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Full text of "Historia da poesia popular portugueza .."

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J^arbarU CoUegc iítirarg 

BOOGHT WITH INCOME 
FROM THB BSqyBST OF 

HENRY LILLIE PIERCE 

OF BOSTON 

Under a vote of the Presldent and Fellows, 
October 14, 189S 




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BIBLtOTHECA DAS TRADIÇÕES PORTUGUEZAS 

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BIBLIOTHEGA DAS TRADIÇÕES PORTUGUEZAS 

(eDIQIO integral £ DBFIiaTIVA EH 10 VOLUMES ) 

I — Historia da Poesia popular portuguesa (3.* 

edição) 2 vol. 

!.• As Origens. De xvi-480 p. Lisboa, 1902. 
2.« Cyclos épicos. De vi-Syop. Lisboa, igoS. 

EM VIA DE publicação: 

II — Cancioneiro popular português^ {^^ edição) . 2 » 

III-— Romanceiro geral português (2.* edição) .. . 2 » 

IV — Theatro popular português : Reisadas — Lapi- 

nhas — Mouriscadas — Jogos figurados ... i » 

V — Adagiaria português^ i » 

VI — Contos tradicionaes do Povo português (2.* 

edição) 2 » 



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THEOPHILO BRAGA 



HISTORIA 

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DA 



POESIA POPULAR 



PORTUGUEZA 

CYCLCS ÉPICOS \ 



S^-^ EDIÇÃO REESCRITA 



LISBOA 

MANUEL GOMES, EDITOR 

Livreiro de Suas Majestades e Alte^^as 

6i — Rua Gabrett (Chiado) — ói 

1905 



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Pelos recursos da Anthropologia e da Ethno 
graphia applicadas ao estudo comparativo da 
Poesia popular portuguêza^ chegámos á deter- 
minação da unidade tradicional do Occidente da 
Europa^ através das formas persistentes dos 
cotúmuns elementos poéticos nas nacionalidades 
meridionaes. E' essa Tradição reconstituida que 
ainda hoje revela a primitiva unidade lusitana de 
Portugal, Galliza, Astúrias e Andalusia, ou pro- 
priamente a Hespanha occidental, estados ou 
províncias politicamente separadas pela incorpo- 
ração ibérica. 

Sob o aspecto nacional^ é estudada n'este livro 
a Poesia popular através da marcha histórica de 
Portugal; essa poesia reflecte nosCyclos épicos 
todas as crises sociaes : 

— A influencia senhorial franceza do Conde 
D. Henrique ao Rei D. Diniz. (Século xií a xiv.) 

— O apparecimento do Terceiro Estado, de- 



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pois da Revolução de Lisboa, e o influxo das 
grandes Navegações. (Século xv.) 

— A cortezania castelhana ligada á desnacio- 
nalisação sob D. Manoel, que visa á unificação 
ibérica ; e o obscurantismo clerical, que actua na 
perda da nacionalidade. (Século xvi.) 

— O desprezo pela vida do povo, reflectindo-se 
o esquecimento da Tradição na decadência da 
Litteratura e da liberdade politica. (Século xvii 
e XVIII.) 

— Por ultimo a revivescência do génio nacio- 
nal, coincidindo com a implantação do Regimen 
representativo e a sympathia pela Tradição e 
pelos Cantos populares na época do Romantismo. 
(Século XIX.) 

Diante da documentação d'estes quadros, con- 
cluir-se-ha que poucos povos terão uma Poesia 
popular tradicional mais completa e sincera, mais 
relacionada com o percurso histórico da nacio- 
nalidade. 



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HISTORIA 



DA 



POESIA POPULAR PORTUGUEZA 



CYCLOS ÉPICOS 



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A CORTE E A EGREJA, SUA INFLUENCIA 
NA POESIA POPULAR (Seculo XII a XVJ 



A formação da Nacionalidade portugueza toi a 
resultante da aspiração tradicional de unna raça, que 
na Terra Portucalense pôde manter o seu caracter 
de independência através do cataclysmo histórico dos 
Povos da Hespanha sob os Romanos, Germanos e 
Árabes, aproveitando na época mais activa da re- 
conquista christã as tendências separatistas dos outros 
Estados para proclamar a sua autonomia. O que se 
tem considerado como empreza iniciada por Hen- 
rique de Borgonha engrandecendo o Condado por- 
tucalense, ou pela ambição da sua viuva D. Thereza 
apoiando-se na fidalguia gallega, ou finalmente pela 
audácia guerreira de seu filho D. Afíonso Henriques, 
já tinha fundas raizes em um território que exercia 
uma acção mesologica em uma raça que possuia além 
de um sentimento de unificação, instituições locaes 
com magistrados próprios a que se deu o nome de 
Concelhos. E' esta persistência anthropologica e 
ethnica que tanto liga a Nacionalidade no seu mo- 
mento histórico com a tradição poética, tornando 
simultâneo o estudo de ambas; é a tradição a luz 



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HISTORIA DA POESIA 



reveladora de uma apagada origem confundida en- 
tre as populações iberic^?. No seu livro das Nacio- 
nalidades, (pag. 2^.4) Pi y Margall, fallando das dif- 
ferenças profundas que separam uns dos outros os 
Povos peninsulares, dá-nos como explicação: «Pro- 
cedem uns dos Iberos, e outros dos Celtas, são 
mesclas das duas raças.» Elle, que melhor do que 
ninguém comprehendeu as consequências politicas dos 
separatismos, nem suspeitava da differença anthro- 
pologica do Lusitano, que não é Ibero, nem Celta, 
mas um ramo ligurico. Desde que uma tal noção 
faltava, como explicar as tendências federativas de 
uns povos, os costumes guerreiros e irrequietos de 
outros, os seus diversos deuses ? Recorria se ora á 
influencia dos Phenicios, ora á dos Gregos, e até ao 
exclusivismo dos Romanos que tornavam o Latkn a 
lingua das Hespanhas, e lhes davam as formas admi- 
nistrativas dos Municipos, e do direito territorial da 
Emphyteuse ! Um mundo de laboriosa e pedantesca 
erudição morta. 

Pela tradição acha-se o impulso vivo, que destaca 
da unidade imperial romana, germânica e árabe este 
fragmento da Hespanha lusitana, que não pôde ser 
incorporado na Hespanha ibérica, aquella radical- 
mente municipalista, esta orgulhosamente unitarista, 
quer pela religião no Catholocismo intolerante, quer 
pela Monarchia absoluta. Estes dois factores, a Egreja 
e a Realeza, actuaram profundamente na constitui- 
ção dos Estados peninsulares, insurgindo as popula- 
ções mosarabes sedentárias contra o domínio dos 
Árabes, e subordinando no esforço da reconquista 
christã os Barões feudaes ao Poder Real como con- 
centração dictatorial da Soberania. Quando estes dois 
poderes asseguraram nos Estados modernos a sua 
mutua independência, Egreja e Corte foram dois 
centros que impuzeram ao meio social uma forma 



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POPULAR PORTUGUEZA 



de cultura, dando-se assim uma separação desdenhosa 
da classe indistincta do povo, e estabelecendo-se 
esse desprezo superior do Cortezãa para com o Villão, 
e do Clérigo para com o Leigo, * E' assim, que ele- 
vando-se no século xn as populações mosarabes á 
importância de organismos nacionaes, opera se um 
afastamento da poesia popular, abandonada á incon- 
sciente transmissão oral, á instabilidade da remini- 
scência pessoal, e por fim ao esquecimento dos ho 
mens cultos. ^ E' verdadeiramente uma antinomia ; e 
para conhecer se essa immensa Poesia popular, pro- 
cede se por um meio indirecto, vendo o seu reflexo 
nas elaborações individuaes e nas formas desenvol- 
vidas nos dois meios, a Corte e a Egreja. Raros ves- 



* Referindo se a esta crise social da Cortezia, escreve Diez : 
«Com o tempo, um facto desapercebido veiu fundar um período 
novo na historia da Edade média Esta rudeza inculta que caracte- 
risa a nobreza até ao século xi, humanisa-se, adoça-se pouco a pouco 
para dar loijar a uma maneira de viver mais apurada, menos mate- 
rial, estabelecida agora na morada dos principes e dos grandes. A 
historia o afíir.na : este refinamento conhecido pelo líome de espirito 
cavalheiresco, propagado pela própria instituição da Cavalleria, por 
meado do século xi, altingia o pleno desenvolvimento sob a influen- 
cia das Cruzadas » La Poesie des Traubadours^ p. 1 2 (Trad. Roisin). 

2 Sobre este ponto escreve M. Gaston Paris, na obra La Poesie 
du Mayon Age: «Desde a segunda metade do século xn, uma di- 
visão análoga Á dos letrados e dos illetrados tende a formar-se n'esta 
mesma parte da nação que ignora o latim e que tudo deve á sua 
própria cultura; é o momento em que o periodo de fermentação e 
de reconstituição social esti quasi terminado : a hierarchia feudal 
está fundada ; as Conraiunas estão estabelecidas ; as relações do Es- 
tado e da Egreja estão reguladas ; os thronos estão occupados por 
dynastias que parecem ter um longo futuro. Passaram as grandes 
convulsões : durante dois séculos vae-se expandir em um repouso 
relativo tudo o que constitue a Edade média. Então, por um efFeito 
natural e ordinário, n*esta sociedade accalmada formase e destaca-se 
por assim dizer nas alturas, uma sociedade mais restricta, que pro- 
Xíura distinguir-se do resto pela elegância da sua vida, pelo requinte 



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HISTORIA DA POESIA 



tigios da poesia popular mereceram interesse aos 
escriptores, que redigiram Chronicas nas linguas mo- 
dernas peninsulares ; e comtudo os povos não eram 
mudos, por que no século xv houve um como re- 
surgimento dos Romanceiros. 

A formação da Nacionalidade portugueza obede- 
cendo aos planos de^um príncipe francez que imi- 
tava o typo da realeza da França, e á disciplina ca- 
tholica imposta por Bispos francezes, recebeu um 
impulso estrangeiro que a collocou sob o prestigio 
das tradições poéticas gallo-frankas, lyricas.e épicas, 
que propagadas pelos jograes obliteravam em certa 
maneira as primitivas tradições mosarabes. Mas, o 
facto nacional dando vigor e existência consciente 
á população lusa, apesar do influxo francez do cor- 
tezão è do clérigo, suscitava uma certa vitalidade 
das tradições poéticas portuguezas communs ao tracto 



dos seus costumes, polidez convencional de maneiras. Esta elite 
agrupa-se naturalmente na Corte dos reis e dos príncipes; também 
o nome de C&rUzia é que ella emprega para designar o seu ideal. 
Desde logo os homens dividem-se em duas classes, os Corttzãos 
e os Viilãos^ os que fazem parte da sociedade elegante, conhecem 
os seus usos, e participara das suas ideias, e os que d'ella são 
excluidos e lhe ignoram as delicadezas ; e como está na natureza 
do homem civilisado o estabelecer sob formalidades as vaidades e 
distineções sociaes, os primeiros mostraram bastante desprezo pelos 
segundos. — A este mundo novo era preciso uma poesia, e poesia 
que se distinguisse da do povo, que fosse cortezã como a socie- 
dade a que se destinava, que se inspirasse dos seus sentimentos 
particulares, dos seus preconceitos, dos seus gostos, qae a repro- 
duzisse na linguagem, que pintasse esse viver, que lhe exprimisse 
o ideal.» (p. 22 a 25.) E' esta divisão social que vae fazer com 
que a Poesia popular seja desprezada pelos palacianos (palatinos) 
e pelos eruditos, ficando abandonada á espontaneidade vulgar e 
oral ; ao passo que na Corte a galanteria das mulheres vae estimu- 
lar o exclusivismo das Canções trobadorescas e-dos poemas amo- 
rosos da Tavola Redonda. 



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POPULAR PORTUGUEZA 



geographicoda desmembrada Lusitânia pre-strabonica. 
Observando o modo como se formou a Nacionalidade 
portugueza, assiste-se á revivescência local da tradi- 
ção lusa. A Hespanha politica moderna começa na 
reacção contra o dominio dos Árabes pelos povos 
Asturos, Cantabros e Vascos ; noas longe de se 
unificarem, definem-se em dois Reinos: o àdiS Astúrias, 
que se alarga abragendo a Galliza, Portugal e Cas- 
tella ; e o da Navarra, que se alarga comprehen- 
dendo Aragão. Na corrente histórica da desmem- 
bração, a Gastella realisa a sua indepedencia autó- 
noma, e a Galliza não a conseguindo, realisou-a Por- 
tugal por forma que só em 1580 foi incorporado na 
unidade ibérica. O phenomeno do reconhecimento de 
Foros ou autonomias locaes no século xi por Afíbnso 
V e por Sancho de Navarra, mostram-nos como 
também em Portugal os Concelhos, muito antes de 
Affonso Henriques aspiravam ao reconhecimento da 
sua independência. E emquanto a Navarra, Castella, 
Leão, Aragão, Sobarbe e Ribagorza eram unificados 
por Sancho Magno, e depois desmembrados na par- 
tilha de seus filhos, (103 5j; emquanto Affonso vii 
jungia Castella, Leão, Aragão, Navarra e Catalunha, 
e eram outra vez divididos pelos filhos ; n'este vae- 
vem Portugal aproveitava o afrouxamento do im- 
perialismo ibérico, e organisava-se sobre a tendên- 
cia separatista dos Concelhos, que se fortificaram na 
forma federativa das Behetrias, ou Cidades colliga- 
das. Antes dos planos ambiciosos dos individuos, 
a acção do território e da raça impellia para uma 
obra que sobrevive ás ambições ainda as mais cri- 
minosas que a têm explorado. 

Pi y Margall, no seu bello livro Las Nacionali- 
dades, ao discutir as fronteiras naturaes constitutivas 
dos Estados, aponta a condição que se observa na 
persisfencia das duas raças Lusa e Ibérica: «Sendo 



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HISTORIA DA POESiA 



OS Pireneos a fronteira natural da Península, porque 
se não divide em duas Nações, uma ao Oriente, outra 
ao Occidente, pela cordilheira ibérica?» E conside- 
rando como fronteiras naturaes os rios, aponta ena 
Hespanha Occidental as bacias do Minho, do Douro, 
do Tejo, do Guadiana, do Guadalquivir, bacias na- 
turalmente contidas entre as mesmas cordilheiras que 
cruzam de leste a oeste da peninsula. Dado este 
principio, Portugal é indubitavelmente, uma das na- 
ções de formação mais lógica. O Minho no seu curso 
de leste a oeste, o Douro e o Guadiana na sua marcha 
de norte a sul e o Oceano Atlântico, são em parte 
e podiam no ser do todo suas fronteiras naturaes.» 
(Op. cit., p. i6.) Já a obra de Pi Margall corria mundo, 
traduzida em varias linguas, e ainda Oliveira Mar- 
tins afifirmava que Portugal não tinha fronteiras na- 
turaes que justificassem a sua existência autónoma, 
attribuindo-a exclusivamente á preoccupação dos po- 
líticos I 

Herculano, na sua Historia de Portugal, desliga 
este paiz de toda a dependência de um território 
definido e de uma raça característica, dizendo que 
os eruditos da Renascença é que inventaram uma 
população lusitana, para lhe nobilitarem a sua ori- 
gem : «Portugal porém, nascido recentemente; incluído 
d'antes no todo das varias sociedades peninsulares; 
fundado em fragmentos do solo das antigas divi- 
sões territoriaes da Hespanha céltica, púnica e ro- 
mana ; tronco, enfim partido da arvore leoneza, não 
iuhava um só parentesco legitimo e exclusivo nos 
tempos anteriores aos da conquista goda, ou rigorosa- 
mente aos da restauração christã.» (Int., p. 3). Que- 
rendo provar que é inútil para a Historia de Por- 
tugal e até alheio a ella, o investigar a relação de 
continuidade com os Lusitanos, começa por desi- 
gnal-os raça de Celtas, e concluindo por mostrar 



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POPULAR PORTUGUEZA 



que não coincidem os seus territórios com os de 
Portugal, nem subsiste a sua língua, nem tampouco 
resistiram através de trez mil annos ás invasões e 
occupação de outras raças, sendo consequentemente 
extranhos á nossa nacionalidade. Ignorando a exten- 
são da Lusitânia pre-strabonica, tira da variação 
dos limites argumento para o apagamento das tribus 
lusitanas no tracto do território em que se constituiu 
Portugal. Quando os Celtas se espalharam na Hes- 
panha, já ella estava occupada em grande parte pela 
raça ligurica, ou propriamente os Lusitanos ou Lu- 
sonios. Com este retoque ficaria verdadeiro o texto 
de Herculano : c Assim, no tempo da occupação céltica 
e do dominio romano, o território da Lusitânia, 
abrangendo de leste a oeste uma extensão mais que 
duplicada da largura actual do nosso paiz, se di- 
latava a principio talvez até á extremidade septem- 
trional da Galliza, emquanto ficava fora delia me- 
tade do Alemtejo e o Algarve ; e depois de abran- 
ger estas províncias, menos a porção do nosso solo 
além do Guadiana, o qual ficou sempre pertencendo 
á Betica, perdia tudo o que jáz além do Douro até 
ao cabo de Finisterra, isto é, metade da sua super- 
fície, suppondo com Strabão que lhe pertenciam os 
territórios além deste rio.» E tomando as divisões 
da Lusitânia feita pelos Romanos, como uma desnatu- 
ração anthropologica, eonclue : ^^E' pois evidente que 
o Portugal moderno está muito longe de representar 
geogr aphicamen te á Lusitânia antiga». (Ib., pag. ló.)* 
E da fusão de Celtas com Iberos, eonclue também 
contra a realidade da população Lusitana ou Lu- 
sonia; a resistência de Viriatho contra a conquista 
romana merece-lhe apenas duas linhas, (p. 20) ce- 
lebrando logo a romanisação da Península. A resi- 
stência de Sertório na sua revolta contra Roma fir- 
tna-se no elemento lusitano, pela sua tenacidade ainda 



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IO HISTORIA DA POESIA 

depois de vencido : «A Lusitânia, a Celtiberia e parte 
da Betica, foram as provincias que Sertório princi- 
palmente disputou a Roma. Chamado de Africa pelos 
lusitanos, . ,^ (Ib., p. 22). Herculano diante deste 
facto nem assim viu a vitalidade inquebrantável d esse 
elemento, a que erradamente chama céltico, consi- 
derando os Lusitanos da Serra da Estrella como os 
que «conservavam menos apagados os vestigios do 
celticismo> acabando exterminados por César. (p. 23.) 
As invasões dos germanos e árabes para elle vie- 
ram continuar ainda o exterminio, e conclue d'essas 
perturbações «quanto seja difficultoso de conceber 
um relação de nacionalidade commum entre nós 
(Portuguezes) e o Lusitanos, ou qualquer tribu ou 
raça das que primitivamente habitaram naPeninsuIa.» 
'p. 30). E percorrendo os vestigios archeologicos, 
diz: «resulta para nós a persuação de que ao aca- 
bar o império dos Romanos, a nacionalidade dos an- 
teriores habitantes da He>panha não sendo já, antes 
da entrada doestes, simples e exclusiva, mas uma 
confusa mistura de diversos povos, acabou brevemente 
por delir-se e incorporar-se na forte nacionalidade 
romana.» (p. 31). E inconscientemente determina a 
extensão da antiga Lusitânia, para mostrar que Por- 
tugal nada tem com isso : «Que é impossível ir en- 
contrar com ellas a nossa historia, ou delias descer 
logicamente a esta. Tudo falta : a conveniência de 
limites territoriaes, a identidade da raça, a filiação 
da lingua para estabelecermos uma transição natural 
entre esses povos bárbaros e nós. Se o haverem es- 
tanceado em uma parte do nosso território nos desse 
o bem pouco precioso direito de os considerar como 
antepassados, esse direito pertenceria egualmente á 
Galliza, á Extremadura hespanhola e até d Anda- 
luziam, (p. 46.) E' esta unidade lusitana, que os es- 
tudos anthropologicos tem verificado, e as investi- * 



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POPULAR PORTUGUEZA 



gacões ethnologicas comprovado através das tradi- 
ções poéticas. 

Herculano cansa-se a affirmar que Portugal «é uma 
nação inteiramente moderna» resultante da oscila- 
ção politica dos Estados peninsulares no século xii; 
e que essas origens lusitanicas são «vaidades estra- 
nhas, que estão longe de terem o valor que se lhes 
attribue, quando as consideramos de perto, e que só 
servem para distrahir engenhos, aliás grandes pelo 
campo das conjecturas, quando não pelo de insulsas 
fabulas. . .» (p. 47.) íC insistindo na minúcia dos in- 
teresses politicos do reinado de Affonso vi de Cas- 
tella, dezenas de vezes recorre á influencia ou im- 
pulso atávico, ou melhor á aspiração dt.s povos da 
regicU) portucalense a constituírem se em nacionalida- 
de. Resistindo obcecadamente á evi lencia do motor 
orgânico, attribue a formação da nacionalidade por- 
tugueza a dois phenomenos recentes e transitórios : 
a desmembraçãa da monarchia asturo-leoneza, e a 
assimilação de «estados mussulmanos da Hespanha, 
á custa dos quaes ella se dilatou, cresceu em podçr, e 
se habilitou a adquirir uma nacionalidade distincta, 
assas vigorosa para subsistir até hoje, sem jamais 
se dissolver e aggregar ao vasto corpo dos outros 
estados peninsulares, sujeitos a uma unidade ficticia 
por Fernando e Isabel, e constrangidas a uma adhe- 
são mais intima pela férrea manopla de Carlos v.» 
(p. 48) Esta resistência assombrosa contra todas as 
traições dos casamentos reaes, e contra todas as 
violências á liberdade civil pelo catholicismo inqui- 
sitorial ou jesuítico, nem assim revelou a Herculano 
na sua fulgurante evidencia, que uma causa mais 
profunda, e orgânica actuara na constituição autonó- 
mica de Portugal, no século xn. 

Escrevendo por este tempo (1236) Lucas deTuy 
(Chron, Mundi, 1. vi.) emprega promiscuamente os 



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HISTORIA DA POESIA 



nomes de Lusitânia e Portugal para designar o ter- 
ritório da Beira tomada aos Árabes por Fernando 
Magno, e especialmente os territórios ao sul do 
Mondego. Quer o nome de Portugal nas palavras 
do chronista designe a região da Beira, e Lusitânia 
a de sul do Mondego, como pretende Herculano, é 
o mesmo lusitanismo, que subsiste na sua tradição 
ethnica, que revive nacionalmente. Circumstancias 
especiaes determinaram a revivescência do lusismo 
no território chamado Portucale, Sobre a extensão 
da Terra portucalensis, escreve Herculano dizendo, 
que entre os vários governos provinciaes da Monar- 
chia leoneza, «desde o meado do século ix, appa- 
rece o districto ou Condado portucalense. Assim 
como Coimbra era a povoação mais notável sobre 
o Mondego, Portucale, situada junto ao Douro, era 
no século xi, pela sua situação visinha da foz do rio, 
pela sua antiguidade, que não só remontava d época 
dos Visigodos, mas ainda ao tempo do dominio ro- 
mano, e pela fortaleza do sitio, cabeça principal da 
povoação de um território, que abrangia ao norte 
uma parte do litoral da moderna provincia do Mi- 
nho, e ao sul as terras que até ao Vouga se tinham 
successivamente conquistado.» (Ib., p. 192.) Fernan- 
do Magno conquistando aos Árabes o occidente da 
antiga Lusitânia, ajuntou-o ao governo da Terra 
portucalense sob a auctoridade de Sisenando, a qual 
começava a considerar-se como uma provincia dis- 
tincta, embora pareça por vezes um fragmento da 
Galliza. A facilidade com que se faziam conquistas 
ao sul do Mondego, na Terra gensur, prova que as 
povoações resgatadas sentiam que em volta do cen- 
tro portucalense se ia reconstituindo a Lusitânia, 
D aqui a duplicidade dos dois nomes, nos chronis- 
tas do século xin. Santarém, Lisboa e Qntra são 
conquistadas por Affonso vi, em 1093, e a provin- 



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POPULAR PORTUGUEZA l3 

cia portucalense, ampla de mais para estar inclusa * 
na Galliza, tendia naturalmente a dividir-se em um 
novo Condado. * Tendo Affonso vi entregue o go- 
verno da Galliza ao Conde Raymond, pelo casa- 
mento com sua filha Urraca, entregou também o 
território portucalense ao Conde Henrique, casandoo 
com sua filha D. Thereza, começando a exercer a 
seu poder por 1094. As necessidades da guerra de 
reconquista impozeram esta divisão dos dois Conda- 
dos da Galliza e de Portugal. As ambições do Con- 
de Henrique, continuadas por D. Thereza e por seu 
filho Aflfonso Henriques para se apoderarem da Gal-. 
liza, ou para se libertarem da dependência da Mo- 
narchia de Castella, e arrogarem -se a soberania,, 
attribuem Schaeflfer e Herculano a constituição da^ 
Nacionalidade portugueza ! Esses esforços pessoaes. 
da valentia ou da intriga nada conseguiriam de du- 
radouro, se não servissem inconscientemente um im^ 
pulso ethnico da raça que encontrara condições, 
para a sua tradicional autonomia. O próprio Hercula- 
no, com uma incongruência flagrante, chega a re- 
conhecer esse impulso ethnico do lusismo: uMas,. 
considere-se Portugal naquella época ou como Con- 
dado, ou como provincia, ou como reino, é certo, 
que os povos derramados por todo o tracto de terra 
desde o Minho até ao Mondego, começavam a dei- 
xar perceber já na segunda e terceira metade do 



* O P.« Klorez, provou pelo exame de antigos manuscritos, 
que se empregava com frequência o nome de Gallia, em vez de 
Gallecia ; isto comprehende-se á luz da historia archeologica, 
significa que do nome de Calle, o porto, se estendera a designa- 
ção topologica para a região que veiu a chamar -se Gallecia. A 
terra Ã;rA?-CALLEN8E foi o primitivo centro de irradiação, qne^ 
nunca se apagou mesmo quando a Gallecia se tornou uma pro.- 
vincia romana, ou um estado visigótico e asturo-leonez. 



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HISTORIA DA POESIA 



século XII um certo caracter de nacionalidade, que não 
é possivel desconhecer. Os successos politicos o mos- 
tram melhor que nenhum outro indicio : (Ib., p.245.) 
— «Portugal, porém, no meio de taes divisões, con-, 
servou sempre um notável aspecto de unidade so- 
cial. Fosse qual fosse o partido a que elle se asso- 
ciasse, todos os varões portuguezes se mostravam 
conformes, ao menos passivamente, com o systema 
da que, debaixo desse aspecto, podemos chamar 
politica externa do paiz. 

«Assim o pensamento da desmembração e indepen- 
dência, que é visível, existia já nos ânimos de Hen- 
rique e da sua viuva, e que veiu a realisar-se com- 
pletamente no tempo de Affonso Henriques, é um 
pensamento commum ao chefe de estado e aos 
membros delle, sendo talvez os actos dos príncipes 
ainda mais o resultado da influencia do espirito pu- 
blico, que a manifestação espontânea da própria am- 
bição.» (Ib., p. 426.) * Nas luctas violentas dos es- 
tados peninsulares aragonezes e leonezes, Portugal 
conservando-se em paz, Herculano conclue : «é im- 
possivel deixar de reconhecer na serie de factos que 
illustram a historia do estabelecimento da indepen- 
dência portugueza, um certo instincto da vida poli- 
tica individual nas povoações de áquem do Minho, 
que já annuncia nellas a futura tenacidade com que 
resistiram desde então até hoje a assimilarse ao 
resto de Hespanha, e a incorporar-se nella.» (Ib., p. 
259.) E apesar desta evidencia Herculano achava 
uma fabula o lusismo, attribuindo os successos de 



* 4.S perturbações causadas pelo falecimento de Aífonso vi, em 
1 109, considera Herculano «Portugal nascido, por assim dizer d'esse 
acontecimento, e favorecido na sua débil infância pelos calamitosos 
successos occorridos na Hespanha christã em consequência damorte 
de Aífonso vi.» (Ib., p. 187.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 



Portugal no século xii a reflexos de acontecimen- 
tos communs da Hespanha christã; mas apesar da 
acção de D. Affonso Henriques, reconhece, que «do- 
tado de génio bellicoso, e destro nas armas, estava 
talhado para desenvolver largamente a ideia da na- 
cionalidade portugueza, ideia, que amadurecera e se 
radicara nos ânimos de um modo indestructivel.i 
(Ib., p. 303.J O amadurecimento da ideia resume-se 
em um facto fundamental, o da existência de uma 
população livre com instituções locaes, ou Conce- 
lhos, governando-se por magistrados seus, forma so- 
cial que antecedeu ao estabelecimento da Realeza 
em Portugal, e a que os monarchas desde D. Affon- 
so Henriques até D. Affonso iii não fizeram mais 
de que reconhecer em Cartas de Foral. * Estudando 
as Communas francezas em Hespanha e Portugal, 
escrevem Helfferich e Clermont : «O primeiro período 
da independência de Portugal realisou-se em conse- 
quência da prosperidade crescente das municipalidades 
(Concelhos) e das dissidências continuas entre o Clero e 
a Corte. » (Op. cit., p. 51.) Taes eram, depois da raizes 
anthropologicas, as bases ethnicas para uma Naciona- 



* Pi y Marg^all, nas Nacionalidades, p, 210, caracterisa estes di- 
plomas «Graças a estes Foros eram muitas cidades verdadeiro Es- 
tado dentro do Estado. Nomeavam sem intervenção de ninguém o 
sen concelho, ou melhor, o seu governo; exerciam a jurisdicção 
civil e criminal sem mais interferência em certos negócios do que o 
recurso de alçada perante a Corte ; applicavara leis próprias e dis- 
punham de poder próprio para executal-as. O próprio Foro era or- 
dinariamente um código que tinha tanto de civil e penal, como de 
administrativo e poHtico. Encontravam -se geralmente nas suas paginas, 
já sobre a propriedade, já sobre o direito e a forma de succeder, já 
sobre contractos, disposições de grande interesse, que modificavam 
profundamente ora o Fuero Juzgo, ora os Usajes.» 

A nossa Dissertação inaugural de 1868 versava sobre o argumento, 
se eram os Foraes direito municipal, administrativo, lei civilou simples- 
mente um privilegio. 



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l6 HISTORIA DA POESIA 

lidade, em que a Realeza foi estrangeira, e sempre 
um corpo extranho, parasiticamente encravado no seu 
organismo visando ao unitarismo ibérico» 

§ jS a Cultura franceza e o Poder real, 

Afifonso VI, de Castella, fora successivamente casado 
com trez esposas francezas, Ignez de Aquitania, Con- 
stança de Borgonha, e Beatriz de França ; e a dois 
Cavalheiros francezes Raymundo e Henrique de Bor- 
gonha, deu em casamento suas duas filhas Urraca» 
legitima, e Thereza, bastarda, concedendo aos gen- 
ros os Condados da Galliza e de I ortugal. A cor- 
rente da imigração franceza para a Hespanha era 
estimulada pela Cruzada contra os Mussulmanos equi- 
parada nas indulgências ao voto da peregrinação á 
Palestina. O clero francez actuara directamente no 
animo das rainhas, exercendo uma influencia no go- 
verno, pela occupação das sedes episcopaes por pre- 
lados francezes. Era a poderosa Ãbbadia de Cluny 
que dirigia esta absorpção, que visava á extinção da 
egreja nacional ou mosarabe, pela Egreja de Roma, 
então sob o pontificado de Hildebrando, do partido 
francez. «O ponto de partida, o foco, por assiní 
dizer da propaganda politica que emanava de Fran- 
ça, foi a Abbadia de Cluny, uma das mais grandio- 
sas creações do século x, e o receptáculo das ideias 
religiosas de que Gregório vn se fez mais tarde, re- 
presentante. — Primeiro do que ninguém os monges 
do Cluny comprehenderam a natureza das relações que 
devem existir entre o Estado e a Egreja, e sobre as 
quaes assenta em çrande parte a civilisação moder- 
na.» * Era tal a influencia franceza, que tendo Affon- 



1 HelfFerich et Clermont, Les Communes francaises en Espagne et en 
Portugal, p. vu. > 



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POPULAR PORTUGUEZA I7 



so VI conquistado Toledo, quiz dar-lhe por bispo seu 
primo Sancho Pêro, mas foi-lhe imposta a nomeação 
do clunyacense Bernardo; por influencia d'este veiu 
Gerardo para sé metropolitana de Braga, Pedro para 
a sé de Osma; ainda mais francezes para as sés de Si- 
guenza, Segóvia, Palencia, Zamora, e apontando se 
um Burdino que roubou as sés de Braga e Coimbra. 
Por via d'estes bispos consegiu ir introduzindo o 
rito gallicano, e para inutilisar os velhos Missaes e 
.Antiphonarios mosarabes, fez com que fosse aban- 
donada na escripta a letra gótica substituindo-a pela 
franceza. 

O antigo anexim : Allá van Leyes — a do quieren 
Reyes, refere -se ao acto absoluto de Afiíonso vi de- 
cretando a abolição do culto mosarabe diante do 
rito gallo-romano, apesar de vencido na prova de 
fogo ou ordalio o missal deste rito. 

Foi um francez, Hugo Cândido que trabalhou para 
a extinção do rito nacional e substituição pelo de 
Roma, para assim radicar a theocracia papal em 
Hespanha. Estes factos encerram a rasão das formas 
da realeza na peninsula e certas instituições feudaes 
implantadas tardiamente, bem como a predilecção 
pelas manifestações de uma poesia cortezà franceza, 
prevalecendo sobre os cantares de villão, ou villa- 
nellas do povo. 

Nas Antiguallas de Galicia, escreve Martinez Sa- 
lazar : « No tim do século xr, no seguinte e ainda no 
xm, a Galliza devia parecer uma colónia franceza. 
As gentes de Raymond de Borgonha e seus suc- 
cessores povoaram e repovoaram nesta região nu- 
merosas villas e aldeias a que deram nomes geo- 
graphicos que recordavam os da sua abandonada e 
querida pátria, como já o tinham feito outros con- 
terrâneos seus eni época remota. Para convencer-se 
d*isto basta folhear o Nomenclator official da Gal- 
pões, popui. — Vol. II 2 



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r8 HISTORIA Da POESvlA 



liza : temos aqui o Loira (Loire) em uma parochia 
do Ayuntamento de Valdoviflo ; o Sena (Seine) em 
Fonsagrada; o Ois (Oise); Ardán (as Ardennes) ; 
o Mosse em Mos ; ten>os também a Gironda, Ma- 
hia e Tierra de Francia, Bayòn, Bayona, Nantes;^ 
duas Marseille em Lousame e Muros ; Ferreol em 
Ferrol, Burgundio em Bergondo ; a Chapelaude em 
La Capelada; em Teo o logar de Rua de Fran 
cos; em Santiago a rua de Franco; em Betanzos 
no século xiii existia a Rua de Francia; demais ha 
na Galliza 51 logares, aldeias e parochias, que se 
chamam Francia, Franza, Francês, Franco, Francos, 
Francelos, Franca, Francese, Jiranquian, FranqueirOy 
Franquiran, Franzomel, Franzemily e outros mui- 
tos nomes de logares de origem gallo-franka e fran- 
ceza...» E referindo se á influencia do clero francez na 
Galliza, escreve também Martine? Salazar : «E' sabido 
que o primeiro arcebispo de Santhiago mandava a 
França os seus súbditos e cónegos a estudar Philo- 
sophia, e na phrase da Compostellana, o mesmo D. 
Diego Gelmirez aplicuit animum w/consuetudines Fran- 
ciae ibi plantarei, D. I lugo e D. Gerardo, dois dos 
três cónegos encarregados de fazer o panegyrico do 
celebre prelado, eram francezes ; o seu antecessor na 
sede compostellana, Dalmacio ou Dalmachio, era 
também francez e monge clunyacense, e o mesmo 
D. Diego antes de ser bispo tinha sido Cancellario 
do Conde borgonhez, e a este e a seu sogro Affonso 
VI de C astella deveu a mitra ...» Salazar attribue 
a esse influxo francez wa maravilhosa explosão do 
lyrismo gallego-provançalesco, iniciado acaso n*esta 
região no reinado de Affonso ix, continuado no de S. 
Fernando, e propagado a Portugal e ao resto da 
Hespanha no do Rei Sábio e Poeta.» (Op. cit, p. 
47 a 51.) E' justamente a influencia da Corte e da 
Egreja, que propaga a cultura franceza, do Lyrismo 



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POPULAR POKTUCiUEZA U) 

e das Gestas, das Lendas agiogjraphicas e novellescas, 
que afastam os espíritos da sympathia pelos can- 
tos populares nacionaes. Essa influencia é commum 
á Galliza e Portugal sob os dois Condes francezes, 
Raymundo e seu primo Henrique, genros de Afíbn- 
so VI, * que se apoiava no clero feudal francez como 
na poderosa Abbadia de Cluny. 

«Raymundo usou da sua alta posição para attrahir 
um grande numero de francezes para os territórios 
de seu sogro, e é certo que as cidades de Segóvia, 
de Ávila e de Salamanca foram povoadas, graças 
á sua incessante actividade. Pode se por isso affir- 
mar, que a mafor parte dos centros de população 
estrangeira era formada por francezes.» (Heltíerich, 
op. cit, p. 34.) Raymundo era irmão do papa Ca- 
lixto 11, coadjuvando o também por isso a subordi- 
nar a egrçja mosarabe á de Roma, por via dos 
bispos francezes ; sob o seu governo, é que San 
Thiago se tornou importantíssima como peregrina- 
ção devota, cuja estrada se chamava caminho fran- 
cez, por onde convergiam á Hespanha os trovado- 
res e jograes d'essa grande época de elaboração 
poética. 

Na Historia de Portugal, de Henrique Schaefer, 
accentuase: «o facio de o Conde D. Henrique ser 
estrangeiro, francez, e trazer comsigo um numero 
considerável de compatrícios seus, os quaes, de nas- 
cimento nobre, pela maior parte chegaram a ser 
chefes de famílias notáveis; egualmente com elles 



' Quando se casaram no mesmo dia as três filhas de Âlfon- 
so n, Urraca, Elvira e Thereza com Condes francezes, conta a 
Crónica de Castilla, que se fizeram muitos trebelhos, combates de 
Tablado^ próprios de cavalleirc s, e que «fiíeron en aquellas bodas 
mnchas maneras de joglares ansi de boca, como de peHola » (Ap. 
Rios, Hht, crit, da Liter,^ u, 229.) 



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HISTORIA DA POESIA 



vinham soldados do commum, os quaes, acompa- 
nharam em grande copia o Conde, seguindo para 
Portugal a fim de obterem na lucta contra os Mou- 
ros o próprio sustento, rica preza, intensa gloria. Ruas 
inteiras em Guimarães e muitas aldeias e casas de 
campo foram povoadas por elles quando fixaram sua 
moradia em Portugal. — E a este influxo fi*ancez 
cumpria o reforçar-se ainda, quando a fora aquelles 
cavalleiros e servos, militares e negociantes frequen- 
temente acudiam de França para Portugal notários, 
depois de ter sido resolvido no Concilio de Lyon, 
no anno de 1091, que todas as escripturas eccle- 
siasticas nas linguas gótica, lombarda e toledana, 
deviam ser abolidas e dali por diante só redigidas 
o copiadas em francez. Além d'isso vemos nas sedes 
episcopaes nos primeiros tempos da monarchia a 
francezes de nascimento, ou a portuguezes que tinham 
adquirido seu saber na França mais adiantada : um 
Gerardo, Mauricio, Hugo, Bernardo, João Peculiar 
(Ovelheiroj e muitissimos outros. O primeiro Bispo 
de Lisboa naquelle tempo foi Gilbert, inglez de 
nascimento ; e Nicoláo, natural dos Paixes Baixos, 
estava pouco depois Bispo de Viseu. Com elles vie- 
ram muitos estrangeiros religiosos, seculares e regu- 
lares ; leigos de todas as profissões, e ambos os 
sexos, para Portugal. Depois da morte do Conde 
D. Henrique e durante o governo da rainha D. The- 
reza e do primeiro Affonso, as Ordens de Cavalle- 
ria nascidas na Palestina foram em Portugal accolhi- 
das e em Portugal implataram, com as suas insti- 
tuições costumes e pontos de vista, muitas expres- 
sões novas, que até então eram extranhas ao Occi- 
dente ... da mesma maneira no reino entraram, 
quando* o governo d'esse primeiro rei, os monges 
de Cister, e os cónegos regrantes de Santo Agos- 
tinho . . . Dentre os muitos inglezes e hollandezes, 



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POPUI.AR PORTUGUEZA 



que depois de sua esquadra ter contribuído para a 
conquista de Lisboa e continuado derrota para a 
Terra Santa, fixaram sua residência na aldeia muito 
antiga de Almada, el rei D. Affonso Henrique con- 
cedeu a Guilherme de Cornes as terras de Atou- 
guia, a fim de povoal-as com francezes e gallegos. 
El rei D. Sancho i deu o districto de Villa Franca 
de Xira a Raulin e todos os flamengos que se qui- 
zessém estabelecer ali . . . Aos primeiros reinados 
pertence também a colonisação da Lourinhã por 
Jordão, de Villa Verde perto de Lisboa por Alar- 
de e outros.» * Este elemento senhorial francez ex- 
plica-nos a sympathia dos themas poéticos carlingios 
das Gestas frankas, prevalecendo sobre as tradições 
populares, e ao mesmo tempo a indole de uma Corte 
d onde essa sympath a irradiava para o vulgo. 

Na Chronicà gotkorum, fallando-se da éra de 
Mcxxvni, refere que chegaram ao Porto de Gaya 
(Cale) algumas náos vindas das partes das Gallias 
dom cavalleiros armados que iam com voto de com- 
bater em Jerusalém ; D. Affonso Henriques soube 
da chegada, e foi tratar com elles, que eram perto 
de setenta cavalleiros, para irem cercar Lisboa, elles 
pela parte do mar e o rei pela banda da terra. De- 
pois de um largo e infructuoso cerco, o monarcha 
regressou á sua terra e os Cavalleiros seguiram a 
direcção da Terra Santa. ^ Referindo-se á éra de 
MCLXxxv, accrescenta, que tendo o rei cercado Lis- 
boa no mez de julho, por ujn accidente providen- 
ciai chegou a Lisboa uma frota de navios vindos das 
Gallias, que lhe prestaram poderoso auxilio. ^ Tam- 
bém na Chronicà da fundação do Mosteiro de San 



* Historia de Portugal^ tomo iv, p. 187. (Trad. José Sampaio.) 

* Partugaliae Monumenta histórica^ vol. 2, p. 13, col. i. 
' Ib., p. 14, col. I. 



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' 'n 



22 HISTORIA DA POESIA 

Vicente, se conta a parte que tiveram os cavalleiros 
francezes na tomada de Lisboa: t Então os christãos 
do senhorio de França e de Bretanha e de Guitania 
(Aquitania) e as nações de Gontonicos (Teutonicos) 
veendo elles que era grande serviço de Deus e sal- 
vaçam das almas dos christãos o que elrey dom 
Affonso de Portugal fazia, ouverom-lhe inveja, e qui- 
zeram ser participantes em tal guerra como esta, 
porque tal enveja como dita he cabe em Deus, que 
é inveja de se haver de acrecentar o seu serviço. 
Entom cada uma d estas nações de gente se apare- 
lharem com muitas naves que houverom, e veerom 
todas juntamente a Lixboa com grandes campanhas 
bem armadas e prestes para trabalhar, e desejavam 
haver vitoria dos emigos da santa fé ... * Na Ckro- 
nica gothorum conta-se como Coimbra foi povoada, 
depois de tomada aos mouros, por uma colónia 
franceza. (Ib., p, 2, col. i.j E na Chronica dos Vi- 
centes falla-se da partilha das terras depois de ser 
tomada Lisboa : c entom partiu as terras por esta 
guisa : deu aos francezes e aaquelles que com elles 
quizerom ficar das nações susoditas, o senhorio da 
Azambuja, e de Villa Verde e de Atouguia e da 
Lourinhã, seendo os ditos logares em aquelle tempo 
terra chaam ; e depois forom os ditos logares po- 
voados das ditas nações». (Ib., p. 414, col. 2.) Re- 
pete-se a mesma noticia nas Chronicas breves e Me- 
morias avulsas da Santa Cruz de Coimbra: ce fo- 
rom em sua ajuda a esta toma muitas companhias 
dcUemaes e framengos e doutras nações, que veerom 
por mar, entre os quaes foram hi quatro capitães 
que aviam nome dom Guilherme de Licorne e dom 
Rooim e dom Juzhertz, e dom Ligel. Estes quatro 



* Ib., p 408, col. I. 



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POPULAR PORTUGUEZA 23 



demandavam parte da villa a elrey dom Affonso 
porque foram na tomada delia. E el lhe disse que 
nom faria, mais lhe daria outros logares que o pobras- 
sem elles e sua linhagem pêra todo o sempre, e que 
lhe conhecessem d^elles o senhorio, E a um delles 
deu a Azambuja, e a outro Villa Verde, e ao outro 
a Lourinhã.» (Ib., p. 29. col. 1.) E' para notar, que 
no Foral da Lourinhã encontra-se uma pena, que 
falta em todos os Foraes portuguezes : a do assas- 
sino ser enterrado vivo sobre a sua victima, ' No 
Foral da Atouguia a independência dos colonos fran- 
cezes chega á isempção do serviço militar. 

Sobre esta sentença do Foral : «Si aliquem in- 
terfecerit . . • sepeliatur vivus, et interfectus super 



* O jooral Joham Ayras, de Sanctiago íez uma cançíío allego- 
risando sobre este symbolo jurídico: 

Ay justiça, mal fazedes, que nom 
queredes ora dereyto filhar 
de Mór da Cava, porque foy matar 
Joham Ayras, ca fe« muy sen razon ; 
ixiays se dereyto queredes íazer 
ela sô el devedes a meter 
ca o manda o Livro de Leom 

Ca Ihi queira gran bem, e desy 
nunca Ihi chamava senon senor, 
e quando-lh'el queria muy melhor 
foy-o ela logo matar ally ; 
xnays, justiça, poys tam gran torto fez, 
metede-a jà sô el huma vez, 
en o mando é dereyto assy. 

E quando mays Joham Ayras cuydou 
que ouvesse de Mór da Cava ben, 
foy-o ela logo matar por en, 
tanto que el en seu poder entrou ; 
mays, justiça, pois que assy é ji, 
metan-a sô el, et padecerá 
a que o a muy gram torto matou. 

E quen nós ambos vir jazer, dirá 
beeyto seja aquel que o julgou. 

(Canc. da Vat., n.® 1076). 



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24 HISTORIA DA POESIA 



eum projiàati^r,^ escrevem Helfferich et Clermont : 
«Mr. Herculano vê n'esta disposição uma prova do 
estado bárbaro em que se achavam estas colónias 
estrangeiras; embora presumível, o erudito historia- 
dor enganou se julgando que não era mais vulgar 
esse castigo. Muitos Fueros hespanhóes, como o de 
Conca e outros, applicavam a mesma pena aos 
assassinos.» * 

A colonisação franceza continuou ainda depois da 
morte de D. Aflfonso Henriques,- dando se lhe Pon- 
tevel e seu termo, aproximando-se da margem di- 
reita do Tejo, pela doação aos frankos de Villa Ver- 
de e Lourinhã. N estes Foraes encontram-se duas 
designações Gallici e Franci, como se nota no de 
Atouguia : é a mesma divisão dos Gallo-frankos e 
dos Gallo-romanos, do norte e do sul da F»ança, que se 
mantinha em Portugal; os francos tornaram-se os pri- 
vilegiados (franquias) da colónia, sendo todos cavai- 
leiros, emquanto prevalecia a pionagem nos france- 
zes meridionaes. ^ Esta divisão da raça reflecte-se nas 
formas das tradições poéticas da lingua d'Oil e da 
lingua dOc, divulgadas em Portugal: os Gallo Fran- 
kos por si e pelos jograes que percorriam a penín- 
sula, repetiam os cantos epicps, as Gestas cy dicas 
da lucta dos grandes vassallos contra a realeza; as 
Canções trobadorescas, muito antes do regres- o de 



t Les Communes françaises en Espagne, p. 5 1 . 

2 Este separatismo entre Branà e Gallici na mesma commune 
aggravara-&e qaando o rei Roberto se divorciara de Bertha para 
casar^se com a formosa Constança de Tolosa, e á sua corte con- 
vergiam, por influencia da nova rainha meridionaes, como conta Ra- 
dulphus Glaber, lamentando os usos poéticos que implantava : «coe- 
perunt confluere gratia ejusdem Regina in Franciam atque Bur* 
gundinm, ab Arvemia et Áquilania, hómines omni levitate vanissi- 
mi . . . histrionum more barbis rasi, caligis et ocreis torpissimi ...» 
{liv. m, cap. 9, Hlst. sui Ttmporis.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 25 

D. Affonso iii de França com os fidalgos seus par- 
tidários que ahi se refugiaram, eram também repe- 
tidas em Portugal pelos trovadores que acompanha- 
vam as Cruzadas e pelos jograes que frequentavam 
a corte, e as romagens. 

Esta influencia gallo-romana tornou-se mais pode- 
rosa, quando pela guerra dos Albigenses os Trova^ 
dores do sul da França se refugiaram em Hespa- 
nha, e nas cortes peninsulares fidalgos e reis se en- 
tregavam á imitação do Gay saber em contraposição 
á Nova Mestria. Estas duas correntes poéticas actua- 
ram sobre o desdém pela poesia popular, estabe- 
lecendo a separação entre o Villdío e o Coriezão, 
que veiu pela acção continuada do tempo a pro- 
duzir a esterilidade artística. 



--^'■v. 



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A) A NOVA fiSBSTBIA 



A poesia dos Godos estava na Hespanha extincta 
pelos constantes combates da ortodoxia catholica por 
causa dos cantos em que se vulgarisavam as dou- 
trinas de Ario acerca da humanidade de Jesus. 
Quando os Árabes entraram na peninsula, pela sua 
tolerância politica e religiosa, bem como pela sua 
incommunicabilidade semita, deixaram uma livre ex- 
pansão aos vestígios da poesia gótica que se conser- 
vavam entre os lites e os colonos (mosarabes e mui- 
ladies) que não fugiram ante os invasores; assim, 
quando do século ix a xi se deram na peninsula as 
invasões normanda e scandinava, avivou-se na alma 
popular a tradição épica gótica, abreviada, susci- 
tada pelas vagas reminiscências dos Eddas, mas sem 
o vigor ou força de creação para se realaborarem 
como nos Niebelungen. 

D'entre todos os povos da Europa um conser- 
vada as tradições germânicas, transformando-as de 
breves Cantilenas guerreiras em grandes Canções 
de Gesta da revolta dos altivos vassallos contra o Po- 
der real: eram os Gallo-Frankos. Desde que na Hes- 
panha do século XI e xii se espalharam na cruzada 



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POPULAR PORTUGUEZA 27 

mussulmana Cavalleiros francezes, e se estabelece- 
ram no território implantando instituições feudaes, era 
inevitável o influxo das Gestas na corte e nas pra- 
ças. Estavam então no seu fervor de elaboração os 
cyclos épicos da França, quando os Cavalleiros france- 
zes coadjuvaram a reconquista do território de Por- 
tugal. Os meios de transmissão da nova poesia foram 
primeiramente os Jograes, que percorriam as cortes 
e cidades espalhando a nova mestria dos versos lar- 
gos endecasyllabicos e alexandrinos, bem como os 
peregrinos e romeiros que pelo caminho f rance z vi- 
nham a Cotnpostella, que pagavam a hospitalidade 
com as suas cantigas. E' principalmente na poesia 
castelhana culta que se manifesta a influencia fran- 
ceza no emprego do verso alexandrino, incompa- 
tível com o verso quinado popular; no Duelo de la 
^i^g^n, escreve Gonzalo de Berceo: 

Sabran maiores nuevas de la tu alabancia. 
Que no renuncian todos los Maestros de Francia 

(Est. 6). 

No Libro de Apollonio proclama -se a Nova Mes- 
tria, que vinha lisongear o génio ibérico com esse es- 
pirito revolucionário das Gestas, E' nesse typo de um 
verso sem condições de vulgaridade, mas romance 
paladino ou de palácio, que o poeta vae metrificar: 

En el nombre de Dios e de Santa Maria, 
Si ellos me guiassen estudiar queria 
Coroponer uno romance de Nueva Mestria. 

E no Poema de Alexandro, põe mais em eviden- 
cia a antinomia e importância da métrica franceza 
com a do gosto popular: 

Mester trago fremoso, non es de ioglaria, 
Mester es sen pecado, ca es de clerecia, 
Fablar curso rimado per la quaderna via^ 



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28 HISTORIA DA POESIA 

A sillabas cuntadas, caest grant maestria 

Qui oirle quisier, à todo mi creer, 
Prendra bonas Gestas^ que sepa retraer. 

A lingua franceza para os homens cultos era um 
signal de distinção, dèlitMe d toute gent, como 
dizia Brunetto Latini ; e segundo um troveiro nor- 
mando as Gestas heróicas feitas na nova mestria, 
eram obras cDe coidrtoisie et de 5(Woir,í> Desde que 
ellas se contrapozeram ás Canções narrativas popu- 
lares, em toda a Europa e principalmente na Hes- 
pan,ha, foram se destacando os seus géneros, e tra-- 
tadas segundo a sympathia com que eram ouvi- 
das. No poema dos Saxões, o troveiro Jean Bodel, 
esboçou esses diíferentes themas fundamentaes da 
NoVa Mestria : 

Ne sont que troís matíére a nul homme entendant, 
De France^ de Bretagne et de Rome la grant. 

Comprehendem esta^ trez matérias, a Canção de 
Gesta guerreira e feudal ; os poemas da Tavola Re- 
donda, do cyclo de Arthur e de Santo Graal ; e as> 
lendas metrificadas de Troya, e mesmo assumptos da 
Historia sagrada. Sob a influencia franceza, e pela 
propaganda dos jògraes destas Canções de Gesta e 
das Novellas bretãs sahiram alguns Romances mol- 
dados no typo dos romances velhos, que se apaga- 
vam na fransmissão oral, ficando apenas vestígios 
intercalados na Crónica do Ultramar, mandada re- 
digir por Affonso o ^abio; * os que apparecem en- 
tre o povo sobre Carlos Magno, Roland, Roncesval- 
les, Flores e Branca Flor, Tristão e Yseult são em 



* Duran, Roniancero general^ t. i p. XXIV 



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POPULAR PORTUGUEZA 



29 



redacção poética octonaria do século xv. Sigamos 
a vulgarisação desses três thetnas da nova mestria : 

I.** Matéria de França (Cyclo Carlingtó), — A 
Chronica de Turpiri, que se inculcava como con- 
temporânea de Carlos Magno, cita o nome de Por' 
tugal, que desconhecido nus documentos anteriores 
a 1069, accusa a fraude de pseudo-chronista. No 
Poema de Fierabras encontrou Fauriel allusão ao 
Conde D. Henrique em Gui de Borgonha, e a sua 
esposa D. Thereza em Floripar : «Creio entervêr em 
algumas particularidades e no desfecho do romance 
de Fierabras uma allusão romanesca, á creação do 
reino de Portugal.» * Nos Livros de Linhagens ha 
oma referencia aos Doze Pares, taes como eram 
conhecidos pelas Gestas : c muitos ricos homeens que 
iam para lhes acorrerem disseram a el rey dom Fer- 
nando, que liunca viron cavalleiros nem ouviram 
falar que tam sofFredores fossem e pozeram-nos em 
par dos doze pares,T> * Esta referencia era sem du- 
vida resultante do conhecimento da Chanson de Ro- 
laitd, da Viagem a Jerusalém e do Renaud de 
Moniauban. ^ No epitaphio da sepultura de Rodrigo 
Sanches, de 1245, no mosteiro de Grijó, é compa- 
rado a Roland : 

Belliger insígnis fuit, hic cunctis amandus, 
Laudibus ex dígnis alter fuít hic Rotulandus.^ 

O chronista Azurara, querendo justiftcar-se de 
tratar do infante D. Henrique em historia especial, 



* Histoire de la Poesie pnrvençale^ t. m, p. 9. 

* Pwt, Mon, histórico^ Scriptores, p. 283. 

^ Léon Gautier, Les Epopées françaises, t. u, 184. 

* Mmarch. lusit,^ t. iv, p. 289. 



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3o HISTORIA DA POESIA 

apresenta o exemplo da Chronica anonyma do Con- 
destaroely e a Canção de Gesta do Duque João de 
Lançon: «ca sen embargo de se em todos os re- 
gnos fazerem geeraes Crónicas dos rex delles, nom 
se deixa porém de screver apartadamente os feitos 
dalguns vassallos, quando o grandor d'elles he assy 
natural de que se com razom deve fazer apartada 
scriptura ; assy como se fez em França do duc Joham 
senhor de Lançam, » * Mal sabia Azurara que citava 
um heroe da Fauhe Geste, que idealisava os trai- 
dores. O typo do traidor Ganelon, da Chanson de 
Rolando também se tornou proverbial na tradição 
portugueza, com o nome de Conde Galalão ; lê se 
de um personagem do século xvi: «Este Ruy Gon- 
çalves de Caminha foi um ladrão muito celebrado, 
a quem chamavam por isso mesmo o Conde Gala- 
lão, Conhecia-o de sobra D. João de Castro, mas 
como precisasse de um agente sem consciência para 
haver certos dinheiros dos rajhas. não o puniu, an- 
tes lhe acceitava as dadivas, e o nomeou Vedor da 
r^azenda.»^ Na linguagem popular ainda se nomêa 
o Almirante Balão, vestigio do nome de Balant do 
poema de Floripar, 

Entre os personagens do Cyclo carlingio figura o 
duque Naimes (na forma primitiva Namle e também 
Nale, segundo Gaston Paris); daqui o nome do 
Conde Nilo, no romance portuguez, em que se con- 
serva o mesmo thema do velho canto de Auvergne 
La Perneiie. ^ Os heroes das Gestas frankas torna- 



1 Chron. da conquista da Gtãné^ p. 4. 

2 Camillo, Historia e Sentimentalismo, 11, 99- 

3 Transcrevemos o texto francez, que nos dá o estylo que da 
Cantilena se desenvolveu nas Canções da Gesta: 

La Pernette se leve 

Deux heurs avant le jour. n 



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POPULAR PORTUGUEZA 3l 

ram se proverbiaes em Portugal : Roldão designa na 
linguagem chula valenȋo, arrancador, e Valdevinos, 
vagabundo, tunante ; ferrabrás, o que alardêa de 
bravura. Sarmiento aponta a phrase aphoristica: «No 
vale las Coplas de Calainos^ e explica: cEsta 
aventura vem em umas coplas velhas e chaboucas, 
que começam: Ya cavalga Calainos, e se acham 
em um livreco que comprehende vários Romances 
d'este género dos Dojse Pares de França; e é o 



Eir prend sa quenouillete 
Et son joli p'tit tour 
A* chaque tour qu'eirfile 
Sa mêre vient lui dire: 

— Pemette, qu'avez=vous ? 
Av*-vous mal à la tête? 
Ou bien le mal d'amour? 
€j'n'ai par mal á la tête, 
Mais bien le mal d'amour. 

— Ne pleure pas, Pemette, 
Nons te maridarons. 

Te donnerons un prince 

Ou le fils d*un haron 

«Je ne veux pas ce prince 

Ni te fils de baron; 

Je veux mon ami Pierre 

Qui est dans la príson. 

— Tu n'auras pas ton Pierre, 
Nous le pendoularons. 

«Si vous pendoulez Pierre, 
Pendoulez moi aussi* 
Cotivrez Pierre de roses, 
Et moi de mille fleurs. 
Au chemiu de Saint Jacques 
Enterrez-nous tous deux, 
Les pèlerins qui passent 
Prieront Dieu por nous deux.* 

• Ampere, Insíructions relatives au Recueil de Poesies de la France 
Este canto de Auvergne e do Lyonnais, é uma versão differenciada do Conde. 

rnno. 



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32 HISTORIA DA POESIA 



livro que mais sabem de cór os labregos e os me- 
ninos. Pelo assumpto, seguramente não são anterio- 
res a Carlos Magno. Pelo estylo se conhece que são 
mui posteriores, pois no de Calainos se faz refe- 
rencia ao Preste-João. Assim é certo que o poeta 
ou poetas que compozeram estas coplas ou Roman- 
ces imitaram t*m antigç estylo, e baralharam toda a 
historia de Carlos Magno com mil fabulas e aven- 
turas.» * Gerinardo, (Eghinart) celebrado nos ro- 
mances populares, é também tomado proverbialmente 
como namorado : 

Dabi nació para rey. 
Para sábio Salamon, 
Para galan Gerinardo 
Y paraadorar-te yo.^ 

A sympathia por estes themas poéticos da àla- 
teria de França fez com que fossem designados pelo 
nome de Fransias ; escreve Edeflestand du Méril : 
«Na velha lingua hespanhola os Contos eram cha- 
mados Fransias, e esta expressão tinha certamente 
sido inspirada por um conhecimento directo da lit- 
teratura franceza, que era rica delles em extremo.»^ 
Os jograes francezes, que vagavam entre as popula- 
ções hispânicas, cantavam ao som da çanfonha essas 
Cantilenas sobre que se elaboraram alguns Roman- 
ces populares, e que em França se desenvolveram 
litterariamente na Canção de Gesta, que apesar da sua 
prolixidade e forma recitativa conservara , o titulo de 
Canção da sua origem musical primitiva. Léon Gau- 
tier transcreve nas Epopées françaises um texto 



* Memorias para la Historia^ p. 528. 

^ Folk-Lore andaluz^ p. 28. 

5 Historia de la Poesia scondinave, p. 517, nota. 



POPULAR PORTUGUEZA 33 



de Jean Corbie, sobre o costume medieval ; «Em 
França chama-se Cymphonie um instrumento que os 
.cegos tocam cantando Canções de Gesta, e tem este 
instrumento bellos e doces sons, mui agradáveis de 
ouvir.» (i, p. 393.) Um documento do tempo de D. 
Sancho i, de 1193, concedeu aos jograes Bonamis 
e Acompaniado olograrem uns casaes pagando annual- 
mente um Arremedilho, que era uma Canção bai- 
lada, gérmen da forma dramática. 

Havia uma certa antipathia popular contra as Ges- 
tas feudaes e reaes, sendo frequentemente caricatu- 
rado o typo de Carlos Magno e dos Doze Pares, 
principalmente nos paizes municipalistas como a Itália 
e Portugal. Em um Edito de Bolonha, citado por 
Muratori, estatue se : « í// cantatores francigenarum 
in plateisad contandum morari non possint.i Escreve 
Soriano Fuertes, na Historia de la Musica espaHola : 
«Os jograes francezes lograram por suas canções pouco 
decorosas, que a republica de Bolonha publicasse um 
decreto para que os ditos jograes não parassem nas 
praças publicas. A voz cãarlataneria é derivada do 
nome francez Charles, Como os troveiros francezes 
n'aquelles tempos não cantavam além de suas can- 
ções desenvoltas se não de Carlos Magno, os ita- 
lianos lhes chamaram Ciarles, e a palavra Ciarlatani, 
entre nos Charlatães, foi successivamente applicada 
aos que se entregam a cousas semelhantes. «(Op. 
cit., I, 143.) Os Romances carlingios são raros na 
poesia popular italiana ; apenas se apontam o Buovo 
de Antona, La Regina Ancroja, e II libro chiamato 
Dama Rovenea, O typo de Carlos Magno nos ro- 
mancistas italianos e hespanhoes é rebaixado da sua 
dignidade épica, e ferido nos nobres sentimentos : 
António de Esclava, nos Amores de Milon e Aglante 
retrata-o como tyranno de suas irmãs e filhas. Ber- 
tha, irmã do Imperador, acha-se grávida, e segundo 
Pocs. popui. — v. II 3 



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04 HISTORIA DA POESIA 

a lei deve ser queimada viva, sendo o amante que 
a vem libertar e foge com ella. Temos este theiTia 
carlingio nos Romances de D, Ausenda, e Dom^ 
Claros de Montalvar, Depois de representarem o rei 
muitas vezes prisioneiro, prestes a renegar a fé que 
sustentava pelas armas, vão feril-o também na sua 
descendência, dando um nome ridículo a seu filho 
Carloto, representando o como covarde e desprezível, 
chegando quasi a ser o assassino do pae, invejoso 
de Ogier, e matando ao jogo Valdevinos. O motivo 
deste acinte malévolo dos romancistas italianos e 
hespanhoes, não é tanto contra o conquistador da 
Itália e da Hespanha, como pelo antagonismo do 
espirito municipalista das liberdades iocaes contra o 
feudalismo, que desde a hierarchia imperial derivava 
os privilégios pessoaes. No romance portuguez de 
GerinaldOy a princeza filha de Carlos Magno entre- 
ga-se ao pagem, com o qual o pae a casa. Natu- 
ralmente as Gestas carlingias, qué se desenvolviam 
com maior intensidade nas regiões em que os ba 
rões feudaes resistiam á Realeza, foram perdendo de 
interesse nos paizes em que se não dava essa lucta, 
e sendo substituídas pelas narrativas de aventuras 
amorosas, como as do Cyclo da Tavola Redonda. 
E' por isso que Léon Gautier notou o facto de 
não terem em Hespanha as Cantilenas ou rudimen- 
tos épicos gallo frankas evolucionado para a forma 
culta ou litteraria das Canções de Gesta, ficando es- 
tacionarias no Romance oral. 

As descobertas sobre as origens germânicas das 
Epopêas gallo-frankas, estabeleceram esta transição 
de uma forma oral, a Cantilena heróica para a Gesta 
escripta e agrupada cyclica mente em volta do mesmo 
successo ou personagem. Pela natureza da poesia 
germânica, consagrada para celebrar as origens his- 
tóricas e os feitos militares, para ser cantada antes 



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POPULAR PORTUGUEZA 35 



das batalhas, para exaltar os ânimos, e durante a 
paz pelos cegos para perpetuarem a memoria dos 
heroes (pene histórico riiu) vê se que ella tendia a 
abreviar-se na tradição oral e a perder-se no esque- 
cimento. A collecção ordenada por Carlos Magno, 
como refere Eghinard, resultou da observação d'esse 
facto ; a Cantilena, desaparecendo na tradição po- 
pular, transforma-se na reda ção escripta na grande 
Gesta heróica, Quando Tácito, Jornandes e Eghinard, 
como muitos chronistas da Edade média, faliam da 
poesia da raça germânica, deixam, entrever uma forma 
breve (como a do Romance^ de Canção narrativa, 
tal como a da Ode grega e Dithyrambo em rela- 
ção á Epopêa homérica. Pela decadência de inte- 
resse e fervor da mythologia odinica diante do 
Christianismo, os cantores germânicos iam perdendo 
o poder de enthusiasmo que despertavam nas mul- 
tidões, de modo que com o dominio de Carlos Magno, 
que consolidou a suprema- ia da Egreja de Roma, 
acabou esta assombrosa creação épica espontânea, 
que o génio gallo-franko elaborou nas suas novas 
condições sociaes. A Gesta franka é propriamente 
a poesia do Feudalismo, dos Barões em revolta 
contra a absorpção do Poder real, e por fim é le- 
vada á idealisação d' esse poder único e absoluto 
personificado em Carlos Magno. As Cantilenas, que 
persistiam na tradição popular, apagavam-se por falta 
de heroes que exaltassem ; a individualidade impo 
nente de Carlos Magno sustando as invasões do norte 
e do sul. Saxões e Árabes, e asssegurando uma 
certa estabilidade ao começo da civilisação moderna, 
era o vulto em volta do qual os troveiros frankos 
agrupavam as velhas Cantilenas, alargando os seus 
themas. E' d esta reunião cyclica que se forma a 
Canção do Gesta, composta de milhares de versos, 
recitados nas praças publicas, durante semanas in- 



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36 HISTORIA DA POESIA 



teiras. Descobre-3e na Canção de Gesta o ponto de 
juncção das varias Cantilenas naquellas phrases: 
Oiez, seiguneurs, Ce est de Karle, etc. com que o jo- 
gral que recita melodicamente vae repousando ou 
fazendo as transições. A Cantilena prevalecia ainda 
nos costumes populares durante a época merovin- 
gia, memorando os feitos guerreiros frankos du- 
rante os séculos VI a viii ; com as victorias de Carlos 
Magno não tiveram os jograes senão o empenho de 
referir a elle tudo o que já estava dito dos outros 
reis. S' este o processo poético popular : nas tradi- 
ções franc-contoises, attribuemse a Carlos v façanhas 
que nas velhas chronicas engrandeceram Carlos Ma- 
gno ; * como nas aldeias do Comté se lançam á conta 
das hordas de Henrique iv as atrocidades de antes 
imputadas aos sarracenos. Coexistentes com as Can- 
ções de Gesta, conservaram se duas Cantilenas do 
século IX, a de Hildebrand e a de Sancourt. Uma 
nova corrente de inspiração irrompia da unidade eu- 
ropêa fundada por Carlos Magno, começando a ela- 
boração das Cantilenas pelo agrupamento cyclico, 
que naturalmente veiu a constituir trez grandes cor- 
pos épicos : o Cyclo de Carlos Magno, o de Guilherme 
d O range e o de Reynwd de Montauòan, Somente 
as Gestas do cyclo mais geral é que podiam achar 
interesse nas Cortes peninsulares e entre o povo, 
como vemos nas tradições carlingias. 

Com a lucta dos grandes vassallos foram-se con- 
stituindo novos cyclos secundários de Canções de 
Gesta, taes como o Cyclo feudal dos Lorrains na 
Austrasia; o de Germond e Isembard em Pon- 
thieu ; o de Raul de Cambrai, em Vermandois ; os 
de Aubry le Bourguignon, de Gerard de Roussillon, 



* Jacob Grimm, Traditwns allemands^ t. i, p. xxxvn. 



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POPULAH PORTUGUEZA Sy 

de Elie de Saint Gilles,' d'Amis e Amilles, e de 
Beuves dHanstone. * Nem todos estes cantares podiam 
ser repetidos fora dos focos da lucta senhorial ; fra- 
gmentavam-se os quadros episódicos que mais im- 
pressionavam, reduzindo os ás situações dramáticas 
empolgantes, E' por isso que as Gestas, na Hespa- 
nha, voltaram á forma da Cantilena, que outra cousa 
não é o Romance, cujos themas se teriam renovado 
pelas invasões scandinavas e normandas na penin- 
sula. Esta seiva poética que no século xn irradiava 
da França para a Hespanha e Portugal encontrava 
mais interesse entre a gente da corte ; os cantos 
guerreiros eram recommendados á preferencia dos fi- 
dalgos. Lê-se na Crónica de Hespanha : « E agora 
sabede los que esta iestoria oydes, que maguer que 
los juglares cantan en sus Cantares e dizeh en sus 
fabras, que Carlos el Emperador conquiriu en Espafia 
muchos castellos e muchas ciudades, e que ove y 
muchas batallas con Moros desde Francia fasta San- 
tiago. . .» Bastava isto para Carlos Magno tornar se 
n'esta lucta contra os sarracenos um heroe nacional. 
Nas Leis de Partidas estabelecia Affonso o Sábio, 
em 1250 : «que los juglares noti dixiessn antellos otros 
Cantores si non de (iesta, é que fallasen de fechos 
de armas.» (Part. 11, tit. 21, lei 20). Contrapondo 
estas narrativas guerreiras aos cantos desenvoltos 
amorosos, vê se que a Matéria de França tinha de 
ceder o logar ás lendas dos herões nacionaes, que 
idealisavam o Cid, Bernardo dei Carpio, os Infantes 
de Lara, em volta dos quaes se agrupavam cyclica- 
mente os Romances populares e semi-litterarios na 
Crónica rimada. Em Portugal, pelas mesmas rasões 
que em Itália, não havendo lendas heróicas que 



Léon Gautier, Lis Epopèes ^rançaises t. i, p. 99. 



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38 HISTORIA DA POESIA 



substituíssem a Matéria de França, ficaram muitos 
themas que só depois do século xv irromperam 
na tradição oral. * A França ficou na memoria do 
povo como uma fonte poética indefinida; no ro 
mance da Bella Infanta, quando a esposa pergunta 
ao cavalleiro pelo marido ausente, elle diz : 

Pelos siçnaes que me daes, 
Não o vi senão uma vez, 
Vi -o morrer em França^ 
Enterral-o em Santa Inez. 

(Rom. ger. «.<» 2) 

No Romance da Filha do rei de França, seme- 



' E' bastante segniíicativa a Cantilena de D. Aífonso Lopes de 
Bayam privado do rei D. Aífonso in, e que com elle estivera em 
França, parodiando o typo das Canções de Gesta, com as suas 
laisscs ou tiradas em assonancia com o numero indeterminado de 
versos : 

(íAqttt st começa a Gesia, que fez don Afonso Lopes a don Meen- 
do e a seus vassallos^ de mal dizer : 

Seria-x'i dou Velpelho en humha sa mayson 
que chaman Longos, ond'eles todos sou; 
per porta lh'entra M rtin de Farazon 
escuda colo en qu'é senh'um capon 
que foy já poreyr'en outra sazon; 
cavairagudo que semelha forom 
en cima d'eU un velho selegon. . . 

São ao todo 53 versos em trez laisses com neuma tradicional 
dos troveiros Eoyí {Çanc, da Vaticana^ n" 1080). O nome de 
Velpelho significa já o espirito burguez, que parodiava as Gestas 
feudaes no poema do Renard ; do nome latino Vtdpes e Vulpecula 
vieram para o írancez Goupil e para o portuguez Golpelha^ O nome 
de Renard, adoptado pelos troveiros francezes das formas Reinard^ 
Reginarius, apparece na península hispânica na forma de Guinarda 
e Gavarda. Finalmente Raposa (de ra^^-osa) na tradição portu- 
gueza deu o nome ás Raposias, que nos escriptores como Fernão 
Lopes significam as fabulas em que a raposa figura. 



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POPULAR PORTUGUEZA 3g 

Ihante a uma canção normanda de Olivier Basselin, 
lê-se : 

Sou Jilha do rei de f rançai ^ 

Dâ rainha Constantina. 

Sou filha do rei de França^ 
Neta do rei de Castilha. 

(Versão da Covilhã.) 

Sou filha do rei de França^ 
Neta sou dei rei d'Hungria. 

(Vers. Algarve.) 

No Romance da Donzella que vae d guerra, allu- 
de-se ás 

Grandes guerras são armadas 
De França contra Aragão. 

E no Bernal-francez \ 

Não abro a minha porta 
A taes horas de dormir. 
— Abri ao homem de França 
Que lh'a costumaes abrir. 

E vós, Bernal Françoilo 
Sem vos virares pVa mim? 
Ou tendes dama em França, 
A quem queiras mais que a mim !* 
(/íom, Arch. aç., n.^ 8.) 

E no Romance da Não Catherineta: 

Acima, acima gageiro' 
Aquelle tope real, 
Vê se vês partes de França^ 
Areias de Portugal . . . 

(Ib.. n.o 38.) 

Não quero as tuas filhas 
Que Deus t'as deixa gozar ; 
Que eu tenho mulher em França 
Filhinhas do sustentar. 

(Ib., n o 39.) 



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40 HISTORIA DA POESIA 



Os themas poéticos da Matéria de França, como 
o áç^Gerinaldo, Rico Franco, Bernalfrancez, Passo 
de Roncesval, Reinaldo de Montcilvdio, Gaifeiros que 
só apparecem na tradição oral portugueza no sécu- 
lo XV, como se observa pelas collecções insulanas 
dos Archipelagos da Madeira e Açores, ficaram 
entre o povo desde a sua primitiva communicação 
jogralescá ás colónias írancezas estabelecidas em 
Portugal, e moldaram -se na forma preexistente da 
Arceuia. 

A Matéria de Françay elaborada nos rudimentos 
épicos das Canções de Gesta, encontrou sympathia 
na Allemanha, desde os fins do século xii, nos 
Paizes Baixos, na Noruega nos principios do século 
XIII, na Inglaterra e na Hespanha aonde suscita a 
creação de um cyclo de Gestas nacionaes ; foi, porém 
em um povo sem tradições épicas, na Itália, que 
esses gigantescos poemas se desenvolvem litteraria- 
mente attingindo a belleza esthetica, que lhes sou- 
beram dár Pulei, Boiardo, Ariosto, bordando sobre os 
quadros dos troveiros com uma fina ironia a varie- 
dade phantasista dos poemas bretãos com a correc- 
ção da eurythmia da antiguidade clássica. Observa-se 
aqui a evolução dos themas tradicionaes e popula- 
lares das Cantilenas germânicas, que se desenvolvem 
litterariamente nas Canções de Gesta dos troveiros 
francezes, com que são propagadas em toda a Europa 
no século xii, attingindo a forma artística do- génio 
italiano nos Poemas modernos, de que ainda sobre- 
vive o Orlando furioso. Estes factos explicam niti- 
damente a relação orgânica e esthetica entre as Tra- 
dições poéticas populares e as Nacionalitteraturas. 

2.° Matéria de Bretanha. — (Cyclo da Tavola Re- 
donda e do Santo Graal). — A substituição das Ges- 
tas carlingias essencialmente ' guerreiras, pelos poe- 



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POPULAR PORTUGUE2A 4I 

mas de aventuras amorosas e de devaneios mysticos 
do cyclo arthuriano e da Cavallesca celeste, mani- 
festou se também em Portugal na vida da corte, 
antes de se espalharem esses cantos apaixonados 
entre o povo. Nas suas Canções o rei Dom Diniz 
toma como typos dos verdadeiros amantes Tristão 
e Yseult, Flores e Srancaflor : 

Qual magos poss' e o mais encoberto 
Que eu poss* e sey de Branchafroly 
Que Ihi não ouve Flores tal amor 
Qual vos eu ey, e pêro são certo. 

(Canc. n/» 115. Vat) 

Também João de Guilhade (Canc n.° 253) refe- 
re-se ao mesmo personagem e poema : 

Os grandes vossos amores 
Que mi e vós sempre ouvemos, 
Nunca Ihi cima fizemos 
Com' a Branchafrol e flores 

Como symbolo da fidelidade no amor o thema de 
Flores e Brancafíor era empregado pelos trovadores 
provençaes, e de um poema em língua doe tomaria 
conhecimento o rei D. Diniz. Como viria á tradição 
popular ? segundo a versão oral portugueza, o Conde 
Flor foi feito captivo dos mouros quando vinha em 
romaria a Santhiago : 

Deram com o Conde Flores 
Que vinha da lomaria, 
Vinha lá de Santiago, 
Santiago da Galliza. 
Mataram o Conde Flores 
A condessa vae captiva. 

(Roni. ger., n.*> 38). 

Edelestand du Méril analysando as duas versões 
francezas de poemas de Brancaflor, diz: «As duas 



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42 HISTORIA DA POESIA 

versões concordam egualmente em fazer notar o ca- 
ptíveiro de Brancaflor como. uma espécie de mar- 
tyrio : as peregrinações ao tumulo de Santhiago eram 
bastante, populares no século xii e xiii eiTi França, 
conciliando de ante mão á heroina a sympathia de 
todos os bons christãos, suppondo que foi durante 
uma d'essas piedosas romagens, que os seus paren- 
tes foram atacados pelos pagãos e reduzidos ao ca- 
ptiveiro>. * Esta circumstancia leva a inferir que este 
thema se vulgarisou em Portugal por via dos pere - 
grinos francezes, que segundo o costume do tempo 
pagavam a hospitalidade com cantos. 

Em uma outra canção do rei D. Diniz ha refe- 
rencias ao thema dos amores do Triòtão e Yseult: 

Qual mayor poss' e o muy namorado 
Tristã^ sey bem que nam amou Iseu. 

Na aristocracia portugueza os nomes de TristãOy 
Ausea, Ausenda, Percival, Lançarote, (Lancelot) Ar- 
thur, Ginebra (Gweniwar) Briolanja (Brengiene) Li- 
suarte^ Sagramor, foram usados na vida civil, desde 
o começo de século xv a fins do xvi século. Mas, 
apesar d'esta predilecção da Corte, a Matéria de 
Bretanha também entra na corrente popular sobre- 
tudo pelo elemento musical dos Lids^ ou canções 
narrativas do mesmo typo da Cantilena franka e da 
Aravia lusitana ou Romance peninsular. No Romance 
do Conde Ninho, da versão oral de Traz-os-Montes, 
vem o seguinte episodio : 

Morreu um e morreu outro 
Já lá vão a enterrar, 
D'um nascera um pinheirinho 
De outro um linJo pinheiral. 



1 Branchaflmr, Intruduction, p. xix. 



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POPULAR l'OKTUGUICZA 48 



Que quando el-rei ia á missa 
Náo o deixavam passar. 
Peio que o tei maldito 
Logo os mandara cortar; 
De um correra leite puro, 
E do outro sangue real 

(Rom, gey,^ n.^ 14). 

No Tristan, Chevalier de Table Ronde, acha-se 
este mesmo quadro: «Et de la tombe mooseigneur 
Tristan yssoit une ronce belle et verte et bien feuil- 
lue, qui alloit par dessus la chapelle, et descendoit 
le bout de la ronce sur la tombe de la Reyne Yseult 
et entroit dedans. Le virent Ia gens du pays et le 
compterent au Roy Marc. Le Roy la rtst coupper 
par trois foys, et quant il lavoit le jour fait couppér 
le landemain estai aussi belle comme elle avoit autreíbis 
este.» (Kl. CXXIV.) Na poesia popular da Norman- 
dia, colligida por Beaurepaire, vem este mesmo epi- 
sodio : 

Sur la tombe du garçon 

On y mit une epine 

Sur la tombe de la belle 

On y mit une olive. 

L'épine crut si hraut 

Qu*elle embrassa Toline, 

Ou on tira du bois 

Pour balir des eglises 

Sobre esta relação tradicional, conhecida a parte 
que o povo normando cornou no desenvolvimento 
dos cantos bretãos, transcrevemos as observações de 
Charles d'Héricault : «Os Normandos acharam nesta 
tradição dos poetas indigenas (da Bretanha) elemen- 
tos que convinham algum tanto á sua situação (de 
conquistadores dos ^axões), muito ao seu génio, e 
trabalharam estes elementos não somente com a arte 
poética que convinha aos seus instinctos, mas tam- 
bém coni o methodo que lhes era imposto pela sua 



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44 HISTORIA DA POESIA 

organisação politica sobre o território inglez, Elles 
não eram inimigos dos Bretãos, mas dos Saxões; foram 
estes que elles venceram, e os Bretãos não estavam 
longe de crer, segundo testemunhos contemporâneos, 
no Vencedor de Harold um libertador, quasi uma in- 
carnação de Arthur. — E' ao génio normando que se 
deve attribur a creação do Cyclo da Tavola Redonda, 
ao caracter próprio desta raça, e á condição social 
dos conquistadores de Inglaterra, que devemos in- 
quirir para comprehender a forma litteraria dos ro- 
mances d'este Cyclo.» ' O que os Frankos fizeram 
da Cantilena germânica desenvolvendo-a na Canção 
de Gesta franceza, fizeram os Normandos elaborando 
os Lais da Bretanha n esses poemas da Tavola Re- 
donda e do Santo Graal. Como viria este thema dos 
amores de Tristão divulgarse na tradição popular? E* 
certo que no Cancioneiro Collocci-Brancuti appare- 
cem Lais de Tristão com forma lyrica destinados a 
serem cantados em ária de corte. Mas um facto co- 
nhecido, e que não era indifferente para o povo, 
um amor desgraçado, fez com que o thema se vivi- 
ficasse pela realidade: é o caso do Conde Dom Pe- 
dro Nino, que se apaixonou por D. Beatriz, filha 
do infante D. João de Portugal (filho de D. Ignez 
de Castro), e que tendo resistido contra todas as op- 
posições do Rei Regente de Hespanha, veiu por fim 
a casar com ella. 

O poeta Villasandino fez uma Canção celebrando 
esses amores : «Esta Cantiga fiso Alfonso Alvares 
por ruego dei Conde Don Pedro Nino, por amor 
e loores de DoHa Beatriz su muger,i> E em outra 
Canção vem a rubrica explicativa : « Esta Cantiga 
dizen que fizo el dicho Alfonso Alvares por ruego 



1 Es sai sur V origine de VEpopée françai^e^ p, 47. 



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l'OPULAR PORTUGUEZA 



dei dicho Cojide Pêro NiHo^ quando el Infante Don 
Fernando la fizo prender á su muger Dona Beatriz, 
ai tiempo que se desposo con elia em Palácio; é des- 
pués la mando poner en lo Castillo de Orvería, é el 
dicho Conde ffuesse a Vavona,^ * Gutrerre de Ga- 
mes fez uma narração meio histórica meio fabulosa 
d*estas aventuras acontecidas no Crónica do Con- 
de D. Pedro NiHo. Não admira que a situação da 
infanta portugueza D. Beatriz se identificasse com a 
aventura de Tristão no romance oral do Conde Ni- 
nho. Na Chronica de Gutíerres de Games, falla-se 
nesses lances da opposição do rei : «E después de 
la respuesta dei Infante anduvo Pedro Nifio más de 
médio ano por la corte é cerca delia, é vióse en 
assaz peligro muchas vezes por ver á su esposa.» 
(Cap. III, P. Ill, p. 185.) 

O cyclo da Tavola Redonda veiu a prevalecer 
no gosto das Cortes sobre as Gestas carlingias, 
pelo seu espirito religioso e amoroso. Pelo casa- 
mento do Mestre de Avis, o rei D. João 1 com 
D. Filippa de Lencastre, espalhou-se na corte por- 
tugueza o gosto quasi exclusivo por estes poemas 
arthurianos. Conta Fernão Lopes, na Chronica de 
D, João /, (P. II, cap. 76) que ^ achando-se o rei 
no cerco de Coria, desgostoso por alguns cavalleiros 
não se terem approximado da barbacan, lhes chas- 
queara a valentia, alludindo aos heroes da Tavola 
Redonda : 

cEl rey na tenda, segundo parece, nom foy bem 
contente dalguns, que se não chegaram como elle 
quizera : deshi falando nas cousas que se no com- 
bate acaeceram veiu a dizer como em sabor : — 
Gram mingua nos fizeram hoje este dia os boos Ca- 



* Cancionero de Baena, t. 1, p. 21, 37 e 50. 



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4t) HISTORIA DA POESIA 

valleiros da Tavola Redonda; ca certamente elles 
nos tomaram este logar. Estas palavras nom pode 
ouvir com paciência Mem Rodrigues de Vasconcel- 
los, que logo nom respondeu, e disse : — Senhor ; 
nem fizeram aqui mingua os Cavalleiros da Tavola 
Redonda, que aqui está Mem Vasques da Cunha, 
que é tão bom como Dom Galaaz, e Gonçalo Vas- 
ques Coutinho, que he tão bom como Dom Tristão ; 
e exaqui Joham Fernandes Pacheco, que he tam 
bom como Lançarote, e doutros que via estar acerca; 
e ex-me eu aqui, que valho tanto como Dom, Qtiea 
(Kay) ; assi, que nom fizerom aqui uingua estes" 
Cavalleiros que vós dizeis ; mas feze nos a nós aqui 
, gram mingua o bom Rey Arihur, flor de lis, senhor 
delles, que conhecia os bons servidores, fazendo-lhes 
mercês por que aviam desejo de bem o servir. 

«El Rey vendo que o aviam por injuria, respon- 
deu entonce e disse : Nem eu esse nom tirava a 
fora, ca assi era companheiro da Tavdla Redonda 
como cada um dos outros. - Entam lançando o feito 
a riso daquesto e doutras cousas, leixaram tal ra- 
soado e falaram nas destemperadas calmas, que n*a- 
quellç logar faziam.» 

Em outros logares da mesma Chronica, Fernão 
Lopes compara estes feitos aos de Lançarote. Tam- 
bém os Cavalleiros da Ala dos Namorados e da 
Madre Silva animavam- se com o espinto aventuroso 
dos heroes da Tavola Redonda ; a honra predomina 
exclusivamente no cyclo carlingiano, mas a bravura 
no cyclo arthuriano é suscitada pelo amor. Kj rei 
Arthur é amado na Ilha de Avalon ; Lancelot ama 
a rainha Ginebra, Tristão ama Yseult, Ivain a Dama 
da Fonte, Eric a Enida, Merlin a fada Viviana. O 
heroe que na historia portugueza appresenta os tra- 
ços de um Cid lendário, o Santo Condestabre D. 
Nuno Alarves Pereira, deliciava-se com a leitura d'es- 



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POPULAR POKTUGUEZA 47 

tes poemas de aventuras; lê-se na sua Chronica 
anonyma : cE com esto avia gram sabor, usava 
muito de ouvir e ler livros de historias, especial- 
mente usava mais ler a historia de Galaas em que 
se continha a Somma da Tavola Redonda, E por- 
que elle achava que por virtude de virgindade que 
elle houve e em que perseverou Galaaz, acabara 
muitos grandes e notáveis feitos, que outros nom 
poderam acabar. E elle desejava muito de o pare- 
cer em alguma guisa : e muitas vezes em si cuidava 
de ser virgem.» * 

Era sobre tudo predilecto á corte este Cyclo poé- 
tico que lisonjeava a passividade amorosa do génio 
portuguez. Entre os Livros de uso de Elrei Dom 
Duarte, vem citados os romances novellescos de 
GalaaZy de Tristão e de Merlin, Os chronistas não 
consideravam estas ficções completamente destitui- 
das de valor histórico ; Ruy de Fina, contando a vi- 
sita do rei D. Aflfonso v, quando estava em França, 
a uma certa Abbadia benedictina, diz que ahi lhe 
mostraram «hum muy rico e antigo livro da Estoria 
de Lançarote e Tristão^ porventura mais verdadeira 
do que cd se itnagina, » * Nos festejos reaes, na corte 
de D. João íi, ainda os Cavalleiros se vestiam como 
os da Tavola Redonda, e o monarcha mesmo trajava 
invencionado em Cavalleiro do Cysne, No cyclo ar- 
thuriano syncretiravam-se elementos poéticos carlin- 
gios e da erudição clássica. As Capitulares de Carlos 
Magno são postas em acção por Arthur, ambas 
combatendo os Saxões e os pagãos ; a Roland con- 
trapõe se Gauvain, os Doze Pares são copiados nos 
companheiros da Tavola Redonda, e a Durandal é 



^ Ckroniea de Condestabre^ p. 12. Ed. 1848. 

^ Qhr. de Z>. Affonzo v, cap. 1 94. (Nos Inéditos da Academia). 



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48 HISTORIA DA POESIA 



O modelo da espada Esaalibor, O troveiro ou me- 
nestrel compara o rei Arthur com elementos das 
fabulas helleni(:as, assemeihando-o a Jason e a Ale- 
xandre ; Tristão combate o Minotauro, ambos trazem 
o mesmo signal da vela negra no navio. Lancelot 
também resolve um enigma do Gigante como o que 
propozera a Sphinge a CEdipo ; o rei Artur é trahido 
por Ginebra, como Hercules por Djanira. Tudo re- 
vela a dissolução d essa forma normanda litteraria 
dos mythos bretãos, em uma outra forma litteraria, 
a Novella çm prosa, que ia desenvolver-se no século 
XV. Todas estas ficções que desxie o fim do século 
xiii tanto agradaram aos cortezãos em Portugal, só 
muito tarde se diffundiram entre os villãos, entre os 
quaes se conservariam alguns Lais narrativos. Nos 
dois focos poéticos tradicionaes do século xv, as ilhas 
da Madeira e Açores, é que se encontram Roman- 
ces populares do cyclo arthuriano, pela rasão de que 
n esses focos, longe da metrópole, não se dava a se- 
paração completa do Cortezão e do Villão, 

Na poesia da raça bretã, na sua resistência contra 
os Saxões, além da autonomia politica representada 
no typo do rei Arthur, havia também o elemento 
religioso da Egreja protocathedrica, qué se contrapu- 
nha á Egreja de Roma (que apoiava os Saxões con- 
tra a subjugada nacionalidade) que pelo Santo Graal 
sustentava o seu christianismo trransmittido directa- 
mente por Nicodemus. Foi sobre este symbolo, que 
se deu a forma mystica ao seu sentimento do Amor, 
imaginando uma Cavallaria celeste, em que os Tem- 
plistas guardavam o Vaso sagrado, á procura do qual 
seguiam pelo mundo os que aspiravam á perfeição 
ideal. O Santo Graal que já existia nas tradições 
bretãs primitivas, tornou-se na Egreja uma lenda 
evangélica, que pelo seu lado religioso facilmente 
entrava na corrente da tradição popular, porque, se- 



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POPULAR PORTUGUEZA 49 

gundo a crença, fora n^esse vazo que se aparou o 
sangue do crucificado quando o feriu a lança de 
Longuinhos (de lonke, a lança) ; lê- se em um romance 
popular do Alemtejo esta preciosa referencia ao 
Santo Graal e aos seus maravilhosos poderes : 

Já os Anjos vão pVa céo, 

*Stão dispostos em procissão, 

San Pedro leva a Cruz, 

San João leva o Pendão; . 

Dentro raquelle pendão 

Vae Moimento armado : 

Dentro d'aquelle Moimento 

Va^ Jesus Crucificado, 

Morto de pés e mãos, 

Seu sangue lhe vae cahindo 

Para o Cálix consagrado; 

PVa que todo o homem que o bebesse 

N^este mundo seria rei^ 

No outro será coroado. 

Muitos destes elementos poéticos bretãos ligaram- 
se ás tradições nacionaes portuguezas, como a das 
Ilkas empoadas, ou occultas no nevoeiro ; a das pro- 
phécias de Merlin (merlinicas, d onde a phrase po^ 
pular arte de berliques] ; as de um Salvador como 
Dom Sebastião, tardia imitação do rei Arthur, e as de 
San Brendan (donde vem a phrase : Valha-te San 
Barambum.) * 

Na Matéria de Bretanha, ha também a forma da 
Canção narrativa dos menestréis bretãos, os Lais, 
alguns que ficaram na forma oral dos Contos de crian- 
ças, os Mabinogion, recebendo a forma littera- 
ria em Marie de France, e os desenvolvimentos 
épicos em Kobert Wace, a forma de prosa novel- 



* Sobre as origens d'este Cyclo poético, ver a Lenda do Santo 
Graal i da Tavola Redona:, no nosso livro As Lendas christãs, 
p. 254 a 279, 

Pões, popul. — Vol. II 4 



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5o HISTORIA DA POESIA 



lesca em Robert de Boron, chegando á forma artís- 
tica do Aniadis de Gaula portuguez, fonte de uma 
elaboração em todas as Litteraturas do Romance de 
Cavalleria. 

3.® Matéria de Roma. (Cyclo greco romano) — 
Entre á multiplicidade das creações poéticas que ca- 
racterisam este génesis assombroso da Edade media, 
e que constituíram os vastos Cyclos carlingiano (Gallo- 
franko) e arthuriano (Gallo-bretãoj, em que succes- 
si vãmente se encontra a influencia do génio de um 
povo actuando sobre a imaginação dos outros po- 
vos, penetrando se mutuamente dos mesmos senti- 
mentos, formava-se o esboço de uma unidade sym- 
pathica da Europa, já sobre uma commum christan- 
dade, já com o presentímento de uma solidariedade 
com o passado na primeira e segunda Renascença. 
A Antiguidade também começou a seduzir as ima- 
ginações, originando pela própria tendência syncretica 
novas narrativas sobre heroes gregos e romanos, a 
cujos themas pertencem os Romances da Guerra de 
Troya, de Alexandre, de Virgílio e de Apollonio, 
Os poetas medievaes encontraram uma grande mina 
de ficções nos historiadores byzantinos, que confun- 
diram as raias da tradição e da historia : Syncellô, Ce- 
dreno. Malaias, repetem as fabulas que envolveram 
Aristóteles, desde Àristobulo até ás versões do Pseudo- 
Callisthenes, * Esta influencia da litteratura byzantina 
na Edade Media, tem na parte referente á poesia semi- 
popular o tiome de Cyclo greeo-romano, ou como 
que Bodel designara de Rome la grant. Os commen- 
tarios das escholas rhetoricas na interpretação dos 
auctores clássicos, também causavam anedoctas ou 



4 Chassang, Histoirt du Rcman, p. 434. 



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POPULAR PORTUGUEZA 



lendas que se elaboraram poeticamente no Cyclo 
greco-romano ; assim se formou a lenda de Virgilio, 
que a Edade média adoptou como o seu poeta querido, 
dando-lhe a physionomiá da sua crença : fez d'elle 
um padre da egreja (annunciando o Verbo), um ni- 
gromante (os amores de Lanuce, e espelhos de Sal- 
vação), um paladino apaixonado (como no romance 
hespanhol) ; todas estas formas lendárias resultaram 
da interpretação das suas Éclogas. Nas lendas me- 
dia vaes Aristóteles é representado com freio e mon- 
tado por Lais, porventura como protesto contra as 
suas ideias acerca da intelligencia dos brutos. A pa- 
lavra Estaria, n'esta corrente syncretica torná-se sy- 
nonimo de tradição. Fernão Lopes fora encarregado 
de pôr em caronica as estorias dos primeiros reis de 
Portugal ; Garcia de Resende também distingue este 
elemento tradicional, quando no prologo do Cancio- 
neiro geral escreve: «muytos e grandes feytos de 
guerra, paz e virtudes, de ciência, manhas e genti- 
lezas sam esquecidas, que se os escriptores se qui- 
zessem acupar verdadeiramente nos feitos de Roma, 
Troya e outras antigas crónicas e estorias, nam acha- 
riam mores façanhas, nem mais notáveis feitos, que 
os dos nossos naturaes se podiam escrever assy dos 
tempos passados como d' agora.» E accrescenta: «E 
assy muytos emperadores, reys e pessoas de me- 
moria pelos rrimances e trarias sabemos suas estorias, > 
Em um canto sobre a morte de Du Guesclin enu- 
meram-se os personagens históricos que formavam 
este Cyclo greco-romano : 

Pour ce grans fais soit escnpt en la table 
MachabeuSy et des preux de renom, 
De Josue^ Davidy le resonable, 
D' Alexandre^ de Ecto^ et César on. ' 



* Chronique de Du Guesclin, p. 463. Ed. F. Michel. 1839. 



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52 HISTORIA Da POESIA 

Na Gesta latina do Cid Campeador (de 1118 a 
1133) ha referencias aos heroes da antiguidade clas-- 
sica : 

Eia! gestorum possumus referre 
Paris et Pirrhi, nec non et Aenae. 



Tanli victoris nam si retexere 
Coeperim cuncto haec libri mille 
Capere possent Homero cahente 
Summo labore. 

Talibus armis ornatus et eque 
Paris vel Hector melioris iíle 
, Nunquam fuerunt in Troiam beílo 
Sunt neque modo. * 

Na Bibliotheca do rei D. Duarte, como se vê pelo 
catalogo dos seus livros de uso, guardavahi-se poe- 
mas de Alexandre e de César ; a Historia de Troya 
foi traduzida em gallego e em portuguez, recebendo 
forma de romance narrativo ao gesto popular por 
Jorge Ferreira de Vasconcellos. No Roman de Flamen- 
ca citam-se os themas greco-romanos sobre que osjo- 
graes cantavam : Priafno, Piramo, Hellena, Dido, 
Heitor y AchilleSy Lavinia, Appollonice, Tideu, Ero e 
Leandro, Jason, Philis, Narciso, Orpheo, etc. Os 
eruditos do século xiv derivavam de Troya as ori- 
gens das nacionalidades modernas ; em um docu- 
mento de Dagoberto, a França provinha dos foragi- 
dos de Troya; o mesmo dizia Eduardo iii de Ingla- 
terra ao papa ; Veneza também considerava troyano 
um dos seus bairros, e até os Scandinavos, em Snõrre, 
eram descendentes dos Trpyanos. Não admira que 
o historiador Mariana narrasse a sério a vinda dos 



1 Ap. Edelestand du Méril, Foésies populares latinas du Moym Age y 
p. 308. 



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POPULAR PORTUGUEZA 53 

emigrantes de Troya á Hespanha, e que as ideias 
dos eruditos do século xv fizessem do nome ethno- 
logico de Luso uma etymologia de Elysa, e de Ulysses 
derivassem o nome de Lisboa (Ulyssêa, Ulyssipo) a 
que deu Camões curso na sua Epopêá : 

Ulysses é o que fez a casa santa 
A* deusa que lhe' dá língua facunda, 
Que se lá na Ásia Troya insigne arrasa^ 
Cá na Europa Lisboa ingente funda. 

{Lus.y Gant. vin, st. 5.) 

No fundo d este syncretismo existia um facto re- 
ferido por Strabão, do conhecimento das tradições 
homéricas na Itália e na Hespanha, mas que nem 
o mesmo Strabão já sabia explicar, quanto mais os 
humanistas da Renascença. As tradições de que os 
Jonios se apropriaram e sobre que se entreteceu a 
Odyssèa, foram referidas ás navegações no Mediter- 
râneo, quasi de cabotagem, quando essas tradições 
resultaram das navegações atlânticas pela raça dos 
Ligures, ou pre- célticos, e de que restam vestigios 
nos Romances populares. 



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B) A ABTE DE TBOVAB 



i.° Arte commum. (Mestria fnenor,) - A poesia 
das Jinguas românicas distinguiu-se além da accentua- 
ção pela rima, e esta caracteristica lhe deu o nome 
genérico de rimance ; da procura da rima proveiu o 
jiome de trova designando a cantiga vulgar, de que 
o quinhentista Ferreira fallava com desdém. Ainda 
hoje em Traz os Montes o nome de Trobo designa 
a canção narrativa. Das formas populares tiraram 
os provençaes os rudimentos lyricos, que serviram 
de modelo ás novas Litteraturas ; e o desenvolvi- 
mento culto das formas do verso e da estrophe, 
constituiu a Arte de Trovar, distinguindo-se em Gran 
Mestria dos processos espontâneos do povo, a que 
chamaram Arte commum ou Mestria menor. Sepa- 
rando-se cada vez mais o cortezão do villão, os can 
tos populares perderam-se em grande parte na trans- 
missão oral, e os trovadores fidalgos versificando em 
maneira de Iroençal, como diz o rei Dom Diniz, 
esgotavam todo o esforço em artificios incompativeis 
com a expressão do sentimento. Só indirectamente 
é que a belleza natural da poesia do povo veiu ani- 
mar o lyrismo trobadoresco, que se apagava; uma 



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POPULAR PORTUGUEZA 53 

classe sahida do povo e exercendo o mister de can- 
tores vagabundos (mister de joglarià) é que conver- 
gia ás cortes e palácios da nobreza, levando-lhes a3 
novas cantigas, umas vulgarisadas de alguns trovado- 
res mais afamados, outras imitando semi-Iitteraria- 
mente as canções anonymas que lhe eram mais 
queridas ou próprias da occasião, como as da entrada 
de Maio. Não é fácil encontrar Canções genuina- 
mente populares do século xii a xiv; mas authen- 
tica-se a sua existência nas referencias dos trovado- 
res fidalgos, quando as imitam nas composições sa- 
tíricas, nas bailadas, e quando os jograes reproduzem 
as formas tradicionaes metrificando nellas as inven- 
ções do momento, confundindo a Arte maior com a 
Arte commum. Aos versos curtos, próprios para a 
dansa e para o canto, como os quaternários e qui- 
narios, sempre empregados nas Canções lyricas e. nar- 
rativas pelo povo, deu-se nas Poéticas ou Artes de 
Trovar, o nome de versos de arte menor, contra- 
postos á arte maior ou octonarios, e Gran Mestria 
ou os endecasyllabos. O desdém dos cortezãos contra 
os cantares de villão é que fez conservar alguns ves- 
tígios da poesia popular d'este periodo de transfor- 
mação e assimilação de novos elementos. 

O trovador portuguez Martim Soares, em uma can- 
ção ^de maldizer a hun cavaleyro que cuydaua que 
iroòava ben, e que fazia muy bons sons e non era 
assy^t descreve desdenhosamente o gosto da poesia 
popular, pondo-a em contraste com a gay a doutrina : 

Cavaleyro, com vossos cantares 
mal avilastes os trobadores, 
e poys assy per vós son vençudos 
busquen per ai servir sas senhores ; 
cá vos vejo en mays das gentes ganhar 
do vosso bando por vosso irobar, 
cá nom elles que son trobadores. 



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56 HISTORIA DA POESIA 



Os aldeyãos e os Concelhos 
todolos avedes per pagados, 
tamben se chamam per vossos quites 
como se fossem vossos comprados 
por estes cantares que fa^eáes d'amor^ 
em que Ihis acham as filhas sabor ^ 
e os mancebos que teen soldados. 

Bemquisto sodes dos alfayates^ 
dos peliteyros e dos moedores , 
d'a vosso bando son o$ trõpeyros^ 
e osjograes dos atambores, 
por que Ihis cabe nas trombas vosso sony 
para atambores ar dijem que non 
acham no mundo outros sons melhores. 

Os trobadores e as mulheres 
de vossos cantares son nojados, 
a hua, por que en pouco daria 
poys mi dos outros fossem loados, 
ca eles non sabem que x*i van fazer, 
queren bon son e bôo de dizer, 
e os cantares fremosos e rimados. 

E tod*aquesto é máo de fazer 
a quem os sol fazer desguisados. 

(Canc. Vat., n.» 965.) 

O trovador Martim Soares caracterisa bem os Can- 
iares de amor, de que tanto gostavam as filhas dos 
aldeãos, e os mancebos que as requestavam, e in- 
dica os instrumentos de trompas e tatnbores, que os 
acompanhavam, e que tanto agradavam á gente rude 
dos concelhos, os alfayates, peliteiros e moleiros; a 
estes cantares chama desguisados, e nojosos para 
mulheres, que querem uma melodia suave (bon son 
e bôo de dizer, isto é em recitativo,) e versos ri- 
mados em combinações estrophicas, (cantares fremo- 
sos e rimados.) 

Os fragmentos de cantigas populares que appare- 
cem intercalados nas Canções trobadorescas, appre- 



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POPULAR PORTUGUEZA 5^ 

sentam-nos o verso quinaria ou de arte menor, como 
o preferido para cd^er no rythmo da dansa e da 
musica a que andava sempre ligado. 

O trovador Joham de Gaya, motejando «hum vil- 
lão que foy alfayate do bispo don Domingos Jardo, 
de Lixboa, ca avya nome Vicente Domingues, e 
depois pose-lhe y nome o bispo Joham Fernandes et 
fese-o servir ante sy de cosinha et talher ant'el, et 
feze-o elrey Dom Deniz cavalleiro ...» serve-se do 
typo de uma cantiga popular: «Dizhua cantiga de 
vilaão : 

o pee d'hua torre 

baila corfe giolo ; 

vedes o cós, ay cavalleyro.» 

E sobre este refreiíi, com que queria amesqui- 
nhar o alfayate nobilitado, compoz Joham de Gaya 
no mesmo schema estrophico : 

Voaso pay na rua, 
ant*a a porta sua, 

vedel-o cós^ ay cavalleyro ! 

Ant'a ssa pousada 
em say*apretada ; 

vedeJ-o cóSy ay cavalleyro ! 

Em meyo da praça, 
em saya de baraça, 

vedel'0 cós, ay cavalleyro. 

(Canç. n.« i:043-) 

O desdém pela poesia do povo é que levara o 
trovador palaciano em parodias á forma de uma 
canção de escarneo. Assim no fragmento da Poética 
que está á frente do Cancioneiro Collocci-Brancuti, 
lê-se: cOutrosy outras Cantigas fazem os Troba- 
dores a que chamam de vilãos,^ (Cap. viii.) São pro- 
priamente de refram em contraposição ás cantigas 



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58 HISTORIA DA POESIA 



de mestria^ ou como dizia o rei D. Diniz «em ma- 
neira de proençal.» O antagonismo entre estas duas 
formas poéticas é também accentuado pelo trovador 
Joham Soares Coelho, chasqueando Joham Garcia : 

eu vos farey que nenhum trovador 
non trohe en talho se non de qual for, 
nen ar irobe por mays altas pessoas. 

E o villão que trobar souber 

que trob'e chame senhor sa molher, 

e averá cada huí5 o seu dereito. 

(Canç., nJ* 1024. Vat.) 

, O trovador Joham de Gaya fazendo uma cantiga 
satirica contra um aragonez que era bispo de Viseu» 
poz-lhe um refram popular : «Esta cantiga foy seguida 
por huma baylada, que diz : 

Vós avedelos olhos verdes, 
matar-m*edes com elles .» 

{Ib., Canç. n.*» 1062) 

E em uma tenção entre o jogral Lourenço e Ro- j 

drigo Eanes, diz-lhe este contra os seus cantares : ^ 

Lourenç*^ Eanes, terras hu eu andei 
non vi vilam tam mal departir^ 
e ve>o-te trobares cousir, 
e loar-te ; mais huma cousa sey 
de tod*omem que entendudo for, 
nom averá em teu cantar sabor, 
nem ch'o colheram en casa d'elrey. 

(lâ., Canç, 1032.) 

E o trovador Joham de Gaylhade também o ataca : 

e faraz m* ora desejos perder 
do trobador que trobou d'ovinçal. 
(tb., 1106.) 



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M 



POPULAR PORTUGUEZA 



Em algumas Canções de mestria encontram-se in- 
tercaladas estrophes de Cantigas populares, que re- 
velam a sua estructura e género poético ; o rei Dora 
Diniz termina as estancias de uma sua com as se- 
guintes : 

Ojr mais non é nada 
de ficar per namorado 
nunca mulher namorada, 
poy» que m*o meu ha errado. 

Amigo lomçSo, 
que faria por amores, 
poys m*errastes rã en vão, 
e ca eu antr^unbas flores. 

Ay, Santa Maria ! 
que será de mi agora. 

(Canc. da Vat., n.<» 137,) 

Em uma Canção de D. João de Aboim, vem os 
refrSes de uma cantiga popular: 

Nunca mulher crea per amigo, 
poys s*o meu foy e nom falou migo. 

Deus 1 ora vehesse o meu amigo, 
e averia gram prazer migo. 

(/?., n.o 278.) 

O clérigo Ayras Nunes segue o mesmo estylo, 
apontando trechos verdadeiramente populares : 

Sol o ramo verde, frolido, 
vodas fazem ao meu amigo ; 
e choram olhos d*amor ! 

Ay, estorninho do avelanedo, 
cantades vós, e moir'eu e peno ; 
d'amores ey mal I 

Que coytas ey tam grande de sofrer, 
amar amigu'e nom a ousar veer ; 
e pousarey sol-o avelanal. 



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6o HISTORIA DA POESIA 



Pela ribeira do rio 
cantando ya la virgo 
d'ampr : 

Quem amores ha, 

como dorm*or'ay, 

bella frol. 

(/?., n.» 454 ) 

O jogral Joham Zorro também termina uma Can- 
ção com o retornello popular : 

Ay amor, leyxedes-m'oje 
de sol-o ramo f<^gar, 
e depoys, treydes vos migo 
meu amigo demandar. 

(/^., n.o 751.) 

Além da Canção a uma voz, a forma coreada é 
apontada por Berceo, com o nome de Controba-- 
dura, especialmente de caracter religioso; são no 
typo apontado por Berceo as que ainda persistem 
nas Alvoradas de Pombal: «Cantigas muito velhas, 
cantadas a outo pessoas na festa de Nossa Senhora 
do Cardai, ao alvorecer : pelo que se lhes paga meio 
tostão, um pão, um bolo e trez quartilhos de vinho 
a cada uma: 

Vindas são as alvoradas, 

E* levada alva 1 
que são da Virgem sagrada ; 

E' levada alva. 
Ramha dos céos ... 

E* levada alva ! 
Sois dos anjos cercada. 

E* levada alva ! 
A' porta d'este mordomo, 

E' levada alva! 
Deus lhe deixe fazer bodo 

E' levada alva I 
Que elle tem muita vontade. . 

E* levada alva ! 



l»OPULAR PORTUGUEZA 



Deus lhe dê muita saúde, 

E' levada alva ! 
Para Frandes é andada 

E' levada alva ! 
Parreirinha de Aguada 

E* levada alva.» 

Ainda se podem descobrir vestígios authenticos da 
poesia popular portugueza nesta primeira época da 
nacionalidade sob a forma dos Anexins ou Rifões. Na 
sua estructura quasi sempre dichotoma apparecem co- 
mo elemento generativo de cantares de refram ; os 
trovadores portuguezes do século xiii e xrv serviram- 
se d'esses Rifões ou Vervos intercalando-os intencio- 
nalmente nas suas Canções provençalescas. Assim 
encontramos um provérbio ainda hoje corrente : 

O mal e o bem 
A' face vem. 

O trovador Estevam Fernandes d'Elvas fixou-o na 
Canção n.^ 219: 

Ouç*eu dizer hum verv'aguysado 
que — hem e mal sempre na face vem ; 
e verdad*é, per com*end'a mi avém 
d'uma dona hu tod*esto ev osmado : 
ca de quanto bem na sa face vy 
vem end\ amigos, tanto mal a mi 
per que o verv'em meu dano é tornado. 

Quem bem serve 
Bem pede 

Sobre este anexim metrificou Estevam da Guarda, 
um dos favoritos de D. Aífonso m, (Canc, n,° 225): 

Do que bem serve^ sempr^oy dizer 
que bem pede^ mais digo-vos de mi, 
pêro qu*eu gram temp'a, bem servi 
hےa dona que me tem em poder, 



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62 HISTORIA DA POESIA 



que nom tenho por meu bem servir 

eu razom ei de Ihi por en pidir 

o maior bem dos que deus quiz fazer. 

João Soares Coelho termina uma Canção, em que 
uma rapariga quer ir vêr o seu namorado contra 
a vontade da mãe, com um cabo, em que inclue 
o anexim : 

Nunca milho semeou 
Quem passarinhos receou. 

Pero m'o ela non quer outorgar, 
hil-o-ei veer aly hu m'el mandou, 
e per quanta coyta por mi levou, 
farey-ln*eu est*e quanto m'al roguar, 
e desy saya per hu deus quiser. 
Ca diz o vervo — ca non semeou 
milho, quem passarinhos receou. 

(3,, n.<> 284 ) 

Bento é o varão, 
Que de outro se castiga 
E de si não. 

O trovador Joham Ayras, burguez de Santiago, ter- 
mina uma Canção com este anexim : 

Bom dia naçeuy c'*m'eu oy. 

quem se (Toutro castiga e non de si. 

(3., no 615.) 
Se assy for, por mi podem dizer, 
que eM fuy a que semeou o sal. 

(Ib., no 620). 

O trovador Pero de Bardia, intercalou em uma 
Canção um rifão ainda vulgar: 

Foy-se o mu amigo d'aqui 
sanhudo, pe que o nom vi, 
e pesar- mor mais oy 
hum verv*antiguo, de mi bem 



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POPULAR PORTUGUEZA 63 



verdadeyr', e ca diz assy : 
. quem leve vae^ leve x*ar vem. 

(3-, n.o 713.) 

Em uma estrophe da canção de Galisteo Fernan- 
des vem o anexim: Quem tudo quer, tudo perde, 
modificado na forma : 

E bem entendo que fiz folia, 
e dizem verdade per h0a rem, 
do que muyto quer a pouco devém^ 
a tal foy eu, ca já filharia 

que sol quizesbe comigo falar 

e quitar-lh'ia de lh'al demandar. 

{iò,, n.o 705 ) 

De longas vias 
Longas mentiras. 

E' por este anexim que Nuno Fernandes Tor- 
neai começa uma Canção (n.° 979) : 

De longas vyas^ muy longas mentiras^ 
est'é o verv^antigo verdadeiro, 
ca hum ric'ome achei eu mentireiro, 
hindo de Valedolide para Toledo ; 
achey sas mentiras entrant* ao Olmedo; 
e sa resposta e seu posadero. 

E Aífonso Soares na Canção 1 1 5 5 intercalou trez 
anexins : 

e esto sabem donas e sabem cavalleiros : 

ca dos escarmentados se fa^em mays ardeiros. 

o que perdeu nos alhos quer cobrar nas cebolas^ 

ca da dama de capelo de todo se cata. 

Pêro da Ponte faz de um provérbio ou rifão po- 
pular o refirem da Canção (n.° 1162) : 



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64 HISTORIA DA POESIA 



n 



Marinha Crespa, sabedes filhar 
en o paço sempr'um tal logar, 
en que atn todos mui ben a pensar 
de vós : e por en diz o verv'antigo : 
a boy solto nom Ihi busques abrigo. 

Fernando Esquyo termina também uma Canção 
con) o provérbio popular ainda hoje corrente : 

e pêro muy longe de vós vyvy, 
nunca aqueste verv'antigo acney, 
quam longe caolhos tam longe do coraçom, 
(Ib., n.o 900.) 

O trovador Ruy Queimado metrificou o anexim 
popular : Como se canta assim se baila : 

poyr-o non vistes e end'al diz peyor 
hum verv'antigo com sanha que a: 
como Ihi cantardes baylemos a ca^ 
non a per que vos bayle melhor. 

{Ib., n.° 997.) 

Quem leva o bayo^ non leixa a sela. 

(Canc. Colloci-Brancuti, n.° 368.) 
Castanhas exidas 
velhas ao souto. 

{íà., n.o 735.) 

Se huma vez assanhar me fazedes 
sabedes quaes peras en vendo. 

(Ib., n.o 364.) 

Os Anexins derivam se muitas vezes das situações 
de poemas épicos, como aquelle : I}a pele alheia 
grande corrèa, que é um episodio do Roman du 
Renard; ou o de Montar o cavallinho, que é o 
thema do poema FauveL * O provérbio conduzia tam- 



1 Sobre este episodio do Roman du Renard: «O Leão, diz Flenry 
de Bellingen, achando-se afflicto com uma febre grande, mandou 
chamar a Raposa para saber se no seu conselho a moléstia podeiia 



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POPULAK PORTUGUEZA 65 

bem á figuração dramática, como o da Bilha de 
leite por bilha de azeite, e Mais qturo asno que me 
levey do que cavalio que me derrube, de que Gil Vi- 
cente fez o Auto da Mofina Mendes, e a Barça de 
Inez Pereira. São também vestígios de symbolos 
do direito primitivo, como o da adopção : Filho 
alheioy meieo-o pela manga, sahir-te ha pelo seio. Ha 
uma manifesta unidade na paremiologia occidental, 
que assenta no substratum ethnico e mesmo no meio 
geographico^ como se observa nos anexins meterolo- 
gicos. 

2,^ Arte mayor. (Gran Mestria). — O desdém que 
a Egreja manifestou pela poesia popular excluindo-a 
dos cantos litúrgicos pelos cânones dos seus Conci- 
lies episcopaes, repercutia nas Cortes com aquelle 
degradante desprezo que o senhor tinha pelo que 



ter cura; a Raposa fazendo de medico, disse-lhe, que para reali- 
sar-se a cora era preciso que cingisse os rins com uma larga cinta 
tirada de fresco da pelle de um Lobo. Segundo esta receita o Leão 
doente mandou chamar um Lobo, ao qual a Raposa cortou logo 
do dorso umia comprida e larga corrêa. O Lobo com as dores 
nivava desesperado clamando : — Ah, senhora Raposa, da pelle que 
nâo é vossa tiraes larga corrêa ! D'aqui ficou o provérbio.» (Biblio- 
pbile Jacob, HisL des CardonUrs, p. 220.) D'este caracter pérfido 
da Raposa se formou o vocábulo Raposias, empregado por FernSo 
Lopes. Os outros anexins: «O Lobo e a Golpelha fizeram uma 
conselha. — Com cabeça de Lobo ganha a Raposa» reflectem si- 
tuações d'esse cyclo poético burguez, qiie nfto teve uma vulgari- 
saçSo directa nos povos catholicos. 

O anexim: Cavalio fouveiro, á porta do alveitar, ou do bom ca- 
valleiro, — deriva da acção do poeitia Fauvel, já resumida em um 
anexim firancez do século xv : Tel estrille JFtmvel, çui puis U mort. 
(lincy. Livre des Prever bes, p. 33.) O anexim portuguer: «Tanto 
tens, quanto valesii resume a situação da lenda do Rei Lear, de 
que falia o Nobiliário do Conde D. Pedro. E este outro : Pelo ma- 
rido vassoura^ peU marido senhora, é a moralidade do Conto de 
Gríselidis, vulgarizado por Boccacio no Decameron. 

Pões. popul. ^ V. II 5 



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66 HISTORIA DA POESIA 

pertencia ao servo. A Canção popular, que servira 
dç typo ás Canções elaboradas pelos mais antigos 
trovadores da Provença, ao ser ouvida nos sola- 
res fidalgos ou castellos parecia grotesca e pro- 
vocadora de sarcasmos. Nos casamentos, quando os 
senhores feudaes exigiam o tamo, o mets, o reg€d 
dê mariage, forçavam o villão á alegria ; o noivo 
ao vir entregar o prato nupcial ou a fogaça (de 
fogo, isto é, o novo lar) cies menestriers precedents» 
era também obrigado «Avant de se retirer il doit 
sauter et danser.» A extorsão feudal convertia a 
alegria em uma Hostilidade latente. A Canção servia 
usualmente para pagar a generosa hospitalidade ao pe- 
regrino, ao qual no solar se dava palha fresca sobre - 
que se deitasse, cantando em paga «Jéi romance sur 
un air nomjeau.Tt Nas alcavalas exigidas á pssagem 
das pontes também se admittia a Canção por paga, 
como a Ínfima expressão da miséria anonyma. Con- 
traposta a esta Arte commum, florescia a Canção la- 
boriosamente trabalhada nas rimas e estructura es- 
trophica, com requintes de galanice casuistica, lison- 
geando as damas em extremos de galanteria e como 
intriga divertida dos passatempos da Corte. Consti- 
tuia uma complicada doutrina, em que o Amor era 
uma idealisação que se afastava da realidade até tor- 
nar-se uma allegoria. A Gaia Doctrina fora creada 
pelos Trovadores da Provença, e por esses seus ar- 
tifícios prop^ara-se a todas as Cortes da Europa: 
Gay (joy) tinha o sentido que tem no francez foiee no 
velho portuguez goio, a alegria resultante das vir- 
tudes cavalheirescas, (em antithese com trisío, que 
no italiano sigfíifíca malvado.) * O Amor era o thema 
da Canção trobadoresca, constituindo uma doutrina. 



* Van Bemmel, La Poefie pravençaUy p. 162. 



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POPULAR PORTUGUEZA 67 

especulativa e mystica, que se debatia nas Cortes de 
Amor e nos Puy, estabelecendo-se julgamentos que 
passavam como decisões ou arresta amorum. O ti- 
tulo mais glorioso com que se podia designar um 
Trovador, era apontando o como grande mestre de 
amor. Quando o lyrismo provençal se tornou moda 
nas Cortes e um distinctivo de gosto na nobreza, já 
clle estava em decadência. Os reis de Aragão, Affonso 
ii e Pedro iii versificam em provençal, n'esse estylo o 
rei sábio Affonso x, de Castella ; o mesmo o Conde 
de Champagne, Thibaut, que veiu a ser rei de Ná- 
poles, e o Conde de Anjou, rei da Sicilia, pae de 
San Luiz, sendo da corte d'este que os fidalgos 
portuguezes trouxeram a maneira de trovar á pro^ 
vençalesca. O rei Dom Diniz, um dos mais fecundos 
e exímios trovadores portuguezes, reconhece á su- 
premacia dos Provençaes em uma das suas Canções : 

Proençaes soem muy ben trobar, 
e dizen elles, que é com amor. . . 

(Canç. n.«» 127. Vat.) 

Quer*eu en maneyra de proençal 
fazer agora um cantar d'amor, 
e querrey muifi loar mha senhor, 
a quem prez, nem fremosura non tal, 
nen bondade, e mays vos direy en, 
tanto a fez deus comprida de ben, 
que mays que todas las do mundo vai. 

(Canç. n.» 123. Vat.) 

Affonso o Sábio (Canc. Vat., n.° 70) o régio tro- 
vador, chasqueando de Pêro da Ponte diz-lhe: 

Vós nom trobades como proençal^ 

mais como Bernardo de Bonaval, 

e pêro ende nom é trobador natural 

pois que d*el e do demo aprendestes, 
e bem vejo agora que vos trobar sal, 
poys vós tam louca razon cometestes. 



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68 HISTORIA DA POESIA 

Da procura das rimas e formas artificiosas da Can- 
ção é que proviera o nome de Trovador, como no- 
tou Etienne Pasquier: «Os poetas provençaes eram 
chamados trovadores pelas invenções que elles acha- 
vam (trouvaient). E consistia a sua poesia em Sone- 
tos, Pastorellas, Canções, Sirventes e Tenções.» * O 
Soneto era a Canção subordinada á melodia, ante- 
rior á forma que lhe deu o subjectivismo italiano ; a 
Sirvente era a sátira politica pessoal; a Pastorella 
era a canção bailada entre raparigas a que (como 
ainda hoje no Alemtejo) se dava o appellativo de 
pastora, e dialogada; a Tensão era uma questão de 
amor proposta con^o enigma, e segundo os interlo- 
cutores ora se chamava torneamens e jocspartis; 
muitos outros typos lyricos se distinguiam com os 
nomes de descorts, planch, redonda, retruenge, cont'- 
plaint, alba, serena. Pela sua parte os versos varia- 
vam, sendo «^de dez syllabas, á la manera de los Le- 
mosisTt como define o Marquez do Santillana, e con- 
trapostos á redondilha menor da poesia popular. 

A paixão pela poesia provençal era notada em 
Itália por Folgore di San Geminiano, no verso: 
f Cantar, danzar alia provençalesca^ ; era o que se 
dava. em Portugal na corte de D. Diniz nem maneyra 
de proençah compondo-se as novas canções amoro- 
sas. Dante, no Convito, queixa-se da predilecção dos 
poetas do seu tempo que desprezavam a lingua ita- 
liana «fanno vile Io parlare itálico, et prezioso qutllo 
di Provenza.^ 

No reinado de Dom Diniz a alma do mosarabe, 
ou melhor o lusismo soffreu além deste apaga- 
mento da sua poesia, um duro ataque ao seu direito 
e crença religiosa: os Foraes, que eram os estatu- 



> Recherches de la France^ liv, ni, eh. 4. 



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POPULAR PORTUGUEZA 69 

tos territoriaes, ficaram supplantados pela introducção 
do direito romano com a- fundação da Universidade 
de Coimbra, direito que visava ao estabelecimento 
dos poderes magestaticos que levaram a Monarchia 
ao absolutismo; o rito mosarabe ou da egreja na- 
cional, foi substituido pelo romano, mantido na ca- 
pella real ; a poesia do povo ficou considerada sin 
regia ni cuento, como dizia o Marquez do Santillana. 
Na vida histórica de Portugal o génio da naciona- 
lidade, o lusismo, a autonomia local e resistência indi- 
vidualista foram constantemente abafados pelo Poder 
real, desde que não precisou mais apoiar-se nos 
Concelhos contra os fidalgos asturoleonezes e contra 
a Egreja aristocrática. A mudez da poesia popular, 
ou o seu desconhecimento, representa uma oblitera- 
ção da nacionalidade portugueza, que só veiu a re- 
velar-se na revolução que poz no throno D. João i, 
e quando Portugal inicia as navegações. 

O poder pessoal do rei D. Diniz foi definido pelo 
povo em um ditado ou inscripção, que chegou até ao 
presente : 

Eu sou o rei Dom Diniz, 

Serpa, Moura, Mervim fiz ; 

Não fiz mais porgue não quiz; 
Quem dinheiro tiver 
Fará o que quizer. i 

O primitivo colleccionador do Livro das Trovas 
de Etrei Dom Diniz, formou uma secção para as 
canções no gosto popular denominadas Cantigas de 
amigo: cEn esta ffolha adeante sse começa as Can- 
tigas damigo, que o muy respeitable Dom Diniz de 
Portugal fex.» Caracterisase este género, ainda hoje 
popular na Galliza, por serem as mulheres as que 



* Athayde de Oliveira, Mouras encantadas^ p. 1 60. Tem varian- 
tes no chronista Nunes de Leão. 



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70 HISTORIA DA POESIA 



1 



cantam, dando expressão aos seus amores, saudades 
e magoas, ou confidenciando umas com às outras* 
O nome de amigo significa namorado. Em uma 
canção de Estevam Coelho, reproduzindo o typo 
d'éste género, toma como refrem a sua designação : 

Sédia la fremosa, seu fuso torcendo, 

sa voz manselinha, fremosa dizendo 

Cantigas (Vamigo. 

Sédia la fremosa, seu fuso lavrando, 
sa voz manselinha, fremosa cantando 
Cantigas d'amigo. 

— Par deus de cruz, dona, sey eu que avedes 
amor muy coitada, que tam bem dizedes 
Cantigas ctamigo. 

Par deus de cruz, dona, sey eu que andades 
d*amor muy coytada, que tam bem cantades 
Cantigas d' amigo, * 

«Abuytre comestes, que adevinhades.» 

(Canç. 321. Vat.) 



^ A designação popular de Cantiga^ que Affonso o Sábio ado- 
ptou para o seu cancioneiro religioso das Cantigas de Santa Maria, 
levou a considerar se devia pronunciar-se Cantiga, como esdrúxulo; 
induziam n'este erro os nossos etymolo^istas derivando Cantiga do 
latim Cântica^ plural de Canticum 1 £ para isto aUegaram-se os 
Cancioneiros portugnezes, quando ao contrario, os accentos pro- 
sódicos dão Cantiga como grave: 

Fex hunha cantiga d 'amor 
ora o meu amigo por mi, 
que nunca melhor feita vi ; 
mays como x' é muy trobador 
fez h&as lirías no son, 
que me sacam o coração. 

(Canç. 771. Vat.)^ 
A Cantiga, conserva o accento da sua deri viação de Contigua 
(Canticula) fórmula proveniente de um diminutivo, de Índole ver- 
dadeiramente popular, e significando a quadra solta. 



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POPULAR PORTUGUEZA 7I 

O rei Dom EHniz reproduziu com grande belleza 
artística as formas diversas das Cantigas de antigo^ 
desde a postorella e bailada, até á Canção dialogada. 
Transcrevemos algumas para que se fixe indirecta- 
mente o schema popular : 



«Ai flores, ai flores do verde pino, 

se sabedes novas do meu amigo ! 

Ai Deus, e u é ? 

Ai flores, ai flores do verde ramo, 

Se sabedes novas do meu amado ! 

Ai Deus, e u é ? 

Se sabedes novas do meu amigo, 
aquel que mentiu do que poz migo ? 
Ai Deus, e u é ? 

Se sabedes novas do meu amado, 
aquel que mentiu do que m*ha jurado ^ 
Ai Deus, e u é ^ 

— Vós preguntades pelo voss'amigo ? 
e eu bem vos digo que é sano e vivo. 

«Ai Deus, e u é ? 

— Vós preguntades pelo voss*araado >, 
e eu bem vos digo que é vivo e sano. 

«Ai Deus, e u é ? 

— E eu bem vos digo que é sano vivo, 
e será vosc' ant'o o prazo saido. 

«Ai Deus, e u é ? 

— E eu bem vos digo que é vivo e sano, 
e será vosc* ante o prazo passado. 

«Ai Deus, e u é ?» * 



* Cancionárode D. Dimz, Canç. xm, da ed. Lang. Vat, n.® 171. 



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72 HISTORIA DA POESIA 



n 



Como em resposta ou continuação doesta cantiga^ 
compoz o rei D. Diniz a seguinte, não menos bella : 

Nom chegou, madre, o meu amigo, 
e oj'est o prazo saído. 

Ai madre, moiro d*amor ! 

Nom chegou, madr',o meu amado, 
e oj*est o prazo passado. 

Ai madre, moiro d'amor I 

E oje est o prazo sahido, 
por que mentiu o desmentido. 

Ai madre, moiro d'amor ! 

E oj'est o prazo passado, 
por que mentiu o perjurado. 

Ai madre, moiro d'amor ! 

Por que mentiu o desmentido, 
pesa-mi, pois per si é falido. 

Ai madre, moiro d'amor ! 

Por que mentiu o perjurado, 
pesa-mi, pois mentiu a seu grado, 
Ai madre, moiro d'amor ! 

(Canç. 169. Vat.) 

E na forma de bailada, em verso curto, próprio 
da dansa de terreiro : 

Amado e meu amigo. 

Valha Deus ! 
vede la frol do pino. 

e guisade d'andar. 

Amigo e meu amado, 

Valha Deus 1 
vede la frol do ramo, 

e guisade d'andar. 

Vede la frol do pinho. 

Valha Deus ! 
selad'o baiosinho, 

e guisade d^andar. 



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POPULAR PORTUGUEZA yS 

Vede la frol do ramo, 

Valha Deus ! 
selad'o bel cavallo, 

e guisade d'andar. 

Selade õ bniosinho, 

Valha Deus ! 
treide-vos, ai amigo, 

e guisade d'andar. 

Selade o bel cavallo, 

Valha Deus ! 
treide-vos, ai amado, 

e guisade d'andar, 

(Ib., n.o 17 3-) 

Pelo grande numero de Canções d'este género, que 
foram colligidas nos Cancioneiros trobadorescos por- 
tuguezes, se reconhece que depois de esgotados os 
artifícios da métrica provençalesca, volveu-se ao gosto 
e ingenuidade da Canção popular imitando-a artisti 
camente. Quando Ernesto Monaci colligiu algumas 
d'estas composições nos Canti antichi portoghesi, 
formulou nitidamente o problema contido n essas for- 
mas poéticas : «Tali canti, sia puré in una forma piú 
rude ed agreste, davettero necessariamente preesistere 
a quel período in cui domino la scuola dei trovatori; e 
una conferma di ciò Tabbiamo nei frequenti arcaismi 
che vi s'incontrano, arcaismi le cui vestigia scompaio- 
no nelle poesie portoghesi dei secolo xiii foggiate alia 
provenzale. Essi. como già osservò il Diez, ci attesta- 
no che i portoghesi, accanto alia poesia artistica d imi- 
tazione straniera, una altera nebbero dei tutto indí- 
gena e ver amento originale, I trovatori dei ciclo dio- 
nisiaco la conobbero dalla bocca dei popolo, dal po- 
polo la racçolserOj ritoccandola coi magisteri dellarte, 
e fors'anche seppero finamente imitaria, como opina 
T. Braga. Cosi é pen^enuta fino à noi, e letteraria 
per certo è la forma che ce la conservo.» (Pag. viii-x.) 



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74 HISTORIA DA POESIA 



E' natural que as Canções trpbadorescas fossem 
nioldadas ao gosto popular para aproveitar as me- 
lodias tradicionaes ou as dansas locaes. No Cancio- 
neiro da Vaticana ha uma referencia ao nome de 
Dima Beringela, que se explica pela persistência de 
uma dansa popular: 

Conhocedes a donzela 
por que trobei, que dizia 
nome Dona Biringela f 
vedes camanha perfia, 
e cousa ben desguisada, 
des que ora foy casada 
chamo- lhe Dona Maria. 

(Canç. n.*» 26.) 

O sentido proverbial deste nome proveiu da bel- 
leza e intelligencia de Dona Berenguela, irmã do 
Conde de Barcellona Ramon Berenguer iv, e que 
foi casada com Affonso vii denominado o Impera- 
dor. Escreve Victor Belaguer, no seu livro Los 
Trovadores: «Diz-se que foi esta rainha ou impera- 
triz senhora de extraordinária formusura e de singu- 
lares virtudes, tanto que os montanhezes de Leão 
conservaram como maneira de alludir ao mento de 
uma mulher a phrase : E unta Berenguela, em me- 
moria dos dotes altissimos que adornavam aquella 
princeza. » Amador de los Kios colligiu uma Cantile- 
na popular, que se repete em terras de Leão e Cam- 
pos acompanhada de um jogo dansado : 

— Quien face ese roido 
que anda por ahi, 
que dia nin noche 
nos dexa dormir ? 

» 
«Doncellas dei Rey 
que vienen buscar 
la Reyna Berenguéla 
por la coronar. 



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POPULAR POI^TUGUEZA 



— La Reyna Berenguela 
está en el vergel, 
cerrando la rosa, 
é abriendo el clavel. 

«Dona Berenguela 
no se falia aqui : 
que riega las flores 
que hav en el jardin. . . * 

Conta-se que a rainha Berenguela, estando em To- 
ledo em 1 1 39, fora cercada pelos árabes, emquanto 
o rei seu marido os esperava em Aurélia ; aos pri- 
meiros assaltos ella enviou lhes uma mensagem di- 
zendo, que era indigno de cavalleiros e campões de- 
nodados combaterem contra uma mulher sem defeza ; 
os principaes chefes árabes foram ao seu palácio e 
encontraram D. Berenguela com o seu manto imperial 
cercada de damas que cantavam ao som de timpa- 
nos, citaras e psalterios, e por impulso de dignidade 
abandonaram o cerco. ^ Tela musica ligada aos ver- 
sos das Canções trobadorescas, também se reconsti- 
tuem essas primitivas melodias populares que pene- 
traram nas cortes. 

Existe a musica de Bailadas, Alvoradas e Pasto- 
rellas dos Trovadores do século xu e xiii; ahi se 
vê o elemento popular repetir se nas suas melodias 
em phrases symetricas, sobre as quaes os trova- 
dores cultos deixando este effeito simples desenvol- 
viam o período melódico em to<la a estrophe, e 
n'ella destacavam intelligentemente a repetição ou 
retornello. ^ A notação musical nos mais antigos ma- 



* Ap. Amador de los Rios, líisí. crit. de la Litt. espaHola^ t. vn, 
P. 433 
2 Milà y Fontanals, De los Trovadores en EspaHa^ p. 71. 
' Restori, ãéisica allegra di fir anciã nel secoH xn e xui. 



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:if 



76 HISTORIA DA POESIA 

nuscriptos medievaes fazia-se por neumas significati- 
vas que lembravam as toadas e canções populares, 
ou mesmo conhecidas cantilenas sobre que se mo- 
dulavam novas lettras ; assim a notação sem signi- 
ficar com rigor os sons, buscava suggeril-os na me- 
moria. 

A Canção trobadoresca quando era recitada (re- 
sada) podia ser acompanhada pelo baixo continuo 
ou fundamental (o baixão), ficando os ornamentos 
pela cithara ou pelo alaúde entregues á improvisa- 
ção dos tocadores. 

A forma da Canção chegou a definir-se musical- 
mente na Ária, tirando as suas três partes da es- 
tructura poética, a Fronte (a primeira parte da es 
tancia), a Chave (o verso que liga a primeira á se- 
gunda parte da estancia) e a Siritna (a ultima parte). 

A Canção desenvolvida poeticamente no Madrigal^ 
appresenta nas suas formas até ao século xv a in- 
decisão tonal, em que o rythmo não apparece bem 
determinado e em que a harmonia em successões de 
segunda, quinta e septima tem inevitáveis asperezas. 

A Canção popular é essencialmente dichotoma ou 
de parelhas, com o seu refrem ; a Canção trobado- 
resca, em que o refrem se incorpora na estrophe, 
é constantemente tripartita : cada Canção com trez 
estrophes, e cada estrophe composta de dois terce- 
tos, sendo dois versos homeometricos e um assyme- 
trico. O artificio ou a Gran Maestria consiste em 
combinar ou achar as rimas graves e agudas y em- 
pregando-as em cruzamentos e repetições, variando as 
formas estrophicas, que era em que consistia o tro- 
tar, ou achar esses segredos. O thema exclusivo do 
Amor, coincidia com a Courtoisie, na forma da ga- 
lanteria usada com esmero para com as mulheres, 

As Canções provençaes, são o inicio do moderno 
Lyrismo europeu, em que os trovadores deram forma 



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POPULAR POHTUGUEZA 77 

escripta embora rudimentar ás Canções populares do 
occidente. Sobre esses rudimentos é que os Lyricos 
italianos elaboraram o Dolce Stil nuovo, que pelo 
Petrarchismo dominon como modelo em todas as Lit- 
teraturas desde o século xv (Echola sevilhana) até 
ao século xvii, (Portugal, França e Inglaterra.) * . 

3.** MisrER DE JoGLARiA. Ao lado da poesia ar- 
tística dos Trovadores v.ulgarisaram-se as Canções 
semi-populares de uma classe de cantores vagabun- 
dos denominados Jograes, que faziam profissão ou 
mister de andarem de terra em terra, apparecendo 
nas festas patronaes e nos apparatos das Cortes, 
pulsando os seus instrumentos (rabel e citolon) e re- 
petindo composições que sabiam de cór. O mister de 
Joglaria tinha uma certa indignidade, pelo seu mer- 
cenarismo em contraposição com a espontaneidade 
do sentimento ; elles cantavam por dinheiro, mas não 
pela emoção viva do amor ; repetiam automatica- 
mente os versos de outrem, não penetrando o Gay 
saber de quem achara as bellas rimas. A distancia 
e antagonismo entre os trovadores e os jograes en- 
contra-se a cada verso dos que só cantam de amor, 
protestando que os não confundam conri essas mer- 
-cenarios. Sordelo, o trovador memorado por Dante, 
diz a Feire Vidal: «Enganamse os que me chama 



* fNa Provença, como outr*ora na Grécia, toda a producção 
poética^ de qualquer género que fosse, era destinada a ser cantada 
cono um acompanhamento instrumental, e ás vezes com gesticu- 
lação mímica. Era o próprio poeta quem compunha a musica dos 
seas versos. A invenção musical era o complemento obrigado da 
invenção poética. As duas artes uniíícaram-se. — Mas a musica e 
a acção mimica contribuindo em muito para o eífeito da poesia, 
fonnou-se uma classe particular de homens, cuja profissão era 
fazer valer pelo canto e jpela execução- as producçôes poéticas. 
Taes eram os jograes,» Fauriel. Hist, de la Peesie provenfaU, 1, p 23. 



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.'V íj?s-" 



78 HISTORIA DA POESIA 



rem jogral; este nome quadra melhor aos que vão 
no séquito de outrem do' que a mim, a quem os 
outros seguem. O jogral recebe e nunca dá ; eu dou 
e nada acceito ; elle põe-se *ao mando do primeiro 
que lhe paga, e eu nada recebo porque me possam 
accusar. » * O trovador Pierre de Mula, receiando que 
o tomem por um jogral, distingue os d'esse mister -. 

Van cridan duj e duy, 
Datz queque')ogIars suy. 

Q rei Dom Diniz, que abrira a sua corte a todos 
os jograes peninsulares que aqui vinham attrahidos 
pela suá generosidade, distingue também o mister de 
joglariay em uma canção primorosa: 

Proençaes soén mui bem trobar, 
e dizem eles que é com anior; 
mais os que trobam no tempo da frol 
e nom em outro, sei eu bem que nom . 
am tam gram coita no seu coraçom 
qual m* eu por mha senhor vejo levar. 

Pêro que trobam e sabem loar 
sas senhores o mais e melhor 
que eles podem, sõo sabedor 
que os que trobam quand*a frol sa^om 
a, e nom ante, se deus mi perdon, 
nom am tal coita qual eu eí sem par. 

Cá os que trobam e que s*alegrar 
vam en o tempo que ten a calor 
a frol consigu'e tanto que se for 
aquel tempo, lo^u'en trobar razom 
nom am, nem vivem em qual perdiçom 
oj'eu vivo, que pois m'ade matar. 

(Canç. 157. Vat.) 

Pela Crónica de EspaHa vê-se que esses Jograes 
na época do vigor das Canções de Gesta cantavam 



* Sirvente. Ap. Millot, n, 79. 



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POPULAR PORTUGUEZA 



79 



de Carlos Magno e das suas conquistas em Hespa- 
nha. Na época de Fernando Magno, pae de Affonso 
o Sábio, elles já se apropriavam das Canções tro- 
badorescas, pela perícia com que tocavam acompa- 
chando-as, como se lê nas Partidas: «Et otrosi pa- 
gando-se de ornes de corte, que sabien bien de trobar 
€ cantar, e de joglares que sopiesen bien tocar in- 
strumentos. Ca desto se pagaba el mucho et enten- 
dia quien lo facia bien, et quien nom.» Nas festas 
que se fizeram em Melun quando D. Aflfonso (o iii) foi 
armado cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta livras 
aos menestréis ou jograes que em ellas tocaram. * 
Quando D. Affonso in foi rei de Portugal estabeleceu 
no Regimento da Casa real o numero de jograes que 
deveriam ser admíttidos na corte : «El Rey aia três jo- 
graes en sa casa e nom* mais ; e o jogral que veher de 
cavallo d' outra terra, ou segrel, dê-lhe el Rey ataa cem 
(maravedis?). . . ao que chus der, e nom mais se lhe 
dar quiser.»* Na corte de seu filho, o rei D. Diniz, 
cessaram estas restricções; estava sempre generosa- 
mente aberta a todos os jograes desde o Bearn até 
ás Baleares, reflectindo-se alli a plena actividade poé- 
tica da Hespanha, e exercendo-se uma verdadeira he- 
gemonia da arte. Os próprios jograes confessavam 
€m suas Canções a protecção que deviam ao monar- 
cha-trovador, como se vê pelo seguinte de Joham, 
jograr morador em Leon em um plank á sua morte : 

Õs namorados, que trobam d'amor 
todos deviam gram doo fazer, 
et nom tomar em si nenhum prazer, 
porque perderom tam boo senhor, 
com'é el rey Dom Denis de Portugal, 
de que nom pode dizer nenhum mal 
homem, pêro seja profaçador. 



* Licon Gsntier, Les Epopêes françaises^ t. i, p. 373. 

* Port Mm. kist.y i, 199. 



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8o HISTORIA DA POESIA 

Os trobadores que pois ficárom 
en O seu regno et no do Leon, 
no de Castella, no d'Aragon, 
nunca pois de sa morte trobarom; 
et dos jograres^ vos quero dizer, 
nunca cobrarom panos nem aver, 
et o seu bem muyto desejárom. 

(Canç. n.o 708. Vat.) 

Os romances populares ou Cantares de antiguo 
rifftary andavam na tradição oral de toda a Hespa- 
nha no século xii ; provam a sua,, existência o. es- 
forço dos chron^tas para authenticar com^elles os 
acontecimentos históricos. Na Crónica general de 
Espafía que Affonso o Sábio mandou redigir, allude-se " 
ás tradições poéticas sobre Bernardo dei Carpio, 
Sete Infantes de Lara, o Cid .e Fernão Gonsalves ; * 
começam as narrativas pela phrase: «E algunos di- 
zen en sus Cantares de Gesta, que fue este Don 
Bernaldo. . . E dicen en los Cantares, . .» Quem é 



^ Arrote de Molina, nos Discursos de la lengua castellana (ft. 
127 V. Ed. 1642) tinha apontado este facto: «Y son una bnena 
parte de las antigiias historias castellanas. de quien el fey don Alonso 
se aprovechó en su Historia y en ellas se conserva Ia antigtiidad 
y propriedad de nuestra lengua.» 

Sobre a conversão dos Romances oraes populares na prosa 
das antigas Chronicas hespanholas« escreve D. Augustin Duran : 
«Hubo un (tiempo) en que los Romances viejos, obra dei pue- 
blo e de los joglares por su espíritu inspirados, sirvieron de com- 
probantes y de textos á las Crónicas, tanto, que en la Central 
de EspaHãy atribuída á Alfonso x, el Sábio, en la dei Cid, en la 
dei Rey Don Rodrigo y en otras se hallan debilmente converti- 
dos en prosa ; y hubo otro en que las Crónicas dieron el asunto 
y fueron cl modelo á los poetas.» (Rom. gen., I, xxiv.) Os críti- 
cos como Ticknor, Pidal, I^barra, e outros têm cahido na illusSo 
de reduzirem a verso octonario com muita facilidade a prosa das 
Chronicas, pensando assim reconstruir a forma primitiva dos ro- 
mances populares ; mas no século xu o romance heróico era can- 
tado e bailado em verso curto ou quinaria. 



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POPULAR PORTUGUEZA 8l 

que transmittia ou conservava estes Cantares ? Appre- 
senta o mesmo texto: «E dicen los Cantar es ^ que 
caso entonces con una dueíla que avie nombre Dofía 
Galinda. . . no lo sabemos por cierto sinon quan- 
to oymos decir d los joglares en sus Cantares,^ O 
typo estrophico deste género de Cantares appare- 
ce-se imitado pelo jogral gallego Ayras Nunes, que 
por felicidade foi colligido no Cancioneiro da Vati- 
cana, n.® 466. * 

A substituição dos Cantares de Gesta pelas Can- 
ções de Amor resultou da crise social provocada pela 
corrente das Cruzadas ; desde a primeira Cruzada, 
publicada em 1095, começa o grande duello da Eu- 
ropa com a Ásia sob o pretexto hallucinante da con- 
quista do Sepulchro. Despovôam-se os Castellos se- 
nhoriaes, e afroixado o arbítrio dos barões feudaes, 
a sociedade civil conserva uma estabilidade que a 
leva a organisar os seus costumes, formando o pro- 
letariado e fixandose as garantias civis. E' do sul 
da França, do foco do municipalismo e da liberdade 
democrática, que irrompem essas Canções de Amor, 
moduladas por pessoas cultas imitando o gosto an- 
tigo, ou como diz o trovador Guilherme de Bergue- 
dan, um son veill antic. Ha evidentemente referencia 
a cantares tradicionaes que se tinham obliterado na 
transmissão oral, que revivesciam pela liberdade de- 
mocrática, depois das condemnações ecclesiasticas e 
desprezos cortezanescos. Os antigos Bardos, que dian- 
te da corrente catholica tinham dec^hido na situação 
desprezível de histriões, agora appareciam pelas ci- 



* Reproduzido no vol. i d'esta Historia, p. 202. D Carolina Mi- 
chaelis deu-lhe a disposição do ternário monorrimo, como propu- 
zera D. Joaquin Costa, o que parece iiicompativel com a depen- 
dência da dansa e do canto, que n'esse tempo vivificava o verso 
curto. (Na Revista de Grõber, t. xxvi, p. 221.) 

Pões. popul.— V. II. 6 



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82 HISTORIA DA FOESIA 

dades e cortes como jograeSy embora sem a con- 
sciência da sua primitiva missão de poetas-sacerdo- 
tes. Belloguet, na Ethnogénie gauloise, (ni, 335) fal- 
lando da instituição bardica, diz : «esta instituição 
atravessou séculos, e tornou-se uma feição caracte- 
rística dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade 
média.» Este nome de Bardo ^ no sentido de histrião 
apparece empregado no século xiv pelo Arcipreste 
de Hita, no verso: «Matan-se asimesmos los locos 
albar danes ^ ; e no século xv, o rei D. Duarte, no 
Leal Conselheiro, (p. 321): «não pareça que os ai- 
bardaãos tem mais sabedoria que nós, porque elles 
nom se trabalham d arremedar as esiorias melhores 
mas que lhe som mais convenientes. » * Como se vê, 
em albardanes está o thema bairtni, que designou 
o canto dos bardos antes da sua decadenca. As 
Cortes de Amor, em que na época do influxo do 
lyrismo provençalesco as damas sentenciavam sobre 
subtilezas de sentimento nos seus arresta amorutn, 
conservadas nos costumes populares dos Puy, ou 
assembléas poéticas (como os nossos Outeiros arca- 
distas) tinham também raizes n esses costumes pre- 
celticos ou Hguricos, como observou Belloguet, inter- 
pretando o facto da judicatura por mulheres : «a 
tradição destas mulheres juizas e diplomatas, des- 
conhecida no norte da Gallia, nunca se extinguiu 
completamente no Meio Dia, onde os seus tribunaes, 
com uma differente competência, é certo, passarani 
por terem reapparecido quinze séculos mais tarde 
sob o nome poético de Cortes de Amor,i^ (Ib., mi, 
327.) E' lógica a evolução do lyrismo trobadoresco : 



* Amador de los Rios cita os «momos y juegos de albardanes ,» 
no palácio do Condestavel Miguel Lucas de Iranzo, (tíist, LiU,y 
VII, 476.) 



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POPUÍ.AR PORTUGUEZA 83 

saindo do meio popular na época da primeira Cru- 
zada, volta outra vez, passado dois séculos, para o 
povo por meio da diffusão joglaresca. 

Nos cantos populares da Hespanha bastantes ve- 
zes se encontra o costume, também mantido pelos 
árabes, de se deixar á mulher decidir certos pleitos. 
Aqui se dá a alliança dos costumes hispânicos re- 
vivescendo entre os mosarabes ao contacto com os 
do invasor. Lese nos Costumes de Santarém : c cos- 
tume é que se alguém que tenha pleito disser que 
está pelas declarações de alguma boa dona (mulher 
da classe elevada) que vão a casa d*ella receber-lhas 
o alcaide e os alvazis, não sendo mulher que vá ao 
tribunal.» * No romance popular hespanhol, El Pai- 
mero, uma mu!her revoga a sentença de morte: 

Que un hijo solo que tienes 
Tu le mandas ahorcar. 

Oido lo habia la reina, 
Que se le paro a mirare: 
«Dejedeslo, la justicia, 
No le querais hacer male. 

(Ochoa, TesorOj p, 5.) 

No romance de Virgilios, quando o rei se lembra 
de ir vêr o preso de que se esquecera, diz-lhe a 
rainha, exigindo a sua liberdade: 

Despues que hayamos comido, 
A Vergilios vamos ver. 
Alli hablara la reina: 
«Yo no comeré sin el.» 

No romance portuguez do Conde de Allemanha, 
o namorado é condemnado á morte por sentença da 
princeza : 

— Dize, pois oh minha filha. 

Que castigos lhe heide dar? 



* Inéditos da Academia, t. iv, p. 556. 



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84 



HISTORIA DA POESIA 



«Quero escadas dos seus ossos 
Para o jardim passear. 

~ Gar-te lá, oh minha filha, 
Vamos pr'a meza jantar, 
Que amanhã por estas horas 
Vae o Conde a degolar. 

(Rom. ger., n.o 30.) 

E no romance de Joãosinho v Banido, é a mãe 
que sobre os seus crimes sentenceia : 

Não mateis o nosso filho, 
Que bem custou a criar; 
Mandae-o pr'a longes terras, 
Fora do ceo natural. 

{Cant, Ar chip. ^ n.® 17.) 

A mudança do verso quinario para o octonario^ 
que se opera no fim do século xiv, tornando a poe- 
sia popular menos cantada e mais rezada (recitada) 
deve em grande parte attribuir-se á influencia dos 
jograes mouros, ou mor os latinadoSy como lhes cha- 
ma o Poema dei Cid (v. 2676). António José Conde 
notou sobre o verso octosyllabico : «É o rythmo mais 
usado na poesia árabe, e que sem .duvida nos serviu 
de modelo.» A observação de Conde é admissivel 
não como origem do verso ou trova vulgar, mas como 
forma que entrou no gosto e preferencia da moda, 
desde que os jograes mouriscos começaram a explo- 
rar o mister de cantores e tocadores. A' maneira 
que os Árabes iam sendo vencidos, os que acceita- 
vam a situação, principalmente os mouros e os ber- 
beres, ficavam forros (os mudjares) e exerciam a 
profissão jogralesca, sendo também obrigados a acom- 
panharem com cantos e dansas as festas reaes. Can- 
tando ao som da quitara (guitarra) do adufe e 
alahude ; bailando a retorta e mourisca, incutiam no 
ouvido do povo a accentuação octosyllabico^ que 
tinha de prevalecer na prosódia da recitação em 



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POPULAR PORTUGUEZA 85 

melopêa, desde que o canto e a dansa eram excluí- 
dos do culto e da corte pela separação aristocrática. 
Seria também pela extrema propaganda dos jograes 
mouros, que a poesia do povo foi condemnada em 
Portugal e Hespanha muito antes das Constituições 
episcopaes; essa condemnação é formulada pelo 
poeta anonymo do Loor de Berceo: 

L.OS joglares christianos que por fer suas prosas 
Deraandan el acorro á deidades mintrosas, 
Semeian paganismo que ora dioses é diosas, 
E* precia mas foUias que verdades fermosas. 
Estos nulos joglares tienen a Dios grand tuerto, 
Ví^n por camin errado, errado que non cierto, 
Lej^an por las deidades ai que fo por nos muerto, 
Merescen los a tales colgar en un veluerto. 

(Coll. Sanches. Ochoa, p. 269). 

O Arcipreste de Hita, que compoz bastantes can- 
tares para os jograes tnouros, aponta quaes eram os 
instrumentos mais próprios para os acompanharem ; 
diz elle, na poesia que intitula: ^En quales instru- 
mentos convienen los cantares de arábigo: 

Despues fise muchas Cantigas de danza é troteras 
Para Judias et Moras^ é para entendederas, 
Para en instrumentos de comunales raaneras, 
El cantar que no sabes, oilo á cantaderas. 

(V. 1487). 
Arábigo non quiere la viuela d'arco, 
Sinfonia, guitarra i^n son de aqueste marco ; 
Citola, odrecillo non aman Cagttil hallaco^ 
Mas aman la taberna é sotar con bellaco. 
Albogues é mandurria, caramillo é zampona, 
Non se pagan de arábigo quanto dellos Bolonha, 
Como quier que por fuerza disenlo con vergona 
Quien gelo desir fesiert; pechar debe caloria. 

(V. 1490). 

Depois de caracterisar os Cantares de arábigo 
pelos instrumentos què lhe repugnam, o Arcipreste 



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86 HISTORIA DA POESIA 

de Hita dá nos a serie dos que eram empregados 
pelos jograes mouros, no século xn a xiv : 

Alli sale gritando la guitarra vwrisca^ 
De las voses aguda é de los puntos arisca ; 
El corpudo laud que tiene punto á la trisca, 
La guitarra latina con esos se aprisca. 
El rabé gritador con la su alta nota, 
Cabel el orabin taniendo la su rota, 
El saltério con ellos mas alto que la Mota. 
La bihuela de péndola con aquestos y sota. 
Médio cafio et arpa con el rabé morisco^ 
Entre ellos alegranza el galipe francisco^ 
La rota dis con ellos mas alta que un risco 
Con ella el tamborete^ sin él no vale un prisco. 
La vihuela de arco fas dulces de Bayladas, 
Adormiendo á veses, muy alto á las vegadas, 
Voses dulces, sabrosas, claras et bien pintadas, 
A las gentes alegra, todas las tiene pagadas. 
Dulce cano eniero sal con el panderete 
Con sçnajas de asofar fasen clulce sonete, 
1-os organos y disen Chanzones é Motete, 
La sindedura albardana entre ellos se entremete. 
Dulcema^ é axabeba^ el finchado albogon^ 
Cinfonia é baldosa en esta fiesta son 
El francês odrecillo^ con estos se conpon, 
La reciancha mandurria alli fase su son. 
Trompas é anafiles salen con atatnbales. 
Non fueron tiempo ha plasenteria tales, 
Tan grandes alegrias, nin a tan comunales, 
De juglares van llenas cuestas é criales. 

(V. 1202). 

Soriano Fuertes na Historia da Musica hespanhola 
enumera os instrumentos árabes, cujos nomes encon- 
trara em um manuscripto do Escurial. * Foi princi- 



1 O adufe^ alguirbal, almaraíih, alkiinar, alazaf, almizar, alaúde ar- 
rabil^ alkirren, asangha, alkitrara, almiazal, almeya, alcucebara, alba- 
que, altabal, alcozo, alhuba, alayre, atambur, albarbet, alcasib, axakí- 
ka, assaíílz, sxirofi^ alkitharet, alantaba, alcudiba, kabar, xahín, miza^ 
mir, tambor de cufa, Camretes, xabeda, sofar, alataram, juftaf, soíar- 
array, cariba-aray ou çanfcnba de pastor, xakikas, mizmar, e neyo. 



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POPULAR PORTUGUEZA 87 

palmente pelo canto e acompanhamento musical que 
os jograes mouros influíram na poesia popular, nas 
Canções lyricas ou Leilas, e nas Canções narrativas 
ou as que o Arcipreste de Hita chamou o Cantar 
de arábigo, E' uma influencia externa em quanto 
ao thema poético, mas que não deixou de influir na 
estructura métrica determinando pelo rythmo do 
canto e dansa a substituição mais frequente do verso 
quinario para o octonario, que apparece exclusiva- 
mente enipregado nos Romances viejos do século xv. 
Nas Cantigas de Santa Maria o rei Affbnso o Sábio 
traz a historia de um clérigo trovador: 

Desta direi um miragre 
que conteu em Portugal, 
en Alanquer, um castelo 
et quéro-vos dizer qual 
et vós punnad'en oyl-o 
por aquel que pod'e vai. . . 

En aquella vila ouve 
um crérigo trobador 
que sas cantigas fazia 
ctescarno mais ca d*amor , 
et era d^aguela vila 
d*ua eigreia prior, 
et Martin Alvitez nome 
avia, se Deus m'ampar. . 

E demais, sen tod'aquesto 
mui pivado era d'el rei 
bom Srncho en aquel tempo ; 
aet como en verdad'achei, 
alén do rio da vila, 
assi com'eu apres ey, 
vertudes sse descobriran 
et fezeron y altar. . . 

A* onrra da Groriosa 
a Virgen Madre de Deus, 
assi que de muitas partes 
vivian aly romeus ; 



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HISTORIA DA POESIA 



ca ali mostrava ela 
muitos dos miragres seus, 
en guarir copos et mancos 
et cegos aíúmear. . . 

Quand'este viu don Martino 
pesou lhe de coraçon, 
porque da sua eigreia 
perdia a oblaçon, 
per estoutra que vos digo : 
et mandou log'un tiçon 
filiar et poêr lhe fogo, 
assi que a fez queimar. . . 

D'este feito que fez ele 
muit'aa Virgen pesou, 
et Ihesu Cristo seu Filio 
logo ssa Madre vingou: 
assi que d^ambol-os ollos 
Martin Alvitez cegou, 
estant'assi ante todos 
et fillou-sse a bradar. . . 

Dizend' : — Ai, Santa Maria ! 
est*en mi o fui merecer, 
per quanto na ta hermida 
mandei o fogo pôer ; 
mais por emenda d'aquesto 
farey-a nova fazer, 
todd de cal e de pedra 
et logo a fez laurar. . . 

E desque foi toda feita 
fez missa dizer aly, 
da Virgen, mui ben cantada, 
et mandou-sse levar y ; 
et tan toste que foy dita, 
per quanto end'cu aprendi 
viu logu'et foi ben são 
et começou de chorar. . . 

— Que en quant*eu vivo seia 
nunca por outra mollei 
trobe nen cantares faça 
oy mais, ca non a mi a mester ; 



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POPULAR PORTUGUEZA 89 



mais por ti direi de grado 
quanto ben dizer poder ; 
et des aqui aJeante 
quero ia por ti trobar. 

(Cant. cooxvi.) 

Para celebrar um milagre da Virgem o rei Affonso 
o Sábio conta a. historia de um jogral da Catalunha, 
dando-nos assim os traços da vida d'essa época : 

D'un jograr que ben cantava 
et aposfet sen vergonna; 
et andando pelas cortes 
fazendo ben ssa besonna, 
a casa d'un cavaleiro 
foi pousar, cobijçoso . . . 

Que lie deu aquela noite 
ben quanto mester avia ; 
mais da besta et dos panos 
que aquel jograr tragia 
aquel cuteif avarento 
tal cobiça IFen crecia, 
que mandou a un seu orne 
máo et mui soberbioso 

Que lie tevess*a carreira 
con outro de sa companna. 
en uns logar encubierto 
dent'en alg0a montanna ; 
et esto fez'el de grado 
ca x'o avia por manna. . 

Et o jograr eapediu-se 
mannáa do cavaleiro, 
et des que foi no camyno 
et o viron ya seulleiro . . , 

Et logo d'aquel camynno 
mui longe o alongaron, 
et do que sigo tragia 
nulla ren non lie leixaron ; 
desi que o degolassen 
antre si o acordaron . . . 



i 



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90 HISTORIA Da POESIA 



Et estando en períia 
de qual d'eles o matasse 
deitaron entre ssí sortes 
quén primeiro começasse. . . 
mas non quis Santa Maria 
que tal feito s'encin9asse. 

— Vai m'que me non maten 
me defende sen demora 1 — 
Eles quando aquest'oyron 
tiraron-se log'a forn, 
et os sentidos perderon 
dos corpos en essa hora. . . 

(Cant. cLxxxxiv.) 

O pessoal que exercia o Mister de Joglaria era 
numeroso, como se vê pelas indicações do Arcipreste 
de Hita, quando diz para quem compoz muitas das 
suas canções: 

Cantarei fiz algunos, que canían los ciegos^ 
Para los escolares^ que andam nocherniegos, 
El para muchos otros por puertos andariegos 
Cazurros e de buíras, non cabrin en diez priegos. 

(St. 1608.) 

O cego, tanto na Grécia como nas tribus germâ- 
nicas era o propagador dos Cantares heróicos ; no 
Titurel diz o verso : « So singuent uns die blinden, » 
O nome de Çiecone, deu origem ás designações poé- 
ticas de Checone, Chacona e Chacoula, usadas em 
Itália, Hespanha, França e Portugal. O poeta Ro- 
pero, da corte de D. João 11, de Castella, refere-se 
a esta ordem de cantores : 

De arte de cie^o juglar 
Que canta viej as f abanas ^ 
Que con un solo cantar 
Cala todas las Espalías... . 



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POPULAR POKTUGUEZA 9I 

O povo reconheceu a sua missão vulgarísadora, 
na cantiga : 

Os cegos que nascem cegos 
Passam a vida a cantar^ 
Eu cego que tive vista 
A vida levo a chorar. 

Nas leis de Partidas (P. viii, 1. 4) são apontados 
como Ínfimos «los que son juglares e los remeda- 
dores, e los facedores de los Çaharrones, que pu- 
blicamente andan por el pueblo, e cantan ç fazen 
los juegos por precio que le dan.» E' numeroso este 
pessoal, em que se destacam os Cazurros, e os Tre- 
geitadores, Endecheros, Albardanes. Segreis, Trutanos 
ou Truões, o Fatiste, (Fadista?) os Chiar latani, de 
que se lê nas Coplas de Mingo Rivulgo : 

Tu conoces la amarilla 
Que sempre anda carleando . . . 
(St. 25.) 

Os andariegos, ou peregrinos, também levavam can- 
tigas e orações; os vagos Escholares, (^tunantes ou 
sopistas) os GoliardoSy imitavan\ em latim os Can- 
tos populares, como a poesia scholaresca dos Car- 
mina Burana, e parodiavam as orações e cantos 
ecclesiasticos no estylo das tabernas, e dados á gar- 
ganUáce, Na Aulegraphia traz Jorge Ferreira: «me 
mordo a mim mesmo de gargantão,^ (Fl. 3 ^.)CA 
vida dissoluta dos clérigos e escholares na Edade 
média deu origem a certas canções desenvoltas em 
latim accentimdOy em que as hierarchias sociaes ejos 
actos cultuaes eram parodiados. Esta confraterni- 
dade cómica foi personificada em um mytho de Golias, 
donde proveiu este nome de Goliardo, Pelo século 
xm vulgarisaram estas chocarrices, condemnadas pelo 



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92 HISTORIA DA POESIA 



Concilio da Normandia em 1336, e pelos Estatutos 
synodaes de Quercy. Mesmo no mundo clerical o 
influxo jogralesco reflectiu o caracter da poesia do 
povo. Para a Hespanha o Arcipreste de Hita é um 
typo bem definido do goliardo ; nas suas Cantigcu . 
de Serranas deixou -nos o traslado do que era a 
Cantiga do p(iVO no século xiv. 

«Las Serranas (do Arcipreste de Hita,) asseme- 
Iham-se bastante com as Pastorellas francezes e pro- 
vençaes. Veja-se a comparação do começo de uma 
com outra de Marcabru : 

So la casa dei Gornejo 
Píimer dia de selmana, 
En comedio dei vallejo, 
Encontre una serrana 
Vestida de buen bermejo, 
Buena cintura de lana; etc. 

L'autrier just*una sebissa 
Trobei pastora mestissa 
De joi e de sen massiva 
Si com fílha de vilhana 
Cap'e gonella e pelissa 
Vest e camiza tresliza, 
Soslars e caussas de lana ; etc.» 

(Trovadores en Espafia, p, 542 nota.) 

Accrescentaremos a este paradigma uma estrophe 
da Canção de D. Joham de Aboim sobre o mesmo 
estylo : 

Cavalga' a n'outro dia 

per hum caminho francez, 

e huma pastor siia 

cantando com outras trez 

pastores, e noh vos pez, 

e direy-vos todavia 

o que a pastor dizia : 

Nunca molher 
crêa por amigo, 



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POPULAR PORTUGUEZA g3 



poys s'o meu foy 
e noro falou migo. 

(Canç 278. Vat) 

O antagonismo dos trovadores para com os jo- 
graes acha-se bem caracterisado em algumas canções 
de Joham de Guylhade contra o jogral' Lourenço : 

— Lourenzo jograr, as mui gram sabor 
de citolares, ar queres cantar 
des^y ar filhas te log'a trobar 
e teês-fora já por trobador ; 
e por tod^esto hunha ren ti direy : 
deus me confonda se o)'eti hy sey 
d'esies mesteres qual fazes melhor. 

«Joham Garcia, soo sabedor 
de meus mesteres sempre deaniar, 
e vós andâdes por m'hos desloaf, 
pero non sodes tan desloador, 
que con verdade possades dizer 
que meus mesteres non sey ben fazer, 
mais vós non sodes hi conhocedor. . . 

(Canç. 1104. Vat.) 

Em outra Canção contra o mesmo jogral diz-lhe 
Joham Garcia, que em vez de cevada e vinho devia 
pagar o seu mister de joglaria com um páo ; ao que 
Lourenço responde: 

Joham Garcia, tal paga achará 
en vós o jograr quand*a vós veher, 
roais outro que mester fezer 
que m*eu entenda mui ben fará; 
e panos ou algo merecercy^ 
e vossa paga oen a leixarei, 
e pagad*outro jograr qualquer. . . 

(Ib., 1105.) 

Na planh de Joham jogral á morte do rei D. 
Diniz se allude ao costume de cobrar panos : era o 



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94 HISTORIA DA POESIA 



costume francez de pagar aos jograes dando-lhes 
roupas, como se conta no romance L Atre périleux, 
e no poema de Blanchejleur : 

Au matin, quand il fu grand jor 
Furent paie li jongleor, • 
Li un orent biaux palefrois, 
Beles robes et biaux agrois. 

(P. 308. Ed. Du Méril.) 

E' por isso que o trovador portuguez querendo 
mostrar o sentimento puro que inspira a sua canção, 
diz ^alfaya nunca de vós houve.» Em uns iCantares 
aposto a hum jograr que diziam Lopo, e ciiolava 
mal, e cantava peyor.Tt falia o trovador Martin Soa- 
res das davidas com que o queriam calar: 

Foy a citola t^raprar 
Lopo, que citolasae, 
e mandarom-lh'algo dar 
en tal que a leixasse; 
e el cantou logu'entom, 
cá deram- lh'ouíro dom 
en tal que se calasse. 

(Canç. 971. Vat.) 

Foy hum dia Lopo jograr 
a cas d'uu infanzon cantar, 
e mandou-lh'el por don 
dar fres couces na garganta, 
e foy-lh* escass' a meuicuydar 
segundo com'el canta. 
(Ib., 974.) 

Nas Leis de Partidas Aflonso o Sábio condemna 
a poesia jogralesca: «Cantigas ó rimos 6 deytados 
maios de los que han sabor de infamar. »E impõe : 
«no sea osado de cantar cantigas, ni decir rimas 
ui dictados que fuesen fechos por deshonra.» 

Os Jograes saidos d'entre o povo e em contacto 



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POPULAR PORTUGUEZA ^5 

com OS homens cultos, estabeleceram uma relação 
natural entre o poeta e a multidão anonyma, exer- 
cendo um influxo que determina o phenomeno mys- 
terioso da creaçâo da poesia popular. Os jograes 
appropriavam-se da Canção inventada consciente- 
mente para exprimir uma emoção pessoal, adapta- 
vam a a uma linguagem mais vulgar e a uma toada 
conhecida; sendo ouvida com encanto pelo povo e por 
elle entendida, era depois repetida de cór, com as 
abreviações e simplificações reduzindo -a aos traços 
mais profundos e geraes, e dahi universalisada na 
tradição oral já sem nenhum aspecto de personali- 
dade. O que se observa, na elaboração poética da 
Grécia com os Aedos e Rhapsodos, * dá-se na Edade 
média com os Jograes e Menestréis. O mysterio da 
formação do thesouro da Poesia popular explica-se 
primeiramente pela invenção individual, depois pda 
adaptação jogralesca ás condições de vulgaridade, e 
por fim pelas exigências da instabilidade da trans- 
missão oral, com todos os seus syncretismos e homeo- 
plasias, fixando os traços objectivos e profundamente 
dramáticos do laconismo do Canto do povo. No sé- 
culo xm com a propagação do lyrismo provençal, 
deu-se o mesmo phenomeno, invertendo -se porém o 
processo. A velha Canção popular fson vieil e antic) 
recebe forma litteraria e individual no trovador im- 
mòdiatamentè, ou mais tarde o jogral leva ás cortes 
e castellos esse typo tradicional como as Bailadas, 
Pastorellas e Serranilhas, que são imitadas artistica- 
mente pelos reis e senhores nos seus Cancioneiros aris- 
tocráticos. 



A Seguado Hesychio, a palavra Omerein significa : Cantar em 
cominum ou em conjunto. Será uma homophonia casual entre Homero 
e Omernn^ mas ao pensamenfo da reunião das cantilenas soltas 
dos Àédos é que se liga a acção da individualidade homérica. 



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96 HISTORIA DA POESIA 



§ 2/ A Cultura latino ecclesiasticá, 

O antagonismo do cortezào contra o villão, que pre- 
dominou na sociedade aristocrática, desprezando todas 
as maniestações da ingenuidade popular, costumes e 
poesia, apparece sob um outro aspecto entre o clérigo 
e o leigo, inconciliáveis entre si fiessa crise de dis- 
solução catholico-feudal que irrompe no fim da Edade 
media. Se o cortezão se afasta do povo rude pela 
sumptuosidade e maneiras de respeitabilidade de ca- 
valheiro, o clérigo procura impor se pelo saber do 
seu latim, em que estão traduzidos os livros sagra- 
dos e as obras dos santos padres e moralistas da 
Antiguidade. Ha mesn o duas linguas, a latina e a 
romance, a litteraria e a vulgar, a que o clérigo allude 
quando quer mostrar a incompatibilidade entre esses 
dois elementos sociaes ; latinado é o homem instruido, 
como ladino é 9 astuto, e romance é a linguagem 
do vulgo rude, orofhancista é o analphabeto. Estes 
antagonismos do cortezão e do clérigo, accentuam-se 
mais quando o povo, pelas suas instituições commu- 
naes ou municipaes dava apoio ao Poder reat, que 
firmava a monarchia sobre a submissão do poder 
feudal ou senhorial, e no beneplácito ao poder 
theocratico. No livro de Virgilio Cordovez, do sé- 
culo X, intitulado Philosophia, expressa se essa anti- 
nomia entre o Clericus e o Laicus n'estas phrases : 
cDevem-se execrar os que faliam latim á maneira 
de romance, principalmente diante de leigos, por que 
d'esse modo elles percebem tudo ; e merece ser lou- 
vado quem sempre falia o latim obscuramente o mais 
que possa, e não em forma de romance. i» Embora 
este livro fosse escripto em árabe, no século x, é 
certo que n^este periodo já existia esse antagonismo, 
que se estendeu do povo a toda a sociedade civil 
logo que a Egreja se tornou aristocrática. Comparetti 



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POPULAR PORTUGUEZA 97 

na sua obra capital Virgílio nel Médio Evo, (i, 243) 
synthetisa a incompatibilidade entre estes dois mun^ 
dos clerical e leigo, na inscripção esculpida na Egreja 
de Worms : 

Cum mare siccatur, et daemon ad astra levatur, 
Tunc primo laicus fit clero fidus amicus. 

Não se comprehende o desabrochar da poesia po- 
pular das modernas nacionalidades, sem determinar 
bem esta aritipathia do elemento ecclesiastico oppon- 
do-se ás manifestações do génio do povo, ás suas tra- 
dições, quando imaginava que eram vestígios de po- 
lytheismo ou paganismo. Nos pa^i ou os pazes, as 
localidades remotas, era aonde o clérigo julgava 
que persistia mais a tradição do polytheismo em pra- 
ticas supersticiosas. E' por isso, que na primeira 
parte da Edade média a Egreja condemnou inexo- 
ravelmente toda essa elaboração poética que acom- 
panhava o estabelecimento dos costumes. No pri- 
meiro Concilio bracharense (561) 'prohibem-se as 
dansas populares nos officios divinos (can. 12), a que 
o Concilio ni de Toledo chama irreligiosa consuetudo. 
(Can. 23.) No Concilio Ilerdense (546) prohibe-se 
o ir cantar nas festas de casamento ; Santo Isidoro 
de Sevilha (Etym., i, 38) combate os cantos fúne- 
bres, os threnos, aquod lamenium vocamus^, que ape- 
sar de prohibidos pelo iii Concilio de Toleda (can. 
22) persistiam nas Endechaderas ou Carpideiras. No 
Concilio XII de Toledo, (cânon 2,) condemna se o 
cantar de casa em casa, e nos banquetes. Acontecia 
muitas vezes que os próprios clérigos, filhos do povo, 
em contacto com a multidão, deixavam se encantar 
pelo perstigio da sua poesia tradicional ; no século 
vu o Bispo Valério accusa um presbytero de se en- 
tregar á dansa: «revolvendo aqui e alli os braços, 
já ajuntando em outro logar os pés lascivos, já bai- 

P0C8« popul. — Vol. II 7 



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98 HISTORIA DA POESIA 



lando em roda com ligeiríssimos e grotescos meneios, 
ora saltando com trémulos passos, ora cantando em 
infames Cantilenas espantosos versos de mortiferas 
Baííimathias (Ballismachia ? dansa guerreira). » * 

Depois de vencido o polytheinno no Occidente, a 
Egreja procurou libertar-se do perstigio da idealisa- 
ção popular, que no seu fervor invadiu os actos li- 
túrgicos com os seus cantos e dansas. No iv Conci- 
lio de Toledo os Cantos do povo são substitliidos pe- 
los cânticos dos clérigos ; a influencia do episcopado 
francez na peninsula sente-se n'essas dignidades eccle- 
siasticas do Chantre e do Cabiscol ; no Canon 2 do ci- 
tado concilio, estabelece-se a cantoria franceza : «Unus- 
igitur ordo orandi atque psallendi nobis per omnem 
Hispaniam atque Galliam conservetur ...» E no 
cânon 13 estatue-se : «Componuntur ergo Hymna. . . 
sed pari modo Gallia ...» Esta recrudescência que 
na Egreja se exerce mais intensamente do século 
xu a XIV, quando irrompe a lucta do Sacerdócio e 
do Império, o cbnflicto entre o poder temporal e o 
espiritual, é que explica o phenomeno de não terem 
sido escriptos os Cantos populares nesse periodo 
entre todas as nações christãs. Observa Gaston Paris : 
«Em geral o mundo dos clérigos e o dos leigos, estão 
profundamente separados ; não faliam a mesma lin- 
gua (os clérigos chamam ao francez lingua laica, e 
os leigos chamam ao latim clerquois) e não tinham 
as mesmas aspirações : os clérigos desprezam os lei- 
gos, sobretudo os burguezés e os villãos ; pelo seu 
lado estes (provavelmente por via dos jograes, ini- 
migos dos clérigos) não cessam de motejar os padres 
e monges, e de lhes perguntarem como é que pra- 
ticam aquillo que professam.»* E' a poesia satirica 



* Ap. Florez, Espaiia sagrada^ t. xvi, p. 397. 
^ La Lit ter ature frauçaise au Moyen Age, p. 18. 



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POPULAR PORTUGUEZA 99 

que prevalece neste periodo do começo da dissolu- 
ção do regimen catholico-feudal, vindo a dererminar 
o desenvolvimento da forma dramática popular, a 
Farsa, em que as duas línguas se misturam, como a 
farsiture nas orações ecclesiasticas. O clérigo ainda 
quer impôr-se á sociedade pela disciplina da cultura 
latina, pela prédica, pelos textos para serem lidos (a 
Legenda), mas a corrente popular contrapõe-lhe tam- 
bém os seus themas tradicionaes, que são tratados 
como Exemplos, E' uma nova actividade poética, 
em que o clérigo é arrastado na corrente leigal, des- 
tacando -se na sociedade civil os cantores e poetas 
goliardescos e scholarescos, que latinisam as tradi- 
ções populares. * 



* Escreve Comparetti, no Virgílio nel Médio Evo : «II monaco il 
piú mondano, il piú innamorato degli antichi scrittori, è sempre 
.infinitamente piú prossimo ai popolano di quello possa mai esserlo 
l'ultímo dei latinisti dei risorgimento. Per ciò in quanto è poesia 
profana il monaco come il laico dei médio Evo avea Tanimo piú 
aperto alia poesia nuova dei tempo, nazionale o popolare, che 
alia poesia di forma clássica. Se ciò non fosse, niuno potrebe 
spiegare la grande invasione delia poesia popolare nei chios tri, e 
come i monaci siano fra i piú antichi rapprasentanti o raccoglitori 
di qaella, cosi nelle forme sue latine come nelle vulgari.» (i, p. 227.) 



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■Ijb* ifr \ 



A) MISTEB DE CLEBE8IA 

Para distinguir a sua actividade mental dos que se 
entregavam ao estudo das letras humanas^ o clérigo 
definiu o seu mister como interprete das letras sagra- 
das, commentando e exemplificando o seu texto. E* 
n este trabalho que redige as Lendas religiosas em 
que evhemerisa os velhos mythos populares ; em que 
appresenta á credulidade popular as vidas dos Santos, 
muitas vezes personificações de deuses pagãos ; e 
em que moralisa para o vulgo por meio de Contos, 
Parábolas, Fabulas e Exemplos, em que syncretisa 
elementos populares e eruditos, como na Gesta Ro- 
manorum, e em que unifica a tradição occidental e d 
oriental. Mesmo as festas religiosas são por vezes 
revivescências do polytheispio, como a Festa do 
Corpo de Deus, que sob o governo de René d'Anjou 
é uma renascença do Provençalismo, * na sua rela- 
ção tradicional com as festas do mytho solar do pri- 
meiro de Maio, das canções lyricas, das cavalgadas 
e das dansas figuradas. 



1 Van Bemmal De la langue et de la Poésie provençale^ p. 260. 



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POPULAR PORTUGUEZA lOI 

Com a primeira Renascença o humanismo preva- 
lece nas Cortes, e a aristocracia apaixona-se pelas 
Bellas-Lettras ; a Clerezia entrega-se mais á corrente 
popular, traduzindo a Biblia em romance para os 
minguados de saber, e pondo em vulgar as grandes 
e poéticas lendas como a Visão de Tundal ou da 
descida aos infernos, e a historia de Barlaam e Jo- 
sapkatj que também appareceu na lingua portugueza 
como dos primeiros documentos da nossa litteratura. 
N'este periodo a poesia popular portugueza acha-se 
bem representada nos íendarios, Santoraes e Exem» 
piarias, de que compilaremos os mais caracteristicos. 

i.° Lendários: O Tributo das Donzellas, — Na 
poesia popular portugueza do século xiv apparece 
uma Canção narrativa em que seis donzellas leva- 
das captivas pelos mouros são libertadas pelo na- 
morado de uma d ellas, armado simplesmente com 
um galho de figueira com que destroçou a todos. 
O thema d'esta Canção, tratado poeticamente em 
Portugal, depara-se em lendas locaes e etymologi- 
cas em diversas terras de Hespanha, vem memo- 
rado na prosa dos chronistas ecclesiasticos, e che- 
gou a receber forma litteraria nos poemas de Ber- 
ceo no século xii, até entrar nos Romances cas- 
telhanos com forma culta no século xvi e em bellas 
X^atnedias famosas de Lope de Vega no século xvri. 
Este thema tradicional, que se vulgarisou na socie- 
dade mosarabe, é um documento preciosissimo, para 
observar por meio delle como os germens poéti- 
cos se transformam e florescem recebendo expres 
são em differentes épocas a meios sociaes até che- 
garem á forma artistica ; e além d*esse interesse, 
representa uma reliquia sobrevivente de uma ela- 
boração poética popular que se perdeu nos séculos 
da exclusiva transmissão oral. 



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102 HISTORIA DA POESIA 



A lenda do Tributo das Donzellas foi a transfor- 
mação de um mytho naturalista, concepção primi- 
tiva das forças meteorológicas, quando as aguas ou 
as nuvens eram varridas pelo vento, ou dispersas 
pelas calmas solares ; representadas como vaccas ce- 
lestes, como pomos de ouro, são também personi- 
ficadas nas Apas e Apsáras indianas, que o ladrão 
arrebata, ou que o E>ragão tem prezas. Nas tradi- 
ções hispânicas são as Hespérides ; daqui o élo tra- 
dicional que trouxe a concepção naturalista até ás 
lendas ecclesiasticàs com intuito histórico e intenção 
moral. Este aspecto mythico teve uma certa revive- 
scência quando renasceu com o Provençalismo o culto 
da Natureza estival na apparatosa procissão do Corpo 
de Deus no século xin, que se radicou immediata- 
mente em Portugal. No Regimento da Procissão de 
Corpus Christi de i de março de 1482, estabelece- 
se que; «Os Homens de armas atraz, estes todos 
bem armados sem nenhuma cobertura, e com as 
espadas nuas nas mãos, e levarão San Jorge muy 
bem armado com um Page e kuma Donzella, para 
matar o Drago: etc.» Na carta da rainha D. Ca- 
therina de 30 de maio de 1560, falla-se das cinco 
ou seis moças que se tomavam cada anno para esta 
procissão, indicando a cque vae por Dama do Dra- 
gão, > A Serpe, ou a Tarasca, commum á Hespanlia 
e á França meridional, é o Drago da procissão por- 
tugueza, que a clerezia interpretava como a besta 
do Apocalypse junto da prostituta ; vê-se que a re- 
presentação mythica incomprehendida era allegori- 
sada no sentido theologico. Mas nos cantos popula- 
res conservou-se o dado mythico na sua pureza, 
como no de Nikita, que derrotou uma Serpente ala- 
da, que exigia dos habitantes de Kief o tributo de 
uma donzella por cada casa, facto apontado por 
Antonovitch. Dá-nos a comprehensão da Dama e 



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POPULAR PORTUGUEZA I03 

do DragOy symbolos da procissão de Corpus. Na 
Canção portugueza do Figtuirol e na lenda genea- 
lógica dos Figueiròas da Galiza, ou de Peito Bur- 
delo, ha um vestígio ethnico, que nos remonta á 
concepção primitiva. San Jeronymo, no Commentario 
a Jeremias, falia no Satyro Ficarius, que seduz ou 
arrebata as mulheres ; nas superstições populares por- 
tuguezas o figo apanhado na noite de San João e 
conservado v.erde até ao anno seguinte faz com que 
ninguém nos queira mal. Du Cange explica o epi- 
theto de Ficarius, dado aos Satyros por viverem 
debaixo das figueiras. * Nas superstições populares 
portuguezas, quem quer saber se é amado, passa 
pelo fogo trez vezes na noite de San João uma 
folha de figueira, e expondo-a ao relento, veri- 
fica de manhã se ella está orvalhada. Aqui a per- 
sistência dos costumes explica-nos a idealisação poé- 
tica em Portugal 

A passagem dos elementos mythicos para a evhe- 
merisação histórica é também verificável ; a lenda do 
tributo das Donzellas é apontada no fim do século vi 
nas narrativas dos horrores praticados por Khosroés 
II contra os Romanos do Baixo Império ; a raça 
semita em lucta contra os byzantinos pelo rarpo 
pérsico, dava elementos para se tornar odiosa na 
lucta dos Árabes contra o resto da civilisação ro- 
mano -gótica da Peninsula hispânica. Entre as condi- 
ções da paz impostas por Khosroés ii ao imperador 
Heraclius, exigia-lhe, como descreve Gibbon, na 
Historia da decadência do Império romano, o tri- 
buto annual de mil talentos de prata, mil vestidos 
de seda, mil cavallos e mil donzellas, A imitação 
do despotismo oriental vê se na reproducção quasi das 



* Lendas christãs, p. 78, 



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I04 HISTORIA DA POESIA 

mesmas condições no tratado entre Abderamen e o 
rei Fruela, irmão de Mauregato, em que o rei árabe 
exigia o tributo annual de dez mil onças de ouro, 
dez mil libras de prata, dez mil cabeças de cavallo, 
e outras tantas de muares, cem mil lorigas, mil es- 
padas e mil lanças durante o período de cinco annos. 
Embora inexequível o tratado indica-nos por onde 
os chronistas latino-eclesiasticos foram levados a re- 
produzirem o conto persa do tributo das mil don- 
zellaSy modificando por vezes o numero era cem, 
sessenta, cincoenta, seis, etc. Vejamos a época em 
os chronistas ecclesiastico» collocaram a tradição. O 
tributo das Donzellas é attribuido por Lucas de Tuy 
á covardia do rei Mauregato : «Et quia Mauregatus 
erat affabilis et benignus, regnum quod invasit quin- 
que annis vendicavit. Multas nobiles puellas et etiatn 
ignobiles ex condiíione Sarracenis matrimonio dedit, 
cum eis habens pacem.» Neste texto não se deter- 
mina bem o revoltante tributo, mas simplesmente a 
fusão social. Na Crónica general de Espana, repete- 
se o facto, carregando as cores odiosamente : i ^* 
este Mauregato, -por cuyta de aver paz é amor con 
los moros fizo muchas cosas que non devie contra 
Dios é contra la saneta ley, cá tomo íijasdalgo é 
aun de las otras, é diólas á los moros por mugéres, 
é esto non lo fizo él una vez, mas cada ano avie 
de dar él mugeres d los moros para fazer con ellas 
sus voluntades como por renta é por tributo. » 

Entre o facto histórico dos casamentos promiscuos 
e a lenda odiosa do tributo das donzellas, que se 
confundem nas Chronicas, ha uma relação derivada 
do falso Diploma dos Votos de Santhiago, que cha- 
mava a primazia para a Egreja de Compostella pelo 
milagre de San Thiago em Clavijo. N esse diploma 
se afifirma a incriminação dos reis de Hespanha 
mesmo anteriores a Mauregato : «Fuerunt igitur in 



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POPULAR PORTUGUEZA I05 

antiquis temporiblus (circa destructionem Hispaniae 
à Sarracenis factam, Rege Roderico dominante), Cui- 
dam nostfi antecessori pigri, negligentes, desides, et 
inertes christianorum Príncipes, quorum utique vita 
nulli fidelium extat imitando Hi (quod relatione non 
est dignum) ne Sarracenorum infestationibus inquieta- 
rentur, constituerunt eis nefandos redtiittis de se 
annuatim persolvendos, centum videlicet puellas ex- 
celUntissimae pulchritudinis, quinquaginta de nobi- 
lioribus Hispaniae, quinquaginta vero de plebe. ^ (Esp. 
sacr., t. XIX, 330). Foi d'aqui que diffluiu a lenda 
odiosa, que Lucas de Tuy depois applica ao rei Ra- 
miro i: «Qui cum regnare coepisset, miserunt ad 
eum Saraceni quod daret illis annuatim quinqua- 
ginta puellas nobiles quas sibi matrimonio copular ent, 
ef quinquaginta de plebe o^d^ç, ad solatiun essent illis, 
sicut olim fecerat Rex Mauregatus.» D. Rodrigo, no 
livro De rebus Hispaniae, ^{^xh. iv, c. 7) carrega em 
Aurélio e Mauregato especialmente: «Ut favorum 
Arabum retineret, contra Dei legem multa commi- 
sit. Puellas enin nobiles, ingénuas, et plebeias stupris 
Arabum concedebat. » Não se precisa aqui o numero 
das donzellas, como se vê no Diploma dos Votos 
€le San Thiago, mas esse numero nos indica a fonte 
informativa da Crónica general: «Cuenta la estoria 
que los Moros, luego que sopieron que el rey don 
Ramiro reynava. embiaronle a dezir si queria haver 
paz é amor con elles, que les diesse cada ano cien 
donzellas christianas cõn que casassen ó hoviessen 
su compana, assi como el rey Mauregato íiziera en 
su tiempo, é que las cinquenta fuessen fijas d algo é 
las otras cinquenta de cibdadanos ...» 

Estudando o thema tradicional das duas Comedias 
famosas de Lope de Vega, Las Doncellas de Si- 
tnaneas e Las famosas Asturianas, o erudito Me- 
nendez Pelado, diz acerca do tributo das cem don- 



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100 HISTOHIA DA POESIA 

zellas: «Este ignominioso conto, do qual nada sou- 
beram os auctores dos Chronicons da Reconquista, 
appareceu pela primeira vez no século xm, na obras 
de Lucas de Tuy, e do Arcebispo D. Rodrigo. . . s> 
Primeiramente Lucas de Tuy referiu-se aos casamen- 
tos promíscuos entre christãos e sarracenos sob o 
reinado do Mauregato : «pacem cum eis íirmavit, et 
quasdam Christianas nobiles mulieres Sarracenis 
permisit in conjugio coptdari.^ Na Crónica general 
de Espana refere se também essa fusão social que 
se iniciara no reinado de Aurélio : <Cuenta la his- 
toria que este rey D. Aurélio nunca huvo batalla 
con los moros, nin guerras, mas luego en comienzo 
de su reynado puso con ellos suas pazes muy fuertes 
y firmes, é dioles en casiatnenio mujeres fijas dalgo^ 
que eran christianas.» E sobre estes dados que Ale- 
xandre Herculano assenta as origens da lenda do 
tributo das donzellas, em que a intransigência catho- 
lica condemnava esse facto da fusão das duas socie- 
dades, que se iniciara em Hespanha por fins do sé- 
culo VIU. Alexandre Herculano interpretou no sen- 
tido social da população mosarabe a tradição do 
tributo das Donzellas, remontando-a ao século yiii. 
«A lenda do tributo das Donzellas, pago por Au- 
rélio e por Mauregato aos Serracenos, a qual já se 
encontra em Lucas de Tuy . . . e em Rodrigo Xi- 
menez ... é, quanto a nós, um mytho tradicional, 
que symbolisa as tendências da fusão nos fins do 
século vni, e a preponderância transitória do mosa- 
rabismo.» {Hist. Port., iii, 180,) A comprehensão 
desta fórmula, a que Menendez Pelayo liga muita 
importância, é simples : segundo o bispo de Sala- 
manca, Mauregato era filho do rei D. Affonso i e 
de uma moura ; privou do throno a seu sobrinho, e 
emquanto reinou manteve a paz com os mussulma- 
nos á custa da preponderância que deu aos elemen- 



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POPULAR PORTUGUEZA 1 OJ 

tos do colonato (mulladies, mosarabes) que manti- 
nham relações intimas e interesses com os árabes. 
Para desauctorar este periodo histórico em que o 
elemento mosarabe prevaleceu sobre a parte aristo- 
crática dos nobres refugiados nas Astúrias, os Chro- 
nistas ecclesiasticos quizeram infamar o filho da 
serva árabe, e attribuiram a paz que manteve ao 
tributo ominoso das donzellas, pago annualmente para 
os haréns de Córdova, desvirtuando assim os casa- 
mentos promiscuos entre as duas raças. A' medida 
que a reconquista christã se tornava mais vasca, assim 
a lenda ecclesiastica ia tornando mais odiosa toda a 
tolerância com os vencidos árabes, caracterisando os 
casamentos dos mosarabes como uma imposição 
odiosa dos mussulmanos. Fixada a origem ecclesias- 
tica da lenda, ella transforma-se em lendas locaes, 
segundo os intuitos da exploração religiosa entre a 
credulidade popular. 

Já vimos como a Egreja franceza, e especialmente 
a poderosa ordem' de Cluny, influiu em Hespanha no 
século XI e xii. Conquistada Toledo, onde persistira 
o culto catholico, ahi-a egreja mosarabe impunha 
a sua primazia sobre todas as outras egrejas de Hes- 
panha. Minou-se esse primado, fazendo acreditar que 
a Egreja de Compostella era protocathedrica, por 
que fora fundada directamente pelo Apostolo San 
Thiago, que viera pregar a fé christã á Hespanha. 
Na introducção á Chanson de Roland, (p. xxxiii,) 
considerou Génin a Chronica attribuida a Turpin 
como obra de Guido de Bourgogne, irmão do Conde 
da Galliza, Raymundo, o qual de Arcebispo de 
Vienna veiu a ser o papa Calixto ii ; é n'essa Chro- 
nica que se attribue a Carlos Magno o ter estabe- 
lecido o primado da Egreja de San Thiago de Com- 
postella (cap. 19), e isto mesmo repete o papa Ca- 
lixto II coUocando na mesma egualdade as Egrejas 



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I08 HISTORIA DA POESIA 

de Roma, de Epheso e de Compostella como fun- 
dadas directamente pelos Apóstolos San Pedro, San 
João e San Thiago. Desde que era preciso, no in- 
tuito francez, destituir a Egreja mosarabe de Toledo 
da sua importância tradicional, o que estava no plano 
politico de Affonso vi e do seu genro o Conde Ray- 
mundo, o irmão d'este como pontífice trabalhou no 
mesmo sentido : é assim que em Vienna appareceu 
o códice da Chronica de Turpin, e quando Guido 
de Bourgogne foi eleito papa em 1120 tornou logo 
archiepiscopal a sede de Compostella, e concedeu 
indulgências aos peregrinos que pelo caminho francez 
iam a San Thiago, eguaes ás dos que iam á Terra 
santa. Quando falleceu Calixto 11 ainda a Egreja de 
Toledo quiz pugnar pelo seu primado, mas o Bispo 
gallego Gelmirez luctou habilmente em pró de Com- 
postella. A Chronica de Turpin, dando Carlos Magno 
como o libertador da Hespanha do jugo sarraceno, 
prestava um grande numero de lendas á elaboração 
poética das Gestas, e á sua sympathia entre a po- 
pulação hispânica, principalmente entre os cavallei- 
ros. * No intuito de substituir o heróico Imperador 
francez pelos heroes nacionaes, como o Cid ou Ber- 
nardo dei Carpio, fácil e patriótico foi o dar relevo 
á crença do apparecimento de San Thiago decidindo 
da sorte das batalhas entre os Asturo-leonezes e os 
Sarracenos ; assim serviu-se a empreza de deslocar 
para Compostella a supremacia religiosa pela sua 
origem protocathedrica. Sobre este foco activo da 
elaboração lendária escreve Menendez Pelayo : 

«Precisamente em Santhiago, e entre os familia- 
res de Gelmirez se forjou, segundo a opinião mais 



^ Helffrich et Clermont, Le^ Communos françaises en Espagne, 
P- 39- 



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POPULAR PORTUGUEZA IO9 

auctorisada, uma parte mui considerável da Crónica 
de Turpin, — O Imperador mais do que como guer- 
reiro, apparece aí com o caracter de pio e devoto 
patrono da E^reja de S. Thiago, cujo caminho abre 
e desembaraça dos pagãos, movido a uma tal em- 
preza pela visão da Via-lactea (na tradição popular 
denominada Carreiro de San Thiago em Portugal) 
estendido desde o mar da Frisia até á Galiza, e 
por successivas apparições do Apostolo. » * — Pela re- 
ferencia da Crónica aos Almoravides com o nome 
de MoabitaSy Dozy julga esse texto escripto no sé- 
culo XII, sendo os primeiros capítulos escriptos por 
um clérigo francez residente em Compostella. Na 
parte em que se reclama o primado da Egreja de 
Compostella sobre as de toda a Hespanha, conce- 
dido por Carlos Magno em um Concilio, vê-se já o 
intuito do pseudo Turpin, syncretisando na Crónica 
as Canções da Gesta de Roland. Nos hymnos reli- 
giosos da Egreja hespanhola introduziu -se a referen- 
cia ao apparecimento do Apostolo San Thiago nas 
batalhas, e a parte que teve na libertação do Tri- 
buto das Donzellas ; os bispos francezes que se apo-r 
deraram da sede episcopal de Toledo ahi introduzi- 
ram hymnos que celebram esses dois factos : 

Tu bella cum nos cingerent 
Fs visus inter agmina^ 
Mucrone late fulminans 
Equoque Mauros sternuere. 

E em outro hymno falla-se da libertação das Don- 
zellas : 

Per te redemptae Virgines 
Laude rependunt cantica. 
Et nos tribrte liberi 
Hymni tribulum pendimus. 

(Ap. Rios, JIísí. //'//, I. 474.) 

1 Menendez Pelayo, Oâras de Lape de Vega^ t. vii, p. XCVIII. 



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HISTORIA DA POESIA 



Não era gratuita a intervenção de San Thiago 
libertando a Hespanha do tributo afifrontoso ; era de 
força que a sua Egreja de Compostella recebesse o 
tributo ou oblata piedosa pelo reconhecimento dos 
seus nfiilagres. Assim a lenda ecclesiastica ia tor- 
nar- se uma fonte de redditos pecuniários, como 
acontece com todos os feitos milagrosos com que 
se explora a credulidade popular. Descrevendo a 
covardia dos reis neo-godos para sacudirem o infame 
tributo, pozeram em relevo a intervenção de San 
Thiago, que na batalha de Clavijo viera ajudar o 
rei Ramiro, o qual depois de vencer os Sarracenos, 
quiz agradecido fazer voto de uma pensão annual 
paga a egreja do valoroso Apostolo por ter sal- 
vado as donzellas nobres e plebeias da repellente 
exacção mussulmana. O arcebispo Rodrigo Ximenez, 
que se achou no Concilio Lateranense iv, em 125 1, 
foi o primeiro que attribuiu a Mauregato o tributa 
das donsfellas sem precisar o seu numero. Forjou-se 
em seguida uma Acta, em que o rei Ramiro e os 
seus cavalleiros se obrigavam a pagar annualmente 
um offertorio por lhes ter feito ganhar a batalha. 
Tal é o quadro com que se fabricou o falso diploma 
.intitulado dos Votos 'de San Thiago, que o Padre 
Florez, na Espana Sagrada (t. xix, éra de 827 a 
822,) publicou çom ingénua credulidade. E' n'esse 
documento que se fixa o numero de Cem donzellas 
(centum puellas excellentissimae pulchritudinis). Con- 
ta-se em seguida o apparecimento do Apostolo 
ao rei Ramiro e a gloriosa batalha de Clavijo, em 
que com a derrota dos Serracenos terminou o abo- 
minável tributo. O que conta Rodrigo Ximenez, não 
precisa o numero das donzellas, mas apenas que 
eram nobres e também plebeias. A lenda repete-se 
em outras circimstancias ; a batalha de Clavijo e a 
figura de Ramiro 1 localisa-se novamente na batalha 



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POPULAR PORTUGUEZA 1 1 I 

de Simancas e em Ramiro ii, um século depois. Na 
relação castelhana o numero das Donzellas é fixado 
em sessenta : «daban cada ano sesenta mancebas en 
cabello ai rey moro. las trinta fijas dalgo y las 
otras trinta fijas de labrador.» Sejam quaes forem as 
formas em que nos appareça esta lenda na sua ela- 
boração ecclesiastica, visa a fundamentar a exigên- 
cia do pezado tributo do dizimo que os casaes de 
todas as terras tinham de pagar á Egreja de Com- 
postella. Masdeu atacou a validade histórica do Di- 
ploma dos Votos de San Thiago, quando disse : 
«Não se sabe d'este principe (Mauregato) acção boa 
ou má; pois dizem os nossos historiadores moder- 
nos, que para conseguir o throno recorrera aos Ma- 
hometanos declarando-se seu tnbutario, concertando- 
se com elles, (como já o disseram do rei Aurélio) 
de dar-lhe cada anno cincoenta donzellas nobres e 
outras tantas do povo ; é uma fabula mal forjada 
e destituída de fundamento. O celebre Diploma do 
Voto da batalha do Clavijo, que attribue em geral 
este vergonhoso assento aos primeiros reis das As- 
túrias, ainda que reproduzido com boa fé pelo P.® 
Mestre Florez, tem muito mais patentes indícios de 
ser apocrypho, como pode vêr-se nas Dissertações 
ecclesiasticas do P.* M.* José Perez . . » * A lenda 
de San Thiago foi minada por uma outra lenda da 
libertação das Donzellas exigidas por Abdereman, 
pelo influxo milagroso de San Millan socorrendo na 
sua bravura o Conde Fernan Gonçalvez. O poeta 
Gonzalo de Berceo, na Vida de San Millan, do 
século XIII, versificou em metro alexandrino a tradi- 
ção do tributo das Donzellas, descrevendo os signaes 
no céo que indicavam a necessidade de negar este 
odioso tributo, que pagam as terras Valdesal, Val- 



* Historia crit. de EspaHa, t. xii, p. 87. 



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HISTORIA DA POESIA 



damiellos, Rievosocon, Quintana, (st. 473.) Transcre- 
vemos a narrativa de Berceo, como uma reacção 
contra a lenda ecclesiastica de San Thiago : 

El Rey Abdarraman, sennor de los Paganos, 
Un mortal enemigo de todos los christianos, 
Avie pavor echado por cuestas é por planos, 
Non avien consolo por exir de sus manos. 

Mando á los christianos el que mal siglo prenda, 
Que li dicssen cada ano LX duenas en renda, 
Las medias de lignaie, las medias chus sorrenda : 
Mal siglo aya preste que prende tal ofrenda. 

lacie toda Espana en esta servidumne 
Da este tributo cadanno por costumne, 
Fazie anniversarios de mui grant suziedumne, 
Mas por quitarse ende non avie firmedumne. 

Todos estos quebrantos, esta mortal manziella 
Era mas afincada en-Leon é en Castella ; 
Mas todo Christiano se die man á mansiella, 
Ca para todos era una mala postiella. 

Nunca fué en Chrislianos tan fuert quebrantamiento, 
Por meter sus christianos en tal enconamiento, 
Una serie grant cosa dexar tan grant conviento, 
Nunqua fué sosacado tan mal sossacamiento. 

Mucha duená dalfaya de lignaie derecho 
Andaban afurtadas sufriendo mucho despecho ; 
Era muy mal exiemplo, mucho peor el fecho, 
Dar christianos á Mduros sues duennas por tal pecho. 

Transcrevemos apenas as quadras 369 a 374 do 
appenso que se intitula De como Sant Millan ^anà 
los Votos; o quadro é extenso, mas só nos interessa 
o facto como o Santo substituiu o Apostolo, e o 
Conde Fernan Gonçalvez ao rei Ramiro. A mesma 
reacção se operava em Portugal contra os Votos de 
San Thiago ; no Diploma dos Votos apparece entre 
outros signatários Petrus Iriensis, ou como entende 



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POPULAR PORTUGUEZA Il3 

O P.® Florez, Petrus Braccharensis Episcopus. Era 
uma forma cavillosa de introduzir nas egrejas de 
Portugal a subserviência ao tributo á Egreja de Com- 
postella. A resistência era grande, por isso que o 
Papa Innocencio ii, confirmando os Votos de San 
Thiago, como narra Florez : «Confirmou também 
outca carta escripta aos arcebispos, bispos, reis, prin- 
cepes e demais fieis de Hespanha os Votos que de- 
viam pagar annualmente a San Thiago. Ao arcebispo 
de Braga admoestou, que mandasse também pagar 
os mesmos votos, que segundo antigo costume cor- 
respondiam á sua diocesse ...» (Esp, sacr,, t. xix, 
310). Para vencer esta repugnância da egreja por- 
tugueza cita Florez outros factos : « Acerca dos Vo- 
tos, enviou a Portugal o nosso Arcebispo (Gelmirez) 
ao Cónego pertencente á terra de Fernão Mnedes, 
que antes deu como por beneficio nosso prelado ao 
braccharense. A duvida fundava-se (além da doação) em 
que o Bispo de Portugal nunca teve aquelles Votos, 
como expressa a carta incerta mais adiante na Com - 
postellana, liv. iii, cap. 29. (Ib.) 

Apesar de todas as resistências, o tributo dos 
Votos de Santhiago vigorou em Portugal, acredi- 
tando-se na lenda do Tributo das Donzellas ; Azu- 
rara, na Chronica da Conquista de Guiné, acabada 
de escrever em 1453, reproduz a tradição: <tel rey 
Dom Ramiro, desejando de nom scorregar da me- 
morya dos Espanhoes a grande ajuda que lhes fez 
o bem aventurado apostollo Santyago, quando os 
livrou do poderyo dos mouros e prometeo de seer 
nosso ajudador em todollas batallas que com elles on- 
vessemos, fez escrever a estoria deste acontecimento 
em os privillegios que outorgou dos Votos, os quaes 
agora recebe a egreja de Santyago de toda a Es- 
panha em que entonce vivyam xpãos.» (p. 7.) A 
substituição de San Thiago pelo Cavalleiro San Jor- 

Poes. popul. — Vol. II 8 



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I 14 HISTORIA DA POESIA 

ge, na epòca de Dom João i, em que se affirmara 
a soberania nacional, obedeceu á dissidência na pre- 
stação do tributo e á independência da egreja lusi- 
tana. San Jorge é quem liberta a Donzella do Dra- 
go, no symbolismo da Procissão de Corpus, aproxi- 
mando-se a credulidade popular dos origens poéti- 
cos da lenda. * Estas circumstancias não deixaram de 
influir na vitalidade do mytho na imaginação por- 
tugueza, que lhe deu forma poética na Canção do 
Figueiral, sobre as outras lendas locaes. Na Galliza, 
onde a lenda do tributo das Donzellas interessava 
ao primado da Egreja Compostellana, a lenda não 
passou de uma tradição oral solarenga. Entre a ver- 
são portugueza e a gallega ha um ponto commum, 
a referencia mythica á figueira, ás folhas da figueira 
nas armas dos Figueirôas, e ás localidades auxilian- 
do pela etymologia dos seus nomes a mythificação 
ou legendogonia. Anaíysemos as duas lendas: 

Peito Bordello. — Sobre esta designação topony- 
mica da Galliza de um logar entre Corufla e Be- 
tanzos, se formou a lenda do tributo das Donzellas; 
Peito é o pagamento, que o chi*onista Ambrósio de 
Morales explica ligando -o com bordel, concluindo 
pela lenda etymologica. Frei Bernardo de Brito, na 
sua Monachia lusitana (P. ii, 1. vii, c. 9) recopi- 
lando Morales, (L. xiii, cap. 27 - 30) e Athanasio Lo- 
bera (Cap. 3) faz-lhe o seguinte commentario: «não 
faltavam algumas vezes pessoas animosas e de es- 
pirito verdadeiramente honradas, que com lastima 
de tamanha affronta se offereciam á morte por sal- 
var algumas doestas donzellas, como se conta de 



1 Em um Soneto satírico de 1823, ridiculisando a medalha da 
i>Qeira^ lê-se : 

Com lança em punho, capacete immenso, 
Vi San jforge acossar fera Serpente, . . 



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POPULAR PORTUGUEZA Il5 

certos fidalgos da Galliza, que vendo levar as que 
se recolhiam daquella provinda, lhe sahiram ao en- 
contro, duas léguas da Corunha e uma de Betanzos, 
e tomando os Mouros que iam de guarda, em um 
recorte Íngreme, que se faz perto da ponte de Sa- 
randones, os desbastaram e puzeram em fugida, com 
a morte da maior parte delles, e puzeram as don- 
zellas em salvo, com animo de verdadeiros hespa- 
nhoes, ficando para eterna lembrança deste caso 
um nome ao logar em que succedeu, accommoda- 
do á significação do tributo que alli se reunia, e se 
chama até nossos tempos Peito Bordello, 

cElste assalto, dizem alguns, que succedeu em sitio 
onde havia muitas figueiras, e que dalli se come- 
çaram a chamar alguns cavalteiros Figueiras ou Fi- 
gueirôas, e tomaram cinco folhas de figueira ; aqui 
perto está a casa e solar dos cavalleiros d este apel- 
lido, inda que Ambrósio de Morales tem para si 
que o recontro succedeu em Mondonedo, e não du- 
vida que em Galliza acontecesse tudo isto, pois ha 
indícios tão claros, e tradição de tanta antiguidade.» 
(Ib., p. 295). Além da lenda etymologica local, ha- 
via também as tradições heráldicas dos solares que 
provocavam a phanliasia poética dos linhagistas. 
Quando Sampayo Villasboas, xí^. Mobiliar chia p or tu- 
gueza, trata dos Figueirôas, repete a lenda dos No- 
biliários gallegos :« Deram principio a este apellido 
cinco cavalleiros irmãos, chamados Pedro, Sancho, 
Fernando, Soeiro, e Affonso, da família de Fernando 
Ternes, tronco da casa de Córdova, os quaes no 
logar de Figueiròa do campo de Petobordelo entre as 
cidades da Corunha e Betanzos, no reino da Galliza, 
defenderam as trinta donzellas que levavam os Mou- 
ros em satisfação do tributo que prometteu Maure- 
gato, entre as quaes iam Sancha e Mámerana, suas 
irmãs, deixando em aquelle sitio o solar da família 



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l l6 HISTORIA DA POESIA 



de Figueir^a, de que foram progenitores. São suas 
armas cinco folhas de figueira em aspa : timbre um 
braço vestido de vermelho, com um ramo de fi- 
gueira na mãOy de ouro, com cinco folhas de fi- 
gueira verdes. (Op. cit., pag. 279). A mesma lenda 
genealógica applica Sampayo aos Figueiras, da no- 
breza de Portugal : «Tem por armas em campo de 
ouro cinco folhas de figueira verde, e uma borda- 
dura vermelha cheia de chaves de prata : timbre duas 
chaves das armas em aspa, atadas com um ramo de 
figueira branca, que tem duas folhas entre ellas huma 
em cima, outra em baixo. Procedem de Gonçalo Fi- 
gueira, que veiu a este reynô em tempo del-rei D. 
Fernando, e dizem ser dos Figueirôas da Galliza, cujo 
appellido se mudou em Figueira. E parece assim ser, 
porque as armas são as mesmas, e accrescentaram 
a ella porque alguns delles se ajuntaram com as 
chaves. » 

A tradição gallega não teVe desenvolvimento poé- 
tico, conservando-se nos Nobiliários como se vê pelo 
de D. Luis Salazar y Castro, do século xvm. Apenas 
o nome de Campo de las higueras conserva o ve- 
stigio de um mytho phalico. 

Figueiredo das Donas. — O chronista Fr. Bernardo 
de Brito, o sentimental poeta da Sylvia de Lisardo^ 
querendo embellezar as narrativas históricas da sua 
Monarchia lusitana, e suggestionado pelos Nobiliários 
hespanhoes, aproveitou a circumstancia de haver junto 
do Concelho de Lafões, a trez léguas da cidade de 
Vizeu, uma localidade chamada Figueiredo das Do- 
nas, e ahi assentou a lenda do Tributo das Donzellas, 
dos chronistas do século xiii. Inventou um moço apai- 
xonado ao qual deu o nome Goesto AnsureSy que li- 
berta a donzella sua namorada da mão dos mouros 
que a levavam com outras. O frade bernardo depois 
de laboriosas genealogias fundamenta a sua tradição 



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POPULAR PORTUGUEZA I 1 7 

€01 uma Canção popular narrativa ; como falsado re- 
conhecido, não nos fiaríamos no seu documento 
ethnico se não tivéssemos processos seguros para 
confirmar a sua veracidade. Declara o chronista: 

«E porque em matérias onde faltam authores vale 
muito a ttadiçào vulgar, e as cousas que antigos 
traziam entre si como authenticas e verdadeiras, e 
as ensinavam aos seus descendentes nos romances 
e cantares que então se costumavam, porei parte 
d'aquelle Cantar velho que vi escripto em um Can- 
cioneiro de mão, que foi de D. Francisco Coutinho, 
Conde de Marialva, o qual veiu á mão de quem o 
estimava bem pouco, e depois ouvi cantar na Beira 
a lavradores antigos com alguma corrupção, e sem 
duvida foi posto em memoria deste successo " na 
forma seguinte . . . > Transcreve a Canção do Figuei- 
ral, tal como a achou no Cancioneiro do Conde de 
Marialva, do principio do século xv, e desculpa-se de 
intercalar este rude cantar na sua narração, dizendo : 
«Servirá a velhice d'este verso antigo de alliviar o 
enfadamento da historia, que minha tenção não é 
trazei -o para maior credito nem authoridade do que 
merece um cantar ordinário ; supposto que os antigos 
não deixaram de ter sua probabilidade. (Mon, Lusit,, 
fl. 296). Não levando em consideração as circumstan- 
cias da localisação de Figueiredo das Donas, e a 
particularisação do nome de Goesto Ansures, pelo 
que já se sabe da formação dos mythos onomásticos 
e heráldicos, o que viemos a authenticar foi o Can- 
cioneiro manuscripto do Conde de Marialva, visto por 
Frei Bernardo de BritO; donde foi extrahida a Can 
ção do Figueiral. Na Historia de la Musica espahola, 
publicada por D. Marianno Soriano Fuertes, allude-se 
a este Cancioneiro manuscripto consultado em Bar- 
celona, d'onde extrahiu o texto poético e a melodia 
a que era cantado. 



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I l8 " HISTORIA DA POESIA 

Eis O que escreve Soriano Fuertes : cPara dar 
alguma ideia da poesia portugueza do século xii e 
principios do século xiii, copiaremos uma Canção 
extractada de um Cancioneiro aniigo, que foi de 
Dom Francisco Conitnho, Conde de Marialva, . . » 
(Op. cit, t I, p. 112). Os versos que elle transcreve 
são um fragmento da Cantiga lxvi de Affonso o 
Sábio : 

A Reynna groriosa 

tant é de gran santidade 

que con esto nos defende 

do dem' e da sa maldade. .. * 

Prosegue o musicographo : «Esta Cantiga tem a . 
sua melodia notada com as mesmas notas musicaes 
que se vêem nas Cantigas de Affonso o Sabio.Tt 
(Ib,, p. 117.) O que se deduz daqui é que o Can- 
cioneiro do Conde do Marialva continha algumas 
Canções de A Afonso o Sábio com a niiusica que as 
acompanha, tal como nos Códices do Escurial; e 
portanto, que esse extracto só podia ser feito sobre 
o Livro das Trovas d*el Rei D, Affonso, encader- 
nado em coiro, o qual compilou F, de Montemor 
notw, que pertenceu á Bibliotheca do Rei D. Duar- 
te. (N.*' 6c.) Junto das Cantigas litterarias, o com- 
pilador deu accidentalmente logar a uma Canção do 
povo, e também acompanhada da musica na mes- 
ma notação quadrada, E' esse para nós o facto 
importante, tendo além d'isso o texto do Cancionei- 
ro do Conde de Marialva algumas variantes do que 
publicou Fr. Bernardo de Brito. Escrevendo por 
1597» j^ o chronista cisterciense se queixa de que 



1 Soriano Fuertes não sabia que a Cantiga era de D. Affonso o 
Sábio ; na Historia de la Liiteratura tspaUola^ Amador de los 
Rios indicou o seu auctor. Na edição do Marquez de Valmar, 1. 1, 
p. 105; no prologo censura á ignorância do musicographo, (p. 20)^ 



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POPULAR PORTUGUEZA 1 1 9 

O Cancioneiro viera *d mão de quem o estimara 
em bem pouco. ^ No século xvii, referindo -se ao Ro- 
mance oral sobre o Tributo das Donzellas, Miguel 
Leitão de Andrada já não sabe da existência do 
tal Cancioneiro ; e Faria e Sousa, na Europa, portu- 
guezay (i, p. 395) alludindo aos mesmos canta- 
res sobre este thema, diz: «Omito unas Canciones, 
que en Portugal se conservan, y que con antie:uo 
lenguage relatan esta aventura.» E' natural que se 
referisse aos textos de Brito e de Leitão. Só torna- 
mos a achar a pista do Cancioneiro do Conde de Ma- 
rialva pela noticia que no fim do século xvui nos dá o 
Dr. António Ribeiro dos Santos no estudo Da ori- 
gem e progressos da Poesia de Portugal, no cap. iii: 
€ Vimos em tempos passados um Código ms. que 
parece letra do século xv, em que se tratam lou- 
vores da lingua portugueza, em que vinha esta 
Canção de Hermingues, e fragmentos do Poema da 
perda de Hespanha, e as duas Canções de Egas 
Moniz, com as Cantigas de Goesto Ansures, e com 
variantes em alguns termos, que iremos notando 
nos seus logares competentes : este Código era da 
escolhida livraria do doutor Gualter Antunes, erudi- 
to cidadão da cidade do Porto, que nol-o mostrou- 
e d'elle copiámos as ditas obras.» * Em nota acere, 
scenta : «Por morte do doutor Gualter Antunes, não 
sabemos aonde foi parar, com os mais manuscriptos, 
livros e preciosidades do seu formoso gabinete.-» 
O doutor Gualter Antunes era advogado no Porto no 
fim do século xviii ; o registo do seu óbito existia 
na freguezia da Victoria, está hoje no archivo do 
bispado, e n'elle se lê estaphrase: «homem de gran- 



1 Este capitulo da obra inédita foi publicado no Jornal dos 
Amigos das Leiras, n,° 3, p. 47, no anno de 1S36. 



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HISTORIA Da POESIA 



de juizo.» Na Descripçào da Cidade do Porto pelo 
P.® Agostinho Rebello, vem citado como: «famosis- 
simo antiquário e versadissimo na Historia univer- 
sal.» (ib., p. I3\) Pela existência da Canção do 
Figueir/il ou de Goesto Ansures, no Cancioneiro 
manuscripto do doutor Gualter Antunes, falecido 
por 1783, e ser esse códice de letra do século xv, 
como notou António Ribeiro dos Santos,, infere-se 
que seria o Cancioneiro do Conde de Marialva, que 
foi novamente encontrado em Barcelona em 1855 
por D. Mariano Soriano Fuertes. Faz pena . quç o 
musicographo hespanhol não se interessasse pelo 
lado litterario deste precioso monumento, quando 
transcreveu a musica a qne era cantada a Canção 
popular do século xiii. * Perdidas todas as esperan- 
ças de encontrar esse Cancioneiro, depois das tena- 
zes pesquizas de Milá y Fontanals em Barcelona, 
aproveitamos o documento musical, de uma inesti- 
mável valia histórica. 

A musica da Canção do Figueiral^ estava escri- 
pta em notas quadradas, da mesma forma que as 
Cantigas de Affonso o Sábio, de gue estão publica- 
dos tac similes na edição monumental da Academia 
Hespanhola ; isto danos também base para determinar 
a época em que foi colligida. 



1 Na edição monumental das Cantigas de Santa Maria, pela 
Academia Hespanhola, de 1899, o Marquez de Valmar dá a se- 
guinte noticia : «Desgraciadàmente, el interesante Cancioneiro de 
Marialva se ha extraviado tambien em Barcelona Las investiga- 
ciones que con suma diligencia hicieron para encontrarle eL ilustre 
romanista catalán D. Manuel Milá y otras personas competenies, 
han sido infructuosas. Recordaba el Sr. Soriano Fuertes (^ 1880) 
que en el Cancioneiro de Marialva habia otras muchas composi- 
ciones con música, escritas en el mismo idioma de A Reina gro- 
riosa. No parece temerário sospechar que aquel Cancionero con- 
tuviese algunas otras Cantigas de Santa Maria r. (Op, cit.^ 1. 1, p. 57). 



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l^OPULAK »»ORlUGLKZA 



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CANÇÃO DO FIGX7BIBAL 



JDo Cancioneiro antigo que foi do Conde de Ma* 
rialva, transcripta em notas redondas por Soriano 
Fuertes^ e publicada na sua Hist. de la Musica çs- 
paiiola, lamina ii, 12 e ig, 

(A melopêa ainda persiste na tonalidade popular portugue^aj 



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HISTORIA DA POESIA 



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HISTORIA DA POESIA 




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POPULAR PORTUGUEZA 125 

Transcrevemos aqui o texto da Canção aprovei- 
tando as variantes do Dr. Ribeiro dos Santos e de 
Soriano, em vista da sua estructura estrophica: 

No fig!ieiral figueiredo, 
a no figueiral entrei. 

Seis nenas encontrara 
seis nenas encontrey ; 
para ellas andara, 
para ellas andei, 
llorando las achara, 
Uorando las achey ; 
logo las pescudara, 
logo las pescudey, 
quem las malt atara 
e a tam mala ley. 

No figueiral figueiredo, 
a no figueiral entrei. 

Uma repricara : 
— Infançom non se^' ; 
mal ouvesse la terra 
que tene o malVey, 
s'eu Ias armas usara, 
e a mi fee non sey, 
se home a mi levava 
de tan mala ley. 
A Deos vos vayades, 
garçom, ca non sey 
se onde me fallades 
mays vos fallarei. 

No figueiral figueiredo, 
a no figueiral entrei. 

Eu la repricara : 
«A mi fec non irey ; 
cá olhos d'essa cara 
caros comprarei ; 



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120 HISTORIA DA POESIA 



a Ias longas terras 
en trás vós me irey; 
las compridas vias 
eu Ias andare)[ ; 
língua de aravias 
eu Ias fallarey ; 
mouros se me visse 
eu los matarey. 

No figueiral figueiredo, 
,a no figueiral entrey. 

Mouro que las guarda 
cerca lo achey ; 
mal las meaçara 
eu mal me anogey ; 
troncom desgalhara, 
t oncom desgalhei, 
todolos machucara, 
todolos machuquey ; 
las nenas furtara, * 
las nenas furtey, 
la que a mim fâllara 
na alma la chantey. 

No figueiral figueiredo, 
a no figueiral entrey. 

Pelo que se deprehende de Frei Bernardo de Brito, 
a Canção era mais extensa no Cancioneiro do Conde 
de Marialva ; é natural que tivesse muito mais desen- 
volvimento, por isso que estava em estylo de esta- 
villar, prolongando se assim em um coro dansado, 
que ia repetindo o reírem. * 

Na Miscellanea de Miguel Leitão de Andrada fo i 
compilada a Canção do Figueiral como '(^uma das 



1 No exame da forma de estavillar já ficou transcripta a Can- 
ção do figueiral^ no t. i, pag. 227 supra. Reproduzimol-a para a 
intelligencia do detalhe musical. 



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POPULAÍl PORTUGUEZA I27 

muitas Cantilenasit sobre o thema do Tributo das 
Donzellas nas versões oraes portuguezas ; e refrin- 
do-se especialmente a esta, accrescenta: «A qual 
me lembra a mim ouvil-a cantar muito sentida a uma 
velha de muita edade, natural do Algarve, sendo eu 
muito menino». {MisCy p. 27). Nos romances popu- 
lares do Algarve colligiu Stacio da Veiga um que 
versava sobre o thema de uma Donzella libertada 
do mouro que a guardava ; infelizmente syncretisou 
unindo o ao romance da Infantina, dando- lhe o ti 
tulo de Almendo. Separámol-o expungindo os re- 
toques a que procedeu para completar 03 versos 
octonarios : 

— Que fazeis, senhora, 
Em estrada mentia, 
Em que não ha gente, 
Nem abrigo havia ? 

Ou aqui, senhora, ' 

Quem vos prantaria, 
Que veiu leixarvos 
Em chaparra sombria í 
Eu a vossa historia 
Por gosto escutaria. 

aTrouveram me aqui mouros 
Com a feitiçaria ! 
Quizera o Cavalleiro, 
Mha sina quebraria, 
Montara-me a cavallo, 
D*aqui me levaria. 

— Levara sim, levara, 
Vos dera companhia ; 
Em a minha albergada 
Tereis albergaria. 

Pozeram-se a caminho 
Quando a lua lumbria, 
Clarão dava em rosto 
Da infanta que fugia. 



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128 HISTORIA DaVoESIA 

—•————» .^ 

A meio do caminho 
Perro Mouro sahia. 
Era o que a vigiava,- 
Quem a guardaria. 

— «Tem-te, oh cavalleiro, 
Se a vida te agonia, 
A poncella que levas 
Leva a luz do meu dia. 

— Só m-importa o que levo. 
De ti que importaria ? 

— «Se a dona roubaras 
Aqui te mataria. 

Par'ella avança o mouro 
Pensando a deteria : 
Ao puchar pela infanta 
Mão aos pés lhe cahia ! 
Queda-se pensativo, 
Sem saber que faria ; 
í^mquanto o mouro pensa, 
Emcjuanto óe dória, 
Christane com la infanta 
Voava,, não corria. ' 

Indubitavelmente este romance algarvio pertence a 
e esse grupo de Cantilenas a que alludia Miguel Lei- 
tão de Andrada. Na tradição popular hespanhola 
este thema não chegou a receber forma poética, 
como observa o eruditíssimo Ménendez Pelayo : «No 
existen Romances viejós que tengan que ver con el 
feudo de las cien doncellas.» ^ Os romances colligi- 
dos por D. Agustin Duran sob o n.° 617 e 618 são 
de elaboração litteraria, bem como os de Lorenzo de 
Sepúlveda. A lenda apenas foi redigida em prosa 



^ Romanceiro do Algarve, p. 41 e 43 — Destacámos este qua- 
dro do thema da Encantada^ só eliminando palavras de exclusiva 
funcção grammatical, de qne o povo raro usa. 

2 Obras de Lope de Vega, t. vu. 



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POPULAR PORTUGUEZA I29 

pelos chronistas, como vemos pelas seguintes formas, 
em que a figueira é substituda pelo symbolo também 
phalico da mão, ou pelo tributo feudal da marcheta : 
As Donzelkis de Simancas, — Acha- se esta lenda 
contada por Ambrósio de Morales e porLobera, re- 
sumindo-a Fr. Bernardo de Brito pelo seguinte modo : 
cA villa de Simancas, chamada antes Gureba, co- 
brou este nome porque sete DonzeUas que d*aqui 
haviam de ser levadas, se cortaram as mãos, para 
d'este modo escaparem ; e como se mostrassem aos 
Mouros, que vinham arrecadar o tributo, dizendo : 
— Que não podiam ir por estarem mancas, — elles 
responderam, que : — assi mancas as queriam ; mas ' 
o povo compadecido de tanta virtude, arremeteu 
tumultuariamente contra os Mouros, e mortos de 
mão commum, foram as DonzeUas postas em liber- 
dade, deixando por nome á villa a resposta que de- 
ram os bárbaros: — Si mancas as queremos, — e 
por armas as mãos cortadas das donzellas.» * Sobre 
as Armas de Simancas, publicou Menendez Pelayo 
estes versos attribuidos a Luiz Vivar : 

«Por libertarse de Paganos 
Las siete Donzellas írancas, 
Se cortaron sendas manos, 
Y las tienen los Christianos 
Por sus armas em Simancas.» 

Na lenda portugueza de Chacim e Mosteiro de 
Balsemão, em que é um castellão mouro que exige 
o maritagio ou prelibação, ha uma lucta entre os 
sarracenos e os christãos ; mas como estes são pou- 
cos, a Virgem vem socorrelos, trazendo uma am- 
bola de bálsamo na mão, com que ia sarando os 



* Mon arch. Iwit., P. n, p. 297. 
Pões. popal. — Vol. 11. 



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VB^ 



l3o HISTORIA DA POESIA 

vivos e dando vida aos mortos. Em reconhecimen- 
to da victoria alcançada o povo erigiu uma ermida 
a Nossa Senhora do Bálsamo na mão, e ainda hoje 
se celebra a festividade do Cara- Mouro, resultando 
para a aldeia o nome de Chacin da chacina que 
alli fez dos sarracenos e para a povoação da Al- 
fandega o titulo da Fà, * «E' tradição que n'esta 
villa (Alfandega da Féj sahiram vinte e cinco ho- 
mens de esporas douradas a expugnar um Mouro 
potentado, que tinha seu domicilio em um monte, 
que está á vista da villa de Chacim, fazendo-se no 
dito sitio insolente, confiado nos mouros que alli o 
defendiam, pedindo, por feudo ás villas circumvisi- 
nas umas tantas donzellas ; ao que os moradores da 
villa e seu concelho responderam com armas; e pe- 
lejaram aquelles vinte e cinco homens com tal valor, 
que matando o Mouro e seus sequazes, desassom- 
braram os logares visinhos ...» A mesma lenda se 
repete em Castro Vicente : «Tiveram os Mouros 
uma fortaleza no alto do monte Carrascal, a pe- 
quena distancia para o nascente da antiga villa de 
Chacim, e alli residiram sugeitos a um Alcaide ou 
Rei mouro, e obrigavam a muitas terras circumvi- 
sinhas a que em certos tempos desse cada uma o 
penoso e bárbaro tributo de uma donzella, que sendo 
pedido á villa de Castro Vicente, seus moradores 
repugnaram na entrega, e que sahindo contra os 
Mouros com muita gente e valor os destruiram ; e 
porque ds moradores de Alfandega se destinguiram 
singularmente confiando em Deus, ficou a villa dalli 
em diante chamando-se Alfandega da Fè,i> 

Frei Bernardo de Brito cita mais duas lendas lo- 



1 J. Avelino de Almeida, Dicc. abreviado de Chorograpkia de 
Portugal, t. 1, p. 774. 



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J 



POPULAR PORTUGUEZA l3l 

caes : «Na Veiga de Carrião se fundou uma egreja 
da invocação de Nossa Senhora da Victoria, em 
lembrança do estranho milagre com que foram li- 
vres certas Donzellas, que os Mouros já levavam 
comsigo. Porque, chegando com ellas a este logar, 
onde andava pastando grande numero de vaccaria. 
se ajuntaram alguns touros, e* feitos em ala, accom- 
metteram o esquadrão dos Mouros, tão impetuosa- 
mente, que mortos e desbaratados todos os mais 
d'elles, ficaram as donzellas livres, e cobraram por 
via dos brutos a liberdade que perdiam pela fra- 
queza de seus próprios parentes. » Nestas lendas, em 
que intervém a Virgem, que estava na intensidade 
do culto e da idealisação poética no século xiii, re- 
flecte-se o antagonismo contra a preponderância da 
Egreja de Compostella, que exigia o tributo dos Vo- 
tos de San Thiago, O touro bravo tinha uma festa 
tradicional na Extremadura e na Galliza. Refere Frei 
Bernardo de Brito a tradição heráldica conservada 
nas Armas de Queiroz: «Nas Astúrias de Oviedo 
ha um solar de fidalgos que se chamam Queiroz (e 
não falta quem diga serem todos uns, como os 
Queiroz de Portugal) que trazem por armas cinco 
cabeças de donzellas por outras cinco que salvaram 
do poder dos Mourps.» Menendez Pelayo aponta 
uma outra lenda das Astúrias, que chegou a receber 
forma litteraria. 

Na sua comedia famosa Las famosas Asturianas, 
Lope de Vega traz uma outra tradição popular que 
determinou a libertação do infame Tributo das Don- 
zellas. Quando as Donzellas eram levadas por terras 
christãs para serem entregues aos Mouros, uma d ellas 
poz-se núa resistindo a todas as admoestações e rogos 
contra tal escândalo ; e ao entrar em terras maures- 
cas vestiu-se, dizendo : Que achando-se então entre 
homens era da sua honestidade recatar-se. Foi esta 



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l32 HISTORIA DA POESIA 



offensa aos christãos, que ella não considerara coma 
homens, que determinou a revolta, que os forçara á 
repulsa do odioso tributo. Menendez Pelayo ; com- 
mentando a comedia de Lope de Vega, transcreve 
a lenda do Libro de las bienandanzas é fertunas^ 
escripto por Lope Garcia de Salazar por 1471, ma- 
nuscripto que se guarda na Academia da Historia 
de Madrid. Transcrevemos apenas a falia da don- 
zella, que se desnudara: «Como los escuderos la 
vieron asi vestida, maravilhando -se mucho dello pre- 
guntaronle que por qué lo fazia. Respondióles, que 
ella se desnudara pri meramente quando vénia en 
tierra que no avia ornes, é que las mugeres no de- 
ven aver verguença sino de los omes, é agora que 
ella se vestiera por que entravaii en las tierras que 
avia omes, é que por eso era vestida por encobrir 
sus carnes dellos . . Los escuderos le dixieron que 
tantos omes ávía en tierra de cristianos como en la 
tierra de los moros y tan buenos. Respondióles, que 
dezian lo que les plazia, que si á la tierra de los 
cristianos oviesse omes que no levarian á ellas asi 
por esclavas á tierra de moros, á donde avian de 
ser corrompidas i ensuçiadas sus virginidades de las 
gentes ynfideles . . é por que los moros eran omes 
gelas fazian levar asi. — Oydo p ste fecho por el Rey 
é caballeros, segund la donzella le avia dicho é 
mucho platicado con todos de un acuerdo, juraron 
de no las dar é de morir sobre ello. E' acordaron 
de las yr buscar ante que no pagar áquel tributo . . » 
Liga-se esta lenda á victoria nos campos de Albelo, 
por D. Ramiro i, em que intervém já San Thiago. 
No Romanceiro hespanhol apparece tratada esta 
lenda somente no século xvi, quando se cultivava 
com. desespero o Romance litterario e semi-littera- 
rio ou anonymo. Na Flor de Vários, de 1597, foi 
colligido o romance do Rei Ramiro, copiado no 



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POPULAR PORTUGUEZA |33 



Romancero generale de i6o2 (Parte ix, p. ii2.); 
versa sobre o thema da comedia famosa Las famo- 
sas Asturianas, mas sem a crueza da desnudação. 
Lorenzo de Segura, nos Romances sacados de varias 
historias, (p. 26) publicou em verso octosyllabo a 
lenda de Peito Burdello restituindo a forma de Bar- 
dulia ao nome geographico ; 

De Leon de las Astúrias 
Ramiro tiene el reinado ; 
Elscs Moros de BarduUa 
Le enviaron su mandado, 
Que si paz quiere con elles * 
El tributo les sea dado. . . 

No fim do século xvi o Romance narrativo cas- 
telhano decahiu pela sua excessiva prolixidade e 
subtilezas culteran stas ; operara se uma transformação 
fundamental, em que a narrativa heróica íoi encon- 
trar uma expressão viva nas scenas ou jornadas da 
Comedia famosa, que é a forma litteraria mais fe- 
cunda e brilhante do génio castelhano. Os Roman- 
ces do Tributo das Donzellas convertem-se nas bellas 
comedias famosas de Lope de Vega Las Doncellas 
de Simancas e Las famosas Asturianas. No estudo 
d'este thema observa-se como a poesia popular ela- 
bora os elementos mythicos persistentes no substra- 
tum ethnico, ê como vae determinar a idealisação 
artística que lhe dá forma consciente nas Litteraturas. 

O Abbade João, — Nos primeiros séculos da mo- 
narchia portúgueza os feitos do Abbade D. João, de 
Monte-Mór, contra os sarracenos occiíparam as tra- 
dições locaes, transmittidas em lendas religiosas es- 
criptas. Pouco se sabe da existência -histórica deste 
personagem ; era irmão de D. Bernardo o Diácono, 
filho bastardo de D. Fruela, irmão de D. Affonso o 
Catholico. Floresceu este prelado pelo anno de 815, 

Poes. popul. — Vol. II o 



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■"s- .i: ^^ 



i:)4 HISTORIA DA POESIA 



e renunciou em Theodmiro, «endo conhecido pelo 
nome de Abbas Lorbanensis, Nas estrophes que res- 
tam do poema de Affonso Giraldes sobre a Batalha 
de Salado, ha uma referencia á lucta do Abbade 
João contra o rei Almançor, que elle venceu, ope- 
rando-se depois o milagre da resurreição dos chris- 
tãos: 

Outros faliam de granTi rasão 
De Bistoris, gram sabedor, 
E do Abbade Dom João^ 
Que venctíu Rei Almanzor. 

O ehronista Fr. António Brandão, que ainda viu 
o poema de Affonso Giraldes, diz que elle começava 
pela enumeração das batalhas mais celebres : «Em 
o principio do qual entre outras guerras antigas se 
faz manção d'esta que o Abbade João teve com os 
mouros e com seu capitão Almançor.» * A forma 
de quadra em que estava escripto o poema, leva a 
inferir que o episodio do combate do Abbade João 
se tornaria popular. A referencia a Bistoris inter- 
pretamol-a pelo nome do desfiladeiro de Betzacharah, 
em que Eleazar salvou os israelitas indo matar o 
elephante em que vinha montado o rei Antiocho 
Eupator entre o sen exercito. A lenda do Abbade 
João conservou-se nas festas de Tablado na villa 
de Monte-Mór o Velho, e chegou a receber a forma 
dramática do Auto vicentino. A referencia mais an- 
tiga que deparamos é a do grammatico Fernão de 
Oliveira : cE só esta nossa terra Portugal, na Hes- 
panha, quando os Godos com uns costumes bárba- 
ros e viciosos perderam a Hespanha, teve sempre 
bandeira nunca sujeita a Mouros ; mas muitas ve- . 



^ Monarck. lusii. P. in, 1. lo, cap. 45. 



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POPULAR PORTUGUEZA l35 

zes contr*elles victoriosa: como foi a do Saneio Abbade 
dom João de Monte-Mòr, o qual confessam todos, 
que corria a terra dos mouros como de imigos e 
não como de senhores. E esta é a verdade, que em 
Portugal sempfe houve logares e terras próprias dos 
christãos, por que se assi não fora que na Extrema- 
dura não houvera logares de christãos, não se atre- 
vera o Abbade João, que era homem prudente a sayr 
trás seus imigos por suas terras desses imigos por 
espaço de jornadas com pouca gente.» * Fernão de 
OHveira imprimiu a sua Grammatica em 1536. Em 
uma Carta em Tercetos escripta por Sá de Miranda 
a Jorge de Monte-mór, em 1553, refere-se também 
á lenda local do Abbade João : 

Fue Monte-Mayor ya mentado en guerras 
Del Santo Abbad Don Juan (cuentase assi) 
Agora dexa atras aguas y siôrras. 

Quando los^Moros lançavan de aqui 
(Ah, los muchos peccados de christianos) 
Quedo se el leal Monte en salvo alli. 

A lenda do Abbade João appareceu publicada em 
prosa castelhana em 1562 em um hoje raríssimo 
'opúsculo in 4.° de 16 folhas innumeradas : Historia 
dei Abbade Do Juan, contendo dezesete capitulos : 
Comiença el Uivo dei abbad don Juã senor de mÕte 
ntayor, E nel qual se escrive todo lo que ha acõtes- 
tecido con do Garcia su criado. Termina com o colo- 
phão: «Fue impresso el presente libro En casa de 
Francisco Fernandes de Córdova impressor. Ano de 
mil y quiflientos y sessenta e dos. » ^ Do Itinerário 



1 Grammatica de linguagem portugiuza, p. ii, ed. 1871. 
* Dá noticia d'este raríssimo opúsculo o bibliophilo Fernandes 
Thomaz, nas Cartas bibliographicasy i, p. 46. Coimbra, 1876. 



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l36 HISTORIA DA POESIA 

historial, do P.® Alonso de Ledesma, de 1687, (p. 
586) extractamos a lenda, que então inspirara um 
Auto, a que allude D. Francisco Manuei de Mello : 
cnão menos admirável é o que succedeu . . em 
Coimbra, do reino de Portugal, em tuja fortaleza se 
recolheu grande parte de Cavalleiros e Capitães com 
suas mulheres, filhos e fazenda, para se defenderem 
dos Mouros, os quaes vieram contra elles com . o 
seu rei Almançor de Córdova, com cem mil com- 
batentes, com designio de extingnir aquella dimi- 
nuta centelha que havia ficado viva, da lei santa 
de Christo. Três annos resistiram os velorosos ca- 
valleiros á immensa mourisma, que com tão prolixo 
cerco os affligia, tendo por caudilho a santa Virgem, 
cuja imagem veneravam em uma capella, por ordem 
do Abbade. de San Bento, chamado João, que era 
como seu capitão que os commandava ; o qual ven- 
do os consumidos, sem armas e sem vitualhas, e 
que se não era milagroso era impossivel defender 
mais a fortaleza, juntou as cabeças e representando- 
lhes o perigo em que seus filhos e mulheres haviam 
de cahir em poder dos infiéis, e muitos por sua fra- 
queza deixariam a fé de Christo, que seria acertado 
matal-os, e ao pouco gado que restava, e sair aos 
Mouros e vender as vidas a preço delles. Todos 
abraçaram este conselho e apunhalaram suas mulhe- 
res e filhos; pegaram fogo ás fazendas e gados, e 
sahiram denodados contra os Mouros, nos quaes fi- 
zeram tantos estragos, que mataram noventa mil, e 
colheram grandes despojos. Voltaram victoriosos ao 
castello, ainda que pesarosos pela morte das mulhe- 
res e dos filhos; porém, consolou-os Deus, porque 
chegando á porta, sahiram a recebel-os, cantando 
em procissão, resuscitados pela Santa Virgem, cujo 
collo, e assim no de todos estava o signal colorido 
da ferida, para memoria do milagre ; pelo que, e 



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POPULAR PORTUGUEZA l3j 



pela victoria, prostrados ante sua imagem, derra- 
mando doces lagrimas de goso e alegria, renderam 
as devidas graças, como á auctora de tamanha ma- 
ravilha.» A lenda clerical tem o caracter de insen- 
sibilidade do fanatismo religioso ; a preoccupação do 
milae^re afasta a idealisação poética. 

No século xvM, o nosso polygrapho D. Franci co 
Manuel de Mello, na Feira de Anexins, (p. 6i) re- 
vela a existência de um Auto popular sobre o thema 
tradicional do Abbade João: «Oh, senhor! Leu al- 
guma vez o Auto de Elrei Almançor da Barberia ? 
— Porquê ? — Porque não sei que almas christãs haverá 
que aturem a sua arenga ; em começando, agonia- 
se-me a alma.» Nas festas annuaes de Monte-Mór, 
em dez de agosto, representava se um Auto popu- 
lar, por ventura este a que allude D. Franscisco 
Manuel de Mello, que parece ter sido retocado no 
século xviii por Francisco de Pina e de Mello, como 
constava a João Pedro Ribeiro ( Disser i, chron., T. 
IV, P. II, p. 28.) Quasi no fim do reinado de D. 
João v foi decretada a Instituição das Festas do 
Abbade João, em um pittoresco documento, * em que 



* Dom João, por graça (fe Deus rei de Portugal e dos Algar- 
ves d'aquém e d'além mar «-m Africa, Senhor da Guine, etc. Faço 
saber a vós Juiz de Fora. Vereadores e Procurador da Comarca 
da villa de Monte-Mór o Velho, que se viu a vossa conta em que 
me representastes, que os moradores d* essa villa celebravam todos 
os annos o portentoso milagre que obrara cora os seus maiores a 
sanctissima mãe de Daus, com titulo da Victoria : pois sendo de- 
golados pela direcção do Abbade João^ tio de el rei Ramiro, todos 
os velhos^ mulheres e meninos, por não cahirem nas mãos dos 
Mouros, que tinham cercado o Castello d'essa mesma villa, antes 
dos catholicos que defendiam o castello sahirem a pelejar com os 
bárbaros, alcançando d'estes um maravilhoso triumpho, acharam 
depois da batalha resuscitadas todas as pessoas que tinham de- 
golado j conhecendo-se na garganta o signal das feridas, que se 
continuaram muito tempo em algumas familias d'essa villa, e de 



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l38 HISTOHIA DA FOESIA 



se relata a tradição local. No archivo da Camará 
municipal de Monte-Mór guarda-se o manuscripto in- 
titulado Historia Maulianense, chronologica, ^pit/to- 
matica, etc. escripta pelo Capitão mór da terra An- 
tónio Corrêa da P^onseca e Andrada, por 171 5, e na 
qual se trata da lenda do Abbade João, O biblio- 
philo Annibal Fernandes Thomaz confrontando o texto 
manuscripto com o do folheto impresso em 1562 
com o titulo de Historia dei Abbade Do Juan, con- 



todo o referido houvera sempre tradição imroemorial continuada 
succes si vãmente de pães a filhos; por cujo motivo não só se re- 
petia a 10 de Agosío a memoria d'estes prodigi(js; porém esta 
soberana Virgem era a protectora a quem essa meama vlUa recorria 
em todas as suas necessidades, nas quaes tinha mostrado muitas 
vezes o poder e a piedade do seu soberano patrocínio, e que estas 
patentes e sag^radas circumstancias persuadiram muitas pessoas d'esta 
villa a que toucassem por padroeira d'ella a Senhora da Victoria^ 
e assim o requereram a essa Camará, e que esta a festejasce com 
esse titulo e fizesse numerar esta festa entre as suas ; por cuja 
rasão vos resolvereis a convocar toda a nobreza e povo, que to- 
dos uniformemente proclamaram que tosse a mesma Senhora da 
Victoria sua padroeira, de que se figura o termo que remetteis ; e 
para que este tivesse toda a v lidade precisa, esperáveis que eu 
fosse servido mandai o observar. E visto o que me referistes, e o 
que constou por informações do Provedor da Camará de Coimbra 
e resposta do Procurador da minha coroa, a quem se deu a vista e 
não teve duvida : Hei por bem e vos mando que observeis o termo 
da acclamação que fizestes ema nobreza e povo d'essa villa, para 
que a Virgem nossa senhora com o titulo da Victoria seja padroeira 
d'ella; e que numereis a sua festa entre as mais d'essa comarca, 
para ficar perpetua a memoria d'este prodígio. Cumpri o assim ; e 
esta Provisão fareis registar nos livros da Camará, para a todo o 
tempo constar que eu ass m a houve por bem. — El Rei nosso 
senhor o mandou pelos Doutores Manuel Gomes de Carvalho t 
Fernando Pires Mourão, ambos de seu conselho e seus Desembar- 
gadores do Paço. — Manuel Ferreira Serrão a fez em Lisboa a 20 
de Dezembro de 1 746 annos. — José Galvão de Castello Branco, 
a fez ejcrever, Fernando Pires Mourão. — Manuel Gomes de Car- 
valho. — Por despacho de Desembargo do Paço, de 19 de Dezem- 
bro de 1746.» 



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POPULAR l>OKTUGUEZA l5q 



cluiu, que é traducção litteral do mesmo impresso 
inclusive as epigraphes dos capítulos, á excepção 
porém do 7.° do livro 2,** em que elle, com a maior 
ingenuidade se esforça por demonstrar que D. Gar- 
cia, creado do Abbade, que este encontrou abando- 
nado, e que depois se tornou mouro, não era nem 
podia ser natural de Monte Mór . . » * As festas do 
Abbade João continuaram se por todo o -século xviu 
e metade do século xix, caindo no esquecimento 
n esta corrente de desnacionalisação qne se tornou 
mais intensa desde 185 1. A forma dramática das 
festas com o seu Bafordo, Tablado e Auio decla- 
mado, ajuda-nos a reconstruir esse elemento poé- 
tico popular a que primeiro dera forma no século 
xiY o tro vista -\ffonso Giraldes. Nas ephmerides pro- 
vincianas encontram se por vezes informações sobre 
estas persistências tradicionaes. ^ 



' Cartas bibliographicas, vol. l, p. 50. 

2 ti As festas do Ahbade Loào. — Da Villa de Monte -mór o Velho 
nos escrevem em data de hontem, segunda feira, 10 do corrente 
(agosto de 1863) o seguinte: 

«Começo por lhe noticiar que principiaram no dia 9 às f es ias 
do Abbade yoão n'esta villa. A concorrência do povo era extraor- 
dinária ; podemos asseverar que no domingo achavam se n'esta 
terra perto de 5000 pessoas dos diversos logares circumvisinhos. 
Coimbra e Figueira fora 1 as terras que maior contigente deram 
para aquelle numero » 

«Segundo o testemunho das pessoas da- terra, nunca a festivi- 
dade da Senhora da Victoria, ou como vulgarmente se chama — 
festas do Abbaae João^ foi tão concorrida.» 

«Desde 1852 que estas festas não tornaram a ser celebradas . . .» 
- «No domingo, seriam, pouco mais ou menos 5 horas da tarde, 
entrou na praça um grande numero de individues vestidos de mouro 
(ainda que não rigorosamente) que se dirigiam a escalar as mu- 
ralhas de um castello que se achava erecto ao fundo da praça, 
onde se encontravam individuos que representavam os christãos com - 
mandados pelo Abbade João » 

«Devemos confessar que âs manobras eram bem executadas, ainda 
qae com algum acanhamento. . .» (Conimbricense de 1863, n <* 995') 



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140 HISTORIA Da POESIA 

2.^ Santoraes : Santo António, — Sob dois aspe- 
ctos se apresenta á consideração o estudo sobre Santo 
António, o da ethnologia e o da historia ; correspon- 
dem -lhe a corrente da sympathia e das lendas po- 
pulares conservadas nos costumes, e as relações ágio- 
lógicas referidas ncs chronistas monachaes, que se 
apropriaram dos elementos da tradição poética e os assi- 
milaram nas formas cultuaes. E' d*esta confusão das 
duas correntes que tem resultado a persistência da de- 
voção de Santo António e a exploração religiosa da 
credulidade popular; e n'este syncretismo calculado, 
foi desapparecendo a face histórica do santo, e até o 
titulo principal da sua gloria, a fama do sábio doutor 
que brilhou nas cathedras das Universidades do sé- 
culo xm. Cada vez mais o seu vulto se foi identificando 
com os vestígios de cultos primitivos que ainda se 
conservam nas superstições populares, tornando-se 
os actos da sua devoção francas superstições tole- 
radas pela Egreja. Importa separar estas duas cor- 
rentes ethnologica e histórica. 

A popularidade de Santo António é commum á 
Itália, Hespanha e Portugal ; sem que elle tivesse exer- 
cido uma acção social que o conservasse na memoria 
dos povos, esta generalidade da sua adoração no occi- 
dente da Europa é já um indicio de que um gran- 
de numero de tradições da primitiva unidade ethnica 
Occidental, que já tinham decahido nas formas de 
superstições, foram assimiladas no typo lendário de 
Santo António, conforme a Egreja sempre fez, quando 
não podia extirpar as manifestações dos cultos poly-^ 
theicos greco-romanos, liguro-celtas e germano-slavos 
que sobreviviam na Europa. 

Na Itália, segundo vemos na obra de Pitré, Spetaccoli 
e Feste, celebra se entre o povo desde i a 13 de junho 
a trezena [tridicina) de Santo António, pedindo-Ihe 
a sua protecção para as cearas, como outrora á deusa 



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POPULAR PORTUGUEZA 



Ceres, e a sua intervenção para effectuarem-se casa- 
mentos, como se fazia ao deus Pilumno. Era nesta 
mesma época do anno, que na Sicilia, conforme es- 
creve o agrónomo Inzenga, se enfeitava Ceres com 
flores, e se percorriam as ruas voltando do campo 
com espigas como signal do triumpho sobre as forças 
malévolas, e o annuncio precursor de uma colheita 
abundante. A festa da espiga também existe em Por- 
tugal, como resto deste systema cultual decahido, mas 
na Itália encorporou-se nas devoções a Santo António. 
Commum á Itália, Hespanha e Portugal é essa 
outra superstição popular sobre o poder de Santo 
António descobrir ou fazer as cousas perdidas appa- 
recerem. A Egreja consagrou-lhe este poder na se- 
quencia Si quaeris miracula, por ser o mais persi- 
stente na credulidade do povo, mesmo antes de Santo 
António, como vemos, attribuido a S. Filicicchin, a 
S. Pasqual e a Santo Espiridião. fi^m Hespanha é 
também este um dos attributos que fazem querido 
e venerado Santo António, e como na Itália egual- 
mente protector dos amores e dos casamentos. Assim, 
repete-se nos cantos populares de Andalusia : 

Santo António português, 
Devoto de lo perdido, 
Mi amante se perdió anoche, 
Buscadmélo santo mio. 

Oh meu auVido Santo António, 
Acompanhae os perdidos, 
Acompanhae o meu amor 
Quando vem fallar commigo. 

Vê-se, portanto, que também em Hespanha (e no 
sentido de tradição ethnica referimo nos a toda a 
peninsula ibérica) existia a crença de uma divindade 
primitiva, que tinha o poder de fazer apparecer as 
cousas perdidas. Uma inscripção de Villa Viçosa á 



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142 HISTORIA DA POESIA 



divindade Ataecina, análoga a esta outra occidental 
AthenCy era invocada pelos Lusitanos para descobrir 
os objectos roubados. Esta superstição popular, que 
ainda no século xvii a Inquisição perseguia, era uma 
persistência dq antigo culto dos povos ibéricos ; fácil 
foi á Egreja applicar o seu velho processo de ada- 
ptação dos mythos e crenças, transferindo para An- 
tónio o santo, os poderes das divindades Atkene e 
Ataecina (na Itália o povo channa-lhe sempre An- 
tonino), 

No processo da Inquisição contra uma pobre mulher 
Anna Martins, em 1694, vem citada a superstição 
que ella fazia, resando a Santo António uma oração 
para achar as coisas perdidas, empregando além das 
palavras a sorte da peneira, tal como se usa também 
em Itália e em Hespanha. Do estudo comparativo 
se conclue que o milagre do santo é a repetição de 
uma superstição popular, e que esta é a persistência 
ethnica de uma religião primitiva, que foi substituída, 
ficando certas praticas cultuaes nos costumes do povo. 
Feita esta dissecção, póde-se determinar qual foi o 
caracter dessa religião primitiva. Já pelas referencias 
á festa da espiga, e á trezena de Santo António, vê-se 
que essas manifestações dos costumes do povo per- 
tenciam a uma religião chthoniana; confirma-o com 
uma clareza os poderes também attribuidos ao Santo 
para tornar venturosos os amores e tornar realisavel 
o casamento entre os namorados. Como explicar plau- 
sivelmente o caracter galhofeiro, desenvolto, em que 
o Santo influe nos casamentos, e as cantigas lúbricas 
e quasi obscenas* com que o povo invoca esse ty- 
po ascético do primitivo claustro franciscano, digno 
cooperador de Francisco de Assis na idealisação da 
pobreza e da humildade? O absurdo tem também a 
sua rasão de ser ; os cultos chlhonianos, sempre or* 
giasticos, como persistiram entre os povos da Europa, 



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POPULAR PORTUGUEZA \4'Ò 



a Egreja sanctificou algumas d'essas praticas inextin- 
guíveis transportando-as para as suas lendas piedosas. 
Dá-se com Santo António esta appropriação dos 
vestígios dos cultos phallicos de uma extincta religião 
chthoniana, como p-la primeira vez notou Teixeira 
Bastos: «O caracter mais interessante do Santo, se- 
gundo a voz do povo. . . consiste nas suas relações 
evidentes com os vestígios de antigos cultos phallicos, 
como succede também com as tradições de S. João 
e S Gonçalo. Santo António quebra as bilhas ás 
raparigas, e depois de as ralar muito, concerta-as. Esta 
versão do Algarve pouco differe da que corre em 
Lisboa. EUe é o advogado dos casamentos das rapa- 
rigas, e quando.se não digna protegel-as, mettem-no 
num poço ou partem-n'o em pedaços. (Lisboa). Vè-se 
o mesmo costume no Algarve; As raparigas quando 
querem casar enforcam Santo António, deitam-no ao 
poço de cabeça para baixo, depois tiram-lhe o me- 
nino, e não o tiram do molho sem que elle tenha 
feito o milagre. Tem o mesmo caracter orgiastico 
estas cantígas populares: 

«Santo António é brejeiro 
E alguma coisa mais; 
Faz chorar as raparigas 
E andarem sempre aos ais. 

Santo António é santo 
Pancadas deve levar, 
Por não fazer o milagre 
PVás raparigas casar » Eic. 

De todos os aspectos desta superstíção popular, 
sae a reconstrucção phallagogica da religião chtho- 
niana prehistorica, em que os poderes da divindade 
Anaitis são transferidos para Santo António. Bre- 
jeiro é o epitheto referente ao brejo, ou terra baixa 
e lodacenta, onde era o templo da divindade phal- 



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144 HISTORIA DA POESIA 



lica; uma das formas cultuaes era levar á agua ou 
aos lodos do charco a imagem da deusa, supersti- 
ção que se acha prohibida nas Constituições episco- 
pães, condemnando ó revolver penedos e o levar 
imagens de santos e de Nossa Senhora á agua. As 
pancadas a que se referem as canti^s, são allu- 
sivas ao rito do fascinus, ou hasta pura, com que se 
fazia a flagellação aos crentes do culto hetairista da 
Mãe divina, Anath, Anaitis ou Anata, Com certeza, 
no seu intuito ascético procurou Santo António con- 
verter em penitencia christã a flagellação usada nas 
superstições populares, como vemos no processo de 
Luiz de la Pena, e do emprego das varas de zimbro, 
(d'onde Zimbrar) Viterbo, no Elucidário, falia da peni- 
tencia da flagellação e da sua confusão com as pra- 
ticas sensuaes, e diz de Santo António: «Foi este 
thaumaturgo portuguez o auctor deste sanguinolento 
espectáculo, que executado com as devidas ciixum- 
stancias, toi sempre de grande edificação. Não nega- 
rei, comtudo, que a vaidade louca de alguns, profa- 
nando o mais sagrado, fez passar este costume de 
santo a escandaloso, comprando a sua perdição com 
o -preço do seu vertido sangue, feitos verdadeira- 
mente martyres do demónio. Porém a temeridade 
desasisada dos menos não deve prejudicar a boa in- 
tenção dos mais, que compugidos de suas culpas, 
lavavam a fealdade das suas manchas com o sangue 
mesmo das suas veias.» Foi no Occidente que re- 
vivesceu esta pratica cultual da flagellação orgiastica, 
que entrou nas praticas penitenciaes da Egreja por 
1056, tendendo sempre para a aberração supersti- 
ciosa. A tentativa de Santo António, regularisando 
as praticas dos Disciplinantes públicos, foi impotente 
diante da credulidade popular, que favoreecu os 
Flagell antes do século xiii, os quaes «j^ excitavam 
ás acções mais torpes e abomináveis com a preven- 



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».Vifcj'Jli« 



POPULAR POKTUGUEZA 145 

ção de açoites,, preparando-se com a penitencia para 
a execução da culpa.» {Elucid., vb.° Flàgellante.) 

N'esta corrente de sobrevivência orgiastica foi en- 
volvido o ingénuo asceta franciscano, e elle mesnno 
identificado pelos attributos de casamenteiro com a 
divindade hetairista da religião chthoniana ! Foi uso 
até quasi ao presente entregar petições escriptas a 
Santo António, na sua egreja junto á sé ; Ribeiro 
Guimarães, no Summario de varia historia (I, 20) 
cita algumas, que revelam a persistência do caracter 
phallico no santo : 

fUma requerente pede ao santo que lhe dê uma 
boa sorte, livre de afflições, e que lhe arranje um 
marido que tenha fortuna, e que a estime . . . Outra. . . 
que empregue o seu valimento afim de que sua irmã 
Ánna regresse a casa, para a companhia de sua mãe 
e irmã, affastando se de um homem que a traz perdida. » 
Nos apodos infantis, accentuam-se por uma forma in- 
consciente outros caracteres phallicos de Santo An- 
tónio, como : 

Santo António laparo^o^ 
Come figos ^ é guloso. 

O epitheto laparoso é allusivo á lapa ou pedra 
phalíica arrastada á agua, segundo o rito da religião 
chthoniana ; o figo, nas superstições populares, co- 
lhido na noite de San João, serve para nos revelar 
que alguém nos quer mal, e liga-se á superstição dos 
demónios sensuaes chamados Ficarios, nome attri- 
buido á excrescência córnea- ou ficus dos Satyros na 
fronte. Uma cantiga das festas de San João, também 
se refere á flagellação cultual : 

— cNa noite de San João — Muita pancada apa- 
nhei.» Um certo numero de particularidades communs 
aos fastos de Santo António e San João, provam 



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140 HISTORIA DA POESIA 



uma idêntica proveniência, de um mesmo culto hetai- 
rista, cujas persistências foram mascaradas sob san- 
tificações pela Egreja : 

Santo António de Lisboa 
A' porta do seu convento, 
Está á mesa do auditório 
Tratando o meu casamento. 

Santo António do Convento, 
Não tem velas no altar; 
Heide-me casar este anno, 
Heide-lh'as mandar prantar. 

Santo António me acenou 
De cima do seu altar; 
Olha o maroto do Santo, 
Que também quer namorar! 

Santo António com ser santo 
Foi sempre um grande gaiato. 
Foi á fonte com três moças, 
Recolheu, trazia quatro. 

No altar de Santo António 
Está um vaso de açucenas, 
Onde vão as moças todas 
A chorar as suas penas. 

Santo António é moço, 
Santo António é frade. 
Para casar as moças 
Tem habilidade. 

E' também absurdo o aspecto militar, que nas 
lendas tem Santo António, sendo elle um débil asceta, 
que morreu prematuramente nas praticas da humil- 
dade. Nos milagres attribuidos na Itália a Santo An- 
tónio, conta-se que estando Pádua opprimida sob a 
tyrannia de Ezzelino, elle apparecera a um frade 
que lamentava a desgraça da pátria, annunciando-Ihe 
que no oitavo dia da sua festa Pádua seria livre do 



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POPULAR PORTUGUEZA 147 

tyranno. Dahi a offerta de uma, estatua a Santo An- 
tónio, e as festas com dansas, cavalhadas e jogos 
marciaes. Nas festas de Santo António em Cabo 
Verde (S. Thiago) ha também este aspecto de pa- 
rada triumphal,' com um séquito de escravos manie- 
tados seguindo o carro de . uma rainha. No tempo 
de Aífonso vi, foi Santo António alistado como praça 
do exercito, seguindo todos os postos. Escreve Ri- 
beiro Guimarães, no Summario: «Ninguém por certo 
se lembraria de fazer de um santo de indole tão 
mansa, um soldado brigão, prompto a dar cutiladas 
como qualquer espadachim. Santo António, o amigo 
das donzellas e dos rapazes, feito um batalhador 
com faces tostadas de pólvora, com as mãos calo- 
sas da durindana, com o habito tinto de sangue ! Só 
ura rei como Afifonso vi, teria a lembrança de alis- 
tar Santo António fazendo-o soldado dos seus reaes 
exércitos. > Não era isto mais do que o poder da 
superstição, que se renovara em Santo António, 
como se renovava em S. Jorge no tempo de D. 
João I, e em San Thiago na época da expulsão dos 
árabes da peninsula : 

Santo António de Lisboa 
Espelho de Portugal, 
Ajudae-oie a vencer 
Esta batalha real. 

Santo António de Lisboa 
Não quer aue lhe chamem santo. 
Quer que Ine chamem António 
General, marchai de campo. 

A disciplina de sangue, que se ligava ás formas 
hastatas das divindades chthonianas, as hastae Martiae, 
explicam este caracter militar de Santo António, que 
parecia contradictorio com o typo historicamente co- 
nhecido. A crença no phantasma das batalhas, já ci- 



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148 HISTORIA DA POESIA 



tada em Heródoto e Pausanias, continuou se em San 
Thiago e San Milan, em Carlos Magno e em Barba 
Roxa; também por sua vez se encarnou no typo po- 
pular de Santo António. A figura do menino, acom- 
panhando sempre a iconographia do Santo, é o emble- 
ma das Deusas-Mães da religião hetairi&ta, que se 
converte nos anjos que "cercam a Virgem. As super- 
stições populares não são hoje condemnadas, mas sim 
estudadas com interesse como um documento ethno- 
graphico ; por esta ordem de factos se recompõem 
instituições que pertencem $1 um sub solo social, an- 
terior a todos os documentos históricos. A lei da con- 
servação que se observa nos phenomenos physicos 
e orgânicos, também subsiste nas tradições e nos cos- 
tumes, transformando-se, syncretisando-se, decahindo 
de vigor, mas sempre persistindo já em sobrevivencias, 
já em recorrências. Crenças que foram elementos de 
religiões, em frente de outras mais elevadas decahiram 
em superstições populares é em praticas inconscientes 
e imitativas nos jogos infantis. O typo lendário de 
Santo António caiu naturalmente entre os divertimentos 
dos rapazes. Nas suas Notas ethnographicas descreve 
Teixeira Bastos este ultimo aspecto do culto de Santo 
António: c Raras, raríssimas são as crianças que, até 
aos dez ou doze annos, não o festejam annualmente 
nos seus brinquedos infantis, imitando os actos do 
culto catholico. Sobre uma meza ou uma cadeira, 
coberta com toalha de rendas e folhos ou com chita 
de ramagens, armam de ordinário um throno, col- 
locando em cima um boneco de barro, que repre- 
senta o Santo com o menino Jesus sobre um livro, 
e nos degráos maior ou menor numero de castiçaes, 
cruz, cálix, custodia e outros objectos usuaes do templo, 
todos de chumbo ; accendem velas de cera e adornam 
o supposto altar de flores e folhagens. Na véspera 
e noite de 13 de junho, dia consagrado a este Santo, 



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POPULAR PORTUGUEZA 149 

ha fogueiras em muitos quintaes e queima-se enorme 
quantidade de fogo de artificio; durante todo o dia 
lançam se bombas em honra do thaumaturgo. As 
crianças das familias pobres armam o throno á porta 
da rua, e desde os primeiros domingos de maio até 
ao dia da festa assaltam os transeuntes com bande- 
jas ou pires, pedindo esmola para a cera do Santo. 

cO maravilhoso e a desenvoltura seduzem as ima- 
ginações infantis; assim se explica a sympathia que 
os rapazes dedicam ao Santo António.» Muitos ou- 
tros divertimentos dos rapazes são restos imitativos 
de praticas cultuaes. A sympathia pelo Santo nos 
povos occidentaes não é mais do que a vitalidade 
dos costumes e tradições primitivas de uma phase 
social hetairista e de uma forma cultural chthoniana. 
Tal é o resíduo que fica do exame do typo lendá- 
rio bem entregue ás festas do automatismo popular. 

Tentou-se tirar o typo lendário das suas incrustações 
ethnicas, fazendo de Santo António o vulto para a 
consagração social de um centenário, sem consi- 
derai-© sob o seu aspecto histórico. Não se pensou 
sequer n'isto, nem tampouco se xomprehendeu tal 
necessidade. Não exerceu uma acção impulsiva na 
sociedade, para que esta o incorporasse na sua im- 
aiortalidade ; é por isso que a figura brilhante do 
doutor das Universidades do século xni, que manteve 
o estandarte da philosophia e theòlogia aristotélica 
e averroista, desappareceu debaixo da efiflorescencia 
poética das tradi';ões populares. O centenário de 
Santo Atitonio, sem o relevo dado ao aspecto 
histórico, ficou uma adaptação dos antigos elementos 
ethnicos ás condições profanas das glorificações mo- 
dernas. Renovou-se a repetição de um velho processo, 
que não tende a elevar a consciência social, podendo- 
se applicar a este espectulo perante o povo o ce- 
lebre hemistychio : fallit tua pietas incautum. 

Poes* popn.— Vol. 11 lo 



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X50 HISTORIA DA POESIA 

A Rainha santa, — Nas vidas dos santos syncre- 
tisaram-se muitos elementos poéticos tradicionaes, 
encontrando-se por vezes o clericus com o troveiro 
na elaboração das mesmas lendas ; a Gesta de Aiol 
deriva da lenda de Santo Agiulpho, cuja relação se 
encontra nas Acta Sanctorum ; a lenda de Saint Guil- 
laume de Gellone desenvolve-se em dezouto Ges- 
tas celebrando as façanhas de Guillaume au court 
neBy e a Gesta de Miles et Atniles provém de uma 
lenda agiographica. Na vida de San'.a Isabel, mulher 
do rei D. Diniz, encontram-se milagres que são the- 
mas de Contos medievaes e com paradigmas na tra- 
dição dó Oriente ; tal é o do P^gem em quem a rainha 
tinha muita confiança, e que o rei para desfazer-se 
delle mandou com um recado a um forno de cal, 
aonde ao fazer determinada pergunta seria immedia- 
tamente arremessado ao brasido. Dá-se a circum- 
stancia de demorarse o pagem no caminho a ouvir 
missa, e, julgando o rei já cumprida a mortal missão,, 
mandou para verificar-se um outro pagem, aquelle que 
•o intrigara com o rei. Foi esse o que soffreu a ter- 
Tivel sentença. Este thema já tinha sido tratado pelo 
rei Aífonso o Sábio, avô de D. Diniz de Portugal, 
Tia Cantiga lxxviii das Cantigas de Santa Maria : 
«Como Santa Maria guardou un privado do Conde 
de Tolosa que non fosse queimado no forno, por 
que oya sa missa cada dia.> São dezasete quadras 
em alexandrinos em que se descreve o quadro do 
milagre da Virgem, que na tradição oriental é o 
conto do favorito Ahmed, das narrativas dos Sete Vi- 
zirs. Nos Eabliaux publicados por Legrand Aussy, 
apparece este conto com o titulo Hun Roi qui vou- 
lut bruler le fils de son SénéchaL Loiseleur des 
Longchamps determina o seu paradigma no cap. 
xcviii das Gesta Romanorum, nas Cento Nottelle 
autichCy n.® lxviii, na collecção de Giraldi Cynthio, n.** 



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POPULAR PORTUGUEZA l5l 

VI da outava dezena e ainda em outras collecções no- 
vellescas. * Este conto está hoje universalisado pela bai- 
lada de Schiller, Fridolin, ^ encontrando -se também 
nas tradições da Alsacia. 

Na lenda da rainha Santa Isabel de Portugal en- 
traram situações referidas na vida da rainha Santa 
Isabel de Hungria, morta quarenta annos antes. E' 
natural que a Rainha Santa imitasse os actos de ca- 
ridade desse celebrado typo de piedade ; assim lhe 
foram attribuidos os mesmos milagres. E' de Isabel 
de Hungria, que se conta a conversão das esmolas 
em rosas, ao mostrar o que levava no regaço para 
os pobres, quando o marido a encontrou. Montalam- 
bert, na Vie de SainU Elisabeth de Hongrie, diz qué 
este milagre, também attribuido a Santa Rosa de Vi- 
terbo, é narrado no antigo manuscripto franciscano 
como tendo sido feito pela rainha de Hungria quando 
estava ainda em casa de seu pae em Presburgo. 
Transcrevemos aqui o milagre da tradição popular 
portugueza alemtejana, de que ha differentes versões : 

Rainha Santa Isabel, 
Mulher d*el rei Dom Diniz, 
Muitas esmolas que dava 
A ninguém as entregava, 
Pelas suas mãos as dava. 
Um dia aconteceu, indo 
Co seu regaço occupado 
Com El Rei se ha encontrado : 

— O que levaes. Senhora 
Ahi no vosso regaço ? 
«Levo cravos e rosas 
Rafi voaso desenfado. 
— Cravos ? cravos em janeiro. 
São maravilha achados. 



* Essai sus los Fables indknneiy p. 132. 

* FridoUn oh h Page du Rd de Portugal; Legende de Schiller 
traduite por M."^« Elise Volart, et restitué à la verité historique, 
avec huit dessins de Retzsch. Bruxelles. 1836. i vol. in 8.° max. 



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1 



l52 HISTORIA DA POESIA 



A santa se humilhou, 
Seu regaço lhe mostrou, 
Uma capella de rosas, 
Outra de cravos achou. 

(Versão de Extremo^:) 

Peço graça com favor 
Do divino Manuel, 
Para que haja de resar 
Da rainha Santa Isabel. 
Em Saragoça nascida. 
Secundo a oração diz. 
Foi rainha mui querida, 
Mulher d'el rei Dom Diniz. 
Aos pobres socorria 
Com entranhas do coração : 
Pois de ninguém se fiava, 
Sua esmola appresentava 
Com a sua própria mão. 

Vindo a Santa um dia 
Com seu regaço occupado, 
Pelo ihesouro que havia. 
Com el rei se encontrou. 

— Que levaes ahi, senhora ? 
«Levo cravos e mais rosas 
Para mais nossa alegria : 

— Bem sei que levaes dinheiro. 
Segundo sois costumada. 
Antes que, muito me cheira 
Que as rosas em janeiro 

E' de maravilha achal-as. 

A senhora humildosa, 
Seu regaço lhe mostrou ; 
Cravos e rosas achou, 
Um cheiro que admirava ! 

— Oh. rainha excellenie ! 
Meu tnesouro podeis dar, 
Minha coroa empenhar 

Por que em tudo estou contente.* 



l CoUigido por A. Thomaz Pires, na A Tradição^ vol. IV, n.o 5 



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POPULAR PORTUGUEZA 1 53 

A grande deturpação dos versos, que como resa- 
dos não tinham o apoio do rythmo do canto ou da 
dança, denota a sua antiguidade. Ha uma outra 
lenda da Rainha Santa em que o pobre leproso que 
ella mette no seu leito para cural-o, é um thema 
que também se encontra no Lavrador da arada, que 
leva no carro o pobresinho e ao dar-lhe hospita- 
lidade elle se transfigura em Jesus. Eis esta lenda da 
Rainha Santa, na versão de Campo Maior : 

Um dia lhe aconteceu 
Ir ó seu palácio pedir 
Um pobresinho leproso 
Com cinco chagas abertas : 

— Dizei me, ó meu irmão, 
Se vosso mal não tem cura ? 
«O meu mal cura não tem, 
Nem será remediado ; 

Eu vos peço, Senhora, 
Que por vossas santas mãos 
Meu corpo seja lavado. 

A Santa, que isto ouvia. 
Ao seu quarto o levou, 
J^*uma bacia de prata 
Seu santo corpo lavou. 
Com uma toalha bem fina 
Na cama onde el rei dormia 
Seu santo corpo deitou. 
Um cavalleiro que isto viu 
Foi mui triste e fatigado : 

— Saiba Vossa Magestade, 
Saiba vossa Senhoria, 

A Rainha, minha senhora, 
Pela clemência que usou, 
Um pobresinho leproso 
Na vossa cama deitou ! 

El Rei, que isto ouviu. 
Os seus olhos poz no céo. 
Os seus joelhos na terra, 
El Rei as corrediças correu. 
Um Senhor cruxificado achou. 



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l54 HISTORIA DA POESIA 



— «Agora vos digo, senhora 
Minha coroa podeis dar, 
O meu ihezouro empenhar. 
Para dar aos peregrinos 
Que eu contente hei-de ficar. 
Em Saragoça nascida, 
Em Extremoz fallecida, 
Nas freiras de Santa Clara 
(Ahi está) enterrada. 

O thema do leproso que se transfigura em Jesus, 
apparece na lenda dos Santos da Bretanha, contada 
por Lobineau (liv. 2,- p. i8o); San Judicael encontra 
um leproso de quem a multidão foge, elle trata o, 
e o miserável era Jesus. Também Christovam AUori 
pintou um quadro de San Julião o Hospitalario, re- 
presentando uma situação egual, contada na Legenda 
Áurea de Voragine. No Essai sur les Legendes pieuses 
du Moyen-Agey Alfred Maury traz muitos contos de 
pobres soccorridos, que se desvendam como Christo, 
exemplificando a acção moral do Evangelho de San 
Matheus: Qui recipit me me recipit, reàpit euni 
qui m£ misit (Math., x, 40.) Transcrevemos aqui a 
lenda poética açoriana, para aproximal-a da fran- 
ceza : 

Vindo um lavrador da arada 
Encontrou um pobresinho ; 
O pobresinho lhe disse 
— Leva- me no teu carrinho. 

O lavrador se desceu 
E subiu o pobresinho, 
Levou-o para a sua casa 
PVa melhor sala que tinha. 
Mandou lhe fazer a ceia 
De capão e de gallinha. 
Mandou-lhe fazer a cama. 
Oh, que rica cama tmha ; 
Por cima lençoes de renda, 
Por baixo cambraia fina. 



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POPULAR PORTUGUEZA l55 



La pela noite adiante 
O pobresinho- gemia ; 
Levantou se o lavrador 
A ver o que o pobre tinha, 
Achou-o cruxificado 
N'uma cruz de prata fina! 

«Se eu soubera, oh meu Jesus, 
Que e.n minha casa vos tinha, 
Vos teria outros preparos 
Que a minha casa precisa. 

— Cala-te, oh lavrador, 
Deixa-te d*essa porfia. 

Lá no reino de Deus Padre 
Uma cadeira te tinha, 
PVa teu pae, pr*a tua mãe, 
PVa toda a tua família. 
A'manhâ por estas horas 
Cá te mandarei buscar: 
Sete anjos e nove archanjos 
Te virão acompanhar 

(Cant. do Ar chip. açor., n.<* 75.) 

Jacob Grimm na Mythologia allemã (p. 688) col- 
ligiu uma tradição de um carreiro que leva Jesus 
no seu carro, e é-lhe promettido o reino do céo. 
Champfleury, nas Chansons popiilairee des Provinces 
de Francây (p. 5) colligiu uma bailada com este 
mesmo thema de Jesus mendigo : 

Jesus s'habille en pauvre; 

— Faites-moi la charité ; 
Des miettes do votre table 
Je ferai bien mon diner. 
«Les miettes de notre table 
Les chiens les mangeront bien ; 
lis nous rapportent des lièvres, 
Et toi ne rapportes rien. 

— Madame, qu'et's en fenêtre, 
Faites-moi la eharité. 

•Ah, montez, montez, bon pauvre, 
Un bon souper trouverez. 



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l56 HISTORIA DA POKSIA 



Après qu*ils eureni sQupé, 

II demande à se coucher. 

«Ah, montez, montez, bon pauvre, 

Un bon lit frais trouverez. 

Comme ils montaient les degrés 
Trois beaux anges les éclairaient: 
— Ah, ne craignez rien, madame, 
Cest la lune qui parait. 
Dans trois jours vous mourerez, 
En paradís vous irez, 
Et votre mari, madame, 
En enfer ira brúler. 

Da mesma época da Rainha Santa data a vulga- 
risação da lenda de Santa Iria; desejou à rainha 
ver a sepultura da martyr, e segundo a doação de 
Berengaria ao Mosteiro de Almoster, de 12 de ja- 
neiro de 1325, operou-se então o milagre da sepa- 
ração das aguas do Tejo para a rainha ir a pé en- 
chuto até aonde estava o tumulo. * Santa Iria, também 
cantada na tradição poética da Galliza, é a santa 
irmã do pontífice San Dâmaso, natural de Guima- 
rães ; * assim se applica a simultaneidade entre os 
dois paizes. Transcrevemos aqui a versão de Elvas : 

Estando eu cosendo 
Na minha almofada 
Com agulha de ouro, 
E dedal de prata, 
Veiu o Cavalleiro 
E pediu pousada ; 
Eu lhe respondi 
Que não governava, 
Se meu pae lh'a desse 
Estava bem dada. 
Deu-lh'a minha mãe, 
A casa roubada ! 



1 Fr. Francisco Brandão, Monarch. lusitana P. vi, liv. 19, cap. 44, 
* Zeferino Brandão, Memorias de Santarém, p. 628. 



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POPULAR PORTUGUEZA iSy 



Era meia noite, 
Elle que passeava ; 
De trez que nos éramos 
Só a mim levava. 
A minha almofada 
No cavallo a prantava. 
Por essas charnecas 
Eir me procurava : 

— La na minha terra 
Como me chamava ? 
«Em cas' de meu pae 
Iria a fidalga; 

Por estas charnecas 
Ai de mim coitada. 
— Por essas rasões 
Morres degolada. 

Puxava do alfange 
E alíi a matava ; 
Coberta de rosas 
AUi a deixava. 
Ao fim de nove annos 
Elle alli passava. 

— Linda pastorinha, 
Que guardaes o gado, 
Que ermida é aquella 
Que está no silvado .** 
E' Santa Iria, 
Bemaventurada. 

— «E' Santa Iria 
Morreu degolada. 

— Oh, Santa Iria, 
Meu amor primeiro, 
Queiras perdoar-me, 
Serei teu romeiro. 

«Eu não te perdo o, 
Cruel carniceiro, 
Que me degolaste 
Que nem um carneiro. 

— Oh, Santa Iria, 
Meu amor primeiro. 
Se me perdoares 
Serei teu romeiro. 



à^^Jí^ 



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I 58 HISTORIA DA POESIA 



«Se quereis te perdoe, 
Cuma disciplina 
Com tfes nós no cabo, 
Um anno e dia 
Serás disciplinado; 
Finda a penitencia 
Serás perdoado. * 



A forma do verso quinaria, que também é usada 
na versão gallega, determina a época em que esta 
lenda ou romance sacro entrou na tradição ; a re- 
ferencia aos Disciplinante s, do século xiii, prática 
ascética iniciada por Santo António, coadjuva a 
fixar a época da sua elaboração. Em outras versões 
allude-se a um costume dos Foraes de certas terras 
ou cidades livres, em que era prohibido ao Caval- 
leiro repousar nellas, taes como Porto, Coimbra e 
Santarém. Falta esta circumstancia nas versões po- 
pulares das terras que não tiveram essa immunidade, 
ou que ao tempo já estava extincta. E' por isso 
que na versão de Santarém se lê : 

Passa um cavalleiro, 
Pedia pousada; 
Meu pae IKa negou^ 
Quanto me pesava ! 

No estudo sobre Os Foraes (p. 31) determinamos 
a relação d este facto do direito consuetudinário com a 
tradição poética dessa existência autónoma ou mu- 
nicipalista. Foi no reinado de D. Diniz que acaba- 
ram os Foraes, estabeleccndo-se a unificação das 
leis sob o poder real. 



1 Ap. A Tradição^ vol. iv, p. 76. 



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r h 'r.i ?ii'ijfiri 



POPULAR PORTUGUEZA l5g 

3.** ExEMPLARios. — A Egreja aproveitou a sym- 
pathia popular pelos Contos e Fabulas tradicionaes 
para moralisar com allegorias, a que chamava Exem- 
pios, e formavam parte obrigada de todos os Ser- 
mões na Edade média. De San Domingos, diz Herolt, 
«abundabat Exemplis,^ Esses Contos novellescos 
provinham de correntes diversas, uns do saber da 
cultura greco-romana, outros da tradição oriental es- 
palhada na Europa pelos Árabes e pelo refluxo das 
Cruzadas, outros dos Lais narrativos da Bretanha, e 
dos Fabliaux dos troveiros. Todas estas correntes se 
encontraram no século xui fecundando a imaginação 
popular, chegando alguns themas novellescos a rece- 
ber forma verisificada ; o Exemplo conservou-se em 
prosa, na espontaneidade oral e capricho do narra- 
dor, tal como na Zambra árabe ou festa intima 
em que um grupo de homens passavam as horas 
contando contos a que chamam Asamtr, no mesmo 
estylo das MU e uma Noites. * O Clericus aprovei- 
tava estes Contos para exemplificar aos povos as 
doutrinas moraes ; dahi o nome de Clerqiwis, dado ás 
narrativas (Sergas = Chergas) referidas na linguagem 
rude do vulgo (jargon). Quando a Egreja se aristo- 
cratisou baniu das prédicas os Exemplos ; no tempo 
da Reforma, Calvino em uma Carta a Sadoleto la- 
mentava que a maior parte dos Sermões se passava 



1 «composições análogas á Epopêa entre os Semitas, taes como 
o Agâni são escriptas não em um metro continuo, mas em uma 
prosa misturada de versos. A narrativa em prosa tira todo o seu 
ornamento da forma feliz da phrase e sobretudo dos detalhes, sem- 
pre arranjado» de maneira a pôr em evidencia a ideia principal. 

cEste talento da anadocta é também o que faz o successo dos 
cantadores árabes E' por isso que a narrativa semitica luctou sem 
desvantagem contra o arrebatamento encantador do epos grego. 
Por meio da sua métrica acabada, o epos grego attinge uma ma- 
gestade que nada a eguala. Mas a narrativa semitica tem mais in- 



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l6o HISTORIA DA POESIA 



«em Fabulas divertidas e especulações recreativas, 
para excitar e mover o coração do povo á joviali- 
dade.» O rei D. Duarte também falia no Leal Con- 
selheiro desta promiscuidade dos Exemplos <no 
tempo de orar e ouvir ofícios divinos, nos conselhos 
proveitosos, fállamentos ou desembargos levantamos 
estarias y recontando longos Exemplos. i> (p. 192. Ed. 
Paris.) E mostra-nos o anexim como uma conclusão 
moral do Exemplo: cE na conversação dos antigos, 
a que se faz em mudança das condições, mostra-se 
por aquel exempro: Vae hu vaes, com quaes te 
achares tal te farás.» (íí., p. 223.) Os Contos da 
collecção Conde de Lucanor acabam sempre com 
um anexim, á maneira oriental ; é no sentido moral 
que se encontra empregada a designação do Exem. 
pio; assim em Gil Vicente: 

Porque diz o Exemplo antigo^ 
Quando te dão o porquinho, 
Vae logo com o baracinho. 

(Ohr., II, 466.) 

Amigo, dicen por villa 
Un eysiemplo de Pelayo^ 
Que una cosa piensa el bayo, 
Y otro quien lo ensilla. 

(Ib., in, 369.) 



teresse. O dado fandamental só é o que está fixado ; a forma é 
abandonada ao talento do improvisador. O ep^s árico nunca teve 
esta liberdade. O seu verso foi sempre de uma technica muito 
complicada para ser abandonada ao capricho do rhapsodo. O con- 
tador semita, ao contrario, o antari^ por exemplo, como o ctnti- 
stori de Nápoles e da Sícilia, borda o quadro preestabelecido. Isto 
é verificável sobretudo na historia tão* épica de SansSo, historia que 
nos chefi^ou em uma dezena de paginas, em quanto que cada um 
dos episódios commoventes ou burlescos que a constituem, desen- 
volvidos pelos narradores enchia noites e serões. No que respeita 
a narrativas hebraicas, nós não temos senSo esboços.» Renan, Les 
origines de la fitble^ Rev. des Deux Mondes, 1886, (Março-Abril,) 
p. 25. 



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"^^"^^^■1 Ví1ifci'llTífli"il 



POPULAR PORTUGUEZA l6l 

E diz O Exemplo dioso, 
Que bem passa de guloso 
O que come o que não tem. 

{Jâ., m. 379) 

Pois diz outro Exemplo antigo^ 
Quem quizer comer commiga 
Traga em que se assentar. 

(3., m, 371.) 

E' sobre este fundo tradicional que se elabora toda 
essa litteratura novellistica do fim da Edade Media, 
a que deram forma génios estheticos como Bocca- 
cio, Sassetti e Fiorentino. Pertencem a esta elabo- 
ração muitos themas que entraram nos Nobiliários 
portuguezes do século xiv, nos quaes se podem de- 
terminar as fontes da sua proveniência (disjecta ment' 
bra.) 

O Rei Lear, — O Conde D. Pedro, ao preceder 
o seu Nobiliário com um breve resumo da historia 
universal, como então se comprehendia, traz o se- 
guinte conto : «E este rei Leyr nam houve filho, 
mas houve três filhas mui fermosasj e amava-as 
muito. E um dia houve suas rasões com ellas e dis- 
se-lhes, que dissessem a verdade : — Qual d'ellas o 
amava mais? Disse a maior, que não havia cousa 
no mundo que tanto amasse como elle ; e disse a 
outra, que o amava tanto como a si mesma ; e disse 
a terceira, que era a meor, que o amava tanto como 
deve amar a filha a pae. E elle quiz-lhe mal por 
en, e por isto não lhe quiz dar parte no reino. E 
casou a filha maior com o duque de Cornoalha, e 
casou a outra com o rei de Tortia, e não curou da 
meor. Mas ella, por sua ventura casou-se melhor que 
nenhuma das outras, çá se pagou delia el-rei de 
França, e 6lhou-a por mulher. E depois, seu pae 
d*ella em sua velhice filharam-lhe seus genros a terra 
e foi malandante, e houve a tornar á mercê d'el-rei 



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102 HISTORIA DA POESIA 

de França e de sua filha a meor, a quem não quiz 
dar parte no reino. E elles receberam-no mui bem, 
e deram-lhe todas as cousas que lhe foram mister, 
e honraram-no mentre foi vivo, e* morreu em seu po- 
der.» * O Conde D. Pedro representa no século xiv 
o estado da erudição portugueza, e por tanto póde- 
se affirmar que esta tradição preciosa lhe adveiu por 
communicacão litteraria; na tradição oral do nosso 
povo ainda hoje se encontra este conto com os 
mesmos traços, mas com outra forma, como adiante 
veremos. 

A fonte litteraria da tradição do Rei Lear, no 
Nobiliário do Conde D. Pedro, foi a Chronica bretã 
de Geoffroy de Montmòuth, que o genealogista re- 
sumiu nos traços capitães: «Depois da morte des- 
graçada de Bladud, Leir, seu filho, foi installado so- 
bre o throno, e governou nobremente o seu paiz 
sessenta annos. Edificou sobre o rio Sóre uma cidade, 
chamada na lingua bretã Kaesleir, na saxã Leircestre. 
Não tinha posteridade masculina, mas tinha três fi- 
lhas, cujos nomes eram Gonorilla, Regan, e Cordeilla, 
que elle amava apaixonadamente. Quando se achou 
velho, teve ideia de dividir o seu reino entre ellas, 
e de lhe dar maridos capazes de governarem com 
ellas. Mas para saber qual era digna de ter a me- 
lhor parte do reino, perguntou a cada uma delias 
qual o amava mais. Feita a pergunta, Gonorilla re- 
spondeu : — Assim o céo me ouça, em como te amo 
mais do que a minha alma. etc.» Eis os principaes 
traços no Roman de Brut, de Robert Wace : 

Léir tint Tonor quitement 
Soixante ans continuellement ; 
Trois filies eut, n'eut nul autre hoir, 
Ni plus ne put enfant avoir, 



1 Porttig. Mon.^ Scriptores, fase. il, p. 238. 



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POPULAR PORTUGUEZA l63 

La première fut Gornorille, 
Puis Regain, puis Cordeille ; 
La plus belle fut la puinée, 
Et le père J'a plus aimee. 

Quand Leir alques afFaibli, 
Comme Thomme qui a vieilli, 
Commença soi à pourpenser 
De ses irois filies marier ; 
Se dit qu*il les marieroit 
Et son raine leur partiroit. etc. 

Eis como a mesma tradição se conta na versão 
oral portugueza: cUm rei tinha três filhas, e pergun- 
tou a cada uma d'ellas, qual era a mais sua amiga ? 
A niais velha respondeu, que lhe queria como ao 
sol ; a do meio, que lhe queria como a si mesmo ; 
a mais moça, que lhe queria tanto como à comida 
quer o sal. O rèi entendeu que a filha mais moça 
o não amava, e pôl-a fora do palácio. Ella foi por 
esse mundo, e chegou ao palácio de um grande rei, 
aonde se offereceu pai^a cosinheira. Todos os man- 
jares que cosinhava eram os mais saborosos do 
mundo. Um dia veiu á meza um pastel muito bem 
feito, e o rei ao partil-o achou dentro um annel muito 
pequeno, e muito precioso. Perguntou-se a todas as 
dannas da corte de quem seria aquelle annel; mas 
não servia nos dedos de nenhuma das damas. Pór 
fim foi chamada a cosinheira, e so a ella serviu o 
annel. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado 
delia; começou a espreital-a, porque a menina só 
cosinhava ás escondidas, e viu-a vestida como prin- 
ceza que era. Foi chamar o rei, e assim que conhe- 
ceram que a cosinheira era uma princeza, o rei deu 
licença ao filho para casar com ella. A menina tirou 
por condição que queria cosinhar o jantar do dia do 
casamento. Chegado esse dia foi convidado para vir 
ao banquete o rei que havia lançado fora de casa 



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104 HISTORIA DA POESIA 



a filha. A menina cosinhou o jantar bem gostoso, 
mas nos manjares que tinham de ser postos ao rei 
seu pae, que fora convidado para a festa, não lhe 
botou sal de propósito. Todos comiam com vontade 
porque a comida estava saborosa, mas só o rei con- 
vidado nada comia. Por fim perguntou lhe o dono 
da casa, porque não coniia e não honrava a sua 
festa? EUe respondeu, porque a comida não tinha 
sal, e por isso não a podia levar. O rei fingiu-se 
encolerisado e mandou que a cosinheira viesse á sua 
presença ; appareceu ella então vestida de princeza, 
mas assim que entrou na sala o pae conheceu-a logo, 
e confessou ali a sua culpa por não ter comprehen- 
dido quanto era amado por sua filha, que lhe queria 
tanto como a comida quer o sal.» 

Esta versão popular mostra-nos uma outra fonte 
tradicional ; qual seja ella, póde-se descobrir pelos ve- 
stigios mythicos, em que o Rei Lear apparece con- 
fundido no typo de Dirghatamas, do poema Mahabhà- 
rata, o cego abandonado por seus filhos ; ou no de Ya- 
yatí, que envelhece repentinamente, e só o filho mais 
novo é que lhe sacrifica a sua mocidade. Sobre está 
aproximação, nota Gubernatis: «Nas Legendas de Dir- 
ghatamas e de Yayatí, um primeiro esboço do Rei 
Lear.y * Gubernatis cita uma outra versão, indiana 
conservada por Eliano;* sabendo -se como as legen- 
das da índia, já na forma de contos, passaram para 
os Persas, e destes para os Árabes, que os commu- 
nicaram ao sul da Itália e á Peninsula, temos achado 
o fio para entrar no labyrintho da imaginação po- 
pular. E da aproximação da forma litteraria e da 
vu'gar da lenda do Rei Lear, já podemos concluir 



1 MythologU^ zoologique, t. i, p. 93. 

2 Jb., t. n, p. 242. 



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POPULAR PORTUGUEZA l65 

e fixar aqui uma característica da lítteratura portu- 
gueza : a forte separação que geralmente se conser- 
vou entre os seus escriptores e o povo. 

A Dama pé de cabra. — Esta tradição foi também 
colligida pelo Conde Dom Pedro, para fundamen- 
tar a origem maravilhosa da Casa de Haro; lendas 
desta mesma natureza servem de fundamento he- 
ráldico ás casas de Lusignan, de Croy, de Salin, 
Bassompierre e Argengel*. Quando a nobreza ia sendo 
submettida ao cadastro régio, á egualdade perante a 
íei realisada pela independência do poder monarchi- 
co, é que estas lendas apparecem na forma escripta 
como um ultimo lampejo da vida soberana dos gran- 
des vassallos. Eis a linguagem do Conde D. Pedro: 
«Dom Diego Lopes era mui bom monteiro, e es- 
tando um dia em sua armada e attendendo quando 
viria o porco, ouviu cantar muito alta voz uma mu- 
lher em ; cima de uma penha : e elle foi para lá e 
viu-a ser mui fermosa e mui bem vestida, e namo- 
rou-se logo delia mui fortemente, e perguntou-lhe 
quem era? E ella lhe disse, que era uma mulher de 
muito alto linhagem ; que casaria com ella se ella 
quizesse, cá elle era senhor d'aquella terra toda. E 
ella lhe disse, que o fazia se lhe promettesse que 
nunca se sanctificasse, e elle lhe outorgou, e ella 
foi-se logo com elle. E esta dona era mui fermosa, 
e mui bem feita em todo o seu corpo, salvando que 
havia pé forcado, como pé de cabra. E viveram 
gram tempo e houveram dous filhos, e um houve 
nome Enhegues Guerra e a outra foi mulher e houve 
nome . . . E quando comiam juntos, Dom Diego Lo- 
pes e sua mulher, assentava elle a par do wseu filho, 
e ella assentava a par de si a filha da outra parte. 
E um dia foi elle a seu monte, e matou um porco 
mui grande e trouxe- o para sua casa, e poze-o ante 
si hu sia comendo com sua mulher e com seus fi- 

Poes. popul. — Vol. II 1 1 



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l66 HISTORIA DA POESIA 



lhos: e lançaram um osso da meza, e vieram a pe- 
lejar um alão e uma podenga sobre. elle, de tal ma- 
neira, que a podenga travou ao alão em a garganta 
e matou o. E Dom Diego Lopes, quando esto viu, 
teve por milagre, e signou-se, e disse : Santa Maria I 
vai, quem viu nunca tal cousa ! E sua mulher quando 
o viu assi signar, lançou mão da filha e do filho, e 
Dom Diego Lopes travou do filho e nom lhe quiz 
deixar filhar : e ella recudiu com â filha por uma 
porta do paço e foi-se para as montanhas em guisa 
que a nom viram mais nem a filha. » * O valor desta 
tradição do século xiv resalta, sobretudo, se a apro- 
ximarmos da lenda de origem mythica que vem no 
Mahabhàrata, e que Gubernatis resume: «O sábio 
e brilhante Çântanu vem caçar ás bordas do Ganga, 
e ali encontra uma nympha encantadora, de que fica 
apaixonado. A nympha corresponde-lhe, e acceita o 
ficar com elle, com tanto que nunca lhe diga cousa 
desagradável, faça ella o que fizer ou pense o que 
pensar ; levado pelo seu* amor, o rei consente em 
sujeitar-se a este grave comprommisso. Passam assim 
dias felizes, porque o rei cede em todas as cousas 
á nympha. Còmtudo, outo filhos são já nascidos, e 
a nympha lançou já sete ao rio, sem que o rei, 
sempre ralado intimamente de tristeza, ousasse apre- 
sentar-lhe o menor reparo; porém, quando a nym- 
pha estava para se desfazer do ultimo, o rei sup- 
plica lhe para poupar esse, e pede-lhe que descu- 
bra o seu nome. Então a nympha confessa-lhe que 
é a Ganga sob a figura humana, e que os outo fi- 
lhos, fructos dos seus amores, são encarnações dos 
outo deuses Vasus, que, precipitados no Ganges, 
ficavam livres da maldição que pesava sobre elles 



* Port, Monum., Scriptores, fase. n, 258. 



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..M^^tí 



POPULAR PORTUGUEZA. IO7 

e á qual deviam a forma humana.» * No Romance 
popular portuguez da Infantina também se encon- 
tra uma donzella encantada, que desce da arvore 
em que está a pedido do cavalleiro que a leva 
comsigo. Por aqui se vê que existia uma corren- 
te popular, e portanto uma derivação mythica. 
Se não predominasse no século xiv o fervor da 
erudição latino ecclesiastica, tinhamòs então elemen- 
tos tradicionaes bastantes para começar a creação 
litteraria. 

N'este mesmo conto da Dama pé de cabra appa* 
rece uma outra tradição dos CavaUos fadas, das tra* 
dições britonicas : é o cavallo Pardal/o, que não tem 
sido explicado ; mas pela corrente árabe, por onde 
o nosso povo podia receber as tradições indianas, 
se explica o seu sentido erudito. Foram os Árabes 
que revelaram á Europa as obras de Aristóteles ; e 
no Liv. VI, cap. 6 da Historia Natural, se acha 
este nome Pardalis, dado em grego á panthera. ^ 
Junto d'esta derivação erudita, n'este mesmo çpnto 
apparece-nos um vestigio de mythologia britonica ; fa- 
lando d'esta Dama pé de cabra, nota o Conde D. 
Pedro : «e dizem hoje em dia. . . que este é o coouro 
de Biscaia.» São os Courils ou Gories, os diabos 
que dansam ao luar, nas superstições de Finisterra, 
que explicam o sentido tradicional deste coouro. 

No livro de M.""® Bosquet, La Normandie rama- 
nesque, entre as lendas populares colligidas, vem a 
da fada de Argonges e de Rânes, que acceitou o 
desposar-se com o castellão ou sire d*Argonges, com 
a condição de que nunca diante d'ella fallaria da 
morte. (Pag. 98.) 



1 Mythologie zoologique, t. i, p. 74. 

2 Berger de Xivrey, Traditions tératohgiques, p. 239. 



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i -í ~»5*wjs*a^ 



l68 HISTORIA DA IH)ESIA 

Gaia. A lenda do rei Ramiro, procurando sua 
mulher que estava em poder do rei Abencadão, 
é também contada na prosa ingénua áo' Livro ve^ 
lho das Linhagens; basta-nos apenas reproduzir aqui 
a situação do annel com que o rei Ramiro se dá a 
conhecer, para determinarmos a tradição árabe : <e 
uma donzella que servia a rainha levantou-se pela 
manhã, que lhe fosse pela agua para as mãos ; e 
aquella donzella havia nome Ortiga ; e ella na fon- 
te achou jazendo rei Ramiro, e nom o conheceu^ 
« el pediu-lhe d'agua pela atavia, e ella deu-lhe 
por um autre, e elle metteu um camafeo na bocca, 
o qual camafeo havia partido com sa mulher a tai- 
nha pela meadade ; e deu-se a beber e deitou o 
annel no autre, e a donzella foi se e deu a água a 
rainha, e caiu-lhe o annel na não, e conheceu ella 
logo ; a rainha perguntou-lhe quem achara na fonte ; 
ella respondeu que nom era ahi ninguém : ella disse 
que mentia, e que lhe nom negasse, cá lhe faria por 
ende bem e mercê ; e a donzella lhe disse entam 
que achara um mouro doente e lazarado, e que lhe 
pediu dagua que bebesse, e ella que lha dera; e 
entam lhe disse a rainha, que lhe fosse por el, e se 
o hi achasse que lhe aducesse.» * Na poesia árabe 
do periodo em que principiou a missão de Mahomet,. 
encontra-se uma situação egual nos amores do poeta 
Murakkich quando quer dar a saber a Esma a sua 
chegada: «A' noite, á hora em que a escrava tra- 
zia o jarro em que bebia sua ama, o pastor ao dei- 
tar-lhe o leite, também deixou cair o annel. Ao be- 
ber, Esma sentiu o annel que tinia contra os seus 
dentes, tomou-o na mão, olhouo ao clarão do fogo» 
e conheceu-o por certos signaes que n'elle gravara 



1 Porí. Mon, hist^ Scriptores, p. i8o. 



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POPULAR PORTUGUEZA 169 

quando o dera a seu primo.» * Esta tradição per- 
tence ao cyclo dos moàllacaís, que andaram na me- 
moria das tribus até receberem a forma escripta; é 
pois natural que a tradição portugueza viesse das 
relações com as classes inferiores, como aconteceu 
também com a lingua. 

Solar dos Marinhos, — A tradição da origem do 
Solar dos Marinhos, trovadores da côrt<í de D. Diniz, 
é uma variante da Dama pé de cabra, com a dif- 
fença que, a donzella sae do mar, o que approxima 
a situação mais do conto indiano de Çàntanu nas 
bordas do Ganga.* 

Os Exemplos, desviados do seu destino parene 
tico, evolucionaram principalmente como Contos no- 
vellescos, saindo da forma oral para a expressão em 
prosa ou em poesia : assim a tradição de Resemunda, 



* Apud Lamartine, Hnt, de la Turquie, t. i, p 79. 

2 No livro do Dr. Konrad Maurer, Tradições populares da Is- 
landia (Islandisch Volkssagen der Gegenwart) vem esta lenda quasi 
como se acha no Nobiliário do Conde D. Pedro: 

«Durante a noite de S. JoJo. elles (os homens-peixes) retomam 
por algumas horas a forma humana, e vêm folgar sobre as praias, 
cantar e dansar como os outros homens. Se por casualidade, um 
<i'entre elles n3o acha o seu invólucro aquático que deixara sobre 
a areia, tem de ficar entre os homens até que o torne a achar. 
Uma vez pela noite de S. João, um islandez teve a audácia de 
roubar o envoltório de um d'esses seres marinhos: quando o seu 
banio mergulhou nas aguas, viu-se um d'elles ficar errante sobre 
a praia : era uma mulher ; casou com ella, vivera feliz e tiveram 
dois filhos. O marido tinha sempre comsigo a chave do cofre em 
que estava guardado o invólucro marinho. Quando um dia se es- 
queceu da chave em um dos seus fatos, ao voltar a casa viu que 
o cofre estava vasio e que a mulher desapparecera para sempre. 
Somente, quando os pequenitos andavam pela borda do mar, via-se 
um d'esses animaes marinhos deitar com frequência a cabeça fora 
da agua, observar os seus brinquedos, e deitar lhe sobre a praia 
bellos peixes doirados e conchas brilhantes.» (Ap. Rev. des Deux 
Mondes y t. xxvi, 1860, p. 1029.) Marmier, nas Cartas sobre a Is- 
landia também allude a esta tradição. 



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tyO HISTORIA DA POESIA 



que na Itália é um dos seus mais antigos romances 
da poesia popular, acha-se em prosa portuguezana col- 
lecção Orto do Esposo, do século xiv; e o conto 
do Rei Bragado, que figura em prosa na collecção 
medieval do século xiv, foi encontrado em verso na 
tradição oral da ilha da Madeira e incluido no Ro- 
manceiro d' esse Archipelago por Álvaro Rodrigues 
de Azevedo. Morei Fatio dá noticia de uma versão 
portugueza do século xiv ou xv da lenda da Crés- 
ceneiãy segundo a redacção do Conto de Gautier de 
Coiny ; * o cego Balthazar Dias tratou em redondi- 
Ihas esta lenda com o titulo de Imperatriz Porcina^ 
ainda hoje dominante no gosto do povo. Estes the- 
mas constituem o grande jazigo das ficções, donde 
saem para a expressão poética, oral ou artistica, ou 
aonde se absorvem todas aquelles themas que per- 
deram a sua efflorescencia. 



1 Romania, t. u, p. 133; ahi trata-se a origem d'esta lenda. 



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B) PÁTRIA B NACIONALIDADE PORTUGUEZA 



Sobrfe um território conservado quasi im mutável, fa 
Terra Portucalense) coexistiu uma população ligada 
pela affinidade de raça (o lusisffjo), que chegou á vida 
côllectiva quando as suas cidades alliadas em Behe- 
trias acceitaram a unidade do Poder real, consti- 
tuindo a coexistência affectiva da Pátria portugueza. 
Pode-se dizer, que este sentimento familista se exer- 
ceu activamente na resistência contra a incorporação 
de Portugal como provincia em qualquer dos Esta- 
dos hispânicos, castelhano, aragonez ou navarro. Era 
porém necessário, que assegurada desde D. Diniz 
a independência sedentária ou territorial, a Pátria 
portugueza, que dava tanto relevo ao lusismo, en- 
trasse em uma acção consciente como manifestação 
de Nacionalidade. Esse momento de transição de 
uma existência affectiva para uma energia activa 
ou propriamente histórica, deu -se quando o rei D. 
Aflíonso XI de Castella achou a segurança dos seua 
estados no soccorro que lhe prestou D. Affonso iv^ 
coadjuvando-o na victoria decisiva da batalha do 
Salado, Era o prenuncio da acção maritima de Por- 
tugal. 'O exercito agareno constava de 40 .:ooo peões. 



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!72 HISTORIA DA POESIA 



e 6o:ooo cavalleiros, ao passo que os christãos não 
tinham maior força do que 40:000 infantes e 1 8:000 
cavalleiros; era quasi impossível a victoria. A feli- 
cidade com que D. Aífonso iv conseguiu transpor o 
rio Salado e atacar promptamente o rei moiiro de 
Granada, poz em debandada as tropas de Abul- 
Hassan, que foram em grande numero passadas á 
espada. Pode-se dizer que com este feito acabou 
todo o plano de invasão agarena da Peninsula his- 
pânica, e Portugal ficou reconhecido como um factor 
autónomo na politica dos Estados ibéricos. 

A vida popular, ou propriamente o génio do lu- 
sismo reconheceu a sua vitalidade nacional nessa 
acção. Um poeta portuguez, Affonso Giraldes escre- 
veu em quadras de coplas de redondilha um Poema 
da Batalha do Salado, que uma prolongada crise de 
desnacionalisação nos. fez perder. Esse poema em- 
bora semi-popular, deve aqui ser considerado como 
Canção narrativa desenvolvida litterariamente. Oelle 
apenas conseguimos reunir os seguintes fragmentos : 

Outros faliam de grão rasão 
De Bisturis gão saDedor, 
E do Abbade D. João 
Que venceu Rei Almanzor. 
(Ap. Brandão, Monarch, P. m, liv. 10, cap. 45.) 

Em outro logar cita Brandão mais um fragmento allu- 
sivo ao casamento de D. Affonso iv : «Affonso Gi- 
raldes, que escreveu em rimas portuguezas a Bata- 
lha de Salado, no próprio anno em que succedeu, 
fi340, Outubro 30) relatando as acções d'este in- 
fante, que era então já rei, e se achou na batalha 
sobredita com el rei de Castella Affonso, xi, seu 
genro e sobrinho, diz assim : 

Pois que este Rey nasceu 
A gram viço foi criado; 



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GoO<^' : 



POPULAR PORTUGUEZA \j3 



E deshi como creceu 
Sempre foi bem ensinado. 

Seu padre o criou 
E des que foi de entendimento 
De vinte annos lhe justou 
Um muy rico casamento. 

Seu padre rey Dom Diniz 
Foi |ustiçoso e muy santo, 
El o casou com D. Britiz, 
Filha do nobre rey Dom Sancho. 

E despois que íoi casado 
Com aquella nobre Infante, 
Seu padre lhe deu estado 
Coroo ouvíreis adiante. 

Deu-lhe terras a mandar, 
De mui nobres cavalleiros; 
E muitos portos de mar. 
Rendas de muitos dinheiros. 

Quinze annos cumpridos viveu 
O padre des que o casou ; 
Deshi, quando el morreu 
Muito d'algo lhe deixou. 

(Ib., t. VI, p. io6.) 

Nos Parallelos de Príncipes e Varões illustres, de 
Francisco -Soares Toscano, falUndose dos mortos da 
batalha do Salado, vem uma transcripção de uma es- 
trophe referindo-se ao poema narrativo: «Sobre o 
que achei uma trova na lingua antiga, que diz 

Segun en la historia fallo 
La gente vencida fué 
Sessenta mil de cavallo, 
Quatrocentos mil de pé. 

(Op. cit, p. 17.) 

Também o diccionarista Bluteau, no Vocabulário 
da Lingua por tugueza, (1712) abonando a palavra 
Almexia, diz: «Como acção própria deste rey no, 
cantou Affonso Giraldes esta distincção nas rimas 
que fez da Batalha do Salado, com os versos que 
se seguem : 



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174 HISTORIA DA POESIA 

E fez bem aos criados seus 
E grão honra aos privados; 
E fez a todos os judeus 
Trazer signaes divisados. 

E os Mouros almexias. 
Que os pudessem conhecer, 
Todas estas cortezias 
Este Rey mandou fazer. 

Na Crónica en redondillas de Rodrigo Yanez, etn 
que se faz a historia de Affonso xi, encontramos 
versos semelhantes aos do poema portuguez, o que 
leva a inferir de que o castelhano seja uma traducção 
do poema portuguez : 

E dióles grandes franquias 
Por Castilla mas valer, 
Todas estas cortesias 
El buen rey hijo fazer, 

(St. 375-) 

Em outra estrophe transcripta por Fr. Francisco 
Brandão, na Monarchia lusitana, (P. v, liv. i6, cap» 
13,) encontrase mais outra similhança com a es- 
trophe 1326 do poema de Rodrigo Yanez: 

Gonçalo Gomes de Azevedo 
Alferes dei Rey de Portugal, 
Entrava aos Mouros sem medo 
Como fidalgo leal. 

Todos yvan sin medo 
Para cumplir su perdon, 
E Gonçalo Gomes de Aí^evedo 
Levava el su pendon. 

(St. 1326.) 

O poema portuguez da Batalha do Salado, por 
Affonso Giraldes, foi visto por Manuel de Faria e 
Sousa, Francisco Soares Toscano, Fr. António e Fr. 
Francisco Brandão e por Bluteau; acha se actual- 



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POPULAR PORTUGUEZA \y5 

mente sumido, mas pelos trechos transcriptos vê-se 
que tem a mesma forma estrophica e estylo da 
Crónica de Alfonso Onceno, de Rodrigo Yanez. Os 
versos semilhantes, e a perfeição da rima portugueza 
a que facilmente se reduzem as rimas imperfeitas cas- 
telhanas, levam a inferir que o poema de Yanez 
impresso em 1863 é uma traducção do de Afifonso Gi- 
raldes. A esta mesma conclusão chegou o romanista 
Jules Cornu notando nas formas castelhanas os lusi- 
tanismos de um texto portuguez, inferência que está 
adoptada por Menendez Pelayo. N esta empreza glo- 
riosa, em que os cavalleiros portuguezes e o rei D. 
Affonso IV se mostraram heroicamente desinteressa- 
dos, houve também uma brilhante expansão da poe- 
sia lyrica; os nossos trovadores bem conheciam 
quanto Affonso xi presava as Canções trobadorescas 
e as sabia compor, e n'isto mesmo quizeram mos- 
trar a sua superioridade. São de extrema belleza as 
Barcarolas que se cantaram n'esses tempos memo- 
ráveis da victoria tio Salado. Transcrevemos a Bar- 
carola de Payo Gomes Charrinho : 

As froles do meu amigo 
briosas vão no navyo ; 

e vam s'as froles 

d'a9ui bem com meus amores. 

As frores do meu amado 
briosas vão no barco : 

e vam se as frores 

d*aqui bem com meus amores. 

Briosas vam no navyo, 
para chegar ao ferido; 



Briosas vão en o barco 
pêra chegar ao fossado. 



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lyt HISTORIA DA POESIA 



Pêra chegar ao ferido 
e servir-roi corpo velido ; 

Pêra chegar ao fossado 
e servir-mi corpo loado; 

e vam-se as floras 

d'aqui bem com meus a«iores. 

(Canc. Vat., n.° 401.) 

São lindissimas as Barcarolas do jogral Joham 
Zorro, que nos revelam o typo d'eâte género de can- 
ções populares, reproduzindo a paragoge poética : 

El Rey de Portugal e 
barcas mandou laurare ; 

e la iram nas barcas sigo 

mha filha e vosso amigo. 

El Rey portugueese 
barcas mandou fazer; 

e la iram nas barcas sigo 

mha filha e vosso amigo. 

Barcas mandou laurare 
e no mar as deytare ; 

Barcas mandou fazere 
e no mar as metere. 

(Canç. 755.) 
# 

Em Lixboa, sobre lo mar 
barcas novas mandey laurai* ; 
ay mha senhor velida, eic. 
(Canç. 754.) 
# 

Pela ribeira do rio salido, 
trebelbey, madre, com meu amigo, etc, 
(Canç. n.o 760.) 

Desta efflorescencia de poesia acha-se também 
testemunho interessante em muitas estrophes do 
Poema de Rodrigo Yanez. ' 



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POPULAR PORTUGUEZA I77 

Das festas do casamento de Affonso xi, de Cas- 
tellay com a infanta D. Maria, filha do rei D. Affonso 
IV, vem uma descripção no Poema de Alfonso On- 
ceno, de Rodrigo Yanez : 

«Noble escudo syn pavor, 
Dios mantenga la su vida, 
E caso con reyna mejor 
Que en el mundo fué nascida. 

Sennora, non saben tal , 
Onesta, bien pareçiente, 
E nasçió en Portogal, 
En el cabo dei Ponienie.» 

Estas palabras desian 
Donzellas en sus cantares; 
Los estormenios tangian 
Por las Huelgas los joglares. 

El laud yvan tanniendo 
Estormenio falaguero, 
La vihuela reteniendo, 
El rabé con el saltério, 

La guitarra serranisla, 
Estormento con rason, 
La enxabeba mo risca, 
Alia en médio cânon. 

La gayta^ que és sotil, 
Con que todos plaser han, 
Otros estromentos mil, 
Con la farpa de don Tristão. 

Que dá los pontoa doblados, 
Con que falaga el loçano, 
E todos los enamorados 
En el tiempo dei verano. 

Alli quando vien las flores 
Y las arboles dan fruto, 
Los leales amadores 
Este tiempo preçian mucho. 

Assi como el mes de mayo 
Quando el ruyssennor canta, 
Responde el papagayo 
De la muy fermosa planta. 

(St. 404 a 412.) 



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JjS HISTORIA DA POESIA 



Os heroes dos poemas carlingios eram já popula- 
res, para serem apontados em comparações ; assim 
escreve Yanez : 

Nunca fué mejor cavallero 
El Arcebispo don Turpin^ 
Ni tan cortês OHvero^ 
Nin el Roldan palaçin. 

(St. 1739.) 

Nos dois reinados seguintes, de Dom Pedro e D. 
João I, o génio popular manifestasse na sua seiva poé- 
tica suscitado pela independência politica, entre os 
outros estados peninsulares : 

Lioneses, Asturianos, 
Gailegos, Portogaleses, 
Bise .yos, Guipuscuanos 
E de la montanna e Alaveses. 

(St. I77I-) 

O rei D. Pedro i, o apaixonado amante de Inez 
de Castro, costumava dansar entre o povo, como na 
sua Chronica conta Fernão Lopes. Quando vinha a 
Lisboa o povo ia esperal-o com dansas e descan- 
tes, e o rei tmettia se em dansa com ellesn os da 
arraya-meuda. (Cap. xiv.| Eram agonisticas, figu- 
rando combates simulados essas danças chamadas 
Mouriscas e Mouriscadas. O rei preferia os instru- 
mentos metálicos de timbre marcial, e era acom- 
panhado pelos seus dois trompeiros João Matheus e 
Lourenço Paios, que sopravam estridentemente nas 
longas trompas de prata. Sobre este ponto escreve 
Fernão Lopes : «Estas dansas erã a soom dhumas 
longas trombetas que estonce husavam sem cu- 
rando doutro estromento, postoque o hi ouvesse, e 
se alguma vez lho queriam tanger, logo se enfa- 
dava e dizia que o dessem ao demo, e que lhe 



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POPULAR PORTUGUEZA I79 

chamassem çs trombeiros. » Nas insomnias da sua sobre- 
excitação, recorria por vezes o rei á datisa, percor- 
rendo a cidade, acordando os moradores que o 
acompanhavam bailando também até manhã clara. 
Deviam estes factos produzir singular impressão 
no embaixador inglez Sir Mathew Gpurnay, que 
viera a Portugal quando foi deposto Pedro o Cruel. 
No grande poema de Cuvelier sobre Bertrand du 
Gtusclin, descrevem -se as festas na corte do rei D. 
Pedro de Portugal, em que se incluem valiosas no- 
ticias da vida popular : 

Là trouva belle feste et estat bien plainier, 
Menestre^ du pais faisait lor mestier. 

Ot grant feste en palais, bel si vont déduisant; 
Ménestrez si esbatent, bien vont joie menant; 
Par devant Tépousée mainent joie moult grant; 
Et Mahieu de Gournay les va bien escoutant, 
Au roy de Portugal a dit en souriant : 

— Li nostre menestrel en nos país avant 

En France, en Engleterre, ne son pas si joiant. 

Et li reis li dit tost et incontinant : 

«11. ménestrez avons qui sont en un commant; 
II n'en a muls telz jusque en Oriant. 
Li róis de Bel Marine me va souvent mandant 
Qu*envoíer je li veille; mais ce est pour noiant, 
Nç m*en deliverroie pour nulle riens vivant.» 

Adont les fis mander, qu*ii ni va arrestam; 

Et cil y sont vénus pas itel convenenant 

Que Mahieu de Gournay dom je voús voys parlam 

Ne vit onques si noble devant roy aparant, 

Et s^avait chaseún d'euix aprés lui i. seigent 

Qui une chiffoine va à son col portant. 

Et li u. ménestrez se vont appareiilant ; 

Devant le roy s'en vont ambdui chinffoniant. 

Quant Mahieu de Gournay les va apercevant 

Et les chinfonieurs a oy prisier tant, 

A son cuer s*en aloit moult durement gabant, 

Et li róis li a dit après le gieu laissant: 



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l8o HISTORIA DA POESIA 



«Que vous semble? dit-il; sont il bien souffisant; 

Dit Mahieu de Gournay : — Ne vous irai celant: 

Ens en país de France et en pais Normant, 

Ne vont tels instruments fors qu'avugles portant, 

Ansi font li avugle et li poure truant 

De ci fats instruments les bourjois entonnant; 

Qn appele de la i. instrumeni iruant. — 

Et quant li róis Toy, s'en est le cuer dolant. 

Li róis de Portugal, qui moult se courouça 
Les 11. chinfonieurs adont congeé donna. 

A Çanfonka, Symphónia ou Smnbuca roiata, erâ 
usada desde o século xii, substituindo a FibtUa ou 
Fiedel fa. Vihuela hespanhola, oii a Vielle francesa) 
que se generalisa do século x ao século xii, como 
observa Riemann. Na época de D. Pedro i, domi- 
nava o Alahude introduzido pelos Árabes, e vulga- 
risado no século xiv ; afíerrado á tradição, o rei pro- 
feria o antigo instrumento, que por ventura ainda 
representava a Rota bretã, que se empregaria com 
a vulgarisação dos Lais da Bretanha, lyricos e nar- 
rativos. Na scena descripta no poema de Cuvelier, 
o embaixador inglez ria se do emprego da Çanfonha 
na corte portugueza, dizendo que em França só a 
empregavam os cegos e os truãos. 

Os escândalos das cortes também eram estimulo 
e thema para Canções ; sobre os amores do rei D. 
Fernando i com D. Leonor Telles, mulher de João 
Lourenço da Cunha, se levantou a canção, que se 
vulgarisou em Castella, de que resta o verso : Ay^ 
donas ! por que tristura ? No Compendio historial 
publicado por Lhaguna y Amirola, lê-se acerca de 
D. João I de < astella : ^Casó segunda vez com dofla 
Beatriz, fija dei rey D. Fernando de Portugal é de 
la muger de Juan Lorenzo de Acuna, que este rey 
don Fernando le tomo por amores quç delia ovo ; 
é por esta causa se lleventó la Cancion que d ice: 



POPULAR PORTUGUEZA l8l 

Ay, donas I porquê tristura ? • 

€ . , y por esta causa el dicho Juan Lorenzo traía 
unos cuernos de oro en la cabeça por estes reynoâ 
de Cas.tilta». * E' admissível que a Canção fosse com- 
posta pelo próprio João Lourenço da Gunha. pof 
isso que Rocaberti cita um trovador portuguez com 
o nome de Loiírenç de Cuyna, 

O bastardo do rei D. Pedro, Doii) João, Mestrç 
dè Avis, achou a sympathia popular, que o esco- 
lheu como soberano nas Cortes de Coimbra para 
lhe manter a autonomia do seu lusismo. Nos can- 
tos populares os bastardos substituíam os parthenios 
das lendas eruditas. Era a expressão de uma época 
de incorporação do terceiro estado. Nos poemas 
homéricos os bastardos chegam a succeder no thro- 
no ; ao que Viço, na Scienza nuot^a (liv. iii, cap. 3) 
observa: «que basta para provar que Homero appa- 
receu em uma época em que o direito heróico caía 
em desuso para dar azo á liberdade popular.» Nos 
romances hespanhoes celebra-se o Bastardo de Mu- 
darra; um romance da versão de Traz-os- Montes, 
vem : 

O Imperador de Roma 
Tem uma filha bastar^a^ 
A quetn tanto quer e tanto, 
Que a traz muito mal cri?da. 

(Rom, geral, n.» 18.) 

Na historia de Portugal abundam as luctas dos 
bastardos dos reis; por causa do seu bastardo D. 
Affonso Sanches, soííreu D. Diniz as discórdias de 
D. Affonso iv; para segurar o throno do seu neto 
contra os bastardos de D. Pedro i, consentiu D. 



1 Ap. Rios, Historia critica de la Litteratura espaHola, tomo vii, 
p. 437. 

POCS. popul.— Vol. II 13 



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l82 HISTORIA DA fOESIA 



Affonso IV no assassinato de Ignez de Castro ; e um 
outro bastardo do Justiceiro, por uma revolução po- 
pular funda a nova dynastia, em que se manifesta 
a plena expansão do lusi<:mo. No casamento de D. 
João I com D. Philippa, filha do Duque de Lencas- 
tre, como descreve Fernão Lopes, fizeram-se trebelhos, 
dansas populares e matinadas ; ao irem buscar a noiva 
refere o chronista : «e á quinta feira foram as gen- . 
tes da cidade juntas em desvairados bandos de jo- 
gos e dansas per todolas praças com muitos trebe- 
lhos que faziam. As principaes ruas por hu estas 
festas aviam de ser, todas eram semeadas de des- 
vairadas verduras e cheiros. — Diante (da rainha) 
hiam pipias * e trombetas, e outros muitos instr^nen- 
tos, tantos que se nom podiam ouvir, donas filhas 
dalgo e isto mesmo da cidade cantavam indo de traz, 
como he costume de vodas.n {?'. ii, cap. 96.) 



1 D'este instrumento provinha o nome das Caniigas do apiha: 
«Vós tocastes em seu tempo o apiha? J. Isso deixo eu para 
vós (que sois toda hua raanp^ana) mayormente se for descantade 
com vésperas e roixinol de barros. 

(Eufrosina, iiT, 2, ed. mod. p. 169 ) 
Exemplo : 

Iça, iça, roiíibadera, 

no te rombes com picon, 

romba-te con el garzon. 

(Ulyssipo. m, 6; fl. 176.) 

D. Carolina Michaelis, cita uma passagem do Cancioneiro de 
Baena, no dizer de Micer Imperial (1487): 

«Oyle á maneira de apia \ e em Gil Vicente (Flores; i 139) 
um grito apihã I que provam que era uma moda ou toada já an- 
tiquada no principio do século XVI : a palavra parece-nos uma imi- 
tação de um apito, ou do som de pio que se tira dos assobios de 
barro em forma de pássaro (rouxinol de barro). 

A este som descantava se uma qualquer letra, que se repetia 
em aihpa, ou acompanhada aos pios do rouxinol de barro. A na- 
tureza desenoraçada d'este acompanhamento fazia com que as 
comparações fossem burlescas. (Vid. Rev, luz., I, p. 379.) 



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.II 



INCORPORAÇÃO SOCIAL DO TERCEIRO ESTADO, 
E FLORESCÊNCIA DA POESIA POPULAR 



Deu-se no século xv, quasi simultaneamente entre 
todas as nacionalidades da Europa, uma profunda 
manifestação da Poesia popular, com caracteres mor- 
phologicos e themas tradicionaes communs, taes como 
os Romances hespanhoes, as Aravias portuguezas, 
as Canzone e Strambottes italianas, os Gwerziou 
da Bretanha, as Ballads da Inglaterra e Escossia, os 
Volkslieder da AUemanha, os Kampviser scandina- 
vos, e as Chansons à toile francezas. Gaston Paris 
notando este facto extraordinário, em que essa poe- 
sia apparece recebendo pela primeira vez a forma 
escripta, afifirma com segurança: «pode-se dizer, que 
toda esta extraordinária floração da poesia lyrico- 
epica surgiu quasi ao mesmo tempo, isto é, no sé- 
culo XV. . . » Observado o facto separado da evolu- 
ção social da Europa, não será logo comprehendido, 
dando logar ao problema, - se essa efflorescencia 
poética foi «por toda aparte espontânea, ou propa- 
gou-se de uma para outra região.» A transformação 
social, em que as classes servas elevando-se á livre 
burguezia, dando apoio á realeza contra o poder se- 



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184 HISTORIA DA POESIA 

nhorial, se constituem em um terceiro Estado na exi- 
stência nacional, explica esta intensidade de vida 
affectiva que inspira essa simultânea manifestação de 
poesia. Os themas tradicionaes vulgarisados na Edade 
média em rudimentos semi-litterarios, jogralescos, 
trobadorescos, goliardescos e scholarescos, tinham 
sido assimilados na transmissão oral, e reduzidos aos 
seus traços mais pittorescos ; a estabilidade civil, 
terminadas as guerras privadas, dava logar á idea- 
lisação dos costumes e ao prazer da sociabilidade, 
em que o canto e a dansa nos divertimentos do- 
mésticos vivificavam a letra das Canções lyricas e 
narrativas. O povo é agora a burguèzia dando força 
á Realeza,, emquanto esta, luctando contra o poder 
senhorial, se não torna absoluta com os exercites 
permanentes. 

Mas no século xv começa a erudição clássica, a 
paixão pelo humanismo, e tanto a aristocracia culta 
como a Egreja aristocratiscindose, desprezam e con- 
demnam os Cantos populares ; o Cortezãa e o Cie- 
rigo ::ontinuam o seu ódio contra o villão ou leigo, 
que se eleva á dignidade de Cidadão, ao passo que 
as festas realengas se tornam mais deslumbrantes 
com as danças e cantares da multidão. Esse anta- 
gonismo do erudito é-nos revelado na celebre phrase 
da Carta do Marquez de Santillana ao Condestavel 
de Portugal'. «ínfimos son aquellos trovadores que 
sin ningunt órden, regia nin cuento façen estos ro- 
mances é cantares, de que las gentes de haja é de 
servil condiçion se alegran.» {Cari., n.° ix.) Por parte 
da Egreja basta ler as censuras dos moralistas ca- 
tholicos contra o efíeito dos cantos vulgares, e so- 
bretudo as Constituições episcopaes e Concilios pro- 
vinciaes banindo toda a participação dos cantos e 
representações populares nos actos litúrgicos. 

A constituição e incorporação do Terceiro Estado, 



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POPULAR PORTUGUEZA l85 

appresenta se cs^racterisada em três épocas na histo- 
ria social da Europa. Na primeira, servindo-nos das 
palavras de Agustin Thierry : «A historia do Terceiro 
Estado começa, pelos seus preliminares indispensá- 
veis, muito antes da época em que o nome de tiers 
état apparece na historia franceza ; o seu ponto de 
partida é o desmoronamento produzido na Gallia 
pela queda do regimen romano, e í:onquista germâ- 
nica. E' alli que se encontram os antepassados ou 
representantes d'esta multidão de homens de condi- 
ções e profissões diversas, que a lingua social dos 
tempos feudaes designou com o nome commum de 
toture. Do século vi a xn essa historia segue o des- 
tino destes homens, decahindo de uma parte e pro- 
gredindo de outra sob as transformações geraes da 
sociedade.» * Na peninsula hispânica deu se em egual 
época a mesma decadência romana e conquista ger- 
mânica; é sob o influxo do dominio dos Árabes, as 
classes servas do colonato romano e dos lites ger- 
mânicos alcançaram a liberdade da crença e das in- 
dustrias pagando uma capitação, e como Mosarabes 
e Mallaudis foram restabelecendo a situação de 
homens livres. E' do século vii ao estabelecimento 
das monarchias neo góticas no século xii, que a so- 
ciedade mosarabe se vae integrando no povo, que 
veiu a constituir as nacionalidades modernas. A se- 
gunda época do Terceiro Estado, é quando começa 
o seu desenvolvimento, como observa Thierry: «no 
grande período do renascimento das municipalidades 
livres e reconstituição do Poder real» Na peninsula 
hispânica, as populações sedentárias resistem pelas 
suas garantias territoriaes contra os pretendidos pri- 
vilégios feudaes dos fidalgos consignados no Código 



* Eisai sur VHistoire du liers Etat^ p. 3. 



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l86 HISTORIA DA POESIA 



Wisigòtico. E' a vida civil autónoma dos Concelhos, 
Ajuntamentos, Irmandades, Municípios e federação 
de Cidades ou Behetrias, que acompanham a pro- 
gressiva independência do Poder real. D. Tomas 
Muíloz y Romero compilou as Cartas Pueblas de 
Hespanha, em que se encerram os factos capitães 
deste desenvolvimento do municipalismo, assim como 
nas Leges et Consuetudines, de Portugal, estão os 
foraes que documentam esta phase social do Ter- 
ceiro Estado. A phase decisiva da incorporação so- 
cial, em que o terceiro estado se chama Povo, como 
observaram no século xvi os embaixadores italianos, 
{quelie persone che.per voee commune si p'uo chiamare 
popolo) realisouse em consequência do desenvol- 
vimento da Realeza, que avocara a si a justiça, a 
força armada, e as imposições tributarias. Tendo 
de recorrer aos tributos, a Realeza tratou o povo 
como a nobreza e a egreja, chamando-o a tomar par- 
te nas Cortes pelos seus procuradores, representantes 
do Braço popular, Don Agustin Duran precisou ni- 
tidamente este facto : «Assim succedeu entre nós, 
em que uma multidão de communidades, ajuntamen- 
tos e concelhos gosavam de foros amplos e grandes 
liberdades. Não podendo exigir- se lhes mais tributos 
do que os estipulados nas Cartas pueblas, ou em 
outros contractos especiaes, era preciso o seu con- 
sentimento para augmentar os antigos ou obter ou- 
tros novos. Daqui a necessidade de reunil-os e con- 
vocal-os em Cortes ou Assembleias, d' aqui o ouvil os 
e fazer ju tiça aos seus aggravos, d aqui o ter que 
contental-os com leis e medidas favoráveis á liber- 
dade e ao procommunal, e daqui à debilitaçãò da 
aristocracia, que chegou a não differençar-se do povo 
senão pela riqueza dos seus membros. Sob taes au- 
spícios nasceu entre nós, antes do que em outra parle, 
um governo representativo, cujas raizes penetraram 



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POl>ULAH POKTUGUEZA 187 

profundamente na sociedade sem dar-lhe nome, e 
cuja base eram os costumes . . . x» * Nesta marcha, a 
evolução do Terceiro estado é indissolúvel e con- 
juncta com o fortalecimento da Realeza, como o con- 
siderou Thierry. E' no século xv que termina também 
a lucta dos grandes vassallos contra a realeza, e é 
nessa lucta que o Povo tem a consciência da sua 
importância social. 



l Romancero general, i, p. XIX nota. 



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SECÇÃO I .• (Século xv.) 
§ I, Consciência da autonomia nacional 



a) A REVOLUÇÃO DE LiSBOA : 

Da persistência do typo lusitano, piincipalmente 
na Terra portucalense, resultou a independência do 
Condado de Portugal, que através das dissidências 
dos Estados peninsulares ibéricos, impulsionou Dom 
Afifonso Henriques a dar realidade a essa revives- 
cência ethnica constituindo a Nacionalidade por tu- 
gueza, E pela creação dos Foraes, dando forma es- 
cripta ao direito consuetudinário ou territorial, até 
D. Afifonso III, cria-se o Braço popular (a Arraya 
meuda, ou a Roture) que hade contrabalançar-se coni 
o poder senhorial e clerical nas Cortes. O território 
de Portugal integrou-se sob D. Afifonso iii até ao 
Algarve, e pela cooperação na batalha do Salado, 
Portugal patenteou que o lusismo podia manter-se 
diante do iberismo. Foi n'esta situação dignamente 
definida, que accidentalmente surgiu o plano de uma 
incorporação ibérica por efifeito de um casamento 
real; D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, casara 
com o rei de Castella D. João i, em Badajoz em 



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POPULAR PORTUGUEZA 189 

14 de Maio de 1383, e pela morte do monarcha portu- 
guez, os filhos varões d aquelle reclamavam como sua 
a soberania de Portugal. D. Leonor Telles, viuva do 
rei D. Fernando, ligada por amores com o fidalgo 
gallego Joâp Fernandes Andeiro, mantinha a regen 
cia, etnquanto as intrigas de vários fidalgos caste- 
lhanos e portuguezes trabalhavam a favor do mo- 
narcha hespanhol. Para aquelles que seguiam o partido 
da autonomia nacional, a morte do conde Andeiro 
tomou se irrevogave!, e o Mestre de Aviz realisou 
esse acto em 6 de Dezembro de 1383, que deter- 
minou a Revolução de Lisboa, pelo povo que accla- 
mou o filho de Thereza Lourenço Defensar e Go- 
vernador do Reino, O Mestre comprehendeu esse 
grito nacional, e cercando se de homens como 1). 
Nuno Alvares Pereira, e o Dr. João das Regras» 
conseguiu através de invasões por terra e por mar, 
repellir a ambição castelhana annullada na gloriosa 
batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1386. 
O Condestavel, o typo do Cid portuguez, soube 
destruir pelo seu tino estratégico e acção rápida o 
exercito do monarcha hespanhol ; e nas Cortes de 
Coimbra, convocadas no Convento de S. Francisco 
em 1385, soubera o Dr. João das Regras desfazer os 
planos dos vários pretendentes, inspirado pelo grito 
espontâneo com que o Mestre ao chegar a Coimbra 
fora proclamado pela multidão Rei de Portugal. O 
lusismo achara o seu ponto de apoio; e depois de 
D. João 1 ter tomado a offensiva contra Castella, e 
obtido uma trégua prolongada, prosegniu no mesmo 
impulso atávico, começando a occupação da Africa 
Tingitana e a exploração do Atlântico. O impulso 
ethnico podia mais do que os homens, abrindo uma 
grande época, preparadora de todas as grandiosas 
iniciativas de Portugal. Em uma época fecunda de 
vida, o povo portuguez não ficou calado ; elle cele- 



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igO ' HISTORIA DA POESIA 

brou nos seus cantos a revolução de Lisboa, e a 
figura surprehendente do Condestavel, a que chama- 
va Santo como o mais alto titulo humano ; os tra- 
balhos das navegações por mares tenebrosos tam- 
bém deixaram ecco nos seus provérbios. 

Mas a riqueza doesta poesia do Povo no século 
XV, desappareceu quasi completamente no território 
continental, conservando -se com uma vivacidade ex- 
traordinária nos dois focos insulares, o Archipelago 
da Madeira e o Archipelago dos Açores. Porque se 
daria esta obliteração dos veios poéticos no conti- 
nente ? E' facil determinar a causa : o iberismo ven- 
cido nos campos de batalha, renovou a sua ambi- 
ção pelos casamentos reaes, em D. Afifonso v, Prín- 
cipe D. Afifonso, D. Manuel, D. João ni, e Príncipe 
D. João, pae do phantasmagorico rei D. Sebastião ; 
e por eíTeito dos casamentos principescos é que 
Carlos V e Philippe ii prepararam a incorporação de 
Portugal. Mas o iberismo prevalecendo sobre o lu- 
sismoy antes de extinguir a autonomia portuguéza, 
minou-o pelo seu génio imperialista, como se vê no 
faustoso ÍJ, Manuel aspirando á Monarchia unrif r- 
sal, e pela exaltação fanática em D. João iii esta- 
belecendo a Inquisição e os Jesuitas. A decadência 
de Portugal desde os momentos mais apparatosos 
das glorias do pr.ncipio do século xvi está implicita 
neste processo lento do apagamento do lusismo, e 
consequente predomínio do iberismo nas suas duas - 
formas a realeza absoluta ou imperialista, e o catho- 
licismo sanguinário, * cooperando simultaneamente 



1 Este ideal do imperalismo catholico teve um símile entre os Ara^ 
bes da Hespanha,que chamaram &o rei àt Córdova, veacido na bata- 
lha de Navas em 1 2 1 2, Miramolim (de Emir el mumenin^ o imperador 
dos crentes). No poema da Perda de Hesp inha, o verso : «De in su da 
íina de Miramolino^ prova ^ evidencia o anachronis-no que derroga 
a sua antiguidade, pondo patente a simulação archaica. 



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POPULAR POKTUGUEZA I9I 

para a incorporação de Portugal na unidade hespa - 
nhola. 

Na revolução de Lisboa, que levou aò throno o 
Mestre de Avis pela affirmação da soberania nacio- 
nal, o grito do povo manifestou-se pela poesia. Conta 
Fernão Lopes, na Chronica de D. João I (t. i, cap. 
116) as expressões d'está vitalidade: «E as moças 
sem nenhuni medo apanhavam das pedras pela ci- 
dade, e cantavam altas vozes: 

Esta es Lisboa presada, 
Miralda, y leixalda. 

Si quizieredes çarnero 
Qual dieran ai Andero ; 

Si quizieredes cabrito 
Qual dieran ai Arçobispo. 

O assassinato do fidalgo gallego João Fernandes 
Andeiro, amante da rainha D. Leonor Telles, foi o 
signal da revolução, que alarmou Lisboa ; o Bispo, 
como castelhano, também era mal visto pelo povo, 
e tendo subido á torre de um convento, aonde se 
refugiara, foi precipitado dahi com os demais com- 
panheiros, por não ter obedecido á multidão que lhe 
gritava que tocasse a rebate. 

Na Chronica do Condestavel, quando se descreve 
a tomada de Portel, cujo alcaide não se quizera render 
ao Mestre de Avis, vem intercalada esta cantiga do 
povo : 

Pois Marina balhou, 
Tome o que ganou. 

Melhor era Portel, 
Villa Ruiva, p. . . velha. 

Portel e Villa Ruiva, 
Que não Safra e Segura. 

(Cap. 37) 



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192 HISTORIA DA POESIA 



. A batalha de Aljubarrota, que inspirava herois- 
mos populares, como se representa na lenda da Pa- 
deira de Aljubarrota, deixou um ecco da tradição 
no seguinte Cantarcillo, que apparece intercalado em 
um antigo romance castelhano: 

Pois que Madanella 
Remediou rneu mal, 
Viva Portugal, 
E morra Castella. 

Seja amor testigo 
De tamanho bem; 
Não chegue ninguém 
A zombar commigo. 

Que a espada é rodella, 
A Forneira sal*; 
Viva Portugal 
E morra Castella. * 

A figura épica do Condestavel Nuno Alvares Pe- 
reira, representando na mente do povo o sustentá- 
culo da soberania nacional e da independência por- 
tugueza, foi idealisada em Cantares em que eram 
memorados os seus feitos e virtudes. Esses Canta- 
res são um dos mais preciosos vestigios das Ende- 
chas, « Cauciones tristes e lamentables, que se Uoran 
sobre los muertos, cuerpo presente, ó en su sepul- 
tura ó cenotaphio. » ^ A occasião em que se canta-- 
vam as trovas ao Condestavel é referida por Jorge 



1 Romancero general^ de 1 603 : El gallardo Português. 

* Covarruvias, Tesoro de la Lengua castellana. — «Temos em França 
verdadeiros Voeeri^ e este uso conservou-se na Bretanha com o seu 
caracter primitivo, e ainda em alguns districtos montanhosos dos 
Vosges, dos Altos Alpes e dos Pyrenneos.» Rathery, Les Chants 
popul.ires de ritalie, (Rev. des Deux Mondes, 1862. p. 337.) 



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POPULAR PORTUGUEZA igS 

Cardoso, no Agiologio lusitana {m, 217): «Em cujo 
dia (12 de Maio, em que falecera) costumava o povo 
de Lisboa e seu termo vir á sepultura, com grande^ 
festas e demonstrações de alegria, agradeicér^lhe a 
liberdade da pátria com a celeberrima batalha dç 
Aljubarrota, e outras, de que estão cheias as Chro- 
nicas, entoando esta letra : 

El gran Condestabre 
Nuno' Alves Pereira, 
Defendió Pprtugale 
Con su bandera 
E con su pendone. 

No me lo digades, none, 
Que santo es el Conde. 

«Estas seguidilhas eram muitas, de que só acha- 
mos o seguinte pé, com que todas rematavam : 

No me lo digades, none, 
Que santo és el Conde.» 

N'este cantar verdadeiramente antigo apparece a 
paragoge poética, phenomeno característico da poe- 
sia cantada, no século xv. O ?.* José Pereira de Santa 
Anna, na Chronica dos Carmelitas, (t. i, P. i, pag. 
466) achou em transcripções manuscriptas, que attri- 
bue a Azurara, o texto destas Canções bailadas : 
«vinham também a esta egreja (se. do Carmo, aonde 
estava o jazigo do Condestavel) differentes ajunta- 
mentos de devotos, repartindo entre si os dias mais 
accomodados dó anno, para n'elles executarem os 
effeitos da sua muita obrigação, que confessavam 
dever ao santo Condestavel. A gente da cidade o 
festejava na forma que refere o allegado frei Jero- 
nymo da Encarnação, o qual diz assim : — Quando o 
venerável corpo do Conde jazia soterrado no chão . . . 
as mulheres dos cidadãos da cidade de Lisboa, com 



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194 HISTORIA Da POESIA 

algumas delias se juntavam na capella-maior do 
mosteiro do Carmo, que o Conde fez, um dia de- 
pois da paschoa florida, que era a primeira outava, 
com seus pandeiros e adufes, e outras tangendo as 
palmas; e com muito prazer e folgança, cantavam 
e dançavam d roda, donde soterrado .estava, co- 
meçando uma das mulheres, que melhor voz tinha, 
e as outras respondiam ó que ella cantava; e di- 
ziam d' esta guisa : 

No me lo digades, none, 
Que santo es el Conde. 

«Este estribilho repetiam infinitas vezes, bailando 
com notável contentamento ao redor da sepultura, 
sobre a qual punham muitas capellas de flores e as 
offertas que lhe deixavam em signal de gratidSo 
pelas victorias que conseguira e pela liberdade deste 
reino, da qual fora instrumento.» Eis a Canção das 
mulheres de Lisboa, como se conservara na Chro^ 
nica dos Carmelitas: 

Guia sò, e No me lo digades, none, 
depois todos : Que santo es el Conde. 

Guia, só : O gram Condestabre 
Nun'alv'es Pereira, 
Defendeo Portugaíe ^ 
Com sua bandeira 
E com seu pendone* 

Todos : No me lo digades, none. 

Que santo es el Conde. 

Guia : Na Aljubarrota 

Levou a vanguarda, 
Com braçal e cota 
Os Castellãos mata, 
E toma o pendone. 



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l>OPUI.AR POKTUCUEZA 



.95 



Todos : No me lo digades, none, etc 

Guia : ^ Com sua chegança 

Filhou Badalhouce * 
Sem usar d'avença, 
Entrou sua torre, 
E poz seu pendone. 

Todos : No me lo digades, none, etc. 

GinA : Dentro no Valuerde 

Venceu os Castellãos, 
Matou bons e mãos 
Só com a sua hoste 
E seu esquadrone. 

Todos : No me lo digades, none, 

Que santo es el Conde. 

Na segunda outava do Espirito Santo vinham em 
romaria á sepultura do Condestavel os moradores 
do Restello (Belém) e cantavam, segundo o teste- 
munho da Chronica dos Carmelitas: 

Uma voz : Santo Condestabre, 
Boné português, 
Conde d'Arrayolos, 
De Barcellos, d'Orem. 

Todos : Santo Condestabre, 

Boné português. 

Voz : Na campanha sondes 

Além d'uma bez, 
E mais outra bez, 
E mais outra bez. 

Todos : Santo Condestabre. 

Boné português. 

Voz : Por faiçom da Pátria 

Todo esto fez. 



* Badajoz ; a forma Badalhouce é uma contracção e deformação 
popular de Balneus dulcis. 



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196 



HISTORIA DA POESIA 



Librou as obelhinhas 
Do Leõ de Gastei. 

Todos : E mais outra bez, 

E mais outra bez. 

Voz : No me lo digades 

Que abondo lo sey, 
Mata os Castellãos, 
Salva a nossa Grey. 

Todos : E mais outra bez, 

E mais outra bez. 

Seguem -se as Cantigas, com que pelo Sán Jqão 
vinham os morJfidores de Sacavém e de Lisboa ce- 
lebrar o anniversario do Condestavel: 

Voz : Do Restello a Sacavém, 

Nem ningola, nem ninguém 
Tem semelho ao Condestabre, 
Que le prouge, e que le praze 
Ho fager nos tanto bem. 

Todos : E bem, e bem ! 

Voz : O rapaz das coberturas 

Que morre e cabe para traz, 
Já nom vai á sepultura. 
Que outra vez vive o rapaz 
E ho Conde le fizo bem. 

Todos : E bem, e bem 1 

Voz : A* filha de Joanne Estes 

Que finou por nom mamar, 
Ao do moinho do cubo 
Que finou por se afogar, 
Viventa o Conde também. 

Todos: E bem, e bem! 

Voz : O mal d^aquella alfayata, 

A gram dor de Lopo Anons, 



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POPULAR PORTUGUEZA I97 

Nom les chega aos coraçons, 
Que o Conde santo los guarda : 
E tudo por fager bem. 

Todos : E bem, e bem ! 

Voz : E bem, Condestabre santo, 

Cobri- nos com vosso manto, 
E com vosso manto de gales, 
Defendimento de males, 
E faga-nos muito bem. 

Todos : E bem, e bem 1 

Na Chronica dos Carmelitas narra-se o milagre 
de crescer a comida que o Condestavel dava por 
sua mão á portaria do mosteiro em que se recolhera : 
«Não se contentava em distribuir as esmolas pelo 
seu pagador, como no século fazia ; mas pelas pró- 
prias mãos, na portaria d'este seu convento, reme- 
diava a cada um conforme a sua necessidade, que 
com effeito previa, por que era feito muito antes 
de communicada, — e já mais chegavam os últimos, 
que não tivessem tão cheios os pratos como os pri- 
meiros. D'aqui procedeu cantarem os mesmos pobres 
certas trovas, entre elles de grande estimação, nas 
quaes lhe encareciam a virtude, e expressavam o 
conhecimento, que delia tinham, dizendo e repetin- 
do pela sua egual tonadilha as quintilhas: 

O gram Condestabre 
Em o seu Mosteiro, 
Dá-nos sua sopa 
MaiFa sua roupa, 
Mair o seu dinheiro. 

A benção de Deus 
Cahiu na caldeira 
De Nun'alves Pereira, 
Que abondo cresceu 
E todo lo deu. 

Pões. popul. — Vol. II i3 



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198 HISTORIA DA POESIA 



Se comer queredes 
Nom bades além ; 
D'on mengua oom tem 
Ahi lo comeredes, 
Como lo vedes.» 

Ha n'estas Canções para notar a forma estrophi- 
ca e o verso. quinario, que no fim do século xv foi 
substituído pelo octonario nas transcripções semi-litte- 
rarias dos Romances velhos; tanto este facto como 
o do — e — paragogico tem de ser estudados adiante. 

A acclamação de D. João i também se liga ás 
maravilhas da imaginação popular: 

— Real, real, 
Por Dom João, 
Rei de Portugal. 

«prodígio que succedeu em tempo de El rei D. 
João 1, da voz que se ouviu, formada pela língua 
d'aquella criança de berço da cidade de Évora, cuja 
edade de outo mezes a tinha ainda preza e emude- 
cida, quando El Rei D.' João i, sendo ainda Mestre 
de Avis somente, e passandolhe pela porta, em voz 
clara pronunciou : Real, real, por Dom JocU) de Por- 
tugal /> * 

No romance popular do Conde Alarcos falia tam- 
bém uma criança nos braços da mãe, d*onde se vê 
que a situação poética foi artificiosamente imitada pelos 
eruditos. Segundo D. Agustin Duran, no Romancero 
general, o romance do Conde Alarcos foi elaborado 
sobre o facto histórico do assassinato de D. Maria 
Telles pelo Infante D. João, para pelo casamento 
combinado com D. Leonor Telles apoderar-sê do 
throno portuguez. 



* Restauração prodigiosa de Fort., p. 17. 



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POPULAR PORTUGUEZA I99 

Quando começaram as conquistas no norte da 
Africa, essas heróicas aventuras que prolongavam os 
Algarves para alem mar, \xx2Xíào Portugal da condi- 
ção de appendice da Hespanha, na voz do povo 
também se espalharam as expressões politicas dessa 
nova acção nacional ; Azurara traz este provérbio 
referido no cerco de Tanger em 1460, e que encon- 
trámos na tradição oral da Foz do Douro : 

— Oh noite má, 

Para quem te apparelhas ? 
«PVa os pobres soldados 
E pastores de ovelhas. 

— E os homens do mar 
Aonde os deixas ? 
«Esses ficam metidos 
Até ás orelhas. 

João de Barros, que historiou o cyclo das grandes 
navegações portuguezas, em que revivesceu o génio 
do lusismo,' traz o provérbio, que corria antes de 
1433, quando se realisou o feito de Gil Eannes : 

Quem passar o Cabo de Nam 
Ou voltará ou não. 

{pec^ I, câp. 4.) 

bX O TYPO DOS Romances velhos: 
E' nos fins do século xv, que a Canção narrativa 
popular, a que os eruditos chamaram Romance, * sae 



* A palavra Romance era empregada para designar a linguagem 
vulgar; em um catalogo velho daSorbone, vem o titulo geral Ra- 
maneia et libri in gaíUce; e n'elle descriptos: Romancium de Rosa; 
RomanciwH quod incipit : Miserere mei, Deus ; Romancium de 
Decem peccatis. (Victor Leclerc, Discours sur VEtat des LettrTs, 1. 1, 
p. 345.) Um dos mais antigos mercadores de livros de Paris cha- 
mava*se Hernois le Romanceur. (Ib., p 329.) 



fc IIMflT 



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HISTORIA DA POESIA 



da espontaneidade da transmissão oral fixando se na 
cscripta, entrando nos Cancioneiros aristocráticos, re- 
cebendo o relevo musical, sendo também glosada 
lyricamente e imitada em novas situações e themas. 
Ha n'este processo dois factos antinomicos : um é a 
perda da forma primitiva e oral, de que ainda ha 
vestigios na tradição popular do Folk-lore, nos ro- 
mances em verso quinario ; ò outro é o desenvolvi- 
mento culto ou litterario dos typos fixados em fins 
do século XV com o titulo de Romances velhos, em 
que prevalecendo o metro septisyllabo ou de arte 
real, se transforma a antiga metrificação do verso 
cantado e bailado pelo verso recitado. E' por isso 
que o erudito Moratin, nas Origens dei Teatro es- 
paHol, escrevia : 

«Os Romances mais antigos que hoje conhecemos 
pertencem ao reinado de D. João \\ (1405-1454^; os 
anteriores perderam^se.» E' importante esta observa- 
ção, comprovada por D. Agustin Duran, o collec- 
cionador do vastissimo Romancero general castelha- 
no : «A maior parte destas composições são anony- 
mas e sem data que sirva para coordenai -as com exa- 
ctidão chronologica. Nenhuma, tal como tem chegado 
até nós {no Cancionero de Romances, Silvas e outras 
anthologias) pode consrderar-se anterior ao século 
XV ; porém muitas conservam profundos vestigios de 
serem reproducções ou reformas de outras mais an- 
tigas, tomadas da tradição oral, antes de serem im- 
pressas. Misturadas com estas, ha outras do século 
XV que parecem primitivas e contemporâneas dos 
factos que referem. Alguns Romances velhos, porém 
mais ou menos modernisados e eruditamente desfigu- 
rados, vem nos romanceiros de auctores particulares, 
taeff como Sepúlveda, Timoneda e outros poetas que 
emprehenderam pôr as chronicas em verso, imitando 
os romances velhos, arremedando a sua linguagem e 



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POPULAR PORTUGUEZA 20I 

conservando aquelle espirito antigo que n*elles pre- 
dominava. > * Também com a segurança da sua vasta 
leitura, escrevia Menendez Pelayo : «Não ha Roman- 
ces primitivos, nem até hoje tem sido descobertos ; 
aquelles a que chamam velhos, são do século xv.» 
Importa destacar o typo do Romance popular e 
oral da sua elaboração semi litteraria no fim do sé- 
culo XV, a que deram o nome de Romance velhos bem 
impropriamente; Don Agustin Duran, com a sua 
grande pratica nestas compilações dá nos um cara- 
racteristico capital : «comparandoo com o dialecto 
bable, que ainda conservam os asturianos, presumo 
que os cantos primitivos se construiram com versos 
curtos, cuja intonação supprisse o numero exacto de 
syllabas e a liberdade de apoial-as ou abrevial-as 
pronunçiando-as, na falta de rythmo e de verdadeiros 
consoantes. — De mais, o rythmo monótono do Ro- 
mance antigo, parece que indica e provoca o canto 
que se lhe tem adaptado, tão próprio para as dan- 
sas pausadas do paiz em que nasceu, que ainda se 
conserva...» {/^., p. liv.) E* por meio do canto e 
da dansa, que se poderá restituir a forma primitiva 
da Canção narrativa ou do Romance : pelas Canções 
de Don Bueso e dos Commendadores o verso era 
exclusivamente quinario. A dansa, como ainda hoje 
se observa nas Astúrias, era formada de dois grupos, 
homens e mulheres, cantando uns nas assonancias em 
a, e outros nas assonancias em /, como já fica estudado 
na parte referente ás origens. Sem ter comprehen- 
dido a rasão do facto, Eduardo de La Barra, no- 
tando em um Romance velho alterações abruptas 
das assonancias, concluiu pela deturpação do typo 
primitivo, syncretisandose em um só vários romances. 



* Romancero general^ 1. 1, p. vin, nota, e p. xxv. (Ed. Rivadeneyra.) 



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202 HISTORIA DA POESIA 

Sob este ponto de vista analysa o romance A 
Calatrava la Vieja (Duran, n.^ 665): fn'este roman- 
ce ha três assonancias : . . talvez como nos primiti- 
vos romances dos séculos xui e xiv. Apesar de ser 
este o costume, pode ser que no caso presente se 
tenham refundido vários romances de diversa asso- 
nancia em um só, e assim parecem insinual-o as 
discordâncias que se notam entre troço e troço, ao 
passar de uma rima para outra.» E apontando as 
incongruências do quadro, accrescenta : «Notam-se 
falhas nos trez fragmentos que foram amalgammados 
n'este romance ; porém, seja como fosse, o certo é 
que tem sabor a velho como poucos dos históricos, 
e parece ser dos fins do século xv ou principios do 
XVI em sua origem, ainda que refundido mais tarde 
e remoçado. » * E' frequente encontrar-se no Roman- 
ceiro hespanhol muitos vestigios da forma de Esta- 
viliar, em que os mesmos versos se repetem alter- 
nando as assonancias, pela impressão do seu uso pri- 
mitivo quando dansado entre dois grupos. 

A influencia da melopêa não é menos decisiva 
para a determinação- da Canção narrativa ou Rimance ; 
o verso curto, imposto pelo rythmo da dansa, tende 
a alongar-se pelo prolongamento da syllaba final. 
Chamou-se a este accrescentamento o e paragogico. E 
desde que a Canção narrativa era separada do canto 
e da dansa para tornar-se recitada ou resada, os 
versos quinarios passavam facilmente para octonarios 
ou redondilha maior. Foi esta a transformação semi- 
litteraria do século xv, que se operou produzindo os 
Romances velhos, taes como entraram nos Cancio- 
neiros da época e nas glosas dos poetas cultos. A 
metrificação foi equiparada á latina, fazendo de dois 
versos octonarios um só verso de 16 syllabas, sem 



* Literatura arcaica^ p. 15 e 21. 



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POPULAR PORTUGUEZA 203 

realidade, e incompatível com toda a modulação mu- 
sical, ou mesmo qualquer rythmo dansavel. 

Menendez Pidal, no seu valioso trabalho sobre a 
Leyenda de los Infantes de Lara, toma este facto 
da paragoge poética, e vae pelo seu emprego nas 
Chronicas hespanholas determinar os romances po- 
pulares que nellas entraram sendo ahi dissolvidos em 
prosa. E applicando o processo á Crónica general 
de Afifonso x, apontando as largas series monorri- 
mas empregadas nas phrases da narrativa histórica, 
chega a concluir que os versos dos antigos Roman- 
ces eram octosyllabos (p. 417.) O prosador que se 
serviu na Crónica general de versos populares qui- 
narios necessariamente os ampliava, para tornar mais 
clara a narrativa lacónica ; e d essa modificação re- 
sultou também que os Romances velhos do século 
XV ao serem refeitos pelos poetas cultos, sob o in- 
tuito da narrativa sem musica nem dansa, natural- 
niente recebiam a forma do septisyllabo, muitas ve- 
zes copiado integralmente da própria chronica. 
. Don Agustin Duran, apresenta alguns versos extrahi- 
dos da prosa da Crónica dei Cid (cap. lv), que nós re- 
duzimos sem alterações á seguinte forma estrophica : 

E quiero-vos rogar, 
como amigo agora, 
e bueno vasalo, 
vayades a Zamora 
a mi hermaíia Urraca 
le digades vez otra : 

Me dé, me dé la villa 
por haber ó por cambo ; 
que la daré á Medina 
con todo el Infantazgo^ 
facerle he juramento 
con doce mis vasalos 



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204 HISTORIA DA POESIA 



Quando Sepúlveda, nos Romances sacados áe va^. 
rios historias^, metrificou da Crónica dei Cid este 
trecho, pôl-o eoi verso octosyllabo : 

Yo vos ruego Don Rodrigo 

Como amigo de valia, 

Que vayades a Zamora 

Con la mi mensajeria, 

Ya dona Urraca, mi hermana, 

Decid que me dé essa villa, 

Por gran haber ó gran cambio 

Como á ella mejor seria, 

A Medina de Rioseco 

Yo por ella la daria, 

Con todo lo Infantazgo, 



Y juramento le haría 

Con doce de mis vasalos 

De complir lo que decia, etc. * 



Por este pequeno esboço se exemplificam os dois 
processos : quando o Romance quinaria popular se 
dissolveu ampliando-se na prosa narrativa das Chro- 
nicas, no século xiii e xiv, e quando do fira do sé- 
culo XV em diante se reelaboram os Romances ve- 
lhos na forma octosyllabica, convercendo-se a prosa 
das Chronicas em versos de redondilha maior com 
forma litteraria individual. 

Os eruditos da Renascença explicavam as línguas 
vulgares pela grammatica latina, e applicavam o 
mesmo methodo á formação da poética moderna, 
derivando a sua métrica dos hexamelros e peniante- 
ir os latinos e dos tetrametros jamòicos. Este absurdo 
prevaleceu muito entre os philologos, esforçando -se 
para conciliar -a accenttiação popular com a quanti- 
dade dos eruditos. E' no século xv, que Nebrija es- 
tabelece este modo de ver; partindo do typo do 



* Romancero generaU, t. i, p. XLI e Rom. d.® 768. 



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POPULAR PORTUGUEZA 205 

verso hexametro como estalão, ajunta os versos de re- 
dondilha, rythmados pelo canto e dansa popular, como 
se fossem hemistychios de um verso desmesuradamente 
grande. Assim, na Grammatica de laLengua castetlana, 
ajuntando dois versos septisyllabos em uma só linha de 
dez e seis syllabas dá-Ihe o nome de pies de romance 
imaginando reproduzir o tetrametro jambico latino f «E 
tetrametro jambico, que llaman los latinos octonario, 
e os nossos poetas pies de romance, tienen regular- 
mente diez y seys silabas,.^ Uamaronlo tetrametro, 
porque tiene quatro accentos ; octonario, porque tiene 
ocho piés,Tt (Cap. vni.) E a esse verso popular se- 
ptisyllabo chama-lhe quaternário, derivando-o do 
dimetro jambico latino . «O dimetro jambico que os 
latinos chamam quaternário, e os nossos poetas pié 
de arte menor, e alguns de arte real, regularmente 
tiene ocho silabas.> (( ap. xni.) E para exemplificar 
çsse verso imagkiario de dezeseis syllabas, aponta : 
«Como en este romance antiguo: 

Digas tu, el ermitano, que faces la santa vida, 
Aquel ciervo dei pié blanco d*onde face su manida?» 

Também Juan dei Enzina illudindo-se com este 
artificio -graphico, dizia na sua Arte de l^oesia cas- 
iellana: «aun los romances suelen yr de quatro en 
quatro pies, aunque no van en consonantes sino el se- 
gundo y el quarto pié.» (Cap. vni.) O musico Salinas 
seguia a mesma estructura métrica. 

Não admira, que sob a preoccupação da métrica 
latina, os eruditos do século xv assim estropiassem 
a métrica popular ; mas Jacob Grimm, publicando no 
principio do século xix a Silva de Romances viejos, 
partindo da ideia que os versos dos poemas herói- 
cos sãa grandes, como observava nos alexandrinos 
das Gestas, entendeu ligar como hemistichios dois a 



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206 HISTORIA DA POESIA 

dois OS versos dos Romances castelhanos, como o 
fizera Nebrija, e por ventura ignorando esse facto. 
Também Dozy, nas Recherches sur CHistoire politi- 
que et litiercUre de CÉspagne pendant le Moyen Age^ 
adopta a mesma estructura do verso do Romanceiro 
hespanhol ; c Amador de los Rios vae na corrente 
do imaginário verso grande, dizendo : «Pela nossa 
parte não achamos difficuldade alguma em recebel-a 
sob o ponto de vista meramente histórico, pois que 
nos abre expedito caminho para resolver a tão de- 
batida questão das origens d'esta forma popular por 
excellencia. > * Milá y Fontanals cae na ingenuidade 
de transcrever todo o seu Romancerillo catalan em 
versos incorporados dois a dois, para assim simula- 
rem a forma heróica do hexametro latino. O mesnrK> 
praticou Nigra, nos Canti populari dei Piemonti. * 
Partindo de que o verso de 14 ou 16 syllabas é 
um prodúcto natural e não um artificio graphico. 
Damas Hinard considerava o verso castelhano como 
uma imitação dos alexandrinos francezes I Também 
Amador de los Rios, acreditando que esses versos de 
redondilha estavam unidos na phase da elaboração 
da poética moderna, diz sobre a observação de En- 
zina de rimarem no romance o segundo e quarto 
pé (verso): «De esta contradicion puede racional- 
mente deducirse, que en la segunda mitad dei siglo 
XV se habia ya dividido los versos octonarios por sus 
hemistiquios, produciendo cada dos una cuarteta de 
romance, tal como hoy se escribe. . . > (ib.^ p. 476.) 
Esta errada comprehensão resultou de se consi- 
derar o verso de redondilha menor ou maior sepa- 



* Hist, critica de la Litt. espdH'\ t. 11, p. 476. 

* Nigra, é de opinião que o metro primitivo da Donna Lont-- 
barda era quinaria ^ e que de três quinarios se compunha a estro - 
phe, ou o ternário céltico. (Ri vista de Lett. popolare, p. 182,) 



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POPULAR PORTUGUEZA 2O7 

rados da condição vital da sua formação — o canto 
e a dansa. Partindo desta base orgânica, o verso é 
originariamente curto, para caber dentro dos rythmos 
melódicos e choregicos ; e á medida que deixam de 
ser cantados ou dansados, os versos vão se modifican- 
do na recitação, ampliando-se com palavras de funcção 
grammatical. Assim o verso de quatro ou cinco syl- 
labas, sendo exclusivamente recitado passa facilmen- 
te para verso de sete syllabas, com leves comple- 
mentos de phrase, com um- maior emprego de con- 
juncçôes e preposições.. Os Romances velhos, no 
século XV receberam esta forma septisyllabiça por 
influencia da recitação e principalmente pela trans- 
cripção litteral dos curiosos que os colligiram. Os 
Romances foram chamados velhos pelos seus the- 
mas e por se repetirem oralmente em quinarios e 
senarios ; mas esta forma oral, que ainda subsiste 
em alguns romances populares como o Don Bueso^ 
nas Astúrias, ou a Santa Iria e O Cego, em Por- 
tugal, e é isso um característico da sua antiguidade, 
perdeu se no século xv ao fixar -se na forma escri- 
pta. A separação do verso da sua melodia primiti- 
va e da dansa em que era rythmado, embora desse 
era resultado o desenvolvimento de cada uma d*es- 
sas três formas artisticas, foi uma decadência das 
condições gençticas, que não escapou á observação 
popular, como se vê por esta cantiga açoriana : 

Dize-me umâ cantiguinha. 
Antes que seja rasada . . . 

(Cant, pop. Arch., p. 5.) 

Paliando dos chamados Romances velhos que se 
imprimiram no século xvi em folha volante, e se 
acham na quasi totalidade colligidos no Cancionero 
de Romances, consigna D. Agustin Duran: «A maior 
parte d'estas composições sãoanonymas. . . Nenhum, 



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208 HISTORIA DA POESIA 

tal corno chegou até nós pode considerar-se anterior 
ao século XV; porém muitos conservam profundos 
vestígios de serem reproducções ou reformas de 
outros mais antigos recebidos da tradição oral antes 
de serem impressos.» * Esta afifirmação, e por uma 
auctoridade comprovada pelo exame de todas as 
collecções da poesia do género popular, é importan- 
tíssima para definir essa crise em que o Romance 
tradicional recebeu uma forma escripta, abandonan- 
do a sua expressão oral da melopèa pelo recitado 
da redacção escnpta. E' natural que a generalisação 
da Imprensa, então actuando na leitura, suscitasse a 
exploração da curiosidade popular pela venda do 
Pliego suelto ou Folha volante y em que se redigiam 
Relações maravilhosas, Diálogos e Romances narra- 
tivos. Não havia então o espirito critico para inves- 
tigar ou consultar a* tradição oral, e era mais fácil 
aproveitar os quadros mais apreciados d'ella, as si- 
tuações épicas ou novellescas, e dar-lhes uma forma 
em versò fácil como é o octonario, com assonancias 
ao gosto do povo, e por assim dizer encaixilhando 
n este novo modelo os traços surprehendentes a que 
chegara a imaginação popular. Este processo che- 
gou até ao século xvi, em Sepúlveda e Timoneda, 
aproveitando troços de romances velhos oraes e 
dando-lhes a redacção da moda ou de recitação 
(resados). Mas, conjunctamente com o interesse das 
Folhas volantes reconheceu -se que esses velhos ro- 
mances que se obliteravam na tradição oral tinham 
os seus themas mais completos nas Chronicas anti- 
gas do século XIII ; pôde por tanto considerar-se o 
regresso ao Romance velho como consequência da 
erudição humanista iniciada no. século xv, que os 



* Romanceró general^ t. i, p. vin, nota. 



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POPULAR PORTUGUEZA 2O9 

investigava por meio das Chronicas em prosa e por 
ellas os reconstituia. E isto é tanto mais plausivel, 
que no século xvi levou se ao exaggero este proces- 
so, dissolvendo a Crònúa general de Espafía em 
versos octonarios e em quadros de Romances, co- 
mo usou Lorenzo de Segura. Uma vez fixados cer- 
tos typos de Romances, que se tornavam como pro- 
verbiaes na leitura popular, sobre elles eram mol- 
dados outros romances sobre interesses pessoaes ou 
actuaes, ficando aquelles typos denominados Ro- 
mances viejos, quando na realidade não o são. * 

A conquista de Granada, que completa a liberta- 
ção do solo hispano do dominio dos Árabes, (1482) 
também influiu na elaboração artificial dos Roman- 
ces mouriscos, como o reconhece D. Agustin Duran : 
tCom effeito, pouco antes da conquista de Granada, 
e por ventura alguns annos depois, achamse pou- 
cos roniances novellescos que appresentem vestígios 
mui accentuados da Poesia árabe, ^ Vê -se que o 
facto histórico actuou mais sobre os poetas cultos, 
que no século xvn levaram este género até ao de- 
lido desesperado. As situações produzidas entre a 
sociedade mosarabe é certo que inspiraram Roman- 
ces, que representaram ao vivo esse colorido da 
phantasia árabe, como o de Moraima, mas não 
acharam importância nas cortes peninsulares, e por 
isso perderam-se na memoria do povo. 

Pode-se affirmar, que os Romances velhos, quan- 
do se transmittiam acompanhados de canto e dansa 



* ^Assim poÍ5, julgo que os Roniances como hoje se lêem, foram 
compostos nos últimos annos do século xv, ou para melhor dizer, 
n'esse lempo se teriam alterado, reformado e accrescentado os que 
por acaso se conservavam jí então alterados, procurando arreme- 
dar o eslylo antigo.» (Sarmiento, Mem. n.** 550.) Abona se com o 
que se fada no século XVIU, com os Romances de Guapos, 



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210 HISTORIA DA POESIA 



eram de cinco syllabas, étn uma phrase mais lacó- 
nica e movimentada, e por isso mais poética, em- 
bora pelas exageradas e necessárias ellipses fossem 
menos perfeitos na estruetura métrica. Muitos ro- 
mances francezes do género Chanson à tbile, redu- 
zem se facilmente do verso grande simulando ale- 
xandrino a verso quinario pela simples separação dos 
hemistychicos. * Na poesia popular portugueza esta 



Jban Rbnaud 

Quand Jean Renaud 
De la guerre re/int, 
II revient triste, 
Trise et chagrín: 

— Bon jour, ma mère, 
«Bon jour, moa fils I 
Que ta iemme est 
Accouchée d*ua petit. 

— Allez, ma mère, 
Allez devant; 
Faitçs-moi dresser 
Un beau Ut blanc. 
Mais, faites-le 
Dresser si bas, 

Et que ma íemme 
N' Tentende pas, 

= Ah! dites ma mère. 

Ma mère, ma mie, 

Ce que j'entends 

Pleurer ici? 

rfCe sont, ma filie, 

Sont les enfaats, 

Qui se plaignent 

Du mal de dants. 

= Ah ! dites, ma mère, 

Ma mère, ma mie, 

Ce que j'entends 

Clouer ici? 

cMa filie, ma filie, 

Cest le charpentier, 



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POPULAR PORTUGUEZA 2 ! I 

transformação é quasi uma restituição á forma pura, 
desencrustando-a de palavras ociosas, que lhe desnatu- 
ram a natural vivacidade. Exemplificamos o processo 
com o romance da Não Catkerinetta, reduzido do verso 
octosyllabo da versão colligida por Garrett; é como um 
quadro que se restitue á cor viva : 

A NÁO CATKERINETTA 
(VersSo passada do verso oc tonaria paraçuinario) 

A náo Catherinetta 
Bem traz que contar : 
Sete annos e um dia 
Na volta do mar. 



Qui raccommode 
ci le plancher. 
= Ah ! dites, ma mère, 
Ma mère, ma mie, 
Ce que j'entends 
Chanter ici ? 
«Ma filie, ma filie, 
Cest la procession, 
Qui fait le tour 
De Ia- maison. 
= Mais, dites, ma mère. 
Ma mère, ma mie, 
Pour quoi donc 
Pleurez-vous ainsi ? 
«Helas 1 helas ! 
Je ne puis le cacher ! 
Cest Jean Renaud, 
Qui est decedé. 
= Ma mère, ma mère, 
Dites au fossoyeur, 
Qu'il fasse 
La fosse pour deux; 
Et que Tespace 
Y soit si grand 
Qu'on y reníerme 
Aussi Tenfant. 

Ap. Bçfume galante, p. 77. (Gerard Nerval.) 



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HISTORIA DA POESIA 



Sem ter que comer. 
Sem ter que manjar, 
Deitaram de molho 
Sola pV*o jantar. 
A sola era rija 
Não podem tragar. 
Já deitaram sortes 
Qual se hade matar ! 
Foi cahir a sorte 
Capitão general. 

— Sobe, marujinho, 
Ao mastro real, 

Vês terras d*Hespanha ? 
Praias de Portugal ? 
«Nem terras de Hespanha, 
Praias de Portugal ; 
Sete espadas nuas 
Stão pVa te matar. 

— Acima, gageiro, 
Ao tope real, 
Enxergas Hespanha ? 
Ou a Portugal ? 
«Alviçaras, alviçaras. 
Capitão general, 
Terras da Hespanha, 
E de Portugal ! 
Vejo três meninas 
Em um laranjal; 
Stá uma a coser, 
A outra a fiar, 
£ a mais formosa 
No meio a chorar. 

— São minhas três filhas, 
Quem m' dera abraçar I 
Heide a mais formosa 
Comtigo casar. 

«Não quero essa filha, 
Custou-vos a criar. 

— Dar-te-hei dinheiro, 
Q* não possas contar. 
«O vosso dinheiro 
Custou ... a ganhar. 

— Meu cavallo branco ; 
Nunca ouve outro egual ! 



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POPULAR PORTUGUEZA 2 I 3 

«Guardae o cavallo, 

Custou a ensinar. 

— Dou a Náo Catherinetta 

Para navegar. 

«Não quero a Náo, 

Não a sei governar. 

— Qué cjueres, gageiro ? 

Que alviçaras dár ^ 

«Eu quero a tua alma 

Commigo levar. 

— Renego o demónio 

Que está a tentar, 

Pertence a Deus a alma, 

O corpo ao mar. 

Um an)0 nos braços 

Não o deixa afogar; ^ 

Estoira o demónio, 

Calma vento e mar, 

E a Não Catherinetta 

Em terra a varar. 

Os Romances tradicionaes do Algarve colligidos 
por Estacio da Veiga, apresentam-se com forma 
de redacção litteraria que os desnatura, parecendo 
ás vezes fabricação culta; mas expungindo o verso 
septisyllabo desses appendices estylisticos com que 
se pretendeu regularisar o metro, os Romances adqui- 
rem logo o seu caracter primitivo, ingfenuo e sim- 
ples, como voltando á sua verdade natural e movi- 
mento espontâneo. Exemplifiquemos com dois Ro- 
mances de caracter histórico, e exclusivamente da 
tradição algarvia : 

o REI DE CASTELLA 

(FufeiaJ 

El rei de Castella 

Em cama de prdta, 

Des que o mal o turgira 

Doutos consultava, ^ 

Pões. popul. — Vol. II 14 



i 



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214 Historia da poesia 



Qual de mais sabença, 
Todos de Granada. 
Uns e outros diziam 
Que o mal não é nada, 
O mais velho de todos 
Outras falias falia 1 

— Confessar, D. Rodrigo, 
Fazei bem por alma. 
Sete horas de vida, 
E uma já passada. 
«Farei testamento 
Na hora atribulada : 
Deixo a Ramiro o burgo 
A Gaifeiros a barra, 
E a Dona Almansa 
A riqueza contada. 

Accudiu a princeza, 
Triste e magoada : 

— «Deus vos salve, pae, 

E á filha abandonada, 

Que assim daes minha herança 

A quem vos não é nada. 

A filha só que tendes 

A deixaes desherdada ! 

Pobre de minha vida, 

Pobre da malfadada, 

A's portas de Sevilha 

A demandar pousada ! 

Ganharei com pranto 

Ser alimentada. 

«Mulher que tal falia 
Merece degolada. 
Só te deixo em Zamora 
A torre por coutada; 
A quem for procurar-te 
Minha maldição haja. 
Não tenho mais que deixe 
A filha deshonrada. 

A romper do dia 
Zamora era cercada : 



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POPULAR PORTUGUEZA 2l5 



«Que parta D. Ramiro, 
Leve a minha espada; 
Parta Dom Gaifeiros 
Commandando a armada, 
Em Zamora pão fique 
Torre alevantada. 

— «Lesto, Dom Ramiro 
Com a real espada, 
Lesto, Dom Gaifeiros, 
Com a nobre armada. 
Não fique uma torre, 
Zamora arrasada ! 
Dom Ramiro, avante, 
Com cavallo e malha, 
A mãe deu vestidos, 
Meu pae sua espada. 
Eu esporas de ouro. 
Bandeira encarnad»; 
De um lado o sol leva, 
D'outro a lua prateada. 
Vencei co'a bandeira 
Por minha mão lavrada, 
Que ha muito vol-a dera. 
Se não fora dada . . . 

E' de Ximena Gomes, 
Do Conde de Lousada, 
Não importa que o fora 
Não devêsseis nada. 

— Como assim é, senhora 
Vae ser degolada. 

— «Não o queira Deus, 
A Virgem sagrada, 
Que a união não seja 
Por mim apartada. 
Adiante, Dom Ramiro, 
Com a real espada ; 
Lá vae Dom Gaifeiros 
Commandando a armada. 
Só nasci no mundo 
Infanta desgraçada. 

DOM DA SILVA 

— Chega-te cá, filha. 
Filha da minha alma. 



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2!6 HISTORIA DA POESIA 



Por esses sobrados 
Sobe áquella escada, 
Verás um mourinho 
Quando debruçada ; 
Detem-no, detem-no 
Com doces palavras ; 
Antes sejam poucas, 
Sejam arrasoadas, 
Lá de quando em quando 
De amores tocadas. 

«Por esses sobrados 
Subirei a escada ; 
Mas que hei de dizer, 
D'amores não sei nada ? 

Moriana ao balcão 
Bem ataviada. 
Viu o mourinho, 
Por outra não andava. 
Seu rosto que assoma 
Mui bem a saudava. 

«Deus te salve, moiro. 
Encanto da minha alma. 
Sete annos ha que ando 
Por ti namorada. 
— Deixei minha terra 
E íiz aqui pousada. 
«Cuidara que assim fora, 
Por ti tudo deixara; 
Se é assim, mesmo agora 
Nos braços te apertara. 

Ditas estas falias. 
Ao longe que assomava 
Cavalleiro armado. 
Sobre a areia voava; 
Alazão que monta 
P'la bocca escumava. 
Também com elle vinha 
Nobre cavalgada. 

«Corre d'ahi, mouro. 
Não digas que eu íallava, 



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POPULAR PORTUGUEZA 217 

Além vem cavalleiro 

Com lança, espada e malha. 

Cavallo inda longe 
Mui bem que rinfava; 
O cavallo branco 
Dom Silva o montava. 

— Conheço o cavalleiro, 
E quem o esperava ; 
Dom Silva que importa, 
E sua gente armada? 

Se aqui me não queres, 
E's sua apalavrada, 
Porelle tu andas 
D*amores tocada. ^ 
«Tem-te, tem -te, moiro, 
Escuta uma palavra. 

— Como té heide ouvir, 
Do cavalleiro a espada 
Me atravessa o corpo, 

A lança me entra n'alma. 

Por manha de maio 
Cavalleiro chegava, 
Moriana o christane 
Mais que ao moiro amava; 
Nem seu pae com conselhos 
Do amor a voltava ; 
Não era inda meio dia, 
Remédio ninguém dava, 
Co'christão Dom Silva 
Moriana se apartava. 

Fernando Wolf, e com elle Dozy, consideravam 
que no ditado popular do romance, as rimas agudas 
não se transformavam em graves pelo accrescenta- 
mento do e paragogico, e attribuiam á ignorância 
dos impressores e livreiros do século xvi este em- 
prego, prolongando a syllaba das palavras agudas. 
Contra esta opinião appresentou Amador de los Rios 
a auctoridade irrefragavel do celebre grammatico Ne- 
brija, do fim do século xv, que notou o facto pra- 



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2l8 HISTORIA DA POESIA 

ticado pelo povo, e por effeito do prolongamento do 
canto, que exigia o apoio de uma vogal. Paliando 
dos pés do romance, expõe Nebrija: «Pode ter 
este verso uma syllaba a menos, quando a final é 
aguda, como em outro romance: 

Morir se quiere Alexandre 
de dolor de ccraçon ; 
embió por sus maestros 
quantos en el mundo son: 

«Aquelles que o cantam, pois que acham curto e 
escasso aquelle ultimo spondeo, supprem e refazem 
o que falta por aquella figura que os grammaticos 
chamam paragoge, a qual . . . é accrescentamento de 
syllaba no fim da palavra ; e por coraçon e son di- 
zem coraçone e sone^^^ * 

Não admira que os illustres críticos allemães caís- 
sem n'esse equivoco, por que desconheciam a lin- 
guagein popular, em que o e paragogico é um facto 
característico, e que se torna uma necessidade desde 
que a palavra se emprega cantada. Apontando o facto 
nos^ dialectos gallego e bable. Amador de los Rios 
insiste sobre a influencia musical: «Quanto á rasão 
que durante a Edade media obrigava os cantores dos 
Romances a completar o numero das syllabas de 
pés ou hemistychios agudos, parece-nos bem obser- 
var que se fundava na natureza propría do canto. 
A voz insistia sempre nos finaes de cada phrase mu- 
sical, que se determinava precisamente nas rimas ou 
assonottcias, e produzindo-se ao grado dos cantores, 
dava a esta primitiva ária, cantoria ou toada um 
movimento uniforme e até monótono.»^ E em uraa 



1 Arte di la Imgua casiellana^ 1. n, c. 8. 

2 Hist, critica de la Litteratura cspanola^ t. n, p. 480. 



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POPUI^R PORTUGUEZA 2íg 

jcritica á opinião de Wolf, é sob o ponto de vista 
musical que Amador de los Rios insiste mais : cO 
que clara e palpavelmente se deduz, é, que se an- 
tes de 1492 se commettia espontaneamente pelos 
cantores populares a figura de que falia o sábio 
mestre da Rainha Catholica, para satisfazer plena^ 
mente a necessidade do canto, seguiu-se cumprindo 
este requisito do mesmo modo no século xvi mos- 
trando-se respeitadores da tradição os primeiros edi- 
tores dos romances, sendo consequentemente dignos 
do louvor dos doutos. Por todos os modos, o uso 
do e paragogico nos assonantes agudos, principalmente 
em relação ao canto, é um facto altamente histórico 
e de não pequena importância nos romances caste- 
lhanos. » 

Este phenomeno do e paragogico para tornar grave 
ou paroxytona a assonancia do verso, também se 
manifestou na poesia italiana antiga, como obser- 
vou D'Ancona em relação á Toscana: «Ma la poe- 
sia toscana antica non amava questi troncamenti ; 
tanto vero che nelle Canzonetté sacre e profane, 
nelle Ballate e nelle Laudi trovate sempre versipiani 
ed interiy e le rime ai mezzo sono tali. quandanche 
se ne accresca qualche volta una sillaba ai verso.n 
Sobre este accresçentamento do e paragogico, Nigra, 
no estudo sobre La poesia popular italiana, citando 
as collecções de Tommase, Tigri, Marcoaldi, Gian- 
andrea e Imbriani : «A repugnância dos dialectos da 
Itália inferior pela desinência oxytona (aguda) é tão 
natural á sua indole, que se costuma alongal-a com 
a juncção inorgânica de uma syllaba final de accento 
grammatical e monosyllabica. » * E' um phenomeno 
próprio da dialectologia popular, que da intonação 



* Canti popolari dei Piemonti^ p. xvii. 



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220 HISTORIA DA POESIA 

verbal se torna mais necessário no canto pelo pro-, 
longamento da nota melódica. Nigra entendeu de- 
duzir deste simples facto prosodico uma caracteris* 
tica fundamental para distinguir a Poesia popular da 
Alta Itália (Liguriaj Piemonte, Lombardia, Emília e 
Venetia) da Itália inferior, pelo emprego das pala- 
vras agudas ou graves no fim do verso : «a desinên- 
cia dos vocábulos amplamente oxytona, própria de 
todos os dialectos da Itália superior, é contraria á 
Índole dos dialectos da Itália inferior. A este diverso 
caracter dos dialectos das duas partes da Itália, cor- 
responde um diverso caracter externo da respectiva 
poesia popular. A Itália superior tem a Canzone com 
mais de metade pelo menos de desinências agudas ; 
a Itália inferior tem o Strambotto, com os versos 
de desinência ordinariamente grave.^ (Ib., p. xvi). 
Mas deste característico, que tende a confundir-se 
pela influencia culta da litteratura e da politica uni- 
tarista, nada se tira para a essência da poesia popu- 
lar, — os themas poéticos e os seus géneros mor- 
phologícos. Nigra entendeu ampliar a sua observa- 
ção á poesia popular dos demais povos peninsulares : 
€ A poesia popular da Itália inferior tem versos sempre 
ou quasí sempre paroxytonos (graves). A que é pro- 
priamente indígena da Hespanha castelhana, também 
tem a preponderância dos versos paroxytonos. O 
metro octonario com o monorrimo alterno dos Ro- 
mances hespanhoes é geralmente paroxytono em to- 
das as terminações dos versos. Quando um roman- 
ce hespanhol, com caracter popular, appresenta ter- 
minações oxytonas alternadas com paroxytonas, pode- 
se em rçgra presumir, que elle tem uma origem 
estrangeira, e que foi importado em Castella ou das 
províncias hespanholas de linguagem não castelhana, 
ou da Provença e Languedoc, ou de Portugal. In- 
dicamos este critério aos que estudam as fontes e 



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POPULAR PORTUGUEZA 



a formação do Romanceiro hespanhol. A presença 
do verso agudo ou oxytono na Hespanha castelhana 
e na Itália inferior indica regularmente a proveniên- 
cia ou imitação Celto-romana. — E' natural que não 
se encontrando esta poesia Celto-romana senão nas 
populações da Itália superior, da Provença, da França, 
da Catalunha e de Portugal, essa poesia deve con- 
siderar-se originaria d'esses paizes.» (Ib., p. xxix) 
Gaston Paris tendo mestrado a falta de verdadç an- 
thropologica na deisignação Celto-romana dada a' po- 
pulações liguriçaSy considera luminosa a característica 
das desinências oxytonas ou paroxytonas, acceitan- 
do-a fora da Itália coui modificações impostas pelos 
phenomenos das alterações phoneticas. Mas, no fundo, 
consistindo o facto no accrescentamento de um e 
paragogico, que torna grave as desinências agudas, 
tanto na poesia popular italiana, franceza, castelhana 
c portugueza, vê-se que esse phenomeno da prosódia 
dialectal * se mantém pela exigência do portamento 
no can0 popular, que os próprios çontrapontistas do 
século XVI, como Salinas, Pissador e Fuenllana, conser- 
varam nas suas transcripções. Menendez Pidal, atten- 
dendo ao phenomeno musical, observa: «No século 
XVII, ainda conservavam esta pratica os cantores das 
ruas, pois Lope de Vega, na Ftiente Ovejuna, põe na 
bocca de um d'elles uma Cançoneta cujos assonantes 
são: Commendador^, hombres, vencedora.» * 



^ Sobre o facto linguistico do e paragogico escreve Amador de 
los Rios : «nSo só é certo nos séculos xv e ZVI, mas também 
ainda hoje... nas fontes publicas de Madrid, servidas por astu- 
rianos, que &llam um romance muito antiquado, ou — na Virgen dei 
Puerto, aonde têm umas festas dominicaes todos os filhos de Pe- 
layo, de humilde condição, que vivem na corte, ouve-se nas suas 
falias e nos seus cantos tradicionaes dizer e cantar : Amar^, criara, 
plannare, etc.» {^Hs%t, cit,, t. ii, 627.) 

^ Leytnda de los Infantes de Lara, p. 419. 



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222 • HISTORIA DA POESIA 

Quando Francisco Salinas, no seu tratado De Mu- 
sica, (1577) trata como se egualam os dois octona- 
rios, exemplifica com o verso: «Ut apparet in his 
hispanis : 

Los braços traygo cansados 

de los muertos rodear ; 

«ubi posterius membrum aequivalet priori, quoniam 
unum tempus quod no siletur in fine, ab antiquis 
você canebaiur in hunc modum : 

Los braços traygo cansado* 
de los muertos rodeara.» * 

A mesma terminação métrica do e paragogico é 
admittida pelo compositor Luiz Narvaez, na sua obra 
Delphin de Musica, de 1538, e por Diego Plssador 
em 1552 no seu Libro de Musica de Vihuela, quan- 
do transcrevem Romances velhos. 

Repetindo o erro da origem do canto popular 
do Cantochão ecclesiastico, escreve Amador de los 
Rios, fallando de uma toada (melodia) anterior: 
cTomando por typo principal o Cantochão, recebi- 
do em todo o Occidente desde a época de San 
Gregório e generalisado na peninsula ibérica desde 
a edade do toledano San Eugénio m.» {Hist.litt,, 11,. 
606.) Mas, as melodias populares, como Rios su- 
stenta, exigem na poesia castelhana as assonancias 
graves ou femininas ; ao passo que o Cantochão, in- 
troduzido em Hespanha sob Alfonso vi pelo influxo 
da Egreja ft-anceza, exigia as syllabas agudas, ou 
masculinas. Fernando Wolf, em uma discussão com 
Rios sobre o e paragogico, escreve sobre esta ca- 
racterística do Cantochão : « pois a salmodia e o 



1 De Musica, cap. vi, do tit. vn, p. 384. 



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POPULAR PORTUGUESA 223 

Caniochão da Egreja, — segundo a sua origem e a 
sua Índole também eminentemente populares, desti- 
nados para serem executados pelo coro com partici- 
pação pela multidão dos crentes, emíim, pelo povo, 
em contraste cora o Canto ambrosiano ou artístico 
serviam de modelo para os cantores d'essas poesias 
(populares.) Agora, está sabido e admittido por to- 
dos os mestres dé musica, que o Cantochão prefe- 
re e quasi exige — conforme a sua origem e ob- 
jecto — as desinências masculinas. » Wolf abona-se 
com a auctoridade de Lebeuf, no Tratado histórico 
e pratico do Canto ecclesiastico, Cagrol e Barbazan, 
que mostram que as rimas femininas ou graves eram 
incompatíveis com as cadencias rythmadas do Can- 
tochão. Como pois derivar destas melodias deter- 
minadas por palavras agudas, as melodias popula- 
res nascidas simultaneamente com as assonancias 
e rimas graves ? A tendência para a rima femini- 
na ou grave provém da própria melodia popular, 
que termina pelo apagamento dos sons surdos. De 
um canto popular da Bretanha, em uma festa pa- 
tronal, escreve o editor do Mysterio de Saínte Non- 
ne: cE' uma espécie de recitativo que varia com 
a medida dos versos, mas sem perder nada d^ sua 
monotonia, porque a voz do cantor muito elevada 
ao começar uma estrophe, abaixa-se insensivelmente 
e acaba em um tom quasi surdo, ^ Pode parecer-sè 
•a melodia popular com a tonalidade do Cantochão, 
mas este abaixamento final define bem a sua diffe- 
rença de origem e de caracter. O rei D. Duarte, 
no Regimento da sua Capella, revela-nos a influen- 
cia que os cantos populares exerciam na transfor- 
mação do meio religioso : «que tanto que ouverem 
conhecimento de cantar que os façam cantar aa 
estante, e que lhe façom ensynar alguas cantigas 
a alguu que saiba bem cantar, ca esto lhe faz 



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224 HISTORIA DA POESIA 



perder o empacho de cantar e esforçar a voz e 
gaançar melhor geito e mais gracioso de cantar.» 
[Leal Cons.y p. 450.); «em qualquer cousa que ou- 
verem de cantar, ora seja de canto feito ou descanto, 
declarem a letera (Taquello que cantarem, salvo se 
ella for deshonesta pêra se dizer.» (Ib., p. 453.) 

A efflorescenqia da Poesia popular do século xv é 
um facto notado por Fernando Wolf em relação á 
Hespanha, mas explica-a pela influencia artística dos 
homens cultos: «Quando a poesia e a musica se 
iam desenvolvendo, tiveram sempre mais influxo na 
poesia e cantoria populares; e por isso se introdu- 
zia também n*estas maior regularidade e observân- 
cia mais rigorosa do numero de syllabas e tempos 
(desenvolvimento e influxo, que deviam realisar-se 
na poesia castelhana durante o século xv.) Então 
foi quando, a meu ver, começaram os poetas artís- 
ticos e os mestres de musica, attendendo, quiçá 
pela primeira vez algum tanto á poesia popular...» * 
Sem contradictar esta observação de Wolf, Amador 
de los Rios, mostrando que nos séculos xiii e xiv 
existindo uma musica artistica cultivada pelos trova- 
dores, monarchas e fidalgos, e ligada com a poesia» 
diz: «porquê esperar para o século xv para conceder 
alguma influencia á musica e poesia artistica nos can- 
tares do vulgo? Eu não julgo necessária essa in- 
fluencia para o desenvolvimento da assonancia nos 
Romances velhos, dada a indole especial da lingua ;• 
porém suppondo-a verdadeira, não creio que possa 
limitar-se á época referida.» (Ib., p. 626). 

Os cantos épicos francezes divulgados pelos jo- 
graes na Hespanha, vieram pelo processo natural 
das abreviações a apparecerem na corrente oral na 



* Carta de Wolf, de 7 de janeiro de 1 860. Ap. Rios, op, cit.^ p. 620. 



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POPULAR PORTUGUEZA 225 

forma lacónica e incisiva dos Romances. Gaston Pa- 
ris não crê que entre os Romances do século xv e 
as Canções de Gesta exista uma relação effecti- 
va ; * comtudo transcrevemos a opinião do grande 
historiador litterario Victor Leclerc, que define essa 
relação : « Entre os Romances, mesmo, ou os pe- 
quenos poemas históricos das diversas collecções do 
Romanceiro, ha alguns que provêm de França. Te- 
mos uma Canção de Gesta sobre Landri, maire du 
Palais no tempo de Chilperic, referida pelos trovei- 
ros, pelos trovadores e que um theologo do sécu- 
lo XII, Pedro o Chantre, se dignou citar; existe um 
resumo deste poema no romance de Landarico. Os 
Romances sobre Fernan Gonzalez, recusando a or- 
dem que lhe transmitte o mensageiro do rei de 
Leão, sobre o rei Almanzor espancado com um ta- 
boleiro de xadrez por Mudarra, o bastardo, são 
também episódios de poemas francezes sobre os 
Doze Pares. 

«Dois romances que se referem ao rei de Cas- 
tella Alfonso vii (1214) e ao imposto dos cinco ma- 
ravedis, podiam ter sido inspirados pela obra de 
Jean Bodel, já divulgada na Europa desde o anno 
de 1200, a Chanson des Saxons, Carlos Magno ten- 
do exigido quatro- dinheiros a cada um dos seus 
barões, que ainda não tinham satisfeito a chevage 



t «A França produziu, desde o século ix pelo meuos até ao 
século XIV, uma massa considerável de poesia épica ; as Can- 
' ções romanescas dos séculos xv e XVI> não terão parentesco com 
as Canções de Gesta da alta Edade media ? Não creio que entre 
umas e outras exista um laço real. Nenhum assumpto, nenhum 
nome das Canções de Gesta passou para a Poesia popular ; Car- 
losmagno, Roland, Guillaume d'Orange, Renaud de Montauban, 
Pger, Godofroi de Bouillon, du Guesclin, mesmo, o ultimo dos 
nossos heroes épicos, ahi são completamente desconhecidos. Jour- 
'nd des Savants, 1889, p.- 609.» 



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220 HISTORIA DA POESIA 



(o reconhecimento de chefe), cincoenta mil d'entre 
elles fazem fabricar dinheiros de aço, que lhe vêm 
apresentar na ponta das suas lanças: 

Chascuns en aura quatre, c'est li chevages drois, 
As penons de nos lances les lierons estrois, 
OCi íicherons as pointes des fiches fers turquois, 
Puis irons querre Carie à Laon ou à Blois; 
Oú que le trouverons, en riviere ou en bois, 
Offert soit li chevages ensi com par gabois. 

(Ed. 1839, 1. 57.) 

«Dón Nufío de Lara não falia de outro modo 
aos fidalgos que não querem ser tributados: 

los á vuestras posadas, 
Armáos bíen á caballo, 
Los cinco maravedis 
Atadlos bien en un pano, 
En las puntas de las lanzas 
Los traigais aqui colgado. 

(Prif/mvera y Flor de Rom,, 1, 194) 

cDe ambas as partes o gabois teve em êxito 
completo; os barões hespanhoes são apenas três 
mil, mas Alfonso, o vencedor das Navas, diante 
desta forma ameaçadora de pagar o imposto, re- 
cua como Carlos Magno. 

«Nos romances sobre Calainos, sobre Gaifeiros, 
sobre o Conde Grimaldo, pae do illustre Montesi- 
nos, encontramos Carlos Magno e os seus Preux. 
E' também memorada a França, Francia la bien . 
guarnida, nas aventuras de Renaud, imperador da 
Trebisonda, na Infanta de França, na Infantina e 
o filho do Rei de França, D, Martin e D. Bea- 
triz, e nesta narrativa gloriosa do cayalleiro francez 
Garinos (Garin), que prisioneiro de guerra em Ron- 
cesvalles, depois de sete annos de captiverio, conse- 



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POPUI-AR PORTUGUEZA 



227 



guiu por sua destreza em uma festa celebrada pelos 
mussulmanos, botar abaixo o alvo que a suas lanças 
não attingiam, e pela sua lucta com elles, recobrar 
a liberdade. 

cA Tavola Redonda, Galvão (Gauvain) Tristão, 
Lancelot (Lançarote) e todos esses outros géneros 
mais humildes, como Dits, Lais, Fabliaux, fornece- 
ram a seu turno alguns assumptos aos metrificado- 
res de Romances, sobretudo na Catalunha e na Na- 
varra.»* As Gestas francezas não podiam ser indiífe- 
rentes aos povos hispânicos, principalmente quando 
alludiam a situações da sua historia nacional borda- 
da de bellas tradições heróicas ; Gaston Paris re- 
conhece que a Gesta de Anseis de Cartkago, as- 
senta sobre a lenda da violação da filha do Conde 
Julião pelo rei i3om Rodrigo ;2 Menendez Pelayo 
examinando essa Gesta do século xiii, vê represen- 
tado D. Julião em Isoré, e Muça em Marsilio. Por 
ventura essas Outavas simulando portuguez archaico, 
sobre a Perda de Hespanha (O rouco da Cava, etc), 
imitavam litterariamente a narrativa da Canção de 
Gesta. Assim na tradição popular do Algarve appa- 
rece o romance de Dom Julião, que o collecciona- 
dor Estacio da Veiga retocou, mas que restituido ao 
verso quinario primitivo, dá-nos o typo popular de 
Romance velho, que os compiladores do século xv 
desnaturaram : 

DOM JULIÃO ou o CONDE DE CEUTA 



Oh Rei Dom Rodrigo, 
Sem alma e palavra, 
Pagas com a vida 
A traição de Cava; 



* Discours sur íétat des Lettres en Frafue au quatorzieme sieclc^ 
t. I, p. 53. 

2 La Utterature francaise oii Moyen Age, p. 43. 



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228 HISTORIA DA POESIA 



Dom Juliano em Ceita, 
Ceita a bem fadada, 
Jurou a vingança 
Pelas suas barbas. 
Ao rei da Moirama 
Escreve uma carta, 
Em que lhe daria 
Reino de Granada, 
Se mandasse ao campo 
Sua gente armada, 
PVa vingar a filha 
Que o rei deshonrara. 
Leu a carta o mouro, 
Gente apparelhava, 
PVa vingar Juliano, 
Conquistar Granada. 

Triste de Hespanha, 
Nobre e desgraçada, 
Por vingança tréda 
Tu serás escrava ; 
Cidades e villas 
Te serão ganhadas. 
As terras bemditas 
De perros cercadas I 
O rei Dom Rodrigo 
Vae-lhe dar batalha, 
Lo tredor Dom Oppas* 
Tudo atraiçoava. 
Perde Dom Rodrigo 
A grande batalha, 
Perde Andalusia, 
E perde a Granada, 
Guadalete não viu 
Outra tão pelejada. 
Juliano e Oppas 
Vingam Dona Cava, 
A Hespanha toda 
Em poder da Moirama. 



* Em uma cantiga do povo contra o Arcebispo CarriUo, ao 
arrastar a sua imagem, apparece esta forma métrica : 
Esta es Simancas, Esta és Símancas 

Don Oppas traydor, Que no Penaflor. 

(Ap. Rios, Hisi.Utt., IV, 541.) 



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POPULAR PORTOGUEZA 229 

Gs personagens das Epopêas francezas appare- 
cem com os seus nomes transformados pela assimi- 
lação popular, taes como Ganelon (do germânico 
Wanilo) em uma forma Balão ; e Roland (da forma 
germânica Chrodolant, d onde Hruodiand, em Egi- 
nhard, e Rutlandus, de Tortarius, significando o de- 
fensor da terra) em Roldão. * 

Além dos- quadros épicos das Canções de Gesta, 
propagaramse por via do canto as Canções narrati- 
vas chamadas na Edade média franceza Chansons 
de toile;'^ todos esses themas da Mal maridada, 
Freira arrependida, Marido que mata a mulher, Mu- 
lher que engana o marido, Amores com a casada, 
Noivo que rapta a desposada, Amante que morre 
por vingança da mulher desprezada, acham-se abun- 
dantemente representados no Romanceiro portuguez 
continental e insulano, em versões provadamente do 
século XV. 

As Canções lyricas francezas também se espa- 
lharam pela Europa no século xv, facto devido aos 
hábitos de corte e imitados na vida desafogada da 
burguezia. Escreve Gaston Paris : «No século xv, 
accentuadamente na Itália, estimavam se bastante as 
Canções francezas, sobretudo as que tinham um ca- 



* Em um Cancioneiro do século xv, citado por GaUardo, lê-se: 
(Ensaio, p. 456) : 

Con toda my cuyta, 
Con toda mi fiel, 
Quando yo veo 
Mancebo novel, 
Mas pena amarga^ 
Yo fago por él, 
Que Roldan 
Por su espada. 

- Gaston Paris, Journal des Savanís^ 1891, p. 680. 
Pões. pepul. — Vol. 11 i5 



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23o HISTORIA DA POESIA 

racter popular. As numerosas collecções que as- con- 
tém, não appre^entam comtudo algumas semelhantes, 
ás nossas ...» * Podemos seguir este veio em Por- 
tugal. 

No século XV as cantigas francezas vulgarisaram- 
se na Península; Milá y Fontanals cita uns ver- 
sos francezes na primeira folha de um registro de 
Aragão: 

Nulh hom no se dout esbausir 
De se que li doyt avenir, 
Si fortuna Ten.sobrapren.^ 

Na Biblioteca de Gallardo, (p. 558) cita-se uma 
canção castelhana com um verso francez : 

Y bien come quien se messa 
Sus criados cantaremos 
Je soy pobre de liesse. 

Os trez poetas francezes Alain Chartier, Guillaume 
de Loris, e Michaud, vêm referidos nas allusões de 
Rocaberti na sua Comedia de la Gloria de Amor, 
As allegorias do Roman de la Rose entravam na 
sympathia dos poetas cultos, que as preferiam á alle- 
goria trágica da Divina Comedia, 

Na Bibliotheca do Condestavel de Portugal exi- 
stiam muitos livros de poesia franceza, e Santillana, 
que conhecia o Roman de la Rose e admirava Alain 
Chartier, «preferia aos francezes em vez dos italianos 
en el guardar dei arte, ^ 



1 Id., ib., 1889, p. 621. 
* De los Trovadores en Espatia^ p. 516. 

3 Vários Cancioneiros francezes apparecem apontados no Inven- 
ario dos objectos que Isabel a Catholica tinha em Alcazar de Se- 



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POPULAR PORTUGUEZA 



No Auto da Fè, representado em 1501, Gil Vi- 
cente inscreveu esta rubrica final : « Cantam a qu^t- 
tro vozes una hua enselada, que veiu de França, 
e assi se vão com ella, e acaba a obrada (i, 75.) E 
no Auto dos Quatro Tempos, representado nos pa- 
ços da Alcáçova em 1505 : «Até chegarem ao pre- 
sépio vão cantando huma cantiga francesa, que diz: 

Ay de la noble 
Vílla de Paris, etc.» 

Esta cantiga encontra se no Cancioneiro musical 
dos Séculos xvi e xv, publicado por Barbieri, mas 
alguns dos seus versos estão em um francez illegi- 
vel ; vem acompanhada da musica da época. 

Barbieri conheceu a referencia de Gil Vicente, 
deplorando não ter mais versos para restabelecer o 
texto deturpado do Cancioneiro, (fl. cxii ^.) notando : 
«cuya correccion dejo á cargo de otro investigador 
mas hábil y afortunado que yo.» Tentámos essa 
restauração : 

Ay de la noble 

Ville de Paris, 

Que de Aude 

Porte le nom. 

govia em 1483, e que se guarda no Archivo de Simancas; entre 
outros : 

«Otro libro de pliego entero, escripto en pergamifio de mano 
tn romance francês que es Cancionero francez con unas tablas de 
cuero colorado sin cerraduras. 

«Otro libro de quarto de pliego do pergamifio de mano que és 
canto de organo en francês con unas tablas de papel forradas en 
cuero colorado. 

«Otro libro de pliego entero de mano de papel en romance 
francês que se dice Cancionero francês con unas coberturas de 
pergamifio.» (Ap. Cancionero musical dei siglo 1.Y y xvi, p. 14. Ed. 
Barbieri) 

Nos catálogos das Livrarias de D. Martin (14 10) e do Príncipe 
de Viana (1469) apontam -se mútos poemas e cancioneiros fran- 
cezes. 



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232 HISTORIA DA POESIA 



Ay de le gentil 
Compagnon; 
Ay de la filie 
De Roldon. 

Partir me fait 
Seul roa raison; 
Povre d'espoir 
Qui echangeons. 

Que dèjà revoir 
Me fais Marion, 
. Qui est la brunete 
Que echange nom. 

Tirum-lirum, tirum, 
De turrin, que vieni 
Soldat et capitain.^ 



A Canção de Francisco de Sousa, Abaixo esta 
serray (Gane. ger., iii, 562) acha-se na forma tradi- 
cional no Auvergne, Batchate montagne, e na forma 
litteraria de Gaston Phebus; deriva desta corrente 
franceza documentada com outras similares no Gan- 



^ Canc, musical^ n.° 429. Transcrevemos aqui o texto deturpado, 
para que outros aperfeiçõeir a restituição : 

Ay de la noble vile de Pris, 
Que de dua purte leno: 
Ay de.le compafion gentil, 
Ay de la filie de Roldon. 
Partir me fase mon rason 
Pobre despin qui exange nos 
Que dejar me fas Marian 
Qui e bruneta qui exunge nos 
Tirum-lirum tirum 
De turrin que bien solda caplá 

A musica é a quatro vozes, sendo a melodia em tiple com 
acompanhamento de contralto. 



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POPULAR PORTUGUEZA 233 

cioneiro publicado por Barbieri. Na estrophe 41 da 
Écloga Crisfaly vem uma situação que era com- 
mum ás Canções francezas : 

Como álli têm por uso, 

eiii uma roca fiando; 

mas, como que hia cuidando, 

cahiase lhe o fuso 

da mão de quando em quando, 

Boileau cita uma velha canção franceza, que faz 
lembrar estes versos do CrisfcU: - 

La charmante bergère 
Ecoutani ces discours, 
D*une main menagère, 
Allait filant tousjours; 
Et doucement attpinte 
D*une si douce plainte, 
Fit tomher por trois fois 
Le fuseau de ses doigts. 

António Prestes, no Auto da Ave- Maria condemna 
as musicas jusquinas, (de Josquindes Prés) e aquelles 
que além de trajarem á italiana tem € Dulce França 
nos ouvidos.» (p. 53. Ed. 1871.) Esta corrente fran- 
ceza na corte portugueza explica-se pela viagem de 
D. AfTonso v, indo pedir auxilio a Luiz xi; nos 
poetas do Cancioneiro geral de Garcia de Resende, 
cita-se com frequência a influencia franceza : 

Mas, um conselho, senhor, 
vos darei á ley de França . . . 

(Canc. ger., i, 318.) 

nam se meta 

nenhum de vossas mercês 

enculpar trajo france:^. 

(Ib., II, 122.) 



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234 HISTORIA DA POESIA 



que quem sua trova fez 
nam em França^ mas em Fez 
aprendeu tal invenção. 

(Ib., m, 271.) 

António Prestres, diz em um verso: i Ah, que ianger 
tão francês, T^ 

A Cantiga popular, a que allude Camões no verso 
do Auto de El Rei Seleuco: «Ouvistes vós cantar já 
— Velho mala em minha cama?i^ e no Crisfal: 
«Quando a cantar se ouvia — Dando fé, que em 
sua cama — O irelho não dormiriam — apparece em 
uma canção do Auvergne, o Vieillard d*amour, mas 
a communicação a Portugal explica-se pelo seu ap- 
parecimento no Cancioneiro musical dos séculos xv 
e XVI. 

Eis a letra da composição musical de Sedano, (fl. 
cccj.) publicada por Barbieri sob o n.° 460 : 

Viejo maio en la mi cama, 
Por mi fé, no dormirá. 

— Es un viejo desdenado, 
No puede comer bocado, 
El beberá lo cobrado, 
Toda me gomitará. 

«Hija, él tiene parientes 
Muy ricos y muy potentes; 
Aunque le falten los dientes, 
Asi nó te morderá. 



Desde que as cortes de Portugal e Castella se 
reconciliaram, realisando-se o casamento do príncipe 
D. Affonso com a filha de Fernando e Isabel, a inr 
fluência franceza foi substituída pela castelhana, e 
começou uma corrente de desnacionalisação ou pre- 
valeeimento do iberismo sobre o lusismo. Os poetas 



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POPULAR PORTUGUEZA 235 

palacianos versificam na lingua castelhana, e muitas 
das suas composições ficaram pelos Cancioneiros 
hespanhoes, como estas coplas : 

Bien diré d*amor, 
pues que me lo fez 
quedar esta vez 
por seu servidor. 

Eu tenho vontade 
d*amor me partir, 
e tal en verdade 
nunca o servir, 
sem aver galardon 
de minha senhor. 

O amor me dizia 
un dia fallando : 
-- Si me p lazer ia 
amar de seu bando 
gentil graciosa 
de fina color. * 

No preciosissimo Cancioneiro musical hespanhol 
do século XV, algumas Canções referem-se a Portu- 
gal, ou têm versos portuguezes; a Canção 458 é um 
fragmento que revela uma linda barcarola : 

Meus olhos van por lo maré, 
Mirando van Portugale. 

Meus olhos van por lo rio 



A Canção 425 é um coUoquio entre uma dama 
castelhana e um portuguez, sobre o pé : 



* Cancíoaero de Isabel n, fl. 78. Ap. Rios, HisL litt , vii, 74. 



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236 HISTORIA DA POESIA 

Olhade-me, gentil dona, 

Y valey per vossa ley, 
Que so da casa do Rey. 

De menino so criado 
No Paço mas que ninguém ; 
So fidalgo aprobado 
Da Villa de Santarém. 
Olhade-me sm desden, 

Y valey per vosa fey, 

Que so da casa do Rey. Etc. 

Na corte de Fernando e Isabel cantava-se um Ro- 
mance sobre a Batalha do Toro, em que se accen- 
tuava a derrota- de D. Affonso v de Portugal ; achava- 
se refugiado na corte de Castella Fernão da Silvei- 
ra, depois da conjuração contra D. João ir, e ahi 
lhe suscitou o romance um dito memorável pela 
ironia através do seu sentido histórico: 

«Sendo el Rey D. Affonso, o quinto, viuvo, es- 
creveram-lhe alguns Senhores de Castella que casasse 
com sua sobrinha a Excellente Senhora, que la es- 
tava, e a quem pertencia o Reyno de Castella, que 
elles o ajudariam contra el Rey D. Fernando de 
Aragão, que pretendia o Reyno porque casara com 
uma irmã de el Rey Don Henrique; tendo estes 
dois Reys sobre isto guerra dentro em Castella, dando- 
se a batalha entre Touro e Samora, foi el Rey Dom 
Affonso, que pelejava em uma parte, vencido, e o 
Príncipe Dom João seu filho, que pelejava em outra, 
vencedor, e ficou no campo com -a honra, e o pae 
salvou-se em hum logar que estava por elle, e tor- 
nado para Portugal nunca mais pode proseguir este 
intento. Estando el Rey Don Fernando huma sesta 
ouvindo musica, cantando lhe o seu musico hum Ro- 
mance, a letra do qual continha o vencimento que 
se houvera contra el Rey Dom Affonso^ e depois de 
acabado, perguntou el Rey a Fernão da Silveira : 



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^jai£_'_ 



POPUl.AR PORTUGUEZA 287 

— Que lhe parecia ? 

E podendo mais com elle a natureza de portu- 
guez, que o ódio particular que tinha a el Rey Dom 
João; respondeu : 

— Senhor, muito bem está o Romance do pay; 
mas faça-me V. A. agora a mercê que mande can- 
tar o ViVancete do filho.» * 

Como este Romance á batalha do Toro, também 
se fizeram outros â Conquista de Granada, de que 
Barbieri publicou a letra e a musica no seu impor- 
tante Cancioneiro. Como uma epigenese. sobre os 
Romances velhos trovaram os Romances novos dos 
acontecimentos contemporâneos. 

Em uns versos de Stuniga, {Canc, gener,, fl. xxx. 
Ed. 1557) fallando nas prendas próprias de um ca- 
valheiro, diz que . deve saber tocar instrumentos, e 
cantar velhos Cantares: 

Flauta, laud, vihuela, 
ai galan son muy amigos ; 
Cantares tristes antiguos 
es los que les consuela. 

Também Sá de Miranda allude a esses Cantares 
velhos, quando diz no verso : «se os velhos Solaos 
faliam verdade ...» No Cancioneiro musical do sé- 
culo XV', publicado por Barbieri, encontram-se muitos 
d'esses cantares, que completam as referencias que 
a elles fazem como muito conhecidos Gil Vicente, 
Christovam Falcão e Caminha; apontaremos a Can- 
ção : Nunca fué pena mayor, que a rainha D. Joan- 
na ffilha do rei D. Duarte) mulher de Henrique iv 
de Castella, em 1456, desejou ver glosada. Em Por. 



* Mentçria dos Diios e Sentenças, Ms. da Torre do Tombo, n.® 
1126. 



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238 HISTORIA DA POESIA 

tugal Pero Homem intercalou-a em umas coplas, 
que vem no Cancioneiro de Resende; (iii, Sj.) 
Barbieri também a encontrou intercalada nas tra- 
gi-comedias de Gil Vicente Fragoa de Afnor e Cortes 
de Júpiter; transcreve a letra da Canção feita pelo 
primeiro Duque de Alba D. Garcia Alvarez de To- 
ledo, com a musica de Juan de Urrede (maestro 
flamengo, segundo Vander Straeten.) Por aqui se 
vê como as Canções castelhanas iam invadindo a 
corte de Portugal, a ponto de já na primeira me- 
tade do século XVI dizer Jorge Ferreira, que se 
não perdoava uma cantiga portugueza. E' também 
esta unia das causas da obliteração da poesia po- 
pular portugueza no continente, ao passo que se 
conservou nos dois Archipelagos atlânticos, aonde esta 
influencia cortezanesca não chegou. A estrophe 42 do 
Crisfal, traz também uma referencia a esses Canta- 
res velhos, e principalmente castelhanos : 



Tendo parecer divino, 
pêra que melhor lhe quadre, 
cantar canto de ladino: 
Yo me yva la mi madre 
a Sancta Maria dei Pino, 



No citado Cancionero musical de los siglos xv y 
XVI, publicado por Barbieri em 1890, vem a forma 
original primitiva (n.° 380) : 

Yo me iba, la mi madre, 
A Santa Maria dei Pino ; 
Vi andar una serrana 
Bien acerca dei camino. 
Saya traia pretado 
De un verde florentino; 
Bien alia la viera andar 
Gurriando su ganado 
Y dicendo este cantar: etc. 



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POPULAR PORTUGUEZA 239 

Barbieri diz: «la musica está bien hecha, y su me- 
lodia tiene muy buen sabor popular.» (p. 195.) 

Aqui temos bem caracterisados entre os galantes 
da corte portugueza os Cantares velhos, que no sé- 
culo XV estavam em moda, e que eram propria- 
mente glosas, ou voltas sobre as antigas Serrani- 
Hias populares. Citaremos ainda como muito vulga- 
risado no século xv o romance lyrico da Bella mal 
maridada, glosado no Cancioneiro de Resende ; o 
poeta Nuno Pereira despeitado por que D. Leonor 
da Silva casara com outro, escreve : 

Donsfella mal maridada 
que se nos vae d'esta terra, 
Deus lhe dê vida penada, 
por que lhe seja lembrada 
minha pena lá na serra. 

(Canc. ger. l, 250.) 

Jorge da Silveira, também lhe escreveu como em 
ajuda : 

Por vós fizeste lembrar 
a gentil mal maridada^ 
por vós a vereis cantar, 
e vos deveis de chorar 
tal errada. 

E Garcia de Resende mandando novas da corte 
ao capitão da Mina, referindo-se a este casamento 
de D. Leonor da Silva, também allude ao velho 
cantar : 

A que sabeys que casou, 
que diz, que é mal maridada^ 
o dia que se ençarrou, 
uma grande bofetada 
a seu esposo pegou. 

ab., m, 576.) 



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240 HISTORIA DA POESIA 



Sá de Miranda escreveu umas Voltas A la Mia 
mal maridada em castelhano; e Gil Vicente cita 
muitas vezes este romance : 

Cantar-tehan por alvorada 
La bella mal maridada 
Mal goso viste de ti. 

Gil Vicente, na Tragicomedia Fragoa de Amor, 
representada em 1525, parodiava em linguagem de 
preto este cantar velho: 

Le brlla mal maruvada 
De linde que a mi vê, 
Vejo-ta triste, nojada. 
Dize tu rasão puruquê. 
A mi cuida que dormia 
Quando ma foram cassa. 
' Se acordara a mi jazia 
Eese nunca a mi lembra. 
Le bella mal maruvada 
Não sei quem cassa a mi, 
Mia marido non vale nada, 
Mi sabe rasão puruquê. 

(Obr., n, 333.) 

Barbieri estudando este thema musical, (Canç. n.** 
158) allude á parodia de Gil Vicente, para provar 
como: «La extraordinária popularidad dei tal Vil- 
lancico se extendia a Portugal.» (p. 107.) Jorge de 
Montemor, também traz no seu Cancioneiro uma 
glosa àdi Bella mal maridada, que por ventura pela 
sua posição de cantor da Capella real, trataria tam- 
bém em musica. 

Prestes, no Auto do Procurador, cita-lhe o segundo 
verso '. de las mas lindas que yo vi; (p. 113 e 448.) 
e no Auto do Desembargador : «Casado e bem ma- 
ridado.^ (p. 216.) D. Francisco Manuel de Mello, 
fez um romance á La bella mal maridada, elogio de 



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POPULAR PORTUGUEZA 24 1 

chança [ndL Avena de Tersicore, p. 71.) por ventiira 
allusivo á Condessa de Villa Nova e Figueiró, por 
quem tanto soffreu. Gregório Silvestre satirisou os 
poetas que estafaram este thema com glosas e pa- 
rodias, no fim do século xvi : 

O* hella mal maridada^ 
A que manos has venido! 
Mal casada e mal glosada^ 
De los poetas tratada 
Peor que de tu marido. . . 

(Rom, ger., Ochôa, 350) 

A enorme vulgarisação d este romance resultou do 
grande numero de Pliegos sueltos em que foi im- 
presso no fim do século xv, alguns d elles examina- 
dos por Duran. {Rom, gen,, i, p. xlviii.) 

Parece que a forma primitiva deste thema poético 
da Bella mal maridada foi a de romance, trovado 
sobre um caso local ou anedocta da vida burgueza 
dos fins do século xv, como se infere de uma nota 
a um poemeto do Cancionero de obras de burlas pro- 
vocantes a risa^ em que se lê : «La Malmaridada, 
Se dice por una sefiora llamada Peralta, de pequeíla 
edad y gentil disposicion : la cual por sus pecados, 
caso con hombre tan feble, viejo y de mala com- 
plission, que ella tiene harto la mala ventura ...» 

Este nome de Peralta teve na corte de D. João 
II um sentido malicioso, como se vê pelos apodos 
ao tratamento Per' Alteza, no Cancioneiro de Re- 
sende. A muita popularidade do Romance determi- 
nou as suas diversas transformações artísticas, pri- 
meiramente glosado, como se vê na glosa de Que- 
sada, depois parodiado ao burlesco, ou applicado ao 
divino por Francisco de Ocafía, e finalmente con- 
vertido em formas ly ricas do Villancico, general isa- 
do pelas melodias harmonisadas pelos principaes con- 



^^Zt_ 



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242 HISTORIA DA POESIA 

trapontistas hespanhoes do século xvi. Foi pelas 
glosas e pela musica que os versos do romance 
trovado por Juan de Zamora, como se infere da 
miscellanea poética de Fernando Cólon, se conser- 
varam na tradição, até cahir no desdém dos poetas 
cultos, como a glosa satírica do portuguez Gregório 
Silvestre, no fim do século xvi. O estudo da Bella 
mal maridada leva a determinar as phases da trans- 
formação da poesia popular, passando os seus the- 
mas das formas narrativas (Romances) para as lyri- 
Ccis ( Villancicos) e para as bailadas . ou represen^ 
tadas (Autos e Comedias famosas,) Assim no século 
XVI, os compositores Luiz de Narvaez, (1538) En- 
rique de Valderrábano, (.1548) inflviiram no prevale- 
cimento da forma lyrica, tomando por thema muitos 
romances populares, que encantavam os serões do 
paço e da fidalguia. No século xvii, todo o fervor 
poético de Lope de Vega e Calderon incide nesses 
mesmos themas, elaborando-os na nova estructura da 
Comedia famosa. 

Muitos dos Romances velhos do século xv, entra- 
ram no Cancioneiro do principio do século xvi e 
nas folhas volantes em gothico pela importância que 
então se ligava ás suas glosas lyricas. 

A generalisação da Imprensa suscitou a forma es- 
cripta, prevalecendo sobre a oral, e pela publicação 
de numerosos Pliegos sueltos, ou folhas volantes se 
vulgarisaram os principaes Romances velhos, que 
apparecera citados proverbialmente pelos escriptores 
do século XVI, e os que mais se radicaram na tra- 
dição portugueza continental e insulana, antes e muito 
de serem incorporados no Cancionero de Romances 
de Anvers, e na Silva de Romances. 

Transcrevemos aqui o primeiro verso de cada um 
dos principaes Romances que appareceram em pliegos 
sueltos sem data, em 4.° gothico : 



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- ^_ *_ j4_. . 



POPULAR HORTUGUEZA 243 



Muerto yace Dufandarte 
Cata Francia, Montesinos 
De Mantua sale el Marquês 
Riberas dei Duero arriba 
De Francia partió la nina 
Mala la hubistes francezes 
Don Rodrigo Rey de Espana 
La bella mal marídada 
Cativaranme los moros 
De Granada parte el nnoro 
En la salva está Amadís 
Media noche era por hilo ( Conde Claros) 
A nr.isa va el Emperador 
Amara yo una senora 
Conde AlarcoSs de (Pedro de Riano): 
Retraida está la infanta 
Buen Conde Fernan Gonzales 
Gerineldo, Gerineldo 
Ferido está Don Tristan 
O Belerma, oh Belerma 
* Passeava se el rey moro. 
Domingo era de Ramos 
Por mi mal os vi (Os Comendadores) 
Véo-vos crecida, hija 
Paseavase el buen Conde 
Asentado está Gaifeiros 
Helo, helo, por do viene 
Estava se eí Conde Dirlos 
Ya cabalga Calaynos 
Rosa fresca, rosa fresca 
Vamonos, digo mi tio (Gaifeiros) 
Ya cabalga Diego Laynez 
Paseabase el buen Conde 
Hincado esta de rodillas (Bernardo dei CarpioJ 

Este processo de vulgarisaçao acha-se patente no 
romance de Dom Duardos, de Gil Vicente, encon- 
trado na tradição oral da ilha da Madeira, e da ilha 
de S. Jorge ; antes delie apparecer nas Obras de 
Gil Vicente em 1 562, * já se achava colligido no 



* Duran descreve um pliego suelto, em 4.° u duas columuas, em 
gothico, que se intitula : «Romance sacado de la farsa de Don 



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244 HISTORIA DA POESIA 

Cancionero de Romances de 1557, tomado dos vá- 
rios pliegos sueltos em que percorria a Hespanha. 

Em 1521 citava Jorge Ferreira iia Eufrosina o 
apontado romance do Conde Claros nas indicadas cir- 
cumstancias, podendo -se affirmar o mesmo dos nume- 
rosos romances a que se referem todos os poetas cómi- 
cos quinhentistas, os bucólicos e também Camões. 
O pliego suelto ou folha volante tem uma grande 
importância para a comprehensão do vigor da poe- 
sia popular no século xv ; a data da introducção da 
Typcgraphia em varias cidades hespanholas define 
o tempo desde quando começaria esta intensa vul- 
garisação menos pelo canto e dança, que pela leitura. 
A Imprensa entrou em Barcelona em 1468, em Va- 
lência em 1474, em Saragoça em 1475, ^^^ Sevilha 
em 1476;^ os seus primeiros ensaios seriam occu- 
pados na reproducção de livros religiosos, ecclesias- 
ticos e eruditos, antes de dar publicidade em folhas 
volantes aos cadernos manuscríptos de Romances. O 
folheto mais antigo, que deu logar a trovar-se o ro- 
mance velho de Virgilios, é o que se intitula Faictz 
merveilleux de Virgile; o folheto ficou esquecido, e 
o romance vulgarisou-se transformando se em outros 
themas, como o de Gerinaldo, 

No seu admirável livro intitulado Virgilio nel mé- 
dio evo, Comparetti, depois de ter estudado o grande 
poeta romano tanto na tradição clássica das escho- 



Duardos^ que comienza En el mes era de abril^ nuevamente glo- 
sado por António Lopes, estudante portuguez, vezino de Tranco- 
so, estando en la Universidade de Salamanca; y va un Testamento 
de amores ... y en cabo de cada copla estan los renglones dei 
romance que se glosa.» 

Em um outro pliego suelto de 15 72, impresso em Valladoiid, 
que tem por titulo: Siguense ocho Romances viejos — El ochavo 
que dize : En el mez era de Abril. 

2 Bernard, De V origine de V Itnprimerie^ t U, p. 451. 



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L - 



POPULAR PORTUGUEZA 245 

las dos rethoricos e grammaticos da decadência como 
nas tradições populares, conclue acerca do ronnance 
hespanhol Manda el rei prender Virgilios : 

«L'avventura colla figlia dei Soldano afíaio diversa neirin- 
dole sua da tutte altre^^ nelle quali Virgílio figura alie prese 
colle astuzie femminili e in guerra col bel sesso, è in questo 
libretto (Les Fcáct^ merveilleux de Virgille) un' aggiunta 
presa certamente, come le ajtre aggiunte d'altre genere, da 
altri racconti popolarí e forse da qualche romanzaspagnuola. 
Certo, benché da lontano, non ad altro che a questo dei 
racconti virgiliani puo ravvicinarsi il Romance de Virgílio^ 
che troviamo nel Romancero dei i55o. In esso il Virgílio 
delia leggenda è appena ríconnoscibile; il mago potente e 
prepotente s'è dileguato, non pêro per cedere il posto ai 
profeta, airenciclope<lico e molto meno ai poeta. L'unica 
caratteristíca che rammenti il Virgílio leggendario in questa 
rocnanza è quella dell'innamorato. Virgílio ín essa è un buon 
hidalgo che, puníto per una colpa amorosa, sopporta la pena 
con santa pazienza, ed in premio delia sua rassegnazione 
ottienne Toggetto dei suoi desiderí, da cui è riamato, e 
con cui si m.arita ín grazía dei re e dí monsígnore anci- 
vescovo.» (Op. cit.^ t II, p. iSy.) 

Em nota accrescenta Domenico Comparetti : 

«II sig. Braga, (Historia'da Poesia popular portugue^^a^ 
Porto, 1867, p. 176, sgg.) trova rapporti fra questa romanza 
spagnola dí Virgílio, e la romanza portoghese di Reginaldo. 
(Almeida Garrett, Romanceiro^ t. n, p. i63, sgg.) secondo 
Ia quale questo paggio avendo seddoto la figlia dei re, viene 
condannato a morte; il re pêro lo ode mtntre canta nella 
torre, gli fa grazía, e lo maríta colla própria figlia.» 

Por aqui se vê que a grande auctoridade de Com- 
paretti acceita essa versão portugueza como uma das 
formas tradicionaes do romance de Virgilio. A ori- 
gem do romance hespanhol, segundo Comparetti, é 
derivada dos elementos tradicionaes do folheto po- 
pular do primeiro século da imprensa Faictz nter- 
veilletix de Virgille; por uma observação de Roth, 
que julga este folheto popular não anterior a 1435, 

Poes. popal.— Vol. 11 16 



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246 HISTOKIA DA POESIA 

O qual allude á dominação hespanhola em Nápoles, 
(Vid- Comparetti, ib., p. 1 56) podemos concluir : 

i.° Que o romance de Virgílio, publicado pela pri- 
meira vez em Anvers em 1 5 50, nasceu de uma ori- 
gem erudita, da mesma corrente que punha em verso 
a historia romana e a Biblia; e portanto de uma 
tradição então corrente em Nápoles nos opúsculos 
populares. 

2.*" Que pela occasião da expedição a Nápoles de 
D. Aííonso V, filho do infante de Antequera, houve 
um desenvolvimento de poesia, da parte dos cavallei- 
ros que o acompanharam, no lyrismo. representado 
pelo Cancionero de Stuniga; e da parte dos solda- 
dos, nos romances populares e suas imitações, repre- 
sentado na collecção de Martin Nucio. A occupação 
hespanhola fez reviver as lendas do patrono do rei- 
no, entrando nesta corrente poética as que estavam 
mais no génio hespanhol. 

Por ultimo, eis as relações da lenda dos Faictz 
merveilleux de Virgille com o romance hespanhol, 
achadas por Comparetti : 

«Lors prit Virgille sa femme en haine ei autrefois avoít 
ouy parler dune damoiselle que estoit filie du Souldan, et 
la tenoit on la plus helle du monde. Si físt tan Virgille 
quelle consentir à sa volomè, et si ne lavoit veu que de 
nuyt. . . Et la iint Virgille longtemps en son vergier. — La 
demoiselle fist amsi coroe son pere luy avoit cómmandé, et 
Virgiie fus pris, lyé et gardé...» 

No romance hespanhol Virgilio quando recebe a 
sua dama: 

Tomárala por la mano 
Y Ilévassel-a á un vergel. 

Entre 1435 e 1550 é que se propagou tanto em 
Portugal como em Hespanha a versão do romance 
de Virgilio, já conhecido entre nós como esse typo 



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POPULAR PORTUGUEZA 247 

amoroso das lendas da Edade média, como se pôde 
vêr pela aventura de Lanuce, nos Autos de Prestes : 

Ó deiicio ião nefando, 
tão molesto; 
abominável doesto, 
que pode estar affrontando 
mais H Virgílio ti' um cesto.' 

Tudo isto nos prova a origem erudita do roman- 
ce, que, pela sua trasmissão entre o povo, veiu a 
confundir-se com o romance do pagem Reginaldo, 
preso por amar a filha do rei. 

Em 1491 começou Hernan dei Castillo o vasto 
Cancionero generale, publicado em Valência de 
Aragão em 1 5 1 1 ; ahi, obedecendo á éorrente do 
gosto, abriu uma secção para os Romances glosa- 
dos : «Comiençan los Romances con glosas y sin 
ellas. Y este primero es dei Conde Claros, con 
glosa de Francisco de Leon.» Traz d este romance 
apenas vinte e seis versos, e somente em 1551 
apparece completo na collecção de Sevilla; é um 
dos mais vulgarisados e vivos na tradição portugue- 
za, referido pelos poetas do principio do século xvi 
por versões não castelhanas, mas tomadas de ca- 
dernos manuscriptos. Estevan de Nagera, no Livro 
de vários Romances, de Saragoça de 15 50, justifi- 
cando os erros de seu texto, diz no prologo : «são 
devidos ds copias d' onde os extrahi, copias quasi 
sempre alteradas, e á fraqueza da memoria das 
pessoas que nol-os dictavam, e que se não podiam 
recordar perfeitamente. > 

No Cancionero general de Hernan dei Castillo, de 
151 1, entraram trinta e sete Romances de poetas 
cultos, do reinado de Fernando e Isabel ; esses Ro- 
mances são principalmente lyricos ou subjectivos, 
ou também Romances velhos glosados lyricamente, 



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248 HISTORIA DA POESIA 



OU servindo de typo a uma nova elaboração : assina 
o romance de Diego de S. Pedro, Ya me estaba 
en pensamiento, é moldado sobre o romance velho 
Yo me esiaba en Barbadillo, * e o que começa Rente- 
go de ti, amor, é transformação do Reniego de ti 
Mafoma; o undécimo, Estdvase mi cuidado, arre- 
meda o Romance velho Estábase el rey Ramiro; 
o vigésimo quinto, Ya desmaian mis servieios, foi 
imitado do romance velho Ya desmaian los Fran- 
cezes. Outros romances velhos entraram no Cancio- 
neiro litterario por causa das glosas, taes como: 
Pésame de vos el Conde, glosado por Francisco 
de Leon; Yo me era mora Morayma, glosado por 



i E' um verso do velho romance que começa, A CaUí trava la 
vieja, do qual Gil Vicente cita do s versos que subAnhamos : 
— Yo me estaba en Barbadillo 
En esa mi heredad; 
Mal me quieren en Castilla 
Los que me hàbian de guardar, 
Los hijos de Dona SanJia 
Mal amenazado me han, 
Que me cortarian las baldas 

Por vergonzoso lugar 

(Rotn, gen , de Duran, i, n. 665.) 

Pela imitação subjectiva de Diego de San Pedro, vê-se que a 
frequência e sympathia com que se cantavam certos romances 
velhos, é que motivava a nova elaboração de outros romances, 
tomando mesmo provervialmente alguns versos, como : Yo me ei- 
taba alia em Coimbra, (Duran, Rom. gen.^ n. 966) que foi paro- 
diado por Gil Vicente na Farça dos Almocreves: 

Yo me estaba em Coimbra^ 
Cidad» bem assentada ; 
Pelos campos de Mondego 
Não vi palha nem cevada. 
Quando aquillo vi mesquinho 

Entendi que era cilada 

(Obr., in, p. 202.) 



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POPULAR PORTUGUtíZA 249 

Pinar; e Por maio, era por mato, glosado por 
Nicolas Nunez; Rosa fresca, rosa fresca, sob o 
molde de outro velho, glosado por Quiroz; Duran- 
darte, Durandarte, glosado por Soria; outros, final- 
mente, são tomados em fragmentos e completados 
por poetas cultos, como. Triste estaba et caballero, 
acabado por Alonso de Cardena, e segunda vez 
accrescentado. Depois d'este interesse dos poetas 
cultos dando expressão a seus sentimentos pela imi- 
tação e glosa dos Romances velhos, também os 
compositores de musica por vezes salvaram a. letra 
d' esses monumentos populares compondo melodias 
sobre ella, principalmente no século xvi. Em um 
pliego suelto de Torres de Naharro indica se a mu- 
sica das coplas : Porque muy gracioso : la que re- 
cuenta las tachas que tiene una dama, y va en 
manera de la Hapia há ... » E' essa toada do Apiá^ 
a que se referem Gil Vicente e Jorge Ferreira. 

Existia um certo bem estar na vida burgueza, 
que se manifestava pela intensidade da poesia tra- 
dicional, que se desenvolvia pelo canto e pela dan- 
sa ; Garcia de Resende, na Miscellanea, esboça esse 
quadro social : 

Vimos grandes judarias, 
judeus, guinolas e touras, 
também mouros, mourarias, 
seus bailes, galantarias 
de muito formosas mouras . . . 

Vimos costume bem cham, 
nos Reys ter esta maneira. 
Corpo de Deus, San Joam, 
aver canas, procissam, 
a os domingos carreira, 
cavalgar pela cidade ... 



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25o HISTORIA DA POESIA 

Eram os Crisautos de outro tempo ; Gil Vicente, 
que assistiu a esta alegria popular, queixava-se na 
tragicomedia do Triuntpho de Inverno, representada 
em 1530, de uma flagrante depressão que se dera 
nos costumes : 

Em Portugal vi eu já 
Em cada casa pancleiro^ 
E gaita em cada palheiro, 
E de vinte annos a cà 
Não vi gaita, nem gaitero, 
A cacUi porta um terreiro. 
Cada aldeia dez folias. 
Cada casa atabaqueiro; 
E agora Jeremias 
He nosso tamborileiro. 

Gil Vicente determina com nitidez a época ena 
que se manifestou esta crise: «âíf vinte ânuos a cd^ 
isto é, por 1510, quando o rei D, Manoel tinha 
annuUado as garantias municipaes e deixado de con- 
vocar cortes, e se preoccupava com os sonhos da 
Monarchia universal, começando pela uiiificação ibé- 
rica sob a sua coroa, e transformando o espirito da 
aventura maritima, do génio luso, na chatinagem 
mercantil da especiaria. Alguns escriptores que as- 
sistiam a esta decadência do espírito nacional, alen- 
tavam-se com a sympathia das tradições populares, 
como Gil Vicente, Jorge Ferreira, Sá de Miranda, 
Camões, dando lhes por vezes forma artistica. 

A expansão do povo portuguez nos grandes des- 
cobrimentos maritimos, do século xv, apoiou-se em 
dois focos de occupação colonial, os Archipelagos 
da Madeira e dos Açores, desde 1419 e 1444. Os 
Capitães donatários trataram de attraír para as ilhas 
atlânticas familias proletárias, umas do Algarve, ou- 



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lOPULAR POKTUGUEZA 25 1 

tras da Bdra Alta e Minho, que alli confinadas se 
desenvolverani etn uma larga população conservada 
$eai mestiçageni, E' um importante problema an* 
thropohgúo para o estudo da raça portugueza ; mas 
sob o ponto de vista ethnologico^ dá-nos um incom- 
parável documento sobre o estado das tradições 
poéticas peninsulares do século xy, que se conser- 
vou puro e inconscientemente, na espontaneidade 
dos costumes e no isolamento insular. Pode conside- 
rar-se como uma maravilhosa experiência. A explora- 
ção d*esses dois focos ethnicos assombra pela sua 
riqueza tradicional, que irradia até ao Brasil pela 
emigração insulana. Pelo exame deste documento 
excepcional reconstrue-se o estado da Poesia popu- 
lar no século xv, que apenas se entrevia através 
das imitações artisticas e formas escriptas dos plie- 
gos sueltos. No meio de todas as crises, que ataca- 
ram a autonomia nacional e que apagaram quasi a 
consciência d'ella, sempre a Tradição se manteve 
pura n*esses dois Archipelagos ; foi por isso que nas 
ilhas se resistiu contra a unificação ibérica de Phi- 
lippe II, e séculos depois ahi encontrou apoio c ini- 
cio a lucta pelo regimen da liberdade politica. 

§ 2.^ As persistências ethnicas 

As ilhas, em relação ao continente, conservam com 
mais intensidade as tradições e costumes do passa- 
do; observa-se esse phenomeno na revivescência 
das tradições poéticas do Cyclo da Tavola Redonda 
e do Santo Graal, apagadas quasi na Bretanha con- 
tinental e vigorosas na Bretanha insular. Os archipe- 
lagos da Madeira e dos Açores, descobertos e po- 
voados no primeiro e segundo quartel do século xv,. 
são para o observador ethnographo focos de conser- 
vação ou persistência tradicional, que prestam docu- 



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25-2 HISTORIA DA POESIA 

mentos vivos para a reconstrução do estado da poe- 
sia popular no período mais florescente da sua ela- 
boração. Possuímos hoje materiaes colligidos da 
transmissão oral, que se prestam a luminosas de- . 
ducções, nos Cantos populares do Archipelago açoria- 
no, que publicámos em 1869, ^ "^ Romanceiro do 
Archipelago da Madeira, impresso no Futichal em 
1880 pelo Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo. Pelo 
seu estudo comparativo, o foco açoriano apresenta 
por vezes caracteres mais archaicos, devidos talvez 
a um maior isolamento da população, por que a ilha 
da Madeira foi um centro activo de industria, e por 
muito tempo um reflexo da corte, como se vê pelos 
numerosos poetas palacianos, que figuram no Can- 
cioneiro de Resende. Alem d'isso, o bispado do Fun- 
chal governava sobre o estabelecimento do catholi- 
cismo nos descobrimentos que se iam sucçedendo. 
Muitos, cantares inspirados pelos acontecimentos coe- 
vos, obliteraram -se no continente portuguez, e ainda 
se repetem na Madeira e Açores, reflectindo-se mais 
longe, no Brasil, por efifeito da expansão das fami- 
fías insulanas emigrantes. Como elemento reconstru- 
ctivo esses materiaes colligidos são de um valor ma- 
nifesto. 



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A) FOCO TRADICIONAL DO ARCHIPBLAGO 
DA MADEIBA 



Quando foi povoada a ilha da Madeira ainda não 
se achava incorporado o terceiro estado, no qual o 
rei D. Duarte, no seu Leal Conselheiro, incluia como 
classes os Lavradores, os Officiaes e os Misteres ; 
na linguagem vulgar, estas classes denominavam -se 
os Villôes, os Ovençaes e os Mesteiraes, Eram estes 
propriamente os elementos que na sociedade mosa- 
rabe tinham o nome de Mulladies ; esta designação 
conservou se nos cantos populares na forma de 
McUato, Garrett, encontrando esta designação no ro- 
mance da Infeitiçada, Iigou-!he o seu sentido social : 
^Malaio era o homem livre, que descia á condição 
quasi de servo ou villào.» (Rom., ii, 33,^ E em nota 
accrescenta: «O que a este respeito fica apresen- 
tado — é opinião do sr. Alexandre Herculano. Santa 
Rosa de Viterbo, no glossário (Elucidário) lhe attri- 
bue a mesma significação.» (ib., 293.) E' com este 
sentido social que se encontra no romance Estoria 
do Boi bragado, em que um fidalgo faz uma aposta 
sobre a fidelidade do seu feitor: 

• Uma quinta elle linha, 
Sua coutada baldia ; 



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254 HISTORIA DA POESIA 



Dos creados que lá eram 
A um mais que a todos queria, 
Tão fiel com ser malato^ 
Que nem zombando mentia. 

A aposta é com um Villão, ou pequeno proprie- 
tário rural : 

Um villão de por'li perto 
Que abastado vivia, 
Só por abastado ser 
f^o senhor o accolhia . . 

Este malato de gado. . . 
EUe nunca mentiria. 
Aposto a minha quinta 
Mail a coutadia baldia, 
Que meu malato fiel 
A mim nam me enganaria. 

O villão inventa um estratagema para fazer cahir 
em mentira o malato, mandando sua mulher sedu- 
zil-o para que matasse o Boi bragado confiado á sua 
guarda : 

O malato da quinta 

Tem um boi a seu cuidado, 

I.o melhor boi da manada. 

Boi que é da cór de bragado. . . 

Por ti o malato seja 

A modo bem conversado, 

Que morto lo boi te dê 

Los chavelhos do bragado. 



AíalatOy quando la viu 
Olhava embasbacado, 
E)la de lo vêr gostava 
Por ser bem posto malato, 

«Venho pedir-te um favor, 
Meu malato estimado . . 
Malatinho^ eu te peço 
Los chavelhos do bragado. . . 
Malato dos meus peccados, 
Se queres ser meu amado, 



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i 



P0I»ULAH POKTUGUEZA 255 

Dá-me tu lo que te eu peço, 
Lo que peças terás dado.» 
Não passava uma hora 
Mono foi o boi bragado. 
«Lo malato que não mente 
Agora está apanhado; etc. 

(Rom. da Madeira^ p. 273.) 

No resto da historia, em que o feitor confessa ao 
seu amo, que lhe pergunta pelo boi bragado, que 
o matara pela tentação dos encantos de uma boa 
moça, a designação de fnalato repete-se sempre com 
o mesmo sentido social, e nunca com a significação 
de gafo ou doente. Esta historia apparece na tradi- 
ção oral de Coimbra, em prosa com o nome de 
Boi Rabil, e no Algarve com o de Boi C ardil, * 

O nome de Villcio conservou também alli o sen- 
tido social; sobre este ponto escreve o Dr. Álvaro 
Rodrigues de. Azevedo, explicando-o pelos costumes 
da ilha da Madeira, onde residira muitos annos: «ò 
viver e costumes medievaes aqui implantaram, e já 
quando no continente decahiam, cá vigoravam e com 
tal efficacia acclimaram, que, ainda agora, a de- 
speito de tantas innovações, em muito perduram, es- 
pecialmente na agricultura. Nestas ilhas persistem 
de nome e facto o senhorio, dono da terra, e o 
villão, q.ue, de colonato a meias, a explora pelo 
pessoal trabalho seu e de sua familia, como casei- 
ro ou meeiro, isto é, com ou sem residência, ao 
modo de colono medieval adscripto á terra ou livre, 



* ^0% Cantos tradicionaes do Povo por tuguez^ n." 58. No voluire 
n, pag. 208, aponcam-se as suas formas mais antigas, nas Gesta 
Romanorutn^QZ.^. 11 1, ainda com o sentido mythico ; em Strapa- 
rolle, Notte iii. Apparece na tradição oral italiana, nos Contos rí- 
dtíanosy n.* vili, de Laura Gonzenbach, e nos Contos de Fomiglia- 
no^ de Vittorio Imbriani. A forma poética da Madeira revela-nos 
uma relaboração devida á facilidade da versificação popular. 



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256 HISTORIA DA POESIA 

no terreno senhorial que cultiva. E, em tal ambien- 
te, a poesia narrativa da Edade média, engeitada 
do cultivo palaciano europeu, neste Arçhipielago 
aposentou, vigente e dominadora, com o poderio 
quasi suzerano dos seus capitães donatários e os 
direitos senhoriaes da fidalguia local, que assegura- 
dos pelo interstício do mar e delongada navegação, 
zombaram do poder real e dos foros municipaes.» * 
Este typo do Villào, independente pelo trabalho da 
terra, que o torna semi-proprietario pelo senhorio 
das bemfeitorias, veiu a desapparecer no continente, 
onde o anexim : Como villão em casa de seu so^ro, 
ainda conserva o característico da sua individualida- 
de. Q«.»ando Gil Vicente deu no Auto forma dramá- 
tica á Canção bailada, apropriou-se deste typo có- 
mico do Villão, para expressar por elle os seus 
sarcasmos, e a critica do meio social. E esse typo 
accentuado da sociedade medieval, que apparece 
nos velhos Fabliaux e nas Soties, antes de se tornar 
uma figura cómica artística, foi também idealísado 
nos costumes populares, nas suas representações das 
Mouriscadas. Na ilha de San Miguel, o regimen da 
propriedade vincular ou dos morgados tornava o 
trabalhador da terra um verdadeiro pária ; ahi o 
typo do Villão é uma entidade, que symbolisa uma 
independência primitiva. Sobre este typo escrevia- 
nos o general Henrique das Neves, que estacionou 
nos Açores muitos annos : «Nas Mouriscas, em San 
Miguel, ha sempre um numero reservado ao Villão, 
Dá-se este nome a um sujeito que se appresenta de 
mascara, embora vestido á maneira aldeã antiga; 
vem ao tablado acompanhado por um ou dois ho- 
mens também do povo, que vêm para dizer e su- 

* Romancáro do Archipelago da Madeira^ p. ix. 



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POPULAR PORTUGUEZA ^b'J 

% 

stentar o dialogo sempre em verso com o Villão, 
provocando-o com perguntas a dizer o que pensa 
acerca do povo ou das cousas mais salientes occor- 
ridas nas freguezias de toda a ilha. A resposta 
também em verso, em regra é satirica. As risadas 
estalam no ár e ás vezes também a sua . . . cacetada. 
A cidade com os seus morgados, grandes proprie- 
tários, funccionarios públicos é a mais zargunchada 
pelos conceitos cáusticos do Villão, 

«O nome de Villão, fal-o o povo extensivo á pró- 
pria peça em si : = Na festa da freguezia . . . este 
anno não ha Villão. =^ O typo de Villão, perfeita- 
mente nacional está segundo o eterno modelo con- 
servado nos Fabliaux, rude, sensato, cortando as mais 
diíficeis situações com um bom ditaoo ou anexim. 
E' ou não é este o Villão que ainda em S. Miguel 
nos apparece nas representações ao àr livre, servindo 
á desforra do povo opprimido com os seus commen- 
tarios zombeteiros f — O Villão de S. Miguel vem 
já de Gil Vicente ? ou por outra, é ainda hoje o 
mesmo da tradição franceza seguida por Gil Vicen- 
te ?> * A realidade social do Villão conservou-se na 
ilha da Madeira, tal como a do Villã^o medieval; 
na ilha de S. Miguel ficou apenas a tradição consue- 
tudinária figurada na representação popular ; Gil Vi- 
cente deu forma artistica a este elemento, que se 
apagara na vida continental. 

Pelos elementos da população é que melhor se 
comprehende a elaboração da poesia tradicional ; no 
seu prologo ao Romanceiro do Archipelago da Ma- 
deira observa o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo : 
€ quando foram descobertas as ilhas de Porto Santo 
e da Madeira, no primeiro quartel do século xv. 



* Carta de 29 de maio de 1902, antes do Centenário Vicentino 



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258 HISTORIA DA POESIA 

desde então até mais do meado do secnlo xvi, aqui 
affluiram muitos povoadores, nobres, mercadores e 
plebeus, nacionaes em maior numero, mas não pou- 
cas estraageiros também, hespanhóes, italiaiios, fis* 
mengos, inglezes, francezes e alie mães, que com as 
ideias e costumes, ainda medievaes, de cada paiz, 
para estas ilhas transportaram á sua antiga poesia ; 
muitos mouros cativados na fronteira costa marro- 
quina, e para aqui trazidos, aqui diffundiram seus Con- 
tos e Lengas lengas ( Linguilingui, cantilena árabe 
ao som da qual dansam) ; e por ultimo, o domínio 
philippino, além do presidio de uns quatrocentos sol- 
dados castelhanos, que n*este Archipelago poz, deu 
azo a que novos Íncolas peninsulares para cá emi- 
grassem, e de força uns e outros comsigo importa- 
ram d'aquelles velhos romances, que tanto abundam 
na sua pátria. Este período foi o do progresso e 
prosperidade madeirenses; então a ilha da Madeira 
pela industria saccharina e suas madeiras de construc- 
ção, tornou se riquíssima : estes dois ramos de com- 
mercio e a situação geographica elevaram na a em- 
pório da navegação nacional e estrangeira ', e porque 
era a primeira e principal das colónias portuguezas, 
constituída foi em metrópole diocesana de todo o 
nosso recém descoberto ultramar, desde o Brasil até 
á Ásia, o que tudo poderosamente concorreu a attra- 
hir a esta ilha novos povoadores, e com elles, no- 
vos exemplares da Poesia narrativa da Edade média. 
De todos estes elementos, núcleo da população ma- 
deirense, se deduz a proveniência, variedade e ri- 
queza da poesia narrativa tradicional n este Archipe- 
lago. . .» (Ib., p. VIII.) 

Seguindo estes elementos da população definem-se 
nitidamente esses veios poéticos. Os fidalgos, filhos 
dos Capitães donatários, eram extremamente culto- 
res da poesia palaciana, e pelos seus nomes civis 



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POPULAR PORTUGUEZA iSg 

se nota o fervor com que se interessavam pelos he- 
roes do Cyclo da Tavola Redonda. De Tristão Tei- 
xeira, um dos descobridores da Ilha da Madeira, diz 
o auctor da Historia insulana: «era chamado com- 
mumente o Tristão, em honra da sua singular ca- 
vâllaria e nobreza.» (Op. cit., p. 71.) Seu filho, ca- 
pitão do Machico, Tristão Teixeira das Dafnas, d'eUe 
escreve Fructuoso, nas Saudades da Terra i «Cha- 
mou -se das Damas, por que foi muko cortczão, 
grande dizidor, e fazia muitos motes ás damaSy c 
era muito eloquente no fallar. » Figura coaio um dos 
poetas da corte de D. Affonso v, no Cancioneiro 
geral. Um seu filho, Lançarote Teixeira de Gaula, 
também versejava nos serões do paço. O segundo 
Capitão donatário da Ilha, João Gonçalves da Ca- 
mará, tem versos no Cancioneiro de Resende ; seu 
quarto filho, Manuel de Noronha, improvisava nos 
serões do paço ; e suas trez filhas casaram com trez 
poetas palacianos, Duarte de Brito, Ruy de Sou«a e 
Ruy Gomes da Gram. Um dos mais festejados poetas 
do Cancioneiro geral foi João Gomes da Ilha, que 
teve o coçnome de Trovador ; e Pedro Corrêa, que 
comprou a capitania da Madeira, era casado com 
Yseu (Yseult) Perestrello, também figura na collecção 
de Resende. Apontamos estes factos, para se reco- 
nhecer como no Archipelago da Madeira se espa- 
lharam as tradições, se não os poemas, da Távola 
Redonda, com mais intensidade do que mesmo no 
continente portuguez. Ahi nos apparece o romance 
da infidelidade da rainha Ginebra, com o titulo de 
Dona Outiva e Dona Eurives, vestigios de uma 
forma Gwenivar (de Gwenn branco, e eure mulher). 
A tradição de Tristão também ahi se syncretisa com 
a historia verídica de D. Pedro Menino, e em ge- 
ral os romances do cyclo carlingio convertem-se em 
arthurianos. Vivia-se n'esse isolamento insular em 



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26o HISTORIA DA FOESIA 

plena Edade média. «A scena mais curiosa e dra- 
mática dos costumes da aristocracia insulana é a 
narração dos violentos amores de António Gonçal- 
ves da Camará por D. Isabel de Abreu. — O assassi- 
nato de D. Aldonça Delgada por seu marido Bar- 
tholon eu Perestrello, para tornar a casar com D. So- 
landa, faz lembrar talvez a origem histórica da tra- 
dição da Silvana, que exige a morte da esposa do 
Conde Alarcos para casar com elle. O nome de Del- 
gadina, de um romance asturiano, fortifica algum tanto 
esta hypothese.» * Ahi nesse foco se conservaram 
os romances de Santa Isabel, de Santo António e 
de Santa Iria, e lá se repercutiram os lamentos pela 
morte do principe D. Affonso em 1492, nos dois 
romances Triste noiva e Md nova; e ainda um 
ecco quasi apagado da Batalha de Lepanto em 1572, 
no romance Ndo que vae d guerra, 

A influencia hespanhola fez-se sentir em Portugal 
muito antes do domínio dos Philippes ; manifestou-se 
na tendência ibérica que determinou o casamento 
do filho de D. João 11, o principe D. Affonso com 
a princeza filha de Fernando e feabel. Bastava na 
corte preponderarem fidalgos castelhanos que acom- 
panhavam as rainhas para Portugal, para as novas 
modas e gosto artistico se reflectir n'esse centro 
aristocrático da Madeira. Ahi chegavam também os 
pliegos sueltos mais lidos e impressionantes, vulga- 
risando-se entre o povo e adaptando-se ao seu di- 
tado oral; é um problema interessantíssimo obser- 
var a relação que existe entre um romance popular 
da tradição insulana com um outro semelhante no 
thema que recebeu a forma escripta nas coUecções 
do meado do século xvi. Por este meio se deter- 



i QuestÕ^.s de lÀiieratura e Arte portugtuza^ pag. 292. 



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POPULAR POKTUGUIlZA 26 1 

mina como da forma jogralesca nasceu a forma po- 
pular, oral^ que voltou á forma escripta no typo do 
chamado Romance velho, semi litterario. Nos seus 
Romanzen Studien, D. Carolina Michaèlis fez um pri- 
moroso processo critico comparativo de alguns ro- 
mances do Cid ; * de le resulta reconhecer-se que 
o romance de Rucido (Ruy Cid), da ilha da Madeira, 
é por vezes mais completo do que aquelle que fi- 
gura na collecção do Cuncionero de Romances (fl. 
179), que começa: Helo, helo por do viéne (Rom. 
gen., n.° 859). O velho romance do Ci^ apresen- 
ta alguns trechos em Gil Vicente, e muitos versos 
empregador como proverbiaes em Camões e ou- 
tros poetas quinhentistas. Transcrevemos a precio- 
sissioKL versão da Madeira do romance Ruy Cid: 

Rugido 

Pol-a veiga de Granada ^ 
El-rei mouro passeava, 
De sua lança na mão 
Com que pássaros matava ; 



1 Na ZHtschrift fur rominische Philoiogiey band XVI, 1891. Se- 
parata de 51 paiç. 

2 Em um romance Lo Moro^ do distrícto de Miranda, Traz-os- 
Montes, vem este começo : 

Passeaba-se 1' rei moro 
Pú les rúes de Granada, 
CCí r resplandor de 1' sôl 
Le relhumbrava la espada. 

Passeie-se '1 rei 
Nú puode dormir. 
Pensandc-ne 1' be 
Qae r ha de benir. 

Passei» se 1' rei 
NÍ3 puode parar, 
Pensando no bie 
Que r ha de tchegar. 

Pões. popuI. — Vol. II 17 



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202 HISTORIA Da POESIA 



Nam lhe dava poFos pés, 
Nem pol'as azas lhe dava. 
Dava-lhe certo no bico, 
Que logo los derreava. 
E n'isto lhe chegam novas 
Que Alfama lhe era tomada : 

— Ai, Alfama, minha Alfama,* 
Que me estavas mal guardada ! 
Ainda hontem dos moiros, 
Hoje dos christnos ganhada 1 



Passeie -se 1' moro 
Fuora de Ihagar, 
Fuora los moros 
De r arrabal. 
(Ap. Moraes Ferreira, Dialecto mirandez^ p 28; 22.) 

^ No Auto da Lusitânia (Obr., iii, 270) Gil Vicente intercalou 
um fragmento d'este Romance do Cid : 

Guai Valença I Guai Valença ! 
De ío^o sejas queimada ! 
Primeiro foste de Moiros 
Que de C hristiaiios tomada. 
Alfaleme na cabeça, 
£n la mnno uma azagaia ; 
Guai Valença 1 Guai Valença ! 
Como estás bem assentada ; 
Antes que sejam três dias 
De moiros serás cercada. 

Em todas as versões d'este Romance falta o começo, que só se 
encontra na lição do Candonero de Romances^ no nlíelo, helo^ por- 
do vime, etc, e na versão oral da Madeira. No Romance El Rty 
Moro^ dá Catalunha, o começo é como o de Gil Vicente : 

Oh Valência, oh Valência, 
Oh Valência, Valenciana, 
Un tiempo íueste de moros 
. Y aora eres Cristiana ; 
No p assaiá irticho tiempo 
De moros serás tomada, 
Que el rei de los cristianos 
Yo le cortaré la barba, etc. 

Fontanals. Romanc, catalan^ n.® 238» 



^ 



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POPULAR PORTUOUEZA 203 



Ai, Alfama, minha Alfama, 

A fogo sejas queimada, 

Se amanhã Io sol raiar 

Sem de mouros ser cercada I — 

E chama por seus moirícos, 
Que lhe andavam na la\Tada; 
Nam lhe vinham um a um ; 
Quatro, cinco de manada : 

- Quem é lo aventuroso 

Que me me ganha esta jornada ? - 

Respondeu-lhe um moiro velho 
De cem annos, menos nada : 

«Esjta batalhn, bem sei. 
Só por vós será ganhada ; 
E Io perro de Rucido 
Lo tereis pola barbada. 
La sua Ximena Gomes 
Será vossa cativada ; 
Sua filha Dona Urraca 
Será vossa mancebada ; 
E la outra mais chiquita 
PVa vós servir descalçada.» 

Rucido, que estava ouvindo 
Da torre, sua morada, 
Logo chamou sua filha 
Dona Urraca chamada : 

— Veste, filha, teus brocados * 



** A versSo da ilha de San Jorge (Açores) começa por esta sitaaçSo : 

Vesti-vos vós, píiinha filha, 
Vesti vos de ouro e prata: 
Detendo-me aqaelle moiro 
De palavra em palavra. 
As palavras sejam poucas, 
wSejam bem arrematadas ; 



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264 Historia da poesia 



De ir a festa mais honrada; 
De chapins de ouro, não prata, 
Vem tu, filha, bem calçada; 
£ já, já, pÕe-te á janella 
Ao caminho defrontada. 
Em quanto vou cava gar 
E cingir a minha espada. 
Detem-me tu lo rei moiro 
Que hade passar na estrada, 
Vae tu palavra em palavra, 
Cada qual bem demorada ; 
Cada uma d*ellas todas 
Que seja de amor tocada. 
« — Como lhe hei de fallar d*amor 
Se de amor eu nam sei nada ? 
— Falia- lhe d*esta maneira, 
Uma falia bem fallada : 

Bem apparecido, rei moiro, 
N'esta hora abençoada ! 
Ha sete annos, já sete annos. 
Que de vós sou namor?da ; 
Já vae correndo nos oito. 
Quero ir por vós furtada. — 



Essas poucas que lhe deres 
Sejam de amor tocadas, etc. 

(Cantos do Arch. açoriano^ n.® 47) 

A mesma situação é a do Romance Doni Sth/a, colligido por Estacio 
da Veiga, no Ro^nanceiro do Algarve^ p. 1 1 : 

Chega-te cá, minha filha. 
Linda filha da minha alma, 
Vae» te por esses sobrados, 
Sobe além aquella escada, 
Verás um lindo moirinho 
Quando estejas debruçada; 
Ai, detém n'^, alli, detem-n*o 
Com tuas doces palavras . . . 

O nome de Dom Silva parece ser derivação popular dos sons de um 
nome confundindo Dias e Cid^ como o povo da Madeira fez de i?t(y 
Dias o Cid^ Ruicido ! Outras deformações de nomes se dlo com o no- 
me do cavallo Babieca; na versão da Madeira Babeco, e na de San Jor- 
ge, Gabellú. 



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POPULAR PORTUGUEZA 205 



Vestida de seus brocados. 
De chapins de coiro calçada, 
Está Urraca de janella 
Ao caminho defrontada; 
E dr.itando olhar ao longe 
Vê lo rei que vem na estrada. 
E lo moiro que la viu 
La saudou bem cortejada : 

— «Allah vos guarde, senhora, 
N'esta hora afortunada. 

EUa então d'está maneira 
Paliou falia bem fallada ; 
E de palavra em palavra 
Cada qual bem demorada ; 
Cada uma d'éllas todas 
Era de amor tocada : 

« — Bem apparecido, rei moro, 
N'esta hora abençoada; 
Ha sete annos, já sete annos. 
Que de vós sou namorada ; 
Já vae correndo nos oito, 
Quero-me ir por vós furtada. 
^— «Senhora, n'isso que quereis 
Andaes bem aconselhada ; 
De tantas mulheres que eu tenho 
Só vós sois de mim amada ; 
Sereis rainha dos moiros, 
Em grandes festas coroada ; 
De duzentos mil vassalos 
Tereis vossa mão beijada. 

EUa então lhe diz com pena, 
Já talvez enan: orada : 

« — I vos d'aqui, meu rei moiro, 
Nam me cuideis refalsada : 
Assomar vi cavalleiros 
Que lá vêm de mão armada 
Com meu pae lo Dom Rucido, 
A correr á desfilada. 

— «Nam me temo de Rucido, 
Nem de sua grande armada. 
Só temo lo seu Babeco,. 



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206 HISTORIA. DA POESIA 



Filho da minha égua baia ; 
Perdi-o n'uma batalha ; 
Bem lhe sinto a patada. 

E lo moiro lá se vae 
De carreira desfechada, 
Por meio de uma courclla 
Já do arado cortada : 

— «Mal haja o lavrador 
Que fez tamanha lavrado ! 

Lo moiro sempre correndo 
De carreira desfech<ida, 
Vae a cammho do rio 
A' barca ahi acostumada : 

— «Também mal hajas, barqueiro^ 
Que tens la barca varada ! 

E na sua égua baia. 

De carreira desfechada, 

Logo se meteu no rio, 

Que nam tinha que esperar nada : 

— «La mulher mãe d*um só íilho, 
Ai que mãe tão desastrada ! 
Espora que d'elle caia 

Por ninguém será tomada! 
Que lo fíram, que lo matem. 
Nam tem la morte vingada I 
Mas, se doesta me vou salvo, 
Oh, que desforra tirada ! 

No comenos, vem Ru eido. 
Vê lo moiro ir a nado, 
E de raivoso lhe atira 
Um dardo bem apontado : 

— Guarda me lá, genro meu, 
Este dardo bem guardado ! 

£ no corpo do rei moiro 
Ficou lo ferro cravado. 



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POPULAK rORTUGUEZA 267 



— «Gomo ^uarJar-te, Rucido, 
E^se dardo traiçoado, 
Se me vae a dentro d'alma, 
No corpo atravessado í 
Mas nam morra d'estíi feita 
Que te prometo, sagrado. 
Varar- le com um cento d'elles 
Sem precisa»- ser rotiado. 

(Kom. dl Madeira, p/ 204.) 

Entre os elementos da população madeirense apon- 
ta o colleccionador do Romanceiro muitos capiiuos 
moiros tomados na costa marroquina; este facto nos 
in<£ca a via por onde este romance se communicou a 
esse povo insijar ; e é para notar o nome : Ai 
Alfama! minha Alfama, em vez de Valença. Le- 
se em Argote y de Molina, no prologo ao Conde de 
Lucanor, sobre os cantos dos árabes vencidos: c can- 
tares lastiineros, que oimos cantar n los Moriscos 
dei Reyno de Granada, sobre a perdida de su Tier- 
ra a maneta de endechas . . . > E exemplifica com um 
d esses cantares : 

Alhambra amorosa, 
lloran tus casiillos. 
^e Mult-y Vuabdeli (Boabdil) 
que se ven perdiítos. 

Dadme mi caballo 
y mi blanra adarga, 
para pelear 
y ganar Alhambra. 

Dadme mi caballo 
y mi adarga nqui, 
para peUar 
y librar mis htjo-. 

Guadix tiene mis hijos, 
Gibralta** mi muger, 



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268 



HISTOKIA DA POKSIA 



senora Mafalta 
hesisteme perder. 

Em Guadix mis hijos 
y yo.en Gibraltar, 
^e^OTB Mafalta 
hesisteme errar.* 

Segundo D. Pascual de Gayangos e D. Enrique 
Vedia, ainda* modernamente se ouvem cantares allu- 
sivos a Córdova e Granada repetidos pelo povo em 
Tetuão, Tanger, Arzilla e em outros pontos do norte 
da Africa. O nome de Alfama, no romance de Ru- 
ctdo, parece-nos uma deformação popular de Alham- 
bra. Essa influencia mourisca tembem passou aos ho- 
mens cultos; da imitação dos seus cantares provie- 
ram os romances fronteiriços, maupescos ou granadi- 
nos de forma semi-litteraria e mesmo artística, tra- 
tados com fervor no fim do século xvi e xvii, até 
ao fastio. « A um romance popular qualquer, que 
também usam cantar, denomina-se no Porto Sattto 
— Arenga, » * A ideia do canto exclue toda a rela- 
ção com oliomophono arenga (no francez harangue)^ 
podendo considerar a Arenga como a cantilena moi- 
risca Lenga-lenga, 

O elemento africano também é ali representado, 
como se vê no ròmaiice da Morena, e nos diálo- 
gos das Lapinhas entre o ViJlão e o Preto. Um 
dictado tópico diz da população da Madeira: 

Um, dois, trez 
Filho de inglez ; 
Um, dois, trez, quatro. 
Filho de mulato: 

Sobre este elemento descreve o velho Fructuoso, 



* Conde de Lucanor^ fl. 1 20, v. 

' Correspondência para a Acistalidadet 1876, n,^ 293. 



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POPULAR PORTUGUEZA 269 

nas Satídades da 7>rra: «Ha também n'esta villa 
muitas mulatas, e muito bem tratadas, e de ricas 
vozes, que hç signal da antiga nobreza de seus 
moradores; porque em todas as casas grandes e ri- 
ccis ha esta multiplicação dos que as possuem.» * 

N'umaí'. trovas celebrase a influência deste typo 
popular da mulata: 

Era cena noite, 
Na porta assentado, 
Tooos ia dormir, 
Só eu acordado, 
Olhando á lua 
Sem ser aluado, 
Parecia sonhando 
Mas estava acordado. 

Passou pela rua 

Fresca mulatinha^ 

Cabello nastrado 

Com sua fitinha, 

Colete estalando 

PoFa cinturinha ; : 

Do pé a sahar 

Sua tamanquinha 

E fui me traz d'ella 
Com minha chuhce, ^ 

Tossindo, cantando, ■■-■... 

; PVa qu)e ella me ouvisse-., ... 



Nos Cantos populares do ^^ârj/7 apparêcerri estás 
mesmas trovas com variantes fundamentáés : 

Estava de noitç •, 

. Na porta da rua, 

'Proveitando à fresca ■ 

Da noite de lua ; : ■ < . ,;, 



* Ed Azevedo, p. yS^-Garrett descrevendo as copdjções em 
^ue lhe foi despertado o interesse pela poesia popular,. diz : *Foi 
ui caso, que umas criadas velhas de minha mãe, e umá muláia bra- 
sileira de minha irmã, appareceram sabendo yariós roináníces. • 
( ^<ww., I, paíj. xvi) . ♦: ^ ;í ' 



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270 niSTOKlA DA POESIA 



Quaodo vi passar 
Certa mulatinha^ 
Camisa gomada, 
Cabello entrançadinho. 

Peguei no capote, 
Sahi atraz d'ella ; 
No virar do becco 
Encontrei com elli . . 

(Op, cit.y t. I, p. 62.) 

Da Madeira passou ao Brasil esse ensaio da co- 
lonisação do negro, que se tornou um atrazo para 
o grande empório; é valiosa essa nota poética. 

Cessou a causa do esplendor da ilha da Madeira, 
mas os elementos poéticos tradicionaes fortalece- 
ram-se n'essa decadência; sobre este phenomeno 
ethnico escreve o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo : 
tA ilha da Madeira supplantada nas industrias sac- 
charina e florestal pela America e Africa, decahiu 
repentinamente desde o fim do século xvr, em con- 
sequência do que, bem como de outras causas, per- 
deu a preeminência do empório náutico, e o báculo 
metropolitano, ficando, por quasi dois séculos, como 
abandonada á desventura da solidão das aguas, até 
que os seus preciosos vinhos a restituíram á riqueza 
e convívio europeu ; cada qual dos seus maiores 
centros de população, separados uns dos outros pe- 
los profundos cortes basalticos do território, conver- 
gia para o grémio parochial, ao alcance do raio vi- 
suai de cada campanário ; ahi mesmo, cada família, 
de colonos ou lavradores, adstricta á necessidade do 
trabalho quotidiano no terreno senhorial por elle fe- 
cundado, labuta e vegeta em volta do lar, que lhe 
é asylo e ergástulo; e a população, assim dupla- 
mente insulada do contacto exterior pelo mar e pela 
adversidade, concentrada interiormente de mais em 
mais pela accidentação do paíz e da condição servil 



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POPULAR PORTUGUEZA 27 I 

do agricultor, tem, por isso mesmo, conservado a 
poesia narrativa medieval confiada à sua tradição: 
— a prosperidade trouxe- Ih a, a decadência lha man- 
teve ; n'isto se cifra a historia da tradição poética 
madeirense até meado do século xviii. ^ Da outra ilha 
do Archipelago, em que a tradição é ainda mais 
archaica, escreve: cA ilha do Porto Santo ftcou, 
desde descoberta e povoada, quasi esquecida na sua 
pequenez e inferiores condições productivas ; e. a sua 
tr.idição poética escassa mas genuina, lá jaz, de ha 
quatro séculos, coitio a sua menospresada população, 
geographica e socialmente insulada na vastidão do 
Atlântico.» * 

Na Feita, (o Natal) que é a principal alegria da 
população do Archipelago, em que se faz a visita- 
ção das Lapinhas^ exhibenjse as dansas antigas ou 
a la moda: cNa ilha de Porto Santo chamam-se a 
estes bailes — Viola Em casa de fulano ha Viola, — 
já se sabe que é dansa; esta denomina se Meia 
volta, única que se sabe dansar n'aquella formosa ilha- 
sinha. E' uma espécie de dansa moirisca, e que de- 
certo foi introduzid.i pelos primeiros povoadores. E' 
acompanhada de uma rabeca, xfiola e machetey ha- 
vendo diversas cantigas . . . » ^ O emprego do nome 



* Romancnro do Archipelago da Maieira, pag:. x, 
2 Correspondência para a Actualidade, 1876, n.° 293. O instru- 
mento popular da Madeira é o Machete^ ou cavaquinho, de dois ty 
pos, o Rojão e o de Braga ou Braguinha, que quasi toda a gente 
Sabe tocar. Limbertini, no seu estudo Chasons et Instruments (p. 
50) falia do Machinho ou Cavaquinho : «Em tempo muito usado pe- 
los camponezes, -— mas é um instrumeuto particular ás ilhas portu- 
(piezas, hoje muito pouco em voga n » continente » Da viola de ara- 
me diz: «Foi sempre conhecida pelo nome de Violi bragueza^ o 
que faz «uppôr que ella é originaria de Bragj, ou pelo menos vul- 
garísada n'esta região.» Como no norte de Portugal e no Archipelago 
dos Açores, também na Madeira a Viola é o instrumento pred jmi- 



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272 HISTORIA DA POESIA 

Viola designando á dansa em geral, explica o nome 
de Folga, dado a, todas as danças na i)ha do Fayal 
(de Fidtila ou, Vikuela, provém os dois termos). Na 
transmissão inconsciente conserva o povo vestígios 
reconstructivos da tradição, que as vezeS: parecem 
erros ao investigador desprevenido. No romance de 
Bravo Franco, (Rico-Franco) a. donzella raptada pe- 
de-Ihe : «Lo vosso punhal fif^/^jsr»; em uma versão 
da ilha de San ]ovge, Dom Franco, pede: «Vosso 
cutello joanez, » Stanisláo Prata, na critica á collec- 
ção de .-Azevedo, nota que no Cancioneiro de An- 
vers se lê: «cuchillo luguês>, cuja forma é lucchese: 
<da essa rilevasi che i coltelli o pugnali de Lucca 
èrano senza dubdio assai noti nella península spagnuo- 
la- I portoghesi per indicare una spada, dicevano 
lugueza^, ' (Cf. Moraes^ O cutello ou punhal ^V^^i^^^ é 
propriamente genove/; o punhal ingtez, da versão 
madeirense, é uma emenda da forma iugue»,]éi não 
comprehendida pelo collector, que por vezes intro- 
duziu emendas, como Ruy^ Ctd em vez de Rucido. 
Rodrigues de Azevedo falia no elemento italiano da 



nante; escreve Lambertini: «Aqui a Viola toma quatro denominações 
diferentes, secundo o seu tenanho : 

«A Vicia de arame é semelhante á de Braga. O seu accorde é 
re, si, sol^ re, la, 

«O Machete é um pouco mais pequeno dó qoè a Viola de Arame, 
e tem egualmente cinco ordens de cordas; com o mesmo accorde. 

ftO Kojãíf, confunde-se com o Machete ; tem cinco corda» de tripa 
e uma c«»beria de fio. • . - 

«Pinalm» nte a Bragttinha, inteiramente semelhante ao cavaquinho, 
é o mais p:ri^ueno de tx>dos. As suas cordas são de tripa, excepto a 
ma s grave que é dé fio. o seu-ácconíe é nas notas: re si, sol^ ré » 

(Fb:,p. 63) ■ •; '■": ^ -.'''' ■ , 

o emprego d'estes instrumentos nos Ateliipelagos da -Madeira^ 
Açores, leva a inferir que os primitivo's colonisadores irilsnlares fossem 
hò seu maior numero do Minho 

* Gli ultimi lai/ori dei Folk-Laré néo-Íat'n(*i p. 10. ' 



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POPULAR POkTUÓUEZA 2j3 

Madeira no século xv. * Stanisláo Prato faz um es- 
tudo comparativo dos Jogos populares -e infantis da 
ilha da Madeira com os italianos, e das huas seme- 
lhanças conclue pela unidade de um fundo tradicio- 
nal europeu, que Portugal documenta com os vesti- 
gios os mais archaicos. 

Nas observações preliminares sobre o Romanceiro 
do Archipelago da Madeira, o Dr. Azevedo conside- 
ra como caracter negativo da Poesia popular portugue- 
za a sua persistência de um fundo tradicional anterior 
á formação da nacionalidade, d' onde ella provém : 
«A mera leitura dos Romanceiros portuguezes, a 
dos já publicados, ou doeste, que publicamos agora, 
mostra que esses romances se não formaram, funda- 
mentalmente pelo menos, da nossa individualidade 
nacional ; da nossa raça, terra e indole ; das nossas 
instituições e costumes privativos ; dos nossos vultos 
legendários de qualquer cathegoria, ou bem ou em 
mal ; tão pouco da grande epopêa atlântica . . . E o 
baixo povo, por sua parte, sim aprende e transmitte 
essas remotas rhapsodias, mais inconscientemente, 
deformando-as, esquecendo-as pouco a pouco, o que 
denuncia não ser a tradição popular continuidade de 
inspiração nativa, se não viciado ecco de longinqua 
inspiração extranha. — Esta poesia não precede, nem 
procede da nossa nacionalidade e povo. Tem de na- 
cional a linguagem...» (Op. cit, xix.) E' nesta 
profundidade de raizes ethnicas que está o seu va- 
lor; Portugal não recebeu essas tradições da He- 



1 «As descobertas das ilhas atlânticas, iniciadas por D. JoSo i, 
eram um attractivo incessante, e á ilha da Madeira concorriam 
ousados italianos como os Spinolas, Césares, Uzadamari, Cataneos, 
Salvaf^os, Lomellinos, Doriás, Grimaldi. Não é um facto accidental 
o ter Christovam Colombo obedecido a esta corrente ...» Ctnte^ 
nario da descoberta, da Americaf (p. ii. Ed. da Academia). 



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274 HISTORIA DA POESIA 

spanha ibérica, nem da Itália, Bretanha ou França 
do norte, mas esses themas communs aos povos 
occidentaes demonstram o individualismo vigoroso e 
persistente da nossa raça. E' o que se começa a 
comprehender, desde que em vez de determinar á 
tôa focos de irradiação tradicional se reconstitue o 
fundo commum ethnico pelas persistências popula- 
res. Na poesia do Archipelago madeirense, os ro- 
mances de Santa Isabel, Santo António, Santa Iria 
idealisam os nossos vultos lendários nacionaes ; os 
romances á morte do Príncipe D. Affonso, á bata- 
lha naval de Lepanto, correspondem á vibração na 
alma do povo de successos históricos; os typos do 
Viliâo e do Malato documentam instituições ^ cqs- 
tumes privativos da Madeira. A mesma rusticidade 
e condição servil, que embaraçou a génese poética, 
revela ainda a grande resistência deste povo, ramo 
da raça assuetum maio, como disse Virgilio do Li- 
gure. 



* Em carta 4e 2 de Abril de 1877, escrevia-nos o Dr. Álvaro 
Rodrigues de Azevedo, depois de ter couhecimento de algumas 
collecções de Cantos populares heapanhoes : 

A O meu trabalho, de talvez trez annos, em colligír o Roman- 
cetro do Archipelago da Maneira, appareceu-me então (exceptuadas 
algumas paginas) um roéro farrapo, rasgado, (lêr : conservado) 
como a nossa nacionalidade foi da grande unidade ibérica (lêr : 
lusitana). Nacional, portuguez, u linguagem só, alguns costumes e 
allusões, se é que estes mesmos costumes e aJlusÕes não são ibé- 
ricos também.» Vê-se que desconhecia que são iberisados esses po- 
voe gallaico-asturianos e betico-extremenhos ; d'aqui a sua incom- 
prehersão do nosso nacionalismo. 



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B) FOCO TRADICIONAL DO ABCHIPELAGO 
DOS AÇOBES 

Os modernos estudos de Ethnologia têm suscitado 
um grande interesse scientifico pelas tradições po- 
pulares, conservadas inconscientemente nas camadas 
sociaes menos progressivas, como vestígio dos esta- 
dos primitivos de concepções e de instituições ex 
tinctas, ou mesmo de relações anthropologicas des- 
conhecidas. Assim, o grupo da população portugueza 
confinado no Archipelago açoriaôo desde o segundo 
quartel do século xv, se para o anthropologista me 
rece especial interesse para fixar as suas differen 
dações do typo continental, os costumes, as dansas, 
os cantos lyricos e narrativos, os casos, as supersti 
ções do vulgo, têm uma incomparável valia, que 
fazendo-se o paradigma com as tradições portugue 
zas do continente, resulta logo evidenciado o facto 
da sua inraiensa riqueza e pureza primitiva, resultante 
do isolamento insular. 

No momento da colonisação açoriana dava-se na 
Europa, e consequentemente em Portugal, um facto 
simultâneo a quasi todos os paizes : uma assombrosa 
efflorescencia da Poesia popular denunciava um vi- 
gor, um estado moral, que motivava essa expansão 



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HISTORIA DA POESIA 



sentimental revelada nas Canzúne e Strambotte ita- 
lianos, nos Romanceiros e Cancioneiros hespanhoes, 
nas Gwerziou da Bretanha, nas Bailadas da Ingla- 
terra e Escossia, nos Volkslieder da Allemanha, nos 
Kampviser scandinavos e nas Chansons de ioile da 
França. Este facto, notado por Mr. Gaston Paris, 
deu-se também em Portugal, e bem intensamente, 
como se vê pelos cantos com que o povo idealisou 
o Santo Condestabre. Foi n*este momento histórico, 
que se effectuou a colonisação açoriana de traba- 
lhadores agricolas e fabris, tanto do Minho como do 
Algarve e mesmo flamengos ; e essas íamilias leva- 
ram comsigo os seus cantares e festas religiosas, 
taes como a do Império do Espirito Santo, quasi 
obliterada no continente. Pode, portanto, considerar-se 
esse grupo açoriano como conduzindo a uma grande 
experiência sociológica, pela qual se conseguiu con- 
servar através de quatro séculos em uma estabilidade 
flagrante todas as condições para reconstituir a ethno- 
logia de Portugal no século xv. E' sob o ponto de 
vista dos Cantos lyricos e narrativos que este pro 
blema especialmente nos interessa ; porque, ao passo 
que em Portugal os Cantos e tradições populares, 
logo no século xvi, caem em uma doentia oblitera- 
ção symptomatica, elles mantêm-se com uma çnor- 
me vitalidade nas ilhas dos Açores. Quem abre a le- 
gislação de D. Manuel e de D. João iii, vê conde- 
mnados com fortes penalidades os descantes popu- 
lares ; pelas Constituições dos Bispados também fo- 
ram severamente prohibidos os cantos nas egrejas, os 
Autos nas vigílias dos santos, e muitas Orações fo- 
ram escriptas para substituírem as canções tradicio- 
naes. Mas não bastavam estes attentados da Corte e 
da Egreja contra a poesia do povo, veiu uma ou- 
tra corrente desnaturai- a, o gosto exclusivo pelos can- 
tos de letra castelhana, como se vê pela queixa de 



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POPULAR PORTUGUEZA 277 

Jorge Ferreira de Vasconcellos, lamentando o des- 
prezo que se affectava por qualquer cantiga portu- 
gueza. Diante desta desnacionalisâção systematica, 
que concorda com as idéas ibéricas do rei D. Ma- 
nuel, que desejava unificar sob uma mesma coroa as 
Hespanhas, é que se comprehendem os versos dê 
Gil Vicente quando se recorda do antigo cantar e 
bailar do povo, e como de vinte annos para cá tudo 
são tristezas. 

Este estado dos espíritos tornou se mais sombrio, 
quando os terrores da Inquisição, depois de 1536, 
e o fanatismo obcecador dos Jesuítas desde 1542, 
levaram o povo portuguez a um mutismo lethargico, 
e a uma quasi inconsciência do seu espirito de na- 
cionalidade, a ponto de acceitar em i;8oojugodè 
Philippe II com festas religiosas e arcos triumphaes. 
E' n'esta situação que a Poesia tradicional portu- 
gueza, com toda a sua riqueza do século xv, se con- 
serva no isolamento do Archipelago açoriano em 
uma assombrosa estabilidade, prestando-se a um tra- 
balho reconstructivo do nosso passado continental. 
Mas a intensidade da tradição poética açoriana pro- 
longa-se até á colonisação das provincias do Brasil 
no século xvi ; os modernos estudos a que os inve- 
stigadores brasileiros procederam, colligindo Cantos 
populares n'aquella vasta região civilisada pelos por- 
tuguezes, taes como Celso de Magalhães, José Ve- 
ríssimo e Sylvio Roméro, chegaram ao descobri- 
mento que todos esses veios tradicionaes eram tra- 
zidos e vivificados pelos emigrantes açorianos. O fa- 
cto bem se comprova, notando que no século xvi a 
tradição portugueza continental se obliterava, pelas 
causas já referidas, e que a sua vitalidade no Bra- 
sil era uma revivescência, como a do lyrismo da 
Modinha, Estes aspectos históricos mostram-nos á 
altíssima importância que para o ethnologista apre- 

Poes. popal. — Vol. 11 18 



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278 HISTORIA DA POESIA 

sentam os Cantos^ populares do Archipelago açoriano. 
Dão- nos o estado da Tradição poética portugueza 
no século xv, para o confronto da época de efflo- 
rescencia europêa, que coincide com a incorporação 
do Terceiro estado ; dão-nos um ponto de partida 
para se conhecer a degradação a que foi levado o 
sentimento nacional no século xvi e seguintes, e 
prestandonos riquissimos elemento i para estabelecer 
a unidade das Tradições poéticas entre Portugal, 
Hespanha, Itália, França meridional e Grécia mo- 
derna, abrem um campo novo de elaboração dos Can 
tos populares portuguezes no Brasil, que precederam 
a formação d^aquella recente e vigorosa nacionalidade. 
Embora no Roteiro Mediccoy de 1351, já se achem 
apontadas as ilhas dos Açores, é certo que desde 
1431 é que esse Archipelago começou a ser explo- 
rado pelos navegadores portuguezes, desde os par- 
ceis das Formigas até ás ilhas extremas do grupo 
de Flores e Corvo. Escreve Morelet, na sua noticia 
I/es Açores: «Não se pode deixar de reconhecer 
aos portuguezes o serviço de terem povoado este 
Archipelago, e de terem transformado solidões in- 
cultas, perdidas nos nevoeiros do Oceano, em um 
paiz rico e florescente, que forma hoje uma das me- 
lhores provincias do reino.» — ^^ «O lúgubre aspecto 
daquellas terras, que appresentam a feição da sua 
erigem vulcânica, fere vivamente a imaginação. Sua 
grandeza solitária, seu profundo isolamento, impri- 
mem também na alma um sentimento de melancho- 
lia. Assombramo-nos de que o homem tenha esco- 
lhido para pátria esses rochedos açoutados pelos 
ventos e vagas, os quaes, durante tantos séculos não 
tiveram mais habitantes do que as aves de rapina, 
das quaes deriva o seu nome. No emtanto ideias 
mais risonhas não tardam ; depois de terem transposta 
a trincheira de trachyte, que oppõe um dique ao 



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POPULAH F0RTUGUE2A 



Oceano, descobrem se férteis campinas, jardins odo- 
ríferos, numerosas aldeias em forma de escadaria pela 
encosta. Reconhecese então que ao tomar posse 
d'aquelles logares, o homem fez uma conquista ver- 
dadeiramente útil e proveitosa.» (p. 17.) 

GeBsgoada a impressão que deixa a visita áo J^r-- 
cB ^^ago açoriano, Morelet aponta as diíferenças das 
ilhas entre si, circumstancia que se repete também 
no caracter da população, como notaram outros via- 
jantes. Na Noticia sobre a Historia natural dos Aço- 
res por Morelet, notam-se as differenças que ha 
entre as ilhas do Archipelago • «cada ilha em par- 
ticular contém bellezas de um caracter selvático ou 
romântico, e além disto algum objecto curioso que 
lhe é especial. San Miguel, a principal, ufana se de 
suas magnificas Caldeiras, bons lagos azues, casca- 
tas, como o famoso valle das Furnas, onde o tra- 
balho dos fogos subterrâneos se manifesta por phe- 
nomenos de uma assombrosa actividade. Santa Ma- 
ria é a única que possue formações calcareas, ricas 
em fosseis marinhos, argilas cje uma certa finura, e 
uma caverna. Pico mostra nos o mais alto cume dos 
Açores, terminado por um cone fumegante. Fayal uma 
cratera magestosa, na qual brotam aguas vivas, e 
arrebatadoras perspectivas. Graciosa, um lago subter- 
râneo. Flores, uma terra árida ornada com sua graça 
e frescura primitivas. Corvo, um logar celebre pelos 
vestigios que alli se tem encontrado. A Terceira, fi- 
nalilfiente, uma pequena ci^de accidentada, a mais 
bonita do Archipelago.» (p. 81.) 

Na sua viagem aos Açqj-es, o professor Bombarda 
notou também as differenças dos habitantes do Ar- 
chipelago entre si: «Se do continente para os Aço- 
res as relações são escassas, de ilhas para ilhas, pelo 
menos entre as que mais se distanceiàm, não tem 
sido menor a escassez de communicações. Não ha 



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28o HISTORIA DA POESIA 

uma família açoriana, ha muitas famílias açorianas. 
O génio popular differe de San Miguel para. a Ter- 
ceira, e da Terceira para o Fayal ou para as Flores, 
como usos e costumes divergem e até se oppõem.» 
Este facto não resultou da incommunicabilidade, mas 
da colonisação primitiva, — que para umas ilhas se 
fez com familias proletárias do Minho, para outras 
com gente do Algarve, e em outras com o elemento 
flamengo ; assim os costumes peculiares de cada re- 
gião ahi se conservaram transmittidos sem se unifi- 
carem, prevalecendo mesmo nas festas do F-spirito 
Santo, communs a todas as Ilhas, e no caracter das 
dansas populares. A vitalidade das Tradições poéti- 
cas é também diversa de ilha para ilha. 

Cabe a Garrett, açoriano pelos pães e familia, e 
portuense pelo acaso do nascimento, como elle 
próprio o diz, a gloria suprema de ter iniciado a 
investigação do Romanceiro tradicional portuguez. 
Ninguém imaginava que o nosso povo tinha tanta 
riqueza poética; os seus estudos mais artisticos do 
que scientificos exerceram a larga influencia de sus- 
citar a attenção por esses cantares, que eram conside- 
rados grosseiros e privativos da gente rude. Olhan- 
do- os pela sua feição esthetica Garrett prejudicouse, 
mas venceu a indifferença das classes cultas por es- 
ses vestígios da nossa poesia nacional. A obra do 
Garrett é preciosa mais pela influencia suggestiva 
que exerceu ; a exemplo do excelso iniciador apro- 
veitámos a nossa situado na frequência da Univer- 
sidade de Coimbra (1802 — 1868) para investigar- 
mos as tradições populares de todas as províncias 
de Portugal ; e depois da publicação dos três pri- 
meiros volumes do Romanceiro e Cancioneiro geral 
português, é que recebemos uma carta da ilha de 
San Jorge, do dr. João Teixeira Soares, datada de 
2 de novembro de 1867, em que nos escrevia: 



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POPULAR PORTUGUEZA 28 1 

cVivta ainda Garrett, quando nos pr^pozemos reco- 
lher o Romanceiro popular cavalheiresco desta ilha, 
com o fim de lhe aproveitar na subsequente edição 
do seu Romanceiro.» 

«Tínhamos empregado n essa tarefa pouco tempo 
e; exercido as nossas investigações em uma pequena 
área, quando a noticia -de sua morte nos fez suspen- 
der, d nosso trabalho; apezar d'isso reconhecemos, 
que o nosso Romanceiro popular da ilha, tinha uma 
extensão muito além de que em começo lhe sup- 
pôzeramos. — Vimos pelos jornaes, que v. se pro- 
punha a continuar a obra do grande Mestre. Depa- 
rando acaso com alguma parte do que haviamos 
recolhido, resolvemos remettel-a av.» Foi portanto 
ao estimulo de Garrett, que o dr. João Teixeira Soa- 
res e eu realisámos a investigação e a publicação 
dos Cantos populares do Archipelago açoriano, um 
dos mds opulentos thezouros da poesia tradicional 
portugueza. Em carta de 17 de outubro de 1868- 
escreveu-nos aquelle illustre açoriano: «Sobre a pu. 
blicação do Romanceiro açoriano permitta-me vs 
que exponha que elle é para v. além de outro 
motivos, um grande titulo de gloria, pois que é le- 
gítimo filho do seu Romanceiro geral ; sem este, elle 
. nunca veria a sua publicação nem cresceria tanto 
em forças; e não seria Umbem para a nação uma 
gloria a conservação das suas tradições poéticas por 
unaa colónia filha legitima sua, quando essas tra- 
dições se acham em boa parte obliteradas e me- 
nos bem conservadas na mãe pátria?» E em carta 
de 28 de novembro desse mesmo anno, falia da 
riqueza d'esses veios insulanos: «Os romances dos 
Açores pela rapidez que os caracterisa estão ainda 
hoje- num estado mui genuíno, têm mui pouco a 
corrigir em sua forma interna. — Uma das grandes 
bellezas do Romanceiro geral de v. está no numero. 



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282 HISTORIA DA POESIA 



de versões que offerece do mesmo romance. Gar- 
rett nesta parte peccou, offerecendo uma só versão, 
e corrompida por vezes ridiculamente por variantes 
mínimas. Em um vergel o agrupamento das arvores 
da mesma espécie é muitas vezes de grande bel- 
leza. As* flores, ainda que irmãs, dão tanto mais 
formosura á arvore que as produz quanto maior é 
o seu numero ; assim, os fructos, uma vez que o 
seu grande numero não prejudique a sua nutrição. 
Trago estes factos naturaes para sustentação da 
ideia do maior numero de variantes e versões, sem- 
pre que as haja e tenham rasfso de ser. Se a 
riqueza de um Romanceiro consiste não só na va- 
riedade dos romances, mas na abundância de ver- 
sões de cada um, como creio, o Romanceiro dos 
Açores merece por ambos estes factos o epitheto 
de rico.» Aqui as versões revelam os themas pro- 
venientes de focos diversos, e as variantes as ada- 
ptações ás épocas que se vão seguindo. Por essa 
riqueza apontada pelo dr. João Teixeira Soares, vê-se 
que a poesia popular açoriana, desde o século xv 
a XIX, foi elaborada constantemente, transformando se 
por uma evolução lenta a outras épocas em que 
nunca as transformações sociaes foram rápidas ou 
intensas. A poesia popular dos Açores conservou-se 
sem se ter esterilisado ; é por isso que ahi appare- 
cem problemas ethnicos e históricos de alto interesse, 
a começar pelo titulo com que são conhecidos es- 
ses elementos tradicionaes, a que chamam Aravias, 
ou Oravias, e Aravengas. Esta designação não se 
relaciona com o nome dos Árabes, mas com o do 
instrumento musical a que eram cantados esses roman- 
ces tradicionaes. 

Da mesma forma a viola açoriana chamada Bra- 
guinhãy e na Madeira Viola de Braga, conservam o 
nome do antigo instrumento Rota da Brachio^ pro- 



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POPULAR POKTUGUKZA 283 

- \ : 

duzindo-se pela homophonia a illusão de se attribuir 
á cidade de Braga a originalidade d!esse instrumento, 
o que se não comprova. Nos Cantos açorianos conser- 
vam se vestigios históricos, como o da morte do Prin- 
cipie D. Affonso, filho e único herdeiro de D. João ii, 
em cantares elegiacos, que totalmente ignorados em 
Portugal, ainda sobrevivem já fragmentariamente na 
tradição poética do Brasil. Também a celebre Ba- 
talha cie Lepanto, de 1572, em que a Liga Catho- 
lica destruiu a potencia dos Turcos, acha-se memo- 
rada em um bello romance açoriano. O celebre ro- 
mance de D, Duardos escripto por Gil Vicente para 
ser cantado em uma tragicomedia do mesmo titulo, 
valgarisado em folhas volantes no primeiro quartel 
do século XVI, appareceu na ilha de San Jorge na 
corrente das versões oraes populares, 

Sob a influencia destes estudos, que encetámos, o 
mallogrado naturalista michaelense Francisco de Ar- 
ruda Furtado emprehendeu o exame anthropologico 
do grupo ou população açoriana, publicando um in- 
teressantissimo opúsculo Materiaes para o estudo an- 
thropologico dos Povos açorianos, dado á luz em 
Ponta Delgada, em 1884. Contém esse opúsculo de 
80 paginas as Observações sobre o Povo michaelense; 
Arruda Furtado consignou no seu exame também 
a parte tradicional, e embora obedeça a uma ten* 
dencia pejorativa considerando o michaelense mais 
grosseiro do que os outros açorianos, diz: «O can- 
tar ao desafio zoxi^MxXMt. uma distincção favorita; dois 
camponezes de sexo differente, se é nas dansas, le- 
vam a mprovisar quadras n*uma sorte de contenda. 
E' a única cousa em que se revela alguma imagi- 
nação constructiva ; o improviso é rápido, ás vezes 
soberbo, e terrivelmente satirico quasi sempre. O 
cantar ao desafio chega a enlevar, no terreiro, com 
uma viola bem tocada, entre dois namorados que 



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284 HISTORIA DA POESIA 

dansam, e se p improviso é rápido, variado e bom. 
— A viola é o único instrumento do povo michae- 
lense ; somente nas festas do Espirito Santo se com 
põe de uma sorte de orchestra com rabeca, fefri- 
nhos e pandeiro; — o nosso povo, a par de excellente 
ouvido para a musica, tem na ppesia individual um 
rigor descriptivo admirável. Elle versifica i m mediata . 
oiente e com grande facilidade todos os aconteci- 
mentos intinios, mas sem traços imaginosos ; a poe- 
sia, n'este& casos, é am descriptivo e nada mais.». 
(p. 23.) Exemplifica com uma extensa elegia em 
quadras intitulada O caso do JacinOio Pedro, em 
que se narra a situação de um pae que sabe. que a 
filha fora deshonrada. Na ilha de San Miguel appa- 
receM o thema do romance de Juliana e Jorge, colli- 
gido por Teixeira Bastos, da provincia do Ceará ; 
as canções dramáticas, chamadas Mouriscadas, são 
frequentes entre o povo michaelense, bem como as 
paradas, como a de San Pedro, na Ribeira Grande.. 
Existe publicado um Auto popular intitulado O Conde 
de Lusèella, que é um typo do género da Mouris-, 
cada. Unrv dos focos mais vivos da tradição poética 
é a Ilha de S. Maria, em que a população é natu- 
ralmente improvisadora, sendo usual o costume de 
replicar ou responder em verso, e em rimas de in-. 
tenção satirica. Da ilha Terceira diz-nos o nosso pa: 
tricio Faustinq da Fonseca ser corrente entre a classe 
m^dia a superstição de que é máo agouro cantar 
ou recitar os Romances populares, como por exem- 
plo a iV^^ 07^/^/*//^^/^ ou Sylvaninha, intimidando as 
crianças, que por tal facto pôde acontecer alguma des- 
graça em casa. * Na ilha Terceira foi sempre a sede 



. ^ Contõci-nos e oa vimos com espanto, o illustre escriptor Faíis- 
tino da Fonseca, açoriano oriundo da Ilha Terceira, que n'aqaella. 



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POPULAR PORTUGUEZA 283 

do governo militar e ecclesiastico do Archipela^o 
açoriano; não admira pois que a influencia da corte 
ç da egreja se fizesse sentir mais n esse centro official 
ào que nas outras ilhas.. 

Não obstante, é na ilha Terceira que. persiste um 
costume característico, extranho a todas as outras 
lhas açorianas, — as touradas. . 

A festa do Espirito Santo com a cerimonia da 
coroação do Imperador^ quasi sempre uma criança, 
é a transformação religiosa dâ festa polytheica da 
entrada do Verão, tarpbem coroado como a Rainha 
Maia, óu o joven cavalleiro Maio. Na ilha Terceiras 
conserva-se uma parte viva dessa festa primitiva, 
a corrida do Touro ^xt,zQ por cordas, o Touro, que 
era venerado entre as populações agricola*^, como 
se usa ainda hoje em Andalusia. Attribue-se o cos- 
tume da corrida dos Touros exclusivamente conser- 
vado na ilha Terceira á influencia da sede do go- 
V£rno hespanhol, no tempo dos Philippes, naquella 
ilha ; mas importa considerar que a festa do Touro 
se prende com os elementos polytheistas da Entra- 
da da Primavera, persistentes na coroação do Jnr- 
perador do Espirito S^anto. 



terra é geral entre muitas famílias o preconceito : «de que é máo 
aeroaro, e provocador de desgraças domestjicas o cantar Romances 
antigos, como a Náo Catherineta^ Bclla Infanta^ Bernal Francez, 
etc. ; e que n'esta.prohibiçSo ás criianças da familia, fazem notar 
coincidências íunestas,^ pára as iniiibirem pelo terror.» Crê aquelle 
inteMigente açoriano, que este facto é uma persistência" das antigas 
prohibiçòes religiosas do seçult> xvx e xyii, que contra os Cantos 
populares estão patentes nos índices Expurgatorios inquisitoriaes e 
jesoiticòs. Referiu-nos mais que as crianças, por espirito de teimo- 
sia e causticação, é que repetiam através de todas as advertências 
familiares, esses velhos romances e xacaras. Foi asssim que len- 
tamente e pela continuidade dé diversos processos se chegou á 
profunda desnacionalisação do povp portuguez. 



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286 HISTORIA DA POESIA 

As festas do Espirito Santo são communs a todo o 
Archipelago açoriano ; em San Miguel são mais fre- 
quentes as representações dramáticas, como notou o 
professor Bombarda: «Em algumas freguezias ruraes 
é uso antigo fazerem representações de Entremezes 
ou Autos, ao ár livre, sobre uns tablados erguidos 
para esse fim, com grande ajuntamento de povo. 
E' rara a povoação rural, que não tenha uma ou 
duas philharmonicas ou charangas, t E por occasião 
dos Impérios do Espirito Santo que as danças têm o 
máximo da sua expansão. * Na Ilha do Fayal, as 
moças do campo cTiamam estudantes aos rapazes da 
cidade, quando nas Folgas ou dansas da aldeia vão 
requestar as raparigas ; e os do campo são chama- 
dos diamantes . pelos rivaes, que levam o ciúme 
até a grossa bordoada. 

No bailho de Chanta-Rita vêm os pares para o 
terreiro, ficando o homem defronte da sua dama. 
Augmenta o numero ao grito do dono da casa : — 
«Chega a pares 1 Chega a pares! Então o tocador 
vem para o terreiro, e dedilha na viola a Chama- 
Rita, em quanto os dançantes se bambolêam e dão 
estalos com os dedos grande e polegar. Um solta á 
cantiga : 

«Ao romper da bella aurola (aurora) 

Sae o pastor da gaivana (cabana) 

Gritando em altas vozes : 

Muito padece quem ama. 

Chama • Rita, Chama-Rosa, 
Cara linda, tão formosa.» 



^ Nas CoustituiçÔes do Bispado 'de Angra, de 1559, sSo con 
demnadas as festas do Império do Espirito Santo : «Que nâo fizes-. 
sem Impérios, Imperadores e Imperatrizes em muitos domingos e 
festas do anno, porque com côr ^ue • vSo a tomar do Espirito 
Santo gastam em comidas e festas o que não tem ; e em alguns 
pontos fazem diversos Imperadores, e o que é peior, com aiver- 
sas superstições se encommendam ao Espirito Santo.» 



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POPULAR PORTUGUEZA 287 

Ao repetir estes versos do estribillo, cada homem, 
sempre bamboleando-se e trincando com os dedos, 
recua seguido pela sua dama, que se volta para 
ellc.» Chegadas as duas mulheres de uma mesma Cha- 
ma*Rita á altura que podiam, costas com costas, tro- 
car a posição, efíectuam a mudança recuando se- 
guidos agora pelas sAis pare^,, até que todas entram 
no alinhamento primitivo, mas em ordem inversa, 
N'esta occasião cada homem fez em relaçáo á dama 
do outro par da sua Chama- Rita um movimento 
análogo ao . . . balance ou cote ... O mestre da Viola : 

«Coração acima, acima. 
Se não podes correr, anJa ! 
Tudo é píjuco, bem n'o sabes, 
Para vêr a uma dama. 

Ghama Rita, Chama Rosa, 
EUa que venha cá fora ! . 
Venha vêr o seu amor, 
Que lhe quer falfar agora.» 

Varia-se a dansa com marcas differentes, taes 
como: Roda cheia l ^m que «todos cruzam os braços 
e dão as mãos trocadas formando roda que depois 
desfazem, para cada um dos bailadores, enlaçado 
com o respectivo par, fazer o passo da Chama-Rita 
muito semelhante ao da polka.» 

Segue se outra marca : « Mãosinkas : dando os pa- 
res as mãos e virandose cada um dos dançantes 
alternadamente para os que lhe ficam contiguos, ao 
mesmo tempo que todos caminham lateralnriente como 
no grandrond au tour.n 

Depois vem o Salta e Rema! o mesmo: «no qual 
cada homem deve, passando por detraz do seu par 
e tomando-lhe a dianteira, vae fazer balance comfa 
pessoa que lhe fica deste lado, ma- sem darem as 
mãos, e repetirem o mesmo com a da esquerda. 



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288 HISTORIA DA POESIA 



Continuam durante isto, o grand rand au íour, e a 
estalada com os dedos, visto que as mãos $e acham 
livres.» 

<Caras novas ao terreiro ! Entram, novos pares , 
para brincar, e ao grito da marca: Côdea l as mu- 
lheres levam o braço esquerdo atraz das costas, á 
altura da cintura, e os homens dãolhes as mãos, 
indo as direitas de cada par enlaçadas na frente, 
como no galope, e as esquerdas n'aquella posição. . 
Os pares assim unidos avançam para o centre e re- 
cuam, passando cada. homem á dama que lhe fica 
logo á direita, para com ella executar isto mesmo, 
e assim snccessivamente, até encontrar se de novo 
com a que lhe pertencia. — Foge l marca que equi- 
vale á grande chaine, mas precfpitada com a mão 
direita, e fazendo os homens um movimento análogo 
ao balance. Ti 

Ha outras modificações como ,0 \ Sapateia de ca- 
dêa, com duas linhas dè dançadores avançando uma 
para a outra, e recuando até ao ponto de partida. 
O Sapateia faz arco, á cantiga : 

Oh Sapateia^ roeu bem. 
Oh Sapateia, faz arco ! 
Diga o mundo ò que disser, 
Já d^aqui me não aparto. 

cAo primeiro verso a fileh-a do lado. da viola vol- 
ta-se para a direita e o opposto para a esquerda, e 
cada dançante, com excepção d*aquelle (da viola) 
dá a mão ao seu par, e levantam o braço, formando 
desta arte uma espécie de abobada. O tocador e a. 
dama respectiva passam então sob o arco fòrmadp 
pelo par mais próximo, contornam o par seguinte 
pelo lado exterior, e vão passar por debaixo do. 
arco do terceiro par, e assim successivamente. O 
terceiro par executa eguaes movimentos logo que dá . 



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POPULAR PORTUGUEZA 289 

passagem ao mestre da viola, e todos os mais vão 
fazendo o mesmo.» ^ 

Os Balhús: < Nos Açores, e no género cada ilha 
tem a sua especialidade, ha danças próprias . . Os 
Balhos são de uma origipalrdade impressionante, dif- 
ferindo de ilha para ilha, todos obrigados a um in- 
strumento de cordas de arame,» a Viola, de que ha 
tocadores eximios, e a musicas variadas, que se de- 
nominam Bella Aurora, Chama- Rita, Praia, Pési- 
nho. Sapateia, Tyranna, etc. 

«Quasi todas as ilhas tem o seu Pésinho, e o Pico 
tem uma ChamaRiia especial, como Balho pulado, 
muito conhecido em todos os Açores.» ^ 

As formas poéticas da tradição popular muitas 
vezes se reconstituem na sua inteireza primitiva pelo 
estudo simultâneo da dansa e da musica, com que 
syncreticamente se crearam ; também muitas vezes 
os instrumentos populares nas suas formas archeolo- 
gicas, transformações e denominações, vêem coadju- 
var a comprehensão do desenvolvimento de certos 
géneros poéticos, ou musicaes. As?im a Guiga pro- 
veiu do nome de Guina, abreviatura de RiberA/;/^?. 
Pelos esfudos de Riemann, acompanha-se como da 
Crowth, Chrotta ou Rota derivaram os instrumentos 
italianos e hespanhoes Rebed, Rubeca, Rabé, Arrá- 
bil, Erbeb, Viola da Orbo, já popularíssima no sé- 
culo xiT, e que vieram a identificar-se com a Biedel 
(Vielle) e Fidula (Vihuela, Viola). Seguindo este 
critério, interpretaremos a designação peculiar dos 
cantos narrativos açorianos. 

Nas ilhas dos Açores, como em San Jorge, Gra- 
ciosa e Fayal, em cuja população entraram colonos 



1 Not. de Maximiano de Azevedo, Século^ n.» 7:000. 

2 Diário de Noticias^ n.® 12:777. 



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l§a HiSTORlA DA POESIA 



úamengos, ^ apparecem, além da sua maior vitalidade 
da tradição poética, vcstigios archaicòs que carecem 
de ser interpretados. Assim no romance da Pobre 
viuva, de vers5o da ilha de San Jorge, vem esta 
extraordinária referenoia* ao bastão runico : 

Toma lá tnit? e úmxirOy 
Escreve n*tssa bem^^akiy 
Já <|úe se perdetr o corpo, 
Qae se lhe níío perca a alma. 

Contos do Ar chip., n.° 50. 

Pastores, que andaes aqui, 
Escrevei isto a mi madre; 
Se não tiveres papel, 
No bastão doesta bengala, 
Ibid , n.o 51. 



^ Sobre as nossas antigas relações com Flandres achamos em 
uma nota de Gomes de Amorim a umas observações de Garrett 
sobre a casa da Feitoria portugueza em Anvers : »As relações 
commerciaes de Portugal com a Bélgica datam do anno em que a 
filha de D. Affonso Henriques casou com Filippe de Alsacia. e 
depois de viuva se declarou rainha- E as primeiras Feitorias que 
tivemos em Flandres foram estabelecidas em Bruges, por mercado- 
res portuguezes, em fins do século xil ou princípios do xm.» E 
apoia estes factos na obra de Vanden Busche Flandrt et Pcrtugal: 
A Os privilégios concedidos aos nossos compatriotas remontam ao 
século XIV ; mas só pelo contracto de 20 de Novembro de 1 5 1 1 é 
que a Feitoria se organisou regularmente com o nome de Gasa de 
Portugal» concedendo os burgo-mestres de Anvers um prédio na 
rua de Kipdorp para residência do feitor, guarda do archivo, etc » 
Nâo transcreverei aqui as noticias curiosas jobre a nossa Feitoria 
de Flandres, mas o que fica apontado basta para reconhecer- se que 
a vinda de uma corrente de colonisação flamenga para algumas das 
ilhas dos Açores nlo proveiu de uma tentativa aventurosa. Esse 
elemento flamengo ( Weiche^ da antiga Belgae) pertencendo á raça 
ligunca ou preceltica, influiu na vitalidade das tradições poéticas 
populares em determinadas ilhas do Archipelago, tal como S. Jorge. 
i^Hist. da Pões. popul^ I, p. 7, not.) 



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POPULAR RTUGUEZA agi 

As runas scandinavas traçavamse além das pe- 
dras, também no páo, sobre um bastão, ou a 
Seta, a vara magica que se arremessa ; e ainda na 
Andalusia chamam se Saetas certas cantigas religio- 
sas, que se entoam nas procissões. A flexa, ca seta, 
no norrico arvu, * liga se aqui com a designação do 
canto narrativo ou romance, a que em San Jorge e 
Fayal chamam ^r^ie^ftr^ peia primitiva relação dos 
versos com o baUâe em que eram escriptos. * Mas 
perdido o seu sentido poético, por que as Consti- 
tuiçõesf dos bispados prohibiram o lançar varas, ainda 
o mesmo termo arvu ficou para caracterisar no 
género de Fidula (Vihucla, em Hespanha) o Erbeb, 
a que na Itália se chamou Viola da Orbo, segitindo 
Riemann. Assim, pelo instnunento que acompanhava 
a Canção narrativa, (a Crowtt, bretã, donde pro- 
vieram a Rebec, ital., o Raíé, hesp., a Ghironda 
ribeca, ital.) provctu cfeamar-se no século xiii a es- 
tes cantos Aríaòecca (a la rabeca). Nos nomes do 
género poético no Fayal e San Jorge encontram-se as 
duas tó-mas, Aravia e Aravenga, Em carta de ii 
<te Setembro de 1839, escrevia Gomes Monteiro a 
Garrett, enviando lhe alguns cantares narrativos po- 
pulares para o seu Romanceiro: cbem como algu- 
mas Xácaras, conforme mas recitou um creado meu 
da ilha do FayaL A da Sylvana também vae como 
corre nesta cidade (Porto) na bocca das velhas de 
bom tempo. Qualquer d'ellas tem vicios e manifestas 



* Bergmann, Les Scythes^ p. 40. 

2 A flexa (arvu) symbolisa-se em um 4 (arbii^ nas línguas bri- 
tonicas) e d'aqui o nome dado ao Arrabil, e Erbeb^ do antiquíssimo 
tetracorde a Chrowt ou Rota, que Riemann de Rebet ou RebedtiÇTQ- 
xima de Rebec, Assim também a desgnação do Canto Aravia, além 
do modo da escripta, e do instramento a que se cantava, relacio- 
na- se com a forma da estrophe em quadras narrativas continuas. 



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292 Historia o a poesia 

modernices, mas pode ser que ahi haja alguma va- 
riante de aproveitar. Também lhe direi a propósito» 
que perguntando ao tal creado como chamavam no 
Fayal a estas composições, me disse que o povo lhes 
dava o nome de Oravia, Não me consta que em 
parte alguma do reino lhe dêem este nome; mas 
não poderá isto ser corrupção de Aravia? N*este 
caso se poderá talvez presumir, que dos árabes nos 
veiu o modelo d'este nosso primeiro género de lit- 
teratura.» Esta conjunctura creio que não descansa 
sobre este ultimo fundamento.» * 

E' fácil cahír no equivoco da homophonia com 
Aravia (contracção de algaravia, a linguagem vul- 
gar,, ou confusa), da mesma forma que Rimance (do 
thema Rimei) se confundiu com o Romance (do thema 
Romancium, a linguagem do povo, contraposta ao la- 
tim.) 

Em carta de 24 de Novembro de 1868 escrevia- 
nos o Dr. João Teixeira Soares, enviandonos ma- 
teriaes para o Romanceiro Açoriano : «Observarei 
a v. que ò povo applica a todos os Romances e 
Xacaras o epitheto de Aravias. As povoações mais 
ricas de tradições poéticas são Rosaes e Beira, as 
mais accidentadas da ilha, e isto é devido a serem 
os povos d'ellas os mais pegados ás tradições e cos- 
tumes de seus maiores, mas principalmente ao uso 
dos serões nos seis mezes de inverno, de Outubro 
a Março inclusive.» ^ Em um artigo de Ernesto de 
Lacerda, aponta- se uma «seguidilha que (as crianças) 
dizem na ilha do Fayal — a que chamam Arafuenga.^ ^ 
Entre as cantigas que Gil Vicente aponta como sabi- 
das pela Ama de Rubena vêm a do Calbi orabi, (ii, 2^) 



1 Ap. Memorias de Garrett , por Gomes de Amorim, t. n, p. 526. 

2 Ap. Quarenta annos de vida litteraria^ p. 42. 
5 Revista lusit., vol. ni, p. 81. 



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POPULAR PORTUGUEZA 20)0 



á qual já no século xiv se referia o Arcipreste de 
Hita, no verso: 

El rabé gritador con la su alta nota, 
Cabel el orabin tániendo la su rota ... 

Vê-se d'aqui, que as designações insulanas Ora- 
via e Ar avia se relacionam com formas conserva- 
das pelos escriptores que mais se approximaram do 
povo, o Arcipreste de Hita e Gil Vicente ; já bas- 
taria isto para reconhecer a importância da tradi- 
ção açoriana, se a palavra Aravia não apparacesse 
reflectida nas tradições da America latina com o 
mesmo sentido de canto narrativo ou heróico. O 
facto torna-se um problema ethnologico de primei- 
ra itpportancia, para poder se explicar a sua conne- 
xão histórica. 

Nas Relações annuaes das cousas que fizeram os 
PP. da Companhia de Jesus na índia e Japão, em- 
prega o P.® Fernão Guerreiro a palavra Aravia no 
sentido de cântico : cElle começou a entoar uma 
Aravia, de que nada lhe entendemos.» (1600- 1609.) 
Elisée Reclus, em um estudo sobre a Poesia e os 
fretas na America kespanhola, cita o género poé- 
tico denominado Yaravi, comparando-o com os Ri- 
torneia dos italianos ; e Prescott, na Historia da 
Conquista do Peru, aponta os Haraveques como 
auctores destes cantares «semelhantes ás Bailadas 
inglezas e hespanholas,^ Estas observações despreoc- 
cupadas, levam-nos a entrever uma relação primitiva, 
e mesmo anterior á influencia árabe, que divulgou 
esta forma da poesia Occidental, persistente na Itá- 
lia, Hespanha e Inglaterra, e que foi transplantada 
ao Novo Mundo pela raça que primeiro explorou o 
Atlântico. Traduziremos o trecho do estudo de Re- 
clu-s : a Antes que a guerra separassse violentamente 

Poes. popul. — Vol. II 19 



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294 HISTORIA DA POESIA 



as colónias hespanholas dã mãe-patria, os diversos 
grupos de creoulos dispersos no âmbito do conti- 
nente colombiano, não formavam mais do que uma 
nação de mudos. A liberdade de linguagem foi dei- 
xada somente áquelles a quem o espaço protegia, 
aos llaneros, que corriam a cavallo as vastas soli- 
dões, e aos bogas ou barqueiros que vogavam de re- 
cife em recife, ou remavam sobre os grandes rios 
sem ter outra pátria além da sua barca. Estes, nas- 
cidos viajantes e Uvres, eram poetas a seu modo 
cantavam para se distrahireoa nos plainos desertos, 
ou para acompanhar o ranger compassado dos re 
nrios. M. Samper diz maravilhas das gallerones com 
postas pelos pastores nas savanas neo granadinas de 
San Martin e de Casanare ; * mas elle não cita estas 
canções que se perdem sem ecco. Apenas se co- 
nhece um pequeno numero de Yaravi peruvianas, 
graciosas poesias de amor, que brilham a um tem- 
po pela finura e ingenuidade, e que se parecem com 
as de todos os povos infantes, principalnnente com 
os Ritori^li dos Toscanos„ tanto é certo que os 
mesmos sentimentos se manifestam por toda a par- 
te do mesmo modo. Citaremos em hespankol duas 
Yaravi, para lhes não tirar a delicadeza e graça 
qiK as distinguem: 

Pajarito verde, 
Pecho colorado, 
Eso te sucede 
Por enamorado. 

Aun entre flores 
Se suele observar^ 
Tributar fragranCTa 
A quien &abe amar.»^ 



^ Ensaio sobre las revoluciones politicas y ta comRciofk socioT de las 
Republicas colombianas, Paris^^ i86r. 
* Reme des Deux Mondes, 15 de FeTemko de 1864. (t 9L1X, 



pL 90B.). Fotaflfc nmmwmiifflr4«ff p^a viajante, ieances Beithou. 



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POPULAR PORTUGUEZA 295 

Nas parlendas infantis portuguezas cantam-se 
este» versos ; 

Papagaio verde 
De bico dourado» 
Leva-me esta carta 
Ao meu namorado. 

A uma seguidilha infantil já vimos que no Fayal 
se chama Aravenga; Prescott fallando dos troveiros 
peruanos chamados Haraveques, como os que regis- 
tavam os annaes dessa extraordinária civilisação, 
accrescenta : cDesta maneira formou-se um corpo 
de poesias traiicionaes semelhantes ás Bailadas in- 
glezas e kespanholas, por via das quaes o nome de 
um chefe bárbaro, que teria desapparecido á falta 
de historiador, chegou â posteridade ao favor de 
uma melodia rústica.» * Esta relação apontada por 



* Historia dtt Conquista do Peru, t. i, p. 131, (trad. franc.) 
«E* sob o reinado de Lloque Yupanqui que a poesia, a Iit'era- 
tnra, a masica, a philosophia e as sciencias representadas pela me- 
dicina e pe'a astronomia, de que já dissemos algumas palavras, fi- 
zeram os seus primeiros ensaios. A poesia Hmitava-se á composi- 
ção de pequenos poemas de dez a doze estrophes, em verso bran- 
co octosyllabo devidos aos Yaravicus (poetas.) Estas composições 
chamadas Yaravis ' do nome dos seus compositores, foram a prin- 
cipio cantos de victoria, odes e dithyrambos destinados a celebrar 
o triumpho das armas dos [ncas, suas qualidades par.iculares e sita 
potencia. Com o tempo, tomaram formas mais variadas e cantaram 
o amor, a natureza e as flores. ^ Os tropos usados n'este género de 
f>oesia sSo tirados dos objectos mais graciosos da creaçSo. A estrella. 



» LittenUmente —Cantos tristes. Yarapicu, auctor ou compositor de can- 
tes tristes. O^ yaravis, sâo hoje simples romances, cuja nusica é sempre 
tscriptft cn> tom meaor, e com um floovimeDto omito wnco. Cántam-s« com 
acompanhamento de guitarra. 

* A roais moderna d'estas yaravis, e ao mesmo tempo a mais celebre, 
fintitula-se pica-Jtor de Iluascar htca. Foi composta, olz-se, alguns annos 
antes da conquista hespanhola. 



L. ._._.. 



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2o6 HISTORIA DA POESIA 



Prescott entre essas poesias tradiciotiaes do Peru e 
as bailadas inglezas e hespanholas, é tanto mais im- 
portante, quanto pelos estudos ibéricos se determina 
a relaçáo entre a Península hispânica e as ilhas Cas- 
siterides ou a Inglaterra. Esses cantores, segundo a 
auctoridade de Garcillasso, {Comm. real, P. i, liv. 2, 
cap. 27) têm para Prescott analogias extraordinárias 
com os troveiros da Edade media, e explica o seu 
nome de Haraveques: cA palavra Haraveque si- 
gnifica inventor ou auctor, e no seu titulo e nas 
suas funcções este poeta menestrel pode nos recor- 



a flor, a andorinha, a borboleta, aí representam a acção princi- 
pal, ou melhor o único papel. Se o estylo d'estas composições é 
quasi sempre de uma grande riqueza, a forma é pobre, a ideia 
pu eríl, o sentimento frio, e artificial. Como a sua irmã mais velha 
a poesia das raças do Zend, a poesia dos Yaravicus do Pení é de 
uma monotonia soperifera, e lembra de longe os eternos amores da 
Rosa e do Bulbnl persa. A única differcnça a notar entre os poetas 
indo persas e seus émulos do continente americano é uma fres- 
cura graciosa, especial ás obras dos primeiros, e uma melancho- 
lia protunda, particular á dos segundos. Nas poesias dos Arianos 
occidentaes, apesar de voltar sempre ás mesmas imagens e do 
enfado que isto causa ao espirito, parece ouvir-se no ár puro da 
manhã a cotovia cantar o seu hymno ao sol. Nas poesias dos 
Yaravicus, crê-se ouvir a nota plangitiva do noitibó ao apro- 
ximar do crepúsculo. O amor feliz, a voluptuosidade e seus 
extasis, foram sempre desconhecidos ás obras dos Yarazncus. 
Quando a paixão ai apparece, é apenas em estado de chamma 
discreta ou de ardor sem esperança. 

Estes pequenos poemas eram declamados pelos Yaravicus ^ a 
um tempo compositores e rhapsodos. Como na antiguidade gre- 
ga e latina, os tocadores de flauta davam o tom aos declamado- 
res e sustentavam a melopêa. As flautas d'estes músicos eram de 
cana e de vários tamanhos. Umas tem trez buracos, e tem o no- 
me de pincullus^ ontras tem cinco ou seis buracos e chamam-sc 
qqueynas. As povoações de Callao usam da S3rrínx ou flauta de 
pan » 

Paul Marcroy, Voyage a iravers VAmérique du Sud^ t. i, p. 
231 e 232. Ib. p. 98, not. I e p. 297. 



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POPULAR POKTUGUEZA 297 

dar o trouvére normando.» Como o troveiro medie- 
val, o cantor peruano achava ou inventava; e como 
o menestrel saxonio, que cantava á meza dos prin- 
cepes feitos brilhantes, e batalhas reaes, este mis- 
ter: cera em parte exercido pelos Haraveques, que 
escolhiam os incidentes os mais brilhantes para 
assumpto de suas canções e bailadas, que se can- 
tavam nos festins reaes á meza dos Incas. » (ib,) 
Isto nos revela um fundo ethnico tradicional ante- 
rior ao desenvolvimento da raça, dos Árias na Eu- 
ropa, que importa restabelecer f^elo processo com- 
parativo da civilisação proto histórica do Peru, com 
a de uma raça iniciadora, que fez as primeiras na- 
vegações atlânticas e que hoje se reconhece como 
sendo a raça ligurica. 

No seu livro Voyage d travers rAinérique du 
Sudy Paul Marcroy observa como estes Cantos 
heróicos ou narrativos se transformaram em lyricos : 
f Estas composições ehamadas Yaravi. . . foram a 
principio cantos de victoria, odes, dithyrambos des- 
tinados a celebrar o triumpho das armas dos Incas, 
suas qualidades particulares e seu poderio. Com o 
tempo tomaram formas mais variadas, e cantaram o 
amor, a natureza, e as flores.» E em nota accres- 
centa, definindo a palavra Yaravi: «Litteral mente, 
cantos tristes. Os Yaravis são hoje simples roman- 
ces^ cuja musica é sempre escripta em tom menor 
e com um movimento muito lento. Cantam -se coni 
acompanhamento de guitarra.» Em outro livro, 
Scenes et paysages dans les Andes, falia da Yaravi 
como : fPoésie ancienne, que se chante sur un mo- 
de lent et triste . . . » e deriva o nome de Yaravi- 
cu [Haraveque, Prescott), «poete, ou plutôt rhapsode, 
du temps des Incas.» (op. cit., p. 6i.) Além de 
ser acompanhada na guitarra, era-o também pela 
tibia ou flauta de cinco buracos qquyna ; este nome 



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298 HISTORIA DA POESIA 

é simplesmente a Coina bretan, instrumento que deu 
o nome a antigos géneros poéticos como âs Cha- 
ame (xa-coina) e Chacaula, ainda conhecida no 
Alemtejo. A persistência de certos nomes ligados a 
costumes, obdece á mesma estabilidade dos costumes; * 
assim como a Aravia e a Yarain, também as can- 
ções fúnebres dos Aiiróts do Bearn apparecem na 
America com o nome de Areytos ; outras vezes 
subsistem duas palavras homophonas de origens dif- 
ferentes, como o AVbardan, arremedador e contador 
de historias, (do brítonico hairtni) e o bardan^ que 



^ No seu livro Scenes et Paysage dans les Andes Paul Mar- 
croy, conta a tradição dos tristes de Peru, que morretn tocando 
flauta feita dé um osso da tíbia da pessoa a quem amaram ; é a 
Yaravi do Padre Lersundi : «perguntfi á senhora Matara, quem 
era este padre Lersundi, cujo nome revivia em um canto nacio- 
nal? — Um excommungado ! disse a matrona, um homem que sem 
respeito pelo .«eu santo * habito, se enamorou loucamente por uma 
rapariga sua parochiana. El!a morreu e foi Itvada para enterrai- 
se; mas o padre Lersuudi combinou com o coveiro, que na noite 
seguinte a tirou da cova e a levou secretamente para casa do 
cura. Então este despregou o caixão, tirou a morta, e lendo-a 
assentado em uma cadeira, rodeada.de cirios, se prostrou diante 
d*eUa e começou a fazer- lhe d<rclara(^»ões de amor, que misturava 
com gritos e gtmidos Quahdo a defuncta começou a cahir de 
podridão, o padre, obrigado a separar- se d ella, cavou-lhe uma se- 
pultura dentro em sua casa, e antes de a enterrar, despegou 
uma das pernas do cadáver e fez uma qqueyna {coina, flauta) com 
cinco buracos Durante cinco dias o desgraçado não fazia mais 
do que gemer e soprar n'esta flauta, cujo som dizem que gelava 
até a medula dos ossos. No fim d'este tempo os visinhos não o 
ouvindo mais, entraram em casa do padre e acharam- o morto, 
tendo a sua flauta entre os braços. O Yaravi que ides ouvir foi 
composto por elle durante esta lúgubre semana. . . 

«Ouvido esia explicação, que me fez ertremecer, Anita, o me- 
Ihor que pode, afinou a guitarra, e com um gesto iterativo de sua 
mãe, começou a preludiar ; immediatamente cessaram as conver 
sas, cada um tratou de se approximar, e a executante, cercada de 
de ama roda de ouvintes, entoou com uma voz áspera e plangente 



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POPULAR PORTUGUEZA 299 

segundo Yanguas, é a palavra árabe que significa 
truão, louco. Muitas palavras das línguas precelticas 
chegaram até aos nossos Cancioneiros trobadores- 
cos, como Drudo e Drudaria, e Arlot; outras 
subsistem no povo nas formas antigas interpre- 
tadas pelo espirito moderno, como Fadista (de Fa- 
tiste, em velho francez, de Faitk, ou vate, ligandoo ao 
thema Fado.) Não é pois absurdo separar o sentido 
de canto narrativo de Aravta, da designação de 
linguagem de Aravia, que se acha empregada pelos 
escriptores portuguezes dos séculos xiv a xvi. No 
Auto popular de Chiado Pratica de Outo figuras^ 
vem : 

Eu não entendo a ti, 

nem menos sua ar avia. 

(Obr, p. 13) 

Negra ! não mais aravxa. 

(Ib. p. 62 ) 



a famosa Yaravi em lá menor, a qual não tinha menoá de deze- 
seis coplas. Permittir-me-hão citar aqui como amostra a primeira : 

QueriJa dei alma mia, 
Mientras yaçes sepultada 
£n tu lúgubre mansion, 
Tu amante canta y Hora, 
Al recordar-se el passado ; 
Mas sus cantos y gemidos 
Que ya no puedes ouvir, 
Se los vn Uevando el viento.» 

-(Op. cit., p. 240.) 

Por estes vsrsos se vê que a forma da Yar<wi é em versos 
octonarios como a Ar avia insulana. Na America latina estabele- 
ce se a sua continuidade com os cantos dos Haraviques ou Yara- 
vicuSy do tempo dos Incas. Em Portugal a Aravia^ extranha á 
parte ibérica da Hespanha, só se pode relacionar com a Yaravi^ 
como «estigio das tradições li^uricas. E somente pela vasta ex- 
pansão de um povo navegador, é que se podem explicar fectos 
ainda mais remotos. 



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300 HISTORIA DA POESIA 

Covarrurias, no Tesoro de la lengua castellana de- 
fine Aravia como contracção de Algaravia tia len- 
gua de los Africanos y Ponientina, por que en res- 
peto nuestro nos caen ai Poniente, áe Algarve que 
vale Poniente, aaravie, algaravia.» Deu se ao nome 
geographico a accepção de linguagem ; a homo- 
phonia com a accepção poética era inevitável actuar 
no sentido histórico. 

A relação ethnica das tradições europêas com as 
da antiquissima civilisação americana, tem sido sob 
o ponto de vista da archeofogia pre histórica assen- 
tada em factos positivos, embora mal interpretados. 
Basta substituir a acção dos F^henicios, iniciando as 
navegações atlânticas, pela dos Fenni, os povos bran- 
cos do norte da Europa, ramo ligurico, para um 
grupo de factos adquirir uma nova luz. Na exposi- 
ção anthropologica do Rio de Janeiro discutindo -se 
a hypothese sobre a navegação dos Phenicios no 
Amazonas e costas do Brasil, sustentara-a em suas 
conferencias o barão de Teffé ; Carlos Koseritz, nos 
seus Bosquejos ethnologicos, acceitando esta doutrina 
reforçou-a com novos argumentos contra a impugna- 
ção de Aguirre, com uma segura erudição histórica 
e luminosa critica dos textos de ííerodato e dos 
Geographos antigos : « No Amazonas foram encon- 
trados vestígios phenicios, como nos disse o barão 
de Teífé, e a existência da figura de granito apon- 
tando para oéstc com inscripção phenicia, a que se 
refere o mesmo barão, por si só é grande argu- 
mento. Ha porém outro ponto que me parece im- 
portante : E' sabido que a única industria mais 
adiantada dos indigenas era a arte da cerâmica. 
Ora, todos os restos das obras cerâmicas mostram 
o molde das formas phenicias e os ornamentos por 
sua vez combinam com a ornamentação rectilinea 
dos phenicios. Q ultimo argumento em favor da 



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POPULAR PORTUGUEZ^ 



hypóthese phenicia é fornecido pelos ornamentos de 
vidro, achados em antigas sepulturas de bugres e 
igaçabas n'esta provincia — ... as duas pérolas aqui 
achadas . . . são de orig<3m phenicia ; como prova a 
comparação com outras pérolas de trabalho pheni- 
cio, existentes em museus europeus.» (p. 37.) A 
descoberta de moedas phenicias nas ilhas dos Aço- 
res, como revelou o Dr. Ernesto do Canto, no Ar- 
chiuo dos Açores, é um facto positivo de que nave- 
gadores phenicios (melhor, os Fennt do norte da 
Europa) explorando o Atlântico chegaram áquelle 
Archipelago, e dalli poderam descobrir para oeste 
a existência de um novo Continente, porque ás 
praias açorianas chegavam, como ainda hoje, as se- 
mentes do dolickos urenSy e da Mimosa scandens 
trazidas pela corrente do Golfo do México, quando 
recebe as aguas do Mississipi. A lenda da estatua 
de pedra da ilha do Corvo, referida por Damião de 
Góes, corresponde a um outro monumento indicati- 
vo do reconhecimento da America por um povo 
navegador. Os modernos trabalhos de sondagem no 
Oceano atlântico levaram á impossibilidade da hypó- 
these de um continente subvertido entre a Europa, 
Africa e America, ao qual na tradição se dera o 
nome de Atlântida; tudo quanto nos transmittiu o 
passado d'essa lenda geographica, só pode conside- 
rar se como verdadeiro applicando-o á America, da 
qual se perdera a rota. Avienus descreve o mar de 
sargaço e o banco de fuccos entre a Americ.i e a 
Europa. Nas ruinas de Palenque os baixos relevos 
representam um typo americano sem barba, e um 
typo estrangeiro com physionomia considerada semi- 
ta. No livro sagrado do Popolvuh, descrê ve-se um 
chefe iniciador da civilisação mexicana a que cha- 
ma QtiiisalcohualU que veiu através do mar com 
vinte companheiros, sendo de cor branca, com bar- 



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302 HISTORIA DA POESIA 

ba e c2d>ellos pretos, túnica preta, sabendo traba- 
lhar em ouro e prata, e conhecedor da agricultura. 
Que revela isto senão o vestígio immemorial do 
advento de um iniciador da. civilisaçâo, do mesmo 
povo navegador que chegou ao Golfo pérsico e ini • 
ciou a cultura da Chaldeia? Para se interpretar no 
sentido semita leu-se o nome Qtutsalcohuali àtcom- 
pondo-o nos seguintes elementos semitas Kadesch- 
El Cadir ; nós porém decompômol-o nas seguintes 
designações geographicas mais próximas da forma 
que traz o Popolvuh; Cadis-Iololios- Atlas. 
Assim como as lendas das navegações dos Jonios 
(que se attribuiam aos Phenicios) são pelos moder- 
nos estudos de arr.heologia geographica restituídas 
aos Ligures, por seu turno a lenda phenicia tem 
de acabar de dissolver- se, evidenciando que raça era 
essa que tocou na America è ahi implantou a sua 
civilisaçâo. Esse povo que desceu do norte da Eu- 
ropa para o sul, sempre pela orla marítima, e que 
precedeu a occupação dos Scythas, dos Celtas e 
dos Germanos, era pelos antigos geographos gregos 
denominado Ligure, e caracterisado pelos Celtas por 
branco (Finnes,) quando o repelliram para a Scan- 
dinavia; em Tácito este povo é chamado Benni, e 
em norrico Pinnar, é branco, A característica de 
branco, applicada a este povo, refkcte-se no nome 
de Ligure, em que o epitheto de ga?tç4> lhe fora 
dado pela circumstancia referida ; Plínio {Hist. nat,, 
X, 27) diz, que na Germânia davam o nome de 
Ganzá a uma pequena espécie de patos órana^s, 
espécie a que allude o agiographo do século x 
Adson, dizendo que o nome de Gantat era dado 
aos patos bravos por causa da sua brancura, * Foi 



* Belloguet, Etlmogenk gauloise^ t. i, p. 106. 



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POPULAR PORTUGUKZA 3o3 

fácil fazer o erro da confusão dos Phenicios com 
estes navegadores ( Phoeítix=Finnes, Fenni,) pela 
homophonia dos nomes. Alexandre de Huniboklt 
falia 4Jas tradições poéticas desta raça : «Aifida 
existem na velha lingua esses cantos em honra de 
Fingál, conhecidos pelo nome de cantos de Finnian, 
que foram colligidos e escriptos depois da introduc 
ção do christianismo, e que não remontam talvez ao 
século VIU da nossa éra ; mas estas poesias popu- 
lares encerrara mui poucas descripçôes sentimentaes 
da natureza. . .» * Este mesmo povo branco atraves- 
sou a Africa, deixando vestígios seus na raça dos 
Fulah (no dialecto Rotti, ftdah significa branco, tal 
como nas ilhas oceânicas Fukh.) No seu estudo As 
Populações lacustres, Anselmo de Andrade apresenta 
este problema ethnico de uma raça branca inicia- 
dora das habitações lacustres na Africa reproduzindo 
exactamente as prehistoricas da Europa: <é sur- 
prehendente a apparição de palaíittas na Africa, es- 
tando toda ella fora da corrente das migrações. E* 
pcffèm do interior do continente negro, que nos 
vem um esclarecimento inesperado para este pro- 
blema » (p. 88.) «Se a raça oceânica ç o producto 
de dois factores, um indigena e outro proveniente 
da Ásia meridional, é sem duvida neste ultimo que 
devemos ir filiar as populações lacustres.» (p. 41.^ 
cOs cereaes cultivados na Europa pelos forasteiros 
lacustres eram as espécies asiáticas provenientes da 
referida região oriental...» (p. 43.) «A liga dos 
bronzes lacustres é a mesma que a de certos bron- 
zes assyrios, sendo porém diversa nas outras partes 
do mundo. Por esta balisa entre o centro oriental^ 



^ Cosmos, t. 11, p. 40 ; destaca estes cantos das ialstficaçdes de 
Ma^barson. 



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?04 HISTORIA DA POESIA 

que determinamos, e a Europa, não é difificil seguir 
depois as pegadas lacustres.» (p. 44.) Dos esqueletos 
achados nos lagos da Suissa, mostra que essa po- 
pulação era de estatura pouco elevada, inferindo pelo 
seu habitat nos logares baixos, que deveria ter a 
cdr trigueira; (p. 50.) pelos crescentes encontrados 
nas estações dos lacustres infere-se, que em religião 
tinham o culto lunar, que anda sempre ligado á con 
dição agricola, O nome de Fulch, que pertence ao 
povo das ilhas oceânicas, relaciona-se com o de 
Folk ou Volg, que na Europa designou essa raça 
branca Bolg {^'xx-Bolg, o typo branco civilisador da 
Irlanda.); não é portanto phantasista a approxima- 
ção dos Harepos destes insulares com os Yaravis 
americanos, o que se fundamenta pela extraordiná- 
ria expansão d 'essa raça navegadora. * Pelo estudo 
das tradições poéticas chegámos, quanto ao elemen 



1 Descreve Quatrefag^es no seu livro Les Polynesiens, (p. 49) 
qae nas ilhas Marquisias «se encontravam poetas, bardos, que 
transmittiam entre si com uma religiosa iidelidade longas lendas 
contando a origem das cousas, os mysterios religiosos e a histo- 
ria dos tempos passados. Coroados de flores, acompanhados dos 
seus inferiores, levando de ilha em ilha a alegria, entre chefes sa* 
grados, iam celebrar as festas religiosas ou nacionaes, recordando 
aos membros esparsos da familia polynesiana a sua origem com- 
mum. e conservavam o deposito de conhecimentos cujo irrecusá- 
vel valor é hoje reconhecido. 

«O cuidado de guardar as tradições históricas e religiosas es- 
tava confiado aos harepo, ou passeiadorts nocturnos. Estes harepo 
eram, na accepção completa da palavja, honuns archhos O seu 
cargo era hereditário, e desde a mais tenra infância ensinavam- 
Ihes estes largos poemas que narravam a origem do mundo, a fi- 
liação dos deuaes, as migrações dos antepassados. £ra de noite, 
andando vagarosamente em volta dos templos que elles repetiam 
para si estes thesouros de saber real e das fabulas indígenas que 
as gerações legaram entre si umas ás outras, cuja origem primeira 
é ainda desconhecida, mas que remontam ao berço da raça po- 
lyne iana.» 



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POPULAR PORTUGEZA 3o5 

to lyrico a notar que as Canções dos Trovadores 
provençaes appresentam typos estrophicos semelhan- 
tes ás formas dos cantos accádicos, modernamente 
descobertos, e também á dos cantos do Chi-Kmg^ 
da China; somente por um ^xoíwwáo substratum 
ethnico é que o facto poderá ser explicado, tanto 
mais que hoje se determina o elemento popular a 
que os trovadores deram o aperfeiçoamento artísti- 
co. Egual observação é a que aqui consignamos 
emquanto aos cantos épicos das Aravias, Yaravis 
e Harepos, referindo-os á tradição inicial d*essa raça 
conhecedora da agricultura, da liga do bronze, e 
especificadamente navegadora. O conhecimento que 
os Bascos tiveram das pescarias do bacalhau pode 
attribuir-se também à tradição provinda d'essa raça 
maritima. Na época da conquista hespanhola na 
America, facilmente se confundiram elementos tra- 
dicionaes da civilisação mexicana com a hispânica; 
assim como diz o P. Costa, ndi^^Historia natural da 
índia, os hespanhoes adoptaram as dansas hieráti- 
cas;^ mexicanas dos Mitotes nas suas Mogigangas, e 
entre os Mexicanos revivesceram as formas do ro- 
mance narrativo dos Yaravi, que se desenvolveram 
na forma lyrica na sociedade americano-Iatina. A 
relação histórica com as Aravias, designação desco- 
nhecida entre o elemento ibérico e peculiar do nosso 
lusismo, é um facto extraordinário mas inacreditável, 
desde que se isole d esse importante problema da 
communicação de um povo navegador, que explo- 
rando o Atlântico levou a sua civilisação á America. * 



^ Importa lembrar como as invasões normandas, e as relações do 
elemento Jmmco com o ibérico vieram reavivar as tradições poéticas 
da raça primitiva. (Vid. Hist, da Pões, popul.^ i, io6 a 140.) O pro- 
blema da relação das tradições populares com alguns mythos accá- 
dicos ficou tratado no estudo dos romances yuliana e Jorge; e da 
Gayarda e Serrana de la Vera^ (op. cit., vol. i, p. 284 a 293.) 



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3o6 HISTORIA DA POESIA 



Na tradição popular da ilha de San Jorge persiste 
na versão oral o romance á morte do Princ^ D. 
Affonso, filho único e herdeiro de D. João n, etn 
149 1. Pertence a este fundo poético da morte do 
joren-heroe, recebendo forma pela adaptação a vá- 
rios personagens históricos, em differentes épocas. 
Transcrevemos aqui a versão, que não chegou a ser 
incorporada nos Cantes pafmlares do Arch^lago 
açorúmú: 

Casamento halloosado 

Casada de outo dias 
Â' janella foi chegar; 
Vira vir um cavalleiro 
Com um lencinho a abanar. 

— Novas vos trago, senhora, 
Mui custosas de vos dar; 
Vosso marido é mono 

Na praia do areal. 
Caiu do seu cavallo 
Andando a passear ; 
Rebemou-l-he o fel no corpo, 
Está em rbco de escapar, 
Se vós o quereis ver, senhora, 
Tratae \à de caminhar. 

Vestiu vestido preto, 
Por mai» Ta§ar lhe Rãb dar, 
Trez. creados a traz d'ella 
Sem a poder alcançar ; 
O pranto C|ue eila fazia 
Pedras faziam chorar, 
Chegou á praia do areal 
Seu nMridft ¥ira estar. 

— «Caèae vos, condessa, calae-vos, 
Não me dobrefs o rtiea mal. 
Que o vêr vosso desamparo 

A flofnha alma faz penar, 



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POPULAR PORTUGUEZA Soy 



Ide-vos para Castella, 
Onde tendes padre e madre ; 
Que sondes menina nova, 
Que vos tornem a casar. 

«Esse conselho, marfdo, 
Eu não no quero tomar ; 
Heide-me ir p'ra minha casa, 
Hei-me sentar a resar ; ' 
Morte que levou o Conde 
Condessa vinde buscar. 



Eis uma das versões da ilha da Madeira, tam- 
bém interessante pela vitalidade destes focos insu- 
lares : 

Triste noiva 

ccCasadinha de três dias 
Estava na minha janella, 
Chegou uma pomba negra ; 
Que nova me trará ella t 
— Má nova trago, senhora, 
E mui triste de chorar j 
Vosso marido é morto, 
Ou periga não escapar. 
Foi do cavallo ao chão 
Nas terras do Arrabal ; 
Rebentou lo fel no corpo, 
Arriba do arenal. 

La Infanta mal lo sabe, 
Vae a correr, a chorar ; 
Tantas cfamas de'po^ d'ella 
SeoK la poder avançar ; 
Chegou onde seu marido 
A carpir, sem descansar. 

— «Onde vindes vós. Infanta, 
Acabar de me matar ? 
In da sois menina moça^ 
Inda vos podeis casar. 



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Google^ 



3o8 HISTORIA DA POESIA 



«Eu não me quero casar, 
Quero lograr meu marido; 
Nem outro tal acharia 
Se vos houvera perdido. 
Chamem-me aquelle harbeiro, 
Que venha apparelhado. 
Que traga lanceta de ouro, 
E liga de ouro fiado ; 
Dê picada peauenina. 
Dada com todo o cuidado, 
Que não sinta elle dor, 
Mas que fique bem sangrado. 

■■= Quer sinta, quer nada sinta, 
Seja bem ou mal sangrado. 
Mal de amores não tem cura, 
Matou-se de apaixonado. 

Aqui dá»se o syncretismo com outro romance, 
por onde se vê como os vários elementos tradicio- 
naes tendem a modiíicar-se : 

Lo triste morto de amores 
Que se enterre no sagrado ; 
Não no enterrem na terra 
Onde vae pastar o gado ; 
Nem fique braço de fora, 
Mas só letreiro pintado, 
Para quem passar ir ler : 
Morreu triste desgraçado. 

{Caftc, do Ar eh. mad,^ p. 249 a 151.) 

Eis a versão brasileira, colligida em Sergipe, já 
extremamente attenuada, que o coUector Sylvio Ro- 
méro transcreveu confundida com outro romance, 
do qual a separámos na edição dos Cantos popula- 
res do Brasil: 

cEstava em minha janella 
Casada com outo dias ; 
Entrou uma pombinha branca, 
Não sei que novas trazia. 



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POPULAR PORTUGUEZA Sog 

— São novas ruins de chorar, 
Teu marido está doente 
Nas terras de Portugal. 
Cahiu de um cavallo branco 
No meio de um areal ; 
Arrebentou- se por dentro, 
Corre o risco de finar. * 

Este apagado vestígio é proveniente da colonisa- 
ção açoriana no Brasil, ou então o ultimo resto da tra- 
dição continental portugueza, que aqui nunca encon- 
trámos nas versões oraes. A morte do príncipe D. 
Affonso inspirou os poetas portuguezes e castelha- 
nos no fim do século xv, pela profundidade da emo- 
ção produzida nas duas cortes, como se vê pela 
narrativa na Chronica de D. João II, de Ruy de 
Pina. 

E' d'essas composições litterarías ou artísticas em 
folha volante, (pliego suelto) que foram espalhadas en- 
tre o povo, que se fixaram os traços universaes do 
romance popular. Pode-se confirmar o processo; 
Gaston Paris confrontou com o romance á morte do 
Príncipe por Frey Ambrozio Montesino, um roman- 
ce anonymo e abreviado, que encontrara em um 
manuscrípto do século xv na Bíbliotheca nacional 
de Paris, que traz ainda o retomello coral : 

Ay, ay, ay, ay 1 Que fuertes penas 1 
Ay, ay. ay, ay ! Que fuerte mal ! 



^ Omiês popular ts do Brasil, 1. 1, p. 20. Ed. 1880, de Li^t>oa. 
Sylvio Romero na ediçSo do Rio de Janeiro de 1897, traz esta 
▼ersSo, tal como a destacámos do romance D. Branca, com que 
anda confundida, não obstante dizer que apagara o que fizéramos 
na coordenação critica e conscienciosa d'esses Cantos. O ódio é 
sempre cegro. 

Pões. popoU — Vol. II ao 



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3 IO HISTORIA DA. POESIA 



Hablando estava la Reyna 
En su palácio real 
Con la Infante de Castilla, 
Princeza de Portugal. 



Ay I ay.. 



^ Ali vino un caballero 

• Cbn grandes lloros llorar 



Ay ! ay. 



Ay ! ay. 



Ay ! ay. 



— Nuevas os traigo, sefiora. 
Dolorosas de contar. 



Ay ! no son de reino extrafio, 
De aqui son, de Portugal ; 
Vuestro princepe» seiíora, 
Vuestro príncipe real. . . 



E cahido de un caballo, 
Y Talma quiere a Dios dar ! 
Si lo quereis de ver vivo 
No quered vos tardar! 



Ali estava el Rey, su padre, 
Que quiere desesperare; 
Lloran todas las mugeres 
Casadas y por casar. 

Ay I ay, ay, ay ! Que fuertes penas. 
Ay ! ay, ay, ay 1 Que fuerte mal ! * 

Este thema renovou -se em França por occasião 
do assassinato do Duque de Guise, em 1588, vindo 
essa Canção elegiaca a transformar-se mais tarde na 
conhecidissima Canção de Malbruf, que vamoé en- 
contrar na tradição popular da Catalunha, e na por- 



1 Ramama, vol. i, p. 373. 



\ 



V. 



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POPULAR PORTUGUEZA 3ll 

tugueza de Traz-os-Montes. Eis a versão coUrgida 
por Milà y Fontanals: 

IvA MALA NTTEVA 

Comtes y caballeros 
A* la guerra han d'ané, 

Y el comte de TAronge 
Diu que no hi vol ané. 
Té la dona bonica, 

No la gosa deixe. 

Com veu qui hi van per forsa 

S*en.va. determine. 

«Tornaré per la Pasqua, 
O* per la Trinité. 

La Pasqua n'es passada, 

Y lambé la Trinité; 
Quant Pasqua es arribata, 
La dama s*estoné. 

Y a la torre mas alta 
La dama s'en puje. 

Y en veu veni dos patges 
Tots vestits de dolé : 

— Ay, patges, los meus patges. 
Quina nova porte ? 

— «La nova, qui li porto 

No la vulgo sabe, 

Que es llevia aquesta roba 

Y s\esteixia de dolé, 
Qu*el Comte de TArgonge 
Es roort y soterre. 

— Me dirian los meu patges 
Ahout Than soterre ? 

— «Alli a n'el peu d*un arbre 
A n*èl peu d'un xipré, 
Qu'a la branxa mas alta 
L*esparné hi sol cante. 

{Retnonçerillo cat.^ n.® 235.) 

Uma outra versão colligida por Mflá y Fontanals, 
começa : 



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3 12 HISTORIA, BA POESIA 



Mambru s*en va á la guerra, 
Virondom^ virondom^ virondeta 
No sé quando tornará? 
Si tornará per Pasqua 

Virondom 

O per la Trinitá. Etc. 

O nome de Mantbru é uma apropriação popular 
de Malbruf ; Ochoa, no Tesoro de los Romances, traz 
este fragmento final: 

Este es el Mamhru^ seiíores. 
Que se canta dei revés, 
Y una guitana lo canta 
En la plaza de Aranjuez. 

Este ultimo nome relaciona-se com o do conde 
d'Aronje, do romance catalão ; Ochoa considerava-o 
capplicado á las circumstancias de la guerra de suc- 
cession en tempo de Filippe v. . . > Parece compro- 
var-se pela versão em dialecto mirandez, que se liga 
a um episodio d'essas campanhas chamado a guerra 
do Mirandum : 

La cantiga dbl Mibakdum 

Mirandum se fui a la guerra, 
Mirandum, Mirandum, Mirandella i 

Mirandum se fui a la guerra, 
Num sei quando benerá. 

Se benerá pela pasqua. 
Se por la Trenidade. 

La Trenidade se passa, 
Mirandum num bene iá. 

Chuhira-se a sua dama 
A hua torre bem alta; 



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POPULAR PORTUGUEZA ' 3l3 



Chubira-se a hua torre 
Para ber se lo abistaba. 

Bira benir um page. 
«Que nobidades trairá ? 

— Las novidades que traio 
Bos ande fazer chorar. 

Tirae los colores' de gala, 
Que Ihuto heis de botar. * 

Que Mirandumiá ié muôrto, 
Jou bien lo bi enterrar, 

Antre quatro ouficiales 
Que lo iban a Ihebar. ^ 

Merece confrontar-se coni o texto popular francez, 
para fixar pelos mesmos cantares a época da sua 
transmissão á península. ^ Por esta canção se observa 
a tendência a adapcar-se aos factos históricos locaes, 



* Variante de Moraes Ferreira, Dialecto mirandez^ p. 20. 

* Vem na versão supracitada. 

^ Malbrouh s'en va-t-en guerre . . . 

Mironton, mironton, mirontaine ! 

Malbrough s'en va-t-en guerre, 
Ne sais quand reviendra ! 

1\ reviendra -z-à Paques. . . 
Ou... à la Trinité! 

La Trinité se passe 
Malbrough ne revient pas ! 

Madame monte à sa tour 

Si hant que elle peut monter ; 

EUe voit de loin son page 
Tont de noir habtUé 



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Googk 






3 14 HtSTORIA DA POESIA 

aproveitando se a neuma de Mironton. * Assim a 
Canção á morte do Príncipe D. Aflfonso, provindo 



Mon page, mon beau page, 
Qaelle nouvelle apportez ? 

Aux nouvelles que j.*apporte, 
Vos beanx yeux vont pleurer ! 

Quittez vos habits roses, 
Et vos satíns broches ! 

Le sieur Malbrough est mort, 
Est mort et enterre. 

1 A canção de Mirandum foi pela primeira vez pablícada, no 
Commercio de Portugal^ no n.® 4327, intercalada em narrativa ro- 
manesca A guerra do Mirandum (ib., 22 e 23 de Dezembro de 
1893.) Oá-nos a sua proveniência: «appareceram uns cegos do 
Vimioso no logar (do Picote) cantando a canção do Mirandum ao 
movimento rjrthmico de manivellu, ao som plangente do teclado 
de uma sanfona.» O collector determina-lhe os seguintes elemen- 
tos históricos, que o levaram a considerar a canção de origem por- 
tugueza : 

«cCorria o anno da graça de 1762, e as tropas castelhanas e 
francezas atacaram Miranda do Douro. Portugal ainda nSo estava 
cursado de antigas feridas, quando os reis Carlos in de Hespanha 
e Luiz XV de França cora o celebre pacto de familia, consequên- 
cia da guerra dos sete annos, que entre si estipularam, querendo 
que hostilisassemos a Inglaterra, e não o havendo conseguido, co- 
metteu o general Marquez de Sariia a invasão do nosso territó- 
rio desde 8, 15 e 21 de Maio de 1762. O conde de OrioUa é no- 
meado general em chefe do nosso exercito e o conde de Lippe 
chefe do estado maior. 

a ... O coronel hespanhol 0'Reilly á frente de 2:000 homens 
marchou ^obre Miranda, a qual resistiu durante trez mezes deno- 
dadamente, e só por um incêndio que rebentou com a explosão da 
pólvora do castello produzindo pavorosos desastres de vidas e de 
fazendas é que o combate afroixou. 

«... O exercito inimigo desejou passar o rio Douro, mas en- 
controu uma resistência tenaz nos camponezes de Portugal com- 
mandados por um official irlandez M. O' Hara, e o capitão de 
Ordenanças portuguez Domingo Ferreira, que obrigaram os inimi- 



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POPULAR PORTUGUEZA 3l5 

de um thema da tradição universal, também se trans- 
formou em Canção histórica mais recente. 

Este processo homoplasticOj que se dâ na poesia 
popular, observa-se no romance açoriano A náo de 
Dom João, celebrando a batalha naval de Lepanto 
em 1572, alcançada por D. João de Áustria; n'elle 
ainda se encontra um vestigio referente á batalha 
naval de Tunis, ganha por Carlos v em 1535, sendo 
auxiliado pelo nosso galeão San João, que arrebenta- 
ra as correntes que fechavam o porto da Goleta : 

Perguntae a Carlos Mouro 
O que era acontecido. . . 

Como o nome de Carlos não tinha jâ realidade 
substituiu-se por um adjectivo. Quando em 1717 a 
armada portugueza, mandada contra os Turcos por 
pedido do papa, ganhou a batalha naval de Mata- 
pan, foi esse successo celebrado em cançonetas, e 
relações métricas semi litterarias, e as reminiscências 
de Tunis e Lepanto reviveram outra vez nos Ro- 
mances populares a par do sentimento hostil que ficou 
do tempo dos mauros, com que se syncretisaram. 



gos a desistir da avançada . . . Esta guerra é conhecida entre os 
nossos camponezes d'aquellas terras pelo nome de Guerra do M- 
randum^ e Domingos Ferreira conhecido pelo nome de Capitão 
da guerra do Mirandum ...» Este Domingos Ferreira casou com 
a Sijia visinha Maria Miranda ; d'ella se conta que procurara o ma- 
rido que cahira ferido no recontro de Picote Depois de curado 
dos ferimentos Domingos Ferreira voltou ao seu regimento quando 
elle partiu por ordem do barão conde de Alvito em direitura a 
Castello Rodrigo, onde estava o exercito do Marquez de Sarria. 
D. Maria Miranda não tomou a ter noticias de seu marido ; e 
pelas cantigas dos cegos do Vimioso é que. se soube da morte 
do Capitão da guerra do Mrandum. Eis os dados históricos que 
explicam a origem da Cantiga dei Mirandum em tudo similhante 
á cantiga franceza do Malbrough s'en va-t-en guerre ; este proble- 
ma versa sobre o personagem e a similaridade do thema. 



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i 



SECÇÃO 2.» (Século xvi.) 



§ i,° A Corte e a influencia castelhana 
na Poesia popular 



No maior século da historia, começa a éra das 
Grandes Navegações, realisadas pelo povo portu- 
guez, que pela audácia aventureira e actividade marí- 
tima conseguira a plena manifestação do seu génio 
nacional, O facto dos Descobrimentos assim como 
influiu na corrente da civilisação humana, não podia 
deixar de imprimir um maior relevo ao caracter 
portuguez, tornando-o primacial nas altas individua- 
lidades activas, affectivas e especulativas. O século 
XVI comprehende a maior somma de documentos do 
génio nacional, na arte, na litteratura, na politica, 
nas sciencias, na philosophia, no commercio, a que 
se ligam como representantes os gloriosos nomes 
dos Quinhentistas. í odas as energias de Portugal se 
conjugavam n este momento excepcional da sua vi- 
da e missão histórica. Mas n'esta evolução ascen- 
cional do fecundo século, e antes do seu término, 
Portugal sentese impellido para — uma austera, apar 
gada e vil tristeza, — e a sua própria nacionalidade 



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POPULAR POKTUGUEZA 



espoliada da autonomia, sendo incorporada por eflfei- 
to dos parentescos reaes na unidade ibérica. Este 
phenomeno momentoso ainda não foi considerado 
pelos historiadores. Na corrente progressiva em que 
se expandia o génio nacional, ia se formando a for- 
ça regressiva, que se concentrava e viria a supplan- 
tal o desnacionâiisandp-o, ou apagando c^ caracteres 
do seu individualismo. A actividade das cirandes 
navegações e conquistas que dispersaram a energia 
nacional, enfraquecia a vida local de um povo pou- 
co numeroso ; começou a servir de apoio o centra- 
lismo da Corte, e o perstigio de uma faustosa Mo 
narchia. O rei Dom Manuel, que se achou por aca- 
so successor de um throno, sem a intelligencia da 
situação, aproveitou-se dos resultados dos descobri- 
mentos planeados antes do casual governo, para tor- 
nar a sua realeza pharaonica, apparatosa. N'este in- 
tuito visou á unificação ibérica pelos casamentos 
com as filhas de Fernando e Isabel de Castella, 
empregando' para isso o tornar-se instrumento das 
perseguições religiosas, porque pela unidade catho- 
lica mais rapidamente consiguiria a unidade politica. 
No sonho egoista da sua grandeza, o sentimento 
do lusismo é substituido pela audiciosa utopia da 
Monarchia onrifersaL Portugal era pequeno paira a 
sua vaidade, os foros inunici pães são por elle di« 
minuidos, as cortes da nação não se convocam, o 
elemento industrial e mercantil é expulso a titulo de 
orthodoxia religiosa, e a grandeza heróica da occu- 
pação das descobertas marítimas é explorada pelo 
próprio nionarcha pelo chatinismo ganancioso feito 
pelas suas armadas. E este programma de desnacio- 
nalisação é continuado pelo seu filho Dom João iii, 
como instrumento passivo da Inquisição, e depois 
da Companhia de Jesus, que elle introduziu no seu 
estado minandolhe o organismo nacional ante o in- 



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3l8 HISTORIA DA POESIA 

teresse clerical da unidade catholica. Dom João iii, 
e os infantes seus irmãos, que tanto o perturba- 
vam, acham se inconscientemente servindo os planos 
ibéricos de Carlos v, que lhes explorava o seu fana- 
tismo imbecil. O povo cae n essa tristeza a que allu- 
dem Gil Vicente e Camões, e que provocava lagri- 
mas em Sá de Miranda. Avançava- se pela acção 
politica para a unificação ibérica, sem que o povo 
desse por tal crime ; e é n esta angustia, que ia ter 
o seu paroxismo em 1580, que todos os génios Ut- 
terarios dos Quinhentistas se approximam das fon- 
tes tradicionaes populares, e instinctivamerite tentam 
reanimar-se nellas. Quem percorrer todas as obras 
dos nossos poetas, dramaturgos e prosadores do sé- 
culo XVI ahi achará abundantes referencias ás can- 
ções, romances, aphorismos, costumes e contos po- 
pulares, transparecendo através da cultura humanista 
e das imitações italianas da Renascença. Era o que 
restava do génio nacional. Essas obras ficaram na 
maior parte inéditas até ao fim do século xvi, e por 
isso não produziram o seu effeito vital. Quando o 
iberismo triumphava com a entrada de Philippe 11 
em Portugal, o catholicismo preparavalhe as festas 
officiaes da sua recepção, com repiques de sinos e 
Te-Deum. O povo caía em um somnambulismo, em 
que pelas vagas prophecias merlinicas esperava um 
salvador vindouro. 

A poesia popular portugueza lío século em que 
mais se reflecte na litteratura nacional está semi- 
apagada pela influencia castelhana que prepondera 
na Corte. 



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A) A CANÇÃO LTBICA 



Na pompa regia com que Dom Manuel cercava 
a sua pessoa, exigia as manifestações da alegria po- 
pular, não se esquecendo de regulamentar as dansas 
e descantes que lhe eram devidos. 

No*Regimento de 30 de agosto de 15(2, no ca- 
pitulo das Cerimonias da Entrada de S. Magestade, 
ao tratar das ruas, lese : «Neste recebimento e 
entrada desde a porta da Cidade athe a Sé, e d*ali 
athe o Paço, as ruas serão mui barridas 2 mui jun- 
cadas e paramentadas dos melhores panos que cada 
hum tiver, e com perfumes, e todos bons cheiros ás 
portas, e percebidos pela Cidade todos Ministreis e 
tangedores que nella e no termo houver e Trom- 
beta todos postos nos logares pertencentes, e todos 
outros Jogos, representações que se puderem fazer, 
e tal dia será de guarda do todo louvor em louvor 
de Deus, e honra da entrada de seu Rey, etc.» 

Nas Ordenações manuelinas (Liv. v, tit. 103) in- 
corporou-se uma disposição prohibindo os descantes 
populares: 

«Considerando nós quantos males se seguem das 
musicas que muitas pessoas costumam fazer de noí 



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320 HISTORIA DA POESIA 

te, assim de cantar, como com alguns instrumentos 
de tanger ás portas de outras pessoas ; querendo -os 
evitar defendemos, que d'aqui em diante nenhuma 
pessoa de qualquer qualidade e condição que seja, 
nem se ponha só, nem com outros a tanger, nem 
a cantar á porta de outra nenhuma pessoa desde 
que anoitecer, até que seja o sol sahido; e sendo 
achados de noite, assim fazendo as ditas musicas, 
mandamos que sejam presos e jazam na cadeia trinta 
dias sem remissão, e mais paguem da cadeia dez 
cruzados e percam os instrumentos, que lhe assim 
forem tomados e as armas,^ tudo para o Meirinho ou 
Alcaide, que os prender e para os seus homens.» 

Esta prohibição continuava esse espirito obcecado 
do rei D. Manuel, que brutalmente decretara a ex- 
pulsão dos Judeus. As palavras de Gil Vicente fal- 
lando do esquecimento da poesia popular - de vin- 
te annos a cá. — explicam-se claramente alludindo 
aos effeitos prohibitivos de uma regulamentação es- 
túpida. 

Na farça de Quem tem farellos ? que chegou a 
ser representada eni Pateos ou Gorros, descreve Gil 
Vicente a scena do namorado galanteador Ayres 
Rosado dando uma serenata á sua dama. A scena 
é de um valor singular pelo quadro dos costumes, 
ainda persistentes, e pela referencia ás Gantigas 
do século xvi : « Tange e canta na rua d porta da 
sua dama Isabel, e em começando a cantar Si dormis, 
doncella, ladram os cães, » Eis os versos da canção, 
que se acham intercalados na scena burlesca : 

Si dormis, doncella, 
Despertad y abrid, 
Que venida es la hora, 
Si quereis partir. 

Si estaes descalsa, 
No cureis de os calzar, 



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POPUI-AR PORTUGUKZA SlI 



Que muchas «guas 
Teneis de passar. 

De passar teneis 
Aguas de Alquebir, 
Que venida es la hora 
Si quereis partir. 

(Obr., in, 13.) 

No desenvolvimento das situações cómicas o na- 
morado canta outros estribilhos e canções: 

Cantam ios gallos, 
Yo no me duermo, 
Ni tengo sueno. 

Apariar-me-hão de vós, 
Garrido amor. 

£u amei hu a senhora 
De todo o meu coração ; 
Quiz Deus e minha ventura 
Que não m*a quer dar, não. 
Garrido amor ! 

Não me vos guer dare, 
Ir-me hei á tierras agenas 
A chorar meu pesare. 
Garrido amor. 

Já vedes minha partida, 
Os meus olhos já se vão ; 
Se se parte minha vida 
Cá me fica o coração. 

N'esta farça indica Gil Vicente outros dois cantos, 
pelos versos iniciaes : — Um dia era um dia (p. 12) 
e — Por Maio, era por Maio^ (p. 19), que apparecç 
no Cancionero general, sendo muitas vezes glosado 
e posto em musica pelos poetas e violistas caste- 
lhanos. Além das serenadas nocturnas. Dom Ma- 
nuel também interveiu paternalmente nas festas do3 



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322 HISTORIA DA POESIA 

casamentos, por causa das despezas e cantares de 
senvoltos. 

No Espejo dei Príncipe Cristiano, do Dr. Fran- 
cisco de Monçon, falla-se dos cantos populares das 
BodaSy a que se chamava antigamente o Tamo, (de 
thalamo) e caracterisa-os com certo desprezo : «Um 
chamam usual e baixo, de que usam commu mente 
os jograes que tocam canphoninhas, rabeis e gaitas, 
e outros baixos instrumentos, de que usam os cho- 
carreiros que andam de boda em boda, cantando 
Cantares sujos e obscenos. Como fazem os tambo- . 
rilleiros e foliões com os seus pandeiros e ferrinhos ; 
os quaes com a mania de serem graciosos, dizem 
deshonestidades e chocarrices prejudiciaes á virtude 
e á fama dos homens.» (Fl. 66 v., ed. 1571.) No 
Auto das Regateiras traz q poeta Chiado uma refe- 
rencia a estes cantares : 

Ella moça e elle moço 
bem se foram ajuntar. 
Por vós se pôde cantar : 

Deitem o noivo no poço 
Se CO* a a noiva não brincar» 

(Ed. p. 92.) 

Dom João ni continuou o ódio do rei seu pae 
contra a poesia popular ; citamos a seguinte carta 
regia de 1 5 39, pouco depois de ser transferida para 
Coimbra a Universidade, dirigida ao Bispo-Reitor D. 
Agostinho Ribeiro : 

«Reverendo bispo-reitor. 

«Amigo. — Eu El Rei vos envio muito saudar. 
Eu sou enformado que alguns studantes dessa Uni- 
versidade nam esguardando ho que cumpre a ser- 
viço de Deus et meu et aa honestidade de suas* 
pessoas, andam de noite com armas fazendo musica 



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POPULAR PORTUGUEZA 'S2Z 

et autos nam mui honestos per essa cidade, do que 
se segue escândalo aos cidadãos et moradores, et 
pouca authoridade et honra aa Universidade, et 
porque eu recebo desprazer de taes cousas se fa- 
zerem, vos encomendo que vos enformees disso ho 
estranhai aas pessoas que o fizerem segundo a 
qualidade e suas pessoas, et mandae chamar ho 
meirinho da Universidade e lhe dizee de minha 
parte que olhe por isso et cumpra minhas ordena- 
ções que sobre isso tenho feitas, porque não ho fa- 
zendo assi eu praverei no caso como houver por 
bée et vós me escrevee ho que neste caso passa 
mui decraradamente. Anrique da Mota a fez em Lis- 
boa aos vinte dias de Junho de 1539.» Mesmo nas 
camadas inferiores da sociedade a auctoridade real 
impedia a franca ' espontaneidade das dansas e do 
canto, como se vê por este documento das Extra- 
vs^antes de Nunes de Leão (p. 423): 

No Alvará de 28 de Agosto de 1559 ordena-se 
que os negros não façam bailes ou ajuntamentos: 
f Manda El rei nosso senhor, que na cidade de Lis- 
boa, e uma legoa ao redor d ella, se não faça ajun- 
tamento de escravos, nem bailes, nem tangeres seus, 
de dia nem de noite, em dias de festa, nem pela 
semana, sob pena de serem presos, e de os que 
tangerem ou bailarem, pagarem cada um mil reaes 
para quem os prender, e os que não bailarem e fo- 
rem presos por estar presentes, pagaram quinhentos 
reaes. E que a mesma defeza se entenda nos pre- 
tos forros, t 

Com o ódio religioso que nos vinha de Castella, vi- 
nham também as cantigas que o exacerbavam entre o 
povo; refere Barbieri: 

f Quando no anno de 1492 saiu o decreto da ex- 
' pulsão dos Judeus, cantava o povo um cantarcillo, 
que dizia: 



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324 HISTORIA DA POESIA 

Eia, Judios, 

A' enfardelar. 

Que mandan los Reyes 

Passeis la mar. 

•sobre cujo thema Anchieta (Juan) compoz uma 
missa famosa^ segundo afifirma Salinas no seu tra* 
tado l)e Musica.^ * Barbieri transcreveu os sete com- 
passos d esta melodia, cuja letra já tinha sido pu- 
blicada por Amador de los Rios, e lannenta não ter 
encontrado a missa. A Cantiga passaria a Portugal 
com esse vento do fanatismo que fez com que o 
rei D. Manuel decretasse também a expulsão para 
realisar o seu casamento com a filha de Fernando e 
Isabel. Os Judeus que sahiram de Portugal nos prin- 
cípios do século XVI, levaram comsigo as tradiçOes 
e costumes que tinham assimilado no contacto com 
a vida do povo portuguez; a conservação d'essas 
tradições era um desafogo das suas saudades d'este 
céo benigno e d este território fecundo, e através de 
quatro séculos no contacto da grande civilisaçAo eu- 
ropêa o judeu portuguez conserva o seu caracter ty- 
pico. Entre as familias judaicas existem vestígios 
d' essa forte corrente da poesia popular portugueza 
da época fecunda do século xv, que servem princi- 
palmente para bem avaliar a sua intensidade. 

A língua castelhana usada na corte portugueza 
por causa dos casamentos reaes, era a preferida 
para versejar nas Serões do paço, como se vê 
pelo Cancioneiro de Resende; e obedecendo a esta 
tendência cortezã todos os poetas quinhentistas, com 
excepção do Dr. António Ferreira, escreveram mui- 
tas das suas poesias em castelhano. As musicas, 
que generalisavam as canções lyricas castelhanas» 



> Camioruro musical de hs Sighs XV e XVJ^ p. 21. 



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POPULAH PORTUGUIáZA SzS 

também coadjuvavam esta preferencia, que {azia, com 
que as canções portuguezas fossem desdenhosamen- 
te desprezadas. O casamento do príncipe D. Aífon- 
so, filho de D. João ii, com uma filha de Fernan- 
do e Isabel de Castella ; o casamento de D. Ma- 
nuel com duas filhas destes mesmos monarchas 
hespanhoes ; o casamento de D. João iii com uma 
irmã de Carlos v; e o do príncipe D. João com 
uma filha do imperador, mostram a tendência para 
a unificação ibérica pelos enlaces de familia, e con- 
sequentemente o uso exclusivo do castelhano na 
corte. Dom Manuel, segundo affirma Damião de 
Góes, «trazia na sua corte chocarreiros castelhanos.» * 
André de Resende, na Vida do Infante Dom Duar- 
te (cap. 14) allude a esta usança : «Veiu ter a esta 
cidade de Lisboa um mancebo castelhano chamado 
Ortiz, que graciosamente tangia e cantava chistes, 
filhou-o o Infante, e folgava de o ouvir. O qual um 
dia pela sesta lhe começou de cantar com a gui- . 
tarra um Pater noster, que contra o papa Clemente 
em Castella fizeram, que começa: 

Padre nuestro, en quanto Papa, 
Sois Clemente sin que os quadre, 
Sin que os quadre. .. 

aO qual, tanto que o Infante começou de ouvir, 
disse que se calasse, e mandou-me chamar. E des- 
pejando todos da camará, dixe ao mancebo que 
sem cantar o dissesse presente mim. E depois olhan- 
do para mim, dixe : — Que vos parece. Mestre ? anda 
boa a honra do Padre da universal Egreja em chistes 
e guitarra ? — Senhor, dixe eu, inda mal, porque o 
desavergonhamento do mundo é tanto. Voltou-se 



* Chron, de D. Afamei^ P. r7, cap. 84. 
Pões. popul. — Vol. u 



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326 



HISTORIA I>A POESIA 



para o mancebo, e dixe-lhe : — Olha, avisa-te que 
nunca mais isso cantes nem digas, e sabe que se 
me vem ás orelhas que fazes o contrario, além de 
te lançar de minha casa, te darei castigo que seja 
escarmento a outros...» 

D'esta sympathia pelos chistes castelhanos, escre- 
veu Gil Vicente com certa intenção critica : 

Porque auem quizer fingir, 
Na castelhana linguagem 
Achará quanto pedir. 

{Oâr., III, p. 449.) 

Jorge Ferreira de Vasconcellos, na sua comedia 
Aulegraphia, protesta contra este exclusivismo : < Não 
ha entre nós quem perdoe a huma trova portugue- 
za que muytas vezes he de vantagem das castelha- 
nas, que se tem aforado comnosco e tomado posse 
do nosso ouvido.» (Act. 11, se. 9.) Esta posse era 
* proveniente da musica dos compositores castelhanos 
como Badajoz, Valderrabano, Luiz Milan e outros : 
fEu não vos nego que sabeis muito bem harpar 
um Conde Claros, que elles logo dizem que não ha 
tal musica.» {Eufrosina, p. 19.) 

Na Comedia da Pastora Alfêa, Simão Machado 
justifica-se por ter n'ella empregado a lingua caste- 
lhana : 

Vendo quatn mal acceitaes 
As obras dos naiuraes, 
Fi^ esta em lingua estrangeira^ 
Por ver se d*esta maneira 
Como a elles nos trataes. 
Fio me no castelhano^ 
Fio-me em ser novidade, . . 

E Dom Francisco Manoel de Mello, na scenado 
Fidalgo aprendiz, em que Gil Alcoforado dáascrena- 



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POPULAR PORTUGUEZA 327 

ta á mulher que galantêa, ao cantar-lhe o romance 
portuguez da Sylvanà, ella exclama: 

Ay, senhor ! eu não queria 
Senão letra castelhana, 

(Obras metr., p. 247.) 

As novellas amorosas e as coplas castelhanas pre- 
valeciam na. corte de Portugal. Na Arte de Galan- 
teriãt D. Francisco de Portugal refere uma anedocta, 
em que uma carta de namoro é tirada da Carcel 
de Amor de Diego de San Pedro : f como aquel que 
embió una carta sacada de un libro, la otra dixo 
ai que le Uevaba, bolviendosela : — Esta carta no 
viene para mi, viene para Lauriola,^ (p. 71)* E 
observa: <Ias Copias castellanas, son las mas pró- 
prias para palácio, por más desnudas de arte, que 
la affectacion aun és más condenada en Ias accio- 
nes dei alma, siendo tan avorrecida en las dei 
cuerpo. » 

No Memorial dos Cavaileiros da Segunda Tavola 
Redonda^ também Jorge Ferreira manifesta desejo 
que se usem como em Hespanha os romances canta- 
dos : «com uma voz mui alta e suave, ao som de 
huma viola darco, cantava o seguinte romance, que 
o Chronista aqui quiz poer pêra que se sayba, 
que n'este e per este modo usaram os passados ce- 
lebrar seus heroycos feitos, por que a gloripsa me- 
moria d"e!les assi viesse a nossos tempos e se con- 
servasse, de que também em Espanha se usou mui- 
to, e usar-se agora pêra estimulo de imitação não 



1 Uma Canção do século xv, musica de Ponce, era sobre o 
verso : - . 

La mi sola Leaureola 

(Barbieri, Canc. musical^ p. 223.) 



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328 , HISTORIA DA POESIA 

fora máo.» (p. lO.) Além da belleza da poesia das 
Canções do fim do século xv, a musica hèspanho- 
la dominava na corte pela pureza e graça das me- 
lodias muito ligadas á tonalidade popular. Pela no- 
tação musical se salvaram preciosíssimos documen- 
tos poéticos. 

A musica das Canções de corte nos séculos xv 
e XVI em Hespanha appresenta trez estylos, prove- 
nientes uns da corrente artística europêa, e um ou- 
tro resultante da influencia da melodia pçpular. O 
género fugado, imposto pelo prestigio dos Mestres 
flamengos, libertando-se a palavra, e o estylo harmó- 
nico pela simultaneidade das vozes, não poderam 
apesar de todas as auctoridades profissionais, sup- 
plantar a graça e espontaneidade da Canção popu- 
lar. Os poetas lyricos e apaixonados apropriavam- 
se das Lettrilhas e Cantilenas, que desenvolviam com 
uma belleza ingénua, como Garci Sanchez de Ba- 
dajoz ou João dei Encina ; e pode se dizer, que os 
versos e as estrophes dos Cantos populares, assim 
como deram fofça aos Trovistas contra a imitação 
italiana do lyrismo petrarchista, também suscitaram 
nos Compositores o interesse pela tonalidade das 
Canções populares, pelas suas melodias mais cara- 
cterísticas, desenvolvendo-as pelo intuito da expres- 
são, presentindo assim a forma definitiva em que 
havia de entrar a evolução da Musica moderna. O 
que a Hespanha encetou no século xv, a Itália su- 
stentou em todo o século xvi na Çanzone ad una 
você. Os poetas da corte tocavam quasi todos viola 
de arco e alahude, ou cantavam, e esta circumstan- 
cia influia de um modo immediato no valor proso- 
dico da letra para suggerir a accentuação melódica. * 



1 Barbieri, no prologo do Canàonero musical de los Siglas xv 
e XYI concluiu sobre o estudo de 460 Canções d'esse monumen- 



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POPULAR 1'OUTUGUEZA ^29 

Infelizmente todos estes elementos de uma fecunda 
elaboração esthetica foram perturbados e em parte 
annullados pela Renascença, na admiração exclusiva 
das obras da Antiguidade clássica, e despreso pelo 
que era popular porque provinha da Edade media. 
Os músicos hespanhoes eram admirados na corte 
portugueza ; Badajoz, o musico, pertencia á camará 
do rei D. João in;* era também poeta, donde in- 
fere Barbieri, contra a opinião de Amador de los 
Rios, que este seja o apaixonado e incomparável 
lyrico Garci Sanchez de Badajoz. Garcia de Resen- 
de na sua Miscellanea falia da celebridade de Baena^ 
o afamado musico, de quem diz Fr. Francisco de 
Ávila, no seu poema La Vtda y la Muerte^ im- 
presso em 1 505 : 

Y era Lope de Baena 
Muy sotil componedor. 



to : ft Notam se na sua musica trez cstylos principaes : o do gé- 
nero fogado, o harmónico mais simples, e outro que podemos con- 
silerar como expressivo, pela intima unifto que apprésenta com a 
prosódia da nossa língua (castelhana) e com o gosto popular das 
nossas Canções e Dansas nacionaes, sendo para notar que alguns 
Cantarcillos tão caracteristicos, que, se não estivessem harmonisa- 
dos artisticamente a trez ou quatro vezes, poderiam tomar-se por 
expreSdão pura da musa popular. 

«Este é um dado muito importante para a historia musical hes- 
panhola ; pois quando todos os compositores da Europa procura- 
vam em suas obras ostentar os primores do contraponto com de- 
sprezo quaii absoluto do sentido da letra, encontramos aqui mui- 
tas composições em que a musica se subordina de uma maneira 
mui notável á poesia. — Prova evidente de que a arte da musica 
em Hespanha se achava durante a Renascença com o mesmo gráo 
de desenvolvimento, e ainda com a vantagem da expressão, do que 
no resto da Europa, não obstante as continuas guerras com os 
sarracenos, e contra Fr&nça e Itália; etc.» [Op, cit.^ p. 15.) 

1 Em 1 548. Documento descoberto por Barbieri, (Canc, musical, 
p. 156.) 



L^„ 



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33o HISTORIA da' poesia 



Juan dei Encina, também celebrado por Garcia 
de Reisende como tendo a primasia da iniciativa dos 
Autos pastoris, «era musico, e de muita importância 
para o seu tempo» como nota Barbieri, (p. 26.) Em- 
quanto á expressão, Juan dei Encina mostra se a 
grande altura — «adiantando-se algumas obras suas 
tanto ao seu século, que parecem escriptas no pre- 
sente.» (p. 16.) «Encina era um poeta e musico 
eminentemente cortezão e popular ; as suas compo- 
sições musicaes são pela sua estructura e harmoni- 
sação simples, obras expressivas mais próprias para 
deleitar os sentidos do que alardear scièntificos con- 
trapontos.» (ib., p. 28. i Na Historia da Musica kes- 
panhola, escreve Soriano Fuertes : «Don Luis Milan 
foi chamado á corte de Portugal por el rei D. João 
III, e em extremo aífeiçoado â sua grande habili- 
dade e talento em musica, o nomeou gentil homem 
da sua camará e lhe assignou sete mil cruzados de 
renda.» (Op. cit., 11, 176, not i.) Milan dedicou a 
D. João III um seu tratado, Lihro de Mtisica, «ai 
poderoso é invictissimo príncipe D. Juan, rei de 
Portugal y de sus Islãs» em 1535; ^J> como indi- 
ca o musicographo Pedrell, incluiu quatro Canções 
para canto e viola en letra portuguesa, que podem 
reconstituir-se d esta forma : 

i.« 

l.evaes-me, amor, d'aquesta terra, 
que nom faço más vida en ella. . 
Levaes-me con vós! 

Levaes-me, amor, aFisIa perdida, 
que n- n faço en ella más vida. 
Levaes-me com vós! 



Fallae, meu amor, fallae-me; 
Se não me fallaes, matae-me. 



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POPULAR PORTUGUEZA "33 1 



Fallae, meu amor^ 
que vos faça sabor. 

3.* 

Poys dizeis que me querèys bem, 
ai, por que não 
daes falia a ninguém ? 

Vós dizeis, que me aAaes, 
e eu vos vejo 
que burlaes. 

4.- 

Queiii amores tem 
affinque-los bem, 
' que não he vento 
que vae e vem. . . 

Quem amores tem 
^ A lá em Casiella, 

e tem seu amor 
em dama donzella ... 

Affinque-los bem, 
que nam é vento 
que vae e vem. 

O musicographo Pedrell, em carta de julho de 
1898, escrevia: fPongo en musica cantable y to- 
cable, conservando los disefios harmónico y melodia 
CO originales, todo un Cancionero contenido en Ias 
obras de nuestros famosos vihuelistas dei siglo xvi.» 
No livro de Milan acham-se postos em musica os 
Romances Mis arreos son las armas. Suspirastes, 
Baldavinos, etc. No livro de Francisco Salinas, De 
Musica, do século xvi, vêm Canções da Castella 
Velha, como as que começam : 

D*onde son estas serranas, 
Del Pinar de Ávila son. 



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332 HISTORIA IJA POKSIA 



A quien caniaré mis quexas . . . 
Dexaldas, mi madre 
mis ojos llorar. .. 

Aunque soy morenita y prieta . 

Sôliades venir, mi amor. . . 

De rosas y flores . . . 

Cata el lobo dó va^duanico. . . 

Segador tirate afuera . . 

Casóme mi padre. . . 

Llamaime villana . . 

Que quereys^ el caballero t 

Casada soy ; marido tengo. .- 

Conde Claros. : . 

Los brazos traigo cansados. . , 

Retrahida está la Infanta . . . 



Nos Cancioneiros musicaes castelhanos encontraoi- 
se muitas Canções que foraníi intercaladas por Gil 
Vicente nos seus Autos, ou imitadas pelos poetas 
quinhentistas como Camões, Bernardos e Caminha, 
Pelo confronto dos seus textos se recompõe esta 
phase do prestigio das trovas castelhanas sobre as 
portuguezas. 

No livro da Meditação em estylo metrificado, man- 
dado imprimir pelo Bispo de Coimbra, vem dois 
factos que mostram esta frequência dos cantares 
castelhanos: cE por que o romance que aqui vay 
acharam apontado singularmente por Badajoz, mu- 
sico da camará dei rey nosso senor. E o Vilancete 
do Parto da Senhora se hade cantar por o duo que 
compoz Torres da letra Inimiga foy madre;. ..t 

Também no Cancioneiro musical de los siglos XV 
y XVI, publicado por Barbieri, vém sob n.** 50 esta 
letra portugueza : 

Minno amor, dexistes ay, 
Venno á ver como vos vay. 



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l»OPUKAR POKTUGUEZA 333 



Minno amor tan garrido, 
Firi os vuestro marido í 

Venno á ver como vos»vay. 

Minno amor tan lozano, 
Firi-os vuestro velado. 

Venno á ver como vos vay. 

Na lucta da introducçãodos metros endecasylla- 
bos italianos, prevalecia no gosto palaciano a me- 
dida velha, do que dizia D. Francisco de Portugal : 
<ni ay muger que apeteça versos si no aquellos que 
tienen poças syllabas, los pensainientos vivos, y rnu- 
cho ayre, que son propriedades dei Romance, cujos 
desenfados parece que se hizieran solamente para 
ellas: etc.» (p. 76, da Arte de Galanteria,) 

A influencia castelhana na corte de D. Manuel e 
D. João III acha-se reflectida em muitas das Can- 
ções que Gil Vicente intercalou nos seus Autos. No 
Cancioneiro musical dos séculos xv e xvi, publicado 
por Barbieri, acham -se completas muitas das Canções 
que o fundador do Theatro portuguez apenas indica, 
e o que é inapreciável, a musica, que hoje se poderia 
ajuntar á obra de Gil Vicente. Seguindo o monumento 
publicado por Barbieri, achamos logo a Canção posta 
em musica por Juan de Urrede : 

Nunca fué peixa mayor, 
Nin tormento tan estrano 
Que iguale con el dolor 
Que rescibo dei engano. 

Devia-se saber no paço no tempo de D. João 11 
que esta canção composta pelo primeiro Duque de 
Alba, * fora a pedido da rainha D. Joanna de Portu* 



* No ArU (U Galanteria de D. Francisco de Portasjal, faltando 
dos Motes, diz que os poetas iam sempre «topar en lo tan sabido 
dei Duque (TAha. . .» (p. 95.) 



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334 HISTÓRIA DA POESIA 

gal, esposa de Enrique iv, glosada pêlo çommenda- 
dor Roman, e enormemente vulgarisada; quando Gil 
Vicente fez referencias á canção nas tragicomedias 
Cortes de Júpiter y de 1521, e Fragoa de Amor, de 
1522, era a uma cousa ipuítò isabida .e já tornada 
popular: 

Cantará com mal (aoianho 
O triste seu servidor : 
Nunca fué pena mayor^ • 
Ni tormento tan estranho, 

(Obr., II, p.,410.) ' 

Por que no andais cantando 
Perdiendo tal Dios de amor : 
Nunca fuè pena mayory 
Ni tormento tan estraHo. 
Que eguale con el doíor, 

(li)., 329:) . 

Nò Atito dá Barca, intercala- o outra vez : 

y llorando cantareis 
Nunca fué pena mayor. . . 

No Cancioneiro de Resende (t. 11, p. 87) ha tam- 
bém referencia á canção Nuni:a /oy pena mayor. 

No Auto pastoril castelhano, representado por Gil 
Vicente no natal de 1 502, os pastores ,que vão vi- 
sitar o menino : « Con tangeres e bailes offerecem, e 
d despedida cantam esta Cançoneia: 

N'ora buena quedes, Menga, 
A' la fé que Dios mantenga. 

Zagaia santH, bendita, 
Graciosa y moreniia 
Nuestro ganaJo visita, 
Que ningun mal no Ic venga. 

(Obr., I, 18.) 



k. 



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PQ^VUAK PORTUGUEZA 335 

No CoMeionero espahol dos los stglos xv y xvi, 
(n.«* 3^9 e 370) acha se este pé de cantiga tratado 
em duas versões poéticas com sentido amoroso e 
com melodias differentes: 

' Nórâ buena vengas^ Mengá, 
Ara fé que Dios mantenga. 

<iD*onde dejaste el ganado, 
Pastoreillo descuidado ? 
Pues, que vienes tan cansado, 
Ara fe que Dios mantenga. 

— Dejelo eu su regajo 
Paciendo a gran gasajo, 
Y vengo por pan y ajo, 
Ara fé que Dios mantenga. 

Transcrevemos apenas as duas primeiras estrophes 
d'esta canção; a segunda é mais apaixonada. Bar- 
bieri já tinha notado em Gil Vicente este Villancico 
applicado ao divino, (p. i tíó.) Em outro logar já fi- 
cou restituida a Canção franceza Ay de la noble 
vilta de PariSy que Gil Vicente apontou no Auto 
dos quatro Tempos, 

Na Tragicomedia Fragoa de Amor, aponta Gil 
Vicente uma outra canção muito querida na corte' 
de D. João iii: 

Mas ansí sin alegria 
Llorando cantaré yo : 

Triste^ça, guien à vos me diô^ 
Pues no fue ía culpa mia^ 
Nó ge la mereci^ no. 

(Obr., t. II, p. 329.; 

No Cancioneiro musical espafiol, n.° 12 e 13, vem 
com uma melodia differentemente harmonisada; a 
letra completa o Villancico da tragicomedia : 



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^ 



336 HISTORIA DA POESIA 



Triste^a^ quien á mi vos dió^ 
No ge lo merecia yo. 

Tristeza, triste de mi ! 
Por mi mal, vos conoci : 
Mas si vós jquereis á mi, 
Mucho mas vos quiero yo. 

Es la vida que me dais 
Vós vi vis y á mi matais : 
Pues que vos asi mandais^ 
Lo que quereis quiero yo. 

(Pag. 6 .) 

Na tragicomedia das Cortes de Júpiter, o perso- 
nagem que faz de Sol diz: 

Mais ditosa se hade achar. 
Quando a vir, o seu esposo, 
E dirá como a olhar, 
Namorado com razão : 

ATmã, er^uedme los ojos 
Que a mt namorado m'hão. 

cEste Vilancete foi cantado a três vezes:» No 
Cancioneiro musical do século xv e xvi, n.** 58, 
vem a letra d'este Vilancete com musica de Pefta- 
losa : 

Ninã^ erguidme los ojos 
Que a mi enamorado m'han. 

No los alces desdenosos, 
Si no ledos y amorosos, ' 
Que mis tormentos penosos 
En verlos descansaran. 

De los muertos haces vivos, 
Y de los libres cativos : 
No me los alces esquivos, 
Qu*en vcllos me mataran. 

(Pag- 73 ) 



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PÕPUI.AR PORTUGUEZA 33j 

Barbieri conheceu a referencia de Gil Vicente, e 
sob os n.®* 59 e 6o traz mais duas versões mu- 
sicaes d'este mesmo villancico. 

N'esta tragicomedia allude a outro Vilancete, que 
também se acha no Cancionero musical : 

Irá cantando porém 
Que bem lhe parecerá : 

A^uel cabellero^ madre^ 

Si me habra 

Con tan mala vida como ha ? 

(Obr., t. II, 409.) 

No Cancionero musical, n.^ 227, vem com cinco 
estrophes : 

Aquel caballero, madre, 

Si morira 

Con tanta mala vida como ha. 

Que sigun su padecer, 

Su firmeza e su querer. 

No me puedo defender 

y vencerme ha 

Con tanta mala vida como hà. 

Por que segun su aficion 
Bien merece galardon, 
Y en pago de su pasion 
Se le dará, 
Con tanta mala vida como ha. Etc. 

Barbieri não determina o paradigma em Gil Vi- 
cente. 

Entre as numerosas Canções, que são apenas apon- 
tadas na tragicomedia das Cortes de Júpiter, encon- 
tramos mais duas colligidas no Cancionero musical: 

Cantarás a esta formosa 
A calhandra e o rouxinol : 



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158 



HISTORIA DA POESIA 



Gentil dama valerosa, 

Y don^^ella por cuyo amor. 

E com esperança perdida: 
CantaFá bem namorado : 

Al dolor de mi cuidado»,. 

Y En tus manos lamivida^ 
Me encomiendo eondenado. 

(Obr.,' II, 4".) 

Com musica de Rodriguez Torote acha-se a Can- 
ção n.° 8 em fragmentos : 

Doncella^ por cuyo amor 
Sin verguenza nin temor 
He penado et siempre peno, 
Pues soy vuestro servidor, 
No me fagais ser ageno. 

A Canção 30, com musica de Gijon, tem a se- 
guinte letra, que foi glosada por Juan dei Encina, 
Fernandez Heredia, Jimenez de Urrea, e pelo bispo 
Villaquiran: 

Al dolor de mi cuidado 
Siempre le creceo tristura ; 
Mas nunca será mudado, 
Por mal que diga ventura. 

EU esperanza perdida 

Y el pensaniento dudoso 
Con un venir congojoso 
Me da muerte conocida. 
Esfuerza con la cordura, 

Que mueres desesperado, ^ 

Mas no por eso mudado, 
Por mal que diga ventura. 

Barbieri notando a referencia de Gil Vicente e as 
varias glosas que provocou, diz que é uma das mais 
antigas do Cancioneiro musical. 



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POPULAR PORTUGUEZA SSq 

Burbieri também encontrou em Gil Viceute refe- 
rencia á Canção 19 do Cancioneiro Musical, como 
se vê pela primeira estrophe : 

En tus manos la mi vida 
Encomiendo condenado ; 
Ten piedade merecida 
Por que m*has desamparado. 
Fin hara la profecia 
Dada por mi mala suerte, 
Sin os triste el animaria 
Hasta que venga la muerte. 

Essa Canção era já conhecida na corte de D. 
João II, porque D. João Manuel terminou umas co- 
plas, que vem no Cancioneiro de Rezende, com a 
primeira quadra: «Morte de tanta porfia.» (Barbieri, 

p- 63). 

Na farça de Quem tem farellos t^ representada por 
Gil Vicente em 1505, o namorado Ayres Rosado 
canta: «/Vr Maio era, por Maio.i^ (ui, p. 19) No 
Cancioneiro musical, n.** 59, vem a musica deste ve- 
lho cantar, cuja poesia era ainda eirt forma de Ro- 
mance, attribuida por diversos a D. Alonso de Car- 
tagena; só em 151 1 é que apparéce glosada por 
Nicolás Nuftez, e em 1526 por Garci Sanchez de 
Badajoz. Transcrevemos o tej^to do Cancionero ge- 
neral, mais próximo da oral vicentina : 

Por Mayo era, pcrr Mayo, 
Guando los grandes calores, 
Guando los enamorados 
Van servir á sus nmores; 
Sino yo, triste mezquino, 
Que yazo en estas prisiones. 
Que ni sé cuando es de dia, 
Ni menos cuando es de noche. 
Si no por una avecilla 
Que me canta ai albor : 
Matomela un ballestero ; 
béle Dios mal galardon. 



L.._^^ 



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5^ 



340 HISTORIA DA POESIA 

Apparecem vestígios d este Cantar no poema de 
Àlfanso Onceno, do século xiv. A letra da Canção 
6q está muito deturpada, reconhecendo-se o fun- 
do popular. No Triumpho do Inverno 'Gil Vicente 
transformou esta Canção adaptando a ao nascimento 
de um Príncipe: 

Por Maio, era por Maio, 



Guando las aves cantaban 
Cada una su cantar ; 
Guando las arboles verdes 
Sus fructos Quieren pintar . . . 

(Obr., n, 531.) 

CANTAR VELHO 

Se lo dizen, que lo digan, 

Alma mia, 

Se lo dizen, que lo digan. 

Caminha fez-lhe um Vilancete, (p. 395) e Gil Vi- 
cente emprega- o na Tragicomedia das CòrUsde yu- 
i>iter, * bem como Jorge Ferreira de VasconceUos, 
na Comedia Eu f resina, (Priebsch, p. 553, e D. Ca- 
rolina Michaelis, n. 40). No Cancioneiro de Barbieri 
vem a musica, e a primeira estrophe da Canção : 

K127): 

Dicen que eu quiero, 
Y por vos me muero ; 
Dicbo es verdadçro, 

Alma mia, 
Se Io dicen, digan. 



Levará mil tarramaqaes, 
De pez, por roais alegria : 
Cantará con atabaque : 

Se disserem^ digam ^ 

Alma mia, y 

(Obr., n. 4-^). 



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POPULAR PORTUGUEZA 841 

No Cancionero general de Hernan de Castillo, 
de 1 5 1 1 , em um Jogo trovado feito á rainha Isa- 
bel, e em que figura uma princeza de Portugal, 
apontam-se dez Canções, que apparecem entre as 
conhecidas na corte portugueza, cujas fontes ficam 
apontadas: 

Doncella, por cuyo amor ... 

Nunca fué pena mayor ... ; 

Al dolor de mi cuidado . . . 

En tuà manos la mi vida . . . 

Esta ultima canção appareçe intercalada em outra 
de D. João Manuel no Cancioneiro de Resende : cno 
cabo de cada copla leemos Cantigua feyta per ou- 
trem.» (Ap. Barbieri, p. 63). No referido Jogo tro- 
vado também se indicam as Canções : A tierras 
agenas . . . e Pêsame de vós, el Conde, que se can- 
taram na corte portugueza. Nos lyricos quinhentis- 
tas que serviam ou- frequentavam a Corte encontram- 
se as velhas trovas, glosadas em redondilhas pelo 
fervor da moda castelhana: 

CANTAR VELHO 

No puedo apartarme 

De los mios amores, madre, 

No puedo apartarme. 

Caminha sobre estes três versos fez um Vilancete 
de redondilha menor, (p. 407) achando-se a sua letra 
intercalada na musica da Canção 234 do Cancionero 
musical do século xv, que assim continua : 

Amor tiene aquesto 
Con su lindo gesto, 
Que prende muy presto 
Y suelta muy tarde, 
*No puedo apartarme. 

(Barbieri, op, cit.^ p. 131.) 
Pões, popul.— Vol. II 2a 



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342 HISTORIA DA POSIA 



CANTAR VELHO 

Arder, coração, arder, 
Que vos não posso valer. 

Pedro de Andrade Caminha tratou-o em um Vilan- 
cete (p. 8); no Cancionero musical de los Siglos 
XV y XVIy n.^ JJ^ vem a musica, conservando-se 
apenas a letra do verso : « Y arded, corazon, arded-, . . > 
Sobre elle escreve Barbieri: cA musica de este vi- 
Uancico, á cuatro vocês, está completa ; pêro. no tiene 
más letra, que el primer verso copiado arriba. 

cEn el Libro de Música, de Luis de Narvaez (i 538) 
ai fólio Lxxx, se halla con acompafiamiento de vi- 
huela; pêro su melodia és diferente de la de nues- 
tro códice ; la letra dice así ; 

Arde, corazon, arde. 
Que n*os puedo yo valer 



€ Enrique de Valderràbano, en su Libro ᣠVihuela 
(1547) ai fólio XXVI, tambien lo trae con música 
distincta, pêro solamente con los dos versos dei vi- 
Uancico . . . 

«Entre las poesias dei Marquês de Alenquer, Con- 
de de Salinas, copiadas por Gallardo en su Ensayo, 
1. 1, p. 151, se halla tambien este villancico con três 
coplas ...» (Canc, mus., p. 79). Priebsch, na sua edi- 
ção das Poesias inéditas de Caminha, ampliou as pro- 
vas d esta difíusão, determinando ms Rimas varias de 
Diogo Bernardes, (ed. 1597, fl. 134, %) umas Voltas 
em portuguez ; e em castelhano nos Divinos y hu- 
manos versos de D. Francisco de Portugal, p. 63. 
Publicou também uma Glosa castelhana, inédita, trans- 
cripta de um Cancioneiro ms., do Museu britânico, 
nas notas da sua edição (p. 513); D. Carolina Mi- 
chaelis outras Voltas tratadas por Jorge Ferreira de 



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^T- 



POI^ULAR PORTUGUEZA 343 

Vasconcellos, na Uhssipo (fl^ 256 v.) e por Lucas 
Fernandes. (Pedro de Andrade Caminha, p. 31, Se- 
parata da Revue hispanique, t. viri). E' também allu- 
dida na Comedia famosa de Montalvan No hay vida 
como la honra, (act. 11, se. 4). 

VILANCETE VELHO 

Passesme por Dios', barquero, 
D'ess*otra pane dei rio, 
Duelete dei dolor mio 1 

Caminha desenvolveu o em duas estrophas (p. 23Q); 
D. Carolina Michaelis encontrou -o no Cancioneiro mu 
sical do século XV e XVI {n,"^ 217) com musica de 
Escobar ; Barbieri transcreveu as coplas que se fize- 
ram a estes versos, e cita um pliego suelto en 4.® 
gothico intitulado Glosa dei Romance de D, Tristan, 
bem como as doze coplas publicadas por Gallardo, 
(no Eatsayo de una Bibliotheca, t. i, 819). 

VILANCETE VELHO 

Cantarte quiero mis males, 
Pastorcico en buena fé, 
Dime tu lo que haré ? 

Desenvolveu-o Caminha em três estrophes de re- 
dondilhas em castelhano (p. 234, das Pões, ined,) No 
Cancioneiro musical do século XV, n.° 355, vem a 
musica, e a p, 180 o texto poético, em seis sexti- 
lhas de septisyllabos. Transcrevemos a primeira estro- 
phe: 

Que pues eres avisado 

Y eres zagal entendido, 

Sábete que estoy herido 

De un dolor enamorado : 

Si descubro mi cuidado, 

Temo que me perderé, 

Dime tu lo que haré ? etc 



L_ 



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3^4 HISTORIA DA POESIA 



CANTIGA VELHA 

Justa fué mi perdicion,. 
De mis males soy contento, 
Ya no espero galárdon, 
Pues vuestro merecimiento 
Satisface mi passion. 

No Cancionero musical dei Sigla XV y XV vem 
com a nnusica de F. de la Torre; Barbieri cita o 
Cancionero general de 1515 em que esta Canção 
vem attribuida a Jorge Manrique; glosou-a Costana 
no Cancionero general ác 1527. Na Litteratura por- 
tugueza apparece glosada por Camões; egualmente 
por Pêro de Andrade Caminha (p. 245) ; Bernardim 
Ribeiro, Jorge de Montemor, Gregório Silvestre ; e 
ainda dos poetas castelhanos por Boscan, e uma glosa 
no Ms. de Paris citado por D. Carolina de Michae- 
lis (Caminha, p. 34). No Circulo Camoniano, p. 293, 
publicou um estudo interessantissimo sobre esta Can- 
ção, como feita aos amores de Justa Rodrigues ; 
D. Francisco de Portugal, na Arte de Galanteria (p. 
1 1 3) allude a esta Cantiga velha : 

De la cabeça sangrienta 
Publica con triste son : 
Justa fué mi perdicion^ 
De mis males soy contento, 

CANTAR VELHO 

Não podem dormir meus olhos* 
Níio podem dormir. 

Caminha, Poesias inéditas, p. 9, tratou o em uma 
cantiga deliciosa; Barbieri, no Cancionero musical^ 
traz a musica de Escobar, com a letra castelhana 
anonyma, (Canç. n.® 408,) e aponta o Villancico feito 
sobre este thema por Castillejos, (Ed. 1598, fl. 55 ^> 



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POPULAR PORTUGUEZA 345 

como indica Priesbch, apontando as Esparsas de 
Christovam Falcão (Ed. Colónia, fl. 155,^.): 

Náo posso dormir as noites, 
Amor, não posso dormir. 

D. Carolina Michaelis, no seu estudo critico sobre 
Pedro de Andrade Caminha, também aponta uma 
referencia de Gil Vicente, Obras, t. 11, p. 389. 

Sá de Miranda desenvolveu sobre o Villancico po- 
pular antigo: 

Sola me dejastes 
En aquel yermo. 
Vilano, maio, galego, 

umas coplas em castelhano ; no Cancionero musical, 
n.** 420 e 421, foram colligidas duas melodias, uma 
singela de tonalidade popular e outra mais artistica; 
Barbieri (p. 214) traz a letra a que era aplicada a 
musica, em cinco sextilhas, de que tr^screvemos a 
primeira estrophe: 

Ni pude veiiceros 

Con cuanto lloraba, 

Ni pudo volveros 

Las vocês que os daba ; 

Si amor os faltava, 

Venciera mi ruego : 

Vilano^ maio gallego. Etc. 

Na Arte de Galanteria, de D. Francisco de Por- 
tugal, (p. 79) aponta-se a Canção que começa : Se- 
carcnme los pecares, cuja letra apparece também 
no Cancioneiro de Évora publicado por Hardung. 
No Cancionero musical espaHol, n.** 133, vem com 
musica de Escobar, e a letra semelhante á que vem 
no Cancionero de 1511, como de Garci Sanchez de 
Badajoz. Transcrevemos a primeira estrophe : 



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346 HISTORIA DA POfiSf A 

Secaronme los pesares 
Los ojos y corazon, 
Que no puedo llorar non. 

I-os pesares me secáron 

El corazon y los ojos, 

Ya mis lagrimas y enojos 

Y mi salud acabáron ; 

Muerto en vida me dejaron, 

Traspasado de pasion. 

Que no puedo llorar, non. Etc. 

(P- 97)- 

A Canção 25 do Cancionero musical, acha«se glo- 
sada por Diogo Marquam, no Cancioneiro de Re- 
sende : 

Amor que con gran porfia 
Procura siempre mi dano, 
M'ha fecho con gran engefio 
Mas amador que solía. 

No Cancioneiro de Bnjora vem a letra de uma 
Canção de que' âpparece a musica com letra mai« 
completa, no Cancionero musical, n.® 235 : 

A tierras ajenas 

Quien me trajo a ellas ? 

No Cancionero genercU de 15 11, no Jogo trova- 
do, vem indicada esta Canção : A tierras ajenas, 

Jorge Ferreira de Vasconcellos, na sua comedia 
Ulyssipo, allude a uma Catíção castelhana que es- 
tava muito em moda na corte, a cuja melodia Ca- 
minha escreveu uma sentida endecha: «Este meio 
não he de huns porretas, que grosam Retrahida estd a 
Infanta, e Para que paristes, madre h (Act. v, se. 7). 
Nas Poesias inéditas de Caminha, n.** 387, vem : 
€Ao som de Parióme mi madre,^ a seguinte ende- 
cha em castelhano: 



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POPULAR PORTUGUEZA 347 



Sin (jue yo la viesse, 
Murió mi alegria, 
Que ante que naciesse 
Ya no la tenia. 

No Auto dos dois Irmãos, de António Prestes, 
no prologo dramático em prosa, que o precede, 
allude-se á velha cantiga: 

Parióme mi madre 
Huna noche escura. 

No Cancionero de Liflares, fl. 67, ^. encontrou o 
Dr. Priebsch esta Canção completa, que se popula- 
risara a ponto de Lope de Vega intercalar a parte 
mais sentida na Comedia Famosas Asturianas: 

Parióme mi madre 
una noche escura, 
cubrióme de luto, 
faltóme ventura. 
Quando yo nací, 
hora fué menguada ; 
ni perro se oía, 
ni gallo cantaba. 
Ni gallo cantaba, 
ni perro se oía, 
si no mi ventura 
que me maidecia. 

No Cancioneiro de Évora, publicado por Hardung 
em 1875, vêm algumas Canções de caracter popu- 
lar, umas que se encontram no Cancionero musical 
de Barbieri, (n.° 16 — n.** 133; n.** 19 — n.** 183; 
n.** 23 — n.® 235), e outras que foram glosadas òu des- 
envolvidas por poetas quinhentistas. E' de cunho po- 
pular este mote : 

Enviara-me mi madre 
por agua a la fonte frida, 
vengo dei amor ferida. (N.® 49) 



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3^8 HISTORIA DA POESIA 



Menina de los ojos verdes (Ib., 5o ) 

O n.® 65 traz a rubrica : ^A esta cantiga velha: 

Para tudo houve remédio, 
pêra rnim so não ha hy ; 
inda mal que o sube asy.p 

No Cancioneiro geral (continuação, ed. Barata) 
vem umas trovas ao thema popular : Isto não é vida, 
(p. 12); e Cantigas moldadas por esta do mesmo 
valor : 

Váo-se meus amores 

'd'aquebte logar, 

tristes de meus olhos, 

que tudo é chorar. (P-^í) 

Os versos de arte menor e redondilha que se en- 
contram nos quinhentistas da eschola de Sá de Miran- 
da, eram denominados de Cancioneiro, Apontamos al- 
gumas das Cantigas velhas, tratadas artisticamente por 
Sá de Miranda : 

VILLANCETE VELHO 

Todos vienen de la villa. 

No vieiíe Dominga. (Obr., p.379) 

Por maios embolvedoreS 

Pierdo triste mis amores. (Ib., p. 38o) 

Serrana, onde jouveste. (Ib., p. 382) 

La que yo ten^o no es prision, 
Vós sois prision verdadera, 
Esta tiene lo de fuera 
Vós teneis mi coração. (Ib,, p.389) 



CANTADAS PELAS RUAS EM DIALOGO (Pasacalles) 

N'aquella serra 

Me ir quer á morar; 



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4.-_-*.' 



POPULAR PORTUGUEZA 849 



Quem me quizer bem, 
Quem me bem quizer 
Lá me irá buscar. 



Nestes povoados 

Tudo são requestas, 

Deixae-me os cuidados 

Que eu vos deixo as festas. 

D'aquellas florestas 

Verei longe o mar, 

Por-m'hei a cuidar. (Ib.,397) 

* 
Posiera los mis amores 
En un tan alto logar, 
Que no los puedo olvidar. (Ib., Sgg) 

* 
En toda la tramontana 
Nunca vi cosa mejor 
Que era la esposa de Anton 
Vaquerizo de Morana. (Ib., 400) 

# 
Saudade minha 
Quando vos veria. (Ib., 202) 

* 
Sola me dexaste 
En aquel yermo 
Villano, maio, gallego. (Ib., 404) 

Dime tu, senora, di. 

Si me fuera desta tierra 

Si te acordarás de mi. (Ib., 415) 

# 
Tano os yo, mi pandero, 
Tafíoosyo,ypiensoenal. (Ib.,417) 

Camões nas Redondilhas e Autos cita muitas Canti- 
gas velhas: 

*Apartaram-se os meus olhos 

De mi tão longe, 

-Falsos amores 

Falsos, máos, enganadores. (Obr., iv,26 1 .) 



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J 



35o HiSTORIA DA POESIA 



Falso cavalleiro ingrato. (Obr., 262) 

Na fonte está Leonor, 
Lavando a talha e chorando, 
A*s amigas perguntando : 
Vistes lâ o meu amor ? (Ib., 3o5) 

Sois formosos e tudo tendes, 

Senão que tendes os olhos verdes: (Ib., 32o) 

Menina formosa, 

Dizei de que vem. 

Serdes rigorosa 

A quem vos quer bem. (iv, i32) 

Na Comedia de El Rei Seleuco cita uma Canção : 
«e trás ella vem logo outo mundanos mettidos em 
um covão, cantando : — Quem os amores tem em 
Cintra . . . » ; e estas outras : 

Meu bem e meu mal 
Luctaram um dia ; 
O bem era tal, 
que o mal o vencia. 

Na fonte está Leonor . . . 

Descalça vae para a fonte 

Leonor pela verdura, 

Vae formosa e não segura. (Ib., 337) 

Nos Disparates da índia allude ao estylo das Can- 
ções vulgares : 

Por falsete na guitarra 

Põe sempre í viva quem ama ! 

E o seu amigo António Ribeiro Chiada, aponta 
os requesitos que se exigiam no género : 

Porque a irova para ser trovay 
Não presta se não fôr fina ; 



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^ T-í'-. 



POPULAR PORTUGUEZA 35 I 

delicada, cristalina, 
fundada em cousa nova ; 
se assim for, fica divina. 
— Para fazer um ri/5o, 
mote^ cantiga^ ou trovar, 
d'onde se hade começar ? 
«Da mesma discrição.» 

(Obr., p. 3i). 

A Canção cíd una você, ou a Solao, era o typo 
artístico que se elaborava sobre a Canção popular; 
do Solao escreve Bernardim Ribeiro: «que era o 
que nas cousas tristes se acostumava,» tal como os 
Cantares tristes antiguos, a que se refere o Cancio- 
nero de Stuniga: 

A solas quero cantar 
por que lan solo me siento ; 
y el más amigo me deja 
solo y sin ningun remédio. 

fClanc. ms.^ século xvii.) 

Jorge Ferreira de Vascòncellos, na Comedia Bu- 
frosina falia d*este género já como popular : «Se es- 
creveis a lavandeira, que falia frautado, morde os 
beiços, lava as mãos com farellos, canta de soldo, 
inventa trovas, dâ ceitis para cerejas a meninos da 
eschola que lêa Autos... » (p. 187.) 

Depois da exploração dos Cancioneiros musicaes 
do século XVI, em que se encontram muitas Can 
ções populares graciosíssimas e que serviram de the- 
ma para elaborações artísticas, ha um ou^ro campo 
de uma riqueza imprevista, os Autos populares de 
Gil Vicente e da sua eschola. Ahi, nas scenas da 
vida popular, no desenho dos typos nacionaes do 
Ratinho, do Matante, do Villão, da Regãteira , appa- 
recem a Cantiga solta e a Cantiga com volta tornan- 
do- se CançãOr apontando-se por vezes os instrumen- 
tos a que são cantadas, a uma só voz ou de soldo. 



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Si 2 HISTORIA DA POESIA 

OU a quatro vozes, em terreiro ou de chacota. Gil 
Vicente é inesgotável nesta revelação de um mun- 
do de poesia tradicional, que elle apenas indica, 
por serem geralmente conhecidas essas Canções ; 
na Comedia da Rubena, no Auto da Serra da Es- 
trellay na Farça de Quem tem farellos ? ha Farça 
'dos FysicoSy é no chistes das canções que elle assen- 
ta a graça cómica dos quadros ; por certo que com 
a letra das Canções elle também se aproveitaria 
das melodias populares, acompanhadas ao baixão, 
á doçaina, á viola de arco e alaúde, dando-lhes 
os ornamentos' das notas rápidas, passagens, inii- 
tações, respostas e fugatos improvisados. O poe- 
ta dramático António Prestes, também espalha nos 
seus Autos muitas Canções populares, e caracte- 
risa as suas musicas, reagindo contra as Árias jus- 
quinas, da corrente irancezá apreciada na Corte. 
Um exame dos Autos do século xvi da escho- 
la vicentina alarga -nos a área desta recomposi- 
ção da florescência viva, mas infelizmente perdida, 
da Canção popular. Camões na comedia de Filo- 
demo cita os instrumentos músicos a que se canta- 
vam as Cantigas velhas : « Neste passo se dá a mu- 
sica com todos quatro, um tange guitarra, outro 
pentem, outro telhinha, outro canta Cantigas muito 
velhas ...» (act. v, se. 2.) 

Nos Autos, Farças e Tragicomedias de Gil Vi- 
cente é que se encontra o mais flagrante documen- 
to da existência das Canções populares ou popula- 
risadas em Portugal no século xvi; agrupando-as 
aqui authenticamos um quadro da vitalidade poética 
em cuja atmosphera o creador do Teatro portuguez 
esboçava as suas formas artisticas: 

Menga Gil me quita el suefio, 

Que no duermo. {Obr.,i,p.8.V 



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POPULAR PORTUGUEZA 353 



N'ora buena quedes, Menga, 

A' la fé, que Dios mantenga. (Obr., i, i8.) 

Dicen que me case yo, 

No quiero marido, no. (p. 42.) 

Que sanosa está la nina. 
Ay Dios, quien le hablaria ? 

Volta: 

En la sierra anda la nifia 

Su ganado a repastar ; 

Hermosa como las flores, 

Safíosa como la mar. 

Sanosa comq la mar, 

Está la nina ! 

Ay Dios 1 quien ie hablaria ? (p. 46,) 

Que no quiero estar en casa, 
No me pagan mi soldada. 

No me pagan mi soldada, 

No tengo sayo ni saya. (p. 74.) 

# 
Mal haya quien los envuelve, 
Los mis amores; 
Mal haya quien los envuelve. 

Los mis amores primeros 
En Sevilla quedan presos : 
Los mis amores . . . 

En Sevilla quedan presos 
Por cordon de mis cabellos, 
Los mis amores . . . 

Eri Sevilla quedan ambos, 

Sobre ellos arman bandos ; 

Los mis amores. 

Mal haya quien los envuelve. (p. 82.) 

En la huerta nace la rosa, 
Quitro-me ir allá ; 



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i^54 HISTORIA DA POESIA 



Por mirar el ruisenor 
Como cantaba. 

Por la ribera dei rio 
Limones coge la virgo, 
Quiero-me ir allá . . . 

Limones cogia Ia virgo, 
Para dar ai su amigo, 
Quiero-roe ir allá . . . 

Para dar ai su amigo 

En un sombrero de si«-go, 

Quiero-me ir allá ... (p. 84.) 

Ai de )a noble 

Villa de Paris. (p. 92.) 

Tirae os olhos de mim, 

Minha vida e meu descanso, 

Que me estaes namorando. (p. 181.) 

Volta: 

Os vossos olhos, senhora. 

Senhora de formosura, 

Por cada momento de hora 

Dão mil annos de tristura. 

Vida, não me esteis olhando, 

Que me estaes namorando. (p. i32. 

Quem é a desposada, 

A Virgem sagrada. (p. 147.) 

Blanca estaes colorada ... (p. i83.) 

Serra que tal gado tem, • 

Não na subirá ninguém. (p. 356.) 

Serranas, não hajaes guerra, 

Que eu sam a flor d'esta serra. (p. 338.) 

* 
A riberas de aquel vado 
Vieta estar rosal granado; 
Vengo dei rosale. 



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POPULAR PORTUGUEZA 355 



A riberas de aquel rio. 
Viera estar rosal florido; 
Vengo dei rosale. 

Viera estar rosal florido, 

Cogi rosas con suspiro. 

Delrosal vengo, mi madre, 

Vengo dei rosal. (t.ii, p. 382.) 

Quem diz que não é este, 

San João o Verde i (ii, 491) 

Vento bueno nos hade levar. 
Garrido he o vendaval. (494.) 

Mor Gonçalves, 

Tão mal que me encarcelastes, 

Nos Paços dei rei ; 

£ na camará da Rainha, 

Do bailava el Rei 

E com Dona Caiherina. (5 14.) 

Na interessantissima Comedia de Rubena, Gil Vi- 
cente appresenta a scena em que a Ama da me- 
nina diz quaes são as Cantigas que sabe, para lhe 
embalar o somno : 



Feit. : E que Cantigas cantaes ? 

Ama : A Criancinha despida — 

Eu me sam Dona Grialda — 
E também — VaV-me Lianor^ 
E De pequena mataes^ Amo^^y 
E Em Paris estava Don'Alda. 

Dime tu, seHora, di, 
VámonoSy dijo mi tio. 
E Llevadme por el rio^ 
E também — Calbi orabi, 
E Levantéme un dia^ 
Lunes de mariana — 
E Muliana^ Muliana^ 
E — Não venhaes^ alegria^ 
E outras muitas doestas taes. 

Feit. : Deitae no berço a senhora ; 



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Goos 



1 



356 HISTORIA DA POESIA 



Embalae e cantae ora, 
Veremos como cantaes. 
Ama : (canta): Llevantéme un dia ... 

(t. n, p. 27.) 

Nesta enumeração incluiu Gil Vicente apenas dois 
romances narrativos; e em dois outros logares tor- 
na a referir-se á Canção Llevadme ppr ^/rio{u, 413) 
e Caiât oraâi, (11, 227) Algumas destas Canções 
acham-se alludidas por outros poetas ; no Cancionei- 
ro de Resende (ii, 94) vem Levade, ora levade ; e 
no Cancioneiro quinhentista de Évora, (ed. Barata) 
vem : 

Pequena tomei o amor 

porque não me entendi ; 

agora que o conheci 

mata-me com desfavor. 

Continuando a pesquiza nas peças dramáticas de 
Gil Vicente, torna-se surprehendente o thesouro do 
nosso lyrismo popular perdido : 

Grandes bandos andam na corte, 
Traga-me Deus o meu bon amore. 
(n,3i). 

LAVANDEIRAS ( Cãtltando ) l 

Halcon que se atreve 
Con garza guerrera, 
Peligros espera. 

Halcon que se vuela 
Con garza á porfia, 
Cazar la queria, 
Y no la receia : 
Mas quien no se vela 
De garza guerrera, 
Peligros espera. 

í.a caza de amor 
Es de altanaria; 



\ 



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POPULAR PORTUGUEZA SSj 



Trabajos de dia 
De noche dolor ; 
Halcon cazador, 
Con garza tan íiera 
Peligros espera. 


(n 48.) 


* í 


Consuelo, vate con Dios, etc. 


II, 53 e 52. 




Bien quiere el viejo, 
Ay madre mia, 






Bien quiere el viejo 
A la mna. 

# 


II, 57. 


., 


Mal herido me ha la nifía, 
Nomehacen justicia. 

Soledad tengo de ti, 


II, 93. 






- 


tierra donde naci. 


II, 121, 




Enganado andaes, amigo, 
Dias ha que vol-o digo. 

# 
Muestra-nos por Dios, ventura, 
En esta tierra tan bella 
Las venturas que hay en ella. 


i58, 410. 




177. 




# 
Que formosa caravella, 
Quem fosse o capitão d*ella. 


3o5, 3o6. 




—Nunca fué pena mayor. 
Tristeza, quien a vos me dió 


329. 
329. 




Gloriosa gloria mia, etc. 
Aguila que dió tal vuelo, etc. 


385. 
394. 




— Ninha, erguede los ojos 
Que a mi namorado me han. 


401. 





Não me quiz casar meu pae, 

Ora julgae. 409. 

— Aquel caballero, madre, si me habrá 
Con tan mala vida como ha ? 409. 

Pões. popuU— Vol. II 23 



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358 HiSTORTA DA POESIA 



Estes meus cabellos, madre, 

Dos a dos me los Ueva el ayre. 410. 

Gentil dama valerosa, 
— Y Doncella por cuyo amor. 411. 
Sem mais mando, nem mais rogo, 
Aqui me tendes, levae-me logo. 411. 

—Al dolor de mi cuidado, 

En tus manos la mi vida 

Me encomiendo condemnado. 411. 

Por el rio me llevad, antigo^ 

Y Uevadme por el rio. u, 4i3. 

Com que olhos me olhaste 

Que tão bem vos pareci ; 

Tão asinha me olvidaste. 

Quem te disse mal de mi.^ 429. 

Volaba la pega y vai-se, 
Quem me la tomasse. 

Andava la pega 

No meu cerrado, 

Oihos morenos, 

Bico dourado . . . 

Quem mé la tomasse. u, 423. 



A mi seguem dois açores, 
Um d*elles morirá d^amores. 

Dois açores que eu havia, 
Aqui andam n'esta baylia. 
Um d^eiles morirá d*amores. n, 425. 

A serra é alta, 

O amor é grande, 

Se nos ouvira ne. 427. 

Quando aqui chove e neva, 
Que fará na serra ? 



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POPULAR PORTUGUEZA 



359 



Na serra de Coimbra 

Nevava e chovia, 

Que fará na serra ? 433. 

Vayamos ambos, amor, vayamos, 
Vayamos ambos, 
Felippa e Rodrigo passavam o rio. 
Amor, vayamonos. 434. 

E se ponerei la mano em vós, ( arremedando 
Garrido amor. os áz Serra.) 

Um amigo que eu havia, 
Mançanas d'ouro me envia; 
Garrido amor. 

Um amigo que eu amava, 
Mançanas d 'ouro me mandava; , 
Garrido amor. 

Mançanas d'ouro me envia, n, 444. 

A melhor era partida; 
Garrido amor. 

# 
Já não quer minha senhora 
Que lhe falle em apartado, 
O' que mal tão alongado. 

Minha senhora me disse. 
Que me quer fallar um dia. 

Agora por meu peccado, 
Disse me que não podia. 
O' que mal tão alongado. 

Minha senhora me disse, 
Que me queria falar . . . 

Agora por meu peccado, 
Não me quer ver nem olhar. 
O* que mal tão alongado. 

Agora por meu peccado, 
Disse-me que não podia, 
O' que mal tão alongado. 



G / 

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36o HISTORIA DA POESIA 



Ir-me hei só pêlo inundo, 
Onde rae levar a dita, 

O' que mal tão alongado. 


444. 


Quien me ahora cá mi sayo 

Cuitado, 

Quien me ahora cá mi sayo. 


452. 


Pelo canavial da neve 

Não ha hi amor que me leve. 


466. 


CHACOTA 





h- 



Não me firaes, madre, 
Que eu direi a verdade. 

Madre, um escudeiro 
Da nossa Rainha, 
Fallou-me d*amores ; 
Vereis que dizia. 
Eu direi a verdade. 

Fallou-me d'amores; 

Vereis que dizia: 

Quem te me tivesse 

Desnuda em camisa ! 

Eu direi a verdade. • 445. 

# 
El mozo y la moza 
Van en romaria : 
Tomales a noche 
N'aquella montina: 
Coitado. 

Tomales la noche 

Naquella montina. 

El mozo decia. 

Coitado... 432. 

Por do passarei la sierra, 

Gentil serrana morena ? etc. 459. 

Andando, andando, amor, andando, 
Assi andando m'ora hei. 462. 

Del rosal vengo, madre, 
Vengo dei rosal. 



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.^SiS. 



POPULAR PORTUGUEZA 36 1 



A riberas d*aquelle vado 

Viera estar rosal granado. 

Vengo dei rosal. 481. 

— Um dia era um dia, t.iii,p. j% 

# 
Si dormis, doncella, 
Despertad y abrid, 
Que venida es la hora. 
Si quereis partir. 
Si estaes descalza 
No cureis de vos calzar, 
Que muchas aguas 
Teneis de passar . . . 
Aguas de Alquebir, 
Que venida es la hora 
Si quereis partir. p. 12c iS . 

* 
Gantan los gallos, 
Yo no me duermo, 
Ni tengo sueno. p. 17. 

* 
Por maio era^ por maio. p. 19. 

* 
Apartar-me hão de vós, 
Garrido amor, etc. 

Eu amei uma senhora 
De todo o meu coração, 
Quiz Deus e minha ventura 
Que não m*a querem dar não. 
Qarrido amor. p. ib. 

Quem vos anojou, meu bem, Auto da índia. 
Bem anojado me tem. p. 34. 225. 

Cual es la nina 

Que coge las flores. 

Si no tiene amores ? 

Cogia la nina 

La rosa florida, 

El hortelanico 

Prendas le pedia. 

Si no tiene amores. p- 71- 

# 
Volvido nos han, volvido, 
Volvido nos han, 



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36a HISTORIA DA POESIA 



Por una vecina mala; 

Meu amor tolheu-me a fala, 

Volvido nos han. p. 56. 

Pu es tcngo razon, senora, 

Razon es que me Ia oyga. p. 85^ 

# 
Canas de amor, canas, 
Canas de amor, ' 

Pelo longo de um rio 
Canavial está florido. , 
Canas de amor. 

Pelo mar vae a vela, 

Vela vae pelo mar. p. 143. 

* 
Mal herida iba la garza 
Enamorada, 
Sola va y gritos daba. p. 146. 

# 
Leixar quer-vos, amor. 
Mas não posso. 186. 

A serra é alta, fria e nevosa. 
Vi venir serrana, gentil graciosa. 

Vi venir serrana, gentil, graciosa, 
Cheguei- me por ella com gram cortezía. 

Cheguei- me por ella com gram cortezia, 
Disse-lhe : Senhora, quereis companhia ? p. ai5. 

Disse-lhe: Senhora, quereis companhia ? 

Disse me : Escudeiro, seguir vossa via. p. 218. 

Los tus cabellos, nina. 224. 

Todo o mal é de quem no tem. » 

Se o disserem, digam. » 

— Donde vindes, filha, 
Branca e colorida ? 



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POPULAR PORTUGUEZA 



3Gâ 



«De lá venho, madre, 
De ribas de um rio; 
Achei meus amores 
N^um rosal florido. 
«Yo m*iba, madre, 
Las rosas coger, 
Hallé mis amores 
Dentro en el vergel». 

Canc, mus.j de Barbieri, n.** 237. 



— ^Florido, enha filha. 
Branca e colorida. 
oDe lá venho, madre, 
De ribas de um alto, 
Achei meus amores 
N'um rosal granado. 
—Granado, enha filha, 
Branca e colorida ^ 



Auto da Lusitânia^ 270. 



Este é Maio, o Maio é este. 
Este é o Maio e florece. 
Este é o Maio das rosas. 
Este é o Maiodasformosas 

e florece. 

Este é o Maio das flores. 
Este é o Maio dos amores 

e florece. p. 283 ib. 

* 
Los amores de la nina 
Que tan lindos ojos ha, 
Ay Dios, quien los habrá, 
Ay Dios quien los servirá. 285. 

Tiene los ojos de açor, 
Hermosos como la flor. 
No sé como vivirá 
Quien tan lindos ojos ha. 
Ay, etc. 

Sus ojos son naturales 
De las aguilas reales, 
Los vivos hacen mortales, 
Los muertos suspiran allá, 
Que tan lindos ojos ha. 
Ay, etc. 292. 

# 



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-' y 



364 HISTORIA DA POESIA 

Vanse mis amores, madre, 
Luengas tierras van morar, 

Y no los puedo olvidar. 
Quien me los hará tornar? 

' Quien me los hará tornar? 

Yo sonaba madre, un sueno, 

I • Que me dió nel corazon, 

f' ^ Que se iban los mis amores 

r . A las islãs de la mar. 

^ Y no los puedo olvidar. 
I Quien me los hará tornar? 

I- Quien me los hará tornar? 

* Yo sonaba madre, un sueno, 

i*- Que me dió nel corazon, 

^ Que se iban mis amores 

A las tierras de Aragon; 

Allá se van a morar, 

Y no los puedo olvidar. 
Quien me los hará tornar? 
Quien me los hará tornar? (p. 299.) 

Y A Farça dos Physicos acaba com uma Ensaiada 

de fragmentos de muitas Canções, que destrinçamos : 

En el mes era de Maio, 
"^ Véspera de Navidad, 

Quando canta la cigarra 

Quem ora soubesse 
Onde o amor nacesse. 
Que o semeasse. 

Media noche con lunar^ 
Al tiem po que el sol salia, 
^ ' Recorde cue não dormia 

Con cuidado de cantar. 

Ervas de amor, ervas, 
t Ervas de amor. 

t' 

Era la Pascua florida, 

En el mes de San Juan . . . 

Pa lombas, se amigo amades. 
No riiíades. 



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ir- 



POPULAR PORTUGUEZA 365 



Ficade, amor, ficade, 

Ficade amor. . (p.323.) 

Frederico Diez, em um precioso estudo sobre 
Poesia trobadoresca da corte de Dom Diniz, fez lu- 
cidissimas comparações das formas jogralescas por- 
tuguezas com algumas das Canções conservadas por 
Gil Vicente, deduzindo assim a sua continuidade 
tradicional : 

No Auto de Santo António, de Afifonso Alvares, 
um Villão Canta com o pandeiro: 

N*esta pedra rejo, 
Margueda, bem le vejo. 

Forma de chacota: 

Tirade, mana, este cordão, 
que mataes, ay que cortaes 
per metade o coraçam. 

No auto do Escudeiro surdo, entra um Pastor 
cantando em letra castelhana: 

Que hará el cuitado 
dei triste perdido 
d*amores l^erido. 



No sé lo que haga 
ai triste de mi, 
que yo mesmo me di 
la mi triste Haga. 
Ay que no se apaga 
el fuego encendido 
de amores ferido. 

E quando sáe o Pastor com o Doudo, este lhe 
diz: \ 

Vós deveis de ser cantor, 
vamos de vagar cantando. 
Pastor: Sea, senor, la Cantiga 
de mucha pena y dolor. 



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366 HISTORIA DA POESIA 



Doudo: Qual é a que quereis que diga : 

Já se casou tu amiga^ 

mi amigo Juan Pastor? (*) 
Doudo: Sea la Cantiga tal 

Conforme a mi padecer. 
Pastor: Cantiga de Portugal, 

ouvistel-a nomear. 

esta havemos de dizer : 

Pois senhora, não quereis 

amar a quem vos quer bem^ 

ainda a todos ameis^ 

nunca vos ame ninguém. 

No Auto de Dont Aniréy por Gil Vicente de Al- 
meida, intercalam-se Canções populares : 

Cantemos todo este passo 



Qual diremos, meu senhor, 
donde La dulce mi enemiga^ 
ou assi d'este teor, 
ou Mais dura que marmol^ 
a que for melhor se diga. 

No Auto da Ave-Maria, de António Prestes, cer- 
tos personagens allegoricos entram : c cantando e 
bailando com guitarra, pandeiro e adufe.í* 

No Auto do Procurador, cita as seguintes Can- 
ções ; 

Que nel campo dormirás. (p. 105.) 

Iban se las casadas. 

Como no venis, amigo. 

Sin bater nel horto ageno . . . 

Falso, maio, enganador . . . 

E no Auto do Procurador: 

Aquel barberico, madre. . 



(1) Era uma das Cantigas mais vulgarísadas no século xvi ; Jorg^ 
de Montemor, a Canção Quien te hito Juan Pastor ; no Cancioneiro 
de Evora^ n.° 44, também se encontra uma outra sobre yuan Pastor, 



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POPULAR PORTUGUEZA 



367 



No Auto do Mauro encantado allude á Canção 
Jtsrarei que o não vi, glosada anteriormente por 
Christovatn Falcão. Apontaremos as Canções popu- 
lares com que António Prestes entreteceu os seus 
Autos : 

Sem cuidado vos vi eu, 



Ai, amor! que mal vos deu. 


(P. 4.) 


Si me viste allá, Pascuala. 


(p. IS.) 


Que nel campo dormirás 
Que não cortímigo. 


(p. 17.) 105; 


í.é,lé,lé, Maria Leitoa, 

lé, lé, lé, para que sois boa. 


(p. 21.) 



Todos vienen de la Eva , 
Todos ossos, todos terra. 



O pastor e o senhor, 

O pequeno e o que tem mando, 

E o Pedro e o Fernando. 

E o Rei e o Imperador, 

Todos nascem d*um teor, 

Todos vien de Ia Eva, 

Todos ossos, todos terra. (p. 23.) 

Oliveira que tem folha, ' 

O pavão t'a levou toda (p. 50.) 

D'onde vem a fructa nova. 

Não na vi senão agora. (p. 73.) 

Como não venis, amigo. ("S ) 

Canta-se lá Miran ojos. (p. 300.) 

£ donde diz a cantiga : 

Lá de Traz dos Montes 

Nascem meus amores. (303») 



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368 HISTORIA DA POESIA 

Simão Machado na Comedia de Alfea interrompe 
o dialogo por vezes com Cantigas populares, como: 

Prezo levam o namorado 
Por aquel castello maio. 

(Com.,^, 157.) 

E glosa também o mote velho, já glosado por 

Camões; 

Já nâo posso ser contente, 
Tenho a esperança perdida; 
Ando perdido entre a gente, 
Nem morro, nem tenho vida. 

(Ib.,p.i63.) 

^Entra Mendo com hua guitarra cantando o se- 
guinte : 

Casa te, Gonçalo, 
comerás pão alvo. 

Tens molher aqui, 

casa-te com ella, 

serás senhor d'ella, 

e ella de ti. 

Se te crés de mi. 

Casa te Gonçalo, 

Comerás pão* alvo. (fl. 53.) 

(Do^Auto de Rodrigo e Mendo,) 

No Auto do FisicOj de Jeronymo Ribeiro, vem 
este começo de canção : 

Sobre mi vi guerra armar, 
Una diz que la llevaria, 
Otra, que me ha de levar. 

Nos poetas lyricos, como Sá de Miranda, Chris- 
tovam Falcão, Caminha e Camões, os Motes velhos 



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POPULAR PORTUGUEZA SÓg 

são muitas vezes tradicionaes na transmissão oral. 
Na Esparsa viii de Christovam Falcão, vem; 



Não posso dormir as noites, 
amor^ não as posso dormir. 



E' uma apropriação da Cançoneta do século xv 
publicada por Barbieri : 

No pueden dormir mis ojos^ 
No pueden dormir. 

Yo sonaba, yo, mi madre, 
Dos horas antes dei dia, 
Que me fíorecia la rosa 
£11 vino so ell a^ua frida, 
No puedo dormir. 

(Canc, mus,^ N.° 408.) 

Através do predomínio das Cantigas castelhanas 
apparece muito apagada a Cantiga portugueza, re- 
ferida quasi sempre em accidentes anedocticos, mas 
revelando a sua vitalidade e caracter. Agrupamos 
alguns factos. 

€ Sendo hu dia este Capitão (D. João de Mene- 
zes) tora de Arzilla, e pondo-se em hu valle a des- 
cansar, emquanto tornavam as escuitas, acertou cor- 
rer a Arzilla no mesmo dia hu Alcaide com muita 
copia de gente, e sabendo que o Capitão era fora, 
tomou-lhe o passo por onde havia de tornar; e 
alguns dos Mouros subindo-se em hu outeiro que 
senhoreava o valle, começaram os que sabiam can- 
tar hespanhol a lhe cantar : 

Já vós jazedes, 
Peixes, nas redes. 
Já vós jazedes, 
D. João de Menezes. 



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370 HISTORIA DA POESIA 

fE O Capitão começando a caminhar para aviUa 
hia muito pensativo, e tomando em sy, e enten- 
dendo que hindo asy quebraria os corações aos ca- 
valleiros, chamou a hú cavalleiro que cantava muito 
bem, e rogou-lhe que para se desmelancolisarem 
cantasse algúa cousa ; e o cavalleiro começou a 
cantar este Rotnance: 

Mi campadre Gomez Arias 
Que mal consejo me dió. 

fE hindo proseguiudo, chegou a hu passo d'elle, 
que diz : 

Nunca viera xaboneros 
Tan bien vender su xavon, 

porque acertou de ser a tempo que se viani já 
muito bem os Mouros que o esperavam, proseguiu 
o Capitão as duas regras seguintes do Èomance, 
dizendo : 

A ellos, compadre, a ellos, 
Que ellos xaboneros son 

E dando apoz estas palavras : Santiago ! nos inimi- 
gos, houve d'elles hua tão famosa victoria, que 
merecera ser escrita por algum grande historiador, 
com outras muitas que em Africa este Capitão e 
outros illustres Capitães houveram.» (*) 

Na volta da Romaria de S. Thiago de Galliza 
em 1548, o infante D. Luiz esteve em Guimarães, 
ce o fora esperar ao Mesadouro com uma Mourisca 
de 300 Meninos, e João de Évora seu mestre com 



(1) Memoria dos Ditos í Sentenças deRMtX^,^ fl*564. Ms. 1127^ 
da Torre do Tombo. 



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POPULAR PORTUGUEZA 3yi 

elles porRey, e a S. Lazaro lhe sahira hua dança 
de moças muito bem parecidas e concertadas, que 
dançavam muito bem, de que elle muito gostou, e 
estas lhe cantavam o seguinte : 

Meninas de Alfama, 
não vades ao chafariz, 
bem sabeis as tretas 
do Infante D. Luiz. 

fE com muitas folias e festas, foi levado a N. S.* 
da Oliveira ... » (fl. 850, Ms. Craesbeck.) 

Ficaram celebres as trovas a Dona Guiomar da 
cutilada^ sobre o caso da filha do Dr. Pedro Nunes, 
que se queixara ao Bispo de Coimbra, de que Hei- 
tor de Sá lhe promettera casamento. Chamados am- 
bos á presença do Bispo, negou Heitor de Sá, e 
D. Guiomar Nunes vendo-se infamemente desmentida, 
deu alli mesmo uma canivetada.na cara do ingrato. 
Correra então por Coimbra essa trova, que se tor- 
nou popular, sendo colligida em vários manuscri- 
ptos: 

Senhora Dona Giomar, 

Moradora na Calçada, 

Pois destes a cutilada 



Foi mui grande o valor d*ella, 
' E pouca a vergonha d'elle ! 

Senhora D. Giomar 

Mo: adora na Calçada. 
Mas se ella ficou sem elle, 
Elle não ficou sem ella. 

Senhora Dona Giomar, 

Pois destes a cutilada. 

V 

Na villa da Amares, conforme refere o Dicctona- 
no abreviado de Corographia, (t. i, p. 59), ainda 
hoje se cantam uns versos allusivos ao assassinato 



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•^ 



372 HISTORIA DA POESIA 

que na Casa de Castro fez Francisco Machado, filho 
de Manuel Machado de Azevedo, matando sua mu- 
lher innocente e o commendatario de Rendufe, Hen- 
rique de Sousa, depois de o ter convidado para 
jantar : 

Oh Dona Maria, 

Pombinha sem fel, 

Porque te matou 

Aquelle cruel ? 

Em dia de San Braz, 
Ouve, n'este dia, 
Mataram o Abbade 
E Dona Maria. 

Dom Francisco de Portugal, na Arte da Galan- 
teria, (p. 125) allude a um Vilancico popular: 

Madre, la mi madre. 
Guarda me póneis, 
Mas se yo no me guardo 
Mal me guardareis. 

No Agiologio Lusitano, (t. 11, p. 12) traz Jorge 
Cardoso os versos que se cantavam em Ceia, sobre 
o martyrio de Santa Antónia : «afíirmam pessoas 
fidedignas, que ouviram cantar muitas vezes, as suas 

mães e avós : 

Antonina pequena, 
Dos olhos grandes, 
Mataram-na idolatras 
E feros gigantes. 

Os cantares maritimos da CaUtisma, de que faliam 
Martial, (*) Rutiliano, (^) Sidónio Apollinario, (^) e ou- 



(*) Lentos figi|is ad celmsma remos. (Epigr,, L. iii, 67,) 

i}) Vil celeusffta, referindo-se á tonalidade popular. 
(^) Curvonim hic chorus helciariorum, 

Responsantibps alleluia ripis 

Ad Christum levat amicum ceUusma, (Epistolar, L. n, lO.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 378 

tros hymnographos christãos, (*) eram ainda conhe* 
eidos por este nome entre oâ marinheiros portugue- 
ses no século xvi. A palavra 4:eUtisma appresenta 
uma forma popular em chusma, que designa a mul- 
tidão ruidosa. Camões, sempre repassado das im- 
pressões da vida do mar, allude a esse canto: 

A celeuma medonha se alcvanta 
No rude marinheiro que traballa. 

fLus,^ II, st. 25.) 

Faria e Sousa commentando este verso (Comm^t 
I. p. 407) define : «O Celeusma es la vozeria de 
los marineiros juntos, respondiendo, o repitiendo vo- 
cês a uno que primero las entona solo; cuyo fin 
•es sena de que todos a una mano pongan el om- 
bro, ó el pecho ai trabajo, que en estilo náutico se 
llama faena, e el portuguez Fayna.» A designação 
da éra pagan veiu a confundir-se por homophonia 
com o Ensalmo (de psalmo) formando se o verbo 
Salamear, com o sentido de levantar a cantiga na 
faina do mar; Moraes e Silva deíinindo-o: «Levan- 
tar ou cantar a celeuma» appresenta a auctoridade 
dos quinhentistas Castanheda e João de Barros : 
cSem as náos apitarem, nem çalamearem, por não 



(1) Em um cantv"> da primitiva Egreja chrístã, em que a Virgem 
é invocada como intercessora aos navegantes, lê-se : 

«Maris stella est Maria, 
quae te certa ducet via; 
stellam maris invoca ! 
Inter tribulationum 
fluctus et tentationum 
hoc celeusma insona: 

O Mana, 
semper dulcis, semperpia.» 

Pões. popul. — Vol. II 34 



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374 HISTORIA DA POESIA 

serem sentidos dos Rumes. ..te c Homens de mar 
que çalanteam, para a hum tempo porem toda a 
força.» Também Prestes, no Auto dos Cantarinhos: 
«Aqui é ella Salafnea,^» E Pêro de Andrade Ca- 
minha, em uma «Cantiga para çalamear,^ refere as 
differentes vozes dos marinheiros como refrem:* 

N'esta náo que busca a terra, 
Dia claro e noute escura, 
Vou fugindo a dura guerra 
Que me faz ausência dura. 
Por chegar, sempre trabalha. 
Mas té'cora não bastou : 

Ou I calha I 

Oul 



Volta a terra e volta ao mar : 
D*í5a sempre agua se vê, 
E d'outra náo ha chegar 
A' terra que Deus nos dê. 
Ora a troça, e ora a driça, 
Náo vai quanto se gritou 1 

Ou I iça ! 

Ou! 

Na tragicomedia das Cortes de Júpiter á partida 
da infanta D. Beatriz para Saboya, aponta Gil Vi- 
cente esta mesma neuma: 

Jorge Vasco Goncellos 
N'um esquife de cortiça, 
Irá alfenando os cabelios. 
Por divisa dois navellos ; 
A letra dirá : Ou ! iça I 

Caminha traz na Canção para çalamear mais esta 
neuma ; 

Quando corre o mar á proa 
Não vae trás ela o sentido, 
E nada em minha alma soa 
Senão suspiro e gemido. 



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POPULAR PORTUGUEZA 3^5 

Mas logo a dôr se lhe tira 
Ouvindo a voz aue soou : 
Ou! vira! 

Ou! (Ed. Priebách, p. 361.) 

O dr. Sousa Viterbo, em um artigo sobre Cantos 
maritimos, traz uma carta de César das Neves, col- 
leccionador do Cancioneiro de Musicas populares, em 
que se descrevem as iieumas da melodia da faina 
ou celeuma dos trabalhadores: c Quando um grupo 
de operários pedreiros, collocados em varias posi- 
ções têm de empregar conjuntamente as suas for- 
ças para remover grandes pezos, costuma um d*elles 
cantar uma toada própria e accentuadamente ryth- 
mica, para que todos a compasso empreguem o seu 
esforço, juntamente. N'outros tempos havia em to- 
das as obras de constrúcçâo um cantador, que por 
este serviço ganhava mais um vintém por dia ; devia 
ter boa voz e um sentimento natural da medida 
isochrona do tempo. 

fAs intonações variam pouco sobre o thema 
clássico de três ou quatro notas, porém alguns 
operários ha actualmente que saem da monóto- 
na toada com pretenções mais artisticas de melo 
distas. 

cO compasso da toada é simples e pode ser de 
qualquer das três formas musicaes : quaternário, bi- 
nário ou ternário, conforme a energia do tempo im- 
pulsivo, a pausa de maior ou menor descanço, e a 
prevenção, — O compasso ternário é o mais usual ; 
neste compasso o movimento impulsivo é ao tem- 
po forte, e descanso no segundo, e o preventivo 
no terceiro... Para os operários melhor compre - 
hendereni os tempos fortes e brandos da combina- 
ção dos movimentos, applica o cantador á toada 
um syllabario em diphtongos da forma seguinte : 
Ou, representa o tempo íorte ; o 2.° tempo, que é 



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376 HISTORIA DA POESIA 

de descanso, quasi sempre passa em silencio ; no 
3.° tempo é applicada a syllava preventiva Eu — 
A forma cadenciada — acima, é a qne os operários 
instinctivamente adoptam, porque sendo todos, por 
via de regra, versejadores populares, seguem na 
toada a cadencia do verso. Us operários chamam 
a esta toada Fatiar ao guindar, -h * Os diphtongos 
sobre que se apoia a toada, Ai, Ei, Ou, que se 
encontram em refrens do século xvi, ou mesmo 
eertas palavras como Iça, Vira, Calha, chamam- se 
propriamente Neumas. Champfleury, fallando des- 
tes recursos para encher o compasso ou o verso, 
exclama: cAh, como os irmãos Grimm tinham ra- 
são para dizerem que nunca acharam uma única 
mentira na poesia popular 1 Que poeta teria a ne- 
cessidade de declarar que a palavra insignificativa 
veiu fechar o verso por causa de uma harmoniosa 
assonancia. » 2 Em uma cantiga de levantar ferro, 
publicada nos Quadros navaes, uma voz sólta a 
quadra, interrompida em cada dichotomia pela chus- 
ma em coro : 

«Ai lé, lé, lé ! 

Marujinho vira á ré.» 

(Canc.popuLy p. 145.) 



(í) A Arte musical, n. 1 1 1 (anno v) p. 169. 

(2) Chants populairts des Promnces de France^ p. 16. 



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B) A CANÇÃO NARRATIVA 



Os Romances populares por effeito das melopêas 
a que os ligaram os compositores do século xvr, 
adquiriram uma symphathia nas classes cultas, tor- 
nando se as suas situações e muitos dos seus ver- 
sos proverbiaes. Jorge Ferreira de Vasconcellos, no 
Memorial das Proezas dos Cavalleiros da segunda 
Tavola Redonda, allude a esta corrente do gosto : 
«Cantavam a viola de arco ç: doçaina mui concerta- 
damente — Romances, que eram oò cantos que então 
mais se usavam.» (p. 215.) Certos romances mais 
vulgarisados, como o do Conde Claros, serviam de 
typo melódico para outros da mesma metrificação; 
e prestavam versos aphoristicos para os Romances 
glosados, como o de Dur andar te ; ou suscitavam 
parodias burlescas como as de Gaifeiros e da Bella 
mal maridada; e por ultimo convertendo-se em ro- 
mances subjectivos com a expressão exclusiva de 
sentimentos, ou em parodias ao divino. Gil Vicente, X 
que* amou sempre a tradição popular através do- 
humanismo da Renascença, appresenta uma recla- 



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SjS HISTORIA DA POESIA 

mação em favor do Romance narrativo, heróico, 
na sua objectividade nativa : 

Se a Cantiga não fallar 

Em guerra de cutiladas, 

E de espadas desnudadas, 

Lançadas e encontradas, 

E cousas de pelejar, 

Não nas quero ver cantar, 

Nem nas posso ouvir contadas. 

(Auto da Lusitânia^ Obr. lii, 271.) 

Peior do que a degenerescência do Romance po- 
pular era a corrente castelhana, que pela musica 
na corte ou pelas folhas volantes entre o povo, 
amesquinhava as trovas portuguezas, ou os Roman- 
ces ratinhos villanescos, como lhes chamava Miguel 
Leitão. (Misc, p. 3). Na Arte da Galanteria falia 
D. Francisco de Portugal do desdém em que cahiam 
os Romances, referindo -se a uma anedocta aconte- 
cida com D. João de Silva, conde de Portalegre : 
«que trayendo por respuesta dos versos de un 
romance a una dama, dixo ella:' Oh que cansada 
cosa, discretos de cartapacio.» (p. 68.) 

O Romance começou a ser tratado litterariamente 
como meio de narrar scenas contemporâneas; o 
terremoto acontecido em 1522 em Villa Franca (ilha 
de S. Miguel), foi celebrado n'essa forma, como 
conta João de Barros: «Do qual caso se fez uma 
Cantiga ao modo como acerca de nós se cantavam 
os Romances de cousas acontecidas.» (*) Este ro- 
mance foi incorporado por Fructuoso nas Saudades 
da Terra, e acha se colligido na Floresta de Ro- 
mances com forma litteraria. Balthazar Dias, poeta 
cego da ilha da Madeira, é que tratou mais no 



(') Década ili, liv. i, cap. 5. 



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POPULAR PORTUGUEZA 379 

gosto popular as grandes lendas medievaes e ca- 
valheirescas. 

O Romance, como rudimento épico, faltando-lhe 
as condições sociaes para se desenvolver artistica- 
mente, pelo acabamento das luctas do feudalismo, 
transformou-se na forma dramática da Comedia fa- 
mosa. Também na Grécia, das Rhapsodias épicas 
provieram £is formas da Tragedia. Jorge Ferreira, 
no prologo da sua Ulyssipo, aproxima os cantos 
é*picos gregos da Comedia, a que deram origem : 
«converteram a invenção do louvor dos deuses em 
vitupério dos homens» indo de noite á cidade e em 
cantares, segundo cá os nossos Romances e Porquês ? 
publicavam o dano que recebiam, nomeando o au- 
ctor.i (Fl. 2, ed. 1618.) 

Entre as varias Canções populares que Gil Vi- 
cente aponta na scena da Ama na Rubena, per- 
tencem á classe dos Romances os que começam : 
Em Paris está Dona Alda — Va^nonos, dijo mi tio — 
Yo "^ne estava alia en Coimbra — Los hijos de Dona 
Sancha, e Mal me quieren en Castilla, que só pas- 
sado trinta e cinco annos é que appareceram colli- 
gidos no Cancionero de Romances de An ver s, de 
1555. No Auto da Barca da Gloria, o arraes do 
inferno chama o conde para irem ainda de dia: 

Cantaremos a porfia 

Los hijos de Dona Sancha, 

(Obr. I., 227.) 

Fernando Wolf foi o primeiro que citou os ro- 
mances populares alludidos no texto de Gil Vicen- 
te. C) A forma litteraria do Romance também foi 



} (•) Na Encyclopedia d'Ersch e Grober, p. 333, n,«» 29, em um 

( artigo sobre Gil Vicente. 



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38o HISTORIA DA POESIA 

cultivada por Gil Vicente, como o composto á morte 
do rei D, Manuel, ao casamento da infanta D. Bea- 
triz, e ao nacimento do infante D. Filippe ; ou tam- 
bém ao diroino^ no gosto da época. 

Nos escriptores dramáticos, nos quadros em que pin- 
tam a sociedade portugueza, ha frequentissimas referen- 
cias aos Romances populares, conhecidos antes de es* 
tarem reunidos nas celebres colecções de Anvers e de 
Sevilha. O seu romance Dom DuardoSy que se divulgou 
pela Hespanha em folhas volantes e chegou a entrar na 
collecçãode Anvers, perpetuou se nas versões popula- 
res, onde ainda subsiste oralmente na ilha de San Jor- 
ge, e se acha colligido nos Cantos populares do Archi-^ 
pélago açoriano, E' um precioso phenomeno de assi- 
milação popular de um texto litterario. 

No Auto de D. André, de Gil Vicente de Almeida» 
allude-se a cantos populares: ^ Entra o^zSívc^o vestido 
como pagem, fazendo o Conde Claros em uma gui- 
tarra ...» 

No Auto de Rodrigo e Mendo, de Jorge Pinto, vem 
referencias aos seguintes romances : En el mes era de 
Abril, — De las mas lindas que yo vi (Bella mal man- 
dada.) — Nunca fuera cavallero, — Las noches siempre 
acordadas — Helo, helo,por doviene — Riberas do Due- 
ro arriba. 

Na Cena Policiana, de Anrique Lopez, o auto 
termina com uma chacota cantada na letra do Arre- 
nego de ti, Mafoma, 

No Auto dos Cantarinhos, de António Prestes, 
intercalam -se versos dos seguintes romances: 

Elo, elo, por do viene 
el saio por la calzada. 

Quando la hermosa infanta ... 
Passeava-se el Rei Mouro . . . 
De las más lindas que yo vi . . . 
Durandarte ... 



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POPULAR PORTUGUEZA 38 I 

Também parodiou o romance de Gayfeiros, na 
forma seguinte : 

Sayo, se aljabebes ides, 

por dineros perguntade, 

dizile que el senor mi amo 

os vende para jogar; 

dizile que era mas tiempo 

de outro, que no de os llevare, 

y que queda acá la saia 

muriendo con soledad ; 

dizile que ya que os vende 

que traiga algo que cenare, 

que yo y la su esposa 

le tenemosla voluntad. (Anto^ p. 443.} 

E ao terminar o Auto parodia outra vez o ro- 
mance de Gayfeiros: 

Dizei-lhe que já é tempo 

de me venir a sacar 

d*esta prison tan esquiva 

do muero con soledad. (Ib..^ p. 502.) 

Apontaremos outros romances indicados nas sce- 
nas dos Autos de Prestes : 

Sereis vós meu Duranáarte 

Moro alcaide, Moro alcaide, 
El de la barba bellida 

Yo le daria bel Conde 
Quanto darse-lhe podia 

Conde Claros com amores 

Falso, maio, enganador 

, Guay^ Valência, 

A Roma como se ardia 

Passeava- se el rei Moro 



(p- 48.) 




(p- 55.) 




(p. 124.) 




(p. 206.) 




(p. 226.) 




(p. 232, , 


446.) 


(p. 234.) 




(444.) 





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382 HISTORIA DA POESIA 

Na comedia Eufrosina, Jorge Ferreira graceja allu- 
dindo a vários Romances velhos : «Mas, senhor meu, 
passou já com a soberba dos balandraus, e todas 
essas antigualas de Por aquel postigo viejo, — Buen 
Conde Fernan Gonçalves,^ E referindo-se ao pre- 
stigio musical com que se renovavam esses Roman- 
ces, escreve: «Eu não vos nego que sabeis muito 
bem harpar um Conde Claros, que elles logo dizem 
que não ha tal musica.» (Pag. 19.) Também accen- 
tua a moda dos Romances glosados : «Este meio 
he de uns porretas que grosam Retrahida está a In- 
fante , . . » (Ulyss,, fl. 256 V.) 

Na comedia Aulegraphia, traz Jorge Ferreira uma 
scena entre dois pagens, que estão a espera dos 
amos, e para se distrahirem cantam á guitarra um 
romance. Um dos personagens afina a guitarra: 
«DiNARDo: Ora poys, que assi te tocarey O rapaz 
do Conde Darás, Rocha: De prazer vem vosso 
amo, algum passarinho novo viu lá. Cardoso: Ve- 
ria, muyto má ventura, que sempre anda após es- 
tes .. . DiNARDO : (Canta) 

Pregonadas son las guerras 
De Francia contra Aragone . . . 

«Rocha : O que elle tem para seu remédio é gen- 
til VOZ I DiNARDO : {continuando a cantar) : 

Como las haria triste 
Viejo, cano y pecador ? 

(Quebrou-se lhe uma corda) Ah, pesar de Mafomal 
Cardoso: Quebrou-lhe a prima, inda bemi Dinar- 
Do : Vedes, este pesar tem a musica, quando es- 
taes no melhor, deixa-vos em branco uma prima 
falsa...» (Act. iii, se. i, fl. 84.) 

Vê-se por esta scena que já andava na tradição 
oral o romance da Donzella que vae d guerra, en- 
tão conhecido pelo titulo O rapaz do Conde Daros, 



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POPULAR PORTUGUEZA 383 

Nos Cantos populares de Tommaseo, (t. ii, p. 8o) a 
donzella guerreira chama-se Dora: «Figliola mia, Dora 
giovenèlla ...» Este thema poético tendia a renovar- 
se com os successos de aventuras femininas. (*) 

Na Aulegraphia abundam as referencias aos Ro- 
mances velhos e aos que andavam mais em voga : 
«Aquella Bella mal maridada não se torna tão 
fita vermelha ...» (íl. 46.) E logo adiante: «he uma 
atalaya da fortuna, com um epitaphio que diz : 

A Ias armas, Mouriscote, 

Si en ellas quereis entrar. (Fl. 47.) 

Estes dois versos também se encontram na Car- 
ta I de Africa, attribuida a Camões pelo visconde 
de Juromenha; pertencem a um romance que se 
obliterou na tradição; delle diz Amador de los 
Rios : cEl Romance de Mouriscoie não se acha 
com eífeito nas collecções ; porém foi tão popular 
no principio do século xvi, que quasi todos os es- 
criptores de musica de viola de arco o citam entre 
os demais romances velhos e Pasacalles, que põem 
por modelo ; mas só copiam os quatro primeiros 
versos, suppondo sem duvida que os cantores de 
Romances e os curiosos sabiam os restantes.» (^) 



(l) A celebre poetisa íranceza Belle Cordière (Louiae Labé) 
figurou como militar em 1542 no cerco de Perpigrnan, sendo ahi 
conhecida pelo nome de Capitaíne Louis. Depois do levanta- 
mento do cerco, a donzella guerreira entregou-sf». á cultura da 
poesia e da litteratura, e casou com um honrado burguez que 
negociava em cordas. 

(Feajère, Les Bemmes Poetes^ p 6.) — Em uma variante da 
versão de Montferrat vê-se a adaptação aos factos modernos; 
J*ai servi sept ans, 
Sept ans Napoleon, 
E personne n'a reconnu h filie, 
N'a reconnu la filie dragon. 
(2) Hist. da Literatura espail.^ t. ir, p. 628. 



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384 Historia da poesia 

Na linguagem cómica de Jorge Ferreira de Vas- 
concellos, assim como nas Cartas de Camões os 
versos dos Romances velhos são empregados como 
aphorismos; assim na Aulegraphia: ceu vou n'ou- 
tra vo-ta, Riberas dei Dor o arriba. --'^ <fl. 8o.) 
-^que me lançarei em lençóes de veludo com a 
Bella Infantinha da minha goelas de cegonha ...» 
(Ib., fl. 133). E a fl. 165 : 9.MÍS arreos son las ar- 
mas — mi descanso es pelear.» c Poreis tenda em 
Medina dei Campo e ganhareis vosso pão peado em 
grosar Romances velhos, que são apraziveis, e pôr- 
Ihe-heis por titulo : Glosa famosa de um famoso e 
novo autor sobre : 

Mal ouvistes los Francezes 
La caça de Roncesvalles. 

cMas ey-vos medo, que ande já o trato danado, 
como cá, onde logo nos acodem estes discretos es- 
coimados, que não medram já chocarreiros. > (Eufros., 
p. 175.) E logo adiante: 

Por amor de vós, senhora, 

Passe yo la mar salada. (Ib. 181.) 

Coração de carne crua 

Ve lo teu amor aqui. (Ib.) 

E sempre no mesmo intuito: «e ali tangem tudo 
sobre Conde Claros . . . > O outro poeta cómico, e 
seu amigo, António Ribeiro Chiado, também cita 
este mesmo romance : «alguém cuidará que um só 
Conde Claros hão de espantar os francezes da costa, 
estão enganados, que eu o perguntei e é a maior 
mentira do mundo.» (Obras, pag. 236.) Na Arte 
de Galanteria, de D. Francisco de Portugal, lê-se 
outra referencia a este romance vivissimo das ver- 



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POPULAR PORTUGUEZA 385 

soes populares : « porque este género de penitentes 
(los cazados) pretenden por lo de 

Conde Claros com amoi^es 
no podia reposar, 

«y parece en ellos se hallará aquella tan pura frial- 
dad de servir por servir, penar por penar.» (p. 122.) 
Neste livro cita outros romances: cCada mote es 
Don Beítran . . , » (p. 133.) ''En aquella edad en 
que el Contrai era gala, y Don Buezo el galan ...» 

(p. 85). 

Bernardim Ribeiro, que exprimiu o mais intimo 
sentimento no romance subjectivo que começa «Ao 
\QX\go de unta ribeira,^ também se serviu do pro- 
cesso contemporâneo glosando o romance de Duran- 
darte desde o verso Oh Belerma, oh BeUrmal e 
Diogo Bernardes glosou o romance de Gayfeiros, 
desde o verso : Cavallero se a França ides, muito 
antes da publicação do Cancionero de Romances 
de Anvers. 

Quando o Conde de Marialva appresentou quei- 
xa a D. João IH contra o Marquez de Torres No- 
vas, que se declarara clandestinamente casado com 
D. Guiomar, sua filha, poz Fr. Luiz de Souza na 
bocca do velho fidalgo estas palavras: «Não fize- 
ram verdadeiramente mais afifronta que esta os In- 
fantes de Carrion ás filhas do Cid Ruy Dias, com 
quem eram casados. Porque se as deixaram no 
campo desamparadas, eram seus maridos ; tomaram 
vingança de sy e de sua honra própria, da qual 
podiam usar beín ou mal, como cada um faz do 
seu.» (Ann. de D. João III, p. 35.) 

Nas Trovas de Manuel Pereira de Ocem, estando 
em Arzilla, a um seu amigo que estava em Portu- 
gal, publicadas por Barata no Cancioneiro quinhen- 



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386 HISTORIA DA POESIA 

tista, vêm no fim de cada estrophe dois versos em 
glosa de Romances velhos; transcrevemol-os : 

Uma adarga ante os pechos 
y en la mano una azagaia. 

(Daran, Hom,, n. 775.) 

Las vozes que iba dando 
ai cielo quierem subir. 

(Id., ib , n. 394.) 

Maldita seas, ventura, 
que asi me hazes andar. 

Los ojos puestos en el cielo, 
juramentos iba dando. 

(Id., ib , n. 370.) 

Mirando la mar de Espana 
como menguava e crecia. 

El dia c)ue ha de ser triste 
para mi solo amanece. 

Por el vuestro amor, senhora, 
pasé yo la mar salada. 

(Id., ib.. n. 373). 

Vi venir pendon bermejo 
con trescíentos de caballo. 

(Id., ib., n. 804.) 

Ricas aljubas vestida 
y encima sus albornozes. 

Los bordones que elles llevan 
lanzas vos parecerán. 

Cavalleros de Alcalá 

no os alabareis de aquesta. 

(Canc. Barbieri, n. 318.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 887 



A las armas, Mouriscote, 
si en ellas quereis entrar. 

Donde eslás que no te veo, 
Que es de ti, esperança mia. 

V que nuevas me traedes 
do meu amor que la era.? 

(Duran, Rom.^ n. 4 ) 

A que muerte condenado 
puede ser que grave fuese. (*) 

Camões, embora cesse a perfeição ao estylo pe 
trarchista, - nunca se esqueceu da poesia tradiciona" 
e popular ; na Carta i, da índia, cita dois versos dol 
Romance do Cid : 

Riberas de Duero arriba 
Cavalgaran Çamoranos. (2) 

(Duran, Rotn , n, 774.) 

Na comedia de El Rey Seleuco, cita o romarxe 
do Mouro Calaynos'. 

Ya cavalga Calaynos 

A la sombra de una oliva. 

(Duran, Rom.j n. 373) 

Nos Disparates da índia, cita os primeiros dois 
versos do romance do Cativo, ainda corrente na 
versão oral: 

Que su eco lhe responda 
Que — su padre era de Ronda 
y %u madre de Ante quer a. 

(Duran, ib., n. 258.) 



(}) Estas trovas foram publicadas em nome de Camões, com o 

titulo de Caria II de Africa^ pelo Visconde de Juromenha, no t, iv. 

(*) Romance xxn, da collecção deEscobar, p. 46 v. Ed. 1605. 



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388 HISTORIA DA POESIA 

Do romance Buen Conde Fernan Gonçalves, em- 
prega proverbialmente os dois versos : 

Villas y castillos tengo, 
Todos a mi mandar sone. 

(Duran; Rom. gen.^ n. 704.) 

Na comedia de Filodemo, traz versos do Roman- 
ce de Bernardo dei Carpio : 

Mi cama son duras penas, 
Mi dormir siempre es velar. 



Su comer las carnes crudas, 
Su beber la viva sangre. 

(Duran, ib., n. 7, 30(J.) 

Nas Redondiilas de Camões incorporou o visòon- 
de de Juromenha duas Cartas em versos octosylla- 
bos, dirigidas de Africa a um amigo ; hoje sabe- 
mos que ellas pertencem a Matiuel Pereira de Ocem, 
que as escreveu de Arzilla. u valor d essas Cartas 
está na particularidade de terminarem todas as es- 
trophes com dois versos de Romances velhos em 
glosa. Transcrevemos delias esses preciosos vestí- 
gios tradicionaes : 

E aquelle postigo velho 
Que sempre esteve fechado. 

(Duran, Rom.^ n. 804.) 

Mirando la mar de Espana 
Como menguava e crecia. 

(Id., ib., n. 1227.) 

Tiempo bueno, tiempo bueno, 
Quien si te lleve de aqui. 

E' um romance subjectivo, que foi glosado por 



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POPULAR PORTUGUEZA 889 

Garcia dp Resende, e vem no Cancioneiro geral dô 
15 16, fl. 217. O thema glosado é: 

Tierrpo bueno, tiempo bueno, 
quien te llevó de mi ! 
que en acordarme de ti 
todo plazer m'es ageno . . . 

As trovas de Pereira de Ocenni contêm mais : 

Naves de la mi tierra, 
Venid ora y levadme. 

Mas envidia he de vós, Conde, 
Que envidia ni pesar. 

(Duran, ib., n. 362.) 

A predilecção pelos romances cantados era do- 
minante ainda nos meados do século xvi; quando 
D. Sebastião seguia para Africa em empreza aven- 
turosa, o seu musico Domingos Madeira ia-lhe can- 
tando romances, como o refere na sua Chronica Fr. 
Bernardo da Cruz: «Outro (se. presagio funesto) cuja 
significação não se engeitou, foi, que hindo pelo mar 
Domingos Madeira» musico de el-rei, cantando-lhe e 
tangendo em uma viola, começou de cantar um 

romance : 

Ayer fuiste Rey de Espafía, 
hoy no tienes castillo ... 

«tanto isto foi tomado de máo agoiro, que logo 
Manuel Coresma lhe disse deixasse aquella cantiga 
triste e cantasse outra mais alegre. »(^) O romance 
que Domingos Madeira cantava referia-se ao rei* D. 
Rodrigo vencido na batalha de Guadalete, e dahi 
o máo agoiro sobre o êxito da jornada de Africa, 
de que se intentara afastar o animo do exaltado 
monarcha. Nas Décadas de Diogo de Couto tam- 



(i) Chronica de D, Sebastião^ p. 308 

P<%oa. nnniil — Vol. 11 



Poes. popul.— Vol. II 25 



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OgO • HISTORíA DA POESIA 

bem apparecem por vezes apontados os romances 
tradicionaes que entre os cavalleiros portuguezes, que 
militavam na índia, eram com frequência cantados. 
A reacção contra os metros endecasyllabos da 
Eschola italiana, fez com que os partidários das 
Redondilhas ou da Medida velha, cultivassem com 
affinco a forma do Romance velho, tratando nelle 
os assumptos da historia. Lorenzo de Sepúlveda põe 
em romances os principaes factos da Crónica gene- 
rale de Affonso o Sábio «em tono de Romances 
viejos, que es lo que agora se usa.^ Isto escrevia 
no prologo dos Romances nuevamenie sacados de 
historiai anttguas, de 1551. Sepúlveda queria assim 
contraminar o gosto dos romances velhos : « para 
aprovechar-se los que cantarlos quisie;ren, en logar 
de otros muchos que yo he visto impressos y de 
muy poço íructo.» As collecções a que allude são 
principalmente o — Cancionero de Romances, ,en que 
estan recopilados la mayor parte de Romances cas- 
tellanos que hasta agora se han compuesto, en An- 
vers por Martin Nucio, — sem data e anterior á de 
1550; e a Silva ae vários Romances, impressos 
en Saragoça, por Estevan de Najera, em dois volu- 
mes em 1550. A collecção de Anvers foi reimpressa 
em Lisboa em 1581, por Manoel de Lyra, quando 
Portugal desnacionalisado se achou incorporado como 
província na unidade castelhana. Em 1595 o livreiro 
Pedro Flores, imprimiu em Lisboa, na ofificina de 
António Alvares, o Ramilhete de Flores, 4.', 5.* e 
6.* parte da (íFlor de Romances nuevos, hasta agora 
nunca impressos . . . > A corrente castelhana expio - 
rava-nos o gosto poético, e em 1 598 imprimiu-se 
em Lisboa a Historia de los 'Bandos de los Zegris 
y Abencerrages de Ginez Perez de Hita, que vulga- 
risou a forma dos romances granadinos, que se tor- 
naram uma monomania dos poetas no fim do se- 



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POPULAR PORTUGUEZA 09I 

culo XVI e grande parte do século xvii. Duran e 
Wolf consideram estes romances privados de toda 
a genuinidade popular, de um cansado artificio, que 
que provocou acerbos motejos. 

A forma do Romance apparece-nos empregada 
em um Epitaphio, em uma cruz de pedra em Abran- 
te, afastando-se daquelle destino, que lhe assigna 
Rengifo na sua Poética: «hechos hazanosos:» 

Chegamos ao porto' 

D'esia vida mui cansados, 

Fizemos aqui esta casa 

Em que estamos agasalhados; 

D'aqui havemos de passar 

Onde havemos de ser julgados, 

Levando este signal 

Não seremos condenados, (i) 

Apezar de todos esses elementos castelhanos, 
que se tornaram mais intensos depois do dominio 
dos Philippes, escrevia o celebre ministro António 
Perez : «Portugal é um reino de gente vaidosa e 
soberba, inimiga do jugo extranho, — por isso Ihé 
repugna estar sujeito a Castella, que lhe inspira 
inveja, e de quem é rival pela visinhança e pela in- 
dependência que outrora teve. — Demais, se jà não 
existe a causa das guerras civis, não acabou ainda 
a md vontade que animou os inimigos do senhorio 
castelhano, — Finalmente, por qualquer lado que en- 
caremos o assumpto, é incontestável que os Portu- 
guezes são inimigos dos Castelhanos, ou pelo menos, 
detestam o jugo ; e em se lhes oíterecendo oppor- 
tunidade, em quanto durar a lembrança da inde- 
pendência, de bom grado mudarão de regimen ...» 
(UArt. de Gouverner, Disc. á Philippe m — 1598.) 



{}) Panorama^ vol. iv, p. 287. 




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392 



HISTORIA DA POESIA 






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^ 2,** — A Egreja e a condemnação 
da Poesia popular 

Assim como a Canção popular entrou nas Cortes 
suscitando a elaboração artística do lyrismo troba- 
doresco e das árias melódicas, também penetrou na 
Egreja, desenvolvendo-se nos cantos litúrgicos das 
Sequencias, e nas Dansas hieráticas processionaes. 
Mas a Egreja aristqcratisando-se, baniu o povo da 
participação dos actos cultuaes, e reagiu por meio 
de censuras e prohibições episcopaes contra os cos- 
tumes das Vigilias e Autos populares, contra as 
cantigas profanas, como vestigios do paganismo, e 
como resultado de degradação moral. Ao passo que 
na Egreja prevalecia um rigorismo apparente de 
disciplina, exagerado depois do Concilio de Trento 
e sob o influxo dos Jesuitas, estabeleceu-se uma 
moral accomodaticia para as classes preponderantes, 
reguladas pelos intuitos dos directores espirituaes ; 
mas recrudesceu a severidade contra os cantos e 
dansas do povo, condemnando-se nos índices ex- 
purgatorios todos os livros que poderiam levar al- 
guma distracção a sua pobre alma. 

Na poesia popular portugueza do século xvi a 
vulgarisação quasi exclusiva das Cantigas castelha- 
nas era uma consequência da desnacionalisação exe- 
cutada calculadamente pela tendência para a unifi- 
cação ibérica, revelada pelos casamentos reaes, e 
realisada sob esse sophisma por Philippe 11 em 15 80. 
O mesmo effeito de desnacionalisação se observa 
pela acção do Catholicismo, que pelo seu absoluto 
unitarismo contrario ás Egrejas nacionaes, se achou 
servindo os interesses do iberismo, como se vê pela 
politica hispano portugueza da Casa de Áustria. Pelo 
interesse da unidade catholica, servida pela Santa 
Liga, é que Philippe 11 entrou mais facilmente em 



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POPULAR PORTUGUEZA SqS 

Portugal, quebrando nos caracteres mais desinteres- 
sados a resistência do sentimento nacional. Os Je- 
suitas, na imposição da supremacia catholica desna- 
cionalisaram por todas as formas o espirito portu- 
guez na educação da mocidade, e na direcção es- 
piritual das familias nobres ; entre o povo atacaram 
sempre os cantos e tradições que o alentavam, e 
em especial as representações dramáticas. 



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C) A CANÇÃO BAILADA 



No Auto da Sibilla Cassandra, de Gil Vicente, 
observa-se o phenomeno da transformação de uma 
Canção lyrica em forma dramática; pelo conheci- 
mento do costume ritualistico da Edade media é 
que se estabelece a elaboração. (*) Barbieri, no Can- 
cioneiro musical dos séculos XV e XVI, ao repro- 
duzir uma d'essas Canções, descreve a cerimonia 



(^) «A poesia grega não era como a das nações modernas, uma 
arte isolada . . . exigia indispensalvemente o concurso de duas outras 
artes, distinctas, tendo com ellas relações intimas e necessárias, isto é, 
da musica, e também da que os gregos chamavam Orcktsis e os la- 
tinos SalíJíio, termos que erão imperfeitamente traduzidos pela nossa 
Dansa. Saltado, conservando o seu nome latino, era uma gesticula- 
ção, uma pantomima característica, destinada a pintar, em certo modo 
á vista, o que a palavra poética representava ao pensamento. Assim, 
pois, todo o poema era cantado não só com um acompanhamento 
appropriado de musica instrumental mas com um acompanhamento 
de gestos imitativos e pittorescos. A invenção d'estes gestos, assim 
como da musica, fazia parte desligada do talento do poeta, e a exe - 
cução poética compunha -se assim das três artes distinctas, ou como 
se quizer, de três ramos indivisíveis de uma única e mesma arte, as- 
pirando concertadamente a um mesmo e único effeito.» (Fauriel, 
Histoire de la Poesie provençale, t. i, p. 76.) 



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POPULAR PORTUGUEZA SgS 

religiosa: «Desde o século xi, estava introduzido 
nas Egrejas de Hespanha o costume de cantar nas 
matinas da Natividade a prophecia do Juizo final 
attribuida á Sibylla Erythrêa. Cantava se primitiva- 
mente em latim, traduzindo-a com o tempo para as 
línguas vulgares, acompanhando o canto com uma 
estranha cerimonia ... Na cathedral de Toledo, du- 
rante os séculos XV e xvi estava em todo o seu 
auge esta cerimonia : um seise que fazia de Sibylla, 
cantava a prophecia em versos castelhanos, e a cada 
estrophe, emqúanto os outros seises ou coUegiaes 
esgrimiam as espadas, respondia o Coro dos canto- 
res em harmonia a quatro vozes com as palavras : 

Juicio fuerte será dado 
y muy cruel de muerte. 

«No Ordinário Barctnonense, do anno de 1569, 
consta que na Catalunha se cantava também a Pro- 
phecia da Sibylla em catalão ; os versos eram do 
celebre renegado Fr. Anselmo Turmeda (aliás Abd- 
alia), aos quaes o coro respondia : 

Al jorn dei judiei 

Parra qui haura fet servici. 

«Até em pequenas povoações de Hespanha se 
seguia este costume, conforme provam os versos 
castelhanos que fez Cristobal de Castillejos para uma 
aldêa, e que começam : 

Juicio será fuerte 

Áspero y cruel de muerte, 

e vem na coUecção das suas obras.» (*) 



(*) Barbieri transcreve uma Caação, n <* 243, parodiada no sen- 
tido amoroso, em que o tiple canta a melodia de Tiple do coro 
ecclesiastico, contrapontado pelo canto do tenor e contratenor com 
a letra amatoria. 



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396 HISTORIA DA POESIA 

Barbieri cita um registro da cathedral de Toledo 
de 1494 em que se dá a Pedro Lagarto, maestro 
de los clerizories o salário de quatro florins, «para 
que los maestres á leer e cantar, e sirve ca?i elUs 
el coro e con el tocado que pone d la Sebilla, la 
noche de Navidad.» (^) 

Aproveitando-se d'esta figura da Sibylla, Gil Vi- 
cente inventou o quadro dramático, verdadeiramen- 
te original. 

As censuras ecclesiasticas contra os cantos e dan- 
sas populares, precederam os índices Expurgatorios. 
Nas Constituições do Bispado de Évora, de I534> 
renovaramse as disposições do Concilio bracharen- 
se : «Defendemos a todas as pessoas ecclesiasticas 
e seculares, de qualquer estado ou condição que 
sejam, que não comam nas egrejas, nem bebam, 
com mezas nem sem mezas; nem cantem, nem 
bailem em ellas, nem em seus adros.» (Const. x» 
tit. 15.) A natureza d'esses cantares ^pparece apon- 
tada nas Constituições do Bispado do Porto : ^^E 
porque não é decente interromper o santo sacrifí- 
cio da missa, e deixar de cantar o que a Egreja 
n'elle tem ordenado se cante, por intermetter n'elle 
Chansonetas e Villancicos, e ainda que sejam pias e 
devotas ; conformandonos com a disposição do 
Concilio provincial bracharense, prohibimos, que nas 
missas cantadas em logar do Tracto, Offertorio, 
Agnus Dei, Post-communio e mais cousas ordena- 
das pela Egreja, se cantem Chansonetas e Villanci- 
cos, nem Motetes, Antiphonas e Hymnos, que não 
pertençam ao sacrifício que se celebra; nem em 
quanto se disser alguma missa se consinta cantar 
cantigas profanas, nem festas, dansas. Autos, Collo- 



{^) Ibid., pag. 36. 



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rorUI-AR POKTUGUEZA ^97 

quios, posto que sejam sagrados, Clamores, peti 
tórios de esmolas...» (p. 175.) 

O bispo de Leiria D. Frei Braz de Barros, man- 
dando imprimir o livro ^ Meditação em estylo me- 
trificado, visava a combater o uso dos cantos po- 
pulares : cE depois de ser erapremida, mandou a 
mim Joam da Barreyra, empressor dei rey nosso snor, 
em esta catholica Universidade, que ajuntasse aa 
mesma Meditação as seguintes trovas, porque lhe 
pareceram devotas e proveitosas especialmente pêra 
muytos religiosos e religiosas que sam grandes mú- 
sicos e por falta de cousas espirituaes muytas vezes 
tangem e cantam cousas seculares e profanas. Por 
isso os avisa e lhes roga, que em logar das vai- 
dades mundanas, cantem e tanjam estas espirituaes 
e devotas. E porque o romance que aqui vay acha- 
ram apontado singularmente por Badajoz, musico 
da camará dei rey nosso senor. E o villancete do 
Parto da Senhora se hade cantar por o duo que 
compoz Torres, da letra de Inimigo foy madre; 
e ho do Pranto da Senhora, caminho do monte 
Calvário por a composição do Motete Fili mi Ab- 
solo, do qual foy a letra tomada.» 

No romance sacro Com raiva está el rei David, 
vem os versos latinos como refrem : 

Ofili meUfili meu 
Fili mei Absalão ! 
Que é da tua formosura ? 
Que é da tua perfeição ? 

No Auto do Dia do Juizo, de 15 13, já se encon- 
tra este verso: «Que é da tua formosura.» 

Nos Últimos fins do homem. (p. 405) o P.® Ma- 
noel Bernardes falia do bispo de Coimbra D. João 
de Mello obrigar a gente das aldeias a decorar o 
Cathecismo, admirando-se de «ver andar os rústicos 
aldeanos no campo, e juntamente cantando em logar 



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SgS HISTORIA DA POESIA 

de outras cantigas a doutrina do papel para lhe ficar 
na memoria.» (*) Na Vida de D, Frei Bartholomeu 
dos Martyres ao descrever a visita do Arcebispo ás 
terras de Barroso, pinta o biographo Fr. Luiz de 
Sousa a rudeza do povo pelo aspecto da sua poe- 
sia oral: cjuntavam-se a recebel-o pelos caminhos 
com dansas e folias rudes, que eram o extremo da 
festa que podiam fazer. E porque não fossem jul- 
gados por menos agrestes que os seus motos, nas 
cantigas que entoavam entre as voltas e saltos dos 
bailes, publicavam logo a quanto chegava o que 
sabiam do céo e da fé. Um dizia • 

Benta seja a Santa Trindade, 
Irmã de Nossa Senhora . . . 

«Este mote com glosas egualmente disparatadas, 
repetiam muitas vezes ...» Obedecendo á condem- 
nação dos cantos e dansas popiUares pela auctori- 
dade religiosa, é que D. Manoel e D. João iii le- 
varam pelas suas prohibições legaes o povo a essa 
tristeza descripta por Gil Vicente. Com a entrada 
dos Jesuitas em Portugal em 1542, organisou-se o 
combate systematico. 



(*) Nas Constituições do bispado de Coimbra de 1591, D. Afibn- 
so de Castello Branco, diz: «Somos informados, que em algumas 
e£:rejas e hermidas, em as vigílias e dias dos oragos d'ellas,'e outros 
dias de festas, se representam Autos e Farsas^ e ha outros Jogos pro- 
fanos ...» £ prohibe com excomunhões e penai pecuniárias o 
costume : «se não representem Farsas^ Autos nem Comedias^ ainda 
que sejam representações pias e de historias de santos, de dia nem 
de noite, nem haja n*ellas Jogos^ Dansas ou Cantigas profanas » 
Chamava -se Consueta, na disciplina ecclesiastica aos Autos popula- 
res representados nas Cathedraes ; Amador de los Rios, achou apon- 
tados em um códice de 1360, os seguintes Autos que se represen- 
tavam na Cathedral de Gerona : Navidad — Martírio de San Este^ 
van — Las Três Marias. — E desempenhava-se em quadro vivo : 
Sacrtficio de Isaac — SoHo y Venta de José. (Hist. da Litt. espafi.^ 
»v, 563. 



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POPULAR PORTUGUEZA O 99 

Em uma carta de 31 de julho de 1545 dirigida 
ao P.® Fabro, descrevendo a propaganda que os 
jesuitas faziam em Coimbra, enumera: «outros, no 
silencio da noite, ao som de uma campainha, de 
spertavam os cidadãos com terriveis vozes, pelas 
ruas, que moviam ao terror da morte e do dia de 
juizo, e isto por diversas vezes. O que entoavam 
era por esta forma : 

Temed, oh pecadores, 
de las penas eternas los rigores ! 

Repara, hombre obstinado, 
que la mayor miséria es el peccado. 

Pecador, alerta ! alerta ! 
. que la muerte está á la puerta. 

cCom estas e outras semelhantes vozes clamavam 
aos ouvidos dos pecadores.» (*) Não transcrevemos 
o resto da carta, em que se relata o effeito dos 
sermões nocturnos; basta só fixar o que se refere 
á desnaturação da poesia do povo. A San Francisco 
Xavier attribuiramse «as cantigas devotas que usa- 
ram e ainda em parte usam os mareantes da car- 
reira da índia com palavras castelhanas e portugue- 
zas.» (*) Os Jesuitas apoderavam-se das crianças, 
pela doutrinação, e assim dominaram as ultimas ge- 
rações portuguezas do século xvi. O P.* Ignacio, o 
auctor da Cartilha, ia pelas ruas com uma bandei- 
ra negra, a que chamara Pendão da Santa Doutri- 
na, e ao toque de uma campainha ajuntava todas 
as crianças quando sahiam da eschola ; levava-as 
arrebanhadas para os sitios apartados da cidade de 



(1) P.e Alcazar, Ckron.-hist. de la Camparia tn Toledo^ P. i p. 520. 
(^) Ms. citado no Camões e o Sentimento nacional ^ p. 229. 



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400 



HiSTOKlA DA POESIA 



Lisboa» o ensinava lhes versos piedosos. Refere o 
P.* Balthazar Telles, na Chronica da Companhia: 
«De outras tantas traças usava para trazer conten- 
tes os meninos, e -para os. fazer tomar de cor a 
doutrina ; hia-os buscar âs escholas, fallava com os 
mestres, a estes tinha muito de sua parte, dava-lhes 
o modo e direcção por onde haviam de doutrinar 
aos discipulos, fazendo-lhes t^os os dias ensinar 
as orações, entoando-a dois delles em voz alta, e 
repetindo logo todos ; e para que os meninos fu- 
gissem de musicas deshonestas, fez compor e elle 
mesmo compoz algumas Canções espiriítiaes e Can- 
tigas devotas, que andam no fim da Cartilha, as 
quaes ainda que não sam as que estimam os cul- 
tos são as que presam os santos, e estas lhes fa- 
zia tomar de cór e lhes fazia cantar de dia e de 
noite; que assim lemos d'aquelle grande Padre Gre- 
gório Nazianzeno, que se occupava em compor 
versos . . . Ordinariamente no principio da doutrina, 
depois^de se benzer e dizer algumas Orações, man- 
dava cantar por dois meninos de vozes excellen- 
tes : 



Todo o fiel cristão 
He mui obrigado 
A ter devoção 
De todo coração 
A' Santa Cruz ■; . . 



< A esta cantiga chamava elle — Cantiga dos 
Anjos, a rasam d'isto era a que elle contava muy- 
tas vezes , . . » Era o caso, tel-a ouvido cantar no 
mar das índias aos Anjos na occasião de um nau- 
frágio. Prosegue o Chronista: «Esta sua Cantiga lhe 
celebravam os Anjos; vejamos outra, que parece 
lhe ensinaram ou emendaram os mesmos Anjos : 
Entre os motetes que andam na Cartilha, o primei - 



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POPULAR PORTUGUEZA 4OI 

ro dos quinze mysterios, tinha elle composto d*esta 
maneira : ^ 

Virgen sagrada, 

madre de Dios, 

quien en el mundo 

tal como vós ? ) 

Del angel Gabriel 

fuistes anunciada, 

y hablando con él 

quedastes prenada . • 

(lei hijo deDios. . . 

«Porém, não lhe soara bem, nem lhe contentava 
aquella palavra deste ramo : Quedaste prenada, 
porque posto que explica mysterio, comtudo dese- 
java elle outra, que dissesse mais com a pureza da 
Virgem purissima e com a modéstia de suas pala- 
vras. — Com estes pensamentos andava lidando (por- 
que estes eram os seus cuidados) porém, por mais 
vezes que mordia as unhas e tornava o verso á 
lima, como aconselhava o Mestre da Poesia, nam 
havia remédio occorrer-lhe outra palavra. Indo huma 
vez para entrar em San Roque, vindo de fazer a 
doutrina, e occupado todo nesta lida, se chegou a 
elle um menino de muy formoso aspecto, e puchan- 
do-lhe pelo manteo lhe disse : 

Quedastes morada 
dei hijo de Dios. 

«Aquietou logo o pensamento que tão cansado 
andava buscando aquella emenda que o menino lhe 
dava, a qual notavelmente lhe contentou, ficando 
egualmente satisfeito da palavra e admirado do cor- 
rector, no qual logo reparou ; pois parecendo me- 
nino, lhe sabia os pensamentos e lhe emendava os 
versos, e buscando-o logo para em satisfação de 
tam boa obra lhe dar um premio, como costumava 




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402 HISTORIA DA POESIA ~~~ 

aos d*aquella edade, desappareceu o menino e nun- 
ca mais o viu ; entendendo que era Anjo ...» (*) 

Em vista desta intervenção jesuitica foram nos ín- 
dices expurgatorios apontadas as Orações tradicio- 
naes do povo que eram prohibidas ; taes como a 
Oração do Conde, por ventura a do Santo Con- 
destabre. No segundo Index, que publicou o Car- 
deal D, Henrique em 1564, são pfohibidos : ^Ro- 
mances tirados ao pé da letra do Evangelho.» E 
além desta proscripção geral, a Oração da Empare- 
dada, de San Cebriam, do Testamento de Jesu- Chris- 
tOy Oração de Santa Maria por si pequena. Ora- 
ção do Conde, e de San Lião Papa, 

Destas Orações podemos fazer ideia pelo frag- 
mento que traz Gil Vicente no final da Não de 
Amores: «Começaram a cantar a Prosa, que com- 
m^umente se canta nas Nãos d Salve, que diz : 

Bom Jesus, nosso Senhor, 
Tem por bem de nos salvar, etc. 

Chamava-se a esta oração do anoitecer a Salva, 
conforme diz Gil Vicente nos versos : 

Y luego todos digamos 
La Salve antes dei dormir. 

(Obr., m, p. 321.) 

Na procissão instituída em Guimarães por occa- 
sião da peste de 1507 a 1509. cantava-se uma 
Oração da qual diz o P.* Torquato, nas Memorias 
resuscitadas (p. 351): «Antigamente iam em esta 



{}) Chron, da Companhia, P. II, p. 225, 



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dLj^ 



POPULAR PORTUGUEZA 403 

procissão muitos homens com bandeirinhas em umas 
varas compridas, dansando e cantando : 

San Miguel de Creixomil, 
Dae-nos favas e perrexil. 

Gastanhinhas temol-as nós ; 
Senhor Deus, ouvi a nós. 

San Thiago, que de Christo 
Apostolo es . . . 

Magdaiena, roga por nós, 
E rogae a Deus por nós. 

«Doesta antiguidade se não usa já {i6g2), pois se 
tiraram aos povos muitas ridiculas de que usavam, » 
Esse combate systematico, que começou pelas Con- 
stituições dos bispados, tornou-se feroz nos índices 
Expupgatorios ; no terceiro, publicado em 1581, pro- 
hibem-se : « As Florestas hespanholas, que não esti- 
verem emendadas da maneira que a Santa Inqui- 
sição Geral d'estes reinos as mandou emendar.» 
(Fi. 19, ^.) Reíere-se ás duas edições sem data da 
Floresta de varias Romances, de Valência, sem 
anno, e que era formada da reunião do Cancionero 
de Romances e da Silva de Romances, Condemnam- 
se também: «O romance que começa Com raiva 
está el Rei David, e todos os mais tirados do Tes- 
tamento Velho ou Novo, ou cantos.» (Fl. 22.) Pro- 
hibem-se as Trovas de Bandarra, versos em redon- 
dilha, que consolavam o povo no desalento das 
suas esperanças depois da perda da nacionalidade 
em 1580; Bandarra, o pobre sapateiro de Trancoso, 
que quarenta annos antes a Inquisição processara, 
ia-se tornando, como Merlin, o propheta na Nacio- 
nalidade. A prohibição das florestas, fez com que 
nesse mesmo anno o livreiro Manoel de Lyra re- 






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404 HISTORIA DA POESIA 



produzisse em Lisboa uma edição do Cancionero àe 
Romances, de Anvers de 1550, que consta de outen- 
ta e dois romances, grande parte dos quaes ainda 
hoje persistem na tradição oral; e como foi um dos 
primeiros livros em que appareceram romances di- 
rectamente colligidos do ditado oral, também é para 
notar que o seu conteúdo fora dezenas de annos 
antes conhecido por Gil Vicente, Jorge Ferreira, 
António Prestes e demais poetas dramáticos. Máo- 
grado o mutismo a que forçaram o povo portuguez 
desnacionalisando-o, elle soltava a voz em çhascos, 
que ficaram na historia; maldizendo o iberismo, 
fizera a provérbio : ' 

De Hespanha, nem bom vento 
Nem bom casamento. 

E escarnecendo a apathia do Cardeal Rei,, que 
preparava a entrega de Portugal a Philippe 11, chefe 
da Liga catholica, cantava: 

Quem quizer fallar 

Ao Cardeal, 
Vá a San Bento, 

Que lá está 
De portas a dentro 

Debaixo do laranjal. 

E na sua morte imprímiu-lhe o ferrete ignomi- 
nioso da Cantiga, que fora ouvida em Santarém : 

Viva El-rei D. Henrique 
No inferno muitos annos, 
Pois deixou em testamento 
Portugal aos Castelhanos. 

Em uma Relação de João Baptista Venturino, 
que veiu no comitiva do Cardeal Alexandrino, legado 



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POPULAR PORTUGUESA 405 

de Pio V aos reis de França, Hespanha e Portugal, 
em 1571, descrevem-se as dansas populares que se 
fizeram em Elvas na recepção do Cardeal, por onde 
se caracterisam as dansas alemtejanas : cAo entrar 
a dita porta, appareceram muitos homens e mu- 
lheres do modo como já tínhamos visto em Castella^ 
estando com o Cardeal Spinosa. Formavam estes 
três corpos de dansarinos. A primeira dansa cha- 
mada da Folia compunha-se de homens vestidos á 
portugueza, com gaitas e pandeiros accordes, e com 
guizos nos artelhos, pulavam á roda de um tambor^ 
cantando na sua língua cantigas de folgar, de que 
obtive copia, mas que não ponho aqui por me não 
parecerem adaptadas á gravidade do assumpto. Bem 
merecia tal dansa o nome de Folia, porque voltea- 
vam com lenços fazendo ademanes uns para os ou- 
tros, como quem se congratulava da vinda do le- 
gado, para o qual constantemente se voltavam. A 
segunda dansa chamada Cativa, era de mouros agri- 
lhoados, que dansando d moda mourisca, se decla- 
ravam escravos do legado. A terceira chamada a 
Gitana era composta de Ciganos vestidos e bailando, 
como os já descrevi do Cardeal Spinosa. Vinham 
entre elles duas mouras, trazendo cada uma em pé 
sobre os hombros uma rapariga vestida de pannos 
cosidos em ouro, e talhados de ga antes e variadas 
modas. Com aquelle pezo bailavam levemente ao 
som de um tambor, enfunando-se com o vento os 
vestidos das raparigas que faziam esvoaçar um lenço 
por vários modos, ora com a mão direita ora com 
a esquerda, ora segurando-o debaixo do braço, ora 
nas costas, mornos estes que depois repetiam com 
facas, de diversas maneiras.» (*) 



{}) Ap Panorama^ vol. v, p. 3oq. 
Pões. popul.— Vol. II 



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406 HISTORIA DA POESIA 

Na Miscellanea descreve Garcia de Resende es- 
tes : c bailes de muito fermosas mouras, » e em 
Gil Vicente vê-se como elle transformou a dansa da 
Gi(ana na Farça das Ciganas. André de Resende 
descrevendo as bodas do infante D. Duarte em Vil- 
la Viçosa em 1536, citando as canas, justas, tor- 
neos e outros jogos, saráos, dansas, ajunta-lhes as 
festas populares de ^Folias e bailes plazenteiros.» 
(Vida, cap. ii.) 

Os Romances mouriscos eram uma transformação 
litteraria das Canções lyricas dos mouriscos, ou 
Zafnbras e Leilas que se usavam na corte de Car- 
los V, e na de D. Manuel, como notou Damião de 
Góes, na sua Chronica. Escreve Marin, em uma 
nota á sua obra sobre Luis Bàrahona de Soto : 
«Em 1526 o imperador Carlos v mandou que os 
mouriscos não usassem Leilas nem Zambras, pro- 
hibição que foi reiterada em 1566: = que no hicie- 
sen zambras ni leilas con instrumentos, ni canta- 
res moriscos en alguna manera, aunque en ellos 
no cantasén ni dijesen cosa contra la religion Cris- 
tiana, ni sospechosa de ella. = A isto contestaram 
os mouriscos por meio do seu procurador Jorge de 
Baeza : = Nuestras bodas, zambras y regocijos, y 
los placeres de que usamos no impide nada el ser 
cristranos. Ni sé como se puede decir que es cere- 
monias de mores : el buen moro nunca se hallaba 
en estas cosas tales, y los alfaquis se salian luego 
que comenzaban las zambras a tafter y a cantar. 
En Africa ni en Turquia hay estas zambras, es 
costumbre de província... El arzobispo santo... 
si viera que lo era (rito de moros) estas zambras, 
es cierto que las quitara, ó á lo menos no se pre- 
ciara tanto de ellas, porque holgaria que acompa- 
fiasen ai Santisimo Sacramento en las procesiones 
dei dia de Corpus Christi y de otras solemnidades. 



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POPULAR PORTUGUEZA 407 

donde concurrian todos los pueblos, á porfia unos de 
otros cual mejor zambra sacaba, y en la Alpujarra 
andando en visita, cuando decia misa cantada, en 
logar de órganos, que no los habia, respondian las 
zambras, y le acompanaban de su posada á la 
iglesià. =» * A reacção do absolutismo politico e a 
do intolerantismo religioso colligaram-se no abafa- 
mento da vida popular ou nacional. N'esta parte a 
acção da Hespanha ibérica foi terrível sobre a de- 
cadência da Hespanha lusitana, 

Soropita, no Prognostico do anno de 1595, de- 
screvendo as festas e cantos populares, falo com 
uma nota de desdém característico do estado de 
desnacionalisação : ena noite da véspera de Janeiro 
e dos Reis, andarão cantando e tangendo pelas ruas, 
sem se temerem da justiça, por serem noites privi- 
legiadas em que não correm o sino,^ Referia-se ás 
leis manuelinas que prohibiam os descantes noctur- 
nos. E sobre os cantores Janeireiros e Reiseiros, 
diz: «são villões ruins que essas noites vos perse- 
guem ; por que, quando vos não precataes, achael-os-á 
porta com seu pandeirinho eivado já do serão, e 
com mais sarro na garganta do que as cubas dos 
frades Loyos ; e com tudo isso, vos põem em esta- 
do que forçosamente lhe haveis de louvar aquella 
musica de agua pé com chocalhada, que toda a 
noite nos zune nos ouvidos como bizouro, e sobre- 
tudo isto haveis de lhe oífertar os vossos quatro 
vinténs; e quando lhos entregaes, a candeia vos des- 
cobre o feitio dos ditos músicos : um mocho com 
sombreiro, com mais chocas que um corredor de 
folha, e lança-vos baforada de dentro d'aquellas for- 



* Marín, Luis Barahona de Soto^ p. 58, not 6. Transcreve o tre- 
cho de Carvajal, Hist, de la Rebelion^ lib. ii, cap. vi e x. 



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408 HISTORIA DA POESIA 

nalhas, que parece que toda a vida estiveram de 
vinho e alhos, como entrecosto de marran.» (Poet. 
e Prós., 79.; 

Na Arte^da GíUanteria de D. Francisco de Por- 
tugal, falla-se de que : mo sé se escandalizara el re- 
cato con que pueda bailar una capona en fraldellin 
y vaquero corto, sombrero de plumas, con castatíetas, 
con tanto que no la cante, ni las segtàdiUas, por 
ser cosa muy dei prado, y aunque pronuncie mal 
el portuguez, podrá usar destas de moça de cântaro^ 
por seren las mejores que introduzieron las folias : 

Esta prima de minha alma 

He perigosa, de modo 

Que quem a vê, San Bom Homem, 

Deixa os olhos nos seus olhos 

No coração de Maria 

Desmayos vão, San Bom Homem, 

Os desmaios só são seus. 

Que o seu coração he d'outrem. 

Mais formosa descuidada 
Cahiu na fonte Mana, 
Co* que se viu namorou, 
Envergonhou-se por vista. 

Amor de moças não dura, 

Que são saeos rotos todas, 

San Bom Homem, San Bom Homem, 

Dae-me uma velha geitosa.» ^ 

Na relação da viagem do Cardeal Alexandrino 
falia se nos improvisadores populares admittidos na 
sala do banquete: <A' mesa dos prelados um im- 
provisador cantou á guitarra em honra do Legado 



1 Op. cit., p. 32. 



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POPUI«AR PORTUGUCZA 409 

e da infanta D. Maria de Portugal, de que era tudo 
aquillo . . . ; e depois vários outros á viola, aos três 
e aos quatro cantaram Madrigaes engraçados e bem 
trovados em palavras castelhanas.^ , 

Dom Francisco de Portugal, na sua Arte de Galan- 
teria, citando os Jogos que se usavam na noite do 
Natal, colligiu as fórmulas dialogadas em castelha- 
no, (p. 89.) Na tradição hespanhola, em muitos 
jogos populares é lembrado Portugal, como n'este 
das crianças, nas Astúrias : 

Ensiella, ensiella ! 
Encalabaciella. 

El Rey Don Juan 
Caso en Castella. 
Todlas damas convido, 
Si no una que y deixo. . . 
Aqui fué de gran pesar 
De pasar á Portugal, 
Donde comen pan y miei 
Y manteca en la cuchar. . . 
Zapes gato I y vete á echar. 

Rios, Hist. AV., vn, 433. 

No seu resumo da Historia de Portugal^ Alphonse 
Rabbe caracterisou a resistência do povo portuguez, 
através de todos os meios e situações históricas as 
mais depressivas : c . . os Portuguezes souberam re- 
sistir aos Romanos ; expulsaram os Mouros ao cabo 
de trez séculos de occupação, e viveram livres em 
presença da Hespanha por setecentos annos submet- 
tida em suas bellas provincias á dominação do Cres- 
cente ; mais tarde em varias batalhas famosas, que- 
braram o jugo que esta rival lhes impunha ; depois 
fundaram dois grandes Impérios nas duas índias. 
Tudo isto fizeram os Portuguezes. Porém, depois de 
triumphos tão continuados e tão variados em tantas 



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410 HISTORIA DA POESIA 

regiões remotas e diversas, estes mesmos homens, 
estes descendentes dos companheiros dos Viriathos^ 
succumbiram á Inquisição e ao yâsuitisfno,^ Rabbe 
explica esta depressão do povo portuguez pelas 
mesmas faculdades que o tornaram grande na his- 
toria: «com uma imaginação impetuosa, e uma sen- 
sibilidade apaixonada» diante d'essas duas forças 
desnacionalisadoras, tornou-se fácil o ser desvairado 
pela superstição religiosa. Trabalhando estas forças 
para imporem a unidade catholica apagando as dif- 
ferenciações das pátrias e nacionalidades, coadjuva- 
ram para isso o Iberismo, que veiu a absorver o 
Lusismo, ou a autonomia de Portugal. Mas o genk> 
resistente da raça continuou a manifestar-se. 



§ 3,^ Nacionalismo nos focos eotoniaes. 



No século XVI, a par dos descobrimentos maríti- 
mos realisaram se as occupações coloniaes da índia 
e Brasil; e emquanto na metrópole o génio nacio- 
nal era obliterado pelo iberismo unitarísta dos mo- 
narchas portuguezes, e pela compressão do terror 
inquisitoríal e do obscurantismo jesuitico, a tradi- 
ção poética refloria n'esses longinquos dominios pela 
saudade da pátria. Assim como se recompõe a prí* 
mitiva unidade lusitana pelos cantos populares da 
Galliza, Astúrias e Andalusia, também o poder da 
acção de Portugal se reflecte nas manifestações da 
Poesia popular na índia, Brasil, Africa e entre os 
Judeus levantinos das famílias expulsas por D. Ma- 
nuel. Que revelações ethnicas, investigando a tra- 
dição desses focos coloniaes; sem a vista de con- 
juncto dá-se uma completa cegueira cerebral para 
comprehender os seus vestígios sempre signiflcativos^ 



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POPULAR PORTUGUEZA 4II 



rcroiA 

No trabalho que intitulámos Historia de Camões^ 
(p. 157) já tinhamos observado o facto da revive- 
scência da tradição popular na índia portugueza: 
«A' medida que os Romances tradicionaes se foram 
esquecendo na corte de Lisboa, o vigor da tradição 
foi refluindo sobre as provincias, onde por alguns sé- 
culos continuaram a ser repetidos. Não só nas ilhas 
da Madeira e Açores encontraram paixão as velhas 
Aravtas peninsulares; também na índia eram canta- 
das pelos guerreiros portuguezes, como vemos a cada 
pagina das pittorescas narrativas de Diogo do Couto. 

Nas Décadas abundam as referencias a Roman- 
ces velhos, e era com parodias dos mais conheci- 
dos que os partidos de Goa se feriam. Interessa-nos 
conhecer este meio social emquanto ás condições 
que favoreciam a persistência da tradição poética 
popular. Nas Cartas de Camões e na sátira Dispa- 
rates da índia revela a sua predilecção pelas Can- 
ções e Romances, a que ligava referencias prover- 
biaes entre os seus companheiros de armas. Outra 
vez a analogia dos successos históricos suscitava a 
recordação dos velhos themas poéticos. Citando o 
romance do Cativo, que começa : « Mi padre era de 
Ronda» não seria por effeito do successo de João 
Viegas, que ficara cativo em Malaca, quando Diogo 
Lopes de Sequeira ali foi ; e tendo fugido depois 
para Pedir, em Sumatra, por industria de uma filha 
de seu senhor, que o acompanhou, alli visitou a 
Affonso de Albuquerque quando passava para a 
conquista de Malaca. * E' o mesmo thema da tra- 
dição brasileira de Caramurú. 



1 Barros, Década 11, liv. 6, c. 1 1 



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412 HISTORIA DA POESIA 

O Cantar velho: c Coifa de beirame — Namorou 
Joane» — foi tratado em um Vilancete por Caminha 
{Poesias ined,, p. 347) e por Camões (ed. Jur., t. 
IV, p. 128.) D. Carolina Michaelis, encontrou em um 
manuscripto da Bibiiotheca municipal do Porto a se- 
guinte nota: cHúa fidalga na índia, vendo se des- 
prezada de hum fidalgo chamado D. João, seu 
amante, por se casar cõ húa molher rica lhe. fez 
esta cantiga, que se celebrou muito na índia. E El 
Rei D. Felippe 11 folgava muito de a ouvir cantar 
a Domingos Madeira. Camões a traz glosada por 
outro modo : 

Coifa de beirame 
namorou Joane. 

Amas o vesudo ! ' 
Es falso amador ! 
Não vês que o Amor 
Se pinta despid»"» ? 
Falso fementido, 
Amas o beirame ? 
O beirame t'ame ! 

Quanto mais te sigo 
Mais foges de mim, 
Se vou contra ti 
He por ser comtigo. 
Po£-me em perigo 
Coifa de beirame, 
O beirame t'ame 1 

Ter coifa laurada 
Isso te enganou ; 
Só te namorou 
Vere-la pintada ! 
Anda enlevada 
Apoz ti, Joane, 
E tu. . . por beirame. 

O beirame t*ame I 
Ame-te o beirame 1 * 



* Pedro de Andrade Caminha, op. cit., p. 56. 



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I 

i 



POPTJLAR PORTUGUEZA 4l3 

Quando D. António de Noronha foi a Surrate 
em 1 560, os Romances populares serviram para dar 
avisos secretos na expedição : «e foi correndo a Ar- 
mada a dar-lhe avisos do que haviam de fazer. E 
perpassando a galeota de D. Jorge de Menezes, 
chamando por elle, lhe disse aquellas palavras do 
Romance velho \ 

Vamos, deixe mi tio, 
 Paris, essa ciudad . . . 

€ dando a entender, que estava assentado passar 
avante para a fortaleza. E D. Jorge de Menezes 
respondeu, com o mesmo romace : 

No en trajos de romero, 
Porque no os conosca Gaivan. 

cE mettendo-se com elle na galeota, o foi acom- 
panhando até a sua galeota.» Couto (Década vii, 
cap. 12) não nos diz que este romance, já citado 
por Gil Vicente, pertencia ao cyclo de Gayfeiros, 
e era conhecido muito antes de impresso na Collec- 
ção de Anvers, que traz variantes : 

Kn figura de ro meros 
Que no os conosca Gaivan. 

Dom Duarte, Dom Duarte 
mal caballero provado . . . 

Década vn, liv. 5 cap. 3. 

Entram os Gregos em Troya, 
três a trez, e quatro a quatro. . . 

Década vin, cap. 32. 

Quando D. Luiz de Athayde ia a alguma expedi- 
ção, cantavam-se também por mar e sob o pezo 



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414 HkSTORIA DA POESIA 

' .-■... r 1 ^ iiii ■! « - I .11, . ,, , , , 1 ■! 1 i.^Li«,ij 11 

da metralha as mais conhecidas estrophes dos Ro- 
mances velhos. Couto nas referidas Décadas (viii, 
cap. 12.) fallando da sua chegada a Bracellor, es- 
creve : «Commetteu logo a entrada com todos os 
navios do reino, em uma cadeira de brocado, ar- 
mado com suas plumas, e perto d'elle ia sentado o 
Veiga, tangendo uma harpa, e cantando aquelle 
romance velho, que diz: 

Entran los Moros «n Trova, 
Três y três, e quatro y quatro. 

«E chegando perto da fortaleza, começaram a vir 
zunindo por cima das embarcações algumas bombar- 
das, com que o Veiga, que ia cantando, se emba- 
raçou; ao que o Vice-Rei muito seguro lhe disse: 
— Ohl hide para diante, não vos estorve nada.» 
O romance que o Veiga cantava era de origem lit- 
teraria; fora composto por Luiz Hurtado, vulgari- 
sando-se no Cancionero de Romances \ começava: 
«En Troya entran os Gregos» (Duran, Rom, gen,^ 
n.*» 474.) Este romance é um resultado da adapta- 
ção das lendas greco-romanas ou clássicas ao gosto 
popular ; e Jorge Ferreira de Vasconcellos poz em 
forma de romance muitos quadros tomados da eru- 
dição humanista. 

Aquelles que criticavam o Vice-rei D. Constanti- 
no de Bragança por estar construindo uma náo para 
regressar ao reino, parodiavam satiricamenre os ro- 
mances velhos, como o refere Couto : <E tanto que 
lhe cantavam aquelle romance velho: 

Mira Nero de Tarpeia 
A Roma como ardia. . . 

«rem : Mira Nero da janella 

La nave como se hazia.» 

Década vu, cap. 17. 



POPULAR PORTUGUEZA 4 1 5 

Pertence o romance velho á corrente litteraria 
que deu forma semi-artistica no século xv aos can- 
tos populares narrativos ; posto que corresse anony- 
mo, Duran considera-o composto por Velazanez 
d'AviIa, e encontrou-o em uma folha volante em 4.® 
gothico. (Rom. gen., n.® 571, com variantes.) 

A victoria de Salsete era celebrada na índia por 
um romance que se tornou popular, do qual Diogo 
do Couto {Década vi, cap. 10) cita apenas cinco 
versos, por ser no seu tempo muito conhecido: «E 
foi esta victoria tão celebrada e festejada em Goa, 
que no dia das festas, nas folias, a que o Governa- 
dor era affeiçoado, se Ibe cantava um Romance, 
que um curioso fez, que começa : 

Pelos campos de Salsete 
Mouros mil feridos vão, 
Vae-lhe dando no encalço 
O de Castro Dom João. 
Vinte mil eram por todos. . .» 

Ordinariamente os primeiros versos dos romances 
mais populares serviam de começo a novas compo- 
sições do mesmo género, como uma epigenese ; se- 
melhante ao romance da Victoria de Salsete, exi- 
stia o velho romance, que principia : «En los cam- 
pos de Alaventosa» ou de D, Beltrão, 

Na Vida de D, Paulo da Gama, descrevendo 
Diogo do Couto a sua morte em Malaca, depois 
da cilada de Pangor, em que fora ferido {Década 
VIII, cap. 11) cita um canto dos Malaios, que elle 
mesmo traduzi 

Capitão Dom Paulo Pelejou em Pungor 

Baparam de Pungor O Capitão Dom Paulo ; 

Anga dia malu E quiz antes morrer, 

Sita pau tan dor. Que recuar um palmo. 



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4l6 HISTORIA DA POESIA 

Além da vida da guerra, a lucta com as tem- 
pestades do mar também suscitava um profundo 
sentimento de poesia. Frei Pantaleão de Aveiro, no 
Itinerário da Terra Santa, aponta alguns costumes 
dos marinheiros : ce se aquietaram nossos ânimos e 
se alegraram nossos corações: e logo o patrão 
mandou cantar a Salve Rainha, com outras ora- 
ções, que os venezianos usam nas suas náos.» (Op. 
cit., p. 25.) Gil Vicente, na Ndo de Amores allude ao 
canto á Salve, 

Em um Ms. intitulado Catalogo dos Escritores 
da Provinda de Malabar da Companhia de Jesus, 
attribue-se a S. Francisco Xavier, na sua viagem 
para índia, em 1541, a composição de algumas 
Cantigas, que ficaram transmittidas nos costumes 
dos marinheiros: «Nesta viagem compoz o Santo 
as devotas Cantigas, que usaram e ainda em parte 
usam os mareantes da índia com palavras caste- 
lhanas e portuguezas.» Quaes fossem essas Canti- 
gas ignoramol-o ao presente ; os jesuitas que acom- 
panhavam as náos da carreira da índia nunca dei- 
xaram de fanatisar a tripulação; na Historia trágico^ 
marítima, (11, 128.) cita-se uma Cantiga do Padre 
Ignacio de Azevedo, que era recitada em uma tem- 
pestade pela marinhagem ; lê-se na Relação do nau- 
frágio da Náo Santhiago, em 1585 : «A' sexta-feira 
trinta do mez, entrando noite, disseram, que ouvi- 
ram uma musica suavissima, como de vozes de me- 
ninos, que claramente se deixava entender, e can- 
tavam : 

Todo o fiel christâo 

he obrigado 

a ter devoção 

á santa Cruz... 

tlsto cantaram depois que se salvaram da janga- 
da .. . A musica continuou-se cinco noites asam» 



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POPULAR PORTUGUEZA 417 

até OS pôr em terra, e com a musica desappareceram 
as relíquias.» Era por esses versos, como refere o 
Padre Balthazar Telles, que o Padre Ignacio come- 
çava a doutrinação das crianças, cantando a duo, e 
depois em coro, continuando : 

de Chrísto nofsa luz, 

pois n'clla quiz ser 

cruxificado, 

para nos livrar 

do cativeiro 

do nosso peccado, etc. 

Este costume das cantorias devotas levaram os 
jesuítas para índia, como descreve Pyrard na Via- 
gem contendo à noticia da sua navegação nas índias 
orientaes (1601-1611): referindo-se ao CoUegio dos 
Jesuitas de Goa: «Fazem alli muitas vezes brinque- 
dos, representam Comedias com guerras e batalhas, 
tanto a pé como a cavallo, e tudo com muito boa 
ordem e com vestuário apropriado.» E dos canta- 
res pela rua, substituindo os Pasacailes: c quando 
saem das aulas os de um mesmo bairro, caminham 
juntos e vão cantando pela rua em alta voz rezas 
e orações com seu credo ; mas só vão assim can- 
tando os meninos menores de quinze annos ; por- 
que os de quinze annos para cima não seguem este 
estylo. O fim d*este cantar é attrahir os infiéis á 
fé.» — «Todos os domingos e dias santos depois do 
meio dia, os mestres e outros padres jesuitas para 
isso ordenados, vão em forma de procissão pela 
cidade, com cruzes e bandeiras, cantando cotn todos 
os seus estudantes, que marcham formados segundo 
as suas classes, e então cantam todos, grandes e 
pequenos e são seguidos de grande numero de 
'habitantes, e todos vão á egreja do Bom Jesus, 
onde um padre jesuita os catechisa ...» Os jesuitas 



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4lÇ HISTORIA DA POESIA 

procuravam assim desviar o povo dos seus cantares 
tradicionaes, fazendo o decorar cantigas prosaicas, 
sem ideal; nas Cartas do Japão (fl. 128 ^) o de- 
claram : «E estas Cantigas se ordenam para que se 
esquecessem das suas, que continuamente cantam. 
He de maneira que já n'este logar náo se ouvem 
outras cantigas, senão as que a Igreja lhes ensina.» 
Nos costumes da sociedade portugueza de Goa, 
conservavam -se os divertimentos do Natal, taes como 
inspiraram os primeiros Autos a Gil Vicente ; refere 
Pyrard ; «No dia de Natal, em todas as Igrejas se 
representam os Mysterios da Natividade com grande 
copia de personagens, e animaes que faliam, como 
cá os bonifrates ; e ha grandes rochedos, e por 
debaixo d'elles homens que fazem mexer e fallar 
estas figuras como querem, e todos vêem estes 
brincos. Mesmo na maior parte das casas e encru- 
zilhadas das ruas ha semelhantes divertimentos ...» 
«De noite vão pôr grandes letreiros com estas pa- 
lavras — Anno bom — acompanhados de musica e 
instrumentos.» São os mesmos costumes das Lapi- 
nhãs, que os Jesuitas representavam no Brasil, e os 
cantos dos Janeireiros, de que falia António Pres- 
tes, e os Annos boinos, a que allude D. Francisco 
Manuel de Mello. 

Os soldados da Armada portugueza, quando des- 
cançavam em Goa, viviam em pequenos ranchos, 
como conta Pyrard : «Em todo o dia estão na sala 
ou á porta assentados em cadeiras, á sombra e á 
fresca em camisa e ceroulas, e alli cantam e tocam 
guitarra e outros instrumentos.» — «Lá, assim os 
homens com as mulheres, todos aprendem a cantar 
e tocar instrumentos, mas não usam dansar.» — «A 
occupação das mulheres não é outra durante o dia 
mais que cantar e tanger instrumentos, e algumas 
vezes mas raras se visitam.» Estes cantos ainda 



DkWLhvGooQle 



POPULAR rORTUGUEZA 419 

persistem e ás suas melodias dá-se o nome de 
Mandos, Para formar uma ideia d'esses cantarei 
antigos apresentamos este inédito: 

ROMANCE INDIATICO 

Tenho três pardáos 
e mais quatro tangas, 
tenho cinco mangas, 
e quatro cajus; 
tenho dous bahus, 
laurados de ouro; 
tenho um singidoiro 
que passa das marcas ; 
tenho hus alparcas, 
que ajustam nos pés, 
tenho hus sintonés 
tudo em bazarucos ; 
tenho hus pantufos 
lauradas de tela, 
tenho hua sovella 
de tirar ouções. 
Tenho dois capões 
lá no meu quintal ; 
tenho hum didal 
feito em Mangalor, 
tenho hu furador 
de boa feição, 
tenho hú quimão 
de branco e vermelho ; 
tenho hu espelho 
feito em Portugal; 
Tenho de cristal 
hua rica puça, 
tenho de cabeça 
hu prego galante, 
tenho hú diamante 
laurado nas pontas; 
tenho duas contas 
de peixe-molher, 
tenho hua colher 
feita em Angola^ 
tenho hua viola 
de tanger suave. 



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4^0 HISTORIA DA POESIA 



Tenho húa chave 

que abre e não fecha. 

Tenho híía flexa 

para os passarinhos ; 

tenho cachorrinhos 

brancos de Manilha ; 

tenho beatilha 

fina de Chaú), 

tenho hú bahul 

de rico feitio ; 

tenho hu assobio 

giie outro não ha. 

Tenho hu Alva 

que vem de Mascate, 

tenho hú chiricate 

de coser Arecas, 

tenho de marrecas 

redes e armilhas, 

tenho huas pastilhas 

de suave cheiro; 

tenho hu taboleiro 

da China dourado; 

tenho hu cadeado 

que abre de pancada, 

tenho marmelada 

que vem de Ormuz; 

Tenho hu arcabuz 

de matar pardaes, 

tenho hus coraes 

de rica valia ; 

tenho húa bacia 

de assar pasteis. 

Tenho hús anneis 

de ouro ^tambaca ; 

tenho de Malaca 

mui ricas atacas, 

tenho três patacas 

na minha gaveta, 

tenho húa boceta 

cheia de brinquinhos. 

Tudo para vós 

Se quereis bem para mim. 



i Ms. PombaKnos, n.« 133, fl. 125 v. E' de época anterior a 1660. 



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POPULAR PORTUGUEZA 421 

O viajante francez Pyrard descreve outros usos 
em que entra sempre o canto ; «Emquanto jogam 
ha raparigas, servas e escravas do dono da casa 
que tangem instrumentos e cantam, árias para re 
crear os parceiros, e note-se que para isto se bus 
carií as mais bellas raparigas.» 

«Uma das recreações dos portuguezes em Goa é 
juntarem-se ás suas portas com cinco ou seis visi 
nhos assentadas à sombra em bellas cadeiras para 
praticarem . . . Quando comem ou quando se levan- 
tam e deitam, oiandam vir toda a sua musica de 
escravos, assim machos, como fêmeas, para os re- 
crear...» Assim se creava uma poesia n'esse dia- 
lecto indo-portuguez, n'aquella linguagem mascavada 
de ervilhaca, como lhe chama Camões, na Carta i 
da índia. O philologo Schuchardt dando noticia dos 
vários dialectos portuguezes do Oriente, apresenta 
umas coplas populares de Cochin e Diu, que nos 
dão ideia d'esses cantos de que falia Pyrard: 



Com sangue de própria vêas 
Bella noite escreveu 
Com poucas letras, já mais que diga ; 
Eu heide amar até morrer. 



Papágai verd, 

Com bica du lacre 

Levai esi cari 

Aquell ingrat. 

Oh ! baby cur, curry, 

Peniiá cabel 

Pela manh cêd. 



Amarai chendô grand 
Com ping du azeite, 
Se não tem azeite 
Bata sangue do meu peito. 

Pões. popul. — Vo]. II 



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42 2 HISTORIA DA POESIA 



Noib com noibinh, 
Galinh com pentinh, 
Baix de janeli 
Já trucá annel. 

Debaix da ramad 
Já naceu luvar, 
Lá vê su noibo 
De chape armad. 

Cumêm arec betle, 
Não cuspi nu cham. 
Cuspi nu me peit ; 
Regai mé coração. 

Raminh. raminh, 
Pega na mão, 
Se queré amar 
Larga nu chão. 

A poesia popular portugueza conservou na índia 
um gráo de vivacidade tal, que antes mesmo de 
Garrett encetar as investigações para o seu Roman- 
ceiro, colligiu Costa e Silva do ditado de uma se- 
nhora de Goa o antigo romance da Donzella que 
vae d guerra, de que falia Jorge Ferreira na Aule- 
graphia» Foi da índia que nos veiu a primeira cen- 
telha que inspirou a Costa e Silva, arcadista ferre- 
nho, o gosto pela tradição, baseando sobre esse ro- 
mance o poema de Isabel ou a Heroina de Aragão. 
Garrett consie:nou o facto, que lhe não foi indiííe- 
rente. * 



1 O Dr. Gomes da Silva, que exerceu o logar de chefe dos ser- 
viços de Saúde em Macáo, publicou uma Canção portugueza, que 
ouvira em Amboina (Molucas) anterior a 1605, época em que os 
HoUandezes se estabeleceram definitivamente n'essa região: «A 
Canção de Amboina foi ouvida e registada por mim . . . , entoavam- 



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BRASIL 



A população do vasto território do Brasil consti- 
tuída pelo elemennto preponderante da antiga colo- 
nisação e da actual emigração portugueza, pela 
cohabitação da raça negra e pela mestiçagem com 
os povos indigenas, adquiriu caracteres próprios de 
ordem sentimental, intellectual e economjca, que a 
levaram a affirmar a individualidade de nação. 
Existe uma 'nacionalidade brasileira superior a to- 
das as combinações da politica e dos interesses dy- 
nasticos, formada pelas condições fataes da ethnolo- 
gia e da mesologia, e á qual a marcha histórica das 
suas luctas pela independência e do seu conflicto com 
as velhas civilisações europêas vem completar a obra 
da natureza dando-lhe o relevo moral, o caracter e 
o destino consciente no concurso simultâneo de to- 



na um grupo de lavadeiros de um e outro sexo, ialinhados ao longo 
da margem de um riacho. A melodia era singela, sem harmonia, 
mas de um cunho nacional portuguez, que me feriu desde logo a 
attenção, despertando -me viva sar.dade do nosso pátrio Minho.» 
(Na revista Ta-ssi-yang-kuo, p. 349.) 



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424 HISTORIA DA POESIA 

dos OS seus factores. A nacionalidade brasileira está 
neste periodo de transição ; os vestígios tradicionaes 
dos seus elementos constitutivos acham se em con- 
tacto, penetram-se, coníundem-se entre si para vi- 
rem a formar a poesia de um povo joven e o thema 
fecundo de bellas creações litterarias e artisticas de 
uma civilisação original. E' neste momento único 
na historia da formação de uma nacionalidade, que 
os Cantos populares do Brasil foram colligidos, 
adquirindo por isso o valor de um documento im- 
portantíssimo, que viria a obliterar-se com certeza; 
n'estes cantos ha ainda as suturas distinctas dos seus 
elementos primordiaes, e ha já a feição definida que 
começa a caracterisar o génio brasileiro na littera- 
tura e na arte. A' parte o interesse que se liga a 
este documento ethnologico, os Cantos populares do 
Brasil apresentam um duplo valor, porque trazem 
os themas tradicionaes sobre que a nova litteratura 
brasileira tem de assentar as suas bases orgânicas, 
e porque são a irradiação remota dos vestígios tra- 
dicionaes deixados pelo povo portuguez na época 
da sua grande actividade e expansão colonisa- 
dora. 

O Brasil, cuja poesia tanto desvairou pela imita- 
ção do subjectivismo byroniano, e cuja Litteratura 
nascente se amesquínhou seguindo longo tempo o 
nosso atrazado romantismo europeu, só poderá achsa- 
o seu caracter original conhecendo e comprehen- 
dendo o elemento ethnico das suas tradições popu- 
lares, a matéria prima de creação anonyma para ser 
elaborada pelos génios índividuaes. A fundação da 
litterarura allemã começou pelos trabalhos de explo- 
ração scientifica sobre as antigas tradições do génio 
germânico; em Portugal, Garrett ao iniciar a trans- 
formação romântica da litteratura, presentiu o crité- 
rio novo interrogando no seu Romanceiro a tradição 



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POPULAK PORTUGUEZa 423 

popular. Os escriptores mais originaes e queridos do 
povo portuguez, os que exerceram uma acção mais 
profunda, como Gil Vicente e Camões, Jorge Fer- 
reira e Garrett, foram os que se inspiraram directa- 
mente das tradições populares : e assim como por 
estas se avalia a originalidade e fecundidade das 
creações litterarias, são ellas também o meio mais 
seguro de actuar na consciência nacional e de infun- 
dir vigor no seu individualismo. 

Os Cantos populares do Brasil são o deposito 
augusto conservado da vida moral transmittido pela 
mãe pátria; * sob este aspecto, vêm elles completar 
a tradição portugueza, tão apagada já no continen- 
te, e tão vigorosa nas colónias distantes, con^o se 
vê pelos opulentos thesouros dos Cantos populares 
do Archipelago açoriano, e pelo Romanceiro do Ar- 
chipelago da Madeira, Este facto é uma lei da his- 
toria, que se confirma com a poesia de outras na- 
ções ; é nas colónias distantes que se dá a persi- 
stência tradicional, que vem a reagir no renasci- 
mento moral da metrópole. Nas colónias gregas da 
Ásia Menor, nas luctas de assimilação entre as tri- 
bus jónicas e eólias, é que se elaboraram as epo- 
pêas homéricas, que deram á Grécia essa cohesão 
moral com que se resistiu á invasão da Pérsia, sal- 



^ «No Brazil, depois dos cantos religiosos de Anchieta, decorados 
pelos aborígenes — a poesia, a cantiga popular foi o que devia ser: 
reminiscências de cantares portuguezes. insubmissão á metrópole, 
preoccupação dos assumptos locaes: os bois, as brocas dos roçados, 
^as lendas selvagens, e os desafios do cabra de chapéo de couro e 
faca de ponta » Rodrigues de Carvalho, Folk-Lore cearense (In Ce- 
tmarioy 269.) 

«No Brazil é aquelle mesmo povo (o portuguez) emigrado para 
formar um typo novo, dotado da mesma sensibilidade esthetica, 
quiçá mais ardente e impetuosa.» (Ib., p. 272.) 



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426 HISTORIA DA POESIA 

vando os destinos da civilisação do Occidente. * 
Dá-se o mesmo phenomeno com a Itália, cujos 
veios tradicionaes apresentam a sua maior riqueza 
nas ilhas da Sicilia, da Sardenha e da Córsega, 
como o affirma Rathery; e emquanto a Hespanha 
era asphyxiada pelo intolerantismo catholico, que 
pelos seus índices expurgatorios prohibia os cantos 
do povo, faziam -se as primeiras collecções de Can- 
tos tradicionaes de Nagera e Martin Nucio, para 
acudir ás necessidades de sentimento dos soldados 
expedicionários rias guerras da Itália e dos Paizes 
Baixos. Também as primeiras investigações da poe- 
sia tradicional da Finlândia pelo bispo Porthan em 
1786 só se tornaram fecundas quando novos erudi- 
tos, como Topelius em 1820, e Lonrot em 1832, 
levaram as suas investigações fora da própria Fin- 
lândia, pelas colónias dos emigrantes de Arkhangel 
no districto de Wuokkiniemi, na Carelia, na Lapo- 
nia e na Sibéria. Na Pequena-Russia dá-se um facto 
semelhante : < Conhecem-se as bylinas russas que 
celebram os feitos de Vladimir, príncipe de Kief, 
d'Illia, de Alecha Popovitch, e outros derrubadores 
de Tártaros e dragões. O que ha .aqui de estranho, 
é que estas bylinas são cantadas de um ao outro 
extremo da Grande -Rússia, a ponto de se colligi- 
rem sobre o Onega, sobre o Moscova, sobre o 
Volga, ao passo que na pequena-Russia são desco- 
nhecidas do povo. E' precisamente nos arredores 
d*esta cidade de Kief, em cujas barreiras velaram 
os heroes dessas lendas e que conserva nas suas 
catacumbas o corpo de Illia de Muron, que o al- 



1 Ottf. MuUer, Hist, da Litteratura grega^ t. i, pag. 92, trad. Hil- 
debrand. 



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POPULAR PORTUGUEZA 427 

deão perdeu completamente a memoria dos seus 
feitos.» * 

No renascimento da poesia tradicional portugueza 
repete-se este phenomeno importante de ser na 
emigração que Garrett conheceu a existência de um 
Romanceiro nacional, e de ser do elemento colonial 
que provieram as principaes riquezas poéticas que 
acordaram o interesse dos críticos; recordando-se 
da sua infância, aponta a circumstancia que o levou 
ao desenvolvimento do seu Romanceiro : c Foi o 
.caso que umas criadas velhas de minha mãe, e 
uma mulata brasileira de minha irmã, appareceram 
sabendq vários romances. . .» ^ Aqui o phenomeno 
individual explica o phenomeno social; a colónia 
conserva o estado da civilisação que recebeu em 
uma dada época e que o isolamento torna estável, 
da mesma forma que o individuo quanto mais se 
immerge nas ínfimas camadas sociaes, mais persiste 
na situação psychologica rudimentar de que já es- 
tão afastadas as classes cultas. Tal é o phenomeno 
da sobrevivência dos costumes entre o povo. Na 
investigação dos Cantos populares do Brasil, a vita- 
lidade da tradição poética despertou o interesse dos 
críticos longe da capital, no Maranhão, onde o mal- 
logrado Celso de Magalhães começou a sua colheita 
de Romances, em Sergipe, terra natal de Sylvio 
Roméro, que continuou em Pernambuco as suas 
pesquizas durante o curso académico, e no Rio 
Grande do Sul, onde Carlos Koseritz colligiu os 
cantos lyricos. Além do seu valor nacional, estes 
trabalhos vêm completar a serie de investigações na 



1 Rambaud, O Congresso archeologico de Idef. (Rev. des Deux 
Mondes, 1874, pag. 863). 

2 Romauceiro^ t. i pag. xvi. 



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428 HISTORIA DA POESIA 

área colonial, tão fecunda como se vê pelos Ro- 
manceiros dos archipelagos dos Açores e Madeira^ 
e que agora nos explicam a razão porque é que 
Portugal sobreviveu sempre como nacionalidade 
através das mais profundas catastrophes. E' porque 
possuia uma tradição profunda. 

Para atacar esta nacionalidade foi preciso fazer 
esquecer ao povo os. seus cantos, substituindo-os 
por orações fúnebres. A tradição apagava-se em 
Portugal, e a nacionalidade cahia e incorporava-se 
como provincia á Hespanha ibérica sem protesto e^ 
sem dignidade. 

Nas obras de Camões ha muitas referencias aos 
romances tradicionaes, sobretudo nas Cartas que es- 
creveu da índia ; vê-se que longe da metrópole a 
poesia conservava todo o seu vigor. Estes factos 
nos levam a inferir que na primeira época da colo- 
nisação do Brasil deveria ter existido uma forte cor- 
rente de poesia tradicionol, não inferior á que se 
manifestava na índia ; porém os documentos faltam 
e o único trecho citado pertence ao elemento ne- 
gro, o Vem cã, Viiu. O que se pôde concluir^ 
sendo o elemento colonial do Brasil o mesmo que 
o da índia, é que as tradições poéticas na popula- 
ção brasileira foram não só deturpadas pelas tradi- 
ções do elemento negro e do selvagem, como syste- 
maticamente esquecidas pelo desprezo que sobre 
ellas attrahiram os Jesuitas com a sua direcção mo- 
ral. O que os Jesuitas fizeram em Portugal repeti- 
ram-no no Brazil; o padre Fernão Cardim, descre- 
vendo as aldeias de indios catechisados, falia das 
crianças que elles educavam : c Estes meninos faliam 
o portuguez, cantam a doutrina pela rua e encom- 
mendam as almas do purgatório.» 

O padre Simão de Vasconcellos, na vida do mis- 
sionário Padre Anchieta, falia da influencia das can- 



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POPULAR PORTUGUEZA 42O 

tigas na conversão dos selvagens do Brasil: cEspa- 
Ihavam-se á noite pelas casas de seus parentes a 
cantar as cantigas pias de José (Anchieta) em pró- 
pria língua, contraposta ás que costumavam cantar 
vãs e gentílicas.» A influencia jesuítica e o influxo 
da raça negra africaria actuaram profundamente na 
deturpação da poesia popular portugueza no Brasil, 
como notou Celso de Magalhães ; a transmissão 
pelas colónias de emigrantes açorianos é que tem 
alimentado esse fundo tradicional. 

Como é que renasceu a poesia tradicionial nas 
diversas províncias do Brasil, a ponto de apresentar 
hoje uma efflorescencia que espanta? Explicamal-o, 
além de uma persistência provincial espontânea, 
pela cooperação permanente da emigração portu- 
gueza do Minho e em especial das ilhas dos Aço- 
res e Madeira. O romance do Casamento maílogra- 
do, (n.** 10) allusivo á morte do príncipe D. Affon- 
so, filho de D. João ii, que se repete em Sergipe, 
já sem sentido, é corrente nas versões açorianas, na 
ilha de San Jorge ; o romance de Juliana e Jorge, 
(n.*^* 19 e 20) que se repete em Pernambuco e no 
Ceará, está esquecido em Portugal, e somente se 
repete na ilha de S. Miguel, onde o colligiu F. de 
Arruda Furtado. Podemos dizer que se perdeu na 
tradição continental, pois que subsiste apenas na Ca- 
talunha, na versão colligida por Milá y Fontanals. 
A endexa da Mulatinha, (n.° 34) que tende a obli- 
terar-se na tradição de Sergipe na forma de paro- 
dia, acha se unicamente na ilha da Madeira, com o 
titulo de A Mulatona, completa e com uma graça 
inexcedivel. A emigração portugueza para o Brasil 
alimenta esta persistência tradicional, sem comtudc 
tirar a cada província o caracter da sua elaboração 
local. Pelas investigações de Celso de Magalhães, 
de Sylvio Romero, de Araripe Júnior e de Carlos 



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43o HISTORIA DA POESIA 

Koseritz, já se pode definir a feição da poesia tra- 
dicional e popular de cada provineia. Na Bahia, a 
sede antiga da colónia, preponderou o elemento ne- 
gro, e um desenvolvimento de cantos lyricos sub- 
ordinados a esse baile lascivo tão característico, 
chamado o bahiano. Nos seus estudos A Poesia po- 
ptdar brazileira, escreve Celso de Magalhães: <Na 
Bahia, onde temos visto predominar mais o elemen- 
to africano, tivemos occasião de reparar n'isto. Os 
. bailados, os bandos de San Gonçalo, as sambas, os 
maracatíis, as cantigas, tudo é um aggregado de 
saltos e pulos, tregeitos e macaquices, gritos roucos 
e vozes ásperas ...» Os pontos mais frequentados 
sofifreram esta mesma obliteração tradicional, como 
se observa em Pernambuco com a sua população 
mercantil e maritima, e no Rio de Janeiro, onde 
prevaleceu a Modinha, conservada pelo elemento 
feminino. No Rio Grande do Sul assiste-se á deca- 
dência e transformação dos cantos heróicos em lyri- 
cos; alli se conserva o typo daquella cantiga do 
século XVII : 



Gavião, gavião branco, 
Vae ferido, vae voando . 



que D. Francisco Manuel intercalou no Fidalgo 
aprendiz, que encantava tanto Garrett, e que elle 
debalde tentava acabar, quando a voz do povo 
corta a difficuldade com o improviso : 

Isto são saudades minhas 
Que o vão acompanhando. 

Nos cantos lyricos do Rio Grande do Sul vem 
como quadrinhas estrophes narrativas dos romances 
do Conde de Allentanha, da Sylvana e Conde 



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POPULAR PORTUGUEZA 48 I 

Alarcos, * Este facto também se dá em Portugal, 
como vemos pelas Musicas e Canções populares col- 
ligidas por Neves e Mello : 

Mangerona bate á porta. 
Alecrim vae ver quem é. . . 
(Op. cit , pa^. 84) 

E' assim que começa o romance do Bernal fran- 
cez na versão insulana : 

Alecrim bateu á porta 
Mangerona quem está ahi ? 

O Maranhão é a que appresenta mais riquezas 
tradicionaes, posto que esteja menos explorado. Um 
rapaz de talento, Celso de Magalhães, morto pre- 
maturamente em 1879, iniciou essa empreza com 
uma elevada intuição critica. Diz elle : c Declaramos 
que temos unicamente colligidos por escripto os ro- 
mances do Bernal francez, Não Catherinetta e Dom 
Barão, e que os outros que houvermos de compa- 
rar, foram ouvidos, é verdade, mas não pudemos 
tel os por escripto por causa da grande difficuldade 
que encontrámos nas pessoas que os sabiam, as 
quaes somente podiam repetil-os cantando, e quan- 
do paravam não lhes era possível continuar sem re- 
começar,» ' E' um estado psychologico primitivo, que 
garante a sua pureza archaica da transmissão tradi- 
cional. Os romances conhecidos nas versões popu- 
lares do Maranhão por Celso de Magalhães são : 
O Passo de Roncesval, de que cita os versos : 



* Vid, vol. II pag. 8 e g. 

2 O Trabalho (Recife) de 31 de maio de 1873. 



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432 HISTORIA DA POESIA 



Sete feridas no peito 
A qual será mais mortal, 
Por uma lhe entra o sol. 
Por outra lhe entra o luar ; 
Pela mais pequena d^ellas 
Um gavião a voar. ' 

Da Moreninha, cita Celso de Magalhães este final : 

— D*onde vindes, mulher minha, 
Que vindes tão isentada ? 

Ou tu me lemes a morte, 
Ou tu não és bem fadada ? 
«Eu a morte não a temo . 
Pois d'ella hei de morrer ; 
Temo só os meus filhinhos, 
D'outra mãe podiam ser. . . 

— Confessa te, mulher minha, 
Faze acto de contrição, 

Que te não tornas a ver 
Nos braços de frei João. 

Celso de Magalhães nos seus estudos sobre A 
Poesia popular do Brasil, observou o facto da assi- 
milação dos Romances portuguezes á linguagem e 
viver da sociedade brasileira. Assim no romance de 
D, Martinho de Avisado (versão da Foz): 

— Tendes os peitos mui altos, 
Filha, conhecer-vos-hão. 
•Encolherei os meus peitos 
Dentro do meu coração. 

ena variante Maranhense adquireni uma còr local 
extraordinária : 

— Tendes os peitos crescidos. 
Filho, conhecer-vos-hão. 
tiApertae-os com um panno. 
Por baixo do cabeção. 



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POPULAR PORTUGUEZA 433 

«O cabeção usado pelas mulheres do interior das 
provindas foi escolhido para substituir o justilho, 
embora se note a contradição palpável de ver uma 
mulher que quer disfarçar-se continuar a usar de 
cabeção, vestimenta só própria da mulher.» 

«A mudança maior que existe n'este romance, e 
que faz bem frisante a influencia do meio actual em 
que elle vive, é a seguinte : 



Dom Barão como discreto 
De nada se receiou ; 
Chamou pelo seu creado 
Uma carta lhe entregou. 

(Versão da Foz ) 



Dom Barão- que era macaco^ 
De nada se arreceou ; 
Chamou pelo seu moleque 
Uma carta lhe entregou. 



fPor esta apropriação do nosso povo (brasileiro) 
se vê claramente a influencia dos seus costumes e 
dizeres sobre o romance portuguez. Em primeiro 
legar temos a locução — que era macaco — pura- 
mente brasileira, no sentido de astuto, fino : em se- 
gundo logar ha a substituição do creado portuguez 
pelo moleque, que só se encontra entre nós.» 

Celso de Magalhães allude aos seguintes roman- 
ces que ouvira : Dom Martinho de Avisado, Noiva 
roubada. Encantada, Alferes matador, Sylvana, Dom 
Pedro, Filha do Imperador de Roma, Dona Angela 
de Mexia, Casamento e Mortalha, e a versão per- 
nambucana da Mulher do nosso mestre, variante da 
Dona Areria; ha colligidas por elle Dom Carlos 



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434 HiSTORlA DA POESIA 

de MontealbaTy Flor do Dia, Juliana e Branca 
Flor. * 

Depois do Maranhão está Sergipe na abundância 
de cantos tradicionaes e populares ; foi durante a 
ausência d'esta província, sua terra natal, que Syl- 
vio Roméro emprehendeu uma collecção de Cantos 
e Contos do povo sergipano ; foi este o primeiro nú- 
cleo do trabalho que constitue os seus Materiaes 
para a Historia da Litteratura brasileira, Sylvio 
Roméro começou pela necessidade de reagir contra 



* Em carta de 1 2 de Agosto de 1 900, escrevia-nos Fran-Paxeco, 
do Maranhão : 

«Descobri também, o que é preciosíssimo, as pesquizas mannscrí- 
ptas do folk-lóre do mallogrado Celso de Magalhães. Já tenho em 
meu poder um grosso livro, mas ando á cata do 2.**, que exiote. 
Imagine o achado, pelo qual vou provar a prioridade de Celso n'es- 
tes estudos, guiado por v. cujo nome e livros elle cita a cada passo. 
Decididamente mato o Sylvio. . . apesar das colheitas d'elle traze- 
rem quasi todas as marcas erróneas de Sergipe, quando são da 
BAHIA e do MARANHÃO embora propagadas a todo o Brasil. 
Os focos originários são positivamente estes dois Estados^ aquelles em 
que se conserva mais pura a tradição portugueza, — ff.ais até do que 
em Rio, em Minas, Pernambuco e Pará, estados portuguezisshnos 
egualmente. O resto está estragado(í) pela invasão italiana, como 
San Paulo, ou allemã como o Rio Grande do Sul. E' justo confes- 
sar que estes dois são os Estados mais prósperos da União, em to- 
dos os sentidos, porque a riqueza da Amazónia, onde predomina o 
portuguez, é exclusivament*» material. 

«. . .Não fossem os estabelecimentos pios e de instrucção da colo* 
nia, e toda a nossa obra iria aqui por ag;ua abaixo ! No Brasil éque 
se revêem as antigas qualidades de inicativa dos portuguezes, ahi 
afogados pelo imposto, pela clarezia, pelo militarismo, e pela raiz 
de toda a realeza.» 

Referindo-se á edição brasileira dos Cantos populares^ da colle- 
cção Sylvio Roméro, escreve Fran-Paxeco em carta de 3 de agosto 
de 1900: «passou tudo quanto era da Bahia para Sergipe, tenra 
d'elle, e de Maranhão quasi não fallou. E no emtBnto a Bahia e o 
Maranhão é que são os depositários dos Cantos e Contos populares 
do Brasil.» 



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POPULAR PORTUGUEZA 435 

a prolongação do romantismo sentimental e extem- 
porâneo na sociedade brasileira, chamando os novos 
espíritos, tantas vezes devorados por um lyrismo 
anarchico tomado a serio, para o campo saudave 
das tradições populares ; á medida que alargava a 
área das investigações em Pernambuco e Rio de 
Janeiro, ia achando as bases da disciplina critica 
tão necessária no desenvolvimento de uma littera- 
turo sem intuito. Sylvio Roméro comprehendeu que 
a poesia popular do Brazil não seria bem conhecida 
na sua origem e desenvolvimento nacional sem o 
estudo dos seus elementos ethnicos ; foi este o lado 
original dos seus estudos, pela primeira vez apre- 
sentados na Revista brasileira. Os três elementos 
ethnicos do povo brasileiro, o europeu da primeira 
colonisação e das emigrações subsequentes, o afri- 
cano, dos trabalhadores escravos, e o indigena ou 
tupi aproximado pela cathechese, cruzaram-se em 
proporções differentes produzindo uma mestiçagem 
com aptidões novas segundo a orientação de cada 
um dos elementos preponderantes. Os grandes an- 
thropologistas modernos chegaram á conclusão de 
que nenhuma das raças humanas tal como actual- 
mente existem é pura; todas se conservaram nas 
suas difficeis acclimações por meio da mestiçagem. 
Foi este o processo natural e espontâneo com que 
os portuguezes se tornaram os mais tenazes coloni- 
sadores. Sylvio Roméro procurou na poesia popular 
do Brasil a expressão d'estes elementos ; avaliando 
a situação especial em que se achava, escrevia : 
«Temos ã Africa em nossas cozinhas, a America 
nas nossas selvas, e a Europa nos nossos salões. . . » 
De facto, em algumas províncias deíinem-se com 
clareza estes elementos através da mestiçagem de 
três séculos ; nos cantos da Bahia accentua-se a 
sentimentalidade do negro, como nas Tayeras; no 



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436 HISTORIA DA POESIA 



}> Ceará prepondera o tupi, apresentando ali a poesia 

i a forma especial narrativa da vida sertaneja dos 

Vaqueiros y costumados ás grandes luctas e corridas 
para submetter os bois indomáveis. O Rabicho da 
Gcralda, o Boi Espado e a Vacca do Burel são 
rudimentos épicos que só serãol apreciados conhe- 
cendo a situação particular d'aquella provincia. cNo 
Ceará — não ha engenhos de assucar ; o terreno é 
ingrato pelas condições naturaes ; um ramo apenas 
vae offerecer vantagens por todos os demais : a in- 
dustria pecuária. A creação é o Eldorado dos pri- 
meiros povoadores ; e dahi a característica da poe- 
sia popular cearense : quasi todos os assumptos são 
sertanejos (Rabicho dá Giralda, Boi Adão, Boi pin- 
tado) e outros assumptos sempre ligados ao viver 
do sertão. Hoje a influencia emigrativa para a Ama- 
zónia vae desvirtuando o cunho original . . . Tem 
vergonha e acanhamento de tocar a viola rústica 
de seus avós, o instrumento que por excellencia 
fallaria ao coração, ainda mesmo que não fosse to- 
cado como o é, sobre o peito. > (Rodrigues de Carva- 
lho, Folk-Lore cearense, p. 274. In Centenário). Este 
género poético primeiramente estudado por José de 
Alencar, tem sido mais largamente investigado por 
Araripe Júnior, E' destes vários elementos ethnicos 
que se compõe o povo brasileiro, entre o qual se 
transmittem as tradições poéticas; Sylvio Roméro 
distingue as suas diversas feições : «Os habitantes 
das matas são dados á lavoura e chamados matu- 
tos em Pernambuco, tabareos em Sergipe e Bahia, 
caypiras em San Paulo e Minas, e mondiocas em 
algumas partes do Rio de Janeiro. Também são era 
geral madraços, e elevam o seu ideal a possuir um 
cavallo, um pequira, como chamam.» E' entre esta 
gente que se canta A Matuca, (n.° 27) o Redondo, 
sinhd, (n.° 28) quer no trabalho dos campos, quer 



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HL I 



POPULAR PORTUGUEZA 487 

quando se reúnem á lareira, ou quando dansam 
cantando O senhor Pereira de Moraes, (n.** 26) «Os 
homens das praias e margens dos grandes rios são 
dados ás pescas; raro é o individuo d'entrè elles 
que não tem sua peqaena canoa. Vivem de ordiná- 
rio em palhoças, ora isoladas, ora formando verda- 
deiros aldeamentos. São chegados a rixas e amigos 
da pinga e amantes da viola. Levam ás vezes se- 
manas inteiras dansando e cantando em chibas ou 
sambas. Assim chamam umas funções populares 
em que ao som da viola, de pandeiro, e de impro- 
visos, ama-se, dansase e bebe-se. Quasi todo o 
praieiro possue o instrumento predilecto.» * 

Os improvisos são as quadras octosyllabas a que 
se chama Versos geraes, formando por vezes pe- 
quenos grupos com ritornellos e transitando assim 
para a forma tão peculiar da Modinha ou canço- 
neta. Muitas das quadrinhas brasileiras são communs 
ás versões oraes portuguezas do continente e ilhas, 
o que facilmente se explica pela renovação dos 
immigrantes. Alguns costumes da lavoura, como as 
vessadas do Minho, persistem na agricultura do Bra- 
sil, sendo essa concorrência cooperativa um pre- 
texto para dansar e cantar; da mesma forma, os 
costumes do Natal e Reis continuam o que nas ci^ 
dades e populações ruraes se pratica em Portugal, 
com a differença que esses cantos são muitas vezes 
de origem individual, vulgarisando-se entre o povo, 
os capadócios ou cafagestes das cidades. As canções 
são a forma predilecta das mulheres, e principalmen- 
te no Rio de Janeiro é que a Modinha encontrou o 
seu maior desenvolvimento na versificação e na mu- 
sica. Não discutimos agora a origem tradicional da 



^ Revista br asilar a ^ t. i, p. 198. 

Pões. popul— Vol. 11 28 



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438 HISTORIA DA POESIA 

Modinha, * cujo typo se conserva ainda entre o 
povo portuguez;^ quando unaa certa tendência de 
individualismo nacional se ia manifestando na popu- 
lação brasileira, a Modinha recebeu um relevo litte* 
rario de tal ordem, que veiu no século xviii reno- 
var o lyrismo portuguez que se extinguia na insipi- 
dez das Arcádias. As Lyras de Gonzaga tornaram se 
mais bellas com a triste realidade dos seus amores 
desgraçados; o mulato Caldas encantava a aristrocra- 
cia lisbonense com os requebros melódicos das Mo- 
dinhas, contra as quaes reagiam Filinto Elysio, que 
embirrava com os versos de redondilha menor, e 
Bocage, que invejava a celebridade do padre mu- 
lato. A Modinha trazida do Brasil deslumbrava em 
Lisboa esse pittoresco observador Beckford, Stafford 
e Kinsey, e perpetuava-se entre o povo. Ainda 
hoje se canta a Mareia bella, da qual diz o mar- 
quez de Resende : to surdissimo conde de Soure. . . 
casado com a excellente filha do marquez de Ma- 
rialva D. Maria José dos Santos e Menezes, cuja 
engraçada formosura foi com o nome de Mareia 
bella celebrada nas primeiras Modinhas finas portu- 
guezas, que por esse tempo compoz e depois pu- 
blicou sob o pseudonymo de Lereno o douto Cal- 
das Barbosa.» ^ Uma egual assimilação popular se 
observa no Brasil; escreve Sylvio Roméro : «O 
poeta teve a consagração da popularidade. Não fallo 
dessa que adquiriu em Lisboa, assistindo a festas e 
improvisando â viola. Refirp-me a uma populari- 
dade mais vasta e mais justa. Quasi todas as can- 
tigas de Lereno correm na bocca do povo, nas 



i Vid. Quesiâes de Litt. e Arte por t.^ P- 6i ; Filinto Elysio, p. 603. 
* Annuario das Tradições por tuguezas^ pag. 19 a 24. 
5 Panorama^ tom. xii, pag. 2 1 2. 



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POPULAR PORTUGUEZA 489 

classes plebeias, truncadas ou ampliadas. Tenho 
desse facto uma prova directa. Quando em algumas 
provincias do norte colligi grande cópia de canções 
populares, repetidas vezes recolhi cantigas de Cal- 
das Barbosa como anonymas, repetidas por analpha- 
betos.» * O enthuziasmo pelas Modinhas brasileiras 
em Portugal, no meado do século xviii, além dos 
traços magistraes de Tolentino, acha se alludido em 
um entremez de 178Ó, A rabugem das velhas: «Pois 
minha riquinha avó, esta modinha nova que agora 
se inventou é um mimo; a todos deve paixão.» A 
velha desespera-se e começa a exaltar o seu tempo 
passado : «não tornem outra vez a cantar Cegos 
amores. Laços quebrados, e outras similhantes as- 
neiras ; parece lhes que têm muita graça, mas enga- 
nam se. Valiam mais duas palavras das cantigas do 
^eu tempo. Ah, mana . . . quando nós cantávamos o 
Minuete das praias, Belerma misera, a engraçada 
Filhota e a modinha do Senhor Francisco Banda- 
lho ! isso é que era deixar a todos de bocca aberta ; 
mas hoje não se ouve mais do que Amores e ou- 
tras similhantes nicas, que me aborrecem, e digo 
que não quero ouvil as v. m. cantar, tem- me perce- 
bido.» Tolentino allude á modinha do Senhor Fran- 
cisco Bandalho, assim pelo estylo da do Senhor 
Pereira de Moraes dos bailes desenvoltos; em um 
outro entremez do Figurão da Peraltice, vem inter- 
caladas duas estrophes da Belerma misera, com que 
as antigas damas reagiam contra as modinhas novas 
de 1786: 



1 jntroducção á Histeria de Utter atura brazUàra, p. 45« 



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440 HISTORIA DA POESIA 



Belerma misera 
Suspira e sente 
A ausência dura 
Do seu valente 
Galhardo amor. 

Se agora em cantjco 
No ár se apura 
Vendo-te ausente, 
Cysne cantando, 
Venho acabar 
A minha dor. 

O titulo destas modinhas revela-nos a forma 
como ainda hoje são conhecidos os grupos dos 
Versos geraes no Brasil ; é o primeiro verso o que 
designa todo o grupo de quadrinhas, como Paixão 
de amor já te tive, (n.° 1 1 2) Meu coração sabe 
tudo, (n.** 113) Cravo roxo desiderio, {n.^ 122) Quem 
quer bem não tem vergonha, (n.® 132) e outras que 
se vão destacando pelas melodias de que se tornam 
a letra exclusiva. O typo da Modinha, a repetição 
tão graciosa dos ritornellos como à preoccupação de 
de uma idéa constante, persiste nos processos ryth- 
micos de todos os grandes lyricos brasileiros mo- 
dernos, como Alvares de Azevedo, Gonçalves Dias, 
Castro Alves, Fagundes Varella, que tiveram a in- 
tuição prodigiosa desta relação tradicional com o 
seu modo de sentir individual. A melodia das mo- 
dinhas, que Stafiíord considerava como c elemento 
orgânico para a creação da Opera portugueza, foi 
também comprehendida pelo génio brasileiro, que 
tomou posse dessa nova forma de arte. 

Ha nos Cantos populares do Brasil documentos 
curiosíssimos que nos mostram como um povo no 
meio das suas festas inventa as formas dramáticas; 
na secção dos Reinados e Cheganças, são os Au- 
tos rudimentares : Os Marujos, (n.° 69) Os Mouros^ 
(n.® 70) e o Cavallo Marinho o Bumba meu boi. 



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POPULAR PORTUGUEZA ' 44 1 

{n.^ yy). Em Portugal, nas festas e procissões das 
aldeias ainda se repetem Autos análogos sobre os 
mesmos assumptos, como as Mouriscadas açorianas, 
infelizmente ainda não colligidos, a não ser o Auto 
de Santo António, da ilha de S. Jorge. Ainda hoje 
se podem estudar na persistência dos costumes po- 
pulares os elementos tradicionaes de que se serviu 
Gil Vicente para a creação dos Autos, Farças e 
tragicomedias. Os Villancicos do Natal e cantigas 
das Janeiras e Reis serviram de primeiro modelo ao 
creador do Theatro portuguez, como se vê no seu 
monologo do Vaqueiro; os romances e cantigas po- 
pulares eram intercalados nos seus Autos, da mesma 
forma que na tradição brasileira ainda hoje o ro- 
mance da Não Catherineta e a Canção do marujo 
vêm intercalados no auto rudimentar dos Marujos. 
A Canção narrativa Não Catherineta recebeu a 
forma dramática na tradição popular do Brasil; Ro- 
drigues de Carvalho no Folk Lore do Ceará, de- 
.screve essa representação scenica peculiar de De- 
zembro a Janeiro: «Sobre largo estrado fixo, com 
mastros e velame, umas dezeseis figuras fardadas 
á maruja, cantam ao som de uma harmónica e re- 
beca aquelles tradicionaes versos em que as terras 
de Hespanha e areias de Portugal estão a cada 
instante nos lembrando que em nossos versos de ca- 
boclos vive emotivamente uma reminiscência d*aquel- 
les heroes dos mares ignotos. E o povo identifica-se 
com a monotonia abemolada das canções, ouve-a com 
interesse; segue com olhares enternecidos o gageiro ; 



Assobe, assobe, gageiro, 
Meu gageirinho real, 
Avista terra de Hespanha 
Ou tolina. 
Areias de Portugal. 



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442 HISTORIA DA POESIA 

«E impressionase com a voz de trovão do Rei 
Mouro vestido de ganga encarnada, e mantendo com 
a pose de Adamastor e elmo guerreiro de papelão 
e papel prateado.» ' Outras Canções dramáticas no 
Ceará: «Apenas um arremedo (dos Cocos de Per- 
nambuco) : os Caboclos, que já sahem empluma- 
dos. . . não como alli em dansa de guerra indigena, 
mas a divertir-se em quadrilhas e contradansas. 

«Ha também os Congas, dansa de negros, simu- 
lando um combate em que um dos reis é aprisio- 
nado : 

Parabéns^ nobres guerreiros, 
A guerra está acabada, 
Foi preso Ret-Cariongo^ 
Nossa ilha foi tomada. 

«Própria do Ceará e Piauhy é, sem duvida, a 
Dansa de San Gonçalo, mixto de religiosidade e 
pagodeira. Um rancho de meninas, vestidas de 
cambraia e enlaçadas fitas, dansam ao rythmo do 
maracá do mestre, um marmanjo que entoa preces 
ao Santo casamenteiro.» 

A importância scientifica que adquire a tradição 
popular em todas as suas manifestações está consti- 
tuindo hoje um corpo de documentos espantosos a 
que se dá o nome de Folk-Lore ; ha ramos que só 
por si formam uma vasta sciencia subsidiaria, como 
a Novellistica popular sobre os processos compara- 
tivos de Benfey, Kcehler e outros espirites eminen- 
tes, que seguem a decadência dos mythos primiti- 
vos até ás simples facécias vulgares e parlendas in- 
fantis através das raças as mais afastadas e das ci- 



^ Cotnmemorando o Tricentenário da vinda dos primeiros Portugtie- 
%es ao Ceará, p. 277. 



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POPULAR PORTUGUEZA 44O 

vilisações as mais conscientes. O Brasil já se acha 
dignamente representado n'esta ordem de estudos, 
que tem por destino fornecereai á psychologia as 
manifestações mais francas da affectividade, à critica 
os elementos primários e eternos das creações ar- 
tisticas, e á pedagogia o vehiculo mais seguro para 
levar â alma da creapça um interesse mental que 
lhes põe gradativamente em acção todas as faculda- 
des. Para proseguir nestes novos estudos importa 
comprehender o que se chama a Poesia popular. 

Esta designação de Poesia popular é complexa, 
porque comprehende : i.° a tradição^ oral ou es- 
cripta, transmittida sem conhecimento da sua pro- 
veniência; 2.** a vulgarisaçào ou popularidade de 
certos cantos individuaes ; 3.° o syncretismo destes 
dois elementos : a) como abreviação^ na expressão 
oral; b) ou como ampliação escripta pelos homens 
cultos, que communicam com o povo ou se inspi- 
ram directamente do meio popular. Estas distinções 
de uma designação tão complexa não são especio- 
sas, e foram estabelecidas com o desenvolvimento 
da critica; a Fernando Wolf cabe o ter explicado 
a differença intima que existe entre o que é iradi- 
cional e o que é popular, não sendo incompativeis 
entre si e nem sempre sendo homogéneos os dois 
productos. Walter 3cott chegou a explicar o pro- 
cesso da formação da poesia popular pelos acciden- 
tes que determinavam a abreviação oral, da mesma 
forma que algumas tradições carlingianas ou arthuria- 
nas se ampliaram pelos tro veiros nas Gestas fran- 
cezas e Novellas cavalheirescas. Assim como nas 
camadas inferiores da sociedade é que persiste o 
typo anthropologico que se obliterou na mestiçagem 
histórica, é também nellas que se conservam os 
dados da tradição primitiva, transmittidos através de 
todas as suas decadencias ou transformações; é 



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444 HISTORIA DA POESIA 

neste ponto que o que é popular tem quasi sempre- 
o caracter tradicional^ havendo também productos 
individuaes transmittidos na corrente da vulgarisaçSo. 
Esta parte só nos interessa para revelar os modos 
de assimilação, e como um certo numero de tradi- 
ções deveria ter tido uma origem individual. Nos 
Cantos populares do Brasil ha uma parte tradicio- 
nal, que se liga ao romanceiro e cancioneiro do 
occidente da Europa, cuja unidade foi já determi- 
nada por Nigra, Paul Meyer, Liebrecht; ha uma 
outra parte filha da improvisação individual e por- 
tanto popularisada. E' esta talvez, mais importante 
em quanto á revelação do génio de um novo pro- 
ducto ethnico que entrou na corrente histórica. Dizia 
Gregorovius, que as instituições separam, mas que 
as tradições unificam ; isto vemos com Portugal e 
o Brasil, separados pelas suas diversas actividades e 
interesses políticos, mas irmãos perante as mesmas 
tradições poéticas; e consequentemente órgãos de 
expansão dessa Civilisação occidental, cujas tradi- 
ções épicas e lyricas são communs á Hespanha, á 
França, á Itália e á Grécia moderna. 



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APBICA B OS JUDEUS PORTUGUEZES 



E' conhecida a celebre carta do hellenista Nico- 
láo Clenardo referindo o grande numero de escra- 
vos negros que enxameavam em Lisboa no século 
XVI ; Gil Vicente, na farça do Clérigo da Beira, imita 
a linguagem dos pj-etos, parodiando n ella o romance 
da Bella mal maridada. A legislação manuelina e 
extravagante era severíssima contra os bailes ou 
dansas dos pretos como os Batuques, Char ambas. 
Lunduns, por ventura pelas suas formas desenvoltas. 

Nas Legitimações de D. Sebastião, liv. 38, fl. 17 
^, vem uma petição de um escravo incriminado por 
ter tomado parte em uma festa de negros em Col- 
lares: Diz Felipe, escravo de Francisco de Mello, 
que por hu dia de festa dos negres de Colares 
onde elle residia na fazenda do seu senhor fiseram 
Rey; e elle supplicante seu offlcial, e como official 
com outros da mesma festa fingiram que enforca- 
vam hum, espantalho, o qual enforcaram na forca, 
e indo o Corregedor Symam Cabral a Colares quis 
devassar como se fora ofensa feita a Justiça, e 



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44^ HISTORIA DA POESIA 

anda por elo amorado nam tendo animo pêra fazer 
nem delinquir a tal ofensa, e he menor e sem animo 
pêra poder fazer delyto, pede a vossa alteza que 
avendo respeito a sua innocencia e a festa que se 
fazia lhe faça mercê de lhe perdoar sua justiça e 
mandar que contra elle se nam proceda, e Rece- 
berá mercê.» Por alvará de í6 de Dezembro de 
1563 ordenou-se que se não procedesse no caso da 
petição. * 

Na Colonisação do Brasil entrou esse elemento 
africano em enorme desproporção, e influindo na 
difficuldade do desenvolvimento da sociedade brasi- 
leira no sentido intellectual e moral. Foi sobretudo 
no foco ethnogenico da Bahia que o elemento ne- 
gro se reflectira nos cantos e dansas locaes. Os 
estudos sobre as Cantigas, Adivinhas e Cantos ou 
Lendas populares versam exclusivamente sobre o 
aspecto dialectal, ou deturpação da Lingua portu- 
gueza. 



Nas festas publicas, como se vê pela legislação 
do século XV e xvi, os Judeus e Mouros eram obrí 
gados a concorrerem com musicas e dansas ; na re- 
lação da Viagem do Cardeal Alexandrino em 1571, 
lê se, a propósito da sua travessia no Tejo : 

«Chegaram a nós dez barcos variamente pintados 
e armados, nos quaes ouvimos pifanos, trombetas, 
adufes, timbales t outros instrumentos, com canto- 
res, bailarinas vestidas á mourisca, as quaes baila- 
vam com garbo, mas o canto parecia se com o que 
cantam os Judeus nas suas synagogas,* O facto 
observado pelo redactor da relação, João • Baptista 



* Ap. Arch. hist.^ I, p. 306. 



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POI»ULAR PORTUGUEZA 447 

Venturino, tem uma explicação curiosa; essa tona- 
lidade que lhe parecia judaica, fora adoptada pelos 
Judeus expulsos de Portugal, como melodia das 
orações das suas synagogas. 

Communicou-nos o sr. Cardoso de Bettencourt, 
que na Synagoga de Bayona as orações ou psal- 
mos cantam-se com melodias populares portuguezas, 
tendo apontadas as canções typicas á margem, como 
Stlvaninha, Linda pastorinha, e outras. * 

Kayserling allude a vários cantos populares cas- 
telhanos e portuguezes conservados entre Judeus 
expulsos da Península na época da intolerância. 

«Os judeus na Bulgária têm por exemplo o canto 
popular portuguez: 

Mi padre era di Francia 

mi madre d^Aragon ; 

por ser yo regalado 

di chica mé caso; 

mi caso com un Franco, 

hijo d*un grand*senor; 

no lo quiero, no lo quiero, yo., etc 

De onde se esta zamaro, 
que aqui veyo yo ^ 
Yo lo mando mi padre 
de la íeria d'Aragon, etc. 

Arvoleta ! Arvoleta 1 

la rama era d'oro, 

y la raiz de marfil, etc. 



* Em carta de Outu^^ro de 1902: «Un certain nombre «^e Cham-^ 
fuifs Sepbardim oont, au seul point de vue musical d'orig^ine penin- 
sulaire. Sur d'anciennes copies, le nom de la chanson dont Tair et-t 
emprunté^ est écrit en ladino (espagnol ou portugais cn caracteres 
hebraíques). Ou trouve ainsi: Ires colores en una; Isa Aíansanica^ 
etc. A Bayonne, on chante, sur Tair de Campos de Rotna. le Tero- 
cnen bat rama, — chant d*allègresse du jour de Simha Tora.» 



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44^ Historia da poesia 

«Vaudevilles hespanhoes com melodias, desde 
muito tempo esquecidas em Hespanha, conservaram- 
se em um grande numero entre os Judeus banidos. 
Acham-se como titulos de poemas hebreus, com- 
postos por piedosos poetas na Turquia e na Itália. 
Damos os seguintes: 

A las montarias mi alma, 
a las montanas mi aire. 

En sueno mi suena ma duefía, 
Alba y lusia graciosa. 

Un fogo tiene la Condesa (Romance) 

Parti me de amor 

que no lo puedo entender. 

Linda aire ay fermosa. 

Ya sali el invierno y viene el verano, 

Agora senora ! Agora, senora. 

Dulce sueno! 

Pass abate, Silvana. 
Alto y ensalzado. 

Kayserling — {Bibliotheca Espafíola-portugueza-ju- 
daica, p. x,) traz numerosos provérbios hespanhoes 
conservados entre os Judeus banidos. 

No prologo da segunda edição da Adozinda^ 
Garrett falia de um exemplar da Bibliotheca lusi- 
tana, que pertenceu ao Cavalheiro de Oliveira, em 
cujas margens o seu possuidor, quando estivera na 
Haya transcrevera vários cantos populares colligidos 
de Judeus portuguezes do tempo das perseguições : 
«um exemplar da Bibliotheca de Barbosa, encader- 
nados os tomos com folhas brancas de permeio, e 
escriptas estas, assim como as amplas margens do 
folio impresso, de letra muito miúda, mas clara e 



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POPULAR PORTUGUEZA 449 

legivel — notas manuscriptas citavam e transcreviam 
como illustração muitas coplas, romances e trovas 
antigas, e até propheias de Bandarra, — fielmente 
copiadas, asseverava elle, de Mss, antigas que ti- 
vera em seu poder na Hollanda, e em Portugal, 
franqueados uns por Judeus portugueses das fami- 
lias emigradas . . » Foi neste exame que encontrou 
Garrett o romance de Dom Duardos de Gil Vicente 
com variantes fundamentaes, e o Marques de Man- 
tua de Balthazar Dias; e confessa: t percorri com 
avidez aquellas notas, examinei-as com escrupulosa 
attenção, e, extractando uma por uma quantas co- 
plas, cantigas e xácaras achei completas e incom- 
pletas, accrescentei assim os meus haveres com 
umas cincoenta e tantas peças, delias anonymas e 
verdadeiramente tradicionaes . . . Com este auxilio 
corrigi de novo muitos dos exemplares que já tinha, 
€ completei alguns fragmentos que já desesperava 
de poder nunca vir a restaurar.» (Rom., i, p. xi 
a xiil) 

Oepois da decadência profunda, que a Inquisição 
e os Jesuitas, tendo-se apossado dos poderes públi- 
cos, arrastaram o povo portuguez pelo terror das 
fogueiras e pela depressão mental e alienação da 
vontade aos directores espirituaes, não é para estra- 
nhar que na epopêa dos Lusíadas Camões alludindo 
ao povo o designasse pelo vulgo vil sem nome. Assim 
lhe apparecia essa multidão anonyma nas vésperas 
de lhe empolgarem a sua nacionalidade, no marasmo 
de uma «austera, apagada e vil tristeza» que na voz 
de poeta synthetisa o fim da éra quinhentista. 



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■I 



SECÇÃO 3.* (Séculos xvii e xviíi.) 
§ 7/ O processo de desnacionalisação 



Sob o dominio castelhano, a lingua portugueza 
fora abandonada pelos litteratos ; Faria e Sousa 
commentava a epopêa nacional dos Lusiadas em 
castelhano ; e os poetas dramáticos abandonando o 
Auto vicentino, cultivavam a Comedia famosa^ seu 
desenvolvimento normal, enriquecendo o reportório 
do theatro hespanhol, que pela sua riqueza de the- 
mas influiu em todas as litteraturas modernas. As 
Colleçôes dos Romances e Canções hespanholas 
reimprimiram-se com frequência em Portugal, para 
satisfazer as necessidades da leitura da classe mé- 
dia. Os mais delicados poetas lyricos, como Rodri- 
gues Lobo celebrando em um Romanceiro a viagem 
de Philippe iii a Portugal, ou D. Francisco Manuel 
de Mello nas Musas de Melodino e na Historia dos 
movimentos da Catalunha, preferindo o castelhano 
seguiam este impulso de desnacionalisação, que vi- 
nha impresso pelo iberismo de accordo com o ca- 
tholicismo, realisado pela Casa de Áustria. Apenas 
a lingua portugueza era ouvida nos Pateos das Co- 



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POPULAR PORTUGUEZA 45 1 

medias; a poesia popular existia obliterada no au- 
tomatismo dos costumes. Por uma scena da vida 
popular, é que se acha primorosamente descripto o 
quadro d'essa poesia tradicional. O grande successo 
do restabelecimento da autonomia da nacionalidade 
pela Revolução de 1640, proveiu da politica do 
novo equilibrio europeu, em que > a França enfra- 
queceu a Casa de Áustria. Esse successo não in 
spirou os poetas, e nos cantos populares resalta em 
um apodo histórico a sy nthese da restauração : 

Temos bom rei e bons infantes; 
Mas Portugal peior que d'antes. 

O escriptor D. Francisco Manuel de Mello, nobre 
victima de uma politica de terror e covardia, apre- 
senta nas suas obras reflexos intensos da poesia po- 
pular, no século xvii. Abundam ahi as allusões pit- 
torescas ás tradições e costumes. E' um dos cara- 
cteres da sua supremacia litteraria; em uma scena 
do Auto do Fidalgo aprendiz deixou o esboço da 
historia do Romance popular no século xvii ; o na- 
morado Gil Alcoforado esta debaixo da janella da 
dama que galantêa: 

Brites : Entoae por meu prazer 

Qualquer cousa. 
Gil : Sem guitarra ? 

Brites : Eyl-a, tomay. 

{Dá lhe uma viola; tange como quem quer can- 
iar.J 
Gil : Pois que não poaso ai fazer. 

Brites : Ai, que canta e não escarra ! 
Gil : Ora, eyl-o, vae. 

(Canta Dom Gil o melhor que pôde o que se 
segue :) 

— Passeava- se Silvana 

Por um corredor um dia . . 



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452 



HISTORIA DA POESIA 



Brites : 


Ay, Senhor ! eu nSo queria 




Se não letra castelhana. 


Gil: 


Cantarei algaravia, 




Se mandaes ; pois que quereis P 


Brites : 


Uma letra nova quero. 


Gil: 


(Canta :J 




— A cazar va Cavallero. . . 


Brites : 


Ay, mãe ! acinte o fazeis í 




Por isso eu me desespero. 


Gil: 


Ora estay, que já me entendo, 




Quereis Romances trovados : 




— Mis amorosos cuidados 




Como se estaran durmendo. 


Brites : 


Isto foram meus peccados! 




Vós, cuido que estaes zombando; 




Ora dizei. 


Gil : 


Já me estanco : 




— Gavião, gavião branco 




Vae ferido vae voando. 


Brites : 


Hui, pelo pássaro manco. 




Sabeis alguma ao Divino? 


Gil: 


Sei. 


Brites : 


Dizei. 


Gil: 


Pois é formosa: 




— Andorinha gloriosa. . 


Brites : 


Tendes cousas de menino. 


Gil: 


Sou todo amor, minha rosa. 




{Obras metr.^ p. 247.) 



Por esta scena se vê que eram entoados, ou re- 
sodas os romances populares; os compositores e 
violistas do século xvi escreviam melodias para 
esses romances velhos, que se vulgarisaram com 
acompanhamento de guitarra. A forma resada (re- 
citada) cadenciava-se em uma melopêa monótona, 
era propriamente domestica. Na scena da serenada. 
Dom Gil começa pelo costume persistente dos Ro- 
mances velhos, entoando á guitarra o da Sylvana^ 
ainda hoje um dos mais vulgarisados na tradição 
oral, D. Francisco Manuel de Mello conhecia muitos 
outros romances velhos ; nas Cartas familiares, (p. 
467): € Por isto se disse: 



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rOPUI-AR PORTUGUEZA 453 



Re/ Don Sancho, rey Don Sancho, 
No digas que no te aviso.» 

Vem este romance citado no Compendio de histo- 
ria general, escripto no reinado de Enrique iv, e 
como letra em vários livros de musica do século 
XV. O celebre romance Mira Nero da Tarpeia, cita-o 
nas Cartas familiares (Cent. n, n.° 19): «Emíim, 
senhor, quando eu cuidava pelo menos que tinha a 
vossa compaixão a meu mandar, estaes peor que 
Nero de Tarpêa, por que nem por semelhança sa- 
beis de meus successos, pois a memoria menos é 
que lástima.» A este mesmo romance allude Serrão 
de Castro, na Sátira Os Ratos da inquisição (p. 148): 

Mira Nero da Tarpeia 
como Roma lá se ardia. 

Nas Musas de Melodino (Cithara de Erato) D. 
Francisco Manuel de Mello, allude ao romance de 
Gaiteiros : 

Perguntad allá en la Corte 
Por la virtud, y os diran : 
«Se is a Francia, el caballero, 
Por Gayteiros perguntad. 

{Obr, ffietr., II, 97.) 

Mas D. Francisco Manuel conhecia que os Ro- 
tnances velhos decahiam da moda ; e D. Francisco 
de Quevedo também o revela na sua Musa xv : 
> 
El Conde Claros^ que fué 
titulo de las guitarras, 
se quedo en las berberias 
con chaconas de la galla. 

(Ib., p. 455.) 
Pões. popal. — Vol. 11 fg 



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( 



4^4 HISTORIA DA POESIA 



Ya passo Dona Ximena, 
y faleció LainCalvo... 

(Ib., p. 464.) 

D. Francisco Manuel de Mello também allude ao 
romance da Bella mal maridada, ainda muito em 
voga no século xvii, terminando a sua evolução na 
forma dramática. O thema predilecto nasceu na 
íórma de Canção lyrica, tendo por mote a seguinte 
quadra : 

La bella mal maridada 
De las mas lindas que vi, 
Acuerdate cuan amadíi, 
Senora, fuisie de mi. 

No desenvolvimento das glosas e parodias satiri- 
cas, e ao divino, a Canção lyrica tornou-se Ro- 
mance narrativo, e Lope de Vega converteu-a em 
Comedia famosa, n*esta evolução por elle efiectuada 
dos Cantares heróicos em dramáticos. 

Na scena da serenata, Beatriz despreza os Ro- 
mances velhos e diz ao galanteador: teu não que- 
ria — senão letra castelhana.^ Já no século xvi havia 
na corte esta predilecção exclusiva, que se aggravou j 
com os sessenta annos de incorporação ibérica, e j 
principalmente pela publicação feita em Portugal de 
muitas collecções castelhanas de Romances. Pelas 
edições de 1603 e 161 6, feitas em Lisboa, da no- 
vella de Ginez Perez de Hita, Historia de los bem- 
dos de Zegris y Abencerrages, os romances mouris- 
cos apoderaram-se do gosto dos cultos; em 1605 
imprime-se pela primeira vez em Lisboa a collecção 
de Escobar, Romancero é historia dei muy valeroso 
Caballero el Cid Ruy Dias de Vivar, que se repete 
em 1615; em 1610 e 1614 o alferes Francisco de 
Segura imprime um Romancero historiado de Ics 



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POPULAR PORTUGUEZA 455 



hazanosos hechos de los christianissimos Reys de Por- 
tugal; lê se ahi no prologo: «parece que oygo algu- 
nos, con su acostumbrada manera de murmurar, dezir^ 
que quien me ha metido a mi, en tratar los hechos de 
que en este Romancero hago mencion, pues, ni yo era 
de este Reyno, ni era possible que supiesse las cosas 
tan de raiz, que pudiesse determinadamente escre- 
villas, a mas do que poços escriven cõ realidad lo 
verdadero, pues los naturales para engrandecer su 
pátria sempre se alargan, y los que no son callan 
sus prohezas, y si las dizen, es con alguna capa 
qu'encubra lo major, a lo qual respondo que en n:i 
no hade tener fuerça el ser nascido de padres to- 
ledanos, ni criado en la Villa de Atiença (que lo 
uno y lo otro es casi, ó sin casi lo mejor de Cas- 
tilla) para que dexe da escrivir lo que he sentido de 
la invictissima nacion portugueza, principalmente de 
los que se habilitan con sangre illustre, pues estes 
a lo mejor dei mundo se ygualã. Realmente yo los 
amo con grandissima terneza, y no se espante na- 
die desto, por que me tuviera por muy ingrato a 
no hazello ãsi : lo mejor de mis anos pasé entre 
ellos, que fué desde los treze y medto (1582) que 
quede herido en Punta Delgada, ciudad cabeça 
de la Islã de San. Miguel \ de la Batalla naval 
que tuvo el valentíssimo Marquez de Santa Cruz 
con la Armada de Irhelippe Es troei, hasta el ano 
noventa y quatro que sali delia con licencta de mi 
jRey, adonde fueron tantos los benefícios que desta 
nacion recebi juntamente con la merced que el 
lllustrissimo Conde de Villa Franca, y el esforçado 
Cavallero Gonçalo Vaz Coutinho ambos mis Genera- 
les capitanes me hizieron que de puro obligado quise, 
para mostrar agradecimento, componer este Roman- 
cero en que trato los hazanosos hechos dei chris- 
tianissimo Rey Don Afonso Enriquez hasta Don 



„„.„GooJ 



456 HISTORIA DA POESIA 

Alfonso, quiato, y segundo de este notnbre, con res- 
tauracion y grandezas de Lisboa, conquista de San- 
tarém, Silves, Ebora y otras Ciudades, con que tara- 
bien he querido pagar este Reyno el aver dado ai 
mundo ai excelente poeta Duarte Nuôes luzitano, * 
el qual con maravilloso estylo escrivió un Poema 
heróico, en que trato la Restauracion de Granada 
por los catholicos Reys Don Fernando y Dona Ysa 
bel, de gloriosa memoria, y no es mucho que pues 
uvo un portuguez quien cantasse prohezas de. Caste- 
llanos, haya otro que cante hechos y victorias de Por- 
tuguezes. » Em seguida ao prologo vem uma carta de 
D. Gonçalo Coutinho, datada de Santarém, em que 
explica o novo gosto de pôr em verso de romance a 
historia, ao modo dos gregos: «desejava que apren- 
dêramos dos Lacedemonios, que costumavam escre- 
ver em verso feytos heróicos dos seus, para que os 
moços os cantasem, e d'aqui lhes nacesse nam só 
fazerem-se práticos na historia de sua pátria, que 
importa muyto para o bom governo, se nam move- 
rem -se e incitarem se a obras similhantes e levarem 
este desejo desde as tetas das mãys e crecer-lhes 
com a idade, y para isto é maravilhoso e fácil o 
estylo dos Romances,^ Era também esta a doutrina 
de Rengifo na sua Poética: «No hay cosa más fácil 
que hacer un Romance, ni cosa más dificultosa, si 
ha de ser cual conviene. O que causa la facilidad 
es la composicion dei metro, que todo es de una 
RedondiUa multiplicada. La diíicultad está en que 
la matéria sea tal, y se trate por tales términos, 
que levante, mueva y suspenda los ânimos. Y se 
esta falta, como la asonancia de suyo no lleba el 
oydo trás si, no sé que bondad puede tener el Ro- 



* Duarte Dias, Conquista de Granada^ ISQ^* 



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POPULAR POKTLGUEZA 457 

mance. Descrívese en los Romances hechos haza- 
âosos, cosas tristes y lastimosos acontecimientos ra- 
ros, nuevos, singulares.» (Cap. xxxiii.) Tan^ibien Ma- 
nuel de Faria e Sousa, no Commentario aos Lusía- 
das (Cant. X, est. 96): ca qualquier lengua vulerar 
Uamamos Romance r . . e tambien se llama Ronian- 
ce á la prosa, á diferencia dei verso, por ser ella 
más vulgar que él ; e aún ai verso, ó composicion 
d'esse nombre notório se llama asíí, por parecer 
prosa los Romances así en no tener consonante, 
como en escribirse en ellos solo lo que se escrivia 
en ella, que eran historias.» (Comm.,l, iv, p. 499.} 
Vê se que no século xvii, no Romance castelhano 
prevalecia o caracter histórico ; e por este effeito 
desenvolveu se em duas novas formas : os Roman- 
ces granadinos e os de Guapos ou Valentões, Na 
scena da serenada a Beatriz, Dom Gil propõe-lhe 
cantar algar abia, Vê-se que assi se designavam os 
Romances mouriscos, como se confirma por ver- 
sos de Bernardo dei Alcazar : 

Tener una esclava mora 
Que os hable algaravia. 

(Gall., mi. esp., i, 88.) 

Depois da conquista de Granada e da extinção 
do dominio arabç na Peninsula, os poetas, que até 
então eram quasi sempre guerreiros, não tendo com 
quem luctar, inventaram uma sociedade árabe, com 
paixões e interesses modelados pelas impressões que 
haviam recebido, e assim formaram esse género dos 
Romances mouriscos^ um mero artificio sem realida- 
de histórica, cheios de subjectivismo e casuística 
sentimental. O fervor dos Romances mouriscos data 
do fim do século xvi e persiste no século xvii. Ob- 
serva P. Agustin Duran sobre esta forma: «Logo 
que os novos cavalleiros e poetas viram livre o paiz 



r 



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458 HISTORIA DA POESIA 



dos seus inimigos, para de logo se aproveitaram das 
recordações que tinha deixado, de modo que ao 
lêr os cantares daquelle tempo, todos creriam que 
os Mouros ainda occupavam a Hespanha. De facto 
antes da conquista de Granada, e talvez ainda al- 
guns annos depois, poucos romances mouriscos no- 
vellescos se acham que tenham vestigios sensiveis 
da poesia árabe.» (Rom, gen.y i, p. lO, n. 8.) Os 
Romances mouriscos têm poucas referencias a per- 
sonagens históricos ; uma vez é um moiro Galvan^ 
que tem uma cativa christã. Mariana, com quem 
está jogando no seu jardim, e a cada jogo que perde 
vae-se lhe um castello ou uma cidade ; o mouro 
Bucar resolve questões de amor; as aventuras e ódios 
entre os Zegris e Abencerrages, dos Gomeles e 
Aliatares são o thema bordado pela imaginação 
hespanhola. Cada personagem imaginário forma um 
cyclo de aventuras, como Zaide, Abenumeya, Tar- 
fe, Abindarraez, Zegri, Zulema, Azarque, Arbolan^ 
em uma prolixidade de redondilhas até ao fastio. 
Dom Francisco Manuel de Mello, na segunda parte 
das Musas de Melodino traz cinco romances mouris- 
cos; cita os mais celebres romances mouriscos do 
5eu tempo, como o de Dragut: 

Se ha dez annos que amarrado 
Qual forçado de Dragut . . . 

(Obr. metr.^ ii, 215.) 

O romance de Aben Humea começa : 

Ya por la puerta de Elvira 
Saliendo vá de Granada 
Aben-Humea el quexoso 
De su rey y de su dama. 

Traz também os romances de Ali-Aben, de Xa- 
<en Y Belaja, e o de Celidaja, que principia : 



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POPULAR PORTUGUEZA 4^9 

Texiendo está Celidaja 
La hermosa hija dei Rey, 
Zambras de sus bellas Moras 
Una tarde en su vergel. 

E Francisco Rodrigues Lobo também imitou os 
typos conhecidos, como esse de Mira Zaide, e 
outros muitos. Veiu por fim a reacção contra o 
gosto dos Romances mouriscos, atacados em paro- 
dias burlescas; no Romancero general, de Florez, 
já apparecem algumas amargas censuras contra esta 
mania : 

Tanta Zaida y Adalifa, 

Tanto Dragui y Daraja, 

Tanto Azarque y tanto Adulce, 

Tanto Gazui y Abenamar. 



Renegaran de su ley 

Los Romancistas de Espana, 

Y ofrecieron a Mafoma 
Las primícias de sus gracias. 
Dejaron los graves hechos 
De su vencedora pátria, 

Y mendigan de la agena 
Invenciones y patranas. 
Los Ordonez, los Bernardos, 
Los Rasuras e Mudarras, 
Los Alfonsos, los Enricos, 
Los Sanches y los de Lara, 

Que es de ellos < y que es dei Cid ? 
Tanto olvido á gloria tanta. 

Gongora, que fez bellos romances, principalmente 
•do cyclo turquesco, sempre de um gosto admirável, 
<:edo veiu a conhecer o enfado em que iam caliin- 
do, e elle próprio ridiculisou-os. No romance xxxiii, 
enumera aquelles que se tornaram typicos, e que 
mais andavam em voga em Hespanha e Portugal : 



A mis senores Poetas, 
descúbranse ya esas caras, 



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460 HISTORIA DA POESIA 



desnúdense aquesses Moros^ 
y acábense esas zambras. 
Váyase ccn Dios Ga^ul^ 
lleve el diablo a Celindaxãy 
y buelvan essas roarbotas 
a quien se las Jió prestadas. 

y el seUor Alcaide quiere 
saber qi ien es Abenamar^ 
los Zegries y Aliatares^ 
Adulces^ Zaida y Andallas ; 
y de qué repartimiento 
son Celinda y Guidalarãy 
estos Moros y estas Moras 
que en todas las bodas dançan. 

Dexais en fuera Bernardo, 
vivo honor de nuestra Espana. . . 
Dejais un Cid Campeador, 
un Diego Ordonez de Lara. . . 
Celebran chusmas Moriscas 
vuestros cantos de cigana, 
hechos pobres mendigantes 
dei Albaicin ai Alhambra. . . 



Estes versos de Gongora revelam a monomania 
dos poetas de fim do século xvi e começo do xvii,. 
chegando algumas d estas composições a vulgarisa- 
rem-se entre o povo; tal é o romance da Serrania 
de Ronda que começa: 



Por las puertas de Celinda 
Galan se pasea Zaide, 
Aguardando que saliera 
Celinda para hablalle. 

(Rom, gen., i, n. 54.) 



Fernando Wolf é de opinião que estes romances- 
mouriscos não têm caracter árabe, revelando os 
assumptos que celebram a sua origem moderna. 

Por seu turno os Romances mouriscos decahindo 



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POPOLAK PORTUGUEZa 46' 

do gosto, foram os seus heroes substituídos pelos 
rufiões de becos, ou Xaqufs, galerianos e vadios 
afamados.' A Xdcara era o nome dado aos roman- 
ces que celebravam os feitos audaciosos e crimes 
dos meliantes. i3. Francisco Manuel de Mello, nas 
Cartas familiares, (Cent. ii, n.® 73) allude a esta. 
moda nova dos romances: ce me venho a pôr a 
praticar el novel estil yV/^^r^. » — «Primeiro que tudo 
e que nada, antes que n)e esqueça, o auctor da 
jdcara é muito melancholico e pensativo.» (Idem,. 

P. 519.) 

Don Francisco de Quevedo deu forma litteraria a 
este género de cantos populares da classe dos Xa- 
quês; a sua Xdcara de Escarraman, que tanto se 
vulgarisara. chegou por isso a ser prohibida no In- 
dex de 1624. O commentador de Quevedo, diz que 
esta forma poética cahira em desuso por causa da 
sua origem deprezivel. A phrase de D. Francisco 
Manuel: «começaram um dialogo em verso, á ma- 
neira de Xdcara ...» allude á linguagem dos Xa- 
quês empregada n esse género. Ha quem pretenda 
que a palavra xdcara em árabe significa burla, e 
n'este sentido condiz com a linguagem dos gitanos. 
No século xviii recebeu este género um grande 
desenvolvimento nas folhas volantes (pliegos suel- 
tos) impressas em Sevilha, em que na forma de 
romance eram celebradas as façanhas de Guapos e 
Temerones ou Valentões. Duran, no Romancero ge- 
neral, colligiu alguns destes pliegos, que celebraram 
façanhas de Francisco Esteban, Juan de Arévalo, 
Don Salvador Bastante, Pedro Cadenas e outros. 

Embora em Portugal também se imprimissem Re- 
lações sobre acontecimentos e personagens extraor- 
dinários, a forma da Xdcara no seu aspecto narra- 
tivo veiu a constituir os Fados, relatando em me- 
lopêa plangente situações do viver de certas classes 



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462 HISTORIA DA POESIA 

miseráveis da sociedade, como marujos, rameiras, 
soldados. No Fado da Severa, do Marujo^ do De- 
gradado, ha uma narração prolongada, entremeiada 
de conceitos grosseiros e preceitos de moralida- 
de, monotonia de um canto, rythmado ao bater do 
passo de uma dansa de meneio desenvolto, a que 
o local, tavernas ou espeluncas, imprime uma fei- 
<;ão commovente e temerosa. Cantar e bater o Fa- 
do, exprime as duas formas lyrica e dansada ; assim 
como Fasier um Fado, designa a elaboração de 
uma narrativa romancesca de caracter de xdcara, 
Fatiste, no francez do século xvi significava o poe- 
ta, * da velha raiz britonica Fáith ; a homonymia com 
Fado, ou a fatalidade, e Fadista ou o guapo valen- 
tão, produziu a illusão de se considerar moderna 
esta degenerescência da Xácara do século xvii, que 
é também uma degradação do Romance velho do 
século XV. 

A Xácara é a designação mais característica do 
século XVII tanto em Portugal como em Hespanha 
dada a cantos populares ou popularisados de géne- 
ro lyrico, pela melodia, mas especialmente narrati- 
vos e dramáticos. Do thema Jocus (d onde Jogo, si- 
gnificando brinquedo dramático, e Choca jogo de 
bola,) e Jocularis (o jogral, e jogralice) provieram as 
palavras vulgares Jocorice, Chocar t ice, Chocarra, e 
Xácara; este vocábulo designa composição satirica 
ou chocarreira, o que não obsta que seja amorosa. 
Quevedo considerava a Xácara e Xacarandina como 
peculiar dos Xaques ou ciganos e aventureiros tu- 
nantes, que as cantavam. O nome de Xaque é o 
mesmo que Jaque (o pauvre Jacques, a personifica- 
'Ção do proletário francez, como o John Buli signi- 



1 Du Méril, Hist, da Poesia scandinav a y p. 290, not. i. 



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POPULAR PORTUGUEZA 



463 



fica O inglez); doesse thema proveiu a designação 
da canção Chacone e Chacoula, e da antiga dansa 
X)opular a Chacota^ que também se torna uma vaia 
:satirica. Assim como os Romances velhos se trans- 
formaram por degradação em cantos narrativos das 
aventuras de Guapos, Temerones, Afanadores e 
Contrabandistas, também os Cantos ly ricos e baila- 
dos degeneraram nas Chacone s e ' Chacotas. Pode- 
mos concluir, que ^ Canção teve no século xvit o 
seu maior desenvolvimento na forma dramática, de- 
terminando a creação do Ballet, do Madrigal e do 

VUlancicOy e em que mesmo a Canção lyrica rece- 
beu o typo da Ária, elemento fundamental da 

Opera. * 



^ Resumimos no seJ^uinte Schema toda a evolução da CaiíçÃo: 

Século XII a xiv : 

ITrobadoresca 
Scholaresca 
Goliardes.a 
Jogralesca 
Século XV e xvi : 

Romance 



Canção narrativa 
Século XVII e xvill : 

CançIo bailada. . . 



Ara via 
Campviser 
Complainte 
Bailada 

' Ballet 
Madrigal 
Villancico 
Zarzuela 
Xácara 



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464 . Historia da rotsiA 

§ 2.^ Degradação da Poesia popular. 

Proseguindo no exame da scena da serenata do 
Fidalgo aprendiz, a dama galanteada exige ao na- 
morado que lhe cante leira nova; referia-se ao ge^ 
nero de romance subjectivo, em quadras assonanta- 
das, exprimindo requebros amorosos e tristezas. Na 
Feira de Anexins, D. Francisco Manuel de Mello- 
cita alguns cantares de leira nova, «Eu cantar-lhe- 
hei : Oh homem da caravella. Sabe lá a glosa ? — 
Se não ha outra, essa é muito velha.» (p. 8.) — 
€ Pastores de Mançanares , , . — Se não fora tão fa- 
nhoso, era fanhoso musico. — Mas a que propósito- 
vem a cantiguinha ?> (p. 15.) — «Que ? Cantar-me-hia 
o Coxo e mais o Manco ? — Se o senhor é poeta 
também lhe cantaria o Corcovado.^ (p. 43.) 

«Que importa isso para se pôr comnosco: 

Quero, não quero, 
Jubão amarelIo.«> 

(Ib, 67.) 

Como a Beatriz, do Auto, não se satisfaz com a 
leira nova. Dom Gil Cogominho começa a entoar 
um Romance trovado. Não é propriamente o ro- 
mance glosado, como se usava no fim do século xvi,. 
mas parodiado, ou em burlas, ou ao divino. Frei 
António das Chagas (António de Fonseca Soares) 
teve fama n'esse género insulso. Nas Memorias da 
Bispo de Gram-Pard^ vem uma anedocta, que dá 
uma idéa de seu estylo : «Meu tio... o doutor Fr. 
Ignacio de Jesus, monge de San Bento, foi muito 
eloquente e celebre nas erudições dos Seiscentistas, 
muito lido em romances e comedias, e algumas ve- 
zes applicando passagens alheias com graça. Indo 
eu com elle ao passeio do Padrão em a pátria de 
ambos, Mattosinhos, reparámos em uma dama, que 
recostada no braço adormeceu ; e alli, se entendia,, 



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POPULAR PORTUGUEZA 465 



esperava o galanteador. Diz promtamente Frei Igna- 
cio: 

«Dormido yaze el Amor 

en ei regazo de Vénus, 

inflamando las saetas 

con la suavidad dei sueno.» 

«Então se lhe disse : 

«El dulce sueno la tiene 
en dos soles usurpados ; 
pêro abraza en hermosura 
áun faltándole los raios.» 

(Op. cit, p 95-) 

O sentimento da poesia popular chegou a im- 
pressionar alguns escriptores do século xvii, e e ac- 
tuar no seu lyrismo. António Sampaio Villasboas, 
no Auto da Lavradeira de Ayrò, traz as seguintes 
quadras sobre o thema Na fonte está Leonor, tra- 
tado por Camões, Jorge Ferreira e Rodrigues Lobo; 
era o que se chama letra nova : 

Ao pé do Monto Ayró 
Onde só de huã pegada, 
Deu a fome da Virtudç 
Que ahi nasce, vida e fama ; 

Pelo caminho de cima 
Com uma talha apevlrada, 
Pucarinho de Estremoz 
Em prato de porcelana ; 

Ia Leonor pela sesta 
Para a fonte a buscar agoa, 
Lavradora, que de todas 
E' por formosa invejada. 

Leva o cabello em rolete, 
Melenas dependuradas, 
Gargantilha de belorios. 
Com relicário de prata ; 



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466 HISTORIA DA POESIA 



Colete de serafina, 
Figa d'azeviche á banda, 
Ramal de coraes no braço 
E camisa debuxada. 

A todos quantos encontra 
Com seus olhos prende e mata ; 
E com ser escaca e moça 
Dão seus olhos muitas ciadas. 

Mais passos devo ás pedras 
Do que á tua formosura, 
Que as pedras duras não fogem. 
Tu foges e mais és dura. 

Se sabeis que vos adoro 
Não sejaes esquiva sempre, 
Qu2 — amor com amor se paga, 
E só quem paga não deve. 

Leite de Vasconcellos explicando as referencias 
aos costumes populares n'estas quadras, approxi- 
ma as de algumas ainda correntes na versão oral : 

Eu heide amar uma pedra, 
Deixar o teu coração ; 
Uma pedra não me deixa, 
Deixas-me tu sem rasão. 

Amor com amor se paga, 
Nunca vi coisa mais iusta; 
Paga-me comtigo mesma. 
Meu amor, pouco te custa. 

Não se agradando do género subjectivo e alle- 
gorico do romance trovado^ Beatriz pergunta ao na- 
morado se por ventura sabe alguma copla ao divi- 
no; Gil Alcoforado, para comprazer com o seu 
capricho, começa logo a Oração da Andorinha glo- 
riosa, A situação cómica principia no equivoco en- 
tre Andorinha e Angelina, Nos Cantos populares 
da ilha da Madeira {Romanceiro, n.** vi, p. 9) con- 



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POPULAR PORTUGUEZA 467 

sçrva-se ainda esta Oração do século xvi, que é 
um resumo da vida do Senhor ; a versão oral de 
Carrazeda de Anciães, é mais lacónica : 

Angelina gloriosa, 
Formosa como uma rosa, 
Quando o dia apparecia 
Chamava pelos pastores 
— Oh pastores, oh bom dia, 
Bom filho pare Maria, 
Com três dias de aiegria> 
Quatro cantos ha na casa. 
Quatro anjos a guardavam^ 
San Lucas e San Matheus 
E também o Senhor Deus ; 
Que nos guarde, 
E a Virgem Maria, 
E tudo quanto temos, 
De noite e de dia 
E ande sempre 
Na nessa companhia 
Padre Nosso, Ave-Maria. ^ 

Na Feira de Anextns, D. Francisco Manuel torna 
a alludir á Oração da Angelina gloriosa : « — Eu co- 
meço a Andorinha gloriosa. » (p. 94) « — Se eu de- 
senho o que sei, e lhe vou cantando a Andorinha 
gloriosa, não se fie no pisco... (p. 155.) As Ora- 
ções populares estavam prohibidas pelo Index de 
I 564, taes como a da Emparedada, a do Conde, a 
de San Cebrião ; os Jesuitas no volumoso Index de 
1624 ampliaram esses anathemas a quasi tudo o 
Romanceiro. Gregório de San Martin, no prologo 
do seu poema El triunfo más famoso, falia contra 
os Romances populares, segundo a auctoridade dos 
índices expurgatorios : «Los muchachos aprenden 
tanta multitud de cantares perversos y mundanos^ 



• Acttialidaáe, n.<» 107 (1882). Porto. 



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468 HISTORIA DA POESIA 

que a no ser prohibidos, es grande falta para las 
Republicas, mas no pongo tanta culpa a los que 
las gobiernan y rigen, como a los padres de fami- 
Ha, que oyéndoles cantar alguna chacota profana a 
sus hijos ó criados que ai momento les dexen de 
castigar con mucho rigor, para reconocimiento de 
su emmienda, como es necesario, ensenándoles a 
los actos de la virtud y obediência, y si los tales 
fueren inclinados a romances y versos, esses sean 
£n alabanza de Dios y sus santos, » 

Reflectem estas palavras a auctoridade do Index 
^xpurgatorio desse mesmo anno de 1624, que os 
Jesuitas do CoUegio de Santo Antão publicaram. 
Apontaremos aqui os romances riscados ou mutila- 
dos por esse Index, todos de origem litteraria: 

Abindaraes (fl. 26); Tenta una vtuda (fl. 33) ; La 
moça gallega (fl. 35); Un marcador (fl. 36, col. 2); 
Una bella casadilla (37) ; Una villana (37) ; Agora 
que estoy de espado (39) ; Que te hizo (42 ^ ; Los Ga- 
lanes (43) ; Oyde, amantes (45) ; Justo es que (64) , 
Esperando (66) ; Un gran tauhl (68) ; En la antecâ- 
mara (81) ; Quando yo peno {^^)\ Los que mis cul- 
pas (116); Ventanazo para mi (125); Y iuvo con 
cierta dona (126) ; Mancheitas de mi pueblo (147) ; 
Gallardo passea (213); Occupada en un papel (222) ; 
En un prado coronado (223) ; Vtda de mi vida 
{227) ; Yo soy Martiguelo (ib.) ; Todas están mal 
(231); La ronda deste lugar (248); Regaldndose 
(249) ; Madrugastes, vezina (252) ; Hizo calor (257) ; 
El arbol que ahorcò (262) ; Sátira contra o amor 
{275) ; Diez anos (280) ; Yo estoy (303) ; La beata re- 
zadora (310); Estase el jurisprudente (3u); Amor 
^on intercadencias (234) ; Hubo un cierto (344) ; Me- 
morias tristes (357); Entiéndame quien (374); A 
ver otros los que (392) ; Ya de mi dulce (402) ; No 
viene a mi (403) ; Dur andar te buen (423) ; La sangre 



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POPULAR PORTUGUEZA 469 

sola (443); Caracoles me pide (441); Dexad qiu 
me alegre (449); Que un galan (450); Toca la 
chacona (451); Las redes (Supp., fl. 22); Por veria 
seria (211); Gaitar do passea (2 1 3) ; -fi/ desgraciado 
(228) ; De mi amor (347). 

Apesar da restauração da nacionalidade portu- 
gueza em 1640, a influencia eastelhana continuou 
na Corte, nas Tertúlias litterarias ou Academias 
poéticas ; imitaram-se os Romances com a assonan- 
cia até com os versos endecasyllabicos, prevalecen- 
do o gosto culteranista. Mas todo este castelhanis- 
mo é uma crusta superficial ; sob ella existiu uma 
camada ethnica em que se reconhece o lusismo, 
que dá á historia da civilisação peninsular um novo 
aspecto. 

O talento poético com que a Hespanha se reve- 
lou no século xv e xvi, de uma paixão amorosa e 
galanteria que não é natural ao génio ibérico, suc- 
cedendo-se uma decadência 'de gosto e chateza, in- 
dicam estes phenomenos que uma crise profunda 
se passou no caracter d'aquena nação. Pretendem 
uns críticos attribuir á pressão despótica da Casa 
de Áustria e ao deprimente influxo da Inquisição 
sobre os espiritos essa transformação deplorável; 
mas a causa está para nós em um facto ainda não 
considerado : a Hespanha foi, segundo a noção geo- 
graphica da Lusitânia pre-strabonica, occupada pela 
raça dos Lusos até quasi aos Pyreneus; na occu- 
pação dos Iberos nem toda essa raça foi impellida 
e confinada para o oeste da peninsula, ficando far- 
to elemento lusitano esparso em povoações inter- 
meiadas nas regiões propriamente ibéricas. Quando 
a Hespanha ibérica se lançou ás descobertas marí- 
timas e á occupação colonial no continente e ilhas 
americanas, esses elementos lusitanos ou lusonios 
prímitivos seguiram a sua tendência marítima e aven- 

Poes. pópul.~Vol. II 3o 



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470 HISTORIA DA POESIA 



tureira, e foram colonisar o Peru, o México, as Phi- 
lippinas, as Antilhas. Assim em Hespanha veiu a 
estremar-se a raça dos Iberos, e a accentuar-se os 
seus caracteres próprios. Foi então que o seu fa- 
natismo se tornou mais sanguinário, e que o seu 
imperialismo se exerceu sem um plano, pondo-se 
ao serviço da unidade catholica. * A decadência in- 
tellectual não foi completa no século xvii ; então 
Portugal sob o domínio castelhano ou ibérico, for 
necia-Ihe escriptores e poetas, que enriqueciam a 
sua litteratura. A independência de Portugal em 
1640 no foi somente uma diminuição de territó- 
rio, foi um depauperamento nas capacidades con- 
stitutivas da Civilisação hespanhola. Este influxo 
do lusismOj essencial ao renascimento da raça e ci- 
vilisação ibérica, só poderá restabelecer-se não já 
pela inmixtão, como na época proto histórica, mas 
conscientemente pela acção hegemónica exerci- 
da nas relações de uma grande e fecunda Federa- 
ção. 

De^Jois do desenvolvimento do Auto na Come- 
dia famosa, seguiu-se a transformação artística que 
preparava o Drama musical ; a Zarzuella hespanho- 
la correspondia, nesta phase esthetica, ao Madrigal 



1 A dispersão do elemento luso do meio d. s populações da Hes- 
pânha ibérica, é um facto verificável por observações s-cundarias; 
assim nos Autos ce Fé da In]uisiçâo de Córdova e Valência os 
réos condemna os á \k. grueira são em sma proporção exagerada 
portuguezes ou filhos de portuguezes. Mas esta elimmação do sangue 
luso d'entre as populações hespanholas, começara com a sahida d'esses 
vestigios «da Lusitânia dos antigos» levados para as explorações ma- 
rítimas e coloniaes da America. Na Inquisição do México os réos 
condemnadoá são todos portuguezes^ como o confirma o illustre he- 
braisante C. Bethencourt, e em 1 640 estes elementos mexicanos fa- 
ziam votos pelo êxito da revolução de 1640, em que Portugal re- 
vindicára a sua autonomia nacional. 



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POPULAR PORTUGUEZA 47 I 

italiano e ao Ballet francez. * Em Portugal, na corte 
de D. João iv este novo género tinha o titulo de 
Tono» Destes gernnens rudimentares é que proveiu 
a Opera, a synthese da musica moderna; seguimos 
a corrente italiana, ficando a Canção bailada en- 
tregue á espontaneidade popular, ou á sua forma 
hierática nas procissões. Na collecção Epitaphia la- 
iinay publicada em Colónia em 1645 por Swertius, 
(P- 323) vem o seguinte a um dansante popular : 

«Aqui jaz João Braz moleiro, 
Entre os dansantes mais Jestros; 
A quem não valeram céstros, 
Nem'tabaque, nem pandeiro.» 

O Marquez de Montebello faz encarecidas refe- 
rencias á musica popular do Minho entoada pelas 
raparigas quando trabalham ás portas de suas ca- 
sas : «particularmente en las tardes de verano — los 
tonos que a coro cantan, con fugas e repeticiones, 
las mozuelas, que para ejercitar la labor de que 
viven les és permitido, por tomar el fresco, hacerla 
en la calle.» (Vida de Manuel Machado de Azeve- 
do, cap. V.) 

No casamento da infanta D. Catharina com Car- 
los II de Inglaterra em 1662, saiu em Lisboa uma 
procissão com vistosas dansas. ^ 

Nas festas do casamento de D. Pedro 11, em ii 
de agosto de 1687, descriptas por Manuel Thomaz 



í O nome de Zarzuella \ rovêm do nome da casa do Cardeal In- 
fante de Hespanha D. Fernando, em que dava festas reaes com mu- 
sica e poesia. Ahi se representou «El Jardin de Faltrina», em 1688, 
letra de Calderon c musica de D. Juan Riso. Fuertes, Hist, de la Mu- 
sica en Espatla^ t. iii, pag. 114 a 1 16. 

2 Ribeiro Guimarães, Summario da varia historia^ t. in, p. 67. 



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472 HISTORIA DA POESIA 



no Triumpho Lusitano, vem como parte de uma 
tourada, enumeradas varias dansas populares : 

€ Entraram duas Dansas das Pescadeiras. 

€ Antiga dansa dos Foliões da Arruda, composta 
de irez velhos, (Uma Sengada?.) 

€ Dansas differentes de graciosas ciganas, 

€ Dansa dos trabalhadores do Terreiro do Trigo ; 
bailando com espadas nuas, trazendo sempre o que 
os guia, a ponta d'uma na bocca. 

^ Dansa das Cantadeiras, acompanhadas de dois 
rabequistas cegos. 

«Dansa donde bailava um homem com uma can- 
tarinha de agua, na cabeça, tocando um pandeiro, 
com ligeiras voltas. 

'i Dansa de encaretados; tangiam vários instru- 
mentos, cantavam differentes lettrillas, e traziam nas 
cabeças uns turbantes de altas copas. 

tkDansa de Moiros; bailavam com eanas verdes 
nas mãos, e o guia os governava com o terçado 
que trazia desembainhado. 

« Dansa de pdos ; eram os que a faziam soldados 
enmascarados, cada um trazia nas mãos duas cur- 
tas torneadas varas, e no braço um pequeno bro- 
quel.» 

D. Francisco Manuel de Mello em uns cantos po- 
pulares das Janeiras, aponta a agitação que se pas- 
sava nos espíritos antes da Revolução de 1640 : 
cn'aquella noite, que nós dizemos de Anno âom, 
quando começava o de 1638, a fim de se lhe can- 
tarem certas Bençõens e Rogativas (costume de 
nossos anciãos, que com o nome de Janeiras, en- 
toavam placidamente pelas portas dos mais caros 
amigos) se congregou grande numero de povo, o 
qual com animo resoluto era movido a desopprímir 
(como elles queriam) a cidade de seus contrários, 
não vendo que com essa inquietação a opprimiam 



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POPULAR PORTUGUEZA 478 

de novo.»* Referia-se aos ajuntamentos em frente 
da casa do Conde de Linhares, governador de Por- 
tugal, e aos tumultos que precederam a revolução 
de 1640. 

As Dansas hieráticas, que eram uma parte es- 
pectaculosa das Procissões mais solemnes, conver- 
teram-se em apparatosas Cavalgadas, Paradas e 
revistas com interessante caracter dramático. Nas 
Cortes de Almeirim, de 1S44, os procuradores de 
Óbidos representaram acerca do costume: «no dia 
de San João todos antes de ser manhã cavalgam 
e se vão á porta do juiz, e com a bandeira da 
villa andam por ella e de redor com toda festa d'es- 
caramuça e canas com muito alvoroço, e vão ouvir 
missa a casa de S. João Bautista; faz se sempre por 
este dia hum almoço, que se dá aos que cavalgam, 
á custa do Concelho . . . > ^ Em Elvas celebrava-se 
no século xvii uma apparatosa Cavalgada nas vés- 
peras de San João, relacionada com um facto his- 
tórico. Ayres Varella no Theatro histórico das An- 
tiguidades d Elvas, refere a lenda da celebração da 
Cavalgada: «depois da morte de D. Fernando, en- 
tre Portugal e Castella havia vivas hostilidades. De 
Badajoz vieram alguus homens armados pôr-se de 
emboscada próximo de Elvas para atacarem os Ca- 
valleiros que sahissem as portas da cidade a cele- 
brarem o San João. Gil Fernandes, suspeitando da 
traição saiu com alguns concidadãos melhor arma- 
dos, e tendo mandado fechar as portas da praça 
deu sobre os de Badajoz e tomando lhes um guião 



* D. Francisco Manoel de Mello, Epa^iaphoras, p. 125. 

* Doações de D. Jo5o iii, Liv , 43, fl. 58. — Ap. Viterbo, Festas 
religiosas^ p. 1 1 . 



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474 HISTORIA DA POESIA 

OU estandarte, e tendo-o arrojado para dentro dos 
muros, tornou outra vez para a refrega.» 

D'alli em diante celebrava-se estrondosamente o 
Sitn João (TEvas, indo plantar o estandarte arran- 
cado aos de Badajoz em um outeiro próximo da 
praça, chamado o Monte de Siso. O estandarte era 
acompanhado por todos os Cavalleiros da cidade, 
luzidamente vestidos, sendo entregue solemnemente 
ao mais conspicuo com o seguinte dialogo : 

c — Defendereis este pendão, que Gil Fernandes 
ganhou aos Castelhanos ? 

c — Defenderei. 

« — Fazeis preito e homenagem a foro de bom 
portuguez, de não o largar sem perder a vida? 

« — Sim. 

c — Pois com esta condição vol-o entregamos.» 

Segundo o testemunho de Ayres Varella, o es- 
tandarte guardava-se na Camará de Elvas, sendo 
levado pelo vereador mais novo nas solemnidades, 
acompanhado pelo magistrado da justiça e governo 
da terra, todos montados a cavallo. * 

Além das dansas ou Paradas pelo S. João, ceie- 
bravam-se outras de consagração fradicional como 
as de Corpus Christi, Santa Isabel e do Anjo Cus- 
todio, em que por vezes teve de intervir a regula- 
mentação administrativa. 

Em Alvará de 15 de julho de 162 1, estabelece-se 
que c Convinha ao serviço de N. S. e meu (Philip- 
pe iii) tratar de poêr em melhor ordem a procissão 
do Corpus Christi de esta cidade (Porto), por nella 
irem alguns jogos e danças não decentes ao tempo 
por a muita antiguidade com que se ordenaram, e 
irem hoje os officios em tão grande crescimento ...» 



* Elvense^ n.® 473 (vi anno.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 473 

As Dansas religiosas correspondiam a contribuições 
pecuniárias effectivas, contra as quaes representa- 
vam certas classes trabalhadoras, como se vê pelo 
Alvará de 4 de maio de 1641 : «que as tecedeiras 
de pano de linho da dita villa de Trancoso e dos 
mais logares do termo delia de huma légua a den- 
tro .. . contribuam e paguem — para as três Danças 
de Corpus Christi, dia de Santa Isabel, e domingo 
do Anjo ...» Foram estas formas da Canção baila- 
da ou de parada, com o seu caracter hierático e 
agonistico, que esboçaram os rudimentos do Drama 
artistico. * 



O povo portuguez estava morto politicamente ; o 
rei governava com auctoridade paternal, e a nação 
era umâ entidade apenas conhecida como um lo- 
gradouro hereditário, á qual outorgava direitos pela 
sua alta generosidade, mantendo o privilegio na or- 
dem social á maneira do milagre do Deus dos theo- 
logos na ordem physica. Desde 1640, em que a 
dynastia Bragança exerceu o dominio de Portugal, 
o processo de desnacionalisação aggravouse pela 
degradação moral. No fim do* século xvxii, escrevia 
o auctor da Viagem a Portugal do Duque de Cha- 



i Referindo-se ás dansas dos Mysterios de Eleusis, Ticle cos* 
tra como foram elementos de formas estheticas: «Estes mesmos 
cantos e dansas de Coro, tomaram-se Diálogos e representações ^ 
d'onde nasceram a Tragedia e a Camediai^ Pouco a pouco estas ul- 
timas tornaram-se livres na escolha doi seus assumptos, e nas mãos 
de Eschylo e de Sophocles foram o meio de revelar a todos os olhos, 
com fignras vivas, o núcleo da verdade religiosa occulta na ganga 
mythologica.» (Tiele, Manuel de ÍHistoire des Religions^ p. 242.) 



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47^ MTSTORIA DA POESIA 

telet, que se não podia imaginar um povo mais 
bem domesticado pelo despotismo reinante e pela 
theocracia ; esta extorsão continua produziu na lit- 
teratura os poetas obscenos como o Camões do 
Rocio e o Lobo da Madragôa, e deu aos cantos 
do povo a desenvoltura^ contrastando com a sua 
tristeza, e em contradição com a própria existên- 
cia. Lê-se na citada Viagefn a Portugal: «As can- 
ções portuguezas são muito licenciosas; acompa- 
nham-se com uma guitarra, que fazem resoar com 
muita graça...» (Op. cit., i. 78.) O illustre natu- 
ralista allemão Link, visitando Portugal no fim do 
século XVIII, caracterisa os cantos populares portu- 
gueses como desagradáveis, reconhecendo lhes no 
tom lamentoso uma espontânea expressão de senti- 
mento : «As Canções do povo portuguez são la- 
mentosas; faliam quasi sempre da dor do amor; 
são raramente lascivas e pouco satíricas. » ( Voyag. * 
p. 44-5.) Os cantares estão por si revelando ^ 
violação da natureza, confinados entre o vulgo; ^ 
Corte era o foco da vida da nação, divertindo-s^ 
nas aventuras galantes com as Modinhas, com os 
Ballets e Operas deslumbraiites, em que o italia- 
nismo desnaturava as melodias tradicionaes portu- 
guezas. Nos outros estados da Europa, as Cortes 
de Luiz XIV, de Leopoldo 11, de Jorge 11, esses sa- 
tyros enthronisados, não era ouvida a voz do povo 
pelos que dirigiam o espirito do tempo. 

A) A Modinha Ç Canção lyrica),— Na Carta vii, 
de lord Beckford, vem uma descripção do effeito 
que lhe causavam as Modinhas, na Corte : «Quem 
nunca ouviu este original género de musica, igno- 
rará para sempre as mais feiticeiras melodias que 
tem existido desde o tempo das sybaritas. Consi- 
stem em languidos e interrompidos compassos, como 



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POPULAR portugueza 477 

se faltasse o fôlego por excesso de enlevo, e a 
alma anhelasse unk-se a outra alma idêntica de al- 
gum objecto querido. Com infantil desleixo insi- 
nuam-se no coração antes de haver tempo de o 
fortificar contra a sua voluptuosa influencia; imagi- 
naes saborear leiíe, e o veneno da sensualidade 
vae calando no mais intimo da existência: pelo 
menos assim succede áquelles, que sentem o po- 
der des sons harmoniosos ; porém não respondo 
n'este caso pelos animaes do norte íleugmaticos e 
duros de ouvido. Uma ou duas horas correm quasi 
imperccptivelmente no deleitoso delirio, que aquellàs 
notas de sereia inspiravam ...» 

Kinsey, capellão de lord Aukland, que viajou 
em Portugal em 1827, falia da melodia da Mo- 
dinha na sociedade portugueza: «As Modinhas 
portuguezas são peregrinamente bellas e simples, 
não só em quanto ás palavras, mas até pela com- 
posição da musica. São geralmente expressão de 
algum sentimento amoroso, terno ou melancholico, 
de desepêro ou esperança, e seu effeito é tal 
que, quando bem acompanhadas da guitarra, che- 
gam a arrancar lagrimas dos ouvintes apesar de 
acostumados á sua frequente repetição,» (Portugal 
illustrated,) 

Stafford, na History of Music publicada em 1830, 
chega a afifirmar que esta forma melódica prestava- 
se á creação da Musica nacional portugueza: «O 
povo portuguez possue um grande numero de Can- 
ções lindissimas e de grande antiguidade. Estas 
Canções nacionaes são os Lunduns e as Modinhas, 
Em nada se parecem com as das outras nações ; a 
modulação é absolutamente original. E' para sentir 
que os compositores portuguezes abandonem o es- 
tylo da sua musica/ nacional, para adoptarem a ma- 
neira italiana.» De facto os compositores portugue- 



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47^ Historia da poesia 

zes, como Marcos Portugal e Leal de Moreira, José 
Maurício e Sousa Carvalho, escreveram sob a in- 
fluencia exclusiva da Ária italiana. A originalidade 
da Modinha era conservada no typo brasileiro, ge- 
neralisado na corte de D. Maria i e continuado 
em todo o primeiro quartel do século xix. O satí- 
rico Tolentino desenha-nos essa obsessão das Modi- 
nhas brasileiras: 

Já d'entre as verdes murteiras, 
Em suavíssimos acentos 
Com segundas e primeiras, 
Sobem nas azas dos ventos 
As Modinhas brasileiras. 



Cantando a vulgar Modinha^ 
Que é a dominante agora . . . 



(Ob., p. 250, e 240.) 

Este problema da Modinha brasileira explica-se 
pelo aspecto ethnico e tradicional. 

Paliando da evolução da musica no Brasil, Costa 
Gondim determina os vários elementos ethnicos, que 
tendem a integrar-se em uma tonalidade nacional : 
cA primeira colónia, os portuguezes, estabeleceram - 
se na Bahia, Rio de Janeiro, etc, a segunda, os 
hespanhoes, no sul do Brasil; a terceira, os hollan- 
deses, em Pernambuco; a quarta, os francezes, no 
Maranhão, etc. 

«Cada qual exercendo influencia sobre seus ha- 
bitantes, vulgarisando suas Canções em estylos dif- 
ferentes. Os Jesuitas, como meio de facilitar a ca- 
techese, modificavam as melodias indigenas, perden- 
do-se assim o cunho primitivo ; os africanos, final- 
mente, vinham fazer coro com suas cantigas rudes. 
Tudo isto deu em resultado ter-se em cada Ca- 
pitania uma musica de estylo differente, conforme 



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POPULAR PORTUGUEZA 479 

a eschola a que estavam filiadas as colónias das 
diversas nacionalidades. 

cNo sul, predominava o elemento hespatihol, e 
por isso vulgarisaram se alli as Segutdilhas, Toadi- 
Ihas, Boleros, etc, verdadera musica popular d'esse 
povo. 

cNa Bahia, capital da Colónia, dominava o ele- 
mento portuguez com o Fado, Tyrana, etc, e assim 
por diante.» (ín Centenário, p. 313.) 

Costa Gondim mostrando como o brasileiro é 
.uma mestiçagem integrando os elementos europeus, 
africanos e indigenas, mostra, que a musica popu- 
lar é uma resultante das melodias syncretisadas pe- 
los dilíerente3 grupos de emigrantes, prevalecendo 
o elemento mais numeroso e persistente, — o por- 
tuguez, modificado no sentido de uma maior es- 
thesia. Este o caracter nacionalista. * 

Pelo aspecto tradicional, a Modinha é uma inte- 
gração de elementos anteriores ao século xvii, e 



^ ^ Tratando do livro Os ScrtÕet^ de Emclides da Cunha, escreve 
Campos de Novaes : «Onde estamos de accord) é no capitulo sobre 
as raças cruzadas do Brasil. = Não ha typo anthropologico brasi- 
leiro. = 

«Não pode existir em quatro séculos de historia, uma distincção 
de variedade bem caracterisada como resultante das três grandes 
divisões das raças humanas, que vieram mesclar- se em graduações 
tão varias, que a selecção não pode operar nem com uniformidade, 
nem com intensidade egual e permanente sobre o nosso imrnenso 
Brasil. 

«Se diluíssemos sobrepostas as três cores fundameataes de um 
iris, e retratássemos as três raças, a branca, a americana e a negra, 
verificaríamos desde logo quantas graduações imperceptíveis haveria 
sobre o mappa do Brasil. 

«O branco predominante no Sul, o negroide m^is intenso na Bahia, 
e no centro do continente o dominio intacto dos indígenas. 1» (Revis- 
ta do Centro de Seiencias Lettras e Artes, p. 50, n.° 2.) 



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48o HISTORIA DA POESIA 



uma forma estacionaria em relação á Ária italia- 
na desenvolvida pela Eschola de Nápoles n'esse 
mesmo século. Os gráos da evolução começam na 
Canção popular, que na Edade média recebeu 
a forma cortezã dos Trovadores na Canção e Ba- 
lada\ é esta que se torna musical no século xv 
na Monodia, e que a Itália leva á perfeição da 
Canzone ad una você, que em Portugal era o Sa- 
lão, N'esta forma monophona é que se propaga 
no Brasil principalmente sob o influxo jesuitico, 
mas a influencia hollandeza desenvolve-a pela po- 
lyphonia, como observa Torchi em relação aos 
Madrigaes. Os Motetistas deram toda a plena es- 
tructura á Ária na sua expressão dramática, que 
se tornou exclusiva das Cortes; só longe d'estes 
centras do gosto e novidade, é que como forma 
archaica se podia conservar a Modinha, como no 
Brasil colonial, com os rythmos das dansas de ele- 
mento africano, como Bahia e Rio de Janeiro, 
com os melismos hespanhoes das seguidilhas, to- 
nadilhas e boleros do sul do Brasil, e com as re- 
miniscências das chacones francezas do Maranhão. 
Pelas profundas reminiscências das tradições lyricas 
e melódicas portuguezas, a Modinha voltava ao 
seu foco nativo, e tornou-se um delírio na socie- 
dade portugueza do século xviii,- acabando por 
abastardar-se na imitação italiana, e separando-se 
a Poesia da Melodia, na improvisação de Glosas 
sobre os Motes dos Outeiros poéticos. 

B) Canção narrativa. — O Romance castelhano 
que no século xvii decahira na idealisação de ban- 
didos e guapos, só conservou a sua ingenuidade 
tradicional entre as famílias que se achavam ausen- 
tes de Portugal, principalmente os Judeos. O Ca- 
valheiro de Oliveira colligiu e no seu exemplar da 



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X 



POPULAR PORTUGUEZA 48 1 

Bibliotheca lusitana transcreveu: c muitas coplas^ ro* 
tnances e trovas antigas, e até prophecias de Ban- 
darra, fielmente conservadas, affirmava elle, de Ma- 
nuscriptos antigos, que tivera em seu poder na Hol- 
landa e em Portugal, franqueados pelos Judeus por- 
tuguezes das famílias emigradas . . . > Garrett, que 
examinou este exem{5lar da Bibliotheca lusitanay diz 
que d'elle transcreveu «umas cincoentas e tantas pe- 
ças, delias anonymas e verdadeiramente tradicio- 
naes . . . pelo que alli achei em portuguez, e mani- 
festamente antigo e da respectiva época, as quaes 
só andam impressas em castelhano.» O facto attri- 
buido ao Cavalheiro de Oliveira confirma-se por 
um paragrapho de uma carta da Sociedade acadé- 
mica Esperanza dos Estudantes israelitas de Vien- 
na, de 5 de abril de 1904; ahi se lê: «Os no- 
mes de Sevilha, Granada e outros que ouve, ver- 
bos intelligiveis que elles ouviam em sua meninice 
dos doces Romances e velhas Canções no puro 
idioma hespanhol, com cujas ternas melodias os 
adormeciam suas avós nos braços, trazem lhe do- 
ces recordações d aquelles tempos. Somente estes 
Romances e Canções são as nossas recordações 
de Hespanha, e o puro idioma hespanhol, em que 
estão também, por desgraça no caminho de se 
obliterarm.» * 

A degradação da poesia popular é uma caracte- 
rística do século xviii em Portugal. A Vida do fa- 
çanhoso Roldão apparece em 1790 tratada em du- 
zentas e onze quadras, sem o minimo vislumbre do 
antigo espirito épico. Em algumas quadras invocam - 
se os elementos populares mais rudes para se inte- 
ressarem pelo heroe : 



^ Nas Dominicales^ n.® 169 (anno 17) Malrid. 



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482 HISTORIA DA POESIA 



E VÓS oi:tras que vendeis 
As ades bem depennadas, 
Lançae de ilharga a beatilha, 
Ouvi, ficareis pasmadas. 

Também vós, oh gente adusta 
Lá d'essa Costa da Mma, 
Deponde a ora a canastra, 
Deixae a vossa mofina. 

Vós calejados gallegos, 
Que gemeis debaixo ao jugo, 
Vós, esfolas, vós, e vós 
Que sois da gente o refugo; 

Vós, que vestis melandráos 
(Illustres gatos-pingados) 
Depondo os vossos defunctos, 
Ficareis resuscitados. 

Ouvi, ouvi todos juntos. 
Professores, aprendizes 
D'alfaiates, sapateiros^ 
E dos que vendem raízes, etc. 

Eram d*esta ralé os . que ainda achavam encan- 
to em trovas. Os nomes dos heroes carlingios ti- 
nham-se tornado adjectivos affrontosos : Roldão era 
o valentão arruaceiro, Valdevinos o tunante va- 
dio, Ferrabraz o covarde roncador, dado a bra« 
vatas. 

No Folheto diambas Lisboas, citam-se as leituras 
ínais populares: «alli traz á memoria a Historia de 
Valdeifinos, a morte da Emperatriz Porcina^ e 
cada jarreta d'aquelles (o Adro do Monte, Ribeira 
das Náos, Cães da Pedra) quando repete aquellas 
tristes tragedias deita tamanha lagrima como punho^ 
sem advertirem os tolos que aquillo passou ha mui- 
to tempo, e pode ser que seja mentira. Alli se mur- 
mura da Malicia das Mulheres, dão-se Conselhos 



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POPULAR PORTUGUEZA 483 

para bem casar ^ e até querem Barca do Infer- 
no .,, ^ fN.° 2.) «Canta lindamente pela solfa do 
Tyranno amor aquella delicada Xácara, que lemos 
tantas vezes no Auto da Emperatriz Porcina ...» 
(N. 25.) 

Link, na Viagem em Portugal, (t. ii, p. 201) 
refere-se também a estas Leituras populares : « Um 
romance apreciado entre o povo e as pessoas cul- 
tivadas é a Historia de Carlos Magno ou dos 
Doze Pares de França, de que se fazem diaria- 
mente novas edições. Por toda a parte vêem-se 
retratos dos Doze Pares entre as estampas que 
se vendem pelas ruas ás crianças ; ahi apparecem 
as formosíssimas Floripes, o gigante Ferrabrdz, o 
Duque de Borgonha, Rinaldo, e todos os outros 
personagens da antiga Cavalleria.» Filinto Elysio 
também descreve essas leituras : 

D Carlos Magno o folheado livro, 
Co's Do:{e Pares de esforçado pulso, 
Pariu mais valentões a nossa Elysia. 

(Obr. I, 148.) 

C) Dansas. — Sobre as Dansas populares do sé- 
culo xviii escreve Pinto de Carvalho (Tinop) : cre- 
sentiam-se de seu caracter extremamente sensual e 
desenvolto,» e exemplifica: «Taes eram a Fofa, o 
Outavado, o Fandango, as Cheganças ás três pan- 
cadas, o Cumbé, o Batuque, a Arrepia, a Comporta,. 
o Lundun, que as dansavam acompanhadas de gui- 
tarra ou bandolim : 

«As Cheganças foram prohibidas, conforme se 
deprehende dos seguintes versos, correntes no tempo 
de elrei D. José : 

Já se não cantam Cheganças^ 
Que não quer o nosso rei, 



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4^4 HISTORIA DA POESIA 



Por que lhe diz Frei Gaspar, 
Que é cousa contra a lei. 

Meninas bonitas, 
Moças com fitas, 
Casquilhos e Âbbades, 
Chorae, chorae, chorae, 
Acabou se, já lá váe. 

(Mss. pamb.^ n. 131, fl. 9S) 

«O Lundun ou Lundu era uma dansa obscena 
dos pretos congolezos, importada no Brasil e em 
Portugal, dansa em que os dansarinos se boleavam 
num requebrar de quadris de uma nervosidade sen- 
sual, em movimentos cynicos do rins, em brejeiros 
arabescos corpóreos. (Compara o com a Dansa do 
ventre,) O Lundun chorado attingia o cumulo da 
indecencia, o sublime do canalhismo, o que jamais 
impediu que o bailassem nas salas de primor. To- 
lentino, satirista impenitente, motejava assim uma 
bailante de Lunduu: 

Se Mareia se bambolea 
N*este innocente exercicio, 
Se os quadris saracotêa. 
Quem sabe se traz cilicio, 
E por virtude o menêa ? * 

Em bandolim marchetado 
Os ligeiros dedos promptos, 
Loiío peralta adamado 
Foi depois tocar por pontos 
O doce Lundun chorado. 

Na Viagem de Dellon, em que relata os seus 



l Historia do Fadoy p. 5. 



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POPULAR PORTUGUEZA 485 

soffrimento na Inquisição de Goa, falia das dansas 
hieráticas : « Nas festas mais solemnes, depois de 
acabar o serviço divino, fazem vir para dentro da 
egreja mulheres ricamente enfeitadas, as quaes, na 
presença do Santíssimo Sacramento, quç fica ex- 
posto, dansam ao som de guitarras e de castanholas^ 
cantam Modinhas profanas, tomam mil posturas 
indecentes e impudicas, que mais conviriam para 
logares públicos que para fegrejas, que são casa de 
oração. » 

A este trecho accrescentou Bernardes Branco : 
«Não se passaram ainda muitos annos, que taes 
dansas impudicas e lascivas foram prohibidas dentro 
da sé do Porto, por occasião da festa de S. Gon- 
çalo, chamada a Festas das Regateiras,T» (Fort, e 
os Estr,, I, 295. 1876.) 

Na Deseription de la Ville de Lisbonne, de 1738, 
também se lê : «Os velhos e pessoas achacadas têm 
uma singular devoção a S. Gonçalo, portuguez de 
nação, que está no convento dos Dominicanos, na 
praça do Rocio. No dia da sua festa fazem alli 
siuxs dansas, bailando e cantando : 

Quem com o Santo quizer sarar, 
Ao Santo hade bailar.» 

Filinto Elysio espalhou em notas pelas suas Obras 
muitas reminiscências da poesia popular com que 
fora creado na infância. Descreve o costume jesuí- 
tico do Padre Doutrineiro, que á imitação do Pen- 
dão da Santa Doutrina do século xvi, ajuntava as 
crianças ao largo do Pelourinho, e alH fazia dizer 
orações dando uma venera de latão ao rapaz mais 
espivitado. Descreve-nos a Charola da Ajuda, que 
pela qbaresma ia pelas ruas de Lisboa dar descan- 
tes ao divino : «por detraz e por diante muito al- 
deão berrando certa lenga-lenga devota ; e pedindo 

Poes. popul. — Vol. II 3i 



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. 4^ HISTORIA DA POESIA 

muita esmola, que espalhadas pelas mãos e algibei- 
ras dos cantores e mais matula . . . iam diminuindo 
pelas baiucas até chegar á Ajuda. . .,» (Ob., V, 403.) 
Era verdadeiramente uma dansa hierática popular 
independente da disciplina litúrgica. 

No seu Vocabulário descreve Bluteau o costume 
popular da Charola de rapazes: «Era um andorsi- 
nho coberto com papel ou papelão a modo de arco 
ou abobada com seus varaes atravessados, em què 
lhe pegavam os rapazes, e com elle andavam can- 
tando pela Quaresma cantigas da Paixão, porque 
levavam na charola imagensinhas de barro da pai- 
xão de Christo. Tirou-se o uso d esta devoção pue- 
ril, porque ás vezes se ajuntavam outros para lhe 
arrombarem a Charola, e com isto jogavam muitas 
pancadas e sahiam muitos feridos.» A Charola, se- 
gundo Nodier, derivava da baixa latinidade choreola, 
nas línguas britonicas Carol; no velho francez Ca- 
role empregava-se no sentido de dansa, o que con- 
diz com a marcha processional infantil na sua de- 
gradação tradicional. 

As Orações populares, que tanto tinham sido 
combatidas nos índices Expurgatorios do século xvi, 
ainda eram no século xviii uma exploração dos ce- 
gos; lê-se no entremez dos Cegos enganados : 

Mandem-me rezar, senhores, 
A Oração de Santo Anselmo^, . . 
A de Santo Nicodemus . . . 
A de San Bartholomeu 
Que tem por uma cadeia 
Preso todos os diabos. 

Filinto em uma nota da versão das Faòulas de 
Lafontaine allude a este género de OraçOes : «Esta 
passagem me recorda certa Cantiga de singela devo- 
ção, que ha mais de cincoenta annos ouvi cantar: 



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POPUIJIR PORTUGUEZA 487 

San Gonçalo d' Amarante 
Feito de páo de amieiro, 
Irmão doestes meus tamancos, 
' Criado no meu lameiro . . . 

(liaò., p. 546.) 

Filinto descreve o costume dos Presépios popu- 
lares, e especialmente o celebre Presépio da Mou- 
raria : 

Lendo as Lôas^ que no Natal divino 
Em tempos mais singelos que os de agora, 
Diante de Presépios mui vistosos 
Representámos já. E eu fui um d'esses 
Que no Auto dos Pastores^ e em mais outros 
Fiz meu papel a gosto dos visinhos. 

(Obr., IV, 236.) 

Quanto me não lepnbrei da Mouraria, 
De seu nobre Presépio divertido 
Quando Luzbel com San Miguel dansava 
Uma briga, ao compasso do (Janario, 

E descreve esta dansa das Canárias: t Era um Ou- 
tavado mui repinicado na viola, e dansando com 
muitas posturas difficeis e de muita gravidade.» 
Ahi n'esse Presépio, depois da Creação do Mundo : 
€o que é o que não vinha ? vinha a Dansa dos 
Galleguinhos, vinha a Grade das Freiras com o 
Doutor Estevão Siringa...» (Ib., t xi, 91,) 

Na Relação das festas que fez o Senado de Lis- 
boa pela coroação do rei D. José I, (1752J descrê* 
vem-se as dansas que precederam a tourada: «deu- 
se principio ás dansas, sendo a primeira a das Ci- 
ganas, que bailaram ao som de uma viola a sua 
costumada xdcara\ vestiam de encarnado, roupi- 
nhas de chita e toucas brancas ; segue se a estas a 
das Regateiras, vestidas de preto, com arcos de 
flores, coníi os quaes faziam intrincadas voltas, sem 



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488 HISTORIA DA POESIA 



que nellas perdessem nunca a ordem com que vi- 
nham; era a terceira dansa a das Collarejas, que 
pela mesma ordem e com os mesmos arcos, ao 
som de clarins executaram com toda a perfeição, 
dando comtudo o melhor logar ás do Terreiro, 
que neste dia excederam a todas; vestiam de gala, 
conforme a estação do anno que representavam. 
Segue-se a esta outra dansa de Pretos, vestidos ao 
modo da America, e representando a nudez com 
que andam nas suas terras, armados de arco e 
flecha, que ao compasso do baile despediam uns 
contra os outros ; a esta se segue a outra de Gcd- 
/^^^í, bailando ao som da gaita, vestidos de bran- 
co, calções encarnados, etc.» 

Na Viagem de Richard Twiss em Portugal e 
Hespanha em 1772 e 1773, vêm apontadas algu- 
mas dansas populares : «Foi em Mafra, que tive o 
prazer de vêr dansar o Fanaango. Foi n*uma tasca, 
sendo dansado pelo dono da tasca com sua mulher, 
e com acompanhamento de uma guitarra. O toca- 
dor dedilhava varias cordas juntamente, a três tem- 
pos, e batia com a mão o compasso no instrumen- 
to. O Fandango, que se dansa aos pares, parece-se 
muito com o que os hollandeses chamam plugge 
dansen, Apparentemente estes povos adoptaram 
esta dansa, bem como outros usos no tempo em 
que se achavam debaixo da dominação dos hespa- 
nhoes. Os dansantes estão num movimento geral 
com todo o corpo, e todos os membros, algumas 
vezes até indecentemente ; marcam o compasso 
com o pé e com castanholas. Havendo falta d'este 
instrumento, marca-se a cadencia com estalos dos 
dedos. O homem tem o chapéo posto na cabeça, 
e dansa com uma dama chegando-se e apartando- 
se, e fazendo numerosas reviravoltas e requebros. 
Dansa-se o Fandango no theatro com muita arte : 



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POPULAR PORTUGUEZA 489 

tola a orchestra toca a musica, que é a mesma, 
quasi por toda a parte. Depois que o meu estala- 
jadeiro e sua mulher acabaram de dansar, corren- 
do lhe o suor em bica, um outro par os substituiu, 
e tendo se a casa num instante enchido da melhor 
gente da villa, que dansou successivamente, fiz as 
despezas do bai!e ...» , 

No livro Voyage en Portugal, de Desoteaux, ba- 
rão de Cormartin (sob o pseudonymo de Duc de 
Chatelet), fallando-se das festas da coroação de D. 
Maria i, em 1778, lê-se: «O povo corria por aqui 
e por allí cantando e dansando a Fofa, espécie de 
dansa nacional, que se executa aos pares com 
acompanhamento de uma guitarra ou de qualquer 
outro instrumento ; dansa lasciva a tal ponto, que 
o pudor cora ao ser testemunha delia, e não ou- 
saria eu descrevel-a. > Vê-se que é uma espécie de 
Fado, de que aquella seria a designação mais anti- 
ga e menos local. 

Nos divertimentos officiaes, no fim do século xviii, 
as Dansas tornamse agonisticas e dramáticas. Trans- 
creveremos da Gazeta de Lisboa, algumas corre-i 
spondencias curiosas para o conhecimento dos cos- 
tumes populares relacionados com a sua poesia: 

€ Chaves, 12 de Septembro (1757.) 

€ Querendo os moradores e as tropas desta Pro- 
vincia trasmontana mostrar-se gratos á benignidade 
e ao amor com que os trata o 111."** e Ex.™** Con- 
de de Coculim, seu General, determinaram festejar- 
Ihe o anniversario do seu nascimento, o que exe- 
cutaram por tempo de 9 dias, que principiaram no 
I.** deste mez. Nos quatro primeiros dias, houve 
Comedias publicas ; nos dois seguintes, Cavalhadas ; 
no sete e oito Sortilha^ e no nono, um Combate 
militar. Fabricou-se uma Ponte de madeira sobre 



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49^ HISTORIA DA POESIA 

O rio Tâmega. Erigiu-se na margem do mesmo rio, 
no sitio que chamam Tasolado hum Forte também 
dô madeira. Fingiram-se dous Partidos, hum de 
Christãos, outro de Mouros. Os primeiros intenta- 
ram ganharão Forte, que os segundos defendiam, 
e para embaraçar o passo ao exercito christão fize- 
ram uma trincheira guarnecida de artilheria. Fazia 
a figura do Rei dos Christãos o Sargento-mór dos 
Dragões Franciscp Innocencio de Sousa Coutinho, 
commandando as tropas do seu exercito o Sargen- 
to-mór da Cavalleria D. Francisco José de Sousa 
Machado. Representava o Rei Mouro o Capitão dos 
Granadeiros da Infantaria D. Salvador Alvares Fer- 
reira. Praticou se n'este exercito todo o primor da 
arte militar, servindose todos de toda a sua acti- 
vidade e sciencia para desempenharem como de- 
viam as acções que representavam. Passavam de 
i8$ pessoas as que concorreram a este acto, por 
que não só d' esta Província, mas ainda da do Mi- 
nho, e do Reino de Galliza vieram as mais dis- 
tinctas; para commodo das quaes se fabricaram 
barracas e palanques em grande numero na margem 
do rio Tâmega.» (Gazeta de Lisboa, n.° 42; de 20 
de Outubro de 1757.) 

Nas festas pelo casamento da Princeza D. Maria 
com seu tio o Infante D. Pedro, refere-se de Viseu 
em 29 de Agosto de 1760: 

fNo dia 3 de Agosto: Um Combate de Touros 
e algumas dansas joco-sérias. Nos dias 4, 5 e 6, 
Alcanzias, Parelhas; Canas e Sortilha. 

No dia 7. Precedidas de uma Dansa joco-seria. 
Tambores, e Clarins, entraram na Praça 16 Figuras 
ricamente vestidas e montadas em formosos Ca- 
vallos soberbamente ajaezados : Seguiram-se três 
Carros triunfaes, cujo adereço não só era custoso, 



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POPULAR PORTUGUEZA 49 1 

mas elegante, conduzindo i6 Figuras adornadas 
com egual decoro, e bizarria; todas estas Figuras 
formaram na Praça um admirável Baile ao som de 
um exeellente concerto de vozes e de instrumentos. 
No mesmo dia houve segundo combate de Touros»- 
«Nos dias 8 e 9, se repetiram os jogos de Ca- 
valleria, acabando com uma Torre de fogo, e uma 
primorosa Mourisca, etc.» (Gazeta de Lisboa^ de 
i8 de Novembro de 1760.) 

Pelo nascimento do Principe D. José celebraram- 
se em Guimarães grandes festejos: «Levantou-se 
uma fortaleza construída de madeira com a regula- 
ridade de bastiões, e parapeitos, cuja circumferencia 
occupava 46 palmos de terreno, e 20 de elevação, 
guarnecida com 16 peças de artilheria, 4 em cada 
angulo ou baluarte. Defendiam a Torre duzentos e 
tantos Turcos primorosamente vestidos ao uso desta 
belicosa nação, e repartidos pelos quatro Castellos 
que formavam os quatro ângulos da Fortaleza. Pelas 
duas horas da tarde se deu prineipio á expugnacão 
da Praça, e durou o combate até as sete da noi- 
te, observando-se em todos os ataques as melhores 
evoluções militares, e depois de varias chamadas, 
falias e respostas segunde o uso da guerra* e de 
se avançarem os sapeiros e mineiros cobertos com 
mantas e munidos de mais instrumentos de expu- 
gnacão, se fez voar uma mina, que abrindo uma 
grande brecha obrigou os Turcos a renderem-se 
prisioneiros de guerra. Formados os cativos dous e 
deus no centro de quatro soldados, se deram três 
salvas de artilheria e mosqueteria, e um viva mili- 
tar repetindo o augusto nome de Sua Magestade 
e do Sereníssimo Principe nascido. Acabada a ac- 
ção que se executou sem o menor desastre, mar- 
charam as tropas victoriosas com os prisioneiros 
para o largo da Igreja de N. S. da Oliveira a dar 



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49^ HISTORIA DA POESIA 

graças ao Senhor dos Exércitos pelo feliz nasci- 
mento de S. Alteza, etc.» (Gazeia de 6 de Outu- 
bro de 1761.) 

Apezar de muitas dansas hespanholas se usarem 
em Portugal no fim do século xviii, nem por isso 
se estabeleceu a sympathia entre o elemento lusi- 
tano e o tberico, O celebre naturalista Link, na 
sua Viagem em Portugal, (t. ir, 190) fallando da 
falta de traduções de obras castelhanas na Jingua 
portugueza, fez esta natural observação: «por ven- 
tura a aversão naciotial entra n'istp por qualquer 
cousa ; porque è quasi ímpossivel a um portuguez 
prestar louvor a um kespankoLi^ 

Deu-se no século xviii, em Portugal, a completa 
degradação da poesia popular, e um total esqueci- 
mento da tradição, tendo como consequência o 
apagamento da Litteratura nas íórmas convencio- 
naes do arcadismo e a perda do sentimento de 
nacionalidade. Manifestou-se este ultimo phenome- 
no, quando pela invasão napoleonica D. João vi 
fugia diante do exercito faminto e maltrapilho de 
Junot, e a sua deserção era exaltada como um 
triumpho generoso. A obliteração das Tradições é 
o meio empregado para apagar em um povo o 
sentimento da própria independência ; o que fizeram 
os déspotas do século xvm, repete se ainda hoje 
na Rússia, em relação á Polónia : «Tudo o que se 
liga a um pensamento de independência, tudo quan- 
to possa despertar uma recordação da nacionalidade^ 
é severamente punido, i^ (*) 



(») Jiev. des Dtux-Mondes, 1843, vol. n, p. SI. 



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Çoogie 



III 



Regresso ás fontes tradicionaes pelo Romantismo 
(Século XIX) 



O século excepcional, antes de chegar á crise 
violenta da Revolução para reorganisar a sociedade 
politica em bases de justiça, foi abalado pelo sen- 
timento da natureza e pelo presentimento da hu- 
manidade revelada nas manifestações da vida col- 
lectiva, da multidão anonyma, da tradição. Em 
1725 o napolitano Viço appresentava na obra sug- 
gestiva a Sciencia Nova o problema da Descoberta 
do verdadeiro Homero; a grande concepção épica 
attribuida a uma individualidade privilegiada, en- 
trava no dominio das çreações anonymas, era a 
integração dos costumes, das crenças, das paixões 
€ das tradições de Grécia inteira. Restituida esta 
profundidade da inspiração á sua verdadeira origem, 
reconhecia-se implicitamente um povo que se ele- 
vou a esse estado de consciência da sua liberdade 
e independência social. O livro de Viço permane- 
ceu incomprehendido por mais de sessenta annos ; 
mas o gérmen revolucionário lá estava, para surtir 
seu effeito por qualquer circumstancia fortuita. No 
momento em que o povo francez se insurgia contra 
os privilégios abusivos do regimen catholico-feudal 
fundando a ordem moderna na egualdade e na li- 



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494 HISTORIA BA POESIA 

herdade, em 1795 o celebre philologo allemão Fre- 
derico Augusto Wolf nos seus ,ProUgomena ad Ho^ 
merunt desenvolvia a ideia de Viço, Estava este 
sábio elaborando uma edição dos poemas de Ho- 
mero, quando á mocidade allemã, reagindo contra 
a influencia da litteratura franceza e volvendo ao 
exame da litteratura da Inglaterra, ahi se deparou 
com o livro de Wood sobre o Génio original dos 
escriptos de Homero. Herder, Voss e Stolherg de- 
stituíram Homero da individualidade acatada pelas 
academias para o considerarem a expressão senti- 
da, a synthese artistica de uma nacionalidade. Wolf 
suspendeu os trabalhos em que ia para sondar a 
questão homérica; a publicação dos Scholios vene- 
zianos veiu confirmal-o na convicção de que Ho- 
mero nunca tinha existido. Fedrerico Schlegel deu 
interesse e vigor á argumentação, philologica^ fa- 
zendo entrar na corrente das ideias da Europa o 
novo critério e o gosto pela poesia tradicional. 

E' maravilhosa esta concordância : em quanto 
em França o povo na explosão temporal da Revo- 
lução proclamava os Direitos do Homem, a Alle- 
manha iniciava os trabalhos do Romantism.o, resti- 
tuindo ao povo mais culto da Antiguidade a Epo- 
pêa da sua unidade nacional. De facto nas festas 
Pan-hellenicas, as povoações que se congregavam 
davam-se a conhecer pela phrase: cNós falíamos a 
lingua de Homero.» As consequências do novo cri- 
tério philologico foram surprehendentes: Jacob Grímm 
inicia o estudo do Romanceiro hespanhol destacan^ 
do das collecções litterarias a parte mais bella em 
que se conservaram elementos tradicionaes popula- 
res ; Lachmann e Guilherme Grimm estudam a Epo- 
pêa germânica dos Mebelungen nas suas origens scan- 
dinavas ; na Inglaterra investigam-se é discutem-se 
as Cantos gaélicos, procurando-se a realidade do 



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POPULAR PORTUGUEZA 495 

/ 

bardo Ossian; em França começou-se a publicação 
das Epopêas heróicas, as Gestas do século xii e 
xiu, indicada a sua importância em um relatório de 
Edgar Quinet; na Itália, as origens tradicionaes da 
Divina Comedia antes de Dante, conduzem á re- 
lação latente dos germens populares sobre os quaes 
os génios estheticos elaboram as litteraturas. Era 
uma verdadeira renascença do génio popular em 
todos os paizes da Europa. 

A importância esthetica e scientifica da poesia 
popular foi reconhecida por Herder em 1773 nos 
seus estudos em séries de artigos sobre os poemas 
de Ossian, e sobre diversos cantares dos povos 
scandinavos. Pela analyse psychologica d'este phe- 
nomeno, o illustre philosopho fixou logo a base 
fundamental, do problema da Poesia popular: a união 
indissolúvel da palavra versificada e da melodia 
espontânea na Canção, que synthetisa o toin e a 
côry na sua relação com a raça e tradição nacional. 
Herder procedeu á prova na escolha de documen- 
tos poéticos reunidos na Voz dos Povos (Stimen 
der Wolkes) publicados em 1778 e 1779, alargan- 
do as suas vistas até aos poVos meridionaes em 
1806, na versão dos Romances kespanhoes sobre o 
Cid. 

Em Inglaterra começara muito cedo o interesse 
pela poesia popular, com as publicações de Allan 
Ramsay (1724-25), e Pinkerton publica as Scot- 
tish tragic Ballads (1781) e a Selected Scottish Bal- 
lads, embora com mistura de elementos litterarios 
próprios. Walter Scott, apaixonado pelas tradições 
medievaes, tem um grande respeito pelos Cantos 
do povo, e publicando em 1802 a coUecção dos 
Minstrelsy of ScotHsh Border, não deixa de aper- 
feiçoar as versões oraes com as variantes que me- 
lhor lhe completam os seus quadros. O interesse 



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496 HISTORIA DA POESIA 



pelos Cantos populares precedeu o Romantismo, 
que deveu . o seu maior impulso ás revoluções do 
liberalismo. Esta simultaneidade também apparecé 
em Portugal ; o homem que trez vezes emtgfou pelas 
perseguições do governo absolutista, ao iniciar a 
nova época da Litteratura portugueza do Romantis- 
mo, foi também o que achou o veid orgânico da 
tradição nacional representada na Poesia popular. 

§ l.^ — A iniciativa de Garrett, 

A Revolução de 1820 revelou a Garrett, que 
Portugal tinha uma nacionalidade autónoma, sacu- 
dindo o ultrajante protectorado inglez, e formando 
«m uma Constituinte o código da sua liberdade po- 
litica. O poeta arcádico descobriu um ideal — a 
fatria, a que se votou servindo-a, soflfrendo por 
«lia; o exílio, a saudade d'essa pátria, é que lhe 
acordavam as reminiscências da Tradição, dos Can- 
tos populares com que fora embalado na infância. 
Nas agruras do desterro em Inglaterra e em França, 
refugiou-se no pensamento de investigar, de colle- 
gir os Romances populares portuguezes. Garrett 
conta como fora embalado ao som do romance do 
Conde Alarcos pela sua ama Rosa de Lima, e pela 
velha creada Erigida; mas esta revelação espontâ- 
nea do génio nacional ficou bastante tempo apaga- 
da pela pezada erudição clássica do pedagogo hel- 
lenista Joaquim Alves, e por seu tio o bispo D. Fr. 
Alexandre. Depois da queda da Constituição em 
1823, Garrett emigrou para Londres, e voltando 
pouco depois a Portugal, foi expulso pela Intendên- 
cia da Policia em 1824, refugiando-se outra vez em 
Inglaterra. Estavam n'este paiz em grande fervor 
os estudos sobre os Cantos nacionaes. O exemplo 
é um poderoso influxo; Garrett confessa: t Antes 



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POPULAR PORTUGUEZA 497 

que, excitado pelo que via e lia em Inglaterra e 
Allemanha, eu começasse a emprehender n'este 
sentido a rehabilitação do romance nacional, já 
Grittim, Rodd, Depping, Muller p outros vários ti- 
nham publicado importantes trabalhos sobre as tão 
preciosas quam mal estimadas Collecções castelha- 
nas.» (Rom.f I, xm.) Garrett referiase á Stlva de 
Romances viejos, de 1811 ; á Colleccion de Roman- 
ces espanoles recopilados y arregladoSj de Depping 
em 181 7; e á nova edição do Romancero dei Cidy 
de Escobar, feita por D. Juan Muller em 1829. 
Garrett estudou, por mais accessiveis, as collecções 
inglezas, que lhe serviam de modelo, prejudicando-o 
porém no methodo pela interpolação dos retoques 
arbitrários. Eram então vulgares em Londres os 
quatro volumes Old Ballads, publicados por Tho- 
mas Evans em 1780, e os dois volumes Popular 
BalladSy publicados em 1806 por Robert Jamieson. 
Também estudou as collecções de EUis, Percy, e 
Walter Scott, como o confessa : «E tomando por 
modelo as estimadas collecções de Ellis e do bispo 
Percy e a das fronteiras de Escossia por sir Walter 
Scott, comecei a dar mais amplos limites á minha 
compilação, que ao principio intitulara Romanceiro 
portuguez,^ (Rom,,ll,p. xLin.) A collecção de Geor- 
ge Ellis datava já de 181 1, Specims of early En- 
glish metrical romances, chiejiy written during the 
early pari of the fourtheen century, em trez volu- 
mes. Eram recentes, de 1823, os quatro volumes 
do bispo Percy, Reliques, of ancient English Poetryy 
consisting of old heroie ballads, songs, and other 
pieces of our earliest poets, 

A imitação que Garrett fez do processo empre- 
gado por estes colleccionadores levou-o a graves 
erros, taes como refazer em poemas cultos os the- 
mas tradicionaes, como praticou na Adozinda e 



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49^ HISTORIA DA POESIA 



outros poemetos contrafazendo a ingenuidade popu- 
lar, e retocando as versões oraes pela reunião das 
variantes que lhe pareciam mais bellas. Como con- 
demnal-o, se era esse o critério do seu tempo, 'ape- 
sar do respeito que Jacob Grimm impõe no estudo 
das tradições. Em unia carta ao seu amigo Duarte 
Lessa descreve com encanto como veiu a estes es- 
tudos: € Recorri A tradição; estava eu então fora 
de Portugal ; estimulava-me á leitura dos muitos 
ensaios estrangeiros, que n'este género iam appare- 
cendo todos os dias em Inglaterra e França, mas 
principalmente na Allemanha. Uma estimável e jo- 
ven senhora de minha particular amisade ... foi 
quem se incumbiu de me procurar em Portugal al- 
gumas copias de Xácaras, e Lendas populares. * 
Depois de muitos trabalhos e indagações de confe- 
rir e de estudar, muita copia barbara, que a gran- 
de custo se arrancou á ignorância e acanhamento 
de amas-seccas e lavadeiras e saloias velhas, hcije 
principaes depositarias desta archeologia nacional . . . 
alguma cousa se pôde obter, informe e mutilada 
pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; 
mas emfim, era alguma cousa, e forçoso foi con- 
tentar-me com o pouco que me davam e que tanto 
custou. Assim conj^egui umas quinse rhapsodias, ou 
mais propriamente, fragmentos de romaftces e xá- 
caras que em geral são visivelmente do mesmo es- 
tylo, mas de conhecida dififerença em antiguidade, 
todavia remotissima em todos. Comecei a arranjar 



(}) Em 1 824 a coUecçflo formada por Qarrett intitttlava*se Cox- 
cionHro de Romances^ Xacaras e Soldos^ e outros vestígios da antiga 
Poesia nacional — coUigidos, a maior parte da tradicSo oral do povo. 
— No Catalogo dos Autographos (ap. Helena^ p. xxvn) lê-se que 
constava de «50 xacaras ou romances, que fazem parte dos trez 
volumes publicados posteriormente.» 



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POPULAR PORTUGUEZA 499 

e a vestir alguns com que engracei mais ; e para 
lhe dar amostra do modo porque o fiz, adiante co- 
pio um dos mais curiosos (Bernal francez) ainda 
que não dos menoô estropiados e com elle, o re- 
staurado ou composto por mim, o melhor que pude 
e que soube, sem alterar o fundo da historia, con- 
servando quanto era, o tom e estylo de melancho- 
lia e sensibilidade que faz o principal e peculiar 
caracter destas peças. A minha primeira ideia foi 
fazer uma coUecção de romances assim reconstruí- 
dos e ornados com enfeites singelos porém mais 
symetricos da moderna poesia romântica com o ti- 
tulo de Romanceiro português ...» Em uma nota 
a esta triste revelação, aggrava-a: «E' o pensamen- 
to que agora se realisa.» (Rom,, I, p. 15 a 17.) 
Depois que regresou a Portugal em 1826, pela ou- 
torga da Carta, esteve em 1827 preso trez mezes 
no Limoeiro, por que o governo da regência de 
D. Isabel Maria não permittia a manifestação de opi- 
niões politicas, preparando a retrogradação ao ab- 
solutismo. No cárcere do Limoeiro a preoccupação 
dos Cantos populares veiu distrahil-o da solidão e 
do terror. Submetteu ao processo de aperfeiçoa- 
mento o romance popular da Sylvana c obtida em 
Lisboa pelo paciente zelo de uma menina da mi- 
nha amisade, que ia escrevendo no papel o que 
ora lhe cantava ora lhe resava uma criada velha 
da província do Minho, ha muito aqui residente. 
(Rom., I, pag. 99.) cAssim passei muitas horas da 
muita longa e amofinada prisão, suavisando magoas 
e distrahindo pensamentos. Tinha eu começado a 
ageitar outro romance que originalmente se intitula 
Sylvanãy cujo assumpto notável e horrorosso exigia 
summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido 
sem repugnância ou indecencia ...» Dava largas o 
tempo, pedia extensão a natureza dos obstáculos; 



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/ 



Soo t HISTORIA DA POESIA 

O que fôra começado para uma xácara, para uma 
cantiga, ou, como lhe chamam os allemães e in- 
glezes, uma Bailada, saiu um poemeto em quatro 
cantos . . . Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe Adosm- 
da, que sôa melhor e é portuguez mais antigo.» 
(Rotn., I, p. 19.) Garrett presentia o valor da poe- 
sia popular, mas ainda a não respeitava como do- 
cumento humano. 

Em 1828 viu-se forçado a emigrar outra vez 
para Ii^laterra, onde publicou a Adozinda; levara 
comsigo um pecúlio de romances: cEram uns vin- 
te e tantos havidos pela tradição oral do povo, quasi 
todos coUigidos nas drcunwisinhanças àe Lisboa, e 
pela industria de amigos zelozos, e principalmente 
pelo obsequioso cuidado de uma joven senhora mi- 
nha amiga muito do meu coração. Por volta do 
anno seguinte, 1829, os tinha eu pela maior parte 
correctos, annotados e collacionadas as principaes 
das infinitas variantes que todos trazem ...» {Ib,, I, 
p. 10.) N'este trabalho de coordenação commum, 
confiou -lhe outro emigrado, o seu amigo Duarte Las- 
sa, um exemplar da Bibliotheca Lusitana, que perten- 
cera ao Cavalheiro de Oliveira, em cujas margens e 
folhas brancas intercaladas estavam escriptas c mui- 
tas coplas, romances e trovas antigas, e até pro- 
phecias, como as do Bandarra ...» — ce extractan- 
do uma por uma quantas coplas, cantigas e xáca- 
ras achei, completas e incompletas, accrescentei 
assim os meus haveres, com umas cincoenta e tantas 
peças, umas d'ellas anonymas e verdadeiramente 
tradicionaes . .. — Com este auxilio corregi de novo 
muitos dos exemplares que já tinha, e completei 
fragmentos que já desesperava de poder, vir nunca 
a restaurar.» E' n'este processo de aperfeiçoamento, 
que Garrett manifesta o influxo dos colleccionado- 
res inglezes; assim, raro será o romance velho que 



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POPULAR PORTUGUEZA 5oi 

não fosse retocado. Do romance da Bella Infanta 
diz : cNo corrigir do texto, segui, como faço quasi 
sempre, a lição da Beira Baixa, que é a mais se- 
gura.» Do Conde Yano aponta: «E' geralmente sa- 
bido por todo o reino, muito popular, e as varian- 
tes numerosas. Quasi todas as que valiam a pena 
as incorporei ao texto, porque algumas eram com- 
plementares de outras, e muitas acclararam o sen- 
tido e atavam o fio da narrativa.» O romance do 
Conde da Allemanha também foi ageitado: «Colla- 
cionando umas copias com outras e com a lição 
castelhana segundo Deppig e Agustin Duran, apurei 
o que me parece o texto mais legitimo e verosi- 
mil.» No romance de Dom Aleixo, chegou a meter 
versos seus: ^Dom Aleixo é dos romances popula- 
res o que me chegou mais corrupto, interpolado e 
de que menos lições provinciaes pude obter; só 
uns fragmentos da Beira Baixa e de Lisboa. Se 
não fora a copia do Cavalheiro de Oliveira, de 
que me não valho se não em extremos porque lhe 
dou menos fé que ás tradições oraes do povo* ti- 
nha-me sido impossivel restituil-o. Ainda assim al- 
gumas palavras foram por mim conjecturalmente 
substituidas. Taes são na copla que diz:==Ou se 
és alma que anda em pena — Te farei encommen- 
dar,T^ O romance de Bemol francez passou por 
uma elaboração mais artistica: «Vou pôr aqui, re- 
stituido e apurado por largo trabalho de meditação 
e comparação de muitos exemplares, o texto origi- 
nal do Bernal francês, segundo o conservou a tra- 
dição. — A que dou agora, além de revista pelos 
manuscriptos do Cavalheiro de Oliveira, foi aper- 
feiçoada ainda pela collação com as diversas copias 
das provincias do norte, especialmente da Beira 
Baixa, que são em meu entender as mais seguras.» 
O Reginaldo não escapou ao embellezamento : «São 

Poes. popul. — Vol. II 32 



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502 HISTORIA DA POESIA 



infinitas e muito disparatadas as variantes que des- 
prezei na maior parte ao emendar conjecturalmeníe 
o romance.» A Dona Ausenda recompôl-a pelas 
duas. versões da Extremadura e Alemtejo. O de 
Dom Gaifeiros cuja extensão leva a duvidar que o 
povo o repetisse de memoria, foi formado, como 
Garrett o confessa, de uma lição do Cavalheiro de 
Oliveira, e de varias copias de Traz-os-Montes,. 
supprindo a narrativa com a versão castelhana do 
Romancero general de Duran : «Apurei por todas 
ellas o texto como aqui dou . . . 2> O romance da Ko- 
meira: Só pelas duas versões destas procedências 
(Minho e Traz-os-Montes), o tive de apurar, i^ No 
romance da Alhamnha cantado em Traz-os-Montes^ 
umfica as três versões: t aproveitando de todas se 
restituiu o texto como aqui vae.» O texto da Pe- 
regrina, versão oral do Porto, foi completado assim: 
cDas outras provindas só obtive fragmentos muito 
interpolados. Comtudo approveitei bastante d*elles 
para restituir o texto e dar nexo e clareza á nar- 
rativa.» Do. romance da Morena diz: <é vulgar na 
Extremadura e Beira e nas duas provincias do 
Alemtejo. Seguiu-se principalmente o exemplar vin- 
do de Castello Branco, que era o mais amplo; mas 
aproveitou-se de outros troços provinciaes o que foi 
necessário para lhe dar complemento.» O romance 
do Cegador foi formado pela fusão das versões da 
Beira e Traz-os-Montes; o de Dona Guiomar por 
duas versões do Alemtejo e Extremadura; o do 
Cordão de ouro engloba três versões de Traz-os- 
Montes: <é delias se apurou o presente texto.» 
Aconteceu a Garrett por vezes vêr-se embaraçado 
nas suas restaurações, como nos romances do Con- 
de Nilo e Reginaldo, em que agrupara themas de 
outros romances. 

A collecção de Garrett é apezar de tudo de 



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I 



POPULAR PORTUGUEZA 5o3 

uma importância capital, embora suscitasse imitações 
litterarias da poesia do povo, em vez da consulta 
das fontes vivas da tradição oral. São tristes exem- 
plos o Romanceiro de Ignacio Fizarro de Moraes 
Sarmento, que metrificou em redondilhas alguns epi- 
sódios da historia portugueza, e os Soldos de Freire 
de Serpa com quadros banaes da cavalleria andante 
de uma imaginaria Edade média; estes romances 
littçrariamente forjados tornaram-se parte obrigada 
das melopêas dos dramas ultra-romanticos de Men- 
des Leal. 

Os retoques artisticos dados por Garrett aos ro- 
mances tradicionaes portuguezes levaram os criticos 
a uma falsa ideia sobre a sua origem e antiguida- 
de. Para Du Puymaigre a circumstancia de lhe appa- 
recerem os romances portuguezes mais bem metri- 
ficados e dramatisados do que os do Romanceiro 
castelhano, levou-o a julgar que os versos eram re- 
sultado de uma segunda elaboração ou vulgarisação 
mais moderna. Esta errada opinião também segui- 
da por Wolf, (*) repete-se mesmo entre compilado- 



(*) O Romanceiro de Garrett foi estudado em 1856 por Fernando 
Wolf,* comparando a coUecção portugueza com a coUecção contida 
nas Observaciones sobre la Poesia popular de Milá y Fontanals Sobre 
os resultados d'este estudo comparativo diz Morei Fatio : c Depois 
de ter feito notar com muita rasão a analogia flagrante que appre- 
senta o desenvolvimento do poesia £>rtistica em Portugal e na Ca- 
talunha, os textos das duas coUecções permitt-am-lhe estabelecer nu- 
merosas approximações entre as tradições populares dos dois paizes 
e as das outras nações europêas. Assim, como se poderia esperar, 
um grande numero de romances cavalheirescos portuguezes publica- 
dos por Almeida Garrett não s5o originariamente portuguezes, mas 
foram importados da Hespanha em diversas épocas. Entre os 37 ro- 
mances dos dois volumes do Romanceiro^ 14 acham -se nas coUec- 
ções castelhanas.» (Romania, vol. 2, p. 125.) Morei Fatio ignorava 
o problema do lusismo na sua extensão, e persistência em Portugal. 

* Proben portugiesischer und catalani cher Volksromanztn, 



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504 HISTORIA DA POESIA 



res portuguezes: cE' possível que muitas das nossas 
Cantigas nos chegassem cá por intermédio da Hes- 
ponha, como acontece çom os Romances.^ \^) Mas a 
critica europêa veiu a reconhecer um caracter ar- 
chaico na poesia popular portugueza, que a destaca 
da dos mais povos meridionaes ; e as regiões que 
hoje são hespanholas iberisadas foram primitivamente 
lusitanas. Assim o problema^ apparece em um novo 
aspecto. 

Podemos provar que muitos dos romances popu- 
lares portuguezes que apparecem nas collecções cas- 
telhanas mais antigas, como a Silva de vários Ro- 
mances impressa em Saragoça em 1550, e o Can- 
cionèro de Romances, publicado em Anvers n'esse 
mesmo anno, eram já muito vulgarisados em Portu 
gal, antes d'esses dois livros serem dados á estampa 
por Esteban de Najera e Martin Nucio. Nos Autos 
de Gil Vicente representados dé 1502 a 1536, inse 
rem-se romances que só mais tarde appareceram nas 
duas collecções de Saragoça e Anvers. O mesmo 
succede com Camões, Prestes, Chiado, patentean- 
do-se o desleixo que tivemos de não ter sabido 
avaliar e colligir essa riqueza tradicional. Os roman- 
ces portuguezes das versões actuaes são modifica- 
ções dos Romances velhos; é interessante o con- 
fronto das duas épocas, em que o vigor da imagi- 
nação do nosso povo simplificou os quadros das 
collecções castelhanas do século xvi, dando-lhes 
mais vida e colorido. O povo portuguez creou ro- 
mances narrativos sobre acontecimentos que o im- 



Na Siízungharichte der kaiserlichen Akademie der Wissenschften^ 
PhilosopUsch-histarische. Clase xx, Band, i. Heft. Vienna, 1856, 
p. 17 - 168.) 

(1) L. de Vasconcellos, Poesia amorosa do povo portuguez^ p. 40. 



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POPULAR PORTUGUEZA 5o5 

pressionaram, como o da morte do Príncipe D. Af- 
fonso, no fim do século xv, da Batalha de Lepanto 
no século xvi. Versões de romances castelhanos 
que apparecem na tradição portugueza, também se 
encontram em versões populares das Astúrias, da 
Catalunha, da Galliza; porque viriam de Castella 
para Portugal, sendo ininterrupta a antipathia do 
povo portuguez pelo castelhano? Evidentemente a 
affirmativa de Wolf e de Du Puymaigre é vaga- 
bunda, devendo attribuir-se as similaridades a um 
fundo commum peninsular. Garrett entreviu este 
substratum tradicional. O romance da Silvaninha, 
que se canta nas Astúrias, o da Ndo Catharineta, 
que se canta na Catalunha, e o Santa Iria, canta- 
do na Galliza, não se encontram nas collecções cas- 
telhanas. (*) 

O trabalho da formação do Romanceiro de Gar- 
rett merece fixar^e na historia; foi um ideal que 
o alentou nos trances mais angustiosos da sua vida, 
e a revelação do sentimento nacional a que elle 
deu expressão na Litteratura portugueza. Em 1832 
embarcara Garrett do seu exilio para a Ilha Ter- 
ceira, foco da resistência contra o absolutismo san- 
guinário de D. Miguel ; alli encontrou a umas cria- 
das velhas de sua mãe e uma mulata brasileira 
que lhe forneceram copiosos elementos oraes. Ao 
embarcar como soldado na expedição do exercito 
liberal qne entrou no Porto, deixara em Angra todo 
o material até então compilado em poder de sua 
mãe, que lho remetteu passados doisannos: t Des- 
de 1834, que me voltou a Lisboa o milagrosamen- 



(*) O Roviancàro de Garrett, que iniciou na peninsila a investi- 
gafão dos cantos populares, serviu a Amador de los Rios para o 
estudo comparativo dos cantos tradicionaes que colligira nas Astú- 
rias. (Historia de la Literatura esparlola, t. vir, p. 440 e seg.) 



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i 



5o6 HISTORIA DA POESIA 

te escapado Romanceiro, e ainda nâo passei verão 
que lhe não desse algumas das horas descuidadas 
que n'aquella quadra se hão de dar a estas occu- 
pações mais leves ou nenhumas.» (Rom., I, p. xv.) 
No trabalho da colleccionação do Romanceiro ter- 
minado em 1842, Garrett foi coadjuvado por vá- 
rios anonymos que lhe enviavam versões provin- 
ciaes: tE neste outro anno tem-se completado con- 
sideravelmente com as contribuições de muitos ami- 
gos e benevolentes, a alguns dos quaes nem posso 
ter o gosto de agradecer aqui o favor recebido, 
porque incitados pela leitura da Adozinda, me re- 
metteram anonymamente pelo correio o fructo de 
suas colheitas.» (Rom., I, p. xix.) Castilho offere- 
ceu-lhe uma versão do romance Gerinaldo. {}) «Mr. 
Pichon, bem conhecido em Lisboa, que foi ultima- 
mente cônsul írancez no Porto e agora creio que em 
Barcelona, tinha começado a forAar em 1832-1833 
uma pequena collecção de Xdcaras portuguezas^ de 
que também me aproveitei. Mas o incansável col- 
lector a quem mais obrigações devi em Portugal 



(*) Elogiava Garrett por: «raivar da destruição que os ameaça, 
os tradicionaes fragmentos que d'ella (poesia nacional) permaneceu 
por alguma teimosa memoria de velhas de avós, de aias, mormen- 
te pelas cimas e brenhas d'essas provincias mais remotas. 

Sabemos, que já muitas d'estas cantilenas narrativas, desprezadas 
de lettrados por aquillo mesmo que mais as recommenda, que é sua 
muita singelez e gracioso desalinho, têm sido coUigidas pelo nosso 
Auctor, á custa de muitas diligencias e perseverança de largos annos. 
£ boa fortuna foi a nossa de podermos ajudar também a sua collecção 
com o frncto, que de egual empenho haviamoi colhido, já por nós, 
já por nossos amigos, assim nas terias da Beira e Minho, como nas 
do Âlemtejo.» (Rev. Universal lisbonense^ t. i, p. 128; 1841.) 

Garrett não se esqueceu de authentícar estas palavras de Castilho 
confessando no prologo do Romanceiro datado de 1 843 : «respiros 
ajuntados n'esta ceara pelo nosso insigne poeta o sr. A F. de Castilho, 
e que elle teve a bondade de me confiar ...» (p. XIX.) 



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POPULAR PORTUGUEZA Soj 

foi O meu condiscípulo Emygdio Costa, advogado 
n'esta corte e ha pouco falecido, que generosamen- 
te me confiou a sua vasta collecção principalmente 
feita nas duas Beiras, n*aquelle verdadeiro coração 
€ âmago de Portugal que occupa a região d*entre 
Lamego e Serra d'EstrelIa. O sr. Rivara bibliothe- 
cario em Évora, o meu velho amigo o sr. M. Ro- 
drigues d'Abreu, bibliothecario em Braga, o meu 
antigo e fiel companheiro o dr. J. Eloy Nunes 
Cardoso, de Montemor o Novo . . . todos estes ca- 
valheiros me têm ajudado com indicações, livros, 
folhetos antigos e copias laboriosamente escriptas 
sob o dictar dos rústicos depositários das nossas 
tradições populares.» (Rom,, I, xvi a xvm.) 

Em 1842, quando a reacção cartista restabelecia 
o principio da outorga da liberdade em vez da sobe- 
rania nacional, e Portugal ia soffrer os desvarios do 
cabralismo, Garrett dava á publicidade o seu livro 
de ouro da Tradição portugueza no Romanceiro, 
cujo plano era o seguinte : 

«Livro i — Romances de renascença, reconstrucçào 
£ Estudos sobre o antigo. 

Livro 11 — Romances cavalheirescos antigos de 
aventuras, e que não têm referencia d historia ou 
não a tem conhecida, 

Ltvro III — Lendas e Frophecias. 

Livro iv — Romances históricos compostos sobre 
factos ou mythos da Historia portugueza e de outras. 

Livro v — Romances vários, comprehendendo os 
que não são épicos ou narrativos. i> 

Garrett não chegou a realisar todo o seu plano, 
parando no livro segundo, e abandonando a parte 
que abrangeria o Cancioneiro. EUe condemna a 
classificação do Romanceiro de Duran, pelas «sub- 
divisões tão minuciosas que, por muitas demais, con- 
fundem em logar de elucidarem.» (Rom., II, xliv.) 



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5o8 HISTORIA DA POESIA 

Mas Duran classificava dois mil romances, sob as 
duas características : Objectivos e narrativos ^ e Sub- 
jectivos e lyricos, com as difíerentes cambiantes 
ipico4yricos ; e historicamente, appresentava os Ro- 
mances velhos: directamente populares menos alte- 
rados — de procedência tradicional — e jograrescos ; 
Romances antigos popularisados ; artísticos do sécu- 
lo xv ; e Romances novos com vestígios antigos vul- 
garisados; e artísticos, terminando na eschola de 
Lope de Vega no século xvii. As outras divisões 
appresentadas por Duran são fundadas nas modifi- 
cações litterarias dos Romances velhos desde que 
no século xv começaram a ser impressos, até á sua 
degenerescência nos Romances de Guapos do sécu- 
lo XVII. Duran approximava-se da noção dos três 
typos generativos da Canção lyrica, narrada e bai- 
lada, Garrett com o seu grande senso esthetico che 
gou a comprehender estes três typos originários: 
^Romances populares^ Xácaras e Soldos, designa- 
ções que, sinceramente o confesso, não sei ainda 
quadrar bem nas diversas espécies e variedades em 
que se divide o género.» (Rom,^ 2.* ed., prologo.) 
No pequeno estudo que acompanha o Reginaldo^ 
especialisa estas formas: lAcham-se, é verdade, 
estas variadas designações; Romance ou rimance, 
Xácara, Soldo, que parecem indicar espécies, e 
ainda as que parecem ser mais genéricas; mas o 
que ellas sempre designam não é fácil determinal-o 
com segurança.» (Ib,, t. ii, p. 121.) Approximava- 
se gradativamente da comprehensão verdadeira: 
«Nós temos, se não me engano, no género narra- 
tivo popular as três espécies, Romance, Xdearay 
Soldo; no Romance predomina a forma épica, con- 
ta e canta principalmente o poeta; na Xdcara 
prevalece a forma dramática, diz o poeta pouco, 
ás vezes nada, faliam os seus personagens muito; 



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, POPULAR PORTUGUEZA SOQ 

O Soldo é mais plangente e mais lyrico, tem me 
nos dialogo e mais carpir; ás vezes, como no So- 
láo da Ama, em Bernardim Ribeiro, não ha senão 
o lamento de uma só pessoa que vae alludindo a 
certos successos, mas que não os conta.» (Ib,, I, 
155.) Garrett não tirou a luz ethnologica da palavra 
Arama, com que nos Açores se designava o Ro- 
mance narrativo. 

No seu estudo da poesia popular confessa Gar- 
rett que fora também auxiliado por Herculano: tO 
sr. Herculano, bibliothecario da Ajuda, com cuja 
provada amisade me honro tanto quanto a nação 
deve gloriar-se de seus escriptos, também me tem 
ajudado não pouco com os seus preciosos achados 
que no seu incessante labor das ruinas archeologicas 
tem encontrado e repartido commigo.» {Ib,, I, prol.) 
Garrett deveu lhe o sentido social da palavra Ma- 
lado e Maladia, que o conduziria á comprehensão 
do povo Mosarabe, que elaborara as tradições poé- 
ticas e as línguas vulgares simultaneamente. Segun- 
do o elemento popular germânico, Maal era o Couto 
ou Solar, também designado Maladio, e o homem 
que vae ao ajuntamento dos Maal ou Malhom, cha- 
mava-se Malado e Maladto, E' por ventura, depois 
da decadência da população livre da Hespanha 
goda, que sob os Árabes ao protegido ou cliepte 
se deu o nome de Mulladi; assim fica nitidamen- 
te caracterisada a população mosarabe, no seu as- 
pecto dos costumes germânicos e da tolerância 
árabe, que lhe permitiu a revivescência da sua li- 
berdade foral. Nem Garrett nem Herculano tiraram 
as consequências do problema ethnico que entrevi- 
ram. 

Garrett, pelos breves estudos com que acompa- - 
nhava cada romance popular, reconheceu que os 
seus themas se achavam simultaneamente tratados 



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5 IO HISTORIA DA POESIA 

em Hespanha, França meridional, e d*ahi presen- 
tiu que devia existir um fundo tradicional commum, 
cuja unidade não se atrevia a explicar. Os trabalhos 
comparativos, no seu tempo, não se prestavam ain- 
da ps^ra a formação de uma theoria scientifica ; bas- 
ta-lhe a gloria innegavel da primazia da sua intuição. 
Depois d'elle bastantes theorias nasceram, umas 
fundadas na unidade psychologica das impressões 
representadas, outras na unidade de focos ethnologi' 
cos donde irradiaram as tradições. 

Sobre um fundo commum tradicional, explicando 
a similaridade de certos themas poéticos nos povos 
célticos, germânicos e scandinavos, escrevia Gisli 
Brynjulfsson : «Todos os mythos e antigas tradições, 
pelo menos de todos os povos civilisados da Eu- 
ropa, comprehendidos n'este numero tanto os Cel- 
tas como os Germanos, fundam se essencialmente 
sobre uma única e mesma base, que se não deve 
considerar histórica, mas que provém de uma per- 
cepção primitiva do universo commum a todos os 
povos, e talvez de toda a humanidade.» (^) 

Este pensamento é extremamente vago, levando 
á miragem, de que as mesmas impressões recebi- 
das por dififerentes povos suscitam as mesmas repre- 
sentações pittorescas. Embora sejam idênticas no 
homem que pensa as leis lógicas da rasáo, nem 
por isso as ideias são as mesmas no seu seme- 
lhante; o mesmo se dá com as leis psychologicas 
da sensibilidade e da sua expresão esthetica. Po- 
rém, o fundo da semelhança das tradições entre as 



{}) De V Ancien Roman f rançais^ et de Vinfluence exercée sur son 
developpement par les Normands. Trad. de L. S. Borring. nos AU' 
n w da Sociedade dos Antiquários do Norte. (Citação feita por Celso 
át Magalhães.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 5 1 1 

grandes raças provém de um mesmo systema de 
Concepções intellectuaes a que chegaram : assim os 
phenomenos astronómicos e meteorológicos do An- 
no estival e do Anno hibernal, provocaram costu- 
mes na vida social, isymbolisaçôes, festas e figura- 
•ções que determinaram cantos, dansas e narrativas 
poéticas, luctas simuladas, e idealisações épicas a 
par de cerimonias cultuaes. Também o phenomeno 
do Dia e da Noite, com os seus dois maravilhosos 
Crepúsculos matutino e vespertino, suscitou todas 
-essas narrativas dos Contos de Fadas, dos Casos 
da Novellistica, similares a todas as grandes raças. 
As raças organisam se em poderosas nações, os 
progressos actuam nas formas da vida social, e 
embora as Concepções se modifiquem no sentido 
do saber positivo, ainda assim pelo automatismo 
•do Costume, ficam certos actos na existência po- 
pular, que influem na persistência dos themas que 
os representam. 

A intuição genial de Garrett levava- o á mesma 
conclusão de Jacob Grimm sobre a verdade da 
poesia do povo : «Eu tenho mais fé n' esses docu- 
mentos que nos conserva o povo com toda a sua 
ignorância, do que n'esses outros que deixou es- 
criptos a sapiência de letrados. O povo altera, tra- 
iluz, corrompe, mas não inventa.» {Bernal Francez,) 

Nos últimos dez annos da sua vida, de 1843 a 
1853, Garrett occupou se sempre com sympathia 
da Poesia popular portugueza. Neste periodo a na- 
•ção soffreu profundos abalos provocados pela per- 
manente conspiração palaciana, em que o Coburgo 
marido de D. Maria 11, queria com o apoio de 
Leopoldo da Bélgica, e depois do Príncipe Alberto 
de accordo com Palmerston, fazer que o governo 
fosse um instrumento das duas cortes estrangeiras. 
Garrett foi o que mais luctou no parlamenro e na 



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3 12 HISTORIA DA POESIA 



imprensa, nos clubs e na litteratura a favor da digni- 
dade e soberania nacional. Sob as violências ca- 
bralistas em 1843, publicou com o titulo de Ro- 
manceiro e Cancioneiro geral o tomo primeiro da 
sua collecção; somente cm 1851, na crise agitada 
da Regeneração ou accôrdo capcioso de Cartistas 
e Septembristas, é que imprimiu/o segundo e ter- 
ceiro volumes, a que deu o simples titulo de Ro- 
manceiro. Somente em 1853 reimprimiu o primeiro- 
volume, com rrtais outras composições litterarias,. 
alterando o plano primitivo. 

A nação portugueza poderia ser arrastada ao vi- 
lipendio das intervenções armadas . pedidas pela 
rainha, como em 1836 e 1847, ^^is existia uma 
tradição, que era um impulso de vida e de autono- 
mia. Garrett dava relevo a essa tradição, nas for- 
mas dramáticas, nos poemas românticos, nos dis- 
cursos parlamentares ; e essa Tradição revivia como- 
um fogo que se renova. Edgar (^uinet, que paissou 
em 1844 por Portugal, e observara a sua revive- 
scência, notou o contraste com a pressão obscuran- 
tista a que a arrastrava a dynastia restaurada: ca 
renascimento politico fundava-se sobre o renasci- 
mento do próprio espirito portuguez. Neste paiz,. 
que desde dois séculos tinha cessado de pensar, 
uma vida inesperada vibrava em obras inspiradas 
pelo atnor e pela tradição da terra, — Tanto mais 
o povo portuguez aspirava a reviver, quanto o go- 
verno de D. Maria 11 se obstinava a impedir-lhe 
esta resurreição. E' tão bom imperar sobre um povo- 
morto. » 

O processo começado pela violência cartista, con- 
tinuou se pela corrupção systematica da facção rege- 
neradora, em que se foi alastrando essa tendência 
de desnacionalisaçãOy que por longo tempo dissol- 
veu todas as energias da alma portugueza. 



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POPULAR PORTUGUEZA 5l3 



^ 2/ Integração de iodos os trabalhos etknologicos, 

/ Esse collapso da vida nacional depois da inter- 
venção armada estrangeira, provocou em 185 1 um 
accordo momentâneo dos partidos politicos ante as 
emboscadas do paço; mas esSfi alliança de Cartis- 
tas e Septembristas sob o programma de Regene- 
ração em 185 1 foi um embuste dos partidários da 
Carta outorgada, que sob o expediente de reforma 
mantinha a negação do principio da soberania na- 
cional. Lopes de Mendonça no prologo ás Poesias 
de Palmeirim, caracterisa este terrivel momento da 
nossa politica em 1851 : «Este Portugal, mantido e 
conservado pelas classes omnipotentes, não é um 
cadáver illustre é apenas um moribnndo aterrado 
pela ideia da morte, mas sem coragem para se 
abraçar á vida: três séculos de monarchia absoluta 
esgotaram -lhe a gloria; dezesete annos de realeza 
representativa desbarataram-lhe a fé; estas revolu- 
ções parciaes, sem elevados intuitos, sem ideias de- 
finidas, definharam-lhe a esperança, e entregaram- 
Ihe o seu destino á mais horrivel das fatalidades 
— aos acasos tremendos da insurreição popular . . . 
Quem levou o problema politico até estes fataes 
extremos? Quem é que podendo encaminhar a so- 
ciedade pausada e progressivamente, a coUoca no 
fim de tantos annos perto das calamidades de uma 
dissolução iminente? 

fNão íômos nós, de certo, os homens da gera- 
ção nova; que protestamos todos os dias contra 
as torpezas d'essa raça espoliadora e inepta, que, 
no poder ou na opposição, apenas se agita ao pru- 
rido das paixões turbulentas e de interesses perver- 
sos, que havemos de carregar com essa responsabi- 
lidade—somos innocentes de toda a intervenção 
vergonhosa que nos aponta ao escameo da Europa 



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5 14 HISTORIA DA POESIA 

e ao stigma da posteridade. — Todos sois compli- 
ces: progressistas medrosos, conservadores corru- 
ptos, absolutistas scepticos, devoristas insaciáveis.» 
(p. VIII.) Lopes de Mendonça referindo-se a essas 
revoluções de 1837 (revolta dos Marechaes) de 
1842, 1844, 1846, 1847 e 185 1, em que a nação 
cansada se entregou aos partidários da Carta, cos 
devoristas insaciáveis», ainda confia no Arte para 
o resurgimento do génio nacional, como: «protesto 
contra estas vergonhosas especulações e est^ des- 
carada corrupção que se ostenta sem pudor, e sem 
compensação ; desculpa desta tibieza com que te- 
mos supportado os vicios e a infâmia de um regi- 
men tão immoral como absurdo.» (p. xix.) 

Foi sob a degradação do regimen, que succumbiu 
Garrett completamente desalentado, e que á sua 
obra se ia obliterando no intuito do apagamento 
do espirito nacional. As tradições populares, cujo 
estudo iniciara na península, estavam abandonadas, 
emquanto na Europa tomavam um desenvolvimen- 
to scientifico estes estudos. Herculano servira in- 
conscientemente este processo de desnaàonalisação, 
quando baseava a sua Historia de Portugal na ne- 
gação de que o território e o povo portuguez, ti 
vessem relação alguma de continuidade histórica 
com a Lusitânia. Para elle Portugal apparecia no 
século xu como uma nação sem raizes anthropolo- 
gicas e ethnicas. Este estado de negação que do 
mina nos estudos históricos de Oliveira Martins, era 
o que actuava na impotência mental da geração 
académica que em Coimbra provocou a dissolução 
do Romantismo. Éramos então acoimados de visua- 
lidades eruditas, quando no meio dessa dispersão 
critica sustentávamos que tinhamos uma raça, uma 
tradição nacional, e uma civilisação característica. 
Herculano era considerado como o expressão typica 



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POPULAR PORTUGUEZA 5l3 

do génio portuguez, e Garrett apenas era lembrado 
pela ^elegância do estylo ; o influxo de Herculano 
levava as novéis intell«gencias ao desalento no fu- 
turo da pátria, á condemnação apathica do pre- 
sente. 

Para reconhecer o poder constructivo da missão 
de Garrett tomava-se preciso continuar a sua obra. 
Como? Depois da renovação dos géneros litterarios 
do Romantismo, iniciar o exame evolutivo das for- 
mas que predominaram nas épocas medieval e clás- 
sica, fundando a Historia da Litteratura portugueza. 
Para realisar scientificamente esta phase critica do 
romantismo importava determinar as fontes tradi- 
cionaes dos themas elaborados estheticamente nas 
obras litterarias. Foi sob esta relação doutrinaria, 
parte por intuição, parte pela revelação das obras 
primas, que desde 1863 a 1866 nos lançámos na 
investigação da Poesia popular portugueza, aprovei- 
tando as relações pessoaes com a mocidade de 
todas as provincias, que frequentava a Universida- 
de. A publicação dò Cancioneiro e Romanceiro ge- 
ral portuguez, veiu acordar o interesse pela poesia 
popular, máogrado os desdéns, que nos difficulta- 
ram a vida escholar. Encontrámos nos cantos do 
povo vestigios dos velhos symbolos juridicos da 
sociedade mosarabe ; a poesia popular apparecia-nos 
como un\ documento vivo, sincero. Herculano, que 
estudara o que elle chamou raça mosarabe na evo- 
lução dos Municipios ou Concelhos, não soube vêr 
que o municipalismo, em Portugal, na Itália e no 
sul de Franca era um característico social da raça 
ligurica. Os modernos estudos da Anthropologia 
desvendando esta grande raça dos Ligures, como 
anterior aos Celtas, e iniciadora da civilisação pre- 
árica, guiaram Martins Sarmento á completa defi- 
nição do typo lusOy de que o portuguez actual é o 



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5l6 HISTORIA DA POESIA 

representante puro. Sob esta luz nova comprehen- 
deu-se melhor a geographia da Lusitânia, a dos an- 
tigos, como chamava Strabão á região que se es- 
tendia dos Pyrineos a oeste até ao mar. Essa re- 
gião não fora nunca occupada pelas invasões dos 
Celtas ; os Lusitanos não tiveram com elles mestiça- 
gem, como os Celtiberos. E* por isso que Fr. Ewards, 
o fundador da Ethnologia, reconhecera que o povo 
portuguez era um dos menos cruzados da Europa. 
Os excellentes estudos anthropologiços de Martins 
Sarmento sobre Os Lusitanos, e as tradições ligu- 
ricas dos Argonautas, abriram caminho para o es- 
tabelecimento das primitivas relações ethnicas das 
regiões Galecio-Asturo-Lusitana, e Betico-Extreme- 
nha e Algarvia. Pi y Margall, reconhecendo, no seu 
livro das Nacionalidades as condições que deter- 
minavam na região do oeste dos Pyreneos a for- 
mação de uma grande nação, chegara pela visão 
do politico á verdade do facto concreto aífirmado 
por Strabão, que descrevia os Lusitanos como o 
povo maior e mais forte de Hespanha. E este se- 
paratismo de povos municipalistas, que domina nas 
crises históricas da Península, revelou a Henriques 
Nogueira o ideal da Federação dos Estados da 
Hespanha, quando elle em 1847 viu Portugal ver- 
gado por uma intervenção armada estrangeira ante 
o throno de D. Maria 11. A ideia de Federação 
dava uma base racional e histórica á politica por- 
tugueza; também a comprehensão do individualis- 
mo da Raça, fortificava e explicava a autonomia 
ainda hoje persistente entre o luso e o ibérico, 
através das unificações dynasticas. O Municipalismo 
patenteava a causa da vitalidade popular, que se 
elevou á acção histórica pelo génio marítimo, da 
fibra ligurica. Finalmente a Tradição investigada 
com tanta sympathia por Garrett, vinha communi- 



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POPULAR PORTUGUEZa 5 17 

car-nos o sentimento nacional, qne vibrou na crea- 
ção esthetica de uma Litterarura original e bella. 
Mas para fazer a integração de todos estes elemen- ^ 
tos, era necessário alargar a área das investigações 
em todas as provincias de Portugal, e dominios de 
outr'ora, confrontando com os cantos tradicionaes 
de toda a Hespanha ibérica, alargando esse proces- 
so comparativo até á Itália e França meridional. 
Para realisar o vasto programma era imprescindivel 
a contribuição de muitos investigadores, trabalhando 
cada um para si, sem entrevêrem a possibilidade 
de uma systematisação. Desde 1867, em que appa- 
receu o Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez, 
até ao estabelecimento das Sociedades de Foik-Lore 
em Hespanha sob a forte iniciativa de Machado y 
Alvarez, realisaram-se excellentes coUecções de can- 
tos das varias provincias que formaram parte da pri- 
mitiva Lusitânia a dos antigos, tornando hoje um 
facto a manifestação de uma unidade ethnica redi- 
viva. 

a) Continuação da obra de Garrett. — Depois 
dos protestos dos Dissidentes de Coimbra em 1865, 
contra a degradação esthetica do Ultra-Romantismo, 
é que lançámos o prospecto com o fim de obter 
assignaturas para a impressão de trez volumes de 
Estudos sobre a Poesia popular portugueza, cuja 
parte histórica apparecera em artigos do Jornal do 
Commercio de Lisboa. A sinceridade e a raridade 
d*esse prospecto, expõe com nitidez o intuito d'este 
esforço para continuar a obra de Garrett, interrom- 
pida desde 1852: 

«Em toda as Litteraturas se observa hoje uma ten* 
dencia para abandonar os caprichos da creação in- 
dividual, e voltar á natureza a contemplal-a na sua 

Poes. popal. — Vol n 33 



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5l8 HISTORIA DA POESIA 

espontaneidade e frescura nativa. As dores pessoaes 
do Lyrismo moderno vão passando de moda. N*éste 
século de agitação immerjsa e de uma renovação 
profunda, os que se abraçam a lyra a chorar o sce- 
pticismo e o vácuo de sua alma, têm de fugir tiiante 
da risada franca do senso commum. E' por isso quç 
hoje a Poesia popular, filha da inspiração incotí- 
sciente, seduz quasi todos os artistas, que a vão cui- 
dadosamente herborisando por burgos e serranias, 
para encontral-a na sua graça primitiva. Na Itália, 
Marcoaldi, Tommaseo e o cavalheiro Nigra ; na Gre- 
eia o conde de Marcellus e Fauriel ; na França VU- 
lemarqué. Nerval, Francisque Michel ; na Hespanha 
D. Agustin Duran, e Lafuente y Alcântara, têm re- 
colhido os thezouros dispersos da imaginação popu- 
lar. No trabalho de todos estes sinceros mineiros, 
transluz sempre como uma grande verdade, pela fa- 
talidade das creações, a unidade da grande raça 
neo4atina. Em Portugal, pouco ou quasi nada se 
tinha explorado este veio; casualmente se encontra 
uma ou outra cantiga colligida em alguma chronica 
monástica, como a dos Carmelitas, ou em Frei Ber- 
nardo de Brito; foi Garrett quem primeiro com- 
prehendeu entre nós a grande belleza da Poesia po- 
pular. Não admira: tinha assistido no tempo da 
emigração ao grande arruido que lá fora faziam os 
trabalhos de Jacob Grimm, Walter Scott, Percy e 
outros, e veiu entre nós tentar as mesmas investi- 
gações. Ha quem supponha que os romances que 
appresentou não existiam no nos3o povo, que eram 
uma superfetação, traduzidos com habilidade do hes- 
panhol. Era negar a existência da poesia tradicio- 
nal de origem preceltica. Garrett commetteu simples- 
mente o erro de aprimorar os romances do povo, 
o que se explica pelo receio que tinha de lhe não 
acceitarem a descoberta. Hoje appresentamos ao pu- 



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POPULAR PORTUGUEZA SlQ 

blico um trabalho mais completo, feito com aquella 
boa fé de quem vê na Poesia popular um facto 
psychologico, isto é, a natureza em delicto flagrante 
de creação. 

«Durante as digressões por varias provincias de 
Portugal e pelas relações estreitas de amisade com 
alguns contemporâneos da Universidade, chegámos 
a colligir muitos romances e cantigas do povo. De- 
pois de achar o systema de classificação, emprehen- 
dêmos o estudo que forma o volume da Historia 
da Poesia popular portugueza, Compõe-se este livro 
de duas partes. Na primeira investiga os vestigios 
da primitiva poesia popular portugueza, procurando-a 
desde a formação anonyma das línguas romanas, 
através das influencias do cultismo provençal, do con- 
cilio de Trento e dos latinistas ecclesiasticos, até en- 
contrai- a a colorir todos os sentimentos maravilhosos 
da mythologia do nosso povo na Edade média. Ali 
se discute as origens das diversas denominações de 
Romance, Bailada, Xacara, Saldo, Descort, etc, mos- 
trando como muitas vezes da chronica em prosa sa- 
hia o romance já metrificado pela grande facilidade 
de verso octosyllabo. Na segunda parte da Historia 
appresenta os factos d'onde se conclue para a uni- 
dade dos romances populares do Meio Dia da Eu- 
ropa, determinando até que ponto as tradições do 
Cyclo de Carlos Magno e da Tavola Redonda se 
implantaram no nosso povo. Do descuido dos chro- 
nistas, tira muitas vezes os factos, como na Chronica 
de D, João I, de Fernão Lopes, e na Vida do Con- 
deslavel. Este livro não tem precedentes em nenhuma 
litteratura : pôde considerar-se como uma verdadeira 
reconstrucção. 

«No Cancioneiro popular, formado de mais de 
quatro mil cantigas, teve por modelo o excellente 
Cancioneiro hespanhol modernamente publicado por 



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520 HISTORIA DA POESIA 



D. Emilio Lafuente y Alcântara, Compõe-se de can- 
tigas desde o século xu a xvi, com varias secções 
de Cantos das ruas, Fados, Nataes, Prophecias, Apho- 
rismos. 

^O Romanceiro geral consta de sessenta Roman- 
ces, colligidos pelas províncias, principalmente na 
Beira Baixa, riquissima destas tradições, e em Traz 
os Montes. Em notas extensas no fim do volume, 
explica a origem dos differentes romances, procu- 
rando se têm alguma realidade histórica, como vie- 
ram para a tradição popular, que romances seme- 
lhantes* existem nas Litteraturas do Meio Dia, etc. 
O auctor encontrou-se casualmente no systema de 
classificação com o que o sábio Jacob Grimm em- 
pregou na sua Silva de Romances viejos. Mas a 
verdade primeiro que a originalidade.» 

A assignatura dos trez volumes importava em 
i$200 réis. A ob|-a publicou-se em principio de 
1867, quando trabalhávamos no estudo dos Foraes 
para dissertação do nosso doutoramento ; por esta cir- 
cumstancia fortuita viemos a achar as relações vivas 
da tradição poética com os Syriíbolos jurídicos 
das instituições foraleiras da sociedade mosarabe. — 
«nos romances cavalheirescos da velha tradição po- 
pular, vive ainda a memoria de costumes e sym- 
bolismo jurídico derivado do Direito germânico, 
quando do século V ao século xu supplantou o Di- 
reito romano.» {Foraes^ p. xv, 1868.) Ainda não 
estavam bem vulgarisados os três volumes indica- 
dos, quando em carta do dr. João Teixeira Soares, 
datado da ilha de S, Jorge (Açores) em 9 de No- 
vembro de 1867, nos offerecia todos os materíaes 
do Romanceiro popular colligidos n'aquella ilha an- 
tes da morte de Garrett. Em carta de 24 de ja- 
neiro, propunha aquelle eruditíssimo açoríano, que 



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POPULAR PORTUGUEZA 521 

imprimissemos como appenso ao Romanceiro ^ercd 
portugtiez essa parte insulana: «Com isto se facilita- 
ria e estenderia a indagação por todo o Archipelago, 
o que daria em resultado, que os Açores occupariam 
uma parte mui distincta no Romanceiro geral por- 
tugtiez. > 

N'esta mesma carta authentíca o facto em que a 
relação dos estudos tradicionaes com os da Historia 
da Litteratura portugueza estava estabelecida no 
nosso espirito. Desde que obtive que com auxilio 
de assignaturas um livreiro se prestasse á publica- 
ção dos Cantos populares açorianos, começou o dr. 
João Teixeira Soares a enviar-nos os seus cadernos 
manuscriptos. Emquanto preparávamos a coordena- 
ção das versões e o estudo das notas, fizemos cir- 
cular o seguinte prospecto para a assignatura dos 
Cantos populares do Archipelago açoriano: (1868) 

«No meio da triste inanição que ataca a nacio- 
nalidade portugueza, serão sempre bem vindos os 
esforços para despertar o génio d esf e povo. 

«Quando os escriptores de predilecção abusam 
do seu estylo para espalharem o desânimo com 
palavras propheticas, ou corromperem o gosto do 
publico com lisonjas á sua pouca illustração, a única 
missão para o homem sincero está no trabalho 
obscuro de repetir ao povo as Cantigas e Tradições 
de que elle próprio se vae já esquecendo. Por ahi 
deve principiar o renascimento do caracter nacional. 
O sentimento de todos é que somente uma revo- 
lução pôde dissipar o lethargo em que nos achámos. 
E quantas vezes não tirou o povo das suas cantigas, 
das suas tradições, a coragem de que precisava? 
A revolução da França, da Polónia, da Hungria, da 
Grécia moderna, e os nomes de Rouget de L'Isle, 



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/ 



322 HISTORIA DA POESIA 

de Koerner, de Prcetefi, Mickiewick e Cristopulos são 
uma evidente prova. 

«A publicação dos primeiros trez volumes do 
Cancioneiro e Romanceiro geral português, no qual 
collaborou uma grande parte da mocidade doesta 
terra, que vae estudando apesar de não ser feste- 
jada da imprensa, achou um accolhimento entre os 
eruditos da Europa illustrada, em Munich, em Paris 
e em Madrid. Porém, o premio mais glorioso d'a- 
quella empreza foi a offerta dos volumosos cader- 
nos dos Cantos populares das ilhas dos Açores, 
que nos enviou o sr. João Teixeira Soares, da ilha 
de S. Jorge, outrora coUaborador do Romanceiro 
de Garrett ; este tão lido quanto modesto coUector, 
foi interrompido no seu trabalho de colleccionação 
pela noticia da morte do princepe dos modernos 
poetas de Portugal. Acceitámos o thezouro offere- 
cido generosamente com o respeito de Elyseo re- 
cebendo o manto do propheta. Também açoriano, 
a naturalidade e as recordações da infância dão-nos 
o senso intimo para comprehender o Romanceiro e 
Cancioneiro das Ilhas. 

cAs grandes despezas da impressão e o pouco 
interesse do commum dos leitores por obras d'esta 
natureza, fazem recorrer ao expediente da assigna- 
tura. Constará o volume de duas partes: 

«Primeira — Ensaiada de Romances velhos, aonde 
apparecem pela primeira vez vários romances marí- 
timos Ali se acha a historia da Batalha de Lepanto 
em romance. Quevedo allude a muitos romances 
deste successo ; mas esta é a única composição 
popular que existe na peninsula. 

«Segunda parte — Rosal de enamoradost conten- 
do para cima de duas mil cantigas soltas. N'esta 
secção se incluem os Fastos do anno, as Orações 



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POPULAR PORTUGUEZA >23 

do povo, as Parlendas e Jogos^ e os Anexins in- 
sulanos. > 

O dr. Jojé Teixeira Soares em carta de 17 de 
outubro de' 1868, escrevia-nos antes de dar ao prelo 
o material açoriano: «Sobre a publicação do Ro- 
manceiro açoriano permitta-me v. que exponha que 
elle é para v. além de outros motivos, um grande 
motivo de gloria por que é legitimo filho do seu 
Romanceiro geral; sem este, elle nunca veria a sua 
publicação nem cresceria tanto em forças ; e não 
seria também para a nação uma gloria a conserva- 
ção das suas tradições poéticas por uma colónia 
filhíi legitima sua, quando essas tradições se acham 
em boa parte obliteradas e menos bem conserva- 
das na mãe pátria f» 

O estudo da Historia da Litteratura portugueza 
revelou nos as transformações que os Romances po- 
pulares receberam na elaboração artística dos es- 
criptores do século xvi e xvii ; isso nos conduziu 
á compilação desse quadro na Floresta de vários 
Romances com forma liiteraria. Reproduzimos aqui 
o prospecto d'esse trabalho, também publicado por 
assignatura: 

í «Depois de terem sido colligidos os Romances 
e Canções populares de todo o reino, e principal- 
mente consultado a tradição na Beira Baixa, Traz 
os Montes e Ilhas das Açores, ficaria o Cancionei- 
ro e Romanceiro geral por tuguez incompleto se se 
não recompozesse o quadro dos Romances com 
forma litteraria cantados e repetidos no século xvi e 
XVII por Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Jorge Fer- 
reira de Vasconcellos, Balthazar Dias. e outros, 
que entre nós imprimiram no romance a forma 



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5^4 HtSTOfOA DA POESIA 

culta que lhe tinham dado em Hespanha Lo{>e de 
Vega, Juan de la Cueva, Lasso de Ia Vega e Se- 
púlveda. G:,m a aproximação dos romances cuitos 
e romances anonymos, derrama-se inscnsiveimeiite 
uma luz ímmensa sobre a creação poética do povo 
nos fins do século xv. A Floresta €U vários Ro- 
mances está por sua natureza, di\'idida em duas 
partes: A primeira consta dos romances portugue- 
zes coliigídos das obras dos auctores citados. A 
segunda parte contém todos os romances que an- 
dam dispersos pelas numerosas coUecções hespa- 
nholas e que se referem a factos particulares da 
historia de Portugal. Esta secção é altamente curio- 
sa: traz romances a Egas Moniz, Martim de Frei- 
tas, Dom Diniz, Ignez de Castro. D. Maria Telles, 
Alcoforado, Duque de Viseu, morte do príncipe 
D. Afionso, Bernardim Ribeiro, D. Sebastião, ro- 
mances que talvez se perderam na tradição portu- 
gueza, que ainda apresenta mal apagados vestígios, 
como se vê pelo romance á morte do filho de 
D. João n, descoberto na ilha de S. Jorge. 

«Este livro traz um largo estudo sobre as Trans/or- 
mações do Romance popular do seado XVI q XVIII, 
e termina com uma exposição do trabalho da col- 
leccionação e base da classificação empregada no 
plano da obra; termina pois o volume com uma 
espécie de relatório Do espirito e systema do Can- 
cioneiro e Romanceiro geral portuguez.T» 

Em carta de 23 de maio de 1869, escrevia-nos Tei- 
xeira Soares: «Estou ancioso pela apparição da /%?- 
resta de vários Romances^n E em 24 de agosto, es- 
tando já de posse desse livro, escrevia-nos: «A 
introducção é uma pagina brilhante da nossa histo- 
ria litteraria. Estou ancioso por ver a seu auctor 
sahindo deste recanto da nossa historia litteraria, e 
entrado nos extensos e férteis campos delia.» 



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POPULAR PORTUGUEZA 525 

A pedido do editor do Cancioneiro e Romanceiro 
geral por tuguez, redigimos a seguinte noticia avulsa 
d'esses cinco volumes: «Desde 1867 até 1869 en- 
trou em curso de publicação o livro dos Cantos 
populares da nação portugueza ; eis finalmente com- 
pleto o quadro das antigas tradições épicas da 
Edade média, ainda hoje repetidas pelo nosso povo 
com esse colorido do maravilhoso e da aventura 
do génio preceltico. Todas as provincias do reino e 
ilhas dos Açores contribuíram para o monumento 
do Cancioneiro e Romanceiro geral. A Beira Baixa, 
interrogada por differentes collectores, apresentou as 
velhas rhapsodias em um grande estado de perfeição, 
rivalisando com os mais velhos romances hespanhoes, 
€ ás vezes completando-os, como se vê pelo romance 
do Conde Grifos Lombardo; logo depois Traz-os- 
Montes é a mais rica de lendas cavalheirescas, 
introduzindo principalmente em cada romance o 
elemento maravilhoso e do milagre, como se vê no 
romance Justiça de Deus e no do Conde Ninho, O Al- 
garve deu as lendas religiosas dos primeiros séculos 
da monarchia, e as zambras mouriscas, semelhantes 
á aventura do mouro Galvan, A provincia do Minho 
-contribuiu com as lendas piedosas dos santos e da 
hospitalidade. Coimbra, a terra das serenatas e das 
cantigas, deu a mais vasta collecção da Sylva, ver- 
dadeiro colar de pérolas a que o povo prendeu a 
historia dos seus amores. Sobretudo, a genuina poesia 
popular portugueza foi encontrada no estado de in- 
teireza e rudeza primitiva nas ilhas dos Açores ; alli 
a tradição está pura e simples como nos fins do 
século XV, quando começou a reelaboração poética 
do Romanceiro da Península; a linguagem d'elle é 
-esse portuguez archaico do tempo do Cancioneiro 
de Resende ; conserva ainda a designação de Ara- 
rias, que revela o segredo da sua origem mosara- 



^ 



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!>2t) HISTORIA DA POESIA 



be; n'ella se encontram allusões sem numero aos 
costumes jurídicos das Cartas de Foral, por onde se 
determina a época da sua formação, por isso que 
nas ilhas dos Açores nunca existiram Foraes com 
o caracter politico e revolucionário que tiveram no 
século XII e xiii. Todos estes diversos cantos épicos 
da tradição portugueza foram estudadas e compara- 
das com a totalidade dos cantos épicos dos roman- 
ceiros do Meio Dia da Europa, descobrindo se ás 
vezes debaixo da forma novellesca os factos histó- 
ricos que têm passado até hoje como desapercebi- 
dos; acham-se classificados com o maior rigor, ado- 
ptando como base os trabalhos de Jacob Grimm^ 
Lafuente y Alcântara e D. Agustin Duran. 

«No ultimo volume recentemente publicado, a 
Floresta de Romances, se mostra como o romance 
rude do povo foi imitado pelos nossos Quinhentistas 
e Seiscentistas, e como lhe imprimiram uma forma 
culta e litteraria, substituindo aos grandes e pro- 
fundos traços dramáticos a expressão subjectiva e 
um exagerado lyrismo. O quadro termina no prin- 
cipio do século xviii, justamente quando o romance 
caiu outra vez em desuzo, ficando privativamente 
das classes baixas. O Cancioneiro e Romanceiro 
geral portuguez é tão vasto como a gigante coUec- 
ção hespanhola, se attendermos a que n'esta o nu- 
mero de romances anonymos, ou perfeitamente do 
povo, não se eleva a mais de cem, que outros tantos 
repete a tradição portugueza. Este trabalho lento, 
completado com mais de dez annos consecutivos 
de esforços, e com sacrifícios pecuniários, tem en- 
contrado em Vienna, em Paris e em Madrid um 
accolhimento, que compensa o coUector da indiflfe- 
rença que a imprensa e o publico portuguez, por 
malevolencia ou por incapacidade tem manifestado. 
No momento em que um povo se extingue ahi ficam 



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POPULAR PORTUGUEZA 527 

recolhidos os seus cantos ; praza a Deus que o que 
se recolhe como um despojo de ruina seja um iu' 
centivo de renovação,!* 

Esta queixa era proveniente da situação do tra- 
balhador isolado, hostilisado por conflictos doutriná- 
rios de eschola; o incentivo de renovação manifes- 
tou-se acordando a sympathia pela poesia popular 
portugueza. 

Assim como o Romanceiro geral determinara a 
colleccionação e publicação dos Cantos populares do 
Arckipelago açoriano^ este trabalho ia impulsionar 
a publicação do Romanceiro do Algarve \ em feve- 
reiro de 1869 perguntava- nos em carta o dr. Tei- 
xeira Soares: «Que tal é o Romanceiro do Algar- 
ve de Estacio da Veiga, cuja publicação se tem 
annunciado?» Km 1870 publicou Estacio da Veiga 
esta coUecção encetada dez annos antes: «O tes- 
temunho d'esta verdade poderão dar os romances, 
que em 1858, 1859 e 1860 publiquei nos jornaes 
o Futuro e a Nação, e que numerosos jornaes do 
paiz transcreveram com particular accolhimento, sen- 
do ainda ultimamente reproduzidos alguns no- Ro- 
manceiro geral do sr. T. Braga.» O Romanceiro 
do Algarve, que consta de trinta e tinco romances 
tradicionaes, foi aperfeiçoado pelo compilador, que 
formou versões novas com as variantes que encon- 
trava, taes como o de D, Julião, cujas versões 
csimultaneamente cotejadas produziram esta» ; Al- 
mendo, formado de dois romances a Infantina e um 
vestígio do romance do Figueiral; a Ndo Cathe- 
rineta, formada de onze versões «para produzir 
esta,» e ainda amalgamado com o romance de D, 
João de Áustria, Os retoques litterarios reconhe- 
cem-se em versos como este do Cavalleiro da Sil- 
va : «Ditas que eram taes blandícias ...» e no ro- 
mance Ausência: € Amargamente dizia : D'estas praias 



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528 HISTORIA DA POESIA 



arenosas ...» A tradição popular do Algarve foi 
com methodo seguro explorada pelo mallogrado 
Reis Dâmaso, qtie na Encyclopedia republicana de 
1882 publicou uma valiosa coUecção de romances 
antigos de uma extrema pureeza. O trabalho trun- 
cado de Reis Dâmaso, foi de novo encetado pelo 
dr. Athayde Oliveira, que pela sua situação expe- 
cional de Conservador do registo predial em Loulé, 
conseguiu colligir um vasto Romanceiro e Cancio- 
neiro Algarvio, que confiou ao nosso exame, e que 
ainda não encontrou ensejo de vêr a publicidade. 
Ao mesmo influxo se deve a realisação do Ro- 
manceiro do Archipelago da Madeira, pelo dr. Ál- 
varo Rodrigues de Azevedo, que em 17 de abril 
de 1869 nos escrevia: «Deixe-me pois concluir 
dando- lhe um abraço pelo seu precioso trabalho 
que acabo de receber, Cantos populares do Archi- 
pelago açoriano. As notas são um thezoiro de cri- 
tica e erudição. Minha filha mais velha, está-nos 
lendo o livro, mas eu fui-me logo ás notas. > O 
dr. Rodrigues de Azevedo começou, por falta de 
recursos typographicos, a imprimir o Romanceiro em 
um semanário madeirense, aproveitando depois a 
composição para livro, pagando apenas o papel. 
Trabalho extremamente moroso : «E assim, escre- 
ve-nos elle em carta de 2 de abril de 1877, ainda 
que em typo velho e tosca edição, lá vae saindo 
o Romanceiro, quasi sem dispêndio meu.» De cada 
folha ia o sollicito investigador enviando-nos as fo- 
lhas do Romanceiro da Madeira, que acompanha- 
va com curiosissimas cartas explicativas. Em carta 
de 25 de março de 1880, quando estava a termi- 
nar o trabalho, diz-nos que renunciava á publicação 
das notas, e accrescenta : «Em uma das minhas 
cartas anteriores, ousei pedir ao meu bom amigo, 
que me honrasse com algumas paginas suas para 



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POPULAR PORTUGUEZA 529 

pôr á frente do meu livro. Inferi da sua resposta 
que os seus muitos trabalhos lh'o pão consentiriam. 
Metti por isso mãos á obra, como pude e sube. 
Mas, repito, com o maior gosto submetto o que 
fiz ao seu veredicto em tudo e por tudo. — Além 
do Romanceiro tinha colligido o Cancioneiro popU' 
lar d'este Archipelago, em dois tomos, ainda em 
borrão. Considero este como de não menor valor 
que aquelle.» Em outra carta falia da importância 
do Cancioneiro: «Tomo ahi vereda nova, na coor- 
denação, entende-se ; mas ainda assim fundamental, 
por que dá unidade e deducção quasi épica á mul- 
tidão até agora tumultuaria das Cantigas e Trovas 
populares; forma, unicamente por effeito da juxta- 
posição verosimil d'ellas, o poema do sentimemo, 
vida e costumes do povo desde o berço ao thala- 
mo, e desde o thalamo á sepultura. 3 E terminava 
offerecendo-nos o Cancioneiro popular para lhe dar- 
mos publicidade, promessa que infelizmente não che- 
gou a effectuar-se. 

fO dr. João Teixeira Soares em carta de 15 de 
Março de 1881, escrevia-nos : «Folguei com a no- 
ticia da publicação do Romanceiro da Madeira, pro- 
mettido desde 1874. 

«Oxalá porém, que os Romances causem melhor 
impressão do que os trez que o collector então pu- 
blicou em uma nota das Saudades de Fructuoso. 
Pareceramme exhibidos de uma forçada elaboração 
do auctorh E' admirável este tino esthetico do 
dr. Teixeira Soares; na mesma desconfiança ficá- 
mos em relação a extensissimos Contos de fadas em 
verso de redondilha, que se incluíram como popu- 
lares no Rovtanceiro do Archipelago da Madeira, 
bem como casos anedocticos metrificados, taes são 
os contos do Boi bragado, Três cidras do Amor, Rei 
Escuta, metrificados em verso octonario. 



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33o HISTORIA DA POESIA 



Os estudos e investigações sobre a Poesia popu- 
lar brasileira foram também encetados pelo mallo- 
grado e talentoso Celso Magalhães, em 1873 sob o 
influxo do Romanceiro de Garrett e do nosso 6/wf- 
cioneiro e Romanceiro geral portuguez, * Celso Ma- 
galhães colligiu os cantos populares no Maranhão, 
Piauhy, Ceará e Pernambuco. Seguiu-se-lhe Sylvio 
Romero, que formou a collecção dos Cantos popu- 
lares do Brasil, explorando Pernambuco, Sergipe, 
Rio de Janeiro, e ainda Bahia e Alagoas : «Dos es- 
criptos sobre este assumpto de Celso Magalhães, 
José de Alencar, Carlos Koseritz, Carlos Miller e 
Theophilò Braga, o coUector joeirou alguns speci- 
mens da nossa poesia popular.» Para a publicação 
dos Cantos populares do Brasil, concorremos com 
todo o desinteresse, lendo-se no prologo de Sylvio 
Roméro: «Resta-nos apenas agradecer a todos 
aquelles que nos ajudaram n'esta Ímproba tarefa, e 
especialmente aos srs. Theophilò Braga e Carrilho 
Videira, que tão galhardamente se offereceram para 
salvar das traças esta collecção, que foi repellida 
pelos Iktreiros e editores brasileiros com o mesmo 
horror com que se foge da peste.» Além de um 
prologo sobre a Poesia popular do Brasil, accrescen- 
támos-lhe perto de cem paginas de notas comparati- 



1 «O seu trabalho mais saliente, como critica, é indubitavel- 
mente o Estudo sobre a Poesia popular brasileira ... E* de frisar, 
que Celso Magalhães foi quem encetou scíentificamente estas pes* 
quizas no Brasil Snrgiu em 31 de Maio de 1873 na revista O Tra" 
balhoy muito antes por consequência, do sr. Silvio Roméro Na edi- 
ção definitiva das Obras de Celso, appensar-se-ha a este bello es- 
tudo o Cancioneiro por elle catalogado, pertencente ao Maranhão, 
Piauhy, Ceará e Pernambuco. — EstbS cantigas trazem a si^la da 
província a que pertencem. Marginam as com as Canções diversos 
confrontos com os Cancioneiros de Garrett e Theophilò firaga.» 
(Fran-Paxeco, Raspões criticas ^ Pacotilha, n.*> 23. Janeiro 1904.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 53 I 

vas com Cantos populares açorianos inéditos. No 
mesmo espirito demos também publicidade aos Con- 
tos populares do Brasil prefaciados com um estudo 
Sobre a Novellistica brasileira, e um grande numero 
de notas comparativas. 

Seguíamos neste empenho intentando completar 
a unidade ethnica portugueza, desmembrada politi- 
camente em outros Estados autónomos, pondo em 
evidencia as Índoles, manifestadas em unf\a tradição 
poética commum. N'este pensamento publicámos em 
1877 o Parnaso portuguez fnoderno, em que a par 
da nossa poesia nacional appresentamos excerptos 
escolhidos da poesia lyrica da Galliza e do Brasil. A 
publicação dos Cancioneiros trobadorescos portugue- 
zes, patenteando-nos as similaridades com as can- 
ções lyricas populares da Galliza, as MuineiraSy e do 
Brasil nas Modinhas, abria-nos wm mais vasto campo 
de investigação e riqueza de materiaes para funda- 
mentar a unidade ethnica, que pressentíamos. 

Os nossos estudos sobre a Poesia popular da Gal- 
liza fizeram que nos fosse confiado o Cancionero 
popular gallego, coUigido por D. José Pcrez Balles- 
ter, para que o acompanhássemos com uma introduc- 
ção critica. O fundador das numerosas Sociedades 
de Folk-Lore em Hespanha, D. António Machado y 
Alvarez, é que nos indicara para este estudo; e á 
sua influencia é que os cantos populares de Andalusia 
começaram a ser explorados na tradição oral, for- 
necendonos assim materiaes para o reconhecimento 
da unidade ethnica betico-extremenha. Para com- 
pletar a reconstrucção da unidade ethnica galecio- 
•asturiana, publicava em 1885 Menendez Pidal a 
sua preciosa Colleccion de los Romanas viejos, que 
se cantan por los Asturianos. No seu estudo so- 
bre os romances cavalheirescos, dá-nos a honra de 
citar a nossa doutrina sobre a formação da poesia 



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532 HISTORIA DA POESIA 

■ ■ ■■ <» — ' 

popular, considerando a <con una claridad y precision 
incomparables. » (P. 50.) Pelo exame da poesia po- 
pular da Hespanha, reconstituindo a unidade lusi- 
tana pelas regiões Asturo-Galecio-Portugueza, e Ex- 
tremenha-Betico-Algarvia, chegánios á evidencia do 
erro em que laboraram quantos consideraram a poe- 
sia popular portugueza proveniente de uma origem 
castelhana (*); e ao mesmo tempo avançamos ao 
methodo reconstructivo, pela reunião de elementos 
dispersos, como a dansa conservada com a poesia, 
o canto conservado sem a dansa, ou a poesia sim- 
plesmente recitada. A integração destes elementos 
primitivos e syncreticos, levara-nos mais longe ain- 
da, á unidade da poesia popular no occidente da 
Europa ; era um problema, a que se não tinha dado 
uma investigação efhnica; assim pela publicação dos 
Cantos populares da Piemonte, pelo conde Nigra, 
de 1854 a 1860, dos Cantos populares da Breta- 
nha por Villemarqué, Luzel, e pelos da Provença 
por Damase Arbaud, desvendava-se esse fundo an- 
thropologico da raça ligurica ou preceltica, que sub- 
siste no Occidente, com os seus caracteres anthro- 
pologicos e com os seus costumes ethnicos e tra- 
dição persistente. Eram ainda as representações 
mythicas dos Solsticios hibernal e estival, que re- 
viviam nas festas do Natal e de San João, nas 
dansas e nos cantos lyricos das Maias e Reverdies; 
os themas narrativos dos romances denunciam um 
fundo social anterior á civilisação latina. É n'esse 



(i) O romance de Gerinaldo da tradição das Astúrias, também 
muito vuigarisado na Andaluzia, parece- se extremamente com a 
versão portugueza de Traz- os Montes da nossa eollecção de 1867; 
Menendez Pidal nota essa circumstancia, importante para se vêr 
como as lendas germânicas já eram elaboradas na sociedade mosa- 
rabe. (Collec., p. 281.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 533 



fundo que assenta a unidade dos cantos lyricos e 
épicos notada pebs críticos. 

O interesse crescente da investigação da Poesia 
popular na Europa, conduzia a attenção dos estu- 
diosos para os cantos tradicionaes de Portugal. O 
Romanceiro dp Garrett forneceu materiaes, que fo- 
ram logo aproveitados pelo dr. Bellermann, tradu- 
duzindo para allemão nriuitos romances populares no 
volume publicado em Berlin Fortugiesische Volkslie- 
der und Romanzen, de que se fez segunda edição 
em Leipzic em 1864. Em um pequeno estudo de 
Hardung intitulado Portugal na Allemanhay vem cu- 
riosas referencias ao Dr. Bellermann, capellão da 
egreja lutherana em Lisboa por 1840: cEm 1840 
era embaixador da Prússia em Lisboa o conde de 
Fleming, fidalgo illustrado que escolheu para secre- 
tario da legação o sr. von Olfers, grande conhece- 
dor das artes e mais tarde director geral dos Mu- 
seus prussianos, e era intimamente ligado com o 
dr. Bellermam, sacerdote protestante e muito enthu- 
siasta pelo estudo da litteratura portugueza. 

«Acompanhado por estes cavalheiros, o conde 
Fleming fez uma viagem para visitar as principaes 
terras e monumentos do paiz. Acho na correspon- 
dência do Cardeal Saraiva, D. Fr. Francisco de S. 
Luiz, que.. .. em 27 de julho de 1841, o Cardeal 
escreveu a um seu amigo de Coimbra := Dentro 
de poucos dias chegarão a essa cidade com carta 
minha de recommendação para v. s.* o conde de 
Fleming, ministro da Prússia, com o seu secretario 
da legação mr. Olfers, hábil naturalista, e mr. Bel- 
lermam, capellão da egreja lutherana nesta corte, 
os quaes desejam vêr os estabelecimentos da Uni- 
versidade. Foi Silvestre Pinheiro que mos recom- 
mendou, e eu espero que v. s.* lhes faça vêr o que 
elles desejam relativo aos differentes ramos dos di- 

Poes. popul. — Vok II 34 



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534 HISTORIA DA POESIA 



tos estabelecimentos.» A vulgarisação da poesia po- 
pular portugueza alargava-se na Allemanha, no Ro- 
manceiro dos Hespanhóes e Portuguezes (Stuttgart, 
lS6o, de Geibel e A. F. von Schack,) e nas Flores da 
Poesia portugueza (Magdeburgo, 1863) de W. Hoff- 
mann. Quando em 1875, o Dr. Victor Hardung 
veiu a Portugal estudar directamente a lingua e litte- 
ratura portugueza, em carta de 5 de junho de 1815 
escrevia nos : cNão posso concluir os meus estudos 
sobre os Romanceiros sem possuir os Cantos popu- 
lares do Arehipelago açoriano.^ E mostrando a im- 
possibilidade de os adquirir pela sua raridade, ao 
agradecer-nos o exemplar ofiferecido, confessa: «já 
comecei a estudar com muito gosto, surprehenden- 
do-me a riqueza do Romanceiro açoriano.» Em 
1877 o dr. Hardung publipava na casa Brockhaus^ 
em Leipzig em dois volumes o Romanceiro portu- 
guez coordenado, annotado e acompanhado de uma 
introducção e de um glosario portuguez; era uma 
compilação formada das collecções de Garrett, do 
Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez, e do 
Romanceiro do Algarve de Estacio da Veiga. Acom- 
panha-o uma introducção baseada sobre a Historia 
da Poesia popular portugueza (ed. i857J, Manual 
da Historia da Litteratura portugueza e Epopèas ino- 
sarabes, Hardung também viajou por Portugal, e 
escreve: «Em todas as provincias de Portugal o 
numero de romances que andam na tradição oral 
é considerável, mas quem já conseguiu obter qual- 
quer versão immediata do povo, sabe com quantas 
difficuldades hade luctar o collector para chegar ao 
seu fim, pois só a grande custo as velhas resclvem- 
se a trahir seus segredos. 

«Durante minhas viagens pelas provincias do reino, 
muitas vezes tive occasião de ouvir cantar roman« 
ces que me eram completamente desconhecidos e 



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POPULAR PpRTUGUEZA 535 

que não andam recolhidos em nenhum dos Roman- 
ceiros até hoje publicados.» (p. vii.) Ahi se refere 
á nossa doutrina sobre a transformação do verso 
quinaria ou redondilha menor, em verso octonario 
ou redondilha maior, no século xv, quando os ro- 
mances velhos receberam forma escripta. Justificando 
esta compilação, diz : «Deste modo quiz remover os 
obstáculos e difficuldades com que tropeçam até hoje 
os extranhos, que se interessam pelo estudo da poe- 
sia dos Romances em Portugal, offerecendo-lhes um 
livro em que encontram a matéria junta e disposta 
de maneira que permitta assistir ao desenvolvimento 
do romance desde as origens até á mallograda tenta- 
tiva dos românticos de fazer reviver na forma litte- 
raria este ramo importante da poesia popular. » (p. xxi.) 
O intuito de Hardung está hoje em parte prejudi- 
cado, porque a sua publicação de 1877 ^^io inclue 
as collecções ulteriores, como o Romanceiro da Ma- 
deira, de 1880, tão rico como os dos Açores, nem os 
Cantos populares do Brasil^ verdadeiro complemento 
da tradição insulana, e o Romanceiro de Traz-os- 
Montes, publicado na Bibliotheca do Povo, n.° 121. 
A vulgarisação europêa determinou a traducção fran- 
ceza do C.^^ de Puymaigre, Choix de vieux Chants 
portugais, Paris, 1881, dos mais deliciosos roman- 
ces da tradição popular, feita sobre o texto appre- 
sentado por Hardung. 

Assim ficaram reunidos para estudo dos Contos 
dâ Grécia, da Albânia e dos paizes slavos; as no- 
tas comparativas são um rico manancial para deter- 
minar as fontes occidentaes da tradição portugueza. 
Em Livorno publicou em 1888 o Dr. Ettore Toei 
unra traducção de Canti popolari portoghesi, con- 
tendo dezeseis romances intelligentemente annota- 
doè. Principalmente, na obra fundamental do C.^* Ni- 
gra, Canti popolari dei Piemonte (Torino, 1888) é 



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536 HISTORIA DA POESIA 



aonde se encontra um vasto estudo comparativo dos 
romances da Alta Itália, em que abundara os para- 
digmas do Romanceiro portuguez, por este simples 
facto revelando uma relação não histórica, masethnica 
e anthropologica, reconhecida como ligurica, e que 
Nigra attribue aos Celtas. * Pelo alargamento d'estes 
estudos da tradição portugueza, de que tanto se 
aproveitou Jeanroy para as suas Ofigens da Poesia 
lyrica em França na Edade niedia (Paris, 1899), 
chegou -se á conclusão, que a poesia popular de Por- 
tugal não era uma assimilação e aperfeiçoamento 
dos Romanceiros castelhanos, mas um dos documen- 
tos mais ardhaicos da Europa. Dahi a sua impor- 
tância mais do que nacional, como se expende no 
capitulo sobre A Poesia franceza em Portugal, (p. 
308 a 338.) «acha-se nella, ao lado de género 
muito moderno, tae? como a pastorella, e formas as 
mais artificiosas e recentes da pastorella, — os tra- 
ços mais archaicos de que em nenhum^ outro paiz ro- 
mânico; os seus personagens não provêm da socie- 
dade cavalheiresca, como na Allemanha, mas do 
povo;...» (p. 334.) Jeanroy estuda a parte lyrica 
sobre os nossos trabalhos, embora discorde por ve- 
zes com as conclusões a que chegámos. A parte 



* Se derivarmos o nome Celia da íórma Scdi^ nome do rio Es- 
caut, approximamo-nos da realidade anthropologica; escreve Cail- 
leux: «se se percorre os monumentos em que os Celtas são men- 
cionados, parí^ce que esta denominação pertence antes de tudo aòs 
p(yoos agrupados en volta doesta região antiga onde três rios famosos, 
o Rheno, o^ Meuse e o Escaut^ confundem o seu curso, entrando 
confundidos no Oceano.» {Origine celtique de la CiviHsatton^ p. 16^. 
O delta de Scelt era denominado Scaldia. João Bonança propondo 
substituir o nome de Celta pelo de Scelto aproximava-se da verdade 
sem comtudo se libertar da miragem do Celta nómada confundido 
com essa raça ligurica ou o celta da historia, que deve disiinguir-se 
pelo nome de Scelt. 



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POPULAR PORTUGUEZA 53 J 

narrativa foi também estudada pelo eruditíssimo Mo- 
rei Fatio, em um juizo critico sobre o Cancioneiro e 
Romanceiro geral português^ que publicou na revis- 
ta ^\v^o\og\cdi Romania, (vol. ii, 124) que Jeanroy ca- 
caracterisa como um cCompte-rendu três approfondi.» 

b) As INVESTIGAÇÕES DO FOLK-LORE PORTUGUEZ. 

Um grande impulso receberam na Europa os estu- 
dos sobre todas as manifestações da Tradição po- 
pular, com §1 fundação em 1878 da Sociedade de 
Fólk-Lore, em Inglaterra — tendo por seu objecto a 
conservação e publicação das tradições populares. 
Bailadas, Lendas, Provérbios locaes. Ditados, Su- 
perstições e antigos costumes inglezes e estrangeiros, 
e as demais matérias concernentes a isto. — O pen- 
samento realisado por William Thoms, e a succes- 
são dos volumes intitulados Folk-Lore Record, fize- 
ram generalisar por toda a Europa estas associações 
em que os mythographos, glottologos, ethnologos, 
e archeologos unificaram as suas investigações con- 
stituindo uma nova sciencia do homem emocio- 
nal (Demopsyckologia) e das creações anonymas da 
conectividade humana nas suas origens evolutivas. 
O nome de Fo/k-Lore, ou a Sabedoria do Vulgo, 
foi adoptado para toda esta ordem de investigações, 
mas principalmente para designar as associaões lo- 
caes dos investigadores. 

Em Hespanha, o desditoso António Machado y 
Alvarez, com extraordinário fervor fundou em 1882 
com sua competente revista o Folk-Lore andaluz^ 
cooperando directamente para o estabelecimento do 
Folk-Lcre frexenense, Betico-ExtremenOy Castelhano, 
Gallego e Asturiano, Faltava fundar o Folk-Lore de 
Portugal; em carta datada de dezembro de 1883 
escrevia-nos neste intuito, dando conta da fundação 
do Folk-Lore das duas Castellas: «esperando que 



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338 HISTORIA DA POESIA 

com este exemplo as provindas despertem e consti- 
tuam centros entre ellas todas, e unidas o Folk Lore 
espanhol y em quanto V. organisam o Folk-Lore de 
Portugal, que creio seria também conveniente formar 
por provincias — e depois unidos uns com os outros 
formemos o grande Folk-Lore peninsular, e conse- 
guir desta maneira a unificação scientiíica dos dois 
povos irmãos. 

«A tarefa é lenta e difficil, mas grandiosa e le- 
vantada, e se V. com arte e ainda ^ soffrendo os 
naturaes trabalhos que impõe toda a obra boa nos 
ajudarem, antes de dois annos coroaremos a em- 
preza, N este sentido escrevi uma carta a Consiglieri 
Pedroso, carta que julgo ter-se extraviado, o que 
muito senti, pois nella pedia á Associação dos Lit- 
teratos e Jornalistas portuguezes, da qual me fizeram 
membro, — que constituissem o Folk-Lore por tuguez,'^ 

Machado y Alvarez não conhecia o espirito de 
aversão que separava os nossos investigadores folk- 
loristas portuguezes contra toda a tentativa de syste- 
matisação nestes estudos. Tentáramos a unificação 
de todos os trabalhos isolados fundando a Re^nsta 
das Tradições por tuguezas, fazendo circular em 1878 
o seguinte prospecto: 

«A individualidade nacional de um povo conhece-se 
pelas suas tradições; por ellas se avalia lambem a 
originalidade e fecundidade das suas creações litle- 
rarias. A fundação da Litteratura allemã começou 
pelos trabalhos de exploração scientifica sobre as 
antigas tradições do génio germânico; Garrett ao 
iniciar a transformação romântica da Litteratura por- 
tugueza presentiu o critério novo interrogando no 
seu Romanceiro a tradição popular. Hoje que as 
Litteraturas procuram disciplinar-se em uma base 
scientifica, é a tradição a única fonte d'onde natu- 



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POPULAR PORTUGUEZA b3g 

ralmente se deriva a inspiração individual; convém 
estudar scientificamente essa tradição como ò modo 
mais directo de actuar não só nas manifestações 
da litteratura como no vigor do individualismo na- 
cional. Portugal é rico de tradições, embora os seus 
escriptores, á parte Gil Vicente, Camões, Jorge Fer- 
reira e Garrett, ignorassem esse veio inexgotavel da 
invenção litteraria; para que a Litteratura portugueza 
se reforme, não bastam os modelos estrangeiros nem 
as regras theoricas das academias, é preciso conhe- 
cer a fundo esse elemento vivo do sentimento na- 
cional e humano. Trabalhadores enthuziastas têm 
interrogado a tradição portugueza com felicidade, e 
têm tornado conhecido no estrangeiro o génio por- 
tuguez ; importa condensar esse trabalho em um 
archivo ou revista onde se accumulem as immensas 
riquezas do passado. A ethnologia moderna, a my- 
thographia, a litteratura e até a politica irão ahi 
descobrir elementos históricos para as suas dedac- 
ções. A Revista das Tradições portuguezas conterá 
a contribuição de todos os collectores, os Romances, 
os Contos, os Anexins, as Orações, os Ensalmos, 
as Pragas, os Apodos, os Jogos infantis e Adivi- 
nhações, tudo o que persiste ainda do passado 
portuguez na vida provincial. Hoje, que o caminho 
de ferro estabelece uma communicação forçada, as 
localidades mais isoladas perdem a sua physionomia, 
e a tradição tende a syncretisar-se e a desapparecer ; 
é este o momento opportuno de fundar a Revista 
das Tradições, a qual : — Publicar-se-ha em fasciculos 
mensaes in-8.° grande de 40 paginas, formando no 
fim do anno um volume de 400 paginas.» 

Chegou a entrar em composição o meu estudo 
dos Livros populares portugueses, mas tudo se des- 
fez, mallogrando-se a collaboração de F. A. Coelho, 
Consiglieri Pedroso e Álvaro Rodrigues de Azevedo. 



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540 Historia da poesia 

A tendência dispersiva foi aproveitada em revistas 
independentes, nas quaes a secção do Fplk-Lore 
desenvolveu-se levando longe o interesse na • inve- 
stigação d estes phenomenos. Na nossa revista O 
Positivismo (1879 7Í 1882) publicou Consiglieri Pe- 
droso uma vasta collecção de Seperstições populares 
portuguezas, que Serra y Guichot comparou com as 
Superstições da Andaluzia ; e no jornal Jí volta do 
Mundo tentámos a systematisação deste phenomeno 
como sobrevivencias de cultos primitivos extinctos. 
Na nossa revista Era Nova, e no jornal federalista 
A Vanguarda, publicou o Dr. Leite de Vasconcellos 
em 1 880-1 abundantíssimos materiaes que coordenou 
em grande parte no seu livro das Tradições populares 
de Portugal, dando depois na sua Revista lusitana^ 
desde 1887 logar a esta ordem de estudos em arti- 
gos folk-loricos, destacando-se entre os collaboradores 
D. Carolina Michaelis, pelo sentimento da poesia po- 
pular portugucza animando a sua erudição critica. 
Na outra nossa Revista de Estudos livres, (1883 a 
1887) também o Folk*Lore foi tratado com sympa- 
thia, especialmente o phenomeno do dialectologia 
popular em varias regiões portuguezas. No Boletim 
da Sociedade de Geographia, publicou F. A. Coelho 
largos estudos sobre Superstições e Dialectos creou- 
los, e na Revista Ocidental os primeiros estudos da 
Novellistica ; já ao tratarmos do Romanceiro do 
Algarve alludiu-se á cooperação de Reis Dâmaso 
na Encyclopedia republicana. Uma nova tentativa 
se fez para uma revista em 1880 com o titulo de 
Revista de Ethnologia e Glottologta, mas sendo par- 
ticularmente individual, ficou interrompida quando o 
compilador não esteve para mais sacrifícios. 

Propagou-se esta actividade ás provincias, supprin- 
do as pequenas revistas as associações do Folk-Lore 
regional; são valiosos os subsídios colligidos na 

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POPULAR PORTUGUEZA 541 

Revista do Minho, (Barcellos, 1885) e Aurora do 
Cávado de Barcellos, e na Revista de Guimarães 
publicada pela Sociedade Martins Sarmento. Foram 
também numerosissimos os materiaes accumulados 
nos jornaes alemtejanos Sentinella da Fronteira e 
O Elvense, nos quaes o incansável e sincero folk- 
lorista António Thomaz Pires, publicou milhares de 
Cantigas soltas e um completo Romanceiro alemte- 
jauo; ninguém levou tão adiante a accumulação de 
materiaes em todo o campo do Folk-Lore, facul- 
tando-os a todos com o maior desinteresse. O que 
não foi possivel realisar em Lisboa, conseguiu-se no 
isolamento da provinda; desde 1899 ^^^ se publica 
em Serpa A Tradição y revista de Ethnographia por- 
tugueza illustrada, que já vae no seu sexto volume, 
dignamente sustentada pelos directores Drs. Ladislau 
Piçarra e Dias Nunes. A abundância destes materiaes 
tornavam cada vez mais urgente uma systematisação 
fundamental, para que os documentos do Folk-Lore 
portuguez, ás vezes constituindo valiosas monogra- 
phias especiaes, não ficassem estéreis ou uma simples 
curiosidade. Foi encetando esta systematisação que 
elaborámos o quadro descriptivo O Povo portuguez 
nos seus Costumes, Crenças e Tradições, e a coor- 
denação dos Contos tradicionaes do Povo portuguez, 
Garrett presentira a importância da Novellistica, 
quando no prologo das Fabulas alludiu aos Contos 
populares na forma de Apologos e Novellas : «Mas 
as Fabulas dos animaes contadas em prosa pela 
gente do campo têm tanta graça de estylo como 
as de Esopo e de Pilpay ; e as narrativas do De- 
cameron popular, em que sempre figura o frade, a 
mulher do sapateiro, o marido logrado, o amante, 
umas vezes bem succedido em seus artifícios, outras 
colhido nelles próprios e punido de sua audácia, 
não têm que invejar a Lafontaine, ou ao licencioso 



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b42 HISTORIA. DA POESIA 

que faz as delicias de nossos gaiatos avós da Re- 
nascença.» Esta parte do Folk-Lore apreciada por 
Garrett está hoje largamente realisada em collec- 
ções de Contos de fadas, encantamentos, casos e 
anedoctas de valor tradicional. 

Este material infindo de ficções que se transmit- 
tem e transformam e se elaboram estheticamente 
em obras litterarias, oú se diluem em tropos da lin- 
guagem vulgar, constitue hoje um importante docu- 
mento psychologico de representação subjectiva, e 
ao mesmo tempo um monumento ethnico da per- 
sistência das tradições. O Conto popular é uma for- 
ma generativa da litteratura, desenvolvendo-se até 
á forma da Novella e mesmo do Romance moder- 
no ; a essa forma rudimentar, convergem velhos My- 
thos polytheicos, que perderam na marcha das ci- 
vilisações o seu sentido religioso e importância so- 
cial; ligam-se-lhe vestigios de Fabulas, das crenças 
fetichistas, conservando ainda o intuito moral primi- 
tivo nos Exemplos dos pregadores da Edade media; 
e em uma funcção ainda educativa o Conto Hga 
pelo deslumbramento da phantasia as creanças, a 
geração nascente, á sympathia do passado conser- 
vado pelos velhos. O estudo sobre as compilações 
de Contos populares de todos os paizes e civilisa- 
ções, tem levado a recompor uma cadêa de conti- 
nuidade tradicional até ao presente, dando assim á 
Historia um novo elemento demonstrativo da soli- 
dariedade humana, e á Arte a base dos themas uni- 
versaes, que unificam os Symbolos morphologicos e 
as Litteraturas. Exemplificar com factos concretos 
estes contos que afifecta a tradição, seria coordenar 
esse novo capitulo esthetico da Novellistica. Basta- 
nos apenas indicar um ou oiftro phènomeno, para 
se reconhecer a importância do assumpto. Nas ver- 
sões oraes portuguezas voga um conto dos Dez ande- 



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POPULAR PORTUGUEZA 543 

sinhos da Tia Verde-agua, que arrumavam uma 
casa e faziam todo. o serviço d'ella ; é o mytho vé- 
dico dos dedos: «Os Dactylos, sacerdotes, encan- 
tadores, da mesma ordem dos Telchines, acham 
«gualmente o seu typo nos personagens do mesmo 
cyclo mythologico. Os Dactylos, isto é, em grego, 
os Dedos, correspondem aos dez Dakckah, chama- 
dos os dez homens fortes, ou os meninos infatigá- 
veis, que ajudam Agni, o grande demiurgo. Ora, 
estes Dakchas são os dez dedos do sacerdote que 
accende o fogo (Agni) e que o cantor vfdico pu- 
rifica.» (Maury, Hist. des Religions de la Grke an* 
tique, t. I, 203.) 

Um outro aspecto do problema: Entre as Fabu- 
las de Esopo, na collecção de Planudes, vem a do 
homem chagado a quem afifugentaram as moscas, 
que em vez de agradecer se lamentou com angus- 
tia; vamos encontrar a situação repetida nas Anti- 
guidades judaicas de Flávio Josepho, (liv. xviii, cap. 
8) recebendo relevo histórico como acontecido com 
Trajano. No principio do século xvii, refere Pyrard, 
na sua Viagem contendo a noticia da sua navega- 
ção ás índias Orientaes, este mesmo caso alludindo 
aos Vice Reis portuguezes: 

«Essa frequente mudança do Vice-Rei não agra- 
da aos portuguezes e outra gente da índia, nem 
tão pouco a semelhante mudança que ha nas Capi- 
tães das fortalezas e outros officiaes, e para signifi- 
carem isto, contam que : — Era uma vez um pobre 
á porta de uma egreja, com as pernas todas cheias 
de chagas, nas quaes pousavam as moscas em tal 
quantidade, que fazia grande compaixão; pelo que, 
outro homem se chegou a elle, e julgando que lhe 
dava muito gosto, lhe enchotou todas as moscas, 
com que o pobre paciente se agastou muito, dizen- 
do, que — Às moscas que elle enchotava já esta- 



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544 HISTORIA DA POESIA 



vam fartas e o não picavam, mas as que viessem 
de novo famintas o picariam muito mais. Assim, 
(dizem elles) acontece com os vice reis, porque os 
fartos se vão embora e vêm os famintos.» 

Pela corrente tradicional chegou esta mesma fá- 
bula a receber forma litteraria intensamente pittoresca 
nas Farpas, de Ramalho Ortigão, definindo as oli- 
garchicas politicas do regimen da Carta outorgada. 

Nas Cartas familiares de i3om Francisco Manuel 
de Mello (p. 332) vem uma referencia ao conto 
ainda hoje vulgarissimo de Frei João sem cuidados: 
«Quando me ponho a cuidar nas vossas cousas, 
cuido que me chamaes D. Simão, que fazia cahir 
o fuso á outra, que cuidava n'elle, segundo afifirma 
o Auto de António Prestes, seu amigo. > Este conto 
apparece na sua fórmâ mais antiga nas Três per- 
guntas (Benfey, Orient und Occident, 11, 687), e 
transmittido no cyclo do Doctor Sabe-ludo; os Irmãos 
Grimm, colligiram-o nos famosos Contos de crean- 
ças, n.° 98. 

É' também interessante ver como os mythos hel- 
lenicos, como de Psyche e de Persephone, de Cha- 
ronte e outros, se transformaram em contos popula- 
res, ou se generalisaram nos Exemplos dos prega- 
dores. É este espirito de continuidade o que melhor 
pode educar a imaginação das creanças fazendo-as 
sentir a sua solidariedade com o passado e a se- 
riedade da poesia. 

Ao traçar a introducção do sexto anno da revista 
A Tradição, referimo-nos á parte constructiva a que 
se presta este material folk-lorico: «Pelas investiga- 
ções provinciaes poder-se-hia chegar a reconstruir a 
tradição lusitana: pelo Minho completando pelas tra- 
dições populares da Gallega e das Astúrias essa uni- 
dade ethnica quebrada sob a conquista e administra- 
ção romana ; pelo Douro e Beira, em relação com a 



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POPULAR PORTUGUEZA / 545 

Extremadura hespanhola ; e pelo Alemtejo e Algarve 
separados da Andaluzia, recompondo esse mundo 
ethnico da Lusitânia a dos amigos, como chama- 
va Strabão ao grande trato geographico que consti 
tuiu a Hespanha occidental, contraposta á ibérica ou 
oriental. 

Em Hespanha, sob o valente impulso do desditoso 
Machado y Alvarez formaram-se as numerosas Socie- 
dades Folk-loricas nas differentes regiões ou provin- 
cias, chegando algumas delias a publicarem magnifi- 
cas revistas e uma série de volumes especiaes. Todo 
esse movimento enthuziastico ficou interrompido pelo 
falecimento de quem o vivificava; mas o que veiu 
á luz já se, não perde diante da necessidade dos 
processos comparativos, em que começa a elabo- 
ração scientifica. 

Todas estas apparentes curiosidades constituem os 
dados de uma sciencia nova, em que como revelação 
das coUectividades humanas, e penetrando esse espi- 
rito da multidão anonyma ou do Povo, (Volkgeist) 
os seus conhecimentos transmittidos pelo empirismo 
inconsciente, (Folk-Lore) são estudados os Costumes, 
os Cantos, as Dansas, as Narrativas tradicionaes, as 
Lendas, Superstições, Industrias locaes. Usos domés- 
ticos, Crenças religiosas. Linguagem, Mythologia, Arte, 
Paremiologia, Escripta, Cerimonias sociaes e cultuaes. 
Profissões, Jogos e Psychologia infantil. Todo este 
vasto campo de phenomenos, alguns dos quaes se 
acham systematisados em Sciencias sociaes, carece 
de ser subordinado a um ponto de vista nitido, 
que a designação de Folk-Lore nos não dá a noção. 

O homem em collectividade tem um outro relevo 
psychologico ; e essa collectividade, na sua forma 
social, nacional e histórica, apresenta caracteres ex- 
traordinários, de uma singular potencia creadora. 
Mesmo as sociedades existem por meio de creações 



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546 HISTORIA DA POESIA 

anonymas, como se vê na formação das Línguas, e 
no consenso da Moral e da Nacionalidade. Tornando 
a palavra Demos, que exprime essa collectividade, já 
erupregada para designar a independência popular no 
regimen da Democracia, e mesmo designar os cara- 
cteres demoticos, da escripta popular contraposta aos 
hieroglyphicos, presta-se este radical a denominar de 
uma forma expressiva essa nova Sciencia, que tanto 
carece de systematisação. Demotica chamaríamos á 
sciencia que integra as seguintes sciencias especiaes : 

A Ethnoiogia: comprehendendo os Costumes ou 
as persistências ; as Tradições ou as sobrevivencias, 
e a Moda ou as imitações e as recorrências. Além 
d'estes grupos de • phenomenos existem outros, de 
natureza involuntária e inconsciente, como a Nata- 
lidade, a Mortalidade, a Criminalidade, que se agru- 
pam sob o nome de Demograpkia, 

A Demopsychologia : comprehendendo todas as 
manifestações emocionaes e mentaes, que represen- 
tam o mundo exterior e estados de consciência: 
taes são os Mythos, a Hier elogia fetichista, poly- 
theica e monotheica ; a- Paremiologia, a Linguagem 
figurada, os Symbolos, os Actos allegoricos d No^ 
vellistica. Adivinhas e Jogos, , 

A Ethologia ou determinação dos caracteres na- 
cionaes : os Cantos populares, nas trez formas lyri- 
ca, narrativa e bailada, como rudimentos das formas 
do Lyrismo, da Epopéa e do Drama nas Littera- 
turas nacionaes. É este o processo generativo para 
comprehender a origem das formas da Arte e o 
seu espirito nacional. 

Para a constituição da Demotica trabalharam gran- 
des espíritos, como Grimm, Koeller, Benfey, Tylor, 
Edwards, Spencer, Quetelet, Lazarus, Steínthal, Wel- 
cher, Max Muller, bwartz, Ralston, Liebrecht, Lub- 
bock, e tantos outros que vão rasgando novo hori- 



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POPULAR PORTUGUEZA 547 

sonte, que nos aproximam da posse do mundo mo- 
ral pelo conhecimento do problema da consciência 
humana no accôrdo da subjectividade com a obje- 
ctividade. Raros são os espiritos que podem alar-se 
á altura d'esses homens de sciencia; mas todas as 
intelligencias sinceras, que sabem observar em volta 
de seu meio, podem contribuir para a construcção 
d'esta historia latente da Humanidade, implicita nas 
formas complexissimas da sua Tradição. 

c) As Melodias populares e a tonalidade portu- 
GUEZA — os Fados. — Dizia Goethe, que nós os mo- 
dernos sabemos sentir bem a belleza dos assumptos 
ingénuos ; e foi a este novo senso esthetico que se 
deveu o interesse pela investigação dos cantos popu- 
lares antes de todo o interesse scientiíico. Byron foi 
um dos que primeiro sentiram a belleza das Cantigas 
portuguezas ; entre as suas poesias {Occasional pieces) 
notou o dr. Alberto Telles, que ha trez quadras que 
são traducção e imitação — From the portuguese : Tu 
me chamas... — Referindo-se ao seu livro Lord By- 
ron em Portugal, diz : «lá disse que esta quadra 
pertencia á poesia popular portugueza e citei o facto 
positivo de que ella ainda então se cantava nos 
Açores, especialmente na ilha do Pico, no baile de- 
nominado das Vacas, A esse tempo eu não sabia 
— confesso a minha ignorância - que a formosissi- 
ma quadra era do folk-lore da Mouraria fquer dizer 
Fado) e é com essa novidade que eu me appresento 

hoje : ' 

Tu me chamas tua vida. 
Eu tua alma quero ser; 
A vida é curta e acaba, 
A alma não pôde morrer.» 

Cita a variante das cantigas do Fado (ap; Tinop, 
HisU do Fado, p. 139: 



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\ 



548 HISTORIA DA POESIA 

Tu chamaste me tua vida, 
Mas tua alma quero ser, 
Que a vida morre com o corpo, 
£ a alma eterna hade ser. 

Lord Byron desembarcou em Lisboa em 7 de 
julho de 1809, visitou Cintra e Mafra, seguindo no 
dia 17 para Aldeia Gallega com destino a Hespa- 
nha. Quem lhe revelaria essa quadra popular, que 
synthetisa um povo apaixonado? Naturalmente ou- 
viu a cantar a algum fadista, e sendolhe traduzida, 
tocou-o a ideia poética a que depois deu forma ar- 
tistica. Escreve o Dr. Alberto Telles : cFoi de certo 
pessoa de muito bom gosto que chamou a attenção 
de lord Byron para essa quadra trespassada de luz 
sidérea. Seria uma mulher ? Talvez ; por que Byron 
preferia, com rasão, á insípida convivência dos ho- 
mens a sempre ineffavel e doce companhia das mu- 
lheres. > 

Tratando da lyrica popular, ella caracterisa-se em 
Portugal e na Galliza, pelo phenomeno ethnico de 
serem as mulhei^s quem dá vida ás cantigas apai- 
xonadas. Garrett não chegou a colligir o Cancioneiro 
popular, e só muito tarde é que as melodias que 
acompanham as cantigas começaram a ser coUigidas 
juntamente com os versos, como o fizeram Neves e 
Mello, em Coimbra, e Pedro Fernandes Thomaz na 
Figueira. A vasta publicação em trez volumes do 
Cancioneiro de Musicas populares portuguezas^ reali- 
sada por Gualdino .Campos e César Neves, é um 
documento da deturpação da melodia nacional pelo 
italianisino dos trechos de operas, de walsas, de 
tangos, de todas as proveniências que deram elabo- 
rações fortuitas. Faltou o saber de um Wekerlin para 
descobrir sob essas deturpações inconscientes a ver- 
dadeira melodia portugueza, na singeleza e quasi 
monotonia da nossa tonalidade. E' no Fado portu- 



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POPULAR PORTUGUEZA 549 

guez, deixando de parte a letra, quasi sempre mo- 
derna, que persiste este caracter primitivo da pureza 
tradicional. 

O distincto musicographo Ernesto Vieira, no seu 
Diccionario musical (I, 184) dá-nos a estructura do 
Fado, como melodia: «é um periodo de outo com- 
passos de 2/4, dividido em dois membros eguaes 
e symetricos de dois desenhos cada um ; preferen- 
cia do modo menor, embora muitas vezes passe para 
o maior com a mesma melodia ou com outra ; 
acompanhamento de arpejo em semi-colchêas, feito 
unicamente com os accordes da tónica e da domi- 
nante, alternados de dois em dois compassos.» Este 
desenho melódico assenta sobre a dichotomia da 
quadra solta, que de simples descante ou desgarra- 
da se torna pessoal e elegiaca. 

Lambertini, no seu precioso estudo dos Instrumen- 
tos músicos, analysando a contextura melódica do 
Fado^ chega a determinar-lhe certas analogias com 
a musica tchéque: «E gemedora esta musica tris- 
tonha,, por assim dizer, preferindo quasi sempre a 
modalidade menor, e lembrando vagamente certos 
andantes da musica tcheque.» (Chansons et Instru- 
ments, p. 25.) Para caracterisar o contorno melódico 
e a divisão rythmica do Fado aponta o allegreto da 
Septima Symphonia de Beethoven. Também na se- 
gunda Rhapsodia de Listz, que é pouco ouvida pela 
extrema difficuldade de execução, existe um canto 
melódico em tudo semelhante ao desenho melódico 
e accento rythmico do nosso Fado. Não são casuaes 
estas analogias ; outras melodias húngaras lembram 
a tonalidade das musicas populares portuguezas. Co- 
mo explicar este facto? 

A persistência de um fundo tradicional primitivo 
é maior na musica do que na poesia, como se com- 
prova pelos Hymnos védicos alterados na métrica e 

Poes. popul.— Vol. II 35 



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55o HISTORIA DA POESIA 



fixos no canto. A' pureza anthropoJogica do typo 
luso, corresponde a conservação da melodia tradicio- 
nal na sua simplicidade nativa. Lambertini descre- 
vendo o molde melódico de outo compassos divididos 
em dois membros eguaes de desenho difíerente, au- 
thentíca a sua antiguidade dizendo: <Comprehende-se 
pela simplicidade dos meios e pela persistência da 
fórmula harmónica, que o Fado, se torna a final de 
uma atroz monotonia.í^ Sendo as cantigas do Fado 
intensamente apaixonadas, como explicar a monoto- 
nia melódica e rythmica senão pela sua antigui- 
dade e pureza? 

A modalidade menor y caracteristica do Fado^ e 
nos cantares das provincias mais isoladas, é a con- 
sequência d'essa antiguidade, para lá da Edade mé- 
dia da Europa. Escreve Tiersot, estudando a Canção 
franceza: cAs melodias destas Canções pertencem 
muitas vezes á tonalidade do Cantochão; ligamol-a 
por isso ás tradições musicaes da Edade média. Ena 
verdade, o tom maior, sendo caracteristico por ex- 
cellencia da tonalidade moderna, domina em uraa 
grandissima proporção nas Canções populares; mas, 
além de que, algumas d'estas canções datam de uma 
época mais moderna, este modo era jd na Edade 
média o modo popular por excellencia. As árias do 
Jeu de Robin et de Marion, que formam a mais im- 
portante coUecção de Melodias populares do sé- 
culo XIII, que chegou até hoje, são quasi todas em 
maior, e demais a mais este modo não é extranho á 
tonalidade do gregoriano : os 5.® e 7.** tons do can- 
tochão, confundem-se notoriamente com elle.» No 
Fado, a passagem do tom menor para maior com a 
mesma melodia é uma adaptação ao meio actual ou 
moderno, por ventura provocado pela letra da can- 
tiga. O tom menor predomina em outras provincias, 
em que a rudeza dos instrumentos condiz com a , 



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POPULAR PORTUGUEZA 55 1 

antiguidade da melodia. Observa Lambertini: «Im- 
porta constatar, que a provincia de Traz-os-Montes 
é bastante mesquinha em relação a musica. — Os 
instrumentos que ali se usam, além das rabecas e 
violas de arame, são as gaitas de folies e os tam- 
bores. — A proximidade da Hespanha do norte (re- 
gião lusa) em que a gaita ae folie, gaita gallega, é 
o instrumento predominante, explica o uso que se 
faz d'ella na provincia de Traz os-Montes, — uma ve- 
lha cantilena ali se canta no mez de Junho e Julho ; 
chama-se a Segada, * e divide-se em dois movimen- 
tos, o primeiro mais vivo do que o outro, e ambos 
em tom menor, ^ (tb., p. 52.) «O Adufe, . . é também 
muito conhecido em Traz os Montes. E' um instru- 
mento que se pode dizer actualmente que é empre- 
gado unicamente em Portugal. As mulheres é que o 
tocam, como antigamente as sacerdotisas pagãs. In- 
felizmente o instrumento tende a ser obliterado» (ib., 
p. 56.) — tO Adufe é ainda conservado no norte da 
provincia da Beira; vende-se annualmente nos me- 
zes de Junho e de Outubro, nas feiras de í^. João 
e de S. Francisco, na Guarda.» (ib., p. 57.) A cir- 
cumstancia característica de serem as mulheres can- 
toras, tal como se vêem nas Serranilhas dos Cancio- 
neiros trobadorescos portuguezes, é apontada pelos 
críticos, como Jeanroy, como uma das manifestações 
mais archaicas da lyrica popular portugueza. E* a 
mulher a cantora do Fado, como a synthetisa o 
typo da Severa, nas quadras pittorescas e elegiacas 
em que é celebrada. 

A persistência dos themas melódicos através das 



* As designações Rimances cb Segadas e Jacras de Segadas, mos- 
tram- se ainda no syncretismo de elementos narrativos e bailados n'es- 
ses cânticos, que desacompanhados da labuta da vida se tornaram 
ly ricos. 



..o^ 



552 HISTORIA DA POESIA 

edades é um facto lucidamente observado por Blase 
de Bury, grande conhecedor da musica popular: cO 
motivo, que constitue a nacionalidade musical de um 
povo, não tem data precisa, a forma em que ca- 
sualmente o encontram pertence a todos : desenvol- 
ve-se através das gerações como se desenvolve uma 
arvore substituindo o gomo novo áquelle que enve- 
lhece. Uma dada melodia, por ter variado vinte Ve- 
zes no decurso das edades, não deixa no fundo de 
ser a mesma. Nós não éabemos com certeza se can- 
támos este Lied exactamente como se cantava 
outrora, mas o que podemos affirmar positivamente, 
é que tal como nós mesmos, este Lied provém dos 
nossos antepassados, e que mâo grado as novas flo- 
rescencias, elle persiste sobre a sua velha raiz.» 

A persistência doestas melodias impõe-se pela re- 
gularidade dos trabalhos da faina popular a que se 
ligam: «Grande parte de serviços campestres pas- 
sa se ao som de Canções, como as Vindimas do 
Douro, as Segadas de centeio e do trigo em Traz- 
os-Montes, as debulhas na Beira.» * Accrescentamos 
as esfolkadas e malhadas no Minho, e as azeitonei- 
ras no Alemtejo. Mas não são simplesmente locaes 
estas canções, os trabalhadores que vêm á faina 
agricola, trazem ãs modas no7fas, como o povo lhes 
chama; os manageiros^ que vão trabalhar para o 
Alemtejo, os maltezes, que vão para as cavas e vin- 
dimas do Douro, os marnotos, que vão para as ma- 
rinhas, tendem a unificar do Minho ao Algarve as 
melodias tradicionaes, que melhor se definem em uma 
Tonalidade portugueza pelas Romarias do Douro e 
Minho, e pelos Cirios da Extremadura, ou pelo con- 
tacto das povoações ribeirinhas na época dos banhos 



* Vasc, Poesia amorosa, p. 54, 



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POPULAR PORTUGUEZA 553 

com as familias que veraneam nas praias, frequen- 
tadas por cantores vagabundos ainda na sua rudeza 
jogralesca. O Fado na sua simplicidade é a integra- 
ção de todos estes elementos da melodia tradicional 
portugueza. 

Castilho, que apezar do seu classicismo teve um 
grande sentimento da poesia popular, criticando o 
italianismo de uma opera portugueza o Caçador do 
Minho, tentativa de Frondoni, teve a intuição do 
modo como se fixa a tonalidade portugueza: «po- 
desse (o compositor) agora na estação das musicas 
da Natureza, em que as aves, em que as mulhe- 
res, como que por instincto recomeçam a cantar, 
inspiradas pela fragrância das flores, pelo calor do 
sol,— se podesse, se podessem, dizemos, ir dar um 
passeio por essas nossas províncias ; que thesouros 
não colligiriam de cantilenas, qual a qual mais gra- 
ciosa, todas com o cheiro da nossa terra, que não 
será absolutamente o mais fino, mas hade ser sem 
pre para nós o mais delicioso! — salvariam tradi- 
ções melódicas que não merecem morrer, e que hão- 
de morrer italianisadas, se lhe não acudirmos. 

«Que vão, que vão nas boas horas ; e quando 
tornarem, e com as impressões ainda vivas do que 
lá ouviram, e a quem, e em que sitios, e com que 
circumstancias para elles tão novas e tão poéticas, 
comporão sem esforços e com delicias, e todos nós 
nos apinharemos applaudindo, não tanto com bra- 
vos, como com o silencio religioso, o haverem-nos 
reposto nos bellos dias e nos logares mais aprazi- 
veis da nossa vida.» É notável esta intuição musical 
do poeta cego Castilho, apontando o ambiente e 
época em que se expande a melodia tradicional na 
reverdie, como se dizia na Edade média, em que 
reappareciam com o viço da natureza as Canções de 
amor. 



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354 HISTORIA DA POESIA 



Transcrevemos algumas observações do musico- 
grapho Lambertini: 

cOs cantos a duas vozes são mais vulgares entre 
o povo, do que se imagina. Ha isitios noAlemtejo, 
e em outros mais, em que o emprego instinctivo 
dos sons simultâneos é cousa corrente entre o povo. 
As terças e sextas são para as creanças, desde a 
mais tenra edade, uma forma musical que ellas 
consideram como a cousa mais natural. 

cHa um certo numero de cantos (Serenatas, Des- 
cantes, Folias, Bailhos) conhecidos não somente no 
continente portuguez, mas também em muitas das 
suas colónias, que são de uma arrebatadora melodia 
e de inspiração, em toda a sua simplicidade cafa- 
cteristica, e em todo o encanto dos seus rythmos 
ingénuos e espontâneos. 

cEm certas provincias sobretudo no Minho, na Bei- 
ra e Alemtejo, conservam-se ainda em uma pureza 
que se pode considerar primitiva, os encantadores 
Descantes da musa popular, inspirados como as 
canções de um trovador amoroso.» * Sendo a gui- 
tarra o instrumento especial do Fado, apparece-nos 
citado por vezes na poesia popular ifarrativa o bai- 
xão; é uma referencia á viola baixa (viola di gam- 
ba) com que se acompanhavam os cantos eccle- 
siasticos ainda no século xvii; na Capella real de 
Lisboa, Philippe ii mandou admittir dois baixões. 
Pelo tom maior dos cantos ecclesiasticos vêse que 
nada influiu na melodia do povo onde essa influen- 
cia religiosa fosse mais profunda. No norte de Por- 
tugal predomina o tom maior: cA Chula, é menos 
aristocrática do que a Modinha, e pôde considerar-se 
como o typo clássico das nossas musicas populares. 



* Lambertini, Chansons et Instruments^ p. 24. 



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POPULAR PORTUGUEZA 555 

No norte de Portugal esta Canção dansada é muitís- 
simo usada, dando occasiã o aos tocadores de impro- 
visarem um numero infinito de variações e ornamentos 
caprichosos. O movimento é geralmente vivo e ani- 
mado, a divisão binaria e em tom maior. Cada 
estrophe é cantada em Falsete ás vezes, é interca- 
lada por uma espécie de retornello confiado aos 
instrumentos.» — «Os instrumentos que acompanham 
habitualmente a Chula, são rabecas, guitarras, tambor, 
ferrinhos e ás vezes flauta e clarinete, s^ (Lamb.; ib,, 
22.) «E' a Chula, que sje chama também Vareira, 
que domina nesta parte do paiz ; embeliezama com 
variações cada vez mais características, segundo as , 
localidades, mas no fundo é sempre a Chula.» (3,, 
51.) O mesmo se dá com o Fado, quando simples- 
mente tocado : «o tocador introduz-lhe innumeras va- 
riações, sem comtudo alterar o que constitue a har- 
monia, a fórmula consagrada.» [iò,, p. 26.) O povo 
comprehende a riqueza da expressão; o Fado rigoroso, 
ou sem variações, torna-se o Fado corrido, quando 
subordinado á poesia, e Fado repenicado, quando o 
tocador ílorêa o thema melódico. 

Reconhecida a antiguidade da melodia do Fado, 
é lógico que seja também antiga a sua designação. 
Desconhecida a relação desta melodia com o pas- 
sado, creu se ver no nome do Fado uma referencia 
á entidade Fatum, o Fado invocado pelos poetas 
arcadicos do fim do século xviii, em Motes glosados 
em decimas, e ainda- nas Modinhas brasileiras, das 
quaes alguns versos entraram na corrente oral. D'a- 
qui a deducção, que o Fado era muito moderno, 
do meado do século xix, e quasi exclusivo de Lisboa. 

A verdadeira critica não era seguida, * por que 



1 Gaston Paris considerava que a Canção popular tendo uma 
genealogia tradicional, podia remontar-se do presente até ao seu 



r 

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b56 HISTORIA DA POESIA 

sob a designação de Fado comprehendia-se a poesia 
improvisada em descantes, em quadras, quintilhas 
ou decimas, que podem ser modernas, e até de 
origem litteraria; também a musica confundida, no 
seu simples desenho melódico com os melismos ou 
variações dos guitarristas actuaes; e juntamente a 
dansa, que se transmitte mesmo mais longe do que 
o canto, conservando um mais certo caracter de 
antiguidade. Para definir o Fado importa analysal-o 
nos seus elementos : primeiramente a melodia, que 
subsiste por si; depois a dansa nos seus movimen- 
tos e desenho, por fim a poesia, que verbalisa o 
canto. Neste estudo são da maior importância os 
nomes dados ás Canções e aos instrumentos musi- 
caes, que conduzem á época antiga em que ap- 
parecem usados. 

Em geral o povo chama a qualquer Canção mu- 
sical uma Moda, e Moda nova a Canção ouvida re- 
centemente e repetida. Nos cantos populares da 
Edade média chamaram-se ás canções vulgares 
Módulos, e na egreja eram os Motetes, vindo a 
generalisar-se a designação; em 1520 publicou-se 
em Augsbourg um Liber selectarum Cantionuftty 
quce valgò Mutetas appellanU (Ed. C. Peutinger.) 
E na Escócia entre os antigos Minstrels, apparecem 
citados os Maidens, na Chronica de Eduardo 11 por 



passado áríco : «a cada grapo de povos áryas (siavo, germânico, 
greco- romano céltico, etc.) a cada povo, a cada província, a cada 
cantão. Por oatras palavras, — dada uma Canção popular qualquer, 
poder-se-ha determinar-lhe quantos d'estes factores entraram na sua 
formação. Achar-se-ha umas que não tem raizes, e apenas remontam 
á aldêa aon ^e as ouvem ; outras, pelo contrario, que durante séculos 
voaram na òocca dos homens^ e que resoaram porventura já em um 
tempo anterior a toda a historia, sobre os planaltos da Ásia central, 
onde os nossos primeiros pães conduziam os seus rebanhos.» (Rev» 
tritiqtu, 1866, 22 de Maio.) 



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POPULAR PORTUGUEZA 557 

Fabyan. (EncycL Brit, vh.^ Ballads.) O nome de 
Modinha dado ás Canções lyricas veiu-nos do Brasil 
no século xvjii, pela rasão do archaismo provincial, 
assimiladas em Portugal, como a Hespanha assimilou 
as Habaneras (de Cuba) e a França tendo transmit- 
tido as suas Canções á colónia do Canadá, também 
de novo as assimilara se não se tivessem interrompi- 
do as suas relações em a metrópole. As Modinhas 
brasileiras foram uma variação da tonalidade do 
Fado, com melismos e robátus ; as que o povo assi- 
milou charaouUies Moda, no sentido mais genérico. 
No velho francez encontra-se a palavra Faiiste 
designando o poeta ; e este vestigio das línguas bri- 
tonicás conduz-nos ao nome de Baidh, o vate no 
irlandez e escossez, bem como Feath, o canto, e 
voz, e Faih, poema ; mesmo a palavra viola, a que 
se canta o Fado, vem do gaelico irlandez de FidheaL 
(W. Edwards, Recherches, p. 260.) Sendo as melo- 
dias vetustissimas, não repugna que a sua denomi- 
nação seja também primitiva. * No gaelico irlan- 
dez Fead significa a narrativa: assim a origem bri- 
tonica explica a dupla forma do canto e de recita- 
ção do Fado, O facto não é isolado, conservou-se 
na lingua franceza até ao século xvi. Ás vezes as 
homophonias e homonymias influem para que certas 
designações se conservem; assim o nome do canto 
árabe dos tropeiros Huda, e o nome do instrumento 
Eoudy de origem persa e com a forma da Quitara 
marroquina, ajudariam á persistência da designação 



1 Bougault-Ducoudray, que colli^iu na Grécia moderna, Canções 
populares com as suas melodias «achou nas melopéas dos marujos 
das Cyclades, nas árias de dansa e nos cantares amorosos das ra- 
parigas gregas da actualidade, as tonalidades dos modos antigos, 
base primeira das musicas da Egreja grega e latina, e de toda a 
musica moderna.» (S:huré, Pref. á tHisttfire du Lied. 1903.) 



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558 HISTORIA DA PO£SIA 

do Fado, sob o dominio árabe, quer como canção 
narrada quer como ligada ao instrumento a que se 
acompanhava. O que está em movimento exprime- 
se no gaelico por Cíc/a/, que apparece nos roman- 
ces populares, em Gil Vicente e nos Cantares guay- 
ados; no canto do Fado o começo de cada qua- 
dra entoa se por um Ai expletivo. O numero dos 
versos da estrophe, a quadra, ou o numero das 
cordas do instrumento (o tetrachorde), deu o nome 
a uma forma poética, que ainda se conserva nas 
ilhas dos Açores, a Aravia, Arav£nga, ou Oravia. 
No seu estudo sobre A Irlanda pagã, Rodier ao 
tratar da Escripta ogmica, diz, que antes do co- 
nhecimento do pergaminho : «os irlandezes affirmam 
que os seus antepassados escreviam com um pon- 
ção ou estylete sobre taboinhas de salgueiro a que 
chamavam Orauin, ou também Taiòkl fiilliad (ta- 
boinhas do bardo). — Neste periodo de civilisação, 
o Ogham tornara-se próprio para mais do que bre- 
ves indicações; podia formar verdadeiros livros en- 
fiando as taboinhas em um cordão, como fizeram 
desde remotas eras os povos da índia, colleccionan- 
do assim os seus pensamentos, que fixam por meio 
de um ponção sobre as folhas de palmeiras.» * 
Esta escripta, que se usava nos bastões runicos, é 
referida no romance açoriano: «Escrevei n'essa ben- 
gala. » Também na Oração em series do Custodio 
amigo meu, citam-se as taboinhas dos mandamentos. 
O Ogham dá ainda o nome ao canto das creanças 
em Inglaterra pelo anno novo Hagmena Songs, Hog- 
many, Hoguimenle, forma que apparece em França 
no Aguillenen e Angenele, Anguilanen, que um phi- 
lologo pelos processos phoneticos derivou de Ka- 



1 Revue moderne, t iii (i86q) p. 651. 



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POPULAR PORTUGUEZA 3 5 9 

lenda. Na Bretanha este canto dos peditórios infan- 
tis chama se Eghina\ que se liga é palavra portu- 
gueza guina desejo, e guinada, corrida para um e 
outro lado. 

Não é phantasia ligar o nome de Aravia ou Õra* 
via a este thema numeral de Arba, quatro. Na Me- 
moria sobre os Guanchos, por Berthelot, ao apontar 
o nome dos números, Arba designa quatro. * En- 
tre os nomes dos Números segundo as listas de Ni- 
coláo de Recco e de Galíndo, a maior parte, em- 
bora alterados na forma, ou por uma ortographia 
viciosa, relacionam-se com os dialectos berberes ...» 
(Ib., p. 103.) E appresenta uma das designações de 
4, Arbah, como tomada Ao árabe. Assim também 
pela influencia árabe na peninsula, o nome de Ara- 
via ou Oravia, (Orabin, citou o Arcipreste de Hita 
e Gil Vicente) podia conservar se entre o povo pela 
sua origem britonica, raça que percorreu o Atlânti- 
co e foi ás Canárias. Também o instrumento Erbeb 
e viola dOrbo, tiraram o nome do numero do te- 
trachorde. * 

A mesma relação de homophonia que levava a 
considerar o Fado como de origem árabe, induziu 
escriptores modernos a derivarem lhe o nome do 
latim Fatum, e da Fatalidade, por reflexões psycho- 
logicas. Escrevia Garrett: «O povo é geralmente 
fatalista, e o nosso portuguez o mais fatalista que 
eu conheço.» (Rom., I, not. v.) O emprego moderno 
deste nome é uma revivescência da primitiva designa- 



1 Mem, (PEthnohgie, vol 11, p. 80. 

* O nome de Orpheo, que dominou pelo poder dos Hymnos (que 
segundo Burnouf e Lan^lois, provem de Arbhu, dado aos Ribhu) 
esse nome explica -se pela sua missão religiosa poética, como per- 
sonificação do Hymno sagrado: Orpheo pertence ao grupo dos que 
dividiram em quatro (arbuh) a taça do sacrifício. 



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í 



56o HISTORIA DA POESIA 



ção ethnica, tão natural como a da persistência da 
velha melodia. 

Na Canção dansada ainda predomina o mesmo 
caracter archaico; sob nomes diíferentes, ou como 
imitação de dansas andalusas e canárias, a dansa 
de um par isolado é propriamente o Fado, 

Em muitas dansas hespanholas do século xvra, 
como o Fandango e o Bayle canário, encontra-se 
a forma caracteristica do Fado portuguez, então 
conhecido pelo nome da Fofa; e esta dansa de 
um par era comparada á hollandeza plugge dansen^ 
cujas semelhanças Twiss attribue á influencia hespa- 
nhola no tempo da dominação dos Paizes Baixos. 
A dansa de um par é antiquissima, recebendo no- 
mes diversos nas differentes épocas em que reviye- 
sceu. Poderemos remontar á sua primitiva origem 
peninsular ; na Memoria sobre os Guanchos, Ber- 
thelot sustenta que os insulares das Canárias são 
de proveniência continental ; citando os exploradores 
que partiram de Lisboa em 1341 e aportaram ás 
ilhas Canárias, transcreve as palavras da sua rela- 
ção : < O seu canto é muito suave ; elles dansam á 
moda franceza, quasi. (Cantaní dulciter, et fere 
more gallico tripudiant) Ora esta dansa conservada 
entre os habitantes das Canárias, vem assim descri- 
pto por Gomera na Historia de las índias: cAs 
ilhas Canárias tornaram conhecidas no mundo duas 
cousas, que lhe conservam a celebridade : estes 
lindos pássaros estimados pelo seu canto, e essa 
dansa canária tão variada e tão gentil.» E Viera, 
nas suas Noticias, escreve: cA dansa canária exe- 
cuta-se dois a dois, ou muitos ao mesmo tempo, e 
consistia em uma grande ligeireza de pés acompa- 
nhada de movimentos do corpo muito expressivos. > 
Eram estas dansas acompanhadas de tamboril e de 
charamellas de cana, ou na sua falta pelo canto e 



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POPULAR PORTUGUEZA 56 1 

estalidos das mãos, em compasso quaternário. O 
bayle canário passou para a Andalusia, quando al- 
guns insulares foram trazidos como captivos para 
Sevilha. * Como vemos pelo testemunho do Filinto, 
o Bayle canário era exhibido no século xviii na Mou- 
raria ; ahi veiu acordar essa vibração, que para os 
viajantes de i34í,4hes lembrava o co$tuine f rance z, 
propriamente britonico, ou melhor, pre- céltico. Por- 
tanto a dansa do Fado é apenas modernisada na sua 
designação, mas antiquíssima na forma, conservando 
em Portugal a sua completa característica. 

No Folk-Lore Filipino, de Reyes y Florentino, 
descrevese uma dansa em tudo parecida com o 
Fado portuguez, e que nos approxima da fonte 
ethnica: cO Kinnailegang : um par homem e mu- 
lher collocam-se frente a frente ; o primeiro não se 
move do seu logar, e o outro approxima-se delle 
cantando, ou bailando somente, movendo um chapéo 
com as mãos, como se o offerecesse ao galan ; 
passa-o por cima da cabeça delle, como intentando 
pôr-lho de cada vez. A final, consegue-o, e os dois 
bailam juntos, e assim termina.» (p. 148.) Também 
a Canção bailada Arikenken, das Fhilippinas, é de 
um só par, rapaz solteiro com uma casada, impro- 
visada a letra por ambos. A degradação da dansa 
do Fado ás Ínfimas classes sociaes, como se encon- 
tram em uma capital grande, é devida a uma sobre- 
vivência ethnica, como acontece com outras mani- 
festações consuetudinárias. 

Com a poesia ou versos do Fado dá-se o pheno- 
meno de uma renovação constante por um trabalho 
semi-culto, afastando-se constantemente da ingenui- 
dade popular. Toda a cantiga solta em descante ou 



1 Mentoires de la Socittê de Ethmlogie, vol. i, p. 202. 



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502 HISTORIA DA POESIA 



em desgarrada constitue letra do Fado; uma quadra 
glosada em decimas servindo-lhes de Mote, ou uma 
narrativa pessoal a que os francezes chamam Com- 
plaintey também serve para a melodia e para a 
dansa do Fado, recebendo por isso tal designação, 
viciando o critério pela sua modernidade. 

Todos os estudos sobre o Fado por Pinto de 
Carvalho e Alberto Pimentel assentara sobre a 
parte poética e mesmo individual dos principaes 
fadistas, que deixaram nome por sua vida airada. 
Ha uma forma métrica no Fado do Marujo, que já 
no século xvii apparece nos Lamentos de uma Freira, 
terminando cada estrophe com um verso quebrado 
que se liga pela rima com o seguinte, fazendo assim 
um encadeamento; mas esta forma foi abandonada, 
adoptando os cantadores populares e os fadistas da 
borga o systema da quadra servindo de Mote. In- 
forma-nos Pinto de Carvalho: «Os cantadores do 
Fado têm uma terminologia privativa da sua arte. 
Chamam canto a atirar ou canto ao desafio ou á 
desgarrada ; chamam canto sagrado, canto ao divino 
ou canto d Escriptura, quando o canto se refere a 
assumptos religiosos ou a assumptos da Escriptura; 
e chamam ao canto do Fado em geral — a Canta- 
dória. Ter obra significa ter producções originaes, 
ser auctor de versos de Fado, e também significa 
ter cantigas para cantar; e ter muita livraria é 
dispor de uma grande reserva de cantigas, suas ou 
de outrem.» (Hist. do Fado, p. 8o.) Isto revela a 
falta de importância quanto ao material versificado, 
mas curioso para a questão da morphologia litte- 
raria. 

Sobre a evolnção musical desde a sua origem 
popular, observa Camille Bellaigue : «Foram mui- 
tas vezes nacionaes e populares os timbres grego- 
rianos da Edade média, que os fieis entoavam na 



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POPULAR PORTUGUEZA 563 

egreja em conjuncto. O elemento popular subsistiu 
na polyphonia das edades seguintes, e os mestres 
flamengos, italianos ou francezes, não se temiam de 
construir sobre e?tes themas familiares, profanos mes- 
mo, as suas obras primas religiosas. Os tempos mu- 
daram depressa. A Itália creou o recitativo^ depois 
a melodia. A musica fez se mais aristocrática e 
mais individual; com o povo d*ali em diante ella 
deixou de ter qualquer cousa de commum. Ao mes- 
mo tempo ella tornava-se commum a todos os po- 
vos, e na belleza por assim dizer, internacional das 
obras primas clássicas, os caracteres e as differen- 
ças ethnicas foram-se apagando. OsBach, os Haydn, 
os Beethoven deram outr ora no seu génio pouco 
logar ao génio popular. Wagner, em nossos dias, 
apesar das suas theorias sobre o povo creador da 
obra de arte, mostrou se na pratica, o menos povo 
dos grandes músicos.» * Desta evolução deduz-se 
o processo para a renovação musical em cada paiz, 
regresando ás Melodias populares não como sim- 
ples thema de elaboração contrapontista e polypho- 
nica, mas como fixação da tonalidade nacional, 
tornando as bellas formas estheticas a expressão 
ethnica da raça. Sob este critério é que os Fados 
portuguezes merecem ser estudados, para se reco- 
nhecer e sentir a tonalidade nacional, base orgânica 
para toda a creação artística musical. 

Um phenomeno curioso se revelou modernamente 
na poesia popular portugueza : homens analphabetos, 
como o Eusébio, calafate em Setúbal, e Manuel Ca- 
vador, da Beira Alta, manifestaram-se improvisado- 
res, merecendo os seus versos espontâneos serem 
colligidos na forma escripta por curiosos admirado- 



1 Rev^ des Deux Mondes^ 1901, outubro i.<>, p. 707. 



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564 HiSTORIA DA POESIA 

res, que os vulgarisaram pela imprensa. E^ses im- 
provisos do Eusébio e do Manoel Cavador são 
moldados nas formas poéticas do século xviii, em 
redondilha maior, desenvolvendo em Decimas per- 
feitamente arcádicas Motes de um, dois ou quatro 
versos. Verdadeiramente esta forma não é popular, 
nem tampouco a linguagem. Como, pois, occorreu 
a esses poetas do povo a imitação desta forma 
culta, sem a conhecerem directamente ? No seu li- 
vro Le Peuple, Michelet observando o phenomeno 
análogo em França, explica-o : «Os poetas operários 
d estes últimos tempos têm imitado os rythmos de 
Lamartine, abdicando de si, quanto elles podem, e 
sacrificando muitas vezes o que poderiam ter de 
originalidade popular. — O erro do povo, quando 
elle escreve, é sempre de sair do seu coração, onde 
está a sua força, para ir macaquear ás classes supe- 
riores abstracções e generalidades. Ha uma grande 
vantagem, mas que elle não aprecia de modo algum, 
é a de não saber a linguagem convencional, de não 
ser como nós o somos, obsessos, perseguidos por 
phrases feitas, fórmulas qué occorrem por si, quando 
escrevemos, a appresentar-se sobre o nosso papel. 
Eis, o que justamente nos invejam, o que tomam de 
empréstimo, tanto quanto podem, os litteratos ope- 
rários.» (p. 147.) Michelet reconhece um estado de 
decadência na actividade poética do povo: «Eu não 
contesto o estado de depressão, de degenerescência 
physica, por vezes moral, em que se acha hoje o 
povo, principalmente o das cidades. Toda a massa 
de trabalhos pezados, toda a carga que na antigui- 
dade competia somente ao escravo, acha-se hoje 
compartilhada entre os homens livres dás^ classes 
inferiores. Todos participam das miserias,_das vul- 
garidades prosaicas, das hediondezas da escravidão. 
As raças as mais felizmente nascidas, as nossas 



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I 



POPULAR P0RTUGUE2A 565 

lindas raças do Meio Dia, por exemplo, tão vivas e 
tão cantíideiras, estão tristemente curvadas pelo tra 
balho. O peór, é que hoje a alma está muitas vezes 
tão curvada como os dorsos; a miséria, as necessi- 
dades, o medo do penhorista, do tendeiro, que ha 
de menos poético? — O povo tem menos poesia 
em si mesmo, e encontra-a «menos na sociedade 
que o rodêa. Esta sociedade tem de menos raramente 
o género da poesia que o povo pode apreciar — o 
detalhe impressionante no pittoresco ou o pathfetico. 
Se tem uma alta poesia essa sociedade, é nas har- 
monias, muitas vezes complicadas, que um olhar 
pouco exercitado não alcança. 

cO homem pobre e isolado, cercado destes obje- 
ctos immensos, destas enormes forças collectivas que 
o arrastam, sem que elle as comprehenda, sente-se 
fraco e humilhado. • 

cPara que pedir a homens de acção quaes são 
os seus escriptos ? Os verdadeiros productos do 
génio popular, não são livros, são actos corajosos, 
palavras conceituosas, phrases quentes, inspiradas, 
como eu as apanho todos os dias na rua, saindo 
de uma bocca vulgar, da que menos parece feita 
para a inspiração.* [Tb,, p. 145.) 

A situação do povo, tal como a descreve Michelet 
em frente da civilisação moderna e que lhe esterilisa 
a energia poética, é a mesma que se manifesta em 
Portugal, aggravada por séculos de fanatismo e de 
despotismo. A' passiva resistência ás calamidades so- 
ciaes dá-lhe apoio a sua poesia tradicional, o seu des- 
cante, como elle o confessa : — Eu hei de morrer can- 
tando, — Já que chorando nasci. . . Para accordar o 
• génio do povo aos actos corajosos, á dignidade civica, 
á consciência de nação livre, é preciso fazer-lhe pulsar 
o sentimento da raça, implícito n'essa resistência de 
temperamento (maio assuetum) e sobretudo nos 

Poes. popul. — Vol. II 36 



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Goos 



t>66 HISTORIA DA POESIA 

costumes e vitalidade da sua tradição poética. A 
consciência d*esse individualismo ethnico dá-Ihe di- 
reito de figurar como nação autónoma entre as raças 
superiores, ás quaes abriu caminho pelos grandes 
Descobrimentos. Gladstone, observando o movimento 
de approximação das populações britonicas da FVança 
e d^ Inglaterra para estabelecerem a reconstrucção 
da sua unidade ethnica, reconheceu que o renasci 
mento da ideia de raça e da naàonalidacU vem dar ao 
homem um maior desenvolvimento de actividade e 
rdêvo moral. Podesse este livro despertar o senti- 
mento da raça, que por si surgiria a energia da 
Nacionalidade portugueza, cuja synthese histórica se 
resume em oito séculos de resistência, que na sua 
poesia são oito séculos de esperança. 



FIM 



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índice 



Pag. 

Prefacio *.'... . v 

I 

A Corte e a Egbbja, sua infutencia na Poesia 

POPULAR (Século xn a xv) 3 a 182 

§ i.« A Cultura fr.jnce^a e o Poder real. . ; , . . 16 a 96 

A) NOVA MESTRIA. ...... 27 

I .*» Matéria de França (Cyclo Òãríingio). ..... 29 

2.« Matéria de Bretanha |fC/i^/o da Tavol a Re- 
donda) 40 

S.* Matéria de Roma (Cyclo gr eco romano) ... 5 o 

B) A ARTE DE TROVAR 54 a 95 

I.*» Arte oommum (Mestria menor). ^ >.,....,. 54 

i.'» Arte mayob (Gram Mestria) .... . 6b 

3." Mister da Joolaria.. ......... v- . ... . . 77 



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568 índice 

Pag. 

§ 2.° A Cultura latino-ecclesiastica 96 

A) MISTSB DE QLBBBSIÂ loo 

i.o Leqvsj}abiob (O trilHito das Don^^ellasi) ... 10 1 

2.*» Santobabs (Santo AntonioJ : 14c 

3.° CZBMPLABIOS 1 59 

B)PATBIA S NACIONALIDADE POB- 

TXTQ-UBZA 171 



II 



IncobporaqIo social do tebcbibo bstado e flo- 

bbsobnoia da poesia populab l83 a 492 

SECÇÃO I.* (Século XV) 

§ I. Consciência da autonomia nacional i88 

aj A RevoluçIo de Lisboa » 

bj O TYPp pos Romances velhos 199 

§ 2. As persistências ethnicas 25» 

A) FÓOO TBADICIONAL DO ABCHIPS- 

LAGtO DA HADEIBA 253 

B) FÓOO TBADICIONAL DO ABCHIPS- 

LAOODOSAÇOBBS 275 

SECÇÃO 2.» (Século xvi) 3 16 

§ i.«» i4 Carte e a influencia castelhana na Poe- 
sia popular, ; * ' » 

A) A CANÇÃO LYBICA 3ig 

B) A CANÇÃO NABBATIVA 317 



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ÍNDICE 669 



Pag. 



§ 2.*» A Egreja e a condemnação da Poesia po- 
pular 392 

C) A CANÇÃO BAILADA 394 

§ 3 Nacionalismo nos focos coloniaes* 410 

índia 411 

Brasil ... 423 

Africa e os Judeus portuguezes 445 

SECÇÃO 3 « (Séculos xvii b xviii) . . . 45o 

§ I .• O processo de desnacionalisação » 

§ 2.® Degradação da Poesia popular 464 

A) A Modinha (Canção lyricaj 476 

B) Canção nakrativa 480 

C) Dansas 483 

m 

Regresso is fontes tbdicionaes pelo Romanticis- 

mo (Século xix) 493 

§ I • i4 iniciativa de Garrett. 496 

§ 2.° Integração de todos os trabalhos ethnolo- 

gicos 5i3 

A) Continuação da obra de Garrett. ... Siy 

B) IkvestioaçÕes do Folk Lore portuguez. 537 

C) As Melodias populares e a Tonalidade 

PORTUGUEZA. — Os Fados 547 



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