias 
grupos de raparigas vestida* de branco, e cobertas de fitas e de 
flores. Ordinariamente são trâs, uma a cantadeira e dtiai bailadeiras, 
A primeira canta antigas Canções ou novas, poéticas ou sátiras 
sempre acompanhadas pelo mesmo refrem : (O Trimazot, c*at lo 
Maye — O mi Maye). No refrem as duas dan:antes batem com as 
mãos e pulam com tanta maior accentuação quanto o coro é nume- 
roso porque muitas vezes o coro de uma dúzia de raparigas repete 
o refrem, deixando á que tem maior voz o encargo de cantar cona 
graça os numerosos couplets.» Chan^ons populaires des Provinces dt 
France, pag. i6i. 

* P. Meyer, trad. nos Les derniers Trobadours de la Pravenctt 
pag. 114. Ap. Jeanroy, op. cit, pag. 43». 



POPUl.AH POIITUGUEZA 4O7 



a ter um novo desenvolvimento como Ária de Cor- 
te. A Canção poética, ainda subordinada á melodia 
conservou o Refrem incorporado nas três estrophes, 
como se vê nos Cancioneiros trobadorescos, até que 
por seu turno separada da musica, se desenvolveu 
litterariamente na Canção lyrica moderna petrarchis- 
ta, em que as três estrophes conservaram a estru- 
ctura tradicional sob os nomes de Fronte, Serimia 
e Coda, Um outro typo litterario, chamado género 
de Cancioneiro, é o Mote inicial, sobre que se tecem 
as Voltas ou as Glosas, e que desde o Cancioneiro 
de Rezende até ao fim do século xviii foi tratado 
pelos poetas portuguezes; o Refrem primitivo repro- 
duziu se inconscientemente no Mote, 

Recapitulando o processo formativo da Canção 
popular, Hia sua expressão da palavra entoada pelo 
relevo intenso da emoção, e cadenciada pelo rythmo 
da dansa, temos : 

— Uma phrase emotiva, — Verso epigrammatico, 
ou Refrem (representativo do elemento chorai) ; é o 
Pé de Cantiga; 

— Pela forma metabólica constitue-se a parelha, ou 
primeira Dichotomia, que se completa com a re- 
sposta da segunda Dichotomia, que fecha a quadra 
ou Copla (Cantiga solta) ; 

— A' quadra succede-se uma outra como variante, 
correspondendo ao par dansante, e como resposta, 
mesmo em verso de redondilha menor ; é a Segui- 
dilha (como na poesia da Andalusia) ou duas qua- 
dras juntas (como os Versos geraes, no Brasil) ; 

— A ideia poética e a cadencia da dansa deter- 
niinam o Remate, Requebro, (em Portugal) Cabo, 
Coda, Finida, como na poética italiana, provençal 
e castelhana; é ao que na Ária musical corresponde 
a Stretta. 

Eis constituido o typo da Canção popular, evo- 



4oS HISTORIA DA POESIA 



lucionando subordinada á Dansa, como se vê pelos 
seus títulos: BtUtada, Bailia, Bailho villão; Com- 
Bonetta ballaletta, Ballatina ; Chanson de carole. Can- 
ção de Dansa, Carranda, Corrilloy Coriella, Estortt, 
(Provença) Síornel, Distórno, Retornei^ Tornada. 
Rondei, Rondeis, Rondeau^ Redondilha, Rondaylle, 
Rondenha, Virelay, Triolet, etc. 

A subordinação ao canto reflecte-se também nas 
designações de Cantiga^ (Canticula) Canção ou Som 
damour, Soneto, Sonata, Tono, Descante, vindo a 
constituir a Monodia ou Cansone eul una você, que 
o génio italiano levou até á perfeição da Ária, e a 
Egreja incorporou nos Troparios, como Cantilenas 
litúrgicas. 

Na contextura Ikteraria, a Canção tem designa- 
ções referentes á falia ou palavra, (Fabula, Parábola) 
o Mote, a Rima e Trova, Rimance, Letrilha, Estro - 
phe ou Stramb (Strambot, Stribot, Estrambelho) ; 
prevaleceu o nome de Canção designando todo o 
Lyrismo litterario, e até as formas épicas, como as 
Canções de Gesta, francezas. 

Antes de seguir o desenvolvimento da Canção 
popular nos dois meios activos que a transforma- 
ram, a Corte e a Egreja, importa consideral-a nos 
seus elementos thematicos, que caracterisam a ex- 
pressão do lyrismo ; esses elementos correspondem 
ás formas das Canções gregas: 

i.° Monodia: Canção a uma só voz ou Soláo: 
Canção feminina ; Declaração de amor. — Gabs, 
Vanto ou Basofias de namorado, * taes como as 



1 Os gabos sSo referidos na poesia portuguera, como se vê no 
romance da lÀsarda (Beira Baixa) : 

— Quem dormira uma só noite 
Comvosco n'esses alvores ! 



POPULAR PORTUGUEZA 4OQ 



J^^mstorellaSy as Villanellas, Villotí, Friulane, Mui- 
^t^^ras, etc. 

a° Canto amoebeo : Dialogo de dois amantes ; 
estrophes alternadas; Despiques de Conversados; o 
Ce^ntrasto italiano ; o Desafio, Oaristys, encontro dos 
nsimorados: Stom, Stornello,^ 

3.° Chorodia : — Dansas acompanhadas de Canção : 
Oansas guerreiras (Eumelias, Pyrrhicas) taes como a 
Oansa prima, o Paloten, Paulitos; Trebelhos, Bafor- 
<3os ; e a Dansa cómica, como as Sengadas, Serração 
<3a Velha, etc; e Dansa das Donzellas: Carole, 
Da Monodia provém a Canção litteraria subje- 



4C Dormiríeis uma oa duas, 
Se nãLo vos fosses gabar. 

— Tenho feito juramento 
Na folhinha do Missal, 
Menina com quem dormir 
De eu a não ir diffamar. 

Ainda não era manhã 
Ao jogo se foi gabar: 

— Dormi esta noite com uma... 
Não ha na corte outra egual ! etc. 

(Rom. gery n.° 32.) 

Para um exemplo da forma lyrica do gabo basta a cantiga 

Já passei o mar a nado 
Nas ondas do teu cabello ; 
Agora posso dizer 
Que passei o mar sem medo. 

* Storn, no provençal, Stomello^ italiano : «Canto em forma al- 
terna, ao modo de desafio, como antigamente os nossos amocbeos 
e em tempos menos remotos, as Tenções e os Ccntrasti.M Nigra, Canti 
popolari dei Pietfionte^ Pref. xv.) 

Na Sicilia, chama -se Fiori^ Fioretto^ Moiteto, Novella ; Reman- 
zetto^ nas montanhas do Pistoia. 



410 HISTOHIA DA POtSIA 



ctiva OU petrarchista, e a Canzone ad una você, 
que levou á creação musical da Ária, 

Do Cármen amoebeo, isto é da Canção dialogada, 
vem a Tensão, a Écloga litteraria e a forma musical 
dos MadrigaeSy dos Villancicos e o Mote te. 

Da Chorodia ou Canção dansada, os rudimentos 
do Drama, a Parodia e a. Pantomima, os Ludi na- 
talis e o rudimento do Auto. (Gil Vicente transfor- 
mou os Diálogos da Lapinha em Autos da Nativi- 
dade.) 

Todas estas formas de Canções lyricas populares 
têm um determinado numero de themas poéticos, 
que sâo communs á tradição Occidental, apparecen- 
do nas versões oraes portuguezas, hespanholas, ita- 
lianas, francezas, provençaes, com semelhanças taes 
que, essa unidade do lyrismo deve ser procurada 
não em um centro de irradiação, mas num sub- 
stratum ethnico, que apesar da distancia e da épo- 
ca unifica tradicionalmente estes povos. Esses mes- 
mos themas passaram para a Canção de corte e 
receberam forma litteraria ; * A sympathia que en- 
controu entre os Trovadores é devida á sua rea- 
lidade e naturalidade pela relação com os costu- 
mes sociaes. Neste substratum ethnico é que me- 
lhor se observa o processo generativo da Canção. 

/.^ — Os themas universaes. da idealisaçào lyrica, — 
Sendo a poesia do povo um desenvolvimento da 
sua linguagem, e intimamente relacionada com as 



* Esses themas lyricos são geral aaente : a espera do namorado, 
a sua ausência : a mãe severa pela demora da filha na fonte ; o 
Cego fingido que rapta a donzella ; a experiência do namorado, na 
Ltnda pastorinha; a mal miridada ; os chascos contra 'o velho ga- 
lante ou marido. (Víd. supra, pag. 155; 157, 165, 167 a 172; 176, 
177 ; 184; 220, 207; 253.) 



POPULAR PORTUGUEZA 4I 1 

concepções em que se apoia e com os costumes 
sociaes que pratica, devem existir os themas de- 
terminados d*essa idealisação espontânea. A critica 
scientiíica tem indicado esses themas nos mythos 
que subsistem mais ou menos inconscientemente nas 
concepções populares. Escreve Laffitte : «Quasi to- 
dos os povos, desde que começaram a medir o 
tempo, fixaram o começo do aniio no momento do 
renascimento; uns collocam-no em o equinócio da 
pf^hnavera^ e outros nas aproximações do solsticio 
do inverno, quando o sol parece renascer com a 
maior duração dos dias.» * 

Mas, antes desta concepção rudimentar o povo 
mythificou o Sol, dando-lhe personalidade, e invo- 
cando©, como ainda hoje na Oração : 

Solsinho ! Vem, vem 
Pelas telhas de Belém. 

Pelas telhas do telh&do, 
Que te dou um cruzado. 

Todos nós te vejamos vir, 
Para nos pormos a rir. ^ 

D'esta mythificação, que determina as Canções ly- 
ricas, também vem as quadras em que o seu occaso 
suscita a elegia que se elaborou na grande legenda 
épica, entre todos os povos que tiveram cultos si- 
deraes. A imaginação primitiva ainda se representa 
nas emoções da alma popular moderna. 

-A concepção mythica do Sol como o joven He- 
roe que morre prematuramente e resuscita, como os 



1 Les grands Types de VHumanité^ t. i, p. 50. 

2 JRivista de Guimarães^ vol XV p. 17. 



412 HISTORIA DA POESIA 



Deuses da expiação orgiastica, acha*se expressa de 
um modo nitido nas cantigas populares portuguezas: 

O Sol, quando nasce é rei, 
Ao meio dia é morgado, * 
De tarde já vae doente, 
A* noite é sepultado. * 

Em uma variante, a segunda dichotomia allude ao 
seu renascimento : 

Quando nasce resusciia^ 
E á noite é sepultado. 

E em outra cantiga, o mytho da doença é bem 

explicito : 

O Sol posto vae doente, 
A Lua o vae a sangrar, 
O Sol posto ata a fita. 
Pega na malga o luar. 

O Sol posto vae doente, 
A Lua já vae sangrada, 
As Estrellas são lancetas, 
O luar pega na malga. 

Também a Aurora e a Noite, mythificadas nos 
Contos de fadas, da Novellistica oriental e europêa, 
ainda acham egual representação na phantasia popu- 
lar portugueza, na seguinte Oração : 

— D'onde vindes, bella Aurora^ 
Por onde andastes até agora } 
«\Iegra-te, mulher forte^ 
Que a l^oite te parecia a Morte ^ 



* Cantos do Arehipelago açoriano, p. 78. 

^ Revista de Guimarães^ vol. xv, p. 25 : «A Oração era mais 
extensa, mas nâo foi possível coUigir mais qae estes versos« A pes- 
soa que a recita hade estar voltada para a Aurora de joelhos e 
mãos postas.» 



I 

I 

I 



POPULAR POKTUGUEZA 4l3 



O Christ»anismo, pelo seu regimen cultual fixou ás 
festas "do Solsticio do inverno, do Solsticio do verão 
e do equinócio da primavera, a evhemerisação d'es- 
ses mythos naturalistas. Por isso esta nova religião 
faz conservar e revivescer, não como crenças mas 
como costumes populares, as representações d çssas 
concepções primitivas ligadas aos cantos, ás dansas 
e formas poéticas de um passado ante histórico ada- 
ptando-se á situação das modernas nacionalidades. 
K* pelo substratum anthropologico e pelo prosely- 
tismo christão, que essas varias formas das festas 
solsticiaes se identificam entre todos os povos da 
Europa meridional (Ligures e Celtas) com os povos 
germânicos, slavos e scandinavcs. Na península hi- 
spânica estas similaridades largamente comprovadas 
pelos nossos compiladores ethnographos, têm expli- 
cação histórica pela occupação dos povos germani- 
cos e árabes ; ma*? as similaridades com os costu- 
mes e tradições dos povos slavos, flagrantíssimas, 
vêno indicar a persistência do substratum anthropo- 
logico representado pelo lusismo. Por esta vitalidade 
tradicional poderemos determinar os themas das Can- 
ções lyricas (Son (tamour), das Canções épicas ou 
narrativas (de toile) e das Canções dramáticas, (Air 
à danser), que ainda brilham na poesia do povo 
poituguez : 

— Formas lyricas : Entrada do Verão (Solsticio 
estival) : Maias, (Maieroles, Verdurelle ou Raverdies) 
San João, o Verde, Alvoradas, Bailias, Despiques, 

— Formas épicas : Entrada do Inverno (Solsticio 
hibernal) : Lucta com a Serpente (lenda de S. Jor- 
ge) ; Rapto das Donzellas {Figueiral, Peito Burdelo, 
San Thiago) ; Vinda do Heroe Salvador (Arthur, D. 
Sebastião); os Romances que se ligam á morte do jo- 
ven heroe : Casamento mallogrado, Jean Renaud, etc. 

— Formas dramáticas ; Além das Bailadas que acom 



414 HISTORIA DA POESIA 



panham a Canção do Maio, caracterisa-a a Expul 
são do Iniíerno, nas Dansas das Sengadíis^ Serração 
da Velha, Enterro das Sestas, as Cantigas do Ve- 
lho maio, Maravilhas do fpuu Velho, Dansa da Morte, 
Çurras, Sarabandas, Trebelhos e Bafordos. 

As festas de Maio, communs aos povos germâni- 
cos e árabes, que occuparam a Hespanha, vigorisa- 
ram se na persistência dos costumes ligados á con- 
cepção primitiva do começo do Anno estival. A 
Egreja adoptava as festas de Maio, por lhe ser im- 
posâivel extinguil-as ; em Portugal enfeitam em algu- 
mas terras as portas com giestas ou fttaias, justifi- 
cando o uso pela lenda de que se procedera assim 
para que a Virgem se não perdesse no caminho na 
sua fugida para o Egypto; e ainda em 18^5 via o 
erudito João Pedro Ribeiro ^o primeiro de Maio en- 
ramar as janellas com giestas amarellas, e indicou que 
nas aldeias não se falta ao costume immemorial de 
as pôr nos linhaes, e nas cortes para não maiar o 
gado. * Alguns PP. da Egreja, como Clemente de 
Alexandria, collocavam o Natal em Maio ; isto nos 
mostra como se christianisava a festa da Entrada do 
Anno estival. Para adaptar as festas de Maio ás len- 
das christãs, colligimos aqui a seguinte: «Ha entre 
nós (Portugal) uma tradição, que explica do seguinte 
modo a origem do antigo costume de se enfeitarem 
de flores e ramos no dia /.° de Maio as casas de 
habitação : Pilatos e Caifaz tendo sido avisados de que 
Jesus se escondera em uma casa a cuja porta ha- 
via uma giesteira florida, enviaram de noite ao lo- 
gar os soldados da Judéa com ordem de prenderem 
o Redemptor. A madrugada rompeu, e á porta de 



1 Reflexões históricas^ P. i, np ii, p, 26. 



POPULAR PORTUGUEZA 4l5 



todas as casas appareceu por milagre uma giesteira 
florida.-^ * 

No Accordam da Camará de Lisboa, do tempo 
de D. João i, lê-se : «Outrosim estabelecem que 
d'aqui era diante, nesta cidade e em seu termo, não 
se cantem Janeiras, nem Maias,.. ^ Eram as Can- 
ções que na tradição franceza se chamam Maierol- 
les ; e aqui a ideia do começo do anno estival liga -se 
inconscientemente com o anno histarico. O costnme 
subsiste ininterrupto ; encontramos em uma relação 
das Maias, * em Beja: «este brinquedo no mez de 
Maio impede muitas pessoas de sahirem ao domingo 
ou dia santo de tarde, em algumas partes. Aqui jun- 
tam -se crianças de ambos os sexos, especialmente 
do feminino, enfeitam uma rapariguinha mais pe- 
quena, vestida de branco, contornam lhe de flores a 

1 Albauo Bellino, Archeologia christã^ p. 5, nota. 

2 J. A de Almeida, Dicc. chorographico, t. i, p. 129. Na An- 
dalusia a Maya^ nos costumes populares^ descriplos no século xvi 
noi Dias ludricos y genides, de Rodrigo Caro, apparece com par- 
ticularidades portuguezas ; escolhida e enfeitada a Rainha Maya : 
«Põe-Ihe nas mãos um copo com agua de cheiro, assentam-a em 
um throno, em que se fica com muita gravidade, fingindo muita 
mesura. As outras meninas a acompanham servindo-a como rainha, 
entretendo-a com cantares e dansas, e costumam leval-a ao Corro. 
Aos que passam pela Maya pedem la rica a la Maya; aos que 
lh'a dão borrifam com agua cheirosa, e aos que não dão dizem : 

Barba de perro, 
Quo no tiene dinero.» 

No sul da França, as fe»tas do Maio apresentam a tríplice ceri- 
monia : a Quète de la veillée^ a Prcnunade de la May o ou Ráne ds 
Mai, e a Plantation du Mai. Vincent d'Indy coUigiu as Canções 
e as melodias d'estas festas. Kalenda Maya / é o grito que acom- 
panha estas canções francezas ; no século xv feste;ava-se em Flo- 
rença a Calendimaggio ; no Limoges canta-se a Rainha de Maio, 
Lê-sc no Aulo de Z>. André: 

Mulher, estaes tam garrida ^ 
Que pareceys hua Maya, 



l 



416 HISTOKIA DA POESIA 



cabeça e o peito, assentam na em uma cadeirinha, 
que collocam sobre uma mesa egualmente ornada, e 
deixam estar alli a pobre pequena toda a tarde, em* 
quanto que outras sentando-se em roda da mesa, 
cantam tocando adufe; logo que alguém passa, le- 
vanta se aquella chusma de rapazes e raparigas, e 
agarram-se onde melhor podem deitar as mãos, fa- 
zem tal gralhada, que quem se quizer ver li\Te d'ella 



Transcrevemos aqui uma Canção do i ^ de MmOy (Lorraine) para 
se vêr a estructura d'este género de ]yrísmo moderno : 

Un beau n onaieur nous avons trouvé, 
Dieu lui donne joie et santè. 
Ayez le mai, le joli mai ! 

Que Dieu lui donne joie et santé. 
Et une am-e à son gré. 

Aycz le mai I le joli mai 1 

Mon bon mons^eur à votre gré. 
Aujourd'hui vous nous dorinerez. 
Ayez le mai, le joli mai! 

Donnez vous votre chapeau, 
Un petit bouquet noas y metrons 
Ayez le mai, le joli mai ! 

Co será pour la Vierge Marie, 
Si bonne, et si cherie. 

Ayez le mai, le joH mai 

Champfleury não apanhou o encadeamento estrophico, que é a 
forma característica d'esta Maieroh ; elle descreve a situação em 
que se cantava : «as raparigas dos arredores de Remiremont (Lor- 
raine) vestem roupas domingueiras, percorrem os caminhos que con- 
duzem á egreja de Dommartin, e a cada moço que encontram põero- 
Ihe no chapéo um raminho de loireiro ou de rosmaninho, cantan- 
do...» (Chamom poptduires dcs Provinces de France^ p. XXIIL^ 
Sobre a íesta do Maio coroado, da (^alliza, ha preciosos elementos 
na Roínania, t. VI, p, 52, 65 a 67 ; e no t. n, p. 61. 



POPULAR PORTUGUEZA 417 



tem de ir prevenido com alguns cobres para lhos 
distribuir; muitas vezes ainda se não está livre de 
um grupo, já dois e três andam pedindo para a Maia, 
e não desistem da perseguição emquanto os não sa- 
tisfazem com alguma cousa.» Ainda o mesmo au- 
ctor : «Ao romper da aurora no primeiro de Maio, 
vão os habitantes de Vermuil pendurar nas padiei- 
ras dos curraes dos bois, dos porcos, ovelhas, etc, 
ramos de carvalho, tojo e outros arbustos, a fim de 
obstarem aos estragos que este mez costuma fazer 
nos gados. A este costume, que não é só usado 
n'esta freguesia, mas que é commum a outras mui- 
tas terras da provinda, chamam Matar o gago.» 
Alem do peditório, que é característico nas Canções 
francezas do Maio, também temos a cavalgada : «Era 
costume n'esta cidade (Lagos) festejar o primeiro de 
Maio, em que ia toda a gente da terra, e na frente 
montado no melhor cavallo um rapaz adornado de 
muitas flores e jóias, que se pediam emprestadas, e 
que figurava o Maio; este mancebo fazia suas cor- 
rerias, desviando-se ás vezes do préstito a que se 
tornava a reunir;» ^ Da anedocta da fuga de um 
Maio, ficou o dicterio de que em Lagos não se falia 
em Maio, mas no mez que hade vir. 

Nos romances populares portuguezes é frequente 
assignar o Maio como a época da acção ; assim, no 
romance de D^ Duardos e F ler ida: 

Era pelo mez de Abril, 
De Maio antes um dia^ . . . 
Quando lírios e rosas 
Mostram mais sua alegria ; 
Cra a noite mais serena 
Que fazer no céo podia. 

(CanL açor,, n.o 56 e 57.) 



1 J. A. de Almeida, ib., m, 190. 

2 Ibid., n, p. 4- 

Pões. popul. 27 



41^ HISTORIA DA POESIA 



Du Méril, na introducçâo ao poema Flore et Blan- 
ceflot, do século xii, julga esta referencia ao Maio 
de origem oriental, «ou le printemps est bien plus 
avance.» * Longe de ser uma canvençào poética^ a 
vitalidade dos costumes populares e do lyrismo tra- 
dicional das MaierolleSy ter-lhe-ía revelado a persi- 
stência da concepção do Anno estival. Em um hymno 
da Egreja, de um manuscripto do século xn, vem : 

En mai si fet fleurir les prez. . . * 

Gil Vicente, que hauriu a sua riqueza poética nas 
tradições populares, começa d este modo uma can- 
ção : 

En ei mes era de Maio^ 
Véspera de Navidad. . 

(Obr., m, 323.) 

Por ei mes era de Maio, 
Ocho dias por andar,. . . 
(Ib., II, 531.) 

Na poesia popular hespanhola dá-se a mesma par- 
ticularidade ; no Cancionero de Romances : 

Era por el mes de Mayo, 
Guando hace la calor, 
Guando canta la calandria 
Y responde el ruisenor. 
Guando los enamorados 
Van á servir ai amor. . . 

Em uma Canção do rei D. Diniz, falla-se no tempo 
da frol, quando os jograes vão cantar de terra em 
terra. Aqui vemos o lyrismo dos trovadores mode- 
lando se sobre as Canções populares. Notou Gaston 



1 Op. cit., p. LXV, not. 2, Paris, 1856. 

2 Wríght e Hallmell, Reliquiae aníigtuu^ t. i, p. 200. 



POPULAR PORTUGUEZA 419 



Paris: <0 começo de todas as nossas Canções (se. 
provençaes) sem excepção, refere se d primcatcra e 
€ts circunistancias que a acompanhaniy quer na pri- 
mavera ou Abril, ou o tempo da Paschoa, ou Maio, 
principalmente alli seja mencionado, quer o poeta se 
represente colhendo a flor, o que se fazia como uma 
espécie de rito no mez de maio, ou o que vale o 
mesmo pela indicação em um prado, em um bosque 
ou vergel, jardim perto de uma fonte. E' evidente, 
que esta entrada em matéria obrigatória e constante 
não era fortuita.» * E conclue : «Se precisássemos dar 
utn nome a estas Canções que têm rodas um ponto 
de partida, a allegoria produzida pela vinda da pri- 
maveray chamar-lhes-ia raverdies, (reiferdies, renver- 
dies) palavras que exprimem perfeitamente o quadro 
e o motivo. . . este titulo convém a todas as Can- 
ções da primavera, e quasi toda a poesia lyrica da 
Edade media se reduz originariamente a Canções de 
primavera.» Ainda hoje as Canções populares fran- 
cezas da festa de Maio parecem se com a bailada 
antiga A la entrada dei tents ciar, e coincidem com 
essa passagem do Roman de Plamenca, em que as 
raparigas cantavam canções dansadas, como observa 
Jeanroy. 

A universalidade das festas do começo do Anno 
estival entre as raças que occu param a peninsula 
hispânica, fez pela persistência do mesmo costume 
que se conservassem e se transmittissem as Canções 
lyricas peculiares. Dá-se este phenomeno etimoló- 
gico com as festas e cantares da noite de San João, 
por via dos costumes dos Godos è ainda dos Ára- 
bes. A festa de San João entre os Germanos e Scan- 
dinavos, variava do equinócio da Primavera ao sol- 



* Journal des Savants, 1891, p. 696 a 688. 



420 HISTORIA DA POESIA 



sticio do Outono ; a Egreja saactificou-a com o nome 
do Precursor. Na Allemanha e na Bélgica ainda se 
chama ás fogueiras que o povo accende nesta festa 
oester feuer^ porque antes da condemnação catho- 
lica, a festa do Solsticio chamava-se de Eoester, 
por isso que se accendiam em honra de Freya fo- 
gueiras de alegria. * No Concilio de Agda, do vi sé- 
culo, já se dizia que as fogueiras de Freya eram 
em honra de San João. Os Vândalos, que chegaram 
até Africa, para lá levaram a festa, que o Catholi- 
cismo romano introduziu no kalendario de Carthago. 
Em todas as provincias de Portugal estão em vigor 
os costumes das festas de San João, fonte de um 
lyrimo vivíssimo ; canta-se no Romance de D, Pe- 
dro Menino (San Jorge): 

Já os linhos enflorecem, 
Estão os trigos em pendão, 
Ajuntam se as moças todas 
No dia de San João, 
Umas com cravos e rosas 
Outras com manjaríção; 
Outras que o não tiverem 
Tragam um verde* limão. 

(CanU Arch. aç.^ n.° 27 e 28). 

Em Coimbra canta-se : 

— Oh San João, d'onde vindes 
Pela calma sem chapéo ? 
«Venho de ver as fogueiras 
Que me fizeram no céo.» 

(Canc.pop., p. 159.) 

Nas tradições irlandezas das festas da primavera, o 
heroe 0'Donogline, que reinara outr'ora sobre a terra. 



* Alfred Maury, "Les Fées au Moyen-Age^ p. 58. 



POPULAR PORTUGUEZA 42 1 



subiu ao céo montado em um cavallo branco, cer- 
ca.do de elfs. * No Romance da Beira Alta, Duque 
cl€M^ Lombardia^ também se refere : 

Por manhã de San João, 
Manhã de doce alvorada,... 

Na poesia popular do Algarve, principalmente em 
Tavira, a noite de San João é embellezada com a 
crença da apparição de uma Moura encantada. Na 
Vida de Marcos d Obregon, descreve Vicente Es- 
pinal as festas de Sao João a que assistira quando 
captivo em Argel. (Desc. xi.) Os costumes árabes na 
península revigoraramas ; e no romance Batalla de 
Roncesvalles lê-se : 

Vanse dias, vien dias, 
Venido era el San Juan, 
Donde Cristianos e Moros . 
Hacen gran solenidad. 
Los Cristianos echan? juncia, 
Y los Moros arrayan, 
Los judios echan encas, 
Por la fiesta más honrar. 

(Ochoa, Tosar o y 57.) 

Nos Romances portuguezes o tempo da acção de- 
termina-se pela festa de San João ; e nas cantigas 
do Minho vem : 

Que festas fazem os Mouros 
Em dia de San João; 
Correm todos a cavallo 
Com canas verdes no mão. 

San yocb o Verde lhe chama Gil Vicente, o que 



1 Maury, Pêes^ p. 58. 



422 HISTORIA DA POESIA 



relaciona estas festas com as reverdies francezas : 
«Entram quatro mancebos e quatro moças, todas 
muito bem ataviadas, dizendo esta cantiga: 

Quem diz que não é este 
San João o verde?» 

(Í7^., n.o 491.) 

Champfleury no estudo sobre as Canções popu- 
lares das Províncias de França, diz que recebera uma 
çançao do Limousin, que tinha este refren : ^Et goup 
la verdi, la verdon ; > e que em outras canções en- 
contrara la verduretie e também la verdurinetíe ; 
Champfleury não sabia que estas palavras se ligam as 
cantigas de Rroerdie ou das festas de Maio, quando 
tudo reverdece. 

No Auto da Lusitânia, de Gil Vicente, «Entra 
Maio, mensageiro do Sol e cantando : 

Este é Maio, e Maio é este, 
Este é o Maio e florece! 
Este é Maio das rosas 
Este é Maio das fermosas. 

Este é Maio e florece! 
Este é Maio das flores, 
Este é Maio dos amores. 

(Obr.,ii\^ 283.) 

Na Farça dos Fisicos, quatro cantores vêm pôr 
termo á scena com uma Ensaiada das festas de 
Maio: 

En el mes era de Maio, 
Véspera de Navidad,. . . . 

Era la Paschoa florida 

En el mes de San Juan .... 

(Ib., 323.) 



POPULAH PORTUGUEZA 423 



Na dansa que termina a Romagem de aggr ova- 
dos, Gil Vicente intercala uma Canção de Maio 
adaptada a festejar o nascimento de um filho de 
D. João III : 

Por Maio era por Maio, 
Ocho dias por andar, 



Guando las aves cantaban 
Cada una su cantar ; 
Guando las arboles verdes 
Sus fructos quieren pintar .. . 

(Ib., II, 531.) 

Apreciando a obra sobre as origens da Poesia ly- 
rica em França, appresenta Mr. Gaston Paris a se- 
guinte these : t Quereria tornar efFectivamente vero- 
símil esta these, que a poesia dos Troi^adores pro- 
priamente dita, imitada no norte (da França) a par- 
tir do século XII, e que constitue especialmente a 
poesia cortezanesca, tem o seu ponto de partida nas 
Canções de Dansas primaveraes ; e subsidiariamente, 
que estas Dansas que lhe serviram de ponto de 
partida, pertenciam a uma região intermediaria ao 
norte e ao meio dia, e qne ellas irradiaram para o 
meio-dia para ahi se transformarem, antiquissima- 
mente, e para o norte, para ahi permanecerem mui- 
to tempo taes quaes eram.» * E referindose logo 
adiante a esta região, localisa-a entre o Poitou e o 
Limousin, irradiando de ahi para a Gasconha, e Pe- 
rigord, Auvergne e todo o Languedoc; estendendo- 
se á Itália, Hespanha e Portugal ; como para a Fran- 
ça do norte e Alie manha. O illustre critico veiu a 
reconhecer assim o substratum anthropologico pre- 
celtico, ou propriamente ligurico, em que subsistiu 
esse elemento tradicional popular (vilain) que in- 



^ yournaldes Savants^ 1892, p, 424 e 226. 



424 HISTORIA DA POESIA 



fluiu no lyrismo palaciano (courtois) e na poesia da 
egrcja [clerical ou scholaresca). Aquillo que se jul- 
gava unia iniciação e imitação é simplesmente uma 
outra revivescência. * 

2.° A Canção e a Ária de Corte, — Os Trova- 
dores fidalgos imitaram as formas da Canção popu- 
lar, na sua es*ructura, regularisando o emprego das 
rimas e íixando-lhe a trichotomia estrophica ; de- 
pois apropriaram -se dos themas lyricos cantados nas 
festas annuaes e com elles deram expressão ao seu 
subjectivismo sentimental. Do trovador Cercamons es- 
creveram : «TrQbet vers e pastoreias a la usanza an- 
tiga,^ Antes de se generalisar a sympathia pelo ly- 
rismo popular, elle foi longo tempo considerado desde- 
nhosamente ; assim nas Péages de Provence, vêm : 
«Histrions, baladins, mimes et menestréis, feront jeux, 
exercices et galantises, la dame du chateau presen- 
te. » Michelet, nas Origens do Direito franeez^ cita 
o costume . <un pélerin dirá sa romance sur un air 
noveau et couchera sur la paille fraiche, s'il veut 
passer la nuit au manoir.» (p. 207.) Os jograes, 
na passagem das pontes pagavam com canções: 
«et aussitôt li sont quite par un vers de chanson. , . > 
E nos casamentos, os senhores feudaes, quando re- 
cebiam o regai de mariage «les ménestriers précé- 
dans,» o servo ou plebeu «Avant de se retirer il doit 



* Determinaram a creaçâo do Lyrismo moderno. Tauibem es- 
creve Rathery, a propósito dos Cantos populares da Itália: «Os 
génios que cultivaram o Soneto e a Canzone, conseguiram ecclipsar, 
mas não supprimir as humildes Canções dos amorosos vulgares, 
nas quaes se encontram algumas das bellezas poéticas que brilham 
n'estas outras composições magistraes, sem que se possa sempre 
dizer, qual plagiou ao outro, se a arte tornada natureza, ou se a 
natureza que se eleva por vezes á altura da arte.» (JRev, des Deux 
Mendes j 1862 ; p 355.) 



POPULAR PORTUGUEZA 425 



sauter et danser.> Mas apesar d'este desprezo aris- 
tocrático, a Canção do povo foi acordar o senti- 
mento poético nas Cortes europêas ; os barões feu- 
daes prepotentes foram os primeiros Trovadores, e 
os reis, no meio das suas luctas entretinham se com 
esse Gay Saber, que premiavam, compondo tam- 
bém as suas Canções amorosas. Era o começo da 
sociedade moderna, em que pela forma de uma 
synthese affectiva ia realisar-se a incorporação do 
proletariado. 

Em relação á Hespanha, segundo se lê no Septe- 
nario, Fernando m estimava contes cantadores^), e 
protegia aquelies ^que sabem bem de trcruar, e de 
cantar, e de tocar instrumentos». Afifonso o Sábio 
seguiu mais deliberadamente esta predilecção, sendo 
um poeta fecundo, e auctor das Cantigas de San- 
ta Maria, abrindo a sua corte aos Trovadores pro- 
vençaes. Nas Contas do palácio do rei D. Sancho, 
apontam-se os brindes que se davam aos jograres, 
tamborileiros, trompeiros, saltadores e tocadores de 
rota. A corte portugueza era uma reproducção da 
monarchia castelhana, e D. Diniz, neto de Afifonso 
o Sábio, recebeu sempre com liberalidade todos os 
jograes e segreis dos dififerentes estados peninsula- 
res, e elle mesmo tratou de imitar nas suas Canti- 
gas de amigo as formas da Canção do povo. * Na 
corte de D. Diniz também se reflectiu a influencia 
franceza, trazida pelos fidalgos portuguezes que es- 
tiveram refugiados na corte de San Luiz, tornando 
assim mais accentuado o typo, já popular da Pasto- 



1 Vide supra, p. 179, Canções de D. Diniz, comparadas com as 
composições jogralescas que reflectiam formas populares; bem como 
as Canções aristocráticas por tugiuzas^ expiicadas na sua estructura por 
typos ainda oraes, (p. 144, 153, 161, etc.) 



426 HISTORIA DA POESIA 



relia. * Com a morte de D, Diniz a Canção lyri- 
ca decaiu, como forma litteraria e chegou a ser es- 
quecida, reapparccendo depois sem musica nos Aío- 
teSy Voltas e Esparsas do Cancioneiro de Resen- 
de no fim do século xv. Morta no seu lado poé- 
tico, a Canção desenvolveu-se musicalmente na 
Ária de Corte, * sobrevivendo pelas melodias popu- 
lares. 

Na sua Memoria para a historia musical dos 
Trovadores provençaes, escreve Restori : Os mais 
recentes estudos conduzem a esta fundada persua- 
çao : Que a arte lyrico- musical dos Trovadores e 
dos Troveiros tem os seus remotos princípios nos 
cantos populares, e especialmente nos cantos e bai- 
les que se faziam em Maio, ao reverdecerem os 
prados e ao desabroxarem as rosas e as novas 
flores. Mas dos géneros poéticos mais populares, 
como as Dansas (Bavlatas) Alba e PastorellaSy 
acham-se em provençal menos abundância do que 
no antigo francez ; e das poucas poesias deste 
género, pouquíssimas conservaram a notação musi- 
cal. Temos uma Dansa importantíssima : A la en- 
trada dcl temps ciar ; três Alvoradas, uma do 



1 Sobre a relaçío das Pastorellas francezas com as portuguezas, 
merece aproveitar-se esta opinião de Villemain, acerca das Poesias 
de Thibaut, conde de Champa/rne, filho de Branca e neto do rei 
de Navarra: «toi educado por unia avó que teve cortes com muito 
brilho. Pertencendo pelo seu fcudo de Champagne á França do 
norte, teve desde muito cedo, pela sua família, os hábitos gracio- 
sos e poéticos do Meio-dia, e fundiu nos seus versos o génio das 
duas nações e das duas línguas ...» 

As Pastorellas do Cancioneiro da Vaticana parecem-se muito na 
lórma e no pensamento allegoríco com as de Thibaut. Os Cavallei- 
ros portuguezes, que estiveram na corte de Branca de Castella, 
deram forma litteraria a este typo da Pastorella* 

2 Infelizmente no Cancioneiro da Ajuda existem os pentagrammas, 
mas não se chegou a escrever as notas. 



POPULAR PORTUGUEZA 427 



século XI em latin com retornello vulgar, (Alba 
bilingue dei Ms. Vaticano, Reg. 1462) ; uma de 
Gruiraut de Berneil (11 75- 1220) Reis glorios verays 
luffts e clartatz; 2 uma de Cadenet (1208-1239) 
En sui tan corteza gaita. Temos duas Pastorellas, 
uma de Marcabrun, Lautrier josíuna sebissa, im- 
portante, porque Marcabrun é o dos mais antigos 
Trovadores ÍI135-1147); e a outra anonyma, Uau- 
trier níiere levaz, com toda a probabilidade fran- 
ceza. Ajuntando a isto uma Estampida de Raim- 
baut de Vaqueiras (i 180 -1207) Kalenda maio, e 
três Retroenzas de Guiraut de Riquier (i 234-1 292) 
sob os n.^* 57, 65, T^), eis o mesquinho despojo 
que nos ficou do género popular, ainda assim 
nem todas verdadeiramente populares, mas presu- 
mindo que os mestres da arte Cadenet, Vaqueiras 
e Riquier, tratando géneros populares se assimila- 
ram mesmo na melodia ao typo e ao gosto do 
povo.i^ (ib. p. 18.) 

O que os Trovadores faziam nas Cortes, tam- 
bém se praticava, na Egreja misturando-se na litur- 
gia cantos populares, ou sobre as melodias do 
povo: No Mysterio de Santa Agnèse, uma Canção 
reproduzida de Borneil, Reis glorios verais lums e 
clartatz, serve de modelo á canção da Mãe de 
Ignez: Rei glorios, senor, per qu' hanc nasquiei, 
D'este facto escreve Restori : «non è senza impor - 
tanza che sia stata scelta una melodia di alba cioè 
di un género tanto popolare. Questi modelli in som- 
ma, se non de creazione popolare, eran tal che 
presso il popolo devenero esser noti e gustati.» 
(ib. p. 19.) k' nesta corrente que se desenvolve a 
musica religiosa do Organum e do Discantum, dan- 
do logar á creação de uma poesia latina rimada 
das Sequencias, no século xui. Assim das melodias 
populares derivam as duas grandes correntes musi- 



42S HISTORIA DA POESIA 



caes, da Ivj;reja e da Corte, * a religiosa e a dramáti- 
ca. Depois que a melodia da Canção poética se tor- 
nou Ária de Corte (Canzone ad una você), a poesia 
continuou a ser empregada nos serões do paço pelos 
ficlal<í()s como uma distracção, principalmente com in- 
tuito epit^rainmatico. A Canção lyrica reduzida aos 
versos recitados resumiu-se no Refrem tornado Mote, 
c ao seu desenvolvimento na Glosa, Volta ou Espar- 
sa. Esta forma de Lyrismo foi tratada litterariamente 
desde o fim do século xv com o nome de Medida velha, 
em contraposição ao Stil nuovo do lyrismo italiano, 
e o maior tervor deu-se no século xviii, preâtando-se 
á facilidade da improvisação, em reuniões e Outeiros, 
d*onde tornou outra vez para o gosto popular, por 
via dos Cantores vagabundos. * 

3,^ A Cantilena litúrgica. — A Canção popular, que 
se tornava Cantilena litúrgica foi excluida do culto á 
medida que a Egreja se aristocratisava ; mas a sua 
influencia foi profunda na métrica latina, que tomou 
a base da accenttiação, e nas formas dos hymnos e 
Sequencias da nova poesia religiosa. No primeiro 
Concilio de Braga, cânon xiii, prohibiam-se os cantos 



* «E também não se podem escusar musicas de camará, que 
cantando e tant^^endo dêem alguma recreação aos Príncipes. Con- 
forme cada dia costumam os reis de Portugal de ouvir esta suave 
musica ás sestas ao tempo que ouvem as principaes pessoas de 
seus reinos e despacham os mais importantes negócios que se lhes 
offerecem.» Dr. Francisco de Monçon, Espelho do Jh^incipt christào^ 
fl. 71. V Ed 1571. 

2 Encontramos cantos populares do Alemtejo em Parelhas-e Qua- 
dras, glosadas em Decimas ; e ultimamente foram impressos os Ver- 
sos do Cantador de Setúbal (António Eusébio) e os Versos de um 
Cavador (Manoel Alves) em dois volumes, improvisados na forma 
exclusiva do Mote e Glossa octosyllabicos . Actualmente os Fados 
populares são quadras glosadas, em vez de quadras continuadas na 
férma do romance, e todos de elaboração pessoal, semi-litteraria. 



POPULAR PORTUGUEZA 429 



vulgares: c extra psalmos... nihil poetice composi- 
tutn in ecclesia psalatur.i Também San Martinho 
braccharense excluia da liturgia «psalmos compósitos 
et vulgares.^ Egual prohibição em 528, no Concilio 
de Auxerre, para os cantos farsis^ em francez e la- 
tim, que as donzellas entoavam nas egrejas ; e em 
5 54» por Chilbert. Mas ao substituir a Canção do 
povo pelos hymnos em latim, a Egreja adpotava a 
versificação vulgar, e certos effeitos de forma, como 
o acróstico e telestickioy letras iniciaes designando um 
nome, e obrigadas no principio e fim de cada verso, 
por ventura um resto da aliteração. Ainda no sé- 
culo XV esse espirito de condemnação catholica se 
manifestou em D. Duarte, no Leal Conselheiro, con- 
tra as Cantigas sagraes, como peccados de bocca. 
Na poesia hymnica da Egreja apparece o verso 
octosyllabo, accentuado\ sendo um dos que primeiro 
o empregou, revolucionando a poética latina, San Dâ- 
maso, lusitano ; segundo o velho preconceito dos eru- 
ditos, derivando a accentuacão da quantidade, clas- 
sificavam o verso de redondilha maior como pro- 
vindo do exametro cortado em dois hemistichios, ou 
como quatro péstrochaicos, segundo Sarmiento, e Bou- 
terweck considérava-o «como uma reminiscência das 
antigas Canções militares dos romanos, que se ou- 
vissem muitos vezes em Hespanha, e das quaes a 
memoria poderia ter sido transmittida pelos provin- 
ciaes hespanhoes aos visigodos seus conquistado- 
res. > * Porém Argote y de Molina presentiu a ge- 
nuina fonte popular, quando escreveu : «Los Poetas 
cristianos mas modernos dieron a este verso la con- 
sonância que ya en la lingua vulgar tenia, como hizo 
Santo Tomaz ai hymno dei Sacramiento. » ^ O erro dos 



i Hist, da Litteratura espaflola^ i, 77. 
* Conde de Lucanor^ fl. 127. Ed. 1Í42. 



43o HISTORIA DA POESU 



eruditos sobre a Versificação moderna, apresenta- se 
ainda mais absurdamente nos contrapontistas e mu- 
sicographos, affirmando que as Canções populares de- 
rivam as suas melodias da tonalidade do Canto-chão. 
Partem de um facto verdadeiro, característico das 
Canções populares e do Canto-chão, em cuja tona- 
lidade falta a nota sensível (meio tom de intervallo 
entre a 7." e 8.*); daqui a conclusão gratuita de que 
as melodias das Cançõtis do povo são apropriação 
das Cantilenas litúrgicas. * Assim como a Canção po- 
pular emquanto á métrica deu á hymnologia latina 
a base da accentuação e a ritna, e foi imitada nos 
seus themas poéticos e estructura nas composições 
latinas dos Goliardos (como se vê pelos Carmina 
Burana); também a melodia popular, dos Cantos 
com quíí os fieis tomavam parte na liturgia, sendo 
privada da nota sensível influiu directamente na to- 
nalidade do canto ecclesiastico. em que a ausência 
desse meio tom o separa da musica moderna. 

A musica religiosa das egrejas christãs devera ter 
influído nas melodias populares na Edade media ape- 
nas na sua conservação ; o que é patentemente his- 
tórico, é que as Canções do povo foram misturadas 
com as cerimonias do culto, adaptando se mesmo as 
suas melodias ás orações canónicas. Havia porém 
uma separação entre estas duas musicas ; a religiosa 
derivava da tradição grega, como o reconheceram 
os críticos: «durante muitos séculos os theoricos só 
admittiram como consonancias e só se empregou no 
Canto-chão os íntervallos de quarta e quinta, que 



1 «A musica dos Hymnos da Egreja íoi durante muito tempo 
a musica que serviu para as Canções profanas, mesmo em língua 
vulgar ; este duplo emprego era mais natural e mais fácil ainda, 
quando estas Canções eram latinas.» HisU Htteraire de la Franccy 
t, xxn, p. 133: Victor Leclerc 



POPULAR PORTUGUEZA 43 1 

incontestavelmente foram tomados dos Gregos, por 
que eram as únicas consonaacias que conheceram, 
porque somente ellas podiam conciliar-se com o sys- 
tema dos tatracordes. > * A musica popular empregava 
os accordes de terceiras, que se impunham ás con- 
sonancias eruditas de quarta, de quinta, e de outava, 
a que no século vii se referia Santo Isidoro de Se- 
vilha. Sobre esta tonalidade popular escreve o mesmo 
critico : «um grande numero de factos tende a esta- 
belecer que, desde os primeiros séculos da Edade 
média, e talvez mesmo em todo esse tempo, existiu 
ao lado da musica de Egreja, a única que os erudi- 
tos se dignavam de occupar, uma musica usada pelo 
povo, sensivelmente differente da religiosa, e que só 
conseguiu por fim fazer -se considerar pelos theori- 
cos.> A existência dessa musica popular em con- 
traste com a religiosa acha-se authenticada nos pro- 
testos da Egreja cathollca ; Hucbald falia contra «os 
tocadores de cithara e de flauta, e mesmo os can- 
tores e cantoras profanas, que recorriam a todos os 
efíeitos da arte para fascinar os ouvintes.» E o con-. 
cilio de Toledo, no seu 23.° cânon decretava : «E' 
preciso abolir o detestável costume que o publico 
contrahiu de se entregar á dansa, e de cantar can- 
tícoò impuros nos inter vallos das cerimonias religio- 
sas.» Coussemaker analysando alguns cantos que 
datam do século ix, e fixando o seu caracter meló- 
dico, conclue : «que desde a época mais remota da 
Edade media, existiu uma musica vulgar que se dis- 
tinguia do Canto-chão por dois pontos essenciaes, o 
rythmo medido e a tonalidade.» Estes dois elemen- 
tos vão-se desenvolver na poesia moderna pela ac- 
centuaçãOy emquanto ao verso (Syllabismo) baseado 



* Mircillac, Hiitoire de la Musique moderne^ p. 52. 



432 HISTORIA DA POESIA 



sobre o rythmo ; e na musica moderna emquanto á 
nota sensível, fonte da musica artística profana desde 
o século XV. Os recentes estudos de musicographia 
derivam da Canção popular a Canção trâbadoresca, 
a Monodia ou Ária de corte, e todas essas maravi- 
lhas vocaes que se reúnem nos Madrigaes da Re- 
nascença. As Prosas e Sequencias da Egreja, toma- 
ram á poesia popular a accentuaç2U> e a rifna; e das 
melodias do povo as consonancias novas que tendiam 
a modificar a rudeza do Canto-chão. Alguns exclu- 
sivistas do Canto-chão, como Félix Clément, querem 
derivar a tonalidade moderna do Canto chão como 
estando implícita nelle e desenvolvendo-se por uma 
degenerescência ; diz elle que as nossas duas tonali- 
dades maior e menor estavam contidas no systema 
gregoriano : «Pertence ao espirito leigo que invadiu 
a sociedade em todas as suas partes no século xv 
e XVI o ter preferido estes modos mais positivos, 
mais fáceis, mais sensiveis em certa forma, menos 
mysticos, menos indefinidos que os outros, de dar 
uma impor:ancia sempre crescente á influencia da 
nota sensível, que não entrava senão accidentalmente 
no antigo canto, e estava confundida entre os outros 
seus elementos constitutivos. Cumpre dizer também, 
que estes modos se prestavam mais do que os ou- 
tros á harmonia, á simultaneidade dos sons ; . . . » * 
O Descante foi com que na Edade média se de"Si- 
gnou a modificação que a musica religiosa recebia 
pela influencia popular ; Félix Clément o observa : 
«A substituição dos intervallos diversos aos interval- 
los semelhantes, parece ter começado pelo século xi. 
Deu-se a esta harmonia o nome de Díscantus, descan- 
te. E' para notar que o Descante foi applicado de pre- 



* Histoirc génerah de la Musique reiigieuse^ p« 20. 



POPULAR RORTUGUEZA 433 

ferencta aos assumptos profanos, ás Canções, ás poe- 
sias em língua vulgar, emquanto que a diaphonia era 
reservada ao canto, litúrgico ...» * A diaphonia era 
invadida pelo Descante, tendendo para a sua base 
tonal; mas uma vez suscitada a poesia moderna, o^- 
centuada, rimada^ o seu systema tonal deíinia inven- 
civelmente a nova tonalidade profana : «Sendo o Des 
cante posterior em data á diaphonia, não é para sur- 
prehender o encontrar muitas vezes a diaphonia no 
descante, isto é, quintas successivas, uníssonas, outa- 
vas e mesmo quartas seguidas descendo. Mas estas 
successões não são o resultado de um systema regu- 
larmente estabelecido e posto em pratica. Começa- 
vam, aliás, as melodias a libertarem -se das tonalida- 
des gregorianas, e desde então se prestavam cada 
vez menos á diaphonia. As composições profanas eram 
devidas a musicas extranhas á Egreja, aos tro veiros 
que as sobrecarregavam de trilos e de notas de ef- 
feito, tal como o authenticam os manuscriptos que 
contêm as Canções de Adam de la Hale, de Gau- 
thiér d'Argies, d'Audefroi, de Gilbert de Berneville, 
de Blondeau de Nesles. de Colart le Bouteillier, de 
Perrin d'Angecourt, e de personagens mais eminen- 
tes, taes como o castellão de Coucy, Thibault conde 
de Champagne, o conde de Béthune, os condes d'An- 
jou e de Soissons, e Henrique iii, duque Brabant. — 
Invadiram as egrejas, e introduziram nos officios di- 
vinos as suas phantasias e seus caprichos. O papa 
João XXII lançou em 1322 uma bulia em que se es- 
forçava para trazer ao respeito dos officios divinos 
estes artistas bastante ardentes.» ^ A bulia não pro- 



* Histoire génerale de la Musique religietíse^ p. 44. 
2 Ibid. 

Pões. popul. 28 



434 HISTORIA DA FOESIA 



duziu resultado; a musica moderna tinha achado a 
tonalidade na melodia popular das Canções vulgares, 
e desde logo começou a Musica mênsurabilist des- 
envolvendo se o Descante simples» irregular, dupli- 
cado, e florido, na Canção que havia de attingir a 
sua perfeiç&o inventiva na Fuga. Eram por isso im^ 
potentes as condemnaçOes da bulia Docta Sanctarum 
nos que adaptavam os Cantos profanos ás melodias 
litúrgicas, abandonando a melopêa gregoriana. Ope- 
rava-se a differenciação das duas tonalidades : a po- 
pular ou profana, pelo effeito das cadencias proso- 
dicas das palavras das Canções lyrícas, começava a 
empregar meios tons e mesmo certas desegualdades 
de intervallos ; e a musica religiosa, pela immutabi- 
lidade da letra dos seus Hymnos litúrgicos tradicio- 
naes conservava os mesmos intervallos da gamma 
primitiva a que tinham sido cantados. Fétis, caracte- 
risa-a, diflerenciando-a da musica moderna: ca dis- 
tancia da septima nota para a outava é de um tom 
em muitas gammas, emquanto que ella é sempre de 
um m,eio tom, qualquer que seja o modo (maior ou 
menor) na tonalidade da musica moderna.» * E' n'esta 
difíerenciação que se estabelece o antagonismo en- 
tre os que pretendem introduzir na musica religiosa 
o meio tom designado nota sensível já nas finaes as- 
cendentes, já com claro intuito em todas as caden- 
cias incidentes e repousos momentâneos ; outros man- 
têm a forma tradicional do intervallo de tom entre 
a final dos modos authenticos e plagaes com a sua 
nota inferior ; Fétis, querendo conciliar este antago- 
nismo, chega a affirmar que a ausência do meio tom 



1 Bulletin de rAcademie de Bruxelles, 1857, 2.* serie, t, i, p^ 
539. 



POPULAH PORTUGUEZA 435 

» ■ ■ -I. I I., i.i ■ I lai 

OU noia sensível no Canto-chão resultou de uma obli- 
teração graphica e imperfeita leitura das imperfeitas 
notações dos Missaes, Antiphonarios, Tonados e Hym- 
narios medievaes. Desde que o Canto nas linguas vul- 
gares era excluido da Egreja, as melodias nascidas 
d'essas cadencias prosodicas, com intervallos em que 
predominava o chromatismo, deviam ser também re- 
pellidas pela Egreja, como se vê no Descante, e o 
rigor litúrgico da letra latina, sem sentido immediato, 
satisfazia- se com a simples melodia subordinada ex- 
clusivamente ao rythmo. Neste ponto de vista, a mu- 
sica popular em vez de derivar do Cantochão, como 
absurdamente se escreve, actuou sobre o Canto-chão, 
o qual pela sua immutabilidade canónica, rejeitan- 
do a nota sensively pode se dizer que foi uma de- 
plorável obliteração da Melodia popular. Debaixo 
dessas formas austeras, mas grosseiras, tem-se por 
meio dos accentos prosodicos das palavras dos hym- 
nos ecclesiasticos restabelecido a belleza das primi- 
tivas melodias populares de que a Egreja se apro- 
priara. * 

O Canto-chão nasceu da obliteração do Compasso 
e do rythmo na rudeza da baixa-Edade media, e do 



1 Essa phase primitiva revela-se ainda aos investigadores ; es- 
creve o auctor do estudo De la lonalité du Plàn-Chant comparée 
à la tonaUté des Ckants populaires : «Tinha começado, em tempo 
a colligir nos nossos campos (arredores, de Cherbourg) as Canções 
populares que me appresentavam um cunho de ^tiguidade, e ao 
mesmo tempo eu notava, quanto me era possível as árias em que 
estas canções eram entradas. Feriu-me logo uma certa analogia 
entre a tonalidade d'estas árias e a dos cantos das nossas egre- 
jas, e reconhe:;! que esta semelhança provinha da ausência da nota 
sensível tanto em umas como nas cutras, ou em outros termos, 
do emprego de um intervallo de um tom inteiro entre a tónica a 
sua nota inferior , de tal sorte que a maior parte d'estas árias po- 
diam, com uma transposição conveniente, ser consideradas como 
pertencendo ao primeiro tom authentico do Canto-chão.» — «As 



433' HISTORIA DA POESIA 



esquecimento do sentido das Neumas ou notas de 
ornato musical. A métrica dos antigos Hymnos foi 
sacrificada á melopea, perdendo-se a relação de con- 
tinuidade da Musica grega para a moderna. Todas 
as tentativas para descobrir o compasso primitivo nas 
velhas composições cantochanescas foram arbitrarias; 
ultimamente é que A. Dechevreus conseguiu recon- 
stituir a tonalidade primitiva, partindo do rythmo im- 
plicito na accentuaçcU) dos versos para pela sua coin- 
cidência fixar o compasso : primeiramente restabele- 
ceu as formas métricas dos Versos e das Rstrophes, 
e depois sobre isto as Notas correspondentes com o 
seu sentido musical, ou a Neuma e o Rythmo. Por 
este processo Dechevreus reconstituiu 130 Hym- 
nos e Sequencias ; e d*elles se conclue, que alguns — 
f compostos evidentemente em um systema tonal e 
modal completamente differentes do verso, têm tre- 
chos de uma simplicidade, de uma belleza, de uma 
suavidade e de uma expressão de tal forma inten- 
sa, que em nada cedem ao que a nossa musica mo- 
derna apresenta de mais expressivo e impressio- 
nante. > * 

E' natural que os investigadores das Melodias da 



velhas Canções dos nossos aldeãos são quasi todas compostas no 
fnodo tnenor^ e então o intervallo enlre a tónica e a sua nota in- 
ferior, ou, o que ê o mesmo, entre a septima e a outava, é sem- 
pre de um tom inteiro ; etc.» — «Na? melodias, muito mais raras, 
que pertencem ao moda maior, é também interessante constatar, 
que n'este modo também, o emprego da nota sensível parece ter 
ser. sido evitado com cuidado, preparando-se as candencias finaes 
ordinariamente quer pela terceira, quer pela sexta (ou terceira in- 
ferior).» As melodias escossezas, coUigidas por Walter Scott são 
análogas ás firancezas quanto á tonalidade, sem que proviessem do 
Canto-cbão. 

1 Mathis Lussy, Du Rythme dans T HymnograpkU latine. (Riv. 
nius.y II, 489.) 



POPULAR PORTUGUEZA 4^7 

■ ■ ^— ^— ■ — ■-■ -- ■- - ■ , , - - ■ - ■ . - - - __ . ..- - 

I 

Canção popular nos vários paizes, ao transcreverem 
as formas archaicas persistentes, características pela 
falta da nota sensível , as comparem com a tonalidade 
do Canto-chão, e encontrem verdadeiras coincidências 
de phrases. Mas concluir da sua origem, tendo as o 
povo tomado do Canto- chão, é que berra contra a 
lógica. D*onde se vê, que aos technicos faz falta a 
<:ultura geral. E assim como a versificação das Can- 
ções levou a descobrir as suas Melodias primitivas, 
também a consideração, de que o povo ao tomar 
parte nos actos litúrgicos empregava a Dansa hierá- 
tica, * levará a reconhecer aonde estava a originali- 
dade e o poder creador para inventar a tonalidade 
moderna. 

Vincent d'Indy, dis:utindo a melodia do canto po- 
pular La Pernetie, e destacando a dos melismos ou 
ornamentos dos refrens, vae pelas melodias religio- 
sas dos Choraes protestantes do século xvi, relacioí- 
nadas com as antigas monodias da Egreja catholica, 
determinar ainda a analogia desse canto popular com 
alguns compassos de um chorai de Bach para órgão; 
e n*esse mesmo canto determina fórmulas melódicas, 
que são frequentes nos cantos da Egreja, taes como 
a Alleluia (domingo da Outava da Ascensão) e na 
antiphona do Magnificais (da segunda feira de Pen- 
tecostes) e principalmente no hymno Sacris solemniis, 
Chansons popuL, p. i6.) Vincent d'fndy, fixando esta 
continuidade musical technicameiite, erra porém de 
um modo deplorável quando inverte x> facto histo- 



1 Na egreja de Toledo (1248) depois do Gloria, do Kyrie e da 
Epistola «vinham donzellas, que sabiam cantar, e cantavam uma 
Cantiga e faziam trebelhos.T> No manuscripto vem figuradas as ra- 
parigas dançando e tocando instrumentos.» (Am. de los Rios Hist, 
eritica de la Lit, espatt.^ t. iv, p. .545 nota.) 



438 HISTORIA Da POESIA 



rico, que a melodia popular sahtra da Egreja para o 
Povo : CO espirito popular nSLo hesitou em apropriar-se 
e a rythmar a seu modo (esta melodia religiosa) para 
adaptar lhe o texto de uftia lenda querida, e es- 
palhada no paiz a ponto de ser muitas vezes tratada 
musicalmente por músicos da corte do século xvi. 
principalmente por Lejeune, Josquin des Prés e Ro- 
land de Lassus.» ^ Esta comprehensão incompleta 
da evolução poética e musical da tradição popular, 
prejudica por vezes os trabalhos dos críticos e dos 
technicos. 

Na musica moderna, reduzida a dois modos, maior 
e menory em que a posição dos tons e meios tons 
é determinada para ambos da mesma forma, esta 
tonalidade proveiu também da creaçSo popular, pelo 
seu instincto de simplificação. Nos Cantos do povo, 
na Europa occidental, existem os dois modos, pre- 
valecendo mais o menor do que o maior^ conforme 
certas regiões. 

Na Collecçãô das Chansons populaires du Vive- 
raiSy. formada por Vincent dlndy, determina ò eru- 
dito transcriptor : — que como a Cantilena litúrgica, a 
Canção popular, essencialmente monodica, é de ry- 
thmo livre, no seu sustento harmónico ; elle mostra 
como no sul da França predomina na melodia o ^modo 
menor moderno, e na modalidade antiga (i^esonan- 
cia inferior^ do Riemann) que é a inversão normal 
do accorde perfeito dito maior. Pelo seu lado tendo 
Julien Tiersot apontado que o m4>do maior é o modo 
popular francez por excellencia, (p. 500) esta con- 
tradicção ap parente, é a revelação das duas gran- 
des differenciações anthropologicas da França bra- 
chycephala e dolichocephala, ligurica e céltica. 



* Chansons pop. du Viver ais, p. 17. 



POPULAR PORTUGUEZA 4^9 

Nas Cantigas do Maio, na França meridionâ^I, 
predomina um typo musical untco, que anda es- 
palhado pela França inteira, adaptado a diíTeren* 
tes themas amorosos; Vincent considerao um dos 
typos primitivos da Canção franceza, cuja irradiação 
apparece na Bretanha, e em uma Prosa ecclesiastica, 
(O filii) como observou Tiersot. Quando a Canção 
era dansada, fixavase o Refrem, pertencente ao 
grupo de dansantes, provindo do typo melódico pri- 
mitivo, ou afastando-se do typo melódico inicial, con- 
forme a obliteração dos costumes, ou os ornamentos 
de outros Refrens intercalados na Monodia, como me- 
lismos. 

A Canção narrativa, ou epo-lyrica, segundo Vin- 
cent di\viáYr floresce sobretudo na Bretanha e nas 
províncias de oeste ; apesar da falsa ideia de attribuir 
ao norte da França a originalidade da Pasiourelle, 
as suas melodias achamse no sul sempre ligadas á 
poesia, ou espalhadas uniformemente ao oeste, ao 
centro e a leste sobre regiões diíferentes. * Com o 
typo da Pastorellà identificam -se as Canções de amor, 
Requêtes, e todas as outras formas, como a mauma- 
riêe (Bella mal niaridada) que tornam bem evidente 
o seu fundo occidental, e não franko. 

A relação intima e constante da palavra com a 
melodia é que determina na poesia e musica popu- 
lares essas audaciosas syncopes syllabicas, e suas di- 
visões da escala tonal de effeitos imprevistos, que 
assombram os compositores. Sobre os versos das Can- 
ções francezas escrevia Champfleury : « os aldeãos têm 
uma maneira particular de phrasear, habilíssima na sua 
rudeza. As palavras de muitas syllabas deslisam so- 
bre uma nota como por encanto; um verso quasi ín- 



1 Chamam du Vivar ais ^ p. 43. 



440 HISTORIA DA ÍK>£SU 



teiro vae de um salto, se for preciso, e em outra 
occasião uma phrase musical de muitos compassos 
não é bastante ampla para uma palavra.» ' 

Estas necessidades da poética vulgar tomam-se 
uma fonte inextinguivel de invenções melódicas im- 
previstas e originaes, pelas divisões dos intervalios 
tonaes e até pela mistura de rythmos. * A tonalidade 
da musica popular torna-se por isso difificilima de tran- 
screver mesmo a compositores como Chopin e can- 
tores como Pauline Viardot ; creada independente de 
acompanhamento, é preciso um poder genial para 
sem desnatural-a vencer as difficuldades de harmoni- 
' sacão. Wekerlin, com a sua competência profissio- 
nal, segue um principio para determinar a antigui- 
dade da Canção pela tonalidade da melodia: c Al- 
gumas das nossas Canções populares datam de uma 
época remota, incontestavelmente ; muitas d'aquellas 
em que a nota sensível não existe, por exemplo, re- 
montam ao menos a 1500, pois que foi no começo 
de 1600 que Monteverde achou o accorde de se- 
ptima dominante. Ora este accordé de septima de 
terminou realmente o sentimento da notd sensível, 
isto é, do meio tom que precede a tónica. Mas, sem 
esta característica, muitas Canções populares authen- 
ticam a antiguidade da sua origem pelo andamen- 
to methodico e semelhança com o canto grego- 
riano. » O principio indicado por Wekerlin é claro, 
mas imperfeitas as suas conclusões ; primeiramente. 



^ Chansons populaires des Pravinces de France^ p^ x. . 

* Wekerlin, apresenta : «existem canções realmente sobre ry- 
thmos differentes, como a alsa nigous da Bretanha e tantas en- 
tras que poderíamos citar, em que a mistura de rythmos differen- 
tes qae provêm incontestavelmente da própria CançSo, é que lhe 
dá um effeito original.» Ap. Lhatopfl., p. xn. 



POPULAR PORTUGUEZA 44.1; 

■ I ■ I I ■■ ' ■■ ■ ■ ■ ■ » ■ ■ ■ ■ ■ ■ II ■ w ^^papw^— ^^^ 1^—^ ^^^^^^^^ I ■■■■■■■»■ ■ - ■ ■ . «1» ■ ■ » ^ ■■ ^^y^ 

a tonalidade do Canto-chSo, ao contrario do que se 
suppõe, nasceu das melodias populares ; e o eoiprego 
da nota sensível, ou do meio tom que precede a tó- 
nica foi suscitado pela necessidade das divisões dos in- 
tervallos antes de Monteverde achar o accorde da 
septima dominante. Aqui temos completa a synthese 
na sua verdade histórica : assim como a Canção do 
povo na forma poética determinou a evolução de 
todos os géneros lyricos das Canções dos Trova- 
dores, também na sua forma melódica determinou 
as duas tonalidades da musica religiosa e da musica 
dramática. 

«A Ária, na sua origem era sin>plesmente a Can- 
cão popular formada de dois themas; a melodia po- 
pular chegou á Ária de Opera com transformações 
lentas, passando pelos Mysterios, pelas Canções dos 
Trovadores,. dos Mimíèsaenger e dos Meistersaenger, 
pelas Dansas populares de Quinhentos, pelas formas 
do Madrigal e depois o Recitativo melódico ...» * 

Este mesmo recitativo é considerado por Wagnjer 
(Opera e Drama, p". 35, trad. italiana) como empre- 
gado já pela. Egreja em certos versiculos dos. Offi- 
cios litúrgicos. Por esta forma se estabelece a con- 
tinuidade da tradição através do canto litúrgico da' 
Edade media, vindo determinar as formas contra- 
ponticas é as bases da harmonia da Musica moderna. 

Pela evolução histórica da Poesia popular reconhe- 
cem-se as formas espontâneas como a Palavra se tor-^ 
nou cantada, e como a Musica se identifica com $t 
falia dando-lhe o máximo relevo. Confirmam este 
phenomeno orgânico e psychico as lúcidas observa- 
ções de Herbert Spencer. No seguinte diagramma fica 
resumido este processo generativo: 



• « * - » 

A Rivista Musicale italiana^ vol. i p. 757. Recens. de Chilesotti. 



44» 



HISTORIA DA POESIA 



A EXPRESSÃO VERBAL 

Determinando peit sua intensidade «s lònoas movimentadas 

e temporaet da Arte 



Palavra 

articulada 



Aceeatuaçio 

Intonaçio 

Gesticulaçflo 



Poesia 

Declamação 

Canto 

Musica 

Mimica 

Dansa 



Integração espontânea das trea fórmas da Linguagem oa 
CANÇÃO POPULAR 





NA CORTB : 


VA xokbja: 




Canção trobadoresca 


Cantilena litúrgica 




— Alvorada, 


• 

— Troparios 




— Serenada 


— Discantum 




— Bailada 


— Prosa 




— Pastorella, 


— Sequencia 


es 
'3J . 


— Descon 


— Hymno 


O 


— Retroenga 


— Laudi 


a. 


— Tensão 


— Coros 




— Cantar de amigo 


— Jaculatórias. 




— Romance 






Lyrismo petrarchista. 






Ária 


Ludus paschalis 




Suite 


Noel 




Sonata 


Tonos 


CO 


Ballet 


Viilancico 


2 


Madrigal 
Recitativo melódico 


Motete 
Oratório 




Cantata 


Paixões. 




. Opera. 


■ 




Carole 


« 

MaieroUes 


s 


Bafordo 


Dansas hieráticas (durante 


00 


Minuete 


o culto e nas procissões.) 


Q 


Chacone 


Mysterios. 



Sarabanda. 



B.) A CAirçÂO NABBATIVA 



Na poesia popular da Alta Itália Cansone designa 
a narrativa poética á qual se chama em França Bal- 
lade^ e em Hespanha e Portugal Romance ; * estas 
differenças denominando um mesmo género tradicio- 
nal, accusam a preponderância dos seus elementos 
constitutivos, o musical na Itália, a dansa em França, 
e a recitação em Portugal e Hespanha. O ve'ho chro- 
nista Matteo Spinello chamava Romamatori aos mú- 
sicos sicilianos, que de noite accompanhavam o rei 
Mainfroi, quando saía por Bareletta cantando Stram- 
botti, e Canções de amor. E no Mysterio di Santa 
Aghèse, do século xv, em que vem cantos religio- 
sos moldados sobre cantares dò povo, in sonu, ci- 
ta-se um: ^illius romancii de Sancto Stephano.» 
Ainda no fim dó século xv a este caracter musical 
do Romance alludia Diego de San Pedro, no Car- 
cel de AmoTy referindo-se ás mulheres : «Por quem 
se cantam os lindos Romances,^ No século xvi, o 



1 Rathery, De la Poésie popuUáre en Italie, Rev. des Dèux Mon- 
des, 1862, p. 347- 



444 HISTORIA DA POESIA 



poeta do povo, o cego Balthazar Dias, nos Conse- 
lhos para casar, escrevia: 

Ouvi cantar a la raza 
huni romance de primor, 
o qual diz d'este teor : 
Quem por amores se casa 
Sempre vive com dolor. 

Pela determinação deste caracter musical é que 
se explica a differenga dos versos do Romance, os 
mais antigos em metro quinaria, e em época mais 
próxima a sua substituição pelo verso octonario, O 
verso curto, ou de arte menor, tinha um rythmo mais 
para cantar e dançar, do que o verso de arte maior, 
que se prestava á cadencia da recitação. Werkerlin 
fallando technicamente da musica popular franceza, 
aponta: «Os rythmos quebrados, na Canção popu- 
lar...» e a ausência da nota sensivel, como signaes 
da sua antiguidade. A este verso quinario é que 
o chanceller Lopez de Ayala chamava Versetes de 
antiguo rtmar ; ao octonario, já no século xv, quando 
o Romance tendia para a recitação á la rasa ou acan- 
tochanada, chamavam- lhe Pie de Rontanee. Como ty- 
po de versete ficam transcriptos o romance de Ayras 
Nunes, e o do Figueiral; e as formas oraes subsisten- 
tes, Santa Iriay o Cego, etc. E assim como a mudança 
dos assonantes em um Romance (cansonantes mal do- 
lados) revelam que se confundiram dois typos que 
eram dansados por dois grupos, tafnbem a mudança 
do metro de quinario para octonario mostra que o 
RofnaHce velho se modificou na sua estructura por 
causa do esquecimehto da melodia. A Romanza, 
como forma musical conserva o caracter lyrico do 
Romanz dos Trovadores ; o Lai bretão que era ly- 
rico, tinha uma. forma narrativa conio o Romance 
com que se confundia. Os sèús themas narrativos 



POPULAR PORTUGUEZA 445 

determinavam a tendência para uma rythmopêa de 
recitação, como phenomeno característico. 
. «Entre os raros vestigios que ainda se conservam 
da espontânea inspiração do povo, pode citar-se o 
Romance, anterior a Affonso x, que foi achado no 
Archivo do Mosteiro de Cardena, copiado por Maesr 
tro Berganza nas Aniiguedades de Espana, e por 
Merino, na Escuela paleografica, e começa : 

En San Peidro de Cardenna 
do yace el Cid enterrado 
con la su dona Jimena, 
que buen peso han entranrtbos, 
yacen iambien muitos reyes, 
e muitos ornes fidalgos, 
cuyos fazanosos fechos 
les fizieron afamados. . . 



«Seja este romance do -século xu, segundo julgam 
Berganza e Merino, ou seja, como é mais verosímil, 
do século XIII, é certo que, a julgar pelas formas 
linguisticas, o portuguez e o castelhano eram então 
dois idiomas tão affins, que a cada passo se mes- 
clavam e confundiam.» * 

O que n este documento nos interessa é a forma 
de Romance narrativo em octonarios, o que accusa 
uma edade ainda mais moderna, pelo menos quando 
deixava de ser cantado é já semilitterario. . 

A Canção narrativa, ou de toile, como lhe cha- 
mam os francezes, ou o Romance peninsular, têm a 
sua origem poética e musical no recitativo, conside- 
rado por Herbert Spencer «sob todos os aspectos 
um intermédio da linguagem fallada e do canto». 



* Marquez de Valmar, Cantigas de Affcnso o Sabio^ Inlrod. 
l8. 



446 HISTORIA DA I^OKSIA 



O canto dos antigos poemas da Grécia aproximava-se 
mais do nosso recitativo moderno, mas ainda mais 
simples pelo unisono da voz com o tetrachorde. 
Spencer fazendo evolucionar o recitativo, pela ex- 
pressão mais movimentada da linguagem da paixão 
até ao canto, pelo timbre, pela altura, pelo rythmo, 
pelos intervallos da phrase, faz anteceder a Poesia 
épica á poesia lyrica. O facto social comprova esta 
prioridade, porque o recitativo épico corresponde á 
expressão de emoçCes tradicionaes, em quanto que 
a canção lyrica traduz emoções pessoaes espontâneas 
em meio de uma estabilidade civil, anteriormente 
constituida. 

Deste caracter primitivo ou anterior da Canção 
épica provém esse phenomeno imponente da sua si- 
milaridade morphologica e thematica entre povos 
differentes, hoje proveniente de um mesmo substra- 
tum ethnico. Transcrevemos aba xo as conclusões de 
Nigra resumidas por Gaston Paris, sobre a determi- 
nação dessa unidade. * 



1 «A poesia épica do norte da luUa encontra-se em França, na 
Provença, na Catalunha, em Portugal, nlo só no seu .systema ge- 
ral e sua forma de vers>ficação, mas nas suas próprias peças (the- 
mas ?) que te colligem por vezes absolutamente identica<( atè em 
minúcias, de ordinário com variantes que provêm das diíferenças 
de idioma e de outras cousas sobre as margens do Tejo, do Ebro, 
do Ródano, do Loire, do Sena, do Meuse, do Tessino e do Adige. 

«Esta concordância resulta, de que todos os paites em que ella 
se manifesia, tiveram outr'ora uma população celticisu» (Rigorosa- 
mente, pre-celtica, ligurica.) 

«E' difíicil dizer qual é a proveniência especial, n'esta grande 
regiito ceho 'romana, de cada uma d'estas Canções que ahi se en* 
contram, ou em todos, ou em muitos dos povos que z. habitam. 
Algumas denunciam se pelo seu conteúdo como nascidas no Pie- 
monte, ou na Hespanha ou em França. A Provença (se. a França 
meridional) situada entre os differentes paizes que possuem em 
coii>mum o thesouro dos cantos populares épicos colligidos até 
hoje, deve ter sido quasi sampre a intermediaria ; ha rasoes para 



POPULAR PORTUGUEZA 44.7 



O nome de Romance tem a dupla origem da Rima 
(consoantes trovados ou limados, como lhe chama 
Alonso de Fuentes); e da língua vulgar em que a 
Canção narrativa esti metrificada. Da ideia da Rima 
lê-se,em um texto : cbene loqui rythmaíice in vulgari.» 

Na traducção latina da Philosopkia de Virgilio 
Cordovés, escripta no século x, feita em 1290, dis- 
tingue-se a lingua latina culta e o latim romance, 
prohibindo este por ser entendido pela gente com- 
mum : cllle est vituperandus, qui loquitur latinum circa 
romanâum, maxime coram laicis, ita quod ipsimet in- 
telligunt totum ; et ille est laudandus, qui semper lo- 
quitur latinum, obscure ... et ita debent omnes cle- 
rici loqui latinum suum obscure in quantum possunt, 
et non circa romancium,^ (Ap. Rios, 11, 388; Sar- 
miehto, Mem., n.° 252.) 

E Gil Vicente exprime a differença da linguagem 
culta (latino, ladino ou iaHnado) da popular : 

— Yo, senor, no sé latin. 
«Ni yo oso hablar romance. 

(Obr. II, 264.) 

Em um manuscripto da Bibliotheca de Évora, do 
século xjv, se vê a distinção entre as duas línguas: 
«Aqui se começa hun liuro de naturas polo quall 
obrava o muy nobre fissyco ffrey Gíll da orde dos 
pregadores o qual liuro flfoi tirado de latira em ro- 
maneio pêra ssaberé muytos o que en elle jazia.» * 

crer que ella e a França do norte foram também íócos da pro- 
ducçSo mais activa.» # A ideia de pontos de irradiação tradicio- 
nal torna-se uma explicação maravilhosa, diante do facto scienti- 
íico das persistências ethnicas communs variando apenas na in- 
tensidade da sobrevivência, e nas variedades das adaptações a no- 
vos tempos. 

# yournal des Savants, 1889, p. 531. 

I Ap. Historia da Medicina em Portugal, t. i, p. 24. 



44^ HISTORIA DA POKSf A 



A forma Romance alkidiu sempre aos dialectos 
vulgares ou vernáculos, em contraposição ao latim; 
a referencia a Nicolas de los Rjmtances^ nas doações 
do rei D. Fernando lu, nSo quer exprimir um com- 
positor de cantos populares históricos, mas sim um 
homem que se distinguia por saber redigir os diplo- 
mas ofíficiaes em lingua do vulgo ou romance. Na 
Crónica rimada do Cid, v.** 636, lê se esta refe- 
rencia: tsegun dise en el romance, . .^ 

Aqui deve entender-se nâo uma referencia a can- 
tos populares, (então seria necessário recorrer a uma 
intercalação do século xv, como o entendia Duran) 
mas sim uma abonação da obra poética e tradicio- 
•nal com a auctoridade de uma escriptura em romance 
ou ditado vulgar. 

E' preciso distinguir entre Rimance e Romance, 
<ruja confusão se deu completamente sob o dominio 
da erudição no século xvr. 

A palavra Rimanço, usada por elrei Dom Duarte, 
em 1428, tinha o sentido exclusivo de rima^ como 
elle próprio o confessa, quando diz quaes as cousas 
que mudam nossa discreçom e condiçom, as escreveu 
cem simples rimanço por se melhor poderem reter. ^ 
E' na poesia a rima o meio mais seguro para con- 
serval-a de memoria; á medida que a poesia mo- 
derna se foi separando da musica ou do canto, a 
rima tornou -se uma condição necessária para a sua 
transmissão oral e tradicional. No Cancioneiro geral, 
Garcia de Resende usa a forma de Rymance ,* o 
mesmo faz o chronista João de Barros. 

No século XIII, Romance era o nome genérico de 
toda a^ composição ou escripto em lingua vulgar ; 
Affonso o Sábio, que conhecia os cantos épicos tra- 
dicionaes não os designa com este nome ; nas Leis 
de Partidas, fallando das consolações que deve pro- 
<:urar um homem digno, diz: «et estas son ^/> can- 



POPULAR PORTUGUEZA 44Q 

tares et sones de estru mentos, jugar axedrez ó tablas, 
ó otros jue^os semeiantes destos ; eso mesmo décimos 
de las estorias e de los romances et de los otros 
libros que fablan d aquellas cosas, de que los omes 
resciben alegria et placer.» (Partida ii, tit. vi, p. 21.) 

Explicando estas palavras, vemos, que Estorias si- 
gnifica as tradições em geral ; (usam -a neste sentido 
Fernão Lopes, e a linguagem popular do Archipelago 
da Madeira.) Romances são os escriptos em vulgar, 
o que se liga com a phrase que esclarece mais este 
sentido : <(^et de los otros libros que fablan d'aquellas 
cosas...» Os Romances como canto épico só co- 
meçaram a entrar em livros no século xv, e quando 
elle findava. A imitação dos Romances dei tiempo 
viejoy como lhes chama Juan dei Enzina, fazendo re- 
viver o uso da assonancia ou consonantes m.al doía- 
dos, mostra-nos que realmente essa forma poética 
dos ver setes de antiguo rimar (Ayala) ficara esque- 
cida e sem importância para os que no século xn e 
XIII versificavam em linguagem vulgar ou romance. 
Foi n'este prurido de imitação por escriptores cultos, 
que o velho rudimento épico popular recebeu o nome 
de Romance j porque as linguas vulgares então já ti- 
nham nomes nacionaes. 

Depois da significação de linguagem vulgar, resta 
considerar o Romance como forma narrativa, ou como 
thema épico. Em uma carta de João Sem Terra a 
Roberts Cornhill, vem : « mittatis etiam nobis, statim 
visis litteris istis, Romantium de Historiae Angliae.» 
Era o Roman de Brut, que lhe pedia. * E fallando 
da grande mestra poética de Arnaldo Daniello, dis- 
tingue Dante a forma lyrica e a épica : «Versi 
d'amore, e prose de romanzi...» Commenta-se as- 



1 De la Rue, Essai sur Us Bardes, 

Pões. popul. 29 



43o HI5TOHIA DA POESIA 



sim na Histoire litteraire de la France < < Esta mesma 
expressão de prosas de romances foi usada no mesmo 
sentido até á extinção do provençal como idioma 
littcrario, — e ainda se não perdeu inteiramente, e 
em certas partes do Meio Dia, em que os aldeãos 
chamam prosa ás narrativas que servem para dis- 
trahil-os nos seus serões de inverno.» * Gonzalo Ber- 
zeo nos Loores de Nuestra Seúora^ chama romance 
uma composição poética: cAun merced te pido por 
el tu trobador — Oui esto romance fizo, fue tu en- 
tendedor.» (Est. 232.) O Arcipreste de Hita, em- 
pre^a-o no mesmo sentido, que se vae tornando ex- 
clusivo : «Si queredes, seftores, vir en buen solas — 
Escuchad el romance, socegadvosen pas.» (Ed. Ochôa, 
p. 429.) O Marquez de Santillana escrevia em 1458: 

Veras Lanzarote, que unio façia 
quando con muchos vino á los trances, 
Galaaz con los oiros, de quien los romances 
Façen processo, que aqui no cabria. 

Por não terem discriminado a Canção lyrica da 
Canção narrativa, como fez o Marquez de Santillana 
na phrase da sua Carta, romances e cantares, é que 
Du Ménl dava a esse vocábulo o sentido linguistico, e 
Ticknor o de poesia hespanhola em absoluto. Já 
no século xiii, o romance designava a narrativa épica, 
sem canto, como se lê no Ltbro de Apollonio : «Tor- 
neies a reear un romance bien rimado.» O povo 
também fixou esta forma narrativa, ligada á sua pri- 
mitiva melopêa, que ainda conserva : 

Viola de ouro ao peito, 
Pois ella bem retinia ; 
Pois se ella bem retinia, 
Melhor romance fazia. 

(Cant. Açor., n.° 6.) 



1 Op. cit., t. xxn, p. 214. 



POPULAR POkTUGUEZA 45 1 

O Marquez de Santillana, como cortezão e hu- 
manista, reflectindo esse phenomeno da separação 
entre o Courtois e o Vilaitty que tanto prejudicou 
a evolução das Litteraturas modernas, chama Ro- 
mancistas aos cultores da poesia popular: «Estas 
Sciencias ayan primeramente venido en manos de 
los romancistas ó vulgares.» Ainda na linguagem do 
principio do século xvu empregava-se no sentido 
de illitterato, vulgar, rude, analphabeto ; especial- 
mente para caracterisar os médicos sem curso scien- 
tiíico : « e porque dos mais Cirurgiões do Rey no são 
Romancistas e sem letras ...» * 

O Romance narrativo, ou Chanson de toile tem, 
como a Canção lyrica, um dado numero de themas 
poéticos universaes, que derivam das concepções pri- 
mitivas da entrada da Primavera ; os collecionadores 
críticos da poesia popular têm determinado um certo 
numero de paradigmas de Romances communs á Itá- 
lia, França, Hespanha, Portugal, e ainda com mais , 
vasta ramificação, e concluem reconhecendo esse 
fundo unitário anthropologico. Falta relacionar esses 
themas poéticos com os factos ethnologicos ainda 
persistentes nos Costumes. E' extremamente difficil 
este processo ; por que os phenomenos mythificados 
do começo do Anno estival, estão em grande parte 
incorporados em Festas populares e procissões, em 
mythos religiosos, como o da Paixão, em heroes no- 
vellescos e syncretismos históricos. Exemplificaremos 
apenas estes casos, para se reconhecer com clareza 
o thema poético originário. 

O rapto da DonzcUa, o seu encantamento, a en- 
trega delia em tributo a um tyranno ou monstro, a 



i Mesa da Consc. e Ordens, Consultas de l6ii a 1613, fl. 233 
g ç — «sendo somente cirurgião romancista, . .» (Ib., 1594 a ^603, 

fl. 71-) 



452 HISIOKIA DA POESIA 



sua libertação por um heroe, ou apaixonado, eis o 
mylho naturalista, já definido por Gubematis: «As 
Aguas e as Nmtens pluviosas, que são as Esposas 
monstruosas dos demónios, emquanto o monstro as 
guarda nas trevas, convertem-se ein esposas radiosas 
dos deuses, quando são libertadas. O mesmo se pôde 
dizer da Aurora, retida em captiveiro pelo monstro 
obscuro ou húmido da noite, ou da estação estival 
presa no reino de Inverno ; . . . depois do resgate 
ellas tornam-se Donzellas formosas, de um brilho des- 
lumbrante.» * A figuração deste mytho vê se na pro- 
cissão de Corpus Christi, em que, pelo Regimento 
de 1482 os homens de armas levavam: «San Jorge 
mui bem armado, com um Page e uma Donzella, 
para matar o Drago.» A Donzella é no romance po- 
pular a Infantina, ou Infanta de França, que está 
encantada, e á qual falta um dia para se libertar do 
seu fadário. No sul da França colheu Henri Martin 
(Hist. de Branc, t. vin, 329) uma canção em que a In- 
fantina é seguida por uma Serpente : 

Ay vist una Fantina 
Que estendava lá mount 
Sa cota neblousina. .. 

Una Serpe la seguia 

De couleur d'arc en cel.n . 

Esta mesma personificação mythica temos no ada- 
gio: 

A Neblina 

Da Agua é madrinha, 

£ do Sol visinha. 

A Donzella do nevoeiro é a Dama Branca (Gwenn, 



^ Mythologi zoohgique^ t. n, p. 415. 



POPULAR PORTUGUEZA 453 

branca, eure^ mulher) a rainha Gwennivar ou Gine- 
bra, idealisada nos Poemas arthunanos, já litterarios ; 
porventura resultou esta nova elaboração poética da 
seducção da mulher loira (celta) nos homens da raça 
trigueira, (ligure) como se infere pelos soffrimentos do 
rei Arthur, nos cantos populares. 

A lucta de San Jorge com o Drago para libertar 
a.Donzella é uma adaptação catholica, de um fundo 
mythico da lucta do Deus solar com a Serpente das 
aguas, com que na Edade média se symbolisaram 
as grandes cheias. «Nascida da expressão figurada 
da posição relativa que occupam nos céos as Con- 
stellações de Perseu, da Baleia, da Coroa, da Ser- 
pente, etc, a lenda foi depois referida á victoria do 
Sol da primavera sobre o inverno e da luz sobre as 
trevas.» (Salverte, Les Sciences occultes, ii, 292.) 

No romance do Figueiral, temos o tributo das 
Donzellas, que são resgatadas não já por um Deus 
mas por um namorado ; D. Joaquin Costa interpreta 
esse thema poético, pelo mytho apontado: «Não é 
outra a origem do famoso tributo das Cem Donzel- 
las, tão popular nas lendas asturianas, portuguezas e 
catalãs, e que deu argumento ao famoso romance 
do Figueiral figueiredo, e outros muitos ; aqui des • 
apparece o Dragão, e em seu logar se substituem 
os inimigos da pátria (Sarracenos) ; porém este Dra- 
gão apparece nas lendas das Mouras encantadas, e 
na Serpe da batalha de Hacinas, segundo a versão 
do Poema de Fernan Gonzalez. . . Na Serpe de Ha- 
cinas, em que se oppõe um dos santos da recon- 
quista, que reproduz o typo de S. Jorge . . a lucta 
cosmogónica dos Árias tudo confunde com a lucta 
entre Mouros e Christãos. » * A Donzella raptada mas 



* Poesia popular ^spaHola y Mitologia^ p. 311 e 312. Madrid. 



4^4 HISTOKfA DA POKSIA 



nrio libcrta(iâ apparece no Romance de Santa Iria^ 
no lio Rico Franco: ou violada como a Peregrina. 
NAo somente a Aurora ou as Aguas, eram rapta- 
das ; taiiihcm Core, como observa Decharme, na My^ 
thologie de la Grhe antique, representando a vege- 
tação era arrebatada a Demèter, sua mãe, durante a 
quadra hil)ernal. Mas este mytho da paixão femim'- 
na, ' tomou no Occidente a forma do joven-Deus dos 
mythos et^ypcio, syro-helleniccs e avestico, * identi- 



1881 Nos Romances narrativos é frequente começarem por fixar 
a acçv^o na ent/'ad^ de Maio ; assim em am romance oral de Traz- 
os-Montcs : 

Na entnda de o Maio, 

B na saída da Primavera, 

Principiou el-rei D. Alonso 

A deitar quintos na Terra... 

1 A conviTsílo do mytho em lenda heróica, observa-se no Ca- 
vallr-iro da procissilo na terça feira do Pentecostes, e na de do ■ 
min^o da l r.ndade, fisjurando G.lles, senhor de Chin, falecida em 
1 137, que matara o DragSo da caverna quando ia devorar a Don- 
zella. Esta mesma lenda repete-se no Hainanlt, senio em 1357 
personificada em Dieudonné de Gozon Esta mesma figuração do 
Dregão apparece no dia da Pas^hoa em Rheims, com o nome de 
Bsilla^ e em Douai, na festa das Rogações. Nas representações 
heráldicas, a lucta com o monstro era um título de nobreza, como 
o Dragão de Ramiliies, vencido próximo de Escaut por Jean Sire 
de Ram Uies. (Vide Salverte, Des Sciences occulíes^ t. 11, p. 380.) 

2 Basta agrupar essas quadras soltas do Alemtejo, que perten- 
cem ao cyclo da Paixão : 

Pela rua da Amargura 
Caminha a Virgem chorando 
Pelo seu bemdito filho, 
Qne o estão crucifícando. 

— Oh mulheres, que tendes filhos, 
Que sabeis que cousa é dor, 
Visteis por aqui passar 
O meu filho Redemtor? 



POPULAR PORTUGUEZA 455 

ficando-se na Paixão de Christo. A grande efflores- 
cencia dos Romances ao divino, sempre coníibatidos 
nos índices expurgatorios, assenta sobre este fundo 
tradicional. A desolação da Natureza no período hi- 
bernal dava logar a lamentações poéticas, taes como 
o lalemos y da Grécia ; escreve Dechambre ^ « Cho- 
rava-se a sua morte na pessoa de um joven adole- 
scente, de Linos, que, como Atys, e Adónis, na Ásia, 
tinha morrido de uma morce prematura, em todo o 
brilho da saúde e da belleza. Ás vicissitudes annuaes 
da vegetação, o contraste do aspecto desolado da 
terra durante o inverno, e a alegria de que a pri- 
mavera a reanima, tinham se transformado, na ima- 
ginação em uma verdadeira tragedia da Natureza...» 
Não seguimos aqui esse desenvolvimento hierático ; * 
o Deus-Salvador é tratado na poesia épica como um 
Heroe Libertador, um Soter, que hade vir resgatar 



«Bem vi, senhora, bem vi, 
Antes do gallo cantar, 
Uma cruz levava ás costas> 
Que o fazia ajoelhar : 

— Oh mulheres, que tendes filhos, 
Ajudae-me a chorar 
A morte de Jesus Christo, 
Que é meu filho natural. 

«Chorae olhos, chorae olhos. 
Que o chorar não é desprezo, 
Também a Virgem chorou 
Quando viu seu filho prezo. 

Chorae olhos, chorae olhos. 
Que o chorar é conforto, 
Também a Virgem chorou 
Quando viu seu filho morto. 

* Vide Lendas càristãs^^^, 146 a 183. 



456 HISTOKM DA POESIA 



a sua pátria, como o Rei Arthur, ou em um tardio 
syncretismo histórico, o rei D. Sebastião. As lamen- 
tações sobre a morte do joven, transmitiram-se syn- 
cretisandose com factos históricos accidentaes, que 
as fizeram revivescer. Os chronistas hespanhoes col- 
ligiram a lamentação de Affonso vi, pela morte de 
seu filho e herdeiro, com uma forma versificada es- 
pontânea : 

Ay meu filho ! alegria 
De meu coraçon e lucno 

Dos meus olhos ! 
Solaz de minha velhez! 
Dadme o meu filho, Condes ! 

Dadme o meu filho! 

Também a morte prematura do filho de D. João ii, 
deu logar ao romance popular do Casamento tnallo- 
graaOy e da Mã nova, e á assimilação do romance 
de Mirandmn (Malbourouf.) * O romance de D, Pe- 
dro, que veiu ferido da guerra ou da caça, (Jean Re- 
naud) pertence também a este cyclo naturalista. 

A grande quantidade dos themas poéticos dos Ro- 
mances ou Chansons de toile communs á tradição eu- 
ropêa subsiste como residuos de vários cyclos tra- 
dicionaes, como mediterrâneo, scandinavo, germânico, 
franko, que se syncretisaram, ou se re vivificaram por 
coincidências históricas. 



^ «Um dos processos mais familiares da formação da Canção his- 
tórica popular é o applicar ao facto que feriu a phantasia popu- 
lar a melodia, o metro, o movimento, e até as mesmas palavras 
de uma Canção anteriormente existente, modificando, excluindo ou 
amplinndo seguado a necessidade. Assim a celebre Canção fran- 
ceza de Malbolruh foi tomada da Can(^*ão composta pela morte 
do Duque de Guise, a qual fora baseada provavelmente sobre um 
outro canto mais antigo ; etc » Nigra, Canti popolari dei IHemonte 
p. xxvii — G. Paris, Journal des Savants, 1889, p. 6x2. 



C.) A CANÇÃO DRAMÁTICA 



No lúcido ensaio de Spencer sobre o Origem e 
funcçoes da Musica, vêm: «a Dansa têm sido con- 
siderada sempre em todo o mundo como um signal 
de uma exaltação do espirito. Muitas emoções parti- 
culares têm por signaes acções particulares dos mús- 
culos.» E documenta esta relação das emoções com 
os movimentos, concluindo, que «toda a excitação 
mental se converte em excitação muscular, e que 
annbas guardam entre si uma relação mais ou me- 
nos constante. » A emoção intensa que expressa pela 
palavra chega á intonação melódica do Canto, con- 
tinua-se despojando essa carga sensacional nos mo- 
vimentos musculares, sob o mesmo rythmo ou ca- 
dencia, identificando se a Canção com a Dansa, 
Continua Spencer : «E se nos lembrarmos que a 
Dansa, a Poesia e a Musica nasceram simultâneas, 
e na sua origem faziam parte de um mesmo todo, 
é claro que o movimento tornado compasso, que 
se acha em cada uma das três, suppõe uma acção 
rythmada do corpo inteiro, comprehendendo o appa- 
relho vocal ; e que o rythmo da musica não é senão 
um resultado mais subtil e mais complexo da rela- 



5S HISTORIA DA POESIA 



ç5o entre a excitação mental e a dos músculos. 2» 
E' natural que nas épocas mais primitivas a Dansa 
prevalecesse sobre o Canto; nos textos das poesias 
da Edade media, como observa Tiersot, na Hiòtoi- 
re de la C/tanson en Prance, (p. 344) as Canções 
eram coUií^idas especialmente pelo interesse da Dan- 
sa Derivaram da dansa os nomes dos géneros poéti- 
cos, como a Bailada, o Rondei ; e da Ária para dan- 
sar, como o Rondeau com Refrem, nascia no sécu- 
lo XVII a Suite instrumental y e relativamente a Sona- 
ta g z, Symphonia^ como observa Wagner. A ária 
de Dansa, egualmente desligada das palavras, tam 
bem se cultivou no povo, como notou Vincent d'Indy, 
nas Bourrées do Viverais, apenas trauteadas como 
revelando a independência para que caminhava o 
elemento choregica. Para que a Corte e a Egreja 
considerassem vil e infame a Dansa, • foi preciso 
operar-se uma separação profunda entre o Vilain e 
o Courtois e ClerCy apoderando-se das formas poéticas 
e musicaes, e deixando a Dansa á exaltação das 
festas populares, ao espectáculo das ruas. 

Antes d esta decadência, as Canções de Dansa 
ligaram -se tão fecundamente ás festas naturalistas 
da renovação estival e da expulsão da tristeza hi- 
bernal, que assim importantes cotiio a Canção lyrina 
e a narrativa, ellas também se tornaram o gérmen 
de uma nova forma artistica — o Drama. Sobre este 
ponto escreve Jeanroy : «As Canções de Dansa (Ron- 
dets de Carole) eram eminentemente dramáticas; 
eram o, antes de tudo pelos modos bruscos e vi- 
vos de pôr em scena os personagens, e pela sup- 
pressão quasi completa da narração em proveito do 
dialogo ; ellas eram o mais ainda pela maneira como 



1 ParHda IV, lei 3.«, tit. xvi. 



POPULAR PORTUGUEZA 4'5ç 



se cantavam ; podiam se dizer representadas, e cujo 
caracter litterario não era" senão uma consequência ; 
estas réplicas trocadas entre o coro e o solista 
constituíam verdadeiros dramas ; de divertimentos 
análogos ás nossas festas de Maio, é que proveiu a 
Comedia grega...» E conclue, que nas Canções 
de Dansa estavam os germens da forma dramacica. * 

A celebre composição dramática e musical Jeu 
de la Feuilléc, de Adam de la Hale, liga-se á festa 
de Maio ou da volta da primavera, que a Egreja 
não pôde extinguir, e que achou uma profunda sym- 
pathia entre os clérigos ribaldos e escholares na 
Kdade media. D essas festas nasceram os rudimen- 
tos dramáticos do Theatro moderno, nas Dansas 
figuradas e Mascaradas da Basoche, momeries re- 
presentadas no dia dos três Reis Magos (as Reisa- 
das populares portuguezas,^ e os Reinados do Brasil), 
e no Maio, com as luctas do Verão e do Inverno 
(as Sengadas e Serração da Velha, ainda enthu- 
siasticas em Portugal). Das Dansas falladas, e hie- 
ráticas que do povo passaram para a Egreja, ^ dando 
grande espectáculo ás Procissões, provieram as for- 
mas dramáticas litterarias em que foram elaborados 
esses mesmos themas ethnicos da tradição popular, 
no século xiv e xv. 

Nos poetas portuguezes dos séculos xv a xyii en- 
contram se referencias á Dansa desvairada do Maio, 



* Les origines de la Poesie lyrique tn france^ P* 393- 

2 As quatro dansas dos Levitas^ dos Sacerdotes^ dos Meninos e dos 
Hy per diáconos (1182) executavam>se na Egreja depois da festa 
do Natal; e este costume durou em Inglaterra até 1330. O Con- 
cilio de RuãOj prohibia em 1 145 as Dansas de mascaradas com 
cantorias na egreja; sendo ainda em 1444 esse costume reprova- 
do pela Faculdade de Theologia de Paris. Clemente de Alexandria 
collocara o Natal em Maio 



400 HISTqRIA DA POESIA 



que foi descripta pelo trovador Peire Cardinal. No 
Cancioneiro geral, Duarte da Gama toma essa dansa 
como termo de condemnação : 

Pois se eu em taes descdens 

só quizer ser ordenado, 

eide ser apedrejado, 

sem me valerem as ordtns. 

Molhar m'ei^ em que me pez, 

pelo tempo e sajam^ 

pois é natural razam. 

(Canc. ger., n, p. 51.) 

Sá de Miranda descreve-a em engraçadíssimas 

decimas : 

Dia de Maio choveu, 

A quantos a agua alcançou, 

O miolo revolveu ; 

Houve um só que se salvou, 

Que ao cuberto se accolheu. 

Este que ficara em seu juizo, vendo-se envolvido 
na loucura geral, para defender-se teve de molhar se 
nas aguas de Maio, que estavam encharcadas : 

Um que salta, outro que trota, 
Quantas graças lhe fizeram ! 
Logo todos se entenderam, 
Eil-os vão n*uma chacota, 

D. Francisco Manoel de Mello, também se refere 
á mesma Dansa : 

Molhar nas aguas de Maio 
o grande Sá nos deixou, 
que era prudência tal 
qual fugir do Sol no estio. 

{Obr, motr ^ I47-) 

Aguas de Maio, Chuva de Maio, exprime na lin- 
guagem aphoristica uma hallucinação contagiosa; é 
uma referencia ás dansas desvairadas que se faziam 



POPULAR PORTUGUEZA 46 1 



no culto da Deusa Flora, ou da fecundidade da terra. 
Diz Fauriel : «A sua festa celebrava se no começo 
de Maio, por dansas cujo escândalo passava como 
provérbio. Ajuntavam-se em um largo todas as me- 
retrizes da cidade, e a um signal dado despiam os 
vestidos, e corriam para ganharem o premio da car- 
reira, que era conferido peio magistrado em nome 
do povo romano.» Fauriel descreve este mesmo uso 
em muitas cidades da antiga Provença, principalmente 
na de Aries : «Estes jogos attraíam sempre um im- 
menso concurso de povo : terminavam pela corrida 
das meretrizes nuas, sendo os prémios distribuidos 
por magistrados á custa da communa. O mesmo se pra- 
ticava em Beaucaire. . . A associação de jogos taes 
a uma das festas mais solemnes do Christianismo (a 
de Pentecostes) tem alguma cousa de assombroso. > 
(Fauriel, Hist, de la Poesia provençale, t. i, p, 1 70.) 

A Rainha de Maio, é a Kalenda ou Galinda. A 
Maia representada como Rainha nas festas do povo 
francez chama-se Kalenda^ donde proveiu segundo 
Schuchar.it, o Aguylané, o cantar a Calenda. Escre- 
ve Fr. Pantaleão de Aveiro, (no Itinerário da Terra 
Santay p. 312): «A vigilia do Nascimento do Se- 
nhor, em amanhecendo, os Frades que moram em 
Jerusalém se vão a Belém, e diante de Presépio 
dizem a Prima e se canta solemnemente a Kalen- 
da* ..^ O povo russo nas festas christãs do solsti- 
cio de inverno invoca a deusa Koliada em canções, 
que hoje são entoadas de porta em porta como 
peditório das crianças. De Kalenda parece derivar- 
se o nome feminino Galinda, usado no século xvi. 

Nas festas russas da Primavera, que coincidem com 
as festas christãs do Pentecostes, invoca-se a deusa 
do amor e da belleza, Lada ou Lado, em densas 
em volta de um sabugueiro ornado de fitas, provo- 
cando os celibatários á escolha de noivas ; muitas 



462 HISTORIA DA POESIA 



outras (lansas são também sob a invocação de Lado. 
Os árabes de Hespanha tinham um baile nocturno 
ou serenada chamado Layda ; os cantos em ledo 
referidos na Poética do Cancioneiro da Vaticana, de- 
rivarão o seu nome d esta designação da dansa : 
(Vid.. 158 e 159.) Contrapunha -se á Rainha cio In- 
vernOy assim personificada na Ilha de Man, a Deusa 
do inverno, chamada entre os povos Slavos Marza- 
na, Marana (na Polónia) e Mar ena (na Mora via.) 
Em uma Oração de esconjuro da ilha do Fa- 
yal, vem referida uma entidade malévola : 

Em nome de Deus e da Maniariana^ 
E da bicha com que se poda a vinha. * 

Este nome é uma reminiscência remota da di- 
vindade orgiastica Maranaiha, de que falia S. Paulo 
(Corynth., xvi, 22), e que segundo S. Ephrem, era 
Marthana (de Mariha e Anah) uma personificação 
feminina entre os Judeus pagãos da Palestina. Com- 
prehende-se |)or isto o sentido do nome que tem en- 
tre os Slavos Marzana, e também Marana, que se 
liga ao de Don Juan, da lenda sensual. As festas á 
Assumpção da Virgem, em Dieppe do século xv a 
xvin, chamaram-se Mitouries, que Magnin considera 
como forma popular do Mysterio dramático. Na con- 
cepção dos povos germânicos, Holla é a Velha feia 
que faz cahir a neve ; e entre os Árabes os sete 
dias do Solsticio de inverno são chamados os Dias 
da Velha. Pela relação litúrgica com a Kalenda, 
chama-se na Itália á personificação hibernal da Ve- 
lha a Befana (de Epiphania) e pelo effeito da mal- 
dição catholica o acto da expulsão da Velha (pas- 
sar a serra) converteu se em uma execução atroz, 



1 Archivo dos Açores ^ t. viil, p# 313. 



POPULAR ^PORTUGUEZA 403 



siegar la Vecchia, ou a Serração da Velka, em 
Portugal. Hoje é esta figuração mythica do In ver* 
no uma entidade sem sentido, tendo-se confundido 
a noção de passar a serra com a de ser cortada ao 
meio por uma serra. ,Na sua tragicomedia preciosís- 
sima do Triumpho do Inverno, (1530) Gil Vicente 
conservou o sentido mythico da festa popular; * 
ahi apparece uma Velhay que quer casar com umr 
moço, que lhe impõe esta condição : 

Que si esta sierra passa*' 
Asi lloviendo y nevando 
Luego la quiere tomar. . . 

A VelAa submette-se á prova, e diz aos que a 
interrogam : 

Eu não vou senão a tiro 
Por esta serra nevada . . . 



Eu desejo ser casada 
Com um mancebo solteiro, 

Dixe elle ; - Brazia Caiada, 
Praz-me, pois que vós quereis, 
Com condição que passes 
Aquella serra nevada 
Sem levar nada nos pés, 
E fosse isto logo agora. 
Que tnumpha a invernada. 

Apagada a concepção mythica, a imaginação po- 
pular trabalhou sobre a palavra serra, e da remi- 
niscência da divisão ao meio do anno solar, transi- 
tou para a forma allegorica de partir com a serra 
a Velha, mettida dentro de um cortiço. E' também 



1 Este thema dramático foi tratado em uma poesia de Alcuino, 
Conflictus Veris et Hiems ; e no velho írancez em peça representa- 
da, Debat de VHiver et de CEté, 



464 HISTOKIA DA POESIA 



de Cortiço que deriva o nome da Encortijadãy 
dado as representações domesticas que se improvi- 
sam em Andalusia. Assim das palavras usuaes sur- 
gem novas formas de mythificação, que ajudam a 
comprehender como as faculdades poéticas do espi- 
rito humano nos deram as primeiras representações 
do mundo. 

Liebrecht estudou este mytho da rejuvenescen- 
cia da Primavera, ou o jovem Deus, o Maio mon- 
tado a Cavallo que seguido de um Cortejo ou Caval- 
gada (Mesnie) persegue o Inverno ou a Velha; ao 
som de cornetas e gritos de caça. Tal é o sentido 
das Cavalhadas de S. João e de S. Pedro, e a da 
Corrida do Porco preto, em Braga. A dansa ãgo> 
nistica da festa era propriamente o Bafordo (o Be- 
horus ou Bouhours, da Picardia ; os Bourrés^ das 
Ardennes ; o Bourdis, de Douai ; os Brandons, da 
Ille de France ; El fureu, de Mauberge. Mas, assim 
como a Dansa, como a Parada, resumiam a acção dra- 
mática, também existia a Canção da Velha, sepa- 
rada da representação apenas com a intenção sati- 
rica ; Champfleury colligiu uma Canção do Berry, 
da qual darão uma ideia duas estrophes : 



J'ai demande à la Vieille^ 
— S'elle aimait le bon pain. ? 
«Par ma foi, mon fils, dit elle, 
Pour da ch'ii ne m'en faut point ; 
Mais de la miche au grand beuguet, 
Me faut un mari pour mai. 



E perguntando-se-lhe se ella gostava de vinho, e 
de ter dentes, responde fechando a Canção dialo- 
gada : 

J'ai demande à la Vieille 
— S'elle voulait s*y marier ? 



POPULAR PORTUCUEZA 405 



«Pour ma foi, mon fils, dit-elle, 
Tout de suite, si vous voulez ; 
Voilà rhiver qu'est bien frai, 
Me faut un mari pour mai. * 

Erh Portugal as Cantigas da Velha são em forma 
dithyrambica, e improvisadas sobre este typo : 

Uma velha muito velha. 
Mais velha que o meu chapéo, 
Fallaram-lhe em casamento, 
Levantou as mãos ao céo. 

Vê-se como este thema mythico se desenvolveu na 
ÍDansa agonistica, na Canção dialogada e na repre- 
sentação de Encortijada, que chegou até á forma lit- 
teraria do Auto de Grl Vicente. 

Não era só a mulher que se ridicularisava na Ve- 
lha, figurando a Estação hibernal ; também o homem 
personificou como Velho o inverno na idealisação my- 
thica antiga, e nas Canções satiricas da Edade me- 
dia. O começo do Anno dos romanos em Março era 
festejado com o divertimento de um homem vestido 
de pelles, com o nome de Mamurius Veturius (de 
Vetulus) que era repellido ou expulso de Roma com 
varas brancas. Nos costumes germânicos também é 
un^a vara branca (gungnir) a espada de Odin, que ex- 
pulsa o Inverno. Sobre este mytho, que se obliterou 
e desnaturou com a maldição catholica da queima 
e enforcamento de Judas, a poesia tradicional con- 
serva as Canções satiricas e as Dansas dialogadas, 
sem preoccupação da ideia da Morte. Essas Canções 
são favoritas das mulheres, acompanhando as Caro- 
les ; Champfleury, traz uma Canção do Auvergne, do 
Vieillard cCamour, característica do género : 



1 Chansons populaires des Pramnces de France^ p. 53. 
Pões. popul. 3o 



400 HISTORIA DA K>ESIA 



Le prémier soir de ma nocette, 
Quand vient me retrouver seulette, 
Toussat fort bien, et puis me dit : 

— Jeannette, 
Me voudrais-tu voir dans ton lit 

Petit ? i 

Transcrevemos algumas estrophes de uma outra Can- 
ção do Velho amoroso, para nos esclarecer o thema por- 
tuguez : 

— Mon père m'a donné mary, 

Un faux Vieillard trop racourcy. . . 

— Mon père m'a mariée 
A un Vieillard jaloux, 
Le plus let de cette ville, 
Le plus mal gratieux 

Qui ne sait, qui ne veut. . . 

— Mon père m'a mariée 
Par un jour de moisson, 
II m*a baillé un homme 
Qui n'entend pas raison ; 
Le prémier jour de noces 
II me baisa au front. . * 

No Auto de El rei Seleuco, allude Camões á Canção 
popular do Velho amoroso : 

Ouviste vós cantar já 

Velho maio em minha cama ? 

Os amores tardios de Eh Manoel pela terceira mulher 
D. Leonor, noiva de seu filho; os do Duque de Bragança 
D. Jayme com D. Joanna de Mendonça, ou também o 
projectado casamento do Duque de Coimbra D. Jorge 
de Lencastre, septuagenário, com D. Maria Manuel de 
dezeseis annos de edade, motivaram nas Cantigas do 



1 Chansoní populaires des Prazdncts de France^ p. 6^, 

2 Ib., p. IX. 



POPULAR PORTUGUEZA 467 

povo a revivescência d'este thema; Christovam Fal- 
cão, na Écloga Crisfal, também allude ao caso : 

Esta dama e pastora 
certo que melhor lhe ia, 
quando a cantar se ouvia 
dando fé, que em sua cama 
o Velho não dormiria. 

As Cantigas satiricas do VelAo são vulgarissimas 
em Portugal, tendo um valor especial a Canção, 
elegiaca (Endecha ou Vocero) da morte do Velho : 

MABAVILHAS DO MEU Y£LH0 

(Da Maia) 

Maravilhas do meu Velho 

Que tenho pVa vos contar, 

Que me deu real e meio 

Para me vestir e calçar; 

E d'isto o que sobejasse 

Que lh'o tornasse a mandar, 

Para comprar o toucinho 

Para fazer um jantar. 

Levantei -me muito cedo 

Fui-me pôr a cosinhar, 

Vou dar com o meu Velho morto 

Antre as pevlras do lagar ; 

Atirei-lhe c'um fueiro ^ 

Acabei- o de matar ; 

Fui chamar as choradeiras 

Que o viessem chorar. 

Bem chorado ou mal chorado 

Vá o Velho a enterrar. 

Gatos da Misericórdia 

Que o meu Velho levaes, 

Retirae-m'o das paredes 

Que num salte elle aos quintaes. 

Que elle era amigo de figos, 

E de pêras carvalhaes ; 

Elle era amigo de grelos, 

Desterrou-me os meus nabaes. 



46S HISTORIA DA POESIA 



A cova que lhe fizeres 
De sete varas de medir ; 
Olhae que elle é muito fino, 
A casa num torne a vir. 
A pedra que lhe hotares, 
De peso de cem quintaes, 
Olhae que elle é muito fino 
A casa num torne mais. ^ 

As Cantigas soltas tomam o mesmo thema natu- 
ralista, que veremos continuar-se nas Dansas das 
Scngadas : 

Se eu casasse com um velho, 
Que vida tão sem sabor, 
Por ventura o pobre velho 
Sabe lá o que é amor i 

Se eu casar comtigo, velho, 
Hade ser com condição, 
De eu dormir na cama alta 
E lu no meio do chão. 

Se eu casar comtigo, velho, 
Hade ser com tal contrato, 
De eu dormir na cama mole 
£ tu no solho com o gato. 

Se eu casar comtigo, velho, 
Hade ser com tal partido, 
Ou tu hasde morrer cedo. 
Ou eu te heide enterrar vivo. 

Vê-se pela forma dithyrambica das cantigas, que 
são próprias da improvisação. Assim como VeiuluSy 



* Trad. populares de Portugal, p. 245 ; em outra versão vem 
mais : 

Oh meu mestre sapateiro, 
Manda acá o teu mocinho, 
Que é p'ra tocar a sineta, 
Já morreu o meu velhinho. 



POPULAR PORTUGUEZA 4Ò9 

O velho, deu o typo popular do Veturio romano, 
também o Senectus^ na forma vulgar de Senecho e 
Séftgo, se personificou no velho experimentado e 
sentencioso; o refrem castelhano: «Al buen callar 
llaman Sancho^, mostra-nos o caminho da creação 
de uma entidade, que vamos encontrar no bobo de 
Paris, Segni Jean, que Rabelais põe no Pantagruel 
(iii, 37), sentenciando entre o taverneiro e o que come 
o pão ao cheiro das suas panellas. Os nossos poetas 
cómicos usam muito o adjectivo sengo, no sentido 
de velho experimentado ; assim Prestes, no Auto 
da AveMaria: 

E quem disse que cunhados 
Como diz o berbão antigo : 
Do sengo ferro de arados. 
Os miolos dissipados 
Tenho eu se fallo trigo. 

(Autos, p. 365.^ 

E no Auto anonymo do Caseiro de Alvalade : 

Tu es mais doce que mel, 
Pairas mais que hua framenga, 
Ouvi, mulher, esta senga 
He mais que hum bacharel. 

No Auto do Duque de Florença, encontra-se mais 
outra forma: «Andas assim assengado,^ Nas festas 
do JSntrudo em Lisboa percorrem a cidade muitos 
grupos dansantes mascarados, que se chamam Sen- 
gados. Erradamente cis descrevem os jornaes com o 
nome de Cegadas, pois que entre os dansantes 
nenhum figura de cego; pelo contrario parodiam 
Velhos, e dizem ditos sentenciosos ou sengos, em 
verso.. A época mostra-nos a origem já obliterada 
da Dansa figurada de chacota de Entrudo, da en- 
trada do Anno novo christão, ou a Epiphania (a 



470 HISTORIA DA POESIA 



Befana, a Vellia hibernal da Itália.) As três for- 
mas da Canção popular desenvolveram -se sobre o 
mesmo thema ethnico de um polytheismo sideral, 
em que a entrada do Verão e sabida, do Inverno 
foram allcgorisadas em Bailadas, em Romances e 
em Dansas dialogadas. 

Podemos systematisar a Canção bailada ou pro- 
priamente a Dansa, em três géneros : em Hierática, 
acompanhando o culto, e diante das procissões: a 
Agonisiica, commemorando a lucta dos heroes, seus 
triumphos e funeraes; e a Feriai, ou de^ sociedade, 
na rua, em casa, nas festas domesticas e jogos in- 
fantis. 

Para caracterisar as dansas hieráticas basta per- 
correr os Regimentos da Procissão de Corpus Christi. 
Nos costumes da Galliza é ainda vulgar o baile da 
Penlãy na provincia de Pontevedra, acompanhado 
de canto, indo ao lado do Santíssimo na procissão 
de Corpus, como servindo -lhe de guarda de honra. * 
No Auto dos Cantarinhos, cita António Prestes esta 
dansa usada no século xvi em Portugal : 

Oh ! beijo as mãos ao penleiro 
das zorras do Vimieiro. 

( Autos ^ p. 462.) 

As Constituções episcopaes prohibiram constante- 
mente os bailados e os cantos que interrompiam o 
culto, aos quaes se deram o nome de Viílancicos 
representados. Na' Partida 1, Affonso o Sábio pro* 
hibia (lei 35) «que os clérigos non deben ser face- 
dores de escaramuças ...» E para evitar esta ten- 
dência para a farça «á mala entencion por remedar 



* Revista Gallega^ 1898 (anno ix;) p.150. 



POPULAR PORTUGUEZA 47 1 

los religiosos e para facer otros juegos de escár- 
nios ...» o sábio rei pertnittia a representação dos 
dramas litúrgicos, que foram a fonte dos Autos lif- 
terarios. * 

Apesar do seu intuito cultual, a Dansa hierática 
também tomara a forma agonistica, como vemos 
pelas Mouriscadas, tanto em Portugal como em Hes- 
panha, que acompanham certas procissões, ainda 
hoje. ^ 

Já deixámos descripta a Canção dansada do alto 

Aragão, a Dansa prima, e a Espatdansa das Vas- 

congadas ; no Arcipreste de Hita, lê -se o verso : 

«El arpudo laud, que tiene punto á Ia trisca,T> E 

vamos encontrar no Cancioneiro de Resende (fl. 177, 

col. 3) : 

Tem um geito de bedem 
com que pedir á Mourisca, 
e que seja muito irisca^ 
que s'a tudo n§o arrisca, 
nom pode parecer bem » 

Vê-se que se refere a uma dansa popular, de que 
existe o verbo provençal trescar, e o italiano três- 
care, no castelhano triscar, e no francez trechier ; 



1 Sobre a existência dos Autos populares formados sobre as ce- 
rimonias litúrgicas lê-se na Partida i de Affonso o Sábio (tit. 6, lei 34): 
«Representaciones hi ha que pueden facer, así como de la Naszença 
de nuesCro Setlor Jesítchristo^ en que muestra como el Angel vino á 
los pastores e díxoles como era nascido, et otrosí de su Apareci- 
miento como le vinieron os Três Reyes a adorar, et de la Resui^rtccion 
que muestra que fué crucificado et resurgió ai tercer dia.» E dizen- 
do que devem representar- se nas cidades grandes, em que haja bispo, 
estatue «no lo deven fazer en las aldeãs nin en los logares viles, ni por 
ganar dinero con ellos » E' este costume já corrente no século xiu 
que vamos encontrar prohibido nas Constituições dos Bispados em 
Portugal no século xvi, como formando parte da liturgia. 

* Escrevia Sarmiento por 1745 : «Não ha seis annos, que aqui 
em Madrid eram communs nas procissões umas Dansas mui pa- 



472 HISTORIA DA POkSIA 



era uma dansa de mãos dadas, fazendo uma fila, 
ou bicha, uma larga cadêa não fechada. * Gaston 
Paris deriva este verbo do allemão thriskan^ dansar ; 
mas encontrando-se no gaèlico escossez Dreackk, que 
sif^jnitica figura, e figurar, achaxno-nos com o senti- 
do de uma dansa figurada em vez de uma ao ba- 
ter dos pcs. E esta mesma palavra se liga ao nome 
de Tarasca, e Tarascan (Drach^ e Drtu^ dragão) 
a grande figura da Serpente (cascabel, ou dansa) 
da procissão de Corpus, A Trisca é no século xvi 
denominada a Soiça, Diz Gil Vicente na ExhartacSc 
de Guerra: «E com esta Saiça se sahirám, e fenece 
a susodita tragicomedia. » Como se vê por outra ru- 
brica do poeta : « Todas estas figuras se ordenam em 
caracol ...» 

No século xviii, como notou Bluteau no Vocaòu- 
lario : « Em Alcobaça e em toda a Extremadura, 
Soiça^ era a Encantisada de moços a cavallo, e 
rapazes com cordas breadas accesas.» Era uma ca- 
valhada nocturna, simulando combate, distinguindo-se 
um troço guerreiro do outro contrario por ter sobre 
a armadura saias ou camisões. Também pela com- 
paração dos costumes se consegue determinar estes 
typos primitivos das Dansas, conservadas já em uma 
forma feriai. * 



recidas com as dos Curetes, conforme descreve Pezron. Levavam 
os dançantes em uma mão dois páos fortes do tamanho de um 
dardo, e na outra um como broquelsinho de ferro, á imitação d^aquel- 
le instrumento com que os estucadores dão gesso nas paredes e que 
chamam lhana. Estes dansantes ao mesmo te.mpo dansavam ao som 
de uma ííauta, e batiam o compasso broqueis contra broqueis, 
batendo-os fortemente; e o mesmo páos com pios, e broqueis 
com páos e páos com broqueis do escudo. Hoje já se não usam 
por causa do forte e desabrido ruido que faziam.» (Num. 84.) 

' Gaston Paris, Journal des Savants, 1892, p. 412. 

^ «Nas montanhas dos Altos-Âlpes ainda existe um singular uso 
chamado bacchuber. Na ponte de Cervieres, logar de Briançon, 



POPULAR PORTUGUEZA 473 



Sob O ponto de vista da Canção popular, outras 
transformações se operam dignas de estudo: tal é 
a conversão de um Romance ou Canção narrativa, 
como a Não Caiherineta, que no Brasil tomou a 
forma rudimentar de um Auto, com evoluções sce- 
nicas, dansa e canto nos Cheganços do Anno Bom. 
Outras vezes a Canção narrativa, como La meda de 
Isabel ( = Rico Franco), ou El Membru ( = Bella 
Infanta) convertem-se em Jogos domésticos e infan- 
tis. Também na poesia franceza, como notou Vin- 
cent dlndy, os nomes de Canções ly ricas popula- 
res, com Laiy Virelay e Triolet, designaram no sé- 
culo XVIII exclusivamente Dansas da moda. No fim 
a Dansa cahiu em um certo descrédito, cansando-se 
os moralistas catholicos a deblaterarem contra a 2!a' 
rabanda, que Sarmiento define : «dansa, canção ou 
tocata, e poesia accommodada ao canto e dansa,» 
(Num. 512). Os que faziam as dansas ou Joci, eram os 
Jocistae, xaques ou JocoristaSy e dahi os seus can- 
tos com caracter dramático, denominados Chácaras, ^ 



no 16 de agosto de cada anno, os moços, em numero de nove, 
onze ou treze, executam, emquanto as mulheres cantam, uma es- 
pécie de dansa guerreira muito singular ; estão armados de espa- 
das curtas, largas e sem ponta, e formam uma roda tendo a es- 
pada na mão direita, e a ponta do seu visinho na mão esquerda ; 
elles descrevem dansando doze figuras . diíferentes, formando com 
suas espadas quadrados, losangos, triângulos, etc. com uma lenti- 
dão e uma gravidade particulares. Os usos, os costumes, as lendas, 
as canções, melhor estudadas prestarão grandes serviçoo mais 
tarde aos historiadores.» Champfleury, Chansons populaires des 
provifucs de Brance^ p. XXI. E' o mesmo que a Dansa Pritna 
das Astúrias, e os PauUstos de Traz-os-Montes. 

1 No castelhano Jâcara^ e no valenciano jaquera. O Dicc. da 
Academia espanola define : «Romance alegre em que se narravam 
os feitos dos, jaques.» Yanguas, (no Glosario, p. 427) deriva-a 
do árabe xa*ar, versos, rimas. Bastava o carasteristico dramático 
para se não acceitar a derivação árabe da Xácara, mas sim das 
palavras latinas Jocuz^ Jocularis, 



474 HISTORIA DA POESIA 



As paradas com algazarra ou apupos eram chama- 
das Surras (Zaharrones^ em Hespanha) com rela- 
ções itleol(3p;icas com a Sarabanda^ (do hebreu Cara, 
segundo Covarrubias.) Um nome genérico de dansa 
ou regosijo popular é a 2Uífnbra (de que tomou a 
derivação azambrado, desengraçado) a qual, con- 
junctaniente com as LeilaSy foi prohibida por Phi- 
lippe II, em 1 566. Muitas das dansas populares, da 
Mourisca, Fandango e Cachucha, datam da longa 
época constitutiva da sociedade mosarabe, * e d'ahi 
a execração catholica que pesou sobre estes diverti- 
mentos, que cooperavam na creação da Poesia e da 
Arte moderna. 

O P.* Jo5o de Mariana, tratando no seu livro 
De SpectaculiSy acerca da Zarabanda^ falia do seu 
emprego hierático : «Sabemos com certeza ter- se 
dansado este baile em uma das mais illustres cida- 
des de Hespanha, na mesma procissão e festa do 
Santissimo Sacramento do Corpo de CkristOy nosso 
Senhor, cuidando honral-o com isto. Ainda é pou- 
co : sabemos, que na mesma cidade, em diversos 
mosteiros de monges e na mesma festividade, se 



* «A musica instrumental de Marrocos compõe-se, ainda hoje, 
como no tempo em que os Árabes occuparam Córdova ou Gra- 
nada, da estreita inandolina de som agudo, do violão de dnas 
cordas, do tambjr e da flauta ; é principalmente durante as pas- 
choas e outras festas do islamismo, que a mocidade com uma voz 
muitas vezes excellente, extentissima e muito expressiva, canta as 
intermináveis canções de guerra ou de amor. Nada mais melan- 
cholico e mais languido, em geral, do que estas canções marro- 
quinas, cujo rythmo é também absolutamente o mesmo que o das 
jacaras ou dos romances da Andalusia. E' durante as pasehoas 
também, que os homens tomam parte nas dansas publicas, que 
pouco diflferem das cachucha e do fandango, fazendo contor- 
sões. . com que desnaturam completamente estes ardentes bai- 
les populares de Valência, de Sevilha o a de Jaen.» X. Dnríeu, 
Rev. des Deux Mondes, 1843. t. in, p. 682. 



1 ,- 



POPULAR PORTUGUEZA^ 475 

fez não só este canto e baile, senão os meneios 
tão torpes, que foi preciso que tapassem os olhos 
as pessoas honestas que alli estavam ...» (Cap. xii.) 
O que é valioso aqui é a dansa desenvolta adap- 
tar se ao acto religioso, que é de si uma adaptação 
da primitiva festa naturalista. Covarrubias no seu 
Tesoro de la lengua castellanãy descrevendo a Za- 
rabanda como dansa ao redor, aponta um facto 
por onde se observa como se ia tornando dramáti- 
ca: «o que o bâila... vae rodeando o theatro, ou 
logar onde dansa, pondo quasi em obrigação aos 
que a vêem o imitarem os seus movimentos, e 
dansar também, como se finge no Entremez do 
Alcaide de Navalpuercp. » A mudança do gosto 
popular da dansa da Zarabanda para a Chacone, 
foi motivada pela mudança da letra da canção, 
substituindo- se -lhe as Seguidillas, como confessa Ma- 
teo Aleman no Guzman de Alfarache, e o confirma 
Covarrubias. ^ 

Dante no De vulgari Eloquio, fazendo um es- 
boço da poética moderna, considera a Canção, 
(Cansione) como o género poético mais elevado, tal 
como os Trovadores provençaes, que tinham a 
Canso como o typo da expressão suprema do 
amor e da galanteria cavalheiresca. Dante conside- 
rava as três formas da Canção, determinadas pelos 
três themas, o Amor, o Valor cavalheiresco, a 
Virtude ou o sentimento da honra; era preciso 
um conhecimento profundo da arte para dar ex- 
pressão a estes sentimentos, e tratar dignamente as 
formas bellas da Canção. Assim, vemos, como da 



1 D. Francisco Rodrigiiez Marin, no seu livro El Loaysa do 
El celoso extremeHoy p. 254 e seguintes traz importantes noticias 
sobre as dansas hespanholas, principalmente andaluzas 



47^ HISTORIA DA POESIA 



poesia do povo, os Trovadores tiraram os esboços 
lyrícos a que o génio italiano deu as formas defini- 
tivas da poesia moderna. 

A Cangão narrativa teve a sua plena evolução 
épica iitteraria nas Canções de Gesta francezas; es- 
creve Léon (iautier : t A Hespanha não foi como a 
França arrastada por este movimento irresistivel que 
nos levou da Cantilena para a Epopêa. A Hespanha, 
á excepção do Voema do Cid^ nãò transpoz este passo 
decisivo que nos fez transformar as nossas Ccaítile- 
nas em Canções de Gesta; ella estacionou nas Canti- 
lenas, que são conhecidas pelo nome de Romances,^ * 
Por este desenvolvimento litterario dos rudimentos 
populares é que a influencia franceza determinou nova 
corrente de gosto nas Cortes peninsulares. 

Ficam até aqui explanados todos os elementos 
tradicionaes e sociaes de uma época orgânica da 
Poesia popular portugueza : do século vm a xn; dessa 
grande classe Mosarabe que se orgahisou no Povo 
livre dos Estados peninsulares, destacava-se Portugal 
como nação, apoiando-se na revivescência do Lusisnto, 
Embora exiguo em seu território, foi vasta a elabo- 
ração da Lingua oral e da Versificação com que 
se manifestou o Povo portuguez, entrando logo no 
começo da nacionalidade na cooperação Iitteraria e 
artística da Edade media. Pelo exame das tradições 
poéticas, populares e oraes da Galliza, das Astúrias, 
do alto Aragão e da Andalusia, reconstitue-se a ex- 
tensão d'esse elemento lusitano desmembrado pelas 
conflagrações históricas e vicissitudes politicas, e ao 
mesmo tempo chega-se á comprehensão do separa- 
tismo instinctivo e secular de Portugal e da Hes- 
panha ibérica. As tradições populares authenticam o 
nosso individualismo ethnico. Conta-se que Alfredo 



* Epopées françaiseSf t. i, p. loo. 



POPULAR PORTUGTJEZA 477 



Magno, quando criança enlevava-se na vista de um 
livro dourado contendo velhas Canções anglo-saxo- 
nias ; esses Cantos que lhe embalaram a infância 
revelaram-lhe a alma popular, e por essa sympa- 
thia o. poder esconder-se entre as tribus durante a 
sua vida de perseguido, e ajuntal-as para resistir ao 
jugo dinamarquez até reconquistar o seu throno. E' 
a . synthese dos Cantos do povo ; por elles se revela 
o génio lusitano quasi apagado na historia, mas ainda 
recogniscivel em grupos ethnicos hoje ibefisados^ a 
Galliza, as Astúrias, e a Andalusia, que pelo seu 
lado ainda denunciam a primitiva unidade desse 
grande povo que occupou a vasta orla occidental 
da península, contrapondo á Hespanha ibérica a Hes- 
panha lusitana. Os Cantos populares portuguezes 
constituem o livro dourado, em que as gerações 
novas adquirirão a consciência da autonomia impe- 
recível da nacionalidade, tantas vezes sacrificada pelos 
seus governantes. 



FIM DO VOLUME I. 



índice 



Pag. 

Prefação v a xvi 

I 

Formação e desenvolvimento da Poesia popular 

occidental 13 64 

Épocas históricas da Poesia popular portugueza : 

— primeira (século viii a xii) 59 

— segunda (século xii a xv) 60 

— terceira (século xv a xviii) '. 71 

— quarta (século xix) 63 

II 

As Nacionalidades peninsulares na Tradição 

POÉTICA 65 a 3o8 

§ i.° Formação da Sociedade mosarabe^ ou a Clas- 
se popular nos Estados peninsulares ... 67 a 128 

§ 2.° A região Galecio-Asíuro-Poriuguei^a 129 a 3o8 

A Canção popular da Galliza 129 a 212 

A Canção popular das Astúrias 2i3a 246 

A Canção popular portugueza 246 a 274 

§ 3.° A região Ejictremenha- Betico- Algarvia. . . . 274 a 3o8 

A Canção popular da Extremadura 274 a 293 

A Canção popular da Andalusia 293 a 3oo 

A Canção popular do Algarve 3oo a 3o8 



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