(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia das kutas com os Hollandezes no Brazil desde 1624 a 1654 .."

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



HOLLANDEZES NO BRAZIL. 




^"■■v 







MistíSria bas Lutas 

1 1 f\í 




.COM 



OS JLLÂNDEZES NO BRAZIL 




DESPE 1624 i 1654. 



„Gaerra distante, desajudada dos res- 
peitos , estorvada do tempo . . . contra 
nação famosa, capitães destros, ministros 
prudentes e eiFeitos ricos . . . não sei eu 
quç nos archivos da lembrança humana 
haja outra com semelhante felicidade 
conseguida." ^^ ^^^^^^ ^^^ ^^ ^^^^^^ 



Jt 



J^BLO AUTOR DA HISTORIA GERAL DO BRfZIL. 

f 

{Com uma estampa). 



VIENNA D'AUSTRIA. 
1871. 



.X 



F^^s> 



z. 



/= 






Mfc^^i ««fc- 



/mp. d« Carloi Finsterbtck, Viennu. Htrrettgasge, 13. 



PREFACIO. 



Chegou, quasi sem o pensarmos^ o tempo ^e satis- 
fazermos uma divida que haviamos contraído para com 
o público ha mais de deseseis annos. Ao submetter ao 
prelo, em 1854, o primeiro volume da Historia Geral 
do Brazil dissemos (p. 361): „Se algum dia a sorte 
nos guiar os passos ás provincias de Pernambuco e 
Alagoas, de modo que as possamos por algum tempo 
percorrer em todos os sentidos, e ver por nossos pró- 
prios olhos o theatro desta prolongada guerra (dos 
HoUandezes), e estudar os antigos campos de batalha e 
compulsar os archivos ou escriptorios públicos e parti- 
culares das duas provincias, talvez que emprehendamos 
tratar o assumpto com mais extensão em uma historia 
especial." — 

Se bem que haviamos curiosamente estudado os 
arredores do Recife até Itamaracá e Igarassú, de um 
lado, e até os Guararapes e o monte das Tabocas, de 
outro, e que tínhamos visitado, com a devida curiosidade, 
as capitães do Maranhão, do Ceará, do Rio-Grande, da 
Parahiba, das Alagoas e da Bahia, e suas immediações, 



VI PEEPACIO. 

não pensávamos começar a redigir o livro projectado, 
sem examinar antes todos os postos e percorrer todos os 
caminhos, onde, por seus patrióticos feitos, se immortali- 
saram os quatro heroes brazileiros , anti - hollandezes, 
Vidal, Barbalho, Camarão e Dias. 

Porém o homem pôe e Deus dispõe. Achavamo- 
nos, por motivos do serviço "público, no Rio de Janeiro, 
e accidentalmente em Petrópolis, e ainda estava por 
decidir a titânica luta que o 3razil susteve no Paraguay, 
e nem se quer as armas alliadas haviam vencido o Hu- 
maitá, e éramos testemunhas dos desfallecimentos de 
alguns, quando, com o assentimento de vários amigos, 
nos pareceu que não deixaria de concorrer a acoraçoar 
08 que ja se queixavam de uma guerra de mais de dois 
annos, o avivar-lhes a lembrança, apresentando-lhes, de 
uma forma conveniente, o exemplo de outra mais antiga, 
em que o próprio Brazil, ainda então insignificante co- 
lónia, havia lutado, durante vinte e quatro annos, sem 
descanso, e por fim vencido, contra uma das nações 
naquelle tempo mais guerreiras da Europa. 

Tal foi o estimulo qu« tivenios para nos lançar- 
mos, antes do tempo promettido, á redacção da historia 
especial dos mencionados vinte e quatro annos de luta, 
incluindo também os precedentes, em que se haviam 
passado os preliminares delia; para o que possuíamos ja, 
de antemão reunidos, todos os elementos que se poderam 
encontrar tanto nos livros e folhetos, contemporâneos e 
recentes, como nos diflferentes archivos e bibliothecas, 
principalmente do Brazil, de Portugal, da Hespanha e 
dos Paizes Baixos ; guiando-nos palpavelmente, no laby- 
rintho dos deste ultimo paiz, durante o pouco tempo 
que nelle podíamos demorar-nos, a mão amicíssima do 
Dr. Joaquim Caetano da Silva, que nos dez annos, que, 



PREFAC.IO. V VII 

como diplomático, foi representante do Império, lhe pres- 
tou os relevantíssimos serviços de reivií^dicar os nossos 
inauferíveis direitos á fronteira do Oyapoc, de um modo 
incontestável, e de estudar os archivos hoUandezes, fa- 
zendo passar delles para o Brazil quanto havia de mais 
importante. 

Alguns mezes dedicámos á redacção do nosso es- 
cripto, procurando aturadamente supprir, pelo estudo, pela 
inspecção de muitos mappas topographicos e pela inqui- 
rição de informações locaes, a falta desses exames que 
ás vezes permittem o trá-nsmittir com mais vigor a pró- 
pria verdade. 

Concluiamos justamente a redacção, quando chegou 
a notícia da passagem do Humaitá e da tomada do forte 
Estabelecimiento, depois de , cujos feitos ninguém 
duvidou mais de que estava próximo o fim da guerra; 
e ja não se careciam nem de exemplos, nem de estímu- 
los, que servissem a augmentar a fé aos tíbios, que 
estavam longe do theatro da guerra; pois aos bravos 
que la se acharam não faltou jamais a perseverança, 
nem o enthusiasmo. 

Guardamos pois o nosso manuscripto, esperançados 
de que mais tarde chegaríamos a emprehender essas 
peregrinações, e que, depois de as realisar, poderíamos 
retocal-o com vantagem. 

Adiantam-se porém os annos, e começamos a ter 
receios de que elles virão, já agora, a pôr embargos a 
que siga os seus impulsos o coração ainda moço. — Por 
• outro lado, relendo o nosso escripto, depois de o haver 
tido encerrado durante perto de três annos, encontrámos 
nelle tantas apreciações mais justas e exactas que as 
exharadas na supramencionada Historia Q-eral, que, 
na incerteza de podermos chegar a publicar desta a 



Vm PREFACIO. 

nova edição consideravelmente melhorada que prepará- 
ramos, decidimos dal-o ao prelo, salvando-se deste modo 
de perecer ao menos a parte interessantíssima respectiva 
á época do dominio hollandez. 

Faltas e imperfeições não faltarão neste escripto, 
como obra humana e executada por tão débil penna. 
Com o pensamento desde ja de ainda o aperfeiçoar, se 
Deus nos der vida, em outra edição, fazemos esta de* 
mui limitado número de exemplares. Acresce que de- 
vendo imprimir em paiz estrangeiro, tanto se nos absor- 
veu a attençao na revisão das provas que nem podemos 
dedical-a a corrigir mais o manuscripto. 

Apezar de tudo porém, mediante um perfunctorio 
exame de qualquer dos dez Livros da obra, (e especial- 
mente dos dois primeiros e dos últimos) o leitor poderá 
avaliar quanto desvelo e estudo nella puzemos , e 
chegará a reconhecer que á mais sollicita investigação 
da verdade, e ao mais accurado critério na apreciação 
dos factos, buscámos associar a maior simplicidade na 
exposição, preferindo ás galas do estylo a sua maioj* 
clareza e sobriedade; que 'alias deixam sempre mais 
satisfeita a consciência; mas que nem sempre se conse- 
guem, sem interrupções, nas obras históricas; em que o 
autor se vê obrigado a reproduzir, com o espirito ainda 
cançado pelo estudo de chronistas escuros e suporiferos, 
ou de documentos carunchosos e de má leitura. 

A* clausula de investigar soUicitamente a verdade 
procurámos satisfazer, recorrendo sempre de preferencia 
ás fontes primitivas; — aos livros e relações das teste- * 
munhas presenciaes e escriptores contemporâneos, e prin- 
cipalmente ás correspondências officiaes, pela maior parte 
inéditas, que nos restam, em grande numero, de uma e 
outra parte, e servem ás vezes até a emendar erros em 



PREFACIO. IX 

que caíram os próprios autores que no theátro da guerra 
presenciaram os factos, ou escreveram immediatamente, 
na posse de outros documentos, ou consultando as teste- 
munhas de visía. 

Entre os autores coevos quatro se distinguem, de 
obras mais volumosas e originaes, que mui attenta,mente 
lemos, estudámos e confrontámos. Referimo-nos a Duarte 
d' Albuquerque, a Barleus, a Calado e a Pierre Moreau* 
Occupar-nos-hemos de cada um, segundo a ordem chro- 
nologicá dos assumptos que historiaram , pela qual os 
mencionámos. 

As Memorias Diárias de Duarte d^Albuquer- 
que, 1®. Conde e 3®. Donatário de Pernambuco, com- 
prehendem na época de nove annos que abrangem (desde 
1630, e com mais extensão e exatidão desde 1632, a 
1638 inclusivamente) maior somiíia de factos guerreiros 
que nenhuma outra; mas são alguns delles demasiado 
minuciosos, e de mais interesse para as chronicas locaes 
que para a historia politica e civil em geral. 

Antes porém de emittir nenhum juizo acerca deste 
autor, ouçamol-o; que assim o exigiu elle, deixando-nos 
o seguinte prologo : 

„Eeceando (disse o autor) que falte quem escreva acerca 
da gaen-a de Pernambuco com os Hollandezes, começada no 
anno de 1630, me decidi a redigir estas memorias. Se alguém 
encontrar mesquinho q assumpto, responderei que, segundo 
presrmo, não eram de mais ponderação, nem acaso de tanta, 
outras em que se empregaram nobilíssimas elegâncias, que por 
ventura neste se espraiariam mais gostosamente. Se não me 6 
dado engrandecel-o por meio das galas do estylo, creio que 
elle tão pouco se amesquinhará só porque eu chãmente refira; 
dezejando que depois o exornem mais felizes pennas, servindo- 
Ihes de apparato verdadeiro estas memorias. Neste supposto 



X PKEFACIO. 

dou a presente notícia dos primeiros nove annos desta guerra, 
para que nao fique em esquecimento o que obraram, como se 
fossem copiosas as armas de S. M., ainda que sempre ali mui 
escacas. E os que, inconsideradamente, julgam dos aconteci- 
mentos pelos resultados, hão de reconhecer que o valor e a 
constância, suprindo a pequenhez do número, não deixaram de 
ser formidáveis ao inimigo. Quanto aos defeitos (achaques or- 
dinários na fraqueza humana) que se notem nestas memórias, não 
me toca a mim desculpal-os, mas sim confessal-os todos ; se 
com justiça se podem elles taxar, em matérias de estylo, a quem 
nisso não tem presumpçSíes; e só tratou de mosti^ar zelo com 
a lhaneza e a verdade essenciaes na historia, ainda quando 
adornada, e com mais razão em uma relação tão singela; pois 
'bem singelamente trato de referir quanto se passou nos ditos 
nove annos desta guerra, por me haver achado presente n,ella 
em quasi todo esse tempo ; e seguir, na parte em que não me 
achei, as Eelações Diárias feitas pelo mesmo Ge- 
neral*) eoutras pessoas de inteiro credito; e 
creio fii'memente que outro poderá escrever com mais luzimento, 
não com maior ex?me da verdade. Se com tudo ainda a alguém 
parecer que a empreza foi excessiva para as minhas forças, 
não serei o primeií-o nem o último que emprehenda o que não 
ponde conseguir, sendo eu o próprio em o reconhecer e con- 
fessar. Devo aqui declarar que um dos motivos que me leva- 
ram a escrever foi o ouvir certos juizos acerca desta guerra, 
tão vazios de verdade e cheios de paixão, que sem esta e com 
aquella, tive por mui necessário apresental-os aos que, não 
tendo servido lá, desejarem saber como se conduziram os que 
o fizeram. Finalmente aos que, por malícia ou por ignorância, 
calumniarem quanto se fez, não darei nenhumas satisfações, 
pois o não merecem. E aos muitos que vi proceder com sin- 
gular valor, e que foram pródigos da sua fazenda e do seu 
sangue pela religião e pela pátria, rogarei com todo o afecto 
'que me perdoem se, ao fazer delles menção, os não elogio 
quanto merecem." 



*) Estas palavras, a que não havíamos feito attençao, confirmam 
as fundadas suspeitas que tinhamos ao escrever a segunda 
nota da pagina '6^. — (V.) 



PEEFACIO, XI 

Com as satisfações dadas nas linhas acima trans- 
criptas, que foram omittidas na traducção ultimamente 
publicada, responde o autor adiantado a qualquer cen- 
sura que se poderia fazer ao seu estylo, e realça a im- 
portância do serviço, que, em todo caso, nos legou, por 
meio do seu livro-documento ; — serviço por certo mal 
apreciado por D. Francisco Manuel de Mello, quando 
em 1660, tendo sem duvida na mente esta obra e a do 
Lucideno, ambas já publicadas, dizia não ter havido até 
então „quem, por nossa parte, em forma decente 
publicasse um só volume** acerca das guerras *de Per- 
nambuco. 

Sem concordarmos inteiramente com tão severo 
juizo, concedemos entretanto que as Memorias Diá- 
rias devem ser lidas com certa prevenção contra £|s 
suas continuadas lamurias por que a Corte ') não man- 
dava maiores soccorros à capitania de que o autor era 
donatário, e general e governador o seu irmão; contra 
a natural tendência a desculpar todos os erros com- 
mettidos, provavelmente por falta de ambos; contra o 
habito, mui frequente nos acampamentos, de exagerar 
sempre as forças e as perdas do inimigo; e finalmente 
contra as demasias nos pormenores ; . que são taes que 
fará um serviço ao autor o futuro editor do seu livro 
que o reproduzir, transmittindo em typos maiores o mais 
substancial, e em typos miúdos os ditos pormenores, por 

via de regra cançadisBimos. *) 
• « 

^) Esta accusaçao devia ser uma das razSes allegadas - em certo 
parecer, oppondo-se á impressão das ditas Memorias, de que 
faz menção o addicionador de Pinelo, Tom. 2.°, T. 42, col. 676. 

') Tal edição poderá ser facilmente feita no Rio de Janeiro, 
graças á circumstancia de possuir a bibliotheca nacional um 
exemplar da edição primitiva em castelhano, da qual são 
contados os hoje em dia existentes; por não haver ella tido 



XII PEEFACIO. 

Foi deste livro, pouco lido quando se deu á luz, 
que, sem o confessar, quasi exclusivamente se valeu 
Francisco de Brito Freire para a historia que, acerca 
do primeiro período da guerra pernambucana, publicou 
em 1675 ; adornando mais a narração, acrescentando cir- 
cumstancias, que não se justificam pelos factos hoje 
conhecidos por novos documentos, e que foram introdu- 
zidos como verdadeiros recursos oratórios para enrique- 
cer o estylo, que alias saiu guindado e ultra-culto. O 
certo é que se Albuquerque havia terminado o seu livro 
no anno de 1638, porque então se retirou para a Europa, 
Brito Freire se viu também obrigado a não passar desse 
anno , porque não teve delle em diante mais M e- 
morias Diárias que lhe fornecessem texto. 

Como escriptor de çaeritos superiores, se nos apre- 
senta, nos dois annos dê 1637 e 1638 e nos seis seguin- 
tes até 1644, o hollandez Gaspar Van Baerle, mais co- 
nhecido com o nome de Barlseus ou Barleus, na historia 
que escreveu, da administração e feitos de Nassau em 
Pernambuco. Preclarissimo poeta, assim na lingua hol- 
landeza, como na latina, cujos primorosos versos, com- 
parados aos melhores da antiguidade, lhe grangearam 
muita nomeada, agudo theologo (protestante), penetrante 
philosopho e distincto doutor em medicina, consagrou 
Barleus os seus últimos annos a essa historia, que pu- 
blicou em Amsterdam em 1647, vindo a fallecèr logo de- 



circulação alguma. Assim pois só uma edição igual á primi- 
tiva poderá ao mesmo tempo supprir, no orbe litterario, uma 
reconhecida necessidade bibliographica, e evitar que de novo 
se repitam algumas compromettedoras erratas, que escaparam 
na traducção, que corre impressa, taes como as que adiante 
citamos. (Veja a nota 1.* pag. 281). 



PREFACIO. 



XIII 



pois, em 14 de Janeiro de 1648, aos 64 annos de idade, 
com o cérebro mui debilitado. *) 

A latiníssima „ Historia dos oito annos de governo 
de Nassau," por mais que corram os séculos, será sem- 
pre um livro importante e digno de consultar-se. So de- 
pois que tivemos occasiáo de folhear detidamente a cor- 
respondência official dp mesmo Nassau e' que nos con- 
vencemos que Barleus a tivera igualmente presente, e se 
aproveitara delia, com o devido critério; sendo que, 
como panegyrista desses oito annos, pouco se lhe poderá 
acrescentar. Para ser porém considerado como histo- 
riador imparcial desse período, faltou-lhe obedecerão 
preceito: audietur altera pars. 

E o mais e' que o haver o autor deixado de con- 
sultar alguns documentos ou autoridades do lado dos 
nossos foi causa das muitas incorrecções que a obra 
contêm, nos nomes próprios e geographicos portuguezes 
e do Brazil. ^) 

Não faltará quem ainda note na historia de Bar- 
leus certa demasia e abuso na aproximação dos factos 



*) E' mui provável que para isso concorresse o grande esforço 
que poz para escrever esta historia, em tão pouco tempo, e 
em tal idade. Segundo Moreri, chegou a adquirir horror ao fogo, 
julgando ter o corpo de palha ou de manteiga, e não falta 
quem acrescente que morreu, lançando-se a um poço. 

»*) Entre outras faltas que deixámos de advertir, v. gr. Cabo 
Dello, em vez de Cabedelo, Openeda em vez de 
o Penedo, e fazendo crer, referindo-se á de Porto-Calvo, que 
Povoação (que se corrompe em Povacaona) era o nome 
de uma fortaleza (arx), etc. — notámos muitas nos competen- 
tes logares, no intento de que possam fazer-se as convenientes 
correcções em outra nova edição. Também citaremos aqui o 
dizer-se uma vez no livro Afagodis por Afogados, e 
Seregrippa por Sergipe, e sempre Banjola por Ba- 
gnuolo, etc. 



XIV PREFACIO. 

análogos aos que narra, passados entre os Gregos, e 
principalmente entre os Romanos; o que, em logar de 
amenisar a narração, chega ás vezes a fazei -a um 
tanto pezada. — Também se torna enfadonha a repeti- 
ção, a miúdo, de descripções que se poderiam haver 
omittido, referindo -se ellas a paizes todos tropicaes, 
análogos e de idênticas producções, entrando a respeito 
destas o autor em pormenores que hoje se considerariam 
alheios á historia civil ; taes como o modo de fabricar-se 
o assucar, as differentes sortes deste producto conhecidas 
no commercio, a descripção da planta do ananaz e do 
seu fructo, hoje familiar era todos os paizes, etc. 

Ainda que muito ajuda a parecer o autor mais 
elevado a formosa lingua que tão elegantemente mane- 
java, possuía elle altos dotes como historiador, segundo 
se pode coUigir dos' seguintes períodos de eloquente e 
saborosa latinidade em que dá conta àe si* 

„Ego historise huic materiam selegi ea solummodo, quse 
. . . in alio Orbe, inter bárbaros et Hispanos, dúbios apertos- 
que hostes, gesta sunt . . . Mihi et tacere liberum est et lo- 
qui. Ne taceam, provocor illustribus factis; ut loquar, imperat 
publica felicitas, quse fraudari sua laude non vult, quibus 
seipsam debet. Trahunt in admirationem domestica, quanto 
magis exteiTia bella, sub aliis sideribus, magna virtute gesta. 
Huic pretium suum deme posteritatis memoriam, languescet, et 
scríptorum inertia per silentium' concidet, ubi majorum exempla 
ante óculos habet, insigni semulatione adsurgit, et imitari Vult 
gnaviter, quse gloriosè facta legit. Nihil dabo adulationi, cujus 
causas posthabeo, nec ódio uUius detraham de vero, ne pari 
ódio con vincar falsi. Qui comparatione curse ingeniique eadem 
scribere volent, eloquentiam adhibeant, mihi simplici narratione 
et ex rerum Me haec tradidisse, sufficiet. Aliquot retro seculis 
gesta scribas confidentius, remotis autoribus et testibus, mihi 
in eorum oculis vivitur et scribitur, qui haec aut gessere ipsi, 
aut gestis interfuere. Quantum chartis publicis creditur á veri 
studiosis, tantum mihi, nec ultra credi cupiam, nec enim vagis 



• 



PREFACIO. XV 

oculis usurpata, sed scripta domi à tranquillis et sedatis men'- 
tibus referam. In máximo rerum cumulo et chartarum immen- 
sis fascibus, ut harum rerum cuiiosis longsa inquisitionis labor 
absit, utar delectu, et ea brevitate, quae nihil magnum et me- 
morabile factis subducet, minuta persequi supervacaneum cre- 
didi, anxiá sedulitas sedulitatis error est, et rei snmmae tantum 
decedit, quantum minus necessariis impenditur." 

A edição princeps desta obra, publicada, como dis- 
semos em 1647, foi executada com todo luxo, em um 
volume em folio de 340 paginas, em excellente papel e 
typo mui grado do chamado texto. Existe porém delia 
uma reimpressão, em pequeno formato, feita na officina 
de Tobias Silberling, em Clèves em 1660; isto é no amo 
immediato ao em que èm idêntico formato se havia pu- 
bicado igualmente em Clèves, e pelo mesmo Silberling, 
a traducção allemã, que leva o titulo de ,,ÍBrafííianifd^e 
(Seíd^id^tc be^ ad^t^dl^riaer in feibígcn Sanben 9íegierung/' etc.^) 

A explendida primeira edição, de mais auxílio que 
as outras por várias plantas topographicas e vistas que 
só nella so acham (algumas destas firmadas por F. Post), 
e pelos quatro minuciosos mappas, que abrangem o nosso 
littoral desde o Rio-Real ao Rio- Grande, com alguns 
pormenores ainda hoje em dia de aproveitar, é infeliz- 
mente algum tanto rara, por haverem sido consum- 
midos pelas chamas os exemplares, ainda não vendidos, 
no incêndio do livreiro, editor João Blaeuw. 

Inquestionavelmente mui inferior em méritos, tanto 
a Barleus como a Albuquerque, quanto á exacta aqui- 
latação dos factos, e ao methodo e ordem de narração, 
é o Padre Mestre Fr. Manuel Calado, da ordem de 



*) Tal é o titulo impresso. Precedje-o porém outro gravado que 
diz: „®t]á}iá)U in SrojiUen nutcr bcr Sícgicrung/' etc. (XXVI, 
848. XX Pag.') 



XVI ' PBEFxVCIO. 

S. Paulo, da Congregação da Serra d'0s8a, na primeií^a 
parte (única que se imprimiu) do Valoroso Luci- 
d e n o , a qual mais especialmente trata dos factos 
concernentes á restauração pernambucana até 15 de 
Julho de 1646. Como testemunha de vista, deve este 
autor ser consultado; porém sempre com o possivel 
tento e critério. Ministro de uma religião toda de paz 
e tolerância, mostra-se de an imo p equ enissimo contra 
os q ue não eram s eus amig os^ partidário de Fernandes 
Vieira, compremette-o, com o seu pouco tino, quando 
mais o pretende exaltar ; e prestá-se até a denegrir aos 
da parcialidade rival, accusando-os de assassinos. Além 
disso falta muitas vezes á dignidade histórica, dedica 
paginas inteiras a muitos contos sem importância, e crê 
ou finge crer em todos os boatos que, para exaltar o 
povo miúdo contra os HoUandezes, se faziam correr nos 
acampamentos. Nem é mais feliz, nem muito mais ele- 
vado, nos cantos épicos em oitava rimada, que em favor 
do seu heroe, entresacha em vários legares do seu livro; 
o qual, dado á luz em 1648, foi pouco depois mandado 
retirar da circulação, a pedido do vigário de Pernam- 
buco, alvo das iras do autor; obtendo porém de novo 
licença para correr em 1668. 

Acerca desta obra de Calado apresentou, em 20 
de novembro de 1647, o mui sisudo critico Fr. Fran- 
cisco Brandão, um habilissimo parecer, referindo-se nelle 
ao assumpto glorioso tratado na mesma obra, e evitando 
emittir juizo acerca do seu estylo e execução. Diz assim : 

„Vi este livro, em que o autor deu principio com in- 
dustria e encaminhou com assistência e conselho a liberdade 
dos moradores de Pernambuco, que Deus reduzirá a. cumprido 
effeito. Em todo o processo da escritura se não achará cousa 
que não mereça admiração, ou seja do valor com que aquelles 
leaes vassallos se dispuzeram a sacudir o jugo injusto da Olanda, 



PftEPACIO. XVII 

por se reduzir á deviàa sujeição de Y. Magestade, ou seja da 
constância e paciência com que soffreram os rigores da tyran- 
nia; e fibaalmente a fineza com que perseveraram, conservando 
a pureza da Religião catholica, impugnada de tantos heresiar- 
chas. Por todas estas razões merece esta obra ser estampada; 
para que os executores de resolução tão heróica comecem a 
lograr a estimação das gentes que avaliarem, pela leitura delia, 
0. premio de honra que se lhes deve ; e os ministros que hão 
de concorrer na prosecução da restauração do Estado do Brazil 
alcancem interiores do modo de proceder da nação competidora 
e outros mais com que se facilitará aquella empreza." 

Os conhecidos defeitos do livro Valoroso Lú- 
cido no, principalmente no' que toca á falta de cor- 
recção da linguagem e de ordem e dignidade na narra- 
ção, fizeram sentir a necessidade de outra historia da 
restauração pernambucana. Lançou -se á empreza o 
monge benedictino' Fr. Rafael de Jesus, publicando em 
1679, em estylo de anthitheses, o seu famoso Catftrioto, 
cujo titulo é já quasi por si uma verdadeira anthithese. 
Fr. Rafael compraz-se em fazer gala de mui rhetorico, 
pondo na boca dos cabos de guerra arengas e discursos 
por elle compostos, systema que, em nosso fraco enten- 
der, ainda quando bem desempenhado, desvirtua a ín- 
dole da historia; embora tenha elle a seu favor a ve- 
neranda autoridade dos escriptores gregos e latinos, que 
tomaram a Xenofonte e a Thucydides por modelos ; sem 
se lembrarem que os discursos que estes últimos trans- 
crevem, e principalmente Xenofonte os seus próprios, 
bem poderiam haver sido pronunciados taes quaes; como 
hoje deveria transcrever unicamente discursos verda- 
deiros quem escrevesse a historia de um congresso 
ou parlamento. Compol-os porém por sua conta um 
autor é faltar sem consciência á verdade , e escrever 
romance histórico, em vez de historia formal. 

B 



XV1I[ PREFACIO. 

Que diremos porém quando tal systema de dis- 
cursos imaginados é posto em pratica pelo desasisado 
Benedictino? Podendo, com o Castrioto, fazer um 
livro capaz de se ler, disse D. José Barboza, „de todo 
se mallogrou, pelos termos impróprios de que usa o 
autor, além de uns parenthesis impertinentíssimos com 
que perturba e descompõe a harmonia da narração." 

E o mais é que, pela fortuna que tem acompanhado 

sestro de tantos outros chronistas mores, esta obra lhe 
angariou titulos para lhe ser dado esse cargo em 1681 ; 
com o que requintou na sua escacez de dotes, e publicou 
um novo livro^*), em que, segundo o mesmo D. José 
Barboza „a gravidade histórica se vê de tal modo des- 
„ figurada que não tem período que nâo seja impróprio, 
„nem palavra que esteja no devido logar; partes de 
„que necessariamente resulta um todo monstruoso." 

O livro que, com o titulo de „Histoire d es 
dernières troubles du Brésil entre les Hol- 

1 andais et les Portugais," deu á luz em Paris, 
em 1651 , o borgonhez Pierre Moreau, e que no anno 
seguinte foi em Arasterdam publicado em hoUandez, 
traduzido por Glazman, é, para apreciar bem os succes- 
sos primeiros da restauração pernambucana, de muito 
Auxilio; principalmente tendo-se presente o diário que 
acerca do mesmo assumpto, e pelo mesmo tempo, publi- 
cou em Amsterdam Matheus Van den Broeck. 

Não inferiores porém em autoridade aos quatro 
escriptoreô que mencionámos, de obras originaes de 
mais vulto , possuímos vários , de factos especiaes , mui 
recommendaveis e dignos de credito. 

*) Nada menos que um tomo da volumosa collecçao denominada 
^Monarchia Lusitana". 



PREFACIO. X[X 

Assim, entre as dijBferentes relações que da nossa 
parte se escreveram acerca da tomada (16 ^'4) e recu- 
peração da Bahia (1625) distingue-se, pelo caracter oífi- 
cial de que ia revestido seu autor, como capitão geral 
da frota portugueza, a de D. Manuel de Meneses, ha 
doze annos (1859) dada á luz (mui mal revista nas 
provas, e com elros tão manifestos que na própria lei- 
tura 90 advertem) pela copia do manuscrito, que tempos 
antes tivéramos a fortuna de encontrar na Hespanha, a 
cujo rei fora provavelmente pelo autor dirigido. E' um 
trabalho de consciência, com grande numero de factos 
e conhecimento de documentos, de alguns dos quaes se 
acham comprehendidos no texto os próprios originaes em 
hespanliol. Contêm noticias, do que, quasi dia por dia, 
se passou na cidade da Bahia, e principalmente^ na es- 
quadra ahi surta, até ainda depois do dia 4 de Agosto 
de 1625, em que o autor partiu para a Europa. 

Apezar de também chronista mor do Reino, como 
Fr. Rafael , D. Manuel não descobre neste livrinho, 
conforme elle próprio lhe chama (talvez porque pensava 
publical-o em pequeno formato), grandes dotes de histo- 
riador, nem de chronista. Cança o leitor dando -lhe conta 
de questões de detalhe do serviço, que nem deviam 
ser conhecidas fora do terço ou regimento ou do barco 
em que se disputavam, e muito menos passar á poste- 
ridade. Occupa-se igualmente de muitas questões de 
competência de jui^isdicção, entre as autoridades de na- 
cionalidade differente, que tão pouco nos são hoje de 
nenhum interesse. Leva paginas inteiras justificando-se, 
de um modo apaixonado, de actos seus ou de outros, 
não necessários de mencionar. N9 estylo é corrente e 
claro, mas abusa dos termos de mar, nem sempre guarda a 
conveniente gravidade, e descuida -se, empregando ^Iguns 



XX PREFACIO. 

hespanholismos desnecessários, ou antes algumas palavras 
puramente hespanholas no meio da locução portugueza. 

Recommendarão entretanto para sempre este chro- 
nista, como bom observador, as seguintes linhas que deixou 
na sua narração a respeito do local em que se devera 
ter «onstruido a cidade da espaçosa bahia de todos 
os Santos : 

„0 sitio cbamado Tapagipe é uma península eminente, 
que com trabalho de poucos gastadores se poderá ilhar, e, 
desmantelada a do Salvador (Bahia), como impossível de de- 
fender-se, pelos padi-astos que a cercam, povoar-se nella uma 
cidade digna de metropoli daquella gran província. Tudo o que 
e mar lava em circuito é resaca, an*ecife e costa brava, tem 
uma fonte e haverá outra se a buscarem, e á falta delias 
poderão deferii* cisternas mui capazes." 

Mais que o chronista mór D. Manuel de Meneses 
se noô recommenda porém como escriptor o P®. Barto- 
lomeu Guerreiro, da Companhia de Jesus, que publicou, 
do mesmo successo da tomada e recuperação da Bahia 
uma extensa relação em Lisboa, no própria anno de 
162Õ. Se não se achava em tão alta posição como 
D. Manuel de Meneses, teve presentes não só a sua re- 
lação, que copia por vezes, como sobre tudo quanto cor- 
reu pelo governo de Portugal, e a mesma circumstancia 
de não ter tido parte nos feitos o faz delles menos par- 
cial juiz. No methodo e ordem da narração e na digni- 
dade do estylo leva muita vantagem ao chronista mór. 

Iguala em autoridade, acerca do mesmo successo, 
aos dois escriptos de que acabamos de fazer menção, a 
A n n u a da Província Brazilica da, Companhia de Jesus 
em 1624 e 1625, escripta pelo P. António Vieira, ainda 
então mui joven, mas já manejando a penna com a fa- 



PREFACIO. XXI 

cilidade, lucidez e brilho, com que veio mais tarde a 
distinguir- se tanto nas lettras. 

Ao lado das três relações mencionadas , ficam a 
perder de vista umas sete, mais resumidas, acerca do 
mesmo assumpto, que conseguimos ver: cinco delias 
publicadas em Cadiz, Sevilha, Pamplona (por D. Jacinto 
de Aguilar y Prado), Nápoles (imp. de Segundino Ron- 
callolo) e Lisboa '); restando ainda inédita a que escreveu 
D. Juan Valência y Gusman; se bem que de seu con- 
teúdo se valesse o chronista mór de Castella Thomaz 
Tamayo de Vargas para a indigesta compilação, que deu 
á luz em 1628; e que, fielmente traduzida, foi, em nos- 
sos dias, publicada na Bahia pelo laborioso Accioli. 

Nada de particular a respeito do que se passou na 
Bahia aproveitámos na relação de Aldenburgk impressa 
em Coburgo no anno de 1627 ; mas não dizemos outro 
tanto do diário em allemão que o strasburguez Ambrósio 
Richshoffer só veiu a dar á luz, na sua terra natal, em 
1677, e do qual pensamos utilisar ainda mais, tomando 
alguns apontamentos que supprirão varias omissões de 
Albuquerque, nos primeiros dois annos das Memorias 
Diárias. 

Outras relações, tanto em portuguez, como em hes- 
panhol, em hoUandez e até em francez, tivemos occa- 
sião de consultar, acerca dos acontecimentos mais notá- 
veis desta guerra, v. gr. a perda do Recife, a acção 
naval entre Oquendo e Pater, a defensa da Parahiba, 
a da Bahia (em 1638) e a entrega final do Recife e 
mais praças, de que por brevilade não fazemos aqui 
especial menção, — não nos ficando porém o minimo 



') Reimp. no Tom. V. da Rev. de Instituto. 



XXII PREFACIO. 

escrúpulo de haver deixado de ver tudo quanto encontra- 
mos noticiado, assim impresso, como manuscripto. 

Pelo que respeito á tomada e recuperação do Ma- 
ranhão, nos serviram de auxiliares, além da obra de 
Baerle, duas exposições uma de Maximiliano Schade, 
commandante do forte do Calvário, e outra do conse- 
lheiro politico Pedro Bas, para rectificar vários inciden- 
tes inexactamente narrados por Berredo e pelo P. José 
de Moraes, o qual alias, por sua parte, teve a sinceri- 
dade de confessar que, „sobejando-lhe a notícia concisa 
dos factos, lhe faltaram as circumstancias delles." 

Mas, repetimol-o, muito mais que as chronicas e as 
relações, nos forneceram elementos novos e seguros para 
esta historia as correspondências e mais documentos 
oflRciaes, de um e outro lado, assim inéditos, como im- 
presso^ '), que em parte citámos, e que ás vezes assentá- 
mos dever transcrever no próprio texto. 

Havendo assim preferido sempre recorrer ás fontes 
primitivas, nos julgámos dispensados de mendigar sub- 
sidies aos escriptores que não tiveram tantos á sua dis- 
posição; taes como o judicioso D. Luiz de Meneses, 3.*^ 
Conde da Ericeira, nos An na es que denominou „Por- 
tugal Restaurado'" e o clássico D. Francisco Ma- 
nuel de Mello, tão admirável pela elevação de estylo 
mas demasiado conciso para a nossa curiosidade hoje 
em dia. 

') Entre as correspondências officiaes impressas da nossa parte 
devemos comprehender as que, trazidas em hoUandez, se pu- 
blicaram em 1646 e 1647 na própria HoUanda em dois folhe- 
tos, um com o titulo „Extract ende Copye van verscheyde 
Brieven en Schriften , , . , tot hewijs dat de Kroon van Por- 
tugael schuldich is^ etc,\ e outro com o de „Claar Vertooch 
vande Verradersche en Vyantlycke Acten en Proceduren van 
PoortugaV^ etc. 



PREFACIO. XXIII 

Pela mesma razão de pouco nos serviu a obra de 
João Nieuhof, publicada por seu irmão Henrique em 1682 ; 
visto que, no que respeita ao Brazil, quasi tudo quanto 
contêm não passa de uma rapsódia de livros publicados 
anteriormente ou de documentos já impressos na própria 
HoUanda, em relações avulsas que possuimos. 

Com maior razão puzemos todo o cuidado de não 
recorrer aos autores modernos que consideraram como 
autoridades mui fidedignas a Fr. Rafael de Jesus, a 
Santa-Theresa (Istorie delle guerre" etc.) e ao 
próprio Brito Freire, que, á falta de novos subsidies 
autênticos, ti^ataram de arranjar a seu modo os factos 
ja publicados ; acrescentando uns de sua lavra v. gi\ que 
João Fernandes Vieira assistira, e até se distinguira, na 
defensa do forte de S. Jorge em 1630; e romanceando 
todos mais ou menos os successos para, á custa da 
verdade, lhes dar maior interesse. 

No número das obras históricas assim envenenadas 
por menos seguras doutrinas, vemo-nos hoje obrigados 
a considerar a de Southey; que além disso, bem como 
a competente traducção, para os progressos da historia 
pátria em nossos dias, se encontra omissa em factos 
mui importantes. Destas omissões não nos occuparemos; 
alguns erros porém mais notáveis da obra procuraremos 
advertir, sem nenhuma idéa de criticar o illustre lau- 
reado bretão ; mas apenas como prevenção para que nos 
não venham a oppor, como já se tem feito, a sua autoridade 
á dos documentos fidedignos, ou ás considerações de 
critica, que nos obrigaram a não seguil-o. 

Outro tanto dizemos acerca dos quatro volumes de 
memorias históricas publicados em Pernambuco (o ultimo 
em 1848) por Fernandes Gama, valendo-se muito, segundo 
é fama, dos escriptos de seu pae, o qual, no período da 



XXIV , PREFACIO. 

guerra batávo-pemambucana, não fizera mais que tradu- 
zir a Southey, que ja antes o fofo Beauehamp havia dis- 
fructado, com feia ingratidão, e depois delle o conscien- 
cioso Warden, com algumas espécies novas; mas com 
repetições dos mesmos factos como se fossem differentes, 
em virtude de os haverem narrado diversamente os autores 
que consultou. 

O livro do Sr. Netscher, impresso ha perto de Vinte ^ 
annos na HoUanda, perdeu para nós quasi todo o inte- 
resse desde que nos foi possivel consultar, além de outros, 
os textos da maior parte dos documentos que cita, ás 
vezes sem haver tido occasião de estudal-os *) ; e dos 
quaes, bem como de várias relações impressas na própria 
HoUanda durante a guerra, bebemos, nas primitivas fon- 
tes, muitos mais esclarecimentos seguros do que os que no, 
seu alias resumido livro se encontram. 

Outros escriptos mais tivemos occasião de ver, dos 
quaes faremos menção quando tivermos de valer-nos 
de sua autoridade ou de oppor-nos a ella. 

Já se vê, que elementos de mui pura origem não 
nos faltaram para este trabalho; porém só pela* confron- 
tação mui meditada de vários delles conseguimos por 
vezes descortinar a verdade, extremando os factos dignos 
de figurar na historia. Mais fácil nos houvera sido sem 
dúvida reimprimir, ou ainda compilar, todos os livros, 
relações e documentos que citamos, o que produziria 
pelo menos uns quinze volumes iguaes ao presente; 
mas tanto com o primeiro serviço, que poderá fazer 
qualquer typographo ou impressor, como com o da 
compilação, principalmente feita, como está em moda, 



*) V. gr. o oflf. citado na nota 2.* de pag. 244 desta Historia. 



•*. 



PREFACIO. XXV 

mudando só o principio e o fim dos documentos e 
entregando o resto aos caixistas, sem ao menos 
copial-o por própria lettra, — a historia dos trinta an- 
nos que ora offerecemos, ficaria quasi como estava, e sem 
nada haver adiantado á luz da critica. Na volumosa col- 
lecção de reimpressos, bastavam as paginas de Brito Freire 
e do Castrioto, não commentadas, para confundir o leitor, 
e as de D. Manuel de Meneses, de Duarte de Albuquer- 
rque é do Lucideno para estafal-o ; apresentando, os fac- 
toQ contradictoriamente, nâo fazendo extremar os mais 
importantes e de maior alcance, de muitas futilidades, que, 
86 acontecessem em ngssos dias, nem chegariam a figu- 
rar nos diários ou gazetas. Descarte o presente traba- 
lho, longe de perder de valor, virá a adquirir mais, se 
algum dia semelhante collecçãç completa se chega a pu*- 
blicar, pois se destacará mais sensivelmente o critçrio posto 
de nossa parte para, em meio de provas mui contradic- 
torias, procurar attingir com a verdade. 

No raethodo e fio da exposição seguimos, como era 
natural, a ordem chronologica 5 mas não com excessivo 
servilismo, visto que nos propúnhamos escrever uma 
historia-, e não m e mo rias diárias, nem a n- 
n a e s; Âttendemos pois principalmente ao nexo natural 
dos factos , tratando de evitar no seguimento da narra- 
ção saltos escabrosos. 

A escola histórica a que pertencemos, é como já 
temos dito por vezes, estranha a essa demasiado senti- 
timental, que, pretendendo commover muito, chega o 
afastar-se da própria verdade. Fizemos a esse respeito 
uma verdadeira profissão de fé, quando j ajuizando na 
„HÍ8toria Geral" a do illustre bahiano Rocha Pitta, di- 
zíamos ser essa obra „ omissa em factos e^senciaes, des- 
tituída de critério, e alheia a intenções elevadas de for- 



XXVIII PREFACIO. 

Procuraremos distinguir por meio de menções mais hon- 
rosas aos que melhor serviram; não duvidando até de 
mostrar enthusiasmo ante os actos mais meritórios, nem 
indignação na presença das crueldades ou abjecções. 
Considerando porém a menção honrosa pela historia, 
principalmente quando não contemporânea, uma recom- 
pensa mui superior áquellas que morrera com os indi- 
vidues, como os postos, títulos e condecorações, tivemos 
o cuidado de a não prodigar, citando, como faz o chro- 
nista donatário de Pernambuco, listas de nomes de in- 
dividues, só V. gr. pela circumstancia de haverem sido 
feridos, quando levados, por ordem superior, ao com- 
bate, sem nelle haverem praticady nenhum serviço rele- 
vante. Generalisar taes menções honrosas é contribuir a 
diminuir o valor da recompensa, enfadando inutilmente 
o leitor. E essa é a razão porque nenhum historiador, 
antigo nem moderno, nos deixou o exemplo de cona- 
memorar os nomes de todos os officiaes, e menos ainda 
os dos soldados que entraram nas acções. — Usando-se 
com parcimonia dessas menções honrosas, podem tor- 
nar-se ellas uma nova recompensa aos que bem servi- 
ram, ainda quando em vida houvessem recebido prémios 
proporcionaes aos outros de idênticos méritos; e com 
mais razão ainda poderão até certo ponto indemnisar 
as injustiças feitas, igualmente em vida, principalmente 
áquelles, cujos maiores méritos e mais precioso legado 
de serviços ou de ideas fecundas, a bem da posteridade, 
em vez de publicamente reconhecidos pelas equivalentes 
recompensas sociaes, tiverem sido, para elles, origem 
de invejas e de preterições, a favor de nullidades ras- 
teiras e sem dignidade, nem nobreza de sentimentos, 
nem independência de caracter ... Só sendo justa com 
o passado, pode. em realidade a historia vir a ser 



PREFACIO. XXIX 

mestra da vida, servindo a todos, no presente, de 
estimulo ou de ameaça, e, para o futuro, de guia e de 
farol. — Contra as injustiças do passado reagirá sempre 
a posteridade, dizendo com João de Barros : „Maior de- 
leitação temos na relação dos méritos dos homens a quem 
o mundo desamparou em seu galardão que naquelles que 
foram bem pagos delle." 

A esse voto nos associamos de coração nesta his- 
toria, e ja antes de conhecer o texto que citamos, ao 
traçar o primeiro embrião da „H istoria Geral," 
— historia, que, em serviço do paiz, mais que das let- 
tras, correria já a esta hora pública com muitos melho- 
ramentos e addiçôes, se, em virtude de certas injustiças 
soffridas, nos não encontrássemos, aos cincoenta e tan- 
tos annos, com o ânimo quebrantado, e sem valor de lan- 
çar-se a novas emprezas, que lhe tragam decepções, em 
vez de estimules, tantas vezes infelizmente neste mundo 
reservados de preferencia para os ditosos engarra- 
fado^ que menos erram e menos se pompromettem, 
pela simples razão de que menos trabalham, e por con- 
seguinte menos produzem e menos expõem aos reparos 
do público. — 



\ 




oX ^ 





HISTORIA DAS LUTAS. 



LIVRO PRIMEIRO. 



PRIMEIRAS HOSTILIDADES, EXPECIALMMTfi CONTRA A BAHIA. 



Preambulo. lUusao acerca das vantagens com a sujeição do Brazil á 
Hespanha. — Hostilidades de varias naç5es. — Erradas providen- 
cias em vez de uma esquadra guarda-costas. — Razão das hosti- 
lidades dos HoUandezes. — Vandale, Duchs, Uusselinx. — Organi- 
saçâo da Companhia occidental hoUandeza. — Idea de outra por- 
tuguesa para lhe fazer face. — Destino da expedição hollandeza 
conhecido com precedência. — Idéa do Brazil nesta epocha. — 
Providencias toiiiadas pelo governador Diogo de Mendonça. — Ri- 
validades por parte do velho bispo D. Marcos. — O inimigo aco- 
mette a Bahia. — Desembarca, toma a cidade, e prende o gover- 
nador, sem nenhuma capitulação. — Juntam-se os moradores nos 
arredores e começam a hostilisar os intrusos. — São mortos successi- 
•vamente dois governadores da cidade. — Primeiras providencias 
vindas da Corte. — Mando de Nunes Marinho. — Morte do bispo. 

— Governo ie D. Francisco de Moura. — Chega a esquadra 
auxiliadoi*a. — Sitio posto á cidade. — Sortida do inimigo. — 
Sua capitulação. — Regresso da esquadra auxiliadora. - Governo 
de Diogo Luiz. — Dois attaques do bravo Piet Heyn contra o 
Recôncavo, em 1627. Providencias insuficientes tomadas pela Corte. 

— Real d^agua. 



Quando em 1580 Portugal se viu reunido a Castella, ou 
antes assentiu em aceitar por soberano o rei da demais .Hes- 
panha,, vencido pela astúcia de Filippe 2 ^, favorecido pelo 
poder das suas armas e pêlo apoio, em Portugal, de uma no- 
breza egoísta e pouco patriótica, não faltaram pensadores que 
supposessem que as colónias até então dependentes daquelle 
pequeno reino, sob cujo dominio iam prosperando a passos 

1 



j^^^J^Wia 



2 LIVEO PKIMEIUO. 

agigantados, só teriam a ganhar ficando sujeitas a um chefe 
mais poderoso, cujos estados, já vastos e riquíssimos, se iam 
engrandecer com todos os até entào regidos pelos reis da dyiiastia 
d'Aviz nas diversas partes do mundo. 

Ao Brazil principalmente essa união devia parecer um 
dum providencial, toda em seu beneficio. Por meio delia desa- 
pareceriam as dúvidas e questões, que, tarde ou cedo, deveriam 
surgir de novo acerca da demarcação e traçado da sua raia, 
segundo a linha recta designada pelo tratado de Tordesilhas; 
ao passo que, vassallus do mesmo Principe que todos os 
demais estados da America do sul, poderiam os povos' do 
Brazil livremente commorciar com os seus visinhos, maudando- 
• Ih^s seus productos, e gosando, contra os piratas e entrei opôs , 
ia protecção das mesmas esquadras, que, indo para o Prata 
ou I ara o Pacifico, tinham forçosamente de velejar ao longo de 
suas costas. 

Fatal engano, que dentro em pouco tinha de produzir 
cruéis decepções! Aquelle pequeno reino, bem que um tanto 
desorientado com a revolução social que nelle haviam occasio- 
nado as fortunas facilmente adquiridas na Ásia, havia tido 
sempre o bom senso, quanto á politica do continente europeu, 
de procurar aproveitar-se da independência que lho dava a sua 
situação em um canto delle, a fim de manter paz com todos; 
em quanto, pelo contrario, os herdeiros de Isabel a Catholica, 
não contentes com extender suas conquistas pelos domínios que 
lhes offerecera o génio perseverante de Colombo, haviam sido leva- 
dos pela ambição a sustentar guerras, não só na Itália, naFrança, 
na zÚlemanha e nos Paizes Baixos como até contra a Turquia. 

E claro está que, sendo a maior parte destes inimigos 
nações maritimas, a própria vastidão, quasi immensa, da nova 
monai'chia a cujos destinos se havia associado a nascente colónia 
brasilia, dificultava a sua defensa, e a deixava vulnerável, como 
nma das paragens a que menos lhe interessava attender. E 
com effeito, o Brazil, onde ainda não haviam sido descobertas 
as mWias de ouro e diamantes, o Brazil com a sua escassa 
producção de assucar e do páo que lhe dera o nome, nSo 
podia ser guardado pelos novos reis estrangeiros ; com o mesmo 
empenho com que tratavam de guardar o México e o Peini, 
domínios que, com o enonne pro dueto de inexgotaveis minas 
do ouro e prata, os ajudavam em tantas guerras. 



LIVRO PRIMEIRO. 3 

Assim, desde 1581 em diante^ começaram a emprehender 
maiores ou menores hostilidades em nossos portos alguns navios 
francezes, ingleses e hoUandezes ; e teriam também vindo turcos, ^ '^ 
se ^poucos annos antes (em 1571) não tivesse tido a fortuna'^ 
de lhes dar em Lopanto B. Juan d' Áustria tão tremenda rota. fj/^ 

Já em 1Õ87, isto é seis annos depois de haver o Brazil 
passado ao dominio do rei de Hespanha, dizia Gabiiel Soares: 
!' „ Vivem os moradores tão atemorisados, que estão sempre 

; com o fato entrouxado para se recolherem para .o matto, como 
\ fazem com a vista de qualquer náo grande; temendo serem 
\ corsários : a cuja affronta S. M. deve mandar -acudir com muita 
brevidade; pois ha perigo na tardança, o que não convém que' 
\ haja; porque, se os estrangeiros se apoderai^em desta terra, 
\ custará. muito lança-los fora delia, pelo grande aparelho que 
i, tem para nella se forteâcarem; com o que se inquietai'á toda 
1 a Hespanha, e custará a vida de ~ muitos capitães e soldados, 
I e muitos milhões do ouro em armadas, e no aparelho delias, 
\ ao que agor^ se pode atalhar acudindo-lhe com presteza 
/ devida." —Zlc^^. i^d^ ^fi^C^£< /^/i ^ 

Dahi a vinte e cinco annos, em 1612, ponderava o judi- 
cioso autor do livro Razão do Estado do Brazil que a 
Bahia, capital do mesmo, ei*a verdadeiramente nina aldeã aberta, 
exposta a todos os perigos, que estava fortificada sob princi- 
pies mui atrazados, que òs fortes não se prestavam mutua 
defensa, e alguns se achavam tão apartados, que, em momen- 
tos de apuro, náo poderiam ser soccorridos, e só serviíiam, 
com sua fácil perda, a desmoralisar os demais. Reflexionava 
que, como praça de guerra, continha a mesma Bahia em si 

pelo que, acrescentava, „até o anno de 1604, havia sido aco- 
mettida quatro vezes de armadas inimigas, e duas se livrara 
mais por boa fortuna que por guerra." 

Decretara o governo, em 30 de Outubro de 1592, um 
excesso de 3% nos dii-eitos de entrada e saída dos géneros das 
colónias |^a o costeo de uma esquadra efectiva de doze navios 
que servisse a comboyar e prote^^er os navios de commercio 
que dahi viessem* Estes impostos chamados do Consulado, 
que então tiveram origem, seguiram-se cobrando sempre, mas a 
esquadra dé comboy não aparecia! 

Em vez de enviar essa squadra. o governo mandava ordens. 

1* 



a^ 'vc^.-^^c^ ^ ^^-^^ 




4 LIVRO PBIMEIKO. 

— Já restringia *) ou impedia absolutamente *) sob pena c 
morte, a nayegaça5 dos estrangeiros para as conquistas; j 
ordenava que não fossem elles tolerados no littoral, mas intei 
nados ') a doze léguas da costa; ja finalmente prohibia tod 
commercio com os Hollandezes, *) devendo ser sentenciados i 
mesmo Brazil os estrangeiros que ahi se prendessem ^). À 
mesmo tempo recommendava toda a vigilância com os cbrista< 
novos, desconfiando que podessem ter relações perigosas, sobn 
caiTegava aos povos com imposições, que depois se faria 
perpetuas, sobre os alimentos, os vinhos e demais bebid; 
espirituosas; a fim de dispender tudo em grossas muralhas 
tiincheiras, cuja artilharia não podia alcançar aos crusadores ; a* 
quaes então mais interessava o tomar, á sabida do^ porto 
os assucares preparados e promptos que occupar a téiTa pa 
lidar com escravos Afrícanos e com os duros trabalhos < 
deiTubar matas e de coiiar e moer canna. 

Onde estava o remédio bem o conhecia o govenio, e ningue 
melhor que os povos do Brazil, que por tradição de seus avó 
sabiam como ás esquadras de Christovam Jaques, de Mai-ti 
Affonso, de Thomé de Souza e de Mem de Sá é que devera 
terra ver-se livre dos entrelopos, que então eram franceze 
como agora eram pela maior parte hollandezes ou flamengo 
em guerra com a Hespanha, cujo dominio tratavam de sacudi 

As hostilidades dos Hollandezes, herdadas por Portuga 
em virtude de sua annexação á Hespanha, eram mui legitima 

Depois de haverem figurado como estado independente, < 
Paizes Baixos haviam passado a fazer parte do império d'Àui 
tria, por occasião do casamento de sua Princeza Maria ( 
Borgonha com o imperador Maximiliano, conservando os pov< 
seus foros e privilégios constitucionaes, não idênticos em todj 
as cidades. 



») Prov. (Je 9 de fev. 1591. 

•) Res.de 18 de março 1604, 16 jul. e 28 nov. 1606. 

») Prov. de 27 de Set. 1605. 

*) C. R. de 5 de Jan. 1605. 

*) Ac. R. de 30 de Julbo 1614 estranhou o governador do Brazil p< 
nao ter feito executar logo a sentença contra dois Inglezes 
dois Francezes que tinham ido ao Rio, acrescentando pore: 
que, já que tenham con&ultiado á Corte, a pena. lhes fosse oonimi 
tada para galés perpetuas. 



LIVRO PRIMEIRO. 5 

Com o império herdou Carlos V delles o dominio ; mas, ao 
abdicar, preferiu deixal-os á Coroa de Hespanha, e não á d^Austria. 

Eram vários milhões de habitantes laboriosos, dedicados 
á agricultura, á navegação e ao commercio, que não desejavam 
senão viver em paz e no goso de seus foros. 

Felipe 2®, preocupado com a idea de ter nos seus domi- 
nios uma só religião, pretendeu levar em todos elles avante 
aquella idéa, sem deter-se nos meios. Encontrou porém nos 
Paizes Baixos resistência nos povos, e seguiram-se motins, 
dos quaes tii'ou o rei justificado pretexto para contra elles 
enviar tropas hespanholas, ás ordens do Duque d'Alba. 

A carnificina começou; mas a reacção se apresentou 
iemivel; e dentro de pouco teve um chefe digno. Tal foi o 
Príncipe d'Orange. Seguiu-se, como era natural, a guerra; e 
nella as Províncias Unidas se conduziram com tanta 
energia que chegaram a tomar, com grande vantagem, a offen- 
siva, tanto no mar, como nas colónias d'Hespanha. 

Cançados primeiro na luta os oppressores do que os opprl- 
midos, foi ajustada uma trégua de doze annos. Celebrou-sè ella 
em 1609, reinando jà Felippe 3®, e de tal modo foi redigida 
que não comprehen^leu nenhuma clausula, rosal vando de todo 
as hostilidades contra as colónias portuguezas. 

Desta falta se aproveitaram logo os HoUandezes, caindo 
sobre a índia portugueza, e apoderando-se quasi de todo o 
commercio do Oriente. Ao mesmo tempo avivaram suas hosti- 
' lidados contra o do Brazil, de forma tal que anno houve (o 
de 1616) em que chegaram a apoderar-se de vinte e oito navios 
da sua cai-reira. Recommen'1ou a metrópole por varias vezes *) a 
execução das ordens dadas no reinado de D. Sebastião a fim 
de que os navios para as conquistas navegassem armados, mas 
com isso não fez mais do que dar ao inimigo mais valiozas e 
requestadas presas. 

TJm ou outro barco hollandez chegara a ser apresado; 
porém mais fora calamidade que beneficio. Os prisioneiros, 
levados á Bahia, vendo o estado precário da defensa desta 
praça, quando conseguiam libertar-se, iam á Hollanda dar conta 
da facilidade com que, com grandes lucros, poderiam os seus 
vingai -os das pei'seguiçÕes recebidas. 



») 19 abril 1616, 7 de março de 1619, etc. 



rT LITEt:» PSTTfEIRtA 

nome ^m vario"? dotrumi^nTiiis oifj.âaftk Cli<égára a xiatiinlisar-66 
portn^i^: •* p*>4ÍÍ2iti>> iÍL*t!ii*;a paia ir basear sua maDMr, foi 
ITie eí»sa !:«!*ni;a ipg-ida, or{»fiLiii«L^-~« «^le 'íe nKi>llL«S8e ao reino; 
ma.*, no .!amiiih« . íév.? a f-^rtiina -le ver-se libírtado por um 
navio ie -^na na.* Io. Fraa«!tfro r>'i''hs. pnHso no Bio e logii) con- 
diizidi' á Bahia. ::amb*>m iali «'i^o^ii^ia e!!c:ipar-se para a 
Hollaniia, onde aâ ^^caâ iiif>>rmat;r*>s ilL.^ ieix'ríam de fomentar 
o plano •!<* novan h«)t*tili«liid«?s o>atra t'» Brazil. ■) 

Fignroa porém como prinripaL aatt>r e sustentador de^^se 
novo plano de bo 9tilida«ies um «.'elebre Uoà&elinx. Propoi e 
defendeu este a idea «ii fi'>rmação de uma noTa companhia, 
semelhante á Oriental, qae na Ind^a baria adquirido tantos 
Incrijd ê Tantagena. Tmgoa a anal o pLino. e aos 3 de Janeiro 
de 1621, anno em qne jaã*amente acabava o prazo da tre^a 
ajoiítada por «?oze anni>s. se ontorsava a patente para a 
fTÍaçáo da noTa companhia do commercio. Era concedido á mesma 
companhia por vinte e qnatro annos o monopólio de commercio 
da America e AfrÍL-a, com o direito de nomear governadores, 
conelnir pactos com os moradores e construir fortificações. 

Em quanto a nova companhia hoUandeza se organisaYa, 
não faltou quem lembrasse a formação de outra na Península 
hispana, para íazer-lhe face. Eram autores da idéa vários judeos 
portugiiezes, residentes na mesma Hollanda, e em cujo coração as 
ínjustiçt^s e perseguições nao haviam ainda apagado o amor da 
patría. Em 7 de Janeiro dava Pedr* Alvares Pereira conta 
dfgse plano, que lhe era proposto por um Duarte Gomes de 
Holís, o qnal punha para elle a condição única de que se outor- 
gasse aos ju^^eos o direito de commerciar nas colónias; direito 
qne, alias, a troco de um donativo de duzentos mil cruzados, 
lhes havia sido concedido em 1601 (C. de 31 de Julho), se 
bem que pouco lhes durasse o beneficio; pois foi logo revo- 
gfida a concessão em 1610, sem que o dinheiro se lhes resti- 
iiiisse. O certo á que o pensamento de uma companhia geral 
para o commercio do Brazil, em opposição a essa da Hollanda, 
e que veio contribuir a hostilisal-a, so chegou a levar-se a 



*) O «eu nome se encontra nada menos que entre os dos chefes 
quA capitularam nã Bahia em 162Õ. D, Manuel de Meneses 
Aficr«ye Duquesme, em vez de í)uchB. 



LIVKO PEIMEIKO. 7 

efifeito muito depois *), e . sempre com alguns capitães de • 

judeos *). 

Organisada a Companhia e preparada a expedição, foi 
esta confiada ao experimentado Jacob Willekens, tendo por 
immediato o bravo e venturoso Piet Heyn *), devendo encar- 
regar-se do mando superior das forças de desembarque o co- 
ronel João Yan Dorth, valente soldado. 

Não era misterioso tf destino immediato da mesma expe- ^ 
dição. Em um paiz de imprensa livre, como ja eram as Pro- 
víncias Unidas, não devia ser fácil conservar-se o segi-edo em 
um assumpto em que tantos estavam interessados. Todas as 
noticias desde 1621, em que a companhia fora outorgada, eram 
concordes em assegurar que a mesma expedição se destinava ao 
Brazil, e designadamente á Bahia ou a Pernambuco. Em Janeiro 
de 1622 *) fora até secretamente ouvido em Madi-id, a tal 
respeito, o governador que havia sido do Brazil Gaspar de 
Souza, cujos bons conselhos lhe valeram o ser feito então 
donatário da capitania desde o Caité ao Turiassú, em 26 de 
maio daquelle anno. 

Largaram os espedicionaiios, ao cabo do não poucas di- 
ficuldades, dos portos da pátria; e, em quanto os deixamos 
seguir pelo Atlântico, releve-se-nos uma pequena interrupção 
em nossa narrativa para, encolhendo os vastos horisontes que 
hoje temos á vista, fazermos uma ligeira vÍAb, do que era então 
o paiz a que lançava miras ambiciosa^ a ^va Companhia de 
commercio hollandeza. 

O teiTitorio do Amazonas ao Prata, ainda mal devassado 
pelos sertões, constava, ao longo da costa, de quatorze 
capitanias, formando três governos geraes separados: o do 



*) Em 6 de Pev. de 1649, graças ás suggestôes do P*. Vieira. 

*) Assim se deprehende de um alvará da mesma data da 
fundação, e das polemicas do P*. Vieira a esse respeito. 

') Este appellido anda escripto muito errado nos nossos auto- 
res. No Portugal Restaurado diz-se Moyno: nas 
Mem. Diárias Noynio: F Manuel de Mello chama -lhe 
Pedro, Petri, Tein, assim como D. Manuel de Meneses, que 
erradamente o suppozeram ambos inglez de nação. 

*) Bib. Egert. no Brit. Mtrseum, no 1131, foi. 37. 






8 LIVRO PRIMEIRO. 

Mai'anhâo, que comprehendia o Pará, de recente criação ; o da Bahia; 
e o do Sul, que se reduzia ao Espiíito Santo, Rio e S. Vicente. 

Por todas essas quatorze capitanias, a populaçap ntii 
compunha-se dos moradores, isto é dos colonos portugnezes on 
descendentes delles, em pequeno número; dos índios mansos, 
uns livres, outros administrados e alguns ainda captivos; dos 
escravos pretos, principalmente trazido^ da costa d' Africa fron- 
teira; e da gente de cor, provinda do cruzamento e mescla de 
todas estas raças, e cuja condição seguia a do ventre materno. 
ÍBm numero, os escravos africanos ja começavam a sobrepujar, 
e vários milhares delles se importavam nas principaes capita- 
nias '); mas muitos dos mais ladinos, principalmente do snl 
de Pernambuco, fugiam pai'a os quilombos ou mocambos del- 
les, cujos núcleos se haviam já formado nos' palmares, ao de- 
pois mui nomeados, do sertão da actual província chamada das 
Alagoas, ás bandas de poente das duas maiores ') das quaes 
proveio á província o nome. 

A agricultura reduzia-se principalmente á da canna cha- 
mada crioula, algum tabaco de rolo e pouco gengibre; além 
da da mandioca, que era o pão da terra, e de algum milho e 
outros legumes. A producção do assucar servia principalmente 
a aquilatar a riqueza proporcional de cada districto , excepto 
na capitania de Sergipe que só produzia gado. 

As leis vigentes em todas as capitanias eram, em geral, 
as mesmas que »Bgiàm na metrópole, e, pai'a o tempo, das 
melhores. Depois *ae Felipe 2.®, os reis ainda que na fonna 
absolutos, não governavam; as leis e as providencias de mais 
importância eram commettidas aos tribunaes; e ao ministros 
do rei apenas vinha a caber a prerogativa das nomeaçães dos 
empregados, como ainda hoje succede em alguns governos 
monarchico-constltucionaes de nossos dias, alias mui liberaes. 

Depois de extincto o Conselho da índia, as ordens 
da metrópole para o Brazil emanavam principalmente do governo 
de Portugal, umas vezes exeixido por um vicerei e outras por 
vários governadores, assistidos de um Conselho d'Estado, outro 
da Fazenda e Mesa da Consciência, ou também de um 
Conselho de Portugal, que residia em Castella com o rei. 

Só pelo do Recife, segundo os registos, já passavam, termo 
me(Uo, de cinco mil por anno. 
') Mandahú ou do Norte, e Manguába ou do Sul. 



LIVKO PRIMEIEO. 9 

Havia em todo o Brazil um só bispado, com a só na 
Bahia. O Eio de Janeiro tinha entretanto uma administração 
ecclesiastica separada. No Maranhão só annos depois ^) foi 
criada definitivamente uma administração semelhante, e em Per- 
nambuco tinha outra tido logar pouco a>ntes (desde 1616), mas 
acabava de ser declarada sem effeito. 

Os rendimentos principaes eram os dizimos. Embora estes 
segundo direito canónico pei'tencessem á igreja, eram administra- 
dos pela coroa, obrigando-seesta a manter o culto, em virtude 
de concorjiatas com a Santa Sé. Esse rendimento, que, em todo 
o Brazil, fora em 1602 rematado em cento e seis mil cruza- 
dos, havia ido crescendo, como era natural, com o augmento 
da cultura da terra; de modo que, sendo de novo em 1608 
separado o Brazil em dois governos, pela mesma raia que servia 
de divisão ás duas capitanias de Porto Seguro e Espirito Santo ^), 
subira só a venda do do norte, a cento e vinte cinco mil 
cruzados em 1611; e já em 1620, segundo os dadoK que nos. 
transmitte uni escriptor autorisado, se computava a receita 
total das quatorze capitanias, incluindo as duas mais recentes 
do Maranhão e Pará, em cincoenta e nove contos trezentos e 
dez mil e oitenta e novo reis; ^) e a despeza em cincoenta e 
quatro contos trezentos e oitenta e oito mil duzentos e noventa 
e cinco reis; — sommas equivalentes hoje, pela depreciação 
dos metaes, a outras nominalmente muito maiores. 

A cobrança estava commettida aos provedores e almoxa- 
rifes subordinados a um provedor mór. 

*) C. R. de 8 de Ag. de 1640. Foi primeiro administrador o 
superior dos jesuítas- P*. Luiz Figueira, escriptor conhecido. 

^) O rio Crio ar é ou de S. Matheus. Aquelle nome, que se acha 
correctamente escripto ei^pi um dos mappas da Razão do 
Estado do Brazil no exemplar da Bibliotheca Portu- 
ense, se lê erradamente C ir cacem no exemplar que possue 
o Instituto Histórico do Rio, o que deu aso a duvidas entre 
08 estudiosos. — 

^) Bahia 18. 541. 840; Maranhão, 9. 706. 920; Pernambuco, 
8 956. 400; Espirito Santo, 6. 094. 040; Pará, 6. 000. 6B4; 
Rio Grande (do N.), 3. 518. 581; Parahiba, 2. 069. 381; Rio, 
1. 806. 520; Seara, 741. 000; Sergipe, 624. 080; Tamaracá, 
611. 840; S. Vicente, 360. 480, Ilheos, 159. 053; e Porto 
Seguro, 121, 320. Total — 59. 310. 089 rs. — Parecem-nos 
porém, neste cômputo, as rendas de Pernambuco muito menores 
do que se deduzem de outros documentos e do facto dd 
possuir já então uns cem engenhos de assucar. 



o LIVRO PRIMEIRO 

O regimen das povoações competia ás câmaras ou muni- 
ipios, eleitas trieunalmente, e com attribaiçdfes, não só admi- 
istrativas, como em certos casos judiciaes, e com direito de 
irigirem por escripto representações ás principaes autoridades 
até ao próprio soberano. Alem dos juizes subalternos, nio 
)ttrados e inherentes ao systema municipal, havia, como juizes 
íttrados e de mais alçada, os ouvidores ; e na Bahia se criara 
ouço antes uma relação ou tribunal de segunda instanda, 
Dmposta de dez desembargadores e subordinada «o tribunal 
upremo em Lisboa, a qual funccionava regularmente, na con- 
)rmidade do seu regimento *). 

Para quanto respeitiva á milicia havia junto a cada 
overnador, (que era ao mesmo t^mpo de toda ella o capitão 
lór) um sargento mór, a qnem estava principalmente com- 
lettida a sua inspecção e alardos . bem como a boa ronser- , 
açâo das fortalezas. Compunham a mesma milicia especialmente 
s ordenanças^ na qual estavam alistados todos, os moradores 
u colonos, sendo de cavallcria os mais ricos e nobres. Tropa 
e linha, ou de presidio, como então se lhe chamava, havia 
lui pouca, e s(^ depois da guerra que vamos historiar tomou 
m toda a colónia maiores proporções. 

Quando chegou ao Brazil a noticia dos intentos hostis 
a expedição hoUandeza, estava de gove:na!or geral na Bahia 
)iogo do Mendonça Furtado, que havia acerca delia recebido 
visos directos da metrópole, com ordens mui antecipadas para 
ortificar especialmente as entra ias dos portos da Bahia e do 
lecife. Para dar o devido cumprimento a taes ordens teve o 
:oveniador que arbitrar uma nova contribuição; e apezar de 
er encontrado para o cobro ' deUa alguma opposição \ seguiu 

> mesmo goveiiiador providenciando acerca da defensa da Bahia 

> melhor que soube: fez guaiiiecer de artilheria os fortes já 
eitos; levantou outro novo em uma lagem que havia no porto 
m frente da cidade, e que veiu a receber o nome e invocação 
ie Nossa Senhora do Populo e S^Maixelloj mas que então 
inha apenas á flor d'água umsT cerca de fachina e de cestões, 
los quaes alguns ainda v^ios. 



•) Embargo» j[ue julgon improcedentes a Corte, ouvido o Dezem- 



De 7 de março de 1609. 
Embargo» que julgon imf 
bargo do Paço. C R. de 20 de Julho de 1623. 



LIVRO PRIMEIRO. 11 

Exis iam nesse momento na cidade uns três mil homens 
d^armas; havendo o govemador, pouco antes, ao receber as 
primeiras noticias de que para ali se diiigia o inimigo, con- 
vocado dos arredores toda a gente da ordenança, dos quaes 
muitos haviaín acudido de jaenos bo^^ypntade ; e assim o mani- 
festavam, com„q_ag(qÍQ tjpp^pjrio. bispo. 4a diocgse^ B. Marpps 
Teixeira, que, acabando de ter com o mesmo governador con- 
flictos de jurisdicçao e disputando-lhe até a precedência, ') apro- 
veitava este ensejo para lhe fazer opposição e alcançar popu- 
laridade. 

Apezar de mui adiantado em annos ^) era o bispo ainda 
encravo dos estimules da ambição. Por seus esforços depois de 
propor que se creassem alguns oíficiaes do sancto ofíicio no 
Biazil, „ que os havia mister, pela muita povoação e qualidade 
do gente que nelle habitava'^ tinha conseguido fazer-se nomear 
inquisidor commissionado no Brazil, e oppondo-se ao pensamento 
manifestado pela coroa de criar um bispado no Maranhão, 
reuuindo-se a esse hovo bispado a administração ecclesiastica 
de Pernambuco e Parahiba, havia alcançado ^) que tudo lhe ficasse 
sujeito. Encontrando alguma contrariedade da parte do dezem- 
bai*gador Francisco Meudes Marecos, procurador da Coroa e que 
em desempenho de seus deveres defendia desta os foros, havia, 
pouco antes, chegado ao excesso de excommungal-o. — 

No dia 8 de maio de 1624 foram avistadas as velas 
inimigas, e desde logo mandou o governador tocar a rebate, e 
juntando se de novo a gente, a distribuiu como julgou mais 
acertado. O bispo apresentou-se nessa mesma tarde, com uma 
companhia de ecclesiasticos armados, e, percorrendo as estancias, 
exhortava a todos á defensa, o que igualmente, a seu exemplo, 
praticaram vários individues das ordens religiosas, as quaes 
alias bastante faziam então avultar o numero dos moradores 
da cidade. 



*) Que dois mezes depois lhe era concedida, por C. R. de 3 de 
julho de 1624. 

•) D. Marcos Teixeira, doutor em. cânones, fora cónego arcediago 
de Évora, e depois ahi inquisidor em 30 Dez. de 1578. Dali 
passou á Caza da Bupplicação e á Meza da Consciência, e em 
9 de Junho de 1592 era deputado do Santo Officio. — Devia 
ser octogenário. 

») C. R. de 8 de Fev. de 1623 e 23 de Fev. • de 1624. 



12 LIVRO PRIMEIRO. 

Na madrugada do dia seguinte o inimigo, com vento 
farvoravel, elrfiou a barra, passando longe do alcance do canhão 
dos fortes. Eram trinta e três navios. Cinco deites fundearam 
logo defronte de Santo António; em quanto os demais, com á 
almirantâ, seguiram até pôr-se em linha defronte da cidade. 
Então disparou a mesma almirantâ com pólvora seca, e des- 
pediu um batel com bandeira de paz; mas á salva e ás indi- 
cações pacificas responderam os foi-tes com alguns tiros de bala^ 
■ o que vendo os atacantes, começaram a disparar por bandas 
contra o forte do mar e a cidade e os quinze navios que esta- 
vam junto á praia, e cujas tripolações trataram logo de de- 
samparal-os, depois de lançar-lhes fogo ; mas tão mal posto 
este, que, com três lanchas apenas, conseguiram os inimigos 
atalhal-o em oito delles, dos quaes se apoderaram á boca da 
noite. Parece que projectaram os atacantes abalroar o forte 
do mar; porém, receosos dos baixos, deram fundo, e começaram 
a batel-o, dispedindo logo depois de bordo quator^e lanchas 
armadag. Por fim conseguiram assenhorear-se do megmo forte, 
com perda apenas de quatro moi-tos e dez feridos. 

Entretanto, desde as duas da tarde, uma força de msâa 
de mil homens, com duas peças d'artilheria, efeituám outro 
desembarque, do lado da barra, perto do pontal de Santo António, 
e assenhoreando-se do forte ahi situado, se dirigia para a cidade, 
sem encontrar a menor resistência, em vários desfiladeiros no 
caminho, onde houvera sido facílimo apresental-a. 

Para mais favorecer os atacantes, ao entrar a noite ainda 
os arredores da Bahia se viam alumiados pelo clarão que des- 
pediam os navios que se incendiavam, e cuja combustão, faci- 
litada pelo alcatrão dos massames, era alimentada pela carga 
de assucar que abarrotava alguns delles. 

Os que por terra vinham do lado da baira seguiram até 
as portas da cidade, e foram sem a menor resistência alojar 
-se etm S. Bento, extra muros; e toda a gente de cavallo 
que o governador mandara ao seu encontro havia desertado. 

Os moradores já aterrados com o grande estampido 
dos canhões, para elles estranho, com o incêndio de uns de 
seus barcos e tomada de outros, e finalmente com a perda dos 
dbis fortes, ao ter noticia de achar-se o inimigo tão perto, 
tomaram-se de extraordinário pânico e começaram logo nessa 
noite todos a fugir, sem poder contei- os o governador. O pro- 



LIVRO PRIMEIRO, 13 


t 

prio bispo, que tao valente se mostrara na véspera, se 4iritfiu 
ao coUegio dos Padres da Companhia, e os induziu a que 
fugissem com elle, levando comsigo quanto de mais precioso 
possuíam, arebanhando dest'arte apoz si muitas famílias. 

Detiveram-se estes fugitivos • um pouco na quinta do 
mesmo CoUegio, a meia légua da cidade; e logo seguiram 
dali até o rio Yermelho. Levava este rio bastante agua e não 
se podia vadear^ Achavam-se á sua margem milhares de pessoas, 
incluindo muitas mulheres e crianças. Aos lamentos de quem 
já chorava tanta desgraça, vieram então juntar-se os ais e 
suspiros de todos, quando, alta noite, apoderados de medo, 
chegaram a crer verdade o que viam na fantasia; a saber que 
o inimigo vinha, em perseguição delles, e ali os ia alcançar a 
todos em breve. 

Entretanto 'os Hollandezes pernoitavam no forte do mar 
e no convento de S. Bento, fantasiando por sua parte òs perigos 
que ainda tei'iam que . passar no ataque da cidade que reser- 
vavam |)ai'a a manhã immediata. 

Ouçamos a<;ora o que nos. diz uma testemunha presencial 
cujo conòeito ji5o é dado pôr em dúvida. São palavras do P. 
António Vieira na „Annua da Província do Brazil," 
mandada ao Geral da Companhia de Jesus em Roma, com data 
da Bahia, em 30 de Setembro de 1626. Diz assim: „ Tanto 
que o sol saiu em dez de maio, julgando os Hollandezes do 
muita quietação da cidade estar sem defensores, deliberam-se 
a ent}*ar, e entram^ não sem receio de algumas citadas; mas 
a cidade, ou pam melhor dfzer o deserto, lhes deu entrada 
franca e segura, indq logo tomar posse das casas reaes, onde 
estava „o governador, desemparado de todos, e acompanhado i^ó 
de um filho e três ou quati'0 homens. — Presos estes, e postos a 
recado na almii*anta, coiTem todos os despojos que tanto a mãos ' 
lavadas lhes ofereciam liberalmente às casas com as portas 
abertas, tudo roubam, a nada perdoam, empregam-se no ouro, 
prata e cousas de mais preç9, e despedaçando o mais, o deitam 
pelas ruas, como a quem custara tão pouco." — 

A singela narração de Vieii*a é apoiada por uma repre- 
sentação official feita por varias autoridades inimiiras, em 31 
d'Ag;)sto desse mesmo anno, em que dizem que o governador 
,,fora encontrado em sua casa, com um seu filho e outros, 
queixando-se da falta de auxilio dos seus." — 



14 LIVRO PRIMEIRO. 

Sâo no mesmo sentido as palavras da exposiç^, também 
officialy do' almirante D. Manuel de Meneses, quando diz que, 
vendo se os atacantes dentro das muralhas da cidade, se diti- 
giram logo y,k casa do governador, que acharam desampa- 
rada de todos e o prenderam^' '\ Ainda mais: o pjo- 
prjo governador, solto na Hollanda. em 23 de Nov. de 1626, 
dirigindo em meiados do anno seguinte uma supplica *) ao rei, 
allega simplesmente que quando o inimigo o prendera 
„não sacara comsi^o mais vestido que o que tinha no corpo.** — 

Não faltaram escriptores que, talvez com vistas de dene- 
grir os HoUandezes, disseram que o govemador capitulara, e 
que elles haviam faltado á<9 condições da capitulação. Se fosse 
isso verdade, todos os contemporâneos o houveram dito, e o gover- 
nador não o houvera po' certo calado, na supplica a que 
nos referimos, e não deixaria logo de haver acrescentado 
algum qualificativo á sna prisão, se para effeit al-a houvesse o 
inimigo violado algum pacto para elle governador honroso. E* 
verdade que o facto de ter havido capitulação, depois de inven- 
tado pelo primeiro ®), foi repetido por muitos ; mas todos os 
bons críticos sabem que o valor do critério não se aprecia pejo 
numero dos autores, senão pelo valor e importância da autori- 
dade ; e que tal caso haverá em que a asserção de um só (no 
presente caso são quatro autoridades) farão mais fé do que o 
testemunho falso de um chomlho de plagiários ou de. seus 
preconisadores. 

Achavam-se ao lado do governador em Palácio, quando 
foi preso, e com elle, alem de seu filho António de Mendonça, 
o sargento mór da cidade Francisco d' Almeida, o ouvidor geral 
Pedro Casqueiro e o capitão Lourenço de Brito. 

Deste modo, a milicia do paiz, sem a necessária disci- 
plina, abandonava os seus postos, á medida que o perigo delles 
se aproximava ; e os moradores, vendo fugir os que deviam de- 
fendel-os, fugiam também, abandonando seus lares, e procurando 
levar com8Íj,'o quanto podiam; „ vendendo deste modo, como diz 
um escriptor contemporâneo, por nenhum preço, a sua terra, 
as suas casas, a sua quietação e até a veneração das coisas 
sagradas, aos maiores inimigos da igreja.^' 

') Quasi pelas mesmas frases se explica Bartolomeu Guerreiro. 
•) Docum. do Mus. Britânico. 
•) Valência y Gusman. 



LIVEO PRIMEIRO. 15 

A muita facilid,ade encontrada pelo inimigo em assenhorear- 
se da cidade não o fez adormecer, nem descuidar-se de prover 
sem demom a augmentar a sua defensa ; a fim de resistir aos 
que, em tão grande numero, a tinham abandonado, e podiam. 
' cobrando brios, procurar recuperal-a. Tratou logo de encrin- 
cbeirar-se, cavando fossos, levantando parapeitos, construindo 
bateiias e plataformas, e artilhando -as convenientemente. Refor- 
çou os parapeitos còm pentes e palissadas, e ai^cumulou nas 
entradas infinidade de estrepes. E todo o systéma de defensa 
ganhou muito, amparado por uma espécie de lagoa invadeavel 
que engenhou do lado da terra, réprezando ahi as aguas corren- 
tes, por meio de um dique levantado defronte do convento de 
S. Francisco, e defendido por uma bateria. Ao mesmo tempo 
eram lançados bandos e proclamações, convocando os habitantes 
a regressar ás suas casas, promettendo-se - lhes a maior tole- 
rância e respeito á propriedade. 

Em abono da verdade, cumpre dizer que mui poucos dos 
moradores acudiram ao chamamento. ' 

A maior pa. te dos que haviam deixado a cidade se passa- 
ram do rio Vermelho á aldeã do Espiriro-Santo , hoje Abran- 
tes, a umas seis ou sete léguas do mesma cidade. Reunidos 
ahi ao bispo vários desembargadores, tendo a certeza da prisão 
do governador, decidiram que este se devia considerar morto 
para o Estado, e que, neste conceito, elles se achavam autori- 
sados a abrir as vias. de successao. Encontrou-se nellas desi- 
gnado Mathias d' Albuquerque capitão mór em Pernambuco; que 
desde logo foi disso avisado, as&ientando-se porém que, em 
quanto este novo governador não chegasse^ ou não indicasse 
quem o devia substituir, obedecessem todos ') ao dezembargador 
Antão de Mesquita de Oliveií-a, que entretanto se apellidaria 
capitão mór, e seria auxilip>do, no que respeitava á miiicia, por 
i seis capitães que fomm também nomeados. 

Desagradou, segundo parece, a eleição do desembargador 
ao bispo D. Marcos, o que se nos apresenta como bastante 
provável, ao lembrarmo-nos das provas de ambição que dera 
antes, disputando preeminências ao próprio governador, nomeado 
pelo soberano. O certo é que Antão de Mesquita foi, dentro 



') „De accôrdo com os oíficiaes da Camai*a da Bahia, que esta- 
vam retirados na Pitanga,** diz Bartolomeu Guerreiro. — 



16 LIVKO PKIlldEIRO. 

de poucos dias, ') deposto ^) pelos officiaes da Camará da ci-, 
dade reunidos na Pitanga, os quaes elegeram por capitão mor 
ao mesmo bispo, e por coronéis de toda a milicia da teiTa aos 
moradores António Cardozo de Ban*os e Lourenço Cavalcanti 
de Albuquerque, ambos naturaes do Brazil, e que por ventura 
ajudaiíam também a depor Antão de Mesquita. De ambos diz 
D. Manuel de Menezes que eram „sem nenhuma consciência, '^ 
informação esta que lhe transmittiria o próprio dezembargador 
de quem o mesmo Menezes se mostra amigo , e que estaria 
queixoso contra os dois, como o estava, e muito % contra o 
bispo. A respeito de Lourenço Cavalcanti, que era já um dos 
seis capitães escolhidos para auxiliar a Autão de Mesquita, 
nada transpirou que chegasse á nossa noticia; porém não po- 
demos dizer outro tanto acerca de António Cardozo, tendo co- 
nhecimento de uma ordem vinda da corte *) para se devassar 
contra elle, „por delicto commettido em tempo de guerra,*' p 
qual não suppomos fosse outro. 



•) Como 08 chronistas dizem que o governo do bispo foi de 
quasi quatro mezes, e elle o havia entregue já a Marinho a 
12 de Setembro, segue-se que teria desde poucos dias depois 
de sair da cidade. 

') O P'. Vieira é bem explicito, quando nos diz. Fez (Antão de 
Mesquita) „tu do que poude, mas impossibilitado pelo 
estado das cousas, não poude chegar ao muito que 
pretendeu Passados alguns dias o Sr. Bispo deter- 
minou trocar o báculo com a lança, o roquete com o saia de 
malha, e de prelado de ecclesiasticos, fazer-se capitão de sol- 
dados,^ e D. Manuel de Meneses, talvez por sua posição offl- 
cial, contenta-se em dizer que „neste tempo deviam os .ve- 
readores a modo de scisma de eleger por capitão mor ao 

bispo** „vista a impossibilidade de Antão de Mesquita 

por sua idade e achaques** etc. 

') ^Em uma carta de 12 de Setembro (1624), em que Antão de 
Mesquita dá novas a . . . . Mathias d'Albuquerque de ser che- 
gado o capitão mor Francisco Nunes Marinho, fala como 
apaixonado e resentido, ale^ndo muito o que mereceu- ao 
serviço de S. M. na paciência com que dissimulou os aggra- 
vos que recebia do bispo (a quem carrega muito com* syaon.i- 
mos grammaticos de ambicioso) se queixa do ódio que lhe 
tinha mui antigo, por razão das contendas com a relação 
sobre querer usurpar a jurisdicçao real" (D. Manuel de Me- 
neses). 

*) C. R. de 7 d*Açosto de 1625. Na mesma C. R. são manda- 
dos elogiar Mariuho e Moura. 



LIVEO PRIMEIRO. 17 

Apoderado do .governo, o bispo desenvolveu a maior acti- 
vidade. Ordenou que seis centos homens escolhidos, em vinte e 
sete guenilhas, de vinte e cinco a quarenta individues cada 
uma, se aproximassem da cidade, ás ordens dos mesmos coro- 
néis ; os quaes teriam á saa conta, um o districtcr do Carmo, e outro 
o deS. Bento, únicas paragens por onde, em consequência do 
dique, a cidade era accessivel. E pela sua pai*te, elle bispo com 
os demais soldados, em número passante de mil, deixando a 
^Idea do Espiíito Santo, se aproximou também da cidade, a 
uma légua delia ; assentando arrayal junto ao Rio Veimelho, 
•'foi*tifica]ado-o com fossos e trincheiras dobradas , „ sendo o 
primeiro que, para as fazer, tomou a enxada e cesto." — 
Ainda em seu tempo, no mesmo arrayal foram assestadas 
„seis peças de artilheria, seis roqueií-as e três falcões de bronze."^ 

Entretanto as companhias de embuscadas se aproximavam 
muito da cidade, e do lado do Caimo, por vezes surprehenderam 
o inimigo, e lhe mataram ou aprisionaram alguns. Chegaram 
até a idear (no dia 13 de Junho) entrar pelo convento, e 
passar delle á cidade, surprehendendo-a ; mas não correspondeu 
o resultado aos desejos. Aventurado esteve poiém o capitão 
Francisco Padilha, natural do Brazil *), armando, defronte de 
S. Felipe, uma cilada ao governador da praça Van Dorth, 
quando vinha de visitar Monserrate. Disparando contra elle, e 
matando-lhe o cavallo que montava, arremeteu a pé e o dego- 
lou. Dias depois (1°. d'agosto) foi igualmente sui'prehfindido e 
aprisionado o commandante do forte de Itapagipe. — Seguu^am- 
se outras embuscadas, mais ou menos felizes, sendo uma na 
ilha de Itaparica, onde passando os Hollandezes a fazer car- 
nagem, os capitães Affonso Rodrigues Adorno e Pêro de Cam- 
pos os foram surprehender, tomando-lhes duas lanchas e cinco 
roqueii*as; e. outra (3 de Sei), em que o inimigo deixou no 
campo, entre mortos e feridos, quarenta e cinco, graças ao 
arrojo do dito capitão Padilha e de três outros mais, todos 
pelo bispo armados cavalleiros. Provavelmente foi nesta refrega 
que morreu o coronel Albert Schott, successor de Van Dorth. 

Em princípios de Setembro chegou ao arrayal Francisco 
Nunes Marinho, mandado de Pernambuco por Mathias d' Albu- 
querque, ja de posse ^ do governo, para seiTir de capitão 



^) D. Manuel de Meneses. 



18 LIVRO PRIMEIRO. 

mór, cargo este que hayia servido na Parahiba, onde estava 
residindo. Trazia algum soccorro de maniç5eí(, e poderes para 
qne o sen mando se eitendesse também a Sergipe, Ilheos, e 
Porto Seguro. No mesmo arrayal o bispo lhe entregou o 
governo, e dabi a um mez proximamente (8 de Outubro) 
entregava a alma a Deus. Não faltou quem dicesse ^) que 
o haviam envenenado, boato mui frequente de levantar-se 
quando, em momentos de exaltação dos partidos, tem logar a 
morte de algum de seus principaes chefes. Por mais batarái 
temos attribuir essa morte a resultado de tantos trabalhos, 
em idade tão avançada, ou ainda ao sentimento de deixar, 
quando menos o pensava, o mando quem tanto o saboreava e 
fizera por elle. 

Pdra ajadar a Francisco Nunes Marinho mandara Albu- 
querque a Manuel de Souza d'Eça ^, antes capitão no Ceará, 
e já despachado para o Pará. 

O mando de Nunes Marinho se assignalou por novas 
emprezas felizes, não só do «lado de Carmo f de Itapa:gipe e 
ilba de Itaparica, como do lado de S. Bento e até da Villa 
Velha, o que obrigou os sitiados a roçar o mato e a cortar 
as arvores, em derredor da praça até onde poderam, e a 
abandonar o forte da barra, que ainda então occupavam. No- 
tou-se que a favor dos Holiandezes combatiam ja muitos 
pretos, havendo sido até organisado, dentro da cidade, um 
regimento dos escravos que se apresentavam. Oi nossos deno- 
minavam estes soldados Tapanhunos ou Tapanunhos. 

O mando de Marinho foi ainda de menos duração do 
que o do bispo ; pois não chegou a^ ser de traz mezes, passando 
-o (no dia 3 de Dezembro) a D. Francisco de Moura, natural 
do Pernambuco, o que militara em Flandres, era sobrinho do 
famoso D. Christovam de Moura, e acabava de governar em 
Cabo Verde; o qual estava ja pelo rei nomeado e prestes a 
partir, quando em Lisboa havia, chegado a parte de Mathias 



•) Veja-se o Sermão pregado na sá do Bahia, èm 5 de maio de 
1625, por Pr. Gaspar da Ascensão, que corre impresso. 

•) Em nenhum documento official vemos que se ' junte o ap- 
pellido Eça a Nunes Marinho. Foi esse appellido por alguma 
confusão, acrescentado em uma das relações impressas, 
e depois copiado em outras, incluindo a An nu a do P*. 
Vieira. 



LIVRO PRIMEIRO. 19 

d' Albuquerque de haver escolhido a Nunes Marinho, — pela 
muita confiança qae nelle punha. Trazia D. Francisco de 
Moora o titulo de ^Capitão m6r do Recôncavo,*' e 
era portador de promessas e çsperanças de um socorro consi-* 
deravel. Por quanto havendo chegado (em Julho), a Lisboa 
e a Madrid, a noticia da occupaçâo da Bahia, todos se haviam 
alarmado muito, já pela perda delia em si, ja, principalmente 
na Hespanha, pelo perigo que dessa perda resultava a todas 
as suas colónias da America. 

Em conselho pleno de estado e guerra se havia resol^ 
vido ^) o apresto de uma poderosa esquadra para seguir para 
a Bahia, com um corpo de oito até doze mil homens de 
tropas, devendo ouvir-se a tal respeito a D. Fadrique de 
Toledo, como já predispondo-o ao mando delia. Para a esqua- 
dra e para o reforço de gente deviam concorrer, não só Por- 
tugal, como também os demais estados subordinados á mesma 
coroa, incluindo Nápoles. 

Bem saberia a Oôrte que um tão grande socorro não se 
polia mui depressa arranjar só em Portugal; e a consciência 
lhe diria que esta calamidade só a recebia aquelle ^reino por 
lho estar sujeito. 

Em quanto porém a esquadra se ficava preparando, en- 
viava a Corte o dito D. Francisco da Moura. Alem disso, havia 
expedido a favor de Mathias d'Aftu querque alvará de confir- 
mação no governo do Brazil, dispen sando-o da obrigado de 
re&idir na Bahia, s gundo fora ordenado desde 19 de março 
de 1614. — Igualmente recommendá ra a Francisco Coelho de 
Carvalho, que estava nomeado governador do novo estado do 
Maranhão e já em caminho para elle, que, com á gente que 
levava, se detivesse em Pernambuco. Ao governador do Rio 
de Janeiro Martim de Sá ordenara que acudisse á Bahia com 
quanta/gente e mantimento? |)odesse. Havia sido encarregado 
de. trazer estas ordens Francisco Gomes de Mello, natural do 
Brazil e pouco antes (13 de Julho de 1624) nomeado capitão 
do Ro-Grande do Norte; não havia tardado elle em partir, 
com duas caravelías, em companhia de Pedro Cadena *), de 



*) Siinancas, Consultas Orig. Minist. de Guerra, Legalho 1325. 

*) Não Pedro Cudena, como se diz na tradução allemã da 
sua descripção do Brazil em 1634, impressa em Brun« 
swick em 1780. 

2» 



20 LIVRO PRIMEIRO. 

Yillasanti, casado na Parahiba, e que ao depois (1637 — 1638) 
veia a ser na Bahia provedor mór. ') 

Por 8ua parte os Hollandezes não deixavam de receber 
também promessas, e deviam ja considerar como prova di 
maita importância qae a companhia occidental ia dar á loa 
nova conquista, um extenso regimento, para o seu governo^ 
datado de 19 de novembro; e qae, se bem desta yez nio 
teve applicação, veiu a servir de modelo para outro de Pemmr 
buço mais tarde. ^) 

Consolavam -se também os Hollandezes com os refor^ 
que recebiam e com as prezas que faziam; algamas das qaaes, sen 
trabalho, indo alguns navio«, ignorando que elles se achavaa 
de posse do porto, ahi fundear. Neste número se pontoa um 
em que vinha, com sua familia e cabedaes, D. Francisco 
Sarm lento de Sotomayor, que havia sido goveraador do Potoô. 
E mais que tudo se consolavam os Hollandezes com as noti- 
cias que recebiam de que também já nos portos do Hol- 
landa se flcava aprestando uma grande armada para 
íoccorrel-os. 

O mando de D. Francisco de Moura se assignaloa pela 
occupaçâo de vários postos fortificados do Recôncavo de qae 
era capitão mór, empreza que commetteu a Manuel de 
• Souza d^Eça, e pela conveniente orgauisação, para melhor 
proteger os engenhos, de uma pequena esquadrilha de lanchas 
canhoneiras e barcos armados, da qual fez cabo a João de 
Salazar d'Almeida. O inimigo ainda em seu tempo intentou 
uma sortida, do lado do Caviho, mas foi escarmentado, como 
sempre; pelo que ordenou, sob pena de moi*te, que nenhum 
mais devassasse as muralhas da cidade. Durante o governo de 
D. Francisco de Moura teve logar, (a 27 de Janeiro de 1625) 
n'uma casa fora da cidade, onde se haviam recolhido os Padres 
da Companhia, a morte do seu reitor o venerando P. Fernão 
Gardim, escriptor de bastante mérito e mestre do P. António 
Vieira. 

Dois mezes depois (22 de março) se descubríram, 
fora da barra, nas aguas da Bahia, muitas velas. Com a ten- 

*) Brito Freire § 171 e 900. 

3) Groot Flacaert Boeck de 1664. 



LIVRO PRIMEIRO. 21 

dencia do espirito humano de acreditar-se mais o qoe mais 
se dezeja, cada uma das duas parcialidades imaginou que era 
a soccorrida. Porém embalde se alvoroçaram os HoUandezes. 
A esquadra, se aproximou, e começaram os nossos a fundear, 
e pelos pavilhões todos reconheceram que era a promettida da 
Corte catholica contra os HoUandezes, tendo por chefe o valente 
D. Fadrique de Toledo. *) 

Na totalidade vinha a mesma esquadra a compor-se de 
cincoenta. e dois navios de guerra,, dos quaes vinte e dois de 
Portugal, deseseis da armada de Castella, sendo onze da cha- 
mada do Oceano, e cinco da do Estreito, quatro da Biscaya, 
seis d^ Quatro- Villas, e finalmente quatro de Nápoles. Isto 
sem contar os transportes, cujo numero era proporcionado a 
conduçak) da gente de soccorro, que na totalidade consistia 
em doze mil quinhentos e sessenta e trez homens, dos quaes 
uns quatro mil correspondiam ao contingente portuguez; onde 
era tanta^ a nobreza, segundo • testemunho unanime dos escri- 
ptores, que. se chegou a asseverar que, desde as expedições de 
D. Joáo 1°. a Ceuta, e de D. Sebastião a Tanger não houvera 
exemplo de outra que de tão luzida e bem nascida gente se 
compuzesse. ^ 

Fundeada a frota, ao nordeste da barra, foi logo a 
bordo D. Francisco de Moura e outras pessoas principaes do 
acampamento ; e, no concelho que então teve logar, se assentou 
de fazer desembarcar primeiro quatro mil homens, a saber : 
mil e quinhentos portuguezes, dois mil hespanhoes, e qui- 
nhentos napolitanos. 

Na manhã seguinte melhoraram os navios para dentro 
da bahia, tomando-lhe a barra em linha de norueste a sueste, 
a fím de evitar que se escapasse a frota hollandeza, que 
constava de vinte e cinco navios; pelo que esta se limitou a 
coser-8e com a terra, buscando e amparo das baterias da praça. 

No dia 3Ò se effectuou o ^iesembarque folgadamente, com 
auxilio dos grandes barcos dos engenhos, cada um dos quaes 
conduzia junta uma companhia. Com os primeiros que desem- 
barcaram seguiu D. Francisco de Moura. Também foi condu- 
zida para terra alguma artilheria, afim de ser assestada nas 
novas baterias que logo se começaram a construir. 



') Não „Francisco Toletano," como escreveu o eloquente Barleus. 



22 LIVKO PRIMEIEO. 

Com a tropa chegada de reforço, o cerco da cidade 
regnlarisou pela occapaçao de todas as alturas derredor. E 
cinco paragens porém concentraram suas forças os sitiantes. 

No Carmo, com um terço de Portuguezes e outro 
Castelhanos, se alojou o chefe da expedição D. Fadrique 
Toledo. 

Seguia-se uma bateria, na península formada pelo diqx 
de fronte de S. Francisco, a que chamavam das Palmas 
das Palmeiras, em virtude de algumas qae ali havia. Hoi 
dos Corrieiros era o nome que até ali davam ao sitio os < 
cidade. Indagando escrupulosamente, cremos poder assigni 
a essa bateria o logar que hoje occupa a igreja do Desterj 
ou a de Santa Anna. 

D. Francisco de Moura, com as tropas brazileiras, < 
número de mil e quatro centos soldad os e quatro centos I 
dios, occupava o morro que segue para a banda de S. Bem 
onde ainda - hoje existem alguns quartéis, e as igrejas de Sai 
António da Mouraria e Conceição dos Militares. 

Seguia-se a estancia do convento dos Benedictinos, i 
qual se alojaram três terços, ou regimentos; sendo um 
Portuguezes, outro de Castelhanos, e o terceiro de Napolitanc 

Finalmente a extrema esquerda da linha de sitio c 
occupada pela bateria feita pelo almirante D. Manuel 
Meneses, no local onde hoje vemos a igreja de Santa There2 

Ameaçado por tantas forças, tratou o inimigo de co 
centrar as suas, abandonando os fortes de Monserrate, e o < 
Agua dos Meninos, entre aquelle e a cidade. Com a occupaçi 
deste último forte adquiriram os nossos um porto commo< 
para o desembarque das tropas e da artilheria, o qual a 
então se efectuara junto da barra com dificuldade. 

Por outro lado certo desleixo dos novos sitiadores, co: 
fiados excessivamente na superioridade do número, lhes veiu 
custar bastante caro. O HoUandez descobrindo que a estanc 
de S. Bento se achava mui desguarnecida, e que os soldad 
ahi estavam em gi'ande numero desarmados e trabalhando e 
terraplenar o caminho, e pouco vestidos, em virtude do cale 
intentou sobre essa estancia, pela volta das onze horas < 
manhã, uma arrancada dirigida pelo capitão Kijf, a qual n< 
custou a perda de trinta e sois mortos e noventa e dois fer 



LIVEO PRIMEIBO. 23 

dos, ^) pela maior parte castelhanos, e alguns de maior gra- 
duação. Menos felizes foram no dia seguinte, que intentaram 
outra saida; porém encontraram ja todos de sobreaviso. 
No dia seis de Abril se acercou da Praça a esquadra liber- 
tadora y soffrendo vivo fogo das baterias , e expondo-se ao 
de três brulotes que contra ella despediu a esquadra hol- 
landeza; os quaes houveram podido incendiar as capitaneas, 
se não dão pressa a fazer-se de vela, apartando-se da 
direcção que traziam os mesmos brulotes de fogo. Á fim de 
atacai* a frota inimiga, cosida com a praia, para dentro do 
forte de S. Marcello, julgou-se preferivel o estabelecimento 
da bateria em terra, que foi executada defronte da direita 
da linha inimiga, tão felizmente que foram logo sete navios 
hollandezes a pique, incluindo a capitanea. O cerco foi- se 
apertando tanto que paragens havia onde não mediava entre os 
amigos e inimigos mais que a distancia do fosso ou cava, que 
a uns e outros servia de resguardo. 

Cumpre não esquecer de consignar que, durante o sitio, 
chegaram, com soccorros, de Pernambuco, Jeronymo de Albuquer- 
que Maranhão, filho do conquistador deste nome, e do Bio de 
Janeiro o brioso joven Salvador Corrêa de Sá, neto do de 
igual nome, e a quem seu pai, o governador Martim de Sá, 
confiara o mando de duzentos homens, conduzindo muitos 
mantimentos, tudo em duas caravellas e quatro canoas rema- 
das por índios, havendo percorrido ao longo da costa umas 
quatrocentas léguas. No Espirito-Santo havia Salvador Corrêa 
tido occasião de medir-se com vantagem com tresentos Hollan- 
dezes que abi tinham desembarcado de oito navios, que no 
dia dez de Mat ço ^ se haviam apresentado ameaçando a villa. 

Em um momento se vira esta desamparada de mulheres e 
criança?, que se foram retirando para as roças. Mandara o 
capitão Francisco de Aguiar Coutinho tocar a rebate: compa- 
receram 03 moradores ; mas havia poucas espingardas. Chegando 
porém Salvador Corrêa, fez desembarcar quarenta colonos e 
setenta índios, e uns e outros, com a gente da capitania, 



*) D. M. de Meneses conta 195 entre mortoi e feridoi. 
*) Vej. Manuel Severim na Eel Universal de X625 a 1626. Bart, 
Guerreiro, Jornada etc, Foi, 34, 



24 LIVRO PRIMEIRO. 

guarneceram três estancias oa trincheiras qae se levantaram 
na praia. Dezembarcado entretanto o inimigo, travon^e a 
peleja durante um quarto de hora, e o Hollandez se vin 
obrigado a retirar-se com alguma perda, limitando-se a nossa 
á morte de um soldado. Tentaram os [aggressores' outro de- 
sembarque no dia seguinte; porém não lhes foi melhor. Re- 
solveram então assaltar as roça?, e com quatro lancbas ae 
foram rio arriba, e tomaram varias canoas e um carayelâo de 
Salvador Corrêa quasi desguarnecido. Festejavam ainda esta 
presa, no dia immediato, qoando cairam em uma cilada qne 
os nossos, dirigidos pelo mesuio Salvador Corrêa, lhes arma- 
ram; nella foi abalroada a lancha principal, ficando só doía 
com vida, e as outras lanchas apenas poderam escapar-se 
com grande perda. Desenganados os Uollandezes na presença 
de tantas tentativas mallogradas, fizer aui-se de vela, ao ca^o 
de oito dias. Durante elles metteram na villa mais de oito- 
centos pelouros, sem causar damnos de consideração. Ainda 
quando os podessem causar, taes damnos são sempre menores 
que os resultantes do desembarque e occupação do paiz, quando 
Otí habitantes acovardados pelo primeiro pânico não se . resolvem 
a apresentar a tempo a resistência necessária á natural defensa. 

Voltando porém ao sitio da Bahia, digamos como elle 
terminou. Familiarisando-se os sitiantes com os sitiados, disseram 
a^X^ms destes que tratavam de capitular. Avançavam cabos dos 
nossos, e lhes foi perguntado se vinliam munidos de poderes. 
Responderam que não e que deviam dirigir-se a D. Fadrique. 
Aceitou o inimigo o arbitrio, e no dia seguinte mandou um 
tambor, com uma carta nos seguintes termos: 

„Nós, o coronel e mais individuos do Conselho desta ci- 
dade, havendo sabido que de parte de V. E. chamavam um 
tambor nosso para lhe falar, enviamos este para saber o que 
V. E. nos quer dizer, e confiamos em que V. E. consentirá 
que volve, segundo os usos da guerra.^ Respondeu logo o 
general^ dizendo que de sua parte nenhuma indicação fizera; 
mas que se ^conforme a pratica dos sitios, tinham os sitiados 
que fazer algumas propostas, as ouviria cortezmente quando 
não se oppozessem ao serviço de Deus e d'elrei." A nobreza 
destas frases, a generosidade que ellas respiravam, o modo 
como D. Fadrique dissimulava o estratagema do inimigo para 



LIVRO PRIMEIRO. 25 

não confessar sua fraqueza, lhes devia inspirar maita confiança 
em favor das negociações. Convocados concelhos de uma e 
outra parte, a final os occupantes da Bahia, esmorecidos, tra- 
taram de ver se, em quanto era tempo, obtinham uma capitu- 
lação honroza, e propozeram como essencial condição a saída 
da Praça com armas, toque de tambor e murrôes accesos. 
Resistindo porém D. Fadrique mui firmemente á concessão 
destas honras, vieram os intrusos a acceitar as condições que, 
no quartel do Carmo, lhes dictou o vencedo'*, e que foram 
as seguintes: 

-^ Que entregariam a cidade com toda a artilheria, 
armas, bandeiras, munições, petrechos, bastimentos, e os na- 
vios que estivessem no porto. 

— Que nesta entrega se incluiria tolo o dinheiro, ouro, 
prata, jóias, mercancias^ utensílios, escravaria, e tudo ò mais 
que houvesse na cidade e nos navios. 

— Que se restituiriam todos os prisioneiros. 

— Que os vencidos não tomariam armas contra a Hes- 
panha até chegarem á Hollanda.. 

— Que poderiam voltar impunemente para a pátria com 
toda a sua roupa. 

— Que lhes seriam dadas embarcações em que se reti- 
rassem, com mantimentos para trez mezes e meio, e armas 
com que se defendessem, depois de deixar o corto; não -po- 
dendo usar destas, em quanto ali estivessem; excepto os offí- 
ciaes que levariam suas espadas. 

— Finalmente que naquella mesma ' noite entregariam 
uma das portas da cidade, recebendo em troco reféns a 
contento. 

Assignadas as capitulações, no dia primeiro de Maio 
entravam os nossos na cidade. 

Na disposição e conducção das bateriam de sitio distin- 
guiu-se bastante o contingente napolitano ás ordens do Mar* 
quez de Cropani, tendo por sargento mór Giovano Vicenzo 
Sanfelice, que com o titulo de Conde de Bagnuolo veiu ao 
diante a representar papel importante. — Porém devemos 
declarar que, geralmente, od sitiante^ não se recommendaram 
pela boa ordem, disciplina e fiscalisação nos fornecimentos; e 
cada parcialidade procedia com demasiada independência, o que 



28 LIVKO PEIMEIEO. 

produzia a supressão da sua relação (alv. de 5 de Abril k 
1626) cujos gastos foram mandados aplicar para a tropa. 

O GoTemador . Diogo Luiz votou-se com actiyidada i 
restaurar as fortificações da cidade e a construir oatras nom; 
mas empreza difícil, seuão impossivel, era, com oe moios di 
que dispunha, põr-se a coberto do valor e audácia do inimigo. 
Em março do 1627 o valente Piet Heyn se apresentava ontn 
vez nas agua«( da Bahia, e burlando-se das suas novas marir 
lhas e de mais de quarenta canhões nellas assestados, ahi ata- 
cava, com feliz êxito, a frota de vinte e seis navios (dos qai« 
quatro armados ou de guerra) que se achava fundeada janto 
á terra. O venturoso almirante por um rasgo de andacii 
(imitado dabi a perto de dois séculos pelo intrépido Cochrane]^ 
adiantando-se da sua esquadra com a sua náo, foi com elb 
fundear entre os dois principaes navios de guena da mesmi 
frota, e apezar das desvantagens do combate, tendo contra li 
não só o fogo dos navios, como o da artilheria e fuzilaria de 
terra, conseguiu metter a pique a sotacapitanea da frota, i 
inspirar tal terror aos demais navios, que todos sp lhe renderam, 
excepto três menores que conseguiram escapar-se. A almiranta 
de Piet Heyn ficou tão crivada de balias, que se afundon até 
dar em seco, pelo que teve de incendiai -a, dando-se por bem 
indemnisado com a victoria e com os demais navios com carga 
de assucar, de que em troco conseguiu assenhorear-se. Segando 
Jaboatão ^) 16 desses navios tinham a bordo três mil caixas. 

Depois de se demorar no porto uns vinte e quatro dias, 
e de enviar carregadas quatro das melhores presas para 
a HoUanda, queimando as que julgou menos aproveitáveis, e 
reforçando com varias a sua esquadra, seguiu o feliz almirante 
para o sul, a avistar o Cabo Frio, e havendo feito aguada 
em um porto visinho, entrou de novo na fiahia no dia 10 de 
Junho, com quatro navios de guerra, e foi tomar dois mercan- 
tes que estavam fundeados em Iiapagipe; donde passou em 
lanchas armadas a oaptivar outros três, que haviam buscado 
refugio no fundo do Beconcavo; sendo hostilisado por forças 
postadas ás margens, das quaes conseguiu burlar-se, empave- 



') Part. I, p. 61. 



LIVRO PRIMEIRO, 29 

sando as mesmas lanchas com coiros de boi, que nos próprios 
engenhos encontrara. x 

De novo se demorou Fíet Heyn incólume senhor do porto 
por mais de um mez, até o dia 14 de Julho em que resolTeu 
recolher á Europa. 

Tão brilhantes successo«{ e outros que os mesmos Hol- 
landezes adquiriram não podiam ser offiíscados pelos pequenos 
revezes que sobre o Amazonas, Geará, e ilha de Fernando de 
Noronha reobiam alguns entrelopos hollandezes que por essa^ 
bandas se apresentavam. 

Os desastres no Brazil eram, para os Portuguezes, a^^.om- 
panhados de outros ainda ma'ores na sua índia. Debalde havia 
a carta regia de 10 de Dezembro de 1624 (aproveitando até 
certo ponto a idéa oferecida pelos judeoâ portuguezes da Hol- 
landa quanto ao Brazil) tentado organizar, para lhe acudir, 
uma ^Companhia de navegação e commercio da 
índia, Mina e Guiné.'' 

Pa^a a Bahia somente encontramos que se ordenasse 
mandar reforços de homens e munições, em maio de 1628, 
devendo com uns e outros attender-se também a Pernambuco. 

Entretanto escassos seriam esses reforços, se nos guiamos 
pela? suplicas, qae nesse mesmo anno (em 17 de Fevereiro 
e 6 de Julho) dirigia o soberano ás Camarás do Reino, sol- 
licitando meios com que acudir ás colónias portu^uezas, onde 
o inimigo pretendia agaigar-se. 

Corresponderam as Camarás, ao menos com boas inten- 
ções^ ao chamamento; pois então teve origem a idéa por ellas 
suscitada do imposto chamado real d'agua, que devia con- 
sistir no tributo de um real por libra de carne ou canada de 
vinho, que se ^vendesse para o consumo, o qual depois, para 
a cidade de Lisboa, foi elevado a cinco reis em libra de carne, 
e a sete em canada de vinho. Mas esse imposto só depois 
começou a cobrar-se. 



LIVRO SEGUNDO. 



DESDE A PERDA DE OLINDA ATÉ Á DESERÇÃO DO CALABAR. 



PuTidos subministrados por onti*a victoria de Heyn. — Novos planos 
contra o Brazil. — Proforencia dada a Pernambuco. — íáSta de 
prevenções adequadas. — Nomeação de Mathias d'Albuqnerque. — 
^íua partida, com insignificantes soccorros. — Providencias deste 
governador. — Cliegada das forças hollandesas. — Desembarcam 
ao norte de Olinda. — Tomam esta capital, e dias depois b Re- 
cife. — Entrincheiram-se òs Hollandezcs. — Albuquerque organisa 
guerrilhas e se fortifica no Arrayal do Bom Jesus. — Onde ficava 
este. - Ropelle o primeiro ataque. — T oma Albuquerqne a ofien- 
siva — Elogia o inimigo o valor dos Pernambucanos. — Extende 
a sua linha. — Constroe um forte em Itamaracá. — Providencias 
tomadas pela Corte. — Armada de Oquendo. — Combate naval 
com Pater, que morre na acção. — Boatos a este respeito. — O 
inimigo abandona Olinda. — intenta em vão tomar a Parahlba, e 
depois o Rio-Grande e o forte do Cabo de Santo Agostinho. — 



O saque do recôncavo da Bahia, alcançado com tanta 
vantagem por Piet Heyn, seiia por si um grande estimulo 
para a Companhia Occidental niío desistir de novos ataqnea 
contra o Brazil. Achava-se porém escaca de fundos, e por- 
ventura não se amscaria outra grande expedição, com tro- 
pas de desembarque, se lhe não vem em auxilio um grande 
thesouro, que lhe caiu nas mãos, graças a uma nova victoria 
alcançada no mar pelo próprio invasor do Recôncavo Piet Heyn 
contra D. Juan Benevides, tomando-lhe vários galioes, que 
continham o valor de uns novo milhões de ducados, preza 
considerada das mais valiosas de que ha exemplo nos annaes 
maritimos. 




< 0^ CX^ /-^^^ ^ 



^^nCeyXy'^ ^^ , ^--^ 




/ 




LIVRO SEGUNDO. , 31 

Com tâo grande auxilio de capitães, a Companhia sei 
decidiu a mandar uma nova expedição ao nosso littoral. • 

Resolveu porém não insistú.' em occupar a Bahia, que 
provavelmente encontraria prevenida, e que, escarmentada com a 
ultima invasão, peor receberia de novo o seu dominio. Lançou 
pois de preferencia suas miras cubiçosas a Pernambuco, ma's 
perto da Europ^,, e cuja occupação julgou mais fácil e mais 
rendosa, em consequência ate das djevastaçôes que acabava de 
soffrer a Bahia, e de outros dados que deviam na Hollanda 
ser mui conhecidos, a ponto de publicar um escriptor hoUan- 
dez contemporâneo ') que um seu compatriota, que vivera 
trinta annos no Brazil, lhe assegurara que só Pernambuco 
produzia annualmente sessenta mil ducados, afora o tabaco, 
pau brazil etc. 

O plano da preferencia dada a Pernambuco não se teve 
na Hollanda em gi-ande segredo, e foi mui a tempo communi- 
€ado para Madiid e para Lisboa. 

Se immediatamente a Corte se decide a tomar as únicas 
providencias adequadas, se inspirada pelos factos recentes da 
perda da Bahia, e dg, sua recuperação pela armada de D. Fa- 
drique de Toledo, se resolve a mandar logo outra poderosa 
frota ás costas de Pernambuco, talvez haveria conseguido deixar 
de todo escarmentada a Companhia Occ dental, A própria demora 
que teve, para organisar-se e para partir, a esquadra hoUan- 
deza, e os tropeços que ainda se lhe apresentaram na viagem, 
vendo-se parte delia obrigada a combater com uma esquaira 
hespanhola que encontrou, casualmente, mandada pelo próprio 
D. Fadrique de Toledo, pareciam esta'* providencialmente favo- 
recendo o Brazil para ser soccorridò mui a tempo. 

Em vez porem de se decidir logo a fazer um esforço 
maior, enviando nova esquadra restauradora, a Corte se limi- 
tou a dar ordens para Lisboa que dali mandassem algum soc- 
coiTO a Pernambuco ; e, como se achasse então accidentalmente 
em Madrid Mathias de Albuquerque, que, po*: occasião da in- 
vasão anterior, substituindo no governo a Diogo de Mendonça 
Furtado, dera de si tão boa conta, lhe ordenou que para lá 
regressasse; nomeando-o „superintendente na guerra e visitador 
e fortificador das capitanias do norte" com isenção do gover- 



') La et, Hispânia, ed. Elzevir de 1629, p. 212. 



32 LIVEO SEGUNDO. 

nador da fiaMa, devendo passar por Lisboa, e levar dahi os 
soccorros que se haviam mandado aprestar. 

Albuquerque pai*tiii immediatamente. Foram á foz do 
Tejo viu, com tanta surpreza como peiia, que taes soccorros 
promettidos se reduziam apenas a vinte ' e sete soldados e 
algumas munições. 

Sem embargo, conforme lhe era ordenado, fez-se de vela; 
e no dia l8 de Outubro (de 1629) já se achava em Pernam- 
buco dando providencias. 

E tal havia sido a demora da pai*tida da esquadra hol- 
landeza que o próprio regimento ') para o governo politico e 
judicial, que se devia obsei-var na projectada conquista nãio se 
expedia na HoUanda senão a 13 de Outubro, cinco dias antes 
que Albuquerque chegasse a Pernambuco. Constava de sessenta 
e nove artigos, e fora modelado sobre outro outorgado no 
l^ de Novembro de 1624 aos que então estavam senhores 
da Bahia. 

Vários contemporâneos são concordes em assegurar ') 
que Albuquerque fez por então quanto estava a seu alcance. 

Já passou felizmente o tempo de serem os escriptores obri- 
gados a inventai*em faltas aos agentes dos governos pai-a des- 
culpar os erros destes. Quando apareceram os desastres, nao 
deixou de haver quem por elles increpasse unicamente a Ma- 
thias d' Albuquerque, e ainda, em nossos dias, vários escriptores 
o tem censurado de haver perdido tempo festejando, com disparos 
d^artilheria, a noticia do nascimento do um infante; como se, 
ainda quando assim fosse, não podesse, desse mesmo aparato 



*) Este regimento se encontra no Groot Placaert Boeck imp. na 
Haya em 1664, Part. I, Gol. 1235. 

^) Veja-se a Relação verdadeira e breve da tomada da 
villa de Olinda, que nesse mesmo anno se imprimiu 
em Lisboa, por Mathias Rodrigues, alem do parecer do Con- 
selho do Estado, adiante citado. O Conde da Ericeira diz 
que Albuquerque „disposera tudo o que julgara útil 

f)ara a defensa, porém como havia de animar sessenta 
éguas de costa . . . não fora possivel que o effeito correspon- 
desse á diligencia.^ Omittimos o testemunho do autor das 
Memorias Diárias, porque hoje temos motivos para crer 
que esta parte das Memorias (até a chegada do donatário 
Conde de Pernambuco com Oquendo) foi aproveitada do 
diário que o próprio general a principio escrevia e remettía 
regularmente á Corte. 



LIVRO SEGUNDO. 33 

bellico, resultar um pretexto para o alardo de toda a milícia. 
A verdade, em todo o caso, é que o novo governador, nos 
cinco mezes menos quatro dias qae esteve no seu posto, antes 
de se apresentar a esquadra inimiga, fez quanto podia. Pro- 
seguiu fomentando as obras da defensa do porto, trabalho em 
que ja encontrou o próprio Capitão-mór que ali estava, André 
Dias da Franca, ajudado pelo sargento mor do Estado Pedro 
Corrêa da Gama, que servira em Flandres, e que antes fora 
mandado ahi da Bahia pelo governador geral Diogo Luiz de 
Oliveira. Attendeu ao annamento e disciplina da tnilicla da terra, 
que constava de três companhias de linha, com cento e trinta 
praças unicamente, e mais quatro companhias de milicias na 
villa e uma no Recife, todas com seis centos e cincoenta pra- 
ças. Organisou mais duas companhias de gente de mar. Re- 
commendou, por toda a Capitania e pejas visinhas, que os 
homens d^armas e os índios amigos estivessem de sobre aviso, 
a fim de acudirem onde se mostrasse o inimigo. Mandou que 
pela costa se postassem atalaias para, " por meio de fogueií^as 
de distancia em distancia, darem signal dos navios que se 
avistassem. Ordenou ao sargento mór das milicias Ruy Calaza 
Borges que fosse desalojar alguns HoUandezes que estavam 
formando um estabelecimento na ilha de Fernando de Noronha, 
o que elle executou com tanta felicidade que delles aprisionou 
sete, tomando-lhes uma lancha^ com_ seis roqueiras. E porfim, 
quando chegou o momento do perigo não fugiu delle; pelo 
contrario tratou de sair-lhe ao encontro. 

No dia 9 de fevereiro* chegou ao Recife um patacho, 
enviado pelo governador das ilhas de Cabo- Verde João 
Pereira Corte Real, trazendo a Peinambuco á segurança de 
que para ali partira a esquadra inimiga. Immediatamente o 
governador deu a todos o grito de alerta. Espalhou os com- 
petentes avisos, para dentro e fora da Capitania, convocando 
a gente á capital, e publicando até bandos, concedendo em 
nome do soberano perdão aos réos homisiados qne se apre- 
sentassem a tomar as armas. Melhorou ainda mais a defensa 
dos fortes, ai'mando-os de palancas ou palissadas, e flanqueando-os 
por novas baterias. Attendeu também a fechar, por meio de 
barcos, reunidos ,ou mettidos a pique, a principal entrada do 
porto, e as suas duas» banretas. Distribuiu as forças pelos 

3 



34 LIVEO SEGUNDO. 

differentes postos , nomeando os competentes chefes sape- 
riores e subalternos, é, com a sua presença, procurou .acudir 
a toda a parte, e dai* calor a tudo. 

Cinco dias depois de chegar o aviso, aos 14 de fevereiro, 
se apresentava a esquadra hollandeza com cincoenta e seis 
navios. Era delia chefe o veterano na milícia do mar Henrique 
Coraelis Loncq. 

De accordo com o commandante das forças de terra 
Theodoro Weerdenburgh, foi resolvido effeituar-se o desem- 
bai'que por duas pai-tes; encarregando-se Loncq de dirigil-o 
pelo porto, em quanto Weerdemburgh iria cpm outras tropas, 
ás praias ao norte de Olinda. 

Não conseguiu Loncq o intento. Um de, seus navios, que 
mais se adiantara, encalhou na barra. ^ lanchas que iam 
com gente, encontrando o porto fechado, e bem defendido 
pelos fortes, tiveram de retroceder. Foi porém mais felii 
Weerdenburgh; pois levando comsigo uns três mil homens, 
poude facilmente desembarcar além de Olinda, nas praias chamadas 
j do Pau Amarello. Saltaram as tropas em terra na tarde do 
dia 15, sem que a isso se oppozes>e, como devia, o ex-capi- 
tão-mór Dias de Franca, a quem fora incumbida a guarda 
desse lado, tendo ás suas ordens sufficiente gente aimada, 
incluindo cem de cavallo. Em vez de empr^al-a em cargas 
repetidas contra os que desembai-cavam, regressou Dias da 
Franca á villa, com os de cavallo ; deixando o inimigo dormir 
tranquillamente essa noite na praia. 

Na manhã de 16 seguiu o inimigo, pela costa, caminho 
de Olinda, em três columnas, fazendo-se acompanhar ao longo 
da mesma costa por barcaças armadas, e tendo por guia An- 
tónio Dias Papa-robalos, judeo que estivera annos antes com- 
merciando em Pernambuco e passara á HoUanda. 

O governador, confiando a defensa do Kecife ao sargento 
mor do Estado Pedro Corrêa da Gama, dirigiu-se pessoalmente 
para o lado atacado, e pretendeu apresentar resistência na 
margem do rio Doce; onde a maré cheia detivera o inimigo. 
Tinha comsigo oito centos e cincoenta homens, e os collocou 
em ordem de batalha. Ao baixar a maré, lançou-se o inimigo 
á passagem do rio, protegido pela artilheria de suas lanchas 
ou barcaças. Aguantaram os nossos o primeiro Ímpeto; mas 



s 



LIVRO SEGUNDO. 35 

logo começaram a retirar-se, de modo que Albuquerque, 
vendo-se apenas com uns cem combatentes, teve de recolher-se 
a Olinda; tomando posição na plataforma do convento de 
S. Fi-ancisco, que dominava o caminho da praia. 

Chegando ahi o inimigo, preferiu ir occupai* primeiro a 
parte alta da villa, apoderando-se do coUegio dos jezuitas, 
onde se haviam recolhido muitos moradores. 

Perdido porém o mesmo collegio, e vendo as trincheii*as 
da praia ameaçadas por novas forças, viu-se obrigado a reti- 
rar. Assim ficou o inimigo senhor da villa, havendo os nossos 
tido de perda quarenta e cinco mortos e cincoenta e seis fe- 
ridos, entrando no número dos primeiros o bravo Capitão de 
linha António Pereii*a Temudo. 

Leiamos agora, como dá ofíicíalmente conta desta occu- 
paçáo de Olinda o general inimigo Weerdenburgh. 

,,Achámo-nos ém força de cincoenta e seis vasos e, de- 
pois de madura deliberação, resolvemos atacar por duas partes* 
Eu, com dois mil e quatro centos soldados, trezentos marinhei- 
ros, e outros tresentos para o trem, em deseseis navios devia 
desembarcar a duas léguas proximamente ao norte, e o gene- 
ral, com os outros navios e dois outros bons corpos, occupar 
o Recife. Foi isto levado á execução no dia. 15 de fevereiro, 
dirigindo-se o mesmo general para o Recife. Mas os dos for- . 
tes, prevenidos da nossa chegada, tinham feito encalhar alguns 
navios na passagem, e não poude o general levar avante o seu 
intento, ainda que fez para isso todos os esforços a tíro de 
canhão. Pela minha parte, apezar de ter divisado muita gente 
de pé e de cavallo nas praias, dirigi-me, depois do jantar, 
na^ lanchas, com a vanguarda, e, á vista do inimigo, desem- 
barquei, sendo seguido de toda à mais gente dos navios, dos 
quaes se th*aram duas peças de calibre três. 

„ Vindo a noite, foi-nos necessário dormir na praia. 
Mas no dia seguinte, depois de despedir todas as lanchas, 
dividi as minhas forças em três divis5es. A da vantíuarda, 
na qual, tanto no desembarque como na maixha, estive em^ 
pessoa, era commandada pelo tenente coronel Elts, a da ba- 
talha pelo tenente coronel Stein Callenfels,. e a retaguarda 
pelo major Honcks. 

^Marchando ao longo da praia para a villa, chegámos 
a um pequeno rio chamado Doce, e qual foi necessário passar 



36 LIVRO SEGUNDO. 

com agua pela cintura. Ahi teve 1 o g a r o primeiro encontro 
com uns mil e oitocentos homens de pé e de cavallo ') que 
se apreseutaram. Mas, depois de uma foiie refrega, dando em 
resultado vários mortos e feridos, em menor número da nossa 
palite, pul-os em fuga, apezar da vantagem que tinham do 
rio. Mais adiante encontrei ainda tropa na praia, mas reti- 
rou-se logo para o mato, apresentando pequena resistência. 
Ainda por terceira vez se mostraram, mas sem se atrever a 
esperar -nos; de modo que, vendo-os tomados de espanto, 
marchei para a villa; e ao chegar, subi com a van^arda e 
o corpo de batalha ao convento dos Jesuitas, cujas portas 
estavam entrincheiradas; mas nós as tomámos por escalhda, 
e as abrimos. Os que ahi se defendiam, vendo o valor doa 
atacantes, e vários dos seus como dos nossos mortos e feri- 
dos, procuraram a salvação na fuga. Ao mesmo tempo . os que 
estavam, nos fortes, na baixa, informados do que occorria, e 
vendo chegar a nossa retaguarda, dados alguns tiros de. ca- 
nhão, que mataram e feriram vários, largaram também a fugir, 
abandonando os fortes, dos quaes nos apoderámos. Assim, com 
a graça de Deos, nos assènhoieámos da villa, não tendo per- 
dido, tanto na marcha, pelo grande calor, como na ataque da 
villa , senão cincoenta ou sessenta ' soldados. Fortifiquei o 
convento dos Jesuitas com algumas trincheiras contra qual- 
quer surpreza, e nelle me acho alojado." 

Perdida a villa, todos os moradores e suas familias fu- 
giram de Olinda para os matos. Albuquerque se recolhia ao 
Recife acompanhado unicamente de vinte homens, e desempa- 
rado de todos os mais. 

Também do Recife todos fugiam, e só á força de rigor 
foi possivel pôr algum cobro a essa tendência. 

Vendo em tomo de si tão poucos defensores, Mathias 
d' Albuquerque tomou a resolução de augmentar ao menos 
com elles as guarnições dos dois fortes, do Picão (S. Fran- 
cisco da Barra) e de S. Jorge, que no isthmo lhe ficava 
fronteiro ^), de fazei- i-ecolher nelles a maior parte das mu- 



j) Alias oito centos e cincoenta, incluindo os índios, como vimos. 

^) Com pouca diíFerença no local em que hoje está a igreja 
do Pilar. 



LIVRO SEGUNDO. 37 

nições, e de incendiar os armazéns do Recife e os navios que 
estavam can-egados, fazendo encalhar alguns destes no canal 
da barra, a fim de, ao menos, privar o inimigo de utilizar-se 
dos grandes valores que elle não tinha' forças com que de- 
fender. O importe dos objectos consummidos pelas chamas foi 
orçado em quatro milhões ; . mas não se queimou tudo quanto 
havia; por quanto o inimigo fez alarde ^) do haver-se apode- 
rado ainda de mile quinhentas caixas de assucar e de três mil 
•pipas de vinho. 

Que differente teria sido a sorte dos aggi-essores, e a 
dos Peraambucanos, se estes se houvessem desde principio 
prestado com obediente abnegação á defeusa de seus lares, e 
se o goveinador houvesse podido limitar-se a defender o porto 
do Recife! — 

Não fazemos recriminações. Os próprios Pernambucanos 
se encarregaram de ser, quinze annos depois, os severos jui- ' 
zes de si próprios e de seus pais. 

No Manifesto que redigiram , pouco depois do levanta- 
mento de 1645, e que corre impresso, consignaram elles estes 
períodos: „0 clamor fez empatar a muitos e fugir a todos, 
sem bastar o esforço de alguns para fazer tornar a outros 
do sobresaltado accidente ..." 

Estas palavi'as são reproduzidas, com pouca differença, 
pelo Conde da Ericeira ^) do seguinte modo: „Náo tolerando 
o medo dos moradores alguma obediência, foram desampq,rados 
os postos e tratando de salvar nos matos o mais precioso - 
das fazendas." 

Pelo que respeita a Mathias d' Albuquerque, o mencio- 
nado Manifesto faz-lhe justos elogios, dizendo: „0 valor do 
general Mathias d' Albuquerque fez recordar a nobreza deste 
povo dos sustos que tão divertido s^ os tinham " 

E mais explícitos foram os conselheiros d'Estado em 
Portugal, que, dando seu voto em consulta de 22 de Abril, 
disseram: „E todos de conformidade notaram que, pelo que se 
entendia destes avizos, Mathias d' Albuquerque tinha procedido 
com toda a satisfação, e que se deve ter por couza muito útil 



*) „f urjc ©rjíí^íung" etc, folhetq ou gazeta do tempo em alle- 
mão, traduzido provavelmente do hollandez. 

*) ,, Portugal Restaurado" etc. 



88 LIVEO SEGUNDO, 

•e importante^ no desemparo em que se achoa da sua gente, e 
tao rodeado 'de inimigos, ter acordo e industria pam qaeimar 
os navios e a carga dos assucai*es." 

Parece porém inegável que outra houvei*a sido a sorte 
de Pernambuco, se a Mathias de Albuquerque tivesse sido 
possivel abandonar de todo Olinda, recolhendo-se, com a gente 
que tinha, a fortifícar-se bem no porto do Recife, até receber 
soccorros; como depois praticaram os Hollandezes; na confor- 
midade do que ja, dezoito annos antes, havia sido indicado no 
livro da Basao do Estado do Brazil, cujo autor bem 
insistiu, com a previsão de verdadeiro estadista, na necessidade 
de deixar-se crescer no mesmo Recife a povoação ; ao que muito 
se opunham os officiaes da camará de Olinda, os quaes ^cõm 
todo o seu poder, lhe estorvavam o seu crescimento, com 
ciúmes da dita villa (de Olinda) onde tinham cazas, e temiam 
que, fícando-lhe menos trato, tivessem perda; e assim tinham 
prohibido com penas graves, que ninguém edificasse 
na dita povoação ^), nem nella consentissem mais justiça 
que o juiz da vintena/ 

Seja-nos permittido transcrever ainda aqui, a este res- 
peito, as seguintes palavras desse autor: ,, Crescendo a po- 
voação (do Recife) por terra e pelo salgado até o forte velho, 
o número dos moradores e da gente do mar fora, sem outra 
guarda, mui respeitado; e mui defendido o sitio; e só para 
os fortes, sem mais presidio, bastaram trinta soldados; de 
maneira que, com as alfandegas aqui postas, e licença para 
edificarem, bastará, pela natureza do sitio, a se fazer um logar 
mui honrado, mui rendoso, e sustentado com mui pouca custa, 
em consideração que a Yilla de Olinda, em nenhum 
tempo pode ter fortificação que assegure suas 
couzas por ser, como se vê, em assento alto e 
bar rançoso, as cazas esparzidas de modo que 



*) Os documentos que possuimos não nos autorisam a crer que 
estava bem informado Barleus quando disse: „Cum BrasilisB 
imperium teneret prsefectus Albuquerquius , deliberattt|m 
ssepè , num expediret Olindam longius à portu marisque 
aditu remotam, negligi, incolasque in Reciffam et Vazii insu- 
lam transferri, cui fini insulam necti Recifí» perutile foret, 
cum et fluminum circumlabentium oportunitate et Oceani 
appulsu invicta hsBC loca crederentur. Verúm, sive imperitía 
militaris architectura," etc. 



LIVRO SEGUNDO. 39 

a trincheira daPraya, que é a menor fortificação, não 
é de nenhum effeito para casos repentinos de gente resoluta, 
quanto mais para um caso pensado, no qual ainda os altos 
muros e lai'gas cavas não asseguram totalmente um povo hi- 
sonho. Pelo que, tomo a dizer, que as alfandegas e a sustan- 
cia destes visinhos mais a propósito ficam na dita povoação 
do Eecife." 

E o mais é que esses ciúmes de Olinda com o Recife 
não se exterminaram durante os vinte e quatro annos de do- 
minio dos HoUandezes, em que, não só o bairro do Recife, 
mas também o de Santo-Antonio, se levantaram coma por 
encanto. E nem valeu o incêndio, posto pelos mesmos 
HoUandezes á velha Olinda , para acabar com os ditos 
ciúmes, nem sequer para atenual-os; como no século seguinte 
se viu, por occasião da resistência que tiveram que apresentar 
os moradores do Recife, e que degenerou na guerra chamada 
pelos Olindenses dos Mascates, como por insulto áos ditos 
moradores; guerra a respeito da justiça da qual, seja dito de 
passagem, o amor á verdade nos impelle a abrigar hoje opi- 
niões differentes das que antes tii^hamos, e em outro logar 
manifestámos. 

Sem dúvida Mathias d'Albuquerque en'ou em não se 
haver recolhido, com toda a gente, ao Recife; desde que, não 
havendo sido possiveí impedir o desembarque ao inimigo, este 
se apresentou em terra Qom forças tão superiores, mais pela 
disciplina e hábitos de guen-a, que pelo número. Portificando- 
se bem no Recife, o inimigo, vendo-se sem um bom porto, 
inquietado por frequentes embuscadas, e falto de mantimentos, 
nâo conhecendo o paiz, nem os demais portos visinhos (pois 
não havia delles cai-tas hydi*ographicas publicadas), talvez se 
enfada e se retira. Que a defensa do porto do Recife foi 
então por alguns reconhecida como a mais importante o con- 
firma o próprio chronista donatário da Capitania, irmão de 
seu governador e general, com os seguintes periodos: „E de- 
pois de ii-se entrincheirando o logar do Recife, começou outro 
forte á sua entrada, como encabeçamento principal de 
toda aquella defensa; porque aquelle era o porto 
onde desembarcava quanto vinha .de fora por mar, e onde 
também se carregavam as drogas da terra , . .^ „A todos 
pareceu que o porto de Recife era somente o que com 



40 LIVEO SEGUNDO. 

mais cuidado se devia guardar, por ser o principal, a 
onde estavam dous fortes d^elrei e todo o thesouro de assacar, 
páo brazil, algodão, tabaco, gengibre e outras fazendas.* £ 
em outros legares: „Como era nelle que tudo consistia, por 
ser o principal daquella praça, convinha acudirse-lhe ..." 
„ Súbito o general montou a cavallo, por mais que lh'o ve- 
davam com protestos, deixando o Recife ..." ^Os 
que cercavam o general lhe protestavam que era necessária a 
sua presença para a salvação do Recife." 

Vê-se, pois, que se tinha havido escriptor que previsse, 
dezoito annos antes, o que cumpria fazer-se com pausa, em 
tempo de paz, não faltou tão pouco quem propozesse, até 
com protestos, que ao menos se fizesse, na hora do perigo, 
o que cumpria para salvar os habitantes. 

Em f^vor, porém, de Mathias. d' Albuquerque, cumpre 
dizer que não faltaram outros que nesses momentos o quize- 
ram obrigar a cuidar antes da defensa da capital, e com os 
quaes teve de transigir; pois diz Manuel Calado mui expres- 
samente que os da villa ') „ persuadiam ao general que nao 
tivesse encontro com o inimigo no caminho, nem na praia, 
senão na villa (d'01inda) onde tinham seus reparos e trin- 
cheiras; e isto (prosegue) diziam a gritos, porque como na 
villa lhe ficavam suas mulheres e filhos e suas riquezas, 
queiiam pol-os a salvo, e a suas pessoas também, tanto que 
. . viu-se o general tão perseguido de . . . protestos que . . , 
veiu com toda a gente retirando á villa, e dahi mandou com 
alguma fornecer o Arrecife" (Recife). Assim, repetimol-o, 
io erro de Mathias d' Albuquerque, nesta conjunctura, proveiu 
jdo desejo de satisfazer antes de tudo os proprietários de Olinda, 
iquando o seu dever sagrado era oppor-se ao inimigo, embora 
•descontentando aos moradores. 

E não foi infelizmente a última vez que o desprezo dos 
] conselhos de escriptores previdentes ou os empenhos de alguns 
í interesses dos poderosos foram cauza de grandes calamidades l 



*) „, . . Ricaços e de inchadas barrigas, que como nao e ata- 
vam costumados a morrer.** A frase de barrigas in- • 
chadas, e a de não estarem costumados a morrer (costume 
que não conhecemos nos filhos de Adão) são empregadas por 
Calado pag. 10; e tanta afeição tinha a ellas, que as repete 
logo adiante (pag. 11). 



LIVRO SEGUNDO. 41 

Incendiado o Becife, passou o governador a, residir na casa 
da Asseca, sitaada do outro lado, em frente do forte de 
S. Jorge, do qual se podia naquelle tempo passar a ella na 
baixa-mar. Ao mesmo tempo mandou occupar o posto visinho 
de Santo Amaro, confiando a tarefa ao capitão de linha 
Maiiiim Ferreh*a, com vinte soldados. Igualmente resolveu 
organisar, á maneira do que se praticara seis annos antes 
na Bahia, várias guenilhas, com o nome de companhias 
de embuscadas, entrando em cada uma delias alguns índios, 
afim de vedar todas as communicãçôes dos habitantes 
com a villa occupada pelo inimigo, de impedir què estes se 
fossem espalhando e estudando os aiTodores, e de fazer a todos, 
pelo simples facto de se familiarisarem nas hostilidades^ menos 
propensos a reconciliar-se com o inimigo. 

Pela sua parte igualmente este tomava as prevenções 
que pensava mais a propósito. Seguro de que, recobrados os 
moradores do primeii*o pânico, reunidos a outros que convo- 
cassem, não deixariam de ii* atacal-o, tratou de se fortificar 
principalmente na parte alta de Olinda. 

Vendo porém. que não era atacado, que começava a ser 
sitiado por terra, e que sem porto, quando o inverno se apro- 
ximava, estava já quasi bloqueado pòr mar, resolveu assenho- 
rear-se do Recife. 

Tentou pois, de novo, tomar este porto, forçando-lhe 
a entrada. — Procedendo porém a r^^conhecel-o, no dia 19, 
confirmou a impossibilidade da empreza, em consequência dos 
muitos barcos ahi mettidos a pique, e das baterias dos fortes 
que defendiam a mesma entrada. Resolveu pois começar por 
occupar o forte principal (o de S. Jorge), dirigindo-se a elle 
de Olinda pelo isthmo. 

Commandava-o António de Lima, e não tinha mais que 
trinta e sete homens de guarnição. Teve o ataque logar de- 
pois da meia noite, e tão vigorosa foi a resistência que o ini- 
migo viu-se obrigado a afrouxar e a refcii'ar-se, ao cabo de duas 
horas, havendo os nossos perdido cinco mortos e oito feridos. 

Eis o que acerca deste ataque diz Weerdenburgh, na 
sua participação ofiíicial, que se publicou logo por toda a 
Europa, nas relações ou gazetas do tempo: „No dia 20 de 
fevereii*o, em virtude de resolução ilo Conselho, ordenei ao 



42 



LIVEO SEGUNDO. 



tenente coronel Stein Callenfels ') de tomar de noite o for 
situado na terra firme, janto ao Becife. Desempenhou-se eD 
atacando o forte durante duas horas. Entretanto as eseiâ 
sairam cartas, e^ havendo tido de perda vinte mortos e qo 
renta feridos, e doze o inimigo, julgou-se melhor tocar a i 
tii-ar para não expor mais gente." 

O êxito obtido nesta defensa augmentou o valor i 
nossos^ e levada a noticia aos districtos visinhos por yento 
apressou a marcha dos que se preparavam a acudir. Das i 
dêas dos índios correram muitos com o P. Manuel de Menu 
e lhes foi dado pai*a defender o posto de Santo Amaro, di 
xando-o Martim Ferreira. Á freguezia de Ipojuca foi bosc 
gente António Ribeiro de Lacerda, ahi querido e respeitai 
Da Yilla Formosa veiu, com cincoenta homens, seu yala 
capitão Pedro d' Albuquerque. Da Parahiba chegaram o 
homens ás ordens de Mathias d' Albuquerque Maranhão, a qi» 
foi dado o mando supeiior da estancia de Santo Amaro* 

Intentou o inimigq, no dia 24 do fevereiro, um rec(m] 
cimento até peiiio da caza onde estava Albuquerque, masT 
se obrigado a retirar precipitadamente, deixando muitos mi 
tos. Natui*almente tinha esse reconhecimento par fim protei 
também por esse lado o ataque, que na véspera fora pe 
do Conselho, que já funccionava em Olinda, resolvido que 
desse ao forte de S. Jorge^ por meio de aproxes em reg 
Acerca deste novo ataque diz Weerdenburgh na sua pa 
offlcial : 

„Immediatamente ordenei que se fizessem fachinas 
cestôes, os quaes estiveram promptos a 25; e no dia ! 
comecei a obra, com quinhentos homens, ás ordens do tenei 
coronel Elts, que nesta noite levantou uma trincheira conin 
forte ... £ no dia seguinte, tendo conduzido a artilha 
quando o major Honcks acabou de tarde o serviço, eu ahi 
dirigi, e fiquei até o dia immediato, em que, ao alvorecer, 
bataiia estava concluida, e assestados nella três meios-canhé 
que dispararam todo o dia. 

No manha segainte, de 2 de março, depois de ter aio 
dispai*ado desde mui cedo, pela volta dos nove horas, inçari 



^) Não Esten Calvi, como se lê nas Memorias; nem Sitei 
Galvi, como se diz na traducçao portugueza. 



LIVEO SEGUNDO. 43 

do forte uma bandeira branca, como signal de querer parla- 
mentear^ e mandaram um capitão ; ao qual concedi que deixa- 
riam toda a artilheria, muniç5es de guerra e viveres (os quaes 
não encontramos^ e cremos que de noite os lançariam ao mai'), 
e sairiam sem bandeira, morrão apagado, e prestando juramento 
de não tomar os armas contra os estados geraes por seis mezes.*' 

Hoi*as depois eutregou-se, como era natuial, o pequeno 
forte do mar ou do Picão, que ficara de todo desamparado. 
O commandante do forte de S. Joi^ge António de Lima e to- 
dos os seus officiaes e soldados obraram, como da .primeii*a 
vez, prodigios de valor. A guarnição estava desta s^unda 
vez muito mais reforçada, achando-se até dentro os poucos 
soldados de linha que restavam da companhia que fora do 
bravo Temudo, ora mandada por Fi-ancisco de Figueiroa. 

O forte somente se entregou na ultima extremidade, e 
quando caídas as muralhas, e descavalgadas as peças, que 
eram de ferro e assestadas em plataformas engenhadas sobre 
tigas, e feridos ou mortos um grande numero dos defensores, 
não se podia mais sustentar. Assim acreditamos que, se não 
tinham entendido que nas condições da capitulação enti*ava a 
de não servirem por seis mezes, teriam infallivelmente, de 
haver-se submettido o isso, insistindo o vencedor. £' certo 
porém que tanto António de Lima, como Francisco de Figueiroa 
e outros, preferiram entregar-se á prisão, sem prestar o jura- 
mento de não tomar as armas por seis mezes. Eeteve-os pois 
o inimigo, e só vieram a passar ao nosso campo dahi a pouco 
mais de quatro mezes, sendo António de Lima mandado preso 
á Bahia, a responder, segundo os uzos, a conselho de guerra '). 

Com a occupação dos fortes, jficou o inimigo senhor do 
Eecife e do porto, que. logo tratou de pôr espedito e livre. 
Ao engenheiro Commersteyn fôi confiada a fortificação. Os 
armazéns e cazas do Recife, que se não haviam incendiado, 
foram postos a coberto dos tii*os qae lhes podessem do con- 
tinente ser diiigidos. E tendo, no dia 3, sido feito um re- 
conhecimento na ilha visinha, chamada de António Vaz, 
nome do seu primeiro dono, ou também de Santo-Antonio, 
por um convento que ahi tinham os capuchos, e achando-se 
essa ilha desamparada até pelos frades do mesma convento, 



«) C. R. de 25 de Outubro de 1630. 



44 



LIVKO SEGUNDO. 



'^ 



logo o inimigo a occupou o a incluiu no plano do . 
de defensa por elle adtiptado para assegurar a posse do poil 
Aqui, entre pântanos e areaes, achavam-se os Hollandezes co] 
na sua terra, e por Lsso tiraram de tudo tanto proveito. Ui 
planta do Recife foi logo levantada pelo engeif heiro Yan Buri 
e outra da ilha de Santo- António pelo engenheiro Drewis. 

O convento foi fortificado por meio de um recinto ai 
luartado rectangular, a que deram o nome de forte Emes 
fizeram-se mais outras trincheiras; reparou-sê o foiiie 
S. Jorge ; e se acabou adiante deste, e defronte da bai*ra, 
que já estava pelos nossos cu construcção com o' nome 
Diogo Paes, e que o inimigo, reforrnando-o, vein ^ denomi 
do Bruyn, nome que injustamente ad(»ptámos, bem que 
terado no de Br um. 

Todas estas obras eram pelo inimigo effectuadas c 
grandos dificuldades, por falta de madeiras e de mateiiaes 
em virtude dos grandes calores; de modo quô diariamente 1 
crescia o numero dos doentes entre os soldados destinados : 
trabalhos. 

Por sua parte Albuquerque, vendo-se com mais gei 
se limitou a augmentar o número das guerrilhas, ou com 
nhias de embuscadas^ com seus capitães, entre os quaes 
achavam os beneméritos Pernambucanos Estevam de Tavi 
e Simão Figueiredo, ao depois Josuita. Subordinou as qua 
instituídas contra Olinda a Matinas de Albuquerque Maranh 
com estancia em Santo Amaro ; algumas novas a Loure 
Cavalcanti d' Albuquerque, da Goiana, com estancias nas Salú 
e Asseca, e o titulo de governador desse districto, outra (c 
estancia em umas cazas de Joáo Velho Barreto, no actual baii 
da Boavista) ao valente pernambucano Luiz Barbalho, e fin 
mente também algumas a António Ribeiro de Lacerda, da I] 
jucá, com estancia nos Afogados, a fim de resguardar a Varz 

Para quartel general escolheu a paragem mais a pro 
sito nos arredores, bastante central, quasi a igual distancia 
Olinda e do Recife. e onde se reuniam a maior parte dos 
minhos destas duas provoaçoes para o interior, em consequen 
das voltas do Capiberibe e das cheias do Biberibe, 

Aproveitaudo-se de uma caza que ahi havia, de um A 
tonio de Abreu, augmentou-lhe os meios do defensa, fazon 
cortaduras nos caminhos, e acrescentando-lhes depois var; 
postos e baterias. A este posto, assim fortificado, tamb 



LÍVRO SEGUNDO 45 

remeniscencia do arraial do rio Vermelho na Bahia, no tempo do 
bispo O, Mai-cos, se deu o nome de Arrayal do Bom Je- 
sus. Ainda delle ahi descobre manifestos vestígios o anti- 
quário entendido, procurando-os pelas evidentes indicaçSes que 
da posição do mesmo posto nós deixou, em vários legares, o 
próprio donatário da capitania, seu minucioso chi*onisía ; a saber : 
á maargem esquerda do Gapiberibe, além, um tiro d'arcubuz, do 
riacho Paranamerim, ás vezes seco ; próximo de um outeiro, sobre 
o qual (por occasiao da cheia do Gapiberibe em 1632) se ad- 
dicionou ao mesmo Arrayal um forte reducto, e finalmente áquem 
do engenho do Monteiro, nome este bem conhecido, pelas 
suas cazas de campo, nos subúrbios do Recife ^). 

Com tal empenho se votpu Albuquerque á fortificar esta 
paragem, que, intentando, no dia 14 de março, contra ella um 
ataque o tenente coronel Van der Elst, a encontrou ja em 
estado de apresentar resistência, até que acudiram, com as 
tropas de suas estancias, Luiz Barhalho e Lourenço Caval- 
canti, e fizeram pagai* caro ao inimigo a retirada; deixando 
no campo muitos mortos; não havendo sido a nossa perda 
senão de deseseis, entre mortos e feridos. 

Com esta victoria, apezar dos novos reforços que de con- 
tinuo, e quasi por cada navio da Europa, recebia o inim^o, 
os nossos cobraram brios, e começaram a emprehender ata- 
ques de surpreza, destinguindo-se os que tinham logar no 
próprio isthmo *), perturbando a communicaçao entre a Villa 
e o Recife. Não tardaram até a atacai* formalmente os entrin- 
cheiramentos que o inimigo proseguia na ilha de Santo An- 
tónio. Cometteram empreza a Luiz Barbalho e António Ri- 
beiro de Lacerda, que, com as tropas de suas estancias, foram 



V) Enganou-se manifestamente o Sr. cónego Fernandes Pinheiro 
quando afirmou (no T. 23, p. 81 da Rev.) que o Arrayal 
ficava no isthmo que separa a antiga da nova capital. 

*) Entre estes, menciona Albuquerque um, a 11 de maio, em 
que o chefe inimigo, depois de uma grande chuva que. inuti- 
lisou as armas de fogo, esteve a pont) de cair prisioneiro, 
tendo o cavallo ferido. Richshoifer distingue porém dois ata- 
ques semelhantes; um a 5 de abril, e outro a 15 de maio; 
havendo no primeiro sido atacado o general, indo para a villa, 
e tendo o cavallo ferido de duas frechadas; e no segundo o 
almirante Loncq, vindo da Villa para o Recife em meio de 
grande chuva, etc. 



46 LIVKO SEGUNDO 

atacar a um tempo as triiicheii'as, por dois pontos differentes. 
Teve logar este ataque simultâneo na madrugada de 24 de 
maio ^). Acometteram os nossos com tal Ímpeto qae, em menos 
de um quai*to de hora, haviam entrado na primeira e segonda 
trincheira, mais de tresentos. Ahi se travou a peleja corpo a 
corpo. Os nossos conseguiram a principio maior vantagem: 
descavalgaram as peças e feriram quasi todos os officiaeB ini- 
migos, incluindo o tenente coronel Van der Elst, e o principal 
engenheiro Gommersteyn. Sendo porém mortalmente ferido, de 
uma bala de artilheria, o chefe Kibeiro de Lacerda, começaram 
todos a retirar-se, deixando dentro das tríncheiras desenove 
mortos. Depois ja o chefe inimigo se viu obiigado a declarar 
de offício, que combatia com um „povo valoroso e ágil.** 

Este assalto não foi o único ôtnpitílltíudiíro' '{^êTOB' llBIlssos, 
com mais audácia que fortuna e bom discernimento. £!m logar 
de estudar quaes eram os pontos mais importantes, para os 
guarnecer e entrincheirar, abdicava em geral o chefe esse 
cuidado ao inimigo, e apenas este os havia occupado e se 
achava em estado de apresentai* nelles resistência, era resol^- 
vido o ataque, tendo neste o inimigo as vantagens da defen- 
siva. Foi assim que, apenas o forte fronteiro á barra se viu 
levantado e guarnecido de artilheria, já com o nome de forte 
do B r u y n, *) ordenou Albuquerque ao intrépido Luiz Barbalho 
que fosse, com a sua gente, assai tal-o de noite, das duas para 
as três da madrugada. Executou (13 de Junho) Barbalho a 
ordem, e por tal forma que o juizo do chefe inimigo acerca 
dos Pernambucanos foi ainda mais favorável '^V 



') Assim o assegura Weerdenburgh em oificio de 27 de Julho. 
Mas >Mem. Diárias se diz que tivera logar a 24 de março. 
Se assim fora o mesmo Weerdenburgh houvera tido occasiao 
de dar conta delle no officio de 8 de Abril, ou no de 14 de 
maio. Que o ataque foi em maio se deduz também do Boc. 
12, pag. 294. 

Cumpre aqui notar que até a chegada de Duarte d'Al- 
buquerque a Pernambuco, as Memorias contêm outros equí- 
vocos. Assim dao como recebida, depois de 14 de março desse 
anno de 1630, uma carta regia de 26 de Janeiro de 1631. 

') Depois lhe adicionaram os Hollandezes a obra córnea, que 
estava concluida em 31 de Março de 1631, segundo parte» 
cipa Weerdenburgh nessa data. 

•') „Acho pstp um povo de soldados vivos e impetuosos, aos quaes 



LIYEO SEGUNDO. 47 

Perto de um mez depois, quando o inimigo levantava do 
outro lado da ilha de Santo-Antonio o forte das Cinco- 
Pontas, a que deu o nome de Friderico Henrique, 
acudiram logo os nossos a atacal-o, com oitocentos homens, 
incluindo tresentos índios; e foram obrígados a retirar-se, 
com perda de quatorze moiiios e oito feridos, dando azo aos 
contrários a conhecer os fracos da sua foii;ificação, que depois 
melhorai'am, com revelim e homaveque, e mais um reducto 
avançado a que ^eram o nome de Amélia. 

E o mesmo succedeu mais ao diante quando, ao mando 
de Callenfels, occupai-am o pontal da Asseca '); e levantaram 
ahi o foii;e de Tres-Pontas que denominaram de Weerden- 
burgh. Os nossos atacaram logo no próprio dia 3 de feve- 
reii*o de 1631, e tiveram que retiiar-se, ao cabo de duas ho- 
ras, com perda de trese mortos e vinte e um feridos. Eepe^ 
tiu-se ainda semelhante erro dahi a pei*to de cinco mezes, 
quando o inimigo se lembrou de construii* o forte do Buraco, 
a que deu o nome de „Madame Bruyn"; pois aindaque Luiz 
Barbalho o desalojou, não tendo mantido o posto, fòi elle de 
novo investido com mais força, e depois tenazmente guai'dado. 
E se, em semelhantes ataques, o inimigo apreciava melhor 
o valor dos nossos, era isso uma desvantagem, porque melhor 
se prevenia; e se delles resultava o irem-se os nossos fami- 
liarisando mais com o fogo e fazendo-se ' aguerridos, não ha 
dúvida que idênticos fins se poderiam conseguir, adquii*indo ^ 
tempo vantagens decididas os que exponham tão heroicamente 
as vidas. 



nada mais falta que boa direcção : e que não são de 
nenhum modo como cordeiros ... o posso eu afirmar porqujB 
por vezes o tenho experimentado.* (Weerd. off. de 27 de Julho.) 
£ste ataque teve logar na madrugada de 18 de Julho, e não 
de 13 de Junho, como se lê nos Mem. Diárias. Veja se a 
nota M da pagina antecedente. 
*) Ilha seca se <&zia também. Era o pontal que formavam, em 
sua juncção, as aguas dos rios Biberibe e Capiberibe do lado 
do continente, e que se ilhava com a maré Os Hollandezes 
o ilharam de todo por um fosso aquático. Segundo os map- 

Sas hollandezes, ficava na linha tirada do Brum á paragem 
o continente onde terminava a ponte da Boa-Vista; e sendo 
assim, ficou de fora da linha da rua da Aurora e o seu local 
deve estar coberto d'agua, em frente da fundição do Star. 



48 LIVRO SEGUNDO. 

Nos intervalos que mediaram entre estes ataqnes, oi 
que os nossos tomaram o oífensiva^ tiveram legar ontros noi 
quaes esta veiu de pai-te. contraria, quasi sempre em sortldu 
pai*a fazer fachinas etc. e duas vezes para acometter o noen 
posto nas Salinas, chegando até á assai tal-do (10 de Agosto); 
e depois (23 de Setembro) a incendiar a casa que nelle bft- 
via, o que dava sempre logar a pelejas. Também faziam oi 
inimigos excui-sões pelos arredores para colherem fractas, i 
uma vez (16 de Janeiro de 1631) fomm apanhados pelos 
nossos nas jnatas de caiJTieivfg perto de Olinda, causando-lhes 
grande perda, da qual elles prete^^ deram desquitar-se atacan- 
do-os durante quatro d as ' siccessivos , de 28 -a 31 de 
Janeiro. 

Entretanto haviam chegado aos invasores frescos soccor- 
ros, bastante consideráveis; ao passo que mui diminutos rece- 
bera Albuquerque; se bem que eram grandes as recommendaçSes 
da metrópole para se resistir de todos os modos, e que 86 
promettia uma armada, da qual já se indicava que viria por 
almirante D António de Oquendo. 

Ao chegarem a LiK^oa as noticias da perda de Olinda a 
do Recife, achava-se interinamente de goveniador de Portugal 
D. Diogo de Castro, que logo fez ouvir com urgência o Con- 
selho d'Estado, e ao remotter para Castella a Consulta, a acom- 
panhava da súpplica ao rei de que em pessoa baixa se á costa 
(a Lisboa) para, com a sua presença, vir alentar o apresto 
dos soccorros, que tanto importava aos próprios dominios de 
Castella se expedissem em grande força e com a promptidao 
possível, ponderando ao Rei que então no mar estava princi- 
palmente a sua sorte. ') 

A primeira providencia que acudiu á mente do governo 
de Madrid foi uma ordem para que em Lisboa se fízessem 
preces e se castigassem os delictos, inclusivamente pela re- 
partção do Inquisidor Geral. Mo nos indignemos 
nem nos riamos. Eram os idéas do tempo na metrópole e na 
corte, e demo-nos por mui felizes de não termos vindo ao 
mundo no tempo em que a nossa terra estava sujeita a taes 
influencias. O próprio rei, em meio de seus folguedos prover- 
biaes, era escravo submisso da inquisição. 



*) Cas. da cor. A, 29, ra. 1". n. 149. 







4^/u^o-^ 



2.c^ ^^/^ 



LIYEO SEGUNDO. 49 

O certo é porém que a noticia não deixou de cauzar 
bastante abalo em Madrid. Não podendo ou não querendo 
baixar a Lisboa, o rei decidiu mandar ahi um seu irmão, o 
infante D. Carlos, mas nunca chegou a partir. Ao mesmo 
tempo creou junto a si três ministérios, exercidos por portuguezes, 
para os negócios de Portugal e suas colónias; e com esta 
providencia houve muita actividade nos despachos. 

Não devia deixar de contribuir para tantas providencias 
o modo como Weerdenburgh terminava o seu officio de 7 de 
março, que logo corria publicado por toda a Eui'opa : „E' esta 
umá paragem (dizia) da qual todo o Brazil se pode conquis- 
tar;- e espero, ao ver o medo com que está o paiz, que po- 
derei fazer progressos qae dêem a Y. S^*. nome eterno. Por- 
que daqui se pode enfrear e guardar o Brazil todo com pou- 
cos gastos, arruinar . a navegação do inimigo nas ' costas . . . 
e atrahir os habitantes a mutua amisade e alliança." 

Ás Camarás de Portugal, e co^n especialidade á de Lis- 
boa, escreveu o rei, ') recommendando a pontual cobrança do 
Eeal d' Agua, e exigindo-lhes novos tributos, que perfizessem 
um milhão de renda fixa, com que se podesse manter duas 
armadas nas conquistas, indicando, por primeira vez, a idóa 
do estanco do sal, que veiu depois a estabelecer-se. Mas desta 
vez os povos não se prestavam de boa vontade a novos tri- 
butos e esforços extraordinários, como em 1624, seja porque 
ficassem exhaustos, seja porque discorriam mais contra a dy- 
nastia que era para elles cauza de tantos trabalhos. 

Em quanto porém em Hespanha e Portugal se demorava 
o apresto da annada promettida, a companhia hoUandeza, que 
tinha delia noticia, mandava a toda a pressa aparelhar outra, 
ás ordens do valente almirante Adrian Janssen Pater, e ao 
mesmo tempo começou a enviai* a Pernambuco vaiios navios 
com muitos soccoros de provisões e de tropas, perfazendo o 
número total destas, em fins de 1630, uns três mil e qui-' 
nhentos homens. 

Julgando os do conselho que podiam dispor de parte 
destas forças, e tii-ar proveito • dos navios chegados, em quanto 
a armada de Oquendo se não apresentasse, resolveram tentar 
a occupação da ilha de Itamaracá, a qual ao menos lhes 



') C. R. de 28 de Maio 20 e 30 de Junho e 9 d'Agosto 1630. 

4 



50 LIVRO SEGUNDO. 

serviria a provol-os de lenha. — Prepararam -pois a expedi* 
çao, confiando o mando dos navios a Maerten Teyssen e 
o das tropas de terra ao tenente coronel Callenfels. Fizera 
-se de vela no dia 22 de maio; e chegando ao porto do sd 
da ilha, contentaram- se de occupar uma restinga, quasi ilhadt, 
fronteira a barra; levantando um forte do quatro frentes ate- 
luartadas, com um revelim ou honiaveque, do lado de m 
isthmo que se extendo para a ilha. A esse forte denomini' 
ram de O range. Ahi ficaram de guari*niçaOy ás ordens de 
official polaco Crestoflo d'Ai-tischau Arcizeusky, quinhentas ê 
tantas praças. ^) 

Também só quando a essa ilha chegou a ag^essSo, se 
lembrou Albuquerque do acudir-lhe com remédio, despaduodo 
immediatamente, com alguma tropa, ao capitão Bento Madd 
Parente, que em Peniambuco se criara, e acabava de chegs 
da Europa, com os primeiros soccon^os; indo com elle os senbo* 
res de engenho da Goiana, Jeronymo Cavalcanti, com a gesta 
que servia ás suas ordens; afim de por ahi organisarem tam- 
bém companhias de embuscadas para incommodai* o inimi^ 
Mathias d'Albuquerquo Mai-anháo chegou também a ir até 
ali, com os da Parahiba, mas foi mandado retirar para 08 
aiTodores do Kecife logo que se entendeu que os Hollandez» 
se limitavam a conservar o forte que haviam levantado. 

Passado moz e meio (1° de Julho) intentava o inimigo 
assenhorear-se do nosso porto dos Afogados. Commandava-o 
Francisco Gomes de Mello, tendo ás suas ordens, entre outros 
capitães, a Francisco de Figueiroa. O ataque foi rej^etido 
valentemente, ainda que com perda de três mortos e cinco fe- 
ridos, sendo a do inimigo, por elle confessada ') de nm morto 
o vinte e três feridos. 

Quando assim os Hollandezes se faziam senhores desse 
pontal da ilha do Itamaracá e pretendiam extender a sna linha, 
desd'o Eecife até o posto dos Afogados, já velejava no oceano a 
esquadra de D. António de Oquendo, comboyando um soccorrc 
do tropas para todo o Brazil. Conduzia uns mil homens para 
Pernambuco, duzentos para a Parçihiba, e oitocentos para a 
Bahia, que deviam primeiro ahi desembarcar. Se como seif 



') OfT. do Wocrdcnburgli do 31 de maio de 1G31. 
*) Olf. do Wcerdenburgh de 3 d'A gosto de 1G31. 



LIVRO SEGUNDO. 51 

annos antes, em vez do soccorros, manda ao Brazil uma pode- 
rosa armada de restauração, os intrusos houveram agora 
sido expulsos, e não teriam dominado ainda por vinte e três 
annos, e sido causa do tantas perdas para o Estado e de 
tantas calamidades para os particulares. 

Chegou Oquendo á Bahia aos 13 de Julho, e aos 18 de 
Agosto seguinte deixou o valente almii-ante Pater as aguas do 
Eectfe, para sair-lhe ao encontro.. 

Em quanto não chegaram a avistar-se, occorreram no 
Eecife dois pequenos successos dignos de menção. Foi o pri- 
meu-o o incêndio de todo o deposito de fachina, que tinham no 
isthmo, á somhra do forte de Brum, realisado pelo valente 
Luiz Barbalho no dia 24 de Agosto. Cinco dias depois teve 
o outro logar. Havia o inimigo construído na ilha de Santo- 
Antonio quatro redutos avançados do lado do continente, que 
faziam como sua primeira linha de defensa por esse lado. 
Resolveu Albuquerque o ataque de um desses redutos, e deu 
o encargo ao capitão Martim Soares Moreno, que havia três 
mezes chegara ali vindo do Ceará com muitos índios. Aco- 
metteu Martim Soares o reduto, e o tomou por assalto, le- 
vando á degola parte da guarnição e aprisionando o sargento. 

As esquadras de Oquendo e de Pater não se avistaram 
senão a 12 de Setembro. Cada um dos dois chefes, ao exa- 
minar as forças do contrário, julgava a victoria segura: Pater 
fiado na maior pujança de algumas de suas náos, em não ter 
barcos que comboiai-, na sua resolução e audácia o no plano, 
que já levava, de deixar a esquadra contraria sem chefe, 
acomettendo a um tempo a capitanea e a almiranta, e tomando 
as por abordagem com muita gente que para isso trazia. 
Oquendo, fiado na superioridade numérica de suas forças, 
contando desoito vasos de guerra o mais cinco fretados; pelo 
que chegara a dizer, ao avistar as doseseis naves inimigas, 
que eram cilas (palavras formaes) pouca roupa. ^) 

A um tiro da capitanea de Oquendo se disposeram os 
navios de guerra em batalha, collocando-se os transportes ao 
abrigo delles, e a um novo tiro de bala da mesma capitanea 
içou esta o pavilhão real, e viu dirigir-so a ella o chefe ini- 



')Mem. Diárias Set. 12. 1G31. 

4 



52 LIVRO SEGUNDO. 

migo; ao passo que o vice-almiranto Thysoon tomava á stt 
conta a vice-almiranta hespauhola do vinte o seis peças di 
bronze, a qual ^) antes do fazor fogo, recebeu uma tremenái 
banda, além do outra de um galeiío, que veiu em auxilio da de 
Thysoon, e que, ao passar-llie pela popa, dispai'oa sobre eDi 
de tal modo que a abriu e mettei} a pique; havendo-lhe skb 
de nenhum soccorro o que atravessando-lhe a proa, pretenda 
subministrar-lhe o galeão S. . Boaventura, que foi victima de 
sua zelosa intenção, acomettendo-o o inimigo até o tomar. 

A capitanea hoUandeza, de ciucoenta e seis canhSo, 
buscando a hespanhola, de trinta e quatro, ati-avez do fogo 
de quatro navios, que ficavam a bai*lavento, atracou-se-Âi 
por bombordo, deitando-lhe arpéo, para segurar a que j» 
julgava presa sua. Travou-se então mais renhido este com- 
bate parcial: um galeão inimigo veiu, em auxilio da sua ci- 
pitanea, abordar a nossa por estibordo, e um navio portuguei, 
o Prazeres-menor, ao mando de Cosme do Couto, querendo 
soccoiTor a Oquendo pela proa, foi mettido a pique, e o sei 
commandante caiu prisioneiro. ^) 

Durava a acção desde as oito da manhã, e eram ja 
quatro da tarde, quando se manifestou o incêndio na Prindpe 
Guilheime, capitanea inimiga. E o fogo ia ja communicand(v 
por seis ou sete partes, á hespanhola a ella aferrada, quando 
a conseguiu salvar o capitão João do Prado, subministrando- 
Ihe um cabo ou lajeira. 

Abordou ainda com outro inimigo um dos galeões dt 
frota hespanhola e os demais contentaram-se de impedir qoe 
elles fossem soccorrer a sua capitanea ou caissem sobre os 
transportes, O inimigo perdeu alem da própria capitanea, outro 
navio denominado Província de Utrecht, do qual ape- 
nas cincoenta pessoas conseguiram não afogar-se. A capitanea 
de Oquendo salvou-se; mas ficou impossibilitada de marear. 
E por esta circumstancia, e pela de julgar preferível a tudo 
deitar a salvo em terra os soccorros que vinham para Pernam- 



') Em toda esta narração seguimos aEelacion de Jornada, 
impressa em Sevilha por Francisco de Lyra, nesse mesmo 
anno do 1631, comparada com as narrações hoUandezas. 

^) Só dahi a um anno poude escapar-so do navio em que o 
retinham preso, atirando- se ao mar^ e nadando para tem 
sem ser sentido. 



LIVEO SEGUNDO. 53 

bnco e Parahiba, tratou Oquendo de evitar novo encontro, 
que alias andava ter o inimigo. 

A circumstancia de ter conseguido deixar impunemente 
.estes soccorros deve ter sido a mais attendida pa^a haver sido 
pela Hespanha contada esta acção como victoria, e ainda hoje 
e' considerada como tal em um quadro daquella época, pin- 
tado a óleo, que se vê em Madrid, no Museo Naval. ^) A 
perda total de um e outro lado se avaliou em mais de mil 
homens. Da parte da frota hespanhola faltaram, entre afo- 
gados e prisioneiros e mortos, quinhentos e oitenta e cinco 
e ficaram feridos cento e um. Do almirante Pater se conta 
que, ao ver incendiada a sua capitâaea, não se quiz salvar, 
podendo fazel-o; e que, preferindo a morte nas agaas, ele- 
mento das suas glórias á das chamas, „se envolveu no estan- 
darte da HoUanda e se deitou ao mar e morreu afigado^ ^) 
Porem António Tbysio, autor daquelle tempo de uma mui 
apreciada historia das batalhas navaes mais célebres dos seus 
compatriotas, tratando desta, nada diz a semelhante respeito, 
e sim que abandonado o almii'ante „ perfidamente pelos seus, 
succumbiu em meio das ondas de cansaço". ^) Em todo caso 
e' sem duvida que Pater morreu durante a acção e que, como 
diz um de nossos clássicos, perdeu „ primeiro a vida^ que a 
victoria;" não faltando quem assegure *) que, no seu navio, 
se submergiram com elle os canhões de bronze e os vazos 
sagrados que pouco antes trouxera do saque de Santa-Marta. 

O soccorro trazido por Oquendo para Pernambuco foi 
deixado na Barra Grande, a trinta léguas do Arrajal, e como 



*) F' o N^ 716, e tem o titulo: ^Combate naval ocur- 
rido el 12 de Sep. de 1631 sobre la costa dei Bra- 
sil en que la armada Espanola mandada da por 
Don António de Oquendo venció y dertrozó á la 
Holandeza bajo las ordenes dei general Hans- 
pater que mçrió en la accion." 

') Calado, pag. 13. 

*) „Perfide à suis desertus, diii fame aprehensus tandem lassi- 
tudine confectus animam oceano dedit, flutuans que elemen- 
tum pro vasto sepulchro accepit.** Barleus expressa-se do se- 
guinte modo : „CruentíB pugnas • inter primos - immixfcus de- 
sertusque à suis, partita fere cum hoste victoriâ, gloriose 
occubuit. hoc uno infelicior, quod praelio non superfuerit." 

*) J. A. Plaza, Mem. para a historia de N. Granada, 
Bogotá, 1850, p. 245. 



54 LIVRO SEGUNDO. 

era todo de tropas novas do Brazil, só chegou a ser ntilizado 
depois de algum tempo, e de não pequenos trabalhos. 

No emtanto o inimigo o julgou mais importante, e 8i 
depois delfe se resolveu a abandonar Olinda, como, desde mú 
de um anuo proposera por vezes ^) Weerdenburgh^ — Foi i 
villa despejada no dia 24 de Novembro^ sendo barbaramente 
entregue ás cbammas todas as casas que não foram péloi 
proprietários resgatadas pelas eommas que arbitrou o inimigo. 
Aliviados do grande cuidado de guarnecer essa villa, no qoa 
tinham empatada parte de suas forças, conseguiram os inva* 
Eores reunir algumas para emprehender um ataque contra i 
Parahiba. Já porém ahi haviam sido recebidos os soccoros 
trazidos por Oquendo, quando se lhe apresentaram os ata- 
cantes, efectuando a 9 de Dezembro um desembarque, nas 
immediaçoes do forte do Cabedelo; e começando logo ums 
trincheira, afim de o bater em brecha. Commandava as forças 
hollandezas o tenente coronel Callenfels. 

Á trincheira do inimigo resolveu o commandante do 
forte, João de Mattos Cardozo, oppor outra trincheira na dis- 
tancia de oitenta passos da soa muralha. A direcção dessa 
trincheira foi confiada ao engenheiro Diogo Paes, vindo de 
Pernambuco. Esforçou-se Callenfels por impedir a sua cons- 
trucção, e neste esforço travou uma primieira lucta, em qoa 
perdeu, mortos, vinte e tantos. 

Não conseguindo o empenho, voltou no dia seguinte ao 
ataque, intentando-o por quatro pontos difíerentes, na hora 
da maior calma: de novo foram todos repellidos, bem qae 
a confasão chegou a ser grande, havendo-se visto mistoiados 
amigos e inimigos, em muitos ataques parciaes e coi*po a 
corpo: tendo porém os sitiantes contra si a metralha dos canbSes 
do forte, viram-se obrigados a tocar a retirada, mais de cento 
e quarenta mortos, incluindo o franciscano Fr. Manuel da 
Piedade, que com um crucifixo nas mãos se lançái-a no mdo 
da refrega. 

Preparava -se o hoUandez a dar uma nova investida, 
quando temendo ser também encomodado pela artilheria de 
um forte que da outra banda tomara a seu cargo o velho 



*) Olf. do 27 de Julho do 1G30 e 12 do Fev. o 24 de Marco 
do 1631. 



LIVKO SEaUNDO. 55 

morador Duarte Gomes da Silveira, companheiro de Feliciano 
Coelho sa3 guerras do sertão, e ahr dono de extensas fazen- 
das de criação de gados, ou imaginando maior o reforço que 
pelo rio yinha da capital, se embarcou para o Eecife, com 
perda de citicoenta mortos e cento e quarenta feridos, e mais 
quarenta enfermos; havendo tido os PerDambucancs ^) mais de 
oitenta feridos, quasi igual número de mortos, entrando nesta 
conta Yaiíos índios, inclusos dois principaes. ^) Apezar deste 
revez os senhores do Eecife. não tardaram a preparar-se para 
uma nova expedição contra o Eio-Grande-do-Norte. Propondo 
-se o chefe militar Weerdemburgh lavar a afronta das suas 
armas, quiz ir nella em pessoa : partiu a vinte e um do mesmo 
mez de Dezembro, mas, passando á vista da Parahiba paia o 
norte, foi logo ali suspeitado o plano de uma tentativa contra 
o Eio-(xrande, e para ahi seguiu immediatamente Mathias de 
AJbuquerque Maranhão, com três companhias e uns duzentos 
índios, os quaes chegai-am tanto a tempo, que nem Weerden- 
burgh ousou tentar ataque. 

Viram-se pois os HoUandezes obrigados a regressar ao 
Becife, a comer fíambres salgados, e a seguir outra vez a 
este respeito como se estivessem navegando; apezar de acha- 
rem-se em terra fíi'me havia quasi dois annos. 

Não querendo dar-se por escarmentados, intentaram ainda, 
dahi a dois mezes, um novo ataque. E fazendo primeiro negaça 
contra a ilha de Itamaracá, foram depois fundear na calheta 
ao norte do Cabo de Santo Agostinho, cuja defensa estava 
confiada ao capitão Bento Maciel Parente, com sessenta ho- 
mens; os quaes foram depressa soccorridos por mais de cem. 



*) Cff. de Weerd. de Janeiro de 1632. 

2) Fr. Paulo do Eosario no seu escripto (em estylo de sermão) 
dá uma lista de todos os nomes. Eeferimo-nos á raríssima 
^Relaçam breve, e verdadeira victoria, que ouve 
o Capitão mor da Capitania da Paraiua António 
d'Albuquerque do s Eebeldes da Olanda, que com 
20 náos de guerra e 27 lanchas, pretenderão ocu- 
par esta praça de S. M., trazendo nellas para 
o effeito dois mil homens de guerra escolhidos a 
fora a gente do mar — composta pelo Eeverendo 
P". Fr. Paulo do Eosario Commissario P*^ da 
Provincia do Érazil da ordem do Patriarcha 
S. Bento." Lisboa, Por Jorge Eodrigues, 1632, 16 Foi. 4". 
CoUecçao do Barboza na Bibl. do Eio de Janeiro. 



56 LIVBO SEGUNDO. 

que do porto dos Afogados levou em pessoa Francisco Gomei 
de Mello; o qual apezar de ja baver sido capitão no Eio-Grande, 
e ser de jurisdição superior a Maciel Parente, quiz, a ben 
do serviço, dar exemplo de muita abnegação, coUocando-se sob 
as ordens deste. Ajudados pela localidade, conseguiram os nos- 
sos em dois redutos, cada um com duas peças, impedir o 
desembarque que tentou por trez vezes o inimigo, com tio 
grande perda, que teve de tornar de novo para o Becife. 

Esta tentativa fez aos Pernambucanos reflexionar no 
muito que perderia o inimigo, se lhes faltasse o porto âo 
Cabo de S. Agostinho, por onde o arrayal principalmente se 
provia então. Foi pois resolvido que o Conde de Bagnnolo, 
com o seu terço de trezentos Napolitanos, passasse a defen- 
del-o bem. Infelizmente toda a defensa reduziu-se á cons- 
trucção, do primitivo forte da Nasareth, em um médão ao 
norte do porto, em sitio árido, e que nem defendia o porto, 
nem a barra; deixando de occupar-se, com grandes forças 
e trincheiras, o Pontal, onde se faziam os desembarques a 
havia já algumas barracas de homens do mar. 



LIVRO TERCEIRO. 



DEM 1 DESERÇiO DO CILABAR i PERDi Dl PlRilBÁ. 

Deseryão do Qamasâ^. — Suas consequências, — Surpresa de Iga- 
raçu. — Varias escaramuças. — Perda da Eio-Foi*moso. — Pro- 
postas ao Calabar. — Partida de Weerdenburgh. — Perda dos 
Afogados. — Ataque do Arrayal. — Apresentação de Henrique 
Dias. — Toma o inimigo Itamaracá. — Novos encontros e sorti- 
das. — Primeira invasão ás Alagoas. — Soccorros aos nossos e 
providencias da Corte. — TOma o inimigo o Bio-Grande. — 
Ameaça a Parahiba e segue para o cabo de Santo Agostinho. — 
Ataque frustrado contra o Eecife. — O inimigo occupa o Pontal 
e o defende. — Ataca sem êxito o Arrayal. — Eecebe reforços. — 
Assenhorêa-se da Parahiba. — Cai^tuiaçSes com os moradores. 



Mais de dois ao nos haviam escorrido desde a chegada 
dos Hollandezes, e se encontravam elles ainda encurralados 
dentro do Eecife e do pequeno forte de Orange na ilha de 
Itamaracá, e já na HoUand^i se começava a .discutir a idea 
do abandono do Brazil, quando uma lamentável occorrencia 
veiu mudar a face dos acontecimentos, atiçar a guerra e pro- 
longar a duração do domiuio estranho. Eeferimo-nos a deser- 
ção, das fileiras dos nossos para as do inimigo, de Domingos 
Fernandes Calabar, natural de Porto-Calvo. Consta, pelo tes- 
temunho de dois escriptores que conheceram, pessoalmente o 



58 LIVKO TERCEIRO. 

mesmo Calabar, e que deram seus depoimentos ante a poste- 
ridade, alguns annos ') depois da morte do mesmo Calabar, qu 
a origem da deserção procedea de temor do castigo, em ¥ir- 
tade de grandes crimes comettidos. — Esses crimes, segondo 
uma das duas testemunhap, que foi nada menos que o sacer- 
dote que ouviu o réu de confissão na hora da morte, fona 
,,grandes furtos'^, em virtude dos quaes o desertor reoean 
ser perseguido „pelo provedor André d' Almeida." 

Contra depoimentos tão explicitos, não nos 6 permittídi^ 
sem ofender os principies do critério histórico, oppor conjec- 
turas, para, com mal entendida generosidade, pretender des- 
culpar essa deserção, origem de tantas lagrimas para a patriíi 
E' inquestionável que como militar, ajuramentado ás bandeiras; 
o Calabar foi perjuro, desertando delias, e que, como sabdito, 
abrindo o exemplo á deserção, e prestando serviços na gnon 
contra a sua pátria e os seus concidadãos, foi ao mesm 
tempo traidor. Ao efectuar a deserção, no dia 20 de abrO 
de 1632, fel-o de um modo tão pouco justificarei aos proprioe 
olhos do chefe contrário que, quando já lhe estava prestando 
valiosos serviços*, o mesmo chefe desconfiava da fidelidade do 
novo transfuga, e de officlo ^) o tratava de nfgro (eenem 
Neger) e com certo desprezo (dom Volck). E, poucos an- 
nos depois, o eloquente historiador hoUandez ^) não davidavi 
declarar que no patibulo havia o mesmo Calabar expiado 
a sua infidelidade e deserção ^).* 

Havia sido o Calabar um dos primeiros Pernambucanos 
que se alistara no serviço contra os HoUandezes, e fora até 
honrosamente ferido no primitivo ataque intentado pelo inimigo 
contra o Arrayal do Bom Jesus, em 14 de março de 1630. 
Vamos agora a ver como á sua infeliz deserção deveram os 
HoUandezes os immediatos passos que deram, com êxito deci- 
dido, no empenho de assenhorear-se do paiz. 



*) O seu confessor na hora da morte Fr. Manuel Calado, doze 
ânuos depois: o donatário da capitania, dahi a seis annos 
mais. 

*) Olf de Wcordcnburgh do 9 de maio de 1632. 

») Barleus, lie rum etc, ed. de 1647, pag. 37. 

*) A rehabilitaçdo do Calabar, nao seria mais justificável do 
que a de qualquer olVicial inferior i^ue, por cometter alguma 
lalta ou por mera ambição, dosertasae para o inimigo para- 
guayo na ultima guerra. 



LIVKO TEEÇEIEO. 59 

A primeira empreza, concebida e dirigida pelo Calabar, 
foi a de um ataque de surpreza contra a yilla de Igaraçú. 
O conhecimento que tinha do local e do facto de qae um rio 
navegável para canoas partia daquella villa a desembocar, não 
longe da paragem occupada pelos HoUándezes com o seu forte 
d^Orange, em frente da mesma ilha, cujas cimas se avistam 
da própria villa de Igaraçú, levaram o Calabar a lembrar as 
vantagens que os intrusos poderiam alcançar realisando aquella 
surpreza, em que não correriam risco algum; tendo simples- 
mente a cautela de ordenar que do dito forte de Orange se 
enviassem com antecipação algumas barcaças para transportar 

} por mar os expedicionários, depois de darem a assaltada. . 

i Aceitou Weerdenburgh o plano, e tudo se preparou, se- 

gundo dispoz o Calabar, que se ofereceu a acompanhar em 
pessoa a expedição, o que Weerdenburgh alias houvera exigido, 
para deste modo tel-o em reféns. Prepararam-se quinhentos ^) 
homens, levando uns trinta e tantos pretos ^) para conduzir 
os feridos ; partiram todos no dia 30 de abril, acompanhando 
a atrevida expedição o próprio Weerdenburgh. Encaminhou-os 
o Calabar por junto de Olinda, onde foram presen tidos pelas 
vigias, qtie deram logo avizo ao Arrayal, 

Como tinha chovido antes, estavam alguns rios mui cres- 
cidos, e a custo poderam' ser passados a váa. Se nessa noite, 
depois que estavam já em caminho, houvesse chovido como 
nas anteriores, ahi teria ficado toda a expedição, sem poder 
passar para diante nem para traz, e seria encontrada pel^s 
forças de D. Fernando de la Eiba Aguero, mandadas por 
Mathias d' Albuquerque, apenas avisado dessa ousada tentativa. 
Este perigo avultado pela escuridão da noite, sobretudo 
desde que, pela volta das três da madrugada, se poz a lua, 
chegou a ser presentido por Weerdenburgh, por cuja mente, 
mais de uma vez passaria- nessa conjunctura ^ idéa de que o 
Calabar lhe teria armado uma traição, quando ao dar official- 
mente parte da empreza escrevia: „em todos estes perigos 
estávamos dependentes da fidelidade ou infidelidade de um 



*) Não 1500, como dizem varies autores. Seguimos nesta nar- 

, ração ao próprio Weerdenburgh, no off. de 9 de maio de 1632. 

*) Não quatrocentos, para conduzir os despojos, como escreveu 

Southey (I, 486), o se Ic, sem nenhum correctivo, na traduc- 

ção (II, 254). 



60 LIVRO TEECElliO. 

negro, que nos servia de gaia, e não deTÍamos pôr mniti 
confiança nessa gente estúpida." ') O próprio Weerdenbnrgk 
confessa que se ali o encontram os inimigos, não só o projecto 
se teria frustrado, como „ houvera custado a cabeça a todos.' 
Com esta idea proseguiu no maior silencio que poude, sea 
alarmar os habitantes dos povoados e engenhos por onde pau- 
sava. E encontrando, já pela madrugada, uns cai-ros, para qoe 
os carreiros não fossem dar noticia da marcha, nem se en- 
commodar com o ter que conduzil-os presos, cometteu a barba- 
ridade de ahi os mandar assassinar mui a sangde frio, barba- 
ridade que deveria desculpar-se pelo medo, se o mesmo Weer- 
denburgh não se regosijasse delia ainda dias depois. 

A final só na manhã seguinte (1% de maio) poderam 
apresentar-se diante de Igaraçú. Weerdenburgh, deixando três 
companhias ás ordens do major Eembach, acometteu com a 
demais tropa. Foram logo mortas ^varias pessoas de distinção*', 
e presos alguns ecclesiasticos. A insignificante resistência qoe, 
em meio da surpreza e sobresalto, vieram ainda os moradores 
a apresentar, custou mesmo assim aos atacantes oito mortos e 
mais de vinte feridos, comprehendendo vários oificiaes, indnso 
o major Bembach. 

Weerdenburgh fez recolher as mulheres „bonitas em 
grande número, ^^ segundo elle, na igreja da Misericórdia^ 
mandou vasar umas duzentas pipas de vinho que foram en- 
contradas, para evitar que, com a embriaguez, a sua gente não 
podesse proseguir na marcha, permittiu o saque da villa , e, 
depois de lançar fogo a todas as casas, recolheu-se a toda a 
pressa para e forte de Itamaracá, deixando burlados os que 
já do Arrayal chegavam afim de atacal>o. 

Como era natural, o exlto desta empreza augmentou 
muito a força moral dos HoUaudezes e o credito para com 
elles do Calabar, que continuou sendo o seu fiel guia, a prin- 
cipio por todos os contornos do Eecife, e mais tarde por toda 
a capitania e pelas visinhas. — 

Tiveram logar as primeiras sortidas, umas vezes para 

*) «Alie dese piricúlen rústen doen ter tydt op de troúwe ofte 
ontroúwe van eenem Neger, die mij ais gúijde diende, 
op welck dom volck sich nochtaus weyuich is te verlaten,* 
— Weerdenb. oÔ. de 9 de maio de 1632. 



LIVEO TERCEIEO. 61 

atacar as estancias ^) dos nossos, qutras para fazerem fachina, 
com particularidade no sitio das Salinas, e finalmente outras 
para apanhar fructas nos pomares que havia nos arredores 
de Olinda. Também, á imitação dos nossos, executaram os 
HoUandezes com felicidade duas.embuscadas, uma na Taca- 
runa ^), e outra na ponte do Biberibe^ junto á villa, conse- 
guindo nesta última fazer prisioneiro o capitão Francisco 
Bebello. 

Emprehenderam mais duas sortidas por mar ao Bio- 
Formoso, preando e queimando quanto encontraram, motivo 
porque se resolveu o governador a fortificar esse porto com 
um reduto, cujo mando confiou a Pedro d' Albuquerque, ahi 
capitão d^auxiliare^. 

Pouco depois foi Bagnuolo assestar uma bateria contra 
o forte d'Orange, em Itamai-acá. Bef orçado porém o mesmo 
forte pelos do Becife, e vendo-se que nenhum resultado se 
obtinha com os tii'os que contra elle se disparavam, retirou 
Bagnuolo a bateria, regressando, aos acampamentos. 

Entretanto haviam sido attendidas na HoUanda as in- 
stancias de Weerdenburgh, pedindo reforços, e em fins de 
1632 chegavam não poucos, devidos por ventura aos raios de 
esperança que começavam a bruxulear na nova conquista. 
Mas para mandal-os, havia a companhia tido que emittir ac- 
ções no valor de mais de um terço do capital ; e isto quando 
já as mesmas acções se cotavam com sessenta por cento 
de perda. Vinham com os novos reforços dois emissários 
escolhidos d'entre os próprios directores; sendo Mathias 
Van Ceulen, de Amsterdam, e João Gysselingh ^), de 
Middelburg, os quaes trouxeram a Weerdenburgh a licença, 
que, em consequência da morte de seu pai, havia sollicitado, 
para regressar á Europa; como executou apenas deu todos 
as convenientes informações aos dois commis^aiios. 



*) O ataque emprehendido contra Luiz Barbalho em 21 de De- 
zembro não teve legar em 1633, nem com 1800 homens (como 
diz o Sr. MeUo), mas em 1632, e com menos de uma terça 
parte desse numero delles. 

*) T a coar an a se lê, menos correctamente, nas M em. Diárias. 

■) Vancol e Guozelin escreve Albuquerque; Vancol e 
Chisilim diz Calado. 



62 LIVRO TERCEIRO. 

Estes, por sua parte, entregaram-se aos assnmptos do 
governo com a maior actividade. Despacharam, para serea 
deitados nas costas do Rio-Grande, afim de ahi attrahirem ob 
índios descontentes, três que já haviam estado na Hollandjk 
Logo, conservando toda a confiança no Calabar, resolveram 
valer-se delle, para extenderem o seu dominio. 

A primeira paragem contra que se dirigiram foi a do 
Bio - Foimoso, de cujo reduto, segundo ha pouco dissemos 
fora feito commandante Pedro d' Albuquerque. Teve logar o 
ataque na madrugada de 7 de Fevereiro de 1633. A defenn 
foi heróica, e constituo entre nós uma lenda, semelhante á 
do passo das Termopylas entre os Gregos. De vinte homens 
se compunha apenas a guarnição; mas opposeramse a quatro 
ataques de um número mui superior. Mortos porém desenove 
dos combatentes, o que restava^ Jeronymo de Albuquerque^ 
parente do capitão, escapou a nado com três fendas, ficando 
o capitão estendido no forte, com duas, e assim caiu prisio- 
neiro. O inimigo respeitou tanto valor.. Conduziu-o ao Ilecifa, 
donde, depois de são, foi mandado levar ás Antithas, e' dabi 
passou á Europa; onde permaneceu até ser nomeado gover- 
nador geral do Maranhão, de cujo conquistador era neto na- 
tural; vindo pouco depois a fallecer no Fará em 1644* 

A occupação do Río-Formoso, a idéa de que ella devia 
ser seguida da de outros pontos, e principalmente a noticia 
dos tratos já entabolados com os índios, para os quaes pode- 
riam ser ao inimigo de muito auxilio as artes e astúcias do 
Galabar, obrigaram ao governador a capitular com a traição. 
Procurou pois, diz o donatário da capitania, „por todos os 
meios possíveis reduzil-o; assegurando-lhe não só o perdão 
de seu delicto, mas ainda mercês, se voltasse ao serviço 
d'elrei; e esta diligencia repetiu por muitas vezes ;^ mas nada 
conseguiu. 

Oomprehende-se a repugnância e negativa do Galabar de 
voltar para o serviço dos seos patrícios, depois de haver-lhes 
cauzado tamanhos males. O general sustentaria a palavra 
dada, de acolhel-o bem; o rei poderia enchel-o de graças e 
mercas ; mas a Galabar não ficaria com isso tranquilo e seguro* 
Em cada íamilia mal tratada em Igaraçú e Rio-Formoso devia 
por certo contar alguns inimigos, da represália dos quaes po- 
deria sempre recear-se. 



LIVRO TERCEIRO. 63 

Com a partida de Weerdenburgh, o mando das tropas 
ficou entregue ao velho Lourenço Rembach, seu companheiro 
na arriscada tentativa de Igaraçú, da qual saia ferido, se- 
gundo vimos. 

Chegado á Hollanda, exhibia e mesmo Weerdenburgh á 
companhia ^) um relatório acerca dos assumptos da colónia, 
indicando a conveniência de serem a ella mandados mais três 
a quatro mil homens adestrados, a fim de occoparem todos a 
ilha de Itamaracá, plano que por sua parte haviam apoiada ') 
os mencionados dois governadores, que logo o fizeram exten- 
sivo aos portos do cabo de Santo-Agostinho e Parahiba. 

Em quanto porém não chegavam a esse respeito novas 
ordens e mais forças, foi resolvida a occupação do posto dos 
.Afogados, paragem importante, e que os nossos haviam des- 
cuidado de fortificar bem. Atacou o inimigo em tao grande 
força que conseguia occupal-o, apezar de um pequeno reforço 
que do Arrajal mandou Albuquerque. A perda desta posição 
foi de mui fataes consequências. O inimigo construiu um forte 
abaluartado de quatro frentes (a que depois deu o nome de 
Príncipe Guilherme), e desde logo ficou o Arrayal exposto 
a ser flanqueado, e sem os recursos que lhe ministravam os 
visinhos moradores da Várzea, os qnaes todos julgaram mais 
prudente abandonar suas casas e sítios. O inimigo nao tardou 
(21 de Marco de 1633) a surprehender o posto que havia 
n'um engenho ua Várzea, logo além da ponte da Magdalena 
e perto do AiTayal. E três dias depois, em quinta feira 
santa ^), guiado pelos conselhos do Calabar, emprehendeu um 
ataque contra o próprio Arrayal, ás 11 do dia, hora em que 
fazia a todos na igreja. Avançou pela Vai'zea, passando o 
Capiberibe, junto ao rikcho Paranamerim, então quasi seco. 
O ataque foi rechassado de modo que o inimigo sofreu grande 
perda, deixando quinze prisioneiros, e tendo vários officiaes 
feridos, contando nesse número, e mortalmente, o seu chefe 
Rembach. Os nossos tiveram vinte e cinco mortos e quarenta 



*) Em 11 de Julho. 

*) Em off. de 14 de Fevereiro. 

') Enganam-se os que dizem que foi a 23, e também os que 
assignam o dia de sexta feira santa, que foi a 25. O ataque 
teve logar no dia 24. 



64 LIVEO TEECEIEO. 

feridos, incluindo os capitães Martim Soares e Estavam de 
Távora. 

Seguiram-se duas acquisições feitas pelos FernambucaDOS. 
— A primeira foi a do valente capitão Francisco Eebello ; depois 
de haver peimanecido quatro mezes prezo a bordo de uma dão 
conseguiu escapar-se, lançando -se ao mar e seguindo a nado 
para terra. A segunda foi a de um corpo de valentes pretoi, 
mandados pelo bravo Henrique Dias da mesma cOr, e qai 
logo dahi a dois mezes (15 de Julho) começou a derramar 
seu sangue pela causa que abraçara, sendo ferido, na Vanea, 
de uma baila de mosquete. 

End)ntramos escripto, em papel não bastante autorisado, 
que estes valentes sairam, por tracto pactuado precedentemente 
com Mathias d' Albuquerque, primeiro organisados em corxK>ração 
a principio em número de vinte apenas, dos mocambos doi 
Palmares, onde se acbavam; e por ventura poderiam faier 
inclinar a dar a isso algum credito ás palavras com que o 
chronista desta campanha nos dá conta deste facto. „Bem se 
prova, diz o mesmo chronista, o apuro em que nos tinha 
posto a continuação do que contrastávamos, pela acção que 
um preto chamado Henrique Dias praticou nesta occasiâo, e 
foi pai'ecer-lhe que necessitar iamos da sua pessoa; 
pois veiu offerecel-a ao general, e este aceitou-a para servir 
com alguns de sua côr.^ 

Senão andasse nesta apresentação algum mistério, não 
cremos que teria o chronista necessidade de dar tantas satis^ 
façoes, por maiores que fossem as prevenç5es contra os des- 
cendentes dos Africanos, prevenções que alias os serviços de 
Henrique Dias e dos seus vieram a amortecer, em todo o Bra- 
zil, talvez mais ão que o havia conseguido o próprio christia- 
nismo, com suas santas máximas de paz e tolerância. 

Mas não podiam estas acquisições mudar a sorte da 
guerra que o Calabar havia feito pender para o inimigo, e 
que era sustentada pelos novos reforços e pela actividade .dos 
dois commissarios, interessados na prosperidade da companhia. 

Besolveram estes apoderar-se de toda a ilha de Itama- 
racá, e com mui pouca perda, sairam-se bem da empreza, 
rendendo -se-lhes a villa da Conceição, sua capital, que guar- 
necia, com cento e tantos homens Salvador Pinheiro, capitíCo 



LIVRO TERCEIEO. 65 

6 ouTÍdor do donatário^ que então era o Coade de Moasaato. 
Esta insignificante yillá, situada em um monte, do lado do 
sul do canal que cerca a ilha, havia sido defendida . por um 
extenso recinto que contorneava toda a chapada do mesmo 
monte, recinto que necessitaria, para ser defendido, de uma 
guarnição dez vezes maior. Assim, ao ser acomettida, teve de 
render-se. £m reconhecimento ao chefe, Sigismundo Schkoppa ^), 
que dirigiu o ataque, os commissarios deram á povoação o 
nome de villa de Schkoppe; e, para defendel-a, entrincheii*aram 
a igreja, e do lado opposto, por onde seguia o caminho para 
o interior da ilha, levantaram uma torre castrfflue. Afim de 
evitar qae da ilha se extendessem aò Continente, maudoa 
logo Albuquerque algumas tropas a Igarassú, as quaes havendo 
contido o inimigo por esse lado, não poderam alcançar a de- 
fender a Goiana, onde foram pilhar quanto poderam, queimando 
quatro engenhos. 

Ao mesmo tempo os do Beoife intentavam, do lado do3 
Afogados, duas sqrtidas a engenhos situados dali a uma legna 
de distancia, tendo logar, das duas vdzes, pequenas escara- 
muças; saindo da primeira ferido o chefe preto Henrique Dia9. 
Pouco tempo depois propunha-se o inimigo atacar de novo 
o Arrayal, com grandes forças* Saindo do forte dos Afogados, 
aproximaia se pela margem direita do Capiberlbe, e se for- 
tificara em três pontos, já diante do mesmo Ârrajal, e quasi 
ao alcance da sua artilheria. Porém, havendo feito vir embar- 
cada do Recife alguma artilheiia e munições, ao subirem estaf 
o Capiberibe, em um barco e três lanchQes, foram estes ata- . 
cados e tomados á viva força pelos nossos, que se apode- 
raram de seis canhões de bronze e cinco de ferro, todas as mu- 
nições e mantimentos. Com este revez o inimigo levantou 
campo e se retirou sem ser perseguido. 

Albuquerque foi, por este successo, louvado e premiado, 
com uma commenda lucrativa; e com tanta maior razão, quando 
esta victoria havia sido alcançada, apezar do voto de Bagnuolo, 
mandado por escripto do cabo de Santo-Agostinho. Opinava 
Bagnuolo, e talvez com razão, como a experiência veiu a provar, 
que melhor fòra concentrar todas as forças em outro arrayal 
junto ao mesmo cabo-; afim de poderem, reunidas pres- 



*) Escup se lhe chama nas Mem. Diárias. 



{yil LIVRO TERCEIRO. 

tsr-ee moino auxilio, e também defender aqaelle porto, entiía 
da maior importância. 

Do mencionado pequeno revez, vingounse o inimigo ii- 
tentando novas sortidas. Foi a principal a qne fess conin 
Igarassú o tenente coronel Byma, logo auxiliado pelo coro- 
nel Sigismundo, com maior força, ao ter noticia das que cw- 
tra Byma havia enviado Albuquerque, ás ordens do Oamari«, 
e depois de Luiz Barbalho e Riba Aguero. Mandou Alb1lque^ 
que uovas forças, com outros cabos, incluindo Henriqw 
Dias, que por esta occasiao foi outra vez ferido e com duai 
bailas. — Tanto Byma, como Sigismundo, depois de pequeÒM 
encontros, recolhei'am-se do lado de Itamaracá, regressando 
por seu turno os nossos aos acampamentos. 

Outras sortidas emprehendeu o inimigo para o lado do 
sul; em uma delias, matou o antigo sargento mór de mili- 
cias Ruy Galaza Borges, que vinha da Ipojuca (onde era e»- 
sado) a apresentar-se: saindo-se porém mui mal de outn 
emprehendida pelo tenente coronel Byma, em 21 de outubro» 
com cento e setenta ^) homens, contra o engenho de Santo 
Amaro na Moribeca. A tempo fomm mandadas forças nossas 
a perseguil-o. £ marchando por um lado primeiro Barbalho, 
com cento e cincoenta, e obrigando-o a recolher-se, yeiu, js 
perto do posto dos Afogados, a encontrar-se com o sargent( 
mor Pedro Corrêa da Gama que, com duzentos homens, ah' 
lhe embai*gou o passo, de modo que perdeu mais de setenta ' 
homens e todo o producto do saque, conseguindo escapar-se 
• abandonando o cavallo que montava, e escondendo-se, até si 
aproveitar da noite para se metter no forte; havendo capitu 
lado em uma casa uns desenove, com direito de regressareo 
ás suas próprias fileiras. — 

Antes desta ultima sortida havia deixado o Recife • 
Calabar, guiando o commissario Gysselingh em uma invasâc 
por elle Calabar ideada, desde o Porto das Pedras até a 
duas Alagoas. 

Embarcando-se com uns seis centos homens, em algun 
navios ao mando de Lichthardt, foram todos aportar na Barr 



•) Nao 700, como se lê nas Memorias Diárias. 
•) 180 se lê nas Mem. Diárias. 



LIVRO TERCEIRO. 67 

Grande^ no dia 1 1 de outubro ^) ; e, no dia seguinte, passaram 
ao Porto das Pedras, onde só chegaram á meia noite. Depois 
de ahi tomarem o assucar que encontmram, incendiando os 
barcos, que não lhes podeiiam servir, passaram ao Camaragibe 
preando os gados e entregando ás chamas o que não poderam 
conduzir comsigo. Seguiram logo ao porto dos Prancezes, onde 
iiTualmente queimai'am vários barcos fundeados, e mais de cem 
caixas de assucar ; e dahi tomaram até a Alagoa do sul ou 
Manguaba, lançando fogo á villa de N. S.* da Conceição (hoje 
cidade das Alagoas), que, apezar de recentemente fundada ^) 
já contava, segundo a própria confissão dos invasores, edificios 
de bonita architectura ; e o mesmo pretenderam fazer á villa 
de Santa-Luzia, na Alagoa do Korte; .mas não o poderam 
realisar, em virtude da resistência que ahi oppoz o valente 
capitão António Lopes Filgueií-as, á custa da própria vida. 
Por f m regressaram ao Recife, a 9 de Novembro, trazendo 
por despojos duzentos e cincoenta caixas de assucar e noventa 
e oito toros de brazil. 



') Esta expedirão deve ser a mesma que o autor das Memor. 
Diárias da como succedida em 14 de março e 20 de Agosto. 
Seguimos a mui circumstanciada parte escripta pelos Com- 
missarios hollandezes em 5 de Janeiro de 1634. O equivoco 
do autor das Memor. Diárias procedeu naturalmente de 
haver, segundo parece, o próprio Calabar feito no mez de 
Agosto do anno seguinte outra expedição á Barra-Grande. 

') Sem duvida desde 1611 : por quanto no mappa respectivo da 
Razão do Estado etc.„qu6 se deve considerar deste anno, 
ainda a villa se/ não achá designada, e so sim a de Santa- 
Luzia na outra Alagoa. Ao mesmo tempo, em uma escriptura 
de 25 de novembro do mesmo anno de 1611, se declara que 
a villa se fazia então: „ — que se ora (isto e' agora, .actual- 
mente) faz.* Poder-se-hia entretanto suspeitar que a juris- 
dicção de villa lhe não fora concedida mui legalmente, 
quando o donatário Duarte d' Albuquerque julgou dever 
outorgal-a em 1636, ordenando que a villa se chamasse da 
Magdalena; nome que porem havia ja sido imposto pela 
escriptura de 5 de Agosto de 1591, que autorisoa a Diogo 
de Mello de Castro a povoar esse districto; mas que então 
não se deu, nem agora vingou, como tão pouco vingaram os 
outros dois que deu o mesmo donatário nessa occasião; a 
saber: o de jBom-Su c cesso a Porto-Calvo e o de S. Fran- 
cisco ao Penedo, já denominado antes villa do Penedo de 
S. Pedro. 



68 LIVRO TERCEIRO. 

No emtanto recebia Matbiafi d' Albuquerque algnm soe- • 
corro, que não deixava de ser de valia; no meio da penurii 
em que se acbava. E ao mesmo tempo Ibe chegavam reitera* 
das promessas de que outros novos soccorros se ficavam 
apromptando, e a certeza de que, tanto em Madrid como em 
Lisboa, se esmeravam os governantes em tomar providendis 
para que os mesmos soccorros se enviassem. 

Já antes áe\^ regressar Oquendo havia a Corte deliberado 
que, á custa dos dois reinos, Ée preparasse outra frota d« 
cincoenta galeses, vinte e quatro dos quaes deveriam ser ar^ 
mados por Portugal, consignando para isso o quinto das ten- 
ças e outro quinto dos bens da Coroa, o subsidio das cama- 
rás, junto a um empréstimo forçado em Lisboa de qiiinhéft- 
tos mil cinizados. Havendo encontrado muita opposiçâo a idéa 
deste ultimo empréstimo, foi na capital do Tejo criada moa 
Junta ^) para reunir os necessários fundos, cobrando certos 
atrazados, fazendo composições com os devedores, etc. Ao 
mesmo tempo criou-se de novo *) o estanco do sal, já efeme- 
ramente ^) ensaiado no reinado de D. Sebastião e que desta 
vez ficou como imposto permanente, e se fez extensivo á Ba- 
hia ^) e a todo o Brazil. ' 

Parece porém que, em virtude do máu humor com que 
estavam os povos, todas as providencias mencionadas nâo 
produziram es effeitos promptos que se desejavam, de modo 
que, havendo a Corte, ao regressar Oquendo, resolvido que 
com a maior brevidade partisse a nova armada, confiando o 
mando delia ao restaurador da Bahia, dirigiu (no dia 1°. de 
Dezembro de 1631) a seguinte cai-ta regia: 

„Vendo o que se me tem representado, com occasiâo da 
chegada de D. António de Oquendo e recontro que teve a sua 
Almada com a dos inimigos no Brazil; e considerando 'o muito 
que convém acudir logo áquelle Estado com o maior soccorro 
que poder ser, e a, tempo que se fôr possível não haja che- 
gado socçoiTO aos inimigos: 

„ Tenho resoluto que logo com toda a brevidade pai*ta 
D. Fadrique de Toledo, direito á Bahia, com a Aimada desta 

«) Regim. em 26 artigos de 26 de Junho de 1631. 

•) Alv. de 4 de ag. de 1631. 

•) Revogada por alv. de 2 de set. 1578. 

*) Prov. de 7 de maio de 1632. 



LIVRO TERCEIRO. 69 

Coroa, e os navios que se aprestam por essa — para o que 
se porão em ordem, com toda a brevidade, como tenho 
mandado, para que se não detenha a partida de D. Eadiíque 
um ponto» 

„E desde logo se começarão a aprestar, pelo menos, 
outros seis galeões, de força de dous pataxos, por conta 
dessa Çorõa, que partii'ão, ao mais tai*dar, um mez depois de 
D. Fadrique, em seguimento seu, com quati'Ocentos homens, 
ao menos, dos bons da Armada, satisfeitos e contentes, os 
qnaes vão buscar a D. Fadtique á Bailia, para d alli tratar 
dos effeitos que se lhe encarreguem. 

„E por quanto, de mais disto, para que haja forças 
bastantes no. mar, com que impedir os desenhos do inimigo, 
tenho resoluto que para S. João tenha essa Coroa armados 
vinte galeões de força, e eu pela de Castella lhe assistirei 
com quantos possa — e isto não se pode fazer sem cabedal, 
e effeitos de que se tire dinheiro prompto : e o estado presente 
das cousas necessita deste esforço; e juntamente de enviar á 
Indiá, em Fevereiro, quatro náos abastecidas e fortes, e tudo 
com gente boa e escolhida, e experimentada na guerra, ou 
pelo menos as Cabeças: 

„Yei^do que para estas cousas se ha mister dinheiro, e 
que donde se me disse que não havia nenhum dinheiro meu 
para as Armadas, ha mostrado o Secretario Diogo Soares, por 
papeis autênticos, quinhentos mil cruzados, de renda minha 
própria, que por partidas meudas não se fazia conta da 
mais delia: 

„yos quiz dizer por esta Carta que eu gastarei esta 
minha Fazenda nisto — porém que faltará, para restaurar o 
Brazil ao seu primeiro ser, por o muito poder com que os 
inimigos se acham nelle, pelo menos, outros quinhentos mil 
cruzados de renda fixa — e que os meios que se hão offe- 
recido, são os do sal, e os do empréstimo para o prompto. 

„E havendo quasi doiís annos que se perdeu Pernam- 
buco, e que eu tenho resoluto que se executasse desde então, 
se não ha feito. 

,,Com todas estas considerações, e com o cuidado a que 
me obriga o perigo em que está o Brazil de se apoderarem 
de todo os inimigos delle, inficionando as mais Conquistas 
destes Reinos: 



70 LIVRO TERCEIRO. 

„Houye por bem de ordenar expressamente, qae, entre- 
tanto qne se executa nm meio de renda fixa, nesse Beiuo, 
pai*a 08 effeitos referidos, se suspendam, na quarta parte, 
todas as tenças e rendas da Coroa, Commendas, e mercês re- 
dituaes, que eu tiver feito, e os Senhores Reis meus ante* 
cessores, nesse Reino e Ilhas adjacentes: 

„E que^ logo que se execute o meio do sal, ou outro 
em que se conformem esse Governo, o Conselho d'Estado, o 
Conselho da Fazenda, ou a Junta delia, ou eu com o que se 
me propozer, cesse esta suspensão que tenho dito — e se se 
executar logo, não se introduza a suspensão. 

„Mas advertindo a todos que se hade executar o que 
fica dito, acerca do soccoito que se hade enviar a. D. Fadrique, 
em seu seguimento, e o da Armada que hade estar feita para 
S. João, e o socorro da índia, infallivel e in-emissivelmente: 

„E parece que não seiia razão, que, dando eu para isto 
quinhentos mil cruzados de renda, próprios, sem tirar um real 
para outra cousa nenhuma, nem para o sustento de minha Casa, 
as doações gi-andes, que os Senhores Reis meus antecessores e 
eu temos feito nesse Reino, se gozassem com descanso e com- 
modidade, e se perdessem as Conquistas gloriosas dessa Coroa, 
com tanta indecencia de meu Governo, e descrédito de meus 
Reinos e Vassallos ; em quai^to, como em Castella e em todos 
os outros Reinos do Mundo, se impõem outras rendas ou tri- 
butos, que escusem o gravar estas; tanto mais não qaerendo 
eu escolher quaes sejam, senão as que parecerem melhor, como 
acima se refere. 

„E se pai'ecer que é necessário suspender maior quanti- 
tade de tenças, commendas, e mercês minhas e de outros Beis, 
se poderá fazer. 

„E porque da breve execução do que fica referido, de- 
pende muita parte do bom successo dos intentos que se levam 
neste negocio — vos encomendo que, depois de haver commu- 
nicado com o Conselho d'Estado esta minha resolução, a façaes 
executar logo, avisando também delia ao Conselho da Fazenda, 
ou Junta delia, para que por sua parte satisfaça no paiiicular 
de apontar os meios, como está dito; procedendo-se no mais 
em conformidade do que por esta Carta se ordena." 

Os resultados obtidos pelas instancias desta carta regia 
não foram porém ainda de efEicacia sufficionte, de modo que 



LIVRO TERCEIRO. 71 

a esquadra não se apromptav^, e, pei*tò de dois annos depois 
(16 de sei de 1633), o rei escrevia a todas as camarás a 
seguinte nova carta '), para que se ensaiasse outro expediente : 

„ Juiz, Vereadores, e Procurador da Camai'a de 

Eu El-Rei vos envio muito saudar. ' — Havendo considerado 
08 trabalhos desse Reino, e o muito que es.tá infestada a ín- 
dia, e opprimidas as Conquistas delle, das Nações estrangeiras 
da Europa, que navegam âquellas partes com grandes Ai*ma- 
das e grossas empregos, tendo-se com isso apoderado do mais 
do commercio; e que particularmente attendem a conservar 
Pernambuco, que é uma das principaes Capitanias do Estado 
do Brazil, de que depende toda a conservação delle, por 
poderem d'alli procurar os rebeldes de Holanda, que de 
presente a occupam, estender-se pelos mais poi*tos d^àquelle 
Estado; do que resulta e tem resultado grandes damnos á 
minha Fazenda e a meus Vassallos, que no mar são rouba- 
dos, e na terra não podem gozar dos ganhos e riquezas que 
de antes tinham: 

„ Tendo enfraquecido o commercio, de maneii*a que as 
rendas de minhas Alfandegas vieram a grandíssima baixa e 
diminuição; com que totalmente se acabarão, se não €0 acudir 
ao Bi*azil com Armadas e poder bastante, para desalojar o 
inimigo; soccorrendo-se outrosim a índia com o cabedal ne- 
cessário para se conservar; e juntamente com este meio de 
Armadas se restaurar o commercio perdido e se dominarem 
os Mares : 

„E também para se restaurar a Mina, que, sendo o 
primeiro património dessa Coroa, e de que tantos proveitos 
se tiravam, é hoje a principal substancia que tem e possuem 
as NaçSes estrangeiras do Norte, demais do proveito que tiram 
do trato de Guiné e Costa de Angola: 

^Mandei com grande cuídadp, por varias vezes e diver- 
sos Ministros, considerar o remédio effectivo que se devia dar 
a tão grande damno — e concluindo todos que o único e total 
para conservação das Conquistas desse Reino, era haver 
nelle Armadas poderosas, e cabedal com que se 
podes sem conservar: 



') Vimos deste documento além da cópia impressa (da dirigida 
á Gamara de Ponte de Lima), eutra Ms. da dirigida á d'Evora 
cidade, á vista da qual fizemos as correcções que se notarão. 



72 LIVKO TERCEIRO, 

^HouYO por bem de assim o resolver, vendo o muito 
que estava aniscada a índia e Conquistas, sendo a sabstanda 
do* mesmo Reino; e quo, se o mal passa adiante (o qae Deus 
nâo permitta) náo só faltará a essa Coroa nm Império tâo 
dilatado e rico, que com tanta reputação dos Senhores Beis 
meus predecessores, e do Nome Portu^ez, e tanto Isangae doA 
naturaes, se ganhou e conquistou ; mas sobre tudo se perderão 
as Christandades que estão plantadas por tao remotas e diver- 
sas partes, e tâo gloriosos fimctos de constantes Martyres ; que 
foi o intento principal que moveu aos Senhores Beis meus 
predecessores a continuar o descobrimento da índia e Conquis- 
tas, com tanto trabalho e despesa — em cujo prosegoimento 
ó justo e devido que se faça da minha parte, e da de meus 
Yassallos, o maior esforço possível: 

^Fara o qual tenho mandado applicar tudo a que ha do 
minha Fazenda, livre de consignações, que, confoime ao que 
se verifica, monta a quinhentos ndl cruzados — e assim o 
direito das meias annatas e extracção do sal, e boa parte do 
rendimento da Cruzada, e outras partidas de importância. 

,,E considerando o muito que esse Reino tem occorrido 
ia necessidades publicas com diversas contribuições; e .lasti- 
mando-me, com grande sentimento meu, e amor devido a leaes 
Yassallos, de suas perdas e trabalhos — e desejando conso* 
lal-os e allivial-os, tudo o que me for possivel — sendo-mo 
presente a boa vontade e fidelidade com que em todas as oo 
casiões me tem ajudado e aos Senhores Reis meus predeces- 
sores, á custa de suas vidas e fazendas — e ainda que os 
mais meus Reinos nâo sâo com menos força e oppressâo . in- 
festados dos inimigos — tendo sempre com particular desvello 
diante dos olhos a conservação dessa Coroa t 

,, Houve por bem de applicar ás Armadas, com qae 
convém que seja soccorrida, das rendas dos Reinos de Gastella, 
um milhão em cada um anno. 

„E porque toda esta despesa nâo é bastante para se 
sustentarem as Armadas ; e é piecisaments necessidade que 
estejam sempre em toda a occasiâo promptas — confio da 
lealdade e grande amor com que sempre os Yassallos desse 
Reino me servh*am e aos Senhores Reis meus predecessores, 
que de vossa pai-te nesta occasiâo acudaes a meu serviço e 
bem commum, com tudo o que poderdes. , 



i 



LIVRO TEBCEIRO. 73 

„E para vos communicar o aperto presente, e poder 
significar o muito que me magoa a pobreza dessa Coroa, e 
melhor ter intendido os meios mais suaves com que me pode- 
reis servir; quei'endo só o que todos abraçarem com a menos 
.Hiolestia que for possivel: desejei que desse logar a necessi- 
dade qne tem a Monarchia de minha assistência nesta Corte, 
para poder ir a esse Beino, a fazer Cortes: 

„E porque não é possivel esta jornada, por a falta que 
faria ao Governo universal de meus Reinos; e a importância 
desta matéria é o que vedes que convém, para que com toda 
a brevidade se acuda a atalhar os damnos presentes, e os 
maiores que se experimentaiiam ao diante, não se fazendo 
tâo forte opposiçSo,^ para que os intentos de nossos inimigos 
nâo logrem em seu benefício a nossa maior perdição — pois 
peio de cá se obra o que havereis entendido, sem embargo 



. * 



r dos aocidentes que em tantas partes se offerecem: 

^Yos rogo e encarrego que da vossa vos disponhaes e 
esforceis a me servil*, e acudir á conservação e benefício desse 
Reino, como posso fíai* de vossa Fé, e zelo, na occasião mais 
apertada, e a que com maiores veras e presteza é necessário 
soccon'ei* : 

„E pai*a isto dareis vossa procuração e poder ás quatro 
Cidades e Yilla de Santarém, do primeiro banco; e cada uma 
destas Cidades e Yilla de Santarém elegerá dous Procuradores, 
e o Ecclesiastico cinco, e a Nobreza outros cinco — e juntos 
todos, eommunicareis ò que parecer mais conveniente, para que 
com mais facilidade se disponha e execute o que é necessário 
a meu serviço, e se possam prevenir os damnos que resulta- 
riam do contrario. 

^Estai certos que disto me terei por servido mui parti- 
cularmente, procurando que em vos fazei* mercê e em guar- 
dar vossos privilégios e estilos, me não leve vantagem nenhum 
dos Senhores R^ meus antecessores. 

Escripta em Madrid, a 16 de Setembro de 1633. Rei.^ 



Esta carta regia, cujo cumprimento dependia de tempo, 
foi s^uida de outra, de 3 de outubro, requisitando que cada 
villa ou logar de Foi*tugal desse desde logo um ou dois re- 
crutas para o Brazil. E^ afím de mais estimular a apresenta- 



74 LIVRO TERCEIEO: 

çâo de Yolantarios para servirem neste Estado, se resolveu ^) 
que para as nomeações de seus officios seriam dali em diante 
preferidos os que servissem nesta guerra. 

Bepetidas instancias pai*a a paiiiida de voluntários e 
colecta de soccorros foram pela Corte ainda feitas posieiior- 
mente % autorisando de novo o imposto dó real d'agaa e o 
acrescentamento da qaai*ta parte do cabeção da siza. . 

Independentemente porém dos reforços qae, em maior 
escala, se esforçava a Corte de preparar, chegavam algonitt 
tropas, alistadas nà ilha da Madeira em nma pequena firota 
de duas naus e cinco transpoiiies, commandada por Francisco 
Yasconcellos da Cunha; porém viu-se perseguida pelos navk» 
hollandezes por forma tal que teve que pelejar, e uma das 
naus foi a pique, e a outra e os transportes viram-se obrigados 
a varai' em teiTa, para salvar a gente, Sairam a prestar soe- 
. corro quatro sumacas, porém com tão pouca felicidade que o 
inimigo conseguiu incendiar três. Tantos foram os contratempos 
passados que de seis centos homens que vinham, se extraviaram 
duzentos e vinte, e apenas chegaram ao ArrayaJ cento e oitenta^ 
havendo ficado na Pai*ahiba duzentos. Pouco tempo depois 
cbegou mais alguma gente em duas caravellas. 

Estes pequenos reforços que recebia Mathias ú' Albu- 
querque longe de fazer esmorecer o inimigo, parece que co|i- 
tribuiam a lhe augmentar os brios. Desde que em 9 de Novembro 
haviam chegado os navios idos ás Alagoas, começou a apres- 
tar-se para emprèhender novos ataques do lado opposto. Jul- 
gou fácil o do Bio-Grande, e assentou de começar por elle a 
conquista do litoral além da ilha de Itamaracá. 

No dia 5 de Dezembro saiu do Eecife o commissario 
Van Ceulen, com quatro companhias de fuzileiros e quatro 
de mosqueteiros, sob o mando superior do tenente coronel 
Byma ^) em uma esquadrilha dirigida por Lichthardt, que 
depois de deitar as tropas junto do Cabo-Negro, três l^uas 
do sul da foz do Rio-Grande, seguiu a forçar a ban'a) e o 



») C. R. de 2 de Nov. 1633. 

•j C. R. de 26 de Set. 1634; Av. de 17 de Junho 1635; C. R. 
de 23 abril e 12 de Jul. 1635, 

•) Não Schoppe, como se deduz das Mem. Diárias. Os ou- 
tros officiaes hollandezes que concorreram, segundo Barleus, 
foram Cloppenburg, Vries, Garstmann e Mansfeldt. 



UVBO TERCEIRO 75 

lesembarcar pelo rio acima alguns marinheiros armados os 
[uaea 1(^, protegidos pela in&nteria que atrayessaya os 
lédãos a marclia forçada, combinariam o ataque do forte dos 
tejTB-Magos. Aberta a brecha, e ferido o capitão Pedro Men- 
es de GouTêa, a guainlção veiu a capitular, no dia 12 de 
fesembrOy com as honras da guerra *). A partecipação official 
o inimigo ^)y que hoje conhecemos, não nos autorisa a 
rcir que houvesse na entrega o menor assomo de traição. Ao 
>rie dos Reis-Magos passeou o inimigo a denominar de 
eulen. 

Bagnuolo achava-se na Parahiba ^), activando a cons- 
rueçãp do forte ao', norte da barra» e poz-se em marcha, mas 
om tal lentidão que chegou tarde. 

Os moradores dos campos recolheram a um engenho de 
rancisco Coelho, onde se dirigia a atacal-os o Calabar, com 
Iguma força, quando lhe armaram nma cilada, e teve de re- 
rar-se. Receando emprehender outro ataque, mandou o mesmo 
alabar novos convites ao poderoso chefe Janduy, que vivia 
os sertdes, a umas oitenta legoas, a flm de que viesse á 
>sta, onde encontraria muito gado e tudo quanto podesse 
ezejar. Baixou Janduy com os seus índios, e, caindo inespe- 
adamente no engenho de Francisco Coelho, ahi assassinaram a 
ste bem como á mulher e cinco filhos, e a uns sessenta mora- 
»res que no mesmo engenho se haviam reunido. Depois passou o 
uiduy ao foi*te, onde foi mui agasalhado pelo Calabar, em pago 



*) Escreve o donatário da capitania que para essa entrega con- 
correra o sargento do forte, de acordo com nm preso; e que 
ambos haviam de noite fartado ao capitSo (como se se ira- 
tasse de algum dispenseiro) as chaves do forte, entregas do- 
as ao inimigo. Entendemos porém que se o capitôo estava 
impedido, bem poderia o mando competir ao sargento, nSo 
havendo na praça outros mais graduados; e não íoi a rendi« 
^ tão vergonhosa, quando se fez depois de aberta a brecha* 
— £^ todo caso não ha fundamento para se dizer (como na 
traducção de Southey tom 2*. p« 225) qne houvera venda da 
praça e barganha com o Calabar. 

*) ReL de Van Cenlen e djêtehngh, de 5 de Janeiro de 1654. 

') Não e' exacta a asserção de 8outb^ de que também Albu- 
querque estava então na PanUiiba; seu ínnão diz mui cIm»- 
mente que no dia 13 soube o general, pela Parahiba. 
que o soecorro bavía dali partido, e que §^t eíne^ dias de- 
poi s tivera nfAáÓA da ytarásk do forte« 



76 LIYRO TERCEIRO. 

de suas atrozes selyagerias. O terror e medo dos QttitioB 
começava a fazer cada dia mais suportarei a idea do jngo d9B 
Herejes. Não conseguiu porém o inimigo arrebanhar entrei 
índios yisinlios, que ja estavam de pazes com os moradom 
Sem darmos inteiro credito a todos os raciocínios acerca ik 
fidelidade o constância que os nossos chronistas, e SontiMf 
com elles, atiibuem ao principal Simão Soares Jagnanury '), 
depois de ter estado preso e ciníelmente mettido em ferros, é 
sem dúvida que elle e outros, apezar da proverbial volobilidada 
dos Bárbaros, não se passaram aos Hollandezes; para o qu 
não contiibuiria pouco o facto de estar entre os nossos, e tito 
considerado, o seu sobrinho Puty ou Camai*ão, ja agradaii 
com brazão d^aimas, e quarenta mil reis de soldo, e feito ") 
Capitão mór, não só dos Potiguares, de cuja nação ') era, hhK 
de todos os índios de Brazil. O Jaguarary veiu, dahi a^poa* 
cos annos ^), a receber uma penção de cento e cincoentareMi 
de soldo. 

Engodados os Hollandezes com a facU occupaçâo do Bio 
Grande, disposeram-se a emprebender a da Parabiba. 

Fizeram os convenientes preparativos, e, passado ]^co 
mais de dois mezes, se apresentavam diante do Cabedelo. — - 
Julgando porém mais prudente apoderarem-se piimeiro do foris 
de Santo-Antonio, na margem opposta, foram desembarcar nu 
mil homens na enseada de Lucena^ os quaes marcharam logo 
em direito ao forte; mas, quando menos o pensavam, enem- 
traram-se no caminho com uma trincheira que acabavam d» 
construir os da Parabiba* — Atacada a trincheira, saia logo 
do forte em seu auxilio o capitão Lourenço de Biito Corroa» 
que, solto ahi pouco antes pelo inimigo, preferim não segair 
para a Europa no momento do perigo. Levantou então a aggressor 
em frente outra tiincheira, mas de tal sorte se viu neOa 
inquietado, principalmente pelo flanco e retaguarda por nmt 
pai*tida de tresentos soldados e duzentos índios, com que aca- 



') Não Jaguary, como se lê na traducçao de Southey. 

«) a R. de 14 de Maio de 1633. 

■) E não Carijó, como disseram Southey e o Sr. cónego Fer- 
nandes Pinheiro. Vej. a traducçao de Southey, T, 2^ 210 e 288. 

*) C. R. de 14 Set. de 1638. Não de sete centos e cinooenti 
coroo se lê nas Mem. Diárias. 



LIVRO TERCEIRO. 77 

dia o eapitao-mór António d^Albuqaerque, que preferiu levan- 
tar campOy e ir tentar fortuna do lado do Cabo de Santo- 
AgostinhOy havendo quem pretenda que este ataque á Farahiba 
liiilia antes 'por fim provocar ahi uma diversão de forças. 

Desta ausência de tantas tropas do Recife pensaram apro- 
Teitar-se os nossos, afim de intentar um ataque contra esta 
l^raça, na noite do V. de março (1634). — Encarregou-se 
Mártim Soares de o dirigir. Em quanto alguns davam rebate 
do lado do forte das Cinco -Pontas, passavam outros o Bibeiibe 
a yán, entrando uns no Recife pelo lado fronteiro da ilha onde 
havia uma simples estacada^ e outros pela porta do lado do 
Bmm» — Chegaram muitos a passar o rio e a entrar nas 
trincheiras; mas vendo-se se em pequeno número^ e o inimigo 
jé advertido, e tocando por toda a parte a rebate, apressaram 
•8e a reítirar^ conduzindo comsigo os feiidos, antes que os im- 
possibilitasse a maré. 

Dahi a três dia^, a esquadi'a hollandez% que havia dei- 
xado aParahiba, chegava ao Cabo de Santo- Agostinho. Fora 
a sua defensa confiada ao sargento mór Pedro Con*ea da Gama, 
com tresentos infantes. Porém Mathias d* Albuquerque mandou 
logo ahi algum boccoito, e seguiu em pessoa, levando comsigo 
toda a gente disponível. De ordinário, nestas expediç^íes para 
o sul e para o norte, os hoUandezes as levavam á execução, 
aproveitando favoráveis cordas de vento; de modo que che- 
gavam sempre antes que os soccoitos mandados por terra, mas 
.desta vez os defensores se apresentaram a tempo. 

Os atacantes quizeram effeituar com a primeira divisão 
o desembarque na praia de Itapoã, ao norte do Cabo; mas 
encontrando ahi resistência, deliberaram ir fazel-o um pouco 
' mais ao norte. Foram porém seguidos ao longo da costa pelos 
defensores do Cabo, ajudados de outros que vinham do Arrayal, 
ás ordens do capitão Riba Aguero; de modo que tiveram pru- 
dentemente que desistir do desembarque e mudar de plano. A 
segunda divisão, composta de onze navios (dos quaes se per- 
deu um) forçou a bana, e seguiu pelo lagamar, para onde era 
o porto dos navios, a occupar o Pontal^ não artilhado, nem 
guarnecido. A terceira divisão, confiada ao capitão Calabar, 
constava de t^das as lanchas, com o maior das tropas de 
desembarque, em número de mil homens. 



78 LIVEO TERCEIRO. 

Occupado o Pontaly en cbegado o sen tarno de obrar. 
Em vez de entrar pela barra, defendida pela artilheria doa 
fortes, ordenou o Calabar que as suas lanchas entrassem pela 
barratinga ou aberta, pouco ou nada frequentada^ qae» 
meia légua ao sul, hayia no recife que ahi se estende e forma 
o porto ao sul do cabo, e foi occupar todo o terreno na ilha 
fronteira, entiincbeií^ando-se em um forte que vemos appe- 
lidar, ora com o nome de Gysselingh, ora com o de 
Thysson, hayendo-se dado o nome de Duss ao do Pontal 

Com o pé ja assim posto em terra, nâo parecia empreu^ 
fácil o desalojar o inimigo. Tentou-o sem embargo Albuquer- 
que com o máu fado com que se lançava sempre ao ataque 
dos postos depois de fortificados. — Com perda de uns oitenta, 
entre mortos e feridos, comprehendendo neste número o Capitão 
de embuscados Estevam de Távora, a quem ja tantas entras veiee 
anteriormente haviam procurado as bailas, teve de retiiar-fle. 

Escarmentado com este revez e ainda com outro em um 
novo ataque contra o Pontal que intentou dias depois, oon- 
tentou-se Mathias d*Albuquerque de velar á defensa dos fortes 
da Nasareth e da Barra, e de levantar um reducto na pi aia 
por onde ia o caminho para o Pontal. 

Occupada porém a ilha fronteira, então denominada do 
Borges, dahi veiu o inimigo a tentar sortidas contra o distiicto 
da Ipojuca no qual ja havia quinze engenhos d'assucar. FUa 
se oppor a estas sortidas, deliberou Albuquerque criar também 
ali, com auxilio dos reforços que recebeu da Bahia e da Para- 
hiba, companhias de embuscadas, á maneira das que de tanto 
proveito haviam sido antes. 

Quando foi sabido no Recife que Mathias d* Albuquerque 
e muita da sua gente se haviam ido para o Cabo, foi inten- 
tado um ataque ao Arrayal. Na madi*ugada do dia 30 de março 
se havia apresentado em frente deste, com uma trincheira feita, 
o tenente coronel Byma, e dahi começara o bombardeo. Diri- 
giu porém contra elle tao habilmente o commandante do Ar^ 
rayal uma soi*tida, que o obrigou a retirar-se, com perda de 
muita gente e munições. Neste acomettimento recebeu Henrique 
Dias uma quãi*ta ferida de baila. 

Convencidos os dois commissarios que, com mais dois 
mil homens de tropas, podeiiam reduzii* tudo á sua obedien- 



LIVRO TERCEIRO. 79 

ia, assentaram de passar á Hollanda, afim de ahi agenciar 
essoalmente estes reforços, por meio da convicção que não 
B consegae infundir senão de viva yoz. Tão felizes foram 
i^e já em fins de outubro estavam de regresso, trazendo 
omsigo o dito reforço ao mando do polaco Christovam 
LTcyzeuski, antigo commandante do forte d^Orange na ilha 
B Itamaracá. 

Desde logo foi resolvida a occupação da Parahiba. A 
xpediçâo partiu do Recife no dia 25 de Novembro, indo en- 
arregado do mando das tropas Sigismundo Scboppe, levando 
,8 suas ordens o mesmo Arcizeuski e o tenente coronel Hin- 
leraon, e de almirante da esquadra o perseverante Lichthai'dt. 

A Parahiba achava- se então mui bem fortificada. Além 
e ter guarnecido o forte do Cabedelo e o de Santo-Antonio, 
lo outro lado da ban'a, se havia levantado na ponta da Res- 
iinga, do lado dõ Cabedelo, uma bateria de sete peças, com 
bastante munição e bastimentos. Além disso da baiTa para o 
\j£L e para o norte, bem como no yai'adouro e no alto da 
Capital havia vaiias baterias ; e para se oppor ao ataque nada 
nenos que oito centos homens estavam sob as armas. 

ISo dia 4 de Dezembro se apresentou o inimigo com umas 
nncoenta barcaças, com tropa de desembarque diante do cabo 
Iranco; e não tardou, ao signal de inçar uma bandeira ver- 
aelha, a lançar a gente em teiTa na enseada visinha de Ja- 
piaribe, á vislá do governador António Albuquerque, que não 
)odendo impedir o desembarque, pretendeu apresentar depois 
'eaistencia, com forças muito menores e sem auxilíar-se de 
lenhumas trincheiras, e foi desbaratado, perdendo quinze mor- 
nos 6 vinte e três feridos, e ficando, entre outros, em poder 
los . contraiios Bento do Rego Bezerra. O inimigo se foi logo 
iproximando do foi*te do Cabedelo, e já passou a noite meio 
fortificado com uma guarda avançada mui junto delle. 

António d*Albuquerque reconheceu que era na guarda ^ 
los mesmos foi*tes que podia pôr a maior confiança, e menos 
lébil se houvera sentido para a defensa se a capital da Fa- 
*ahiba se encontrasse junto ao mesmo Cabedelo, como a Fmc- 
mozo Barboza havia primitivamente sido ordenado pelo rei que 
1 Gonstn]isse, no regimento que lhe deu. Em uma peninsula < 
iefensavel, de melhor porto, nâo dependente das marés, e la- 
cada dos ares do mar, ainda em nossos dias seria esse local, 



80 WVfiO TÊKCEIEO. 

onde 86 vão aggrupando grande número de moradores, o pre- 
ferido para a residência das autoiidades e o estabelecimeDto 
da alfandega muito mais facilmente fiscalisada, se â mndanfa 
não se opposerem os mesmos estorvos que Olinda oppoz por 
muito tempo á prosperidade do Eecife. 

Tratou pois Albuquerque de reforçar as guarnições dos 
fortes; a do Cabedelo já o nâo conseguiu senão de noit^ e 
com grande perigo pela guarda que o inimigo tinba ali em- 
buscada. Com este reforço foi mandado entrar no forte o ea- 
genlieiro Diogo Paes, para diiigii* as obras durante o sitio» 
que se previa. 

Acudiu também o goveiiiador ao forte da ilha da Bo- 
tinga, e ao de Santo-Antonio, que logo assentou ser o mais 
a propósito para delle passar os soccon*os aos outros dois. 

O inimigo foi avançando para o forte do Cabedelo por 
três partes, estabelecendo os competentes aproxes e batarias. 
Como do forte da Bestinga lhe faziam muito fogo e o tom^ 
vam de flanco, resolveu primeiro apoderar-se delle, taie&qia 
foi incumbida ao major Hinderson, com algumas companliiai^ 
em sete barcos e varias barcaças, as quaes entraram a ham 
de madimgada, e foram investir o mesmo forte da Bestíngi 
pela retaguarda^ por onde era aberto. Como não havia nasaa 
bateria mais de quarenta defensores, teve de render-se, morrendo 
vinte e seis, deitando-se alguns á agoa para escaparse a nadb. 
O Commandante Pedro Ferreira fte Barros, talvez por nSo 8^ 
ber nadar, caiu prisioneiro. 

Ko dia seguinte pros^uiu o inimigo atirando fortemente 
conti'a o foiiie do Cabedelo, o que nâo impediu que durante a 
noite se continuasse mandando alguns soccon*os, e tropas 
de Refresco, conduzindo-se os feridos para serem tratados no 
foi*te de Santo-Antonio, onde não tardaram a ter por compa- 
nheiro o Commandante João de Mattos Cardozo, ferido em 
um queixo. 

Seguia o inimigo com o sitio, arrojando ja muitas bom* 
bas, e continuava a remessa de soccorros, cada vez mais a custo 
introduzidos. 

Entretanto chegou á cidade o Conde de Bagnuolo, e con- 
vocando ali ao governador, para com elle conferenciar, foi as- 
sentado em que se mandariam, ás ordens de Biba Aguero, 
duzentos e cincoenta homens, que ultimamente tinham chegado, 



LIVEO TERCEIKO. 81 

pela parte do Cabedelo, a inquietar o inimigo pela retaguarda. 
Quando Eiba Aguero se aproximava do forte no decimo quinto 
dia de sitio, viu-se ja nello arvorada a bandeira hoUandeza; 
pois tivera que capitular, depois de cinco dias de privações, 
.e dois sem ter ja quem manobrasse a artilhoria, desde que fora 
ferido o novo commandante Francisco Peros do Souto, com 
uma balia igualmente nos queixos, como o seu predecessor, A 
guarnição se rendeu com todas as bonras da guerra, saindo 
com as bagagens, bandeiras despregadas, morrões accesos, 
baila em boca e toque de caixa* 

O sitio do Cabedelo custou aos defensores oitenta e dois 
mortos e cento e três feridos. O fortim de Santo-Antonio, na 
margem fronteii*a, apenas resistiu quatro dias mais. O seu 
conunandante Luiz de Magalhães, depois de tomado o Cabe- 
delo, representou que Ibe faltavam munições, e que nâo con- 
tava com 08 artilheiros, que eram ingleses e hamburguezes, e, 
intimando-lhe o inimigo a rendição, passou a consultar a esto 
-respeito ao governador. Quiz este ainda applicai*-lhe o único 
reúieâio possivol, que era tirar-lhe o mando e confial-o a outro ; 
porém o novo chefe, achando ja a guarnição desmoralisada, 
nâo ponde contel-a, e foi obrigado a capitular, apenas se 
tíu que o inimigo ia tentar um desembarque. Este forte se 
entregou com as mesmas clausulas que o do Cabedelo. 

Rendidos os fortes, os moradores conheceram que a capital 
nâo poderia apresentar nenhuma defensa, e começaram a tratar 
do obter do inimigo salvos-conductos ; servindo-lhes do infcer- 
mediafio o mencionado Bento do Rego Bezerra, que depois do 
prisioneiro havia entrado em accommodações com o invasor. 

Também o próprio, governador reconheceu a impossibili- 
dade de se defender na cidade e andou procurando paragem 
mais apropriada, onde fixar um arrayal do qual com auxilio 
dos moradores podesso incommodar o inimigo. Porém não 
tardou a reconhecer quo nesse empenho não encontraria, entro 
aquelles, fieis e decididos auxiliares* O venerável Duarte Gomes 
da Silveii*a, um dos companheiros de Feliciano Coelho, que tanto 
o ajudara contra os índios da Capaoba (actual Serra da Raiz), 
para cujas bandas era possuidor do uma fazenda de gados, e 
quo tantos serviços prestara no ataque anterior, em que ató 
perdera seu único filho, foi apresentar-se ao inimigo, o vindo 
depois a António d' Albuquerque, este, sem lhe respeitar as 



82 LIVRO TERCEIRO. 

cãs, o prendou, o em ferros ia romettel-o ao Arrayal, 
quando deveu o ser libertado a uma força hollandeza, disposta 
expressamente para esse fim. Já a intolerância dos seus o 
fizera á força amigo dos contrários, que bastantes serviços lhe 
deveram, durante o seu dominio ; felizmente não (como a Gaiato) 
mortes e sofrimentos de compatriotas, mas pelo contrario de to- 
lerância, de mansidão e de paz. Foi por esta occasião que o 
jesuita Manuel de Moraes, o amigo e catliequisador do Ca- 
marão, ja sacerdote e confessor, se bandeou com os Hollandezes, 
e tão de veras que, indo para a HoUanda, se fez calvinista e 
cazou em Amstordam. 

O govemador António d' Albuquerque, reconhecendo que ja 
de nada podia servir na Parahiba, foi apresentar-se a Mathias 
d* Albuquerque, com Bagnuolo e Martim Soares Moreno, que 
estava de guarnição no Cunhaú. 

O inimigo tomou posse da Capital da Parahiba, e preten- 
deu mudar-lhe o nome de Felipea no de Frederica, em 
honra deStathouder da HoUanda ; mas tal nome ficou, do 
mesmo modo que o primeiro, só no papel. Logo, reconhecendo 
que lhe resultaria vantagem de não ver a terra desamparada 
e os engenhos abandonados, continuou a dar salvos -con- 
ductos a todos os que os pediam, e até se prestou a faí«r 
com os habitantes uma espécie de pacto, pelo qual lhes 
assegurava as suas propriedades e o uzo livre de sua reli- 
gião , uma vez que elles se obrigassem a satisfazer os 
mesmos tributos que antes. Este papto ou antes outorga, de 
que se lavrou um apontamento ou cei*tidão em 13 de Janeiro 
(1635), do concedido „aos senhores d'engenho, lavradores e 
mais moradores da Parahiba" pelos governadores, em nome 
do Príncipe d'Orange, dos Estados Geraes e da Companhia, 
serviu como de noima ás capitulações, com que se foram de* 
pois submettendo outros moradores. 

Achamo-lo transcripto, em portuguez, appenso- a uma 
requerimento que, dois annos depois, fazia Duarte Gomes da 
Silveira, pedindo o seu cumprimento no tocante á religião. 
Está porém ahi tão mal redigido, e em uma linguagem tão 
estrangeirada, que faz suppor que haverá sido 'traduzido e 
mal do hollandez, em cuja lingua se escreveria o original 
Eis o resumo de cada um dos artigos : 



LIVRO TEECEIRO. 83 

1". Afiançamento da liberdade de consciência e do ser- 
viço do culto como anteriormente, com a devida proteção ás 
imagens e sacerdotes. 

2**. Garantia de paz e de justiça e de protecção contra 
quaesqner inimigos. 

3°. Segurança da propriedade, mediante a continuação 
da paga dos mesmos direitos e alcavalas, não se impondo 
novos tributos. 

4**. Concessão de toda protecção aos tratos e negócios, 

5°. Franquia de- passaportes aos que para seus negócios 
se quizessem ausentar por mar ou por terra. 

6**. Isenção aos moradores e seus filhos de serem obrigados 
a tomar armas contra forças vindas da metrópole, permittindo 
retirarem-se a tempo os que não quizessem ficar na terra, se 
ella estivesse em risco de ser recuperada. 

7**. Direito de recorrerem aos tribunaes do paiz contra 
os próprios governantes, nos cazos contenciosos. 

8°. De terem juiz seu nas questões entre uns e outros, 
qne sentenciasse segundo as ordenações e leis 
portnguezas. 

9^ Finalmente de poderem trazer comsigo armas, inclu- 
sivamente para se defenderem dos salteadores e levantados. 

Termina o documento com estas palavras que tiravam 
a tantas concessões muito valor: 

„Estas condições se hão-de cumprir de parte a parte. 
E todos que as quiserem aceitar serão obrigados de chegar 
diante dos ditos senhores do governo ou seus deputados a 
fazer -o juramento de lealdade e segurança. * E os que não 
qnizerem aceitai* serão perseguidos e (declarados) rebel- 
.des da paz e quietação. Aos 13 de Janeiro de 1635." 

Em quanto estes acontecimentos se passavam na Pai'a- 
liiba, repellia Luiz Barbalho dois ataques dirigidos contra o 
Ainrayal, no segundo dos quaes foi ferido (pela quinta vez) 
o valente Henrique Dias. 



G 



LIVRO QUARTO. 



DESDE Â PERDA DA PiRÃIBÂ ATÉ A NOMEAÇÃO DE NASSAC. 



E' siitmettido o» território desde a Parahiba atá o ArrayaL — 
Ataques infructuosos contra este. — Albuquerque occupa Seri- 
uhaem e manda guarnecer Porto-Calyo. — Perda desta posiçSOb 
— Sitio do Arrayal e sua capitulação. — Sitio e rendição d& 
Nasareth. — Texto da capitulação. — Eetira-se Albuquerque d^ 
Serinhacm. — Emigi-ações. — Vence Albuquerque em Porto- 
Calvo. — E' justiçado o Calabar. — Retiram-se os nossos ás 
Alagoas. — O inimigo occupa Porto-Calvo e guarnece a Peii- 
pueira. — Soccorros aos nossos. — D. Luiz de Rojas rende a 
Albuquerque. — Elogio deste chefe. — Rojas marcha para Porto- 
Calvo. — Retira-se Schkoppe, -^ Rojas é batido por Arcizeusky 
e morre na acção. — Succede Bagnuolo no mando. — Vem a 
Porto-Calvo, e manda avançar guerrilhas que chegam até a Pa- 
rahiba. — Apuros da Corte para enviar soccorros. — Tumultos 
de Évora. ' — Carta do rei a esto respeito. — Considerações. — 



Submettida a Parahiba, resolveram os Hollandezes occu- 
par todo o território intermédio ato o Recife, e foi dessa tarefa 
incumbido o coronel Arcizeuski, entregando-se-lhe as forças 
disponiveis, com as quaes marchou para o sul. 

Foi encarregado por Albuquerque senão de lhe fazer 
face, pelo menos de ir pouco a pouco retirando-se com 03 



LIVEO QUARTO. 85 

Índios, destruindo quanto não podesse transportar, primeiro Mar- 
tim Soares, e depois Luiz Barbalho, os quaes ainda conseguiram 
apresentar resistência, bem que fraca, o primeiro em Mossu- 
repe, e o segundo em S. Lourenço e depois na Moribeca, re- 
tirando-se depois para junto d' Albuquerque. Passou este chefe 
a entrincheirar-se em Serinhaem, afim de tratar de conservar, 
assim o único porto que lhe restava, próximo do Arrayal. 
Ao mesmo tempo reforçou quanto poude o mesmo Arrayal, 
conservando no commando delle a Andres Marin. Lpgo depois 
foi mandado Luiz Barbalho a reforçar a fortaleza do Cabo, 
ficando nella como governador adjuncto ao sargento mor Pedro 
Corrêa do Gama, que já ahi se achava. 

Além destas três paragens, resolveu também Albuquerque 
fezer occupar a de Porto- Calvo, como chave dos districtos 
meridionaes, donde julgava poder receber mantimentos e soc- 
corros« A situação de Porto-Calvo, em uma espécie de penin- 
sala, entre dois rios que nas margens se alagam e empantanam, 
e cujo isthmo se defende até por uma camboa ou esteiro, 
parecia além disso mui defensável, por meio de uma linha de 
fortes exteriores ; mas necessitava de muitas forças para gaar- 
necel-a. Albuquerque poude porém apenas destacar para ahi, 
ás ordens de Bagnuolo, umas companhias do terço italiano, 
qae unicamente serviram a chamar para essa paragem, pátria 
do Calabar, a attenção deste, e por consequência a do inimigo ; 
de modo que das quatro paragens a que Albuquerque se pro- 
poz reduzir toda a defensa, foi justamente esta a primeiro perdida. 

O almirante Lichthardt, entrando na Barra-Grande, 
sonbe que Bagntiolo occupava Porto-Calvo; e por suggestões 
do Calabar, propoz-se a atacal-o naquella paragem, que o mesmo 
Calabar conhecia muito, por isso mesmo que era sua terra natal. 

No dia 13 de março (1635) partiram pois Lichthardt 
e o mesmo Calabar, levando ás suas ordens duzentos e oitenta 
homens. ^) 

Bagnuolo apenas fora informado de que barcos hollan- 
dezes haviam entrado na Barra-Grande, desembarcando tropas 
em terra^ começou á pressa a entrincheirar-se na igreja velha 



*) OíF. de Lichthardt c Riddor, de 19 de março de 1G35, Assim 
exagera o douatario da capitania quaudo eleva a seiscentos u 
número dos atacantes. 



86 LIVEO QUARTO. 

da povoação; mas no dia 15, recebendo aviso de qae o iiii- 
migo se aproximava, destacou, ás ordens do capitão D. Fernando 
Biba Aguei o, uns quarenta homens para occuparem um pequeno 
cerro na vanguarda, mas á vista da povoação. Quasi ao mesino 
tempo chegava ahi Lichthardt é o derrotava, obrigando Biba- 
Aguero, para não cair prisioneiro, a metter-se por uns alaga* 
dos, e depois por matos e desvios, afím de ir onde estava o 
general Mathias d' Albuquerque. 

Durante esta primeiía escaramuça o Conde que ficara a 
meia distancia da povoação, com duzentos homens, em logar 
de ir com elles em auxilio da sua vanguarda, esperoa a pé 
quedo que o inimigo o viesse buscar. E ao começarem os pri- 
meiros tiros, o seu sargento mor, Mancherio, também napolitano, 
montado em um cavallo não costumado a elles,* introduziu de 
tal sorte a desordem nas próprias fileiras ^) que com ella 
apressou a derrota é fuga de todos e a entrada do inimigo 
em Porto-Calvo, ao passo que Bagnuolo, com a gente que 
poude reunir, seguiu para o Bio das Pedras, e dahi para a 
Alagoa do Norte. 

No Arrayal o inimigo, dirigido por Arcizeuski começava 
a apertar o sitio tanto quanto podia. Primeiro se apoderara de 
um engenho (do Monteiro) que ficava á retaguarda do mesmo 
Arrayal, além de mais dois postos, um na frente a tiro de 
canhão, e outro que assegurava a sua communicação com o 
forte dos Afogados. Dahi a dias conseguiu occupar o outeiro 
que chamaram „do Conde de Bagnuolo" que ficava a tiro de 
mosquete, e mui provavelmente seria o que está entre os ria' 
chos Paranamerim e Agua Fria. Ahi collocou três canhões, com 
os quaes, e com outros que já tinha assentado em um dos 
portos do Capiberibe, começou a ferir vigorosamente. 

Passado pouco mais de um mez, o inimigo, á custa de 
uma refrega da qual saiu Arcizeuski ferido em um braço, 
occupou uma paragem a tiro de pistola do forte, na qual 
assentou três morteiros, coin que logo começou o bombardeo; 
de modo que foi necessário no forto do Arrayal fazer subter- 
râneos o paiol e hospitaes. 



*) Esta circumstaucia foi observada pelo próprio inimigo do 
»eu campo. 



LIVEO QUARTO. 87 

Dentro de poaco, o grande aperto do sitio tronxe aos 
lefensores a inevitável escacez, e logo a falta completa de 
ciantimentos. Para aliviar a fome começaram afdzer-se sorti- 
as, cada vez com mais frequência e mais mortíferas. For 
atro lado dentro da praça como saccede em toias as praças 
[nando o sitio começa a apertar-se, não havia animal de qae 
e nao tirasse partido para alimento. Nâo só os cavallos, os cães 
< os ^atos, mas até os próprios ratos se aproveitavam. Come* 
aram logo a escacear as munições, e não tardou a faltar 
, polvora« Era chegado o momento de propor capitulação. 
?6ve esta logar, ao cabo de mais de três mezes de sitio, 
o dia 6 de Junho, ^) saindo a guarnição com as bagagens 
todas as honras da guerra. Eram quinhentos e quarenta e 
ete praças, além dos escravos e paisanos, que foram entregues 
. descrição do vencedor, que impoz barbaramente a todos 
trecos, para seu resgate, ipui superiores aos que elles poderiam 
atisfazer. O número dos feridos dos do Arrayal, durante o 
itio, passou de cento e quarenta. — 

A Companhia decretou uma medalha de prata em honra 
e Ârcizeusky, da qual ainda se encontram exemplares na 
[ollanda ^). 

Seguiu-se a rendição da fortaleza da Nasareth, no Cabo 
e Santo-Agostinho. Dirigiu ahi em pessoa o sitio o valente 
igismnndo Scbkoppe, primeiro coronel e governador das armas 
ppressoras, tendo o quartel general no engenho dos Algodõ- 
es, qaasi uma légua da mesma fortaleza. 'No dia 11 e 12 
6 março á noite intentara o inimigo apoderar-se de improviso 
esta fortaleza : havendo porém os defensores repellido os assal- 
18 com denodo, começou a sitiai- a mais em regra, e não 
mprehendea novo ataque, senão dahi a mez e meio, acomettendo 
m reduto feito nas cazas de João Paes Barreto, então um 
os mais ricos proprietários do Brazil. Eepetiu quinze dias 
spois, infrutuosamente , outro ataque contra a trincheira 
'Agua, 'que ficava a tiro de mosquete da praça. Mas não 



*) Em uma copia da participação do Sigismundo datada do Cabo 
em 22 de Juuho s(í diz que a 9; mas damos aqui a prefer- 
encia ao donatário da capitania, que diz a G, e accrescenta haver 
seu irmão sabido do facto no dia 7. 

*) Netscher pag. 189, citaudo Van Loon, II, pag. 24. 



88 LIVKO QUARTO. 

tardaram os sitiados a ser os agressores forçados pela necessi- 
dade. Começaram a sentir falta de mantimentos, e a fome os 
obrigou ao recurso das eortidas, para buscar o necessário. 
Dest' arte pareceriam mais fortes justamente quando se achsk 
vam no3 últimos transes. 

A final a rendição do Arrayal veia precipitar a da for- 
taleza da Nazaretb, que teve logar pei-to de um mez depois. 
Náo tanto porque inanisse ella para diminuir a força moral 
dos defensores, como porque o inimigo, com grandes reforços 
que recebeu das tropas, que tinha, sitiando o mesmo Arrayali 
conseguiu apertar muito mais o sitio, reduzindo os sitiados á 
escacez e á mingua. A capitulação foi assignada no dia 2 de 
Julho e a transcreveremos, com a sua incorrecta redacção, tal 
qual se conservou inédita até nossos dias, nos arcbivos di 
HoUanda, para onde foi remettida por Sigismundo Scbkoppe, 
em o£f. de 16 de Julho desse anno. ^) — O seu texto consta 
de dez artigos no teor seguinte: 

„1\ — A fortaleza com sua artilheria vitualhas e 
munições e mais cousas d'elrey serão entregues ao Sr, Sigis- 
mundo van Scbkoppe ou a seus deputados." 

„2\ Os governadores, capitães reformados e mais officiaea, 
soldados e pessoas de guerra poderão sair com suas insígnias, 
aimas e bagagens, com suas bandeiras tendidas, cordas e caixas 
temperadas ; e vinte escravos se tirarão para se repartirem pelos 
officiaes : os outros se hão-de entregar. E estes officiaes e sol- 
dados irão, na dita conformidade, com insígnias, armas e baor 
deiras, até chegar ao mar postos em fim de viagem." 

„3^ Sairão também os religiosos com suas mobilias, 
como os soldados." 

„4^ A infanteria toda, com os religiosos, serão embar- 
cados para as índias de Castella, e terão no caminho basti- 
mentos e ração, como nossos soldados. O capitão de artilheria 



') Tem o titulo: «Condições e artigos que o Sr. Sigismundo van 
Schkoppo governador, primeiro coronel e cabeça da milicia em 
o Brazil, por os mui poderosos senhores Estados Geraes das 
Proviucias-Uuidas e o lUustrissimo Príncipe d^Orange e a 
Companhia das índias Occidentacs. o outorgado general con- 
cude aos senhores Pedro Corroa da Gama e Luiz Barbalho 
Bczorra, Govt*n);ul(»res das Armas nesta Fortaleza de N. S. 
da Nasaretb, no Cabo do Íáanto-Agostinho." — 



LIVRO QUARTO. 89 

Lourenço Yéz, condestables e artilheiros sairão com a demais 
infanterJa.^ , 

jjÒ", Mandará o dito Governador entrar cinco companhias 
tomar a entrega de dous baluartes, para depois começar a sair 
a guarnição.^ 

„6^ Os moradores que se botaram dentro desta fortaleza 
antes qne fosse cercada, nao se entende com elles (s i c) estes 
apontamentos; porque elles, com suas fazendas, ficarão á 
ordem do governador e dos conselheiros.^ 

3,7". Dos escravos delles se diz ja no artigo segnndo." 

^8". (O individuo) a quem se achar alguma fazenda 
illicita, ou que pertença aos moradores presentes ou ausentes, 
náo será comprehendido nestes apontamentos.^ 

y,d\ Estes apontamentos não se entenderão com os 
rendidos.*' 

j,10\ Dos capitães ficará aqui comnosco o Sr. capitão 
D. Joseph de Soto Ponce de Leon por fiador, que (sic) tornará 
aos navios sem nenhum damno .^)^. 

'E' de notar que ainda que em vista da lettra do artigo 
4^ parecia que Barbalho devia embarcar-se, com a guarnição 
que se rendera, para as Indias-occidentaes, os inimigos o leva- 
ram para a Hollatida, segundo consta oficialmente por duas 
cartas regias. ^) A dita guarnição consistia em uns seis centos 
homens. 

Já não restava a Albuquerque outro recurso, senão o de 
retirar-se de Villa Formosa, do melhor modo que lhe fosse 
possivel. A firmeza com que procurou sustentar-se na fraca 



*) Segue-se no documento : ^Estes apontamentos, pelo que á 
nossa parte toca, estamos dispostos a guardar e cumprir assim 

' e na forma que se contêem; para o que firmamos de nossos 
signaes, e sellamos com os sellos de nossas armas. E se nos 
darão outros deste teor, firmados e sellados pelo senhor Ge- 
neral Sigismundo van Sclikoppe. Feito neste Cabo de Santo- 
Agostinho a 2 de Julho de 1G35." — „Estes apontamentos 
finnamos os governadores Pedro Corrêa da Gama e Luiz 
Barbalho Bezerra." 

•) Em principios de 1637 achava-se em Portugal ; — pois em 
31 de Janeiro deste anuo o vemos elevado a mestre de campo, 
com o foro de íidalí,^o, habito de christo (8 de maio) e pro- 
messa do governo do Kio do Janeiro (30 de maio) o de uma 
commenda do lote de duzentos mil reis. 



90 LIVKO QUARTO. 

po8ÍçSo em qae estava, só para com a sua retirada, qae todos 
aconselhavam, não desmoralisar os defensores do Arrajal e do 
Cabo, é para nós o acto desta campanha que mais nos excita 
por elle a nossa admiração e sympathia. Xão abandonoa essa 
posto seoão justamente depois de lhe chegar a notícia que a 
fortaleza de Nazareth se havia rendido. — E o mais é que 
durante os quatro mezes que permaneceu em Villa-Formosa 
não deixou de achar-se também a braços com o inimigo, qoe 
reunira uma grande força no visinho engenho da Pindoba. O 
expediente das companhias d*emboscada, que tanto lhe havia 
aproveitado em outras occasiões, ainda lhe valeu nesta, pres- 
tando de novo mui valiosos serviços o heroe Índio Camarão. 

Uma dessas companhias foi a dos Baptistas, treze irmãos 
(de pai e mãi) deste appellido, de que era chefe, o mais velho, 
Manuel ; — sendo que quasi todos se sacrificaram em defensa 
da pátria. 

Começou Albuquerque a retirada de Villa Formosa bo 
dia 3 de Julho; tomando o mando do districto Gaspar Van 
der Ley, que ahi se casou e ficou estabelecido. 

Agora era de ver aquella marcha de retirada militar: 
era pela maior parte uma emigração de pátrio lar, deixando 
abandonados bens, fazendas e parentes. Coi& effeito : acompa- 
nhavam a Mathias d' Albuquerque muitos dos moradores coa 
suas mulheres e filhas, em quasi todas as quaes o valor se 
lhes redobrava no momento do perigo, como untas vezes sno- 
cede ás do seu sexo. 

Bompiam a marcha, para descobrirem melhor o caminho 
e os matos visiuhos, somente índios arma los, que em amboi 
os Exércitos, exerciam o um temp-.» as f juoçOes de exploradores 
e de gasta lores. Seguiam-se altirumas companhias de tropa 
regnlar, e logo os moradores, com uns duzentos carros, acom- 
panhados de outros das mesmas companhias. — Cabriam a 
ie:agcarda, ás ordens do Camarão* outros índios, em número 
de oitenta. 

Entre es moradores que emigravam contavam-se muitos 
proprietários de engenhos tanto du Parahiba, como da Goiana 
e Peixambuco, com grinde ciimero de escravos, e muitas sa- 
nhons q::e pe!:^ primeira vez se viam por caminhos pouco 
fircqueniados e inbospitò;:. sujeitas ú inclemência dos tempoai 
e 2,ié -.vos ataques das fera^, quando ss extraviavam. Figa- 



LIVRO QUARTO. 91 

remo-nos qae scenas de dõr e de ternura sa não passariam nesta 
triste transmigração, atravez de palzes de montanhas, qaasi 
não trilhados, e onde as melhores bellezas da natureza virgem 
pareciam horrores e abysmos aos que levavam os ânimos con- 
'trístàidos. Aqui fícava desfallecido o ancião respeitável, a quem 
ija aa forças physicas não igualavam as do patriotismo: ali se 
Ivia com os pés feridos a donzella, que apenas em sua vida 
riasseára a distaneia de sua eaza até a igi*eja: acolá a joveh 
ifisposa, que vendo o momento de dar á luz o fruo to de seu 
amor, tinha de misturar as lagrimas das dores do parto com 

as da de perder o filho ao exhalar o primeiro suspiro 

Mes<}QÍnha condição humana, que ao menor sopro * do infortúnio 
(nato tem de padecer! 

Todos se dirigiam a Forto-Calvo, sabendo que esse passo 
Be achava fortificado e guarnecido por uns trezentos e cin- 
coenta defensores ás ordens do major Alexandre Picard, que 
esi^erava a cada momento ser reforçado, quer de outros tan- 
toSy situados na Barra-Giande, quer da banda do Cabo, onde, 
desde que se entregara a fortaleza da Nasaretb, deixara de 
ser necessária a presença de tanta tropa. 

No decimo dia de marcha chegava todo o immenso com- 
boy ás immediações de Porto-Calvo, cujo ataque estava deci- 
dido; pois por ahi passava o caminho de carros, nnico que 
havia para as Alagoas. — Talvez nesse logar houvesse ficado 
jsepaltado Mathias d' Albuquerque, com todos os seus, a não 
lhe valer então o auxilio de um dos moradores, por nome 
Sebastião do Souto. 

Ao ter Souto conhecimento da aproximação da nossa 
gente, veiu falar com Albuquerque e informal-o do que havia, 
ofEerecendo-se a ajuda-lo, e dando- lhe um plano para atacar o 
inimigo. Ao regressar Souto a Porto-Calvo, chegou com reforço 
de nns duzentos homens o Calabar; e Souto para o fazer saber 
a Albuquerque, expoz-se aos tiros dos piquetes ou avançadas, 
ás quaes conseguiu atirar uma carta contendo o avizo. 

Q-uiada por Sonto, a gente de Picard caiu nas ciladas 
qne armara Albuquerque, o qual logo mandou sitiar e escalar 
a igreja velha de Porto-Calvo, que o inimigo havia cingido 
de um parapeito de forma quadrilonga com estacada e fosso 
e artilheria nos quatro ângulos. 



92 LIVEO QUAKTO. 

A desesperação dos atacantes Ibes ministrou valor majs 
que usual, e, sem nenhuns auxilies usados nos sítios e esca« 
ladas, lançaram-se ao forte, e o galgaram, tomando prisioneiros 
quarenta e seis do inimigo ; havendo conseguido retirar-se uns 
duzentos, deixando seis peças e muitas munições. Xa embria- 
guez da victoria, quiseram os vencedores perseguir os inimi- 
gos, pretendendo também levar d'assalto a igreja nova, a qos 
se haviam recolhido; mas tiveram que retirar-se com algonu 
perda. Mais felizes foram porém no Varadouro, perto do nsinbo 
Bio-das-Pedras , onde havia um reduto guarnecido de vinte 
soldados, que logo o abandonaram fugindo pelo rio abaixo, o 
depois em outros postos e cazas a que o inimigo se recolhera. 
Foi então que o donatário da Capitania, que ali também ii^ 
resolveu mudar no de Bom Successo o nome da villa; mu 
o do Porto-Calvo ficou prevalecendo sempre. 

Mathias d'Albuquerque, fazendo logo seguir' para as 
Alagoas os emigrados e os feridos e bagagens, assentou de 
expôr-se ao risco de encontrar-se com forças superiores qoa 
o inimigo mandasse, mas não seguir, sem que primeiro capi- 
tulasse o inimigo nos edifícios a que se refugiam com o 
Cal abar, cujo merecido castigo esperava que Deus permittiess 
dar-lhe ali na sua terra natal, em pago dos males que havia 
c&uzado a tantos de seus compatriotas e ao muito sangue ^oa 
tinha derramado por todo o Brazil. 

No sexto dia de sitio (19 de Julho) o inimigo mandos 
um tambor propondo capitulação. Foi esta admittida, conoe- 
dendo-se que os estrangeiros sairiam livres com suas bagi- 
gens, e seguiriam para a Bahia, donde seriam conduzidos i 
HoUanda. O inimigo exigia que na capitulação fosse também 
comprehendido o Calabar; mas, resisistindo a isso Albuquerqoei 
foram as condições aceitas, entregando-se, além do major Pi- 
card, vinte e cinco officiaes e officiaes inferiores, trezentos e 
sessenta e sete soldados armados, vinte e sete feridos e en- 
fermos, não passando os sitiantes de cento e quarenta, fora 
os índios. 

A entrega do Calabar ') haverá sido, sem duvida, poaco 



*) „Sem que os Hollandezes fisessem muita farça por lhe libe^ 
tar a vida uos coucortos quo tratarauí antes de se renderem, 
que este ó o pago quo ellcs costumam dor aos que delles m 



LIVKO QUAETO. 93 

nerosa da parte de Picard; mas não foi o primeiro cazo, 
m será o último, de realisar-se o provérbio a respeito do 
fferente apreço que se dá á traição e ao traidor« 

Se da parte dos HoUandezes teve tal pago, quando já 
es servia mais de carga que de proveito, da parte dos 
bs compatriotas tinha caldo debaixo da espada da lei. Não 
Uoa quem dicesse que a Calabar não fez muito empenho em 
io ser sacrificado, acreditando estar de Deus que viesse «a 
wntet entre catholicos e com todos os sacramentos. Não é 
irém impossivel que elle confiasse na frase com qae, nas 
ndiçSes da entrega se conveiu por fim a seu respeito de 
le jjficaria á mercê d'el-rei," esperançado talvez de ter al- 
ui meio de escapar -se, se em tempo de guerra andassem 
m elle, de uma parte para outra, a espera de ordens da 
{tropole-. 

Submettido a conselho de gaerra, este foi de opinião 
e nnica mercê que devia esperar era a de preparar-se a 
dl morrer, assistido pelo Padre Erei Manuel do Salvador, 
tor (com o nome de Calado) do livro intitulado ,, Valoroso 
uudeno''; no qual assegura baver-se o mesmo Calabar con- 
isado „com muitas lagrimas e compuncção, segundo demons-» 
iTa,** e „com muito e verdadeiro arrependimento de seus 
cados, segundo o que o juizo humano pode alcançar.^ 
ifises pecados o Todo Pedoroso lhe tomaria contas, e com 
sna immensa misericórdia poderá tel-os perdoado; porém 
3 males que cauzou á pátria, a historia, a inflexível his- 
•ia lhe chamará infiel, desertor e traidor ^) por todos os 
snlos dos séculos. 

Hathias d'Albuquerque deixou no oratório ao Calabar, 



fiam, que se servem delias emquanto acham mister e no 
tempo ae necessidade e tribulação os deixam desamparados 
. e entregues á morte/ (Calado.) 

*) O historiador do lado hoUandez, Barleus, foi o primeiro a 
dar-lhe o justo pago, quando disse: „Dominico Cala- 
bari, qui Lusitanus, cum á Regiis partibus ad 
nos descivisset, in arce captus, strangulatus 
que, jugulo defectionem expiavit, et dissectos 

• artus infidelitatis ac misorise suaa testes ad spec- 
taculum reliquit." Quando aquelles aquém prestou ser- 
viços assini o julgam, não podo julgal-o menos severamente 
a historia nacional. 



94 LIVEO QUARTO. 

confiado aos da retaguarda, mandou enterrar os canhões en- 
contrados DO forte (e que não se decidia a levar) em certo 
sitio junto ao rio: promoveu ao posto de alferes a Sebastião 
do Souto, e começou a marcba para as Alagoas. 

Ao cabo do terceiro dia, aos 22 de Julbo^ a jastiça 
tirou o Calabar do oratoiio, e lhe deu morte de garrote, díé- 
xando o seu corpo esquartejado na povoação, que nesse mo- 
mento abandonava aos HoUandezes, que ja vinham chegando. 

Apenas foi justiçado o Calabar, o restante das tropas 
seguiu para as Alagoas, ainda pelo caminho da costa. Foofio 
depois entrava o inimigo em Porto-Calvo. O seu prim«íiD 
cuidado foi tributar as honras fúnebres ao Calabar. Depois 
publicou bandos convocando os moradores a seus lares ; e por 
fim, á voz de Arcizeusky, seguiu também para o sal, che- 
gando, no dia 15 d' Agosto, á Peripueira dez léguas de dis- 
tancia da Alagoa do Norte, e ahi fez alto e se entrinobeiron: 
occupando deste modo o caminho de Pernambuco para ás 
Alagoas pela costa. 

A 29 de Agosto tinham chegado òs nossos á Alagoa do 
Norte, e ahi, de accordo com Bagnuolo, haviam resolnlo 
passar á do Sul, mais defensável, e mais central para os trei 
portos visinhos, Jaraguá, Francezes e Alagoas. 

Durante tanto tempo decorrido se haviam feito dê tode 
prestes e partiam da Hespanha as forças que dissemos fioa- 
rem-se apromptando. Eram apoiadas por uma esquadm com- 
binada de vasos das duas coroas e da de Nápoles. Vimos como 
o rei contava que seria desse novo reforço chefe o heroe da 
restauração da Bahia em 1625, D. Fadrique de Toledo. Este 
experto general porém declarou que não se compremettia a 
aceitar o mando, a menos que lhe dessem doze mil homens de 
tropa de desembarque. Houve então idea de nomeaL'-se D. F. di 
Silva, portuguez, que muito se distinguira nas guerras de 
Flandi^es ; porém este novo cabo declinou aceitar o mando, a 
pretexto de lhe ser estranho o exercício da guerra no aquem- 
mar. Foi então nomeado D. António d* A vila e Toledo, Marquei 
de Velada, grande de Hespanha, que dera de si boa conta 
governando Orán. Não podendo porém este chefe partir imme- 
diatamente, foi o mando das tropas confiado ao seu immediato 
D. Luiz de Bojas y Borja, que havia militado em Flandres, 
e acabava de ser Presidente em Panamá. 



LIVEO QUAETO. 95 

Dimianto como ei-â este reforço, se em fins de Novembro, 
AO passar pelo Recife, ataca a esquadra inimiga, seguramente 
a bate ; mas, em legar de assim o praticar, foi até as Alagoas, 
ã desembarcar em Jaraguá. 

Os Hespanhoes que vinham ficaram ahi, e marcharam 
depois para Porto-Calvo; os Portuguezes, em número de sete 
oentos, seguiram para a Bahia. 

D. Luiz de Bojas y Borja trazia o posto de mestre de 
campo general. O conde de Bagnuolo ficaria no de capitão 
general da cavalleria (arma que não havia), e da artilheria, 
que toda se reduzia á que então chegava, isto é a doze ca- 
nhões de vários calibres e alguns artilheiros, mandados pelo 
tenente de mestre de campo general (tenente coronel) Miguel 
Giberton, official que muito se distinguira nos sítios em Flaudres. 
■Vinham também alguns sapadores subordinados a um flamengo 
chamado André. Fava o Camarão mandava o rei o titulo de 
Dom, que daqui em diante lhe daremos. A Daarte d' Albuquer- 
que vinham ordens para que tomasse a seu cargo o governo 
ô^l de Pernambuco, de que era donatário, e seu irmão 
Hathias d' Albuquerque era chamado á Corte. 

Deixou este conspícuo chefe o exercito em 16 de De- 
zmnbro de 1635, depois de haver militado com tanta cons- 
tância e firmeza no Brazil, desta vez durante seis annos. O 
sentimente geral que observou na sua partida, serviria de fazer 
lhe esquecer alguns desgostos anteriores. Não cobrara jamais 
ordenados, e grangeára sempre merecida reputação por sua 
-honradez e prudência. Kegressando á metrópole, não foi porém 
'gosar de descanso, nem do dias felizes. A Mesa da Cons- 
ciência lhe mandou tii-ar devassa pela perda de Pernam- 
buco ") o por todo o seu procedimento como governador. Foi 
tirada a mesma devassa pelo Doutor Francisco Leitão, aggro- 
gando-se a ella depoimentos *) de testemunhas que não des- 
cubriam seus nomes *), como na inquisição. 



^) C. E. de 31 de Julho de 1640. 

*) Ainda seguia o processo no juizo dos cavalleiros, em 
1640, quando a restauração veiu a necessitar da espada do 
valente general, e todos os cargos se desvaneceram, e elle 
foi elevado á grandeza o feito Conde de Alegrete, etc. 

•) Note-se porám que a questão da perda de Pernambuco devia 
estar fora do pleito, quando ja o governo a havia julgado 



98 LIVRO QUARTO. 

general feito arcabuzar um índio, só pela falta de haver saido 
do caminho a uma roça; excesso de rigor que fòra levado a 
mal por todos os outros índios; mas nem com esta conside- 
ração nos atrevemos a admittir, sem muitas provas, propó- 
sitos tao infamantes. ^) Demais a suppor que nm tal assas- 
sinato viesse dos índios^ não houvera a moiiie provindo de 
uma baila, mas sim de uma frecha. 

Na referida acção, que se chamou da Mata-Redonda, 
tiveram os nossos trinta e tantos mortos, e igual número de 
feiidos; contando-se neste número os capitães João de Maga- 
lhães e João Lopez Barbalho: o sargento-mor dos Italianos 
Heitor de la Calce caiu prisioneiro. Arcizeusky ficou senhor 
do campo, e os nossos se retiraram á povoação sem ser per- 
seguidos. Talvez o inimigo se via falto de munições, pois nem 
se quer voltou ao posto da Peripueira, mas sim a ViUa- 
Eormosa, deixando entretanto naquelle uma pequena guarnição. 

Por morte de Rojas, as vias de successão que logo se 
abriram confiavam o mando ao Conde de Bagnuolo. LÓune- 
diatamente foi este avisado, e se poz em mai*cha, por nm novo 
caminho que fez abrh* *), pelas cabeceiras dos lios Santo- 
Antonio-Grande, Camaragibe e Tatuamunha, mais para o sertão, 
mas muito mais seco e nivelado que o outro mais á costa, 
que seguira Rojas, tão cheio de pântanos e morros qne dia 
houve em que se haviam transposto sessenta e seis destes, 
tão Íngremes que alguns cavallos os não subiam. 

No dia 19 de março chegou a Porto-Calvo; e imme- 
diatamente fez avançar alguma força a occupai' a linha do 
Una, dali dez léguas, com ordens de despachar para a frente 
pequenas escoltas, que tivessem em continua alarma o inimigo. 
A Martim Ferreira, já sargento-mor, ordenou que fosse gover- 
nar o deposito e quartel que deixara na Alagoa do Noi-te. 
Depois mandou a Francisco Rebello, com quati*o centos e cin- 
coenta homens, dos quaes duzentos índios ^}, que igualmente 



*) Com mais razão propendemos a este juízo quando nas pagi- 
nas do donatário nenhum indicio se encontra de semelhante 
facto narrado por Calado. 

*) Este caminho se acha marcado nas cartas hollandezas , e 
designado com o nome de Caminho do Conde. 

*) Não õOO soldados e 400 índios, como diz Sigismtindo, 
officio de 8 de Junho. 



. i 



LIVRO QUARTO. 99 

arançasse pai*a aiTebanhar os moradores que quizessem reunir 
-se e assolar e queimar tudo até onde lhe fosse possivel. 
Chegou o Rebello de improviso a um engenho de João Paes 
Barreto no Gabo, e ahi surprehendeu setenta soldados hoUan- 
dezes, dos quaes foram tiinta passados á espada, entre?ando-se 
quarenta* Em vez de os enviar desde logo a Bagnuolo, pro- 
seguiu com elles até S. Lourenço, cinco léguas do Recife, 
onde fazendo alto, viu-se a sou turno atacado inopinadamente 
(no dia 25 de Abiil ') por uma força de oito centos homens 
destacada do mesmo Recife, e guiada pessoalmente pelo mem- 
bro do oonselho Jacob Stachower, que o bateu e conseguiu 
libertar os quarenta presos. Este Jacob Stachower ^) se fizera 
lavrador, associando a si João Fernandes Vieim, a quem muito 
favoreceu para chegar este a adquiiir grandes cabedaes e fa- 
zer-se notável na província, como veremos. 

E mandava Stachower as tropas que ahi atacavam , por- 
que, pouco antes, os cinco individues do conselho politico ha- 
viam assentado, afim de darem as providencias com mais promp- 
iádão, de se derramarem, com todos os poderes, por toda a 
extensão que occupavam, incumbindo-se o mesmo Stachower 
de seguir as tropas em operaç5es; ficando Ipo Eysens encar- 
regado do mando desde Itamaracá para o norte; Schott do 
districto do cabo de Santo-Agostinho até o rio de Jangadas; 
e Bathazar Wintjes, com Elias Herckman, do Recife. ') 

A expedição de Rebello produziu no emtanto, entre 
outros favoráveis resultados, o de permittii* que se lhe reunis- 
sem alguns que o dezejavam ; e neste número entrou Henrique 
Dias, com sua mulher, filhos e vários parentes; pois, havendo 
aqaelle chefe capitulado no Arrayal, fora pelo inimigo conser- 
vado, em liberdade, e aproveitava a occasiao para reunir-se 
ás antigas bandeiras. Quasi ao mesmo tempo que o Rebello 



*) Oflficio de Weerdenburgh de 8 de Junho de 1636. 

*) Morava Stachower (Estacour escreve Calado) no Recife, em 
umas cazas na rua da Cruz N.° 62 — 64, detraz do Corpo 
Santo, casas que depois passaram a João Fernandes Vieira. 
Ainda na fachada se vê um busto de Santiago, por baixo do 
qual se lê (em hollandez) „Chamo-me San Thia^o." („@. 3«* 
cob 6cn icf gcnacmt.*) A imagem alludia sem duvida ao dono 
primitivo da casa por nome Jacob. 

*) Expôs, de Servaes Carpentier de 2 de Julho de 1636. 

7* 



100 LIVEO QUAETO. 

invadia até S. Lourenço, eram os nossos atacados, sem impor- 
tantes resultados, nas margens do Una, bem como os qae se 
achavam na Alagoa do Koi'te o eram pela guaraiçao hollan- 
deza da Peripuoií-a. 

Pouco depois emprehendiam - se novas correrias, qne . 
cliegai'am a pôr o inimigo em gi-andes cuidados e apuros. 

Primeiro saiu, com trezentos e dncoenta homens, o ca- 
pitão João da Silva e Azevedo; mas não foi muito longe, 
porque não era elle, nem a sua gente, a mais a propósito 
pai*a similhantes emprezas, e regressaram immediatamente, em 
virtude de umas grandes chuvas que lhes impossibilitaram as 
marchas. 

Partii'am logo D. António Camarão, com uns trezentos 
índios, e Henrique Dias já condecorado com o titulo de 
^Governador dos pretos", os quaes fizeram proezas, chegando 
até a Goyana; e ao regressar, defenderam-se, dui'ante dois 
dias (23 e 24 de Agosto), contra mui superiores forças regu- 
lares, com que junto a* S. Lourenço os atacou Arcizeusky. 
Voltai*am a Poi-to-Calvo , dahi a trez mezes e meio, com um 
grande número de moradores, qué preferiram os sofrimentos 
de acompanhal-os aos vexames e tyi'£mias do jugo de um 
conquistador cobiçoso, as quaes ja haviam saboreado amarga- 
mente. Para taõ feliz regresso não deixou de os favorecer 
outra excursão , que para o lado donde vinham ordenoa 
Bagnuolo que fisesse o ajudante Sebastião do Souto, com oi- 
tenta homens. 

Seguiu-se uma nova excursão de Francisco Kebello, acom- 
panhado de João Lopes Barbalho e outros. 

Ainda que a principio soffreu Eebello falta de manti- 
mentos, com maior razão quando dos que levava teve que ir 
distribuindo com muitos emigrados, vindos de Goyaná com D. 
António Camarão, e que tinham ido ficando pelos caminhos 
exhaustos, não deixou de chegar á Parahiba, e fazer ahi gran- 
des avarias ao inimigo e seus engenhos e roças, matando 
até a Ipo Eysens, ^) membro do conselho que ahi governava. 

*) Nas Mem. Diárias se chama Enses este governador da Para- 
hiba Em 1639, um capitão Einse, depois de mandado com a 
sua companhia a Igaraçú, foi removido para perseguir a Luiz 
Barbalho; „Eintius quoque movere se éx Thuara (alias 
Iguaraçú, pelo que tem dito antes) jussus, et cum centúria 
sua adesse.^ Ja se vê que não podia ser o mesmo. 



LIVRO QUARTO. 101 

' Em auxilio de Rehello mandou Bagnuolo a Sebastião do 
Souto,, ja feito capitão, e ao governador Henrique Dias, os 
qoaes áepola de reunido^, foram pelo inimigo encontrados em 
17 de Novembro, sendo derrotados ao cabo de duas horas de 
acçSo. 

Becolhidos Sebastião do Souto e Henrique Dias, sairam 
a outra excursão os capitães Francisco Feres do Souto e Paulo 
da- F&rada; ') mas na5 passaram da Goiana, onde queimaram 
. nuios engenhos. 

S^uiu-se uma nova excursão confiada ao Capitão per- 
nambucano Estevam de Távora, que enviou Henrique Dias, 
com oem homens, até uma légua ao sul do Recife; e outra 
emprehendida pelo capitão Souto e o ajudante André Yidal, 
qae chegaram até a Parahiba, pátria deste ultimo, destruindo 
a ferro e fogo quanto encontraram, avaliando-se em quarenta 
mil arrobas o assucar que incendiaram. Desta pasmosa excur- 
8âk> 8ah'am feridos tanto o Capitão Souto , de uma frechada 
em um braço, como o Vidal de uma chussada no peito. Este 
official a quem mais tarde novos méritos chegaram a coroar 
com os louros da victoiia e a adornar com a palma do civismo, 
orçaria então pelos trinta amios de idade, e contava ja onze 
de serviços militares. A sorte de Pernambuco dependia agora 
de quem primeiro, Hespanha ou Hollanda; mandasse uma forte 
armada com suMcientes tropas, pai'a fazer nesta conjunctura 
mn esforço maior. 

Bem o reconhecia a corte de Madrid ; mas todas as suas 
ordens e recommendações para a cobrança de impostos extra- 
ordinários (alias muito menores do que os que se votaram 
em Coiiies e se decretaram depois da aclamação de D. João 4"*.) 
exdtavam opposição e descontentamentos, e a Junta de Per- 
. nambuco (criada env 26 de Junho de 1631) nada fazia. Che- 
gou o rei a concedei* que vendessem hábitos e mercês *) aos 
' qué prestasssem soccorros, mas nada valia para obtel-os. Foi 
estranhado o Conde de Mu-anda, pela irregularidade com que 
procedia nos preparativos de mar e nomeado em seu logar o Mar- 
quez de Gouvea ; mas os descontentamentos cresciam e chegaram 



^) Mais tarde general da frota do México e depois da artilheria 
na Catalanhã. 

») C. R. de 11 de Dezembro de 1636. 



102 , LIVKO QUAKTO. 

a conveiiíer-se em motins e em tumultos, entre os quaes vieram 
a dar grandes apreliens5es os que tiveram logar em 1637, 
pitncipalmente em Évora e no Algarve, vindo taes tumultos t 
retardar pelo menos os preparativos de novas forças de soe- 
corro de Portugal e a desviar sobre a fronteira deste reinos 
pai-te das que Castella dispunha para o Brazil. 

Ko meio destas dificuldades foram indicados á Corte dois 
arbítrios, um pelo povo de Lisboa e outro pelo conde do Prado; 
propondo este que elrei deixasse a Portugal livre o direito de 
administrar a sua receita, na certeza de que deste modo essa 
reino não se poderia queixar, e seria o primeiro interessado a 
adiantar quanto fosse necessário á recuperação do Bradl, da 
qual resultaria grande augmento á receita do !Eíeino. 

Em 3 de Dezembro escreveu elrei á Princeza Margarida, 
governadora de Portugal, dando- lhe conta de tudo, e recom- 
mendando-lhe que ouvisse, acerca dos arbitiios que se propã- 
nham, o parecer dos tribunaes do reino. Cremos dever transcre- 
ver aqui em sua integi*a essa carta que julgamos do maior 
interesse, e que ate certo ponto serve a justificar o tão acca- 
sado goveiTio de Felippe 4°. 

„ Senhora Prima: Ainda que, depois que succedi nesses 
Beinos, hei procurado como cousa mais própria de minha 
obiigaçâo a satisfação de todos meus súbditos, assim em sea 
Goveino como na* administração da Justiça, em que mais 
piincipalmente consiste sua quietação, com particular attençSo 
hei desejado a desse Eeino, e conservação de seus Estados, 
levando-me não somente a isto a inclinação, e amor de tão 
bons Yassallos, senão o conhecer que como mais distantes de 
suas Conquistas, necessitam mais de minha assistência e cuidado: 

»0 que nesta parte hei obrado bem se deixa conhecer, 
com o que haveis experimentado depois que estaes nesse 
GoveiTio." 

„E não foi pequena demonstração pol-o em pessoa tal, 
e independente de todo género de respeitos, com que era força 
que a satisfação era maior; e que os inferiores conseguirão 
justiça, com igualdade, e sem contemporisaçòes dos poderosos, 
não estando em seu poder o Governo, por cujas mãos repeti- 
damente se distribuía (qualidade totalmente opposta ás Leis de 
bom governo) e tão conveniente pai'a os livrar de oppressào, 
estar seu recurso em mãos de quem, tão livi*emente como vós, 



LIVEO QUAKTO. 103 

reis administrar justiça: com que não pude obrar mais nesta 
jrte, depois de morto o Infante Dom Carlos, meu muito 
mdo e prezado Irmão, que dar-lhes tal Goveinadora." 

„E quanto mais me offereçe a consideração dos beneficies 
IB de minha mão Mo recebido, tanto maior dor me causa 
H: desencaminhados os Povos, que, esquecendo-se de sua obri- 
^çSo ' natural , hão faltado na fidelidade, pondo nota no 
stante desse Eeino, que tão constantemente se conserva em 
a lealdade e afecto a meu serviço/' 

' „Meu intento, depois que hão succedido estas inquieta- 

leSy ha sido sempre, que, conhecendo seu eiTO, os inquietos 

rednzii^sem, com a persuadiçao de seu mau estado, e meios 

16 applicaríam os leaes e bem intencionados, ao que tinham 

lies que começassem os alborotos," 

„B que, quando pei^severassem em sua obstinação, experi- 
aatassem os damnos delia, com o valor e rigor que soUici- 
?a a gente nobre e leal, por tão abominável excesso, escu- 
ndo a nota de entrai* gente de outros Eeinos, com força de 
mas, a pôr remédio com que se confiimaria a sedição, sem 
oria e honra que receberia Portugal, sendo seus naturaes os 
léy com exemplo grande no futuro, haviam conseguido acção 
o gloriosa para elle, e de tanta eátimação *para mim, como 
ria confundii' e castigar os inquietos e sediciosos. ** 

»0 ver isto até agora desencaminhado me tem com 
mmo sentimento; e cresce, quando reconheço efeitos tão 
ntraríos a sua mesma obrigação, tomando pretextos tão contra 
da a razão e justiça, como é levantar a paga de tributos 
le hoje não se impunham de novo, senão que assentadamente 
]^agavam para seu mesmo beneficio, quó consiste na restau- 
çâo do Brazil; pois se se perdesse, o que Deus tal não per- 
Itta, totalmente ficaria destruido o Eeino." 

„Chegou-me aviso do alboroto de Évora, de que igual- 
aste se fez pouquíssima consideração, porque tumultos popu- 
res se vêem cada dia, sem nenhum inconveniente; o que 
lis novidade me causou foi a ponderação com que se escrevia 
sse Eeino, e falava aqui na mateiia, e que moveram algu- 
%a cii*cumstancias que de longe mal se podem julgar." 

„ Chegaram segundos e terceiros avisos, de que se esten- 
un os inconvenientes; e achando-me satisfeito da proví- 
ncia com que o Duque de Bi-agança havia reparado em parte 



104 LIVKO QUAKTO. 

a matéria, em Villa Yiçosa e outros Legares seus, e offere- 
ceudo-se em tudo, llie dei muitas graças, pois nisto^ como 
sempre, obrou seu sangue. 

„ Também agradeci aos Fidalgos de Évora sua vontade, 
e lhes encarreguei obrassem com minha authoridade. 

„0 Bispo de Portalegre e o Conde de S. João, seu pai, 
me deram um papel sobre o que convinha despachar a Armada 
ao Brazil, e meios para que nâo o embaraçassem as inquie- 
tações; e desejando que isto se conseguisse, como o único 
para a restauração d^aquelle Estado, em que consiste o bem 
universal desse Eeino, o remetti, para que se visse e se con- 
siderasse com toda a attençáo. 

„Approvaram-n'o o Conselho de Portugal, e os Conselhos 
de Estado, Guerra, e Castella, e Junta de Peiíiambuco, qne 86 
compõem dos primeiros Ministros de minha Monarchia, por 
sua experiência, zelo e attençáo ; e assim o resolvi, e remetti 
ao Conselho de Estado desse Eeino, e Desembargo do Faço, 
deixando á sua eleição a execução. 

„Mo resolveram nada, e poucos votaram bem, muitos 
nada, e alguns mui mal — havendo passado mez e meio, e 
tratando-se de não dissimular mais ; porque os inconvenientfS 
cresciam, e o descrédito e desauthoridade da justiça era grande. 

„0 Bispo de Portalegie e o Conde de S. João, havoí- 
do-se juntado com todos os Fidalgos Portuguezes que havia 
na Côi-te, me deram outro papel, reconhecendo por summo favor 
o que eu olhava pela honra desse Eeino, e pedindo-me que 
só o braço da Kobreza e os Ministros remediassem logo eom 
effeito esta turbação, e se pozesse a justiça no logar qua N 
deve, para que ós que ouvissem que se havia levantado uma 
pai'te de Portugal ouvissem juntamente que se havia remediado 
pelos mesmos Portuguezes. ^ í 

„Agradeci-lhes seu zelo, e approvando sua proposta, a 
remetti a esse Eeino, em que não se obrou mais que reprovatA ' 
sem dispor nenhum outro meio. y- 

„Passou este fogo ao Algai've: ebtão se me represeabm 
que era necessário força. 

„ Ordenei aos Fidalgos de Évora, que persuadissem áqnella 
gente o estado em que se achavam, que era ceidia suei perdição, . 
se não se reduziam a seu primeiro estado, e recoriíam ao re- 
fugio de minha clemência e piedade ; admirando que tanto tempo, | 

1 



LIVEO QUARTO. lOõ 

como ha que durava aquella iuquietação, uão houvessem pro- 
curado separar o trigo da sisania, e reduzir com segredo a 
alguns dos iudiffereutes, e assegurar os bons, pois não podia 
deixar de haver muitos. 

9 Também lhes estranhei não me haverem dado conta 
d6 quem, e quantos eram os cabeças, e os mais prejudiciaes 
dos que os seguiam. 

„ Pediu Évora Justiças novas: parece que vós, o Con- 
selho de Estado e o Desembargo do Paço viestes nisso: e 
D. Diogo de Castro disse ultimamente que não convinha que 
por agora se usasse de rigor, nem pôr as cousas como antes, 
senão il-os reduzindo poucos a poucos, que é o mesmo que a 
ultima ruina, no estado presente da Monarchia, tão ameaçada 
e invadida de inimigos estrangeiros, e regra condemnada de 
. todos, os políticos, em semelhantes movimentos populares, em 
passando o primeii'o impeto. 

„De Lisboa, com o crescimento dos alborotos do AlgaiTe, 
e alguns ruídos do Poiiio e Santarém, e alguma cousa em 
Vianna, me consultaram que arrimasse gente de Castella ao 
Algarve, e que a Armada do Brazil que ia a Cadiz corresse 
áqnella costa. 

»Hei enviado a Frei João de VasconcelloSj Provincial de 
S* Domingos dessa Província, filho, de Manoel de Vasconcellos, 
Begedor da Justiça, pessoa de publica satisfação e de muito 
exemplo. 

„ Vendo que de Portugal não se davam outros meios, nem 
executavam os que eu havia mandado por maior favor d*aq^elle 
Beino, senão somente o de arVimar gente de Castella; e reco- 
nhecendo juntamente que com os cuidados presentes da Monarchia, 
tantos inimigos, e exércitos contra ella, nenhuma cousa podia 
ser tão prejudicial, como sustentar-se esta sisania, e inquie- 
tação — hei mandado prevenii* ao Duque de Bejar, com Dom 
ipiogo de Cardenas, do meu Conselho de Guerra, com a gente 
ãt Estremadura, e ordenado ao Duque de Nájera, e mais Ca- 
yalleria de Coui*aças, Arcabuzeiros e Dragões, na volta de 
Badajoz. 

9 Também tenho ordenado ao Duque de Medhia Sidónia, 
que, com o Marquez de Yalparaizo, se mova para o Algarve 
com a gente de Andaluzia que houver mister, e Cavalleria 
delia, e que em uma e outra parte se ponha tirem de Arti- 



106 LIVRO QUAETQ. 

Iheiia de campanha — e qae todos os postos e Castellos de 
Poi*tagal se guaineçam com Infanteria, bastimentos e munições, 
em toda a forma — que se ponha em ordem minha Casa, a 
Oavallería delia, e das Ordens Militares, e toda a Nobreza da 
ten*a de Mancha, Estremadura, e seus Rijos de Algo, e a do 
Batalhão que está formado para sahir com minha pessoa, e 
que siga ao primeii*o aviso: 

„Que o mesmo façam os quatro Terços Velhos que estão 
em Guipuscua, e todos os Cabeças principaes, Cabos e Offi- 
ciaes reformados de Infantería, Cavallaria e Artilheira, e qae 
se ache em todo este mez em Badajoz: 

„Que o mesmo faça o Marquez de Ávila Fnente com 
a Infanteria e Cavalleria da Costa de Gi'anada. 

„ Também hei mandado ao Capitão Geral de Castelb a 
Velha que se ponha em ordem com toda aquel]a Milicia, 6 
Ai*tilheiia necessária — e o mesmo ao Duque de Bragança 
com a gente que poder juntar. 

„Esta mesma ordem tem o Viso-Eei de Galiza, pelo 
que toca aos confins d^aquelle Eeino — e Dom Lopo de 
Hoses se acha na Coininha com número de trinta a quarenta 
navios de Guenra. 

„E (linda que se conhece que pai'a os poucos Legares 
inquietos em duas Provindas, em Portugal, sobeja muito do 
que está prevenido, pela fidelidade dos bons Vassallos, que 
tenho nesse Eeino, e pela pouca prevenção dos inquietos — . 
se ha considerado que, sendo precisamente necessário aquietar 
os tumultos dos Povos levantados, de aqui ao Natal; e po- 
dendo-se temer que o mau exemplo, empeore cada dia u 
cousas, e cresça a inquietação — convém , que a prerençle ■ 
seja tal que não só remedeie o damno presente, senfto O 
que pôde occasionar á gente ordinária o exemplo dos niÍBB« 

„Estando prevenido isto, resolvi informar-me de tòíi 
do Goveino, do Conselho de Estado, do Duque de Bragaaga» 
dos Fidalgos de Évora, e mais pessoas bem affectas que i^ 
sidem na parte inquieta, que poderão obrar com inteii*a segu- 
ridade, em o dito tempo, tendo as costas seguras, com a gente 
que chegar á raia, porque desejo até ao ultimo ponto, sendo 
possível, que não se obre por outra mão o que se houver de 
executar. 



LIVRO QUARTO. 107 

^Também hei ordenado que se juntem os prémios que 
hão de dar ás Cidades, que hão procedido bem contra as 
)e8taç5es dos sediciosos, 

„Fica ajustado o perdão geral, com excepção das pes- 
8 que não hão de deixar de ser castigadas pelo exemplo 
)lico e authorídade de justiça. 

jyE entre tudo isto, o que faz admiração universal é 
), depois de se haver perdido o Brazil, sendo conquista 
se Beino, com o Governo e Governos que tein havido, não 
sido possível enviar Armada considerável dessa Coroa, a 
bar de o defender e recobrar, estando em diferentes vezes 
relhados muitos navios desta de Castella; e ao tempo de 
aprestar, ficou pelos Ministros Portuguezes em tanto grau, 
>y feita a conta, por esta Coroa de Castella se ha feito 
hSo e meio de gasto, em differentes aprestos para este 
, qne ficaram perdidos, por não haver concorrido a Coroa 
Fortngal. 

„E não havendo remédio para fazer este despacho, se 
tirado da substancia deste e dos demais Reinos meus, 
a pôr uma Armada de vinte Galeões, provida de tudo, 
í custa mais de um milhão. 

E porque não houve quem se encanregasse do apresto 
i Armadas, o ordenei a quem com effeito o fizesse — e 
tempo de se concluii* este e estar para navegar, não o 
rendo feito antes, se levantamm os Povos que se vê, a 
lio de tributos, ao parecer só para estorvar a pai'tida da 
ma4a -r- cousa tão rara, com um exemplo tão extraordi- 
iOy como é que meus Reinos de Hespanha e os demais 
Monarchia, que tanta carga tem sobre si para se livrar 
I inimigos presentes, os accrescentem, para que Poiiiugal 
«B Boas Conquistas — o que os Povos desse Reino se le- 
iteniy porque se põem suavíssimos, para com isto pôr uma 
mnitas pai-tes que dá o resto da Monarchia. 

„E não é muito que admii'e semelhante enormidade, 
B em nenhum tempo se pôde cuidar nem imaginar tal de- 
netração de amor, nem de affecto de tantos Reinos e Pro- 
.cias de Hespanha e fora, que até o dia de hoje não hão 
ebido nenhuma utilidade, assistência, nem soccorro da Coroa 
Portugal 



* I 



108 LIVKO QUARTO. 

„ Tolerando também com dissimulação tão giuves exces- 
sos, encai*reguei se tratasse bem da reducção dos sediciosos^ 
encommendando-a á autboridade da Justiça* 

„E quando vi que esta não era bastante, encarregoflí 
ao Conde Bom Diogo de Castro, Mai'quez de Ferreira, Conde 
de Vimioso, e aos mais Fidalgos de Évora, que assistíndo-i^ 
se executasse o que conviesse. 

„ Havendo respondido elles que suas pessoas sós nk 
podiam fazer sombra á Justiça, no estado em que se achaTU 
as cousas; desejando eu que fosse a mão da Nobreza Porto- 
gueza a que sugeitasse essa abominável sedição — lhes en^ 
caiTOguei levantassem gente com que se sepai'ar a sisania ds 
trigo — em que escrevem acham impossibilidade. 

,,E&tando nisto a matéria, e havendo-se feito por minba 
parte tão extraordinárias demonstrações para reduzir os in- 
quietos por mão dos do mesmo Eèino, sem^ haver deixado dft 
intentar nenhum meio bastante a reprimir esta gente raia 
e inquieta: 

„Eecebi uma carta do Povo de Lisboa, em que, condem- 
nando as inquietações dos Legares levantados, com sumni 
estimação, e confírmando-se em sua lealdade e affécto a mea 
serviço, me dão graças por assistir com vinte Galeões á i«- 
tauração do Brazil. 

„ Juntamente se recebeu um papel, que vos deu o Coxa» 
do Prado, em que, excluindo, pela guerra contra Frasca I 
Saboya, o celebrai*-se Cortes nesse Eeino, propõem o qui 
suppoem ha muitos mezes que vos disse, havendo-o repetid» 
diversas vezes — e é que eu tenha por bem de deixar a esai 
meu Eeino de Portugal todos os effeitos de minha Fazenda 
livres de consignações ordinárias, e as novas composições di 
meia annata, o qual se applique tudo aos soccoitos do Bnd 
— formando-se uma Junta de todos os Tribunaes, que wê 
consultem três Fidalgos, naturaes desse Eeino, que em yoflfli 
presença se juntem cada dia a tratar da recuperação de Fv* 
nambuco, e demais Conquistas, e a disposição da cobranfii 
paga dos effeitos referidos — entrando em arca separadai dl 
donde se não tire um real sem ordem da Junta^ que me iii 
dando conta do que se fôr dispondo, e tomando as ordens dl 
que mais convier — que tudo isto é conforme aos priyil0gkl 
do Eeino, e ás condições com que Lisboa e outros Loguv 



LIVEO QUARTO. 109 

acceitaram o Beal d^Agua, e crescimento da quarta parte do 
Oabeçâo: 

i ^Qdo de não se fuzer isto resulta a queixa geral qu« 

íia: e pode ser que as inquietaç5es; pois havendo os Povos 

eoncorrido de sua pai'te com tudo o que nesta se lhes ordenou 

•té agora, não entra o que resulta da extraçao do sal na arca 

destinada para estes gastos; e que, ainda que os que bem 

[intendem, julgam que é muito mais o que gasto nos vinte 

laTÍos com que assisto á recuperação do Brazil, é tal a des- 

I confiança do Povo, que não admitte razão, e só quer os deixe 

^com o cabedal do Beino, para que se gaste na gueiTa a que 

dles acudirão. 

„0 Conde considera esta proposta por mui de meu ser- 
viço, e mui em favor desta Coroa de Castella, pois, não gas- 
tando com a de Portugal, fica por conta dessa Coroa tudo o 
que fôr necessário — em que parece não pode haver fallencia, 
porque o Beino tem mui presente a importância da restauração 
de Pernambuco — e quando vejam que se vai gastando o que 
falta, ninguém escusará o dal-o, e as repartições se farão com 
conísentimento e gosto — e se tomará a aceitar o Beal d^Agua, 
e disporá tudo como convém — ) e que achando- se com vinte 
e cineo Galeões aimados a Coroa de Portugal, e restaurado o 
Brasil, poderão passar ás índias de Castella, ou ao Canal de 
Inglaterra; e juntando-se com os navios de Dunquerque, fazer 
C^erra ao Olandez, e obrar outros effeitos que promettem o 
yalor e lealdade dos Portuguezes. 

,,Qne na disposição destas mateiias, ha outros pontos 
particulares, que se poderão dispor no Brazil e Maranhão, 
gente que poderá sahii* das Ilhas, e outras prevenções, de 
enxárcia, breu, pólvora e armas, que se podem fabricar em 
Portugal, a pouco custo, com grande utilidade da Monarchia, 
que, por falta de cabedal se deixa de executar; e estando á 
conta do Beino, se fará com grande commodidade e abundân- 
cia^ o qnal se poderá tratar a seu tempo: 

,Qne também é necessário que mande se trate do de- 
Bempenho das tenças, applicando a elle as Commendas vagas, 
e que vagarem e os próprios de minha Fazenda, e alguns 
oflRúos que não sejam de Justiça, e outras mercês da Oorôa, 
qne pertendem muitos que tudo se pode applicar a este de- 
sempenho, que assim se me propoz, quando a imposição do 



. 



110 LIYKO QUARTO. 

Real d' Agua, e debaixo desta condição se concedeu — com 
que em breve tempo se desempenhará minha Fazenda, e ficaiá 
em estado que possa valer-me delia em outras partes; p<Hs é 
certo que, recuperado o Brazil e as Conquistas, crescerão muito 
todas as rendas Beaes. 

„E que isto se conseguirá em breve tempo, segando o 
estado das cousas; porque, havendo o inimigo tomado tantu 
praças em Peraambuco, e achando-se com gente tão poaca 
que não passa de seis mil homens para as conservar, é forp 
que as desampare, apertando-o com uma Aimada grande e ' 
soccorros continues: 

„E que, conformando-me eu com o que propõe- o Condí^ 
convirá escrevel-o ao Senado da Camai*a de Lisboa, favore- 
cendo-o e honrando-o, como se deve, pelo amor e lealdade con 
que sempre me serve: 

„E com a copia de minha resolução, aquelle Senido 
escreverá ás demais Camarás principaes do Beino, encami- 
nhando-as a que me agradeçam o favor que lhes faço, e a 
que tornem a assentar as imposições do Beal d' Agua, e quarta 
parte do crescimento do Cabeção, que a seu sentir é o miio 
mais efficaz para que se soc^ue tudo. 

„E sondo meu animo que a quietação desse Beino M 
procure por todos os meios que poderem escusar os extremoi 
a que obrígam o estado em que hoje se acham os Povos 
levantados; e reconhecendo juntamente que o que o Povo de 
Lisboa me escreve não é conforme ao que me propSe o 
Conde, em meio da duvida que se offerece ver que qoem 
preside na Camará de Lisboa se aparta do sentir do Poto, 
que parece reconhece a suuima conveniência de que CasteDa 
lhe assista á recuperação e conservação de suas ConqoiatMi 
havendo gastado tão grandes sommas, em aprestos para isto^ 
ainda que inutilmente, por defeito das disposições dos Ministros 
Portuguezes, a que não equivale com muita mais qnantidadi 
o que ha montado a extracção da sal: 

„ Sendo certo que não haver vindo eu desde logo em qw 
corresse esta administração como renda de Portugal, há éb 
por deter as instancias que justamente me fariam os mais 
Beinos de minha Monarchia, pois com razão me poderiam if* 
presentar que, tirando os inimigos communs, do sal qai «- 
trahem; cabedal considerável, só em benefício de Portugll} 



LIVRO QUARTO. 111 

iCQnào com isto suas forças, os obrígam a maiores tiibutos, 
a se defender delles, sem reparai* em qae de suas contri- 
tos, e sangue de seus naturaes, se tomam e hão tomado 
tidas tao gi-aníles para defender suas Conquistas, sem ne- 
ima utilidade sua, por os não admittir a nenhum género 
açcrescentamentos nessa Coroa — quando nos de Castella 
emais Reinos de minha Monarchia occupam os Fortuguezes, 
seus Conselhos, em minha Casa e em outras partes, postos 
ndes — sem que deixem de significar-me que a descon- 
içSo que nisto recebem é grande; 

,E os Tribunaes que em minha Côii;e representam 
éllas Provindas, hão tratado de que se faça viva instancia 
ágo para o remédio: 

«E que, pois não querem participar aos demais de seus 
cios, mercês e honras, os escuse de contribuir para a Coroa 
Portugal, applicando para suas Conquistas o que se reparte 
re os naturaes desse Reino, a titulo de bens da Coroa, pois 
meus; e a gratificação e benefcio que recebem nisto, in- 
iparavelmente mais que o que consegue por via de mercê, 
) e restante de meus Reinos; desobrigando-os tanto a se- 
açâo com que vivem dos demais, sem assistir a nenhuma 
sa.de sua conservação e defesa, nem achar a correspon- 
da que se lhes deve, nem a que acham ,em qualquer 
do meu, e ainda nos Príncipes neutraes, sendo tanta a 
urença da obrigação destes a um Reino próprio meu, unido 
dinha Monarchia inseparavelmente — deixando elles a re- 
eraçSo de ten-as de seu próprio dominio, e particularmente 
tella a Virgínia e Ilhas de balravento, e outras praças 
ha occupado o inimigo, sem cessar de infestar suas índias : 

„E com o que dá para Portugal, para recuperar suas 
i<qiiistas perdidas, como se sabe, enfraquece suas forças, sem 
ur em nada género de correspondência. 

„E eu, pelo amor que tenho .a essa Coroa, e particulari- 
9 com que hei desejado e procurado seu bem, hei ido tem- 
indo todas estas instancias tão bem fundadas, e particular- 
ite dos Reinos da Coroa de Aragão, que julgam por cousa 
i que, não tenSo Portugal união com Castella, com quem 
)m, nem com elles, sirvam parte de suas rendas e serviços 
k assentos de Ai-madas, com que se assiste a Portugal — 
lais quando se acham accommetidos de Francezes, em suas 



112 LIVRO QUARTO. 

próprias ProTinciaSy como são Catalunha e Sai'denlia, sem esperar 
de Portagal nenhum homem, nem nm real de soccorro. 

„Nâo posso negar que a força destas considerações m'a 
fazem grande, para a conta que se deve ter a representardes 
tao vivas e fundadas, como podem fazer todos meus Rehios 
— mas o olhar a esse, não só como Rei, senào como Pai, o 
qoe desejo escusar-lhes a nota, é causa que haja querido que 
se intendo nelle o que escreve o Povo de Lisboa e o Conde 
do Prado, para que se considere qual peza mais para sua 
conveniência, no caso presente, e os que podem succeder ao 
diante; não podendo negar que, se bem me ajustarei no estado 
presente, ao que parecer a todos, sendo justo, efifectivo e Ins- 
tante, para recuperar o perdido de suas Conquistas ; por escor 
sar a nota de entrar armas de fora a castigar esta desobe- 
diência: 

,,Não parece que ao discurso oferecia cousa comparável, 
o papel do Conde de Piudo, á carta do Juiz do Povo, nm 
em todo, nem em pai-te: 

„ Porém, communicando-se com os Tribunaes todos e C^ 
maras obedientes , se me responderá com summa brevidade, 
porque os accid entes de fora de Kespanha, a que eu não posso 
faltar, pedem que isto se conclua a toda a pressa. 

„E se bem intendo que a Junta que suppoem o Conde 
do Pmdo, de ties Fidalgos do Reino, ó pai-a que fíque á mmha 
nomoâçõo os que hão de ser, consultando-me os Ministros, pois 
de ouira maneira bem se vê que nao era eleição que me devia 
propor tal Vassallo. 

„E que ainda nesta forma se deve reparar muito, como 
se reduz só. a um Estado, havendo de ser as contribaiçdes 
geraes, em que o Ecclesiastico não quererá ficar excluído^ nem 
seria razão o fosse o Povo, que é o que leva a maior carga 
nos tributos. 

,, Demais de que, sem concurrencia de Ministros mens de 
Justiça, a quem assiste a maioi authoridade, pelo sen minis- 
tério, e a quem incumbe a administração da Justiça^ teria 
dif&cil execução e differente respeito o que se obrasse — me 
ha parecido adverti-vol-o : 

„E que não pode chegar a mais minha clemência, que • 
deixar ao mesmo Reino, precedendo consulta dos Tribnniei 



LIVRO QUARTO. 113 

le e Gamaras obedientes a eleição do meio de maior satis- 
ao, como seja effectivo e bastante para que essa Coroa possa 
aperar snas Conquistas — crendo que a ingratidão dos mal 
mcionados supprirá o affecto dos leaee, reduzindo-se a ma- 
8 aõ estado que tinha antes da sedição do^ Povos inquie- 
, e com o exemplo que é justo, e que tanto importa á sua 
pria honi*a e reputação.^ 



Os tríbmiaes foram ouvidos começando pela Meza da 
Lsciencia. Não vimos os seus pareceres, mas provavelmente 
iam, como outros que costumam dar certas corporações que 
devem á rotina a sua existência, mais de forma e de pala- 
s banaes que de sustancia e de responsabilidade, como pedia o 
» ; pois deviam começar por confessar á Côi*te que a razão 
descontentamento dos pçvos era a mesma Corte, origem 
es; e que os HoUandezes não os hostilisariam, se tivessem 
ro reL 

Além de quê, no Reino' nenhuns tributos chegavam; 
qae havia muitos abuzos e muitos disperdicios, de modo 
^ mais que novos tributos, se fazia necessária a installação 
um systema económico, começando-se a refoima pelos indi- 
los dos próprios tribunaes cujos pareceres se pediam. 

Os cargos, piincipalmeute dà Eazenda, se proviam mais 
i qualidade e influencia da parentela dos agraciados do que 
i sua capacidade; e nas accumulaç5es havia tanto abuso 
alguns mal podiam desempenhar todos os cargos que reu- 
n; e neste número entrava o Presidente da Junta do soc- 
ro dó Brazil, e vários dos seus membros. 

Assim pois, em quanto em Portugal se consultavam os 
Dceres de tribunaes, e as sempre morosas juntas pouco adi- 
ivam, por que de ordinaiio não fazem mais que assignar 
rabalho de um só, que alias o activa e apura menos por 
• que não recebe integras para si, nem a responsabilidade, 
L a glória, e em quanto os povos continuavam desconten- 
attribuindo, como era razão, a origem de tantas calami- 
es á sua união com a coroa d'Hespanha, os HoUandezes 
mostravam cada vez mais empenhados em que -fosse prote- 
i pelos Estados Geraes a nova conquista em Pernambuco, 

8 



114 



LIVRO QUARTO. 



e como povo essencialmente pratico, como todos os que são 
mais feitos ao mar que á terra, aparelhavam uma esquadra, 
organisavam um pequeno exercito auxiliar, é modificavam o 
systema de governo da mesma conquista, concentrando toda a 
autoridade em poder de um só chefe." E este chefe era nada 
menos do que um Príncipe que aos mais qualificados dotes de 
capitão prestigioso reunia os de prudente juiz e honrado ad- 
ministrador. 



LIVRO QlINTO. 



DESDB A NOMEAÇÃO DE NASSAU ATE A AGCLAHAÇAO DE JOÃO 4^ 



Nomeação de Nassau. — Três Conselheiros supremos. — Conselho 
Politico. — Eegimento do Governo. — Chegada de Nassau. — 
Elogia o paiz. — Como encontra o Eecife. — Organisa um exer- 
cito de operaçSes. — Marcha para o sul. — Bate a Bagnuolo 
junto a rorto-Calvo. — Toma esta paragem, capitulando Giberton. 

— Segue até o rio de S. Francisco. — Erro em nao haver pro- 
segnido até a Bahia. — Begressa ao Eecife, mandando a frota 
crasar para o sul. — Lichthardt incendêa Camamú e desembarca 
nos Ilhéos. — Yota-se Nassau á administração. — Falta ao capi- 
tulado com os moradores. — Enérgico protesto de Duarte Gomes. 

— Melhora Nassau o Eecife. — Duas Pontes. — Palácios. — 
Fortificações. — Pintor Post. — Litteratos Plante e Barleus. — 
Piso, Margrav e Euiters. — Escabinos. — Escultetos. — Brazdes 
a quatro províncias. — Occupaçao da Mina e do Ceará. — Defende 
Nassau a liberdade do commercio. — Visita os territórios até o 
Bio-Grande. — Avança Schkoppe até Sergipe. — Bagnuolo se 
retira á Torre de Garcia d'Avila. — Schaap bloquea na Bahia. 
-T- Noticias que recolhe. — Por ellas decide Nassau o ataque da 
Bahia. — Entra no porto. — Desembarca. — Acode Bagnuolo 
á cidade. — Sitio desta. — Ataques mallogrados. — E' levantado 
o sitio. — Eecompensas. — Considerações. 



Alguns grandes inconvenientes que a metrópole hollan- 
deza havia notado pela falta de unidade no governo da sna 
nova Conquista e a certeza de que taes inconvenientes se fa- 
riam mais sensiveis agora que a mesma Conquista so havia 

8* 



116 LIVRO QUINTO. 

extendido tanto e ia cai*6cer de maior guarnição e de nm 
maior número de empregados, fizera nascer na mesma metro- 
polé a idéa de confiar delia o mando a um chefe superior de 
prestigio, com a autoridade e titulo de ^governador capitão 
general e almirante de terra e mar,^ sendo auxiliado pelas 
luzes de três conselheiros supremos intimes, cujas reuniões 
presidiria, com voto de qualidade em caso d'empate. Além 
deste conselho supremo, haveria outro Coi;iselho Politico, de 
nove membros, que seriam empregados como auxiliares em 
vários ramos da administração. Ao pensamento desta nova 
organisação se associou, desde logo, a idéa de que o chefe 
mais a propósito seria o Conde de Nassau, João Maurício, 
piimo do Stadthouder Piincipe d'Orange, e de que, como 
conselheii'OS Íntimos, deviam ficai*, os dois que já estavam, 
Ceulen o Gysselingh, agregando-se-lhes um novo, Adiian vau 
der Dussen. No dia. 2 de Agosto de 1636, foi a offerta 
feita a Nassau, para durar cinco annos '), com a retrihuiçao 
de mil e duzentos floiins por mez e 2 por % de todas as 
prezas ; e sendo a mesma offerta por elle aceita, se. tratou de 
redigh', com sua aquiescência, um regulamento para o governo 
da colónia, constante de 99 artigos, que leva a data de 23 
desse mencionado mez d^agosto. ^) 

Por esse regulamento Nassau foi autorisado a preencher 
os portos militares quando estivesse em campanha, devendo 
ser conferidos pela junta ou concelho por elle presidido os 
empregos civis não providos da metrópole. 

O Conde de Nassau chegou ao Becife aos 23 de Janeiro 
de 1637. Alojou-se na ilha de Santo-Antonio ou Antonio- 
Yaz; e dez dias depois dahi escrevia q^ue encontráiti ^o paiz 
dos mais bellos do mundo, e á situação daquella pi*aça bas- 
tante forte e vantajosa." 

Ainda então o povoado do Eecife, propriamente dito, 
era mui limitado; e em metade proximamente do seu solar, 
da banda merídioual, não havia nenhuma casa. Estava entre- 
tanto bem defendido por uma trincheii*a levantada fora das 
ultimas casas do lado do isthmo, e mais adiante pelo forte 
triangular de S. Jorge e pelo do Brum, com seu competente 



*) Off. de Nassau de 10 de Janeiro de 1641, in fine. 
«) Groot-Ptacart Boeck de 1664, P. 2.'* p. 1247. 



LIVRO QUINTO. 117 

revelím^ tendo pov avançada o Buraco, então chamado Madama 
Brom. Â ilha que hoje constituo o baiiTO de Santo- António 
tínhOy por fora do convento dos capuchos, um recinto de três 
frentes, com dois baluartes e meio ; e, pai*a o lado do palácio 
actual, o forte Ernesto, abaluartado, com um reduto avauçado, 
e mais adiante o forte ilhado de Weerdenburgh, na A^seca. 
Para- a banda da terra fíime ou actual baiiTO da Boa-Vista, 
estavam, mais além de uns alagadiços, três redutos, dos quaes 
o nltimo ia cruzai* seus fogos com o forte das Cinco Pontas, 
denominado de Fi-ederico Henrique. Tinha este, assim como 
o sea revelim e hornaveque, os fossos aquáticos. 

Tomando conta do governo, Nassau não tardou de or- 
ganisar nm corpo de tropas para a frente delias sair a campo. 
Esse corpo de tropas chegou a subir a três mil soldados, oito 
centos maiinheiros armados e seis centos índios e pretos. 

Com uma parte desta força, ás ordens de Sigismundo 
van Schkoppe, mai-chou Nassáu por terra até a foz do rio 
Una; seguindo outros, ás ordens de Arcizensky, embarcados 
até a Baii-a- Grande. Chegaram estes * últimos ao dito porto no 
dia 12 de Eevereii*o; e ahi esperaram que Nassáu passasse o 
Una, dali cinco léguas, no dia 16. — No dia 17 as duas 
ti'opa8, pondo-se de accordo, seguiam para Porto-Calvo, onde 
Bagnuolo se achava em força que não chegava a quinhentos 
homeos. 

Soube Bagnuolo mui a tempo que as forças inimigas 
eram mui superiores e que lhe seria impossível obter sobre 
ellas vantagens em uma acção campal. Parecia pois natural 
que tratasse de evitar esta, destacando, como antes, guerri- 
• lhas, que fossem pelos sertões incommodar o inimigo e ame- 
açal-o pelo flanco e retaguarda. Em vez de seguir este plano, 
Bagnuolo propoz-se a defender Porto-Calvo, encurralando-se 
em dois redutos, ficando elle em um, e confiando o outro ao 
* commandante da artilhería Miguel Griberton. Por excesso de 
precaução começou a mandar retirar para as Alagoas alguma 
roupa e bs^agem, com o que contribuiu desde logo a intro- 
duzir, entre os seus, certa desconfiança, principio de des- 
momíisação. 

Constando-lhe que se aproximava Nassau com gi-ande 
força, não se atreveu a esperal-o com firmesa nos fortes em 
que se entiincheirára ; e, a pretexto de o mandar reconhecer, 



118 LIVRO QUINTO. 

destacou a encontral-o, ás ordens do sen immediato Almiron, 
um corpo de mais de oito centos homens, incluindo os índios 
do Camarão, em número de tresentos, e a troça de Henrique 
Dias, de oitenta. Deste modo nem ao menos alentava os seus 
dando-lhe o exemplo de ser o primeiro a afrontar o perigo. . 
Tão cauto se mostrou a este respeito por vezes' o mesmo 
Bagnuolo, que parecia ou temer as balas, ou julgar' a- soa 
vida muito essencial para o êxito da guerra, ou ter falta de 
valor para tomar sobre si, sem compartilhar com outro, a 
responsabilidade de qualquer revez. 

Avançou Almiron para o lado d'onde sabia vir o inimigo. 
Chegando á margem do Comendatuba, imaginou que ali o 
conteria, levantando uma estacada, com os flancos apoiados 
em dois entrincheiramentos semelhantes, avançados» 

A' boca da noite apareceu o inimigo coroando as alturas 
pela frente, e no dia seguinte ao amanhecer, depois de observar 
bem todo o acampamento, dispoz-se ao ataque. 

Ordenou que os seus índios fossem, escondidos pelos 
matos, contomeai* os nossos pelos flancos, passando o rio 
acima e abaixo do acampamento. E apenas notou que os 
mesmos índios haviam ja introduzido confusão, ordenou ao sea 
regimento que atacasse pelo flanco esquerdo. A peleja doroa 
mui pouco tempo. Os nossos começaram a fugir pelos 
montes que tinham á retaguarda e que conduziam á pov.oaçSo 
ou ao caminho para as Alagoas, que alguns logo tomaram. A 
maior pai*te das tropas do inimigo, incluindo os marinheiroè 
todos, nem no fogo entraram; de modo que a sua perda nâo 
passou de seis moi-tos e trinta e cinco feridos ^), sendo a dos 
nossos muito maior, pois eram fuzilados quando corriam pelo 
monte acima. Almii*on deveu o não perder-se ali de todo aos 
actos de bravura que praticaram alguns dos chefes subalternos, 
como Francisco Eebello e Henrique Dias. Este último chefe 
foi nesta occasiao, por sexta vez nesta campanha , ferido de 
bala, que lhe acertou no punho esquerdo, occasionado-lhe a 
perda da respectiva mao, que veiu a ser-lhe amputada. F. Post, 
que acompanhava a Nassáu, eternisoii esta victoria do sea 
heroe em um bello quadi*o que foi gravado em 1644 e se acha 
na obra de Barleus. 



*) Em mais de lõO homens avaliou .\Jbur]ucrque a perdji do 
inimigo. 



LIVKO QUINTO. 119 

Depoia. desta derrota^ Bagnuolo, em vez de passar a 
a^tresentar de novo resistência nos dois postos que do ante- 
íúS/o preparara em Porto-Calvo, ficou tao acovardado, que re- 
solveu ©mprehender nessa mesma noite uma vergonhosa fuga *) 
para as Alagoas, abandonaudo um dos ditos dois postos, sem 
dar nenhum aviso aos que guarneciam o outro, ao mando de 
Giberton. 

l>íassáa, depois de* mandar perseguir até duas léguas 
a retaguarda de Bagnuolo, fazeudo ainda alguns prisioneiros, 
tomou posse do forte abondouado. cujos três canhoos começa- 
ram logo a disparar, contra o outro. Informado porém de que 
tinha diante de si no outro forte um soldado valente e expe- 
rimentado, resolveu pro^eguir com tento. Estabeleceu uma pa- 
ralella do lado de leste do forte, e, por meio da sapa foi 
avançando até o sul delle ; comettendo a' Schkoppe que avan- 
çasse por dentro da povoação, e ao abrigo delia, desde a 
igreja parochial, onde estabeleceu baterias de bater; e rocom- 
mendando a Lichthardt que guardasse a retaguai'da, occupando 
o ponto de juncçào dos dois rios que cingem a* Porto-Calvo. 

Ao cabo de treze dias de sitio, em 4 de março, Nassáu 
escrevea a Giberton em francoz: „ Senhor: por sabei; que sois 
tão grande soldado, nao vos quiz render sem assestar primeiro 
baterias contra vós .... Bem conheceis que vos nao podeis 
sustentar . . . • Vosso muito affeiçoado Joáo Maurício." 

Julgou Giberton dever submetter-se á capitulação, e no 
dia 5 ') de março se entregou com as honras da guerra, 
juntamente com oito capitães, tresentos soldados hespanhoes e 
cento e dez italianos, sem contar os doentes e feridos, os 
c[naes todos foram transportados para a ilha Terceira. — 
Com a rendição do forte adquiriu o inimigo sete bandeiras, 
vinte 6 dois bellos canhões de bronze, além de outro3 do 
íérrp, quatro grandes morteiros e muitas munições, incluindo 
quinhentas toneladas de pólvora ^) ; pois que nesse local havia 
Bagnuolo feito reunir todos os depósitos, julgando-o mais 



*) E' a expressão usada por Barleus. 

•) Nassau, segundo uma copia da carta do 8 de março que se- 
guimos, diz que a 3 ; mas pode ter havido engano. Freforimos 
a versão das Mem. Diárias. 

*) Carta de Nassau escripta de Porto-Calvo om 8 de março 
de 1G3T. 



120 LIVRO QUINTO. 

defensável, como o teria sido, se não se retira, desmoralissmdo 
os que deixava sós em presença do inimigo. 

Animado por tao fácil victoria, não podia Nassau dar 
ferias a aproveitar-se da estrella que tanto para elle brilhava. 
Destacando para o sul por terra a Sigismundo Schkoppe, com 
alguma força, foi elle, com outras, embarcar-se na Bam- 
Grande, donde passou a desembarcar em Jaraguá ^); e dahi 
seguiu por terra ate o Rio de S. Francisco onde ckegoa a 
27 de março. 

Ahi fez construir no morro que domina a povoação do 
Penedo (de S. Pedro) um forte, a que deu a nome de Mau- 
ricio, e pela mesma occasião dispoz que, por meio de outros 
postos, fosse occupada a margem do grande rio, que por 
então escolheu por fronteira das suas conquistas, — e qae 
ideou coloniear em grande, de modo que, no proseguimento 
dessa idôa ainda, cinco annos depois, teve que voltar de novo 
a visitar este districto. 

Bagnuolo foi-se retirando ou antes fugindo até S. Ghrís- 
tovam de Sergipe, onde chegou no último de março; e nem 
ahi pararia se Nassau não se houvesse proposto a nSo ex- 
tender-se além do mesmo rio de Sam-Francisco ; do qae 
muito se arrependeu depois; accusando-lhe mais tarde *) a 
consciência que se tem desta vez continuado a perseguiçio 
de Bagnuolo, houvera até chegado a assenborear-se da Bahia. 
Em vez disso Nassau, ordenando a retirada para a Hollanda 
do polaco Aixizeusky, ao parecer por Dão estar com elle em 
boa intelligencia, confiou a Schkoppe a guarda da frontdn do 
Sam-Francisco, e dispondo, por dar alguma oceupação á ei- 
quadra, que Lichtbardt fosse cruzar para o sul, regressou ao 
Recife a entregar-se a regulariéar a administração do paii. 

Lícbhardt, por sua parte, tratou de fazer aos nossos o 
mal que poude. Fez avarias contra vários barcos do commec^ 



') Em Barleus se lê erradamente Sergo83; mas mais adiante, 
ao enumerar os portos, escreve correcto dizendo (no acconr 
tivo) Jaraguam. 

") Le Comte de Nassau après avoir pris Porto-Calvo se repro- 
chalt de ne pas s'étre porte sur Bahia, comme AnHibal à 
Cannes." (Aug. do Gvclen, Brieve Relation de TEtat 
de Phernambvcq, &c., Amsterdam, Clicz Louys Elzevier, 
1G40; 17 pag. alem da introd. [F. Deuis]) 



LIVRO QUINTO. 121 

do da Bahia, padsou a Baquear e incendiar a Gamamú ^) e 
chegou a effectuar um desembarque na villa dos Ilheos e a 
saqnael-a. Com o que, indignados os habitantes se alçaram, 
fuendo do invasor atroz carnificina, e obrigando-o a recolher-se 
108 seus barcos. 

Na capital dedicou-se Nassaa com empenho aos assump- 
tos do governo, e a fazer prosperar o Estado. Conciliando a 
aereridade com a prudência, conseguiu que todos os magis- 
trados e empregados cumprissem com os seus doveres, pre- 
miando 08 bons, corregindo e estimulando os tíbios, e dimit- 
tindo 08 incorregiveis. Dest' arte restituiu á religião o de- 
vido acato, á lei e ás autoridades o necessário respeito, e deu 
A todos tranquilidade e segurança ; e procurou assentar as bazes 
da organisaçao de uma nova sociedade livre, formada de ele- 
mentos differentes, mas gosando todos de idênticas immuni- 
dadea Beorganisou os hospitaes, attendeu aos orfaos, e des- 
pedia os índios, para que fossem cultivar a terra. Igualmente 
mandou pôr em leilão os engenhos abandonados por seus se- 
nhores, alcançando por esse meio a dupla vantagem de serem 
08 mesmos engenhos de novo restaurados, e de ficar ao fisco 
o valor das vendas. 

Aos antigos colonos que se haviam snbmettido, ou se 
qniieesem submetter, assegiirou o maior respeito á proprie- 
dade, tanto nos bens, como nos escravos; cohibindo porém 
que asassem com estes de rigorosas sevícias. 

Empenhado entretanto em crear certa homogenidade no 
estado, ordenou que tudo se decidisse conforme os leis hoUan- 
deias, introduziu os pezos e medidas de Amsterdam, e pro- 
hibia BO clero o prestar obediência ao Bispo da Babia, exi- 
gindo que os moradores corressem com os gastos do respec- 
tivo enlto. 

Foi então que o velho Duarte Gomes da SiWeira (que 
na Farahiba tanto contribuirá a que os moradores se sujei- 
tassem ás Capitulações, de que em outro livro tratámos ') 
levantou a voz, dirigindo, em data de l."* de Junho, uma 
enérgica representação aos Estados Geraes, pedindo-lhes não 
fossem os moradores obrigados a mais contribuições que antes, e 



') Canianiu escreveu erradamente Barleus. 
») Vej. aute pag. 83. 



122 LIVRO QUINTO. 

rogando lhes dessem sacerdotes catholicos pagos ; pois sem eQflS 
uão podiam cumprir os deveres religiosos, nem gosar da ]i\itxr 
dade qne sobre isso lhes fora aâançada. 

As justas súpplicas de Duarte Gomes nao foram oavidas, 
mas archiyaram-se : e archivadas permaneceram até nossM 
dias, e serão por toda a eternidade um protesto contra os 
quebrantadores da fé publica; protesto, ao qual nos assod»- 
mos a gritos, ao notar que a constância do mesmo Daartft 
Gomes, de Ârnáu de Olanda, de Francisco Berenguer de An- 
drada, de Bernardim de Carvalho e de outros illustres Per- 
nambucanos, em reagir contra a injusta violência, ch^a a 
ser classificada de revolucionaria, pelo que o primeiro foi, ja 
octogenário, mandado encerrar no forte do Cabedelo, e ob 
demais uns igualmente presos, e outros deportados. 

Queriam os do Conselho que a capital batavo-pemam- 
bucana se transferisse para a ilha de Itamaracá, imaginando 
por ventura que ali estada mais segura contra qualquer ataque. 
Predominou porém contra tal projecto o voto de Nassáa, de 
deixar a sede do governo no mesmo logar em que estava, 
na ilha de Santo-Antonio ; reforçando-a por novas fortificações, 
e unindo-a, por meio de pontes, ao Eecife e ao Continente, e 
construindo mais adiante os edifícios necessários. 

Ainda que todas estas obras foram sendo successivamentcf 
executadas durante es oito annos de seu governo, para não 
cortar mais ao diante o fío da narração, nos occuparemos 
desde já por uma vez delias e de outros pormenores da ad- 
ministração. 

A conclusão das duas pontes, uma da ilha para o Be- 
cife, onde ainda se acba, ^) e outra da mesma ilha para o 
Continente, um pouco mais acima do logar em que hoje se v6 
a existente, ambas com capacidade para passarem até carros, 
apresentaram ua execução, em consequência da rapidez da cor- 
reute nas vasantes, dificuldades grandes, que não se houveram 
vencido a não ser muito ajudadas pelo empenho que nisso poi 



*) Na que dava para o Eecife se via nao ha muito a seguinte 
inscripçâo : 

Fundabat nje illustrissimus heros Joannes Mauritius 
Comes Nassoviae etc. : dum in Brasilia terra supremum 
Piincipatum IinpBriumque teueret. Anuo Dui MDCXXXX. 



LIVrÒ quinto. 123 

issán, assistindo pessoalmeute ás obras e até adiantando 
ndoB para o seu acabamento. 

A parte septemtrional da ilha de Santo- António, (no es- 
ç6 qae -hoje occupa o palácio do governo, o theatro e a 
ftça), reservoa Nassáu para a sua residencii, a que deu o 
me de Vrijburg. Ficava, como uma espécie de cidadella, 
larada do resto da ilha por fossos aquáticos, defendida na 
nte pelo conváito dos capuchos já bem fortificado. Todo o 
4} espaço era occupado não s6 pelo palácio de residência, 
n duas altas torres como de igreja, com frente para o Ke- 
e, isto é para o mar^ donde se avistavam na distancia de 
M a sete milhas e serviam de baliza aos navegantes, como 
mbem por um espaçoso quintalâo, com ruas de coqueiros ou 
Imeiras, trasidas já grandes, em numero de setecentos, dos 
redores; com viveiros para peixes, bananal, pomares de es- 
nho e de outros fructos, ^) etc.< 

Quando Nassau tomou posse do Governo, havia na ponta 
» norte da ilha apenas um pequeno reduto, companheiro de 
Ltros três que para o lado de terra faziam como uma linha 
terrompida, cuja esquerda se apoiava no forte das Oinco- 
ontas, e ficavam alem de uma esguia camboa (que vinha 
laâ desde Palácio até o forte das Cinco-Pontas) e vários 
larcoa, que mediavam na ilha desde este último forte até 
)Í8 grandes revelins, que haviam sftlo construídos no centro 
% mesma ilha ao lado do forte Ernesto. 

Nassáu reduziu a uma só praça abaluartada todo o espaço 
esde o mesmo forte Ernesto ao das Cinco-Pontas, convertendo 
111 fossos aquáticos a camboa e os charcos que ali havia, 
profandando-os n'uns logares e entulhando em outros etc. 

Além disso prolongou esse fosso até* os Afogados, apro- 
eitando as suas terras para um marachão ou aterro, do lado 
o mar, que servia ao mesmo tempo de estrada ou caminho 
úUico. 

Alem do palácio de Vrijburg, com frente para o 
lar e um cães para essa banda, fez Nassau construir outro, 
om o nome de Boa-Vista, com a frente para o continente. 



>) Segundo Bailéus, que dá também o numero das outras ar- 
vores, a saber: 250 larangeiras grandes, 58 limooiros, 80 li- 
meiras. 80 romanzeiras, e GO figueiras. — Veja também Calado 
pag. 53. 



124 LIVRO QUINTO. 

e situado â direita do encontro da ponte que para o meemo 
continente commuDicava. Era um edificio quadrado, com sob 
janellas por frente, tendo em cada canto um pavilhão qae re- 
matava em coruchéo. No centro deste edifício se elevava 
outro, também quadrado, de mais dois andares, com tr« 
janellas de frente em cada andar. 

Desfarte se viu, como por encanto, durante o governo 
de Nassau, levantar-se na ilha de Santo-Antonio um novo bairro, 
tendo pessoalmente o mesmo Nassau o cuidado de traçar • 
alinhar as mas ^). 

Por todo o Brazil não houvera anteriormente obras tio 
consideráveis, e tão habilmente executadas ; nem podiam enooi- 
trar-se para as taes obras melhores engenheiros do qae lia Hol- 
landa, que á sciencia hydraulica deve a existência de algumM 
de suas províncias. As obra? públicas emprehendidas levavaa 
em si mesmas o cunho da boa administração ; e essas paginu 
do livro da civilisação de um paiz que primeiro lê o forastiíro^ 
eram em Pernambuco todas em abono do chefe hoUandaL 

E não só a architectura foi protegida por Nassau, como 
também a pintura; e de seu tempo são talvez os primeiroi 
quadros a óleo, que do natural se fizeram acerca de assnmptoB 
do Brazil, e talvez da America. Francisco Post, irmão do 
mencionado architecto, e« ambos filhos do pintor de vidraçai 
João Post, de Harlem, fora o individuo a quem Maurício de 
Nassau escolhera para trazer comsigo. — A elle se devrai 
muitos desenhos de paisagens e marinhas que ornam as obru. 
hoUandezas contemporâneas : e nas estampas da obra de fia^ 
léus 86 vê algumas vezes sna firma. — Nos museos da Hol- 
landa e nos de Hamburgo, Berlim e Praga, se conservam ainda 
quadros que pintou, dois dos quaes passaram á Baviera, 
e ahi se guardam ^); e naturalmente outros países e esboços 
se vêem na preciosa collecção de uns mil quatrocentos e ses- 
senta desenhos originaes do Brazil, que (em quatro volumes) 



*) Calado, p. 52. 

') Martins : Versiich cines Cominentars úber die Pflauzen in den 
Werken von Marcgrav uiid Piso, etc. Miiiichen, 1853,- p. 9. 
(Aus den Abhandluugen der k. bayr. Akad. II. cl. VII. Bd. 
I. Abth). 



LIVRO QUINTO. 125 

esBtem na bibliotheca real de Berlim, por haverem sido cedi- 
dos por Maaricio ao Principe Friderico de Brandebui*go ^). 

Da littera^ura era cultor (não falando de Barleus, que 
mnica foi ao Brazil) Francisco Plante, capellâo de Nassau, 
6 aator de úm poema em latim a este dedicado, que depois 
le publicou '). / 

Foi porem nas sciencias que se fízeraiii mais recommenda- 
Teis 08 serviços prestados pela influencia de Mauricio de Nassau 
no Brazil. O seu sábio medico Willem Piso , angariara 
parik o acompanharem dois jovens allemães: um mathematico 
H. CralitZy e outro botânico G. Marcgrav. — Infelizmente 
Crálitz fallecen, pouco depois de chegar a Pernambuco, e a 
gèographia ficou privada de seus auxilies. E certo que não 
poocoB recebera antes (1630) do cosmographo Buiters, de quem, 
▼imos '), cartas hydrographicas originaes em Amsterdam. Os 
esoriptos de Piso e de Marcgrav e os serviços que prestaram 
ás sdencias naturaes e medicas são bastante conhecidos, nota- 
velmente pelos commentarios dos dois professores Lichtensteln 
e Martins. Piso os publicou ao regressar á Europa. Marcgrav 
fallecen em Loanda em 1644. 

Em logar das nossas camarás municipaes, com seus juizes 
e vereadores, se instalaram, desde 1637, em todas as villas, 
€om analogia ao que tinha logar na proviífcia de HoUanda, 
camarás de escabinos. O número destes parece que variava, 
segundo a importância das povoações, de três a nove % e 



■) Desta collecçao bem como dos trabalhos de Marcgrav, Plante 
e Post dá uma noticia circunstanciada o senhor Driesen, 
j-Leben^ etc., p. 102 e seguintes. E' naturalmente a parte 
aesta collecçao que se refere Barleus, quando diz: ^Accessit 
etiam ista sedulitas, qua (Johannes Maurltius) animalia varii 

generis quadrupedum mirablles formas ut et avium, piscium, 
erbarum, serpentum et iu sector um, populorum habitus diffor- 

mes et arma pingi artifíciose fecit. Quse cuncta propediem 

cum buís descriptionibus lucem visura certa expectatione tene- 

muB." („Res Gestas", etc.) 
•) Fiancisci Plante, Mauritiados, libri XII: cum figuris elegan- 

tissimis. — Lugduni Batavorum 1G47. Este poema não se 

dfive confundir com o «Mauritiados libri VI*, de Gaspar Ens, 

imp. em Colónia, em 1612, obra em prosa, 
•) 2 de Setembro de 1853. 
*j Segundo informes dos archivos da Haya, (que devemos ao 

nosso amigo o Sr. Dr. Silva). Olinda tinha pelo meno» 



126 LIVRO QUINTO. 

cada uma das doas nacionalidades portugueza OQ hollandeza, 
em Eepaiado, tinha igual número, sendo pòrem ordinariamente 
hoUandez o esculteto que presidia; o que dava sempre a ma- 
ioria em favor dos dominadores. O esculteto era a autoridade 
executiva, ou delegado da administração e promotor publico do 
logar; e ao mesmo tempo exactor da fazenda *). 

Fiel ás tradições da Europa, em que tinham tomado 
tanta parte os seus antepassados, deu Nassau hrazdes d*armu 
a todas as províncias dependentes do seu governo, como antes 
practicára a Hespauha com todas as capitanias e provindas d> 
America, que colouisára. A província de Pernambuco era re- 
presentada por uma donzella, com uma canna de assucar na mio 
direita, vendo-se em um espelho, que sustinha a mão esquerda 
Itamaracá, terra proverbial de boas uvas no Brazil, tinba M 
cachos delias; a Parahiba, ja famosa pela bondade de aea» 
sucar, contava delle cinco pães ; e as campinas do Bio-&ra]idi j 
do Norte eram symbolisadas por uma ema. Estas conceB8(ta| 
cujo alcance não pode ser por ventura apreciado pelo Tulgo, 
tinham origem em pensamentos elevados, de repreBentir 
também o paiz na arte heráldica, a qual se reduz a uM 
linguagem hierogliphica e symbolica, que fala ao coração *)«• 
que por todos os homens civilisados é entendida, qoalqnff 
que seja a sua lingua ^). 



cinco escabinos, três pernambucanos (carta aos do Supnmo 
Conselho do 5 de Dezembro de 1637); Goyana e ItamvMft 
quatro pernambucanos (c. de 5 de Setembro de 1642) ; IgaztC& 
três ditos (11 de Setembro); Mauricia quatro ditos, entianao 
João Fernandes Vieira (o. de 14 de Setembro); Porto-GaiTO 
cinco ditos (c. de 18 de Setembro) ; Cabo três ditos (c. de £ 
do dito). No 1.^ de Abril do 1643, escreviam da cidade Han- 
ricia o esculteto e quatro escabinos, todos hollandezes. Aflsím 
vem a ficar confirmado por estes documentos a assar^ d« 
Calado (p. 148) de que houvera em Mauricia cinco efecabinoi 
hollandezes e quatro nossos. 

*) Hist. Ger., 1^ Ed., pags 383—385. 

') Sem mostrar nenhumas saudades de que se votassem ao 
esquecimento esses brazòes impostos pelo domínio estrangeiro, 
não podemos deixar de sentir ver abandonados os brasões da 
pomba da Arca o das frechas do martyrio, conc^idoí 
por decretos ás nossas duas primeiras cidades, substituidot 
até nas obras de arte pelas prosaicas palavras: BAHIA e RIO 
DE JANEIRO. 

') Não falta quem creia que a imprensa chegou a ser intiodo- 



LIVEO QUINTO. 127 

Entregae se achava Nassáa a fazer prosperar a capital, 
e tinha já reconhecido a vantagem, para todas as obras de 
ter grande número de Africanos, quando recebeu um aviso de 
Nicolau Yan Ipern ') commandante da colónia hollandeza 
Nassan, na costa da Mina, prevenindo-o da facilidade com 
que, mediante alguma foiça que fosse de Pernambuco, poderiam 
faser-se donos do castello de S. Jorge da Mina. 

Besolveu-se Nassáu a tentar esta conquista e commetteu 
o êxito delia ao coronel João Eoen ^, confíando-lhe o mando 
de oito centos soldados e quatro centos marinheiros, em nove 
barcos, que se fizeram de vella a 25 de Junho de 1637. 

Fica a fortaleza da Mma em om pontal, entre o mar e 
um rio que se mete pela terra dentro. Dirigiu-se Koen contra 
a fortaleza, apresentando-se do lado do norte além do rio, 
oecnpando ahi um cerro, chamado de Santiago, donde fez dis- 
parar alguns tiros, e logo intimou ao governador que capitulasse. 

A praça era fortíssima, e tinha os fossos abertos em 
rocba; mas o covarde governador não apresentou nella a menor 
resisteiicia, e logo capitulou; esquecendo-se do exemplo que 
lhe havia dado, no fim do século anterior, o seu predecessor 
D. Christovam de Mello, quando com sós oitenta praças havia 
resbtido a quinhentos Hollandezes. „Se em vez disso, diz 
Nassán, elle se houvesse deitado a dormir, a praça nâo seria 
tomada, e os sitiantes, obrigados pelas doenças, se haveriam 
retirado em paz.^ 

Não conhecemos o nome do commandante, nem nos in- 
teressa averigual-o. Os que o cheguem a conhecer o stygmati- 



zida no Recife durante o tempo do domínio hollandez, fun- 
dando-se em que um ou dois folhetos desse tempo se dizem 
áhi impressos. Porém os bons criticos e bibliophilos hollan- 
dezes, que a este respeito consultamos, propendem a crer que 
essas publicações foram clandestinas e espúrias, e que nao 
saíram do Eecife seuao da HoUanda, onde também foi pro- 
vavelmente publicada a Historia de Nicolau l"". que se declara 
impressa em S. Paulo (do Brazil). 

^) Assim se lê este nome na trad. allema de Barleus. No ori- 
ginal latino se lê Iprensis. 

*) Pronuncie-se Kun : Kiihn se escreve na tradução allema de 
Barleus. Coinius na edição latina do autor. Nas Mem. 
Diárias anda este nome errado a ponto de se dcsconhec<ír. 
Diz-se João Lonio. 



128 LlVfiO QUINTO. 

sarâo como convôm para opróbrio de tanta cobardia, k capi- 
tulação effectnou-Be no dia 29 de agosto do anno supra men- 
cionado. 

Um resultado tão feliz, e tão facilmente alcançado, 
provocou em Nassáu estímulos a aventurav-se a uma nova 
conquista: a do Geará. Deram azo a ella uns offerecimentos 
que dali Ibe mandou fazer, por en^issarios, um principal por 
nome Algodão, naturalmente a isso reduzido por vários IndioB 
que, levados da Bahia da Traição á HoUanda em 1625, ha- 
viam sido, já com essas miras, deixados em terra (no Ceará) 
em 1636. — Para com a Companhia, pretextou Nassáu as 
vantagens que dessa conquista resultariam, fornecendo não só 
amhar, como sal, género este que tinham de ir buscar a uma 
das ilhas de Cabo-Verde. 

Beduzia-se então o Ceará a uma pequena colónia, 
á margem direita do rio do mesmo nome, não longe de soa 
foz (no local ainda chamado Yilla-Yelha; quasi day 
léguas ao poente da capital de hoje) assente em um cavpo 
á borda do mato. Não passava de uma pequena aldeã dl 
ranchos, com quintaes e uma igreja; e, além dos índios, un '! 
vinte soldados, que faziam a guarnição ^) de um forte quadrado^ 
com quartéis e armazéns dentro, flanqueado por dois pequenos 
baluartes, também quadrados, nos dois ângulos diametralmente 
oppostos. 

Foi confiada esta nova expedição ao major Joris (Jorge) 
Garstman ') levando comsigo unicamente duzentos faomeDS, 
força por certo mais que suficiente. 

Partiu Garstman do Recife em Outubro '), e em Dezembro 
chegou ao seu destino. Depois de haver dado aviso ao principal 
Algodão (a quem os seus appellidariam provavelmente Maniú) 
avançou contra o forte ^), ao qual se havia recolhido a pequena 

guarnição que capitulou ^). 

■"■^— ^— ■""-■ 

*) Paucorum incolorum, qui arcem ipsam tenebant.* (BaiieH) 

') Nao Juari Gusman, nem coronel, como vimos escripto. 

») Off. de Nassau de 16 de Nov. 1637. 

*) Na Hollanda vimos, em 1853, uma planta inédita, que snp- 
pomoB levantada nos últimos annos do domínio hollandei, 
em que . a colónia em poder dos Hollandezes era defendida por 
um lorte nao quadrado, mas de cinco pontas, com o nome de 
Schonemborch, e na qual um rio próximo está designado com 
o nome de Marajaitiba. 

*) Diz Duarte de Albuquerque e o repetem outros qne, por 



LIVRO QUINTO. 129 

Empenhou-se Nassau quanto poude para que o commercio 
4a colónia, cujo monopólio fôra concedido á Companhia, se de- 
clarasse liyi*e, afim de que melhor se fomentasse o crescimento 
da população, sem prejuízo notável immediato da mesma Com- 
panhia, que para o futnro poderia solidamente indemnisar-se 
de tudo, quando Pernambuco ja estivesse mais rico e robus- 
tecido. — Neste empenho fez-se apoiar em representaçSes dos 
■moradores, sendo mui .oiotavel uma (de 5 de Dezembro) da 
Gamara de Olinda; porque nella se insiste, nào só nas van- 
tagens para a Companhia de ser concedida a dita liberdade de 
commercio, tal como a gosavam os moradores antes de con- 
quistados, como todas as demais liberdades, excepto só a de 
receberem mais judeos, aos quaes preferiam que não se lhes 
concedesse na colónia, como succedia, mais larguezas e direitos 
.do que gosavam na própria HoUanda. 

Para melhor convalescer depois de uma violenta doença, 

iprehendeu Nassau uma viagem para o norte, e foi visitar a 

ihiba e o Rio-Grande. Aqui recebeu a vários enviados dos 

que o mimosearam com um presente de suas armas e 

l^vjlíprtaamentos de pennas. Na Parahiba, onde posera de governa- 

^iiiar o iUustrado Elias Herckmann, conhecido na republica das 

tettras (e que depois (1641) viajou o certão chegando aterras 

da commarca actual do Brejo d'Arêa) mandou reparar o forte 

do Cabedelo, ordenando que, em honra do nome de sua mai *), 

se ficasse chamando Forte Margarída. 

Entretanto não deixavam de passar algumas novidades 
pelo Bul, além de rio de S. Francisco. 

Como Bagnuolo, durante sete mezes que permaneceu na 
capital de Sei^pe, não deixava de mandar por capitães de 
emboscadas inquietar de continuo por essa banda os Hollan- 
dezes, resolveu Schkoppe reunir as forças que tinha dispersas, 
e, á frente delias, om número do mais de três mil, começou 
a avançar para Sergipe. Bagnuolo, que apenas teria então 
una dois mil homens ás suas ordens, julgou preferivel retirar 




haver fallecido o capitão Domingos da Veiga, nSo houvera resis- 
tência. E' porém certo que o capitão era ja então Bartolomeu 
de Brito, e lemos que resistira nove horas, e só por falta de 
munições se entregara. 
*) Não de sua irmã (á sororis nomine) como diz Barleus, seguido 
por Southey no tom 1°. pag. 548 (da 1'. Ed.) 

9 



130 LIVRO QUINTO. 

-se precipitadamente, e não foi parar com as suas tropas, 
senão na Torre de Garcia d' A vila. E pouco depois, s^uiu 
com todas as tropas para a mesma Bahia, afim de a defender 
contra a agressão que se lhe preparava. 

Pelo mesmo tempo, o valente capitão de mar Schaap, 
que com vários navios vigiava a costa, encontrou alguns bar- 
cos hespanhoes, pela altura da mesma Torre, um pouco mais 
ao sul, e conseguiu capturar um, no qual aprehendeu impor- 
tantes correspondências em que se relatava o estado em que 
ficava Portugal, a opposição aos novos tributos, os tumultos 
d^Evora, o descontentamento de todo o Alemtejo ') e Algarve, 
as aprehensSes da Côi*te, em guerra com a França, e até se 
dizia que havia temores de favorecer-se muito o Brazil, para 
que com isso Portugal não se enriquecesse e se tomasse forte, 
e que, estando já preparada uma esquadra , que devia sec 
commandada pelo conde de Linhares *), havia este sido en»^ 
venenado, etc. — 

De todas estas noticias era Nassau informado a; 
regressava ao Recife. Logo soube que Schkoppe havia estii 
em S. Christovam, capital de Sergipe, no dia 17 de Novi^ 
br o, e que a retirada de Bagnuolo havia sido. censurada pelo 
governador da Bahia, de modo que estes dois chefes estavam 
em completa desintelligencia *). 




') Alantsei et Algarucensium escreve Barleus. A adulte- 
ração na primeira destas palavras, que se refere á provinda 
transtagana, obrigou ao interprete allemao a pôr Anile a, 
sem ligar a esta palavra nenhuma idea. 

*) Veja ante pag, 102 e segs. 

*) Seria talvez por occasião desta retirada e desta desintelli- 
gencia pue o bravo Camarão esteve a ponto de deixar o ser- 
viço e recolhor-se para o seu ninho no Potigy. O ceubo é 
que chegou a mandar emissários a Nassau, pedindo mlvo- 
conductos: „ut in suas cuique sedes pagosque i*' 
deundi potestas esset* (Barleus.) Isto, em nosso en- 
tender, não quer dizer que elle se propunha a ir seonriz o 
inimigo, ou a ser outro Calabar, como entendeu o Sr. cónego 
Fernandes Pinheiro. Também Henrique Dias, depois da capi- 
tulação do Arrayal, havia aceitado salvo conduto do inimigo, 
e entretanto ninguém poz até hoje por isso em dúvida a sua 
lealdade. A' aldeã de Potigy chamou Barleus Contuber- 
nium Potigianum, nome este que dificilmente se reco- 
nhecerá nas edições do seu livro por se haver impresso Poli- 
g i a n u m. 



LIVRO QUINTO. 131 

Em presença de tantas circumstancias favoráveis, Nassau 
I já sentia sobre a consciência como um peso de não haver 
de principio perseguido Bagnuolo até tomar a Bahia, as- 
toa que ^ sua boa estrella o não desampararia na occasião, 
parecer, ainda mais propicia que agora se lhe apresentava. 
. Convenientemente preparadas as tropas e a esquadra, 
-se de vella das aguas do Becife no dia 8 de abril, e tão 
oráveis lhe sopraram os ventos que dahi a seis dias se 
lavam todos os seus navios em frente da Bahia. 

Antes de entrar, seguiu levado pelos ventos e correntes, 

por ventura de intento, mais para o norte, até a altura 

foz do rio Vermelho* Em todo caso isso que parecia con- 

riedâde, redundou em seu beneficio ; por quanto as tropas 

í já occnpavam os subúrbios da Bahia, acreditando que para 

a banda ia ter logar o desembarque, tiveram que eifectuar 

Êa pressa uma inútil marcha, para terem de regressar 
seguinte. 
'"No dia 16, com vento e maré a favor, entrava pela 
bia toda a esquadra de Nassau, e velejando a distancia 
Bciente da cidade para nada ter que recear dos tiros que 
\ eram dirigidos, se metteu pelo Recôncavo ; e ás 4 da tarde 
fándear, além de Itapagipe, defronte das praias entre as 
midas de S. Braz e da Escada, nas quaes desde logo come- 
i o desembarque das tropas ; de modo que, ja nessa mesma 
te, poderam estas acantonar nos cerros visinhos, sem lhes 
kar lenha, nem boa agua. O dia immediato foi destinado ao 
teanso e á necessária distribuição das munições a etapes de 
rcha. Entretanto não deixou Nassau de ordenar ao capitão 
\ soas guardas, Carlos Tourlon, que fosse, com tresentos 
nens, explorar o terreno por onde devia romper a marcha 
ra a cidade. Regressou o mencionado explorador, informando 
como as tropas bahianas occnpavam, não longe, uma espe- 
de desfiladeiro, de dificil ataque, que ^á guarneciam com 
^rencias de o quererem defender. 

Então lembrou-se Nassau de fingir que ia effectuar um 
ro desembarque junto da cidade; e ordenou ao comman- 
ite da frota, o vice-almirante João Mast, que, com quatorze 
3 navios, se diiigisse contra para essa banda. 

Este ardil não foi para Nassau de tanta vantagem como 
e imaginara. Fez sim pensar na possibilidade de um ataque 

9* 



. 132 LIVEO QUINTO. 

contra a cidade, então quasi desguarnecida, mas deu logar a 
que se reunisse no Firajá um conselho, a que assistiu Luiz 
Barballio (que da Europa, onde- fora ter, depois da capitulação 
do foiiie da Nasareth, regressara á Bahia no anno anterior, 
já feito mestre de campo ^) e do qual resultou a resolução 
a que talvez deveu a cidade o salvar-se. Triunfou nesse con- 
selho a opinião de Bagnuolo, que, escarmentado com a perda 
de Porto-Calvo, sustentou que seria menos prudente expor a 
defensa da cidade ao revez que podia resultar de uma batalha, 
na qual toda a vantagem estaria a favor do inimigo, com 
tropas mais aguerridas; ao passo que, para a defensa da ci- 
dade, poderiam ajudar os seus próprios moradores. 

Quando porém as tropas se retiravam, deixando livras 
â Nassau os passos difíceis, em terras de um engenho CLne. 
havia em Itapagipe, de um Diogo Moniz Telles, alborotavarU 
em massa o povo da Bahia, tocando os sinos a rebate e pro- 
testando contra os que assim mais uma vez voltavam cms 
ao inimigo. 

Acudiram a socegar os alborotados, entre outros, o bispo 
e Duarte de Albuquerque. „A muito custo finalmente calmon-ae 
a explosão e cederam ás satisfações e ás esperanças do que 
se lhes promettia obrar." 

Para melhor os conter sairam varias partidas a encon- 
trar o inimigo, as quaes servii*am igualmente a encaminhal-o 
onde os nossos os esperavam mais preparados : — a uma obra 
córnea que se havia levantado diante do convento do Carmo, 
e onde hoje se vê o forte de Santo-Antonio. 

De caminho para a cidade poz o inimigo cerco ao forte 
de S. Bartolomeu, de que logo depois se apoderou, bem como 



^) Não concordamos com o digno blographo de BarbáUiO, o 
S. J. A. de Mello, quando disse (II. 117) que já no Amnl 
do Bom Jesus havia sido o mesmo Barbalho elevado a mertn 
de campo. O próprio donatário diz, antes de 30 de nuurao da 
1633, que o general lhe confiara uma companhia deliiiltt, 
em logar da de moradores que tinha ; e acrescenta enoL 14 de 
maio de 1634 que saiu feito sargento mor em logar de Fran- 
cisco Serrano, quando passou a governar o Arrayal. Quando 
foi para o Cabo era ainda sargento mor, como o seu par Qama. 
Barbalho só foi elevado a mestre de campo em 31 de 
Janeiro de 1637, nela Carta Patente que o próprio S. Mello 
publica. Antes tinha sido apenas coronel ou cabo de varioi 
capitães. 



LIVEO QUINTO. 133 

08 de S. Filippe e S. Alberto, que haviam sido abandonados: 
que estavam todos votados a ter essa triste soi*te, desde a 

ia constioicçao , segundo os homens mais entendidos do 
impo. ^) 

Apresentou-se Kassau diante das nossas trincheiras no 
ia 20, e foi logo saudado por alguns tiros de bala. Tratou 

9 aasestar duas baterias nas alturas ^) fronteiras ao foi*te de 
Gmto-Antonio, que se melhorava cada dia, e cuja defensa 
resceu consideralmente com o protecção que lhe subministrou 
EH reducto lateral, mais terra dentro, a consti*ucção e de- 
msa do qual tomou a si o valoroso Luiz Barbalho, cujo 
)me se perpetua na fortaleza muralhada e de cantaria, que 
ais tarde veiu a substituir o mesmo reduto. 

Para que os trabalhos nestas trincheiras podessem pro- 
^g^uir com toda confiança, se disposeram na frente, ao lado 
>B caminhos, varias companhias emboscadas, que vieram a 
restar relevante serviço. 

Logo na dia 21, ás oito da noite, acometteu o inimigo 

mesma trincheira de Santo-Antonio, e cumpre confessar que 
ido estava ainda então em tanta desordem que, se houvesse 
azido maior força, poderia até haver-se mettido na cidade 
ela porta do Carmo, que nem se poude fechar; não so pelo 
m máu estado, como porque por ella era a única serventia 
)m que se, podia soccorrer a paragem atacada. Entretanto 

haver sido o ataque intentado com pouca força permittiu 
ae o repelissem as companhias emboscadas, distinguindo-se 
itSo por seu valor o capitão pernambucano Estevam de Ta- 
9ra, que, ferido gravemente no peito, morreu dahi a poucos 
ias, legando á pátria um nome heróico, com a notável cir- 
amstancia de lhe haver sido dado por successor no mando 
i companhia que lhe estava confiada o parahibano André 
idal, cujos grandes serviços e dedicação ii'emos com- 
.emorando. 

Contido o inimigo com este revez, começaram os nossos 

tomar a ofensiva, emprehendendo sortidas para copturar 



') Veja a este respeito a opinião do A. da Razão 4o Es- 
tado do Brazil em 1612, p. 3. 

*) So exames escrupulosos locaes poderão indicar se na Lapinha, 
se na Soledade, ou se no Queimado. Não nos foi dado 
averigual-o. 



134 LIVRO QUINTO. 

prisioneiros e aiTebachar gados, dos quaes, com este recurso, 
houve sempre na cidade grande abundância, ao passo que os 
sitiantes sofriam ás vezes mingua de carnes verdes. Nestas 
sortidas se distinguiram muitO; além do mesmo André Vidal, 
os capitães Francisco Rebello (Rebelinho), Ascenso da Silva 
»e Sebastião do Souto, o do ardil de Porto-Calvo, que pouco 
depois, no grande ataque deste sitio, acabou, como Távora, 
gloriosamente seus dias ferido de uma bala no peito. *) '. 

Vendo Nassau que não podia prolongar muito o sitio 
resolveu fazer um grande esforço para entrar na cidade, e- o 
emprehendeu, entrada a noite, aos 18 de maio. Mas de novo 
encontrou grande resistência nas guardas avançadas que estavam 
emboscadas, e que lhes fizeram muitos prisioneiros. Favorecido 
pelo luar, voltou de novo o inimigo ao ataque, pelas oito 
horas da noite. Simulando primeiro querer acometter o reduto 
de Barbalho, lançou-se, logo com todo a força, contra a trin- 
cheira de Santo- António ; e muitos chegaram a entrincheirar-ae 
n'uma pai-te do seu fosso que não podia ser batida pelos tiros 
dos parapeitos. E já dahi lançavam para dentro granadas, e 
se propunham a subir, quando se viram atacados pelos nossoa 
que sairam das trincheiras. Acudiram novas tropas a refo^ ; 
çal-os. Mas contra ellas saiu do seu reduto, com toda a 
gente disponível, o valente Luiz Barbalho, qne, atacando o 
inimigo pela retaguarda, o desmoralisou e o fez retirar com 
tanta precipitação como desordem, havendo perdido o enge- 
nheiro Borchen, bem como o capitão Houwyn, que caiu traa- 
passado de uma lança. Além destes officiaes perdeu o inimigo 
mais oito, tendo igual número de officiaes feridos, incluindo 
entre estes, em uma perna, o major Hinderson; de- 
vando-se o dos soldados, segundo o seu computo, a duzentos 
e vinte e dois. Cairam em poder dos nossos cincoenta e doia 
prisioneiros, os quaes se devem por ventura comprehender no 
número dos noventa e cinco soldados que o inimigo contou como 
havendo ficado mortos no campo. De nossa^ parte a perda 
não seria menor pela própria confusão do ataque effectnado 
de noite. 

O dia immediato foi de tréguas e de luto, e destinado 
para o enterro dos mortos. 



^) Calado, pag. 43. 



LIVRO QUINTO. 135 

Na noite de 25^ Nassau mandava retii*ar todas as suas 
tropaS;^ sem que disso tivessem os nossos a menor notícia; de 
modo que, ainda pela manhã, disparavam balas e bombas para 
o campo inimigo como se elle estivesse o occupado. 

^Nassau encontrou-se como vexado ao dai* conta *), depois 
dè chegai* ao Recife, de todo o desastre; e confessa ter em- 
psQhendido o ataque por lhe constar que Bagnuolo e o go- 
vernador se achavam desavindos ; porém que encontrara justa- 
. niente o contrário; »pela mesma razão ^acrescenta) que n'outro 
tempo Herodes e Pilatos tinham-se mostrado muito amigos;" 
— rasgo de erudição que não aquilata muito bom gosto. 

E a verdade é que, se efectivamente existii*a alguma 
rivalidade entre os dois chefes, ella desapareceu de todo na 
hora do perigo ; havendo o governador chegado ao extremo 
de delegar em Bagnuolo o poder supremo que lhe confiara o 
rei, ou por verdadeira abnegação e patriotismo, ou por des- 
carregai'-se de toda responsabilidade, se os resultados fossem 
desastrosos. Porém é certo que outra houvera sido a sorte da 
Bahia, se o inimigo, antes de a atacar, não lhe houvesse 
. mandado os melhores defensores, expulsando de Sergipe para 
aihi as tropas de Bagnuolo, que. se houvessem ficado em Ser- 
gipe não poderiam, ainda a marchas forçadas, acudir a tempo 
na hora do perigo* 

Em Lisboa e em Madrid foi mui bem recebida a notícia 
deste primeii'o revez de Nassau; e, a* mãos lai*gas, foram re- 
compensados todos os que para elle concorreram. Contentar- 
nos-hemos com fazer menção dos principaes. O governador foi 
feito Conde de S. Lourenço *) e Bagnuolo Príncipe em Nápoles; 
a D. António Filipe Camarão foi concedido (C. R. de 4 de 
Set. 1636), na ordem de Chiisto, uma commenda lucrativa ') 
(dos Moinhos de Soure em Portugal) que lhe fora antes pro- 
mettida, e a Luiz Barbalho foi conferida (C. de 15 de Fev. 
de 1640) outra commenda igualmente antes promettida. 

O revez que recebeu Nassau no ataque da Bahia não 
deixou de influii* bastante no seu animo, e pelo modo 

• 

') Em carta de 29 de Junho seguinte. 

•) Livro 37 de Filipe 3.° Foi. 65 e 88. 

•) Por lhe faltar serviços em Africa correram dúvidas, e foi 

necessário dispensa da Cúria, do modo que a commenda só 

chegou a realisar-se a 3 de março de 1641. 



136 



LIVEO QUINTO. 



como delle procura justificar-se, nas correspondências poste- 
liores *), se vê que sobre isso lhe pesava a consciência, e os 
que de perto o trataram dizem que assim se lhe notava, por 
mais que elle pretendesse disfarçal-o *). Na Bahia perdeu, 
não só prestigio, mas muito boa parte de seu exercito, que 
veiu a fazer-lhe falta; pois ao regressar ao Recife, em vez 
de reforços, recebeu ordens de entregar ao almii'ante ComeliB 
Gornelissen JoI as forças que podesse, para uma expedição 
(qulB se mallogrou) ás Antilhas; e teve que privar-se da me- 
lhor parte da sua esquadra e de seis centos soldados. . 



^) Em Off. de 6 de Out. chega a allegar como vantagens que 
" " " lo d 



08 



tinha alcançado- sobre os nossos, o haver-se apoderad 
fortes de S. Bartholomeu, S. Filipe a S.*' Alberto! 

') ^Estamagado do mau sucesso, ainda que quanto podia en< 
cobria o sentimento." (Calado pag, 51.) 



«-' 



LIVRO SEXTO, 



mm o SITIO DA BAHU at£ a agglamaçao de JOAO 4^ 



Bendimentos cobrados pelos Hollandezes. - Esquadra para acudir 
á Bahia. — Esteve para ter outro destino. — Vem ao Brazil. — 
Conde da Torre. — Passa por Pernambuco. — Demora-se na 
Bahia. — Despacha por terra Vidal, o Camarão e Lopes Barbalho. 

— Parte da Éahia. — Fundêa nas Alagoas. — Pretende desem- 
barcar em Páo Amarello. — E' encontrado pela frota hollandeza, 

— Quatro batalhas navaes. — Desembarque no porto dos Touros. 

— Prodigiosa marcha até a Bahia. — Encontros durante ella. — 
Bloquea o inimigo a Bahia. — Ataca Itaparica e o Eeconcavo. — 
Em Sergipe sae derrotado. Eoen pilha e incendêa Camamú. — 
Ataca o Espirito-Santo. — Chega o vice-rei MontalvSo — Castigo 
do Conde da Torre. — Expulsa Nassau os religiosos. — Pactua 
tréguas provisórias com Montalvão. — Befens. — Cidade Mauricia. 

— Revolução do 1**. de Dezembro de 1640 em Lisboa. 



O revez experímentado por Nassau na Bahia não chegou 
qoasi a ser sentido entre os povos dos districtos do norte 
sujeitos ao seu dominio. O número dos engenhos de assucar 
augmentaya a olhos vistos ; e em Pernambuco já moiam cento 
e vinte e um ; em Itamaracá e Goiana vinte e três, e na Para- 
biba vinte e um, em vez de desoito que pouco antes ahi se 
contavam. — Os rendimentos públicos annuaes, procedentes dos 
tributos que pagavam os habitantes, -iam crescendo. O pro- 
dueto das decimas, e do tributo dos engenhos e meúuças arrema- 



138 * LIVRO sexto; 

tados em hasta publica, perfazia duzentos e setenta e seis 
mil e quatro centos florins; ') mas calculava-se dever subir 
a tre&entos e cincoenta mil florins. O rendimento das alfande- 
gas se orçava em sete centos mil florins, sendo quatrocentos 
equivalentes aos direitos da importação, e tresentos aos da 
exportação dos assucares. Os tributos dos escravos importados 
subiam a seis centos mil florins; o valor das presas e despo- 
jos a tresentos mil, e finalmente o producto dos bens e enge- 
nhos vendidos a dois milh5es e quatro centos mil. — 

A não terem chegado á Hespanha as noticias dos aimros 
em que ficava a Bahia, quando sitiada por Nassau, nenhum 
grande esforço se houvem ali feito para mandar ao Brazil 
uma foiie armada de soccoito; mas houve um momento em 
que as noticias idas do Brazil fOram tão ateiTadoras que, 
dentro de poucas semanas, se improvisou uma esquadra, e se 
reunii-am para ella suficientes forças. Havendo porém chegado 
logo, antes de partir a esquadra, noticia de que e sitio da 
Bahia havia sido levantado, retirando-se envergonhado o ini- 
migo, chegou a discutii'-se em Madiid ^ o mandai* a Fnen- 
terrabia, contra os Franceses, a mesma esquadra; mas por fim . 
triumfou o pensamento de envial-a antes ao Brazil para tentar, 
por meio delia expulsar de todo de Pernambuco os intrusos. 

Uma carta regia, de 11 de agosto (1639), creou uma 
junta para ultimar os aprestos, e. por meio delia, propoz-se 
o governo a fazer um contracto com certo capitalista, por nome 
Jorge Fernandes de Oliveim, que pouco depois se comprometteu 



*) Veja a nota IS*, no fim. 

*) „Ingens eodem tempore sexaginta navium classis Ulystipone 
ad ostium Tagi amnis parabatur recnperandse Brasilie dlesti- 
nata, cujus maritimam oram pene omnem, expugnatis subitâ 
vi arcibus, pulsisqne lusitanis colonis, ditionis sues fecerant 
Batavi, alando domi bello distrahere in longinqiia vires novo 

exemplo, nec improsperé ausi.^ 

...«.Gusmano ipeeiosa magis, & magnifica consilia place- 
bant, profecisse mis GaUos , si decreta auxilia et imperii 
curas mterturbassent. Latissimã BrasilisB oram, & tam vasii 
tractus dominatum iniquè Fontirabise posthaberi; nec paiem 
utriusque recuperandse spem. Vastissimo oceano disjunctam 
Brasiliam, ea occasione elapsâ, recipiendi spem nullam leli- 
qiiam, languescente* cura ergo procul dissita. etc." 

(Moret, De Obsidione Fonfe^rrabi». Lib. li.) 



LIVRO SEXTO. 139 

a prover ao Brazil com a somina de um milhão, contribuindo 
para o resgate os bens ecclesiasticos e os das ordens militares. 
Para oppor ao Conde Mauricio de Nassau outro chefe alta- 
mente condecoi^ado;, resolveu a Corte conferir ao da esquadra 
áe soccorro o titulo de „ Capitão general de mar e terra.** E 
havendo, recusado este posto o Conde de Linhares, que voltava 
de ser vice-rei na índia portugueza, foi o cargo oferecido a 
outro Conde, o da Torre, militar de prestigio e conselheii*o 
d'Estado. 

Destas últimas resoluções não havia porém sido comple- 
tamente informado o Conde João Mauricio de Nassau; o qual, 
pelo contrário, sabendo como a Hespanha se achava então a 
braços com a França, que fazia pelo grande Conde sitiar 
Fuenterrabia, não julgava possível que ella podesse ao mesmo 
tempo attender ao Brazil. Apezar desta crença, não deixava 
Nassau de sollicitar soccoitos da Hollanda, para supprir as 
baiias que iam tendo logar. E representava que a não ter a 
Companhia em Pernambuco uma força de quatro mil homens 
para cima, não poderia elle afiançar ali a paz, afim de que 
08 moradores se entregassem com alguma confiança ás suas 
indústrias. Além das forças de teiTa opinava que devia haver 
sempre na costa uma fi'ota de desoito bons vasos de guerra. 

Apezar de todas estas representações, foi com verdadeira 
snrpreza que Nassau recebeu a noticia de que uma poderosa 
esquadra composta de \inte e cinco baixeis de Portugal e oito 
de Castella, pai*tira de Lisboa aos 7 de Setembro (1638), e 
velejava para o Brazil, noticia que, no dia 23 de Janeiro de 
1639, viu por seus próprios olhos confirmada, ao descobrir 
nas aguas do Recife nada menos que trinta e três vasos de 
guerra. Tão desprevenido se achava então, que não falta quem 
pretenda que se o Conde da Torre intenta nessa occasião um 
ataque contra o Becife, o houvera tomado, capitulando o mesmo 
Nassau. 

Porém, por obedecer ás suas instrucçôes, o Conde da 
Torre, como ja antes praticara com igual infelicidade D. Luiz 
de Bojas, não se atreveu a intentar nenhum ataque, e seguiu 
para o sul, a entrar primeiro na Bahia. — Ao receber disso 
a certeza, Nassau respirou. — Ja havia pouco antes despachado 
um barco veleiro para dar de tudo aviso a doze bai'cos que 
tinha bloqueando a Bahia, com o quê, não só os salvou, 



140 LIVEO SEXTO. 

como poude, com a vinda delles, preparar no Becife nma es- 
quadra aâm de fazer face á que se apresentava. A tudo deu 
logar a longa demora do Conde da Toitb na Bahia, provinda 
em paii;e da escacez que aM foi encontrar de mantimentos e 
de tudo. Quem lesse as cartas ^) de lamurias que escrevia da 
fiahia e visse um generalíssimo tão pae de necessidades, ao 
passo que os inimigos se mostravam tão babeis em ciíar re- 
cui*sos, daría desde logo pouco pelo êxito da causa que lhe 
fora confiada. 

Entretanto os intentos do Conde da Torre, de atacar a 
Pernambuco por ten-a e por mar, se descobrem nas disposições 
que tomou. Ordenou desde logo a André Vidal que, com al- 
guma força, avançasse pelos sertões até a Parahiba, afim de 
lhe dar noticias do que se passava em terra, em um ponto da 
costa em que se conveiu de chegarem á fala. Logo depois, em 
piincipios de Agosto, despachou igualmente o Camarão, com 
os seus índios, ordenando-lhe, nas instrucções que lhe àeu 
em 31 de Julho, que, passando o rio de S. Francisco, e reun- 
indo-se á gente que encontraria na aldeã que sabia, e provido 
ahi de bastimentos, fosse procurar entender-se com o chefe 
Índio Eodella, e com elle e a sua gente seguisse, pelos certdfes, 
até a Ipojuca, Cabo, S. Lourenço e Várzea a reunir gente e 
a inquietai* o inimigo, sem jamais se expor à ficar cercado. 
Devia também tratar de se conservar em intelligencia com 
Vidal, já mandado até a Parahiba, e ter espias para saber do 
seguimento da armada, afim de servir a esta, quando necessi- 
tasse communicar com a terra. 

Nos momentos de ir deixar a Bahia, achando-se até já 
embarcado em 17 de novembro, enviava o Conde ao Camarão, 
por João Lopes Barbalho, que ora mandava também a Pernam- 
buco por terra, novas instrucçôes, insistindo nas recommenda- 
çôes anteiiores e acrescentando que não desse quartel, que 
incendiasse tudo quanto não lhe aproveitasse e que tratasse 
de guerreai' só á maneka india, por meio de assaltos e em- 
boscadas. Para governo de João Lopes Barbalho , que ia 
marchar á frente de cem infantes, entregava-lhe por essa oc- 
casião seu tio Luiz Barbalho umas recommendações escriptas 



•) De uma destas cartas/ de 26 de maio, pode ver-se a copia 
na Bib. Eborense. 



LIVRO SEXTO. 141 

no dia 1 6, em que lhe dizia que na. impoHante commissáo em 
qaé ia, „uma das maiores até então feitas na gnerra/' não se 
fiasse nem de si mesmo, que obrasse em tudo com a possivel 
segurança; não dando quartel, mas tratasse de respeitar os en- 
genhos de Gaspar de Mérida e de António de Bulhões, não 
pensando em juntar despojos de fato nem de dobrões, mas uni- 
camente de „negros e mais negros," em seu nome, que elle 
comporia os soldados. Desculpemos em tão conspícuo varão 
este accesso de cobiça, tanto nas idéas daquelle tempo» — 

A marcha destes caudilhos, afi-avez do território sujeito 
aos Hóllandezes, bem como o desembarque de muniç5es que 
depois efiectuou o Conde da Torre nas costas das Alagoas, 
não deixaram de dar logar a perseguições contra alguns dos 
moradores *), qúe foram accusados de haver fornecido manti- 
mentos ou communicado com os nossos. 

Não falta quem diga ^) que, com alguns delles, usaram 
os Hóllandezes, não só de rigor (o que elles confessam) mas 
de excessiva crueldade; pondo- os a tratos, e sendo causa de 
qne viessem a ficar aleijados. — 

Em quanto o Conde de Torre na Bahia se preparava 
para passar a investir Pernambuco, não estava Nassau por 
sua parte ocioso no Recife. Equipava alguns navios, discipli- 
nava a milicia e instava por novos reforços da sua metrópole, 
donde, felizmente pam elle, chegavam já alguns, ás ordens 
• do polaco Arcizeusky, que por terceira vez vinha ao Brazil; 
e que por se conduzir, segundo o mesmo Nassau *), menos 
circumspectamente elle conseguiu que os do Conselho annuis- 
sem a fazel-o regressar, embarcando-se, pela Parahiba, em 
fins de maio (1639). — 

Ainda em 9 de Julho instava Nassau por mais reforços, 



•) Entre outros Gabriel Soares, senhor d'engenho. Calado acres- 
centa mais três, nomes; a saber: Sebastião Ferreira e Miguel 
e Manuel Pinto; Barleus porém menciona, além do mesmo 
Gabriel Soares (que diz fora sentenciado a perda de um terço 
doB bens e a dez annos de cárcere), a Francisco Vaz, Gonçalo 
Fernandes, Siçião Fernandes, Domingos Pinto, Ruy de Souza 
e outros. 

•) Calado, p. 141. 

•) C. do Nassau de 25 de Julho de 1639. 






: «.1. <■ 



142 LIVRO SEXTO. 

ao enviar para a Hollanda noticia individuada*) das forças dos 
nossos, acrescentando que, pela correspondência oifioial que 
apresái-a, viera no conhecimento de que o Conde da Torre 
trazia ordens, que nao havia cumprido, de deixar as tropas 
de desembarque na Bahia, e que novas ordens lhe chegavam 
para, em todo caso, conservai*-se com a esquadra nas costas 
do Brazil durante dois annos. — Dizia mais que na Bahia era^ 
como em Pernambuco, mui grande a escacez dos mantimentos; 
e que por esse motivo não havia o Conde podido seguir 
viagem. A fínal, em principies de Outubro, recebeu Kassau a 
ainda illusoria noticia de que o Conde da Torre havia dei- 
xado a Bahia no dia 15 de Setembro; e no dia 8 acrescen- 
tava que havendo ja passados vinte e três dias" sem elle 
aparecer, propendia a crer que sé haveria retirado para a 
Hespanha comboiando a carga dos assucares. Provavelmente 
a saida a 15 de Setembro teiia sido parcial de alguns navios, 
unicamente para cruzar; pois a frota não partiu definitivamente 
da Bahia senão aos 19 de Novembro. Eram umas oitenta e 
seis velas que conduziam uns onze a doze mil homens, dos 
quaes porém apenas uns dois mil eram de desembarque. ^) 

Apenas Nassau foi da mesma pai-tida informado, pela 
chegada ao Eecife no dia 29 do mesmo mez de W. Comelissen 
Loos com treze navios, tratou de gaarnecel-os de tropas, e a 
outros barcos mercantes mais que ahi então tinham chiado, 
e que fez aiiiilhai*. E conseguindo ver promptos e bem equi- 
pados quarenta e um vasos, deu ordem a que elles fossem^ a 
quatro milhas ao mar de Olinda, esperar a esquadra do Conde 
da Torre, dupla em força. 

Este último chefe, depois de haver corrido a principio 
com os ventos para o sul, veiu a apresentar-se diante do 
porto das Alagoas no dia 13 de Dezembro, com intento de 
communicar com a terra afim de alcançar noticias do inimigo, 
e de ahi deixar algumas munições para os que haviam seguido 



*) „Vidalium et Magalhainsium duces cum módico agmine is 
pagos BrasiUanorum immisit, sparsis litteris,^ etc. (Barleos.) 

*) Barleus diz que a força total que tin^a o Conde da Torre 
na Bahia consistia em três mil homens, que comsigo trou- 
xera, mais sete centos ahi recrutados; além de dois mU de 
Bagnuolo e de mil índios; e que esperava que se lhe segre- 
gariam mais dois mil d'entre os moradores de Pemambiiee. 



LIVEO SEXTO. 143 

terra. Soube é almirante inimigo que estavam ali alguns 
ioSy e para ahi se dirigiu pensando surprehendel-os com 
tagem, encontrando-os ancorados. Haviam -se ja porém 

de vela a maior parte dos mesmos, e so ahi haviam ficado 
.trOy efectuando a descarga projectada, os quaes, para sal- 
-86 a gente, tiveram que dar á costa. 

A' vista do que, a esquadra hoUandeza, acudindo a todas 
tes, partiu logo para o Ilecife em cujo fundeadoui'o já se 
ava no dia 10 de Janeiro (1640). — Nesse mesmo dia 
gou ahi a noticia de que o Conde da Ton'e se aproximava 
banda do norte. Como justamente dessa banda soprava o 
to, a esquadra hoUandeza teve que fazer-se ao largo. Eo- 
ido porém o vento para o sul no dia 12, poude logo apro- 
lar-se da costa, e viu pelas sete da manhã que os nossos 
achavam diante das praias de Páu Amarello, com a pre- 
çâo de effeituar um desembarque de tropa, pai'te da qual ja 
achava em lanchas. ^) 

Ao avistar a inesperada esquadra hoUandeza, a nossa, 

1 se havia dispersado um tanto, não teve outro partido 
ao deixar-se ir com o vento, correndo a costa para o norte 
ivitando combater. Animaram-se os Hollandezes e foram- 

na alheta com todo o panno, e em frente da ilha de Ita- 
racá a encontraram, ás 3 da tarde, por serem os nossos 
eões mais alterosos e ronceii'os. O almirante hollandez 
avessando valentemente pelo meio da nossa esquadra foi, 
10 fizera o malogrado Pater contra Oquendo, em busca da 
> almiranta do Conde da Torre, e combateu com ella e com 
ifcro galeões, que vieram em seu soccorro, durante três horas ; 
^ não havendo tido de perda mais que quatro feridos e três 
rios, teve a infelicidade de entrar no número destes. 

Esta primeii'a acção, que cessou pela noite, teve logar um 
.CO ao norte da ilha de Itamaracá defronte da Ponta de 
Iras, paragem mais oriental de todo o Brazil. 



*) Nesta narração seguimos a exposição de Nassau, excepto no 
acreditar, como elle, o boato espalhado pelos agentes dos 
nossos, de que vinham na esquadra sete mil homens de de- 
sembarque, sendo que pela confissão do próprio Conde da 
Torre, em carta ao rei de 20 e de 26 de maio de 1639, não 
tinha mais de 2500, dos quaes devia deixar uma parte guar- 
necendo a Bahia. 



144 LIVRO SEXTO. 

Na manhã seguinte o pavilhão almirante hollandez foi 
arvorado pelo vice almirante Jacob Huyghens, o qual obser- 
vando ainda que a nossa esquadra evitava o combate, se ' 
dirigiu para ella, e a encontrou ás dez horas da manhã, 
entre a Goiana e o Cabo Branco. Esta cova acção foi mais 
geral e mais renhida que a primeira, e durou até a noite. 
Uma das uáos inimigas (Geele Son) ') foi a pique, afogando-ae 
o commandante e quarenta e quati'o soldados. 

Ao terceiro dia as duas esquadi-as, decaindo sempre pan 
o norte levadas pelo vento e as correntes, se achavam defronte, 
a duas milhas de distancia, do forte do Cabedelo ou de Mar- 
g are ta, como Nassau quiz nomeal-o. A almiranta hollandeu 
começou por metter-se entre as almii*antas de Castella e & 
Portugal, que lhe fizeram fogo mui vivo, do qual resaltoa 
mais estragos ao velame e mastreação que á guainiçâo. 

Entretanto a náo Swaen do vice-almirante hollandex 
Alderiksen, vendo-se desmastreada, teve que lançar ferro. Aco* 
metteram-a logo vários de nossos navios, quatro dos quaes 
conseguiram dar-lhe abordagem, e dentro delia se achavam 
duzentos ou tresentos dos nossos ; quando o chefe iuimigo se 
lembrou de mandar picar as amarras para escoiTor com as 
agoas e dar á costa. 

Apenas o notaram os atacantes, se foram desatracando. 
So não fez outro tanto António da Cunha d^Andrada, do soe- 
corro das Ilhas, e commandante da náo Chagas, de vinte e 
um canhões; pois não havendo notado que a Swaen ja havia 
encalhado, encalhou também, e veiu a ser levado prisioneiío 
para terra, com duzentos e tiínta homens, incluindo quatro 
frades e quatro officiaes. Na Chagas encontraram os inimigM 
bastantes valores. 

Seguiram-se dois dias sem hostilidades, porém no cairo 
aos 17 de Janeiro resolveu -se Huyghens a atacar, quando 
as duas esquadras estavam na altura de Ganhaú. O Conde da 
ToiTe, acomettido violentamente, viu-se obrigado a retinu^se* 
da acção — e fazer-se ao largo, sendo substituído por ontros 
galeões, que trataram de fazer vigorosa resistência ás dois 
vice almirantas inimigas. 



*) Navis Sol is flavi traduz Barleus. 



LIVRO SEXTO. 145 

Os HoUandezes cantaram victoria e com razão. A sua 
erda, sem iucluir o navio que foi a pique^ ha sido quasi insen- 
ivel em comparação da nossa, pois tivei-am apenas 22 moiiios 
82 feridos. O pintor Francisco Post encarregou-se annos 
jepois de /commemorar estas quatro acções navaes, e as quatro 
^vuras delias, com a sua assignatura, adornam a magnifica 
dição em folio da obra de Barleus. 

A nossa perda foi immensa ; não tanto pela náo Chagas, 
[ue foi tomada, nem pelos mortos e feridos nos quatro com- 
etes, mas pelas consequências. Pernambuco não foi restaurado, 
orno podéra havel-o sido, se desembarcam convenientemente 
« tropas que pai*a isso vinham; e toda a esquadra se des- 
aaptelou vergonhosamente. Dois galeões e um navio mercante 
ínham nanfragado nos baixos do Cabo de S. Roque. Uns 
lavios faltos d'agua e de mantimentos^ por seu próprio arbi- 
rio, foram parar ás Antilhas ; outros buscaram com os doenteis 
feridos refrigério no Maranhão, e algum houve em que a 
Tiarnição sucumbiu. — O grande almkante e generalíssimo 
k>nde da Torre só com um bergantim que montava dez peças 
e atreveu, fazendo-se ao largo, a refugiar-se á Bahia ; onde ja 
4) achava em fins de abril, quando ahi se apresentou de novo 
» inimigo com a sua esquadra, levando tropas de desembarque, 
iomo veremos. Outros navios mais com tropas poderam ainda 
ntrar na Bahia, e depois dahi passaram á Europa. Um des- 
(68 com seis centos homens, ao mando do coronel napolitano 
leitor de la Calce, quando regressava, viu-se obrigado, para 
iZo afandar-se, a aportar na Parahiba, e ahi tomaram os Hol- 
«ndezes prisioneiro o mesmo la Calce e demais officiaes, 
saudando os soldados em barcos hoUandezes pai*a as índias 
Dcddentaes. 

Com toda a razão, pois, não só Maurício de Nassa u 
iaatou a victoria, como foi ella perpetuada em uma medalha, 
im que ainda hoje se lê em hoUandez a seguinte modesta 
Qscripçâo: „Deus abateu o orgulho do inimigo aos 12, 13, 
.4 e 17 de Janeiro." ') 

Os navios da desbaratada esquadra de soccorro que tra- 
iam ainda tropas de desembarque, conseguiram lançal-as em 



') Good sloeg's vijands hoogmoed den 12. 13, 14 en 17 Januàrij 
1«40. (Netscher p. 112.) 

10 



146 ^ LIVKO SEXTO. 

terra uu porto do Toi>ro, que fica na paragem em que a nos? 
costa começa a tomar de um modo mais pronunciado pai*a loest 
Esse desembarque porém parece ter provindo mais das necessidí 
des que as mesmas tropas soffriam nos navios, por ventura c 
agua e mantimentos^ que de nenhum propósito de emprehendi 
com elles vantajosamente qualquer ataque. Ei-am umas mil 
tresentas praças ; e á sua frente se achou, , por fortuna, para \ 
commandar, o activo e destemido pernambucano Luiz Barbalh 
tendo ás suas ordens, entre outros valentes of^ciaes, a Fnu 
cisco Barreto, poucos annos depois por duas vezes vencedi 
nos Guararapes. — 

Desde logo reconheceu Luiz Barbalho qual era a missi 
que a Providencia lhe reservava, depois de tão gi-andes desa 
três, no retiro em que o haviam deixado com tantos do se 
compatriotas. Permanecer ahi defendendo esse posto, era-l 
impossível. Em poucos dias pereceriam todos por falta de á 
mentos. Não lhe restava pois mais recurso que retirar-se p 
terra á Bahia, dali mais de quatrocentas léguas, *) abrindo- 
o passo a ferro e fogo entre os inimigos, e resolveu pol-o < 
prática. Com valor e constância se arrostou a essa retira 
comparável á dos dez mQ Gregos, ao regressar da Persi 
sendo porém para sentir que o Xenofonte pernambucano n 
não deixasse, como o atheniense, a narração dos serviços q 
entáo lhe deveu a pátria. Sabemos com tudo que, no decui 
dessa jornada teve muitos recontros e pelejas, primeiro li 
no Rio-Grande, investindo cem soldados e tapuias que estav; 
de emboscada, e dos quaes ficaram mortos trinta, sendo 
mais postos em fugida; depois no assalto do engenho de Gi 
ana, em que foram mortos mais de quatrocentos, *) com 
sargento mor Piccard e o capitão Lochman, recolhendo-se 
mais a uma casa forte, contra a qual pelejou durante t 
horas; seguindo-se outras refregas até o Bio de S. Francis 
com as tropas que Nassau, apenas teve dolorosamente not» 
do desastre da Goiana, procurou reunir onde poude. Para íé 
fez desembarcar da esquadra, ' com o capitão Jacob Alard, i 
e duzentos homens, entre soldados e marinheiros ; ordenou a 



*) .,V 1 a m q u e s i b i ferro i u v e n i r e" diz Barleus. 

*) Cem soldados de linha (gregárias ordinis centum) oo 
fessa Barleus. 



LIVKO SEXTO. 147 

majores Mânsfeld e Hoogstraten que tossem para S. Lourenço, 
. ao capitão Hous que levantasse gente ua Moribeca, a Koen 
que fosse a Serinliaem, ao capitão Eius que de Iguaraçú se 
se lhes unisse, com a sua compauhia. — O commaudante das 
gfuardas Tourlon" chegou a fazer, com as suas tropas, dezesete 
léguas em doze toras, mas uão podendo alcançar a Barbalho, 
^ue se havia mettido ao mato, contentou-se de fazer matar, 
sem dar quartel, aos estropiados que alcançou.' 

Segundo encontramos em várias patentes de prémios e 
recompensas concedidos aos que acompanharam a Barbalho 
nesta prodigiosa jornada, os outros recontros tiveram logaf 
em Serinhaem, no engenho do Salgado ^), nas Alagoas,- além 
de mais duas acções ,,a peito descoberto" nos campos de 
Unháú." Em 8 de maio ja partecipava Nassau que o mesmo 
Luiz Barbalho, com todas as tropas que reunira, havia con- 
seguido passar ao sul do Rio de S. Eraucisco ; acrescentando 
que na marcha havia, como era natural, soffrido fomes, sedes 
e miséria; sendo acossado de perto pelas tropas hollandezas, 
que nessa perseguição haviam perdido, além dos dois officiaes 
ja mencionados, mais outros três, e haviam aprisionado, aos 
nossos, "onze officiaes e poucos soldados í por que em geral a 
'estes não se dava quartel. Barbalho tinha nas Alagoas feito 
incendiar os dois únicos eu^arenhos que ainda ahi permane- 
ciam em pé. ' 

' • Temos por mais que provável que em sua retirada fosse 
Barbalho aggregando a si os diferentes destacamentos que, ás 
ordens de Henrique Dias, André Vidal, D. Amónio Camarão e 
João Lopes Bai*balho, se acharam disseminados por toda a 
extensão do território dominado pelo inimigo. 

A gente que desembarcara com Henrique Dias havia sido 
encontrada, á borda, de um mato, pelo capitão das guardas de 
Nassau Carlos Tourlon, que om sete centos homens fora bus- 
cal-a, e lhe fizera um prrande número de prisioneiros, ficando 
no campo oitenta e sete mortos, o constando que havia sido 
ferido o próprio Henrique Dias. 



*) O engenho quo s(5 couhecia com o nome „do Salgado" ficava 
no districto da Ipojuca, pertencera a Cosme Dias da Fonceca, 
que dali se retirava antes ; e havia sido incendiado pelos ir- 
miíOH Tabonla eui liiis de UVòd 

in * 



150 TilVRO SEXTO. 

e duzentos/ índios, o almirante Cornelio Jol (perna de páo) 'j, 
a ver se ainda ahi encontrava em sua marcha a divisão do 
Bai'balho, ou pelo menos alguns restos delia; parece porém 
que já chegou tarde. 

Pouco depois fez partir para a Bahia o vice-almirante 
Lichthardt com os rpstantes vinte navios, levando comsigo' 
dois mil e quinhentos homens de tropas, ás ordens do coronel 
Carlos Tourlon, com instruções de ahi levar tudo a ferro e 
fogo, em represália das que o Conde da Torre havia dado ao 
Camarão, ,e que Nassau ^) vira de seus olhos. 

Lichthardt se apresentou na Bahia em fins ^) de abril; 
e foram sem conto os destroços e mortes que causou na ilha 
de Itaparica *) e no Recôncavo, dos quaes o próprio inimigo 
fez alarde : só engenhos foram queimados vinte e sete. ^) A 
própria cidade da Bahia esteve ameaçada, e talvez não deixa- 
ria de ser atacada o tomada, se mui a tempo ahi nao chega 
Luiz Barbalho, com os seus cangados mil e duzentos homens, 
vindos prodigiosamente pelos certões desde o porto do Touro, 
no Rio - Grande - do - Norte. Ao mesmo tempo véiu ordem a 
Lichthardt para regressar com a esquadra a Pernambuco, afim 
de ir com Jol a outra diligencia das bandas da ilha de Cuba, 
para onde proseguiu no mez de Julho; e onde não foi por 
certo mui afortunada, mas cujos ponnenores nps nao importam 
relatar. 

A essa esquadra se reuniram alguns dos navios que ti- 
nham ido ao Rio de S. Francisco, ficando outros ás ordens 
do coronel Koen, que foi mandado, com mais tresentos homens, 
invadir para as bandas do Rio Real ; o que ' elle executou des- 
truindo quanto poude, sem que lhe podessem oppor resistência 
as forças ahi deixadas por Barbalho ás ordens do capitão 



*) Houtebeen. 

')„.... alsoo zvlujden het quartier gebrocken ende belattt 
hadden allemael te vermoorden waervan ick di originale 
ischriftelycke ordre vau den Generael hebbe becomen etc.** 
(C. de Nassau de 8 de maio.) 

•) A 28, segundo Nassau (c. de 11 de Setembro 1640) j porém o 
Conde da Torre (c. do V de Juuho 1640) diz que no dia 25 
se mostrara ella em Itaparica, e que a 26 mandara um barco 
parlameutario que uao fora recebido. 

*) Tapes iqua se lé erradamente em Barleus. 

*) C. de Nassau de 11 de Set., 1640. 



LIVRO SKXTO. if)! 

Magalhães e do Camarão. Foram porém estas reforçadas por 
João Lopes Barbalho ') e depois pelas do general D. Frau- 
cisco de Moura ') e pelas do próprio mestie de campo Luiz 
Barbalho, que investia no mesmo Eio Eeal contra os Hol- 
landezes, causando-lhes gi-andes perdas. Os nossos proseguii-am 
victonosos, já no tempo de Montalvão, até a capital de Ser- 
gipe, onde foi o mestre de campo D. João de Souza desalojar 
08 Hollandezes ahi fortificados ^) ; sendo talvez então que caiu 
prisioneiro o major Van der Brande, que ao depois, como 
coronel, morreu nos Quararapes. 

Koen se viu pois obrigado a pai'tir, com os navios que 
comsigo tinha, no dia 1 de Outubro, e passou ás aguas da Bahia, 
informado, por uns pescadores que tomou, como seria impru- 
dente entrar, ou conservar-se por ali, resolveu acometter a 
Gamamú, que invadiu e incendiou, no dia 17, seguindo viagem 
depois de ter feito aguada. l)irigiu-se ao Espirito Santo, e 
logo ahi se apoderou (no dia 27) de quatro centos e ciu- 
coenta e uma caixas de assucar. 

A guarnição e alguns habitantes haviam-se recolhido s^) 
castello,. situado em um alto; e Koen julgando-o mais acces- 
sivel, resolveu atacal-o, com quatro centos homens, no dia 
setguinte; porém , manobrando bem cinco pequenos canhões 
que nelle havia, os defensores rechassai'am rigorosamente o 
inimigo, que ahi teve sessenta soldados mortos e oitenta fe- 
ridos, entrando neste número o major Hous, ao depois derro- 
tado nas Tabocas, feito prisioneiro na Casa Forte e morto na 
primeira batalha dos Guarai-apes. 

Depois de tentar incendiar a povoação sem o conseguir, 
por serem as cazas de podra e cal, Koen se fez ao mar no 
dia 13 de Novembro (dia em que se viu no Brazil um notá- 
vel eclipse do sol), e para seu maior castigo deu dahi a pou» o 
o escorbuto .á bordo, e tiveram que recolher-se. 

No em tanto havia chegado á Bahia, feito „vice-rei e 
capitão general de mar e terra, empreza e restauração do 
Brazil^ o Marquez de Montalvão D. Jorge Mascaranhas, e 



») C. de 0. da Ton-e de 20 de Junho de 1640. 
•) Mello, 11 152. 

*) Uma destas victorias teve logar no dia 1.® de Agosto. 
Veja-se Mello, I. 143. 



\[}2 LIVRO SEXTO. 

tomara posse em 5 de Junho. Havia-o nomeado a Corte ape- 
nas informada dos primeiros reveses soffridos pelo Conde da 
Tone, afim de proseguir na idea de oppor ao prestigio do 
chefe hollandez outro chefe de prestigio e alta cathegoria. 
Só povóm aos 22 de Julho (1640) é que veiu a ser assig- 
nado pelo rei o decreto desautorando completamente o mesmo 
Conde da Torre, privando-o do titulo, das commendas lucra- 
tivas e cai'gos que disfrnctava, e mandando- o preso para a 
Torre de S. Julião, na baiTa do Tejo; onde pennaneceu mui 
pouco tempo, por occorrer, logo depois de ahi entrar, a res- 
tauração do i.® de Dezembro; e haver o mesmo Conde tido 
occasião de prestar a esta o serviço de fazer que se rendesse 
o commandante da mesma Torre, não obstante ser castelhano J) 

Entro os effeitos lamentáveis, produzidos no Bi-azil pelos 
revezes da desastrada frota do Conde da Toito, devemos ainda 
mencionar dois; a saber: o novo alento e ensoberbecimento 
que elles foram dar aos índios inimigos, - e o pretexto a Nassaa 
para expulsar do território conquistado a maior parte dos fra- 
des, que ainda nelle residiam. Uns três mil índios, com suas 
famílias, entrando no número o Janduy, *) descei*am até o 
Eio-Orande, Goiana é Itamaracá, a reforçar as fileiras dos já 
arregimentados por Nassau, sob o mando do- coronel (xuilherme 
Doncker. Quanto aos fi*ades, Nassau allegou que elles se 
haviam pronunciado, auxiliando os da frota, senão sempre com 
mantimentos, pelo menos com informações. Assim pois, fez 
reunir os benidictinos, carmelitas e franciscanos, em nWero 
de sessenta ^)j na ilha de Itamaracá, e os embarcou a todos 
para as Antilhas, o que não deixou de causai* muita sensaçSo 
no povo. 

Nassau, não tardou em reconhecer o mau effeito que 
produzira essa resolução; pois ás justas queixa^ dos morado- 
res de nada poderem emprehender por falta de segurança in- 
dividual, e com receios continuados das invasões dos campfr- 
nhistas vindos da Bahia, se aggregava' agora o uão terem 
número sufficiente de ministros para a celebração do cnlto 



*) Fr. Ant. Seyner, Historia dei levantamiento de 

Portugal, Zaragoza, 1644, pag. 96 e 97. 
^) Johannea de Wy, escreve Barleus. 
') „Namero sexaginta, ob clandestina cum hoste consilia, etc" 

(Barleus). — Veja também Calado p. 51. 



LIVKO SEXTO. 103 

divino. Tratou pois de acadir ao priíueiío mal, induzindo 
aos poucos ecclesiastlcos que haviam ficado a fazerem-lhe uma 
represeoitaçSo, pedindo-lhe que usasse para com os prisioneiros 
a maior tolerância e moderação. Diferiu Nassau, dizendo qne 
quando o governo da Bahia ordenasse que os campanhistas se 
retirassem e não fossetn incendiar os cannaviaes e os engenhos, 
elle resolveria favoraveMente. Pediram os ecclesiasticos licença 
para mandarem com essa resolução um corneta á Bahia; e 
sendo isso concedido por Nassau, foi a mencionada clausula 
aceita por Montalvão. Desta forma se havia insensivelmente 
chegado a entabolar uma trégua, que se tratava de forma- 
lifiar, enviando-se reféns de parte a parte, confoime foi exigido 
por Montalvão. Foram escolhidos para reféns, por Nassau o 
tenente coronel Hinderson e o major Day, e por Mantalvão o 
ja mestre de campo Martim Ferreira e o sargento mor Pedro 
Arenas. — 

Âo dar Nassau conta deste arranjo aos Estados Geraes, 
em carta de 10 d» Janeiro de 1G41, data já esta carta, não 
da ilha de Santo- António ou Antonio-Vaz, mas sim da Ci- 
dade Mau ri cia (Mauritzstad), nome este que os Conselheii'os 
Foliticos e a Gamara haviam deliberado que passasse a ter 
de então em diante a cidade actualmente chamada do Eecife. 

E nessas negociações de tréguas provisiorias, precedidas 
de trocas de reféns e de prisioneiros, se achavam os dois go- 
vernadores/ Nassau e Montalvão, quando a ambos veiu inopi- 
damente serprehendel-os, em fevereiro desse mesmo anno de 
1641, a noticia da revolução que se effectuái-a em Lisboa no 1.^ 
de Dezembro de 1640, e communicára, como chama eléctrica, 
a todo o Reino; em virtude da qual ficava aclamado lei, com 
o titulo de João 4.^, o Dhque de Bragança, descendente dos 
reis avoengos poiiiuguezes e successor l^itimo do afoi*tunado 
Manuel, por sua avó a senhora D. Catherina, neta desse rei 
em cujo reinado o Brazil so patenteara ao mundo civilisado. 

Ao receber a notícia, por uma caravela entrada na Bahia 
no dia lõ de fevereiro, o vice-rei procedeu com a maior cii*- 
cumspecção e prudência. Mandou pol-a incommunicavel ; e esme- 
' rou-se em tomar providencias para que se fizesse pacificamente 
a transformação que devia operar-se. Como faziam parte da 
guarnição umas seiscentas pi'aças de tropas hespanholas e na- 
politanas, tratou antes de tudo de mandar que somente esti- 



s 



154 LIVRO SEXTO. 

vessem em armas as demais. Ordenou a seu filho D. Feniwido 
que com o seu terço occupasse o teiTeiro da Companhia e a 
João Mendos de Vasconcellos, que estava de guarda, que com 
outras tropas fosse poster- se na praça do Palácio. 

Appoiado por estfs preparativos, mandou pouco a pouco 
chamar o bispo, o capitão general d ai-tilheria D. Fi-ancisco de 
Moura, os mestres de campo, o ouvidor geral, o provedor mor 
da fazenda, e os prelados das religiões; e fazendo entrar om 
por um no seu gabinete, lhe lia em pai*ticular a carta regia 
que recebera; e logo o fazia passar a outra sala, a esperar 
ahi, sem communicar com os que ainda não o haviam visto. 
— Depois de ter seguro o voto de todos, os reuniu ahi mesmo 
em conselho pleno ; no qual se votou que se procedesse imme- 
diatamente á aclamação do novo rei *) ; partindo desde logo 
todos dahi para a sé, a assistir ao competente Te De um de 
acção de graças. 

Para felicitar o rei aclamado e dar conta do occor- 
rido, ordenou desde logo Montalvão que, no dia 26, partisse 
o seu filho D. Fernando, indo em sua companhia os dois 
illustres jesuítas escriptores Simão de Vasconcellos e António 
Vieira. 

A acclamação de D. João 4.® fez-so com felicidade aná- 
loga por toda a extensão do Brazil, não submettido aos Hol- 
landezes. No Eio de Janairo parece haver hesitado Salvador 
Corrêa, ') mas viu-se obrigado pelos jesuítas a proclamal-a. 
Em S. Paulo seguiu o povo com igdal bom senso, graças, 
segundo a tradição/ á abnegação de Amador Bueno. 

O grande acontecimento da restauração de Portugal pro- 
mettia fazer mudar a situação do Brazil. A guonti dos Hol- 
landezes lhe proviera de ser parte da Hespanlia ; e a Portugal 
e á HoUanda interessava o alliarem-se para guerrear o inimigo 
commum. — Levado por estes instinctos, escreveu liontalvio 
a Nassau em 2 de março uma attenciosa carta dizendo-lhe 
que esperava começaria entre Portugal e os Estados Geraes 
„aquella paz e união com , que sempre se trataram.^ 

*) Restauração de Portugal prodigiosa, por Gregório 
d^Almeida; Part. 2.», cap. 14, foi. 129 v. e segs. 

') Fr. António Seyner, Historia citada, pag. 46. 



lilVRO SEXTO. 155 

Respondeu Nassau mui cortozmente no dia 12, abundando 
no interesse que tinha pela paz entre a sua nação e a portu- 
gneza, dando os parabéns, e acrescentando que, pela sua pai*te, 
ia ajudar a festejar a nova ; e que além dos seus delegados, 
pe pai'tiriam, mandava onze prisioneiros que ali tinha. 

Aqui daremos os textos das mencionadas cartas, taes 
wmo foram impressas nesse mesmo anno em Lisboa ^) : 

„ Chegou uma cai-avela de Lisboa com aviso que no 
Beino de Portugal ficava jurado e reconhecido por verdadeiro 
Rei e Senhor delle el Rei D. João IV, Duque que foi de 
Bragança, neto da sereníssima Senhora Dona Cathaiina, filha 
io Infante D. Duarte, a quem tocava o direito do Reyno por 
inorte- dei Rei D. Henrique o Cardeal, seu tio, tomando Deus 
por instrumento para restituir a Sua Magestade á posse deste 
M. Reino, a aflicção, que os vassallos tem delle padecido da 
sein-justiça da tii'ania, com que eram governados por alguns 
ministros ; e accudindo Deus ao remédio para mostrar que vi- 
Qia de sua mão, da oppressão tirou o poder, dispondo de tal . 
Bianeh*a o effeito desata obra, que em todo o Reino não houve 
iifferença de vontade, nem contradicção alguma; e havendo 
ttelle treze fortalezas, com presidio castelhano, todos se entre- 
^m sem violência, nem golpe de espada; e desta suavidade, 
) de outros mais efficazes testimunhos se presume bem que 
' intento foi grande poder de Deus, que em nada acha resis- 
aicia, com que nos fica justa confiança, que ha de ser segundo 
Dntinua seu favor, conservando a Sua ílagestade felizmente 
n seu Império, e em sua descendência; e este Reino em sua 
)erdade, naquella antiga paz com que sempre se conservou com 
, Príncipes da Europa, a que Sua Magestade ja tinha man- 
do embaixadores, e principalmente a HoUanda, França, Ingla- 
rra e Catalunha. 

„Pareceu-me que devia dar a V. E. esta nova, e repre- 

utar-lhe que entre as razSes e causas de estima, que devo 

nsiderar neste successo, respeito particularmente a esperança 

que este Reyno e os Illustrissimos Estados da Hollanda 



') igualmente foram então publicadas em Amsterdam, traduzi- 
das em hollandez, em um folheto com o titulo de „Copyen 
van drie Missiven^ eto., trocando-se o nome de Montal- 
vão em Montuval. 



156 LIVRO SEXTO: 

tenham aquella paz e união com que sempre se trataram, 
correspondendo-se com tão recíprocos beneficies, e com tão 
útil commercio, coíno nos podemos lembrar todos os que oo- 
Timos as felicidades dos tempos passados; em que eu terá 
dobrado interesse, podendo mostrar . melhor a correspondência 
das obrigações em que Y. E. me tem posto, e quão verdadei- 
ros são os propósitos que tenho de o seiTÍr em tudo o que 
se oíferècér em os tempos, e eu poder pretender as occasiões; 
e se desta presente resulta alguma cousa, que Y. E. queín 
mandar-me, em tudo o que tiver logar me achará Y. E. dis- 
posto ao servir como devo a quem Deus guarde, etc." 

A resposta de Nassau foi a que passamos a transcrever: 

„Dou a Y. E. os parabéns d^ nova, que me mandou, e 
quanto posso lh'a ajudo a festejar com pai-ticulares desejos de 
que Sua Magestade el Eei D. João o lY de Portugal perma- 
neça por felices séculos em sua descendência na possessão do 
Reyno, a que Deus nosso Senhor foi servido restituil-o nestes 
nossos tempos, livrando ao Eeyno da tirania que padecia, e 
toiíiando-o á sua antiga liberdade e senhorío natural. 

„Com tanto desejo esperava a certeza desta nova, por 
me haver chegado aviso, cousa de um mez, aqui por carta que 
tive de Inglatena, passando ali a ultima náo vinda de Hollanda 
para este porto, que lhe afíimo a Y. E. me sinto mui seu de- 
vedor pela yontade, e favor com que me quiz certificar. Delia 
me nasce o mesmo conhecimento que a Y. E. de haver sido 
destino executado do poder divino, o qual devfmos esperar, 
que com taes principies não haja de faltar nos meios da pai 
entre aquelle Eteino, e os Príncipes da Europa, em cuja es- 
perança me acho tam interessado, que lhe não concedo a V. E. 
vantagem alguma, por Portuguez, neste desejo ; e nelles espero 
desempenhar-me da muita parte dos que a correspondência de 
Y. E tem levantado em meu animo para seu serviço. 

nOs delegados desta nossa parte, que vão a tratar das 
conveniências da guerra, estavam aviados, e o estão para partir: 
supposto que no Beino vejo mudança, me parece que não deve 
essa alterar alguma cousa, antes dispor mais suavidade nos meioi 
das conveniências da guerra ; pelo que não tratei de emendar e 
estilo, e nossas proposiçOes, ainda que no methodo pareçam i 
Y. E. diversas ou dissonantes da jurisdição, que hoje corre 



LIVRO SEXTO. 157 

m Bahia na qual o conserve Deus felices annus^ e a V. E. 
Q tam nobilissimos profp*essos, e augmento, como sua illnstre 
soa merece. Mauricia 12 de Março de 1641.^ 

* Seg^oia-se este P. S. posto por Nassau de seu próprio 
lho: 

^Mando a Y. £. neste barco nove marinheiros e dois 
sageiros portuguezes que aqui tenho prisioneiros; porque 
endo que nisso dou gosto a Y. E. Estimarei haver outras 
asid^es de seu serviço em que possa dar-lho, como desejo, 
a pessoa Deus guarde muitos annos. Maurício, Conde de 
isau.^ 



£11 



LIVKO SÉTIMO 



DA AOCLAMÁÇAO DE JOÃO 4^^ A' RESTAURAÇÃO DO MARANHÃO E RETIRADA D8 NASSIT. 



E' deposto Montalvão. — Junta de governo. — Embaixador portugua 
na Haya. — Consequente suspensão. — Falta Nassau aleivosamente 
a ella. — Manda occupar Sergipe, Loanda e ilha de S. Thom^ 

— Protestos dos nossos. — Carta de Montalvão a' Nassau. — 
Tratado de tréguas. — Rara estipulação quanto ao Brazil. — E* 
occupado o Maranhão. — Morte de Bento Maciel. — Chega a hon 
das represálias. — Plano para restaurar-se Pernambuco e o Mv 
ranhão. Juizo acerca de Fernandes Vieira. — Serviços supeii- 
ores de Vidal, dirigindo a conjuração. — Porque se nao leolisi 
êm Pernambuco e e* levada a effeito no Maranhão. — Vantagem 
dos nossos, nos primeiros recontros. — Passam a sitiar a cidade. 

— Soccorro vindo do Pará. — Recebe também reforços o immi||0 
e emprehende uma sortida. — Morre heroicamente António Menu. 

— Succede-lhe A. Teixeira de Mello. — Levanta o sitio. — Bar- 
rota a Evers em Moruapy. — Passa a Alcântara. — Recebe novoi 
soccorros. — Aproxima-se do canal do Mosquito. — Volve á ilha. 

' — Embarca-se o inimigo. — Vidal e' nomeado governador pelo 
rei. — Miséria do donatário de Tapuitapera contra Teixeira de 
Mello. — Retira-se Nassau para a Europa. — Triumvirato no Redíé. 



Ás ordens para se efectuar na Bahia a aclamação dft 
D. João 4.^ foram acompanhadas de outras, confiadas pesso- 
almente ao jesuira Francisco de Vilhena, providenciando Dfo caso 
de que o vice-rei do Estado se mostrasse contráiio a ella. 
Eífectuada porém sem novidade a mesma aclamação, pareda 



LIVRO SÉTIMO. 159 

>ataral qae se considerassem essas ol'deus nullas e sem 
alor. 

Não o entendeu porém assim o jesuita. Haviam ja par- 
ido para Portugal os emissários encarregados do cumprimentar 
novo Soberano da parte do vice-rei e do povo, quando Vi- 
lena, por ventura em virtude de algum despeito ou resenti- 
lento por ambição de dominio malograda, resolveu-se a exhi- 
ir em camará essas ordens. Em obediência a ellas, o gover- 
ador foi logo deposto e preso e enviado a Lisboa; sendo 
reclamada em seu logar uma Junta de Governo, composta do 
Lspo, de Luiz £ai'balho e de Lourenço de Biito Corrêa, que 
jtava semndo de provedor mór. 

Nas mãos deste triumvii*ato se achava o Governo geral 
o Estado, quando chegou á Bahia a noticia de que havia 
ido recebido na Haya como embaixador de Portugal Tristão 
8 Mendonça Furtado, e que ficava negociando pazes e até uma 
lliança offensivo-defensiva ') com os Estados Geraes. 

A simples tecepçao do embaixador era um acto publico, 
m virtude do qual por direito de gentes, entre os dois Esta- 
08} as hostilidades se deviam considerar pelo menos suspensas. 
*orém os. dois governos quizeram a este respeito deixar um 
o outro bem manifestos os seus intentos^ Os Estados Geraes 
rdenaram, em 13 de Fevereiro de 1641, que os Portuguezes 
os^m considerados como amigos; e por sua parte Portugal 
orrespoiídeu immediatamente a essa declaração, por meio da 
arta regia de 20 de março, dispondo outrotanto com respeito 
OB Hollandezes. 

Para fixar melhor, durante a suspensão das hostilida- 
jBS, os direitos de ambas as partes, resolveu o governo pro- 
isorio que desde logo passasse ao Recife o tenente-coronel 
*edro Corrêa ') da Gama, acompanhado do licenciado Simão 
Jvares de la Penha, restituindo desde logo uns trinta prisi- 
neiro», ficando ainda na Bahia os majores Van der Brande 
Gai'stman. Ao mesmo tempo levou Pedro Corrêa da Gama 



*) Na nota de Furtado exhibida, em 12 de abril, propoz elle 
um tratado de paz e alliança mediante: 1.*" Uma indemnisa- 
çao pela parte do Brazii o ccupada pelos Hollandezes ; 2* com- 
mercio franco com Portugal, como d'antes ; S.° fornecer a Hol- 
landa uma esquadra e officiaes para o pxpvrito portuguez. 

*) Em Barleus lé-se erradameute Corera. 



160 LIVRO SÉTIMO. 

autorisaçâo para poder mandar recolher todos os guerrilhe 
e campanhistas que não deixavam de infestar o territoiio 
Pernambuco; sendo que, ainda em Maio, o Camarão se acl 
no Bio de S. Francisco, e em Abril haviam pelos ditos c 
panhistas sido queimados três engenhos , e até um gn 
número de carros, estes na própria Várzea do Recife. Adi 
tida a suspensão das hostilidades não tardou a apresenta 
no Recife, munido do competente salvo-conducto que receli 
o teneute Paulo da Cunha Souto Maior, que pouco antes 
via offerecido dois mil cruzados pela cabeça de Nassau, 
represália da offerta de quinhentos florins que este chefe fi 
pela delle Paulo da Cunha. ^) Para se entenderem com os i 
cionados emissários da Bahia á cerca dos direitos de cada • 
durante a suspensão das hostilidades, nomeou Nassau os 
selheiros Theodoro Codd van der Borch e Nunin Olfers, dai 
lhes por interprete o secretario do Conselho Abi*aham Ta{ 
com recommendação de redigirem em latim quanto se pa 
asse. A Paulo da Cunha, antes de seguir pam a Bahia, 
vidou á sua meza, praticando com desenfado acerca das í 
aças que se haviam mutuamente feito, quando inimigos. 

• 

Quem diria, em presença deste proceder de Nassau, 
express5es da sua carta a Montalvão, da nobreza de seu 
gue, e dos seus precedentes, que elle obrava com duplicid 
e que necessitava da suspensão das hostilidades pai-a, con 
púnica, abuzai* delia! Entretanto o facto passou-se, e não 
é hoje possível duvidar delle, quando é cynicamente confes 
pelo próprio Nassau, «m carta aos Estados Geraes do 1. 
Junho de 1641. Escreve o dito chefe que, antes de rec 
as ordens (de 28 de março) que lhe mandava a Assem 
dos XIX, prevendo que a revolução de Portugal deveria nc 
sariamente conduzir ás pazes, e aproveitando-se do que 
tuára e da retirada dos nossos guerrilheii'os das fronte 
havia elle disposto que das forças até ahi destinadas a £a 
lhes frente^ passassem, umas a occupar Sergipe, e se em 
cassem outras contra Loanda; justificando, esta última or 
com a vantagem de ter^ para os engenhos de Pernamb 
escravos mais baratos. 



') Calado, pag. 116. 



< . LIVRO SÉTIMO. 161 

r 

f 

\ Em preseuça da própria confissão de Nassau, não pode- 

i ' IDOS pôr em dúvida este facto da sua vida que nada o honra, 
[ e que veiu a fazer diminuir em n6s o i-espeito e quasi estima 
qae tínhamos por esse chefe inimigo. A liistoria, mestra da 
fida e conselheira dos povos e principes no porvir, não pode 
I deixar de reprovar tão feio proceder que veiu a dar motivo 
: para justas represálias. 

Foi pois por ordem expontânea de Nassau, abusando 
dos ajustes para a mutua cessação das hostilidades, e antes 
de receber sobre isso, segundo elle próprio diz, as suggestões 
que nao tardaram a chegar-lho da Hollanda, que o comman- 
dante das tropas no Eio do S. Francisco, Andreas, auxiliado 
de um reforço, que o mesmo Nassau lhe mandou em quatro 
bs^rcos, *) passou a tomar aos nossos o território de Sergipe 
até o Rio-Keal, fazendo ahi entrincheiramentos. E foi igual- 
mente por deliberação de Nassau que se preparou a expedição 
Gontm Angola, ás ordens do almirante Jol, o Perna de Páu, 
assegurando - se menth'osamente aos nossos commissarios que 
viam pai*tir a frota, que ella era destinada a ir atacar, nas 
índias occidentaes, o inimigo commum. 

Sergipe foi logo occupada, não havendo ahi tropas para 
apresentar resistência. 

Outrotanto succedou a Loanda, e ilha de S. Thomé. 
Partiu Jol do llecife aos 30 de maio, e no dia 25 de Agosto, 
eom pei*da apenas de três mortos e oito feridos, se assenhoreou 
daquella cidade, e no dia 11 de outubro seguinte cons^uiu 
ig^oalmeuto tomar a povoação *) da ilha de S. Thomé, onde 
nesta occasiâo deixou o mesmo Jol a vida, atacado das car- 
neiradas da terra. ^) 

Apenas inteirado o governador da Bahia da occupação 
de Sergipe e depois da de Loanda, mandou ordens, para re- 
presentar e protestar em Pernambuco contra ellas, ao licen- 
ciado Simão Alvares de la .Penha; *) mas Nassau eximiu-se 



•) Calado p. 117. 

■) „Urbem cui Pavaosae nomeu etc," diz Barleus, ignorando 
a sigaifícação da palavra. 

*) S. Thomé não tardou muito a libertar -se graças a uma 
força que em dois navios ás ordens* de Lourenço Peres, par- 
tiu de Lisboa em Julho de 1642. 

^} Benha se lè em Barleus. 

11 



162 LIVEO SEDIMO. 

de lhe dar nenhuma resposta por escripto; O alijando do 
palavra, quanto a Loanda, não estar Angola na sua jurUdic- 
çâo, ') o que não era verdade. A notícia dessas aleivosas 
occupaçõeSy feitas pelos HoUandezes, haviam também em todo 
Portugal causado a maior consternação, e. foi ordem para 
contra ellas protestar na HoUanda o embaixador portugaeL 
Entretanto o Marquez de Montalvão, que, depois de chegar á 
Corte, fora pelo rei premiado, chamando-o aos seus conselhos, 
reconhecendo que Nassau melhor que ninguém podia desenie- 
dar, querendo, estas últimas complicações, resolvera dirigir- 
lhe, mui habilmente, em 12 de março de 1642, uma carta ^ 
em que o pretendia angaiiar com offertas para que se mos- 
trasse favorável aos Foi*tugueses. Eis o teor dessa caria: 

„I11.°^<> Ex."'^* Sr. Estou tão penhorado do procedimento 
tido por y. £. pai*a comigo, quando eu me achava de vioe- 
rei do Brazil, que não posso consentir que esta caravella passe 
diante do Becife, sem que ahi toque, para infoimar a V. & 
que cheguei a Lisboa de perfeita saúde, e que S. Magestads 
q. D, G. se dignou conceder-me o favor e benevolência, a qoa 
meus titules e serviços podiam apenas dai'-me direito, empre- 
' gando-me na administração de assumptos importantes do mu 
serviço, como a das rendas da Coroa, equipo e organisaçSo 
do exercito, e governo das conquistas, com entrada no governo 
e conselho doestado. Mas a maior honra que me fez S.MageB- 
tade foi a de ter feito o Piincipe, meu Amo» coronel, e i 
mim tenente da nobreza do Eeino. 

„Como sei que V. E. terá satisfação de saber que estoi 
deste modo no serviço de S. M. , me aprouve participara'^ 
pensando que será isso do agrado de Y. E., a quem afisegon 
que, se tivesse occasião de poder-lhe fazer algom serTifOb 
Y. E. poderá estar persuadido que a isso me prestaria coi 
fervor e o mais vivo prazer. 

„Por esta occasião devo inteirai* a Y. E. da mágoa qnip 
S. M, como todo este Eeino, experimentou ao saber que m 
momento em que, por cauzas urgentíssimas, Portugal se 66fo^ 

cava por estabelecer de novo a antiga amizade com os illo^ 

lis 

') Calado pag. 118 e 119. gi 

•) Barleus. 

^) Recebida por Nassau em 25 de abril. 



LIVRO SEDIMO. 163 

es senhores Estados Geraes da Hollanda, e quando era tão 
)C6ssario que as armadas destes dois paizes e as de França 
I reunissem para ajudar a proteger e manter o reino de Por- 
igaly — que nesse momento, digo, se lhe tomasse uma de 
ias possessões. Persuado-me que V. E. nenhuma parte teria 
Q um acto que tanto tem escandalisado o mundo, e nao du- 
!do que considerará como um dever o empregar todos os es- 
•rços para levar os senhores Estados Geraes a reparar promp- 
jnente esse acto injusto e iniquo commettido contra Portugal* 

„Sua Magestade nutre por V. E., posso assegui-ar-lho, 
mais profunda estima; e o seu mais vivo dezejo seria en- 
irr^al-ó em grande parte do commando de seus exércitos; 
já S. M. ia occupar-se desta negociação, quando se recebeu 
notícia da expedição emprehendida contra Angola pelo te- 
Mite-coronel Henderson. V. E. terá a bondade de me fazer 
iber se lhe seria agradável que eu desse seguimento a este 
^ciOy que em meu entender é da maior importância, tanto 
ura y. E., como para os que houvessem de servir ás suas 
:dens. 

„Poi*tugal possue um forte exercito bem organisado, 
ossas praças das fronteiras estão convenientemente aprovisio- 
tidas de suficientes guarnições, e estou pondo a mai*inha no 
lélhor pé* 

„Eis quanto se me offerece a communicar a Y. E.: e 
õje, que a paz está assignada por dez annos, rogo a V. £. 
ue escreva ao coronel Henderson que arranje este assumpto 
9 modo que sejamos obrigados a não levar á execução o que 
í se. tinha começado a fazer em particular. 

^Espero também que em tudo quanto respeite ao Brazil, 
. E. obrará de modo que faça sentii* os effeitos do credito 
9 que gosa, de modo que S. M. e o Eeino todo Ibe devam 
Bda maiores obrigações. Deus guarde a Y. E. muitos 
inos." *). 

Em abono da verdade cumpre acrescentar que Nassau não 
), deixou seduzir. Enviou lealmente cópia desta cai*ta aos 
istados Geraes ; e com tanta maior mzao quando, ao recebel-a, 
io era só Loanda que por seu influxo se havia perdido, mas 



^) Barleus reproduz em latim pouco fielmente esta carta. 

11* 



164 LIVRO SÉTIMO. 

também ja o Maranhão. Correra. porém que de Lisboa se lhe 
havia offerecido para captal-o o marquozado de Villa fieal, 

A mandar occupar o Maranhão se havia Nassãa decidido, 
de accordo com outras novas ordens da Hollanda, ao experi- 
mentar com quanta facilidade e vantagem, á sombra da bea 
fé dos nossos, lhe era dado fazer a guerra, e depois de haver 
recebido o texto do tratado que em 12 de Junho (1641) fòra 
assignado na Haya, estipulando a cessação das hostilidades por 
dez annos; as quaes (pelo art. 8.®) „nas terras e mares per- 
tencentes ao districto da jurisdicção concedida pelos Senhores 
das Ordens Geraes á Companhia da índia Occidental" (isto é 
no Brazil e na Africa) só deveriam começar a contai* em cada 
logar desde que ahi fosse apresentada a ratificação do 
tratado. Deste modo, tào mal concebido foi o mesmo tratado, e 
tal demora houve da parte de Portugal em ratifical-o, que 
mais justificada veiu a fícar a conquista do Maranhão/ empre- 
hendida depois de receber-se o teor delle, que a de Sergipe e 
de Loanda, effectuadas antes d'elle ser conhecido. A expecÕçâo 
contra o Maranhão partiu do Recrfe no dia 30 de Outubro, e 
ch^ou ao seu destino a 25 de Novembro, data em que ainda 
em nenhuma paragem do Brazil podia haver noticia da ratifi- 
cação, que por pai*te de Portugal, só foi assignada aos 18 do 
mesmo mez de novembro. 

O tratado constava de trinta e cinco artigos. Pelo 34.' 
foram reciprocamente admittidos os cônsules nos portos de ama 
e outra nação. O 26.^ estipulou a liberdade religiosa. Pelo 
21.® foi reconhecido, ao governo hollandez, o domínio adqui- 
rido pela conquista; assim como pelo 22.® o foi, aos súbditos 
hoUandezes, o direito ás propriedades e engenhos de que esta- 
vam de posse. O artigo 17.® estipulava que nenlium súbdito 
portuguez poderia fretar nem comprar navio, para a navi^ 
ção do Brazil; que não fosse hoUandez. Finalmente vários a^ 
tigos tratavam da India-Oriental, e outros eram relativos i 
uma frota de vinte navios com que a Hollanda devia dosdi 
logo soccon*er Portugal. *). 



^) EfTectivamente os mandaram ao Tejo sob o almirante Admi 
Gissels. — Veja-se o folheto „Copia da carta^ etc Liiboi^i 
por Jorsfe Rodrigues, 1641, 



IJVBO SÉTIMO. 165 

Occopemo - noB porém do Maranhão. A esquadra desti- 
lada a assenhorear-se do porto e da cidade companha-se de 
irese navios de gueiTa, três bergantins e outros três barcos 
nenores. Era delia vice-almirante o conhecido Lichthardt, e ia 
^r chefe da trepa, que consistia de uns mil soldardes, o co- 
ronel Koen ; tudo subordinado ao Conselheiro politico ^) Pedro 
BaB. Fundearam primeiro todos no Preá, aquém do Maranhão, 
) dahi mandaram explorar o que se passava, para . seguirem 
;om mais confiança. 

Aos 25 de novembro se apresentou a esquadra, sem 
bandeira, diante do porto. Foram de terra disparados primeiro 
blgnns tiros de pólvora seca. Porém não sendo inçada ainda 
lenhuma bandeira, e continuando os barcos a aproximar-se 
lo ancoradouro, começou o forte da cidade a disparar com 
»ala; e logo se travou o fogo de parte a parte; mas os navios 
)a88aram avante, havendo unicamente perdido dois homens, e 
oram fundear para a banda de dentro da ponta do Desterro, 
máe a ten^a faz volta para o Portinho, que fica além 
la cidade. ') 

O governador Bento Maciel Parente, na presença de um 
itaque tão estranho como por elle inesperado, encarregou ao 
)rovedor mor Ignacio do Rego Barreto que, em companhia do 
esnita Lopo do Couto, fosse avistar-se com o commandanfce da 
isqnadra. Quando porém estes dois emissários chegaram a bordo, 
oi-lhes dito que o chefe se achava em terra, com a força, 
[ue já ahi se formava, para marchar contra a cidade. Diri- 
[iram-se pois para a paragem do desembarque, e, ao que se 
hes apresentou como chefe disseram, de parte do governador^ 



*) Berredo entendeu provavelmente mal este titulo quando trata 
(§. 780) de um Pedro por antonomásia (!) Politico. 

•) Comparando os planos e desenhos feitos então pelos Hollan- 
dezos com a cidade actual, vê-se que a povoação naquelle 
tempo se eztendia quasi até o mesmo Portinho, existindo já 
com muitas casas, as ruas do Giz, da Palma e Formosa até 
a Rua do Caminho Grande, que seguia ainda para fora com 
algumas casas e provoação, do lado esquerdo, nas ruas da 
Cruz e S. João; bem entendido que muitas das casas eram 
ainda cubertas do pindoba. 

Além do forte de S. Luiz havia duas baterias nos pon- 
iAeê da outra banda do Anil e mais uma na saliência que 
fica entre as extremas das ruas Direita e de Santa-Anna. 



166 LIVKO SÉTIMO. 

haverem ali sido recebido ordens regias annnnciando as 
tréguas celebradas na Haya, havia mais de cinco mezes. Bm 
conheceria o chefe inimigo o tratado, e o direito ás hostili- 
dades que Ihes" dava o artigo 8.^ delle, se ali nâo houvesse 
chegado ainda a notícia da ratificação, como bem presumifti 
Pediu pois pai*a ver essas ordens ; e com a maior boa fé saia 
o governador da foiiialeza, levando-as na mão; pensando que, 
com isso, ia poupar muito sangue, e cumprir os seus deveres 
como leal cavalheiro e bom christão. Examinou o chefe ini- 
migo as taes ordens, e desde logo se tranquilisou, ao ver qae 
aindtb nellas se não falava da i*atificação, a qual, como- oia 
sabemos, apenas havia sido assignada por Poiiugal na semana 
anterior. Duvidou, ao que parece, Maciel Parente pouco ao co> 
rente das formas diplomáticas, de seus argumentos, e résistindo-se 
a acreditar que o governo da metrópole havia andado com 
pouca previsão e bastante negligencia. Viu-se porém obrigado 
a ceder ao número das forças desembarcadas, mediante uns 
simulacros de concess5es, que lhe foram feitas, de quo as 
hostilidades não proseguiriam, em quanto cada um dos chefes 
passava a pedir ordens á sua respectiva meti*opole; lavrando- 
se disso um termo, que foi assignado pelo govemador e por 
Lichthardt e pelo director Bas. Os HoUandezes entraram logo 
no forte e na cidade, e arriando as bandeii'as, inçaram as suas; 
e no dia seguinte foram apresentar ao governador para assig- 
nai' um novo teimo, rasgando o anterior, que diziam estan 
menos bem redigido. 

O velho Bento Maciel foi logo embarcado, e conduzide 
para o Eio-&rande; donde, preso, o levavam por terra atá 
o Becife, quando falleceu, antes de chegar á Goiana. *} A 
guarnição que havia na praça, apenas de cento e tiinta sol- 
dados, foi embarcada, dizendo-se a todos que para a iDi 
da Madeira; mas partiram em um barco tão máu que dena 
graças a Deus quando se vii*am chegados, á ilha de S. Chn^ 
tovam das Antilhas. 

Apoderaram-se os HoUandezes, não só da artilheria dfli' 
foi*tes, que consistia em cincoenta e cinco canhões, e junti- 
mente de muitos munições , como de quanto havia pertencenti' 
ao fisco e de toda a riqueza das igrejas. 



•) Calado, pag. 118. 



LIVEO SÉTIMO. 167 

Existiam entSo^ no districto da cidade, cinco engenhos e 
98 engenhocas, que todos forneciam por anno umas seiscentas 
ixas de assucar. O conquistador multou aos moradores no 
lor de umas seis mil arrobas, valor que foi sem demora 
bgo. Em cada um dos engenhos mandou põr guardas, con- 
nrtendo os donos delles em Yerdadeii*os feitores seus. 

O provedor mor esteve retido em custodia até ser em- 
orcado para a Hollanda; onde, em 2 de agosto de 1642, 
iresentou ao embaixador extraordinário de Portugal Francisco 
I Andrade Leitão uma certidão, cuja cópia temos presente, e de 
itras informações se sii-viíia o dito embaixador para a nota ^) 
le, em 13 de maio, dii*igiu aos Estados Geraes reclamando 
»ntra esta nova violência. 

As três aldeãs da ilha, bem como os moradores de Ta- 
litapera (Alcântara), prestaram homenagem ao vencedor. 

Apenas constaram na Hollanda as noticias da occupação 

) Iferanhão, apressaram-se os Estados a enviar ordens ás 

ias autoridades no Brazil, em datas de 22 de Fevereii*o e 

S de março (1642), para que cumprissem e fizessem cumprir 

risca o tratado de tréguas. 

Era porém chegada para os nossos a hora das represa- 
is. Os Hollandezes, fiados, na validade do pactuado, em vir- 
de das ratificações, iam doimu* o mesmo lethargo da con- 
oiça em que os nossos haviam jasido, fiados na honra de 
issau; e da mesma sorte que elles tinham abusado da boa 
, iam ser victimas da sua confiança nella. A elles, que ha- 
un ensinado o caminho, cabe toda a responsabilidade. E 
aças a Deus: porque a não haverem procedido tão mal, por 
ntnra o norte do Brazil seria, senão ainda colónia delles, 
mo Batavia, pelo menos mui provavelmente de nacionalidade 
fferente do do sul. Ainda assim, tão amoi*tecido se achava 
espirito público, ou tão pequenos eram os recursos que ti- 
lam os povos submèttidos para sacudii* o jugo, que foi ne- 
ssario ajudal-os das capitanias visinhas. 

Os primeiras planos para se levar isso a cabo em Per- 
imhuco, pelos esforços dos seus próprios habitantes, haviam 



') Dada á luz nesse mesmo anno em Lisboa no folheto «Dis- 
curso politico^ etc. 



168 LIVBO SÉTIMO. 

tido logar antes de ser occupado o Maranhão, e até já 
antes das entrevistas de tréguas entre Nassan e Montalvão. 
Se não foi André Vidal o autor da idéa, desde que no tempo 
do Conde da Torre chegou, com um punhado de homens, quasi 
a dominar em toda a capitania do Parahiba e a ameaçar e 
aterrorizar as visinhas, elle veiu depois a patrocinar de tal 
forma a mesma idéa que podemos dizer que a perfilhou, que 
' a fez familiar na Bahia, e veiu a ser, por assim dizer, a alma 
do plano que foi posto em execução. Em todo. o caso nSo 
ha a menor dúvida que não foi João Fernandes VieiVa o autor 
da idéa da restauração de Pernambuco com appai*encia de ex- 
pontânea, como se chegou a acreditar, em virtude das asser- 
ções dos seus dois aduladores Fr. Manuel Calado e Pr. Rafael 
de Jesus. E* o próprio Vieira quem declara, em uma notícia 
que dirigiu ao Dr. Feliciano Dourado, que elle entrara na 
sul)levação, falado para isso não só por Martim FeiTeira e 
Simão Alvares de la Penha, e por André Vidal, que todos 
lhe mostravam por escripto a segurança de que tal sublevação 
seria do agrado do governo, mas até por um frade bento por 
nome Fi*. Ignacio, que lhe trouxera verbalmente sobre isso os 
avisos d'elrei D. João 4.®, e que por tal serviço foi eleito 
bispo de Angola. Transcreveremos as próprias palavras do 
mesmo João Feniandes Vieira, que dizem assim: 

„Quem me trouxe vocalmente os avisos de S. M, foi um 
frade de S. Bento, por nome Fr. Ignacio, eleito bispo de Angola 
por este serviço : foi o mestre de campo Martim Ferreii*a e Simão 
Alvares de la Penha qUe naquelle tempo estavam na Baliía, 6 
vieram disfarçados em embaixadores ao Eecife, onde me falaram: 
e também n'outra o ocasião veiu o governador André Vidal dt 
Negreiros a trazer-me o. mesmo aviso em companhia do frade 
bento. 

„ Todos estes traziam por escripto, e m'o mostravam; 
mas com ordem que os tornassem a recolher, por não sem 
achados; que assim convinha. E nos escriptorios e secretaiiM 
de S. M. devem estar muitos papeis, que por elles se conl»* 
cera o referido . . . . E quem disto dera certa noticia era • 
Sr. António Telles da Silva, por cuja via corriam, os secretff 
deste negocio, de que também o pode dar o Sr. Salvador Corra 
de Sá e Benavides, a cujo effeito veiu na jornada do Galeão.' 



JJVKO SÉTIMO. ' ir.9 

A preferencia com que os nossos procuravam captar a 
João Fernandes Vieira não tinha outra origem mais que o ser 
elle, de todos os moradores de Pernambuco, o que gosava de 
mais favor entre os dominadores, e um dos que ahi, em seu 
uome e dó seu comittente Jacob Stachower, míiis fundos ma- 
nejava. Por outro ]ad<> parecia Vieira de cai*acter bastante 
bazofio e mui accessivel aos estimulos da ambição: de modo 
que não foi difícil angariai -o, por meio de promessas de vir 
a receber postos e commendas lucrativas, e de ficar, juntamente 
com os filhos que viesse a ter, engrandecido e rico. ') Não 
sabemos se já então se estipulou que seria desde logo feito 
mestre de campo, e que concluída a restauração seria elevado, 
como foi, a governador e capitão genei-al ; poi-ém o que temos 
por certo é que o mesmo Vieira exigiu, para tomar parte no 
movimento, ser delle o primeiro caudilho, com preferencia a 
todos os outros moradores, e ficíir autorisado a declarar quites 
os que deviam aos Hollandezes, em cujo número, segundo 
estes, *) entrava com uma avultada quantia elle próprio Vieira. 
Em todo caso Vieira assegurou que a promessa desta quitação 
fora uma das qiie mais obrigara aos moradores a tomar as 
armas. Ouçamos tudo quanto a este respeito é por elle re- 
velado, na supra mencionada noticia ao Dr. Feliciano Dourado: 

„A Magestade que está em gloria, por secretos avisos, 
me mandou que fizesse a guerra aos Hollandezes, para com a 
occasião de eu a fazer, obrigar aos Flamengos a alguma conni- 
yeucia, ou por via das armas sei-em restauradas estas capita- 
nias de Pernambuco .... 

„Foi a Magestade que está em glória servido mandar que 
tudo o que eu prometesse em compras de praças que fizesse, 
e cargos que provesse e titulos e commendas que desse, e 
lettras que passasse, sob sua real palavi'a, o havia por bem 
feito ; e que todos os escravos que tomassem armas os hou- 
vesse por forros, e que poderia mandar enforcar e castigar 



*) „Pen8Íon et premesses de le faivo gr and** etc. Moreau 
pag. 49. 

•) Isto se comprova até pelo empenho coui que a tal respeito 
procurou o mesmo Vieira justificar-se, não somente na carta 
que escreveu ao Príncipe regente em 2*J de maio de 1671, 
como também em varias verbas de seu testamento, cujo texto 
foi impresso na Kevista do Instituto do Kio. 



170 LIVRO SÉTIMO 

todos os que impedissem a tal facção; e que a todos os mo- 
radores que tivessem fazenda^ e ainda os ecclesiasticos, lhes 
poderia tomar por empréstimo, para fazer a guerra; e que 
lhes promettesse todos os favores necessários . . . E uma da& 
cousas com que mais obriguei a tomar as' ai*mas foi prometter 
aos moradores todos que os empenhos de debitoá que tivesseía 
feito com os Flamengos lhes não seriam pedidos.^ 

Que a abnegação não era^ como se tem pretendido fsaar 
acreditar, a virtude mais saliente em João Fernandes Vieira^ 
se confiimou logo depois da insuiTeição quando, como dono de 
muitos canaviaes, se oppoz a que elles fossem incendiados, e 
ainda melhor no fim da guerra, pelo seu proceder nos gover- 
nos de Angola e da Farahiba. ^) 

Os panegyristas do mesmo Vieira, para exalçar-lhe a 
importância, chegam até, em contradicção comsigo mesmos, a 
declaral-o de grande familia e mui nobre por saugue. Assim 
seria: mas nenhum nos diz como se chamava seu pai; e so- 
mente que o mesmo João Fernandes passara da Madeira, sua 
pátria, ao Becife, na idade de dez aunos : que ahi servira dê 
c^xeiro, sem nenhuma paga, e somente pela comida; ^ até 
que, para sair dessa humilde situação, prefíríra, em serviço 
de oatro patrão (talvez ja Stachower) deixar o Becife» Móreaa 
vae ainda além: diz que elle era liberto (affranchi), para 
o que não pode fazer dúvida a naturalidade; visto que en^ 
havia ainda escravatura na ilha da Madeira. — Parece qoe 
Vieira começou a fazer-se mais conhecido e a adquirir no paii 
mais relações e créditos, entrando em varias confrarias, que, 



^) António d'Albuquerqua , antigo governador da Farahiba, ei- 
crevia, em Fevereiro de 1667, a seu irmão Mathias, que de- 
pois de Vieira fora governar a mesma Farahiba. — „V. M.*' 
se aproveitou pouco do tempo que governou a Farahiba . . . 
Não Buccedeu assim a João Fernandes Vieira, que logo se 
empossou das fazendas dos Brandões e mandou buscar oi 
nossos cobres; . . . e a este homem lhe correu a fortuna com 
monstruosidades; e em Angola grangeou grande cabedal; le 
lhe correr até o fim e' um monstro dos nossos tempos.' 
(Mello, lU, 135.) 

Os Brand5es a que acima se faz referencia seriam os 
irmãos Luiz e Jorge e sobrinho Francisco, emigrados da Far 
rahiba em 1634. 

*) Calado, pag. 158. 



LIVRO SÉTIMO. 171 

c|.iai«lldB tempos, serviam de carta de recommendação, como^ 
tt nossos dias a maçoneria. i^. lii-^it: (í\.( i-l \ ■ 
Vieira não chegoa nunca a ser o éondnctor da insurrei- 
io» como depois nunca foi o director da guerra. O seu papel 
Mrtiringiu-se antes ao que em linguagem vulgar se costuma 
iesignar por testa de ferro. Em vista dos factos, quem 
^ nos apresenta como verdadeiro conductor da insurreição, e 
BigQndo dissemos, como verdadeira alma delia, e* o parabibano 
André Vidal; embora a sua muita abnegação e modéstia quasi 
o chegaram a occultar á posteridade; a ponto que não poucas 
r^istencias e reacções temos encontrado para levantal-o, pres- 
ido cnlto ao mérito e á verdade. Vejamos esses factos. 

Sabemos, por documentos officiaes, que no dia 23 de 
Hiaio de 1642, acbando-se Vidal em Lisboa, e ao que parece 
ia para regressar ao Brazil, donde tinba vindo, o rei D. João 
he fez pessoalmente promessa de Ibe dar, quando se restau- 
asse, o governo do Maranbão, ainda então sob o dominio 
ollsmdez. Era ministro da Coroa Montalvão, o qual, com a 
otlcia de haver sido occupado o mesmo Maranhão, devia ter 
erdido toda a esperança de poder contar com Nassau, e ha- 
eria ja reconhecido que não tinba outro remédio senão usar 
o recurso de autorisar as insurreições. Vidal, favorecido com 
mencionada promessa, feita por ventura na própria hora da 
Bspedida, embarcou-se para o Brazil, acompanhando a António 
'elles da Silva, nomeado para succeder no governo geral a 
[ontalvão, como ^Capitão geral de mar e terra**. Chegado 
om este governador á Bahia no principio da última quadra 
o mez de Agosto, foi^ logo Vidal pelo mesmo governador 
Dcarregado de passar ao Recife, a pretexto de entender-se 
om o Conde de Nassau acerca dos assumptos de Angola, a 
espeito dos quaes lhe escrevera Montalvão; mas com o ver- 
adeiro intuito de tratar de fomentar ahi a insurreição, mos- 
rando secretamente documentos para prova de como os serviços 
i'ella feitos seriam bem aceitas e recompensados pelo rei, e 
indo até já autorisado, pelo próprio rei, pai*a distribuir para 
BBe fim em Pernambuco até seis hábitos de Christo ^), con- 



^) Bel. de Frederíck Flekissen, prisioneiro na Bahia, escripta. 
depois de chegar a Hollanda, aos 6 de Fev. de 1646. 



:^l 



•• 1 ' ' '•. •*. > 



172 LIVRO SÉTIMO. 

seguiu Vidal conversar não só com João Fernandes Vieira, a 
quem foi procurar em companhia do benedictino Fr. Ignacio, 
mas também com outros moradores, e de tal modo contaTa 
ja com a revolução no Maranhão (que alias s6 rebentou no 
último dia desse mez de Setembro), que parece ter dado delia 
notícia como coisa assentada, ') o que uão deixou de alarmar 
muito o povo, que falava de insurreição; chegando a acre- 
ditar-se que estava entre os conjurados o próprio comman- 
d ante da guarda de Nassau Carlos Tourlon '), casado com a 
bella pernambucana D. Anna Paes, viuva de Pedro Corres 
da Silva. 

Cumpre declarar que Nassau nada por então snspeitoo 
contra Vidal, ora acompanhado do capitão Manuel Pacheco 
d'Aguiar. ^) Pelo contrário: quando chegaram, permittiu-lhes 
vender (ao que parece simuladamente a João Fernandes Vieira, 
para prover os que se insurreccionassem) os mantimentos que 
haviam trazido, e os deixou communicar livremente com os 
moradores, tanto nacionaes, como hollandezes ; — e isto pro- 
vavelmente porque estes dois emissários ahi iam como em 
correspondência de outros dois que do Recife haviam antes 
sido mandados á Bahia para entabolar as tréguas. Não julga- 
mos impossível que existisse o pensamento de fazer rebentar 
no Recife a insurreição ao mesmo tempo que no Maranhão, 
quando chegou a ser tão público o boato de que de propósi- 
tos subversivas se tratava, que Nassau deu disso conta para 
a HoUanda, em 24 do próprio mesmo mez de Setembro, em 
que estalou a revolução no Maranhão. *) 



') „Hsec inter adversaram rerum nuntia Pernambncenses domi- 
nós turbavere, et partas securitatis incommoda Oftendiíe. 
relatum fíde certa Maragnanos imperia nostra excnsiiie Lu- 
sitanos et Brasilianos." (Barleus.)- 

•| Calado, pag. 61. — Tourlon deportado para a Hollanda poi 
Nassau, ahi morreu ; passando a sua viuva a désposar-se em 
terceiras núpcias com Gisbert de Witt. membro do Conselho 
politico. 

•) 7eremos como, em virtude das muitas hesitações, Vidal tew 
que ir ao Recife outra vez e também á Parahiba, dois annoi 
depois com Ni cola o Aranha, como escrevem Calado e MoretiL 

*) „Perfidiam gentis Maragnonensis nuper illustri acelere 
prodidere, quae etiam apud Pernambucenses erv- 
pisset, nisi oppressa in herba malè coepta evanaii- 



LIVRO SÉTIMO. 173 

Se tal concerto chegoa a hayer, só ás contemporaliçSes 
a João Eernandes Vieira poderíamos attribuir o haver elle 
ilhado. 

£-' incontestável que a entrada de Vieira na conspiração 
)rvla de muito para confundir e desconcertar os Hollandezes ; 
ois se, por um lado tinham sobrados motivos para crer que 

9 tramava contra elles, desde que nas denúncias se envolvia 
nome do seu amigo Vieira, as tomavam por intrigas de in- 

ejosos e as consideravam inventadas. — Mas, por outro lado, 

10 pouco podemos pôr em dúvida que a escolha para cabeça 
a revolução de um commerciante, tão ligado com os domi- 
adores, e que, como arrematante de vaiios dos seus impôs ' 
}S, não podia ter interesse em ver perturbada a paz, sem 
)da a certeza do êxito da tentativa, chegou a retardal-a 
mito, e por pouco a veiu a comprometter. O excesso das 
agencias ê cautelas eom que Vieira veiu a proceder descu- 
du, em todo caso bem palpa velmente, que não queria expor 
) a perder quanto possuia sem a certeza de obter 
aanto' ambicionava. Chegamosi mesmo a acreditar, á vista de 
Eurios factos, que a princípio Vieira admittia as propostas e 
izia promessas, mais por deferência e por não ficar mal com' 
3 seus patrícios, se elles a todo tempo viessem a triunfar, 
ae por verdadeiro desejo de ver realisado o movimento. 
LSgim quando já com elles estava em tratos para a insurrei- 
So, em 14 de Setembro de 1642, tomou activa pai*te nas 
apresentações que para a Hollanda se fizeram em favor de 
ertas providencias de utilidade pública, todas tendentes a 
ontentar o povo, e por conseguinte a tel-o menos disposto 
ora a revolução; taes eram a recondução de Nassau no go- 
erno por outros ciuco annos, o concederem-se menos favores 
os judeos que no Recife tinham até e s n o g a (synagoga) púb- 
ica, o faciiitarem-se em menor preço os escravos africanos 
ae no Brazil eram „os obreiras da lavoura^ etc. ^) 



sent desperatis nihil anceps horridum, ut quidvis tentaturi 
videantnr, quo se expediant et nomínibus Belganim et im- 
pério.** (Barleus.) 

*) Nessa representação se diz que a farinha, que antes se obti- ' 
^ nha a meia pataca, estava valendo a duas patacas e até a 
vinte reaes, e que a carne, que antes se vendia a menos de 
duas patacas, valia a nove e a dez. Representações análogas 



/ 



•>' 



174 LIVRO SÉTIMO. 

Pouco depois, quando Nassau, reconhecendo que nSo 
poderia soster-se em -pé o grande colosso que elle, com tanta 
fortuna, adquirira para a sua pátria, preferia (afim de que 
esse colosso, mal cimentado não fosse desabando todo em auas 
próprias mãos) insistir pela dimissâo e recommendou para 
substituil-o ao conselheiro Drick (Theodoro) Ooid van der Burgh, 
o mesmo Vieira não duvidou associar a sua voz a de Nassaa, 
pedindo também aos Estados Gera es da madrasta-patria hoUan- 
deza pelo mencionado Codd. E mais tarde, quando, partido 
Nassau e ficando por successor, não o mesmo Codd mas 
um triumvlrato, ainda Vieira apresentou taes dificuldades, que 
por duas vezes esteve a insurreição de Pernambuco a ponto 
de mallograr-se de todo, como veremos. 

Não succedeu assim felizmente no Maranhão. O jogo 
dos oppressores era ahi mais forte, o espirito publico, por 
isso mesmo que esse jugo havia durado menos (apenas da 
mezes), não estava tão amortecido, e a conspiração teve a for- 
tuna de encontrar á sua frente nobres caracteres, como foram 
.os senhores d'engenho António Muniz Barreitos e António 
Teixeira de .Mello. 

Que essa insurreição no Maranhão foi realisada com 
prévio assentimento da Corte, o deduzimos nós, não tanto do 
facto da promessa do governo desse Estado, feita quatro meies 
antes a Vidal, e do pensamento que chegou a haver, se- 
gundo parece, de secundal-a em Pernambuco e de se dar aU 
delia noticia antes de rebentar, como principalmente do fiicto 
de haver sido soccorrida do Pará de gente e de muniçOeSi 
apenas ahi chegou a noticia do seu rompimento ; sendo que as 
autoridades se não haveriam atrevido a tomar a responsahiiidade 
de mandar taes socconos, se a esse respeito não houvessem 
já recebido ordens. Sigamos porém narrando como se operoa 
essa insurreição no Maranhão. 

Haviam abi os Hollandezes imposto aos senhores d'ebgenho 
eiaçSes tão ai*bitrárias que maliciaram não seriam ellas cum- 



86 fizeram de Goiana e Itamaracá em data de 5, de Igaraçú 
a 11 , de Porto-Calvo a 18 e do Cabo a 26 , todas no dito 
mez de Setembro (1642), — em que provavelmente devia 
estalar a revolução ao mesmo tempo que no Maranhão. 



LIVRO SÉTIMO. 175 

cridas sem que em cada engenho hoavesse uma escolta. Esta- 
ram porém os soldados destas mal armados, mal pagos e al- 
nixiB até sofrendo de febres e outras moléstias. Fácil era obter 
iobre ellesy com toda a segurança, uma primeira victória. 
nanisaram pois os conspiradores um levantamento geral, e 
lesde logo elegeram por chefe a António Moniz Barreiros, 
N)88nidor de dois ou três do3 cinco engenhos da terra e que 
i havia sido antes capitão mór do mesmo Maranhão. Apra- 
lou-se o rompimento, segundo dissemos, para a noite de 30 de 
Mtembro. «Nessa noite foram a um tempo surprebendidas e 
'eitas prisioneiras ou degoladas as guarnições dos cinco enge- 
lhes, e de madrugada se foram todos reunir diante do forte do 
Halvarlo, do Itapicurú, que conseguiram surprehender, aprisio- 
lando o seu commandante, que dormia segundo costumava em 
ima casa fora do forte, e passando o apoderar • se do 
Bésmo foi*te, matando simplesmente algumas sentinellas. A uns 
incoenta ao todo ^) das guarniçCíes dos HoUandezes foi pelos 
I08B0S dado quartel, e neste número entrou o dito commandante 
k) Calvário Maximiliano Schade, o seu immediato, e um soldado 
K>r nome Cornelis Jansen, que foi pelos nossos considerado 
le toda confiança. A Schade somos devedores de uma expo- 
içSo '), apresentada em Amsterdam em 4 de novembro de 
L644, em que, contando quanto lhe passou, subministra vários 
lados que hoje servem á historia. 

A não ter sido tão habilmente combinada e feita de 
nrpreza a occupação do forte do Calvário, não se houvera a 
na posse alcançado facilmente. Era situado em um cotovello 
ia pontal á margem do rio. Sobre o mesmo tinha uma frente 
lanqueada por dois orelbdes, que formavam como dois balu- 
xies. Para a banda da terra seguia o mesmo forte estreitando 
I afacinhando, sempre com flauqueamente mutuo, terminando 
m uma espécie de revelim ; o qu& constituía três recintos que 
»s atacantes teriam que tomar para delle se apoderar, se antes 
iâo fossem soccorridos da cidade, como era natural. — 



^) Ja 86 vê que muito se enganou o F*. José de Moraes quando 
disse (p. 157 da edição C. Mendes) que de todas as guarni- 
ções „nem um só escapou com vida.^ 

*) Um summarío desta exposição foi impresso em 1646, no fo- 
lheto- «Extract ende Copye,* etc. ; porém foi do próprio 
original que tomámos as notas de que aqui nos valemos. — 



176 LIVKO SÉTIMO 

Os sublevados passaram sem demora á ilha, acomettendo 
e legando á degola a primeira guarda dos Hollandezes que 
nelia encontraram. Logo foram assentar campo a três léguas 
da cidade '), com avançadas ju^to do rio Cotim ^), certos de 
que o inimigo não deixaria de vir atacal-os, e de terem desta 
forma, quando ainda não eram mais de duzentos a seu favor, 
a escolha do sitio para a acçâo« — Assim succedeu. Monix 
foi a tempo avisado de que, no dia seguinte, uma fõrça ini- 
miga, de cento e vinte homens, o iria atacar no logar em 
que se achava. Preferiu pois desde logo levantar campo, e ir 
ao encontro do inimigo, armando-lhe, junto ao mesmo rio Cotim, 
uma cilada, onde ella fosse menos esperada. 

Foi o plano tao bem executado que dos Hollandezds 
apenas escaparam seis, perecendo todos os mais, e com ellei 
o seu commandante ^). 

Com esta victória, que ministrou aos sublevados armai 
e munições, animo u-se Moniz a ir sitiar a cidade. Com a pouca 
gente que lhe restava, limitaram-se os Hollandezes a guarnecer 
a parte alta da mesma cidade, entrincheirando-se nas immedi- 
açoes do actual Palácio ^) do governo, e deixando de fdia 
vai-ias casas e igrejas, inclusivamente o convento do Carmo, 
que logo occupóu Moniz, ordenando que outros se postassem 
em um edifício ') no canto da rua que vae para Santo-AntoniQ. 

Seguii'am-se alguns tiroteios sem nenhuns resultados atí 
que no dia 3 de Janeiro chegaram do Pará, em auxilio 



') „Eutre a lbacaii*ra. (Bacanga) e Garaii, junto do sitio qne 
chamam Tayáçú-coaratim," diz José do Moraes p. 15& 

*) Provavelmente uo isthmo formado entre as vertentes do rio 
Cotim e as do Rio das Bicas. 

*) Segundo Berredo , era este um escocez por nome Sandalim. i 
Nao encontramos este nome nos documentos hoUande^eã, e, 
em abono da verdade, mais nos parece turco (lembrando Salir 
dim) que escocez. 

*) Avançando apenas um tanto do lado do beco de João Vil, 
comprehendende o local onde hoje se acham o Paço do bispo 
e o Jardim publico, e ficando já de fora o espaço onde actual- 
mente estão as ruas da Nasareth e Barbeiros e o largo do 
Carmo. 

*) „De um António Vaz,* diz Moraes: ^De António de Morus" 
lemos em uma cópia da partecipaçao hollandeza, que vimos. 
Não seriam casas do próprio António Moniz? Morua poderii 
ter sido má leitura de M o n i s. . 



LIVRO SÉTIMO. 177 

branhenBMi, os capitães Pedro da Costa Favella, Bento Bo- 
rignes do Oliveira e Ayres de Souza Chichorro, em ciii<;oeiita 
quatro canoas, conduzindo cento e trese soldados, seiscentos 
adies, alguma artilheria e poucas munições. *) Todos se alo- 
iram no quartel do Carmo, passando o Moniz, com os seus, 
ara o outro posto, com avançadas onde hoje estão a igreja 
o Bosario e o recolhimento da Anunciação. 

No dia de Beis, 6 de Janeiro, se arvorava nos nossos 
arapeitos a bandeira portugueza, trazida pelos do Pará, e 
ra Eaodada com alguns tiros contra a Praça, gritando qs si- 
Antes que eram recados que mandava o rei de Portugal. 

Se então Moniz efectua um asealto, 6 mais que provável 
ne os Hollandezes teriam capitulado. Deixou porém passar 
iai8 de uma semana sem nada intentar, pensando talvez qne 
onparia muitas vidas e que os Hollandezes seriam obri- 
idos a render-se. Porém em logar disso, viu no dia 15 desse 
MB, receberem elles reforços trazidos em sete barcos, e bas- 
i&tbe se arrependeria de não haver antes intentado o ataque, 
liegavam de reforço (aos Hollandezes) tresentos soldados e du- 
nt(M índios, ao mando do tenente coronel Hindereon ') que 
ív% ferido no sitio da Bahia, e que depois de haver estado na 
Mnia cidade de reféns em 1641, tinha sido mandado á con- 
nieta de Loanda, donde acabava de i-egrassar. 

Logo no dia seguinte, saiu Hinderson á frante de quatro- 
entes soldados e cento e^cincoenta índios ') contra o quartel 
o Carmo, onde, como vimos, se achavam as forças vindas do 
'ftri. Esse posto foi tomado sem grande dificuldade, sendo 
aisados á espada todos os que o defendiam. 

Seguiu-se o ataque do outro posto. Ahi se defenderam 
s Maranhenses energicamente, de modo que obrigaram ' os 
[oUandezes a retirar-se com perda de não poucos mortos e de 



*) Off. de Bas de 31 de Janeiro de 1643. Berredo, n. 845 e 846. 

*) Berredo escreve Anderson; 'e diz que o reforço era de 770 
soldados e grande número de índios. O Conde da Ericeira 
dá 350 8ol<udo8 e outros tantos índios. Seguimos o offício 
de Nassau de. 3 de abril de 1643, confirmado por Barleus, 
que diz: ^militibus trecentis, Brasilianis bis- 
centum.^ — 

*) Portanto 5 50 por todos, e não láOO. Que tendência dos 
nossos escriptores a exagerarem sempre as forças inimigas! 

12 



178 LIVRO SÉTIMO. 

sessenta a setenta feridos ^). A perda da nossa parte foi pro- 
porcionalmente mais pequena em número ; mas muito maior 
moralmente porque nesta heróica defensa succumbiu o capitão 
mór António Moniz. 

O mando foi logo confiado a outro senhor de engenho 
respeitável, António Teixeií-a de Mello. < 

Durante nove dias se mantiveram as duas forças em 
quasi muda expectativa, até que, na noite de 26, os nossos re- 
solveram retirar-se. Nessa noite, ordenando o chefe hollanda 
que um sargento, com doze soldados e dez índios, fosse apo- 
derar-se de um posto dos nossos, em chegando a elle, reco- 
nheceram que havia sido abandonado, bem como todos os denm 

Nessa mesma noite se havia retirado António Teixeira 
para dali a meia légua, a „uma posição bastante forte, úim 
de um desfiladeiro, tão estreito que não podia passar por 
elle mais que um homem de cada vez.^ Era ás cabeceiras 
do Cotim, logar onde haviam conseguido a primeira victótiai 

No dia 26 mandou ahi o Hollandez explorar o terrcM 
cento e cincoenta índios ^) ás ordens do capitão Jacob Evere % 
mas chegados ao desfiladeiro, ahi foram todos acomeitidoe i 
mortos. — 

António Teixeira ainda se conservou na ilha *) por espaçi 
de três mezes; durante os quaes, raro era o dia em que a 
Hollandezes não tinham que recolher alguns mortos ou feridoí; 
e o mais triste para elles era que se -encontravam sem medi- 
camentos. Por fim, escassos de munições e de viveres, oi 
nossos se viram obrigados a passar o Tapuitapera (hoje Al- 
cântara) do outro lado da bahia, em principies de maio. DaU 
partiram para o Paiá a solicitar munições de guerra os chefts 
do soccorro que de lá viera. Graças a um navio que com eUai 
chegara da Bahia ') ao Pará, essas provisões não se fixeraal 



') Segundo Bas; o que temos por mais verosimil que 160 mo^ 

tos e 200 feridos, que dá Berredo. 
') Neste número de índios e seu funesto fim está inteiramente 

de acordo a parte de Bas com o que dizem os nossoa e^ 

criptores. 
*) Não João Lucas, como diz o P". José de Moraes. 
*) Em Moruapy, que segundo um mappa antigo era no centro 

da ilha, junto ás cabeceiras do Tíbery. Seria o mesmo aitío 

em que haviam estado antes. 
.*) Schade, Repres. citada. 



LIVRO SÉTIMO. 179 

irar; e, ja com ellas, não tardou Teixeira de Mello a apro- 
Eur-se da ilha ; collocando-se provavelmente na Estiva, janto 
rio do Mosquito, donde continuava a inquietar o inimigo, 

terra e por ag^a, muito ajudado nestas incursões pela in- 
cides de Manuel de Carvalho Barreiros, irmão do fallecido 
i|ão mor. Depois passaram os nossos á ilha, e provavel- 
A» foi desta vez que se estabeleceram no chamado Arrayal, 
frente do Itapicurú, donde podiam desse rio ser facilmente 
corridos de mantimentos. 

A final o inimigo enfadado de tanto sofrer, vendo que 

lhe chegavam os soccorros, que pedira mais de nma vez, 
ando-se com mui poucos recursos de mantimentos e muni- 
I, julgou que devia, em quanto era tempo, aproveitar-se 

poucos que lhe restavam para emprehendér a viagem 
retirada. 

E, encravando toda a artilharia do forte, partia no dia 
de Fevereiro de 1644 em dois chavecos velhos, que esta- 
L no porto, a desembarcar no Ceará^); donde seguiram todos 

terra até o Bio- Grande. 

Ao chegar a notícia da restauração á Bahia, Vidal es» 
ria para Lisboa recordando a promessa do rei; o qual, ao 
jber a sua supplica, lhe mandava passar a Carta Patente 
11 de Agosto de 1644, nomeando-o governador e capitão 
vai do Maranhão, em conformidade da promessa que fizera 
23 de maio de 1642. 

Cumpre-nos dizer que, logo depois que o Maranhão foi 
rtado pelo esforço .dos seus bravos habitantes, e do dos 
i yisinhos do Pará, e apenas disso tevô noticia o miserável 
atario de Tapuitapera, que nenhuma ajuda havia dado aos 

assim combatiam por arrancar das mãos dos HoUandezes 
ua Capitania, a estes subordinada, em vez de enviar pre- 



•) Não em S. Cbristovam, como diz Berredo (nV 917). Tão poucoí 
é certo, segundo afirma o mesmo escriptor (n*". 921 a 923) 
que a capi&l do Ceará se entregasse logo. Essa entrega não 
teve logar, senão a 20 de maio de 1654, çor ordem dos do 
Conselho do Recife, depois de haverem capitulado. Foi man- 
dado a tomar conta do districto o capitão Álvaro de Azevedo 
Barreto, levando ás suas ordens o capitão Manuel da Costa 
e uma pequena guarnição; e parece que, depois de estar ahi 
seis mezes, foi obrigada pela fome a regressar a Pernambuco 
por terra, segundo alguns dados vagos que temos. - 



180 LIVRO SÉTIMO. 

«BDtts 6 recompeiiBQs ao seu libertador António Teiíi 
MetlOy pifliM)« a acco8al-o ante os iribunaes, íasendo 
pooflaTil por quatro mil crutados ié damnos • prejais 
* conseqvencbi de baver obrigado os seas colonos aos irs 
da guerra I E o mais 6 q«e hou?e em Portugal um tribui 
(por sentença de 12 de Desembro de 1646) o condei 
retlisar semelhante pagamento. E o miseiavel donata 
nada meUos que um desembargador, cujo nome dere a 1 
deixar gravado, para memoria e escarmento. Chama?a-i 
tottio Coelho de Carvalho. A doação faavia-lhe sido fá 
BB iqnáo, e, a influxo seu, confirmada pela Corõa. 

Talvez como ténue indtmnisaçâo de tanta injustiçi 
d<*poÍ8 de restaurado Pernambuco, vendo Ai^tonlo Teix 
Mello reduzido a pobreza lhe fez mercê (por Carta do 
Dezembro de 1654) da Capitania do Pará ^). 

Quando a noticia de rendiçáo do Maranhão et 
Pernambuco, ichava^ee em vésperas de partida o Ce 
Nassan, quf , seguindo por terra até á Parahiba, ahi 
barcott para a Europa quasi três mezes depois, a 22 d 
desse m«snio anno de 1644. 

O governo da colónia e^cravisada ficou em mios 
Consriheii 08 secretos: Henrique Hamel, antigo negoeii 
Amterdam, A. Van Bolleetrate, oatr'ora carpintei 
Midkbmgo, e o mesmo Pedro S. Bas, antigo ourives, 4|m 

extors5e8 praticara no Maranhão. Era seeretario J. Van Bi 

<— — » I III 

*) Portanto não havia fallecido em 1646, como julga I 
n*. Ô29. 



LIVRO OITAVa. 

HTOS I^RÇOS PARA .RESTAURAR PERNAIBOCO I SIUS RKStlLTlDOS. 

»TU tentativag. — Volta Vidal ao Recife. — Avista-se com Vieira 
) oulãros. — Segue á Parahiba. — Regressa, combinados novoa 
ilanos. — Avançam da Bahia Dias Cardozo o muitos veteranos. 
'•^ S^uem-os HÍenrique Dias e o Camarão, com simulados pre- 
ilPEtos. — Compromisso dos coi^urados. — Hesitações. — £'deiir 
ntbeorta à conjurado. — Buscas e prisSes. — Sae a campo a inr 
imrei^. — Quem a dirige. — Marcham contra, Hous £ Blaar. 
— Bandos. — Primeiros acampamentos. — Alboroto. — Mont» 
1m Tabocas. — Notável victoria. — Principado Brazilico. — VSo 
loif emissários hollandezes á Bahia. — Resposta. — Hoogatrateik 
^ 'iPartem Vidal, Soares e SerrSo de Paiva a reforçar a insur- 
ttiáo. — • Proceder censurável de Salvador Corrêa. — Serinhaem 
nmtola. — Reunem-se o CamarSo e Dias em Guijaú a Fernandes 
Vieix». — Morte de António Cavalcanti — Chegam Vidal e 
Soares. — Capitulam Hous e Blaar na Casa-Forte. — Entregasse 
o Pontal. — Serrão de Paiva é derrotado em Tamandaré e cae 
prisioneiro. — Documentos que compromettem o rei. — Atrocidades 
no Cnnhaú. — Camarão e Dias na Parahiba. — Lins em Porto 
€Uyo. — Rocha Pitta no Penedo. — £' soccorrido dx> Rio Real. 
--- Mallogn^se um ataque contoi Itamaracái. -^ Porque. — £' 
morto Fernão Rodrigues de Bulh5es. -- Insurreição do Kio-Orande. 
•-- Asssassinatos com crueldade. — Passam a vingal-os Vidal • 
o Camariío. — Segue este até os cert0es do Ceará. — 

■ 

O êxito obtido na restanrãçâo do Maranhflo qIo podia 
iTar de excitar os brios de André Vidal pata se esforçar de 
vo em conseguir realisar a de Peroambnco e Parahiba, por 
.« tanto se havia empenhado. — 

Ainda antes de ter conhocimento da carta patente (de 



182 LIVRO OITAVO. 

11 de agosto de 1644), pela qual o rei, em desempenho da 
palavra compromettida, o nomeava governador e capitão general 
do Maranhão, propoz-se elle patriocamente a voltar de novo a 
Pernambuco e ir até á Farahiba; afim de alentar os tibios e 
de combinar um plano, por meio do qual se podessem conae- 
gair resultados tão faivoraveis como os que os ICaranhensee 
haviam obtido, ao cabo de dez mezes de luta. Concebea e con- 
certou para isso um expediente, e o propoz ao governador 
António Telles, o qual desde logo o approvou, autorisando a 
Vidal a seguil-o. 

Tinha este intrépido offidal na Parahiba, onde nascen, 
ainda vivo a seu velho pae, ahi senhor de engenho ; e se pro- 
punha visital-o, obtendo previamente para isso, dos diminado* 
res no Becife, o indispensável salvo-conducto. Francisco Vidil 
era do venerável ancião o nome, cajo conhecimento uma pie- 
dosa tradição entre os Gregos julgava essencial para que o 
filho conseguisse a immortalidade. 

Para não ir só, resolveu Vidal associar a si o álfeni 
Nicolau Aranha, irmão do próprio benidictino Fr. Iguacio, qm 
fora dos primeiros a propor a João Fernandes Vieira que se 
insurreicionasse. Aranha se devia apresentar no Becife deda- 
rando que ia em busca de duas irmãs que ali tinha, pan 
as levar á Bahia e as conduzir dahi a Portugal, onde as 
queria metter de freiras em um convento. — Fadliton o 6o- 
vemador a Vidal uma caravella e muitas provisSes e manti- 
mentos, que deviam no Becife ser vendidos simuladamente a 
João Fernandes Vieira; afim de constituírem um novo pajol 
ou armazém, do qual desde logo se podessem prover os qoi 
se levantassem. 

Partiu Vidal, com o dito Aranha, em Setembro de 1644; 
e ao chegar ao Becife, obtiveram ambos licença para desem- 
barcar; mas não para vender o que levavam na caravtUa, 
salvo duas pipas de vinho e dois barris de azeite, o que jul- 
garam o do Conselho produziria o sufficiente para se pagar a 
querena que necessitava fazer a mesma caravella, afim de poder 
regressar á Bahia. Isto resolveram os do Conselho ; maa nSo i 
impossível que algum empregado subalterno, cedendo, como 
outras vezes O, a empenhos de Vieira, deixasse desembarcar, 
algnma cousa mais. 

*) Moreau, p. 48. 



LIVRO OITAVO. 183 

Vidal se hospedou na casa do mesmo Vieira, e ahi *) 
foi visitado por António Cavalcanti, Amador de Araújo e outros 
Pernambucanos notáveis; e, conseguindo o salvo-conducto, se 
encaminhou por tena á Parahiba; e, depois do liaver ahi 
abraçado e beijado a mâo ao seu venerando pae, passou a 
combinar o plano da conspiração com Fernão Rí^drit^ues de 
Bulhões, Manuel de Queirós Sequeira, Jeronymo Cadena, Lopo 
Cuidado -Garro o outros; fcando assentado que, por satisfazer 
aos desejos e exigências de Joáo Fernandes Vieira, na Para- 
hiba devia o movimento rebentar primeiro. 

Antes de retirar-se ao Recife, foi Vidal examinar o 
estado da fortaleza da Cabedelo, a pretexto de ir ahi cumpri- 
mentar o commaudante Blaeubeeck, que nessa visita o honrou, 
com uma salva de três tiros. 

Ao cabo de dez ou doze dias, regressou Vidal para a 
Bahia; mas no caminho se achegou á costa, com fizera dois 
annos antes, e não longe da Barra- Grande deixou escondidas 
algumas muniçSes que não conseguira fazer desembarcar no 
Eecife. 

Apenas Vidal regressou á Bahia e deu conta ao gover- 
nador de quanto ajustara, foram destacados dahi para Per- 
nambuco, por terra, uns quarenta soldados de linha, „ todos 
destros na milicia e capazes de serem oifíciaes na guerra c 
governar companhias *), ás ordens do valente e activo capitão 
António Dias Cardozo e dos distinctos officiaes Paulo Velloso 
e António Gomes Taborda. Em pequenas partidas e por ser- 
t5es mui desviados, chegou esta diminuta força a reunir-se 
em uma paragem convencionada da mata de páu-brazil, que a 
pouca distancia do Recife, extendia-se por umas quatro 
legaas, além dos Apipucos, entre os engenhos do Borrai lio e 
Maciape. Fernandes Vieira, que fora rematante do contracto 
do mesmo páu-brazil, se encan-egára de occultar e prover nella 
de sustento a todos, até o momento opportuno de rebentar a 
insurreição. 



') Cumpre declarar que seguimosa Calado, dizendo que esta vi- 
sita do Vidal tivera logar em Setembro, como em 1642. 
Os do Conselho escreveram que ella tivera logar em Agosto. 

») Calado, pag. 167. 



184 LIVKO OITAVO. 

Era }k uma pequena escolta, com cujo apoio um homem 
um pouco afoito, com o fermento que havia no povo, podia 
bem ter intentado o lançar um primeiro grito de revolta. Não 
era porém suíficiente para os propósitos de Fernandes Vieira, 
decidido a nada intentar sem prever desde logo mui seguro o 
resultado. Exigiu esto chefe, para effectuar o rompimento, que 
novas forças avançassem, sob quaesquer pretextos^ da Bahia 
para Pernambuco. Era tirar á insurreição todo o caracter de 
expontaneidade ; mas taes foram as insistências que Dias Gar- 
dozo se viu obrigado a regressar á Bahia; no que felizmente 
tão sollicito e activo andou que já em Janeiro de 1645 regf- 
ressava da Bahia de todo despachado, levando comsigo o titolo 
de nomeação de Vieira como „ Capitão mór e governador da , 
gueiTa," e a promessa de que em breve o seguiriam, devas-' 
sando a fronteira do Bio Beal, as tropas do Camarão o de 
Henrique Dias. ^■ 

Força é reconhecer que mais fidalga e cavalheirosa se 
houvera apresentado a restauração de Pernambuco, se tivesse 
rebentado do seio da própria provincia, e não do Bio Beal ires 
mezes antes, com() em virtude destas exigências de Vieira, veia 
a succeder. — 

Entretanto eram os do Conselho informados dos verda- 
deiros intentos de Vidal na visita feita, a pretextos de despe- 
dida. Não tendo porém provas para procederem com rigor, to- 
maram algumas providencias, concentravam as forças e man- 
daram dois emissários á Bahia, a fím de ahi sondarem o qne 
havia, mas com pretexto de sollicitarem a extradicção dos cri- 
minosos. Foram estes emissários o conselheiro Gisberth de With 
e o major Theodoro Hoogstrate, que mezes depois ahi tomou, 
como veremos. Begressaram os emissários, sem nenhuns resul- 
tados favoráveis, mas trazendo muitas informações de quanto .1 
haviam Visto ; pois tão pouco na Bahia poderam commnnicai 
com os seus compatriotas, postos a recado. Escreveram os do 
Conselho em 13 de Fevereiro, para a Hollanda, dando conta 
de tudo e pedindo reforços; mas não ó impossivel que, ante 
uma situação tal como se havia já apresentado em 1642, 
imaginassem que acabaria igualmente como então, — ena nadat 

Mas não succedeu desta vez assim. Perto de mez e 
meio depois, aos 25 de março, o governador dos pretos 
Henrique Dias, com a sua troça, bastante diminuida nos mo- 



LIVBO OITAVO. 185 

iboB dos Palmares, onde havia sido pouco antes mandada O 
assara a fronteira do Bio Beal, e ei*a seguido pelo Capitão 
' dos índios o oommendador Camarão, com a sua. E logo 
ois o tenente coronel Andi*é Vidal que ali se achava, a 
beocto dè interesses ^particulares próprios,^ dava parte ao 
«mador da Bahia da fuga do primeiro, e de haver orde- 

ao segundo que fosse perseguil-o, e immediatamente rer- 
Bsava & Bahia ; onde o governador, no dia 31, convocava a 
Mlho os principaes da cidade, que ^concordaram que o 
ente coronel Vidal tinha feito o que naquelle flagi'ante se 
lia fáxer • . • . e que se avisasse aos HoUandezes que o Dias 
como levantado e fugido, pai*a que se o prendessem o 
tigassem como tal.** 

Compre acrescentar que para, em seguimento de Henrique 
18 e do Commendador Camarão, paiiirem outros re- 
fOSy se estava a espera da chegada da frota do Bio, man- 
ia poT Salvador Corrêa. 

A marcha de Henrique Dias e do Camarão retardou-se 
itante, não só porque tivei*am de entranhar-se muito pelos 
tfeSy como porque encontraram vários rios mui crescidos. 

1 quanto marchavam, ainda entre os preconisados conspira- 
res de Pernambuco nasceram novas dúvidas, de modo que 
18 Cardoso, comos seus quarenta edois soldados, estiveram 
^nto de regressar para a Bahia, e já com as etapes de 
rcha para esse fim prepai-adas ^). 

Felizmente porém tudo a final se compoz; e, no dia 
de maio, assignavam, na Várzea do Capiberibe, os dois 
fes escolhidos João Fernandes Vieira e António Caval- 
.ti „em nome da liberdade divina* e „para vingar agravos 
yranias^ os diplomas conferindo os postos de capitães dos 
Sarentes distríctos da província, com poderes para requisi- 
8m dos povos mantimentos e dinheiro e para deitar bandos, 
lYOcando a todos, assim nacionaes como estrangeiros, judeos 
índios, para tomarem as armas, assegurando-lhes perdão 
o passado. Vimos, com aquella data, as nomeações de Mi- 
d Gonçalves e Amador de Villas para ^capitães e cabos da 
gnesia de S. Gonçalo de Una e seus limites,** e cremos que, 



1) Calado, pag. 167. 

«) Calado, pag. 167 e 215. 



186 LIVRO OITAVO. 

pela mesma occasião e teor, seriam os poderes dados a outrog 
chefes da Goyana e Farahiba. 

Oito dias depois, aos 23, os mencionados dois chefes, 
assignavam, em companhia de mais deseseis conjurados, todos 
moradores notáveis, um ') compromisso, concebido nog seguin- 
tes termos: „Nós abaixo assignados nos conjuramos, e preme- 
rmos, em serviço da liberdade, não faltar, a todo tempo que 
for necessário, com toda a ajuda de fazenda e pessoas, contn 
qualquer inimigo, em restauração da nossa pátria; 
para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto 
convêm; sô pena de que quem o contrário fizer ser tido por 
rebelde e traidor, e ficar sujeito £U) que as leis, em tal caso, 
peimittam. E debaixo deste compromettimento nos assignamos 
em 23 de maio de 1645" — *). 

For esse mesmo tempo assignavam òincoenta Fenuun- 
bucanos contra os Hollandezes uma representação secreta ao. 
Governador geral da Bahia, pedindo-lhe que os protegesse '}. 

Em logar de fazer immediatamente rebentar a revóluçio, 
propoz Fernandes Yieii*a que ella se aprazasse até o dia do 
S. João, 24 de Junho, para dai* tempo a concertarem-^se, afia 
de ter, por toda a parte, logar quasi ao mesmo tempo; pio- 
pondo-se elle, Yieíi-a a dar naquelle dia, que era e do saato 
do seu nome, uma festa ha Várzea, á qual convidaria os duto 
hollandezes, que ficariam logo ali aprisionados. 



') Acha-se na Bib. de Évora, e no Arch. B. da Haya, Enfiadi 
Portugal, 1641—1649; e foi impresso em hollandez em 1647, 
no folheto Claar Vertooch etc. 

*) Seguem as dezoito assignaturas, a saber: 1^. João Fenuindes 
Vieira. 2°. António Bezerra. 3°. António Gavalcanty. 4**. B» 
nardino de Gar valho. 5°. Francisco Berenguer de An^r»^ 
6°. António da Silva. 1^. PantaliSo Girne da Silva. 8*. Ldi 
da Gosta Sepúlveda. 9*^, Manuel Pereira Gorte BeaL IC An- 
tónio Borges IJchoa. 11 ^ Amaro Lopes Madeira. 12". Bai* 
tião de Garvalho. 13°. Manuel Alves Deosdará. 14^ Ao- 
tonio Gameiro Falcato. 15^ António Gameiro de MariL 
16^ Francisco Bezerra Monteiro. 17°. Álvaro Teixeira ds 
Mesquita. 18°. O Padre D^ogo Rodrigues da Silva. 

*) A essa representação veiu o responder o governador em 21 
de Julho, recommendando aos moradores que eativanem 
tranquillos, que elle lhes mandaria, para accomodal-os com 
os dominadores, a André Vidal e Martmi Soares, com álguffli 
força. 



LIVBO OITAVO. , 187 

A largueza do prazo, quando o segredo já se achava 
aransmittido a tantos, foi causa de que o plano abortasse. Ja, 
10 dia 25 do mesmo maio, um Jorge Homem Finto relatava 
10 Becife quanto ouvii'a dizer acerca dos planos da revolução ; 
k qual, segundo lhe Ijiaviam dito, seiía logo apoiada pela frota 
la Salvador Corrêa, que se espei*ava do Bio de Janeii*o, e 
dria lançar gente em terra nas praias da Candelaría ; passando 
ICartim Soares a devastar a Farahiba e o Bio-Grande, e vindo 
FoSo d^Almeida ^), irmão do Camarão (sic) das bandas do 
ICaianhão, a invadir o Ceará, etc. 

A maior parte dos conjui*ados, ao ouvirem que, com 
lados certos, se falava por todo o Becife, príncipalmente entre 
>8 judeo^, dos seus projectos, começai*am a esconder-se e a 
lomisiar-se. João Fernandes Yieii*a ainda ás vezes de dia 
le mostrava na Várzea, no engenho de S« João, dando ordens ; 
nas sempre com espias pelos caminhos ao longe, e com a 
)reYenção de ir sem falta dormir nas matas. E para melhor 
loder defender-se, se chegasse a ser preso, preveniu-se com 
lína carta de António Dias Oardozo, queixando-se, a elle 
TUàx^ dòs demais moradores, que o haviam convidado para 
una revolução, sem haverem para ella contado com o mesmo 
néoira^ motivo porque se retirava pai*a a Bahia, e pedia as 
pèafl -ordens etc. — Esta carta era t-ambem um salvo-conducto, 
pam Vieira contra os seus émulos ; pois com ella podia com- 
pròmetter os que o accusassem. 

Entretanto um dos conjui'ados, ou vencido pelo medo 
io castigo dos Hollandezes, ou receoso de metter-se em novos 
aubalhos como os que pouco antes passara, deportado por al- 
fam tempo na Hollanda, resolveu-se, não a delatar todo o 
>lano^ compromettendo inclusivamente a seu irmão Beiíiardino, 
[ue não desistia da empreza; mas a avisar aos Hollandezes ') 
t fim de que se prevenissem e evitassem o rompimento, im- 
)edindo que elle tivesse logar na Farahiba. Foi este conjurado 
Sebastião de CaiTalho, que havia também sido um dos cinco- 
mta signatários da representação ao governador. 



') Um João de Almeida, chefe de índios, havia sido morto pelos 
Hollandezes, na margem do rio de S. FranciscOí em maio 
de 1637. 

•) Servindo-se de Fernão do Valle e de António de Oliveira; 
Calado, p. 178. 



188 LIVRO OITAVO. 

Dispertados por taes denúncias, reuniram-se os do Con- 
selho no dia 31 de maio; e deliberaram enviar por toda a 
parte avisos de alerta; mas sem darem, ao parecer, mnito cre- 
dito á possibilidade de uma sublevação. 

Porém dahi a dias, a 11 de Junho, recebiam-se pdo 
chefe politico das Alagoas, Moucheron, noticias da marcha das 
tropas do Gamarão e Henrique Dias, e só então os do Con- 
selho viram que a revolução era mais séria do que pensavam. 
— Beuniram-se pois immediatamente; e resolveram mandar 
prender logo o denunciante Sebastião de Carvalho, e por cau- 
tela também a João Fernandes Vieira, a Francisco Berenguer 
e a outros prindpaes da terra, chamando ao mesmo tempo, 
por meio de salvo-conductos e completo perdão, á António 
Cavalcanti e a João Paes Cabral, e outros moradores, na es- 
perança, segundo ponderaram, de que movidos pela muita &- 
milia que no Becife tinham, não deixariam de vir apresentar-so. 

As buscas se deram; porém só Sebastião de Carvallio 
se deixou prender ^), por isso que nada julgava temer. No 
engenho de João Pessoa Bezerra, á chegada das tropas, acba- 
vam-se não só elle, como Francisco Berenguer, Bernardino da 
Carvalho e João de Matos Homem; porém, por cautela» do^ 
miam na casa de purgar, que ficava nos fundos, e tiveran 
tempo de escapar-se, em quanto os esbirros davam busca pela 
frente, nas casas de morada. 

Estas buscas foram o signal de alarma; e vários dos 
conjurados deram-se mutuo aviso, para se reunirem no dia 
, seguinte 13 (festa de Santo António), no engenho de Luii 
Braz Bezerra. Ahi se juntaram a Vieira e Cavalcanti mais 
seis conjurados, e outras pessoas, incluindo seus criados 6 
muitos escravos; e passaram todos a arranchar-se em um logar 
secreto da Mata, onde se lhes reuniram mais alguns mora- 
dores. Dahi, em número de cento e cincoenta, se âirigiram 
para os mocambos de Camai*agibe; e destes, pouco depois, para 
os do Borralho; onde se reuniram António Dias Cardoio 6 
seus veteranos vindos da Bahia. De então em diante, come- 
çou o acampamento a ter uma organisação regular, com vede- 
tas por todos os lados, e com as competentes guardas. Dias 

') Calado auppoz maliciosamente haver o mesmo Carvalho pedido 
eita prisão por disfarce; foi porém ella efiéctoada por ddí- 
beraçao dos do Conselho para proceder melhor ás aveQQgiiaçSBS' 



LIVRO OITAVO. 189 

* 

Cardoso, jâ com o posto de sargento mor, era o verdadeiro 
director da guerra: Vieira cobrou o igualmente titulo do „ca- 
pitão mór e governador^ delia, e ás vezes ^da liberdade 
divina;^ mas as nomeaç5es, para serem válidas, eram re- 
Testidas também da assignatura de António Cavalcanti. — 

Entretanto no Bedfe já no dia 14 os do Conselho ti- 
veram completo desengano de não haverem sido encontrados nem 
Yieira^ nem os outros buscados; e tomaram providencias para 
que Paulo de Linge passasse immediatamente á PaVahiba, afim 
de impedir ou de atalhar ahi a revolução ; e ordenaram que o 
coronel Hous marchasse para o sul, afim de reunir as guar- 
nições de Ipojuca, Santo António do Cabo, Una e Serinhaem, 
de evitar que fossem surprehendidas e de conter as forças do 
Camarão e Dias ; ordenando igualmente que dessa banda fossem 
logo presos todos os moradores suspeitos. 

Ao mesmo tempo trataram de organisar no Recife 
uma pequena força movei, para marchar contra os revolto- 
sos visinhos. Fizeram desembarcar todos os soldados que guar- 
neciam sete navios que só estavam á espera de vento, a fim 
de seguirem para a Europa, com assucares; e confiaram o 
mando dessa força, que não chegava a tresentos homens, ao 
major Blaar; a fim de que com. ella fosse bater a mencio- 
nada Mata. 

Entretanto, do lado do sul, na Ipojuca, Cabo e Moribeca 
se pronunciavam, á voz do capitão mór Amador de Araújo 
alguns centenares de moiudores, que encontravam logo á sua 
disposição, para os guiar, o capitão Domingos Fagundes Bar- 
bosa, honrado e valente pardo, que já então contava quatorze 
annos de campanha, e havia sido três vezes ferido; e que 
mui relevantes serviços veiu a prestar dentro de pouco, se- 
gando veremos. 

No dia 18 lançaram os do Conselho um bando, conce- 
dendo amnistia aos sublevados, que se apresentassem dentro 
do prazo de cinco dias, passados os quaes, quando não 
comparecessem, tomariam represálias em seus bens e famílias. 

Besponderam a esse bando, no dia 22, Vieira, Caval- 
canti e mais quatro de seus companheiros, protestando contra 
um prazo tão curto e conti'a as violências commettidas, e 
declarando não se apresentai-em para não se exporem a novas 



190 lilVRO OITAVO. 

violências. Promulgaram em seguida os invasores novos ban- 
dos, pondo a preço as cabeças dos da revolta; ao que estes 
replicaram, levantando os valores pelas cabeças de cada um 
dos do Conselho, pratica de que dera exemplo Vidal, por 
occasiâo da expedição de Conde da Torre , e fora depois . 
imitada com vantagem. 

Avisados os Pernambucanos nos mocambos, da. marchft 
de Blaar, julgaram prudente remover-se ainda máls para o 
interior^ e passaram a Maciape, onde se demoraram cinco 
dias. Foi ahi que as forças sublevadas se engrossaram nota- 
velmente, pois, além de algumas escoltas que se reuniram de 
vários pontos, conseguiu o P. Simão de Figueiredo^ jesuíta 
pernambucano, que havia sido um dos capitães de embosca- 
das perto de Recife, quinze annos antes, arrebanhar só dos 
arredores, — de S. Lourenço da Moribára, uns oitocentos 
mancebos, contribuindo para enthusiasmal-os a se alistarem 
uma pequena victóría alcançada, no dia 30 de Junho, em que 
ahi foram aprehendidos quinze soldados hollandezes e oito 
índios, vindos do Recife em busca de mantimentos. 

Apezai' de se achfirem já os Pernambucanos em t&o 
grande número, sem dúvida tiiplo do dos soldados que com- 
sigo trazia Blaar, não julgou Cardozo prudente aiTÍscar ainda 
um combate, quando contava um número menor de armas de 
fogo « poucas munições. I*referíu pois evitar acção, se lhe 
fosse possível, até que se reunissem as forças do Camarão 6 
Henrique Dias, de cuja aproximação já tinha notícia. Levan- 
tando pois campo de Maciape, nos primeiíos dias de Julho, 
passou, com todo o pequeno exercito, o Capibeiibe, em janga- 
das, junto ao engenho da Moribára-Pequena, de que era então 
senhor Fernão Soares da Cunha. Desse engenho seguiium para 
o de S. João, no extremo da península entre os rios Goitá e 
o Tapacurá, e pertencente a Arnáo de Olanda; o qual, depois 
de hospedar lautamente os sublevados, se lhes uniu em com- 
panhia de seus filhos. Deste engenho, em virtude^ da aproxi- 
mação das forças de Blaar, partiram todos, andados já dias 
do mez de Julho, para o do Covas, ainda hoje conhecido com 
este nome, e então possuído por Belchior Rodi-igues Covas. 
A passagem do Tapacurá, nessa oocasião mui crescido com as 
chuvas, se facilitou por meio de uma jangada com vae-e-vem 
de cipós. Levou-se nisso tempo bastante, de modo que não 



LIVRO OITAVO. 191 

foi possível vencer a jornada que se projectara, de umas ti'es 
a quatro legaas, e houve que pernoitar antes, nas casas de 
nm Manuel Fernandes da Cruz ; por quanto as mesmas chuvas 
haviam convertido os caminhos, entre matos de excellentes 
maçapés, em resvaladeii'os e tujucaes^ 

Entretanto Blaai*, que se achava perto, informado de que 
ficara no engenho de Amáo de Hollanda uma guarda man- 
dada por Gosme do Rego, caiu sobre ella com vantagem; mas 
nâo se atreveu contra o grosso das forças, por se reconhecer 
mui inferior em número. 

No engenho do Covas, cuja casa era então „a mais al- 
terosa e espaçosa que no cortão de Peniambuco havia" ^) se 
demorai'am os nossos vinte e dois dias; e ahi teve logai' um 
alboroto que poderá haver compromettido a revolução, mas 
que por ve^tul*a a salvou. 

Haviam-se ja reunido nesse acampamento mais uns tre- 
sentos homens, vindos das bandas do Cabo e Ipojuca, com 
Amador d'Araujo e o valente pardo Domingos Faguàdes, e 
também uns quatorze índios e um cometa, das avançadas 
do Oamarâo, quando se recebeu a notícia de que se aproxi*- 
mava, com a sua columna, o coronel Hous, e que, para ten- 
tar o ataque, não esperava senão que se lhe reunisse Blaar, 
que vigiava os nossos do outro lado. 

Fosse que os Pernambucanos se impacientassem de tanta 
inacção, na proximidade do perígo, fosse que acreditassem que 
se tomavam providencias para uma nova retirada mais para o 
Bul, a fim de facilitar o encontro com as tropas do Camarão o 
Henrique Dias, é certo que o descontentamento se revelou em 
um verdadeiro alboroto, de que pareciam cabeças António 
Cavalcanti e Bemai-dino de Carvalho *), e outros Peniambu- 
canos dos mais graves; sendo contra, e a favor de Fernan- 
des Vieira a tropa da Bahia, os filhos de Poi-tugal e ilha da 
Madeira, e os eclesiásticos. 



*) Calado, pag. 193. 

*) «Sobre este alboroto teve o governador João Fernandes Vieira 
palavras mui pesadas com António Cavalcanti e com Bernar- 
dino de CarvaUio, e com outros dos mais graves da 
terra e eitivoram em risco de virem ás espadas.^ Calado, 
pag. 194. 



192 



LIVRO OITAVO. 



Em meio de tao grande apuro, lembroa-se António Diu 
Cardozo, de acudir com um ardil de guerra. Mandou tocar a 
rebate, como se houvesse notícia de se avistar o inimigo, e 
apenas 4iodo8 se diiigii'am aos respectivos postos, fex qi» 
Vieira fosse percorrendo estes, um a um, ponderando quanto 
no aperto em que se achavam convinha, no interesse de todos 
a união. Só depois de tudo acomodado, foi que constou qiM 
não aparecia o inimigo, e que o rebate fora falso. No eo- 
tanto cremos que foi devida ao mencionado alboroto ou motii 
a verdadeira origem da mudança do acampamento, nSo pin 
o sul; mas sim para as bandas do sertão, a uma paragen 
forte e defensável por natureza, tal como oMonte das 
Tabocas.') Foi no último dia de Julho que teve legar a 
marcha dos nossos do engenho do Covas para essa forte pr 
ragem; havendo porém Vieii*a, antes de emprehender a mardii, 
dado satisfação a uma das justas queixas dos que se harâ 
amotinado, qual era a Mta de cirurgião e de botica; enviaib, 
dez soldados á povoação de Santo Amaro, os quaes cobíI'! 
zii*am á força, com os necessários medicamentos, a nm tnt] 
cez, mestre ^) facultativo que ahi exercia sua profissão. . 

Quanto á posição verdadeira do monte das Taboca^ 
pelos exames , locaes que pessoalmente fizemos, não dnvídaMij 
hoje assignal-a á pequena serra do Gamucim, não longe fej 
antiga igreja de Santo-Antão, actual cidade da Victoria; è\ 
cimo da qual se descobrem todos aquelles contornos até 
Várzea do Becife, na distancia de mais de seis iegaas. ') 



*) ^Por tanto abala a gente a um deserto 
Monte, para onde o guia André Duarte^ 
diz Calado (p. 208); do que se poderia colligLr que um 
d ré Duarte indicara essa paragem, se este último i 
nome nao parecesse antes uma cunha para rimar 
Marte, que está antes na mesma estancia ou oitava. 

*) Calado (p. 196) lhe chama Mestrola. Por Mestisi 
tratavam então, não por doutores, os cirurgi5es, que enm 
mesmo tempo os barbeiros. Mas se o nome era naneu i 
deve estar bem orthpgraphicamente escripto. Por venttf] 
antes Mestre Aulas, Aulaye, HoUar, etc. 

*) P. Moreau descreve o lo^r da acção dizendo que os 
estavam ^retranchés sur la montagne appeUée CamaifOil''. 
fíão em favor do local que designamos as indicações deOU 
de que „era um alto e empinado liionte,* e qii0 .» 
caminho do Tap acura ao monte havia barrocas. — O úté^i 



ir alcantis, íiljkisjuTííj ir >^m:, í :•.: ^. ,'^,.;* «» ,hj,^ í.;,)»n 
pas ou funiAã, :iir rri::. . ::: Vis:rA»;«s ^a tV;U>, i,^ ,;,4,» 
nossa gem«e e5iã:»flKv:. cv-irif* cvv.c .:*/;. *;'«io <^mí \.,\\ \o: 
ideiro quarr*! de s-aiiào. Kr.: \;vt;:*ío »:o alguns anj^n\,>s m 
ícaes, que naque^ieb lem^v*. or.i vv-*' ^''^ toiívu^^s n.io Iuimídu 
íT ahi sido r-.kçados. vos: iam ;ki faldas do uwm»1^. haxia oUo 
do chamado das tabocas, uomo osto com ()uo. uonvi \\a\W 
í -firazil, designam certas plantas arnndinoas ou iauua'< oi.ii 
bastante grossas, qiie no sul so donotuitiain taiiuiUan 

Pouco depois de liavor sido poios uosnom donaiupuiaiio o 
igenho do Covas, chegou ahi com as ti«ipa:i jm lumtiiliin ii 
lefe Hous; e depois de lho lan<;ar fttf^o, NOfjriuu iidiiiiiln A 
ffça que trazia foi pelos iiohsos orçada om mil o rmit liiiihi>iiM , 
orem nao falta quem nssoguro (pin iiom ii ííimI.ii mo ulnviuiii 
mbora, em todo caso, f(»HH0 Hupmior ú iioMna; lioin i|iii> iniiini 
o número, Inas composta oin (framli* parlo lin p,nii(ii liiiiitiilni, 
cm disciplina, e mal armada, nao Ifiido iilf/.uiiM imiíIm i|iiíi mmi 
Bgancho e outros uma simplinf Wum do ponia iiliolu um um \iitn 

Deram as avançadas Kignij) <la .'iproximin,.!'! 'I<i )iiimiiv>. 
Q dia 3 de Agost». p<;]a tirua c ni'-iii 'í.i l.i)'li n riii|4<--MÍ'f 
Mr António - iJia^ Cardozo. íju*? Ii;iviu "nu \tn>f\t^uihi ê:,\u 

•do o postas dÍ.*pOZ 'llun.ti*\u^:illii'tíU' .i;» l»';i*.'. *'tlt 'jUiií*'; 

DboBcadas nos ta^vafji-. o/jd»* j-^' pi'íjí"mIi.i .ii».ilii» •, uètntut', 
fixando a mai- f^^';5J rj*, íiiv, *j«i m^m^A .>>, iici»! «i« hr.h, 
íiTiandes Viçira. ;'&r<i *.'■';.• *!<-j/m.- ';u''í* t', « n'4«,.,iii.. 

i^^nando l^ v.* ',.>,••.» '^í :. •:,■...- •>•.! i# »• "i»: «í» 

^âos e &*■". '.' :.:.r" ::.»•• '.' ^ /■ m •.. ■*.••.«, / •. .^f f u *■ 

tj)arou LiLfc 'jkKt>'.:"t''*. ',»•/' «.''í-vfj «■ 1,11., /<!.. '.I '•• I.. »., 



^miiaht \ - ■■ * 1/ 



• 4 1 ' •»,...»■ '.'»./ -1 






f: * ; 






194 LIVRO OITAVO, 

apoz si o inimigo, conforme lhe fora ordenado, para 
bocaes em que estavam preparados as emboscadas. 

Desempenhou Fagundes pontualmente a commissi 
recebera; defendeu primeiro como poude a passagem < 
pacurá, e depois se foi recolhendo, fazendo fogo em n 
Formou-se o inimigo na campina, depois de devassar 
ficando muito exposto aos tiros dos que se achavam e 
dos nos tabocaes. Logo acometteu contra estes, con'( 
travez da campina, mas, com grande perda, viu-se ol 
a retii'ar a fim de se refazer de novo. — Foi então í 
de fianco, na própria campina, pelo valente capitão Fa^ 
que fora melhorar-se com mais oitenta homens, e junt 
pelo capitão Francisco Ramos, e então viu-se obiigado 
penhar mais gente na acção. Ordenou a algumas comj 
que fizessem face áo mesmo Fagundes na. planice, e com 
começou a disparar cargas cerradas contra o tabocal, 
recebera maior estrago. Por essa occasião caii-am mori 
nossa parte o capitão João Paes Cabral, *) e o alfere; 
de Matos, ambos naturaes de Pemambuco. 

Retiraram-se os nossos dessa piimeira emboscada 
devassada ella, encontraram-se os HoUandezes, com outr 
campina diante de si; e ahi lhes apresentaram resiii 
por uma hora, os capitães António Gomes Taborda e M 
Ricardo^ este último á custa da própria vida. - — Vendo 
o Inimigo que não lhe era fácil vencer de frente tanta 
tencia^ lançou pelos flancos várias mangas que fossem ei 
os nossos pela rôtaguarda; porém a tudo acudia com' r 
a vigilância do sargento mor, ajudada pela do P.® Sii 
Figueií^edo, antigo capitão de emboscadas no Recife, i 
segundo Calado, „ estava junto do governador, e -dali 
dia alguns troços de soldados para os logares onde en 
cessaríos." — E para em tudo estarem favorecidos nes 
08 nossos conta-se que, por onde avançava uma dessas n 
succedia fugii*em do perigo, á frente de suas comp 
dois capitães menos valentes, cuja só presença obri 
inimigo a retii-ar-se, persuadindo se que vinham por ai 
se lhes oppor. — De novo arremeteram os Hollandezei 
attender ás muitas perdas que estavam sofrendo, e chi 



*) Veja ante pag. 188. 



ij ãtièv-ei u iA'i' . :. ■..;;. :..r:...i.;- «íi >r.-''í» í.vmvií. 

aCT i_lir ]».': "^tíLTu:*:^ :i.l..li.lti;i.',;i K iliitniK. . ^:i^r^^ííl^^ . 

iezte çiií: aTLn-.-L;ri*.iL v.:':v:i.-si .■:r.-;4.;t.i.»> :. x^^liir. ,'. »•■?•♦'.■ 
>urraiiO£ (•<.']Lf ]• •:■ i:iií:í i.-rrrM»".. NOino'ili:i\oi hv ti;»^ ]:>vrr 
randi.' dv C">iie d '*> v-iv-r':^ v,. ;*> »i:»s jítmuiíi^s siN^iiMraf «io* 
hadiis uai cima^ da? cvrà:'.hr.r;í^ ii4M!»*í;ís. »j>.o i-om m pio 
i fór;a da sua iii;iííS;í avvlora.ií. x.ii^ lox^niU^ Mpo» "i nn.i«ii» 
Lhes oppOe. Em lãõ ^rando oouluvao porotiM-mu mníi," «l.- 
uigo e s«''t três dos no5is<»s. Kotoi\iído p«\n^m poi m».í- ii"im 
, consegniiam ainda t»s ronliAnoM t^ppo» lio no\i« ii»^r<i«« 
dispai'iirj do ainda lios doso^n^ías ron-idap . wuv- !i»h" ni»iu 
loite, que foi feia e tonnonlo;<a. o i> injn» ri«nn,ni. Oi^miln •« 
icipio cada qual oin smis poMin:.. IViwMtNinn i»' ii«t*<MM< i^mi< 
am de seguir na rofro^n, no diit iinittiiilitilit. v pm i i>tt!i >i< 
iam preparado, duraniu t.>Mln n nnilit IViiúitt. !i>> •iiiiMiitini i>i 
o a descubrii* o ('/ííim);o o vhIcmiIo i> i>*tnMhMMiti!iilM i>itil('i'< 
UQcisco Bamos, tornou, diAcndii inWi liii>i<i > (Mnnhiiil)- tiMil> 
to de inimigos qiin iniut,<»i< iiinilin' n •mifi- )i>.i >ili- 
cados. Só cntao o;í n'i:-.c>o<* Mintiihim 'lMlilt>l<iHMiii' -• 
bória. 

A perda doK iínninfn: ittiUt i«<'>i', ii,i hik} 'mH' l')»>i'n»l 
c«>nsequencia íla '^'fíjvsjj/j.' "/iiIím*m/< »■♦»» »(im •» Imm''M'íiíí 
peleja. Elle,? '.hírí^;i'v.T, .■ "i.i'.!:.ii •» ti.* ;.|.|-, >l» m.mi Im. 

nSy incluJTjO-.- .'.Aí.'^ ;=''ffr'; •, y:....i,i. '-.(.íím., V"H Í '.■ 'I-Í' 
' ■ HbVJr*. ■:.. ;."'■.•■...■• ^•■ l'*.i.». . . .. I- . ' ti 

I 

iíTlT.*' '■.■■". "1 ■■ '•■f..^ :■.,■ .,. ;■ ;. • 

ao i:.-.iv '..»»! '..,-.1.. ■ / . ., s- ' f . • -i i , ■■// 

I I 

\rrl^'L íi* .'"'•'" '..■.,■..'■ ■■.'■. , // i. t 

XUi ^ .r.l lii. p* iji- •• "■..' ' . I . ' ■ • . ■■;. ' .' 

^■■. J:1i'ÍI:11i. iljii.'. ' ,■• •■ ■ .'/■.' 1 

Lf h * ' ^ ■ ' » .li'.. I . . '■, i í < > "^ ' . • 

I , 

l",-"l L 11" i-.i ,'t ' ■ . I ' é • 

- }lL.'.»"fU' 1^» 



196 LIVRO OITAVO. 

ficou mal fendo. Os nossos, até em documentos officiaes, ele- 
varam essa perda a tresentos e cincoenta; e um escriptor*); 
que estava não longe do campo, diz positivamente, que na 
campina se encontraram cento e setenta mortos, e no Tapacnrá, 
em uma parte cincoenta e cinco, e n'outra vinte e nove; isto 
é, ao todo, duzentos e cincoenta e quatro „fóra outros 
que se acharam em várias partes por entre 
o mato,** assersão esta que apoia até certo ponto a opinião 
dos que orçaram a perda em tresentos e cincoenta homens. 

Da nossa parte a perda foi, muito menor, como en 
natural, visto que, em geral, combateram mais a cuberto; mas 
custa-nos quasi a crer que se limitasse a oito moi*tos e trinta 
e dois feridos, como assegura o mencionado escriptor, e como 
lemos em uma representação oíficial do tempo. *) 

A notícia da revolução e provavelmente já desta pri- 
meií-a victória, foi em Portugal recebida, como era natural, 
com grande satisfação; e por ventura contribuiu a que fosse 
promulgado o decreto de 27 de Outubro (164õ), ^) dispondo 
que os primogénitos dos reis, herdeiros presumptivos da Coroa, 
se -intitulassem, dahi em diante, „ Príncipes do Brazil.* *) 

A satisfação obtida pelo triunfo nas Tabocas, segaiu-se 
a da breve chegada e reunião final das troças do commen- 
dador Camarão e do governador Henrique Dias, que levaram 
mais de quatro mezes na marcha desde o Eio-Real. 

Já dissemos que a entrada das forças aimadas destes 
dois cabos de guerra pelas terras então occupadas pelos Hol- 
landezes, fora o que mais alarmara aos mandantes do Becife. 



O Calado, pag. 206. 

*) O Portugal restaurado dá esse mesmo número de mor- 
tos e feridos; poróin Fr. Rafael de Jesus, sem declarai a 
1'azão do seu dito, eleva a perda a 37 feridos e 28 mortos. 

') Pr. IV, d. 29, 792: Liv. 20, 20, 13, 357. 

^) Foi uma das muitas attoncfíes de D. João 4." a favor do 
Brazil. Por alv. de 12 de Dez. de 1642 havia franqueado o 
commercio da índia, abolindo a companhia de monopólio* 
criada por Filipe 4.° — Polo de 29 de Julho de 1642 ordenou 
que os governadores uo Eío não interviessem nas eleições da 
Camará, da qual ficariam excluídos os de nação (judeos de 
origem) e os mechanicos. Pelo de 28 de maio de 1(>44 man- 
dou que na Bahia houvesse misteres e juiz do povo,' etc 



Cmnpre-noe agr-ri aír»?*:*!!^^ :i'f linliiz: iii i -es. . .■•■Jti.' 
en nataraL lànzà laLpon^L :ii :ir JiJLvià:^ iiiz.uí: .Í7>?:i:? ';^o 
dois emissários p*ri .: :-:rA rSi»* ::i.íí^: r>:v:^'>ev.Mr;:v. Ji^ ç> 
Temador da Bahix e r-:: TTii:-ri ivòta. ã. -jítííiv.. tíniy»:, jihi 
8ondar«n peàã->âlnfi::e i? iisi ^:yf> íri ':!.-í <í í:':íiYa v» 
mesmo g^Ternai r. 

Foram a» dois eziissar::? ■: ':::i^1?ljl■?ir:■ j*:!::::. Ril:h.i5wir 
van de Voorde e o ■: iiiziilííz:^ da f-rralí:.* I- Por.w\ u* 
Cabo de Saiii«>-Ag'><::ri:.. Thr.i-.-r-: vji: H /ár^Tniteu, que, 
munidos das coinj»*:éii:ç5 in-truc^ve?, >Y;ir,iai oomsiío um.i 
carta datada de 7 de J-jlh>. na q :al. co:r.cH;an.lo por &logai' 
o haverem cDmpridv os anitos das ireíruas, os meiíibrv^íi do 
Conselho se queixavam de íalra de ooriespoiídencia* oonàrmada 
nessa invasão dos ditos dois caudilhos, que para mais, faziam 
a guerra de um modo mais q::e deshumano, e qiiasi oomo 
piratas e ladrues. Acrescentavam que, aiuvlaqne uào podiam 
crer que e^es iam ^a n t o r i s a d o s . desejavam tirar amo a 
Europa todÍEi a dúvida a esse respeito pelas próprias declara- 
ções do governador: e concluiam manifestando que, se bom 
tinham, com a graça de Deus, forças para bater os insurrec- 
tos, reclamavam que elles fossem na Bahia cíistigadvv^, como 
satisfiaíçâo devida aos tratados. 

Respondeu António Telles, oní 19 do uiosmo mo/., do- 
clarando ser estranho ás manobras dos rovoltttsos; o narraudtt 
a historia combinada da fuga de Henrique ]>ia8 o c'anmrAo; 
mas tratando de justifícal-os pelo patriotismo, hm^^ando oní rosto 
aos reclamantes a quebra das tréguas; sendo certo quo, â vista 
dos commissarios que haviam ido a Pernambuco concortjil-as i» 
fazer retirar as guerrilhas quo havia na cainpanlia, haviam 
saido as esquadras contra a ilha do S. Thouu^ o Angola i» o 
Maranhão, declarando montidainente aos ditos conunissarios quo 
se dirigiam ás Índias de Castolla. Acrescentava o Oovornador 
que sentia muito o occorido; mas que iiào tinha tropas com 
que ^naquellas ])renh}is" podesso obrigar piOa torça os tiois 
caudilhos, indio e preto; os <{uaos „sn nào lho haviam obe- 
decido persuadidos, menos se sugoitariam vi<»ltíntiul(»H;" o c.on- 
cluia promettendo, cm todo caso, de mandar sem demora al- 
guns dos seus a, aquietar o movimento, i lul o provou idos 



198 LIVRO OITAVO. 

de maneira que, se os não podessem sujeitar por suavidade 
e bom modo, os constrangessem por violência. •) 

Estas últimas frases alludiam á próxima paiiiida de dois \ 
terços ou regimentos de linha, commandados um por Vidal e 
outro por Martim Soares, que já estavam promptos a pariár, 
em uma esquadrilha de oito barcos maiores, quatro caravelas 
e quatro sumacas, ao mando do capitão mor de mar Jeronymo 
SeiTâo de Paiva; e que não esperavam senão pela chiada da 
frota do Eio de Janeiro ás ordens de Salvador Corrêa. 

Esta circumstancia foi levada ao conhecimento dos do 
Conselho de Peniambuco por Hoogstraten, a quem fora reve- 
lada na Bahia, quando ahi se mpstrou pelo menos vacilante 
a deixar os seus e a bandear-se, seduzido pelas promessas que, 
com approvação do governador, lhe foram feitas de postos 
d'accesso, habito de chiisto, dinheiro e fazendas que receberia, 
se quizesse entregar a fortaleza a seu cargo. Que elle esteve 
em taes tratos, procurando apartar-se clandestinamente, e me- 
diante senhas convencionadas, do seu honrado Qompanhôro 
Van de Voorde, não ha a minima dúvida. E' elle mesmo que 
o confessa em um ofício que, desejoso de entrar de novo nas 
gi*aças dos do Conselho, lhes dirigiu e corre impresso. *) Nesse 
officio, conta elle como, jantando em casa de Pedro Corrêa di 
Gama, ouvira a esse respeito a Paulo da Cunha e principal- 
mente a D. João de Souza (sobrinho de Felippe Paes Barreto), 
os quaes lhe obtiveram uma audiência clandestiva do governa- 
dor, que lhe assegurou approvaria tudo quanto offerecease^ 
Paulo do Cunha. Parece que depois se mostrou arrependide 
de tanta subserviência ; mas o seu proceder ulterior na entrega 
do Pontal acabou dè comprometel-o aos olhos âos seus. 



*) Cópia desta resçosta foi pelo próprio António Telles enviads 
á Corte, em officio da mesma data, acompanhada 'de oatns 
documentos, que só foram reconhecidos pelo tabelli5o na Bir 
hia três dias depois (em 22) da data do officio que os le- 
mettia. De Lisboa foram em 4 de Out. mandados ao embií: 
xador na Haja, que os exhibia aos Estados Geraes por noto, 
de 28, cujo recibo se aceusou em 5 de Nov. — Calado pi-J 
blica (p. 831 e 332) isso em parte, adulterando muito, < 
favor do seu heroe Vieira (p. 185 e 186), a conferencia d» 
delegados ou emissários. 

•) Extract ende Copye etc. 1646 (s. L.) 



LIVEO OITAVO. 199 

Partidos os emissaiios de volta para o Kecife, no dia 21, 
guando ainda iam no mar em sua viagem» se apresentava nas 
igoas da Bahia a frota de Salvador Oon-ea. Embarcaram-se 
antâo immediatamente nos navios de Serrão de Paiva os dois 
berços de André Vidal e Mai-tim Soares, de um dos quaes 
fazia parte Paulo da Cunha; e logo estes navios seguiam 
zle vela para Pernambuco. A frota de Salvadj)r Corrêa, com- 
posta do grande ^leâo S. Pantaleão por capitânea, de outros 
dois, que sor diziam construídos então de novo no Bio de Ja- 
neiro, e de mais uns trinta transportes, pela maior parte fre- 
tados, partia quatro dias depois. Segundo o plano do Gover- 
nador António Telles, que Salvador Corrêa simulou aceitar, a 
esquadra de Serrão de Paiva, depois de deixar no sul de Per- 
nambuco os terços de Vidal e de Soares, devia reunir-se á frota 
do mesmo Salvador Corrêa, em sua passagem, e juntas procu- 
rariam ameaçai* o Eecife ; começando por entregar ahi as cartas 
intimativas, redigidas de commum accordo; afim de, á sombra 
delias, desembarcar gente a titulo de reféns, que, posta em 
terra, se sublevasse depois dentro das próprias muralhas do 
Becife. Pensava o governador que Salvador Corrêa se presta- 
ria, sem o menor inconveniente, á execução deste plano, por 
elle ja submettido á Corte, e cuja approvação só chegou, no 
seguinte mez, acompanhada de uma carta regia . (de 9 de maio 
de 1645) a Salvador Corrêa, ordenando-lhe que accedesse aos 
]^nQs do governador, se o não tivesse ja feito. Salvador 
Gòrrea mostrou assentii- em tudo aos desejos do governador; 
porém levava comsigo a familia, e ao partir da Bahia, ja ha- 
via revelado a sua mulher que acompanharia sim a esquadra 
dê Serrão de Paiva, mas que com a sua se conservaria de 
largo, e sem envolver-se em combate. Esta resolução não a 
soube o governador, senão depois de partir o mesmo Salvador 
Corrêa, por pessoa a quem sua mulher revelara o segredo. 

Correram a Serrão de Paiva favoráveis os ventos, e as 
tropas que conduzia desembarcaram não longe de Serínhaem, 
no próprio dia 28, cm que os dois emissários que haviam 
estado na Bahia davam aos do Conselho conta de sua com- 
missão. 

Salvador Corrêa, que pai'tira da Bahia três ou quatro 
clias depois, vinha a encontrar-se com a esquadrilha de Serrão 



200 LIVRO OITAVO. 

é 

de Paiva no principio de Agosto immediato, e só entâo-ihe 
fazia saber a resolução em que estava de não envolver-se m 
conflicto guerreiro, e de abandonal-o no Eecife, se elle iná»- 
tisse em áhi chegar, e os HoUandezes fizessem fogo. Encar- 
regou-se entretanto de mandar entregar aos do Gk)vemo do 
mesmo Eecife, por um pai'lamentarío da sua frota, toda a 
coiTespondencia ^preparada, recui'so que Sen-ão de Paiva nâo 
teve remédio senão aceitar. Não e' porém iiApossivel qae ainda 
com ós seus navios chegasse a acompanhar a Salvador Corrêa 
até perto do Eecife, e que só regressasse, quando a grande 
frota seguiu seu caminho, julgando, pai'a mais, oppoiiiuno levar 
comsigo o melhor bai'co dos de Serrão de Paiva, que era do 
Bispo. O Governador António Telles ^ dirigia aos do Consélk 
duas caii;as, com data de 21 de Julho, participando-lhe, q«, 
na conformidade do que lhe promettera em sua carta de 19 
levada pelos emissários, enviava, na esquadrilha de Serrão de 
Paiva, forças, ás ordens de André Vidal e Martim Poarea, 
„para obrigarem os sublevados de Pernambuco e os seus ans- 
íiares a depor as armas". Por Salvador Corrêa, lhes escreria 
outra em 25, acrescentando que, passando pela Bahia a frota 
do Bio de Janeiro, se entendera com o chefe delia para ^ 
também fosse ao Becife a offerecer os seus bons ofEicios em 
favor da pacificação dezejada etc. 

Estas três cartas foram pois levadas por Salvador Co^ 
rea, que as mandou entregar por dois pai*lamentarios, acom- 
panhadas de outra de Serrão de Paiva, partecipando haver ja 
deixado em terra as ti'opas enviadas pelo mesmo Governador, 
e de uma quinta delle próprio Salvador Corrêa, assegurando 
as intenções pacificas de seu rei para com o governo daa 
Províncias Unidas, e offerecendo-se a contribuir também com 
os seus serviços para à pacificação. 

Salvador Corrêa, estando no porto do Becife, observoa 
que varies navios de guerra ahi fundeados, se preparavam, ás 
ordens de Lichthardt, para ir atacal-o, e notando que em tem 
voltavam contra a sua esquadra os canhões, preferiu seguir 
viagem, sem esperar se quer o regresso dos parlamentaiki 
que mandara, e os quaes só na Europa lhe foram dar a rw- 
posta que receberam. E tão decidida foi a resolução de olb 
combater, que, perseguindo-o Lichthardt, preferiu a isso O ver 
tomar um de seus navios mais ronceiros, 



LIVEO OITAVO. 201 

Deixemol-o seguii* em boa hora a salvamento, e vejamos 
o que 88 passava com os terços de André Vidal e Martim 
Soares, com os valentes de Henrique Dias e do Camarão reu- 
nidos a Fernandes Vieii*a, e com a esquadiilha de Serrão de 
Paiva desamparada da sua protectora. 

Vidal e Soares, apenas desembarcaram, puzeram-se em 
marcha, e fizeram logo pronunciar-se abertamente pela restau- 
ração os povos visinhos. Avançou Paulo da Cunha contida o 
íoyíq de Serinhaem, e depois de lhe tomar a agua, escreveu 
ao commandante convidando-o a entrar em negociações com 
08 meskes de campo. Eepetiram estes, dois dias depois, a 
offerta; escrevendo, no dia 4, do engenho do rio Fonnoso, 
qnde se alojavam, uma cai*ta ao chefe do districto Samuel 
Lambertz, expondo - lhe ao que vinham , em cumpiimento 
das promessas feitas pelo governador António Telles aos 
do Supremo Conselho, e propondo-lhe o entrarem em ne- 
gociações. Reconhecendo este, e todos os officiaes da guarni- 
ção, que não havia meio de resistir com esperança de bom 
êxito, assentaram que mais lhes convinha capitular logo, acei- 
tando as condições favoráveis que se lhes propunham. Para 
igustar a mesma capitulação foram nomeados os * capitães 
Cosme de Moucheron e Jeaii Paul' Jacquet, os quaes, póndo-se 
de accordo com os mestres de campo, reduziram as mesmas 
condições a sete artigos. Foi concedido á guarnição *) o sair 
com ai'mas, com as honras da guerra, com seus bens e fami- 
lia.«t; podendo transportar-se ao Eecife os que o desejassem. 
Eram sessenta e dois ; sem os índios, em número de quarenta 
e nove, os quaes, abandonados á discrição pelo artigo 6." da 
capitulação, foram todos enforcados. 

Não consta que para esta capitulação tivesse contribuído 
notícia alguma, tida pelos sitiados, da derrota de Hous no 
Monte das Tabocas na tai*de de 3. 

Pelo que respeita a Fernandes Vieira, depois desta vic- 
tória, passado o tempo necessário para enterrar os mortos e 
para o descanso, este chefe, havia julgado conveniente deixar, no 
dia 10, a forte posição do Monte das Tabocas, a fim de seguir 



') O autor do Castrioto faz valer o muito que contribuirá para 
86 chegar á capitulação um João de Albuquerque. Tal nome 
nem ao menos se comprehende entre os que assigoaram como 
testemunhas a mesma capitulação. 



202 LIVRO OITAVO. 

para o sul; e achava-se já em marcha, quando chegaram 
mesmo Monte das Tabocas Henrique Dias e o Camarão, cu 
as forças que comsigo traziam, os quaes proseguiram logo, 
apressando a marcha vieram a encontrar-se com Vieira N 
Gurjaú. — Então se resolveu que, em logar de proseguiii 
todos ao encontro dos mestres de campo, se destacasse iu 
palete das forças para o norte, e delias foi feito capitão n 
António Cavalcanti, que acaso aceitou a commissão por 8<)| 
rar-se de Vieií-a, com quem andava desavindo. — Os amig 
de Vieira chegaram a accusar ^) a Cavalcanti de inten^ 
pérfidas, como a de haver pretendido descartar-se delle p» 
qualquer meio, sem omittir o da propinação de veneno; mi 
o que é sem dúvida é que foi Cavalcanti quem, logo depo; 
de separar- se, perdeu a vida, em Igaraçú; e as ena 
accusaçdes que lhe fizeram, ainda depois de morto, os m 
inimigos, deixam essa morte envolvida em certo mistério. 

Seguiu porém a maior parte da força, com Vieira i 
Cardozo, para a fortaleza de Santo-Antonio do Cabo, (hA 
mandava Gaspar Van der Ley, ahi casado, e que, seguiA 
informara João Gomes de Mello, parente de sua mulher, » 
uniria aos nossos apenas chegassem. Succedeu porém qw 
o mesmo Van der Ley foi, com toda a guarnição, por ord» 
superior mandado reforçar o Pontal, onde commandava Hodj- 
straten; pelo que os nossos encontraram a fortaleza deSaut»» 
António desguarnecida, e facilmente delia se apoderaram. D» 
dias depois de ahi se acharem, receberam a notícia de baTM 
desembarcado na Barra Grande os terços ou regimerti, 
de tropa de linha commandados por André Vidal e Mariil 
Soares ; e dentro de pouco se apresentou na fortaleza o propi 
Vidal que, com doze soldados, se adiantara dos seus desdi 
Ipojuca. Vidal trazia já para Fernandes Vieira a nomeação* 
mestre de campo, ^) e uma ordem do Governador geral da Bilí 
para dahi em diante ter com o mesmo Vieira parte no gOTem^ 
intitulando-se: „M es três de campo e Governador* 
com poderes de Capitão general. — Masserf 



») Vej. Calado, pag. 193, 19«, 214 e 21G. 

*) Ainda uo dia 9 de Agosto Vieira não se dava^ eita ttíj 
com que 3omente começa a adornar-se desde, o dia !& Vfl 
se os documentos que publka Mello, I, 165 e 167, 



LIYBO OITAVO. 203 

ío Vieira nada resolvia, senão pela boca de António Dias 
iozo, dahi em diante, até tomar o mando o general Fran- 
BaiTeto, foi Vidal o verdadeiro director da guerra, e 
m o entendeu o inimigo, como se deduz da própria obra 
Moreau. 

Resolveu . pois Vidal que Martim Soares, com o seu terço, 
Basse a investir a foiialeza do Pontal, ao passo que elíe, 
i o seu, e as tropas de Vieira iriam a marcha for- 
a em busca dos forças de Hous, junto do Recife. Esta 
rcha se efectuou durante todo o dia e noite de 16, sendo 
se tempo vencida a distancia até a Várzea do Recife, apezar 
muito lodo e falta de commodidades que as tropas encon- 
ram. Dui^ante a noite foi Vidal avisado de que, a meia 
aa de distancia, na chamada ainda hoje C as a- F o r t e, 
• longe do Recife, se achava alojado o chefe inimigo com 
suas tropas. A' vista do quê, mandou dar um pequeno 
canço. Porém, duas horas antes de amanhecer, se proseguiu 
marcha. Apenas passado o Capiberibe, foi encontrado o 
nigo, que, rapidamente investido, apenas teve tempo de 
olher-se á dita Casa Forte, a qual logo foi atacada, 
i se defendeu tenazmente por três horas, ao cabo das quaes 
da se não entregara, a não se ter visto ameaçado pelo Ín- 
dio, que os nossos já preparavam, da mesma Casa Forte, 
bao se renderam á discrição tresontos e vinte e duas praças, 
iuindo o chefe Hous, o coronel Blaar, um sargento mór v 
Í9s outros officiaes, que foram todos mandados para a Ba- 
^), não chegando porém lá o coronel Blaar, que em repre- 
a de passados offensas, foi segundo parece, assassinado, 
ios os índios que se entregaram foram condemnados a 
a última. 

Contam os panegiiústas de Fernandes Vieira, com intente» 
fazer sobresair seus dotes, que, ao ver elle Henrique Hous 



*) Do chefe H. Hous sabemos, por uma exposiçôo por elle apre- 
sentada, que dahi partira em uma caravella a 6 de Janeiro 
(1646), e chegara á Terceira, a 28 de março; que nesta ilha 
estivera encerrado no castello de S. João, até partir para 
Lisboa, em 15 de maio ; que, chegando a essa capital em 2 
de Junho, se avistara ahi com Mathias d' Albuquerque, já 
Conde de Alegrete, e recusara ficar ao serviço de Portugal. 
Por fim passou á Hollanda em Julho ; e mais tarde regressou 
de novo ao Brazil, e veiu a morrer nos Guamrapes. 



204 LIVBO OITAVO. 

entregue e prÍ8Íoneii*o, tivera o máu gosto e a falta de cari- 
dade de lhe diiígir algumas frases, perguAtando-lhe se elle 
era o mesmo Hous que, pouco aotes, dissera o havia de 
prender a elle Yieii'a, e fazel-o, de braga ao pé, pensar-Ua 
os cavallos, etc. Faltam-nos dados pai*a justificar a Yiein 
desta imputação de falta de generosidade e de cavalheirismo; 
mas preferimos antes attribuil-a á escacez de tino dos seos 
aduladores. E não seiia estranho que essas frases saíssem à 
mesmo fábrica em que se forjaram os falsos diálogos de "^ein 
com Vidal, para converter a este último a prommciar-M 
por elle. . 

Conseguida a victória da Casa Forte, Vidal , dá- 
xando a Vieira, com toda a gente de Pernambuco, incommo- 
dando o inimigo e regularisando o sitio do Bedfe, coiTeu, coi 
o seu terço, a reforçar a Martim Soares, que deixara investisdi 
a fortaleza do Pontal. A derrota completa de Hous , jã lU 
conhecida, deveu concorrer para a prompta rendição da praç% 
augmentando a força moral de uns e desacoraçoando a oufam 
Com taes precedentes, julgou Vidal que mais facilmente ogcb- 
paria a praça, entrando em negociações, que pondo-lhe bateiiai 
e atacando-a pela sapa. Escreveu pois uma carta a Hoog»- 
traten, expondo -lhe quanto se passava, lembrando-lhe os a- 
teriores compromissos na Bahia, acrescentando os de Vau de 
Ley com João Gomes de Mello, e exhortando-o a que capita- 
lasse com clausulas análogas ás concedidas á gnamiçâo k 
Serinhaêm, — cuja execução havia sido pontualissima, 
elle devia saber. 

Esta carta foi parar ás mãos dos do Conselho do Badfiij 
não sabemos se enviada pelo próprio Hoogstraten, arrependid* 
do seu procedimento na Bahia e anhelante de restaurar a li- 
tiga confiança, se tomada ao portador por alguma gauà 
ou destacamento. O certo é que, com outros documentos, yú 
pouco depois (1647) a ser dada á luz em Amsterdam, tt 
um conhecido folheto , intitulado „ C 1 a a r V e r t o o cli*i 
etc. — Em todo caso, não veiu a praça a resistir por muili 
tempo, pois se rendeu no domingo 3 de Setembro, justamai^. 
quando se cumpria um mez depois da victória das Taboe» 
A guarnição saiu com as honras da guerra, e vários offiite 
incluindo Hoogstraten e Van der Ley, e também muitos floi^i 
dados, se alistaram nas fileiras do exercito restaurador. 



■r. 



LIVRO OITAVO. 205 

Aos rendidos devia o inimigo alguns mezes de 
»ldo e de pret, e uma das condições da capitulação foi que 
; nossos se responsabilisavam por esse pagamento. Fai-a 
féctual-Oy foi imposta aos moi*adorcs uma somma de quatro 
lI cruzados, á qual se juntou outra igual, mandada da Ba- 
a pelo Goveniador geral. 

Occupemo-nos agora de Serrào de Paiva. 
Quando o governador António Telles foi informado dos 
'opositos pouco leaes (a respeito da execução do plano com- 
nado) com que pai'tii*a Salvador Corrêa, ficou não somente 
oitidissimo, como bastante inquieto acerca da sorte da esqua- 
ilha que transportara as tropas dos dois mestres de campo. 
So faltava quem na Bahia tomasse a defensa de Salvador 
orreá, procumndo socegar o governador, dizendo-lhe que se- 
am invenções de maldizentes: porém o governador julgou 
ampre oppoi-tuno escrever ao mesmo Serrào de Paiva, com- 
mnicando o que lhe haviam dito, e acrescentando que muito 
lie custava a acreditar taes propósitos egoistas da parte de 
Uvador CoiTea, para quem alias mandava então uma carta 
lo próprio rei, ordenando-lhe que favorecesse a restauração; 
' acrescentava, julgando que ainda chegaria a tempo , que, 
6 Salvador Corrêa pertendesse abandonal-o, lavrasse um pro- 
)8to bem authentico, que podesse ser mandado á presença 
^elrei; e que, em último cazo, se entendesse com os mestres 
* campo, para resolver o que deveria fazer, ou regressar á 
iUiia, ou ficar onde se julgasse mais conveniente; com tanto 
le não se expozesse a algum revez ou contratempo. 

Não sabemos quando Serrão de Paiva veiu a receber 

^ carta, porém só que estava ella em seu poder no dia 9 

Setembro. E^ certo porém que, dois dias depois da entrega 

fortaleza do Pontal, chegava ali, aos mestres de campo, 

notícia de que Jeronymo Serrão de Paiva, que com a sua 

q[uadi-ilha havia estado algum tempo pairando no mar, en- 

Ira em Tamandaré, com propósito de ahi permanecer. In- 

ietai'am-se com isso os mestres de campo, receosos que u 

sse atacar a esquadi'a hollandeza, e parecia-lhes com razão, 

e muito mais seguros estariam os navios no porto do Cabo 

Santo Agostinho, defendido pela dita foi*taleza do Pontal, 

tinham esperança de que, informado Serrão de Paiva da 



206 LIVRO OITAVO. 

entrega desta fortaleza, pelo próprio que elles haviam ( 
dido á Bahia para levar a notícia (cujo nome Capiv 
nos faz crei* seria algum índio), ahi se recolhesse. 

Fundados eram os cuidados em que ficara o govem 
desde que soubera da resolução egoista de Salvador Co 
e mais fundados ainda os temores dos mestres de cj 
(annunciados ao governador por Martim Soares em cart 
6 de Setembro) de que elle fosse victima de um ataqu 
esquadra inimiga ! Trataremos mais circumstanciadamente 
interessante ponto da nossa historia, descuidado pelos 
nos tem precedido, e a respeito do qual possuímos todoí 
documentos: 

Serrão de Paiva, que tinba comsigo sete barcos mai 
três caravelas e quatro sumacas, pensou que fazendo de 
baixar parte da guarnição, e confíando-lhe duas trincb 
que fez construir em terra, assestando nellas vários can 
poderia resistir ao inimigo ; e talvez tinba razão, supp 
que a sua gente cumpriria com os seus deveres, no moD 
de ser atacada. Não succedea porém infelizmente assim, 
dia 7 se apresentou diante de Tamandaré a pequena esqi 
inimiga, commandada por Lichtardt, o qual, por assim dizer, 
bava de a improvisar muito á pressa no Becife, sendo 
até trazia dois ou três barcos, que se havia comprometti 
restituir apenas déãse o ataque, de cujo resultado favo 
parece que não tinha a menor dúvida. 

Para informar-se melhor da posição e forças de S 
de Paiva, )embrou-se Lichthardt de fazer entrar no porto, 
bandeira branca, dois dos seus barcos mais pequenos. Nã< 
faltariam pretextos para justificar a bandeira de parfamenl 
màs os seus barcos não chegaram a poder parlamentear ; 
que apenas se aproximaram, foram mimoseados com alguns 
de bala disparados pelos que occupavam o porto. 

Entretanto esses barcos haviam-se aproximado o nec< 
rio para informar-se de quanto lhes erá mais indispensavi 

Na poite de 8 para 9, desse mesmo mez de setei 
chegou a Lichthardt um reforço de um barco (Leyden)( 
hiate (Een-Hoorn) que lhe mandavam, por assim dizer, 
prestados do Becife, e julgou que não devia aprazar o ats 



LIVEO OITAVO. 207 

tila manhã de 9 retiniu a conselho os officiaes ^), e assentou- 
le em proceder a elle immediatamente. 

Para snrprehender a nossa gente com uma novidade, 
ostentando ao mesmo tempo intrepidez e calma, ordenou Licht- 
hatdt que os barcos o seguissem em fila, sem disparar um só 
tiro até o momento da abordagem, que elle começaiia por dar 
ao navio chefe de Serrão de Paiva. 

Assim foi executado. Ia elle diante na IJtrecht, em 
que arvorava o seu guião. Seguiam-o logo aVeeve, Zelau- 
dia^ Over-Yssel, Soutelande e Ree. A Leyden, o 
hiate Een-Horn (Um-Corno), a Mexeriqueira e varias bar- 
caças receberam ordem de ajudar onde fossem chamadas. 

Entrado assim o porto, começou o fogo de artilheria e 
de fusilaria dos nossos barcos e baterias, ao qual não respon- 
deram os atacantes, indo entretanto Lichthardt direito ao barco. 
de Serrão de Paiva, e dando-lhe abordagem, o tomou logo, 
desamparado por quasi toda a tripulação e guarnição, que se 
lançou ao mar, abandonando o seu chefe; o qual aiuda com 
dezeseis fieis, que ficaram ao seu lado, combateu até cair, 
com várias feridas, estendido no convez. 

Foi para os HoUandezes uma victória completa. Os outros 
navios, ou foram tomados ou tiveram de encalhar em terra, oude 
o inimigo os í(n incendiar, levando para o Becife os três me- 
lhores. Serrão de Paiva depois de cuiado no Becife, foi envi- 
ado para a Hollanda. 

Foi a victória alcançada tão rapidamente, e tão depressa 
se viu Serrão de Paiva surprehendido com o desamparo dos 
WDBy que nem teve occasião de ir á sua camará destruir os 
documentos importantes que ahi tinha, e que vieram a descu- 
brir, com toda a evidencia, ao inimigo que uão só o governador 
da Bahia, como até o próprio rei se achavam implicados nas 
tentativas da restauração de Pernambuco. Entre esses docu- 
mentos se distinguiram a carta reservadíssima do governador 
geral de 17 de agosto, queixando-se da deslealdade de Salva- 
dor Corroa, e a carta regia de 9 de maio para Salvador Cor- 
^^^9 (® JÁ por elle uão recebida^) afim de ajudar á restauração ; 



') Seguimos a parte de Lichthardt dada nesse mesmo dia 9, e 
o officio de Serrão, de Paiva escripto da prisão do Recife aos 17 
desse mesmo mez. 



208 LIVRO OITAVO. 

documentos ambos que, traduzidos em hollandez, foram dados 
a estampa em Âmsterdam em 1647.. Eis o teor da carta regia: 

„ Salvador Oorrea de Sa e Benevides. Eu eirey tos enyio 
muito saudar. Se acaso, achando -vos esta ainda nesse Estado, 
fordes informado que os inimigos desta Coroa tem intenções 
de emprehender algum ataque, requisitando vol-o o governa- 
dor António Telles da Silva, ordeno- vos que ahi vos conserveis 
em quanto dure o conflito. Gonflo que ainda sem a presente 
ordem havereis procedido na conformidade delia, se algum 
motivo o houver exigido. Escrita em Alcântara a 9 de maio 
de 1645 — Rei.« — 



Quando os Hollandezes se regalavam com esta assignaladt 
victória e com os importantes despojos por mejo d'ella al- 
cançados, e as provas que recolherain de que eram cúmplices 
com òs sublevados a respectiva Corte e Vice-Côrte, ja a noti- 
cia do levante se havia communicado para o norte e para o 
sul de Pernambuco, produzindo resultados mais ou menos &; 
voraveis. — 

Paulo de Linge, chegando á Parahiba, em quanto orde- 
nava algumas prisões e tomava outras providencias preventivas, 
dispunha que baixassem dos sertões varias cabildas dei índios 
bárbaros, que obedeciam ao chefe Pêro Puty, cuja amisadi 
haviam adquirido por influencia de um Jacob Babbi, israeliti. 
— Estes bárbaros, achando- se perto de Cunbaú, em um do- 
mingo, e sabendo que os moradores á hora de missa estarias 
todos desarmados na igreja, cairam sobre elles, fazejido horrí- 
vel carnificina e roubando quanto poderam. 

Este acto de horrorosa atrocidade, praticado contra mo- 
radores innocentes, devia contribuir, sem dúvida, a exhacerbv 
os conjurados que a revolução contava por essa banda. A 
aproximação das corpos de Henrique Dias e do Camarão ot 
poz em campo ; e a própria cidade da Parahiba se pronuntíoi 
no dia 2 de Setembro. Paulo de Linge, reunindo os seus mniioi 
índios bárbaros, marchou contra a fôrça principal dos ParaU- 
banos, que o esperou no engenho de Inhobim, e atacando^ 
ahi, no dia 11 de Setembro, foi completamente derrotado^ 
deixando no campo setenta e sete mortos e muitas armas di 



LIVEO OITAVO. 209 

)go, que bem serviram aos yencedoves, muitos dos qoaes nem 
e ferro as tinham ^). 

.Da banda do sal, em Porto Calvo, apresentavam-se como 
hefes Ohristovam Lins, ahi senhor de vários eogenhos, e seu 
Lo Marinho Falcão, e por tal forma souberam malograr a 
liegada de soccorros á povoação, e fazer crer ao commandante 
lo forte que eram em muito maior número, que este se rendeu 
LO dia 17 de Setembro, com clausulas análogas ás concedidas 
.0 forte do Pontal. 

Dois dias depois, no dia 19, se entregava igualmente, 
X) cabo de algum tempo de sitio, o forte do Penedo, junto ao 
lo de S. Francisco; não faltando quem escreva que contribuíra 
)ara essa rendição o chefe Hous, que então ahi passava preso 
Mira a Bahia; asserção, a que devemos dar pouco credito, pois, 
le houvesse então proferido as frazes que se lhe atribuem ^, 
ião seria elle quem, pouco depois*; voltaria de novo a Per- 
lambuco, ao serviço da mesma Companhia, como voltou. O 
lerto é que dessa banda a sublevação foi começada pelo pre- 
mo chefe antes designado, Valentim da Bocha Pitta. O prin- 
íipio da sublevação teve logar pelo ataque de improviso feito 
I nm sargento e dez soldados que conduziam preso a um dos 
noradores dos arredores, que desde logo ficou livre de suas 
jfarras. Quiz o Commandante do forte tomar vingança de tanta . 
losadia, e mandando a isso um oficial com setenta soldados, 
airam todos estes na emboscada que lhes foi preparada, apro- 
eitando-se das armas os sublevados; que desde logo tomaram 
offensiva, e foram sitiar o forte ; em quanto pediam soccorros dá 
ronteira do*Bio-Beal, que immediatamente lhes foi enviado, vindo 
ali cento e oitenta soldados, em duas companhias, uma das 
naes commandava Nicolau Aranha, sócio de Vidal na sua 
igressão preparatória ao Recife. 

*) Moreau narra este suecesso como favorável aos 'HoUandezes, 
dizendo haverem perdido um só homem, que não podara re- 
tirar-se, por ter uma perna de pau. Seria a noticia que se 
fazia correr no Recife, para não desacoraçoar ahi os defenso* 
res sitiados. 

*) . . . estylo de mercadores, cujo» trato he vender, e não res- 
gatar, . . . sendo tão inútil para com elles o serviço, que nelle 
se perde a vida, sem se ganhar a honra ; porque só a alcança 
quem a dá por servir a rrincipes, e a perde quem a arrisca 
por conservar a Piratas (Castrioto, liv. f>, n. 102). 

14 



I 
I 



210 LIVRO OITAVO. 

Intimada por Nicolau Aranha a rendição do forte, acce- 
deram a ella os defensores, em número de duzentos e sessenta 
e seis praças que, por falta de soccorro, se viam já na maior 
mingua. 

Para mais terem de que lamentar a entrega, viram dentro 
de pouco tempo que vinham do Becife a soccorrel-os mu 
embarcação grande e três lanch5es, que se julgaram bastante 
felizes de poderem retirar-se, sem cairem também prisioneiras. 

Informados os nossos chefes de que o inimigo hayia 
feito recolher ao Becife quasi toda a guarnição que tinham Bi 
Ilha de liamaracá, resolveram ir assenhorear-se dessa ilha, o 
que . tiraria grandes recursos aos do Becife, ao passo que 8e^ 
viria a cubrir as communicaç5es com a Favahiba sublevada. 
Não tendo porém guardado nos preparativos o segredo, qni 
sempre devem os chefes guardar em tempo de guerra, succedii 
que um transfaga fosse revelar ao Becife o plano do ataque 
em projecto. Immediatamente se prepararam duas companhiai, 
á frente das quaes partiu o major Joris Garstman, conquista- 
dor do Ceará, em 1637, e agora successor dó prisioneiro Hons; 
e foi guarnecer o forte de Orange ou da barra, ao passo qnt 
o Conselheiro Adrian Van Boolestrate se encarregou de ir de- 
fender a villa da Conceição, já alcunhada de Schkoppe, i 
qual fez retirar todos os moradores da ilha, encerrando-oB na 
casa forte feita do convento. 

Havia dois dias que ahi se achavam, quando a nofisa 
gente se apresentou, ficando estupefacta da grande resistência 
que encontrou, e cujo segredo só nos é conhecido, por qvi 
pela imprensa nol-o revela um francez ^) que então se aotoia 
no Becife e presenciou tudo. — 

Ao principio pareciam os successos correr á proporção doi 
desejos dos atacantes, porque para maior prevenção, fbraB 
passar á ilha do lado do norte, e conseguiram surprehender 
um patacho, com quatro peças, que ahi tinha postado o ini- 
migo; mas depois ha que confessar que foram completamente 
repellidos. Os nossos escriptores procuram disfarçar essa der- 
rota, contando-a de um modo confuso; porém Moreau dii po- 
eitivamente que os atacantes, não se atrevendo a acometter a 



*) P. Moreau, pag. 84 e segs. 



LIVRO OITAVO. 211 

rtaleza da barra, se dirigiram á villa, e que ahi foram der- 
tadoSy deixando tresentos mortos, número qae os nossos baixam 
setenta, contando outros tantos feridos, comprehendendo o 
unarão. 

, Foi talvez depois deste desastre ^ue Fernão Bodrigues 
ò Bolhões, amigo de Paulo de Linge, lhe fez grades offer- 
18 de dinheiro ^) e outras recompensas, em troco da entrega 
& fortaleza do Cabedelo, offerta a que de Linge respondeu 
landando enforcar o amigo qu6 tão máo conceito delle fazia. 

No Eio-Grande do Norte todas os esforços dos morado- 
ra foram infructuosos > e mui lúgubres os successos a que 
eram logar. Uns setenta dos mesmos moradores, indignados 
ela horrivel matança no Cunbaú, e por ventura obedecendo a 
)mpromissos em que também estariam para auxiliar o revolu- 
lo, tomaram armas, e, com as suas familias, se recolheram, 
lYando comsigo niuitos mantimentos e provisões, a um arrayal 
a distancia de seis léguas da capital pelo rio acima, e ahi 
) entrincheiraram com uma cerca de palancas ou palissadas, 

maneira dos índios. 

Ao sabel-o o furibundo Jacob Babbi, que com os seus 
idios acabava de assaltar o engenho de um flamengo por 
orne João Lostan, onde se haviam refugiado os poucos esc ab- 
ados da carnificina do Cunhaú, praticando nesse engenho no- 
as mortes, e conduzindo prisioneiro á fortaiesa do Bio-Grande 

dito seníior d*engenho, se dirigiu, com os seus índios, ao 
lendonado arrayal, e conhecendo que não era fácil tomal-o 
e assalto, resolveu pôr-lhe apertado sítio, certo de que aca- 
ados os mantimentos se renderiam. Havendo passado já dese- 
)is dias sem ver resultados dos seus planos, imaginou um 
rdil para o ataque, e foi o valer-se de carros com taboões, 
o abrigo dos quaes se foram impunemente aproximando da. 
9rca. Descoberto porém o plano, os defensores, apezar de não 
)rem mais de quinze armas de fogo, effectuaram uma sortida, 
or meio da qual desviaram aos sitiantes dos seus intentos. 

A final, porém, faltos de munições e de viveres, viram- 
) obrigados a entrar em ajustes de capitulação, comprometten- 
>-8e o chefe flamengo a livral-os do fui'or dos selvagens. 

*) Moreau diz (pag. 86) que 50.000 libras (francesas). Os nossoi 
avaliam a somma em dezanove mil escudos. 

14* 



212 LIVRO OITAVO. 

Fava o cumprir mandou logo presos paia a fortaleza da barra 
os principaes, por nome Estevam Machado de Miranda, Vicente 
de Souza Pereira, Francisco Mendes Pereira, João da Silveira 
e Simão Corrêa, e deixou para escoltar os que ficaram no 
forte, já desarmados,* dez soldados de tropa regular. — 

No dia 2 de outubro chegou uma lancha do Becife á 
capital; e se disse ter vindo nella o conselheiro Boolestratfl^ 
já sabedor dos desastres sofridos no sul de Pernambuco^ i 
sequioso de tomar delles vingança. — O certo é que, logo nt 
dia immediato, foram os prisioneiros mandados para Uruassú % 
a meia légua de distancia do logar em que se fizera a cerca, 
a qual não podia por tanto ficar longe da actual São Gonçalo. 
Ao chegarem os prisioneiíos a Uruassú, e ao verem ahi du- 
zentos índios armados em guerra, com o seu chefe António 
Paráopaba, rival de Pêro Puty, no ódio aos nossos e na dfr- 
dicação aos invasores, logo conheceram a sorte que os esperava. 
Era que a autoridade flamenga, querendo empregar o maior 
rigor e condemnal-os á morte, pretendeu eximir-se a toda 
a responsabilidade de semelhante pena, attribuindo-a hypocrítap 
mente aos índios ; aos quaes, escolhendo-os por juizes e algo- 
zes, dava, ao mesmo tempo, pasto em seus instinctos barbarw. 

Sacrificadas estas primeiras victimas, passou a escolta dos 
flamengos ao arrayal, onde estavam os demais, para os traie- 
rem, igualmente embarcados, a Uruassú; afim de terem igoal 
sorte. Ou por já possuírem alguma noticia da morte dos cob- 
panheiros, ou porque tiveram algum outro motivo de suspeita 
acerca de seu immediato fim, é certo que elles manifestaraa 
aos da escolta que o conheciam. Devemos crer que até oh»* 
garam a apresentar alguma resistência^ ou que a intentaram 
no caminho, ao observar que com os desta segunda partida 
usaram os algozes de muito maior crueldade que.com oi 
primeiros. — 

Procuraremos passar rapidamente pela déscripção de taoa 
scenas, que, se fossemos a pintar com as verdadeiras côrei, 
causariam não somente horror, como até asco. Limitar-noi- 
hemos a referir que um António Baracho, amaiTado nú a nm 
poste foi morto, cortando-lhe os assassinos pouco a ponoo 
dolorosamente cada uma das partes do corpo; que a Hátheni 



*) Hiomavaçu se lê eiTadamente no Castrioto. 



LIVEO OITAVO. 213 

Moreira Ibe arrancaram pelas costas o coração; e que com dois 
jovens Manuel Alvares liba e António Fernandes não chegaram 
a usar de tanta barbaridade, porque elles tinbam comsigo facas 
de ponta, com as quaes, matando antes a vários dos algoses, 
caíram logo mortos, com mais glória para si e menos oppro<- 
brio para os inimigos. Acrescenta Lopo Curado Garro, de cuja 
parte dada aos governadores, três semanas depois, ^) colbemos 
estes factos, que havendo Estevam Machado de Miranda trazido 
comsigo á fortaleza uma filha de sete annos, e ignorando que 
ia ser supliciado, 'a levara também a TJruassú, onde vendo a 
pienina os intentos dos algoses se abraçara ao pai, com mui- 
ti» lagrimas e súpplicas, e que este, antes de morrer, a pro- 
earára consolar, dizendo-lhe: „Vae, filha, dize a tua mãi que 
se fique embora, que no outro mundo nos veremos.^ — 

Apenas chegaram de tamanhas atrocidades notícias á 
Farahiba, onde se achavam os capitães Diogo Pinheiro Cama- 
rão e João Barboza Finto, partiram estes até o Cunhaú, 
offerecendo um ponto de refugio aos que podessem andar foragi- 
dos pelos mattos. Havendo ahi tomado posições favoráveis, e 
sendo nellas atacados pelos Flamengos, conseguiram repellil-os 
com vantagem, adquirindo muitas armas por elles deixadas. 
Kâo tardou a vir também em soccorro do Bio-Grande o bravo 
Gommendador D. António Filippe Camarão, que depois de fazer 
pagar caro aos invasores e seus índios as passados atrocida* 
deSy teve que retirar-se á Farahiba; onde veiu a reforçal-o e 
próprio André Vidal, o, qual batendo ahi os inimigos, logo 
regressou aonde era mais necessário ; ordenando ao Camai*ão que 
fosse proseguir novas hostilidades no Bio-Grande e vingar, nessa 
parte do Brazil, tantas crueldades, não só dos Bárbaros, como 
dos próprios Hollandezes, que, se bem que christãos de nome, 
mais bárbaros se haviam mostrado que os ignorantes índios. 

Quanto ao Camarão devemos dizer que elle cumpriu o 
lea mandato muito além de que se podia esperar. Desde que 
se apresentou como vencedor, grande número de índios que 
estavam com o inimigo, com essa fidelidade fiutuante commum 
a todo povo bárbaro, segundo ja reconhecia a antiguidade % 



*) Kelação etp. de 23 de Outubro de 1645. 

•) yFluxa, ut est barbaria fide,** dizia ja o historiador Tácito. 



214 LIVRO OITAVO. ^ 

o abandonaram, e prestaram obediência ao mesmo Camarão, 
que, com o seu anxilio, conseguia dominar todo o certão do 
norte, chegando até os confins do Ceará ^), onde havia já 
estado trinta e tantos annos antes (1612), acompanhando os 
F". Diogo Nanes e Gaspar de Sampère, que ahi o hayiam 
baptisado e casado. — 

Quanto a Jacob Babbi, os próprios chefes hoUandezes o 
condemnaram á morte; sem que conseguissem libertal-o, nem 
vingal-o, os índios que lhes obedeciam e pediam a gritos a 
cabeça do autor de tal morte, no que não foram satisfeitos; 
o que motivou que muitos, por vingança, se declarassem ini- 
migos do hollandez e se unissem ao Camarão. O próprio Jaa< 
duy chegou a estar vacilante ; mas acudiram a tempo os Hol- 
landezes, mandando-lhe presentes por um seu antigo amigo, 
Boulof Baro, que nos transmittiu impressa a relação ou diário 
da jornada que então fez. 



it ' 



*) Moreau, pag. 138 e 156. 



LIVRO NONO. 



SITIO DO RlCirS PRIMIIRA ACÇÃO DOS GUARARAPSS. RESULTADOS. ANflOLi 



Becolhem-se os Hollandezes á Praça. — Investem-a os nossos. — 
Arrayal novo do Bom Jesus. — Onde era. — Representado ao 
rei. — Deserção dos estrangeiros. — Attentado contra P. v ieira. 

, — Abundância entre os sitiantes. — Pomes na Praça. — Moedas 
obsidionaes. — O inimigo e' soccorrido. — Reforma o seu go- 
verno. — Ataca Olinda. — Apodera-se do Penedo. — Com que 
fim. — Recontros. — Apodera-se de Itaparica. — Morre Licnt- 
hardt. — Passam os do Penedo a Itaparica. — Chegam a esta 
ilha outros reforços. — Hous. — Invasões do Recôncavo. — Pe- 
quenos recontros na ilha. — Esquadra de corso. — Resolve a 
Corte ceder Pernambuco. — Apoia a idea o P/ Vieira. — Resis- 
tem a ella os sublevados. — KebeUo ataca Itaparica. — £* der- 
rotado e morto. — Chega á Bahia novo governador, com soccor- 
ros. — Retira-se o inimigo de Itaparica. — Prepara a Hollanda 
novos reforços. — Embaixador Souza Coutinho. — Tratado de 
Munster. — Schkoppe toma o mando dos inimigos, Barreto o 
doB nossos. — Primeira acção nos Guararapes. — Partes que 
deram os respectivos generaes. — Resultados favoráveis em Por- 
tugal.- — Pareceres dos Tribunaes. — Papel Forte do P.* Vieira. 
— Resolução Regia. — Recuperação d' Angola. 

Os Hollandezes, vendo as suas forças notavelmente re- 
duzidas , abandonaram Olinda e se recolheram ao Recife e 
ilha de Santo- António ou cidade Mauricia, onde trataram de 
augmentar todos os meios de defensa. A bella residência que, 
perto da ponte da Boavista, tinha levantado Nassau, foi occu- 
pada pela tropa, recebendo peças de artilheria em seus pavi- 



216 LIVRO NONO. 

IhSes : as arvores de um frondoso jardim botânico ahi formado, 
trazidas algumas a custo, não só dos certõcs, como das capi- 
tanias visinhas e até de outros colónias e da propría Afiica) 
foram todas deiTubadas para servirem a abatizes e palissadas 
e até para lenha. 

Os nossos, retirados de Itamaracá, occuparam Olinda, e 
resolveram investii' rigorosamente a praça do Recife, levantando 
em redor várias estancias e trincheiras. Um melhor foiiie foi 
também construído para quartel- general, ao qual se deu o 
nome de Arrayal Novo do Bom Jesus. Sabemos 
que esse arrayal ficava na Várzea, á margem dh*eita do Capi- 
beribe ; e mui provavelmente ^ria o quadrado abaluartado, de 
que, com o nome de „0 Forte" ainda hoje se vêem, mui 
bem conservados, os restos com o competente fosso, em uma 
paragem um tanto elevada da Várzea, tomando-se á esquerda^ 
depois de passar a ponte da Magdalena. *) Desse an*ayal foi 
datada uma representação ao rei, assignada até por officiaes 
hollandezes, como Hoogstraten e Van der Ley, que concluia 
com estas ameaçadoras palavras; „Com toda a submissão, 
prostrados aos pés de V. M., tornamos a pedir soccon'o e 
remédio com tal brevidade que nos não obrigue a desespera- 
ção, pelo que toca ao culto divino, a buscar em outro 
Príncipe catholico o que de V. M. esperamos." 

Seguiram-se as conhecidas scenas repetidas tantas vezes 
entre os sitiantes e os sitiados: escaramuças para impedú^as 
sortidas por agua ou lenha, surprezas para prender os que 
se aventaravam fora das muralhas, são factos que nem vale a 
pena de serem relatados. — Baste referir que, nesses pequ^ 
nos encontros, se distinguiu muito o bravo Henrique Kas, 
que, postado do outro lado do rio, defronte do actual bairro 
de S. José (então campina do Taborda), por muitas vezes, 
conseguiu surprehender , passando o mesmo rio, as escoltas 
inimigas que communicavam com os Afogados. Na sua Es- 
t a n c i a (nome que ainda hoje se perpetua) tinha Henriqua ' 



*) Veja Calado pag, 269, 272 e 275. - Por este escriptor' »>• 
bemos que ficava o mesmo arrayal obra de uma légua da 
Recife, do lado da Magdalena e perto de engenho que havia 
sido de João de Mendonça. Ora este engenho sabemos eoa 
a maior evidencia, por um mappa de Barleus, que ficava 
pouco além de sítio em que está a ponte da Magdalena. 



LIVRO NONO. 217 

►ias por quartel as cazas de um Giles Van Ufel, que, depois 
a guerra, lhe foram doadas por Barreto, uas quaes havia 
ma espécie de toiTe ou miraute alto, do cimo do qual se des- 
nhriam todos os coutoruos. O Camarão, com os seus índios, 
ornou á sua conta a casa de Sebastião Carvalho fronteira ao 
orte dos Afogados; e os sitios desde as Salinas e carreira 
los Mazombos até a ponte de Olinda foram occupados pela 
rente da terra. 



A ordem, entre os sitiantes, esteve por duas vezes a 
)onto de ser perturbada. Uma delias em virtude da deserção 
)ara o inimigo de duas companhias de soldados hollandezes, 
|ue, depois de capitular, se haviam, integras, encoi*porado ao 
exercito, em vez de serem disseminados os mesmos soldados 
mtre os nossos, A outra, por ter havido quem intentasse 
aontra a vida de Fernandes Vieira. 

A deserção das duas companhias teve origem na de um 
soldado das mesmas por nome Flavre, que foi assegurar aos 
Hollandezes que muitos outros desejavam seguil-o, e o não 
Éaziam por falta de occasião propicia. Em vista do quê, dis- 
^z o inimigo que tomassem as armas duas companhias, ás 
)rdens dos capitães Eembach e La Montagne, e se fossem 
>08tar, á entrada da noite, do lado dos Afogados, em uma 
?aragem onde as conduziria o dito Flavre. Originou-se ahi um 
^ueno tii'oteio, mas não deu logar a que se passasse nenhum 
ios promettidos por Flavre, por haverem nessa occasião ficado 
• retaguai-da. Dahi porém a pouco tempo, no dia 17 de no- 
ombro, o capitão Claes, que de pobre pescador, que havia 
ido, não só alcançara, já entre os seus, o mando de uma 
Offlpabhia, como, entre os nossos, esse mesmo mando e até 
tu posto de confiança na linha de sitio, sentiu em si, como 
fa natural, mais fortes os impulsos do patriotismo do que os 
% gratidão. E, achando-se no posto das Salinas, declarou aos 
dos soldadoô ter em projecto uma empreza, se elles estivessem 
Upostos a seguil-o. Havendo todos respondido afirmativamente, 
^ dirigiu com elles caminho da Praça, e, quando se achou 
Sra do alcance do fogo dos nossos, declarou a todos o seu 
erdadeiro intento; acrescentando que o que não quizesse se- 
Hir ficaria ahi morto* Não havendo encontrado objecção, en- 



218 LIVKO NONO. 

viou dois dos seus á Praça, afim de prevenir os defensores,, 
e pouco depois seguiu com os mais. 

O resultado desta deserção foi reconhecer Vidal qne não 
podia contar com as tropas que haviam servido o inimigo, as 
quaes foram todas mandadas para a Bahia, acompanhando as 
o mestre de campo Martim Soares Moreno, cuja idade e acha- 
ques lhe não permittiam suppoiiiai* por mais tempo as fadigas 
de tão ai'dua campanha. 

Quanto ao attentado conti'a a vida de Fernandes Yiein» 
que chegou a ser ferido em um hombro , querem alguns que 
andassem nisso complices os seus rivaes; os quaes, não se 
atrevendo a apresentar-se pessoalmente, endossaram o ctíbn 
e o perigo a braços innocentes alheios ás suas paix5es. Elm 
todo caso não ha motivos para suspeitai* de que nessa criím- 
nosa tentativa houvesse o inimigo tido nenhuma intervenção. 

Houve um momento em que entre os nossos se experi- 
mentou alguma escacesa; mas felizmente no mez de março 
de 1646 chegaram do Bio - Grande , acompanhadas peb 
capitão João de Magalhães, quatrocentas cobeças de gado, dahi 
mandadas por Vidal e o Camarão. Logo depois vieram ás Cii> 
curanas mais duzentas cabeças do Bio de San-Francisco, natu- 
ralmente já proveniente das disposições que a esse respeito 
havia tomado, em 3 do Dezembro do anno anterior, o govcr^ 
nador da Bahia, ordenando que' da villa do Penedo se enn- 
asse, ao exercito de Pernambuco, o gado necessário para o 
fornecimento do duas mil e quinhentos libras de carne ^ por 
dia. Além deste supprimento, que por então se fez regpúar^ 
mente, chegaram no anno seguinte novas manadas das bandy 
de norte, constando que só do Jaguaribe, no Ceará, fona 
mandados, em 1647, setecentos bois. 

Ao passo que já a abundância reinava entre os sitiaini^f 
a penúria e a fome chegavam, entre os sitiados, ao maior angK 

Ja os primeii'Os symptomas da fome começavam a aoh 
tii*-se na praça, murmurando a plebe e ameaçando sublevar-ssi 
Providenciaram os do Conselho ordenando que vários maps- 
trados, escoltados de tropa, seguissem de casa em casa^ rM- 
Ihendo quantos viveres encontrassem, e levando-os a depositai 
públicos ; dos quaes se começaram a distribuir por igual laçlai 
pequenas, em quanto não chegavam soccon*os. O combnstívsl 



LIVRO NONO. 219 

E-se tão raro que muitos comiam as raç5es qnasi cruas. 
38fizeram-se .para fornecer lenha alguns navios velhos; mas 
tavam os madeiros delles tão impregnados de pez e alcatrão 
le transmittiam ao pão e á bolaxa um gosto empireumatico 
le 8Ó a necessidade fazia tolerável. Os trabalhos de fachina 
am árduos a inevitáveis^ havendo as copiosas chuvas arrasado 
krios parapeitos. Muitos homens, mulheres e crianças morre- 
m de miséria e cansaço. 

E como se estes males ainda não bastassem, vieram 
intar-se a elles o da sedição e desordem. As tropas chega- 
da a exigir, que se capitulasse uma vez que não havia com 
lé mantel-as e pagal-as. Foi necessário muitos rogos e muita 
anha, da parte dos do Governo, para contel-as. Aos judeos 
cos fizeram ver que se rebentasse uma insurreição, elles se- 
Mn os primeiros a soffrer, e com isto conseguiram delles por 
aprestimo uns cem mil florins, que se distribuíram ás tropas, 
\ pai'a lhes alegrar a vista; pois que de nada lhes poderia 
irvir o dinheiro, quando nada havia que comprar. 

Foi no meio desta penúria que se cunharam durante o 
tio, em 1646, as primeiras moedos obsidionaes de ouro, do 
ilor de três, seis e doze floiins, das quaes chegaram a nos- 
•8 dias alguns exemplares, que se guardam nos gabinetes 
imismaticos, e constituem os monumentos mais antigos de 
inho metálico fundido no Brazil. Depois, em 1654, se cu- 
íiariEun ainda de novo algumas moedas de prata de doze sol- 
)B, de superfície um pouco maior que as de ouro de doze 
)rins de 1646. Estas de prata eram quasi quadrada^, e as 
dmeiras antes rhomboides. Os distichos, segundo o costume 
ti linha diametral, acham-se inscriptos em cii'culos. Nas de 
iro lê-se, de um lado, em três linhas separadas: =Anno. 
= Brasil = 1646; isto é: Brasiliae, Anno 1646: 
ão onti'o a lettra W, tendo a primeira perna coi*tada por 
a G e a ultima por um C, querendo significar = Geoc- 
oyeerde Westindische Compagnie == isto é, 
/ompanhia privilegiada das índias occidentaes^. Em cima da 
meionada lettra se designa, em números romanos, o dos 
rins que representa a moeda UI, YI, ou XII. Nas moedas 
prata o número XII se vê igualmente sobre o W, cortado 
DDL as outras duas lettras, e por baixo se lê do mesmo lado 
designação do anno = 1654. = 



220 LIVRO NONO. 

A guaiTiição do Eecife e fortaleza Mauiícia *) ja coiita?a 
os dias ou talvez as horas *), dentro das quaes se veria obri- 
gada a render-se, quando no dia 23 de Junho (1646) choga^ 
vam da Hollanda os dois pequenos barcos Isabel e EalcSo com 
algumas munições e a certeza de que, dentro de um mez, 
devia chegar á praça um foimidavel soccorro. A notícia e o 
pequeno soccon'o trazido foram muito festejados, e se cons- 
deroQ de tanta importância que, para perpetua memoria, fize- 
ram depois os HoUandezes cunhai* uma medalha, cuja inscripçSo 
dizia em hoUandez: „0 Recife foi salvo pelo Fal- 
cão e Isabel." ') Com a chegada deste primeiro soccoiro^ 
08 dois „ mestres de campo, com poderes de capitão general^i 
assentaram de recolher á linha de sitio toda a gente que ti- 
nham no Rio-Grande, na Farahiba e até na própria ilha de 
Itamaracá, que haviam ganho, excepto o forte de Oi'ange. 

Vimos como os governadores ou membros do Conselho 
superior haviam mandado á Hollanda, logo depois de regressar 
da Bahia, a Van de Voorde, pedindo providencias para acudir 
ao estado precário em que ficava a conquista hollandeza. 

Van de Voorde dirigiu, em 16 de Novembro (1645), a 
esse respeito uma representação aos Estados Geraes^ e, dois 
dias depois, estes se entendiam com o Conselho dos XIX, 
para ser mandado a Peniambuco o necessário soccorro; con- 
cedendo á Companhia uma subvenção de sete centos nail florins, 
e um reforço de tropas que deveriam ser commandadas pdoB 
coronéis Sigismundo Schkoppe e Hinderson *), que ja no Braôl 
haviam servido. 

Os reforços eram acompanhados de um novo governo, 
organisado por outro modo, na conformidade do compet^te 
regimento de 12 de outubro de 1645, e approvados pelos 



*) Não Mauricéa, como escreveram Brito Freire e o €k>ndftÍj( 
Ericeira e outros. 

•) Veja Moreau, Hist. pag. 86. 

») „Door de Valk en Elisabeth ia het Recif ontiei' 
Netscher, pag. 206. Calado (pag. 351) dá razSo do fegtqo^ 
como succedido no dia 22, e accrescenta que noa doia hanoi 
haviam chegado 350 homens, o que nao parece crivei; nem 
tal succederia sem que disso desse razão o minnoloao Moreaii 
na pag. 88. 

*) Nomeados pela resolução dos Estados Geraes, de 27 de 
março de 1646. 



LIVRO NONO. 221 

:ados Geraes, em 6 de novembro, que alterava nessa pai*te o 
lado de Nassan de 23 de Agosto de 1636. O Alto conselho 
»a Junta do Governo seria composto de cinco membros. Foi 
lacolliido para Presidente o respeitável Walter Von Schonen- 
)orcli*), que fazia parte dos Estados Geraes por Groninga, 
issodando-se-lhe por conselheii'os Yan Goch, magistrado e 
)ensionârio de Flessingae, deputado ordinário da Zelândia aos 
Bstados Geraes, e Simon Yan Beaumont, advogado fiscal de 
3ordi*echt. Eram os três recommendaveis por sua probidade, 
jaber e virtudes. Teriam por adjunctos os negociantes d*Ams- 
;erdam Hendiik Haecx e Abraham Trowel (que morreu poucos 
lias depois de chegar ao Eecife), e por Secretario a Hermite, 
idvogado de Delft, e filho de um notável piloto do mesmo nome. 

Houve então idéa, para salvar a Companhia, que estava 
perdendo muito, de refundil-a com a da índia Oriental; porém 
liavendo-se a isso resistido esta última tenazmente, idearam os 
Bstados não autorisar a sua próroga, senão mediante a paga 
le um milhão e quinhentos mil fiorins, que foram aplicados 
i conservação da dita Companhia occidental, a qual, em seu 
favor, allegava que se a outra tinha tido tantos lucros e* por 
[[ue ella havia desviado o inimigo aguantando os seus ataques. 

Os navios com o soccorro, só largaram successivamente 
los portos da Hollanda durante o mez de abril, e sofreram 
contratempos na viagem, a maior parte delles, e não poderam 
apresentar-se diante do Becife antes do dia 1.® de Agosto. 
Bó de tropas de terra constava o reforço de msãs de dois mil 
homens. 

A guarnição do Becife, que trinta e tantos dias antes se 
havia salvado, com a chegada dos barcos Falcão e Isabel, 
kchava-se de novo na maior consternação, e não poderia ter 
rnstentado o sitio durante mais de três dias; pois, justamente 
10 momento em que aparecia a frota, se havia resolvido que 
SÍd continuasse a distribuição da ração de uma libra de pão 
lor semana. ') 

Os do novo governo logo , depois de tomarem posse, 

*) Schonemboroh foi nomeado em 23 de Novembro, com poderes 
para dar os postos até capitão, e até tenente coronel con- 
sultando os do Conselho. 

•) Cartas de Schonenborch e Schkope de 26 de Setembro 1646, 
citadas por Netscher, pag. 151. 



222 LIVRO NONO. 

promulgaram, com data de 5 de Setembro, uma proclamação, 
concedendo amnistia. Eespondeu pelos sublevados Fernandes 
Yieira, fazendo iguaes offertas aos Hollandezes que se apre- 
sentassem, e segundo nos assegura um escriptor contemporâ- 
neo *) com mais êxito. 

A primeira tentativa de Sigismundo Van Schkoppe se 
diiigiu contra Olinda, mas foi obiigado a desistir delia, reti- 
rando-se ferido em uma perna. Ensaiou depois algumas sorti- 
das pai'a o sul, mas não foi mais afortunado, e teve qne voltar 
de novo a encurralar-se no Recife, -r- Deliberou então in- 
tentar uma expedição contra o Rio de S. Francisco, para' fazer 
diversão, e impedir que dali se fornecessem os nossos de 
gados ; mandando-os de preferencia ao Recife por mar. Foi no- 
meado para dirigil-a o coronel Hinderson, que havia estado 
no Maranhão. 

Em quanto Lichthart, com a sua esquadra, guardava o 
mar, effectuava Hinderson o desembarque, e marchava contra 
a povoação do Penedo, cujos habitantes e guarnição, espavo- 
ridos, fugiam abandonando quanto possuiam ; de modo que mni 
fácil foi a reconquista. 

Apressou-se Hinderson a fazer construir, em logai* mais 
acommodado que o do antigo forte Mauricio, outro novo de 
terra, e nessa construcção se achava, quando os nossos, já 
livres do primeiro terror, e com soccorros recebidos da Bahia, 
se concentravam em uma paragem ao sul, em número de duzentos, 
e conseguiam surprehender, â. um quarto de légua do forte, um 
posto avançado de vinte homens. 

Achando-se Hinderson doente de uma perna (talvez ainda 
consequência do ferimento no sitio da Bahia) e impedido de saÍTi 
mandou reunir todos os seus; e, deixando apenas os neceBSft- 
rios para guarnecer o forte, incumbiu ao capitão francês La 
Montagne que , com toda a mais guarnição , fosse castigar a 
insolência dos atacantes. 

Apresentando-se La Montagne na paragem onde fora SQT- 
prehendido o posto avançado, e não descobrindo ahi força inir 
miga maior que a dos duzentos que lhe constava haviam em- 
prehendido a surpreza, os fez atacar vivamente, obrigando-os 
a retii'ar. 



') Moreau, pag, 135. 



J 



LIVEO NONO. 223 

Porém, dentro de pouco, reconheceu que semelhante 
etirada era simulada, e que, com todos os seus, havia sido 
Ictima de uma emboscada, em que, rodeados por toda a 
»arte, sofBferam uma derrota completa, caindo morto o capitão 
ja Montagne, e prisioneiro o ministro Astette, que havia 
luerido tomar píirte no attaque, e foi conduzido para a Bahia, 
ffuitos dos soldados de La Montagne conseguiram entretanto, 
Vagindo cada qual para seu lado, esconder-se, e pouco a pouco 
«mai-am a apresentar-se no forte. 

Esta deiTota descontertou os planos dos do Eecife, que 
jensavam fazer no Eio de S. Francisco uma base de operações, 
mra seguir invadindo dahi para o norte, e vir aggredir pela 
retaguarda os sitiantes do Eecife. A desesperação lhes sugeriu 
porém outro plano, que podia haver sido aos nossos fatal. Foi 
) de irem occupar a ilha de Itaparica, e dahi, valendo-se da 
jsquadra, bloquearem e sitiarem a Bahia, por mar, como o 
Elecife o estava por teiTa pelos nossos. 

Pelo que, deixando no Eecife só a tropa essencial para 
jpaamecer a Praça, se embarcaram, em força de uns dois mil 
3 quinhentos homens ; e no dia 8 de Fevereiro se apresentaram 
iiante da barra da Bahia, eífectuando de noite, sem a minima 
opposição, o desembarque em Itaparica. Esta ilha estava ja 
bastante povoada e rica. 

Segundo Moreau *), cuja narração deve ser insuspeita, 
como amigo dos HoUandezes, „os soldados não pouparam ahi 
ama só vida, mataram até mulheres e críanças, saquearam 
tudo quanto quizeram, e só o incendiar lhes foi prohibido; de 
modo que duas mil pessoas, que contava esta ilha, pereceram, 
umas pelo feiTO, outras afogadas nos barcos, em que a tropel 
le lançavam, a fim de passarem á cidade da Bahia, quando 
chQgai'am os HoUandezes; os quaes deste modo viram Vingada 
a perda que acabavam de experimentar no Eio de S. Fran- 
cisco.'' A este autor deixamos sem commentarios a responsa- 
bilidade destes pormenores. Pouco mais ou menos por este 
tenipo, fallecia o bravo almirante Lichthardt, segundo uns no 
EUo de S. Francisco, e segundo Moreau nesta mesma ilha, dè 
loença natural, que o amor ás bebidas havia contribuído a 



b^B«<^M«i^B^^ 



O Pag. 145. 



224 LIVRO NONO. 

agravar ^). Devemos porém advertii* que, segundo a narrativa do 
próprio MoreaU; quando Schkoppe deixou o Eecife para passar 
á Bahia, ja levava comsigo de almirante a Baucher, que foi o 
successor de mesmo Lichthardt. 

Para melhor se prevenir contra qualquer sui^preza se forti- 
ficou o inimigo na ilha, em um posto fronteii*o á cidade, 
junto á ponta da Balêa, e perto do logar em que está a po- 
poação que ainda hoje tem o próprio nome da ilha. 

Entretanto as forças dos nossos na ilha iam angmen- 
tando, em progi-essao ainda maior do que diminuíam as do 
inimigo; pois uns lhe desertavam, outros lhe morriam, outro* 
enfermavam. Por fim ja os Hollandezes se viam reduzidos uni- 
camente ao seu forte, de modo que os do Eecife julgaram con- 
veniente ordenai- que se retirasse a guarnição do Rio de S. Fran- 
cisco , e fosse reforçar esta do forte de Itaparica. Quanto a 
Hinderson preferii'am dar-lhe passaporte para a Hollanda. 

Foi a mesma guarnição, pouco depois reforçada com uns 
quinhentos homens recém chegados da Europa, em cujo número 
se contava o seu commandante coronel Hous, que caíra prí* 
sioneiro na Gaza Forte, donde á própria Bahia havia 
sido conduzido preso, como vimos, anno e meio antes. 

O acampamento foi reforçado com várias trincheiras, 
uma das quaes recebeu ' o nome do general, e outra o do Con- 
selheiro Yan Beaumont. Entretanto alguns navios, ao mando 
de Francisco Janssen, corriam o Recôncavo até á ilha da Maié. 
e Frades, e saqueavam quanto encontravam a alcance. 

O governador da Bahia, que se proposera manter na de- 
fensiva, não poude conter-se em presença de tanta audácia, e 
mandou á ilha uma força de mais de oito centos soldados es- 
colhidos, os quaes começaram por surprehender (ao dia ^18 di 
mesmo Janeiro) o capitão Munster '), com vinte e seis soliMr 
dos, que penetrara na ilha a fazer lenha. 

Pouco depois, no dia 23, avançaram os nossos, a 
tiro de moquete das trincheiras inimigas, e começaram lUft 
também a entrincheirar-se. Resolveu Sigismundo oppor-óe-Uiflkr 
e, logo no dia seguinte, saiu a atacal-os, com quinhentos lí 

*) ,,Licthãrt mourut de maladie naturelle en cette isle, qii 
Bacchus, dont 11 estoit vaillant chapion, avoit de beauootfpj 
advancée.* (Moreau, pag. 148.) 

2) Carta dos do Conselho de 31 de Março de 1647. 



[ V 



LIVRO NONO. 225 

sessenta homens, incluindo cem índios , e com tal Ímpeto foi 
dirigido e ataque^ á anua branca, que os nossos tiveram que 
retirar-se, com grande perda, deixando no campo várias mu- 
nições, além de muitas pás, enxadas, etc. 

Umas três semanas depois deste desastre, chegavam aos 
Hollandezes do Becife nove navios de guerra, mandados, não 

> pela Companhia occidental,' mas sim por outra de corso, á 
qual os Estados G^eraes, com intuito de proteger a conser- 
yaçâo do Brazil, e pensando que uma tal esquadra se costearia 
com o producto das tomadias e presas, fizera destas últimas a 
mais ampla doação; visto que os navios da esquadra da Com- 
panhia Occidental estavam tão destruídos que vários dos que 
ousaram afrontar o oceano, para regressai* á HoUanda, se per- 
.deram; provavelmente afundando-se e submergindo-se, ao entrarem 

- nos mares mais fortes das latitudes septemtrionaes. 

A nova enquadra bloqueadora, que não tinha outra mira 
mais que o lucro, cometteu toda a sorte de crueldades. Das 
presas que fazia, aproveitava o que queria levar, e lançava 
ao mar as tripulações, para não sustental-as. No número dos 
prisioneii*os cairam muitos dos que, havendo capitulado, por ordem 
saperior eram mandados á Hollanda, e aos quaes lançavam 

^ ao mar. 

Parte ') dos índios que estavam com os Hollandezes os 
tinham ja deixado, valendo-se de pretextos mais ou menos fu- 
ÍB. No Becife as privações cresciam, e muitas vezes chega- 
alii a sofiPrer fomes, como antes da vinda do soccorro. 

Mas a guerra no Brazil tinha ja tomado, pai-a as Hol- 
landezes, uma phaze mais legal, desde que os Estados Geraes 
[.iaviam autorisado, pelas resoluções de 24 de Dezembro de 1646, 
e22 de Janeiro de 1647 „a todos os ofiRciaesde terra e mai*, 
ao serviço da Companhia das índias Occidentaes, a usarem de 
lepresalias para com os que procurassem occasionai* prejuízos 
4 Companhia. ') 



*) Netscher faz crer (pag. 154 e 155) que não ficaram mais ín- 
dios ao serviço dos Hollandezes; mas elles vieram ainda a 
figurar na degolaçao da Barreta (18 de Abril 1648) ; e em 27 
de maio desse anno eram ainda em número de 500. 

•) Netflcher, pag. 154. 

15 






226 LIVRO NONO. 

Com o conhecimento em Portugal da notícia desta reso- 
lução, quasi conjunctamente com a da occupaçao da ilha de 
Itaparica, que tinha em cheque a Bahia, se preocuparam muito 
alguns estadistas, e com elles o P.® António Viei)*a, que che- 
gou a opinar que nao havia outro remédio mais que abrir mâo 
da reconquista de Pernambuco, em favor dos Hollandezes; e 
sustentou valentemente semelhantes idéas em um parecer, com 
data de 14 de março (1647), que hoje coito impresso. Estas 
idéas vieram até a ser aceitas pela corte, que deu instmo- 
çoes ao seu embaixador na Hollanda, e novas ordens para o 
Brazil, onde foram * recebidas com pasmo, e felismente nao 
chegaram a ser executadas, sendo substituídas, dahi a pouco 
por outras em contrário. *) 

Havia ja perto de sete mezes que o inimigo permanecia 
fortificado em Itaparica, quando o Governador Geral deu or- 
dem a que fosse elle atacado, fiando o êxito da empreza ao 
valor do mestre de campo Francisco Rebello. Eesolveu este 
effectuar o ataque de noite, e no dia 10 de Agosto, ás 3 
horas da manha, se lançou em massa, e a grandes vozes, a 
modo dos índios, sobre as fortificações do inimigo, pensando 
surprehendel-o. Conseguiu penetrai- nas primeií-as defensas: 
como porém estas nào eram mais que as obras avançadas, en- 
controu maior resistência do que contava, e, ao cabo de duas 
horas de fogo, tiveram os atacantes que retirar-se, deixando 
noventa mortos diante das trincheiras , além de mais trinta e 
cinco dentro delias, e dos que comsigo carregariam. *) Parece 
que da pai*te dos nossos houve no ataque bastante confusão, 
e que alguns fizeram fogo uns aos outros. Este revez foi jul- 
gado muito maior, porque no número dos mortos se contou o 
bravo chefe da expedição, que tanto se distinguira em todo o 
curso desta guerra. 

Apezar destas vantagens, os Hollandezes não se julgavam 
seguros. Ja em 6 de maio tinham pedido com instancia noToe 

' ) João Fernandes Vieira , ua sua representação , datada de ^ 
de maio de 1671, refere-se a estas ordens dizendo: »Nw« 
com razões mui curiaes a obediência a umas ordens de ãiei 
meu ^senhor, que está em glória, com que foi suspender o 
que todos procuravam executar, e nao passou muito tempo 
que me não chegassem outras em contrário." 

«) Off. de Sigismundo de 18 d'Ag. de 1647. 



L17E0 NONO. 227 

reforços, e desconfiados de que tardassem, haviam para apres- 
sal-os expedido, em fins de Agosto, á metrópole um dos seus 
próprios companheiros, o Conselheiro Hendrik Haecx. 

Quando á Coi-te chegou a notícia do que se passava na 
Bahia, e da necessidade em que essa capital ficava de algum 
soccorro, fez apressar a partida do governador Conde de Villa 
Pouca d'Aguiai*; a cujas ordens poz logo algumas forças reti- 
radas do exercito do Alemtejo, que com elle se fizeram em- 
barcar em Setúbal ; e determinou a Francisco de Figueiroa, an- 
tigo capitão no forte de S. Jorge *), e ora mestre de campo, 
que passasse ás ilhas, afim de igualmente levar dahi á Bahia 
mais quatro companhias. O P.® Vieira aUegou que este soc- 
corro se aprestou com trezentos mil cruzados de um emprés- 
timo, que elle negociara em três horas. 

A chegada destes reforços, com o novo governador, 
. motivou principalmente a retirada dos Hollandezes de Itapa- 
rica ^), em Janeiro de 1648; assim como sem dúvida fez a 
metrópole hollandeza apressai*-se mais na remessa de novos 
reforços para o Eecife *); com os quaes pretendeu a Compa- 
nhia mandar de novo o Conde Maurício de Nassau. Porém 
taes soçcon*os, depois de muitas diligencias, não passaram de 
nove barcos de gueiTa , quatro patachos e vinte e ^ . oito 
transportes com tropas e viveres; sendo Schkoppe escolhido 
para chefe principal, com mais poderes e o posto de tenente 
general. 

Cumpre aqui dizer que o embaixador portuguez Souza 
Coutinho, apezar da posição melindrosa em que se achava, 
havendo até aguantado na Haya assuadas è vaias da plebe, 
desenvolveu a maior actividade, procurando . evitar que partis- 
sem taes soccòiTos afim de ganhar tempo. Depois de ver frus- 
tradas todas as tentativas de arranjo, que a seu pedido en- 
saiou o Enviado de França, dirigiu-se, em 9 de novembro, 
aos próprios Estados Geraes, declarando-lhes que o seu rei 
estava prompto a restituir todas as conquistas feitas pelos 
insui*gentes , , e a concluii* um tratado de paz. Chegou até a 
offereCer-se a ii- em pessoa a Lisboa, pai*a accelerar a resti- 



*) Veja ante pag. 43. 

») C. do ahnirante de Witte do l.« de Abril 1648. 

») Netscher, pag. 156 e 157. 



228 LIVRO NONO. 

toiçâo. Porém os Hollandezes não se deixaram enganar; e 
exigii*amy como penhor, a immediata passagem ao sen poder 
da ilha Terceira ou da Bahia. ') E com mais razão se julga- 
ram folies, desde que, em Munster, firmaram as pazes com a 
Hespanha, e esta nação lhes garantiu „ todos os legares do 
Brazil tomados aos Estados^ pelos Fortuguezes desde 
1641." «j 

A mencionada esquadra de reforço avistou o Becife em 
meados de março (1648). Mez e meio antes havia Schkoppe, á 
frente de nove centos homens, conseguido entrar de novo na 
posse das terras fronteiras a Itamaracá, desembarcando á força 
em Tapecima, em 3 de fevereiro ; e repellindq, no dia seguinte, 
um- violento ataque dos nossos. 

Agradeceu Schkoppe a promoção e os novos poderea que 
lhe foram dados; mas logo, em 15 de abiil, acrescentava que 
no exercito eram em granúe número os doentes, que havia 
descontentamento por falta de pagamentos^ que as bailas não 
ajustavam bem nas armas, e que o ^inimigo concentrava as 
suas forças, recebia novos reforços da Bahia, e se preparava 
seriamente a esperar o ataque." 

Não queriam os do Supremo Conselho que este se de- 
morasse, e dahi a três dias, por. sua ordem o General Sigis- 
mundo, depois de esperar o prazo de uma nova amnistia ca- 
recida pelos do Conselho (e que não lhes trouxe nenluun 
apresentado) á frente de uma força de quatro mil e quinhen- 
tos homens, bem que bisonha e pouco satisfeita, tomava para 
os Afogados, com os embornaes providos pai*a oito dias, como 
propondo-se a invadir o sul. 

Havia apenas Aois dias que um general experimentado havia 
tomado o mando de nossas forças. Era este novo chefe o mestn 
de campo general ^) Francisco Barreto de Menezes, ja conho- 
cedor da guerra no Brazil, por haver sido, como vimos, um doi 
cabos que, em 1639, havia acompanhado a Luiz Barbalho, 
oppondo-se depois aos Hollandezes no Elo Eeal, quando aU 
se quizeram da primeira ^ vez estabelecer , ' e passando mais 



*XNetscher, pag. 156. 

*l Artigos V e Vi do Tratado de Munster de 30 de Janeiro de WB. 

*j Hoje Tenente general (Decr. de 5 de abril de 1762). Aoi 

.marechaes de campo se dava antigamente o nome de sl^ 

gentos mores de batalha. Eeg. E. V, 238. 



LIVRO NONO. 229 

tai*de a adquirir novas glórias, e novos postos nas campanhas 
do Alemtejo. 

Fora Barreto nomeado para dirigir em chefe as tropas 
de Pernambuco, por decreto de 12 de Fevereiro de. 1647; 
porém ja perto do sen destino, em fins de abril, o aprisiona- 
ram no mar os HoUandezes ^) e o levaiam ao Becife, onde o 
tiveram durante nove mezes preso. Conseguindo porém esca- 
par-se, favorecido por Francisco de Bra, filho do cai*cereiro e 
pelo francez João Voltiin *), se apresentara no exercito em 
23 de Janeiro; e ahi esperou ordens do governo geral da 
Bahia, em vii'tude das quaes, chegadas recentemente, se havia 
posto á frente da^ tropas. 

O inimigo abalou do Eecife ás 7 da manhã do dia 18, 
e passando o rio dos Afogados, seguiu ao longo da costa até 
mais além da Barrota, onde havia uma abegoaria de António 
Cavalcanti, na qual os nossos tinham um posto de cem ho- 
'mens, commandado por Bartolomeu Soares Canha, que prote- 
giam a posição. Porém Schkoppe, valendo-se dos índios que 
ainda estavam a seu serviço, os quaes mandou reforçar com 
duas companhias, conseguiu que elles fossem contornear a po- 
sição, tomando a única passagem por onde os nossos' podiam 
|i retirar-se para o mato; e ahi degolaram a muitos ^), e trouxeram 
( p[i*esos a dois^ Nessa noite bivacaram as suas tropas na dita 
j pass^em abundante de boa agua, e ahi se lhes reunii*am cinco 
í peças de ai'tilhei'ia, que haviam feito conduzir pelo rio. 

Por sua pai*te, Barreto, apenas soube desta mai*cha, 
convocou um Conselho, e nelle foi resolvido o saii-se ao 
encontro do inimigo, com todas as forças disponíveis, dei- 



') Quanto a esta prisão, cremos ter ella sido a própria que 
desoreve Moreau na pag. 15o, visto que não consta de outro 
governador („le nouveau pourveu Viceroy du Brésil*, diz elle) 
que houvesse sido preso e levado ao Eecife. Em tal cazo a 
prisão deve ter sido feita pelo almirante Baucher, atacando 
sete navios de comboy que vinham com Barreto, e dos quaes 
metteu um a pique, o outro se escapou para a Bahia, e cinco 
cairam em seu poder, com muitas munições de boca e de 
guerra e vinhos, etc. — levando comsigo ao Eecife duzentos e 
cincoenta prisioneiros, entre os quaes três frades franciscanos 
e vários officiaes de justiça e de fazenda e o dito governador. 

») Mello, I, 111 e 112. 

*) A 25 segundo os HoUandezes; a 40, segundo Barreto. 



230 LIVRO NONO. 

xando apenas trezentos homens de gnaraição nas estancias do 
sitio. Com toda a demais farça, que não passava de dois mil 
e duzentos homens, incluindo as valentes troças do Camarão 
e Henrique Dias, marchou para os montes Guai-arapes, e de- 
pois de os occupar, bivacou de noite, occupando a sua van- 
guarda, a estreita lingueta de terra entre os montes e os ala- 
gados, por onde passava a estrada, e passa ainda hoje a via 
férrea, e postando o grosso do exercito á retaguarda dos 
alagados. 

No dia seguinte, que era o dia 19 ^), domingo de pas- 
choela, ás 7 da manhã, se poseram as forças hoUandezes em 
marcha para os mesmos montes Guararapes,' e uma hora de- 
pois, se encontraram com a nossa vanguarda. 

Começaram os batedores a peleja, e immediatamente 
Schkoppe passou a occupar as alturas, e delias disparava a 
artilhéria e mosqu&tería contra a nossa gente, que durante 
duas horas não deixou de corresponder, porém com decidida 
desvantagem. 

Barreto reconheceu por fim que devia retirar-se ou aco- 
metter o inimigo; e não hesitou em se decidir a tomar este 
último expediente, apezar da notável inferioridade da posição 
qua occupava^ e também da das suas forças. 

Ordenou pois o ataque em três corpos, confiando o de 
um dos flancos ao Camarão, o do outro a Henrique Dias, e 
o centro *a João Fernandes Vieii*a. Dada a- primeira descarga, 
acometteram todos á arma branca, e conseguindo romper o 
inimigo, chegaram a ter-lhe tomada a ai*tilheria, munições e 
caixa do dinheiro. Lançando porém o chefe contrario a brigada 
de reserva, com os terços de Van Elst e Hous, contra Henrique 
Dias, obrigou-o a retii*ar-se; sem lhe poder acudir a tempo a nossa 
reserva; pelo que conseguiu recobrar a sua artilhéria, . e o mais 

^} Acerca desta data se cometteram muitos enganos. Schkop|HB, 
tanto em uma memoria annexa a um ofiicio de 22 de abril, 
como em officio de 12 de maio, diz que foi a 20; ao passo 
que os nossos, em várias certidões (Jaboatao Chr. pag. 64} e- 
até na própria inscfipção lapidar da igreja, dão o dia 18. A 
data acha-se porém citada correctamente na parte de Baneto 
e no letreiro do meio do quadro (no tecto debaixo do coro) 
da igreja da Conceição dos Militares do Eecife. O A. da no- 
vella N. S. dos Guararapes (vol. 2.° pag. 116), copiando a 
inscripção lapidar, corrigiu-lhe a data para 19, 



LIVBO NONO. .31 

se lhe havia tomado; visto que os nossos, ao romper as 
ras do inimigo, haviam ficado mais desordenados que elle. 
ito avançaram os HoUandezes que se acharam mettidos nos 
tanos, onde alguns nem podiam suste)'-se em pé. Esta cir- 
stancia,' permittiu a Baneto o reorganisar um corpo, e con- 
do-o a André Vidal, mandou de novo acometter o inimigo, 

então foiy por actos de grande valentia de Vidal, comple- 
lente den-otado, perdendo mais de trinta bandeiras. 

A acção durou apenas de três a quatro horas, por se 
arem os dois contendores extenuados. Os nossos nada ha- 
n comidt) desde mais dô vinte e quatro horas ; e o inimigo 
ia perdido quinhentos e quinze mortos, e quinhentos 
inte e três feridos, dos quaes proximamente uns mil, 
todo, ficaram no campo. Além do seu general, ferido em 

artelho, tivera fora do combate todos os coronéis e ofRci- 

superiores, exceptuando um, o coronel Van den Brande, 
indo a setenta e quatro ^) a perda total dos officiaes, dos 
,es alguns morreram depois, das feridas, no Recife. 

Durante a noite effectuou o inimigo, em grande silencio, 
etirada para a Barreta; deixando no campo os mortos, e 

alguns feridos, muitas munições e armas; incluindo uma 
a d'artilharia de bronze; e na manhã do dia seguinte, que 

o de N. S. dos Prazeres, os nossos cantavam difinitiva- 
ite a victória. 

# 

Dada assim a relação desta victória, de acordo com os 
iprios documentos do inimigo, seja-nos permittido transcrever 
i na integra a verdadeira parte official que da acção deu 
-ncisco BaiTeto, e desculpe o leitor, se nella encontrar a 
etição dós factos que ja conhece. E* porém este documento 
tanta importância, e tem-se até agora feito delle tão pouco 
3, que não podemos deixar de o admittir no nosso texto. 

Diz assim: 



') iodos estes dados foram tomados de uma lista nominal, que 
temos á vista, annoxa a um òffício dos do Conselho de 22 de 
abril de 1648. Por tanto deve ter-se enganado o Sr. Netscher 
(p. 158). Cumpre-nos acrescentar que os nossos escíriptores 
confundiram esta batalha, com a seguinte, attribuindo a am- 
bas a descripçao que encontraram de uma só delias, e que 
reproduziram mudando apenas certas frases. 



• 



232 LIVRO NONO. 

„ Depois de estar no Eecife por espaço de nove mezes, 
fu^ dos grandes apei-tos em que o inimigo me tinlia posto ;e 
entrei nesta campanha de Pernambuco em 23 de Janeiro do 
anno presente. E posto que eu nella não governava^ acudi, com 
as adyeiiiencias necessárias, a que os governadores disposessem 
com prevenção, em todas as couzas que necessitavam delias. 
Começando, por este respeito, a effeituaren^-se melhor todos os 
pai*ticulares, assim da guen*a, como do mais governo desta 
campanha; prevenindo-se em tudo o que mais preciso parecia; 
não só para a conservação da guerra defensiva, mas também 
pai'a 80 mover toda a offensiva que fosse possivel. 

„ Chegou a aimada do inimigo a 14 de março, e deeon- 
bai*cou ') no Eecife, e preveniu toda a sua Infantaria até 18 
de abril, dia em que saiu á campanha com seu Exercito, o 
qual constava de mil e quinhentos infantes, quinhentos homens *) 
de mar, e tresentos índios Tapuias : traziam em todos seus bar 
talhões sessenta bandeiras, demais de um estandarte grande, 
com as armas das Províncias Unidas e Estados Geraes, cinco 
peças de artilheria de bronze, muitos viveres, munições e di- 
nheiro. Governava este exercito o general Segismundo Schkoppe, 
com seis coronéis; a saber: Hous, Van Elts, Hautyn, Pedro 
Keerweer, Van den Brande, e Brinck *). Marchou para a parte 
da Bai-reta; e, no mesmo dia 18 de abiil, me «degolaram 
quarenta homens, de cem que estavam para defensa do mesmo 
posto da Barrota; e ti*ouxeram-me aviso de como se aquar- 
telavam no dito posto. Havendo somente dois dias que dA 
Bahia me tinha chegado ordem do Conde General para qno 
goveiiiasse estas Capitanias, a qual, por serviço de S. M., nio 
quiz deixar de aceitar, não obstaíite o miserável estado da 
teiTa, e grande poder do inimigo, e o limitado com qne me 
achava para lhe fazer opposição, chamei logo a consellio aos 
mestres de campo André Vidal de Negreiros, e João Femandea 
Vieira, ao Tenente General e Capitães de Infantaria, e pro- 
pondo-lhes o estado das couzas, se resolveu em conselho que 
saíssemos a encontrar o inimigo; sem embargo de que o noeso 



*) O inimigo, entenda-se. (V.) 

^) A força inimiga era um pouco menor. 

') Preferimos dar aqui correctamente os nomes proprioa one, 

no Ms. que temos presente, se escrevem Scop, Uss, Vaneloe, 

Autin, Erverque, Vandebrande, Brinque. 



LIVEO NONO. 233 

poder nao constava de mais que de dois mil e duzentos homens, 
em que entrava o terço do» pretos do Governador Hemíque 
Dias, e o dos índios do Capitão mor Camarão; por quanto 
ficaram as estancias providas com trezentos homens. 

„Com este limitado poder, marchei para os outeii'os dos 
Goararapès, e depois de os passar, fiz alto na baixa delles, 
formando a Infanteria, pela melhor . fóima e modo a que o 
terreno me deu logar. 

^Naquelle sitio passei a noite. Ao outro dia, que era 
domingo da paschoela, 19 de abril, levantou o inimigo seu 
Exercito. Vindo marchando para os nossos, começaram os 
batedores a peleja, e tanto, que o inimigo se descobriu pelo 
alto dos montes dos Goararapes, mandei tocar a investir, tendo 
posto na vanguai*da ao mestre de campo Fernandes Vieira, e 
para dar nos lados do inimigo o Capitão mor Camarão de uma 
parte, e da outra o Governador Henrique Dias.^ 

^Dada a pi*imeii'a cai*ga, de ambas as partes investimos 
á espada, rompendo ao inimigo todos seos batalhões. E porque 
doiis da sua reserva, que ainda tinha em ser, se desviavam 
dos que iam rotos, e carregavam para a parte de Henrique 
Dias, mandei quinhentos e sessenta &omens, que também tinha 
de reserva, para que, encorporando-se com o dito Henrique 
Dias, o ajudassem a romper, com os dous batalhões que o 
iam acometter; mas os nossos Capitães, que, em dous terços, 
governavam os ditos quinhentos homens, não considerando os 
damnos que lhes podia vii* de não observarem a ordem que 
levavam, mvestiram por outra parte, onde, por caminho mais 
abreviado, lhes pareceu que havia occasião de maior destroço 
no inimigo; mas resultou deste engano não desti-uirmos total- 
mente os contrários; que, por não poder Henrique Dias sus- 
tentar o pezo delles, se veio retirando sobre os nossos^ os 
quaeSy -por serem poucos e cançados, fizeram também o mesmo. 
Acadi logo a ter mão em todos, para que o inimigo não tor- 
nasse a cobrar a sua artilheiía, munições e dinheiro, que ja 
lhes tínhamos ganhado; mas não o pude conseguir; porque, 
com a rota que havíamos feito ao inimigo, estavam os nossos 
mais desordenados que os mesmos inimigos, a quem romperam ; 
porém, a poucos passos, me puz em um regato, que havia na 
campanha ; onde, animando a uns e ferindo a outros da nossa 
Infantaria, a obriguei a fazer alto ; e comecei a formar, man- 



234 LIVRO NONO. 

dando fazer o mesmo ao terço do mestre de campo João Fer- 
nandes Vieira; e pondo na vanguarda ao mestre de campo 
André Vidal de Negreiros, tornou, com pouca gente da sua, 
mas com grande eôforço, a investir, com as mangas que o 
inimigo trazia diante de seos batalhões; e, escaramuçando com 
elles, os tomou de novo a romper; matando alguns de sens 
Capitães e muitos dos soldados. E começando-se novamente a 
pendência, formando- se de uma e outra parte os campos, durou 
a batalha por espaço de quatro horas; no fim das quaes, de- 
pois de se obrarem da nossa parte maravilhosos actos de va- 
lentia, assignalando-se nelles geralmente, com o mestre de campo, 
todos os mais officiaes, o inimigo se retirou a occupar suas 
eminências, á nossa vista ; retirando para detraz delias os 
feridos que mais perto lhe ficavam. Considerando eu, neste 
tempo, o quanto estavam cangados os nossos soldados, havendo 
mais de vinte e quatro horas que não comíamos, e muitos 
delles occupados em retirar os mortos e feridos que tivemos, 
me deixei ficar formado na mesma frente do inimigo, man- 
dando recolher as bandeiras que havíamos ganhado, que che- 
garam a trinta e três, a saber o estandarte grande com as 
armas das Províncias Unidas, comp ja referi, e o qual tenho 
nesta Praça, desenove bandeiras que remetti logo á Bahia ao 
Conde General, e treze que os nossos soldados pretos e índios, 
não fazendo estimação delias, dizem que as tinham desfeitas 
para bandas e outras galas. 

„Estando um campo á vista do outro, por todo o dia, 
tanto que anoiteceu, mandei algumas tropas inquietar o inimigo, 
a fim de que também na volta me trouxessem aviso de seos 
intentos; e posto que não seguissem todos as ordens quanto 
convinha, não deixaram comtudo de picar o inimigo, o qual, 
no decurso da noite, se retirou, sem que eu disso alcançasse 
noticia. . 

^Amanhecendo segunda feira, dia de Nossa Senhora dos 
Prazeres, mandei descobrir o campo, achando, nas demonstiA- 
ções delíe, ter-se retirado o inimigo com grande pressa e des- 
troço; pois deixou na campanha nove centos homens, mortos; 
e entre elles alguns feridos, nma peça de artilheria de bronze, 
muitas munições e armas, as trinta e três bandeiras que tenho 
referido, varias insígnias; além de outros despojos de roupa 
e dinheiro, de que os nossos soldados se aproveitaram. Dos 



LITRO NONO. 235 

lortos dos inimigos, foram muitas pessoas de conta, e as 
rincipaes delias foram o Coronel Hous e o Coronel Van Elts ; 
o Coronel Hautyn morreu depois de chegar ao Eecife : e, de 
Iguns que aprisionámos, foi um Coronel Pedro Keerweer; de 
)rte que, de seis coronéis que trazia o exercito, só dois es- 
iparam de nossas mãos, Van deu Brande e'Brinck *). 

«Também tenho notícia certa, dos prisioneií-os que to- 
lámos, que os feridos qne o inimigo retirou desta batalha 
>rani mais de quinhentos; e entre elles o seu General Segis- 
lundo, com uma perna passada ; e que os mortos que a nós, como 
cima digo, nos pareceram nove centos, passaram de mil; da 
essa parte moiTeram' nesta occasião oitenta homens, contando 
unbem ' nestes os quai*enta que ja disse nos degolaram na 
stancia da BaiTeta; os feridos perto de quatro centos; mas por 
aercê do ceo, todos sem perigo. 

„Na mesma segunda feira marchei a occupar as nossas 
stancias fronteiras ao Kecife; por ver que o inimigo se 
inha recolhido ás suas praças ; e achei que um capitão, que 
eixei de guarda, no forte de uma bataria que tinha nos pes- 
os do Eecife, o havia largado, por não haver ja nelle artilha- 
ia alguma, o qual, vendo o inimigo desmantellado de tudo, o 
aandou occupar; e o mesmo fez á villa d*01inda, a qual ti- 
ihamos largado, com cinco peças de ferro pequenas; que a 
)ressa, com que foi preciso sair ao encontro do inimigo, ape- 
ias deu loga^ a mais que a juntar a nossa pouca Infantaria 
om que o investimos. Logo tornei a occupar os* postos deste 
rraial do Bom Jesus, e mandei marchar para a dita villa 
'Olinda ao governador Henrique Dias, com o seu terço dos 
retos, algumas companhias de mulatos e uma de soldados 
ranços, com ordem que entrassem e investissem a dita villa, 
or moitas partes; o que os nossos fizeram, cotíi tanto valor 
ae puzeram em fugida seis centos Pramengos que nella esta- 
am; recolhendo- se as suas forças ao Kecifé, que ficava em 
istancia de uma légua ; ^ matando-lhe neste confiicto cento 
ncoentã e tantos que ficaram no campo; em que entraram 
iguns ofRciaes, além de outros que deviam de moiTor nas 
^uas a que se lançaram. 



') Brinck não assistiu pessoalmente a acção; porém, sini parte 
do seu regimento. 



236 LIVRO NONO. 

^Aprisionamos-lhes um francez, e recuperámos as nossas . 
cinco peças de fen:o, que lá tínhamos deixado ; as quaes man- 
dei comboiai* a este arrayal, por ser bom accordo largarmos 
outi*a vez a villa ; assim por não ser defensivel y e requerer 
para sua guarnição muita Infantaria, que a nós nos falta, 
como também por termos de assaltar outras vezes ao inimigo 
naquella paragem ^ aonde elle até o presente não tomou mais. 
Nesta pendência não houve da nossa parte que (sic) seis fen- 
des, em que entrou um capitão, mas todos sem risco de.viâft. 

n Destes bons successos com que Deos favorece as armas 
de S. M. , em tempo que a superioridade bem conhecida no 
inimigo nos promettia total mina, sem esperança alguma de 
victoiía, que alcançámos, posso eu animar-me para outras 
maiores, com que o mesmo Senhor hade livrar a chiistas- 
dade deste, com que os tirannos Framengos o ameaçam.^ *) 

Vejamos ainda como dá conta da acção o general inir 
migo, em ofíicio aos Estados Geraes de 12 de maio: 

„ . . . . Tomando das differentes guarnições a gente que 
foi possível, nos achamos em estado de pôr em campo quaiafo 
mil soldados, repartidos em sete corpos, e, de accordo com as 
altas autoridades, julguei acei*tado ir procurar o inimigo, 
e ver se havia meio de conseguii* alguma vantagem. 

„Pozemo-nos em marcha no dia 18 '), ás 7 da manhi, 
na direcção do Gabo de Santo Agostínho, convencidos, de que 
o inimigo nos viria ao encontro. Neste dia não adiantámos 
mais de légua e meia, pelos obstáculos que nos apresentam 
os rios. No seguinte contínuámos a marcha para o engeoko 
dos Guarai-apes, situado a duas léguas de distancia do Bedft. 

„ Tendo andado proximamente uma hora, a nossa van- 
guarda encontrou o inimigo , e o entreteve até á chegada do 
grosso do exercito. — Achamol-o postado entre os brejos e os 



^) Desta carta existe um exemplar na Bibliotheea pública do 

CXVI 
Évora, Códice õHig * ^-^ ^- "" Segundo a. Sr. Bivua (Ga*^ 

logo, pag. 144^ „parec6 autographa.'* E' certo porém que sÍo 
pode haver sido o original enviado, por lhe fiutar a cureoçSO} 
e acabar sem mais cumprimentos, com o simples nome ^ 
Francisco Barretto (sic). 

*) Lê-se 28 por evidente engano. 



LIVRO NONO. 237 

monteSy em força de mais de ires mil homens. Junto aos bre- 
jos, havia, occnpado pelo inimigo, um passo estreito, no qual 
apenas poderiam caber de frente três ou quatro pessoas; de 
modo qie não era possivel tomal-o sem perder muita gente/ 

„ Ordenei ás tropas que occupassem os montes, junto ao 
mesmo passo, a um tiro de mosquete; e logo fiz romper, 
4Sontra elle um sustido fogo de ai*tilheria e de mosqueteria, 
para ver se era abandonado. O resultado foi cairem muitos de 
• um e outro lado ; mas nâo o abandono do dito passo. Gessando 
um pouco o fogo, saiu dali o inimigo contra nós, com tresen- 
tos a quatrocentos homens, com gi*ande alando. Ordenei então 
que o meu regimento e os dos coronéis Yan Elst e Hous 
contomeassem o dito passo, ou delle se apodei*assem, por 
qualquer outra forma. ^ 

„0 inimigo, yendo-nos avançar, retirou-se; e os nossos, 
pers^^do-o, entraram pelos brejos, julgando -os terreno 
solido. Nâo tardaram os ditos três regimentos, e especial- 
mente os soldados delles ultimamente chegados, a retirar-se, e 
em desordem tal, que fugiam atropelladamente, sem fazerem 
uso das armas, não valendo nenhuns esforços dos officiaes 
para reunil-os.^ 

„ Advertindo o inimigo a grande confusão que havia en- 
tre as nossas tropas, mettida nos brejos, emprehendeu nova 
investida contra nós, pela retaguarda, matando todos os que 
se achavam empantanados, e em tal consternação que nem 

'^eoidavam de resistir, e deixavam tomar as bandeiras 

Todos os officiaes superiores, excepto o coronel Yan den Brande, 
ficairam mortos ou feiidos . . . .^ 

Este último official escrevendo, por sua parte, aos mes- 
mos Estados Geraes em 23 de abril, assegura que os officiaes 
te haviam conduzido bem, mas não assim os soldados, a tal 
ponto que quando elle encontmva algum nas ruas virava a 
cara. Acrescenta que, se os nossos o tivessem perseguido na 
retirada durante a' noite, mal se houveram podido defender: e 
que nessa meima noite a chuva caiu a torrentes como 
nunca, o que muito os fatigara na marcha até chegarem 
de manhã ao forte da BaiTota. 

Com esta victoria os inimigos se mostraram mais pru- 
dentes, — por ventura com excesso. Dois mezes e meio depois, 



238 LIVEO NONO. 

em 9 de Julho, apezar de contarem ainda com um exercito de 
seis mil seis centas e trinta praças, incluindo quinhentos ín- 
dios e quai*enta e oito pretos, dos quaes podiam pôr mais de 
metade em campo, mostravam-se desanimados. Escreviam para 
a pátria, declarando que nao haviam offerecido nova "amnistia, 
por nâo esperarem colher disso nenhum resultado ; visto que a 
experiência de eada dia lhes ensinara que os nossos ^se haviam 
feito de tal modo á guerra que se achavam no caso de poder 
medir-se com os mais exercitados soldados," e que sabiam 
soffrer toda a sorte privações; ao passo que os seus apenas 
serviam, vendo a bolaxa perto de si. Acrescentavam que, ainda 
quando conseguissem conquistar de novo todo o paiz, o a- 
chariam deserto; que na Paraiba, antes tão fértil, tudo Ofr* 
tava incendiado e arrasado, de modo que dificilmente se oa- 
contrava • uma laranja, a muitas léguas do povoado ; e que o 
Rio -Grande, antes tâo abundante em gados, se via de todo 
devastado. — E concluíam que, em seu entender, náo réstâia 
mais recurso do que arranjar-se com Portugal., 

E' certo porém que a celebrar . esses arranjos se ia 
apresentar menos disposto o mesmo Portugal, desde que ha-' 
via recebido circumstanciadas notícias da esplendida victória 
dos Guararapes, — notícias que tinham feito mudar intein^. 
mente a opinião, como a veleta do cata- vento. Sem essa victóiia, 
é mais que provável que parte do Brazil haveria sido entregw 
aos HoUandezes pela Corte, nas aflicçoes em que se via, e o^ 
tinham crescido, depois que a HoUanda obtivera, em Munstoy 
em 30 de Janeiro anterior, um tâo vantajoso tratado . de pai 
Desde a celebração desse tratado, a que já nos referimoa-Oi 
eram mais inclinados a favor da cessão de Pernambuco, «a 
troco da paz, muitos estadistas de Portugal, e á frente delia 
o célebre jesuita P®. António Vieira. Tiuham-se até expedido 
ordens para negociar neste sentido, ao embaixador na Haya, 
Souza Coutinho; o este havia ja feito a tal respeito mui de- 
cididas aberturas; principalmente em uma resposta que, em 
19 d' A gosto, dera aos commissarios dos E$tados, que haviam 
sido nomeados para com elle se entenderem, — resposta em 
que já admittia a cessão do território desde o Bio-Grande até 
o de Sergipe, pagando demais Portugal á Companhia, a titulo 



') Veja ante, pag. 228. 



le iDâÊÊÊOÊâsãÇÊB de prqjniiw. àn ndi c&icfts ^ 4idMM4ii (4<í 
iDte amhtt por cbidi i, «amigrii» a sàl <iJiàii «um ii<ts é«t 
mmedialúE. 

A tas a^saXDzas ciffnes^osiàflrun <is o-oanontisài^A^ <à<v^ 
SstadoB afraBBDtuiât» ao isnhaxcftàoT^ ceoDo mHiii4t«m 
im projecto ob íoibul coBsendo sittoi^K «c^mMis; tn^ oo«m» 
k de estoider a soa fraaiara axé o fiáo-foiL 4k%«iJk^ <> OmiíNi 
Içar dfiBcrto ; a de cbàer Pora^ u^ o dirau^ *<» UttKM^ 4^^ 
Lngola e á illia de S. Thosé; i rdsúcaiçâo p«l^ iK»««os ^^ 
leeraTOs, «nimafs e oqqvs obj«cti>$ re^kadi\$ d<d$ tiênit\Hii>$ 
lue ja obedeciam a eUes HoUaadeids; a «atr^gar dmís. Y»<ri^ 
prcguizos sof&idofi, á Companhia, deD;rd d<>s trei$ «auo^ »^ia«> 
besy mH bois, mil Taças, duzoitos cavallos t Ir«d6iila$ t^vtèiMSx 
EBcreven o embaixador, á margem de alguns d\vs arligvv^ váiiáa 
observações, tendentes a rebater as exigências excessivas t mn'^ 
tentando as suas propostas; mas admittindo já Cx^mpletam^^ 
e teor de alguns artigos, taes quaes se adiavam i>^igiA^^ 
Era um verdadeiro contraprojecto *) ad referendum qu^ 
;|or muito felizes se deviam dar os HoUandetes ee pela OÀrle 
-fosse admittido. 

Chegados estes papeis a Lisboa > foram ap\>Meiitadoi m\ 
: conselho d'Estado, onde s6 tiveram dois votos favoráveis^ ii<^ttdo 
im delles o do Conde da Torre. Bnoan^egados o« Oouielh<á\H>H 
;-iie estudar madui-amente a matéria, e expor seus votim \m ^* 
::Qipto, sustentaram os que haviam dado. Isto porém A^w ^t^* 
ph. a que fossem divulgadas as couoess^ss dd que «o trA>U^\r(^« 
que o povo tomasse interesse e mostrasse oppoi'»se i ^\\^^^ 
)lyeu então o rei consultar aos tribunaes» Incluindo o \l\\\%* 
^teino e o da GueiTa, ordenando que cada um dellen mandM!»»*» 
Mmeiro dois conselheiros^ a conferir sobre o ttíifíumptui uti 
Ijttinta de Alcântara, com o P/ Vieira, seu pr^nailofi nA» 
jèrvendo, dessa ordem, nem do projecto que a ai^ompi^ntuitat 
car no tribunal cópia ou registo. 




<) Tal é o documento, que at^ com wn rihiiArvaçl^An miif||lHiif*f> 
do embaixador Souza Coutinho^ foi nmn raxftu ooifipfiibdUdUlHi 
como nome de tratado, na» G<iíhiH}fí(in iUlhn, (l^fi ^t**. 
Borges de Castro e Calvo, 

■) Em carta de 10 de 5ov, d^cínwj afim» tf»í(«ífi)f>fhi u ffiM^irií» 
P.* ^eiia ao embaíxad/>r HffUtH (UfUíínhtt ttn wmt^n t\*iit f^**^* 
conselheiros. 



240 LIVRO NONO. 

Depois dessas conferencias com o P.® Vieira apresentou 
o Procui-ador da Fazenda Pedro Fernandes Monteiro um mui 
bem elaborado e patriótico parecer impugnando a n^ociação 
como contrária a religião, á clemência paiTi com os sublevados, 
á reputação da Coroa, á conservação do resto do Brazil e ao 
bem da Fazenda Pública; e propondo antes a compra, a todo 
o custo, de Pernambuco, e em ultimo logar a guerra. 

A este parecer, sem dúvida o mais bem deduzido dos que 
se apresentaram, oppoz o P.* Vieira o seu famoso Papel 
Forte, hoje impresso; sustentando, como antes e com 
novos argumentos e argucias, que, não admittindo os Hollan- 
dezes a venda de Pernambuco, haveria que cedei'-lh*o, a ti-oco 
da paz; procurando-se resarcir essa perda com o occupaçãode 
Buenos Ayres, e esperando melhor occasião para de novo se 
conquistar o que agora se largava. Sendo porém mais de qua- 
renta os consultados, não se inclinaram mais de quatro ás 
opiniões do padi-e , oppondo-se lhe também muito a Meza di 
Consciência e o Dezembargo do Paço. Este último tribunal 
concluía dizendo ao rei, evidentemente referindo-se aos dicta- 
mes do mesmo padi*e: „E se alguns particulai*es , sem lhes 
^tocar por officio, annunciarem outra cousa, afaste-os 
„ V. M. de si, e não os ouça, que são profetas falsos. 
„Nâo são estes os conselheiros que Deus deu a V. M. ; senio 
„05i seus tribunaes e ministros, a quem só assiste com parti- 
„cular auxilio para aconselhai'em verdades.^ 

Conformou-se o rei com a opinião dos Tribilnaes; i 
não tardou a vir em apoio delia e certeza da recnperafii 
d* Angola, efectuada por uma expedição, que, ás ordens it 
Salvador Corrêa de Sá e Benavides, fora preparada n<^ Kf 
de Janeiro mediante donativos que para isso obteve dos M^ 
merciantes e proprietários desta cidade. Salvador Corrêa aproa» 
tou-se primeiro no poi*to de Quicombo, a pretexto de ir sK 
constniir um presidio, afim de proteger os Portoguezes dias»- 
minados pelo sertão. — Encontrando porém o ensejo bastaiii 
favorável, fez-se de vela para Loanda; onde atacou valea* 
temente o inimigo, e o obrigou a capitular no dia 15 de Agoaii' 

Cumpre aqui acrescentar que, em fins de 1648, Henr^ii 
Dias, com os seus, e alguns índios invadiam o Sio-Grande, •• 
Janeiro do anuo seguinte (dias 6 e 7) conseguiam pelejar eoi 
feliz êxito na ilha de Guaraíras e no engenho OanhBd; 



LIVKO DECIMO E ULTIMO 



DA MORTE DO eANARlO AO FIM DA fiGÍERA E PAZ DEf ISITITl. 

■ 

Begimento das Ilhas. — Manda-o Francisco de Figueiroa. — Coin- 
cide a chegada com a morte do Camarão. — Elogio deste heroe. 

— Donde era natural e que idade teria. — Tibieza da tropa ini- 
f miga. — Furor da sua esquadra. — Heróica explosão da Rosário. 
h — O inimigo no Jleconcavo da Bahia. — Regressa ao Recife.* — 

Convoca um conselho. — Vota uma excursão ao Rio de Janeiro. 

— Decide-se porém combater os sitiantes. — Sae aos Guararapes. 

— Marcha de Barreto. — O Hollandez é derrotado. — Perdas 
de uma e outra parte. — Monumento desta victória. — Inscrip- 

. ção lapidar. — Resultados favoráveis. — Factos associados a esta / 

victória. — E' retirado o embaixador Souza Coutinho. — Ingla^ 

terra contra Portugal. — Negociações de Souza de Macedo. — 

,S|kO regeitadas. — Apertos dos do Recife. — Frota de Jaques de 

• .'íjíagalhães. — Plano d^ataque. — Começa do lado de Olinda. — 

''l^gae-se do outro lado. — Proposta de capitulação. — Texto 

d'âla. — Seu cumprimento. — ; Recompensas. — Juizo acerca dos 

. chefes vencedores, -r- Regimentos dos Henriques. — Factos 

até a paz definitiva. — 

A retirada dos Hollandezes de Itaparica, e a noticia, 
chiada á Bahia, de haverem os do Recife, com soccorros re- 
cebidos da Europa, provocado a acção que teve logar nos 
ôuararapes, induziram o governador geral a mandar seguir para 
"Pernambuco o terço ou regimento de Ilheos, que ahi tinha, 
commandado pelo mestre . de campo Francisco de Figueiroa, 
mui conhecedor de Pernambuco, e, nos últimos annos, aguer- 
rido nas campanhas do Alemtejo contra os Castelhanos. 

IG 



242 LIVEO DECIMO. 

Nâo poude Figueiroa chegar ao acampamento senão em 
fins de Agosto, coincidindo quasi essa chegada com a do tempo 
em qae, de doença, procedente em parte do cansaço e da ve- 
lhice, terminava ahi os seus dias o illastre heroe índio, com- 
mendador professo na ordem de Ghrísto, Dom ¥reí António 
Felippe Gamarão. 

Associado á causa da civilisaçáo, desde antes da fundação 
da capitania do Bio-^Grande (do Norte), o célebre yarâo índio 
nâo deixara- de prestar de contínuo aos nossos mui importan- 
tes serviços, já contra os Francezes, já contra os selvagens, 
já contra os Holiandezes, em todas as capitanias do norte, 
desde a Bahia até o G^rá. Gonsta que este capitão era mui 
bem inclinado, commedido e coi*tez, e no falar moi grave e 
formal ; e não falta quem acrescente que não só lia e esçrem 
bem, mas que nem era estranho ao latim. Ao vdl-o tão hm 
christão, e tão differente de seus antepassados, não ha que 
argumentar entre os homens com superioridades de geraç5eB; 
sim deve abysmar-nos a magia da educação que, miniskaââ 
embora á força, opera taes transformações, que de um Bárbaro 
prejudicial á ordem social, pode conseguir um cidadão otil a 
si e á pátria ^). 

A verdadeira naturalidade e a época do nascimento do 
heroe Gamarão tem sido até nossos dias objecto de discnssIKes 
e dúvidas. Pelo que respeita á prímeira, o facto incontestavd 
de ser de nação petiguar, o de ter a sua parentela no Bio- 
Grande, e de chamar-se este originariamente Bio dè Potf 
(Putigy) e várias outras considei*aç5es, nos obrigaram a ÍMl 
a afastar-nos, tanto da opinião dos que o fazem filho do. OdMi 
(opinião que haviamos chegado a abraçar), como dos qnem- 
tentam haver elle nascido pernambucano ; e somos hoje de pi- 
recer que, em presença de uma critica luminosa, não pode 9tt 
considerado senão como filho do mesmo Bio-Grande ^). — MaiB 
diÊcil nos parece aventurar uma opinião acerca da verdad«iia 
época do nascimento do heroe putigiano, já que nenhum ea- 
criptor nos diz que idade proximamente tinha elle quando 



*) Hiat. Ger. do Braz., 1*. Ed., II, p. 22. 

*) Podem ver-se as duas pequenas memorias nossas a este res- 
peito publicadas em Be vis tas do Instituto do Bio de 1867 
e 18(58. 



urso DSCIMO. 843 

fáDeceo. Rfliediíido porém nos seus dois nomea Autouio o 
Fdippe^ e lastojudo as praticas daqaellos tompos d» ser oon* 
fmdo o Bome do soberano reinante aos chefes selvavrens im- 
portanlesy qne se baptísavam, ou aos seus descendentes, piH>« 
pendraios a aiareditar qne o nosso Camarão seria baptisado em 
1590, qnando ainda latayam em Portugal pela Coroa» o Fiior 
do Crato D. António e Felippe 2*., e o Bratil esperava o 
resultado da luta, para saber a quem devia proclamar: — on 
antes qne lhe deram o nome de António, quando pensavam 
qne sma aclamado o Prior do Crato, e lhe acresoentarauí o 
de Felippe, para depois^ de algum modo remediar o eugauo. 
— Com isto queremos dizor que o Camarilo deveria ter dt) 
idade quando falleceu, em 1648, sessenta e oito aunos, e mais 
os que ja teria quando o báptisaram: — em todo caso tinha 
pelo menos sessenta e oito aunos; o havia mais de quarenta 
qne, pela primeira vez, passái-a a Bahia, com outi*o8 da sua 
nação, no , tempo do capitão mor Álvaro de Carvalho, para ali 
acudir em uma invasão de Aimorés, da qual encontraram des- 
afogada aquella cidade, pela industria de Álvaro Uodrigues, 
da Caxoeira. Prosigamos porém com a nossa narração. 

Depois da derrota que levara uos Guararapan, o intruso 
hoUandez nada ousava emprehender por terra. Apenas em 
maio, havia feito um reconhecimento saindo do forte de Alteni, 
e depois outro do lado da Barrota, para cousaguir algum 
prisioneiro do qual podesse ter noti(^ÍA do que se passava uo 
acampamento contrário. Por mar porém os seus brios se redii- 
biraTam, aggredindo quanto podia, e isto apezar da falta <ie 
%iiielligencia entre os do Conselho e o vice-almirante Wítte Cor- 
nélia De Witte. Cora uma esquadra de uove barcos de gueiru, 
além de vários menores, o mesmo vice-almiraute conseguiu 
fazer muitas prezas, do mez de maio em diante. K saíudjo 
outra vez ao mar^ em priucipios de De^^embro, foi encoutriO'- 
se com alguns navios, pertencentes á esquadra do Conde de 
Castd-Melhor, e conseguiu tomar um barco inglez fretado, 
gaameddo de vinte e nove canhões, além de outro uimi)i^, e 
uma galiota (8. Bartolomeu). Uma fragata ^ortugueza, 
porém, chamada Eosario, sustentou coutra duas inimigas 
(Utrecht e Gissiiiugh; um aturado combate, e quando 
estas julgavam a sua contendora perdida ji a atracaram, daudo- 
Ihe a^>ordagem, foram todas tret; a pique, em virtude da ex- 

X6* 



244 LIVRO DECIMO, 

plosâo do payol da pólvora da B o sari o. cuja tripulação pre< 
feriu ir ao fundo, com os seus vencedores, a deixar-se apiisio- 
nar destes. De tão heróico feito apenas temos conhecimento, 
por um ofíicio de Schkoppe *), em outra occasiáo mal compre- 
hendido f); e sentimos que, com a notícia delle, nos não seja 
possível titosmittir o nome do destemido e abn^do offidal, 
que lançou o fogo ao payol, e deixou, nas agus^s do Brazil, 
ás gerações futui'as, um exemplo de tão nobre heroísmo. 

Alguns barcos desta esquadra hollandeza ch^ai*am á 
Bahia, com alguma tropa, commandada pelo coronel Yan den 
Brande, acompanhado do membro do Consel ho Miguel Yan' Goch. 
Depois de effectuarem no Beconcavo vários desembarques, e de 
incendiarem vários edificios é vinte e três engenhos, regressaram 
ao Becife ; e ja todos se achavam ahi de volta antes do melado 
de Fevereiro (1649). 

Os fáceis triunfos alcançados pelo inimigo na Bahia o 
animaram a intentar um novo acomettimento; e os do Conselho 
resolveram ouvir a opinião do tenente general e dos coronéis 
acerca do que se deveria fazer. Foram estes unanimes em que 
não convinha efectuar do Recife uma nova soi*tida em força, 
como no anno anterior; pois, ainda no caso de saírem delia 
victoriosos, os nossos iri^m apresentar resistência em outra 
paragem, ou se recelheriam aos 'matos; e destes os inquietariam 
e molestariam, tomando-lhes os trànspoiiies de munições e man- 
timentos, etc. Opinaram igualmente que de mais proveito seria 
uma divei^sâo contra o Rio de Janeiro; pois embora não con- 
seguissem assenhorear-se da cidade, poíeriam recolher despojos 
e prear as fazendas e engenlios nos arredores, e ainda mus 
ao sul. Ponderaram porém os do Conselho que a Assembléa 
dos XIX lhes havia estranhado o não emprehenderem, desde 
tanto tempo, nada junto do Recife, do que se queixavam tam- 
bém ali os moradores, em favor dos quaes convinha fazer' um . 
esforço para se levantar o sitio, e seguir para o sul *). 



«) Off. de 19 de Dez. de 1648. 

^) O Sr. Netscher (p. 158) viu este officio ; mas julgou sem ftin- 
damento, em virtude dos nomes S. Bartolom'eu e Rosário, 
que se tratava dos fortes da Bahia assim chamados, que 
alias nunca foram tomados por De Witte. 

») Off. 4e Schkoppe de 10 de março de 1649. 



Li\RO DECIMO. 245 

Este ultimo arbitrío foi adoptado; e na noite de 17 de 
Fevereiro (1649) mna força de três mU qninbentas e dez pra- 
ças, incluindo algumas nâo combatentes, se pnnha em marcha 
além dos Afogados, com os embomaes providos para oito dias, 
como na sahida effectoada dez mezes antes. Commandaya esta 
força o coronel Brinck, em virtnde de achar-se ainda em cura, 
da ferida qne recebera no artelho, o tenente general Sigismundo 
.van Schkoppe. Passado na vasante o rio dos Afogados, foram 
todos amanhecer na Barreta, e dáhi seguiram, em ordem de 
marcha até á abegoaria de António Cavalcanti ; e depois de um 
pequeno descanso, para se proverem de agua, que é a meltior 
do caminho, foram tomar posição nos Guararapes, occupando 
as klturas, e o passo on desfiladeiro que os nossos haviam 
primeiro occupado na acção precedente. 

Informado Barreto desta marcha, levantou campo, e, 
com uns dois mil e seiscentos homens, se dirigiu logo, pro- 
vavelmente pelo caminho da Ibora e Zumbi, para os mesmos 
Guai-arapes, onde, pela volta das quatro da tarde, avistou os 
contrários, ao ch^ar a uma altura, que chamavam do Oi ti- 
seiro (nâo o Tireyro como saiu impresso no Portugal 
Bestaurado), talvez em virtude de alguma arvore mais 
corpulenta das que produzem os oitys, e que ahi abundam. 

Nessa tarde nada occorreu de notável; mostrando-se 
apenas de longe pequenas escoltas de a pé e a cavallo, contra 
as quaes disparou o inimigo alguns tiros, com as suas peças 
de campanha. Uma tal aparição dos nossos por esse lado, e 
xun rebate talão que de noite dahi deram, levou o mesmo ini- 
migo a estabelecer dessa banda guai-das e vedetas, e a levan- 
tar trincheiras passando qus(si toda a noite alerta; sendo que 
logo Barreto se aproveitava da escuridão da mesma noite para 
a^gíúr ao engenho chamado dos Guai-arapes, fazendo as suas 
tropas bivacar na vai-zea de cannaviaes e mato, ao sul dos 
montes do mesmo nome, apoiando-se nos alagados, e contor- 
neando já qúasi o inimigo pela banda do sul. 

Somente ao amanhecer poude Brinck reconhecer o que 
lhe passara; e tratou logo de mudar a sua piimitiva linha 
de batalha, collocando-se com a fluente para a várzea, sobre 
o alto do valle ou boqueirão, em cima do qual s^ vô hoje 
alvejar a igreja de N. Sr.* dos Prazeres. Em todo caso, as 
suas tropas tinham levado toda a noite em vela, ao passo que 



248 LIVKO DECIMO. 

Em acção de gi*ãças por esta victóría e pela anterior, 
alcançada proximamente no mesmo local, mandon Ban*eto, de- 
pois de acabada a guerra, edificar, á sua cnsta, uma 
capella, confiando-a aos Benedictinos de Pernambuco '), os quaes 
mais tarde (1782) a converteram na magnifica igreja que 
hoje campeã no cimo dos montes. Ainda, entrando nella» o 
viajante pode ler, em uma gi-ande lousa preta de onze páhnos 
de comprimento e quatro de altura, linha por linha e lettra 
por lettra, a seguinte inscripção *) : 

16S6 

o MESTRE DE CJINFO ^ OENERiL DO ESTADO DO BEAZIL FUMiffiGOvBill 
RETO HANDOr EH ACÇÃO DE GRAÇAS EDEFICAR ASTA C?ST1 BTl 
CAPEIA A VIRGEM SENHORA NOSSA DOS PRAZERES COI CTIO fAT 
OR ALCANCOT NESTE LTGAR AS DTAS MEMORATSIS TICTOUAS 
CONTRA « INEMIGO GLANDES APRHEIRA EH 18 DE IBRIL Dl K48 H 
DOMINGO DA PASCHOELLA TESPORA DA ^ DIHA S8NH(HIA AM 
NDÂ EM 18 DE FETEREIRO DE 1649 EM HTA SEITA FEIRA t TLTDUB 
NTE EM 27 DE lANEIRO DE 1654 GANHOT O RECIFFE E TODAS AS MAB 
PSASSAS (ITE O INEMIGO PESTHIO 24 ANNOS. 

Quando, ha alguns annos, propúnhamos que a gpratidão 
nacional ') elevasse nos montes Guararapes um monomento 
em memória das duas assignaladas victórias nelles alcançadas, 
ignorávamos que ja esse voto estava realisado, de um modo 
bastante digno, na igi-eja de N. Sr.* dos Prazeres* 



') Mello, I, 186. 

*) Ck>piada no dia 28 de março m 1861, aeompanhando-nos, 
o nosso fftllecido amigo (ao depois senador) Sá e Albnqnergiie, 
filho do 1.° barSo dos Guararapes. Na era (1656) o 5 está vor 
vertido conforme transcrevemos. Ha que advertir , que eiti 
2.* batalha foi também a 19, não a 18, como se lé na cunpt. 
O dia 18 foi uma quinta feira nao sexta. Veja ante a noti 
de pag. 230. 

') Ab seguintes linhas que a este respeito publicávamos, em 
1857, parecem hoje uma recommendapao desnecessária, quando 
ultimamente já se hão dado, a vários barcos de guerra e a 
differentes ruas da capital, nomes de Brazileiros illnstrei: 
„A gratidão nacional pelos seus heroes (dixiamos na pag. 21 
do Tom. 2.^ da Historia Geral) é não só nobre oomo cítíIí- 
sadora; tem o estimulo desta e das demais recompensai glo- 



LIVRO DECIMO. . 249 

Se a primeira yí« tóiia nos Guararapes seryíra de alentai' 
os estadistas de Portugal para se opporem á cessão ou venda 
de Pernambuco, esta segunda veiu desalentar os estadistas e 

' os mercadores da Hollanda, demonstiando-lbes evidenteoiente 
qúe, só mediante grandes sacrifícios, poderiam continuar man- 
tendo esta conquista. 

Porém a hora da final expulsão dos intrusos não tinha 
chegado, e não yeiu a soar senão perto de cinco annos depois. 
Associaram-se, entretanto , á época desta segunda victória, 
dois acontecimentos que. devemos aqui consignar. Um del- 
les, o da criação na metrópole de uma Companhia Geral 
de Commercio par^ o Brazil (resolvida por alvará de 6 de 
Fevereii'0 e estatutos de 8 de março) veiu a contribuh* não 
pouco pai'a a conclusão da guerra ; * porquanto (pelos ai*tigos 
43 e 45) se obrigou a mesma Companhia a codcorrer pai*a a 
fecupei*ação dos portos que estavam em poder do inimigo. O 
outro acontecimento, que se associa proximaimente á época da 

. s^unda victória nos Guararapes, é de natureza lúgubre. Foi 
a desastrosa morte que teve o governador geral António Tel- 
les, que tanto a peito havia tomado a causa da restauração de 
Pernambuco, e que, depois de a deixar já quasi triunfante, 
veiu, quando se recolhia á pátria, a perecer afogado nas aguas 
de Buarcos, por dar ahi á costa o navio N. Sr.^ daCouceição, 
da frota do Conde de Castel-Melhor, que o conduzia. 

Se bem que da instituição da Companhia Genal de Com- 
mercio vieram a resultar, mais ao diante, ao BiUeíI muitos 
prejuízos, — dos sempre inherentes aos monopólios, não se 
pôde duvidar que ella, .por isso que estava até em seus inte- 
resses, veiu a prestar auxilio a favor da restauração de Per- 
nambuco, começando logo a trazer aos combatentes alguns 



riosas a heroeidade e o deBlnteresse rarearSo: o culto de re- 
conhecimento rendido á memória dos cidadãos generosos que 
exposeram a sua existência, ou o seu sangue ou parte do seu 
odo e melhor-estar de suas famílias e seu, não é só justo e 
grato, como altamente politico. Favorecei, ao menos, a memória 
de vossos heroes, de vossos escriptores, de vossos artistos, 
e a vossa nação terá artistas, terá escriptores e terá heroes. 
E se não podeis levantar padrões, ao menos, entretanto, 
comm^morae os seus nomes pelos outros meios de que 
dispondes: commemorae esses nomes nos barcos d^ 
guerra,** etc. 



250 LIVRO DECIMO. 

socGorros a primeira frota, que partiu de Lisboa em 4 de 
novembro (1649). 

Os sitiados no Recife viam-se cada dia em novos apa- 
ros ; TxmBá vezes por falta de dinheiro, com que efectuar o 
pagamento da tropa; outras por escacez de viveres; não pou- 
cas em virtude de conflictos de jurisdicção entre as autorida- 
des; e, em gersd, pelo abatimento. e descontamento de todos. 
A princípio não se faziam taes males sentir tanto, com a 
presença da esquadra, composta, dei cruzeiros particnlares e 
navios de guerra do Estado» que com elles fovorecêra a Com- 
panhia hollandeza no interesse da conseiTaçâo da conquista: 
ao todo uns doze barcos, que, ás ordens do coronel Hautyn, 
bloqueavam o porto do Cabo, recolhendo-se porém ao Bedft^ 
quando temiam a aproximação da frota da Companhia porta- 
gueza. Nesse bloqueo foi tomado o navio francez YiUeroi, de 
vinte e sete peças e seis pedreii*os; perdendo-se nos recita 
mais quatro, de oito que ali chegavam com viveres e géneros. >) 

Na Europa as negociações entre os dois governos, de 
Portugal e das Províncias Unidas, não conduziam a resultado 
algum. Retirado o embaixador Francisco de Souza Coutinho, 
pela recredencial de 5 de março de 1649, por não haverem 
sido approvados os arranjos por elle ja aceites, em virtude 
das ordens que recebera, e sobrevindo a Portugal novas difi- 
culdades i)ela interrupção de suas relaçdes d^amisade com a 
Inglaterra, cujos destinos diiígia o arrogante Cromwell, pro- 
poz-se a entrar de novo em negociaçOes com as Provindas 
Unidas, escolhendo pai-a embaixador (em logar de D. Luís 
Portugal , que fora nomeado e não seguira ao seu destino) a 
António de Souza de Macedo. Entrou este novo embaixador 
na Haya em Setembro de 1650, com o encargo de negodar 
o obter Pernambuco, a troco de uma indemnisação em dinheiro, 
e outras concessões. As Altas Potencias regeitaram todas as 
propostas; e assim o faziam saber para Pernambuco, em 
10 de Fevereiro seguinte (1651), acrescentando que haviíB 
assignado ao mesmo embaixador um prazo pai*a ajustar a pai, 
conforme elles a desejavam. Em resposta ponderou Schkoppe 



*) Off. dos do Conselho de 6 de Set de 1650. 



LIVBO DECIMO. 261 

ae, em todo e caso, necessitaria de mais soldados; mas que, 
) fosse decidida a gaerra, seila essencial tomarem a Bahia \ 
sem o que nnnca fariam fíncapá no Brasil." 

Entretanto tinha chegado, aos mercadores hoUandeses do 
lecife, a notícia de que se tratava de vender Pernambuco a 

Portugal; e isso lhes havia causado grandes inquietaç5es, 
B quaes com tudo nâo se di^iinuiram ao terem a certeza da 
uptora das n^ooiaç5es, por isso que vinha a noticia acom- 
anhada da da probabilidade de uma próxima guerra com 
*ortúgal. 

Os do Conselho do Eecife, ao darem disto conta *) para 
. Hollanda, acrescentavam que a indigência, era acabrunhadora, 
ue caminhavam para a mais completa anniquilaçâo , que a 
ropa estava desalentada, e exigia dois mezes de paga, e que 
^se chegasse algum dia a ruinéi do Estado, elles uão 
e julgariam por élla responsáveis. ** E concluiam o officio 
izendo: „ Melhor houvei-a sido que tivessmnos aberto mão 
esta conquista desde muito, do que pretendermo-nos manter 
ia perspectiva que nos espera: se bem que sería de lástima 

pouco honroso paia o Estado, nâo justificável ante a pos* 
eridade, e irrisório aos olhos dos moradores e dos interessa- 
los, tanto aqui como na mai-patria, abandonar tão gloriosa 
K>ii€[uista/ 

A situação aflictiva e desesperada dos sitiados se empe- 
traTa, ainda mais, em meio de algumas novas vantagens, que 
lonseguiam os seus Corsários, com a chegada de máos recrut- 
as cheios de moléstias; e os quaes entretanto apenas faziam 
labir a duas mil sete centas sessenta e uiha praças, entre 
rálidas e inválidas, a totalidade da guarnição; na qual come- 
çava, de dia para dia, a deserção a ser mais frequente; A 
lesmoralisação ei*a grande; e a muitos se ^haviam acabado os 
)razoB dos contratos, e outros insistiam por licença. Acresceu, 
lara augmentar a calamidade, uma grande seca, que foi geral 
^r todo o Brazil, e se repetiu no anno seguinte; fazendo- 
le mais sensível entre os HoUandezes, principalmente na 
Parahiba e Bio-Grande, onde uns quinhentos dos nossos in- 



O Off. de 24 de maio de 1651. 
*) £m ofi; de 19. de Set de 16Õ1. 



252 LIVRO DECIMO. 

vadiam todo o paiz, matando colonos allemâes e leyando ob 
escravos; e também no Ceará, cujo chefe Garstman, nos ulií- 
mos apuros, chegou a mandar por terra, a pedir alimentoB, 
um alferes e um sargento ^); os quaes do Becife nada alcan- 
çai-am; por se apresentaiem ahi justamente quando a guarni- 
ção se achava reduzida a uma pequena ração de pâo , s» 
carne nem toucinho; miséria que ainda cresceu, a ponto dB 
que quando, aos 14 de outubro, chegou um navio com hr, 
rinha, havia onze semanas que nem pâo se distribuía, e m 
fomos se conservavam apagados. Yaleu-lhes, no emtaato, aoB 
do Ceará, alguns animaes de um certo Beck ^), qae ahi pas- 
sara em busca de minas de prata; pois, reduzidos a tempo a 
charque e a moquem, nem vieram a ser comidos pelos IndÚM^ 
nem a morrer por falta de pastos, é serviram aos necessitato 

Ja começava a ser geral a crença de que o Bedft k 
cair,- mais dia, menos dia, pela fome'), ou de que os sea 
próprios defensores se resolveriam a retíràr-se ^) daiído Mê 
por perdido. A deserção crescia, contando-se cincoenta Ymoi, 
desde 15 de maio a 16 de. julho. A certeza do rompunaoii 
de uma guerra, enti-e a HoUanda e Inglaterra, aoabán è 
desanimai' a todos. 

Para recorrer, no meio de tantas calamidades, aosAlii 
Poderes do Estado resolveram os Hollandezes do Bedfé n» 
dar á pátria três emissários : Gaspar van Heussen, Jacob Ht* 
mel e Abraham de Azevedo (em nome este último dòs isn»- 
litas); os quaes foram portadores de um officio dos do Goi- 
selho, pedindo que se, em virtude dos vicissitudes qae rttd- 
tassem da guerra com a Inglaterra, fosse impossivel consernr 
o conquistado, ao menos se negociasse com Portugal aoem 
da propriedade e dos foros, tanto dos conquistadores, tm 
dos judeos e dos índios. — Em officio de 16 de Jhlho;(16l9) 
acrescentava o tenente general Segismundo : „Deii8- nós tfli 
protegido até agora de um modo evidente, tirando ao iniiqp 
o valor, ou dando-lhe excesso de prudência para nio en^i^ 



') Off. de Sig. de 16 de Jnl. de 1662. 

') Yeja-se a carta do mesmo Beck, escripta da Barbadot emSj 

de Out. de 1654. 
*) Off. dos do Cons. de 8 de maio de 1652. 
*) Off. dito de 13 de Julho de 1652. 



LIVBO DECIMO. 258 

ider o ataque: pois, se tal lhe occorre. e' mais que pro- 
rel que esse ataque nos será funesto.'' 

Em 5 de setembro s^uinte, ponderavam os do Conselho 
9 a frota portugueza seguira da Bahia para Portugal ; e que, 
58 tivessem bloqueado, se haveriam rendido * porém que pro- 
relmente o haviam julgado desnecessário, reconhecendo que 
L „certa, inevitável e próxima a ruiua daquella conquista.'' 
Qcluiam o officio, dizendo : ,,Sirva o que precede 
mo último aviso a V. A. Poderes, e a nós 
• mo de descarga par a o futur o." *) 

Desesperado pela falta de providencias da metrópole, 
olveu-se a partir, sem licença, a conselheiro Van Goch, em 
de Fevereiro de 1653; e^ três mezes depois (21 de maio), 
outros dois membros do Conselho, Schonemborch e Haecx, 
liam a dimissão; e não havendo tido resposta até 10 de 
rembro, escreviam nesta data que se recolheriam, em todo 
4), para a Europa na próxima primavera. 

Quiz Deus que viessem a cumprir a sua resolução, sem 
em nelia tamanha responsabilidade. 

Havendo, nesse mesmo anuo de 1653, no dia 9 de Junho, 

corsários particulares da costa do Brazil, protegidos pelos 

llandezes, surprehendido com vantagem a frota da Compa- 

a portugueza de desoito navios, fazendo-lhe até quati-o 

sas, resolveu a Corte que se tentasse o assalto do Becife; 



') Kote-se que este desconsolo nao provinha senão de estarem 
desatendidas as fortalezas, que então possuiam os intrusos 
no Brazil. Ainda em 1653 contavam elles trinta em seu 
poder, montando ao todo t^esentas e dezenove peçieis ; a saber 
em Pernambuco, a do Kecife com 26; a de Mauricia com 
22 ; o Forte Ernesto com 17 ; o Werdenburgh com 2 ; S. Jorge 
com 31; o Forte do Mar com 7; o Brum com 21; Madame 
Brctm com 5 ; Salinas com 2 ; Goch com 12 ; Altenar com 10 ; 
Cinco- Pontas ou Pentágono com 16; Rçducto de pedra com 4; 
Boa-Vista com 2; Reduto Esfalfado com 2; Afogados com 

' 15; Avançada da Barreta com 2; Barreta com 10; ilha ao 
norte da Barreta com 5;emltamaracá, a Villa-Schkoppe 
com 5; o Forte de Orange com 13; Os Marcos com 4; Ta- 
pecima com 5; na P-arahiba, o Cabedello (ou MargarFda) 
com 33; a Restinga com 10; S.*° António com 6; a Aldèa 
Schonenborch com 7; e Guaraú com 3; no Rio-Grande 
o forte (Ceulen) com 31; e finalmente no Ceará, o forte 
(Schonenborch) com 11. (Doe. official.) 



254 LIVEO DECIMO. 

partindo pai*a isso de Lisboa, muito mais reforçada, a frota dt 
me.- ma Companhia, cujo mando foi confiado a Pedro Jaques 
de Magalhães, ao depois 1.® Visconde de Fonte Arcada. Apre- 
sentou -se esta frota diante do Recife aos 20 de DezemlKo, 
ti*azendo instrucç5es para, com a sua presença, dar ahi lerçi 
moral aos ataques. 

Concertado o plano entre os chefes do exercito restao- 
rador e o da frota/ foi assentado que se tentasse tomar pri- 
meiro as obras avançadas do continente, mais próximas a 
Olinda. Dirigidas as trincUriras e aproxes contra o forte do 
Eego, capitulou este na noite de 15 de Janeiro (1654), com i 
oito ofíiciaes e setenta soldados. — Seguii*am-se os aproxfls 1 
contra o forte immediato , denominado pelos Hollandeaes di E 
A 1 1 e n a r , cuja guarnição de cento e oitenta e cinco praças, l^ 
obrigou o seu commandaute Berghen a levantar bandeira braíia m. 
no dia 19 á tarde. 

Na noite immediata (de 20)^ resolveu o inimigo coneen* 
trar todas as suas forças no Recife, retirando a guarnição qm 
tinha nos Afogados. Esta resolução, e a denúncia, que chqoi 
a^s nossos, de que occupado certo posto em frente do fuii 
pentágono ou de Cinco-Pontas, ficaria a Praça sem agua^ foni 
causa de que se reunisse um novo conselho, no qual foi dft* 
ddido mudar-se o plano do ataque, proseguindo-o do outro ladOí 

Passaram para ahi as necessaiias tropas ás ordens de 
André Yidal; e então o inimigo se adiantou a mandar dm 
banda occupar, com cincoenta homens, ás ordens de nm fflte 
do fallecido coronel Brinck, o antigo reducto Amélia, è 
novo appellidado M i l h o u , a umas duzentas braças além do 
mencionado forte das Cinco-Fonias , no sitio hoje denominad» 
Cabauga. 

No dia 21, ás nove da noite, Vidal, depois de espenor 
que vasasse a maré, passou a apoderar-se do referiAo antigo 
forte Amélia; e, no dia seguinte, e no immediato, segma 
avançando com os competentes aproxes, contra o forte dai 
Cinco - Pontas. Pouco antes fora commandante deste forte •' 
transfuga Ciaes; porém, por temor talvez de cair em poder < 
dos nossos, havia insistido em ser do m^indo separado, aób 
pretexto de estar em desintelligencia com os subordinados; o 
lhe havia sido dado por successor Waulter van Loo. ConthiD- 
avam da parte dos nossos os aproxes, quando, pelas três da 






LIVRO DECIMO. 255 

tarde do dia 23, saiu do mesmo forte o dito Yan Loo, com 
uma carta para o mestre de campo general Francisco Barreto, 
pedindo-lhoN ouvisse o portador. Era o encargo deste pedii* que 
^jBsde logo ficassem as hostilidades suspensas , nomeando cada ^ 
yiurte três deputados para tratar de pazes. Accedeu Ban*eto 
ao pedido; aprazando o dia seguinte pai-a se começar o 
ajnste, que foi todo celebrado em duas tendas levantadas 
na mesma campina fronteira ao forte das Cinco-Pontas, então 
' chamada do Taborda, por ahi ter morado um pescador Manuel 
Taborda Foi'am nomeados commissarios , da nossa parte , o 
auditor geral Francisco Alvares Moreira, o capitão secretario 
- do exercito Manuel Gonçalves Corrêa e o capitão reformado 
^ Affonso d* Albuquerque ; e, por parte dos Hollandezes, o con- 
selheiro Gisbert de With, o presidente dos Escabinos e direc- 
tor das barcas pichelingues do porto, Huybrecht Brest, e 
o mencionado capitão Yan Loo. A estes se aggregaram, para 
tratar dos assumptos da milicia, pela nossa parte André Yidal, 
e pela dos Hollandezes o tenente coronel Yan de WalL A 
eapitulação foi assignada no dia 26 á noite, sob as seguintes 
condições : 

1. „Qae o senhor Mestre de campo general Francisco 
Barreto dá por esquecida toda a guerra que se tem cometido 
por parte dos vassallos dos senhores Estados Geraes das Pro- 
TÍBCÍas e da Companhia Occidental contra a Nação Portuguesa, 
oa Mja por mar, ou seja por teiTa, a qual será tida, e es- 
quecida^ como se nunca houvera sido commetida.^ 

2. „ Concede a todos os sobreditos vassallos que estão 
debaixo da obediência dos senhores Estados Geraes, e a todas 
as pessoas súbditas aos ditos éenhores, tudo o que for de bens 
moveis, que actualmente estivessem possuindo/ 

3. „ Concede aos vassallos dos ditos senhores Estados 
Geraes, que lhes dará de todas as embarcações, que estão 
dentro do Porto do Recife, aquellas que forem capazes de 
passar a linha, com a artilharia que ao senhor Mestre de 
eampo general parecer bastante para sua defensa, e desta não 
será nenhuma de bronze, excepto a que se concede ao senhor 
General Segismundo Schkoppe nos Capitules das condições 
militares." 

4. ;,Concede a todos os vassallos acima referidos, que 



256 LIVEO DECIMO. 

quiserem âcar nesta terra debaixo da obediência das Armas 
Portugnesas, qne serám governados, e estimados como os mais 
Portugueses ; e no tocante á religião vivirám em a conformidade 
que vivem todos os estrangeiros em Portugal actualmente." 

5. ff Que os Fortes situados ao redor do Recife , e villa 
Mauricia, a saber o Forte das Cinco Pontas;, a Casa da Boa 
Vista, o Mosteiro de Sancto António, o Kate (sic) da Tilla 
Mauricia, o das Três Pontas, o Brun com seu Beduto, o Gas- 
tello Sam Joi*ge, o Castello do Mar, e as mais Casas, Fortes, 
e batarias, se entregaram todas á ordem do senhor Mestre de 
campo general, logo que se acabar de fírmar este acordo, e 
concerto, com a artilhai-ia, e munições que tem." 

6. „Que os vassallos dos ditos senhores Estados G^aes 
moradores no Becife, e cidade Mauiicia, poderám ficar nas di- 
tas praças por tempo de três meses, com tanto que entreguem 
logo as armas, e bandeií-as, as quaes se meteram em lim al- 
mazem á ordem do senhor Mestre de campo general, durante 
os ttes meses; e que quando se quiserem embarcar, ainda 
que seja antes dos três meses, Ih^as darám para sua defensa; 
e logo juntamente com as ditas Forças entregaram o Becife^ 
e cidade Mauricia; e lhes concede aos ditos moradores que 
possâo comprar aos Portugueses nas ditas praças todos os 
mantimentos que lhes forem necessários pai-a seu sustento, 
e viagem." 

7. ff As negociações, e alienações que os ditos vassaUes 
fizerem em quanto durarem os ditos três mesesV' serám feitas 
na conformidade acima referida.** 

8. „Que o senhor Mestre de campo general assistirá com 
o seu exercito aonde lhe melhor parecer; mas fará que os' vas- 
sallos dos senhores Estados Geraes nam sejao molestados, nem 
avexados de nenhuma pessoa Poiiiuguesa, antes serám tratados 
com muito respeito, e cortesia; e lhes concede que nos ditos 
três meses que hâo de estar nesta terra, possâo decidir os 
pleitos, e questões que tiverem uns com outros, diante de sens' 
Ministros de Justiça." 

9. „Que concede aos ditos vassallos do-t senhores Esta- 
dos Geraes, que levem todos os papeis que tiverem de qualquer 
sorte que sejâo, e levem também todos os bens moveis que 
lhes tem outorgado o senhor Mestre de campo general no 
terceu-o artigo." 



LIVRO DECIMO. 257 

10. „Que poderám deixar os ditos bens moveis acima 
3atorgadoSy que tiverem por vender ao tempo de sua embar- 
co, aos procuradores que nomearem de qualquer nação que 
seja, que fiquem debaixo da obediência das armas Portuguesas. ** 

1 1. „Que llies concede todos os mantimentos, assi secos, 
como molhados, que tiverem nos almazens do Eecife, e Forta- 
lezas, pai*a se servirem delles, e fazerem suas viagens, largando 
aos soldados , os de que elles necessitai*em para seu sustento, 
B viagem ; mas não lhes outorga, o massame para os navios, 
porque promete dar Ih^os aprestados, para quando partirem 
para Hollanda,^ 

12. „Que sobre as pretensoens, e dividas que os ditos 
yassallos dos senhores Estados Geraes prôtendem da naçam 
Portuguesa, lhes concede o dii*eito, que Sua Magestade o 
senhor Rey de Portugal decidii-, ouvidas as partes." 

13. nQue lhes concede, que as embarcaçoens pertencen- 
tes aos ditos vassallo^, que chegarem a este porto, ou fora 
delle, por tempo dos primeiros quatro meses, sem terem no- 
ticia deste acordo, e concerto no, lugar donde partirão, que ' 
possão livremente voltar para HoUanda, sem se lhes fazer 
moléstia alguma.^ 

14. „Que concede aos ditos vassallos dos senhores Es- 
tados Geraes que possão mandar chamar seus navios, que 
trazem nesta costa, para que neste porto do Eecife se possão 
também embarcar nelles, e levar os bens moveis acima 
outorgados." 

15. ,,E nòque toca ao que os ditos vassallos pedem 
sobre não prejudicai* este assento, e concerto ás conveniências 
que puderem estar feitas entre o Senhor Bey de Portugal, e 
os senhores Estados Geraes, antes de lhe chegar á notícia este 
dito concerto, e assento : não concede o senhor Mestre de campo 
general; porque se não intromete nos taes acordos que os ditos 
senhores tiverem feitos; por quanto de presente tem exercito, 
e poder para conseguir quanto emprender em restituição tam 

As condições sobre a Milicia, e cousas tocantes a ella 
ise reduziram ás seguintes: 

1. „Que todas as offensas, e hostilidades que da parte 
dos senhores Estados Geraes, e seus vassallos se tem cometido, 
se esquecem da nossa, na conformidade acima refevida.** 

17 



258 LIVRO DECIMO. 

2. „Que o senhor Mestre de campo general concede que 
os soldados assistentes no Eecife, cidade Manrída, e soas 
Forças, saiaQ com suas armas, mecha acesa, balas em boca^ e 
bandeiras lai'gas: com condição que passando pelo exerdto 
Português apagaram logo os murr5es, e tiraram as pedras âas 
espingardas, e caravinas, e meteram as ditas armas navcasa» 
ou almazem que o senhor Mestre de campo general lhes no- 
mear ; das quaes o dito senhor mandará ter cuidado para Ih^as 
entregarem quando se embarcarem, e só ficaram com ellas 
todos os Officiaes de Sargentos pai*a cima; e que quando se 
embarcarem seguii'ám direitamente a viagem que pedem para ob 
portos de Nantes, ou a Eochela, ou outros das Provindas 
unidas, sem tomarem porto algum da Coroa de Portugal: pan 
fii'meza do que deixaram os rassallos dos ditos senhores Esta- 
dos Geraes em reféns três pessoas, a saber um Offidal mayor 
de guerra, outra pessoa do Conselho supremo, e outra dos 
moradores vassallos dos senhores Estados Geraes ; e que os 
Officiaes de guerra, e soldados desta Praça do Bedfe, e mui 
Forças juntas a elle, se embarcaram todos juntos em companhi» 
do senhor General Segismundo Schkoppe; com condição qv 
se entregaram piimeiro á ordem do senhor Mestre de campo 
general as Praças, e Forças do Bio Grande, Paraíba, e I^ 
maracá, deixando as pessoas que se pedem nos reféns, pan 
cumprimento de tudo o referido neste capitulo." 

3. „Que concede ao senhor General Segismundo Schkoppt, 
que depois de entregues as ditas Praças, e Forças adma refai- 
das, com a artilharia que tinhaõ antes, ou até a hora da chegada 
da Armada, que ora está sobre o Recife, leve vinte peças dfl 
bronze sorteadas de quatro té dezoito libras, além das peças de 
ferro que forem necessárias para defensa dos navios que fom 
em sua companhia, as quaes peças lhe dará, com suas carretai, I 
e muniç5es necessárias ; e toda a mais artilharia, mimiçSes, e 1 
train, se entregaram á ordem do senhor Mestre de campo I 
genei*al." | 

4. „Que o senhor Mestre de campo general lhe concede 
as embarcações mais necessárias para a dita viagem na coa- 
formidade acima referida." 

5. „Que o senhor Mestre de campo general lhe concede 
os mantimentos na conformidade em que estão concedidos no 
Capitulo 11. acima; e dado caso que não bastem os ditos num- 



LIVEO DECmO. 259 

timentosy o senhor Mestre de campo genei*al promete dar os 
de que necessitarem os soldados.^ 

6. „Qae o senhor Mestre de campo geneml concede ao 
senhor Gleneral Segismundo Schkoppe qae possa possuir, alie- . 
nar, ou embarcar quaesquer bens moveis, ou de raiz que tivei* 
QO BecifOy e os e3craY0s que tiver comsigo, sendo seus; e que 

o mesmo favor concede o senhor Mestre de campo general aos 
offidaes de guerra, sendo os taes bens legitimamente seus até 
a hora da chegada da Armada a esta costa; e concede aos 
officiaes de guerra, que possa5 morar nas casas em que vivem 
até a hora de sua partida. ** 

7. gO -senhor Mestre de campo general concede que os 
soldados doentes, e feridos se possão ourar no hospital em que 
eeiSo, té que tenhâo saúde para se poderem embarcar.^ 

8. „Que em quanto estiverem os soldados do senhor Ge- 
neral Segismundo em terra, não serám molestados, nem ofen- 
didos de pessoa alguma Portuguesa; e em caso que o sejaS, ou 
lhes feição alguma moléstia, se dará logo conta ao senhor Mes- 
tre de campo general, pai*a castigar a quem lh'a fizer." 

9. „No tocante a irem juntos com os soldados que hoje 
eetâo no Eecife, os que se renderão, e a.prisionarão antes deste 
acordo, e assento, não concede o senhor Mestre de campo ge- 
neral, porque tem já dado comprimento ao que com olles ca- 
pitulou sobre sua entrega.^ 

10. „0 senhor Mestre de campo genei*al concede perdão 
a iodos os rebelados, especialmente a António Mendes, e a 
todos os tQais índios assistentes nas Praças, e Forçai do Be-. 
dfe; e,da mesma maneira aos Mulatos, Mamalucos, eNegi*os; 
mas que lhes não concede aos ditos rebelados a honi*a de sahi- 
rem com as armas.** 

11.' „Que tanto que forem assinadas as ditas capitula- 
ções, 80 entregaram á ordem do senhor Mestre de campo ge- 
neral as Praças do Eecife, e cidade Mauricia, e todas as mais 
Praças com sua ai-tilharia, train, e munições: e que o dito se- 
nhor Mestre de campo general se obriga a dar a guarda ne- 
ceeearia para que no alojamento das ditas Praças esteja com 
segurança a pessoa do senhor General Segismundo Schkoppe, 
e mais of^ciaes, e ministros, durante o tempo concedido.** 

12. „E no que toca ao que o dito senhor S^ismundo, 
e seus soldados pedem, sobre lhes nao prejudicar este concerto, 

17* 



260 LIVEO DECIMO. 

e assento ás convenieucias que puderem estar feitas, entre o 
Senhor Eey de Portugal, e senhores Estados Geraes, antes de 
lhe chegar á noticia este dito concerto, e assento : nSLo concede 
o senhor Mestre de campo general, porque se não intromete 
nas taes conveniências, porquanto tem exercito, e poder para 
conseguir quanto emprender em restituição tam justa. 

13. E sobre todos estes capítulos, e condiçoens acima con- 
tratados se obrigão os senhores do supremo Conselho residen- 
tes no Eecife. a entiegar também logo á ordem do senhor 
Mestre de campo general, as Praças da Ilha de FemaS de 
Noronha, Ciará, Eio Grande, Paraíba, e Ilha de ItamaracáJ 
com todas as suas Forças, e àrtilhaiia, que tem^ e tinhão até 
a chegada da Armada Poiiuguesa, que de presente está sobre o 
Recife, e o train de artilharia, e mais muniçoens : com condição 
que os moradores, e soldados assistentes nas ditas Pi*aças, e 
Forças, gozaram dos mesmos privilégios, e condiçoens concedi- 
das aos moradores, e soldados da Praça do Eecife^ mas que 
o senhor Mestre de campo general será obrigado a mandar ao 
Ciará húa náo sufficiente para se embarcar nella a gente, assi 
moradores, como soldados vassallos dos senhores Estados Geraes, 
com os referidos bens; a qual náo levará mantimentos para 
sustento da viagem das ditas pessoas, que se embarcarem do 
Ciará; e que todos os navios, e embarcações, que estiverem 
naquelles portos do Eio Grande, Paraiba, e Ilha de Itamaracá 
capazes de poderem passar a linha, Ih^os concede o senhor 
Mestre de campo general para sua viagem, e trespasso de seus 
bens; mas que não levaram artilharia de bronz'^ e só lhes dará 
o senhor Mestre de campo general a de ferro que bastar para 
sua defensa ^). 



^) Prosegue: „0 que tudo atraz referido se obrigão de hâa, 
e outra parto a cumprir, e guardar, sem duvida, nem embaigo 
algum o senhor Mestre de campo general, e os senhores ao 
supremo Conselho assistentes no Eecife, e o senhor General 
Segismundo Schkoppe, sendo assinados pelos Deputados doi 
ditos senhores remetidos a esta campanha do Taborda paa 
as ditas condições, sobre a entrega do Eecife, e mais Praças 
nellas nomeadas; e para mais firmeza assinaraS aqui tam- 
bém os ditos senhores. Hoje 26 de Janeiro 1654 annos.'' 

Seguiam as assignaturas dos oito commissionados, jnn- 

- tando-se, por parte dos Hollandezes, a do Presidente 

Schonenborch, a do Tenente General Sigmuud van 



LIVEO DECIMO. 261 

As còndiç5es, acima referidas, foram, quasi com a mesma 
hogi*aphia, as qne nesse mesmo anno de 1654 se imprimi- 
1 em Lisboa, em uma E e 1 a ç ã o que temos presente. Po- 
a D. Francisco Manuel do Mello as publicou depois com 
umas variantes, sendo as mais notáveis, a de seguirem, na 
em da numeração, os artigos militares, e comprehenderem-se, 
10 2.* e 5.* das primeiras condições, as seguintes que não 
achavam no texto que transcrevemos: 

„ Também seram comprendidas neste acordo todas as na- 

ns de qualquer calidade, ou religiám que sejam; que a to- 

í perdoa, posto que hajão sido rebeldes á Coroa de Portugal : 

) mesmo concede, no que pode, a todos os Judeos que estam 

Arrecife, e Cidade Mauricia." 

„ Concede aos Yassallos dos ditos senhores Estados Ge- 

s, que 'forem casados com mulheres Portuguesas, ou nacidas 

tej(i*a, que sejam tratados, como que se foram casados com 

uuengas, e que possam levar comsigo as mulheres. Portu- 

)sas por sua vontade.^ 

No dia seguinte ao da capitulação tomaram as tropas 
icedoras posso dos fortes exteriores e do bairro da ilha de 
ito António, denominado cidade Maui'ícia (Mauritzstad). 
nente porém no immediato, 28, á tarde, achando-se todas 
tropas em armas, se apresentou o general Ban*eto, com 
\m estado maior, todos a cavallo ; sendo esperado ás portas 
o tenente general Segismundo e seus Ajudantes, todos a pé. 
Apeou-se também o nosso general, para a cerimonia da 
epção das chaves, que então teve logar, ao som dos com- 
entes disparos de ai'tilheria e fuzileria; quadro por certo 
no de immoiialisar para o futuro o pincel de algum ai*tista 
zileiro, como o da rendição de Breda, a Spinola, immorta- 
m a Velasquez. A pé proseguiu Barreto pela cidade, levando 
nia direita o general vencido, e tratando a este, ainda de- 



Schko.ppe, e a do Secretario do governo Hendrick Haecx. 
Estas três, mal decifradas pelos nossos, acham-se, nos im- 
pressos contemporâneos, convertidas emPchyoNomboreti, 
Dignum Dezon Distoye e Ilene Havexe; e as de 
Brest, Wall eVan Loo nas seguintes: 1®. Hynj biresa 
Brog; 2*». Noicuoande Voall; 3^ VVprallgo. 



262 LIVRO DECIMO. 

pois '), com a generosidade e politica que costamam os yálen- 
tes. Junto á ponte entrou, por cortesia, em casa do mesmo 
geneYal hollandez. Encaminhoú-se logo ao Becife, sendo na 
própria ponte recebido pelos do Conselho, em cujas casas 
passou a alojar-se. 

.Os soldados hollandezes , em número de mais de mil, 
foram mandados aquai*telar-se em Olinda, distribuindo-se lhes 
uma pataca de 480 reis, a cada um. — Os índios e Pretos, 
que haviam estado em serviço delles, foram mandados encor- 
porar-se nas respectivas fileiras dos nossos. Os effeitos e mu- 
niçSes entregues eram de grande valor; comprehendendo quatro 
centos e sessenta e quatro moradas de casas (incluindo o palá- 
cio do governador), uns tresentos canh5es, tmta e oito mil 
balas, mais de cinco mil espingardas, quasi duas mil arrobas 
de pólvora, etc. etc. •) 

A governar os districtos do sul foi mandado Filippe 
Bandeira de Mello, e de tomar posse da capitania da Fára- 
hiba foi encarregado o mestre de campo Francisco de Figaei- 
roa, que a isso partiu no dia 1.^, com oito centos e dn- 
cocnta soldados. 

Pai*a tomar posse da ilha de Itamaracá foi escolhido o 
capitão Manuel de Azevedo. Mandava ahi pelos Hollandeies o 
tenente coronel Lobbrecht, e na Farahiba o Coronel Hautíjn. 
A ambos, bem como aos Commandantes do Bio-Qrande, Ubá 
de Fernando e Ceará dirigiram Schonemborch, Schkoppe e 
Haecx, no dia 31, uma circular, em hollandez, para effectoa- 
rem a entrega- de tudo, concebida, mutatis mutandis, 
nos termos seguintes : 

„Nobre, honrado, bravo! Pela convenção que assignamos, 
e vae adjuncta, podereis saber quanto, com o maior sentimento, 
nos cumpre informai'-vos. Com ella vos confoimareis, entregando, 
á ordem do Senhor Mestre de campo general, todas as forta- 
lezas ahi existentes. Pai*a este fim vão a essa os Srs. Yan der 
Wall e Brest, que vos darão todas as explicações, na confor- 



^) Por uma ordem de 7 de Fevereiro seguinte concedeii-Uie 
ainda Barreto, bem como á sua mulher e a José Francês o 
poderem transportar comsigo, livres de direitos, até quatro 
mil quintaes de páu-brazil. 

*) Veja-se o Inventario publicado em Pernambuco em 1899. 



LIVEO DECIMO. 263 

nidade das qnaes tos condazii*eis. Terminamos rogando a Deus 
lue Yos proteja." 

Succedeu porém que^ em quanto a capitulação se nego- 
áava^ havia conseguido escapar-se do Recife, em uma jangada, 
) disfai'çado em pescador, o tenente coronel Claes ^) ; por ven- 
mvB, receoso de cair em poder dós nossos, e ser julgado como 
iesertor e rebelde; o qual aportando na Parahiba, antes que 
ihi se tivesse recebido a circular acima, taes notícias aterra- 
loras espalhou, que, o coronel Hautijn, com elle e os <^emais 
Sollandezes ahi residentes, se embarcaram precipitadamente, e 
sem ao menos poderem dispor dos seus bens e escravos : estes 
som os índios, se metteram ao certao. Cumpre acrescentar, em 
tionra do coronel Hautijn, que antes de partir soltou elie os 
prisioneiros nossos que retinha; e lhes entregou a fortaleza, 
para que se defendessem contra qualquer acto de barbárie. Em 
[tamaracá o tenente coronel Lobbrecht se entregou com tresen- 
U>8 e trinta soldados. Os do Bio-Grande se haviam embarcado, 
como os do Parahiba, antes de chegar a intimação. 

Ao Ceai*á foi por mar, com tropas, o capitão Álvaro de 
Azevedo BaiTeto e ahi tomou posse no dia 20 de maio. Levou 
somsigo alguns mantimentos, por isso que a guarnição hoUan-* 
leza havia pouco antes de novo pedido, „que lhes acudissem ás 
ridas, porque se lhe retardassem pereceriam todos á fome.**^) 
O major Garstman, que outra vez ahi mandava, seguiu para a 
Martinica, onde falleceu, de doença, logo depois. 

André Vidal foi o encan-egado de levar a Portugal a 
bosta notícia; e, com feliz viagem, chegou a Lb^boa em dia 
le S. José, 19 de março. 

A boa nova «foi grandemente festejada. Na manhã se- 
s^ninte fez eli*ei cantar na Capella-real, diante dos oito tribu- 
naes da Corte, um Te Deum, que se repetiu depois nas 
lemais igrejas da capital. O mesmo rei deu novas acções de 
jpraças, indo no dia seguinte ') a cavallo á sé, e assistindo em 
procissão com toda a Corte. Logo se occupou das recompensas 



^) Nielas 86 lê na Bel. de Barb. Bacellar. Claes era ao que 
parece um diminutivo de Ni colas. 

*j Bel. Diária, de Ant. Barb. Bacellar, Lieboa, 16&4, f, 12. v. 



264 LIVRO DECIMO. 

dos que, por tantos e tão aturados ti'abalho8, as haviam 
merecido. 

"Vidal e Fernandes Vieira receberam o foro grande 
(BaiTeto ja o tinha) ; e a cada um foi dada uma commenda 
lucrativa na ordem de Christo. *) — Além disso, Barreto foi 
nomeado capitão general de Peiíiambuco, Vidal confiimado como 
capitão general do Maranhão, e Vieira nomeado capitão gene- 
ral d' Angola, governando a Parahiba em quanto o posto não 
vagasse. Ban-eto veiu a ser depois, (em 12 de agosto ide 1656) 
provido no govenio geral da Bahia, e Vidal no de Pernambuco, 
e no de Angola depois de Vieira. 

Uma provisão, de 29 de abiil de 1654, ordenou que aos 
officiaes do exercito restaurador de Pernambuco se confiassem 
os melhores cargos da capitania, e que aos soldados que nÍo 
podessem a elles aspirar, se dessem terras de sesmaria, — tudo, 
dizia a provisão, para remunerar a constância o igualdade de 
ânimo com que soffreram os trabalhos da guerra; senão como 
elles mereciam, ao menos como era possível e permittia q 
aperto em que, pelas guerras, se achavam todas as partes da 
monaixhia. Além disso , outi*a provisão da mesma data 
mandou que se destribuissem pelos que tinham feito mais 
serviços até quinhentos escudos de vantagem; isto é em 
gi*atifícaç5es, independentemente dos respectivos soldos. 

Parecia natural que á vista dos esforços, feitos pela 
coroa e pelas outras capitanias, pai*a resgatar das garras do 
inimigo as de Pernambuco e de Itamaracá, haviam estas dei- 
xado de ser de nenhuns senhonos, e se achavam isentas; 
cessando todos os foros dos donataiios, e com maior razão 
quando lhes eram também concedidos os privilégios de que 
gosavam os cidadãos do Porto. Assim o entendeu o rei, e por 
ventui-a o govenio e o povo: appellaram * porém para os tri- 
bunaes os interessados % e os tribunaes deram a favor delles 
as sentenças, e se executaram. 



^) Vidal teve as commenda de S. Pedro do Sul, e as alcaidarías 
mores de Marialva e Moreira; Vieira a alcaidaria mór de Pi- 
nhel, e as commendas de Torrado e Santa Eugenia da Ala, 
na ordem de Christo. 

*) Fez valer seus direitos á de Pernambuco o conde de Vimioso 
D. Miguel de Portugal, casudo com D. Maria Margarida de 
Castro e Albuquerque, herdeira do Conde do Pernambuco, que 
perdera os seus direitos ficando em Castella. Sustentou a causa 



LIVRO DECmO. 265 

E deixando que es louros da yictoria ornem a frente 
3 piincipaes caudilhos, justo é que ''elles nos occnpemos, 
ado a cada um, com imparcialidade histórica, o quinhão de 
itiça e de consideração que lhe caiba. 

Frau'isco Barreto era um grande cabo de guerra, sobre- 
lo quanto a dotes de circumspecção, reserva e prudência. 
Q aspecto carrancudo, acaso mais sombrio e rugado em vir- 
le da recente piisao que soffrera, condizia com o génio 
xo, e com as poucas palavras que proferia; e o arreganho 
litar, e a voz aspei*a^ com os castigos raros, mas severissi- 
)s, que impunha, como partidário da máxima antiga de que 
soldados devem temer o pi*oprio capitão mais do que o 
migo. 

Estudando bem os factos, João Fernandes Vieira não 
arece decididamente tão grande homem, como em detrimento 
s seus camaradas, nol-o quizeram apresentar seus panegy- 
tas. 

André Vidal era homem tão superior que necessitara 
1 Plutarcho para aprecial-o. Em quanto emprehendeu, sempre 
m muito esforço e valor, não levara a mira no premio, nem 
[vez nesse mesmo fantasma da gloria que tantas vezes nos 
ibriaga; tudo fez por zelo e amor do Brazil, ou por cari- 
de christã. ^) Sua abnegação a bem da pátria chegou ao 
cesso de consentir que sem a minima reclamação, circulas- 
n, essas infindas narrações contemporâneas desta campanha, 
e sempre lhe attribuiam um papel tão secundário. Quanto 
ssuia era primeiro dos bons soldados do que seu. E tinha 
raro mérito de saber grangear amigos, sem lhes offender se- 
er o melindre por agradecidos. Do seu sincero animo reli- 
)so nos deixou prova na capella da Senhora do DesteiTO de 



o célebre Manuel Alvares Pegas (em uma Allega^o impressa 
em Évora em 1671) e por fim venceu ; vindo porém mais tarde 
(em 1716) a desistir delia em troco de oitenta mil cruzados 
e o titulo de Marquez de Valença. A' demanda do Marquez 
de Cascaes para obter a capitania do Itamaracá oppoz-se o 
Procurador da Coroa; mas o Marquez teve a seu favor a 
sentença de 13 de Fevereiro de 1686 e a final de 15 de uop- 
vembro de 1687. 

*) ^Levado da caridade christa, zelo do amor da pátria e desejo 
de ver o Brazil livre dos HoUandezes e de tantas falsas sei- 
tas e heresias.^ (Calado, p^g» 43.) 



266 LIVBO DECIMO. 

Itambé ^), perto de Goiana, por elle institoida ,em^ louvor 
dos muitos benefícios e victorias que, por intercessão da mesma 
Senhora, alcançou dos inimigos.^ ^) E para que não pareça 
apaixonado este nosso juizo, transcreveremos aqui textualmente 
a informação ^) que do mesmo Vidal deu ao primeiro rei da 
dynastia brigantina o insigne P. António Yieii*a: 

,,De André Vidal direi a V. Mag. o que me não atrevi 
atégora, por me não apressar, e porque eu que tenho conhe- 
cido tantos homens, sei que ha mister muito tempo para Be 
conhecer um homem. Tem V. M. mui poucos no seu reino 
que sejam como André Vidal; eu o conhecia pouco mais que 
de vista e fama; é tanto para tudo o demais como para sol- 
dado: muito christâo, muito executivo, muito amigo da justiça 
e da razão, muito zeloso do serviço de V. M. e observador 
das suas reaes ordens, e sobretudo muito desinteressado, e que 
entende mui bem todas as matérias , posto que não fálle em 
verso, que é a falta que lhe achava certo ministro, grande da 
corte de V. Mag." Não menos favorável se lhe mostra o pró- 
prio rei, quando, ao confírmal-o, em 2 de novembro (1654), 
no promettido governo do Maranhão, declara fazel-o pelos ser- 
viços que o mesmo Vidal prestara por mais de vinte annos 
de gueiTa, „no Brazil, sendo ferido por vezes e aleijado de . 
uma perna; e em particular aos (serviços) que, depois do pri- 
meiro despacho, continuou na campanha de Pernambuco, donde 
occupou todos os postos da milicia, de capitão, sargento mor, 
mestre 'de campo, e de um dos governadores das armas no 
exercito da mesma capitania , sempre com a satisfação que é ' 
notório, e grande despeza da fazenda, pondo por muitas vezes 
sua vida a conhecido perigo, e signalando-se por varias occar 
si5es e recontros, que teve com os inimigos, com singular vap 
lor, tendo muita paiiie dos bons successos e victorias 'que na 
dita capitania alcançaram contra os HoUandezes, com grande 
reputação do nome portuguez, não reparando para esse effeito 



^) Desta capella foi em nossos dias decretada a venda pela lei 
numero 586 de 1850, e decreto numero 778 de 1854. Bem 
poderia o paiz levaniÁr um padrão á memoria de Vidal com 
parte do producto desta venda! 

^) Assim se lê no alvará de confirmação do vinculo de 6 de 
dezembro de 1678. 

^) Carta do Pará de 6 de dezembro de 1655 (14.* do tom I). 



LHEO' DECIMO. 267 

perda de soâ fazenda; porque, quando foi necessário abra- 
08 cannayiaes e engenhos daquelle districto, foi o primeiro 
com suas mSos poz o fogo a um de seu pai, para a esse 
mplo se fazer o mesmo aos mais^ ^) etc. 

O retrato de Fernandes Vieira foi gravado, e publicado 
obra panegyríca de Fr. Eafael de Jesus. O de Vidal en- 
tra-se em Angola, entre os dos demais governadores desse 
LO, donde o Bi'azil hade sollicitar uma cópia photografíada. 

Tanto Vieii*a como Vidal viveram ainda mais vinte e sete 
los; e só passaram ambos a melhor vida em 1681; o pri- 
TO em Olinda aos 10 de Janeiro, e o segundo vinte e quatro 
3 depois, no Engenho-Novo da Goiana, em 3 do immediato 
5 de Fevereiro. 

O governador Henrique Dias foi gratificado com o aug- 
ito de dois escudos mensaes ou vinte e quatro annuaes, 
i os mais vencimentos, por conta dos quinhentos acima 
icionados. Recebeu igualmente em propriedade as casas e 
renos *) onde, durante o sitio, tivera a sua estancia. 

^) Na nomeação para vir a suceeder a Vieira em Angola, cuja 
data é de 10 do referido mez, é o monarcha mais lacónico; 
e diz unicamente que attendendo aos serviços de Vidal, na 
capitania de Pernambuco, „e á continuação com que os fez 
em guerra viva tSo dilatada, arriscada e trabalhosa, como 
foi a de Pernambuco, em ç|ue assistiu ate serem recuperados 
todos os fortes da dita capitania, e desalojados os Hollande- 
zes dos logares que nella tinham occupado, em cuja facção o 
dito André Vidal tomou tSo grande parte, dejjois de se haver 
achado e servido com particular valor nas mais occasi5es que 
se ofereceram pelo discurso dos annos quo de antes havia 
militado na mesma guerra,^ etc. — No anterior decreto de 
nomeação, em 11 de Agosto de 1644, havia o mesmo rei dito 
que por attender aos serviços pelo mesmo Vidal prestados 
„no Êrazil e arrayal de Pernambuco . . . por nove annos até 
o de 634, de soldado e alferes á sua custa . . . e assim aos 
serviços, que seu pai Francisco Vidal fez no mesmo Estado, 
por espaço de quarenta annos, e pelos <^uaes se lhe fez mercê 
do habito de Christo, com vinte iml reis de pensão em uma 
commenda, e havendo respeito aos mais serviços que depois 
fez na guerra, nos postos de ajudante, capitão e de sargento 
mor,^ lhe fazia mercê do governo do Maranhão, na vacante 
dos providos antes de 23 de maio de 16tô, em que lhe fiz 
esta mercê. ^ 

*) Casas de Giles Vau Ufel e olarias de Gaspar Coke, entre o 
Capiberibe e o estiada do Manguinho, onde ainda so deno*- 
mina a Estancia. 



268 LIVRO DECIMO. 

Logo passou, segundo parece, a Portugal, onde em fins de 
Novembro de Í657, lhe eram pela Côi*te mandados abonar 
todos os vencimentos que se lhe deviam; e, em 20 de março 
do anno seguinte, lhe foi concedida a patente de mestre de 
campo ad honor em. Dahi a pouco mais de quatro annos, 
em Junho de 1662, falloceu no Recife; — sendo abonados 
pela fazenda real, por ordem do governador Brito Freire, os 
módicos gastos feitos com o seu funeral, que teve logar no 
no dia 8 do mesmo mez, e importaram, além da pólvora para , 
as descargas, em quarenta e oito mil setecentos o vinte rás. 
Foi porém somente depois de morto que os seus serviços re- 
ceberam no Brazil (nao sabemos em que data) a mais gloriosa 
recompensa, ordenando-se que, para perpetua memória, se or- 
garnlsassem, em varias das capitanias, corpos de soldados e 
officiaes todos pretos, com o nome de ^regimentos dos 
Henriques." *) 

António Dias Cardozo foi feito mestre de campo; teve^ 
em 16 õ 5, promessa de uma commenda de lote de cem mfl 
reis, recebendo, em quanto nella não fosse provido, sessenta 
mil reis annuaes. Governou por pouco tempo e interinamente, 
depois de Fernandes Vieira, a capitania da Farahiba; e foi 
mais tarde commandar no Rio-Real e nos Palmares; mas em 
1667 se achava no Recife tão necessitado que Vidal, sendo, 
capitão general, a requerimento seu, lhe mandou abonar, á 
custa de atrazados que se lhe deviam, uns trezentos mil im 
Cinco annos depois (maio de 1672) era ja fallecido, -^ sem 
haver recebido a promettida commenda. 

Quanto aos chefes hoUandezes . que subscreveram á ren- 
dição' da Praça, consta que chegaram . á Uollanda no mez de 
Julho, e que ahi trataram de se defender como melhor poda- 
ram. O commandante militar Schkoppe foi porém, por sen- 
tença ^), privado de seus soldos, desde a data da capitulação 
do Recife. 



^) Destes ainda, em nossos tenros annos, alcançámoi a Ter 
dois, na procissão de Corpus no Rio de Janeiro, faiando- 
nos tal impressão, que até hoje se não nos vairen ella da 
memória. 

*) Sentença do Conselho de Guerra de 20 de março de 1665. 



LIVEO DECIMO. 269 



Eram apenas decorridos alguns mezes depois da entrega 
dos HoUandezes no Eecife, quando as Provindas Tinidas fir- 
mavam a paz com a Inglaterra, e julgaram poder voltav-se 
contra FortúgaL Mas as satisfações e promessas da diplomacia 
portugueza podaram contemporizai* e entreter os HoUandezes 
por mais de três annos. Cançados porém estes de esperar ver 
realisados seus desejos pacificamente, e açulados^ diz-se, pela 
infiuencia do embaixador castelhano António Brun, aproveita- 
ram-se de nm respiro de pazes (que tiveram em fins de 1657, 
protegidos por um grande armamento naval que haviam f^ito 
contra a França) para liquidar em Portugal suas reclamações. 
Eegia neste reino desde a morte de João IV, succedida 
em 6 de novembro do anno anterior, sua esposa a rainha 
D.* Luiza, durante a menoridado de Affonso VI. Na armada 
enviada á foz da Tejo ás ordens do almirante Opdam, desde 
pouco senhor de Wassenaar, iam por commissarios Michel ten 
Hooven e Gysbert de With, um dos signatários este ultimo da 
capitulação de Peinambuco em 1654. — Apresentou-se a es- 
quadra á foz do Tejo, e dahí a dois dias os dois commissa- 
rios foram recebidos pela rainha, e lhe leram um papel em 
latim, no qual depois de darem os pezames pela perda do rei 
defunto, passavam ás suas reclamações, para a satisfação das 
quaes concediam duas semanas. Eeclamavam a restituição das 
terras do Brazil e d* Angola e S^ Thomé ; além de um tributo, 
dentro de" sete mezes, de seiscentos mil florins, treze mil cai- 
xas d'assucar, e, dentro de seis annos, de mil bois de carroj 
mil vacas; tresentos cavallos; seiscentas ovelhas; e outros ob- 
jectos de valor, condições que, pouco mais ou menos eram os 
mesmos que os Estados Geraes haviam exigido ao embaixador 
António de Souza de Macedo, quando, em 1651, fora á Haya 
tratai* da paz. Seguiram-se as conferencias com os ministros 
da Coroa: chegaram a ceder, a troco' de outras exigências!^ 
: Angola- e S. Thomé, mas não o Brazil; e ouvindo da boca do 
secretario doestado Pedro Vieira da Silva que de modo algum 
se Ihea concederia cessão de território, durante a minoridade do 
rei, em menos de um mez se retiraram, deixando em mãos do 
ministro a declaração de gueiTa, apezar da ingerência que no 
negocio officiosamente tomou o embaixador francez Cominges. 
O governo portuguez resignou-se ás consequências, e n'um fo- 



270 LIVEO DECIMO, 

Iheto ') que (s^gnindo temos entendido sob o inflnxo) foi en- 
tão pablicado acei*ca deste assumpto, depois de expor nas pri- 
meiras vinte paginas quanto occorrera, concluo: ^Dissimulou-fle 
a offen&a quanto foi decente; offerecea-se pela pas quanto foi 
possivel; e o contrario mostra-se surdo â jostiça • . . Espera-' 
mos que o Deus dos exércitos que conhece os corações e razço 
de ambas as partes pelejará pela justiça.^ 

E esquadra de Wassenaar foi logo reforçada por yaiUM 
nayios ás ordens do celebre almirante Buiter, que tomou o 
mando de toda ella, e ficou á frente dos nafios á foz do T^Or 
desde Setúbal ás Berlengas , e não foram poucas ') as preás 
feitas em navios da frota do Brazil, nos tantos dias que dum 
o bloqueo. Vendo porém Euiter os navios faltos de agua, e 
crendo que entrando o inverno as prezas que fizesse nSo re- 
compensariam as avarias, levantou o dito bloqueio, e regressos 
á Hollanda; donde, á frente de vinte e dois navios de guem 
e dois hyates, voltou a emprehendel-o em meados do aimo 
seguinte. 

Com efeito, em principies de julho, se apresentou a non 
armada ue bloqueio á foz do Tejo. A primeira agressão foi 
exercida contra nove muletas tripuladas de sessenta e sete 
pescadores. Por estes soube Buiter que Portugal enviara á 
Hollanda ') outra embaixada, e que havia em Lisboa esperu- 
ças de que tudo se arranjaria em boa paz ; nova que de tem 
confirmou depois ao mesmo Buiter o cônsul Yan-der-Hoeve.— 
O bloqueo durou apenas desta vez pouco mais de três meço» 
e nenhum proveito colheram delle os HoUandezes; que de noto 
fóltos d'agua, e chamados a decidir questões mais importantes 
com a Dinamarca e a Suécia, deixaram o Tejo em fins di 
outubro, conseguindo do governo portuguez promessa de mandir 
á Haya um novo negociador. 

Infelizmente recaiu a escolha em Fernão Telles de Aro, 
que, no anuo seguinte, commetteu a vergonhosa acção de pes- 
sar-se a Castella, levando comsigo, segundo se disse, o valor 



') B&zam da gpierra entre Portugal e as Provincias Uiddas dos 
Paizes Iwxos: com as noticias da causa de que pxoõedeiL — 
22 pag., 4.* — Lisboa, por João Alvarez de Leab. — 1657. 

') G. Brandt faz menção de 15, e diz que havia quem conian 
mais seis. 

*) Aitzema, 38, 268. 



LIVBO DECmO. 271 

de tresentos mil cruzados. Gomo porém se lhe havia dado por 
secretario o illustre patriota Diogo Lopes de TJlhoa, as negocia- 
ções progi-edií-am, mostrando-se interessado em seu bom êxito 
o Pi-esidente Pedro Grocio e o conselheiro de Witte, movidos 
pelo portuguez Jeronymo Nunes da Costa. A maioria dos votos 
dos representantes das Províncias Unidas chegou a ser em 
favor de que se negociasse a cessão de quaesquer direitos a 
Pernambuco, mediante: 

1®. Uma indemnisação de cinco milhões de cruzados pa- 
g^s em doze annos. 

2**. Concessões favoráveis ao seu commercio em Portugal 
e colónias análogas ás que havia obtido pouco antes a Inglaterra. 

3®. Franquia nos diíeitos do sal de Setúbal, por um dos 
três modos que se propuzeram. 

4^ Satisfação ás reclamações de muitos Hollandezes ém 
seus interesses lesados em virtude da perda de Pernambuco, etc. 

Com estas propostas se apresentou pessoalmente Ulhoa 
em Lisboa, chegando ahi no dia de natal desse anno (1658), 
e insistindo pela urgência da resposta; não só porque assim o 
promettêra, como porque os votos poderiam mudar-se, vari- 
ando alguns representantes ou alterando-se a situação, se a 
paz fosse feita com a Suécia. Porém nada por então se re- 
solveu. — 

Durante o mencionado segundo bloqueio de Euiter pas- 
sara Portugal os instantes mais críticos da conservação da sua 
recem-proclamada independência. Foi nesse mesmo verão que 
frustado, com grande perda, o sitio posto a Badajoz, invadiram 
as armas castelhanas os campos de Monção (no Minho) e os 
de Elvas, pondo em apertado sitio esta praça do Alemtejo. — 
No anno de 1659 viu-se até o novo reino, na paz dos Py- 
rineos, abandonado pela França *), cujo ministro em Poi-tugal 
chegou a indicar o pensamento de íicarem dahi em diante os 
duques de Bi*agança por vice-reis perpétuos do Brazil com o 
titulo de reis '). De muito seiTiu entretanto a missão do conde 



*) Pelo ait. 6^ 86 conveiu que durante o prazo de três mezeg 
a França trataria de mandar a Portugal pôr as coisas de 
modo que Hespanha ficasse satisfeita, e de contrario não daria 
mais soccorro a Portugal, nem permittiria que para ali se 
fizessem armamentos em França, etc. 

■) D. R. de Macedo, Obras (1743), I, 55. 



274 LIVRO DECIMO. 

satisfeitas quaesquer indemnisações^ a qne poderiam ter reci- 
procamente direito os súbditos das duas partes contractantes. 
uos bens possuidos ou dívidas contrahidas no Brazil. Assentou- 
sp, a este respeito, que ^os bens de raiz e pai-ticulaj-mente 
as casas e os engenhos, se restituiriam aos respectivos donos 
e possuidores, dando curso ás acções e demandas que por parte 
dos devedores se intentasserh ; " acrescentando-se que, vi>to 
declarar o. embaixador de Portugal ter poderes para compor 
amigavelmente as reclamações que apresentassem os individues 
das Províncias Uni-^ias, os interessados ficavam obrigados a 
recorrer ao dito embaixador, no tei'mo de dois mezes, com os 
competentes titulos ; devendo porém aquellas reclamações que 
por este modo se não liquidassem dentro de seis mezes, passar 
a uma commissao mixta, que se reunii-ia em Lisboa dezoito 
mezes depois; e de cujos arbítrios ou sentenças não haveria 
apellaçáo ; cumprindo á mesma commissao, nos casos d'empate, 
eleger d'entre os seus membros (em último caso á sorte), um 
sobroárbitro (super arbiter), com voto decisivo. 

Como reclamações acolhidas pelo embaixador Conde de 
Miranda, na Haya, chegaram apenas duas á nos'«a noticia, 
uma de Guilherme Doncker, antigo escabino de Olinda e coronel 
dos índios de Nassau ') e outra de Gysbert daWith, membro 
do Conselho Politico, o terceiro marido de D. Anna Paes de 
Altero ^; as quaes foram attendidas, promettendo o dito em- 
baixador (em 20 de maiço de 1663), por parte de Portugal, 
ao primeiro dezeseis mil cruzados, e ao segundo trinta e três; 
que deveriam ser pagos dentro de oito annos ; mas cuja liqui- 
dação final só veiu a ter logar, com os respectivos herdeiros, 
em 27 e 28 de novembro de 1692. — 

Para o pagamento dos duzentos o cincoenta mil cruzados 
annuaes foi, como era justo, ordenado ^) que o Brazil corres- 
pondesse com perto de metade, — com cento e vinte mil cru- 
zados, estabclecendo-se para isso tributos especiaes durante os 
desesois annos seguintes. Infelizmente porém, como succede tan- 



M Veja ante pag. 152. 

2) Filha de Isabel Gonçalves (Calado, p. 250, in fine), motivo 
porque se denominara a Casa Forte de D. Isabel Gonçal- 
ves, de D. Anna Paes, e depois também engenho do 
T o u r 1 o n, por ser Carlos de Tourlon o seu segunclo marido.- 

') C R. a Francisco Barroto d« 4 de Fev, de 1662. ' 



LIVRO DECIMO. 275 

tas vezes nos impostos, acabados esses deseseis annos, os mes- 
mos donativos estabelecidos para elle seguiram-se cobrando, a 
pretexto de urgências do estado, a ponto de que ainda em 
nossos dias ') existiam. 

Acerca da installaçao da promettida commissão mixta em 
Lisboa, e satisfações por ella concedidas, nenhuma notícia te- 
mos podido colher. E* porém certo que, em 1671, receava 
João Fernandes Vieira ser obrigado a pagar algumas in- 
demnisaçoes, e, em 22 de maio, pedia ao Principe Eegente 
(ao depois Pedro 2'\) que, ,,em caso de achar-se com o encargo 
de dever aos HoUandezes," lhe acudisse segundo mereciam os 
seus serviços. Ainda ao fazer o testamento, em 1674, mani- 
festava o mesmo Vieira recêos a esse respeito; repetindo, na 
verba 24*., quasi i p s i s v e r b i s , vários argumentos para 
provar que nada devia aos Hollandezes, aos quaes antes cabia 
restituii* a elle testador os bons jantares que lhes dera, 
durante oito a nove annos '), para os ter a seu favor; e as 
quebras que, desde doze annos antes, isto é desde o tempo em 
que ainda estava na terra o seu sócio Stachower, recebera em 
virtude das correrias dos nossos campanhistas ou guer- 
rilhas ; e o valor dos nove navios carregados, que, sob a pro- 
tecção da bandeira hoUandeza, haviam sido tomados, talvez 
pelo nossos cruzeiros. — Eis fielmente o texto da dita verba 
do testamento: „Tive largas contas com os governadores da 
Companhia, que foram do Supremo Conselho; aos quaes com- 
prei quantidades de fazendas, de roupas, e de escravos, e al- 
gumas teiTas, e contratos de dizimes; a cuja conta dei grande 
quantidade de caixas de assucar, páu brasil, livranças de en- 
contros, e outras cousas de mantimentos da terra. E quando 
os moradores fizeram a guerra, retirand^-me eu com elles, 
mandaram, a todas as minhas fazendas, a tomar todos os 
assucares que acharam, encaixados e por encaixar, que foram 
mais de 600 caixas; o no Recife me levaram quantidade de 
escravos, cobres e outras muitas riquezas, que estavam por 
minhas casas e por minhas fazendas; e queimaram os enge- 
nhos e destruii-am tudo, em que me deram grandiosas perdas. 

») ■ Vemol-o figurar no Orçamento do Impwio de 1830 (artigos 

21 e 22) no valor de vinte e cinco contos. 
') Isto é desde 1636 ou 1637. Provavelmente desde que, por se 

ausentar Stachower, ficou Vieira á frente da casa commercial. 

18* 



ti 



276 LIVRO DECIMO. 

M dcMiiais me sào devedores da diminuição, pelo que me deviam 
fiizer de abatimento em doze ânuos de perdas, que houve na 
campanha, do que os solda-los portuguezes fizeram de queimas 
e arrombar assudes, rejeitar bois e levar escravos; o que im- 
possibilitava as moendas, e ficou o tracto leso: E elles eram 
obrigados a toda a segurança; porque com esta condição é 
que arrematei o contrato, e elles o autorgaram; e me tinham 
já oiferecido quarenta mil cruza'1os de abatimento cada anno, 
e eu os não qiiiz acoeitar porque era pouco Tambe^n me sâo 
devedores das pensões que de mim cobraram tantos annos de 
todos os meus engenhos, por elles não moerem, e por haver 
elles vendido as mesmas fazendas por seus justos preços como 
fazenda real. E eu trazia demanda com elles, e me tinham 
pedido que desistisse, e deixasse pagar aos credores, e que eu 
não pagaria; o, que eu não quiz consentir, por querer que me 
pagassem também o que haviam cobrado. Também me sao 
devedores de mais de cem mil c]uzadi)S que no decurso de 
oito ou nove annos lhe dei por remir minha vexação, e por 
segurar a vida de suas tyraunias, de peitas e dadivas a todos 
os governadores, e seus ministros, e com grandiosos banquetes 
que ordinariamente lhes dava pelos trazer contentes. Também 
me são devedores de nove navios que me tomaram com gran- 
diosas carregações, debaixo dos seus passaportes. E assim, mais 
me são devedores, do cinco moradas do casas que tinha no 
Keciff, do grandíi valor, o das casas em que eu morava, com 
todo o oruiito de tanta considerayão, como nella iiayia, que 
iuiportiiva muita quantidade de dinheiro. E em todas as partes 
mo destruiu e roubou esta nação grandiosas riquezas , e por 
nui s que lhe deva, de maiores quantias me são devedores, 6 
eu pelas armas me desforrei das violências que praticaram. E 
sobre modo tinham obrigação de me fazer todo bem e seg^i- 
rar-me, e com estas razões c outras que se poderiam allegar 
acho, em minha consciência que .... me são devedores, e não 
lhes devo a elles nada. E as clarozas e quitações que tinha 
suas, em como lhes havia pago, m'as mandai'am tomar em 
minha casa do meu oscriptorio que tinha no Eecife, e tudo 
quanto venderam foi por excessivos preços." 

Não ha dúvida que se neste mundo se podessem ajuntar 
as contas de dividas com a larguosa de consciência admittida 
por Fernandes Vieira, nada elle devia á Companhia boUandeia. 



LIVRO DEOIMO. *277 

Nâo sendo porém assim, cremos que, de suas mesmas expres- 
sdfes e recêos, devemos deduzir que elle se achava com a mesma 
Companhia mui alcançado, como outros muitos, quando rebentou 
a revolução; a tal ponto que o P.® Vieira, no Papel Forte, 
chegou a dizer que não fòra pela fé catholica que os morado- 

' res se haviam rebellado. mas sim por que não queriam ou não 
podiam pagai* as dívidas; assersão^ que alias, segundo vimos, 
foi confirmada pelo próprio Feru andes Vieira, dirigindo-se a 
Dr. Feliciano Dourado. ') Sabemos que, no tempo de Nassau, 
não só a maior parte das vendas se fizeram a credito e pagá- 
veis a largos prazos, mas que a muitos lavradores, principalmente 
depois de occuparem os Hollandezes Angola, foram abonados, 
igualmente a credito, para ser o seu valor indemnisado em 
assucares, centenares de escravos ; e não é de crer que, sendo 
João FeiTiandes Vieira um dos mais favorecidos e com mais 
créditos, como contraclador de vários monopólios, fosse elle 
exceptuado de aproveitar destes benefícios. Assim aos débitos 
atrazados que poderia ter, pelas compras dos engenhos e mo- 
ratórias que lhe haviam sido concedidas para o cumprimento 
dos contractos, em consequência das perdes e damnos, causa- 

I dos pelas invas5es dos campanhistas ou guerrilhas, vi- 
riam a juntai*-se estes novos. Entretanto, partido Nassau, e 
levando, com os que o acompanharam, alguns capitães, e co- 
meçando os directores da Companhia a faltar com soccorros 
a Pernambuco, assentai'am os do Conselho, para acudir ás 
necessidades da colónia, de exigir dos devedores promptos 
pagamentos. O dinheii'0 chegou a escacear a ponto que se não 
obtinha a menos de três a quatro por cento ao mez. Dahi 
procederam muitas faltas nos pagamentos, e destes muitas 
vexações aos moradores, mandadas fazer pelos do Conselho; 
08 quaes conhecendo em breve que não lhes resultavam dessas 
vexações nenhuns benefícios, começaram a lavrar contractos 
particulares com os moradores, pelos quaes estes se obrigaram 
a pagar a prazos em assucares, etc. 

Por meio deste expediente, conseguiram elles um respiro 
contra as vexações. Logo veiu a revolução absolvel-os de todo 
dessas obrigações, que alguns haviam contrahido sem dúvida 
já confiando nella. 



») Veja ante, pag. 1B7 e 170. 



I 

; 



278 LIVRO DECIMO. 

No mencionado testamento procurou Vieira justificar-se em 
como se julgava quite com Jacob Stachower, com quem não 
duvida declarar que tivera apertada amisade, por 
interesse, e a fim de „ viver mais seguro". Eis o texto da 
verba 22.^, a esse respeito. „ Declaro que no tempo dos hoUandezes 
por remii* rainha vexação e viver mais seguro entre elles, tive ■ 
apertada amizade com Jacob Estacour, homem principal da 
nação Flamenga, com differença nos costumes, e ^com elle fiz 
alguns negócios de conformidade, e por conta de ambos com- 
prámos as terras do engenho das Ilhetas, e as teiTas do en- 
genho de Santa Anna, e as ten-as do engenho* do Meio da 
Várzea, tudo destruído que não havia mais que só as terras; 
e as quantias que demos por ellas ao Supremo Conselho da 
Companhia, que as venderam, as pozeram os ditos sobre mim: 
porque não quizeram nada com o dito Estacour, por elle se 
embarcar para HoUanda, e ficar eu na terra, e me não deixar 
o Estacour cabedal de consideração para levantar os ditos en- 
genhos, e só tiinta e tantos escravos, que em menos de um 
anno morreram os mais delles de peçonha : e deixou mais três 
mil cruzados, que se lhe deviam, e algumas cousas não tinham 
valor de 200,000 réis, e as mais das dividas se não cobraram. 
E eu, com o meu negocio e agencia, levantei e reedifiquei os 
ditos engenhos; e o primeiro foi o da Várzea: e coiTendo al- 
guns annos lhe remetti quantidade de letras, e assucai'es, e 
paguei por elle débitos á Companhia, sem lhe dever nada, por 
me conservar pelo perigo de vida; sem elle nunca metter ca- 
bedal, nem me mandar um só queijo, e fui fabricando os mais 
engenhos, á minha custa, com dinheiros de depósitos, e com 
perdas notáveis de os fabricar muitas vezes, pela gente da 
campanha que vinha da Bahia os queimar, e levar 08 escnt- 
vos. E avisando-o eu disto muitas vezes, nunca accudiu com 
cousa alguma, nem respondeu a propósito; com que lhe não 
fiquei obrigado a nada de débitos; antes, se fosse por contas 
como elles costumam, me deveria elle a mim muitos mil em- 
zados. E assim que ao dito Estacour não devo nada, nem elle 
tem pretenções nas terras .... outras razões porque me é a 
mim devedor; mas ponho aqui estas clarezas para o que pu- 
der succeder.** 

A respeito dessa amisade ouçamos porém a Calado que é 
testemunha insuspeita: „Com o qual (Vieira) tomou tãta amizade 



LIVRO DECIMO. 279 

hum dos Olandezes^ qno goueiiiauão a teiTa, chamado Jacobo 
EstacoBT, a quem aoia cabido grande parte das fazendas na 
repartição que os primeiros Gouemadores Olandezes fízerâo 
entre si dos bens dos moradores retirados logo despois de to- 
mada a terra; entre os quaes lhe coube hú bom engenho, o 
qual elle comprou aos da compinhia em satisfação do salário 
de seus serviços ; e indo-se este Jacobo Estacour para Olanda, 
acabado o tempo de seu gouerno, por a grande confiança que 
tinha em João Fernandes Vieira^ e por a gi'ande fidelidade e 
verdade que nelle tinha achado, lhe deixou todos seus bons 
em sua mão, e este engenho, com plenário poder de dispor, 
dai', e doar, comprar, e vêder, segundo lhe parecesse, com só 
condição de que lhe hiria mandando as rendas nas frotas que 
de Pernambuco partissem para Olanda: e também lhe deixou 
credito para tudo o que elle comprasse, para se lhe dar sobre 
sua palavra, e que todos os créditos, e letras que elle passasse 
as receberia, e daria plenária satisfação em Olãda, obrigado 
para isso sua pessoa, e bens. E tanta confiança fez este Ja- 
cobo Estacour de João Fernãdes Vieh*a, que .... lhe deixou 
hum escrito feito por mão publica, que morrendo elle nenhum 
seu herdeiro poderia tomar conta ao dito João Fernandes Vieira, 
e que tudo o que dissesse em matéria de suas fazendas fosse 
crido, e somente se estiuesse por o que elle affirmasse, assi 
de diuidas, como de melhoramentos, por quanto esta era sua 
vitima vontade." 

Temos por seu dúvida que, se alguma acção se intentou 
contra o afortunado Madeirense ou seus herdeiros, seria ella 
pelo Estado satisfeita; em obsequio aos seus serviços sem dú- 
vida grandes, embora não tanto como o próprio interessado 
(não attendendo aos dos outros, e por ventura revendo-se já 
nos elogios prodigados pelos seus panegyristas) os suppunha; 
á vista do immodestia que alardeava^); imm5destia que alias 



*) Sirvam de prova as frases: ^Não me igualou Duarte 
Pacheco na índia** da representação de 1671, e a outra: 
„Fui eu a causa das felicidades de que está gosando 
Portugal,** da verba 64." do Teátamento; — verba, cujo prin- 
cipio, em nosso entender, foi erradamente transcripto na co- 
pia publicada pelo Instituto Histórico (Rev. XXIIl, p. 39(5); 
pois só com grande falsidade podia o testador haver dito, 
como ahi se lê: „ Declaro que servi a S. M. desde a era do 



280 LIVRO DECIMO. 

seria até certo ponto louvável, quando „o mundo, o tivesse 
desamparado em seu galardâo^^ e quando os seus contempo- 
râneos, por inveja ou por emulação^ nâo lhe reconhecessem os 
serviços que em todo caso veiu a prestar ao Brazi]. 



1630 até o de 1645. Deverá pois ler-se ,,Declaro que servi a 
S. M. desde o anno de 164Õ até o de 1654;" esta leitura é 
a que até se deduz do modo como prosegue o mesmo testa- 
dor referindo-se, com mais explicações^ aos ditos dois annoi, 
de 1645 e de 1654. 



FIM. 



NOTAS E APPERÍDICES. 



Ao Prefacio. 

Nota 1*.^ pag. X, lin. (ilt. da nota. 

De um ligeiro cotejo que fízemos entre a edição original caste- 
lhana das Memorias Diárias de Duarte de Albuquerque Coelha 
e as primeiras treze paginas da traducçao delias , publicada em 
1855 no Bio de Janeiro, colligimos as seguintes variantes ou erra- 
tas que mui attentamente offerecemos á consideração do laborioso 
editor vivo, que foi nessa traducçao companheiro do finado Accioli; 

Lê-se na pag. 9 da traducçao «3600 a 4000 marinheiros;* 
devendo lêr-se „3600 soldados e 400 marinheiros.* 

Na pag, 11 - „1260 infantes* lêa-se ,,260 infantes." 

Vários rumos acham-se incorrectamente reproduzidos: assim 
na pag. 6 deve ler-se „nornoroeste* em vez de ^nornordeste*, 
8 B, 8. E, em vez de E, S, 

Na pag. 9 (14 de Fevereiro) deve ler-se E, N, E, e não E, N. 

Igualmente na pag. 7. deve ler-se travezes onde se diz 
travessas, e na 13 costas, (em castelhano espaldas) onde se 
diz espadas. 

Sem havermos tido occasião de seguir mais adiante o cotejo, 
não podemos deixar de notar que na traducçao se conservasse em 
castelhano o nome do districto das Alagoas, dizendo-se Lagunas; 
que em castelhano se conservasse também a alcunha Fié de paio 
dada a Jol, e que corresponde aPé de Pau, e que de preferencia se 
dicesse Real (do Bom Jesus), quando os nossos empregam sempre 
a palavra Arrayal, etc. 



^ * 

i 



282 NOTAS E APPÉNDICES. 

Ao Livro V 

Nota 2^, pag. 14. 

Em presença dos argumentos que agora reproduzimos com 
a extensão que nos não era permittida na Historia Geral 
reconhecerá o leitor se ao nosso digno consócio Sr. Cónego Fernan- 
des Pinheiro assistiu a justiça quando (na Kev. do Instituto do 
Eio Tom. 23 pag. 75) se oppoz ás nossas opiniões, acrescentando, 
sem nenhum fundamento, que haviamos negado ao governador 
Mendonça qualidades de bravura ou coragem, e por ventara fazendo 
conceber ao leitor a idea que devíamos ^pertencer á escola que julga 
do merecimento dos homens pelo resultado mais ou menos prospero 
que remata seus esforços." Eis as palavras do nosso contradictor: 

„Não pertencemos á escola que julga do merecimento doi 
liomens pelo resultado mais, ou menos prospero que remata seus 
esforços ; assim pois afastamo-nos dos que condemnam a Diogo de 
Mendonça Furtado pela perda da Bahia. O sentimento porém do 8r. 
Varnhagen, para nós de muito peso, fez-nos um pouco vacilar acera 
do proceder de Mendonça no assalto que deram os hollandezes i 
Bahia no dia 9 de Maio de 1624, obrigando-nos a estudar com cui- 
dado este ponto." 

„Diz o nosso distincto consócio „0 Governador, mettido em 
„8eu palácio com algumas autoridades, ahi se deixou prender, sem 
„que mediassem condições algumas de capitulação, segundo alcançam 
„nos8as averiguações, e segundo é mui natural, quando o Gx)venu^ 
„dor já então não podia apresentar resistência alguma". 

„Surprehendeu-nos realmente a primeira parte desta proposição; 
pois que além do consenso unanime dos chronistas nacionaeB a que 
consultamos, relativamente a bravura de Mendonça e a Boa cora- 
josa resistência, deparamos com o verdict que sobre elle pro- 
nunciaram os próprios inimigos. Laet, e Netscher rendem homenagem 
a esta qualidade que lhe contesta o Sr. Varnhagen." 

Nota 3% pag. 16. 

No antigo Cartório da Thesouraria da Bahia ainda em 1867 
vimos, em lettra já bastante apagada, o Uvro das vereações da Ga- 
mara em quanto fora da cidade. Conviria acudir-se-lhe quanto antea, 
tirando, se ainda é possível, uma cópia. Por ventura só ellé poderá 
dar muita luz acerca da revolução contra Antão de Mesquita. 



I 



NOTAS E APPÉNDICES. 283 

Nota 4»., pag. 26. 

A respeito da entrega da guarnição hollandeza diz Laet, 
Novus Orbis, lib. XV, cap. 23: „Partim Prsefecti militaris igna- 
via, partim quorundum tribunorum et militum perfídia utrorumque 
non levi infâmia." — 

Nota 5% pag. 28, lin. 2*. 

Ficou no Brazil de ouvidor geral Antão de Mesquita, deixando 
de ir para Angola, para onde já estava despachado; sendo depois 
nomeado Provedor mór dos defunctos o dezembargador Diogo de S. 
Miguel Garcez, que, em quanto existia a Relação, desempenhava já 
nella as funcções do novo cargo. Foram estes os únicos dois desem- 
bargadores que seguiram na Bahia. 

Nota 6% pag. 28, lin. 10. 

Dando o número de vinte e seis navios, seguimos a Laet, em 
geral bem informado e bastante imparcial. Além disso é o termo 
médio entre dois extremos que vemos citados, dando Brito Freire 
e os que o seguiram só deseseis (não seria antes o número dos 
carregados com assucar?), e uma relação contemporânea em francer 
nada menos de trinta e dois. 

App. 1.0 ao Livro 1.® *) 

Alguns documentos inéditos de data posterior á da recuperação da 
Bahia. — 

4 

Doe 1.° Carta de D. Francisco de Moura. 

Senhor. Em 28 de março passado chegaram as armadas que 
V. Mag foi servido mandar de soccorro a esta Cidade do Salvador 
de todos os Santos, e foi o sucesso da restituição delia tão honrado, 
como será notório, e os Generaes dom Fadrique de Toledo, e dom 
Manoel de menezes devem avizar a V. Mag. De sua Real grandeza 
esperava diferentes favores, e melhoramento de lugar em seu Real 
Serviço, do que tive pella carta que em compankia destas armadas 

*) Incluiremos a^ui no fim das notas respectivas a cada livro, 
e sem alterar a ordem de sua numeração (nesta edição uni- 
camente) alguns documentos que merecem «er dados a luz 
pelo menos uma vez, como fontes históricas do periodo que 
tratamos. 



284 NOTAS E APPKNDICES. 

recebi de V. Mag. por mâo dos Governadores; porém conforme á 
obrigação de Yassallo, cumpri as Ordens que se me derao, lem- 
brando a y. Mag., que neste em que estou, o nao posso servir com 
o zello, e punctualidade que costumo, e assy na conformidade da li- 
cença que pedi a V. Mag. antes que me partisse, que restaurada a 
Cidade, me pudesse recolher para a minha Comenda a onde estava, 
em companhia desta armada o detrimino fazer, desobrigando me 
primeiro do que ategora tive a meu cargo ; V. Mag. o deve assi aver 
por bem, e mandar ver esta causa com Justiça, pois tenho servido 
com satisfação, em esperando de V. Mag. as mercês que custuma fa- 
zer a semelnantes beneméritos, me vejo tão atrazado. Deos guarde a 
catholica pessoa de V. Mag. Bahia 10 de Majo 625. — Dom Fran- 
cisco de Moura. 



Doe. 2.® C. R. para voltar ao Rio Salvador Corrêa. 

Governadores amigos Eu El Rev vos envio muito saudar, 
como aquelles que amo. Havendo cessado com a recuperação da G- 
dade do Salvador da Bahia de todos os Santos a necessidade que 
havia de acudir aly gente das mais Capitanias, nos primeiros navioi, 
que partirem para aquellas partes enviareis Ordem paraque Salvador 
Corrêa de Sàa com a gente com que veio em soccorro da Bahia se 
torne para o Rio de Janeiro. E para que Francisco Coelho governa- 
dor do Maranhão se fosse logo a aqueUa Conquista. Encarregando 
que assy nas duas praças referidas como nas mais do Estado do 
Brazil assista agente que lhes está ordenada e traga nellas toda a 
prevenção necessária para sua deffensa e segurança. — Escritta em 
Madrid a 25 de Julho de 1625. — Rej. — Para os Governadores de 
Portugal. O duque de Villa hermosa Conde de ficalho. 

Doe. 3.^ C. R. acerca da devassa da perda da Bahia. 

Governadores amigos Eu El Rej vos envio muito saudar, 
como aquelles que amo. Enviastes com carta vossa de 19 do passado 
hua consulta do conselho de Estado sobre as duas cartas qne vierSo 
induzas de Antão de Mesquita Ouvidor speral do Estado do BnuQ 
por cjxie aviza o que passou com occazião de Dom Fadrique de Toledo 
Osório Capitão Geral da jornada da Bahia lhe ordenar que entr^ 

fasse ao seu Auditor General adevassa que tinha tirado da peida 
aquella praça. . E havendoa visto hey por bem que se escreTi i 
Antão de Mesquita que tire outra devassa e com os dezembargido- 
res daquella caza presidindo o governador sentencee os culpado^ 
E se faça Justiça. E das devassas, e sentenças se me eipviem copias. 
E no que toca á hida de Antão de Mesquita a An|;ola porque para 
o eífeito referido, epara outras couzas de meu serviço he necessarii 
sua assistência na Bahia se escusará fazer elle a jornada de Angdik 
E em seu lugar nomeareis outi-o Ministro das partes, e inteire» 



NOTAS E APPÉNDICES. 285 

que 8e requere para esta deligencia. E procureis que se embarque 

com toda abrevídade posvSiieL — Edcritta ein Madrid a 7 de Agosto 

de 1625. — Rey. — rara os Governadores de Portugal. O duque 
de Yilla hennosa Conde de fícalho 



Doe. 4". C. B. mandando agradecimentos a Marinho e a Souza d'E9a; 
devassa a António Cardozo. 

Governadores amigos Eu El Rey vos envio muito saudar, 
como aquellas que amo no Despacho ordinário de 21 de Junho pas- 
sado enviastes duas consultas do conselho de Estado húa sobre a 
que escreveo Dom Francisco de Moura Capitão mor do Recôncavo 
da Bahia. E approvo o que parece acerca de se lhe aggradecer e 
elle, a Francisco Nunes Marinho, e a Manoel de Souza Deça o que 
flzerão em suas obrigaç5es. E quanto a António Cardozo de BaiTos 
se daria Ordem a Diogo Luiz de Oliveira governador do Brazil que 
como chegar a aquelle estado tire devassa de seu procedimento. E 
achando-o culpado o castigue como delito comettiao na guerra e 
me envie copia das culpas , e da sentença Outra sobre o que es- 
creveo Mathias de Albuquerque á cerca do provimento, e soccorro 
que enviava á Bahia E conformo me com o que nesta se aponta 
— Escritta em Madrid a 7 de Agosto de l(j25. — Rey. — Para os 
Governadores de Portugal. O duque de Villa hermosa Conde de 
Ficalho 



Poc.õ.® C. B. acerca do Rio de Janeiro. 

Governadores amigos Eu El Rey vos envio muito saudar, 
como aquelles que amo: Vy duas consultas dos conselhos de estado 
e de minha fazenda que me enviastes no despacho de dezanove de 
Julho passado: hua sobre o que Martim de ii^aa, Capitão da Capi- 
tania do Rio de Janeiro escreveo de lhe haverem chegado os solda- 
dos, e moniçoens que desse Reino lhe levou seu filho Salvador Cor- 
rêa de Saa, e socorro que enviou a Bahia, e o que avisa acamara 
daquela capitania: E ordenareis que se lho envie a maior quanti- 
dade que poder ser de í^olvora. Armas, e munições aggradecendo 
em cartas minhas a Martim de Saa, e á Camará o como procedem 
em meu serviço, encarregando juntamente a Mai-tim de Saa, que 
envie uma planta com petipé da fortaleza da barra, e húa relação 
do estado em que esta a obra da fortifícasão delia; e sabereis 
quando elle acaba de seiVir o tempo porque está provido do Rio de 
Janeiro, e aquém está dada aquela Capitania depois delle, e me avi- 
sareis disso: Outra sobre os avisos que o dito Martim de Sáa man- 
dou a Buenos aires, e a Angola da armada dos ynimigos que tomarão 
a Bahia, e com esta o Vosso parecer me conformo. — E-cripta em 
Madrid a 22 de Agosto de 1625. — Rey. — Para os Governadores 
de Portugal. O duque de Villa hormosa Conde de Ficalho. 



286 NOTAS E APPÉNDICES. 



Doe. 6.° C. B. acerca dos excessos do. Vigário geral, etc. 

Governadores amigos Eu El Rey vos envio multo sandir, 
como aqnelles que amo, vi duas Consultas do conselho desiauio de 
23 de setembro passado, hua sobre o que escreveo o governador do 
Brazil Mathias de Albuquerque á cerca dos excessos do Vigário 
geral que o Bispo havia enviado a Pernambuco devassar do Adm^ 
nistrador da quella Capitania E com o que nesta parece me con- 
formo, outra sobre o que avisou o governador de Angola Fernão de 
Souza a cerca do declaração que se deve fazer no Regimento do 
Provedor dos defuntos e approvo o que nesta se aponta encarre- 
gando-se muito a justificação das dividas que se pagarem. — £»• 
critta em Madrid a 14 de novembro do 1625. — Rey. — O dnqw 
de ViUa hermosa Conde de Ficalho. Para os Governadores de 
Portugal. 



Ao Livro 5^ 

Nota 7% pag. 31, in fine. 

A patente de Albuquerque como „ Superintendente na gnem 
e fortifícador das capitanias do norte^ somente se lavrou em Ma- 
drid com data de 24 de maio de 1630. O posto de superintendente 
das fortificações foi mais tarde conferido a João Fernandes Vieira. 
depois de regressar de Angola. 

Nota 8*, pag. 43. 

Da capitulação dos fortes se lavrou no dia 2 de março um 
termo ou assento, que assignaram o almirante Lonck e o com- 
mandante Weerdenburgh, e pela nossa parte Manuel Pacheco de 
Aguiar, commandante do forte do mar, António de Lima e Pedro 
Barboza. Richshoffer (p. 64 e 65) publica o teor dessa capituliçiOi 
e no artigo 4/^ se inclue a condição de não tomarem armas pftr 
seis mezes. 

Nota 9*, pag. 35, lin. antepen. 

O nome do último d'entre os commandantes das três dÍTis^M 
se encontra escripto em vários autores com mui varia ortbographiA; 
Alguns escrevem Foulcke Hounckes. Richshoffer escreve (pag. 67) í 
Honcx Fouques. Nas Mem. Diárias lê-se Honci Foucques. .; ' i 



NOTAS E APPÉNDICES. 287 



Xota IO, pag. 45 e 46. 

Eis o texto de Eíchshoifer (pag. 78) confirmando que o 
ataque de Santo António em um dia de maio: „2)en 24. (está 
seguindo com o mez de maio) bc§ TtoxQm^ gegcn Xaq, tÇat ber 
gtinb cinen Sínfatí auff bic ^njuí Antoni Vaz tnit Joíd^cr resolution, 
baÇ pe nidèt affen bic 3?.rufí»c^r ilbcrjligcn unb cin fíein cifcru <Stiidf- 
Icin auff bcr Batterie aug bcn íatoctcn gcmorffcn, jonb rn aud^ Jd^on 
in bic Çdujer fotnntcíi unb ctíid^c auff il^reu í*agern crfd^íagcu, auái bie 
meiflen in bic gíud^t bem Riuire jugcbrad^t, iebocj^ auff nmnníidjeê 
feS^ten unb jufpred^cn §rn. SWajlor @c3^itcpê, bcr fic^ i?ou feinem íoia* 
ment ^cra6 bcgcben, unb bic miiflcn @oíbaten recoUigirt, rotbcr init 
grosem SJcríufl abgctricbcn, mie toix baun aíê bcr S^ag angebrocj^cn, 
Dicí 2^obtc au§= unb inncr^aíb bcr ^rupttoc^rcn fcl^cn íicgen." 



App. 2.* ao Livro 2.*^ 

Docnmentos respectivos ás primeiras noticias chegadas a Portugal, 
acerca da tomada de Olinda e do Eecife, etc. 

Doe. 7.® Minuta de uma Carta dirigida a elrei pelo governo de Portugal. 

Senhor. Pelo ordinário que partio a 13 deste dey a V. Mag. 
do aviso qui se teve por via do po^to do sucesso que tivera na Ilha 
de Fernão de noronha a gente que aly mandou Mathias de Albu- 
querque e do que se entendera dos Olandezes que forao prezos na 
alta Hha da Armada que ahy esperavão para Ir sobre Pernambuco 
.e de como esto tinha mandado aprestar duas Caravellas para Irem 
com soccorro á quella Capitania e trattaria con ho Conselho destado 
amatería e o que mais convinha fazer-se nella e asin dos provimen- 
tos que em companhia das náos hiao em hum navio a esta Capita- 
nia, e em outro á Bahia. Despois a dezessette deste se entendeo 
por cartas de homens de negocio escrittas no porto para outros desta 
Cidade que por hú navio que chegara a fonrol e partira da Paraiba 
a 16 de Fevereiro se avisara que sobre pernambuco ficavao sincoenta 
e sinco náoB Olandezes, e estando em belem asistindo á sabida das 
náos de que em outra caita dou conta a V. Mag. me derao ahi no 
mesmo dia á noite húa carta de António de Albuquerque Capitam 
da Paraiba feita a 17 do mez de Fevereiro pela qual avisa que sobre 
adita praça de Pernaobuquo ficavao mais de cincoenta nãos grosas 
de Olandezes e com esta carta vinha outra da Camará de Viana em 
que se dezia que hum maço de cai-tas do dito António dalbuqueique 



^88 NOTAS E APPÉNDICES. 

para V. Mag. que com a que se me envi</u, se lhe remetera de fer- 
rol vindas no mesmo navio de que asima se trata se avia encami- 
nhado a y. Magestade, a essa Corte com correo expresso por aaim 
se declai-ar no sobre escrito do dito maço. Ontem 22 deite p«]a 
manhSm me trouxerao estando eu no governo hum homen do mu* 
que disse que elle pai*tira da paraiba a 19 de Fevereiro en huma 
Caravella de Álvaro pires palhano Yezinho da Atouguia aqual des- 
pachara António de Albuquerque com aviso a Y. Mag. de que a de- 
zoito do dito mez de noite tivera Recado, de Pernambuco de que a 
Vila de Olinda era perdida e fora entrada pelos Olandezes em nu- 
mero de mil e seis centos homens que dezembarcarao no pao ama- 
relo estando as náos Olandezas fazendo bateria no arrecife com os 
fortes dele e que se deziao serem as náos Olandezas sesenta e tan- 
tas, e que Junto á Ilha do faial encontrarão huma náo olandeza que 
os tomara e o despacho para V. Mag se lançara ao mar e que elle 
fora parar á Ilha terceira depois de o enemigo deitar agente da Ca- 
ravela que largou na Ilha de Sam Jorge donde viera com outros 
Roubados, em hum navio francês, e estando Falando com este ho- 
men, chegou hum Clérigo que veio no mesmo navio francês e me 
deu hum maço do corregedor das Ilhas com hum Auto das pergun- 
tas que fez aos Roubados á cerqua deste aviso que em sustuicia 
vem aser o mesmo que declarou este homen e dahj a pouco espaço 
chegarão outros dous mais que declararão o mesmo e de todos trez 
se amarão os ditos em hum papel que disso se fez. 

£n conprimento do primeiro aviso que tenho enviado a 
V.Mag. ordenei que se aprestasem logo as duas Caravellas que 
avizei a \. Mag. para irem a pernaobuco com todo o soccoiro que 
nellas pudesse ir alem do que se tinha mandado meter no pataxo 
que avi/ei a V. Mag., o qual partira com as ncáos e logo que ouve 
o segundo aviso do porto e do Viana de estar já o enemigo sobre 
pernaobuco o qual me tomou em belem abordo das náos, ordeney 
da ly mesmo ao Conselho da fazenda que se acabasem logo de 
aprestar as duas caravelas que havião de ir a Pernaobuco e consi- 
derando que se o enemigo fose daly lançado se podia Besear a 
Paraiba e o Rio de Janeiro ordenei que se armasem mais duas Ca- 
ravelas húa para a Paraiba outra para o Rio de Janeiro e me vim a 
esta Cidade, e cliamej o Conselho desiado onde os ditos avizos se 
virão e as Consultas do Conselho da fazenda em que se convinha e 
estava ordenado no apresto das caravelas e o que nellas se enviava 
e paresce ao Conselho o que V. Mag. mandara ver na consulta Es- 
crita a 22 deste' que vai por este correo en cuja conformidade fis 
logo p'artir para pernaobuco aprimeira caravela de que vai por Ca- 
pitão manoel gonsalvcs que estava mais adiante em seu apresto 
que saio deste porto ontem sobre a tarde e as outras duas ouverao 
ae partir esta noite eo deixao de fazer por o tempo estar brando 
e nao terem maré, mas partirão de madrugada porque estão de tudo 
a ponto para poderem sair húa para Pernãobuquo de que he Capi- 
tam Santos da Costa moreno e outra para a Paraíba de que 
he Capitam António de Araújo de moguemes em que vao embu- 
cados a pólvora, monisdes e armas, que V. Mag. mandara ver d» 



NOTAS E APPENDICES. 289 

Belasão do provedor dog Almazens que se envie a V. Mag. e na 
.GwfaTela que mandei aprestar para o. Elo de Janeiro se sobresteve 
por se entender depois que ho enemigo não podia hir agora para 
ftqaéla parte do porto em que se acha, e parecer que se deviao ver 
primeiro as cartas de martin de Saa que se receberão estes dias 
com que veo o sargento mór daquella praça que ordenei que fosse 
ouvido sobre que Consultarei a V. Magestade se asy convier, por se 
entender que haverá tempo para iso com ho aviso que se teve on- 
tem pela menham ordenei logo que se tomase Copia de Caravelas e 
se chamase o Concelho destado onde tratei a matéria do dito avizo 
e pareseo o que V. Magestade mandara ver na Consulta de 23 deste 
que também vai com este correo em cuja conformidade se ficão 
aprestando seis das ditas Caravelas, e tratando das armas pólvora e 
muniçdes qne se hão de mandar nelas, e de se asentarem trezentos 
soldados para que deles aberto asento nos Almazens e as ditas ca- 
ravellas hão de ir partindo asim como se forem aprestando sem 
esperarem huas por outras, e o dinheiro com que se hão de fazer 
estas despezas, se tomará donde o ouver mais prompto como a nese 
sidade o pede. Isto he tudo o que por ora se pode fazer antes de 
V. Mageste.de ter entendido estes avizos que queira deos que não sejão 
sertos como muitos descursão mas para em cazo que nossos pecados 
ajão dado lugar a que estes Reinos Resebesem hum tão grande cas- 
tigo como este Justo será que todos recorramos a Deos por misere- 
cordia e que V. Magestade por sua grandeza mande ver, e considerar* 
os grandes damnos que desta perda se seguirão não somente a estes 
Reinos mas atoda a monarquia de V. Magestade e a este respeito me 
pareçeo que devia enviar a V. Magestade o papel que com este será. 
posto que o que nelle se aponta são cousas muito sabidas. Se o 
enemigo tomou alguma praça no brazil e se fortefica nella bem 
mostra o Serviço de V. Magestade quanto importa acudirse a isso 
com as forsas nesesarias e debaixo das bandeiras de V. Magestade, 
hão de esperar todos os bons subsesos, que se podem dezejar edos 
Vasalos desta Coroa he de crer que cumprirão muito inteiramente 
com sua obrigação nesta ocazião, e em todas as do Serviço de Y. 
Magestade. As Consultas do Conselho da fazenda que se fizerão sobre 
estes socorros, e os mais papeis de que se trata nesta Carta vão com 
as consultas do conselho destado a V. Magestade D. G. a Católica 
pessoa de V. Magestade Lisboa a 23 de Abril de 1630. 

(R. Arch. de Lisboa, Parte 1. Maço IIS — Docum. 33.) 



Doe. 8". Minute de outra carta dirigida a elrei pelo Governo de 
Portugal. 

Senhor. Esta tarde Recebi por via de Fernão gomez de qua- 
dros, que assiste em Buarcos as cartas que com esta envio a V. Mag 
de António de Albuquerque Capitão da Parahiba feitas a 17 e 18 
de fevereiro passado, as quais o dito Fernão gomez me encaminhou 
com outra sua que tãobem aqui vai em que dá conta do navio em 
que chegarão as ditas cartas, e do respeito que teve para as enca- 

19 



290 NOTAS E APPENDICES. 

minhar a este governo. Chamei logo o concelho de estado, em que 
forão prezentes Dom Goncalho Coutt." Ruy da Silva, Luis da Silvi, 
Dom Jerónimo Conttinho, e os Condes de Castello novo, Sâo J(^, 
e S.** Cruz, enelle se virão as ditas Cartas, e despois disso propu 
como erão partidas as trez Caravellas em qne se enviarao os provi- 
mentos a Pernambuco, e á Parahiba, de mais dos que tinhao hido 
nas duas embarcações que forao em companhia das náos, e como se 
esta vão fazendo prestes outras seis para passarem nellas ate trezen- 
tos soldados com mais muniçoens , e armas como tudo se avia re- 
prezentado a V. Mag. pella Consulta do Conselho destado que se 
enviou a V. Mag. com o extraordinário que partio a 24 deste eque 
com a ocazião do que mais se continha nestas cartas visse o Con- 
selho se se devião fazer outras algumas prevenções emquanto V. Mag. 
não respondia á ditta Consulta, e se se devia despachar logo com 
este avizo a V. Mag., e convinha avizar-se Angola, e as mais con- 
quistas, e assy mesmo provesse a]guma couza na segurança das nãos 
que se esperao da índia 

E Parece atodos que este avizo não ti*azia toda a>clareza ne- 
cessária para tirar duvidas, e que podia haver nelle falências porque 
António de Albuquerque não dezia que pessoa lhe escrevera o (fito 
avizo para se ver que credito se lhe podia dar, nem as por quem o 
entendera para se saber se erão de confiança, nem se colhe do qne 
se conthem na sua Carta que fizera Autos dos dittos dos que lhe 
trouxerão esta nova, o que se ouvera, sem duvida deverão vir com 
ella: e se apontarão alguns exemplos de sucessos semelh^intes , em 
que as noticias dadas por pessoas vagas se acharão ser incertas. 
Porém tornarão todos a reprezentar o mesmo preferirão a V. Mag. 
na Consulta que he hida a V. Mag. em rezão da importância de 
Pernambuco, e do muito que convinha não só a este Beino mas 
universalmente a toda a monarchia não se foi*tefícar o enemigo em 
nenhuma Praça do estado do Brazil, considerando-se desde logo as 
forças que se devião empregar nesta empreza para que se o enemigo, 
o que Deos não premitta, se tiver forteficado em terra se acudir logo 
a isso com toda a forma necessária; e que para isso devião logo 
hir a V. Mae. estas Cartas de António de Albuquerque por bnm 
correo em toda a deligencia, para que por ellas seja presente a 
V, Mag. o que António de Albuquerque aviza. E em quanto ao que 
da qui se podia fazer no ínterim, Pareceo que as seis OaraveU&s 
que estão tomadas, e se estão aprestando se acabassem de aparel- 
har com toda a brevidade e se fossem despachando assy como 
se fossem aviando, e fossem todas a Pernambuco onde a ne- 
cessidade do soccorro apertava e que demais de se escrever ao Go- 
vernador geral Diogo Luiz de Oliveira em todas estas Caravellas, 
se lhe devia despachar outra em direitura a Bahia com o mesmo 
avizo, dando-Be>lhe conta de tudo o que se manda a Pomanfonco, e 
que a que se enviasse á quella Capitania fosse demandar as panr 
gens que se declararão ás outras Caravellas que partirão esta 
semana, para que passando por todo o risco metesse o dito soccorro: 
£ quando por aquelles postos isto não pudesse ser, entrassem na 
Parahiba: para se intentar o eíFeito disto por aquelle Porto; e qne 



N0TA8 E APPÉNDICES. 291 

de mais da Pólvora, munições, e Armas, e gente que hade bir nes- 
ta4B seis Caravellas, vao nellas todos os mantimentos de biscoyto, 
Vinho, Azeite, Arros e Sal que puder ser, com que não sejâo em 
quantidade que vão as Caravellas com pezo que as fassa menos U- 
geiras ; e quanto a se dar avizo ás nãos : Pareceo que como eUas 
levavao Regimento para derrota batida virem em direitura a este 
Beino sem tomar Porto, e que só se Ibe prometia em algum grande 
cazo tomarem Santa EÍeua, que para o damno que aly pudessem 
receber nao bavia prevenção, porque quando lá cbegasse o avizo da 
qui tirião ellas deixado aquella paragem, e para se fazer avizo das 
Ubás para que bavia tempo bastante para se cuidar nisso conforme 
ao que ao diante se entendesse dos enimigos. E quanto a se avizar 
a Angola, e as outras Conquistas, Pareceo que se podia escuzar to- 
marense navios para isso, porque o Governador Dom Manoel pereira 
já daqui levou entendido a armada enemiga que estava no Brazil, e 
ás mais partes se tinha avizado na forma que Y. Mag. tinha Orde- 
nado. O que fica dito be o que pareceo em Concelho destado em 
sustancia de que não se fez Consulta por se acabar muito tarde o 
Concelho, e não serem Oras de se poder rubricar a consulta; pare- 
cendo me que não se podia perder nenhúa em dar este avizo a 
V. Mag. como o fasso referindo nesta a V. Mag. o Parecer do Con- 
celho com que me conformo, e fíca-se tratando de despachar estas 
Caravellas com toda apressa de maneira (^ne este pouco que agora 
daqui pode bir, parta logo, e se vá contmuando, para que em qual 
quer estado que estejão as couzas do Brazil dê algum alento, e se 
veja neste o cuidado com que V. Mag. está de acudir com forsas 
bastantes a remediar qual sucesso. 

Ao Ar." Governador não mandey dar conta deste negocio 
porque quando esta tarde me derão as cartas logo chamey ao con- 
selho a onde se vio aque vinha para V. Mag. ecomo o conselho se 
acabou com parte da noite gastada não erão horas e também por 
que inda ante ontem não se atreverão a enviarlhe o retro avizo 
que foi a V. Mag. pello extraordinário como V. Mag. terá visto 
pello escrjto do doutor gaspar do Kego da fonseca que foi a V. M. 
e ate oje não sey que esteja melhorado da saúde e sobre tudo hera 
necessário despachar logo este corree. E não se dilatar. Lx.* a 25 
de Abril 1630. 

(R. Arch. de Lisboa, Parte 1. Maço 118, Doe. 3.) 

Doe. 9.® Carta de António de Albuquerque para V. M. 

Depois de ter escrita esta carta a Y. Mag. somos em deza- 
sete de fevereiro ás onze da noite hora em que me chega avizo 
como sábado passado que forão quinze do dito cometeo o enemigo 
com a maior força de sua Armada o lugar do Recife de Pernam- 
buco, e acudindo Mathias de Albuquerque com a força da gente 
despois de haver posto a que lhe pareceo necessária no páo Amarello 
para sua defenssao botou o dito enemigo aly dous mil nomens com 
gaias muito praticas que trazião para os caminhos daquelle lugar, e 



292 NOTAS E APPÉNDICES. 

vierSo marchando pella praya, e pello certao, e havendo-se-íhe feitos 
pellos Capitães que aly estavao muita rezistencia quizei^o nossos 
peccados que matassem, e ferissem a todos os ditos Capitães, e re- 
crescendo os enemigos sobre os nossos que seriao duzentos para 
trezentos homens se fizerao senhores do Campo, e vierão marchando, 
e posto que em alguns passos se lhes fez cara com tudo o enemigo 
entrou a villa que não tem aquella parte deffenssao, e delia estio 
hoje Senhores, o dito Mathias de Albuquerque que estava no dito 
lugar do Eecife na maior força da bataria quando se lhe deu avizo, 
e quiz acudir foi a tempo que ja estavao senhores da dita Yilla, o 
dito Mathias de Albuquerque está no *Recife reduzido com todagente 
espero em nosso senhor que aly se haja de defender com muito 
damno do dito enemigo, o qual athé à quella hora nao tinha feito 
nenhum nem ao forte do mar e os da terra, nem ao mesmo lugar 
do dito arecife, estas sáo as informações mais particulares que to- 
mey do sucesso, porém o avizo breve somente contem ^ue o ene- 
migo entrou a dita Villa sábado ao meio dia Y. Mag. julgara do 
Estado em que ficamos e Eu em huma capitania tão limitada etlo 
mal forteficada e guarnecida como esta e sobre tudo tam mal soc- 
corrida do governador geral deste Estado Diogo Luiz d'01iveira que 
nem ainda a artelharia que V. Mag. mandou que me desse ma qui^ 
mandar nem tão pouco consentir que eu uzasse da comissão que 
V. Mag. me cometeo para que nas occazioons da guerra pudesse fo- 
zer as despezas necessárias e ultimamente mandar ao provedor e 
capitão de Pernambuco menao soccorresse como justificarei a V. M. 
quando for tempo, V. Mag. nos soccorra com toda a força e brevi- 
dade antes que intente as mais capitanias do Norte, as Vellas t^ao 
segundo me avizarão sessenta se tiver lugar de fazer avizo a dom 
Fradique de toledo o farey o qual fico esperando D. G. etc. Da Para- 
hiba a 17 de Fevereiro (as horas que me veio este avizo) de 1630. 



Doe. 10.® Carta de António de Albuquerque 

Serve esta de acompanhar este prego para S. Mag. em que 
lhe laço avizo como sessenta náos Olandezas que vierao sobre Per- 
nambuco botarão dous mil homens no páo amarelo os quais entra- 
rão e saquearão e estão senhores da Villa de Olinda tendo Mathias 
de Albuquerque acudido á maior força da bataria que se lhe fazia 
no lagar do Recife donde toda a nossa gente está reduzida e donde 
não poderá ser entrada salvo for por fome que nao haverá em 
juanto S. Mag. soccorra, V. S. me faça mercê e a S. Mag. grande 
serviço de remeter este prego pella posta a Madrid para que S. M. 
tenha entendido o estado em que ficamos porque a matéria he de 
tanta caridade a náo encareço a V. S. etc. — Oje 18 de Fevereiro 
de 1630. — Vay da Parahiba António dalbuquerque. 



NOTAS E APPÉNDICES. 293 



Doe. 11.® Carta de FernSo gomes de suadros. 

Neste porto de figueira rizinho das Yilla de buaroos onde 
vivo yeo ter numa Caravella qne sahio da Parahiba a quinze de 
Fevereiro conforme a carta do Capitão mor da dita yilla que com 
esta e com o prego para V. Mag. remeto com toda abrevidade pos- 
sível e em comprimento da ordem que o dito Capitão mor dava no 
sobrescrito me pareceo servia a V. Mag. em o abrir para com toda 
a preça chegar este avizo que posto que não falava comigo ex offi- 
cio nem cargo com tudo como vassallo de V. Mag. e zeloso de seu 
serviço me atrevi a dar comprimento a esta ordem como farey ás 
mães que chegarem a este porto sendo Y. Mag. disso servido. 

Estas yillas de buarcos já duas vezes saqueadas, os templos 
e imagens delles queimadas estão em tão mizeravel estado que se 
vâo despovoando por que não há nellas pessoa artelharia nem ar- 
mas com que se defendão e os que aqui vivemos acompanhados de 
honra e de mulher e filhos havemos de esperar e fazelo com a cer- 
teza de morrer ou ser cativos he couza que a natureza repugna 
posto que a onra nos obriga V. Mag. como Bey e senhor nosso 

Sonha os olhos neste desemparo provendo por sj ou obrigando aos 
onatarios que com efeito acudão aseus vassallos figueira 21 de Abril 
de 1630. — Fernão gomes de quadros. 



Doe. 12.® Relaçam que deu Silvestre manco, Vezinho de Cascaes e Pi 
loto do pattaxo Nossa Senhora do Bozario do successo que 
teve na Jornada que fez de ida evinda a Tamaraqua e do mais 
que Alcansou o tempo que se deteve nos portos do Brazil. 

Partio em dia de natal de esta cidade fes sua viagem em 
vinte e seis dias e chegou a tamaraca em vinte e hum de Janeiro 
deste anno prezentte ao entrar da barra perdeo a sua Embarcassão 
acossado de trez Ladrões que o seguirão. Esteve na dita vila de 
tamaraca trez mezes tempo em que se tomou pernambuquo pelos 
enimigos e que logo mandou de socorro o capitão mor de tamaraqua 
huma companhia de soldados en que elle silvestre manso também 
foi. Chegarão ao Arraial ao outro dia marchando por terra as sinco 
legoas que ha de distancia, e no ditto Arrajal achou Mathias d' Al- 
buquerque com muita gente de pe e quarenta at^ quarenta e sinco 
omes de Cavalo, situado o ditto Arrayal bua legoa pouco mais ou 
menos de pernambuco onde asistio trez ou quatro dias te que o 
mandarão outra vez para tamaraca aprestar o navio nossa se- 
nhora do Bozario que estava no porto da gojana para nelle vir 
de avizo a esta cidade e aprestado o ditto navio se avizou ao arrayal 
donde lhe mandarão as Cartas que digo para sua magestade e outras 
muitas de particulares com ordem de Mathias de Albuquerque que 
logo se partisse. 



294 NOTAS E APPÉNDICES. 

Sahio do ditto porto de gojana en três de maio e por o navio 
em que yinba nao sorrer o pano tomarSlo o porto da Parayba em 
Beis do ditto mes onde se deteve por todo elle fazendo hum enboyno 
ao navio para Aguardar milhor a Vela e então soube por cartas qae 
vierão ao Capitão mor como em pernambuco os nossos avião dado 
hum Asalto aos enemigos en hum forte que tinhâo feito pela parte 
de santo António em que lhe mattarao trinta e oito homens 
e lhe descavalgarão a artelharia com perda somente de des ou 
onze bornes dos nossos que ao Becolherense nos matarão e de- 
pois lhe derão segundo asalto em o buraco de sao tiago em hua 
companhia sua que hia do Arecife para a vila onde hia o Coronel 
dos enemigos que se dezia ir passado de huma Bala e lhe matarão 
quarenta e tantos bornes afora outros muitos que de apertados se 
lançarão ao mar e se afogarão. 

Os mais dos dias os cometiao os nossos em que lhe fuiSo 
algum dano mattando a buns e cativando a outros sendo sempie 
em nosso favor o gentio com muita gente sna que por todas as 
partes lhe faziao perda e babi achou novas que erao chegadas duas 
caravelas das que desta cidade partirão de socorro as quaes tomai^ 
o porto dos mangues dezoito legoas de Pernambuco pela parte do 
Sul bo dito socorro foi logo encaminhado en carros para o Arrayal 
e já avia serteza que la estava, o que levou a outra caravela de 
Cascaes em que hia por capitão João daraujo aqual tomou o porto 
de tamaraqua que fica sinco legoas á parte do norte e que também 
era chegado o pataxo que foi em companhia das náos o qual tomon 
o porto de Pojuca que fica nove legoas de Pernambuco pela parte 
do sul com a chegada deste socorro ncarão os nossos mães alen&dos 
pela falta em que se vião de Pólvora emonições e já com alguns 
mantimentos de legumes que se biao colhendo e alguma farinha 
das Bossas que se avião feito. 

E que a Vila de tamaraqua ficava fortefieada com desoito 
pessas dartelharia e com huma cava que a cercava toda de vinte 
palmos de altura e dez de largo. E a parayba donde partio a dons 
de Junho ficava com doze pessas na fortaleza que tem na barra e 
nos trez baluartes que tem á entrada quatro pessas cada hum mui 
bem trincheirado e com muita gente e com trez navios que ficavlo 
para carregar. 

Veio fazendo sua viagem com trinta e oito pessoas qne vi- 
nhão em sua companhia como passageiros eos mães da nayegassão 
e na altura de quarenta e três gráos sento e sincoeata legoas de 
terra encontroa dons ladroes em duas náos de porte que yierSo em 
seu alcanse e por entrar a noite lhe pôde escapar. 

E em vmte oito de Julho na altura de buarcos amanheseo 
junto á terra donde deu com sinco navios de turcos que estavSo 
com o pano tomado. E logo que os virão largarão as velas e lhe 
derão cassa pondo em tanto que deu á costa junto de buarcos e lhe 
cativarão seis homes Escapando os mães a nado que depois se n>> 
colherão por terra para suas cazas perdendo o navio e cento e no- 
venta caixas de as sucar e sincuenta quíntaes de pan brazU que 
tudo os turcos levarão. — Esta declaração he amesma que dea o 



N0TA8 E APPÉNDICES. 295 

dito i^oto Silvestre manso que escrevi por mandado do Snr. corre- 
gedor e nella asinou comigo Lisboa em 14 de agosto de QaO. Gre- 
gório de Valcasor de Moraes. Silvestre Manso. (P. 1, 118, 69). 



Doe. IS.'' Descripção da Cidade, e barra da Paraíba de António 
€k>iiçalves Paschoa, piloto natural de Peniche, que ha vinte ân- 
uos, que reside na dita Cidade. 

He Capitan da Paraiva António de Albuquerque filho de 
Hieionymo de Albuquerque, que conquistou o Maranhan, provido 
por el Eey sosso senhor, e passa de três annos que serve: he sol- 
teiro; terá de edade de Sò annos pouco mais ou menos 

A cidade da Paraiva tem hum Rio que vem decendo do cer- 
taa do Rumo de loes-sudueste eu este rumo desemboca no mar á 
la . • . delle. A cidade da Paraiva esta situada en hum monte alto 
ires legoas da boca da Barra, ao run(io do hies sudueste, até o 
sudoeste, que fica en huma paraje ao pé da mesma cidade. 

Por este Rio podem entrar navios com aguas vivas de até 
tresentas tonelladas carregadas, e van surgir junto á mesma cidade 
tam longe delia como de San Roque ao mar ou mais perto da qui 
para cima nan podem passar, senan barcos de carga de cem caixas 
de asucar que servu*a no trato da mesma costa do Brazil, e estes 
van acima da cidade três legoas aonde esta o passo donde reco- 
lhem os asucares, que vem dos engenhos para se meterem nos navios. 

A barra deste Rio se senhala é conhece pellos arrecifes que 
lança ella para o sul até perto do cabo branco, que serão três léguas 
e pêra o norte até á ponta de lucena que he húa ponta raza com o 
mar 4ue seram duas léguas e meia pouca mais, ou menos: em to- 
das estas seis legoas de recifes nan pode entrar navio nenhum 
grande e irem pêlla barra dentro, nem podem dar fundo senão 
afastados ao mar dos ditos arrecifes fora um tiro do mosquete é 
com muito grande risco. 

Entrando pella barra dentro, que se entra com suas vigias 
por haver alguas coroas de área é a restinga três quartos de legoa 
da barra da parte do sul. Da banda donde estava a cidade esta 
hna fortaleza de barro sobre hum areal fortíssima é antigua cuberta 
de telhas e folha de palma, que tem vinte e tantas peçias de arte- 
Iharia de ferro coado muito boas alguas delias que arrojan pelouro 
de doze, ou catorze libras, é logo de fronte à ella da banda do Rio 
á loeste fica húa Ilha dos Padres de Sam Bento, que tara em re- 
dondo mais de meia legoa acostada a outra parte da terra da bamda 
do noroeste jpor onde entre ella e a terra nan pode paesM* senan 
hum barco de remos, porque á may do rio fica entre a dita Ilha. 
Este he o canal por onde sobem as embarcações porém todas as 
podem alcansar a artelheria da dita fortaleza; porquanto delia a 
Dha não avera mais distancia, como de Sam Roque ao outro da 
boa vista. 

Esta fortaleza pode ser socorrida de dentro da cidade per 



296 NOTAS E APPENDICES. 

terra de gente de pese 6 cavallo dentro em três horas porque quanto 
á ocasião de enemigoi se tira húa pessa de rebate que se oare 
muito bem na cidade, e se pode conhecer por ella que ha enemigos 
na barra e da mesma maneira com outra pessa de rebate, que se 
tira na cidade podem os moradores do engenhos, que estan a três 
e a quatro legoas acudir á cidade. 

He capitan desta fortaleza proprietário por S, M. Joam de 
Matos homem antiguo de idade de 80 annos, e que se criou ali ha 
muitos annos , e se achou em todas as guerras que houve na Pa- 
raiya con os índios porem hoje serve em seu lugar é asiste nu 
fortaleza Siman de Albuquerque de Mello seu genro home fidalgo 
de idade 30 annos diligente e capaz do cargo que tem como mos- 
trou o anno de 627 em defençam de hum navio de Viana que se 
soccorreo á fortaleza perseguido de quatro navios de inemigos que a 
fortaleza fez retirar e o remédio que tem os navios perseguidos de 
enemigos he acostarse á fortaleza em que ordinariamente asistem 
20—80 homens das companhias da ordenança áfóra os bombardei- 
ros, e alguns soldados pagos por el Kej que poderan ser por todos 
dez ou doze. E o capitan sempre asiste com elles de morada com 
sua molher, e filhos. 

Passando os navios a fortaleza para cidade podem desembarcai 
gente até húa paragem que chaman o Jacaré, que fica da parte do 
sul da banda da cidade porque tudo e demais de húa parte e da 
outra são mangues e arvoreda serrada com o mesmo Bio, onde se 
nam pode desembarcar por respeito dos muitos braços que faz o 
Bio com muito grandes hunas. 

E ainda em caso, que os enemigos desembarquem na pa^ 
ragem acima dita não podem chegar a cidade per respeito de húa 
grande alagoa, que a cerca que de enverno esta cheia de agoa, e 
de veram de lodo e não tem mais que hua passagem. En hum areal 
que he o caminho por onde se vay por terra á fortaleza e ao cabo 
branco, que com hua trinchera se pode defender o passo. 

Per maneira que por terra nam podem os enemigos tomar a 
Paraiva, porque com pouca gente se defendera os passos é será 
forçado pêra á averem de tomar ja com os navios pello Bio asima 
até surgirem defronte da cidade que no porto da desembarcaçam 
dos navios que será da cidade como do terreiro do passo ao castello 
ladeira acima; tem junto ao mar dois fortes hum com dez pessas, 
é outro com oito de ferro coado ficando hum sobre o outro a modo 
de duas andaimas de artelharia afastado hum do outro trinta pas- 
sos de modo, que o de dez pessas que he de pedra de cantoria com 
suas trincheras fica ao lume d'agua, e o outro que he terrapleno de 
barro fica por sima senhoreando o de barro, e cada hum destes for- 
tes tem seu oapitam e artelheiros, mas nam pagos por el Bey; 
porque o de baixo fez hum senhor de engenhos chamado Manoel 
Perez: correa sua custa ha cinco, ou seis annos e o sustenta e 
outro fez o oapitam mor a custa dei Bey havra hum anuo que esta 
acabado con pesBàe mandadas de Lisboa. 

Por maneira que con artelheria destes doui fortes, e trin- 
cheiras, que estam de hua parte e da outra pêra mosqaeteria se 



iS 



NOTAS E APPÉNDICES. 297 

pode ddénder á desembarcaçam, é tudo o maiB de hua parte e da 
outra sam arvoredos, que entrao no mesmo Bio adonde se nam 
pode desembarcar em hum tempo. 

Tem a cidade dentro em si cem homens que podem tomar 
armai, e no recôncavo delia quatro legoas haverá quinhentos homens 
brancos, que dentro em meio dia es^rao todus na Cidade e dentro 
em húa hora podem ser na cidade 800 até 900 Índios frecheiros 
com sens capitães indios que estan situados até hua legoa da ci- 
dade; esta gente branca esta repartida em três companhias cm 
três capitães de infanteria, e húa companhia de gente de cavallo, e 
isto afóra os capitães de cavalla que terá de 60 até 70 homens 
gente luzida com seu capitam e boa gente de cavallo e isto afora 
08 capiiÃes do forte. 

Por maneira que não havendo descuido no capitam mor, 
nem na gente da terra não se poderá tomar a Paraiva pellos ene- 
migos por ser mui defensável e ter gente pêra se defender. 

Da banda do norte da fortaleza do cabedelo cem legoas até 
á Bahia da traição é donde podem desembarcar os enemigos e 
marchar pura os engenhos, que estan nas fronteiras da Paraiva, e 
ftzer-lhe dano por ser a terra de campinas, porém não podem che- 
gar á cidade porque fica da bamda do sul do Bio e pêra rodearem 
r terra hão de caminhar duas lego is na dita bahia da traiçam. 
um lago de agoa doce aonde podem fazer aguada, e meia legoa 

ao sul do lago esta e Bio de por onde os Olandezes vam 

con chalupas pello Bio acima três e quatro legoas e chegam aonde 
estão os curraes das vacas : e se podem prover de carnes se 
lha não defenderem, e nesta paragem foi o recontro que a nossa 
gente teve com os Olandezes o anno que a armada Beal foi 
á Bahia. 

Tirado do original feito judicialmente por ordem do Go^ 
vemo no anno de 1630. (Copia da Bib. N. de Madrid.) 



Doe. 14.* Acta do Conselho d'Estado. (29 d'Abril de 1630.) 

Aos vinte e nove de mes prezente a tarde chamou o Conde 
governador dom Diogo de Castro a Conselho de Estado em que se 
acharão prezentes dom Gonçalo Coutinho o Begedor Bui da Silva 
Luiz da Silva dom Jerónimo Coutinho e os Condes de Castello 
Novo são João Santa Cruz e propoz que á qnella ora chegara de 
Belém hum Beligioso da Ordem de Santo An^nio que se chamava 
Frey christovao de São Jozephe, que vinha da Parahiba com cartas 
de António de Albuquerque com que vinha e outras de matias dal- 
buquerque, e que este Beligiozo se achara em Pernambuco na ocasião 
do cazo acontecido naquella capitania com os OlandaieB e que pelo 
que delle se entendia se satisfaça aos primeiros avkoe que António 
aalbuquerque tinha «enviado, e a inda se acrescentava a elles á 
perda dos fortes do arecife e que detivera o dito Beligioso para que 

20 



298 NOTAS E APPÉNDICES. 

depois de vistas as Cartas se pudesse no Conselho tomar delle a maei 
informação que conuiesce para o que se havia de notar e logo ordenou 
o Conde governador que se ahrisse as ditas cartas como se fez e 
contem o que a V. Mag. será prezente pelas mesmas Cartas que 
com esta consulta vão a Y. Mag. e despois disso reprezeatou que 
por hum extraordinário recebera uma carta de Y. Mag. de vinte e 
três do prezente pela qual se via que o primeiro avizo de António 
dalbuquerque de ncar a armada enemiga sobre a capitania de Per- 
nambuco havia chegado ja a Y. Mag. a qual carta tsunbem ordenou 
que se lesse como se fez. E porque pareceo ao Conselho ane antes 

de se passar ao devia ser ouuido nelle e preguntado o dito 

Beligioso o ordenou também assy o Conde goY&tiUk&t e depois de 
se ter feito esta diligencia se tomou por escrito o qiifi^ declarou que 
he o que Y. Mag. mandara ver no papel que vaj mcluso nesta 
consulta assinado pelo dito religioso e logo o Conde governa- 
dor Propoz que considerada a perda de Pernambuco e ficar o ene- 
miguo Senhor de todas as fortificações e o que havia passado neste 
sucesso e a importância da praça, e o que conuinha sua restauração 
e quanto ella dependia da brevidade com que era necessário que 
logo se empredesse nottasse o Conselho quando seria a monção mus 

Eropria para Y. Mag. mandar ao Brazil as forças com que avia de 
insar da quelle estodo estes Rebeldes e quaes e em que cantidade 
devião ser para se conseguir o effeito declarando o necessário de 
gente e navios para conforme a isso Y. Mag. mandar ver donde 
avião de sair a sustancia e o tempo para que se avia de prevenir o 
necessário, e que o Conselho em particular apontasse todas as maia 
couzas que devesse que tivesse por convenientes em razão da intento 
e da milhor disposição delle. 

E por todo o conselho se fez o devido sentimento desta nova 
considerando os graves danos que da perda de Pernambuco se podem 
seguir não somente pelo evidente prigo a que ficão expostas as mais 
capitanias do brazil que tem por couza infalivel que o enemiguo 
cometera logo se não porque conseguido este intento poderão passar 
a emprender as praças das Índias occidentaes e do mesmo citio po- 
derão também acabar de passar assi brevemente detido o comersio 
da índia oriental e porque esta empreza a cometerão e effectuarSo 
em ocasião em (que) as armas de Y. Mag. estão devididas por tantas 
partes que fazem o cuidado desta perda muito maior. Porem repre- 
zentarão todos que pezava tanto mais a restauração de Pernambuco 
e defensão do estado do brazil que todas as outras ocasi5es presen- 
tes em razão da conservação da monarquia que tinhao por muito 
certo que sendo isto tão prezente cumpre a Y. Mag. antepor a tudo 
esta empreza e ^ue vencendo-se todas as dificuldades inda quando 
chegarão a maior . aperto , mandara Y. Mag. tratar este negocio 
desde logo com o calor e forças supriores que elle requere. 

E quanto as com que conuiria fazer-se esta jornada votarik) 
todos que o enemiguo levara ao brazil setenta nãos a maior parte 
do porte e artelharia que se contem nas cartas de matias dalbih 
querque e que a este Respeito he a força da gpnte que nellas foi 
e devem ser as moniçdes e artelharia e mais provimentos e que assj 



9 



ag JliSZp l i ^ l T r-'-*. Cl? I1:'.*J. i l»: • .»» ifè.. < '«i ,V».\i ^,v »v* ^ 

Min! TuÊií ii::*L- 't-rr.iii • u.r.-i.-'... ? > vvç>.i %.|. , i., ^«,„. ,i.*»>^ 
-pkzlsk * i-^trêiL Cí íí.*;.r :;:. .-.'«vrj s. :.-. ,».■•. , ,1:4 o,ví,..». ».., v,. 

daiLi r lií- de Ter que ira iii;t;;.i'ii .... ,» ,|iiittii.- n.» nuf 

nz€!&»r tin rezSo de sv vm\^Av^:•^v^^ jwn.-i ««.->*;» .-ntti.i.i.t <«^ x.l.i»« •|mi< 
fosse entrando neste porto |i:irjv«»o ;i i.»il.i> .|ii« nio finiiiHifi «ii 
85it:<^» de V. Ma^. extvutaro oMnI i»r.li mi itiTum- -i* imimu* iit<t*<«it 
tes n^o erÃo os que ooniiinhrio y:vY:\ >c\ %w iMiMi.t thi.t innctilit «i 
auendo tiinto tem]H> da qui :i iuoi>vAi> •!:« mi^i jMih.i.i |i4i.i .i lii.wil 
seria imcompatlTel este ^a^to o triiilit>»c iiitCi«i.i ili. -«(.«« • iMlnitiinJi 
em toda^ as partas tiaria tot^Lhuniti* o miiicii m ilii«i.< |mmí.i jh nt 
nenhumii utilidade do t^crvívo «li> V. M.i(: iiiiio» ittll. ti.Huli«in<i \t\*\ 
entrarem por estas barras aN i'ttti/.:ia ilo i|iii> Idi i.<t((i< iiiiii>i<iitiii(ii 
para os mesmos aprestos t^om vo no |iiiili'i tiii|tiii niCi* liiU.t inj 
nenhuma outra via com tiiitt xi* uiiiiii»iil(ivJii ímíiía tw iimiihoí^iIiUi-Íi» 
des e o Conde do CaHtttUunovt» li-iuhiuii i|ii(' mi |mí v*((i,<i<i ilmii* 
navios tinha o melhor m<>io tratar i'i)iii u 1 Mi)tt iif|i<i i^ui i^i*tn,Uui,n 
armar nas cidades uiuIh íwih t\v Hlrutauiia ttic' (i)titii iiihki )i<t»<t miit 
jornada em que uí«.'HH(' to(ta> u» piovitiit-Min.'* *{^* •wium*'"" i»t»r> 
rem-se de aleuiauha yani it\nvuÍAt lici Aiiii>i<id > {'UàiimUiH»»! niu 
bombardeiros destn^H <; ajf^din.i ufU-llidiiti ili iiim 1 Ihhíi^í |iiU4i •; 
provimento dos rxavi(>:i qut> <u m- kiiimc-iijí i ii *\'Htk iji.myiln 1 nu 

tinhO e os Coudf^V du l^il> ,U:\'i < míIiIiII im/ Hm iidtittii •• tiii(>iiiii 

suposto que alj^uus duv i/mIii-> ('iihí^i IIh mu- K iiiluiiitiiii ipn |,<*iiu 
ajuda se não devia i'n/.rr i.ti<l.i .1 i«.iitti.iii<,.i *Í'-l- «Ii kiiuifui^K i^n l<i 
trato mistico qui.* t<.'iu ob oLiii«lt /,«.- t |i<'i "uii".' iO.^tíii.o^ i inji 
da Silva e ob Cuuduh «Jr ('.l^L(l^l i^uvo t tttVi Jo.i.!' 1 luiiii^ tiu/ 
lembrarão ma<> f^ui* jfuru (^l<l itUii/i- ilivi.i V iVt.i^ jiíiííi(1.li 4-íi.i.iii.íj 
todoE os maif iiavloh «jm )iu<lii-ot »(ii <li Imiiii|ui iijik í ii i^iiln,) 
parec6o ç|ue nilo túo hoiin-nii ri.i 1114,1 i.»i<ii'i" iii>t.ii(tii.i v Mi^^ o [<•; 
der det-ta ViruaMn piiru «íitn 1 iii|iii./..i lu.i. *\ut !''{/,'' * '" ('•iii<>ii*i'' 'in 

auteb diuhO bt QfVit. lii;;bt |»i>»ji.i,i>kii'l«< (01 <^.' If.ciiUkiiU [nUt* Hl* !■ uli 
BOCCOrn- (!<.' ^<íiit' iniini.iiiit it<i"i I iiiiiiii>/ii * }#.Uii »>iyiiiiO #• «iii|fi'/.ii 
e tambciu pai'<;<^;(' <. i(f<iiji i|iii .w ^iji^i^^t <Uii'/« iiuif' 4..ii»4,viV' '.'iHi." 
mídat íju». uãf' «i^j;. tjflli .luu.i» i ,. i/'it«<iii. i/i In. <v</>ii/i«i><''- -| ■*' 

maxiCiu^ã'. '.''ijiijii^i» >i-iii. , >««.,<<•;•• ']-. i... iT.. '.i>.i '^lu '..iK.. '/iJut 
'^•adi' «íBWâ ía' itm- «|i.' •.:'.•. /.y ímj ^<r.*j« .1. ■. iv.»'- íi'*íí *.• i\'tut 



300 NOTAS E A.PPENDICES. 

que uáo havia para elles artelbaria nem eoxarsea bastante e que assi 
a restauração do brazil e o lançar daly o enemiguo consestia nas 
forças unidas de toda a monarchia com que Y. l&g. avia de acidir 
a esta empreza e que os vaçalos desta Coroa era do crer que con- 
correrião nesta jornada com o amor com que sempre servirão a 
V. Mag. e aos senhores Reis deste Reino seus antecessores em to- 
das as ocasi5es que se offerecerao quanto mais nesta tao importante 
e tão própria de todos e quanto ao tempo em que se poderia come- 
ter esta empreza e sair daqui a Armada Pareceo que devia ser em 
conjuçáo que chegasse á costa do brazil quando la começasse o ve- 
rão que diz entrar em setembro e que a melhor ínonçao de partir 
daqui se tem que he a de agosto, e que para este tempo deue 
V. Mag. mandar juntar as forças, e Ruy da Silva lembrou que o 
tempo mais conveniente era o em que mais brevemente se pudesse 
ordenar a Armada porque a maior conveniência he nSo deixar refor- 
mar o enemiguo e ter tempo para se fortificar e com esta conside- 
ração lembrarão os Condes de Gastello novo e o dé sSo JoSo como 
ja o tem feito em outra consulta que he ida a Y. Mag. .que es- 
tando' as cousas no aperto em que se achao e sendo de presente 
tão grandes as impossibilidades da monarchia e as diversa das 
guerras de tantas partes não havia outro meio de se yencerem 
tantas dificuldades e de se conseguir a restauração do brazil se não 
a prezensa Real de Y. Mag. e que tem esta ocasião e empreza por 
muito digna e quasi Forçoza de V. Mag. decer ao mar e atender 
pessoalmente nas fabricas e juntas de Armadas a que principal- 
mente a sustancia de defensão dos estados de Y. Mag. agora esta 
reduzida por ser a guerra do mar a que mór cuidado deue dar a 
Y. Mag. pelo que V. Mag. deve ser servido de mandar considerar 
a isso o cazo o requere, e disperse a vir a este Reino com a maior 
brevidade possível também pareceo a todos que se deve logo cuidar 
com socorros a todas as mais Capitanias do biadl porque como 
fica dito estão todas em manifesto perigo de se perderem pelo 
grande poderio que o enemiguo esta naquellas partes e principal- 
mente ao Rio de Janeiro pois diz»>rem que o levão em cuidado e 
isto he de crer respeito de que não duvidarão dizer aos prezes que 
largarão na Hha de Cabo verde que hião a pernambuco oomo cons- 
tou pelo avizo de João pereira Corte Real e que agora executarão 
o que ameação contra o Rio de Janeiro e o Regedor lembrou que 
por quanto uma das cousas que Martim de sá capitão daquella 
capitania pedia com mais instancia era artelbaria de alcance e no 
Rio grande estava muita e muito boa artelbaria que naquella praça 
era de nenhum servido se devia tirar daly a que bastasse para se- 
gurar o Rio de Janeiro e também notarão todo.^t que era precisa- 
mente necessário acudir a parahiba se estiver ainda livre dos in- 
tentos do enemiguo porque se pode presumir que como as soas 
nãos groças não podem entrar em pernaobuco e o porto da para- 
hiba ter fundo para ellas esta tão perto e lhes he tao convemente 
para lhes ser de ajuda para sustentarem pernaobuco e para acolhe- 
mento das nãos maiores se entende que acabada a empreza de per- 
naobuco hírão sobre ella e como he couza tanto menos defensável 



NOTAS E APPÉNDICES. 301 

• 
nâo 86 ayera podido de livrar do prigo e quanto ao dinheiro que 
se dOiVe prevenir para o que esta coroa ouuer de apresentar para 
esta enoLpreza Pareceo a Luiz da Silva que se devia tomar o que 
estivesse livre do subsidio e tudo o mais que ouvesse e lembrou 
que segundo os avizos que havia de armar poderosamente por mar 
el Bei de frança e o de Inglaterra e andando os Olandezes com tao 
grosas armadas convém cuidar na defenção do Eeino e fazer para 
isso as provis5es necessárias e o Conde de Castello novo disse que 
se devia tudo o que a Keino tivesse concedido para o soccorro da 
Índia e lembrar-se Y. Mag. fosse servido de mandar responder a 
hmna Consulta que foi a Y. Mag. em que se lhe disse que estava 
parado o recebimento do Beal dagoa que esta Cidade tinha consse- 
dido a Y. Mag. sobre, assento que Y. Mag. tinha com ella tomado 
de mandar sentenciar no Eeino as Cauzas da Coroa que delle se 
tinhao ficado por Y. Mag. haver alterado depois esta condição e 
que se se tivera respondido a isto se tiverão tirado já mais de 
trinta mil cruzados. 

<2uanto as oouzas que seria bem que logo se fosse preuendo 
em quanto as forças unidas nSo uSó a esta empreza e as que se 
propoz que se notasse á cerca de se hauia outras alguas de que con- 
uiesse darse conta a Y. M. em razão deste sucesso Pareceo a todos 
que o que por ora daqui se podia fazer neste ínterim era o que 
se hia fazendo mandando se os socorros que se uao juntando a dis- 
filiada porque estes indo entrando na Capitania de pernaobuco 
com a poluora e munições que leuão e com a gente e capitães 
que uao juntando-se lhe os moradores dos engenhos que poderão 
leuar de caminho com siguo ao porto em que estiver Matias d' Al- 
buquerque a quem amde ir deferidos Farão corpo de gente com que 
se possão impedir as saidas do enemiguo e ainda adiantarem se nas 
fortificações, e tolher-lhe os prouimentos e imposibilitallos quanto 
puder se até chagarem as maiores forças de Y. M. como se fez na 
ocasião da bahia e também pareceo a todos que a gente que deue 
ir nas Caravellas que se aprestão devem ser quinhentos soldados 
tudo homens de serviço e que para se ajuntarem se facão todas as 
diligencias e vSo formados em companhias ainda que seia cada huma 
de menos gente da ordenança porque la no brazil se préfarao, e 
luiz da silua apontou que por quanto nos almazaes desta coroa não 
aula hum so mosquete e esta arma era a de mór effeito para esta 
gente servir melhor nesta ocasião conviria ao serviço de Y. M. visto 
a impossibilidade em que esta coroa estava de poder aver acantidade 
de mosquetes necessária por compra de neces&idade ser servido que 
das armarias de Castella se dessem a esta coroa seis ou sete mil 
mosquetes para se pagarem quando a Coroa pudesse para armar a 
gente que por sua conta seruisse nesta jornada e o regedor lembrou 
que se devia tratar logo de noipear a pessoa que ouvesse de ir por 
general da armada delia. E ao Conde de Castello novo pareceo que 
huma das cauzas com que mais efiectivamente se podião impedir ao 
enemiguo as saidas ao Campo e lograrse delle era a cavallaria que 
desta se devião formar duas ou mais companhias para o dito 
eífeito mas que se devião armar com meios arcabuzes de pederneira 



302 NOTAS E APPÉNDICES. 

que daqui se podiao mandar feitos de mosquetes de alemanha e que 
se pudiâo mandar daqui para adestrar aquella gente nestas armas 
quatro ou seis africanos que aqui se achavao muito práticos e a 
Dom Gonçalo Coutinho pareceo o mesmo. E todos aponéirão ... do 
gentio na obediência de V. M. buscandosse todos os modos de o 
conseguir e que para isso se lhe enviem daqui as peças e couzas de 
que mais se satisfazem e contentao e que o que toca a este ponto 
da conservação dos índios se deve cometer aos padres da Compa- 
nhia pela pratiqua que tem de seus costumes è dos meios com que 
se deve conseguir o estarem em obediência e servirem nestas ocasi- 
ões a V. M. a Dom Gonçalo Coutinho e a Eui da silua pareceo que 

devião queimar as canauiaes a olinda e ao Kesife para que 

o enemiguo senão aproveite delles. E a luiz da silva que se não 
deve tratar disto sem mais informação e aos Condes de Castello 
novo são João e santa Cruz que não ha que prover nesta matéria. 

Também pareceo que se devia mandar Comissão ao brazil 
para se fazerem algumas mercês de abitos e outras desta qualidade 
as pessoas que servirão na restauração desta praça com tanta satis- 
fação que o merecessem estas e outras mercês e que se deve escre- 
ver aos senhores dos engenhos animandç os que acudão a empreza 
e juntem para ellas suas gentes com Matias d' Albuquerque para 
cometerem o enemiguo e Kuy da silva lembrou que se devia ordenar 
a Matias dalbuquerque que levantasse companhias e as pague para 
que sejão de maior effeito e quanto a informação que ba de jç^ue^a 
gente da naçãe esta indiciada nesta perda e que de olanda yierlo 
com os Rebeldes alguns christãos novos que forão moradores na- 
quella capitania Pareceo a todos que deve V. M. mandar tratar 
desta matefia com toda a consideração que a caJidadd delia pede 
pareceo o que será bem pro verse nella pelos inao» .procedimentos 
que se vão descobrindo nesta gente com grand^^èÂíoro seu prin- 
cipalmente nas ocasiões prezentes que ouve no 'JÍSj|íq 'e o Õonde de 
são joão disse que por alguns respeitos não votava em que se lan- 
çasse do brazil agora mas que convinha mandar V. M, ter neUes 
grande tento e o Conde de santa cruz he de parecer que se man- 
dem vir e a todos os outros pareceo que a licença que V. M, lhe 
concedeo pela nova 'provizão que ]hes mandou passat para poderem 
. . .nas conquistas para onde se tem ido muitos nas emDajrcaçQes que 
forão estes dias se deve revogar. 

E todos de conformidade netarão que pelo que se entendia 
destes avizos Matias dalbuquerque tinha procedido com toda a sa- 
tisfação e que se deve aver por couza muito importante no deaem- 
paro em que se achou da sua gente e tão rodeado de enemigaoa ter 
acordo e industria para queimar os navios e a carga dos aeaàuíf 
que devia ser o maior cuidado dos Olandezes em respeito de ácarem 
com a preza os custos da Armada que ja agora bade sair de suai 
próprias despezas. 



NOTAS E APPÉNDICES. 303 



Doe. 15.® Copia da consulta original da Junta de Portugal, de 24 
de Septembro de 1631. 

Senor. Por una caravela que llegó á Peniche á 2 dei mes 
prezente se recibieron cartas de Matias de Albuquerque escritas desde 
10 de Mayo hasta 20 de Junio con relaciones diárias ') de lo sucedido 
en las Capitanias de Pernambuco j Itamaraca, y lo que en sustan- 
cia se coge delias, es que se halla con muy poça gente, y que delia 
envio parte á la defension de Itamaraca, y que con tan poços solda- 
dos no se puedo acudir á tanto, y que tiene por imposíole si tarda 
el socorro que lleva el Almirante General D. António de Oquendo, 
se puedan defender aquellos puestos^ y los mas que el enemigo 
irá tomando en otras Capitanias, porque como esta fortificado en 
Pernambuco, puede ocupar la mayor parte de la gente en nuovas 
empresas y los moradores de aquel estado oprimidos, viendo los 
puertos tomados, (y los índios echados con el enemigo como se 
puede recelar si los vieren ir senalando las plazas) aunque los bue- 
nos vasaUos de V. M. sean constantes puede se tomer una ruina, 
pues sin gente no se puede seguir la guerra, siendo tan larga como 
esta es, y contra enemigo que está tan poderoso y forteficado. Dice 
mas Matías de Albuquerque que despues de la entrada en Pernam- 
buco dei General Patre y dei acometimiento que hizo en Itamaraca 
(de que se ha dado cuenta á Y. M. Uegaron ai enemigo algunos 
navios de socorro, con los cuales se hallaban bien proveidos de bas- 
timentos, municiones y de lo demas, que continuan sus fortifícaciones 
en Pernambu,co con ^n cuidado y diligencia trabajando de noche 
y de dia, y que lojp^smo hacen en Itamaraca, en una ysla con que 
ocupan la entrada dei puerto y pueden hacer efecto en la Ysla de 
Itamaraca ; ea Ia ciial se sustenta por V. M. la ViUa que ha socor- 
rido con todo lo que pudo, y con eso no habia podido tomar nada 
en tierra el enemigo, que ha salido dos veces a intentado, y que 
tienes alli asistenSss hasta mil y quinientos infantes, segun las 
relaciones de los que vienen á rendirse, y que esta gente trabaja con 
gran cuidado y presteza en las fortificacionas con asistencia de al- 
gunas navios, que «n Pernambuco hicieron aquellas guarniciones dei 
enemigo, otras salidas con poço efecto. Trayan sus naves esparcidas 
por toda la Costa, entrando y saliendo dei arrecife, con vigias á la 
mar para descubrir la armada de í)on António de Oquendo, de que 
iienen diversas relaciones y decian habian de pelear con ella en la 
mar y por dicho de los rendidos se entiende que cuando salieron 
dei flETrecife contra Itamaraca , llegaban sus fuerzas á cincuenta y 
dos navios á lo mas entre grandes y chioos poços mas ó menos 
peio no se hallaban juntos, ni sabianlos rendidos que hicieron esta 
declaracion lo cierto desta y dos franceses católicos que se vinieron 
á nuestros cuacteles á 8 de Junio dijeron en particular que el ene- 
migo entendia juntar alli gran poder conforme á lo que entre si 

^) Nova confirmação do que se diz nas pags X e 32. 



304 NOTAS E APPENDICES. 

»• 
plaidcaban, de mas de lo qne ya tenian y esperaban crecer el nu- 
mero de SUB yazeles hasta dento y cincaenta, y qne estas fnerzas 
las jontarían por fim de Agosto para hacer una entrada por mar y 
tíerra, t que de 25 de Mayo adelante les llegaron diez navios car- 
gados de municiones y bastimeutos y dos deUos con la Infanteria, 

Lque en Olanda se hadan seis mil hombres y otros tantos en G^- 
ida, se dudaba si iban para el Brasil, y que esperaban cada dia 
por mas gente municiones y bastimentos y dos prezos que st cogi- 
eron por los nusstros en una sortida que hizo el enemigo ogeron 
antes desto á 23 de Mayo que el General Patre esp^raba una ar- 
mada de Olanda con seis mU infiintes. — 

Dice mas Matias de Albuquerque que nuestras fuerzas en el 
cuartel y puestos que ocupa en Pernambuco se ran diminuyendo, 
porque los mayores soldados son mnertos y otros estan estropeados, 
los de menos cuenta no acuden á servir de buen animo, y la mayor 
wte estan enfermos, y cada dia enferman mas, con la enlarada dei 
inviemo y asistencia de los cuarteles en los coales no hay los me- 
dicamientos necesarios para curarse por laanera que se mueren des- 
tas Mtas, y de la que tienen de Testtibi y ealçaido para reparane 
dei tiempo, que de todo esta la gente con descontento y quebran- 
tada, j que los índios padeciendo las mismas neoesidades no habi- 
endo Uenzo con que proyerlos y acomodarlos cansados dei continuo 
trabajo pueden afloxar, y de todo resultar que eon la dilacion de 
los socorros se acaben de cansar unos y otros por lo cnal conviene 
apresarse mucho la empresa de la restauracion la cual se dificolii 
cada Tez mas con las mayores fortificaciones dei enemigo, que ad 
mismo se halla con cuidado de la ParahiTa, por haber entendido 
tambien de las confisiones de los rendidos, qae los Olandeses tn- 
taban de emprenderla, que de todo lo que tuTO por oonreniente dio 
arizo á Don António de Oquendo, de cnya Amada dice llego una 
saetia á un puerto de aquella Capitania porque se certifico que no 
tardaria en llegar á la bahia. Envia copias de las cartas que cscri- 
%ió a Don António con los avisos dei estado dei enemigo, de bi 
roerzas y fortificaciones con que se halla, y de los desígnios qw 
entiende que tiene, en su conservacion y ofencion de nuestra A^ 
mada, apunta las razones que hay para ella no poder ocupine 
ahora en echar el enemigo de Itamaraca, y el modo en que Doi 
António le podrá meter en Pernambuco el socorro y proviziones qie 
Ueva , y todo lo referido será presente á Y. M. mas particulanneiie 
por las cartas de Matias de Albuquerque que con las relailii— 
diárias aqui se envian induzas á V. M. las cuales los GobenuMloni 
remitieron para el mismo efecto á Y. M. con carta suya em. m 
dicen que destas de Matias de Albuquerque les quedan las oaft> 
para se ver todo que contienen y se consultar a V. M. de lo ^ 
paredere. — 

T habiendose visto en la Junta paredo que se debi» iMp 
dar cuenta á Y. M., de lo que contienen estas cartas de Malissii 
Albuquerque, y reladones que con eUas envia, sin onbargo de èBÔr 
los Gobemadores que las quedan viendo para consultarias á Y. X. 
pan que por ellas sea presente á Y. M. el estado en que se 



NOTAS E APPÉNDICES. 305 

las cosas de Pernambuco y Itamaraca, que respeto de lo que consta 

destas informaciones entiende la Junta están en el mayor riesgo y 

peligTo que puede ser, porque conforme á lo que se dice de las 

fortificaciones que el enemigo tiene hechas en Pernambuco y difi- 

cultades que Matias de Albuquerque apunta en su expugnacion por 

los sítios y forma en que estan obradas y entendidas, guarniciones 

j copias de naves armadas que tienen en su defensa, que cada dia 

yan ex^iendo, y ai paso imposibilitaudo la restauracion, se deja ver 

bien (Klantas fiierzas y cuanto tiempo es necesario para la empreza 

y cnanto se atraza cou la dilacion» y considei'a la «Tunta que se ai- 

canza bien el intento que tienen los rebeldes de sustentar lo ganado 

y pasar adelante la conquista dei Brasil con la faccion que empren- 

dieron en Itamaraca aonde ya se han fortificado en la Ysleta dei 

puerto, con lo cual se han hecho SenÔres dei, impidiendo ya con esta 

preza socorrerse Pernambuco por aquella parte mas cercana dispuesta 

y pronta para este socorro y la grande inteligência con que se for- 

tificalron escogiendo puesto tan aproposito y poço costoso para su 

fin dei cual duda Matias de Albuquerque que le pueda ecnar Don 

António de Oquendo con ku( fuerzas que lleva y lo que mas es de 

reparar que duda tambiea de la entroda dei socorro que lleva á 

Pernambuco por las dificultadas que apunta obliga á tan grande 

cuidado como se dexa ver. 

Tambien considera la Junta que el enemigo siguiendo sus 
designios y pretenciones se puede tener por cierto que lo que con- 
siguió en Itamai^ca, lo intentará en los três puertos de aquella 
banda fiacos y sm fortificaciones y en particular en los dei Cabo de 
Sn. Agustin y Parabiba para cerrar dei todo el comersio y comuni- 
cacion de aquellas Capitanias y la puerta para la entrada de los 
socorros y armas de V. M. encaminando con esto mayores intentos 
y á ese nn procurando por esta via como con tanto cuidado lo 
desea levantar- alteracion entre los índios y con los negros cautivos 
que sirven en los ingenios de los açucares que es una gran copia 
de gente y que se debe tomar por violentada y en fin reduciendo 
por este camino los mismos portugueses obligandolos á que por 
falta de todas las cosas tomados los puertos hallandose sin socorros 
ni provinziones de los menesteres dei Eeyno sin los cuales no pue- 
den vivir se rindan á la necesidad y el cuidado que esto con tanta 
razon debe dar para con todo lo posible se atender á la prevencion 
de tan danosos intentos obliga á que se acuda ai reparo con gran- 
disima diligencia. — 

De todo lo referido sobre c[ue se descubrió en la Junta con 
las debidas consideraciones ai servicio de S. M. resulta verse bien 
el quasi ultimo aprieto en que se hallan las cosas dei Brasil y 
jmitàmente que se el mismo riesgo delia se involven las que tocan 
á las índias occidentales y Orientales dependientes unas de otrns 
pues .se junta á todo lo que está apuntado entenderse destas rela- 
ciones de Matias de Albuquerque quan introducidos están los Olan- 
deses en Pernambuco y que reconociendo sobre otras mucfaas como- 
didades la dei puerto, y cuan aproposito es para desde alli danar 
las conquistas de ambas los Coronas para este efecto han despachado 

21 



306 NOTAS E APPÉNDICES. 

Íra tropas de Navios contra la nueva Espana y sus comersios, y 
a Ysla de Santa Elena ou demanda de las naves dei viaje de la 
índia y hasta contra las dos que ahora arribaron que se descubri- 
eron cerca de Pernambuco hicieron saUr con seis galeones ai Gene- 
ral Patre y coúrrieran arto peUgro de se perder si el enemigo las 
encontrara como lo intento. 

Resulta tambien de todo lo que está dicbo que no hay cosa 
segura en las conquistas destos Eeynos y de los de Castilla si estos 
rebeldes se conservan en Pernambuco, y entienden todos los votos 
de la Junta que siendo estas cosat prezentes á V. M. y el peUgro 
en que se baila el Brasil, dependiendo dei suceso que tuviere los 
mas Estados ultramarinos que lleuantras si la monarquia se servirá 
V. M. por su grandeza de mandar acudir luego á todo con tal re- 
médio tan superiores fuerzas y prontos efectos como es necesario 
para que no consigna el enemigo sus intentos, disponiendose las 
facciones en la forma que V. M. lo tuviere por mas conveniente, y 
entre tanto que estas fuerzas se juntar en que el servicio de V. M. 
pide que se proceda con toda la mayor diligencia y brevedad, antes 
que el enemigo diôculte mas los sucesos con nnevas fortificaciones 
y con ocupar otros puestos ó penetrar la tierr* adentro como lo 
amenaza. Parece á la Junta que V. M. debe mandar que los Gober- 
nadores y el Conde de Castelnovo se junten y traten con todo efecto 
dei socorro que se debe mandar á Pernambuco y i las demas pla- 
cas dei BrasU y en particular á la Parahiba, que esta mas vecina 
ai peligro, y es de la importância que se sabe, y que en esto ad- 
vierten, que á lo que se debe atender con todo cuidado es á fortifi- 
car y socorrer todos los puestos que el enemigo puede ocupar, en 
que alie comersio por ser este lo que principalmente buscan y el 
tener entrada por la tierra adentro, y senorearse de algunos- inge- 
nios de açúcar y si toman puesto para ello, habrán conseguido su 
intento y alli se arraigarán y estando todo con tan poça preven- 
cion, es de creer hallarán puertos se que puedan conseguir esto y 
conforme á lo que asentaren con este presupuesto, provean pronta- 
mente todo lo necesario en prevencion de los intentos dei enemigo 
para todas las Capitanias que necesitaren dello en egecutándolo 
luego, y que en particular se envien por lo menos dos caravelas 
cada mez á Pernambuco, en cuanto las armadas de V. Mag. que 
han de emplearse en la restauracion no salen en las cnales se Ue- 
ven las provisiones para aquella plaza, yendose tambien con cui- 
dado en ir socorriendo las demas mandando V. M. juntamente que 
la Armada que ahora fuere demas de las municiones y armas que 
en ella se han de embarcar en toda la cantidad necesaria para socorro 
de todas las Capitanias conforme á la necesidad de cada una, lleve 
dínero y mercadorias, boticas para los enfermos y heridos f las 
mas cosas de que necesita el Brasil no solo para sustentadon de Ia 
gente que allá está, mas para la que ha de quedar dei Annada, 
haciendose cuenta de lo que pueden importar las consignaciones que 
allá tienen, y asi mismo se embarque la artilleria necesaria para 
los puestos en que convenga para que las fortifícadones se pongan 
en toda buena orden y defensa contra las facciones dei enemigo, y 



NOTAS E APPENDICES. 307 

que respeto de todo lo que queda apuntado sean las provisíones, 
avizandose ai Conde de Castelnovo que asi lo egecute, y que sepa- 
radamente embarque tambiên panos de lino j otras cosas que sir- 
van para los índios con que alentarlos y obligarlos á fidelidad pro- 
cediendose en todo de manera que cuando soa posible se remedien 
las faltas y descomodidades de que se queja Matias de Albuquerque 
y porque de sus cartas y otras dei proveedor de la hacienda de 
V. M. en Pernambuco se entiende que si alli hubiera dineros con 
que pagar gente se pudiera levantar cantidad delia en aquel des- 
trito, que ahora no açude por no haber con que pagaria, la cual 
podria ser de mucho servicio y efecto, por ser ya acostumbrada ai 
clima y trabajo de la tierra, platica en los matos y pasage de los 
rios y pântanos y en los puestos onde se hace la guerra, lo cual 
todo falta en la gente que vá dei Reyno, que dicen que enferma 
casi toda, de lo cual se hace con ella grande destrozo sin servir. 
Parece á la Junta que se debe mandar tambien dinero y haciendas 
en particular con que se pueda tomar á sueldo esta gente en la 
cautidad que pareciere, la cual se irá conservando, segun la satis- 
faccion que diere de si en esta guerra, avizandose de todo en esta 
conformidad á Matias de Albuquerque para que lo disponga, y en- 
cargandole juntamente que por todos los demas médios que se 
tuvieren por convenientes procure juntar en los cuarteles la gente 
de la Capitania para que se halle con fuerzas para ofender ai ene- 
migo en las salidas que intentare, y defender los puestos que ocupa, 
y para todas estas destrezas parece á la Junta que se debe tomar 
el dinero necessário dei emprestito que se ha pedido y de los mas 
médios que V. M. tiene aprobados, y que á los Capitanes de las 
placas dei Brasil se debe ir escribiendo, de manera que con lo que 
se íes dijere en razon de la ida dei socorro se van alentando con 
las esperanzas dei, y de las honras y mercedes que han de recibir 
de V, M. por los servicios que alli hacen. 

Y parecio mas á la Junta que debe V. M. mandar ai Conde 
de Monsanto, cuya es la Capitania de Itamaraca á quien V. M. tiene 
mandado la socorra en esta ocasion, diga luego a V. M. con que la 
tiene socorrido despues que recibió las cartas de V. M. y lo quií 
trata de enviar de nuevo para su defensa conforme á la obligacion 
que tiene de hacerlo y que de la misma manera mande V. M. decla- 
rar ai Marquez de Puertoseguro donatário de aquella Capitania y 
à D. Fernando de Faro á quien pertenece ia de Sant Vicente, que 
aqui se hallan de prezente en esta Corte, que luego acudan con 
socorro á aquellas Capitanias y digan las cosas con que las socorreu 
porque lo quiere V. M. saber, y que baga con ellos esta diligencia 
el Secretario de Estado á quien pertenecen estos negócios, y que á 
los demas donatários de las otras capitanias dei Brasil se escriba 
en la misma conformidad, y el Secretario á quien tocare en el 
Beyno cobre las respuestas limitandoseles tiempo cierto en que sa- 
tisiagan por cuanto habieudoseles escrito muchas veces de mas de 
cuatro anos á esta parte en cartas de V. M. no se sabe de socorro 
ni ayuda efectiva de consideracion que por su parte dellos se tenga 
hecho estando sus Capitanias en tan estrema necesidad de ser so- 



808 NOTAS E APPÉNDICES. 

corridas, y la islã de Itamaraca en estado cuaiido en ella entraron 
los enemigos que no tenia mas que dos barriles de pólvora. 

Tambien parece á la Junta poner en consideracion á V. M. 
que la gente que los Olandeses tienen en las fortificaciones que 
ocupan , es de diversas naciones y openio;ies en la religion , y que 
por lo que se ha visto y entendido, no están todos conformes ni 
obligados por ley ni Eey y que seria conveniente (en respecto de 
otros egemplos que hubo en semejantes negócios) que por las me- 
jores vias se procurase su reduccion con la entregua de lo que alli 
tienen ocupado encaminando esto por médios tales que se pudiesse 
efectuar, lo cual se podria encargar en todo secreto á Matias de 
Albuquerque, ó a otra persona que fueso mas aproposito con adver- 
tência de las seguranzas y resguardo con que conviene procederse 
en los casos de esta calidad. 

Y con esta consulta se envia á V. M. otra de 12 de Júlio 
con que V. M. resolvió que se socorriese á Pernambuco y Itamaraca 
con la forma que V. M. lo mandará ver por ella^ en cuya confor- 
midad se dieron las ordenes necessárias de cuya ejecucion lo se 
sabe hasta ahora, y parece á la Junta que de nuevo se debeu en- 
cargar estas resoluciones á los gobernadores y ai Conde de Castel- 
novo prevíniendoles que hagan estos socorros y los que V. M. de 
nuevo resolviere por esta consulta sin consultar mas á V. M. orde- 
nandòse asi mismo á los gobernadores y ai Conde que por todos 
los oorreos ordinários y estraordinarios den cuenta a V. M. con 
particularidad dei estado de todo lo que se ordene en los dichos 
socorras porque los quiere V. M. saber. — En Madrid á 24 de Se- 
tiembre de 1631. 

Habiendose votado esta consulta en la forma en que vá se 
vió en la Junta otra carta de Matias de Albuquerque de 6 de Juliu 
con una relacion de lo sucedido con el enemigo hasta ultimo de Ju- 
nio con otras dos de la camará de la Villa de Olinda , y dei pro- 
veedor de la hacienda de Pernambuco dei mismo mes de Júlio que 
tambien aqui se envian á V. M. las cuales cartas se recibieron por 
via dei Gobernador de Oporto donde entro el navio que las trujo, y 
aunque con la nueva de ballarse ya el Armada de D. António de 
Oquendo en la costa dei Brasil parece que esta Matias de Albuquer- 
que con algun aliento mas, todavia lo cierto es que los enemigos 
habian casi acabado la fortificacion do Itamaraca, y crecido mucho 
en las de Pernambuco y estavan mas socorridos de Olanda con 
gran copia de municiones y bastimientos y gente y esperavan de 
todo mas, y se ballau con cantidad de navios y se decia trata van 
do salir contra nuestros cuarteles en los cuales habian crecido las 
necessidades, enfermedades, falta de gente y municiones, todo lo 
cual obligua á gran cuidado, porque si el enemigo ejecutó la salida 
y lo hizo antes de entrar á Matias de Albuquerque el socorro que 
fue con D. António se puede recelar, que no bailaria fuerzas en 
oposito de las suyas, y asi no ve la Junta de nuevo que decir á 
V. M. que por lo de unas y otras resultan que es hallarse de cada 
dia em mayor aprieto y riesgo Pernambuco y lo mas dei Brasil 
pide el servicio de V. M. y la conservacion de sus estados que 



1 



NOTAS E APPÉNDICES, 309 

por su grandeza mande V. M. proveer con toda brevedad lo que 
con aquellos rebeldes hajan de ser desalogados de aquellos puestos. 
— Siguen quatro rubricas. — 
[Árchivo Geral de Simancas, Legalho 1325 da Secret. de Guerra.) 



Ao Livro 3\ 

Nota 11% pag. 78. 

Enganou -se manifestamente Southey quando disse (pag. 483 
do Tom. 1.° da 1.' Ed.) que o Pontal da Nasareth ficava em „a 
port aòout seven leagues North of Recife,'* 

Nota 12% pag. 81, lin. 86. 

Na serra do Capaoha, hoje chamada da Eaiz, pensaram os 
Hollandezes encontrar minas de Prata. — Ahi eram as Copciovã' 
enses Foãinde de Barleus, que Southey ti*aduziu indevidamente por 
da Copahiha; bem como outra vez, achando -as escriptas com outra 
orthographia (Couhíwvenses cm vez de Coupaovenses), as traduziu 
por minas do Camba. 

Nota 13% pag. 82, lin. 8. 

Diz Fr. Eafael de Jesus que Manuel de Moraes se uniu de- 
pois á insurreição de 1645 , apresentando-se a Fernandes Vieira 
antes da acção das Tabocas. Assim o refere também Southey acre- 
ditando na palavra do monge, que não temos por bastante autori- 
sada, a menos que por algum outro modo venha o facto a compro- 
var-se. Sabemos que o jesuita paulista aberrara do catholicismo, 
e se fora para a Hollanda, onde se pronunciou pela restauração de 
D. João 4.°, publicando em Leyden em 1641, offerecido ao embaixa- 
dor Tristão do Mendonça, a favor delia, um opúsculo em hes]>anhol, 
a que respondeu D. Juan Caramuel. Igualmente na Hollanda es- 
creveu um trabalho acerca da Historia do Brazil (não sabemos 
se natural ou civil) do qual faz menção J. de Laet nas Notas á 
Diss. de Grocio „De origine Gentium Americanarum,^ Sabemos 
também que teve a candidez de apresentar-se depois em Portugal, 
apezar de haver sido ja, no auto de fé celebrado em 6 de abril de 
1642, relaxado em estatua, porem falta averiguar melhor se, para se 
apresentar em Portugal, foi primeiro ao Brazil. O resultado que 
obteve da sua apresentação e arrependimento foi ser condemuado 



310 NOTAS E APPÉNDICES, 

em carne á justiça secular, como profltente e obstinado, no auto 
de 15 de Dezembro de 1647. 

Nota 14% pag. 83. 
No appendice ao quinto livro se encontrará o texto deste do- 
cumento. 

App, 3.^ ao Livro 3.* 

Doe. 16.** Minuta de uma Carta do Governo de Portugal para 
elrei. — 

Senhor. Pelo ultimo Correo ordinário recebi duas Cartas de 
V. M. huma em reposta da Consulta do Conselho da fazenda por 
que se deu conta a V. M. do que se ordenava fosse ao Brazil nos 
nauios de francisco thome Bernardo Carneiro e d.*" de sousa pela 
qual me manda V. M. que precure que levem estes nauios alguma 
gente pois me he prezente quanto conuem que se enuie toda a que 
se puder aquelas partes pela falta que delia aly ha e que partiudo 
elles do Porto a tempo que daqui saisse a armada parece seria 
Conveniente que se lhe juntasem para que o s<yK)2T0 fosse mães 
seguro porem que este não ha de ser obrigain(w ^ós mestres se 
não persuadindoos a que lhe convém ji-em^^^eÉIll a escolta da 
armada e na outra destas duas cartas se serue V. M. de me dizer 
que porque a Paraiba he so a praça que na pai;te do norte se sus- 
tenta e a principal porta donde se hade entrar para se restaurar 
a Brazil esta falta de gente e mantimentos com a guerra do Rio 
Grande e outros socorros com que acode e tem acodido ao arrayal 
e Cabo de Santo Agostinho e he necesario alentar aquela parte para 
que se defenda e sustente em quanto não vay a armada ordenase 
que nos nauios de particulares que hão de partir do Porto se em- 
barquem ate duzentos homens com monições por que assv pede a 
necessidade daquela parte e importância daquela praça. As copias 
destas Cartas se remeterão logo ao Conselho da fazenda e porque 
nesta ultimamente referida se encluya tudo o que V, M. mandaua 
sendo huns mesmos os nauios de que ambas tratão na margem 
delia ordeney ao Conselho que se Consultase se estes duzentos ho- 
mens conuiria se íizesem naquelas partes Yisinhas ao porto enuiando 
se a isto o Capitão francisco de souto mayor para que se embarca- 
se com elles dizendo-se juntamente se se deuia enuiar ordem sobre 
se deterem estes nauios. 

Satisfez a isto o Conselho consultando que a necessidade de 
acodir a paraiba não sofruia tão grande dilação como a de se fazer 
leua pelo que estes duzentos homens se deuião enuiar logo sem de- 
mora algua dos soldados do terço supricandose (?) com os italianos 
que aqui estão alojados enuiando se sessenta soldados dos mães exer- 
citados delle e que ainda que esta estaua designada para os nauioi 
da primeira esquadra não so em respeito da que se ha de dexar no 



NOTAS E APPÉNDICES. 311 

BrazU e que quando nao se pudese leuantar outra com que se 
suprise a sua Mta em quanto os nauios se aprestíio la se achariao 
estes soldados quando a armada chegue, e que conuiría que em rou« 
pas mantimentos pano de linho e moniçSes se enuiase ate quantia 
de oito mil cruzados e que agente fose daqui ao Porto em carauelas. 
Vendo eu esta Consulta e considerando que para se tomar 
resolução nesta matéria com o fundamento que conuem era necessário 
entenaerse a capacidade e forsa destes asy pelo que tocaua a segu- 
ridade do socorro como também para se yer se podiao entrar a barra 
da Paraiba e saberse juntamente se era aly a sua uiagem por ser a 
terra de consideração se se não despusesem uoluntariamente uiolen- 
talos pelos enconuenientes que disso se segue a nauegação trato 
mercantil e ao serviço de V. M. ordeney ao Conselho que sobre 
tudo pedise informação ao Conselheiro coelho leitão despachando-lhe 
logo correo as vinie (?) para com sua reposta se consultar o que 
psurecesse. 

Tornou o Conselho a representar sobreisto que por o negocio 
ser de tanta importância que qualquer detença nelle poderia ser de 
dano irreparauel e que a Carta de V. M. não admitia Ião grande 
dilação nem liberdade aos senhorios dos nauios paia poderem não 
querendo dezar de leuar este socorro e que dado que Y. M. assy o 
não dispuzera a naturesa da cousa o pedia asy e sobindo me esta 
Consulta aos 'vlnfe e. oito deste a noite tornou logo ao Conde de 
Miranda responiUda para que o Conselho executase o que lhe parecia 
enconformidade da ordem de V. M. com toda breuidade posiuel de 
que dou conta a V. M. enuiando a Consulta do Conselho para que 
por ella seja tudo Isto mais particularmente prezente a Y. M. deps 
guarde etc. 30 de Setembro 634. 

(Real Arch. de Lisboa, Corp. Chr. Part. 1\, Maç. 119, Doe. 60.) 



Ao Livro a/" 
Nota 15*., pag. 96. 

A nomeação de Filippe Bandeira de Mello para capitão, ou- 
vidor e provedor de Porto Seguro teve logar por provisão do gover- 
nador de 24 de maio de 1636. 

Nota 16*, pag. 99, nota 2. 

Este busto em meio relevo é feito de pedra mulatinha (grés 
pardo de Pernambuco), e devia haver tido antes outra inscripção, 
talvez em portuguez, a qual foi picada, substituindo-se pela que 
na nota foi transcripta. 



312 NOTAS E ÀPPENDICES. 



Ao Livro 5/ 

Nota 17% pag, 124. 

E' sabido que também o pintor J. J. Eeckhout esteve em 
1641 em Pernambuco, e delle ha um quadro de physionomia tro- 
pical na Ifâleria do palácio de Frideriksbourg em Dinamarca. 



;• í- 



Nota 18»., pag. 126. 

Parece que a verdadeira origem da donzella remirando-se em 
um espelho, concedida ao escudo de Pernambuco, teve origem da 
exclamado o linda! que alguns haviam dado como origem do nome 
da villa «apitai. 

Consta que além dos quatro escudos, foram concedidos mais 
dois a saber: ás Alagoas, três peixes de perfil, situados horisontal- 
mente em três linhas; e a Sergipe um sol radiante sobre três 
coroas nSo fechadas. 



App. ao Livro 5.® 

« 

Doe. 17,® Carta de Duarte Gomes da Silveira. 

^Poderosos Estados e Sereníssimo príncipe Os exemplos de 
casos acontecidos nos tem bem mostrado não haver muros tão for- 
tes nem exércitos tao poderosos como o amor dos vassados ; porque 
assim como da temperança do ar procede a fertillidade da terra, 
assim da clemência dos príncipes a paz e tranquillidade dos povos; 
parece pois que cae isto melhor naquelles que se sujeitarão ao nosso 
império para averê de sér melhor tratados e poder melhor tolerar 
«à& sujeição e o governo estrangeiro. 

„líossa sujeição senhores não foi forçoza, mas debaixo de con- 
trato feito com os novos ministros, em rasao do qual teremos rasao 
de nos queixar quando elle se não cumpra é isso que as leis nos 
permittê, pois delle procedem as turbações dos impérios e verdade 
politica dos estados e sobre tudo se oferece a Deus. 

„São pois senhores de tanta consideração as liberdades e fa- 
vores dos príncipes em especial quando as mudanças' d'estados que 
não somente dam causa ao sufrimento de grandes esces^os mas 
ainda a levar atrás si os corassdis de seus vassalos pondo em .oft- 
quecimento os azares de sua sogeisSo. ^ '/ 

„0s nossos ministros, senhores como cavarão em vinha attéa 
forçado era que neste emterlinho de nossa sujeição os acompa- 
nhasse o estimullo da cubisa e com ella ofiendessê nossas pessoas 



NOTAS E APPÉNDICES. 313 

e fazendas sem sermos ouvidos com razao alguma cousa que na 
leis não consente pois o em que mais consiste o cumprimento 
d'ellas he em não ser algem condenado sem que primeiro seja ou- 
vido: e quando por algumas presumsôes verdadeiras ou não verda- 
deiras se fazem algumas prisdes não sabemos lei alguma porque 
nossas fazendas sem serê confiscadas por via ordinária ajão de ser 
roubados he entreges a que nossos ministros querem sem de couza 
alguma se fazer conta, pezo nem medida e de modo que nem por 
asar do fisco quando tenha lugar nem de seu dono ^áando seja 
livre se ache memoria de couza alguma. Couzas são estas, podero- 
sos senhores que com rasao devem ser abuminadas e emendadas 
2omo espero o sejão, com a vinda do muito Illustre Senhor o 
3r. Conde Mauricio de Nasao e dos mais senhores do Supremo 
CSonselho de Estado. 

„E se algum, senhores, em paiticular tem razão de fazer es- 
bas queixas sou eu Duarte Guomez da Silveira visinho e primeiro 
conquistador desta capitania da Parahiba a quem tem acontecido o 
cnesmo que fica dito com outros mores excessos de que me queiza- 
pei, tudo por nos caber em sorte o wáo e violento governo de que 
nesta occasião nos governava sendo meos merecimentos taes qu les 
o vulgo apregoa, e de que são boas testemunhas vossos próprios 
uaturaes e vassallos. 

„De modo Senhores que para se derramar meo próprio san- 
gue se afiliarão as armas cuja prevenção ouvera de ser não para 
inocentes e gente inútil mas para contra aquelles de quem cada 
dia somos ofiendidos e roubados por nosso respeito, e para mais 
crescido damno se acressentou para consentimento de vossos minis- 
tros a ferocidade dos selvagens tnpuyas mandados vir do sertão a 
quem fossemos entregues para com menos impiedade sermos por 
elles martirizados como entre muitos acconteceo a um ii*mão meo 
nos mesmos dias de minha prizão não havendo nele mais culpas 
de que foi haver fallado a força com a gente que o Conde de Ba- 
nbollo havia mandado roubar o distrito da freguezia de ^ão Lou- 
renço sendo um homem que em bondade e reputação niguem rec- 
tara diante delle naquella capitania porque quando houvesse culpas 
de colidade que merecesse semelhante castigo houvera de ser por 
muito diferente modo e não tão pouco piedoso e de tão grande 
escândalo pois os rigores da guerra nunca forão permettidos contra 
gente doente e decrépita como o dito meo irmão que tinha 
84 annos. 

„E se caso este senhores se desculpa, com disêrem que foi acci- 
dental e não advertido o que não devia acontecer em semelhante 
pess5a não sei qual seja a que se pode dar no que se cometteo 
contra Duarte guomez par ser prezo e suas fazenaas que importão 
em muitos mil crusados entregues sem ordem alguma a quem fez 
doJies o que quiz , dando-me de perda mais dez mil crusados sendo 
mii^a casa huma estalagem de flamengos, e eu um homem que em 
Yirtndes naturaes verdade e fidelidade tam conhecido, e que pode 
dizer sem temer parecer alheio que se a coroa de Portugal me esta 
mui obrigada por serviços de 54 annos taes quaes nenhum vasssUo 

22 



314 NOTAS E APPÉNDICES. 

seu fez neste estado, que não menos me estão obrigados os estados 
de Hollanda no pouco que é passado depois de nossa sujeição, pois 
é couza bem sabida o muito que tem montado aos moradores destas 
Capitanias e ao serviço de vossos Estados o exemplo de meos pro- 
cidimentos ; sem isto ser bastante Senhores para deixar de ser preso 
e o estar onse meses, e minhas fazendas estragadas pelo modo que 
fica dito a qual prizao ainda se durara quem me prendeo por 
querer de mim o que eu não podia fazer eu aqui dissera se elle fora 
vivo, poreiBN trouxe Deos a este Estado o Sr. Conde de quem recebo 
muitas honras e mercês sem ter experimentado minhas obras só 
pelas voses que achou em todos de quaes erao meus procedimentos. 

^Bastantes cauzas havia para emprimirê em mim os pareceres 
que tomarão alguns moradores destas Capitanias sem largarem suas 
casas e fazendas pois poãio 'dizer com verdade que nenhum delles 
estava tão empenhado entrqttmsorar mercês delles despacha como eu 
porem os exemplos que temoé nas terras da nossa Europa e gerias 
de fraudes e o conhecimento que tive de vossos ministros para en- 
tendermos que não ofenderiamos a nossa Religião e a nova liberdade 
nem ainda ao principe a que estávamos sujeitos en nos sujeitarmos 
ao vosso império fui eu oprimeiro que conhecendo quaes poderiao 
vir a ser os damnos de nossa peregrinação me sujeitei a vossa ob- 
diencia e de vossos ministros acordando-me com eUes sobre o modo 
de nossa alliança nesta cidade da Paraiba aonde me forão dados os 
apontamentos como terslado haverá com esta os quaes sendo por 
mim aceitados he acompanhados do exemplo de como nisto me ouvio 
se reduzirão e sujeitarão não somente os moradores destas capitanias 
Parahiba Bio-Grande e Itamaracá mas ainda todos os mais que se 
tinhão ido das mesmas capitanias para a de Pernambuco tornando- 
se as suas cazas. 

„ Sendo isto assim senhores parecerá cousa indina de toda 
verdade e justiça deixar de se cumprir o que se prometteo de que 
so tratarei dous pontos por ser os mais essenciaes de nossa preten- 
ção, a saber o da nossa Religião e liberdade delia da qual não po- 
deremos usar-se se nos empedir os meios com que ella se hade con- 
servar dando lugar aos Religiosos assim seculares como Regulares 
que possão receber de algumas partes seus yprittados (?) que possao 
censurar e dar governo a seus súditos o que pedimos não pelo modo 
que a nos esteja melhor sendo por aquelle com que menos se offen- 
dão vossos povos e estados e sempre debaixo de vossa licença. 

„0 outro é o da liberdade que nos foi promettida disendo-que 
nunca pagariamos mais pensões e direitos que aquelles que pagáva- 
mos a El Rey de Hespanha cousa que não se cumpre nem em todo 
nem em parte porque demais de algumas pens5es que se nos põem 
querem por o que não esperamos nos fazer pagar os direitos dos 
assuoares que can^egamos se nos guardarem a liberdade que dantes 
gosavamos o que parece justo se nos conceda quando menos que 
não nos queixemos nem a Companhia deixe de ficar satisfeita e 
para declaração do que pedimos que se não nos deve negar direi a 
qui qual era o modo de nossos liberdades por concessão dos Reis 
de Portugual outorgadas por El Rey de Hespanha que hera go- 



i 



NOTAS E APPÉiNDlCES. 315 

zarem os que faziao empenhos os primeiros dois annos sem paga- 
rem coúza alguma e se depois de passado os primeiros dois annos 
86 reformassem tornavao a gozar outros dois annos tantos quantas 
veses se tormavasao e pelo tempo em diante gozarão ametade dos 
ditos direitos sem deixar de haver nisto algumas confusões nos 
provimentos e despachos segundo os favores que se alcançavâo dos 
ministros. 

^Assim que para nos ficarmos em paiiie satisfeitos sem notá- 
vel diimno e muito melhor a Companhia e sendo tamhem as duvi- 
das e confuz5es que dantes havia aponto outro sim de parte o não 
gozarmos as liberdades inteiras se pode fazer comp,utação de canti- 
dade de assucares q'um engenho faz cada safra e que desta quan- 
tidade se nos concede que possamos carregar em cada um anno a 
quarta parte ficando assim a Companhia gosando as três partes 
porque sahendo-se a quantidade certa <Má* cada um hade- carregar, 
nâo haverá logar a que haja duvidas nim mais presumpçdes. E com 
iito esperamos o despacho em parte do que nos foi promettido, e 
que deve haver de Senhor para Vassallos. E como taes nos deitamos 
a nossos pais sem pretendermos perdão de culpas por nos não achar- 
mos carregados delias, e sem outro pedirmos melhoramento de mi- 
nistros, esperando que os que temos de presente á vista não careçam 
de taes obras que deixamos de adorar D. nosso Senhor prospere e 
conserve vossos estados existentes em louvor seu. Da Parahiba es- 
cripta o 1.° de Junho de 1637 an.' Duai-te Guomez da Silveira.** 



Doe. 18.° Traslado dos apontamentos e certidões que as Senhores 
governadores deste estado do brasil da parte do Illustrissimo 
Senhor Principe d'Orange, estados das provincias unidas á Outor- 
gada Companhia das índias Occidentaes concederão ao povo do 
Brasil e em particular aos senhores dos engenhos lavradoreei e 
mais moradores desta Capitania da Parahiba de qualquer condic- 

' ção ou nação que sejão. 

^Primeiramente lhes havemos de deixar viver em sua liberdade 
de suas conciencias. Usando suas igrejas e sacrificios divinos. Assim 
6 da maneira como dantes em conformidade de suas leis; estatutos 
e náo permittiremos roubarem, nem maltratarem as igrejas nem 
imagens, nem os socerdotes celebrando os sacrificios ou fora delles. 

„ Sustentaremos a elles em paz e recta justiça em guerra 
contra os que sustentarem molestados, por qualquer condicção ou 
nação que sejao. 

^Deixaremos a elles viver nas suas casas, terras, e possuir suas 
posseções sem pertubaçao e elles nos serão obrigados pagar o Dizimo 
de dons por cento dos fructos renovos que recolherem, assim e da 
maneira que pagavão a El rey de Hespanha, e pagarão também os 
direitos e Alcavalas que costumavão pagar até aqui sem nunca lhe 
imporem outras novas pensões ou tributos nem em Hollanda nem 
em fazendas que pussuirem ou carregarem nem sobre suas pessoas 
e famílias. 



318 NOTAS E APPENDICES. 

havemos quebrar as qne viria antes de novo outra maior como alem 
das concedidas, e declaradas nos concertos que os Administradores 
da guerra fezerão; por muitas veses foi visto em papeis imj>re880s 
que os ditos mandarão espalhar pela terra, dissuadindo aos mora- 
dores (das falsas maquinações de El Rey de Hespanha) assim se 
continha nos papeis e sendo a justiça, e a verdade o fundamento 
da felicidade e stabelidade dos povos (o que particularmente mostra 
a experiência na justiça distribuída, que igualmente se guarda na 
Republica de Hollanda, que Deos prospere, pela coal a olhos vistos 
6e tem augmentado tanto, e vai cada vez em maior cressimento) 
como poderão VV. 88.** com justiça, por haverem conquistado este 
povo com suas armas, reduzil-o a tao estreito jugo e servidão que 
lhe tolhão o participar das abundancias, favores e communidades 
-que todo commercio livre trás consigo, tolhendo aos moradores va- 
ler-se cada um (como em tempo de El Rey de Hespanha o faziao) 
de sua negociassão embarcando seus assucares para Hollanda e tra- 
sendo de lá as mercadorias, de que necessitarem logrando por outra 
parte aqui os baratos preços, que cada dia esta liberdade occasiona; 
o dammo que este povo do contrario recebera é tão notório que é 
escusado de tornarmos em declaral-o com rnsôes q'em couzas tao 
manifestas se escuzao, a justiça e rigoi^ é tal nobilíssimos Senhores 
que não achamos palavras com que declaral-o, sem que pareçEo a 
VV. SS.*" licenciozas na boea destes seus súbditos conquistados; e 
porque nossa tenção não é outra que declarar a VV. SS '" com toda 
humildade e submissão os perniciosos eôeitos, que pode^l rezultar 
desta calamidade por igual e maior damno teremos, e não parecerem 
VV. SS." nossas palavi'as de coraçSes humildes, bem intencionados 
6 fieis, que aquelle que receberíamos de semelhanto prohibiçãoj as- 
sim que com esta cautella, advertimos a VV. Sí^.*' que este povo 
suposto que é conquistado não é cativo, para que como tal seja 
tratado de cuja nação, q'em liberdade, e igualdade justiça he digno 
e vivo exemplar en todo o Universo; evitem VV. SS.** a nódoa que 
deste feito lhe pode resultar na fama, para com as outras naaçSes, 
aqual se reputa por a mais preciosa jóia de todas as riquezas que 
dirão os hespanhoes. Nobilíssimo Senado? que cofcidiamente govey- 
não nestes paizes? que dirão os Alemães, que actualmente hoje 
pugnão pela liberdade? quando virem que o povo conquistado por 
VV. SS." visinhos seus, de tal maneira o tratão, e privão delia, 
que como cativo querem que receba *a comida e vestido somente da 
mão de seu Senhor? que dirão os Portuguezes visinhos dos con- 
quistados neste estado do Brazil ? parece q'o vemos estar zombando 
de nos, exprobando-nos enganos deitando nos em rosto faltas de 
promessas não cunpridas, parece que os vemos estarem excitando se 
e convidando-se uns aos outros a defensa, cuja rasão de estado não 
devia para VV. SS." ser menos considerável que as muitas outras 
que ha para que esta prohibissão estanque de commercio lhe pa- 
reça pernicioso. 

„Decendendo as rasSes mais particulares, devem W. SS.** 
considerar que da estreiteza do commercio nasce a pobreza dos po- 
vos e sabido hé, qne esta por si nas republica^ nuca foi mui defen- 



NOTAS E APPENDICBS. 3i9 

antes esta exposta a mil variedades, humas das couzas que \ «-.J ^ 

lezeja este povo de pernambuco, he estabilidade na paz que X, 

9 perder o receio de futura guerra, como poderá deixar de ser ,^ * 
e cadavez ir a menos com esta prohibissao, e como poderá ad- t-i^ 

forças senão sahir das mizerias por meio de hum commercio ^J 
io qual todos gozem, e se enriquessao, e será patente engano ^x* 
que toda grossura e richesa que o povo pode adquerir por 

10 commercio livre, podem restringindo-se vir a cahir na bolsa 
mpanhia, porque nunca ouve couza particular, que podesse 

ler o que é gei-al que tem vezes de infenito, donde nao só se ní J - 

que ficara este povo jpobre e mizeravel reduzido a esta estrei- ,' • H^ "* 

> privado da esperança de puder engrossar em cabedal e rique- ^^ ^ 
snão ainda fraco e indefensável: e o que mais he que estas ^ 

ks que elle havia de lograr; não pudera alcançal-as a Compa- Vi^ ^ 

'or ser seu cabedal ( suposto que grande) limitado, e o de livre ^ 

jrcio (por ser geral) como infenito: temos nestes poucos dias X.^ ■ 
. experiência disto, por que muitos mantimentos vindo de fran- "^ v^^ 
B que antes superabundavamos hoje de tal maneira comessarão ^S^^ 

r, que por nenhum preço se achavao. Deixem W. SS." commu- . 

le a este povo as abundancias e riquezas de Olanda, com hum * 

jrcio livre, que tudo he beneficio da Companhia, e em damno 
da restricçãu nesta matéria. . r-- 

„He admirável couza que entre graves e delicados juizos, como ""^í^ X 
neste^ conselho, não faça movimento a penetracçao de uma tão 
9 razão de estado, que esta conti-a esta prohibição clamando, 
io servira seu efteito de outra couza que guardar por um modo 
te as portas abertas neste estado a seu ennemigo, para que 
outravez entrar lhe o que tanfco lhe ha custado: recorrão ^^ , ' 
S.*^ as historias das Eepublicas antigas, acharão que toda S!^ 

que huma vez conquislK)u outra, para a reduzir firme e es- 
í sua obdiencia, se misturava povo com povo, moradores com 
ores que para assim ficasse a nação toda huma, fasendo uma 
ispecie d^aliaiiça, amor e defensa; os meios desta communica- 
mestura, he o commercio, sem elle mal poderá efectuar-se esta 
e parentesco, mais seguro ficara o Brazil a obdiencia dos muy 
e poderosos S." estados geraes, e de S. A. o Sereníssimo Prin- 
'Orange, e dos S." nobilíssimos administradores da Companhia V 

adias Occidentaes , se neyte haver habitadores tantos e mais 
igos que portuguezes, pois como poderão estes vir ao Brazil, \^ :^ 
dose lhe a uns trazer os seus queijos, e outros a sua manteiga ^^• 

3uto, aos moradores a abundância de suas carregações; como 
io viver no brazil achando os mantimentos no estado, e prés- -v. 

e hoje valem, e ja vimos por experiência tornarem se daqni .^ 

;, que pouco possuiao por se não puderem sustentar no brazil. ^ 

este povo soja hoje tão fiel aos muy altos e poderozos Se- jX. 

1 Estados geraes, dezeja ter em si toda a segurança para não 
ao Dominio Espanhol. E allegamos a VV. SS." esta rasão 

[ue com muita consideração se pondere, e totalmente se levante 

> prohibissão do commercio, para que esta Região Brazilica se 
e povoe de multiplicadas, e numerosas colónias de HoUande- 



'V.s 






^ 



^ 



\ 






320 NOTAS E APPENDICES. 

zes, e que como arvores de troncos mais robustos lhe sirvao de 
sombra, arrivo e defensa ; e em breves annos se reduza a tal estado 
que querendo o Bei espanhol levantar olhos para ella, nSo veja já 
nao hum povo portuguez de quem possa esperar agazalhos, senSo 
uma Republica Olandica aqui transformada, de quem toma a metima 
resistência que acha na original e verdadeira; o contrario disto .só 
hum procurador do mesmo espanhol o pode propor; a fidelidade de 
nossos corações nos dá licença para que o digamos a W. SS.** 

„Era escuzado manifestar a VV. SS."' a felicidade, .^ne por 
meio d'um commercio livre se deve esperar neste estado; pois antes 
de conquistado era ja pratica que havia jentre os portuguezes qae 
viria a ser o Brazil huma aureachernozo com a communicapSo dos 
framengos, os mercadores serão muitos, as ^Eisendas e mantimentos 
em competência mais baratos, o poço com est^ abundimcias se mul- 
tiplica e cresse, os lavradores multiplicados em numero, ricos em 
fazendas, nao deixarão parte alguma da terra ociosa, e pelo conse- 
guinte tudo vem em proveito, e acrescentamento das rendas da Com- 
panhia, por quanto quanto mais povo maiores searas ; e maiores com- 
mercios, maiores rendas resultão aos Senhores dos tributos. 

„Pelo contrario estamos já vendo, que todos os fervores, que 
nesta vinha ou herdade se enzergavao, de tornar ao antigo estado, 
e iiorencia, se vão esfriando com estas novas, e será cada tbz maia. . 
porque a reedifícação da Villa de Olinda, que tínhamos entre nuios, 
não vae com o fervor que dantes porquanto os mesmos nSo achSo 
fructo que possão esperar de se reedincar povoação, nSo havendo 
commercio e negociações com que conveniente se suste ntSo; os emi- 
grados que estão desamparados, e assolados da guerra, mal tomairàio 
ao estado passado com estas estreitezas, e os povoados mal se sug- 
mentarão com os canaviaes, e fructas com estas limitações, porque 
um e outros tem necessidade de mercadores passantes, assy para 
proverem com largueza com para reedificarem com fervor, sem os 
quaes tenhão VV. SS." por certo que tndo ira em diminuissâo, e 
que o alento que esta terra hia tomando he por meio dos mercadores 
que hoje aqui ha, que com liberal mão fião suas fasendas dos lavrar 
dores e moradores, com que se vão alentando, e as rendas da Com- 
panhia multiplicando. 

„He também de considerar que a diminnição no preço do as- 
sucar será certa nao havendo compr&dores, e suposto que o damno 
que daqui resulta he notório, também o he que a quantidade sara 
muito menos, porque o preço alto estimula a grandes prantas como 
este anuo vimos, e o baixo he occasiao de pouco cuidado e as veses 
de desamparo nas lavouras e tudo resulta em damno das rendas 
da Companhia. Estes dias vendendo-se um partido de canuas na 
vargea de Capiberibe, tinha, o vendedor quatro compradores chegou a 
nova da prohibissao, e logo não teve nenhum : o vendedor se chama 
Peres, e loi ajudante na milicia. 

^Ultimamente nao deve ficar daqui algum receo, que as ren 
das e ganansías da Companhia serão por esta cauza menores ; antes 
por boa arimetica se pode mostrar, que com o commercio livre serão 
muito maiores, porque em p.'** lugar deve considerar-se duma parte o 



NOTAS E APPÉNDICES. 321 

^ande cabedal de dinheiro que VV. SS." ande meter nos empregos, 
08 interesse delle, da ocupacçao e retensão de tempo, a importância 
grande dos fretes e direitos de que se priva o nas fazendas alheias 
que não trazem as perdas que se isentao, na podridão que de ordi- 
nário suocede nos maiitimentos e mil outras vias por onde se per- 
dem como consta por experiência e diminuição dos disimos dos as- 
nioarea que de necessidade se ando lavrar muito menos, salários e 
aproveitamentos dos commissarioR, as quebras de fazendas que se 
não escnxão, os furtos que nem sempre se pode evitar, finalmente as 
couzas perdidas que em uma maquina semelhante ade haver; e con- 
sideradas, estas perdas que são inexcusaveis, e todas resultarão desta 
prohibissão, se bem se nzer a conta se achara que são maiores do 
que serão as gan ânsias de neg.*" particularizando-se só a Companhia, 
e assim parece couza sem duvida que com o cabedal alheo interres- 
sava mais a companhia n'um anno, do que havia de interessar com 
o próprio ; porque o alheio é quasi infinito pois- he o de toda a re- 
publica e habitadores dos estados de Olanda e Brazil; e o próprio 
he só aquelle que pela Companhia se negociar e empregar. Vejão 
W. 88.** as ganansias de que se privao, e os imcommodos e perdas 
a que se sujeitão, vejão o quanto valem a desocupacção do cabedal, 
e a utilidade da ganansia que se alcança com o alhêo, facilmente 
alcansaiâo. que lhe será a liberdade mais rendosa, que a estreiteza 
a*que querem reduzimos; vejão o damno que induzem a este povo 
aeu, e considerado isto esperamos que facilmente permittão, que em 
pro da mesma Companhia gose da liberdade do commercio. 

„E para que VV. 88.*' vejão o muito que esto estado lhe 
pode dar em cada anno, sem porem a este povo em tanto aperto, 
nem tomarem com tanto damno para a Companhia, aquilio que Ds. 
fez livre e comum á todos, por lhe parecer que de tudo tem neces- 
sidade para sustentar' âò grandes presidios de que necessita este es- 
tado; nos pareceo mandar <^ VV. 88." hum recenseamento das gran- 
des rendas e interesses que nesta região conquistada lhes estão 
aparelhados, reduzida a antiga florencia, o qual recenseamento das 
grandes rendas vae em toda certeza conforme aquilo que sabemos 
e nos passa cada dia pela mão e nos parece que não haverá nellé 
fallencia ou diminuição alguma; acerca do qual advertiníos a VV. 
SS." uma só couza (e seja esta a ultima razão nesta matéria) e he, 
que com a liberdade total e geral no commercio em brevíssimo 
tempo tomara este estado a florencia antiga da qual colherão VV. 
88." o fruto e rendas que vorao pelo recenseamento delias que com 
esta lhe mandamos; e se tirarem a liberdade do commercio, nuca 
jamais poderá o Brasil^ chegar a tal estado que lhe renda a terça 
parte do que vae apontado no dito papel isto he certíssimo, e sem 
contradicção como tal o acceitem VV. SS."' e mandem logo dar livre 
commercio em todas as couzas de qualquer qualidade que sejao, pois 
as rendas que se esperao havendo liberdade são taes, que bastão a 
sustentar numerosos exércitos. 

„E se com a evidencia dessas rasÔes VV. 88.** não mandarem 
logo levantar a prohibição que esta posta, assim em fazendas como 
nos mantimentos; em nome deste povo como magistrado seu lhe 

28 



322 NOTAS E APPÉNDICES. 

pedimos licença para mandar nossos procurados aos Muy Altos e 
Poderosos Senhores Estados-Geraes, b a S. A o Serenisiimo Sr. 
Principe d'Orange, e fazer-lhe queixa desta invicta e rigoroza prohi- 
bição ; o que logo não fazemos por duas rasSes, huma porque espera- 
mos da boa administração desse Nobilíssimo Senado, que sem queixa 
o remedeie, e outra porque esta republica está tão deoiliiada e falta 
de rendas que pretendemos escuzar-lhe as custas desta procura^ 
e legacia que de presente se não poderem fazer, sem que de cada 
morador se tire, o que pudera ser hoje muitos não possuem. 

„He justo também dar a VV. SS.** conta do estado da Vilk 
de Olinda, que de todo ficou assolado da guerra e de que sobre sua 
reedifficação temos intentado e posto em effeito, para também lhe 
pedirmos que com seu fa?or ajudem estes intentos, 'pois todu o 
effeito delles, e todo o acrescentamento desta pavoaçao, e em honra 
e benefício da Companhia e rendas delia; Pedimos em nome deste 
povo, a Sua Excellencia, e aos muj nobres Srs. do supremo conselho, 
nos concedessem livres as ruinas da villa de Olinda, para todos os 
que dentro de breve tempo quisessem reedificar sem por isso se pagne 
algú pecho ou tributo; considerando benignamente, (|ue com algús 
moradores comessarao a reedificar suas cazas e para mais os estimular 
mandamos reedificar a casa do conselho, que chamão caza da Villa, 
para nella fazermos junta e audiensia aos requerentes e litigantes, 
e dentro de um mez estava esta nossa obra acabada, supost > qní 
não com a bizarria e perfeição que dantes tinha, porque para isto 
não ha outro cabedal mais que uma finta que com licença de Sua 
Excellencia, e das muy nobres Senhores de Supremo conselho lan- 
samos sobre o povo. Outra obra que temos ja entregue a ofiiciaei 
hé a da ponte sobre o rio Biberibe, sem a qual não tem a Yilla 
boa passagem ao sertão e a Vargem do Capioiribe, e alem destas 
obras ha outras, que sem o favor de VV. SS.** se não podem inten- 
tar, por que as rendas desta republica as tem os Srs. do Supremo 
Conselho incorporadas todas na da Companhia; pelo que pedimos 
a VV. SS" nol-as mandem largar, que são as do pezo e balança 
publica, o tributo de imposissão que se paga de toda a bebida, o 
que se paga de carne nos açougues, e suposto que em algumas ou- 
tras pudéramos tocar nos contentam<>ii por ora com estas, para 
que este povo de VV. SS." torne a devida e antiga florencia. 

„0 Christianismo desta conquista faz a VV. SS.** huma queixa 
para que com tempo, e madureza de conselho o mandem remedear, 
esta terra se vae enchendo de judeus, que em todas as náos 
passão desses estados para este, e como esta gente hé ta. o 
odioza a todas as nações do mundo *),^e por serem inimigos 
de Christo nosso Salvador não meressem nenhuma amizade pedi- 
mos a VV. SS." prohibição desta sua conquista tão ruins habita- 
dores, porque nem os naturaes recebem proveito do seus commercios 

') Note-se que assigna esta carta Gaspar Dias Ferreira, que 
por conseguinte não podia ser judeo, como julgou Southey, 
quando disse que elle era the richest jew in the Prwince 
(Southey, II. p. 67). 



NOTAS E APPÉNDICES. 383 

yendas e mercancias por serem gente inclinada a enganos, e fállen- 
cias, nem os framengos fícao de melhor condissao no logro desta 
seara; parecia melhor que escolhessem christaos qne não judeos, e 
quando não pareça a Y V. SS.*' prohibír-lhe a passagem a este estado ; 
pelo menos mandem que não tenhão aqui mais larguezas, das que tem 
em Olanda, nem se lhe permitta terem vendas publicas nem outros 
aproveitamentos que em Olanda lhe não são concedidas e somente 
possão ter as vivendas que lá lhe são permettidas, assim pedimos 
a VV. S^." por reverencia do nome Deos nosso Senhor. 

»Elle guarde a W. SS.*" muitos annos, com prosperidade 
nos sucoessos. felicidade nas conquistas, stabeÚdade na possessão 
delias, e paz universal em tudo o que dominão. Eecife 5 de dez.^* 
1637 annos. 

nJacques Stack, Gaspar Dias fr.', francisco de brito pereyra, 
guilherme Duncar, João Carneiro de Mariz, Scabinos da Villa de 
Olinda da Capitania de Pernambuco.^ 

^Rendimento dos frutos annuaes destas quatro capitanias 
Pernambuco, Itamaracá, Farahjba e Eio Grande fassendo a conta 
pela estimação dos frutos que darão em sua antiga fiorencia, a qual 
em breves annos tornarão sendo o commercio livre, e commum a todos. 

„ Valem quarenta.mil arrobas de assucar macho B.** 
e M.***" que estas quatro capitanias darão ao dizimo, huns 
annos por outi*os (havendo muitos que passarão cinco a 
seis mil a desti quaptia e muito poucos que diminuíssem 
delia) avaliado a seis florins a arroba forro das custas, 
monta quarenta mil libras de grossos 40.000 

^Valem dez mil arr. de retame, que ordinariamente 
se colhião de dizimo todos os annos, avaliado a três flo- 
rins forro de custas cinco mil livras de grossos . . . 5.000 

^Rendia o dizimo das meunsas da farinha, gado^ 
legumes, e mais frutos e mantimentos da terra ordinaria- 
mente cinco mil livras de grossos .5 000 

„0 direito de recognissão do assucar que fazem es- 
tas quatro capitanias que são ordinariamente 400.000 a. 
a saber 150.000 a. de B.*^" 150.000 de M.*»" e 100.000 a. 
de R.' avaliado o B,"" a nove florins, o M/" a seis florins ; 
e'o retame a três florins, vai o dito direito a estes preços 
cento e quarenta e três mil e setecentos e cincoen ta livras 143.750 

^Valem os fretes de nove mil toneladas, que ha nes- 
tes assucares a cem florins cada tonelada cento e cincoenta 
mil livras de grossos 150.000 

„ Valem as avarias destas nove mil toneladas a dez 
florins cada tonelada quinse mil livras de grossos . . . 15.000 

„Val a pensão do assucar, que cada eng." pagava 
aos donatários, das capitanias de pernambuco e Itamaracá 
pelo dito rendimento de assucar dose mil livras de grossos 12 . 000 

„Dez mil quintaes de páo Brazil de 128 lib. cada 
quintal que tantos se tirauao todos os annos destas capi- 
tanias f arece que valem ao menos forros do pro custj e 



324 NOTAS E APPÉNDICES. 



V 



gastos a trinta florins o quintal, monta cincoenta mil 

Uvras de grossos 50.00<'> 

^Estimasse o Dizimo fretes e avarias, do tabaco,, 
gengibre e algodão, mel e outras couzas meudas emcinco 
mil livras de grossos ao menos ......... 5.000 

^Estimasse a renda da navegação dos barcos e pas- 
sos para os assucares passagens e pescarias, em dez mil 
livras de grossos 10.000 

^Estimasse a renda do pezo, imposissao da bebida, 
assougues e passagens de gadps, em dez mil livras. . . 10. 000 

^Estimasse o interesse de dois mil escravos ; que he 
o menos que cada anno deve meter a companhia nestas 
capitanias para se sustentar a lavoura, porquanto em 
tempo de El Rey de Hespanha entrarão 4.000 escravos 
uns annos por outras: a vinte e cinco livras de ganho em 
cada um monta, cincoenta mil livras de grossos .... 50.090 

,,Estimasse o novo direito, que se poz em Olanda 
sobre o assucar d'un grosso por B.''** ^4; ...por M.** V,; 
por Eetame em cincoenta mil livras de grossos a respeito . 
do assucar que dão estas capitanias 50. COO 

„Alem das rendas que dizemos atraz, nas quaes entendemos 
não haverá diminuição alguma, antes muito acrescentamento tornando 
estas capitanias a antiga florencia colhem W. SS.*' fretes, e direitos 
da recognissão das fazendas, que se carregão em Olanda para este 
estado, em cuja estimassao não temos voto; mas entendemos ser 
couza mui grande, e com o commercio livre o augmento da tem 
cada vez será maior. 

,,Tem VV. SS." mais o que irão cobrando da venda dos en- 
genhos, terras casas, e chãos para ellas, que tudo esta vendido, e se 
deve começar a cobrar, pois os prasos se Commessão a vencer; o nos 
parece fltle he isto um Thezouro. 

^ão he de pouca consideração as presas que se fazem, de 
que tuao he occasião esta conquista de VV. SS." cuja estimassao 
se deve também referir a esta memoria. 

„Este recenseamento mostramos aos Srs. do conselho supremo, 
e lhes pareceo, que as partidas delia estavão muy conformes e ajun- 
tadas, e não somente irão cada vez em maior cressimento com o 
commercio livre, mas em muitos poucos annos passarão da esti- 
massao que neste papel fazemos, porque se em poder de El Rey 
havia estas rendas, muitas mais se devem esperar em poder de 
VV. SS."* porem se a Companhia tomasse para si todo o negocio (o 
que não entendemos) a mesma desenganara a VV. SS.** com seu 
damno, e nosso mal, que esperamos se remedeie D. nosôo Senhor 
acolha a VV< SS." o melhor para augmento da companhia e con- 
servação deste estado* — O Presidente Gaspar Dias Pr." *) 



') E' este upa dos documentos a que nos referimos na nota (3) 
da página 9. 



NOTAS E APPÉNDICES. 325 



Ao Livro &*. 
Nota 19% pag. 138. 

Southey, e com elle Warden, seguindo a Barleus dão 4.500 
florins mais, contando indevidamente o dobro nas pensões de Ita- 
maracá e Goiana, que foram sim arrematados em 9.000 florins, 
mas durante dois annos. A somma dos 276.400 florins se compu- 
nha das parcellas seguintes: Decimas de Pernambuco 148.500 fl.; 
de Itamaracá e Goiana 19.000 fl. ; da Parahiba 54.000 fl.; 
PensSes dos engenhos de Pernambuco (sendo arrematante J. F. 
Vieira) 26.000 fl. ; de Itamaracá e Goiana 4.500 fl. ; Meunças de 
Itamaracá e Goiana 1.700 fl ; da Parahiba 3 000 fl. ; de S. Lourenço, 
Igaraçú>e Patatibe 4.800 fl. ; da Várzea, Santo Amaro e Moribeca 
3.700 fl.; do Cabo, Ipojuca e Serinhaem 4300 fl.; de Una, Porto- 
Calvo e Camaragibe 2.700 fl.; das Alagoas até o Rio de S. Fran- 
cisco 4200 fl. 

Nota 20, ib. 

A obra de Jos. Moret foi escripta em 1654, e delia preparou 
uma traducção em hespanhol D. Manuel Silvestre de Arlegui, que 
foi publicada em Pam^lona em 1763. 

. Nota 21% pag. 145, lin. 24 a 30. 

Asseguram vários escriptores que os 600 homens que iam 
com o coronel Lacalce pertenciam á guarniçap estrangeira que es- 
tava na Bahia por occasiao da restauração, e aos quaes foi permit- 
tido que regressassem; porém não deixamos de encontrar mais pro- 
balidade que o barco arribado fosse o mesmo de que faz menção 
o Doe. 21». 

Nota 22% pag. 147, lin. 21 e 22. 

Que a tropa hollandeza nao dava quartel aos soldados estro- 
piados de Barbalho, o confirmou, em um oflFicio, o procrio Nassau. 
Com elle andou desta vez pouco de acordo Barleus quando chegou 
a dizer o contrário : „Barbalio iter capessens oegros et sequi im- 
putes, dwroR necessitatis ac militice lege trudãari jussit, ne capti 
à nostris * 

Que eram os Hollandezes os algozes o confirma o P.* Vieira 
do seguiate modo: „Agora nesta jornada última e milagrosa, onde 



316 NOTAS E APPÉNDICES. 

^E de deixarem ter e possuir as ditas suas fazendas, gados^ 
cavalgaduras e mais criaçdes, e os escravos s^m nos lhe tirarmos 
antes os mais que necessários lhes forem, lhes daremos para ang- 
mento de seus serviços e lavouras -- e faremos com elles os contra- 
tos que licitos forem na venda e compra dos escravos, nos lhes 
restituiremos, sendo da nossa mão, porque dos escravos pende o 
proveito de todos. 

I, Sendo caso que qualquer dos moradores e mais pessoas desta 
Capitáma se quiserem aosentar por terra ou por mar, para hem de 
suas fksendas, ou por outra qualquer pretenção, para frandes, nós os 
deixaremos ir livremente dando-lhes emharcaçao e passagem con- 
veniente. 

^Sendo caso que de Hespanha venha armada a este estado, 
tao poderosa que se* recupere, elles poderão emharcar, e pôr em 
salvo como melhor lhe estiver por Eazão do Risco de suas pessoas 
6 nós lhes daremos para isso adjutorio e não serão forçados a to- 
marem armas contra El Bey, antes farão que lhes for possível para 
a Paz Publica defensa da terra contra todos ennemigos deste es- 
tado, elles nem seus filhos serão forçados a serem soldados e só 
será o que por sua vontade o quiser ser, aquelle que acharmos 
comprehendido no contrario castigaremos e puniremos conforme as 
leis sendo primeiro ouvidos de sua justiça sem intervir Paixão 
nem aífeiç5es. 

„ Sendo caso que entre nós e alguns dos Portuguezes haja al- 
guma duvida, será julgada por quem o cargo pertencer e igualmente 
sem aífeicção nem paixão alguma de maneira que a justiça será 
igual, e que um não fique de menos condicção que o outro, que 
assim conservaremos a gente com mais gosto e quietação. 

„Sendo caso que entre os Portuguezes sós cujas (?) haja alguma 
duvida nós lhes daremos um juiz seu, que os ouça e julgue con- 
forme as leis e ordennaçSes do Reino de Portugal. 

,,Podem andar livres com suas armas offencivas assim de fogo 
ieomo de todas as mais por razão dos salteadores e outros alevantados. 

„Estas condições se hão de cumprir de parte a parte e todos 
os que as quiserem aceitar serão obrigados de chegar diante dos 
dos Srs. do Governo ou seus deputados a fazer o juramento de le- 
aldade e segurança, e os que não quizerem aceitar serão persegui- 
dos e rebeldes da paz e quietação. Aos 13 de Jan.^ de 1685.^ 



Doe. 19.° Copia da carta que a Camará da Villa de Olinda escreveo 
aos Administradores da Companhia. 

^Nobilíssimos Senhores. O lUustrissimo Senhor João Maurí- 
cio, Conde de Nassau, e os muy nobres Senhores Mathias Vancolim, 
João Cruezelim, e Adrião Wanderdux. supremo conselho nesta con- 
quista do Brazil, attendendo em tudo ao bom governo delia, quie- 
"Êição dos moradores e augmento da Republica, ordenarão Magistra- 
dos que administraram Justiça aos povos da dita conquista, e ihe 
se^issem de cabeça para procurar seu bem, e augmento, e o de 



NOTAS E APPENDICES. 317 

seus superiores; e conforme a jurisdicçao dos destritos das Villas, 
e capitanias crearSo .em cada uma Scabinos do aue se constitue 
corpo de Gamara, a imitação dos mui Altos e poderosos Senhores 
Estados de Hollanda neste lugar fomos eleitos na Jurisdicçao da Villa 
4e Olinda Capitania de Pernambuco, que be a principal e quasi ca- 
beça desta conc^uista, nelle faremos de nossa parte por corresponder 
nas obras a eleição que em nos foi feita procurando o bem da Re- 
publica e augmento das Rendas da Companhia das índias Oodden- 
taes, para nos dar a V. S.*' a divida obdiencia por esta noss^ carta, 
e juntamente fazellos sabedores de algumas couzas tocantes ao bem 
desta Republica e da dita Companhia com as mais particulares que 
ao presente se offerecessem ; e o mesmo iremos fazendo das que ao 
diante se offerecerê. 

n£m primeiro lugar damos a YV^. SS." o parabém da pacifi- 
cassão deste estado que esperamos lhe seja tão rendozo; que nelle 
constituão uma monarchia particular (que não h^ capaz de menos) 
e colhão tanto fruto delia, que fiquem atras os mais felices do mundo, 
conseryal-o nosso Senhor por annos sem limite com venturosos suc- 
cessos, e gloriosas victorias. 

^Este povo com e uniforme acclamaçao rende a 

VV. SS." todos os dias as graças, pela que ha uzado em seu parti- 
cular benefício de lhe procurar a assistência da pessda do lUustris- 
simo Sr. João Mauricio Conde de Nassau, e dos mui ilustres Senho- 
res do supremo Conselho, para governo seu e desta conquista, cuja 
eleito vão os successos aprovando com tão glorioso nome como se 
vae espalhando pelo mundo com tal cabeça e tal governo, nos pro- 
metemos stabiliaade na paz, que por seu mei^ foi Deos Nosso Se- 
nhor servido de nos dar, livraudo-nos com sua vinda das calamida- 
des passadas, que comummente a guerra traz consigo, affirmamos a 
W. SS." que a alegria deste povo com tal pessõa foi mui grande, 
e a satisfassão, e complacência que tem de sua assistência senão pode 
com palavras declarar; prospere Deus a VV. SS.*' por tão acertado 
designio, e determinassão qual foi a que tomarão nesta matéria. 

„Dias ha, que a prohibissão que VV. SS." intentão pôr a este 
estado no commercio das mercadorias se tem estranhado entre os 
moradores delles; porem nuca pareceo que viesse a efieituar-se, por 
ser couza tão notalmente prejudicial ao aumento e rendas da com- 
panhia e bem desta Republica: ao presente temos por noticia que a 
prohibição e estanque esta posto em todas as partes destes estados, 
e é tempo de dizer a VV. SS.*' o intento que será pemicioza , e 
manisfestar-lhe a injustissa, que com este povo se uza uma tal 
prohibissão, e o grande detrimento que d'ahi resulta aos rendimen- 
tos da Companhia, e perigo a conservação deste estado, do que tudo 
fazemos o descurso seguinte, que VV. SS.*' mandarão considerar 
como convém. 

„A primeina e mais effic'<z rasão que temos contra esta pro- 
hibição de livre commercio, he o promettimento que esta feito a 
este povo, em todo o tempo desta conquista, e onerecimentos de 
liberdades, e larguezas, em todo o discurso delia, ali o ultimo effeito 
de juramento de Obediência que recebeo, e em particular não se U^e 



318 NOTAS E APPENDICES. 



havemos quebrar as que viria antes de novo outra maior como alem 
das concedidas, e declaradas nos concertos que os Administradores 
da guerra fezerao; por muitas veses foi visto em papeis imi»re880s 
que os ditos mandarão espalhar pela teiTa, dissuadindo aos mora- 
dores (das falsas maquinações de El Rey de Hespanha) assim se 
continha nos papeis e sendo a justiça, e a verdade o fundamento 
da felicidade e stabelidade dos povos (o que particularmente mostra 
a experiência na justiça distribúida, que igualmente se guarda na 
Republica de Hollanda, que Deos prospere, pela coal a olhos vistos 
se tem augmentado tanto, e vai cada vez em maior cressimento) 
como poderão VV. SS.»* com justiça, por haverem conquistado este 
povo com suas armas, reduzil-o a tão estreito jugo e servidão que 
lhe tolhão o participar das abundancias, favores e communidades 
-que todo commercio livre trás consigo, tolhendo aos moradores va- 
ler-se cada um (como em tempo de El Rey de Hespanha o faziSo) 
de sua negociassao embarcando seus assucares para Hollanda e tra- 
sendo de lá as mercadorias, de que necessitarem logrando por outra 
parte aqui os baratos preços, que cada dia esta liberdade occasiona; 
o dammo que este povo do contrario recebera, é tão notório que é 
escusado de tornarmos em declaral-o com rnsôes q'em couzas tao 
manifestas se escuzao, a justiça e rigoi! é tal nobilíssimos Senhores 
que não achamos palavras com que declaral-o, sem que pareçao a 
VV. SS." licenciozas na boeí destes seus súbditos conquistados; e 
porque nossa tenção não é outra que declarar a VV. SS '" com toda 
humildade e submissão os perniciosos efteitos, que pode^l rezultar 
desta calamidade por igual e maior damno teremos, e não parecerem 
VV. SS." nossas palavras de coraçSes humildes, bem intencionados 
6 fieis, que aquelle que receberíamos de semelhanto prohibição; as- 
sim que com esta cautella, advertimos a VV. Sí^." que este povo 
suposto que é conquistado não é cativo, para que como tal seja 
tratado de cuja nação, q'em liberdade, e igualdade justiça he digno 
e vivo exemplar en todo o Universo; evitem VV. SS.** a nódoa que 
deste feito lhe pode resultar na fama, para com as outras naaçSes, 
aqual se reputa por a mais preciosa joía de todas as riquezas que 
dirão os hespanhoes. Nobilíssimo Senado? que cofcidiamente govey- 
não nestes paizes? que dirão os Alemães, que actualmente hoje 
pugnão pela liberdade? quando virem que o povo conquistado por 
VV. SS." visinhos seus, de tal maneira o tratão, e privão delia, 
que como cativo querem que receba *a comida e vestido somente da 
mão de seu Senhor? que dirão os Portuguezes visinhos dos con- 
quistados neste estado do Brazil ? parece q'o vemos estar zombando 
de nos, exprobando-nos enganos deitando nos em rosto faltas de 
promessas não cunpridas, parece que os vemos estarem excitando se 
e convidando-se uns aos outros a defensa, cuja i*asão de estado nao 
devia para VV. SS." ser menos considerável que as muitas outras 
que ha para que esta prohibissao estanque de commercio lhe pa- 
reça pernicioso. 

„Decendendo as rasôes mais particulares, devem W. SS." 
considerar que da estreiteza do commercio nasce a pobreza dos po- 
vos e sabido hé, que esta por si nas republicaei nuca foi mui defen- 



""'> 

"v.. 



NOTAS E APPENDICES. r>i9 

sável antes esta exposta a mil variedades, humas das couzas que x ^■-■^ 
mais dezeja este povo de pernambuco, ho estabilidade na paz que 
goza, e perder o receio de futura guerra, como poderá deixar de ser v ' 

pobre e cadavez ir a menos com esta probibissao, e como poderá ad- *--^ 

querir forças senão sabir das mizerias por meio de hum commercio t;^ 
Sto, do qual todos gozem, e se enriquessao, e será patente engano ^S^ 
euidsbr que toda grossura e richesa que o povo pode adquerir por 
meio do commercio livre, podem restringindo-se vir a cabir na bolsa 
da Companhia, porque nunca ouve couza particular, que podesse 
equivaler o que é geral que tem vezes de infenito, donde não só se '>. 

segue que ficara este povo jpobre e mizeravel reduzido a esta estrei- ' . 

teza, e privado da esperança de puder engrossar em cabedal e rique- 
zas; senão ainda fraco e indefensável: e o que mais he que estas 
ricbesas que elle havia de lograr; nao pudera alcançal-as a Compa- V' 

nbia por ser seu cabedal { suposto que grande) limitado, e o de livre 
commercio (por ser geral) como infenito: temos nestes poucos dias X.'^\ 
visto a experiência disto, por que muitos mantimentos vindo de frau- 
des, de que antes superabundavamos hoje de tal maneira comessarao 
a íialtar, que por nenhum preço se achavao. Deixem VV. SS." commu- 
nicar-se a este povo as abundancias e riquezas de Olanda, com hum ^ 

commercio livre, que tudo he beneficio da Companhia, e em damno 
seu toda restricçao nesta matéria. 

nHe admirável couza que entre graves e delicados juizos, como 
estão neste conselho, nao faça movimento a penetracçao de uma tao 
valente razão de estado, que esta contra esta probibiçao clamando, 
que não servira seu effeito de outra couza que guardar por um modo 
evidente aa portas abertas neste estado a seu ennemigo, para que 
possa outravez entrar lhe o que tanto lhe ha custado: recorrao 
W^SS.^as historias das Eepublicas antigas, acharão que toda 
nação, que huma vez conquistou outra, para a reduzir firme e es- 
tável e sua obdiencia, se misturava povo com povo, moradores com 
moradores que para assim ficasse a nação toda huma, fasendo uma 
nova espécie d^aliauça, amor e defensa; os meios desta communica- v- 

W) e mestura, he o commercio, sem elle mal poderá efectuar-se esta 
liança e parentesco, mais seguro ficara o Brazil a obdiencia dos muy 
altos, e poderosos S." estados geraes, e de S. A. o Sereníssimo Prín- 
cipe d'Orange, e dos S." nobilíssimos administradores da Companhia ^.. 
das índias Occidentaes, se neste haver habitadores tantos e mais 
ôramengos que portuguezes, pois como poderão estes vir ao Brazil, \. 
tolhendose lhe a uns trazer os seus queijos, e outros a sua manteiga 
e biscouto, aos moradores a abundância de suas carregações; como 
poderão viver no brazil achando os mantimentos no estado, e prés- -^ 
SOS que hoje valem, e ja vimos por experiência tornarem se daqni 
alguns, que pouco possuiao por se nao puderem sustentar no brazil. 
e como este povo seja hoje tao fiel aos muy altos e poderozos Se- 
nhores Estados geraes, dezeja ter em si toda a segurança para nao SV 
tornar ao Dominio Espanhol. E allegamos a VV. SS." esta rasao ^ 
para que com muita consideração se pondere, e totalmente se levante 
toda a prohibissão do commercio, para que esta Região Brazilica se 
encha e povoe de multiplicadas, e numerosas colónias de HoUande- 






■Si 



320 NOTAS E APPENDICES. 

zes, e que como arvores de troncos mais robustos lhe sirvao de 
sombra, arrivo e defensa ; e em breves annos se reduza a tal estado 
que querendo o Bei espanhol levantar olhos para ella, não veja já 
não hum povo portuguez de quem possa esperar agazalhos, senão 
uma Republica Olandica aqui transformada, de quem toma a mesma 
resistência que acha na original e verdadeira; o contrario disto .só 
hum procurador do mesmo espanhol o pode propor; a fidelidade ie 
nossos corações nos dá licença para que o digamos a W. SS^** 

„Era escuzado manifestar a VV. SS."' a felicidade^ .que yot 
meio d*um commercio livre se deve esperar neste estado; pois antes 
de conquistado era ja pratica que havia jentre os portuguezes que 
viria a ser o Brazil huma aureachernozo com a communicaçao dos 
framengos, os mercadores serão muitos, as fasendas e mantimentos 
em competência mais baratos, o poço com est^ abund anciãs se mul- 
tiplica e cresse, os lavradores multiplicados em numero, ricos em 
fazendas, não deixarão parte alguma da terra ociosa, e pelo conse- 
guinte tudo vem em proveito, e acrescentamento das rendas da Com- 
panhia, por quanto quanto mais povo maiores searas ; e maiores com- 
mercios, maiores rendas resultão aos Senhores dos tributos. 

„Pelo contrario estamos já vendo, que todos os fervores, que 
nesta vinha ou herdade se enzergavao, de tornar ao antigo estado, 
e florencia, se vão esfriando com estas novas, e será cada ^ez mais. . 
porque a reedifícação da Villa de Olinda, que tínhamos entre mãos, 
não vae com o fervor que dantes porquanto os mesmos não achão 
fructo que possão esperar de se reedificar povoação, não havendo 
commercio e negociações com que coãveniente se suste ntão; os emi- 
grados que estão desamparados, e assolados da guerra, wáL tomarão 
ao estado passado com estas estreitezas^ e os povoados mal se aug- 
mentarão com os canaviaes, e fructas com eat^s limitações, porque 
um e outros tem necessidade de mercadores passantes, assy para 
proverem com largueza com para reedificarem com fervor, sem os 
quaes tenhão VV. SS." por certo que tndo ira em diminuissão, e 
que o alento que esta terra hia tomando he por meio dos mercadores 
que hoje aqui ha, que. com liberai mão fião suas fasendas dos lavra- 
dores e moradores, com que se vão alentando, e as rendas da Com- 
panhia multiplicando. 

„He também de considerar que a diminniçao no preço do as- 
sucar será certa não havendo compradores, e suposto que o damno 
que daqui resulta he notório, também o he que a quantidade sara 
muito menos, porque o preço alto estimula a grandes prantas como 
este anno vimos, e o baixo he occasião de pouco cuidado e as veses 
de desamparo nas lavouras e tudo resulta em damno das rendas 
da Companhia. Estes dias vendendo-se um partido de cannas na 
vargea de Capiberibe, tinha, o vendedor quatro compradores chegou a 
nova da prohibissão, e logo não teve nenhum : o vendedor se chama 
Peres, e foi ajudante na milicia. 

^Ultimamente não deve ficar daqui algum receo, que as ren 
das e ganansias da Companhia serão por esta cauza menores ; antes 
por boa arimetica se pode mostrar, que com o commercio livre serão 
muito maiores, porque em p,"^** lugar deve considerar-se duma parte o 



NOTAS E APPÉNDICES. 321 

rande cabedal de dinheiro que VV. SS." ande meter nos empregos, 
) interesse delle, da ocupacçao e retensao de tempo, a importância 
rande dos fretes e direitos de que se priva o nas ^zendas alheias 
ae nSo trazem as perdas que se isentão, na podridão que de ordi- 
nio Buecede nos maútimentos e mil outras vias por onde se per- 
8BL- como consta por experiência e diminuição dos disimos dos as- 
QtteteiL qne de necessidade se ando lavrar muito menos, salários e 
(HOTeibuaientos dos commissarios, as quebras de fazendas que se 
So escaiSo, os furbos que nem sempre se pode evitar, finalmente as 
ouas perdidas que em uma maquina semelhante ade haver; e con- 
Ideradas, estas perdas que são inexcusaveis, e todas resultarão desta 
kMIússSo, se bem se nzer a conta se achara que são maiores do 
ue serão as ganansias de neg." particularizando-se só a Companhia, 
assim parece couza sem duvida que com o cabedal alheo interres- 
aTamais a companhia n'um anno, do que havia de interessar com 
I próprio ; porque o alheio é quasi infinito pois* he o de toda a re- 
mblica e habitadores dos estados de Olanda e Brazil; e o próprio 
le só aquelle que pela Companhia se negociar e empregar. Yejao 
n. 88.*" as ganansias de que se privao, e os imcommodos e perdas 
i que se sujeitSo, vejão o quanto valem a desocupac^ão do cabedal, 
I a utilidade da ganansia que se alcança com o alhêo, facilmente 
Jeansarâo. que lhe sei^a a liberdade mais rendosa, que a estreiteza 
k*C[ue querem reduzimos; vejao o damno que induzem a este povo 
lea, e considerado isto esperamos que facilmente permittao, que em 
)io da mesma Companhia gose da liberdade do commercio. 

„E para que VV. S&.*' vejão o muito que este estado lhe 
M» dar em cada anno, sem porem a este povo em tanto aperto, 
lem tomarem com tanto damno para a Companhia, aquillo que Ds. 
fes livre e comum á todos, por lhe parecer que de tudo tem neces- 
lidade para sustentar à grandes presidies de que necessita este es- 
iado; nôs pareceo mandar a VV. SS." hum recenseamento das gran- 
ida rendas e interesses que nesta região conquistada lhes estão 
aparelhados, reduzida a antiga fiorencia, o qual recenseamento das 
pundes rendas vae em toda certeza conforme aquilo que sabemos 
I aoB passa cada dia pela mão e nos parece que não haverá nellè 
aUencia ou diminuição alguma; acerca do qual advertiníos a VV. 
^.*' uma só couza (e seja esta a ultima razão nesta matéria) e he, 
[oe com a liberdade total e geral no commercio em brevíssimo 
empo tomara este estado a florencia antiga da qual colherão VV. 
58." o fruto e rendas que verão pelo recenseamento delias que com 
sta lhe mandamos ; e se tirarem a liberdade do commercio, nuca 
wnais poderá o Brasil* chegar a tal estado que lhe renda a terça 
arte do que vae apontado no dito papel isto he certíssimo, e sem 
ontradicção como tal o acceitem VV. SS."" e mandem logo dar livre 
ommercio em todas as couzas de qualquer qualidade que sejão, pois 
8 rendas que se esperao havendo liberdade são taes, que bastão a 
ostentar numerosos exércitos. 

„E se com a evidencia dessas rasôes VV. SS." não mandarem 
)go levantar a prohibição que esta posta, assim em fazendas como 
08 mantimentos; em nome deste povo como magistrado seu lhe 

28 



322 NOTAS E APPÉNDICES. 

pedimos licença para mandar nosBOs procurados aos Muy Altos e 
Poderosos Senhores Estados-Geraes, jB a S. A o Sereaissimo Sr. 
Príncipe d^Orange, e fazer-lhe queixa desta invicta e rigorosa prohi- 
biçao ; o que logo nao fazemos por duas rasSes, huma porqae espera- 
mos da boa administração desse Nobilíssimo Senado, que sem queixa 
o remedeie^ e outra porque esta republica está tao debilitada e falta 
de rendas que pretendemos escuzar-lbe as custas desta procuração 
e legacia que de presente se nao poderem fazer, sem que de cada 
morador se tire, o que pudera ser hoje muitos nSo possuem. 

„He justo também dar a VV. SS.** oonta do estado da Yilla 
de Olinda, que de todo fícou assolado da guerra e de que sobre sua 
reedifficação temos intentado e posto em effeito, para também lhe 
pedirmos que com seu favor ajudem estes intentos, 'pois todo o 
efifeito delles, e todo o acrescentamento desta pavoaçao, e em honra 
e beneficio da Companhia e rendas delia; Pedimos em nome deste 
povo, a Sua Ezcellencia, e aos muy nobres Srs. do supremo conselho, 
nos concedessem livres as ruinas da villa de Olinda, para todos os 
que dentro de breve tempo quisessem reedificar sem por liso se pague 
algú pecho ou tributo; considerando benignamente, que com algús 
moradores comessarao a reedificar suas cazas e para nuus os estimular 
mandamos reedificar a casa do conselho, que chamao caza da Villa, 
para nella fazermos juota e audiensia aos requerentes e litigantes, 
e dentro de um mez estava esta nossa obra acabada, supost» qu8 
não com a bizarria e perfeição que dantes tinha, porque para isto 
não ha outro cabedal mais que uma finta que com licença de Sua 
Excellencia, e das muy nobres Senhores de Supremo conselho laa- 
samos sobre o povo. Outra obra que temos ja entregue a ofTiciaei 
hé a da ponte sobre o rio Biberibe, sem a qual nao tem a Villa 
boa passagem ao sertão e a Vargem do Capibiribe, e alem destas 
obras ha outras, que sem o favor de VV. SS.*" se não podem inten- 
tar, por que as rendas desta republica as tem os Srs. do Supremo 
Coniselbo incorporadas todas na da Companhia; pelo que pedimos 
a VV. SS." nol-as mandem largar, que são as do pezo e balança 
publica, o tributo de imposissão que se paga de toda a bebida, o 
que se paga de carne nos açougues, e suposto que em algumas ou- 
tras pudéramos tocar nos contentamols por ora com estas, para 
que este povo de VV. SS.*' torne a devida e antiga florencia. 

„0 Christianismo desta conquista faz a VV. SS.*" huma queixa 
para que com tempo, e madureza de conselho o mandem remedear, 
esta terra se vae enchendo de judeus, que em todas as náos 
passão desses estados para este, e como esta gente hé tã.o 
odioza a todas as naçdes do mundo '),^e por serem inimigos 
de Christo nosso Salvador não meressem nenhuma amizade pedi- 
mos a VV. SS.*' prohibição desta sua conquista tão ruins habita- 
dores, porque nem os naturaes recebem proveito do seus commercios 

') Note-se que assigna esta carta Gaspar Dias Ferreira, que 
por conseguinte não podia ser judeo, como julgou Routhey, 
quando disse que elle era the richest jew in the Pr(/cince 
(Southey, II. p. 67). 



NOTAS E APPÉNDICES 3^3 

vendas e mercancias por serem gente inclinada a enganos, e fállen- 
cias, nem os framengos ficao de melhor condissao no logro desta 
seara; parecia melhor que escolhessem christaos que nao judeos, e 
quando nSo pareça a V V. SS.*' prohibir-lhe a passagem a este estado ; 
pelo menos mandem que nao tenhao aqui mais larguezas, das que tem 
em Olanda, nem se me permitta terem vendas publicas nem outros 
aproveitamentos que em Olanda lhe nao são concedidas e somente 
possão ter as vivendas que lá lhe são permettidas, assim pedimos 
a VV. S*^." por reverencia do nome Deos nosso Senhor. 

^Elle guarde a VV. SS.'" muitos annos, com prosperidade 
nos saooeBsos. felicidade nas conquistas, stabelidade na possessão 
delias, e paz universal em tudo o que dominao. Eecife 5 de dez,*" 
1637 annos. 

nJacques Stack, Gaspar Dias fr.', francisco do brito pereyra, 

Sailherme Duncar, João Carneiro de Mariz, Scabinos da Vilía de 
linda da Capitania de Pernambuco. '^ 

jyRendimento dos frutos aunuaes destas quatro capitanias 
Pernambuco, Itamaracá, Parahjba e Eio Grande fassendo a conta 
pela estimação dos frutos que darão em sua antiga florencia, a qual 
em breves annos tornarão sendo o commercio livre, e commum a todos. 

„ Valem quarenta.mil arrobas de assucar macho B.** 
e M.**' que estas quatro capitanias darão ao dizimo, huns 
annos por outros (havendo muitos que passarão cinco a 
seis mil a desti quaptia e muito poucos que díminuissem 
deila) avaliado a seis florins a arroba forro das custas, 
montft quarenta mil libras de grossos 40.000 

„Valem dez mil arr. de retame, que ordinariamente 
se colhião de dizimo todos os annos, avaliado a três flo- 
rins forro de custas cinco mil livras de grossos . . . 5.000 

^Rendia o dizimo das meunsas da farinha, gado, 
legumes, e mais frutos e mantimentos da terra ordinária-» 
mente cinco mil livras de grossos 5 000 

„0 direito de recoguissão do assucar que fazem es- 
tas quatro capitanias que são ordinariamente 400.000 a. 
a saber 150.000 a. de B.^*» 150.000 de M.*»" e 100.000 a. 
de R.* avaliado o B.^^^ a nove florins, o M.*° a seis florins ; 
e'o retame a três florins, vai o dito direito a estes preços 
cento e quarenta e três mil e setecentos e cincoenta livras 143 . 750 

^ Valem os fretes de nove mil toneladas, que ha nes- 
tes assucares a cem florins cada tonelada cento e cincoenta 
mil livras de grossos 150.000 

^Valem as avarias destas nove mil toneladas a dez 
florins cada tonelada quinse mil livras de grossos . . . 15.000 

„Val a pensão do assucar, que cada eng.'' pagava 
aos donatários, das capitanias de pernambuco e Itamaracá 
pelo dito rendimento de assucar dose mil livras de grossos 12.000 

„Dez mil quintaes de páo Brazil de 128 lib. cada 
quintal que tantos se tirauão todos os annos destas capi- 
tanias farece que valem ao meuos forros do pro custj e 



3iJ4 NOTAS E APPÉNDICES. 



V 



Z 



gastos a trinta floriu s o quintal, monta cincoenta mil 

livras de grossos 50. OQ 

^Estimasse o Dizimo fretes e avanas, do tabaco, 
gengibre e algodão, mel e outras couzas meudas emcinco 
mil livras de grossos ao menos 5.00 

^Estimasse a renda da navegação dos barcos e pas- 
sos para os assucares passagens e pescarias, em dez mil 
livras de grossos lO.OOi 

9 Estimasse a renda do pezo, imposissao da bebida, 
assougues e passagens de gadps, em dez mil liTias ... 10. 00 

j.£stuuasse o interesse de dois mil escravos ; que he 
o menos que cada anno deve meter a companbia nestas 
capitanias para se sustent^ir a lavoura, porquanto em 
tempo de £1 Rey de Hespanha entrarão 4.000 escravos 
uns annos por outras: a vinte e cinco livras de ganho em 
cada um monta, cincoenta mil livras de grossos .... 5O.00( 

^Estimasse o novo direito, que se poz em Olanda 
sobre o assucar d^un grosso por B.'" '4; ...por M.** V,; 
r Ketame em cincoenta mil livras de grossos a respeito 
o assucar que dao estas capitanias óO.CiX 

õ4õ.7ô( 

9 Alem das rendas que dizemos atraz. nas qnaes entendemo: 
nao haverá diminuição alguma, antes muito acrescentamento tornandc 
estas capitanias a antiga florencia colhem W. SS." fretes, e direitoj 
da recognissao das fsizendas, que se carregiio em Olanda para esti 
estado, em cuja estimassao nao temos voto; mas entendemos sei 
eouza mui grande, e com o commercio livre o augmento da terrí 
cada vez s^ra maior. 

,,Tem vy. SS." mais o que irão cobrando da venda dos en 
genhos. terras casas, e chãos para ellas, que tudo esta vendido, e s< 
deve começar a cobrar, pois os prasos se Commessão a vencer; o no 
parece aú» he isto um Thezooro. 

J^o he de pouca consideração as presas que se fazem, d 
que tuJo he occasiiio esta conquista de YV. SS." cuja estimâssá 
se deve também referir a esta memoria. 

,,£ste recenseamento mostramos aos Srs. do conselho suprem( 
e lhes pareeeo, que as partidas delia estavao muj conformes e ajuc 
tadas. e nao somente irão cada vez em maior cressimento com 
commercio livre, mas em muitos poucos annos passarão da est 
massão que neste papel fazemos, porque se em poder de El Kt 
havia estas rendas, muitas mais se devem esperar em poder c 
VV. SS/* porem se a Companhia tomasse para si todo o negocio I 
que liio entendem<.>8) a mesma desenganara a VV. SS.»* com s€ 
damno, e uosso mal, que esperamos se remedeie D. nosso Senh< 
acolha a VV. 5?S.** o melhor para augmento da companhia e coi 
servação deste estado * — O Fresidente Graspar Dias fV.* ■) 



17 este um dos do<»uiLentos a que nos referimos na nota (« 
da pagina 9. 



NOTAS E APPÉNDICES. 325 



Ao Livro 6^ 

Nota 19% pag. 138. 

Soathej, e com elle Warden, seguindo a Barleus dão 4.500 
rins mais, contando indevidamente o dobro nas pensões de Ita- 
j^cá e Goiana, que foram sim arrematados em 9.000 florins, 
^8 durante dois annos. A somma dos 276.400 florins se compu- 
a das parcell«is seguintes: Decimas de Pernambuco 148.500 fl.; 
Itamaracá e Goiana 19.000 fl. ; da Parahiba 54.000 fl.; 
nsdes dos engenhos de Pernambuco (sendo arrematante J. F. 
3ira) 26.000 fl.; de Itamaracá e Goiana 4.500 fl.; Meunças de 
imaracá e Goiana 1.700 fl ; da Parahiba 3 000 fl. ; de S. Lourenço, 
iraçú^e Patatibe 4.800 fl.; da Várzea, Santo Amaro e Moribeca 
00 fl.; do Cabo, Ipojuca e Serinhaem 4300 fl.; de Una, Porto- 
Ivo e Camaragibe 2.700 fl.; das Alagoas até o Bio de S. Fran- 
co 4200 fl. 

Nota 20, ib. 

A obra de Jos. Moret foi escripta em 1654, e delia preparou 
ia traducção em hespanhol D. Manuel Silvestre de Arlegui, que 
publicada em Pamplona em 1763. 

Nota 21% pag. 145, lin. 24 a 30. 

Asseguram vários escriptores que os 600 homens que iam 
n o coronel Lacalce pertenciam á guarnição estrangei];|ft que es- 
ra na Bahia por occasiao da restauração, e aos quaes Íoí permit- 
que regressassem; porém nao deixamos de encontrar mais pro- 
lidade que o barco arribado fosse o mesmo de que faz men^o 
Doe. 21». 

Nota 22% pag. 147, lin. 21 e 22. 

Que a tropa hollandeza nao dava quartel aos soldados estro- 
dos de Barbalho, o confirmou, em um officio, o próprio Nassau. 
m elle andou desta vez pouco de acordo Barleus quando chegou 
dizer o contrário : „Barbalio iter capessens cegros et sequi im- 
t€8, dwrce necessitatis ac militics lege trucidari jussit, fie capti 

nostris * 

Que eram os HoUandezes os algozes o confirma o P." Vieira 
seguinte modo: ^Agora nesta jornada última e milagrosa, ande 



326 NOTAS E APPÉNDICES. 

86 não deu quartel, o mesmo foi ser ferido que morto, deixando os 
amigos aos amigos, e os irmãos aos irmãos, por mais nao poderem, 
ficando os miseráveis feridos nesses matos, nessas estradas, sem 
cura, sem remédio, sem companhia, para serem mortos a sangue 
frio e cruelmente despedaçados dos alfanges hollandezes, pelo rei. 
pela pátria, pela honra, pela religião, pela fé.** (Vieira SermSes, 
T. 8.^ p. 403.) 

Nota 23% pag. 153. 

Day estava já no Recife, como capitão, em 1G31, segundo se 
vê do Diário de Richshoffer. 

Nota 24^, pag 156. 

Segundo nos communica um amigo hihliographo ha da carta 
de Montalvão outra edição de 1641 (20 de Nov.) que contêm, o 
seguinte P. S ; 

„Com este aviso mãdo João Lopez, que he caho desse barco 
em que vay, siruase V. Excellencia de mo madar logo para que 
traga nouas de V. Excellencia, porque agora as desejo com mais 
razão. O Marquez de Montalvão." 

App. ao Livro 6.® 

Doe. 20.° Carta do Padre Francisco Paes para o P*. Paulo da Costa 
acerca da expedição do C. da Torre. 

Na Bahia deixei carta para Y. E. agora e sereno nesta costa 
do rio gprande 12 legoas da fortalesa para o Ciara e Maranhão, aonde 
nos trouxerão meus peccados nesta infeliz armada cd tanto senti- 
mento como V. R. considerará com tantas perdas desse Reino e da 
Bahia de nouo tan arriscada que desentranhandose do melhor que 
tinha, ueio a dar nos riscos em que a consideramos. 

Em 9 de Outubro passado chegou o socorro das ilhas 17 
nauios com 1150 homens gente muito escolhida, e san. Nos primei- 
ros de Nouembro chegarão os 4 nauios com carnes e farinhas do 
Rio da Prata, e primeiro que elles 11 ou 12 embarcações do rio de 
Janeiro com farinhas, carnes peixe e uarios legumes que Saluador 
Corrêa de saa fez embarcar com bom numero de soldados e Índios 
de uarias partes. 

Postos estes socorros na Bahia fez o general marchar o Ca- 
merão com a sua gente de guerra para se ir aiuntar aos Capitães 
João Lopes Barbalho e Magalhães que ja estauão no rio de S. Fran- 
cisco com os tapuyos do Rodela que alli esperauao ao Camerao para 
marcharê para a campanha de Pernambuco com nouo auiso do Conde 



NOTAS E APPÉNDICES. 327 

da Torre, a qual lhe mandou 4 o 5 dias antes de partir a desgra- 
çada armada, a qual sahio da Bahia em 20 de Nouembro com 89 
uelas 20 galeões s urcas dol Kei, navios mercantes os mais, pataxos 
carauelas, barcos da costa para lançar gente em terra. Intentou don 
Fernando Mascarenhas vir embarcado no galeão S Felipe, mas 
resoluendose don João da Vega general da coroa de Castella a lhe 
não largar o estandarte real que lhe auia entregue quando chegou 
a Bahia, se concertarão e uierão ambos na real S. Domingos. Don 
Rodrigo Lobo na sua capitania, os almirantes nas suas, don Fran- 
ciflco de Moura em bua carauela, os mais repartidos pellos nauios 
que lhes couberão. 

Com estas embarcações nauegamos na uolta do sul ate o 
derradeiro de Nouembro e chegamos em boa conserua a 16 gráos e 
meyo uespera de S. Fran.** Xauier: entrou o uento pello sueste com 
que logo poderamos uirar na outra uolta mas socedeo desaruorar 
£um galeão a húa carauela que deixou sem mastis e pêra se des- 
carregar gastamos pairando hum dia e húa noite. Partio a carauela 
em bandolas para a Bahia, e nos pêra Pernambuco, durou o uento 
ate nos por nas Alagoas porto dos Franceses e rio de S. Miguel 
que -tudo esta em distancia de duas legoas. Acudirão logo os mora- 
dores daquellas duas uillas offerecendo tudo o que tinhão os pais 
os filhos para aguerra, sem aver quem deixase de mo$trar zelo e ani- 
mo christão,^ sem mais fruito porem que ficarem expostos aos casti- 
gos que os òlandezes lhes derao, por se auerem declarado em nosso 
fauor contra elles. 

Estauão nestas alagoas 200 soldados com hum capitão dito 
Mansfelt entrincheirados em hú engenho para nelle se defenderem. 
Dizem trataua o Capitão bem aos moradores, aos soldados com grande 
rigor : sabendo que estaua alli surta a nossa armada e que por terra 
uinhão chegando João Lopez Barbalho e o Camarão tez juntar os 
moradores portugueses despediose delles e pedio dissesem por escrito 
o bem que os auia tratado para se descarregar com se« príncipe 
que assi lho auia encarregado mandando o para aquelle posto em 
lugar de outro que auia tirado por queixas dos Portugueses. Leuou 
a sua bagagem em sinco carros deixando o posto liure. Ficarão aqui 
4 barcos seus 700 alqueires de farinha cantidade de peixe porque 
destas alagoas sustauão (sic) aos do rio de S Fran.*"" e Porto Caluo. 
Quando alli entramos fez húa carauela nossa dar a costa hú barco 
seu que hia para o rio de S. Fran.*'** 

Neste rio de S. Miguel fizerao aguada alguns navios, e outros 
se tornarão pêra a Bahia por abertos, entre eUes foi S. João de la 
Rosa em qiie uinha embarcado Hector dela Calce com 200 Italianos 
soldados uelhos, se tÒrou a Bahia, certo nella será de efi*ecto pêra 
defensa daquella praça que todos considerão em grande risco; arri- 
bou mais a nao de Manoel Gonçalvez Barros, em que uinha a mu- 
Ihesr do Camerao com suas donas, e outros nauios a que nao sei os 
nomes. 

Feita aguada nos fizemos a uela dia dos inocentes com tam 
rijos nordestes que em três dias tomamos a descair a 12 grãos e 
meyo trinta legoas ao mar da Bahia, e se continuarão e nos Teuarão 



328 NOTAS E APPENDICES. 

ao rio de Janeiro fora menos mal que chegarmos a uer* tantas des- 
graças. Nesta uolta se deuidio a armada em 3 ou 4 esquadras sem 
sabermos hums dos outros, e esta desunião foi grande causa de 
nossa perdido, não socedera assi se sairamos no fim de Agosto, ou 
primeiros de Setembro primauera nestas costas. 

No derradeiro de Dezembro uoltou o uento ao sueste com que 
em breue nauegamos ate altura do Cabo de S. Agostinho 63 nauios, 
e porque faltauão a Capitania, almirante de Portugal, e outros 6 
galeões, e a ordem dezia que os nauios derrotados fossem a balra- 
uento de Pernambuco, se resolueo em conselho os fossemos alli es- 
perar, como fizemos chegando a barra do Paraiba ao sabbado 7 de 
Janeiro. Se quiséramos lançar gente no Cabo Branco 3 legoas da 
barra do Paraiba para o sul, ou na Guayana, o poderamos fazer 
muito a nosso saluo e com grande proveito desta jornada. Varias 
pessoas praticas naquella costa derão por escrito as conueniencias 
que auia para se desembarcar alli a soldadesca, outros e principal^ 
mente os moradores de Pernambuco da parte do sul encontrarão 
este intento com a distancia que auia dali ao Cabo de Sancto Agos- 
tinho que são 20 legoas, e a falta de mantimento daquelles sitios. 
Todos estes inconvenientes se não podem comparar com os que 
agora esperimentarão os que marchao parada Bahia destes baixos de 
S, Eoque que distão de Pernambuco mais de 70 legoas, assi acon- 
tece a quem perde melhores occasioes. 

Do sabbado 7 de Janeiro ate 3.' fr.' 10 do mesmo achamos 
os galeões derrotados tirado a Bigonha de que não temos noticia 
por uentura que haja arribado a Bahia. A A^ fr.* começamos a na- 
uegar pêra Pernambuco; e no mesmo dia atarde se descubrió o 
monte do colégio e Pao amarelo. Correo (?) nos que continuando 
naquella uolta passaríamos o Cabo de Sancto Agostinho em que 
não auia enconueniente supposto que a infanteria auia de desembar- 
car na uolta do Cabo para o Sul. Virou a Capitania na uolta do 
mar com sentimento de muitos de madrugada tornou a buscar a 
terra. Nesta mesma menham pellas dez horas auistanlos 37 nauios 
Olandeses que nos vinham demandar, os 14 grandes mas menores 
que as nossas urcas de guerra. A capitania com 52 pessas de artel- 
haria grande nauio de uela a balrauento, os outros de menor porte. 
As nossas Capitanias lançarão seus estandartes, a Eeal tirou bua 
pessa a do inimigo, & com isto se trauou a batalla. 4 gale5es 2 da 
Coroa de Castella se poserao diante da nossa Capitania peleijando 
com grande ualor em especial a Concepção menor que o fez como 
muitos iuntos. A Capitania de Olanda passando por todos elles foi • 
demandar a nossa real, que don Rodrigo Lobo neste dia não pode 
chegar por andar a soláivento, a Capitania seguirão os mais nauios 
olandeses tirados 4 que com a almirante vierao entender com o al- 
mirante castelhano Fran.*" Dias Pimenta que os recebeo de maneira 
que CO a primeira carga, uoltarão, e elle foi em seu seguimento duas 
horas ; tornou sobre a armada fazendo seu oíFicio a tempo que ja os 
Olandeses uinhão na outra uolta dar suas cargas ; passou a Capi- 
tania inimiga pella nossa dando ambas suas cargas, todos acometerão 
a nao S. Jorge ingres que uinha diante do almirante Pimenta, a 



NOTAS E APPENDICES. 329 

todos saluou ualentemente c5 a artelharia, o almirante fez o mesmo 
a capitania e os mais que uinhao na sua esteira, e deu ôm a batalla 
deste dia com morte do seu genei*al como soubemos no dia seguinte 
de sinco olandezes que escaparão de duas nãos que lhes metemos a 
pique. Neste mesmo dia uimos apartar apressadamente da armada 
aous nauios deuiao de ir maltratados da nossa artelharia. Soubemos 
dos prisioneiros que sairá este general mais marinheiro que soldado, 
muito contra sua vontade, obrigado do conde de Nassau que lhe 
mandou se fose perder com a armada de Hespanha. 

Foi parecer de algums que naquella noite lançasemos a nossa 
infanteria em terra porque tinhamos alli emboscado ao Capitão Vidal 
com a sua gente e algums de cavalo que nos segurauao o passo, 
e o dia de antes tinha o Vidal mandado auiso ao Conde da Torre 
que o inimigo o esperaua com estes nauios com intento de peleijar 
com a nossa armada, socedeo assi pontualmente. 

Ao general morto socedeo o almirante com tão boa fortuna 
qne saltando o uento ao sueste nos desgarrou, e a elles deixou de 
posse daquellas terras de que nos fomos alongando c5 grande magoa 
de nossos coraç5es, sabendo que c5 este succetso se acabauão nossas 
esperanças. Fomos tomando as batarias sempre na uolta do mar, 
descaindo sem remédio, menos ficáramos desgarrados se as tomáramos 
na uolta da terra. 

A sesta feira amanhecerão os inimigos como sempre a bal- 
rauento, uierao a nos repartidos em duas esquadras. O general com 
a sua intentou inuestir os nauios mercantes, mas don Rodrigo Lobo 
que amanheceo mais chegado aos inimigos por uelejar mais aquella 
noite uoltou sobre a Capitania e outros 4 que a seguiao , e os fez 
fugir deixando líures os nossos nauios. Neste dia perderão os Olan- 
deses duas formosas nãos húa com a nossa artelharia, e outra com 
a sua que correo mais ajudada também das nossas balas ; tirado sinco 
olandeses que escaparão em hú bote, os mais morrerão afogados. 
Duas nãos forão dar fundo na costa da Paraíba para o sul destro- 
çadas da nossa artelharia. 

No dia seguinte tornarão a nos dar bataria c9 o mesmo ím- 
peto. A nao Comboi Capitão Don Francisco Castrejon que ate então 
nos fòltaua amanheceo nas proas dos inimigos e começando pella 
Capitania foi seruindo a todos c5 muy boos cargos, e todos a elle 
com os mesmos; chegando a nossa real a saluou com três peças 
sem bata e logo uoltou aos inimigos metendose entre elles tam ua- 
lente como uenturoso, por que o seu nauio ficou sem dano algum e 
so hú homem perdeo. Forao três nãos sobre o almirante de Castella 
(o de Portugal andou todos estes três dias sotauenteado) o primeiro 
dando húa so carga uirou a popa, o 2.° tirou duas pessas, o almi- 
rante lhe respondeu c9 outras duas com tam bom successo que c5 a 
2.* lhe botou ao mar o masto traquete c5 todas as uelas de proa e 
com isto se foi a costa, era nao de 44 pessas. Dizem perderão os 
olandeses nestes três dias 6 nauios eu me seguro que forão 4, outros 
os oliâo de mais perto. Nos perdemos natte sabbado a nao Chagas 
de António da Cunha que deu a costa por descuido e por feruor de 
dar c5 os Olandeses a costa. Não sabemos o que foi da gente, por 

24 



330 NOTAS E APPENDICES. 

uentara que os saluou o Capitão Vidal que deuia estar na costa a 
uista da batalha. Outro patazo que vinha para a Terceira se foi 
ao fundo c5 agua, soluou-Ihe a gente o almirante Pimenta. 

Ao domingo e 2". feira 14 e 15 de Janeiro dessistirão 
da briga, mas sempre a nossa uista e a balrauento; 3". fr." pello 
meyo dia nos acometerão 27 nauios com grande Ímpeto as nossas 
Capitanias leuarão notaues surriadas de altelharia, e mosquetaria 
principalmente a Keal que como melhor de uela e bsdrauento entraua 
mais c9 os inimigos, ualeolhe ser noua, e forte porque lhe derao 
muitas balas de mais de 30 libras, artelharia que pêra este effeito 
deuião meter no recife porque os nauios não erão capases de pessas 
tao grossas. Taes dez mezes lhes demos pêra preuençao. As uenta- 
gens que os inimigos nos faziam erao aerem os seus nauios muito 
ueleiros, pele^'arem sempre de balrauento e traserem muito melhore& 
bombardeiros que os nossos. Neste dia peleijou muito bem o almi- 
rante de Portugal. As duas Capitanias, almirantas e S. Felipe se 
desfizerao em rogo, e durou a bataria ate quasi noite deixando todo 
oiizonte e mar afumado. Na Capitania real ficou sem braço esquerdo 
o piloto mor. Sem o direito António de Sousa fidalgo Partu^uez, 
morto no seu galeão Sancta Anna Maria o Capitão B." Leitão da 
Sylueira; com húa perna menos hú religioso do Carmo, o qual me- 
disse no Cabo uerde que uinha ao Brazil por curiosidade. Alguma 
soldados mortos, e feridos, a maior perda de gente foi na náo 
Chagas. 

A St.* feira uiemos nauegando em popa pêra o rio grande, 
é os Olangeses para os seus portos da Paraíba e Pernambuco, nos 
de todo desgarrados perecendo a sede e a fome; quasi todos os 
nauios uinhão faltissimos de agua; farinha, e pão auia em algum 
mas era necessário repartirlo pellos necessitados. Por tomar agua e 
lançar em terra a infantaria buscamos portos, em hua madrugada 
quisemos lançar gente, mas como a nossa armada ficou a sotauento, 
e a do inimigo aparecia ainda a balrauento 80 don Francisco de 
Moura, e dous barcos em que hia a gente de Henrique Dias tonaarao 
porto, mas c5 trabalho porque logo acudirão dous pataxos olandeses 
a defender o passo, os barcos derão a costa e alli ficarão. Tomamos 
a buscar outro paragem, entramos nesta costa do Eio grande 12 la- 
goas para o noi^e, entre os baixos de S. Boque aonde achamos hum 
fermoso rio com muito boa agua e húa alagoa da mesma bondade 
muitos ueadoB, porcos emas muitas e uarias aues, estamos s^bre as 
choras ') aos mares, e uentos, as chuuas são tantas que parece 
mudou Deus a naturesa do tempos pêra nos castigar. 

Surgimos aqui em 20 de Janeiro os ^aledes ao mar, os nauios 
menores em 6 braças em dia de S. Sebastião a noite, creceo tanto o 
uento que os gale5es se fízerão a uela e so ficarão noue nauios, os 
quais também são partidos tirando três urcas castelhanas que nos 
acompanhão, e tanto que daqui levarmos, se irão pêra índias como 
forão os mais. Aly^"^« nauios dos carregados com infantaria uao c5 
intento de ir a B^ia diiiii^feytfi que a possão tomar, outros rotos uao 

*) An — anchoras^ . 



NOTAS E APPENDICES 331 

para o Maranhão com alguma soldados doentes e feridos. O mestre 
de Campo Luiz Barbalho partira por terra com perto de dous mil 
homens a socorrer a Bahia, c5 elle o P." Francisco de Anilar e o 
IrmSo Bartholomeo Gonçalez, o P.* João Luis, e eu ficamos com don 
Francisco de Moura pêra em hua carauela irmos na uolta da Bahia. 
Queira Deus que possamos montar. O Conde de Vanholo gouema isto, 
quando não pode fallar, pello impedimento da lingua, o faz dom 
Francisco de Moura, tratou hú destes dias de abrir as uias de S. M. 
pêra generaes nao lho consentio dom Francisco de Moura. 

O Conde da Torre ueyo na Capitania real, depois de desgar- 
rado teue palauras pesados com dom João da Vega dizem que che- 
gou ao punhar, e que se embarcara em outro galeão, aqui mandou 
pedir húa carauela pêra nella ir a Bahia, foi húa pêra este effeito 
receamos que nao achase (sic) por serem ásperos os suestes. 

Muitas uezes creui (sic) a V. B. que estes galeses erao mais 
aproposito pêra se defender que pêra offender, bem ò esperimenta- 
mos agora, são pesados e zoi*reiros, en dando em fundo de 10 bra- 
ças uoltao pêra o mar. Os inimigos trasemnauios ligeiríssimos, de- 
mandão pouca agua, e uão uirar com as proas em terra, muito 
aproposito forão pêra esta guerra os nauios de Duquerque. 

Deste infelice successo collegira V. B. o animo com que es- 
taremos todos. Depois de dez annos de tomado Pernambuco apa- 
recemos aqui com húa armada tão poderosa, com tantos socorros, 
tantas preuençdes tanta e tão lusida gente, muita delia exercitada 
nesta guerra em muitos annos, quando tudo isto nos estaua pro- 
metendo hum felice sucesso com a restauração desta prassa e segu- 
rança de todo o Brazil, quando os inimigos se dauão por perdidos 
recolhendo nas terras tudo o que tinhão em fazendas, e assucres se 
lhes fez toda esta preuen^o, e desapareceo tudo sem sabermos ati- 
nar com os meyos de tão grande desuentura. Parece isto sonho e 
não uerdade. Deus nos aiuda, e de sua diuina graça pêra que en- 
tendamos que nos castiga por nossos peccados e nos emendemos. 
Ficamos afirontadissimos com os mesmos Portugueses moradores 
nestas nestas partes, e muito mais com os olandeses, que denen 
fazer grandes festas em Olanda com esta noua. Destes oaixos de 
S. Boque, costa de Bio grande, e no de Touro em 1.° de Feureiro 
de 16^. 

(Copia sacada e cotejada com outra copia que existe 
na Bib. da Acad. E. da Historía de Madríd.) 



Ao Livro 7!" 

Nota 2õ*, pag. 169, in fine. 

Veja-se a verba 24 do testanieirto que reproduzimos nas 
pag.' 275 e 276. '^'-* . 



332 NOTAS E APPÉNDICES. 



Nota 26», pag. 172, lin. 21. 

Cremos que os dois emissários mandados dessa vez á Bahia 
eram Manuel Codd e Abraham Taper, que Calado (pag, 112) dá 
como idos ali em outra occasião. Manuel Codd seria o que ficara 
detido tendo parentes no Eecife, segundo consta da carta dos do 
Conselho (Doe 22^). Em resposta a esta carta é que António Telles 
daria a Nassau rebaixa no tratamento, bem que nSo provocado 
como pensou Calado, pag. 121. 

Nota 27% pag. 173, lin. 1. 

Se não chegou a haver o concerto para se levar avante uma 
revolu^o, temos por seguro que Vidal poude obter que os morado- 
res, incluindo Berenguer e Vieira, dirigissem uma carta ao rei 
D. João 4.<^, pedindo-lhe que os mandasse soccorrer com gente e 
meios para ella, e que esta carta foi levada á Europa pelo filho de 
Berenguer, António d'Andrada Berenguer. — Houve quem desse disso 
a denuncia immediatamente, a ponto que ja Nassau na communica- 
^ de 24 de Setembro, que citamos na pag. 172, trata dessa carta. 
— - Porém Vieira, sabendo-o, resolveu tomar a iniciativa de falar 
nisso^ e, no mez de Dezembro, se apresentou aos do Conselho, de- 
clarando-lhes que lhe constava quanto se dizia j e que era certo que 
elle e seu sogro haviam escrito ao rei, mas havia sido uma simples 
carta de recommendaçSo, em favor dp seu cunhado para ser promo- 
vido, e que dessa carta tinha até o borrão no escriptorio. Julgaram 
os do Conselho que era chegada a occasião de surprehender em fla- 
grante o delinquente, e lhe ordenaram que entregasse os chaves do 
escriptorio^ e que se considerasse preso, em quanto se dava a busca. 
Vieira havia tido a cautela de deixar o borrão da imaginada carta, 
no sitio que indicou, e foi julgado innocente, de accordo até com 
as idéas de tolerância em que já se achava Nassau, que, antes de 
deixar o governo, recommendava á Companhia a maior discrição ao 
ouvirem as denuncias contra os ricos. A este facto allude a certidão 
dos moradores a favor de Vieira passada em 7 de Out. de 1645. - 
Veja Calado pag. 247. 

Nota 28% p^g. 179, na nota. 

A opinião menos fundamentada de Berredo foi adoptada 
também por Southey no Tom. 2.^ pag. 46. 



NOTAS E APPÉNDICE8. 333 



App. ao Livro 7.* 
Doe. 21.« 

jyCertífíco eu Ignacio do Rego Barreto Provedor-Mór que fui 
da Fazenda do Serinissimo Eei de Portugual Dom João o Quarto 
na cidade e conquista do Maranhão, que a armada hollandeza que 
o foi tomar sábio do Eecife de Pernambuco em 28 ou 29 de Outu- 
bro de 1641, a qual aportou e ancorou no porto de Ferihá, distante 
yinte léguas da dita cidade, e encontrando alli lun navio hollandez 
carregado de vinhos, que com despacho e licença dos ofilciaes da alfan- 
dega de S. Magestade sahio da Ilha da Madeira, onde ja se havia 
solennizado e publicado a tregoa feita entre o dito Senhor Bei de 
Portugual e os muitos e poderosos Senhores Estados-Unidos dos 
Paizes-Baixos, o mandou tomar o General e o ^emetteo ao Eecife, e 
mandando do mesmo porto em um barco alguma gente a barra do 
mesmo Maranhão tomar falia e saber se estava o Governador e 
moradores delle pelo dito Senhor Sereníssimo Eei de Portugual, 
encontrou um homem portuguez na Ilha de Fora, que guardava 
gado e o levou ao dito General e Coronel. E sendo por elles exa- 
minado lhes disse que ja os moradores daquesta praça estavao 
havia mais de seis mezes pelo dito Sr. Rey, e que havião o acla- 
mado por tal sem discrepância alguma. E também lhes disse que nella 
se havião pregoado publicamente pazes com o Christianismo Eei de 
França e ditos Srs. Estados, com todas as solennidades costumadas 
em semelhantes actos. E perguntando-lhe mais o dito Coronel que 
declarasse quem governava a dita praça respondeo o dito homem 
que Bento Maciel Parente e que se esperava cada dia por novo go- 
vernador; e ouvindo isto o dito Coronel disse que elle era o Gover- 
nador Q[ue lhe ia succeder e tomar posse da praça, na qual já em 
principio de Novembro a dito Governador Bento Maciel Parente por 
cartas de avizo que teve de S. Magestade, tinha mandado pregoar 
as ditas pazes publicamente assim na cidade como em seu distrito 
com toda a devida solennidade, declarando-se que chegando ali al- 
guns navios dos Estados da Hollanda, ou de m Eey de França se 
lhe desse boa entrada e o necessário com todo o favor que houvesse 
lugar, poro^uanto tinha feito pazes com os ditos Senhores Estados 
e Christianissimo Eei de França. E tendo o mesmo governador 
avizo em 24 de Novembro que aparecião muitos navios mandou na 
noite seguinte ao capitão de Infantaria Francisco Coelho de Car- 
valho em hum barco a reconhecel-os. Voltou no dia seguinte pela 
manhãa, disendo que erão HoUandezes; e no mesmo dia as onze 
horas, entrarão os ditos navios, que erão 18 entre grandes e pe- 
quenos, pelo barra dentro, e mandando-lhes o Governador atirar 
duas peças sem pólvora para conhecer seu intento, não responderão 
com signal algum; o que visto pelo dijk) Governador lhe mandou 
atirar algumas peças com pelouro, a que responderão com toda a 
fua artilharia, combatendo a fortaleza e cidade. E no mesmo instante 
me mandou o dito Governador com o P.' Lopo do Couto da Com- 



334 NOTAS E APPENDICES. 

panhia de Ihs, que fosse abordo da Capitania fallar com o general 
e Coronel, e lhes manisfestassemos as pazes que tínhamos feitas 
com 08 Srs. estados e com elles, e como alli estavão apregoadas por 
avizos e ordens de S. Magestade; e chegando a bordo da Capitania 
não achei nella o Coronel; e indo a terra onde estava ahi desem- 
barcando a gente, fazendo-os sabedores de tudo e declarando muito 
meudamente os circunstantes, respondeo que queria ver a Carta e 
Ordem que o Governador tinha das pazes: e com esta resposta lhe 
fui dar conta. E elle confiado na amizade que havia sahio fora da 
fortaleza fallar com o General e Coronel, mostrando-lhes as ordens 
que tinha de S. M. E assentarão de comum consentimento o se- 
guinte. Concedem a saber. Que o dito Governador e Coronel João 
de Eoim fícariao naquella praça cada qual delles governando a sua 
gente, e que as armas e mais petrechos de guerra se meteriao nos 
armazéns e que cada um teria sua chave, e viviriao ambos como 
amigos e o Governador mandaria avizo a S. Magestade, e o Coronel 
aos Srs. Estados, dando-lhes conta de tudo, e o que lhes ordenassem 
se faria, que em tanto as moradores da terra estariSo com grande 
paz e quietação beneficiando cada qual sua fazenda. E de tudo fize- 
rão um assento, q^ambos assignarao e o general João Comelles 
Coração leve •), e Pedro Bass, seu politico e director. No mesmo 
dia o governador lhes entregou a fortaleza, armas e munições e 
tomando posse de tudo logo arvorarão suas bandeiras apossando 
-se do governo e fortaleza e do mais que havia na cidade. E no 
dia seguinte fiserão o General e Coronel entre si outro escripto de 
contrato a seo modo, acrescentando e diminuindo o que quizerao, e 
obrigai ão o governador que assignasse, e o primeiro contrato o ras- 
garão disendo que não estava bem. E o obrigarão mais que man- 
dasse recado aos officiaes e soldados da guerra que assestiao na 
fortaleza do Tapicuru, paraque se entregassem e lhes viessem dar 
obdiencia ; e desta maneira se lhes entregou, e ficarão senhores delia. 
Depois forão por seus mandados chamados os Srs. de engenho e 
lavradores, para que viessem ante elles e lhes pedirão que pelo 
saque que podião dar em suas fazendas e casas lhes dessem seis 
mil arrobas de assucar, que receberão. E depois de estarem de posse 
de tudo, mandarão botar bandos que todos as moradores, soldados e 
gente de fora, se ajuntassem na praça; sendo junfcos, obrigarão os 
ditos moradores que jurassem ao muito poderoso Príncipe d'Orange, 
e os Srs. Estados Geraes da Hollanda, e Srs. da Companhia, promet- 
tendo-lhes vassalagem, obediência, lealdade, o que fizerão obrigados 
de sua força e rigor. Tomarão os officiaes de guerra, soldados homens 
do mar, e forasteiros, por lista, e sende juntos os embarcado mise- 
ravelmente em un navio para a Ilha da Madeira, o qual no mesmo 
dia em que sahio tornou a entrar para dentro por se ir a pique com 
agoa; e concertando se mal, o tornarão a mandar para a Ilha dita 
com mui pouco mantimento e agoa. E obrigados de muitas neces- 
sidade e agoa que fazia forSo a Ilha de São ChristovSo quasi mor- 
tos e afogados, aonde estão ainda muitos j)a88ando miserMmente por 

9 Licht-hardt, 



NOTAS B APPÉNDICES. 535 

nSo terem passagem. E pedindo e governador navio para mandar 
aviso a S. M. conforme ao concerto que haviao feito, lh'o negarão e 
zombarão delle, por essa cauza não foi S. M. Bei logo sabedor de tudo. 
Da artilbaria e petrecbos de guerra que acbarao, enviarão para o re- 
cife o que lhes pareceo melhor* e todos os navios e barcos da terra 
tomarão ; e as fazendas que acharão nos armazéns e logias da cidade, 
e aj)rata das Igrejas, que tudo importa muita conta. Com muita ve- 
xação de minha pessoa me obrigarão que logo entreguasse os livros 
e toda a fazenda que tivesse de S. M. dentro de dous dias; e que 
nelles me embarcasse com os mais prisioneiros; e porque o tempo 
era breve e o rigor muito pedi me dessem alguns dias mais para 
fazer a entrega que me pedião porque a não podia fazer eu tão 
breve. Consentirão nisto prendendo-me e que na mesma comformidade 
íizesse em casa de seu Sargento-Mor das armas, onde estive até me 
enibarcar como prisioneiro para estes estados da Hollanda, em uma 
náo que veio carregada de assucares. E por me ser mandado pas- 
sar a presente certidão pelo Sr. Doutor Francisco d^Andrade Leitão, 
do conselho de S. M., seu dezembargador do Paço, e Embaixador 
Extraordinário nesta corte aos Srs. Estados-Unidos e Ordens-Geraes 
dos Paizes-Baixos a passei na forma sobredita, por mim assignada 
seUada com o sello das minhas armas. E juro aos Santos Evange- 
lhos passado tudo ua verdade o que nella se comtem. Haya do Conde, 
2 de Agosto de 16^ annos.^ Ignacio do Rego Barreto. 

Nos abaixo assignados afirmamos e juramos aos Santos- 
Evangelhos, que tudo o conteúdo na certidão acima passa na ver- 
dade; e o sabemos assim, por ser notório, e estarmos no Maranhão 
quando a armada hollandeza a foi tomar. Amsterdam, 6 de Agosto 
de 1642. Miguel de Maris. Pascoal Coelho. António da Fonceca. 
João Lobato. Manoel Gomes da Costa. Francisco Coelho de Carvalho. 

(R. Archivo na Haya, West-Indien, Maço 16, 
Divis. 13; Append. n.' 2797.) 



Doe. 22.® Carta dos Membros do Conselho ao Governador António 
Telles (traducção). — 

Desde que Y. Ex.* tomou posse do Governo até hoje, só temos 
da sua parte recebido bellas palavras, sempre desmentidas pelos 
actos. Esta maneira de proceder a nosso respeito, obriga-nos, a es- 
crevei a y. Ex.*, afim de que fique, em todo o tempo, salva a nossa 
responsabilidade, e todos possam saber que fomos constrangidos a 
entarar em correspondência para fazer a observar e guardar o tra- 
tado de paz, concluído entre S. M. elrei D. João de Portugal e os 
Senhores Estados Geraes. 

No dia immediato ao da chegada de V. Ex.* á Bahia, 
chegou ahi igualmente a nossa galeota. Tinha a bordo os dois de- 
putados por nós enviados a felicitar a V. Ex.*, pela paz que acabava 
de ser concluída. Em recotdpensa deste passo, foi um destes depu- 
tados retido até hoje na Bahia^ sem ter nunca podido obter de V. 



336 NOTAS E APPÉNDICES. 

Ex.* permissSo de voltar para os seue, entre os quaes conta sua 
mae» seu irmão e outros parentes próximos. E' este um acto con- 
trário ao direito das gentes, ' o qual não teria comettido, ainda em 
tempo de guerra, o predecessor de V. Ex.* Apenas poude prover-ae 
a nossa galeota dos viveres que precisava para o retorno; porque 
08 da equipagem careciam de liberdade para comprar o necessário, 
e eram guardados e vigiados dia e noite, como se tivessem sido 
enviados pelo inimigo. 

Para responder por sua parte ás nossas felicitaçSes, enviou- 
nos V. Ex.', a bordo de uma embarcação, commandada pelo Capitão 
Magrisso, o sargento mor André Vidal de Negreiros, e o Capitão 
Manuel Pacheco d' A guiar, para negociar acerca dos pontos tratados 
na nossa correspondência amigável, e do commercio do reino d^An- 
gola. Estes dois deputados regressaram tendo sido por nós tratados 
com todas as attençdes devidas. Permittimos-lhes conmiunicar com 
os moradores das duas jurisdições, com excepção do commercio, visto 
ser-nos isto prohibido no tratado de paz ; e pelo que respeita a 
Angola nos hemos referido a tudo que o tratado permittiu em 
semelhante matéria; visto que não nos era licito apartarmo-nos disso. 
Fermittimos a estes dois enviados e ao Capitão do barco a venda 
aqui de todas as mercadorias que tinham trazido, posto que em 
grande quantidade, e o levarem comsigo o respectivo prodaoto, se 
bem que isto nos era, em certo modo, prohibido. QueriamoibyiiovaT, 
por esta condescendência, quanto nos era agradável a conelmú) do 
tratado de paz, e para melhor testemunho de nossa satisfação fize- 
mos mais do que nos permittiam os deveres do nosso cargo. £ como 
correspondeu V. Ex.* a este nosso procedimento? Prohibiu a habi- 
tantes fieis e dedicados o verem suas familias, posto que tívessem 
passaportes que os autorisassem a isso; e mandou prender os que 
procuravam entrar na Bahia; fez até confiscar-lhes os bens, e ao 
favor que fizemos ao Capitão Magrisso oppoz V. Ex * os tratamentos 
de que nos dão conhecimento todas as cartas que nos chegam da 
Bahia. 

Com a vossa embarcação, ao voltar á Bahia, enviamos um 
barco, para ali comprar farinha, porque havia aqui escassez delia, e 
procurávamos ajudar tanto quanto possivel aos moradores. 

Conforme aos artigos do tratado de paz, não deveria V. Ex.' 
ter-^nos recusado este favor; mas oppoz-se a isso, e não ocultou se 
quer as suas intenções. Observaram-se tão severamente, de di^ e 
de noite, as ordens de V. Ex.*, que não foi possivel aos nossos im- 
portar da Bahia a menor provisão, o que prova que estiveram rigo- 
rosamente vigiadas, e que até se instituiram penas contra os- qne 
procurassem effectuar-lhes as minimas vendas. Emfim Y. Ex.* en- 
viou uma barca, com o capitão Agostinho Cardosa, e seis soldados. 
Este capitão desembarcou secretamente em Nasareth, e dahi se di- 
rigiu pelas provindas do sul, onde espalhou noticias alarmantes, e 
de perturbação por entre os habitantes, e deu-lhes^ conselhos que 
não indicam intenções muito amigáveis. 

Depois de ter feito esta excursão, foi embarcar-se na Borra 
Grande; e, de passagem, saqueou aJifiins dos moradores, a quem 



NOTAS -E APPÉNDICES. 337 

roubou um yalor de mil cruzados; só bem que os nossos portos lhe 
fossem franqueados, e que nos prestássemos a receber as cartas de 
y. £x.* Este acto excitou o mais altamente o nosso descontenta- 
mento, e vemo-nos obrigados a dizer a Y. Ex.* que o obrar assim, 
não é só violar as condições do tratado de paz, mas cometter um 
acto de hostilidade dos mais manifestos; e que, se Y. Ex.*, com a 
notificação que lhe dirigimos, não impõe ao capitão um castigo 
exemplar, seremos obrigados a participar este facto, ao conhecimento 
dos Altos Poderes, nossos senhores e Amos, para que, de sua parte, 
informem disso a S. M. elrei de Portugal. Devemos fazel-o para 
não sermos responsáveis, perante Deos e os homens, das desgraças 
(de que Deos nos livre) que podem resultar, de uma e outra 
parte, para os habitantes do paiz. 

Deos guarde os dias de Y. Ex.* por muitos annos. Kecife 3 de 
Março de 1643. 

P. S. Esta carta estava escripta , quando soubemos que 
Domingos da Bocha; de Serinhaem, cem uma barca carregada 
de assucar, tendo a bordo diversos habitantes e devendo aqui som- 
mas consideráveis, tinha partido para o Bio de Janeiro; e que um 
tal Thomé Delgado, com a sua barca carregada de assucar, perten- 
cendo a outros, se havia também, pouco tempo antes, dirígido para 
a Bahia. Não podemos fazer idéa de como Y. Ex.* tomará este 
nego«|4>; mas pareoer-nos-hia estranho que ladrões salteadores que 
commettem semelhantes feitos, na nossa jurisdição, encontrassem 
protecção de parte de Y. Ex.* ; pois que não somente, conforme o tra- 
tado concluido entre S. M. elrei de Portugal e os Senhores Estados 
Geraes, Y. Ex.* nos propoz o entreter relações de boa visinhança, 
mas até nos fez pedir de uma maneira especial, por seus enviados, 
que mantivéssemos boa disciplina militar, e lhe entregássemos os 
soldados que, por delitos comettidos, se fossem refugiar em outra 
jurisdicção. 



Ao Livro 8.^ 

Nota 29», pag. 187. 

O texto de uma das denuncias contra Fernandes Yieira, Be- 
renguer e António Cavalcanti, assignada — „A verdade — Plus 
VUra^ — se encontra reproduzida em Nieuhof, e delia dá Southey 
um extracto. 

Nota 30, pag. 189, lin. 18, 19 e 20. 

As palavras desde „Fizeram^ ate ^assucares^ acham-se ahi 
deslocadas. Beferiam-se á Parahiba. 

25 



838 NOTAS E APPENDICES. 

Nota 31% pag. ib., lin. 28. 

O Castrioto faz Domingos Fagundes natural de Viana; 
porém Calado diz positivamente : „Este Domingos Fagundes he 
hum mancebo pardo, mas forro, filho de hum homem nobre 
8 rico, yianés, o qual no tempo que governou na Bahia o Marques 
de Montalvão, veio correr a campanha de Pernambuco por Capitão 
de húa tropa de vinte soldados,** etc. (Calado, pag. 174.) 

Nota 32% pag. 192. 

As indicaçdes de Moreau acham-se confirmadas pelos escriptos 
hollandeztes contemporâneos, que acrescentam que os nossos chega- 
ram a dar ao acampamento das Tabocas o nome de Arrayal novo, 
e ippnfirmam que, segundo alguns, a perda na acção das Tabocas foi 
afectivamente muito maior que a dos cem que haviam confessado. 
Transcreveremos as seguintes linhas, por ventura, em parte ao me- 
nos, redigidas já em presença da traducção hollandeza do mesmo 
Jíoreau:" „Dit gelukte hem in het eerste wel: want hy hen van 
plaetse tot plaetse verjaeghde en vervolghde, tot dat hy eindelijk, 
-op den deiden van Ooghstmaent, aen hunne leger plaetse quam, 
de welke een hooge, steile en rontom' getrencheerde of" beschanste 
en gesterkte bergh was, Santanton by d^inwoonders, en by de 
Partugesen Eeael Novo genoemt: die niet meer ais eenen toegang 
had. Hy besprong, en taste evendwel den vyant aen, met voorne- 
meii vàn dien, door de dapperheit der onzen te bemghtigen, en 
daer mede een einde van den oorlogh te maken. Maer álzoo de re- 
bellen heel sterk op den bergh Waeren, en binnen hun voordeel 
bleven leggen, deden zy Haus, met verlies van meer dan hondert 
doden en gequesten, de T9^ijk nemen. Hoewel anderen het verlies 
op vijf hondert man begroten. Onder de gesneuvelden was ook 
Kapitein Loo." 

Nota 33% pag. 200. 

A resposta dos do Conselho do Eecife foi dada em 13 de 
Agosto. Delia consta que os dois "parlamentarios foram o capitão 
Martinho de Ribeira e o auditor geral licenciado Balthasar de Cas- 
tilho. Nesta resposta davam aquelles. poderes a Gisbert de With e a 
Hendrik de Moucheron para tratar, por ventura afim de o demorar. 
fia quem assegure que Salvador Corrêa chegou a receber essa res- 
posta, e que á vista do teor delia e dòs preparativos que se faziam 
no Kecife, se apressara a seguir viageni. 



NOTAS E APPÉNDiCES. 339 



Nota 34% pag. 201 (na nota). 

* 

Um João d'Albuquerque era eífectivamente chefe principal 
que devia dirigir a insurreição em Serinhaem; mas dahi não se 
segue que nesta occasião ahi se achasse quando não vemos . o seu 
nome figurar entre tantos outros. 

Nota 36*., pag. 203. 

Na Casa Forte tiveram os nossos 18 mortos e 35 feridos, 
incluindo nestes Domingos Fagundes e Henrique Dias. 

Nota 36% pag. 208. 

A respeito do modo como se desenvolveu a insurreição nas 
capitanias de Itamaracá e Farahiba faltam-nos documentos fidedi- 
gnos, e preferimos por isso antes ser mui lacónicos no texto. O que 
encontramos escripto.em muitos autores, que não fazem mais que 
copiar-se uns aos outros, é que os Bárbaros, que ao mando de Fero 
Futy praticaram as crueldades no Cunhaú vinham contra a Goiana, 
em cujos subúrbios primeiro havia estalado a insurreição, elegendo 
por chefes a Diogo Carvalho, Fascoal de Freitas e Martim Fragoso, 
depois de haverem sido presos pelos Hollandezes Gonçalo Cabral e 
outros, nomeados a principio por Vieira e Cavalcanti. 

De um Padre Lourenço da Cunha sabemos que também en- 
trava no numero dos conjurados dessa capitania; mas ignoramos que 
passos deu. Parece que Paulo de Linge, á imitação doà chefes do 
Becife, offereceu uma amnistia aos que se apresentassem, e infor- 
mado porém do triunfo nas Tabocas, retirou-se com todos os seus 
ao Cabedelo; e os índios selvagens, vendo essa prevenção e ouvindo 
os triunfos dos nossos não se atreverem contra a Goiana, e se dis- 
persaram pelos sertòes. 

Entretanto chegavam as tropas que do Gurjaú haviam siáo 
destacadas para essas bandas ás ordens de António Cavalcanti, Já 
fallecido em Igaraçú, e mais outras que, depois da aCção da Casa 
Forte, haviam sido enviadas a reforçal-as; ao mando de António 
Curado (não Rodrigues) Vidal, com o qual vinha uma escolta dos 
índios do Camarão e outra dos pretos de Henrique pias, ^s quaes 
, deviam eugrossar-se com os dos respectivos sangues qnfi na QQ};^^ 
e Parahiba se lhes quizessem reunir. 



340 NOTAS E APPÉNDICES. 

Chegaram estes ao Tibery, a três léguas da cidade da Para- 
hiba, no principio^ de Setembro, e dali procuraram entender-se com 
Jeronjrmo Cadena, Lopo Curado Garro e Francisco Gomes Muniz, 
chefes ahi dos conspiradores, que apoz si levaram os moradores já 
compromettidos a se unirem ao levante. Foi decretada uma contri- 
buição para os gastos da guerra, espalharam-se proclamações con- 
vidando a se alliarem á revolta os próprios estrangeiros, perdoando- 
se-lhes as dividas que tivessem para com os intrusos Hollandezes. 
Passaram logo as ditas escoltas já reforçadas ao engenho de Santo 
André, ficando Lopo Curado Garro á frente do Governo da cidade 
e cuidando da sua defensa. Foi então, segundo os chronistas, que 
Paulo de Linge saiu do Cabedelo, e no engenho Inhobim veiu a 
encontrar os nossos, travando-se a acção que foi dirigida por Vidal 
Gomes Moniz, e para o successo da qual se diz que contribuirá uma 
grande chuva que tornou inúteis ao inimigo as suas armas de fogo. 

Nota 37% pag. 210. 

Já o autor doCastrioto teria noticia de que havia sido revelado o 
projecto do ataque a Itamaracá quando escreveu (Liv. 6.*^, n.° 118): 
„Não faltou traidor. . . . que vendo a marcha, e sabendo a tenção, 
avisou logo ao Arrecife o intento das nossas armas: e deu tempo 
ao Framengo para aprestar duas náos e algúas barcaças de remo, 
que mandou á Ilha de soccorro,** etc. 

Nota 38% pag. 211. 

Por João Lostan Navarro encontramos em um documento 
designado o senhor de engenho de que se trata; pelo que é prová- 
vel que não fosse flamengo. 

Nota 39% pag. 213. 

A retirada do Camarão á Piurahiba teve logar por falta de 
muniçdes. Vidal só partiu depois, a 24 de Agosto (1647), com 600 
homens, sendo 100 soldados de linha, e 150 índios. — Barboza 
Pinto efectuou a sua invasão mais tarde, em 1651. 

Nota 40*, pag. 214 

Parece que foi o próprio governador Garstman quem mandou 
matar a Jacob Babbi. 






NOTAS E APPÉÍTDIÒE8. 841 



Ao lAvro 9\ 

Nota 41%.pag, 216. 

Também por ampliação se deu o nome o nome de Arrayal 
Novo do Bom Jesus a toda a linha de postos e fortificaç5es dos 
nossos. 

Nota 42% pag. 219. 

• 

Para se apreciar ao justo o tamanho dos moedas obsidionaes 
as damos desenhados na estampa adjuncta. 

Nota 43% pag. 224, nota l.« 

Um escriptor moderno explica por influencias mui oppostas 
ás de Baccho a morte de Lichthardt, dizendo: ^Mourut subitement 
pour avoir bu de Veau froide pendant qu'il etait en sueur," 
(Warden, II, 33.) 

Nota 44% pag. 227. 

Alguns escriptores attribuem aos prejuizos que fazia a bate- 
ria da Asseca a retirada dos Hollandezes de Itaparica ; mas não é 
provável, visto que desde 3 de Outubro essa bateria causava os 
mesmos estragos. 

Nota 46% pag. 227, lin. 32. 

Os primeiros offerecimentos de Souza Coutinho acerca da 
cessão de Pernambuco foram feitos, em meio de grande apuro, em 
Setembro (não Novembro; veja a errata), antes de receber a 
autorisação pelos despachos que para isso levara o P.* Vieira, 
partido de Lisboa no dia 12 de Agosto (Santarém, Quadro Elem, 
IV, 2.', p. XVIII) e detido no caBiinho; o que se confirma pela 
carta de Pedro Vieira ao dito embaiiador de 13 de nov. e pela carta 
daquelle de 21 de Janeiro de 1651. 

Nota 46% pag. 228. 

E' sabido que para o congresso de Munster haviam sido no- 
meados por Portugal Francisco de Andrade Leitão e Luiz Pereira 
de Castro; os quaes não conseguiram ser admitttdos; e depois bri- 
garam um contra o outro e contra o embaixador ^ Souza Coutinho; 



342 NOTAS E APPÉNDICES. 

pelo que chegou o Marquez de Niza a escrever ao rei que convinha 
que fossem ambos descançar „para suas casas do muito que haviam 
trabalhado um contra o outro^. 

Nota 47% pag. 239. 

Em seu parecer Pedro Fernandes Monteiro concede que um 
dos estímulos da resolução dos Pernambucanos havia sido o verem^se 
quites em suas dividas aos Hollandezes. 

Nota 4Ô», pag. 240. 

 nomeação de Salvador Corrêa, para governador do Bio, com 
independência da Bahia havia sido feita em 18 de Fev. de 1647, 
seis dias depois da de Barreto para Pernambuco. 

Nota 49% ib., lin. 31. 

Entre as palavras „ cidade^ e „ Salvador^ saltou o cpmpositor 
as seguintes linhas: Essa importante colónia d' Africa principal vi- 
veiro dos escravos para o Brazil, estava quasi de toSo em poder dos 
Hollandezes, já senhores de Loanda, sua capital, desde que haTiam 
fícado quasi inutíllsados os últimos esforços, feitos em 1645, para 
restaural-a; fallecendo em maio do anno seguinte (1646) o governa- 
dor do Bio de Janeiro Erancisco de Souto-Maior, a quem fdra pri- 
meiro a empreza comettida. A nova tentativa emprehendida por 
Salvador Corrêa foi mais feliz, o viu-se coroada de resultado defi- 
nitivo. 

Ao Livro lOJ" 

Nota 50% pag. 242. 

o nome indio do Bio-Grande (do N.) que escrevemos Putigy 
é por Laet áitQ Potigi e por Nieuhof (p. 41) Potiyi, o que está 
de accordo com a e^ymologia por nós aventada na 2.* parte da me- 
mória acerca da naturalidade do Camarão. 

Nota 51% pag. 250. 

A queixa de Cromwell para a ruptura áõs boas relações pro- 
veio de haver Portugal tratado como rei a Carlos 2.^ e recebido em 
Lisboa, com prezas feitas aos do Parlamento, aos Príncipes Palati- 
nos alliados 4P lu^esmo Carlos 2.° 



NOTAS E APPÉNDICES. 343 

D. Luiz de Portugal era neto do Prior do Crato, e chegou a 
soffirer na Haja grande pobreza. 

Nota 52% pag. 250, Hn, ult, 

Souza de Macedo aguardou na HoUanda alguns mezes antes 
de obter audiência de recepção. Em 6 de Março (1651) se apresen- 
tou por fim ante a grande assembléa dos Estados exibindo as cartas 
de crença, e pronunciando por essa occasiSo um discurso em latim 
com muitos cumprimentos e muitas queixas. Communicou-se-lbe 
então quasi como ultimatum, um projecto de tratado, redigido em 
23 artigos, contendo em substancia as exigências que se faziam ao 
seu predecessor em 1648. Pediu Souza de Macedo que a paz se 
estendesse também á índia Oriental, e nos diaB 11 e 13 de março 
dirigiu aos Estados Geraes dois memorandums , acompanhados de 
uma carta da Eainha de Suécia ofierecendo mediação. No dia 14 
resolveram os Estados não aceitar esta mediação, e assim o escre- 
veram á mesma Bainha de Suécia. Souza de Macedo ofTereceu ainda 
que Portugal 4aria como equivalente do Brazil: 1.^ A somma de 
três milhões de cruzadas; 2.° o commercio do sal; 3." a liberdade 
aos Hollandezes de commerciar no Brazil : e que alem disso, na oc- 
casião de ratifícar-se o tratado, pagaria aos Orj^os da província de 
Zelândia uns tresentos mil cruzados que a Companhia 'lhes devia. 
Os Estados porém preferiram romper a negociação, e estando a ex- 
pirar o prazo das tréguas de dez annos, Macedo obteve os passa- 
portes no dia 12 de maio e se retirou para Hamburgo. 

'Nota 53% pag. 251, lin. ult. 

Os quinhentos homens, de que neste lògar se trata partiram 
do acampamento perto do Eecife em Junho de 1652, ao mando de 
António Dias Cardozo. 

Nota 54*, pag. 253, nota 1. 

Traduzimos por Esfalfado o nome do forte que em francez 
encontramos designado por JBJpuisé de fatigue. Seria o mesmo que 
«m documentos hollandezes se nomêa „Kijk in de Fot,^ 

Nota 55*, pag. 255. 

Segundo D. Francisco Manuel de Mello Van Loo se apreien- 
tou no acampamento com o seguinte 



346 NOTAS E APPÉNDICES. 

sufficiencia tal que se não ache nos ditos soldados, por não ser da 
sua profissão; e que a dita repartição de terras, e provimento de 
oflicios a facão o Mestre de Campo General Francisco Barreto, e os 
mais Mestres de Campo dos terços de infantaria, que a farão propor- 
cionalmente ao merecimento de cada um; com declaração, que ha- 
vendo algumas pessoas que pretendao ter direito ás ditas terras, e 
officios, o requererão pelos meios ordinários ; e que esta resolução não 
prejudicará aos requerimentos, que os Cabos, e pessoas de conta do 
mesmo Exercito houverem de fazer para satisfação de seos serviços. 
Pelo que mando ao dito Mestre de Campo General, e Mestres de 
Campo dos terços, que em tudo cumprao, e guardem mui pontual- 
mente esta Provisão como nella se contem, sem duvida, nem embargo 
algum, a qual sou sn*vido que valha como carta passada em meo 
nome, por mim assignada, e passada pela Chancellaria, posto que 
por ella não passe, sem embargo da ord. do 1. 2. tt, 39 e 40 em 
contrario; e se passou por duas vias. Manoel de Oliveira a fez em 
Lisboa a 29 de Abril de 1654. O Secretario Marcos Rodrigues Ti- 
noco a fez escrever. — REI. — 



Doe. 27.^ Carta de Fernandes Vieira ao Príncipe Regente. 

Senhor. O mesmo animo e deliberação com que emprehendi 
obras heróicas e memoráveis no serviço de V. A. me permitte que 
com toda submissão repita a Y. A. , sem rasdes na mudança do 
tempo, porque não tem chegado estas noticias aos reaes ouvidos de 
V. A., confiado em que hei de achar no alto e sublime peito de V. A. 
o mesmo acolhimento que sempre achei no do muito alto e soberano 
Rei Pae de V. A. que está em gloria, com que fico manifestando 
que não devo envergonhar me de falta que em mim houvesse 
no cumprimento das obrigações a que me expuz e prometi ao dito 
Sr. Rey que mostrou satisfazer-se tanto do meo zelo e lealdade como 
mostrão os Reaes favores no agradecimento de suas cartas e Alvarás 
que tenho. EUe foi gozar de melhor Império V. A. gosa justamente 
sua Real coroa com os devidos aplausos destes Reinos; e eu a 
firme esperança de que V. A. hade lembrar-se de que tem um vas- 
sallo em João Fernandes Vieira tão moço para as execuções de suas 
Reaes ordens como velho para considerar as maiores importâncias delias. 

Ouvi diser que a V. A. se fiserao advertências que se cobras- 
sem de mim quantias das que os HoUandezes pedião por dividas 
aos moradores destas Capitanias em que de direito se não lhe podia 
achar rasão, nem justiça; pois tanto contra a divina e humana são 
tão falsas suas obras, como suas proposições pedindo o que atroz- 
mente roubão, como se fosse do seu direito e património querer 
athesourar e fazer ornatos do que tiranamente usurpao ; e pois é de 
uma mesma condiccão e callidade o poder uma pessoa matar a 
quem quer matar, do que cobrar com violência de que com a mesma 
sem mais cauza que a atroz malicia e enorme traicção salteou, e 
roubou as fazendas maltratando e tirando as vidas a' tantos não 
deixa de ser atrevimento que nos termos de igualdade se queixem 



JTOTAS E APPÉXDICES. 347 



pms isto 90 tem lugar nos mondor^ d^^sU» c«i]^t;M\)M wm^ 
•ff^ndidos e molestados das deshumauAS iiis«kl«»4U'4au» d^ HixlÍMld(l« 
porque, se elles Toluntariamenle lio«Ti?rXi> dtt^ixJitlo $i iru«^rm^ ^ Wl 
roubos de mar e terra, em tal caso podiào t^^tr t^$«iv ^«^v^vk \va\ni 
os Tatfsallos de V. A. faierem esquecer ou diss^imular ««^u» dmun^i 
em que se nao pode achar humana rostituiç^o« 

Esta rerdade é inMlivel, e tauibom o 4 qu^ eu Uvt» Urj^N 
contas com os Governadores do conselho supremo á^ et^U)Uvuhit^ aok 
qnaes comprei quantidade de roupas e oscravod e al|?uiu^ termii, e 
tíre alguns contratos dos disimos, a cuj*a conta Ilio dei )?mudo \\\{m^ 
• tidade de caixas de assucar e páu-brtuil o muit)v« livmuçtvM de eu* 
contros e grandissimas quantidades de mautiuuuitod. m\n mH^ m%fi) 
sim em acudir geralmente aos aiflitos vtiSBalIoo de V. A. imM luUe* 
rias em que se viao, tao quotidiana e larinvutente guuntt) me M 
possivel; porque de mais de os ver cheios do tmbalhoH e tmuvimdtlH 
suas fazendas, convinha atrahir-lhos a vontadt^ para a iteKumttv»^ de 
minha determinação no serviço de Doos, e recup(M'avilo dent»» eKfcwío 
de y. A. como bem tem justificado as maravillioHaM ubmx do e(ll^itO| 
sendo bem notório ao mundo o muito quo de minha ÍU^enda deK- 
pendi em distancia de tantos annos noH «ervicoH do uitm e oulfA 
consideração, e com esta industrioza caridade livrou \)mn a V, Ai 
d^um cuidado que prometia duraçSo de sigloM oom mip(tlK<^ laerltnoíio 
aos vassallos. 

E considerando nos perigoi de maior dinaçttoi lue deliberei ft 
declarar-me restaurador do Brasil, e a libertal-o (eom o fnviíf d§ 
Deos) pelas armas; e vendo os moradores a firevetM;^o de umi cui- 
dado, e que sendo eu a pessoa mai» apta a \m\tív pòr irte amn umn 
cabedaes em qualquer Kejno da Europa, o que re^ej^ava ^onvítept dtt 
ventura humana pelos certos da divina, tumi ()iie taniben» oí^rí^avA 
a um Key natural, e tâo soberano, que i)eoM r(iNtit;ulra a lUifiugnl 
mostrando-se-me sigradecidos , ua me o^fere^serilo fímoluf^tn tut que mi 
tanto dezejava, quando elles haviSo conh^eido, e mhUh me r»\mM 
com elles, por remir minha vexarão e minha vida. 

Em continentí mandarS^; ou do MUpreirui tumntílíut a t*^4fM 
minhas fazendas, a áfsUzê mH levaril/i tiuUm ou h.m\mrnu t*miii%nà^f§ 
e por encaixar, que pstímzrXo áa mi\n cenUM eaí«a^, e \m (\ti^]f*t\tíÀffj 
e roubarão tndo quanto hu tínba em íU\m mm^ nh[mw\H^ mn áií' 
ferentes partes com graod/; /^bedal em eiMJa mm tt tufiu fU9*it H^Uff* 
nos e aparamentos & Uytt^rmn^ tfUíUtmn, e eM/!rlp^rrí//l« f'Mít mníím 
jóias de grande preço qtu; fí*iiUm íiavía e muiUm [míMn t ** ^*4ÍPHt 
de gruide inq^ortanm, qo/*; ttid// lhe era hf*m iwÍMfm^ tt fmíUfU ÍHffí^ 
cavaUos que de tonUawj tío^iA ^m minhas ttnifiimrUtê h imff^fft^fi 
tel-o6. 

£ me vsmiaa^/ Mmm mMíuut tm)^ twm^ám ^mttê * mn^^ 
esciaTos, Ir^Àãààã h eúy%í(çiiAmm^ h mH\Ut% Mtitftm tt f^fum^film ^ 
toda a woru: « a^ uêíúa tMfrU;s$/)t f{HM Úuíth tt t^Utt f^tmmfi^f W*4 Mt^m 
engenho. 

Taaú«« mt 4^*m o ínk/íalúmkul^t án fifmtt m^^ m p^4êf 
que áaâãf (» ^smi^iiihlíMstíí, ma ^^^fMA f^HH H/Afi^f^ tt m%iffA 4Mf/f^ 



348 NOTAS E APPENDICES. 

os escravos, sendo elles obrigados a toda a seguranya, e já me ofe- 
reciáo vinte mil cruzados cada anno, que eu nao quiz por ser 
mui pouco. 

Também me devem as pensões que 'de mim cobrarão tantos^ 
annos dos engenhos, que me haviao vendido por justos motivos, e 
como fazenda real os não podião levar, e na demanda que lhe puz, 
me pedião desistisse e deixasse pagar aos mais^ e que eu nao pa- 
garia, o que eu não consenti por nao tirar aos mais o seu direito, e 
para me pagarem o que de mim haviao cobrado. 

E também me devem nove navios que me tomarão no mar, 
debaixo de seus passaportes, com grandiozas carregações, e cinco 
moradas de cazas que tinha no Recife. 

Também me devem mais de cem mil cruzados que em nove 
annos dei de peitas aos governadores e ministros, por segurar 
rainha vida, e remir vexações de tirannias para os trazer contentes 
com estas despezas, e assim convinha por muitos respeitos, com 
que eu olhava os futuros : em todas as partes me roubou esta nação 
grandes riquezas. 

Também me roubarão as quitações que eu tinha suas dos 
pagamentos que lhes fazia que as tinha em meos escriptorios, e os 
contratos que comsigo fasião erao por excessivos preços, quando lhe 
restasse a dever de nossas contas alguma quantidade, não podiao 
ser de cincoenta partes a uma do que me roubarão tiranamente, mas 
é seu coração de qualidade nos desejos de vingar-se de mim que 
que como inimigos me arguirão devedor de faqíasticas sommas, se 
o seu grande ódio não testemanhara em favor de minha verdade 
o que todos sabem. 

E destas forcas e das mais violências justamente me desforcei 
e fiz a guerra dando com ella principio a tão gloriosas emprezas 
como de mim fiou S. M. que está em gloria, e nada do que estava 
em ser do atraz referido pude pôr me em salvo porque seria perder 
a vida e não conseguir o que havia proposto a S. M. e como meos 
intentos caminharão ao fim de minha pretenção franqueava tudo 
com a dissimulação, por haver já algumas suspeitas indiciadas de 
minhas disposições me vi muitas veses em grandissimos perigos se 
Deos me não acudira com um animo increhivêl, e com nunca vistas 
astúcias, e delicados ardis, sem perturbação nos mais apertados 
trances em que me puzerão antes do levante, com que os deixava, 
não só seguros das suspeitas, mas novamente obrigados, athé chegar 
a estado que necessariamente conveio sahir á luz o que escondia 
meo anterior, e como este fruto não estava tão sazonado como eu 
pretendia começarão os extremos da variedade a avaliar-se pela con- 
fuzão dos movimentos, culpando me por mal feitos alguma parte 
dos maiores sujeitos, que ião atraz de aparentes conveniências, e mui 
arriscadas a prevaricarem na Religião e desejavão ver-me derrubado. 

Naquella fatal luta de mudança e desasocego criei novas for- 
ças, animei os moradores vassallos de V, A. e procurei dar eviden- 
tes esperanças de que meos desvellos não havião de sahir baldados, 
expuz me aos perigos e perda da vida, acariciei os trabalhos' e fiz 
rosto ás adversidades, e desamey o descanso que todos apetecem, 



NOTAS E APPENDICES. 349 

sempre os rigores dos tempos erao para mim exercicios favonios e 
erain para mim as noites dias e dias noites, considerando a desigual- 
dade do poder que haviao usurpado a V. A., e se seguravao nos in- 
tentos de que tudo o mais que havia na America havia de ser seu, e 
por este caminho aspiravao à senhorear mais que os Eomanos, por- 
que naquella opulência do negocio estava a sujeitar e denominar o 
mundo, e este era o mais certo ditame de sua presumpçao segundo 
seos documentos por escripto que minhas diligencias alcançarão, e 
os tenho, mas foi Deos servido que me acharão com um peito tão 
opposto a suas determinações como o mundo vio e elles experimen- 
tarão ; de tudo fazia claros e occultos avisos a S. M., e nas respos- 
tas cheias de reaes agradecimentos aprovava tudo quanto eu fizesse 
porque as guerras de Castella lhe empedião mandar por uma vez 
tão grosso poder que hastasse a castigar os atrevimentos de Hol- 
landa, e que de mim fiava toda a importância de couza de tanta 
concideração, porque livrava o seu em o meo cuidado fazendo me 
duplicadas e secretas recommendaç5es desta fiança, maa corrião lá 
as couzas dos concelhos tão variados pela confuzão dos successos e 
traças dos enemigos, que o menos em que me parece que servi a 
V. A. foi na presistencia e vigor com qu6 fiz a guerra, com tantas 
calamidades quantas não podiao escuzar as occasiôes dos íempos; 
porém quando se chegou a votos geraes, de que não convinha con- 
tinual-a, e que ficasse o enemigo senhor do com que se achava, no 
aperto do que ouvi em tal consistório, nao me igualou Duarte Pa- 
checo na índia nem outros do mesmo coração, pois por segurar a 
V. A. este seu tão grande estado (que o via perder-se) neguei com 
rasões mui curiaes a obdiencia a umas ordens de El-rey meo Senhor, 
que está em gloria, com que foi suspender o que todos procuravao 
executar e não passou muito tempo que me não chegassem outras 
em contrario; não sei se as dilataria alguma tenção bem ou mal 
inclinada mas julgo de mim, que não tive por meo aquelle tão di- 
tozo movimento, senão por milagrozo, e com a tal suspensão cami- 
nhei logo com a guerra até seu maravilhoso fim. 

E em caso que eu me achara com o encargo de dever aos 
Hollandeses, de força me havia de valer de V. A. para que acudisse 
com sua Real grandeza a este vassallo com tantas condições no 
zelo e serviço de V. A. no qual eu gastei e destrui de minhas fa- 
zendas em tantos annos de guerra, mais de seis centos mil cruzados, 
porque mal podia ella prevalecer, e se assim o não fizera, depois da 
recuperação me encarregou S. M. o governo da Capitania da Parahyba, 
em que fiz notáveis serviços a V. A. com grandes gastos de minha 
fazenda em sustentar a infantaria por nao haver então nenhuma 
ali de V. A. com que satisfazer a ella nem a meos ordenados e 
tudo se me. está devendo ainda. 

Depois disto fui governar os reinos de Angola levando 4 na- 
vios e uma sumaca á minha custa com que fiz grandes dispêndios, 
e minhas disposições assim na guerra como na paz forao proveitozas 
aos povos de V. A. pois se achará que em nenhum governo de An- 
gola sahissem tantos navios depachados como eu lancei nem quem 
tantos descobrimentos fizesse por todas as conquistas, chegando a 



350 NOTAS E APPÉNDICES. 

obdiencia de V. A. a muitos Príncipes e Potentados que a naie- 
gavão. 

Isto que tenho referido a V. A. por maior faço agora presente, 
por quanto tenho que nao ha sido a Y. A. noticiado e sou certo qae 
se V. A. houvera conhecido o coração h zelo deste vassallo em seu 
Beal serviço, vira que toda a cubica que pode ter do Brasil qualquer 
ennemigo se havia de apagar e morrer pelos termos de minhas ur- 
banas disposições que o que custa muito se ama muito. 

Também se diz que uns herdeiros de Miguel de Vasconcelles 
e Diogo Soares tem pedido a Y. A. ordem para me citarem pela 
pretenção da Alcay daria mor de Pinhel, de que S. M. que está em 
gloria me fez mercê, ou por alguma outra pretenção que tenhao, e 
V. A. como filho seu e successor deve conservar-me, pois é de Bei 
legitimo e natural por graça de Deos, e nao de Rey intruso, cujas 
mercês com a justa expulsão em o mesmo tempo espirao, e nao é 
assim na graça do Rej legitimo e natural como V. A. que hade 
manter justiça, e estranhar proposições disformes, para que os vas- 
sallos de V. A. se animem a todas as emprezas que queira intro- 
dusir a ambição e vigilante malícia. A vida dos vassallos he tribu- 
taria ás ordens de V. A. criminando (?) e minha fazenda o é a sea 
real gosto, e só para isso a estimei sempre ; pelo que peço a V. A., 
com toda humildade e submissão devida, seja servido mandar ver e 
examinar todas as rasões que aqui relato, porque sou velho, e me 
avisão as potencias que tenho alma, e que tenho mulher, e ainda 
que os filhos legítimos que tive fallecerão, tenho alguns bastardos 
que não escusão cuidado á conciencia, e como a morte caminha, justo 
será que V. A. me faça mercê mandar-me responder de modo que 
por minha morte tenha minha mulher e filhos defeza contra qual- 
quer alteração ou vexação que se lhes intente; ou V. A. me permita 
que em quanto vivo ponha meo direito em defeza para que as leis 
de V. A. o determinem por juizes competentes, ou V. A. haja por 
bem fazer-me mercê mandar-me passar ordem de como se ha por 
bem servido de meos procedimentos, e que a esse respeito se não 
entenda comigo, nem com meos herdeiros, na pretenção das dividas 
de que me fiserão cargo os Hollandeses, porque com esta mercê de 
Y. A. ficarei seguro em minha quietação para com ella me empregar 
com a mesma vontade que sempre tive em todas as occasiões do 
serviço de Y. A., para o qual sacrifico, com a lealdade de fiel vassallo 
do gosto e ordem de Y. A«, toda quanta fazenda possuo, porque nao 
devo nada aos Hollandeses pelo que se deixa ver na parte deste 
manifesto de minhas rasões. A muito Alta e muito Beal pessoa de 
Y. A. guarde Deos para bem de seos Beinos e vassallos. Pernambuco 
22 de Maio de 1671. João Fernandes Vieira. 



Doe. 28.® ^Noticia dada ao Prudente Sr. Doutor Feliciano Dourado 
para a mandar ler.^ 

A. Magestade que está em gloria, por secretos avisos que me 
mandou, me ordenou qui fizesse a guerra aos Hollandeses, para com 



NOTAS E APPÉlíDICES. 351 

occasião de ea a &zer obrigar aos Flamengos a alguma ooiiYenienda, 
ou por yia das anuas serem restauradas estas capitanias de Per- 
nambaco. 

£ o poder qne paia isto me mandou foi a confiança que fez 
da minha pessoa, e de minha &zenda, dando me toda juridiçâo que 
me fosse necessária para conseguir a tal empreza a qual acoeitei com 
amor zelo e lealdade de Terdadeiro vassalo; não reparando n js glan- 
des riscos de minha Tida. que o gasto da fazenda pouco o estimaTa, 
nem estimei como he notório ao mundo. 

Foi a Magestade.que está em gloria serrido mandar me que 
tudo e que eu prometesse em compras de praças que fizesse, e car- 
gos qae provesse, e titolos e commendas que desse e letras que 
passasse sobre sua real palavra o havia por bem feito, e que todos 
os escravos que tonuwsem armas os houvesse por forros, e que po- 
deria mandar enforcar e castigar todos os que empedissem a tal facçSo 
e que a tcKÍos os moradores que tivessem fazenda e ainda os eccle- 
siasticos lhe poderia tomar por empréstimo para fuer a guerra e que 
lhe prometesse todos os favores necessários, e como tuao o referido 
era necessário para dar a execn^ko uma cousa tâo duvidosa, bot^ 
por bandos, e prometi todo o referido, e uma das cousas com que 
mais obriguei a tomar as armas foi prometter lhe aos moradores todos 
que 08 empenhos de débitos qae tivessem feito com os Flamengos 
lhe uâo seriâo pedidos : assim se resolevenU) e de nuas a mais derao 
de suas fazendas tudo a que puderao para a guerr2^ e se lhes está 
devendo que é fazenda coneideraveL 

£ para ter o poder necesssuío e unido para que o Flamengo 
não nos podesse romper foi necessário mandar retirar as três ca|H.- 
tanias de Bio Grande, Parahiba, Itamaracá para que todas se ajun- 
tassem na de Pernambuco, porque estando a gente dividida ia o Fla- 
mengo e o gentio mais facilmente matando -os, e valendo-se dos 
mantimentos forão t<^^KÍos fôo leaes que largarão suas fazendas sem 
piedade e se retirarão a Capitania de Pernambuco aonde todos jun- 
tos conservarão a guerra, e vencerâo até ultima restauração, dauido 
as vidas, e o resto da fazenda que salvarilo. 

De todos os bens destas três capitanias retiradas, e da maior 
parte da de Pernambuco roubaião destruirão, e queimarâo os HoQan- 
deses que tudo ficou deserto, e a nossa mesma guerra os ajudava a 
destruir e tudo se consumio, e os mais destes moradores perderão as 
vidas no decurso desta guerra; que n^ão haverá para que os Fla- 
mengos tenhão pretençSes em cobrar taes débitos quando não ha as 
próprias pessoas nem fazendas para Ih' o poder pagar e a que podião 
ter se gastou na guerra, que ficarao suas mulheres e filhos no mi- 
serável estado em que estibo que he maior que o que se pode iTna.gina.r « 
se S. A., estivera informado do referido, sem duvida agradecera e 
satisfazera a taes vaesallo. 

Eu por descargo de minha conscienda é força dar a V. S*. 
esta noticia porque os mais dos Sre. Conselheiros que de presente 
ha, nem tem^ nem podião ter estas noticias, porque só as tinha os 
Srs. o Visconde o Velho, o Marquez de Montalvã •, o Conde de Ode- 
mira, Gaspar de Faria Severim e também as pode ter o Doutor 



352 NOTAS E APPENDICES. 

Pêro Fernandes Monteiro, o Secretario Marcos Eodrigues Tinoco e 
Kuy de Moura Telles e os mais Srs. que naquelle tempo erao os do 
Conselho. 

Quem me trouxe vocalmente os avisos de S. Mag®. foi um 
frade de S. Bento por nome Frei Ignacio eleito bispo de Angola 
por este serviço. Foi o mestre de Campo Martim Ferreira e Simão 
Alvares de la Penha que naquelle tempo estavao na Bahia, e vierao 
disfarçados em embaixadores ao Recife aonde me falarão e também 
n' outra occasiao veio o Governador André Vidal de Negreiros a 
traser-me o mesmo aviso em companhia do frade Bento. Todos estes 
trasião por escripto e m'o mostravao, mas cofia ordem que os tomas- 
sem a recolher por nao serem achados, que assim convinha, e nos 
escriptorios e Secretarias de S. Me. devem estar muitos papeis que 
por elles se conhecerá o referido e como as taes ordens não convinhao 
que fossem por escripto erao vocaes na comformidade acima, mas eu 
também tenho alguns papeis que por elles se poderão animar os 
vassallos para outra occasiao. Isto deve de se considerar com 
zelozas e piedosas ras5es d'estado. 

E quem disto dera certa noticia era o S. António Telles da 
S.' por cuja via corrião os secretos deste negocio, de que também 
o pode dar o Sr. Salvador Corrêa de Sá e Benevides, a cujo effeitx) 
veio na jornada do galeão. 

Foi-me força manifestar a V. S. que todos estes povos nas 
moléstias que padecem se queixao de mim, que eu os desinquietei e 
fui causa delles perderem suas fazendas e vidas e que lhe nao sou 
bom em nada, nem manifesto nos conselhos o referido, o que lhe 
prometi fazer. Esta é a occasiao com que o faço a V. S. presente. 
— João Fernandes Vieira. 



Doe. 23 e 24.° Mais dois dociímentos acerca de Henrique Dia8(V. p. 345). 

Francisco Barreto do Conselho de Guerra de Sua Magestade, 
Governador e Capitão Geral deste Estado do Brasil etc. Faço saber 
ao Provedor e Contador da Fazenda de Sua Magestade da Capitania 
de Pernambuco, que Sua Magestade (Deos o Guarde) foi servido 
passar a Provisão ao Governador Henrique Dias, de que o traslado 
he o siBguinte. Eu El -Rei Faço saber aos que esta minha Provisão 
virem, que tendo respeito ao Governador Henrique Dias Me repre- 
sentar que do tempo que sérvio nas guerraâ de Pernambuco se lhe 
ficou devendo muita parte de seus soldos, vencidos naquella Capita- 
nia, e na Bahia de todos os Santos, pedindo-Me lhe mandasse pas- 
sar Provisão para o Governador do Estado do Brasil, e da Capitania 
de Pernambuco lhe mandarem fazer seus remates de contas, e pagar 
com eíFeito o que liquidamente se lhe estiver devendo, sem embargo 
de quaesquer ordens, que houvesse em contrario; e visto o que al- 
lega, e a ir ora servir de novo á dita Capitania de Pernambuco: 
Hei por bem, e Mando ao Governador e Capitão Geral do Estado 
do Brasil, e ao da dita Capitania de Pernambuco facão fazer ao dito 
Henrique Dias seu ajustamento e remate de contas, cada um na parte, 



NOTAS E APPÉNDICES. 353 

que lhe toca , dos soldos que venceo , em quanto sérvio no Brasil, 
e cumprâo , e guardem esta Provisão inteiramente, como nella se con- 
tem , sem duvida alguma , a qual valerá como Carta , e nâo passará 
pela Chancellaria, sem embargo da Ordenação livro 2o titules 36, e 40 
em contrario. Manoel Alves Pedrosa a fez em Lisboa a vinte e dous 
de Novembro de mil seiscentos cincoenta e sete; e esta se passou por 
duas vias. O Secretario Marcos Kodrigues Tinoco a fez escrever.— 
Rainha.— O Conde de Odemira.— E o mesmo pagamento me encom- 
menda Sua Magestade em Carta sua, e lhe mandasse fazer suas contas 
assim nesta Cidade , como na dita Capitania de Pernambuco , aonde 
toma a servir de novo , por ser pobre. Em consideração do que lhe 
mandei fazer aqui suas contas para lhe mandar pagar o que delias 
resultar, e por que convém que também se lhe façâo na dita Capitania 
de Pernambuco , mando ao dito Provedor que lhas mande logo fazer, 
sem embargo de qualquer ordem que haja em contrario ; por que assim 
o Manda Sua Magestade nas referidas Provisão, e Carta, e do que cons- 
tar que se lhe deve mandar passar Mandado para o Almoxarifado da 
dita Capitania lhe pagar ; e a dita conta se fará na dita Capitania do 
primeiro de Junho de mil seiscentos e quarenta e cinco em diante a 
razão de dezeseis mil reis por mez , como Sua Magestade lhe mandou 
nomear de soldo, por quanto nesta Cidade se lhe faz bom o dito. soldo 
até o ultimo de Maio do dito anno, em que partiu para servir na dita 
Capitania de Pernambuco com o seo terço por ordem do Governador e 
Capitão Geral, que foi deste Estado António Telles da Silva, abatendo 
do dito soldo tudo o que constar que tem recebido de soccorros, rações, 
e outras quaesquer livranças por conta do dito seu soldo; o que tudo 
cumprirá o dito Provedor, e fará cumprir, sem duvida alguma ; e fará 
pôr as verbas necessárias nos titulos, que o dito Henrique Dias tiver 
nos Livros da dita Capitania, para que a todo o tempo conste, como 
Sua Magestade lh'os mandou pagar, e eu mandei dar cumprimento ás 
suas ordens. Dada na Bahia sob meo signal, e vista do Provedor Mor 
da Fazenda Eeal deste Estado. António da Maia a fez em vinte e dous 
de Agosto de mil seiscentos cincoenta e oito. Gonçalo Pinto de Frei- 
tas, Escrivão da Fazenda Real a fez escrever. — ^Francisco Barretto. — 
Matheus FeiTeira Villas-Boas. 

Francisco Barretto do Conselho de Guerra de S. Magestade, Go- 
vernador, e capitão general deste Estado do Brasil, &. Mando ao The- 
soureiro Geral delle o Sargento maior Affonso da Silva que pague ao 
Governador da gente preta de guerra Henrique Dias, ou a seo bastante 
procurador os quinhentos e trese mil setecentos e vinte e sete reis, que 
na forma da conta junta, que por bera da Provisão de Sua Magestade 
se fez de seo soldo, que venceo, servindo ao dito Senhor nesta Praça, 
se lhe restavâo a dever delles, sem embargo das duvidas apontadas pelo 
Procurador da Fazenda, com quem serve, formou o Provedor mor deUa, 
como tenho ordenado pelo meo despacho de vinte e seis deste presente 
mez de Fevereiro , em que tenho mandado passar este sem embargo 
das referidas duvidas , o qual pagamento lhe será feito em havendo 
effeitos da Fazenda Real , como declara o dito Provedor mor delia no 
seo despacho de vinte e sete do dito mez ; e do conhecimento do dito 
Henrique Dias, ou de seo bastante procurador feito pelo Escrivão do 

27 



354 NOTAS E APPÉNDICES. 

Thesoureiro, e por ambos assignado, por que conste como tenhão rece- 
bido a dita quantia, e certidão de que nos Livros da mafericula, e re- 
gistro da Provisão de Sua Magestade ficâo postas as verbas necessárias, 
mando aos Contadores do nosso Estado façâo despeza dos ditos qui- 
nhentos e trese mil setecentos e vinte sete reis ao dito Thesoureiro 
Geral na Conta, que der de seo recebimento, sem duvida alguma por 
este somente. Dado na Bahia sob meo signal, e vista do dito Provedor 
mor da Fazenda, em vinte e oito do dito mez de Fevereiro de mil seis- 
centos e sessenta. Gonçalo Pinto de Freitas o fez escrever e subscrevi. 
—Francisco Barretto. —Lourenço de Britto Correia. 

Doe. 29. — Carta de Beck que trata de Seara. 

MessieursIJene peux pas me passer d'adresser ces quelques lignes 
à VosHautes Puissances. J'ai habite le pays du Brésil plus de XIXans 
comme rhumble serviteur et le vassal fidèle de Vos Hautes Puissances 
et de la Compagnie générale des Indes Occidentales Octroyée à cause 
des incessants troubles de la guerre depuis quelques annéea, j'y ai 
perdu de grands biens et capitaux, ce qui est de notorieté publique ; et 
maintenant par la dernière perte et la reddition de TEtat entier , je 
viens- de perore tout ce qui m'était reste, et je peux en foumir les preu- 
ves que ma perte, y compris la part de mes amis qui y sont interes- 
ses, s^élève à plus de quatre tonnes d*or. II a plus de cinq ans main- 
tenant, qu'à la demande du haut gouvemément en Brésil ... la manière 
la plus serviable et de très-bonne volonté, au service des Vos Hautes 
Puissances et de la compagnie générale des Indes Occidentales Octroyée, 
dans Texpédition et les enorts pour chercher et trouver lamine d'ar- 
gent à Siara, ayant été le chef et directeur de cette expédition, en vertu 
de la commission et instruction qui m'avait été conierée à cette fin; 
la diligence, le zele et les exertions fatigantes par lesquellés j'ai réussi, 
avec le petit nombre d^hommes qui étaient à ma disposition , de 
découvrir la mine, et mes efforts pour en découvrir de plus en plus, et 
mon désir d'en obténir de bons resultats, tout cela peut se voir dans 
les petitions et lettres sans nombre que je n' ai cesse d'envoyer par tou- 
tes les occasions au haut gouvemément sur le Kécif sus-oit, pendant 
le temps ^e ma direction là-bas. Vos Hautes Puissances pourront voir 
cela succinctement dans la rapport ci - annexé, ou se trouve résumé 
tout ce que j'ai remontré au haut gouvemément sur le Récif sus-dit 
depuis bien longtemps, tant par des lettres, que personnellement, je 
veux donc, pour pouvoir être plus court, me référer au rapport sus-dit 
Dans le bon espoir et la bonne confiance que j'ai eu toujours de voir 
tôt ou tard que Ton prendrait plus à coeur Timportance de cette mine 
et lès avantages de cette bonne occasion, et que Ton en retirerait de 
meilleurs resultats , j'etais bien loin de pouvoir prévoir la déporable 
issue et la perte de rEtat entier, de sorte que je viens de perdre toute 
ma prospérité et tout ce que je possédais, car tout en négligeant d'au- 
tres Donnes ocasions à faire des bonnes conquêtes et de bons profits, j'ai 
converti tout ce qui me restait de mes biens en Nègres et en d' aufres 
choses nécessaires que j'ai employés à cette exploitation : et ce n^est 
que grâces à cela que toute la garaison ét les hommes qui travail- 
laient à la mine, ont pu échapper bien des fois au sort affireuz de mourir 



NOTAS E APPÉNDICES. 355 

de faim, ce qui du reste est de noctorité publique. J'ai dono depuis Tan 
1649 jusqu^à V an 1654 au milieu de grandes difficultés et privations, 
et comme à ma grande tristesse je viens de découyrir maintenant dans 
un vain espoir passe mon temps là-bas à Siara, entouré d' une popu- 
lation sanvage, barbare et dangereuse, tant Brésiliens que Taboujas, 
et après avoir reussi enfin à en venir au point de voir la probalité a'un 
bon et avantageux résultat, voilà que je réçois la plus déplorable des 
nouvelles. Les Brésiliens qui 8'etaient enfuis et retires de Pernambuco, 
plus de quatre mille ames qui venaient de Tamarica , Parahiba et 
fiio-Grande par terre se refugier à Siara, dirent ouvertement que tout 
le Brésil venait d*être honteusement perdu et livre pour ainsi dire 
sans résistance aux Portuguais ; ils ne firent que jurer et tonner centre 
les Allemands, qu'ils avaient si fídèlement servi et aidé pendant un 
grand nombre d^années, et que maintenant sans régarder Tenuemi en 
face venaient d'abandonner Tamarica, avec toutes les forteresses, Pa- 
rahiba et Rio-Grande, de sorte qu'eux , ils n'avaient en perspective 
àprésent que de tomber en défínitif dans les mains des Portuguais 
pour subir un ésclavage perpetuei. Ils etaient si exasperes qu'ils en- 
voyèrent des avants - coureurs aux Brésiliens de Siara avec ordre de 
massacrer les AUemands en Siara partout ou V on pourrait en trouver, 
et de n'accorder la vie à personne d'eux. Une fois maitre à eux seuls 
de Siara, ils ne permettraient ni aux Portuguais ni aux AUemands de 
s*y nicher jamais plus, et ils proposaient de faire de Siara leur lieu 
de rétablissement et de rendez-vous. Notre magasin à Siara n'étant 
que sobrement pourvu, et nos moyens de subsistance consistant prin- 
cipalement dans la récolte prochaine et de productions nouvellement 
plantées, nos soldats jouissaient, à cause du denúment de notre ma- 
gasin^ de beaucoup de liberte pour aller dehors à la pêche et à la 
chasse; d'autres se trouvaient dehors pour garder et planter les roças: 
un grand nombre de ces malheureux est tombe victime des Brésiliens 
qui à la réception de Vordre si-dessus mentionné ont massacre de sang- 
froid tous ceux qu'il8 ont pu attraper dehors. Quant à moi-même me 
trouvant dehors de temps en temps ainsi que le maior Garsman, pour 
mettre ordre à nous cultures, nous n'avons échappé à leurs mains meur- 
trières que par miracle, de même que d'autres personnes libres demeu- 
rant hors de notre forteresse. Les Brésiliens en s' emparant sur le plat- 
pays de tous nos rocas, fruits de la terre, Nègres, et de tous nos biens 
fonds et biens meubles, nous tenaient tellement bloques dans notre 
forteresse que nous serions tombes inévitablement dans leurs mains 
meurtrières, à cause de famine , s^il n'out plu à Dieu le seigneur de 
nous sauver miséricordieusément, car j'avais fait conduire une bonne 
partie de mes chevaux, vaches, cochons et autre bétail en lieu súr, 
tout prés de la forteresse et sous la protection de nos canons ; et en- 
suite je les ai fait tuer tous pour nous servir de nourriture, ce qui 
nous a conserve la vie jusqu'au moment ou par la providence et la 
gràce de Dieu une barque neuve de la compagnie , que j 'avais fait 
construire à Siara moi-même et qui antérieurement à Tévénement susdit 
avait été envoyée par moi au Èécif avec des avis au haut gouveme- 
ment là-bas ; revint à notre grand bonheur chargée de vivres, de sorte 
que le danger dont nous étions menacés n'a pas eu des suites. Avec 
cette barque il arriva aussi un portuguais de trois cent quatorze de 

27* 



356 NOTAS E APPENDICES. 

leurs soldats ayant servi de convoi ã la dite barque et alors aussi nous 
recevions les lettres du haut gouvernément avec les capitulations con- 
cemant Taccord et les condi fcions qu'on venait de conclure aveclemai- 
tre de camp general portuguais, nous ordonnant de nous y conformer 
comme Vos Hautes Puissances pourront voir dans la copie ci-annéxée de 
la lettre du haut gouvemément susdit. Les Bresiliens se voyant frustes 
dans leurs projects contre nous, imaginèrent alors une autre ruse, sa- 
voir, ceux de Tamarica, Parahiba et Kio-Grande cherchèrent à se lier 
d' amitié avec nous, se donnant Tair d'être innocents à ce qui precede, 
et attribuant la faute de cela à la méchanceté et à Tignorance de quel- 
ques uns de Bresiliens indigènes de^Siara. lis espéraient que nous, 
en ajoutant foi à leurs assertions , nous láisserions à nos soldats et 
autres la liberte d'auparavant de sortir de la forteresse, et que de cette 
mànière eux ils auraient moyen de massacrer les nôtres. Comme ils 
venaient de le faire un grand nombre dejà, et de mieux pouvoir en- 
suite nous surprendre dans la forteresse, avant que le corps des Portu- 
guais n'y arrivât. Ils n'ont pas trouvó Tocasion cependant de réaliser 
ce project, et sur ces entrefaites il est arrivé pour nous delivrer, une 
caravelle portuguaise, coraposé d'un Capitaine-major, six-capitaines et 
pas plus de cent cinquante soldats tant Blancs et Bresiliens que Mulâ- 
tres, Mameluks et Nègres , auxquels nous avons evacue la forteresse 
et tout , en vertu du second ordre à ce sujet du haut gouvemément 
susdit , qui se trouve dans la lettre ci-annexée. Les Bresiliens étant 
disposés contre nous, comme je viens de dire, il fallait bien choisir 
de deux maux le meilleur , et après avoir laissé entrer la gamison 
portuguaise le 20 Mai, nous nous sommes embarques avec tous nos 
militaires, hommes libres et serviteurs le premier du móis de Juin en 
une caravelle et deux barques , et ainsi nous èommes çartis pour les 
petites Indes , bien résolus de rester ensemble jusqu^à ile de Mar- 
tinique. Le peu de place et d^accomodément de ces navires rendait im- 
possible de sauver autre chose que nos personnes et un coffre avec 
nos bardes, et bien qu'il y eut quelque chance avant mon départ de 
récouvrer nos Nègres d'entre les mains des Bresiliens, qui en avaient une 
qaarantaine d 'hommes vigoureux à moi seul dans leurs mains, les 
Portuguais ont influencé les Bresiliens de manière qu'ils ne nous ont 
rendu pas un seul ; et après mon départ les Portuguais ont acheté ces 
Nègres moyennant une bagatelle, de sorte que je suis parti de là pour 
ainsi dire dépouillé de tout ce que ;j 'avais possedé. J'aimerais bien à 
cette occasion de pouvoir envoyer a Vos Hautes Puissances un recit 

Ííarticulier de tout ce qui s'est passe, et dans quel état nous y avons 
aissé tout au moraent de notre départ, mais puisque mes anno- 
tations, écrits et papiers sont em bailes et que pour le moment il 
ne m'est pas possible de les ouvrir , je me desisterai de ce desir jus- 
qu'au moment ou il plaira au Seigneur Dieu de m'accorder Toccasion de 
venir en personne rapporter à Vos Hautes Puissances tous les détails: 
j 'aurais bien voulu pouvoir faire cela à present dejà, mais il demanderait 
une grande prolixité d'exposer à Vos Hautes Puissances toutes les par- 
ticularités de long voyage difficile et extrêment pénible que nous avons 
eu depuis notre départ de Siara jusqulci à Barbados, et plusieurs obs- 
tacles ainsi que Tapproche de Thiver nous réduisant à la necessite de 
rester ici jusqu^au printemps, jen^aâ pu pas manquer en attendant, 



NOTAS E APPÉNDICES. 357 

cbmme j'ai dit plus haut, de faire parvenir déjà ces qnelques lignes à 
Vos Hantes Puissances, afin qu^Elles pussent se convaincre que nous 
n^avons pas quitté Siara sans en avoir reçue Tordie, et d^ailleurs 
après avoir éprouvé toutes les hostilités mentionnéss ci-dessus de la 
part des Brésiliens. Et si les Fortugaais qui nous ont remplacé là-bas, 
n'y ont reçu depuis plus des forces qu'iis n'y avaient apportées lors 
de notre évacution, j 'espere que les Brésiliens profitèront de Toccasion 
pour surprendre les Portuguais et les tuer, comme ils s'etaient proposé 
d'en agir à notre é^ard. Le temps devra nous apprendre ce qui se será 
passe. En tout cas je crois que les dits Brésiliens ne tarderont guères 
de se ranger de nouveau de notre cote , aussitôt qu'il y soit envoyé 
quelque force de conséquence sur laquelle ils pussent se fier ; et il y 
en a beaucoup qui ne croient pas que vos Hauts Puissances laisseront 
un si grand et important pays, ou plutôt royaume que le Brésil, dans 
le pouvoir d'un tas de crapme de Portuguais, et bien que la Compa- 
gnie n'ait plus les forces requises , on ne doute pas que Vos Hautes 
Puissances se decidóront pour plusieurs raisons à reprendre la be- 
sogne avec la meilleure chance de succés , afin que non seulement les 
Portuguais, mais aussi ces pauvres Brésiliens qui sont à présent en leur 
pouvoir, puissent se convaincre que les menos pérfidos de ces Portuguais, 
qu'ils croient couronnées maintenant de résultat desiré, retomberent 
comme une punition des plus sévères sur leurs propres têtes. Et 
8'il plut au Seignur Dieu de disposer les coeurs de Vos Hautes Puis- 
sances à reprendre cette affaire et à reconquerir le pays il faudrait 
alors en nremier lieu faire bien attention à peupler le pays du Brésil 
non pas de Portuguais, mais de nos propres nations et de nations voi- 
sines et alliées, à cette fin il faudrait distribuer les terres incultos , et 
ce pour rien, et pour tout jamais, et avec droit héréditaire , et d^ailleurs 
avec liberte de commerce: du reste Vos Hautes Puissances sauront 
mieux que moi ce qui conviendrait dans ce cas là , de sorte que je me 

considere comme trop insignifiant pour .là dessus. 

Seulement je desirerais bien s'il plut au Seigneur Dieu qu^avant de 
mourir je pusse encore trouver Toccasion de pouvoir servir vos Hautes 
Puissances daus le recouvrement susdit du Brésil ; c*est pourquoi j'ai 
profité de cette occasion pour écrire à mes amis en HoUande, sll fut 
envoyé par Vos Hautes Puissances une force sufíisante au Brésil, de 
vouloir alors malgré mon absence ne pas oublier ni negliger de me re- 
Gommander respectueusement auprès de Vos Hautes Puissances, et s'il 
se presente quelque ocasion ou je pourrais être là-bas de quelque ser- 
viço à Vos Hautes Puissances , dans quelque charge ou circonstance 
honorable qu'il soit et pour laquelle on me jugera capable, on me trou- 
vera toujours prêt et disposé à m\v engager. Cest le meilleur pays , le 
mieux situe, le plus fertile et le plus commode pour la Hollande q'on 
pourrait désirer ; cultive avec la liberte que j'ai indique ci - dessus il 

Sourra faire prospérer toute la Hollande, et alors il será aussi en peu 
e temps assez peuplé par des babitants de notre propre nation et des 
nations voisines pour ôter à jamais la chanche aux Portuguais de re- 
commcncer ce qu'ils viennent de faire maintenant; aussi n'auraient ils 
jamais pu reussir dans ces menées , si le pays eut été peuplé de la 
manière que je viens d'indiquer. II y a beaucoup de gens mal disposées 
qui pretendent que le Brésil ne saurait étre d'aucune utilité pour la 



\ 



358 NOTAS E APPENDICES. 

Gompagnie, ni ponr TEtat de la Hollan^e, sans les Portaguais, parce 
que on ne possède pas comme ces demiert Tart et rexperience de cultiver 
et de porter à leur état de perfection les sucres. Le contraire est 
prouve par les iles , surtout Barbados , qui d'ailleurs n'est point une 
place, et bien moins un pays a être compare avec le Brésil , et cela 
n^empèche pas cependant que j'ai yu du sucre blanc plus beau que le 
Brésil n'en a jamais produit, qui avait été fabrique sur Barbados sans 
qu'une main portuguaise y avait touché. II y a aans cette ile plus de 
trois cent engenhos beaucoup mieux construits et arranges que ceui 
en Brésil, ils font ordinairement le sucre dit Moscovado, parce que cela 
leur donne plus de profít que les blancos, et on y cbarge annuellement 

Í)lus de cent grands vaisseaux qui ezportent ces sucres. Que ne ferait 
e Brésil «'U avait la même liberte. Eft les pauvres Portuguais maitres 
de sucre et ceux qui vivent de la fabrication du sucre en Brésil pré- 
féreront de vivre avec les AUemands plutôt que avec les Portuguais, 
puisqu'ils sont mieux traités et payés par les premiers que par leur 
propre nation, et en general la plupart des artisans et autres de la classe 
ouvrière de la nation portuguaise preféreront plutôt de vivre avec les 
Allemands que avec les Portuguais, s'ils peuvent avoir leur liberte, 
pour les raisons que je viens d^alléguer. Cette ile de Barbados peut k 
elle seule foumir au moins quarante mille hommes armes parmi les 
quels plus de dix mille à cheval^ tous des babitants et cette ile n*a 
qu^une étendue de quinse lieues, ce qui est de notorieté publique. Que 
ne pourrait foumir en peu de temps le Brésil, qui a tant dé centaines 
de lieues d^étendue, si Ton s'en occupait sérieusement de le peupler. 

Plusieurs personnes du Brésil sont venues ici avec la résolution de 

ici leur residence car ils ne savent pas ce qu'ils pourraient commencer 
en Hollande. Le prince de Courland a fait prendre possession à Tile 
de Tobago que nous avons toucbé à cause de la perte de notre gou- 
vemail, de sorte que nous y avons passe plus de six sémaines avant 
de trouver une occasion pour continuer notre route vers Tile des Bar- 
bados même avec un grand vaisseau du prince de Oourlandt que nous 
j avons trouvé. J'ai profité de cette ocasion pour éxaminer la dite ile 
qui est environ de la même etendue que cette ile de Barbados, et de 
monsieur le directeur là j'ai appris sous quelles conditions il est chargé 
par le prince de peupler et de cultiver cette ile, savoir: àun capitaine 
300 arpents de terre, cbaque arpent de 300 perches carrées, et cluique 
percbe de 12 pieds de Bbinland. 
a un lieutenant 240 arpents de terre 

à un enseigne 210 dito 

à un sergent 180 dito 

à un caporal 150 dito 

à un libéré 120 dito 

à un sivple soldat valet 60 dito 

à un esclave 30 dito, et ainsi de suite à chacun selon 

ses capacites et circonstances età la perpetuité; et avec droit heredi- 
taire ; les trois premières années il n*en|sera payé^aucune contribuition, 
et à Texpiration de ces trois ans il en será payé comme dans les autres 
iles situees dans ces contrées, ce qui n'est que très-peu de chose. 
Le sus - dit directeur du prince du Courlant y a eleve une forteresse 
gamie de sept pièces de cânon et d^une compagnie de soldats, il a(- 



NOTAS E APPENDICES. 3õ9 

tend encore plus de forces. Cette ile de Barbados est si f ortement peu- 
plée et cultávée qu'en bien peu d^années les bois (forêts) y manqueront, 
Burtout du bois ponr lears engenhos pour donner la perfection à leurs 
sucres, comme nn grand nombre en eprouve dejà le manque ; de sorte 
an'ils ont dâ abandonner la culturo de sucre et planter au lieu de cela 
a aatres legumes dans leurs terres, par exemple du coton, du gingem- 
bre, de Tindigo et d^autres articles pareils : plusieurs terres aussi ont 
été transformées en prairies. Quelques uns pour ne pas se désister de 
la production du sucre, emploient de la houille ou du charbon qu'ils 
font venir à cette fin de TAngleterre. Plusieurs personnes qui faisaient 
la nayigation sur le Brésil sont parties d'ici et d'autres endroits pour 
86 rendre à Tile de Tobago, ainsi que beaucoup d^habitants de cette 
!le, puisque le sus-dit prince de Courlant accorde non seulement à cba- 
con selon ses capacites et circonstances le nombre d^arpents des terre 
indique d-dessus, mais d'ailleurs il leur foumit des esclaves qu'il fait 
chercher à cette fín par des vaisseaux expres de la Guinée, et on peut 
lui payer le prii deces esclaves, même avec les productions de terres 
plantées par eux. Je soumets à la considération de Vos Hautes Puis- 
sances si le Brésil n^aurait surpassé tout, si les terres inhabités et in- 
coites y eussent été distribuées des le commencement sur lo piod men- 
tionné et à Tayenant des lieux et des circonstances ; si selon toute pro- 
babilité il n'aurait été dans ce cas-là un pays tellement peuplé qu'au 
lieu d'une bonne centaine de grands vaisseaux qui viennent annuelle- 
ment chercher leurs cargaisons dans une ile telle que celle-ci le BrésQ 
aurait pu foumir annuellement des cargaisons à plus d'un milliard 
de vaisseaux. Et quel profit de plus peut on désirer d'un pays que la 
prosperité publique, et la sureté et conservation du pays lui-même, non 
seulement les braves habitants de ce pays là, mais d'ailleurs toute la 
Hollande en profiteraient et prosperaient. Si on pouvait reprendre tout 
cela avec vigueur et le metre sur le pied que je viens d'indiquer, ce 
serait là une oeuvre bien plus grande et meilleure que beaucoup de 
personnes ne vondront croire, et bien que je pourrais m^expliquer plus 
an large et plus amplement à ce sujet pour verifier tout ce Q^© je 
viens d^alléguer, je me bornerai pour le moment à ce qui precede afin 
d* eviter une trop grand prolixité, ce qui n'empéche pas qu'on me 
tronvera toujours prêt et disposé à donner des explications amplos et 
détaillées à régard de cette matière. Pour conclusion je veux renou- 
veler et remontrer encore une fois à Vos Hautes Puissances le com- 
mencement de ma presente lettre, concemant les grands pertes que je 
viens d^epprouver par la porte de cet Etat entier des conquetes du 
Brésil à la grande douleur et tristesse de moi-même et de mes inte- 
rets. Ajoutez à cela que pendant plus de cinq ans j'ai fait service 
en Seara, et aulieu d'y avoír gagné quelque chose, j'ai perdu plus 
de trente mille florins et je n'en ai pu prendro avec moi que les docu- 
ments qui constatent ce que j'ai foumi là-bas pour la conservation de 
la gamison ; ces documents je les envoie en même-temps que cette lettre 
anx amis en Hollande, avec mes vives instances de les porter à la 
connaissance de Vos Hautes Puissances , et de çrier humblement pour 
moi qu'il me soit fait restitution et paiement a cause de cela, comme 
Vos Hautes Puissances jugeront juste et equitable ; car ayant eu de 
grands firais pour faire avec ma famillele voyagejusqu^ici, iln'estrien 



360 NOTAS E APPENDICES. 

pour le moraent qui m'est plus indispensable que les moyens néces- 
saires pour pouvoir payer ici les frais susdits. J'ai Tespoir et la con- 
fíance que pour les raisons et considérations qui précèdent , il plaira 
à Vos Hautes Puissances d'écouter la pétitlon equitable et juste de 
mes amis, de manière à me faire parvenir au plustôt le soulagement 
necessaire, afin que je ne me vole pas retenu ici malgré moi à cause 
des frais enquestion. Et puisque j'ai demande d'ailleurs à mes amis 
de vouloir faire en ma faveur auprès de Vos Hautes Puissances les 
supplications necessaires , je m'y référerai pour être plus court, et je 
pnerai Dieu le Seigneur de conseiver Vos Hautes Puissances bien long 
temps en santé et prosperité , de rendre heureux et propice Votre rè- 
gne pour le bien être et la conservation de notre chêre patrie sous la 
protection raisericordieuse. Après avoir presente à Vos Hautes Puis- 
sances mes humbles et respectueux hommages je serai tant que je 
vivrai 

Hauts et Puissants Seigneurs! Messieurs! 
De Vos Hautes Puissances 
L'humble Vassal et Serviteur 
(signé) Hf. Beck. 

De nie des Barbados 
le 8. Octobre 1654. 

Monsieur le major Garsman, ci-devant commandant de lamilice 
à Siara qui est parti de là en ma compagnie sur une des barques sus- 
dites, et qui, après deux fois vingt quatre heures de voyage, nous a 
devancé vers Tile de Martinique, a eté enleve à ce monde par une ma- 
ladie avant mon arrivée ici à Tile de Barbados, de sorte queje ne Tai 
plus revu. Et comme il a laissé à son enseigne Eobbert Bruyn des 
ordres au sujet de sa sucession avec iaquelle celui-ci est parti pour 
la patrie, je ne saurais en dire rien d'autre chose, de sorte que je m'y 
refere, en priant Dieu de lui accorder à lui et à nous tous que le sui- 
vrons un jour, une bien heureuse résurrection au jour du demier ju- 
gement. 

Ci-inclus j'envoie à Vos Hautes Puissances une copie du direc- 
teur ou gouvemeur de Tile de Tobago, envoyée à cette ile-ci et con- 
cemant la condition sous la quelle seront distribuées les terres dans 
la dite ile à tous ceux qui aurout envie et inclination à 8'établir là- 
bas sous la protection de Son A^tesse princière de Courlandt. 



índice. 



PREFACIO l-XliXM 

LIVRO L PrimeiTM HostUidadcít , evpeciaimenU cfnUra a 
Bahia. (1624— 16á7.) , . I- 2?^ 

Preambulo. Blusão acerea das ranta^eDs f/m a Anjfrif^f t\f, Í^íí^I k 
Hespanha. — Hostilidades de raiiad na^/>í«. VjttftAM pt^má^- 
das em Tez de orna esquadra ftnzxàs^c/fi^tsiA. ÍUtyM âãA h^yH*^- 
lidadesdos HoQandezes. — Vandale^ í>ncha, írn*<AliTirt ^rrsçATVi- 
saçâo da Companhia 04;cídental hoílaT^^iza, íd^^ 'Ia ^nf.ra yvf- 
togiiea para lhe isaer face, — Í>e8títu> da ^pMí^ h^^llai^d^^ 
ffln]iffyirt com precedenda. — fdéa do Braaril aa^a 4po<hift. 
ProfvídaKÚs tomadaa pelo <fOTemador fnoíif^ de M'>ndAT>^. Ri- 
TitititHtf* por parte do ▼•ílho híspo O. XarAos. — ^> ínimíífo j»*vv- 
mette a Bahia. — Desembarca , toma a ddade, aí prervde ^v ji^/wí»^ 
nadar, sem naihnma capitalajáo, — .í^nfAm-^^ ^ mofvioy^/i rtA« 
anedoies e eomeçam a hostihsar <>« intniHAM ."ífto mAr*>>5f ^<s 
eesBÍTameiite dois gnv-irnadores da cidade Ç^f\m*yirw prwd^cííw 
findas dia Corte. Kando de Nunes Xartnho, - ,^fort/í do WKpo. 
— Gofisma de D. Frandsco de Xonra. Chega a •ívjuaidT'* /«nrí- 
liadoca. — âítío po8ti> i ddade. - Morftid» do inimií^o. — .-^na 
capitnlaçâo. — Btigresso «la eaqnadra anviliadora. '/ov^ímo d^ 
Diogo LauL — Doífl atTSw^iies do bravo Píet Ffeyrí 'ontr^ <> RV/m- 
cafD, em Ití27. Pvovidendan In^nflmeTitei^ tomada» pela ^/^/e 
Seal d^agna. 



LIVRO ÍL DemÈe^p^riade ^Aimda aU o, fUArr^M4^^/>9^hnif 
(i&» " Abra ÍHSSI) ... .4)- fi^ 

Fun dos aibminigtrados aor ontrv ri/*f»na -V H*r«,rn ,Sío*y^;^ oÍ«t»o« 
coBtn o Brasil ^ iWerímda darfa * Puniam bn/yv. í^^w de 



362 

preven(N3e8 adequadas. — Nomeação de Mathias d'Albuquerque. — 
Sua partida, com insignificantes soccorros. — Píovidencias deste 
governador. — Chegada das forças hoUandesas. — Desembarcam 
ao norte dè Olinda. — Tomam esta capital, e dias depois o Re- 
cife. — Entrincheiram -se os HoUandezes. — Albuquerque organisa 
guerrilhas e se fortifica no Arrayal do Bom Jesus. — Onde ficava 
este. — Repelle o primeiro ataque. — Toma Albuquerque a offen- 
siva. — Elogia o inimigo o valor dos Pernambucanos. — Eitende 
a sua linha. — Constroe um forte em Itamaracá. — Providencias 
tomadas pela Corte. — Armada de Oquendo. — Combate na?al 
com Pater, que morre na acção. — Boatos a este respeito. — O 
inimigo abandona Olinda. — Intenta em vâo tomar a Farahiba, e 
depois o Rio-Grande e o forte do Cabo de Santo Agostinho. 



LIVRO III. Besãe a deserção do Cálabar á perda da Paraíba 
(Abra 1632 — Janeiro 1635.) 57-83 

Deserção do Calabar. — Suas consequências. — Surpresa de Iga- 
raçú. — Varias escaramuças. — Perda da Rio-Formoso. — So- 
postas ao Calabar. — Partida de Weerdenburgh. — Perda dos Afo- 
gados. — Ataque do Arrayal. — Apresentação de Henrique Dias. — 
Toma o inimigo Itamaraci. — Novos encontros e sortidas. — Pri- 
meira invasão ás Alagoas. — Soccorros aos noSsos e providencias 
da Corte. — Toma o inimigo o Rio-Grande. — Ameaça a ParaMba 
e segue para o cabo de Santo Agostinho. — Ataque frustrado con- 
tra o Recife. — O inimigo occupa o Pontal e o defende. — Ataca 
sem êxito o Arrayal. — Recebe reforços. — Assenhorêa-se da Para- 
hiba. — Capitulações com os moradores. 



LIVRO IV. Desde a perda da Paraíba atéanomeaçâodeNansau* 
(1635—1636.) 84-114 

E, submettido o território desde a Parahiba até o Arrayal. — Ata- 
ques infructuosos contra este. — Albuquerque occupa Serinhaem e 
manda guarnecer Porto-Calvo. — Perda desta posição. — Sitio do 
Arrayal e sua capitulação. — Sitio e rendição da Nasareth. — 
Texto da capitularão. — Retira-se Albuquerque de Serinhaem. — 
Emigrações. — Vence Albuquerque em Porto-Calvo. — E* justiçado 
o Calabar. — Retiram-se os nossos ás Alagoas. — O inimigo occupa 
Porto-Calvo e guarnece a Peripueira. — Soccorros aos nossos. — 
D. Luiz de Rojas rende a Albuquerque. — Elogio deste chefe. — 
Rojas marcha para Porto-Calvo. — Retira-se Schkoppe. — JRojas 
é batido por Arcizewsky e morre na acção. — Succede Bagnnolo no 
mando. — - Vem a Porto-Calvo, e manda avançar guerrilhas que 
chegam até a Parahiba, — Apuros da Corte para enviar soccorros. 
— Tumultos de Évora. — Carta do rei a este respeito. — Consi- 
deraçôes. — 



363 

^VBO y. Desde a Nomeação de Nassau até o sitio da l^a- 
kia. (1637 — Maio 1638,) 115—136 

Nomeação de Nassau. — Tres Conselheiros supremos. — Constílho Po- 
litico. — Begimento do Governo. — Chegada de Nassau. — filogia 
o paiz. — Como encontra o Recife. — Organisa um exercito de 
operações. — Marcha para o siiL — Bate a Baçnuolo junto a Porto- 
CfalTO. — Toma esta paragem, capitulando Gioerton. — Segue até 
o rio de S. Francisco. — Erro em nâo haver proseguido até a Ba- 
hia. — Begressa ao Eecife, mandando a frota crasar para o sul. — 
Lichthardt incendêa Camamú e desembarca nos Ilhéos. — Yota-se 
Nassau á administração. — Falta ao capitulado com os moradores. 

— Enérgico protesto de Duarte Gomes. — Melhora Nassau o Re- 
cife. — Duas Pontes. — Palácios. — Fortificações. — Pintor Post. 

— Litteratos Plante e Barleus. — Piso, Margrav e Ruiters. — Es- 
cabinos. Escultetos. — Brazôes a quatro provindas — Occupa- 
çâo da Mina e do Ceará. — Defende Nassau a liberdade do com- 
mercio. — Visita os territórios até o Rio Grande. — Avança Schkoppe 
até Sergipe. — Bagnuolo se retira á Torre de Garcia d' A vila. — 
Schaap Dioquea na JBahia. — Noticias que recolhe. — Por eUas de- 
cide Nassau o ataque da Bahia. — • Enúa, no porto. — Desembarca. 

— Acode Bagnuolo á cidade. — Sitio desta. — Ataques mallogra- 
dos. — £^ levantado o sitio. — Recompensas. — Considerações. 



LIYBO YL Desde o sitio da Bahia até a Acclamaçâo de 
João 4\ (1638—1640.) 137-157 

Rendimentos cobrados pelos Hollandezes. — Esquadra para acudir á 
Bahia. — Esteve para ter outro destino. — Vem ao Brazil. — Conde 
da Tone. — Passa por Pernambuco. — Demora-se na Bahia. — 
Despacha por terra Vidal, o Camarão e Lopes Barbalho. — Parte 
da Bahia. — Fundêa nas Alagoas. — Pretende desembarcar em 
Páo Amarello. — E' encontrado pela frota hollandeza. — Quatro 
batalhas navaes. — Desembarque no porto dos Touros. — Prodigiosa 
marcha até a Bahia. — Encontros diirante ella. — Bloquea o ini- 
migo a Bahia. — Ataca Itaparica e o Recôncavo. — íSn Sergipe 
sae derrotado. — Koen pilha e incendêa Camamú. — Ataca o Espi- 
rito - Santo. — Chega o vice-rei Montalvão. - Castigo do Conde 
da Torre. — Expulsa Nassau os religiosos. — Pactua tréguas pro- 
visórias com Montalvão. — Reféns. — Cidade Mauricia. — Revolução 
do 1^. Dezembro de 1640 em Lisboa. 

LIVRO VII. Da Acclamaçâo de João 4° á Bestan/raçâo do 
Maranhão e Retirada de Nassau. (1641—1644.) . . . 158—180 

E' deposto Montalvão. — Junta de governo. — Embaixador portuguez 
na Haya. — Consequente suspensão de hostilidades. — Falta Nassau 
a ella. — Manda occupar Sergipe, Loanda e ilha de S. Thomé. — 
Protestos dos nossos. - Carta de Montalvão a Nassau — Tratado 



364 



de tréguas — Hara estipulação quanto ao Bradl. — E* occupado w^à 
o Marantóo. — Morte de Bento Maciel. — Chega a hora das repre- J^es^ 
salias. - Plano para restaurar -se Pernambuco e o Manmhâo. — 
Juizc acerca de Fernandes Vieira. — Serviços superiores de Vidal, M^^ 
dirigindo a conjuração. — Porque se nâo realisa êm Pernambuco e | f^, 
e' levada a effeito no Maranhão. ~ Vantagens dos nossos, nos pri- 
meiros recontros. — Passam a sitiar a cidade. — Soccorro vindo do ■ ^^j-. 
Pará. — Kecebe também reforços o inimigo e emprehende uma sor- 1\.5 
tida. — Morre heroicamente António Moniz. — Succede-lhe A. Tei- 
xeira de Mello. — Levanta o sitio. — Derrota a Evers em Moruapy. 

— Passa a Alcântara. — Eecebe novos soccorros. — Aproxima-se WÇ^ 
do canal do Mosquito. — Volve á ilha. — Embarca-se o inimigo. 

— Vidal e' nomeado governador pelo rei. — Miséria do donatário 
de Tapuitapera contra Teixeira de Mello. — Eetira-se Nassau para 
a Europa. — Triumvirato no Recife. 



LIVRO VIU. Novos esforços para restav/ra/r Pernambuco 
e sem resultados. {16U—1646.) 181—214 









JtZ 




Novas tentativas. — Volta Vidal ao Recife. — Avista-se com Vieira 
e outros. — Segue á Parahiba. — Regressa, combinados novos 
planos. — Avançam da Bahia Dias Cardozo e muitos veteranos. — 
Seguem-os Henrique Dias e o Camarão, com simulados pretextos. — \\ 
Compromisso dos Conjurados. — Hesitações. E' descuberta a conju- 
ração. — Buscas e prisões. — Sae a campo a insurreição. ~ Quem 
a dirige. — Marcham contra, Hous e Blaar. — Bandos. . — Primeiros 
acampamentos. — Alboroto. — Monte das Tabocas. — Notável vic- 
toria. — Principado Brazilico. — Vâo dois emissários hoUandezes fi- 
Bahia. — Resposta. — Hoogstraten. — Partem Vidal, Soares e Ser- 
rão de Paiva a reforçar a insurreição. — Proceder censurável d< 
Salvador Corrêa. — Serinhaem capitula. — Reunem-se o Camarão 
Dias em Gurjaú a Fernandes Vieira. — Morte de António Cavai 
canti. - Chegam Vidal e Soares. — Capitulam Hous e Blaar 
Casa-Forte. — Entrega-se o Pontal. — Serrão de Paiva ó derrotad 
em Tamandaré e cae prisioneiro. — Documentos que compromettei 
o rei. — Atrocidades no Cunhaú e Dias na Parahiba. — lins e 
Porto Calvo. — Rocha Pitta no Penedo. — E' soccorrido do Ri 
Real. — Mallogra-se um ataque contra Itamaracá. — Porquê. 
E' morto Femâo Rodrigues de Bulhôes-Insurreiçâo do Rio-Grande. 
Assassinatos com crueldade. — Passam a vingal-os Vidal e o Ca — 
marâo. — Segue este até os sertões do Ceará. — 



LIVRO IX. Sitio do Becife. Primeira Acção dos Crua/ra/rapes. 
Besultados. Angola. {1646—1648.) 215—240 

Eecolhem-se os HoUandezes á Praça. — Investem-a os nossos. — Arrayal 
novo do Bom Jesus. — Onae era. — Representação ao rei. — 
Deserção dos estrangeiros. — Attentado contra F. Vieira. — Abun- 




â65 

danda entre os sitiantes. — Fomes na Praça. — Moedas obsidio- 
naes. -- O inimigo e' soccorrido. — Eeforma o seu governo. — 
Ataca Olinda. — Apodera-se do Penedo. — Com que fim. — Re- 
contros. Apodera-se de Itaparica. — Morre Lichthardt. — Passam 
08 do Penedo a Itaparica. — Chegam a esta ilha outros reforços. — 
Hous. — Invasões do Recôncavo. — Pequenos recontros na ilha. — 
Esquadra de corso. — Resolve a Corte ceder Pernambuco. — Apoia 
a idea o P®. Vieira. — Resistem a ella os sublevados. — Rebello 
ataca Itaparica. — E' derrotado e morto. — Chega á Bahia novo 
governador, com soccorros. — Retira-se o inimigo de Itaparica. — 
Prepara a UoUanda novos reforços. — Embaixador Souza Coutinho. 
— Tratado de Munster. — Schkoppe toma o mando dos inimigos, 
Barreto o dos nossos. — Primeira acção nos Guararapes. — Partes 
que deram os respectivos generaes. — Resultados favoráveis em Por- 
tugal. — Pareceres dos Tribunaes. — Papel Porte do P." Vieira.— 
Resolução Regia. — Recuperação d' Angola. 



LIVRO X Da morte do Camarão ao fim da Guerra e Paz 
definitiva {1648-1662.) 241—280 

Regimento das Ilhas. — Manda-o Francisco de Figueiroa. — Coincide 
a chegada com a morte do Camarão. — Elogio deste heroe. — 
Donde era natural e que idade teria. — Tibieza da tropa inimiga. 

— Furor da sua esquadra. — Heróica explosão da Rosário. — O ini- 
migo no Recôncavo da Bahia. — Regressa ao Recife. — Convoca 
um conselho. — Vota uma excursão ao Rio de Janeiro. — Decide- 
se porém combater os sitiantes. — Sae aos Guararapes. — Marcha 
de Barreto. — O Hollandez é derrotado. — Perdas de uma e outra 
parte. — Monumento desta victória. — Inscripçâo laçidar. — Re- 
sultados favoráveis. — Factos associados a esta victória. — E' reti- 
rado o embaixador Souza Coutinho. ~ Inglaterra contra Portugal. 

— Negociações de Souza de Macedo. — Sâo regeitadas. — Apertos 
dos do Recife. — Frota de Jaques de Magalhães. — Plano d'ata- 
gue. — Começa do lado de Ofinda. — Segue-se do outro lado. — 
Proposta de capitulação. — Texto d'ella. — Seu cumprimento. — 
Recompensas. — Juizo acerca dos chefes vencedores. — Regimentos 
dos Henriques. — Factos até a paz definitiva. — João Fernandes 
Vieira. — 

NOTAS E APPENDICES 281-360 

ÍNDICE 361—365 



Pag. 




Lin. 


Onde se diz: 






Leâ-se: 


211 




21 


ftftmengo 






individuo 


819 




20, 


moedos 






moedas 


827 




32 


em 9 de novembro 




no 


mez de septembro 


844 




23 


recolheriam 






recolheriam 


249 


6a. 


da nota 


artistOR 






artistas 


264 




16 


igualdade 






a ignaldade 


16 




18 


q 









267 


lia 


. da nota 


quo 






que 


268 




U 


orgamisassem 






orgamsassem 


269 




28 


os mesmos 






as mesmas 


270 




6 


razço 






razão 


272 




Ordene 


t-se a numeração das notas. 






278 




5 


citado 




oitavo (veja ante pag. 164) 


279 




26 


seu 




• 


sem 


283 




la. 


suadros 






quadros 


Lêa-se igualmente 


sempre emboscadas. 


sertão 


e Ârcizewsky onde estejam 


estes nomes escriptos de ontro modo. 









• -^-^fc^*