(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia da universidade de Coimbra nas suas relações com a instucçâo publica portugueza"

Google 



This is a digitai copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as pari of a project 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subjcct 

to copyright or whose legai copyright terni has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, culture and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the originai volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with librarìes to digitize public domain materials and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-C ommercial use ofthefiles We designed Google Book Search for use by individuals, and we request that you use these files for 
personal, non-commerci al purposes. 

+ Refrain fivm automated querying Do noi send aulomated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machine 
translation, optical character recognition or other areas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materials for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogX'S "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this project and helping them lind 
additional materials through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legai Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legai. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is stili in copyright varies from country to country, and we cani offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search means it can be used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Google's mission is to organize the world's information and to make it universally accessible and useful. Google Book Search helps rcaders 
discover the world's books while helping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



C-. 



\ 



» ^ 



,* 






\- 



.v^1 



»vA 



•/' 



• t 



1 



X 



•^^ \ 



\ 



> .u 



^^ r-j 



-fW 



.^ 






\ 



:^ 



\ 






x^ 



^:w «7 ■ 



«, 



--* I 



>- 






5d^^ ;^ 








\ 



■( 



;> 



y /"-^t! 



\ 



A 



^ 



r\ 



v^ 



>- 



\ 



-^ V 



r 






.-( 



y 



<r. 



- > r*f 



'X'- 



M> 



V^ 



V 



> 



\ 



V .^. 



^ 



,> 



^^ 



> 



^ 

^ 






4 



_ » 



»f 



X. /• 



fi\^ ^ .r^ 

1 •< ^ . 






^-1! 



] 



'• ^ x>>^ 






>/ 



^ìà," ^ - 



r (' 



/•^ 






/ 



\ 






A >• 



^■..H 



( •- ^r 



'Cf^\ ti 



■^ 



X 



^ 



''-'.\ 



L-^ 



i t 



N^ 



■\^ 



,-'. 



i 



Li 



•Ai 



/ 



y:. 



xj 



^ 



.'>^. 



n: 



■i^i. 



^^-^^!•^: 



>.y^- 



>,. 



\ 






/ 



KSi^ 



\ 



1^5 



■■:^> 



,>' 



.tn 






^■■rr'^C 



(^ 



\ 



f 



<T )^^ 



JTJ 



^yi^^My N'.x 



V"•^ 






;; I 



•V 



> 



^^' 






■^ 



e / 



V 



l' 



< 



\ 



> 



— \ 



K 



n, 



v^ r. 



">- 



-V i^ 



l^ 



IK • 







x^ 



*: -f 



tL, 



'^ A- A>is 



»&-tTf^:v 



f \ 






\ 






7 t^yy\À/tf 



HISTOEIA 



DA 



UfflVERSlDADE DE GOIMBRA 



HISTORIA 



DA 



UNIVERSIDADE DE GOMBRA 



WAS SUAS RELAgOES 



CO» A 



INSTRUCgÀO PUBLICA PORTUGUEZA 



POR 



THEOPHILO BKAGA 



Socio effeelìTo «la Acadoiuft nal dac Scioicias 



1289 a 1666 



LISBOA 

fOI OIDEI B NA TÌPOfiUPOIi DA ACADEIU MAL DAS SCRNCUS 

1892 



HISTORIA 



DA 



UmYERSMDE DE GOIMBRA 



MAS SUAS RELACOES 



COM A 



INSTRUCgÀO PUBLICA PORTUGUEZA 



POR 



THEOPHILO BRAGA 



Socio effectivu da Ac«d«tDÌ« raal du Sciencias 



1289 a 1556 



LISBOA 

fOI OIDFJ E RA TÌPOfiMPBIi DA ACADEIU MAL DAS SCIENCUS 

1892 



IP 









EM COMMEMOEACiO 



DO 



WI CENTENARIO 



DA FUNDAQÀO 



DÀ 



UNIVERSIDADE DE COIMBRA 



ATTENTION PATRON: 

This volume ìs too fragile (òr any future repair. 
Please handle with great care. 




f 






H ^ 



O estudo da CiyilÌ8a9lo portugueza, para que se comprehenda a 
importancia que està pequena nacionalidade exeroeu na coltura da 
Europa, deve ser feito em rela9Ìlo is transforma^Ses que caracterisam 
a Historia moderna, isto é, desde o firn da Edade mèdia até à explo- 
sSo temporal da ReyoluQSo franceza. Os grandes problemas da de- 
compo8Ì9So do8 dois Poderes e sua recomposÌ9fto empìrica e incom- 
pleta, acham-se implicitos nos factos do desenvolvimento intellectual 
e scientifico em quanto à parte espirituàl, e nos factos do estabeleci- 
mento da ordem politica e economica, em quanto à parte temporal. 

Seguindo o desdobramento d'estes problemas simultaneamente com 
a marcha historica da nacionalidade portugueza, que é esclarecida por 
elles, é que tomàmos a transforma9So ou crise mentcH comò base syste- 
matica da Historia da Universidade de Coimbra; mais tarde comple- 
taremos o quadro da cÌYÌlisa9So moderna com a HUtoria da Naciona- 
lidade portugueza, em que prevalece a crise socied tendendo i synthese 
politica. 

Na evolug^ da Europa moderna, apesar de nSo ter exercido uma 
acfSo directa o sentimento, ainda assim os impulsos affectivos offerece- 
ram is novas capacidades estheticas elementos de idealisafSo, que se 
tomaram aa bellas e surprehendentes creagSes das Litteraturas moder- 



via PREL1MINÀR 

nas. Assim, estudada a parte inteUedwd e poliHea da Civilisa^So por- 
tugueza, ficari o nosao estudo verdadeiramente completo com a HiS" 
taria da Litterahira portugaeza nas suas relafSes oom as Litteraturas 
romanicaB ou occidentaes. 

TemoB deade 1871 annanciada em nm prospecto a Mstoria da 
Umverndade de Caimbra corno formando parte de um plano mais vasto^ 
e quasi totalmente realisado, sobre a Historia litteraria de Portugal. 
As rela95e8 entro as crea98eB da Historia litteraria e as transforma^Ses 
da Pedagogia eram entfto por nós mais presentidas do que comprehen- 
didas. O estudo comparativo das Litteraturas romanicas revelando-nos 
o antagonismo entro o espirito da Edade mèdia e o da Antiguidade 
classica, levx>u-no8 a comprehender essa dupla covrente intellectual, 
observando corno as Universidades luctaram oontra os Humanistas da 
Senascen9a| que souberam determinar os tres grios da In0truc9lo pub- 
blica fora do6 tjpos immovds das quatro faouldades. 

Achavamo*no8) ao come9ar as nossas investìgafSes, em um estado* 
montai metapbysioo, que nos fasia concentrar todos os nossos interes- 
ees moraes no periodo revolucionario^ corno uma anarchia fecunda, 
embora transitoria. A fonna^^ das UniTersidades resultando da dis- 
solu$fto do regjmen calholieo^udal, e eridìenoiando o conflicto entro 
a auctoridade reàl e a pontificai, era-nos por isso mesmo sympathica. 
Quando procuràmos naturalmente oi^gaoisar em systema as nossas as- 
pira95es revolucionariaa, fomos encontrar essa synthese doutrinarìa j& 
realisada poc Augusto Comte no Curao de PhUoeophia positiva. À me* 
dida que entrava n'esse rei^oùien definitivo do espirito> ia abaadonando 
a orientasse metaphysica da cultura universitaria; e so quando a phi- 
losophia positiva me revelou as phases da grande Revolu^SD oecidental 
•que comesa no seculo xm e se espande na crise violenta do firn do 
eeculo xvm, é que eomprehendi a misalo das Universidades n'este 
^orfo da Civilisaoto europea para re<Mìstituir um novo Poder espi- 



PREUIONAR m 

litaal baseado sobre a veraddade das concép^Ses seientifici^Sy e corno 
nSo correspondendo à urgenoia d'està necesaidade social cairam na es- 
tabilidade e no pedantismo doutvinario. Essa missSo foi melhor com» 
prehendida pelas Academiasy soscitadas pelas syntheses baconiana e 
•cartesiana, vindo os seos resoltados analyticos a constituir sob a Con*- 
TenfXo a fórma nova d^ ensino dais Polytechnioas. Nto foi porém ainda 
4ittingido o fini, por falta de ama systematisafSo goral. 

A Philosophia positiva està destinada a exercer ama inflaenda 
ci^pital na reorganisagAo do ensino. Em primeiro legar é ella qae es- 
tabelece a harmonia entre as nogSes obfectivas e as concep98es ntbje-^ 
<tò^oa», fazendo consistir a verdade n'esta intima rela^Bo. Emqoanto 
na mentalidade humana preponderaram as no^Ses sabjectivas, crea- 
ram-se as religiSes, e as fiumldades intellectaaes, som a dependencia 
dos elementos objectivos do conhecimento, foram levadas k hallacina- 
-980. No ensino publico e domestico, todos os pedagogistas partiram dà 
necessidade inicial da edaca9So religiosa, caindo no erro fatalissimo de 
deflenyohrerem prematuramente nos cerebros das crian9as ama activi- 
^dade doentia; a «eeti^artsa^flo do ensino, qae ainda nSo foi unanime- 
mente adoptada, é conhecimento d'este mal radioado na instracgSo 
pablica; por outro lodo, a reacfSo do espirito crìtico, limitando ani- 
<»imente ^sino aes dados concretos da óbjecHmdade, origina am mal 
<M>m eonseqaencias deprimentes, taes comò desenvolvimento excla- 
siTO da capaoidade analitica, om acanhamento de vistas, pela absten- 
(io dos processos dedactivos e de synthese. A Philosophia poritìva 
organisando os elementos objectivos na hierarchia theorica das Scien- 
cias, é que ratifica as no98es subjectivas derivando-as d'esses elemen- 
tos, e pertanto nSo receia de continaar a actividade montai no seu pieno 
-ezercicio conduzindo-a ao normal destino snbjeetivo. Assim a Philo- 
sophia positiva é a anica doutrina qae condnz a ama Pedagogia com« 
pietà, porqae ella di-nos um conhecimento da eleva^So geral da espeoie 



X PREUMINAR 

humana pelo criterio historico; dà-noB urna Psychologìa individuai e 
collectiva; dà-no8 urna Methodologia logica deduzida dos processos es- 
peciaes de cada scienda; e pelo conhecimento biologico do dobbo sér 
organico eBtabelece as fórmaB e os gr&OB do ensino de cada edade e 
do conjuncto daa nossas capacidades activaB^ affectivas e especulativas^ 
snbordinadas exclusivamente a um firn humano. 

Separando as Sciencias geraes das especiaes, irracionalmente con- 
fundidaB no ensino publico, determinou està philosophia a prìmeira 
condi{2[o pedagogica para o estabelecimento de urna instmcf&o theorìca 
verdadeiramente superior e independente daB reBtricfScB necessariaB em 
todas as disciplinas concretas ou de applica9ào. criterio historìpo, 
ou propriamente de relatividade, no estudo de cada sciencia geral^ 
Berve para acompanhar a evola9So progressiva dos methodos mais ou 
menos mas sempre ligados ao desenvolvimento das doutrìnas das scien- 
cias. É ainda esse caracter de relatividade, que localisando cada sis- 
tema pedagogico na sua època e corrente historica, corno as UhiverH- 
dades do firn da Edade mèdia até i Benascenya, as Academias nos 
seculoB XVII e xvm e as Polytecknicas no secalo actual, estabelece a 
harmonia de cada institaÌ92o com as concep93es dominantes, fazendo 
sentir as suas deficienciasy o estreito espirìto de especialidade, e a 
necessidade de completar o ensino, tomando-o a expressSo do saber 
moderno, em que se tenda à forma9So de urna concep98o geral ou Syn- 
these que dirìja a sociedade bumana, corno o estado sentimental da 
fé religiosa actuou na concordia dos espirìtos. Taes comò se conservam 
no seu automatismo tradicional, as UniversidadeB, as Academias e as 
PoIytechnicaSy nSo podem realisar està necessidade da consciencia hu- 
mana, porque as sciencias fragmentadas, especialisadas, visando i ex- 
plora9Zo da pratica, e a erudÌ9So de particularìdades desconnexas, nZo 
se elevam sob a compreesBo dos programmas officiaes a uma correla* 
9I0 de doutrinas aptas para fortìficarem as mais sinceras consciencias. 



PRELIHINAR X] 

Achada essa correlafSo theorìca pela philosophia positiva, fica resol- 
vido o diffidi e até hoje insoluvel problema dos gràos do ensino, dis- 
crixniiiando-OB nSo pelas disciplinas, Bcientificamente as mesmas em to- 
doB OB griosy maB pela Bua maior ou menor intensidade, conforme aB 
edades e o CBtado mental e Bodal doB que aprendem. E aBsim possi- 
vel hoje organisar urna inatrucgào popular mperior. 

Um outro problema pedagogico ainda nSo resolvido cabalmente 
é o da restanra^So scientifica das disciplinas humanistas; decairam no> 
secolo XYi do seu grào superior de Facaldade de Artes, e constituiram 
ensino mèdio, dementar ou lyceal, onde conservam o acanhado for- 
malismo da tradisse scholastica da Edade mèdia. Diante da vulgarisa- 
$So daa sciendas cosmologicas, experimentaes e praticas, que se des* 
envolireram activamente desde o seculo xvii, as Universidades abri- 
ram-se a esses novos estudos agrupados sob a designas&o de Philoso- 
phia fuxturalj e no ensino secundarìo foram caracterisados pela sua 
objeetiyidade concreta corno Realismo, restringindo o campo consagrado 
é cultura das humanidades. No emtanto conserya-se na instrucs^o su- 
perior essa fiolba, ao passo que a moderna erudisSo renovou o estudo 
dos linguaB classicas pelo criterio comparativo, transformou a gram- 
matica goral na glottologia, relacionou as litteraturas com os seus ger- 
mena tradicionaes, com as luctas sociaes, e com as fórmas estheticas 
universaes determìnadas pela expressSo do bello; e emquanto à antiga 
psycliologìa introspectiva, alargou-se, depois de subordinada à physio- 
logia, até à manifestasse da alma coUectiva das rafas, das nacionali- 
dades, e do saber popular. A critica recebeu tambem um espirita 
sdentifico, crìando a historia das Litteraturas, e transformando o mate- 
rial da archeologia classica em uma reconstrucsZo integrai da historia. 
"^^co, Wolf, Niebuhr, Winckelman, Otfried Muller, Creuzer, Welcker, 
raBgam estcB novos horìsontes do saber humano dando-lhes o titula 
generico de Philologia, presentindo que estes documentos vivos, que 



j 



lai PRELIMINAR 

revelam a cessencia intellectual das nacionaliclades» preoisavam ser 
fecuudados pela philoBophia. Tal era o problema proposto por Vico^ 
reclamando a allian9a da Philosophia e da Philologia; era està a via por 
onde OS estudos humanistas retomariam a sua superior 8Ìtaa9lo scien- 
tifica. Sómente a Philosophia que relacionadBe os phenomenos cosmo- 
logicos e biologicos oom os phenomenos sooiaes, sabmettendo-os àa 
mesmas leis pela observafSo, e sómente depois de fdndada a Sociologia 
pelo conhecimento da continuidade historica, é que todos esses conhe- 
cimentos de erudigSo se coordenariam systematieamente em urna com- 
pleta Facìddade sociologiea, comprehendendo as crea93es historicas e 
ACtuaes produzidas pela sociedade. E ama vez estabeledda pela conti- 
nuidade historica a solidariedade da Ciyilisa9&o Occidental, com os sena 
varios centros hegemonicos na orla do Mediterraneo, e sua expansSo 
para a Europa centrai, que hoje a continua em capitaes ou fócos in- 
tensos de progresso, immediatamente se comprehende a necessidade 
de nSo esquecer os monumentos da civilÌ8a9So greco-romana, de que 
sdmos herdeiros; a Philosophia positiva libertando-nos do fetichismo 
da auctoridade classica restitue-Ihes o seu legar na pedagogia. 

Os trabalhos de compila^fto de documentos para a historia de uma 
corpora9Ao scientifica com seis seculos de ezistencia embara$am fan- 
damentalmente a critica, se ella n&o fòr dirigida por uma vista synthe- 
tica da historia moderna; iste fez com que todas as tentativas sobre a 
historia da Universidade de Coimbra até hoje ficassem fragmentarias. 
Os nossos materiaes accumularam-se indigestamente antes da posae 
d'essa synthese, cuja verdade verìficàmos pela applicasse. 

E à. medida que procuravamos o encadeamento chronologico doa 
factoB, a corrente das idéas na Europea é que Ihes accentuava todo o 
seu relévo, e quasi que espontaneamente se dispunham comò ulterior 
comprovaySo, constituindo os cortes naturaes das épocas historica a, 
que assim deixavam de ser uma divisfto arbitraria. 



PREUMINAR Xlil 

A irevolufSo moderna, que se inicia ao terminar da Edade mèdia, 
ouracterìsa-se pela dissohiy&o do Poder espiritoal da syathese theolo- 
gica tendendo a ser substitaida por urna outra fórma, ora crìtica e 
scientifica, e pela qneda do regimen feadal oa militar substituido pela 
entnida do Proletariado na vida civil, intervenySo empirica da dictadnra 
monarchica, e preponderancia da actividade industriai. Essa revola9Zo^ 
que ainda nSa està terminada, caracterisa-se principalmente corno tn- 
tdledual e social; e per certo nma das caueas que até faoje tem em- 
bara^ado o seu advento A edade normal pode attrìbnir-se ao aban- 
dono ou subai temidade em que junto a esses factores especulativo e 
activo ficou elemento effectivo, cnja presidencia fizera da Edade mèdia 
urna època fecunda de reorganisa^Bo. 

Para cemprehender o aspecto intéUeetual da RerolufSo occidental 
iìteios determinar o seu influito nos faotos concretos e sua simples coor» 
denafSo da Historia da Uhiversidade de Coimbra nas svlob relagSes eam 
a Ifutruo^ publica porhigueza, 

NSo è sem assembro que vémos a intelligencia portugueza coope^ 
rando na actividade dos espiritos no firn da Edade mèdia, por uma 
fórma universal, corno em Fedro Hispano, que prepondera estimulanda 
a disaolu^So dialectica com as suas Summulas logicai até ao meada 
do acculo xvi. E se a ac9So de Portugal na ciyffi8a9So europèa è co- 
nfaecida especialmente pela actividade com que explora o Atiantico^ 
dretanda a Africa e abre o caminho da Asia, dando a volta do globo^ 
corno nSo è digno de assembro esse grande seculo em que a par dea 
fortea navegadores e oecupadores dos vastos continenteS| dominavamoa 
intellectualmente na Europa, brìlhando naa Universidadea da Italia, 
da iVan^ e da Belgica com os principaes humanistaa da Bena8cen9a» 
No decurso da dissoluySo critica, a intelligencia porti^eza levou mala 
longe o estandarte da negaySo que preparou a syntheae de Bacon e 
Pescartes, no libello celebre de Francisco Sanches; e emquanto àa 



XIY PREUMINAR 

doutrìnas aociaes da soberania nacional, Valasco de Gouvéa formala 
a eztincsSo da auctorìdade temporal absoluta explicando o poder corno • 
um mandato revogavel. Sem o conhecimento das lactas dos Jesuitas 
contra os sabios do Port Royal, que fecandavam o ensino pela syn- 
these cartesiana, nZo se avalia a acffto da Con^ega^o do Oratorio 
no ensino^ e a origem das reformas iniciadas pelo Marquez de Pombal. 
Vista a està laz^ a historia de urna corpora9So docente, em que pre- 
ponderam os actos de ama regaIamenta9Zo esteri!, toma-se um corno 
que interessantissimo drama intellectual, obedecendo a um argumento 
•em que cada paiz collabora sem comtudo conhecel-o. 

aspecto social da grande cjrìse europèa é o que nos g^a na Hia- 
torta de Portugal, em que uma pequena nacionalidade retoma a impor- 
tancia capital nos destinos da humanidade, comò impulserà da sua mar- 
«ha definitiva e pacifica, quando na Europa acabaram as guerras pri- 
vadas. Coincidindo a crea9to da Nacionalidade portugueza com a època 
•em que cometa a dissolusSo do regimen cathoiico-feudal, a marcha 
historica d'este novo organismo obedece ao impulso d'està dupla revo- 
lu9to montai e social. O apparecimento de uma popula9So livre, os 
Mosarabes, apeaar de todas as anacbronicas restaura93e8 do Codigo 
visigotico, e a unificajSo das cidades livres ou Behetrias, pelo pacto 
das cartas de forai, em uma Patria portugueza, correspondem ao ad- 
vento do proletarìado comò um novo factor das sociedades modemas. 
Sobre esse elemento se apoia a dictadura temporal, em que a Realeza 
aubmette o dero* e a nobreza militar à sua auctorìdade soberana fun- 
damentada nos codigos romanos explicados no ensino secular das Uni- 
versidades. E se està crìse montai, que fortalece o poder real, coadjuva 
a, independencia da sociedade civil pela ac^So dos Jurìsconsultos, essa 
mesma crìse em uma outra phase mais intensa provoca as duas reac- 
93es da Inquisisse e dos Jesuitas, que vieram pertu^ebar a evolu9&o 
nacional e dar à Casa de Austria a supremacia tempond, levando-a a^ 



PREUMINAR XV 

incorporar Portagal na nnìdade hespanhola. A loz d'estes phenomenos 
capitaes da Ustoria moderna da Europa, explicam-se claramente as 
conBeqaencias da politica de Henrique iv e Richelieu na restaara92Lo 
de Portugaly e as consequencias da Revoluto franceza na queda do 
absolutismo e estabelecimento do regimen das cartas outorgadas. E um 
principio vital, que conduz a urna segura coordenasSo os factos mais 
complicadoB da cathegoria montai, affectiva e social. 

Por seu tomo o elemento affectì/oo, qne provocava a elabora^So 
dos tbemas tradicionaes das Litteraturas modemas, supplantado pelo 
pnirido da imita9&o classica da idealisa^So poljtheica, fica estudado 
nos materiaes ji publicados a que cham&mos Higtoria da Litteratura 
fortugueza, onde o nosso criterio se vae modificando segundo a melhor 
comprehensSo d'esse elemento sentimental. 

Quando no seculo xiu se estabelecem as novas nacionalidades, 
dando em resoltado o desenvolvimento progressivo das Linguas, e o 
tomarem-se aptas para a ExpressSo artistica, é quando, pela dissolu- 
9^0 do regimen catholico-feudal, que se opera espontaneamente, de- 
caem tambem os Thomas da idealisa93o social. As novas Litteratu- 
ras coopéram, ora na transforma9to espiritual, pelas composi^Ses sa- 
tyricas, ora centra o poder temperai pelas gestas heroicas dos grandes 
vassalos; e no meio da desorientafSo do sentimento, os escriptores se- 
param-se do povo, e lan9am-se à imita9&o banal das crea93es littera- 
rìas do mundo greco-romano na Renascen9a, ou & renova9So da Edade 
mèdia no Romantismo. SSo tambem estes os caracteres communs a 
tódas as Litteraturas occidentaes, comprovados pelo criterio historico- 
comparativo. 

Eis o plano completo em que se exercem os nossos estudos sobre 
a Civìlisa9So portugueza; e se alguma cousa nos incita ao trabalho, é 
o qoe ordinariamente se despreza, — é o espirito de sjstema, que Vol- 
taire exige corno convergencia de toda a actividade. 



r 



HISTORIA 



UNIVERSIDADE DE COIMBR 



INTEODUC<JAO 

A FUNDACÀO DAS UNIVERSIDADES 
E A DISSOLUQÀO DO REGIMEN CATHOLICO-FEUDA 



Cai»ct«t da Civilisti^ occìdenUl. — que foi a Edade mèdia: Conatitui 
Poderes em que useota o Regimen Catholico-feudal. — que caraci 
Edade moderna; I>ÌBHola;3o d'esae regimen.— Foder eapiritual e 
tfaese theologica decae: a descoberta da Logica de ArìatoteleB. — A 
berta das Pandeetai e o estabelecimento da Dictadura temperai. — 
do seciilo sm: aepecto da primeira BenaBceoQa. — A EeroltifSo oci 
DO sen aapecto intellectoal toma o caiacter metaph^aico doa Outolog 
A creafSo da< UnivereìdadeB corresponde a eeta crise inteltectual ; 
Da Europa comò centro de especulBfào metaphjatca, embarafando a 
tnifio do DOTO Poder espìrìtual da Sciencìa e o predominio da Syntb 
aiti va. 

Uha èra que termma e ama edade nova que se micia apret 
o caracter complexo e até certo ponto indeterminado de urna e 
posifSo e recompoBÌ(So aimultaneaB da velha synthese, ou con 
das opioiSes em que se baseava a ordem do passado; e das aspi 
vagas que tendem a systematisar-se no progresso do fìituro. A 
fSo das Umversidades no seculo xn foi um resultado do phen 
capital da transibrma^o do regimen cathotico-fendal, que dirigir 
o^amBa9So da sociedade europea da E^de mèdia; e eseas co 
93es docentes appareceram comò tim esbogo do novo regimen i 
clual qne orientava os espìritos que se iam desligando da sy 
theologica. ferver com que se estabeleceram Universidade» i 
dos OS Estados da Europa occìdental aSa proveiu simplesmente i 



2 HISTORIA DÀ UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

imita9So ou rivalidade, m^ da tendencia caracterìstica da grande crìse, 
essencialmente intellectual, que se prolonga em ama fórma revolucio- 
naria desde o seculo xu até ao secido xix, que^ apesar dos seus enor- 
mes progressos scientificos e ìndustriaes, ainda nSo attingiu o estado 
nomai da synthese positiva. 

Seguir a eyoIu9So historìca das Universidades na Europa é acom- 
panhar a larga elabora92Lo mental e social, que comeya no conflicto en- 
tro Poder espiritual da Egi*eja e o Poder tempora! da Realeza, con- 
flicto em que cooperaram os metaphysicos.OntoIogistas armados com 
a Logica de Aristoteles, e os Legistas interpretando o texto das Pan- 
dectas. Todas as phases d'està lucta, quer nas tentativas de reac9SU> 
dos Dominicanos e Franciscanos, nos seculos xiv e xv, quer do Pro- 
testantismo e Jesuitismo, nos seculos xxi e xvn, quer do Deismo pbi- 
losophico e Atheismo encyclopedista, no seculo xvm, até à crise final 
conhecida pelo nome de RevolujIU) franceza, essas phases de decom- 
posigào ora espontanea ora systematica, constituem a trama da historia 
moderna, & qual està ligada a acgfto das Universidades comò fócos de 
dissolufSo metaphysica. As denomina9Ses de Estudo geral.e Universi- 
dade encerram implicito oste dualismo historico com que se abre a èra 
moderna. 

Para comprehender a historia de uma qualquer Universidade^ em- 
bora secundaria ou sem ac9fto fora do seu meio nacional, é imprescìn- 
divel este criterio sobre a solidariedade morali intellectual e politica 
da Europa durante a Edade mèdia, solidariedade que se toma uma 
clara expressSo da Civilisa9So occidentale que, atravès de todas as ca- 
tastrophes que tém atrazado este continente, irrompe sempre com as 
mais limiinosas Renascengas. Antes, porèm, de caracterisarmos a so- 
lidariedade moral da Edade mèdia, è preciso conhecer o aspecto da 
CivilisajSo Occidental, esse phenomeno singular e prodigioso, que deu 
aos povos da Europa a hegemonia humana e o dominio sobre o pia- 
neta. Come9ou na bacia do Mediterraneo, no isolamento do Egypto, 
que elaborou serenamente todas as idéas moraes e attingiu a estabili- 
dade social ; foi propagada pelos Phenicios, que pelas expedÌ95es com- 
mereiaes crearam as rela$3es pacificas de cosmopolitismo; a Grecia 
continuou-a na liberdade de sentimento das crea^Ses artisticas, e nas 
mais arrojadas especula98es philosophicas; Roma applicou esses pro- 
gressos a um destino social, determinando a lei civil, e incorporando 
n'esta coopera9fto as ra9a8 barbaras da Europa, Gaulezes, Iberos, Bre- 
trScs "é Germanos. Finalmente, dos esfor90s conjugados d'esses velhos 
elementos elabora-se na Escola de Alexandria a doutrina universalista 



INTRODUCglO 3 

do Christianismo; e ainda, da inva&fto dos Arabes na Europa restdta 
urna prìmeira Renascen^a dos elementos d'essa CivilisasSo, que elles 
conheceram rapidamente através da Grecia, e que esteve latente sob 
a corrente das invasSes dos barbaros germanicos, fixadas pela acQSo 
defensiva de Carlos Magno. caracter intimo da Civilisa9So Occiden- 
tal é a sua transmissibilidade e desenvolvimento camolativo, sendo 
contìnuada de nafSo para nafSo, e sempre provocando a manifestagSo 
das energias individuaes, activas, affectivas ou especnlativas. A sua 
longa contìnuidade tomou-a tS,o organica j& entro os povos da Europa, 
que mesmo através dos cataclysmos sociaes, a CivilisajSo ocddental nSo 
se . estingue, e facilmente revive, comò se observa na Renascenga do 
seculo xm, em que as Universidades se propagam ampiamente,' e na 
do seculo XVI, em que as Universidades ciem sob a influencia huma- 
nista, dos Jesuitas, que as embarajam de continuarem as descobertas 
scientificas que se accentuaram depois da mathematica e da astronomia 
gregas. A oste temperamento de civilisa9to, j& constitutivo do orga- 
nismo europeu, deu Augusto Comte o nome significativo de occidenta- 
lidade; e esse temperamento apparece nas civilisa93es modemas que 
a Europa transmittiu às Americas e India. ' 



1 £m um estudo de Leo Joubert, sobre A Italia, o Papado e a Edade mèdia, 
acham-se estas luddas observa^oes crìticaa: «A dvìlìsa^ào occidentale o conjim- 
ciò das idéas intellectuaes, sociaes, religiosas, politicas, no melo das quaes e pe- 
las qnaea o nesso Occidente se desenvolveu, nilo é um facto geral, necessario, com- 
munì a todas as ra9as humanas ; é um facto particular, contingente, que faltou à 
nudorìa do genero humano, e que poderia ter faltado 4 minoria cuja grandeza creou. 
NSo é um facto fatalmente lìgado a certos climaa : acha-se nas mais differentes 
latitudes; nem a certas ra^as : alguns milhares de inglezes, que na India, pela sua 
superiorìdade moral, mais ainda do que pela for^a physica, sào da mesma ra^a 
que as mjriadas de subditos curvados sob o seu ascendente. A enorme differen9a 
entre o Europeu e o Asiatico provém da immensa superiorìdade da civilisa^So do 
Occidente sobre a civilisa^So do Oriente. Està ciyilisa^So, que constituiu, em pro- 
veito da Europa, a arìstocracia do genero humano, é urna crea^ dos Gregos, for- 
tificada e completada pelos Bomanos, um facto especial, nSo necessario, que, bem 
considerando as coisas humanas, podia nSo ter-se produzido, e urna vez produzido 
podia ter sido destruido. Quando a Grecia succumbiu sob as armas de Roma, 
quando Roma por seu turno foi entregue aos golpes dos Barbaros, a civilisaQSo, 
que o christianismo nSo tinha ainda penetrado, depurado e transformado, teve 
mister de um concurso particular de circumstancias para nSo perecer arrastando 
na sua queda o futuro do genero bumano. Supprimi a civilisa^So greco-romana, 
lectificada e acabada pelo christianismo, e verémos que nada impede que os po- 
vos da Europa càiam para sempre em um estado social incompleto e enervante, 
corno o da India ou o da China.» (Esaais de Critique et éPHiaimre, pag. 307.) 

1* 



^ HISTORU DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

A coii8titaÌ9to da Edade mèdia da Europa^ que se determina no 
laborioso estabelecimento do Poder espiritoal da Egreja, representado 
no Papa, e no estabelecimento do Poder temperai, disperso no feuda- 
lismo germanico, e concentrando-se no Imperador, nSo se comprehende 
som se estabelecer a reIa9ào dos elementos moraes da profìinda Civi- 
lisa^So Occidental que persistiram depois da queda de Roma com a 
traiismìsBSo da sède politica para Byzancio. Sem esses elementos mo- 
raes, conbecidos e persistentes, a Edade mèdia apparece aos historìa- 
dores firagmentarios comò uma edade de trevas e de retrocesso; obser- 
vando a tenaz sobrevivencia da CivilisaQSo Occidental, a Edade mèdia 
é uma època fecunda, onde se elaboram todas as factores da civili- 
sa^So moderna, comò t2o bem o perceberam Comte, Mackintosh e Phi- 
larète Chasles. Foi a quebra da solidarìedade historìca greco-romana 
pelo Catholicismo, que determinou essa parte de retrocesso em alg^ns 
seculos da Edade mèdia; da mesma fórma que a negasse da Edade 
mèdia na època da Renascenga e ainda sob e encyclopedismo rovo- 
lucionarìo, embaragou os mais lucidos espìrìtos de poderem conceber 
as bases difinitivas da Scienda social. A acsSo que a Fran9a exerce 
em teda a Europa, desde as cruzadas e influxo do lyrismo proven9al, 
atè à propaganda democratica do fim do secolo xvm nSo è* mais do 
que ainda o desenvolvimento da CivilisaQSo occidental sob uma nova 
presidenda, em que a begemonia da Roma foi por seu turno substi- 
tnida pela Franya que recebera a sua cultura. 

Pelas invasSes germanicas a Italia foi devastada, e Roma aban- 
donada, tornando-se Byzancio a capital do Imperio. Por mais simula* 
eros de grandeza de que se cercasse Constantino para ostentar a sobe- 
rania, fallava-lbe em volta de si esse perstigio tradicional que imprìmira 
aos logares uma luz moral. Roma n2o tinha em si o throno do Impe- 
rador legislando tirbi et orbi, e na parte administrativa MilSo e Ra- 
vena è que exerciam a auctorìdade; mas apesar de isso Roma ezercia 
uma fa8CÌna9So profìmda, influindo no seu Bispo um poder que a popu- 
la^So se acostumara a respeitar e que prodamara corno sua defeza diante 
das bordas de Alarico e de Genserico. Foi assim que nasceu esse Poder 
espiritual, que se mostrava desinteressado, e que foi civilisador emquanto 
exerceu a func^&o sublime de reprimir os fortes e defender os firacos. 
Nas invasSes dos Ostrogodos e dos Lombardos, os reis germanicos, comò 
Odoacro e Theodorioo pretendiam, dominando a Italia, tomarem-se os 
oontinuadores do Imperio romano, que elles so comprehendiam pelo 
deslumbramento exterior. Como os Papas nSo podiam luctar para 
con<^ntrarem em si a realeza monarchica, luctaram a &vor da liber- 



INTRODUCglO 5 

dade mnnicipaly e d'està rivalidade resnltaram o Poder espiritual, fa- 
vorecendo as autonomias provinciaes e o federalismo, e o Poder temr 
porci dos Lnperadores germanicoB, desenvolvendo o feudalismo unita- 
rista. É sob Carlos Magno que os Papas acham o modo de fixar o sea 
Poder espiritual sobre urna base temperai; e pelo celebre pacto de 
LieAo e Carlos Magno, o Sacerdocio e o Imperio harmonisam-se, fi- 
cando o Imperador o herdeirp da supremacia cesàrea de Byzancio, e 
Gom a chefatura de todas as na98es do Occidente; pelo seu lado o 
Papa, confirmado pelo Imperador, a quem competia a obrigafSo de 
protegel-o, recebia os dominios do ezarchato de Ravena, sobre que 
assenta as suas ambi^Ses temporaes. Era o germen das luctas entro ob 
dois prìndpios; emquanto o Sacerdocio e o Imperio se entenderam, a 
Egreja pela sua vasta propaganda, alargou pela unanimidade dos cre- 
dulos o poder sobre as consciencias, apoiando-se entto a sociedade oo- 
cidental sobre a synthese theologica, essencialmente affectiva. No se- 
culo xn cometa a dissolu^Eo d'este regimen da Edade mèdia, que 
Angusto Comte denomina ,catholico-feudal, derivando d'esse facto os 
problemas da Edade moderna: e A Edade mèdia legava ao Occidente 
dois grandés problemas, egualmente irrecusaveis — a digna incorpo- 
ra^So do proletariado à ciyilÌ8a9So industriai, e sub8tituÌ9&o da fé mono- 
theica por uma synthese demonstravel.»^ A tradÌ9So das municipali- 
dades romanas, que ezistia nas cidades conquistadas pelos Germanoe, 
reviveu no seculo xn, quando as tres dasses sociaes dos capUanei, on 
grande nobreza feudal, vcdvaesores ou pequena nobreza, e os popatares 
ou plebe, se ligam constituindo as CommuTioB, com poder soberano, e 
govemando-sé por estatuto proprio, comò se ve em Portugal com os 
Foraes e nas Behetriasde Hespuiha. A descoberta do manuscripto das 
Pcmdectas em Amalfi em 1135, & parte a lenda sobre o seu achado 
pelos Pisanos, veiu actuar sobre o estudo do Direito romano, por meio 
do qual o Poder real achou a fórma de definir a soberania absoluta, 
e apoiado pelos legistas, caminhou para essa concentra9to da dieta- 
dura temporal que dirigiu a Europa no seculo xv. renascimento do 
Direito romano obedecia tambem & tendencia universalista, sobre que 
se propagara o Catholicismo : «Desde Carlos Magno, diz Lerminìer, 
accentuara-se o costume de considerar uma grande parte dos povos e 
dos estados da Europa comò estreitamente unidos, e a reconhecer no 
meio das diversidades nacionaes alguma cousa de commum.i' Estes 



1 Comte, Sytùme de PóUtigue positive, t ni, p. 512. 

* LUroductian generale à VHiatoire du Droit, p. 148. Ed. BmxeUes, 1886. 



6 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

caracteres communs eram a occidentalidade, que come9aYa a revelar-se 
desde que o oonliecunento da jnrisprudencia romana era coltivado nas 
cidades livrea por individuos insolados; a quem a sociedade cercava 
das masimas considera^Ses, e para quem os nomea de Mestrea e Dau- 
torea antecederam toda a diaciplina de um profeaaorado. 

Na tranais^o do regimen catholico-feudal aa Cidadea livrea ele- 
geram oa aeua preaidentea, ligaram-ae em pactoa federativoa, maa na 
aua aapira^So de independencia deamembraram-ae em corporaySea, 
irmandadea e germaniaa, em um individualiamo de claaae, e egoiamo, 
que aa fez cahir ji aob a t}rrannia doa proprioa chefea^ comò aa tyran- 
nìaa gregaa e italianaa^* ji aob a dictadura monarchica. Aaaim o pro- 
blema do proletariado foi afaatado da aua 8olu9to naturali pelo empi- 
riamo de urna concentraySo monarchica no acculo xv, e a tranaforma- 
gSo do regimen catholico-feudal^ na revolu9So do Occidente apreaentou 
um aapecto accentuadamente montai. É por iaao a hiatoria daa Uni- 
veraidadea uma obaervajSo d'eate aapecto eapecial da ciiae que vem 
deade o acculo xn. A deacoberta da Logica de Ariatotelea exerceu na 
ordem eapiiìtual uma ac9So emancipadora, comò a daa Pandectas na 
reorganiaa9&o do Poder tempora!. Oa varioa tratadoa que conatituem 
a Logica ariatotelica com o nome de Organum vulgariaaram-ae no ac- 
culo XI, dando logar & actiyidade metaphyaica doa Ontologiataa, que 
aobre uma phraae do commentario de Porphjrio, eatabeleceram a fer- 
voroaa querella do Nominaliamo e Realismo, que no fundo ae reduz 
ao problema paychologico do criterio objectivo e aubjectivo relacionadoa 
por ELant aobre oa trabalhoa da eachola eacoaaeza. A obra do Ariatotelea 
oontrapoz-ae em auctoridade i Biblia, e a Egreja receiou diminuir-ae 
o aeu poder chegando a prohibir o aeu eatudo. A corrente doutrinaria 
do ariatoteliamo era forte, e irrompeu por todaa aa eacolaa; a obra do 
philoaopho era commentada por Alberto Magno ; e S. Thomaz de Aquino 
explicava aa partea maia difficeia. Durante toda a lucta inteliectual de 
diaaolufSo da ayntheae theologica, aempre o ariatoteliamo foi o ponto 
de apoio da razBo, aervindo tambem oa que combatiam pela fé, corno 
ae ve no enaino exduaivo da philoaophia peripatetica pelea Jeauitaa, 
e na livre critica doa Proteatantea. 

No eatudo de Barthelemy Saint Hilaire aobre Ariatotelea, attri- 
bue-ae a aua profunda influencia na Europa ao caracter encydopedico 
daa Buaa obraa.^ NSo era aó pela diveraidade doa tratadoa aobre oa 
phenomenoa aatronomicoa, phyaicoa, organicoa, paychologiooa, politicoa 



1 DieUamdrt d$$ SdeMCi phUoiophigueif vb.* Arìatote. 



INTRODUCgiO 7 

e moraes, que a ac{So de Aristoteles sobre a intelligencia europea se 
exercia de nm modo emancipador ; era principalmente pela nova synthese 
que trazia à consciencia humana. A synthese theologìca baseava-se 
Bobre a Chraga, a grande theoria e doutrina sustentada por S. Paulo, 
com que a Egreja se separou dos philosophos gregos e alexandrinos, 
e a essencia de todos os dogmas do catholicismo; a synthese aristo- 
telica baseava-se sobre a Natwreza, immutavel nas leis que regem a 
materia, e da qual os corpos e as suas propriedades s8o manifesta98es 
contingentes. Era entro estas duas syutheses antagonicas, a do arbitrio 
divino e a da immutabilidade do fatum, ou das leis naturaes, que se 
dava o conflicto, em que o Poder espiritual tendia a dissolver-se em- 
quanto à cren9a e a reconstituir-se embora pelo processo egualmente 
subjectivo mas critico da metaphysica. A synthese de Aristoteles tinha 
side o resultado capital da civilisa9So hellenica no seu periodo mais 
elevado, da època atheniense do seculo v; comò conviria uma crea9&o 
d'està ordem a uma època rudimentar comò o seculo xn do fim da 
Edade mèdia? Ampère, filbo, explica lucidamente este problema da 
historia ao notar a tendencia encyclopedica da sciencia chineza: aAs 
obras encyclopedicas pertencem a dois periodos da vida dos povos, às 
èpocas primitivas e às èpocas muito adiantadas. Quando se sabe pouco 
sente-se anecessidade de tudo abranger; quando se sabe muito sente-se 
a necessidade de tudo resumir. Os primeiros livros dos povos contém 
a massa inteira dos seus conhecimentos, sob um envolucro poetico ou 
religioso, em uma vasta e confusa unidade. Come9a*se sempre por uma 
vista de conjuncto; depois, vae-se do universal para o particular; por 
ultimo, depois de ter estudado em detalhe cada parte do todo recon- 
strue-se esse todo que se tinha decomposto; e assim acaba-se por onde 
se tinha come9ado, pelas encyclopedias.i^ Para confirmar este facto 
basta notar comò o espirito das Encydopedias da Edade mèdia, The- 
9OUT0S e Imagena do Mundo, reapparece no seculo xvm, critico e ne- 
gativista, na Encyclopedia de d'Alembert e Diderot. 

No primeiro momento da crise de dissolufSo do poder espiritual. 



1 Ampère justifica o seu peneamento : «Aonde a sociedade é ao mesmo tempo 
nova e envelhecida, ponce avan9ada e muito atrazada, ignorante de muitas cousas, 
erudita em algmnas, eziste o duplo motivo para que as Encydopedias se produzam. 
Iato acontece na Edade mèdia. A Edade mèdia è uma crìan^a que nasceu velha : 
a caducidade da sociedade antiga està impressa na ingenuidade da sociedade nova, 
seu bei^o è nm sepulchro. A Edade mèdia è sabia nas suas faizas, e ainda no 
seio da sua ama morta, balbucia confusamente as cousas passadas. D*esta sciencia 
precoce e incompleta ezistem varias collec9oes verdadeiramente enoyclopedica8> 



8 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

• 

a Egreja nSo receiou que a sua auctorìdade, que {undamentava na Vvl- 
gaia, ou a Biblia traduzida por S. Jeronymo^ soffresse com a influeu- 
cia d'essa nova Vulgata das Pandectas florentinas, cujas varìantes col- 
lacionadas pelos jurisconsultos de Bolonha se fixaram no texto defini- 
tivo que mereceu esse nome com que é-conhecido na historia. Do se- 
culo xn em diante cometa a condemna9So ecclesiastica do Direito ro- 
mano, e S. Bernardo deplorava que lùesmo no palacio pontificai pre- 
valecesse urna Vvlgata sobre a outra, as Leis de Justiniano sobre as 
Leis de Deus. Os Concilios condemnam o Direito romano, e prohibem 
seu estudoy corno o de Reims em 1131; o papa Honorio prohibe em 
1220 esse estudo a todos os padres, chegando até a pdlo em interdi- 
9S0 na Universidade de Paris. Filhas d'este movimento de emancipa- 
9^0 intellectualy as mais antigas Universidades appresentaram na sua 
constituif&o oste dualismo : a Universidade de Paris distinguia*se pela 
superioridade do ensino da Theologia e da Philosophia, emquanto 
a Universidade de Bolonha prevalecia entro todos os povos pelas 
suas escholas de Direito. As duas Universidades tomaram-se os typos 
fundamentaes sobre que se crearam as novas Universidades do se- 
culo xm; na italiana, predominava caracter democratico, em que os 
escholares formavam uma classe autonomica, elegendo seu reitor e 
chefes, e principalmente os professores que tinham de os ensinar; na 
parisiense, o corpo escholar formava comò que um pequeno estado, em 
que OS escholares eram os subditos de um reitor com auctorìdade quasi 
soberana sobre eUes. A razlo d'estes dois typos, ligada ao movimento 
social, que coesiste, embora menos accentuadamente, na dissoluQSo do 
regimen catholico-feudal, està implicita na indole d'esses dois fócos da 
Civilisa^So Occidental no seculo xm; na revolufSo do Poder espiritual, 
os Papas nfto conseguiram fundar uma Realeza unitaria na Italia, e as 
Ligas federativas e cidades burguezas ou municipaes prevaleceram so- 
bre a organÌ8a9&o feudal. £m Franga a realeza franka tomada bere- 
di tana, caminhou para unitarismo submettendo a si os grandes vas- 
saloB, e creando uma concentragfto absoluta do poder tempora! que se 
tomou complèta sob Luiz XI. O grupo septemtrional das nagSes da Eu- 
ropa, que no seculo xvi se destacou do catholicismo, ji se tornava no 



pelo menos na inteu^So dos seus auctores, chamadas Thezouros, Imagens do 
mando, qae continham sob uma fórma j& allegorica, jà puramente didactica a 
Bumma dos conhecimentos de nossos paes. Como se cria em Aristoteles, na Biblia 
e algons antigos possuir todo saber, n2o se recuaya dlante de nenhoma obracom- 
pleta dt omni re ecibiU, e comò effectivamente o saber era Umitadissimo era fiicil 
bastante o contel-o ahi completamente.» La Science et le» LeUres en Orient, p. 66« 



INTRODUCglO 9 

secalo xm differente das nagSes occidentaes pela preferencia que Ihe 
mereceu o typo da Universidade de Paris, sobre que se modelaram as 
Universidades da Inglaterra e da Allemanha. grupo occidental.pre- 
feria typo democratico da Universidade de Bolonha, modelo das Uni- 
versidades do meio-dia da Franga, da propria Italia, da Hespanha e 
de Portagal. 

A lucta entro o Sacerdocio e o Imperio, emqaanto & parte tem- 
poral, e da Theologia com a Philosophìa emqaanto à parte espirìtaal, 
simultanea em todos os estados da Europa, reflecte-se em ama in- 
tensa actividade 'scientifica, artistica e philosophica primeiramente na 
Italia, na chamada Renascenga do secalo xm, e depois na Franga nos 
secoloB xrv e xv, imprimindo a toda a Europa urna similaridade de 
esforgos para a descoberta das condigSes da sjnthese moderna. Pre- 
valecem os dialectos vulgares sobre o latim ecclesiastico, e embora se 
admirem os exemplares da antiguidade, apparece urna nova idealisa- 
f2o dos dogmas sobre o ponto de vista humano na Divina Comedia 
de Dante; Boccacio, no Decameron, creando a prosa italiana, consa- 
gra a vida burgueza comò thema da arte nas situagSes pittorescas das 
suas novellas; e Petrarcha, fixando as fórmas capitaes do Lyrismo mo- 
derno extrahidas dos rudimentos dos trovadores provengaes, que ti- 
nham creado a egualdade perante o amor, dA a esse amor a expressSo 
philosophica, universal e humana, comò o presentimento da presiden- 
cia da affectividade sobre a intelligencia e sobre a acg^. A Italia tor- 
nou-se o fòco da enidigSo, da philosophia e das artes, Florenga uma 
nova Athenas, e esse paiz era visitado pela nobreza europèa e pelos 
principes, comò a G-recia o fóra pelos patricios de Roma. A Franga, 
que na crise mais laboriosa da transigSo da Edade mèdia, espalhara 
por toda a Europa as esplendidas consàrucgSes architectonicas da Ars 
francigena ou gothico; que distrahira a imaginagSo humana com as 
grandes Epopéas da lucta dos fortes vassalos centra a realeza carlin- 
giana, e com os poemas de aventuras da Tavola Redonda e do Santo 
Graal imitados em todas as^linguas modemas; que apaixonara todas 
as cortes com as graciosas cangSes dos trovadores occitanicos, e com 
as fargas e soties dos seus bazochianos, a Franga entregue à lucta da 
supremacia do poder tempora!, acceitou até ao seculo xvi a hegemo- 
nia da Italia emquanto à parte intellectual.' Depois de quebrada a au- 



1 Eicbom, na Historia da CimUtagào e da LiUeratura aj^presenta o segointe 
quadro da influenda da Franga no mondo moderno : 

•A Franga da Edade mèdia serviu de esemplo, primeiro do que ntnguem. 



iO HISTORIA DA UMIVERSIOADE DE GOIMBRA 

ctorìdade espiritnal da Egrejay a Antigaidade qae renascia tomava-se 
um ponto de apoio das consciencias; e conliecida a Antigaidade nas 
suas idéas moraes através dos Adagios de Erasmo, obteve esse livro 
ama universalidade corno a da Biblia. Foi em consequencia d'este per- 
stigio que se formoa o preconceito de qae a Edade mèdia fóra am longo 
retrocesso da civilisajSo; os espiritos philosophicos, descontando o 
abaio prodozido pela incorpora(&o dos povos germanicos na Civilisa- 
9S0 Occidental, restabeleceram facilmente essa pretendida S0IU9S0 de 
continoidade com passado, comò se ve em Mackintosh, am dos re- 
presentantes da eschola escosseza. . ^ ^ ^ 

A idèa de Mackintosh acha-se no primeiro Ensaio das Consvàe- 
ra^es sabre a Hùtoria da Philosophia, pablicado na Bevista de Edim- 
barge em 1816, malto antes de Angusto Comte come^ar a elabora9So 
do Curso de PhUosophia positiva; transcrevemos as palavras do illus- 
tre philoBopho escossez : cEm geral, fala-se da Edade mèdia com maito 
desprezo. A inactivìdade do espirito hamano nSo foi aniforme em to- 
das as partes d'este longo periodo. Durante os secalos de trevas que 
decorreram desde a queda do Imperio do Occidente até ao secolo xm, 
08 algarismos arabes foram introduzidos, papel come90U afabricar-se, 
a polvora e a bussola foram descobertas. Antes do fim d'està època, 
a pintura a eleo, a gravura e a imprensa vieram terminar està serie 
de inyen98es, que nenhuma outra egualou quer em belleza, quer em 
utilidade desde as primeiras invensSes que acompanharam o nasci- 
mento da civilisafSo e que por consequencia precederam a historia. 
Estas descobertas nos provam que entSo existia tambem alguma acti- 
vidade intellectual e alguma emula^So, e è duvidoso que nos seculos 
seguintes espirito humano prestasse mais servifos à sciencia, do que 
quando preparou sólo que era preciso cultivar fomecendo-lhe novos 
melos de inye8tiga9So. NSo se pode duvidar egualmente, que nos se- 
calos xn e xm, as faculdades intellectuaes do homepi tomaram, em 



aoB poyos modemos. Do Mediterraneo ao Mar Baltico, imiton-se a sua cavallaria 
e 08 seus torneios. Sobre urna metade do globo £alla-Be a Bua lingua, n2o sómente 
na Europa christS, mas até em Constantinopla. Na Moréa, na Syria, na Palestina 
e na Uba do Cbypre, os menestreis percorrendo de um para outro paiz, vnlgarisa- 
vam OS seus romances, fabliauz e cantoB ; elles cantaram nas cortes, nos daustros, 
nas cidades, nas cabanas. — Por toda a parte as suas poesias foram toraduzidas e 
serviram de modelos; a Italia e a Héspanba imitaram os poetas francezes do sul; 
a Àllemanha e os poyos do Norte, imitaram os poetas das provinciafl septemtrio- 
naes : finalmente a propria Inglaterra, durante muitos seculos, e a Italia, durante 
alguns tempos, rimaram no idioma do norte da Franca.» 



INTRODUCgÀO 1 1 

loda a Europa, ama nova dir6C98o. N'esta època vèmos renascer o 
eatudo do Direito romano, abrirem-se escholas philosophicas, a poesia 
coliivada nas lìngaas modemas na Sicilia, na Toscana, na Provenfa, 
na Catalmiha, na Normandia, na Iglaterra, na Escossia e na Soabia. 
Da di^tancia em que nós as contemplamos hoje, estas sciencias pare- 
cem elevar-se repentinamente em paizes muito afastados una dos ou- 
troB, e em ama època em que as na93es estavam prìvadas de com- 
munica$8es entre si. As inyestiga93es relativas à origem das differen- 
$88 que existem entre instituijSes e o caracter das na$8es, differenQas 
que sSo tambem sensiveis na Europa, tém levado os sabios a estudar 
com interesse as fórmas de governo, as leis e os costumes da Edade 
mèdia.» ^ Quando Mackintosh escrevia estas conBÌdera93es, vulgarisa- 
va-se na Europa a eschola romantica, que se inspirava das tradifSes 
cu da renascen9a artistica da Edade mèdia, que o philosopho tambem 
caracterisou comò um meio de fazer prevalecer nas litteraturas o ca- 
racter nacional. So mais tarde è que come^ou o estudo philologico, 
crìtico e historìco d'essa grande època de transforma9So organica, 
com Raynouard, Diez, Beker, Paris, Didron, Grimm, e tantos investi- 
gadores de primeira ordem. NSo houve uma rigorosa soIufSo de con- 
tinuidade com a civilisa^SLo greco-romana: a politica unitaria de Roma 
foi procurada no ideal do Imperio, que os reis germanicos queriam fa- 
zer reviver; os codigos romanos conservaram-se em vigor, comò o de- 
monstrou o illustre Savigny e foram imitados nos codigos barbaros; 
mantiveram-se os munìcipios e os bispos apoderaram-se do systema 
adminiatrativo romano, fizeram-se defensor civitatia; mesmo na reli- 
gìlU>, corno o provou Beugnot, o polytheismo greco-romano persistìu 
na parte cultual do cbristianismo, e a lingua latina usou-se sempre nos 
cantos populares corno se ve pelas collec93es organisadas por Du Mé- 
ril, e nos mais antigos hymnos da Egreja. Semente houve S0IU9S0 de 
continuidade na ^labora^So scientifica iniciada pela Grecia, que so re- 
comefou na Benascenfa; espirito moderno desviado para a contem- 
plafSo mystica, ficou na apathia montai de que so conseguiu sair de- 
pois da invasSo dos Arabes, que trouxeram todas as acquisÌ93es scien- 
tificas da Grecia e as puzeram em circula9So. Desde a entrada dos 
Arabes na Europa come9pu conflicto entre catholicismo e a scien- 
da accular, recome9ando a actividade mental e criterio da observa- 
9I0 e da ezperiencia no seculo xvi. 



1 Mdangta pkUaeophiquea, p. 41. (Tirad. L. Simon.) 



12 HISTORIÀ DÀ UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Nas luctas do romantismo em Fran9a, Philarète Chasles escrevia 
Bobre a importancia historica da Edade mèdia, em 1829: a E um pe- 
rìodo de convulsSo e de regenera$So, que sob o nome de Edade mé- 
dia; tem sido alvo de accusagSes bem frivolas. Borrasca fertil, tem- 
pestade necessaria, que revolveu todos os elementos sociaes, para dis- 
pol-os e animal-os com uma vida nova. Dirìeis a fbrnalha ardente onde 
tudo se acha em fusSo. E alli que se elabora a sociedade moderna. 
Todas as descobertas às quaes devemos a nossa superìorìdade incon- 
testavel datam d'estes dez seculos, taxados de barbarie e de ignoran- 
eia. Os nossos antepassados nSo egualaram nas artes de imagina9So os 
povos felizes que os precederam. Comtudo, sob està relajSo tém ti- 
tulos que os impSem. Quem passou debaixo das abobadas da cathe- 
dra! de Colonia, sob as arcadas de Westminster, em Londres, que nSo 
ficasse penetrado de admira(So pelo genio que talhou estes blocos e 
dispoz essas florestas de pedra?» Sob o ponto de vista architecto- 
nico, Daniel Bamée, exaitando o valor historico da Edade mèdia pela 
importancia das suas crea95e8 artisticas, concine: «Estava reservado 
aos estudos historicos do seculo xix, que tomaram t2o felizmente uma 
direc9&o eminentemente nacional, o fazer-nos conhecer a vida activa 
e cheia de intelligencia das na95es europèas da Edade mèdia.»* Os 
eruditos especialistas chegaram a descobertas evidentes sobre as ma- 
nifestagSes parciaes da cultura d'este periodo erradamente denominado 
trevas sem nome; faltava ligar està edade progressiva à continuidade 
historica da marcha da CivilisaySo humana, comò uma transigalo entro 
mundo antigo e o mundo moderno. Para iste nSo bastavam as in- 
vestigagSes historicas; era preciso mais, uma philosophia, que baseada 
sobre factos verificaveis, estabelecesse a continuidade entro elles, es- 
colhendo os que foram pelo seu caracter positivo impulso para o fu- 
turo advento dcestado normal da Humanidade. Està concepySo de Comte 
foi ^ base segura para a constituig&o de uma Sociologia, sciencia nSo 
presentida, pela descoordenajSo de idèas dos historiadores eruditos 
mas especialistas, nem pelo espirito anarchico dos ideologos politicos. 

A disciplina cultual e os dogmas theologicos do Catholicismo, 
comò sjnthese absoluta, tinham actuado na funda$So da sociedade mo- 
derna que, depois da queda do Imperio romano, e do advento das ragas 
barbaras, recebera da theocracia um systema completo de moral, e por- 
tanto as bases de uma nova ordem. E a grande època do regimen 



l Man. de VHìbì. generale de rArcMtecture, t. n, p. 6, (1843). 



INTRODUCgÀO 1 3 

catholico, que attingiu a decadencia, no momento em qae realieada a 
ordem, essa synthese absolata se achon impotente para promover o 
progresso e harmonisar-se com elle. A preponderancia do regimen catho- 
lico estava implicita na nega(So de toda a antiguidade greco-romana, 
porque a Egreja derivava as soas doutrinas de ama revelayHo acima 
de todos OS antecedentes historicos; d'essa negaffto resultara para a 
marcha da Europa uma interrup9So do espirito especulativO; scienti- 
fico e philosophicoi iniciado pela Grecia, e ama apathia mental diante 
da immutabilidade dos dogmas theologicos, que condemnava a liber- 
dade de pensamento comò uma heresia. Desde que pela actividade 
gaerreira, na lucta dos dois monotheismos catholico e islamico, os povos 
se approximassem, e se restabelecesse a solidariedade com o passado, 
corno se via com a Renascenfa arabe, a dissolu9So do regimen catho- 
lico era inevitavel, porque à Synthese absoli^ta da theologia centra- 
punha o espirito relativo, cujas observa98es se convertiam em scien- 
cia, e cujas applicaySes em praticas industriaes da actividade pacifica. 
E certo que o espirito relativo, embora se impuzesse opportunamente 
apoz o esgotamento theologico, nSo podia logo supprir a ac(&o disciplina- 
dora da Synthese absoluta; e se està era incompativel com o progresso, 
aquelle era impotente para fundar a ordem. Uma tal incongruencia, 
em que dia a dia o theologismo perde o seu destino social, e em que 
espirito relativo se especialisa nas Sciencias sem chegar & Synthese 
philosophica que subordine as intelligencias, um tal desaccordo consti- 
tue urna crise na Civilisa^So Occidental verdadeiramente revoluciona- 
ria, qae se prolonga ha jà ciuco seculos. Pela comprehensSo d'està 
crise e das suas differentes épocas é que se alcanna o nexo racional 
da hiatoria moderna da Europa. Augusto Comte, que definiu admira- 
velmente a marcha da dissolujffto do regimen catholico-feudal, que é a 
essencia dos factos resultantes da grande revolugSo occidental, accen- 
tua-lhe o caracter exclusivamente intellectual: «Para julgar sSmente 
uma tal revolu(&o, importa concebel-a sempre comò mais intdlectual 
do que social, nBo obstante o concurso necessario d'estes dois caracte- 
res em um movimento que deve terminar na regenerafSo total da hu- 
manidade. As duas ultimas tranBÌ93es (romana e medieval) tinham effe- 
ctivamente preparado a sociabilidade, ao passo que a cultura da intel- 
ligencìa ficira essencialmente suspendida desde a elabora^&o grega. — 
Deve-se pertanto considerar a revolu(So comegada no seculo xrv em 
todo o Occidente comò consistindo principalmente em renovar o en- 
tendimento humano pela irrevogavel substituijSo do relativo ao abso- 
luto. Sendo a revoluySo mais mental do que social, a anarchia theorica 



i4 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

ultrapassava a desordem pratica. AsBim via-se levada até a negar toda 
a auctoridade espiritual substituida pelo individualismo absoluto, corno 
a desconhecer toda a subordina9So encjclopedicai proclamando a es- 
pecialidade theorica.»^ 

A creagSo das Universidades no seculo xm resultou d'està crise 
mental, em que a inBtruc9So religiosa das Escolas das Collegiadas se 
alarga com um firn relativista e humano nos Estudos geraes. À histo- 
ria das Universidades da Europa està intimamente ligada às manifes- 
ta9($es fundamentaes da grande revolu9&o occidental; e cada època 
caracteristica da sua existencia nSo se explica bem pelas manife8ta98e8 
da sua vida interna, ou mesmo da politica do estado a que pertencCi 
mas sim pelos successos capitaes que accentuam a marcha revolucio- 
naria da Europa desde o seculo xiv até à grande crise franceza. 

Tambem pelo estudo das Litteraturas da Edade mèdia da Europa 
vìemoB a comprehender pelas suas similaridades e mutuas influencias 
essa unidade da Civilisa9So occidental, tSo desconhecida pelos politicos 
ideologos e pelos historiadores eruditos. Essa unidade, ou espirito de 
occidentalidade, é que nos fez comprehender no seu conjuncto a His- 
toria da Litteratura portugueza, libertando-nos dos preconceitos de uma 
orìginalidade ficticia procurada na idealisajSo dos escriptores, e deter- 
minando em vez de uma imita9So banal as correntes dominantes no 
gesto de cada època. 

Sobre oste aspecto da critica, escreve Littrè, sustentando a dou- 
trina historica de Comte: cSegue-se mal uma evolujSo isolada quajido 
se nSo sabe que todas estas evolu^Ses s3o solidarias. Jà se proclamou 
isto para a historia das sciencias, em que a dependencia è fìrisante; pò- 
rem nas lettras, por ser mais occulta, nSo è ella menos real. Na base 
da litteratura occidental acha-se o conjuncto das grandes composigSes 
francezas; recebidas pela Europa, ellas formam o elemento que exer- 
ceu a sua ac9So no desenvolvimento de cada litteratura. NSo é preciso 
apontar comò successivamente a Italia, a Hespanha, a Inglaterra, a 
Allemanha, a Franca actuaram umas sobre as outras ; basta evidenciar 
ao espirito a unidade essencial d'estas bellas Litteraturas do Occidente. 

«Se è isto verdadeiro na ordem litteraria, nSo o è menos emquanto 
& ordem politica; *e, se nSo è possivel de ora em diante escrever uma 
boa historia das lettras em um paiz sem ter presente ao espirito està 
unidade, nSo è possivel tambem de ora àvante escrever uma boa histo- 



1 Syathme de Politique positive, t. ni, p. 503 e sg. 



INTRODUCgÀO 15 

ria politica de uiq paiz sem ter presente ao espirito a unidade moral 
e material qae constitue a confedera9So europèa. — Toda a historia qae 
nSo for composta com està grande vista pècca essencialmente, pois qae 
nio poderi apreciar corno em cada època ama politica è boa^ grande, 
prudente cu ma, baixa ou insensata. — Assim urna mesma nogSo sape- 
rìor dirige a historia politica e a historia litteraria das najSes occiden- 
taes, e nSo è oste um dos menores fructos do estudo da Edade mèdia, 
ao achar n'ella a sua origem e os primeiros fundamentos.»^ 

A Europa da Edade mèdia apresenta na sua evolugSo historica, 
tanto moral corno intellectual, politica comò economica, urna surpre- 
hendente unidade, que deriva dos elementos persistentes da Civilisa- 
{So Occidental communicados is nacionalidades modemas pela cultura 
greco-romana. Existe urna doutrina moral com um caracter de univer- 
salismo ou catholicidade, mantido pela Egreja; existe um sjstema de 
educa$flo commum iniciado pelas Collegiadas e pelas Universidades; 
existe ama mesma lucta em todos os estados das fórmas aristocraticas 
ou feudaes centra as fórmas communaes ou democraticas; emfim, em 
cada paiz a vida locai do pagus alarga-se em urna unificajSo nacional, 
convertendo o trabalho da servidSo na livre industria, que veiu a pre- 
ponderar e a caracterisar a civilisa9So moderna. estudo da Pedago- 
gia em qualquer dos paizes da civilisagSo europèa apresenta as mes- 
mas épocas fundamentaes, as mesmas phases de tranBforma9So, eguaes 
Inctas entro o clericalismo e o humanismo. Seguir estes diversos pe- 
riodos, è esbojar a historia intellectual da Europa, quer nos seus gran- 
des fócos de acjSo, comò a Italia ou a Franya, quer em seus remo- 
tos reflexos, comò em Portugal. A historia da Pedagogia compre- 
hende a exposÌ9So progressiva das doutrìnas que se substituem, e ao 
mesmo tempo dos methodos que se aperfeigoam modificando o crite- 
rio. As doutrinas preponderantes acham-se intimamente ligadas & cor- 
rente dos acontecimentos que deram & Europa a sua e^tavel organisar 
920 social; OS methodos foram-se aperfeÌ9oando conforme as necessida- 
des da investigasse scientifica que veiu a prevalecer na actividade 
mental. Uma historia sobre assumptos tfto complexos nSo pode ser 
darà se nSo for dirigida por um ponto de vista synthetico ; nem a sua 
importancia sera verdadeira se se nSo dirigir a um destino pratico, vi- 
sando & disciplina e organisasSo systematica da InstrucsSo publica em 
qualquer dos paizes cooperadores da civilisa^So occidentah 



1 Little, Étude» sur Ics Barbares, p. 452. 




i6 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE GOIMBRA 

A historìa dos progressos da intelligencia na Europa faz-noa reco- 
nhecer uma evolaySo naturai na successSo das seguintes phases: pri- 
meiramente operou-se uma cultura esthetica, seguìu-se-lhe antes de 
tempo uma especula^So philasophica, vìndo por ultimo a preponderar o 
exclusivo trabalho scientifico. 

A Fran9a, na longa transi^fto da Edade mèdia, exerceu uma mis- 
8&0 dirigente comò fòco da cÌYÌlÌ8a9So occidental. Ella estimulon os es- 
piritos com a seducjffto artistica; da Franca irradiaram as can98es ly* 
ricas da Proyen9a para todas as cortes da Europa; da Fran9a se dif- 
fundiram as epopéas feudaes ou Gestas cyclicas propagadas desde a 
Scandinavia até à Grecia moderna; da Franca salram as corpora93es 
de obreiros que levaram os typos da Architectura, conhecida pelo nome 
de Ara frandgenay a todos os paizes. Emfim Paris tomou-se a Athe- 
nas do Occidente, indo às suas Escholas e Universidades buscar as 
novas doutrinas os espiritos superiores de todos os paizes, e trazendo 
para as suas nacionalidades o modelo da organisa9fto das Universida- 
des que se propaga da Allemanha até Portugal. A tran8Ì9So naturai 
dà cultura eathetìca para a e8pecuIa9lU) philosophica observa-se nos 
principaes pensadores do seculo xn e xm, poetas eminentes é simul- 
taneamente metaphysicos, comò S. Bernardo, S. Boaventura, Abailard, 
Dante, Petrarcha, Affonso.o Sabio; a actividade pAiZosopAica subordi- 
nada & theologia, por falta de elementos objectivos, cafu no vago da 
Metaphjsìca ontologista, afastando-se a intelligencia de uma necessaria 
inve8tiga9So scientifica. Este indispensavel impulso estava dado pela 
entrada dos Arabes na Europa occidental, que Ihe communicaram as 
doutrinas scientificas recebidas da civilisa9So da Grecia propagada ao 
Oriente. Havia entSo o conflicto das dtias verdades, a theologica e a 
scientifica, comò existia o conflicto das dtuis espadas, o poder espiri- 
tual em antagonismo com o tempora!, e a antinomia das diias cidadea, 
a de Deus ou a Egreja, e a terrestre ou a sociedade politica dos filhos 
de Caim. Apesar d'està perturba98o, que produziu a persistencia da 
inanidade metaphysica, o regimen scientifico transpareceu na actividade 
de Alberto Magno, de Rogerio Bacon e de Thomaz de Aquino. 

Està tendencia scientifica desenvolve-se progressivamente pelo 
contacto com a cultura islamica, e dentro do proprio ensino ecclesias- 
tico as disciplinas litterarias do Trivium (Grammatica^ Rhetorica e Dia- 
lectica) tomam-se ìnsufficientes, e até certo ponto desacreditadas, comò 
se ve pelo sentido das palavras trivicd e trimalidade; o Q^adriviuìn è 
desenvolvido no seu caracter scientifico (Ariihmetica, Geometria, Mu- 
sica e Astronomia) nSo so pela preponderancia da actividade indù- 



INTRODUCgAO 1 7 

strial, corno pelas proprias neoessidades cultuaes da Egreja, qae pre- 
cisava das nogQes astronomicas da Grecia para coordenar os actos li- 
turgicoB dinmos e annuaes na sua parte pnblica ou social. E n'esta 
8Ìtua$2o provocada pelo desenvolvimento politico da Europa, que o en- 
sino snbordinado & educa9So religiosa das Collegiadas, iste é, para 
aqnelles que se dirigiam exclusivamente para a vida ecclesiastica, se 
alarga tornando um caracter humanisia, com um destino secular nas 
Universidades. O systema hierarchico das Sete Artes, tal corno o con- 
cebera Felix Memor, alarga-se pela necessidade que a Egreja tinha de 
intervìr nos costumes publicos, e amplia-se com a Moral e com as Leis, 
bem corno com a Medicina. 

N'esta transi;So reconhece-se que os espiritos superiores, corno 
S. Boaventura e Raymundo Lullo, sentiram a necessidade de uma clas- 
sificagSo bierarcbica dos Conhecimentos humanos para regularisarem 
este enorme desenvolvimento do ensino, corno na època experimental 
sentiu Bacon, e na època critica ou endyclopedista d'Alembert, e 
ainda no seculo actual Ampère, Comte e Spencer. Tentarain, porèm, 
essa claBBÌfica$So sobre uma base subjectiva, segundo o funccionalismo 
psychologico. 

A medida que se especialisarem de um modo crescente as scien- 
cias concretas, comò se operou no fim do seculo xviii, nascerà a. ne- 
cessidade de uma classifica^So bierarcbica dos Conbecimentos humanos 
sobre uma base objectiva, ou dogmatica, estabelecendo-se a dependencia 
das doutrinas de uma sciencia para outra sciencia. Està terceira phase 
do ensino europeu ficou determinada pela funda9So do Instituto de Scien- 
das e Artes, pela Conven98o em 1795; falta ainda completalo pela 
sua sjstematÌ8a9So dogmatica, tal comò foi formulàda pela Philosophia 
positiva. 



BIBT. UN. 



2 



18 HISTORIA DA UMVERSIDADE DE GOIMBRA 

SCHEMA TTPICO DOS ESTDDOS HA EUROPA 

I 

Edade mèdia 

I. SoHOLAs naa Collegia-(*^ E^cholas tviscopaes (SeminarioB) e abbacÌMB (Feda- 
daa l gogias.) 

rTrMumì 1 ^"^ E9choUujuridiea8 (Corsos daa Artee) Dialectica, Rhe- 

( ± T%v%vmj I torica, Jurisprudencia. 

IL Faculdades (a) Estudo geral (com preponderancia pontificia.) 

(QuadrivùimJ (b) Univerndade (desenTolvendo-se sob o poder real.) 

Sa) Academias litterariaa (noB pa^os e entre a nobreza) 
— ^Tertulias. 
b) Academiaa scientifioas (com caracter pardcular.) 

II 

Rena8cen9a 

I. CoUegios de Artes (Reac^So jesuitica confundindo o ansino Becular com o cle- 

rical.^ Colle«OB jnnto das Universidades. 
II. Universidadea (Persistencia da inanidade dialectica — dÌ8sola9ao metaphjsica.) 



— Collegio de FRANgA, piimeira reac^o moderna. 

f — Desenvolvem a espc 
regimen poLTTsoHinco. — Museus e BibliotnecaB. 



III. Academicu particulares — Desenvolvem a eBpecula9do scientifica: Orìgem do 



III 

Depois da ReTolu9ào (1795) 

A)— Beglmen da eipeeialidade e de sjrBtenuitlMflo empirica 
, T • . (a) Kinder-^rden. 

1. iKBTBUCgAO FRIMABIA. . j^^j g^j^^ ^^^^ 

^a) Conservando o kumamsmo da Benaaoenfa: 
— LyceuB [Franca, etcì 
— G-ynmasioB [Allemanna) 
— Common Scnools (America) 

TI !«»—,,««-« -„.«,«..»,. ]^) Prevalecendo o caracter scientifico: 

n. iHBTEDcgAO BECUHDABiA^ _EnBÌno secundario especlal (Franca) 

— Beai scholen (Allemanha) 
— ^English high School (America) 
— EscnolaB induBtriaes (Portugal) 
^c) Mittelschuien (Allemanha) 

Ia) Com o caracter medieval e espedalmenU mdaphysioo: 
— ^UniversidadcB. 
b) Com caracter pratico e de applicagào : 
— Polyteclmicas. 
— CursoB especiaes. 

IFicaram de fora do quadro do Ensino, apesar de segui- 
rema mesrna bifurcagào : 
a) litterarias. 
E conservaram o caracter partimdar: 
— ^Assoda^oeB especiaes. 

B)— Begimea da generalidade e de lyitemaMiaylo philoaophioa ? 



""1 
1 



INTRODUCglO 19 

Na dÌBSola9Zo do regimen catholico-feudal, que caracterìsa a His- 
toria modema, a 8ub8titaÌ9fto da Synthese absoluta pelo espirito rela* 
tiYo do regimen scientifico, e a incorpora9Zo do Proletarìado na socie- 
dade, inieiam-se pelas Univeraidades e pelos Parìamentos, Embora mais 
intellectoal do que social, a grande reyola9So do Occidente; que vae 
do secolo XIV ao xyniy observa-se nas modifica98es que receberam as 
Universidades, e na eyolujSo das fórmas pedagogicas da InstrucgSo 
pablica da Europa, em que o ensino popular deriva da Dictadura mo- 
narchica e ensino poljteclinico é fundado pela Dictadura revoludo- 
naria da Conven9So. Determinam-se phases communs na historia das 
Universidades, por isso que a dissolufSo da Synthese absoluta do theo- 
logismo é a mesma em todos os paizes catholicos, e imia transforma- 
fSo do ensino das Poljtechnicas, pelo espirito dispersivo das espeda- 
lidades scientificas preconisado sob a anarchia theorìca simultanea com 
a grande crise revolucionaria. A necessidade de urna remodela^fto do 
ensino pela funda9So da hierarchia theorìca resultante da Synthese po- 
sitiva j& foi determinada na segunda metade do seculo xix. O que se 
pretende na Historìa da Universidade de Coimbra é chegar à determi- 
nagSo do moderno typo pedagogico em que se defina a synthese posi- 
tiva sobre que assentarà o estado normal da humanidade. 

SSo estes os contornos da marcha da Pedagogia na Europa; por 
eUes BC esdarece a complexidade de factos anómalos, corno a in&isten- 
cia do retrocesso huinanista dos Jesuitas, e a incapacidade dos refor- 
madores pedagogicos e parlamentares na organisa^So definitiva de um 
systema de Instruc^So publica. Diz Littré, proclamando a necessidade 
philosophica do criterio historico: cNada existe nas cousas sociaes que 
nio tenha a sua historia, e uma historia bastante importante para se 
oonhecer, se se quizer sair do puro empirismo e elevar-se pela intuisSo 
do passado à intelligencia do presente, & conducta que elle reclama e 
i previsSo que o futuro comporta.» ^ 

A Historia da Universidade de Coimbra, pela variedade dos seus 
desenvolvimentos progressivos ou regressivos, apresenta épocas chro- 
nologicas, que importa dividir para melhor comprehensSo da sua mar- 
cha e acgSo na intelligencia portogueza. Porém, essa divisSo nSo pode 
sor caraoterisada unicamente pela vida intema ou transformajSo do es- 
tabelecimento litterario, porque a Universidade, comò fórma de ensino 
e instituigSo pedagogica do firn da Edade mèdia, està ligada a teda a 



Fragmenté de PhUosophie positive, p. 185. 

2« 



20 HISTOBIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

marcba da historia moderna da Europa. Caracterìsando a trazuforma- 
9S0 que separa regìmen medieval do da Edade moderna, cada um 
d'esses aspectos, que vem desde come$o da dissolu^So catholioo-feu- 
dal até & Kevolu^fto, reflecte-ae na vida intema d'estas instìtaipSes pe- 
dagogicaa, que tanto actoaram no ideologismo politico do systema par- 
lamentar. Assim a fnnda^So da Universidade de Coimbra sorge do mo- 
vimento de emancipagSo intellectual, que come9a no seculo xni: 

Pnmeira època. (Seculo xm a xv) : Quando as Escholas das Col- 
legiadas se centralisam em Eschola geral, e Poder pontificai é sup- 
plantado pelo Poder real nas Uhiversidadea. 

Segunda època. (Seculo xvi e xvii): Quando, na crise religiosa 
e Crìtica do seculo xvi, Protestantismo provocando comò reac9Zo o 
estabelecimento da Companhia de Jesus, a Universidade fica sem des- 
tino, e cae sob a influencia dos Jesuitas, que a esterilisam pelo seu 
dogmatismo dialectico exclusivo. 

Terceira època. (Seculo xvm) : Prolongando-se a phase revolu- 
donaria no seculo xvm sob a fórma do negativismo philosophico, jà 
sob o Deismo e Atheismo sjstematico, em que a BevoIu$So é momen- 
taneamente tentada comò ac9&o de cima para baixo (poder ministerial), 
' a Universidade é reformada sob o influxo de Pombal, mas sem a com- 
prehénsSo philosophica que dominava, d^onde resultaram em seguida 
as persegnisSes aos seus principaes sabios. 

Quarta època. (Seculo xix): Depois da modifica^Bo dos estudos 
na Europa sob o influxo da ConvenySo, e ji sob o regimen das Car- 
tas outoi^adas, a Universidade perde caracter de corpora^So auto- 
noma (em quanto à parte administrativa), e em quanto & parte pedago- 
gica modifica-se SQgundo typo polytechnico. Desde entSo, conser- 
vando velho espirito dialectico, toma-se fòco da pedantocracia que 
serve o parlamentarismo; e por um espirito metaphysioo e rogimen de 
especialidade dispersiva, embaraya a realisa9Zo da Syntbese positiva. 

A falta de um criterio historico da parte dos legisladores e refor- 
madores da instruc^fto nacional, tem feito com que se copiem as 
organisasSes escholares estrangeiras correspondentes ao estado de ci- 
vilisasSo de outros povos, de modo que implantadas entre nós per- 
maneoem improficuas; ou, o que é peior ainda, entregam-se na sua 
actividade regulamentadora a falsas miragens de uma atrazada psycho- 
logia, attentando centra a evolu9So da natureza. Um dos principaes 
erros d'esses legisladores é partirem da analogia entre systema de 



INTRODUCgXO 21 

I 

m8tniC9SOy ou hierarchìa das disciplinas pedagogicas, e um edificio com 
8608 alioerceSy andares nobres e cùpulas; asaim imaginam qne a in- 
stnic^ primaria é a base essencial do ensino mèdio, e é sobre este 
alicerce qae procaram coordenar as disciplim» sùperioreB. Poro ab- 
sm^o; porque, se as verdades elementares so resaltam do desenvol- 
vimento graduai das doutrinas e theorias dogmaticas, é logico qne es- 
sas verdades so podem tomar-se objecto de ensino depois de comple- 
tamente comprovadas. E isto que racionalmente se comprehende, acha- 
se justificado pela historia do desenvolvimento da Pedagogia: o pri- 
meiro ensino pnblico na Europa foi exclusivamente superior, nas es- 
cholas das Collegiadas e nas Universidades, e d'elle é que foram gra- 
dualmente sendo derivadas as escholas populares, seguindo o caracter 
da sua proveniencia. Este importante facto historico, de um grande 
alcance pratico, aoha-se na propria evolu9So da Pedagogia em Portu- 
gal, e por elle nos devemos dirigir actuando nas reformas da instmc- 
^ popular e elementar em virtude das reformas effectuadas na in- 
stmc^So scientifica ou superior. Pode dizer-se que este é o primeiro 
principio da Pedagogia. 

£ ainda o criterio historico que nos mostra comò do ensino reli- 
gioso das CoUegiadcu se passou para o ensino das Universidades, corno 
primeiro esbofo de urna instrucfSo secular. Foi a reyolu9llo pro- 
funda da Pedagogia; porque o ensino subordinado ao espirito religioso 
era prejudicado pela auctoridade dos dogmas, Immobilisava-se, e a in- 
telligencia do discipulo sempre em perigo de ser desvairada pelo livre 
exame e pela heresia entregava-se passivamente & imposijSo pedante 
dos mestres formtdada no celebre aphorismo Ipse dixit. As Universi- 
dades correspondem na Pedagogia moderna da Europa & preponderan- 
cia da auctoridade temperai na politica dos Estados; ellas foram urna 
creaySo da realeza, e ellas desenvolveram o direito romano comò ga- 
rantia dos dìreitos reaes. Esse espirito secular, que nasce nas Univer- 
sidades, acompanba a marcha historica da Europa, e manifesta-se no 
estado humanùticOf que com a primeira Renascen9a do seculo xm se 
propaga, vindo na segunda Renascenya do seculo xvi a predominar 
no proprio ensino ecclesiastico e a ser abrafado pelos Jesuitas, que 
com elle procuraram atalhar o ensino scientifico iniciado depois das 
descobertas de Galileo e pela livre crìtica das na98es protestantes. 
N'eata segunda phase pedagogica, a irrecusavel evidencia do facto 
scientifico sobrepoz-se i auctoridade do mostre, e o Autodidactismo 
comefou a estabelecer-se comò doutrina pedagogica, conduzindo para 
o conhecimento das condÌ98es psjchologicas. 



22 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

À antiga auctorìdade do mastre competia ama exagerada severir 
dade no enaino exercida a pretexto da disciplina, e corno estìmulo de 
urna faculdade passira a memoria. A coltura exclusiva da intelligenda 
e abandono desdenhoso do sentimento; deu às altas individoalidades 
da Edade moderna um carecter austero, duro, implacavel, comò o dos 
jurisconsùltos que serviram a realeza, corno o dos humanistas que se 
envolveram nas polemicas do protestantismo, e comò o dos litteratos 
que proclamando a egualdade cairam sob o terror da Beroluglo. So- 
mente as mulheres, pela sua inabalavel sympathia pela Edade mèdia 
oonservaram està necessaria preponderancia do sentimento, tio esque- 
cido na elabora9&o theorica e no conflicto industriai; e foi tambem 
pelo reconbedmento d'està parte affectira do nesso sér, que dirigira a 
edade medieval, que a Pedagogia moderna se transformou pela critica 
de Montaigne e Huarte, pelos esforgos dos Padres de Port Boyal, pelas 
intuÌ93e8 psychologicas de Rousseau, e pela bondade insondavel de 
Pestalozzi e Froebel. Michelet comprehendeu a importancia do senti- 
mento na renovafXo dos methodos pedagogicos, no seu livro Nos FUb; 
e sem a restituisse d'està for^ malbaratada durante a revolusSo mo- 
derna, explorada sem philosophia nos themas phantasistas dos litte- 
ratos que a desacreditaram, a revolu^So que ainda se prolonga afastar- 
nos-ha da Edade normal, em que a CivilisasZo humana assentari sobre 
esses tres elementos, que isoladamente produziram, o especulativo a 
civilisagZo hellenica, o activo a civilisasSo romana, e o a£fectivo a ci- 
vilisasSo da Edade mèdia. O criterio historico é fimdamental n'esta 
ordem de questSes, devendo ser considerado comò o preliminar de 
todas as considerasSes phUosophica» para a creagSo definitiva da Pe- 
dagogìa. 

Terminada a exposi^So das f órmas communs, que apresenta o en- 
sino na Europa, compete-nos appensar-lhe a causa da esterilidade daa 
refbrmas pedagogicas, que por mais especialisadas e pomposas se 
acfaam privadas de um ponto de vista synthetico, e sem ac9&o sobre 
o espirito publico. Comte poz em relèvo està invencivel esterilidade 
dos govemos, por isso mesmo que ainda se nfto acha instituido o novo 
poder espiritual que imprima direcsSo i conscienda moderna: cCon- 
siderada em quanto & sua base, a educa^So constitue sempre, pela sua 
natureza, a principal applicasse de todo o sjstema goral destinado ao 
governo espiritual da Humanidade. Nenbum systema tal nSo domi- 
nando realmente ainda, segue-se a impossibilidade de teda a educagSo 
regular, emquanto durar oste fatai interregno. Até esse tempo, a edu- 
casse religiosa ainda que excessivamente atrazada, permanecerà oomo 



INTRODUC0O 23 

a unica coherente^ apeaar da Bua deploravel influencia montai e a nol- 
lidade da sua ac9fto moral, rematando para de logo em urna activa des- 
moraliBa^So praticai ao passo que o inevitavel contacto do mundo abaloa 
08 frageis fundamentos de ama fé jà considerada corno ficticia. O que 
se chama educa^So secular nSo é senSo urna especie de bezuntadela 
metaphysico-Iitterariai matizada de vez em quando por um froixo yemiz 
scientifico, applicado sobre este velho fundo theologico, do qual mo- 
difica um pouco o caracter intellectual mas & custa da sua tendencia 
moral. NSo se tratar& a sèrio da questSo de regenerar a educa9Zo, pu- 
blica ou prìvada, emquanto uma nova philosophia nSo tiver sufficiente- 
mente estabeleddo uma verdadeira syBtematisa9llo duravel das conce* 
p^Ses humanas.» ^. Existe derrogada a synthese theologica pelo espirito 
da relatividade scientifica sobre que assenta a civilisaffto moderna; 
nSo existe constituida a synthese positiva formada pela somma das 
verdades verificaveis e demonstradas accumuladas até hoje, para darem 
um novo governo espiritual & Humanidade. E na historìa do ensino e 
das corpora98es docentes que melhor se observa està insufficiencia 
mental, e é por essa mesma historìa que se podem deduzir o pensa- 
mento e intuito para as reformas pedagogicas. Comte poz em evidencia 
a importancia do ponto de vista historìco, quando na citada carta esta- 
beleceu o principio: a Se considerardes a Educa9llo emquanto à sua 
marcha geral, toda a sua theorìa positiva assenta naturalmente sobre este 
principio fiindamental: a educa98o do individuo; quer espontanea; quer 
mais ou lìienos systematica, reproduz necessariamentei nas suas grandes 
phases successivas, a educa9&o da especie, tanto em rela9So ao sen- 
timento comò em rela92o às ideias. Ora, segundo està regra incontes- 
tavel| nenhum plano de educa9Zo completa pode ser sabiamente con- 
cebido; emquanto a evoluffto goral da Humanidade nSo tiver sido suf- 
ficientemente reduzida a uma verdadeira theoria historica.»' Se a dis- 
solufSo do regimen catholico-feudal nos revelou os caracteros da ovo- 
lu^So pedagogica desde as Escholas das CoUogiadas até às disciplinas 



1 Testament, XXÌX Lettre, p. 283. 

^ Testament, p. 284. A totalidade dos planos de referma de Inatruc^i&o pu- 
blìca em Portugal resente-se da £alta de urna systematisa^io philosophica; e os 
trabaDios especiaes nio se elevam acima da critica do presente, prevalecendo 
sempre o ponto de vbta negativo. Comte julga com justeza toda està cathegorìa 
de trabalhos, que se mtdtìplicam som nada conseguir : «Ora està crìtica, emquanto 
desprovida de inten9oe8 organicas, ou ligada a muito vagos pensamentos de rege- 
nera^o, o que equivale quasi ao meamo, acha-se jà realisada, no que tem de es- 
sencial pelos nossos percursores voltairìanos.» 



24 fflSTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

especiaes das Polytechnicas, os elementos da synthese positiva por ella 
elaborados, nos revelarSo as formas pedagogicas necessaìrias a nm es- 
tado normal ou sociocratico. 

A gera^fto quo se achou envolvida na grande crise do firn do se- 
colo xviu, encontrou diante de si o problema fundamental da huma- 
nidade — a renovagJLo dos dois Poderes temperai e espirìtual, que se ti- 
nham esgotado sob a fórma do regimen catholico-feudal, e esse outro 
problema urgente, por longo tempo addiado pela compressSo da dieta- 
dura monarchica, — a incorporaySo do proletariado na sociedade mo- 
denia. O trabalho d'essa gera9lo teve de ser fatalmente negativo, apres- 
sando a decomposÌ9So do esgotado regimen pelo processo da realeza 
do direito divino, e pela abolÌ9So do culto catholico. Sem està simpU- 
fica9lo prèvia era-lhe impossivel reconstruir a sociedade humana em ba- 
ses que nSo fossem fic93e9 theologicas e privilegios pessoaes.Assim ficou 
proposto problema para a gera9So subsequente, herdeira de um tSo 
assombroso destino. Como o cumpriu ella? Nem mesmo comprehendeu 
a sua enorme responsabilidade perante a conscieiicia e»a histpria. Os 
elementos preponderantes do proletariado, que fizeram a Revolu^So, 
enriqueceram pelo reconhecimento do direito civil da propriedade, que 
a nobreza e o clero tinham immobilisado; tomaram-se ricos burguezes, 
imitaram as pompas heraldicas, e illudidos pelos ideologos que concilia- 
vam a monarchia e a religiSo, o throno e o aitar, acceitaram satisfei- 
toB as Cartas outorgadas pelos reis, que salvaguardavam aS suas dynas- 
tias e a religiSo do estado. 

É oste o papel historico da classe mèdia nos tempos modemos; 
occupada em manter-se no equilibrio politico do jyste milieu, nfto que- 
rendo ser perturbada no seu bem estar burguoz continuando na obra 
da reorganisa9So social, e temendo recuar ao pasjsado da servidSo fon- 
dai, contentou-se em revestir de perstigio as fórmulas do regimen re- 
presentativo, e esgotou-se na esterilidade palavspsa das fic$3es do par- 
lamentarismo. É da classe mèdia que tem saldo n'este seculo, apoz a 
RevolusBo, todos os talentos metaphysicos das escholas superiores, do 
jomalismo militante, dos parlamentos, dos ministerios, e depois de te- 
rem exercido a auctoridade discricionariamente, acabam por se senti- 
rem sem ac^So no meio social, sem poder moral, e verdadeiramente 
gastos. 

Appresentado assim o problema historico da Europa moderna, com- 
prehende-se a situagfto dos espiritos; uns lisongearam o conservantismo 
burguez na arte, na litteratura, no jomalismo, em todas as manifesta- 
{3es mentaes ; ontros presentiram a missSo revolucionaria, e serviram 



INTRODOCgiO 25 

esse ideal com mais ou menos clareza, com maior ou menor persis- 
tencia, mas comò se fosse urna SOÌU9S0 definitiva. 

O movimento socialista revelava a intuÌ98o da verdadeira missSo 
revolacionaria; mas facilmente foi explorado para excitar a resistencia 
de todos OS elementos coni^ervadqres, que para tado esterilisarem tam- 
bem simnlaram am socialismo do estado. problema da reorganisa- 
9S0 social nSo se resolve com o appello às paixSes, mas às intelligen- 
ciasy para determinarem as condÌ98e8 scientificas da sua realisa^fto. 

Emquanto se' desconheceu a r6la9lo da dependencia dos pheno- 
menos sociaes* para com os phenomenos de ordem biologica e cosmo- 
logica, nSU) era possivel constituir em sciencia a completissima varie- 
dade de factos que sSo modo de existencia das sociedades humanas. 
Estabeleceram-se essas rela93e8 de* dependencia, que vieram destruir 
a S0IU9S0 de continuidade entre mundo physico e mundo moral, e 
a sciencia da Sociologia avan90u para a sua piena constituÌ9Ìo. NSo 
ha pertanto nada de commnm entre os trabalhos dos utopistas, comò 
Rousseau ou E»urier, que formavam systemas sociaes sobre concepfSes 
subjectivas e gratuitas, com moderno processo positivo que substitue 
a imaffinagào pela observagào na descoberta de uma lei naturai que su- 
bordina a variedade dos facto» sociaes. A renova9So da Historia, no 
seculo XIX, veiu tambem facilitar a forma98o da Sociologia, porque pela 
historia é que se determina a continuidade humana, comò pela con- 
8Ìdera9&o das differentes épocas se descobre a natureza especial dos 
phenomenos sociaes que so podem ser bem comprehendidos sob o 
ponto de vista de conjuncto. Emquanto os phenomenos sociaes foram 
observados isoladamente, fora da importancia do seu conjuncto, crea- 
ram-se sciencias sociaes concretas e particulares, comò Direito, comò 
a Moral, a Litteratura, a Philologia, a G-eographia, a Archeologia, a 
Chronologia, a Estatistica, a Economia Politica, a Etimologia e tantds 
outros capitulos fragn^ntados e sem destino, em que se dispendeu uma 
actividade por falta de convergencia para a creaySo de uma sciencia 
geral e abstracta, a Sociologia. Bastava quadro d'essa deploravel 
actividade dispersiva, para se conhecer a opportunidade de uma disci- 
plina de unifica9So philosophica de conjuncto; a Sociologia corrige essa 
erudisco sem destino, aproveitando-se de todos esses elementos positi- 
vos para constituir-se em sciencia. Quem diz sciencia diz preuisào; so 
adquire valor e importancia scientifica aquelle phenomeno naturai ou 
moral capaz de conduzir a previsSés. A Sociologia conduzir-nos-ha a 
previsdes sociaes? Estamos convencidos que sim; e j& hoje se poderSo 
apontar grupos. de previsffea nas fórmas da actividade, affectividade e 



26 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

intellectoalidade sodai. Tal é o intuito da nova Bciencia. E corno a toda 
a premsSo saccede urna afplica^f isto é, a urna qualquer Sciencia oa 
theoria urna Arte oa pratica correlativa, tambem a Sociologia actuari 
de um mòdo proficuo na arte qae deriva d'ella, a Politica, dando-lhe 
o destino quo até hoje està arte empirica nSo soube achar para a sua 
intervenySo governativa, e na Pedagogia, dando-lhe um systema de 
concep^Ses duraveis, que desde a Edade mèdia &lta no ensino indi- 
viduai e publico. 



PEIMEIRA ÈPOCA 

(SECULO xin A xv) 



FDNDAgiO DA UNIVERSIDADE EM LISBOA. 
E SEUS ANTECEDENTES PEDAGOGICOS 



CAPITULO I 



EnslBO das Gollegiadas 



A tradi^JU) religiosa das Escholas episcopaes e abbaciaes : CóUegia compUalitia e 
CoHegia sodcUiiia. — Cabiscol, Chantre, Mestre-Escola e Mózinhos. — A Es- 
cbola episcopal de Coimbra (1086) ; o Collegio dos Santos Paulo, Eloj e Cle- 
mente (1266); a Escbola abbacìal de Alcoba^a (1269); Conezia magistral da 
CoUegiada de Guimar^es.-^ O que se ensinava nas Escholas das Collegiadas. 
— Os Clerici, e os BacheUur (bas cheyalier).^0 ensino orai e o Lente. — 
Desprezo pelas Artes liberaes e seu restabelecimento pelos Pontifices. — O 
Trìvium e Quadrivium. — As Escholas de Rhetorica, Dialectica e Philoso- 
phia corno prìmeiro mdimento das Universidades. — A licenciatura e a facul- 
dade ubiqut docendi.-^ Bibliothecas dos Bispos e Cabidos do seculo zin e ziv 
em Portngal. 

Ka Europa moderna o prìmeiro ansino popular fez-se nas CoUe^ 
giadas» E preciso lembrar que tanto a Egreja de Roma, corno as egrejas 
nacionaesi se fundaram entre essas corporajSes operarìas chamadas 
CaUegia compitalitia, e CóUegia sodalitia, cuja hierarchia do seu pes- 
aoal ae reproduziu na ordem ecclesiastica. A imitajfto d'estes CoUegios 
da antiga organisagSo municipal é que os fez radicar nas provincias 
do ImperìOi da mesma fórma que as rela98es da Egreja oom elles é 
que fez com que durante a Edade mèdia aa egrejas fossem o centro da 
▼ida civil do povo, e os bispos tivessem attrìbuiySes municipaes. A 
Egreja conservou os titulos prìmitivos usados n'esses CoUegios com- 
pitalicios; assim o nome de Irmios (fratres) ficou usado entre os no- 



28 HISTORIÀ DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRÀ 

V08 crentes, e os chefes da associagSo tomavam o nome de Mestrea e 
de Paee (Padre -Mestre, é o titulo de respeito entre os personagens ec- 
clesiasticos) ; as egrejas procoravam os seus protectores ou patronos 
nSo so entre a aristocracia, (padroeiros) corno entre os santos, corno os 
primitivos CoUegbs romanos. O logar das reuniSes dos associados col- 
legiaes era chamado a Schola, onde estava a capella, e onde se toma- 
vam as delibera93eB coUectivas. Algumas d'estas associa9Ses, corno o 
Collegio dos Mimos e AthletaB gregos, chamavam-se o Santo Synodo, 
que se conserva na Egreja do Oriente e nos concUios tn/nodaes do Oc- 
cidente. Os associados vestiam-se de branco nos dias de festa (a alva 
dos padres) e o£fereciam aos deused vinho e incenso, (ainda usado na 
missa e nas festas de egreja.) Fora da Schola sahiam em procissSo 
com as suas bandeiras (os guiòes das ceremonias catholicas); emfim a 
Egreja herdou a éncommenda9So das almas dos finados e o dar sepol- 
tnras aos seus fieis irmSos, corno as Columbaria romanas; os banquetes 
usados nas encommendafSes d'estes CoUegios ficaram tambem no cos- 
tume dos Bodos aos pobres e nas oblatas de comestiveis nos enterros, 
e ainda nas estréas no primeiro dia do anno. 

A Egreja formada por ecdesiolas, qne imitavam a organisafXo dos 
Collegios e das Columbaria, adoptou a caixa das esmolas para os de- 
votos; e differenciando-se d'essas corpora93es pela sua propaganda doa- 
trinaria, a Schola tomou o sentido que hoje tem, de um logar onde se 
ensina. Tertuliano contrapondo a Egreja a essas a880cia98e8y insiste 
no seu intuito docente: cAs nossas quotisafSes servem para dar pio 
aos pobres e a sepultal-os, e edticar os orfàos dos dois sexos, e a soc- 
correr OS nossos velhos.» Tal é a origem da Eschola das Collegiadas, 
que se perdeu quando a Egreja se tomou aristocratica, ficando apenas 
com titulo honorifico do Mestre-Eschola^ ou de Cabiscol (Caput Scho- 
Ise) dos documentos medievaes. 

Viterbo, no Elucidario, explicando o vocabulo medieval Cabiscol, 
allude a um documento de venda de 19 de Janeiro de 1139, em que 
figura comò testemunha Mito Cabiscol j e produz um texto das Partidas 
de Affonso o Sabio: cE algunas Eglesias Cathedrales son, en que y 
a CabescóUs, que han oste mesmo officio que los Chantres. E Cabiscol 
tanto quiere dizir corno Cabdillo de el coro, para levantar los cantos.» 
{Partida i, tit. 6, liv. 5.) Em Portugal estas fundagSes apparecem 
junto das Collegiadas, tendo sido estabelecidas pelos bispos e abbades 
para educajSo dos Mózinhos, ou crian9aB destinadas & vida clerica!, e 
muitas vezes com um caracter de beneficencia. 

Os Mózinhos pertencem a essa classe de criangas offerecidas aos 



ENSINO DAS G0LLE6IADAS 29 

conventoB corno oblatas religiosas, costume quo teve inicio com os mos- 
teiros benedictinoB; da necessidade da sua educafSo nasceram as es- 
cholas abbaciaes e mesmo as parochiaes e episcopaes. Em um manu- 
acrìpto do secalo passado sobre a Familia dos Fejjós, da Galliza, ao 
falar-se de D. Fernando Giraldez Feijó, de 1390, se lè: cEn aquel 
tiempo se osaba que los caballeroB daban à criar j ensefiar jbub hijos 
& los monjes de los monasterios, e de ellos eran defensores.» ^ 

O bispo Dom Paterno fonda em Coimbra, em 1086, junto à sé ou 
egreja de Santa Maria, um Collegio ou Seminario de Mo$08, onde se 
educavam rapazes «para receberem o grào do^presbyterio^ e quiz que 
vivessem com communidade segando a regra de Santo Agostinho.» ' Evi- 
dentemente a primeira organisa98o do ensino visava exclusivamente & 
disciplina ecclesiastica, postoque se ampliasse depois aos que o dese- 
jaBsem'aproveitar. O abbade de Alcoba$a D. Frei Estevam Martins, 
ftmda em 1269 no mosteiro de Santa Maria oò estudos de Grammatica 
de Logica e Theologia fiad communam utilitatem monachorum nostro- 
rum,^ àccrescentando que ficam accessiveis a quaesquer outras pes- 
soas. caracter caritativo das primitivas Scholoe acha-se no Hospital 
de Sam Paulo, que por 1266 se converte no Collegio dos Santos Paulo, 
Eloy e Clemente, onde o bispo de Evora e Lisboa, D. Domingos Jardo 
institue ensino para dez capellZes, vinte mercieiros e seis escolares 
de latim-, grego, tfieologia e canones; e tambem no Collegio dos Meninos 
arfaos fundado por D. Beatrìz, mulher de D. Affonso ili. 

Da Eschola da CoUegiada de GhiimarSes falla o auctor das Me- 
morias resusUadas, corno estabelecida no tempo de D. Sancho ii: cFoi 
mais estabelecido que se apresentasso na CoUegiada um mostre que 
desse ligio de Grammatica^ e que se pedisse a Sua Santidade a pri- 
meira prebenda que vagasse, e que emquanto nSo vagasse se tirasse 
de todas as mais uma porgSo para o leitor da dita Granunatica; que 
resultou haver para a conezia magistrale e por se nXo querer occupar 
Bea successor a Vèr Maral, dà uma pensSo aos religiosos de S. Domingos 
para elegerem um padre que a venba dar nb capella de S. Paulo, si- 
tonda no clauBtro da real CoUegiada. Està eschola se ordenou em tempo 
de D. Sancho u.» 

A infloencia franceza, que se propagou a teda a Europa pela fim- 
da$So das Universidades, foi anteriormente communicada pelos bispos 
francezes que em Portugal govemaram as sés do novo estado. Na in- 



1 ELogio del P. Feijó, p. 47; apud Bibliot. gallega, t. zn. 

2 Brand2o, Manarèh. IfiHt,^ P. m, liv. vni, cap. 5. App. Escrìpt. m. 



30 HISTORIÀ DÀ UNIVERSIDADE DE COIBfBRA 

Bufficiencia dos estudos das CoUegiadas, alguns alonmos iam a Paris , 
corno se sabe pela lenda de Frei G-il de Santarem; ama carta de doa- 
9S0 de Dom Sancho i de 1192, concede ao mosteiro de Santa Cruz 
de Coimbra a preBta98o de 400 morabitinos «para snstentay&o dos co- 
negos do dito mosteiro que estudam em cu partes de Ffwn/ga. . . »^ Nas 
can98es satTrìcas do Cancioneiro da Vaticana, allude-se ao trajo ao oso 
de Mompilher, que figurava em Portugal, muitas veses sem se ter saido 
da patria. nome de dericus, que em toda a Edade mèdia se ampliou 
ao homem que sabia lér ou recebera um qualquer rudimento de in- 
8truc$&0y tambem teve nos antigos documentos portuguezes o mosmo 
sentìdo, restringindo-se depois ao que entraya nas ordens ecdesiasticas. 
Elucidando a palavra Clerigo, diz Viterbo : 

cDeu-se oste nome aos sacristSes das egrejas, que andavam na 
casa do Parocko aprendendo cu primeiras letras e ajudavam & missa. . . 
Estes pequenos derigos, no Concilio de Mérìda, cap. xvm, se cha- 
mam Clerici parochianum, E porque os Parochos os deviam ensinar 
as primeiras letras e bons costumes, se disseram tambem Clerici scho- 
lares» Eni os nossoa antigos documentos se intitularam Mózinhos ou 
Monginkos pelo particular vestido ou sotana e pela modestia e gravi- 
dade com que se portavam na execugfto do seu ministerio.» (Elttcid. 
vb.^ Olebigo, vi). Aqui temos clerigo com o sentìdo em que nos 
apparece em todos os documentos da Europa da Edade mèdia; ha- 
bito clericali que era a toga dos pbilosophos antigos adoptada pela 
egpreja, conservou-se nos estudos da Universidade de Coimbra comò 
imita9&o das outras universidades. Antonio Diniz da Cruz e Silva, no 
poema heroi-comico O Hyssope, allude ao habito de estudante : 

OUia que succedeu ha pouco tempo 

Ao charlatfto do Medico Peqneno 

Que a habito perpetuo de eHudante 

Foi de Esculapio em junta condemuado. . . 

(CaHT. TX.) 

As Universidades nunca perderam a sua primordial feiglo de de- 
ricatura. Em urna nota comtemporanea do poema se 18: cUsou sem- 
pre do antigo vestido de capa e volta, que jà entSo estava em desuso, 
vestindo-se geralmente os medicos comò os outros seculares. A iste se 



1 Doc ap. D. Nicol&o de S. Maria, Chr. dos Con. Regr.^ P. n, p* 58. 



ENSINO DAS GOLLEOADAS 31 

refere o poeta quando falla no habito escholastico.» (Ed. Hyssope, pag. 
450). Diz o proverbio popolar apodando o trajo clerica!: 

Medico de Valencia, 
Muitas fraldas 
E pouca sdencia. 

O nome de dericus, contraposto com todo o orgnlho escholar ao 
de Udcus, era na Edade mèdia a designagfto de urna classe constitoida, 
que monopolisara em si toda a doutrina theologica e philosophica que 
se enainava sob a direc^So da Egreja. Desde que come^aram os esta- 
doB da Jurisprudencia romana, que motivaram a crea$So das Univer- 
sidades sob a protec^So secular dos reis, a dialectica nSo ficou um se- 
gredo e a for9a dos clerici, tomou-sQ tambem um caracteristico dos 
glossiatas, e o nome de docto ou dautor contrapoz-se ao de derigo ^^ si- 
gnificando um novo dominio do saber humano, constituindo ambos unaa 
nova aristocracia litterarìa, comò o dA a entender o sentido intimo do 
titnlo de Bachard (baechdear, bas-chevallier).^ O antagonismo no campo 
dotttrìnario conservou-se nas duas fórmas pedagogicas do Estudo geral 
e da Uhiversidade, em que predominava na primeira a auctoridade pon- 
tifical| e na segunda a auctoridade real, vindo a identificar-se os dous 
t^poB quando às Universidades foi ooncedida pelos papas a faculdade 
vbique decendi, tomada universa!, e n'ellas incorporada a theologia das 
escholas pontificias. 

A està parte da educaglo da Schola das CoUegiadas pertence o 
canto, dSU) so oonservado na tradÌ9So medieval das Sete Artes liberaes, 
mas tambam applicado às praticas do culto nas prosas, sequencias e 
hymnos da Egreja. nome de Chantre^ conservado hoje sem sentido, 
corresponde a este periodo da Pedagogia moderna. A Egreja seguia 
a corrente da civilisa9So hellenica, onde o ensino comodava pela mu- 
sica. Na linguagem architectonica, o limiar da egreja chamava-sejxxr- 
fjis, do nome com que se designavam as crian9as que frequentavam 
aquelle legar comò eschola'; o nome de derigo (derc) ficou durante a 
Edade mèdia com o sentido de instruido, que sabe ler e escrever. A 
missSo dos Bispos consistia, além da inspec$So da doutrina religiosa, 



1 Giudice, Storia della Ldteraiura italiana, 1. 1, p. 52. 

^ Qoicherat, na Eidoria do Cóàegio de Santa Barbara, transcrevendo a pa- 
lavra Bacheulerie, diz que ainda se n2o tinha formado a que a substituiu, Bacca- 
leaurtai, da fictida etTmoIogia da baga de louio. 

^ Thery; André, ^00 MaUree, hier, p. 78. 



32 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

no essino ; comò os Bispos se foram entregando às ambifSea secolarcfl 
em conflicto com os barSes feudaes, delegaram o Bea mister docente 
em um ecdesiastico, que recebeu differentes nomee, corno o de Capis- 
chele on Cahiscól, Mestre^Eschola^^ Chantre^ e Cancellano ou Chancdler. 

No Concilio de LatrSo, de 1179, sob Alexandre iii, estabeleceu-se 
que cada cathedral teria um Mestre-Esckóla, encarregado de ensinar 
OS rapazes pobres ; e que o bispo no seu capitulo trataria de provér ao 
ensino da grammatica e da theologia. 

NoB antigos documentos portuguezeS| citados por Viterbo, appa- 
rece-nos o nome de Cabùcol; na reorganÌ8a9So da Universidade por 
D. JoSo ni, (1537) o nome de Cancdlario conserva o seu caracter 
medieval nos Priores de Santa Cruz de Coimbra. Ainda no seculo xv, 
comò descreve o rei D. Duarte, o Chantre era essencialmeqte peda- 
gogo, e proprio monarcha apresenta no Leal Consdheiro um esbofo 
regulamentar d'essas escholas, a que em Franja se dava o nome de 
Chantrerie ou Cantorcdes. Na secularisa(So do ensino, as dignidades 
ecclesiasticas de Mestre-Eschola e Chantre ficaram de simples apparato 
parasitario, e ainda subsistem com oste destino. 

ensino das CoUegiadas e o das Universidade» correspondem a 
duas phases doutrinarias antinomicas entro si, e por isso incompletas; 
emquanto a Egreja dirigiu os espiritos, separou-os de toda a commu- 
nicayfto com as idéas da civilisasSo greco-romàna, renegando esse pas- 
sado esplendido da humanidade, e interrompendo a continuasse da 
actividade scientifica da Grecia. Na primeira organisasfto doutrinaria 
da Egreja, S. Paulo, na Epistola aos Corynthios, proclama: cPorque 
està escripto: destruirei a sabedoria dos sabios e aniquilarei a intelli- 
gencia dos instruidos. (Cap. i, % 19.) — Mas Deus escolheu o louco 
d'este mundo para confundir aos sabios.» (Id. f. 27.) Celso notou està 
ignorancia systematica explorada pelos primeiros evangeli sadores; e 
Tertuliano, no ferver da sua prégaySo exclama: cEu nBo ine dirìjo 
aos que s8o formados nas escholas, exercitados nas bibliothecas, que 
vem despejar diante de nós os restos mal digeridos de uma sciencia 
adquirida nos porticos e academias da Grecia.» Em todos os padres 



1 Tambem se dava o nome de Primicerio ao chefe da Eschola, tal corno ee 
acha empregado na escfaola episcopal de Beims no seculo xi, e em uma carta de 
Saint Remi. Os Bispos francezes que vieram a Portugal depois da independencia 

d'este Condado, aqui introdoziram essa deslgna^flo com a primeira organisa^ao 
do ensino que inieiaram. A influencia franceza toma a reapparecer na primeira 

niCtade do seculo xvi, estimùlando a grande gera^ So dos Quinhentbtas. 



ENSINO DAS COLLEGIADÀS 33 

da Egreja abundam as provas do desprezo que a nova religiSLo, qne 
dirìgìu 08 espirìtos no Occidente, nutria pela civilisaffio da Grecia; o 
pontifice S. Gregorio Magno reprehendia o bispo de Vienna, Didier, 
por ensinar grammatica: «Chegou ao nosso conhecimento iste, que 
nSo podemoB recordar sem pejo, que Vessa Fratemidade esplicava 
Grammatica a algumas pessoas. Recebemos desagradavelmente està 
nova, de tal modo, e sOmos mais vehementemente chocados, que o que 
primeiro f5ra repetido com gemidos se converteu em tristeza. Porque 
ae nAo tomarSo os louvores de Christo com os louvores de Jupiter em 
urna mesma bocca. Considerae quanto para um sacerdote é horrivel e 
criminoso esplicar em publico livros dos quaes a um secular piedoso 
nSo deveria permittir-se a leitura. NSo vos appliqueis mais aos pas- 
satempos e às letras do seculo.D^ Em uma carta d'este mesmo ponti- 
fice, que na sua Vida traz JoSLo Diacono, alardèa que na linguagem 
nSo evita nem os metadsmos^ nem os barbarismos, nem attende aos 
caaosj porque acha indigno que as palavras celestes estejam sujeitas 
Ad regras de Donato, ^ Està 80IU9&0 de continuidade com a cìviIÌ8a9SLo 
greco-romana produziu, a par da invasSo dos barbaros Germanos, um 
edipse da rasSo humana na Edade mèdia; por isso quando se resta- 
beleceu esse conhecimento elle foi propriamente denominado um Re- 
nBflcimento. A Egreja teve de luctar centra espirito secular que acor- 
dara ao estimulo das primeiras descobertas da civilisa98o da Grecia; 
essa communica98o fòra feita pelos Arabes, e por isso humanismo 
apparecia com um caracter heterodoxo, vindo mais tarde a ser ado- 
piade pela propria Egreja, comò se viu em Eugenio 11, e depois em 
Bembo e LeSo x, e nos elementos pedagogicos dos Jesuitas. 

Uma das principaes revoluySes do ensino europeu surgiu do acci- 
dente de uma descoberta industriai, a Typographia.^ Antes da vulga- 
risa^So dos livros, ensino orai suppria a deficiencia de um texto, e 
a palavra do mostre adquiria uma auctoridade moral enorme, de que 
a Egreja se aproveitou para a prèdica e para a universalidade da dis- 
ciplina religiosa. Com a abundancia dos livros," deu-se facto con- 



1 Ap. Rayuouard, Elemente de la Grammaire de la Langue romane, p. 14. 

2 8. Jeronymo falla com desprezo dòs instruidos nas letras antigas, chaman- 
do-lhes desdenhosamente eiceronianoe. 

3 Draper inclina-se & opiniSo que a Lnprensa, a Stampa, jà citada pelos 
Venezianos em um decreto de 1441 corno cousa usuai, è anterìor no Occidente & 
descoberta de Coster cu de Gutenberg. Hùt du developpemené irUeUectud en Eu^ 
rape, t. in, p. 140. 

HIST, UH. ^ 



34 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

trarìo; generalisaram-se ob textos dogmaticos em compendios, e os mes- 
tres diante da redac^So categorica e lac()nica das obras elementares, 
tomaram-se mudos, sem ac^So moral sobre a intelligencia do alomno, 
impondo-se apenas pela severìdade disciplinar, e esdgindo violencias 
da faculdade passiva da memòria. O ensino na època das OoUegiadas 
era na maior parte orai; na època da crea9So das Uniyersidadesi as 
glosas, as apostillas, os escholios, sSo a collaborasBo escripta do alumno, 
que collige todos os elementos doutrinarios da palavra do mestre. De- 
pois da descoberta da Imprensa os primeiros que substituiram o mestre 
pelo livro, foram os Jesuitas, e os que mais abusaram da memoria. 
Com o ensino scientifico, a necessidade do methodo experimental es- 
tabeleceu outra vez a communica9So orai com os discipulos; porém 
assim que essas disciplinas se foram tornando dogmaticas ou elemen- 
tareS| retrogradou-se ao ensino pelo texto escripto comò objecto ex- 
elusivo das li^Ses. Draper descreve a influencia do ensino orai n'esta 
pnmeira època da Pedagogia europèa, por occasiSLo da descoberta da 
Imprensa: clima profunda mudan$a produziu-se tambem no mundo 
da instruc$&o, mudanya que se fez sentir immediatamente no mundo 
ecclesiastico, e mais tarde no mundo politico. O systema religioso na 
sua totalidade suppunlia um publico que nSo Ha, e d'aqui a leitura das 
oragSes e o sermSo. No seculo xni a instruc9So orai predominava; no 
seculo XDC, ella desempenha uma parte secundaria. A inven98o da Im- 
prensa veiu dar imia temivel rivai ao pulpito. NSo devemos comtudo 
desconhecer o poder que exercia outr'ora um ensino orai e scenico so- 
bre um auditorio composto de individuos privados de leitura; etc.»' 
Augusto Oomte entrevendo uma phase normal na Pedagogia em 
que o ensino scdentifico seja dirigido por um espirito de conjuncto, ou 
philosophico, restabelece o ensino orai na sua importancia primitiva: 
cNo estado normal, os tratados didacticos devem unicamente dirigir-se 
aos mestres, através dos quaes deve sempre passar a instrucySo final- 
mente destinada aos discipulos. As leituras theoricas nSo Ihes convém 
Benito quando a sua educa9So estiver terminada; até entSo, o seu des- 
envolvimento scientìfico resulta de uma elaborafSo pessoal, esponta- 
neamente subordinada às lÌ93es oraes, unicas conformes com a dignì- 
dade dos professores. — E preciso essencialmente attribuir & anarchia 
moderna o habito de destinar livros aos discipulos, assim dispostos a 
desdenbar ou criticar os mestres segundo o conflicto de dois metho- 



1 Draper, op. cU., t m, p. 145. 



ENSINO DAS COLLEGIADAS 35 

dos de exposi^Bo naturalmente incompativeis.»* Estes dois methodos 
acham-se implicitos nas duas designa93eB pedagogicas jpro/sMor e lente; 
a BubordinasSo a um texto esoripto, escraviaou o espirito docente & ez- 
plica9So analytioa de formolas dogmaticas destinadas & memoriai corno 
86 obserya ainda hoje na Universidade de Coimbra, immobilisada na 
regaIamenta9So pombalina. D'està falsa idèa pedagogica resulta a ez- 
plora^So dos compendios offioiaes e a monomania chineza dos exames. 

A sabstitoifSo do systema escripto ao orai nfio se fez sem lucta 
da parte da Egreja; e essa lucta reflectiu-se por muito tempo na anti- 
pathia que a nobreza tinba pela letra redonda, e pelo orgulhoso alarde 
que fÌEtzia do seu analphabetismo. A nobreza apreciava-se pela antigui- 
dade^ e so era nobre o que pertencia a urna època em que se dispen- 
sava muito bem o saber lér e escrever. Diz JoZo Fedro Bibeiro. no- 
tando o analphabetismo do clero portuguez no seculo x^v: cEncontro 
por esse tempo constituÌ93es que obrigam os Parochos a entenderem 
ao menos Latim ao pé da lettra; mas yg<)-os frequentemente dispen- 
sados em Braga e Porto, comtanto que mostrassem ter estudado bem 
aignm Larraga d'aquellas éras. De sete conegos (n2lo conversos) de 
Hosteiro de Villa Boa, so o Prior sabia escrever.»' Vejamos a mesma 
tradisse na nobreza. 

Spencer, na IntroducqSo d Sdencia social, descreve o estado da 
educa98o na Europa, tal comò o vémos repetir-se em Portugal: cBe- 
montando bastante longe, achamos os nobres absolutamente analpha- 
betos, e, o que é mais ainda, cheios de desprezo pela arte de lér e de 
escrever. 9 Sa de Miranda, nas Cartas, allude a este estado da aristo- 
cracia para com: €Aj8 Utras — com que d'ardes tmham ffuerra^: 

DÌ2ein dos nesso* passados 
Que 08 mais nào saJbiam tir; 
Eram bons, eràm oosados, 
En n2o louvo o nSo saber, 
Como algons às g^^as dados; 
Louvo muito 08 seus costumes, 
D6e-me se hoje nSo sam tais, 
Mas, das letras cu perfumes 
Donde veu o dano mais?' 

Contine Spencer: cNo periodo seguinte a auctoridade anima froi- 



1 Synthese subftctiva, p. vm. 

^ Carta ao Arcebispo Cenaculo. (Ap. Boletim de Bibliographia portog., p. 12.) 

> Caria n, st. 4. Ed. MichaSlis, p. 206. 

3* 



36 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIBIBRA 

xamente 08 estudos que dizem respeito & theologia^ mas toda e qnal- 
qaer outra sciencia é altamente reprovada (Hallanii Middle Ages, e. ix^ 
P. 2.); estlo persuadidos, de resto, que o apprender so interessa aos 
padres.» É n'este periodo que se desenvolvem as escholas das Colle- 
giadas, ficando por bastantes secnlos os estndos sob a direcsSo dos bis- 
pos, e snjeitos & interven^So clerica!. Prosegue Spencer: cMais tarde 
ainda, asaltas dasses soletram mal entSo, e pensava-se em que ficava 
mal a uma mulher o saber lér. Shakespeare pintou um sentimento do 
meamo genero, quando faDa d'aquelles que consideram comò uma bai- 
xeza — o possuir uma boa letra. — Até uma època multo recente, mui- 
toB grandes proprietarios e gente rica d'està classe, nSo sabia Idr nem 
escrever. Depois de ter progredido durante uma longa serie de secu- 
loB tSo lentamente a instruc^So, em um so deu relativamente um passo 
gigantesco.» ^ A instituiy&o dos mórgados, em Portugal, prolongou oste 
analphabetismo dos grandes proprietarios. ' A causa do enorme pro- 
gresso da instruc^Ao publica no seculo xix nSo é apontada por Spen- 
cer, mas facto coincide com a concorrencia do ensino polytechnico 
ou scientifico substituindo o esteril ensino humanistico, prolongado além 
do seu tempo pelos jesuitas. 

Antes da funda{So das Universidades, comò o ensino estava con- 
centrado nas CoUegiadas e Abbadias, era por tanto entro a classe sa- 
oerdotal que existiam os homens mais illustrados. A aristocracia con- 
tinuava a tradÌ9Zo medieval da ignorancia, comò distinctivo heraldico; 
na comedia Atdegraphia, (fl. 43 y) ainda Jorge Ferreira de Vascon- 
cellos allude a essa situagSo tomada proverbiai: €MaÌ8 fidalgo é nSo 
saber ler.9 CamSes, nos Lusiadas, tambem verbera duramente este 
atrazo da fidalguia portugueza. ^ No seculo xm e xiv, alguns portu- 



1 Op. dt, p. 82. 

' Falcio de Bezende, em ama Satjra do meado do secolo xti, descreve està 
8Ìtaa92o: 

Mio fallo jà no nudi d« redondeE», 
Cà «m HOMO Portag»! principalmente 
Sangue e eaber, por yil metal m piéta. 

(Obkas, p. 978.) 

Inhabil na ohriiU Pbiloaophla, 

Porqne o pae, cego, e tendo por afiVonta 

Dia qne qnalqner firadinho iito labla. 

(la., p. 295.) 

> CamÒes nfto é menos severo com este analphabetismo ariatocratico: 

Emilmi aio boaye finte Oapitio 
. Qne nio ftww tamhem donto e •dente, 



ENSmO DAS C0LLE6IADAS 37 

gaezes frequentayam as Escholas de Paris e Montpellier, corno se sabe 
pria tradigSo de Gii Rodrìgaes, o typo lendario do Fatisto portugaez. 
No Candoneiro da Vaticana, vem urna allosSo aos trajos doatoraes de 
Montpellier, com que alguns individuos se appresentayam em Portogal 
na cdrte de D. Diniz: 

Mais yejo-lhl capello dTFltramar, 
e traj* al uso bem de MompUher. 

(CAHg. n.» 1116.) 

A Eschola de Montpellier fòra oonvertida em Universidade em 
1289, e por ventura a sua importancia incitou os prelados portoguezes 
a pedirem tambem a concessilo de um Estudo goral a KicoUo rv. 

NSo admira que ao fìindar-se a Universidade portugueza (de Lis- 
boa, e depois de Coimbra) o prìor de Santa Cruz de Coimbra e o 
bispo D. Domingos Jardo patrocinassem a nova instiCuÌ9So, conser- 
vando centra o seu espirìto secularìsador a feÌ9So elencai que nunca 
perdeu até hoje. ' mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, corno de- 
scsreve D. Nicolào de Santa Maria, tinha as suas escholas de tal modo 



D* Lada, (}reg* ou barbara na^lo, 
Senio doi Portugaoseiy tanutómente ! 
Sem Tergonba o nSo digo 

(Los., 0. T, UT. 96.) 

Ma» o peor que tado ó qae a ▼entara 
Tlo asperos os fèz e tSo anateros, 
Tio mdet e de engenbo tÌo remlaso, 
Qae a nmitoe Ibe dà poaeo oa nada d*lfao. 

(Ibidbm, 97.) 

1 No Bkòoqo hietoricO'liUerario da Fooddade de Theologia, o Dr. Motta Veiga 
fallando das rendas da Uniyersidade e da offerta de varìoB reitores e abbades para 
a sua dota9So, concine : «D*ahi vem tambem, crémos nós, a fsigào eoolesiaatioa 
que a Univenidade teve desdt o aeu principio, e que por. secidoa tem comervado, — 
/èigào que nera mesmo os EstcUtUos de 1772 poderam ou quizeram tirar^lhe; e que 
apegar das repetidas reformas desde 1886 por diante, ainda hqje transpareee em mui» 
tas e muitcts eousas.» A ansencia do criterio historìco no auctor do Esbo^o fel-o 
confimdir todos os caracteres das differentes épocas; a coopera^ das ordens re- 
figiosas corresponde a esse perìodo em que a Egreja acompanhou a nova crise da 
emancipa^ intellectoal; no secalo xyi jà os Jesuitas se apoderavam das Univer- 
ndades para contaminarem a corrente critica da Renascen^a. Porém no secnlo xym 
as idéas encydopedistas penetraram na Universidade, e a Ibeuldcule de PhUoso- 
pkia foi a introdnc^So do espirìto scientifico moderno na Universidade. 



38 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COUIBRA 

oi^nisadaB, qne toda a fidalgnia portugaeza mandava para alli ob 
filhoB para serem educados; os prìncipaes mestres do mosteiro iam 
aperfeiyoar-se a Paris. Quando a Univeifiidade foi tranfiferida para 
Coimbra, em 1537, ficou sob a dependencia do mosteiro de &mta 
Graz, cujos prìores tinham a dignìdade de CancellarìoB da UniverBi- 
dade, cabendo essa dìgnidade pela primeira vez a D. Bento de Ca- 
mSes, tìo do nesso grande épieo naeional. N'esta segunda època da 
Universidade predomina no ensino a tradi(So firanceza, da qual ob 
Gouvéas e Diego de Teive foram os eminentes representantes; d'està 
època proYÌeram os espiritos superiores do nesso secalo qoinhentistai 
corno CamSeSy os Silveiras; Antonio Ferreira e outros. 

Foi so em 1555 que a Universidade de Coimbra e as Escholas 
menores cahiram sob o dominio dos Jesnitas; d'està data em diante 
come9a a decadencia da int^lligencia e do sentimento naeional em Por- 
tugal, cnjos effeitos se viram em menos de trinta annos, na memora- 
vel data de 1580, em que Philippe ii se apoderou de Portugal. 

O ensino das Collegiadas tinha side fìindado exclusivamenle para 
aquelles individuos que se dirigiam às ordens ecdesiasticas; n'cBte in- 
tuito a Egreja, pela becca dos seus homens mais eminentes, condem- 
néra a communica9So com os monumentos litterarios da antiguidade 
greco-romana. Deu-se porèm na Europa um facto capital, a propaga- 
sse da sciencia e da philosophia da Qrecia pelos Arabes. O contraste 
entro a educa;8o elencai e a sciencia profana poz em evidencia a ne- 
cessidade de alargar a àrea dos estudos. Tal foi a causa por que ob 
bispos ampliaram o ensino a todos aquelles que tivessem vontade de 
aprender; e està revolu98o semi-secular no ensino, ainda assim foi de- 
terminada pelo poder temperai. Cabe a Carlos Magno a gloria de ter 
comprehendido està aspiraySo da sociedade europèa, aproveitando-se 
do contacto com a civilisa^So arabe no Occidente; no anno de 787 
dirigiu Carlos Magno uma circular aoB bispos para que fundassem ea- 
cbolas, dizendo-lhes: cNós temos considerado que os bispados e ob 
mosteiroB. • . alèm da ordem de uma vida regular e da pratica da santa 
relìgilo, devem tambem applicar seus cuidados a eminar os ótjectos das 
lettras dgwUes que pela graga de Deus podem aprender, segundo a ca- 
paddade de cada um; etc.» Carlos Magno allude n'este documento & 
ignoranda profunda que existia nos mosteiros, e condue corno arga- 
mento: cAqui està porque nós vos exhortamos nSLo semente para nSo 
desprezardes o estudo das lettras, mas tambem, em uma inten^So cheia 
de utilidade e agradavel a Deos, a rivalisar em zelo n'este estudo, afim. 
que poBsaeB penetrar mais facilmente e mais directamente os myste* 



ENSINO DÀS COLLEGIADAS 39' 

rio8 da Santa Escrìptura;. . . Qae se escolliam para està obra homens 
qne tenbam a vontade e a possibilidade de aprender, e o desejo de 
* ìnstruir os outros^ e que- isto seja feito sómente na piedosa intengSo 
com a qaal nós o ordenamos.» Era a corrente sectdar que arrastava a 
Egreja^ e a forgava a aproveitar-se da sua disciplina espiritual para 
imiversalisar a instrucgSo. 

Carlos Magno proseguiu constantemente no pensamento civilisa- 
sador, ordenando pela sua Capitular de 789; que junto dos mostei- 
ros e em cada episcopado se estabelecessem escholas de Grammatica^ 
de Calculo e Musica; ^ e à imita9ào dos kalìfas de Cordova^ o grande 
imperador fondava uma eschola no seu palacio^ corno se infere de urna 
alInsSo de Alenino. Multiplicaram-se as escholas por toda a Fran9a sob 
a direcgSo episcopale mas o espirito secular desenvol via-se, a ponto de 
mdividuos fora da Egreja acharem-se investidos com a auctoridade ma- 
gistral, e cooperarem inconscientemente para o apparecimento d'esse 
grande periodo de actividade mental que comefou com a Universidade 
de Paris, a qual serviu de typo em toda a Europa para està nova or- 
ganisasSLo pedagogica. 

Este periodo de transigSo do ensino clerical para o secular coin- 
cide com a proto-Renascenya, determinada pelo contacto com a ci- 
vilisag&o dos Arabes no seculo viu, e pela iniciativa genial de Car- 
los Magno. Apparecem entSo os Manegaud, os cavalleiros errantes 
da Bciencia que visitam as differentes escholas da Europa, sondo con- 
vidados para se fixarem nas terras, e recebendo episcopados em re- 
conhecimento da sua superioridade. Alguns d'esses cavalleiros, comò 
Gerberto, frequentam directamente as escholas arabes, d'onde trazem 
om mais adiantado conhecimento da mathematica, e o abaco. E entSLo 
que o Trivium, que comprehendia a Grammatica, a Rhetorica e a Dia- 
lectica^ se alarga com as Quadrilogias, ou sciencias positivas da Arith- 
metica. Geometrìa, Musica e Astronomia. A cultura da Medicina, em 
Montpellier, renova-se com a tendencia empirica dos arabes, sondo cul- 
tivada por alguns papas,| comò Silvestre ii e JoSo xxij. A velha di- 
vismo das sciencias, de Felix Memor, dò T\ivium e Q^adrimum, ' é 



1 J. J. Ampère, Hietoire littéraire de la France 80U8 Charles Magne, p. 26 
Ed. Didier. 

* Ozanan, Dante et la Philoeophie oatholique au zni siede, p. 71, ere està di- 
vìb2o de orìgem pythagorica; acba-a j& conhecida por Philon et Tzetzès, sendo 
vulgarìsada pelos escrìptos de CaBsiodoro e Marciano Capella. 

No romance do Dolopaikos, escripto entro 1222 a 1225, ao descrever-se 



40 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

alargada por Gerberto, corno o presentimento de urna organisagSo do 
ensino universalista. Para Gerberto a sciéncia é um todo unitario, a 
que elle dà o nome de Philoaophia, dividida em dois ramos ou espe- 
cies, pratica e theorica: a philosophia pratica divide-se em dispensa- 
tiva, distributiva e civU, e a theorica em Physica ou sdencia da na- 
tureza, em Mathematica ou sciéncia do intelligivei, e em Theclogia 
ou sciéncia do intellectual. Sobre està divisSo escreve Ampère filh^ : 
«Era preciso uma grande audacia e uma grande liberdade de espirito 



a cduca9lU> do principe Lucimien, vem apontado o sjstema pedagogico das Sete 
Artes: ' 



Quant li mestres aperoén 

Son ligier sena e conéa 

Plus Ten ainme et plus Ten tient chier, 

Dont vet tos les livrea oherchier 

Tornie lee fueillet et retome ; 

Les .TU. ara liberana atome 

Bn .1. volarne ai petit 

Qne, al oom Teitoire me dlt, 

n le polat bien tot de plain 

Endorre et tenlr en aa maio ; 

Qui cet petit lloret aoroit 

Lea .TU. ara llberax sanrolt. 

Premier li enaelgne Gramain 
Que mere .est, et prevoate, et maire 
De toatea lea arte Ilberaz, 
Et il fa cortola et loiaz ; 



A IKotecfifiM Ta mia, 
Oli ai bien a*en est entremla 
Que par volr la men^onge pmeve 
Et par force le volr deapraeve. 

Pala li enaelgne tioeUriqu»; 
Par cel art fa-il coalorez 
Et chiers tenuz et honores ; 
Là apriat il entierement 
Blau parler et eortoiaement ; 
En cea .ni. ara al ce prova 
O^onkea aon pareli n'en trova ; 
Qaant cea .m. ara aot fermement 
Lea aatrea aot legierement 
Qae QvMÌrta>e apelent cXÌ. meatre 
Qae par Tan art font Taatre maiatre 

la premereine 

Ce flr li ars d*£xlr«iuwMe, eto. 



N£o transcrevemoB o resto da descrip^ào das disciplinas quadriviae» sobre 
que poeta fonda muitas aventuras do seu heroe ; bastam-nos esses versos para 
mostrarem quanto era predominante o syatema das Sete Artes. (Li Romana de 
Dolopathos, p. 50 e 51. Ed. 1856. Chez P. Jannet. 



ENSmO DAS COLLEGIADAS 41 

para collocar sobre a mesma linha a pliysica^ a mathematica e a theo- 
Ipgia, e fÌEizer d'esses tres conhecimentos tros.s^bdivisSes da philoso- 
phia».^ £ n'este facto quo se nota o espìrito de Becalarisa9Soy que en- 
trava no ensino da Egreja e que condazia por toda a parte à funda- 
9S0 das Uniyersidades. 

O que se ensinava nas Escholas da Edade mèdia? Lia-se a Gfram- 
matica pelos tratados de Donato e Priscìano, que foram no sectQo xv 
snbfititaidos pela grammatica de Alexandre Villa Dei, que ainda n'esse 
seculo foi supplantada pela Arte nova; lia-se a Rhetorica, pelos trata- 
dos de Cicero ou de Boccio, carregados com todo o pezo dos commen- 
tarios ou interpreta93es de cada lente; lia-se a Astronomia pelo Alma- 
gesto de Ptolemeo, e a Philosophia, pelas duas parte entEo conhecidas 
do Organum de Aristoteles, as CaJthegorÌ4i8 e a Hermeneiia, com a Isa- 
goge de Prophyrio. Do conbecimento incompleto da obra de Aristote- 
les, e da mistura das suas doutrinas objectìvistas com o conbecimento 
do TSmeo de Plat&o, resultou um desvairamento intellectual do criterio, 
aggravado pela phrase de Prophyrio — se existe correspodencia entro os 
séres invisiveis que a Metapbysica suppde e as no^Ses que a Logica 
deduz? D'està desorientafSo nasceu a grande querella philosophica dos 
liealistas e Nominalistas, A dependencia do texto escripto, e o traba- 
Ibo esclusivamente hermeneutìco ou interpretativo das apostillas, glo- 
sas, commentos, apparatos, tudo moldado na inalteravel fórma syllo- 
gistìca, creou esse caracter formalista e pedante chamado a Scholas- 
tìca, que dominou tanto na Theologia, comò na Philosophia e Juris- 
prudencia. Este ensino, tendendo para a dialectìca individualista e anar- 
chica, tomou mais violenta a crise revolucionaria da Europa moderna. 
Diz Comte: «Tendo prevalecido desde seculo xiu (a metapbysica) 
na educagSo entSo instìtuida pelo sacerdocio, ella aspirou directamente 
ao governo absoluto da bumaninade, segundo uma combina9&o naturai 
da pedantocracia grega com as usurpaySes papaes.» ' 

A complexidade das leis romanas obrigava os Municipios das cida- 
des provinciaes a subsidiarem escholas de Diretto^ em que se ensinava 
o conbecimento das fórmulas. N'este estudo entrava comò elemento 
correlativo 0, ensino da Rhetorica e da Dialectìca, e da Philosophia 
(nas suas tres divisSes antigas moral, dispensativa e civil). Na transigSo 
da sociedade antiga a organisa9So curial romana substituida pelo re- 
gimen municipal ecclesiastico, Bispo toma-se Defensor dvitaiìs; e 



1 HUtoire littéraire de la Franoe saus Charles Magne, p. 290. 
' Systhne de PóUtiqut positive, t. ui, p. 511. 



42 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

assim corno a fóro civil cae na d^pendencia do fóro clerica!, tambezn 
estas OBcholas se tomam episcopaes, e das CoUegiadas, deinorando o 
advento das Universidades e Escholas geraes. Moitas d'essas escholas 
episcopaes tiveram urna admiravel efflorescencia nos fins do secalo x e 
xi| e algomas corno a de Paris e de Oxford, sSo apontadas corno ger- 
mens das Universidades. As Universidades nasciam sob o impulso do 
espirito secular e individualista, e sondo aproveitadas pelos reis, os pa- 
pas embara^avam a sua constituigSo, restringindo a pretexto do ensino 
da Theologia a faculdade ulng[ue docendi, oa coadjuvando-as pela con- 
cessSo dos privilegios pertubadores do fóro ecclesiastico aos lentes e 
escholares. Sem este ponto intermediario às Escholas curiaes, de ori- 
gem romana, e aos Estudos geraes^ n&o se comprebendem bem os va- 
riados aspectos com que apparecem fundadas as Universidades no se- 
dilo XII e xni. * 



1 ApontaremoB algumas das Escholas episcopaes e abbadaes, que sao bases 
de transi^io para o estabelecimento das Universidades. 

No seculo XI floresda na Italia a Escola de Pavia, onde além de afamados 
professores, figura em 1032, Lanfranc, explicando publicamenteoCodigojustinia* 
neo, e redigindo as snas Sententiae, em que funda a parte theorica do Direito. 

É tambem notayel a Escola de Angers, onde em 1010, Bernardo, discipnlo 
de Filiberto de Chartres, e JoSo, em 1040, Marbode em 1067 a 1081, e o gramma- 
tico Beginaldo, Guilherme, Boberto de ArbrissoUes, Geoffiroj Babion, Anglius e 
Ulger, prolongam os seus creditos pedagogicos. 

A Escola de Poitiers, estava tambem no seculo zi sob a proteo^ do bispo 
Isambert, e om dos seus mais notaveis alumnos Guilherme, recebeu o titulo de Poi- 
tiers, porque segundo a phrase de Oderic Vital, «n'esta ddade hébeu largamente 
nos mananciaes pkUosophicos», 

Tambem no seculo xi a Escola de Chartres, brilhava pelo saber dos dois pro- 
fessores Fulbert e Ivo. Ainda depois de eleito bispo em 1007, Fulbert contìnua a 
leccionar até 1029. Ali se ensina a GranmuUica, BeUas LeUras^ Musica, DiolecHoa 
e Thsologia. Succede-lhe Fedro de Chartres, Sigon em 1040, Bernardo, e Ivo eldto 
bispo em 1091. 

A Escola de Paris, aproveitando-se da fixagSo da capital pelos primeiros reis 
da terceira ra^ attrae os prindpaes prolessores, e jà no seculo xi n'ella resplen- 
decem Lambert, disdpulo de Fulbert de Chartres, Dragon de Paris, ViUaran, dis- 
dpulo de Lafrane, e Guilherme de Champeaux. 

A Escóla de Seims, tambem celebre, produz Frodoard, e Grerbet, (Silvestre 
n, ddto papa em 999) Gervin, Boscelin de Compiégne, os dois Anselmos e Raul 
de Laon. Bruno, o fundador da Cartuxa, professa n'essa Escola, sucoedendo-lhe em 
1079 Godefroi, que fica o Chancder da Escola. 

A Escola episcopal de Toul, é dirigida na època do seu esplendor pelo bispo 
Berthold no comedo do seculo xi, professando-se com a Grrammatiea, a Bketarica 



ENSINO DAS COLLEGIADAS 43 

As Eacholas episoopaes foram instituidas para o ensino das Arte» 
liberaes por dispoBijSo do Concilio romano de 1078; a Egreja pro- 
curava no ensino a anctoridade qae Ihe era dispatada pelo poder tem- 
perai com a qaerella das Investiduras. Os tres grandes mestres Lan- 
firanci Anselmo e Fedro Lombardo representam a actìvidade montai da 
dissoIngZo metaphysica dos Ontologistas, qae no seculo xm trocaram 
a Theologia pela Dialectica. 

Dorante um rapido momento de fervor, os dois Poderes, espiritaal 
e temperai, acharam-se de accordo para favorecerem a renoYa9&o dos 
Mtadosy embora a Egreja preferisse a cultura da theologia e da philo- 
sophìa, comò se yè pela bidla de Innocencio iv de 1254, e a Bealeza 
lìgasse a maxima importancia & fìinda9So das escholas de Junspruden- 
eia. E n'este momento transitorio de um accordo que ia quebrar-se 
pela antinomia entro o dogma e a rasSo, que apparecem os sabios pon- 
tìfices, comò Urbano iv, dando em Eoma uma cadeira a S. Thomas 
de Aquino para ensinar moral e physica, Clemente iv protegendo o 
genio innovador de Rogerio Bacon, Innocencio v elevando-se ao pa- 
pado pelos seus talentos de orador, canonista e metaphysico, e JoSo xxi 
(o nesso Fedro Juli&o, mais conbecido pelo nome de Fedro Hispano) 
que dota as escholas da Europa com as Summas logicales, o primeiro 
compendio que prevaleceu com auctorìdade até ao fim da Edade mèdia. 

Do caracter de disciplina permittida para objecto de ensino é que 
derivou o nome de Faculdade; em épocas em que se acreditava nas 
Mds Artes, (a Ars Magna ou Artimanha, e a Grammaire ou Grimoire) 



a Dialectica^ a Jwrùprudmeia^ Um dos seus professores, Adalberon, foi Bispo de 
Metz, Branon, bispo de Tool e papa sob o nome de LeSo IX. 

A Eecola de Toumai, eleva- se pelo magia terìo de Odon de Orleans, chamado 
de Toni pelo Cabido de Tournai em 1085, yindo para ouvil-o estudantes da Bor- 
gonha,. da Italia, e de Saxe, e estabelecendorse uma feconda rivalidade das sùas 
doutrinas realistas contra a Escola de Lille. 

£m Liège, a Escola episeopal desenvolve-se em 855 pelo bispo Francon, que 
dirìge directamente as escolas da Cathedral : em 915, Etienne continua activamente 
està cultura, Herade de 959 a 971, e Notger de 971 a 1007. D*esta escola saem 
Eekebert, os Lambert, o abb. Rodolpho; os seus dois principaes directores sfto 
Yozon e Aldehnann. 

A Escola de Utreek, deve o seu esplendor aos bispos Batbed (-1- 917) e Adel- 
bod (f 1027). 

A Escola de Mayence^ é desenvolvida pelo talento de Babau Mauro e Aribón. 

A Escola de Oxford, (1037-1039) adquire o seu mùor desenvolvimento sob 
Edoardo HI, (10i2) e lucta com a Eccola de Cambrigde prot^da pelo filho de 
GuilheTme o Conquistador. 



44 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRÀ 

a condijSo do ensino estava subordinada à permisBfto. Um monge de 
Froidmont, aponta urna didciplina nfto permtttida: cUrbes et orbem 
circuire solent scholastici, ut ex multis litteris insani . . • ecce quaerunt 
clerici Parìsii artea liberales, Aureliani, auctores, Bononiae codices, Sa- 
lerno pyxides, Toleti daemones^ et nusquam mores.» ^ A renovagSo das 
Bciendas pelos ArabcB de Hespanha era o movel d'està suspeigSo cen- 
tra ensinOy corno se v6 pela tradigSo do Scholar das nuvens, pela lenda 
de Gii de Santarem, e magia de Toledo e Covas de Salamanca. No 
Cancioneiro da Vaticana^ (canj. n.^ 1132) falla-se em Payo de M€uu 
Artes. A permissSo do ensino era propriamente a licendatura, a qual 
conforme a importancia ou o privilegio das Universidades dava aos 
graduados a prerogativa ubique docendi, sem que tivessem de submet- 
ter-se a novo exame. 

Depois do terrivel exterminio dos Albigenses, e comò para resis- 
tir & corrente da heterodoxia, estabeleceu-se pelo tratado de Paris de 
1229, que em Tolosa, & custa do Conde RaTmond, lèssem por dez 
annos quatro mestres de Theologia, dois em Decretoa, seis em Artes 
liberaes, e dois em OrammcUica. celebre Trovador Folquet de Mar- 
selba, que chegou a bispo de Tolosa, foi o mais exaltado impulsor 
d'està Eschola, que com o legado do Papa e com o auxilio da Ordem 
de Cistér se converteu em Universidade. Nos programmas pomposos 
com que procurava attrahir os estudantes de todos os paizes, dedara-se 
que nSo ha ali a turbulencia que agita a Universidade de Paris, e que 
ha maior Uberdade, por que se ensina ali a Physiea de Aristoteles, 
que se achava prohibida na Universidade de Paris. A peregrìna^Slo a 
N. S. de Bocamador, incitava a firequencia de estudantes meridionaes 
& Universidade de Tolosa; nos Cancioneiros provengaes portuguezes 
falla-se n'esta peregrina9So e nas cintas de Rocamador. 

A Egreja sentia que a rasSo humana se libertava, e tratou de v€r 
se se apoderava outra vez da disciplina dos espirìtos ; no Concilio de 
Roma de 1074 estabelece entSo a obrìgafSo de Ihe pedirem licengas 
para exercerem a profissSo do ensino, e d'està disposigSo que se toma 
effectiva no seculo xn é que deriva o grào aoademico ou universi- 
tario de Idcendado. As Universidades ficaram em grande parte este- 
rilisadas por està interven9So ecclesiastica, da mesma fórma que na 
Renascen^a scientifica do seculo xvi os Jesuitas desviaram o espirito 



1 Ap. Th. Camini, La eoUura hclogenèt dei secoli zìi e xm. (GKomale storico 
della Letteratura italiana, i, p. 6.) 



ENSINO DAS GOLLEGIADAS 45 

critico para a exclosiva disciplina humanistica das suas escholas. Na 
funda(So da Universidade de Lisboa^ o papa Nicolaa iv expede urna 
bulla de confirma9So dos Estudos geraes em 1290, submettendo a nova 
ìnstituiffto & jurisdicfSo ecclesiastica: «Ordenamos que nenhuns Mes- 
tres e escholares, nem os que os servem^ se (o que tal nSo succeda) 
acontecer que sejam presos por qualquer delicto, possam ser jidgados 
por algum secidar, nem castigados^ a nZo ser que por juizo da Egreja 
OS condemnados sejam entregues ao tribunal secular. Item, que os Es- 
cholares nas Artes e no Direito canonico e civil e na Medicina, ps quaes 
seus mestres julgarem idoneos, possam ser licenciadoa na sobredicta 
Bciencia pelo Bispo de Lisboa, que n'esse tempo for, e quando estiver 
sède vacante, por meio do Vigano capitular. E todo o mostre que na 
mesma cidade fòr exàminado e approvado em qualquer faciddade, ex- 
cepto a theologia, prescindindo de outro exame poderà exercer liyre-« 
mente em toda a parte essa faculdade.» E assim que no momento em 
que o espirito secular, apoiado pelas novas idéas scientificas e philo- 
sopjiicas da Renascenja provocada pelos Àrabes, se concentrava na 
nova instituigZo pedagogica das Universidades, que a Universidade de 
Lisboa se acha à nasconda subordinada aos «abbades da Ordem de 
Cister, aos priores das Ordens de Santo Àgostinho e de S. Bento, e 
reitores de certas egrejas seculares do reino de Portugal,» comò o de- 
termina a bulla de Nioolau rv. 

No ensino universitario conservou-se a fei^So elencai com a tra- 
digSo das Sete Artes; o ensino da Musica manteve-se por causa do seu 
destino ecclesiastico;^ a philosophia critica, em vez de se fecundar 
com a sciencia, corno o entendia Gerberto, ficou a ondila theologicB, 
degenerando n'essa 6ca dialectica dos Q^odlibetoa, das theses theologi- 
cas, em que se tratavam improvisadas questSes, generalisando-se oste 
titulo, usado por Henri de Gand, por todas as Universidades no fim 
do secttlo xm. 

Ao passo que se desenvolviam os estudos humanistas da Univer- 
sidade, clero afundava-se em uma completa ignorancia. JoSo Fedro 
Kibeiro cita factos estupendos que o comprovam; em um prazo do 
Mosteiro de Villa Boa do Bispo, o pri'or assigna, dedarando que to- 
dos OS conegos nSo sabem escrever, Isto no seculo xiv! Um rayoeiro 
da Collegiada de S. Christovam, no mesmo seculo xrv, assigna de cruz. 



1 Amador de los Bios, na HUtoria critica de la LitUraJkura eapahola, 1 1, p. 
360, attribne o ensino da Musica na Universidade hespanhola & inflaencia da obra 
de Santo Izidoro (Etymolo^as, cap. n De Mugica.) 



46 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRÀ 

Transcreveremos as proprìas palavras do illustre antiquario: cEm 16 
de Maio do anno de 1426 foi confirmado na egreja de Santo AntSo 
de Padim, do arcebispado de Braga, Affonso Martina, jurando.nas 
m3os do Collador, aprenderia bem a ter e contar y antes do anno oca* 
bado. Determinando-se nas ConstituigSes synodaes das dioceses de 
Braga e Porto, que nenhum fosse coUado em egreja parochial, sem 
que ao menos, ao pé da lettra, soubesse entender o que lia e contava; 
comtudo achei um grande numero de dispensas d'està ConstituigSo, 
dando por motivo, que sondo examinado àcerca de sacramentos e ca- 
sos de consciencia, tinha side achado sufficiente.» 

cO bispo do Porto D. Pedro Affonso afirma do seu predecessor 
D. JoSo Gomes, do reinado do sr. D. Diniz, o segninte: erat bomu 
homo, et eine aliqim malida, sed jura aliqua non audiverat, immo nec 
et grammaticalia, quod est plus.»^ Estes tàctos indicam a decadencia 
completa do ensino das CoUegiadas, e em que circumstancias o ensino 
humanista comegou a ser desenvolvido pela auctoridade real. 

desenvolvimento das Escholas episcopaes, depois da celebre 
bulla de Eugenio n, fez com que os bèneficios ecclesiasticos fossem re- 
servados especialmente para aquelles que tinham frequentado os estu- 
dos. D'està preferencia, que era um rasoavel estimulo para levantar o 
nivel intellectual do clero, resultou o effeito contrario: correram para as 
ordens sacras todos os ambiciosos sem voca^Sa, de que tanto se queixa 
S. Bernardo. NSo se tratava de adquirir conbecimentos, mas simples- 
jnente de simular as condigSes para ser coUado em egrejas rendosas. 
A paixSo pelo estudo da Jurisprudencia veiu supprir essa Ssdta de cul- 
tura, e jà mais tarde tambem Lmocencio iv se queizava de se reser- 
varem os bèneficios ecclesiasticos nSo para os derigos mas para os le- 
trados. No Caneioneiro da Vaticana encontramos algumas Sirventes 
de Estevam da Guarda, prìvado de D. Affonso in, chasqueando da 
avidez com que eram procurados os bèneficios ecclesiasticos à sombra 
de uma leve aprendizagem litteraria. Transcrevemol-as pela sua im* 
portancia historica: 

Ja Martim Vaasques da estrelogia 
perdea ben^om polo grand'engano 
das pranetas, per que veo a dapno 
en que tan muyto ante s'atrevia; 
cà o fezerom sem prol ordinliar 
por egrqja que Uie nom querem dar, 
e per que Ui'é defeza jagraria. 



1 R^fiexdea Matoriocu^ de J. P. Bibeiro, 1. 1, p. 45. 



ENSINO DAS GOLLEGIADAS 47 

£ per esto porque ant'el yivia 
Ih'é defeeo dea que foy ordinhado, 
oy mab se ten el por dasaspenido 
da prol do'meflter et da crerezia; 
e aa pranetaa o tomarom fol, 
Ben egreja, nem eapela de prol, 
et sen o mester per que goarecia. 

E jà de grado el renun^aria 
saa ordiifl per quant'eu ey apreso; 
por Ihe nom seer aeu mester defeso 
nem er ficar en tanta peiorìa, 
corno ficar por devaneador 
coroado, et do que he peor, 
perder a prol do mester qae avia. 

E na corda que tapar queria 
leixa crecer acima o cabelo, 
et a vezes a cobre com capelo 
que a mal muy daninhos farla, 
mays d*el quant*el a8peran9a perdeu 
das planetas desi loga*entendea 
que per corda prol non tirarla. 

En sen livro, per que aprenden 
astrologia, logu* i prometen 
que nunca por el mays estudaria. 

EsUu cantigcu de dina foranfeUcu a huiijograr que ee preMva d^esbrólogo e 
d non savia nada e ffoy-ise cereear, dizendo que averta effrqfa, efivser eoroa, e a 
huma ficou cerceado e non ouve egrefa e fezeronUhe estae oanHga» porem, ^ 

Ora é j& liartim Yaasqnes certo 
das planetas que tragia erradas, 
Mars e Saturno mal aventuradaa 
cigo poder trax en si encuberto ; 
ea per Mars foy mal chegad'em pelcja, 
et per Saturno cobron tal egreja 
sem prol nenhuma em legar deserto. 

Ontras planetas de boa ventura 
acbon per vezes en seu calandayro, 
mays das outras que Ih'andam en oontrayro, 
• ciqo poder ainda sobr'el dura, 
per b(ia d*elas foy muy mal chagado, 
et pela outra cobron priorado 
hu ten lazeira en legar de cura. 



- CancUmdro da Vaticana, Can^oes n.» 928 e 929. 



48 HISTORIA DA UNIVERSIDADG DE GOIMBRA 

£1 rapou barva e fez gran corda, 
et cerceou seu topete epartido, 
et o8 cabeloB cabo do oydo, 
cujdando aver per hy egreja boa; 
maya Saturno Ih'a guisou de tal renda 
hu non ha pam nem yìnlio d'oferenda 
nem de herdade milho para borda. 

£ pojs el he prior de tal prebenda, 
conven qae leix^a cura e a renda 
a capela ygual da Ba pessoa. ^ 

Na prìmeira Renascenga, que coincide com o desenvolvimento ea- 
cnpto das lingoas valgares das novas nacionalidades, e em que as Es- 
cholas livrea ae concentram em Universidades, introduziu-se alguma 
cousa do espirito scientifico das escholas arabes; assim, Rogerio Ba- 
con proclamava o grande principio positivo da hierarchia scientifica: 
«A Mathematica é a prìmeira de todas as sciencias; precede todas as 
ontras e prepara para ellas.» desenvolvimento do poder real, neces- 
sitando da renovafSo do direito romano, collabora na actividade do es- 
pirito secular. O pensamento liberta-se pelas polemicas philosophicas, 
que suscitaram incidentemente o livre exame nas heresias. 

As palavras sSo ama verdadeira paleontologia social, e por ellas 
se ve indicada està segunda phase pedagogica da Europa: depois do 
sentido tradicional da Schola, que trazia implicito um destino eccle- 
siastico, seguiu-se no uso commum a palavra Aula, que accentua essa 
outra tradÌ9So em que o ensino se cidtiva no palacio do rei, d'onde se 
considerou que safram as Escholas Geraes ou as Universidades. A lin- 
guagem latina foi substituida pelos dialectos vulgares ou linguas na- 
cionaes, e d'aqui veiu essa designatilo de romance paladino, ou lingua- 
gem usada no palacio, em contraposijSo & da Egreja (ladinìia ckristenga). 
O mestre, que era anteriormente ouvido comò um prégador, comegou 
a cingir-se a um texto escripto, e por isso o ensino tomou um outro 
caracter em que aquelle que ensinava era o Lente; finalmente o ensino 
restrìcto das CoUegiadas é destinado a todos nos Geraes, e nSo sómente 
para a disciplina moral, mas para a cultura de todas as sciencias per- 
mittidas ou Facuidades, Vejamos agora o que se Ita. 

BrandSo, na Monarchia lusitana, allude às cliVrarias publicas nas 
Sés Cathedraes e Egrejas parochiaes, para estudarem os que se occu- 
pavdm nas lettras, do que ha muitos ezemplos nas historias d'este 



1 Brid.^ can^So 931. 



ENSINO DAS C0LLE6IÀDAS 49 

BeynOi e fora d'elle.» ^ Para conlieceriDos a indole d'essas Bìbliothe- 
cas, transcrevereinoB em seguida algnns catalogos de Livrarias do se- 
dilo X a xiY, por onde se caracterisa o saber e a actividade menta! da 
grande època da Pliilosophia Scholastica. Diz Barthélemy Saint-Hilaire, 
sobre essa actividade: fEsta muItidSo de escrìptos de todas as especies 
e Bobre todas as questSes^ prova que em nenhum tempo a intelligencia 
teve urna egnal necessidade de raciocinar^ nem encontrou menos em- 
barajOB para satisfazer-se.»' 

O modo corno eram trazidos para Portngal os livros mais impor- 
tantes que circulavam nos dois grandes fócos de actividade litteraria 
do firn da Edade mèdia, Franca e Italia, e o especial valor que desde 
lego se ligou à riqueza bibliographica, revelam-nos que entràmos di- 
gnamente na corrente da primeira Renascenga e a soubemos sustentar 
oom fervor. 

cOs nosBOB Bispos, que sempre andaram no caminho de Roma, 
traziam de Fran(a e da Italia as Compila9(!leB, principalmente de Gra- 
ciano (que comò era dós Concilios de Hespanha, teve logo entro nós 
muita auctoridade), as Obras de Durant chamado o Speeulator, de Al- 
berico de Rosate, de Guido Papa, que todos escreveram por 1280 até 
1300, e de outros. Isto adquiria-se com custo, por nSo haver ainda a 
estampa; e com muito mais se adquiria a sciencia; estimavam-se comò 
bona thezouros; e d'isso vem os privilegios dos livros, de que se ficou 
dispondo separadamente da heran(a sem entrarem no cumulo dos bens, 
para a Egreja, ou para a coUafllo entro os filhos, segundo os testado- 
res eram ecclesiasticos ou seculares.» ^ Inventariemos essas riquezas 
bibliographicas, pelas quaes se infere o caracter das doutrinas domi- 
Bantes. 



Testamento de D. Mmnadona (de 959) ao Mosteiro de 6uimar9es: 

Viginti Libros ecclesiasticos. 
Antiphonarios m. 
Organum, 
Comitum* 



1 Op. dtf P. V, Liv. XVII, cap. 82. 
' Dice, dea Scieneea jphUatophiquea, vb.<* Scholabtique. 
' Villa-Nova Portngal, Època fixa da introducg&o do DireUo romano em Por' 
A^MiZ, Mem. da Acad., t. y, p. 895 

BIBT. UH. 4 



50 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Mantiale Ordinum. 

Pscdterios duos. 

Passionum et Precum, 

Biblioteca, 

Marcdium. 

Regidas IJ. 

Canonem, 

Vitas Pcetrum, cum Oerenticon» ' 

Apocalipsin. 

Etimologiarum, 

Istoria ecdesiastes. 

Dedeca Psalmorum virorom illustrorum, et sub una cortex Regula 
beati Pacomii. 

Passioìiarii Anibrosii, 

Benedicti; Isidori et Fructuosi, e Regula pudlarum, et allium Li- 
bellum quod oontinet it est Regidas Benedicti, Isidori, et Fructuosi, 

Liber Dialogorum, 

Institutionem Beati Effren, 

Libdla quod continet Vita beati Martini episcopi^ et VerginitaJte 
beate Marie Virginis. (Ap. Portug. Mon. hist., Diplomatae et Chartae, 
voi. I, fase. I, p. 64). 



Primeira Livrarìa de Santa Cruz de Coimbra: 

Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, recebeu o seguinte pre- 
sente de livros do Mosteiro de Sam Rufo : 

«E enviarom-nos 

Santo Agostinho, sobre Jóham evangelista, e sobre o Qenesy, que 
se chama Adliteron. 

Questom sobre Sam Mateus e Sam Lucas. 

Exam^eron de Santo Ambrosio. 

O Pastoral de Santo Ambrosio. 

Beda^ sobre Sam Lucas, 
pelas quaes cousas somos muitos obrigados ao convento de Sam Rufo, 
ca nos ajudou sempre muito bem^ etc.» {Vida de D, TeUOf versilo de 
1455. Ap. Mon. Hist,, Scriptores). 



EKSINO DAS COLUIGIADAS 



LÌTraria do Bispo do Porto, 0. Vasco (1331): 

Na Doa^So do Bispo D. Vasco & sé do Porto e Cabido, e a 

e^ejas, sa èra de 1331, rem enumerados os segaintes Httos: 

■Item quinque Tolumìna Sermonum, quator (qaorant?) p 

rolnmen ÌDcipit Reverende in Xp.^ Pater etc. et vadit per U 

qnmternos et sexternos, et continet io se viginti et noTOm. . . ■ 

AO CABIDO DO FOBTO : 

Umiin Tolamem Dictaminia abi consiatiuit qaator Sume. 

Stana Confessorum. 

Liber PtmtiJicalU. 

Compendiìtm thedogie cam Sermon^m Fr. Johannis Ordii 
ttomm. 

Quasdam Conclusiones secundutn Thomam super Qaestioml 
lÌB super toto Libro Sententiarum. 

k EGBEJA DE SBVILHA 1 



Reportorìum D. Tusculaui, Buper toto Jure Cawmixo. 
Unum Librum Sententiarum, et quandam Lecturam super 
Sententiaruin. 

L EQBBJA DB LISBOA: 

Unum Volomen, in quo erant quidam Sextus L3>«r cnm A 
Uba» ArcLidiaconi et Johannis Àndree, et 

Domine Don Regulis Jwrìs, et 

Unos MandagotUB, Buiper ElecHmie, et 

Clementine com Apparata Johanois Andrea, et Apparaium 
tua Monachi, ad partem cum quandam Sumam Feudorum posita 
ipnos Apparati. 



52 mSTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 



A EGBEJA DE BOU^AS, DIOGESE DO POETO: 

Dao Digesta vetera cuxn Olosa Accursii^ et 
XTnam Infordatum cum Glosa Accursii. 
Unum Offredum super Infardato, et 
Digesto novo, et 
Super trìbus Libris Codicia. 

k EGEEJA DE S. FEDRO DE TORRES NOVAS: 

Unum parvum Volumen. 

Alium volumen Decretalium Gregori noni cum Glossa Bernardi. 

i EGREJA DE S. FEDRO DE TORRES VEDRAS: 

■ 

Unum Codicem, cum Glossa Accursii. 
Unum Innocentium cum Repertorio, et 
ComposteUanum. 

i EGREJA DE S. THIAGO DB BEJA: 

Unum Digestum novum cum Glossa Accursii. 

Unum Rosarium super Decreto,^ (Ant. Roselli). 

CitadoB no Censual, fi. 120 a 127. (Ap. J. P. Ribeiro, i>»«. chron.j 
t. Yy p. 88 e 89.) Attendendo ao pre^o dos Livros no seculo xiv, o 
bispo cDedara àcerca dos legados d'estas Egrejas, quo os respectivos 
diocezanos yendam os Codices que Ihe destina, e comprem para as 
Egrejas calices ou Cruzes de curo ou prata, ou outros omamentos.» 



Bìbliotheca do Cabido do Porto (1331) 

Ko CaUdogo dos Bispos do Porto allude-se a està Bibliotheca: 
cNo anno de Christo de 1331, em dois de Maio,. . . fez o Bispo D. 
Vasco doario à Sé do Porto, de certos livros, que se guardassem na 
sua liTiariai e que se nSo pudessem nunca vender ou empenbar; mas 
se algum Capitular os quizesse lér em sua casa, deixasse um penbori 
para que se lembrasse de os restituir brevemente: os nomes dos livros 



ENSINO DAS COLLEGIABÀS 53 

sSo escriptoB na meBma doagfto^ e de algons d'elles temos agora bem 
pouca noticia.» (Cat., p. 94, Part. u). 

No livro do Cartolario da Sé do Porto intìtulado o CeiMual, de 
qae J. P. Ribeiro apresentou om perfeito resnmo, {Diss. chron., t. v,) 
yem minudencìada està doagSo, qae acima extractimos, e que nos re- 
vela as rìquezas bibliographicas do Bispo D. Vasco. 

* 

Livraria do Bispo D. Vicente (1334Ì : 

testamento do Bispo do Porto, D. Vicente, da èra de 1334, 
traz a segointe enumeragSo de livros : 

Decretalea nostras. 

Digestum meum vetus. 

Santal et Domingcd. 

Forciatum et Uguicium, sive Guichom. (Ugoccionei 8uma de Der 
cretos), 

Librom de Vita Sanctorum. 

Bihliam manualem. 

Librom de CwUate Dei. 

Codicemj Cancordanticia. 

Do Censtiol do Porto, fl. 109, % (Ap. J. P. Bibeiro, Diaa. chran., 
t. V, p. 83). 

Livraria do Bispo D. Sancho (1334) : 

No testamento do Bispo D. Sancho, escrìpto na èra de 1336, dis- 
p8e de: 

hoas Decretaes com os seos Casas . . . 

o sen Decreto^ 

e seu Digesto. (Diz qoe estodara em Vaihadolid); 

«0 seo Innocencio 

e soa Instituta, a seo irmSo Estevam Perez • . • 

bum Breviario.^ Censual, fl. 112, f. (Ap. J. P. Ribeiro, Diss. 
fhron.f t, V, p. 85). 

Livraria de Vasco de Scusa (1359): 

No Formai de partilhas oo Inventario de Vasco de Scusa, com- 
merciante e cidadSo do Porto, vem descrìptos os seguintes codioes que 
possuia: 



54 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

cvinas Degretaes em lìngaagem; 

nm Rabi Abd; 

um. 8eÌ8to em pargaminho; 

mn Sestìmo em papel; e 

tres cademoB em pargaminho de Terceiro-^. 

JoSo Fedro Ribeiro, nas ReflexZes higtoricas, (ì, 9) diz: cNSo é 
pertanto novo, até na cìdade do Porto agermanar-se a Litteratara com 
o Commercio; aonde nos nossos dias temos visto tantos capitalistas e 
negociantes condecorados com os gr&os academicoB.» 



A Livraria mannscripta do Mosteiro de Alcobaga: 

É indisputavelmente uma das mais opulentas collec$8es manu- 
-scriptas da Edade mèdia da Europa, hoje desmembrada entro a Biblio- 
theca nacional e o Archivo da Torre do Tombe. visconde de San- 
tarem que yisitou està Livraria quando ainda ostava em Àlcobagay ahi 
ezaminou um codice do seculo xi, (traducjSo da Eegra de Sarti Sento) 
e dez codices do seculo xu «entre os quaes se achava uma Bibita 
doada por D. Affonso i| rei de Portugal.» ' Do seculo xin possuia se- 
fenta e deus manuscrìptos; notando especialmente dois Dicdonarioa 
geographicos latinos do monge Bartholomeu, um Vocaòulario latino por 
Fr. Affonso de Louri$al, e um exemplar das ConfasZes de Santo Agos^ 
tinho copiado por Fr. Theotonio de Condeixa. Do seculo xrv apontou 
o erudito visconde de Santarem setenta volumes, e vinte e tres do se- 
colo XV ; e comparando estas immensas riquezas com as da Biblio- 
theca de Louis de Bruges senhor de Gruthuxys, cnjos 106 volumes 
estSo hoje incorporados na Bibliotheca Nacional de Paris, concine : 

ci.® Que nenhum manuscripto da CoUec^So de Louis de Bruges 
remonta élem do seculo xni, ao passo que a CoUec^So de Alcoba^a 
possuia 10 do seculo anterior. 

2.* Que a de Louis de Bruges possuia sómente quatro manuscrì- 
ptos do seculo xui, em quanto que a Collec9So da Batalha possuia 72 
d'esse seculo. 

3.® Que a refenda coUec^So depositada na Bibliotheca de Paris 
possuia dezoito manuscrìptos do seculo xiv, e a de Alcoba^a 70. 

4.^ Que do seculo xv a collec(So de Louis de Bruges apresenta 



1 Notu addiHoMUes à la Lettre au baron MieUe, p. 15. 



EMSINO DAS COLLEGIADAS 55 

oitenta e dois manuscriptosi em quanto que a de Àlcobaga tem ape- 
nas 23.» « 

Exiate nm Catalogo dos Codices da Livraria de Àlcobaga attri- 
bnido a Fr. Francisco de Sa, publicado em 1775, que deu logar a 
aceradas polemicae, e a revela^Ses curiosas sobre falsifica^Ses de ma- 
nuflcrìptoB pelos frades de Alcoba;a. Fr. Joaquim de Santo Agostinhoi 
na Memoria sobre os Codices mss, e Cartorio do Beai Mosteiro de Al- 
coba^j ' mostra corno se cercon a Biblia do seculo xiv da lenda ficti- 
cia de ter side tomada ao rei de Castella na batalba de Àljubarrotai 
e corno é ficticio esse pretendido chronista Laimundo, capelISo do Bei 
Rodrigo o yencido de Guadelete. Entro os eruditos de Alcoba^a pene- 
troa esse espirito, notado por Mabillon, o qual por inteiesse clerical vi- 
ciava OS documentos juridicos ; e a eschola dos falsos ChronicSes, come- 
9ada no seculo xv por Annio de Viterbo, achou em Alcoba^a um emi- 
nente discipulo no joven e phantasioso Fr. Bernardo de Brito. Os Codi- 
ces escriptos em portuguez silo da maxima importancia litteraria; nSLo 
sera facil justificar a sua attribuiflo aos auctores assignados no Cata- 
logo de Fr. Francisco de Sa, mas nem por isso deixam de ser rigoro- 
samente authenticos e yerdadeiras origens da Litteratura portugueza. 



PAKTB LITTERAKIA DOS MSS. DE ALCOBAgA 

Pergaminbo do seculo xv, em gothico, por Frei Zacbarias de Payo 
Pelley Historia do Cavalleiro Tunguli ou Tundal, (Cod. ccxLiv.) N'este 
codice yem tambem um Catbecismo de Doutrina cbristS em vulgar. 

Frei Roque de Thomar, traduz do castelhano em 1399 uma obra 
asBÌxn inscripta: ^Come^-se opobre Livro das Confissdes, dito assi, por- 
que he feito e compellido para os Clerigos minguados de sciencia, epor- 
que he assi corno mindigado e apanhado dos Liwos de DireUo e da Sa- 
grada Theologia.3 (Cod. CCLn). 

Vitam 8. Brandani Abbatis magni, et admirabilis ex Regali Hi- 
bemorum stirpe. (Cod. cclvi). 

TraducjSo De InstittUione Coenobiorum et CoUatìones Patr. Jean. 
Cassiani, por Frei Lopo de Santarem e Frei Baptista de Alemquer. 
(Cod. ccux). 

Os Psalmos penitenciaes de Francisco Petrarcha. (Cod. CCLXI). 



1 Id. ibid., p. 20. 

> Mem. de Litt, t. y, p. 297 a 362. 



56 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

O Codice CCLXVI, m-4.^ magno, em pergaminhoi do firn do se- 
fieculo XIV, traz em portaguez: 

Vida angelica do infante Josaphat, JUho de Avenir^ rei indiano. ^ 

Vida de S. Euphrorina, JUha de Panucio. 

Vida de S, Maria Egypdaca. 

Vida de S. Tharsis. 

Vida de Santo Aleùeo Confessor. 

Vida de certo Monge, 

Exposi^ do Decalogo segundo a Doutrina da Egreja, 

Narragao da Morte de 8. Jeronymo. 

Medita^es sobre as Horas Canonicas. 

Historia de um Mouro que desejou ir ver o Paraiso. 

Historia do Cavalleiro Tubuli. (Tundal). 

Symbolo da Fé. 

Cod. CGLXX: traduc^So portugueza De contemptu Mundi. 

Cpd. CCLXXiii, iii-4.°: Orto do Esposo, de varios logares da Es* 
criptura, dos Prophetas e Santos Padres, dimdido em diversos capUuIoB 
com muitos Exemplos, por Frei Hermenegildo de Tancos. 

Cod. CCLXXIV : Oatra tradac9So do Orto do Esposo, e dos Livros 
de S. Cassiano De Institutione Ccsnobiorum. 

Cod. CCLXXVi : Livro ascetico intitulado Castello perigoso, do se- 
culo XIV. 

Cod. CCXCi: Vida de S. Bernardo, tradazida por Frei Francisoo 
de Melgafo (secalo xiv). 

Espdho de Monges, composto por Frei Francisco de Melga90. 

Tradac9fto do tratado De Anima, de S. Bernardo. 

Cod. ccc: Regra de S. Bento, tradazida por Frei Martinho de 
Aljabarrota. 

Cod. CCCii: Vitam Caroli Magni et Rotondi, quae a Tarpino scri- 
pta fingitar. 

Cod. cccxxiv: Dos Partidas de Castella, fol. do secalo xiv. 

Cod. CCCXLix: Traduca do Vdho Testamento. 



I Barlam e Josaphat; é o titolo arabe Baralàm e Jèuàaef, traduc^fto da lenda 
budhica proveniente do Lolita Vistava, Renan identifica o nome de Josaphat com 
de Budha: «Josaphat é uma altera^So de Joasaf, fórma empregada pelos chris- 
tSos orientaes, que tambem ó ama altera^So de Budasf {= BodhisaUva) em oonse- 
qnencia dos erros que produz no arabe a omisslo das pontos diacrìticos.» (Nou^ 
velUa Étvdes éThist. rdigieuse, p. 133). O monge Jo2o de Damasco eztrabiu a lenda 
budhica de uma redac^o sjrìaca. (Jomal asiatico, vn serie, t. zrin, p. 159, onde 
Be citam os principaes estudos criticos). 



ENSINO DAS COLLEGIADAS 57 

Quaedam excerpta ex Laertio, De vita et Tnoribm Philosophorum. 

(Cod. CCLXV). 

Cod. cccLXXvn, iii-4.° gothico : 

Arìstotelis 8 Libros Topicorum \ 

daos Elenchorum \ conformeB à ed. de Paris de 1538. 

JDialecHcam ) 

Cod. GCCLXXViii: Roberto; ExpoBÌ9So dos 7 livro^ doa Topicos. 

Cod. 379 a 382: Mss. in-4.^ fol. com Logica, Metaphysica e oa- 
tro3 tratados segando as idéas peripateticas. 

Cod. 383: Thomaz de Aquino^ De Potentiis Animae, De Natura 
McUeriae. 

Cod. 385: Obras de Raymundo Lullo, Compendio da Arte demon- 
strativUj Arte inventiva da verdade, 

Fedro Lombardo, Libros SenterUiarum, Cod. ccxx (seculo xii vel 
XIII.) Cairo (ocxxiy) Commentarios de S. Thomaz de Aquino. (Cod. 
ccxv). . 

S. Thomaz de AquìnO| jSumma Theologica, Cod. ccxxmi, e ix. 



Livraria da cOrte do rei D. Diniz: 

Pode-se formar um elenco approximado da Livraria d'este grande 
monarcha, pelas referencias dos manunscriptos coévoa; citaremos as 
seguintes obras, que synthetisam o gesto palaciano em uma córte da 
Edade mèdia: 

Estoria geral de Hespanka. . 
Traduc9&o das Partidas de AfFonso o Sabio. 
Tradac9So da Chronica d'Altnansor, do medico arabe Rhazea, por 
Gli Pires. 

lÀvro Vdho da8 Linhagens. 

Nobiliario do Conde D. Fedro, 

Poemas de TristSto e Yseult. 

Flores e Brancajlor, 

Novella de Amadis de Oaula. 

Merlim. 

Roman de Brut. 

Roman des Douze Paires. 

Livro das Trovas do Rei D. Diniz. 

Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. 




58 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

$ 

«• 

As Cantigas de Affonso o Sabio. 
Aristotdes. 
Historia de Traya, 

De concordantìas ibilinarum Carmen cura Prophetarum oraculis, de 
GastSo de FoX| traduzida por D. Fedro GalvSo, arcebispo de Braga. 

Ab obras guardadas nas Bibliothecas clauatraes, episcopaes e reaes 
da Edade mèdia encerravazn os germens litterarios sobre que havìam 
de trabalhar os creadores das Litteraturas modemasy e sobre que ti- ; 
nham de exercer-se as liDgaas nacionaes. A VisSo de Tundal contém 
grande thema sobre o qaal Dante elaborou a Divina Comedia; a 
Chnmica de Turpin fecunda as imagina93es creadoras das Gestas Car- 
lingianasy taes corno o Roman dea Douze Pairea e a Chanson de Ro" 
land. A historia de Barlam e Josaphat, que suscita a invenfSo len- 
daria dos Agiographos, revela a uniSo da cadeia tradicional entre o 
Oriente e o Occidente; refor9ando a continuidade mantida pelos vesti- 
gios do saber grecoromano. Emfim; a Epistola do Preste Jocto ao Im* 
perador de Roma yem desde o seculo xii entre as relafSes apocryphas, 
junto com as rela9Ses de 8, Brendan e prophecias de Merlim^ acor- 
dando o espirito de aventura, que levou os portuguezes a iniciarem as 
expedigSes maritimas preoccupados em descobrirem esse reino myste- 
rioso do Preste JoSo das Indias. Quer pelo lado scientifico, philosophico 
ou poetico, este balango intellectual de urna època que vae transfer- 
mar-se encerra o mais dramatico interesse. 



CAPITULO n 



Estndo Cerai em Lisboa, e a facnldade Ubiqne docendi 

(1288-13S0) 



Emancipa^ao do thieologismo no seculo ziiz e o grande intereese pelos estudos hu- 
manistas. — Bela^ào intima entre a Pedagogia e a Politica: As Universidades 
seculares e o advento do Terceiro estado. — Influencia das traduc^oes arabes 
Bobre a propaga9So dos estudos homanistas. — A Cathedra germen de urna 
Uniyersidade medieval; a Schóla, do typo juridico e rhetorico de Roma e 
Constantinopla, reapparece pelo desenvolvimento da Cathedra em um Estvdo 
girai, — Feryor pelo eetudo das Leis, e o ensino das Faculdades permittidas. 
— Primeira accep^ào da palavra Universidade, dada à coUectividade dos 
Mestres e Estudantes. — Fórma da incorporagào da classe escholar d ma- 
neira da Guild ou das Irmandades peninsulares, d*onde a func98lo do Recior 
e do Condliario* — A investidura do grào comò de pequeno Cavalleiro (Bas- 
chelor) e a Birreta sjmbolo romano da manumissSo. — Os papas coadjuvam 
contra-yontade a fondaco das Universidades. — Nicolào IV e as tres uni- 
Tersidades de Montpellier, Macerata e Lisboa sob o seu pontificado. — D- 
Diniz conhece a necessidade de fundar um Eatudo geral em Lisboa. — A 
lucta com o clero superior por causa das Jarisdic^oes demora-onarealisa^ao 
do seu pensamento. — Representa^Io de yarios Priores e Abbades offerecendo 
para o Estudo geral parte dos seus rendimentos. — D. Diniz acceita-os, e funda 
antes de 1288 a Uniyersidade em Lisboa. — Eepresenta^So dos Priores e 
Abbades a Nicolào lY pedindo a concessSo para a cedencia de parte dos 
seus rendimentos. — Bulla de confinna9£o. — A concessAo do fóro ecclesiastico 
aos escholares, e lucta d^estes com os burguezes. — Influencia de Afifonso o 
Sabio em seu neto D. Diniz, e influzo da Uniyersidade de Salamanca na 
crea^So da de Lisboa. — O ensino da Theologia particularisado &s ordens dos 
DominicanoB e Franciscanos, repreientantes dos Nomjnalistas e Bealistas. — 
Traslada^io da Uniyersidade para Coimbra em 1307; reposta em Lisboa, 
em 1338; outra yez transferida para Coimbra em 1354; fixa-se em Lisboa 
depois de 1377. — A Uniyersidade obtem a faculdade Ubique docendi em 
1380. — Centralisa^ dos Estudos. 

É no Boculo xiu que a razSo humana cometa a emancipar-se do 
theologismOi bem longe de poBsoir ob elementos para se elevar à sjn- 
these poBitiya; é no secalo xiii que as classes servas attingem a di- 



60 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

gnidade civil, sem comtudo poderem ainda affirmar-se corno um poder 
«ociàl. O aeculo xiii foi, corno diz Comte «sob todos ob aspectos o 
precursor directo da revolugSo occidental.» À necessidade de recon- 
atitair um novo Poder espiritual manifesta-se mesmo dentro da Egreja^ 
vendo-se os Papas e os altos dignatarios do sacerdocio cooperando para 
a crea9So das Universidades ou Estados geraes. Refetrindo-se a este 
estado de espirito que desprezara o theologismo para cultivar as scien- 
cias humanas, escreve Comte: «A incredulidade desenvolveu-se sobrd- 
tudo no sacerdocio regular, e entro os grandes dignatarios do clero 
secular/ mais bem coUocados para apreciar o conjuncto das tendendaa 
modemas.»' Està iniciativa sacerdotal apparece na supplica dos Ab- 
> bades e Priores ao rei D. Diniz e ao papa Nicolào iv, para o estabe- 
^lecimento de um Estudo geral cm Lisboa. A necessidade de reconsti» 
tuir Poder temperai, tfto difficil corno o problema anterior, achou nos 
JurisconsultoSy que fizeram renascer o Direito romano, a cooperarlo 
necessaria para se definirem os direitos reaes magestaticos, para ac- 
centuar a impersonalidade da lei sob a instituiyfto do Ministerio publico, 
e para realisar-se desde o seculo XV a dictadura tempora! das monar- 
chias absolutas, base de ordem empirica na grande e prolongada revo* 
IxKjSio Occidental. Comte caractarisa admiravelmente a influencia d'estea 
dois factores moraes, que imprìmiram direc9Ao à historia moderna da 
Europa: 

«Os metaphysicos e os legistas tomaram-se os orgftos respectivos^ 
mais apparentes do que reaes, da influencia espiritual e da auctoridade 
tempora! propria & revolu9fto occidentale que, segundo a divisSo dos 
dois poderes, se conformou portante & separaySo irrevogavelmente ea- 
boyada na Edade mèdia. 

«Apesar da intima communidade de origem, de educaySo, e mesmo 
de costumes, os Jurisconsultos devem ser sempre distinctos dos Onto- 
logistas, acima dos quaes a vida activa os coUocou immediatamente. Pro- 
duzidos pelo feudalismo, comò aquelles entro o clero, elles mereceram 
por multo tempo a confianra que o antigo poder tempora! e o novo 
elemento pratico cpncordaram em attrìbuir-lhes, conforme a genera- 
lidade das suas vistas polìticas. OrgSos passageiros de uma funereo 
equivoca, que confunde a appreciarSo espiritual e a repressSo temperai, 
elles foram por isso mesmo, incapazes de mandar, e acharam-se mais 
dispostos a fomecerem uteis instrumentos &s forfas susceptiveis de 
prevalecer. 



1 Comte, Syethne de Politique ponHvt, t. lu, p. 509. 



O ESTUDO 6ERAL EM LISBOA 6 1 

cQuanto aos metaph^sicos, que, apezar das suas formas pedantescas 
oraxD sempre, corno ainda hoje, mais litterarìos que philosophicos, a 
sua inflaencia permaneceu, durante toda a transiga moderna, mais no- 
civa do qne util, tanto ao espirito corno ao cora9So. Productos para- 
ritas de um ardor theorico que precedia fatalmente o seu verdadeiro 
destino, estes discursadores, dignos successores dos sophistas gregos, 
nXo comportaram outra efficacidade a nSo ser a de propagar por toda 
a parte a emancipa9fto completa.»^ 

No seu fiindamental Diacurso sabre o estado das Lettras no secula 
XIV, Victor Ledere considera a institui^So das Universrdades corno 
simultanea com os Parlamentos «annunciando pelos seus progresso» 
ama das transformaQSes da antiga sociedade, o advento do terceiro es- 
tado.» * Na historia da pedagogia importa conhecer sempre as rela98es 
que existem entro as doutrinas que constituem a instrucfILo individuai 
e aa fórmas por onde se aperfei($a a organisa^So social. A ausencia 
d'este criterio tem tornado improficuas as observa98es d'aquelles que 
analysam as inBtituÌ98e8 escholares, reduzindo todas as suas suggestSes 
e planos de reforma à mais deploravel inefficacia. No periodo historico 
em que os Jesuitas dominaram a instruc9So publica da Europa, elles 
separaram estes. dois problemas, impondo disciplinas e methodos de 
ensino exclusivamente litterararios em contradic92Lo com a tendencia 
experimental e de livre critica com que come9ou a renascen9a scien- 
tifica do seculo XVI. Augusto Comte relacionou sob o ponto de vista de 
urna applica9So social estes dois principios, a conformidade da educa92L0 
individuai com a direc9So tempora! da sociedade, ambas derivadas das 
mesnaas no9SeB scientificas. Assim Pedagogia e Politica sSo os meios 
praticos por onde uma doutrina philosophica pode harmonisar o des- 
envolvimento individuai com o progresso da sociedade. Na marcha bis- 
torica da Europa, nem sempre as capacidades dirigentes tiveram conhe- 
dmento da intima rela9So entro a Politica e a Pedagogia; e em rigor 
póde-se affirmar, que a sua dependencia imperscindivel de uma dou- 
trina pbilosophica està ainda longé de ser comprehendida. As grandes 
msea do ensino europeu caracterisam-se pela simultaneidade com os 
profandos abalos politicos : o ensino secuLar das Universidades estabe- 
lece-se conjunctamente com os Parlamentos e concorrencia do Ter- 
oeiro estado, assim corno o ensino scientifico das Poljtechnicas, orga- 



^ Comte, Systhne de PoUHgut pontive^ t. m, p. 527. 
' Op. dt., 1. 1, p. 262. 



62 HISTORIA DA UNIYERSIDADB DE COIMBRA 

nisado pela Coiiyeii9Ao franceza, é ama resultante do phenomeno da 
dÌBsolu9So do regimen catholico-feudal no firn do secalo xvni. 
. Investigaemos està primeira crise. 
A Egreja renegàra a tradifSo da caltara greco-romana, e foi pela 
inflaencia dos Arabes que se despertoa o interesse pelos estudos scien- 
tificoB e philosophicos, que determinaram a renascen$a intellectual da 
Europa. Como se reatou està continuidade? Depois que a religiSo 
christS se tomou politica, sob Constantino, ella dirigiu o poder tem- 
perai para a destruÌ92o do hellcnismo ; em 529 o imperador Justiniano 
publicou um edito mandando fechar todas as escbolas philosophicas, e 
segando o historiador byzantino Agathias, os eruditos e philosopbos 
Damascio, Simplicio, Eulamios, Prisciano, Isidoro de Gaza, Hermias 
e Diogenes de Phenicia foram procurar asylo na cSrte dos Sassànides, 
na Persia, onde reinava o celebre Chosroes Nushirwan. Tal foi o facto 
que originou a communica93o dos Arabes com a civilÌ8a9&o hellenica, 
e foi na occupaffto do Occidente que elles pelo esplendor das suas es- 
cbolas deslumbraram Carlos Magno, o grande organisador da Europa. 
As obras de Aristoteles formavam ama vastissima encydopedia consti- 
tuida por sciencias experìmentaes, em que se reconhecia a superiori- 
dade do criterio objectivo; as explica93es, os commentarios dos que 
as estudavam fomeciam ao espirito urna activìdade critica e a prepon- 
derancia do ponto de vista humano. As traduc93es arabes das obras 
mathematicas de Euclides, do Almagesto de Ptolemeu, das obras me- 
dicas de Hippocrates, do Organum de Aristoteles, do Phedon, Ora- 
tt/lo e LeÌ8 de Platfto, revelaram novos horìzontes & intelligencia, que 
estava atropbiada pelos escholasticos, que reduziam a in8truc92o ao 
fim exclusivamente sacerdotal. Està nova corrente hellenica conserva- 
ra-se entro os christSos nestorianos, e mesmo no sul da Fran(a a exis- 
tencia de um mosteiro onde se conservava o rito das egrejas de Smyma 
e de Constantinopla, explica-nos com que facilidade se acceitava o con- 
tacto com as escbolas dos Arabes. Aquelle que trazia a inicia9fto scien- 
tifica d'essas escbolas, e que possuia o segredo da interpreta9So das 
doutrinas da Grecia, afastado das CoUegiadas, abria o seu estudo em 
um legar isolado, e a fama da sua capacidade attrahia de todas as 
partes da Europa as intelligencias àvidas de saber, que vinham acer- 
car-se com ferver da sua Cathedra. Os discipulos vestiam-se com a toga 
dos philosopbos antigos, e d'aqui veiu o costume das vestes talares 
nas Universidades; o estudo fazia-se debaixo dos arvoredos ou nos lo- 
gares elevados, d'onde veiu o chamar-se ao Monte de Santa Geno- 
veva, onde se fundou a Universidade de Paris, a coUina dos Doutores. 



ESTUDO 6ERAL EM USBOA 63 

Urna Cathedra era o minimum de urna Uaiversidade; assim abrem- 
se em Salerno e Montpellier Esckólas especiaes para a Medicina e para 
o Direito, desenvolvendo-se em determinados cursos com mais cathe - 
dras e cathedrilhas Bupplementares. Quando se alargou o quadro das 
disciplinas em um Eatudo geral, é entfto que apparece o lypo pedagogico 
da Universidade comò as de Paris, Oxford, Bolonba, Padaa, Salaman- 
ca, Napoles, Upsal, Lisboa e Roma. Em Roma, no tempo de Ulpiano, 
existiu eschola especial de Direito; em CoUstantinopla, estabelece-se 
em 425 uma Eschola publica com vinte cito professores de Litteratura 
grega e romana, um de Philosophia e dois de Direito,^ estipendiados 
pelo estado. Este caracter humaniata, com que se funda a Eschola de 
Constantinopla, reapparece nas Universidades medievaes, em que a 
Grammatica, a Dlalectica e a'Rhetorica constituem q curso das Artes 
incorporado com as outras Faculdades, sendo do grupo dos seus gra- 
daados escolhidos os Reitores, comò notou Victor Ledere na Univer- 
sidade de Paris, onde os estudantes de Artes tinham a maioria nas 
eleÌ95es escholares. E d'este caracter humanista, em que o Direito se 
ensinava nas escholas de Rhetorica e de Dialectica para os que se diri- 
giam à adyocacia, que se conservaram mais tarde incorporados no Es- 
tttdo geral os Collegios de Artes, e se conferia o grào de Doutor em leU 
tras. Alcuino, na descrip9So da Eschola de York, apresenta comò con- 
stituindo seu quadro pedagogico a Ghrammatica, a Rhetorica e a Jwris- 
prudenda. ' Nas Acta Sanctorum indica-se naVida de S. Bonitus d'Au- 
yergne os seus conhecimentos de grammatica, dos decretos de Theo- 
dosio, e dos recursos da dialectica. Nas escholas de Pavia, comò se ve 
na Vida de Lanfranc, ensinava-se segundo o costume as Bellas Lettras, 
a Jurisprudencia e o exercicio da Oratoria. Chamavam-se Sententiae 
08 principioB ou regras geraes de Direito que se invocavam nos dis- 
cursos do exercicio rhetorico. No poema de Wipo, Panegirico de flen- 
rique III, pede-se ao rei que organile os estudos na Allemanha, em 
que se cultivem as Lettras e as Leis, concluindo : 

Moribus bis dudum vivebat Roma decenter, 
Bis stadiis tantos potuit vincere tjrannoB, 
Hoc servant Itali post prima crepundia cnncti. ' 



1 Savigny, Historia do Direito romano na Edade mèdia, cap. v. 

* Id., ibid., cap. vi, p. 860. 

^ Canisio, t. iv, p. 167. Ap. Savigny, op. cit 



64 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Estes eetudos conservaram-se dorante toda a Edade mèdia; pò* 
rem, fervor que mereceram os estndos das Leis, pela &ca9So do 
poder realy é que determinou o desenyolvjmento das cadeiras especiaes, 
formando o typo da Universidade. Concilio de Rheims; de 1131, pro- 
hibia espressamente aos monges e conegos regularea o estudo das Loia 
civis e da Medicinai e o uso da advocacia com espirito de cobi(a. * O 
papa Innocencio iv, na bulla de 1254, lamenta o facto do abandono 
da Pbilosophia e da Theologia, pelo estudo das Leis civis, que condu- 
zia às dignidades ecdesiasticas e aos beneficios. E termina a bulla: 
< Consequentemente decidimos pelas presentes, que de ora em diante 
nenhum professor de Jurisprudencia, nenhum advogado, seja qual for 
logar ou a reputa9lo de que gose na faculdade de DireitO; nSo pò- 
derà pretender às prebendas, honras e dignidades ecclesiasticas, nem 
mesmo aos beneficios inferiores, se elle nSo der as provas de capaci- 
dado exigidas nas faculdades das Artes. . .»^ Eram éssas as Facvldc^ 
ilea permittidas, que se ensinavam sem dependencia da auctoridade pon- 
tificai; assim no Estudo geral nSo entrava a Theologia, concessilo pela 
qual OS Papas ficaram com ingerencia nas Universidades. A obscuri- 
dade que reina sobre a origem das mais antigas Universidades da Eu- 
ropa resulta da falta de conbecimento da continuidade bistorica que 
existiu entre as Escholas humanistas do trivium e quadrivium com os 
Estudos geraes, ^ Àinda no seculo xvi escrevia o illustre poeta Anto- 
nio Ferreira, que frequentara os estudos litterarios no Collegio real de 
Coimbra, ao principal Diego de Teive: 

NSo fazem damno as Musas aos Doutores, 
Antes ajuda a suas Lettras d2o. . . 

A tradÌ9Ao pedagogica das antigas escholas de Direito de Con- 
stantinopla e Beryto reappareceu nas Universidades, nos cursos de ciuco 
annos. Os alumnos de cada anno tinham nomes ou alcunhas peculia- 
res: os que frequentavam o primeiro anno eram os Dupondii (do mi» 
nerval que pagavam^ o dupondium, que valia dez ossea); os do segundo 



1 Histoire liUércdrt de la France, t. vn, p. 151 e 152,**Tailliar, Précis de 
rmst des Inat^ p. 114. 

* Ap. Ozanan, Dante et la PhUosophie catìiolique, p. 431-433. 

' Depois da reoascen^a do Direito civO, a importancia dos estudos medicos 
pela vulgarìsa^So das obras dos Arabes tambem contribuiu para o desenvolvimento 
do Estudo geral. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 65 

anno eram denomìnados Edictales, porque estudavam o Edicto com- 
mentado por Ulpiano; ob do terceiro anno, embora continuassem o es- 
tado do EdictOi eram denominàdos Pajnnianùtas, porque estadavam 
as Responsa Papiniani; os quartanìstas eram os Lytde, palavra grega 
referente à B0IU980 -dos enigmas das leìs que propunham em disputas 
entro si; os qointanistas eram chamados os Prolytae, por contìnuarem 
as dispntas applicadas às Consti taÌ93es imperiaes. Sob as reformas do 
ìmperador Justinianoi embora se modificassem as doutrìnas do ensino 
de cada anno, conservaram-se os tìtulos escholasticos, com excepfSo 
do8 que frequentavam primeiro anno, que trocaram nome offensivo 
de Dtipondn por Jìxstinianistaa. ' 

O nome de Uhiveraidade empregou-se, na primitiva accepgSLOy 
corno designando a coUectividade dos mestres e estudantes, Universi' 
tas magistrum et scholarium, E do caracter social que tomou està cor- 
pora$So pedagogica, moldada segundo as irmandades ou guilds, com um 
fòro civil privilegiado, é que nome de Universidade veiu a prevale»- 
cer sobre a designagào de Estudo gerody que significava mais a reuniSo 
das disciplinas pedagogicas. espirito associativo é que transparece 
nas designa93e8 communs do fim da Edade mèdia, Universitas studii, 
e Universitatia coUegium, que algumas ordens monasticas pretenderam 
conservar imprimindo-lbes o individualismo do seu instituto.' cara- 
cter associativo da classe escholar, tomado das guilds germanicas ou 
das jurandas e irmandades, apresenta nos seus cargos as mesmas ca- 
thegorias de chefes: Rector scholarum, eleito pelos estudantes, é em 
tado similhante ao Rector societatum; e comò a associa9So escholar era 
formada pela federa9lllo dos estudantes estrangeiros, competia-lhe a in- 
terven9So de um Consiliarius (o Cancellano), que regulava as rela98es 
dos grupos nacionaes, ^ comò ConsUtariiis da guild. 



1 Charles Giraud, Hiat du Droit romain, p. 433. Este costume, que passou 
para as UniverBidadeB da Edade mèdia, (Cagadorea e Bacchanl^s) conserva-se na 
Universidade de Coimbra, onde os alumuoó do primeiro anno tcm nome de ^0- 
valoé e urna certa posi^So de inferioridade perante os Semiputoè ou secundanis- 
tas ; OS do terceiro anno sSo os Pie de banco, os do quarto anno Candieirés, 

' «Os padres dominicos chamam universidade aos seus estudos de Lisboa, 
Batalba e Coimbra, onde tiveram e tem agora seu collegio, e nunca Ihe duvida- 
ram d'isso, assignando-se assim nas patentes.» (Nota do Dr. Manuel de Sonsa às 
NoUciaa chronologicas da Universidade, nota 56, ao § 754.) 

' Na Universidade de Verceil (1220) a corpora9ao escholar compunha-se da 
1.* Na^ào: Fran9a, Normandia e Inglaterra; 2.« Na^ào: a Italiana; 3." Na^ào: 
Teutonica: a 4.* Nagào: Proven^aes, Hespanhoes e CatalSes. 

BIST. UH. 5 



€6 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

Os Papas concederam a està nova classe social, que se amoldava 
ao tjpo das associa93es democraticas, o fòro ecdesioàtico, gdkT9Ji\mào 
assiin essas novas instituifSes de Universidades, e exercendo sobre 
ellas um poder jurisdicional pela Licentia docendi ou a Licenciatura; a 
Bealeza sobre o foro ecclesiastico concedea-lbe a proteo^ soberana, 
cbamando-se por està circumstancia a Universidade de Paris a primo- 
genita dos reis. Para a realeza o escholar ou deriois ' adqairia pelos 
estudos um grào de cavalleria, imitando-se pela imposÌ9So da birreia 
o symbolo da manumissSo romana, pelo grào de bachard a qualidade 
de pequeno cavalleiro (bas-dievcdier, haadideur)^ e conforme entrava nos 
conselhos da corte o titulo senhorial de Conde palatino. Este conflicto 
entre o poder real e o pontificai é notado pelos historiadores das Uni- 
versidades, na auctoridade dos gr&os e simultaneidade de dois Reitores. 
Se catholicismo estabelecera a confratemidade pela crenfa, o fer- 
ver dos estudos humanistas creava a confratemidade pela sciencia, e 
do encontro dos discipulos que vinham de differentes paizes da Europa 
receber a mesma disciplina nasceu essa designasse de Universidade 

. ( Universitas stìjtdii)^ antes das diversas cathedras serem encorporadas 
em um systema unitario de instrucsSo civil pela auctoridade tempe- 
rai. Os papas, que anteriormente condemnavam a cultura greco-roma- 
na, comò vimos pela reprehensSo de S. Gregorio Magno ao bispo Di- 
dier, repellindo Donato, agora obedeciam a essa corrente, que desde o 
seculo XIII generalisou a instituisSo das Universidades pela Europa; 
Innocencio iii, em 1212, appresenta pelo seu legado o regulamento da 
Universidade de Paris, e Honorio ni (1216 a 1227) ordena que os Ca- 
bidos mandem alguns jovens frequentar as Universidades publicas, 
chegando a dep6r um Bispo porque nào lera Donato, comò o refere 
Tiraboschi. Pelo seu lado Qregorio ix, coadjuvando o restabelecimento 
da Universidade de Paris em 1229, e honrando com prìvilegios a Uni- 
versidade de Bolonha) sente que o desenvolvimento do Direito civil 
romano pela realeza é um perigo para a auctoridade pontificai, e or- 

.ganisa o corpo do Direito canonico. papa Innocencio iv pela sua 
bulla de 1254 condemna o desenvolvimento do Direito civil, que se 
ensinava juntamente com a Dialectica e com a Rhetorica; era urna pri- 
meira reacsSo elencai centra o humanismo : cUm deploravel rumor se 



1 Nas Notas de Figueiróa ìb NoOdas chronologicaa da UniverMade de Caim- 
bra^ le -se: «o titolo de derigo de d-rei nio denotava legar de pessoa ecclesiastiea 
absolutamente, senSo que queria significar homem lelrado, admittido ao consellio 
dos reis para com elles despachar.» Ap. Instituio de Coimbra, t. xiv, p 191. 



ESTUDO GERAL EM USBOA * 6 7 

espalha', e repetido de bocca em bocca, veiu ^affligir os nossos ouvidos. 
Diz-se que a multidSo dos que aspiram ao sacerdocio, abandonandoi 
repudiando mesmo os estudos philosophicos, e por conseqaencia tam- 
bem OS ensinos da Theologia, corre compacta às escholas onde se ex- 
plicam as Leis ciris. Accrescenta-se — que em um grande numero de 
paizes OS bispos reservam as prebendas, as honras e as dignidadea 
ecclesiasticas para aquelles que occupam cathedras de jurisprudenciai 
ou que se prevalecem do titulo de advogado, eto Apesar do pro- 
testo, Innocencio iv fonda a Universidadc de Placencia, e concede pri- 
Tilegios &8 Universidades de Tolosa, e de Valencia, na Hespanha. Ale- 
xandre IV (1261) mandou os seus sobrinhos firequentarem a Universi- 
dado de Paris; e Nicolio iv (1288 a 1292), convertendo em Univer- 
sidade a escbola de Montpellier e fundando tambem a Universidade de 
Macerata, segundo affirmam alguns escrìptores, concede os prìvilegios 
de f5ro ecclesiastico à nova Universidade de Lisboa, fundada pelo rei 
D. Diniz. Està crea9fto do monarcha foi apoiada pelo pedido de di- 
versòs prelados portugnezes, que, centra a bulla de Innocencio iv de 
1254, pretendiam dotar com prebendas das egrejas do padroado real 
os lentes chamados para ensinarem as disciplinas humanas; a bulla de 
confirma92lo de Nicoiào iv é urna permissSo d'este donativo. 

Kos conflictos do Poder real com o pontificai, & medida qne se 
estabelecia a independencia soberana sobre a prepotencia feudal, e se 
esbo^ava a dictadura monarchica, os Reis precisavam de fortificar-se 
no9 seus conselhos com a opiniSo dos Jurisconsultos, convidados do es- 
trangeiro, ou tendo frequentado as Universidades da Italia, até que o 
proprio interesse Ihes suggeriu a necessldade de fundar tambem um 
Estado geral ou Universidade. Junto de D. Affonso Henriques ve- 
mos figurar D. Jofto Peculiar, Letrado em ambos os Direitos, e Mestre 
Alberto, que assigna o forai de Leiria de 1142, apesar de estrangeiro. 
Sobre o valor da palavra Mestre escreve José Anastacio]de Figueiredo*: 
«nSo me atrevendo so a decidir de certo, se a palavra Mestre (à qual 
se substituira Doutor depois da instituÌ9S,o dos gràos academicos) com 
que nos nossos antigos tempos se acham designados e prenomeados 
alguns homens e jurisconsultos em differenja de outros que se chama 
Falanos das Leis, denota que elles, além da sciencia que possuiam, e 
Ihes fazia dar o dito prenome, tambem estavam ensinando, ainda que 



1 Època da irUroduo^ào do Diretto Jtistinianeo em Portugal. Mem. de Litt, da 
Academia, 1. 1, p. 272. 

5* 



68 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

partìcolannente, por ser a tradacjXo da palavra Praeceptor, de que 
sempre (depoiei de conhecida a dita palavra Doutor) para o dito firn se 
ttsou.» D. Sancho i (1185) procedeu corno eeu pae, mandando vir de 
MilSo jorisconsulto Leonardo, que jà sob D. Àffonso ii servìa em 
Boma corno seu procuradori e Mestre Yicente, que o serve corno le- 
gista na concordia com suas irmSs. Os nomes de Magister Dominicus, 
arcediago de Santarem, Magister Petrus, Magister Pelagius, cbantre do 
PortO| figuram comò compondo o conselho de D. Affosso ii. Anasta- 
cio de Figueiredo attribue ao tempo de D. Sancho n e D. Afifonso ui 
a redacfSo de um Compendio de Direito feito em portuguez por Mes- 
tre Jacohe das Leis a pedido de Affonso FernandeS| para que ^Ihe es- 
cdUiesse algumas Jlores de Direito brevemente j para que podesse ter al^ 
guma carreira ordenada para entender, e para delinear os preitos se- 
gundo as Leis dos sabedores.it ^ Mais tarde os titulos de Mestre e Do^ 
ctor apparecem empregados para distinguirem os graduados em Tbeo- 
logia; e OS graduados em Direito canonico ou civil (in tUroque)» O ti- 
tulo de Mestre, primeiramente usado nas Eschòlas das Collegiadas, con- 
servou o primitivo uso, designando os que ensinavam Artes e n'ellas 
eram graduados nas Universidades, e os Doutores in sacra Pagina ou 
Tbeologia. 

Algumas das Can$3es satyricas de Estevam da Guarda, privado 
de D. Affonso iii, referem-se a huU meestre de leys que era manco d'uà 
pema e copegava d'eia muito, e outra a hdjuiz que non ouvia ben. Eis 
a sirvente, em que o equivoco entre o defeito physico e o defeito da 
Bciencia juridica fere indirectamente a justi^a real, que ia submettendo 
a independencia do foro senhorial: 



En preyto que d^m Joam ha 
con hon maestre .ha gram questom, 
e meestre presupom 
o de que o derejt'eBtà 
tan contrairo per quant*ea vi, 
que se lh*outrem nom acorr'i 
meestre decaerd. 



1 J. A. de Figueiredo dìz que este Compendio se acha no Forai da Guarda, 
na Torre do Tombo, Casa da Corda, Armario 17, Ma^ 6, N. 4, de fol. 18 até foL 
40, e considera-o corno «todo ordenado sobre o Digesto e Institai^Ses de Jnsti- 
nìano, com que se conforma nas senten^as e dispo8Ì9oes ou regras que compre- 
bende.» (Mem. dt., ibid.) 



ESTUDO GERAL Eli LISBOA 69 

Mais se decae, qnem seri 
qne j& dereito, nem razon 

for demandar, nen defenson ^ 

en tal maestre qne non dà * 

en sen feit'ajuda assi, 
mais levari per qnanfoj 
qnem Ih'o direito sosterrà. 

Ca o meestre entende jà 
se decaer, qne lh*é cajom, 
antr*os qne letrados som 
onde yergonha prendrà, 
d*errar sen dereito assi 
e qnem esto vir des ali 
por mal andante o terrà, i 

A sirvénte segointe foi escrìpta ainda na menorìdade de D. Dinìz, 
8ob a regencia de saa mSe^ contra um juiz sardo: 

Men. dano fiz por tal jniz pedir 
qnando a rainha madre d*el rei dea 
ha cavsleiro oficiài sen 
pois me non vai d*ante tal jniz ir; 
ca se von e leVo men vogado 
sempre me dis qne està embaigado, 
de tal guisa qne me non pod'oir. 

Por tal juiz nnnca jamais ha 
desembargad'este preyto qne ej, ' 

nem a rainha, nem sen filh'el-rei 
pero lh*o mandem nnnca m*oirà; 
cÀ ja me disse qne me non compria 
d*ir per d'ant*el, pois m*oir non podia 
mentr*embargado estever oom*est&. 

Mais a rainha pois qne certa for 
de qnal juiz en sa casa ten, 
torà per razon, esto sei en ben 
de poer hi ontro juiz melhor, 
e assi poss'eu aver men dereito 
pois qne d'i for este juiz tolheito 
e mcjieren qnalqner outr*oidor.* 

A importancia dos jarìsconsoltos cresda com a aaotoridade mo- 



1 Oxnàùnmo da Vaticana, n.® 906» 
» Undm, n.* 910. 



70 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE GOIUBRA 

narchica, e em 1271, em urna questuo com o Mestre de S. Thiago, 
D. Affonso m tem por arbitro entre ontros o D<mtor em Leis D. Go- 
mes, conego de ^^iDora. Em 1282, em nma lei de D. Diniz se cita 
huma Ley do Degesto velho, que se cometa, etc., por onde se infere que 
j& era grande a influencia da Escbola de Bolonha em Portugal, porque 
o nome de Digesto velho provém da divisSo feita pelos Gloasadores ao 
Digesto em tres partes: o Digestum vetus (que acaba no tit. n, do liv. 
JLXiVy de divortiis)^ o Infortiatum (no portugaez antigo o Esforfodo, 
que vae do tit. iii| até ao ultimo tit. do liv. xxxvm) e o Digestum no* 
vum (que oomprehende todo o resto das Pandectas). Por oste facto se 
comprova que o Direito romano se vulgarìsara em Portugal pelos textos 
revistos e generalisados pelos glossadores de Bolonha, littera Bononiensia 
cadoptados por todos e desde entSo seguidos^ pelos copistas e pelos es- 
tudantes.» ^ Antes porém de existir uma Escbola publica em Portugal 
para Legistas e Decretistas, jà os jurisconsultos, que occupavam 03 
conselbos da cor6a e as dignidadss ecclesiasticas constituiam direito 
pelas Buas opiniSes e decisSes. ^ Era preciso conciliar as leis canoni- 
caSy as leis feudaes, foraes e os costumes da córte com um principio 
de justi^a, que transparecia no Dureito romano; e d'abi os casos, as 
cautelas, aa glosas, e interpretajSes dos doutores, emfim esse imperio 
da OpiniSo, com que a Escbola de Bartbolo dominou até & renova9SLo 
Idstorica de Cujacio. 

A necessidade da fundaySlo de um Estudo geral fazia sentir- se tanto 
aos que afirontavam as difficuldades de ir frequentar as Universida- 
des de Hespanba, Franca e Italia, comò & realeza, que precisava noB 
seus conflictOB com os Papas e Bispos, assentar a espbera dos direitos 
reaes. E por isso que a fundaQSo de um Estudo geral em Lisboa, nos 
apparece simultaneamente devida à representagSo dos Abbades e Prio- 
res de varias egrejas, que se o£fereceram ao rei D. Diniz para contribuì- 
rem para as despezas com parte das rendas dos seus beneficios, ^ comò 



1 Ch. Giraud, Histoire du DroU romam, p. 459. 

2 J. Anastado de Ugueiredo cita as phrases ^qnentes no Livro de Leis e 
Posturas antigas : •he dereitoper Cantorem Elborensem . . . llem, he costume per Ma^ 
gistrum Julkmum e per Magistrum Petrum. . . etc, Mem. litt, i, p. 282. Estè Con* 
torem Elboreneem cu Chantre de Evora seria o celebre D. Domingos Jardo,.qae se 
doutoràra em Paris, no tempo de D. Affonso ni. 

3 Este documento da RepresentaQSo dos Priores e Abbades a D. Diniz, antes 
de 1288 nSo eziste; tambem falta o docomento da acquiescencia do monarcha,de 
que resulton os Abbades fazerem a Peti^io a Nicolào zy, em 1288, para anctorisar 
a oedenda de parte da renda das snas egrejas para oEstudogeral^ e eonoeder-lhe 
o IKlro ecclesiastico. «A attriboiQSo d'està gloria da fonda^So das Esebolasipnbli* 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 7t 

Bobretudo i iniciativa do proprio monarcba^ estimulado pelo espJendor 
das Universidades de Sevilba^ e de Salamanca, e auxìliado pelo bens 
doB Templarios, com que veiu mais tarde a constituir os salarios doa 
Lentesy quando pela mndan^ da Universidade, os Abbades e Priores 
86 recusaram a contribuir com a quota parte dos seus beneficios. 

Dos estudos de Paris, frequentados pelos ecclesiasticos portugue-- 
zea, fida D. Nicolào de Santa Maria, citando a carta de doaQSo de 
D. Sancho i, de 14 de aetembro de 1192: cdou e concedo ao Mosteiro 
de Santa Cruz quatrocentos morabitinos de minba fazenda, para su- 
8tenta9So dos Conegos do dito Mosteiro, que estudam em os partes de 
FrctnQa. . . > ^ A reputajffto das Escholas de Paris era immensa, e gene- 
ralisara-se a idèa que era indispensavel frequental-as para ser bom 
mastre; Hauréau, no seu estudo sobre a Philosophia Scholaatìca de- 
acreve as enormes difficuldades que era preciso vencer para frequentar 
essas- Escholas: «Para ter o direi to de ensinar os outros era preciso 
ter feito alguma permanencia nas escbolas de Paris ; quem nSLo tivesse 
ido ali ouvir os illustres regentes da grande Escbola, passava por igno- 
rar OS principios elementares da sciencia. Quando nos ultimos confins 
da Bretanha insular, nos extremos longiquos da Calabria, da Hespa- 
nha, da Germania, da Polonia um joven clerigo- manifestava alguma 
inclina$So para os altos estudos e parecia aos seus superiores que viria 
A ser um logico, era immediatamente enviado para Paris. Partia sósinho, 
ft pé, atravessando os rios, as montanhas, os mares, sob a protec$^ dos 
homena de guerra, ou dos salteadores que elle encontrava no seu ca- 
minbo. Era uma vida de aventuras e de perìgos que o disciplinava de 
ante-mSo para as agita9Ses e rudes provas da escbola. Cada noite 
achava asylo no mais proximo mosteiro; se a noite o surprehendia 



eas DÌO é de admirar que cada chronista ou escriptor diga dever-se aos prelados 
da sua reHgi&o por estes tempos, por quanto nao era menos controvertida entre os 
papas e os reis ; aquelles com o intuito e piedade do firn ultimo pretendiam per- 
tencer-lhes a erec^ào das Universidades, e estes pelo direito da soberania tinham 
para si ser inseparavel a funda^So das Escholas da sua regalia dentro do territo- 
rio tempora! de cada princepe. D*aqui veiu a questuo: Àn Aoademiae Univeraiia' 
tea et CoUegia nnt eccUnastica, vel aecularia. Da qual tratam ex professo Affonso 
de Escobar, Dt pontificia et regia Juriédictione in Siudiia, cap. i. — Bento Pereira 
na Academia sive JRetpublica litteraria, n.«' 15, 2d, 48, 54, 56 e 59; Mendo, De Jure 
aeademieo, liv. i, 9. 8, n.^* 221, 238, 240, 243, 246, 249, 610; Cortiada, t. ni, Decis.^ 
135, n.^ 10, 22, 24 e 36.» Das Notas de Figueiroa &8 Notidas chronologioas da Uni' 
verndade de Coimbraf nota 3.* ao g 60. Instiiuto de Coimbra, voi. xzv, p 187. 

1 <^t in partibu9 Galliae studiorum oauea eommoraniur, . . » Ap. Chr. dos 
Con. regr., Parte u, liv. vu, cap. zv. 



lì HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

longe do povoado, ia bater à porta de qualqaer casa isolada; e par» 
alcanyar o agasalho o mais cordial bastava-lhe declarar o sea titolo de 
escholar: aqui a hospitalidade era-lhe liberalmente concedida; além^ 
era-lhe devida^ e a lei municipal punia corno um delieto teda a infrac- 
9S0 a este artigo consuetudinarìo: Aos escholares compete por teda a 
parte direi to de asylo.» ^ 

No pedido dos Abbades ao Papa Nicolio iv, em 12 de novembre 
de 1288, para confirmar em Lisboa um Estudo gercd de Lettras^ allu- 
de-se a està difficoldade das jornadas dos estudantes para as Univer- 
sidades estrangeiras: «por Termos qae à falta d'elle, muitos desejosos 
de estttdar e entrar no estado clerical atalhados com a faita de despe- 
^ zas, e descommodos dos caminhos largos, e ainda dos perigos da yida, 

nSo ouzSo, e temem ir estadar a outras partes remotas, receiando es* 
tas icommodidades; de que resulta appartar-se do seu bom proposito, 
e ficar no estado secular centra vontade.» * 

Em urna can9So do trovador portaguez Pero Mendez da Fonseca, 
allude-se a estas viagens aos estudos no estrangeiro, e ao prestigio com 
que cercavam os que regressavam & patria: 

Chegou Pajo de maas artes 
con seu cerarne de Chartes, 
e non Um el ruu parte» 
que chegcuse a huu ma; 
e do lunes ao martes 
foy comendador d^Ocrés. 

Semelha-me busoardo 
yiind*en ceramen pardo, 
e ha non ouvesee resgnardo 
en nenhum dos dez a sex; 
log*ouye manto tabardo 

e foy commendador d^Ocrés. 

E chegoa per bua grada 
descal^o gram madrugada, 
bu se non catavam nada 
d*bum bom'a tam raffez ; 
cobrou manto oom espada 

e foy commendador d^Ocrés. ' 



1 Hauréau, De la Philoaophie Scholastique, t. x, p. 28. 
* Trad. na Manarek. Umt,^ Parte y, Escrìpt. xyi. 

' Cancioneiro da VaHeana, n.* 1132. — estrìbilbo refere -se à Ordem dos 
Spatharios, cigo convento prìncipal era em Udés. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 73 

N'esta can9So acha-se urna referencia ao estudo das Partea, nome 
com que se designaya a Summa da Theologta de S. Thomaz de Aquino, 
que durante dncb seculos dominou nas escholas. Eram tres as Par- 
tea: a que tratava dos séres em geral e dos entes de razSo ; a que ana- 
lysaya as faculdades e os seus motivos sob o ponto de vista theologico; 
a ultima era urna Christologia ou o plano da redemp9Slo. O ensino das 
Partes (1.^ e 2.^) foi permittido fora das escholas. A referencia às Maxis 
Artes corresponde ao estudo de faculdade nSo permittida, sem seguran9a 
de orthodoxia. Por està satyra yè-se a importancia repentina que os es- 
tudos dayam na sociedade ciyil, elevando às dignidades das ordens os 
que iam cursal-os ou simular que os cursayam no estrangeiro. 

Uma outra sirvente de Affonso Eanes de Cotom pinta-nos com c8* 
res carregadas a cultura pedantesca da physica ou medicina de Mes- 
tre NicolàOy que finge ter frequentado a Eschola de Montpellier, usando 
as vestes doutoraes, as largas fraldas, a que allude o anexim popular 
hespanhol e portuguez: 

Meestre Inool&s a meu cujdar 
é muy boo fisico por non saber 
el as suas gentea guarecer, 
mais yejo-lhi capelo d'ultra-mar ; 
e traj*al uso bem de Monpiller, 
e latyn corno qual cleiigo qner 
entende, mais non o sabe tornar. 

£ sabe seus livros sìgo trazer, 
corno meestre sabe-os catar, 
e sab^os cademos ben cantar, 
qual cor non sabe pef elles leer ; 
mais bem yos dirà *qm quanto cnstou 
todo per conta ca elle x'os comprou, 
ora vede se a gram saber. 

E en boo ponto el tan myto leeu, 
ca per o prezam condes e reyx, 
e sabe contar qnatro e cinqu* et seiz, 
per 'strolomya que aprendeu ; 
e mais yos quer* end* ora dizer, 
en mays yam a el qnen a meester 
an d*el des antanho que o outro morreu. 

E ontras artes saV el muy melhor 
qUe estas todas de que yos faley, 
diz das luas corno yos direi, 
que x*as fezo todas nostro senhor, 



74 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

e do8 estormentos diz tal razom 
que muy bem pod'en elles fazer som 
todo homem que en seja sabedòr,^ 

Em urna outra can9So é apodado o doutor por Montpellier: 

Sabedes vós Maestre NicolÀo 
o que antano mi no gnareceu, 
aqnel que dizedes meestre m&o, 
yedes que fez per ervas que colheu. 



E direy-vos eu d*outra maestrìa 
que aprendeu ogan* em Mompiler, 
non yen a el home com maloutya 
de que non leve o mais que poder, 
et diz amigo esto t*ó mester. . .* 



Attribae-se ao papa Nicolào iv, eleito em 1288, a transformafSo 
da Eschola de Montpellier em Universidade; por ventura oste BUccesEO 
estimulou alguns clerigos e secularea a pedirem ao mesmo pontifico a 
permisaSo para dotarem com parte dos sens rendimentos um Estado 
goral em Lisboa, depois de terem a acquiescencia do Poder real. 

A indivìdualidade historica do rei D. Diniz preoccupando-se com 
a funda$So de um Estudo geral, elle mesmo apaixonado trovador, tendo 
em volta de si cavalleiros que conheciam todos os segredos da poetica 
proYonfalesca, e se entretinham, acabadas as guerras maurescasy com 
as novellas amorosa» da Tavola Redonda, uma tal individualidade so 
se avalia tendo presente que os chefes temporaes da sua època appre- 
sentam os mais elevados caracteres de superioridade; taes s2o: Fre- 
dorico II, trovador e philosopho, que na sua bibliotheca renne manu- 
scriptos gregos e arabes, e pretende dotar a Europa com uma traduc- 
9S0 das obras de Aristoteles; Roberto de Napoles, que protege os sa- 
bios; Affonso x de Castella, av6 do rei D. Diniz, tambem trovador e 
philosopho, conhecido pela variedade dos seus escriptos; Sam Luiz, 
que tinha por seu leitor Vicente de Beauvais, e assentava & mesa 
S. Thomaz de Aquino; e Philippe o Ousado, que tomara para prece- 
ptor de seu filho Egydio De Colonna, o auctor da obra apreciada em 
todas as cortes, De regimine principum. O poder temperai favoreda 
o desenvolvimento da intelligencia pelo instincto da sua propria inde- 



1 Candoneiro da VcUioana, n.* 1116. 
' Cane. CoUoei'BranaUi^ n,^ 441. 



ESTUDO GERàL EM USBOA 75 

pendencia; era a coltura do Direito romano que mais Ihe interes- 
sava para fundamentar o imperio da Realeza. papa Innocencio IV| 
na sna lacta centra o poder temperai, sentiu esse lado perigoso dos 
novos estadoSy e na bulla para o restabelecimento dos estudos philoso- 
phicos, de 1254y decahidos ante a preferencia pelos estudos juridicoS|, 
ìnterpSe a sua condemna^So^ prohibindo o proyimento dos cultores das 
leis civis em prebendas e beneficios ecclesiasticos. No reinado de D. 
IMniz regimen feudal é atacado pela lei sobre Coutos e Honras; a ju- 
riadicffto civil é separada da auctoridade militar dos Alcaides, e regu- 
lada a acquisisse dos bens immoveis pelos mosteiros;^ e o privilegio 
de conferir nobreza reservado unicamente ao Rei, que organisa Livrea 
de Linhagens e Nobiliarios, comò o cadastro dos fidalgos existentes, 
para que ninguem mais possa sel-o sem pertencer ao seu fòro real. 
Egfaal transformasSo se operava na realeza em Castella. 

Assim comò os habitos poeticos de Affonso o Sabio, de Castella, 
influiram na cultura da Poesia provensal na cdrte e prendas pessoaes 
de D. DiniZ| seu neto, tambem nfio foi sem influencia a acgSo exercida 
noe estudos classicos pela creas^o do grande monarcba fundando a 
Universidade de Sevilha. caracter do Estudo geral acha-se precisa- 
mente definido nas Leyes de Partidas comò urna das manifestagSes da 
prerogativa real (Partid. n, L. v, tit. 31): «Dieen Estudio General, en 
qua ha maestros de las artes, assi comò de grammatica e de logica et 
de arismetica, et de geometria, et de musica e de astronomia, et outrosi 
en que ha maestros et seiiores de leyes; et este estudio debe ser estabe- 
hddo por mandado de papa, ò de emperador, ò de rey.i^ Por aqui se ve 
oomo antigo nucleo do Trivium e Quadrivium se desenvolveu com a 
coltura das Leis, que fòra primitivamente litteraria e rhetorica, em luu 
novo typo pedagogico, comò manifestasse do poder pontificai e real, 
cu verdadeiramente comò resultante do conflicto intenso entro os po- 
d^ea espiritual e temperai. A faculdade ubique docendi, que o poder 
espiritaal concedia às immunidades do foro privilegiado contrapunham 
OS reis, ou o poder temperai, o seu Protectorado. No privilegio de 
Affionso Sabio dado à Universidade de Sevilha, em 8 de dezembro 
de 1254, estatue regalias que se repetem na instituisSo de D. Diniz: 
cMando que Ics maestros et los escolares que yinieren hy al Estudio, 
que vengan salvos et seguros por todas las partes de mis regnos et 



1 Villa Nova Portugal, Introd, do DireUo romano em Portvgal, Mem. Litt. 
t T, p. 890. 



76 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

por todo mio seSorio; con todas sas cosas^ et que non den portadgo 
ningano de sub libros nin de sas cosas que troxieren para si et que 
estudien et vivan seguramente et en paz en la cibdat de Sevilha.» 

Urna bulla de Alexandre iv^ de 29 de abril de 1255, menciona a 
Universidade de Salamanca com um Estudo gercd, categoria que so 
pertencera às Universidades de Paris, Oxford e Bolonha: unum de qua- 
tuor Orbis Generalibus Studiis. 

As Universidades de Palencia e de Valladolid decahiram porque 
Salamanca tomou-se o fòco mais activo dos estudos na Peninsula ; con- 
tra està forte corrente teve de lactar a Universidade de Coimbra, cir- 
camstancia que influiu na exigaidade e fraco esplendor das suas ori- 
gens. 

Na dota9So dos professores de Leis e Canones, D. Diniz segaiu 
as disposigSes de Affonso o Sabio na fondafSo da Universidade de Sa- 
lamanca. No primeiro regimento das cathedras de Salamanca estatae 
Affonso X, em 1254: 

cDe lo8 Maestros, — Mando é tengo por bien que haya nn maes- 
tro em Leyes, é yo que le de quinientos maravedis de salario per el 
alio: é que haya un bachiller legista, 

«Otrosi, mando que haya un maestro en decretos, é yo le de tres- 
cientos maravedis cada afio. 

cOtrosi, mando que hayan dos maestros en decretatesi é yo que 
les de quinientos maravedis cada allo. 

cOtrosi, tengo per bi^n que haya dos maestros de fisica, è yo 
que les de doscientos maravedis cada afio. 

cOtrosi, que haya dos maestros en logica, é yo que les de dos- 
cientos maravedis cada a&o. 

«Otrosi| mando que haya dos maestros em gramatóca, é yo que 
les de doscientos maravedis cada alio. 

cOtrosi, mando, é tengo per bien que haya un estacionario, é yo 
que le de cien maravedis cada a&o : é el tenga todos los ejemplares 
buenos é correctos. 

cOtrosi, mando é tengo per bien que haya un maestro de organo, 
é yo que le de doscientos maravedis cada aBo. etc.» ' 

Conhecendo-se comò os estudantes portuguezes frequentavam as 
Universidades de Bolonha, Montpellier e Paris, no seculo xm, e corno 



1 Cit. na Hutoria de la Univenidade d$ Salamanoa, de P. Chacon. Ap. Sem- 
pere, Historia dd Derecho espahol, p. 276. 



ESTUDO GERAL EM USBOA 77 

38 Umversidades peninsulares, sobretudo as de Salamanca e Sevilha, 
8ob o vigoroso impulso de Afifonso o Sabio, faziam Portugal intelle- 
ctualmente feudatario da Hespanha^ a necessidade da independencia 
monarchica obrigava D. Diniz a estabelecer tambem na sua cdrte um 
Estudo geral. Ab terras ou cidades tinham fortes rivalidades entre si 
por causa das suas Universidades: Bolonha temiase de Montpellier por 
causa dos estudos medicos, e de Regio por causa dos estudos j aridi- 
co8| chegando a contractar os lentes por clausula declarada de nSo 
abandoharem por outra a sua Universidade, e obrigando os estudantes 
oom juramento de nSlo deixarem de seguir os estudos de Bolonha. Ho- 
norio m prohibiu aos estudantes da Campania e da Toscana o obede- 
cerem a este juramento. N'esta lucta das Universidades^ que raptavam 
entro si os melhores lentes^ aconteceu por vezes os lentes emigrarem 
com OS estudantes^ corno Roffredo saindo de Bolonha para Arezzo, 
e nascerem novas Universidades, comò a de Padua com elementos 
saidos de Bolonha. N'uma d'estas migra95es era lente em Bolonha o 
celebre Fedro Hùpano, o nosso portuguez Fedro Julifto, * corno se sabe 
por urna carta de Guilherme GascSo, convidando-o a ir para Padua, 
para onde Frederico ni transferira a Universidade. As Universidades 
tomavam-se uma centralisa^So das Escholas seculares sob o poder 
real; Frederico n, fondando a Universidade de Napoles em 1224, pro- 
hibiu aos seus subditos o sairem a frequentar estudos estrangeiros, e 
mandou recolherem-se à patria os que andavam forai Tambem fora de 
Portugal figuravam muitos escholares, circumstancia que influiria por 
certo no animo de D. Diniz para a crea92Lo de um Estudo geral, £m 
Bolonha, no fim do seculo xm (1265 a 1294), frequentavam os estu- 
dos doze mil alumnos, e na matricula publicada por Sarti figuram jpor- 
tuguezes entre os francezes, flamengos, tedescos, hespanhoes, inglezes 
e escossezes. * Bolonha era um fòco de cultura da poesia trobadores«a, 
a qual se propagara tambem muito cedo a Portugal por via de Italia; 
ali abundavam os estudantes da Proven$a, do Poitou e de Limoges, e 
o proprio trovador Ugo de Mataplana frequentou esses estudos, sondo 
tambem bolonhez o trovador Rambertino de Buvalelli. Quando ve- 
mos conhecidas em Portugal as can^oes dos trovadores Sordello, de 
Mantua, e Bonifazio Calvo, de Genova, nSo podemos deixar de consi- 
derar comò uma das fontes da sua communica9llo o conhecimento dos 



1 TiraboBchi, Storia della Letteratura italiana, t iv, p. 47. 
' Id., ibid., t. IV, p. 50. 



78 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

estudantes portugaezes quo regressavam de Bolonha. Na lingaagem 
dos trovadores portnguezes do firn do secalo xiii abundam as pala- . 
vras italianas e mesmo fórmas poeticas das BaUatas, corno as que eram 
populares em Boionlia.^ Depois de terminada a guerra dos Albigen- 
sesy em 1229, urna das clausulas do tratado de Paris foi a funda^So 
da Universidade de Tolosa à casta do Conde Kaymando, com qoatjro 
mestres de Theologia, dois de Decretos, seist para Artes libcraes, e 
dois de Grammatica. O trovador Folqaet, de Marselha, depois de orna 
existencia desvairada fez-se monge, e nomeado bispo foi am dos mais 
ardentes promotores da Universidade de Tolosa, corno redacto contra 
a hcresia albigense. Para essa Universidade tambem se precisoa attra- 
hir estudantes; representando-lhes a benignidade do dima^ a tarbalen- 
cia da Universidade de Paris, o ensino da Physka de AristoteleSi 
qae f5ra prohibido na Universidade parisiense, e a peregrinasse cele- 
bre de Rocamador, ' A persegai^So contra os Albigenses fez a disper- 
sSo de maitos trovadores nas cortes peninsalares ; no Cancioneiro da 
Vaticana ha preciosas referencias à romagem de Rocamador. D. Di- 
niz pensava em fondar am Estudo gercd à imita$So d'esses que se es- 
tabeleciam na Peninsula. A balla do Papa Nicol&o iv, que approva 
essa instituigSo, parece alladir & heresia meridional, e necessidade de 
Ibe opp6r am embaraQo: «Do estado do Reino de Portagal, tanto mais 
vigilante caidado temos, qaanto maior é em nós o desejo, de qae no 
mesmo Reino, apartados algans impedimentos, eobre vigor a ohserwxn- 
eia do evito divino, se attenda às obras da salva^So, e que a pureea 
da fé catholica se esforee ...» 

D. Diniz' come9oa a reinar em 1279, e entro as difficaldades sog- 
geridas pelas ambi93es de sea irmSo o infante D. Afibnso, e pelas oom- 
plicagSes da politica castelhana, comesoa desde lego o conflioto com o 
alto clero, qae daroa até 1289. Esse conflicto debatea-se em Roma, 
diante dos papas Martinho rv, Honorio rv e Nicolào iV; darante eate 
tempo rei nSLo podia fandar o Estudo geral, porqae ce Bispos prò- 
testavam contra a cedencia dos rendimentos das Egrejas de que o rei 
era padroeiro. £ emqaanto o arcebispo de Braga, D. Tello, o bispo 
de Silves, D. Bartholomea, o bispo de Coimbra, D. Americo (Ayme- 
rie d'Ebrard) e o bispo de Lamego, D. JoSo, debatiam contra o poder 



1 Até 1300, Bolonha era frequentada por estadantes peninsiilaiesY dbtinguin- 
do-se Mateo (1204), Fedro Decretalista, Garda, Bernardo Compostellano, canoDista, 
JoSo de Deus e Rajmundo de Peftafort. 

2 Histoirt litUrairt de la Franot^ t. xxii, p. 87 a 89. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 79 

real junto do papa, D. Diniz encontron no clero xnenor um singular 
apoio para a realÌ8a9So do sea plano de um Estudo gercd. No meio da 
prolongada pendencia do alto clero portuguez contra o monarcha, o 
papa Nicoiào iv foi sorprehendido por urna repre8enta9&o collectiva de 
Tarìos preladoB reunidos em Monte-Mór-o-Novo em 12 de novembre de 
1288, pedindo-Ihe consentimento para dos rendimentos das suas egre- 
jas poderem pagar os Balarìos dos mestres e doutores de um Estudp 
geral em Lisboa. Por està via D. Diniz apresentava diante do papa 
uma refata9fto eloquente contra o quadro de violencias que os Bispos 
Ihe assacavam em Roma. Vé-se portante que a reuniSo dos Prelados, 
Abbades e Reitores em Monte-Mór-o-Novo obedeceu a um plano, por- 
que essa reuniSo fez-se «em companhia de pessoas religiosas, prelados 
e outras, assi clerigos corno secularea dos Reinos de Portugal e Algarve, 
avida plenaria deliberasse no caso ...» Estes seculares, que nunca fo- 
ram nomeados, eram fidalgos padroeiros de egrejas, templarios e ou- 
tros cavalleiros de ordem. A reuniSo de Monte-Mór fora precedida de 
outra anterior a 1288, em que deliberarain apresentar uma PetÌ9fto 
«ao Exoellentissimo D. Diniz nesso rey e senhor, rogando-lhe encare- 
cidamente se dignasse de fazer e ordenar bum Estudo geral na sua 
nobilissima Cidade de Lisboa.» D'este acto inicial nfto esiste documénto 
directo actualmente. Muito antes tambem de 1288, o rei D. Diniz 
attendeu a peti^So aoceitando os rendimentos necessarios para dotar o 
Estudo geral: cOuvida por este Rej e admittida a nossa petis^o be- 
nignamente, com consentimento d'elle, que é o verdadeiro padroeiro 
dos mosteiros e egrqas sobreditas, se assentou entro nós, que os sa- 
larioB dos Mestres e Doutores se pagassem das rendas dos mesmos 
mosteiros e egrejas, taxando logo o que cada uma havia de contribuir, 
reservando a congrua sustentayfto.» 

As escholas episcopaes e abbaciaes jà nSo podiam satisfazer 
as necessidades do eapirito, que pendia de preferencia para os es- 
tados bumanistas, do que se queixava amargamente o Papa Inno- 
cencio IV na bulla de 1254, por que via menos interèsse pela tbeologia, 
e as dignidades ecclesiasticas conferidas a jurisconstiltos. Obedecendo 
a esse ferver humanista, e procurando apoio na auctoridade real, é 
que alguns abbades e priores se dirigiram a D. Diniz, erogando enca- 
recidamente se dignasse fazer e ordenar um Estudo gerci na sua nobi- 
lissima cidade de Lisboa.» O rei Diniz, verdadeiramente homem de 
lettras, e o principal trovador portuguez, come neto de Affonso o Sabio, 
a quem imitava na elevada cultura intellectual, e come conhecedor da 
fama da Universidade de Paris, comprebendeu logo as vantagens que 



80 HISTORIA DA UNIYEHSIDADE DE COIMBRA 

adviriam ao seu estado pela fonda^So de xxm Estudo geral, onde o 
Direito romano se tornasse conhecido e base authentica dos direitos 
reaes. Os abbades e priores pediam aactorÌ8a9So a D. DiniZ| oomo pa- 
droeiro dos seus mosteiros e egrejas, para consentir que destacassem 
das suas rendas^ salva a reserva da congrua de sustenta92o^ as quantias 
necessarias para os salarios dos mestres e doutores; e antes mesmo que 
08 abbades e priores se dirigissem ao papa a pedir-lhe a Confìrma^So da 
Uniyersidade emquanto às faculdades permittidas^ salarios dos lentes^ 
foro privilegiado e concessSo de.ensino aos graduados, D. Diniz deu 
logo cumprimento à fundaySo do Estudo geral em Lisboa, do qual fala 
Nicolào IV por Ihe ter chegado aos ouvidos essa noticia. Sómente em 
12 de novembre de 1288 (2 dos idus de novembre de 1326) é que as- 
signaram em Monte-Mór-o-Novo o requerimento ao Papa para a con- 
firma92o da Universidade : o Abbade de Alcobaga; os Priores de Santa 
Cruz; de S. Vicentè, de Lisboa; de Santa Maria, de GuimarSies; de 
Santa Maria d'AIca90va, de Santarem; de S. Leonardo, de Atbouguia; 
de S. JuliSo, de S. Nicoiào, S. Irene, Santo Estevam, de Santarem; 
de S. Clemente, de Loulé; de S. Maria de Farom (Faro); de S. Mi- 
guel e S. Maria, da Cintra; de S. Estevam, de Alemquer; de S. Maria, 
S. Pedro e S. Miguel, de Torres Yedras; S. Maria, de Gaia; de S. 
Maria, da LauriSa (LourinbSl); das egrejas de Villa yi90sa, Azambnja, 
Estremoz, Beja, Mafora (Mafra) e do MogdAouro. ^ papa Nicolào iv, 
em 9 de agosto de 1290 (5 dos idus de agosto) no terceiro anno de 
seu pontificado, confirma a instituÌ9So e privilegio de D. Diniz ao Es- 
tudo geral de Lisboa; mas reservando a livre ac9So no dominio espi- 
ritual, concede o grào de licenciatura aos escholares em Artes, Diretto 
Canonico e Civil, e em Medicina, excepto em Theologia. Està clausula 
negativa, n£o deixou de causar reparos ao chronista Frei Francisco 
BrandSo, e ao Reitor Francisco Cameiro de Figueirda, porém a ver- 
dadeira explica9So so pode encontrar-se na observa9So dos caracteres 
typicos das Universidades medievaes. 

Quando os prelados se dirigiram ao papa Nicolào rv em 12 de 
novembre de 1288, jà o Estudo geral estava organisado, dotado e func- 
cionando activamente em Lisboa; o que pediam ao papa recem-eleito 
era apenas a confirma9&o canonica da applica9So das rendas ecclesias- 
ticas. Na bulla de Confìrma9So dada pelo papa ao'fim de dois annos, 
em 9 de agosto de 1290, elle justifica-se da demora alludida a estarem 



1 No Livro Verdcj fl. 4, em publica fórma. 



ESTUDO GERAL EM USBOA 81 

Ji apartados alffuns impedimentos, do grande litìgio dos bispos com o 
rei Bobre as jurisdic98eB, e acceita o facto consummado do estabele- 
eimento e exercicio da Universidade: «Declaramos e havemos por va- 
lioso e agradavel a nós tudo o que Eobre està materia està feito ...» 
papa Nicolào iv apesar de deferir à coiifinna9So pedida pelos pre- 
lados^ reconhece comò pertencendo ao rei D. Diniz a iniciativa da 
fimda92o da Universidade: cEm verdade à nossa noticia chegou^ que 
procnraiìdo-o o carissimo em Christo filho nosso Diniz, illustre Rey de 
Portugal, nSo sem muita e louvavel providencia, estSo de novo pian- 
tadoB na Cidade de Lisboa Estudos de cada urna das licìtas facul- 
dades.. .i E depois da iniciativa real communicada por D. Diniz 
ao Papa directamente, que Nicolào iv allude à cedencia das rendas 
das egrejas: ce aos Mestres d'ellas, para que mais desembara9ada- 
mente se occupem no estudo, dizem estar taxado e promettido certo 
salario por alguns prelados^ Abbades de Cister, e Priores de S. Agos- 
tinfao e de S. Bento, e Reitores de algumas egrejas seculares dos reinos 
de Portugal e Algarves.^ Jà BrandSo, na Monarchia Lubiana, repa- 
rara em que na bulla de 1290, allude-se especialmente aos Priores de 
Santo Agostinho e de S. Bento comò offerecendo rendas para os sala- 
rios do Estudo geral, quando elles se nSo acbam enumerados na lista 
dos Abbades que fizeram a peti;3o em 1288. ^ Besultou isto de um 
pedido ulterior, que viera informar o pontifico do accordo em que o rei 
estava com o clero, mào grado as cores negras com que ob bispos pu- 
gnavam pelas suas jurisdicgSes. Usando da sua auctoridade soberana, 
D. Diniz exerceu a iniciativa da fundafSo espropriando o Cabido da 
Sé de Lisboa do Campo da Pedreira, no bairro de Alfama, (junto i 
Porta da Cruz aberta em tempo do rei D. Fernando,) onde mandou 
construir Casas para o Estudo geral. Depois do accordo com os bispos 
o rei teve de indemnisar o Cabido, entregando-lbe o valor correspon- 
dente, ' ao que parece com litigio, por que sómente o veiu a fazer pas- 
sadoB mais de dez annos. O papa Nicolào iv concedia aos escholares 



1 Monarch. Lub,^ P. v, Liv. xn, cap. 67. 

2 «D. Dimz, por gra^a de Deus rei de Portugal e do Algarve, a vós Domingos 
Doraens, Almoxarìfe, e fiscrìvaens de Lisboa saude : Mando-vos, que filhedes 
buina das mìnhas casas, ou hnma das miuhas tendas d^essa Villa, que vaiha cada 
anno trinta e cince livras de alquier, e entregadea ao Cabido de Lisboa, ou a quem 
T08 elle mandar, pelo Campo da Pedreira, que Ihes mandei filhar, em que mandei 
fazer as Casas para o Estudo. Dada em Lisboa, 4 dias de Setembro. Era 1338 (|ie 

Cbristo, IdOO.)» Ap. D. Rodrigo da Cunha, HiaL eed. de Lisboa, P. n, cap. 74, n.^ 2. 

BIST. UH. 6 



82 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

fdro ecclesiastico, invadindo assiin a esphera civil d'aquelle monarcha 
que submettia a propria nobreza ao seu fòro real, nos Livros das Li* 
nhagens. A exemplo da Universidade de Bolonha, em que o Bispo é 
que conferia os gràos, Nicolào iv submette tambem a Universidade de 
Lisboa a essa dependencia, destacando o ensino da Theologia para os 
Dominicanos e Franciscanos. Como o ensino das Escholas menorea 
estava a cargo das CoUegiadas, desde lego nasceu o conflicto entre o 
Mestre Eschola da Sé e o Bispo àcerca da superintendencia da Uni- 
versidade. 

Estabelecidas as Escholas no Campo da Pedreira, foram locali- 
sados OS Estudantesy corno urna classe privilegiada, no bairro da Porta 
do Sol e Santo André em diante por teda a freguezia de Alfama. 

Em urna sociedade formada por classes com as garantias juridicas 
de differentes Iegisla93e8 pessQaes e territoriaes, era preciso que a nova 
corpora92Lo dos escholares se fortalecesse sob a protecf^o de um deter- 
mìdado fòro. No fim da Edade mèdia estavam em conflicto os diffe- 
rentes fóros: OS estatutos territoriaes ou cartas de communa, cartas 
pueblas ou Foraes; o fóro da Casa do Rei, que se amplia na codifica- * 
9S0 geral; o fóro da nobreza feudal, que se regula pelas fafanhaa e 
pelo privilegio pessoal do J^oro vdho de Castdla; por ultimo a Egreja 
systematisou as suas immunidades, agrupando differentes bullas pon- 
tificias ho Decreto de G-raciano e constituindo depois o corpo do Direito 
Canonico, quando pela sua parte os Reis pela revigora9So do Direito 
romano se elevaram à creayfto do Ministerio publico, verdadeira ini- 
ciagàodofóro civil moderno. No meio d'està complexidade de elementos 
Bociaesy a corpora9&o recente dos estudantes organisa-se corno as ger- 
manias ou guilds, e recebe pela grande sympathia que achava entre 
OS dois poderesy dos Papas fòro ecclesiastico com habito da cleri- 
catura, e dos Reis fóro da nobreza com um corno que gr&o de caval- 
leria com a imposiflo do barrete de bacbarel. Na lettra da bulla de 
Nicolào rVy De statti regni PortugaUiae concede*se ao novo Estudo ge- 
ral o fóro ecclesiastico com todos os seus privilegios, estendendo-se 
até aos creados dos lentes e estudantes : cMandamos mais^ que nenhum 
dos Mestres^ Estudantes ou creados seus, dado caso, que Deus nio 
permitta, que os comprehendam em algnm maleficio, sejam julgados 
ou eastigados por algum leigo, se nSo fór, que condemnados no jtdzo 
ecdesiastìco, os remettam ao secular.» Sob a fórma de favor & classe 
escholar, Nicolào rv servindo o rei D. Diniz, obrigava-o a reconhecer 
as jurisdicjSes e immunidades, centra as quaes luctara durante dez an- 
nos. É por tanto absurdo querer inferir da concessSo do fòro ecclesias* 



ESTUDO 6ERAL EM LISBOA 83 

lieo ao Estado geral| que a Universidade de Lisboa proviesse da ini- 
dativa clericaly e mantivesse am oaracter pontificai. 

Ob prìvilegioB exorbitanteB da classe escholar nSo podiam deizar 
de produzir constantes oonflictos com a popula9So burgaeza. Na balla 
de Nicolào iy, pede-se a D. Diniz: cqae obrìgae com o sea poder ob 
habitantes de Lisboa a arrendarem as casas qae estSo devolutas para 
n'ellas habitarem os alamnos, pagando o competente aluguer quo fòr 
tazado por dois derigos e dola secolares, homens catholicos e circum- 
spectosy eleitos sob jnramento em commam por vós e pelos mesmos ci- 
dadSoSy e que além disse o mesmo monarcha por meio dos seas baliOB^ 
officiaes e ministros da mesma cidade, prestando o jnramento devìdo, 
haja de garantir pessoas e fazenda dos alamnos e tambem a seas servosy 
a segaranQa e immanidadé.» Eis os germens dos oonflictos dos està- 
dantes com a popala9So de Lisboa^ scannala et dissentionea, qae deter- 
minaram o rei D. Dlniz a madar a Universidade de Lisboa para Coim- 
bra em 1307. ^ Os escholares principalmente decretalistas on canonistas, 
eram os prìmeiros qae reclamavam as isempgSes do sea fóro ecclesias- 
tico, conforme prosegaiam no estado d'esse direito spario; e oatros, de- 
pois de formados oa mesmo sem freqaentarem os estados, asavam o 
trajo de estadante para se acobertarem com os privilegios dos eschola- 
res. Pela provis&o dada por D. Fedro i, à Universidade de Coimbra, em 
13 de abril de 1361| vè-se os qae estadantes se qneizaram do sea Con- 
servador resolver os pleitos entro elles e oatras pessoas pelas Leis das 
Partìdaa e nSo pelo direito qae aprendiam nas aalas, qae era o cano- 
nico. Tambem- nas cdrtes de Elvas d'este mesmo anno, os Prelados e 
ecdesiasticoB qaeixavam-se de qae as Justigas muUas vezes nSo queriam 
guardar o direito canonico, preferindo as Sete Partìdaa feitas por Et» 
Rei de CasteUay ao qwoìL o reino de Portugal nSo era sugeito.i^ * O f&ro 
academico, comò concessSo ecclesiastica, era essencialmente pertarba- 
dor provocando a corpora92o à impadencia escandalosa. 

Os estadantes secalares das Universidades asavam espada, para 
se distingairem da clericatara; vivendo por tanto fora da daasara e da 
communidade dos OoUegios, entregaram-se à vida airada, & tuna, nome 
talvez derivado dos noctumi grassatorea, qae andavam provocando ri- 
zas oom os burgaezes, fiados na impanidade de am fòro privilegiado . 
Essas lactas; celebres na Universidade de Paris, manifestaram-se tam- 
bem em Lisboa, por fórma a preoccapar a aactoridade real. No Can- 



1 Balla de Clemente ▼, de 26 de fevereiro de 1307, na qaal concede a Ucen9a. 
* Man. de LiU. da Acad., 1 1, p. 285. 

6* 



84 HISTORU DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

cioneiro da Vaticana vem urna Pergunta gue fez Alvaro Affonso, cantor 
do senhor infante a Afiu esehoUar, em que allude &8 aventaras dos gras- 

^aiorea: 

Luiz Vaaaques, depois que parti 
d*e88a cidade tam boa, Lisboa, 
achej tal encontro, que digo por mi' 
quo son jà descreto e fìi90 a orda : 
a terra de Cintr'a par d*esta serra 
yy bOua serrana que bradaya guerra, 
TÓB tenentes comigo dé9é-vos a terra 
pois là tang'assi, et qua ora ftòa. ^ 

Os estudantes tambem contribuiam com certas quotas para os sa- 
larioB do Estudoi e d'ahi o direito de elegerem o seu Reitor e q pessoal 
administrativo da Universidade. !E^ra a tradi(fto effectiva dos Dupondii 
das esche las ìmperiaes. Dos estudantes de Bolonha era corrente dizer-se: 
Scholares non sunt boni jpagatores. 

Na poesia popular portugueza existem reminiscencias nfto so da 
predilec 9S0 da realeza pelos estudos seculares ou Escholas palatinas, mas 
do typo turbulento da classe privilegiada dos estudantes^Lè-se no ro- 
mance de Dom Carlos Montealvar: 

Pagem corno ignorante 
A Elrey o foi contar, 
A Ccua dos EatudatUea 
Onde estava a estudar, ' 

£ noB Canto8 populares agorianos: (n.^ 82) 

J& OS canarinhos 
Pelas faias cantam, 
J& OS meus Tizinhos 
Por aqui se alevantam; 
Jà 08 EsiudatUet 
Vào para o Estudo, 
Com meicu de seda, 
Calfào de vdudo, 
FiveUat de prata, 
Que deabanoam iudo>^ 



1 Cane, da VaXieana^ n.* 410. 

* Rom. gerol^ n.« 31. 

' O papa Urbano t, para deitruir a differenza que se estabelecia entre es- 
tudantes rìcos e pobres, impoz a uniformidade das yestes eseholares. Victor Ledere, 
ÉUU dee LeUrte au XIV e&cUy 1. 1, p. 295. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 85 

Nas maximas populares ha muitas referencias aoB costomeB doa 
estadantes, corno a clasBO indÌTÌdualista e j& tendendo para substitair 
a clericatora pelo typo militarista do espadachim : 

Estudante 

Berga^te, 

Chapéo de alguidar, 

Com sentido naa mo9a8 

NSo p<Sde estudar. 

Na Nova Floresta^ de Bemardes, encontra-se este outro annezim, 
commnm & tradÌ9So hespanhola: (t. ii^ p. 86.) 

Até quatro donne o Santo, 
Cinco, quo nSo é tanto ; 
Sàs ou sete, o Estudante, 
Outo ou nove o passeante, 
Dezy o porco, 
Ab maifl o morto. ^ 

AlgonB d'estes costomeB eram commons & Universidade de Sala- 
mancai d'onde ^ regressavam muitos estadantcB portugaezesi e a qoal 
nSo foi Bem rela98o com a Universidade de Coimbra^ onde o titulo de 
Cancellario, dado ao Prìor de Santa Cruz, parece ter o sentido que em 
Salamanca Ihe ligaram comò «ynonimo de Mestre-eschola da Sé. A 
mndan$a da Universidade para Coimbra em 1307, seria tambem para 
^ libertar da ingerencia do bispo de Lisboa, e para aproveitar o nucleo 
das escholas menores do Mosteiro de Santa Cruz. 

A Carta de 15 de fevereiro de 1309, em que D. Diniz regnlamenta 
o Estudo geral transferido para Coimbra, revela-nos algnmas circum- 
stancias da sua organisa^lo intema; conservou-se o mesmo quadro dos 
estudoB de Lisboa, que segundo a bulla de confirma9So de Nicolào rv 
de 1290, constava das cadeiras de: 

Direito canonico, 

Direito civil, 

Medicina, 

Artes (Grammatica, Dialectica e Rhetorica) 



1 Ab horas de deBcan^ do estadante no rifilo popolar, oondiBem com o que 
estabelece o rei D. Manuel no sen Estatato da, Universidade de Lisboa: «Orde- 
namOB que o Capellfto do Estudo se apparelhe de maneirs, que em sahindo o $ol, 
eoméflse a missa, e em firn d'ella come9ar2o ob Lentes de Prima a lér . . . » 



86 HISTOBIA DA VNIYERSIDADE DE COIMBRA 

A Sacra Pagina (Theologia e Escrìptora) era lìda em cursos es- 
pecìaes nos Conventos dominicanoB e frandscanos. Este mesmo quadro 
apparece-nos reproduzido na escriptura de 18 de Janeiro de 1323, em 
quo se estabelece a dotarlo d'essas diversas cathedras, com a dif- 
ferenza de alli mencionar-Be pela primeira vez a cathedra de Muzica, 
Tambem na bulla de Clemente vi de 1350, em que, ostando jà outra 
Toz a Universidade em Lisboa, se concedem benefidos ecclesiasticos 
sem obriga(So de residencia aos lentes e estudantes, enumeram-se as 
mesmas disciplinas. Da simples organisazSo do ensino se tira a com- 
prehensXo de um certo numero de factos pecuUares à Universidade; 
08 titulos honqrificoB de Mestres e Dodores correspondiam aos gr&oa 
em Canones dados pela auctoridade do Papa, e aos grios em Leis, dados 
pela auctoridade do Bei. ^ (Magiater in Decretalihu8j DoctorinDecretis). 
Està duplicidade da corporazSo escholar persistiu na eIeÌ9&o dos Bei- 
tores, que eram simultaneamente dois, representando um o interesse 
dos canonistas, e o outro o dos legistas. O Conservador era o Juiz es- 
pedal do fOro priyilegiado dos escholares, concedido pelo papa aoa 
que frequentavam o Estudo geral; o rei teve a necessidade dedarar-se 
Protector da Universidade, para prevalecer sobre a auctoridade papal, 
e pelo desenvolvimento do Protectorado real a Universidade e o ensino 
superior ficaram mais tarde sob a obediencia da dictadura monarchica, 
perdendo a corpora^So a faculdade de fazer estatutos para seu governo,. 
e a classe escholar o privilegio de eleger reitores e conservadores. 

A carta de privilegios concedidos & Universidade pelo rei D. Di- 
niz em data de 15 de fevereiro de 1309, estabelece que o ensino da 
Theologia ficari exdusivamente a cargo dos Dominicanos e dos Fran- 
ciscanos (vclens ut ibidem apud Rdigiosos eonventus fratrum Predica- 
torum, et Minomm in Sacra Pagina docent. . .) As duas ordens monas- 
ticas dos Pregadores e Menores eram entSo em teda a Europa os re- 
presentantes mais fervorosos das doutrìnas aristotelicas, e rivaes incon- 
ciliaveis^ diante dos problemas da Scholastica. Os Dominicanos susten- 
tavam as doutrìnas de S. Thomaz, que soubera conciliar os dogmas da 
theologia com os habitos crìticos do Nominalismo; os Franciscanos, de- 
fendendo as opiniSes de Alexandre de Halés, seguiam sob o impulso 
de S. Boaventura as ezalta98es mysticas que se coadunavam com o 
eubjectivÌEmo dos Bealistas, e que o genio peninsular levou ao mais alto 



1 Està differenza dos titulos conserTou-se nas Conmaa magiiiraet e Ccnma» 
douiorae$i que mais tarde fortm ereadas. 



ESTUDO GERAL EM USBOA 87 

grio de ezageraySo em Raymundo LuUo^ o prototjpo do D. Quixote 
nas e8pecula98e8 philosophicas. As luctas das duas escholas centrali- 
sam-se entre as duas'Ordens monacaes; Hauréau caracterìsa essa lu- 
cia: e A paixSo do seculo xin é a philosophia; os chefes dos partidos 
belligerantes sSo commentadores de Aristoteles; os problemas cuja so- 
larlo agita as consciencias, perteBcem ao dominio das cousas abstra- 
ctas: mas que esfor90Sy que combates para fazer prevalecer um sys- 
tema, urna simples formala^ e às vezes, menos ainda, ama mera pala- 
vra! As duas escholas rivaes sSo dois a||b]^ d'onde se véem inces- 
santemente sahirem novas phalanges.» ^o maior ferver da lucta entre 
OS Dominicanos e Franciscanos, o syno&o diocesano de Paris em 1 277 
foi impotente: f os Franciscanos, continuaram a commentar no espirito 
de Averrhoes todos os sentimentos do seu primeiro doutor Alexandre 
de Hales, e pelq seu lado os Dominicanos impuzeram-se comò um do- 
ver sagrado a obriga9So de sustentar todos os articulados do peripa- 
tetismo thomista.» ' Estas duas correntes dominicana e fìranciscana fo- 
ram superiormente representadas por portuguezes fora de Portugal; 
a thomista pelo afamado Fedro Hispano, e a mystica pelo nZo menos 
immortalisado S. Antonio de Lisboa, que professou em Montpellier, 
em Padua e Tolosa. Entre os grandes doutores da Edade mèdia, o 
portnguez Pedro Hispano teve a gloria singular de ser memorado por 
Dante, na sublime epopèa da Divina Comedia: . 

Ugo da San Vittore, è qui con elli 
£ Pietro Mangiator, e Pibtbo Hispano 
Le qua] già luce in dodici liÒdlL ' 

Dante referia-se às Summulae logicalea, celebres em todas as es- 
cholas, as quaes se dividiam em doze tratados: 1.® Da enuncia9ao (das 
Perihermeneias de Aristoteles); 2.° Dos cince nniversaes (dos Predi- 
anseis de Porphyrìo); 3.® Dos Predicamentos (Predicamenta de Aris- 
toteles); 4.^ Do Syllogismo simpliciter (Liber Priorum de Aristoteles); 
5.^ e 6.^ Sobre Fallacias {EUncoa de Aristoteles). A estes seis tratados 
8eguiam«se-lhe os outros seis conhecidos pelo titulo goral De parvis lo- 
ffiealtlms, divididos arbitrariamente nas escholas; 7.^ Da SupposigSo; 
8/ Da Rela$ao; 9.^ Da AmpliajSo; 10.^ Da AppellasSo; 11. • Da Res- 



^ De la PhUohophie SeoUnUgue^ 1 1, p. 214. 

s Ihid, p. 217. 

3 Paraieoj Canto zn. 



88 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

tric92o; 12.*^ Da Dìstribui^&o. Assim se prefazem os dodeci lihdi, a que 
allade Dante. ^ 

Entre as Can9Se8 de Affonso o Sabio, qae vèm no Cancioneiro 
Colocci-Brancuti, encontra-se ama que parece referir- se a Fedro Bis- 
pano e a um celebre Garda, que floresceu pelo seculo xiu na Uni- 
versidade de Bolonha; eia a can9So: 

Pero quo ej ora mengna de companha, 
Nem Pep» Gkiicia, nem Pero d^Eapanha 

Neia Pero gal^o 

Non Iran comego. 

£ barn vol-o juro por Santa Maria, 
Que Pero d'Espanha^ nem Pero G-arcia, 

Nem Pero galego, 

Non iran comego. 

Nunca cinj'a espada com boa bainha, 
Se Pero d'Eipanha^ nem Pero G-arda, 

Nem Pero galego 

For ora comego. 

Q-alego, galego 

Outro irà comego. * 

NoB nossoB primeiros estudos, consideràmos qae as CanfSes de 
Affonso o Sabio eram extranhas aos Cancioneiros proyen^aleBCOB por- 
tugaezes. Combatendo este modo de vèr, o Marquez de Valmar na 
Introdac$fto às Cantigas de Affonso o Sabio j escreve: e Apesar das da- 
vidas qae podiam sascitar-se^ j& em 1859, o insigne philologo Fer- 
nando Wolf, jalgoa sem hesitar, que ao regio trovador Affonso x per- 
tenciam as 19 cantigas profanas que no grande Cancioneiro galaico- 
portuguez do Vaticano (ms. 4803) estfto rubrioadas com està epigra- 
phe: El Bey Dom Affonso de Castella e de Leon. De identica opiniSo 
foi o sabio Frederico DIez. Tambem nunca vacilou n'este ponto o il- 
lustre romanista hespanhol D. Manuel Mila j Fontanals. Assim o' ma- 
nifesta no seu livro Los trobadores en Espaha^ ao designar os poetas 



1 Hauréau, na op. cit., diz que Pedro Hispano estudara em Paris e alli enn- 
nara a Philosophia, e concine que o seu resumé do Organum é e f cito com gosto e 
intelligencia, e que mereceutomar*se o manual dos professores e dee estndantes.» 
Indica a Hktoirt liUerairt de la Drance, t. zx, onde yem a lista das suas obras- 

< Cancioneiro Coloed-Braneutif can^. n.* 365. 



ESTUDO 6ERAL EM USBOA 89 

eastelhano^ e andala;se8 que se acham entre as 147 d'aqaelle Gancio- 
neiro.» (p. 13.) 

e A nósy sempre noe dominou, corno mais verosimìl a idèa de que 
o auctor das Cantigas profanas do Cancioneiro vaticano , designado 
com nome de Affonao Rey de Castdla e de Leon, n&o podia ser senSo 
o Rei Sabio; n&o so porque foi o primeiro Affonso^ que com exactidSo 
historica pode chamar-s'e Rei de Castella e de LeSLo, senSo por que sfto 
do seu tempo, da sua intimidade litterarìa e até elevados funccionarios 
do Estado varios dos trovadores portuguezes que resplandeciam em 
sua c6rte e cuja connexSo com o rei se adverte nas mesmas trovas. 
Nas ditas Cantigas profanas se ve claramente, que a poesia d'estes can- 
tares em idioma gallego-portuguez e em fórma provenfal, satjricos, 
amorososy livres às vezes até à desenvoltura, constituia um lago de 
fratemidade intellectual que, assim comò acontecia na Provenga e na 
Catalunha, collocava principes e plebeus em uma esphera commum de 
cultura, de engenho e de aleggia.» (p. 14). 

A prova evidente da existencia das CangSes profanas de Affonso 
o Sabio foi encontrada no Cancioneiro Colocci-Brancutij publicado em 
1880. Diz Marquez de Valmar: fN'esta coUecgSo complementar ha 
varias cantigas com està epigraphe: El-rei D. Affonso de Castella et 
de Leom. Este grupo fórma segundo todas as apparencias, com o que 
no Cancioneiro vaticano tem egual epigraphe, um conjuncto de cantares 
que pertencem a um so poeta regio. E quem é este Affonso, trovador? 
Com surpreza verdadeiramente agradavel, advertimos, ao examinar o 
Cancioneiro Colocci-Bràncuti, que à fronte d'aquelles cantares (quem o 
imaginaria,*ante aquelle montSo de poesias superficiaes, satyricas, ga- 
lantes e mesmo obscenas) se acha uma das piedosas Cantigas consa- 
gradas por Affonso x & santa virgem Maria.» (p. 16) Marquez de 
Valmar encontrou effectivamente a cantiga n.® 467, que cometa: 

Deus te salve grorìosa 
Reyna Maria ^ 



1 J& em 1862, Amador de Ics Rios {HiH, critica de la LiU, Espah., ii, 448) 
tinha dado noticia d'està Cangio de Affonso o Sabio : 

Deas te Mire, gloriosa 

Luna de loi Mutoi fremoM» 
Et doi 9eoB via etc. 

£ztrahira-a do Codice toledanò das Cantigas de Laorea de la Virgen^ can9. 



90 HISTORIÀ DÀ UNIVERSIDADE DECOIMBRÀ 

induBa no Codice escurialense (j. b. 2) com o n.^ XL, e no Codice* de 
Toledo com o n.^ xxx. Um trabalho especial do romanista Cesare de 
Lollis, Cantigas de Amor e de Maldizer di Affonso el Sabio, Re di Cas- 
figlia, tende à prova d'està mesma doutrina, apoiado na observa^lo de 
Angelo Colocci, dando-o corno auctor das 30 can93e8 dos dois Cancio- 
neiroB. * 

Notàmos as relaySes de Affonso o Sabio com a cdrte portugueza 
de seu neto^ para mais accentuar a inflnencia que Ihe attribuimos na 
creafILo da Universidade de Lisboa; corno tambem a sua idealisa9So 
trobadoresca da Virgem, que propagando-se pelas Univérsidades me- 
ridionaes em certo modo coadjuva a influencia philosophica dos Fran- 
ciscanos. Depois que o portuguez Fedro Juli&o {clericus univeraalisj 
por ser graduado em todas as faculdades) foi eleito papa em Viterbo^ 
em 15 de septembro de 1276 com o nome de JoSo xxi, ' um dos pri- 
meiros empenfaos do seu rapido pontificado foi o estabelecer a concordia 
entro Philippe rei de Franca e Affonso o Sabio; a can9So d'este mo- 
narcha-trovador a Fedro de Hespanha adquire um sentido historico. 

Dante referiu-se aos livros vulgarisados em todas as escholas da 
Edade mèdia, nos quaes Fedro Hispano espalhou as doutrinas de Aris- 
toteles e a medicina averrhoista, Summulas LogicaSj os PróblemoB, os 
Canones Medidnaes e o Thesavrus Pauperum. Fedro Hispano era naturai 
de Lisboa, freguezia de S. JuliSo, arcediago de Vermoim, D. Frior de 
GuimarSes, sendo nomeado cardeal de Frascati pelo papa Gregorio x no 



. Eata indica^So, na impossibilidade de poder consultar o monumento mana- 
scrìpto, bastava para nos guiar na inferencia de que nos Cancioneiros proT6n9ae8 
portuguezes devia ezistir alguma composi^io de Affonso o Sabio, por isso que ha 
no Cancioneiro da Ajuda allusSes ao seu caracter. 

1 O Marquec de Valmar termina com um grande espirìto de ju8tÌ9a: «Assim 
fica retificada a aventurada affirma^o de Th. Braga, de que nSo apparece trova 
alguma de Affonso z nos Cancioneiros portuguezes. Ha que ter em conta, que o 
illustre professor portuguez publicava em 1878 a sua formosa Introduc^io & editto 
crìtica do Cancioneiro da Vaticana, e que so dois annos depois foi dado 4 estampa 
Cancioneiro Colocci-Brancuti, quo veiu espalhar nova luz sobre este ponto de 
historia litterarìa e abrìr campo a romanistas emditos, que, estudando a fundo o 
caracter e circumstancias de cada uma d'estas cantigas, querem desvanecer toda 
a duvida, e converter, se é possivel, em evidencia o que até agora eó podia admit- 
tir-se comò mera, embora plausivel, oonjectunu» (p. 16.) 

* É frequente o equivoco de dar o nome de JoSo zzi ao suocessor de Cle- 
mente V, Jacques d'Euse ( JoSo zzu) conforme se indica ou n2o na lista dos Papas 
o successor de JoSo zrv, um Joio zv, eleito sem ordena^So canonica e faUeddo 
985. 



ESTUDO GERAL £M USBOÀ 91 

concilio geral de Le&o em 1274^ e successor de Adriano v em 1276 coni 
o tìtolo de JoSo XXI. D'este pontifice portugaez, cujo nome figura corno 
bispo de Braga confirmando os docnmentos do reinado de D. Affonso iii, 
diz Martìnho de Fulda: ^Fuit magnua medicus^ et scripsit lihrum de Me- 
dicina, qui Thesaurus pauperum vocatur,^ Porém a 8ua grande in- 
fluencia nas escholas medie vae8 foi com a Logica, as SunmiMias, às quaes 
aìnda alludia Kant, quando para dizer de um individuo que nSo tìnha 
jiiizo, empregava a periphrase : Falta-lhe a segunda de Fedro. As Sum- 
mulas lofficales foram attribuidas a Miguel Psello, escriptor do seculo Xl, 
pertencendo a Fedro JuliSo apenas a traduc9Sk) do grego; ' porém està 
aB8er9So nSo assenta em fundamento algum^ ao passo que Dante, e 
Bicobaldi de Ferrara, do seculo xiii affirmam que Fedro Hispano fizera 
tratados de logica,-* sondo alguns d'elles traduzidos em grego trinta 
annoB depois da sua morte. ' A grande reputafSo europèa de Fedro 
Hispano nSo deixaria de actuar na determinaj&o do rei D. Diniz para 
fixar em Fortugal os talentos que andavam elevando as Univeraidades 
estrangeiras. Durante teda a Edade mèdia as doutrinas de Fedro His- 
pano, vulgarisador da logica aristotelica, influiram constantemente na 
direcfZo do ensino européu, especialmente dialectìco. 

A eschola dos Franciscanos, em que prevalece o caracter mystìoo, 
foi representada no fim do seculo xui pelo portuguez Antonio de Fa- 
dua, santificado nas poeticas lendas populares; a sua actividade exer- 
ceu-se na prèdica, e pela austeridade ascetica finou-se prematuramente 
aoB trinta e sete annos. Santo Antonio foi mandado pelo celebre instì- 
tuidor dos Menores frequentar as escholas de Artes e Theologia, que 
estavam no maior esplendor no mosteiro de Santo André em Vercelli, 
onde ensinava Thomaz Gaulez, o mais afamado theologo do tempo; teve 
por companheiro de estudo o inglez AdSo de Marisio, ^ vindb depois o 
fiimoso portuguez ensinar theologia em Bolonha ao lado de Rolando 
Bandinelli, (papa, sob o nome de Alexandre m) e por ventura de S- 
Thomaz de Aquino. ^ A aurèola da santifica^&o popular offuscou-lhe a 



1 Bartholomea Keckermman, t. z Qp. Proecog., Log.^ p. 105 e 107. 

* Eocardi, Corpus hist, medii asvi^ 1. 1, col. 1219. 

> Nessel, Catal9gu8, sive recensio specialis omnium Cod. Mb. grecorom Bi- 
bliothece CaesaresB Vindebon. Pait. 5. Cod. 128, onde se acha assim desoripto : 
mEoDoerpta misodlanea ex diversis eie,.. Ex Dialeotiem Mag. Peiri Hispani, irUer- 
preU Qeorgio Sekdario.* 

4 Tlraboschi, Storia ddla LeUer, ital.^ t. nr, p. 315. 

5 Ibidem, p. 112. 




i 



92 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

importancta da individualidade philosophica. Comprehende-se corno o ce- 
lebre Cantico de le creature, que se attribae a S. FranciBco de Assis^ re- 
cebeu a sua prìmeira fórma metrica em portuguez^ nas fórmas strophicas 
da poesia trabadoresca bem conhecida entre a arisiocracia portagueza^ 
e d'essa lingua passoa para italiano, rimado por Frei Pacifico. ^ Em 
philosophia os Franciscanos exerceram ama ac9So profunda por via das 
doutrinas de Raymundo Lullo, e é talvez d'està influencia raymonista^ 
que tanto dominou nas Universidades meridionaes, que resultoa o firn- 
darem-se cadeiras de hebraico e de arabe na Univei^sidade de Lisboa. 
No come9o do seculo xiv, foi preso em Lisboa, um aristotelico -aver- 
rhoista chamado Thomaz Scott, da ordem franciscana, por ter aflb- 
mado a doutrìna atheista dos Trez Impostores, ' (trea fuisae in mundo 
deceptores.) Por este facto infere-se que a lucta doutrinaria entre as 
duas Ordens tambem chegara a Portugal, e que para evitar que o en- 
sino da Theologia se envolvesse com as theses audaciosas do peripa- 
tetismo, comò os foeda dieta de Thomaz Scot ou de Andrès Scot, é> 
que elle ficou confinado nos mosteiros das ditas ordens dominantes, 
ut 8Ìt fdes cathoUca circumdata muro inexpagnabUi bellatorum, comò 
diz a Carta de D. Diniz de 15 de fevereiro de 1309. 

papa Nicolào iv, que fora eleito em 15 de fevereiro de 1288, 
figura comò o primeiro franciscano que subiu ao throno pontificio; a 
grande protecf&o que sempre deu à Ordem dos Menores, influiu por 
certo no privilegio do ensino da theologia nos seus claustros, e em que 
predominava o caracter mystico, compartilhado com os dominicanos, 
mais argumentadores e casuistas. 

Fatando do antagonismo dos Franciscanos com os Dominicanos, 
emquanto às doutrinas philosophicas, essa lucta manifestou-se tambem 
emquanto & cren9a, e sob este aspecto penetrou nas Universidades no 
seculo XIV. Od Fransciscanos fizeram-se os paladinos da cavallaria 
mystica, proclamando a Imaculada CanceigSo de Maria^ que come9oa 
a ser jurada nas Universidades occidentaes; os Dominicanos sustenta- 
vam que Maria idra concebida comò os outros filhos de AdSo. Duas 



1 Renan, no seu estado sobre S. Francisco de Assis escreve àcerca do Oom- 
iico daa creatura»: «A authenticidade d'este texto parece certa; mas é preciso no- 
tar qne falta o ori^nal italiano. teocto italiano que ae posiue é urna traduegào de 
urna versào portugueza^ que tambem fóra traduzido do hespanhol. O texto originai 
fora rimado por Fr. Pacifico.» Nouvelles Eludei d'Histaire rdigieuae, p. 881. 

2 Victor Ledere, Histoire litteraire de la France au zvi"* néele^ t. ii, p. 46; 
tira este facto, da obra de Alvaro Pelagio, Colfyriuvn fidei centra haereeee. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 93 

Yezea tinha o partido franciscano soffirido a condemna9So do novo dogma 
em 1304 e 1333; em 1384 o reitor da Universidade de Paris convoca 
o corpo academico para deliberarem sobre este assumpto^ e o partido 
dominicano ficou vencido. ^ Assim corno as Universidades roBultavam 
da emancipatilo daB intelligencias na dÌBsolu9So do Poder espiritual no 
secolo xin, tambem o novo dogma, elaborado pela sympathia e idea- 
lÌ6a$2o popular da Virgem M&e e symbolisado por fórmas mais con- 
cretaB do que a do monotheismo abstracto, que davam logar à crea92o 
de urna nova Arte, esse novo dogma achou nas Universidades a con- 
Bagra9So de um juramento por assim dizerde defeza pelas armas da 
Dialectica. Notando as modifica93es da expressSo humana da idèa mo- 
notheista, Comte comprehendeu superiormente o novo ideal que fecundou 
a poesia moderna: cDesde o seculo xii, que a Virgem obtem, siobre- 
tudo em Hespanha e na Italia, um ascendente progressivo, centra o 
qual sacerdocio muitas vezes reclamou em v2o, e que elle por vezes 
foi for9ado a sanccionar para manter a sua propria popularidade. Ora, 
està Buave crea9ào esthetica nSo pode attrair uma adora9So directa e # 
privilegiada sem alterar radicalmente o culto em que ella surgiu. Ella 
é propria para servir de intermediaria entro o regimen moral dos nossos 
antepassados e o dos nossos descendentes, transformando-se pouco^ 
pouco em personifica9So da Humanidade.» ^ Affonso o Sabio, o funda- 
dor da Universidade de Salamanca, exerceu o seu elevado talento poe- 
tico n'esta sublime idealisa9So nas composÌ98es dos Liòros de los Can^ 
tares et de los loores de Santa Maria; e ao proprio D. Diniz, fuuda- 
dor da Universidade de Lisboa e Coimbra, foi attribuido um Cancio- 
ndro de Nassa Senhora, hoje totalmente perdido. Entro as composÌ93e8 
do audacioso philosopho Raymundo Lullo, figuram excellentes can95es 
em dialecto malhorquino em louvor da Virgem; e o predominio das 
doutrinas raymonistas nas Universidades meridionaes, onde os cursos 
duravam ataa Santa Maria de Agosto^ propagava tambem o prestigio 
do novo ideal entre os escholares, que faziam puys on concursos de 
cantoB reacB em honra da Imaculada ConceÌ9So, ^ costume que re- 



1 Victor Le Clero, Dùeurse sur VÉtai des LeUres au XIV^ sùcle, 1. 1, p. 378. 

2 Systhme de Politique positive, 1. 1, p. 355, e t. ni, p. 485. 

5 Benan, no eBtudo Bobre : Esiodo das BéUas Artes em Franca no seetdo XIV, 
allude 4 importancia do novo ideal na Arte moderna : «A devo^ da Virgem in- 
spira n'este secnlo mais obraB de arte do que em nenhum dos outros que o prece- 
deram. Ob livros de horaB, os psalteiios, as vidra^as, estào cheios da Virgem Ma- 
zìa, das BiuLB dores, dos seuB gOBOB, das proyas da sua inflaencia, dos milagres ope- 



94 HISTORIA DÀ UmVERSIDADE DB GOIMBRA 

appareceu nas Academias poeticas ou AroadiaB do seculo xvn e xvra. 
Quando, n'este longo processo da diBsolugJo do regimen catholico-feu- 
dal, se estabeleceu dentro da Egreja um esforpo e systema de reac9So 
contra o Protestantismo, pela organisagSo da Companhia de Jesus, ob 
Bustentaculos da theocracia, para Ihe reconsquitarem o poder espiritual, 
apoderaram-se por toda a parte do ensino das Universidades, e obede- 
cendo a urna intuÌ9ao de contìnuidade revivificaram o culto e o jora- 
mento da Conceif&o. ^ 

À importancia que tiveram os Franciscanos e Dominicanos na or- 
ganisagfio das Universidades ligava-se & 8Ìtua9Ìo angustiosa em que se 
encontrava o Poder espiritual da Egreja diante de um novo regimen 
mental em que a rasSo preponderava sobre a cren9a; Comte define ni- 
tidamente a misslo das duas ordens monachaes: • A imminente desor- 
ganÌ8a9So espontanea do catholicismo estava mesmo indicada, desde o 
come90 do seculo xiv, segundo graves symptomas precursores, quer 
pelo afroixamento quasi geral do verdadeiro espirìto sacerdotal, quer 
, pela intensidade crescente das tendencias hereticas. Este duplo comedo 
de decomposifSo intima foi entSo, sem duvida efficazmente combatìdo 
pela memoravel instituifSo dos Franciscanos e dos Dominicanos, tSo 
sabiamente adaptada, um seculo antes, a um tal destino, e que é pre- 
ciso considerar, com effeito, comò o mais poderoso meio de reforma e 
de conservajào que pudesse ser verdadeiramente compativel com a na- 
l^ureza de um tal systema; mas a sua influencia preservadora devia fi* 
car rapidamente esgotada, e a sua necessidade unanimemente reconhe- 
cida n&o podia finalmente se nSo fazer melhor sobresair a proxima de- 
cadencia inevitavel de um regimen que tinha recebido debalde uma tal 



rados pela sua intercesBlo. — Ab Madonas francezas quasi que egualam em gra^ 
as que a Italia creava na mesma época« É no secolo xin que as representa^s 
da Virgem attingem em Franca uma gra9a ideal e quasi raphaélica. Està especie 
de embria^ez da belleza feminina, que, inspirando-se sobretudo do Cantico doa 
Canticos, transparece nos hymnos do tempo, ezprìmia-se tambem pela pintura e 
esculptura. Ha estatuas da Virgem, que seriam dignas de Nicolào de Pisa pelo 
encanto, pela harmonia e suavid ide. O èmpenho que se ligava & belleza da Virgem 
era um aeto de devo^io ; fazel-a bella era comò que um servi^ que ella se encar- 
regava de recompensar.» (Op cit, p. 247). 

1 Ck>mte reconheceu està ultima rela^ào entro o seculo xnx e a institui^io da 
Companhia de Jesus: «0 nobre enthuziasta que a fimdou, annunciando-se shnnl- 
taneamente corno defensor do catholicismo e adorador da Virgem, merece ser eii- 
gido sociologicamente comò digno continuador da reforma do seculo xni, cujo abor- 
tamento pretendia reparar.» (PoUtigue posU,, t m, p. 663). 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 95 

repara92o. Ao mesmo tempO; os meio9 violentos introduzidos entSo, 
em grande esoala^ para a extirpaj&o das heresìas; oonstituiam neces- 
sariamente um dos signaes menos equivocos d'està invencivel fatali- 
dade; por que nenhum dominio espirìtual nfto podendo evidentemente 
assentar, em ultima analyse^ senSo no assentimento voluntario das intel^ 
ligencias, todo o notavel recurso espontaneo à forja material deve ser 
considerado^ em rela9So a elle, corno o mais irrecusavel indicio de ama 
decadencia imminente e jà sentida.» * 

Antes de entrarmos no periodo da primeira transferencia da Uni- 
▼ersidade de Lisboa para Coimbra em 1307, importa esbo$ar o quadro 
geral das ideias dominantes d'onde dimanou o novo ensino humanista. 
A protO'Renascen^a provocada pelos Arabes, seguiu-se uma maior ap- 
proxima9&o do hellenismo, a que Ampère chama a segunda Renas- 
oen$a, do seculo xin; é d'està approximaySo que provém o generali- 
sar-se as divisSes pedagogicas do trivium e quadrimum, que se suppSe 
de origem pythagorica, e que se acham no livro de Philon, De Cùn- 
gressu, e em Tzetzes. O hellenismo alexandrino era o unico conhecido^ 
6 por isso a actividade do espirito seguia essa direc9S0; dispendendo-se 
no estuda da grammatica, da rhetorica, na argucia dialectica e no theur* 
gìsmo mystico. Antes mesmb de irromper a querella philosophica dos 
NominaUstas e Realistas, jà a influencia dos ultimos neo-platonicos da 
Eschola de Alexandria apparecia no Occidente, no meado do seculo ix, 
e Jo2Lo Scott proclamava a doutrina. dos Universaes, antes de ser co- 
nhecido o problema proposto por Porphyrio, sobre o qual se exerceu 
teda a actividade da Scholastica. Plat&o era mal conhecido através das 
hallucinafSes de Plotino, e o Realismo, que foi mais tarde desenvolvido 
pelo conhecimento do Timeo, teve verdadeiramente a sua origem na 
these dos Uiùversaeay aa essencia que contém toda a creatura, da qual 
participa todo o ser, e que, dividindo-se, desce através dos generos e 
das espedes a està especie mais particular a que os gregos chamam o 
atomo, isto é, o ifìdividìio.3 eontacto com as especula93es philosophi- 
cas dos arabes Avicebron, Avicena e Averroe? favorece este exaggerado 
subjectivismo, que veiu a systematisar-se nas grandes luctas especula- 
tivas do seculo xui, csob todos os aspectos o precursor directo da re- 
volujgSo Occidental.»' A tradigSo scientifica da Grecia, que se elevàra 
a urna concep9So positiva na mathematica, na astronomia, e nas ob- 



1 Ccurs de PhUoaophie pùntive^ t v, p. 368. 
' Sydème de PolUique pontive, t in, p. 509. 



96 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

serva98e8 geraes da pfaysica, estava corrompida pelos deavarìos da ca- 
bala, da astrologia judiciaria e pela alchimia; e o eapiiito de observa- 
(fto condenmado pela Egreja, corno 86 ve em relag&o a Rogerìo Bacon, 
nSo podia dar urna disciplina concreta a essas vagas ab8trac95e8 em 
quo a philosophia se tornava instrumento subalterno da theologia. Como 
as affinna9Ses nSo dependiam da comprovay&o dos factos, mas da ha- 
bilidade da argumenta9&o, entenderam que a verdade resultava da de- 
monstra9So logica, e desenvolveu-se està arte até ao ponto de absor- 
ver toda a actividade mental das escholas do firn da Edade mèdia; 
d'aqui o nome de Schokutica. 

A Philosophia scholastica caracterisa-se pelo esclusivo trabalho 
hermeneutico ou interpretativo; philosophar é commentar, glosar, apo- 
stillar, explicar, comò observa Saint-Hilaire. A dialectica exerce-se 
n'uma esgrima de syllogismos sobre palavras que se convertem em 
entidades ontologicas, taes comò Generos, Especies, se sSo Realidades, 
Concepgdes, Accidente» t)u Universaes? Procura-se conciliar as conclu- 
s3es com os dogmas da Theologia, ou dà-se livre expansSLo ao racioci- 
nio, ro9ando pela heterodoxia; prevalece n'uns a tendencia concreta do 
empirismo, n'outros a abstrac9&o de um espiritualismo que sé esvae na 
inanidade. Os pensadores do Occidente achavam-sejàpredispostos para 
està anarchia do Ontologismo escholastico, quando tiveram conheci- 
mento das phrases de Porphyrio na Introduc9So às CaUgorias de Aris- 
toteles. Eis o problema de Porphyrio, que tinha de suscitar, tantas pu- 
gnas especulativas: e NSo investigarci se os generos e as especies exis- 
tem por si mesmos ou se sSo puras concep9Ses abstractas; nem no caso 
de serem realidades, se s&o corpóreas ou n&o; nem se existem separa- 
das das cousas sensiveis ou confìindidas com ellas.;» As differentes fór- 
mas comò a Edade mèdia respondeu a este problema complexo, e pelo 
qual tanto se apaixonou, constituem as phases historicas por que pas- 
80U a Philosophia scholastica. Quando surgiu o problema, Aristoteles 
era apenas conhecido nas suas doutrinas pelas Categorias e Hermeneia, 
e PlatSo era conhecido pelb Timeo, uma psychologia idealista que fa- 
cilmente era admittida pela Egreja, porque falava da origem divina 
da alma, da sua immortalidade, e de uma decadencia ao ligar-se ao 
corpo. Està confusSo das doutrinas aristotèlicas e platonicas nos mes- 
mos cerebros produziu o desvairamento theorico, prevalecendo na pri- 
meira phase da Scholastica o Realismo^ sustentado por Santo Anselmo. 
Porém, & medida que a obra de Aristoteles come90u a ser melhor co- 
nhecida, foi prevalecendo o criterio da objectividade, e Roscelin inicia 
a phase Nominalista, negando valor objectivo às idéas geraes e censi- 



ESTUDO' GERAL EM USBOA 97 

derando-as corno um mero producto da liDguagem ou simples nomee. 
Ab doas doutrmas combatem-se em um absolutismo inconciliavel, e d'essa 
intransigencia doutrinaria resulta urna terceira phase, do ConceptuaHa- 
mo, em que Abailard estabelece as Concep9Se8 comò factos psycholo- 
gicos verdadeirosy transformando assim a fórma palavrosa dos Univer- 
saes. O grande, genio philosophico nZo podìa agradar a nenhum dos 
grupos em conflìcto doutrmarìo, vendo-se injustamente perseguido. E 
assim comò um melhor conhecimento dos livros de Aristoteles deu uma 
enorme seguran9a aos KominalistaS| tambem a leitura dos Dialogos 
de Piatilo veiu produzir na Philosophia scholastica uma quarta phase, 
dos MysticoSf que affirmaram que a Sciencia era constituida pela in- 
toi^SO; e està pela concentrafSo mjstica da alma. Sustentaram està 
doutrina do emocionismo religioso Godofroy, Hugo e Ricardo de Sam 
Victor. Conhecidas estas differentes oorrentes da Scholastica, as duas 
Ordens monasticas dos Dominicanos e Franciscanos apoderaram-se d'es- 
saa questSes, prevalecendo entre os primeiros um eccletismo essencial- 
mente nominalista, de Alberto Magno e S. Thomaz de Aquino, e en- 
tre 08 segundos o sentimento mystico, sustentado em parte por Bacon 
e principalmente por S. Boaventura. Em todas estas variedades da es- 
pecula9So pliilosophica, Aristoteles foi sempre o orientador montai: 
cQuer sejam Nominalùtas, Conceptudliatas, Realisias ou mesmo Mys- 
ticos, todos ou quasi todos os mestres da Edade mèdia proclamaram- 
se discipulos fieis de Aristoteles, e o seu principal empenho è justificar 
està preten9So.»* As rivalidades das duas Ordens monasticas refle- 
ctiu-se nas polemicas dos scottistas ou franciscanos, com os thomistas 
oa dominicanos, e d'essas luctas resultaram os novos problemas da Li- 
berdade, da Gra9a e da Predestina^SLo, que reapparecem com o indi- 
vidualismo dos Protestantes e no conflicto dos Jansenistas com os Je- 
suitas do seculo xvii. Quando a Philosophia scholastica parecia esgo- 
tar-se, ainda a revigoraram pelos seus exaggeros dialecticos o halluci- 
nado e genial Raymundo Lullo, e o audacioso Ockam, que, comò um 
precursor do positivismo, nega todas essas entidades ontologicas que 
por tantOB seculos povoaram as escholas e os claustros. 

As escholas eram um torneio permanente de argumentaySo, em 
que se abusava até ao desvario das categorias do raciocinio, admiravel- 
mente definidas por Aristoteles. grande philosopho nSo tinha culpa 



1 Barthélemy S&int-Hilaire, Yb.<^ Scholàbtiqub, no Dict. des Sciences philoBO- 



HIBT. UH. 



i 



98 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE.COIMBRA 

da errada comprehensSo da sua obra inexcedivel; no firn do acculo xvi 
um outró portuguez, Francisco Sanches, no seu livro Quod nOiU sdn 
tur, ataca està errada actividade mentala restabelecendo a pr^onde- 
rancia do criterio da obserya9So e da experiencia corno meio de che- 
gar à yerdado; assentando assim as bases do ensino scientifico moder- 
no. A falta de elementos concretos de observaySo e de experiencia, 
fez com que nas escbolas se esgotassem em vagas ab8trac98e3y sendo 
a philosophia o centro para onde convergiam todos os esforfos men- 
taes que se dispersavam sem destino. As luctas entro Nomincdistas e 
Realistas foram a resultante d'està incoherencia doutrinaria; a tenden- 
eia para a organisa9&o de Encydopedias era o effeito d'este pedantismo 
inconscientC; que se conservou sempre nas disciplinas humaniatas; e 
a forma9So prematura de Classifica^es hierarchicas dos ConhecimerUas 
humanos, quando ainda se nSo suspeitava da existencia da physicay da 
chimica, da biologia^ nem da sociologia, era um esfor$o centra a dis- 
persSo de elementos sem nexo dogmatico, que nSo conduziam a ne- 
nhuma conclusSo fundamental. A falta de seriedade na sciencia refle- 
ctia-se no entono auctoritario dos mestres, e na vaidade balofa dos gràos 
honorificos, que se ligaram desde multo cedo ao ensino humanista das 
Universidades. titulo de Grammaticae Doctor, acha-se desde o ae- 
culo IX empregado por Alenino; o titulo de Baccalariuis, era jà usado 
em 1045, comò se comprova pela Chronica de Radulpho GHaber; o 
titulo de Doctor Scholasticus, era applicado a Abailard, Fedro Lom- 
bardo, Porretanus e outros, comò se ve em G-alterus de S. Victor, quo 
escrevia por 1180; os grios academicos insti tuiram-se regularmente por 
1151, secundum pompam litterarum saeculariurrij corno relata Fedro, 
bispo de Orvieto, estendendo-se tambem para os que frequentavam a 
theologia, recebendo em 1198 o grào de doutor em theologia em Pa- 
ris que teve o titulo de Innocencio iii. De par com os doutores das 
leis ou dos decretos, e doutores em artes, os theologos eram tambem 
OS Doctores sacrae paginae. * 

A actividade do seculo xii e xm foi gasta n'esse jogo de pala- 
vras, chamado a Philosophia scholastica; a tradiySo das eschoiaa es- 
peculativas da G-recia renasceu nas Universidades, mas viciada pela 
theologia catholica. A verdadeira comprehensSo da Philosophia scho- 



1 Ed. Dumérìl, Poéeiea poptdairtt UUinea du Moytn-ùgtj p. 4&2, ooL 2. O IL 
Fedro da Cruz, que em 1429 era lente de theologia em Lisb3a, intitnla-se MagU- 
ter in sacra pagina. 



ESTUDO 6ERAL EM LISBOA 99 

lastica, e mesmo a sua alta importancia; so podem ser conhecidas, re- 
lacionando-a com os antecedentes hellenicos; e com a eyola9So sub- 
seqnente das crises philosophicas da Europa. Na Philosophia da Gre- 
cia existiram duas escholas fandamentaes caracterisadas pelas suaa 
<x>ncep9SeS; a esckola jonica, que especulava sobre os elementos obje- 
ctivos do conhecimento, e a eschola decUica, que dednzia o conheci- 
mento do universo dos dados subjectivos do espirito pela sjnthese 
aprioristica. Estas duas fórmas do conhecimento estSo representadas 
pelos dois eminentes pensadores Arìstoteles e Plat2o; a acfSo de Aris- 
toteleS) que se acha rehabilitado pela sciencia moderna^ foi especiaii- 
sada partìcularmente nos processos casuisticos da Logica^ e o influxo 
de Piatilo actuou sobre os devaneios mysticos da theologia christS e em 
grande parte na ìdealisagSo sentimental dos creadores do lyrismo mo- 
derno. Ab luctas que se travaram desde o seculo xvi centra o aristo- 
telismo sSo apenas urna reac9SLo centra o abuso da dialectica escholar| 
porque a superioridade scientifica de Arìstoteles so podia Ber definiti- 
vamente teconhecida quando a civilisajSo europèa continuasse a crea- 
rlo das sciencias cosmologicas, interrompidas durante o longo periodo 
da Edade mèdia, proseguindo depois da Mathematica e da Astronomia 
a moderna Physica, a Chimica, e as sciencias biologicas. 

Falando do regimen encyclopedico, diz Comte:'<Tendeu a modi- 
ficar system^ goral da razSo humana, desenvolvendo melhor do que 
na Edade mèdia, o ascendente do nominalismo sobre o realismo. Um 
tal trìumpho constituiu o passo mais decisivo para o advento directo da 
sft philosophia até & impulsSo de Hume e à elaboragSo de Kant. Além 
de annunciar a preponderancia final da lei sobre a causa, elle indicava^ 
no meio da preparaySo objectiva, o presentimento de uma syiithese 
subjectiva, segundo a importancia concedida à logica artificial comò' 
nexo prò visorio de todos os nossos pensamentos. Ainda que os orgSos 
pessoaes d'està reacffio philosophica fo'ssem as mais das vezes frades 
em legar de medicos, nem por isso deve deixar de relacionar-se es- 
sencialmente com a constituigSo enciclopedica propria d'estes. Està 
aprecia9So dogmatica acha-se confirmada pela nota historica sobre a 
tendenda dos frades para os estudos medicos, que muitas buUas papaes 



» 



i 



Ihes prohibiram especialmente. 

A influencia de Aristoteles foi enorme na Edade mèdia, embora 
nSo comprehendido no assombroso conjuncto das suas doutrinas con- 



1 Syat. Politique positive, t. in, p. 541. 

7* 



100 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

cretas. Aristoteles concebia claramente os dois elementOB essenciaes do 
conheciinento, o individuai, ou o subjectivo, cuja realidade estava na 
propria consciencia) e o objectivo, ou os dados do mundo exterior, co-- 
nhecidoe segundo as impreasSes variadas, que chamava nomea. À in- 
vestigagSo d'este elemento objectivo constituia a actividade scientifica, 
corno o exercicio da fÌEU^iildade subjectiva constituia a disciplina philo* 
sophica. A Edade mèdia, nSlo comprehendendo està intima dependen- 
eia, exaggerou a parte subjectiva, reduzindo a acf&o de Aristoteles 
simplesmente à sua Logica, e sem o apoio dos facto» experimentaea, 
considerou que fora do espirito humano existiam idéas geraes que di- 
rigiam os phenomenos, deixando-se enlevar nos sonhos idealistas de 
PlatSo. 

Sob està dupla corréhte, as dnas éscholas jonica e eleatìca renas- 
ceram com outros nomes; os que ligavam a maior importancia à.obje- 
clividade, e que davam toda a preponderancia ao criterio sensualista, 
foram designados Nominalistas; aquelles que subordinavam o conhe- 
cimento à pura subjectividade, consideravam-se comò espiritualistas, e 
com o nome de Bealistas fortificavam-se com a theologia catholica, ou 
attrahidos pela idealisa9llo pantheistà de Plat&o, chamavam-se os Uni- 
versaes. Quem poderà rir-se d'estas tremendas luctas escholasticas en- 
tre Nomincdistds e Recdistas, se era esse effectivamente o grande pro- 
blema da intelligencia humana? ^ Ainda no seculo xyii Locke e Ber- 
keley separam estes elementos do conhecimento; a realidade para Locke 
é objectiva, e para Berkeley subjectiva; toda a renovagào do genio phi- 
losophico de Elant consistiu no exame da importancia d'estes dois ele- 
mentos do conhecimento, concluindo no Criticismo pela necessidade 
final do seu accordo; e a origem historico-dogmatica do Positivismo 
proveiu do desenvolvimento successivo das sciencias chjectivas, desde 
o seculo XVI a xix, e da necessidade de coordenal-as em um todo sys- 
tematico, come$ando pela subordinasse do criterio svbfectivo aos dados 
verificaveis das sciencias, e acabando pela synthese nova em que a rea- 
lidade e a subjectividade se conformam comò unica manifestasse da 
verdade. 

As doutrinas philosophicas, que penetraram nas Universidades da 
Edade mèdia, principalmente nos paizes meridionaes, estavam repr&- 



1 Diz Emile Chasles : «NSo silo duas éscholas que se combatem, aio dnas 
grandea tendenciaa do eapirìto humano que se acham em conflicto.» (DicU da 
JSàenees pàtio $ophique$f vb.<» NoifuuuBifs.) 



ESTUDO GERAL EM LISBOA iOi 

«entadas pelas alias individoalidadeS; Sam Thomaz de Aquino, Dans 
Scott e Raymnndo Lullo, dando logar às escholas intituladas dos Tho- 
mùtas, dos ScotHstas e dos Raymonùtas, quo muitas .vezes deturpa- 
vam as doutrinas dos mestres. A influencia d'este ultimo, conhecido 
pela antonomasia de Doutor lUuminado, exerceu-se nas Universidades 
meridionaes, havendo urna cadeira especial para explical-o nas Uni- 
yersidàdes de Hespanha. Além da sua doutrìna, que se distinguia por 
om contaoto mais directo com a philosophia dos Arabes, e pela aspi- 
ra^So a conciliar a razSo com a fé, elle exerceu uma ac9&o notavel nas 
Uniyersidades, proclamando a necessidade do estudo das linguas orien- 
taeS; realisado no Collegio Trilingue de Erasmo, e sobretudo no Col- 
legio de Franga sob Francisco i. O papa attendeu-o, permittindo que 
as linguas orientaes fossem ensinadas em Roma e nas grandes Unì- 
Tersidades de Bolonba, Paris, Oxford e Salamanca. Na Universidade 
de Lisboa nSo existiram desde a sua funda93o cadeiras de arabe e de 
hebraico; mas fizeram-se traduc93es do^Velho Testamento, e na Córte 
Imperiai, manuscrìpto da Bibliotheca de D. Duarte, figurasse um com- 
bate dialectico com os doutores arabes sobre os dogmas christ^s, tal 
corno OS fazia Eaymundò Lullo. 

Falando d'este grande visionario, que queria, além da conciliagSo 
da fé com a razSo, a unificafSLo da humanidade pelo chrìstianismo. Guar- 
dia retrata o com mestria: «Este homem, de ra9a cataUL, nSo se pa- 
rece com nenhum dos seus contemporaneos do Occidente. Elle nSo é 
nem scholastico, nem classico; o seu caracter permanece independente, 
e seu espirito indisciplinado. E Arabe pelas idéas, pelo methodo e 
pela linguagem. Ao contacto do Oriente, e grajas à sua vida errante, 
elle sacudiu o jugo pesado da theologia das escholas; ama o raciocinio 
mais do que a razSo; mas reconhéce os direitos da razSo e a necessi- 
dade da sua interven92o em materias da fé.» E termina com este bello 
tra90 positivo: «Tinha um genio singular, e nSo é para elle uma pe- 
quena gloria o ter entrevisto, desde o seu tempo, umà cousa que nós 
entrevemos hoje com nova intuifSo, a unidade da sciencia pela coor- 
dena$So empirica e racional dos conhecimontos humanos, e uma cousa 
que de longe apenas entrevemos, a unidade da vida social, isto é, o 
estabelecimento e a con8olida9So da ordem na humanidade.»^ 

A Universidade atrazara-se conservando confundido o ensino das 
Escholas menores, ou secundario, com o das Escholas maiores, ou su- 



1 Àp. Bevue gennantquey U zix, p. 223 e 224. 



1 02 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

perior; a claseìficasSo das disciplinas estava ainda estabelecida pela 
regimen do Trivium e Quadrivium, ou das Sete Artes, f om o systema 
de coordeoa^So scientifica de Baymundo Lullo. rei D. Duarte co- 
nhecia as doatrioas philosophicas dos Raymonistas ouLullistas; naBi- 
bliotheca de Alcoba^a (cod. 383) guardavam-se as Obras de Baymundo 
Lullo, Compendio da Arte demonstrativà e Arte inventiva da Verdade. * 
NSo admira pois que a coordenaySo das disciplinas da Universidade se 
conformasse com a Classifica^So das Sciencias por Lullo; para este phi- 
losophoy era a Tkeologia a base dos conhecimentos, porque x) seu obje- 
cto é Densy e em seguida a Philosophia,^ que nos revela o conhecimenta 
das causas e dos effeitos nas seguintes categorias: 

Meiajphynea, 

ÌFhystca Medicina. 

a) Natubal l [ Astronomia, 

] Mathematica . | Musica, 

(Arithmetica. 

tMonastióa, ou governo de si mesmo. 
Economica, ou 'governo de um para muitos. 
Politica^ ou governo de muitos por muitos (Leis.) 

( Grammatica^ 

o) SxBMociovÀL. ÌLoffioa^ 

[Bheiorica.' 

Grande somma dos elementos d'està classifica9So jà apparece sys- 
tematisada quasi pela mesma fórma por S. Boaventura, que tambem 



1 Os Raymonistas pretendiam esplicar os mysterios da fé pela razSo ; eram 
xms racionalistas prematnros, combatidos pela Sorbona. 

* Quicherat, na Historia do Collegio de Santa Barbara, 1. 1, p. 36, define està 
ordem de estndos : «Nas idéas da Edade mèdia nao havia senSo a Philosopfaia, 
que fosse capaz de dar yalidez aos espiritos e preparal-os para o estudo das ou- 
tras sciencias. Era a unica faculdade, sobre a qual se exercia o ensino das clas- 
ses Buperìores. Tudo mais pouco valla.» E accrescenta: «Fensava-sc geralmente 
que a instruc^So litteraria era sufficiente, quando coadjuvava a leitura dos livros 
de Philosopliia. Ora estes livros eram imperfeitas traduc^Òes de Aristoteles, ou 
Commentarios sobre o mesmo auctor, escriptos em o latim o mais àrido, o mais des- 
pido de omatos. A for^a de se querer sacrificar a fórma & essencia, chegara-se a 
banir da composi^Io toda a figura, toda a imsgem, tudo o que nào era rigorosa- 
mente demonstrativo. discurso, articulado corno um esqueleto, nao admittia se* 
nSo proposi^oes, eondvsòes, coroUarios maiorea^ menores ou conseguenciag; o pen- 
samento era for^ado sómente a distinguiry a definir^ a resolver. Tal era o genero 
JScholaMtico^ genero monotono e esterìl, cuja cultura ezdusiva teve o deploravei 
«ffeito de dessorar muitas intelligencias grandes.» 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 103 

dera à Theologia a preeminencia, separando as Artes meohaDicaB ou 
praticas das doutrinas theoricas. A Classificagào geral dos Conheci- 
mentos humanos, proposta por S. Boaventura, é de maxima importali- 
cìAi porque se baséa sobre as tres manifestagSes do nosso sér, activa, 
eapecolativa e affectiva: 

Tecelagem, 
Carpinteria, 
iMetHllnrgia, 
L — AxTBB MBCHAmcAS |Cantooena, 

Agricultura, 
(Operaqòea artifidaes) jCa^a, 

iNavega^So, 
Theatrica, 
Medicina (Pharmacia e Cirorgia.) 



n. — 1. CoNHECiM£NT08 ADQuiRiDOS PELOB Sentidos (FórmcLs naturata da Mattrta) — 
Iflto é, grupoB de phenomenos, segando os criterìos indactivos da 06- 
servagàoj ÈxperìeTicia^ Comparagao e FUiagào, 



(Grammatica, 

BaetoncU (no Discurso) | Logica, 

(Rhetorìca. 

— 2. Philosophia I iPhjsica, 

I Naturai (nas Cousas). | Mathematica, 

fAg verdades intelligiveis) 1 (Metaph^sica. 

Ì Monastica, 
Economica, 
Politica. 

ÌSentido allegorico (A Fé) — Doutores: Santo Agosti- 
nho, Ansehno. 
Sentido moral (A Virtude)— Prégadores: S. Gregorio, 
Sentfd^a^l^ (Beatitade)-ContemplativoB: S. Di- 
niz, Bicardo. 

Só depois de bem conhecer estas Classifica^Ses do saber medieval, 
é que se comprehende a tendencia do ensino das Universidades em tor- 
xiar-se prematuramente philoaophico em vez de scientifico. A sciencia 
oontradictaya os dogmas da Egreja, e a Theologia entendia-se bem com 
as vagas abstrac93e8 de ama Metaphysica tradicional, tomando-a a sua 
tmeilla. Quando se deu a grande crise da renoya9So das Sciencias no 
seculo XVI, as Universidades reconheceram que entravam n'um periodo 
critico, tendo de aband6nar o seu humanismo; a lucta foi grande, sob. 
o nome de aristotelismo , designaQSo imperfeita para denominar a velhar. 
dialectica universitaria, e teve seus martyres, comò Fedro de la Ra- 
mée; mas as Universidades nSo acompanharam o novo espirito critico, 
porque bs Jesuitas, comò activa milicia papal, apoderaram-se d'ellas,^ 



104 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

recrudescendo no exclusivismo pedagogico das humanidades (gramma- 
tica, logica ou dialectica e rhetorica.) 

Comte descreve admiravelmente a genealogia montai do espirìto 
metaphysico, que sob a fórma de Philosophia scholastica cooperou no 
firn da Edade mèdia para a dissola9So do regimen theologico e do po- 
der espiritual: cDesde està divisfto verdadeiramente fundamental da 
philosophia grega em philosophia motal e philosophia naturai, que do- 
minou sempre até aqui o conjuncto do movimento menta! da elite da 
humanidade^ o espirito metaphysico appresentou concorrentemente doas 
fórmas extremamente differentes e gradualmente antagonistas, em har- 
monia com uma tal distinc9So : a primeira, de que PlatlU) é considerado 
comò principal orgSo^ muito mais proximo do estado theologico, e 
tendendo mais a modificai -o do que a destruil-o; a segunda, tendo por 
typo AristoteleSy bem mais visinho, pelo contrario, do estado positivo, 
e tendendo realmente a desprender o entendimento humano de toda a 
tutella theologica propriamente dita. Uma, nSo foi, pela sua natureza 
essencialmente critica, senSo o inverso do polytheismo, do qual ella 
proseguiu activamente a sua universa! decadencia; ella presidia sobre- 
tudo, comò jà o mostrei, à organisafSo gradua! do monotheismo, que, 
uma vez constituido, determinou espontaneamente a fus3o fina! d'esté 
primeiro espirito metaphysico no espirito puramente theologico propria 
d'està ultima phase essencial da philosopliia religiosa. Ao contrario, o 
outro, desde logo principalmente entregue ao estudo goral do mundo 
exterior, teve de ser, na sua applica9&o, longo tempo accessorio, &a 
concepfSes sociaes, necessariamente e constantemente crìticas, conforme 
a combina9&o intima e permanente da sua tendencia antitheologica com 
a sua impotencia radicai, a produzir uma verdadeira organisafSo. Era 
a oste ultimo espirito metaphj-sioo que devia naturalmente pertencer a 
direcfHo menta! do grande movimento revolucionario, que apreciamos. 
Espontaneamente afastado pela preponderancia platonica, emquanto a 
organisa92o do systema catholico devia principalmente occupar as al- 
tas intelligencias, oste espirito aristotelico, que nunca deixara de cul- 
tivar e engrandecer em silencio o seu dominio organico, tendeu a apo- 
derar-se, por seu turno, do principal ascendente philosophico, amplian- 
do-se tambem ao mundo mora! e mesmo social, logo que està immensa 
opera^So politica, emfim sufficientemente consummada, deixou natural- 
mente predominar d'ahi em diante a necessidade da expansAo pura- 
mente racional. E assim que, desde o seculo xn, sob a mais eminente 
supremacia social do regimen monotheico, o triumpho crescente da 
Seholastica, veiu realmente constituir o primeiro agente geral àa des- 



ESTUDO 6ERAL EM USBOA 1 05 

organis&fSo radicai da potencia e da philosophia theologicas, ainda que 
parefa paradoxal està proprìedade de eiDancipa9So attribuida a urna 
doutrina hoje tfto cegamente desprezada. A prìncipal consistencia po- 
litica d'està nova for9a espiritaal, de mais em mais distincta, e desde 
logo rivai do poder catholico, postoque d'elle fosse emanada^ resaltava 
da sTia aptidSo naturai a apoderar-se gradualmente da alta instruc9So 
publica, nas Universidades^ que, entAo quasi exclusivamente destina- 
das & educatilo ecclesiastica; deviam necessariamente abranger depois 
todas as ordens essenciaes da cultura intellectual. Àppreciando, a este 
ponto de vista historìco, a obra de S. Thomaz de Aquino, e mesmo o 
poema de Dante, reconhece-se facilmente que este novo espirito me- 
taphjsico tinha entSo essencialmente invadido todo o estudo intelle- 
ctual e moral do homem, e come9ava tambem a estender-se directa- 
mente às e8pecula986s sociaes, de maneira a testemunhar jà a sua ten- 
dencia inevitavel a libertar definitivamente a rasSlo humana da tutella 
puramente theologica. — Mas as grandes luctas decisivas dos seculos xiv 
e XV, centra a potencia europea dos papas e contra a supremacia eccle- 
siastica do solio pontificai, vieram por fim apresentar espontaneamente 
ama larga e duravel applica9So social a este novo espirito philosophico, 
que, tendo jà attingido a sua piena maturìdade especulativa de que era 
BUBceptivel, desde entSo tendeu sobretudo a tomar nos debates politi- 
cos urna participa9So crescente, que, pela sua natureza negativa para 
com a antiga organÌ8a9So espirìtual, e mesmo por uiba consequencia 
involuntaria, ulteriormente dissolvente para o poder tempora! corre- 
spondente, do qual ella tinha desde entSo secundado o systema de ab- 
8orp9So universal. Tal é a incontestavel filìa9So historìca, que, até ao 
seculo passado, naturalmente collocon, em todo o nesso Occidente, a 
potencia metaphysica nas Universidades à fronte do movimento de de- 
composÌ9lLo, nSo sómente emquanto elle permaneceu espontaneo, mas 
depois quando se tornou systematico.» ^ 

Tentar a historìa do ensino sem conhecer a genealogia das idéas 
enainadas, ou pelo menos a sua influencia nos methodos pedagogicos; 
é entrar com os olhos fechados em um campo de manife8ta9Ses t%o 
complexas comò este que se relaciona com teda a civilisa9&o europèa. 

Depois das idéas dominantes no ensino humanista, temos notado 
as tentativas dos principaes espiritos da Edade mèdia para o e^tabe- 
lecimento de uma Classifica9So dos Conhecimentos. Nas disciplinas das 



1 Cours de PhUosophie positive, t. ▼, p. 888 a 391. 



106 HISTORIA DA UT^IVERSIDADE DE GOIMBRA 

Universidadesy corno a de Vercelli^ em 1228^ encontramos a Theologia, 
as Leu, as Decretata, a Medicina, a Dialectica e a Grammatica; ^ na 
Universidade de Coimbra ensinavam-se as Leis, os Canones, a Medicina, 
a Dialectica, a Grammatica e a Musica. Exìstia um pensamento com- 
muin a todas as Unìversidades; e esse pensamento so póde ser expli- 
cado comò urna applica9So das theorias taxonomicas das sciencias se- 
gando a època. 

A madaù^a da Universidade de Lisboa para Coimbra em 1307, 
conservou a Theologia separada do novo estabelecimento, sendo ensi- 
nada nos mosteiros dominicanos e franciscanps, e as Artes e Sciencias 
em casas de aluguer e depois no sitio onde mais tarde veiu a fundar-se 
Collegio de S. Paulo. Nos primeiros Estatutos dados por D. Diniz à 
Universidade em 1309, estabelece-se o quadro pedagogico: cFundamos 
na noBsa Universidade de Coimbra, & qual n'este ponto damos a pre- 
ferencia, e inauguramos radicalmente o Estudo geral, querendo que 
sejam mestres in Sacra Pagina os religiosos das Ordens dominicana 
e franciscana. . . Tambem um Doutor em Decreto, e um Mestre em De- 
cretaes. . . Além d'isso para que o reino possa ser melhor govemado, 
queremos que haja um professor em Leis, para que os govemantes e 
Joizes do nesso reino possam com o conselho dos peritos decidir as 
questSes subtis e arduas. Tambem ordenamos que no sobredito Estudo, 
haja um Mestre em Medicina para que agora e no futuro os corpos de 
nossos subditos sejam dirìgidos sob o devido regimen da sanidade. Item, 
queremos que ahi mesmo hajam Doutores e Mestres de Dialectica e 
Grammatica para que recebam com o fondamento de quererem ser mi- 
nistros e juizes e nos que acharem mais agudeza de intelligencia aquel- 
les que desejarem chegar a maiores sciencias.» 'Nas Memorias politi- 
eoa de Joaquim José Rodrìgues de Brito, vem uma reducgSo dos orde- 
nados dos lentes da Universidade n'esta prlmeira època: cSegundo a 
Memoria tirada das Notìcias chronologicaa da Universidade de Coimbra, 
impressa por Francisco Leitào Ferreira em 1729, o Lente de Prima de 
Leis, tinha de renda 21j5600, ou 600 livras; o de Carumes, 18f5000 réis; 
e o de Musica, 2^9^340. Conhecemos jà que as livras d'aquelle tempo eram 
de 36 rèis cada uma, e que 600 valiam 21^600, que multiplicados por 19 
Bommam 410i$400 réis; e por 4, em 1:641}$600, ou mais de 4:000. cru^ 
zados. Os ISiJOOO réis do lente de Prima de Canones em 1:368^000 



1 Tiraboschi, op. ctV., t. ir, p. 55. 

2 Ltvro Verde, fl. 12 y. — Tambem na Monarck. Ltmlana, P. ▼, Àpp. Escr. 
iLxv \ e nas Provaa da JSistaria geneal., t. z, p. 75. 



ESTUDO GERAL EM USBOA 107 

reis; e os 2}91340 do Professor de Musica em 177^840 réis de hoje. 
NSo nos deyemos de admirar pois de que se leia em todos os historìa- 
dores que o sr. D. Diniz convidara com grandes ordenados aos lentes 
das Universidades da Europa, quando vémos que Ihes assignou uns 
d'està qu^idade; nós devemos notar que elles deviam ser lun bom 
attractivo n'uns tempos em que o luxo privado era limitadissimo.» ^ 
A leitnra da Carta de Con8tituÌ98es do Estudo de Coimbra, pelo rei 
D. Diniz em data de 27 de Janeiro de 1307' so nos confirma os 
enormes privilegios concedidos à classe escholar^ com um foro inde- 
pendente para os que praticassem algum crime; com a faculdade de 
elegerem reitor; conselheiros, bedel e outros officiaes da Universidade; 
com taxa marcada para os alugueres de casa, e podendo viajar pelo 
paiz sem pagar portagem, além de muitas outras garantias para nSo 
serem perturbados no seu estudo. A sciencia tendia a converterse em 
nm poder social, e effèctivamente os Jurisconsultos estabeleceram re- 
grsA de direito, jà rècebidas da jurisprudencia romana que renasda 
nafi Universidades, jà coordenando os costumes ou praxes conforme a 
rasSo. Para que se fundasse uma imifica9^ da esphera civil, quando 
ella n&o era reconhecida, e existiam o fdro da nobreza, o fóro eccle- 
siastico, ò fóro real, e os foros territoriaes, em conflicto permanente, era 
preciso que a classe especulativa dos escholares gozasse tambem o fa- 
vor das immunidades, para que ella produzisse esses espiritos auste- 
ZOB que reduziram as fórmas pessoaes da auctoridade à acf&o abstracta 
do Ministerio publico. ' 

A Cadeira de Musica nSo apparece apontada nos Estatutos ou 
ProTisSo de 15 de feyereiro de 1309; no emtanto vem computado o 
seu salario na Resolu^^lo de 18 de Janeiro de 1323, em que D. Diniz 
irata com o Mestre de Christo, que se obriga a pagar os salarios aos 



1 Op. city t. II, p. 78. (1803.) Os salarios eram pagos por duas yezes, em dia 
de S. Lucas, e no de £. Joio Baptista" Estcs salarios acbam-se estabelecidos na 
Beaolu^So de 18 de Janeiro de 1323, no accordo de D. Diniz com oe Freires de 
Christo. Livro Verde, fl. 2 y a 4. 

^ J. P. Ribeiro, Diaa. chron , t ii, p. 234. Por està Carta de D. Diniz appro- 
dando a ConstituìfSo da Universidade de Coimbra, yè-se que o novo Estudo ti- 
nha o privilegio de formular o seu proprio Estatato : «A quantos està Carta vi- 
lem fa^o saber, que a Universidade do meu Estudo de Coimbra me enviarom pi- 
dir por mer^ee, que eu Ihes confirmasse as Coiistituigoeens, que enire ayfezerom, 
entendendo que erom a servilo de Deus, e meu, e a proveito dessa Universidade : 
daa qnaes Constitui^oes o theor do verbo a verbo tali he: etc.» 

Alli se consigna a eleÌ9ào dos Beitores pelos Escolares ; os Estatutos tinham 
aido appresentados e approvados em congresso do Beitor, Officiaes e Escholares. 



108 HISTtìRU nx CMVERSIDADC DE COIBIBRA 

lentes om tro«* à<^ frwtos e rendis das Egrejas de Scure e Pombal. 

A wn^N-^rJi <NVT*«e r:^ak*l que se manifesta em Portugal é a 
ii«»'' '^, .«• • ' . yVinj,'' ^ ^T.5fs^ 5."^ Testamento de D. Marna Dona, onde vem 
^s:|,^^i^v ^.. ;\<ss-.»»-^' .t»V^ri\ Santo Ambrosio introduziu na Egreja 
^v ,vvsv" N» V «"^ x*^^ V XT^x eliminando o genero chromatioo e o enhar- 
>KV' s\\ x" «i'Vi^t-È/ f 4^^r^MM diatonico. A segunda corrente musical 
V % .^••' x*^* * '"^ .■♦'►•/v*--t/^*«/> vm do canto feito, desenvolvida pelos trovado- 
'N^x •v.-.^;^*^ ..•>. ^»ix? apj^lìcavam esse estylo às can95e8 proven9alesca8 
<i« * -i^**'* ^^-iji^w'v «^.imìttindo urna revoluySo na Masica^ que era co- 
•à.Kx^v.% 'v^o ^K^ij^ kÌ^ Drscante e pouco sympathica à disciplina litur- 
^.v»* .i- x':^*vj^ ifcv> secalo XIV. * E justamente quando urna bulla ponti- 
iv.v« :v^iK!Ottuu*Y^ o Descante, em 1322, que em seguida se acha men- 
s*v^ii.<lii A cwleira de Musica na Universidade. 

\:4 ^^m^*&o ou Gesta de Toaldizer, de Affonso Lopes Baiam, en- 
svaa^i^ii^ a celebre neuma Aoi, com que terminam as cantilenas da 
L%i'ii^oit de Rola/nd. Està neuma n3o era peculiar da epopèa franka; 
bVoiiois^ue Michel, no Ms. Harleiano, n.^ 9908, achou antiphonas ter- 
ittinacfcdo por Euouae. Se ella apparece na Can9&o portugueza do se- 
culo xiii, é porque reproduzia um costume musical da època, em que 
a pbrase saeculorum amen, pelas suas vogaes Euouae servia para indi- 
car tom em que se cantava o psalmo. Fernando Wolf, no estado 
sobre OS Lais jà tinha observado oste facto, e Felix Clément, na His' 
toria geral da Musica religiosa confirma- o dizendo : eque as antiphonas 
sfto sempre seguidas de um Psalmo, que o tom sobre o qual se canta 
este psalmo é indicado pela termina^ào, que està termina9So é desi- 
guada pelas palavras saeculorum amen, cujas vogaes sómente sSo no- 
tadas sobre cinco, seis, sete ou oito notas, segundo as regras da psal- 
modia; e que nSo ha um unico antiphonario, desde S. Gregorio até ao 
ultimo vesperal. mpresso em 1860, gue n&o apresente quatrocentas ou 
quinhentas vezes este euooae indispensavel ao cantor para entoar o 
psalmo.» (Op. cit., p. 165.) 

A neuma da can93o satyrica portugueza nZo provém de uma pa- 
rodia da fórma epica, mas sim de ser destinada para o canto, seguindo 
o estylo dos antiphonarios. 

A musica era uma das Sete Artes de que se compunha o trivium 



1 Lé-se na HUtoirt liUeraire de la France^ t. zxxi, p. 183: «A musica dos 
hjmnos da Egreja foi durante multo tempo a musica que serviu para as can^ftes 
profanas, mesmo na lingua vulgar.» 



ESTUDO GERAL EM LISBOA i09 

e quadrivium. No Leal Consdheiro encontram-se circumstancias nota- 
veis para a sua historia. Os monarchas da Europa entretinham em suas 
Capellas um bando de menestreìs e cantores; e este facto bastante con- 
triboiu para a crea9So da musica moderna. 

Pelo seculo xiv come9a uma reyoIu92k> profunda na musica an- 
tiga; o canto grave e unisono, a que a Egreja deu o titulo de canto gre- 
goriano, foi mobilisado com a reuniSo de outras vozes produzindo um 
accordo d'onde saiu a musica moderna. Em 1322 uma bulla pontificai 
condemnava o descante, e estabelecia a supremacia do ca7i,to gregoriano; 
o descante era uma novidade perigosa. Jean des Murs, define: cDes- 
canta, aquelle que ou juntamente com um, ou com muitos docemente 
canta, de modo que de sons distinctos faz-se um so som, nào pela uni- 
dade da simplicidade, mas pela uniSo da dece concordancia da varie- 
dade.» * El-rei D. Duarte, no capitulo: Do regimento que se deve de ter 
na capella para seer bem regida, diz: «Prymeiramente se proveja bem 
ante que o Senhor venha aa Capella o que ham de dizer, scendo avy- 
sados todos em geeral, e cada huù em special, do que soo ou com ou- 
irò ouver de dizer, assy no leer comò em cantar.» (P. 449.) 

eque se nom consenta nenhun desacordativo aa estante, porque bua 
corda destemperada he abastante para destemperar um estromento. 

citem, que se conhe9am as vozes dos CapellaHes, qual he pera 
cantar alto, e qual pera contra, e qual pera tenor, e assy cantem con- 
tynuadamente pera cada huu seer mais certo no que cantar. 

«Item, que se cónhe9a quaaes antresy nas vozes sam melhor acor- 
dados, e aquelles cantem alguas cousas que se ajam estremadamente 
cantar, porque ha hi alguas vozes, que ainda que sejam boas, antro sy 
no se acordam bem, e outras que ambas junctas fazem grande avan- 
tagem. 

«Item, que se guardo onde ha destar a estante, e a casa quejanda 
he pera soarem melhor as fallas (vozes) porque se està a par dalgua 
janella, o vento vae por ella fora, e faz menos soar as fallas; e esso 
mesmo faz em coro alto, ou muyto alongado, porem se deve resguar- 
dar o lugar pera mylhor soarem, specialmente se he tal tempo em que 
se queira resguardar, ou mostrar seus Capellalles.» (Pag. 450.) 

Por estas observajSes de D. Duarte, se vera que em Portugal jà 
estava admittido o descante, substituindo o canto gregoriano. accordo 
das vozes, d'onde saiu a hannonia, procurava-se na melhor consonan- 
cia das vozes que melhor se reuniam; assim comeyaram a serem clas» 



1 Apud Victor Le Clerc, HisL Litt,, 1. 1, p. 530. 



110 HISTOBIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

sificadas de alto, cantra-atto, tenor. As condÌ93es acnsticas para melhor 
se prodazirem as vozes tambem come9ayam a ser notadas. Assim a 
musica, considerada entlo corno mn ramo da mathematica, ia tornando 
mna fórma scientifica. 

D. Duarte tambem apresenta alguns preceitos para se ensinar a 
musica aos meninos, indicando os meios de Ihes fazer perder aquelle 
pudor naturai que se tem antes de desprender a toz: eque tanto qua 
ouverem conhecimento de cantar que os fa9am cantar aa estante, e qtie 
Ihe fa^am ensinar alUas cantìgas a alguu que saiba bem cantar, e esto 
pera aas vezes cantarem ante o Senhor, ca esto Ihe faz perder o empa- 
cho de cantar, e esfor9ar a voz, e gaanfar melhor geito e mais gracioso 
de cantar.» (P. 451.) Estas cantigas proCanas usavam-se em todos os 
officios, e so depois do Concilio de Trento é que foram banidas da li- 
turgia; nas ConstituigSes dos Bispados portuguezes ha uma severa e 
constante prohibÌ9So d'essas arias e motetes, signal.do seu frequenta 
e tenacissimo uso. D. Duarte tambem provìdencfa emquanto & ezpres- 
sSo que se deve dar à musica: 

citem, se deve guardar que o cantar seja segundo as cerimonias 
da Igreja, ou triste ou ledo, e segundo os tempos em que esteverem.» 
(P. 451.) 

cItem, devem seer avysados que em qualquer cousa que ouverem 
de cantar, ora seja canto feito ou descante^ declarem a letera d'aquello 
que cantarem, salvo se ella for deshonesta pera se dizer.» (P. 453.) 

Da necessidade de accordar as vozes, veiu a fixagSo das claves, 
a principio marcadas por letras. Diz D. Duarte: cem qualquer cousa 
que cantarem devem declarar a letera vogai segundo he scripta, e esto 
porque alguus teem de costume pronunciar mais huua letera que en- 
tra em aquello que cantam.» (P. 454.) 

Aqui se véem acceites ambas as fórmas, o canto feito ou grego- 
riano, e o de muitas vozes. Comparando-se està despreoccupa9So com 
as queixas dos partidarios do canto antigo, vè-se que a lucta tinha aca- 
bado. Como Jean des Murs se queixava amargàmente: «Oh! se os an- 
tigos mestres da arte ouvìssem o descante d'estes doutòres, o que di- 
riam? que fariam? Elles interromperiam o discipulo d'està musica 
nova, para Ihe dizerem: — NSo foi de mim que aprendeste estas disso- 
nancias, e o teu canto nSo està de accordo com o meu. Pelo contrario, 
tu me contradizes e me escandalisas. Cala-te, antes; mas tu antes que- 
res delirar e deseantar.w * As Universidades coadjuvaram està revolu^So. 



1 Apnd Victor Le Clero, HUt, LiU., t x, p. 580. 



ESTUDO 6EBAL EM LISBOA Ili 

Além da influencia dos estudos humanisticos na eiiiancipa9So da 
consciencia individuai, as Universidades exercerani ama profunda acgSo 
social cooperando pelos seus doutores legistas para a liberta9So e pre- 
ponderancia da esphera ciyil. Està obra interessava directamente os 
reis; e se a fnnda^So da Universidade pelo rei D. Diniz é simaltanea 
com a restrìc92o do direito de conferir nobreza e limitagUo da classe 
que gosava d'esse fòro estabelecidas nos NobUiarios, tambem esse outro 
rei que onificou os fóros locaes, convertendo as garantias dos Foraes 
no direito commum das OrdenaySes do Reino, o rei D. Manuel, reor- 
ganisa a Universidade dando-lhe novos Estatutos; em 1537 D. Jo2Lo m 
chama a si a faculdade de Ihe nomear os Reitores. Todas as leis e de- 
cretos que .se acham no Archivo nacional relativos & Universidade de 
Coimbra, e summariados no Indice da legisla92U) por JoSo Fedro Ri- 
beiro, encerram quasi que exclusivamente privilegios e doa93es de ren- 
dimentos. Quando a Universidade passou para Coimbra, accentuou-ee 
mais o seu caracter real ou secular, sendo Mestre Fedro, pbysico do 
rei, e Martim Louren90, seu clerigo, os procuradores na c6rte dos ne- 
gocios da Universidade. 

N'esta època, em que a Theologia absorvia teda a cultura dos es- 
piritos, a Medicina era olhada corno um tanto heterodoxa, por causa 
das escholas arabes; o facto da preferencia lisada pelo rei ao seu phy- 
sico condiz com a guerra de intriga» domesticas em que o envolveram 
08 franciscanoB, jà com a chamada Rainha Santa, jà com o proprio fi- 
Iho. Uma provisSo de 1 de dezembro de 1312 permitte que os Escho- 
lares e os Lentes possam comprar casas em Coimbra e deixal-as por 
sua morte a pessoas leigas; era evidentemente um intuito de definir o 
caracter secular de uma classe cujo instituto era dotado com bens ec- 
clesiasticos. 

Dizia antigo ditado: e Onde està o rei, està a córte;» e conse- 
gointemente a Universidade, comò {unda9So real, devia estar proxima 
da sua auctoridade immediata. For Carta de 16 de Agosto de 1338 
de D. Affonso iv, transferindo a Universidade de Coimbra para Lisboa, 
dà-se comò fundamento e a asaùtencia que nesta ddade fazia Eirei a 
maior parte do anno.^ ^ 

A transferencia da Universidade de Lisboa para Coimbra, em 
1307, foi pedida por D. Diniz ao papa Clemente v; o papa allude 
aos scandalla et diasentiones que se deram entro os escbolares e ob 



1 Liv. rr da Ghane, fl. 30, y. Ap. J. P. Bibeiro, Ind. ckr. 



i 1 2 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

cidadSoB, por causa dos prìvilegios que gosavam, taes corno o doB ala- 
gueres das casas taxadas para os estadantes e o fòro criminal eccloBias- 
tico. Ao mesmo tempo que o papa Clemente v expedia de Poitiers em 
26 de fevereiro de 1308 urna bulla para o rei, confirmando ob prìvi- 
legios concedidos por Nicolio iv, remettia na mesma data urna outra 
ao arcebispo de Braga e ao bispo de Coimbra, para effectuarem a 
transferencia do Estudo geral. NSo era propriamente a mudanga da& 
Faculdades o objecto d'està commissSo, porque pela Carta de Ctmati- 
tui^ do Esiudo geral em Coimbra de 27 de Janeiro de 1307, jd a Uni- 
versidade ostava funccionando n'aquella sua nova sède; o trabaiho dos 
dois bispos consistia em substituir as rendas que a Universidade per- 
derà na mudanga de Lisboa. Os Abbadea e Prìores, que haviam do- 
tado a Universidade quotisando-se nos rendimentos das suas egrejas, 
com auctorisagSo de Nicolào iv, retiraram os seus subsidios por nSo 
acquiescerem à vontade de D. Diniz, na transferencia do Estudo geral 
para Coimbra; a bulla, de Clemente v permittia a annexagSo de seis 
egrejas parochiaes do padroado real para mantimentos dos Mestres do 
Estudo de Coimbra, e ob dois prelados escolheram aa egrejas de Scure 
e Pombaly que tinham pertencido à Ordem dos Templarìos recente- 
mente extincta, e que o rei incorporara na nova Ordem de Cavalleria 
dos Freires de Chrìsto. O Mestre e Conventuaes da nova Ordem repre- 
sentaram ao monarcha para que llies permitisse ficarem com as egre- 
jasy pagando a Ordem de Chrìsto os salarìos dos mestres do Estudo. 
A resoluySo do monarcha nSo foi prompta; sómente em 1323 em escrì- 
ptura de 18 de Janeiro, datada de Santarem, é que permittiu a compen- 
sa^SLo, sabendo-se por este documento ^ a importancia dos salarìos: ao 
Me^re das Leu, 600 livras; ao de Decretos, 500; ao da Fisica^ 200; 
ao de Grammatica, 200; ao de Logica, 100; ao de Musica, 75; a douB 
Conservadores^ 40 a cada imi. Os pagamentos eram por S. Lucas (18 
de outubro) e pelo S. Jofto. Por este documento se ve, que as cathe- 
dras tinham ainda um so professor; que a hierarchia pedagogica es- 
tava confundida, n3o se destacando as Artes das cadeiras maiores; e 
que as épocas escholares eram apenas duas, comò ainda hoje se observa 
nos cursos das Uniyersidades aUemSls. É d'este tempo que os medioos 
foram chamados Fisicos, porque se denominava comò Fisica a cathedra 
de Medicina. ' Muitas foram as providencias de D. Diniz no estabeleci- 



^Livro Ferde,fl. 2y a4. 

> Por orna Carta de D. Afionso xv, de 1328, vé-Be que a Ordem de Christo ii2o 
compria sempre o seu compromisso para com a Umversidade, por que o rei em 15 



ESTUDO GERAL EM USBOA 113 

mento da Universidiide em Coimbra ; em Carta de 27 do novembro de^ 
1308, datada de Leiria, manda aos alcaides, alvazis e concelho de 
Coimbra, e ao sea almoxarife e seu escrivfto de Cóimbra, para que os 
escholares tenham a^ougues, camìceiros, yinhateiros, padeiros e met* 
tam seaB almotacés; ^ em Carta de 15 de fevereiro de 1309 datada de 
Lisboa, estàbelece a protecyfto aos escholares, os quaes nSo serSo pre- 
808 bem comò os eeus homens depois da noite, a quaesquer horas, se 
andarem com lantemas, candela ou outro lume. Ficavam assim inde* 
pendentes da snbordina^So ao ^930 eorrìdo, vivendo em nm bairro es- 
pecial da porta de Almedìna para cima. costume do «tno corridoy. 
em Portugal, córrespondia^ao eouvrefeu das outras cidades eoropéas. 
Na Carta de 25 de maio de 1312, fala-se dos furtos e desagnisadoa 
noctnmos «e esto porque non tangiam sino na See as horas que de- 
viam qne é acostumado por meu senhorio de se tanger. . . que tanjam 
3 vezes ao dia sino grande da see. • . quem andar depois se filhe e 
leve ao castello . . . e se for escolar ou seu homem e levar armas defe- 
sas Ib'as filhem e os levem ao castello, e no outro dia se entreguem 
ao juiz d'elles, levando o alcaide a carceragem.» {Livro Verde, fl. 14). 
Ainda hoje existe o costume d'este sino tangido, chamado no calSo aca* 
demico a cabra. Pela Carta de 25 de maio de 1312, ao alcaide e alva- 
2Ì8, sabe-se: tgue kavia poucas casas na almedina^ muitos pardieiros e 
casas derribadas. . . » ' O monarcha impoz que fossem reedificadas, para 
serem alugadas aos estudantes. N'esta mesma carta determina-se «ao 
alcaide e alvazis, . . para que aluguem aos escolares as casas da porta 
d'almedina para ctma.» Por Carta de D. Fedro i, de 1361 descreve-se 
bairro dos escholares : tbairro limitado dea a porta d'aimedina para 
dentro. . . que era muito estreito. . . per razam das casas que na moti- 
yidade (terremoto) se perderam ... e muitos pousam no dito bairro, e 
qne o dito bairro seja contado.» ^ Ainda em 1365, toma rei a diri- 
gìr-se às mesmas auctoridades sobre o bairro apartado. Os conflictos 
dos estudantes com a populajSo burgueza é que impunham està separa- 
sse, que parecia um privilegio; em Carta de 6 de novembre de 1370, 
D. Fernando escreve ao Conservador da Universidade «sobre os privi- 
legioB dados aos moradores da almedina da cidade de Coimbra, manda 



de julho d'este anno esoreve ao Conservador para «que os Mestres tenham pela 
Ccmmenda de Pombal 1.500 libras, e pela de Soure 1.200 para os salarìos; e qu» 
procedam contra os devedores.» {Livro Verde^ fl. 23 y e 24). 

1 Livro Verde, fl. 12. 

2 Ilndem, fl. 14 y. 

3 Ibidem, fl. 23. 

BIST. UN. & 



114 .HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

que 08 guardem, especialmente sobre prisSes dos escholares e officiaes.»' 
Porém, por Carta de 14 de outabro, d'este^mesmo anno/vé-se que se 
ia alargando o bairro apartado para fora da Almedina, escrevendo o 
rei: «Sobre os escolares terem escolaa e lerem no arrabalde da ci- 
dade. . . que Ihes dessem eacolas convinhaveis e pousadas. • . e que 
das casas que houver no an*abalde ù/gam escolàB e pousadas em que 
morem corno se Ihes davam antes quando liam dentro em essa alme-- 
dina.^^ O ensino da Theologìa fora da Universidade, obrigava urna 
parte dos escolares a sahirem do seu bairro apartado para cursarem 
essa disciplina nos conventos dos Dominicanos e dos Franciscanos. Era 
urna das causas dos conflictos com a popula9So burgueza. 

A prohibÌ9fto do ensino da Theologia na Universidade de Lisboa, 
encerra urna grande luz nfto so para se comprehender a organisa^^ 
das Universidades da Europa, no seculo xiii, emquanto ao quadro das 
disciplinas pedagogicas e subsequente centralismo dos estudos theolo- 
gicos, corno para definir as phases historicas de Universidade e Esùudo 
geral, porque passou a institui^So do rei D. Diniz. 

Pela bulla de 1290, o Estudo geral de Lisboa conferia nos sena 
gràos o direito de ubique regendi; em virtude d'està prerogativa uni- 
versitaria OS lentes eram contractados e attrahidos de nmas para ou- 
tras universidades, segundo a sua reputa9fto; e os estudantes podiam 
tambem preferir as universidades mais afamadas em certo numero de 
disciplinas. A falta da Faculdade theologica no Estudo goral de Lis- 
boa, causava por ventura uma diminuta frequencia de escholares, indo 
OS que seguiam as ordens graduar-se em Paris. NSo tinhamos bem uma 
Universidade, mas uma Faculdade permittida. 

Conhecedor dos estudos theologicos no mosteiro de Santa Cruz de 
Coimbra, seria talvez oste um dos principaes motivos que levaram o rei 
D. Diniz a transferir a Universidade para Coimbra em 1307 ; ' està 
transferencia é denominada pelo proprio monarcha uma funda9&o : tinau- 
guramos radicalmente o Estudo geral.^ estudo da Theologia, peculiar 
dos Dominicanos e Franciscanos, que reagiam centra a Renascenya do 
seculo XIII corno os Jesuitas reagiram centra a Renascenya do seculo 
XVI, nfto é incorporado no plano universitario, nSo tendo por isso a ca- 
deira dota$So real; so apparece salariada em 1400. Apesar de haver 



1 Limv Verde, fi. 32. 
s Ibidem, fi. 32 y e 83. 

' J4 em Janeiro da èra de 1345 (amie de 1307) se achava a Universidade 
funodonando em Coimbra. (J. P. Ribeiro, Diss. Chron,, t tv, p. 234.) 



ESTUDO 6BRAL EM LISBOA 115 

n'esta transformagSo meatres da» sagradas letrasj nem por isso a Uni- 
versidade de Ooimbra gosou a prerogativa de Estado geral ou da /a- 
-cìdtas vbigue doeendi; e nSo tendo outra importancia mais do qne am 
Estado realy era por isso que acompanhava a cdrte, voltando ontra vez 
para Lisboa, onde jà se acha estabelecida em 1338, porqne o rei ahi 
reside à maior parte dò anno. Como, porém, favorecer a nova institoi- 
^SiOy se Ihe falta a facaldade ubique docendif Dispondo do poder tem- 
pora!, o rei D. Fedro i centralisa os estudos, prphibindo que se en- 
sine fora das Escholas. Pela madan9a da Universidade de Lisboa para 
Coimbra, os Priores e Abbades, que tSo geherosos se mostraram na do- 
ta9So do Estudo geral, contribuindo com parte das soas rendas, nega- 
ram-se, sob o pretexto da mudan9a, a continaarem esse encargo. ^ As- 
8im desde 1307 a Universidade fioou inteiramente real. D. Diniz, que 
tinha com os bens dos extinctos Templarìos constituido a Ordem dos 
Cavalleiros de Christo, obteve em 1323, do Mestre d'està Ordem/ que 
das rendas das egrejas de Soure e Pombal, que Ihes entregara, tirasse 
OS salarìos para pagar aois lentes e officiaes da Universidade estabele- 
cida em Coimbra.^ Quando foi novamente transferida para Lisboa, em 
16 de agosto de 1338, a Ordem de Christo recusou-se a entregar os 
rendimentos das egrejas de Pombal e Soure, pretextando o facto de 
aer tirado o Estudo geral a Coimbra. Outra vez se encontrou a Uni- 
versidade sob a ègide do poder real, annezando-lhe os rendimentos das 
egrejas do seu padroado, em Sacavem, Azambuja, Torres Vedras, 
duas em Obidos, e as da diocese de Lisboa. Para està annexa9lo foi 
preciso obter a bulla de Clemente vi, de 7 de Janeiro de 1348, que 
concedia apenas que se applicasse à Universidade até à quantia de 
ires mil libras (de 36 réis); no cumprimento d'està bulla o poder real 
so ao fim de quatro annos conseguiu vencer as resistencias dos prio- 
res das varias egrejas annexadas, prolongando-se a resistencia do prìor 
de Sacavem até final senten9a a favor da Universidade, em 1386. A 
historia economica da Universidade de Coimbra, tSo interessante comò 
a litteraria, mostra claramente que bem pouco deveu està instituigSo 
i iniciativa e impulso ecclesiastico.^ 



1 Diz J. Maria de Abreu : «pretesto com que os prelados de diversos mostei- 
roB se ezcusaram ao pagamento das collectas, que haviam offerecido para a susten- 
ta^io da Universidade, quando se fondant prìmeiro em Lisboa.» (ImUttUo^ t n, 
p. 28. 

> Obrìgadop^la Escriptora de 18 de Janeiro de 1323, porque a Ordem de 
Christo Ilio querìa cnmprir o encargo que Ihe ezigira o rei. 

> Dr. Motta Veiga, no Eèbo^ hklarioo-UUerario da JFyteiddade de Theolo- 

8* 



116 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIBfBRA 

£m 1354 é trasladada outrA vez a Universidade para Coimbra;* 
poréiDy nBo Ihe aproveitaram os estudos theologicos de Santa Croz, 
porque os estudos de Paris attingiram o mais alto esplendor, centrali» 
sados ali- pela influencia dos papas de AvinhSo. Na obra de Fr. H. 
Denifle, A» Unwersidadea da Edade mèdia até ao seculo XIV, apre* 
sentam-se algons aspectos d'està falta da fiEu^uldade theologica em al- 
gumas UmversidadeSy por onde os Papas, firmados no poder espiri* 
tnal, luctavam com os Reis. Assim o papa restringia o poder tJnque 
idocendij e o rei apenas podia centralisar os estudos no seu estabele* 
cimento. Diz Denifle: e Até 1400, houve 46 Universidades, mas de 
umas 28 de entre estas, iste é, de quasi dois ter90s, foi excluido na 
època da sua funda9So o estudo da Theologia. Para esplicar este facto, 
que até agora se nSo julgava tSo goral, e que nfio pode deixar de cau- 
aar-nos admiragSo, tem-se dito que a Theologia era entSo ensinada nas 
escholas dos conventos, especialmente dos dominicanos e franciscanos. 
Mas està explicafSo nSo satisfaz. O motivo porque se erigiram ou per- 
mittiram cadeiras de Theologia so n'um numero relativamente pequeno 
de Universidades, deduz-se das consideraySes seguintes. A principio 
fundaram-se algumas universidades onde so se estudava o Direito, ou- 
tras onde se estudava so a Medicina, e nSo era por entSo necessario 
fieuEcr entrar a Theologia no quadro dos estudos de taes Universida- 
des, que nos apparecem na Italia, na Fran9a e na Hespanha. Por oa- 
tro lado, Paris era ji, em parte, desde o secnlo xii, havida corno a 
patria, corno a terra classica da Theologia. Honorio iii disse-o expres- 
samente em 1219, e as suas palavras continuaram a ser verdadeiras 
por algnns seculos. Todavia, nos documentos pontificios do seculo xm, 
relativos à fundajSo e privilegios das Universidades, ainda nSo era for* 
malmente prohibido o estudo da Theologia nas Universidades, ou n'al- 
gumas d'ellas. Apenas NicoUo iv prohibiu que em Montpellier e Lis- 
boa se conferissem gràos em Theologia. Mas no seculo xiv, precisa- 



^rta, for^ou as conclueoes : «que a UniverBÌdade foi fundada por influencia e a pe- 
£do do clero portuguez; que foi o clero portnguez, que principalmente concoireu 
para a sustenta^So e conB€rva9So da mesma Universidade, logo desde o seu prin- 
apio.» (Pag. 26 seg.) A comprehensSo dos documentos mostra-nos o contrario. J. 
Silvestre Bibeiro chega a caracterìsar a Universidade corno pontificia. 

1 O locai em que se estabdeceram as Escholas e o bairro dos estndantes, em 
Coimbra, desde 1907, foi da Porta da Almedina para dentro^ da Foria da Alme* 
dina para cuna, corno se sabe pela referencia dos documentos de 1861 e 1377, e 
pela tradi^io, que eollocara a Univereidade no sitio.onde foi mais tarde fbndado 
o Collegio de S. Paulo. 



ESTUDO GERAL Eli USBOA ii7 

mente no tempo em que os Papas residiam em AvinhSo, e a Universi- 
dacie de Paris era designada corno romanae sedis studium, apparece 
freqaentes vezeS; nos documentos pontificios relativos i erecgSo de 
Estados geraesy a seguii^te fòrmula: sSo permittidos os esiudos em qwd- 
quer Facvidade, menos em Theologia, Os Papas de AvinUU) ligavam 
urna ìmportancia especial, que é facii de comprehender^ ao principai 
estabelecimento litterario da Franca, que era ao mesmo tempo o pri- 
meiro da christandade, e interessavam-se mais do que qualquer dos 
sens antecessores em que elle fosse frequentado por individuos vìndos 
de todas as partes da Europa. Este firn podiam elles attingil-o so por 
meio de privilegios concedidos precisamente & Faculdade a que a Uni- 
versidade de Paris devia a sua gloria.» ^ Comprehende-se i vista da 
generalidade d'este facto^ que no seu primeiro periodo historico a TJni- 
versidade de Coimbra fosse apenas uma Faculdade permittida sem a 
prerogativa de ubique docendi. 

A instituÌ9&o universitaria, pela sua tendencia secular ou civile 
reagia por uma forte centralisa9So do ensino; assim, por Carta de 
22 de outubro de 1357 o rei D. Pedro manda que os Reitores e Con- 
servadores nSo consintam que alguem ensine fora das Escholas e de 
ligSOy salvo de Partes ou de Regras ou de Gaton ou de Carttda, ou dos 
Livros meores; e os que quizerem lér os Livros maìores os venham 
lér nas Escholas. ^ Este mesmo intuito centralisador é manifesto na 
penalidade imposta em 1384 por D. JoSo i, condemnando os que lèrem 
fora das Escolas em 10 libras pela prìmeira vez, em 20 pela segunda, 
tendo & terceira expulsSo. Pela prohibÌ9llo de 1357 se infere que j4 
se ia destacando um ensaio dementar de prìmeiros rudimentos, que 
constava da carta do A B C e da leitura do Proverbios de CaiSo. No 
Leal Conselheiro do rei D. Duarte ha uma referencia ao ensino das 
crianQas: «E filhayo por hufl A B C de lealdade, ca he feito principal- 
mente para senhores e gente de suas casas, que na theorìa de taes 
feitos em respeito dos sabedores por mo90s deveemos seer contados^ 
pera os quaes A B C he sua propria en8Ìnan9a.» ' Na sua obra o rei 
D. Duarte cita por vezes os Proverbios de CatSoj e ainda no primeiro 
quartel do seculo xv invocava a sua auctoridade: e Do que pertence 
aos senhores, mais non screvo, por me non louvar ou doestar por que 



1 Die UmverniOten des MiUdaUeré bir 1400, 1 1, p. 703 a 705. Ap. J. il. Bo- 
drigaes, A Faculdade de Theologia, p. 28. Coimbra, 1886. 
s lAvro verde, fl. 19, f. J. P. Ribeiro, Indice ékronòlog. 
» Op. cit., p. 5. 



118 HISTORI A DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

o Gatom q defende . . . > ^ Aà Begras, a qne se refere a prohibÌ9fto de 
1357y silo a desìgna^So corrente do Quicumgue vult^ ou o Symbolo de 
Santo Athanasio, que se repetia de cor, * e sobre que se exerceram mak 
cedo as linguas vnlgares. Sob o titulo de Partes, corno jà observimoSy 
designava^se a Stimma Theologica de S. Thomaz, e no ensino da Theo- 
logia, na cadeira de vespera, davam-se As Partes de S. Thomaz, 
corno no quarto anno do carso das Artes, no secalo xvi, se conservavam 
a i.* e a 2.* de S. Th&maz. 

A necessidade de am centralismo pedagogico resultava do cahos 



r 

1 Leal Conselheiro, p. 38. Acerca d^eete Iìtto escreve Leroux de Lincy no seu 
Le Livre det Proverbes frangaia: «De todos estes livros de moral empregados 
doraote a Edade mèdia para a instmc^So da mocidade o mais celebre é o que tem 
o Dome de DyoniBius Cato. £ urna collee^do de preceitos dividida em quatro partes, 
na qual a sabedoria antiga do paganismo està mistorada com os preceitos dos 
primeiroB cbristSos. É bastante difficil dizer quem seja o auctor d^esta coUec^^P) e 
apesar das eruditas disserta^oes feitas no seculo xyii, nada se conduiu sobre este 
ponto. Durante muitos seculos attzibuiu-se està obra a CatSo o Antigo, que a com- 
puzera, dizia-se, para instruc^So do seu fiJho ; mas é facil certificar que nem Gatio 
o antigo, nem Catio de litica podiam ter escripto este livro, pelo menos tal corno 
chegou até nós, pois que Virgilio^ Qvidio e Lucano sSo nomeados entre os poetas 
cuja leitura era recommendada. erudito Fabrìcio fixa plausivelmente a data dos 
Disiicos no seculo ii da nossa èra e no reinado do imperador Valentiniano. Està 
collec^Io gosou de urna grande auctorìdade, principalmente nas escholas, onde era 
considerada comò, segundo Aulo-Gellio (lib. zìi, cap, 2), escripta pelo censor romano 
para uso de seu filho. Desde o seculo ii a xn numerosos testemunhos provam a 
importancia dos Disticha Catonis; Isidoro cita-os nas suas Glosas, Alcuino, Fedro 
Abèlard, Hincmar, arcfaebispo de Reims, e muitos outros os invocam comò teste- 
munho, e JoSo de Salisbuiy elogia-os corno excellentes para a educa^ào das crian^as 
e adaptadissimo para Ihe inspirar os melhores principios de virtude. A reputa^ 
dos DUttcos estava bem firmada nas differentes Universidades da Europa, na 
època em que come^aram a ser traduzidos em francez.» (Op.cU,, t i,p. xlii.) Le- 
roux de Lincy enumera traduc^oes da primeira metade do seculo xu, do seculo xin, 
e comò foi urna das primeiras obras censagradas pela impressSo antes de 1445, 
prolongando-se a sua popularidade durante todo o seculo xn e xvu, reunidas is 
differentes Pa^avras de Duro dos moralistas litterarios. E concine: «Como se ve, 
està obra, quem quer que seja o auctor, gosou durante mil e duzentos annos de urna 
popularidade immensa. Composta para instruc^So da mocidade, foi elaborada por 
differentes troveiros da Edade mèdia, que a tomaram o texto de um poema moral 
e de uma collec^So de proverbios. A imitalo d'estes yelbos poetas, os nossos ri- 
madores do seculo xv e xti apoderaram-se dos Didicoè para os reunir As suas 
elocubra^fies. Finalmente, yolvendo este liyro ao que fora na sua orìgem, è uma 
oollec^io de quadras ao ueo da infancia. Hoje està completamente esquecido.» 
{Ibid.^ p. xLTn). 

2 Fr. Fortunato de 8. Boaventnra traz nos InedUoa de Aleobaga^ 1. 1, p. 166, 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 119 

doutrÌBarìo centra o qual se pretendia reagir por am severo dogma- 
tismo. Rémusat caracterisa oste cahos doutrinario no typo eminente de 
Abelardo que em Theologia era trinitario, em Metaphysica platonico^ em 
Logica aristotelico, e em Rhetorica cicerontaTio. mesmo cahos se dava 
HA Jurìsprudencia entro civilistas ou bartholistasy e os canonistas ou de- 
eretalistas, Um tal cahos so podia desapparecer gradualmente^ se o 
ensino se fosse restringindo às bases positivas e unanimes da sciencia 
objectiva e experimental, qne assignala a Rena8cen9a: individua- 
lismo critico prolongou a anarchia intellectual, dando legar à compres- 
sSo temperai da dictadura monarchica. 

Referindo-se & centra]Ì8a9So dos estudos na Universidade, està- 
belecida pela carta de D. Fedro i, em 22 de outubrp de 1357, inferiu 
J. Maria de Abreu que està incorpora^SLo do ensino particular era a 
fórma primitiva dos privata docentes, censervada ainda nas Universi- 
dades da Allemanha. ' Peles.estatutes de 1384 permittiram-se leituras 
sobre qualquer disciplina nas aulas da Universidade, a bachareis e es- 
cholares examinados e aprevades por um deutor ou mostre da facul- 
dade. ^ 

Em 1377 foi transferida por D. Fernando a Universidade para 



urna antiquiBsima traduc^So portugueza : Este he o Qaicumqae vult per linguajem, 
No ms. 266 da livraria de Alcoba^a achàmos um resumo escripto nas guardas do 
volume : 

•Qualquer, què quiser salvo eeer, sobretudò Ihe ha mister de teer a fee ca- 
tfaoHca; 

•Ca a qual se a cada hum no tever, inteira e nom corrompida, pera sen^pre 
sua alma seri perdida. 

«Ca fee cathollca aquesta he que honremos huum Deus em Trindade, e 
Trindade em unidade. 

«Està he a fee catholica, a qual se cada huG fielmente firmemente nom creer^ 
per nenhuma guisa salvo pode ser. » 

1 «N*e6ta epoca havia nas Uóiversidades lì^òes ordinarias e eztraordinarins. 
Eram estas quasi sempre professadas pelos bachareis, que aspiravam ao grào de 
doutor ; 6 versavam sobre certo numero de textos. Os escholares pagavam a estes 
leitores. Os privata docentes^ das Universidades de Allemanha sSo um simile d'està 
antiga institui^ào, que foi decahindo, depois que se augmentara o numero dos pro- 
fessores ordinarios em cada faculdade, com rendas proprias para pagamento dos 
seus salarios.» M. J. de Abreu, Mem. hi$L da Univeraidade, No InMuto, t. n, p. 29. 

*J, M. de Abreu refor^a a sua compara^&o: «Era o systema das antigas 
Universidades da Allemanha, que ainda hoje vlgora em muitas d'ellas. Està con- 
correncia entre os professores ordinarios e os leitores extraordinarios, authorisados 
pela Universidade, revela n*aquella època um grào de adiantamento mui superior 
ao qne rasoavelmente podia esperar-se na nossa situarlo.» Ibid., p. 90. 



120 HISTOFUA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRÀ 

Lisboa; ^ conservou-se ella em Coimbra até porto do firn d'esse anno, 
corno se infere da Carta de D. Fernando de 3 de junho de 1377, e 
de outra do 1.^ de julho d'esse mesmo anno^ dirigida a Affonso Martins 
Alvemaz. N'este primeiro documento declara o rei: cE vendo e con- 
siderando, qae se o nesso Studo que ora estaa na eidade de Coimbra, 
fosse mudado na de Lisboa, qae na nossa terra poderia aver mais le- 
tradoB; que avena, se o dito Studo na dita eidade de Coimbra este- 
vesse, por alguns lentes que de outros regnos mandamos vir nSo que- 
riam leer se nom na eidade de Lisboa. . . mandamos que o dito Studo, 
que ora estaa na dita eidade de Coimbra, scia em a dita eidade de Lis- 
boa pela guiza, que ante soya estar.» * Na carta a Alvemaz, vem a re- 
ferencia aos Reitores simultaneos; ^ n'està carta pedia D. Fernando 
que Ihe enviassem um homem da escolha da Universidade para com 
elle combinar as cousas necessarias ao funccionamento das essholas e 
moradas dos estudantes. NSLo se sabe se os lentes mandados vir de 
outros reinos chegaram a ensinar; é certo porém, que no principio 
d'este anno escholar, 1.° de outubro de 1377 cnfto havia no Estudo de 
Lisboa ledores de Leis, Decretaes, Logica e PhUosophia, por cujo mo- 
tivo a Universidade pedira ao rei que Ih'os assignasse.» ^ 

D. Fernando preoccupava-se com a mudanfa da Universidade de 
Coimbra para Lisboa, e este pensamento realisado em 1377, fòra ap- 
presentado ao papa Gregorio xi, quando o rei Ihe solicitou a concessfto 
das insignias caracteristicas dos gràos de Doutores, Mestres, Licenciados 
e Bachareis. Ao conceder essas insignias, pela bulla de 1376, o papa 



1 Depois que a Universidade foi trasladada para Lisboa por D. Feraando 
em 1377, tomou a ser estabelecida nas mesmas casas do Campo da Pedrdni, onde 
sempre estiverà ; porém nos docnmentos encontra-se esse locai designado com daas 
novas indica^oes, Junto à Porta da Cruz, por que ent&o Lisboa fòra cercada por 
urna muralha ordenada por D. Fernando, onde se abrira essa porta, e na Moeda 
VtLha^ porque alli se estabelecera a Casa da Moeda, depois qae a Universidade 
foi mudada para Coimbra, passando desde 1377 para os pa^os chamados do Li- 
moeiro. As casas das Escholas ficaram com a denominaQlU) popalar da Moeda Ve- 
Iha^ Sem comtudo deixarem de ser as mesmas a que alludem os docnmentos do rei- 
nado de D. Diniz. — Leit2o Ferreira, Noticiat chronolopeas da Universidade^ p. 73. 
(Mem. da Ac. de Hist. de 1729). 

< Carta de 3 de junho de 1377. Livro VerdSy fi. 34. 

' Sabede que os rectorts e universidade do Studo que ora estaa na eidade de 
Coimbra, . . Carta de 1 de julho de 1377. Liwro Verde, fl 40. 

^ J. Maria de Abreu, citando a Carta de 1 de Janeiro de 1378. Ap. InsUtuto^ 
t II, p. 56. Livro Verde^ fl. 36 y a 38 /. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 121 

Oregorìo xi dirige-a ao Estudo de Lisboa, quando so no firn do anno 
segQinte é que a madanfa foi effectaada. NSLo attriboimos ÌBto a um 
equivoco, mas i Bappo8Ì9llo de que o rei de Portugal iena jà levado 
-à pratica o seu annunciado intento, que estava ligado a um plano geral 
de reformas emprehendidas no seu reinado e que vieram a fructificar no 
tempo de D. JoSo i. 

Pela Carta de 1 de julho de 1377, em que D. Fernando confirma 
OS prìvilegios da Universidade em accordo com o delegado dos esche- 
lares, conhece>se que o numero dos lentes augmentara, por isso que 
ahi se trata dos lentes da manhft; este costume reapparece em todo o 
seu vigor no seculo xvi. Tambem se faz referencia n'esta mesma carta 
410S actos ou exames dos escholares: cOatrosi nos podio que fosse nossa 
mercé que os lentes da manhS em direito fizessem ao menos dois auios 
no anno pera os escholares averem modo de arguir. A esto respon- 
demos: Mandamos que nos prazia e praz de se fazer e guardar pela 
guiza, que por elle (Lopo Esteves) foi pedido.» ' 

A mudan9a da Universidade para Lisboa, à parte as rasSes que 
Ji vimos indicadas pelo rei D. Fernando na Carta de 3 de junho de 
1377, era tambem um meio habil para revisar a titulo de confirmasSo 
todos 08 privilegios academicos, modificando-os em harmonia com a 
auctoridade real, que ia gradualmente avansando para o exercicio da 
dictadura do seculo xv. Na mudanya da Universidade, os escholares 
pediram por via do seu delegado Lopo Esteves, que o rei Ihes confir- 
masse todos OS privilegios que gosavam; o rei confirmou-lh'os, mas 
submetteua jurisdic9fto do Conservador ao direito commum, admittindo 
apella9So das sentengas civeis e criminaes d'estes juizes privilegiados, 
e que nos autos civeis dessem aggravo. Regulamentou tambem a fórma 
das citagSes a requerimento dos escholares, exigindo-lhes prèviamente 
jnramento de nSo procederem de ma fé e seguirem o estudo com o 
intuito de aprender e n2o de se aproveitar do fóro escholar. Pediam 
mais OS estudantes licenga regia para advogarem emquanto frequen- 
tassem os cursos, porque està permissSo attrahia maior numero de 
alumnos. O rei interpoz a sua auctoridade, estabelecendo pela Carta 
de 3 de junho de 1377, 'que so advogassem pela competencia do seu 
grio OS Doutores, Mestres e Bachareis: «Mandamos, que possam esto 
fazer os que forem doutores, e msstres e bachareesy e outros nom ; por- 



1 J. M. de Abreu, nas Mem. hUtorieoè da UniverMade è qua fizou este facto, 
observando que Figueiroa affirmava que até aos Elstatutas de 1431 n2o achara no- 
tìcia de se fazerem ados na Universidade. InsUttdo, t. ii, p. 57. 



122 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

que aos escholares nom pArtence, nem é proveitoso de o fazerem, por 
nom averem azo de leìxar o Estudo e de aprender, porqae cbeguem 
e ajam gr&o na sciencia.» D. Fernando fez todas as concessSeB que ob 
escholares pediram, excepto aquellas que cerceavam a auctoridade e a 
j astica real; nSo Ihes dea Ì8emp9llo do encargo de terem cavallo, que 
era exigido a todos os que tinham um detenninado rendimento (duas 
mil livras, pela lei de 21 de agosto de 1357). E comprehende-se iato 
tanto melhor, quando se sabe que foi sob o reinado de D. Fernando 
que se estabeleceu a prìmeira organisafSo da for9a militar em Por- 
tugal. Resalvando a independencia das justi^as do rei, tambem D. 
Fernando nSo consentiu que os Conservadores da Universidade podes- 
sem processar os juizes e officiaes das differentes terras por nSo terem 
dado cumprimento aos seus mandados e sentenyas, seni que primeira- 
mente se provasse essa negligencia e se apresentassem os motivos para 
em vibta d'elles se Ihe dar remedio. 

convite de mestres estrangeiros fez com que a Universidade, por 
exigencia d'estes, fosse transferida pela terceira vez para Lisboa, em 
1377. rei D. Fernando trabalhou para obter para a Universidade urna 
concessSo do papa Qregorio xi, dos gràos de bacharel e doutor em 
qualquer licita faculdade; o papa concedeu os gràos e insignias pela 
bulla de 7 de outubro de 1376; porém o rei queria mais, o privile- 
gio vhique docendi, sem o que nSo tinha um Estudo geral, cujos gràos 
valessem em teda a parte. E assim que se podem comprehender as 
palavras de uma nova impetra9So ao papa Clemente vn, em que o rei 
D. Fernando diz: ^quod in Regno Portugalliae Generale Studiu¥> 
quod in illis partibus sufnme foret expediens, non habetur, . . » Desco- 
nhecida a corrente historica, està confissSo da falta de um Estudo ge- 
ral em 1376 niLo se comprehende; e multo menos se comprehende a 
conces^So do papa Clemente vn, que, em documento de 7 de junho 
de 1380, satisfaz o pedido de D. Fernando, para que se fimde em 
Lisboa um Estudo geral, com todos os privilegios concedidos aos ou- 
tros Estudos geraes, e tendo os graduados o privilegio ubigue docendi. 
Este mesmo documento foi communicado ao bispo de Lisboa e ao de&o 
de Coimbra. ^ 

Denifle, na obra sobre Ab Universidadea na Edade mèdia, consi- 
dera este facto comò constituindo um segundo periodo na historia da 



1 Estes docomentOB foram pela prìmeira ve£ publicados por Denifle, op. cU.'t 
1. 1, p. 580-582. Ap. J. M. RodrìgaeB, opuBC. cit, p. 82. 



ESTUDO GERAL EM LISBOA 123 

XJniversidade portugaeza; adqnirira o direito ubigue docendi, elevan* 
do-se acima de factddade pennittida. Este progresso foi commum à 
erolugSo goral das Universidades; diz Donifle: ^Afacultas vbique do- 
cendi continha-se jà em germen no conceito do Estudo goral. Faltava 
apenas enuncial-a formalmente^ e Gregorio xi foi o primeiro que o fez 
a respeito da Universidade de Tolosa, que por isso ficon fixando època 
na historia das Universidades. A excepgSo a respeito das Universida- 
des de Paris^ Bolonha, e em parte tambem da de Oxford e posterior- 
mente da de Orleans, que por muito tempo so reconheceram os gràos 
por ellas conferidos nas Faculdades que formavam a sua especialidade 
e Bujeitayam a novo exame os graduados n'outras Universidades, fun- 
dava-se apenas na eYolu9So propria d'estas Universidades e nos seus 
Estatutos especiaes, e con'firma a regra de que o privilegio da factU- 
tas ubique docendi era uma propriedade caracteristica dos Estudos ge- 
raes.»^ Parece que, sob D. Fernando, a Universidade nSo se achava 
definitivamente fixada em Lisboa,* comò se infere da bulla de 7 de ju- 



1 Op. eitf p. 21-22. Bodrigues, ibidem, p. 29. 

2 As nnmeroBas mudan^as que a Universidade sofireu de Lisboa para Coim- 
bra e de Coimbra para Lisboa, desde D. Dioiz até D. Fernando, sSo considera- 
das corno a principal causa do desappare cimento dos documentos primitivos da sua 
actividade pedagogica. Jgnora-se quaes foram os seus primeiros lentes e reitoresy 
podendo vagamente reconstruir-ee esse quadro pelas referencias dos documentos 
legaes. Os Bedeis formavam a Tabula Legentium coma lista dos nomes dos lentes 
das diversas cathedras no comedo do anno, conforme liam & bora de prima (de 
manbà) ou de vespera (à tarde) ; era um trabalbo imperfeito, come ainda se ve pe- 
las listas ou pautas formadas no tempo de D. Manuel. Pelas referencias tiradas 

dos alvarés sobre negocios da Universidade, e algumas indica^des dos dois cbro- 
nistas Fr. Antonio da Purifica^ào e D. Nicolào de Santa Maria, formamos a se- 
guinte: 

Tabula Legentium d08 seoulos Xin e XIV 

Mestre MartinhOf naturai de LeSo de Fran9a; li a Canones (1290.) 

Mestre André Urainus^ naturai de Viterbo; interprete dos Santos Padres 
(1290.) 

Mestre Gerardo, italiano; leu Theologia. 

Mestre Alvaro de Veiros; leu Escriptura. 

Mestre Agostivho Bello; foi o primeiro que leu Artes, e passou depois a ler 
TITieologìa. 

P. Mestre Domingos Martins, regrantc ; leu Tbeologia (1307.) 

Mestre Gii das Leis^ que fez as Constitui(5e8 da Universidade (1817.) 

P. 8im&o da Cnnn; leu Theologia (1330.) 



124 mSTORU DA UNIVERSIDADB DE GOIMBRA 

nho de 1380, dirìgida simultaneamente ao bispo de Lisboa e ao delo 
de Coimbra, pelo papa Clemente vu; a sna fixa9fto 'para sempre^ em 
Lisboa, por D. JoSo i, em 1384, actuou profondamente no seu desen- 
volvimento, principalmente no que respeita & Jarìsprudencia e i Oos- 
mographia, periodo que termina em 1537, e que cooperou para entrar- 
mos dignamente na Renascen9a. 



Mestre Pero daa Leu (1339.) 

Mestre Gongolo das Decretaes (1357.) 

Mestre Affonso das Lete (1358.) 

D. Joào Affonao^ Doctor in utroque jore (1368.) 

Joào SoMhes^ Doctor em Degredos (1368.) 

Gimgalo Miguena^ Bacharel em DegredoB (1368.) 

Fedro Domingues, Mestre de Grammatica (1368.) 

Mestre Lucas, lente de Theologia (?) 

Mestre Thadeo, lente de Rhetorica e depois de Philosophia (?) 

Johanes^ Doctor Legom (1385.) 

Steve Jne», Bacharel em Degredos, bedel (1386.) 

Mestre Menda; leu Physica (1387.) 

Famào Martina^ lente (1388.) 

Lourengo iinnet, Doctor em LeiS| Bacharel em Degredos (1890.) 



CAPITULO ni 



1 llDlTersiMe sol) a Dlctadui duuucUcì (13M i I6H 



Ha deaorìentafio metaphydca a diBcipIina bocUI coocentra-ie oa Dìct 
uarchica no secnlo xy. — ÀcfSo dos JurÌBConaultoB, prevaleceiid( 
Ontologistas.— D. Jolo i, definindo a dictadura mODarchica, fiza 
aidade em Liaboa, em 1884, e invade a sua autonomia com a noi 
om Frovedor. — Foctos analogoa aob D. Affonso t e D. Jo3o u. — 
angustia economica da UniverBidade, pela Teaiatencia do clero em 
confbnne ordeuava a bolla de 1411.-0 Infante D. Henrique ton 
tector da Universidade, por 1418, talvez pelas aatigas dependencii 
Tcraidade com o Mestrado de Chriato, e pela resùtencia contra a 
do Poder real. — O Eetndo da Hatbematica e da Astrosomia, on a 
(So do piimelro par encyclopedico dos gregos.- — A doa^So do In&nt 
riqne, cm 1431, de nmas caaaa para aa anlaa da Uaiveraidade. — 
Theologia apparece salariado deade 14D0; dotado com doze marco 
aimnaes das rendae dog dizimos do Hestrado de Cbrìsto na ilba di 
— PesBoal docente em 1430. — Os lid^oi com oa vìgarìos das egri 
xadasàUuiTergidadeprolongam- Beate 1461> — Eatado de ignorane 
portnguez, attestado na bulla de 20 de dezembro de 1474. — Orige 
neaiae magistiaee e dontoraes. — Ob EstadantcB pobrcB, Bob D. J 
Dnarte. — O Infante D. Pedro reconbece a neccBBÌdade da fundafS 
legioa janto da Universidade & maneira de Oionia e Paris. — Nato 
tea CoUegiOB. — Infonte D. Fedro projecta em 1446 a funda^ 
bra de nma tlniverBidade de Leis, Canones, Theologia e Art«a, ( 
las rendas da egr^a de S. Tbiago de Almalaguee. — O. Affonao r, 
sSo de 1450, pretcnden tonar efiectìva a creactio da nova Umvei 
Coimbra. — coUeetum (colbeita) ou talha nae EecholaB medlevaes 
tndantes pobrea de 8. Nicolào, Cofadore», Marlinelt, Sopìtta» e < 
do*. — InatituifSo do Collegio do Dr. Uangancha para Escholares [ 
114S. — ConcluBÒes defendìda« pelo Or. HBi)gancha,emFÌ8a,diautc 
Srlvins, em 1437.— Estatntos feitOB pela UniveradadB em 1431.— 
EO T, por Alvari de 1471, eatabelece om novo B^imento ou Estati 
Univeraidade. — A coexistencia dos doìa Reìtores. — pedìdo dos '. 
efirtes de Vianna sobre os estndos da Nobresa. — desenvolvimenU 
doa humanistas no Beculo zv e a Arie w>va. — Os trea oapectoa do 



126 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

V 

mo: Ualiano (Angelo Policiano e Cataldo Siculo); germanico (Clenardo); e 
franeez (o8 Grouvéas.) — Os Legistas tornam-se impotentes para resolverem 
o problema da reorganisa^So do Poder temperai. — Os Ontologbtas oa lie- 
taphysieos absorvem-se na enidi^So clasBica, e reapparecem dirigindo corno 
humanistas o secnlo xyi. 



Os seculos XIV e xv, em que se opera do modo mais intenso a 
dis8oIu9fto do regimen catholico-feudal, em que a Sjnthese absoluta do 
theologismo decae nos espiritos pela desorìenta9fto metaphysica, e em 
qae a disciplina temperai, tomando a direc9fto da sociedade, se con* 
centra em uma fo;te dictadura, estes dois seculos em que come9a ver- 
dadeiramente a edade moderna, tém sido geralmente e erradamente con- 
siderados corno constituindo o firn da Edade mèdia. A raslU) d'este erro 
ou illusfto é evidente: os factos caracteristicos dos seculos xrv e xv 
estavam jà implicitos na term{na9So da època medieval, e a sua espon- 
taneidade e similaridade entro todas as na^es da Europa so se tor- 
nava apreciavel comò decomposiySo latente de um regimen. A scisSo 
protestante no seculo xvi è que se impunha com toda a evidencia aos 
espiritos corno a crise revolucionaria e de individualismo critico, e por 
isso è que ahi se demarcou a Edade moderna. Porèm esse seculo, corno 
OS dois seguintes, sSo o phenomeno da dissolufSo sistematica do re- 
gimen catholico-feudal, de que os seculos xiv e xv foram a pliase ini- 
cial. ' Comte caracterisou a transformagSo historica d'estes dois secu- 
los: <Ao seculo XIV pertence principalmente a dissolti^ espiritual, ao 
passo que a concentragfto tempora! caracterisa principalmente o seculo 
seguinte.i* J& comprov&mos uma parte d'està affirma9So historica, se- 
^guindo a marcha da dissolujSo espirìtual atravès do conflicto doutrina- 
rio dos Ontologistas; agora vamos indirectamente esboyar a manifes- 
ta9So da dictadura temperai, que se apodera da Universidade, tira-lhe 
o seu individualismo de corporagSo pedagogica e incorpora-a na uni- 
ficafio das funcfSes do estado. Os Jurisconsultos foram os organisado- 
res theorìcos d'està dictadura monarchica; a transforma98o do regimen 
feudal sob D. JoSo i operasse pela preponderancia do chanceller JoSo 
das Regras, legista da eschola de Bolonha. D. Jole i fòra levado ao 
ihrono por uma revolug&o popular e pelo sentimento de uma na9So que 
proclamava e defendia a sua autonomia. Aproveitando a decadencia 



1 Comte, PcHiUqut pùtiUvef t. m, p. 531. 
* Idem, Ib., t m, p. 584. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 127 

das LeÌ8 de Cavalleria pelas perturba93eB do reinado de D. Fernando, 
prohibiu à Nobreza que se apoderasse dos beneficios eccleBÌasticos 
qaando fallecessem os prelados, qae tivesse bairro apartado, e que ex- 
terquisse mantimentos aos proprietarios. Mandando fazer correigSes ou 
inspec95e8 pelas provincias^ teve-se de separar a jorisdicj^o cìvil da 
militar, para evitar o conflicto unire os Corregedores e os Governado- 
res; e està separasse levou o rei a reformar o systema militar, tirando 
aos fidalgoB o direito de terem homens de armas ao seu servÌ9o (o pen- 
dSo e caldeira), e de estipendiar o serviso de guerra (a coniia, identica 
ao soldo). A necessidade de pagar por conta do Estado estes novos en- 
cargos sociaes, que transformavam o regimen fondai, levon a novas 
despezas, qae for9aram os legistas a organisarem nm systema tributa- 
rio, tal corno as Sizas, e a revogabilidade e reversiLo das Doa95es ré- 
gias, e outras dÌ8posÌ98es provocadas segando as urgencias do fisco. 
A obriga9So commum educava o sentimento de sociabilidade. Estabele- 
cido novo re^men militar e economico, decairam por si os velhos eie* 
mentos da organisa9&o fondai, corno a Avoenga, mobilisando a proprie- 
dade, dando garantias aos contractos, e facilitando as vendas dos gè- 
neros pela simples Dizima em urna so terra. A reversSo dos bens da 
corda provocou corno consequencia a lei das Sesmarias. N'este traba- 
Iho, em que o poder monarchico concentra todos os poderes, o juris- 
consulto Ruy Femandes codifica as Regalias ou esphera dos Direitos 
* reaes na Ordena9llo de D. Duarte. ^ 

«Por urna analyse profunda, toma-se facil reconhecer historìca- 
mente, entro as differentes for9a8 sociaes que presidiram à transÌ98o 
revolucionaria dos ciuco ultimos seculos, uma divisSo naturai em duas 
classes verdadeiramente distinctas, apesar da sua intima affinidade, a 
dos metaphysicos e a dos legistas, da qual a primeira constitue, na 
realidade, o elemento espiritual, e a segunda o elemento temperai d'està 
especie de regimen mixto e equivoco^que devia corresponder a està 
8Ìtua93o de mais em mais contradictoria e excepcional. As duas das- 
868 deviam em tempo conveniente emanar espontaneamente dos ele- 
mentos respectivos da antigo systema, um do poder catholico, o outro 
da auctoridade feudal, e constituir depois para comsigo luna rivalidade 
gradualmente hostil, ainda que longo tempo secundaria. — E sobretudo 
em Fran9a que um tal desenvolvimento me parece, ao menos entSo, 
dever sor principalmente estudado, corno sondo ali mais nitido e com- 



1 Villa-Nora Portngal, Mem. da Acad,, U v, p. 891. 



128 mSTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIfifBRA 

pleto do que em qualquer outra parte^ à vista da influencia bem dia- 
tincta e comtudo solidaria que ali adqairìram simultaneamente as Uni- 
versidades e os Parlamentos, principaes orgSos pennanentes, quer da 
ac9llo metaphysica, quer do poder dos legistas. Devo ainda, para maia 
clareza, notar que cada urna d'estas duas classes se subdìvide, por sua 
natureza, em duas corporagSes muito differentes, urna essencial e pri- 
mitiva, a outra accessoria e secundarìa: isto é, os metaphysieos em 
doutores, propriamente ditos, e em sìmples Utteratos, e os legistas em 
juizes e em advogados, abstraindo dos togados mais subaltemos.»* 

cConsiderando agora o elemento temperai correspondente, toma-se- 
facil oonceber historicamente a intima correlajSo naturai ao mesmo^ 
tempo em quanto à doutrina e quanto às pessoas, entro a classe dos 
metaphysicos scholasticos e a dos legistas contemporaneos. Por que^ 
em primeiro legar, é, evidentemente, pelo estudo do direito, e desde 
lego do direito ecclesiastico,' que o novo espirito pbilosophico proprio 
ao fim da edade mèdia deveu penetrar gradualmente no dominio das 
questSes sociaes; e, em segundo legar, o ensino do direito devia desde 
lego constituir urna parte capital das attribuÌ98es universatarias, além 
de que os canonistas propriamente ditos, deriva9So immediata, nSo 
menos do que os mais puros scholasticos, do systema catholico, tinham 
formado espontaneamente, na Italia sobretudo, a primeira ordem de 
legistas sujeita a uma organisag&o distincta e regular. A affinidade 
mutua d'estas duas forsas sociaes é de tal fórma pronunciada, que se 
poderia, por uma apreciaj&o exagerada sor tentado a considerar os 
legistas comò uma especie de metaphysicos passados do estado espe- 
culativo ao estado activo, o que levava viciosamente a desconhecer a 
sua origem directa. Um exame mais completo, para de lego mostra a 
sua verdadeira origem historica na potencia feudal, da qual foram por 
teda a parte destinados primitivamente a facilitar as func98es judicia- 
rias, por uma intervenySo cada vez mais indìspensavel, embora longo 
tempo subalterna. Além da influencia goral da sua educa98o essencial- 
mente metaphysica, elles deviam por si proprios, quasi desde a origem, 
manifestar especialmente uma tendencia mais ou menos hostil para com 
o poder catholico, conforme a oppo8Ì9fto crescente que devia natural- 
mente surgir entre as diversas justÌ9as civis, quer senhoriaes, quer 
sobretudo reaes, centra os tribunaes ecclesiasticos, anteriormente na 
posse reconhecida da maior parte das jurisdic$8es importantes. — £ 



1 C<mr9 de PhUosophie panHvej t v, p. 386. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 129 

comtudo certO; que o poder social dos legìstas, corno o dos metaphy- 
8ÌC08, nunca teria deixado de ser essencialmeote subalterno, se as 
grandes luctas intestinas do decimo quarto e decimo quinto secalo nSo 
tivessem vindo depois necessariamente qfferecer à sua commum acti- 
TÌdade dissolvente o campo o mais vasto e o exercicio o mais conve- 
niente. Foi aste, tanto para uns comò para os outros, o tempo real do 
seu triumpho; senSo o mais exteni^o, pelo mcnos o mais satisfatorio e 
o mais adaptadoàsua verdadeira natureza, porqueasua ambÌ9So poli- 
tica estava entSo em harmonia necessaria com a sua util infiuencia 
sobre a marcha correspondente da evoIu(3io humana: é, n^estas duas 
classesy a edade principal dàs altas intelligencias e dos nobres cara- 
eterea.» ^ 



1 Coure de Philosophie pogitive, t. v, p. 392 a 394. Fazemos aqui eatas traDS- 
crìp^òes um pouco mais exteDsas, por que temos a certeza de que a obra de Comte 
nunca foi lida mesmo por aquelles que mais a discutem ou a refutam, e por que 
b2o as Buae vistas sobre a marcha geral da historia moderna verdadeiras e surpre- 
hendentes revela^òes. Michelet, genio intuitivo, chrga por outros proceescs ao 
mesmo resultado na aprccia^So da influeucia dos Jurisconsultos, na larga demo- 
li^fto da Edade mèdia : 

«Emquanto os monges arrastavam o povo no scu mysticismo vagabundo, os 
Juristas, immoveis nos seus assentos n2o impelliam m^nos ao movimento. Estrs 
almas damnadas dos reis, fundadores do despotismo monarchico, nfto pareciam 
entao poderem ser contados entre cs libertadores do pensamento. Cobertos do seu 
anninho, nio fallavam senào em nome da auctoridade; resuscitam os processos do 
Imperio, a tortura, o segrcdo dos julgamentos. Intimam o eepirito humano a se- 
guir o caminho recto pelo itinerario do Direito romano. Mostram-lhe nas Pande- 
ctas o caminho necessario. Nada de mais, nada de menos. E a Basào escrtpta. Se a 
humanidade se aventura a pedìr outra cousa, elles nao ouvem, nào comprehendem» 
e abanam a cabe^a : ^ihil hoc ad edicium praetorù. Està ra9a atravessou a Edade 
mèdia sem dar por isso. Desde Triboniano que nào usam datas. Sào os sete dor- 
mentes, que se deitaram sob Ju8tiniano, e despertaram no seculo xi. Quando o 
mundo pontificai e feudal invoca o tempo comò auctoridade, os jurisconsultos sor- 
riem, e perguntam-lhe a sua edade; està joven antiguidade de alguns seculos faz- 
Ibes compaizSo. A sua religiSo è tambem a da Roma, mas a Eoma do Direito; 
està torna- OS atrevidos contra a outra; um dos da sua classe vae friamenteprcudcr 
em fagranie o successor dos Apostolos. Està lucta come^ou por uma bofetada, e 
continuaram-na cortezmente durante quinhentos annos em nome das liberdades 
da egreja gaUicana (nacional.) Fazem vagarosamente o feudalismo em peda^os com 
a successao romana, que desmembra os feudos. Re construem a monarchia de Jus- 
tìniano. Elles provam doutamente aos reis; nivellam tudo sob um governante. — 
Na demoli^ào do mundo pontificai e feudal, os legistas procedem com methodo. 
Primeiramente defendem o Imperador contra o Papa, depois impellem o rei de 
Franca contra o papa e o imperador.» (Discours d'ouverturt à laFacuUédea iMtru^ 
1834.) 



aiST. UH. 



1 30 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

Depois que o Mestre de Aviz se viu levado ao throno de Portagal 
pela reyola93o de LisBòa, quiz honrar a cidade decretando a perma- 
nencia perpetua da universidade n'ella. Ha o quer que de reconheci- 
mento na Carta do Mestre de Aviz de 3 de outubro de 1384: «Fa- 
zemos saber que por honra e exal9amento da mui nobre cidade de 
Lisboa e Universidade e Estudo d'ella, confirmamos e approvamos os 
mandados sobreditos, e outorgamos ser perpetuado, e que stee perpe- 
tuamento o dito Estudo em a Cidade de Lisboa, e non se mude d'ella. .. 
d'este dia para todo o sempre, etc.» ^ No preambulo dos Estatutos (sem 
data) dados por D. Manuel à Universidade de Lisboa, em uma refe* 
rencia & historia do Estudo geral renova a lembran9a d'este intuito 
honorifico e categorico de D. JoSo i: «E EIRei Dom JoSo i de escla- 
recida memoria, meu bisavo, por seu mandado e carta patente fez que 
o dito Estudo e Universidade fosse reduzido e para sempre coUocado 
em a multo nobre e sempre leal cidade de Lisboa, logar insigne e tSo 
notavel d'onde o Infante Dom Henrique, de boa memoria, meu thio, 
fez doa$So ao dito Estudo de casas em que lessem, o salariou honra- 
damente a Cathedra de Prima de Theologia por doze marcos de prata, 
etc.» Falam estes dois documentos do assento da Universidade em 
Lisboa; D. JoSo i doara4he uma casa no sitio da Moeda-Velha^ comò 
se sabe pela Carta de 2 de maio de 1389 ao seu almoxarife JoSo 
Yasques, ^ o que leva a inferir que as casas tambem sitas na Moeda 
Velha em que D. Fernando estabelecera a Universidade em 1377 eram 
entSo insufficientes. ^ N'estas casas se conservou a Universidade até 
1431, em que o infante D. Henrique Ihe doou uma casa mais ampia 
no bairro escholar de S. Thiago, onde permaneceu até 1503. Em um 
documento de 1418, de Lourengo Martina, recebedor das rendas do 
Estudo, lé-se: «a porta de Santo Andre, da cidade de Lisboa, da parte 
de fora, contra o arravalde dos mouros.w Iste parece justificar as pa- 
lavras da doaySo do Infante: «Non tinha casas proprias em que lessem 
e fizessem seus autos, antes andava sempre por casas alheyas e de 
aluguer, comò cousa desabrigada e deealojada.» 



' Livro Verde, fl. 44, y e 45. 

« Ibid., fl. 64 y. 

> Està primeira casa doada por D. Fernando & Universidade foi dead a por 
D. Joào I, ao Mestre de 6. Thiago, Mem Bodrigues de Yasconcellos em 1993, di- 
zendo-se em rela^ào aos confrontos: à Porta da Cruz em que àoem estar cu Eseo' 
las; a Universidade reclamou-a comò sua, e o rei annullou a doa9&o por Carta de 
31 de outubro de 1393. (Livro Verde, fl. 65.) 



A UNIYERSIDADE SOB A DIGTADURA MONARCHICA 131 

No comedo da diotadara monarchica do secalo xv, ainda a Uni- 
versidade luctava com a fatta de recarsos; corno se ve pela Carta de 
4 de fevereiro de 1392, D. JoSo i determina, qae os estadantes ricos 
pagaem 40 livras aos lentes de Leu e Decretos; os medianos qae pa- * 
gnem 20 livras; e os mais pobres 10 livras; isto é, o dobro do quo 
estabelecera o Estatato feito pelos Reitores^ A paga do CoUectum, dava 
direito & eleÌ98o dos cargos da Universidade, sob este aspecto ama es- . 
pecie de gaild escholar. O Bedel, (peddlus, por qae acompanhava o 
corpo docente a pé) qae formava no comego dos carsos a Tabula L^ 
gentium, foi elevado & cathegoria de tabelliSo da Universidade e escri- 
vlo das saas rendas, ficando a receber dos estadantes com beneficio 
20 reaes de tres livras e meia; dos mais somenos 15; dos nSo bene- 
fioiados 10; e dos Escholarea pobres de S. Nicol&o 10 reis; dos nobres, 
segundo saa pessoa. ^ Adiante mostraremos a inflaencia do estudante 
pobre na creajSo dos Collegios janto da Universidade. 

D. JoSo I, corno j& observAmos, foi o qae inicioa a dictadara 
monarchica, come9ando pela vaidade de bastardo coroado por cimen^ 
tar sea throno e dynastia por ama vergonhosa allian9a com a Ingla- 
terra, depois das reIa9Ses independentes e dignas com a na9So ingleza 
noB reinados de D. Affonso iv e de D. Fernando, em qae am rejeitava 
ft proposta de casamento do principe de Q-alles com saa filha D. Leo- 
nor, e em qae o oiitro obrigava por am tratado o rei de Inglaterra a 
prestar-lhe soccorro de archeiros e homens de armas centra as aggres- 
s8es castelhanas. De repente estas rela98eB invertem-se; o Mestre de 
Aviz, bastardo ambicioso qae deseja a todo o casto ser rei, para ga- 
rantia do sea throno ^enfeada a naffto & Inglaterra. Escreve o conde 
de Villa Franca, no sea livro D. Jocto Tea Allianga ingleza: «De todo 
o ponto notavel é tambem a conv6n9So qae em Londres formaram (9 de 
maio de 1386) os embaixadores de Portagal obrigando o reino a servir 
em gaerra com armas e galés e & saa casta, comò effectivamente ser- 



1 Beg. do Conselho da Universidade, de 7 de dezembro de 1415. Em um do- 
comento de 28 de novembre de 1390, apparece Affonso Giraldea nomeado bedel e 
escrivio da Universidade de Lisboa. £ em um Conselho eacolar celebrado no 
refeitorio de Santo Agostinho pelos «discretos varoes LanQarote Esteves, reitor 
do estudo, Lonren^o Anes doutor em leis e Bacharel em Degredos, Pero Domin- 
gues Mestre de G^rammatica... Affondo OircUdes bedel e tabelliào... > (Livro Verde^ 
fl. 61 / e 62). Pela data d'estes docnmentos, vé-se que Affonso Giraldes é o poeta 
qae rìmon a chronica da BcUalha do Salado, de que so restam alguns fragmentos ; 
o caracter d'esse poema condiz com a sitaa9So do aactor, verdadeiramente narra - 
dor sem inven^ao. 

9* 



1 32 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

yìvLy a Inglaterra. Està conven(Bo qne os nossos historìadores nem se 
quer mencionam, por qne em goral se limitaram a copiar FemZo Lo- 
pesy conyeD9So que por certo o arteiro chronista omittira adrede, para 
occultar que Portugal fosse servir luglaterra, marca essa mesma època 
assignalada em nossas relajSes com a GrS-Bretanha. N'aquelle proprio 
dia foi que mediante solemn^ tratado os nossos embaizadores formaram 
com aquella potencia a denominada allian9a mutuai inda hoje exis- 
tento. 1 ^ O chronista FemSo LopeS; sempre preconisado corno inge- 
nuo e primitivo; collaborava conscientemente na lenda popular do bas- 
tardo, quer aproveitando-so das noticias da Chronica do chanceller Pero 
Lopes do Ajala, quer occultando & nsi^^o o affrontoso tratado de 9 de 
maio de 1386. 

A nova cdrte precisava de todos os apparatos tradicionaes da rea- 
leza; D. JoSo i tratou de p6r em ac(So as phantasticas pompas do 
mundo novellesco da Tavola Bedonda, anaehronicamento, comparan- 
do-se por vezos ao bom Rei Arthur. As leituras favcfritas dos serSes 
do pafo foram as novollas da Demanda do Santo Chraall, do Baladro 
de Merlim, de Galaaz; os cavalleiros imitavam os heroes d^essas no- 
vollas, comò Percival, D. Quea ou Lanfarote, e as damas adoptavam 
por nome do baptismo os nomes das heroinas leeult ou Iséa, Viviana, 
Briolanja; organisavam-se Passos de armas para os Cavalleiros da Ala 
dos Namorados, e aventuras combinadas comò a dos Doze de Inglaterra, 
Tudo isto era falso e exterior; debaixo d'està apparencia de generosi- 
dade*e enthusiasmo, trabalhava a logica burgueza e inflexivel dos ju- 
rìsconsultos cimentando a dictadura monarchica, e osta duplicidade do 
reinado està vivamente representada nas duas figuras, a do Condesta- 
vel, o guerreiro que imita a virgindade de Galaaz, e JoSo das Regras 
(Doctor Legum), que formula a Lei mental, e que allia ao cargo de 
chanceller do rei ò cargo do Estudo, ou de reitor da Universidade. 

D. JoZo I, quando ainda regonte do reino, confirma os privile- 
gios concedidos por D. Fernando à Universidade; mas por Carta de 15 
de outubro do 1384 continua a subordinar o fóro excepcional dos es- 
cholares ao direito commum representado pela justÌ9a do Bei; assim 



1 A pag. 263 e seguintes traz o sr. conde de Villa Franca o texto e traducalo 
d'esse desconhecido tratado, eztrahido da Foedera de Rjmer) t. vu, p. 521. — es- 
pirito d'essa allian^a maDifestoa-se sempre, na entrega de Tanger e Bombaim, 
tratadoB de Methwen, e de 1810, occupa9fio militar de Beresford, bill de 1839, in- 
demnisa^So de 1850, tratados de Groa-LoureD^o Marques-Zaire, e Ultimatum de 11 
de Janeiro de 1890. 



A UNIYERSIDÀDE SOB A DICTADURA MONARCHICA 133 

as clta93e8 requeridas pelos escholares ao Conservador, seajuiz pri- 
vativo, tinham de ser prìmeìramente revistas por elle conjunctamente 
com dois lentes legistas, prestado o juramento de que nSo havìa ma- 
licia, e de que frequentara durante dois annos o Estudo o escholar liti- 
gante, que tambem nlU) poderia citar por motivo de doa9^ inter vi- 
vos. ^ A Universidade, pelo seu caracter de corpora9So autonoma re- 
conhecido nos privilegios outorgados por D. Diniz, tinha o poder de 
nomear os seus empregados; D. JoSo i atacou abruptamente està ga- 
rantìa escholar, nomeando por Carta de 26 de Janeiro de 1414 Lou- 
ren^o Martins provedor e recebedor das rendas da Universidade;^ o 
corpo docente julgou-se aggravado, o rei resolveu que fosse ouvida a 
Universidade, e por firn chegou-se à concluslo mèdia*, de que o officio 
de Provedor ficasse de nomeagSo da Universidade sob a dependencia 
da confirma9fto do cargo pelo rei. ^ Sob o governo de D. Affonso v, 
foram nomeados alguns lentes pelo rei, centra o que reagiram os es- 
cholares, ^ e a Universidade, em Carta de 12 de julho de 1476 é cen- 
sorada por se metter a intrepretar os seus estatutos em vez de os cum- 
prir comò estavam estabelecidos. Submettida ao poder real, a Univer- 
sidade foi minuciosamente regulamentada em quanto &s faltas dos len- 
tes, iursL^ào dos cursos (ataa Santa Maria d'agosto), repetigSes dos 
teztos, fórmas das substituigSes e annos de frequencia. Diante d'està 
ab8orp9&o, em que a Universidade perdia o seu caracter autonomo, e 
de federa$fio de estudos (universitas studii), jà nSo havia rasSo para 
86 conservar a ii;idependencia mutua entro Legistas e Canonistas, e 
por isso a propria Universidade requereu ao rei para acabar com o 
costume da eleiySo dos dois Reitores simultaneos. Sob D. JoSo n, a 
Universidade perde o direito de asylo; por Carta regia de 7 de setem- 
bro de 1494, o rei adverte a Universidade que nSo consinta que os 
malfeitores se accolham ao bairro dos Escholares centra a justiga or- 
dinaria, apesar de ser coutado, por que de outra fórma proverìa n'isso 
segnndo Ihe conviesse. Por ultimo, a reforma da Universidade por D. 
Manuel, declarando-se Protector, fazendo Estatutos, alterando as fiinc- 
{8es do Reitor, e nomeando os lentes, assignala ama època nova na 
existencia d'aquella institui^So pedagogica da Edade mèdia. 

A historia economica tla Universidade no seculo xv è tambem de 



1 Livro Verde, fl. 47. 

« Ibid., fl. 88. 

» Ibid., fl. 89. 

4 Carta de 13 de abrìl de 1469. 



134 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

um certo interesse dramatico; D. Fernando augmentara as congruas 
aos vigarios das egrejas annexadas ao Estudo geral de Lisboa, e pri- 
Tada assim de parte dos seos rendimentos, a Universidade teve de re- 
correr &8 talhas ou minervaes^ pagas pelos estudantes aos lente» e be- 
del. D. Jo&o I, por Carta de 3 de outubro de 1384, restabeleceu oa 
antigos salarios; ^ mas corno as difficuldades economicas subsistianii pe- 
dia ao papa para que concedesse a annexa$&o & Universidade de urna 
egreja em cada urna das dioceses de Portugal. O papa JoSo xxiii ex- 
pediu em 1411 a bulla da concessSo, sendo eleito para Ihe dar com- 
primento Gonzalo Martins, thesoureiro-mór de Silves, que em 17 de 
dezembro annexou & Universidade a egreja de S. Fedro de Eiras na 
diocese da Guarda, Santa Maria de Caria na diocese de Lamego, a de 
Semache na diocese de Coimbra, Santo André de Lever no bispado 
do Porto, Santa Maria de Idaens no arcebispado de Braga, S. Salva- 
dor de Yianna do bispado de Tuy, S. Thiago de Montemór-o-novo no 
arcebispado de Evora; Silves e Badajoz ficaram fora d'està annexa(Zo, 
porque as' suas egrejas pertenciam aos bispos, cabidos e ordens mili- 
tares. Os rendimentos provenientes d'estas egrejas pouco mais monta- 
▼am de quinhentas libras, e di£Sceis de receber, durando pouco tempo 
essa dota9So pelas innumeras demandas do clero centra a Universidade. 
O quadro das discìplinas da Universidade, em Lisboa, achase in- 
dicado na Carta de 25 de outubro de 1400, tendo o encarrego do dito 
Estudo Doutor JoSo das Regras ; ^ ahi se ve o numero de cathedraB, 
pelos lentes que eram isemptos de pagarem pedidos: 

Lentes de LeÌ8 até •. 3 

Grammatica .... 4 

Decretaes 3 

Logica 2 

Fisica 1 

Theólogia 1 

Musica 1 

Bedel e Conservador. 

Por està Carta se ve que a cathedra de Theólogia, que toma a 
apparecer dtada em 1418, jà ostava salariada e encorporada no Es- 



1 Uwro Verde, fl. 43 f. 
* Ibidem, fl. 90 y e 91. 



A UNIYERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 135 

ludo gerfil. Ifa Carta de 1418 apparece a Phìlosoptìa, certamente sob 
o sea novo aspecto, a qne os gregOB cbamaram maral em coDtraposi- 
^io a natuTol. NSo se encontram apontadaa cadeirae de Eebrako e 
Arabe, maa nào prova iato qiie n&o exÌBtÌBseiD, porque bastava nSo se- 
reni ealariadas oa regerem-ae fora da Universìdade para nSo TÌrem in- 
elDÌdas naa dispoaÌ96eB legialativaa. 

Foi n'este eatado angustioBO qua o Infante D. Henrìque, promo- 
ter daa descobertas maritimaB, come90a a proteger a Uaiversidvde de 
Lisboa com valioBas doa$3ea, coUocando-a em nm palacio que com- 
prara na freguezia de S. Thomé para as Sete Artes liberaeg, e para to- 
das aa Bcienciaa. O titolo de ProUctor da Universìdade apparece pela 
prtmeira vez uaado pelo Infante D. Henrìque em urna Carta de 20 de 
OQtnbro de 1418, dada em Cintra aos Juizes e Justì^aa, para ique poa- 
WUD procurar, razoar, vogar em pra9a ou em escondido.t' Figueiróa, 
nas Memorìaa manuscrìptas, apenas apontava a Carta de 23 de agosto 
de 1443, dirigida de Villa Franca aos Reitor e Lente» pelo Infante D. 
Heurique, corno Protector* e Governador da Universidade. CremoB que 
A8 antigas dependencias da Uiiiversidade com o Mestrado de Cbristo,^ 
maia do quo a organiea^So scientifica do Infante D. Heurique, é que 
levaram a elegel-o Protector da Universidade, talvez comò meÌo de 
reai&tenina coatra a absorp^So do Poder real. À crearlo e protecfio 
de TJniverBÌdades era urna prerogativa aoberana, corno vemos reconhe- 
oida por AffonBO o Sabio. Fra comò urna usurpa^So d'ease privilegio 
da reaieza que os grandes vassallos tambem aepiiavam a fundarem Ea- 
tadoa geraes. 

A figura do novo Protector da Universidade de Lisboa, o Infante 
D. Henrique, merece aocentuar-se no sea grande rel€vo hiatorìco; tendo 
fdndado a villa marìtima de Sagres em 1419, depoie do regresso de 
Conta, ali estabelece a lendarìa Eschola oa Observatorio para dirìgir os 
deacobrimeiitoa da Àfrica, pelo enaino da Mathematica, Nautica e Qeo- 
graphia, feito por Mestre Jaime da ilba de Malhorca e outros sabioe 
convidados com bona salarios. K'esta Eschola de Sagres, ei 
Lopee, as Cartas geograpbicas se converteram em Carta 
phicas planas, cujo uso durou seculos: (M'esta Eschola s 
OB noBBOB mais habeis navegadores; adquiriram instruc^fìlo 



■ LivTO Verde, fl. 9S. 
' Ibidem, fl. 109. 

* Foi das rendas do Mestrado de Chrieto, da dtEima da Hlia da 
o Iii&nt« aalarion a cadeira de prima de Theologia. 



136 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

e cavalleiros de sua casa; e se fez vulgar o uso da bussola e outros 
instrumentos nauticos^ os quaes^ postoque imperfeitos, eraiù ass&s van- 
tajosos para os navegadores, que n'aquelle tempo nSo usavatn da aga- 
Dia, nem de outro instrumento.» ^ A applica9So pratica da MatherfiaHca 
e da Astronomia & navegajSo vinha no seculo XV provocar o desenvol- 
vimento da serie scientifica, que predominou na Renascenga pela posse 
(directa dos dominios da Physica. Comte caracterisa de um modo lumi- 
noso està entrada da rasSLo humana na renova9So scientifica que pre- 
cede a Benascenfa: 

cRctomando o impulso scientifico da Grecia, deveu dar-se a con- 
centra9So sobre o primeiro par. encyclopedico (Mathematica e Astro- 
nomia) até que se tivessem produzido os resultados decisivos que o 
theologismo impediu na antiguidade. Quando està base theorìca da re- 
genera9So mental estivesse sufficientemente pósta, um rapido esbogo 
da philosopfaia naturai devia immediatamente conduzir a rasSo mo- 
derna à elabora9ào directa do seu principal dominio, conformemente 
às neccssidades sociaes. Este plano, que sómento hoje póde ser con- 
cebido, prevaleceu espontaneamente desde o seculo xiv, segundo aa 
leis necessarias da evolu9lLo especulativa, cujo ascendente, precedendo 
a sua descoberta, deveu involuntariamente regular uma marcha empi- 
rica. d ^ Como se personificou està elabora9&o mental no Infante D. 
Henrique ? 

Na Corographia do Algarve, Silva Lopes descreve a actividade 
da lendaria Eschola de Sagres: cD'aqui mandava elle sahir embarca- 
9Ses para fazer os descobrimentos que havia emprehendido ; em 1431 
sahiu d'este porto em um navio o commendador d'Àlmourol fr. Gon- 
9alo Velho Cabrai com instruc9fto de navegar a O., e voltar logo que 
descobrisse alguma terra, o que praticou voltando em poucos dias do 
Baixo das Formigas, que avistou e ezaminou; tornando no anno se- 
guinte descobriu a ilha de S. Maria, cuja capitania o Infante Ihe deu. 
Convidados pela fama dos descobrimentos que os portuguezes faziam, 
concorreram a Sagres muitos estrangeiros notaveis, curiosos de cousaa 
tSo extraordinarias, taes comò Balthazar, fidalgo allemSo, gentil-homem 
da camara do imperador Frederico iii; o malfadado Balart, fidalgo 
dinamarquez, que embarcando em o navio de Fem&o Affonso em 1447 
foi morrer a Cabo Verde em uma refrega de negros; o veneziano Luis 



1 Corogrc^hia do Algarve, p. 210. 

2 Comte, Sysihne de PolUique poettive, t in, p. 517. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 137 

CadamostOy que nos deixou escriptas as suas viagens n'estes descobri- 
mentos; os fidalgos flamengos Jacome de Bruges, a quem o Infante 
fez donatorìo da ilha Terceira por carta (apocrifa) de 2 de marjo de 
1450 para a ir pò voar; Gailherme de Wanderberg, cujo appellido depois 
madou para Silveira, ao qual deu a ilha de S. Jorge; Jorge d*Utra, 
primeijo donatario e povoador das ilhas do Fayal e do Pico: etc.» * 
Mas que differenga entro o vulto esbogado pelos InfantUtaa, que re- 
petem phrases tradicionaes sem prova historica, e as primeiras obser- 
va93QS de unTa critica severa^ que desponta! 

O infante D. Henrique occupava-se nas descobertas maritimas 
exclusivamente para seu interesse pessòal, estabelecendo colonias de 
quem recebia as contribuifdes. Para isso empregava os filiados ou os 
recados da sua casa. Depois de descoberto o archipelago da Madeira, 
corno as descobertas na costa de Africa foram e^corporadas na corda- 
portagueza, o infante queria descobrir para si e mandou navegar até 
ao Cabo Bojador. A sua passagem do Tejo para Sagres, no Algarve, 
logar solitario e sem agua, sem os recursos para as noticias das nave- 
ga95ea e para armar as expedigSes, so se explica pelo plano de se col- 
locar fora da dependencia da corSa nas terras do mestrado de Chri^to, 
que estavam sob o seu poder. No cap. ii do livro i da Decada i de JoSo 
de Barros allude-se a oste pensamento, em que o infante queria ser 
mais do que capitilo da corda portugueza nas conquistas, encetando 
por isso expedifSes mais largas.^ O caracter do infante D; Henrique 
decae diante do modo pouco leal corno procedeu pondo-se do lado dos 
intrìgantes centra seu irmSo o honrado infante D. PedrO; Duque de 
Coimbra, deixando que o assassinassem, podendo salval-o pela sua au- 
ctoridade moral. O pensamento das descobertas maritimas amesqui- 



» Op. eit., p. 210, 

' Joào de Barros, «apcsar de panegyrìsta do Infante, accentua o seguinte 
facto que o colloca em antinomia com o poder real : «Por que vendo elle corno os 
Houros do re3mo de Fez e Marrocos ficayam per conquista metidos na coroa destes 
Beynos, por o novo titulo que seu pay tomou de Senhor de Cepta, e que per està 
posse real a empresa d' aquella guerra era propria dos Reys d este Beyno, e elle 
nom podia entreyir nisso corno conquitador mas corno capit&o enyiado, em o processo 
da qual guerra elle avia de seguir a vontade d el Bey e a disposi^So do Beyno e 
n2o a sua : assentou em mudar està conquista pera outras partes mais remotas de 
Espanba, do que eram os reynos de Fez e Marrocos. Com que a despeza d'este caso 
fosse propria d'elle e nSo tazada per outrem ; e os meritos de seu traballio ficas- 
sem metidos na Ordem da cayallerìa de Christo que elle governava, de cujo the- 
zooro podia despender.» (Decada ly liv. i, cap. 2.) 



1 38 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

nha-se pelo movel do interesse mercantil exclusivo, que o dirigìa, e o 
que ha de grandioso nos trabalhos do Mar tenebroso, reverte para o 
poYo portugaez, esses valentes aventureiros, que foram os primeiros 
donatarios das descobertas, e de que o infante se aproveitou. Dois 
eximios patriotas e eruditos, os drs. JoSo Teixeira Soares (da iiha 
de S. Jorge) e Alvaro Rodrìgues de Azevedo (da ilha da Madeira) 
sustentaram estes novos elementos do criterio historico por onde tem 
de ser apreciado o infante D. Henrìqne, na sua resistencia contra a 
dictadura monarchica. 

Na correspondencia do eruditissimo a9oriano Dr. JoSo Teixeira 
SoareS| fallecido em 1882, acham-se os elementos criticos, em que a 
figura do Infante D. Henrique nos apparece a està outra luz. Foi pena 
que a morte Ihe nSo deixasse realisar oste processo historico. Trans- 
creveremoB da sua correspondencia, publicada em extractos no Ar- 
chivo do8 Aqores, alguns tra$os importantes d'essa critica negativa: 
«0 que eu queria que me èxhibissem era um unico documento, um 
unico, anterior à morte de D. JoSo i. . . em que se provasse que o In* 
fante D. Henrique tinha tido a menor idèa de vìagens e de descobri- 
mentos maritimos ! Parece que era jà tempo de fazer calar a lisonja^ 
e apparecer a historia irrefragavel, que nos diz : que a actividade ma- 
ritima dos portuguezes, jà estava desenvolvida e firmada antes d'elle 
pelas explora9Ses no Athlantico septentrional e descoberta de seus Ar- 
chipelagos. 

cEste principe nfto fez mais do que aproveitar està actividade, 
dando-lhes uma nova direcjSó, mais positiva, e menos generosa, que 
elle soube monopolisar e continuar em seu proveito, e da Ordem, de 
que era Mestre. 

«Foi um emprezario egoista n'este theatro da nossa actividade, 
nada mais. £ note-se que o foi, depois da morte do pae, de quem nada 
obteve, e so do irmSo, cujo filho adoptou.» ^ Teixeira Soares reunira 
uma grande somma de trabalhos para <um estndo sobre a Chrcnica 
de Ouiné, e sobre o Liv. i da Decada I de JoSo de Barros, em que 
digo e mostro cousas terriveis para a memoria d'este escriptor, sobre 
a do Infante D. Henrique, e para a ridicula scita dos Infantistas I O 
Infante D. Henrique vale pouco na historia dos nossos descobrimentoa, 
£ penoso o mister que a critica tem de exercer sobre este mào prin* 
cepe, mas bade exercel-o um dia e hade ser tanto mais inexoravel,. 



1 Carta de 26 de oatubro de 1877, ao Dr. Ernesto do Canto. 



A UNIYERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 1 39 

qoanto mais tardio vier.» ^ Em ama carta de 25 de maio de 1878 es- 
tabelece um ponto de partida: e Reputo genuinos os portulanos do se- 
culo XIV com rela(So aos archipelagos da Madeira e Àgores. O attri- 
buir ao Infante a descoberta primitiva d'elles, procedeu de lisonja e 
de ignorancia. Azurara, que na parte bistorica se aproveitou apenas 
do que escreveu Affonso Cerveira, foi mais babilissimo cortezSo^ do 
que bìstoriador severo e imparcial. Barros, que o seguiu Guidando que 
p unico esemplar que da Cbronica d'aquelle conbeceu acabaria nas 
suas mSoSy foi mais do que um amplificador rhetorico, degenerou n'um 
insigne falsario. O seu extracto da Cbronica impresso em frente d'està^ 
seria sem commentarioS| a sua condemna9&o irremissivel. KSo bouve em 
Portugal bomem perante quem a bistoria se tenba tornado mais detur- 
pada e falsaria do que o Infante. 

cNada teve com navega93e8, descobrimentos maritimos e coloni- 
sa9SLo da Madeira, senSo depois da morte de seu pae, que parece com- 
prebendeu melbor do que os irmSos o pessimo caracter do filho. Com- 
tudo; quanto arredados do que levo dito nSlo estSo os que tém feito a 
bìstorià d'este principe ! Os doze annos de esforQos para passar o Cabo 
Bojador, foram apenas um recurso rbetorico da lisonja, que um des- 
cuido do proprio Azurara patenteou ! Pois o que se tem dito da Villa 
de Sagres?. . . A verdadeira Sagres aonde està? Quando e para que 
firn foi fundada ? Aquelle principe nSo foi mais que um ambicioso uti- 
litario, sem a sciencia nem o alcance geograpbico que Ibe attribuem. 
Aproveitou a sciencia e actividade maritima dos portuguezes, jà ass&s 
firmada, para simples reconbecimento da continuacelo d'um boccado 
da costa africana, desviando assim o genio mari timo da naySLo para 
um campo mais utilitario, estabelecendo a escravidUo africana e con- 
vertendo tudo em monopolio proprio. Na Madeira so continuou a colo- 
nisacSo fundada pelo pae, alterando profundamente o systema benefico 
d'aquelle, e convertendo tudo em seu proveito creando os dizimos, etc. 
etc. Na familia foi um Caim. A virilidade e nobreza de espirito nào a 
tinba por ser um quasi eunucbo. A adopero do sobrinbo por filho, que 
infamia ! pelo modo por que depois falseou esse acto ! — A entrega que 
fez do irmSo em Tanger, depois de o arrastar alli, nSo se commenta ! 
O seu comportamento com o Infante D. Fedro e com os filhos é sem 
igual.9^ No que fez pela Universidade ressumbra a vaidade pessoalt 



1 Carta de 25 de abril de 1878. 

2 Arehivo doa Agorea, voi. iv, p. 16 a 19. 



140 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

O Liuro Verde, da Universidade, d^ noticia do estabelecimento 
das Escholas geraes em uns passos e assentamento de casas com seoB 
pardieiros e chSos na freguezia de S. Thomé compradoB pelo Infante 
D. Henrique em 1431, pelo prejo de 400 coròas de ouro velhas, de 
bom ouro e jasto pezo do canho deirei de Franja, e doados apara 
as sete artea liberaes, grammatica, logica, rhetorica, aresmetica, musica, 
geometria e astrologia. . . qae se lèam na casa pequena. • . e ai se pin* 
tem as sete artes liberaes. . . a fora a grammatica, qae é de grande 
arruido estd na casa de fora. . . e a logica na logia. . . e a medicina 
n'outra casa e ahi se pinte Gaalliano ; . . e em cima se Ieri theologia e 
ahi se pinte a Trindade. . . na de Decretos se pinte um papa. . . na de 
filosofia naturai e maral Aristoteles. . . na de Leis um imperador. . . e 
que a doa9So se abra numa pedra e que se ponha sobre a porta.» ^ 
Por este documento se infere qual a fórma do estudo da grammatica» 
em voz alta e em chusma, feito provavelmente pelo texto do Doutri- 
nal de Alexandre de Villa Dei, e tSo vulgarisado que vem citado no 
Catalogo dos Livros de uso do rei D. Daarte simplesmente com o 
nome Alexandre. O Doutrinal renovava os velhos tratados grammati- 
caes de Servio, VarrSo e Prisciano, dominando de um modo absoluto 
nas escholas até Pastrana; quando entrou em Portugal a influencia 
de Nebrixa, distingaiu-se o methodo, chamado Arte nova, corno se in- 
fere do documento de 1494 em que se mencionam mestres de gromma- 
tica de arte vdha e da nova. Quando o infante D. Henrique deu casa 
à Universidade, eram reitor do Estudo Vasco Gii, e o licenciado Diego 
Affonso de Mangancha, Mestre Martinho, JoSo Affonso de Leirea, Luiz 
Martins, JoSLo d'Elvas e Gomes Paes, lentes; d'entre estes nomes des- 
taca-se o do Dr. Mangancha, que no seu testamento de 9 dezembro 
de 1447 instituiu um Collegio para dez estudantea pobres nas suas casas 
a S. Jorge, onde possuia tambem uma notavel livraria. ^ 



1 Op. cit, fl. 101. Escriptara de 12 de de ontubro de 1431. 

2 No pequeno catalogo dos livros do Dr. Mangancha cita-se um Chino, iato 
éy Commentario volumoso dos nove primeiros livros do Codigo, publicado pelo 
celebre professor da Unìversidade de Bolonha Cina da Pistoia, mostre de Bar- 
tholo. O seu Commentario data de 1314, e tem a importancia de ser a base em que 
OS jurisconsultos civiUstae se apoiaram contra os decretalistaB, Diz Gingaené, na 
HtMtoria litteraria da Italia: «Os canonistas e os legistas forma vam corno que 
doas seitas inimigas; e nfto sómente na sua qualidade de legista, mas corno ar- 
dente gibelino, Cino tinba um grande desdem pelas decretaes, pelos canones e por 
tudo o que compunha a jurisprudencia papal.o (Ob. cit., t. ii, p. 296.) As daasin- 
fluencias pontificai e real nas Universidades caracterisam-se com evidencia n'este 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 141* 

Importa accentuar aqui a personalidade historica d'este afamado 
decretalista^ que se achon no Concilio de Basilea em relagSo com Eneas 
Sylvius (Pio n) na grande lucta de dissoIugSo do poder pontificai, e 
que deslumbrou os hnmanistas italianos pela sua forte dialectica em 
amaa theses ou Auto de Ostentagào. ^ 



antagonismo entre canonistas e legistas. Joao dae Regras trouxe para Portugal as 
opinioes bartholistas, que vieram a prevalecer na Universidade e na grande pleiada 
doB rdnicolaa. Infante D. Fedro, na carta ao rei D. Duarte, seu irmào, em que 
Ihe apresenta o plano da reforma da Universidade, tambem propende para as dou- 
trìsas de Bartfaolo : «e parece-me, Senhor, que para abreviamento dos feitos apro- 
veitara multo seguir-'se a maneira, que o Senbor Rey ordenou sobre o Bartolo : 

Gom tanto que o Livro seja bem ordenado e corrido por Doctores, e 

afora aquelle que o tresladou etc.» (Ap. J. P. Ribeiro, Disa. chron,, 1. 1, p. 407, ed. 
18eO). 

1 £m uma Noticia da Embaizada do Conde de Ourem, em 1435, que se guar* 
dava manuscripta na Bibliotheca do Conde de Yimieiro, descreve-se tambem o 
Auto de Ostenfa^ào^ que o dr. Mangancba sustentou em Bolonha, quando acompa- 
nhava essa embaizada. Foi consultado por LeitSo Ferreira. {Noticias chrtMologicca 
da Universidade, p. 351.) Transcrevemol-o do Ms. publieado por D. Antonio Gae- 
tano de Sousa; 

«Sabei, que aos treze dias do mes de Setembro, fez o muj nòbre, e discreto 
Doutor Diogo Affonso, que vinba em companbia do muy nobre Senbor Conde Dourem 
com embaixada do muy no])re Senbor Bey de Portugal bum auto multo sòlepne de 
Concm^oens, as quaes forom em Lex, e em Decretaes, e em outras artes liberaes, 
e sabei que em aquelle dia a tarde foi posto em huma muy alta e nobre cadeira, 
e Bcu livro ante si, segundo be custume dos escollares e Lentes, e estavam acerca 
da cadeira muitos bancos cubertos de muy nobres bancaes pera averem de sentar 
Arcebispos, e Bispos e outros Prellados, e pessoas a elica iguais, e sabede, que 
forom abi muitos, e mui nobres, e )i}em entendidos escollares, e Doutores aa ma- 
ravilba, segundo se dizia pela Corte do Papa, sabede que estando elle na cadeira 
vierom estes Bispos, que se ao diante seguem, que eram os mais letrados, que o 
Papa trazia segundo, que se dizia pela Certe do Papa, que per nome eram cba- 
mados Ambianeses, e outro Espelanteses, e acerca destes bum Embaixador de 
Franca, e disse o Bispo de Viseu, e outros muitos Doutores, e Prellados ao uso 
dito, que fallasse bum pouco mais alto, e come^arom todos a oulbar, que era o que 
aiguya o sobredito, e o Doutor des que os vio todos* estar assentados, come^ou 
per seu latim de parlar, que ainda que fosse bum Anjo Angelical, que dos Ceos 
as gentes o latim viesse decrarar, nom poderia parecer milbor, e des que o Doutor 
acabon de prepoer seus argoimentos o Bispo d aquelles, que mais cerca d elles seya, 
que era o mais entendido, e de muyto mayor nobreza, e come^ou de dizer sub reve- 
rencia muy nobre Doutor, eu quero desfazer os vossos argumentos, e pollos em 
ponco valor, e logo comef ou darguir muy fortemente, que a todos parecia, que 
debelar o Doutor, e desbaratar, e em cima todas razoens ouve-se de callar, e o 
Doutor come^ou contra o Bispo darguir em tanto, que fez suas razoens boas, e 
conclnsoens muy verdadeiras, e quando o Bispo esto vio, come^ou de embruscar, e 



142 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Emquanto D. Daarte trabalhava na sua encyclopedia moral in- 
titulada o Leal Consdheiro (1428 a 1437), o Doutor Diogo AffonBO 
de Mangancha conversava com o monarcha Bobre differentes questSes 
phìloBophicas, e offerecia-Ihe apontamentos, que o rei intercalava no 
seu texto comò homenagem ao seu saber. Tal é o capitulo Lvm: Score 
a prudencia, feito per o Doutor Diegaffonso, D. Duarte poz-lhe o se- 
guititi preambulo, que nos revela a sua convivencia intellectual : «Por- 
que mynlia teen9om he nom me ajudar em este trautado de alhea let- 
tura por mynha, saluo em allegafSoes ou parte dalguus capitullos ti- 
radoB doutros liuros, porém este a juso scripto que me o Doutor Diego 
Affonso do meu desembargo deu, sabendo que desta virtude da pm- 
dencia algua cousa screvja, por me parecer de proveitosa ensynanga, 
em seu nome o mandei aqui screver com alguils mais adjtamentos, e 
corregymento pera seguyr mjnha teen9om necessarios.v Ab paginas 
que se seguem a este preambulo resentem-se das divisSes e formalismo 
do estylo escholastico, e sSo um modelo do genero. O Dr. Mangancha 



nom Ihe Boube mais responder, e ficou alli vencido em aquelle legar, e quando 
veyo outro ho outro Bispo, que estava acerca d aquelle iste vio come^ou per seu 
latim muy alto de arguir, que as gentés se maravilhavam mais d aquelle que do 
outro, e des que come^ou seus argumentos a fazer o ouue muy bem descuitar, ate 
que ouve de acabar suas razoens *, des que acal^ou o Doutor come^ou de muy pas* 
samentc o seu fallar, que as razoens do Bispo ficarom em muy pouco sobre o que 
forom postas, e sabede que depois d estes Bispos veyo bum Embaixador de £1 Bey 
de Fran9a, e come^ou de arguir por seu latim, que parecia, que era Rousinol que 
no Mayo bem canta, e esteve por espa^o de buma bora com bo Doutor em argu- 
mentos, e isto fazia elle pollo abater, e por cuidar, que nom soubesse elle resumir 
todo que elle alli Ibe ouvesse de recontar, e sabede que tanto que ouve darguir, 
atas que ouve de callar, e que cansavam jà, e quando o Doutor vio, que mais nom 
podia arguir, disse o Doutor muy umildosamente, prazavos Senbores de me averdes 
descuitar. Sabede, que este muy e discreto Barom muy mal trouxe seus arguimentoa 
a condusSo, e alli trouxe, e come^ou darguir, que nom avia bomem no mando que 
tornasse prazer do seu razoar, e sabede, que aquelle Embaixador assi ficou ven- 
cido em aquelle lugar, e sabei que outros muitos Doutores, e bons Bachareis, que 
logo come9arom darguir, e desputar com o Doutor, e elle a todos responder, e 
ouve de darem cabo com todos vencidos, e ouveram a ficar as condusoens do 
Doutor multo Ibes conveyo abonar, e disseram, que bento fosse o dia, em que ao 
estudo se fora assentar, que tantas boas cousas corno elle sabia em a sua cabe^a 
forom assentar, e todos disserom, que nom pensavam, que tal bomem t&o letrado 
avia em Portugal, c^odos quantos bi estavam, todos Ihe este louvor derom, o qual 
foi de feito scgundo o que disserom, e grande louvamento ao Beino de Portugal, 
e assi foi acabado este acto, que suso dito fez.» {Diario da Jornada que fez o Conde 
de Ourem ao Concaio de Basilea. Ap. Hist Geneal., Provas, t v, p. 696.) 



A UNIYEnfiSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 143 

recitou a orajSo nas exequias do mallogrado monarcha sea amigo^ e 
fez a Ora9So da Proposi^So (Discurso do Throno, segando o visconde 
de Santarem) nas cortes de Lisboa, de 10 de dezembro de 1439. 

O Dr. Mangancha realisava o pensamento do Infante D. Fedro; 
em ama carta de JoSo Fedro Ribeiro ao arcebispo Cenaculo, cita-se 
um papel sobre o provimento dos bispadoS; do secalo xv, janto com 
ama Carta do Infante D. Fedro, escripta durante a sua viagem ao rei 
D. Duarte sea irmSo, na qual se lamenta por ordenarem os qae ignqr 
Tarn latim, busca o remedio na reforma da Universidade, propSe o es- 
tabelecimento n'ella de Collegio» a exemplo dos de Oxonia e Paris: e qae 
nom dem Ordens a nenhama pessoa qae nom saiba falar latim*; porqae 
segando vi e cavi dizer a oatros fora, nas terras de Spanha he avido 

por grande mingoa e para se os Frellados nSo escuzarem, 

que per mingoa de latinados nSo poderSo ter està ordenanja, a mim me 
parece que a Universidade de vessa terra devia ser emendada, e a ma- 
neira vos escreverei, segando cavi dizer a oatro qae nisto mais enten- 
dia qae ea. 

«Frimeiramente, qae na dita Universidade ouvesse doas oa mais 
Collegios, em os qaaes fossem mantheados escolares pobres, e oatros 
ricos vivessem dentro com elles aas saas proprias despezas, e todos 

morassem do Collegio a dentro, e fossem regidos por o qae de 

tal Collegio tivesse carrego: a ordenan9a desto he tal. Em a Cidade 
de Lisboa, e em sea Termo ha da Universidade sinco oa seis Igrejas, 
e em aqaestas se podiam bem fazer oatros tantos Collegios, e a cada 
hum qae tivesse ham Vigairo, qae desse os Sacramentos, e dessem a 

este mantimento pertencente da Igreja e o mais fosse qae para 

aqaelle Collegio fossem depatados, e estes dormissem em ham Pa90, 
que tivesse cellas^ e comessem jantamente em ham lagar e fossem ^ar* 
rados de so hama clausura. Aquestes, Senhor, despois que ouvessem 
doas ìannos em a Universidade fossem gradaados, e lessem per jura- 
mento, e havendo elles tal cria9So com ajudorio da Grafa de Deus se- 
riSo bem acostumados Ecdesiasticos, e ainda os Bispos com seus Ca- 
bidos poderiHo fazer cada hum Collegios para seus naturais ; e os Mon- 
ges pretos outro si para si, e os Conegos Regrantes outro, e os Mon- 
ges brancos outro, e ordenassem estes Collegios por maneira dos de 
Uxonia e de Farìz, e assi crescendo os Letrados e as Sciencias, e os 
Senhores achariSo donde tomassem CapelUles honestos e entendidos, 
e quando tais promovessem n3o. seriSo desditos, e até d'isto se segui- 
ria que vos achareis Letrados para Officiaes da JustÌ9a, e quando al- 
guus vos desprouvessem, terieis donde tomar outros, e elles temendo se 



144 HISTORIA DA IWIVERSIDADE DE COIMBRA 

do que poderìa acontecer, serviriSo melhor e com mais dilìgencia: e 
destes viram bons Beneficiados^ que seriSo bona eleitores, e deshi bons 
PreladoSy Bispos, e outros: aquesto havìa mester bons hordenadores 
em comejo; e parece-me, Senhor^ que* se a Vossa Mercé isto qui- 
zesse mandar^ averia grande honra a tcrra^ e proveito por azo da Sa- 
bedoria, que deve ser muito prezada, que a muitos tirou e tira de mal 
fazer; mas deviSo ser taes ordenadores^ que jà estiveram em as dita» 
Universidades, bons homens, e avizados dos costumes, ou mandardes 
a alguem que vos escrevesse o Begimento dos dittos Collegios.» ^ £ pro- 
vavel que a funda^So do Collegio do Dr. Mangancha, para Estudantea 
pobres nascesse d'està sugestSo do Infante D. Fedro; so em Coimbra 
e jà na reforma de D. JoSo ni é que differentes ordens monachaes fun- 
daram Collegios junto da Universidade. 

O Infante D. Fedro, Duque de Coimbra, que tanto se interessava 
pela Universidade de Lisboa suscitando a idèa da crea9lio de Collegios 
junto d'ella, sentiu a falta que a Coimbra fazia o ter side despojada 
do seu Estudo goral em 1377, e sem esperanfa de tomal-o a possuir, 
porque pela Carta de D. JoSlo i de 1384 fixara-se para sempre em Lis- 
boa. Lembrou-se pois o Infante D. Fedro de fundar em Coimbra urna 
nova Universidade, e comò Regente do reino em nome de D. Affonso v 
estabeleceu o Estudo goral por carta do ultimo de outubro de 1443;* 



^ Està Carta vem publlcada na integra por J. P. Ribeiro, nas Diss. diron,^ 
1. 1, Doc. u.^ civili, p. 399, ed. 1860. 

^ Dom Affonsso etc. a qnantos està carta virem fìizemos saber que os Rex 
da piedosa lembran^a de que noe des^eindemcs, consjrando corno todallas obras 
de deos procedem da sua maravilhosa sabedorìa. £ que outro lbj nehuu rregno 
nem principado nom pode ser firme se nom for rregido com muyta praden^ia polla 
quali rrazom corno tiranos destruydores das cousas pruyycas avorrecem ob sabe- 
dores. assy ob boos prin^ipes os devem muyto amar e pre^r por tanto hordena- 
rom na muyto antyga nobre abastada ^idade de coymbra huii Geral eetudo de to- 
dallas (iencias por tali que os bem despostos acbassem meestres de que podessem 
aprender virtudes sabedorias que he huu grazioso dom do spirito sancto outorgado 
aoB homees assy corno a buu rrayo e buua participa^om da divinali natureza na 
quali Bse salva a rrazom da ymagem de deos a cuja Bemelham9a forom creados. 

£ desy que o emtemdimento armado de taaes armas quejandas pertemce se- 
gumdo diz apostollo pella nossa spiritual cavallaria poBsamos pelejar e vQmcer 
virtuosamente as agudas paizoeSs a que formos incrinados. £ comtinuando assy o 
dyto estudo por tempos, o muyto virtuoso e nunca ven^ido primcipe el Rey dom 
Joham meu avoo que deos aja e dee gloria por alguGas justas e proveytosas rra- 
zoes mudou o dito estudo aa muyto nobre e sempre leali ^idade de lizboa de cuja 
oontinuada preseveran^a sayrom letrados em desvayradas s^iem^ias que Ihe feze- 



A,raiVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 145 

para obter os meios para salariar aB cadeiras de Leis e CaiKmeB, Theo- 
logia e Artes entrou em accordo com as dignidades e cabido da sé de 
Coimbra^ e com o prior, chantre e beneficiados de S. Fedro de Alme- 
dina, e com bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho^ que a 24 de maio 
de 1446 fizeram urna escriptura de doa9So das rendas da egreja de S. 
Thiago de Almelaguez, com a condÌ9fto de caducar a doafSo se o Es- 



rom grandes servi^os per seu claro saber allumerarom os escuros entendimentos 
de muTtos e trouverom verdadeyra honrra e proveTto a sua terra. E por que a noe 
perten^e manteer e acre9entar o qae os sobreditos Bex por comaerya^om destes 
iregnos e acre^emtamento da sagrada religioni xpSa bem hordenarom coube^ead* 
que o estudo de lizboa nom abasta pera todos porque mnytos moram em lugazv» 
t2 alomgados que leizam daprender por nom yirem tam longe de suas casas. Ou- 
tros por aazo das pe8tillen9ia8 que aas vezes na dita 9idade aconte9e sse partem 
do eatudo e por nom acharem no rregno outras escoUas bomde possam estudar 
affidando assy on^iosos Ihes avem que esquoQem quanto aprenderom. 

E aimda alguus por bomezios e arruydos ssom estorvados. outros pella muyta 
comversa^om dos amygos e parentes nom podem com rrepousado spirito estudar. 
E asay Ihes be ne9eBBario que yaào com gramdes despesas e trabalbos buscar es- 
tndo fora da terra domde muytos nunca mays tomam. E porem pera nos escusar- 
mos estes inconvenientes por espertarmos os nossos subditos que sse desponham 
aoB estudos das boas artes e virtuosas e ensinan9a8 em guisa que as nossas 9ida- 
des 8ej5 compridas de bomeSs letrados que per seu boom exemplo melborem em 
muytos e per sua insinan9a prestem a todos. 

Ffiindamos e bordenamos estabellecemos outro geerall estudo na sobredita 
Dobre 9idade de coymbra que be comarquaS assy aos naturaaes de nossos rregnos 
corno aos estramgeyros, saadia e avondosa de todallas coutas que pera a vida dos 
bomeens sam ne9efisarias. E por ser o dito estudo milbor rregido queremos e man- 
damos que seia delle protector ho alto e poderoso prim9ipe o y&nte dom pedro 
mett mnyto amado e pre9ado iyo e padre nosso tutor e curador, rregedor e com a 
ajuda de deos defensor por nos de nossos rregnos e senborio duque da dita 9Ìdade 
de coymbra e senhor de monte moor. E desy todos aquelles que delle lidemamente 
des^emderem que forem duques de coymbra. E esso meesmo bo bomrrado em Jhu 
zpo padre dom fernamdo ar9ebispo de bragua nosso bem amado primo e seos sob- 
cessores na dinidade. E queremos e bordenamos que no dito estudo sse leom con- 
tinnadamente todallas 9ien9ias aprovadas per a sancta ygreja de rroma comò sse 
leem nos outros estudos geeraes. E porque os mestres doutores e escollares pos- 
sam na dita universidade estudar com rrepouso a viver em framqueza e querendo- 
Ihes fazer gTa9a e mercee de nossa 9erta 9ien9ia proprio ibovimento e poder ab- 
soUuto damos e ontorgamos aa dita universidade de coymbra e a todallas pessoas 
que nella pella sobredita maneyra estudarem e a cada baila dellas e a seus be« 
dees e rrecebedores livreyros e escrivaàes e familiares a fora os privillegios que 
Ihes per diretto comuG ssom outorgados Os quaaes Ihe confumamos queremdoos 
aqoi aver por ezpressamente nomeados. Outorgamos Ibe comò dito be todollos pri- 
vilegios e franquezas e liberdades e execu90oes que aa universidade de lizboa 

HIST. UH. 1^ 



146 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRÀ * 

tudo geral fosse mudado de Coìmbra. ^ desastre inesperado de Al- 
farrobeira em 1449^. onde o Infante D. Fedro foi assassinado por intri- 
gas do conde de Barcellos, obstou com certeza à realisaf&o do generoso 
pensamento. Coimbra perdeu a occasiSo de ufanar-se com um novo Es- 
tudo geral. 



pollos Rez passadoB issom outorgados. E eacomendamos ao dito jffante dom pedro 
e ao dito ar^ebispo protectores do dito estudo qua ìhe fanoni gaardar e manteer 
06 ditos privilegioB £ nom conaentam a nenbaua pessoa edesi astica nem segrall 
por poderosa qua seja qua Ihea vaa centra alias em parta nem em todo fazendo 
enzecutar rraalmente e com affecto as pennas em qua cayram aquellas qua Ihes 
contra os ditos privillagios forem. E mandamos a encomendamos am espellali aos 
Juizes, vareadoras ^idadaàos e homais bo5s da dita QÌdada em gaerall a todollos 
de noBSOS rregnos qua trautam benjna a graziosamente os meestres doutores es- 
coUares e passoas da dita universidada a os homrraài por nosso amor mantando- 
Ihes OS ditos privillagios a liberdadas qua Ibas assy oatorgamos. E am tastemunho 
dello Ihes mandamos dar està nossa carta seellada do nosso saello do cbambo* 
dada em a nossa villa de lajraa postumeyro dia de outubro par autoridade do dito 
yffante rragante etc. Martim Gill a fez anno do senbor Jhu Xpo de mill e iiij « riij 
annos.» (Livro decimo da Extremcutura, fl. Ixviij. No Archi vo nacional.) 

1 Està facto apparace pela primeira vez apontado por Migael Ribeiro da Vas* 
concellos, Ituiituto, t ni, p. 302, seguido da Doa^ào, ib., p. 318: 

Carta de doag&o à. Universldade 

In nomina Domini, amen. — A quantos està carta de perpetua doa^om e oq- 
torgamanto virem. N6s dignidades e Cabido da Sea de Coimbra chamados singa- 
larmente para o acto segainta a Cabido, a Cabido fazendo segundo nosso costume, 
e nós Prior e Chantra e beneficiados da Igraja da sam Padro d^Almadina, fazemos 
saber, que consirando nos quanto a storia das latras he necessaria a proveitosa 
cousa a todos e singularmenta aas pessoas edasiasticas que hlo de rregar e en- 
caminhar si x^esmos a outros a saber guardar os mandamentos de Deos e usar de 
virtudas, sendo nós certos da grande vontada qua ha o mui illustre a mui virtuoso 
Principe o sr. Infante D. Pedro d'està meesma cidada, tutor a curador d*Bl-Rei 
nosso sr. a curador a rregedor por eli destes rregnos de a ennobrecer, decorar e 
accrascentar e malhorar mandando aas suas proprias despezas fazer estramadas 
e selantas scolas a estudo geeral de todas as artes scienciaaes para soportamento 
e govemanza das quaaes som necessarias rrendas certas subficientes para salariar 
OS doutores e mais Lentes e os outros officiaes a para soportar os carregos do 
studo a universidada dos studantes para a qual cousa o dito sr. rragente lògo pri- 
meiro que outrem come^ou de o dotar assignando^lhe para sempre huma boa e 
grande cantidade de renda das suas proprias terras mandando-nos afincadamente 
e graciosa rrogar e rraquerer qua nos outrosi qua do dito studo e fructo das scien- 
cias aviamos sear quinhoeiros quizessamos fazar para esto alguma ajuda da rrenda 
perpetua, e dapois dos rrazoamentos que sobrello ouvemos todos acordadamente 



A UNIVERSIDADE SOB A DIGTADURA MONARCHICA 147 

D. Affonso V bem cedo reconheceu qae fòra instrumento de um 
ambicioso traidor, e procaroa^ talvez sob a delicada inflaencia de sua 
mulher, D. Isabel^ filha do Infante D. Pedro^ reparar o attentado em 
qae se achou envolvido. Por Provis&o de 22 de setembro de 1450 dea 



8em contradi^om sentimos e onvemos por bem de outorgar a apropriar e dar ao 
dito stado quanto de direito podemos o padroado da Igreja de Santiago d^almala- 
gaes. O qual padroado e dereito de apresentar pertence a nós e ao prior chantre 
e col^o da Igreja de sam pedro de almedina de concensu e de permeo e assim 
estamoa de posse pacifica sea quasi de apresentar. £ de feito por aquesta prezente 
DOS todos apreciamos e damos ao dito studo o nosso direito do dito padroado e o 
tiramos e demetimos de nós, de tal maneira que quando quer que acontecer de a 
<lita Igreja vagar por morte ou rrenuncia^om d'ai varo paaez que ora d ella he prior 
ao qual nom entendemos por aquesta doa^om e outorgamento fazer algum prejuizo 
que as rrendas todas della que ora ao prior pertencem ficarao e pertencerSo ao 
dito studo e Ihe serSo anexas por virtude desse nosso outorgamento o qual faze- 
moe afora a ter^a que hj ha o cabidoo a qual o dito cabidoo sempre hy bade aver 
em salvo sem algumas custas nem censos salvo em apanbar ou arrenda sua rrenda. 
£ afora esto meesmo tres moios pela velba de pào meado convem saber melo trìgo 
e meio ndlbo ou segunda que a dita egreja de S. Pedro d'almedina ba daver em 
cada bum anno do rreitor da dita Igreja de Santiago segundo que sempre ouve e 
agora ba de alvaro paaez prior e segundo se contem em compromisso e escriptura 
desto que antre as ditas Igrejas ba e t2o bem a dita Igreja de S. Pedro ba de dar 
aa dita Igreja de Santiago em cada bum anno tres meos d azeite por a velba praa 
Uunpeda segando se contem em o dito compromisso, e aquesto outorgamento e doa- 
9om fazemos com as condi^Ses seguintes, convem a saber que das rrendas desta 
Igreja susoditas que ao prior agora pertencem seja reservada e assignada ou ta- 
xada tal parte por o bispo para sustentamento do vigairo e vigairos perpetnoe 
poedóiros em ella per tempus porque bonestamente possSo viver e soportar os car- 
regos da dita Igreja que agora ao dito prior pertencem a aprezenta^io do qnal ou 
dos quaes vigairos para sempre poedóiros seja ou perten^a para sempre a nos e 
ao prior e beneficiados susoditos de S. Pedro de concensu e de permeo assim corno 
nos agora pertence a apresenta^om dos Priores. Item, se porventura acontecesse 
as ditas escolas e studo nom virem a aperfei^slo para que se fazem convem a sa- 
ber de se lerem em elle e aprenderem sciencias artes geralmente segundo se es- 
pera, e segundo se costuma de se lerem em os estudos geeraes ou depois cessasse 
por tempo ou tempos ou se mudasse para outra comarca, ou lugar fora desta ci- 
dade que em tal caso todas e quaaesquer que o dito studo ouvesse daquesta Igreja 
dalmalaguez e Ibe fossi corno dito be unidas, e apricadas que logo ficassem ou fi- 
quem esse facto apricados por aquella meesma guisa aa dita see e a sam pedro 
d almedina para as &bricas e obras dellas segando que a cada pertence o direito 
do padroado e que as ditas see e Igreja de sam pedro da almedina sem outra au- 
toridade Judicial possa aver e filbar por si as ditas rrendas comò cousas devola- 
tas a elles que Ibes pertencem tanto que for certo ou notorio que o dito studo cessa 
de se leer em eli direito canonico e civil ou se mudar comò dito be e que qualquap 
que por for^a ou centra razom e Justi^a estas rendas Ibe torvar ou embargarpor 

10« 



148 HISTORIA DA UNIVERSIDABE DE COIMBRA 

ordem para se estabelecer em Coimbra a nova Universìdadei e que 
cse levantassem oatros Estados nas mesmas casas das Escholas anti- 
gas, junto aos seas pasos, que s^ os do Collegio real, e que està Uni- 
yersidade tìvesse os mesmos privilegioB que a de Lisboa, dedarando 



si cu por ontrém seja maldito e escomangado e sacrilego e pedimos de mercee so 
BOSSO prelado e sr. D. Laiz Coutinho bispo d'està cidade que com estas condi^Ses 
e daosolas tenba pur bem de fazer a dita anexa^om em forma suso dita e aoosta- 
mada e esto meesmo pedimos de mercee ao bem aventnrado papa Eugenio dosso 
sr. que està doa^om e outorgamento e aneza^om que se della farà do complimento 
do seu poderio queira aprovar rratificar e confirmar a peti^om de nos todos seus 
homildosos servidores deam e cabidoo da see de Coimbra e prior e benefidados 
da Igrcja de sam pedro dessa cidade em testemunho das quaaes cousas mandamos 
todoB ser feita està carta seelada dos Boelos da dita Igreja cathedral e da Igrcrja 
de sam pedro, feita em a dita cidade a 24 dias do mez de mayo. Era do nascimento 
de nosso Sr. Jheau zpo de 1446 a.*^* 

^pprovagio e confirmagSo do blspo de Ooimbra 

D. Luis Coutinho por mercee de Deos e da Santa Igreja de rroma bispo de 
Coimbra consirando as couzas e razooes contheudas em a buso dita doa^m se- 
rem verdadeiras e legitimas Inclinado aos justos reqrymentos do suso nomeado 
muy yllustre principe e Sr. Infante dom pedro, e dos padroeiros fazemos a doa^om 
e outorgamento com dezejo esso meesmo que ej do thezouro Incomparavel da sden- 
da ser acrescentado em està ddade e rregnos rratìficamos aprovamos e avemoa 
por boa a dita doa^om e de consentimento e benepladto de nosso Cabido e quanto 
com direito podemos anexamos unimos e ajuntamos as rrendas da dita Igr^a de 
Santiago d ahnalaguez que ao prior ou priores pertenciSo e agora ainda pertencem 
aa Universidade do dito studo com as condi^oes e clausulas contheudas e ezpressas 
em a auso dita carta de doa^m e outorgamento e per outra guisa nom reserranda 
mais e tazando para convinhavel e onesto soportamento do Vigairo ou yigidros 
que por tempo siam em a dita Igreja de Santiago perpetuos e para elles teremde 
que paguem as procura^Ses e confirma9oe8 e suporte todolos encarregos da dita 
egreja de Santiago a que o prior ou priores de direito eram theudos. £ esso mesmo 
a pagar aquelle p2o meado da Igreja de sam pedro segundo o prior ora paga a 
ter^a parte de todo o que rrender a dita Igreja ou renderla ao prior se hj ouvesse 
eomo ha e mais todo pee do aitar. E as outras duas partes da renda fazendo tres 
partes daquello que ao prior pertence fiquem e s^2o unidas e aprìeadas ao studo 
o qual as aja ysentas e livres e as possa mandar arrendar ou apanhar comò sua 
propria Renda. Em testemunho das quaaes cousas mandamos ser feita està Carta 
seelada do nosso seello pendente dada en na ddade de Coimbra a vinte e quatro 
dias do mez die maio era do nascimento de nosso Sur. Jesu zp.* de mil quatro cen* 
tOB quarenta e seis annos. 

(Aeham*se estes documentos no Archivo da Cathedral de Coimbra, gav. 1, 
B. 1, m. 8, n^ 29.) InMuto, voi. m, p. 317 a 819. 



A UNIYER^IDADE SOB A DIGTADURA UOKARCHIGA 149 

que nSo convinha haver n'este Beyao urna so Universidade.i' D. Af- 
fonso y chegou a noinpar o Reitor para a nova Universidadey Mestre 
Alvaro da Motta. No come90 da versSo portugueza da Vida de D. IWo 
e noticia da fundagSo do mosteiro de Santa Cruz de Coimhra citsi-se o 
nome do Mestre Alvaro da Mota, corno o do maior letrado dos Domi* 
nicanoB no meado do secalo xv: cE està obra està em latim no lioro 
dos erdamentos de santa cruz, e foi -torhada em lingoagem, porqae o 
entendesem mait0S| a requerimento de pedre annes prior de podentes, 
irmaSo de afonse anes conigo de Santa craz. — ^E està trelada^m fez 
de latim em lingoagem mestre aluaro da mota da ordem dos prégado* 
rea, o mtdor letrado da ordem, estando em santa cruz com o prior dom 
^mes no anno de LV no mes de nouembro.»' Fez-se um silencio abso- 
luto sobre o cumprimento da ProvisSo de 22 de setembro de 1450; nSo 
>chegou a organisar-se.a Universidade projectada pelo Infante D. Fe- 
dro em 1446, decretada por D. Affonso v depoìs da sua morte, e corno 
que em sua homenagem. A inflaencia benigna da rainba D. Isabel ces- 
sou pela morte d'ella, envenenada, segando a phrase incisiva de Ray 
de Fina, qae esteve sempre ao lado do espirito vingador de D. JoSo n. 
A fdndag&o de Collegios janto das Universidades é am facto ca- 
racteristico desde o principio do secalo xiv, sobretado em Faris, comò se 
Té invocado pelo testemanho do Infante D. Fedro. O Dr. Mangancha 
comprehendeu o espirito do sea tempo, attendendo aos estudantes po^ 
bresj a qaem jà acadira D. JoSo i fazendo-os contribuir com a quarta 
parte do qae os outros pagavam para o salario dos lentes. O Collegio 
de Arras, (1302-1332) fora fandado exdnsivamente para os estadantes 
pobres d'aquella localidade que iam frequentar a Universidade. de Pa- 
ris; Collegio do pateo Chardonnet, ji dispunha de cem bolsas para 
dota(Ao de alumnos; o Collegio de Navarra é dotado pela rainha ma- 
Iber de Philippe o Bello, com vinte bolsas para o estudo da G-ram- 
matica, trinta para a Dialectica e vinte para a frequencia da Theologia. 
Estes Collegios constituem-se pelo seu desenvolvimento crescente em 
centros de ensino dementar, comò o typo primario dos Gjmnasios al- 
lemAes oa dos Ljceus portoguezes. Victor Le Clerc enumera a longa 
lista dos Collegios fandados jonto da Universidade de Paris, destacan- 



1 BrandSo, Monarch. Lus.^ P. t, Liv. xvi, cap. 73. Na carta de 22 de setem- 
bro, dada em Cintra em 1450, ordena qae para os salarios dos lentes sejam pagos 
pelo almozarifado de Coimbra treze mil reaes brancos aos qaartds, desde o pri- 
mdio de outubro do aimo segointe. 

* Portvgaliae Monvmenta historioa, Scrìptores, voi. i, p. 75. 



150 HISTORIA DA UNrVERSIDADE DE COIMBRA 

do-se das escholas episcopaes^ das ordens monachaes e das na^Ses 
estraDgeiraSy de que se acha vestigios em 1392. As ordem mendicantes 
assaltavam estes CoUegios pelo seu parasitismo evasgelico; e porisBO 
destinavam-Be elleB especìalmente aos pobres seculares, taeB corno os 
' escholares pobres da Sorbona, ob mogos pobres de S. Thomaz e do 
Louvre, e em Lisboa ob Estudantes pobres de S. Nicoldo; Le Clero cita 
coBtuine da eleÌ9So do Reitor, em dia de S. Jvliào o póbre. ' 

Dava-BO nas Escholas medievaes o nome de Collectum & contrì- 
boifSo ou honorario do alnmno ao lente ou mostre de quem recebia as 
ligSes; este uso^ conservado nas Universidades^ explica a sua origem, 
por que as Universidades surgiram por iniciativa particular; e sob o 
poder realy era por causa do Collectum que se coptractava para o ma- 
gisterio OS homens de mais saber e nomeada, agrupando-se em volta 
da Bua cathedra os estudantes de todas as n&^^Sy augmentando pelo 
seu numero este subsidio. Por urna Carta de 6 de fevereiro de 1392 
de D. JoSo I ao Reitor da Universidade, sabe-se que «havia todos os 
annoB diecordiàs entro os lentes de Leis e Decretaes e os escholares 
por cauBa das talhas, que estes pagavam.»^ O rei ordenou ent2k>^ 
que OS mais ricos pagassem 40 libras, e os outros meoros 20 libras, e 
08 mais pobres, 10 libras. Estas questSes repetiam-se com frequencia^ 
a ponto de em 7 de dezembro de 1415 se fazer um instrumento csobre 
a contenda entro bedel e escolares por causa da colheita. . . que em 
cada anno se Ihe pagava. . . prefos certos. . . a fora alguns nobres que 
pagassem Bogimdo suas pessoas.i ' Este instrumento foi cfeito na es- 
chela das leis^ presentes os dìscretos sages varSes Rodrigo Anes, Prior 
de S. Pedro de Alèmquer, e JoSo Alpoem reitores^ e Jofto Loiiren^o 
licencìado em leis lente ncestudo; FemSo AIvarcB lente de canones, 
FemSo Martim licenciado lente de fisica, Qon{alo Anes meBtre de lo- 
gica, 6on9alo Domingues mostre em grammatica, Christovam Lopes 
e Jo8o Gonfalves conselheiros na Eschola das Leis, e mais deus con- 
selheiros por cada escola (fisica e canones, logica e granmiatica).t 
N2o obstante estas re8olu98eB repetiram-se as questSes centre o mos- 
tre de grammatica e os escolares pela collectait a qual variava segundo 
eram tescolares de partes e escolares de regras;^ a obriga98o de pa- 
garem coUedum aos mestres estendia^se tambem aos cmo90s familiares 
doB escolares que os servem, quando tambem ouviam de regras e de 



» Éiat de» Letires au XIV nleie, t. x, p. 270. 
* lÀvro verde fl. 68. 
3 Ibidem, fl. 70, f. 



A DNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 151 

autores mendos, salvo se forem as escolas publicas.» ^ Em uina Carta 
pafisada em 1412, estabelece-se «para que os escolares de logica, por 
ser pequeno o salario do mostre, paguem per annua coUecta, 20 reaes.» ' 
Os escolares de partes, a Secunda secundae ou a Summa de Sam Thomaz, 
e OS de Regras, e de CatSoy Donato e Prisciano, formavam duas classes 
rìvaes entro si, corno o confessa FemSo de Oliveira alludindo às zom- 
barias entro os Summulistas e os Rhetoricos ^. Na fixa9llo do collectum, 
era attendida a circmnstancia da pobreza do escolar, em todas as Uni- 
Yorsidades europèas. 

O estudante póbre formava uma classe na Edade mèdia; elle pedia 
esmola para acudir às necessidades da vida e despezas escolares. Tho- 
maz Platter (1499-1582) descreve assim a sua situajSo de estudante: 
«tendo adiantado o nosso caminho até Strasburgo, nós encontràmos 
n'aquella cidade um grande numero de estudantes pobfes e uma muito 
mi eschola. Isto nos fez resolver a partir para Schlestadt. No caminho 
nm sujeito nos desanimou, dizendo que em Schlestadt havia uma grande 
quantidade de estudantes pobres e poucos ricos. meu companheiro 
poz-se a chorar e perguntou-me o que deviamos fazer. Vamos para 
Schlestadt, disse-lhé eu, porque li temos . urna boa eschola, e se um 
estudante pode ali viver, eu te prometto de nos sustentarmos a nós 
dois, por que ninguem conhece melhor do que eu o officio de mendigo. 
Achàmos quartel em casa de um cego, e depois fomos ter com o ma- 
gister, o celebre JoSo Sapidus.» No seculo xiv tinhamos tambem os es- 
tudantes pobres, e ainda no seculo XVi os estudantes honrados pobres. 

Quicherat, na Historia do Collegio de Santa Barbara, descreve 
està classe dos estudantes pobres ou Martinets: e Formavam os Mar- 
tinets està populagSo de escholares sem mealha, muitas vezes sem pou- 
sada, que perpetuavam a imagem da barbarie no scio de uma socie- 
dade policiada. Contavam entro si individuos dignos de consideraySo, 
mesmo de admira9So; rapazes que tinham podido apaixonar-se pelo 
estudo no meio da abjec9&o em que tinham nascido. Vinham adquirir 
a Bciencia à custa de todos os transes da miseria, vivendo de esmolas 
ou do modico salario que elles ganhavam entregando-se aos mais vis 
servifos. Porém, em volta d'elles agitavam-se os turbulentos, incapazes 
de teda a assiduidade, inìmigos de toda a disciplina, frequentadores de 



* « Livro Verde^ fl. 73. 
» Ibid., fl. 9. 

' No processo de Sanches (Brocense) pela Inquisi^io em 1584, ainda se i»- 
Biste n'este caracter : «mordaz corno lo son todolos gramattcos, . • > 



152 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

collegios e tambem de tabemas, que se encontravam inevìtayelmente 
noB motinsy e muitas vezes em bandos entregaes is maig calpaveis 
industrias. A Universidade vexaya-se de ter de reclamar em conse- 
quencia das capturas que fazia a policia; ella estatoia que n§o admit- 
tiria aos gràos os alamnos que nSlo fossem munidos de um certificado 
que attestasse que tinham passado o tempo dos seus estudos em um 
CoUegiOi em uma pedagogia ou em casa de algum honrado burgues 
da cidade; prohibÌ9So aos professores de receberem martinets nas suaa 
classes, e aos bedeis da faculdade de os levar a exaiùe.» ^ A impor- 
tancia que os Collegios receberam do meado do seculo xv em diante 
pode attribuir- se aos regulamentos a que foram submettidos os Marti- 
nets, OS Goliardos da tradi(fto medieval. 

Na Peninsula os Estudantes pobres seguiam às vezes a vida men- 
dicante, cantando de terra em terra, comò se ve pelas coplas escriptas 
pelo Arcipreste de Hita.* 



1 But. du CoUege de Sainte Barbe, t i, p. 22. nome de MarUnet vem do 
culto grotesco que prestavam a 3* Martinho, celebrado nos cantos latinos dos es- 
cbolares, corno se ve nas coIlec95e8 de Du Méril. 

2 Arcipreste de Hita, cujas poesias foram traduzidas em portoguez e se 
guardaram na Livraria do rei D. Duarte, refere os differentes cantares que com« 
poz para os estudantes noctumi grasèoiorea e pedintes : 

CantMres fts «Iganoi de lot que dUen lot ciegoi. 
Et p»r» tieolam que and»n nocherniegos, 
là para muebot ontroe por puertas andariegoa. 

(y. 1488 e Mg.> 

Urna amostra d^estes cantares, traz a rubrìca : De uomo loe Ewolares deman-' 

danpor Dioa: 

Sefiorei, dat al BMOlar, 
Qve Toi bton demandar, 
Dat limoma, ó raclon, 
Fare por roe oraelon, 
Qae Dloe toa de lalTaoion, 
Qoered por Dios à mi dar. 

£1 bien quo por Dloe fealerdei, 
La limoina qne por el dierdet, 
Qaando deste mondo eallerdes 
Etto yof habra de ayndar. 
Quando a Dlos dierdee enenta 
De lot algoe, et de la renta, 
BMoianroe ha de afmenta 
La Umoina por él far. 

Por una raoion que dedes, 
Voe eiento de Dioe tomedei, 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 153 

Eram estes clerigos ou escholares vagabundos^ a quem o povo 
hespanhol chamava os SopiaUu, e em Franga Martineta; o costume das 
vacagSes mendicantes conservou-se na Hespanha até ao primeiro quar- 
tel d'este seculo, em que algons Ttmos chegavam até Portugal trazendo 
oosidos no chapéo om garfo e ama colh'ér corno insignias da classe. Kas 
Poesias de Alvaro de Brito^ da coUeog^o de Garcia de Resende, allu- 
de-se tambem a està classe : 

Eatudantea prégadores 
metem santas eecripturas 

em sermoes, 
derìvados em amores, 
fazem de falsas figaras 

tenta^oes. 

Quando virem tal caminho 
da ma préga^ào se afastem, 

OS qaa onvem ; 
dem-lhe todos de fodnho, 
taaes metaforas contrastem 

e deslouvem. ^ 



Et eu paraiio entredea, 
Ansi Io qaiara él mandar ; 
Oatad qae el bien famr 
Nunoa ae hade perder, 
Podervoe ha eatorccr 
Dol Inflemo mal Ingar. 



SI Seftor de paraiao 
Ohriatna que tanto noa qnlao, 
^ Que por noi mnerte priao, 

Hat&ronlo Jodlóa. 
Mario naeatro Sefior, « 
Por aer nneatro Salvador 
Dadnoi por él au amor. 
Si él aalye i todoa noa. 

AoordatToa de an eatorla, 
Dar por Dloe en an memoria, 
Si él Toa de la aa gloria, 
Dad limoana por Dloa. 
Agora enqnanto rivierdea 
Por an amor aiempre dedea 
Et con eato eacaparedea 
Del inflemo é de au toa. 

{CoUeodon d^ Poeaias castdlanas, de Sanchez (ed. Ochoa), p. 516.) 
1 Cane, de Beaende, 1. 1, p. 189. 



154 *H1ST0RIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

Sobre estes estudantes prégadores, a que allude o poeta palaciano, 
acham-se preciosas referencias nas constituijSes e synodoB episcopaes 
desde o secalo xiii, por onde se ve que estavam constituidos em mna 
classe mendicante, qué frequentava as tavemas e parodiava os ritos e 
prédicas ecclesiasticas. No Sexto, ou as novas Decretaes de Bonifa- 
cio vm, condeninam-se os joadatoresj goliardi seu bufones; o concilio 
de Colonia de 1301 prohibiu-lhes prégarem nas pra9as publicas, onde 
atacavam a simonia de Roma parodiando o Evangelho secundum Mar- 
cas argenti, e vendendo indulgencias pelas portas, ou cantando canyOes 
latinas dissolutas no gesto das pastorellas populares, durante a missa. 
Um dos estatutos do concilio de Treves de 1227 prohibia aos escho- 
lares vagabundos e aos goliardos cantarem versos na missa depois do 
Sanctus e do Agnus. ^ Nas Ordena95es Affonsinas ha um ataque centra 
està Familia Goliae, formada entro estudantes de todas as Universi- 
dades: cTodo o clerìguo jo^rraZ^ que tem por officio tanger, e per elle 
Boporta a major parte da sua vida, ou publicamente tanger por prefo 
que Ibe dem em algumas festas, que nSo sam principalmente ecclesias- 
ticas e servijo de Deos; e o tregeitador^ e qualquer outro, que por di- 
nheiro por sy faz ajuntamento do povo ; e o Goliardo, que ha em cos- 
tume almo9ar, jantar, merendar ou beber na taverna; e bem assy o 
bufam, que por as pragas da villa ou legar traz almareo ou arqueta 
ao collo com tenda de margaria pera vender; taes comò estes, e cada 
huu delleS; usando os ditos officios ou costumes dos ordenados, corno 
dito he, per hu anno acabado, ou sondo amoestado por seus prelados, 
vigarios e reitores de suas freguezias por tres amoeBta9oes, e n2Lo lei- 
xando os ditos officios e maos costumes, passado o termo das tres 
amoesta98es, ainda que seja mais pequeno tempo que o dito anno, por 
esse mesmo effeito perderà de todo o privilegio dericcd, assi nas pessoas 
comò nas cousas, e sito feitos em todo o caso da jurìsdic9So secular.»' 
Os cantos dos goliardos constitùiram um genero litterario intermedio 
ao povo e aos eruditos; ^ alguns dos themas poeticos, que affectavam a 



1 Hiatùirt liUeraire de la France^ t xxn, p. 154. 

' Ord. Aff<m»,f liv. ni, tit 15, § 18. Adiante fallaremos de urna comedia de 
Golias, representada em Coimbra no meado do seculo xvi. 

' TranficreyemoB algumas estrophes do genero, de um mss. do secalo xt : 

Mmun «t propotltimi in toberaa mori, 
et Ttanin appotltom aiUenti ori, 
ut dieant cam yenerint angelornm chori : 
Dona alt propltloa iati potatori. 



A UNIYERSIDÀDE SOB A DICTADURA MONARCHICA 1 55 

fónna scholastica do prò et cantra, chegaram até nós elaborados nas 
tradi98ea populares^ tal comò o Dialogus inter Aquam et Vinum^ do 
goliardo Gantier Map. ' A este genero de cantares^ a que na velha 
poetica proveii9al e franceza se dava o nome de tenson e dispotoison, 
lìgavam-se outros ihemas^ comò a disputa entrò a Alma e o Corpo^ 
entro o Bei e o Papa, entro o CorajSo e os Olhos, em que a paìxSo 
da dialectica servia a ezpansSo do genio satirico. A ora$So do Qui- 
cumque vult, usada em todas as escholas da Edade mèdia cahiu tambem 
na parodia dos goliardos applicada às virtudes do vinho. ' 

Na Edade mèdia ji se distinguià as duas fórmas de educa9lLo — 
a que se dava aos clerigos, e a que constava de exercicios corporaes 
peculiar dos jovens fidalgos. ^ Em Portugal satisfez-se estas duas ne- 
cessidades por meio dos CoIIegios para os entudantea pohres, corno o 
do dr. Mangancha, e mandando frequentar as escolas de Italia aos fi- 
Ihos da nobreza, comò vemos pelas cartas de Angelo Policiano dando 
conta dos estudos dos filhos do chanceller JoSo Teixeira. 



Fertar in onnTlYiam ylniii, Tina, vlnum ; 
mascollnam dliplicet, at qae femeninum, 
•ed in neutro genere Tìnum e>t diylnum, 
loqni faicit aoeios optimum latlnnm. 

(Ap. DvL Méril, Foéjnes populaires IcUines du Moyen-Age, p. 206.) 

1 Leite de Yasconcellos, no Annuario das Tradiqòta populares portugueaaa, 

p. 44, traz nm peqneno estudo comparativo de Un débat chanté entre o Vinho e a 

Agua, popnlar em Yorey e em Marlhes-en-Forez, e lunas cantigas de cego, de urna 

foiba volante do Porto, por onde se ve a persistencia d^èete tbema vulgarìsado pe- 

los goliardoB desde o secnlo zni. 

' Transcrevemoe das Poésies jpoptdaires IcUinea du Moyen^Agt^ p. 202, o se- 
guìnte canto: 

Qoiqnmque vnlt eaae frater 
bibat blf, ter et qnaterl 
Bibat temei et secnndo, 
doneo nihll alt in fnndol 
Bibat hera, bibat hemf , 
ad bibendam nemo serual 
Bibat Ute^ bibat illa, 
bibat tarroM eum anelila I 
£t prò Beiro et prò Papa: 
bibe Tinom line aqnal 
Et prò Papa et prò Bege 
bibe Tlnam tine lego. 
Haec una est lez baccble*, 
bibe&tinm ipet nnica. 

3 H. André, No8 MaUre» kier, p. 100. 



156 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIBIBRA 

Para que se coiihe9a perfeitamente a organisay&o de um Collegio 
de estudantes pohrea, transcrevemos em seguida as principaes dispo- 
sijSes do testamento do dr. Mangancha, datado de 1447 : cdedaro que 
Brranqaa Annes em seu testamento me leixou seus beens, com condì- 
9om que eu ffezesse* ho que ella comigo ffalara : ho qae ella commigo, 
eu com ella ffalamos e acordamos asy he, que todos nossos beens ffoa- 
sem estatuidos e hordenados pera hum Colegio, ffeito nas nossas Como» 
de morada da beira de Ssam Jorge^ em nas quaea se recebessem desi Es* 
colare» provea de todo, e quatro servidores, sem numqoa ter azemellai 
nem besta, avendo pela renda dos ditos beens duas tavolas ao dia, sem 
outra consooada, nem cama, nem ali, que nom ffor veguilia, e quando 
a ffor, huma tavola, e a nojte consooada; e que os mena liuros sepase^ 
sem em huma Livraria per cadeas, dentro das ditas cassas: e que todos 
08 dias que nom lerem diga hum Capellam dos dez Missa na dieta Ca- 
pella, e todolos outros Escolares estem a ella e a officiem se ssonhe- 
rem e horem por nossas almas. . . Porem eu asj ho mando, convem a 
saber, que nas dictas cassas se hordenem dez cameras, e em ellas se 
armem dez leitos de madeira, e dez estudos, affora a salla e cozinha 
e despensa e adega, e celeifo pera pam e azeite, e a cassa pera dor- 
mirem os servidores: a estrebaria se alugue: E hy sejam rejebidos a 
primeira vez dez Escolares jaa Grammaticos, e passantes dez e seis 
annos; pero se forem Sa9ardotes, aìnda que nom sejam Grammaticos, 
e aprendam Grammatica, recebam>nos por enli^om, sem ffingìto d'Oni- 
versidade e de Maria Dias, sem Rey nem Arcebispo, nem outro pode- 
roso: e d'esses dez seja hum Reitor do Collegio, e receba teda a renda 
per ho mordomo, e per ho escrivfto, que seja houtro dos dez, e lego 
ho fa9am ssaber aos oyto, que escrepvam tambem: a primeira vaca- 
9om de cada mez de conta a todos, e nas outras vezes ho Collegio 
enleja hum, e a Oniversidade outro, sempre alternando, e sem ffrugi- 
tos, e rogos, os quaes se se provarem a enlÌ9om nom vaiha: e quando 
algum ouver de ser rcQebido primeiro traga a cama sua, em que oti- 
ver de dormir, e a leve quando se ffor; pero leize a melhor pe9a que 
tever pera ho Colegio: e se hj morrer, ho Collegio Ihe ffa9a a des- 
pessa da doensa e do enterramento, e aja pera si quanto hy tever seu: 
e ainda ante que seja recebido jure cumprir sempre ordena95es e boons 
costumes do Collegio, e sempre Ihe seer ffavoravel, e proveitoso, a 
qualquer estado que venha, e que per sua morte leixe alguma coussa 
ao Collegio : E cada Escollar come9ante Gramatica, e per conseguinte 
nas outras Ciencias, possa estar dez ajinos e ho que ja ffor gramatico 
sete, e ho que leixa a Logica cinque, e mais nom : e se algum se lan- 



A UNIVBRSIDADE SOB A DIGT ADURA MONARCHICA i 57 

(ar a ffolgar, sem continuar o estudo^ à vista da Oniversidade e Cole- 
gio, seja Ian9ado fora delle, sem nnmqua jamais tornar: e ho qae ffor 
Doutor ou Mestre; ainda que sen tempo nom seja acabado, vase dy a 
cinque messees. Nesse Colegio nunqua possam seer re9ebidos ricus, 
barrigueiroB; taffuys, bevedos, Tolteirus, guagos, nem doutros maus cos- 
tumes; peitudos e de narizea tortos, bochechudos, que teem rossmani- 
nhos nos rostos, ainda que sejam boons. Ho mantimento seja per està 
guiza: no alqueire de pam se ffagam vinte ra93es de poo de teda ffari- 
nha, e nunqua mais, e i messa se popha a cada bum, quer seja mo90; 
quer homem, huma ra^om, e nunqua mais, e ho que ssobegar a hums 
possam corner os outros, a quem minguar, nem guarde algum ho que 
Ihe ssobegar: mas ho mordomo apanhe o derradeiro todo, e leve à dis» 
pensa, e semelhante sse ffa9a do vinho, que a cada bum ponham em 
Bua pinta, ffeìta per està medida, mea Canada de vinho meado de agua: 
da pytan9a, asy carne, corno pescado, a despessa se ffa9a per tal guissa, 
que nunqua passe vinte reis cada dia, e se reparta per higual a grande, 
e a pequeno. Escolar e servidor. Ho assentamento da messa seja corno 
cada bum vier, ssalvo que o Reitor tenha sempre a cabe9eira, e diguase 
ora9om*hordenada à entrada, e ssayda, com commemora9am de nossas 
aUmas: e ho Colegio proveeraa de messas, banquos, cadeiras, mantees, 
pratees, escudellas, ssalvynhas, talhas, e panellas, espetos, grrelhas, 
cuitelos de cozinha, e todos outros atavios communs. Os servidores 
Bsom estes, bum que seja Moordomo, e tenha as chaves dadega, e pam, 
e vinho, e carne, e lenha, e de todas as outras coussas, as quaaes prò- 
veera per mandado do Reitor aos do Colegio, e albur nunqua, re9e- 
bendo-as, e destribuindo-as per escrìpto; outro servidor seja o Com- 
prador e Cozinheiro ; outro levador, acarregador da agua, e varredor, 
e levador das 9uguidades à ribeira comuys, e particulares : e estes to- 
mem per ssoldada, pero se alguns quigerem bem servir per trez annos, 
Bsem ssoldada, possam di endiante ser espeitantes na primeira vagua 
de Sscollar, se nelles cabee, comò m'sso dicto he. E outros espeitantes 
nunqua possam seer ffeifcos per Papas, nem Rey, nem Oniversidade, 
nem Colegio, nem per outra qualquer guisa que seja. Quando conten- 
derem os de meu divido, ou os de Brranqua Annes, ou os de Maria 
Diaz, minha segunda molher, com outros, estes precedam, e antro sy 
estem a emlÌ9on, sse nelles cabe, comò dicto he. Pero Rui de Valldeesi 
meu filho naturai, possa ser no dicto Collegio, com seu Ayoo, aambos 
em huma Camara, sete annos, re9ebendo ambos ra9om do dicto Colle- 
gio, e camaa, e candeas, e de suas moradeas, e beens, se vestam e 
cal9em eie., e o al se Ihe ponha em deposyto, e com esses dous nom 



158 mSTORIA DA UNIVERSIDADG DE GOIMBRA 

pasem dez Escolares. E todo o que ssobegar cada anna das rendas deste 
Colegio 86 ponha em deposyto per scrìpto, per rrepartimento das cassasi 
e guarnimento dellas, e das posissoees e cassas dellas, e se tanto ere- 
96r deposito do Collegio, pera comprar posyssoes, e acre^entar Ea- 
coUares. Os Beitores da Oniversidade possam tornar a conta ao Cole- 
gioy e constrangeer o Reitor delle, que comprem bem, e fulmine as 
posissoSes, e acre9ente nos Escolares, corno susso dicto he.» etc. ' 

Às Faculdades das Artes, corno o affirma Hamilton, o celebre pro- 
fessor de Logica da Universidade de Edimburg, foram a base primeira 
das antigas Universidades da Europa;' desde porém, que as Universi- 
dades subsistiram por urna vida propria,^ as Faculdades das Artes ou se 
destacaram constituindo o ensino dementar, ou se tomaram subalter- 
nas das Universidades sob o nome de Collegios. Halmiton descreve 
està instituigSLo pedagogica, de modo que nos ajuda a comprehender o 
caQO do Collegio do Dr. Mangancha: cO estabelecimento dos CoUegios 
foi determinado, nas mais antigas Universidades, pela agglomera9So 
excessiva de estudantes que ahi affluiam de todas as partes da Europa. 
Està affluencia era grande' sobretudo em Paris, «m Bolonha, em Pa- 
lermo durante os seculos xii e xin. Ella occasionou n'esta cidade a 
raridade das habitajSes, e consequentemente o augmento dos alugue- 
res. Os estudantes pobresy e d'estes era o grande numero, achavam-se 
na mais triste situa9So. Pessoas caridosas querendo p8r cobro a este 
grande inconveniente, nSo acharam outro meio senSlo arranjar casas 
para agasalhar um certo numero de estudantes durante o tempo dos 
seus estudos, e preserval-os assim tambem do contacto dos costumes 
corruptos do tempo dando-lhes inspectores. Estes primeiros estabele- 
cimentos foram imitados dos hospicios (HospUia) que as ordens reli- 



1 Ap. Diss, chronolofficoB de J. Pedro Bibeiro, t. n, p. 252. Dee. n.<^ xvi, com 
data de 4 de Janeiro de 14i8. Thomaz Platter (1499-1582) descreve este caracter 
dos estudos do seu tempo: cNesta epoca as escbolas eram poucas e m&s. N&oha- 
via livros impressos, e era preciso escrever sob o dictado do mestre o que se pre- 
tendia saber dos auctoree.» Como se ve, o mostre era, ainda depois da descoberta 
da Imprensa um lenttn Nas escbolas da Edade mèdia os estudantes mais novps 
eram cbamados Cagadores e esta^am sob a protec^&o dos mais velbos, que eram 
denominados BacchanUs; estes ensinavam-Ihes os primeiros rudimentos, e os Ca^a- 
dores tiravam esmolik para prover ao sostento dos Bacchantes. Na Universidade 
de Coimbra ainda ba a tradi^So do Veterano, o estudante que protege o NovcUo, 
e a pbrase Andar à lébre é um vestigio do antigo costume de procurar sustento 
à custa de alguem. 

* Fragments de Philotophie^ trad. de Peisse, p. 274. 



A UNIVERSIDADE SOB A DIGTADURA MONARGHIGA 159 

giosas conservavam nas cidades de Universidade, para os seus mem- 
bro8 qae ali residiam comò mestres ou corno escholares. Juntou-se de- 
pois à moradia o sustento. Com a in3pec9So moral, havìa tambem urna 
disciplina litteraria, mas sempre sabordinada aos estudos publicos. Os 
membros d'estas pobres communidades ali achavam livros^ qua nSo po- 
diam entSo ser adqairidos a nSo ser pelos ricos. 

cFoi d'estes primeiros estabelecimentos que sahiram os CoIIegios 
annexos às diversas Universidades da Earopa. Em Paris adquiriram 
depressa urna alta importancia. Os seas regentes eram algumas vezes 
nomeadosy sempre subordinados e dirigidos, e exclusivamente destitui- 
dos pela Facaldade a que pertenciam. As liySes dos CoIIegios foram 
muitas vezes assemelhadas às que se davam nas escholas publicas da 
Universidade^; formavam tambem outras tautas pequenas Universida- 
des ou fragmentos de Universidade. Foi no curso do seculo XY que se 
operou em Paris està uniSo intima dos CoIIegios e da Universidade. 
As grandes Faculdades de Theologia e das Artes tomaram-se exclu- 
sivamente coUegiaes, e a Faculdade de Theologia de Paris acabou por 
se absorver inteiramente na Sorbo nna.» ' 

Nos estudos portuguezes o Collegio fundado pelo dr. Manganella 
corresponde ao phenomeno da protecgSo dada por particulares aos estu- 
danfes pobres; porém o caracter dos Hospitia das ordens monachaes 
é que vem a prevalecer no nosso systema pedagogico^ comò se ve pe- 
las Escholas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. N'este mosteiro, 
OS CoIIegios eram tres; dois d'elles eram verdadeiramente fragmentos 
de Universidade, e o outro consistia em uma simples Faculdade de 
Artes. O primeiro Collegio de Santa Cruz tinha cadeiras de Theologia 
especulafiva, de Morale de Escriptura sagrada e de Canones; o segundo 
Collegio conhecido pelo titulo de S. JoSo Baptista, ensinava as Leis, 
a Medicina e a Mathematica; o terceiro Collegio de titulo de Todos os 
Santos, ou dos esiudarUes honrados pobres, tinha as cadeiras de Artes, 
Eketorica, Grammatica grega e hebraica. ' Com o tempo estes CoIIegios 
foram incorporados na Universidade de Coimbra; depois que a Uni- 
versidade se fixon definitivamente em Coimbra depois de 1537, todas 
as ordens religiosas estabeleceram CoIIegios n'aquella cidade. 

Os CoIIegios tomavam-se uma necessìdade nSo s6 para os estu- 
dantes pobres, comò para concentral-os em corpora95es que os disci- 



1 Halmiton, op. eU.f p. 277. 
'^ D. Nicolào de Santa Maria, Chr. dos Conegos Begr.^ t. ii, 300. 



160 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE GOIMBRA 

plinassem na sua turbolencia. Em Portugal os ColIegioB ficaram inteira- 
mente absorvidos pelas ordens monasticas, sendo para alli qae a aria- 
tocraoia portogueza mandava ob seus filhos, pela eonfus&o que ainda 
hoje persiste entre a educa^So e a instraC9fto. Os Collegios de Santa 
Cruz de Coimbra^ onde o de Todos os Santos era para os esiudanteg 
honrados pobres, é que primeiro se ligaram A vida da Universidade 
quando foi transferìda para Coimbra. Até à extinc^So das ordens mo- 
nachaes em Portugal em 1834^ os Collegios ou a in8truc9So secundaria 
fez-se sempre nos mosteiros; a educaf&o de Alexandre Herculano foi 
ainda no Collegio do Espirito Santo dos padres das Necessidades, ou 
da Congregasse do Oratorio. O facto goral explica-se pela supremacia 
que a Theologia veiu a ter na Universidade, onde ainda hoje conserva 
a precedencia honorìfica a todas as outras Faculdades. ^ 

A interven^So do Infante D. Henrique nos negodos da Univer- 
sidade de Lisboa deu em consequencia ficar a sua administrasSo en- 
tregue ao Mestrado de Christo, para o pagamento do salario do pro- 
fessor de Theologia. O Mestrado foi incorporado no rei. 

No testamento do Infante D. Henrique, de 13 de outubro de 1460, 
acha-se confirmada a dotaySo da cadeira de Theologia: dtem ordeno 
e mando q o lente da theologia da catedra de prima, aja em cada hum 
anno pera sempre doze marcos de prata, por a primeira renda dos di- 
zimos que a ordem de christos ha na Uba da Madeira, pelle qual farà 
o principio no estudo, e dira certas missas e pregaySes segundo faz de- 
clara^om na carta minha que Ihe dolo leixo. E osto em renenbran$a 
da doa9om que Ihe fiz das casas em que estaa o dito estudo.»^ Està 
pensfto foi aoceite por bulla de Sixto iv, em 1472, entfto jà convertida 
em doze talentos. 

A phrase /ard o principio no estudo, quer dizer, que encarregava 
lente de Theologia de fazer o discurso inaugurai ou Ora/fSo de Sor 
piencia, que no seculo seguinte é desempenhada pelos Mestres de Ar- 
tes. Na Carta de 22 de setembro de 1460, a que allude o testamento, 



1 Por bulla do Papa NicoUo t, de 26 de junho de 14&8, a cadeira de Theo- 
logia dos Franoiscanos, de Lisboa, é inoorporada na UniTersidade, podendo n*Qlla 
gaardar-se os seus rùtores e mestres. Na Universidade de Salamanca as cathedras 
de Theologia sé foram institoidas no fim do seculo xiy; concedeu-as Benedicto xm, 
para n'ellas se estadarem as doutrinas thomistas e scotistas. 

^ EUite testamento foi pela primeira ves publicado pelo marques de Sousa 
Holstein, no seu estudo A Eachola de 8agre»y de p. 81 a 86, extrahido de um ms. 
da BibL nac 



A UNIVERSipADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 161 

eetabelece tambem o primoiro Prestito da Universidade em honra da 
sua pesBoa: cPor ende eu mando, e ordenO| rogo, e encomendo todolos 
Mestrea e Govemadores, que depois de mim a està Ordem veerem, 
qae por a primeira renda dos dizimos, que a dita Ordem ha na minha 
liha da Madeira para sempre em cada hum anno por dia do Natal 
mandem dar,' e dem ao Lente da Theologia da Cadeira de Prima no 
eatado da Cidade de Lisboa doze marcos de prata, polos quaes os Len- 
tea que a dita Cadeira teverem, hSo de fazer estas cousas a suso escrì- 
tas: Prìmeiramente farSm o principio do eatiido. E ante que a elle en- 
trem, depois que esteverem na cadeira, lerà altamente, qùe o ou9fto os 
que arredor esteverem, a^carta que eu dei ao dito estudo da paga des- 
tes doze marcos de prata. — E tambem sera theudo ir à Santa Maria 
da Gra9a, que é no mosteiro de Santo Àgostinho da dita cidade, por 
dia de Santa Maria da Ànnuncia^om, que ha a vinte e cince dias de 
marfo, e hi dird missa cantada e prega9om. E em oste dia devem ir 
sempre em cada hum anno com elle os Bectores, Conselheiros, Lentes, 
a todolos outros escolares do dito estudo em sua ordenaki$a, segundo 
costume ao dito mosteiro, por encomendar minha alma a Deos em re- 
membranga da doa9om que Ihe fiz das casas em que està o dito es- 
todo.» ^ Este encargo cumpria-se Suo prestito juramento, e d'aqui veiu 
o conyerter-se a fòrmula em designa92Lo do acto praticado por toda a 
Universidade, quando ia em Prestito a Santa Maria da Graya. 

E para notar que o Infante D. Henrique se preoccupo no seu tes- 
tamento das varias capellas que institue, com missas por sua alma e 
proclamaffto solemne dos beneficios que fez à Universidade dando-lhe 
casa, e nSo se refira às emprezas de descobertas maritimas, com que 
o glorificam. Em vez de dotar ou salariar uma cadeira de Cosmogra- 
phia ou Nautica, subsidia uma cadeira de Theologia, jà esistente, a 
de prima, que era salariada. Muito antes de 1460, tinham os Fran- 
cis oanos obtido do papa Nicolào v concessSo para incorporarem na 
Universidade a sua cadeira de Theologia, e poderem n'olia receber o 
gràiO de Mestres; seria uma cadeira pequena ou cathedrilha, porque 
a nova cadeira instituida por D. Manuel foi denominada de vespera.^ 

Durante o seculo xv a Universidade de Lisboa, dotada pelos reditos 



1 Braiid2o, Monarek. lusit, P. y, Append. Escrìpt. zxvi. 

* Ab cathedras grandes eram denominadas de Prima^ Veapera, Terga e iVba, 
seg^oindo a mesma divisào das horas canonicas applicadas nos estudos* Jonto das 
cadeiras grandes fimccionavam tambem as cathedrilhas, que eram temporarìas. 

BIST. mr. 11 



162 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

de doze egrejas parochiaes, e com a incorporasse doa rendimentoa de 
casas^ egrejas, terras, pinhaes, e garantidòs os seus lentes com a apo- 
sentas^o por impossibilidade physìca com dois teryos de ordenado, ar* 
rasta urna existencia obscura, indo a principai aristocracia portogaeaa 
frequentar as escholas de Santa Cruz de Ooimbra ou os philologos de 
Italia e de Paris. 

O conflicto entre o poder papal e o poder real no ensino publioo 
europea revela-se, além do interesse das dotagSes e do edpirito da 
doutrina pedagogica, na propria organisasSo economica escolar. Existe 
urna distinc$So radicai entre os titulos de Estudo geral e de Dhiver- 
sidade empregados simultaneamente nos documentos historìcos; a desi- 
gnafSo de Univeraidade era mais sympathica aos papas, e a de Es^ 
ludo geral accentua-se de preferencia nos documentos officiaes da rean 
leza. Victor Le Clerc, descrerendo algumas phases d'este conflicto es- 
creve: f Clemente v hayia empregado, além da palavra Estudo geral 
a de Uuiversidade; o rei (se. Philippe o Bello) n2o reconhecia senio 
primeiro titulo. Uma bulla de JoSLo xxii, tambem discipulo da mesma 
escóla (de Paris) persiste, em 1320, a chamar-lhe Universidade; as Or- 
denan$as continuam a prevalecer sobre as Bullas; etc.» * Nos primeirOB 
estatutos do rei D. Diniz, diz-se qùe inaugura o Estudo ge/ral na Ohi* 
versidade que trasladàra para Goimbra; no preambolo da reforma d'el- 
rei D. Manuel, lè-se: que aos illustrissimos reis de Portugal fundaraml 
um Estudo geral n'esta cidade de Lisboa e o dotaram de rendas,» e 
em seguida confunde os dois termos sobre a colloca^fto do edito £9- 
tudo e Uhiversidadeit em Lisboa. Està conftisfto corresponde effectiva- 
mente ao facto que se deu em Portugal^ em que ensino superior 
ficou sob a influencia exclusivamente elencai emquanto às disciplinas 
litterarias, e em que a administra9So pertenceu indiscutivelmente ao 
centralismo monarchico. A Egreja comprehendeu que o desenrolvi- 
mento extraordinario das Universidades significava a manifestaySo de 
uma nova fórma do poder espiritual que se fundava na Europa^ e por 
isso tratou de apoderar-se d'essas novas institui^Ses. O poder real, pdo 
ensino do direito romano nas Universidades, via qué era esse o meio 
de alargar o seu poder temperai, estabelecendo uma legisla$fto superior 
aos privilegìos senhoriaes e ecclesiasticos, e tornando-se centro de toda 
a esphera civil. Cada um d'esses dois poderes via problema pelo seu 
lado particular, vindo a ficar as Universidades verdadeiramente atra- 



1 État des LeUres au XIV* siede, 1. 1, p. 278. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 163 

aadas, debatendo-se em qaestSes inuteìs/ emqaanto se ia creando um 
estado scientifico na Europa, depois da Rena8cen9a, e pela ac9fto des- 
protenda de certas individaalidades iniciadoras. E principalmente no 
secalo XVI, que se dà. nas Universidade o conflicto doatrinario do es- 
pirìto clerical e secular; no secalo xv o conflicto entro o poder papal 
e real versa qaasi sempre sobre prerogati vas e intervenivo economica. 
Em Portugal o proprio monarcha D. Affonsov para resistir i animad- 
▼ersSo do clero centra a bulla de Sixto iv, que concedia & Universi- 
dade ama conezia por cada diocesse (1474), entrega-a & administra9fto 
do bispo D. Rodrigo de Noronha, nomeando-o Protector e Oovemador 
do Estuato d'està cidade de Lisboa: ctenho por bem e me praz e Ihe dou 
daquy em diante que elle tenha carrego de Q-overnador e Protector 
por mjm do Estndo e Universidade de minha Cidade de Lisboa, com 
poder de dar Officios e Cadeiras e fazer todallas outras cousas geraes 
e spedaes acerca dello asy comò eu mesmo o ffaria se por mym re- 
gesse e governasse. » ^ 

Depois do Infante D. Henriqae succedeu-lhe comò Protector da 
Universidade o infante D. Fernando, irmSo de D. Affonso v; parece 
que terminou n'elle o poder que a Universidade teve de escollier Pro- 
tector, por que o rei D. Affonso v apparece com essa dignidade, que 
transmitte por nomea^So a seu sobrinho o bispo de Lamego D. Ro- 
drigo de Noronha, o qual tendo-a renunciado passa o titulo de Prote- 
ctor para o cardeal D. Jorge, eleito pela Universidade sob indica9fto 
do proprio monarcha. Quando a dictadura monarchica se achou no seu 
periodo mais intenso sob D. JoSo ii, foi oste monarcha Protector da 
Universidade, ficando este titulo em todos os reis que se Ihe seguiram, 
e acabando assim a livre eleÌ9So dos Reitores, e a escolha dos lentes 
pelo corpo escholar. A Universidade ficou completamente sob o Poder 
rea!; e se em- principio foi iste um progresso em quanto à incorpora9So 
da Instmc9So publica sob a direcgSo do Estado, foi praticamente urna 
calamidade, por que d'esse excesso de interven9So do poder tempora! 
sobre as cousas do espirito resultou o ser entregue a Universidade 
sem resistencia & absorpgSo theocratica dirigida pelos Jesuitas. 

Os litigios premo vidos pelos vigarios das egrejas annexadas àUni- 
rersidade de Lisboa prolongaram-se até 1461, em que Pio n interveia 
oom urna bulla impondo perpetuo silencio sobre taes demandas; mas 
08 interesses materiaes foram mais poderosos, e o clero contìnuoa a 



^ Carta de 23 de agosto de 1476. Ap. Provas da Hist. gtn$al,^ t. ii, p. 13. 



164 HISTOiOA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

resistir centra a Universidadei que se achava em urna deplorare! bì* 
tua^So economica. Em 1453 oa Franciscanos, que ainda conserrayam 
o excluBivo do ansino da Theologia nos seus conventos, obtireram ama 
bulla de Nicolào v para os seus Mestres serem inoorporadoa na Uni- 
versidade e os seus alumnos graduarem-se niella; era propriamente os 
aalarios das cathedraa de Theologia o que attrabia para a Unirersidade 
OB Mendicantes. Fora da Universidade havia urna deoadencia absoluta 
do ensinOi e o clero cahia no mais deploravel analphabetismo. D. Af> 
fonso Y pedo ao papa Sixto iv a cedencia para os lentes da Univer^ 
ùdade de ama conezia em cada uma das sés do reino, e que os bispoa 
qpando nSo tivessem bona mestres de Grammatica e Logica contri- 
boissem com as rendas equivalentes a um canonicato. Sixto rv oom- 
prebendeu a necessidade do ensino e expediu a bulla aos 20 de dezembra 
de 1474| lamentando o estado em que se achava a instrucfSo do clero 
portuguez cea propter fere cmnea rectorea ecdesiarum Orammatìeam 
neadebant.i^ ^ Os bispos e cabidos resistiram centra a bulla de Sixto iv, 
e capitaneados pelo bispo de Lisboa, o astuto D. Jorge da Costa, prò- 
pozeram ao papa uma substituìgSo, adoptando o processo da antìga 
annexaySo de uma egreja em cada dioceaei que nunca cumpriram, ob- 
tendo a revogaf&o da buUa por outra de 1475. N'estas difficuldades 
D. Affonso V nomèa Protector da Universidade seu sobrinho, bispo de 
Lamego, D. Rodrigo de Noronha, para tratar de uma tSlo complicada 
negocia9So, e ser o executor da bulla; e para vencer a reluctancia do 
clero, indica & Universidade que eleja seu Protector o proprio D. Jorge 
da Costa (cardeal de Alpedrinha), o que foi levado a effeito em 8 de 
mar90 de 1479. ' Quando d'ahi a pouco a dictadura monarchica se exer- 
ceu pelo caracter implacavel mas justo de D. JoSo n, o cardeal de 
Alpedrinha, comò um dos grandes potentados que reagiam centra a 



1 D*aqai yem a origem das duaa prebendaa nas Cathedraes, providaB em 
Mestres em Theologia (conesia magistral) eDùuioTeu em Canones onhéBfooneda 
douiond,) Quanto & ìgnorancia do clero, basta consìgnar o facto da Provisio de 
1460 do Vigano geral de Braga oonfirmaodo JoSo Yasques, conego do mosteiio 
de Villa Nova de Moinha em piior do mosteiro de S. Miguel de Villarinho com 
dUpenàa da conatituigào gue prokibe dar o governo do motteiro a quem n&o ècivker 
ler, cantar e entender ao menoe aopéda tetra (latim.)» (Catalogo doe PergcmMòà 
do Cartario da Umvereidade de Coimbra^ p. 65.) 

^ D. Affonso V nomèa protector da Universidade D. Jorge da Costa, cardeal: 
«Por ser creado na dita Universidade corno por seer sempre zeloeo e amador da 
aoiencìa, homem letrado e desejador do bem e accrescentamento do dito Estado.» 
(Ap. Cuidadae UtierarioB, p. 247.) 



A UNIYERSIDADE SOB A DIGTADURA HONARCHIGA 165 

«nctoridade real, fugiu de Portiigal. Sómente sob o goyemo de D. Ma- 
nuel, e por breve de Alexandre vi de 23 de jonho de 1496, é que a 
pendencia se resolveu, adoptando o clero o systema da Egreja de Hes- 
panha, contriboindo para a Universidade. com as conezias magistraes 
e conezias doutoraes, vindo a sua apresentay&o a ser urna prerogativa 
da corda, desde a regencia de D. Catherina. 

O espirito de independencia contra o poder real com que o Infante 
D. Henrique exerceu a dignidade de Protector da Universidade, ma- 
nifesta-se em urna singular coincidencia; no mesmo anno em qne a 
Universidade de Lisboa teve casa propria, estabeleceu tambem para si 
novos Estatatos, por que se regeu ainda quarenta annos. 

Os Estatutos que a Universidade formulou para seu governo em 
16 de julho de 1431 contém abreviadamente as seguintes clausulas: 

Constava o anno lectivo de citò mezes. 

Tornava o grào de bacharel o que frequentava durante tres annos, 
defendendo conclusSes publicamente (exame geral e final.) Na Univer- 
sidade de Paris este exame era denominado Tentativa. 

Admittiam-se aos gràos os estudantes das Universidades estraa- 
g^eiras, lendo tres lifSes successivas com venia dbs lentes. 

S6 OS bachareis eram admittidos ao acto de licenciado, frequen- 
tando um quarto anno, e defendendo concIusSes que se affixavam du- 
rante ciuco dias nas Escholas, argumentando os doutores que quizes- 
sem. No caso de frequentar um quinto anno, e lendo por quatro annos 
na Universidade, dispensavam-se as concIusSes. 

O acto para licenciado fazia-se na egreja, tirando ponto de ma- 
nUL e sustentando-o de tarde ante os lentes, reitores, cancellano e H- 
cenciados que serviam de substitutos; * o gr&o era conferido pelo can- 
cellario, seguindo-se urna refeifSo aos lentes, & custa do graduado, 6 
propinas a dinheiró. 

O que tornava o grào de Magisterio, ou doutor em Theologia, fa- 
zia acto solemne de vespera, sobre uma questXo proposta pelo pren- 
dente, sondo ai^mentado por quatro doutores; era o acto de Vespe^ 
riaSf e o defendente era chamado o Vesperisando.* grào dava-se na 
«egreja, no dia seguinte, vindo o doutorando entro charamellas e varios 



^ Na Uniyersidade de Paris as theses de Lieenciatara eram denominadas 
Menar ordinaria, Maior ordinaria e Sorbonica^ a quo entro nós se chamava Au^ 
guitiniana. 

< Além do acto de Vaperias, que se fazia das 8 às 6 da tarde em Paris, ha- 
via tambem a Aulica dcpois de recebido o barrete, e a Reaumpia para fruir oa 
emolumentós de doutorado. 



166 HISTOBU DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

doutores ouvir a missa do Espirìto Santo; pagas as propinas de bar» 
retes e luvas^ o doatorando recebia o grào e pagava um jantar aos leu- 
tesy e no dia segointe os escholares faziam urna cavalgada em que acom- 
panbavam o novo doutor. (Era o victor, tambem usado em Salamanca.) 

Estabelece-se a fórma de joramento ao receber o grio; as prece* 
dencias entre mestres^ licenciados e bachareis; ordena a fórma talar 
para as vestes dos lentes, sondo mais curtas as dos estudantes; e de- 
termina que OS estudantes nSo tenham mulheres em casa (as antigas 
focarias), nem cavallo o\jl cSes de ca9a. Foi o ultimo Estatuto que a 
Universidadé fez por sua iniciativa; o de 1471 foi-lhe dado pela aucto- 
ridade real, corno todos os mais que se Ihe seguiram. 

D. Affonso V, por alvarà de 12 de julho de 1471, estabeleceu um 
novo Eegimento ou Estatuto para a Universidadé de Lisboa, em que 
poder real exerce a sua interferencia immediata: 

cNos ElRey iazemos saber a vos Rectores e Gonselheiros do Es- 
tudo desta mtiy nobre e sempre leal Cidade de Lisboa, e a quaeesquer 
outros, a que osto pertee9er, e oste Alvara de Regimento for mostrado, 
que nos avemos por bem, e proveito do dito Estudo, que d'aquy en- 
diante sse tenba neelle està maneira que sse segue. 

Item primeiramente aserca da eUeÌ9am dos Reitores mandamos, 
que se tenha està maneira: em o come90 do Estudo os Estudantes ssos 
da EscoUa dos Canones, per juramento dos avangelhos, que Ihes sera 
dado per os Rreitores do anno pasado, com o Bedeel escolheram qua- 
tro continuus da dita Escolla, que Ihes pareyerem mais perteecentea^ 
per ydade e costumes e 9Ìen9Ìa e vallia, pera sse delles emleger bum 
Rreitor, e per esto modo as Escolas das Lex escolheram outros qua^ 
tro, e ellectos assy todos oyto, os Rreitores do anno passado com o 
Bedeel daram juramento a cada huum Escollar per ssy ssos, que en- 
leja outro, que parecerem mais aptos em costumes, 9Ìen9Ìa e hidade^ 
e vallia, pera seerem aquelle anno Rreitores, e assy acabaraa de to- 
rnar todas as vozes dos Escolares, que segundo costume ssooem de dar 
voz em elleÌ9am de Rreitores, e tomadas asy as vozes dos Escolares, 
per este modo tomaram as vozes dos Leentes, e Gonselheiros, e todo 
assy acabado, os que mais vozes teverem sejam electos por Rreitores^ 
com tanto que os electos sejam continuuos em hirem aas lÌ90oeens. 

Item mandamos, que a elleÌ9om dos Consselheiros sse £Bi9a per 
està guissa: os Escollares ssoos de cada EscoUa per juramento, que 
Ihes sera dado per bum Reitor ji ellecto, com o Bedel, elegeram deus 
Escolares mais entendidos, e antygos, e continuus, pera aquelle anno 
seerem Gonselheiros. 



A UNIVERSIDAOE SOB A DICI ADURA MONARCUICA i67 

Item, aa mateiìas que oa Leentes de cada Escolla oaverem de 
leer pello anno, aeram eacolheitaa asoo per vozee doa EscoIareB. 

Item, 08 Leentes leeram segando o Eatatuto ataa Santa Maria 
dagOBto, e leerom per Relogìos o tempo qae he ordenado, e Bedeel 
comprara oa Belogioa do dinheiro da Universidade, e os ConeelheiroB 
teerom cujdado de teerem ob Relogioa e de os guardar, e aae per sua 
negligenoia os Relogioa sse perderem ou quebrarem, etlea seram obrì- 
gsdos de aa sua cnsta comprarem ontroa. 

Item, DB Leentea da Prima de Dereito, aegundo o Estatuto, Earam 
cada hnnm anno dnaa, duas, Repeti^ooens, e nom nas fazendo em pena 
Ihe seja deacòntado por cada lioma Repetìgam ^em, gem, rreis de sau 
Ballano, e pera os dictos Leentes poderem estudar as dictas duas Re- 
petigooes, possam leer dous mezes per sobestituto, posto a contenta- 
mento doB Escolares, a saber, por cada buma Eepeti^m hniim mez, 

Item, a Missa que ese diz na Capclla das Escollaa, ase cometari, 
de dizer em nascendo o boU, e acabada de dizer os Leentes da Prima 
Beram prestes pera come^arem a leer suas li^ocene. 

Item, em comedo do estudo, anteB de oa Rreitores seerem electoa, 
o Bedeel de sseu ofBcio leera este Re^mento a todos os Leentes e Ea- 
cotares. 

Item, as fantas, que fezerem os Leentes, e queremos que sejam 
pera corregimento das Escollas. 

Item, mandamoB que se escrepva este Regimento, e Mandado 
DOSSO, com todoUos outroe noseos, e terminB90oens, que sam feitas per 
08 Rreitoree, no Livro doa Estatutos, e Frìvilegioa. E porem vos man- 
damoB qi;e may inteirameote conpraaea e guardees e fa9aaes conprir e 
guardar este Regimento, comò ueelle he contheudo, por que aesy o ba- 
vemoB por serrigo de Deus, e dosso, e bem d'essa Universidade. 

Ffeito em Lisboa xii dìas de Julho: Antam Oon^alves o fez, anno 
de mil ccccLxxi. — Rey ■ ) ■ — Regimento do Estudo.» * 

NoB documentoa da Univeraidade de Coìmbra ha referencias a mais 



' Apud J. P. Ribeiro, ZKw. ehron., t. n, p. 258, ed. 1810. Doc. n.» 
Licro dot Etlatulot e PrivUegioi é o qne se eliamou antigameote Lit 
ter ama capa de velodo d'osta c6i. £ urna copia eem aatheoticidi 
Vasco de Avcllar, escolsr em dìreìto canonico, e teiminada em 20 de 
Comprehende docomentoB de 1288 a 1450; uà encodemacio moderni 
Copia* dot EtorvptUTO» inlerettanitt à Universidade mandadat tirar ^ 
l'ornando. Gabriel Pereira fez un indice dos documeatoa contìdoB i 
d'eite lirro; vem do Boleiim de BUiiographia fortugueia, p. 226 a \ 



168 (USTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIHBRA 

do que um Reitor ao mesmo tempo, e & differen9a entre o Beitor e o 
Cancellano. Este facto nSo comprehendido pelos investigadores, corno 
FìgueirSa, explica-se pélo daplo espirito secular, que elegia um doe Rei- 
tores, e derical, que se representava pelo Cancellano, e pelo privilegio 
dos bispos conferirem os gr&os academicos. Victor Le Clerc accentua este 
antagonismo na Universidade de Paris, o tjrpo fundamental de todi» 
as Universidades da Europa: cOs reis, que a principio nfto Ihe tinham 
concedido senSo um apoio duvidoso e percario, desde que perceberam 
que for^a havia para elles n'esta associa9Ìlo nova, tomaram-se os seus 
amigos declarados, emquanto que os papas, seus primeiros e mais ar- 
dentes promotores, nSo tardaram a ter medo d'ella, a affastarem-se, a 
combatel-a, até q^e, mesmo nos ultimos momentos da sua existencàa, 
o Cancellano da egi-eja de Paris, encarregado, comò representante da 
auctoridade pontificia, de instituir os licenciados da grande Eschola, e 
da qual as pretenfSes iam até a reclamar ali urna especie de presiden- 
eia perpetua, n&o cessou de a perseguir comò inimigo, jà que nSo a 
podia guerrear corno mostre.»^ Na Universidade de Lisboa preponde- 
rou o espirito clerìcal, por isso que elle invadira o poder temperai; 
mas ainda assim os principaes Estatutos, comò os de D. Manuel, e as 
reformas de D. JoSLo m fizeram-se jà sem a dependencia do Papa, ao 
passo que a Umversidade de Paris so cbegou a ser reformada por ex- 
elusiva auctoridade real depois de 1600.' A coexistencia de dois Rei- 
tores para govemarem a Universidade, comò se encontra em muitos do- 
cumentos do seculo xiv e xv^ é um facto resultante da organisa^So do 
Estudo goral, em que o Diretto civU e o Diretto canonico eram as dia- 
ciplinas fìmdamentaes, cujos gràos doutoraes eram dados, o primeiro 
pela auctoridade do Rei, e o outro pela auctoridade do Pontifice. Os 
dois Reitores eram eleitos separadamente por estas duas popula$5es es- 
cholares, que obedeciam a auctoridades differentes. Este costume foi 
renovado por D. Affonso v, por Carta de 13 de abril de 1469. Acha- 
mos eleitos simultaneamente dois Reitores em 1397: Vasco de Freitas 
e Diego Affonso rectores;' em 1415: Rodrigo Annes e JoSo Alpoim 
reitores;^ em 1469 a confirmay&o d'este uso por D. Affonso v; e em 
1481 JoSo Foga^a e Gon$alo Annes, Reitores. ^ Por Carta de 12 de ju- 



1 État des Lettre» au XIV siede, t. z, p. 262. 

*Ib., p 278. 

» Livro Verde, fl. 63 y. 

* Ib., fl. 70 y. 

^ Hist, do Munieipio de LièboOf 1. 1, p. SSè. 



A UNIYERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHIGA 169 

Iho de 1476 sabe-se que a Universidade representava a D. Affonso v 
para qne houvesse nm so reitor, para facilitar o expediente dos nego- 
GÌo8 eacholares; foi encarregado o bispo D. Rodrigo de Noronha de re- 
solver conjunctamente com a Universidade, persistindo aioda o costarne 
em 1481 1 corno acima vimosi signal de que os Canonistas reagiram 
contra a àbsorpf&o da sua independencia. 

A dependencia completa da Universidade à auctoridade real é um 
fitcto relacionado com a submissSo da nobreza à mesma dictadura tem- 
perai. A nòbreza tomou-se palaciana e serventuarià da realeza; a Uni- 
▼ersidadci comò corporafSo regulamentada pela auctoridade soberana, 
servia-lhe de apparato e ostentafSo nos actos publicos. No Auto de ac- 
clama9So de D. JoSo u, em 1 de setembro de 1481, citam-se comò 
^resentes: cE scendo hy J.^ Fogasa e G.® Anes rreitores da universi- 
dade do estudo desta 9idade, E com elles acompanhavam o le9emc^ado 
1)ertoIameu gomez, e o doutor J^ Vaaz da porta nova, E o Ie9em9eado 
femam rroiz E mostre Joane leente de fissica, E outros mùytos bacha- 
rees e escollares congregados em nome da sua universidade.»^ que 
a principio poderia parecer urna homenagem, tomava-se agora uma 
obriga9fto para a Universidade: cAa porta da see, ou de qualquer Igreja 
a que el Rej de9er, quando entrar na 9idade> asy no lugar que Ihe pella 
•fidade sera ordenado, estara todo o collegio da universidade ordena- 
damente per seus graaos, segundo antro sy tem per ordenan9a. E asy 
a pessoa dantre elles que farà a arengua a ElBey, segundo he cos- 
tarne, p' Os Jurisconsultos, que demoliram systematicamente a Edade 
mèdia feudal, arreiavam-se com o titulo de Condes Pciatinos^ comò ve- 
mos em, Vasco Femandes de Lucena, chanceller da Casa do Civel, 
Desembargador do Pa90| que recebeu esse titulo nas cortes estrangei- 
ras onde andou comò embaixador. Comte fala da cincapacidade orga- 
nica que caracterisa os legistas assim comò os metaphysicos, egual- 
mente reservados, em politica e em philosophia, a operarem simples 
modifica98e8 criticas sem nunca poderem fundar cousa alguma.»' Os 
aeculoB XIV e xv apresentam o quadro da elabora9&o social e mental 
que dissolve o velho regimen theologico-militar sem comtudo existir o 
predominio de uma doutrina ou ponto de vista sy stematico. Os Legis- 



1 livro II de el-rei D. JoSo ii, fi. 1. Ap. ElemetUos para a HiOaria do Mu- 
nicipio de Lithoa^ t. i, p. 339. 

* Regimento de 30 de agosto de 1502. Ap. EUmentospara a Hiatoria do Mu- 
9deipio de Lisboa^ t. ii, p. 390. 

' Court de PhiloàopMe positive^ t. ▼, p. 343. 



170 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

tas, oriundos do Feudalismo; transformam-se so firn do seculo xv em 
Jurisconsultos humanistas, no seculo xvi em Chancelleres e EscriySes 
da Puridade; do seculo XYii em Diplomatasi nos seculos xvm e xix em, 
MinistroS; mas sempre prìvados da darà concepySo das fórmas definì- 
tivas do poder temporal. Pelo sea lado, os Metaphysicos ou Ontologis- 
tas do seculo xi a xin, emergindo do Catholicismo^ transformam-se nos 
seculos XIV e xv nos Philologos ou Humanistas, nos seculos xvi e xvn 
em PhilosophoSy no seculo xvin em Litteratos, e no seculo xix em Ideo- 
logos politicos e JdmalistaSy dispendendo a actividade montai em urna 
critica dispersiva e negativa, impotentes para estabelecerem o accordo 
das intelligencias. Tanto os Legistas comò os Metaphysicos contenta- 
ram-se em renegar a Edade mèdia, uns imitando os.codigos romanos, 
e 08 outros admirando os exemplares da litteratura hellenica e ado- 
ptando latini corno a lingua dos espiritos cultos. 

A Renascen9a classica, cujo maìor ferver se concentrou na Italia, 
no seculo xv, reagiu centra as tradÌ98es da Edade mèdia, desprezan- 
do-as comò barbaras em compara9&o das obras primas da Grecia e 
Soma. Esse desprezo da Edade mèdia reflectiu-se em todas as mani- 
festa$5es do espirito, do sentimento e da actividade; a architectura das 
cathedraes foì chamada gothica, pelo desprezo a que era votada diante 
das ordens gregas; as far^as populares ficaram esquecidas pela imita- 
9S0 das tragedias de Seneca e das comedias de Terencio; a historia 
dos differentes estados e os livros philosophicos eram especialmente 
redigidos em latim ; a poesia dos trovadores e as can98es de Gesta ou 
épicas eram substituidas por imita9oes das odes de Horacio e da EneOa 
de Virgilio. Luiz Vives, no seu livro De Institutione Foeminae chri- 
stianae, condemna as principaes obras da litteratura da Edade mèdia, 
Amadis de Oaula, Tristan de Leonisj Flores e Brancaflar, Lanzarote 
do Lago, as Cem NoveUas de Boccacio. O proprio Dante, jà no seculo 
xni estiverà para escrever a Divina Comedia em latim; e Petrarcha 
receiava pela sua immortalidade nSo escrevendo em latim. lado vi- 
cioso do humanismo das duas Renascengas foi o ter estabelecido a so- 
lu9&o de continuidade entro a sociedade moderna e a Edade mèdia. 
O ensino tomou-se sem base naturai e nacional; converteu-se saber 
em urna erudÌ9So livresca, e as manifesta98e8 artisticas do sentimento 
amesquinharam-se na imitafSo servii do classicismo. Na parte espe- 
culativa propagavam-se auctoritariamente as doutrinas de Aristoteles, 
esterilisando-as pelo excesso de immobilidade canonica; na vida civil 
copiavam-se os codigos romanos da dÌ8solu9&o imperiai centra os fóros 
ou leis locaes. Os mestres impunham a auctoridade do passado, e os 



A UNIYERSIDÀDE SOB A DICTADURA MONARCHICA 171 

lÙBtoriadores procurayam as orìgens de cada estado nos heroes foragi- 
doa de Troya, ou nas gaamÌ98es romanas da època da conquista. As 
lingoas nacionacB eram abandonadas nas escolas para os alumnos fa- 
larem entro si grego e latini^ e representarem nos seas divertimentos 
eacolares comedias de Aristophanes e de Plauto. desprezo pela Edade 
mèdia perturbou a marcha da intelligencia europèa, que procurava um 
methodo no negativisn^o do Sanches, nos esfor908 de Bacon e de Des- 
cartes, sem conhecer que o mal provinha d'està falta de solidariedade 
com passado. Os Jesuitas apropriaram-se da tradÌ9So humanista e 
propagaram-na atè hoje com a mesma inintellìgencia com que a rece- 
beram no meado do seculo xvi. 

£ curiosa a situaySo das intelligencias em Portugal no seculo xv; 
a admiraySo pela antiguidade classica vaese impondo à predilec92lo das 
obras da Edade mèdia. A Bibliotheca do rei D. Duarte manifesta està 
dupla influencia, reunindo a par dos poemas dos cyclos épicos da Tavola 
Redonda e Q-reco-romano as obras de Cicero e Tito Livio. A lingua 
nacional, t&o admiravelmente empregada por Femio Lopes nas suas 
Cbronicas, è substituida pelo latim, sondo chamado Matheus Pisano 
para redigìr n'essa lingua a historia da tomada de Ceuta. No Cando- 
neiro de Resende comeyam a apparecer as referencias aos nomes da 
mythologia greco-romana, comò um novo effeito poetico; os neologis- 
mos gregos e latinos introduzem-se aos centenares por meio das tra- 
dac93es do infante D. Pedro; o rei D. Duarte ensina as regras para 
fazer uma boa versSo latina, e o chronista Gomes Eanes de Azurara, 
alardeando uma abundante erudÌ9So de escriptores classicos, imita as 
redundancias e construc98es figuradas de Tito Livio. E n'este momento 
historico que o ensino apresenta pela primeira vez em Portugal uma 
bijwca^, destacando-se o que pertence aos clerigos e bachareis do 
que pertence ao aperfeÌ9oamento secular da nobreza. Para a Edade 
mèdia, a cultura litteraria era uma superioridade, que approximava a 
classe popular da nobreza; este sentido social apparece implicito no 
titulo honorifico de Bacharél. Ainda nos anexins portuguezes se equi- 
param as duas classes sociaes: cOu armas ou lettras.» 

Nas Cdrtes de Vianna, sob D. JoSo ii, os povos apresentaram o 
aegninte requerimento ao rei para que interviesse na educaySo da No- 
breza: e Que' aprendam GramTruitìca, e jogos de. espada de ambas as 
mSos, dannar, e balbar, e todas outras boas manhas e costumes, que 
tìram os mofos dos vicios, e os chegam a virtudes; e criando-se desta 
maneira alli os ordene V. A. aonde mais se inclinarem. E em quanto 
assim mogos forem, durmam e criem-se em Yossa Camera, aonde se 



1 72 HISTORIA DA VNIVERSIDADE DE COIMBRA 

oriaram aqaelles de quem elles descendem. . . e fa^a V. A. hmn homem 
Fidalgo^ que tenha carrego doe Donzees, que ob castigae e fa9a alim- 
par^ e aprender as boas manhas.» 

Este pedido fundava-se porventara nos factos da córte de D. Àf- 
fonso Yf que, pela exigaidade da receita do eatado e pelo dispendio em 
ten9a8 a varias familias, tinha restringido o numero de mofos fidalgos 
admittidoB no* pa90. No orfamento do eatado Bob D. Affonso v, em 
1477, gastava-BO a quantia de 202^91540, importante para aquella època, 
em BubsidioB a mo$06 fidalgos para estudos; ' porém està qoantia era 
deduzida na metade, por causa do deficit que j& entSo se dava na ad- 
ministragSo publica. 

A tradi$Sò medieval da inspecf&o sobre os costumes dos escho- 
lares prevaleceu até hoje na Universidade de Coimbra no syBtema das 
infomiagdes no fim da formatura. Entro a Universidade e os GollegioB 
deu-se sempre urna alternativa de importancia, ora tornando-se colle* 
gial a Universidade, ora os Collegios convertendo-se em Faculdades de 
Artes, comò no tempo do predominio jesuita, no Collegio de Santo An* 
tfto de Lisboa, e no Collegio do Espirito Santo de Evora, que se con- 
verteu em Universidade. N'osta poderosa influencia dos Collegios em 
Franfa figura gloriosamente o nome portuguez na familia dos QouvSas, 
que ali tanto se acreditaram pelo seu genio pedagogico; o grande Mon- 
taigne fala com venerasse do seu mostre André de GK)uvéa. Em Ingla- 
terra tambem se deu o phenomeno da preponderaucia do systema col- 
legial : cForam os Collegios que pouco a pouco se apoderaram do mo- 
nopolio da instruc9fto e do governo da Universidade.» ' 

Junto com o desenvolvimento doB Collegios di-se um phenomeno 
interessante nas fórmas pedagogicaa: o Lente é substituido pelo Pro- 
fessor, e o alumno, admittido muito novo à frequencia coUegial, pre- 
cisa de um patrono ou tutor ^ que^o dirija nos seus actos e Ihe repita 
as li{3es. tutor medieval, que era de ordinario um estudante pobre^ 
(o fdlow das Universidadea inglezas) tomou-se com o tempo em lec- 
cwniata e repetidor. 

Vimos pela Carta de 22 de outubro de 1357 que ae nSo po- 
dia enainar fora daa EscholaB geraea, e que oa estudantes pagavam 
ama certa quota aos lentea, aegundo a Bua claaae de rìcos ou de po- 
bres. Està centralisa^fto univerBitaria resultava de que so podiam en- 



1 Torre do Tombo : Oav. 2. Ma^. 9, n.» 16, Papd da FoMcnda dt D. Afforco F. 
> Hamilton, op. eit., p. 278. 



A UNIVERSIDADE SOB A DIGTADURA MONARCHICA 173 

Binar os que eram graduados regentes, e que recebiam a propina ou 
enxoval (o pasttàs e eollectum). Pela fiinda^So dos CoUegioSi com intuito 
de servir os Escholares pobres, as Ii98e8 tomaram-se gratoitas; e por 
isso teve de se ampliar a todos os graduados a faculdade de ensinar. 
Sobre este ponto escreve Hamilton: cPara alliviar um pouco os estu* 
dantes, e para assegurar-se a cooperafSo de mestres habeis, concede- 
ram-se honorarios a certos graduados que davam IÌ98es gratuitas. Em 
muitas Umversidades os candidatos aos gr&os eram obrìgados a segui- 
rem estes cursos^ e a estes graduados salariados é que foi exclusiva- 
mente dado mais tarde o titulo de Professor, A instituiy&o dos Profes- 
Bores pagoB fez necessariamente decahir os cursos dos outros'regentes, 
pois que 08 estudantes preferiam naturalmente as lÌ98es gratuitas; e 
ainda que o graduado conservasse o direito de ensinar publicamente, 
esse direito foi quasi que inteiramente abandonado a este corpo de pro- 
fessores em todas as Universidades da Euibpa.» ^ Ainda encontramos 
uma provis&o de D. JoSo ili, de 1533^ em que concede licen9a a D. 
AfibnsOy sobrinho do rei do Congo, para ensinar grammatica em Lis- 
boa, fora do bairro das Escholas Geraes. Todos estes factos, apparen- 
temente anecdoticos, lìgam-sé ao sjstema e espirito do ensino europeu, 
e é este criterio historico indispensavel que falta aos que entro nós se 
arvoram a escrever e a legislar sobre pedagogia. 

typo de tutor, que é a origem do mostre particular, teve a sua 
mais alta manifestaySo em Italia; o celebre Victorino de FeltrO; esco- 
Ihido para .mostre de quatro filhos do marquez de Gbnzaga em 1424, 
pela reforma que introduziu nos habitos escholares, attrahiu discipulos 
de todas as partes da Europa para a sua Maison Joyeuse. A Italia tor- 
nou-se nos fins do seculo xv o centro dos estudos classicos, ou da Re- 
nascen9a. Por 1489 frequentavam os estudos na Italia os filhos do chan- 
celler JoSo Teixeira, e o celebre humanista Angelo Policiano escrevia 
aa rei D. JoSo n de Portugal, dando-lhe conta dos estudos dos seus 
pupiBos: cNa verdade, pedi, nSo ha multo, a estes subditos vossos que 
estSo aqui, mancebos de subido talento e elevado caracter, os filhos de 
JoSo Teixeira, vesso Chanceller-mór, que por sua intervengSo me fos- 
sem ahi còpiadas as memorias (se é que existem) dos vossos feitos: 
prometteram elles desempenhar-se cuidadosamente do encargo, em rea- 
peito da obrigaySo que devem ao seu preceptor; etc.» D. JoSo n es- 
creveu-lhe em carta datada de 23 de outubro de 1491 : cResta, Angelo 



1 Hamilton, op, eU., p. 274. 



■ 



1 74 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

amigo, que aoB filhos do nosso Ohanceller-móry fidalgos de nossa casa, 
consagreis os maiores desvélos. Sem duvida que a Tossa bondade nfto 
havìa mister de reoommendaySo para assim o fazerdes espontaneamente^ 
comtudo encarecidamente vos rogamos que por nosso respeito tenha 
ainda algnm augmento o vesso zèlo. E na verdade a elles deveis toda 
a gratidSo, porque o pae e os filhos, aqaelle com os louvores, estes 
com OS testemunhos provadissimos do vesso saber, nfto t^essam de vos 
exaltar, falando-nos de vós, e de fazer chegar até estes confins da terra 
a &ma do vesso nome, o que n&o faz pouco em prol da vessa gloria 
e repata9So. Mas aos proprios mancebos nós damos os emboras por 
Ihes ter cabido o viver em tempo em que da fonte abmidante da vessa 
sciencia possam beber algama in8tnic9So ...» Em ama carta de An- 
gelo Policiano ao chanceller Jofto Teizeira, Ihe diz: cPara a Italia os 
mandastes, afim de se Ihes formarem os costomes, serem instroidos 
nas boas lettras e aprenderem todas as Artes liberaes, segando é pro- 
prio de qaem tem de occupar a mais elevada posigSo.» Depois de ter 
falado da sua assiduidade ds aulas, accrescenta: e Aquelle qae Ihes des- 
tes para aio e pedagogo, coida n'eiles, dirige-os e educa-os com tSo 
levantada prudencia, amor e desvélo, que nada ha que desejar. Cer- 
tamente, que vos nSo engano, mas por outro lado, tambem me nAo en- 
gano a mim.» ^ Està carta é datada de Floren9a em 17 de agosto de 



1 Estas cartas fippareceram pela prìmeira vez pablicadas em portugaez nos 
Poetaa palacianos, p. 299 a 306; incorporamol-as aqui definitivamente comò pre- 
cioBOs documentos pedagogicos : 

Angelo Policiano a D, Joào por gra^ de Deus rei ifwietianmo de Portugal e dot 
Algarvea^ d'aquem e d^cdém mar em Africa e senhor da Guinif èoude ! 

Comquanto nem a minha condi^So nem o meu saber nem merecimento al- 
g^om meu sejam taes que eu jolgae ser-me licito escrever-vos, rei invicto, todavìa 
a vessa grandeza, lustre e gloria, os vossos louvores, espalhados j& por toda a 
terra, tém-me assombrado de modo que, de si mesma, a propria penna arde em 
desejos de presentar-vos lettras minhas, attestar-vos os mena sentimentos, exprì- 
mir-TOS a minha sympathia e, finalmente, render- vos gra^as em nome de todos 
quantos pertencemos a este seculo, o qual agora, por favor dea vossos merttos 
quasi diyinos, ousa j& denodadamente competìr com os vetustos seculos e com toda 
a antiguidade. De feito, se a brevidade de uma carta ou a oonsidera^io do tempo 
o consentirà, a mesma verdade me déra ousadia para que tentasse mostrar que 
nem laureis nem dourados carros de nenhum antigo heroe pódem ser comparados 
ia vossas glorias e immortaes feitos. Sim :-^deixando atraz os combates que, ainda 
em tenros annos, empenhastes contra os povos impios da insoffirida Africa, os po- 
derosissimos exerdtos de inimigos apartados una dos outros que derrotastes, as 



A UNIYERSIDADE SOB A DIGTADURA MONARCHICA 175 

1489; estava entSo no seu mais alto esplendor a Renascen9a litteraria, 
artistica e philosophica na Italia, e por este tempo seiniciou entro a 
aristocracia portagueza o costume de ir frequentar as escholas dos pe- 
dagogistas italianos, costume que durou ainda em todo o reinado de D. 
Manuel. Depois de Victorino de Feltro, Angelo Policiano apparece-nos 
corno o tjpo completo do tutor ou pedagogo^ primeira manifestag&o do 
homem de sciencia fora do centralismo das Universidades. Escreve Qi- 



pra^as que rendestes, as préas que fizestes, as leis que impuzestes a na^oes bar- 
baras e indomitas, passando n2o menos em silencio os brazoes pacificos, que nao 
cederiam a palma às glorias gaerreiras, — que grandioso e vasto quadro de proe- 
zas apenas acreditaveis se me nSo offerecia, se eu fosse commemorar as vagas do 
tumido e soberbo oceano, antes intactas e sem carreira aberta, provocadas e que- 
brantadas pelos vossos lenhos, as balizas de Hercules desprezadas, o mundo que 
havia sido mutilado, restituido a si mesmo, e aquella Barbarla, d'antes nem por 
vagas noticias de nós assàs conhedda, selvagem, feroz, vivendo sem organisa^io 
regular, sem figura de lei, sem religiSo, quasi ao modo de brutos animaes, agora 
trazlda à policia humana, & brandura de trato, suavidade de costumes e, até> aos 
sentimentos religiosos ! Que logar tao azado nSo teria eu entSo para recontar os 
preciosos beneficios que os habitadores do nosso continente d'alli receberam, os 
abundantes recursos que de là vieram para nos melhorar e opulentar a existencia, 
o engrandecimento que até & bistoria antiga coube, a fé que adquiriram antigas 
narrativas que outr'ora escassamente se podiam acreditar, e, por outro lado, a 
quebra que tiveram na admira^So? EntSo haveria eu tambem de absolver de toda 
a suspeita de falsidade o grande Plat&o e os annaes seculares do Egypto, que, 
sem prestarem credito, fizeram meuQSo d^esse oceano por ti subjugado com pode- 
rosos ezercitos. De maneira que tambem confessarla que ras2o teve Alexandre de 
Macedonia em se amesquinhar lamentando que ainda restassem outros mundos às 
suas victorias. Na verdade que outra coisa nos fizestes vós, preclaro principe, se- 
n^ — achar seria ezpressio inadequada — trazer de trevas eternas e, quasi diria, 
do antigo cbaos, para a luz que nos illumina, outras terras, outro mar, outros mun- 
dos e, em cabo, outros astros? — Mas a que firn vdn esprtdar-me agora n*este as- 
sumpto? Foi para vos rogar em nome nSo so do presente seculo, sen^ tambem de 
toda a posteridade e de todos os povos, que nSo soffiraes que de t&o sublimas obras 
fene^ ou se perca a memoria que deve ser eternisada, mas antes ordeneis Ihe alce 
um padrao a voz dos var5es doutos, & qual nem o dente roedor do tempo no seu 
curso silencioso vale a consummir. E, se daes favor ao merecimento, porque nSo o 
baveis de dar à gloria, companbeira do merecimento? E se ganhaes por m2o a to- 
dos 08 monarchas em generosidade de brios e gprandeza de animo, està vida hu- 
mana tao breve, tSo instavel, que de tSo escassas e mingoadas esperan^ depende 
em telo angustiados limites é estreitada, porque a nio baveis de prolongar com a 
carreira immortai de immarcessivel gloria? Porque nSo ba-de a memoria de feitos 
grandiosos transmittir-se aos vossos successores mesmos, para que essas illustres 
fiiii^anhaB que jimais encontrarSo segundas, Ibes aproveitem servindo-lhes tam- 
bem de ensinamento e norma? Porque nio baveis de deixar um corno tjpo a vos- 
sos filbos e futures netos, para que nenbum degenere j&mùs da perenne e abònada 



176 HISTORIA DA UMVERSIDADE DE GOIMBRA 

raad; na svlsl Historia do Direito romano (p. 461): cO celebre Angelo 
Policiano teve ^ gloria de tirar a jarisprudencia da barbarie em qae a 
tinbam mergolbado os discipulos de Bartolo, e de tornar mais attra- 
hente o estado d'està sciencia pela sua uniSo com o estudo das bellas- 
lettras e da historia. Encontrou adversarios violentos. Os sectarios da 
Scbolastica designaram os partidarios das bellas-Iettras sob o nome de 
humaniatasy oa de nominaes, tornando para si o de realista», para indi- 



yirtude dos seus malq^eB e a tenham diante dos olhos corno traslado para se Ihes 
formar o caracter e educar o cora^ao segando a principes convém? Finalmente 
porque nilo hfto-de tambem os outros reis qae nascerem sob os desvairados climas 
do mondo, haver de vós, senio que imitar, ao menos qae admirar? Ora fazer ex- 
tremadas proezas e n&o Ihes dar realce e luz com as lettras o mesmo vale que 
procrear filhos de peregrina gentileza e nSo Ihes dar sustenta^o. Nfto aconte^a^ 
nao, rei excelso, que essas yossas glorias, t2o credoras da immortalidade, fiquem 
escondidas n'aquelle vasto acervo da nossa fragilidade, em que jazem sepultados 
OS trabalhoB de todos quantos nSo houveram os suffragios dos varÒes de saber 
prestante. Acordae-vos de Alexandre, acordae-vos de Cesar, os dois nomes prin- 
cipaes que a fastosa antigoidade nos alardeia. De um, assàs memorada é a excla- 
ma^&o que soltou ao pé do tumulo de Achilles, chamando afortunado ao manoebo 
por ter encontrado em Homero o pregoeiro das suas glorias. segundo, ainda 
quando estava apercebido para travar combate, e quasi que até no meìo do es- 
trondo das pugnas, com tal esmero compunha as mcmorias dos seus feitos, que 
nenhuma obra a critica julga por tSo bem trabalhada que a purissima elegancia 
d^aquelle auctor Ihe nào leve a palma. A estes, lego, vós devieis, ao menos imitar, 
a estes a quem nos outros respeitos desmesuradamente vos avantajaes. que vos 
acabo de dizer, comprehendereis que é a expressào da verdade e nSo a linguagem 
da adula9ào, quando para vós mesmo volverdes os olhos da vessa intelligencla 
soberana e tiverdes attentamente examinado os formosos titulos da vessa gloria, 
magestade e poderio, e considerado reflectidamente a qne fastìgio estaes subido 
nas cousas humanas. De feito, ver-vos-beis rei da Lusitania, isto é (para resamir 
em ama palavra o que entendo), de um povo de romanos de que outr'ora numero* 
sas colonias, segundo a bistoria refere, se acbavam disseminadas n'esta regiSo 
mids do que em nenhuma entra. Yereis em vós o libertador da Africa, essa ter> 
ceira divisio do orbe, que desde jà, pelos vossos esforyos, solta dos ferros dos bar- 
baros, exulta cada vez mais com a esperan9a de completa liberdade. Yereis em vós 
tambem o domador d'aquelle vasto e indignado oceano, a eigos primeiros embates 
o mesmo Hercules, o subjugador do mundo, enfiou. Reconhecereis em vós o defen- 
sor da santa fé christS e da verdadeira religiSo, e o mais potente arbitro da paz e 
da guerra centra a perfidia de Mahomet, alagando so com a vessa magestade aquella 
pestilencial furia e acabando as guerras mais consideraveis so com o terror do 
TOSSO nome, so com a maravilha do vesso valor. £ ao mesmo tempo, senhor das 
cnaves de um novo mundo, come que abrangeis em um punhado os seus numero- 
SOS golfos e OS promontorios e as praias e as ilhas e os portos e as pra^as e as ci- 
dades à beira-mar, e quasi tendes nas vossas mSos na^Òes innnmeras, aonde, oom- 
tndo, nem a propria fama com as suas asas tio yelozes havia até entio chegado. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTA DURA MONARCHICA 177 

carem que elles se occupavam das con^as^ em quanto os seus adversa- 
rioB se contentavam ccm palavras.» A Eschola humani&ta triumphou 
pela cozoprehensào das origens, e o Dome do portuguez Antonio de 
Gouvéa e de Cnjacio eSo os dos verdadeiros precnrsores da Eschola 
historica de Savigny. 

A influeneìa da Italia nos estudos philologieos resultou do cara- 
eter complexo'do criterio, simultaneamente artistico e scientifico, 11- 



£ quSo grandioso nao é ver os reis mais ignotos arderem em descjos de vos visi- 
tar, venerar as vossas pisadas, e correrem a9odado8 a ajoelhar aos vossos pés e a 
receberem à porfia das vossas m2o8 tao poderosas pela fé corno pelas armas as 
agnas ptrrificadoras do baptismo?! e ver, espertados pelo amor de urna virtude 
jiimals onvida dos antigos sccolos, os habitantes dos mais apartados confins da 
terra acudirem apinhados d vossa pre8en9n, e jd todo o mcio-dia, arrancado do 
fundo das suas moradas, dar-se pressa a correr venernbundo ante vós, para de 
mais perto contemplar esse sembiante celestial, a aurèola de gloria que vos ac'orna 
a regia fronte, essa magestadc, Ilei transumpto da divina?! Com tacs gi-andezas 
venba alguem pdr em parallelo a tomada de Babylonia, bem que ufana dos sens 
muros de tijolo, a ròta dos barbaros do oriente, jd do proprio naturai tao fugazes! 
Venha por em parallelo a provoca^ào, nSo muito esforQada, das iras do Scytha no- 
mada, vagando por dilatadas campinas, comtanto que nao lance tambem d conta 
de louvor o assassinato, om meio dos festine, dos mais caros amigos, nem a ado- 
p^So de estrangeiros costumes e desdourosas adula^òes! Ponha em parallelo tam- 
bem vencimento das Gallias, a custo subjugadas ao cabo de dez annos, ou ou- 
tros feitos inferiores a este, comtanto que nao tenha encomios para o sangue de 
concidadàos e parentes barbaramente vcrtìdo por todo o orbe! — Assim que, rei 
sem par, vós sobre todos (cstoure embora a invcja) vós sobre todos sois digno de 
etemas honras. A vós, primeiro do que a ninguem, devem de ser consagradas as 
nossas vigilias, quero dizer, as de todos quantos somos sacerdotes das Musas. Por 
tal razào (se, homem desconhecido, mas a vós mui dedicado, encontro alguma fé 
junto d vossa pessoa) seja incnmbido, eu vos conjuro, a sujeitos idoneos o encargo 
de por em memoria (sem duvida que interìnamente), em qualquer lingua, em qual- 
quer estylo o assumpto tsto ubertoso dos feitos pràticados por vós e pelos vossos, 
obra que, mais tarde, tanto os outros em quem ferve o mesmo enthusiasmo, comò 
tambem nós mesmos, envidando todas as for9as, hajamos de polir e aperfeÌ9oar. Na 
verdade, pedi, nao ha muito, a estes subditos vossos que estSo aqui, mancebos de 
Bubido talento e elevado caracter, os filhos de Teizeira, vosso Cbanceller-mór, que 
por sua mterven^So me fossem ahi copiadas as memorìas (se é que existem) dos 
vossos feitos : prometteram elles desempenhar-se cuidadosamente no encargo eìn 
respeito da obrrga^uo que devem ao seu preceptor; todavia nSo quiz eu faltar a 
mim proprio, mas assentci de vos endere^ar eu mesmo està carta, rei mui indul- 
gente e clemente, a quem jd posso dar tambem o nome de meu, quereudo antes 
poder ser arguido de arrojado, se escrevesse, do que de apoucado de animo, se me 
conservasse silencioso. — No que respeita a minha pessoa, n§o é, certo, ordinaria a 
minha condi^ào, mas, na profissao das lettras, tambem alguns créem que nao é de 
todo inferior a minha reputa9ào. Quasi de menino foi eu criado (e porventura qne 

UlST. UN. 12 



178 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

gando à comprehensSio da Arte antiga a historia, a politica, a lingua 
e a grammatica. O genio italiano realÌBOu o impulso da RenaBcen9a Bem 
dependencia do accidente da tomada de Constantinopla. Escreve Hil- 
lebrand; em um estudo sobre a bistoria da Philologia: cÀinda que o 
estudo dos auctores classicos nSio deixasse de occupar os gprammaticos 
gregos desde Aristarco até Cbalcondylas, a verdadeira bora do nasci- 
mento, a verdadeira patria da pbilologla, foram o decimo quarto seculo 



està circumatancia vira a proposito) no scio da honesta familia d^aquelle vario il- 
lustre, o primeiro personagem na sua tao fiorente repnblica, Louren^o de Medicis. 
Nào cedendo a ninguem em dedicasse à vessa pessoa, soube elle, fallando-me de 
vós, accender em mim enthasiasmo tlU) ardente pelos vossos merecimentos, que, 
dia e noite, en nào largo de pensar no pregSo dos vossos feitos, e o mais fervoroso 
voto que eu agora fa^o é que me seja outorgada for^a, poder e finalmente ensejo, 
para que o vosso nome tao digno de divinos elogios, os testemunhos da vessa pìe- 
dade, integrìdade, rectidào, temperanza, prudencia, juizo, os da vossa justi^a, for- 
taleza, providencia, liberalidade e grandeza de alma, e emfim os de tantas obras, 
tantas e tao eximias fa^anhas vossas, tenham monumentos fieis levantados, a:nda 
que seja por mim, na lingua latina ou grega, de modo que nào haja vicissitude de 
. humanos acontecimentos, nem assalto da varia e inconstante fortuna, nem vetus- 
tade de seculos que valba a extinguil-os. , 

D. Joào por grciga de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d^cUém mar 
em Africa, e senhor de Gttiné, ao mai douto varào eprezado amigOy Angelo Po- 
liciano, saudel 

À vossa agradavel carta, que jà ba muito li, e, sobretudo, o que amiudadas 
vezes nos tem refendo o nesso querido Cbanceller-mór JoSo Teixebra) me deu ca- 
bal conbecimenta de quanto vos interessa a nossa gloria (se em cousas bumanas 
alguma esiste) e quanto desejaes salvar do olvido com as vossas lettras o nesso 
nome e feitos. Tal vontade, ainda que é urna prova assaz darà de entranbado affé- 
cto e summa deferencia, todavia parece-nos que nasce ainda mais da bondade do 
vosso cora^So, da agudeza de ingenbo e da copia de saber, qne miram a alvo mais 
remontado. Assim que nos sentimos gprandemente penborados de vós, e, quando o 
tempo e as circumstancias o demandarem, testemunbaremos mais ampiamente o 
nosso agradecimento, esperando que nfto bajaes de vos arrepender da afieÌ9ào que 
nos dedìcaes. Bespondendo em breves termos ao assumpto da vossa carta, dir-vos* 
bemos que somos gratos sobremaneira ao offeredmento que tSo frequentemente 
nos fazeis dos vossos servi^os e affectuosa diligencia para nos alcan^ardes a im- 
mortalidade, e estimamol-o. E para por em efieito o intento, teremos todo o coi'^ 
dado de ordenar que a nossa cbronica, que, seguindo o uso do nosso reino, man- 
damos escrever em lingua vemacula, seja composta no idioma toscano, ou, pelo 
menOB, no latim commum, enviando-vol-a depois, o mais depressa que ser possa, 
para que vós, sem vos afastardes do caminho da verdade, assegurando a nossa me- 
moria, a adomeis com as gra^as e gravidade do vosso estylo e com a voBsa eru- 
dirlo, e a aperfei^eeis de fórma que, ao menos com o auxilio da vossa eloquenda. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 1 79 

6 a Italia; porqae a obra dos Alexandrinos eBtava sepultada com 08 
proprìos objectos daa auas inve8tiga9368; a obra dos Bjzantinos nSo 
exerda influencia alguma sobre o movimento dos espiritos na Europa, 
e demais, faltava-lhe completamente a qoalidade constitutiva da scien- 
cia, o espirito critico. Tal foi o enthusiasmo que inspirou a sciencia 
nova ao povo italiano, tSo amoroso do bello e t2o ardente nas suas 
predilec^des, que mal se pode indicar um poeta, um historiador, um 



se tome digna de ser lida. Com effeito, muito releya (e melbor o sabeis) o estylo 
em que é recontado cada feito, embora illustre. PorquantO| assim corno a expo- 
liencia mostra que as comidas melhores de natureza, se bouve menos aceio em as 
guisar, sfto avisadamente engeitadas, assim a historia, se Ihe fallecem as devidas 
galas e donaire proprio, havemol-a por sem merito e merecedora de que a engei- 
tem. Defeitos d^esta ordem, porém, n&o ha que recèial-os se fdrdes vós, sujeito de 
tSo subidas partes e tao versado em todas as boas lettras, quem haja de tomar a 
peito a historia dos nossos feitos. Està é pois a nossa inten^ào. Besta, Angelo 
amigo, que aos filhos do nesso Chanceller-mór, fidalgos da nossa casa, consagreis 
08 maiores disvelos. Sem duvida que a vessa bondade nào havia mister recommen* 
da^&o para assim o fazerdes espontaneamente, comtudo, encarecidamente vos ro- 
gamos que por nesso, respeito tenha ainda algum augmento o vesso zelo. E na ver* 
dade a elles deveis loda a gratidào, porque o pae e os filhos, aquelle oom os leu* 
vores, estes com os testemunhos provadissimos do yosso saber, nao cessam de vos 
esaltar, fallando-nos de vós, e de fazer chegar até estes confins da terra a fama 
do vesso nome, o que nfto faz pouco em prol da vessa gloria e reputa^fto. Mas aos 
proprios mancebos nós damos os cmboras, por Ihes ter cabido o viver em tempo 
em que da fonte abundante da vessa sciencia possam beber alguma instruc^SOf 
para que, servindo primeiro a Deus e depois a nóa, hajam de merecer e conquis- 
tar tanto a bemaventuran^a celeste, come a terrestre. 
De Lisboa, aos 23 dias do mez de outubro de 1491. 

Angelo Policiano a Joào Teixeira, Chanoeller-mór realf aattde ! 

Muitas vezes tentei escrever-vos ulgumas letras para vos fazer conhecer os 
meus sentimentos e afiPei^So, mas sempre me tomou o passo uma especie de timi- 
dez, nSo sei se diga nobre, se rustica, por saber que nSo era de vós ass&s conhe- 
cido e porque, antes, come que me fazia recuar o brilho deslumbrante das vossas 
qualidades e POSÌ9S0. Emfim, porém, jà a considera9Ìo do meu dever,j&o conceito 
da vessa bondade acabou eommigo, que, tal corno fosse, vos escrevesse a presente 
carta. Que assumpto, pois, heide eu esperar que seja mais asado para mim e mids 
bem acceito de vós, do que a exposi^So sincera do que sinto a respeito dos que sao 
filhos vossos e discipulos meus? Para a Italia os mandastes, a fim de se Ihes for- 
marem os oostnmes, serem instruidos nas boas-lettras e apprenderem todas as ar- 
tes liberaes, segundo é proprio de quem tem de occupar a mais elevada po8Ì92o. 
Mas, afiigura-se-me, de casa trouxer.tm comsigo os costumes patemos ; assim que, 
exemplos ainda mais os d2o, de que os recebem. Jdmais se descobre n^elles acto 
algum improprio ou ruim ou descomedido ou grosseiro. N£o ha enxerga r n^elles 

12« 



180 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

homem de estado d'esse tempo que nSo fosse tambem philologo. Por 
isso a època inteira do despertar do espirito humano no firn da Edade 
mèdia recebeu o nome do facto particular; e a Benascenga dos estu- 
dos da antigaidade tomou-se identica com a Renascenya do bomem. 
A gloria de ter renovado a pbilologia offuscou todas as outras gloria» 
da Italia de entSo. Foi um mal. Porque, no firn de tudo, este traballìo 
nSio foi mais do que um dos numerosos elementos do movimento geral 



petulancia nem arrogancia nem licenciosidade de vistas, nem soltura de linguagem 
nem desconcerto de sembiante, finalmente consa neuhuma, ou seja no gesto ou no 
porte ou no modo de estar ou no andar, que desagrade, que incommode, que se 
possa taxar de afiectado ou de insoffirivel. Todos os dias frequcntam os tempio.", 
ouvem as li^oes dos mestres, nào so com assiduidado, senao tambem com vivo 
gosto. Prendem os cora^oes dos condiscipulos mais adiantados com a polidez das 
maneiras e condescendencia; esquivam inteiramente o trato com aquelies que no 
seu couccito Ihes damnariam os costumes ou a reputando. Entre elles nao ha por- 
fìa, cujo objecto nào seja o eetudo; mas n'este ponto o certame niio conhece tre- 
guas. £m parte nenhuma estào mais vezes ou de mais bom grado do que na pre- 
senta dos mestres ou na companhia dos condiscipulos. Tambem opportunamente 
dedicam tempo ao cuidado na conservammo da saude, e por isso logram-na excel- 
lente. £m talentos primam de modo que (nuo quero ser prolìxo) bem deuunclam 
que s&o V08S08 filhos. Percebem com facilidade o que Ihes e eusinado, pronunciam 
com elegancia, retém com facilidade, imitam com facilidade. Da applicamao que 
dirci? Maior ardor, mais afiucada perseveranza, à fé que nunca vi. D'ahi tìlo gran- 
des progressos tém feito em ambas as linguas, que eu, comquauto nuo mui des- 
affeito a ver e educar talentos, pasmo de maravilhado. Aquelle que Ihes déstes 
para aio e pedagogo, cuida n'elles, dirìge-os e educa-os com tao Icvantada pru- 
dencia, amor e disvelo, que nada ha que desejar. Certamente que eu vos nSo en- 
gano, mas, por outro lado, tambem me nSo engano a mim. A propria inveja assom- 
brada coufessaria que està é a verdade. Assim que dou os emboras 4 vessa ven- 
tura, mas nao felicito menos a vossa tra^a e proposito. De feito nao é pequena a 
gloria que para vós redunda de terdes tantos e tSo invejaveis filhos tao longe de 
V0S8O8 olhos, do seio da familia, da patria, e por tao dilatado tempo, nao para en- 
grossarem cabedaes ou tratarem em commercios, segando o estylo dos nossos, mas 
para cnriquecerem o espirito de excellentes principios e grangearem para os au- 
nos adiantados um precioso deposito de saber, sobre o qual a mesma fortuna nao 
lem dominio. vosso proposito logral-o-heis nSo so, além das vossas esperan^as, 
mas até penso, além de tudo quanto se conhece. Nào é menor, porém, acreditae- 
n\,e, a gloria que para vós aqui adquirem, do que a instruc^ao que para si obtém. 
£, jà por vós, j4 por elles, voto-lhes tao cordeal aftecto e sinto ser correspondido 
de maneira, que se me affigura que, no affecto e no zelo, quasi tomei o vosso lo- 
gar. Assegurado n*istOy ousarei rogar- vos que à minha carta, que havendo de ser 
julgada do vesso rei, corno de um Apollo, desde jà estremece e enfia, vós com o 
vosEO alto valimento Ihe outorgueis tanto favor, que antes prove a indulgencia, do 
que a censura de tao subida magestade. 

Em Fiorenza, aos 17 dias do mez de Agosto de 1489. 



A UNIVERSIDÀDE SOB A DIGTADURA MONARCHICA I8i 

pelo qual o povo italiano abria a èra nova da historìa aniversal, e é 
amesquinhar, ao que parece, a potencia do genio italiano o considerar 
este grande movimento corno provindo completamente de uma origem 
estrangeìra, de olhar està riqaoza da Italia no decimo qainto secalo 
corno uma riqueza emprestada, devida a um impulso exterior. O que 
seguir com atten9So o traballio intellectual da Italia nos ultimos se- 
culos da Edade média^ concluirà com certeza', que mesmo sem a to- 
mada de Constantinopla, e sem a immigra9So dos sabios bjzantinos, a 
naySo encerrava bastantes elementos para regenerar por si so o espi- 
rito humano: e desde està època os espiritos mais apaixonados pela 
antiguidade classica, corno Pie de la Mirandola, protestaram elles mes- 
mos centra estit maneira exclusiva de considerar a reyola9So a mais 
importante e completa que tem realisado a humanidade.»^ 

De Italia tinha D. Àffonso v mandado vir o dominicano Justo Bal- 
dino, celebrado latinista, para verter para a linguagem ciceroniana as 
cbronicas do reino por FernSo Lopes. O rei nomeou-o bispo de Ceuta 
(1480 ou 1481), porèm nunca saiu de Portugal; em 1487 govemou a 
diocese do Porto, e em 1490 benzeu em Setubal o chSo da egreja de 
Jesus das recoletas franciscanas. * Damilo de Goes reproduz na Chro- 
nica de D. Manuel uma carta de JoSo Rodrigues de Sd, em que Ibe 
conta que as Chronicas do reino entregues ao bispo Justo Baldino se 
perderam por occasiSo da sua morte, da peste de 1493, na villa de Al- 
mada.^ A idèa de traduzir para latim as chronicas do reino era o 
effeito do enthusiasmo humanista provocado pela Renascenga. Outros 
italianos vieram para Portugal, corno Cataldo Siculo, para dirigìr a 
educafSo de D. Jorge, bastardo de D. JoSo n, e de D. Manuel. Em 
uma polemica do professor Raphael de Regio, da Universidade de Pa- 
dua, e dedicada a Ermolao Barbaro, em 1488, conta elle que no anno 
de 1482 fora chamado a professar rhetorica em Padua, com o orde- 
nado de 200 florins, um certo Cataldo Siciliano, porèm que o desafiara 
e desapo&sara da cadeira por consentimento dos escbolares/ Segnndo 
Tiraboschi, este Cataldo Parisio Siciliano è aquelle mesmo celebrado 
no epigramma de Henrique Caiado, comò seu primeiro mostre : 

Formasti ingenium primus, primus per altea 
Daxisti lacca antraque Pierìdum. ^ 



1 Étude 8ur Ou'rkd Muller, p. xxxi. 

^ hery Maria Jordao, Hist ecd. uUramarina, 1. 1, p. 38. 

5 CItroniea de D, Manuely Part. iv, cap. xzxvin. 

^ Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana, t. n, p. 1050. 



182 mSTORIÀ DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

O nome de FUdfo, celebre professor na Universìdade de Veneza^ 
tambem foi conhecido em Portugal, e Marco Antonio Sabellico teve a 
honra de Ihe sereni traduzidas em portuguez as snas Eneadas. A cor- 
rente humanista entrava francamente em Portugal sem a suspeita de 
heterodoxia ;Tno Cancioneiro de Resende jà apparecem traduc9Se8 por- 
toguezas em verso das Heroides de Ovidio. Està corrente nSo podia dei- 
xar de inflair^nos estudos; porém o desastre da morte do principe D. 
AffonsOy e pouco depois a morte do rei D. Jo£o u, seu pae, demora- 
ram essa consequencia, que veiu a realisar-se Bob o novo dynasta D. 
Manuel. A reforma da Universìdade de Lisboa no reinado de D. Ma- 
nuel foi tardia; a Italia nfto dominava jà exclusivamente nos estudos 
humanistas, Paris tornava-se um poderoso centro de erudi(ào. Nas 
escbolas collegiaes de Santa Cruz de Coimbra falava-se latim e expli- 
4»va-se Homero em grego. Havia mais purismo e procurava-se uma 
melhor intelligencia da antiguidade greco-romana. Està corrente fez 
com que se distinguisse no ensino da grammatica a Arte nova, appa- 
recendo com este titulo em 1493 professada por Jo2o Garcia. Uma 
carta do rei D. Manuel, de 22 de Janeiro de 1500, prohibia pagar-se 
moradia aos mo^os fidalgos se nSLo apresentassem certidfto de frequen- 
eia de Grammatica: cMayordomo-mór amigo, avemos por bem que ne- 
nhum mogo fidalgo nem £eja apontado nem paga sua moradia salvo per 
certid&o de Diegalveres, Mestre de Grammatica; notificamovolo asi e 
mandamovos que asi se cumpra, salvo naquelles que nos especialmente 
VOB apontamos e dedaramos. Escripta em Lisboa a 22 de Janeiro de 
1500.» * Um vilancete do conde de Vimioso, dirigido ao poeta palaciano 
Ayres Telles, allude a este prurido dos estudos humanistas em Portugal 
Q na córte: 

Estudaes e fugis de mim, 

soia latino ; 

que quedas dd o ensino 

do Latim? 

Trazeis todo decorado 

Metamorfoseaa; 

ea trar-vos-hey assombrado 

de rir de vós. 

Coitado, triste de ti, 

homem mofino, ' 

que foste nacer em sino 

de Latim. ^ 



1 Nas Provaè da HUtoria genealogica, t ii, p. 381. 
' Cane geral^ ed. de Stattgard, t. ii, p. 121. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADÙRA MONARCHICA 183 

efitudo da ^ramma^tca^ recommendadoànobreza sob D. JoSo ii, 
tomou-ee obrigatorio no pa90, e entre os 1D090S fidalgos. Jorge Fer- 
reira de VasconcelIoB, na comedia Eufrosina (acto in, scena 2.*), allude 
a este eetudo, que se fazia pela Arte de Pastrana: «Como se alguem 
se rira, se vos ouvisse, desses vossos preceitos e Arte Pastrana muito 
pouco contestaes para satisfazer juizos primos, quenSLo sofrem mais que 
esento de daas palauras, e estas prenbes.» Era està Arte de Pastrana 
ehamada a Arte velha. A pedido da rainha Isabel, Antonio de Nebrixà, 
que estudara na Italia, fez um resumé da Grammatica latina em ma- 
nifesta* reac9&o contra os velhos tnethodos grammaticaes de Raban 
Mauro, Jofto de Oarland, Villa Dei, Oautier, Everard, dos quaes Pas- 
trana era continuador; chamava-se-lbe geralmente a Arte nova; cno 
seculo xv, se ensinava a lingua latina nas Escholas da Universidade 
de Lisboa^ pela Arte de JoSo de Pastrana, a qual na mesma cidade, 
em volume de 4.^ e letra gothica, se acabou de imprimir no anno de 
1501, aos 28 de Novembre, explanada por Antonio Martins, que na 
dita Universidade havia side primeiro Mestre da refenda Arte, comò 
tudo consta d'ella.»^ 

Era conhecida està grammatica na linguagem das escholas pelo 
titulo de Thesaurus pcniperìim e Speadum puerorum. 

Antonio Martins fez-lhe varios Additamentos, resumidos de um 
outro Uvro intitulado Bacalo de Cegoe^ e appropriando-lhe algumas dou- 
trinas grammaticaes de Antonio de Nebrixa, innovador, e a cuja Gram- 
matica, que entSo penetriava nas escholas, se dava nome de Arte 
nova,^ 

Està edifSo de 1501, corrente nas escholas, era retocada pela di- 
ligencia do bacharel JoSo Vaz. O ensino da Grammatica dava celebri- 
dade: cJoào Garcia, alguns annos antes d'este (1505), leu Grammatica 
no bairro das Escholas (1492) que consta por se trasladar nos livros 
dos ConselhoB uma provisfto escripta em Almeirim a 4 de Novembro 
d'este mesmo anno, pela qual eirei D. Manoel, attendendo aos annos 
que ensinava grammatica em dito bairro, e ao proveito e fructo que 
fizera, em que n&o podia continuar impedido de suas enfermidades, Ihe 
fiEusia mercé gozasse os privilegios da Universidade, comò se actual- 



1 Notic. ehron.^ n.« 1171. 

2 Diz Nicolào Antonio, na sua Bibltotheca: «Omnes enim Pastranae Gram- 
maticam regnasse in Scholis nostras, anteqaam ex Italia reverans ex Bononienai 
Universitate, ac S. Clementis Hispaniarum Collegio suam Artem Hispaniae inve- 
jitset Antonina Nebrisaenaia ...» 



18 i HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

mente lèisa.»* O uso do latim, nas satyras violeatas com que pjr toda 
a Europa se atacava a Roma dos Papas^ tornava a linguagem da dìs- 
tinc9SLo entre os espiritos citltos, comò uma asp'ira^So & unidado men- 
tal. Diz Victor Le Clerc: «A christandade enropèa formava n'estes tem- 
pos comò uma unica republica, cuja dictadura perpetua estava em Roma; 
e 03 cidadSlos os mais poderosos, para nSLo dizer os unicos cidadftoa 
d'està immensa republica, os membros do clero, n£o escreviam quasi 
senllo em uma mesma lingua, na antiga lingua romana, o latim. » ' Com 
estudo do latim pelea humanistas da Renascenga é que a dictadura 
de Roma foi destruida. 

O esplendor da Renascen9a decahiu na Italia, principalmente de- 
pois da tomada de Fiorenja. Succedeu-lhe a Franya n'esta obra reno- 
vadora, emquanto n^o foi tambem embaragada pelas guerras de reli- 
giSo. A Fran9a imprimiu àPhilologia um caracter proprio; sobre este 
aspecto escreve Hillebrand: «Grajas à juateza e nitidez do espirito 
francez e à sua tendencia para a general isa9So, gra9as sobretudo à pros- 
perìdade da jurisprudencia nas Universidades de Paris, Orleans e To- 
losa, e aos estudos profundos, e ao mesmo tempo exactos e philosophi- 
cos, do direito romano, em que se distinguiram os Oujacios, os Uott- 
man, OS Pithou, a pbilologia tomou uma fórma e um alcance novos. 
As duas sciencias sustentaram-se, engrandeceram-se e completaram-se 
reciprocamente. Foi, segundo as expressSes de Etienne Pasquier, o 
€mariage de l'eatade da droict avecques les l'ettres Aw/netnes», que assi - 
gnalou file siècle de Van mil cinq ceriti j primeiro e fecundo erforgo ten- 
tado para penetrar na vida publica dos antigos, e tirar de Demosthenes 
e de Cicero as mais bellas fórmaa oratorias. De um outro lado, o me- 
tbodo exacto da jurisprudencia introduzido pelos sabios francezes nos 
estudos philologicos, permaneceu até hoje comò o processo universal- 
mente adoptado; e embora outras direcfSes sejam impressas mais tarde 
a estes estudos pelos povos do norte, é ainda o methodo francez que 
domina ali sem contesta92lo. — A justeza de metbodo, o interesse pelas 
fórmas politicas da antignidade, e vistas geraes e fecundas, eis o sub- 
sidio da Fran9a para està obra accumulada das na9oes e dos seculos.» ^ 
As guerras de religifto determinaram a mina do humanismo francez, 
pervertido pelo empirismo das escholas jesuiticas. O refugio centra a$ 
perseguigSes religiosas tomou a HoUanda o centro dos estudos philo- 



1 Nota do Keitor Figueiròa às Notte, chron., Not. 76, § 933. Inat.^ l ziy, p. 260. 
* HisL liUeraire de la Franee, t xxii, p. 166. 
3 Éiude sur Olfried MuUer^ p. xxxu. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 185 

logicos, em que a critica era um poderoso instnimento para a conquista 
da liberdade de consciencia. 

A inflaencia franceza despontava jà no firn do reìnado de D. Ma- 
nuel; em 11 de Janeiro de 1516 escreve o rei & Universidade, dizendo 
que vae mandar vir de Franga o dr. Diogo de Gouvèa para ser oppo- 
sitor à cadeira de Vespera; em seu logar parece ter vindo em 1517 
Mestre JoSo Francez. A acgSo da Renascenga italiana em Portugal 
revelou-se successivamente em outras fórraas de actìvidade: na Ouri- 
vesaria, comò o indica Garcia de Besende; no Theatro, coìn a fórma 
em prosa das comedias de Sa de Miranda e de Ferreira; na Pintura, 
com as doutrinas de Francisco de Hollanda. O ultimo resto d'està in- 
fluencia na pedagogia acha se na instituigUo de urna Academia littera* 
ria da Infanta D. Maria. So muito tardo é que as Academìas littera- 
rias se propagaram quando jà se tinham tornado na Europa em exclu- 
sivamente scientificas, conservando comtudo o primitivo caracter pa- 
latino. 

Resta-nos esbogar o caracter que a Philologia toraoii na Hollanda, 
e que nào foi sem influencia nos estudos da Peninsula, onde os Eras- 
mistas eram considerados comò livre-pensadores, e que teve reprasen- 
tantes directos em Portugal, comò o flamengo Nicolìlo Cleynarts, e Da- 
milo de Goes, o amigó de Erasmo. Sobre este ponto transcrevemos o 
juizo de Hillebrand: cN'este paiz dominado pelas luctas politicas, n'osta 
Universidade de Leyde, que deveu a sua vida d resistencia patriotica 
dos seus cidadSLos, a philologia vivificou-se ao contacto da realidade. 
Elia tomou-se pratica, formou uma parte integrante da vida nacional, 
um elemento vital da existencia do povo, que, por assim dizer, viveu 
uma scgunda veza antiguidade. Aonde Marsilio Ficino nUo vira senSo 
a belleza harmoniosa da linguagem e do pensamento, aonde um Hot- 
tman nSo tinha procurado senSLo as tradigSes dos tribunaes e a historia 
do direito, os Dousa, os Heinsius, os Grrotius tentaram descobrir as 
paixSes e os principios politicos da antiguidade para os assimilarcm ao 
homem de estado, ou ao partidario latente sob o escriptor. A diploma- 
eia, a historia^ a eloquencia publica, a poesia nacional mesmo, adopta- 
ram a lingua de Cicero. Refazendo, por assim dizer, de uma maneira 
classica e sabia, as luctas do Pnyx e do Forum, no senado dos Esta- 
doB-Geraes, penetrou-se melhor na vida antiga, adquiriu-se uma com - 
prehensSo mais completa d'estas paixSes e das idéas de outr'ora com 
as quaes se identificavam. O espirito sagaz e pratico proprio dos hol- 
landezes veiu collaborar, evitando pela sua perspicacia e lucidez o de- 
feito tSo espalhado hoje de se malb^ratarem em hypotheses sem fun- 



186 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

damento e na adivinhaySo sem base. O prìncipal merito dos discipulos 
e successores de José Scaligero e de Justo Lipsio até Perizonio foi 
alargar o campo que a Franja tinlia culti vado sem pensar em engranr 
decel-Oy descobrir os diversos elementos da antiguidade e suaa relaQSes 
reciprocas, explical-os uns pelos outros, e ligal-os corno partes de um 
organismo vivo . . . » ^ Estas tres fórmas do Humanismo cooperaram nas 
grandes luctas do pensamento nos tres seculos que se vSo seguir; em- 
bora nSo Ihe fomecessem um principio organico para a reorganisa9So 
social, determinaram comtudo um ^ovo typo pedagogico. 

O ensino europeu recebeu um typo uniforme com o desenvolvi- 
mento das Universidades, todas constituidas pelas quatro Faculdades^ 
Theoloffia, Direito, Medicina e Artes. cEsta ultima^ diz Hamilton^ cor- 
responde às nossas duas Faculdades de Sciencias e de Lettras; com- 
prehende as Lettras propriamente ditas, as Sciencias pbysicas e ma- 
tbematicas.»^ Aqui temos o facto da bifurcagào dos estudos humanis- 
tas em scientificos e classicos, iniciado no seculo xvi, distinguindo-se 
em Portugaly a par de Ajres Barbosa, dos Resendes e Gouvèas, afama- 
dos eruditos, Garcia de Orta, Fedro Nunes e Francisco de Mello, comò 
verdadeiras summidades scientificas, que sustentam dignamente a acti- 
vidade de um grande seculo de elaboraySo sistematica. 

A Renascen^a da antiguidade classica apresenta dois aspectos in- 
dependentes, que actaaram diversamente na disciplina dos espiritos: o 
aspecto litterario renegava a Edade mèdia, quebrando a solidariedade 
bistorica da civilisagSo occidentale fazendo recuar a idealisa(&o estbe- 
tica às concep93e8 de um obliterado e nSo comprebendido polytbeismo; 
o aspecto scientifico, continuando os conhecimentos da Matbematica e 
da Astronomia dos Gregos, entrava fortalecido por essas leis geraes 
do universo na comprehensfto dos pbenomenos da Pbjsica, e actuava 
directamente na emancipa9&o das intelligencias, restabelecendo sobre 
o principio da Gra9a, que dominou a Edade mèdia, o imperio da Na- 
tureza. Este duplo aspecto da Rena8cen9a, apparentemente antinomico, 
estabelece nas fórmas da actividade montai da Europa moderna uma 
accentuada bifurcagSo, que veiu a preponderar no ensino. Os que cul- 
tivam as bumanidades, ou litteratura, exercem-se de um modo exdu- 
sivo, desconbecendo tudo quanto pertence & investiga9&o das leis da 
natureza. As Bellas-Lettras e a Pbilosopbia moral sSo objecto da pre- 
occupa9So dos poderes temporaes, que restringem teda a Pedagogia a 



1 Étudt tur Otfried MuUer^ p. zzxyi. 

2 Frag. de Philosophie^ p. 272. 



A UNIVERSIDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 187 

%BBe objectivo. Os Jesnitas, apoderando-Be da Instnicy&o pablìca dos 
EfitadoB, firmam-8e noa estudos hamaniBtas para reagirem oontra os 
perigos daB novas concepySes implicitaB na PhiloBophia naturai experi- 
mentalÌBta. A bifurcagào estabelecea-se, ficando fora do quadro pedago- 
gico as diBciplinas naturaeB, que so foram ìncorporadas pela Convenfào. 



1430 



188 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRÀ 



Tabula Legentium do seoolo XV 

1408 — Pr. Joào Yiegas, lector em Thèologia, 

1414 — Gon9alo Joao, mestre de Logica. 
JoSo Lourcn^o, licenciado em Leie^ lente no Estado. 
Femao Alvares, lente de Canones. 

1415 { Femio Martina, licenciado, lente de Finca» 
(jron^alo Anes, mestre de Logica» 
Gt>n9alo Domingues, mestre em Grammatica. 

1416 — Gon9alo Joao (lente de Logica em 1414), lente de Medicina, depois bispo 

de Lamego. 
1429 — Mestre Fedro da Cruz, tu Sacra Pagina, 

Diogo Affonso, lente de Dectttaea, 

Mestre Martinho, idem. 

Jolo Affonso de Lcirea, idem. 

Luiz Martins, idem. 

Estevào Affonso, doutor em Canones. 
1431 { Affonso Rodrigucs, doutor cm Leis. 

Diego Affonso Mangancha, in lUroque. 
14-R4. i "^^^^ ^® Elvaa, lente de Vespera de Decretos, 

I Gomes Paes, licenciado em Canones, 
1437 — Jo£o Gallo, carmelita, lente de Mathematica. 
1442 — Martim Albo, lente de Theologia. 

I Mestre Alvaro, lente de Fisica de prima. 
Gomes Paes, mestre de Logica, 
Alvaro Pires, bacbarel em Leis, lente de Vespera, 
1453 — Fr. Lonren^o, lente de Theologia, 

1 APJ[\ \ ^^' ^^^^^ ^^ Santarcm, lente de PhUoaophia, 

\ Mestre Fedro da Gra^, idem. 
1469 — Mestre Joanne Cavalleiro. 

ÌBertbolameu Gomes, licenciado. 
JoSo Vaz da Porta Nova, doutor, que retocon a Arte de Pastrana. 
Femam Ruiz, licenciado. 
Mestre Joanne, lente de Fisica» 
1486 — Mestre Fr. Jo2o de Magdalena, lente de prima de Theologia, 
1492 — Joao Gomes, mestre de GhrammaHca. 

1500 — Fr. Rodrigo de Santa Cruz, lente de Theologia e Philoèophia moral. 

1501 — Mestre Antonio Martins, lente de Grammatica de Patrona ou Arte velha. 

1504 — Fr. JoSo Claro, Vespera de Theologia, 

1505 — Joao Garda, mestre de Grammatica, é aposentado com bonras e prìvile- 

gios de lente. 



A UNIVERSÌDADE SOB A DICTADURA MONARCHICA 189 



Serie dos Reitores da UnlTersldade emquanto foram de elelgao esoholar ^ 

1288 — Frei André UrsinuB, lente de Santos Padres? 
1290 — Mestre Gerardo, lente de Theologia. 

? — Mestre Agostinho Bello, lente de Aites, e depois de Theologia. 
1330 — Mestre SimSo da Cruz, lente de Theologia. 
I^AR ( O^onfalo Miguens, bacharel em Degredos. 
1 ? Prior de S. Jorge, bacharel em Canones. 
1378 -^ D. Martinho Domìngues, conego de Evora. 
1384 — Lanzarote Esteves. ' \ ' 

1387 — Lopo Martins, sacerdote. 

1388 — Vicente Affonso. 
1390 — Lan9arote Esteves. 

1393 — Vasco Esteves, vigario de S. Thoraé. 
1 ^<W5 I V*flco de Freitas. 

( Diogo Affonso. 
* o \ Salvador Rodrigues (ou Alvaro Boiz, segundo Figueirda), deSo da Guarda. 

( Affonso Diniz, conego de Braga. 
1398 — Vicente Affonso. 
1400 — Doctor Joao das Begras. 
1408 — Fr. Joào Vargas, lente de Theologia. 
I4.lȓ I ^^*^6^ Anes, prior de S. Fedro de Alemquer. 

i Joao de Alpoim, sacerdote. 
1417 — D. Fedro Escacha (serve por elle : 

— Fedro Gon^alves, prior de Santa Maria de Obidos.) 
111 R \ *^^^^ Affonso, escolar de Leis (servindo por D. Fedro.) 

( Gii Martins. 

I49<ì S- ^*®^® ^^> escolar de Canones. 

i Ricardo Faim, escolar de Leis. 
145Ì1 i ^^^^^ Estevain, vigario de S. Thomé. 

) Fero Lobato (fàlta em Figueiróa.) 
1435 — Vasco Gii. 

1440 — Fedro Esteves. 

1441 — Gonzalo Martins, escolar Canonista. 
^^f^ i ^o™®* Affonso. 

i Martim Albo (falta em Figueiróa.) 
^^^ I *^^^ ^^ Elvas, lente de prima de Canones. 

I Gonzalo Garcia de Elvas, lente de prima de Leis. 

-ìAMK \ *^^^^ ^^ Elvas, lente de prima de Canones. 

i Bartholomeu Gomes, lente de prima «Le Leis. 
1478 — Lopo da Fonseca, licenciado. 



1 Nas Memoriaa da Universidade de Coimbra^ do reitor Figueiróa, vem està 
lista de reitores menos desenvolvida. Vide Annuario da XJfdvertidade^ de 1876 a 
1877, p. 214 a 216. 




190 HISTORIA DA ÙNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

1481 \ *^^^^ Foga^a (falta em I^eirda.) 

( Gon9alo Annes. 
1487 — FernSo Lopes. 

1493 — Alvaro Martina (ou Anes), capell&o da Bainha. 

1494 — Rodrigo Caldeira, lente de prima de Canones (em logar de Alvaro Anes.) 

t Alvaro Martìns (falta em Figaeiròa.) 
( Mestre Jo2o de Maddalena. 
1499 — O bispo de Fez (D. Francisco Femandes, mestre de D. BlanueL) 



CAPITULO IV 



is Llrrarlas manoscriptas do secnlo XT o a dascoberta da Impressa 



Aa Livrarias daa CoUegiadaa e epiecopaes Bnccedem-se as magoificas Livrarìaa doe 
reis e princìpea. — A opuleDcìa daa copiaa e illiuniDuraB e exaggera^So doa 
pre^s doB livros maDuacrìptoa. — Caracter hìstorico e litterario daa Liviarìaa 
principeacaa do aeculo it. — As bibliotfaecaa piÌDcipeacaa abandam em tra- 
ducfòcs. — Os livrea destinados ao ubo pablico, ou Eneadtado». — Gino de Pia- 
toia e Bartbolo. — Livroa facultadoa pelo Unnicipio de Liaboa para a con- 
sulta publica. — EiKadtado» da Uoiversidade — Corpo das Leii deiiado 
pelo Dr. Fedro Nunea ao Municipio e emprestado aoa escholarcs.^O cos- 
tume doa Eneadeadot da Làvraria doa monges do Fa (o do Sousa. — Os livros 
prohibidoa eram tambem tiuadeadoé para se nSo poderem abrir. — A deaco- 
berta da Impreiua coadjavao ferver doa Hamaniatas pela antiguidadc clas- 
aica, e faz eaqaecer ou dosprezar aa obras pooticaa e hiatorìcaB <*'• ^ ■'* — 
taraa da Edade mèdia. — Causa da ruioa e desmembra^ito das Liv 
dpeacas. — Beconstrac^o da ZAvraria do rei Don Joào I, que Bt 
loB sena filboa.^/jtcraria do rei Dom Daarte, coQhecida pelo C 
stai livroi de tao. — Deacrip^ dos principaca livroa d'eata Bibli 
Litiraria do Infante Dom Fernando; sea caracter myatico.^A 
Condatavd de PorUigal, D. Fedro, que foi rei de Aragio.— aei 
officiai em aragonez. — A Livraria de D. Affamo V, reconatraida 
ceociaB do chronista Azurara. — Compara^io com aa Livrarìaa 
Kainha Isabel a Catholica, do Prìncipe de Viana e do Duqne Fili 
— Oiitras bibliotbecaa particnlarea do seculo ir, de que ha noticii 
do DoiUor Manganeha, de JoSo Vaequa, de D. Vatoo Perdigà 
Evora. — Ob eruditoB deaprezam a Litteratura da Edade mèdia, pi 
a eradi^flo classica desde o firn do aecnlo xv. — A quebia da soli 
coDtinuidade hiatorica torna maia dìfficil a aotn^So da crise da rei 
do poder espirìtual. — A descoberta da Polrora e da Impreusa to 
malica a grande crìse. 

Na transigSo da civilÌBa9So polTtheica para o christianisi 
timento aervìa de apoio ao novo regimen social em que entr 
cidentfl, disciplinando-se na moral com qae o catholicismo 
prolongado regimen da Ildade mèdia atravéa de todas as peri 



192 HISTOBIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Quando a synthese theologica se tomou impotente para manter a una- 
nimidade dos credulos^ a emancipatilo das consciencias tomou um exclu- 
8Ìyo caracter intdlectual, corno yimos pela livre critica doB Ontologiàtae, 
e social^ corno TÌmos nos esforgos dos Jurisconsultos para fundarem a 
auctoridade impesEoal da lei civil. N'e&ta forte decomposi^So do regi- 
men medieval e recompo8Ì92lo da sociabilidade moderna, faltou & intel- 
ligencia e activìdade a presidencia do sentimento, circumstancia que ag- 
graTOu a transi^fio tomando-a prolongadamente revolucìcnaria. Comte 
poz em evidencìa este ^specto: «a transi^So moderna abrangeu simul- 
taneamente a intelligencia e a actividade, mas deixandò de parte sem- 
pre o sentimento. Isto resumé os caracteres essenciaes da reyolu9So 
Occidental. Destinada a desenvolver os elementos theoricos e praticos 
da civilisayào linai, dèsprezou o regulador geral da existencia humanav.' 

O sentimento, separado da emo^So religiosa, jé, tinba sido nitida- 
mente expresso na idealisa^So da vida domestica e publica nos poemas 
da Edade mèdia; as novas litteraturas, fixadas pelas linguas vulgares, 
eram Terdadeiramente o orgào destinado a activar a cultura do senti- 
msnto e a dar-lhe a presidencia definitiva, conduzindo do ideal de Pa- 
tria, que surgia em cada nova nacionabdade, para o ideal de Huma- 
nidade, que resultava da solidariedade historica da antiguidade clas- 
sica e catholico-feudal para a Europa moderna. Infelizmente essa so- 
lidariedade foi quebrada, e as novas Litteraturas que brotaram das 
tradÌ98es da Edade mèdia cairam no desprezo diante da admira9S[o 
dos exemplares greco-romanos. O exame das Livrarias manuscriptas 
do seculo XV evidenceia este conflicto. 

Os reis, que procuravam concentrar a dictadura tempora! no melo 
da agita9So que resultava da dissolu98o do regimen cathollco-feudal, 
assim comò pretendiam disciplinar os espiritos submettendo à sua pro- 
tec9lo as Universidades, taibbem fundaram as opulentas bibliotbecas 
do seculo xVy onde foram reunidos os mais esplendidos livros manu* 
scriptos do saber medieval e da antiguidade classica, de um valor in- 
calculavefl pelo esmero artistico das copias, das illuminuras, da'ìs en- 
caderna9Ses, e pela sua extrema raridade. Possuir uma Livraria era 
a ostenta9So de uma riqueza, que era titulo de soberania e apanagio 
de um grande prmcipe; sSo conbecidas as Livrarias de Isabel a Ca- 
tholica, do rei D. Duarte, de Filippa Sforza, do Principe de Viana, 
de Condestavel de Portugal, de Carlos vi, e do Duque de Anjou. Os 



> Systhmt de Polilique positive, t. iii, p. di 4. 



UYR ARUS MANUSCRIPTAS DO SBCULO XV 1 93 

reiB preoccnpavam-se com a existencia de um novo poder moral, o jal- 
gamento da opìniSo, e chamavam a si os letrados para escreverem as 
chronicas dos seus feitos; os principes subsidiavam traductores dos li- 
TroB antigos para as lingaas vulgares, tornando accessiveis as idéas 
theoricas da moral^ que vieram a servir de base crìtica centra Roma na 
època da Reforma, e as doutrìnas polifticas sobre a fórma de governo 
com que o individualismo protestante reagia contra as monarchias. Nos 
dois seculos anteriores^ floresciam as Livrarias das Collegiadas e epis- 
copaes, repletas de collec^es de leis canonicas e romanas^ de especu- 
la93eB scholasticas e de moral patrologica. No secalo xv òs Livrarias 
principescaS) que por assim dizer se dispersam ou desbaratam com a 
descoberta da Imprensa, que actuou sobre o criterio e o gostO; apre- 
aentam urna predilec^fto decidida nos espirìtos pelas obras de historia, 
de moral e politica, e pela poesia cavalheiresca das epopéas mediévi- 
casy pelos cancioneiros e relafSes de viagens. Entro esses livros desta- 
cam-se os exemplares dos escriptores gregos e romanos, em um syn- 
eretismo espontaneo, que se interrompe com a descoberta da Imprensa. 
Quando se espaiha a nova fórma de reproduc92Lo dos livros, todo o em- 
penho da sua applica9So incidiu sobre os manuscriptos greco-romanos, 
que vém alimentar a paix^ exaltada dos humanistas; as obras da Edade 
mèdia caem rapidamente em um desprezo desdenhoso dos sabios, con- 
tinuando apenas a merecer a predilec92Lo das mulheres, que compre- 
hendiam melhor a idealisa$%o dos sentimentos cavalheirescos e das alle- 
gorìas amorosas, do que as phrases rhetoricas de escriptores cuja acti- 
vidade montai coincidira com a decadencia do reg^en polytheico. 

O arrebatado Carlos vi lia, comò D. JoSo i e o Condestavel Nuno 
Alvares, os Romances de Saint Groud, de Lancdot do Lago e o Tris- 
tan; para elle traduziu JoSo Galeim o Regimento de Principes de Gii 
de Roma, bem comò a vida e feitos de Julio Cesar. Isto em 1397. Ao 
mesmo monarcha, vencedor de Roosbeke, dedicou Honorè Bonet a 
Arvore das BcUalha^. Tanto este comò alguns dos livros mencionados 
figuram na livraria do rei D. Duarte, que se rodeàra de todos os livros 
que entSo constituiam a educagSo de um prìncipe. Na livraria de Luiz, 
duque de Anjou, tio de Carlos vi, guardava-se imia traduc^So de Va- 
lerio Maximo, a Cidade de Deus de Santo Agostinho, a Vida dos Po- 
d/re», a Politica de Arìstoteles, e o Regimento de Principes, Luiz xn 
trouxe de Italia, entro outros volumes de Visconti e dos Sforza, um 
livro em que estavam reimidos o Saint Graal, Merlim e os Sete Sabios. 
Ob livros communs a estas bibliothecas reaes e prìncipescas revelam-nos 
urna corrente de gesto dominante, que ainda no seculo xv vae cair na 

BIST. UN. 13 



194 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

paixSo popular, abandonada com desdem pelo pruridó erudito da anti- 
goìdade investigada pelos humanistas. 

A admiragSo pelas obras prìmas da antigaidade classica e o des- 
prezo pela Edade mèdia, caracterisam o estado montai dos eruditosi 
jorisconsultos, humanistas e metaphysicoSy para quem a coltura do 
sentimento estava completamente substituida pelo rigor intellectual| 
auctoritario e pedante. Escreve Comte, observando o caracter negativo 
da RevolugSo occidentale pelo abandono da synthese absoluta ou theo* 
logica: «O Occidente achou-se levado a desconhecer, e mesmo reprovar 
o conjuncto da Edade mèdia, e sobretudo a divisSo fundamental dos 
dois poderes. — E verdade que o desenvolvimento continuo da intel- 
ligencia e da actividade determinou espontaneamente uma admira^So 
xmiversal pela ciyilisa92Lo antiga, viciosamente julgada pelo monotheismo 
defensivo. Mas està regressSo empirica era proveniente mais do odio & 
Edade mèdia do que do amor da antiguidade; assixn o confirma a pre- 
ferencia geralmente concedida aos Gregos sobre os Romanos, segundo 
a natureza mais intellectual do que social da revolugSo moderna. A 
cadeia dos tempos occidentaes achou-se desde ent2Lo quebrada mais 
gravemente do que depois da continuidade devida ao catholicismo.» ' 
As litteraturas das novas nacionalidades formadas na Edade mèdia 
idealisavam situa93es da vida domestica e publica sob a sua fórma 
sentimental ou a£fectiva; emquanto os eruditos desprezavam essas crea- 
93es modemaSy preferindo os exemplares antigos, as mulheres conti- 
nuaram a amar a Edade mèdia, nas novellas de cavalleriai na poesia 
trobadoresca ou de cancioneirO| e no mysticismo. e Por isso, comò diz 
Comte, desde o inicio do movimento moderno, sem nada pronunciarono 
sobre a antiguidade, aspiraram espontaneamente & Edade mèdia.» ' 



1 Systhme de PoUdque potUive, t. ni, p. 515. 

«^ É extremamente carìoBo o modo corno JoSo Loiz Vives, que juntamente 
com Erasmo e Badeue formava o triumvirato do humanismo na Renascen^ con- 
demna no seu livro De IfuUtuHone Foeminae ehrùUanae todas as obras das litte- 
raturas da Edade mèdia: 

«Que uso è este, que j4 se nSo acoeita comò can^So aquella que nSo for ob* 
scena. Deviam tomar conta d*Ì8to as leis e os fóros, se os govemantes quiserem 
que as consciencias se n2o contaminem. Deviam fazer o mesmo d'esses outros livros 
vàos, que sSo : Em Hespanha, o Amadis^ Ilmsandro, Tirante^ TriMo de Leomt, 
Celestina, a alcoviteura, m2e da malvadez ; em Franca, Lan^rote do LagOy Pam 
# Vianoy Ponto y Sidonia^ Fedro do Provenfo^ e 3£agalona^ Melusina; e em Plan- 
dres, Flaree e Brancaflor^ Leonela e Cananior^ Curiaa e lìoreta, Pyramo e Tube. 
Ha outros tradozidos do latim em vulgar, corno sSo as infacetisaimas FacecioB e 
Gra^aa desgra^adas de Pogio, e as Cem NoveUaa (Decameron) de Joio Bocacio, 



i 

1 



LIVRARIAS MANUSGRIPTAS DO SECULO XV 195 

A paizSo pelas obras prìmas da antìgaidade greco-romana, qae 
idealisaram a coiicep9So polytheica decadente, mal se pode explicar 
pela emo9So esthetica em espiritos edacados sob a onidade do mono- 
theismo occidental. Essa paixSo, qae se apoderou dos eruditos e dos 
politicos, era a resultante do caracter da revola9So em que se elabo- 
raram as fórmas da sociedade moderna, revoluySo tntelleducd, corno se 
ve pelo individualismo anarchico dos pensadores, e social, comò se pa- 
tenteou nos movimentos dos Paizes Baixos, Inglaterra e Franca, que 
iundam a liberdade e a egualdade civil. Nas obras da litteratura grega 
foram os pensadores encontrar as doutrinas theoricas para a moral e 
para a especulagSo critica, e nos escriptores romanos o conhecimento 
de uma vida publica quasi sociocratica, que se prestava comò exemplo 
para a actividade. Comte accentuou muito superiormente este aspecto 
sempre mal comprehendido da llenascen9a, e do desprezo pela Edade 
mèdia. 

O rei D. Duarte fala com enthusiasmo da leitura dos bons livros : 
cE posto que aa primeira pareva nom sentirem proveito de ò veer nem 
ouvir, saibam que o leer dos bons livros e boa conversa9So faz acre- 
centar o saber e virtudes, conio croce o corpo, que nunca se conbecoi 
senom passado per tempo: de pequeno que era se acha grande, o del- 
gada fomido; e assy com a gra^a do Senhor o boo studo, filhado com 
boa tenjon do simpres faz sabedor, do que bem nom vive, temperado 
e virtuoso. E de tal leer avemos tres proveitos: primeiro, despender 
aquelle tempo em bem fazer; segundo, acrecentar em boa sabedoria; 
terceiro, por o cuidado, quando estiver ocioso, avendo lembran$a do 
que leeo nom se occupar em alguns nom boos pensamentos, ante re- 
tornando ao que aprendeu acrecentar em boo saber e virtudes.» ^ De- 



tivroB todoB elles escriptos por homens ociosos e desoccnpados, sem letras, cheios 
de yìeios e sordidez, nos qu&es eu me marayilho corno se pode achar cousa que 
de deleite a nSo ser que os nossos yicios nos tragam tanto al retòrtero ; por que 
doatrma e virtude, corno a darìU> os que nunca a lobrigaram? Pois quando se me- 
tem a contar alguma oonsa, que prazer ou que gosto pode haver onde tSo aberta, 
tio tela e descaradamente mentem?. . . que agudeza, ou que de bom pode haver 
«m uns escriptores conbeoedores de t£o boa doutrìna (a sensualidade) que em sua 
vida nunca leram um bom livro? eu por mim digo em yerdade, que nunca vi, nem 
•avi dixer que Ihe agradavam obras d'este genero, senSo às pessoas que nunca 
tooaram nem viram um bom livro, e eu tambem fiz d'essas leituras algumas vezes, 
mas nunca achei vestìgios alguns de bom engenho.» (Cap. y, ap. Obrcu escogidas 
de FUwophoe^ p. xxxy. Coli. Biyadenejra.») 
^ Leal Consdheiro^ p. 7. 

13* 



196 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

pois da leitiira o rei D. Duarte aoonselhava as traduc93e8, e ensinava 
o modo corno se deyeriam fieizer. Victor Le Clero observou eate caracte- 
teristico das livrarias do secalo xv: cAs bibliothecas do clero pos- 
Buiam de ordinario os auctores latinos no originai; os seculares em 
traduc^8e8.9 ^ D. Duarte mandou fazer um grande numero de traduc- 
98089 e na sua Uvraria prevaleciam os livros em linguagem, por oastd^ 
làoy por portuguez, par aragoes. Na livraria do Condestavel de Portugal 
abundavam os livros em francez, nSo so por quo cera naquelle tempo 
a lingua franceza estimada e corrente entro os principes por cortezft e 
polida,» comò refere Fr. Luiz de Sousa, mas porque era a lingua em 
qae existiam mais traducfSes. Paris era entZo o grande mercado dos 
livros; OS preyos por quo se vendiam eram fabulosos, ' e so accessiveis 
às bolsas de principes^ que se nSo pejavam de pedirem livros empres- 
tados ims aos outros^ e de deixarem corno garantia d'elles valiosos pe- 
nhores. A riqueza da illuminura influia no seu alto valor; havia em 
Portugal urna verdadeira eschola de illuministas. Do manuscripto do 
Lecd Consdheiro, de el-rei D. Duarte, n.^ 7007 da Bibliotheca de Paris, 
escripto em gotico sobre pergaminho, e em duas columnas, diz o vis- 
conde de Santarem: cAs letras capitaes, ou iniciaes, em principio de 
cada capitulo, sSo admiravelmente desenhadas e illuminadas com pri- 
morosas cores, muitas vezes recamadas de curo, e cujos accessorios 
occupam pela maior parte toda a extensSo da columna em que capi- 
tulo principia.» Em nota diz illustre philologo: e A execufào caUi- 



1 HisL liUeraire^ 1 1, p. 355. 

' ApontamoB o pre^o de certos livrea, que se acham cotados dob catalogos 
de algODs reifi e principes do secnlo zv, e que tambem se guardavam na liyrarìa 
de D. Dnaiie : Traye lagrant^ 32 livrea parìsis. — Lancdot du Lac^ 125 livrea; (em 
1404 cuatara 300 eacadoa de euro; Tito Livio^ 150 livrastomezas, e 500 um esem- 
plar illuminado : Tito Livio eBoedo, em 1397 cuataram ao duque de Orleans, 337 
livras e 10 soldoa tomezea. A traduc^ao latina daa nove partes de Ariatoteles, em 
1340, custara a un religioso de Saint Bertin, 21 aoldos. Noa livrea de Joilo de 
SuSres de 1365, vem os seguintea pre^oa: Merlim^ 15groS, Troie la grant, 12gros» 
A Rosay 4 florina; Galaaz^ 4 florina; mn cademo de TVtVan, 1 florim; e um oatro 
TrUtatiy 20 francos de euro. Le Clero, Eist litteraire, t, i. p. 335.— No Catalogo 
dos Biapoa do Porto, p. 59, cita-ae o testamento de D. JuJi^o, de 1298, em qae vem 
o pre90 de um Codigo^ por 50 morabitinoa, e de umaa Deerttaet^ por egual quantia: 
«Item, mandamua Velaaco Facondi Theaaurarìa Eccleaiae Portucalenaia, quinqoa- 
ginta morabitinoa in quibua emat unum Codtoem legalem. Item, mandamua PetM 
Femandi Canonico nepoti noatro, quinquaginta morabitinoa, in quibus emat unum 
volumen Decretalium,» 



LIVRARIAS BIANUSCRIPTAS DO SECULO XV 197 

graphica d'este codice é mai superìor & do codice que encerra a Chro- 
fiica da Conquista de Guiné por Azurara.» Na edÌ9So de 1842, vem o 
fac-^imile da prìmeira pagina do texto, em que se ve um primoroso 
specimen da illuminnra no secolo xv em Portugal. Condue a citada 
auctorìdade: <a calligraphia e a arte da illttmina9fto dos pergaminhos 
estava levada a grande perfeÌ9So em Portugal muitos tempos antes que 
«I-rei D. Manuel subisse ao throno, e qae por sua ordem se execu- 
tassem os admiraveis Codices dos BrazSes que se conservam no real 
Archivo da Torre do Tombe, e em poder do Armoire Mór, bem corno 
OS sumptuosos Livros chamados de Lettura nova; mostra finalmente 
quanto està arte se achava entro nós aperfeÌ9oada antes do nascimento 
do celebre Perugino, mostre de Raphael e do nesso Gram Vasco; pois 
a nesso vèr oste Codice foi escripto entro os annos de 1428 e 1437^ 
visto que tendo sido trasladado a rogos da rainha, so iste poderìa ter 
legar depois do prìmeiro anno, que foi o do seu casamento, e o de 38, 
que foi o da prematura morte de El-Rei.» ^ 

Garcia de Resende, na Miscellanea, que vem no firn da Chronica 
de D. JoSo n, descreve os progressos da calligraphia e da imprensa, 
e a arte da illuminura: 

E yimoB em nossos dias 
A Utra de fórma achada, 
Com que a cada passada 
Crescem tantas livrarias, 
A sciencia é augmentada. 

e mais abaixo: 

PirUorea. luminadores 
Agora no carne estam 

£ ha em Portugal taes 
TSo grandes e aaturaes 
Que vem qiuui ao olivel. 

Garcia de Resende atrevia-se a comparar esses artistas com Ra- 
phael e Albert Durer. Na Chronica da Conquista de Ghiùié, de Gk)mes 
Eanes de Azurara, vem um bello retrato do Infante D. HenriquCi 
quando estava de luto. A carestia dos livros fazia com que se guar- 
dassem com todas as cautellas, prendendo por correntes aquelles li- 



^ Visconde de Santarem, Introduo^So ao Leal Conèelheiro^ p. zr. 



198 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

YT08 qne eram destinados & leitura publica; catenaitis, quer diaet 
segando Le Clero, o livro permittido ao uso commom. Os livros de 
leis, neces&arioB para defenderem os interesses individuaes, foram no 
secolo XV facaltados ao publico por melo de correntes, no monicipio 
de Lisboa; Bartholo, e as Leis.romanas ahi eram consultadosi e mesmo 
emprestados aos escholares. 

A importancia das dontrìnas de Bartholo nos tribunaes porta- 
gnezes apparece revelada em urna Carta regìa de 18 de abrii, de 1426| 
em qne à Camara municipal de Lisboa se mandam entregar dois livros 
contendo o Codigo, a Glossa ou commento de Cino da Pistoia, e as 
Condusòea de Bartholo, ficando encadeados para uso commum: cporqae 
OS tralados de tirar de latim em lingaajem nom som tam craros, q os 
homes q muyto nom sabem os podessem bem entender, por esto nos 
trabalhamos de fazer hua decraragào em cada bua ley e na grossa e 
nò bartalo; q de sobrello he escripto, polla q' mandamos aos nossos de- 
sembargadores, q per aquella decrara9om fa^am livrar os feitos, e dar 
as Senten9a8 ... E vos poSem estes liuros na Camara desse Concelho, 
presos per hHa cadea bem grande e longa. E nom os leixees a ninguem, 
salvo aaquelles que feitos ouverem ou a seus procuradores ou sse 
temerS daver alguns feitos. E esto seja presente o escripuam da dita 
Camara. Ende al nom fayades.» ^ 

Depois do recurso dos livros encadeados para os cstudantes pobres, 
encontramoB os livros emprestados pela Camara municipal de LisboEi 
por disposi(fto testamentaria do Dr. Pero Nimes, em beneficio dos es- 
colares em leis. Em urna escrìptura de 28 de Janeiro de 1466, obri- 
gou-se por publico instrumento o escolar em leis JoSo Femandes, apre- 
sentando comò fiador seu pae FemSo de Cintra, a restituir à Camara 
municipal de Lisboa os livros que Ihe foram emprestados por ser es- 
colar e parente bem ckegado do Dr. Pero Nunes: ccinqao liuros que 
som huu corpo de lex^ convem a saber: hSu volume e hSu codigo, e 
hfiu dgeesto novoj e outro dgeesto velho e huu esforgado.9 Estes livros 
tinham sido legados pelo Dr Pero Nunes: cpara por elles aprenderem 
OS escoUares e filhos de 9Ìdad&os eparentes seus, que aprender quizes- 
sem de direito.» Pela escrìptura refenda era o escolar obrìgado a re- 
stituir OS volumes d'esse Corpus Jurìs comò os recebera bons^ limpos 
e encademados, ficando ao contrario sujeito & pena de trinta mil reaes 



^ lAvro dos Prtgos^ fi. 216 f. Ap. Ekmentos para a Historia do Munieipiodé 
Idsboa, 1. 1, p. 312. 



UYRARIAS MÀNUSCRIPTAS DO SECULO XV 199 

irancos ora correntes, com todas custas e deepezas, perdas, dapnos que 
por elio receberem e fezerem.» ^ 

Na Carta ii do abbade Frei Joham Alvarez, aos monges do Pago 
de. Sousa, datada de Bruxellas em 1467, ainda se fala no costume dos 
fivros encadeados: cPrimcìramente vos sabees bem, corno ao tempo 
que eu cheguey a esse Moesteiro, hy nom avia nenhum livro da Rregra 
de Sam Beento em nossa lingoa, nem tam soomente huum de vos oa- 
troB Monges nom sabia cousa nenhnua da Regra: e eu vola tornei em 
Imgoagem, e a paso nesso Moesteiro, bem scripta em letra redonda em 
huum liuro de pergaminho com sua cadea e cadeado posto na estante do 
Cabydo . • . » * 

No testamento do Doutor Manganella de 1447 , referindo-se à Li- 
braria do Collegio que funda, repete està mesma clausula: aE que os 
meua livros se ponham por cadeas dentro das ditas casas.» 

Sobre este costume de conservar os livros prezos por correntes 
para a leitura commum, escreve o sabio Victor Le Clero, na ESsUdre 
lùteraire de Franca au XIV^ siede : 

«As fortes fechaduras e a excommunhSo n^ foram as unicas pre- 
caugòes centra os furtos: era uso quasi goral o encadear os livros. 

cEstas cadeas foram algumas vezes uma punigSo infligida às obras 
suspeitas. Os franciscanos do Oxford, que tiveram modo dos livros do 
seu confrade Bogerio Bacon, pregaramos com cravos compridos, que 
nSo deixavam folheal-os, fìcando livre o accesso à traga e & poeira. NSo 
se perdeu a tradigào, por que em 1473 os livros dos Nominalistas, por 
ordem de Luiz xi foram prezos por cadeas, ou póstos a ferros, corno 
diz Robert Gaguin, para nào serem cdespregados, e abertos, senSo outo 
annos depois, em nome do mesmo rei e do preboste de Paris, que de- 
clara que de futuro cada qual estudari n'elles o que quizer. Na Uni- 
versidade sómente a nagào allemS recebeu com jubilo està auctorisagSo 
de ler taes livros; mas, por ventura, leu-os menos do que quando eram 
prohibidos e cravados. 

cA mais das vezes, a cadèa que prendia o volume ao pulpito por 
um annel passado na lombada da encademagSo, nSo era senSo uma 
garantia de seguranga, e a fòrmula — Incatenabiiur, era antes detudo 
nma recommendagSo que significava que a leitura nSo era probibida. 



1 Livio u Mistico dos Reis^ fl. 42; apud Elementos para a Historia do Mum-- 
* €Ìpio de IMoa, 1. 1, p. 828. 

* Ap. J. P. Ribeiro, DisserL ehron., U i, p. 370, ed. 1860. 



200 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Sobre os livros da antiga Sorbonne que estavam à disposi^So de todos 
està inscrip9^ era. commum. catalogo doa dominicanos de Dìjon^ 
em 1307^ revela*nos que ob commentarios de Frei Thomaz sobre os 
quatro fivangelhos nSo eram lidos entre elles senSlo com a condiy&o: 
Habentur in catenis, Em 1318^ o cardeal Michel du Bec, no seu tes- 
tamento datado de Avìgnon^ imp3e aos carmelitas de Paris^ legatario» 
dos seus livrosy a obriga9So de os terem encadeados. Os livros da Ab- 
badia de Marmoutiers ainda estavam encadeados no secalo passado. 
A inten9So d'està disposigSo nSo soffire davida ante o legado de Phi- 
lippe de Cabassole, em 1372^ aos conegos de Cavaillon, corno tambem 
no qae fez em 1438, & egreja de Saint Omer^ o prevosto Quintin Mi- 
naret do grande diccionario latino o Cathaltcon transcripto no secalo 
precedente: statxAendo ipsum librum concatenatum in choro munere, ut 
in ipso aliquid videre'seu legere cupientes faciliorem fiaberet vcdeant ac- 
cessum. 

cTemos ainda outras provas, de que no recinto do còro nSLo se 
depositavam sómente os livros liturgicos encadeados^ mas sim obras 
litterarias e philosophicas. Em 1374, a fabrica da Egreja de Treguier 
pagou nove soldos e nove dinheiros — para encademar um livro cha- 
mado Filosogium (Philologium ou Sophologium?) que mecer Jean Gou- 
rion, no seu testamento deixou para ser preso ou eneadeado no c6ro 
da dita egreja. — 

e A Italia, permaneceu fiel, nas suas bibliothecas, a muitos usos 
antigos, taes comò os armarios à altura de apoio, comò no Vaticano, 
e OS livros encadeados^ comò os de Malateati, em Cerena, e urna parte 
dos da Laurenciana de Floren9a. . . 

cMesmo em Franca o uso das cadeas para os livros, permaneceu 
por multo tempo. Em 1553, Josse Clichthove, legando alguns dos seus 
livros à casa de Navarra, quer que elles estejam sempre presos, td 
Ulic semper affixa maneant ad usum studantium et litteratorum, Em 
1718, OS livros da Abbadia de Saint- Jean des Vignes, em Soissons, 
continuam a estar presos por cadéas. Muitos manuscriptos e alguns 
livros impressos que se conservam nas grandes bibliothecas francezas, 
ainda tém as ferragens que os prenderam outr'ora às estantes.» ^ 

Ainda no fim do seculo xvi prevalecia na Livraria da Universi- 
dade de Coimbra o costume medieval dos livros presos por cadeas; 
costume consignado nos Estatutos de 1591 e que passou para os de 



1 Op. cit., 1 1, p. 359 e 360. 



UYRÀRIAS MANUSGRIPTAS DO SEGULO XY 201 

1653 sem reparo: cAverà na Universidade urna liyraria pnblica, na 
qual estarSlo os livros de todas as faculdade em estantes ou almarios, 
presos por cadeas, e repartidos e ordenados na melhor maneira e ordem, 
que puder ser para bom concerto. £ a pessoa que tlver cargo da dita 
casa e chave d'ella, sera bom latino, e saberi grego e hebraico, sendo 
possi vel; e terà conhecimento dos livros para os saber ordenar, e dar 
razSo delles.» ^ 

Depois da deecoberta da Imprensa, os livros escholares eram al- 
lugados em folhas dobradas em quatro partes {quatemìis^ oademo e 
Cahier) estabelecendo-se ama taxa para este commercio. Quando se es- 
tabeleceu a censura dos li^os, as obras que tinham de ser postas A 
venda eram taxadas no seulpre^o pelo numero de pliegos ou folhas de 
que constavam, segnndo e antigo uso das Universidades. 

Um dos grandes factores da Renascen^a foi indubitavelmente a 
descoberta e vulgarisa^Slo da Imprensa, fazendo prevalecer o livro 
sobre a palavra iste é, convertendo a in8truc9So por via da aucta- 
Tìdade em um desenvolvimento autodidaeta ou individualista. Àlém 
d'isso, generalisando as obras primas da antiguidade greco-romana, 
revelou que existiam tambem no9(!les moraes fora da Biblia, e pelo 
trabalho dos prelos promoveu-se a fórma escripta das linguas e lit* 
teraturas nàcionaes, que deram por este facto um enorme relévo ao 
sentimento de patria. A descoberta da Imprensa communicou-se muito 
cedo a Portugal ; lémos no Boletim da Sociedade de Geographia, a 
seguinte communicafSo de Buckmann: «Em 1460, alguns negociantes 
d'està cidade de Nuremberg informaram o governo real de Portugal 
da descoberta e utilidade da Imprensa feita por Gutemberg e Faust 
em MayenQa. Um Cardeal, ou o prior de um grande convento de 
Coimbra (Santa Cruz?) mandou vir em 1465 os primeiros typogra- 
phos de Nuremberg para Portugal, onde elles imprimiram de 1465 a 
1473 em um Convento os auctores gregos e latinos, e muitos livros ec- 
desiasticos, comò por exemplo S. Thomaz de Aquino, etc. — Segundo 
urna velha chronica estes impressores que vieram a Portugal era Ema- 
nud Semona (Simon) de Nuremberg, e Christophe Soli de Altdorf; 
ensinaram muitos discipulos, e immediatamente a Typographia espa- 
lhou>se por todo o reìno de Portugal.»^ Estes factos concordam com 
a celebre nota manuscripta das Coplas do Condestavel D. Pedro, vista 



1 EbUU., liv. n, tit. 46. 

^ Bólet. da Soe, Geographia^ 2.* serie, p. 674. 



202 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

pelo conde da Ericeira na Livraria do conde de Vimeiro; n'essa Nota 
se diz: tEste livro se imprimiu seis annos depois que em Basilea foy 
achada a famosa Arte da impressào.^ ^ A ìmprensa foi introduzida em 
Bazilea por Berthold Rot, o qoal ainda eni 1468 trabalhava em Mo- 
goncia ; Berthold nSo datava nem assignava os seus impressosi e so a 
come9ar de 1474 é que ali se acha um outro impressor Bernard Ri- 
chel rubricando todos os seus livros. * Bernard, nas Origens da Im- 
jnrensaj considera Richel corno successor de Barthold, e por tanto a acti- 
yidade de Barthold circurnscreve-se em Baziléa desde 1468 a 1473. 
Se & data de 1468^ em que come9a a imprensa em Bazilea, ajuntarmos 
seis annos, segundo a nota manuscripta das Coplas vista pelo conde 
Ericeira, conclue-se que estas foram impressas em 1474, na època em 
que trabalhavam entro nós os dois impressores de Nuremberg. 

Infelizmonte, apesar de todos os privilegios de nobreza dados 
aos impressores, a Typographia pouco se desenvolveu materialmente, 
e quasi nada codjuvou o movimento da Rena8cen9a e a vulgarisagSo 
da litteratura nacional. ^ Percorramos agora, por urna paciente recon- 
strucfSLo historica, as sumptuosas Livrarias manuscriptas de Portugal 
no momento em que se gcneralisava a Imprensa, que, além de outros 
factores, veiu tambem influir para a sua completa dispersfto. 



* Ap. Collec^ào do» Doc da Academia de Hist, 1724; n.® xxin. 

* Auguste Beruard. De Vcrigine de Vlmprimerie^ t. ii, p. 120. 

3 Dos novecentos volumes impressos em Portugal em todo o seculo xvi, quasi 
duas ter^as partcs foram de Theologia. 

No seu opusculo A Imprensa portvgueta durante o eeculo xvi, escreve o sr. 
Tito de Noronha: «Os generos em que se dividem os 900 obras sahìdas dos prelos 
em Portugal durante o seculo zyi, sSo conforme a rapida aprccìacSo d'ellas os se- 
gttintes: (p. 13) 

Theologia e Mjstica 406 

Litteratura, poesìa, etc 160 

Polygraphia ^ 127 

Historia, viagcns, e rela^òes 101 

Direito e Legisla^So 60 

Sdencias Naturaes e ezactas 46 

"90Ò 



LIYRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XY 203 



Livrarìa do rei D. Jodo I 

Demanda do Santo Ghraal. 

Este manuscripto portngaez das novellas da Tavola Redonda do 
periodo de mata9So de verso para prosa, é urna livre paraphrase da 
novella franceza que tem por titillo La tìerce paréte de Lancdot dù lac 
avee la Queste du Saint- Oragli et de la demière partie de la Table-Ronde, 
que foi muito apreciada na cdrte de D. Jofto i. Consta de 199 folhas 
de pergaminho a duas columnas, com o titillo A Historia dos Cavai- 
leiros da Mesa redonda e da demanda do santo Crraal, EstSlo publica- 
das até ao presente 70 folhas pelo Dr. Karl von Reinhardstoettner (Ber- 
lini, 1887.) Na foiba 21 lé-se: cMas esto nom ou&ovl mndaT ruberie de 
borem (Robert de Borom) de franees em latim, porque as puridades da 
santa egreja nom nas quis elle descobrir; ca nom convem que as saiba 
homS leigo. E doutra parte auja medo de descobrir a demanda do 
SANTO GBAAL, assi como a verdadeira storia o conta de latìm . . . i» E 
ainda na foiba 129 se refere a um texto latino anterior à redacgSo fal- 
samente attribtdda a Roberto de Borom: «ca o nom achei em francez, 
nem Borom nom diz, que en mais achou na grande storia do latìm, de 
quanto eu vos conto.» E evidentemente uma referencia ao Liber Gra- 
dalis, em qae um monge do seculo vm consignara a lenda da vinda 
de Joseph de Arimathia à Bretanha, cuja egreja disputava por isso a 
primazia à de Roma; através das amplificagSes de GeoiSroy de Mon- 
mouth é que Roberto de Borom conheceu a. tradifSLo bretS, que elle 
poz em verso no poema de José ab Arimatìiia, e que ampliiicadores 
anonymos, servindo-se do perstigio do seu nome, desenvolveram em 
prosa franceza, no seculo xni, dando relSvo a alguns nomes, como Uter- 
Pendragon, Artur e Merlim, tomados da Historia Britonum, de Nenius, * 
O Ms. portuguez pertence & Bibliotheca imperiai de Vienna, sob o n.® 
2594. Estas novellas em prosa constituiam o encanto de todas as cortes 
no come90 do seculo xv. Acha-se um esemplar na Livraria de Isabel 
a Catholica: Tercera parte de la Demanda dd santo Grial en romance 
(n.*^ 143, do catalogo feito pelo seu camareiro Sancho de Paredes.) Na 
Livraria do Principe de Viana, de 1461, existia tambem um manuscri- 
pto dd sangreal en franees (n.^ 36.)' Està novella existia tambem nas 
Livrarias de Carlos vi e de Luiz xii. 



1 Paulin Paris, Les Bomans de la TabU-Bondt, Introduction. 

2 Mila y Fontanals, Dt Iob Trovadùres en Eepana^ p. 520. 



204 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE GOIMBRA 

Regimento de Principes, 

Lìvro escrìpto por G-illes de Rome para dirigir a edacaQfto de Phi- 
lippe o Belloy que o nomeou Bispo de Brouges; foi o primeiro monge 
augastiniano que se doutorou em Paris. ^ D. JoSo i citou està obra 
aoB seus cavalleiros na tomada de Conta eia 1415. Gii de Roma^ no 
De Regimine principum (liv. n, P. in^ e. 20) diz que à meza dos prin- 
cipes e dos reis se devem fazer leituras em lingua vulgar. Nas cdrtes 
do seculo XV o Regimento de Principes era sómente lido em francez. * 
Além do exemplar da livraria de D. JoSo i, D. Duarte conservou entre 
OS seus livros de uso urna traduc9So portugueza feita a seu pedido pelo 
Infante D. Pedro. Villemain descreve està obra que tanto se leu nas 
cdrtes da Europa, e que vulgarìsando doutrinas de Aristoteles e S« 
Thomaz influiu nas ideias da Bena3cen9a: «Os dois primeiros livros 
da sua obra De Regimine principum sfto o directorio da consciencia 
para uso dos reis. O terceiro livro é um tratado de direito politico, em 
que o auctor examina as diversas fórmas de governo e as leis civis 
que Ihes correspondem, discute as opiniSes de Aristoteles, de PlatSo 
e mesmo o fragmento de Hippodamo, tSo curioso e tSo pouco conhe- 
cido. Gii de Roma é grande adversario da servidfto pèssoal, e so reco- 
nhece a realeza quando està se conforma com as leis etemas da ju8tÌ9a. 
É partidario da republica nos pequenos estados. Este livro é mais um 
esemplo do gr&o singular de cultura que se conservou sempre em al- 
guns espiritos da Edade media.» ' 

Na livraria de Isabel a Catholica (n.° 153) guardava-se uma tra- 
duc9ao: Gobemamiento de loa Principes ém romance, pergamino, por 
Frai Juan Garcia de Castrojeriz, confessor da rainha D. Maria, ma- 
Iher de Affonso xi, em 1340, para instrac9fto de D. Pedro, que se de- 
nominou o Cruci, e feita a pedido do mostre do principe o bispo de 
Osuna D. Bemabé. D. Jayme, Conde de Urgel, tambem mandou fazer 
uma traduc9So em limosino, por Fr. Amai Strangola em 1430. 

A Historia geral de Hespanha. 

Obra de Affonso o Sabio, mandada traduzir por el-rei D. Diniz^ 
esiste em Paris na bibliotheca nacional; é comò descreve o illustre 
philologo Nunes de Carvalho: cUm volume de pergaminho, caracter 
meio gothico, com lettras encamadas em partes e de outras cdres tam- 



1 Victor Le Clerc, Hm<. litteraire de la Franee^ t x, p. 61, 88, 84. 

2 Id., ibid., p. 438. 

3 Tàldeau du Dix-ìudù'hme sihcle, p. 123. Bruxelles, 1852. 



UVRARIAS MANUSCRIPTÀS DO SEGOLO XV 20 5 

bem nos prìncipios dos capìtulos.» Nunea de Carvalho classificando a 
lettra corno do secalo xv, considera este manuscripto corno autogra- 
p^o. Falando da primeira foiba, diz: «està foiba tem urna cercadura 
de arabescos illuminados a cores e tem as Armas reaes de Portugal 
aobre a Cruz de Aviz, e com os escados de modo que se usavam antes 
da mudanga que n'elles fez El-Rei D. JoSLo ii em 1488. A primeira 
letra do prologo é um O grande de ouro e azul, metido dentro de um 
quadrado illuminado a cdres, e dentro do està um Rey com opa de 
porpora , corea de ouro de bicos na cabe9ay sentado, com uma penna 
na mSOy e diante de si om livro, em que parece estar para escrever.» ^ 

A este manuscripto parece referir-se o grammatico FemSo de OU- 
veira n'este texto: «As digSes velbas saS as que foraS usadas: mas 
agora sSo esquecidas comò Egas . . . Sancbo . . . Dinis . . . nomes prò- 
prios e ruSLo quiz dizer gidadSo segundo que eu julguey e bil livro an- 
tigo o qual foi trasladado em tempo do mui esforgado rey dom JobSo 
de boa memorea o premeiro deste nome em Portugal: por seu man- 
dado foy livro que digo escrito e estd no moesteiro de Pera longa : 
e cbamma-se eatorea geral: no qual achei estas e outras anteguidades 
de falar: etc.» ' 

Na Livraria da rainha Isabel a Catholica, n.^ 108 do catalogo 
feito pelo camareiro Sancbo de Paredes, existia: «Otre libro de pliego 
entero de mano, que es la historia de Espaiia en lengiuxge portugués, 
con tablas boradas guamescidas en cuero bianco, b 

A Confissào do Amante. 

E um longo poema inglez de John Gower, formado de uma grande 
selcerò de contos de origem firanceza, e imitagSes de JoSo de Meung; 
extrae assumptos de Ovidio, dos velbos poemas francezes de Lance- 
lai, AmadaSy Tristan, Partenopeua de Blois, e cita o Dante. ^ Foi tra- 
dozido em portogoez por um conego da egreja de Lisboa, Roberto 
Payno, vulgarisando assim na corte de D. Filippa de Lencastre a obra 
do contemporaneo de Chaucer.* O livro de JoSo Q-ower divide-tfe em 



1 editor diz ; «Està primeira pagina ha de lithographar-se.» Porém a edi- 
^ foi interrompida a p. 192, e o dr. Nunea de Carralho morreu poucos axinoa de- 
poia de avan^ada edade. 

^ Ghrammatiea de Lingoagem portugueza^ cap. xxzyj. 

3 Confesshn Amantis that is the Sage in englisshe the Confesaion ofthe lover 
made and compiled bj John Gower, sq. (London, 1838, in foi.) 

4 D& noticia d'està traducQSo, que foi parar a Hespanha, Amador de los Bios, 
Hùt de la Liti, espa^ola, t. vi, p. 46 



206 mSTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

tres partes; cada urna escrìpta em sua lingua^ latìm, francez e inglez: 
Speculum medUantia, Vox damarUis e Confessto amantìs. Està ultima 
parte foi traduzida em portuguez. E naturai que aste manuscripto seja 
um dos muitoB que Filippo n mandou de Lisboa para a Livraria do 
Escurìal. 

Livro de Ora^es de tiso do rei D. Fernando, 

Entre as raridades bibliograpbicas da Bibliotheca do Rio de Ja- 
neirOy para ali transportadas por D. JoSo vi, figura: cum Livro de 
OragSea de uso de el-rei Dom Fernando de Portugal, precioso tanto 
pela sua muita antignidade comò pelas estampas e desenhos coloridos 
de que sSo omadas as suas margens e as vinhetas de seus capitulos.»^ 

lAvro dos horcu de Santa Maria. 

Salmos certos para finados» 

Livro da Montaria. 

D'estes tres livros fala o rei D. Duarte, corno escriptos por seu 
pae D. Jo2o i: cE semelhante o muj excellente e virtuoso Rei, meu 
Senhor e Padre, cnja alma Deos aja, fez bufi livro dos horas de Santa 
Maria, e salmos certos parafinados, e outro da Montaria.^ Os Livroa 
de Horas da Virgem, inspirados pelo novo culto que se propagara ìb 
Universidades, eram um pretexto para as bellas illuminuras, para as 
composÌ98es de hjmnos e sequencias e para a musica religiosa. Raj- 
mundo Lullo, tambem sob o titulo de Horas de Nostra Dona Santa 
Maria, escrevera nma collecgSo de cangonetas para serem cantadas* 
D'està poesia diz Guardia: té notavel pelos pensamentos audadosos e 
pouco orthodoxos sobre o livre arbitrio do homem, sobre a juBtì9a e a 
misericordia de Deus. Ali o amor mystico occupa comò de ordinario 
um logar consideravel.»^ Na Livraria de JoSo Vasques, do meado do 
seculo XV, guardava-se um esplendido livro das Horae BeaJtae Mariae 
Virginis. 

Na Bibliotheca nacional conserva-se o Libro de Mont&ria composto 
por D. JoSo I ttrasladado de um oinginal de mSo escripto em pergami' 
nho, que se achou na Libreria do CoUegio da Companhia de Jesus, de 
Monforte de Lemos,pdo bachard Manoel SerrSo Paz este anno de 1626.9 



1 Panorama, t. vni, p. 230. 

< Bemte germanique, t zix, p. 215. Gkurdia allude a urna Ode ao Sér sapremo, 
de Lullo, achada na Bibliotheca da Universidade de Coimbra por Heine, que a 
oftereceu à Bibliotheca de Berlin. 



UVRARIAS BIANUSCRIPTAS DO SECOLO XV 207 

O livro qae ostava em poder dos Jesiiitas era o originai quo perten- 
cera & Livrarìa do rei D. Doarte, a que este monarcha chama urna 
compilafSo. Na Livraria de Isabel a Catholica (n.^ 171-172) existia 
um Libro de Monteria, pergamino marca mayor en romance. Otro^ de 
los montes e de la monteria mandado escrever por Àffonso XI. 

JLivro da Cetraria, que fai d'el-Rei Dom Joào L 
Assim apparece citado no catalogo dos Livros de uso do rei D. 
Doarte. Entre os livros da rainha Isabel a Catholica (n.° 173) existia 
o Libro de Cetraria, em papel, Porventura é o livro da Cetraria de D. 
JoSo Manuel^ porque a compilaffio que fez JoSo de Sahagun^ ca9ador 
de D. JoSo II de Castella^ com este mesmo titolo, so foi conhecida mais 
tarde. De D. JoSo Manuel guardava-se o Conde de Lucanor na Livra- 
ria de D. Duarte, e segundo cremos, recebido entre os livros herdados 
de seu pae. 

Agricultura, que foi d'd-Rei Dom Joào. 

Descripto d'està fórma no catalogo dos Livros de uso de D. Duarte. 
Na Bibliotheca do duque Filippo Sforza, segimdo o catalogo de Facino 
da Fabiano, guardava-se urna Agricultura (Varrò, Cato ou Palladio?) 
E mais naturai que o livro possuido por D. JoSo i fosse um manuscri- 
pto arabe; no principio d'este seculo publicou-se uma traduc9So do Li- 
bro de Agricultura, seu auctor el doctor excellente Abu-Zaocaria-Jahia- 
Aben-Mohamed-ben-Ahmed-Ebu-el-Awan, sevilhano, porD. Josef An- 
tonio Banquerì, Madrid, 1802. Na Bibliotheca de D. Duarte e do In- 
fante Santo existiam alguns livros arabes de philosophia e medicina. 
Na Livraria de Carlos v, de Franja, tambem se enoontrava uma Agri- 
cultwra. 

livro dà Primeira Partida. 

Bartolo. 

Codigo, com o Commento de Cino da Pistoia. 

Estas tres obras, que tambem figuram entre os Livros de uso do 
rei D. Duarte, devem considerar-se comò tendo-lhe advindo da Livra- 
rìa de seu pae. As Conclv,8Se8 de Bartholo foram entregues & Camara 
de Lisboa para serem fisusultadas & consulta do publico em 1426. As 
Partidas de Affonso o Sabio andavam geralmente em codices separa- 
dos, corno vemos pela Livraria da rainha Isabel a Catholica: cCod. 88, 
89, tercera partida, cuarta partìda; 90, cuarto libro de los Partidas; 
91, quinta partida; 92, 93, sesta partìda.^ 



208 HISTORIA DA UNIYERSIDÀDE DE COIMBRA 

Livro das Trcvaa do Rei Dom Diniz. 

Este Cancioneiro do monarcha trovador torna a apparecer na Li- 
vraria de D. Duarte, oom certeza proveniente da heran^a de Bea pae, 
e corno deposito precioso que andava na casa real. De um outro esem- 
plar dà noticia Francisco de Pina e de Hello, no prologo do seu poema 
Triumpho da Rdigiao, corno tendo-o visto em Hespanha: «Em teda a 
Hespanha^ o primeiro que conheceu a Poesia foi o nesso rei Dom Di- 
niz: Hoje exiate na Livraria do Escurial hum livro de versos seus, que 
elle mandou a aeu avd Dom Affonao X de Castella, a quem chamaram 
o Sabio.» ^ Apesar de Fr. Joaquim de Santo Agostinho pdr em duvida 
que Filippe ii mandasse transportar para a Livraria do Escariai mai- 
tos manascriptos do mosteiro de Alcoba$a, é comtudo plausivel o facto 
em rela9^ a oatros monumentos, comò jà notàmos àcerca da traduc- 
9S0 da Conjissào do Amante. 

A Biblia, ganhada aos Castelhanos. 

Tal era nome do codice vi da Livraria de Alcoba^a^ qae tem 
a segainte declaragSo em gothico simalado: 9,Bihlia ganhada na batalha 
de Aljvharrota por elRey Dom Joam primeiro de gloriosa memoria, 
a qaal era do proprio rei de Castella, e foi ganhada dentro da stia pro- 
pria tenda^ corno consta de huma memoria que està nojim d'este proprio 

« 

livro.ii Fr. Joaquim de Santo Agostinho^ na Memoria sobre os Codi- 
ces manascriptos de AlcobaQa, demonstrou cabalmente que està Biblia 
é urna parte da Biblia do coro do mosteiro de Alcobafa, tendo mesmo 
formato e letra, mas introdazida em uma capa chapeada de bronze, 
com as armas de Castella, que servirà a um volume maior.* A Biblia 
illuminada era uma das principaes joias das bibliotbecas prìncipescas 
do seculo XV. 

Estorta geral, 

Mandada traduzir por D. Diniz; suppSe-se estar hoje na Biblio- 
theca do Escurial; manuscrìpto do seculo xiv^ em pergaminho e fórma 
grande, contendo apenas a Parte i. Junto a està traduc9lU), no mesmo 
codice, acha-se tambem a traduc^So de trinta e um capitulos de uma 
versSo portugueza do Genesis. ^ 



1 Triumpho da Bdigiào^ p. va, Coimbra, 1756. 
' Memorìaa de UUeratura portugueaa, t. v, p. 302 a 305. 
3 Ribeiro dos Santos, Memoria score algtmas traducgdes e edi^Òes bibltoas, p. 19. 
(Jliem. da Acad., t ni.) 



LIVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 209 

Estoria geral, e Historia da Bibita. 

Na Bibliotheca do Eacurìal està am codice do secalo xv, com le- 
tras .inìciaes illuminadas, em que vem a traduc9So portugueza da Es- 
toria geral, e «os primeiros seis Uvros da primeira parte da Historia da 
Bihlia, e os vinte primeiros capitulos do livro Yii, isto é^ o Genesis até 
a Historia da lucta de Jacob com o Anjo.» * 

Os Evangelhos, Actos dos Apostolos e Epistolas de S. Paulo. 

Sobre estes manuscriptos escreve o Dr. Ribeiro dos Santos: «D. 
JoSo I, por uma particular deyo(Slo de seu espirito^ mandou trasladar 
por grandes letrados, em lingua portugueza, os Evangdhos, os Actos 
dos Apostolos e as Ejnstolas de S. Paulo. . . Ignoramos se estas tra- 
ducfSes existem ainda hoje em alguma parte. a' 



Livraria do rei D. Duarte 



Està Livraria, formada em parte com os livros que pertenceram 
a seu pae D. JoSlo i, foi constantemente enriquecida pelas encommen- 
das às Feitorias portuguezas nas prìncipaes cidades da Europa, e pe- 
las traduc95es que o monarcha pedia a seu irmSLo e aos eruditos do 
seu tempo. D. Duarte era um perfeito amador de livros; nllo teve a 
ventura de admirar a descoberta da Imprensa, ^e tanto veiu augmen- 
tar a Bibliotheca de seu filho D. Affonso v. Diz Jollo Fedro Ribeiro: 
cEstas Feitorias precederam à inven9lLo da Typographia no secolo xv; 
pois tendo todas de remetter para a Livraria d'El-rei as obras que se 
fbssem publìcando, snccedeu vìrem as primeiras edigSes até triplicadas 
e quadruplicadas e assim permaneceram até nossos dias.»^ Catalogo 
dos livros d'este rei philosopho appareceu nas Provas da Historia ge- 
nealogica (i, 54) com titulo : Memoria dos livros de uso d'El^ei Dom 
Duarte, a guai està no livro antigo da Cartuxa d^Evora^ d'onde a fez 
copiar Conde da Ericeira, Dom Francisco Xavier de Menezes. Trans- 
crevemos esse Catalogo, commentando-o : 



^ Ribeiro dos Santos, Memoria «oòre cUgumaa traduegdes e edigdes ìnUicas, p. 19. 
(Jfem. da Acad,, t, vii.) 

2 Memorias da Aeademia, t vii, p. 20. Mais adiante cita tambem uma tra- 
dQC92o do Apooalf^e, em portuguez, do mesmo reinado. 

3 R^eoBoes phUdogicaBy n/* 4, p. 11, not. a. 

BIBT. UH. 14 



210 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

Pontificai. 

É livro da Vida dos Fapas, conbecido pelo titulo de Liber pon- 
tificali», attribnìdo a Anastacio Bibliothecario. luxo calligraphico e 
08 retratos dos pontifices tornavam este livro uDia das joias mais es- 
plendidas das biblìothecas reaes. A sua importancia historìca é grande, 
. por isso que foi redigido sobre documentos da egreja primitiva, conhe- 
cendo-se a existencia de tres redacgòes anteriores à de Anastacio: a 
primeira attribue-se ao come90 do secalo vi, em grande parte & època 
do pontifice portuguez S. Damaso; as outras duas pertencem aos mea- 
dos do secalo vili. Anastacio Bibliothecario do Vaticano, eleito cardeal 
em 848, e tendo assistido ao oitavo concilio goral em Constantinopla 
em 869, floresceu no secalo ix sob os pontificados de Nicolào i, Adria- 
no II e JoSo VII. O Liher pontificalis existe publicado por Bianchini e 
Vignoli (1718-1755) e por Muratori na coIIccqSo dos Scriptores rerum 
italicarum *. 

Marco Paulo, latim e linguagem, em 1 volarne, 

A existencia d'oste livro na Bibliotheca de D. Daarte està ligada 
ao facto da viagem do Infante D. Fedro, que segando a tradÌ9So cor- 
reli as qtuUro partidas do mando, Infante troaxe de Veneza um exem- 
plar latino das viagens de Marco Polo, e este facto significa a impor- 
tancia progressiva qae essa celeberrima relagSo ia adqairindo, porque 
até aos principios do secalo xv era considerada em goral corno fabu- 
^ Iosa, e até se conta qae os parentes de Marco Polo Ihe pediram à bora 
da morte qae se retratasse, libertando a sua consciencia da responsa- 
bilidade de tantas mentiras. A importancia d'este livro sobre a cosmo- 
graphia do secalo xv foi de tal ordem que se Ihe attribue uma inflnen- 
cia decisiva sobre as descobertas de Vasco da G-ama e de Chrìstovam 
Colombo. Marco Polo era conhecido em Veneza pelo nome de messer 
Marco Milione, por causa das grandes riquezas que trouxera da Asia; 
seu livro tambem recebeu o nome de MilhàOy e no Cancioneiro de 
Resende encontramos està allusSo particular, no sentido de maravilha 
inacreditavel : 

Tambem dizem que é bispado 
Elvas com menystra^am ; 
outros meten maya MyUiam 
do mcsmo ponteficado.^ 



1 Tiraboschi, /Storia della Letteratura italianaf t. lu, p. 215. 

2 Cane, ger,^ t. ii, p. 141. 



UVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 211 

Ghomes Eanes de Azurara jà se serviu d'eate manuscripto para a 
Chranica da Conquista de Gfuiné, escripta antes de 1453, ^ corno sup- 
p5e visconde de Santarem, por isso que a edÌ9So das Viagens de 
Marco Polo é de 1484. Foi sobre elle que se fez a traducjSo portu- 
gueza qne em 1502 imprimiu Valentim Femandes junto com a Viagem 
de Nicolào Veneto; pelo Catalogo de D. Duarte vemos qne existia ama' 
tradac9llo portagueza pelo menos desde 1428, com certeza a terceira 
das versSes d'esse notavel livro. Na sua noticia sobre Marco Polo, e 
da influencia na cartographia do seculo xv, escreve Walckenaer: e Foi 
assim que Marco Polo e os sabios que deram credito à sua relajSo 
prepararam as duas grandes descobertas geographicas dos tempos mo- 
demos: a do Cabo da Boa Esperan9a e a do Novo Mundo.» Na Bi- 
bliotheca de D. Duarte nfto se acham outras relafSes de viagens na 
Asia, comò as de Rubruk, Jourdain, de Severac, nem outras Mirabi- 
lia taes corno as viagens do minorità Frei Oderico, de Mandeville, de 
Johan Hayton, o que nos leva a concluir que o folheto popular das 
Quatro partidas do Infante D. Pedro nSo pertence ao seculo xv. Pelo 
Livro de Marco Polo (cap. 74) é que se espalhou em. Portugal a no- 
ticia do Preste Joào das Indias, cujos descendentes reinavam ainda no 
aeu tempo no paiz de Panduk, nas fronteiras da China e da Mongo- 
lia, corno vassallos de Khubila-Khan. G-. Pauthier confirmou a veraci- 
dade d^esta noticia nos historiadores chinezes. As outras fontes da lenda 
do Preste Joào, corno a Carta apocrypha ao Imperador de Roma, a Re- 
lagSo da Viagem à Tartarìa do frade dommico Rubruquis, a Carta de 
Jofto de Monte Corvino de 1305, e a Histoire de Saint- Louis de Join- 
ville, que tanto estimularam a imagìna9So occidental, foram tambem a 
causa do ferver dos primeiros exploradores portuguezes na Africa. 

Viatico. 

Livro de medicina arabe, traduzido por Constantino chamado o 
Africano, monge do Monte Cassino, que o attribuiu a si. Foi publicado 
junto com as obras de Isaac, que vivia em 1070, segundo Antonio Gal- 
lus, as quaes appareceram em Lyon em 1515 em casa de Barthélemy 
Trot. terceiro dos opusculos de Isaac trata De Dietis universalihus 
cum commenti Petei Hispani, o nesso celebre portuguez Pedro JuliSto, 
auctor das Summulas logicales e do Thezaurus Pauperum.^ Tambem 



1 Cita-o a p. 227. Ed. Paris. 

2 Ach. Chereau, La Biblio^hque d'un Médecin au commencemerU du XV sih- 
de, p. 16. 

14* 



212 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

se acha assim intitalado este livro: tBreviarium Constantmif dictum 
Viaticum.'è O compilador Constantino era chamado o Africano por ser 
naturai de Carthago; as suas obras de medicina eram extractadas dos 
auctores gregos e arabes; segando Deizimeris passa por ser o fdnda- 
dor da Eschola de Salerno. Era multo vulgar este livro nas antigas 
bibliothecas senhoriaes^ achando-se citado corno existente em urna col- 
legiada da Galliza.^ Segundo Daremberg, na Eistoire dea Sciences 
Tnédicales, os medicos salemitanos apparecem citados desde 846, e 
Constantino Africano é um compilador plagiario, comò o provaram tam- 
bem o orientalista Steinschneider e Dugast.' O que se devia & tradi- 
9S0 scientifica greco-latina foi ignorado, comò diz Daremberg: cOs ve- 
Ihos salemitanos ficam na sombra; comtudo Monge Constantino nSo 
Buccumbiu sob a sua reputagSo; continuaram a copial-o, esperando em- 
quanto nSo foi impresso.» ^ A predilec9llo pelo livro do Viatico em Por- 
tugal explica-se pela corrente arabe, que tambem se deu nos estudos 
pbilosophicos, porque a medicina era exercida pelos Mudjares, e os li- 
YTOs, embora redigidos em portuguez, eram aljamiados, iste é, escrì- 
ptos com caracteres arabes, comò jà temos observado. Parece que na 
BibUotheca de D. Duarte existiu uma outra copia com o titulo de Bre- 
viario. Entre os livros do infante D. Fernando mencionados no seu tes- 
tamento vem citado: Hum livro que chamam Izac, em linguagem; julga- 
mos ser o auctor do seculo xi de diversos opusculos medicos. Na Bi- 
bUotheca do duque Filippo Sforza, organisada por Facino da Fabriano, 
vem o ^Viatìcum constaftini.» 

As CoUa^des que eacreveu Joào Rodriguea» 

É o livro ascetico, composto por S. JoSo Cassiano, que se inti- 
tola CoUa^lea doe Santos Padres, euja leitura vem recommendada na 
Kegra de S. Bento: «Legat unas CoUationes, vel Vitas Patrum.» rei 
D. Duarte guardava na sua livraria outros exemplares d'està obra: 
CoUagfies que foram do Arcebispo de Som TTiiago, Livro doe Padrea 
Santoa, que foi de JoSo Pereira, e as CoUa^dea de letra pequena, Na 
Livraria de Alcoba$a tambem se guardava uma traducfSo completa em 
lingua portngueza das obras de S. JoSo Cassiano.^ O rei D. Duarte 
cita com frequencia no Leal ConaelJieiro^este livro inmiensamente lido 



1 Lea Codicea de laa Igìeaiaa de Galieia, p. 125. Madrid, 1874. 

* Hiatoire dea Soienoea médicaUa, 1. 1, p. 261. 

' Ibidem, p. 817. 

^ Fr. Fortunato de S. Boaventura, Ineditoa, 1 1, p. 15. 



LIYRÀRIAS MANUSCRIPTAS DO SEGOLO XV 213 

no8 claustros da Edade mèdia: «no livro das CoUagdes dos Santos 
Padres se demostra qua geralmente sam qaatro (as divisSes da von- 
tade).»^ «E antes convem no tempo da paz viver comò nos conselhou 
Sam Joham . . . > ' cE o prìmeiro, que pertence ao temor, no livro das 
CoUagdes se apropria à fé. . .»^ O sabio monarcha nSo se contenta a 
■abonar a sua opinilo com a auctoridade de S. JoSo Cassiano^ ^ traoa- 
creve nos capitulos xvui e Bi a traducgSo do texto das CoUagdes. 

Na Livraria do duque Filippo Sforza tambem existia o L^er Cas- 
siani super CoUationilms sanctorum patrum. Na Livraria de Isabel a 
Oatholica guardava-se uma Suma de Coladones (n.^ 31.) 

Miracula Sanctorum. 

Porventura algum dos Flos Sanctorum manuscriptos do secnlo XV, 
ou a Legenda Sanctorum^ de Jacques de Voragine, denominada vul- 
gannente a Legenda aurea. 

Blivia. 

A Biblia traduzida em vulgar era o livro mais sumptuoso das Bi- 
bliothecas principescas, pela sua grandeza, comò pelos trabalhos de il- 
luminura, encadema^So e ourivesaria, que o revestiam de nm luxo in- 
excedivel. Nas luctas centra o Protestanttsmo, foi prohibido na Hea- 
pauha uso da Biblia em vulgar, circumstancia que influiu no des- 
Apparecimento d'estes manuscriptos. 

Bremairo. 

TraducfSo do Breviarium Constantinif (Vid. Viatico^ p- 211.) 
Sendo livro liturgico, é naturai que fosse do rito mosarabe, por isso que 
o rito romano so comeQou a ser imposto no reinado de D. Affonso v. 
€K1 Vicente, falando de um clerigo que violenta uma rapariga, pinta-o 



1 Op. dt, cap. m. 

2 Ibidem, p 30. 

3 Ibidem, p. 40. 

* Ibidem, p. 75, 77, 83 e 109. — N'este manuscripto apparece-nos o k com va- 
lor de q^arenta; e jà acima fica um documento, a pag. 126, em que o b tem o va- 
lor de ZL. A causa do emprego d^este signal no sjstema da numera9So romana, qne 
apparece nos manuscriptos do seculo xy, nSo tem side cabalmente ezplicada. Bran- 
dlo, na Monarchia lusitana, Prologo, escreye : «A letra x... quando valla quarenta, 
ae ajuntava &s duas pontas de cima ama virgula ou plica.» x nunca valeu qua- 
Tenta; a plica introduzida pelos copistas era o Z da dezena xl, que por abreviatora 
«screveram x e por imperìcia transformaram em b, corno o explica Viterbo. 



214 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

promettendo'llie a absolvi^So pelo Breviairo de Braga, quo era pro- 
priamente do rito da egreja nacional. Existe ama edÌ9&o de 1521 do 
Breviario de Braga, com o titulo: tArte de rezar as Horas cananiccu: 
ordenada aegundo as Regras e costume braccharense: com outras cousas 
muytas que geeralmente som necessarias para o rezar das ditas horasy par 
qualquer costume que se reze. Dirigida ao reyerendissimo Senhor o se- 
nhor Dom Dioguo de Sonsa^ Arcebispo e Siir da Cidade de Bragua, 
primas das spanhas rS. novamente feita por Sisto Figueira, Bacharel 
en canones residente em o studo de Salamanca. E por mandado de 
Sua Senhoria impressa.» Este esemplar unico pertenceu à Livraria de 
Barbosa Machado, e acha-se hoje na Bibliotheca do Rio de Janeiro.^ 

Collages qae foram do Argobispo de Som Thiago. 
É a obra de S. JoSo Cassiano. 

Dialectica de Aristoteles. 

O nome de Tratado de Dialectica foi dado por Aristoteles a uma 
das partes dos Topicos, que é um dos seis tratados que compSem a 
Organumy ou a Logica^ de8Ìgna98e8 ambas empregadas pelos commen- 
tadores gregos da grande obra do philosopho sobre a intelligencia. Se* 
ria uma traduc^So em portuguez, comò o di a entender o titulo. 

Dialectica de Avicena, 

E a Logica do celebre medico arabe do seculo xi Ibn-Sina, a qual 
fazia parte, junto com a Physica e a Metaphysica, de um resumo (Al" 
Nadjah) que o proprio auctor fez da sua vasta encyclopedia philoso* 
phica AlSchefày em que segue as doutrinas de Aristoteles. Qualquer 
livro de Avicena era julgado no seculo xiV valde sumptuosum et grave. 
Como medico exerceu uma influencia completa nas Universidades de 
Fran9a e Italia perto de seis seculos, até que na època da Renascenja 
a sciencia medica achou as fontes gregas. Na Livraria do Condestavel 
de Portugal tambem se guardava um Emcenna (n.® 1.) 

Valerio Maximo. 

E ama d'aquellas obras de compilasse que devia agradar profìm- 
damente ao gesto da Edade mèdia e ao pedantismo da erudÌ9lo. li- 
vro De dictis et factis memorabiltlms è uma coUecsSo de anecdotaa so* 



1 Annaes da BUfliotheca do Bio de Janeiro, 1. 1, p. 870. 



LIVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 215 

bre religi20y costumes de Roma, exemplos de virtudes, de vicios e crì- 
meSy mas sem valor moral, e inintelligentemente extractados de fon- 
tea ignoradas hoje. Na Bibliotheca do duque Filippo Sforza guardava- 
se um: Valeritt^ Maximus; na do principe de Viana (n.® 68); e na do 
Condestavel de Portugal: Valerius Maximtis en vulgar frances (n.® 17) 
e lo Valerio, en vulgar castella (n.® 79.) 

Epistola^ de Seneca com outros Tratados. 

S3o as cento e vinte quatro Cartas dirigidas a Lucilio Junior, ou 
pequenos tratados de moral sob a fórma epistolar, quando Seneca ca- 
hira no desfavor de Nero. Seneca foi immensamente lido pelos Padres 
da Egreja, e o auctor mais admirado durante a Edade mèdia. Com as 
Epistolas andavam reunidos outros tratados, formando um livro cha- 
mado Seneca christìanus. Tambem no catalogo da Livraria do principe 
de Viana (n.® 28) vem epistole senec en frances e las epistolas de Se- 
neca (n.° 46.) Na Livraria do Condestavel de Portugal (n.® 18) Epis- 
tolas de Senecha en vulgar frances. 

Regimento de Principes picado de ouro nas tavoas e as cobertoiras 
vermelhas. 

D. Duarte cita com frequencia este livro: «o livro do Regimento 
de Pryncepes, que compoz Frei Gii de Roma.»^ «E diz no Livro do 
rregimento de Pryncypes, que j^or trez cousas peiience aos Rex e Se- 
nhores seer prudentes ...» * «o livro do regimento dos Principes, em 
que se declaram os peccados e fallicimentos que pertencem a todos os 
estados, officios e bydades.»' Na Bibliotheca de Filippo Sforza guar- 
dava-se um : Egidius, De regimine principum; e na do principe de 
Viana: un libre en frances nomenat egidi de regimine principum (n.*^ 72.) 
Barbosa Machado, na Bibliotheca Lusitana^ attribue ao Infante D. Fe- 
dro urna traducf^o portugueza d'està obra. 

Pastoral de letra antiga. 

Livro de Sam Gregorio, que D. Duarte cita no Leal Consdheiro: 
e corno diz Sam Gregorio no seu livro pastorale (p. 207.) E cmando 
aquy tralladar deus capituUos do dicto Vlvto pastorcd, que fez Sam Gre- 
gorio sobre a virtude da iiberaleza.» (p. 240.) 



1 Leal Conaelheiro^ p. 282. 
^ Ibidem, p. 288. 
9 Ibidem, p. 191. 



216 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Declaragam sobre as Epistola^ de Seneca. 

Commentario no sentido christSo às doutrinas estoicas formuladas 
pelo philosopho nas suas Epistolas. D. Duarte cita-o frequentes vezes 
no Ledi Conselheiro (p. 49, 242, 251, 258, 313, etc.) 

Agricoltura qae foi de Joào Pereira, 

Talvez urna traduc9lLo da obra de CoUumella De re rustica. Na- 
turalmente este Joham Pereira é o mesmo doutor a quem o desembar- 
gador Mangancha comprou o chino em pergaminho (o commentario de 
Cino da Pistoia ao Codigo.) Na Bibliotheca do duque Filippa Sforza 
havia uma Agricultura, 

Livro da Quinta Essentia. 

Obra de Alchimia, attribuida a Ray mando Lullo. 

Hum livro pequeno que come^: Si cupis esse memor. 

A este livro allude D. Duarte: cE per o saber da arte memora- 
tiva. . . » ^ O visconde de Santarem julga ser a Ara magna de Raymundo 
Lullo. Pelo menos o rei D. Duarte era versado nas doutrinas do grande 
Doutor illuminado: ce aynda que os Raymonistas multo demonstrem.»* 
cca mestre Reymon^ em huii livro que fala da entengam primeira e se- 
gunda. . .»^ Na Livraria de Sforza havia uma Ara memorativa supra 
tota philoaophia. 

OtUro dito livro pequeno, que comedi Domino meo illustri potenti 
domino comite Nicolao de Petraldo. 

E uma dedicatoria, de que nada se infere sobre o que seria este 
pequeno livro. 

Oa Cademoa da Conjiaaào que eacreveu Joào Calado. 
Livro liturgico. 

' Livro doa Evangdhoa. 

Na Livraria do principe de Viana tambem se guardava lo testa- 
meni novel (n.^ 69.) A traduc{fto feita por Martim de Lucena por man- 



1 Leal Conselheiro, p. 11. 

2 Ibidem, p. 205. 

3 Ibidem, p. 394. 



UVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 217 

dado de Inigo Lopes de Mendoza guardava-se na Lìvraria da rainha 
Isabel (n.«* 18 e 19.) 

Actos do8 Apostolos. 

Pertence à collecySo das traduc98es portuguezas da Biblia do se- 
culo XIV e XV. 

Oenesy. 

Estoria gercd. 

Na Livraria de D. JoSo i existìa a Estoria geral de Hespanha, 
jonta a um fragmento de versSo portugueza do Genesis. Na Livraria de 
Isabel a Catholica (n.° 100) achava-se: «Otro libro de pliego entero de 
marca major escrìpto en papel^ é en romance^ é de mano^ que se dÌ9e 
de las gentes que poblaron à EspaHa primero, que es la estoria gene^ 
Tal, con cobertura de papel forrado de cuero bianco.» 

Livro de Salomào coberto de hezerro. 

Attendendo à època e & repre8enta9So da Alchimia na Livraria 
de D. Duarte, o livro attribuido a SalomSo é a Clavicula, a que Cor- 
nelio Agrippa, no seculo xv, ligava muita importancia. O Soliman Na- 
meh (Livro de SalomSo) de Firdusi, baseado sobre lendas maravilho- 
sas, nSo podia ser entSo conhecido em Portugal. 

Coronica de Espanha. 

Na Livraria de Isabel a Catholica (n.° 99) guardava-se: aOtro li- 
bro de marca mayor é romance é de papel, que es la crònica de Es- 
pafia, con unas cuberturas de papel con cuero branco.» E sob o n.^ 108: 
cOtro libro de pliego entero de mano en romance, que es la historia 
de Espaha en lenguage portugués, con unas tablas horadas, guamesci- 
das de cuero bianco.» Na livraria do Condestavel de Portugal (n.^ 52) 
cita- se outro esemplar en vulgar portuguez. 

Coronica de Portugal. 

Complemento & Historia geral de Hespanha, trasladada em por- 
tuguez ... e continuada na parte que diz respeito a Portugal, etc. A ul- 
tima continua92o fez-se jà no reinado de D. Affonso v, Guarda-se na 
Bibliotheca nacional de Paris. Come9ou a ser impressa pelo Dr. Nu- 
nes de Carvalho. 

Livro dos Martyres, 

Manuscripto do Agiologie impresso em 1513 por Bonhomini, com 



218 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIfifBRA 

titulo Livro e Legenda de todolos santos Martyrea. Na lista dos pre- 
sentes mandados pelo rei D. Manuel ao Preste Jo&o figuram: atrinta 
Livros da vida do8 Martyres, e todos seram de lenguage portagueza.»^ 
E mais adiante: «cem livros da vida epaixam dos Martyres^ encader- 
nados em tavoas, meos cobertos de couro.»^ 

Livro de Tristam. 

Porventura é a redac(So conhecida pelo nome de Brety que per- 
tence a Luce du Ghast e Helie de Boron. Na Bibliotheca de Filippe 
Sforza guarda va-se um: «Librazolo de Nuptiis domini Triatani.* E na 
Livraria do Principe de Viana (n.** 38) tristany de leonis. Era um dos 
lìvros lidos pelo arrebatado Carlos vi. 

O Amante. 

Veiu da Livraria de D. JoSo i. 

Blivia. 

Livro da Montarla que compilou o vitorioso Rei Dom Joao otì guai 
Deus de eternai gloria. 

Veiu da Livraria de D. JoSo i para a de D. Duarte 

Merli, 

E uma das partes do cjclo das Novellas da Tavola redonda, que 
se acha integralmente representado em Portugal pela Demanda do Santo 
Graal, Baladro de Merlim^ Summa da Tavola Redonda, Lanzarote do 
Lago e Galaaz. No Catalogo da Livraria de Isabeì a Catholica figura 
(n.® 142): «Otre libro de pliego entero de mano escripto en romance, 
que se dice de Merlin con cobertura de papel de cuero blancas, é ha- 
bla de Josef ab Arimathia.i» Em 1498 imprimiu-se em Burgos o Bala- 
dro del sahio Merlin.^ Porventura o Baladro era uma recita9So feita 
pelos Balatronesf Na Bibliotheca de Benavente, da rainha Isabel, de 
1440; existia uma Brima complida en romance con un poco del libro de 
Merlin. Na Livraria do duque Filippe Sforza tambem se guardava um 
Merlinus, in prophetiis. 



1 Boleim de Bibliograpìnaf ii, 21. 
' Ibidem, p. 54. 

3 £m um documento italiano de 1160, a palavra BakUrones vem junta dos 
termos ^o^ae* e histridet. (Muratori, Diss, zxi.) 



LIVRARIAS MANUSCRIPTÀS DO SECULO XV 219 

« 

Hegimento de Principes, 

É um outro exemplar do livro de Gii de Roma, a traduc(So feita 
ou mandada fazer pelo Infante D. Fedro. ^ Com este tìtulo de Regi- 
mento de Principes ha outros livroB, comò o de S. Thomaz de Aquino, 
dedicado a Hugo ni, rei de Chypre, e o de Fr. Francisco Jimenez, 
do firn do seculo xiv, além de urna compo8Ì9ào poetica de Manrique, 
dedicada a Fernando o Catholico antes de ser rei de Castella. 

Segredos de Aristotiles. 

E a obra intitulada Secretum secretùrum, a qual, segundo War- 
ton: cÉ urna obra cheia de disparates que a Edade mèdia attribuiu 
sem escrupulg a Aristoteles.» Andou traduzida em latim de um sup- 
posto originai grego, e em arabe, em hebreu, italiano, francez, ìnglez, 
fiamengo, e tambem em portuguez, corno, se infere pelo titulo com que 
é inscripto no catalogo do rei D. Duarte. No manuscripto da Biblio- 
tbeca nacional de Paris, do seculo xiv, diz-se que Aristoteles compo- 
zera està obra na sua velhice, narra os prodigios que fìzera, provando 
que subirà ao céo em um carro de fogo. Na Bibliotheca de Edimburgo 
manuscripto 18. 7. 4. é a traduc92o do Segredo dos Segredos: cCy 
commence le livre des meurs du gouverment dea seigneurs, appelé les 
Secreta des Secreta de Aristote.»^Na Livraria do duque Filippo Sforza 
inscreve-se um manuscripto: e De conservatione sanitatis Magistri Mar. 
gni: Secreta secretorum Aristo tilis: flos medicine.» No Leal Conselheiro, 
o rei D. Duarte cita-o duas vezes : acà tal rey louva muyto Aristotil- 
les no seu livro De Secretis Secretorum, e nom sem razom.i ^ Foi tam- 
bem traduzido em verso no seculo xii, por Fedro de Vemon. 

Livro de Qalaaz. 

Era a lei tura favorita do Condestavel D. Nuno Alvares Fereira, 
que procurava imitar a virgindade do heroe, comò se diz na Chronica 
anonyma ; faz parte do cyclo completo da Tavola Kedonda, multo sabo-. 
reado na córte de D. JoSo i. 

O Livro da Cetraria por CasteUào. 
Fertenceu à Livraria de D. JoSo i. 



1 Panorama^ t. ir, p. 7. 

' Paul Meyer, Rapporta p. 106. 

3 Op. cU.^ p. 176 e 301. 



220 HISTORIÀ DÀ UNIYERSIDÀDE DE C0IM6RA 

Livro daa TVovas de El-Rei Dom Diniz^ 

E um Cancioneiro d'aqnelle monarcfaa trovador, independente do 
corpo dos Cancioneiros da Bibliotheca do Vaticano e Colocci Brancuti, 
onde se acfaa incluido. Naturalmente era urna copia sumptuosa, que se 
guardava na corte. A referencia que o marquez de Santillana faz is 
trovas de D. Diniz jà é allusiva a urna vasta coUecyBo em que a par 
de outros trovadores se destacava o egregio monarcha. Lopes de Moura 
publicou com o titulo de Cancioneiro de D. Diniz 117'Xìan98e8 extra- 
hidas da colIec9So vaticana 4804; com o achado do Cancioneiro Co- 
locci Brancuti appareceu mais urna serie de trovas de D. Diniz des- 
conhecidas. ' 

Livro da Corte Imperiai. 

manuscripto que actualmente existe na Bibliotheca do Porto, 
n.^ 803, em pergaminho in-4.® de 134 folhas, e que pertencera d Li- 
vraria de Santa Cruz de Coimbra, termina: ^Este livro he chartiado 
Corte enperial em que he dispiUado a ffé chriatà com os Judeos e mou- 
ro8, aegundo claramente se mostra nos capitolos em està tavoada eacriptos,^ 
Tem no resto a seguinte nota: tEste livro he chamado corte enperial 
guai livro he dafom Vasques de calvos morador na cidade do porto.^ 
£ um livro mystico com fórma noveUesca, uma comò degenera^^ da 
cavallerìa celeste. 

Livro da Lepra encademado em purgaminho. 

Livro de Logica, 

Qualquer dos tratados mais importantes da Edade mèdia, comò a 
Logica de Arìstoteles ou a de Avicenna. 

Livro dos Pregagdes. 

Provavelmente alguma Summa Predicantium, comò se usavam na 
Edade mèdia, e traduzida em vulgar. Na Livrarìa do Infante Santo 
guardava-se um Livro daa Prega^Ses por Fr. Vicente em lingoagem. 

Libro dos Meditagdes de Santa Agostinho, e das ConfasZea. 

Existia um outro exemplar na Livrarìa de D. Duarte: Um livro 
das MedUa^es de Santo Agostinho, que trasladou o mo^ da Camara. 
O Infante D. Fernando tambem possuia outra copia. 

Cademo das Commemora/}3e8, em letra grosa. 



LIVRARIAS MANUSCRIPTÀS DO SEGULO XY 221 

lAwo das Oraa do Espirito santo encademado em letra grosa co- 
berto de coirò verde. 

Na Livraria do Condestavel de Fortugal (n.^ 48) havia um manu- 
scripto com o titolo : Gres de nostre dona, del Sanct sperit e lo quicum- 
que volt. 

Cademos das cidades e vUlas de Portugcd. 

Era um cadastro do reino, porventura mandado fazer pelo proprio 
D. Duarte; as divisòes territoriaes prevaleceram até ao anno de 1527, 
em que o rei D. Manuel mandou fazer esse outro que se intitula: Li- 
vro do numero que se fez das cidades e vylas e loguares dantre doyro e 
mynho e moradores ddlas, e assy com quem partem, * Este mesmo grande 
cadastro goral do paiz desmembrou-se ; J. Fedro Ribeiro ainda viu o 
fragmento supracitado de Entro Douro e Minho, e urna copia do. ca- 
dastro da Beira; Rebello da Silva acbou na Torre do Tombe o cadas- 
tro do Àlemtejo, nSo se encontrando o do Algarve. 

Livro da Virtìiosa Bemfeitoria. 

No Leal Consdheiro fala o rei D. Duarte d'este livro (p. 169): 
ae o infante Dom Fedro, meu sobre todos prezado e amado irmSlO; de 
cujos feitos e vyda som contente, compoz o livro da virtuosa bemfeitO' 
ria, e as horas da confissomela E falando da virtude da liberaleza, toma 
a alludir a este trabalho: «daquesta virtude no livro da virtuosa bem- 
feitoria, que meu sobre todos presado e amado irmSo o Infante Dom 
Fedro compoz, he bem e largamente trautado.]» (p. 173.) E uma com- 
pila9lo doB sete tratados de Seneca. O illustre Infante traduziu tam- 
bem Vegecio, De Re militari, e Cicero, De Officiis, Na Academia das 
Sciencias existe um apographo da Virtuosa Bemfeitoria. 

Livro das Ordenagdes dos Reis, 

Em uma certidUo de 1459 do Mostreiro de S. JoSo de Tarouca, 
dta-se Livro das Ordena^Ses que onda na Chancdlaria^ talvez o co- 
digo mandado ordenar por D. JoSo l ao seu jurisconsulto JoSo Men- 
des Cavalleiro. As Ordena^es de D. Duarte acham-se hoje publicadas 
na Portvgaliae Monvmenta historica, 

Livro dos Officios da Casa de algum rei. 

Opuscolo attribuido a S. Bernardo, mas escrìpto por Bernardo 



1 Arch. nacion., Gav. 15, Ma^. 24, n.» 12; e Gav. 5, Ma^. 1, n* 47. 



222 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

Silvestre ou Camotense; no secalo xii; foi traduzido para castelfaano, 
supp5G-8e que por Hernan Perez de Gusman. Na Livraria de Isabel a 
Catholica (n.° 33) existia tambem: «Otro librico chiquito delgado en 
pergamino de mano en latin que es d regimento de la casa que hizo 
Bernaldo à Raimundo, con unas cobiertas de cuero Colorado.» Na Li- 
vraria do Condestavel de Pertugiai (n.° 38) vem um Levament fet dea 
Officiala de casa del eenyor Rey, mas nSo tem o caracter goral da obra 
acima indicada. 

Bartolo com tavoas e coirò verde, 

Talvez a traduc93o portugueza dos Commentarios do celebre ju- 
risconsulto italiano, à qual allude o Infante D. Pedro. Na Livraria da 
rainha Isabel (n.° 72): Bartolo sobre el esforzado. 

Marco Tullio^ o qual tirou em linguagem o Infante D. Pedro. 

E a traducf^o do livro De Officiis. Na livraria de Isabel a Catho- 
lica (n.°* 11^ e 119): Tulio de Officiis, en latin; e na do Principe de 
Viana (n.*^ 17): Tullius de officiis; outro na Livraria do Condestavel de 
Portugal (n.^ 16.) 

Livro da Guerra. 

D. Duarte cita-o no Leal Conselheiro. Vegecio, lyvro da cavallaria 
(p. 290); sera este a traduc(2Lo feita pelo Infante D. Pedro do De re 
militari. 

Livro do Conde de Lucanor. 

Collec$So de quarenta e nove contos ou exemplos, por Don Juan 
Manuel^ imitados do gesto orientai e em parte tirados da Disciplina 
dericalis de Pedro Affonso. Na Livraria de Isabel a Catho.lica (n.** 160) 
tambem se guardava: a Otro libro de pliego entero en papel de romance, 
que son los consgos dd conde de Lucanor con unas tablas de cuero Co- 
lorado viejas.» 

Jtdio Cesar. 

Este titulo pode designar os Commentarios, que tambem se guar- 
davam na Livraria do Prìncipe de Viana (n.^ 21): commentariorum ce- 
saris. Na Livraria do Condestavel de Portugal (n.* 11): Sustonio, da 
Vida de Julio Cesar en portugués. Parece ser este o livro pertencente 
a D. Duarte. 



UVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 223 

Coronica despanha em cademos. 

Bartolo em cadernos encad&nìado em purgaminho. 

Conquista de Ultramar 

Narrativa das guerras da Terra santa, mais noyellesca do que his- 
torica; parte é traduzida de Gailherme de Tyro, e outra imitada das 
aventuras do Chevalier du Cygne, Attribuiram-na a Affonso o Sabio. 
Na Livraria do Condestavel de Portugal (n.® 47) tambem se guardava 
um exemplar: Coroniques e Conguestes de Ultramar, en vulgar castella. 
No Cancioneiro geral, de Resende, allade-se (ili, 531): 

assy diz entro tezto 
na conquista d'ultramar. 

Livro da Cetraria, que foi d'El-rei Dom Joào. 

Orto do Sposo, 

Guardavam-se duas copias na Livraria de Alcobaja (n.® 273.) Na 
Livraria do Condestavel de Portugal (n.® 58) tambem se descreve: 
Orto do Esposo en vulgar portugués. O titulo completo é : Orto do Es- 
poso edijicado de muitos Ex&mplos para instrucgào e recreagao das Ai- 
mas, por Frei Hermenegìldo de Tancos. Guardam-se hoje na Biblio- 
theca publlca de Lisboa. Alguns dos Exemplos vem publicados nos 
Contos tradicionaes do Pow portuguez. 

Agricultuta, que foi d'el-rei Dom Joào. 

Arvore das Batalhas. 

rei. D. Duarte mostra que leu este livro, citando-o no Leal Con- 
selheiro (p. 86): cnossa fé se pode creer sem myllagres com tantas 
mortes de santos, heresias, ypocrisias, cysmas, symonias, comò d'el- 
las em somma se faz mengom no livro da Arvore das Batalhas. » Tam- 
bem IVIartorell no Tirant U Blanch faz com que o seu heroe, adorme- 
cendo sobre o cavallo, y& dar a uma ermida onde Guilherme, duque 
de Warwich, que fazia vida solitaria, estava lendo a Arvore das Ba- 
talhas, É este livro escripto por Honoré Bonnet, prior de Salons de 
Gran, do tempo de Carlos vi. Na Livraria do Condestavel de Portu- 
gal (n.° 9) vem: Uarbre de batalles, enfrances. Ha uma traducQ&o ma- 
nuscrìpta de Diego de Valencia, do tempo de D. JoSo li. 

Marco Tulio, 

É livro da Rhetorica de Cicero, traduzido por D. Affonso de 



224 HISTOBIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

Cartagena, bispo de Burgos, a pedido de D. Duarte. Guarda-se hoje 
na Bibliotheca do Escurial, talvez proveniente do saque de Filippo u 
em Fortogal. Tem o seguiate titolo: 

Libro de Marcho tullio gì^ron q se llama dela Retorica, trasladado 
de latin en romance por el muy reverendo obpo de burgos a ynstan- 
cia del mny esclares9Ìdo Principe don eduarte Bey de Portugal. 

«Fablando con vos, princepe esclarecido, en materias de sciencia 
en que vos sabedes fablar, en algunos dias daquel tiempo en que en 
la vuestra córte^ por mandado del muy católico Bey^ mi se&or, estaba^ 
vinovos àf voluntad de haber la Arte de la Retorica en claro lenguaje, 
por conocer algo de las doctrinas que los antiguos dieron para formoso 
fablar. Et mandàstesme^ pues yo a està sazon parecia haber algunt 
espacio para me ocupar en cosas estudiosas; que tornasse un pequeno 
trabajoy et pasase de latin en nuestra lingua la retorica que Tulio com* 
puso. Et corno quier que en el estudio deUa fué yo tan poco ocupado, 
e despendi tan poco tiempo, que no digo para la trasladar, mas àun 
para entender algo della me reputaba et reputo insuficiente ; pero aca- 
tando al vuestro estudioso desco, comencé à poner en obra vuestro man- 
damiento. Et comenzando ocupar en elio la péSola, sobr evino minha 
partida et quedó à vós, segunt se suole facer en las compras, comò por 
manera de sefial, una muy pequena parte del comienzo; et vino con- 
migo el cargo de lo acà complir. . . Pero entre las otras ocupaciones 
tome algunt poco espacio para complir vuestro mandado, et pagar ya 
està debda.» 

Livro das Trotxxs d'El-Rei Dora Affonso, encademado em couro, o 
guai compilou F. de Moniemór o novo. 

Collec9So das Cantigas de Affonso o Sabio, avo de D. Diniz, em 
numero de quatrocentas e uma, em versos de seis e doze syllabas, imi- 
taySes da poesia provengala escriptas em dialecto galleziano. 

« 

Vederlo Maximo em aragoez. 

Ouerras da Macedonia ém papel de marca grande 

E a Hiatoria Alexandri magni regia Macedoniae, de Praeliis. 
Schoell, na sua Historia àbreviada da Litteratura grega (l, 329), filia 
nas tradigSes beroicas de Alexandre, que se propagaram na Europa, 
o desenvolvimento das lendas de Carlos Magno e de Arthur; diz o. 
critico: cSimeSo Seth tambem traduziu do persa para grego uma bis- 
toria fabulosa de Alexandre o Grande, que ao que parece foi o origi- 
nai ou o modelo do primeiro romance de cavallerìa que a Europa co- 



LIVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SECULO XV 225 

nheceU; da famosa Histaria e Vida de Carlos Magno e de Roland, com- 
posta antes do secalo xn, e attribuida a Turpin, arcebispo de Rheims 
no tempo de Carlos Magno. NSo quer isto dizer que Turpin conhecesse 
a traducgSo de SimeSo Seth, mas circulava uma versSo latina, intitu- 
lada Hiatoria Alexandri magni, regia Macedonia^, de praeliis, que desde 
08 primeiros tempos da typographia foi muitas vezes impressa e tra- 
duzida em muitas linguas. No romance attribuido a Turpin, as fa^a- 
nhafl que o Oriente fabuloso conta de Alexandre, sSo attribuidas a Car- 
los Magno, heroe do Occidente; por seu turno este romance foi o 
modelo da Chronica do rei Arthur e dos Cavalleiros da Tavola He- 
donda, composta por 1138, por Godefroi de Monmouth, e porventura 
da Historia de Amadis de Gaula, que veiu a ser para a Hespanha o 
que Carlos Magno foi para a Fran9a e Arthur para a Inglaterra, o 
heroe a quem os novellistas subsequentes prenderam o fio das suas fa- 
bulas. A Historia de Alexandre tambem provavelmente motivou a idèa 
do primeiro poema francez de uma certa extensSo, que um normando, 
chamado Alexandre, compoz por 1200; este poema, cujo titulo é Ale- 
xandre, apresenta numerosas allegorias que se referem a Filippo Au- 
gusto. Assim, um medico de Constantinopla, do seculo xi, empregando 
alguns momentos de ocio nos passatempos da córte onde vivia, deu 
nascimento a um dos generos de litteratura o mais rico e o mais agra- 
davel da Europa, b Na Livraria do Principe de Viana (n.® 48): Decada 
de bello macedonico. Na do Condestavel (n.® 45): De bello macedonico. 

O lAvro de Romaqueya, em papel. 

No Conde de Lucanor, capitulo xrv, ha um conto da Romaquya, 
mulher do rei Ben-Avit de Sevilha. Seria alguma novella mais desen- 
volvida d'esse cyclo tradicional? 

Capituloa gue El-Rei Dom Duartefez guando em boa horafoi Rei, 
Livro de Monteria, por caateUSo. 

Livro de papel velho encademado em purgamnho que fola doa eoa- 
fumea doa homena e otUraa couaaa. 

Na entrega dos Livros da Universidade de Lisboa, de 1513, cita- 
te comò existindo ali: HU volume deJUoaofia aobre oa Coatumea e vida 
doa homens. É um livro de ethica, do seculo xv. 

O Arcypreate de Fyaa. 

É a collec{So das poesias do celebre Juan Roiz, conhecide pelo 

BI8T. UH. 15 



226 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

nome de Arcipreste de Hita, do reinado de Affonso xi. E o poeta qae 
mostra a mais directa influencia franceza dos troveiros na peninsula. 
Urna foiba de pergaminho avulsa, contendo a fabula do rato e da mon- 
tanha, foi trazida de Santa Cruz de Coimbra para a Bibliotheca do 
Porto por Diego Kopke; por ella se vd que existiu urna traduc^So por- 
tugueza em verso das obras do Arcipreste de Hita. O nesso estudo so- 
bre està traduc9&o do seculo xv vem nas Qu.estZes de LiUeratura e Arte 
portugueza, O poema Ovidio da Velhay de Richard de Foumival; que 
vem citado na CSrte Imperiai, seria talvez oonhecido através da para- 
phrase castelhana Bodas de D. Mdon de la Huerta^ do Arcipreste de 
Hita. Na livraria de Isabel a Catholica (n.® 131): «Otre libro que se 
dise el Arcipreste de Ita, en papel de mano de cuarto de pliego en ro- 
mance, que Bon las copia» del Arcipreste de Fita^ con unas tablas de 
papel forradas en cuero Colorado.» 

Libro de Anibal por portuguez^ 

Na Livraria do principe de Viana (n.^ 24) vem uma: mta aHexan- 
dri edile et annihalis. 

Livro de Monteria^ 

Um livro das Medita^Ses de Santo Agustinho gue trdadou o mo^ 
da Camara. 

» 

Estorya de Troya por aragoez. 

E o celebre livro ìntitulado Historia Trojana, de Ghddo de Co- 
lumna, terminado quando muito em 1285, e imitado de Dares Phry- 
gio. O conde D. Fedro j& cita oste livro no seu Nobiliario: e E per està 
rrazom moueromsse tòdas as gentes das terras, e veerom sobre a Troya 
e teueromna yercada dez annos. E ouue hi grandes fazemdas e mortes^ 
gramdes cauallarias assy corno fatta na ssa estorca, 3 ^ No retrato que 
Hernan Perez de Gusman fez do chanceller Pero Lopes de Ajala, seu 
tio, diz : «Por sua causa foram em Castella conhecidos livros que d'an- 
tes o nSo eram, taes corno Tito Livio, que é a mais digna leitura ro- 
mana, a Queda dos Orandes, os Moraes de S. Gregorio, o livro de Isi- 
doro De summo bene, de Boecio, a Historia de TVo^a.i Na Bibliotheca 
do duque de Ossuna guarda-se uma traduc^So da Historia de Troya 
em gallego.^ Jayme de Coresa, secretano de Pedro rv de AragSo^ tra- 



1 Pori. Man. Mst., voi. i, p. 286. 

2 Tubino, Becherchet d'Anthrop^ p. 11. 



UTRARIAS ìfANUSCRIPTÀS DO SEGOLO XV 227 

doziu-a para limosino em 1287. Possuiu-a a rainha Isabel na sua Livrar 
ria (n.^* 109 e 110) e em Benavente: Conquista de Ttoya, qae romanzò 
Fedro de Chenebrilla. O principe de Viana (n.^ 55) possuia urna hUy- 
ria tebane et troyane. Na Livraria do Condestavel de Portugal (n.^ 85): 
TSroya en leti. 

lAvro de Sumeliào. 

Livro de Estrologia encademado e coberto de coirò preto. 

Livro de resar d'el-Sei em qae està a ConJUsSo geral. 
Talvez o livro das Horas de Santa Maria, de sen pae, e o livro 
das Horas de ConfissSo escripto pelo infante D. Fedro. 

Livro das Trovas de El-rei. 

Cancioneiro do rei D. Doarte, hoje completamente perdido; Babe- 
se que era poeta^ pela tradttC9So em verso de redondilha que fez da 
orajSo do Jìisto Jùiz, escripta em latim do secalo x, que em outro lo- 
gar publicàmos. 

Livro dos Padres Santos empapd de marca mayor quefoi de JoSo 
Pereira. 

Livro da Primeira Partida. 

É um fragmento do Septenario de Àffbnso o SabiO; compìlado das 
Decretaes; do Digesto, Codigo Jastinianeo e Fuero Jozgo. Na Livra- 
ria da rainha Isabel tambem appareoem as Partidas em separado. 

Dous livros de Martim Pires. 

No Leal Conselheiro (p. 352) lé-se: cem bau lyvro que fez bua 
que se chama Martym Pires, he feìta boa declara9om segando vos j& 
demostrei; e quem d'elles (peccados) quizer aver comprìda enforma9om 
veja o dicto livro, porque Ihe darà para ella grande ajuda.» Frei For- 
tunato de S. Boaventura, nos Intditos de Alcoòagaj 1. 1, p. 15, fala «das 
obras theologìcas do hespanhol Martim Pires, e outraa, que n2lo dariam 
mènoB de trinta a quarenta volumes ...» 

CoUa/^es de letra pequena. 

Livro de cavalgar, que el-rei D. Duarte compHou. 

É ultimo livro do catalogo de D. Duarte ; estava jà escrìpto an- 

15 # 



228 mSTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

tea do Leal Consdheiro (1428 a 1437), porque ahi apparece citado: 
cCom esto concorda huu capitoUo quo no livro de cavalgar avia acri* 
ptOy o qual aqui fiz tralladar.» (p. 398.) Pelo titulo da obra Tè-se quo 
D. Daarte o compozera em aendo Iffante. Està obra, algana secolos 
perdida, foi achada em 1820 na Bibliotheca nacional de Paris, no co- 
dice 7007, sondo publicada com o Leal Cansdheiro. Alladiram a ella 
08 dironistas Daarte Nones de LeSo e Frei Bernardo de Brìto, por 
fórma vaga, comò quem nSo vira a obra; o visoonde de Santarem di£ 
cathegoricamente que cnBo se encontrou em Portugal até hoje nem 
mesmo um so fragmento.» 

Todos estes livros se dispersaram com o tempo: cDos livros que 
ajmitoa D. Daarte, apenas sabemos da existencia do intitalado Carte 
Imperiai e de um fìngmento do Regimento de Principea. Tudo o mais 
quasi com certeza se poderia talvez dizer que, ou o tempo consummio, 
ou jaz sepultado por Bìbliothecas estrangeiras comò succede &s obras 
do mesmo monarcha.» ' D. Duarte cita outras obras, comò os DistichoSj 
de Dionysio Cato, e a Viia Christì, de Ludolpho Cartusiano, escripta 
em 1330: «E naquesto esso medes concorda bua parte daquelle livro 
da Vita Xpò, que fez segundo dizem, que por el nom se nomèa, huu 
fireire da ordem dos Cartuxos ...» Este livro, mandado traduzir pela 
duqueza de Coimbra, D. Isabel, foi dado & estampa pela rainha D. Leo- 
nor em 1495, e é um dos primeiros e principaes monumentos da Im- 
prensa em Portugal. 

Trataiìo de Vtrtud. 

«Conmigo pensando determiné trasladar en nuestra comun lengu» 
castellana un gracioso e noble tratado que de virtudes falle, el cual de 
los diohos de los Morales filosofos compuso el de loable memoria D« 
Alfonso de Santa Maria, obispo de Burgos, al muy illustre e muy in- 
clito Sr. D. Duarte rey de Portugal, seyendo princepe, al cual Menuh 
rial de Virtudes intituló.» (No Escurial.) 

livraria do Mante D. Fernando o Santo 

É principalmente composta de livros mysticos, segundo o car«- 
cter de D. Fernando; antes de partir para a desgra9ada expedifZo a 



* PcMoramaf t ir, p. 7. 



LIVRARUS MANUSGRIPTAS DO SEGULO XY 229 

Tanger, onde foi vìctima, fez o infiuite testamento, e n'eUe enumera os 
aena livros : ' 

Huma Brivia peqwna por latìm, 

Jtem, hum flo8 sanetorum. 

Item, hum Iwro de prega^fes de Frey VicerUe par lingoagem. 

Item^ hum Ivoro que ehama Crimaco. 

liem, hum Evangdiorum. 

Item, hum cademo de canta de Santa Maria daa Nevea. 

(Enmnera varìos cademoB de officios litorgicos.) 

Item, a livra das CaUagiea das Pad/res e eetatuta Mono/charum. 

Item, as eermlSes de Santa Agostinha por Latim. 

Item, hum livra de lingaagem que chamam razaL de amar. (Citado 
no Index de 1624.) 

Item, hum livra das medita^ks de S. Bernardo, 

Item, hum livra de lingaagem que chamam Stimula amoria. 

Item, a Soliloquio de Santo Agostinha, e de auas meditagli em lin- 
goagem, 

Itemy outra livra que chamam LmCj em lingaagem. 

Item, hum livra de papd par LaJtim de muitae cotuas misticas que 
foi da Thezoureira de Evara. 

(Enumera Missaes e Antiphonarios.) 

Item, hum livra da vida de S. Jeranymo em lingaagem. 

Item, a Livra da Rainha Dana Uizabeth. 

Item, dous livros piquenos de Ora^ks etc. bem corno a livro das ma- 
roiss de San Gregario. 

Item, leixo a Femam Lopez, meu escrivSo da puridade^ hum livro 
de lingaagem que d me deu, que chamSo hermo espiritual. 

DeBcreveremoB d'eates livros aquelles que nos revelem o estado 
mental da època, que precedeu a descoberta da Imprensa. 

No testamento do Infante Santo vem citado o livro de hoc. E uma 
obra de Medicina, assim designada pelo nome do seu auctor; d'ella fala 
Bodriguez de Castro: «Por los aSos de Cristo de 1070, vivia en Es- 
paBa un celebre judio medico, Uamado Izchaq, auctor de una obra de 
medicina en castellano, que trata de varias especies de calenturas y de 



1 testamento està publicado por José Soares da Silva, MemorioM de D. 
Jaào J, 1. 1, p. t50. 



230 mSTORU DA UNIVERSIDADE D£ GOIMBRA 

tercianae e cuartanas; j he visto ms. en un còdice in-folio de la bi^ 
bliotheca San Lorenzo del Escurial.» Segando Amador de los RioS| 
nos Estudios aobre lo8 Judios de EspaSki (p. 229, ed. 1848), o livio in- 
tìtula-se Io8 Libroa de Isaaque, e é posterìor ao secalo xi. Segando a 
noticia qae Amador de los Rios dà d'està obra, era ella dividida em 
cinco liyros: o primeiro trata da febre ephemera; o segando das inso- 
lafSes, febres prodozidas pelo fino, pelo banbo, pelo excesso de comi- 
da, pela fome, fadiga, vigilias, sanha e pezar; o terceiro trata da fe- 
bre etipsy; o quarto da febre causon e da sua crise, e da aynoea, pLeur 
risis^ sconon, periflemonya, syncopi e ictericia; o quinto livro tratadaa 
pestilencias. A obra é urna vulgarisagSo da Medicina grega no Occi- 
dente, corno confinna o Livro da Lepra (o Tratado da Elephantiase, 
de Constantino) da Livraria de D. Duarte (p. 220.) 

manuscripto intitulado livro da Rainha Dona Eizaìbeth é urna 
chronica da rainha S. Isabel, mulher de D. Diniz, escripta, segando 
Frei Francisco BraudSo, depois de 1374, e que se guardava no con- 
vento de Santa Clara de Coimbra. chronista da Monarchia luziUma 
«xtrahiu urna copia d'esse codice, que publicou na parte rv da sua 
obra. 

O livro Hermo espirithuil, que o chronista FemSo Lopes offerecera 
ao infante, escrìpto em portuguez, é quanto a nós o livro impresso em 
1515, e summamente raro, que se intitola Bosco ddeitoso, em que em 
fórma de dialogo, e com a auctorìdade dos santos padres, se exalta a 
vida eremitica e contemplativa. Os archaismos e construc98es syntaxi- 
cas peculiares do nesso seculo xv conduzem-nos a està inferencia. 

E, porém, para notar as relaySes litterarias do InfEUite Santo com 
FemUo Lopes; sobre este ponto escreveu Herculano: cFemSo Lopes 
e Frei JoSo Alvares foram feitura sua; e provavelmente nSio nos lou- 
variamos hoje d'esses deus homens^ dos quaes um deu o primeiro im- 
pulso à nossa linguagem historica e outro & nossa linguagem oratoria, 
se a boa sombra de D. Fernando os n&o fizesse medrar.»' 

Frei JoSo Alvares, secretano do infante, a quem acompanhou no 
captiveiro, voltou a Portugal depois da sua morte, indo em seguida a 
Boma e & Belgica. De U mandou para o Mosteiro do Pa^o de Scusa, 
de que era abbade commendatario, uma traduc9So d'esse extraordina- 
rio livro da Imitalo de Chrisio, que se julga ser o texto impresso no 
principio do seculo xvi. Està obra veiu dar um profundo golpe nos 



1 Panxmma^ t. ir, p. 6. 



LIVRÀRIAS MANUSCRIPTAS' DO SECULO XY 231 

theologos, emancipando os espiritos crentes da dìreo9So casuìstica dos 
padres, corno notou Draper. Era a parte do sentimento no confiicto da 
dissolnfSo do poder espiritual; que tomou a apparecer nos mystìoos 

hespanhoes e francezes comò protesto centra o formalismo frio dos je- 

Boitas. 

Epistolas e Evangelhos do anno. 

Traduc(fto feita poi: D. Filippa, filha do infante D. Fedro e neta 
de D. JoSo i: «consta que passàra à nossa lingua as Epistolas e Evan- 
gelhos do anno, posto .que tirados da lingua firanceza, cujo originai da 
propria letra se conservava no convento de Odivellas, adomado com 
«atampas por sua m2lo.» ^ 



Livraria do Condestavel de Portugal, fllho do Mante D. Fedro 



Este prìncipe, que sofireu todas as desgra9as de que foi victima 
«en pae, depois de uma expedÌ9&o a Hespanha em auxilio de Alvaro 
de Luna, teve na córte de Castella rela93es litterarìas com o marquez 
de Santillana, a quem mandou pedir as suas obras, achando-se jà em 
Portugal. erudito marquez mandou-lhe uma copia magnifica de to- 
das as suas composifSes poeticas, em 1449, e fel-a acompanhar de uma 
Carta em que exp8e de um modo rapido mas verdadeiro a Ustoria da 
poesia moderna. * Condestavel D. Fedro era tambem poeta, e no seu 
longo desterro de Fortugal escreveu as Coplas do Contempto do Mundo 
e a Satyra de felice e infelice vida, Frodamado rei de ÀragSo pelos 
catalSes (1463), foi-lhe diffidi sustentar a lucta centra D. JoSo il de 
AragSo, e expirou vencido e devorado pela consump9fto (1466.) 

Em ama conta de pagamento de D. Fedro ao bispo de Vich, re- 
fere-se o rei de Aragfto aos ^ilibroa noetros tam de theologia, strologia, 
philosophia et poesia quam de istoriis vulgaribus in caihalana, franei- 
gena ami periugalenei vel latina aut alliis guibumns linguis descriptos et 
eoniinnat08.9 

Està livrarìa do Condestavel de Fortugal, e rei de AragSo, foi em 
grande parte formada com a que pertenceu ao Prìncipe de Viana, morto 



1 fiibeiro dos Santos, Memoriaa da Aeademia, t. vii, p. 21. Cita tambem ou- 
tra versio do seoolo xv por Fr. Juli2o dos Eremitas de Santo Agostinho. 
* Bablicada jios Poeias paladanoSf p. 161 e seg. 



232 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIBIBRÀ 

em 1461, e corno elle martTr da autonomia catalft. No Archi vo de Ara- 
gSLo foi achado o inventario que se fez & Livrarìa e Monetario do des- 
ditoBO D. Fedro de Portugal. Em ama Memoria sobre D. Peàjto, El 
Condestable de Portugal, considerado corno escritor, erudito e antiquario, 
por Andrés Balaguer j. Merino, vem transcripto pela primeira vez esse 
inventario, ainda assim pouquissimo conhecido: 

1. Evicenna. 

2. Biblia. 

3. Missal roma, notat en alguns lochs de cant pia. 

4. Paulus Virgerius, en portuguea, e molts altres tractats. 

5. Missal roma. 

6. Flora sanctorum en roman9. 

7. Missal dominical e Santoral segons la consuetut del Orde de 
Prehicadors en lo qoal ha moltes oracions e of&cis e algunes istories. 

8. Ethicorum, PoUticorum et Yconomicorum. 

9. Uarhre de batalles, en frances. 

10. Alexandre, en frances. 

11. SuetoniOy De vida de Jtdio Cesar, en vnlgar portugues. 

12. Crestina, dels fets de la Cavalleria, ea frances. 

13. Joannis Crisostomi. 

14. Virgiliusi en vulgar toscha e part en leti. 

15. Matheas Palmerii, De temporibus. 

16. TuUius, De Officiis. 

17. Valerias Maximus, en vulgar frances. 

18. Epistoles de Senecha, en vulgar frances. 

19. Epistole beati leronimi. 

20. Les Etiques de Aristotile en vulgar castella. 

21. Vita Marci Antonii et alliorum Prindpum. 

22. Coronigues dels Reys de France^ en vulgar frances. 

23. Epistole Leonis Pape. 

24. Franciscus Petrarcha, en vulgar toscha. 

25. Flors Sanctorum. 

26. Super ludo Scachorum, De moribus et offieiis ìiobilium. 

27. Liber de Viris Ultistribus. 

28. Les Eneheides de Virgilio. 

29. Libre scrit en papel, ab test e gloses. 

30. Biblia (del prior de prehicadors). 

31. Lo primer volum de la Biblia ab la glosa ordinaria. 

32. Primer volum de Nicolau de Lira sobre la Biblia. 



UYRARIAS MANUSCRIPTAS DO SEGULO XV 233 

33. Segon volum de Nioolaa de Lira sobre la BiUia. 

34. Titas Livius De secando hello punico. 

35. Los morcds de Seni Gregori sobre Jop. 

36. Usatges de Ccdhalunya, 

37. Joseph! De bello jvday co, 

38. Levament fet deU offidals de casa del senyor Bey. 

39. Boecio) de consolacion, en vulgar castella. 

40. Constitutiones Clementis Pape. 

41. Incipit Prefacio Rabani ad Ludovicum regem. 

42. Plinio, de la naturai Istoria, 

43. EpistoUs de FaUaredis et Chratìe sinia, 

44. Summa super Decretalium, 

45. De beUo macedonico. 

46. Comelius Tacitus. 

47. Coroniques o Conquestes de uUramar, en valgar castella. 

48. Ores de nostre dona, del Sanet sperit, e lo quicumque volt. 

49. Missalet. 

50. Commentala Cesarìs. 

51. De vita et moribus odexandri magni. 

52. Les coroniques de Spanya, en vulgar portuguea. 

53. Salasti, en romang castella. 

54. La contemplacio de la Beyna, en vulgar catala. 

55. Speculum ecclesie mundi, vulgar catala. 

56. De laude Criatoris. 

57. Isidorus De Etymólogia. 

58. Orto de Esposo, en vulgar portuguea. 

59. Coroniquei dels Reyes darago e Comts de Barcelona, en vul- 
gar catala. 

60. Libre en pergamins, en vulgar castella. 

61. Liber Justinus. 

62. Sidracho lo PhUosopho, en vulgar frances. 

63. Dedamadones Senece. 

64. Diversos Tractats, en romans castella. 

65. Les Constitutiones e usaJtges de Catìudunya. 

66. Liber Quartus beati Thomae. 

67. Livro das Vìrtudes. 

68. Breviari roma. 

69. Lo Mestre de les Sentendas, 

70. Parabole Salomonìs. 

71. Libre en paper, en vulgar castella. 



234 HISTORIA DA UNIVCRSIDADE DE COIBIBRA 

72. Libret scrit en paper, en calala. 

73. Ovìdi metamorf 08608, en vulgar castella. 

74. Libre, comenya: Ecce Sex iuu8 venit. 

75. Libre, comenya: /njpnnctpis creavit. 

76. Le8 Concordati^ de la Biblia. 

77. Ubret: comenga lo offici etc. 

78. Liber Ysocretis. 

79. Lo Valeri, en vulgar castella. 

80. De la inmortalitat de la anima, en vulgar castella. 

81. Le8 Cent Balade8, en vulgar frances. 

82. Satira de contento del mundo, en vulgar, castella. 

83. Libre, comen9a: Atigu8talÌ8 didtur atigu8torum. 

84. BoeciuB de Conaolatione, in ladino. 

85. Troya, en leti. 

86. El Marques de Santillana, es tot en cobles rimades. 
Rptol de pergami L'Avologia deb Rey8 de Fran^. 

87. Offider de cantpla. 

88. Antifoner tot notat de cant pia. 

89. Antifoner ab responsos. 

90. Lo volum de Dret. 

91. Clementines. 

92. Joan Bocaci, en vulgar castella o portugues, 

93. 0re8 ab les armes de Portugal. 

94. Mis8al, en pergamins. 

95. Miasal roma, 

96. Catholicon. *^ 



^ Tranacreyemos em seguida o Catalogo da importantiBsima Livraria do Prìn- 
cipe de Viana, que o Condestavel tanto admiraya, e cujo filho mandou educar com 
disvelo. D^esta Livraria foÀm adquirìdos algons codices pelo Condestavel, e isto 
basta para qae convenha formar-se urna idèa do seu conjoncto : 

1. Primo de divino amare. — 2. Lactantius. — 3. ultima Beati Thomae. — 4. se- 
cunda secunde. — 6. prima seconde. — 6. prima pars beati Thomae — 7. dos oracio- 
netes — 8. super primo sententiamm. — 9. orationes demostbenis. — 10. gesta regine 
bianche. — 11. magtstre sententiarum. — 12. exameron beati Ambrosii. — 13. glosa 
salterii eum aliis tractibus secundom sanctum Thomam. — 14 psalterium. — 15. Be- 
banns, de natnris Terom. — 16. secunda psrs Biblie. — 17. tullius de officiis. — 18. 
finibus honorum et malomm. — 19. justinus. — 20. epistole phallaridis et Gratis. — 
21. commentariomm cesaris. — 22. elins lampridius. — 23. nonnius marcellns. — 24. 
vita aliezandri scille et annibalis. — 25. comentarionun rerum grecarum. — 26. les 
ethiques por lo princep trasladades. — 27. epistole fiuniliares tuUi. — 28. epistole 



UVRARIAS MANUSCKIPTAS DO SECULO XV 235 



Livrarìa de D. Affonso V 

Os chroniatas Ruy de Pina e Daarte Nunes de Le2o asseveram 
que D. Àffonso v fòra o prìmeiro rei portuguez que ordenara Uvrcuria 
no pa9o; o que pode haver de yerdade n'este asserto limita-se à fa- 
coldade de ser a livrarìa consultada pelo publico. Gomes Eanes de 
Azurara termina a sna Chronica da Conquista da Guiné, dizendo qae 
a acabou em 1453 na livrarìa do rei D. Affonso v. SSo muitos os li- 
vros antigOB que Azurara cita nas suas obras, com um prurido de eru- 
disse que caracterìsa os espiritos cultos do seculo xv; se attendermos 
ao alto preyo que ob livros tinham antes da descoberta da Imprensa, e 
à rìqueza das Livrarìas manuscriptas dos Principes, conclue-se que Azu- 



senec en frances. — 29. alfonseydeB. — 30. de bello gothorum. — 31. epithome titi 
livii. — 31. de secreto conflictu francisci petrarchae. — 34. coroidea regia frande. 
35. analogia navarre abs histoire de spanya. — 36. del aangreal en francés. — 37. 
hun libre de greon en francés. — 38. tristany de leonis. — 39. libre en frances de pe- 
dres precioses. — 40. un libre de cavalleria. — 41. un libre de sermons. — 42. libre 
de boeci en francés. — 43. un altre intitulat giron en frances. — 44. los morale dels 
pbilosophs en frances. — 45. los eyan^elis en grech. — 46. las epistoles de seneca. 
— 47. decade secunde bello punico. — 48. decade de bello macedonico. — 49. Come- 
lius tacitus. — 50. guido didonis super ethica.— 51. la tripartita Istoria en frances- 
— 52. de proprietatibus rerum en francés. — 53. orationes tullii. — 54. tragedie se- 
nece. — 55. Istorie tebane et troyane. — 56. Isop en frances. — 57. lo papaliste ho 
cronica sommorum pontificum. — 58. prime secunde.^ 59. somari de leys. — 60. Jo- 
sephus de bello judaico. — 61. de vita et moribus Alezandrì cum quinto curcio. — 
62. laertius diogenes. — 63. de viris illustrìbus. — 64. quintilianus. — 65. eusebius de 
temporibus. — 66. plutarcbus. — 67. dant — 68. Yalerìus mazimus. — 69. lo testament 
veU. — 70. lo testament novell. — 71. los cine libres de moyses en un yolum en fran- 
ces. — 72. un libre en frances nomenat egidi de regimine principum. — 73. altre li- 
bre que trata de viois e virtuts. — 74. altre libre en frances intitulat lo libre du 
trcBor. — 75. un libre que cometa lo romana de yemius. — 761 un altre libre inti- 
tulat del amor de Deu. — 77. un» lapidari en frances. — 78. la cent ballades. — 79. 
los treballs de hercules. — 80. un libre... de diyerses materies de philosophia. — 81. 
la cronica velia. — 82. un libre de ooples. — 83. la coronica velia. — ^84. lo roman de 
la rosa. — 85. leonardi aretini de vita tiranica. — 86. un alfabet en grecb. — 87. un 
libre de philosophia de aristotil en metres. — 88. libre frances ogier le danois. — 
89. un libre... de coblas. — 90. tres libres de compte dieg odrìg. — 91. un libre fran- 
cés que comen^a libre de daressia intitulat ymage mundi. — 92. libre intitulat tra- 
ctatus legum. — 93. mols coems. — 94. las genealogies en un rotol de pregami us- 
que ad Rarolum Begem nayarre. — 95. Matheus palmerii. — ^96. lo pressia major. — 
(Ap. Mila y Fontanalfl, Dr Um Trovadorea en Espaha^ p. 520.) 



236 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

rara dispunha de urna grande bibliotheca, e pelas suas cita98e8 pode- 
moB recompSr a Livraria de D. Affonso v: 

CanticoB de Dante. 

Pela primeira vez nos appareoe nm indicio de ser conhecida em 
Portugal a Divina Comedia; Azurara cita-a na Chronica do Cande D. 
Fedro de Mènezea (p. 446): < aquelle famoso poeta Dante^ na sua pri- 
meira cantica, etc.» Na Chronica da Conquista de Ovini enumera suc- 
cessivamente as seguintes auctoridades: 

S. Thomaz e S. Gregorio (p. 10.) 

Orosio (p. 11.) 

Marco Polo (p. 11, 227 e 360.) 

MetamorphoseoSj de Ovidio (p. 12.) 

Phedra e Hypolito, de Seneca (p. 12 e 42.) 

Lucas de Tuy, continuador da Chronica de Isidoro de Sevilha (p. 22.) 

Cicero (p. 23 e 41.) 

Sam Jeronjmo e Salustio (p. 36.) 

Eikica, de Aristoteles (p. 37.) 

Valerio Maximo (p. 38) Summa da Historia de Roma (p. 76.) 

Lucano (p. 39.) 

S. Chrysostomo (p. 42.) 

Viagens de Sam Brendam (p. 45.) 

Santo Agostinho, De cimiate Dei (p. 76.) 

DecadoB de Tito Livio (p. 76 e 149.) * 

Rodrigo de Toledo (p. 89.) 

Flavio Josepho, Das Antiguidadesjudaicas (p. 89.) 

Gnalter, Daa gera^ka de Noè (p. 94.) 

As Obras dos Romàos (p. 148.)* 

Vegecio, De re militari (p. 148 e 412.) 

A Scripiura Santa, Seneca, Tito Livio (p. 149.) 

Paulo Vergeryo, Ensinanga dos mogos Jidalgos (p. 84.) 

Bernardo, Regimento da Casa de Ricardo, senhor do castello Am-^ 
brosio (p. 224.) 



1 Escreve Paul Meyer, no Bappart sur une tnission liUeraire en Angltterre, 
p. S2: «Urna obra que figurava em todas as bellaa livrarias do &n do secnlo xrr 
e XV era a traduc^So de Tito Livio, que ezecatou Fedro Bercheore para o rei JoSo; 
o seu successo estendeu-se além dos Pyreimeus, ao que parece, porque o manuscri- 
pto Harleiano, 4893, apresenta-nos urna traduo^fto catalS d'està traducano francesa.» 

* Era urna compila^ào que na Edade mèdia andava reunida ao Livro de Oro» 
no, e tratava ezclusivamente da vida de Cesar. 



UVRARIAS HANUSGRIPTAS DO SECULO XV 237 

Fr. Gii de Boma, Begimento de Prindpes (p. 253.) 
. AriBtoteles, Tolomeu^ Plinyo e Homero, Esidro^ Lucano e Paullo 
Orosio (p. 288.) 

Gondofre^ oa Gundolfo (p. 291.) 

Mestre JoSo o Inglez, ou Dans Scoto (p. 295.) 

Pharsalia, canto dez (p. 300.) 

Hermas, o Pastor (p. 350.) 

Mestre Fedro, ou Fedro Lombardo (p. 260.) 

Alberto Magno, Da celestial gerarchia (p. 458.) 

S. Thomaz, De Potentia Dei (p. 460.) 

Evangélho de S. Lucaa (p. 461.) 

EpiatóUu de S. Faulo (p. 462.) 

Jélumi de Lanaon (p. 2.) 

O Amadis de Oaula (na Chronica de D, Pedro de Menezes.) 

Vasco Femandes de Lucena, que foi guarda d'està Livraria sob 
D. Jo2o u, apparece em um alvarà de 16 de novembre de 1496 com 
o titulo de cgovemador moor da nossa Torre e livraria.^ 



Livraria do Dr. Diogo Affonso de Mangancha 

Ko testamento d'este decretalista, de 1447, em que funda um Col- 
legio para dez escolares pobres, deixa-lhe tambem hos livroa todos. 
Àpenas indica alguns d'esses Uvros: 

citem, requeiram ao Bachaler Diego Lourengo a segunda parte 
do Bartolo ssobre o Esfforgado, e a Mendaffonso, filho d'Àffonse Annes 
da Bua das Esteiras, 08 Bartolos ssobre o Digesto novo, que Ibos em- 
prestey ; e tenho um Chino empurgaminho apenhado do Doutor Joham 
Pireira por mil e quinhentos reis, mando que Iho dem sem pagar nada, 
porque come9a bem seu mundo.»f. 

Livraria do bispo D. Vasco Perdigdo 

Ainda nos apparece uma referencia a urna Livraria do seculo xv: 
cDom Vasco PerdigSo, bispo de Evora, installou em 1462 uma Livra- 
ria por cima da sala capitular.»' 



1 Ap. DiiserL ekran^ de J. P. BibeirO| t* n, p. 256. 

2 Partugal PiUameo^ voi. i, p. 124. 



238 HISTOBIA DA UNIYEKSIDADE DE GOIHBRA 

Sobre a Livrarìa da UniverBidade de Lisboa nada pademos des- 
cobrir anterior ao secalo xvi ; é comtudo presamivel que a possoisBe. 
NoB Estatatos da Universìdade de Salamanca, de 1422, dados por Mar- 
tinho V, vemos estabelecido que se devem gastar mil florins na compra 
de livros para todas as faculdades, e que estes se coUoquem em ordem 
dentro do Estndo geral, sondo o Estacionario responsavel pela sua 
guarda, com o salario annual de vìnte florins, e afianyado. Os livroB 
eram defendidos com penas de excommonhSo, costume que se conser- 
vou em todas as antigas bibliothecas. ^ 

A raridade dos manuscrìptos e o seu alto pre90 tinham motivado 
as prìmeiras tentativas da impress&o lypographica, especialmente para 
OS livros destinados ao ensino publico. A Orammatica, de Donato, e o 
Catholicony de JoSo Balbi, foram primitivamente reproduzidos pela 
fórma xylographica, ou gravura em madeira; desde que se mobilisou 
pela serra os caracteres, e que o processo da gravura serviu para abrir 
OS pon^oes com que se fis^ram as matrizes (Frappes), que, & imitafSo 
da {undÌ9&o das medalhas, serviram para a fabricagào dos typos, es- 
tava creada a grande arte da Imprensa. A descoberta foi compleza, 
dependendo de invengSes anteriores, comò o papel, e simultaneas, comò 
o prélo, as balas, a tinta seccativa, viscosa, e a maravilhosa impressSo 
a c6res. O prestigio do Livro, a que a Edade mèdia ligara a concep9So 
ideal da sabedoria e da magia na designa9So de Specvlum, ia desap- 
parecer pela reproduc92o material e facil da typographia; mas vinba 
desencadear os quatro ventos do espirito, trazendo à actividade specur 
lativa da Europa as doutrinas politicas da Monarchia Universci, a li- 



1 Na Memoria de Bussche sobre as rela9oe6 de Portngal com Flandres (p. 8) 
cita-se um Juan Vaaques natifde Poriugal^maUrt d^hotd de Donna laabeau de Par- 
UÌgaly duchegse de Bourgogne: «Vasques possédait une bibliothèque ou tout au 
moins divers manuscripts de yaleor. M. le chanoine Cartoli, dans ses notes, ma- 
Ihenreusement disperséea aujourd*hui et dont qaelqaee-uneB sont devenues la pro- 
priété de TÉtat, cite comme ayant paBsés par ees maina les ouvrages suivantSf 
portant les armoiries de Vasques et celles dea yan Ackere : 

Un Séììkque en 2 parties, imprimé à Naples (apud Moravum) en 1475, in-fl. 

HUtoire de Troie la Orante mamuscript curieux de la maison de Henri eeeond. 
Ms. in-fl., écritore de fin zir* siècle. 

Un livre d'heores intitulé: Horae Btatae Mariae Virginie^ in-16, relié en 
cuir, orné d'une gamiture historiée en argent, avee deux fermoirs. — Manuscript 
sor yélin, exécuté yers le milieu du zy« siècle. 280 feuillets, douze miniatures. Sor 
le plat, les armes de Portugal presque effacées. Sur le feuiilet de garde, Técu de 
Vasques ayec celui de sa femme, portant la date: Bragis iccooo.ucyiuj.» 



UYRARIAS MANQSCRIPTAS DO SECULO XV 239 

Tre critica dos textos biblicos e a dis8olu9So da hìerarchia catholica, o 
oonhecimeiito da terra pelas Viagens de Marco Polo, que suscitavam 
as audaciosas expedÌ93e3 maritimas & America e & India^ emfim xun 
maior cosmopolitismo e o conhecimento das fontes vivas da CiyilisagSo 
Occidental. A Imprensa propagava-se a todos os paizes comò um des- 
tino: na Allemanha, de 1454 a 1480, a Mayence, Bamberg, Stras- 
burg, Colonia, Nuremberg, Baie, Augeburg, Mnnster e Spira ; na Ita- 
lia, (1465) a Roma, Subiaco, Veneza, Lucques, Foligno, MilSo, Bolo- 
nha, Florenga, Trevi, Napoles, Sicilia; em Fransa, (1471) a Paris, Lyon, 
Bruges, Alost, Louvain, Aivon e Utrech; na Hespanha, (1474 a 1477) 
a Valencia, Barcelona, Sarago9a e Sevilha; em Portugal entra em 1478, 
comò se infere da nota das Coplas do Menosprecio do Mando, do Condes- 
tavel de Portugal, e definitivamente em 1489 quando os judeus Tzorba 
e Rabban Eliezer imprimiram o Commentario sobre o Pentateuco, e 
em 1491 a edigUo hebraica do Pentateuco, de Lisboa. 

A forte reacjSo do pedantismo Scholastico centra a livre critica 
da Renascenga achou um apoio accidental na descoberta da Imprensa, 
empregada nos seus primeiros annos a dar publicidade aos livros que 
mais tinham dominado nos estudos dì\rante teda a Edade mèdia, taes 
corno Catholicony de JoSo de Genova, o Mammotrectua, de Marche- 
sini, Bi^dchiólogus, de Ebrard de Bethune, o Grecismus, de JoBo de 
Garlandia, e outros muitos, que encontràmos nas opulentas Bibliothe- 
cas ìnanuscriptas no goso de um unanime respeito. Michelet accentuou 
està influenda deleteria da Imprensa ao desabrochar da Renascen9a: 
«A Imprensa, beneficio immenso, que vae centuplicar para o homem 
OS meios da liberdade, serve entSo, é preciso dizel-o, para propagar 
as obras que, desde trezentos annos, tèm mais efficazmente embara- 
9ado a Renascenfa. Ella multiplica ao infinito os Scholasticos e os mys- 
ticos. Se imprime Tacito, tambem inunda as bibliothecas de Duns Scot 
e de S. Thomaz; ella publica, etemisa os cem glosadores do Lom- 
bardo, que era esquecido no pò. Afogadas de livros barbaros da Edade 
mèdia, que sBo desenterrados ao mesmo tempo, as escholas soffrem uma 
deploravel recrudescencia de absurdos theologicos. Pouco ou nada em 
lingua vulgar. Os livros antigos publicavam-se com uma extrema len- 
.tidSo. So quarenta ou cincoenta annos depois da descoberta da Im- 
prensa è que se lembram de dar à estampa Homero, Tacito, Aristote- 
les. Piatalo ficou para o entro seculo. Se se publica a antiguidade, pu- 
blica-se e republica-se com outro empenho a Edade mèdia, sobretu&o ob 
livros de classes, as Summas, os epitomes, todo o ensino de tolice, de 
manuaes de confessores e de casos de consciencia; dez Nyder centra 



240 mSTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIHBRA 

luna llliada: por um Virgilio vinte Fichet.»* Como explicar este an- 
tagonismo da Scholaslica contra a Renascenfa? E facil. O estudo doa 
exemplares das Litteratoras greco-romana^ e dos sena philosophosy pro- 
vocava a renova9So da grammatica e da critica philologica; os doato- 
rea aterraram-se diante dos novos methodos e formularam urna con- 
demna9So suprema: o mdhor grammatico sera sempre opeor dialectieo, 
e um pessimo theologo. ' 

Pela reac9So dos criticos da Renascenfa, quo luctaram contra o 
pedantismo doutoral, é qae se aprecia a natoressa da eradÌ9lo e dos 
livroB que occaparam os prelos ao alvorecer da Lnprensa, e espccial- 
mente o antagonismo entro as duas épocas^ que tSo profundamente se 
contrastavam. ^ É notavel comò a mesma nota critica sobre as espe- 
culasSes medievaes e os livros pedantescos apparece accentuada pelo 
genio satyrico de Gii Vicente, e pelo renovador das doutrinas pedago- 
gicas^ sarcastico Rabelais. A velha Dialectica dos Nominalistas e Rea- 
listasy que embara9ara o desenvolvimento scientifico iniciado por Ro- 
gerio Bacon e Arnaldo de Villa Nova, continuava a eateril lucta no se- 
culo xvi^ sob titulo de Thomistas e ScottìstaSj difficultando a expan- 
bSo da Renascen9a. 

E naturai que cada um d'estes grupos seguisse a bandeira do seu 
coiypheOy os dominicanos as doutrinas de S. Thomaz e os franciscanoB 
as de Duns Scott. Gii Vicente ridicularisou toda està velha erudigSo 



1 La RenaisBa n ce^ p. xeni. 

* Dizxa Vives : «Qnoties mihi Johannes Dullardins ingessit : quanto eris me- 
lior grammaUcuB, tanto pejor dialecticns et theologUB.i» (D$ cautis corrup. Artiumj 
lib. u, p. 72.) 

' Escreve Quieherat, na Histoirt du CóUkgt de 8ainU Barbe, 1 1, p. 150: e A 
Edade mèdia teve coriosidade e um grande poder de reflezio; faltou-lhe o genio 
observador e o Bentimento critico. A Bcienda, da qoal nSo oomprehendeu senSo o 
lado especulativo, foi para ella comò as coasas creadas, de que se serve sem pen- 
sar em fiuer nada semelhante. Cren firmemente que tudo quanto se podia saber 
ostava j& escrìpto ; os livros da eschola continham todo o deposito ; o que havia a 
laser era tirar-lhe ss consequencias pelo raciodnio. — A Benascen^a apparece-nos 
ao contrario corno a evoluì doB espiritos reoondnzidoB por um inslincto intdra- 
mente pratico à vereda da ÌDveBtlga92o e tornando o seu curso para a conquista 
do livre esame. A sua applica^ foi ver e oomprehender antes de racibdnar; e 
corno ella se entregou logo is obras litterarias da antiguidade, o prìmeiro rcsul- 
tado foi dedarar falsa a scienda que tivera a preten^io de posBuir a chave d'ella. 
Os exerdcioB sobre que se fundava a instmc^So dementar eram futiIidadcB e pa- 
lavrorio. Para conseguir a inteUigenda doB auctores nSo bastava ter disputado 
sobre a grammatica: era preciso reconstìtuir o mundo em que esses auctores ti- 
nham vivido.» 



UVRARIAS MANUSCRIPTAS DO SEGULO XV 24 i 

medievali que se perpetuava na Universidade, quando a Italia iniciava 
o renaBcimento das litteraturas classicas: 

No quiero deciros especulaciones 
De Santo Agostin Dt CiviUUe et cetra, 
No qtiiero de Scoto alegar ni letra, 
No quiero dispntas en predicaeianeBA 

No Auto da Mofina Mendes, Gii Vicente ridiculisa todo o velho 
aristotelismo representado pelos padres da Egreja^ e em contraposiySo 
com as doutrinas scientificas de Sacrobosco e Regiomontanus, que re- 
atauravam a astronomia: 

Vicentina, — Scala coeli, 
Mag^ster Sententiamm, 
Demosthenes, Calistràto, 
Todos estes concertaram 
Com Scoto, livro qnatro. 
Dizem : N&o yob enganeis 
Letrados de rio torto, 
Que o porvir nSo no sàbeiS) 
E quem nisso quer por péìs, 
Tem.cabe^a de minhoto. 

bruto animai da terra, 
Ó terra filha do barro, 
Como Babes tu, bebarro. 
Quando bade tremer a terra, 
Que espanta os bois e o carro? 
PeloB quaes dixit Anaelmus, 
£ Seneca — Vandaliorum, 
£ Plinius — Ckromcorum, 
Et tamen glo9a ordinaria. 
E Alexander — de aliis, 
Arìstoteles — De Secreta Mcretorum. 
Albertus Magnus, 
Tullius Ciceronifl, 
Bicardus, Ilarius, Bemigius, 
Dizem, oonvem a saber: 
Se tens prenbe tua mulher 
E per ti o oomposeste, 
Qneria de ti entender 
Em que bora bade nascer, 
On que fei^oes bade ter 
Esse filbo que fizeste. 



O&rotf, t ui, p. 337. 

H18T. Qk IG 



242 HISTORIA DA UNIVERSIDADB DE GOIMBRA 

NSo no sabes; quanto nuda 
Ck)mmetterde8 falsa guerra, 
Presumindo que alcan^aes 
Os secretOB divinaes 
Que est^ debaizo da terra. 
Pelo que diz Qutntus Curtius, 
Beda — De religione chriatioMf 
Thomaz — Super trinitas altemcUi, 
AttgustinuB — De angelorum ckoris^ 
Hieronimus — alphabetue hebrcUot, 
BemarduB — De virgo aacenUomsj 
Bemìgius — De dignitate aacerdotwn; 
Estes dizem j untamente 
Nos livros aqui allegados : 
Se filhos haver nao podes 
Nem filhas por teus peccados, 
Cria d'esses engeitados 
Filhos de clerigos pobres. 

Rabelais, no Pantagruel, contando Como CrarganJtua foi educado 
por um sophista em lettras htinas, enumera os deploraveis livros que 
doniinaram no ensino ainda depois da descoberta da Imprensa, e an- 
tes de serem inutilisados pelas obras superiores dos grandes genios da 
Renascenja: cDe facto ensinou-lhe um grande Doutor sophista, cha- 
mado mestre Thubal Holofeme, a Carta, tSo bem que elle a dizia de 
cor de traz para diante . . • Depois leu-lhe Donato, o Faoet, o Theodolet, 
e Alanus in Parabòlis. . . Depois leu-lhe De modia significandi com os 
commentarios de Hurtebise, de Fasquin, de Tropditeux, de Gualebault, 
de JoSlo le Veau, de Billonio, Brelingandus e uma caterva de outros (no- 
mes com que ridìculisa os commentadores da £dade mèdia.) Depois leu 
Compost, . ., e em seguida teve um outro velho catarroso, chamado 
Mestre Jobelin Bride, que Ihe leu Hugutio, Hebrard, o Grecismo, o 
Douirinal, as Partes, o Quid est, o Supplementum, Seneca, De quatuor 
virtuiihus cardinaliòusj Passavantus cum commento, e Dormi secure, para 
as festas. E alguns outros do mesmo jaez, com a leitura dos quaes se 
tomou tSo sabio que ficou na mesma.»^ Reiffenberg mostra comò es- 
tes livros persistiram no ensino até à època da Rena8cen9a. ' A Carta 
e as Partes 2& vimos comò dominaram em Portugal (vide p. 117); a 
Grammatica de Donato resistiu por muito tempo i de Prisciano, e ao 



^ Pantagrud^i liv. i, cap. xir. 

2 2* Memoire sur lea deux premieri nèdes de VUniversiU d^. Louvain^ p. 13. 



UVRÀRIAS MANUSCRIPTAS DO SEGOLO XV 243 

Doutrincd de Alexandre ViQa Dei (1242), que foi desthronado por Pas- 
trana. As Parabolas de Alain de Lille (1160 e 1190) andavam juntas 
com F<icetii8j o Theodulos, que fortificavam os Proverbios de Diony- 
aio CatO; para o ensino moral da mocidade; o De Modis significatidi 6 
de JoSo de Qarlandia; o Compost era o Computua de Amano, por onde 
se calculava a epaota e aureo numero; Hugutio é o pisano (1212) que 
compoz urna grammatica; aproveitando-se dos trabalhos de Papias; He- 
brard é o auctor do Ghrecismua, Ebrard de Béthune, cuja etjmologia 
grega dominava nas eacholas a par da grammatica grega de Bolzani. 
O Q^id est era a grammatica pelo systema de perguntas e respostas; 
o Supplementum era um resumé de historia, por Filippe de Bargamo, 
com titnlo Supplementum Chronicorum; o Mamotret, que encontramos 
no Catalogo da Livraria da Universidade de Coimbra em 1537 , é o Ma- 
mothreptusj ou Mamotractus, de JotoMarchesini, e impresso em 1470: 
cO livro de Marchesini é destinado, comò o Caiholican, a facilitar a 
intelligencia das Santas Escrìpturas, dos hymnos sagrados e das ho- 
melias, mas nSo é um diccionario, comò muitos imaginaram. Foi aca- 
bado em 1466. Rabelais nSo se eaqueceu de cital-o na sua Bibliotheca 
ficticia de S. Victor sob o titulo Marmotretu^ de haboinxs et singis cum 
commento DohbéUis.i^^ O outro livro, da educa^So de Gargantua, De 
mofibus in mensa servandis, é um poemeto de JoSo Sulpicio ; o De qua- 
tuor virtìUibiis cardinàltbus é um tratado feito por S. Martinho, bispo 
braccharense; Passavantus é o fiorentino Giacomo Passavanto, prosa- 
dor do seculo xiv; o Dormi secure é um livro de sermSes para todas 
as festas do anno. 

Quando os estudantes de Louvain, em 1521, foram ao chamado 
dos Dominicanos, para queimarem os escriptos de Luthero, elles ati- 
raram às chammas os livros ran90S0s dos Sermanes discipuli, o Tar- 
taretum, o Dormi secure, o ParaJbum, e outros cartapacios d'està laìa.' 
Observa Reiffenberg: «Estas obras, que gosaram de uma longa e tei- 
mosa celebridade, que luctaram muito tempo centra os manuaes mais 
correctos ou mais elegantes dos restauradores das lettras, estSo agora 
completamente desconhecidas, apesar de nSo ser inutil comtudo for- 
mar uma idèa dos livros que serviram de guia & mocidade durante 
muitos seculos, e que Ihe foram por assim dizer impostos, attenta a in- 
fluencia que deviam necessariamente exercer sobre os habitos snbse- 



1 Reiffenberg, d* Memoirty p. 16. 
* Idem, 2» Memoirty p. 18. 

16* 



244 iflSTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRÀ 

quentes dos espìrìtos assilli corno sobre as snas faciddades. Urna his- 
torìa philosophica dos livros classicoB nas differentes edades litterarias 
seria um trabalho digno dos nossos pensadores eraditos.»^ Sem oste 
esame prèvio das Livrarias do secalo xv^ nSo nos seria facil caracte^ 
risar a crise pedagogica que sepassou nas Universidades qae resistiam 
contra os novos methodos, refor9ando-8e com a aactoridade do passado. 

As Universidades tomaram^se o ponto de apoio d'està resisteneia 
contra o novo espirito da Renascen^a; fechadas no quadrado inexpa- 
^gnavel das Facoldades^ com as suas disciplinas catbegorìcamente for- 
moladas, e as anctoridades de glossadores estabeiecidas pelo consenso 
de tres secnlos, oppozeram-se vivamente aos estudos humanistas^ con- 
{imdindo-os com as tendendas para ama reforma religiosa. Mas a ìuz 
fez-se por teda a parte; o conbecimento dos poetas latinos tornea me- 
Ibor entendido o Corpus juria; a^eitora do texto de Aristoteles reve- 
loa qae a Edade mèdia raciodnara e discatira sobre phrases attriboi- 
das ao philosopbo através da imaginaylo dos commentadores arabes; 
a valgarisaylo da Biblia nas lingaas nacionaes acordava nas conscien- 
das om mais profondo sentimento religioso e presagiava ama harmo- 
nia de toleranda entro o Occidente e o Oriente. As Universidades abra- 
(aram por sea tamo o espirito novo, deixaram-se arrastar momenta- 
neamente na corrente da Renascen^a. Daroa isso poaco tempo; por- 
que OS Jesuitas, ao organisarem-se comò corpora^Bo docente^ retoma- 
ram o ensino na phase em qae as Universidades o abandonavam^ e re- 
staararam systematicamente o pedantismo scholastico, com o azedame 
da lacta do primeiro qaartel do secalo, tal comò cahira ferido pelos 
sarcasmos de Erasmo e de Ulrico de Hatten, de Rabelais e de Gii Vi- 
cente. E qaando a lacta era renovada pela Egreja, para se opp6r à 
dissola^^ da orenga caasada pelos Homanistas, os prìncipaes genios 
da reac9So religiosa, qaer do Protestantismo, qaer do Jesaitismo, Cal- 
vino e Lojola, iam procarar nas Universidades a disciplina da diale- 
etica, as armas da aactoridade. 

Antes da descoberta da Lnprensa, a necessidade de resamir os 
livroB manascriptos creoa na Edade mèdia a predilec9&o pelas Ency- 
dopedias, corno notoa Humboldt; e jà no seciQo xv, poacos annos an- 
tes da Lnprensa, oa aproveitando-se do seu espantoso impalso, fignra- 
ram as grandes Encydopedias, Imago mundi, de Fedro d'Ailly (1410), 
e a Margarita pkUosophica^ de Reisch (1486). E qaando Humboldt 



1 Bdffenberg, ^ Memaire, p. 11. 



LIYRARIAS MÀNUSGRIPTAS DO SEGULO XV 245 

prova corno Colombo deveu & Imago mundi as indica9Ses tradicionaes 
quo levaram ao pensamento da descoberta da America, estabelece a 
relaglLo entre a encydopedia de Fedro d'Ailly com as outras encyclo- 
pedias medievaes;^ aasim, toma-se sarprehendente està continuidade 
que liga as especulagSes mentaes de nma edade com as descobertas 
qiie determinam a fórma de uma nova civilisa^So. Tambem a empreza 
da descoberta do Preste Joào das Iniias, a quem foram em embaixada 
em 1487 Pero da CovilhSL e Affonso de Paiva, por ordem de D. JoSo n, 
que acreditava n'essa lenda da Edade mèdia, fez com que Vasco da 
Oama se aventurasse com seguranga à descoberta da via maritima da 
India. 



1 <Tudo o que Colombo sabia da antìguidade grega e latina, todas as passa- 
gens de Aristoteles, de StrabSo e de Seneca sobre a proximidade da Asia orien- 
tai e dfts columnas de Hercnles, que mais do que nenhuma outra consa, segnndo 
a relaQJlo de D. Fernando, deepertaram em seu pae o desejo de ir & procura das 
Indias (autoridad de los escritores para mover al almirante & descubrir las Indiaa), 
o almirante tinha-as colhido nos escriptos de d'Ailly. Traria comsigo estes escri- 
ptos nas suas riagens ; etc. Yerdadeiramente, ignorava que d^AlUj transcrevera 
palavra por palavra (o tratado Dt quantitate Terrae haUntabilU) um livxo anterior 
«m data, o Optts majus, de Rogerio Bacon. Singular tempo em que os testemnnbos 
tomados 4 tda de Aristoteles, de Averroes, de Esra e de Seneca, sobre a infcrio- 
ridade da superficie do mar comparada à extensfto da massa Continental, podiam 
convencer os reis que cmprezas dispendiosas teriam nm resultado segnro.» (Co»-- 
snoa^ t. II, p. 302.) 



SEGUNDA ÈPOCA 

(SECDLOS XVI E XVU) 



A UNlVERSroADE SOB A INFLUENCIA DA KENASCENgA 
E DA REACgiO CONTEA PROTESTANTISMO 



BBOgAO 1.- 

O Hnmanismo firanoez aotnando na Rexiasoenga em Portngal 

(1604-1666) 



CAPITULO I 



A crise pedagogica na Europa determinada pela Benascen^a 

Fónna systematica da dissola^So do regimen catholico-feadal noe tres secolos xn, 
ZYii e zvni. — A revolu^ào religiosa sob ob seus tres aspectos : Latheraniimo 
(dissolu^So da disciplina); CalvinUmo (dÌ88ola9So da hierarchia); SodnUmo 
(dissolu^So do dogma). — A revolu^^o politica nos seus tres aspectos de : So- 
herania ncudonal (Revolu^ dos Paizes Baìzos); Egualdade (Bevolu^Ho da 
Inglaterra); Liberdade politiea (Bevolu^So franceza). — N'esta grande crise 
estabelece-se urna reac^Ao da parte do regimen catholico-feadal : Concentra- 
9S0 do Poder temperai, e a Theoria da Monarchia oniversal. — ^Tentativa de 
restaurarlo do Poder espirìtual e do Poder theocratioo : Inquisi^io e Com- 
panhia de Jesus. — Allian^a dos dois Poderes para se sustentarem : Autos de 
Fé, Saint Barthélemy, Bevoga^o do Edito de Nantes. — ^Vicusitudes dos Es- 
tudos humanistas entre està corrente de dissolu^io e de reac^. — saber 
medieval^ auctorìtario, livresco e interpretativo persiste nas Universidades 
no primeiro quartel do seculo xyi. Descredito d'esse saber: Erasmo e o Mo- 
gio da Loucura; de Hutten e as EpUtolae óbècurortan Virorum; Babelais e a 
satyra de GargarUua, Protestos de Yives centra a persistencia da Telha Dia» 
lectica.— saber 4^ Renascen^a, individuai, ezperimentalista e de livre 
Exame. — Benova^So do estudo do Grego, do Latim e do Hebraico: Erasmo 
e o esplendor do Collegio Trilingue. — Bude cria o primeiro nucleo do CollegiD 
de Franca, novo typo pedagogico da In^ruegào wperior liberto do molde 



248 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

quadrìvial das Universidades. — Os Humanistas entre a reac92o catholica e 
o Protestantismo. — Os Jesultas desenvolvem o typo da Instruc^ stcunda- 
ria. — Os Protestantes proseguem na tradi^So christS e fàndam a In8tr%bcqào 
primaria ou popolar. — Os Experimentalistas iniciam a fórma Polytechnica 
ou especial da InatnuìQào superior. — Os grandes pedagogistas praticos: os 
Grouvéas. — As Universidades libertam-se da tradi^So medieval, mas tomam 
a cahir sob a inanidade dialectica pela direc^o dos Jesuitas. 

A nova syiithese mental, quo determinara na Europa a preponde- 
rancia da rasSo sobre a fé; foi a causa prìncipal da fundaffto das Uni- 
versidades, e caracterìstico organico que separa a Edade mèdia dos 
tempos modemos. Porém a elabora9So d'essa synthese, complicada 
pela decomposÌ9So do regimen theologico, emquanto & crenya religiosa, 
e do regimen feudal, emquanto à, liberdade politica, nSo pdde seguir 
um desenvolvimento normal por falta dos elementos experimentaes, que 
BÓ tarde se systematisaram em sciencias positivas, destinadas a darem 
apoio às consciencias dirigidas por convic(5es unanimes e universaes. 
E comò a elabora92o d'està synthese era complicada com a incorpo- 
ra9So do proletariado em uma sociedade guerreira, que aos costumes 
da conquista contrapnnba o trabalho livre, pacifico e productìvo, os 
velhos poderes que decahiam luctavam com violentas reacgSes pars 
restaurarem o passado, quer separando-se, quer confundindo-se, mas 
sempre produzindo um estado de tensSo revolucionaria, de que resul- 
taram, emquanto ao poder espiritual, a quebra da unidade catholica 
pela Reforma, e as guerras de religiSo, os retrocessos da InquisifSo e 
dos Jesuitas, e emquanto ao poder temporal, as reYolu95es dos Paizes 
Baixos, da Inglaterra, e a explosSo definitiva da liberdade politica na 
Franfa. N'esta longa crise de ciuco seculos, em que se manifesta la- 
boriosamente o espirito moderno, o seculo xvi é o periodo da activì- 
dade mais intensa e decisiva para a emancipafSo da humanidade. O 
grande seculo é um ponto de partida; é um estadio suporior em que 
se entra. Os materiaes para a construcgSo da synthese mental sSo-lhe 
fomecidos por uma nova comprehensSo do passado, comò se y@ pelo 
trabalho dos philologos e traductores da Biblia; o presente é alargado 
pelas descobertas maritimas dos Portuguezes; o criterio objecti vista for- 
tifica a rasSo, libertando-a das ficgSes theologicas; a dignidade indivi- 
duai affirma-se pelo desenvolvimento da industria e pelas tentativas de 
reorganisa9&o pedagogica, que chegam até à creafSo do Ensino popu^ 
lar. E comò os esfor908 para o retrocesso foram mais intensos nas guer- 
ras djnasticas, que dilaceraram o Occidente, i busca de um equilibrio 
politica, ou mesmo da realìsayXo da utopia da Monarchia univemal, o 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCEN^A 249 

processo de decomposiffto do regimen catholico-feadal entrou tambem 
em urna phase sjstematica. Comte caracterisoa coni uma superior da- 
reza està teì^to fundamental do secalo xvi na historìa moderna: cesta 
immensa elabora93o revolucionaria dos cinco ultimos seculos deve ser 
previamente dividida em duas partes successivas, nitidissimamente dis- 
tinctas pela sua natureza, embora sempre confandidas até ao presente: 
uma comprehende os seculos xiv e xv, em que omovimento critico se 
■conserva essencialmente espontaneo e involuntario, sem a participa9llo 
regular e accentuada de uma qualquer doutrina sistematica; a outra, 
abrangendo os tres seculos seguintes, em que a desorganisa^So, tor- 
nando-se mais profiinda e decisiva, se manifesta d'ora em diante sob 
a influencia crescente de uma pbilosophia formalmente negativa, gra- 
dualmente estendida a todas as noQ^es sociaes, de alguma importancia; 
de modo a indicar desde entSo, altamente, a tendencia geral das so- 
ciedades modernas a uma inteira renova9So, cujo verdadeiro principio 
permanece comtudo radicalmente envolto de uma vaga indetermina- 
9^0.» ^ As negagSes da Reforma, emquanto & disciplina, & hierarchia e 
ao dogma da Egreja; as nega9Ses dos regalistas para com o poder es- 
piritual, e dos absolutista^ para com a collectividade nacional; as ne- 
ga$Ses dos monarchomacos proclamando o individualismo e a theoria 
da rebelliSo; finalmente, as nega93es dos livre-pensadores, formuladas 
ji n'um deismo abstracto, ji em um deliberado atheismo, todas estas 
nega93es se debatem n'esses tres seculos de fecunda actividade revo- 
lucionaria nos dominios da intelligencia e da politica, mas nSo chegam 
a systematisarem-se em uma doutrina e em uma disciplina que substi- 
tuam geralmente a desmoronada sjnthese theologico-feudal e organi- 
sem regimen moderno ou normal. E em presenya das transforma^Ses 
capitaes do seculo rvi' que vamos encoatrar as Universidades presi- 
dindo comò corpora^Ses docentes i direc(So do regimen mental da Eu- 
ropa. Comprehenderam ellas o seu destino? AcompAnbaram as necea- 
sidades do espirito moderno, comò no seculo xin? Francamente, nSo. 
Ficaram atrazadas; luctaram centra o trabalbo dos criticos bumanis- 



1 Cours de Philosopkie positive, t. v, p. 962. 

* Charles de Rémusat, na sua Politique libérale^ caracterisa assim o grande 
seculo : «Este secalo xvi, qne nSo tem snperìor noe fastos do espirito humano, foi 
ama èra de soffrimentos e de crimes. Quando a laz do genio moderno dominava 
finalmente com o sea brilho as sombras incertas de um longo crepusculo, nSo foi 
està a menor miseria de ama sociedade que pelas novas idéas acordava para no- 
vas necessidades, o sentir-se mais desgra^ada oa mais opprìmida no momento em 
que ella concebia melhor os seos direitos à felicidade e 4 ju8tÌ9a.» Op, dL, p. 18. 



250 mSTORIA DA UNIVERSIDADG DE GOIBIBRA 

tasy 6; quando pareciam transigir com as dieciplinas da Renascenja, 
cahiram facilmente em poder dos Jesuitas, servindo-lhes de instnimen* 
tos là montados para am retrocesso systematico. 

E conveniente avivar as circumstancias em que se encontraram 
as Universidades n'estas duas épocas tSo radicalmente differentes. Du- 
rante a Edade mèdia a Egreja exercera sobre as inteUigencias uma 
absoluta auotoridad^, pela credulidade imposta com os seus dogmas; 
aquelle que discutia, ou fazia escolha dos elementos doutrìnarìos mais 
plausiveiS| era condemnado por heretlco. Junto do poder civil comegou 
a desenvolver-se a liberdade intellectual, e deve-se a Frederico u a 
yu]garisa9So das sdencias professadas nas escholas arabes, que acti- 
You as eBpecula93es philosophicas e criticas. NSo era so na Biblia que 
existia a verdade, comò o proclamava a Egreja; os poetas e escripto- 
res da antiguidade tambem tinham entrevisto as altas concep^Ses mo- 
raes. No come9o do seculo xi, Vilgard^ da eschola de Ravenna, comò 
o confessa Glaber, ensinava que a verdade se achava nos poetas anti- 
gos, mais do que nos mysterios christSos. * confronto critico dos tres 
monotheismosy a religi&o mosaica, christS e islàmica, passou das dis- 
cussSes dialecticas para a idealisa^So da litteratura do fim da Edade 
mèdia, e facilmente o deismo dos que sacudiam o jugo da theologia 
terminava em um franco atheismo. N'esta lucta da intelligencia critica, 
esse confronto das tres religiSes monotheicas foi mj^hificado em um 
livro phantastico, sem realidade, a que o seculo xin chamou Os trea 
Impostores, attribuindo-o successivamente a todas as inteUigencias que 
haviam sacudido o jugo theologico; primeiramente attribuiram-o a Aver- 
roes, para stigmatisar o influxo da philosophia dos Arabes, depois a 
Frederico n, por isso que a protegia, e seguidamente a Fedro della Vi- 
gna, Arnaldo de Villa Nova, Poggio, Boccacio, Aretino, Machiavelli, 
Champier, Pompona9o, Cardan, Ockin, Servet, Postel, Campanella, Mu- 
ret, Jordano Bruno, Spinosa, Hobbes e Vanini, ^ a todos quantos des- 
envolveram a actividade philosophica. Mesmo a Portugal chegou està 
tradÌ9Ìo do Livro dos tres Impostores, trazida por um certo Thomas 
Scott, comò se sabe pela noticia de Alvaro Pelagio: cEm uma obra 
inedita, CoUyrium fidei contra haereses, Alvaro faz men9So de um certo 
Thomaz Scott, ora minorità, ora dominico, com o qual tinha argumen- 
tado muitas vezes, e que se achava entSo (come90 do seculo xiv) nas 
prìs5es de Lisboa, por se ter atrevido a repetir por teda a parte que 



1 Renani Averrots, p. 227. 
s Idem, iUd., p. 235. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCEN^^A 251 

tinham existido no mando tres impostores (tres fuisse in mundo Dece- 
ptore8.)9 Victor Le Clerc, de qnem tomamos este facto, observa: «Como 
està impìedade ji antiga, e que Gabriel Barlette no seu sermSo de Santo 
André attribue por antecipa(&o a Prophyrìo, chegou a divnlgar-se até 
Lisboa?» ^ Nos Contos populares da tradi$So medieval tambem andava 
està idèa em fórma de Parabola, no Gesta Ramanùrum, (conto Lxxxix) 
no Novellino antico^ (lxxii) no Decameron de Boccacio, (jom. i, novell. 3) 
vindo através das versSes oraes receber fórma litteraria no Conto do 
Tond, de Swift, e no drama Naihan o 8ahio, de Leasing. ' Assim, a 
par da Verdade theologica, reconhecia-se que existia tambem uma Ver^ 
dade philosophica, doatrina qae se come^ou a professar no secalo xm 
na Universidade de Paris, onde o lente Jofto de Brescain, em 1247, se 
jostificava das censoras episcopaes, dizendo qae aqaillo qae Ihe impa- 
tavam comò heresia era ensinado phUosophicamente e nSo theologica'^ 
mente,^ A Egreja formalava o principio: cNada se pode saber mais, 
porqae a theologia sabe tado o qae é possivel saber-se.» A par d'està 
these sargia a contraria: cOs verdadeiros sabios d'este mando sfto ani* 
camente os philosophos.»^ Uma vez destraida a aactoridade dos do- 
gmas, a Egreja, qae sempre condemnara Aristoteles, teve de admittir 
o sea Organum, para se refor9ar com a dialectica. Os Philosophos, que 
so admittiam corno yerdade as especala98es racionaes, dividiram-se sob 
a tradi(So averroista de Aristoteles e sob a renovaQ&o do idealismo de 
FlatSo; na Italia é onde se observam claramente estas daas correntes 
mentaes: «0 renascimento do hellenismo, qae se annanciava em Pa- 
dua, em Veneza e no norte da Italia pelo regresso ao texto verdadeiro 
de Aristoteles, manifestava-se em Floren9a por am regresso a PlatSo. 
Floren9a e Veneza sSo os dois pólos da philosophia, comò da arte, em 
Italia. Fiorenza e a Toscana representam o ideal na arte e o espiritaa- 
lismo na philosophia; Veneza, Padaa, Bolonha, a Lombardia, repre- 
sentam o realismo, o racionalismo, o espirito exacto e positivo. PlatSo 
convinha so aos coUoqaios de Careggi e dos jardins de Raccellai; Aris- 
toteles às institaifSes reflectidas de Veneza. >' Para qae està dissiden- 
eia especalativa terminasse era preciso vir & verifica9So experimental 
da6 sciencias indactivas oa de observa9fto; assim no secalo xvi a aa- 



-*■ 



1 État dei Lettrea au XIV* tikle, t. zr, p.. 46. 

' Edelestand Doméril, Hùtoire de la Poesie soandinavef p. 345. 

' Lange, Histoire du McUérialismsy t. n, p. 202. 

i Idem; ibid. 

^ Renan, Averroes^ p. 309. 



252 HISTOBIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

ctoridade de Aristoteles é discutida n'esse grande certamen do porta- 
gaez Antonio de Qoavéa com o genial Fedro Ramus. 

Os poYos catholicos do Occidente, ob que est^vam mais em con- 
tacto com a Egreja e melhor conheciam os seas vicios, cahiram n'easé 
scepticismo benevolo da tolerancia, e^ tomando a ras2o corno elemento 
de um novo poder espiritual, Ian9aram-se ao estudo e inyestiga9&o dos 
phenomenos da Natureza. E da Italia que sae oste impulso, que deter- 
mina a phase scientifioa da Renascenya; comò escreve Draper: «Era 
nas Universidades e Academias eruditas que fermentava a heresia: a 
Universidade de Padua paasou desde longo tempo por um fòco de 
atheismo, e a cada instante eram suppridas Academias por causa de 
heresia, taes corno as de Modena e Veneza entro outras.»^ Diante da 
severidade dos experimentalistas, os dados objectivos adquirem um po- 
der de convicffto nos espiritos, e as concep^Ses subjectivas da theolo- 
gia procuram debalde sustentar-se pela habilidade da argumenta9&o dos 
dialecticos. N'este ponto a Renascen^a, na phrase pittoresca de Miche- 
let, foi uma rehabilitafAo da Natureza, abandonada pelos mysticos e 
amaldÌ9oada pelos theologos. Tal foi o caracter da grande crise dos es- 
piritos da Europa no seculo xvi, preponderando o criterio da objectì- 
vidade sobre o veiho saber tradicional, hypothetico e subjectivo das es- 
cholas. Goethe formulou com profunda intui^So oste caracter de obje- 
ctividade na influencia intellectual de uma època: «Em todo o esforgo 
sèrio, duravel, scientifico ha um movimento da alma para o mundo; 
vós constataes em todas as épocas que tèm verdadoiramente avan- 
9ado pelas suas obras: ellas estSo completamente voltadas para o mundo 
exterior.»' De facto na Renascen9a do seculo xin esse caracter de ob- 
jecti vidade foi proclamado em toda a sua altura por Rogerio Bacon, no 
Opus tertium: cEu chamo sciencia experimental aquella que despreza 
as argumentagSes, porque os mais fortes argumentos nada provam em- 
quanto as conclusòes nSo forem verificadas pela experiencia.» Como 
porém se pretendia conciliar no seculo xiii as affirma95es theologicas 
e metaphjsicas com o titulo de Duas Verdades (theologica e philoso- 
phica) Bacon protesta que a verdade so pode provir da sciencia, sem 
que està esteja dependente de outras concep9Ses: e A sciencia expe- 
rimental n3o recebe a verdade das mSos das sciencias superiores; ella 
è que è a dominadora, e as outras sciencias suas serventuarias. — A 
sciencia experimental è a rainha das sciencias e o termo de toda a es- 



1 Hi&Unre du Dévdoppemcnt da Méta, t. ixx, p. 161. 
' Converacu com Eckermofin. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGEN^A 253 

peculagSo. — Nós temos meios bem diversos de conheoimento, taes corno 
a auctoridade, o raciocinio e a experieucia; porém a auctoridade nSo 
tem valor se Ih'o n&o ligarem, ella nSo faz comprehender cousa algu- 
ma^ mas simplesmente crèr; ella impSe-se ao espirito sem esclarecel-o. 
Qaanto ao raciocinio, nSo se pode distinguir o sophisma da demonstra- 
(So senSo verificando a conclas&o pela experiencia e pela' pratica. » * 
Estes principios fundamentaes da synthese positiva, comprehendidos no 
seculo xin, nSo tinham ainda o apoio das descobertas astronomicas e 
physicas para se impdrem a todos os espiritos; por isso Bacon foi per- 
seguido corno heretico. trabalho isolado dos experimentalistas accu- 
mulou OS materiaes para a nova constmcfSo, e no secalo xy as desco- 
bertas do systema planetario, da America e do Oriente, da Imprensa, 
e da circamducgSo do globo pelo portoguez FemSo de Magalhkes, da 
polvora applicada & artilheria, e dos textos authentìcos das obras de 
Aristoteles, condoziram para ama emancipasse da intelligencia e da 
consciencia, e maito antes do chanceller Bacon e de Descartes, o se- 
calo xvi entrava em am consenaus montai, qae é a synthese oa o es- 
pirito da Renascenja. Està profonda crìse dos espiritos determina ama 
alterasse fandamental do systema de Ensino na Earopa; à Auctoridade 
da Egreja e i Dialectica das Universidades, segue-se a comprovasse 
experimental, que nSo depende da sancQfto dos papas nem dos reis. Eis 
a terceira phase da Pedagogia, iniciada no secalo xvi, mas viciada pelo 
ensino dos Jesaitas, qae, para afastarem os espiritos da coriosidade 
experimental das sciencias, esgotaram as intelligencias nos artificios da 
Dialectica para sabordinarem a rasSo i Aactoridade. ^ quarto termo 
d'està progressSo sera aquelle em qae os dados obfecHvos da experien- 
da se systematisem pela rasSo em synthese sabjectiva oa normal, e em 
que a aactoridade seja a considerasse dos elementos evolativos ou his- 
toricos por onde se chegoa ao conhecimento. 

É extremamente notavel na historia a repetisSo dos mesmos fa- 
etos, comò phenomenos de am organismo; qaando no secalo xiii Ro- 
gerio Bacon inicia o criterio experimental comò condazindo & verdade, 
abandonando a auctoridade e a dialectica, tambem ataca Aristoteles, 



1 Ma. de Donai, di. por Viollet le DaC| EfUreOens tur VArehitectnre, p. 460. 

2 Quiclierat, na Hùloria do Collegio de Sonia Barbara^ 1 1, p. 47, ref&rindo- 
86 à mina da escliola dos Bealisiasj diz : «Depois da Renascen^a, ella cahiu em 
completo esqaedJtnento. seu nome nem pronunciado seria, se os Jesaitas nSo ti- 
vessem tentado fortificar^se n'ella, nos tempos qae precederam a reforma car- 
teiiana.» 



254 HISTOBIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

dizendo: tHa meio seculo apenas, Arìstoteles era suspeito de impie- 
dade e proscrìpto das Escholas. Eil-o hoje erigido em mostre sobe- 
rano! Qual é o seu titulo? £ sabio, diz-se; seja, embora^ mas nfto soube 
tado. Fez o que era possi vel para o seu tempo, mas nfto attingiu o li- 
mite da sabedoria. • . Porém, diz a Eschola, é preciso respeitar os an- 
tigos.» E contrap5e-lhe: cos mais novos sfto na realidade os mais ve- 
Ihos; as gera95e8 modemas devem exceder em lazes as de ontr'ora, 
porque sSlo herdeiras de todos os trabalhos do passado.» ^ Na crise in- 
tellectual da Benascenga, em que vem a preponderar o criterio expe- 
rimental, reapparece o julgamento de Arìstoteles: uns rejeitam-no, comò 
Ramus; Goavèa e os Protestantes querem que seja estudado comò o 
mostre de toda a objectividade nos seus textos authenticos; e a Com- 
panhia de Jesus vicia o problema, impondo o Aristotelismo; nSo o que 
resulta da comprehensSo directa dos textos, mas do confronto fatigante 
das opini5e8 de todos os commentadores. Ji nSo era possivel obstar 
ao desenvolvimento do criterio experìmental; as suas descobertas im- 
punham-se & rasSo, obrigando-a a reconstruir a sua synthese, e fazen- 
do-a desprezar o velho e esteril formulismo dialectico. Desde Bacon 
quo se accumulavam as verdades experìmentaes ou scientificas ; em 1460 
publica-se a Imctgo mundi, de AUiaco, o livro sobre que meditava Chris- 
tovam Colombo, em 1468 Toscanelli colloca o seu gnomon na cathe- 
dral de Floren9a, em 1482 imprimem-se as obras de Euclides com fi- 
guras em cobre; Leonardo de Vinci (1452-1519) observa o movimento 
annual da terra, a theoria das for9as applicadas obliquamente à ala- 
vanca, as leis do attrito, as velocidades virtuaes, a camara obscura, a 
perspectiva aèrea, as sombras coloridas, o uso do iris e os effeitos da 
impressalo luminosa, a queda dos corpos, os planos inclinados e arco 
de curva; e além de applica^Ses mechanicas de hydraulica e fortifica- 
sse, estuda os phenomenos da respirasse e combustSo, e o phenomeno 
geologico da elevaQfto dos contìnentes. ^ Està actividade montai passa- 
va-se em todos os espiritos superioros; em 1520 Begiomontano publica 
resumé do Almagesto de Ptolomeu, em 1527 Femel, medico de Hen- 
rique II de Fransa, mede a grandeza da terra, aproveitando os rosul- 
tados da circumducsSo do globo pelo portoguez FemSo de MagalhSes ; 
Bheticus publica as tàbuas astronomicas, e Cardan, Tartaglia, Scipio 
Ferreo e Steffel aperfeigSam a Algebra, instrumento de pasmosas des- 



1 Cirnipendium PhUo9ophae^ e. i ; ap. VioUet le Due, op. cit, p. 460. 
' Draper, Hutoire du Dévdoppement det Idéea, t in, p. 243. 



GHISE PEDAGOGICA NA RENASCENQA 255 

cobertaSy aie que Copernico, em 1536, attinge a concep9So definitiva 
do sjstema planetario. 

Assim corno a organisajZo daB Universidades, no seculo xm, re- 
presenta urna profunda crise no ensino europea provocada pela propa- 
gaySo da Philosophia dos arabes e da Logica byzantina, egualmente 
a Renascen$a no seculo xvi, embora resultante do enthusiasmo pelas 
descobertas da antiguidade classica, yem imprimir às intelligencias um 
novo impulso pela generalisa9So do criterio experimental e abandono 
da esterilidade dialectica. As consequencias d'està nova direc92o foram 
da mais alta importancia; as Universidades, corpora93es officiaes corno 
as francezas, ou autonomas corno as inglezas, continuaram a transmit- 
tir no seu ensino as concepySes tradicionaes, e a liberdade do pensa- 
mento exerce-se no isolamento individuai, sob as perseguÌ95e8 dos po- 
deres constituidos, até que esses investigadores experimentalistas se 
agrupam espontaneamente, e sem intuitos docentes, nas Academias 
scientificas, que vieram a prevalecer no seculo x\ai. 

Para avaliar està crise pedagogica, importa conhecer o phenomeno 
social da Renascen9a, extremamente complexo pela variedade dos sue- 
cessos impulsi^s que contém, e pela falsa no9So a que o titulo de Re- 
nascen9a conduz. seculo xvi nSo regressa ao passado pelo facto de 
communicar directamente com as obras dos philosophos gregos, por 
vulgarisar pela Imprensa as maravilhas da Litteratura hellenica e ad- 
mirar os prodigios da sua architectura e esculptura, ou mesmo por fun- 
dar a sciencia politica pelo estudo das obras de Thucydides e Aristo - 
teles. No meio d'està paixfto pelo passado havia um espirito de revolta 
centra as concep^Ses preponderantes da Edade mèdia, corno se ve em 
Luiz Yives e todos os Humanistas, e uma expansSo de originalidade, 
de independencia mental, e de concep^Ses, que na sua parte analytica 
vieram a definir-se em Kepler e Galileo, e na sua parte synthetìca em 
Bacon a Descartes. 

As mudangas de concep93es correspondem quasi sempre a modì- 
fica93e8 da organisa9So social; e o que vimos na relajSo dos Parla- 
mentos simultaneos com as Universidades, vèmos agora no estabeleci- 
mento das Monarchias absolutas e o individualismo critico, scientifico, 
philosophico e politico que se impSe desde o seculo xvi até i crise 
franceza da Bevolu9So. N'esta 8ub8tituÌ9ao de concep95es é naturai a 
OBCiUa9So, em que as yelhas idéas parecem adquirir mais vigor, corno 
se ve pela recrudescencia do Humanismo quando os Jesuitas se apo- 
deram habilmente do ensino europeu; porém esse vigor, embora se 
prolongue por mais de um seculo, é ficticio, revelando na severidadc 



256 HISTORIA DÀ UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

didactica a inanidade. do espirito que o alenta. Entre as Universidades 
italianas e a de Paris é qae se definiu melhor o conflicto menta! entre 
livre pensamento scientifico e a conservagSo da submissSo & theolo- 
già medieval. Comprehende-se pois corno é que no comego do secalo 
XVI Portogal, sob o governo dos fanaticos D. Manuel e D. Jofio in, 
povoou com alumnos as escholas de Paris. 

A Benascen$a, corno um phenomeno complexissimo nos factos que 
tambem encerra, nSo pode ser fixada de um modo chronologico cate- 
gorico. Postoque ella seja em si urna consequencia de duas renascen- 
9as anteriores, a da entrada dos Arabes no Occidente, e a que cometa 
com as Cruzadas, os seus limites chronologicos devem estabelecer-se 
comò quer Lange «desde o meado do seculo xv até ao meado do se- 
culo XVII. >^ Dentro d'estes dois seculos de enorme actividade, a Be- 
nascenfa da Europa apresenta tres crises successivas, qiie se influem 
simultaneamente, fEtzendo d'essa època dignamente o come90 da civi- 
lisa^So moderna. 

primeiro periodo pode caracterisar-se comò philólogico e artis- 
tico. (É preenchido pela Benascen$a italiana.) 

segundo periodo comò iheologico e critico. (Comprehende a Re- 
forma, especialmente na Allemanba.) * 

O terceiro comò scientifico e phUosophico. (Determinado pelas des- 
cobertas de Galileo, e esbo90 das Syntheses de Bacon e Descartes.) 

As duas Universidades de Bolonha e de Paris, urna fòco dos es- 
tudos juridicos, e a outra o centro activo das e8pecula98es da Philo- 
sophia e da Theologia escholastica, exerceram sobre toda a Europa 
uma missSo civilisadora, alternando-se a sua influencia conforme a po- 
litica dos estados era accentuadamente democratica, ou mais franca- 
mente monarchica. As rela93es da Politica com a Pedagogia fazem-se 
sentir n'esta dupla influencia. Quando a organisa9So politica consiste 
na decadencia das instituigSes democraticas pela preponderancia das 
regaHias monarchicas, assim a influencia de Bolonha vae sondo substi- 
tuida pela da Universidade de Paris. Cantu caracterisa as differenyas 
organicas das duas Universidades: «A Universidade de Bolonha com- 
punha-se de estudantes que elegiam os seus chefes, aos quaes os pro- 
prios professores estavam submettidos, ao passo que a de Paris era 
formada de professores a quem os estudantes estavam subordinados. 
Estes dois systemas prendem-se i fórma do governo das duas cidades 



1 Eist. du Maiérialitme, 1 1, p. 200. (Trad. Pommerol.) 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCENgA 257 

e à natureza do ensino. Bolonha, corno republica^ comprazia-Be a cul- 
tivar estudo das leis; Paris, cidade monarchica^ preferia o da theo- 
logia. O sy stema bolonhez propagou-se na Italia, no meio-dia da Fran9a 
e do outro lado dos PTrenéos; o systema da Fran9a foi imitado em In- 
glaterra e na Allemanha.» ^ Era no meio-dia da Europa que se conser- 
vavam as tradÌ95es municipaes; na època da funda9So da Universidade 
de Lisboa a realeza lucrava com o estudo das leis romanas, e imitava 
a organisagSo da Universidade de Bolonha; sob D. JoSlo i, a liberdade 
popular que o acclamava garantia-se com a fórma do direito aprendido 
em Bolonha por JoSo das Regras; D. JoSo u, atacando a fidalguia, 
pendia tambem para a cultura recebida na Italia. As ordens religiosas 
preferiam Paris, por causa do esplendor dos estudos theologicos; por- 
tanto a sua preponderancia na córte de D. Joào ili, e as fórmas da 
monarchia absoluta imposta por D. Manuel no firn do seu reinado e 
pelo fanatico D. JoSo ni, fizeram com que a mocidade procurasse em 
Fran9a a educa9So litteraria; na reforma da Universidade, em 1537, 
e sua traslada9ào para Coimbra, acabaram certos privilegios, comò a 
deigao dos reitores, e seguiu-se com a chamada de mestres francezes, 
ou educados em Fran9a, a organisa9Slo e implanta9So dos costumes da 
Universidade de Paris. 

«A Universidade de Paris, sondo uma das derradeiras, que su- 
stentava a Scholastica e todos os velhos dislates, era a eschola de pre- 
dilec9So. — Os espiritos militantes tambem sentiam por instincto que Pa- 
ris era o verdadeiro campo de batalha, onde devia travar-se até & morte 
a lucta dos dois espiritos. Da Universidade de AlcaU, o Cavalleiro da 
Virgem, Ignacio de Loyola, um capitSo na inactividade, ferido, com 
trinta e sete annos, acabava de chegar às escholas de Paris (fevereiro 
de 1528) e ali permaneceu sete annos. — Da Universidade de Bruges, 
de dicada às idéas novas, e protegida por Margarida, um estudante de 
dezoito annos vinha muitas vezes a Paris, o sombrio e violento, o sa- 
bio e eloquente Calvino. — Da Universidade de Montpellier tambem 
veitt, occasionalmente, um mèdico, um critico audaz, Rabelais, que le- 
vou comsigo uma viva antipathia, um desprezo magnifico por uns e por 
outros.»* 

Vives, no Liher in Paeudo-Dicdectìcosj escripto em 1519 e diri- 
gido ao seu amigo Fortis, referindo-se ao atrazo dos estudos em Paris, 



1 HieL Univer.f zi època, cap. 24. 
3 AGchelet, La Refbrme, p. 371. 

HiST. mi. 17 



258 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

traga um quadro das velhas doutrinas scholasticasi contra as quaes com- 
batia. Lamenta que a Universidade de Paris, a quem competia a ini- 
ciatiya da renoya9àO; persista na conservagào dos methodos atrazados 
da barbarie scholastica, e tanto mais Ihe casta isso por serem profes- 
sores hespanhoes os que sustentam o estandarte do iretrocesso. Refe- 
ria-se com certeza a Gaspar Las e a JoSo Celaya. Deplora os dias pre- 
ciosos que gastou n'estas disputas òcas de idéas, em que predominava 
o absurdo, e revolta-se contra a linguagem inintelligivel, que parodiando 
a expressào ciceroniana se converteu em um palavriado de giria que 
nem o proprio Cicero poderia entender. O seu odio contra Fedro His- 
pano, cujas Summulas ainda imperavam nas escholas no primeiro quar- 
tei do seculo xvi, leva-o a ponto de affirmar que elle é urna das causas 
mais directas da corrup9^o da linguagem. Accusa os que se estribam 
na auctoridade de Aristoteles, quando ignoram a propria doutrina do 
mestre, e dosconhecem as suas obras, onde a dìc9llo grega é pura, e o 
bom senso està livre das argucias e barbarismos que se propagam em 
nome do philosopho. Combate a dialectica das escholas, porque fazem 
d'essa arte um fim, quando niLo é mais do que um meio para servir de 
instrumento & propaga9So de conhecimentos, dispendendo estupidamente 
todo tempo dos estudos n'ella. E com uma imagem expressiva, Vives 
compara o Dialectico ao pintor que levou a sua existencia a preparar 
08 pinceis, sem nunca se preoccupar com o quadro. Para comprovar o 
seu juizo, allega o facto dos seus dois antigos mestres, Lax e DuUard, 
que cboravam amargamentc o tempo malbaratado no scholasticismo. 

Pela primeira vez se entrava em um estado montai de positivi- 
dade. Porém as luctas contra a antiga Scholastica, contra a theologia, 
contra o dogmatismo pedagogico, além dos conflictos inconciliaveis en- 
tro poder temperai e a dissolu9So da hierarchia e da disciplina da 
Egreja, embara9aram a reorganisa9So de uma nova synthese intelle- 
ctual. E para chegar a essa sjrnthese era preciso retomar o systema de 
observa9So tal corno o realisara a Grrecia na crea9ÌLo do primeiro par 
scientifico, até chegar, através de todas as catastrophes sociaes ou cri- 
ses revolucionarias, a submetter os phenomenos moraes e historicos ao 
mesmo espirito, e sob està identidade reorganisar a synthese goral do 
universo. Tal é a synthese positiva. N'esta complexidade de livros, e 
accumuIa9So de factos concretos, a intelligencia precisa de um regi- 
men; o mostre retoma a primitiva auctoridade, mas necessaria e inillu- 
divel, e é através da sua exposÌ9ào que dirige o discipulo até ao ponto 
em que elle por si mesmo possa racionalmente governar as suas leituras 
e corroborar os elementos syntheticos. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCENQA 259 

Durante a Edade mèdia o enaina condistia uà audÌ9So da palavra 
do mestre; a falta de livros era sapprida pela exposigSLo orai e persti- 
^osa do lente, que esplicava um texto raro e inintelligivei; que o mo- 
dificava segando o seu estado montai; e quasi sempre em um ponto de 
vista syntheticp. Cahiu-se assim gradativamente em uma sciencia sub- 
jectiva, que prevalecia sobre os textos authenticos^ comò se deu em 
reIa9So & obra de Arìstoteles. 

Com a descoberta da Imprensa facilitou-se a posse e vulgarisagSLo 
dos livros, e os livros foram considerados comò o deposito de toda a 
sciencia. O lente, menos livre do que na Edade mèdia, no secalo xv 
cìngia-se ao texto, cercando-o de glosas, commentos, interpretaQSes, 
notas, sob um aspecto casuistico, fragmentario e pedante. A letra pre- 
valecia sobre o espirito: Montaigne fala d'està sciencia livresca, apa- 
nbada pelos pedantes «au bout de leurs levres, pour la degorger seu- 
lement et mettre au vent.» 

Na època da Reforma e da RcnasceuQa, a renova9So dos estudos 
consistiu principalmente em renovar os elementos do conhecimento 
scientifico, iniciando-se o processo da observa9So em legar da aucto- 
ridade, transformando pela critica o estudo das linguas classicas, que 
tomaram melhor comprefaendidos os livros classicos da antigaidade, das 
litteraturas, da religiSo e do direi to. 

«Centra este grande movimento, uma opposÌ9llo viva, ardente^ foi 
levantada tambem. Duas causas diversas tinham presidido à sua nas- 
cen9a. A primeira achava-se na auctoridade despotica que exercem 
sempre sobre o vulgo as opiniSes arreigadas pelo tempo nos espiritos^ 
por mais absurdas que sejam. As primeiras tentativas dos sabios da 
Renascen9a tinham-se dirigido centra a philosopliia degenerada que 
reinava nas escholas e que j untava à barbarie da fórma a esterilidade 
mais triste ainda do fundo : a rasSLo presa nas categorias de um aristo- 
telismo bastardo, esgotava-se sobre fórmulas e permanecia a maior 
parte do tempo alheia às realidades; as abstrac93e8 eram tudo, os fa- 
ctos eram nada. Era necessario apear està barreira, antes de avan9ar ; 
mas apenas se Ihe tocou, lego a eschola, atacada na sua existencia, se 
levantou em peso, com um arder que presagiaya uma lucta prolonga- 
da, e que deu margem a bastantes diatribes odientas, hoje cahidas no 
esquecimento. Mas se a ignorancia e a retina tiveram uma larga parte 
em tudo isto, nSo se pode negar que o zelo exaggerado, digamos mais, 
qiie excesso em que cahiram muitos apostolos do progresso nSo sus- 
citou centra os seus esfor90B sempre resistencias conscienciosas, e, até 
um certo ponto, esclarecidas. Na admira9ao pelas fórmas brilhantes da 

17* 



260 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

litteratura antiga, os renovadores deixaram-se levar até à adopjSo maiB 
ou menos completa do fondo de idéas que elles festabeleciam.» ^ 

Sabe-se jà qual foi a influencia da descoberta da Imprensa no en- 
sino europea, substituindo ao lente o professor, à palavra do pulpito 
ou da cathedra o texto do livro accessivel ao vulgo. A fuga dos sabios 
byzantinos para as cidades da Italia, por occasiSo da tomada de Con* 
stantinopla pelos turcos, fez com que se generalisassem as obras litte- 
rarias da Grecia, e portante que o acanhado humanismo latino se aper- 
fei$oaB3e com essa corrente do hellenismo, orgSo de idéas universalis- 
tas que se haviam perdido na expansEo de Alexandre para o Oriente. 
Sob Lourenjo de Medicis (1470-1492) o Platonismo puro recebido do 
conbecimento directo da obra do philosopho, repelle esse platonismo 
desvairado da eschola de Alexandria, assim comò o Aristotelismo aver- 
roista é substituido pelo Aristotelismo alexandrista, em que, corno diz 
Draper: «as puras doutrinas de Aristoteles vém em legar das baixas 
doutrinas aristotelicas das escbolas.»' N'esta reivindica^So das doutri- 
nas do stagjrita, Portugal acha-se dignamente representado pelo trium- 
pho de Antonio de Gouvéa, que impoz o respeito que se deve ter pelo 
grande philosopho, conhecido directamente seu texto, centra Fedro Ra- 
mus, que protestara com rasSo contra o Aristoteles deformado pelas 
apostillas escholasticas. O latim tambem foi mais profundamente co- 
nhecido pelos eruditos italianos, comò Louren90 Valla, Angelo Poli- 
ciano, Pie de la Mirandola, que procuravam restabelecer corno fórma 
definitiva a elocusSLo ciceroniana. A Italia era o fòco da cultura lati- 
nista, e Valla proclamava nos seus desalentos politicos: «Perdemos a 
noBsa supremacia, mas pela virtude deslumbrante da lingua latina nós 
ainda dominamos sobre uma grande parte do tmiverso. Nossa é a Ita- 
lia, nossa a Hespanha, a Allemanha, a Pannonia, a Dalmatia, a Illyria, 
e tantos outros povos. Porque, onde quer que reina o idioma romano, 
ahi se conserva o imperio de Roma.» A sombra d'este conhecimento 
da lingua latina é que a Egreja dominara nos espirìtos, corno interprete 
da Biblia, e comò possuidora da linguagem da liturgia. conhecimento 
philologico do latim, do grego e do hebreu veiu emancipar os espirì- 
tos, revelando que nos escriptores gregos existiam idéas de ordem tSo 
elevada corno na Biblia, e conduzindo pela analyse dos novos gram- 



1 Naméche, Sur lavieetlet éeriU de Vivea. Memoires oonronnés de PAcadé* 
mie de Bruxelles, t xv, p. 8 (1841.) 

' HitMrt du Dévdopptment dei Idées, t. u, p. 135. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGENQA 261 

maticos latinos & critica dos textos, e a esse racionalismo qae provo- 
con a Keforma religiosa. Draper viu claro o alcance d'està parte phi- 
lologica da Benascen9a: «O renascimento da pura latinidade e a in- 
troduc92[o do grego Ian9aram os fundamentos de urna critica mais cor- 
recta. Urna edade de eradÌ9Sko era inevitavel, na qual tudo o que nSo 
pudesse sustentar um exame profundo seria implacavelmente rejeitado.i^ 
Assim, corno ainda observa Draper, pelo desenvolvimento da philolo- 
già em critica, a inteliigencia europèa achou-se naturalniente na criae 
religiosa, a que se chamou de um modo restricto — a Keforma; o cele- 
bre latinista Nebrixa, que inicia os estudos humanistas na Hespanha, 
foi accusado & InquisÌ9So por ter tido a audacia de apontar alguns er- 
ros de grammatica na versSo da Vulgata. poder moral de Erasmo na 
Europa resultava da sua livre critica philologica, e quebrando os mol- 
des quadriviaes das Universidades, inaugurou o novo typo da Instrue- 
gSo superior, que veiu a ser realisado no Collegio de Fran9a por Fran- 
cisco I. Comprehende-se o terror da Egreja ao vèr fugir-lhe o seu po- 
der espiritual ; primeiramente considerou comò heretico o acto de tra- 
duzir para as linguas vulgares a Biblia, e depois tratou de organisar 
um corpo de latinistas, que, luctando com os philologos da Rena8cen9ay 
se apoderassem do ensino publico, obstando ao desenvolvimento das lin- 
guas vulgares. Tal foi a causa do estabelecimento dos Jesuitas, no se- 
gundo quartel do seculo xvi, para subordinarem este movimento phi- 
lologieo à Egreja: aOs jesuitas blasonavam de formarem o la90 entre 
a religiSo e a litteratura.»^ Alguns philologos do seculo xvi cahiram 
n'esta illusUo, comò se ve pelas palavras de JoSo Sturm: aCongra- 
tulo-me por vèr fundar este instituto, por dois motivos: o primeiro é 
que, tomando parte na nossa obra, dedicam-se & cultura das sciencias, 
porque eu tenho visto que auctores elles explicam e que methodo se- 
guem, um methodo que se afasta tSo pouco do nesso, que se diria que 
temol-o bebido nas mesmas fontes ; o segundo, é que elles nos obrigam 
a redobrar de arder e de vigilancia, se nós nSo quizermos deixal-os 
desenvolver mais zelo do que nós, e formar discipulos mais letrados e 
aabios do que os nossos.»' N'esta concorrencia activa, os Jesuitas, pelo 
^bsoluto imperio do latim, nSo crearam, nem deixaram crear uma /n- 
stTuc^ popular, iniciada pelos Protestantes, mas definiram no ensino 



1 Hiatoirt du Dévdoppement dea Idées^ i, m, p. 150. 
-* Idem, ibid., p. 172. 
^ Ap. André, Noa Maìtrea — hier, p. 149. 



262 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

publico europea o typo da Instrucgào secundaria, exclusivo dos seos 
CoUegioSy qual ainda prepondera nos Gyninasios e Lyceus modemos. 
E a comeyar no secalo xv qae as Litterataras modemas s&o es- 
criptas^ nSo nos dialectos valgares corno as tradiySes da Edade mèdia, 
mas nas lingaas nacionaes, isto é, os dialectos que se tomam exclusi- 
vos conjunctamente com o facto politico da unidade nacional de um 
povo. A Egreja perdia no sea poder espiritual, porque o sentimento 
popular achava alimento nas crea95es profanas das novas litteraturas; 
Draper notou tambem este facto t a A preponderancia do latim eraacon- 
dÌ9ÌU) da sua forga; sua decadeneia, sua mina e desapparecimento, o 
signal da reduc9So do seu dominio a um pequeno principado italiano. 
De facto, o desenvolvimento das linguas europèas foi o instrumento da 
sua mina.]) ^ N'esta lucta para salvar um poder que Ihe fugia, a Egreja 
oomegou por considerar toda a actividade do pensamento comò uma 
heresia, amaldÌ9oando-a com anathemas e com o canibalismo das fo- 
gueiras. Usando da sua influencia junto do poder tempora!, organisou 
a resistencia pela forfa bmta, lan9ando centra as novas idéas os Do- 
minicanos (Domini canea), que se consideravam, por um terrivel troca- 
dilho, OS CSes de Deus, para farejarem a impiedade, e deu-lhes o pri- 
vilegio de julgarem da heterodoxia nos Autos de Fé, da Inquisijào. ^ 
Este terrivel tribunal foi instituido em Portugal por bulla de 23 de 
maio de 1536, nas vesperas da reforma da Universidade de Lisboa^ 
em 1537. Como, porém, a Europa da Benascen(a jà nSo era a Europa 



1 Op. cit., t. ni, p. 131. 

2 «Os doutores de Louvain, mesmo os mais oppostos às boas lettras, tinham, 
ainda que inconscientemente, cooperado na revoln^So que rebentou no secalo svi 
na £greja e no mondo intellectual em geral, quer diffundindo as lozes por um en- 
8Ìno habil, quer afastando o gosto da barbarie, d for^a de ridicalo e dos absurdos, 
quer finalmente dando mais eneigia à necessidade de innovar, por urna resistencia 
inbabil ou brutal. Luthero teve, desde o principio, e emquanto pareceu moderado, 
fervorosos amigos em Louvain, corno adiante veremos, mas foi ali mesmo comba- 
tido com affinco, e por de8gra9a, por ama maneira pouco honrosa para os seus ad- 
versarios. Em um folheto de algumas paginas, impresso em 1521, e do qual Da- 
niel Francas tirou um resumo, lé-se ama anecdota curiosa: Os Dominicanos do 
Louvùn quizeram fazer um auto de fé dos escrìptos de Luthero; cada qual tratoa 
de vir assistir a este bello espectaculo; muitos trouxeram livros destinados às 
chammas, porém nSo eram os do doutor anathematisado. Os estudantes acharam 
mais engra^ado substituil-os, um pelo SermaneB dùcipuli^ outro pelo Tartareturoj 
este pelo Dormi «eeure, aquelle pelo Paratum^ e uma multidio de cartapacios d'està 
especie.» (Reifienberg, 2* Mémoire sur Um deitx premiere nkdee de rUnivernlé de 
Ixmvain, Nouv. Mém. de TAcadémie Boyal de Bruxelles, t. vn, p. 18, 1882.) 



GHISE PEDAGOGICA NA RENASCEN^A 263 

do seculo XIII; a Egreja acceita o movimento intellectual para desyial-o 
em sua vantagem; e aproveita a m8tituÌ9So da CompanMa de Jesus^ 
organisada em Paris, para se apoderar do ensino publico dos Oollegios 
e Universidades. Assim a reforma pedagogica feìta pelos Gouvéas em 
1547 é annollada pela entrega da Universidade de Coimbra aos Jesuì- 
tas em 1555. Pela singiilar importancia que o Doutor Diego de Gou- 
vèa tinha junto de D. JoHo ni, é que a nova instituiQSLo da Companhia 
de Jesus foi admittida em 1540 em Portugal, aconselbando-o a que Ihe 
Gonfiasse o ensino da no}>reza: «deu oste alvitre a el-rei o Doutor Diego 
de Gouvéa, portuguez e pessoa de grande auctoridade, que tinba sido 
Reytor do Collegio de Santa Barbora, naquellas celebres escbolas de 
Paris, quando ali estudaram Santo Ignacio e seus companbeiros.»^ Os 
Jesuitas pagaram com a costumada ingratidSo àquella illustre familia 
de humanistas, lan9ando fora da Universidade de Coimbra os profes- 
sores trazidos por André de Gouvéa, quando em 1547 veiu de Bordéos 
reorganisar os estudos superiores; destruiram a sua obra, e com a fim- 
da$So do Collegio das Artes fizeram o assalto à Universidade, de que 
se apoderaram em 1555 por ordem de D. JoSo in. Aqui temos em pre- 
senga urna da outra a Ordem dos Dominicanos e a Companhia de Je- 
sus, uma antiga, com perstigio e a auctoridade, com o privilegio dos 
Autos de Fé, para estirpar pela fogueira os hereticos e pensadores; a 
Companbia era recente, nascida no meio das dissidencias doutrinarias 
da Egreja,' quando estava triumphante a Beforma na AUemanba, quando 
todo ferver religioso era suspeito, sondo por isso os Jesuitas apu- 
pados comò Franchinotes. Os Dominicanos nSo podiam vèr com bons 
olhos estes novos concorrentes. Se era preciso manter a auctoridade da 
doutrina catholica, elles bastavam com as suas fogueiras; os seus Au- 
tos de Fé eram feitos com pompa, comò uma festa publica, e desem- 
penbavam-se com um canibalismo sincero. O Jesuita transigiu emquanto 
à doutrina, mas teve so em vista manter a auctoridade temperai do 
Papa, tornando-se o seu corpo diplomatico em todas as cSrtes da Eu- 
ropa comò confessor dos reis e da aristocracia. Em Portugal nSo foram 
bem recebidos os Jesuitas; na córte dominavam os Dominicanos, que 
haviam alliciado para si o infante D. Henrique, Inquisidor-geral (3 de 
julho de 1539), porém os Jesuitas apoderaram-se do animo do rei, que 
Ihes deu lego a direc9lo exclusiva do ensino dos mo^os fidalgos. So- 
bre uma tal base é que elles luctaram, vencendo todas as difficuldades, 



1 P. Balthazar Tellee, Chroniea da Companhia, liv. i, e. r^, p. 15. 



264 HISTOBIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

captando os filhos das famìlias mais poderosas, e obtendo dota93es 
e rendas para a fundagào de CoIIegios. Por firn o proprio Cardeal- 
lufante-Inquisìdor veia a reconciliar-se com os Jesuitas, i^os qnaes o 
papa Paulo ni dava as mais absolutas isemp9Se8, corno à sua mili- 
eia secreta. Os Dominicanos continuaram a queimar hallucinados de 
demonomania, mas este meio era impotente para abafar o movimento 
inteliectual da Benascenga da Europa, que provocara a dissidencia re - 
ligiosa da Reforma; os Jesuitas foram com a corrente do seculo, fize- 
ram-se humanistas, pedagogos, e explicaram nas suas escholas, em lon- 
gos exercicios de rhetorica, os monumentos da litteratura greco-romana, 
prèviamente recortados nas suas Sdectas. A recrudescencia dos Domi- 
nicanos e o ferver nascente dos Jesuitas foram nas na^Ses occidentaes 
a. consequencia d'esse outro movimento esteril do Protestantismo nos 
povos do norte. No Occidente a actividade scientifica pode exercer-se 
pela concilia9So artificiosa das Duas VerdadeSy accumulando-se as ob- 
serva^Ses e experiencias que* conduziram & sjnthese philosophica da 
Renasccn^a. Onde o Protestantismo entrou, teda a actividade de espi- 
rito foi desgra9adamente dispendida em questSes theologicas, e em um 
puritanismo de boa-fé, que por praticas severas de liturgia imprimiu 
no cidad&o o sello da subordina9fto muda; a Allemanha, é facto, que 
iniciou a Reforma, mas ficou fora da corrente da civilisa92o até ao fim 
do seculo xvni, quando recebeu o influxo dos incredulos Encyclope- 
distas francezes. 

phenomeno revolucionario do Protestantismo, que se generalisa 
na Europa no seculo xvi, n&o resultava de uma simples reac9&o cen- 
tra OS costumes do clero ou dos abusos do Papado; era a consequen- 
cia de um espirito de critica inherente a todo o monotheismo, que im- 
p3e uma determinada xmidade dogmatica pela refuta9ao das doutrinas 
que se nSo conformam com ella. Esses processos polemicos, comò uma 
faca de dois gumes, cortam pelas heresias e suscitam heresias. A Egreja 
na sua con8tituÌ9%o encontrou sempre dissidencias, que so come9aram 
a ser importantes desde que surgiu a separa9ÌU) entre os dois poderes 
espirìtual e temperai. A medida que a Europa saia do regimen feudal, 
e se concentrava a soberania, constituiam-se os estados nacionaes ; re- 
sultava que a realeza pela dictadura e apoiada nos exercitos perma- 
nentes prevalecia sobre o poder dos papas, cuja ac9So enfraquecia pela 
independencia das egrejas nacionaes. Era pertanto no seculo xvi que 
a crise religiosa se devia manifestar de um modo mais intenso, aggra- 
vada pela transforma9So politica das monarchias, e pelo desenvolvi- 
mento litterario das linguas nacionaeS| que tomavam desnecessario o 



GHISE PEDAGOGICA NA RENASCENQA 265 

UBO do latim. O conhecimento dos poetas e moralistas grego-romanos 
tirava ao catholicismo o imperio esclusivo da verdade theologica e sus- 
citava o livre exercicio de urna critica que come9ava com uni intuito 
philologico e acabava por urna negafSo de heterodoxia, dissolvendo o 
sjstema catholico. A dissoIugSo que comegara no seculo xm com o 
ensino leigo, era individuai; no seculo xvi é social^ dividindo a Eu- 
ropa em dois elementos distinctos, e reduzindo a Egreja a um partido 
de combate. Comte formula em nitidas palavras està evolu9S[o do Pro- 
testantismo^ comò expressSo negativa do livre-exame individualista: cOs 
doutores que sustentaram tfto longo tempo centra os papas a auctori- 
dado dos reis, ou as resistencias correspondentes das Egrejas nacìonaes 
è» decisdes romanas, nSLo podiam certamente evitar de se attribuiremo 
de uma maneira mais ou menos systematica, um direito pessoal de 
exame, que, de sua natureza, nSo devia, sem duvida, ficar indefinida- 
mQute concentrado entro taes intelligencias nem sobre taes appIica9Ses; 
e que, com effeito, espontaneamente ampliado depois, por uma inven- 
civel nec^Bsidad^, simultaneamente montai e social, a todos os indivi- 
duos e a todas as questSes, gradualmente conduziu A de8truÌ9So radi- 
cai, primeiramente, da disciplina catholica, depois da hierarckia, e por 
firn até do proprio dogma.i^ * 

E pela successSo d'estas phases da crise protestante que derivava 
da 8Ìtua93o das sociedades modemas, que vimos os povos catholicos 
participarem das aspira93es para uma reforma da disciplina dentro da 
egreja, e os reis ainda os mais piedosos exercerem auctoridade indis- 
cuti vel sobre o clero dos seus estados. Fernando, de Hespanha, che- 
gava a prop6r ao concilio a aboIÌ93o do celibato clerical, e jjonto com 
o rei D. Mjanuel combinaram eque cada um d'elles per seus embaixa- 
dores, mandasse amoestar o Papa e pedir-lhe comò obedientes filhos da 
Egreja catholica, que quizesse poer ordem e modo na dissoIu9So da 
Vida, costumes e expedÌ9So de breves, bullas e outras cousas que se 
na corte de Roma tratavam de que teda a christandade recebia escan- 
dalo.»' Se encontramos um poeta comò Gii Vicente atacando no seu 
Auto da Feira as simonias de Roma, ^ tambem se inspira no mesmo 



1 Cours de Philosophie positive^ t. v, p. 378. 

2 Dami&o de Goes, Chron, de D. Manuel, P. i, cap. v. 

3 Algumas inferencias se podem prodazir, de que Gii Vicente conheceu as 
idéaa da Beforma. Gallardo, na Biblioteca de Livros raros (p. 984), falando de 
ama primeira redac^So do Anto das Barcas, que tem o titalo de Tragieomedia al- 
legorica do Infiemo y Paraiso^ diz quo é uma imita^So de ama compoBÌ9lo drama- 



266 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

sentimento religioso Frei Bartholomeu dos MartyreB debatendo no Con- 
cilio de Trento a favor da extinojSo do celibato, tal corno o realisou 
a primeira phase protestante, que chegou mesmo em Roma a ter sin- 
ceroB partidarios n'essa modesta associajSo do Oratorio do Amor di- 
vino, que se reunia em Transtevere, e que contou entre os seus mem- 
bros Sadoleto, Contaxini, Giberti e Caraffa. Os grandes poetas lyricos 
do seculo XYi, comò Sa de Miranda, Miguel Angelo e Victoria Colonna, 
participaram d'està aspira9So melancholica de uma reforma possivel 
sem sahirem da obediencia à disciplina da Egreja. 

espirito severo e ao mesmo tempo poetico de Sa de Miranda, 
pertence a uma cathegoria de genios superiores que so podem ser bem 
comprehendidos pela parte que tomaram nas duas correntes artistica e 
intellectual da Renascenga e da Reforma. Miguel Angelo e Victoria Co- 
lonna, no seu delicado Ijrismo amoroso, exprimem o sentimento por 
um esforgo do pensamento; e a emojSo reflectida perdendo em espon- 
taneidade ganha em profundidade. Sa de Miranda tem no seu lyrismo 
esE\<e predominio do pensamento, a contemplafSo activa de uma orga- 
msa93o formada. Mas tanto nos versos de Sa de Miranda, comò nos 
de Miguel Angelo e Victoria Colonna, ha uma tristeza inexprimivel, 
que apparece no principio do seculo xvi nas almas catholicas, que sem 
approvarem a dissolu9So do papado, e sem se desligarem da egreja de 
Roma, acham na aspira9SLo & simplicidade evangelica do Protestantismo 
um esfor90 sympathico, que abra9ariam se isso nSo fosse formulado 
comò' quebra da disciplina canonica. Em Portugal, comò nos outros 
povos occidentaes, nSo lavrou o Protestantismo dissidente, mas sentiu- 
se a necessidade de restaurar a Egreja primitiva; esses espiritos, que 
viam no Protestantismo a heresia e a repressSo inquisitorial, cahiram 
na tristeza da sua instabilidade moral. Sa de Miranda possuiu uma 



tica de Juan Yaldéa, Becretario latino de Carlos v, o qual seguirà as idéas da Re- 
forma : «La traza de està comedia menandrìiia (es decir, ejemplar moral) se echa 
bien de ver que està tomada del Dialogo de Mercurio y Caron de Juan deVai- 
dés.» Na segonda redac^ao d'està trag^comedia, poe Gii Vicente na bocca do on- 
zeneiro : 

SadgU /(Mima 4§ Vaiik t 
Ci é TOMft Scnhori*? 

(Ofrr. u, ttS.) 

Dis que alo liade ei Tir 
8em /(Mbma é§ Vtitdii. 

(JM.,p.S81.) 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGEN^A 267 

Biblia em linguagem volgar, o que nos revela que provou o pdmo do 
livre exame;* mas a belleza austera dos seus versos, a trìsteza hu- 
mana tSo parecida com a de Miguel Angelo e Victoria Colonna, sSo 
tambem a revelafSo de que subjugou o seu sentimento à inflexibilidade 
da disciplina. 

A prohibÌ9So de lér a Biblia em traduc95es nas linguas vulgares 
generalisou-se no occidente comò meio de reagir centra o livre exame 
proclamado pela Reforma. O bispo de Toledo, D. Bartholomeu Carranza, 
nos seus Commentarios sobre et Catecismo crùtiano (1558), allude a està 
prohìbÌ9So: <E questSU) multo debatida ha mais de vinte annos a està 
parte. . . se é conveniente que a Sancta Escriptura se traduza nas lin- 
guas vulgares, de maneira que cada na9ào a tenba na sua. — Tratou-se 
està questSo no Concilio de Trento^ porém nSo se pdde determinar, 
para dar legar a outros assumptos. — Antes que as heresias do ms^lvado 
Luthero sahissem do inferno a està luz do mundo, nSo sei que esti- 
vesso prohibida a Sagrada Escriptura nas linguas vulgares entre ne- 
nhuns povos. Em Hespanba havia Bìblias trasladadas em vulgar por 
mandado de Reis Catbolicos, em tempo que se consentiam viver entre 
cbristHos 08 mouros e judeus com suas leis. Depois que os judeus fo- 



1 Sa de Miranda possuia urna antiga traduc9ao da Biblia, apeear das prò- 
hibi^oes canonicas que a Inquisi^ào fazia respeitar pela fogueira. Diz Frei For- 
tunato de S. Boayentura, no prologo que precede a edi^ao das Historiaa d'abre- 
vùido Testamento vdho, da livraria de Alcoba^a : aTive esperan^as de confrontar 
este codice com outro quasi similhante, que ainda ha poucos annos se guardava 
na Livraria dos Bispos de Lamego, e n^esta idèa fiz urna viagem no cora9ào do 
inverno, quando j& come9ava de se imprìmir osto volume ; porém de8gra9adamente 
vim a saber, que eram inuteis os meus desejos, por se haver perdido ou extraviado 
o Codice que pertencera a Francisco de Sa e Miranda,» (CoUecqào de Ineditos por- 
tttguezes, t. ii, p. yiii.) Ribeiro dos Santos (Memorias da Academia, t. vii, p. 20 sg.) 
diz que a traduc9ao historiada do antigo Testamento «existiu em poder de D. Mi- 
guel de Vasconcellos Pereira, que morreu Bispo de Lamego.» Porventura perten- 
ceria a traduc9ào da Biblia a Antonio Pereira Marramaque, o amigo de Sa de Mi- 
randa, condemnado pela InquisÌ9&o por traduzir a Biblia em vulgar. Na primeira 
foiba da traduc9So estava incorporada a licenQa concedida a S& de Miranda por 
Frei Francisco Foreiro. Acerca do seu amigo Marramaque escreve ainda Ribeiro 
dOB Santos : «Muitos varoes doutos jà em tempos antigos desejaram vèr entre nós 
a traslada^So das santas Escripturas em portuguez; foi um d'elles Antonio Pe- 
reira Marramaque, Senhor dos Logares da Taipa, Lamegal e Cabeceiraade Basto, 
e grande amigo de Francisco de Sa de Miranda, que muito o inculcava e persua- 
dia ho Dialogo entre o Gallo e o outro animai sobre o v.** do Psalmo : Lex Domird 
immaculata, que foi um dos motivos por que se Ihe negava licenza para a impresa 
aio.» (Memorias da Academia^ t. vn, p. 23, not.) 



268 HISTORU DA UNIVERSIDADB DB GOIMBRA 

ram expulsos de Hespanha, acharam os juizes da ReligiSo que alguns 
dos que se converteram à nossa santa fé instruiam seus filhos no ju- 
daismOy ensinando-lhes as cerìmonias da lei de Moisés por aquellas Bi- 
blias vulgares, as quaes depois imprimiram em Italia, na cidade de 
Ferrara. Por està causa tao justa se prohibiram as Biblias em Hespa* 
nha; porém sempre se teve atten9So com os coUegios e mosteiros e 
com as pessoas nobres que estavam fora de suspeita, e se Ihes dava 
licen9a que as tivessem e lèssem. Depois das heresias da AUemanhay 
traduziram a Sancta Escriptura em tudesco e francez, e depois em ita- 
liano e inglezy para que o povo fosse juiz, e vissem comò fundavam 
suas opiniSes. Isto causou infinito damno, porque entendem a Escri- 
ptura corno a cada um Ihe parece. . . etc.» Aqui temos reconhecido o 
individualismo critico, que mesmo sem romper com a Egreja se exer- 
eia, sobretudo nos trabalhos da philologia. E n'esta situa9SLo delicada 
que nos apparece Erasmo, esercendo na Europa um verdadeiro poder 
espiritual, cortejado pelos reis catholicos que o procuravam attrahir 
para os seus estados, comò Francisco i e D. JoSo iii, bajulado por 
Luthero, que precisa do perstigio do humanista para o seu triumpho, 
e que, apesar das terriveis satyras do Elogio da Loucuraj defende com 
simplicidade a unidade catbolica. Apreciando està primeira phase de 
decomposiySo da con6tituÌ9Slo catbolica, conclue Comte: cnSo se pode 
duvidar que ps povos catholicos participassem tìLo realmente comò os 
protestantes d'està primeira transforma9So revolucionaria, salvo a diffe- 
ren9a das fórmas e a diversidade dos melos, que pouco importam ao 
resultado. N&ò sómente em Fran9a, mas na Hespanha, na Austria, etc., 
OS reis, sem se arrogarem tSo abertamente uma va e ridicula supre- 
macia espirìtual, eram jd com certeza, no tempo de Luthero, para os 
seus cleros respectivos, senhores nào menos absolutos, nSo menos in- 
dependentes, em rigor, do poder papal, comò se tomaram entSo os 
principes protestantes.»^ nome de libertino, que se tomou, com a 
corrup9So do sentido primitivo, sjnonimo de devasso, significava no 
seculo XVI està independencia goral da auctoridade dos papas, e os pro- 
testos centra a sua hierarchia, comò se tomaram effectivos na phase 
calvinista. Os libertinos eram principalmente litteratos e humanistas; 
era por elles que a Reforma penetrava em Fran9a, e que na Suissa to- 
rnava um caracter politico. Calvino, na sua dissidencia critica, rejei* 
tava a affirma98o do livre-arbitrio de Luthero, e repellia tambem a effi* 



^ Op. dt.j t. V, p. 411. 



GHISE PEDAGOGICA NA RENASCENgA 269 

cacidade das abras ; proclamando a justifica93o pela Gra^a, procedia 
pelo esforgo de ama approximajHo directa entre o homem e a divin- 
dade, por chegar à nega9lio da kierarchia catholica eliminando todos 
OS intermediarios^ o papa, os padres da egreja e os proprios santos. 
Era verdadeiramente o fòco vital do protestantismo^ que persistia na 
Egreja na terrivel polemica entre Jesuitas e Jansenistas sobre a Graga 
efficaz e o Livre- Arbitrio. N'esta dissolugSo intensa, o clero submette- 
se & realeza para resistir comò um partido, e realisam-se as carnifici- 
nas desde a Saint-Bartbélemy até ao canibalismo resultante da revo- 
gagSo do Edito de Nantes. Comte estabelece a rela93o entre estas tres 
pbases do protestantismo: «Luthero nSo arruinou mais do que a dis- 
ciplina ecclesiastica para melhor a adaptar, corno jà expliquei^ a està 
servii transforma9ao (a subserviencia politica do clero). Tambem està 
primeira desorganisa9Sio, em que o sjstema catholico era o menos al- 
terado possivel, constitoia realmente a unica fórma sob a qual o pro- 
testantismo poderia organisar-se provisoriamente em uma verdadeira 
religiào de estado, ao menos nas grandes na95e8 independentes. Cal- 
vinismo, primeiramente esbo9ado pelo celebre cura de Zurich, veiu de- 
pois ajuntar a està demolÌ9So inicial a do conjuncto da kierarchia que 
sustentava a unidade social do catholicismo, nSo continuando depois a 
trazer ao dogma christ^ senSo modifica95es simplesmente secundarias, 
ainda que mais extensas que as precedentes. Està segunda phase, que 
so convém ao estado de pura opposÌ9ào, som comportar nenbuma appa- 
rencia organica duravel, parece-me constituir a verdadeira situa9So nor- 
mal do protestantismo, se se pode assim qualificar uma tal anomalia 
politica; porque o espirito protestante desenvolveu-se eniSio da maneira 
mais conveniente à sua natureza eminentemente critica, que repugna 
à inerte regularidade do lutheranismo officiai. Por ultimo, a explosSo 
anti-trinitaria, ou o socinismo, completou naturalmente està dupla dis- 
80IU9S0 prèvia da disciplina e da hierarchia, juntando-lbe finalmente a 
das principaes cren9a8 que distinguem catholicismo de todo e qual- 
quer outro monotheismo.B ^ Socino, que comò Calvino era um profundo 
humanista, que aprendera grego e hebreu para lér os dois Testa- 
mentos, rejeita tudo que nSo provém da letra da Biblia e dos Evan- 
gelhos, tal comò os dogmas da Trindade, da consubstancialìdade do 
Verbo, da divindade de Jesus, e da expia9So e recompensas. A dou- 
trìna vinha de Italia, do fòco do humanismo, onde a metaphysica em 



1 Ibidem, t. v, p. 465. 



270 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Giordano Bruno tentava urna audaciosa sjnthese. socinismo, corno 
observa Comte, era o ultimo grào do protestantismo^ que o approxi- 
mava do Deismo moderno. rigor sanguinario de Calvino, que manda 
queimar o medico Miguel Servet, transforma-se em Socino na toleran- 
cia humana, protestando contra a pena de morte infligida aos hereges. 
É n'esta pbase mental que vamos encontrar os homens de sciencia, es- 
pecialmente os mathematicos e os medicos. 

Era vulgar no seculo xvi o aphorismo italiano, duoi medici^ qua- 
tro athei; o empirismo critico despertava està accusa9%o, que Descar- 
tes converteu em louvor, quando disse: e Se os homens chegarem a 
vèr a luz é da Medicina que ella Ihe ha de vir.» Comte explica està 
transÌ9ào insensivel de um deismo metaphjsico para o atheismo: «A 
maior parte das intelligencias, sobretudo as cultivadas, nSo sabem es- 
perar e duvidar preparando, comò procederam os verdadeiros philo- 
sophos da antiguidade. Foi por isso que a vS indaga^^o de urna eyn- 
these objectiva, mais absoluta que qualquer theologia, se achou reto- 
mada no Occidente moderno conforme as bases gregas, com um ardor 
augmentado pela esperan9a de substituir toda a causalidade sobrena- 
tural.»* rei D. Manuel, querendo provér a cathedra de Astronomia^ 
recorreu aos medicos Mestre Filippo e Thomaz de Torres ; em um dos 
pedidos dos povos nas cortes de Torres Novas, em 1535, allude-se à 
livre critica exercida nos estudos da Physica, especialmente professada 
pelos christSos-novos: «pedo a V. A. que mando apprender de Physica 
quarenta ou cincoenta christllos-yelhos, que para isso tenham habOi- 
dade, porque està aciencia nao anda agora senao em christàos-novos ...» 
Os grandes nomes dos medicos AbrahSo Zacuth e de Amato Luzitano 
despertavam este terror dos credulos, que receiavam vèr perturbada a 
paz do estado pelas doutrinas scientifìcas. Com o negativismo dos ho- 
mens de sciencia coincidia tambem essa metaphjsica realmente nega- 
tiva dos humanistas, que, alheios ao protestantismOi aproveitavam-se 
comtudo da faculdade do livre-exame. Referindo-se a està metaphjsica 
negativa que se manifestava desde o seculo xm, Comte caracterisa a 
parte dos homens de letras do seculo xvi n'este movimento intelle- 
ctual: <No seculo xvi ella deixa actuar o protestantismo, abstendo-se 
cuidadosamenie de contribuir para a sua elabora9lLo, e aproveita só- 
mente a semi-liberdade que a discussSo philosophica acabava assim de 
adquirir, necessariamente para comesar a desenvolver directamente a 



1 Systòme de Politìque pontive^ t. in, p. 513. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCENgA 271 

8ua propria influencia mentala quer escripta, quer sobretudo orai; é o 
quo se deprehende ent&o altamente dos illustres exemplos de Erasmo ^ 
de Cardan, de Ramus, de Montaigne, etc; é o que confirmam, com 
mais evidencia ainda, as queixas ingenaas de tantos verdadeiros pro- 
testantes sobre a expansSLo crescente de um espirito anti-theologico que 
amea^ava jà de tornar essencialmente superflua a sua reforma nascente, 
fazendo alfim sobresahir immediatamente a irrevocavel caducidade do 
fijstema que era o objeetivo d'ella.» ' 

E este espirito anti-theologico o que se exerce na critica dos grah- 
des humanistas, quando restauram o estudo do latim, do grego e do 
hebraico, e renovam os methodos pedagogicos, corno vémos em Erasmo, 
Vives e Bude, e nos pensadores Rabelais, Montaigne e Huarte. es- 
tudo do latim levou à renovagSLo do estudo da Jurisprudencia romana, 
approximada dos successos da vida social revelada pelos poetas Iati- 
nos; o estudo do grego facilitou o estudo dos Evangelhos, da Mathe- 
matica e da Medicina; o conhocimento do hebreu, approximado genial- 
mente do arabe por Clenardo, transformava o estudo da theologia. 
Comprehende-se comò por estes grandes resultados os trabalhos dos 
humanistas despertassem profundas tempestades, encontrassem o ran- 
cor conservantista das Universidades, e acabassem por perderem o 
apoio que os reis no seu primeiro enthusiasmo Ihes concederam, aban- 
donando-os & absorp93o esteril dos Jesuìtas. 

intuito do convite de D. JoSo ni chamando Erasmo para a 
Universidade de Lisboa revela-se approximando-o das tentativas que 
fizeram Francisco i, Carlos v e Henrique vili, procurando attrahir para 
OS seus estados o entSo omnipotente philologo. Escreve Nisard, nos 
seus Estudos sobre a Eenascenga: «Tres jovens reis, os maiores da Eu- 
ropa, elevados ao throno quasi ao mesmo tempo, Francisco i, Carlos v 
e Henrique vni, disputam entro si qual o ha de ter corno subdito vo- 
luntario. Os Papas escrevem-lhe para Ihe participarem a sua coroa9So 
e offerecer-lhe a hospitalidade publica em Roma. As pequenas monar- 
chias, a exemplo das grandes, as provincias e as cidades a par dos 
reinos, convidam-no para vir ao seu scio gosar de um ocio glorioso; 
todos lisonjeiam, até o proprio Luthero. Todos os prelos da Allema- 
nha, da Inglaterra e da Italia reproduzem os seus escriptos; todos 
aquelles que léem, nSo lèem senSo Erasmo.»^ A importancia que o 



1 Coura de Philosophie positive, t. v, p. 490. 

2 Études sur la Renaiaaanet^ p. 56. 



272 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

philologo encontrava na Hespanha acha-se sjnthetisada em um prolo- 
quio moitas vezes apontado nos processos da InquisigSo: 

Quìen dice mal de Erasmo, 
ó es frayle, ó es asno. ^ 

Os hellenistas eram considerados pelos fanaticos corno propugna- 
dores da heresia de Luthero; Bude escreveu em 1534 um opusculo 
De transita ad Hellenismum para combater està imputa^So de heresia 
que vinha jà do tempo de Justiniano. Contra a lingua hebraica, voci- 
ferava um prégador de Paris: «todos os que a aprendem ficam imme- 
diatamente judeus.»^ Contra a bogalidade monacai vibraram etemas 
satyras Erasmo no Elogio da Loucuìra, Ulrico von Hutten nas Episto- 
lare obscurorum Viroruntj e Rabelais no Pantagrud. Era o exame cri- 
tico da velha sciencia medieval, do pedantismo dos doutores e theolo- 
gos. almaginaram combater os adversarios com as proprìas armas^ e 
penetrar no campo inimigo com o fardamento do inimigo. Tal foi a 
origem das Epistolae obscurorum Virorum, . . O judicioso Buhle con- 
sidera que entro todas as satyras, que appareceram n'esta època, nào 
ha outra em que a superstÌ93o^ o espirito de controversia, a sede de 
dominar, a intolerancia, a devassidSo, a torpeza, a ignorancia e a la- 
tinidade barbara dos monges mendicantes e dos Scholasticos sejam ri- 
dicularisados com mais finura do que n'estas Cartas. Pode-se avan9ar 
sem receio, segundo o juizo d'este mesmo escrìptor, que ellas e o Elo- 
gio da Loucura por Erasmo fizeram o maior mal à auctoridade papal 
e monachal.»' Segundo Voltaire, Rabelais conheceu estas Cartas, às 
quaes allude na caricata Livraria de Sam Victor, citando o Callibas' 
tratorium caffardiae auctore M. Jacóbo Hochstratem haereticometra. Po- 
rém, às satyras anti-theologicas, em que urna critica intelligente der- 



1 Effectiyamente os frades nSo perdoavam a Erasmo o ter facilitado a lei- 
tora dos Evangelhos pela cultura do grego, e de ter revelado a moral nniversal 
nos seas Adagia. frade Médard, pr^ando em 1530, diàa contra Erasmo : «Àcaba 
de apparecer um novo doutor, que se chama Erasmo, a minha lìngua embara^a-se, 
quero dizer, um asno. Ora, este asno teve a audacia de corrìgir o Magtdfioat. Foi 
precursor das perturba^òes que affligem o mundo christSo; de todas as heresias 
novas, da recusa de se pagar os dizimos, dos insultos com que se ataca o sobe- 
rano pontifice, e da revolta dos camponeos da AUemanha.» (Àp. Bar2o de Beiften* 
berg, 4* Mémoire, etc, p. 98.) 

^ Sismondi, HMtoirt de Franfoisj t. xvi, p. 364. 

3 Reiffenberg, 4* Memoire, p. 46. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGEN^A 273 

nzia a scholastica, acoutada nas UniversidadeS; seguiu-se a preparajSo 
do caminho para a grande crìse pedagogica do secalo em que collabora- 
ram, os Humanistas creando o typo verdadeiro da Instruc9&o superior 
(o Collegio de Franga), os Jesoitas destacando das Universidades a In- 
stracgSo secundaria (Collegios de Artes) e os Protestantes estabelecendo 
a InstmcfSo primaria com o desenvolvimento das Escholas populares. 
A synthese mental esbo^ada no secalo xni, qae procarara a sua 
realisasSo na crea9So das Universidadesy corno orgSos de um novo pò- 
der espiritual, veiu no secalo xvi proclamar a necessidade de ama fòr- 
mula definitiva e aniversal corno disciplina do individuo e da sociedade 
moderna, ooexistindo independentes, e conciliando a aactoridade com 
a liberdade. Ab Universidades no secalo xvi, paralysadas no automa- 
tismo tradicionaly n£o comprehenderam està insurrei^So dos espiritos, 
e, comò corpora98eB consagradas pélo perstigio do passado, luctaram 
centra as for9as vìvas de um grande secalo de renova9So; impuze- 
ram os seus methodos dialecticos, as summas doutrinarias, a intole- 
rancia dos lentes, e mais ainda o exdusivismo da protec9So real, para 
embara9arem a nova corrente das idéas. No seculo xvi as Universi- 
dadesy incapazes de reorganisarem a sjnthese mental, ou mesmo de a 
comprehenderem, ficaram elementos de reac9S0y acabaram o seu des- 
tino, subsistindo comtudo corno corpora95e8 docentes de urna cara- 
cterisada esterilidade. É notavel oste phenomeno de decadencia das 
principaes Universidades, apesar das differen9as da sua organisa9So: 
as Universidades inglezas decàem, apesar de conservarem tòdos os 
privilegioB autonomicos, os seus rendimentos proprios e a coopera9So 
activa de numerosos Oollegios; a Universidade de Paris decàe, apesar 
de ter absorvìdo em si os CoUe^os, e de, em compensa9So da perda 
dos seus privilegios medievaes, ter as regalias da protec9So do monar- 
cka. Qual a rasBo do mesmo effeito em condÌ93es t3o differentes? Por- 
que a fórma da sua actividade mental nSo se libertava da estreiteza 
das dìsciplinas quadriviaes, nem o espirito se libertava da tetra dos 
textos viciados por preconisados commentadores. ^ Porque, emfim, es- 
ses mestres e doutores, envoltos no nimbo da empbatica sabedoria, e 
triumphantes nos actos academicos de ostenta9So, nSo presentiram a 
necessidade da renova9&o da synthese proposta pelo seculo mais labo- 
rièso da historia moderna. 



1 As Universidades allemSs attingem om grande desenvolvimento nos se- 
culos xvu a zix porque se transformaram segando o tjpo poljteclmico sem se 
preoccaparem do destino pratico no ensino. 

UIST. UN. 18 



274 HISTORIA DÀ UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

A crìse social do seculo xvi nSo é menos laboriosa do que a meo* 
tal, complicando'se mutuamente, nas luctas doutrinarias do Protestan- 
tismo, e nas bases politicas proclamadas pelas revoluyoes protestantes. 
As descobertas maritimas dos Portuguezes tinham acabado de annullar 
a preponderancia da Republica aristocratica de Veneza, que, vencida 
por uma colliga92lo monarchica, lan^ava a Europa na instabilidade até 
se determinar um novo equilibrio politico. Coube essa preponderancia 
a Carlos v, pela fusSLo da monarchia da Hespanha com a Casa do 
Habsburg, e pela suzerania dòs feudos do Imperio na Italia, entre os 
quaes entrava o ducado de Milfto. D'aqui procederam as prolongadas 
guerras entre Carlos v e Francisco i, que pretendia enfiraquecer a Casa 
de Austria no equilibrio europeu; d'esse equilibrio resultou a perda da 
nacionalidade portugueza em 1580, incorporada na unidade castelhana, 
e a revolu9So que libertou os Paizes Baixos. Quando no seculo xvn 
a politica extema de Richelieu conseguiu scindir esse coUosso, sepa- 
rando a monarchia da Hespanha da Casa de Austria, Portugal recon- 
quistou sob a influencia d'esse plano a sua autonomia. As luctas das 
Casas reinantes, por um interesse de engrandecimento egoista, inspi- 
radas por uma politica rudimentar, apparecem movidas tambem pelas 
doutrinas phantasmagoricas da Edade mèdia, comò a da Monarchia uni-^ 
versai. Carlos v é accusado ao papa por aspirar à realisag&o da Monar- 
chia universa!, e a mesma increpagSo é atirada centra Francisco i e con- 
tra Henrique vili ; com o nome de QuirUo Imperio a mesma theoria po- 
litica teve curso em Portugal no seculo xvi, talvez sob a impressSo das 
grandes descobertas na Africa e conquistas na India. 

D'onde provinha uma tal theoria? 

A idèa do Quinto Imperio era uma tradi(So corrente das escholas 
da Edade mèdia, que recebeu um sentido mjstico na època do Protes- 
tantismo, quando os estudos humanistas da Renascenja renovaram a 
theoria hellenica da Monarchia universal. Nos Breviarios historicos, osa- 
dos nas escholas medievaes, a Historia era dividida em Monarchias; e 
atè ao seculo xm todo o passado humano, segoindo as próphecias de 
Daniel sobre os quatro monstros politicos, estava dogmaticamente di- 
vidido nas quatro Monarchias da Assyria, Persia, Grecia e Roma. A 
theoria prevaleceu na Italia atè ao seculo xm, e ainda no seculo xvm 
o theologo Jane, em Wittemberg, sustentava essa divisSo historicai 
combatendo comò hereticas as opiniSes contrarias. Depois das quatro 
grandes Monarchias devia seguir-se a realisajSo da utopia christft, es- 
bo9ada por Paulo Orosio, na Ormoesta, e por Santo Agostinho, na C?- 
dade de Deus. E por isso que entre os povos catholicos appareoeu a 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCENQA 275 

« 

espectativa do Quinto Imperio do mundo^ sustentada por interpretajSes 
allegoricasy vindo encontrar-se està corrente mystica com a theorìa po- 
litica da Monarchia universal, que motivava as ambifSes de Carlos v, 
Francisco i, Henrique vm, e ainda de D. Manuel; o partido dos Ana- 
baptistas hollandezes^ quando banido de Munster e Amsterdam, refu- 
giou-se em Inglaterra, recebendo a de8Ìgna92Lo de Homens da Quinta 
Monarchia, tomada de urna predic9So do Apocalypse, e pelo sea radi- 
calismo politico foram um dos factores da grandiosa revolu9So de 1648. 
Urna mesma idèa estimiila a dissolu^So do poder temperai de modo» 
tSo diversos, jà conduzindo a dictadura monarchica ao militarismo ab- 
soluto, jà provocando as autonomias nacionaes e o mais radicai egua- 
litarismo. * 

Ao quadro da revolu9So religiosa do Protestantismo liga-se orga- 
nicamente a marcha das revolu9Ses pòliticas da Europa nos ultimos 
tres seculosy pela affirma9Slò do individualismo, fortifìcado pelo exer- 
cicio do livre-exame. Comte reconhece que se nSo podem separar as 
considera93e8 sobre estas opera93es mentaes das que suscitam as di- 
versas revolu93es que derivaram d'ellas ou Ihes deram influencia so- 
cial: «A primeira d'estas revolu93es preliminares é a que libertou a 
Hollanda do jugo hespanhol ; ella ficarà memoravel, comò uma alta ma- 
nifesta93o primitiva da energia propria à doutrina critica, dirigindo as- 
sim a feliz insurreÌ93o de uma pequena na9Ìlo centra a mais potente 
monarchia europèa. E a està lucta verdadeiramente heroica que é ne- 
cessario referir a primeira eIabora9So regular d'està doutrina politica; 
porém ella houve de se limitar sobretudo a esbo9ar especialmente o 
dogma da soherania popular e o da independencia nacional, que os le- 
gistas coordenaram logo na sua concep9So espontanea do contraete so- 
cial, seguindo as exigencias naturaes de um tal caso, em que a orga- 
nisa9So interior nSo devia ser senSo accessoriamente modificada, e cuja 
prìncipal necessidade revolucionaria devia sómente consistir em que- 
brar um la90 exterior tornado profundamente oppressivo. Um caracter 
mais goral, mais completo e mais decisivo, uma tendencia melhor pro- 
nunciada para a regenera9So social do conjuncto da humanidade, dis- 
tinguem em seguida nobremente, apesar da sua falba necessaria, a 
grande revolu9ao ingleza, nSa a pequena revolu98o aristocratica e an- 
glicana de 1688, hoje tSLo ridiculamente preconisada, e que so satisfa- 



^ Os Jesuitas, que tambem planearam urna restaura9lo do Poder theocra- 
tico, conheceram a theoria do Quinto Imperio, propagada pelo padre Yieira no se- 
colo xvn. 

18 # 



276 mSTORIA DA UNITERSIDADE DE COIMBRA 

zia a una siinples necessidade locai, mas a revola^o democratica & 
presbyterlana dominada pela aninente natureza do homem de estado 
mais avanjado de que o protestantismo se pode honrar (Cromwell). O 
e8bo90 primordial do conjoncto da doutrìna critica recebea entSo es- 
pecialmente o seu principal complemento naturai pela elabora9fto di- 
reeta do dogma da eguaidade, até entSo apenas manifestado^ e que nSo 
tinba podido resultar sufficientemente das inclina93es calvinistas da no- 
breza franceza, ao passo que se ve nitidamente surgir, sob este me- 
moravel impulso^ da concep92o metaphjsica sobre o estado de natureza^. 
antiga emana9So da theoria theologica relativa à oonstitui$8o humana 
antes do peccado originai.»^ Antes da violenta crise franceza, verda- 
deiramente europèa e humana^ em consequencia do estado de adianta- 
mento da dissolu93o do regimen catholico-feudal, em que se affirma a 
liberdade politica, as duas revolu$Ses protestantes tiveram a sua reper- 
cussSo na America^ mas sem que novos principios fossem affirmados 
na grande colonia universal. O problema da reorganisa98o montai e so- 
cial, para ser comprehendido e tomar-se eiFectivo na sociedadci depen- 
dia sobretudo do desenvolvimento da rasSo individuai, e do apoio de 
novas sciencias experimentaes, quC; a par de um inevitavel trabalho 
de nega98o, facilitassem por meio de verdades positivas a possibilidade 
de formar concepgSes verdadeiramente syntheticas. A BevolufSo fran- 
ceza é no dominio social no seculo xviii o que o seculo xvi foi no do- 
minio mental; esbo9ando uma completa renova$So pedagogica, quer 
nos grAos do ensino, quer nas theorias individuaes dos pensadores da 
Benascensa. 

As Universidadesy que no seculo xm foram o fòco de elaborafZo 
da primeira Renascen9a, deveram o seu grande esplendor à liberdade 
que exerceram ao emancipar-se da Egreja, discutindo oom desassom^ 
bro OS problemas geraes, as concepgSes universaes que mais interes- 
sam espirito humano. Mas, estabelecida assim a sua auctoridade, 
estacionaram no destino imicamente docente, e repelliram dos seus qua- 
droB pedagogicos todas as disciplinas que nSo visassem a um firn con- 
creto e pratico. Este espirito de especialidade tomou-as auctoritariaa 
no seu dogmatismo, pedantes e atrazadas, de sorte que em frente dos 
grandes conflictos intellectuaes e sociaes do seculo xvi as Universida- 
des nSo ccnnprehenderam a Renascenya litteraria, nem a Reforma re^ 
ligiosa; combateram as aspiraySes do espirito humano, refor9ando-Be 



1 Omn de PhUosophie positive, t v, p. 469. 



CRI9E PEDAGOGICA NA RENASGENgA 277 

ua yelba dialecticai e restanraram o aristotelismo sophismado dos ano- 
Bymos commentadores. E comtado a actividade montai exercera-se pro- 
fondamente fora das Universidades, e o espirìto humano no secalo xvi 
exigia urna cultura goral, urna tendencia synthetica coordenada sohre 
08 elementos dispersos da livre-critica. Era verdadeiramente ama crìse 
que determinava a transforma9So do ensino superior, e da qaal depèn^ 
dia a missSo social das Universidades ou a sua irremediavel decaden- 
eia. Essa nova phase do ensino superior apparecea desde quo os esta- 
dos liamanistaSy nfto podendo romper os quadros quadrìviaes où das 
Pacaldadesy acharam na fondagSo do Collegio de Franca a liberdade 
para serem professados, e o espirìto de generalisa9So, qae o estado mon- 
tai do secolo XYi reclamava. Renan caracterìsa este logar eminente do 
Collegio de Franja no meio da profonda crìse pedagogica: «A verda- 
deira e grande Rena8oen9a, aquella que a Italia tem a glorìa eterna de 
liaver fondado, prodozio<se fora das Universidades. Mais ainda, ella 
achou nas Universidades os seos inimigos os mais encamigados: ella 
a9olou OS doutores de todas as castas. A Renascenya foi obra de Fio* 
renga e nSo de Padua, de gente colta e nSo dos professores. Nem Pe- 
trarcha, nem Boccacio, nem Bacon, nem Descartes foram figoras da 
Universidade. A Universidade de Parìs em particolar, no secolo xvi, 
attingio ultimo grào de rìdicolo e de odioso pela soa tqlice, pela in- 
tolerancia e acinte em repellir todos os novos estodòs. Foi preciso que 
a realeza, que pela soa poderosa totella emancipara a Universidade da 
Egreja, tornasse sob a soa protec$So, centra a Universidade, o movi- 
mento scientifico, e pelo Collegio de Franga no secolo xvi, pelas Aca- 
demias do secolo xvii, creasse om contrapezo à estes habitos de pri- 
goiga, a este espirìto de negagfto malevola de qoe os corpos puramente 
docentes difficilmente se podem preservar.»^ Erasmo tivera està fe- 
conda iniciativa desenvolvendo o Collegio Trilingue^ em que applicava 
OS npvos methodos ao ensino do latim, do grego e do hebreu. Foi so- 
bre este nucleo, e à sua imitagSo, que Budeus, o amigo de Erasmo, jun- 
tamente com o cardeal JoSo du Bellay, fundou entro 1528 e 1530 um 
Collegio .separado da Universidade, destinado às tres linguas classicas, 
que Francisco i protegeu em um momento de dissidencia centra a Sor- 
bonne. Em 1528 apenas ahi se ensinava o grego e hebreu; em 1530 au- 
gmentaram-se as disciplinas, e regeram no Collegio de Franga as duas 
cadeiras de grego Toussain, amigo de Erasmo, e Dainès; duas cade!- 



1 Questione contemporaines, p. 80. 



^78 HISTORIA DA UNIVERSIDADB DE GOIMBRA 

ras de bebreu foram regìdaB por judeus venezianos^ vindo Vatable a 
•ubitituir um d'elles. eepirito encyclopedico quo inspirava a nova 
funday fto fez com que se abrisse pouco depois urna cadeira de Maibe- 
matbioai desde 1542 urna de Medicina e de Philosophia, e successiva- 
mente cadeiras de Direito nacional, das lingaas arabe e syriaca. Era 
n'esta liberdade critica e de ensino^ n'esta facilidade com que se aggre- 
gavam novas disciplinas sdentificas, n'esta despreoccupa^So do ensino 
tbeorico de teda a especialisaySo pratica ou applicada, que o Collegio 
de Franga se converteu em urna ceschola universal da livre-critica e 
de renovaglo do espirito homano», comò o caracterisa Michelet, * e se 
tomou tun organismo vivo, mantendo-se com vigor ao lado da Univer- 
sidadO) immobilisada na tradigSo medieval. As luctas da Reforma e a 
deploravel intervengXo da realeaa em favor da unidade catholica restì- 
tairtun i Universidade o perstigio auctorìtario, e pelas perseguigSes da 
intoloranoia o Collegio de Franga decahiu da sua iniciativa scienti- 
fica, aabaistindo comtudo comò o modelo definitivo da instrucgSo su- 
periora 

Centra a emancipagSo intellectual da Renascengai e comò reacgSo 
centra a Reforma, a Companhia de Jesus surgiu com o pensamento de 
restaurar a supremacia theocVatica e de premunir as intelligencias cen- 
tra a livre-critica, apoderando-se do ensino. Era um esforgo supremo 
centra a dissolugXo do regimen catholico-feudal. Os Jesuitas apodera- 
ram«8e das Universidades quebrando o regimen da Edade mèdia, pela 
conversSo da Faculdade de Artes em um ensino dementar ou secun- 
dario, iste é, dogmatico, privativo dos seus CoUegios. Desprezaram 
todas as disciplinas, que pelo seu estado tbeorico nSo podiam ser im- 
postas pela auctoridade e incutidas passivamente na memoria; e tra- 
tando de captar a mocidade nobre e burgueza, que viria a occupar as 
altas (uncgSes do estado, desprezaram completamente o ensino popu- 
lar. A paix&o pelo estudo, que levava os alumnos a agruparem-se em 
volta da cathedra do mostre, quer na Edade mèdia, quer mesmo no 



^ Beforme, p. 380. grande historiador falla a^sim do Collegio de Franca: 
«Gloriosa eschola que esperà ainda o seu historiador. Ella quebrou o ultimo élo 
que prendia o homem ao passado, quando Ramus immolou o mais respeitayel idolo, 
Aristotelefl, e sellou a revolu^So com o seu sangue. Ella teve dnas glorias immen- 
sas, o ensino de duas cousas sobretudo, o Oriente e a natureza. Ali os rabbinoa 
yieram apprender o hebren nas li^Òes de Yatabl^. Ali os Parses yieram da India 
pedir a Bumouf a sua lingua esguecida. Champollion e Letronne ali ezhumaram o 
Egypto. Couyier, Ampère, Savart e outros grandes inventores renovaram as scien- 
cìas naturaes.» 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGEN9A 279" 

secnlo XVI; corno succeden no Collegio de Fran;a, essa paix2o foi sub- 
stìtuida por severos regulamentosy automaticamente cumpridos, que im- 
primiam no estudante o habito passivo da frequencia submissa. sys- 
tema pedagogico dos Jesoitas nSo teve orìginalidade na fórma; é ama 
reproducQSo das pratìcas de Trotzendorf e de Sturm, e na parte dis- 
ciplinar, do regimen intemo do Collegio de Santa Barbara, onde rece- 
beram a primeira direc9So sob os dois portnguezes Diogo e André 
de Gouvéa. A orìginalidade consistiu no intuito, que veiu a ser cla- 
ramente formulado na Ratio studiorum, o firn religioso conseguido pela 
aimulla9So da vontade. Na fórma de organisa9So, o ansino secundarìo, 
explorado pelos Jesuitas, é semelhante ao dos pedagogos protestantes 
do seculo XVI ; ^ mas pelas denuncias, pelos castigos degradantes ou 
orbilianismo, subjugavam as vontades, tendo em vista os favores em be- 
neficio dos eque poderSto chegar às dignidades, & fortuna ou ao pode- 
rio, de quem seja preciso obter o seu favor ou se dependa da sua von- 
tade.» A decadencia dos estudos humanistas, attribuida aos Jesuitas-, 
resultou da immobilidade dos processos de ensino, que persistem ainda 
no seculo xix, e do fim exclusivamente docente. exercicio da liber- 
dade intellectual, e o desprendimento do destino pratico, é que fez 
com que, ao passo que as Universidades de Fransa, Italia, Hespanha e 
Inglaterra caiam na esterilidade, as Universidades allemSs se tomas- 
sem fecundas e verdadeiramente impulsoras da civilisa^So moderna. 

Os Jesuitas, preoccupados com a re8taura9So da bierarchia catho- 
lica, afastavam-se da tradÌ9lLo da egreja primitiva, que ligara a maxima 
importancia & instrucgcto poptdar; logicamente os Protestantes, regres- 
sando k simplicidade evangelica (reformando a Egreja deformada, corno 
dizia Calvino), retomaram na sua propaganda o problema da educa9So 
do povo, e deram o prìmeiro impulso à instrucgào primaria, E extra- 
Ordinano o criterk) com que os pedagogos protestantes introduzem no 
ensino superior as idéas dos criticos francezes da Renascen9a e comò 
se afastam da supremacia de Roma pela crea9So de um ensino nacio- 
nal, come9ando pela cultura da lingua patria e pela organisa9&o da 
6daca93o domestica. ensino popular, desenvolvido pelas escholas ré- 
gias, so teve uma existencia regular no seculo xvni. JoSo de Barros, 
na sua Orammatica, publicada em 1539, descreve assim a miseravel e 
rudimentar fórma do ensino primario em Portugal, na època em que 
mais brilhavamos pelos estudos humanistas: cHua das cousas menos 



1 Paroz, Hiatoire univeneUe de la Pedagogie, p. 133. 



280 HISTORIA DA UMVERSIDADE DE GOIMBRA 

oolhada que ha n'estes reynos, é consentir em todalas nobres villas e 
cidades, qualquer idiota e nam aprovado em costumes e b5 viver, poer 
escola de insinar meninos. E hu gapateiro que he o mais baixo officio 
dos mechanicos, nSo p8e tenda sem ser examinado. E oste todo o mal 
que fazy é danar a sua pelle, e n^ o cabedal alheio; e maos mestres 
leixam os discipulos danados pera toda a sua vida, nam sómente com 
vicios d'alma de que podéramos dar exemplos; mas ainda no modo de 
OS ensinar. Porque havendo de ser por hua Cartìnha que ahy ha de 
letra redonda, porque os mininos levemente saberàm ler, e assi os pre- 
ceitos de nossa fé, que n'ella estam escriptos; convertem-nos a estas 
doutrinas moraes de boos costumes: Saibam quantos està carta de venda. 
E depois desto: Aos tantoa de tal mez, E perguntado pdo costume disse 
nichil. De maneyra, que quando hum mo90 saj da escola nam fica com 
nichil, mas pode fazer milhor huma demanda que hum solicitador d'el- 
las, porque mama estas doutrinas catholicas no leite da primeira edade.» 
Jolo de Barros alludia ao Catecismo pequeno, de Diego Ortiz, bispo 
de Ceuta; e para substituir a leitura dos processos forenses, que ainda 
encontràmos nas' escholas, compoz o pequeno tratado da Viciosa Ver- 
gonha. Como os espiritos catholicos, que presentiam a Reforma em- 
quanto à revigoraySo da disciplina, Jo^o de Barros foi logicamente le- 
vado para o problema instante da instruc^ popiUar. 

A antinomia entre o sjstema pedagogico da Edade mèdia, e o prò- 
clamado pelos Humanistas, provinha da incompatibilidade das conce- 
pySes dominantes: a Egreja, ante a degrada(Slo do peccado, educava 
pela repressSo; os Humanistas, rehabilitando a Natureza, aperfeÌ9oa- 
vam-na pela bondade. Fa9amos o confronto dos dois systemas. 

A revela9&o da antiguidade greco-romana pelos Humanistas veiu 
p8r em contraste estas duas concep98eS; que serviam de base à educa- 
9S0. No regimen catholico, e segundo o dogma do. peccado originai, 
em que estava implicito mysterio da redemp9So, o homem nascia 
condemnado, e portante com urna imperfeÌ9So ingenita, de que so po- 
dia libertar-se pela Gra9a ou pela Penitencia. A Gra9a levava à apa- 
thia physioa e moral, ao quietismo mystico, ao desprezo de todas as 
sciencias e de todos os progressos humanos, comò absurdas vaidades, 
que embara9avam o caminho da 8alva9&o; a Penitencia, em todos os 
gràos do ascetismo, tratava de contradictar a Natureza, macerando-a, 
submettendo-a, deformando-a, até chegar ao anniquilamento ou & per- 
feÌ9So ideal do nihilismo. Era urna longa lucta; n'este e8for90 de sub- 
jugar a Natureza nasceu plano da educa9So comò uma pressSo mo- 
ral, comò uma castra9So physica, por meio da pancada, e pela imposi- 



GHISE PEDÌÉ606IGA NA RENASGENQA 28 i 

9S0 do terror. A nogSo do ensino é a de um castigo (castoiemeni, da 
Edade m^dia); o mestre ìmp3e*se pelo rigor do orhUianismo, e a^es- 
chola toma-se urna bolgia infemal de tortora das crìan9as. Rodolpho 
Agricola, o grande iniciador dos estudos classicos na AUemanha (1443- 
1485), descreve a eschola do seu tempo segando a disciplina domi- 
nante : «Urna eschola assemelha-se a urna prìsSo : lia alli pancadas, chó- 
ros e gemidos sem firn. Se ha cousa que para mim tenha am nome con- 
tradictoriO; é a eschola. Os gregos chamaram-lhe Schola, desenfado, 
recreio; e os latinos Ludus litterarius, divertimento litterarìo; mas nada 
ha que seja mais afastado do recreio e do divertimento. Aristophanes 
denominou-a phrcntiserion, iato é, legar de apoquenta9&Oy de tormento, 
e é a designagSo que mais Ihe quadra.» ^ Um outro epigone da Renas- 
cenga, Montaigne (1533-1592), que passou sete annos no Collegio de 
Guienne, descreve nos Ensaioa a tortura das escholas: <Em legar de 
attrahir as crìan9as para as letras, nSo Ihe apresentam«m verdadese- 
nSLo horror e crueldade. Afastae a violencia e a forga; em meu cnten- 
der nada ha que abastarde e desvaire tanto uma natureza bem nascida... 
Està policia da maior parte dos nossos collegios desagradou-me sem- 
]jr6. . .^ E uma verdadeira enxovia da mocidade captiva. Visitae-a na 
occasi3lo das lÌ93es: nSo ouvireis senSo grìtos das crian9as castigadas, 
e dos mestres desvairados na sua colera.» Tal era a disciplina peda- 
gogica do catholicismO; motivada pela idèa da imperfeÌ9So da natureza 
humana; as escholas da Edade mèdia obedeceram a este piano, que se 
impoz à Renascenga na reac9&o do regimen religioso. Homens jà bar- 
bados, comò Ignacio de Lojola, em Paris, submettiam-se aos castigos 
corporaes dos mestres auctoritarìos.^ E por isso que para os grandes 
antagonistas dos Jesuitas na pratica da educa92o, os Jansenistas, e se- 
gando a phrase expressiva de Saint-Cyran, e A educa9So chrìst2 è uma 
tempestade do espirito,*^ As panÌ93es, os supplicios da eschola medie- 



i Àp. Paroz, HisUnre univeraéUe de la Pedagogie^ p. 89. 

* Quando Ignacio frequentava Collegio de Santa Barbara, foi accusado ao 
FrindpcU Dr. Diogo de Gouvéa de desvairar os condiscipulos com praticas de 
fanatismo. principal ordenou que alumno, que entlo contava quarenta annos^ 
fosse receber castigo da salla: «Chamava-se assim urna correc^So mab infa- 
mante que dolorosa, qne se administrava da segointe maneira. Depois do jantar, 
estando todos os alumnos presentes no refeitorio, os mestres, munidos cada um de 
palmatoria, dispunliam-se em duas filas. O delinquente, despido até à cintura, de- 
via passar por entre elles, e receber de cada um uma palmatoada nas costas.» 
(Qoicherat, Hùtoirt du CoUtge de Sainte-Baròe, 1. 1, p. 193.) 

3 Ap. Michelet, Noa Fila, p, 155. 



282 HISTORIA DA UNIYERSIDABG DE GOIMBRA 

vai, continuados no segando Pori Boyal, e nas reformas do bondoso 
La Sallo; prolongaram-se.até ao nosso tempo, por isso que a\elha syn- 
these iheologica é a que ainda predomina no ensino officiai. ^ 

A ReDascen9a, corno nm regresso à natureza, e corno imia revo- 
la9&o em que preponderava o problema mental, encaroa com desas- 
sombro as doutrinas da educafSo e a sua appIicaySo ao systema de 
Instracg^ publica, partindo do ponto contrario ao dogma theologico, 
de que a natureza era boa. Homem, a sua liberdado, a sua aerilo, o 
seu aperfeÌ9oamento moral e physico, a sua confratemidade ou provi- 
dencia propria, eis a sjnthese espontanea da Rena8cen9a. A Italia dea 
nome a està aspira9&o de um seculo, a Humanidade; a Europa veiu 
ao appèQo, cultivando as sciencias humanas, experimentaes e praticas, 
sendo os estudiosos que reataram a corrente intellectual da ciyilÌ8a9So 
grego-romana denominados Humanistas. Quem mais do que a Grecia 
comprehendeu e realisou melhor a cultura do homem? Quem melhor 
do que Roma deu ao homem social mais o relèvo da ac9&o e da ener- 
gia do caracter? A Ilenascen9a nSo podia deixar de tomar conhed- 
mento das suas doutrinas pedagogicas, vulgarisal-as e applical-as. 

Merece notar-se corno os grandes pedagogistas da Renascen9a, sug- 
geridos no seu pensaménto de renova9&o montai pela leitura dos escri- 
ptores grego-romanos, dividem os seus systemas pedagogicos segundo 
as caracteristicas determinadas nas obras classicas. Entro os planos de 
um Rabelais, no quadro da educa9^ de Gargantua, e de um Montai- 
gne nos Ensaios, um desenvolvendo todas as capacidades especulati- 
vas do homem pelo contacto com a natureza e pelo experimentalismo 
scientifico, o outro formando o typo do bom senso pratico, instruido e 
nSo erudito, mais sociavel do que individualista, entro estes dois pla- 
nos systematicos encontram-se as mesmas differen9as que separam Pla- 
tSo e Aristoteles de Xenophonte e Plutarcho, quando esbo9aram as suas 
theorias de educa93o. Na civilisa9So grega, o antagonismo de Athenas 
e Sparta, que actua na existencia politica e nas manifesta93es da arte, 
reflecte-se nas capacidades individuaes, jà na cultura da intelligencia 
e do sentimento, jà no desenvolvimento da for9a physica, da adestra- 
9&0 athletica para a ac9So militar. Em Athenas, o cidadSo concorre ao 



1 poeta Bocage, que era um ezcellente latinista, ao fallar dos seus estados 
com o professor D. Jo2o Medina, diz que se o frequentasse por mais tempo ficava 
altyado, Àinda outì na minha infancia os grìtos lancinantes que sahiam de uma 
aula de latim ; e na eschola primaria soffri a brutalidade do padre Antonio José 
do Amarai, que espancava as crian^as segundo atf crisei de um homor irasciveL 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGENQA 283 

^igora, onde discute as questSes publicas, tem a investidura do poder 
pela 6leÌ9So, o seu individualismo nSo desapparece n'uma subordina- 
9S0 passiva à collectividade; em Sparta, cidadio é soldado, que 
fonda a sua dignidade na submissSo ao estado. Dentro d'estes dois meios 
tSo differentesy a maieutica, ou gesta9&o do homem moral, corno Ihe 
chamou Socrates, foi radicalmente diversa. Em Sparta homem é urna 
for9a que se adestrà, domando a sensibilidade pelo rigor; em Athenas 
é um sér que evoluciona em todo o seu individualismO| nos seus ele- 
mentos affectivos, especulativos e activos, equilibrando-os entro si pelo 
firn social. O ideal da educa9So spartana està representado na Cyrope- 
dia de Xenophonte, onde exp5e de um modo pittoresco effeito de uma 
disciplina militar. Està severidade estabelecia uma tran8Ì9fto para que 
a educa92LO catholica de repressSo se conciliasse com as innovagSes dos 
humanistas; e de facto as doutrinas de Montaigne, preoccupando-se 
exclusivamente da ac93o, esclarecida por um saber geral, conservam 
uma certa austeridade, que tomaram querido aos mestres Jansenis- 
tas, ao secco Locke e ao violento Rousseau. -"^ 

Mas diante do deslumbramento da RenascenQa pela antiguidade 
classica, e sob enthusiasmo da renova93lo scientifica e da livre-critica, 
OS humanistas abra9aram de preferencia systema de educa9&o entre- 
visto pelos genios da Attica, formado no grande fòco da cultura do ho- 
mem, Athenas, e defam curso aos pensamentos generosos, e às vistas 
positivas de Piatto e de Aristoteles. Rabelais, estabelecendo contraste 
entro a educa9£o medieval e formulista de Gargantua, e a instruc93o 
moderna e realista de Eudemon^ poz duas civilisa98es em confronto, 
e em evidencia immediata a superioridade do hellenismo. A Grecia ti- 
nha attingido a perfeÌ9So no desenvolvimento d'este producto da natu- 
reza — o homem; livre das peias de uma classe sacerdotal e da espe- 
cula9&o esteril de uma theocracia deprimente, tratou os seus mythos 
com a inspira9So da Arte, e em vez de elles se immobilisarem em do- 
gmas, foram themas suggestivos para as epopèas, tragedias, typos es- 
culpturaes, e até para esbo9os de synthese physica. AUi deram-se as 
condÌ93es para o desenvolvimento das faculdades humanas em uma 
ascensSo progressiva, emquanto ao individuo pelas fórmas da activi- 
dade eaihetica, scientifica e phUosophica, e emquanto à sociedade pelas 
fórmas da organisa9So moral, politica e economica. Nada mais assom- 
broso. Ainda sob o influxo da orienta92k> esthetica, unica expressSo da 
unidade nacional da Grecia, Platlo, nas Leis, considerava, a Educa98o 
comò a disciplina eque di ao corpo toda a belleza, e ao espirito teda 
a pBrfeÌ9&o de que sSo capazes.» E d'esse influxo esthetico tira PlatSo 



284 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

urna nova base para o systema pedagogico, a attracsSo do agrado: 
ccondazindo pelo divertimento a alma da crian9a a gostar do que deve 
tornal-a perfeita.» Como a Renascenga comprehendeu este principio 
humano para reformar a cultura do homem, até entSo feita pela seve' 
ridade da compressSo ! Desde que appareceu o Platonismo no seculo xv, 
appareceu logo a doutrina da bondade no ensino : acha-se em Gerson, 
condemnando o temor do alumno ; em Yictorìno de Feltro, procurando 
a harmonia entro o espirito e o corpo; em Agricola, que transformoa 
a instituigfto pedagogica dos hieronjmìtas, condemnando a pancada naa 
escholas; emfim em Eneas Sjlvius (Pio n), alegrando os alunmos com 
a communicagSo das obras das utteraturas classicas. Mas, na ancie- 
dade do saber, que convulsiona a Bena8cen9a e a leva a tentar as mais 
audaciosas syntheses philosophicas, era em Aristoteles que a intelli- 
gencia moderna ia encontrar as bases de uma Pedagogia integrai ; nXo 
que a obra especial de Aristoteles fosse conhecida, mas pelos meios 
indirectos da exploragSo da Politica e da Moral se reconstituiu facil- 
mente sjstema, digno do espirito mais encydopedico que tem exis- 
tido na humanidade. Aristoteles estabelecia a necessidade de uma 
educa9So publica e commum, e, em atten9Sp ao fim social, que fosse 
egual para todos, e sob a interyen93o do Estado. E verdadeiramente 
um criterio positivo, e comò tal precursor da Sociologia. Como homem 
de sciencia, medico, e preoccupando-se detidamente das condÌ93es hj- 
gienicas, Aristoteles completa o desenvolvimento do sér phjsico, moral 
e social, nas tres fórmas da AdestragSo, para conseguir o desenvolvi- 
mento phjsico, da Educagao, para dirigir o instincto e a sensibilidade, 
e da Instrucgào, para disciplinar a intelHgencia e a rasSo. Nada mais 
lucido e verdadeiro. Se na època de Aristoteles estivesse j& constituido 
o segundo par scientifico, (Physica e Chimica) teria ido multo além de 
Bacon; se o terceiro par (Biologia e Sociologia) estivesse organisado, 
realisaria o plano integrai de Comte. Nos grandes pedagogistas da Re- 
nascen9a nSo é so o lado theorico que é impulsionado pelos escripto- 
res gregos; os maiores philologos exercem uma iniciativa pratica pro- 
fonda na tran8forma9So da Instruc92o publica europèa: Erasmo eleva 
ao mais alto esplendor o Collegio Trilingue e a època gloriosa da Uni- 
versidade de Louvain; Vives faz a critica do ensino publico, e offe- 
reco a D. JoSo m, em 1531, um plano de reforma que actuou na Uni- 
versidade de Coimbra; Budeus organisa o Collegio de Fran9a; e Ra- 
mus, regenerando o ensino das linguas e da philosophia, determino^ 
OS tra90B para a reforma da Universidade de Paris. A paixSo do en- 
sino tomou-se a caracteristica do seculo, comò se vd em Melanchtoni 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASGENgA 285 

o. extraordìnarìo educador de toda a Allemanha; em Sturm, que su* 
stenta na maior altura o Collegio de Strasburg (1537 a 1589); e sobre 
todos OS portugaezes Gouvéas, Diogo, e seus sobrinhos André, Anto- 
nio, Margal e Diego o 01090, que constituem ama dynastia, que tomara 
o Collegio de Santa Barbara centro d'onde sahiram os homens mais 
eztraordinarios que actuaram no seculo xvi. 

Fallando do Dr. Diego de Gouvéa, Quicherat descreve a institui- 
(So: «Fez urna vlagem a Lisboa, com fim de expSr ao rei D. JoSo m, 
successor de D. Manuel, que, nfto tendo garantia alguma para nu- 
mero dos pensionistas da cor6a, nfto sabe sobre que base assentarà o 
estabeleoimento; foi-lhe garantido que o numero permanente da colo- 
nia portugueza seria de cìnquenla estudantes. Està funda9ào data de 
1526. Foi celebrada em Santa Barbara com festejos, discursos, nos 
qoaes se ligavam em elogio simultaneo rei D. JoSo e Cardeal In- 
fante D. Affonso, seu irmBo, principe a quem achavam sempre a ler 
latim e grego, e que contribuirà com toda a sua influencia par^ o es- 
tabeleeimento das cinqaenta bolsas. 

aDiogo de Gouvèa é representado, por aquelles que estiveram às 
soas ordens, comò um mostre vigilante e apto, cheio de gravidade, de 
urna probidade inquebrantavel, sabendo acima de tudo conservar nos 
mancebos o arder da emulaySo. Appareceu no momento propicio; 
quando tomou conta de Santa Barbara, a grande gerajSo que encheu 
o< seculo XYi com as suas idéas comejava os seus estudos. desejo 
de chegar & perfeiQSo em todos os generos encendia os cora93eB, e nSo 
ei;a preciso rigor para com discipulos que so aspiravam a exceder seua 
mestres. merito de Gouvéa consiste em ter coadjuvado um arder, 
que para muitos dos seus collegas era um motivo de mede. Por este 
meio attrahiu para Santa Barbara que bavia de mais distincto tanto 
corno discipulos come em rela9So aos mestres, e seu Collegio foi 
mais do que em nenhum outro tempo um viveiro de grandes homens.» 

Uma phalange de nomes illustres portuguezes, que nos represen- 
taram na Renascenga na Europa, recebeu no Collegio de Santa Bar- 
bara a sua educa9Zo humanista. D'ali sahiram os principaes humanis- 
tas do seculo xvi, e ali se disciplinou a forte gerajSo que fundou a Com- 
panhia de Jesus, adoptando as fórmas do ensino empregadas pelos Gou- 
tSàs, para fazerem fronte aos eruditos e apoderarem-se do ensino pu- 
blico europeu. • Quando D. Manuel tentou reformar a Universidade de 



» Diz J. Quicherat, na Historia do Collegio de Santa Barbara^ referindo-se 
4 elevada coltura humanista dos barbistas: «D'aqui procede, que todos os mati- 



286 HISTOBIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Lisboa, dirigiu-se ao Dr. Diogo de G-oay§a; D. JoSo m, realisando 
o pensamento de seu pae, dirigiu-se a André de Gouvèa, sobrìnho e 
successor do Dr. Diogo de G-ouvSa no principalato de Santa Barba- 
ra, mas a inflaencia dos padres da nova Companhia de Jesus prevale- 
ceu no espirito do monarcha, aimullando as mais generosas inidativas. 
De André de Gouvèa escreveu Montaigne, qae o conheceu (1539 a 
a 1546) quando elle regentava o Collegio de Guienne: nle plus grand 
Principal de France.it Antonio de Gouvèa, que foi amigo de Rabelais 
e de Calvino, luctou a favor de Aristoteles contra Fedro Ramus, e lan- 
{ou as bases do estudo juridico da eschola de Cujacio. 

Um outro aspecto em que as doutrinas pedagogicas da Gh^ecia 
actuam na Renascenya é o da necessidade de tratar da edvA^oj^ da 
mtdher, Os humanistas, que comprehenderam o alcance da bondade para 
a crian9a que se ensina, acharam nos escriptores classicos o modo de 
dar à mulher essa nova capacidade formativa. Xenophonte, na Eco» 
nomica, fìindamenta e planèa a educa9&o feminina, e Plutarcho, nos 
Preceitoa do Casamento^ estabelece que so a mulher instruida, acom- 
panbando a educagSo dos filhos, exerce o poder de crear os grandes 
typos, em quem foram despertadas e estimuladas as for9as da conscien- 
cia e a energia do caracter. Erasmo e Vives deram curso a estas idéas, 
que suscitaraYn em todas as cortes da Europa o esfor90 para con- 
verter a galanteria em erudÌ93o. A rainha Isabel de Castella acompa- 
nhou a reforma dos estudos humanistas, estudando ella nìesma o latim 
com D. Beatriz Galindo, dama da c8rte, denominada a Latina, ^ e man- 
dando-o tambem ensinar a sua fiJha D. Joanna, mSe de Carlos v. As 



zes da orthodoxia, corno da heresia, se encontraram na gera^So que paasou por 
Santa Barbara entra 1520 e 1530. Ao lado do ascetbmo conununicativo dos pri- 
meiros Jesuitas, achamos o mystieismo hallacinado de Postel ; ao lado do rigo- 
rismo inqoisitorial de Demochares, a tolerancia de Gelida e de André de Gouvda, 
que nSo obstou a que estes homens virtaosos fossem irreprehensiveis na sua fé; 
e mais ainda o scepticismo mal sopeado de Buchanan ou a independencia philo- 
sophica de Antonio de (Gouvèa, qae uma voz inimiga taxou de materialismo, e que 
fez associar o nome d^este homem distincto com os de Bonaventore Desperriers e 
Rabelais. Emquanto ao espùnto de seita, é representado por essa lucta religiosa 
de que JoSo Calvino foi a encama^So.» 

1 Em rela^fto à emdi^ feminina no secolo xn, em Hespanha, lé-se em Fray 
Francisco d'Avila, La vida y la muerte (1508) : 

En nnettrot tlempos agora 
Fné latina la Galinda ; 
La Septilveda fné linda 
Doncella mny labldora. 



CRISE PEDAGOGICA NA RENASCEN^A 287 

damas da mais< alta nobreza segidam està corrente da moda; distin- 
gaiam-se pelo conliecimento do latim a marqueza de Monteagudo, D. 
Margarida Pacheco, e as filhas do conde de Tendilla, chégando D. Lu- 
cia de Medrailo a dar ligSes sobre classicos latinos na Univer8Ìdade de 
Salamanca^ segando informa Marineo Siculo ; * D. Francisca Lebrija, 
filha do reformador humanista, professou sobre Rhetorìca e Poetica na 
Universidade de Alcalà. Passava-se iato no tempo em que as cortes de 
Portugal e Castella estavam reconciliadas pelo casamento do principe 
D. Affonso com a infai}ta D. Isabel. A rainha D. Leonor, mulher de 
D. JoSo II, protegeu a Imprensa e a funda9£o do theatro nacional por 
Gii VicentC; e cercava-se de damas instruidas comò D. Leonor de Mas- 
carenhas, conhecida entSo corno rivai de Vittoria Colonna, pela eleva- 
9S0 de espirito, que tanto admiraram Bemardim Ribeiro e Sa de Mi- 
randa. A infanta D. Maria, ultimo frueto do terceiro casamento de D. 
Manuel, aprende latim sob as yistas de Fr. JoSo Soares, que veiu a 
ser bispo de Coimbra, e para ella escreveu JoSo de Barros em 1544 
um Dialogo de Preceptos moraes, em fórma de jogo, para quando fi5r 
desoccapada, de verdadeira philosophia christà, porque estnda, A in- 
fanta teve casa separada aos dezeseis annos, tendo por criadas senho- 
ras instruidissimas, corno Luiza Sigea, Angela Sigèa, Joanna Vaz, ' 
Fublia Hortensia de Castro, Isabel de Castro, Paula Vicente, a Zbn- 
gedora, filha de Gii Vicente, D. Leonor Coutinho e D. Leonor de No- 
ronha. De uma d'ellas, Publia Hortensia, correu a lenda, que frequen- 
tara os estudos da Universidade de Coimbra sob as vestes escholares, 
em companhia de seus irmSos, e defendendo theses de logica e rheto- 
rìca. Em volta d'este centro distincto de saber e galanteria, gravitaram 
OS principaes poetas portuguezes, CamSes, D. Manuel de Portugal, 
Jorge de Monte Mór, Jorge Ferreira de Vasconcellos, J9X0 Lopes Lei- 
tSo, Caminha, Sa de Menezes, e o apaixonado Jorge da Silva ; forma- 



1 Vidal y Dias, Memoria higtariea de la Univenidad de Salamaneay p. 243. 

2 Dr. JoSo de Barros, no Eepelho de Caeados (fl. 86), fallando da compe- 
tencia das mulheres para as sciencias, diz : «... som tam habiles e tam sabedoras 
corno 08 homens. — Mas acabo este conto com que fora razam hir mais cedo, que 
he Joana Vox, naturai de Coimbra crìada da Rainha nossa senhora por suas vir- 
tades e doctrina mai a^eita a ella nas lettras latinas, e oatras artes hnmanas mai 
docta, de qaem vi algomas cartas por qae bem se pode provar està noticia que 
doa della. Se as molheres nSo sabem tanto, he porqae se occapam em oatras coa- 
sas mais proprias a ellas, mas nam por qae Ihe falte habilidade pera tado e comò 
a molher tirou de si a onestidade, tado farà ao qae se quizer dispoer; por qae 
arte, engenho, sotileza e discri^am Ihe nam falta.« 



288 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE GOIHBRA 

Yam corno que a Academia da Infanta D. Maria^ que achoa nas le- 
tras a consola^So para as decepgSea moraes a que a expuzeram as in- 
trigas de Carlos v, de Filippe n, e a bo9alidade de seu innZo D. JoSo ui, 
que annullou todas estas coiidÌ98es .de progresso nacional, entregaudo 
a ìnstruc^o publìca aos Jesuitas. O effeito da educajSo dos Jesuitas 
viu-se ao firn de trinta annos, em 1580| com a apathia e extinc$So da 
nacionalidade portugueza. Os espirìtos tinham retrogradado ao forma- 
lismo da Edade m^dia, e a na9So estava fora da hìstoria em cuma 
austera, apagada e vii tristeza.3 ^ 



1 Michelet synthetida em poucas linhas o quadro das doutrinas da Renas- 
cén^a, que eetimularam a nossa vida hiatorica: 

«Qual é firn do4iomem? Sir homem, verdadeira e completamente, deeen- 
volver em si tudo o que està na natureza humana. Qual a via e o meio para isso? 
A Aà^ào, 

«Voltaire escreveu està palavra em 1727, imprimiu-a em 1734. Sem o saber 
renoYOu o principio da antiguidade, a tradirlo da Grecia, a pfailoBopfaia da efiet- 
gia, da ac^So. 

«Desde o din em que a acgào reentrou no mnndo, n2o sómente resultou uma 
prodigiosa creando de sciencias, de artes, de industrias, de potencias, de for^s 
mechanicas, — mas uma nova for^a moral. 

«A ac^So é moralisante. A ac^ao productiva, a felicidade de crear, slo de 
um encanto tSo grande, que entre os trabalhadores serios dominam facilmente toda 
a paizSo pesBoal. 

«No plano encyclopedico de edaca9So, que nos dà o seenlo xyi, o plano sabio, 
immenso, muito sobrecarregado, de Gargantua^ vé-se pertanto jà, com surpreza, o 
firn nitidamente indicado. NSo sómente o discipulo saberà tudo, mas saberà fazcr 
ttido. A acgSo apparece comò o seu mais alto desenvolvlmento. Inidam-no nSo bó 
em todos os exercicios, mas em todas as artes praticas. 

^ «O mesmo pensamento (froizamente indicado, é certo) no livro mediocre e 
judidoso de Locke. Mas brìlha admiravelmente no grande livro inglez, o Robimon» 
Beproduz-ae no Emilio. homem moderno, aotua e trabaiha; pode sel-o, ó obreiro.a 
(Noe FiU^ p. vu a x.) 



CAPITULO II 



08 EstatDtos mannellnos e a persistencia do Scholasticismo (1004-1621) 



Às deecobertas portuguezas e o aspecto geral do reìnado de D. Manuel. — A edi- 
fìcHQao das Escholas Geraes. — Organisa^ào dos EstatutoB de 1504. — Porque 
se nào desenyolvem os estudos humamstas? — Leis contra ob Judeus e extinc- 
5S0 da Typographia hebraica. — Decadencia da Litteratura grega. — Dr. 
Diego de Gouvéa cbamado de Paris para a reforma dos Estudos em Lisboa. 
— Recrudescencia do Nominalismo. — Funda^ào do Collegio de S. Thomaz, 
em 1517. — Influencia de Jo5o Celaya em Paris. — Joao Bibeiro substitue Ce- 
laja na defeza da Escholastica. — D. Francisco de Mello e os estudos mathe- 
maticos. — A abertura dos Estudos em dia de S. Lucas. — A Orando de Sa- 
pientia pelos lentcs de Artes. — André de Rcsende. — Escbolas particulares 
de Grammatica, no bairro das Escbolas. — A Arte nova. — Respo&tas às du- 
vidas dos Escholares. — OVejamen ou Adua gallicus na Universidade de Lis- 
boa. — Sa de Miranda lente substitato ; porque nào prosegue no magìsterio. 
— Projecto de funda^ào de uma Universidade em Evora sob D. Manuel 
(1520). — Diego de Gouvéa pretende adquirir Collegio de Santa Barbara 
para os Estudantes de El-rei. — Tabula legentium do prìmeiro quartel do se- 
colo XVI. 



A passagem do saber formulista da Edade mèdia para o criterio 
experimentalista dos tempos modemos nSo foi unicamente determinada 
pelo esforQO mental dos hmnanistas da RenaBcen9a; a necessidade de 
agrupar factos concretoS; de corrigìr as concepgSes antigas perante a 
objectividade dos novos aspectos com que se revelava a Natureza, tal 
foi a ac92o que exerceram em todas as intelligencias na Europa as des- 
cobertas maritimas dos Portuguezes. Os sabios vinham a Lisboa infor- 
mar-se dos extraordinarios eventos, e se a rasSo humana achou novos 
elementos para a emancipagSo das consciencias, a actividade social ia 
exercer-se em um trabaiho pacifico de apropriagSo do pianeta, e pela 

lUBT. UH. 19 



290 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 



\ 



crea9£o da industria alcan9ava um meio imprevisto para a incorpora^So 
do proletariado na sociedade moderna, esse tremendo problema que 
nos legara a Edade mèdia. Todos os e8for90S da grande gera92Lo de na- 
vegadores e exploradores geographicos do secalo xv tiyeram comò re- 
sultado as descobertas que tomaram Portogal uma das prìmeiras po- 
tencias da Europa no secalo xvi, aquella que mais influiu na marcha 
da civilisa9£o humana, e que soube ligar o seu rapido esplendor na- 
cional à universalidade de uma missào historica, que nunca poderà sor 
esquecida. * • 

Nem so aos grandes e poderosos imperios militares pertence a 
consagra92lo da Historìa, pela extensSo do seu dominio» e pelo esfor^o 
de unifica92o social das rafas humanas; aos pequenos Estados, embora 
com uma existencia menos ruidosa, compete uma missSo, quasi sempre 
cumprìda com a consciencia de mn destino^ que os liga na sua aggre- 
gayào transitoria & marcha progressiva da Humanidade. As pequenas 
Nacionalidades constituem os mais bellos capitulos da Historia univer- 
sa! ; nào podendo contribuir com uma actividade complexa para a obra 
da civilisa9&o, os seus esforyos especialisam-se com a perfeÌ92Lo de uma 
actividade exclusiva. Os Israelitas; os Phenicios e os Qregos sSo tres 
pequenos povos, em que melhor se observa este caracter da acyfto fé- 
cunda exercida pelas pequenas nacionalidades ; Israel traz a idèa mo- 



1 Sobre as navega^òes portugnezas dirìgidas por nm criterio scientifico, es- 
creveu com indiscutivel auctorìdade o Dr. Fedro Nunes, no seu Tratado em defen" 
aam da Carta de marear^ na dedicatoria ao infante D. Lniz: «Ora manifesto he 
que estes descobrimentos de costas, ylhas e terras firmes, nam se fizeram indo a 
acertar ; mas partiam os noèaos mareantee muy ennnados e providos de inatrumento» 
e rtgras de astrologia e geometria, que sSo as cousas de que os Cosmographos ham 
d'andar apercebidos, segando diz Ptolomeo no primeiro livro de sua G-eographia. 
Levavam cart€u muy partùndarmente rumadas, e nam j& has de que os antigos usa- 
vam, que nam tinham mais figurados que doze veatos, e navegavam sem agu- 
Iha. . . » (FI. 1 i,) Merece reparo o facto do Dr. Fedro Nunes nao alludir aos pre- 
tendidos estudos mathematicos do infante D. Henrique e sua influencia nas desco- 
bertas maritimas. N'este tempo ainda JoSo de Barros nao tinha plagiado o in- 
edito de Azurara, com que deu corpo à lenda infantista da Eschola de Sagres. 
Cam5es tambem escapou à lenda, corno observa com espanto Bibeiro dos Santos: 
cO darò cantor dos Lwàadais, que tinha occasiSo muito opportuna de fallar d*elle, 
e de fazer de seus descobrimentos bum necessario e indispensavei episodio, mais 
ligado com a ac^Io do seu Foema, que o que fez do desafio dos Doze de Inglaterra, 
contontou-se de o nomear simplesmente, e de passagem em poucos versos, o que 
bem podéra ser objecto de bum Foema.» (Memoriae de LiUeratura, da Àcademia, 
t. vili, p. 158.) 



ESTATUTOS MÀNUEUNOS 291 

notheista, precursora do universalismo religioso; a Phenicia desenvolve 
cosmopolitismo pelo commercio e generalisa o alphabeto; a Grecia 
cria a Arte, a Sciencia e a Philosophia, que ainda hoje saggerem sau- 
daveis impulsos ao sentimento, & acy^o e & especula^So modemos, e 
pelo seu espirito de independencia salvoa o futuro da Europa da in- 
vasio persa. Sobre estas tres pequenas nacionalidades é que se apoia 
principalmente a Civilisa9So mediterranea. Urna outra pequena nacio- 
nalidade, Portugal, pelo genio das expedÌ93es maritimas abre o perìodo 
das CivilisafSes atlanticas, em que todas as na93e8 da Europa e da 
America s&o cooperadoras, e, comò a G-recia outr'ora, susta as inva- 
sSes dos Turcoe na Europa pela descoberta do caminho maritimo da 
India. Diz Tiele, na Historia gercd das Religxòes antigas (p. 259) : «Os 
pequenos povos tiram em goral o seu valor de uma aptidZo e de urna 
voca9&o especiaes. Mas a cultura perseverante e assidua de um dom 
particular, a concentra9&o das suas preoccupa93es e de suas forsas so- 
bre um so objectOy assignam-lhes &s vezes um legar eminente entro as 
na93es e um papel de primeira ordem no desenvolvimento da civilisar 
9£0y sobretudo no ponto de vista religioso e moral.» Na vida historìca 
de Portugal, imposta pela situagSo geograpbica, da actividade marìtima 
é que provém a sua independencia nacional, a rìqueza colonial, a fei- 
9&0 esthetica das suas mais bellas 'manifeBta98es poeticas e architecto- 
nicas, a sua expansSo fundando novos estados, e além de tudo isto uma 
influencia directa no advento da edade moderna da Europa, caracte- 
rìsada pela actividade pacifica. Como pequeno estado, Portugal foi 
mais cedo livre do que o resto da Hespanha, e n2Lo deixari de ser para 
a peninsula o Estado typo para a sua remodela9£o federativa. Renan 
dizia que a historia da Grecia deveria escrever-se comò um hymno; 
esse hymno, que resda na alma de todos os que admiram os factores 
conscientes da Civilisa9So humana, é o que acompanha as pc^inas da 
Historia de Portugal e Ihes dà vida. 

Emquanto Portugal, simples appendice da Hespanha, firmava a sua 
autonomia com a descoberta da India e do Brazil, D. Manuel achava- 
se por um accidente elevado ao throno, & soberania com que nunca so- 
nhara, e tratou lego pelo seu casamento de unificar sob uma meama 
corda o imperio das Hespanbas. As riquezas que os galeSes traziam 
das recentes descobertas e conquistas desvairaram-no, levando-o i con- 
centra92o do maxime poder absoluto, e à sumptuosidade pharaonica 
com que assoalhava esse poder, enviando embaixadas ruidosas aos dif- 
ferentes monarchas da terra. NSo tinba a loucura dos planos politicos 
de um Carlos v, de um Francisco i ou Henrique vili; tinha a puerili- 

19* 



292 HISTORIA DA UmVERSIDADE DE COIMBRA 

dade dos effeitos theatraes do rei que se acompanha pelas ruas com um 
longo sequito de elephantes e dromedanos^ qae vestia quasi diaria- 
mente novos fatos rosagantes^ e que comia à vista do seu povo ao som 
de charamellas. As riquezas affluiam a Lisboa, de todas as ignoradas 
regiSes do globo; e o monarcha, no enlevo de um sonho de grandezas, 
aUieio a todas as idéas economicas e de administraySo, maltratava os 
homens que sustentavam este vigor momentaneo da historia portugueza, 
taes comò Affonso de Albuquerque, FemSLo de MagalhSes, Duarte Pa- 
checo e Antonio GalvSo. Està prega inferior do caracter de D. Ma- 
nuel fieou accentuada na epopèa dos Lusiadas na phrase rei iniquo; 
a historia chamou-o Venturoso, nSo pela ac9SLo directa*que exerceu a 
sua individualidade, mas por ter gosado de um modo egoista todos os 
elementos de ordem duramente estabeleeidos por D. JoSo ii, e o effeito 
das descobertas dos navegadores e capitSes, que elle considerava pouco 
seus amigos. Morreu na abundancia, dispondo inconscientemente de 
thesouros que julgava inexgotaveis, fazendo edifica95eSy enriquecendo 
OB filhoB com casamentcs, mitras e mestrados, dotando loucamente a 
ultima esposa; deixando em elabora9SLo os germens que viriam, ainda 
no seculo xvi, determinar a ruipa de Portugal. NSo admira pois que 
n'este reinado de desvairamento de riquezas a vida intellectual nSo 
apresente o relèvo que o nome portuguez sustentava nas Universida- 
des de Hespanha, Italia e Franga. 

Logo que D. Manuel se achou elevado de duque de Beja a rei 
de PortugaJ, a Universidade de Lisboa mandou-lhe participar pelo rei- 
tor Alvaro Anes e Mestre JoSo de Magdalena a sua eleigSU) de Prote- 
ctoTj bonra que o monarcha acceitou por carta de 11 de dezembro de 
1495. Foram os seus primeiros actos mandar provèr as cadeiras de 
prima e de vespera de Leis em oppositores, e em fazer convites a al- 
gnns doutores de Salamanca. Como a concessSo de Sixto iv, obtida 
por D. Affonso V; àcerca das Conesiaa magistraes e doutoraes, nSo pdde 
ser levada à pratica pela opposiySo insistente do cardeal D. Jorge da 
Costa e de alguns Cabidos, D. Manuel conseguiu de Alexandre vi o 
breve de 23 de junho de 1496, para que em todas as cathedraes se 
estabelecessem prebendas para os mestres theologos e doutores jnrÌBtMf 
da Universidade. recente monarcha gloriava-se com as homenagens 
que a Universidade agradecida Ibe prestava no seu pomposo latim. No 
livro das Epistolas de Cataldo Aquila Siculo, eque tinha vindo a estes 
reinos ensinar Rhetorica na Universidade de Lisboa»,* vem a OraySo 



1 Ribeiro dos Santos, Memorias da Academia^ t. vnz, p. 97. 



ESTATÙTOS MANUEUNOS 293 

latina; que o marquez de Villa Real, D. Fedro de Menezes, recitoa na 
Universidade perante o rei D. Manuel. * 

rei; preoccupado com as festas do seu casamento (1497) com a 
princeza D. Isabel, viuva do mallogrado herdeiro de D. JoSo il; achou- 
86 com a perspectiva de vir a reunir Portugal e Hespanha sob um mesmQ 
Bceptro. Para este fim, em que se Ihe levantavam no espirito as pai- 
xSes da vaidade e do dominio, que sempre o caracterisaram; D. Ma- 
nuel nSo hesitou em acceder à condÌ9£o da expulsSLo dos judeus de Por- 
tugal (1496). Em resultado d'este acto de fanatismo, prohibiu o menar- 
cba em 1497 o uso de livros hebraicos, exceptuando apenas as obras 
de Medicina e <3irurgia, ainda assim quando os que as possuissem foa- 
sem physicos ou cirurgiSes antes de se converterem ao catholicismo.^ 
O abandono completo em que cairam a lingua e litteratura hebraica 
reflectiu-se para sempre nos estudos tbeologicos na Universidade^ ape- 
sar de D. Manuel crear em 1503 uma cadeira de vespera, que proyeu 
em 5 de Janeiro de 1504 no afamado cistersiense Frei JoSo Claro. 

A Universidade occupava entfto as Casas que Ihe tinham side doar 
das em 1431 pelo infante D. Henrique, situadas acima da egrefa de 8. 
Thoméf cantra o muro velho da cidade. E emquanto o novo monarcha 
se achava enleiado pelos grandes successos, que iam transformar a exis- 
tencia da nafSo portugueza e da civilisa^Eo moderna, corno o regresso 
de Vasco da Gama em 1499 e a descoberta do Brazil por Pedro Al- 
vares Cabrai em 1500, a Universidade retomou um pouco da sua au- 
tonomia economica, tratando de alargar o edifìcio para as suas escho- 
las ; em 1 502 compra ao conde de Penela umas casas com quintal, por 
80^000 réis, para ahi estabelecer as suas aulas, e em 30 de agosto 
d'esse mesmo anno compra a G-abriel Gonyalves, por 30^000 réis, ou- 
tras casas quepartem com as Escholas novas que agora sefazem. D. Ma- 
ntlel interpoz a sua soberania doando à Universidade, em 18 de Janeiro 
de 1503, o palacio que comprara ao Condestavel D. Affonso, que fora 
de seu tio o Senhor de Cascaes, e que pertencera ao infante D. Hen- 
rique, ^ construindo com estes differentes predios as Escholas novas, no 



1 EdÌ9So de Lisboa, de 1500. 

^ Bibeiro dos Santos, na Memoria sobrt as orìgens da Typographia em Por- 
'tugal^ commenta este facto : «desanimou inteirameiite a Litteratura hebraica, tor- 
nou inuteis ce seus prélos, e fez sahir de Portugal para extranhas terras uma Ty- 
pographia tao atil e vantajosa, que entSo nos bonrou por auas illustres produc^oes, 
e que ainda boje nos podia muito ennobrecer com suas obras.» (Mèmorieu da Aca* 
denUa, t. vin, p. 18.) 

3 É frequente o equivoco de localisar a Universidade no palacio do infante 



294 HISTORIÀ DA UNIVERSIDABE DE COIMBRA 

sttiv quefica abaixo de Santa Marinka, conhecidas pelo titolo de Escho- 
las Geraes, eque ainda hoje existem n'aquelle mesmo sitio, e que con* 
servam este mesmo nome.»' Com o novo edificio das Escholas, o so- 
berano dea tambem & Universidade novos Estatutos, a que elle chamou 
Ordenan^as, impondo luBsihi a mais absoluta auctoridade. No pream- 
bulo dos Estatutos manuelinos ligam-se estes dois factos comò simuU 
taneos: cNós por fazermos o que devemos a nesso officio e Dignidade 
Real, e por servilo de Nesso Senhor, proveito dos nossos subditos e 
nobrecimento da dita Cidade (de Lisboa) Fazemos merce e doa^o aa ditta 
Universidade doutras Cazas em Ingar que parece mais conveniente, 
edificadas com forma e disposi^Ho de Escfaollas Geraes e acrecentamos 
OS sallarios aos Lentes e Officiaes; e hordenamos que ouvesse Cathedra 
de Vespera de Theologia, e Cathedra de Philosophia Moral. E porque 
havia muitos Estatutos, Accordos e Ordenan9a8 diversas, que segando 
a yariedade dos tempos agora xAo sSo proyeitosos: Queremos e Orde- 
namos, que d'aqui em diante a Universidade de nosso Estudo de Lis- 
boa seja regida e govemada por estas Ordenan;as seguintes, etc.» Es- 
tes Estatutos, que come9am pelo titulo Qtie nào possa fazer Estatutos 
sem ElRey ou Protector, na copia que existe no tomo primeiro do Livro 
das ProvisSes da Universidade, nfto apresentam data; comtudo ella pode 
ser fixada pelas referencias do preambulo à doaqào das Escholas geraes 
em 18 de Janeiro de 1503, e ao provimento da Cathedra de Vespera de 
Theologia, em 5 de Janeiro de 1504, a qual fora creada nos mesmos 
Estatutos com o salario de vinte mil réis. ' Como estes Estatutos esti- 



I 

D. Henriqne, comprado em 1448, coDfaDdindO'O com* as casas doadas em 1431. IH- 
gaeirda eiplica o motivo por que se acbam no Cartono os titaloB do palacio do 
infante: «Comprou mais o Infante D. Henrìque a D. Alvaro de Castro, senhor de 
Cascaes, e a sua mulher D. Isabel, umas casas com seu quintal no bairro dos Es- 
colares, que partiam com outras snas por pre90 de 400 dobras de onro, das quaes 
OS vendedores se deram por entregues por 44 panos de Castella, qne receberam, 
feita eserìptura no 1.° de septembro de 1443. N2o consta que o Infante desse es- 
tas casas à Universidade, e se meteu no Cartono d'ella està escriptura por que 
devem ser as mesmas de que depois El Bey D. Manoel Ihe fez mercé.» (Vide An- 
nuario da Universidade de Coimbra^ para 1874, p. 241.) 

1 LeitSo Ferreira, Noticias chronologieas da Universidade, Add. ao n.^ 615. 

' visconde de Villa Maìor, na Exposi^ào succinta da Organisofào actual 
da Universidade de Ccimhra, adopta a data entre 1499 e 1504 com o segninte ar- 
gumento: «Estabelecem elles (Estatutos) que para o cargo de Reitor seja eleito 
sempre «m fdalgo ou pessoa constituida em dignidade; e para o anno de 1500 foi 
eleito Bispo de Fez, talvez j& em virtude das dt8posÌ9oe8 dos novos Estatutos.» 
(Op. cit, p. 41.) bispo de Fez, D. Francisco Femandes, fora pedagogo de D. Ma* 
miei e anteriormente Unba a dignidade de Mestre Eschola. 



ESTATUTOS MANUEUNOS 295 

veram em vigor até novembro de 1 537, em que D. JoSo in dea & Uni- 
versidade, ji entSo em Coimbra, um novo Regimento^ foi remettido para 
Coimbra o livro dos EstatutoB manuelìnos, para os casos omissos e 
praxes tradicionaeB; o testo authentico assignado por D. Manael per- 
deu-se, conBervando-se o apographo a que fialta a data. Em alvarà de 
16 de agosto de 1537 estabelece D. JoSo iii: cmando que emquanto 
nSo prover essa Universidade de novos Estatutos, usees e yos rejaes 
peloB Statutos que foram dos Studos de Lisboa, de que vos mando per 
bo doTitor Francisco Mendes bo proprio livro d'elles assinado por el 
rei meu senhor e padre que santa gloria aja.» 

Muitas das dÌ8po8Ì9SeB da reforma de 1504: nSo foram cumpridas 
pela Universidade, corno se infere de um alvarà de D. JoSo iii, mas 
essa instituiyfto pedagogica da Edade mèdia acabou por annullar-se 
diante da monarchia absoluta, comò as garantias foraleiras se extin- 
guiram com a Ordena9So ou codigo real. Desde que a Universidade 
perdeu de todo o seu caracter de corpora9ao livre, deixava de acom- 
panbar o movimento scientifico da Europa, que se operou pelo esfor(o 
das capacidades individuaes isoladas. A Universidade foi melhor do- 
tada, teve mais opulencia, mas acbou-se sem destino na època da Re- 
naBcen9a. Tambem com a extincgSo das garantias foraleiras a nacio- 
nalidade portugueza acbou-se sem vigor; Sa de Miranda queixava-se 
de que tudo concorrìa a Lisboa, receiando que o barco mettesse a pròa 
ao fundo. Extincta a vida locai, acabou todo o elemento de resistencia 
que fizera das antigas behetrias ou cidades livres a na9So portugueza, 
nunca encorporada até ao ultimo quartel do seculo xvi na unidade cas- 
telhana. À reforma da Universidade sob D. Manuel so pode ser bem 
apreciada buscando o pensamento que a determinou nos factos politi- 
cos que tomaram o poder monarchico absoluto ou independente. No 
préambulo faz o rei a concessSo de novo edificio para as escholas, au- 
gmento de ordenados aos lentes, e justifica os motivos por que vae co- 
dificar a legisla9lo universitaria em umas Ordena98e8: 

cPrimeiramente mandamos que o Reitor da Universidade do Es- 
tudo de Lisboa, Conselheiros, Lentes e todolos Officiaes juntos, nSo 
possam fazer Estatuto sobre o regimento da dita Universidade; e quando 
occorrer algum caso em que pare9a ser necessario novo Estatuto, po- 
derSo requerer ao Protector, e por sua auctoridade se farà o Estatuto 
que fòr necessario. » 

Foi este excesso de poder real sobre a Universidade que fez com 
que ella mais tarde podesse ser entregue aos Jesuitas, que fizeram 
d'ella ponto de apoio para reagirem centra o espirito scientifico da 



296 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Rena8cen9a. O exame da reforma manuelina descobre-nos factos im- 
portantesy nSo so sobre a organisafSo administrativa da Universìdade, 
corno sobre a situa9So dos estudos. Insistiremos sobre està parte em 
especial; e no que respeita aos costumes escholares. Desde que os Es- 
tatutos eram urna ordeiia9So real, tomava-se necessario dal-os a conhe- 
cer aos estudantes: cMandamos que o reitor mande a todos os Estu- 
dantes sob pena prestiti juramenti, qiie em cada bum anno ySo ouvir 
OS Estatutos e OrdenagScs da dita Universidade, os qaaes o Bedel e o 
EscrivSo do dito Estudo lerà alta e intelligivel vox no Geral das ditas 
Eschollas huma véz cada anno, o terceiro dia das Outavas do Natal, 
depois de corner; e o mandado do Reitor seri publicado pelo Bedel & 
Vespera de Natal.» 

Os cargos da Universidade, Reitor, seis Conselheiros, dez Depa- 
tadoS; Conservador, Sindico, Bedel, EscrivSes, Taixadores, Sacador do 
Recebedor, Enqueredor, Guarda das Escholas e SoUicitador ctodos es- 
tes officiaes serào eleitos pela Unìversidade, e confirmados pelo Fro- 
tector; tirando o officio de Chanceller, que Queremos que o tenha sem- 
pre que for Lente de Prima de Leys.» Vè-se que por està reforma 
Chanceller, que representara o poder pontificai nas Universidades, 
adquiria agora um caracter regalista, independente de eleiyilo, e pri- 
vativo de um Lente de prima em Leis. Mais tarde, na regressSo ele- 
ncai do reinado de D. JoSo ui, o cargo de Cancellano toma-se outra 
vez autonomico com o de Reitor, e um privilegio exclusivo dos Prio- 
res de Santa Cruz de Coimbra. 

Vejamos qual o quadro dos estudos por està reforma de 1504: 
cOrdenamos que na dita Universidade haja sempre Cadeira de Prima 
de Thedoffia, e outra de Vespera, e tres Cadeiras de Canones, a sa- 
ber: De Prima, Ter9a e Vespera. E de Philosophia Naturai huma, e 
outra de Philosophia moral. Tres Cadeiras de Leys: Prima, Terga e 
Vespera. De Medicina duas: de Prima e de Vespera. Huma Cadeira 
de Logica e outra de Orammatica,'^ 

Os titulos da6 cadeiras eram derivados da divisSo liturgica das ho- 
ras canonicas; ^ principiava o trabalho escholar por uma missa ao rom- 
per do sol, e em seguida comegavam as ligSes dos lentes de prima: 
cem sahindo o Sol comesse a Missa, e em fim d'ella comegar^ os Len* 



^ cardeal de Arag§o, D. Fedro de Luna (papa com o nome de Benedicto ^ 
zni), na reforma que fez da Universidade de Salamanca, depois de 1381, fonda 
tres cadeiras de Theologia, ordenando que urna se lésse à hora de Prima^ outra & 
kora de Ter^, e outra & de Ve^peraa. 



ESTATUTOS MANUELINOS 297 

tea de Prima a ler. . .» Ainda hoje se chama lente de prima ao de- 
cano da faouldade, perdida a tradigSo das horas canonicas. 

Um doa estimulos da reforma da Universidade por D. Manuel foi 
o augmento dossalarioa doa lentea: cOrdenamos queaCadeira de Prima 
de Theologia haja em cada anno doze marcoa de prata, aegondo se con- 
tém no Testamento do Infante Dom Henriqne, pelos quaes Ihe man- 
damos dar trinta mil reis; e à Cadeira de Vespera vinte mil reis; e às 
Cadeiras de Prima de Canones e Lejs, trinta mil reis cada huma^ e 
àa de Vespera de Canonea e Leys, vinte mil reis cada huma ; e às Ca- 
deiraa de Ter^a de Canones e Leja, dez mil reis cada huma; e & Ca- 
deira de Prima de Medicina, vinte mil reis; e à Cadeira de Vespera, 
quinze mil reis; e à Cadeira de Philosophia Naturai, vinte mil; e à 
Cadeira de Metaphysica vinte e trez mil reis; e à Cadeira de Logica 
dez mil; e à Cadeira de G^rammatica dez mil.» 

E immensamente curiosa a persistencia da tradigiLo pedagogica 
conservada na Universidade ainda hoje; na reforma de D. Manuel en- 
contram-se jà estatuidas certas particularidades, que se observam au- 
tomaticamente: eque OS lentes de prima leam cada dia que for de l^r 
quase ìiora e mela, e os outros lentes huma hora; e em firn de sua li- 
gào, decendo da Cadeira estarcb hum pouco de tempo para responder a 
OS dumdas e perguntas dos Eschollarea ; os quaes lentes come9arSo a 
ier hum dia depois de S3,o Lucas, e continuarlo athé Santa Maria 
d'Agosto inclusive. . .» * E a tradÌ9So da quinta-feira: e quando na se- 
mana nSbO houver festa de guarda, deiacarSo de ter a juinta-feira corno 
sempre se costumou,^ As insignias doutoraes conservam ainda o mesmo 
aymbolismo: cos theologos boria branca, e os canonistas verde, e os 
legistas vermdha, e os medicos amar dia, e os artistas azuloi...i^ À trans- 
formagSo da classe de Artes na faculdade de Philosophia fez com que està 
c6r se conservasse comò peculiar da nova disciplina. As precedencias 
das faculdades sSo ainda as mesmas determinadas por D. Manuel: cos 
mestres e doutores terSo està ordem antro si : primeiro os mestres em 
theologia; segundo os doutores canonistas; terceiro os doutores legis- 
tas; quarto os doutores medicos; em fim os mestres em artes. E os Re- 
gentes precederSo aos nom Regentes em sua faculdade e guardarlo em 
cada sciencia as antiguidades dos seus gràos.» 

Em uma nota do reitor Figueirda às Noticias chronólogicas de 



1 Segando ce Estatutos da Universidade de Salamanca, de 1422, formulados 
por Martinho v, as li^oes prìncipiavam em dia de 8, Lttcoa, e acabavam em dia 
da Virgem de Settembre 



298 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE COIBIBRA 

LeitSo Ferreira (74 ao % 924), observa-se qne a abertura das aulas era 
em 18 de outubro, come^ando o anno escholastico em dia de Sam La- 
cas, no qual se recitava a Ora^ de Sapientìa; oste costume dnrou até 
ao anno de 1530^ mudando-se a abertura dos cursos para o dia de S. 
Remigio, que era no primeiro de outubro.' E o que se determina pe- 
los documentosy sem comtudo existir uma ordem formai para està mo- 
dificafSo. O lente da cathedra de prima de Theologìa, pela disposÌ9So 
do infante D. Henrique, é que era obrigado a recitar a Oraqao de Sa- 
pientìa; apparece por vezes està prerogativa exercida por lentes da fa- 
culdade de Artes especialmente. Em 18 de outubro de 1519^ o lente 
de Logica, Francisco Valentim, faz a ora9£o do come^ do estudo ; em 
1534 fez mestre André de Bezende, sem ser lente da Universidade, 
a Or€Uio prò rostris; em 1535, o lente de PkUosophia naturai, Duarte 
Gomes^ licenciado em Medicina; em 1536 recitou-a o mestre de Gram- 
matica, afamado Jeronymo Cardoso.' Attribuimos este facto ao con- 
servar-se na Universidade a tradÌ9&o da antiga preeminencia da Fa- 
culdade de Artes nas Universidades, devida à importancia numerica 
com que os alumnos artistas preponderavam nas eleijSes dos Beitores 
annuaes e dos Lentes. A grandeza dos cursos de Artes é que fez com 
que se desdobrassem fora da Universidade sob a regencia particular,' 
e viessem ainda no seculo xvi a constituir o ensino mèdio. 

O quadro das disciplinas escholares era oonstituido por grios de 
Bacharel, Licenciado e Doutor, aos quaes correspondiam varias fre- 
quencias e exames: eque os eschoUares que ouverem de recebergrào 
de bacharel em artes cursem ao menos tiez cursos a saber: hum curso 
ouvindo texto de logica e deus de philoeophia naturai, os quaes trez 
cursos se fari em trez annos ouvindo por a maior parte de cada hum 
anno, e provando os cursos per testemunhas juradas perante o scrivSo 
do studo e o Rector ou mestre que ho bade graduar. E se ho mestre 
de quem ouvir jurar que he sufficiente poderaa receber grào de bacha- 



1 Vide IfutitiUo, t. zzT, p. 259. 

< lUdem, p. 277. 

' «Por estes tempos (1505) e tambem depois eram permittidas escholas par- 
ticulares nSo sómente de Grammatica, mas de qualquer scienda, com duas con- 
di^òes : a primei^^ qae so eram permittidas no bairro da$ Enkoloi gtro/t»^ e a se- 
gnnda que fossem graduados os mestres, ou examinados e approvados pela Uni- 
versidade, OS quaes, 'ainda que n2o tinham salario algum n*ella, nem entravam 
nos conselhoB, gozavam de todos os privilegios da mesma Universidade e Ihe eram 
sujeitos e ella Ihes dava leis, etc» (Nota do reitor Figueirda is NùtìeioM ehrùno» 
logica»^ ap. Inttituto, t xnr, p. 260.) 



ESTATUTOS MANUEUNOS 299 

rei em artes posto que nom tenha acabados os cursos lendo prlmeiro 
trez ligoens disputadas, apontadas de hum dia pera ho outro. Ho que 
ouver de receber grào de bacharel em theologia fari cinco cursos do 
mestre das senten^ ouvindo per a maior parte de cada bum anno, aos 
quaes cinquo annos se ouver cadeira de brivia fari dous cursos, e nom 
poderi receber grio em theologia sem primeiro ser bacharel em artes. 
E ho canonista ouvìri outros cinque, e se ouver cadeira de decreto ou- 
virà dous cursos n'estes cinquo annos. E ho que houver de ser bacha- 
rel em medicina ouviri outros cinquo annos em medicina, corno dito 
he, e antes que tome grào em medicina sera bacharel em artes. i Ainda 
hoje OS cursos das faculdades constam de cinco annos, e o bacharelato 
em artes perdeu o titulo honorifico, ficando reduzido aos preparatorios 
elementarcB para as disciplinas superiores. 

grào de bacharel era conferido com variadas cereraonias sjm- 
bolicas, das quaes subsiste apenas o receber a boria na cabe9a. Na re- 
forma de D. Manuel o bacharelando pagava para a arca do strido urna 
dobra de ouro de banda, e outra para o escrivSo (secretano) e bedel: 
ce hum harrete com hum par de luvas ao padrinho que ihe bade dar 
o grào, e luvas ao Rector e lentes que prezentes forem ao auto; e sera 
obrigado o Rector com a universidade e ho bedel diante com sua maya 
hir pollo graduando a a sua pousada se for no bairro, e ho trarSo a as 
schollas honradamente onde lego em principio do auto farà hvla aren- 
gua e depois lerà bua liyfto e acabada a IÌ9S0 e disputa se fòr em ar- 
tes, medicina ou theologia pedirà o grào arengando, e despois d'iste se 
darSo as luvas aos sobreditos e farà juramento em as mSos do scrivSo 
e bedel. . . e assi avemos por bem que qualquer que se graduar arme 
ho goral de pannos finos por honra do auto.» * 

Os que faziam curso de licenciatura eram argumentados pelo lente 
mais antigo da faculdade, em theses publicaJas dois dias antes. ce- 
remonial do acto de licenciatura merece tomar-se conhecido: e quando 
algum se ouver de fazer licenciado, depois de ser feita a repetiySo e 
asinado ho dia do exame, loguo polla mànhS iraa o bacharel com seus 
amiguos e ho padrinho e ho scrivilo aa see e ouvirSLo missa do spirito 



1 alto bom senso do grande renovador da pedagogia na Renascen^, Fe- 
dro Bamus, protestava con tra estes usos da Universidade de Paris : «Para que 
servem estas assignatnras e séllos do reitor, do procurador, do recebedor, do prin- 
dpal? E que argumento sufficiente tém as luvas^ os barretes, os banquetes^ para 
provar a diligencia e a sufficiencia do discipnlo?» E comtudo estes symbolos fo- 
ram segrede da importancia das Universidades depois da Edade mèdia. 



300 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

santo, e acabada a missa assentar-se-ha o Cancellano e ho padrinho, 
e o Cancellano veri ho livro se estSo postos alguns sinaes e ho padri- 
nho tomaraa e abriraa em trez partes, e em urna d'ellas escolheri 
bacharel a IÌ930 que bade ler, e ho scrivSo assentarà em seu livro 
titulo e lei que bacharel bade ler, e este esento enviaraa ho scriv&o 
aos mestres oa doutores que hSo d'arguir, e entSLo se hiraa bacharel 
pera sua casa e estudaraa esse dia e outro seguinte até taxde, e nes- 
tes dois dias enviaraa a cada mestre ou doutorhuma Canada de vinho 
branco, e otUra de vermelho bom e huma gallinha, e ao Rector e ao scri- 
vSo e bedely e levarlo esto dobrado ho cancelario e padrinho. ^ Oa pon- 
tos dos artistas serSo estes, a saber: bua IÌ9SI0 no texto de logica, e 
outra no texto de phUosophia naturai. E ao medico assinarSo huma 
lÌ9ào no avicena e outra na arte. Ao legista huma IÌ9IL0 de codiguo e 
outra de digesto velho. E ao canonista bua IÌ9SI0 nas decretaes e outra 
no decreto; ho theologuo leraa duas liyòes em dous lìvros das senten- 
^08. No dia seguinte despois dos pontos aa tarde, ir2o os mestres ou 
doutores da faculdade e assi toda a universidade a casa do bacharel, 
e bedel com sua ma9a, e os mestres ou doutores em seu habito irS 
todos ordenadamente pera a see e ante elles birfto mo90s com tantas 
tochas quantas sSo necessarias, a saber: duas pera cancellario, duas 
pera padrinho, e ho Rector e mestres ou doutores da faculdade se- 



^ Tendo anterionnente observado corno a corporaQ^o nniversitaria foi mol- 
dada pelas associa^oes obreiras (p. 65), corno se ve pela identidade das dcsigna- 
9068 hierarchicas, approximamos agora as proptnas dos exames, quo pagavam os 
mestres dos officios mechanicos. Escreve Lacroix (Bibliophìle Jacob) na Hiatoirt 
dea Cordonnitra: «As despezas que tinba a supportar novo mestre craux couside- 
raveis. Por um decreto do parlamento de 1614, a cada um dos jurados do officio, 
ao mestre dos mestres, e aos seis bachareis que assistiam à confec^^ dà obra aca- 
bada desdc seu comedo até ao firn, elle devia pagar um escudo pelos seus traba- 
Ihos, salarios e vaca^oes. Aj unte-se a isto um tributo pela occupa92o da camara 
dos jurados, e o da obra acabada, que Ihes ficava pertencendo. Em Fon tolse pa- 
gava- se 20 soldos parisis ao rei, outros tantos aos jurados, 2 escudos & confraria, 
e umjantar ao» meatrea ejuradoa. Os estatutos de Saumur taxavam os novos mes- 
tres em 20 soldos tornezes para a receita ordinaria de Saumur, 20 soldos para os 
jurados, e 10 soldos para a tocha da aagragào^ que era em honra e reverenda de 
Nosso Senhor. A recep9llo custava em Amboise 3 escudos cobrados para o rei, 1 
escudo aos tres jurados que tinham presidido ao exame, e umjantar a eatea tdH' 
moa, aaaim corno aoa procuradorea da companhia. — Finalmente, na Guienne, quem 
acabava de ficar mestre, pagava 7 francos bordelezes, dos quaes metade se appli- 
cava 4s despezas das festas de Nossa Senhora e de S. Chrispim e Chrispiniano ; 
fimia além d'iaao aa deapezaa de um hanqiiete^ mas sómente para os quatro jurados 
que tinham dirigido o seu exame e approvado a sua obra acabada.» (Op. dt,, p. 135.) 



ESTATUTOS MANUEUNOS 301 

nhas tochas e ao bedel outra e a cada hum destes hama caixa de con- 
feitos. E faram de tal maneira que entrem em exame pouquo antes de 
sol posto, e entrarSo em luguar pera isso apparelhado onde ficarào so 
08 mestres ou doutores da faeuldade, Cancellano, Rector e scrivSo, e 
terSo soas mezas aparelhadas pera isso com livros e castÌ9aes com suas 
yellasy e oome^arà a ler o bacharel suas liyoens as qtiaes nom consen- 
tirlo que passem de duas horas, a saber, bua bora em cada IÌ9&0, por- 
que tenham luguar pera arguir. E acabadas as ligoens ho bacbarel 
sairaa fora da casa do exame aparelhando-se aos argumentos. E entSo 
trarlo consoada honrada e honesta pera Cancellano e os outros na 
qual se deterSo pouquo, e logo sera chamado bacbarel ho qual se 
assentaraa a par do padrinho, e cometari a arguir mais novo doutor 
ou mestre e assi per ordem; e acabado de arguir ho bacharel se iraa 
pera sua casa honradamente com seus amiguos, e entlo os mestres ou 
doutores comunicarSo <^ merecimentos do bacharel ...» Segue-se a ce- 
remonia da vota9So comò se usa ainda hoje no exame privado da Uni- 
versidade, sendo licenciado obrigado a dar «ao scrlvSo e bedel bufa 
loba de pano fino de seis covados ou dous mil reis pera ella, ho qual 
ficarà em elleigSo do graduado. » O gr^o era confondo na sé pelo can- 
cellano cpoendo-lhe barrete na cabega, estando o licenciado em gio- 
Ihos ... 9 

As ceremonias sjmbolicas do doutoramento sSo pittorescamente 
dramaticas, e merecem ser conhecidas, para que se avalie a estabili- 
dade da nossa tradigSo universitaria:* «ho dia do magisterio ou dou- 
toramento pella manhSa hirSo os doutores ou mestres e os da univer- 
sidade que ho quizerem honrar a eaza do que bade réceber grào, 
qual hirà vestido de hua roupa rogagante co seu capello vestido e sem 
barrete na cabe9a, e se for frade em seu habito, e leval-o-ha honrada- 
mente aa see onde ouvirSo missa do spirito santo, em fim da qual su- 
birSlo OS mestres ou doutores e assentar-se-hS em seus luguares orde- 
nadamente cada hu em seu habito, ho cancellano estaraa assentado em 
meo, e Rector aa mSo direita e todollos outros de bua banda e ou- 
tra per ordem, e ho que bade receber o grào ficaraa em baixo assen- 
tado em bua cadeira e diante bua mesa com seu banqual, e estarSlo 



1 E curiosa està confissSo do visconde de Yillar Maior, reitor da Universi- 
dade, na sua Expoai^ào succinta, p. 43, ao descrever os Estatutos de D. Manuel : 
« ceremontcU dPutea actoé academicoa^ apenai modificados fCalguns pontoa^ ainda 
hoje Bepratioa. . . » (1877.)— Nos Estatutos da Universidade de Salamanca, de 1538, 
tambem se descrevem os beberetes que graduando tem de dar aos ezaminado- 
res. {Menu hi$U da UniverHdade de iScdamanca, de Vidal 7 Dias, p. 78.) 



302 HISTOBIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

com elle doas bachareis ou licenceadoB e leraa huma breve IÌ9&0, e ar* 
guirà prìmeiro centra elle Kector brevemente e depois algans mes- 
tres ou doutore^ de sua faculdade e acabado esto daraa luvas a todol- 
los 08 bachareis e aos lecenceados, e doutores barretes e luvas, e aos fi- 
dalguos luvas, e assi aos officiaes de studo e ao Cancellano e padrinho 
barretes e luvas dobrado; e acabado esto bum homem honrado louvaraa 
entSo letras e costumes do graduando e em lingìuigem per pàlavras hO' 
nestas diraa alguns defectos graciosos pera folguar que nom sejam muùo 
de sentir, e n'iste scrivSo Ihe darà juramento em forma antes que 
suba a receber grào; e acabado esto louvarSo doutorando diante 
do padrinho e estando em pee no terceiro degr&o em baixo do padri- 
nho pediraa o grào per sua breve arengua e padrinho louvando as 
letras do graduando Ihe daraa ho grào* com suas insignias estando em 
giolhos ante elle a saber barrete com sua boria e anel e beijo na face, 
que assi acabado hirseh&o a comer e comerào com dles todollos dou- 
tores e mestres e toda a universidade e ho mestre em artes convidaraa 
sómente a jantar os doutores e mestres da universidade e os officiaes, 
e alem dos sobreditos guastos ho que ouver de receber grào de doutor 
ou mestre daraa pera a arqua de studo cince dobras douro de banda e 
ao scriv2lQ e bedel trez mil reis conformai^do-nos com statuto anti- 
guo que Ihe dava veste forrada.» As offertas das luvas transformaram- 
se depois da reforma pombalina em um embrulhinho com 1;$6(X) réis, 
dado a cada um dos doutores que assistia ao doutoramento, comò pro- 
pina do abraQo; ainda no nosso tempo eram obrigatorios a pitan9a ou 
almoyo do exame privado, os pratos de dece de fructa offerecidos ao 
reitor, aos arguentes das theses e oradores do capello, e jantar que 
se tomou facultativo. 

costume de increpar doutorando «em linguagem per pàlavras 
honesias de alguns defectos pera folguar, que nom syam muito de sentìri^ 
era ao que nas Universidades hespanholas se chamava Vejamen. No 
seu estudo sobre Alarcon, escreve Guerra y Orbe àcerca d'este cos- 
tume, imitado na Universidade do Mexico: e Los Vejamens habianse in- 
troducido en EspaSa à imitacion del gimnasio de Paris, sustituyendo ó 
parodiando con picantes burlas j sazonados dictos los enfadosos pane- 
gyricoB. Dabanse raras veces por un doctor; muchas por un licenciado; 
en no pocas se lucia con esa liberdad un estudiante. Su objecto fué 
amansar la vangloria del trìumfo academico, j solemnisar mas alegre- 
mente la fiesta. Lhamase Ve/amen el de los medicos e juristas, j se 
escribia en lengua castellana; pero decian gallo, actus gaUicus (acto 
francés) corno alusion de su origen, al de los teologos pronunciado com- 



ESTATUTOS ÌIANUELINOS 303 

mumente en latin.»' Na litteratnra portagueza esiste urna pega que 
serviu de Vgamen no firn do secalo xvi, escrìpta pelo licenciado Fer- 
nEo Rodrigaes Lobo Soropita, com o titulo Satyra, na data de umas 
cadeiras a um fidano de Figuevredo que era torto de um olho; e a um 
fidano Correa, judeu : 

Ah que dei-rei, que morren 
O nesso Pero dos Beis ! 
Porque yem a ensinar leis 
Um tortoles com mn judea ! 
Acuda-me o poyo men, 
Que é necessario gram peito 
Para vèr que sem respeito 
Andam jogando as pancadas 
Um judeu com leis sagradas, 
Um torto com o direito. 

Vede qne boas li^oes 
Estes dois yos podem dar ! 
Um póde cabras goardar, 
Outro, por cabras, cabr5e8. 
Quem Ihe tirara os cal^òes 
P*ra sacudir-lhe o cotSo ! 
Pois nnnca vos seryirio 
Nem de pouco nem de mnito, 
Urna figueira sem fraito, 
Urna Correia de cSo. 

judea e o zardlho 
Ambos se deram de pé ; 
Porque um manqneja da fé, 
Outro manqneja de um olho. 
Quem OS puzera n^um mólho, 
Como o bom Sylva deseja, 
Para que n'elles se veja 
Cumprìda a lettra perfeita : 
Tarde o torto se endireita, 
Cfuardar do cào que manqueja. 



Certo é para sentir, 
MeuB senhores estadantes, 



F 

^ Don Juan Buiz de Alarcon^ p. 132. Madrid, 1871. — Ao contrario do Vefa- 
men existia o Victor na Uniyersidade de Salamanca, que era urna manifestammo de 
homenagem que se fazia à porta do graduado. 



304 HISTORIÀ DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

Ver lentes a dois bragantes 
Que muito s2o para rir ! 
Que dSo se sabem vestir, 
E vem n*e8ta occasiao 
Por alta ordena92o 
A lér nas nossas Gkraes 
Dois cerrados animaes, 
Um por burro, outro por cSo. ^ 

Transcrevemos apenas estas estrophes para ee conhecer a indole 
do Vyamen, que com o tempo decaiu na troga dos grdos aos ccdouros. 

Na vida de Ignacìo de Loyola, por Gonzales, cita-se a cerimonia 
grotesca a que se expunham os escholares quando se-preparavam para 
o exame de bacharel. Quicherat allude a ella^ sem comtudo conhecer 
que era commum às Universidadee de Paris, Hespanha e Portugal. 
Transcrevemos as palavras de Quicherat: «Està prova era precedida 
de uma cerimonia que se chamava la prue de la pierre. Procuràmos 
debalde em que é que consistia. Era sem duvida alguma divertimento 
pago pelo candidato aos seus condiscipulos. Era certo que, para pren- 
dre la pierre, se pagava um escudo de oiro, e que Ignacio hesitou longo 
tempo antes de se submetter a isso. Deu parte dos seus escrupulos a 
meetre JoSo Penna, que o persuadiu a conformar-se com o costume. 
Elle tomou entào SLpedra, e foi censurado por aquelles que espiavam 
continuamente os s'eus actos. Provavelmente teria side tambem censu- 
rado se se recusasse a proceder comò os outros.»^ Evidentemente a 
prise de la pierre era a parodia de um symbolo da antiga p^ialidade me- 
dieval, em que desappareceu o objecto, ficando a men9So do acto. Por- 
ter la pierre, era o castigo que se dava aos altercadores; e nas prati- 
cas universitarias o bacharel dava as suas provas mostrando que era 
insigne em sustentar uma determinada opiniSo. Importa avivar a pe- 
nalidade symbolica da prise de la pierre, porque pelas fórmas da legis- 
la92o consuetudinaria se comprehenderà comò a pedra (a que allude 
a nossa I0CU9S0 popular pedra de escandalo) se mudou noa Vgamens 
das Universidades em um camei/ro^ levado às costas pelo bacharel. 
cSe duas mulheres altercarem até se espancarem, injuriando-se ao 
mesmo tempo, ellas levarSo por teda a cidade e pela rua principal duas 



1 PoutCLs e ProscUj p. 95 a 99. 
' HUioire du Collège de Sainte Barbe, 1 1, p. 197. 

3 No celtico Kam, pedra, ara no cimo das montanhas, onde sacrificava o 
Eaimeach ou druida. (Belloguet, GloMaire gauLciè, p. 289.) 



ESTATUTOS MANUEUNOS 305 

jpedras prezas por cadèas...»^ «Se acontecer que urna mulher sem 
consequencia diga a urna donzella palavras offensivas da sua honra^ 
prender-se-lhe-ha ao pescogo duas pedras para Ì8to destinadas^ e os offi- 
ciaes de justiya a levarSo publicamente pela cidade, e tocarUo trom- 
beta adiante e atraz para a apuparem e chacotearem.» ' Transcreve- 
mos as palavras da legÌ8la9So symbolica antiga, para se comprehender 
o valor da phrase «jpn'^e de la pierrei^: «La femme que dirà vilonie à 
autre, si comme de putage, payera, ou elle porgerà lapierre, toute nue 
an chemise^ à la procission . . . » ' Na Universidade de Paris conservou- 
ee a tradi(So da pedra symbolica; nas Universidades de Hespanha o 
ActiM gallicus, chamado assim em rasSLo da sua proveniencia, recebeu 
o nome de Vyartien, pela inten$So moral; porém na Universidade de 
^Lisboa invectivava-se o graduado por defecios graciosos, vindo com a 
mudanga para Coimbra a revivescer a cerimonia segundo o costume 
de outras Universidades, levando o graduado um cameiro às costas.* 

Pela reforma de D. Manuel vè-se que nem todos os lentes eram 
graduados em doutores, e beneficiava-os nas despezas caso se douto- 
rassem. «E asi mandamos que os lentes de prima se fa^m doutores 
ou mestres dentro de hu anno, do tempS que ouverem a cathedra, e 
OS que agora sam de prima se fa9am dentro em bum anno.)» 

NoB Estatutos manuelinos acham-se prohibÌ9SeB, pelas quaes se 
caracterisam os oostumes escholares no seculo xvi, taes comò o dos 
estudantes espadachins e as focarias: «Mandamos que nenhum Escol- 
lar entro nas Eschollas com armas offencivas nem defencivas, e o que 
o contrario fezer, perca as armas, etcì» E em novo articulado: «Item. 



1 Jacob Grimm, Poeéie im Becht^ p. 721; Jura Tremonensia; apud Miche- 
let, Origine» du Droii fran^ais^ cap. zìi. 

2 Droit de Hambourg, 1497. Grimm, op. cit., p. 720. 

' Documento de 1247 ; Ducange, Gloaa, Apud Michelet, ibid. — As vestes ta- 
lares dos doutores sSo, em um proverbio, equiparadas a saias, «muitas fraldas e 
pouca sciencia.» (Vide p. 31.) D*aqai tambem a rela^So da parodia com o symbolo 
penai. 

4 Quando a Universidade se mudou para Coimbra, o costume do Vexamt con- 
servou-se com tal auctoridade que até os proprìos Jesuitas recem-chegados de Pa- 
ris se submettiam a elle. Le- se na Chronica da Companhia, do P. Balthazar Tel- 
les, cap. zzii : «Doutorado o P.* Melchior Barrato, ordenou-lhe o P.* SimSo Rodri- 
gues que fosse levar às costas um cameiro erfolado a D. Marcos Romeo, cathc- 
dratico de Theologia e Mestre do Infante D. Duarte, sen padrìnho no grào. ca- 
thedratico ficou admirado com o caso, e o novo doutor disse-Ihe: «Este he,senhor 
Doutor, o Vexajne que, depois do meu doutoramento, me d& a Companhia de Jesu, 
a fim de me graduar no espirito da mortifica^am e desprezo do mundo.» 

mST. fou 20 



306 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COUfBRA 

Mandamos, quo os Eschollares nfto tenham em sua caza molher su- 
speita continuadamente, sob pena de mil reis para a arca do Estudo, e 
a metade para quem o accuzar, nem terS caens, nem aves de ca$ar. 
E andem honestamente vestidos e calgadoB, a saber, nSo tragSo pelo- 
tes, nem capuzes, nem barretes^ nem giboens yermelhos^ nem ama- 
rellos, nem verdegai^ nem cintos laurados d'ouro sob pena de perde- 
rem os ditos vestidos^ eto Eram estes os costumes abusivos que mais 
exaltavam os escholares de Paris. 

tjpo do estudante espadacbimi prevalecendo sobre a antiga 
physionomia clerica! do escholar, e que se acha implicito na gradua- 
9S0 universitaria do Bachdeor (bas chevalier), teve sob Luiz xi na 
Universidade de Paris o seu pieno desenvolvimento, quando este mo- 
narcha, insti tuindo uma especie de guarda nacional^ quiz que corpo, 
docente usasse tambem armas. cFormou-se no scio das escholas uma 
classe de professores valentSes e espadachins, que argumentavam pu- 
xando pelos cópos; e ainda mais, os discipulos das dasses superiores 
auctorisavam-se com esemplo para trazerem debaixo da capa a es- 
pada curta,\) bacamarte, que Rabelais nSo deixou de pendurar ao lado 
de Pantagruel; e està abomtnafSo nunca a Universidade conseguiu ex- 
tinguil-a, mesmo quando sob os reinados ulteriores reconquistou o seu 
privilegio de clericatura.»^ Nas Universidades allemSs prevaleceu este 
typo do estudante espadachim e duellista; na peninsula hispanica houve 
no seculo xvi a monomania da valentia, que dominou da nobreza até 
aos guapos e temerones populares, e em que estudante occupava na- 
turalmente uma POSÌ9IL0 intermedia. 

Apesar de se crearem as Universidades corno a preponderancia 
do ensino leigo centra a educa9So das CoUegiadas, esses centros de re- 
novayHo pedagogica nunca perderam completamente caracter de de- 
ricatura; e apesar de, na lucta das doutrìnas dos Jurisconsultos cen- 
tra arbitrio dos barSes feudaes, prevalecer aphorismo : Cedant arma 
togae, os homens doutrinarios nSo deixaram de imitar na sua hierar- 
chia o espirito de classe da aristocracia militar, comò nos Condes pa- 
latinos. Estas antinomias eram resultantes da inconsciente dissolu9So 
do regimen catholico-feudal, que se estava operando. 

A festa dos Reis Magos era um dos divertimentos escholares mais 
favoritos do firn da Edade mèdia; as Universidades, filhas da protec- 
9210 real, nSo podiam deixar, n'essa fórma de divertimento, de protes- 



1 Quicherat, Histaire du Collège de SatìUe-Barbe, 1. 1, p. 25. 



ESTATUTOS MANUELINOS 307 

tar contra a absorpySo clerica! do ensino. No latim das escholas cha- 
mava-se a està festa, regalia. Escreve Qaicherat sobre este costume: 
«N'este dia as portas dos coliegios ficavam abertas, e os escholares, 
livrea de teda a vigilanoia, saiain cobertos de andrajos e com o fato 
do aveeso, oa com qaalquer outro arranjo rìdiculo. lam a um legar 
formar uma grande assemblèa, aonde se ajantava a elles toda a moci- 
dade dos conventos, das sacristias e das officinas da cidade. Ali no- 
meava-se por acclama9So o roi dea sota.i^ * Até aqui o costume geral a 
todas as Universidades; em Paris, em 1469, este congresso do voi dea 
soia causou um motim sangrento, ficando essa cerimonia extincta, em 
rela^So &s arruayas, mas transformada na sua fórma: cOs costumes se- 
culares, continua Quicherat, nSo se extinguem de boje para àmanhS. 
Por uma tran8ac9Sk>, para a qual se fez vista grossa, as regalia perpe- 
tuaram-se no inteiior dos Coliegios. Cada um teve o seu rei, nSo jà 
dea aota, mas dafava, celebrando-se a eleÌ9&> d'este monarcha de um 
dia com repre3enta93es de far9as, que davam pretexto a decentes ca- 
racterisagSes.»' Em uma carta règia de 4 de julho de 1541, em que 
8e prohibem as Soigaa dispendiosas que os estudantes faziam, vè-se que 
este costume francez (dea aota) era jà antigo na Universidade. 

Pelos Estatutos manuelinos foi regularisado na Universidade de 
Lisboa costume que tinham os lentes de se ausentarem das cadeiras, 
confiando a regencia a um alumno, e recebendo o salario na ociosidade. 
Este costume era corrente nas Universidades, comò vèmos pelas cen- 
«uras que faz Fedro Ramus ao que se passava na Universidade de Pa- 
ris. A approximaQSo dos factos esclarece-os. Eis o que estabelecem os 
Estatutos manuelinos: cE se por ventura o Lente prezente nSo poder 
lér por doen9a: Mandamos, que elle possa pdr bum substituto aa sua 
Cadeira — ad vota audientium, — o qual primeiro sera apresentado ao 
Conselbo, e o dito Lente neste cazo de doen9a, contentarda o avhatituto, 
e mais da renda ficarà para elle; etc.» Compayré, referìndo o facto 
consignado por Fedro Ramus na Universidade de Paris, mostra a ex- 
tensSo do abuso: cNas faculdades superiores, direito, medicina, theo- 
logia, Ramus accentua abusos mais graves ainda. Os mestres tinham 
quasi completamente supprimido o ensino, nenhumas lÌ93es davam, e 
descan9avam no trabalho particular dos discipulos, ou, quando muito, 
de obscuros mestres em artes, que, por algumas moedas de paga, en- 



1 Hisioire du CoUkge de SaitUe-Barbe, 1. 1, p. 23. 

2 Ibidem, 



20« 



308 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

sinavam em logar d'elles. Contentavam-se de assistir de longe em longe 
ao8 actoB publicos, aos exames.» ^ Ramus^ condemnando està burla dos 
doutoree^ resultante do formuliamo immovel dos textos pelos quaes se 
ensinava, chega & conclusSo superior de qué a melhor parte do ensino 
està implicita na palavra do mostre: e A viva voz de um douto e sa- 
bio professor iQstrue e ensina muito mais commodamente o discipulo, 
do que a leitura muda de um auctor^ por grande que elle seja.»' 

A fórma das substituifSes conhecida pelos Estatutos manuelinos 
ad vota audientiumj e por indicaySo do lente proprietario, é que nos 
explica o encontrar-se na vida de Sa de Miranda, por D. Ghonyalo Cou- 
tinhoy a referencia a ter regido varias cadetras de Leis na Universidade 
de Lisboa. E certo que em 1516 jA apparece o seu nome, Dr. Fran- 
cisco de Sa, eìtsdo com a honra do grdo academico no Cancioneiro gè- 
Tal, de Gharcia de Resende; é portante depois d'està* data e antes da sua 
viagem à Italia (1521 a 1527) que o grande renovador da poesia portu- 
gueza occupou uma cadeira na Universidade €8Ómente por subatituigào^ ^ 
comò referem alguns manuscriptos genealogicos. ' Porque nSo ficarìa 
Sa de Miranda no magisterio da Universidade? A sua grande cultura 
humanista, completada pela viagem & Italia, separara-o do scholasti- 
cismo que durante o reinado de D. Manuel prevaleceu na Universidade 
de Lisboa. O erudito, que lia Homero no testo originai e o commen- 
tava, que conferenciara com Ruscellai e Lactancio Tolomei, nSo podia 
escravisar-se ao formulismo medieval, que o fez abandonar a carreira 
da Universidade, da mesma fórma que nSo pdde entender-se com a 
reac$So catholica, deixando o conflicto da cdrte, onde era estimado, 
pelo remanso contemplativo da vida de provincia. Podemos considerar 
o nome de Sa de Miranda, na tradiySo da Universidade de Lisboa, 
corno um protesto do espirito da Renascen^a centra a retina scholasti- 
ca, que veiu a ser combatida quando o proprio D. JoSo 'm convidava 
Erasmo para a sua projectada reforma pedagogica. 

Em 1516, por carta de 11 de Janeiro, o rei D. Manuel participa 



1 Htstoire eritique dea Doctrinea de VEducalion en Franee, 1. 1, p. 141. 

' É digno de coxiBÌderar-se que RamtiB, precedendo Comte na importaiicia 
pedago^ca das Mathematicas, «tsans leaqueUtB touit Vautre philosophie est aveugle» 
tambem aqui se encontra com o principio formulado na SyrUheae mbjeciiva^ sobre 
a necfiBsidade de urna elaborando pessoal subordinada às li^oes oraea antes de io- 
das as leituras theoricas. (Op. cit., p. vu.) 

3 CuTBo de HUtoria da Litteratura portugueta^ p. 280. D. Carolina MicbacIiB» 
Poetùu de Sa de Miranda, p. vin. 



ESTATUTOS HANUELINOS 309 

à Universidade que yae mandar vir de Fran9a o Dr. Diogo de Gouvéa 
para ser oppositor & cadeira de vespera de Theolo^a. Diogo de G-ou- 
yéa apparece na hìstoria com urna singular reputa9Zo e importancia, 
formando parte da commiasSo de censura para o esame do texto grega 
dos Evangelhos impresso pelo grande hellenista Robert Etienne. Pelo 
seu tino e maneiras distinctas^ era o Dr. Diogo de G-ouvéa um corno 
encarregado de negocios do rei de Portagal na c6rte de Franca; a sua 
chamada a Lisboa obedecia a uma necessidade de reformas na instruc- 
fftO; e a yinda do sabio pedagogo ao plano que concebera de concen- 
trar OS Estudantes de El-Rei, que frequentavam os estudos de Paris, 
em um collegio especial. Diogo de Gouvèa, por este motivo, nSo accei- 
tou a cathedra de vespera de Theologia^ sendo previde n'ella em 1517 
Mestre Jofto Francez, que se doutorou em S. Vicente em 1521.^ D. 
Manuel, obedecendo à influencia franceza, tratou de fundar o Collegio 
de Som Thomaz, no mosteiro de S. Domingos, para quatorze coUegiaeii^ 
da ordem dominicana e seis da hieronymitana, abrindo-se os eatudos 
em 28 de Janeiro de 1517. Ainda no reinado de D. Manuel, Diogo de 
Gouvéa procurou comprar a propriedade do Collegio de Santa Barbara 
a Robert Dugast; Quicherat allude a este facto: cMas comprar Santa 
Barbara apresentava difficuldades insuperaveis. Robert Dugast, de pro- 
prietario dos edificio^ e terrenos, que primeiramente era, tomou-se pro- 
prietario do estabelecimento, e nSo queria ceder a posse por dinheiro 
algum. Diogo de Gouvèa so conseguiu ser arrendatario, e pelos liti- 
gios que surgiram pouco depois é que se conheceu com quem tratava: 
tèndo entrado na posse em 1520, foi citado e condemnado no Chate- 
let, em fevereiro de 1523, por um atrazo no pagamento de sua renda.» 
Este atrazo deve attribuir-se à circumstancia do fallecimento de D. Ma- 
nuel, em 1521, e à suspensSlo do subsidio ou bolsas que dava o rei, e 
que o seu successor manteve em numero de cinquenta e duas. 

Entro OS planos de reforma de instruc9&o publica, e talvez pelo 
influxo de Diogo de Gouvèa, pretendia D. Manuel erigir uma nova 



1 Escreve Sempere, na Hiètoria del DerexAo eapanol: «No anno de 1508 a 
fama dos philosophos e theologos nominalistas de Paris tinha-se espalhado tanto 
que a Universidade de Salamanca, para que Ihe nSo faltasse nada do que as ou- 
tras poBsuiam, mandou certoB commissarioB à capital de Franca para qne, com 
grandes salarioB, troiuessem ob mais doutoB d^essa eschola, e assim vieram os 
mais famoBos, os quaes estabeleceram a cathedra de Durando^ e quatfo de Logica 
e PhiloBophia, dois dos nominalùlas e dois dos cbamados realisUu, pelo modo e 
fórma que se usava em Paris.» (P. 336.) 



310 mSTORIA DA UNIYERSroADE DE GOIMBRA 

Universidade em Evora, em 1520: cnSo contente com a Universidade 
de Lisboa, comprou na cidade de Evora, junto ao Moinho de Vento^ 
nm ch£o que era do Coudel-Mór FranciBCO da Silveira e de Bua ma- 
Iher D. Margarida de Noronha, para n'elle fazer o Estudo que orde- 
nava. Foi iato no anno do Senhor de 1520; e pode ser que està fosse 
a causa de escolher el-rei D. Henrique, seu filho, està mesma cidade 
para assento da Universidade, que ali fnndou com tanta grandeza corno 
hoje yèmos.9 ^ Pelo menos, em 1535 a cidade de Evora representaya 
a D. JoSlo m a conveniencia de mudar-se para ali a Universidade de 
Lisboa, que Coimbra tambem ambicionava, desde os projectos de D. 
Afifonso V. 

A època em que D. Manuel fundou o CoUegio de 8..Thomaz coin- 
cide com as bases consignadas no Heptadogma, de Robert Qoulet, para 
estabelecimento de qualquer Collegio nas capitaes europSas. Em pri- 
meiro legar recommendava o typo francez, coino o dos CoUegios de Na- 
varrà, Montaigu ou* de Santa Barbara. As relaySes de D. Manuel com 
Dr. Diego de Gouvéa facilitavam a implantaffto do systema francez, 
que so veiu a realisar-se em 1547 por D. JoSo in. Devia ser dirigido 
por um PrinctpoZ, de um saber geral, porém melhor grammatico do 
que orador e logico, a cuja escolha ficariam os regentes, com estabili- 
dade e pouco affectos ao lucro. A mesa do collegio devia lér-se a Bi- 
hlia e a Legenda Sanctorum, para o espirìto se alimentar juntamente 
com corpo, e ali applicar os castigos corporaes para escarmento de 
todos OS alumnos. NSo se admitte a leitura dos Poetas, nem o proprio 
Catfto ou Sulpicia, sem que saibam bem o Donato e Dominus quaepars, 
passando depois ao Dovtrinal de Alexandre Villa Dei; para os mais 
velhos deve adoptar-se Perrotus, Augustinus Datus, Sulpicio e Des- 
pauterio. As leituras devem restrìngir-se, em a poesia a Virgilio, para 
a oratoria a Cicero. Da Grammatica passava-se para a Dialectica e 
Rhetorica; seguia-se Arìstoteles na Logica, pelas Summvlas de Pedro 
Hispano, com os commentarios que Ihe fez Jorge Bruxellense, ou os 
de Lefòvre d'Étaples, ou principalmente os que entXo professava o es- 
cossez John Mair no collegio de Montaigu. A Logica devia ser dada 
nas escholas menores até aos livros das Perìhermeneias; todos os dias 
se deve exercer a argumentaffto, em repeti93es, sabbatinas e conclu- 
sSes. ' Tal era o typo francez de um Collegio, emquanto à sua parte 
doutrinarìa, antes de 1518. Ainda ali se dava o Doutrinal de Alexan- 



1 Brandio, Monarchia lusitana, P. v, liy. 11, cap. 73. 

> Apud Quicherat, Eiataire du Colàge de Sainte-Barbe, t. x, p. 825 a 881. 



ESTATUTOS IIANUELINOS 311 

dre^ quando jà os hamanistas àllemSles e italianos Ihe chamavam com 
desdem Alexandri glossa cacahUis, e outros epithetos nUo menos lim- 
po8. Em Logica imperavam as Summidas de Fedro Hispano, susten- 
taculo da tradigSo da Edade mèdia, contra todas as tentativas de re- 
novafSo philosophica. Os CoUegios preparavam para a Universidade 
de Paris, e nSlo podiam adiantar-lhe o passo; so depois que a nova 
corrente humanista penetrou na Universidade, reconciIiando*se os len- 
tes em 1521 com o critico JoSo Luiz Vives, é que nos Collegios se 
tenl^ modificar os methodos de ensino da Edade mèdia. No Collegio 
de Navarra tomou essa iniciativa reformaclora Lefèvre d'Étaples; no 
Collegio de Montaigu, John Mair desertava um ponce do nominalismo 
francez, professando as doutrinas de Dons Scot, e tornando-se pela 
sua extrema subtileza um quasi chefe da philosophia. Como se ve pela 
descrip9lo do Heptadogma, eram d'Étaples e Mair os commentadores 
recommendados que se deviam ajuntar &s Summidas de Fedro Hispano. 
Mair caiu no descredito pelas facecias de Rabelais, que o catalogava 
na Livraria grotesca de Sam Victor, Majoris, De modo faciendi bon- 
dinosj e d'Étaples jà nSo quebrava lan9as por Fedro Hispano, cujo re- 
sumé do Organum de Aristoteles se aprendia de cor no comeyo dos 
cursos de Artes. Foi entSo que entro os estudantes hespanhoes se le- 
vantou um enthusiasmo desvairado para salvarem a honra do compa- 
triota Fedro Hispano, ezaggerando-se o furor dialectico e o requinte 
das distinc9Ses casuisticas. Tomaram-se regorgitantes os cursos philo- 
sophicos de Joào Celaya, cavalleiro de Valencia, especie de Quixote 
scholastico, que a si se dava o epitheto de Doctor resolutissimus, e que, 
seguindo os vdos de John Mair, fundia o scotismo com o thomismo, 
com a mais audaciosa improvisa9So, e sob as suggestSes de Ockham. 
Os Collegios disputavam a regencia de JoSo Celaya, e para satisfazer 
OS porcionistas hespanhoes, o Collegio de Santa Barbara conseguiu 
attrahir o novo chefe de eschola, que ali regeu dois cursos philosophi- 
cos durante sete annos. Insistimos sobre oste ponto, porque o Collegio 
de Santa Barbara era entlo frequentado por estudantes portuguezes, e 
Jo£o Celaya escolheu para fazer um desdobramento do seu curso a 
portuguez JoSo Ribeiro. Os discipulos do valenciano disting^iam-se pela 
admira92o hyperbolica pelas doutrinas a que chamaram o Cdcdsmo, e 
defenderam desesperadamente o mostre contra as criticas acerbas do 
professor allemSLo Waim, que o caracterisava comò charlatSo. Quiche- 
rat, expondo oste episodio da doutrina celaica, escreve alg^mas linhas 
àcerca de JoSo Ribeiro, que vamos encontrar capellSo de el-rei em Lis- 
boa, levando por opposÌ9So a cadeira de Logica na Universidade em 20 



312 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

de fevereiro de 1527^ e desistindo depois em 1530, sendo a regencia 
d'ella provida por encommenda no Dr. Fedro Nunes.^ JoSo Ribeiro, corno 
todos OS estudantes que se gradaavam em theologia, regia, corno o pro- 
prio Celaya, a cathedra de Philosophia. Aproveitemos a noticia de 
Qaicherat àcerca de JoSo Ribeiro: cEUe oome90u por se entregar ao 
commercio. Arrainado em uma viagem que fez & Abjssinia, pensou^ao 
repatriar-se em congrassar-se com as letras, de que tinba uma incom- 
pleta cultura. Era no tempo do rei D. Manuel. Seguiu as liySes em 
Coqueret, assistindo às estreias brilhantes de Celaya n'este colico, 
ligando se desde entào ao professor valenciano, que foi para elle comò 
um idolo. Tendo repetido as suas IÌ9oes de Dialectica em Beauvais, 
veiu metter-se em Santa Barbara, quando Celaya ali fixou domicilio, 
para melhor se impregnar da sua doutrina sobre a metaphysica. As 
suas mSos foi confiado. o facho do celaismo, depois da retirada do mos- 
tre para o seu paiz. Ribeiro conservou-o firme durante os primeiros 
annos do principalato de Diego de Gouvèa, sendo auxiliado n'este cui- 
dado piedoso por um professor champanhez chamado Joào Papillon, 
que fora seu criado, e que morreu vinte annos depois grUo -mostre do 
collegio de Navarra, De JoSo Ribeiro resta-nos uma carta curiosa, que 
elle escreveu em 1517 a seu irmSo Gon9alo Dias, camarista do pa90, 
para o converter à philosophia, e attrahil-o para junto de si n'este col- 
legio, onde elle tinha encontrado a felicidade.»' 



1 Notas de Fig^eiroa às Nótìdcis chronologicas. {InstUutOy t. xit.) 

> HUtoire du Collie de ScùtUe-Barbt, 1. 1, p. 138. Trauscrevemos em seguida 

a alludida carta, cujo originai latino se acha no firn da ezposifSo de Celaja sobre 

a Physica, e reproduzida por Quicherat (ibid., p. 336): 

Carta de Joào Ribeiro a 9eu irmào Gongolo Dias 

« Joao BibeirOy naturai de Lisboa, sauda a seu irm&o Gonzalo Dias, man- 
cebo de boa indole, e mo^o da camara do felicissimo rei dolB Luzitanos. 

«ZenSo, a principio um simples negociante, e mais tarde chefe da eachola 
dos estoicos, quando navegava da Phenicia, na^ào a mais commercial, para Atbe- 
nas, afirontou um naufragio tSo borrivel, que, perdidos todos os seus cabedaes, 
teve de refìigiar-se semi-nù no porto mais prozimo. Immediatamente virado para 
as letras, na espectativa de carìciosa fortuna, fez-se em Athenas discipulo de 
Crates, philosopho jà insigne n*aqaella edade; ahi, comò em breve saboreasse 
OS beneficios da philosophia, frequentemente costumava declarar que elle nunca 
tinha navegado com tao prospero sdpro dos ventos comò n'aquella mesma yiagem, 
pela qual tomara parte, n&o no lucro de um commercio contingente, mas no com- 
plemento daa boas disciplinas. 

«Eu, carissimo irm2o, quando revolvo na mente os meus destinos, parece*me 
ter-me succedido o mesmo que aconteceu a ZenSo; porque, tentando em algum 



ESTATUTOS MANUELINOS 313 

Quem fo88e este JoSo Ribeiro, tSo apaixonado pelo Cdaismo, o 
altimo lampejo da Philosophia scholastica em Paris, so poderemos co- 
nhecel-o por algamas referencias dos livros de linhagens; com este 
nome apparece-nos uin fidalgo da casa rea! e commendador da ordem 
de Christo, aendo-lhe concedido brazSo em 1530. Era seu pae^ Gon- 
9alo Bìbeiroy senlior de Aguiar de Neiva e Conio de CarvoeirO; no al- 



ftempo caminho de urna vida vulgar, levado pela esperanQa insensata do lucrOy 
embarquei prìmeiramente para a Ethiopia. D^aqni, enfastiado da vida commer- 
cial, visto que a fortuna com pouca felicidade me favorecia, passei para a Fran9a; 
TÌndo depois para Paris, para me reconciliar com as letras, das quaes me havia 
divorciado, coube-me nm preceptor tal, comò nem o proprio ZenSo, nem ea mesmo 
nunca mais tive. Pelo qae, comò o sabio, posso na verdade affirmar nunca ter na- 
vegado com tio felizes yentos comò n*aquella viagem para a Ethiopia, na qual 
julgando eu que a fortuna se revoltava centra mim com um rancor de madrasta, 
comecei a experimentar-lhe a benignidade de mae ; nem cousa algoma me podia 
prodnzir tanto ouro ethiopico quanto me adveiu d*aquelle precal^o, por cujo mo- 
tivo tudo se transformou para mim em vantagem, com o auzilio, segundo creio, 
da clemenda celeste. Portante eu costumo ser grato k minha fortuna, tanto mais 
que (Avi que tu, retirado do convivio intimo do nosso serenissimo rei, a quem eras 
dedicado por obediencia, estavas j& inclinado às nossas Artes. A suprema provi- 
dencia quiz dispór tudo de sorte que nós ambos, a quem lun mutuo afFecto e um 
ardor fraterno ligou fortemente, fossemos levados com a mesma oppress2o de es- 
pirito para o mesmo horoscopo : pois que tu, arrancado do scio da córte para o 
meio das ondas, e eu, corno tu, navegando pelo profundo e tormentoso oceano, an- 
coràmos no mesmo porto da tranquillidade. 

«Porém apenas nos devemos congratnlar por uma tal fortuna tua tanto quanto 
devemos lamentar que em melhor occasiSo nào tivesses vìndo a Paris no tempo 
conveniente, de fórma que eu te visse discipulo do meu illustradìssimo preceptor, 
cujo merecimento e valor debalde, segundo creio, eu demonstraria, quando jà em 
teda a Europa n2o ha pessoa alguma, que se dedique ao estudo das Artes libe- 
raes, a quem nSp tenha chegado a fama do nome de Cdaya. Houve multa gente 
— ò que é importante para a presente narra^So — que por differentes processos, no 
intuito de ajudar as nossas Artes, escreveu multo e com erudÌ9£o, mas quem as 
tenha illustrado com tanto fulgor e lucidez comò Cdaya (seja-me licito dizel-o) 
ninguem. É jà bastantemente sabido que nenhuns escrìptos sSo hoje tSo vulgari- 
sados entro os estudantes parìsienses comò os seus; nenhumas doutrinas theori- 
cas siU) hoje reeebidas com mùor applauso e com maior acolhimento. Sempre que 
o acompanhei em publico, vi fizados n*elle os olhos da multidào circumfiisa, apon- 
tando-o uns aos outros, de sorte que se julgarìa ver n'aquelle homem mortai algo 
de immortai, elevado sobre o fastigio da humanidade : por estes successos da sua 
gloria crescente vé-se bem que em breve succederà que teda a turba de Artistas, 
repudiados os escrìptos dos outros, imitarà sómente a doutrìna de Cdaya, digna, 
digo eu (nio tomeis iste a mal), de ser preferida a todas as outras, e a qual sera 
adoptada em todas as escholas. Porque, além de todas as partes da Dialectica, 



314 HISTORU DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

moxarifado de Fonte de Lima; em um documento judiciario de 1552 
falla-se em seu filho JoSLo Ribeiro, €jmmo co-irmSo de Bemardim Ri- 
heiro, Jidalgo principal, conheddo pdos seus versos intìtulados Menika 
E M09A.» Emquanto primo se apaixonava pela formosa Aonia| e es- 
crevia a inimitavel pastoral das Saudades, ^ JoSo Ribeiro empregava 
todos OS recursos da sua imagina98o e enthnsiasmo para attrahir sen 



qua elle tratou com admiravel clareza em nove volumes, ezistem mais os livros de 
sciencias pliysicas e outros volomes de philosophia, pelos quaes elle tAo sabia 
quanto felizmente disBertoa, de maneira qne nao so mereceu o lonvor doB prìnci- 
paes escriptores, mas nem deizou legar ao louvor dos vindooros. Quando come90 
a analysiar este successo, o mais auspicioso que se pode descrever, espero na ver- 
dade que succederà que elle n&o tenha chegado ao Bm dos seus trabalhos sem que 
nos deize aplanadas todas as difficuldadea de toda a Philosophia moral e descober- 
tos todos OS segredos da Theologia, tanto quanto alguem se tenha j4 alrevido a 
esperar do mais eloquente dos homens. 

«Mas ve tu, rogo-t'o, quam mìsera é a condi^ào d'aquelles que nSo sabem 
mais do que corromper os louvores alheios : homens mediocres e mesquinhos comò 
se acham jazendo na obscuridade nSo supportam vèr os outros na luz ; nem para 
elles ha cousa alguma mais obnozia e mais invisivel do que a propria virtuie e a 
sciencia, a qual, por isso que mais refulge em Celaya, mais acremente é perse- 
guida pelo aguilhSo da inveja. Este furor de despeito mostra daramente o valor 
de um homem tal, visto que a inveja nSo se prende com os humildes e com os in- 
significantes, mas, comò o fogo, procura os mais elevados, os que estSo mais alto. 

«Todavia, pelo que respeita aos teus estudos, eu nunca pedi com tanta ve- 
hemencia cousa alguma ao Todo Poderoso corno a tua vinda para este celeberrimo 
emporio de disciplinas, onde em breve realisarias as tuas aspira^es. Na verdade, 
j& que nSo se effectuou o que desejavas, aprende com atten^fto que s6 o talento 
de Cdaya pode dar-te. * 

«£u aconselho-te a que acceites com ambas as m£o6 està oocasiSo, agora mi- 
raculosamente offerecida para o teu desenvolvimento, necessario porque todo 
corpo de sciencias physicas, a principio concebido de um modo rude e inculto, 
orna- se hoje com incremento das mirificas doutrinas, que os primeiros creado- 
res da Philosophia nSo quizeram indagar nem poderam ezplorar n'esse mesmo 
preambulo da sciencia incipiente. 

«Por todos OS modos, meu bom Grondalo, e com os meus rogos, supplico-te, e, 
em nome d*esta auctoridade qne liga dois irmSos, ezorto-te a qne te desenvolvas 
n*este determinado estudo tanto quanto poderes. Podes quanto quizeres, porque 
ainda devemos & natureza està gra^a, nfto querer que cousa alguma seja impos- 
sivel ao grande e8for90. Adeus. Paris.» (Devemos està traduc^flo ao nosso disci- 
pulo o sr. Anselmo Yieira.) 

1 Manuel da Silva liascarenhas, fidalgo govemador da fbrtalesa do Out2o, 
na edifio que fez da ifentna e Mo^^ di-se por «parente do Autor, que eTa|>rtmo 
co-irm&o de meu av6.» Isto confinna a referenda do processo judiciario a que allu- 
dimoB. 



ESTATUTOS MANUEUNOS 315 

irmSo Gonjalo a frequentar as escholas de Paris corno discipulo de 
Celaya e a vir sustentar a Philosophia escholastìca, que succumbia aos 
prìmeiros golpes dos humanistas da RenaBcenfa. 

Por este mesmo tempo frequentava a Universidade de Paris en- 
tro portuguezy o mathematico D. Francisco de Hello (1514-1517), ^ e 
Francisco Martins da Costa doutorava-se em direito na mesma UniTer- 
sidade. A època nSo era boa para a influencia franceza; ainda Pedro 
Bamus e JoSo Luiz Vives nfto tinham atacado o seu velho scholasti- 
cismOy nem Bude tentara a fundaySo do Collegio de Fran9a. £ por 
isso que a Universidade de Lisboa^ sob todo o reinado de D. Manuel 
(1499 a 1521)| permaneceu esteril, sem lentes celebres,^ nem acgSo 
sobre o paiz, porque qs estudantes portuguezes iam de preferencia dou- 
torar-se a Salamanca. As grandes reformas sob D. JoSLo in foram mo- 
tivadas pela transformajSo dos estudos francezes^ e até certo ponto pela 
ac9So directa deVives, que luctara no come9o dos seus estudos pelos 
meihodos medievaes. 

A funda9SLo da cadeira de Astronomia^ por D. Manuel, obedecia 
mais & credulidade do monarcha pela Astrologia judiciaria do que à re- 
nova9So do espirito scientifico. Escreve Ribeiro dos Santos': <o mesmo 
rei foi dado a ella em tanto, que ao partir das nàos para a India, ou 
no tempo que se esperavam, mandava tirar juizo por um afamado as- 
trologo portuguez, Diego Mendes Visinho ... e depois d'este fallecer 
por Thomaz de Torres, seu Fysico, homem mui acreditado assim na 
Astrologia comò em outras sciencias . . . TSlo valida andava entSo a As- 
trologia por toda a parte que chegou o seu estudo a ser galhardia en- 
tro OS Letrados; que deu occasiSo às galhardias do comico Gii Vicente, 
que, qual outro Aristophanes escamecedor, motejou dos astronomos no 



1 Existe na Torre do Tombo urna ordem ao Feitor de Flandres para pagar 
a D. Francisco de Mello o subsidio de tres annos que esteve nos estudos de Pa- 
ris (7 de fevereiro de 1514), e ordem para Ihe serem pagos SSi^lGO réis da des- 
peza que fez emquanto frequentou a Universidade de Paris (20 de fevereiro de 
1617). 

' Apenas se cita o nome do Dontor Frei JoSo Claro. Na Epistola dedicato- 
ria do mathematico Femel a D. JoSo ni, ofierecendo-lhe o seu livro da CosmO' 
theoria, cita-Uie comò afamados em theologia o alludido cisterciense : «In theolo- 
gUun coronam eomndem adminictilis relati sunt Johannes Clanu, ordinis cister- 
densis, et Jacobns de Govea, vir snmma emditione snmmaqne pmdentia conspi- 
cuufl.» (4 de fevereiro de 1529.) 

' Memorias de lÀUeratura, da Academia, t. viii, p. 167. 



316 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

Livro I das suas Ohras de Devagam, posto quo confundia a Astrono* 
mia verdadeira com a Astronomia jadiciarìa: 

E porque eatronomia 

Anda agora mui maneira, 

Mal sabida e lisongeira; 

Eu & honra d^este dia 

MuitOB presumem saber 

Ab Opera^es dos Cèca, 

E que morte hSo de morrer: 

E cada bum sabe o que monta 

Nas estrellas que olbou, 

E ao mo^o que mandou 

NSo Ibe sabe tornar conta 

D'um vintem que Ihe entr^gon.» 

A cadeira de Astronomia foi provlda em Mestre Filippe^ medico 
de D. Manuel; obrigando-se a ama IÌ9S0 por semana, designado dia 
e a bora pelo Reitor.^ Regea até 1521, succedendo-lhe o castelhano 
Thomaz de TorreS| physico do rei, e antigo mestre de D. Jolo m, 
tomando posse em 19 de outubro d'esse anno e lendo até 1537, quando 
se fez a mudanga da Universidade. Assim comò Vires, no seu libello 
In Psevdo dicdecttcos, imputa aos castelbanos a conserya9So prolongada 
do scholasticismo na Universidade de Paris, ^ podemos comproval-o 
emquanto & Universidade de Lisboa, e em especial pela vinda de aven- 
tureiros scientificos de Hespanha, que concorriam a explorar as pro- 
digalidades do monarcba portuguez. 

Na far9a dos Physicos, escripta depois de 1519, introdaz Gii Vi- 
cente physico Thomaz Torres em uma consulta medica, satyrisando 
o estado de atrazo em que se achava entSo a sciencia: 

Bbazia : Aqui yem o Fisico Torres. 

Torres : Ora bem, Deos vos ajnde, 
E YOB de muita saude, 



1 Por alvarà de 29 de outubro de 1513 consta que é lente. (Ribeiro dos San- 
tos, Memoria» de Litteraiura, t. vnx, p. 175, 2.* ed.) 

* «D^esta maneira elles prestam & Universidade de Paris nm detestavel ser- 
vilo, de a rìdicularìsar aos olhos da Europa, porque é j& proverbiai que em Paris 
instrue-se a moeidade para nSo saber cousa alguma, a nSo ser dizer dislates com 
inesgotavel loquacidade.» (Apud Quicherat, BUtoire du Collège de SaxnU'Bairbe^ 
t. ly p. 118. 



ESTATUTOS MANUEUNOS 

Iato nSo BerSo amores? 
Hontem quiz yìr e n&o pude. 
Topei alli com mestre Gii, 
E com Lnìz Mendes, assi 
Que praticàmos alli 
Leste e o Oesie, e o Brazil, 
E là Ihe dei raz&o de mi. 
Este mal he jà de dias ? 

Clebigo : H07 bay diez que asi estó. 

Tobbsb: a que horas vob tomo? 

Clebigo: Alli à las ayemarias. 
Y de maflana comenzó. 

ToBBES : Dez dias de manbS cedo, 

Estava Saturno em AriéB . . . 
Doem-vos bb pontas dos pés? 

Olebioo : Ay mezquino, que no puedo 
Decir mi mal de que es ! 

Tobbsb: Biaexto he anno agora, 
Em Pìscìb estava Jupiter, 
Saturno hade desfazer 
Quanto natura melhora : 
Bem ha aqui que guarecer. 
. Tambem em Pìbcìs a lua, 
IsBO foi em quartafeira; 
Mercurio & hori^ primeira : 
K&o vejo cousa nenbua 
Pera febre verdadeira. 

E tambem d^cBte ajuntamento 
Dos planetas d*eBta èra. . . 
NSo Bei. . . nSo sei. . . mas per mera 
Estrologia. . . nSo sei, en sento 
NSo sei que he, nem que era. 
Mas bade saber quem curar 
Os pasBOB que dà bua estrella, 
E hade Bangrar por ella, 
E hade saber julgar 
Ab aguas n'uma panella. 

E hade saber proporfòes 
No pulso se he ternario. 
Se altera, se he binario. 

Mostrae c& ora, e veremos 
Este polso que nos diz. 
Oys? qu'altera; ora chis, 



317 



318 mSTORIA DA UNIYERSIDADB DE GOIMBRA 

Que antes que nos casemoB 
Haverà outro jtiiz. 
Iato procede do ba^o, 
Bem moBtram essas corea. 
Tendes tób nas costaa dores? 



NSo coma senSo lentilhas, 
Si, ou abobora cosida, 
Si', e assi Deos Ihe dar& yida. 
Si, e dem-lhe caldo d*ervilhafl, 
Si, que està febre he panda. 

Agua cosida Ihe dareis 
Com avenca. . . si, entSo 
Amenhan Ihe tirarlo 
Algum sangue. . . si, entendeis? 
Si. . . entao. . . si, logo he sSo. 
Porém, a fallar verdade. 
Segando seu pulso est&, 
£ segando os dias que ha, 
E segando a viscosidade, 
E segando ea sinto cà, 
E segnando està o Zodiaco, 
E segando està retrogrado 
Jupiter, confessado 
Ha mister, qae està mai fraco, 
Si. . . si. . . si, bem trabalhado.^ 



G-il Vicente caracterisa admiravelmente o estado da Medicina as- 
trologica antes da renovaySo dos estudos pela valgarìsajSo dos livroB 
de Hippocrates; com urna gra9a molieresca envolve tambem na mesma 
far9a Mestre Filippe, porventura esse boticario de Sevilha, que depois 
de se tornar famigerado no jogo do xadrez, veiu & córte de Lisboa 
apresentar o seu novo invento da observa(!Lo das longitudes. 

Por 1519 apresentou-se em Lisboa um castelhano, Filippo Gkd- 
Ihem, muito palavroso e arrotando um saber excepcional de Logica, 



1 Obraa de Gii Yicente, t. in, p. 317. No Auto dos Fyticoa dllade a nm outro 
medico do rei D. Manuel, mestre Nicolào, que apparece em 1515 corno formando 
parte do jury que examinou o boticario Diogo Yelho. (Conde de Ficalho, Oardok 
da Otta e seu tempo, p. 310) : 

B qnam Uto n&o soab«r 
Vàie beber dMaao mesmo. 
B meitn Nieoldo qner 
* B outrcM eorar a esmo. 



ESTATUTOS MANUEUNOS 319 

combinando os conhecimentos da Mathematica com a arte de trovar, 
com que se &zia admirar na córte; vinha oflferecer a D. Manuel um 
invento sea, a Arte de Leste a Oeate, para a qual navega9So possuia 
um astrolabio de tornar o sol a qualquer bora. rei mandou que o ma- 
thematico D. Francisco de Mello desse parecer sobre o invento, e diante 
da conclusao favoravel concedeu ao castelhano urna ten9a de cem mil 
réis com habito e a corretagem da Casa da India. É provavel que a 
Arte de Leste a Oeste fosse dìscutida por outros espiritos mais praticos, 
comò aconteceu com o algarvio SimSo Femandes, que provou a falsi- 
dade do systema em 1519; Filippo Guilhem fugiu de Lisboa, sondo 
preso em Aldeia Gallega por ordem do monarcha. Gii Vicente nSo se 
esqueceu de tirar o partido d'està comica situa9So: 

A muchos hizo espantar 
Vuesa pròspera fortuna, 
Pues nunca vistes la mar 
Ni arroyo ni laguna, 
Supistes muy bien pescar. . . 
Ansi que por està via 
Ea de los sabios el cabo, 
Que sin ver astrolomia 
£1 toma el sol por el rabo 
£n qualquiera bora del dia. 
Bespo^^eron ai contrario, 
Diciendo: No esverdad; 
Porqne dende cbica edad 
No fue sino boticario, 
Hasta ver està ciudad.^ 

Nas grandes navega93e8 do seculo xvi, o phenomeno recentemente 



1 Obnu, t. in, p. 377. Na Historia geral do Brazil, de Yamhagen, 1. 1, p. 459, 
vem mais noticias sobre Filippe Guilhem, por onde se infere que ficou ao 8eryi90 
de Portugal : «Foi primeiro, em 1527, empregado na Casa da India. Em 1538 pas- 
sou.^o Brazil com Vasco Femandes. £m 1551 partiu para a Bahia; ahi perdeu a 
mulher e um filho que tinha, e foi com os tres filhos que Ihe ficaram exercer em 
Porto Seguro um emprego de fazenda. Com as novas de curo que ahi teve enthu- 
siasmou-se, e escreveu a Thomé de Scusa inculcando-se para a empreza. Chegou 
a ser para ella escolhido, porém adoeceu e voltou para a Bahia, onde, quando me- 
Ihorou, foi encarregado da abertura do caminho da cidade para a Bibeira, etc. 
Voltou depois a Porto Seguro corno Provedor, e àinda ali vivia aos 12 de mar^o 
de 1561, com 74 annos de edade, pois se conserva uma carta que entSo escreveU) 
em que de novo reconmiendava a perseverane nas descobertas das minas, etc. 
£m 1551 havia side feito Cavalleiro de Christo, com a ten9a annual de 50 jOOO rs.» 



320 HISTORIÀ DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

conliecido da yarìa(!Lo da agulha preoocupou os pilotoB e cosmogra- 
phosy qne procuravam por ella determinar a longitade geograpbica. 
Formavam taboas de declinaySo da agulha magnetica para deduzirem 
urna Arte de Leste e Oeste, ou um principio scientifico para a nave- 
gajHo; era urna especie de monomania. Ao fallar de FemSo de Maga- 
IhSes, chronista Barros allude a està vesania commum : tsempre an- 
dava com Pilotosy Cartas de marcar, e altura de Leste, Oeste^ maU' 
ria qua tem lang^do a perder mais portuguezes ignorantes, do que sSo 
ganhados os doutos por ella, pois ainda nSo vimos algum que o po- 
zesse em effeito.»^ Este juizo de Barros mostra-nos corno o problema 
da determina^So da longitude no mar, conhecido com o nome vulgar 
de ponto jixo e navegagào Leste Oeste, havia de encontrar na cdrte de 
D. Manuel um interesse tal que seduzisse a imaginagSo de aventurei- 
ros e utopistas, corno o castelbano Filippe Guilhem. 

Ao mathematico D. Francisco de Hello, recem-chegado dos es- 
tudos de Paris, onde frequentara a expensas de D. Manuel, que deu 
opiniSo sobre a Arte de Leste a Oeste, joga tambem Gii Vicenté um 
acerado epigramma: 

£ se Francisco de Mello 
* Que sabe sciencia avendo, 
Diz qne o Céo he redondo, 
E Sol sobre amajgello; 
Diz yerdade, nSo lh*o ascondo. 
Qae se o Céo fora qnadrado 
NSo fora redondo, senhor. 
E se e sol fora azulado 
D*azul fdra sua cor.* 



1 Decada t, livro 8. 

* Obras de Gii Yicente, 1. 1, p. 151. Transcrevemos da Memoria de Ribeiro 
dos SantOB sobre D. Francisco de Mello, os documentos por onde ee ve que fre- 
quentara 08 estudos de Paris entre 1514 e 1519. Eis o attestado do bedel da Uni- 
verndade de Paris icerea da sua frequencia, para pastificar o recibo da peivBÌU>: 
«Ego Petrus meresse Bedellus facultatie Artium venerande nationis francie pari- 
sias. Certtfioo omnibus et singulis quibus interest, aut interesse potest honorandum 
et nobilem dominum magistrum Franciscum de Mello in artibus liberalibus ma- 
gistrum continuum fuisse ac presenti esse in parìsiensi hac Universitate Scholas- 
ticum. In cujus rei testimonium signum meum, etc. Die 2. Julii 1514. — P. me- 
resse.» Em seguida vem o recibo: «£u Francisco de Mello I^dalgo da Casa del 
Rei Nesso Senhor, Mestre em Artes, e Estndante ao presente de Parìa Confesso 
haver recebido de Silvestre Nunes, Criado e Feitor de sua Alteza em Frandes a 
somma de 38^160 rs. moeda de Portugal, qne se monta na minha moradia e ce- 



ESTATUTOS MANUEUNOS 321 

Em Paris, D. Francisco de Hello frequentara mathematica com 
o celebre medico Pierre Brissot, que em 1514 fòra admittido comò 
lente na Facnldade de Medicina, onde luctara para introduzir as dou- 
trinas de Hippocrates em sabstituÌ9So das doutrinas dos Arabes. Pierre 
Brissot ensinara philosophia nos dez annos anterìores, sondo no ultimo 
anno da sua regencia, que D. Francisco de Mollo se graduou Mestre 
em Artes. Quando Brissot se achou em conflicto com a Universidade 
de Paris, por causa do seu hellenismo, resolveu viajar, para adquirir 
conhecimentos em Botanica, e veiu para Portugal, demorando-se em 
Evora, onde teve outro conflicto com o medico do rei sobre a questuo 
se a sangrìa devia em uma pleuresia effectuar-se do lado affectado se 
do contrario. medico francez morreu em Evora em 1529. ^ D. Fran- 



vada do presente anno de 1514 da qaal me tinha feito mercè por tres annos El Bei 
NoBSO Senhor dos quaes este he o prìmeiro que se comefou ho Janeiro passado 
derradeiramente da dita èra corno no alvara da dita mercè se expressa a qaal me 
he assignada na Feitoria de Frandis e por ser isso verdade e descarrego do dito 
Feitor Ihe fiz està segunda quitan^a feita e assignada de minha mSo em Pariz o 
tefceiro de Julho de 1514. — Francisco de Mello.» {Corpo chron., P. i, Ma^. ziv, 
Doc. 66.) A gra^a règia, foi prorogada nos annqs de 1517 e 1518; eis a copia do 
alvarà que a prorogou pelos annos de 1519 e 1520^ 

«Nos £1 Rei, etc. Mandamos a vós Francisco Pereira nosso Feitor em Frandes 
que pagueis a Francisco de Mallo fidalgo da nossa Casa, filho de Manuel de Mello 
sua moradia e cevada por tempo de dous annos que se come^aram por este Janeiro 
que ora passou d està èra presente de 1519 e acabardm por Dezembro de 1520 da 
qual Ihe fazemos merece pera sua mantenga no estudo e monta-se-lhe por anno 
quarenta e sete mil e trezentos e setenta réis a razSo de tres mil e quatro centos 
reis de moradia por mez, e alqueire e meio de Cevada por dia segundo yimos por 
CertidSo de Bras da Costa EscrivILo de nossa Cosinha em que dava sua fee que 
ficava posta verba comò havia de haver o dito pagamento, etc. Feito em Almeirim, 
a 11 de Fevereiro de 1519.» (Corp, chron.j P. i, Ma9. 24, doc. 28. — Mem, de Litt., 
t. VII, p. 238.) 

1 NouveUe Biographie generale, de Didot, t. ▼n,p. 443. Os homens de sciencia, 
pela curìosidade e investigasse eram no seculo xvi agitados por um certo cosmo- 
politismo. Uns velo & India estudar novas plantas, comò o nosso Dr. Garda d'Orta, 
outros percorrem as Escholas da Europa à procura dos segredos profissionaes. 
Paracelso, na sua Ghrande Cirurgia^ falla em Portugal comò um dos paizes que 
visitara : «Tendo viajado pela Franca, Allemanha e Italia, e visitado as Univer- 
sidades para saber os seus preceitos e fimdamentos, pareceu-me todavia que me 
nSo era plausivel subordinar-me às suas opinioes por muitas causas : mas tendo 
caminhado mais alèm, e atravessado a Hespanha, Portugal^ Inglaterra, Dinamarca, 
Polonia, Lithuania, Prussia, Hungria, Transjlvania, quasi todas as nafoes da 
Europa, eu diligentemente procurei e interroguei nao sómente os Medicos, mas 
tambem os Cirurgioes, mestres de Estufas, mulheres, magicos, alchjmistas, nos 

HIST. UM. 21 



322 HISTORIA DA UNIYERSIDABE DE GOIMBRA 

CÌ8C0 de Mello, logo que chegou a Portagal acboa-se envolvido em ne- 
gocia93es politicas, qae o embarafaram de se entregar à coltura da 
Mathematica; corno bomenagem de gratidfto dedicou ao rei D. Manuel 
um Commentario em latim sobre a Theoria da Optica e Pertpectìva, 
attribuida a Euclidea, ^ que sob o titulo de Specularia e Perspectwa 
(Optica e Catoptrica) apparecera em Veneza em 1508 na terceira edlQSo 
do mathematico grego, pela prìmeira vez traduzida em latim por Bar- 
tholomeu Zamberto. D. Francisco de Mello considerava os commen- 
tarios de Tbeon ao tratado da Optica, que Zamberto Ihe additara, comò 
multo incorrectosy e considerava a ommissSo do tratado nas edÌ93es 
de 1509 de Lucas de Borgo, e de 1516 de Lefòvre d'Étaples, comò 
um desprezo dos sabios do seu tempo contra o qual reagirà seu mostre 
Pierre Brissot. Allude aos Commentarios de Brissot, que andavam em 
copias nas mSos dos seus dìscipulos, e lamenta que apenas possua al- 
guns inintelligiveis fragmentos, de que mal se pode aproveitar para re- 
construir o seu novo Commentario. Hoefer, na Bistoria da Phynca, 
caracterisa assim a obra attribuida a Euclides: e A Optica nSo é mais 
que uma reuniSo de Tbeoremas de perspectiva. Seg^do Kepler, o 
auctor d'este tratado, na sua qualida^le de pjthagorico, procurava de- 
monstrar, pela perspectiva. dos corpos celestes, o verdadeiro systema 
do mundo tal comò o havia ensinado Pythagoras antes de Copernici. — 
Na Catoptrica, Euclides ensina que o raio visual é quebrado, refra- 
ctado pela agua e pelo ar. — Distingue a refracg&o (diaclasis) da reflexSo 
(anaclasis) em que, na prìmeira os angulos dos raios refractados ou 
emergentes nfto s2Lo eguaes (excepto para os raios perpendiculares) aos 
angulos dos raios incidentes. Explica pela refrac^So que os raios expe- 
rìmentam no ar, o engrandecimento do sol e da lua no horìzonte. Mas 
nSo diz positivamente que pelo effeito da refrac9So os astros nSo oc- 
cupam exactamente (excepto no zenith) o legar em que os vemos.» * 
D. Francisco de Mello, comò discipulo do medico Brissot, conhecia o 
apparelho da visflo, seguindo n'este ponto os mathematicos gregos 



mosteiros, nas cassa nobres e ignobeis, quaes eram os melhores e os mais excel* 
lentes remedios que usayam e tinham usado para curar as doen^as.» (Ap. Darem- 
berg, HUtoirt dea Sciences médicales, 1. 1, p. 368.) 

1 Pelo titulo da obra : In JEktdidia Magarensis Philosophi cUque Mathemaiiei 
praestanHssimi Perspectiva^ Commentario^ conHece-se que D. Francisco de Mello 
seguiti o erro do seculo zvi, confondindo o mathematico alezandrino com o fandador 
da eschola philosophìca de Megara, que o antecedeu um seculo. Este erro fora 
propagado por Boccio, desde o seculo v da nossa èra. 

* Hoefer, Histoire de la Physique^ p. 170. 



ESTATUTOS HANUEUNOS 323 

Heliodoro de Larìssa e Ptolomeu. «E na Optica de HelìodorOi que se 
acha pela primeira vez expoato, que os raios luminosos que determi- 
nam a visSo formam um cóne cujo vertice se apoia na pupilla do olho 
emquanto a base abrange a superficie do objecto apercebido. Tam- 
bem ahi se acha urna definÌ9So exacta do angulo visual, variavel de 
graudeza segundo vemos os objectos maiores ou mais pequenos.» ^ O 
tratado de Optica attribuido a Ptolomeu^ traduzido para latim de urna 
versSo arabe, traz pela primeira vez a exposÌ9fio minuciosa dos prìn- 
cipaes phenomenos da refracfSo, corno a passagem da luz atravez de 
oorpos transparentes de densidade differente. Foi preciso o desenvolvi- 
mento da Trignometria, para que Descartes fixasse a lei d'este phe- 
nomeno na constancia de relsL^o dos senus de incidencia e de refracySo. 
D. Franoisco de Hello emprehendeu um ouiro commentario ao 
livro de Archimedes, Dos corpos fltictuante$ aóbre a agua, que entSo 
ainda estava inedito. Archimedes, que levara a Geometria ao seu ma- 
xime desenvoivimento, sentiu a parte incompleta da Mathematica, & 
qual faltava ainda uma Mechanica. As rela93es entro a Geometria e a 
Mechanica fìcaram assentes pela sua Theorìa dos centros de gravidade 
ou Isorropica. Pelo conjuncto dos trabalhos de Archimedes, diz Comte: 
tSou levado a julgar por elles os esforgos de Archimedes para comegar 
a preencher a principal lacuna do systema mathematico, fondando a 
Theoria abstracta do equilibrio. Mas, privado de teda a racionalidade 
positiva no que respeita o movimento, um tal trabalho permanecia 
desprovido da sua origem philosophica; de sorte que nSo comportava 
senfto successos inductivos, nos quaes o incomparavel geometra mani- 
festou sob um novo aspecto a sua plenitude montai. O seu principio 
da alavanca nSlo podia satisfazer senfto a casos parciaes, e a sua induc- 
9&0 hydrostatica nUo consegaia sen2o o suscitar uma nova ordem de 
questSes geometricas em rela9So à situa9&o de equilibrio de um corpo 
fluctuante. Comtudo, uma tal tentativa bastava por si para fazer con- 
tinuamente avultar a lacuna jà conhecida do systema maihematico, de 
modo a melhor assignalar as rela93es directas d'este complemento ne- 
cessario com conjuncto da philosophia naturai.» ' So depois que Ke- 
pler deduziu a conBtituÌ93o final da geometria celeste, é que Galileo^ 
completado por Huyghens pode fundar a Mechanica racional, e por 
ultimo Newton a Mechanica celeste. ' Como se ve, D. Francisco de 



1 Hoefer, Histoire de la Physique, p. 170. 
' SyaÙmt de PóUUqut poaitìvej t. ni, p. 319. 
3 Ibidem, p. 565. 

21* 



324 HISTORIA DA UNIVERSIDÀDE DE COIBIBRA 

Mello tentando a explica9[lo d'estea dois tratados de Archimedea (Peri 
qnpedon isorropica, e Peri ton udatì ephistamenon) pouco Be podia 
elevar acima dos casos inductivos, mas revela pela importancia que 
Uiea ligava a necessidade de entrar no dominio da Medianica. ^ £ pena 
qne estes trabalhos permane^am ineditos; publicadoB com um estndo 
critico-historicOy relacionariam Portngal de um modo digno com o mo- 
vimento intellectnal da Renascen9a. D. Francisco de Mello tomaratam- 
bem o gr&o de Licenciado em Theologia; nomeado para o conselho de 
D. JoSo Ili em 1529, foi Beitor da Universidade de Lisboa de 1531 
a 1533, e em 1534 eleito bispo de GSa, fallecendo em Evora, em 27 
de abril de 1536 com quarenta e seis annos de edade. NSo chegou a 
cooperar na grande reforma dos estudos come9ada em 1537; assim 
comò o oonhecimento da lingua grega o approximara do estudo dos 
mathematìcoB alexandrinos, outros espiritos se achavam egualmente 
fortalecidos para incitarem D. JoSo ili a uma remodelajSo de ensino 
publico. 

O eonhecimento da lingua grega, que tanto actuou na transforma9So 
dos estudos na Renascen9a, achava-se no come90 do seculo xvi forte- 
mente radicado em Portugal. Escreve o bibliophilo Ribeiro dos Santos: 
cEntre outros muitos se esmeraram JoSo Rodrigues de Sa e Menezes, 
que commentava Homero e Pindaro; Francisco de Sa de Miranda, que 
traduziu o mesmo Homero; Antonio Ferreira, que lia e imitava a Ana- 
ereonte, a Moacho e a Theocrito; Ambrozio Nunes, que esdarecia os 
Aphorismos de Hipocrates; Francisco Giraldes e Jeronymo Lopes, que 
liam pelos originaes de Galeno; JoSo Rodrigues de Castello Branco, 



1 Os tratados attrìbuidos a Euclidea tem nos ms. de D. Frandsco de Mello 
08 tituloB : Perspectiva Euclidis, cum DrancUci de Mdlo CommentariiSf e In EucU' 
dia MegareimSy Speculariam Commentaria. liyro de Archimedea, tambem corno 
OS outroa doia tratados, dedicado ao rei D. Manuel (1521) tem por titulo : Archi- 
ta edis, De inàdentibus in humidis cum Francisci de Metto Commentariis, Sobre a 
pr ovenieiicia d^eatea manuscriptoa, eacreve Ribeiro doa Santoa : «que eziatem hoje 
na real Bibliotheca de Lisboa, que foram da magnifica doa^Sò que Ihea fez o mnito 
douto e pio Biapo de Beja. .. Arcebiapo de Evora, D. Fr. Manuel do Cenaculo 
Vili aaboaa.» Mem. de Liti, port, t. viii, p. 174 (2.* ed.) Em ontro legar accreacenta: 
« D'eatea tratadoa teve um exemplar o Coamographo-mór d'eatea reinoa Luiz SerrSo 
Pimentel, Lente de Mathematica, com primoroaaa illumina^oea, de que depoia fez 
prezente ao Marquez de Liche, quando foi yiaitar a aua Livraria, comò refere o 
erudito Abbade de Sever. exemplar que d*ellea tem a real Bibliotheca de Liaboa 
he eacripto em foi. em bom caracter, que parece aer mais moderno e doa fina do 
seculo xYi, principioa do xyn, e com figoras geometricas naa Demonslrac^s.» 
Menu de lÀU,^ t. vu,'p. 248. 



ESTATUTOS MÀNUELINOS 325 

que illastrava o texto grego do Dioscorides; Jorge Coelho, |t quem 
devemos a versSo latina da Densa Sjria, de Luciano; D. Fr. Antonio 
de Sousa, que trasladava o philosopho Epitecto; Antonio Luiz, que 
nas aulas explicava Aristoteles e Oaleno, pelo texto grego, e traduzia 
A este ultimo, e os commentarios de S. CyrUlo a Isaias; etc.» ^ Tanto 
em Portugal, corno em Fran9a, era d'entro os humanistas que no se- 
culo XVI se destacavam os mathematicos, os astronomos, e os medicos, 
OS quaes pelo conhecimento do grego achayam as condijSes para rea- 
tarem a corrente scientifica interrompida depois dos trabalhos funda- 
mentaes de Archimedes, de Hipparco e de Hippocrates. Por essa di- 
rec9So nova conseguiiam actuar nas Universidades fazendo-as transigir 
com espirito da Renascen9a. ' 

Vives, que recebeu as suas primeiras lÌ93es de Jeronymo Amigue- 
tus, professor da Universidade de Valencia, reagirà desesperadamente 
contra a renovaySo dos estudos philologicos em Hespanha, iniciada por 
Nebrixa quando regreseara da Italia; sob a influencia do seu antigo 
mostre, Vives atacou vivamente a Nebrixa, vindo porém mais tarde a 
reconhecer a direcySo e o espirito critico da Renascen9a, e a prestar- 
Ibe urna piena tomenagem, sondo um dos seus epigones. 

Em Paris, quando foi completar os seus estudos na celebre Uni- 
versidade, achou tambem por professores de philosophia, e adscriptos 
ao velho methodo dialectìco, a JoSo Dullard e Gaspar Lax (1505-1512); 
semente depois que chegou a Louvain e recebeu a direcfSo inteÙe- 
ctual de Erasmo é que se tomou um dos grandes corypheus da Re- 
na8cen9a. Quando Vives tomou a Paris, em 1521, depois da sua cri- 
tica acerba In Paeudodicdecticos, os mestres francezes nSo se melin- 
draram com elle, e declararam-lhe eque a direc9So dos espiritos era 
outra actualmente, e nSo a do tempo em que ali estudara», comò elle 
relata em uma carta a Erasmo. 

Tambem Pedro Ramus, o grande reformador da Instruc9Sk) supe- 
rior, na Renascen9a, descreve o estado da Universidade, que se con- 
servava hostil ao movimento pedagogico: e Quando vim para Paris cahi 



1 Mem. de LiUeratura^ t. vin p. 78, (2.* ed.) 

' Escreve Qaicherat, na HUicirt du CoUége de Sainte-Barbe^ 1. 1, p. 150: «A 
Universidade de Parìa resentiu-se sob Luiz xi dos primeiros impulsos da Renas- 
'Cen9a; mas nSo os ezperimentou directamente senio no meio do reinado de Fran- 
-dsoo I. Foi-lhe preciso mais de sessenta annos para passar do espirìto da Edade 
mèdia para o espirìto moderno, menos plastica n'isto de que as escholas da Alle- 
manhai que desde o come90 do seculo xvi estavam j& convertidas.» 






326 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DB COIHBRA 

nas Bubtilezas dos sophistas, e ensinaram-me as artes liberaes por pei^ 
guntas e argomentagSes. . . Depois que fui nomeado e gradoado mos- 
tre em ArteSy o meu espirilo nfto se achava satisfeito, e no meu fóro 
intimo jalguei que estas disputas nSo me haviam trazido mais do que 
a perda de tempo.» * Nos Avertissementa au Sai sur la reformation de 
rUhivergité de Paris, RamuSy condemnando o excesso de symbolismo 
nas cerimonias academicas, que pelas suas despezas se tomavam urna 
receita dos lentes e se antepunham à disciplina scientifica, caracterisa 
estado deploravel em que se achava o ensino nas Faculdades: o en- 
sino da Philosophia era altercatorio e questionario; o do Direito era mais 
canonico do que civil; o da Medicina, sem dissecySes, mas com eter- 
nas disputas, so se adquiria fora das escholas, matando os doentes: 
(cD'où se dicton: de nouveau médecin cimmetière boussuii)^ a Theologia, 
embrulhada em objecfSes e refuta95es, nfto se exercia sobre os textoft 
hebreus do Velbo Testamento, nem sobre os gregos dos Evangelhos. 
Em summa, o espirito e fórma de ensino na Universidade de Paris 
synthetisou-os Ramus na phrase mordente de urna ^contentieuse etpe- 
rilleuse altercatìon de precy^tes,9 

André FalcSo de Resende, em uma Satyra a iKogo Beruardes, 
lonvando a vida religiosa, tra9a em alguns tercetos o quadro da educa- 
9S0 universitaria portugueza, depois das grandes descobertas maritimas^ 
censurando-a pelo seu destino exdusivamente pratico: 

Nasce o filho primeiro e segundo, 
Nasce terceiro e quarto; nasce quinto: 
A Deos nao dà nenhum ; todos ao mundo ; 

Porque dos bens da terra b6 faminto, 
Quanto mais d*elles tem, mais se amofina, 
Pois nio gosou OS vazos de Coryntho. 

E assim mandar ordcna um filho à China, 
Instructo e chatim jà na mercancia, 
Nos resgatés das ilhas, Guiné e Mina; 

Inhabil na christà Philosophia, 
Porque o pae cego o tendo por affronta, 
Diz qne qualquer fradinho isto sabia; 



1 BemofUranee au CoMeU prive. Apud Compayré, Histoire eriUque des Do- 
^Mnes de VÉàttoaHon en Franee, 1 1, p. 188. 



ESTATUTOS MANUELINOS 327 



« 



Mas contador ezperto em caiza e conta, 
Sabe comprar barato e vender caro, 
Que para sua cobÌ9a iato é o que monta. 

E jà se embarca, e é so seu norie e pharo 
Sempre o negro interesse, e nelle a prda, 
Deiza atraz patria, o pae, e o amìgo caro. 

JÀ o mar bravo aos mìmos de Lisboa, 
A Vida e alma antepondo a fazenda 
Dobrando cabos, climas, chega a GU>a. 

Tira seu fato, e faz taverna e venda; 
Trampeia, engana, troca, jura, mente, 
Como um buforinheiro emfim p5e tenda. 

E em que redobre o resto, e que accrescente 
Sempre ao cabedal, mais se desvela 
Por navegar os mares de Oriente. 

Tenta outra vez Neptuno, dando k velia, 
Costeia rios, ilhas, enseadas, 
Faz viagem à China, até dar nella. 

Compra na vernala as mais prézadas 
Mercadorias; e as que traz, vendendo, 
Nas embarca^5es toma carregadas. 

Mas co' dinheiro o amor d*elle crescendo 
Faz a cobÌ9a, que inda em vSo fonSéja 
As medidas Ihe encher, fundo nfto tendo. 

Enfastia avareza tfio sobeja; 
A fortuna e o tempo conjorada 
Levantam sobre as ondas m& peleja. 

Sópra tnflo com furia costumada, 
Ergue e mistura o mar com as areias. 
De quanto achando vai, n^ deiza nada. 

Os galeòes, navios e n&os cheias 
D*ouro, de prata, seda, e gente avara, 
Ao fundo V&0 do reino das sereias. 

Desce, e perde- se assi a fazenda cara, 
E o afbgado senbor d'ella ao profundo, 
Que até o Cocjto negro emfim nSo para. 



328 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

A morte d*este avisa o irmSo segando, 
Qae a pé enzuto siga, e nSo do Oceano 
Um caminho mais catto e mais jucando ; 

Um caminho direito, que Ulpiano 
Scevola^ e outros fizeram, e, ainda eseuro, 
Com outros o abriu mais Jusiiniano. 

DSo senten9a final, que é mais seguro 
(Ou seja emfim direito, ou seja torto) 
Baldo e Jazào seguir, que Palinuro : 

Que este, no mar, da gàvea caiu morto; 
Ess*outros de cadeira em dia darò 
Levaram seus navios a bom porto. 

£ por isso a este filho o pae avaro 
Quer- que em Leis se gradue, até ser nellas 
Das bulras e das trampas casa e amparo. 

Estuda mais que Cèpola, Cautelas 
So de pane lucrando escreve e trata, 
Refaz demandas mil sem refazel-as. 

Intento sempre a juntar ouro e prata, 
Morre emfim mal e pobre este trampista, 
Que nunca de ser rico a sède mata. 

Ao irm2o terceiro o pae faz Canonista, 
Dos falsos ; e por mais te honrar, BCafoma, 
Depois de em contas ser fino algorista, 

A pràtica mandal-o assenta a Roma, 
Que as Dtcisoe» da Rota e a Curia veja, 
£ fa^a de conlnios grande somma: 

E por manha ou dinheiro, inda que seja 
Como SimSo, que a Gra9a compra e vende, 
Trabalbe de acquirir dos bens da Egreja. 

E eis o coitado em Boma, e eis so que entende 
Em Reservas, Regressos, Benuficios 
£ nelles rico e visto ser pretende. 



A cobi^a do pae, que, comò tinha 
Aos filbos na cabe9a se pegava, 
Ao quarto e ao quinto ao mào firn encaminha. 



ESTATOTOS MANUEUNOS 329 

DÌ2 que segata a vida assim Ihee dava, 
Sem vèr o triste, qne era dar-lhes morte 
E quSo mal da perpetua os guardava. 

E aos deus meuores dà por melhor sorte, 
Que a seu rei soldo e moradia ven^am 
Ora na córte, ora na armada cohorte ; 

Mandaodo-lhe sob pena de sua ben^am, 
Que o seu despendam so corno onzejieiros, 
Que se uma moeda dSo, dez descompensam : 

Deixem o primor d'houra aos cavalletros, 
Deizem armas e o ferro, tractem d*ouro 
Que este os farà fidalgos verdadeiros . . ^ 



Saidas das revoIu95e8 politicas da Edade mèdia, as Universida- 
des chegaram a constituir-se corno esboQOS de um Poder tempora! e es- 
piritual, pela maneira corno intervinham nas questSes da egreja com 
a realeza, e corno resistiam aos arbitrios da soberania; e principalmente 
ainda pelas garantias extraordinarias com que se acobertava a classe 
escholastìca nas soas rela95e3 com a vida civil. Na Universidade de 
Paris tomavase o juramento ao Preboste da cidade e à sua guarda ao 
entrarem em func(5es; os burguezes nSLo podiam exigir fiadores aos 
estudantes pelos alugaeres das casas, e na sua resistencia centra a au- 
ctoridade real, a Universidade suspendia as lÌ95es, vencendo sempre 
pelo effeito poderoso d'este interdicto. Porém està fórma nova do Po- 
der tempora! e espiritual, apesar de importante, tinha o defeito da con-^ 
fascio doapoderes, centra a qual luctava ainda a Edade mèdia; por isso, 
com desenvolvimento da monarchia absoluta, a Universidade perdeu 
o seu individualismo, e ficou reduzida a uma institui^ào paga pelo rei, 
por elle protegida e discricionariamente reformada. Diz Cantu : « Quando, 
depoÌB de Luiz xi, os reis se tomaram absolutos, trataram lego de di- 
minuir pouco.a pouco o poder temporal que a Universidade adquirira 
pela auctoridade da sciencia. Ella mesma deixou de caminhar na van- 
guarda do progresso intellectual; os conhecimentos desenvolveram-se 



1 Poesiaa de André Falcio de Resende, p. 294 a 297. (Està edi^ao da Im- 
prensa da Universidade n2o chegou a ser terminada, e està fora do commercio ; fi - 
cou interrompida a p. 480, onde come^avam os versos em castelhano» Està parta 
està hoje quasi inteiramente publicada nos Aulorta portuguuu que escribieran en 
cagteUano, do Dr. Garcia Perez, p. 161 a 205.) 



330 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

fora das escholas; a Imprensa propagou-os, e està corporajSo illustre 
acabou por tomar-se impopniar.» ^ SubordinadaB ao poder real, as Uni- 
versidades procuraram o respeito, nSo no fervor scientìfico, mas no 
perstigio officiai; a sciencia immobilisou-se, agarrada à auctoridade dos 
antigos escriptores, e esse circolo de doutrlnas atrazadas, sustentado 
pela dialectica, que encobria com arte o pedantismo doutoral, veiu a 
chamar-se Schólastìca. Emquanto as Universidades se fechavam n'este 
reducto da auctoridade doutrinaria, pensadores isolados e fora da cor- 
pora9So foram-se reunindo, communicando as suas observa95e8, e as- 
sim nasceu esse movimento scientifico experimental que caracterisa o 
faeculo XYI. Deu-se n'este phenomeno o mesmo processo que nos se- 
culos xì e xn determinara a organisa9So das Universidades: em roda 
de certas capacidades agrupavam-se espontaneamente os alumnos, e 
por està fórma Constantino o Africano iniciou a funda9&o da Eschola 
de Salerno, e Imerio a Eschola de Bolonha. Fora das Universidades, 
pensadores mais audazes comefam as suas invest]ga98es sobre os phe- 
nomenos cosmicos e physicos, reagem centra o vazio das argumenta- 
9808 dialecticas^ e espontaneamente fundam essas gloriosas Academias, 
que determinaram o movimento scientìfico do seculo xvn, de Bacon a 
Descartes, d'onde dimana todo o progresso intellectual moderno. E no 
seculo XVI que a realeza define o seu caracter absoluto ; as Universi- 
dades, tornando-se tambem absolutas no dogmatismo e esclusivismo 
pedagogico, immobilisaram-se, findaram seu destino, ficando fora da 
historia. Como corpora9So vfto atravessando outras épocas, fortaleci- 
das pelas dota98es do erario, pelas categorias dos empregos, pela pompa 
das cerimonias doutoraes, mas seu poder espiritual transformou-se 
em uma pedantocracia, de que novas fórmas politìcas vieram um dia 
a aproveitar-se. 

Este estado mental sustentado pelas Universidades no seculo xvi, 
quando come9ava a grande renova9&o do criterio humano, synthetisa- 
se n'aquelles versos do Fausto^ em que Goethe invectiva a inanidade 
do saber dialectìco: cPhilosophia, Jurisprudencia, Medicina, e tu tam- 
bem pobre Theologia, eu vos estudei bastante, com suor do meu 
roste. E agora, eis-me, pobre louco, tSo sabio comò de antes era. Sim, 
chamam-me mestre, e doutor, e jà li vSo dez annos, pouco mais ou 
menos, que levo os meus alumnos pelo nariz, e eu vejo que nós nada 
podemos saber.» 



1 Historia Universal, xx època, cap. 24, 



ESTATUTOS MANUEUNOS 33 i 

Tabula Legentium i 
1506 

licenciado Diogo Lopes, lenta de Ter^a dos sagrados Canonee. 

Bacharel Gabriel Gii, subetitnto da Cadeira de Vespera, w»g<u 

Doutor Jofto do Bego, lente de prima de Medicina. 

O Bispo D. Martinho, lente de Metaphyaica, substituido por Mestre Rodrigo, snc- 
oedendo-lhe depois de 161d : 

Frei JoSo Gandavo, oa Framengo, até 1530. 

Mestre Frei Luiz de Baz, lente de Fhilosophia naturai, até 1521, em qne morreo. 

Fedro Bhombo, lente de Grammatica, até 1533, em que morreu. 

Doutor Buy Lopes, lente da Cadeira de prima de Canones, até 1510. 

Doutor Estevio Jorge, lente da Cadeira de prima de Leu. 

Doutor Gonzalo Vaz Finto, lente da Cadeira de Vespera, e depois de prima. 

Licondado Agostinho Affonso, lente da Cadeira de Ter^a de Leis; provido na de 
V'esperà, desistindo em 1521, por ser nomeado Desembargador. 

Mestre Affonso, Doutor por Montpellier, p Doutor da Ilka, lente de Yespera de Me- 
dicina, até 1517, em que foi nomeado Fhysico-Mér. 

1506 a 1507 

Faltam : Frei JoSo Claro, de Yespera de Theologia. 

D. Martìnho, de Metaphjsica. 
Mestre Jofto de Magdalena. 

Mestre Bodrigo, lente de Yespera e substitnto de Fhilosophia. 
Frei Francisco, lente de Fhilosophia. 

1507 a 1508 

Mestre Joio Claro (Come^ou a lér em 9 de junho de 1508.) 

Mestre Bodrigo. 

Mestre Martinho, Bispo. 

Mestre Luiz Yaz, lente de Fhilosophia naturai (Come^ou a I6r por Mestre JoSo 

Claro em 21 de fevereiro.) 
Frei Francisco, lente de Fhilosophia. 



1 Notai de Figueirda às Notieias chronologieas, not. 74, ao $ 924. (Irutiiuto, 
L ziT, p. 259.) «Diz mais que costumavam os bedeìs no principio de cada um dos 
annos escholasticos escrever o nome de todos os Lentes d*aquelle anno, o que in- 
titulavam Tabula Legentium^ o que tambem se obcrervou depois que a UniTersi- 
dade se mudou para Coimbra, mas por pouco tempo, e o que fariam oom tal con* 
ftis&o que com difficuldade se pode conhecer o que queriam dlzer, porquanto nem 
observavam ordem entro as faculdades, nem entro as cadeiras de cada urna d'el- 
hui, e ou escreviam semente o primeiro nome do lente ou o sobrenome, e que raras 
▼ezea Ihe declaravam a cadeira de que eram lentes, e algumas semente Ih'a no- 
meavam, comò v. g. o Unte de logica.» 



332 HISTORIA DA UNIYERSIDÀDE DE COIMBRA 

1510 

Doutor Ruy Lopes, lente de prima dos sagrados Canones. 

Bacharel Joào Vaz, Ter^a de Canones. 

Agostinho Micas, Philosophia naturai em 1510, em que parece ter sido creada. 

Mestre Martinho, Bispo, 1510, lente de Metaphysica, auaonte. 

Agostinho HenriqueS) licenciado ém Medicina, léra a Cadeira de Logica em 1510. 

JoS.0 MonteirOy licenciado, 16ra a Cadeira de prima de Canones. 

Buy Gon^alves Mareschotte doutorou-se em Canones e léa n^esta Cadeira de prima 
até 1521. 

Francisco Femandes, lente de Yespera de Canones, passa a sua cadeira para Sal- 
vador Femandes, licenciado in utroque por ama Universidade de 
Fran9a. 

Bacharel Francisco Gentil, Ter^a de Canones. 

Licenciado Francisco Femandes, Cadeira de ter^a de Canones, em 1506 ; eleito 
para Yespera em 1509. 

Bacharel Gabriel Gii, lente de ter^u dos sagrados Canones em 1506, auaentou-se 
sem licen9a em 1507, deizando-a vaga. 

Bacharel Estevào Dourado, provido na cadeira de ter9a, por opposi^^o, em 23 de 
outubro de 1506. 

Doutor Gon9alo Yaz Finto, lente de prima' de Leis, vaga pelo fallecimento do Dou- 
tor EstevSo Jorge ; acompanhoù a Universidade para Coimbra. 

Agostinho AfPonso, lente de ter9a de Leis em que se lia a Instituta, passa i de 
Yespera, sendo provido na antecedente : 

Gt)n9alo Louren^o, em 24 de novembre de 1507; rege até 1532? 

Doutor JoSo do Rego, lente de prima de Medicina, jubilado ao fim de 20 annos; 
regeu até 1513, fallecendo em 1518. 

Diogo Freixenal, bacharel em Medicina em 2 de dezembro de 1508, nomeado para 
a cadeira de Yespera de Medicina, em substitui^^o do Doutor da 
lUia. 

; 1513 a 1518 

Doutor Jofto Femandes, lente da cadeira de Medicina ou Phjsica, provido em 
1518 pela morte de JoSo do Rego, proprietario. 

Estevio Cavalleiro, leu na cadeira de Logica em 1513, 1514 e 1515. 

Mestre Filippe, doutor em Medicina, provido na cadeira de Mathematica, creada 
por alvarà de 29 de outubro de 1513. 

Frei Joao de Gandavo, cadeira de Metaphysica, em 15 de fevereiro de 1514, re- 
geu até 1530; provido na de prima de Theolog^a em 1532. 

Luiz Afionso, Yespera de Canones, 1516. 

Francisco Yalentim, cadeira de Logica, 1517. 

Mestre Gii, cadeira de Yespera de Medicina, 1517. 

Francisco Gentil, Yespera de Canones, 1518. * 

Doutor Jorge Femandes, Sexta de Canones, 1518. 

Jorge Cabrai, cadeira de Codigo, 1518. 

Agostinho Micas, Prima de Medicina, 1518. 

D. Fedro de Menezes, Philosophia moral, 1517. 



CAPITULO ni 



OS Hnmanlstas e a reforma da UnlTersidade (1621-1637) 



duplo trabalho doB Humanistas no secalo xvi, litterario e scientifico, actua 
na reforma das Universidades Da RenaBcenQa. — Ob HumanistaB promovem 
em Portugal as reformas pedagogicas de D. Joao ui. — Contraste da dimi- 
nata instruc^So do monarcha com os grandeB esforQOB para a renova^So da 
Instruc^So publica. — A reputa^^ doB BabioB e philologOB portugaezeB nacr 
UniyenddadeB de Paris, SalamaDca, Padua e Louvain. — D. Joio ui decla- 
ra-se Protector da UniverBÌdade, e procura realisar as aspira^es dos sabios* 
portuguezes no estrangeiro. — Doutor Diogo de Grouvéa, com o auzilio de 
D. JoSo m, obtem o Collegio de Santa Barbara e cincoenta bolsas para os 
Estudantes d*£l-rei. — A peste de 1525; a Universidade representa para ser 
encerrada. — Resolu^So do Conselho de 16 de dezembro de 1525 para que se 
nao confundam os methodos da Arte de Pastrana com a de Nthrixa» — Or- 
deua-se a construc^^o ^^ dois Collegios, de Santo Agoetinho e S. Joào Bn^ 
ptista, junto ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. — Reformas emprehen- 
didas no Mosteiro de Santa Cruz por Frei Braz de Barros, corno prelimina- 
res para a reforma da Universidade. — Dota^^o da Universidade com as ren- 
das do Priorado-mór de Santa Cruz. — \) Doutor Garcia d*Orta entra no ma- 
gisterio. — Devàssa de 1532 Bobre as irregularidades praticadas no provi- 
mento das cadeiras.— Pensamento da mudan^a da Universidade implicito na 
clausula: Emquanto o Estudó nào mudar. — Representa^So da Camara de 
Coimbra, pedindo para ser sède da Universidade; resposta de D. JoSo m, 
em carta de 9 de jnnho de 1538. — Nas cortes de Torres Novas, de 1535, 
Evora reclama para si a Universidade. — arcebispo de Braga pede para 
trasladar-se a Universidade para a cidade de Braga on para o Porto. — Os 
lentes da Universidade, receando que o Estudo seja mudado de Lisboa, re- 
presei^tam em 14 de dezembro para fundar-se urna nova Universidade. — In- 
fluencia de Jo2o Luiz Vives e do seu livro De Disciplinia, dedicado a D. 
JoSo III em 1531, sobre a reforma dos Estudos em Portugal. — Rela9oes de 
Erasmo com André de Resende e DamiSo de Gk>es. — D. JoSo ui encarrega 
a DamiSo de Goes, em 1533, de oonvidar Erasmo para a Universidade por» 
tugueza. — D. Damifto é encarregado em 1535 de contractar lentes para a 
Universidade. — Abundancia de mestres de Artes em Paris. — Carta de D.. 
Jo^ m, de 8 de novembro de 1535, a Frei Braz de Barros, sobre os mea* 



334 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

tres francezeB. — Por carta de 11 de mar90 é orgaDfsado em Coimbra o Carso 
de Artes. — Doutor Garda d*Orta deiza a Universidade em 1534, aoom- 
panhando para a India Martim Afionso de Sousa. — Doutor Fedro Nunea. 
— Portnguezes illudtreB que ensinam em Salamanca ou ali se graduaram. — 
A córte portngneza acompanha o ferver homanista. — Ajrea Barbosa cha- 
mada a Portugal em 1521 para dirigir a educa^So dos infantes D. Afionso e 
D. Henriqne. — André de Resende chamado a Portugal em 1534 para a ednca- 
9ao do infante D. Duarte. — Nicolào Clenardo e sua influencia' na cdrte« — 
* Carta de Clenardo, de 26 de mar90 de 1535, em que descreve os costu&es e 
pratìcas pedagog^cas em Portugal. — A elei^So dos lentes. — Ludìu ou a 
Eschola secundaria. — A cultura exclusiva da memoria. — A ArU de LaUm 
por D. Maximo de Sousa, 1535, prevalece no ensino até 1555. — A Graomia- 
tica de Clenardo, de 1538. — Mudan^a da Universidade de Lisboa para Coim- 
bra em mar9o de 1537. — Sèrie dos Reitores da Universidade de Lisboa até 
1537. 



As Universidades, que se mostraram hostis & renoya9So dos es- 
tudos no principio do secolo xvi, luctando pela conserya9So do scho- 
lasticismOy tìveram de tranaigir com o novo espirito, emquanto aos me- 
thodoB e desenvolvimento de disciplinas acientificas. Ob humanistas 
apresentavam-Be sob dois aspectos, jà corno phihlogos, reconstituindo * 
08 textoB doB livros classicos deturpados por anonjmoB commentado- 
res, jà corno sabios, especialmente mathematicos, aatronomos e medi- 
coBy a quem a litteratura grega interessava para continuar a marcha 
interrompida das sciencias. No seu combate centra o Bcholasticismo 
fortificado nas Universidades, os humanistas venceram; a transforma- 
980 e reformas universitarias da seculo xvi vieram de fóra^ de indi- 
viduos extranhos às corporafSes doutoraes. Na Universidade de Lou- 
vain, onde preponderava a direc9Ao de Erasmo^ embora nSo perten- 
cesse a essa oorpora9&o, luctavam centra a velha Scholastica os cele- 
bres eruditos Martin Dorpius, Alaert de Amsterdam, Jacques Latomus 
ou Masson, JoSo de Coster, Jacques Oeratinus ou Yan Hom, Fran- 
cisco Cromeveld e JoSo Paludanus. Citamos de preferencia està Uni- 
versidade porque a frequentaram portuguezes que directamente influi- 
ram nas reformas sob D. JoSo m, corno André de Resende, DamiSo 
de Goes, ambos amigos pessoaes de Erasmo, e louvavel reitor Frei 
Diego de Murya. ' 

Em Hespanha tambem triumphara Humanismo, personificado 
na pessoa do erudito Nebrixa; Vives falla do tempo em que com- 
batera para Usongear os doutores, e come se converteu às novas dou- 
trinas. A Arte nova penetrou na Universidade a par da Grammatica 
de Pastrana, ou Arte vdha. Em um assento do conselho escholar, de 



OS HUMANISTAS E A REFORHA DA UNIYERSIDADE 335 

16 de dezembro de 1525, deliberou-se e por evitar as diversas opiniSes 
que OS mestres de Grammatica segaiam em prejuizo dos estadantes, 
que fossem notificados para que os ensinassem pela Arte de Pastrana 
ou pela de Nebrixa, sem mistorarem ama com a outra.»* Vé-se que 
a inflaencia humanista^ assim corno nos entrava por via da Belgica, 
tambem atacava a UniverBidade de Lisboa pelo kdo da Hespanha. A 
Universidade de Paris rendeu-se ao assalto critico de JoSo Luiz Vives^ 
no midoso pamphleto In Pseudos-dialecticoe; é certo que Vives dedi- 
cou a D. JoSo in o celebre livro De Tradendis Disciplinis, em 1531, 
livro que determinoa o pensamento da reforma da Universidade de 
Lisboa, annunciado pelo monarcha em 1532. Porém a influencia dos 
humanistas francezes deve fixar-se por 1527, quando D, JoSo ili, por 
via do Doutor Diogo de G-ouvéa, e por via de Frei Braz de Barros, 
protege a empreza do Collegio de Santa Barbara, em Paris, e procede 
à reformaf&o dos conegos de Santa Cruz de Coimbra e & funda9So de 
dois Collegios no opulento mosteiro. 

Os mestres que D. JoSo m, no comefo do seu reinado, chamou 
a Portugal para a educa9So de seus irmftos, eram portuguezes que se 
distinguiam nas Universidades da Europa, onde sustentavam as novas 
doutrinas humanistas. 

Ayres Barbosa, que frequentara o humanismo na Italia com An- 
gelo Policiano, regeu durante vinte annos as cadeiras de latim e grego 
em Salamanca; foi chamado a Portugal, por 1521, para vir ser mostre 
dos infantes D. Affonso e D. Henrique. 

Pedro Margalho, que se doutorara em Paris, regendo depois uma 
cathedra de Philosophia moral em Salamanca, foi tambem chamado a 
Portugal, por ordem de D. JoSo in, para vir ser mostre do cardeal D. 
A£Fonso. O rei, segundo se le em uma carta de Clenardo a D. JoSo Pe- 
tit, bispo de Cabo Verde, deu-lhe uma conezia em Evora, e além de 
tengas um legar no Desembargo do Pago. 

Depois d'està deliberagSo, aproveita a vinda de DamiSo de Goes 
a Portugal, em 1533, para o encarregar de um convite a Erasmo para 
vir reger uma cadeira na Universidade de Lisboa. Em 1534 chama An- 
dré' de Besende para dirigir a educa$So do infante D. Duarte, encar- 
regando-o ao mesmo tempo de ir a Salamanca a convidar o erudito Ni- 
colào Clenardo para o coadjuvar na sua missXo. Emfim, o Doutor Pe- 



1 Nota de Pigueiróa, n.* 76, Ab NoUdaa chronologicas, § 933. (Ap. Inatituto, 
t. XIV, p. 260.) 



336 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIBIBRA 

dro Nunea é em 1532 encarregado de ensinar mathematica e astrono- 
mia ao infante D. Luiz e ao cardeal D. Henrìque, a cujaB lÌ93e8 assis- 
tia tambem o futuro e glorioso vice-rei da India, D. JoSo de Castro^ 
A educagAo dos principes, induzindo o rei a procurar os melhores pro- 
fessores, levou-o a proteger officialmente os philologos e a admittir as- 
Buas doutrinas na Universidade. Quando a Companhia de Jesus pene- 
tròu em Portugal teve de desviar o animo do monarcha d'està cor- 
rente; D. Jofto III chamou a Portugal DamiSo de Goes em 1545 para 
vir ser mestre do principe D. JoSo, mas o padre SimSo Rodrigues teve 
arte para evitar essa nomea9&o, sondo o grande philologo substituido 
pelo Doutor Antonio Piiiheiro, que ensinara rhetorica em Paris em nm 
dos periodos gloriosos do Collegio de Santa Barbara. Està instabili- 
dade de caracter de D. Jofto m resultava da sua mediocridade men- 
ta!, facilmente sujeito a escrupulos religiosos. 

A educa92io litteraria de D. JoSo in, cuja rudeza nSo escapou aos 
cautelosos euphuismos de Frei Luiz de Scusa, nSo farla suppdr que 
no seu reinado recebesse a inBtruc92o publica uma remodelaySo capi- 
tal, comò a que se observa nas Escholas de Santa Cruz, na transfe- 
rencia da Universidade para Coimbra, e na fandagSo do Collegio recti. 
Frei Luiz de Scusa descreve a cultura que o monarcha recebera : <pa- 
receo novidade mandar elRey vir ao pa9o, para dar IÌ9SL0 de escrever 
ao Princepe, humpohre homem, que por bom escrivSo, tìnka eschola aberta 
na cidade, Chamava-se Martim Affonso. Do que colUgimos duas cou- 
sas : primeyra, que devia ser insigne na arte ; segunda, que nSo averla. 
entSLo homem nobre, que fosse n'eUa. DavSo-se em aquelle tempo to- 
dos 08 nobres tanto às armas, e tSo pouco às letras, comò se fòra ver- 
dade, que a pena embotasse a lan9a. Vicio e culpa que n'este reyno 
durou mujtos annos, e cujo remedio devemos so a este Princepe, polla 
honra que despois que reynou, soube fazer às letras e a todas as boaa 
artes. . . Tratou elRey de o applicar aos estudos de Grammatica e La- 
tinidade, e dar-lhe nelles pessoas autorizadas pera mestres. Foram na 
Grammatica Diego Ortiz de Vilhegas famoso letrado e pregador, cas- 
telhano de na9&o. . • O outro mestre foy Doutor Luiz Teixeira, filha 
do Doutor JoSo Teixeira, Chan9arel-mór que fora del Rey Dom JoSo 
segundo. Era Luiz Teixeira vindo de fresco de Italia com fama de ho- 
mem eminente, tanto nas letras humanas, em que fora ouvinte de An- 
gelo Policiano, comò no Direito civil, sobre que escrevera doutamente. 
D'estes deus mestres ouviu Princepe varios livros de Latinìdade. Do 
segundo chegou a tomar principios da lingua Grega, e ouvir parte da 
InstUuta, que he porta e entrada pera estudo do direyto civil. • » 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 337 

Para tudo teve o Princepe bom naturai, acompanhado de grande me- 
moria, que he hama das partes que mais se requerem nos qne estu- 
dam qualquer sciencia: que se assi tevera a appIica92lo, que Ihe to- 
Ihiam OS passatempos que costumam senhorear a idade juvenil, ou os 
mestres se atreverSo a uzar com elle huma pouea mais de jurdÌ9St0; 
podera ficar com perfeito x^onhecimento da Latinidade, e de outras ar- 
tes, que elRey seu pay dezejou que soubesse: principalmente as Ma- 
ihematìcasj de que Thomaz de Torres, medico e bom Astrologo, Ihe leo 
alguns principios, assi dos movimentos dos Planetas, comò da consti- 
tuÌ9lo do mundo, em terra e mares . . . Porém de todo este cuidado se 
Ihe ncto pegou mais que huma boa incUna^ào para as Letras e letra- 
dos, . .» * 

Herculano, na Origem e estahdecimento da Inquisigào em Portugal, 
leva as affirma95es pej orati vas muito mais longe: e Durante a vida de 
seu pae muitos havia que o conceituavam corno intellectualmente im- 
becil, ou que pelo menos o diziam. O proprio D. Manuel mostrava re- 
ceios do predominio que, em tenra edade, exerciam no seu espirito 
homens indignos.» Eram os seus favoritos Martim Àffonso de Sousa e 
seu primo D. Antonio de Athayde. Nas allusoes mordazes dos linha- 
gistas, nos nobiliarios manuscriptos, explica-se a influencia do conde 
da Castanheira, «porque Ihe deixava tocar a mulher, quando era in- 
fante.» Animo facilmente suggestivel, quando de todos os lados os es- 
piritos se interessavam pelo humanismo litterario e scientifico, e a in- 
telligencia portugueza occupava logares proeminentes nas principaes 
Universidades da Europa, com o que a naySo se ufanava, D. JoSo ili 
acompanhou a corrente, cobrindo a sua mediocridade com uma boa in- 
clina9llo para as letras.^ Ao come9ar a reac9ào do Scholasticismo, su- 
stentada pelos Jesuitas, verdadeiros continuadores dos Nominalistas, a 
8ubmiss3o de D. JoSLo in serviu-lhes para se apoderarem do ensino e 
lan9arem de Portugal os mestres francezes. D'està instabiUdade do 
animo do rei resultam tres phases caracteristicas nas reformas da In- 
struc9So publica portugueza: 

A primeira decorre de 1521 até 1537, em que, depois da cha- 



1 Annaes de D. Joào III, p. 8. 

2 Escreve Villar Maior, na Noticia stiC4nnia da Universidade de Coimbra, ape- 
sar do seu respeito officiai : «inclina9ào que quasi se converteu em mania, querendo 
a todo o custo formar sabios e principalmente theologos; pois basta vermos que 
8Ó em Paris sustentava, segando affirma o auctor da Monarchia lusitana^ setenta 
estudanies d*aquella sciencia.» (P. 52.) 

HI8T. UH. 22 



338 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

mada de mestres eminentes para 08 infantes, o rei determina a reforma 
dos Conegos regrantes e a fiinda^dlo dos CoUegios de Santa Cruz de 
Coimbra, para os quaes vieram regentes portuguezes de Franca. 

A segunda efifectua-se entre 1537, em que se faz a tra8lada9fto da 
Universidade de Lisboa para Coimbra, para a qual sào chamados sa- 
bios estrangeiros, até 1547, em que chega a Portugal Mestre André de 
Gouvéa com um completo corpo docente, de verdadeiras capacidades, 
para regerem as disciplinas do novo Collegio real. 

A terceira phase cometa pela perseguiamo aos mestres francezes, 
em que figura o detestavel cardeal D. Henrique, até 1555, em que D. 
Joào III entrega o Collegio recti aos Jesuitas, que desde esse momento 
se acharam dirigindo a educa9So publica portugueza. 

Depois do fallecimento de D. Manuel, em 1521, a Universidade 
nSo teve ensejo de eleger o novo monarcha para seu Protector; gras- 
sava entSo uma terrivel epidemia em 1522; a corte abandonava Lis- 
boa, e OS lentes nSo se reuniam para os actos academicos, comò o da 
eleÌ9llo do reitor. * D. JoHo ni sentiu-se da falta da homenagem da Uni- 
versidade, e ao firn de dois annos lembrou-lhe a eleiySlo do Protector. 
A boa vontade do monarcha manifestou-se pela carta règia de 1523, 
augmentando os salarios aos lentes de prima de Canones e Leis; aos 
de prima e vespera de Medicina; aos de Canones e Leis de ter^a; aos 
de Sea^ e Codigo; aos de Grammatica e Logica; ao de Theologia de 
vespera; aos de Philosophia naturai, de Meta/jhysica, Philosophia mo- 
ral e Astronomia; tambem angmentou o salario do Conservador da Uni- 
versidade. * 

Duas provisoes de D. JoSo ui, de 17 de novembre e de 6 de de- 
zembro de 1525, manifestam a interven9S[o do poder real na Univer- 
sidade; na primeira manda que se fa9a a eleiySo do reitor^ em dia de 
S. Martinho (corno se usava em Salamanca), sentindo que nilo cum- 
pram os estatutos manuelinos; na outra estabelece que os cargos es- 



1 D*e8ta peste de 1522 falla Frei^uiz de Sousa, Annaea de Z>. Joào III, p. 
44 a 46 e 59. Meyrelles, Epidemologia portugueea^ p. 236. 

' Cari, da Fazenda da Univereidade. Patrim. ant. Grav. 3, M. 5, n.» 2. (Calai, 
peryam. n.<* 51, p. 23.) 

' Escreve Figueirda : «està elei^So do Reitor se fez por ordem de S. Mages- 
tade em 25 de novembro de 1525, e que antes de se votar se praticoa sobre as 
pesBoas mais dignas para està occupa9ào, e se fallou no Bispo Ambrosio, que sup- 
pue era D. Ambrosio Brandào ou Pereira, bispo de Bostiona, e no Desembarga* 
dor Jorge Co tao, que assim se acha escripto, e que oste foi prcf erido.» (Notas às 
Noticias chronologicas, not. 104; Instituto, t. xiv, p. 279.) 



OS HUAiÀNISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 339 

cholares nSo podem darar mais do que um anno. Havia urna certa qne- 
bra ^6 disciplina na Universidade, mas deve isso attribuir-se aos con- 
stantes rebates da peste que assaltava JLisboa. Em 1525 a peste re- 
crudesceu fortemente, ^ a ponto de ter a Universidade de representar 
ao rei para ser fechada, pelo grande perigo que corria o pessoal do- 
cente. 

Em 9 de maio de 1525 representou a Universidade a D. JoSo ui: 
cSenhor. Reitor, Lentes e Conselheiros e Deputados do vesso Es- 
tudo e Universidade da vessa Cidade de Lisboa com o acatamento que 
devemos, beijamos as reaes mSos de Y. A. a que fazemos saber que 
a dita Cidade està tHo impedida corno V. A. sabe; e por que Senhor, 
OS dias passados faleceo ho Doutor Micas ' de peste, que foi urna grande 
perda do dito Estudo por ser bum letrado tSo famoso e de que recebia 
tanto proveito e fruito ; e porque Senhor, os bons letrados nom se fa- 
zem se nam com multo trabalho e longo tempo, e os que bora lemos 
no dito Estudo desejamos conservar nossa vida pera que mais annos 
sirvamos V. A. e fa9amos servÌ90 no dito Estudo onde se criam e saem 
OS letrados que governam Vossa JustiQa e ensinam salvar as almas e 
curar os corpos, e por que etc. Assinados: fflacarote, Reitor. Ho Ba- 
charel Jorge Calvo; Doutor Luiz Affonso, Antonius Soare"^; Franciscus 
Valentinus, Artium Magisteri Petrus Bhombus: Balthasar Lupus.» ^ 

A peste de 1525 tornou-se mais intensa; D. JoSo in fugiu para 
Coimbra em 1526* e ali se conservou ató fins de 1527;^ Gii Vicente, 



1 Livro dcu Vereaqòea de Coimbra, de 1525, fi. 17 e 22. MeyrelleB, Epidemo' 
logia portugueea, p. 238. 

2 Em urna nota do reitor Figaeiróa ao § 955 das Noticiaa chronologicas, lé-se 
àcerca d'este lente: «Agostinho Micas principiou a lér a cadeira de Philosophia 
moral n'este anno de 1510, em que el-rei D. Manuel parece que a creou de novoi 
por nSo se achar duella até aqui algum vestigio.» (Ap. Instituto, t. zit, p. 262.) De- 
pois d'està data tomou o grào de doutor em Medicina, e levou por opposi^ào em 
9 de mar^o de 1518 a cadeira de prima da mesma faculdade. (Ibid., p. 277.) 

5 Ap. Cuidados litterarioa, p. 247. Frequentavam a Universidade D. Joao de 
Castro, Fernao Vaz Dourado, Martinho de Figueiredo, Grarcia d*Orta e Chrysto- 
vam Africano. (Ib.) D'este Fedro Rombo falla Cenacolo, corno discipulo de An- 
tonio Martins, tendo impresso em 1500 : Anionu Martini primi quandam hujiu Artis 
FASTBANE in alma Universitate Ulixbonensipreceptorig: maUriarum editio a baculo 
eecorum hreviter coUecta. 

* Regimento de 27 de setembro de 1526, em que allude ao decrescimento da 
peste. 

^ Allude a ella Amato Lusitano, Curationum Medieinalium Centuriae septem, 
p. 719. Meyrelles, Epidemologia portugueza, p. 239. 

22* 



340 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

que acompanhava a córte, escreveu e representou em Coimbra a Far^ 
doB Almocreves e o Auto da Serra da Estrella, em que glorifica as fa- 
milias nobres da terra. Foi durante està permauencia do rei em Coim- 
bra que elle se persuadiu da vantagem de fixar ali a Universidade de 
Lisboa. 

Em 1527 jà Francisco de Sa de Miranda se achava em Coimbra^ 
de volta da Italia, onde se demorara desde 1521, na convivencia dos 
prìncipaes litteratos; d'ali tinha trazido conhecimento das obras de Pe- 
trarcha e de Sanazarro, de Bembo, de Aretino e Ariosto, e ao vir en- 
contrar em Portugal os velhos metros octonarios das coplas de Gancio- 
neiro, e urna ignorancia completa dos metros endecasyllabos, jà usados 
em Hespanha por Bosc2o e Garcilasso, emprehendeu a retorma da poe- 
sia portugueza, iniciando assim a esplendida època quinhentista. Noe 
seus versos conhecem-se referencias à lucta de urna eschola nova cen- 
tra o perstigio tradicional de urna poetica em parte palaciana, da per- 
sistencia trobadoresca, e em parte popular. Sa de Miranda, no prologo 
da sua comedia Estrangeiros, combate contra o uso dos dramas em verso 
e com rima, e mais ainda contra a denominammo barbara de Auto em 
vez de Comedia; era comò que \xm ataque directo a Gii Vicente, o in- 
oomparavel representante da tradifSo medieval. Gii Vicente achava-se 
em Coimbra em 1527 ; jà em 1523, na f arja de Inez Pereira, re- 
pellira os ataques de certos homens de bom saher, que negavam a ori- 
ginalidade dos seus Àutos. Esses homens de bom saber eram os hu- 
manistas, que estavam extasiados com a leitura das comedias de Plauto 
e Terencio, pallidos reflexos da comedia menandrina, e com as come- 
dias italianas, apagado vislumbre do theatro classico. Sa de Miranda 
foi secundado por novos talentos, que se lan^aram & imitamSo da poesia 
italiana; mas a importancia do facto nSo estava em fazer bem endeca- 
syllabos e imitar os petrarchistas, mas em introduzir na idealieagSLa 
poetica a profundidade philosophica, dando universalidade ao senti- 
mento. Foi isso que destacou CamSes dos outros quinhentistas. A re- 
nova9So litteraria achou no meio academico uma enthusiastica adhes20| 
come vémos em Jorge Ferreira de Vasconcellos e em Antonio Ferreira, 
emprehendendo a composiySo do drama classico; e na preoccupafSo de 
uma epopèa virgiliana em varìos espirìtos, que foram supplantados por 
CamSes. Alludimos aqui a està revoluySo na Litteratura, porque egual 
transformas&o se operou na Architectura, substituindo-se o gothico pe- 
las ordens gregas, e porque a queda do Scholasticismo nas Universi- 
dadeSy provocada pelos humanistas^ tomou possivel a renovamSo das 
Bciencìas e necessaria a forma^So de uma nova Bjnthese montai. 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIYERSIDADE 341 

Àpesar da imita9lo academica que predominou nas Litterataras 
uà època da Ilenascen9a classica, em que os modelos eram tomados 
de Virgilio para a Epopèa, de Horacio para o Lyrismo e de Terencio 
para o Drama, ainda assim o genio nacional achou expressSo nos gran- 
des escriptores, corno em CamSes, Lope de Yega e Cervantes, Molière 
e Shakespeare. Mas o que modificava profundamente o caracter das 
Litterataras nSo era a imita9So mais ou menos calta, era a separa9Ìo 
«ffectuada entre os escriptores e o povo. Emqaanto este continaava a 
repetir aatomaticamente as suas tradiySes, cada vez oom menps com- 
prehensSo do sea sentido intimo, os escriptores entregavam-se à col- 
tura da expressSo litteraria sem preoccupaQllo de um destino social. 
Perdiam-se assim a disciplina do sentimento *e o uso d'està immensa 
forfa modificadora das vontades. £ o que foram os Scholasticos do firn 
da Edade mèdia, desenvolvendo a Dialectica nos claustros e nas aulas, 
sem terem em vista actuar sobre as opini(!les do vulgo, o mesmo foram 
na B.enascen9a os Humanistas, enriquecendo as Litteraturas nacionaes 
com imita93es dos livros da antiguidade e separando-se completamente 
do povo. 

Emquanto D. JoEo iii se achava em Coimbra, emprehendeu a re- 
forma do mosteiro de Santa Cruz, em cujas rendas estava encorporado 
o Priorado-mór, que era de padroado real. Como o rei gastava com as 
obras do mosteiro uma grande parte das avultadissimas rendas do 
Priorado-mór, entendeu intervir na reorganisa9So dos conegos, para o 
que obteve os còmpetentes breves apostolicos. Encarregou da realisa- 
9S0 d'este plano provincial da ordem hieronymita, Frei Antonio de 
Lisboa, e Frei Braz de Barros, parente do futuro auctor das Decade», 
come9ando na empreza em 13 de outubro de 1527 ; eram extranhos & 
Congrega92o dos conegos regrantea, e por isso n&o foram bem consi- 
derados os seus trabalhos de reforma9fto. ^ Frei Braz de Barros è que 
apparece mais em evidencia, exercendo governo do mosteiro, e co- 
operando em todos os actos relacionados com a reforma das Escholas 
de Santa Cruz e com a trasiada9So da Universidade para Coimbra. Os 
conegos de Santa Cruz nSo tinham obriga9SLo claustral; pela reforma 
de Frei Braz de Barros foram for9ados a adoptarem a clausura, esta- 
belecendo-se assim uma separa9So entre os que se nSo submetteram e 



1 Sobre caracter da reforma doe Conegos regrantes, por Frei Braz de Bar- 
ros, falla com amargura D. Nicol&o de Santa Maria, dizendo : «cuja reformaQSo 
parca em tirar as rendas aos nossos Conegos de Santa Cruz para a Univeraidad e 
de Coimbra. . . » (Chr, doa B^antes, liv. vi, p. 354.) 



342 fflSTOIUA DA imiVERSIDADE DE COIMBRA 

OS que adheriram^ qae ficaram Bujeitos ao governo de um Prior claus- 
treiro, eleito entro elles. Entro os eonegos qne acceitaram o regimen 
claustral figura D. Bento de CamSos, quo veiu a ser eleito Prior claus- 
treiro no anno em que a Universidade foi mudada para Coimbra, e que 
por està circumstancia recebeu a dignidade de primeiro Cancellano da 
Universidade^ inherente aos Priores de Santa Cruz. Desde 1527 come- 
Saram a adquirir grandes creditos o Collegio de 8. Miguel, dentro do 
mosteiro, porque o seu edificio ostava em construcfSo^ irequentado pela 
nobreza, e o Collegio de Todos os Santos; e pela superioridade do ensino 
que ali professavam alguns eonegos que haviam estudado em Franfa, es- 
tabeleceu-se uma corrente na arìstocracia portugueza, que para ali man- 
dava OS seus filhoB para serem educados. desenvolvimento extraordi- 
nano d'estes dois CoUegios e a grande concorrencia de alumnos da fi- 
dalguia foram uma das causas que levaram D. JoSo in a determinar-se 
pela escolha de Coimbra para assento da Universidade, e à funda(So de 
mais dois Collegios, de Santo Agostinho e de S, Joào Baptista, junìo 
do mosteiroy e à custa das rendas do Priorado-mór. 

cardeal infante D. Affonso, irmSo de D. JoSo ili, renunciou o 
Priorado-mór de Santa Cruz em seu irmSo o infante D. Henrique, 
sendo-lhè concedida essa faculdade por Clemente vii, em bulla de se- 
tembro de 1527. Como tutor do infante, e comò padroeiro do Priora- 
do-mór, entendeu D. JoSo m applicar uma parte das suas avultadis- 
simas rendas para a su8tenta98o dos eonegos claustraes, para a fun- 
da^fto dos dois bispados de Leiria e Portalegre, e para a dotaySo da 
Universidade. Por carta de 19 de Janeiro de 1530* D. JoSo iii, com 
o consentimento do seu tutelado, que era administrador perpetuo de 
Santa Cruz de Coimbra, e consentimento dos eonegos e convento, cfea 
a separasse das rendas d'elle, (;^ixando aos ditos eonegos para seu 
mantimento, vestiaria e cal9ado, corno para todo outro provimento da 



1 No livro doB Breveg da uniào cUu rendas de Santa CrvM* e Conesias, fi. 62, 
vem a provisSo de 19 de Janeiro de 1530, sobre a reforma ordenada por D. Joio m: 
«D. Joio etc. fa^o saber, que vendo eu, corno o Mosteiro de Santa Cruz de Coim- 
bra era do B. S. Agostinho, e ob ReligioBOS d*elle Conegos Regrantes; que eram 
obrigadoB a guardar a dita Ordem e Regra, e viver nas ObBervancias regnlares 
d*ella,. . . e querendo provér, corno a dita Ordem e Regra fosse inteiramente gnar- 
dada, e ob Conegos e Religiosos vivaBsem n*eUa, assim religioBamente, corno de- 
vilo e cumpria; por servilo de Nobbo Senhor e descaigo de conBcienda do Infante 
D. Henzique, meu muito amado e prezado irmio, Administrador perpetuo do dito 
MoBteiro, o mandei reformar, e asfiim os Religiosos d'elle, na dita Ordem e Re- 
gra. . .» (Ap. Dr. Silva Leal, Mem. da Acad. de Hitt. em ITSS, P. i, p. 120.) 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 343 

vida em communi, as rendas de Quiaios, dos Redondos, das Alhadas 
e Maiorca, de Cadima, de Vemde, de Murtede de Orvieira, de Anta- 
nhol dos Frades, de Condeixa a Velha, de Bordallo, de AnciSo, dos 
SebSes e Rio de Gallinhas, e assim mais de todo o azeite, e vinho das 
pensòes do dicto mosteiro e todos os cameiros, aves, e ovos dos fóros, 
e penscHes de todos outros quaesquer logares, que até este tempo fo- 
ram da Meza do Priorado-mór; e outrosim que para a vestiaria, e en- 
fermarla dos dictos conegos e frades, e anniversarios e missas, tives- 
sem tambem todas as rendas, que até aqui tinham da sua Meza con- 
ventual, e que tudo possuissem, govemassem e administrassem e re- 
colhessem corno Ihes bem viesse, por si ou por seus officiaes, sem 
n'isto o dicto infante, nem seus officiaes se intrometterem . . . que os 
dictos conegos escolherSo e nomearlo & sua vontade as mencionadas 
rendas, as quaes valiam e rendiam em cada anno por ayaIia9lo e es- 
tima certa, que d'ellas se havia feito um conto e mU e duzentos e trinta 
quatro reta; que bem Ihes poderiam bastar para seu mantimento, e 
para outro provimento d'aquella real casa, de que todos foram mui 
contentes; e que haveriam as dictas rendas de Janeiro de 1528 em 
diante. ..»* infante D. Henrique acceitou està separa9So por ou- 
torga de 28 de Janeiro do anno de 1530, e os conegos de Santa Cruz 
a 22 de abril, sob a clausula da confirma9llo do papa. ^ Estas resolufSes 
foram convertidas em instrumento publico em 23 de agosto de 1535. Em 
consequencia d'està separagSo das rendas do Priorado-mór, D. JoSLo in 
encarregou Frei Braz de Barros em 1536 de mandar edificar os dois 
CoUegios de Santo Agostinho e de S, JoSo Baptùta, de estudos meno- 
res, de Artes e Humanidades, e para onde se destinaram depois algu- 
mas dieci plinas da Universidade na trasladaQSo de 1537. 

As reformas que D. JoSlo ili mandou fazer no mosteiro de Santa 
Cruz de Coimbra, e fundagSo de CoUegios junto d'elle, ligavam-se ao 
projecto da mudàn9a da Universidade de Lisboa: cdispoz prudente- 
mente de longe os meios de effectuar està mudan9a, determinando que 
no real mosteiro de Santa Cruz de Coimbra se desse principio a Es- 
tudos publicos, pelos annos de 1528.»^ Em outubro d'este anno come- 
yaram a reger-se os cursos regulares com alguns Mestres vindos de 
Paris, em fórma de Universidade; a fama d'estes estudos fez no anno 



1 Notas de Pigueiróa, n.« 111. Ap. Instituto, t. xiv, p. 282. 

2 Bulla de Paulo ni, de vii kal. mail de 1536, confirmando a separa^ào. 

3 Dr. Silva Leal, Collec^am de Documenios e Memorias da ^cademia de Eie- 
taria, 1733, P. i, p. 402. 



344 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

de 1529 convergir a Santa Cruz um grande numero de jovens fidai- 
gos, yendo-se por està circumstancia forfado o reformador Frei Braz 
de Barros a proceder em 1530 à construcgSo de dois Collegios^ para 
receber os alumnos. Defronte do mosteiro^ na rua da Sophia, e à custa 
das rendas da ordem^ edificou-se o Collegio de Todos os Santos, para 
Theologos e Philosophos, e o de Sam Migud, para Canonistas e Theo- 
logos. Os primeiroB gastos, em que se dispenderam pouco mais de 
mil cruzados, foram cobrados de um deposito que se achava na Uni* 
versidade de Lisboa; as restantes despezas foram & custa das rendas 
do Priorado-mór e do proprio mosteiro de Santa Cruz. Nos Estatutos 
d'estes dois CoUegios se Ha: oOrdenaroos, que as Collegiaturas dos nos- 
sos CoUegios sejam dezoito, nove em o Collegio de Todoa os Santos, 
e nove em o Collegio de S, Miguel, Em cada um Collegio haja trez 
Familiares para servÌ90 do Collegio. O primeiro Collegio seja de Theo- 
logos e Artistas, e o segundo de Canonistas, ou mixto de Theologos.»^ 

Collegio de Todos os Santos era mais pequeno e ficou lego 
prompto, nio chegando os seus alumnos a viverem no mosteiro. Eram 
conhecidos pjelo nome de Pardos, da c6r do seu habito; os do Collegio 
de S, Miguel tinham a denominagSo de Roxos.^ 

Collegio de S. Miguel teve maiores propor53es, levando por 
isso multo tempo na sua construc9ào; por este motivo^ e para se admit- 
tirem coUegiaes ao mesmo tempo, emquanto as obras proseguiam, es- 
tabeleceu-se dentro do mosteiro,* na casa grande chamada do Ghdeào, 
junto à torre dos sinos e casa dos Priores-móres, onde foram rocolhi- 
dos provisoriamente coUegiaes e porcionistas fidalgos. Os alumnos nSo 
chegaram a sair do mosteiro para o seu Collegio, porque quando se 
acharam concluidas as obras D. JoSo lu apoderou-se d'elle por em- 
prestimo, em 1547, para ahi estabelecer o Collegio real, sob o princi- 
palado de Mestre André de Gouvèa. 

Junto do mosteiro de Santa Cruz tambem fundara Frei Braz de 
Barros os outros dois CoUegios, de S. Jodo Baptista e de Santo Agosti- 
fiho, que subsistiram até ao anno de 1537, lendo-se ainda ali por algum 
tempo latim por cima da parochial de S. Jo9o, e a aula dos Quodlibe- 
tos e Augustiniana entre a egreja e a portaria, ao lado direito. 



1 Conservavam-se estes Estatatos no Cartorio de Santa Cruz, armario 14. 
Silva Leal, op, cit.^ p. 404. 

* «O habito dos coUegiaes de Todos os Santos sera huma loba de panna 
pardo, que quasi cubra os pés, e capello singello do mesmo panno ; e o habito dos 
oollegiaes de S. Miguel he lobas roxas sem collar, e do dito comprìmentoi e huma 
baca com rosea do mesmo panno.» (Estat., const. 4; ap. Silva Leal, op. dt,, p. 405.) 



OS HUHANISTÀS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 345 

Na Descripgam e debuxo do moesteyro de Sancta Cruz de Coimbra 
ha urna apreciavel referencia & tjpographia em qae trabalhavam os 
conegos regrantes depois da vinda de Paris dos mestres Fedro Hen- 
rìques; Goii9alo Alvares, e o hellenista Vicente Fabrìcio: «Em estas 
casas (de stipar) sem nhua pessoa secalar aiudar aos relìgiosos^ vereis 
corno se exercitIL em o officio de cZpoedorea, dùtribuidorea, outros em 
de correytores, outros em hatidores, outros em tiradoresj e todos em 
silencìo observantissimos guardadores.»^ 

A influencia do humanismo francez apparece-nos de um modo mais 
directo no Doutor Diego de Gouvèa, que occupava em Franga uma mis- 
s2Lo qualquer sob D. Manuel; em uma carta de 9 de margo de 1513, de 
Jacome Monteiro ao rei, noticia-lhe: «comò o Dr. Diego de Gouvéa par- 
tira para Ruào, munido das provisSes necessarias para tratar da cobranga 
do euro que havia side toinado pelos francezes, o qual, segundo aca- 
bava de Ihe escrever, havia jà pela mór parte em seu poder. . . »* No 
principio de 1522 foi mandado regressar a Portugal o embaixador que 
fora a Francisco l reclamar contra as piratarìas que os francezes fa- 
ziam à marinha portugueza, «ficando em Paris Pedro Oomes Teixeira 
para proseguir conjunctamente com Mestre Diogo de Gouvea no re- 
querìmento de algumas cousas de sua fazenda, e assistir aos portugue- 
zes em suas reclamagSes.»^ Em outra carta de 23 de abril de 1522 dà 
embaixador em Franga conta a D. JoSo iii da entrega do galeSo e 
caravella aprezados pelos francezes, e de que o Doutor Diogo de Goa- 
vèa partirà para RuSo, d'onde o devia informar àcerca dos projectos 
de um aventureiro que pretendia ir descobrir o Catayo. * Como vimos, 
D. Manuel chamara a Portugal em 1516 o Doutor Diogo de Gouvèa 
para o magisterio da Universidade, mas o activo doutor pediu excusa, 
expondo ao rei o seu plano de concentrar em um Collegio em Paris 
todos 08 Estvdantes d'el-rei. Emprehendera comprar o antigo Collegio 
de Santa Barbara, onde imprimisse uma certa uniformidade de ensino 
e de disciplina, para assim tornar mais proficuos os esforgos dos seus 



1 Dr. Scusa Viterbo, Mantiel Correa Monte Negro, p. 13. 

Ainda hoje se chama ao apparelho em que se vSo reunindo as letras com- 
ponedor, e compoiitor ao que as reune ; batedor é o que dà tinta, embora jà se n2o 
usem as balas com que se batia na fórma tjpographica, communicando-lhe a tinta; 
ainda se diz tirar e retirar ao imprimir por uma e outra banda, mas impresaor ao 
que faz este trabalho. 

^ Yisconde de Santarem, Quadro Elementare t. ni, p. 178. 

3 Idem, ibid., p. 199. 

* Idem, ibid., p. 206. 



346 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

patrìcios e os Intuitos do monarcha. Diogo de Gouvèa apenas conse- 
guiu do proprietario do Collegio o arrendamento em 1520; porrentura 
a morte de D. Manuel causou-lhe algum transtomo, porque em feve- 
reiro de 1523 apparece-nos condemnado no tribunal por atrazo de ala- 
gueres. De D. JoSo in obteve entSo cinquenta bolsas ou subsidios para 
estiidantes, collegiaturas que foram tambem coadjuvadas pelo cardeal 
infante D. Affonso. Este auxilio garantiu a existencia do Collegio de 
Santa Barbara, que desde 1526 entrou em urna actividade normal, e 
onde Diogo de Gouvèa mostrou as mais extraordinarias aptidSes pe- 
dagogicas. Ahi entraram logo com o grào de me&tres Mar9al de Gou- 
vèa, André de Gouvèa, Diogo de Gouvèa, o novo, e Antonio de Gou- 
vèa, sobrinhos do famoso Principal, que teve por alumnos os mais as- 
Bombrosos espiritos da Rena8cen9a. Na giria escholar era conhecido 
pela alcunha de Smapivonis (Engole-moatàrda), termo conservado por 
Francisco Rabelais, e applicado tambem a André de Gouvèa; està al- 
cunha referia-se à mansuetude e benignidade com que supportavam as 
fadigas do magisterio, vencendo as coleras violcntas em que de ordi- 
nario càem OS que aturam alumnos indisciplinados. ^ Além d'està re- 
forma do methodo pedagogico, Diogo de Gouvèa n2o se aterrava com 
a liberdade mental dos seus collegiaes, e diante da crise diffidi do Scho- 
lasticismo, que decaia luctando, e do experimentalismo da Renascen9a, 
que penetrava na Universidade de Paris, elle deixou invadir o Collegio 
de Santa Barbara pela corrente das doutrinas humanistas, comò vèmos 
nas homenagens de veneratilo que Ihe consagraram os regentes dos mais 
ruidcsos cursos, o philosopho JoSo Gelida e o mathematico Femel. Para 
obter as cinquenta bolsas ou collegiaturas, o Doutor Diogo de Gouvèa 
veiu a Portugal para apresentar o seu pedido a D. JoSo iii; em prin- 
cipio de 1526 ainda se achava em Lisboa. No Collegio de Santa Bar- 
bara, talentoso JoSo Fernel, que para ali entrara comò alumno em 
1523, regia um curso de Philosophia, explicando com a maior lucidez 
texto de Aristoteles desannuviado dos commentadores, e juntamente 
com està disciplina encetara um curso de Mathematica, para o qual 
compoz uma obra a pedido do Principal Diogo de Gouvèa. Foi em 
1527 que Fernel publicou o seu Monalosphaerium, dedicando-o a Diogo 
de Gouvèa; fóra consagrado ao primeiro anno do seu curso,' frequen- 



1 A loca9So : Chegar a mostarda ao nari*^ significa a explosSo da colera nSo 
reprimida. Revela-nos o seiìtido da alcunha rabelaisiana. 

< TranscrevemoB em seguida a importante Carta de Fernet a Diogo de Gouvèa: 
•Ao varào perfeitisaimo e sem èenào, e cdé>errimo douior em Sagrada TheolO' 



OS HUMANISTAS E A KEFORMA DA IJNIVERSIDADE 347 

« 

tado por muitos alumnos portugaezes, hoje totalmente desconhecidos, 
corno JoSo Baptista^ JoSo Ximenes^ Manuel de Teyve. 

curso do segando anno foì intitulado Cosmotheoria, e professado 
em 1528. Fernel dedicou a obra a D. Jofto in, em reconhecimento dos 
altos beneficfes que o Collegio de Santa Barbara Ihe devia; e apresen- 
tando 9ea trabaiho mostra esperanQa de qùe os seus novos methodos 



già, Diogo de Gouvèa^ Joào Fernet, naturai de Amiena, apresenta o$ eeus respeito» 
809 cumprimentoa. 

Quando andavas a dispdr as cpusas, 6 varSo integcmmo, para urna partida 
longinqua e exposta a vaiios perigos, para o serenissimo rei dos portugnezes, mais 
do que urna vez me rogaste que, na tua ausencia, imaginasse eu alguma cousa por 
meio da qual os espiritos festivos e brincalfaoes dos mancebos (mórmente d'aquel- 
les que tinhas acreditado deverem ser por mim educados) podessem colher as flo- 
rinhas e as abastauQas suavissimas das disciplinas mathematicas, e comò por um 
accrescentamento de joias estrangeiras tomassem as outras artes, com as quaes 
se misturassem, mais ìllustres e mais apreciaveis. 

Pois s&o com effeito de tal natureza que acarretam brilho e esplendor 4s 
cousas yulgares, e conseryam durante toda a rida o espirito no corpo corno que 
banhado por um certo e incrivel deleite: o que a nobreza parece conseguir n'aquillo 
a que se applica. 

Porém, emquanto ao que me diz respeito, com o firn de fazer alguma cousa 
digna do teu pedido, ordenei immediatamente ao meu animo aqnillo que eu co- 
nheci — que tu beijavas e abra^avas piedosamente este genero de afagos. A estas 
cousas accresceu tambem um frequente e quasi diario pedido da mocidade estu- 
diosa, a qual eu conhecera d^isso ter ainda mais desejos. Pertanto, apresentados 
estes preambulos nSo yulgares, para um tal fim, à obra do uso de urna s6 Esphera, 
ha jà multo tempo come^ado, Ihe puz jd a ultima demSo, com a qual obra se abrisse 
um caminho mais ezpedito a todos para os segredos das mathematicas. Isto s6 na 
verdade para a habita^ao de cada um, e àquem e além do equador basta que 
accommodes as utilidades sem nenhum trabaiho, de modo que, regulando-te pelos 
prìncipios astrologicos, nada pareva teres omittido. 

Porém, se alguem, apesar d'isto, entregando-se a impertinentes censuras, as- 
severar que aquelle mesmo instrumento, ao qual dèmos o nome de Monaloephae- 
ritmif apresenta semelhan^s eom o Astrolabio, com certeza n£o o negaremos — tem 
parecen^as com o Astrolabio : porém com mais presteza, e na realidade mais em 
geral, abaia e esparse por baizo a agua. 

£ por isto todos hào de julgar que o mesmo deve ser preferido ao Astrola- 
bio, por isso que sSo mais nobres as artes quanto menos trabaiho dSo. Como se 
alguma arte, visto o céo, ensinasse a abarcar todas estas utilidades, julgaremos 
todavia està mais digna do que aquella, carecendo de urna ezplica^o enorme, nSo 
so dos volumes, mas tambem dos orgSos. 

Porém este trabalhinho, seja là apreciado comò for, comò se estivesse pre- 
parando para a edi^So, por qualquer parte que (bem comò ave come^ando a co- 
brir-se de pennugem, a qual pela prìmeira vez sae do ninho momo), olhou em volta 



•350 HISTORIA DÀ UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

A par de Fernel figura no professorado de Santa Barbara o va- 
lenciano JoSo Gelida, patricio de Celaya, mas antagonista implacavel 
do Schoiasticismo. Gelida tinha sido discipulo de Joilo Bibeiro^ o en- 
thusiasmado celaysta, porém o estudo do grego, auxiliado pelo seu do- 
mestico Postel, fel-o comprehender que Aristoteles era multo differente 
do que propagavam os commentadores medievaes (idèa que sustentou 



em que faz finca-pé,.com as quaes a triste ignorancia é afugentada, e as mentes 
se patenteiam mais divinas. 

Por todas as partes estes teus immortaes feitos proclamam que o teu animo 
é propenso a beneficiar os estudiosos, e de ti fallam corno se fosses nm verdadeiro 
asylo. 

£ls porque tenho eaperan^as que a nossa CosMOTHKOBLà ha de chegar com 
mais 8eguran9a às tuas màos regias, e ha de ser ataviada com mais esplendor. 

E pofltas de parte estas cousas, narrare nSo so as grandezas dos elementos, 
mas tambem as grandezas dos globos celestes, os sitios, a composiQSo das partes, 
mas tambem esplicare, em geral e com lucidez os movimentos dos astros. 

Cada urna das quaes cousas se por acaso alguem jolgar talvez fìngidas, e 
(comò dizem) feitas diante de urna tela ou panno de armar, por parecer arduo e 
temerario definir aquellas cousas que s&o com effeito dlfficeis para serem defini* 
das, esse sem duvida tem a consciencia de ser um nesdo. 

Pois as agglomera^oes dos astros, as opposi^òes, os eclipses, vémoNos occor- 
rerem exactamente nos proprios momentos em que os astronomos mais eruditos 
com antecedencia declararam que ha viri m de apparecer. 

£ por acaso este indicio nào convence mais do que cabalmente de que exis- 
tem razòes dos movimentos celestes nsU) ignoradas? Oxalà que aquelles logares 
das terras de que a cada passo os nauticos nos estSo fallando os marcassem tam* 
bem com suas latitudes e longìtudes ! £is porque se alguem disputar àcerca das 
grandezas dos orbes, esse, trocaudo o gr&o para as demonstra95es de Ptolomeo, 
cederà immediatamente do seu campo victorioso : pois a ninguem foi dado destruir 
estas, e nem sequer vel-as, tamanha é a for^a d'ellas, e tanta a ezcellencia da sua 
evidencia. 

Eis porque determinai seguir n'este trabalho corno anctoridades de primeira 
ordem a este auctor, com Affonso, rei de Castella, e a Alphragano (Alfergani) 
com o fim de que se alguma cousa parecer ardua ou digna de admira^So u£o seja 
eu so tido comò auctor de tal asser^ào, mas tambem elles. Pois d^estes tambem 
colhemos documentos, os quaes para com elles sendo tidos corno invenciveis de* 
moustra^oes, os submettemos ao nosso trabalho, comò uns certos principios e fun- 
damentos da arte astronomica ; n'estes finalmente tudo quanto resta da obra se 
baseia completamente e teve o seu incremento mais solido. Mas para que houvesse 
de ser de mais utilidade, terminamos a Cosmothisobu. com o Planethodio: instru- 
mento o qual à primeira vista, sem incommodo algom de calculo, apresenta os lo» 
gares dos astros e suas phases em cada um dos dias, patenteando ao mesmo tempo 
um comò registro das opera^oes. 

S&o estas, pois, ó magnifico rei, as cousas que eu tinha para consagrar à tua 
serenidade, com o fim de que a ellas teu nome desse esplendor, corno astro matu- 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 351 

tambem Antonio de Gouvèa na celebre pugna com Fedro Ramus), e 
tratou de remodelar a educa9So da saa intelligencia, vindo a merecer 
do eradito Vìves o epitheto de cAristoteles do seu tempo». Gelida de- 
dicou ao Doutor Diego de Gouvéa a sua obra De quinque UniversalUms, 
onde compara o Collegio de Santa Barbara^ na demoIiySo do regimen 
intellectual da Edade mèdia, com o cavallo de Troja, d'onde saiam os 



tino, e o movimento das estrellas se tornasse mais esplendido com o accrescenta- 
mento de nm novo astro. 

Ncm julgnei eu na verdade que taes cousas houvessem de ser dissonantes 
ao teu festivo engenho, sendo, corno na realidade é, tHo admiravelmente organi- 
sado para os segredos da natureza, e patenteando um arder tlo vivido para as 
emprezas difficeis. 

Abra^ando tu pertanto està contemplammo celeste, tens patente a contempla- 
mmo de todo mondo. 

Visto, pois, estar j& sob a inspecmSo dos tens olhos a grandeza do orbe, de 
maneira que d'elle nada te seja occulto, e os mais remotos confins do globo te se- 
rem patentes pela industria dos reis teus antepassados, e com um tal nome nSo so o 
povo christào, mas tambem toda a corda dos cosmographos do nosso seculo, urna 
aurèola de gloria cinge o nome luzitano, nSo menor & que cingiu o nome dò alexan- 
drino Ptolomeo. Aquella na verdade, porque jà totalmente foi destruido por varìoa 
o commercio com os turcos de ter aromas para vender : estes, porèm, porque as ez- 
tremidades do austro e do oriente, até agora desconhecidos pelos nossos homens, 
abriram caminho para o nosso seculo. Nem eu j&mais tinha ezaltado com os seus 
devidos louvores aquelle Henrique, illustre prole de JoSo primeiro d'este nome, o 
qual, primeiro de todos, se entranhou pelas praias africanas e ethiopicas com o fim 
de visitar taes logares, e além dHsso abriu caminho para o promontorio da Etbiopia, 
com incremento nào vulgar de todo o relno. Depois do qual, Bartholomeu Dias e 
Fedro Cao, grandemente conhecedores da arte de navegar, desde o promontorio da 
Etbiopia até k ilha de S. Thomé, d'aqui passando além d^aquelle cabo antartico da 
Boa Esperan^a, foram os primeiros que (pelo menos por este caminho) alli chega- 
ram. Os quaes, no reinado de D, JoSo u, com o cognome de bom agouro — de Boa 
EsperanQa, — em Sophala, regiSo da Arabia (a qual julgamos que fora chamada 
Ophir e Sophir, no segundo livro do Paralipomenos)^ hastearam a cada passo as 
bandeiras da Lusitania, indicando bastantemente o arder de que estavam devo- 
rados de augmentarem e territorio de Portugal. 

Porém, come a estes de nenhum mode fosse licito avan^r mais além, pas- 
sados alguns annos maior desejo dominou a D. Manuel, rei illustrissimo, e Vasco 
da Gama e Paulo da Gama, irmlos, se fizeram ao mar, os quaes nlo semente se 
apossaram de Sophala, mas tambem de Callicut, e se apoderaram tambem das re- 
giòes ulteriores e opulentissimas da India. 

Na maior parte dos logares foram levantadas 4 for^a fortifica^Ses, defendi- 
das por machinas bellicas, e dispostos présidios em varios pentos, para que sem 
grandes difficuldades fossem repellidos os ataques dos infieis enraivecidos. E to- 
das estas cousas tu agora conservas com cmdado e augmentas 4 custa de despe- 
zas, ampliando e teu imperio cuidadosamente. Um novo mundo se ergue, sendo tu 



352 UISTORIÀ DA UNIVERSIDÀDE DE COIMBRA 

priBcipaes talentos da Renascenja. * Doutor Diogo de Gouvéa achou- 
se envolvido nas questue» religiosas do secalo xvi, mas o seu espirita 
toleraate, no meio das mais exaltadas pugnas theologicas, fez com que 
OS adversarios, corno Robert Etienne e De Thou, apenas Ihe jogassem 
urna ou outra phrase sarcastica, mais mordente para a Sorbonne do 
que para o venerando pedagogo. 



mesmo d'elle o fundador, o qual nem Alexandre macedooioo, nem Ptolomeo ale- 
xandrino, jàmais dirSo sereni d'elle fundadores, ou que o houvessem conhecido. 
Aquelle ourO| o qual antigamente o Sophir mandava com frequencia a Salerno, 
esse BÓ a ti hoje é concedido. Finalmente aquellas madeiras de cedro, aromas e 
pedras que recebeu da Persia, para ti s&o remettidas, corno se emquanto 4 or- 
dem tu houvesses succedido a SalomSo. Aquelles que para elle corriam de toda 
a parte, com o fim de haurircm d'elle a sabedoria, procuram-te com mais ardentes 
desejos, com o fim de tu os confirmares na fé de Christo. Indicam-n'o esses que 
nao so agora junto de ti s^ emissrios do reino ethiopico de Manicongo, mas tam- 
bem do amplissimo potcntado do Preste Joào daa Indias. E eis que a quarta parte 
do mundo, à qual os nossos pozeram o nome de America, n'uma grande parte em 
tua honra abaixa os feixes e os estandartes : onde, a 36 gr4os, para a latitude bo- 
real, um immenso e riquissimo rio se apresentou no anno passado k vista dos teus, 
do qual (cousa inaudita) a barra se alarga por vinte e oito milhas, e até mesmo 
dizem que a agua potavel corre para o mar por e8pa90 de vinte milhas. Porém 
nós realmente nao nos encarregamos de narrar prodigios taes senSo para que el- 
les sejam apregoados comò cousas dignas de serem sabidas por toda a parte. Pois 
jÀ alcan^aram tanta extensào, que passam jà comò em adagio. 

Recebe, pois, ó serenissimo rei, por tua augusta benevolencia e vulto riso- 
nho, nossas lucubra^oes àcerca da contempla9So do mundo : para que nSo so todos 
confessem que a Lusitania produzira isto comò uma novidade, e aguce os dentéÌB 
Theoninos firmado no favor da tua magestade, e assim ligaràs com maior aperto 
na verdade a Femel em alguma cousa que Ihe fór dedicada. Adeus, 6 indTto rei, 
8upplico-te que descobertas as partes das terras para a luz, Christo as acceite nos 
céos. Paris, um dia antes das nonas de fevereiro, anno 1528.» 

(Da dedicatoria da Cosmoiheoria, libros duos complexa; reprodnzida por Qui- 
cherat, op, cit., 1. 1, p. 352. Devemos a traduc^&o ao professor Manuel Bemardes 
Branco ) 

1 Archivamos aqui a tradnc92o da Carta de Odida a Diogo de Grouvèa: 

tjoào Gelida apretenta seus mui respdtosos cumprimentos a Diogo de Gouvèa, 
gravissimo professor das sagradas lelras. 

N'estes ultimos dias amplific4moB, 6 varSo eruditissimo, a razSo de discor^ 
rermos àcerca das ciuco vozes, e passadas algumas horas de molestissimo traba- 
Iho, pareceu conveniente entregal-o ao teu nome para Ihe dares luz: nSo porque 
julgue eu que este t2o insignificante opusculo sega proprio para se apresentar 
a um vario tSo illustre, mas sim porque eu fa^o aquillo que é do meu dever : ou 
para melhor dizer, que nem sequer cnmpro em harmonia oom o men dever aquillo 
que a humanidade e a religiosa integridade dos costumes exigem em multo maior 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 353 

A publicafSo quo Robert Etienne fez dos Evangelhos pela pri- 
meira vez sobre manuscriptos gregos, collacionando-Ihes as yariantes, 
produziu um immenso roido na Universidade de Paris. Os doutores re- 
clamaram dos poderes publicos urna anctorisa9So para nada ser publi- 
cado; attenta a necessidade de manter a orthodoxia, sem o seu exame 
prèvio. Robert Etienne ficou envolvido na réde da argumenta9So ca- 



escala. E sendo tu pois para com o rei de Portugal um varslo de tamanha aucto- 
rìdade e lealdade, que d*elle recebes alumnos para por ti Berem edueados, todos 
hSo de julgar pienamente racional que està primeira prodac9So do meu engenho 
te haja de ser consagrada, dadìva qne em harmonia com a condi^ào do meu animo 
e Yontade, espero que tu sem grande custo has de acceitar. Pois é proprio de um 
homem liberal (e todos dizem que o és) o mostrar magnanimidade, e nSo o receber 
dadivas. Porém, se na occasiào presente eu me esfor^asse em narrar os teus lou- 
vores, e os da nossa casa de Santa Barbara, de que és Principal diligentissimo, na 
oecasiào presente eu me esfor^arìa para continuar, e emprehenderìa percorrer um 
vasto mar, no qual teria eu de me arreceiar antes do naufragio, do que da salva- 
9S0. Quem ignora, pois, ó deuses immortaes, que do collegio de Santa Barbara, corno 
de um cavallo de Troya, tém saido varoes fortissimos, os quaes tém combatido e 
combatem sempre com ardor nos arraiaes dos medicos e dos theologos. Entre os 
quaes poderemos mencionar JoSo Major, varSo na realidade nunca assaz louvado. 
Porém, se voltarmos as atten^oes para os acampamentos Justinianeos, veremos 
que a maioria é do Senado parìsiense, produzida pela nossa fecundissima Bar- 
bara, da qual manam fontes de todo genero de doutrìna, nio sendo fora de pro- 
posito o affirmar que ella é um comò centro em volta do qual giram nossas aca- 
demias, estando aquella sempre presente às nossas vistas. Eìs porque te devo dar 
08 parabens, 6 varSo peritissimo, por seres tu a causa de florescer t2o notavel- 
mente Barbara, e por melo de seus servi^os ainda tenha de floreseer mais e mais. 
Apresento-te, pois, este opusculo dedicado ao teu nome, e pe^o-te que o acceites 
para que elle possa com mais valentia resistir às calumnias, e arrostar com mais 
denodo os ataques dos invejosos. Pois com efieito eu auguro que nào tém de fal- 
tar calunmiadores, os quaes talvez pretendam attentar contra o nosso proposito. 
Mas julguei que d*elles nenhum caso deverìamos fazer, mórmente corno ninguem 
se tenha julgado de urna classe t2o abjecta, que n2o haja lucrado alguma cousa 
com taes estudos. 

E eis porque, se por conselho de Aristoteles (corno refere Quintiliano) seja 
vergonhoBO ficar calado, e, comò Isocrates diz, o softrer, nSo fica nosso traba- 
Iho esposto a labéo, com a manifestammo de taes cousas, as quaes dizem respeito 
à intclligencia das ciuco vozes, e por outros foram passadas em claro, e annuindo 
a quotidianos pedidos eu n'ellas trabalhei. Adeus, pois, 6 sectarìo da doutrina de 
Paulo e acerrimo refutador dos lutheranos, e continua a favorecer com a tua cos- 
tumada benevolencia ao teu Gelida. Do Collegio de Santa Barbara, a seis das ka- 
lendas de outubro do anno 1527.» 

(Publicada à frente da obra De quinque Univeraalibua, e reproduzida em la- 
tim por Quicherat, op. ciL, 1. 1, p. 850. Devemos a traduc^So ao professor Manuel 
Bomardes Branco.) 

HIST. UN. 23 



354 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Buistica doB doutores, que nSo Babiam grego ; quando se via for9ado a 
sair de Eran9a, contou.os sena trabalhoB n'am opuscido: Ab cemuraa 
do8 Theologos de Paris, pdas quaea tìnham falsamente candemnado as 
Bibliqs impressas por Robert Etienne. N'este escrìpto figura entre os 
censores o nosso Doutor Diogo de Gouvèa, o velho: cEu voltei ao tri- 
bunal; pe90 que. elles presentes digam o que tém contra mim e que 
produzam o resto dos seus articulados. Assiin for^adosy vieram dez, se 
bem me lembr0| entre ob quaes estava Odoacro, seu orador, Picard, e 
Govea antigo^ Entraram no couBelho apertado, que estava reunido 
em multo maior numero que de costume; porque todos ob oardeaes e 
bispoB seguiam o tribunal e ali estaram ; o oondestaveli segundo depois 
do rei| e o chanceller.— Estes dez, em nome de todos, me davam o com- 
bate a mim so. Depois deuse-lhes ordem para que apresentassem os 
artigos ou erro8| se assim Ihe quizerem chamar. Tendo debatido mui- 
tas couBaS) com grandea risadaB de toda a assemblèa, por causa daa 
Buas birras tumultuosas, porque elles discordavam entre si, enraireci- 
dos um contra o outro, deblaterando ambos, foi-mé ordenado de re- 
sponder immediatamente e fallar por mim. Croio que na minha defeza 
a objurgajSo de que usci pareceu muito dura aos dez embaixadores; 
comtodo, a yerdade da cousa obrigou a alguna d'elles a testemunhar 
que as minhas annotaySes eram muito uteis.» No mesmo folheto de- 
screve o esame ao exemplar dos Evangelhos, feito pelos theologos da 
Universidade : e Finalmente, eu Ihe apresento no seu conclave nos Ma- 
thurins o Novo Testamento por mim impresso; e entSo presidiam Gh- 
vea e Le Bouz, que me tinham grande inimisade, homenB muito igno- 
rantes, mas bastante cautelosos fabricadorea de ratoeiras contra inno- 
centes. Elles vSem que é grego o que esti impresso. Pedem que Ihes 
tragam um velho exemplar. Pensaes que era para lèr n'elle!. . . Por 
fim concordaram que o encargo de lér està obra sera confiado a dois 
de entre elles que sabam grego.»' Nfto admira que o Doutor Diogo de 
G-ouvda n&o fosse um hellenista; era o estudo do grego alheio à sua 
època escholar, comò observa Quicherat, que nota a fraqueza dos ata- 
ques dos adversarios theologicos contra tSlo eminente individualidade. 
Na adminiatra9&o e governo litterario do Collegio de Santa Barbara, 
era o Principal auxiliado por seu sobrinho André de Gk>uvèay le plus 
grand principal de France, corno Ihe chamava Montaigne, e que vere- 



1 Ghwnde parte d*68te folheto foi publicado por Firmin Didot, na Biographia 
de Boberi Etienne* 



OS HUMANISTAS E A BEFORIIA DA UNIYERSIDADE 355 

BIOS mais tarde convidado por D. JoSo m para fondar o Collegio retd 
em Coimbra. Quando Mestre André de Qouvda come9oa a govemar 
Samta Barbara, segaiu a doutrina da Renascen^ai em rivalidade com o 
Ci^egio de Montaigay qae se mantinha nos velho3 methodoB aolioUuk 
ticos. André de G-ouvèa ohamou para o Collegio o celebre LatomnSy 
amigo de Erasmo e um renovador da Dialeotica pelo seu criticismo. 
LatomuB, propagando em Franca o livro revolacionarìo de Bodolpho 
Agricola, De inventione Diaìectica, poz em alarme todo o corpo theo- 
logico, que achava isso um desacato a Arìstoteles. Beconhecido & prò- 
tec9So de André de Goavéa^ Latomos dedicou-lhe o resumé da obra 
de Agrìcola. * Bastam estes simples faotos para nos revelar comò a in- 



1 Transcreyemos em segaida a Carta de Bartholomeu Latofnm a Mestre An" 
dré de Chuvèa: 

«Ck>mo de todo o genero de artes seja grande a utilidade, ó André de €K>q* 
yds, varSo hUmanissimo, mas mai principalmente d*aqaella parte & qual dfto o 
nome de — Arte de discorrer — , parte da qual nSo so colhemos fructos, mas tam- 
bem adquirimos uma certa rasfio para formarmos joizos, e para adquirirmos todos 
06 conhecimentos das bellas artes. Pois nem a natnreza, postoque a possoamos 
optima, basta por si s6, se nSo fdr resguardada oom um tal presidio; nem em ge- 
nero algom de artes ou de letras alguem é felismente versadp, a nio ser que bfja 
side imbuido n*iun tal modo de discorrer, o qual n2o so concorre com aquillo que 
oom mais certeza encaminba a mente d*aquelles que se entregaram és letras, mas 
tambem deslinda questoes que nSo pertencem à Letteratura. E penetrando no àmago 
das (jaestSes, expliea-nos as difficuldades e os embara^os difficeis,eazTeda-no8 os 
trope^os. Eis porque, e com rasSo, os homens, mesmo os mais doutos, julgaram 
sempre que deyia ser procurada edm o maxime empenho. £, com effeito, nSo sd- 
mente elles mesmos a abra9aram com grande ardor e desyelo, mas tambem nol*a 
apresentaram enriquecida com a diligencia e estudo d'elles : e ainda tambem nol-a 
atayiaram com o seu engenho e industria amplissimamente, destinando-a para fru- 
cto da sclencia e dos conhecimentos. 

Mas corno duas scgam as partes em que ella se divide, — a 4e enslnar e ade 
follar, a urna das quaes chamam Dialeotica, e dando A entra o nome de Ehetoxicat 
— ^muitas cousas por ellas, tanto n*um corno n'outro genero, nos foram transmitti- 
das com grande utilidade. Mas, segundo o meu modo de pensar, na segunda parte 
trabalbou com grandissimo fructo Bodolpho Agricola. Pois escreveu este yarSo 
&cerca da inven^So dialeotica um trabalho exacto e grandemente desenyolyìdo, no 
qual, além da doutrina e modo de tratar as cousas, o qual com a maxima oonye* 
nieneia apresentoa urna tal el^gancia no discurso, que pareee ter n*este genero 
supplantado a todos, no conceito de todos os homens eruditos. E, oom effeite, corno 
estes liyvos ha multo tempo andam naa mSos de todos, e por causa da sua utili- 
dade sejam lidos nas escholas, hayendo sido escriptos com maior desenyolfim^tOi 
de modo que nSo podem ser lidos dentro de um curto praso, tratei de os résumir, 

28* 



356 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

fluencia da Renascen9a actnava no espirito de D. Jo&o in, e qaal o- 
caracter da projectada reforma da Universidade de Lisboa. 

O elemento scholastico come9oa a ser expungido systematicamente 
da Universidade ; D. JoSo m mandou por 1529 que mestre Frei JoSo 
de Gandavo, ou Framengo, dominico, mestre em Artes e Theologia 
pela Universidade de Paris, renunciasse a cadeira de Metaphyrica, que 
alcangara por oppo8Ì9So em 15 de fevereiro de 1514; no conselho de 
15 de Janeiro de 1530 mestre Frei JoSo de Gandavo apresentoa a sua 
renuncia de lente de Metaphysica, pelo que o rei, em compensajSo, e 
tocado da sua obediencia, o jubilou com 13^000 réis de ordenado, por 
provisfto de 22 de abril de 1530. Vé-se claramente que era um golpe 
no scholasticismo, porque Frei Jo3o de Gandavo, estando vagas as ca- 
deiras de prima e vespera de Theologia, concorreu a ellas, e, nllo appa- 
recendo outro oppositor, foi previde em 15 de fevereiro de 1532 na 
de prima. ^ A faculdade de Theologia fechava-se A corrente humanista, 
e comò protesto abriu o seu seio ao sustentaculo do scholasticismo. 
Tambem por mandado de D. JoSo m, Frei Luìz, da ordem de S. Fran- 
cisco dos Claustraes, renuncia a cadeira de Physica em 9 de abril de 
1530, pelo que Ihe mandou dar urna ten9a de llf$000 réis, das rendas 
da Universidade. ' As cadeiras de Philosophia eram especialmente prò- 
vidas em medicos, prevalecendo sobre a especula9So subjectiva o cri- 
terio^ da observaySo e da experiencia, que desde Hippocrates e Galeno 
caracterisou està categoria de sabios. Era um symptoma auspicioso da 
Renascenya; a Physica (De Natura), a Metaphjsica (Prima phUoso- 
pMa) e a Logica (Censura veri) iibertavam-se do imperio das entida- 
des mentaes. Assim vamos encontrar Pedro Nunes, ainda bacharel em 
Medicina, cbamado & regencia de uma cadeira de Philosophia maral; e 



no anno passado, e agora finalmente, pondo o maior empenho em que resumidos 
foimassem um compendio, e depob,lendo-08 outra ves, tratei de oe dar 4 lue para 
utilidade dos estadìoecs. E està ultima edi^io, 6 André de Gouvéa, julgaei que 
t'a devia dedicar n*iim tempo em que és o Principal n'om amplissimo Collegio. 
£ eis porque t*a dedico, comò é de justi^a, prestando-te este preito da minha he- 
menagem. 

Adeus. 15 das kalendas de outubro (17 de setembro) anno 1588.» 

(Vem pnblicada & finente do Epitome eommentariorum dtalecHeaednveaUoms 
Bodolpki Agrioolae; reprodnzida por Qoicherat, op. dt,, 1. 1, p. 860. Traduca do 
professor Manuel Bernardes Branco.) 

1 NaUu de FigueirÓa, n.» 85, ao g 960 das ^o^tocM ehronoloffieae. Àp. Iiuth- 
Udo, t zzY, p. 268. 

* Ibidem^ nota 98. 



OS HUBIANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 357 

Garcia d'Orta, que em 1525 regresaara de Salamanca graduado em 
medicina; chamado A regencia de um curso de PhilosapJua naturai e 
4e Swnmvlas, Estes dois eminentes homens de sciencia; e as maìorea 
^lorias da Universidade, figuram ao mesmo tempo^ quando a corpo- 
ra9So jà estava ameayada de sair de Lisboa; ambos se acham relacio- 
nados com a grande figura historica de Martim A£Fon80 de Scusa. Var 
,gando a cadeira de PhUoaophia morale que regia Frei Affonso de Me- 
dina, e se ausentou d'ella, por chamado de D. JoSo ili, em 1529, foi 
provido em 8ubstituÌ9lo, em 4 de dezembro, Fedro Nunes, entSo ba- 
charel em medicina, com a obriga9So de ièr duas li$8es, uma theorica 
e outra pratica. Em 15 de Janeiro de 1530 renunciou a cadeira de Lo- 
.gica JoSo Bibeiro, e o conselho escholar a encommendou ao Doutor Fe- 
dro Nunes, lendo mais està cadeira, tendo de salario 20f$000 réis. Ea* 
creve Figueirda: a attendendo a que fazia pouco fructo na de Logica, 
por falta de onvintes, Ihe encommendou a de Metaphysica, a qual leu 
por um anno.» A cadeira de Metaphysica ficara vaga pela renuncia 
de Frei Jofto de Gandavo, em 15 de Janeiro de 1530. Fedro Nunes dei- 
.xou a Universidade, figurando ainda no exame privado de Luiz Nunes 
de Santarem, em 16 de novembre de 1535, e no exame privado de Ma- 
.nuel de Loronha, em 21 de Janeiro de 1537 ; cporém depois devia de 
ir para Salamanca, pois de là veiu para lér a cadeira de Mathematica 
-na Universidade de Coimbra, de que se Ihe passou previsto em 16 de 
outubro de 1544, na qual cadeira jubilou por provisSo de 4 de feve- 
reiro de 1562, tendo sómente treze annos de leitura, e se Ihe levaram 
em conta tres annos que leu Fhilosophia em Lisboa, e quatro que por 
ordem d'el-rei assistiu na cdrte entendendo nas Cartas de marcar e 
exame de pilotos, para completar os vinte que se requerem para a ju- 
bila9So.»^ 

Fedro Nunes foi mostre do infante D. Luiz, ensinando-lhe cFhi- 
losophia, Arithmetica, Geometria, Acustica e Astronomia; tambem en- 
sinou ao Cardeal D. Henrique, além da Arithmetica e Geometria, o 
tratado da Esphera, as theoricas dos Flanetas, parte da grande com- 
posigSo dos astros de Ftolomeo, a Mechanica de Aristoteles, e teda a 
Cosmographia.»' Exercia este cargo por 1532, comò se infere da de- 
dicatoria do tratado De Crepuscìdis a D. Jo&o ili. A sua reputa$2o 



^ Figaeirda, net. 108, às NoUeioa ehronologicas; IrutiMOf t. xiy, p. 281. 
* Bibeiro dos Santos, Da Vida e EacriptoB de Fedro Nttnea. (Mem. de Liiie» 
raturOf t. vn, p. 251.) 



358 mSTORIA DA tTNIVERSIDAOE DE GOIHBRA 

corno nmthematieo fez com que em 1533, ao chegaar Martini A£Foii80 
de Sousa a LÌ8boa, da expedi^fto a que fòra mandado com una ar* 
mada a esplorar as costas austraes do Brazil e a reconhecer o Kio da 
Pirata (1530), Ihe apresentou nota de algons phenomenos aatronomicot, 
de que Ihe pediu a explica^So scientifica. Fedro Nnnes compoz, para 
satiafazer a Martini Àffonso de Scasa, o Tratado sabre certaa duvida» 
da Navega^. Eis as duvidas que Ihe formxdara o valente capitSo : cera 
a primeira, que estando ho sol na linha em todos os logares em que 
se achou Ihe nacia em leste, e se Ihe punha no mesmo dia em oéste: 
iste egualmente sem nenhila defereren^ ora se achase da banda do norte 
ora da banda do sul. • . À segunda cousa era que elle se achara em 
XXXV gréos da outra banda da linha, no tempo em que o sol ostava 
no tropico do capricomio e Ihe nacia ao sueste e quarta de leste, e se 
Ihe punha no mesmo dia ao sudoéste quarta de loéste, comò aos que 
▼ivem na mesma altura desta parte do norte: e que nam via corno pò- 
dia iste ser: porque per rasam: assi avia de nacer aos que vivem da 
outra banda do sul quSdo ho sol anda per os signos da mesma parte: 
comò nace a nós quando anda desta uosa banda.» A observa(fto do 
nascimento e pùmento do sol era um dos processos de determinar a 
altura do polo, e Fedro Nunes explicou geometricamente as causas dos 
phenomenos que Martim A£Fonso de Scusa observara nos mares do sul. 
£ com rela^o i segunda duvida concine: cE tudi) isto se demostra ser 
assi porque a propor^So que tS'o sino do comprimente da altura em 
^alquer régiSo: cS o sino universal do circulo: essa mesma ha do sino 
da declina9So ^ tem o sol em qualquer dia: ao sino do rumo em que 
nace: o quo craramente se prova per Tolomeo, no segundo do Altnor 
gesto. Do qual se segue quam facil cousa seja: resguardando polla me* 
nhft sol no seu nacimento: com a agulha bem verificada: ou com li- 
nha meridiana: se for na terra: saber per conta sem mais instrumento 
a altura do polo em que nos achamos: o que eu em todo tempo sem 
saber a bora Q he nem ter linha meridiana: c8 instrumentos fa$o.» 
Como n'este trabalho Fedro Nunes contradictava opiniSes auctoritarìas 
de Jeronymo Cardan, de Jole de Monteregio, de Riccio, de Zeigler, de 
Copernico e de outros, soffireu algumas censuras dos homens praticos, 
por nunoa ter enJiarcado;^ refutando essas criticas, escreveu o Tra- 



1 VarnhagenY na HiHoria geral do Bmsil, 1 1, p. 467 (not 83), julga que o 
Dr. Fedro Nnnea, que em 1519 foi 4 India corno védor da fasenda, e do qual eas* 
lem na Torre do Tombe cartas de 1521, 1522 e 1523, é o mesmo Dr. Fedro Nimes 
illustre mathematico e astronomo; para està identifica^io funda-se na quasi simi» 



OS HUMANISTAS E A REFORMÀ DA UNIYBRSIDADE 359 

iado em defensam da Carta de marear, onde iniciou o estudo da Lo- 
xodromia, ou propriedade das lìnhas oarvas. Hoefer escreve sobre este 
facto: «A loxodromia ou Hnha loxodromica, sendo a linha percorrida 
por am navio sempre dirigido sobre e mesmo rumo de vento, é urna 
curva de dupla curvatura, tra9ada sobre o spheroide terrestre; ella é^ 
corno reconheceu Halley^ a profecgSo atereographica da spirai loga- 
rithmica. Wright, Stevin e Suellius estudaram depois de Nunes as pro- 
priedades da loxodromia.» ^ No seu livro De CrepuscuHs, publicado em 
1542, Fedro Nunes apresentou a S0IU9&0 do problema: — Achar dia 
do anno em que o crepusculo é mais breve, — problema qua J. Ber- 
noulli procurara longo tempo debalde ;{n 'este livro se diz «existirem ele- 
mentos da theoria de Newton sobre as c8res.» No seu trabalho De Er- 
ratis Orontii Finei, combate os paralogismos algebricos do mathema- 
tico francez, que pretendia ter resolvido o problema da quadratura do 
circulo. facto principal em que assenta a reputasse de Fedro Nunes 
è a descoberta de um instrumento de precis&o, para supprir as peque- 
nas divisSes nos apparelhos astronomicos; é Nonio, Tycho Brahe e 
o Dr. Hallej fizeram um grande uso d'està divisSo, que tomou nome 
do seu auctor, e se conservou até hoje entro os nauticos e os astrono* 
mos. ' O quadrante mathematico proposto por Fierre Vemier em 1631 



Ihan^a das assignatnras manuscriptas : ha doctar jp.° nunie. facto do provedor- 
mór da Fazenda na India se intitular doctor, é que torna improcedente a concia- 
bSo tirada da paridade das aesignaluras ; porqne em 1529 Fedro Nunes era ainda 
baeharel em Medicina, corno se ve na sua provisSo de substituto da cadeira de Phi- 
losophia naturai. Que elle n2o fez viagem algama infere -se de uma passagem da 
Defata da Carta de marear, em que allude & m& vontade com que os pilotos rece- 
bem as ezplica^òes nauticas dadas por aquelles que nunca embarcaram : «Bem sey 
quam mal sofrem os pilotos que fale na India quem nunca foy nella; e pratique 
no mar quem nelle nSo entrou : mas justificam-se mal : poys nós sofremos a elles, 
que com sua maa linguagem e tam barbaros nomes ialem no sol e na lua e nas 
estrellaS) nos seus cìrcnlos, movìmentos e dedina^oes, etc.» Fedro Nunes era tam* 
bem combatido por tbeorìcos auctoritarios, comò Diego de Sa, que em Paris pn- 
blicou a obra De NavigatUme, libri tre». Ribeiro dos Santos, na memoria sobre Fe- 
dro Nunes» deu aviso àcerca da possibilidade d'està confusSo : «por aquelles tem- 
pOB bouve outro do mesmo nome, com quem se n2o deve confdndir o nosso Nu- 
nes, qual se intitula o Dputor Pedro Nunes, Veder da Fazenda da India em 1520» 
talvez mesmo que se diz Cbanceller da Casa da Supplica^ por 1584 e Juiz dos 
FeitoB d*Alfandega de Lisboa no mesmo anno (Mtmoriae da Aeademia, t. vxr, 
p. 255.) O erro de Vamhagen jà apparece em eircula^fto na Eutoire dee Màthé^ 
mathiqueaf de Hoefer, p. 849. 

1 HiHoire dea MàthémaUqueBy p. 849. 

* NcuveUe BieginipMe generale, de Didot 



360 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

• 

é urna imita9fto do instrumento inventado cem annos antes em Porta- 
gai. Ribeiro dos Santos, na apreciavel biographia de Fedro Nunes, toca 
verdadeiro ponto de vista critico por onde o seu genio mathematico 
deve ser considerado : «Em verdade^ que se conhece bem o seu alto me- 
recimento olhando para os annos em que a escreveu (a Algebra); isto 
é, desde 1532 ou 1533, tempos em que nSo apparecia em scena escri* 
pto algum de gregos e romanos, e nem talvez existia outro, senSo o 
das Questdes arithmeticaa do aloxandrino Diophante, que lanQOU n'ellas 
algumas sementes da Ànaljse, obra que ainda entào se nSo tinha di^ 
vulgado; tempos em que apenas corria o livro de Qebre d'entre os ara- 
beS) e OS tratados mais modemos dos italianos, Fr. Lucas de Borgo, 
Cardan e Tartaglia, escriptores contemporaneos do mesmo Nunes; tem- 
pos alfim, em que ainda se nào tinha dado à EquajSo huma nova fórma, 
mais commoda para as opera95es, nem raiado ainda o luminoso astro 
de Descartes, que as fez mudar de aspecto, e os de Leibnitz, de Ber- 
nouilli e de Newton, que estendeu os seus confins. » ^ Fedro Nunes foi 
chamado do 8ervi90 da Universidade para vir ensinar Mathematica ao 
rei D. SebastiSo, fixando a sua residencia em Lisboa, em 1572, por 
convito do monarcha. ' ultimo anno conhecido da sua existencia é o 
de 1574, porque em o alvarà de 12 de agosto d'esse anno se Ihe faz 
a mercé de passarem padrSes de 30^000 réis ao filho ou filha que o 
Doator Fedro Nunes nomear no seu testamento. ' 



1 Vida e Eserìptos de Fedro Nune$, nas Memoriaa da Academia, t. yn, p. 250 
a 283. 

2 Antonio de Marìz, na Dedicatoria da edi^o de Coimbra de 1573 do tra- 
tado De Arie cUque rcUiane naviffotianis, 

' Fedro Nunes recebeu mnitas tenQas, cnjas cartas Ribeiro dos Santos dta 
na sua biographia. Transcrevemos mais està, que &lta n*aquclle estudo, e que e«- 
palha urna certa luz moral : «Mt.^ ylustre sor. — £u fai a S. M. sabado ho qual me 
remeteo a V. S. co que heu mt.® folguei que pois meu requirimento estÀ em mSo 
de y.* senhoria nS se ade perder minha justi^a; o que pedi a el Rey noso sfior foy 
OS cem mil reis de meu hordenado que m*os de sua A. para roeus filhos e que ho 
hoficio dalfandegua que me tem dado para minha f.' que me dd satisfa^io dele em 
algna cooza boa e honrada para a hindia para ajuda de a Sncaminhar, e os meus 
trinta mil Rs. de ten^a que eu coprei por me dr.^ para mynha mulher histo para 
o que mere^ é mt® pouquo, e pore fazSndo està merce a meus filhos fiquarey co- 
solado que comò disse a Y. S. estft todas por Squaminhar e pois me en esqueci 
de 'mynha mulher e delles por servir sua A. bem seri que me fa^ merces para 
elles por descarreguo de sua oonsdencia que para my hir me ey fazer hermita para 
icomSdar a da^. a S. A. e a Y. S. — aqui m2do parte de meus servi^os a Y. senho* 
ria certefiquo Ihe que v2o mt.* menos esciitos que gA parte dos que eu fiz pc^o a 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIYERSIDADE 361 

« 

Vimos a inflaencia que as viagens do destemido Martim Affonao 
de Sousa exerceram sobre as estudos mathematicos do Doutor Fedro 
Nunes; vejamos agora corno iK^ompanhando este capitSo-mór do mar 
para a India o Doutor Qarcia d'Orta se liberta das queatSes estereis 
dos medicos hellenistas e arabistas, indo à explora9&o directa da Na- 
tareza, corno um heroe da Bciencia positiva. Martim A£Fon8o de Sousa 
tinha chegado a Lisboa^ da exploragSo das costas austraes do Brazil^ 
em 1533, e logo em 1534 era despachado para a India com um cargo 
difficil e laborioso, mas subalterno do vice-rei; largava o Tejo em 12 
de maryo com ciuco nàos: a Rainha, em que ia por capitSo, acompa* 
nbado de muitos jovens fidalgos, que nunca o deixaram nos lances ar- 
riscados; a Santa Cruz, a Santo Antonio, a Oraga e a Sam Miguel. 
Attentas as antigas rela95e8 de amisade do Doutor G-arcia d'Orta com 
Martim Affonso de Sousa, a quem na velhice dedicou o seu livro dos 
Colloquios dos Simplices, é muito provavel que o doutor fosse compa- 
nheiro de viagem da nào Rainha, e conversasse sobre o tempo da vida 
escholar em Salamanca, onde tambem se achara o capitSo-mór do mar. 
Martim Affonso de Sousa era um d'aquelles mancebos favoritos de D. 
Jo2o III, quando principe, comò o foram D. Luiz da Silveira e mesmo 
Sa de Miranda. Quando D. Manuel emprehendeu o seu terceiro casa- 
mento com D. Leonor, irmS de Carlos v, que o principe D. JoSo pre- 
tendia para si, o rei afastou da córte todos os que nSo approvaram 
esse tresloucado consorcio, e em especial os amigos do principe. Em 
1521 Sa de Miranda foi viajar pela Italia, e Martinf Affonso de Sousa, 
viajando pela Hespanha, visitou Salamanca, onde se demorou, namo- 
rando-se e casando ali com a gentilissima D. Anna Pimentel, filha do 
regedor de Salamanca e Talavera, D. Aryas Maldonado. Depois do fai- 



y. S. por que é que veja tudo mt.^ bem corno de seu servidor e com histo beijo 

suas m2o8 a quS noso sfior acrecente vi(da) e estado por mt.^ anos.^- servidor de 

V. S. 

ho dolor 
p.^ nunit. 

(Pablicada pela primeira vez por Yarnhagen, na HUtoria geral do Brcuil^ 
t I, p. 468.) 

^ N'esta carta refere-se Fedro Nunes ao alvarà de lembran^a de 21 de outa- 
bro de 1557, da mercé de um officio no reino cu na India, para a pessoa que boa- 
vesse de casar com urna de suas filbas, e correspondente & categoria da pessoa; 
ficou sem effeito, porque se trocou pelo officio de contador da camara, comò se ve 
da nota marginai do escrìv&o da Torre do Tombe, de 22 de abril de 1562. (Kibeiro 
dos Santos, Und,, p. 254.) 



362 flISTOBU DA UKIYERSIDADB DB OOiMBRA 

lecimento de D. Manuel; em 1521 , Martim Affomo de Soosa oontinuou 
em Salamanca & esperà que o novo rei e seu antigo «migo o chamasse; 
rei demorou-se a fazel-o, com oertesii inflaenciada pelo peraimo ca- 
racter do valido D. Antonio de Athayde, aquelle que maie soube captar 
o monarcha. D. Luiz da Silveira retiroa-se para a sua casa da Sorte- 
Iha; Si de Miranda foi fruir a commenda das Duas Egrejas para o Mi* 
nho; e Martim A£Fon80 de Scusa parece ter side afastado syatematica- 
mente da córte pelas expedijSes maritimas de 1530 e 1534. Estes fa- 
ctos nos explicam as relafSes de constante amisade do Doutor Garcia 
d'Orta com Martim Affonso de Scusa. novo medico chegara a Por- 
tugal em 1526, estabelecendo-se em Castello de Vide;^ a sua vinda 
para a c6rte seria talvez por influxo de Martim Affonso. E certo pò* 
rem que elle se dirigiu ao magisterio da Universidade de Lisboa, accei- 
tando a regencia da cadeira de Philoaopkia naturai em 1530, por en- 
eommenda do Conselho escholar em 5 de novembre.^ A encommenda 
era uma especie de sub8tìtuÌ9So, que so se tornava effectìva quando a 
cadeira era declarada vaga e se abria concurso cu opposigSo ; mesmo 
o candidato votado em concurso exercia o magisterio por encommenda 
até receber o provimento ou despacho regio. Em 27 de Janeiro de 1532 



1 Transcreyemos aqui a carta regìa que o aactorìsava a curar em Portngal : 
«D. Joham etc. a quantos està mÌDha carta virem fa^o saber comfiando eu 
nas letras e ciemcia do ieterado guarda d orta morador em castello de vide e no 
eiame que fez o meu fisyquo moor cm o quali ho achou auto e Bofidemte e jdonjo 
e Boficiemte asy na teorica comò na pratica queremdolhe fazer gra^a e merce 
oomffiamdo nele que sempre o farà asy bem e comò compre a servjQO de deus e 
meu e saude do meu povo tenho por bem e Ihe don lugar e licem^a que eie posa 
curar de fìsyca por todos meus Begnos e senhorjos. £ mamdo as mynhas justi^as 
oficiaes e pesoas a que o conhecymento pertemcer que livremente o leyxen usar 
de sua cyemcia e aver ob proes e percalle omrras e liberdades de que por seu 
grao ezame e eyemcia Ibe dereytamente pertence aver. £ eie jurara em a mynha 
cham^leria aos samtos avamgelhos que asy bem e corno deve e com sua demcia 
e asy comò compre a servy^o de deus e meu e booa saude do povo. £ mando que 
se algum fisyco em meus Regnos e senhoryos sem amostrar mynha carta pasada 
pelo meu fisiquo moor posto que graduado seja emcorra em pena de trimta dobras 
oomteudas em meu Regimento e sondo Beqnerìdo pello lecemoeado grada d orta 
as mynhas justi^as o constrangeram que paguen a dita pena. Dada em almeyrym 
ao X dia do mes dabrìll. £lBei o maodou polo doutor diogo lopes cavaleyro da 
ordcfm de ohrìsto e fisyco moor em seos Begnos e senhorìos Amtonio de farla a 
fez anno do nacyrnento de noso senhor Jesnu cbHsto de jb'xzvj.» (Cktmo^, de D, 
Joào III, liv. 36, fl. 97 ; publieada pela prìmefara vez na QoMtm de Pharmaeia, de 
1867, p. 45.) 

* Notai de iìgueirda às Natìoioi ehronólogica»; ap. LuUMo^ t jov, p. 281. 



OS HUMANISTAS E A RfiFORMA DA UNIVERSIDADE 363 

foi declarada Taga, além de oatras cadeira^, a de Sumimulas, ficando 
o concorso aborto por vinte dìas, e sendo a 8al>8titnÌ9So por tres an- 
nos; mas n'osse mesmo conselho se concordou eque a cadeira de su- 
mas a lese gracia dorta até Sam Lacas, e isto por eTnccmmenda, . . »^ 
As SummulaB eram o celebre resuino de Fedro Hispano^ quo se dava 
ainda nas Escholas de Paris e em Salamanca. Na Tahdla Legentium da 
segunda terja do anno lectivo de 1534^ figura L,^ orta, e a nota: caos 
desaseys dias do mes de mar^o come90u a ler ayres de luna a cadeyra 
d'artes q foj do L.^^ orta.» Na nota de Figueirda:' deu até um de 
mar90 de 1534 por estar de partida para a India.» 

Doutor Garcia d'Orta tinha partido no dia 12 de mar9o; nos 
CoUoquioè (fl. 177 ^) descreve o come90 da viagem: «Eu vim de Por^ 
tugal um anno antes, e trouxe pouca fazenda (corno se acontece a mni- 
tos), entro a qual trouce ciuco quintaes de pào chamado guaia^^, o 
qual ao tempo de agasalhar, nSo foi bem alojadó, e tomaram-me d'elle 
que quizeram as pessoas que o queriam tomar; e chegando a està 
terra, achei que pereciam muitas pessoas de talpariaa, e de outras cha- 
gas de soma castdhana, e a muitas d'ellas nSo aproveitava o remedio 
das unturas. E chegando a està terra, eu fui muito festejado por tra- 
zer oste pio, porque jà se haviam curado com elle algumas pessoas, 
is quaes havia succedido bem, e assi esperavam por elle de Portugal, 
e eu vendi o que trouxe por mil cruzados ; etc. » Doutor Garcia d'Orta 
ia estudar na India as plantas medicamentosas, que na Europa eram 
mal conhecidas pelas incompletas descrip93es dos Arabes. No seculo xvi 



1 No importante livro do conde de Ficalbo, Garcia da Orta toaeu tempo, 
vém estes docamentos transcrìptos do t. u, fl. 90 e y das ProvUoes de Lisboa, que 
estio no Archivo da Universidade: 

«ÀOB vimte sete dias do mea de Janeiro de mil e quinbentos e trimta e dous 
annos no estndo de Lix.' na capela do dito eitudo pelo Sor Beitor Lemtes conse- 
Iheiros depatadoB foi acordado ^ m cadeiras de canones e. de prima e vespera e 
' sezta foaem postas por yagas e asi de prima de fisica e a de sumulas. Q em dem- 
tro de tres dias se venha qnem quìzer opoer a ellas e porq asi foi acordado Man- 
daram os ditos Soros asi asemtar pera o asinarem. Vagas som.'* a sustituiram.* 

Depois das assignatoras segue : 

<£ a cadeira de iumulas se opoerà por vimte dias demtro dos quaes se opoe> 
ram, e està anstitai^am be de tres annos.» 

E no y da foiba: Fas par gracia doria»» 

«E loguo no dito dia atraz esprito foy acordado no dito cSselbo c[ a cadeira 
de sunuu a lese gracia dorta até Sam Lucas e isto per encomenda, por emtam se 
farà elei^am da dita catedra por tres annos.» 

s Ma, dos Consdhos, t n, fl. 80 f, Conde de Ficaiho, op. eit,^ p. 46. 



364 HISTORU DA UNIYERSIDADB DE GOIHBRA 

a Medicina, que se renovava pelo estado do methodo de Hippocrates, 
suggerida por novas mveBtigafSea anatomicas e por tentativas de ex- 
plica9lo phjsiologica, achou-se embara9ada pelo alto interesse que a 
Materia medica e a Pharmacologia adquiriram, por effeito da desco- 
berta da America e da India. Muitos medicos distinctos tomaram-se 
botanicoSy comò Manardi, Buellio, e o nosso Doutor Oarcia d'Orta. A 
•descoberta das novas Floras da America e India coincidia com o es- 
plendor dos estudos classicos, e os principaes botanicos da antiguidade, 
comò Theophrasto, Dioscorides e Plinio, achavam eruditos cómmenta- 
dores em Theodoro de Gaza, Hermolio Barbaro, em Nicolào Leoni- 
cenus e André Mathioli;^ os proprios grammaticos faziam dicciona- 
rios de plantas e medicamentos, corno Nebrixa e outros. D'està rela- 
9^0 dos estudos botanicos com o do testo dos escriptores classicos nas- 
ceu um certo desdem pelos medicos arabes e um enthusiasmo fervente 
pelos gregos. 

Doutor Garcia d'Orta refere-se muitas vezes a este antago- 
nismo de eschola, e faz justÌ9a aos Arabes, comprovando os factos con- 
«ignados nos seus escriptos com os dados positivos da sua observa- 
92o directa. Mesmo a fórma do Dialogo, adoptada nos CoUoquioB, pa- 
rece intencional, comò notoa o conde de Ficalho; Raano é o espirito 
submisso à auctoridade dos livros e à tradÌ9&o da eschola, Orta é o li- 
vre investigador, que corta a direito centra arabes, ou gregos, quando 
08 factos se Ihe apresentam com outro aspecto. Comprehende-se assim 
espirito da obra, implicito em trechos comò estes: cNfto me ponhaes 
mede com IHoscorides nem Oalsno, porque eu nZo ey de dizer senSo 
a verdade, e o que sej. . .» Ao que Ruano replica atemorisado: <Pa- 
rece-me que destruis a todos os escriptores antigos e modemos, por 
isso oulhai o que fazeis. . .» E alludìndo k auctoridade das escholas: 
e Fez isso porque avia mede de dizer cousa centra os Gregos, e nSo 
vos maravilhcis d'isto, porque eu estando em Espanha nào ousaria de 
dizer couaa àlgìla contra Galeno e cantra oa Gregos, t^ Era està liber- 
dade mental que o Doutor Garcia d'Orta nSo podia encontrar na Uni- 
versidade de Lisboa, e ella dà ao seu livro a suprema importancia. 
Emquanto os seus contemporaneos chatinavam para enriquecer-se, Gar- 
cia d'Orta envelheceu estudando e fazendo bem. CamSes, escrevendo 
a celebre Ode ao conde de Redondo, em encomio do sabio, aente-se 
commovido perante aquelle vulto: 



^ Hoefer, Histairt de la BoUudqut^ p. 98. 



OS HUMANISTAS E A REPORMA DA UNIVERSIDADE 36S 

£ vede, carregado 

D*aimoB, letras e longa experìencia, 

Um velho, que ensinado 

Das gangeticas Musas na sciencia 

Podalirìa sutil e arte silvestre 

Vence o velho Chiron, de Àchilles meatre. 

Vede que em vosso tempo se mostrou 
fructo d'aquella horta, onde florecem 
Prantas novas, què os doutos nSo conhecem. 

Era està immensa curiosidade de espirito qae levava para a In- 
dia, na armada de Martim Affonso de Sousa, o grande professor da 
Universidade de Lisboa Garcia d'Orta, em 1534, onde tivera urna ca- 
deira de Fhilosophia naturai, quando veiu dos estudos de Salamanca e 
Alcalà. A Europa deve-Ihe a primeira descrip9&o do Cholera asiatico, *- 
exposta nos seus Cólloquioa dos Simplices e drogas, publicados em Goa 
em 1563, e generalisados ,na Europa na traducySo latina de Carolus 
Clusius, em 1567, tirando-Ihes a fórma dialogistica. Na Dedicatoria do 
Liceneiado Dimas Bosque, ao leitor, vém alguns tra90s biographicos : 
chomem que do principio da sua edade até auctorisada velhice, nas le- 
tras e faculdade de medicina gastou seu tempo, com tanto traballio e 
diligencia, que duvido achar na Europa quem em seu estndo Ibe fi- 



1 Tambem descreveu pela primeira vez a palmeira artea e o arbusto que 
produz a noz vomica (Strychna nux vomica). — Lé-se no Discurso do professor 
Stokvis, da Faculdade de Medicina de Amsterdam, na inaugura^&o do Congresso 
intemacional dos Medicos das Colonias, em 6 de setembro de 1883 : «Bendamos a. 
Cesar o que Ihe é devido ! Saudemos com reconhecimento a Hespanha e Portugal, 
corno OS colonisadores mab antigos, e rendamos sobretudo homenagem a esse no- 
bre portuguez Garcia d'Orta, medico do vice-rei da India, que n*um livro afamadò 
com rasSo fez conhecer primeiro que ninguem, no meado do seculo xvi, em 1563, 
um grande numero de plantas medicas das Indias orientaes, desconheddas até en- 
tSo na Europa. Mas convém advertir que esse livro, uma das grandes glorias da. 
sciencia portugueza, esse livro, no qual o anctor, primeiro que todos os medicos 
europeus, nos dà uma descrip9So tSo viva comò exacta do cholera, nSo teria j&- 
mais despertado a admira^ao da Europa inteira se nsLo fosse traduzido do portu- 
guez em latim. Foi a Carolus Clusius, um dos prìmeiros e dos mais sabios profes- 
sores de botanica em Leyde, que coube a bonra de ter feito conhecer este traba- 
llio notavel ao mundo scientifico. Mudou-lhe a fórma, deizando-lhe intacto o fundo; 
ajuntou-lhe as suas proprias investiga^oes, as suas descrip^òes de plantas e de 
raizes mtertropicaes trazidas à Europa por Francisco Drake e outros, e foi assim» 
que o mundo póde aproveitar as descobertas do celebre portuguez.» (Diario de 
Notidaa, n.« 6:344, 1883.) 



366 HISTORIA DA UNIYERSIOADE DE GOIMBRA . 

zesse vantagem; saindo ensinado nos prìncipioa da eoa faculdade das 
insignes Umversidades de Àlcalà e Salamanca;^ trabalhando de com- 
municar o bem da sciencia; que nas terras alheias tinha alcanjado com 
sua propria patria^ lendo nos Estados de Lisboa por alguns annoa, com 
muita diligencia, e exercitando-se na cura dos doentes até yir a està 
parte da Asia^ onde por espa90 de trìnta annos, curando muita diver- 
sidade de gentes, nSo sómente na companhia dos viso-reis e govema- 
dores d'està orientai Indiai mas em algumas cSrtes de reis mouros e 
gentios, communicando com medicos e pessoas curiosas^ trabalhoa de 
saber e descobrir a verdade das medicinas simples, que n'esta terra 
nascem, das qoaes tantos enganos e fabulas nBo sómente os antigos 
mas muitos dos modemos escreveram, e o que elle por tantos aimoB e 
por tXo diversas partes alcan90Uy quis que o curioso leitor n'este breve 
tratado visse e entendesse; o qual teve comesado em lingua latina^ e 
por ser mais familiar a materia de que escreviai por ser importunado 
dos sens amigos e fSEOniliares, para que o proveito fosse mais commu- 
nicado, detemùnou escrevel-o na lingua portugueaa a modo de dialogo; 
e isto causa algumas vezes apartar-se da materia medicinal e tratar de 
algumas oousas, que està terra tem dignas de serem sabidas.» D'està 
dedicatoria, datada de Goa em 2 de abrìi de 1563| inferem-se precio- 
SOS dados para a vida scientifica de Garoia d'Orta^; e poderemos con- 
cluir qual a influencia da Universidade de Salamanca, em rela$So aos 
estudos da Medicina e da li^thematica, em Portugal. 

A importancia dos estudos na Universidade de Salamanca, no se- 
culo xviy resultou da facilidade com que aquella corporagSo adheriu ao 
novo espirito da Renascen9a, e & tenas opposiflo que apresentou con* 
tra o estabelecimento da influencia jesuitica. A mocidade portngueia 
frequentava de preferencia a Universidade de Salamanca, onde ficavam 
no magisterio os nossos principaes talentos; naa varias reformas da 
Universidade portugueza por D. Jolo ui era aos doutores de Sala- 
manca, ordinariamente, que o monarcha recorria, convidando-os oom 
bons salarios. esplendor da Universidade de Salamanca synthetisa-se 
em alguns nomes celebres na època da Renascenja; transcrevemos de 
Vidal 7 Dias: «entro os infinitos escriptores que a Universidade pro- 



1 Gkireìa d*Orta, referindo-se a Frei Domingof de Baltaoas, dis : «En oo- 
nheci esse frade em Sakananea. • . > (Coli., £L 168.) — coonhed em Akalà a on^ir 
Medieina um, que se chamava Tordelagnna» o qnal havia sido botioarìo e sabia 
algom poaco de araUo. . .» (Ib.> fl: 224) Estas refarenctas ooofinnam a notida dos 
seos estudos dada pelo licendado Dimas Bosqne. 



OS IfUMANISTAS E A REFORÌIA DA UNIVERSIDADE 367 

duziu destacam-se os celebres Arias Montano^ qua dirìgiu a segonda 
Biblia polyglota, o reetaarador da Theologia dogmatica Victoria^ o da 
JarìspraHencia civil e canonica Antonio Aguetin, o descobridor das fon*- 
tes d'onde emanam as verdades etemas Melchior CanO; Fedro Ponce 
que consegaiu fazer fallar ob surdoB-madoSy Fedro Monzon que im-' 
plantou em Hespanha o methodo de ensinar ob elementos da Arithme'* 
tica e da Geometria anteB da FhiloBophia, segaindo o conBcIho de Pia* 
tSOy Fernando Nufiesi profeBsor da eschola destinada a tradazir Plinio^ 
escrevendo icerca d'elle doutaB obBerya98eBy o afamado cego Francisco 
Salinas, que foi ensinar Musica & Italia e que adquirìu um nome ea* 
ropeu com Bete livroB que escreveu sobre està arte divina^ o immartal 
Frei Luiz de LeBo, tfto persegoido em sua vida, corno hoje é vene* 
rado, Francisco Sanchez de Brozas, que em sua Minerva fez germinar 
OS principioB philosophicos da Grammatica goral, e FemSo Perez de 
Olivai Pedro CJhaocm, Zurita, Oovarruvias, Salgado, Lagono, Medina, 
astronomo JoSo d' Aguilera, o doutor parisiense e cathedratico de Phi» 
losophia em Salamanca Afibnso de Cordova, e o grande jurisconsulto 
Bartholomeu de laa Casas^ e o commentador biblico Aleixo Gomez de 
Aldearrubia, o orador sagrado Affonso de Orozco, e San Thomaz de 
Villa-Nova, que antes de ser firade augustiniano foi cathedratico de 
Philosophia moral, e o medico de Carlos v , Francisco Lopez de Villa* 
loboB, e tantoB outròs, emfim, que honraram a Salamanca n'este seculo 
tSo fecundo em glorias hespanholas. . . » ^ 



^ Memoria hUtortea de la Uninenidad de Salamanea, p. 244. Publieamos em 
segnida a sèrie dea: 

Fortiigiiezes ilIucitreB que ensinaraTii em Salamanca 

cu que ali se graduaram 

Ayrea Barbosa^ ensinou Bhetorìca n*aqnella Universidade. Imprimia em Sa* 
lamanea differeates ofaras littenrias (sem data). 

Gaapar Alvaree da Vtiffa, natozal de Freizo de Espada & Cinta; ensinou 
Orammàtica. 

Amato Lusntano ( JoSo Bodrigaes de Castello Branco)» foi Doutor em Medi- 
dna por flaìamanca. 

Frasuisco Caldaa Pereira de Castro, naturai de Braga ; estudou Diretto, vindo 
depois para a Universidade de Coìmbra. 

Eduardo Caldàroj segaiu a Facnldade de Direito, sendo disoipulo do cele- 
bre Diego Covarruvias e de Manuel da Costa. 

Bodrigo de Contro, doutorou-se em Philosot^hiaeUedioina, e estabeleoeu-se 
cm Hamburgo. 



368 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

A influencia sdentijica da Universidade de Salamanca, e em geral 
de outras Universidades heapanholas, deve-se attribuir & vantagem que 
nos novos estudos da Kena8ce]i9a offerecia o conhecimento da lìngua 
arabe; em que estavam traduzidas as principaes obras dos mathemar 
ticos e medicos gregos. Porém a influencia phUólogica cu propriamente 
humanista reflecte-se em Portugal por via das Escholas de Paris e de 
Louvain, e por uma acySo mais ou menos immediata de Erasmo, de 
JoSo Luiz Vives e de Budeus, o grande triumvirato dos humanistas da 
Renascenfa. Erasmo n&o acceitou o convite de D. JoSo m para vir 
occupar uma cathedra nos novos estudos que ordenava em Coimbra; 
Vives apresentou-lhe um valiosissimo plano de refbrmas pedagogioas; 
e a crea9So de Budeus, o Collegio d» Fran^, serviu de typo para a 



Manuel da Costa, seguiti Direito, sendo lente em Coimbra e depois em Sa- 
lamanca. 

Sébasiiào Gomea de Figueiredo, ensinon PhiloBophia na Universidade. Im- 
primia varioB livros asceticos. 

Henrique Jorge Hcnriqttes, naturai da Guarda; ensinou Artes em Salamanca, 
e passou a reger a cadeira de Àvicena em Coimbra. Era medico do duque d'Alba. 

Henrique Femandes, Doutor em Artes e Medicina; cathedratico de prima 
de PhiloBophia naturai. 

Luiz de Lemos, naturai de Fronteira; philosopho e Doutor em Medicina; en- 
sinou Philosophia em Salamanca, na sua mocidade, indo exercer o mister da Me- 
dicina para Llerena. 

Garda Lopea, cursou Medicina, e escreveu De varia rei Medicete lectione, An- 
tuerpia, 1564. 

Frei Antonio Ludovico, franciscano e professor de Direito dvil e canonico; 
aos cinquenta annos tomou-se celebre pelos estudos que fez do hebraico. 

Fedro Margotto, tendo estudado Artes e Theolo^ em Paris, obteve a ca- 
thedra de Philosophia moral em Salamanca, e fez opposi^io & cathedra de prima 
de Theolo^a eom Mestre Frei Francisco de Victoria. Yeiu depois para Portugal, 
chamado por D. JoSo m. Imprimiu em Salamanca, em 1520, um Fkgsices Coni' 
pendùtm» 

Frandèco Martins, naturai da Beira; durante vinte e dois annos desempe- 
nhon em Salamanca a cathedra de Grammatica. Deixou varìos escrìptos. 

Manuel Mendee de Castro, naturai de Lisboa; foi lente de prima de Leis em 
Salamanca, e depois de Direito dyìl em Coimbra. 

Affonso de Miranda, cursou a Faculdade de Medicina em Salamanca, e foi 
medico da camara de D. Sebastiio. 

D. Jeronymo Oeorio, aos treze annos eursou em Salamanca Letras latinas e 
gregas, e, depois de ter ali segnido a Faculdade de Direito, foi continuar os seus 
estudos em Paris. 

Fedro de Feramato, Doutor em Medicina, e primeiro medico do duque do 
Medina Sidonia; escreveu Opera medioinalia, 1576. 



' OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 369 

fanda9So do novo Collegio recti, Como o mathematico Fernel, tambem 
JoSo Luiz Vives falla com eloquencia do facto da descoberta do ca- 
minho maritimo da India, na dedicatoria a D. JoSo ni do livro De 
Disciplinis, As idéas de Vives Bobre questSes de pedagogia foram pu- 
blicadas em 1531, em urna serie de tratados com os titulos De comiptis 
Artihus, De tradendis Disciplinis e De Artibus; estes tratados foram a 
fonte de consulta de todos os reformadores, precedendo gloriosamente 
OS escriptos de Bacon, empenhado tambem na reforma dos methodos 
scientificos. D. JoSo ni acceitou a offerta do eminente philologo, e gra- 
tificou-o generosamente, comò elle proprio confessa em uma carta a Da- 
miSo de Goes, de 17 de junho de 1533. * 

Depois de ter considerado ^ caasa da decadencia dos estados no 



Frei ffeitor Finto, cursou Direito em Salamanca, antes de professar na or- 
dem de S. Jeronjmo. 

André de Eesende, discipulo de Nebriza em Alcalà ; em Salamanca estudou 
Theologia com Barbosa, passando a completar os seus estados em Paris e Louvain* 

Thomaz Bodrìgues da Veiga, Doutor em Medicina por Salamanca, onde ob- 
teve uma cathedra por oppo8Ì9ao, sendo ainda muito mo90. Commentou Graleno 
(1564) e Hippocrates (1586). 

Manuel Soares de Bibeira, discipulo de Antonio Oomes na Faculdade de Leis 
em Salamanca, onde foi cathedratico de vespera de Direito canonico. 

Fedro Vaz, medico pela Uuiversidade de Salamanca ; escreveu obras de Me- 
dicina, 1566. 

Ayrea Finhel, lente de Direito da Uuiversidade de Coimbra, e cathedratico 
de y.espera na de Salamanca. 

Doutor Garda d'Orta, depois de ter frequentado os estudos medicos em Sa- 
lamanca, frequentou tambem a Uuiversidade de Alcalà. 

Doutor Fedro Nunea^ depois de ter regido uma cadeira de Artes na Uuiver- 
sidade de Lisboa, vae a Salamanca frequentar Mathematica. 

Luiz Nunes de Santarem, foi frequentar Salamanca depois de graduado em 
Lisboa. Na reforma da Uuiversidade e mudan9a para Coimbra, foi convidado para 
roger a cadeira de Mathematica, de que se Ihe passou provisSo em 16 de outubro 
de 1544. 

1 Ad Damianum Goesium: «Desejo-vos uma feliz viagem; prodUrae, por fa- 
vor, achar melo de ofPerecer a um rei, que tambem é ò meu assim corno vosso, por 
seus beneficios, as minhas humilissimas sauda^oes, e a homenagem da minha de- 
dicarlo; agradecei-lhe da minha parte o magnìfico testemunho da sua magnificen- 
eia que eu recebi o anno passado. Està offerta é para mim tanto mais preciosa, 
que ella veiu encontrar-me em um momento tal, que n&o poderia vir mais a pro- 
posito.» (Ap. Namèche, Sur la vie et ha écrita de Jean Louia Vives, p. 32.) Foi 
n'este regresso de Damilo de Goes a Portugal, em 1533, que D. JoSo m o encar- 
regou do convite a Erasmo. 

HIST. UH. 24 



370 HISTORIA DA UNIYERSIDADE DE COIMBRA 

tratado De causia corruptarum Artium, Vives, na obra dedicada a D. 
JoSlo m, De tradendia Disciplinis, propSe as reformas pedagogica^ quo 
entende necessarias à cultura do acculo xvi. E dividido o tratado em 
cinco livros, que summariaremos para se formar urna idèa do Bea in- 
tuito. No priuieiro livro^ attentas as circumstancias que na època da 
Renascenya punham em desconfianga os estudos philologicos^ procura 
conciliar a rasSLo com a fé. Despreza as vSs curiosidades de espirito, 
corno a Magia, e estende esse desprezo até às obras de pura imagina- 
$&o, corno as Faiulas milesianas. A sua inteiligencia lucida compre- 
bende a necessidade de urna classificafSo dos conbecimentos bumanos 
para dirigir por ella a instruc93o^ e propSe a seguinte bierarcbia sub- 

j ceti va: 

^.. ^ ... (Accessiveb immediatamente aos sentidos. 

(AcceBsiveiB so a mtelligencia cu a sua essencia. 
Svbeianeiae invinveia^ cu espirituaes. 

Assim passa logicamente a determinar a materia e limites do en- 
sino no segundo livro; apresenta observa^Ses apreciaveis sobre o logar 
em que se deve ministrar o ensino, escolba dos methodos e condÌ93eB 
especiaes dos mestres. Para Vives é indispensavel que um estabeleci- 
mento de instruc9So seja situado em uma localidade saudavel, cbegando 
a preferir o campo à cidade, e mesmo que a vida nfto seja dispendiosa, 
nem as causas de dissipa9So se apresentem com frequencia. D. JoSo ni, 
no empenho de mudar a Universidade de Lisboa para Coimbra, (de 
Coryniho para Aihenas, comò dizem os documentos da època) encon- 
trava na auctoridade de Vives a juBtifica9So do seu plano. 

Emquanto aos mestres, o grande humanista n&o se contentava que 
elles possuissem exclusivamente a sciencia, queria uma qualidade, a 
que ainda boje tao pouco se attende, a aptid&o para communical-a. É 
està aptid&o que faz com que a influencia do mestre seja sempre maior 
que a do livro, aptidSo que se perde quando se interrompe o habito 
profissionai, comò o notara Comte. Merece cònsignar-se essa outra ob- 
Berva9ào de Vives, condemnando a avidez de dinheiro da parte dos 
professores, avidez que ainda boje se manifesta na explora9&o dos com- 
pendios escholares. Fara um tal inconveniente quer que o%profes8ores 
sejam pagos pelo estado, evitando que recebam salario ou minervaes 
dos alumnoB, o que é incompativel com a sua independencia. Està idèa 
foi realisada no desenvolvimento da Instruc9So publica na Europa; as 
Universidades perderam o caracter de corpora93e8 autonomas, e a iìinc^ 
9S0 do ensino tomou-se uma attribuÌ9ào do estado, com vantagem du- 
rante o interregno montai de verdadeiras concep95eB positivas. Tam* 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSmADE 371 

bem condemnava o phìlologo, com oin naturai bom senso e experien- 
cia, OS frequentes exercicios publicos ou (ictos de ostenta^j propondo 
ao mesmo tempo que se abolissem os gràos, ou quando multo se con- 
ferissem excepcionalmente. E apesar de terem decorrido tres seculos, 
a preoccupagSo do exame tomou-se o objectivo do ensino, falsificando 
a Bciencia e abrindo as portas às me^iocridades. A vaidade do gr&o, 
que tanto ensoberbece as Universidades, é appetecida pelas Polytechni- 
cas e Escholas especiaes, chegando a vesania individuai a pavonear-se 
com o diploma de doctor in absentia. N'estes pontos^ Vives foi multo 
além do seculo corrente. Desejava um pouco a vida em commum en- 
tro OS profesfiores; era talvez o modo de crear urna corporagSo, forti- 
ficando-se pelo poder espiritaal ; queria que a nomea9&o dos lentes nSo 
fosse feita pelos estudantes^ porque eram incompetentes para conhecer 
o merito professerai e obedeciam muitas vezes a motìvos viciosos. A 
eleifSLo dos lentes pelos estudantes era a naturai consequencia do sala- 
rio que estes pagavam^ constituindo as Universidades comò verdadei- 
ras cooperati vas de enslno; desde que as Universidades ficaram sob a 
dictadura monarchica, a nomea9ào dos lentes e seus salarios tomaram- 
se um attributo da realeza. 

Vives determina o fim categorico do enslno — o aperfeigoamento 
do alumno. Alnda hoje oste fim moral nSo se acha bem comprehendido. 
Lembra tambem a necessidade de formarem conferencias entro os pro- 
fessores para julgarem sobre as capacidades mentaes dos alumnos. Està 
deficiencla faz com que ainda hoje os alumnos passem durante um longo 
curso Inteiramente desconbecidos aos seus mestres. Discutindo as fór- 
mas do enslno domestico ou publico, Vives dà toda a preferencla ao 
enslno publico, pela ac(So que os condiscipulos se exercem mutuamente. 
Entra depois em consideragSes psychologicas àcerca da variedade das 
aptidoes dos alumnos, e n'isto deixa evidente a sua alta capacidade pe- 
dagogica^ affirmando esse outro principio fundamental, de que a sym- 
pathìa entro o mostre e os discipulos fecunda o enslno. A falta de com- 
prehensfto d'este principio tSo saudavel faz com que ainda hoje um 
grande numero de professores procurem systematicamente tornar- se an- 
tipathicos, Impondo-se pela severidade brutal centra o ridlculo das al- 
ounhas afiErontosas por que sSo conhecidos. Vives re velava o genio da 
Renascenfa em todos os seus aspectos; elle recommenda os bons mo- 
delos da antlguidade classica (Demosthenes^ Cicero, Homero, Virgilio), 
mas proclama com mais inslstencla que se nSo deve abandonar a im- 
pressilo directa da Natureza — «a fonte de todas as artes, o prlmeiro 
de todos OS modelos.» 

24* 



372 HISTOBU DA UNIYERSIDADE DE GOIBfBRA 

terceiro livro do De tradendis Disciplinù nfto é menos precioso; 
consagra-o ao ensino das lingaas. Comefa desde ob primeiros sona 9X* 
ticulados da infancia. Para elle o Latim impSe-se pela belleza e gravi* 
dade, corno a lingua oniversal da sciencia, protegendo a eradi$&o dos 
assaltos da ignorancia; e por ser de mais a mais a lingua màe dos prin- 
cipaes idiomas europeus. De facto, aie ao firn do seculo xvm o latim 
foi a linguagem preferida pelos sabios para os seus livros, circurnstan^ 
eia que retardou algum tanto o desenvolvimento do espirito publico. 
Quanto & lingua grega entende que é necessaria para melhor com* 
prehender o latim. Era urna intuÌ9So do methodo comparativo que 
fundou a nova sciencia da glottologia. Verbera o pedantismo dos gram- 
maticos, e explica comò os exemplos sSo para d'elles se deduzirem a» 
regras, devendo por isso serem tirados de bons auctores. Para a com- 
prehensSo dos auctores entende que devem as suas obras ser interpre^ 
tadas pela sua vida, descrevende os logares, os climas, os animaes, aa 
plantas a que alludem. No trato dos discipulos ha de o mestre incutir- 
Iheó o habito de redigir em vulgar, de traduzir para latim, quer na 
fórma de cartas, quer explanandv pensamentos, e procedendo as cor* 
rec95es de modo que nSLo provoquem o desanimo. Assim é naturalmente 
levado à imposÌ9SLo que superiormente caracterisa o genio da Renas- 
cen9a: que no mestre a bondade prevale^ aobre a severidade. Mereoem 
notar-se os livros que Vives aponta para o ensino; para os elementos 
grammaticaes Erasmo e Despauterio; lamenta a falta de bons diccio- 
narios. Liga uma grande importancia às no98eB de historia e de geogra- 
phia, recommendando para està Pomponio Mela. Emquanto aos està- 
dos hellenicoB, divide-os em dois gràos, recommendando para o primeiro 
Esopo, Luciano, Isocrates e S. JoSo Chrysostomo ; para o segundo, De- 
mosthenes, PlatSo, Aristoteles, Aristophanes, Euripides, e sobretuda 
Homero. 

Depois do estudo das linguas, Vives passa no quarto livro a tra- 
tar das sciencias, das quaes as linguas sào um instrumento e comò que 
o vestibulo. Reoommenda pois que se passe naturalmente das Linguas 
para a Logica; condemna as disputas ou argumenta9Se8, preferindo o 
methodo socratico. PropSe para estudo a Dialectica de Aristoteles, o 
philosopho de todas as edades, mas observa a necessidade de regres- 
sar-se à natureza, de examinar a realidade, corrigindo o excesso daa 
especi alidades, tendo sempre em vista o uso da vida ordinaria. N'este 
ponto Vives é um precursor do positivismo. Sómente depois de ter 
chegado à Metaphysica (Prima Philosophia), para o estudo da qual 
recommenda a solid&o e passeios campestres, trata da Dialectica (Ar^ 



OS HUÌIANISTAS E A REFORHA DA UNIYERSmADE 373 

^mentorum inventio), estabelecendo entre ella e a Logica (Censura 
veri) ama cabai dÌ8tmc9ào. Para o estudo da Rhetorica recommenda 
exercicio3 gradaados pelos tratados de Aristoteles^ Cicero e Quintiliano. 
£ depois d'estas disciplinaEkque passa à Mathematica^ recommen- 
dando cautella com os excessos intellectuaes, e dando por terminada a 
coltura theorica aos vinte e cince annos de edade. D'aqui em diante 
come9a a vida pratica^ que^ segundo Vives, é dividida emquanto às re- 
lafSes moraes (De rebus spiritualthus) e emquanto à conserva9SLo dos 
corpos (Ars medica). 

. O quinto livro trata de urna parte d'este schema da vida pratica, 
cultivando a saude da alma 'pelo juizo e pela experiencia. A leitura dos 
bons auctores aperfei$da o juizo ; e para este fim recommenda a leitura 
de PlatSOy Aristoteles, Cicero, Seneca, Quintiliano, Plutarcho, Orige- 
nes, S. Jo3o Chrysostomo, Santo Ambrosio e Lactancio. Quanto à ex- 
periencia reconhece que é grande mostra a Historia, supprindo nós por 
ella a que pessoalmente nos falta. Aquelle luminoso espirito compre- 
hende que o estudo da Historia deve ser feito por bons resumos, con- 
tendo OS factos capitaes, de modo que se alcance uma vista de conjun- 
cto. E depois de ter assentado este principio, a que ainda nSo chega- 
ram os nossos fabricantes de compendios, manifesta a seguranga ver- 
dadeiramente admiravel do seu criterio, recommendando a leitura de 
Froissard, de Monstrelet e de Commines, tdignos de serem conhecidos 
corno muitos historiadores gregos e rovMmos.n Vives, que comò erudito 
da Renascen9a reprovara com desdem os poemas da Edade mèdia, res- 
gata-se, mostrando uma alta comprehensUo das fórmas modernas da 
Historia, nas linguas vulgares creadas n'essa mesma Edade mèdia. 
Trata da Philosophia moral, pondo a par dos livros sagrados as obras 
de PlatSo, Aristoteles, Cicero q Seneca, e recommenda S. Thomaz (seri- 
ptor de Schola omnium sanissimuSj oc minime ineptus) j untamente com 
Boccio e Petrarcha. Em seguida apresenta nofSes sobre conhecimentos 
economicos e politicos, esbojando depois a sciencia legislativa. Reser- 
va-se para n'um futuro estudo expdr os lineamentos da Theosophia e 
da Theologia. Vé-se, pela època em que escreveu o tratado De traden- 
dis Disciplinisj que Vives nSo podia apresentar um elenco theorico das 
sciencias, porque apenas se restaurara o primeiro par encjclopedico 
(Mathematica e Astrtmomia) ; o segundo par (Physica e Chimica) tinha 
de absorver a actividade intellectual dos seculos xvii e xvm; o terceiro 
par (Biologia e Sociologia) è a corSa do seculo presente. Vives nSo 
podia antecipar-se à marcha da civilisa9So. seu tratado termina com 
as regras que devem dirìgir o erudito, para que desconfie de si prò- 



374 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

prio, àcerca da sua modestia, rela9Ses affectìvas, uso legitimo da cri» 
tica, consciencia na revisSo, e cumprimento absoluto da maxima recom- 
mendada pelo papa Adriano vi: nunca interpretar à mi parte as pa- 
lavras de outro escriptor. ' 

D. JoSo III Boube agradecer a Vives a homenagem do seu tratado^ 
corno este o confessa na carta a DamiSo de Goes; é naturai que essaa 
doutrìnas pedagogicas actuassem nas reformas projectadas pelo monar- 
cha; pelo menos revelaram-lhe a sua urgencia e activaram-as. pro- 
prio Dami&o de Goes, que viveu na intimidade dos principaes espiri- 
tos da Bena8cen9a; corno Erasmo, Bembo, Sadoleto, Melanchton, Vives 
e outros muitos, tambem coadjuvara o monarcha para aproveitar o in- 
fluxo da grande corrente humanista. Pelos documentos ulteriores da 
reac9So jesuitica é que se recompSe està phase mal conhecida da re- 
novay&o pedagogica em Portugal. 

Na traducfSo do livro de Cicero chamado CatSo Maiar, ou Da Ve-- 
IMce, feita por DamiSo de Goes, e publicada em 1538 em Veneza, vèm 
alguns dados curiosos da sua yida. Beferindo-se à difficuldade da tra- 
duc9So, allude à sua amisade com Erasmo e aos annos que andou au- 
sente de Portugal: cNS deixarei de recitar o que d'aquelle prudentis- 
simo e gravissimo Erasmo Boterodamo n'este nesso aureo e doctissimo 
seculo principe de teda doctrina, e eloquencia, sobr'este negocio alguas 
vezes, j untamente com outras muytas sanctissimas confiftbulagSes (per 
spafo de cinque mezes que com elle em Friburgo de Brisgoia pousei) 
entro noos ouvi. Affirmava nS ter achada no estudo cousa mais ardua 
que tralladar, nem digna de moor louvor fiazendo-se ben, nem pela 
contrario de moor reprehSsam.» E justificando a falta de vemaculidade 
da traducfSo, accrescenta: cO que ousei cometer confiando levarSme 
em conta sua doctrina e modera9am, todo erro que na policia e oma- 
meto de nossa lingoagem portuguesa n'elle cometer. Visto que em 
dezaseis annos (da for9a e frol de minha edade) quatro meses soomen- 
tes quis minha sorte estar nestes Reihos e corte, lugar da minha honra^ 
e cria9am, o que m'envejando a fortuna lego dahi me rechafou. A qual 
longueza de tempo (principalmente misturada com tantas e tam varios 
generoB de linguas e costumes) he assaz suficiente, nS tam soomentes 
a homem ser barbaro em sua lingua, mas ainda, a de todo a esquecer.» 

As rela95es litterarias de DamiSo de Goes evidenciam-se peloa 



1 exame das obras de Vives merece lér-se no estudo de Namòche, Mémci^ 
rt» eourotméè de VAcadémie de Bdffiqke^ t. xv, 1840-1842. 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 375 

nomes dos sabios que estavam com elle em correepondencia; taes sSo: 
Panlo SperatuB, Vives, Bonifacio Amerbachio, Conrado Gloclenio, Fe- 
dro Bembo, Jacobo Sadoleto, Nicoiào Clenardo, Lazaro Bonamico, 
Christophoro Madruchlo, Sigismundo Gelenio, Glareano, Tideman 6i- 
81118^ Jorge Coelho, JoSo Rodrìgues de Sa, Adam Carolas, Joanes Ma- 
gnus, Beato Rhenano, Jacob Frugger, Guilherme Zenosaras Agrìppa, 
Paulo in, Fedro Nannio, André de Resende, Bernardino Sandrio, Cor- 
nelio Grapheo, Guilhelmo Bemato, Jeronjmo Cardoso, infante D. Luiz 
e cardeal D. Henriqne. ^ NSo citàmos o nome de Erasmo, para desta- 
car mais a importancia das suas Cartas dirigidas a DamiSo de Goes: 

11 de Janeiro de 1534; dà-lhe noticia da sympathia qne desper- 
tara em Bembo, a quem o recommendara por carta, à qua! Bembo re- 
spondera em 11 de novembre de 1533. 

5 de mar9o de 1534. (Conservou-se inedita, mas està publicada 
pelo conego Ram.) 

11 de abril de 1534; offerecendo a DamiSo de Goes a hospitali- 
dade da maneira mais cordial. 

3 de julho de 1534; desculpando-se da doenga, causa de o nSo 
ter recebido, oa esquecido depois da visita em Friburgo. 

25 de agosto de 1534; offerecendo-lhe a sua hospitalidade. 

21 de maio de 1535; dizendo-lhe que a amisade de Damiào de 
Goes é um allivìo & sua doen9a. 

18 de agosto de 1535; falla-lhe dos seus'trabalhos litterarios e 
das luctas religiosas na Inglaterra. 

15 de dezembro de 1535; sobre o assumpto anterior. 
« ? Janeiro de 1536; preoccupa-se com o seu firn proximo por causa 
da doen9a. A està carta respondeu Goes, de Fadua, em 26 de Janeiro 
de 1536, communicando-lhe o pezar pelos seus soffrimentos, partindo 
em seguida para Basilea, para onde Erasmo se transportara de Fri- . 
burgo, a firn de acompanhal-o na angustiosa doen^a. Existe uma carta 
attrìbuida a DamiSo de Goes, descrevendo os ultimos momentos de 
Erasmo. ' 

Lé-se no Frocesso de DaroiHo de Goes, no Santo Officio: «Depois 
que vim a Fortugal, no anno de 1533, chamado para o officio de the- 
zoureiro da Casa da India, El Rei que santa gloria haja, e os Infantea 
seuB irmSLos, e outros senhores do reino, me perguntaram com muito 



1 sr. J. de Vasconcellos tem preparada uma edi^ào de todas as Cartas la- 
tinas dirigidas a Daxniào de Goes, de que traz o elenco na Gouiana, p. 21 a 24. 

2 BuUetin de VAcadémie de Bruxelles, t. ix, p. 462. 



376 HISTORU DA UMVERSIDADE DE COIMBRÀ 

gostp; e mui particolarmente pelo diBcorso de minhas peregrinagSes, 
fallando-me em Luthero, e nas coasas de Allemanha; Beis, e principes 
d'ella^ e por ElBei que santa gloria haja saber que vira eu jà Erasmo 
Rotherodamo e que eramos amigos, me perguntoa por alguas vezes 
se poderia eu fazer vir a oste Regno pera se d'elle servir em Goimbra, 
onde jà tinha ordenado de fazer os estudos que fez^ ao que Ihe re- 
spondi que me d'isso parecia: etc.» 

As reIa98eB pessoaes de DamiUo de Goes com Erasmo datavam 
de 1532, quando depois de deixar a Feitoria de Flandres, fora estudar 
para a Universidade de Louvain ; depois de estar alli oito a nove mezes 
adoeceu dos olhos, e por conselho dos medicos partiu para Friburgo: 
conde estava Erasmo de assento, e Ihe deu uma carta do seu hospede 
de Louvaina que se chamava Rupeiros Reecius, e o dito Erasmo o 
convidou pera jantar, comò de feito elle confessante foi jantar com elle 
e praticaram cousas de humanidade ...» Damilo de Goes voltara para 
Louvain «a estudar, e estudou latinidade, e nào ouviu nenhuma outra 
faculdacle.» D. Jo2k) lu chamara-o d'alli a Lisboa, para o despachar 
thezoureiro da Casa da India: ce para isso o mandara chamar a Lo- 
vaina: e elle se escusou disse o melhor que pode, e por S. A. o nSo 
haver por escuso foi se espedir delle, e Ihe podio licen9a para ir a 
SSLo Thiago : e elle Ih'a deu e de là escreveu uma carta, que se ia es- 
tudar, e se foi ter onde estava Erasmo que foi no anno de trinta e 
quatro: e ali esteve e pousou com elle por espa90 de quatro mezes 
pouco mais ou menos, e depois foi a Frandes a negociar suas cousas, 
e vse tornou a casa do dito Erasmo onde pousou o tempo que tem dito : 
etc. — e se partio de casa de Erasmo para a Italia acabar seu estu^o 
onde residiu seis annos...» Em 1533, quando DamiSo de Goes se 
dirigiu para Padua para frequentar os estudos, Erasmo recommendou-o 
calorosamente a Pietro Bembo, secretarlo de LeSlo x, a quem Paulo ili 
fizera cardeal. 

Em carta de 11 de novembre de 1533, Bembo respondeu a Erasmo 
fazendo o mais rasgado elogio de Dami^ de Goes. Em carta de 11 
de Janeiro de 1534 Erasmo deu conta a Damilo de Goes da sympathia 
que elle soubera inspirar a Bembo. Na coUec^So das cartas de Erasmo 
existem outo dirigidas por elle a DamiSo de Goes; e uma d'este para 
o eximio phìlologo. No Processo citam-se outras relagSes: cDedarei 
que estando em *Padua estudando nos annos de mil quinhentos e trinta 
e quatro, até ao anno de mil quinhentos e trinta e oito, me escre- 
veu Cardeal Jacob de Sadoleto, Bispo de Carpentras, uma carta, 
mandando-me outra pera Phelippe Melanchthon, à ten9So que pode- 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIYERSIDADE 377 

rìamoB trazer este homem ao suave jugo da Igreja romana: a qual 
carta com outra minha Ih^ eu mandei por via de mercadores allemSes, 
residentes em Veneza.» «estando em Padua^ o Cardeal Jacobo Sado- 
loto escreveu a elle confessante urna carta em que Ihe rogava que 
mandasse outra que com ella Ihe mandoa a Filippe Malanchthon: e 
iste por cousa de Ihe dizer imi gentilhomem bohemio que se chamava 
Petrus Behimos que foi seu companheiro no estudo que elle confes- 
sante andara por teda a AUemanha, e que estiverà em Witemberg onde 
fallara com Martin Luthero e Filippe Malanchthon: e por isso Ihe man- 
dava està carta que Ihe mandasse comò de feito Ih'a mandou por o 
dito cardeal Ihe escrever que a dita carta era para o trazer à fé. E 
tSobem elle confessante Ihe escreveo ao dito Felipe Malanchthon uma 
carta com a do dito Cardeal em que Ihe rogava que quisesse seguir o 
conseiho do dito Cardeal, da qual nUo houve resposta.» 

Em outro legar da sua allegag&o, Damilo de Groes toma a referir 
as suas peregrinafSes: «Depois de eu vir a este Regno no anno de 
mil quinhentos e trinta e tres, ^ comò jà tenho dito, por El Rei que 



1 Foi na occasi&o d'està viagem a Portugal que Erasmo Ibe escreveu a se- 
guinte carta : 

nAo darissimo varào Damiào de Goee^ Lusitano^ Thezoureiro da Fazenda real, 
no ràno da Ludtania. 

S. P. — Estimo que te chegasse às mSos a minha Carta, preclarissimo DamiSo, 
e pela tua e a d'aqueiroutro que por teu mandado me escreveu, estimo que tivesses 
encargos palacianos a que pretendia responder mas de que até aqui nao me chega- 
ram novas ; e no entretanto a gota de tal sorte me prendeu a deztra, que nem se- 
quer um jota eu posso tramar. E a tua carta era do genero d'aquellas a que nio se 
responde ^cilmente. Nào julguei, porém, dover apressar-me em escrever, receando 
que a minha carta te podesse melindrar. Alias escreverei brevemente, assim que 
a dextra m'o permittir. Muito desejo saber onde para e o que faz o nosso Besende, 
o homem mais candido que tenbo conbecido, da parte do qual eu nada mere^Of 
nem me parece que j&mais possa merecer. Li a poesia, que descreve as pomposa s 
festas que se fizeram em Bruxellas pelo nascimento do filbo do rei, na qual elle 
pinta de tal sorte e poe tudo diante dos olbos, que muito mais vejo pelo poema, 
do que se estivesse presente. Beli a carta que elle escreveu de Batisbona, à qual 
nSo respondi entào porque farla uma fabula motoria. Se souber onde elle para» 
6screver-lbe-ei copiosamente. * 

Grapbeu ainda ìse queixa de ma saude e para o consolar mandei-lbe cinquenta 
fiorins do meu bolsinbo. £ vario digno de melhor fortuna e melbor saude. 

Esteve hoje commigo Bonifacio Amerbachio, mas jà muito atrambolbado ^ 

• Ha ama carta de Braimo a André de Reaende, datada de i7 de Jnlho de 1581. (Opera 
BroMmi, t. m, p. 1406.) 



378 HISTORU DÀ UNIVERSIDADE DE COIHBBÀ 

santa gloria haja nSo me querer escusar do oi&cio de Thesoureiro da 
Casa da India, de que a Rainha nossa senhpra e o Cardeal sSo boas 
testemunhas, eu me fai desta cidade de Lisboa em romana a Santiago 
de Galliza^ donde escrevi urna carta ao dito senhor, que sua Alteza 
tomou bem, e com ferventissimo desejo dos estudos me fui caminho 
de Allemanha, onde fui hospedado de Erasmo Rotherodamo quatro ou 
cince mezes, o qual entam morava na Universidade de Friburgo de 
brisgosa, universidade e cidade catholica do senhorio da casa d'Aus- 
tria: e dahi me fui aos estudos de Padua, do senhorio de Veneza, onde 
residi quatro ou cince annos: e dahi me tornei a Frandes, ^ onde com 
licenfa d'EIRei que santa gloria haja, me casei no condado de Hol- 
landa: o qual senhor, no anno de mil quinhentos e quarenta e cince, 
e assi a rainha Nossa senhora, me mandaram chamar per suas cartas, 
escrevendo me viesse lego a oste regno com minha mulher, casa e fi- 
Ihos, por que era pera de mim se servirem: o que lego fiz com muita 
diligencia, vindo eu pela pósta, e minha mulher por jornadas, e minha 
casa e filhos per mar, no que despendi mais de mil e quinhentos cru- 
zados: etc.» 



Pediu-me que te saadasse em seu nome com a maior sympathia e amizade. £ tam- 
bem tea em espirito Henrìque Glareano, que nSo sei se te escreverà, porque està 
occupadissimo com as Musas. 

Passa bem. Friburgo Brisg. 5 de mar9o de 1534. 

A respeito das pylepias, que desejavas, faltou-me um typographo; a nio 
ser iste porém ^z o que pude. Tratei de traduzir a cai-ta ao bispo em allemio, e ac- 
crescentei-a ao opuscalo traduzido em aliemfto que relatava a obediencia do rei dos 
Ethyopes prestada ao pontifico. 

Tomou-me a apparecer a gota, de sorte que so a custo posso assignar. 

Erasm. Bot. mea numu,» 

(Està t^arta inedita de Erasmo, foi pela primeira vez publicada pelo conego 
Ram, em um estudo Sur Uà rapporta d'Eraame avec Damien de Goe»^ nos Bulletìns 
de l'Académie de Bruxelles, t. iz, P. 2 (1842) p. 431 e 436. 

^ «Em 1542 quando Longueval e Van Bossem, o primeiro general francez, e o 
segnndo, chefe do esercito do duque de Gueldre, se apresontaram diante de Lou- 
vain para pdr-lhe cérco, os professores foram adjuntos ao magistrado para tra- 
tarem da defeza da cidade, e chamaram-se os estudanti^s para pegarem em armas 
dando-lhes por chefe academica auctarUate, um mancebo oavcdleiro portuguez cha- 
mado Dami2o Gocs, permittindo-lhe escolher um ajudante que foi o frisfto Severin 
Feiten. Està pequena guerra foi celebrada em verso por Livinus Torientius, que 
veiu a ser bispo d^Angers.» (Reiffenberg, Sur Uà deux prémiera SihcUa de VUniver- 
aiU de LouvcUn, Mem. de TAcadem. de Bruz., t vii, p. 21). «0 proprio Damiio de 
Goes escreveu nma descrìp^So d^este cérco, Urbis Lovamm&U óbMio, que foi 
publicada em Lisboa em 1546.» 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 379 

O servilo para o qaal Damilo de Goes fora instantemente cha- 
mado por D. Jofto iii (1543 a 1545) era para Ihe confiar a educagSo do 
principe D. Jo2o, crianfa intelligentissima, tao prematuramente morta. 
jesuita padre Simfto Bodrigues, que implantara a Companhia de Je- 
sus em Portugal, tratou de contrariar oste empenho do rei, apresen- 
tando-se a 5 de setembro de 1545, na casa do despacho da InquÌ8Ì$&o 
de Evora, a accusar DamiSo de Goes corno herege, por isso que o co- 
nhecera em Padua pelo anno de 1536. A aocusa9Sk) produziu o seu 
ejBTeito; Damilo de Goes escapou entSlo às garras dos inquisidores, por 
ter sido chamado expressamente a Portugal pelo rei, para uma m issilo 
de seu seryÌ9ò, mas n^ Ihe foi confiada a educaySo do principe D. 
Joào, corno o machinara o padre SimSo Rodrigues, que aspirava a esse 
encargo. Damiào de Goes, victima jà na velhice de uma accusafào se- 
creta, pendente sobre a sua cabefa durante vinte e sete annos, conhe- 
ceu com teda a lucidez d'onde Ihe provinha o malvado e perfido ata- 
que: «o dito Mestre SimSLo, chegando eu à cidade de Evora meado do 
mez de Agosto do anno de mil quinhentos e quarenta e ciuco, lego no 
de Setembro do mesmo anno testemunhou, a qual pressa corno se cla- 
ramente ve foi para me estorvar t) bem para que eu fora chamado por 
cartas de El Rei, que santa gloria haja, e da Rainha Nossa Seuhora, 
para ser mostre e guarda roupa do Principe D. Jo2Lo, que santa gloria 
haja (-f- 1554) pai del Rei Nesso Senhor (D. SebasstiSo), comò foi pu- 
blica voz e fama, do qual senhor Principe elle era mestre de doutrina 
e pretendia, segundo se pode suspeitar, o ficar tambem por seu mos- 
tre das lettras, o que n^ alcan90u, e o que se me estorvou a mim se 
deu a Antonio Pinheiro, Bispo que agora é de Miranda, pelo que a 
seu testemunho se nSo deve dar fé.» 

Entro OS mais distinctos alumnos do afamado Collegio de Santa 
Barbara figura Antonio Pinheiro, portuense, de uma familia humilde, 
admittido por influencia do Doutor Diogo de Gouvéa na lista dos Ea- 
tudantes de EUrd. Depois de graduado mestre em Artes, entrou lego 
no ensino das Humanidades no mesmo Collegio de Santa Barbara, pu- 
blicando em 1538, no fim do seu curso, uma interpretammo completa 
do terceiro livro das Inatittdgdes oratorias de Quintiliano, a primeira 
que entao appareceu na Europa, corno observa Quicherat. * A regen- 
cia de Antonio Pinheiro fora sob o principalado de Diogo de Gouvèa, 



1 Hietoire du CoUhge de SairUe-Barbe, t. i, p. 138. Este auctor chama-lhe 
Fin, da fórma latina Pinus; e eqoivoca-se, dizendo que veiu ser mastre de D. Se- 
basti^o. 



380 HISTORU DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

mago: cO ensino de Antonio Plnheiro é d'este tempo. Ob nomea de 
Laberìus e de Turnébo fonnam com o d'este portuguez ama trìndade 
que bastarà para a gloria da administraySo sob a qual regentaram.»^ 
Antonio Pinheiro abàndonou o magisterio para seguir o corso de Theo- 
logia; succedea-Ihe na cadeira de Rhetorica o immortai erudito Tur- 
nébo, que attrahiu as atten93es dos criticos para os textos dos escri- 
ptores classicos; Fedro Ramus, combatendo-o sob o pseudonymo de 
Omer Talon, nSo se esquece de amesquinhal-o, pondo-o em confronto 
com Yulto de Antonio Pinheiro: «Lembra-te qual foi o teu ensino em 
Santa Barbara, quando eu encetava a classe de primeira em Dormans. 
Tu succedias a mestres consummados na arte de instruir a'mocidade, 
a um Jacob Strebeu, a um Antonio Pinheiro.»' É naturai que o curso 
de Theologia frequentado por Antonio Pinheiro fosse terminado por 
1543; a sua grande reputa9So nas escholas de Paris é que influìu para 
ser chamado para mestre do principe D. JoSo. Porventura o proprio 
SimSo Rodrigues, que fora condiscipulo de Antonio Pinheiro em Santa 
Barbara, sob o principalado do Doutor Diego de Gouvèa, o velho, comò 
n2Lo podia obter para si o cargo de pedagogo, apresentou-o em substi- 
tuÌ93o de DamiSo de Goes, oppondo a orthodoxia das escholas de Pa- 
ris ao racionalismo das da AUemanha e mesmo da Italia. 

Emquanto Damifto de Goes era desconsiderado em Portugal pela 
influencia da reac92Lo jesuitica, publicava-se em Louvain, em 1544, 
urna obra inedita de Erasmo, o Compendio de Rhetorica, escripto e de- 
dic:ido a Damilo de Goes. ^ A necessidade de definir a corrente hu- 
manista da Renascen9a, que actuou nas reformas pedagogicas de D* 
JoSo III, fez-nos antecipar o quadro tenebroso da reao9So do scholas- 
ticismo, de que os Jesuitas se tomaram os restauradores. Esse quadro 
é de si vasto, e tanto melhor sera comprehendido, quanto mais pro- 
fundamente se conhecer a influencia das doutrinas e dos methodos da 
Renascen9a em Portugal. 

As grandes reformas emprehendidas nas Escholas do mosteiro de 
Santa Oruz de Coimbra, pelo Prior goral Frei Braz de Barros, em 
1528, e a enorme concorrencia da mocidade aristocratica para esses 
estudos brilhantemente regidos por professores recem-chegados de Paris, 



1 Qaicherat, HiaUnrt du Collège de Sainte-Barbe^ t, i, p. 243. 

' Idem, i&id., p. 246 ; traduzido do texto da Admoniito TcUaei, de Fedro Ramus. 

' Dea. Eras. Roterod. Compendium Rhetorice», ad Damianum a Gk>e8, equi- 
tem Lusitanum. Lovanii, 15i4. Tambem em 1535 Gklenias dedicara a Damifto de 
Goes iV8 Buas CastigcUiones Plinii. ^ 



OS HUUANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 38 i 

seriam porventura o movel immediato do regresso da Universidade 
para Coimbra, ao firn de dois seculos. Pelos menos, o rei seguiu com 
interesse esse fòco de cattura que se abria em Santa Cruz de Coimbra, 
e coadjuvou-o opulentamente, mandando construir junto ao mosteiro 
mais dois Collegios. Ao passo que os estudos progrediam em Coim- 
bra, na Universidade de Lisboa davam-se terriveis quebras de disci- 
plina, comò se ve pela devassa de 1532 sobre as irregularidades pra- 
ticadas no provimento das cadeiras. estudo do grego floresceu em 
Coimbra, nas Escholas do mosteiro de Santa Cruz, antes da mudan9a 
da Universidade. Escreve Ribeiro dos Santos; cOs dois portuguezes 
Fedro Henri ques e Gon9alo Alvares, que em 1528 vieram de Paris 
para ensinar o grego, e Vicente Fabricio . . . tanto progresso se havia 
feito n'estes estudos, que jà quando Clenardo ali chegou se espantou 
do seu adiantamento, parecendo-Ihe aquella cidade outra Athenas.» E 
alludindo ao desenvolvimento da typographia grega, accrescenta: «jà 
em 1534 se achava com assento e domicilio no real mosteiro de Santa 
Cruz de Coimbra, entSo luzida eschola de litteratura portugueza; e foì 
està a primeira de caracteres gregos quanto parece, que se estabeleceu 
em Portugal. Contribuiu muito para ella o doutìssimo Vicente Fabricio, 
que ali primeiro ensinou o grego ; . . . Em verdade tEo adiantada a 
achou Clenardo, que escrevia e aconselhava a seu amigo Vasco, que 
se queria ter provimento de Livros gregos, se houvesse com Vicente 
Fabricio, que d'aquella Officina Ihes poderia mandar commodamente, 
e com isso se animariam os Conegos Regulares a imprimir niella muitas 
obras. D'està oficina sahiu entro outras, em 1534 a edÌ92o de Boecio 
De Divisionibus et DefinitionibuSj em 4.® em que jà vem alguns lo- 
gares de caracteres gregos perfeitamente trabalhados, que mostram 
bem, quanto floreciam aquelles prélos.» * Foi tambem no Mosteiro de 
Santa Cruz que se imprimiu a primeira Orammatica latina, pelo cruzio 
D. Maximo de Scusa. D'elle escreve o chronista dos Regrantes: «Foi 
melhor Grammatico do seu tempo, foi grande Filosofo e mui consum- 
mado Theologo. Por occasiSo de ensinar grammatica a alguns prin- 
cipe» e senhores d'este reino, que se criavam com o nesso habito no 
mosteiro de Santa Cruz, compoz a primeira Arte de Latim, e Gram- 
matica, que se imprimiu n'este reino por ordem deirei Dom JoSo no 
mesmo mosteiro no anno 4e 1535, e por ella se ensinou Latim e Gram- 
matica nas escholas menores de Coimbra muitos annos; e ainda depois 



1 Memorici de Litteratura portugueza^ t. vm, p. 79. 



382 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DB C0IBI6RA 

que se deram estas Escholas menores aos Padres da Companhia, peloB 
annos de 1555, ensinavam Grammatica pela Arte do P. D. Maximo, 
até que o P. Manuel Alves compoz a Arte por onde agora ensinam.» ' 
O pensamento da mudanga da Universidade para Coimbra impunha-se 
comò urna necessidade, e desde 1532 que apparece jà nos documentos 
officiaes, ou nos despachos de lentes, a clausula: emquanto o Estudo 
nào mudar. Ab inten93e8 que està clausula revela nSo passaram desa- 
percebidas para a Universidade de Lisboa, e o plano de urna trasla- 
da9SLo dos estudos teve seu ecco nos principaes centros pedagogicos do 
paiz; a Camara de Coimbra, comò veremos, enviou urna petÌ9So, em 
1533, para que a Universidade se estabelecesse alli, ao que foi respon- 
dido que o rei ainda n&o tinha resoIu9So definitiva. Tambem no pro- 
cesso que a Inquisl9&o de Lisboa promoveu contra o grai^de chronista 
DamiSLo de Goes, se le, que D. JoSo m, chamando-o a Portugal em 
1533, Ihe perguntara se poderia attrahir Erasmo para Coimbra conche 
jd tinha ordenado de fazer oa Estudos qtie fez.3 

Sabendo a verea9ào de Coimbra, que D. JoSo m pensava em re- 
mover a Universidade de Lisboa, representou-lhe para que vindo essa 
mudan9a a effectuar-se fosse preferida Coimbra, onde por mais de 
urna vez tivera sède. E crivel, mesmo que D. JoSo m provocasse està 
representa93o, para assim se libertar das exigenciasde Evora, que aspi- 
rava a ter um Estudo Geral. Em carta de 9 de junho de 1533, D. 
Joào III mandou participar à Camara de Coimbra, que tornava em 
lembran9a o que Ihe era pedido. Este documento, exarado quatro annos 
antes de se effeituar a traslada9llo da Universidade para Coimbra, vem 
completar os elementos do plano da grande reforma pedagogica de 
1537.' Coimbra vendo applicar os rendimentos do Priorado mór de 
Santa Cruz para as despezas da Universidade, alentava a esperan9a 



1 D. Nioolào de Santa Maria, Chronica dos Begrantes, Liv. z, p. 326. 

* £Ì8 a Carta regia de 9 de junho de 1533 em reaposta ao pedido da Camara 
de Coimbra: «Juiz, vereadores, procuradorea dea povos da minila cidade de Coim- 
bra. £u el rei vos envio muito saudar. Vi a carta que me escrevestes, em qiie me 
daes conta, que os primeiros reis que foram d^eate reino, que por muitoa aervi^oa 
que da dita Cidade receberam, entre oa muitoa prìvilegioa e homraa que a dotaram, 
houveram por bem, que o Tomba do Beino e Estudos Oerass eativeaaem em ella, 
e que peloa reia passadoa meus anteceaaorea forai& mudadoa para minha cidade de 
Lisboa ; e que ora por terdea informa^&o, que oa mandava mudar para outra parte, 
me pedisy que nào ha vendo de eatar em Lisboa, e fazendo d*ellea alguma mudan^a, 
fosse para essa cidade, onde primeiro estiveram. £u vi bem voaaa carta, e aa ra- 
zoes que para iaao daea, e voa agradefo a lembran^a que me d^iaao fazeis; eporém 



OS HUfilANISTAS E A REFORHA DA UNIVERSIDADE 383 

de que esse facto era am indicio, além da reforma das Escholas de 
Santa Cruz, de que tornaria a receber o seu antigo Estudo Geral. Por 
seu turno a Universidade' em 1534 fez tambem urna calorosa repre- 
senta9ao centra tal plano. Nas Cortes de Evora, de 1535^ foi lembrado 
que a Universidade deveria ser trasladada para Evora. ^ A mudan^a 
veiu a effectuar^se por fins de mar90 de 1537. 

Nos seuB ultimos annos, a Universidade de Lisboa tinha perdido 
lentes eminentissimos, ' corno Frei Balthazar Limpo^ que regeu a cadeira 
de prima de Theologia até 1530, e o Dr. Garcia d'Orta que em 1534 
embarcara para a India, na companhia de Martim Àffonso de Scusa, 
attrahido pela novidade dos phenomenos das regiSes orientaes. 

A actividade de Frei Braz de Barros, doutor pela Universidade 
de Louvain, corre^pondia ao empenho de D. JoSo m na reforma dos 
Estudos; 08 Collegios de Santa Cruz de Coimbra tomaram-se o nucleo 
para as refonnas fundamentaes, preparando assim o plano da traslada- 
(ào da Universidade. Em urna carta de 8 de novembre de 1535, es- 
crevia D. JolU) in perguntando a Frei Braz de Barros o estado da re- 
forma da Faculdade de Artes, e dos lentes francezes chamados para os 
Collegios de Santa Cruz. Transcrevemos o trecho principal d'essa carta: 

aE quftto ao trabalho que dizes que levastes em asetar co doutor 
Prado em a regra das Artes e os francezes que vierS de paris eu creo, 
que seria asy e folgarej que me screvaees quantos lentes sam, e de 
que faculdades. E asj qùStos escolares e estudantes j& ouvem em cada 
ciancia ou arte.» ^ 



até ao presente eu ii2o tenho n*Ì880 assentado couBa alguma; e havendo-ee algama 
coasa de fazer, eu terei lembran^a do que me enviaes dizer. 

«£ quanto ao que dizeis que essa cidade recebe pena, por os juizes de fora 
mais do tempo n£o estarem em ella, por serem maito occupados em diligencias, 
que por mea mandado vSo fazer fora duella, e me pedis os nSo occupe nas ditas 
diligencias, d'isso se terà tambem lembran9a, e o mais que se puder eecusar se 
farà; e ahi està agora o corregedor, que, quando o dito joiz fór fora, vos farà jus- 
ti9a. Escripta em Evora a 9 de junho — Fernando da Costa a fez, de 1533. Rei.» 
(Ap. Martins de Carvalho, no tomo iz, p. 32, da Hiat das Estabdecimentoa sden- 
tificoSf de Silvestre lUbeiro.) 

^ Partugal pittoresco, t i, p. 125. 

^ Yillar liaior, Notida succinta da Universidade de CoiwJbra^ p. 48. 

' Ap. Ayres de Campos, ìnstUuto de Coimbra, mar^o de 1889 — n.* 9, p. 584. 
Estes documentos foram extrahidos de um volume manuscripto, de 225 folhas, que 
pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz, cnjo titulo era : Cartas de reis e infantes sabre 
varios aasumptos tocantes ao mosteiro de Santa Cria, à Universidade, e a cUguns 
Collegios, desde 1518 a 151 L* 



384 HISTORIA DA UNIVERSIDADB DE COIMBRA 

Em outra carta datada de Evora de 11 de mar90 de 1536, es- 
creve D. JoSo in a Frei Braz de fiarros activando a reorganÌBa9So da 
Faculdade de Artes nos Collegios de Santa Gruz^ para proceder à ex- 
tincfSo d'essa Facaldade em Lisboa, e chamar os bolseiros (Estudantes 
de el-rei) que estSo em Paris. O contendo d'essa carta é de nm grande 
interesse historico: 

«Padre frei Bras eu ElRei vos envio muito saudar. Vos avieis 
de poer no ffim de Setembro deste ano bum mestre que lea as sumìda» 
por entam ffazer bum ano que agora le o curso de logica, e dabi a bum 
ano outro mestre que lea jUosoffia que sam os tres cursos das artes. 
E posto que atee bo dito tempo nam seja necesario ordenar os ditos 
mestres por atee entam os conigos nam terem necesidade deles, folgaria 
ordenardes de os poer logo e mandardelos buscar que sejam pessoas 
pera isso sofficientes. asy comò fizestes aos que agora temdes. por que 
queria que as« artes se nam leam mais em Lixboa e mandar que os 
meus bolseiros de Paris se venbam os que ainda ouvem as ditas artes 
e nam pasarS baa tbeologia o que nS seria rezam mandalos revogar 
nam tendo asi os estudantes que as ouvem em Lixboa comò os de 
Paris outro estudo bonde as possam ouvir nestes reinos e perderiam bo 
trabalbo que tem nisso levado pollo qual vos agrade^eroj fazerdelo 
logo. E comò teverdes feito escrevedemo pera logo mandar revogar 
08 de Lisboa e mandar vyr os de Paris. E isto de revogar de Lixboa fol- 
garey que tenbaès em segredo porque nS queria que se soubesse ante 
de OS eu mandar revogar, encommendovos muito que o fagaes asy. 
Anrique da Mota a fez em Evora, aos xj dias de mar90 de 1536, Rey. 
Pera frei Bras de Braga.» 

A preoccupa9So da mudan9a dos Estudos de Lisboa cbegava até 
a interessar as localidades, que se offereciam para sède da Universi- 
dade, comò Evora e o Porto: cnas cortes que fez D.JoSo ni em Tor- 
res Novas em 1525, nas de Evora do anno de 1535, que se publicaram 
com as respostas que a ellas deu, e nas que fez, em 29 de novembro 
de 1538, no cap. 159 requeriam os procuradores d'ellas que mandasse 
acabar os Estudos d'Evora que sHo comegados, e que ahi se ordenem 
lentes e que as duas prebendas da Sé que scio ordenadas para um Theo- 
logo e para um Canonista, que rendem dozentos mil réis cada urna, e as 
obras da Sé que nào sSo appropriadas para cousa alguma senàopara as 
ditas obras e rendem novecentos mil réis cada anno se apriquem aos ditos 
Estudos, e sera azo que hajam mais letrados em seu reino e que nSo se 
leve dinheiro para fora do reino que os estudantes la gastam: a que 
ElBei respondeu: Agradego-vos a lembranga.» 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 385 

«Porem ao capitalo 172, que contém o segainte: Item: pedem a 
V. A. que mande aprender de Physica quarenta ou cincoenta christSos 
yelhos que para isso tenham habilidade, porque està sciencia nSo anda 
agora senSo em cliristSos novos, dando V. A. esperan9a na dita orde- 
na9So de os honrar e Ihes fazer mercè, porquanto d'isto se seguirSo 
muitos proveitos e muito repouso a seus Reinos e senhorios. Deu ei- 
rei efita resposta: Eu ordeno em Coimbra une Estvdos em que se lerd 
Medicina, e poderSo ajprender os que quizerem,'» * 

Por 1535, cursando Theologia na Universidade de Paris, o conego 
cruzio D. DamiSo foi encarregado por D. Jo2o m de contractar alguns 
lentes para a Universidade que ia mudar para Coimbra; em carta de 
3 de outubro d'esse anno escrevia D. DamiSo ao seu Prior geral: «por 
quanto tenho esento largamente a ElRej nesso senhor e a vessa Pa- 
temidade, poUos Regentes que d'està Universidade de Pariz vSo pera 
ler n'essa nova de Coimbra, pela ordem que tive del Rey nesso Senhor 
pera os mandar. Jà agora là serSo, e comegarà a florecer essa Univer- 
sidade, que espero seja resplandor do Reyno e lume da religiào cfaristS. 
NSo se agaste vessa Patemidade se dei grande Partido aos Mestres, 
porque d'outra maneira n2Lo foi possivel movellos a irem; mas comò a 
Universidade for povoad^ se acharSo outros muitos^ e por menos esti- 
pendio; que quanto Mestres de Artes se forem necessarios, lego os man- 
darci e contentarci por ametade de quinhentos cruzados, que dei aos 
que là vSo; porque Mestres em Artes achào-se cà às duzias, e todos 
pela major parte doutos e idoneos pera ensinarem. Avize-me Vessa Pa- 
temidade se se contenta d'esses Mestres e de suas leti'as, e diligencia 
em ensinar e bons costumes. etc.» Por està carta tambem se sabe que 
D. Jo&o in nomeara o conego D. DamiSo para a regencia de urna ca- 
deira de Theologia: <0s duzentos cruzados que Vessa Patemidade me 
mandou pera livros Ihe tenho muito em caridade e assi a Cadeira de 
Theologia que me tem alcanfado del rey nesso Senhor pera eu iSr n'essa 
Universidade ; porque tanto que tiver embarca9So logo me heide par- 
tir a tomar posse d'ella.»' 

cardeal infante tambem se lisongeava que a Universidade fosse 
transferida para o seu arcebispado de Braga ou pelo menos para o Porto; 
elle tambem fundara um Collegio em Braga, ao qual dava a dota(So e 
desenvolvimento de um Estudo geral. Escreve Cenaculo: «0 Arce- 



1 Ap. Instituto, de Coimbra, t. xiv, p. 278.— (1871.) 

2 Ap. D. Nicoiào de Santa Maria, Chron, dos Begrantes, liv. vn, p. 61. 

BIST. UN. 25 



386 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

bispo de Braga inclinava (a mudanga da Universidade) para a sua Au- 
gusta ou para a Cidade do Porto. Os Lentes de Lisboa interpozeram 
recurso, mas inutil, dizendo a Eirei D. JoSo ili: Que muito provetto 
sera a seus Reinos o haver hi duas Univeraidades pois em oidros Rei* 
nos ha mmtas mais. Foi escripta a carta a 14 de dezembro de 1536 
assignada entre outros pelos Doutores Fedro Nunes e Gon9alo Vaz ...» * 
O infante D. Henrique, arcebispo de Braga, fundou ali um Collegio, 
que era regido por JoSo Vasèo, naturai de Bruges, tendo vindo de Sa- 
lamanca;^ ]b)icolào Clenardo, que escreveu para esse Collegio umas 
InstitiUiones Orammaticae latinae (Braga, 1538), dà noticia d'està es- 
chola, escrevendo para Louvain, a Francisco Hoverio, em data de 27 
de fevereiro de 1538, e a Jacomus Latomus, de Granada, em 12 de 
julho de 1539. Foi n'este anno que o arcebispo infante uniu ao Col- 
legio as rendas das egrejas de Santa Maria de Negrellos, S. JuliSo de 
Val-Pa§ós e Santa Maria do Vimieiro, augmentando o edificio, para 
n'elle haver estudos gratuitos. Em provisSo d'este mesmo anno manda 
unir aos rendimentos do Collegio seiscentos ducados das egrejas que 
fossem vagando, e prové-o de Mestres de Grammatica, Poetica, Rhe- 
torica, Philosophia, Canones e Theologia. O arcebispo infante, nSo po- 
dendo alcangar a tra8lada9So da Universida(^e para o Porto, tratou de 
approximar o seu Collegio do typo de um Estudo geral. ^ 

Nas biographias das principaes individualìdades portuguezas re- 
sume-se em breves tra90s, muitas vezes, o quadro do ensino em urna 
època, ou a fórma corno os conhecimentos se adquiriam. Exeinplifique- 
mos: D. Alvaro Paes, o auctor do livro De pianeta Ecclesiae, apre- 



1 Ouidadoa Litterarioe, p. 243. — -Este Doutor Fedro Nunes nSo deve ser con- 
fundido com o mathematico ; era o desembargador e chanceller do rei, o ultimo 
Beitor da Universidade até à sua traslada^fio para Coimbra. 

2 Differentes cartas de Clenardo a Joào Vaséo trazem importantes noticias 
sobre as reformas que precederam a trasladaQSo da Universidade ; em urna carta 
falla-lhe de Mestre Fabricio, allemSo, que ensinava grego nas Escholas de Santa 
Cruz, e allude a urna carta que este Ihe escreveu lego que soubera da sua cheg^da 
a Fortugal; em outra carta, de 1537, diz que fora visitar a Universidade a Coim- 
bra, mas, comò eram ferias, nSo póde vèr funccionar as Escholas ; apenas viu ali 
comò ensinava grego Mestre Vicente Fabricio ; em outra carta refere- se à typo* 
grapbia do mosteiro de Santa Cruz, recommendando-lhe que, se quizesse livros 
gregos, OS pedisse a Vicente Fabricio, porque no mosteiro se imprimiam admira- 
velmente. 

' Joao Vaséo tambem imprimin em Braga, em 1538, a sua CoUeetanea Rht' 
iorices, dedicada ao cardeal infante. 



OS HUMÀNISTÀS E A REFORBfA DA UNTVERSIDADE 387 

senta nos seus e8tado3; no secalo xiVy a situagSo das duas Universi- 
dades que dirigiram a pedagogia europèa: cElIe; posto que portagaez, 
passou na sua mocidade a estudar Direito na Universidade de Bolonka; 
tomou habito seraphico e professou em Assis; e^ ainda que voltando 
a Lisboa, residiu algum tempo no seu convento da mesma cidade, ainda 
voltou a frequentar cts atdas de Theólogia em PariSs^ ^ 

. O filho do chronista Ray de Pina, o celebre FernSo de Pina, que 
fez a reforma dos Foraes, por meio da qual se extinguiu a autonomia 
locai dos concelhos, substituindo-se às garantias populares a vontade 
do rei na Ordena^ Manudina^ completou a sua educa9So fora de Por- 
tngal^ no firn do seculo xv. JoSlo Pedro Ribeiro falla da sua cultura hu- 
manista: dnstruido fora do reino nas linguas latina e grega, tendo 
mesmo no reinado de D. JoSo il viajado a Inglaterra corno secretano 
de urna embaixada, nSo Ihe podiam ser extranhas as obras de Plutar- 
cho, nem mesmo as Epistolas de Cicero, j& vulgares pelo prelo.» * 

A reforma da Uaiversidade de Lisboa, por D. Manuel, decretada 
nos Estatutos ou Ordenan^as de 1504, veiu a realisar-se por uma influen- 
eia nSo officiai e externa a esse corpo docente, pelo desenvolvimento dos 
estudos humanistas em Portugal ; porque nas principaes Universidades 
da Europa floresciam, corno professores e alumnos, portuguezes que. 
honravam a sua patria, corno Ayres Barbosa, que estudara na Italia e 
ensinara vinte annos em Salamanca, regendo as cadeiras de grego e 
latim; Henrique Caiado, discipulo de Cataldo Siculo e de Angelo Po- 
liciano; Antonio Pinheiro, que estudara no Collegio de Santa Barbara, 
onde era principal André de Gouvèa, o mostre insigne de Montaigne; 
Pedro Margalho, que se doutorara em Paris e ensinara em Salamanca; 
DamiSo de Goes, que se formou em Padua; André de Resende, que 
estudou na Universidadc de Louvain; Jorge Coelho, Alvaro Gomes, 
Antonio Luiz, Jeronymo Cardoso, e tantos outros portuguezes que co- 
operaram no ferver philologico e critico da Rena8cen9a. ^ Os humanis- 



1 J. Pedro Ribeiro, Refl. hUtoriccu. 

* Ibidem, U i, p. 50. 

3 TranBcrevemoB do Anno historieo, do padre Francisco de Santa Maria, 
t. in, p. 120 a 122, a lista dos professores portuguezes que ensinaram nas Uni- 
versidades estrangeiras : «Mas porque se nSx) diga que a na^lU) portugueza deve 
às estrangeiras em grande parte a cultura das sciencias, e que Ihes està n'essa di- 
vida, mostraremos aqui o excesao com que Ihes correspondeu, e daremos uma abre- 
viada lista dos grandes Mestres, que de Portugal sairam para Lentes das mais fa- 
mosas Universidades da Europa, advertindo qae, sem duvida, deizamos de referir 

25* 



388 mSTORIA DA UNIYERSIDADE DE GOIMBRA 

tas eram as potencias da època, e os reis nSo sómente os attrahiam 
para as fiuas cfìrtes, corno Ihes entregavam a educaySo dos prìncipes. 
Ayres Barbosa foì chamado de Salamanca, em 1521, para vir dirìgir 
a educa9&o dos principes D. Affonso e D. Henriqae, irmSos de D. 
JoSo m ; André de Besende foi chamado tambem a Portogal para mos- 
tre do infante D. Bnarte, em 1534, indo n'esse mesmo anno a Sala- 
manca contractar a vinda de Nicolào Clenardo para o Estudo goral de 
Lisboa e para o ensino do infante D. Henrique. Fallaya*se latim nas 



mtiitos, por falta de noticias ; e porque a Universidade de Salamanca nos fica mais 
perto, come^aremos por ella: 

Salauanca 

Frei Diogo Femandes, franciscano, lente de prima de Theologia, 

Alvaro Gomes, lente de Theologia (e tambem na Universidade de Lutecia.) 

FemUo Ayres de Meza, lente de vespera e de prima de Canone, idem. 

Fedro Margalho, id. 

Miguel da Costa, id. 

D. JoSo Altamirano, id. 

Vasco Rodrìgues, id. 

Belchior Comejo, id. 

Fr. Luiz de S. Francisco (antes de entrar Beligioso),id. 

Manuel da Costa, lente de prima de Leia, 

AjreB Pinhel, id. 

Heitor Bodrigues, id. 

Ascenso Gromes, lente de vespera. 

Nuno da Costa, id. 

D. Francisco de Fuga, id. 

Ayres Barbosa, lente de Leis. 

Francisco Caldeira Phebo, id. 

Antonio Gromes, id. 

Amador Bodrigues, id. 

Jeronymo de MiltU) Fragoso, lente de InstUuUi, 

Duarte Femandes, lente de prima de Medicina. 

Ambrosio Nunes, lente de vespera de Medicina. 

Agostinho Nunes, id. 

Francisco Femandes, lente de Philosophia e 3lédtctfia. 

Thomé Bodrigues da Veiga, id. 

Luiz de Lemos, id. 

Jo2o Soarea de Brito. lente de PhUciophia. 

SebastiSo Gomes de Figneiredo, id. 

B^pbaci Nogueira, lente de McUhemaiica, 

Qabrìel Gomes, lente de ÀMirclcgia, 

Francisco Homem de Abreo, lente de Shetoriea. 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 389 

«scholas do palacio e nas aulas da Universidade; André de Resende 
4escreye este oso^ na Vida do Infante D* Duarte: cEstando Elrey quo 
Deus guardo, em Evora, quando eu vìm de Franca e Fiandes, no anno 
de 1534, fiz-lh'e men92o da erudÌ9So e virtudes do licenciado Niool&o 
Clenardoy flamengOy que eu de Lovaina conhecia, e com quem me exer- 
citaya na lingua hebraica bum pouco de tempO; e contratara entro elle 
e D. Fernando Colon, sevilhano, quomo se viesse a Hespanha; e log^ 
€om promessa que se Elrey nesso senhor se quizesse servir d'elle, vi- 



JoSo Femandes, lente de prima de Bhetorica {(ò a leu na Universidade de 
Alcali.) 

Francisco Martina, lente de prima de HumanidadeM. 

Manuel de Azevedo, id. 

Gaspar Alves da Vóga, id. 

Manuel de Oliveira, id. 

Ayres Barbosa, primeiro lente de Grtgo em Salamanca e em toda Hespanba. 

Henrìque Jorge Henrìques, da Guarda, regente de Aiies. 

Pabis 

D. JoSo Froes, conego de Santa Cruz de Goimbra, e depois cardeal, lente 
de Theologia. 

D. Fedro Sardinba, id. 

Freì Gaspar dos Beis, dominico, id. 

Frei Jorge de Santiago, id. 

Frei Jo2o da Cruz, agostinho, id. 

Frei Duarte, id., ibid. 

D. Frei Diogo Soares de Santa Maria, franciscano, lente de Theologia e Con^ 
travenia (e tambem na Universidade de Lovajna.) 

Diogo de Gouvéa, o velho, lente de prima de Theologi€u 

André de Gouvéa, seu sobrinho, successor na mesma cadeira. 

Diogo de Gouvéa, sobrinho do vclho, lente de Arte». 

Marcai de Gouvéa, tambem sobrinho do velho, lente de Artea e Humamdade». 

Diogo da Silva, lente de Medicina, 

D. Antonio Pinheiro, depois Bispo de Miranda, lente de Humanidaiei. 

Sapibhcia Romaìza. 

Frd Gregorio Nunes, agostinho, lente de Theologiau 

Francuco da Costa, jesuita, id. 

Diogo Seco, id. 

Jorge Calhandro, lente de Canone». 

Paulo Calhandro, seu filho, lente de InMuda^ 

Gabriel FalcSo, id. 

Manuel Constantino, lente de Bhetarioa e PhUoaopMa. 

JoSo Vaz da Motta, lente de Bhet&riea e Logica. 



390 HISTORIA DÀ imiVERSIDADE DE COIMBRA 

ria pera este remo. Ora, ao tezopo qae ea vim, elle estava em Sala- 
manca jà fora D. Fernando, e lia em aquella Universidade com multa 
honra e irequencia; dei conta a Elrey que me parecia multo pera mos- 
tre do Infante D. Henrique, que segula o estado eccleBiastico. Qua- 
drou Isto a El-rey, e mandou-me a Salamanca pera o persuadir que 
Tiesse, e em nome de sua Alteza, assentasse com elle o partido que 
me parecesse rasoado e honesto. Eu o fiz assim e o trouxe commigo, 
e depois de beijarmos a mSo a Elrej, o levei ao Infante D. Henrìque 



Thomaz Correa, lente de Humanidadea (e tambem na UDÌversidade de Bo- 
lonha.) 

Achilles Estate, lente de Humanidcuies. 

Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo, franciscano, lente de Contro^ 
versias e Hùioria Eedesiasiica (e, na Universidade de Padua, de FMlosophia Na- 
turai.) 

LOYATKA 

Frei Antonio de Sena, dominico, lente de Thedogia, 

Frei Luiz de Sottomayor, dominico, id. (e tambem na Universidade de Alcalà.) 

Frei Agostinho da Gra^a, eremita agostinho, lente de ITieologia. 

D. Frei Diogo Soares de Sanità Maria, franciscano, lente de Controversia. 

Filippo MontaJto, lente de Medicina, 

Pisa 

Bénto Pinhel, lente de Leis. 

Diogo Lopes de Ulhoa, id. 

Filippe Eliano Montalto^ lente de PhUosophia, 

Gabriel da Fonseca, id. 

Martina de Mesquita, id. 

Jorge de Moraes, lente de Medicina, 

Rodrigo da Fonseca, id. (e tambem em Padua.) 

£stev&o Bodrignes de Castro, lente de prima de Medicina, 

BOLOHHA 

D. Frei Alvaro Paes, franciscano, lente de Canone». 
Manuel Bodrignes Navarro, id. 
Frei Luiz de Bcrja, agostinho, lente de Eécriptura. 
Thomaz Correa, lente de Bhetoriea (e tambem em Roma.) 

FSBRABA 

Luiz Teixeira, lente de Leia, 

Amato Luzitano (alias Jo2o Rodrigues de Castello Branco) , lente de Medicina. 

Padua 
£stev2o das NeVes Cardeira, lente de Leis. 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIVERSIDADE 391 

pera o mesmo. Fez-lhe Clenardo urna breve falla, e o Infante Ihe disse 
que Ihe respondesse e dixesse quanto com saa vinda folgava. Eu por 
lego come9ar a desenovelar o Infante Ihe respondi : — Senhor, boca tem 
Y. À. elle per sim Iho diga, e pois ha de ser seu mestre^ nom se aco- 
varde a Ihe falar em latim. Infante o fez, que comejou e ajudei-o 
eu. E pareceu-lhe tSlo bem o que eu fiz em o constranger a fallar la- 
tim, que logo assentou que d'ahi em diante quomo o mostre vìesse e 
estivessem & IÌ9S0, todos os presentes fallassem latim. Muitos houve 



Duarte Madeira, lente de prima de Medicina, 
Rodrigo da Fonseca, id. 

Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo, franciscano, lente de PhUoeO' 
phia moral. 

TUBIM 

Fedro de Barros, lente de Medicina, 

Tolosa 

Antonio de Gouvéa, lente de Leis (e tambem em AvinhSo.) 
Fedro Vaz Castello, lente de Medicina. 
Francisco Sanches, id. 

MOMFILHEB 

FemSo Meudes, lente de Medicina, 
Lazaro Ribeiro, id. 

André Louren^o Ferreira, id. (Foi Cancellano da mesma Universidade, do 
Conselho de Henrique iv de Franca, e seu Physico-mór.) 

AviNHAO 

Antonio de Gouyéa, lente de Leis (e tambem em Tolosa.) 

Bordeaux 

D. Frei Francisco Soares de Vilhegas, carmelita, lente de Fhilosophia e 
Theologia. 

Babceloha 
Frei Tbomaz Tostado, carmelita, lente de prima de Theologia, 

Lébida 
Frei Agostinho Osorio, eremita agostinho, lente de Theologia. 

Sbtilha 
Dionisio Velho, lente de Anatomia, 

OssuxA 
Frei Fedro de Abrea, fìranciscano, lente de Theologia. 



392 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

que tinham opini&o ab letrados, quo per nSo descobrirem o fio de quam 
mal sabiam fallar latim, escolheram antes n&o ir & lì^Suo nem entrar 
emquanto o mestre la estivesse, e nom he necessario nomeal-os. O In- 
fante Dom Duarte corno principe discreto, e que em publico nom que« 
ria que se Ihe enxergasse qualquer falta, me chamoa a seu aposento, 
e dixe-me : Bem vistes quomo o Infante meu senhor, poz ley, que to- 
dos fallassem latim ; as lÌ95es se come9arào d'aqui a tres dias, folgaria 
que se nom enxergasse tanto em mim oste defeito; qualquer afronta 



Frei Alberto de Farla, carmeiita, lente de Eacriptura. 
Aifonso Nunes de Castro, lente de Medicina. 

^▲BAGO^A DE AjIAoIo 

Frei Fedro de Alverca, trino, lente de prima de Theologia. 

Gandia 
Padre Manuel de S4, jesuita, lente de Theologia, 

Santiago 
Frei Placido de lima, benedictino, lente de Thiologia» 

Aucxlì 

Frei Thimotheo de Seabra, carmeltta, lente de Philosophia e Theoloffia. 
Paulo Correa, lente de vespera de Theologia. 
Frei Jofio de Santo Thomas, domini co, lente de prima de Theologia. 
Thomaz de Aguiar, lente de Medicina. 

Valhadolid 

Frei G-aspar de Hello, agostinho, lente de prima de Escriptura. 
Frei Nicol&o Coelho do Amarai, trinitario, lente de Theologia. 
Frei Seraphim de Freitaa, mercenario, lente de prima de Canones. 

OZONIA 

Frei Antonio de Lisboa, Sanciscano, lente de Theologia. 

Athkm 
Frei Jo2o Sobrìnho, carmeiita, lente de prima de Theologia. 

Pbboaxo 
Frei Quilherme de Portagal, franciscano, lente de Uieologia. 

Cantabbxoia 
Frei Thomé de Portugal, franciscano, lente de Theologia. 

Ji DnuiroA 

Padre Manuel dk Veiga, jesuita, lente de prima de Theologia. 



OS HUMANISTÀS E A REFORMÀ DA UNIVERSIDADE 393 

que por isso houver de receber seja antes aqui com vosco so. Alegrei- 
me em extremo, e louvei-lhe muito isto, e comecei logo a fallar-lhe em 
latim^ e fazello fallar e desempenar a lingua; foi a coisa em tres dias, 
de maneira que perdido o prìmeiro medo se desenvolveu tanto que, 
quando veyo à primeira IÌ9&0 fez espanto aos que tal nom esperavam 
vèr, quam facil e nom laboriosamente fallava.» (Cap. 10.)^ 

A influencia da Universidade de Louvain, que f5ra um dos centros 
onde mais cedo fioresceram os estudos da Renascen^a, tambem se re- 
flectiu em Portugal, de thu modo directo, pela vinda a este paiz do 
flamengo Kleinarts (nottie que elle latinisou em Clenardó) em 1534. 
Nicolào Clenardó contava entSo trinta e nove annos, e jà era conhecido 
pela sua eruditilo latina e grega, patenteada em valiosos livros ele- 
mentares, * e por um profundo conhecimento do hebreu ^ que elle por 
urna alta intuiQSo philologica approximara nos seus estudos da lingua 
arabe. Clenardó, tendo alcan9ado o Psalterio de Nebio, aprendera com- 
sigo alphabeto arabe, e applicando as analoglas com hebreu chegara 
a poder traduzir Koran. Este resultado enthuziasmou-o, e com esse 
espirito aventuroso dos grandes humanistas da Renascen9a, que levava 
OS sabios a explorarem Oriente, philologo projectava uma viagem 
à Hespanha, para aperfeifoar-se no arabe, visitando sobre tudo as 
ruinas do extincto reino de Granada. Urna circumstancia casual faci- 
litou a Clenardó a realisa9fto d'este projecto; chegara a Louvain filha 
do almirante que descobrira as Indias occidentaes, Fernando Colombo, 
com fim de comprar livros para a bibliotheca de Sevilha; combinou 
trazel-o em sua companhia para Hespanha, partindo em 1532 com 
elle. Vieram por Paris Clenardó e Fernando Colombo, onde se demo- 
raram dois mezes; passaram a Aquitania, a Touraine, e atravessando 
a Cantabria entraram em Hespanha. Em Salamanca teve Clenardó uma 
proposta para tratar da educa9ÌLo do vice-rei de Napoles, em conse- 
quencia do que teve de partir para Madrid, e frequentar a cdrte de 
Carlos v, onde se demorou um anno, cercado de admira9Ses. A vida 



1 Na Oratio prò roetris, recitada em 1534, por André de Besende, na aber- 
tara da Universidade de Lisboa, allade-se a este ezimio humanista : a Vidi ego in 
celebri Parrliisioram academia sub hoc Nicolao Clenardó, qui eradiendo Henrico 
principi, regia liberalitate in Lozitania est adcitus, senes qainquaginta annis ma- 
jores, prima graecarum litterarum fondamenta jecisse, et gnaviter nec sine laude 
fnisse progrsssos.» 

* InatUtUianea Unguae graecae, Louvain, 1530. MedUcUionea graecanieae in ar* 
Um grammaticam, Louvain, 1531. 

3 Tàbìdam in grammaticam Hebraeam. Louvain, 1525, in-8.® 



I 
394 HISTORIA DA UNIVERSIDADE DE GOIMBRA 

litteraria que entrevira em Salamanca seduzia-O; e regressou para Sa- 
lamanca, onde Ihe fizeram toda as vantagens para o fixar no magÌB- 
terio. Foi no ruido das escholas que Ihe apresentoa André de Resende 
a proposta para vir para Portugal por convite de D. JoSo in, para 
encarregar*se da educarlo do infante D. Henrique. Seduziu-o a per- 
spectiva de uma vida tranquilla, e acceitou o convite do monarcha. As 
cartas latinas escrìptas de Portugal aos seus professores da Universi- 
dade de Louvain, Latomus e Hoverius, pintam de um modo pittoresco 
novo viver social e o nesso estado mentak 

cEntrando-se nas cidades d'este pequeno reino julga-se entrar 
nas habita^òes dos diabos; todos os creados, (que ahi se acham em 
abundancia), sSo negros, tanto homens comò mulheres. A terra nSo me 
agradou là muito, e a n^ ser o meu amigo JoSo Petit, doutor pari- 
siense, hoje rico conego nas margens do Tejo, de pobre mestre que ou- 
tr'ora fora nas do Sena, teria abandonado depressa as terras luzitanas. 
Comtudo, este é o paiz do euro, e os Francezes sabem-no bem; pelo 
que, se encontra um grande numero d'elles em Portugal, e muito con- 
tentes. £ certo que tudo aqui é de uma carestia horrivel. Mas o que 
é mais desagradavel, talvez, é a immundicie das casas! Ah! que nSo 
se parece com a minha patria; nSo ha a atten9So, os cuidados, o es- 
mero das nossas boas donas de casa flamengas; comtudo pela anciedade 
estrema de ver e apprender, eu me affalo aos costumes portuguezes; 
dou-me com alguns homens instruidos, e tenho a felicidade de encontrar 
Francezes que vieram aqui estabelecer-se no tempo do rei D. Manuel. 
Oh, que sSo os cidadSos do mundo ! com elles nunca se julga estar 
fora da sua patria.» etc. 

As suas primeiras impressSes e a situaySo de mestre junto do in- 
fluite acham-se assim descriptas por Clenardo: cEis-me feito um se- 
nhor, de mesquinho estudante de Louvain, que eu era. Dependia de 
mim figurar comò os outros, frequentar os bailes, os tomeos, entre- 
gar-me a aventuras amorosas (o que aqui se toma por uma virtude) 
andar à ca9a, matar o tempo e saborear todos os prazeres usuaes da 
corte dos reis aborecedendo-me d'elles. Fui bastante lorpa, em nSo se- 
guir estes divertimentos tfto apetecidos, e afastar d'elles meu irmSo, 
que gesta muito d'isso. Eu acordo no meio das grandezas, e vem-me 
saudades dos bons mestres de Salamanca. Julgae os meus sentimentos 
por essas vossas doutas reuniSes, oh meus caros compatriotas de Lou- 
vain! por essas conversas instructivas que nós tinhamos diante da 
loja de Jaspar, pelos nossos deliciosos passeios, e pela felicidade que 
gosavamos em estar jontos. Se eu nSo estivesse longe da minha patria, 



OS HUMANISTAS E A REFORMA DA UNIYERSIDADE 395 

6U seria o mais feliz dos homens. O meu estado é tranquillo, e bri- 
Ihante ; o real infante que eu educo estima-me muitO; e eu me apartarei 
com pezar d'elle; é o sangue dos heroes, e o precioso ren6vo d'esses 
grandes reis, que, senhores de um pequeno Estado, alcangaram tanta 
gloria; é da mesma terra d'esses homens, que, altivos rivaes dos Hes- 
panhoes, se atreveram sob o magnanimo Àlbuquerque a affrontar os 
fogos da aurora, a penetrar na Ethiopia, a dobrar o chinai de Mo9am- 
bique, e que subjugaram tantos povos, t^o numerosos e tSo potentes 
confinadoff no extremo do globo. Mas; ai. Por isso mesmo que este 
principe està rodéado de tanta gloria, mais dif&cil Ihe sera o sentir 
paixSLo por ella; està jà, desde cedo habituado a isso. Desde o ber90 
tel-ohSo imprudentemente familiarisado com o que Ihe deveriam ter 
deixado desejar. TerSo antecipado o momento do enthuziasmo, esse 
momento critico da vida dos reis; e a sua alma capaz de apossar-se 
fortemente de uma grande ideia permanecerà por ventura fria, por 
isso que nSo terà novidade para si. Que filho de um rei perfeito pode 
jà Bubstituil-o aos subditos pezarosos?