(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia de Portugal desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III"

Historia de Portugal 

DESDE O COMEÇO DA MONARCHIA 
ATÉ O FIM DO REINADO DE AFFONSO III 

POR 

A. HERCULANO 



Oitava edição definitiva 
conforme com as edições da vida do auctor 

DIRIOIDA POR 

DAVID LOPES 

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa 



Edição ornada de gravuras 
executadas sobre documentos authenticos 

DEBAIXO DA DIRECÇÃO DE 

PEDRO DE AZEVEDO 

Conservador do Archivo Nacional 



TOMO Ml 
(Livro II, 2.' parte. Livro III), 



LIVRARIAS AILLAUD & BERTRAND 

Paris Lisboa. 

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 

Rio de Janeiro, — S. Paulo. — Bello Horizonte. 



HISTORIA 



DE 



PORTUGAL 



Historia de Portugal 

DESDE O COMEÇO DA MONARCHiA 
ATÉ O FIM DO REINADO DE AFFONSO III 



A. HERCULANO 



Oitava edição definitiva 
conforme com as edições da vida do auctor 

DIRIGIDA POR 

DAVID LOPES 

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisbca 



Edição ornada de gravuras 

EXECUTADAS SOBRE DOCUMENTOS AUTHENTICOS 

, DEBAIXO DA DIRECÇÃO DE 

PEDRO DE AZEVEDO 

Conservador do Archivo Nacional 



TOMO III 
(Livro II, 2.^ parte, Livro III). 



LIVRARIAS AILLAUD & BERTRAND 

Paris Lisboa. 

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 

Rio de Janeiro. — S. Paulo. — Bello Horizonte. 



Digitized by the Internet Archive 

in 2010 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/historiadeportu03herc 



LIVRO II 



1128-1185 



LIVRO II 



II28-H85 

2. 

Continuação de reinado de Aíronso I. — Tc tnada de Lishoa 
e cutros logarcs. — Guerras civis entre os mussuhuanos. 

— Tentativas repetidas contra Alcácer. — Conquistas no 
moderno Alemtejo. — Leão e Castella por morte de 
AíTonso V!I. — Allianças de familia entre AíTonso I, o 
conde de Barcelona e Fernando II de Leão. — O rei de 
Portugal desbaratado pelos almohades. — Tomada de 
Beja e Évora. — Invasão dos portugueses além do Gua- 
diana. — Moura, Serpa e Alconchei snbmettidas, — Dis- 
córdias entre AíTonso I e o rei de Leão. — Destroço dos 
])ortugueses em Aiganal. — Gonquistíi do sul da Galliza. 

— O rei de Portugal, prisioneiro dos leoneses em Ba- 
dajoz, é posto em liberdade. — Providencias para a 
defensão do paiz. — Primeiro cerco de Santarém pelos 
almohades. Tréguas. — Casamento do príncipe herdeiro, 
o infante Sancho. — Invasão dos portugueses na Anda- 
lusia. Represálias. — O papa confirma o titulo de rei a 
AíTonso Henriques. — Continuação da guerra com os 
sarracenos. — A infanta D. Theresa desposada com o 
conde de Flandres. — O amir-al-muminin Yusuf Abu 
Yacub invade pessoalmente Portugal. — Segundo cerco 
de Santarém e morte do amir. — Últimos dias de 
AíTonso I. — Epilogo. 

DESDE a tomada de Santarém os pensamentos de 
AíTonso I voltavam-se todos para a conquista de 
Lisboa; mas os mussulmanos deviam estar preca- 
tados, e, porventura, a consciência das poucas 
forças que tinha para tão grande empreza, fazia-lhe 
considerar a tentativa como incerta e remota (i). 



I Sed si for lè eienerit ut in aliqiio t':mpore mihi Deus 
sua pietate daret illam civitatem, quae dicitur LTixbona : 
Doaç. aos templários, ubi supra. 



8 HISTORIA DE PORTUGAL 

Os successos que nessa conjunctura occorriam na 
Europa fizeram com que se realisassem os seus de- 
sígnios com maior brevidade do que elle ousaria 
esperar. Daremos de taes successos uma idéa suc- 
ointa, para que o leitor possa conhecer a causa do 
inesperado auxilio que o rei de Portugal então 
obteve para se apoderar de Lisboa, habilitando-se 
assim para proseguir as suas conquistas ao sul do 
Tejo. 

A existência dos estados christãos na Syria tinha 
sido desde a primeira cruzada uma serie quasi não 
interrompida de combates, em que ora os conquis- 
tadores, ora os mussulmanos levavam a melhoria, 
sem que nem uns nem outros obtivessem vantagens 
permanentes e decisivas. A perda, porém, de 
Edessa (ii44)> uma das cidades mais impor- 
tantes daquelles estados, fez profunda impressão 
na Europa. Por mais de meio século não haviam 
cessado de partir para o oriente cavalleiros e 
peregrinos de ambição ou de fé viva, que iam 
buscar naquellas remotas partes melhor fortuna ou 
mais segura salvação ; mas estes continuados soc- 
corros serviam apenas para preencher as fileiras 
dos defensores da cruz, diariamente rareadas pelo 
ferro sarraceno. Assim, o pensamento de uma nova 
cruzada para salvar das mãos dos infiéis os sanctos 
Jogares começou a crescer e a dilatar-se. Esta idéa 
achou um interj^rete arí^ente em Bernardo, abbade 
de Claraval, talvez entre os seus contemporâneos o 
homem inais eminente por muitos dotes reunidos. 
A sua eloquência, a austeridade dos seus costumes, 
a sua actividade, a audácia com que media pela 
mesma escala os poderosos e os humildes para a 
reprehensão ou para o louvor tinham-lhe gran- 
geado extrema popularidade e alta influencia nos 
negócios públicos, sobretudo nos que de algum 



LIVRO l; 9 

modo se ligavam com a relig-ião. Foi, pois, Bernardo 
quem principalmente pregou a cruzada. Na pri- 
mavera de 1146 o rei de França, Luiz VII, tomou a 
-cruz vermelha das mãos do abbade de Claraval, e 
com elle a tomaram quasi todos os senhores e prin- 
cipaes cavalleiros franceses, além de muitas outras 
pessoas. Passando á Allemanha, Bernardo soube 
3'esolver Conrado III, na dieta de Spira, a associar- 
ac a este grande movimento militar. Os resultados 
<la empreza foram, porém, fataes para os dous prín- 
cipes, que deixaram anniquilada na Ásia a flor dos 
seus exércitos, sem que vissem realisar-se alguma 
das brilhantes promessas do monge cisterciense, 
que, apesar da sua indisputável capacidade, levado 
<io enthusiasmo, não soubera calcular as difíicul- 
<lades da tentativa (i). 

Os cruzados de Allemanha e os de França, que 
os seguiram pouco depois, capitaneados tanto uns 
como outros pelos respectivos monarchas, tinham- 
se dirigido por Hungria e passado á Ásia atraves- 
sando o Bosphoro. Constava o exercito allemão 
principalmente de suabios, bavaros, franconios e 
lotharingios, bem como da gente do sudoeste de 
Allemanha (2). Certo numero, porém, de habitantes 
do Rheno inferior e da Frisia, que tinham sido mo- 
vidos pelos discursos do clero para a guerra sancta, 
mais habituados á vida do mar que os povos do 
sertão, preferiram embarcar-se e irem unir-se com 
outros peregrinos em Inglaterra. As tropas teuto- 
nicas, em que entravam muitos lotharingios, jun- 
ctas em Colónia passaram a Dartmouth, porto da 
<jran-Bretanlia, onde se achava uma armada de 



It) Wilken, Gescliichte áei Kreuzzuge : B. 3, ia. — Mi 
«haud, Ilist. des Cioisades, P. 2, L. 6. 

^1 Píiâter. Ge-3cliichte der Teulschen, a B. S. 35i. 



IO HISTORIA DE PORTUGAL 

perto de duzentas Telas destinada a transportar o» 
cruzados das varias regiões maritimas de Flancres^ 
de Inglaterra e ainda alguns da Aquitania (i). 
Eram os personagens princij^aes daquella fruía 
fundeada em Darmouth (2) o conde Arnulfo de 
Arescbot, chefe dos allemães, e Christiano de 
Gistell, chefe dos flamengos, sendo a gente d'Ingla- 
terra regida por quatro condestaveis (3). As tropas 
que aili se ajunctaram subiam, talvez, a pouco 
mais de treze mil homens, pela maior parte de infe« 
rior condição, porquanto a nobreza d'Allemanba e 
de França se aggregara aos exércitos de Conrado lli 
e de Luiz YII (4). Esta armada velejou para as 
costas de Hespanha, não tanto com o intuito de 
guerrear os sarracenos da Peninsula, como porque 
era aquella a rota que deviam seguir para entrarem 
no mediterrâneo e chegarem á Syria . Depois de uma 



(i) V kal. maii movit exercitus á Colónia : Dodechinus^ 
— Exercitus, Colónia et aliis cUdtatibus Rheni conflatus t 
Helmolduív. • — Flandrigenae... Angli... Lotharingii : Ar- 
nulfus. — Exercitus ex Anglia, Flandria et Lotharingia : 
Rob. de Monte. — Variaram nationuni gentes: CrucesignatL 
Anglici Epistola. — Pars eorum máxima venerat ex Anglia t 
Henricus Huntingdonensis. — Castra Theutonicorum cete- 
rorumque diversis qui venerant provinciis. . . Angli viri, et 
reliquus Britaniae, Aquitaniaeque populus : Indiculum; 
Fundat. — Achar-se-hão no íim do volume, nota I, o& 
títulos, edições e logares dos AA., que citamos só pelos, 
seus nomes para evitar prolixidade e repetições. 

(12) So laesset sicli wolil dreist das Derchimede des Dede- 
kin und das Tredeniunde des Arnulf deuten : Lappenberg^ 
Gesch. vonEngland, 2 B. S. 3Õ7. 

l3) Crucesignati Anglici Epist. 

(4i Venimus in portuni Angliae Derchimite, ubi erat 
comes Areschot cum 200 fere navibusanglicis et flandricist. 
Dodechinus. — Cum de ipsis essent tredecim millia : Rob. 
de Monte. — Exercitus virorum non poientum nec alicaE 
magno dncc ennixi... humiliter profecli sunt... — His paw- 
peribus de quibus praediximus : H. Huntingdonensis. 



LIVRO II ir 

procella furiosa, que facilmente espalliou os pe- 
quenos baixéis da frota (i), esta, lia vendo buscado 
ííuccessivamente abrigo cm dous ou trcs portos 
das costas de Astúrias e Galliza, veio a final ajun- 
ctar-se na foz do Tambre '^ria deXoya). Próximos do 
celebre sanctuario de Compostella, tão frequentada 
de peregrinos de toda a Europa, os cruzados diri- 
giram-se alli para celebrarem a festa de Pentecostes 
no templo do apostolo. Após esta romag"em, embar- 
cando de novo e correndo a costa para o sul, vieram 
entrar no Douro (a. 

A i6 de juniio de 1x47 a armada surgiu diante do- 
Porto e alii esperou onze dias {)elo conde de Ares- 
cliot e por Christiano de Gistell, que, levados pela 
força do temporal, se liaviam separado do resto da 
frota e até esse tempo não a tinham podido alcan- 
çar (3). O bispo D. Pedro, que já tinha noticia da 
vinda daquelia armada, recebera na véspera uma 
carta de AíTonso Henriques, na qual lhe dizia que^ 
se os navios dos cruzados aportassem alli, tr actas - 
sem aquella gente o melhor que fosse possível e 
que, se alcançasse ajustar com os seus chefes ser- 
virem-no na guerra, concluísse um accordo sobre 
isso, dando todas as seguranças necessárias e em- 
barcando com elles para a foz do Tejo. Havia, com 
elleito, dez dias que o rei, sabendo pela gente de 
cinco navios que, corridos do tempo, tinham arri- 
bado previamente ás costas de Portugal, da vinda 
da frota e que entraria no Douro, ajunctava forças 



I Bardas lhes chama a Memoria deS. Vicente. De feito,, 
sendo treze mil os cruzados e perto de duzentas velas, 
cada uma não transportava mais de 6o a 70 homens. 

■j] ad Portug-alim per alveum fluminis, qui Doritis dici- 
tur, ap[)licuimus ; Arnulfus. — Cf. Epistola Crucesigualt 
Anglici. 

(3) Crucesignati Anglici EpisU 



IS 



HISTORIA DE PORTUGAL 



para marchar sobre Lisboa, resolvido a conceder 
aos cruzados quanto exigissem e coubesse nos seus 




I. — Sè de Lisboa. 



recursos para se valer delles na conquista de tSLo 
importante cidade (i). 

II) Crucesignali Anglici Epist. 



LIVRO II l3 

Como os cruzados eram de varias nações e tinham 
dillerentes chefes, o bispo congregou-os no cemité- 
rio do burgo episcopal, porque não cabiam na Sé, e 
ahi lhes dirigiu ura discurso em latim, que os in- 
terpretes iam traduzindo nos diversos idiomas. 
DejDois de os incitar pelo sentimento religioso. a 
darem o sangue e a vida pela íe combatendo os sar- 
racenos da Hespanha, recorreu emfim ao meio não 
menos eíncaz de lhes expor as vantagens que el-rei 
lhes oírerecia. A deliberação que se tomou a íiiial 
Ibi acceitar a proposta e partir para Lisboa logo que 
o conde de Areschot e Cliristiano de Gistell chegas- 
sem, devendo entretanto vir o arcebispo de Braga 
ajunctar-se com o seu suílraganeo para acompanha- 
rem a expedição (i). Eílectivamente, unida de novo 
toda a armada (2), seguiu a sua rota e subiu pelo 
Tejo no penúltimo dia do mês, depois de dous de 
trabalhosa viagem (3), em quanto Affonso I mar- 
chava por terra com as forças que poderá ajunctar 
para esta empreza, as quaes, conforme o teste- 
munho de um historiador coevo, formavam um pode- 
roso exercito (4). 



(i; Crucesignati Angl. Epist. 

2 A memoria de S. Vicente diz, que a frota ent».ada no 
Tejo era de 190 navios, que vinham a ser os quasi 200 a 
Epist. Crucesignati Anglici lixa o numero de navios saí- 
dos de Dartmouth em 194] com que saíra de Inglaterra o 
conde de Areschot. 

(3; Estas datas em que concordam Arnnlfo e Dodechino, 
estão certas. A Paschoa em 1147 caiu a 20 de abril, e o 
Pentecostes a 8 de junho. Chegaram ao Porto oito dias de- 
pois, e portanto a 16. Demoraram-se ahi onze, e gastaram 
quasi dous em correr a costa desde o Douro até o Tejo, 
onde surgiram na véspera de S Pedro 28 , o que dá exa- 
ctamente o computo feito por Arnulfo e por Dodechino. 

(4) Rex quoque, terrestre accedens itinere, validum ad- 
duxit exercitum : Helmoldus. 



H 



HISTORIA DE PORTUGAL 




2. — Restos da muralha de L-isboa juiicto de Sancta Luzia. 



LIVRO II l5 

Lisboa já então era cidade importante. A sua si- 
tuação, hoje grandemente accommodada para ser 
um dos principaes empórios do commercio do 
mundo, se os erros dos homens ou os seus maus 
fados lh'o consentissem, não era nesse tempo menos 
própria para centro da navegação costeira dos mares 
oceano e mcdilerráneo e, principalmente, para o 
tracto entre a Mauritânia e a Europa. A bondade 
do porto, a brandura do clima, os ricos productos 
do território circumvizinho deviam tè-la engrande- 
cido por muitos modos. Assentada á beira do rio e 
protegida pelo castello ou kassba i alcáçova i que se 
erguia na sua extremidade ao norte, esta bella ci- 
dade, como lhe chama Edrisi, estava cingida de 
muros de admirável estructura, não o sendo menos 
as altas torres do eminente castello, que pareciam 
invenciveis para forças humanas. Uma da.s cousas 
mais notáveis delia eram as suas thermasou banhos 
sempre tépidos, tanto no estio como no inverno, e 
que naquella epocha ficavam situados no centro da 
povoação (i). Era esta opulentissima pelo tracto e 
mercancia dos portos d'Europa e d" Africa, e nella 
abundavam tanto o ouro e a prata como os artefac- 
tos e géneros mais preciosos que o luxo pode desejar 
ou a necessidade exigir. Já então o vinho, o sal e as 
fructas constituíam os principaes productos dos 
seus arredores. Calculava-se ofíicialmente a sua jjo- 
pulação, depois que os habitantes de Santarém, 



(i) Cette belle ville s'étend le longdu fleuve, est ceinte 
de murs, et est protégée par un cháteau-fort. Au centre áe 
ia ville est une source deau, cbaude en été comme cu 
hiver : Edrisi Vers. de Jaubert . Vol. 2, p. 25. Qiiae civi- 

tas mirabilis structura tam muroruin quani turriuin 

super montem humanis viribus insuperabilis fundata est : 
Arnulfus. 



l6 ilISTOUlA Z-M .KRTLGAL 

expuisos d'alli pela conquista, tinham vinao aco- 
Iher-sea Lisboa, em i54:ooo homens afora mulheres 
e creanças, calculo na verdade exagg-eradissimo 
apesar daquelle inesperado augmento, mas que, 
ainda assim, indica ser esta cidade naquella epocha 
uma das mais populosas dHespanha. Tudo o que 
era gente principal de Almada, de Palmella e de 
Cintra residia em Lisboa, e aqui se encontravam 
negociantes de todos os portos d' Africa e da Penin- 
sula. As razões de ordem económica pelas quaes 
affluia a esta cidade tão extraordinário numero de 
pessoas accresciam outras, segundo corria, de or- 
dem moral, talvez as mais fortes, para essa singular 
accumulação de habitantes. Era a soltura dos cos- 
tumes, a liberdade levada ao grau de licença. Cada 
qual dava a lei a si próprio . nenhuma religião 
havia, e os homens mais depravados do mundo 
vinham mergulhar-se nessa sentina de corrupçãOf 
onde puUulavam á vontade os mais asquerosos 
vicios, e as paixões mais ruins podiam francamente 
saciar-se (i). 

O âmbito da cidade era o actual castello, defen- 
dido por um muro circular torreado, de cujo exte- 
rior partiam lateralmente duas muralhas que 
fazendo volta por nascente e poente se iam encon- 
trar na orla do Tejo, exactamente á beira da agua. 
A área intermédia devia abranger os actuaes bair- 
ros d' Alfama e Ribeira Velha ; espaço que mal 
comprehenderiamos como podesse conter população 
avultada, se uma testemunha ocular da conquista 
de Lisboa não nos subministrasse os meios de 
explicar, ao menos até certo ponto, esse facto. 0« 
edifícios eram por tal modo apinhados que, excep- 



(I] Crucesignati Anghci Epist. 



- i.iviio II 17 

tiiaiido os bazares ou mercados, seria difticil achar 
uma rua ou passagem que tivesse mais de oito pés 
de largo. Além disso, em touo o circuito dos mu- 
ros ii) e contigucs a estes havia uma espécie de 
vastos subúrbios, cujo accesso era talhado a pique, 
e por tal modo diilicultoso de entrar que cada 
um podia considerar-se como um castello ou ba- 
luarte Íi2i. 

No mesmo dia em que a frota fundeou em frente 
da povoação os cruzados desembarc.iramem grande 
numero e travaram escaramuça com os sarracenos, 
escaramuça que terminou por se recolherem estes á 
cidade e os cruzados aos seus navios, ficando ape- 
nas acampados em certa eminência uns trinta a 
quarenta delles. Apenas, porém, amanheceu o dia 
de S. Pedro, tudo saltou em terra. Tinha já chegado 
com o seu exercito o rei de Portugal, e os dous pre- 
lados de Braga e do Porto foram immediatamente 
buscá-lo. A presença de Aílbnso Henriques x>ro- 
duziu grande tumulto entre os cruzados : todos 
queriam falar-lhe. Pediu-lhes o príncipe que lhe 
indicassem quaes eram os seus chefes e, depois de 
elogiar o aspecto guerreiro do campo e o zelo reli- 
gioso que congregou alli tantos homens valorosos, 
declarou que, embora empobrecido pela incessante 
lucta em que andava com os infiéis, subministraria 
aos recem-vindos quanto os próprios recursos lhe 
permittissem dar-lhes ; mas que era necessário que 
nomeassem algumas pessoas com quem se debates- 
sem as promessas que lhes mandara fazer, a fim de 
ser depois submettido o accordo á approvação de 
todos. Esta proposta, feita a gente coliecticia e de 
desvairadas origens, esteve a ponto de dar aso a 



(i Circamquaque suburbiis. Ibid. 
(tt, Id. Ibid. 



l8 HISTORIA Dl- PORTUGAL 

baldar-se a exx:>edição. O debate sobre ella, protra- 
hido durante a manhan, renovou-se de tarde cora 
mais violência, e tanto mais que os flamengos, mo- 
vidos talvez por secretos meneios, manifestavam já 
o intento de estar pov tudo e de ficarem ao serviço 
do rei de Portugal cm qualquer eventualidade, 
r.ombatiam outros a acceitação do pacto proposto, 
distinguindo-se entre os insoIVridos os dous icmãos 
Willielm e Radulph, que, segundo x^ai-ece, eram 
•hefes de piratas normandos i'i;, aos quaes se asso> 
<íiavara, além de outros, muitos cruzados dlngla- 
terra que haviam tomado parte na malsuccedida 
tentativa feita cinco a seis annos antes contra Lis- 
boa (2). Fundavam-se os dous piratas e os seus 
sequazes nas grandes vantagens que poderiam tirar 
das depredações nas costas de Hespauha, na maior 
brevidade com que chegariam á Terra-sancta e, 
sobretudo, na deslealdade com que, segundo diziam, 
procedera AlTonso Henriques da outra vez ein que 
recorrera ao seu auxilio. Wilhelm declarou, que 
com oito ou dez navios que quizessem seguir a sua 
fortuna partiria sem detença. O maior nuPxierc, po- 
rém, isto é, os allemáes, os flamengos, a maioria 
dos ingleses e os escoceses mostravam-se resolvidos 
a proseguir no encetado empenho, ficando só con- 
tumazes os normandos e as gentes de Brisiol e do 
Hampshire. Os allemães e flamengos partiram Jogo 
para o lado oriental da cidade, onde acamparam, 



I Wilelinus Vilulus aàjiiic spirans minarum cedisqne 
pyraticae et liadulfus fiatei' ejus; Ibid. — Vituli eram uma 
espécie de liomens de mar (V. Ducange e Carpenlier . Da 
narrativa do r. zado inglêí: •' scbrp.tudf d^. disLSivsc df» 
Herveu de Glanville se vê que eram principalmente os 
normandos que se oppuniiam ao accordo. com a idda ám 
piratear nas costas dHespanha. 
(í) V. T. Jl, D. i86. 



LIVRO II 19 

fundeando os seus navios também daquelle lado, 
emquanto os cruzados dlnglaterra procuravam 
reduzir a concórdia os dissidentes. A final, á força 
de razões, de supplica^ ° até de lagrymas, Herveu 
de Glanville, condes ';^v^^ da gente de Suílolk e 
Norfolk, alcançou doL; :.:*«^ animo feroz de Wilhelm 
€ aquietar os seus pari u.ar;i.s, sob condição, toda- 
via, de não lhes faltarem victualhas e de lhes ser 
jíago soldo pelo rei ou pelos outros cruzados, na 
falta do que nem mais um dia se demorariam. Pa- 
cificado deste modo tudo, a gente das diversas 
nações nomeou cada qual seu commissario para, 
junctos, tractarem com os delegados régios de as- 
sentar as condições definitivas do accordo. Foram 
<3stas que, tomada Lisboa, os bens dos inimigos per- 
tenceriam exclusivamente aos cruzados ; que os 
resgates de vidas oíferecidos por quaesquer prisio- 
neiros seria também para elles, ficando esses pri- 
sioneiros captivos do rei ; que os mesmos cruzados 
reteriam em seu poder a almedina, se fossem elles 
que a tomassem, até a saquearem completamente, 
entregando-a só depois disso a Affonso Henriques ; 
que debaixo da inspecção deste se repartiriam os 
prédios da cidade e as propriedades rústicas aos 
que ficassem em Portugal, continuando a viver 
aqui com as liberdades, foros, usos e costumes dos 
seus respectivos paizes e reconhecendo só o dominio 
eminente da coroa; que, finalmente, assim os que 
intervinham naquella arriscada empreza como os 
seus herdeiros e successores gosariam da immuiii- 
dade de portagens e peagens para os seus navios e 
mercadorias em todos os portos de Portugal. De 
uma e da outra parte nomearam-se para se darem 
em reféns do convénio vinte indivíduos notáveis (i). 



(i) Na carta do cruzado inglês, de que vamos extrahindo 



ao HISTORIA DE PORTUGAL 

Coii li raiando este accordo, Aífonso 1 jurots que não 
levantaria campo senão por motivo de enfermidade 
mortal, ou sendo os seus estados invadidos pelo 
inimig-o, e que não inventaria em caso nenhum tal 
pretexto para faltar ao pacto jurado. Esta promessa 
solemne, que de certo não foi espontânea, parece 
indicar que a anterior tentativa contra Lisboa se 
mallograra pela retirada das troj^as de AfTonso- 
Henriques, que antes quizera adiar a reducçáo da 
cidade, do que submetter-se ás condições impostas^ 
pelos seus alliados, condições, talvez, ainda mai* 
duras do que estas que finalmente se resolvia a 
acceitar. 

Antes de assentar arraiaes e de começar as ope- 
rações do assedio os sitiadores entenderam ser con- 
veniente propor uma capitulação vantajosa aop 
cercados, a qual, não sendo provavelmente acceita, 
até certo ponto legitimaria os horrores que eram 
consequência forçosa de ser a cidade tomada á 
escala vista. Os dous prelados de Braga e do Porto 
com alguns dos capitães estrangeiros foram envia- 
dos como parlamentarios. Reconhecidos por taes aa 
aproximarem-se dos muros, não tardaram a appa- 
recer no adarve o kayid da cidade, o bispo mosa- 
rabe (i), e os magistrados civis. Dadas mutuas 
tréguas para que de parte a parte podessem desaf- 
fogadamente explicar-se, o arcebispo de Braga 
encetou a discussão com um longo, mas pouco con- 
cludente discurso, em que as ameaças mitigadas 



principalmente esta particularisada narrativa, vem es- 
cripto textualmente o convénio. 

i) ipso civitatis alcaie super murum czi/n episcopo et pri- 
miciis civitatis stantibus íld. Ibid.;. Este bispo que vinha 
com o kayid e com os mag-istrados de Lisboa não podia 
ser senão o bispo da população mosarabe, o qual, como» 
adiante veremos, foi morto pelos conquistadores. 



LIVRO II 21 

pela brandura da linguagem mal suppriam a min- 
gua de boas razões. Propunha que entregassem o 
alcassar e as outras fortificações aos sitiadores, 
feito o que a propriedade, honra e yida dos habi- 
tantes seriam respeitadas e mantidas. O accordo 
pouco antes jurado entre AíTonso le os seusaUiados 
habilita o leitor para appreciar a lealdade das pro- 
messas do arcebispo. A resposta, porém, dos cerca- 
dos, foi franca e altiva. Não reconheciam de modo 
algum o direito que o metropolita i:'.vocava, nem 
estavam resolvidos a abandonar lisboa ou a accei- 
tarem o jugo estranho sem experimentarem a sorte 
das armas. Resignavam-se de antemão aos decretos 
da fatalidade. Sabiam por experiência própria que 
nem sempre as tentativas daquella ordem eram co- 
roadas de bom resultado. « Fazei o que poderdes, 
concluiam elles; nós faremos o que for da divina 
vontade. » 

O bispo do Porto irritado, segundo parece, pela 
linguagem dos chefes sarracenos replicou-lhes com 
aspereza, porém mais laconicamente do que o seu 
coUega : « Dizeis que as nossas tentativas contra 
Lisboa tèem falhado ; veremos se falha esta. Afías- 
tando-nos dos vossos muros, não vos saúdo : uão 
me saudareis também ». Tal foi o epiphonema com 
que terminou o bellicoso prelado. 

Com a volta dos parlamentamos desvaneceram-se 
todas as idéas de capitulação, se é que algucm as 
concebera. Aílonso I com as suas tropas escolheu 
por estancia o monte ao norte da cidade, que Loje 
chamamos da Graça. A esquerda dos arraiaes dos 
cruzados ingleses e normandos, acampados ao occi- 
dente, distava apenas quinhentos passos da ala di- 
reita dos portugueses, ao passo que a ala csquciíla 
destes se dilatava para o lado dos allcmãcs e (hi- 
mengos ao oriente, ^a manhan seguinte, emquar.la 



aa HISTORIA DE PORTUGAL 

se trocavam os reféns, conforme o accordo da vés- 
pera, os fundibularios ingleses provocavam as pri- 
meiras hostilidades, despedindo pedras para o 
subúrbio que lhes ficava fronteiro, com o intuito de 
irritar os sarracenos e fazê-los sair ao campo. Obti- 
veram-no. Como, porém, os cruzados se começassem 
a armar para os repellir, foram-se os mouros aco- 
lhendo ao subúrbio, ao passo que os inimigos lhes 
iam picando a retaguarda. Não estavam os defen- 
sores de Lisboa em situação de arriscarem batalhas 
campaes. Diz-se que, apesar da densa população da 
cidade, não tinham mais de quinze mil homens 
armados, que por turmas faziam o serviço das torres 
e muros. Ao mesmo tempo o exercito dos sitiadores 
devia subir de vinte cinco a trinta mil homens (i). 
Bastantes para resistirem detrás dos seus para- 
peitos, não o eram os sarracenos para resistir sem 
vantagem de posição a gente não só mais numerosa, 
mas também mais alfeita ao tracto das armas. 

Quanto é possível inferir das insufficientes des- 
cripções topographicas das memorias contemporâ- 
neas relativas á conquista de Lisboa, o a asto subúr- 
bio onde occorreu o primeiro acto de tão memorável 
drama descia ao longo das muralhas occidentaes do 
alcassar e da alraedina pela encosta que vem morrer 
no valle a que chamamos vulgarmente cidade baixa. 
A este arrabalde accrescera gradualmente uma 



(i) Não só o testemunho de Helmoldo, que chama pode- 
roso exercito áquelle que AíTonso Henriques trouxe ao 
assedio de Lisboa, mas também a circumstaneia de ser elle 
capaz de manter em respeito os cruzados, como veremos 
da sequencia da narrativa, tornam altamente provável que 
íosse ou superior ou, pelo menos, igual ao dos cruzados, 
que era de treze mil homens. A Epistola Crucesignati 
Anglici é que nos conservou o numero dos defensore.<; de 
Lisboa, provavelmente exaggerado. 



Livuo II a3 

porção de edifícios que iam invadindo a planura, 
eíTeito necessário de ura rápido acerescimo de popu- 
lação. Esses edifícios, rematando em eirados e uni 
dos uns aos outros, constituiam uma espécie de forte 
cerco a curta distancia do qual, no pendor da en- 
costa, corria um muro ou trincheira. Entre esta e 
as muralhas da que propriamente se podia chamar 
almedina ou cidade licava a metade mais elevada do 
subúrbio. Dos eirados dos prédios exteriores ao 
muro intermédio choviam os tiros de arremesso 
sobre os anglo-normandos, ao passo que estes avan- 
çavam e que o seu numero crescia. O ataque tor- 
nava-se cada vez mais violento, e os cruzados, carre- 
gando ora a um ora a outro lado, esquadrinhavam 
por toda a linha dos edifícios exteriores se haveria 
algum beco ou galeria cuberta por onde podessem 
1 omper ; mas a diíficuldade estava em chegar ao rez 
das casas, donde partia uma chuva de pedras. 
Caíam a cada instante feridos e mortos de frechas e 
tiros de bestas. Nesta lucta sem resultado se passou 
a maior parte do dia, até que pelo fim da tarde os 
anglo-normandos, fazendo uma súbita arrancada, 
tiveram arte de penetrar no arrabalde por algumas 
viellas, na apparencia impervias para qualquer 
homem ainda sem o peso e o volume das armas, e 
naquelle primeiro Ímpeto occuparam uma parte da 
encosta. A irrupção, segundo parece, verificou-se 
na extrema direita do arrabalde não fortificado, e 
por isso as tropas sarracenas que defendiam a parte 
da povoação aberta estendida ao longo da tranqueira 
para o lado do Tejo acolheram-se ao subúrbio forti- 
ficado, temendo ficarem assim a grande distancia da 
kassba ou fortificação principal (i). Nesta conjunc- 



<i; Quo ((iMiperlo, hostes in fugam versi sunt. Xam longi 
a muninicnlo urbis superioris aberant : Epist. Crucesign 



24 HISTORIA DE PORTUGAL 

tura chegava Saherio d'Arcells, um dos condesta 
veis dos ingleses, a ordenar a retirada em nome 
d'el-rei e dos outros chefes, que tinham concordado 
em dar no dia seguinte um ataque geral á cidade, 
devendo por isso evitar-se aquelle inútil derrama- 
mento de sangue. Quasi toda a gente, porém, tanto 
do acampamento como dos navios anglo-normandos, 
achava-se já a esse tempo envolvida na peleja, e a 
revolta era tamanha no arrabalde externo, que an- 
davam a braços uns com os outros, e só pela diffe- 
rença das armaduras se podiam distinguir os chris- 
tãos dos sarracenos. A noite aproximava-se, e Sa- 
herio d'Arcells, vendo que a retirada nào era pos- 
sível sem grave perda dos sitiadores, tomou uma 
resolução contraria ás ordens que recebera. A frente 
do resto das tropas que se conservavam no arraial, 
ás quaes lançou a benção o bispo do Porto, avançou 
para o arrabalde, onde, no meio de um terrível 
combate de ruas, ora vencia um grupo de cruzados, 
ora um gru^io de mussulmanos. Penetrando por entre 
aquelle dédalo de casarias, d'Arcells foi dar a um 
cemitério onde se mantinha um troço de anglo-nor- 
mandos, apesar de lhes faltarem os chefes. Com 
estes ecom os homens d'armas que trazia, o condes- 
tavel inglês em breve repelliu os inimigos. Foi 
então grande a matança e completo o desbarato 
d stes. Lançando por terra as preciosidades que 
liavam, e distrahindo com isso a attenção de uma 
parte dos vencedores, alcançaram os vencidos refu- 
giar-se pelas portas da cerca no subúrbio supe- 
rior (i). Mas os homens darmas com os frecheiros 



— É àesta razão da retirada que deduzimos ter sido 
entrado o arrabalde externo pela direita. 

I) Nunc tandem in fugam versi, predarum objectionem 
suarum cum multi nostrorum ad hanc jam intenderent» 
donec infra portas argumento sul)tiii invenere viam t 



LIVRO II '20 

e alguma peonagem, não fazendo caso do engodo, 
renietteram ás portas, o que salvou os cruzados de 
.serem de novo repellidos. A noite, que se havia cer- 
rado de todo, pôs termo á lucta, ficando obra de 
três mil anglo-normandos senhores de um bairro 
onde exaggeradamente se dizia haver quinze mil 
familias e cujo accesso tantas difficuldades olle- 
recia (i). 

D'Arcells com os seus homens darmas e alguma 
peonagem escolhida passou a noite em vigia e com 
sentinellas avançadas naquelle recosto, entendendo 
que, se abandonasse uma posição vantajosa a tanto 
custo adquirida, o accesso aos muros se tornaria 
mais difficil no outro dia. Um incêndio horrível de- 
vastava no entretanto o arrabalde e reflectia o seu 
clarão sinistro nas armas dos anglo-norraandos api- 
nhados no cemitério. Apenas a manhan rompeu, 03 
sarracenos fizeram uma sortida para expulsar d'Ar- 
cells; mas não tardaram a chegar de refresco tropas 
portuguesas e alguns restos das inglesas, que obri- 
garam os sitiados a recolherem se. Assim o cerco 
estreitava-se apenas posto, estabelecendo-se i)elo 
occidente o campo dos sitiadores entre as ruinas 
fumegantes do arrabalde, ao passo que os mouros, 
desanimados de poderem defender os bairros situa- 
dos tora das fortificações, abandonavam igualmente 
o subúrbio oriental aos allemães e flamengos, a bem 
dizer sem combate aj. 



Epist. Grucesign. Angl. — O texto parece incompleto; nins 
« significarão não nos parece poder ser diversa da que ilu^ 
^amos no texto. 

^i Id. Ibid. 

'i Hiis ex parte ílandrensium comperlis, muro urhis so 
includunt mauri, relicto eis inexpugnati subúrbio. Fpist. 
Crucesign. Angl. — Circa quam íip^:»ntes tentoria kaiendi* 



30 



HISTORIA DE PORTUGAL 



A ruina daquella parte da povoação, o numero d^ 
vidas que uma inútil defesa tinha custado, os va- 
lores devorados pelo incêndio eram uma perda grave 
para os moradores de Lisboa ; mas a mais grave de 
todas vinha a ser outra. No alto e ao oriente da po- 




*. — Fréilieiros do tempo de Aflonso Henriques. (Archwo 
NaciunaL : Livro das Aves.) 



Toação a natureza do solo era, por excessivamente 
I)edre§osa, imprópria para a construcção das inat~ 
moras ou silos subterrâneos que, ao modo d'Atrica^ 
serviam de celeiros : nem estes se podiam elevar á 



julii, suburbano ejus divina virlule adjuli, cepimu» 
ÀrnulQ Edís. 



LlVkO II 



«uperíioie dos terrenos urbanos, porque to 
espaço era pouco para as habitações daquella gra. 
população apinhada. No valle, á raiz da encosta^ 
também a construcção de silos se tornava impossi\ ul 
pela humidade do solo, consequência das aguas 
abundantes que jior elle abaixo corriam i^ara o 
Tejo. Tinham-se j)or isso aberto as matmoras na 
ladeira do arrabalde externo, oneie o terreno era 
accommodado ao intento. Occupado este pelos anglo- 
normandos. Lisboa perdia o princi])al deposito de 
subsistências. Eacontraram alli os sitiadores quasi 
cem mil cargas de cereaes e legumes (i). A fome ia 
ser para elles um i^oderoso alliado. 

Os sitiadores deixando na parte da povoação aban- 
donada pelos sitiados troços de quinhentos homens, 
que serviam de atalaias e que eram diariamente 
substituidos, distribuiram ao longo da praia oito 
batéis que vigiassem pela parte do mar o inimigo. 
Naquelles primeiros dias as sortidas repetiam-se 
frequentemente, saindo os sitiados ora por uma, ora 
por outra das diversas portas que tinham, e que do 
lado dos anglo-normandos eramfres, duas ao poente 
e uma na praia. Estas sortidas, que muito incoin- 
modavam os de fora, só davam em resultado gente 
morta e ferida de ambas as partes. Prolongava-se o 
assedio, e os mussulmanos como que se consolavam 
dos seus males com vomitar dos adarves injurias 
contra os christãos e, sobretudo, contra a sua creuça. 
Mais de uma vez, segundo parece, Aílonso I, de 
accordo com os alliados, lhes propôs capitulação 



(i) centum, fere, milia summarum. Siiinma era a carga 
ordinária de uma cavalgadura. Consistia pois o deposito ena. 
mais de um milhão de alqueires ou dezeseis mil moios, o 
que nos pôde dar uma idéa da importância da população» 
de Lisboa naquella epocha. 



íi» HISTORIA DE PORTUGAL 

T^antajosa.- Rejeitavam tudo. Tinham assim decor- 
rido quinze dias quando os cruzados começaram a 
construir as machiaas necessárias para um com- 
m^ttimento decisivo, ao passo que alevantavam duas 
«jpellas nos cemitérios dos dous acampamentos 
•e itrangeiros, cada uma no seu, as quaes, ampliadas 
depois, deram origem ao mosteiro de S. Vicente e á 
igreja parochial dos Martyres. Emquanto os aile- 
màes construíam uma torre de rodizios que defendia 
um vaivém, os anglo-normandos edificavam igual- 
mente outra torre movei de noventa e cinco pés de 
altura, donde podiam bater os adarves e eirados. 
Além da torre do vaivém, os flamengos e allemães 
tinham assentado cinco catapultas com que arro- 
javam pedras para alluir os muros e torres; mas 
foi-lhes tudo incendiado pelos sitiados, os quaes com 
frechas e tiros das manganelias faziam grande 
«strago nos christãos, que a muito, custo apenas 
poderam salvar a torre. Pelo outro lado a dos anglo- 
normandos, tendo avançado quasi até a raiz dos 
muros, emperrou na areia e, depois de batida quatro 
dias pelos trabucos ou engenhos dos sarracenos, foi 
a final incendiada. Com estes contratempos os 
estrangeiros ficaram desanimados por alguns dias, 
-até que constou que a fome começava a apparecer 
dentro dos muros, abundando fora toda a espécie 
de victualhas. Cobraram novos brios os cruzados, 
^ para significarem que estavam resolvidos a perse- 
verar na empreza, encalharam os navios em terra, 
arrearam os mastros e recolheram os apparelhos, 
como quem contava passar aili acruelleinverpo. En- 
tretanto os allemães, tendo emprehendido cinco 
^ezes minar os muro?, oulras tantas viram os seus 
<)sforços inutilisados. Fez isso viva impressão nos 
^nglo-normandos, e entre esta gente impaciente e 
indómita appareciam ja manifestações ruidosas d» 



LIVRO II »,» 

descontentamento, queixando- se de terem perdi do- 
o tempo, que melhor, aliás, haveriam empregado 
noutra parte íi). 

Tal era o estado das cousas quando a completa 
revelação da «grande estreiteza a que os cercados. 
tinham chegado veio reanimar os ânimos abatidos» 
Um dia, ao anoitecer, alguém deu aviso de que dez 
homens saídos da cidade, cosendo-se com o muro,, 
tinham entrado num barco, o qual parecia navegar 
com a j)roaa Palmella. Perseguidos a toda apressa, 
os mouros, vendo-se alcançados, deitaram-se á 
agua, deixando a bordo quanto levavam. Exami- 
nado o barco, achou-se um maço de cartas em 
árabe. Uma era dirigida a Abu Mohammed, então- 
wali ou kâyid d'Evora, e outras a varias pessoas 
daquella cidade. Os habitantes de Lisboa pediam 
instantemente auxilio e especificavam a quantidade 
de victualhas a que estavam reduzidos. Pintavam 
os males que tinham j^adecido, a resistência heróica 
que tinham feito e as consequências que teria para 
o islamismo a perda de Lisboa. Conhecida no 
campo a matéria destas cartas, o descontentamento 
desappareceu, e as escaramuças, reiteradas desde 
então diariamente, provaram aos cercados qUe a 
inimigo estava plenamente informado da sua triste 
situação (2). 

Dias depois o cadáver de um homem aftogado 
appareceu juncto aos navios anglo-normandos. 
Trazia atada ao braço uma carta. Era de Abu Mo- 
hammed para os habitantes de Lisboa. Diziadhes 
que tractassem de resgatar-se a peso de ouro, sacri- 



(l) Arnulíi Epist. — Indiculum Fundat. — Epist. Cruce- 
si gnali . 

[1) Epist. Crucesignali. — O cruzado inglês transcreve 
parte da carta dirigida a Abu Motiammed e resume outra 
parte. 



3o IIISTOIUA DE PORTUGAL 

ficando á salvarão as riquezas. Da sua parte nada 
podia fazer. Tinha assentado tréguas com Affonso 
Henriques, e não llie era licito quebrar a fé jurada 
accommettendo-o a elle ou aos seus alliados. A' vista 
desta carta, a reducção da cidade era questão de 
tempo. Os sitiadores estavam seguros contra a 
íiggressão exterior. Era essa carta authentica ? Pa- 
rece demasiado capricho do acaso virem assim a 
poder dos impacientes cruzados as secretas corres- 
pondências dos sarracenos (i). Fosse, porém, como 
fosse, o que é certo é que não só cessaram as mani- 
festações de descontentamento no campo dos estran- 
geiros, mas também renasceram ahi os Ímpetos de 
íiudacia. Uma correria deixou devastados os arre- 
dores do castellode Cintra, que, aliás, pela fortaleza 
<lo logar não era possível accommetter ou sitiar. 
Succedeu entretanto que vários cruzados, andando 
pescando nas praias contíguas ao território d'Al- 
mada, foram nessa conjunctura mortos ou prisio- 
neiros. Então um troço de anglo-normandos, capi- 
taneados por d'Arcells, devastou aquelle território, 
com grande mortandade de mouros e muitos caj)- 
tivos, não obstante terem os aggressores sido aban- 
donados pelos allemães e flamengos que a principio 
se haviam associado áquella empreza. Para aug- 
mentar o terror dos habitantes de Lisboa os anglo- 
normandos trouxeram oitenta cabeças, que cra- 
varam em postes á vista dos muros. A população 
espalhada pelo território dAlmada devia ter 
parentes e amigos na infeliz cidade. Não tardaram 
estes a sair, supplicando que se lhes permittisse dar 
sepultura ás truncadas cabeças. Concedeu-se-lhes 



11) Ibid. Acha-se igualmente transcripta ahi a carta ver- 
dadeira ou supposla de Abu Mohammed para os habi- 
tantes de Lisboa. 



LIVllO II 3l 

aqiiella triste coQsolaeão. Os choros e os soluços 
<;om que foi recebida a horrivel dadiva soavam alto: 
« durante a noite seguinte não se ouviram dentro 
dos muros senão gritos de dor e o murmúrio tre- 
mendo de prantos por toda a parte < i l 

A mais particularisada memoria que nos resta 
deste notável assedio, escripta por testemunha 
ocular, refere uma circumstancia em que, pelo 
menos, ha grandissima exag-geração, exag-geraçào 
análoga ao computo, indubitavelmente excessivo, 
que ahi se faz da população de Lisboa naquella 
epoclia. Se acreditássemos essa narrativa, Afibnso I 
teria nesta conjunctura retirado o seu exercito, 
ficando elle apenas no arraial com os seus barões e 
poucos cavalleiros (2). Os factos ulteriores referidos 
nessa mesma narrativa repugnam ao da retirada 
das tropas portuguesas. E possivel que alguma 
]>arte delhis abandonasse o campo, supposta a 
imperfeita organisação militar daquelle tempo, em 
que os cavalleiros, villãcs e peões, sobretudo os 
dos concelhos, não eram obrigados a acompanhar 
o rei na guerra senão por um periodo determinado, 
que, por via de regra, não excedia a três meses. E 
até possivel que Aíibnso I, cuja astúcia era prover- 
bial e nem sempre ajustada pelos preceitos de pro- 
bidade severa, quizesse abater as exaltadas espe- 
ranças dos cruzados retirando a-guma parte das 
suas forças e fazendo acreditar que essa parte era 
muito maior. Vimos qual fora o accordo feito entre 
elle e os seus alliados. R,ealisada a conquista de 
Lisboa, que lhe ficava a elle? Muros e edifícios 
meio arruinados e os restos que escapassem de uma 



(i; Epist. Crucesignali 
<a) Ibid. 



3r HISTORIA de portugal 

população reduzida a profunda miséria e rareada 
pela fome e pelo ferro. As tentativas, repetidas 
vezes feitas, para induzir os sarracenos a capitula-^ 
rem provam quão graves eram as apprehensões- 
do rei de Portugal. Além disso, como acreditar que 
o assedio ]3odesse proseguir, desassombrada a po- 
voação pelo lado da kassba oucastello ediminuidas- 
as forças sitiadoras de mais de metade? 

Possuída de novos brios, a gente estrangeira 
começou com energia os preparativos para renovar 
o assalto. Do occidente os anglo-normandos e 
alguns outros cruzados que andavam com c]les> 
(provavelmente aquitanos) tractavam de abrir mina 
entre uma das portas e a torre que lhe ficava mais. 
próxima; mas sendo descuberta pelos assediados e 
de fácil accesso para elles, mais de damno que de 
proveito veio a ser para os sitiadores, que em a 
defender consumiram muito sangue. Assentavam 
entretanto daquella parte dous trabucos ou bailis- 
tas, um conduzindo do lado da i^raia pela mari- 
nhagem, outro contra uma das portas pelos homens 
d'armas e peonagem. Cada um dos engenhos era 
servido por cem homens que se revesavam, de 
modo que não cessasse o combate e se despedisseni 
cinco mil pedras em cada dez horas, o que excessi- 
vamente incommodava o inimigo. Ao mesmo tempo 
um engenheiro italiano, natural de Pisa, construía 
uma torre sobre rodízios e de oitenta e três pés de 
altura, para substituir a dos anglo-normandos que 
havia sido destruída, e nesta machina, admirável 
por solidez e altura, trabalhava não só agente d In- 
glaterra mas também a portuguesa, não poupando 
o rei esforços para a ver concluída (i). 



(i) Ileríim normanni et anglici et qui cum eis erant Inr- 
rim... ineipunt : Epist. Grucesign. A malevoleucia do cm 



LIVRO II 3:í 

Entretanto na cidade sentiam-se já os horrores da 
fome, ao que accrescia o cheiro intolerável dos 
cadáveres que ficavam insepultos por não haver 
onde os enterrar. Alguns restos de comida lan- 
çados dos navios e vindos á praia eram avidamente 
aproveitados pelos sarracenos que de relance po- 
diam sair a apanhá-los. Certa vez um troço de sen» 
tinellas postadas nas ruinas das casarias próximas- 
do muro oriental, deixando ahi uma porção de 
fructos que lhes sobejara da sua refeição, quando 
se retiraram viram chegar quatro mouros que bus- 
cavam não ser vistos e que arriscavam a vida para 
obter aquelles insignificantes restos. Desde então os 
flamengos imaginaram um bárbaro divertimento, 
que era pôr cousas de comer como esquecidas por 
entre as ruinas vizinhas das muralhas, armando 
laços em que colhiam um ou outro esfaimado que 
não podia resistir ao engodo. Já antes disto chegava 
frequentemente aos arraiaes um ou outro transíuga 
que, fugindo ao horror da fome, vinha delatar a 
triste situação de Lisboa. Entre os sitiados os mais 
poderosos e os homens de guerra guardavam para 
si quantas subsistências restavam, deixando expirar 
de inedia os pobres e fracos, que chegaram ao 



zado inglês para com AfTonso I apparece aqui bem pa- 
tente. Arnulfo, também testemunha ocular, dá ao rei e 
aos portugueses um largo quinhão nos esforços para a 
construcçâo daquella machina, que se pode dizer foi o 
decisivo instrumento da vicloria. A phrase et f/ai cura eis 
erant mostra que o cruzado inglês não se atrevia a occul- 
tar que os seus tinham sido ajudados naquelle empenho; 
mas deixou no vago o facto, podendo a phrase entender- 
se como relativa aos poucos aquitanos que, segundo pa- 
rece, militavam no campo anglo-normando. É também 
pela carta de Arnulfo que sabemos ter sido um italiano o 
constructor da torre. 



34 HISTORIA DE PORTUGAL 

extremo de devorar cães e gatos. Por fim vinnana 
Cntregar-se aos christãos, que os baptisavam, mas 
que, ás vezes, depois de lhes cortarem as mãos, os 
impelliam contra as muralhas, onde os seus com- 
patrícios, arrojando-lhes pedras de cima, acabavam 
de matá-los (i). 

Emquanto no campo dos anglo-normandos se 
construía a torre movei, os allemães e flamengos 
minavam o chão pelo lado do oriente dirigindo-se 
á muralha da kassba. Era singular pela sua gran- 
deza a obra da mina, espécie de vasta caverna a 
que davam accesso cinco entradas diversas e que 
levou um mês a abrir. Viram o perigo os sarracenos 
e a 29 de setembro saíram caladamente da cidade 
e vieram travar-se com os allemães e flamengos á 
boca da mina. Durou o combate boa porção do dia : 
quando, porém, os sarracenos quizeram retirar-se 
estavam quasi cortados por uma nuvem de fre- 
cheiros que os ladeavam por uma e outra parte. 
Foi grandíssimo o estrago, e raro o que pôde aco- 
Iher-se aos muros sem ser assignalado do ferro ini- 
migo (2). 

Concluída a sapa, encheu-se de lenha aquelle 
subterrâneo que se dilatava por baixo do alicerce 
da muralha. Durante a noite de 16 para 17 de ou- 



(i) Epist. Cruc-esií,'n. Angl. — Arnulíi Epist. O cruzado 
inglês narra o bavbaro divcrlimento dos flamengos, e 
Ariinlfo, que era ílamf^ngo, narra a atrocidade de coríar 
as mão> aos esfaimados. Provavelmente era gracejo anglo- 
norm.'ind'j. O silencio do cruzado inglês e a ferocidade 
proverbial dos normando», ainda naqaclla epocha, dão - 
nos quasi a cerleza disso. Quem sabe, ate, se es que 
assim vinham cntregar-.se eram mosarabes, sendo uma 
inexacção de Arnulfo a historia dos mouros que recebiam 
o baptismo ? 

(a) Epist. Crucesiga. Angi. ~ Arnulfi Episi. 



LIVRO II 35 

tubro lançaram fogo ás matérias inflammaveis do 
vasto fojo, e o incêndio progrediu com violência. 
Um extenso lanço do muro (i),que apenas assentava 
sobre os troncos amontoados debaixo delle, ao che- 
gar alli o incêndio abateu e desmoronou-se. Er- 
guendo-se ao ruido, as tropas germano-belgas avan- 
çaram á brecha. Os troços que vigiavam pelas 
quadrellas bradavam (.'hamando ao combate, e o 
l)hrenesi da desesperação fazia entre os sarracenos 
as vezes do enthusiasmo. Tecendo uma espécie de 
sebe ou estacada de paus sobre as ruinas, apinha- 
ram-se atrás delia. Era obstáculo que não faria 
grande impedimento aos cruzados; porém, atrás 
das ruinas e em terreno mais elevado viam-se á luz 
Aermelha do incêndio os esquadrões sarracenos em 
ordem de batalha. Remetteramuns contra os outros, 
e a peleja travada á meia noite prolongou-se du- 
rante dez horas. A final os allemães e flamenffos. 
que occupavam uma posição desvantajosa, foram 
repellidos com grande estrago. Entretanto os anglo- 
normandos, rodeando a cidade, tinham avançado 
para aquella parte ; mas o conde de Areschot e os 
•outros chefes das tropas repellidas, ardendo em 
cólera e cubrindo-os de injurias, obrigaram-nos a 
recuar. Aconselhavam-lhes que continuassem a 
tentar com as suas machinas abrir caminho por 
onde entrassem ; porque esse que alli estava patente 
jiara si o tinham aberto e não para os anglo-nor- 
mandos. Recebidos assim, estes recolheram-se aos 
seus arraiaes (2). 



íij O cruzado inglês diz trinta covados : Arnulfo duzen- 
tos pés. 

(2 Idem, Ibid. Arnulfo omitle estas ultimas circums- 
tancias e suppõe quasi simultâneo o ataque pelo occi- 
■dente. 



36 HISTORIA DE PORTUGAL 

Todos OS commettimentos á brecha repetidos nos 
dias seguintes foram inúteis. Era heróica a defesa. 
A torre, porém, dos anglo-normandos achava-se a 
íinal coucluida. Para a preservarem de ser descon- 
junctada peJos tiros dos trabucos ou ballistas, ou de 
ser queimada pelas matérias inílammadas que 
haviam de arrojar sobre ella, tinham-na forrado de 
couros de boi e cuberto de uma forte bastida de 
vimes tecidos. A bordo dos navios estavam também 
promplas padesadas e uns como bailéus moveis, 
debaixo dos quaes se podesse combater a cuberto. 
No domingo 19 os homens d'armas anglo-normandos 
e portugueses, depois de se armarem, receberam a 
benção do arcebispo de Braga, após o que, um sa- 
cerdote fez uma larga exhortação incitandoos a 
pelejarem e a morrerem gloriosamente pela fé. Aca- 
bada a practica, todos se prostraram por terra. 
Então o sacerdote, mandando-os erguer, distribuiu 
a cada um dos combatentes a divisa da cruz, que 
era o distinctivo daquelles que se votavam á morte 
pela gloria do christianismo. Um brado unisono de 
muitas vozes que imploravam o auxilio divino 
annunciou que se ia impellir contra as muralhas a 
torre movei, a qual eílecti vãmente rodou quasi 
quinze covados para a irenlc, sendo morto apenas- 
um homem nessa conjunctura pelos tiros dos tra- 
bucos do inimigo. No dia seguinte aquella alterosa 
machina de novo rolou para se coUocar em frente da 
torre que se erguia no angulo da cidade ao dobrar 
da muralha occidental para o lanço ou quadrella do 
lado do rio. Era nessa torre que os sitiados tinham 
concentrado os seus principaes meios de defesa; 
mas os sltiadores, que disso estavam informados, 
evitaram dar o ataque naqueile ponto e, rolando a 
machina para a dii\-ita, fi)iíuii aproximá-la do muro 
cbra de vinte covaiOi> uiais adiante, emguanto o» 



LIVRO II 37 

frecheiros e os besteiros mettidos entre as ruínas do 
arrabalde despediam de revés contra a torre, mal 
defendida por aquelle lado, milhares de frechas e 
virotões. que obrigaram a fugir ferida pelas costas 
a guarnição do eirado e do adarve contiguo á torre 
pela esquerda. Nestes prelúdios do ataque passou 
o dia 20, e com a noite cessou o combate. De guarda 
ao castello de madeira ficaram duzentos homens 
darmas, cem portugueses e cem anglo -normandos, 
além de muitos frecheiros, besteiros epeonagem de 
serviço ^i;. 

A maré subia ao anoitecer, e d'ahi a pouco a ma- 
china ficou rodeada de agua, e interrompida a 
communicaeão com os arraiaes. Era por isso que 
esperavam os sarracenos. Abrindo uma porta de 
ferro que havia no muro a pouca distancia da ma- 
china, avançaram até ao pé desta, emquanto outros 
de cima do adarve, onde tinham amontoado incrivel 
quantidade de lenha com estopa repassada de óleo 
e alcatrão e com outras espécies de combustíveis, 
arrojavam isso tudo sobre o castello de madeira no 
meio de uma saraiva de pedras. Encostada, porém, 
ao castello, entre este e o muro estava uma pade- 
sada de vimes, a que se dava o nome de gata roma- 
nisca (2), a qual tinham sempre conduzido juncto 



(1) Ex ncstris centum militibiis et ex gallicianis C. : 
Epist. Gruse<ín. — Esta circumstancia de ser a guarda da 
torre de madeira entregue por metade tanto aos anglo- 
normandos como aos portugueses, não só prova irretra- 
gavelmente que tanto uns como outros tinham trabalhado 
nella, mas também mostra que as tropas portuguesas se 
mantinham no arraial e quão inexacto e o que o cruzado 
inglês refere acerca de se haverem retirado. 

(2) Cattus Avaliscus : Ibid. — A gata machina de guerra 
cujo nome provinha de servir para minar á raiz dos 
muros, é mencionada nos nossos monumentos da idado 



38 HISTORIA DK PORTUGAL 

da machina sete peões ingleses. Unidos com estes, 
os que iam no andar térreo da machina aífastavam 
as matérias incendiadas, espalhando-as quando 
j)odiam, ao passo que outros, abrindo covas no 
chão e mettendo-se nellss, empurravam dalli os 
globos de fogo que se arrojavam dos muros. Nos 
andares superiores havia orifícios por onde deita- 
vam agua sobre os couros crus de que o exterior 
estava forrado, a qual se espalhava por todos elles 
coada através de renques de umas como grandes 
escovas ou borlas de crina enfeixadas em redor do 
castello a differeníes alturas. Uma parte, finalmente, 
da guarnição combatia em baixo num esquadrão 
cerrado a turba dos sarracenos quando faziam sor- 
tidas. Aquelle encarniçado revolver de ferro e de 
fogo durou toda a noite com leve perda dos christãcs 
e muitas mortes dos sarracenos, feridos na peleja 
braço a braço, mas ainda mais por mãos invisíveis 
dos andares e eirado da machina (i). 

Esta, que na vasante da noite estivera em secco, 
ao amanhecer começava já a ser rodeada pela agua, 
ao menos do lado por onde se poderia communicar 
com o acampamento. Os mouros repetiram então a 
sortida, ao passo que, accumulando novos trabucos 
nos adarves, faziam chover nuvens de pedras sobre 
os inimigos. O castello achava-se apenas a oito pés 
de distancia da quadrella fronteira, e os sarracenos 
trabalhavam em fazer passar por cima desta barcos 



média. Waliscus, se^unâ o Dueange e os j\!aurienses, signi- 
fica agente inferior ou servil. Nós suppomos que esta 
palavra é o germânico Walch^ Walsch ( \}'elsch) alatinado, 
e que exprimia a qualidade de estrangeiro, de não germa^ 
nico, e especialmente o de ser de raça romana ou latina- 
corao os gallo-romanos, italianos, etc, e no sentido mais 
lato, a origem latina de qualquer cousa. 
(ij Ibid. 



LIVRO II 39 

cheios de matérias influinmadas, os quaes tinham 
tido arte de i^uindar até alli. O cheie das galés por- 
tuguesas pereceu neste conilicto. Postoque sem 
esperança de humano soccorro, os defensores do 
castello resistiram por muito tempo imperterritos . 
O ferimento porém do engenheiro pisano, a quem 
um tiro de trabuco quebrara uma perna, começou a 
infundir desalento. Foram, segundo parece, os por- 
tugueses os que principalmente desanimaram vendo- 
se pela maior parte feridos e cercados de mar (i). 
Grande numero delles, abandonando o castello, ten- 
taram passar a vau. O esto da vasante salvou a 
machina. Os sarracenos, vendo que ia ser soccorrida, 
cederam o campo cheios de feridas e de cançaço. A 
maré que descia facilitou então o serem rendidos 
os que por tão longas horas tinham defendido o 
movei castello, sem poderem nunca, nem por um 
momento, depor as armas (2). 

Ao mesmo tempo que os anglo-normandos e os 
portugueses combatiam por aquelle lado, os alle- 
mães e flamengos tinham atacado x^clo oriente a 
brecha anteriormente aberta, e, até, segundo pa- 
rece, um troço delles viera tomar parte na defesa 
da machina e no ataque pelo occidente ; mas o novo 
commettimento da brecha não teve resultado (3). 



(i) Nesta parte são accordes o cruzado inglês e Arnulfo. 

(2) Ibid. 

(3) Arnulfo assevera que, ao verem os sarracenos os 
lotharingios e flamengos subirem ao castello de madeira, 
se encheram de terror e tractaram de capitular. O cruzado 
inj^lí^s pelo contrario nem sequer allude á intervenção 
delirs. Cada um dos dous escriptores busca attribuir aos 
seus a gloria principal daquelle feito. No Indiculum quem 
ligura como principal coiiquistador da cidade é Af- 
fonso I. e se existisse outro monumento português tão 
particularisado acerca do successo como a carta do cru- 



4o HISTORIA DE PORTUGAL 

A final alcançoií-se mover o castello de madeira até 
ficar distante do adarve apenas quatro pés. Era 
occasião de preencher o fim para que principal- 
mente fora construida aquella engenhosa machina. 
Como um braço gia^ante, uma forte ponte de traves 
começou lentamente a sair do alto da torre para a 
quadrella fronteira, e ao passo que ia quasi a tocar 
no muro cubria-se de homens d'armas prestes a 
galgar ás ameias. Os sarracenos viam emfim esses 
agigantados e ferozes homens do norte a ponto de 
se precipitarem nos adarves, onde teriam de travar 
com elles um combate desigual, ao mesmo tempo 
que as tropas germano-belgas repetiam furiosos as- 
saltos á brecha da muralha oriental. Diante desta 
perspectiva aquelles ânimos, quebrados já pela 
miséria, pela fome e pela doença originada de tantos 
cadáveres insej^ultos, vergaram diante do immi- 
nente risco e depuseram as armas, erguendo as 
mãos e pedindo um armistício até a manhan se- 
guinte, para se tractar da capitulação. Parou logo 
o ataque, e o alferes-mór, Fernando Captivo, e Her- 
veu de Glanville foram chamados para ouvirem as 
propostas dos defensores de Lisboa. Concordou-se 
numa suspensão d'armas, com a condição de não se 
aproveitar a noite para obras de defesa ou para 
alguma tentativa contra os engenhos e machinas 
dos sitiadores, sobre o que foram dados reféns da 
parte dos sitiados. Concedia- se aquella noite ao3 



zado, ou ainda como a de Arnulfo, seriam ahi provavel- 
mente os portugueses quem terin feito tudo, O que dizemos 
no texto é o que parece mais provável. Se fossem os 
flamengos e allemães que tivesse u obrigado os sarracenos 
a capitular, não seriam o alferes mór de Portugal e o 
chefe anglo-normando Herv^u de Glanville que pactuas- 
sem a suspensão d'armas, mas sim o conde de Areschot, 
Christiano de Gistell ou outro chefe germano-belj^a. 



LIVRO II 4í 

Labitantes da cidade para resolverem se haviam de 
render-se. No caso contrario não tinham que esperar 
misericórdia : restava-lhes a sorte das armas (i). 

Os reféns foram pelos dons chefes entregues a 
AUbnso Henriques. Irritaram-se com isto os cruza- 
<ios. e um facto que parecia indifferente esteve a 
ponto de perder tudo. O descontentamento que, ao 
c-heg-ar aos arraiaes o rei de Portugal, tinham sus- 
citado os que se queixavam da deslealdade usada 
com elles na anterior tentativa contra Lisboa, tor- 
nou a accender-se mais violento com esta entrega 

o 

dos reféns, que, conforme se affirmava, deviam ter 
ficado no campo dos cruzados. Temiam-se de uma 
traição do rei, e clamavam irritados contra Fer- 
nando Captivo e Herveu de Glanville. Durante a 
noite progrediu a desordem, e os flamengos e alle- 
màes, junctando-se aos anglo-normandos com os 
seus chefes á frente, dirigiram-se aos arraiaes do 
rei, dizendo que queriam saber o que tinham resol- 
vido aquelies traidores. Disse-se-lhes o que havia. 
O accordo era que a entrega da cidade se fizesse a 
Affonso í, e que se entregassem aos cruzados a 
prata, o ouro e os mais haveres dos habitantes. Com 
«sta noticia aquella espécie de deputação tumul- 
tuaria retirou-se para deliberar, e foi então que 
recresceu o perigo da anarchia. A marinhagem e 
parte da soldadesca, os quaes incitava um sacer- 
dote de Bristol, homem de péssimos costumes, api- 
nhados na praia começaram a amotinar-se. Cla- 
mavam que era cousa indigna estar tanta gente 
notável, como a que vinha na armada, sujeita ao 
mando e vontade de meia dúzia de homens ; que 
em situações destas não havia que debater, mas 



<i Epist. Crncesign. Angl. - Arn lli B;)ist. 



4^ HISTORIA DE PORTUGAL 

sim que combater ; que sem os principaes chefes se 
tinham apoderado do subúrbio e do território d'Al- 
mada, e que, se houvessem atacado a cidade sem 
fazer caso das contemporisaçôes desses chefes, já 
ahi teriam entrado á força ou feito mais avanta- 
jado negocio com os habitantes. Era Herveu de 
Glanville alvo principal da cólera daquelles furio- 
sos, que já o accusavam não só de ter entregado 
os reféns ao rei, mas também de querer excluir 
muitos na divisão da presa, como se fossem estra- 
nhos aos j)erigos e trabalhos communs (i). Mais de 
quatrocentos anglo-normandos, saindo do arraial, 
corriam como loucos em busca de Glanville, bra- 
dando : « Morra o malvado ! Abaixo o traidor ! » 
Os que andavam pelo acampamento dos portu- 
gueses correram então a reprimir aquelle começo 
<ie um grande tumulto, aquietado o qual, tractou-se 
de quanto antes dar uma resposta sobre o accordo. 
Entretanto os mouros que estavam em reféns, sa- 
bendo o que occorrera, retiraram as primeiras pro- 
postas, declarando que estavam promptos a fazer 
ao rei e aos seus todas as concessões, mas que pre- 
íeriam a morte a mantê-las em relação aos cruza- 
dos, gente immoral, sem fé nem lealdade e ferozes 
a ponto de nem sequer pouparem os próprios che- 
ios . Passado, porém, o primeiro despeito, vieram a 
termos mais razoáveis, até que entre elles, Aífonso I 
e os capitães dos cruzados se chegaram a assentar 
definitivamente as condições da capitulação. Eram 
simples. A cidade render-se-hia ao rei, ficando o 
kayid e um seu genro com tudo o que lhes perten- 
cesse, e os demais habitantes só com as victualhas 
que tivessem. Diz-se que os anglo-normandos que- 



(I) Epist. Grucesign. Ang-1. — D texto está aqui corrupto 
c obscuro : mas o sentido é, quanto a nós, este. 



LIVRO II 45 

riam approvar estas convenções, íacto pouco crivei 
á vista do que fica referido, e que foram os alle- 
mães e flamengos que se oppuseram a ellas ( i). Fosse 
como fosse, o que é certo é que a multidão não 
convcio na concessão dos mantimentos senão pelo- 
que tocava ao kayid, ao passo que os mouros se 
raantinliam firmes nas resoluções tomadas. Assim 
passou o dia, voltando os cruzados aos seus arraiaes- 
resolvidos a combater no outro dia a cidade. 

A insistência em privar uma população esfai- 
mada das ultimas subsistências que lhe restavam 
era de repugnante deshumanidade, mas é possível 
que houvesse quem excitasse o descontentamento 
por motivo diverso, o qual, aliás, não importava á 
grande maioria dos cruzados, resolvidos a seguir 
viagem para o oriente sem intenção de voltar a este 
paiz. E provável que essa questão das victualhas 
fosse menos motivo que pretexto. Interessavam em 
repellir qualquer convenção aquelles que preten- 
diam íicar em Portugal, e entre os quaes, pelo 
accordo tomado com Afíbnso I no começo do cerco,, 
se devia repartir a cidade e o seu território, regu- 
lando-se os novos possuidores nas relações com o- 
príncipe português pelos usos e costumes dos sfus- 
respectivos paizes, isto é, pelas instituições feudaes, 
o que lhes dava uma independência que desdizia 
profundamente das instituições do occidente da 



:i; Di-lo o cruzado inglês, anctor da narrativa que vamos 
seguindo. Os anteriores tumultos que íicam narrados pro- 
vam que os anglo normandos não eram melhores que os. 
allemães e flamengos, e a moderação que elle attribue 
aos seus no ultimo acto deste drama é altamente incriveL 
Ouando elle ou Arnullo tractam de desculpar ou glorU 
íicar os seus, pouco credito merecem. 



/^^ HISTORIA DE PORTUGAL 

Península. Só uma grande necessidade podia ter 
movido AíTonso Henriques a acceitar essa e outras 
■duras condições. Mas todas ellas presuppunham 
um facto : o de ser a cidade entrada á viva força. 
Uma capitulação era facto diverso ; era um novo 
contracto, em que os sarracenos entravam também 
como partes, e que inutilisava o primeiro. A Índole 
astuta de Affonso Henriques persuade que elle sa- 
beria tirar vantagem dessa nova situação, e que o 
despeito dos cruzados contra elle e a manifesta 
intenção de levar a cidade á escala vista podiam 
não ser prudentes, nem justas ; mas, porventura, 
não eram, também, absolutamente infundadas. 

A inquietação, que durara todo o dia 22, parecia 
ter cessado com a retirada dos amotinados para os 
respectivos arraiaes e com as esperanças de no dia 
«eguinte entrarem na cidade sem condições e com 
a espada na mão. Os agitadores, porém, não o 
entendiam assim. Apenas recolhidos, os allemães e 
flamengos armaram-se e saíram tumultuariam ente 
•das tendas, adeusando o rei de Portugal de par- 
cialidade a favor dos reféns sarracenos. Queriam ir 
arrancar estes do arraial dos portugueses e vin- 
gar,-se. Levantou-se então um grande arruído, e 
por toda a parte se ouvia o estrépito das armas. 
Uma porção de anglo-normandos, que ainda não se 
haviam retirado e estavam apinhados no íntervallo 
que mediava entre os arraiaes germano-belgas e os 
portugueses, foram, segundo se disse, quem correu 
a avisar o rei da causa do motim, em quanto Chrís- 
tiano de Gistell e o conde de Areschot, mal arma- 
dos, se oppunham aos turbulentos e faziam os 
últimos esforços para conter o motim. Entretanto 
os portugueses pegavam em armas e preparavam-se 
para repellir a violência. Os dous chefes, tendo, 
«mfim, obtido apaziguar a desordem, dirígiram-se 



LIVRO II 4í^ 

ao rei protestando a sua innocencia. A irritação de 
Atfonso chegara ao ultimo auge, e foi preciso que 
Areschot e Gistell lhe dessem todas as segurança* 
possiveis de que manteriam a ordem para lhe mo- 
dificar o animo e obter delle que mandasse recolher 
os seus homens d'armas. O rei, porém, declarou 
aos dous chefes que^ se as cousas continuassem 
assim, abandonaria o assedio, porque preferia ao 
senhorio de Lisboa a própria honra ; que sem esta 
o mundo inteiro nada para elle valia, e que em 
todo o caso, depois de tantas injurias, não queria 
tornar a associar-se com aquellas gentes sem fé, 
insolentes e capazes de todos os flagicios. A final 
depois de muitas ponderações e supplicas, e acal- 
mada de todo a cólera de que fora tomado, pro- 
metteu não resolver cousa alguma senão no dia 
seguinte (i). 

Rompeu a manhan . os ânimos tinham, segundo 
parece, completamente asserenado, o que, talvez^ 
era devido á enérgica resolução que Aftbnso Henri- 
ques mostrara. Os cruzados resolveram dar.ao rei 
plena satisfação, fazendo-lhe os chefes, por si e 
pelos seus, juramento de preito e lealdade por todo 
o tempo que residissem em Portugal. Practicado 
este acto solemne, os cruzados resolveram acceitar 
o accordo que na véspera se tinha feito com os 
sarracenos sobre a capitulação. Assentou-se então 
que entrassem primeiro que ninguém na cidade 
trezentos homens darmas, sendo cento e sessenta 
germano-belgas e cento e quarenta anglo-norman- 
dos. Esta guarda avançada iria postar-se na kassba 
ou castello. Alli deviam os habitantes fazer entrega 
de todo o dinheiro e mais haveres que possuiam^ 



(X) Epist. Crucesign. Angl. 



^6 HISTORIA DE PORTUGAL 

dando juramento de que nenhuma cousa ficava so- 
neo-ada. Depois os cruzados dariam busca a toda a 
povoação e, se em casa de alguém se achasse algum 
dinheiro ou alfaia além do que fora entregue na 
kassba, o dono da habitação seria punido de morte. 
Saqueado assim tudo permittir-se-hia livre saída 
aos moradores sem se lhes fazer mal (i). 

Tal foi o accordc celebrado na quinta feira 28 
de outubro. Nesse mesmo dia ou, talvez, no imme- 
diato (2) uma das portas abriu-se para facilitar o 
accesso aos homens darmas que iam tomar conta 
da kassba. Aos allemães e flamengos deu-se a pre- 
<;edencia da entrada, se é que não a tomaram, e, 
centra o que estava pactuado, mais de duzentos 
acompanharam os cento e sessenta que para isso 
tinham sido escolhidos, ao passo que um sem 
numero delles, aproveitando a desordem interior 
da cidade, penetravam nesta pela brecha do lado 
■oriental, abandonada pelos seus infelizes e heróicos 
defensores. Entraram depois os cento e quarenta 
anglo-normandos, e após elles o rei precedido do 



(I) Ibid. 

(2; O dia da entrada dos christãos em Lisboa não se 
pôde determinar x)recisamente pela narrativa do cruzado 
inglês; mas o que desta resulta forçosamente é que foi a 
ai ou a 24, quinta ou sexta feira, começandc a saída dos 
sarracenos no sabbado, como nessa narrativa é expresso. 
O Indiculiim põe em 25 a entrada do rei, o que é inexacto. 
Dodechino e Arnulfo lixam a consumação da victoria 
a 21, considerando a cidade tomada no dia da suspensão 
d'armas e da entrega dos reféns. A chronica primitiva dos 
Godos põe a entrada numa sexta feira, isto é, a 24, o que 
expressamente diz íix cal. novembr.) o exemplar, para- 
phraseadc de Resende. Talvez isto seja o mais crivei, 
suppondo que se gastasse a quinta feira em tomar a de- 
cisão sobre o juramento de fidelidade ao rei, na execução 
deste actc, e em resolver a forma da entrada e entrega dos 
despojes. 



LIVHO II :^^ 

arcebispo de Braga de cruz alçada e roíleado de 
outros bispos. Seguiam o rei os chefes itortiiguescs 
€ estrangeiros e um numeroso séquito. 1'^sta espécie 
de préstito dirigiu-se á kassba, e na torre mais ele- 
vada do castello, ao som de cânticos religiosos, lias- 
teou-se uma cruz, que se via de toda a parte e que 
indicava ter Lisboa, emílm, submeltido o collo ao 
domínio christão, depois do que o rei a pé correu 
todos os muros da kassba, provavelmente para exa- 
minar o estado das fortificações ( i). 

Emquanto, porém, no castello resoavam os cân- 
ticos da igreja, na almedina e nos arrabaldes for- 
tificados que formavam como uma continuação delia 
passavam-se scenas infernaes. Querer dar ordem e 
regularidade ao sacco e distribuição dos despojos 
lora van tentativa. Pretender cohibir a cubica, a 
crueldade, a luxuria, as paixões ardentes e ruins 
daquella multidão de homens desalmados e ferozes 
ci'a tentar o impossivel. Juramentos, accordos, pro- 
Diessas de obediência, tudo esqueceu num mo- 
mento. Diz-se que os auctores e actores dessas 
«cenas de horror foram os allemàes e flamen- 
gos (2) : as antecedencias, porém, dos anglp-nor- 
mandos legitimam a persuasão de que não ficariam 
simples espectadores de taes scenas, convertidos 
de súbito em modelos de moderação e cie desinte- 
resse, assim como é de crer que não faltariam sol- 
dados portugueses que se associassem nesta con- 
junctura aos estrangeiros. O que, porém, é certo é 
que uma grande parte das tropas victoriosas se 
derramaram pela cidade, practicando toda a espécie 
de desatinos. Espalhados por aquelle dédalo d« 



(i) Epist. Cruccsign. xVng^l. 
ta) Ibid. 



4^^ HISTORIA DE PORTUGAL 

ruas e becos, de cujos meandros, escuridão eestrei* 
teza apenas a moderna Alfama nos poderia dai* 
uma remota idéa, no meio da plebe esfaimada, poi* 
entre os cadáveres das victimas do ferro, da doença 
e da fome, caminha desenfreada a anciã da rapina. 
As portas estouram aos golpes de machado ; os- 
aposentos interiores são devassados e revolvidos: 
espancam-se os homens e violam-se as mulheres : 
as alíaias amonloam-se nas ruas para logo se dis- 
persarem, arrebatadas furtivamente para uma e 
outra parte. No meio da confusão, á menor resis- 
tência, o sangue corria ; corria até o daquelles que 
nem podiam tentá-la. Assim succedeu com o bispo 
mosarabe, ancião venerável, a quem cortaram a 
cabeça, talvez por querer salvar os ornamentos do- 
culto (i). Apesar do artigo especial relativo ao 
kayid, não só o des23ojaram de tudo, mas, até, o 
prenderam. Desaífogado, porém, aquelle primeiro 
Ímpeto de cubica, o despojo da cidade começou a 
fazer-se mais regularmente, e resolveu-se averi- 
guar depois quem tinha sonegado quaesquer objec- 
tos, para se fazer com a possível equidade a repar- 
tição do roubo (2). 

Com a noite de sexta feira acabou o sacco. A 
população completamente espoliada começou a sair 
por três portas que para esse fim foram designa- 
das; e aquelle triste êxodo dos sarracenos durou, 
sem interrupção até a quarta feira seguinte. Con- 



(i) Episcopura verò civitatis antiquissimiim pra;,iso- 
jugulo contra jus et fas occidunt : Ibid. Este bispo não 
podia ser senão o dos ehristãos niosarabes, que deviani 
constituir uma grande parte da população de Lisboa, 
como sabemos positivamente que constituíam parte d» 
de Santarém. 

(a) Ibid. 



LIVRO II 49 

tava-se depois que as poucas subsistências que res- 
tavam em Lisboa se tinliam tornado incapazes de 
servir por intolerável mau cheiro, e que depois da 
entrada das tropas franco-portuguesas se conver- 
teram em alimento de excellente sabor. Naquellas 
epochas nunca faltava um milag-re que justificasse 
cem visiveis signaes da approvação celeste as- 
gictndes atrocidades". Apesar da raridade das vic- 
tualhas. ainda dspois de despejada a cidade se 
adiaram em subterrâneos oito mil cargas de trigo 
e cevada e doze mil sexteiros de azeite. Do que, 
porém, restava maior abundância era de cadáveres 
e de moribundos. Só dentro da mesquita, vasto 
edifício formado por sete renques de columnas com 
os seus coruchéus, estavam accumulados duzentos 
mortos e mais de oitocentos enfermos esquálidos e 
immundos (i). O espectáculo da profunda miséria 
dos vencidos, quer dos que ficavam e que deviam 
ser os servos e os indivíduos da classe mais hu- 
milde, quer dos que, foragidos, iam buscar abrigo 
nas províncias da Península ainda sujeitas ao isla- 
mismo, era bastante para despertar a piedade nos 
ânimos menos ferozes ou menos pervertidos. A 
doença fazia horríveis estragos. Nas ruas e viellas, 
nas casas convertidas em pardieiros, por entre os 
vinhedos dos arredores nas azinhagas e nos trilhos 
das charnecas muitos milhares de cadáveres jaziam 
convertidos em pasto das feras e das aves de ra- 
pina. Encontrava-se gente viva que no gesto pouco 
se dessemelhava de cadáveres e que mais se arras- 
tava do que andava. Muitos delles, abraçados com 
a cruz, beijavam-na e clamavam á virgem Maria, 
como ao seu ultimo amparo. Notavam com espanto 



(i) Ibid. 

VOL. III. 



bo 



HISTORIA DE PORTUGAL 




^ ^"^" 



Jk^- 






LIVRO II 5l 

es cruzados que em tudo quanto diziam ou faziam 
misturavam o nome da mãe de Deus e invoca- 
Tam-na ainda no momento d'expirar. Aos olhos «.os 
francos, os quaes ignoravam que a antiga raça 
go ia submettida pelos sarracenos ficara pela maior 
parte no meio delles, adoplando-lhes trajos, Hngua, 
costumes, tudo, menos a crença, aquelles signaca 
de ardente christianismo ei^am a maniíestaçào de 
um grande milagre na súbita conversão de tantos 
infiéis ; mas para os portugueses o íacto devia pro- 
var apenas quão grande era o numero dos mosa- 
rabes na mesclada população de Lisboa (i). 

Qual fosse o elleito moral de tão importante con- 
quista fácil é de suppòr. Todo o districto desta como 
peninsula formada pelo território áquem e além do 
Tejo, perto da foz do rio, submetteu-se immediata- 
mente. Apesar doquasi inaccessivel da sua posição, 
o castello de Cintra entregou-se a AíTonso Henri- 
ques por capitulação antes de ser combatido, e as 
tropas que guarneciam o de Palmella desam- 
pararam-no, indo pacificamente apoderar-se do 
deserto castello um troço de homens d'armas en- 
TÍado pelo rei de Portugal (2). 

No meio das conquistas que temos narrado a po- 
pulação sarracena devia ter consideravelmente dimi- 
nuido. Aquelles a quem as circumstancias o per- 
mittissem acolher-se-hiam á provincia d'Al-kassr ; 
mas os outros, expostos a todas as calamidades da 
guerra, e guerra de homens ferozes e possuídos do 
ódio religioso contra os vencidos, experimentaram, 
<;omo acabamos de ver em relação a Lisboa, as con- 
sequências de tal situação. Aldeias inteiras ficariam 
•então ermas, e incultos muitos campos até ahi prr- 



(i) Nota II no Í5m do volume. 
<;aí Epist. Crucesign. An^l. 



Sá HISTOBIA DE TORTUGAI. 

ductivos e abundantes por beneficio da tão adian- 
tada agricultura dos árabes. Estes resultados pro- 
váveis da conquista foram, todavia, remediados, ao 
menos em parte. Os francos que não voltaram aoc 
seus paizes receberam terras para arrotearem ou. 
repovoarem, debaixo da auctoridade dos seus res- 
pectivos chefes. Assim Guilherme, appellidado La- 
corni ou Descornes, povoou, em parte, com os seus 
homens d'armas a Atouguia ; Jourdan, outro capitãa 
dos cruzados, estabeleceu-se na Lourinhan, e 
AUardo (talvez Adhelard) em Villa-verde (i). Dentro 
em breve esta gente collecticia, este vulgacho indó- 
mito foi-se afazendo á vida sedentária e abando- 
nando o tracto das armas, ou porque os seus chefe» 
desejassem, emfim, o repouso, ou porque o próprio 
rei os escusasse, temendo a ferocidade nativa delles^ 
da qual ainda ha pouco tivemos de relatar bem no- 
táveis exemplos (2). 



(i) Arch. Nacion., M. 12 de Foraes Ant., n.* 3, f. 3a v. 
e 33 V. — Gav. i5, M. 9, n.' 2a. — Foraes Ant. de Leit 
Kova, f. 16. — M. 12 de For Ant., n.''3, f. 34 v. O grande 
numero de estrangeiros, principalmente sacerdotes, que 
licaram residindo em Lisboa, deduz-se dos muitos nomes 
peregrinos que apparecem em alguns documentos exa- 
rados naquella epocha. Tal é a doação feita aos Templário» 
em 11Õ9 (Gart. de Thomar no Arch. Nacion.) por Gilberto. 
i." bispo de Lisboa depois de restaurada, em que figuram 
como coníirmantes diversos cónegos cujos nomes são- 
estranhos, declarando, até, alguns as suas pátrias, como 
Gualterius JJandrensis, Galterius hastingiensis. Entre as^ 
testemunhas apparece Jocelinus de Baiiis, Hua de Silesiaf 
Alfredus de Caranton, Dominicus Ferriol; etc. — Vejam-se 
iguaes subscripções em Cunha, Hist. Eccl. de Lisboa,. 
P. 2, c. 2. í?) 

(2,1 Goncebe-se qual era a fereza dos costumes nesta 
espécie de colónias vindas do norte quando se Ic no foraí 
da Lourinhan umapí^na a roz, de que apenas encontrámos 
«xemplo em outro de terra povoada por gente portuguesa . 



LIVRO II 53 

Emquanto Santarém e Lisboa succumbiam assim 
á fortuna de Atlbnso I a guerra civil continuava a 
devorar a Hespanhamussulmana, e as duas provin- 
cias d'Al-kassre Al-faghar eram o principal theatro 
de novas revoluções. As violências e tyrannias de 
dous irmãos de Al-mahdi, que, depois de subjugada 
Sevilha jDelo general almobade Berraz, residiam 
naquella cidade, tinham começado a indispor os 
ânimos dos sarracenos andaluses contra os seus 
novos senhores. O antigo governador de Niebla, 
privado daquella dignidade em consequência dos 
últimos successos, vivia também em Sevilha. Vexado 
pelos dous orgulhosos almohades, resolveu, emfim, 
vingar-se e, partindo para o districto que anterior- 
mente governara, teve maneira de fazer rebellar 
Tsiebla. Daqui, marchando contra Tablada, apo- 
derou-se desta povoação e do castello chamado Hisn 
Al-kassr. O bom successo da empreza produziu imi- 
tadores. Ibn Kasi, o antigo alliado de Aílbnso Hen- 
riques e que pouco havia se declarara tão ardente 
parcial dos almohades, rebellou-se em Silves, ao 



« Si aliquis aliquem interfecerit, si eum pretor et conci- 
lium coraprehendere poterint sepeliaturviviis, et inter/ectu.t 
super eiirn projiciatur ». De que os estrangeiros foram suc- 
cessivamenle escusados do serviço militar e de que, até, 
se negavam a lazè-lo, são indícios claros as seguintes pas- 
sagens do foral de Atouguia (Francos . « In diebus D. Vil- 
lelmi mos fuit ut quando in exercito regis pergere eum 
eo debebant, in quantisciunque poterat eos excusabat ». — 
« Quando mandatum domini regis audierint, ut in exer- 
citu suo ad pugnam contra paganos, aut ubi ipse jusserit, 
pergant Leti, absque iilla contradictione secundum posse 
suum », Esta ultima clausula, igualmente alheia á genera- 
lidade dos foraes portugueses, presuppõe a resistência 
©u má vontade dos colonos do norte no serviço militar. 
Em logar próprio Iraclaremos especialmente desta coloni- 
sacão singular. 



54 HISTORIA DE PORTUGAL 

passo que Ibn Aly Ibn Al-hajan fazia o mesmo era 
Badajoz e Aly Ibn Isa emCadiz. Emíim, a levol ição 
lavrou pelo sul e occidente do Andalús com tui oiça 
que apenas Ronda e Xerez se conservaram fiéis. A 
diííiculdade, porém, era sustentar a independência 
destes pequenos estados, que nasciam e morriam 
com a mesma rapidez, contra as forças do sempre 
victorioso Abdu-1-mumen. Este, apenas soube do 
levantamento, fez passai áquem do Estreito um 
exercito de almohades conduzidos por Yusuf Ibn 
Suleyman, que brevemente reduziu á obediência 
Niebla e Tablada. D'alli Yusuf marchou contra Sil- 
ves, que tomou, bem como Faro, onde dominava 
um certo Isa Ibn Maimún. Vendo a presteza com 
que tudo cedia ao general do amir de Marrocos, 
Mohammed Ibn Aly, governador de Badajoz enviou 
mensageiros a Yusuf com ricos presentes, implo- 
rando perdão. Obteve-o, e o exercito vencedor reti- 
rou-se para Sevilha (i). 

Vimos como Palmella caiu sem combate em poder 
de Atlbnso I. A posse deste castello, fortíssimo jíelo 
ponto em que está assentado, tornáva-se militar- 
mente de grande importância. Ao mesmo tempo 
que, por nos servirmos duma expressão da táctica 
moderna, elle era uma excellente base de operações 
para proseguir a guerra na província de Al-kassr, 
podia considerar-se como a chave do território que 
se dilata entre a bahia do Sado e a do Tejo e, por 
consequência, como servindo de atalaia ou posto 
avançado dos territórios d' Almada e de Lisboa, 
Assim ficava submettida aquella lingua de terra 



(i) Ibn Khaldun, em Gayangos (vers. de Al-makk . Vol. a 
App. D, p. 5o e segg. — Assaleh (Abd-el-halim) e Conde 
•&o omissos acerca destes successos- 



LIVRO II 55 

entre as duas bahias, a qual bojando para o atlân- 
tico termina no cabo d'Espichel, e Lisboa defendida 
de um assalto inesperado, aliás fácil, se as tropas 
mussulmanas podessem aproximar-se livremente 
da margem esquerda do Tejo e transportar-se á 
margem direita em barcas que, saindo do Chetawir 
(Sadoí, viessem entrar de noite no vasto porto da 
cidade novamente subjugada. 

Entre Alcácer do Sal e Palmella medeiam pouco 
mais de seis léguas, e essa distancia não era bas- 
tante para impedir que os homens d'armas deste 
ultimo castello fizessem num só dia ou numa só 
noite correrias e estragos nos arredores da antiga 
Salacia, que tão celebre se tornara no tempo do 
império dos Beni Umeyyas de Córdova como arse- 
nal donde saíam poderosas frotas contra os chris- 
tãos, entre as quaes é a mais notável aquella que 
levou ao Douro parte do exercito d'Al-manssor para 
a expedição de Compostella. Porventura o ter sido 
durante algum tempo a capital de um extenso terri- 
tório no occidente da Península fizera com que 
desse o seu nome á mais dilatada das três provín- 
cias do Gharb. Alcácer acliava-se no século XII de- 
caída da anterior grandeza ; mas ainda se distinguia 
pelo pinturesco do sitio e pelo seu aprazível aspecto. 
Assentada nas iii n-ens d) ChetaAvir, grande nu- 
mero de embarcações subiam e desciam o rio carre- 
gadas com as mercadorias que lhe alimentavam o 
commercio, necessariamente activo pela proximi- 
dade da populosa e opulenta laborah (Évora). Cer- 
cavain-na por todos os lados extensos pinhaes, e as 
madeiras que nclles se cortavam constituíam um dos 
prineipaes objectos d'exportação. Naturalmente fér- 
teis, os seus arredores eram ricos de gados, que 
produziam abundância de lacticínios e carnageiís. 
O mel que ahi se recolhia formava uma porção da 



56 HISTORIA DL PORTUGAL 

sua riqueza (i). Tal é o quadro que, apesar da deca* 
dencia politica de Alcácer, ainda nos fazem delia os 
escriptores árabes do século XII. Da sua impor- 
tância militar, da fortaleza do castello que a defen- 
dia é argumento quanto sang-ue custou aos christãos 
conquistá-la e reconquistá-la depois de perdida de 
novo. Hoje de tudo isto restam apenas largos pan- 
nos de muros rotos e pendidos, torres derrocadas ou 
fendidas, que vacillam e ameaçam esmagar parle 
da povoação assentada a seus pés. Os bosques desap- 
pareceram em grande parte, e os prados que ali- 
mentavam numerosos armentíos converteram-se em 
alagadiços, donde mana a corrupção. As febres 
mortíferas do estio tingem o gesto dos habitantes 
de uma cor de cadáver, que harmonisa tristemente 
com aquellas pedras tombadas e pallidas, com os 
vestígios de duas grandes civilisações que passaram 
por essa terra de muitos séculos. A raiz do alto 
cubello sarraceno jaz o fuste da columna romana : 
a inscripção latina íaceia o muro da que, talvez, foi 
mesquita mussulmana e que hoje é um pobre templo 
christão. Ruinas sobre ruinas cimentadas com o 
sangue de muitos combates, e no meio delias uma 
população enfezada e doentia, eis o que resta da 
bella Al-kassr Ibn Abu Danes, afora uma pouca 
actividade commercial que os erros dos homens não 
poderam destruir, porque dependia da situação do 
logar, empório e mercado natural das terras serta- 
nejas que demoram ao norte e oriente do Sado. 

De Palmella, conforme é de crer, Atlonsol infes- 
tava o território d'Alcacer. Um dos meios que em- 
pregavam os christãos para reduzirem os togares 
populosos, em cuja conquista Dunham a mira, era 



(i) Edrisi, Geogr., Vol. a, p. Sa. 



LIVRO II 57 

O devastarem de antemão as cercanias delles. Não 
faliam exemplos de tal systema, e um dos mais no- 
táveis é o que seguiu Allonso YI antes de cercar 
Toledo. Assim, empobrecida a povoação, principal- 
mente de viveres, a fome, que pouco tardava a 
associar-se aos outros males de um estreito assedio, 
ajudava poderosamente a violência dos assaltos. 
Talvez movido por este pensamento ou por occasiáo 
de alguma tentativa para experimentar de novo em 
Alcácer o plano da tomada de Santarém, Aílbnso I 
lançou-se num risco extremo, de que parece ter-se a 
custo salvado. Seguido apenas de sessenta homens 
<l'armas, o principe português aproximara-se da- 
•quelle castello. Iam elle e os seus levemente arma- 
dos. Descubertos pelos sarracenos, estes accommet- 
teram impetuosamente os christãos. Eram os caval- 
leiros mussulmanos quatro ou cinco vezes mais 
numerosos e ajudados por muita gente de pé. Cer- 
cado daquelle punhado de guerreiros, não recusou 
Allonso I o combate. Os séculos escureceram a me- 
moria dos prodigios de valentia que ahi se practi- 
caram : sabemos só que os inimigos foram, emfim, 
•constrangidos a recolher-se para Alcácer, postoque 
« próprio Allonso saísse ferido daquelle perigoso 
combate. O extraordinário do successo fez, como 
■era natural, que os contemporâneos o attribuissem 
a milagre (i). 

Dissemos que, porventura, o rei de Portugal se 
aproximara de Alcácer com o intuito de saltear 
inesperadamente o castello. Só assim se ex^jlica 



(i) Chron. Gothor., na Mon. Lusit., L. 10, c. 39. —Ahi 
«e diz que os sarracenos eram quinhentos cavalleiros e 
io:oo(t peões. Como se esta exageração não bastasse, na 
paraphrase daquella Chronica exemplar de Resende^ sa 
«leva o numero da infanteria sarracena a 40:000 hoínens 



HISTORIA DE PORTUGAL 



plansivelmente a sua 
pi*esença alli com tão 
pouca gente de guer- 
ra e tão levemente 
armada para com- 
bate campal. De 
mais, o feliz resulta- 
do obtido em Santa- 
rém devia incitá-lo 
a repetir a tentativa. 
Não é, porém, só 
isto. Um celebre his- 
toriador árabe quasi 
coevo nos diz que a 
maior parte das con- 
quistas do senhor de 
Coimbra foram fei- 
tas por aquella ma- 
neira. O testemunho 
insuspeito do escri- 
ptor mussulmano é 
ainda mais glorioso 
para AfTonso I que 
as narrativas rápidas 
e obscuras dos mo- 
numentos christãos. 
Porelle sabemos hoje 
que o valente prín- 
cipe era o primeiro 
a expor a vida na- 
quelles commetti- 
mentos nocturnos. 



6. — Cavalheiros do tempo 
de Alibnso Henriques. 
(Archivo Nacional : Coin~ 
mentario ao Apocalypsê 
de Lorvão.) 




LIVRO II 



< O modo como este inimig-o de Deus — diz Ibi^ 
Sahibi-s-salat — tomou a maior parte dos cas- 
teilos (das provincias de Belatha e de Al-kassr) 
foi o seguinte : Escolhido o ponto do ataque, em. 
noite escura e tempestuosa sãía de uma das suas. 
fortalezas, nas quaes usualmente habitava, levando» 
corasig-o um punhado de homens d'armas reso^ 
lutos. Chegado ao castello que ia saltear, erai 
elle quem encostava a escada ao muro; elle o pri- 
meiro em sul>ir. Apenas galgava as ameias punha- 
se a escutar para saber ao certo se as sentinellas. 
vigiavam ou não. Obtida a certeza de que os nossos 
dormiam, arremessava-se á sentinella mais próxima. 
e, pondo-lhe um punhal aos peitos, constrangia-a a. 
passar palavra, segundo o costume, para fazer acre- 
ditar ás outras que não havia novidade. Após isto 
esperava no adarveque tivessem subido em nu mero- 
sufíiciente os que o seguiam. Então, levantando o 
seu grito de guerra (Sanctiago!) precipitavam-se- 
todos dentro da povoação, passando á espada, sem 
excepção, aquelles que encontravam (i) ». 

Sfc fora, porém, um destes commettimentos no- 
cturnos que Affbnso I emprehendera contra Alcácer^ 
elle lhe saíra baldado. Era, por consequência,, 
necessário apoderar-se daquella povoação impor- 
tante á viva força, e para isso acaso faltavam então^ 
recursos ao rei de Portugal. O dispêndio de cabedal 
e de sangue que lhe custara a conquista de Lisboa; 
a gente dos cruzados que devia ter abandonado o 
paiz para conduzir, quer ao oriente, quer aos portos 
donde saíra uma armada de perto de duzentas velas , 
as tropas necessárias pa-ra guarnecer as cidades e 
castellos tão rapidamente subjugados , a distracção- 



'i) Ibn Sahibi-s-salat, em Calangos, Vers. d'Al-makkari^, 
Vol. a, Not. p. õaa. 




Co HISTORIA DE PORTUGAL 

de uma grande parte dos francos que restavam para 
os trabalhos ruraes e estabelecimento de colónias 
na Estremadura ; tudo isto diminuía o numero de 
soldados aptos para entrarem em campanha nas 
planícies do Alemtejo, começando por sitiar Alcácer. 
Assim, o motivo do silencio que guardam as memo- 
rias desse tempo acerca dos successos occorridos 
nos annos immediatos á conquista do território que 
se estende entre o Tejo e o atlântico, fica sendo 
obvio. A historia era então quasi exclusivamente 
guerreira, como os homens a que se * 
referia, e, com eíTeito, a guerra não só 
«onstituia, em geral, o estado ordiná- 
rio das sociedades naquella epocha, 
mas também vinha a ser, em especial, 
^ primeira necessidade de um paiz 
^ssás pobre e limitado e que não po- ^'j^o*^^" IT 
dia viver de vida própria, sem que, berto, chan- 
•dilatando-se á custa dos sarracenos, ceiíer de 

j . . . ,^ , ^ AíionsoHen- 

•adquirisse maior vulto e robustez, ri quês, do 
Quando, pois, os príncipes cançados aniiodeu53. 
oe contínuos combates depunham as cionai. Coiiec- 
:armas para restaurarem a exhaurida çào Especial.) 
•energia, a historia abandonava-os 
para de novo os seguir quando tornavam a appa- 
recer nos campos de batalha. E esta a razão por 
<jue as raras chronicas coevas ou quasi coevas 
•de Aílonso I nada ou pouquíssimo nos dizem acerca 
dos successos de dez annos, isto é, desde a tomada 
-de Lisboa até que os christãos alcançaram, emíim, 
.apoderar-se de Alcácer. A actividade, porém, dò 
rei de Portugal devia durante esse periodo voltar- 
«e para os negócios internos do paiz e sobretudo 
3)ara a restauração da nova província quc incorpo 
rara nos seus domínios, necessariamente a^sol^da. 
pelos acontecimentos de que fora theatro. Era desse 



LIVRO II ^, 

modo que el poderia habilitar-se para empre- 
hender as sua ulteriores conquistas. 

Muitos dos estrangeiros vindos na armada do> 
conde de Areschot licaram, como dissemos, resi- 
dindo em Lisboa; muitos dellcs fizeram assento no» 
interior da provincia. As ordens de cav aliaria, as 
cathedraes, as corporações monásticas foram libe« 
ralmente dotadas nas terras novamente adquiridas. 
Abaixo de Leiria para o occidente fundou-se por 
esta epocha (^ii53) um mosteiro, o de Alcobaça, que 
veio a ser o mais celebre de Portugal e a cujos 
monges se deveu successivamente a cultura de uma 
extensa parte da alta Estremadura, a qual até ahi 
fora uma vasta solidão e por muito tempo servira 
de campo neutro entre christàos e sarracenos li)» 
Ao passo que estas poderosas corporações faziam 
surgir as villas e aldeias por meio dos novos co- 
lonos que attrahiam, tanto de fora do paiz cómo- 
dos districtos do norte, o rei ia repartindo pelos 
seus homens darmas as propriedades sitas nos 
logares principaes e pertencentes aos sarracenos- 
mortos durante a lucta ou que haviam abandonado 
a pátria serva dos inimigos (2). Ao mesmo tempa 



(i) A disputa entre o arcebispo de Évora, S. Boaventura 
(Hist. Chronol. e Crit. de Alcobaça, p. 3;) e J. P. Ribeira 
iDissert. Chronol., T. 4- P- l^ P- 9) sobre se os coutos de- 
Alcobaça foram ou não arroteados e povoados pelos eis- 
tercienses, não teria progredido, se qualquer delles hou- 
vera attendido aos documentos citados por Brandão, Mon. 
Lusit,^P. 3, L. 9, c. :>5, ás bulias relativas aos templários,, 
existentes na Torre do Tombo, Gav. 7. M. 3, n.» 17, e M. 
9, n.» 35, e á narrativa da vida de S. Martinho de Soure- 
§ 2. — A comparação destes monumentos prova com cla- 
reza que antes do meado do século XII a maior parte da. 
alta Estremadura era um ermo. 

2. ... corporali labore et per^igili astúcia mei etmeorunk 
Iiominum oppidum de Santarém surracenis abstuli, et 



C2 



HISTORIA DE PORTUGAL 




I -ii- Jájll 



7. — ^Mosteiro de Alcobaça. — Portal 



LIVUO II 



63 



os mussuliiiíiuos que acceilavam o jug"o dos chris- 
tãos conlin liavam a desfriictar os seus bens debaixo 
da denominarão de inonros Jurros, chegaiulo ein 




».— Mosteiro de Alcobaça. — Claustro do silencio. 



breves annos a obter concessões especiaes de pro 
tecção que os punham a abrigo de quaesquer vio- 
lências da parte dos vencedores (i). 



eam dei cultui restitui, et vobis méis hominibua atqiie vau 
salis et alumnis ad habitandumjure hereditário tribui : For. 
de Santar., no Arch. Nacion., M. 3 de For. Ant. n.» 3. 
(I) Vobis mauris qui estis forri in Ulixbona et in ai- 



64 



HISTORIA DE PORTUGAL 




ç. — Mosteiro de Alcobaça. — Nave central 



LIVRO II 65 

Apenas, porém, tinham passado quatro annos 
depois da tomada de Lisboa e já o rei de Portugal 
se preparava para proseguir a guerra. Na falia de 
tropas, produzida necessariamente pelas causas 
cuja existência indicámos, procurou engrossar o 
seu exercito com gente estrangeira, fazendo levas 
em Inglaterra. O islamismo, contra o qual elle com- 
batia, dava um caracter de cruzada a qualquer 
expedição que viesse em auxilio deste principe; e 
assim, era com o pretexto de militar contra os ini- 
migos da cruz que elle devia principalmente attrahir 
esses guerreiros impávidos da Europa septemlrio- 
nal. Gilberto, sacerdote inglês que fora elevado á 
dignidade de bispo de Lisboa, partiu, portanto, 
para a Gran-Bretanha em ii5i a pregar uma nova 
cruzada contra Sevilha, isto é, contra os domínios 
dos almohades na Hespanha, cuja capital era entáo 
aquella cidade. As diligencias de Gilberto foram, 
segundo parece, coroadas de bom successo, e uma 
armada partiu de Inglaterra para Portugal. Juncto 
com os seus auxiliares, AíTonso foi sitiar Alcácer, 
provavelmente ainda nesse anno ou no seguinte. 
Mas a empreza falhou, porque os defensores da 
forte povoação resistiram energicamente, e a ar- 
mada dos cruzados voltou, segundo cremos, a In- 
glaterra sem haver concluído cousa alguma (i). 



madana et in palmeia et in alcazar : Foral dos mouros, no 
Arch. Xacion., M. 12 de For. Ant. n.» 3. f. 12. 

(I) Anno ii5i Gilebertus episcopus Olisiponis, praedi- 
cans in AhgUai, plurimos sollicitavit inHispaniam proficlsci, 
Uispalim obsessuros et expugnaturos : Johan. Prior Ha- 
gustald., apud Twjsden, Hist. Angl. Scriptor.^ p, 2-^S. — 
A interpretação que dêmos a este incompleto* e obscuro 
texto é a única possível. Sabemos pela Chronica dos 
godos, que Alcácer fora atacada inutilmente duas veies 
com soccorro de estrangeiros. Nos escriptores contempo- 
râneos não se acham vestígios de nenhuma armada de 

voL. iir. ií( 



^66 HISTORIA DE PORTUGAL 

Apesar de repellido, Affonso não desistiu da 
empreza, que se renovou no anno de iiS^. Deu 
occasião á tentativa a vinda de outra armada que, 
navegando do mar do norte, se dirigia para a Syria. 
Nestas longas viagens as costas da Peninsula oíTe- 
reciam aos navegantes corridos dos temporaes ou 
necessitados de provisões e refrescos, antes de en- 
trarem no Mediterrâneo, abrigo seguro nos seus 
vastos portos. Entre os do território dominado 
pelos christãos nenhum podia igualar o da foz do 
Tejo pela sua situação, e assim, desde a conquista 
de Lisboa, veio este a ser o mais frequentado pelas 
frotas que seguiam a rota do oriente. A braços com 
os mussulmanos na prosecução dos desígnios que 
tinha de engrandecer os próprios estados, Affonso I 
devia invocar em seu auxilio os motivos que arro- 
javam os guerreiros da cruz para a Palestina. Por 
pouco que lhes mostrasse a perspectiva de duros 
combates com os infiéis e de ricos despojos, a cu- 
bica, menos hypocrita então que nestes nossos tem- 
pos, e o enthusiasmo religioso, que de algum modo 
nobilitava essa cubica, eram incentivos sufficientes 
para os resolver a ajudarem -no nas suas con- 
quistas. Com a mira na de Alcácer, soccorreu-se 
aos recem-chegados para repetir a tentativa ; mas, 
como da primeira vez, de novo foi rechaçado (i). 
Acerca destes successos, referidos succintamente 



cruzados que podesse vir a Portugal por estes annos, 
senão a de Thierry de Flandres em iiSj. É por isso ne- 
cessário suppôr que a i.* expedição se dirigiu determi- 
nadamente aqui, e o mais natural é que ella fosse o re« 
sultado das diligencias de Gilberto. 

(i) Jam quidem,prius obsederat eum per duas vices, ad- 
Jutus multitudine navium quae advenerant de partibus 
aquilonls : ChroD. Gothor. na Mon. Lusit., P. 3, L. lo» 
c. 39. 



LIVRO II 



pela Chronica dos Godos, nenhumas particulari- 
<lades se encontrara nas memorias contemporâneas, 
que, assas resumidas em relatar os acontecimentos 
prcbperos, ainda o são mais nos adversos, quando 
não os occultam de todo. Apenas se pode acreditar 
■com g-rande probabilidade que esta frota era a do 
conde de Flandres, Thierry ou Theodorico d'Alsa- 
<cia, que em iioj partiu para a Syria (ii. Da vinda 
■de Thierry a Portugal naquella conjunctura se ori- 
g-inou provavelmente a errada tradição de que elle 
fora um dos cruzados que assistiram ao cerco e to- 
mada de Lisboa (2). 

Todavia, Alcácer caiu emíim (^^ de junlio de 
1x58). Aquelle castello, cujos restos dão ainda um 
melancholico testemunho da antiga solidez e que 
resistira ás forcas reunidas de AíTonso 1 e dos ho- 
mens d'armas ingleses e flamengos, veio a render- 
se depois de sessenta dias de incessantes combates 
aos sós portugueses que o sitiavam. Segundo os his- 
toriadores árabes, a guarnição foi mettidaá espada, 
mas das memorias christans parece dever concluir- 
se que, entregue o castello, concederam os vence- 
dores á guarnição sarracena o retirar-se para o 
interior doGharb, levando aos seus co-religionarios 
a dolorosa certeza de que os campos da província 
d'Al-kassr ficavam, finalmente, abertos ás entradas 
do impetuoso Ibn Errik (3). 



(i) Robertus de Monte, ap. Pistorium. T. i, p. 636 e os 
auctores citados na Historiados Hohenstaufen de Rauiner, 
T. a, p. 341, nota 4 (a.* edição). 

(2) Mon. Lusit., P. 3, L. 10, c. 25. 

(3) Chron. Conimbric. na Esp. Sagr., T. 23, p. 33i. — 
Chron. Goth. na Mon. Lusit., L. 10, c. 39. — As palavras: 
« tradidit eum (scil. Alcasserum) illi dominus... ejectis 
inde omnibus sarracenis », indicam ura convénio, era vir- 
tude do qual a guarnição sarracena saiu do castello. To- 



68 HISTORIA DE PORTUGAL 

Emquanto assim o pequeno reino de Portugal se 
dilatava para o sul e oriente, a poderosa monarchia 
de Leão e Castella recebia um profundo golpe com 
a morte do imperador Affonso YIl Íii5;;j. Apesar 
da experiência das ^perturbações passadas, antes de 
falíecer este príncipe dividira os vastos estados que 
possuía entre os seus dous filhos. A Castella com 
todas as provindas que lhe estavam unidas ficou 
ao primogénito, Sancho, e a Fernando, o segundo- 
genito, Leão com a Galliza e a Estremadura. Entre 
os dous irmãos parece terem-se levantado a prin- 
cipio algumas discórdias que não consta chegassem 
a rompimento. Essa nuvem, porém, que assomava 
nos horisontes políticos não tardou a desvanecer- 
se. Os reis de Castella e Leão encontraram-se em 
Sahagun e ahi celebraram um convénio destinado^ 
não só a manter a paz entre os respectivos estados. 
e assegurar o mutuo auxilio nas suas guerras de- 
fensivas ou olTensivas, mas também a regular os 
limites das futuras conquistas de cada um. Inte- 
ressa-nos especialmente esse convénio, 23or que ahi 
se revela que, embora AíTonso YII houvesse dado- 
uma esj)ecie de consentimento tácito á indepen- 
dência de Portugal, ou reservara na mente a espe- 
rança de submetter ainda o primo, legando esse 
l^ensamento a seus filhos, ou estes adoptaram nova- 
mente uma idéa já abandonada. O que é certo é 



jiado este de assalto, os que escapassem ficariam caplivos. 
ou seriam mortos, segundo a narrativa de Conde, alias, 
errada, pelo menos na data : « En el mismo afio ':i(k i 
los cristianos tomaron la fortaleza de Alcazar Altetah cit 
Algarbe.^ que se llamaba alcazar d'Abi Denis, y degoUa- 
ron á los que la defendian » : Conde, P. 3, c. 44 in íine. A. 
denominação de Alfetakia entrada , dada a Alcácer, prova 
bem que este castello era considerado como a caave do 
Alcmtejo por esta parte, conforme dissemos. 



LIVRO II 69 

fue no tractado feito em Sahag-im a 2a de mfiio de 
Ji58 entie Sanclio e Fernando, ambos se obrigaram 
a não celebrarem accordo algum com o rei de Por- 
tugal desvantajoso para qualquer delles.sem mutuo 
consentimento. Na hypothese de conquistarem os 
estados do seu primo, no que. parece, seriamente 
meditavam, compromettiam-se a repartirem-nos 
igualmente entre si, fazendo o rei de Í,eão a par- 
tilha e escolhendo o de Castella o quinhão que lhe 
conviesse. Quanto ás acquisições nos territórios 
sarracenos, Fernando devia apoderar-se das mo- 
dernas provindas portuguesas do Alemtejo e Al- 
garve e dos territórios de Niebla, Montanches e 
Merida, emquanto as conquistas dahi para o oriente 
ílcariain pertencendo á coroa de Castella (i). 

A morte, porém, de Sancho, occorrida pouco» 
meses depois da celebração deste convénio, bara- 
lhou todos os designios d'engrandecimento dos 
dous irmãos. O rei de Castella deixava um filho de 
menor idade, que foi Afíbnso YIII, denominado 
o nobre. Com o pretexto de ter direito á tutoria do 
sobrinho e aproveitando as discórdias suscitadas 
pelos grandes acerca deste objecto, Fernando entrou 
oom mão armada no território de Castella, onde, 
durante a guerra civil que se protrahiu por alguns 
annos, chegou a apoderar-se de Toledo 121. No meio 
destes calamitosos successos produzidos pela ambi' 
ção o império dos almohades ía-se consolidando n& 
Hespanha mussulmana. Ao mesmo tempo adver- 
sário dos almoravides, que debalde lhe disputavam 
uns restos de dominio nos districtos meridionaes 



11) Doe. da era 1196. 10 kal. jun., apud Escalona, Hist. 
de Sahafj^., Append. Ill, escript. 174. 

(2) lloderic. Tolet., de Reb. Hisp., L. 7, cap. 12 e segjf. 
— Luc. Tudens.. Chron. ^Iiindi, p. io5 e se^g. — Risco, 
^5 es de Leon, T. i, p. 355 e segg. 



•rO HISTORIA DE PORTUGAL 

do Anrlalús, e dos cliristãos, inimigos incompiíra» 
velmenle mais fortes e perigosos, Abdu-1-mumen» 
entretido em esmagar rebelliòes na Africa e em 
alongar naquella região as fronteiras do império^ 
sustentava a guerra dáquem mar pelos seus gene- 
raes. Ibn Ghanyyiali, o ultimo defensor illustre da 
dynastia lamtunense, perecera em um combate na 
veiga de Granada {ii4^s depois de ter perdido Cor- 
dova e quasi todas as outras povoações iVnportan- 
tes. Lançando-se então nos braços de Affonso, cujas 
armas victori^sas tinham chegado até as praias do 
mar mediterrâneo, onde elle reduzira Almeria no^ 
mesmo anno em que seu primo se apoderava de 
Lisboa, os almoravides não tinham feito mais da 
que contribuir para o engrandecimento do monar- 
cha leonês, sem por isso evitarem a própria ruina. 
Com a ambição de Affonso YII, bem semelhante 
em caracter e esforço ao rei de Portugal, fácil é de 
imaginar se elle saberia aproveitar esta contenda 
dos dous partidos rivaes que, hostilisando-se mu- 
tuamente, lhe facilitavam o realisar os seus desi- 
gnios. A historia dos dez annos decorridos desde a 
tomada de Almeria até a morte do imi^erador é a 
de uma serie quasi não interrompida de devastações 
feitas pelos christãos no meio-dia da Península. 
Debalde os mussulmanos hespanhoes parciaes dos 
almohades enviaram ao i:)oderoso amir de Marrocos 
deputações numerosas com protestos de illimitada 
adhesão e obediência, pedindo ao mesmo lempo^ 
íizesse passar x:>ara Hespanha forças capazes de 
porem termo ás prosperidades do príncipe infiel. 
Ouviu-os elle, tractou-os benignamente e despediu- 
os com ricos presentes e grandes promessas. Veio» 
ftté, a Ceuta com demonstrações de querer transpor 
o Estreito; mas repentinamente marchou d^alli para 
o oriente da Mauritânia a proseguir nas suas coa» 



LIVRO II 71 

quistas, reduzindo o soccorro dado aos sarracenos 
hespanlioes a enviar forças de mar e terva que cer- 
caram Almeria. Foram ellas suíficientes para resis- 
tirem a AíTonso VII, que tentou em vão fazer le- 
vantar o assedio; mas não bastaram a impedir que 
os inimigos rendessem outros logares, como Baeza 
e Ubeda, dos quaes o imperador se apoderou du- 
rante acfuelle cerco. No mesmo anno em que Af- 
fonso falleceu Almeria caiu, eraíim, nas mãos de 
Cid Abu Said, fdho do amir-al-muminin, que este 
pusera á frente daquella expedição íi). 

A conquista da antiga Salacia sem auxilio estra- 
nho devia augmentar a confiança dos homens d'ar- 
mas portugueses na capacidade do seu chefe e no 
próprio esforço. Diante delles se alongava a pro- 
vincia dAl-kassr por vastas planicies, onde o risco 
de recontros em campina rasa com os inimigos, 
muitas vezes superiores em numero, sobretudo de 
cavallaria, era compensado pela menor frequência 
de alturas coroadas de castellos difíiceis de reduzir 
e ao mesmo tem2:)o perigosos para qualquer exer- 
cito os deixar após si guarnecidos de sarracenos. 
Ao passo que o terror produzido por tantos reveses 
conservava acabrunhados os ânimos dos mussul- 
manos, a reputação militar de Affonso I excedia a 
de todos os principes da Hespanha christan pelo 
brilho das victorias e pela rapidez das conquis- 
tas 2). 

No vigor da idade, tendo visto realisarem-se uns 
após outros quasi todos os seus intentos, este ho- 



II Assaleh, Hist. dos Sober. Moham., p. 209 e segg. — 
Conde, P. 3, c. 42 e 43. — Al-makkari, B. S, c. 2 

2 tie Alfonsoi pushed bis conquests íartlier than any 
otber cbief o( bis nation : Ibn Sahibi-s-Salat, em Gayangos, 
Vers. dAl-makkari, Vol. 2, p. 2Õ1. 



HISTORIA DE PORTUGAL 



roem, cuío nome apparece na historia da lenta 
agonia do islamismo hespanliol como um anjo de 
exterminio, devia ter profunda confiança na sua 
fortuna. Assim, para admittir factos subsequentes 
uniformemente reteridos pelos historiadores árabes, 
é necessário suppòr que depois da conquista de 
Alcácer os christáos victorio- 
sos penetraram como uma tor- 
rente no sertão do moderno 
Alemtejo e que naquelle pri- 
meiro Ímpeto algumas povoa- 
ções importantes se lhes ren- 
deram, entre as quaes Évora 
e Beja. Esta ultima, tomada 
nos princípios de dezembro 
de 1109, foi abandonada depois 
de quatro meses, havendo-lhe 
os conquistadores desmante- 
lado primeiramente as fortifi- 
cações (i)- 

A gloria adquirida por Affonso 1 fazia natural- 
mente desejar a sua alliança aos outros príncipes 
da Hespanha christan, que buscaram ligar-se com 
elle, não só estabelecendo com Portugal estreitas 
relações politicas, mas também unindo-se com o 
valente príncipe pelos laços de familia. Perdera o 




10. — Sello rodado de 
Affonso Henriques, 
datado de ii5ç). (Ar- 
chivo XacionaL.) 



íi) He took... Beja, on the 22 of Dil-hajjah A. Heg. 554 
(which answers to the íirst december of the christian 
vear iiògi. After a stay of four months and ten days in 
lhe latter eity, Ahbnso evacuated it having previously 
demolished the fortiílcalions : Idem, ibid. — Que não foi 
o próprio rei que ahi se conservou os quatro meses, se- 
gundo a interpretação litteral do texto de Ibn Sahibi, vê- 
ue do documento apontado por J. P. Ribeiro, Dissert. 
€hronol.,T. 3, P. i, n. n.» 458. — Consultem-se os logares 
dos historiadores árabes citados adiante sobre o desba- 
?ato de Affonso I pelos almohades, em n6i. 



LIVRO II j3 

fei dos portug^ueses, pouco depois da tomada de 
Alcácer, a rainha D. Mathilde ou Mafalda sua mu- 
tier (3 de dezembro de iiõ8) íi), ficando-lhe delia 
um filho e três íilhas, Sancho, Mafalda, Urraca e 
Theresa, todos ainda na infância, além dos quaes 
tivera outra íilha. D. Sancha, segundo alguns jM-e- 
tendera, e dous filhos, Henrique e João, fallecidos 
«m tenra idade (2). Sancho (chamado primeiramente 
JMartinho) nascera em 11 54, e nos aunos próximos, 
posterior ou anteriormente, suas irmans D. Urraca 
c D, Mafalda. O conde de Barcelona, Raimundo 
Berenguer, tendo casado com Petronilha rainha de 
Aragão, tivera delia um filho, chamado, como seu 
pae, Raimundo Berenguer, o qual veio a herdar os 
estados de Barcelona e Aragão, subindo ao throno 
com o nome de Affonso II |3). Era este principe 
pouco mais velho que D. Mafalda : todavia seu pae 
Iractou de desposá-lo com a infanta portuguesa. 
Para isto, no meio das guerras em que andava então 
envolvido no sul da França, partiu para a fronteira 
de Portugal, a fim de ajustar com AíTouso I aqueile 
consorcio. Encontraram-se os dous príncipes em 
Tuy (3o de janeiro de 1160) e ahi, na presença de 
vários prelados e barões de Portugal, de Aragão e 
de outras partes da Hespanha, foi celebrado o con- 
tracto de casamento, que a morte da infanta não 
consentiu chegasse a realisar-se (4). 

Nas discórdias civis que por aquelle tempo an- 
davam ateadas entre Castclla e Leão, em conse- 



(i) Pereira de Fig-ueiredo, Elogios dos R.eyá de Porl-, 
p. 3oo. — Dissert. Chron., T. 3, P. i, n." 44S, 4^9, 453. 

12! Chron. Gothor. ad aer. iiS3. — Brandão, Mon. Lusii,, 
V. 3, L. 10, c. 19. 

•3) Art. de vérif. les Dates, Vol. i, p. 3'>9. 

4^ Docum. do Liber Fidei, na Mo:i. Lusií., P. 3, L. Vm 
O 41. — Sousa, Kist. Geneal. Provas, T. i, p. 19Õ. 



:4 



HISTORIA DE PORTUGAL 



qnencia das ambiciosas pretensões de Fernando 11^ 
este principe, esquecido das idéas de conquista qu& 
nutrira subindo ao throno, procurani também a 
alliança do rei de Portugal, e ás vistas de Tuy com 
o conde de Barcelona seguiram -se no inesmo anno 
outras em Cella-nova com o rei leonês. Não nos 
resta especial memoria dos objectos que se tracta- 
ram naquella conferencia; mas suspeitamos que 
por essa occasião se ajustasse o casamento da in- 
fanta D. Urraca e do rei de Leão, casamento que se 
effeituou em ii65. E' provável que os dons prínci- 
pes, ambos resolvidos a proseguir nas suas em- 
prezas j)elo território mussulmano, tractassem ahi 
da demarcação dos limites futuros dos respectivos 
estados. E, na verdade, os rápidos triumphos de 
Aífonsc 1, que, já senhor de uma parte da província 
d'Al-kassr, podia levar as suas armas até o coração 
da Andalusia, tomando assim o passo ás conquistas 
dos >oneses e castelhanos, legitimam a suspeita de 
que fosse a questão de limites uma das matérias 
tractadas naquella reunião dos dous príncipes. O 
motivo capital, j)orém, que obrigava o rei de Leão 
a buscar a alliança do de Portugal era o tê-lo favo- 
rável nas suas tentativas de usurpação em Cas- 
tella (i). 

Estas importantes allianças, que eram um teste- 
munho evidente da alta reputação do rei de Portu- 
gal, tiveram em breve um triste desconto. O amir 
de Marrocos, tendo concluído a conquista da Mau- 
ritânia oriental, resolvera, emíim, passar á Hespa- 
nha, onde a fortuna tão adversa se mostrava ás ar- 
mas mussulmanas, sobretudo no occidente. Deçde 
^)S primeiros meses de iiGo ordenara ^lle a seu 



^i) Nota III no íiin do \ olurae. 



LIVRO II 



filho Abu Said, ^vali de Granada, que augmentassd 
as fortificaçues de Gibraltar. Concluídas estas, e 
amir atravessou o Estreito com um exercito e veia 
alli fazer residência por alg^um tempo • 1161). Soava 
por todo o Andalús a fama das conquistas e dos es- 
tragos feitos pelo fero Ibn Errik nos territórios do 
Gharb e Abdu-1-mumen vinha vingar as allrontas 
do islamismo. Dezoito mil cavalleiros almohades 
foram então enviados para as fronteiras occiden- 
taes debaixo do mando de Abu Mohammed Abdul- 
llia Ibn Hafss. Entrando na província d'Al-kassr 
saíu-lhes ao encontro Affonso I : os esquadrões por- 
tugueses não poderam, porém, resistir ao Ímpeto 
dos veteranos de Abdu-1-mumen aíTeitos a repetidas 
victorias nas guerras d'Africa. Os christàos desba- 
ratados deixaram no campo dizem que uns seis mi> 
mortos, afora um grande numero de prisioneiros. 
A consequência deste successo foi perderem as po- 
voações de que se haviam apoderado no interior do- 
moderno Alemtejo. Os vencedores, ricos de despo- 
jos dos inimigos, não proseguiram avante, e, man- 
dando retirar Ibn Hafss, o amir-al-muminin nome- 
ou Avali do Gharb, para defender a fronteira a Mo- 
hammed Aly Ibn Al-hadj (i ). 

Apesar daquelle grande revés, não eram fáceis 
de amortecer os brios de um povo cheio de moci- 
dade e de energia e cuja vida quasi inteira passava 
no meio das lidas e perigos de continua guerra. A 
lucta com os mussulmanos renovou-se no anno se- 
guinte, ao passo que Abdu-1-mumen regressava pa- 



1 Al-makkari, B. 8. eh. 2. vol. 2. p. 3:5. — Cciny;. P, .> 
c. 4^- - Assaleh Abd-el-halim , Hist. dos Sober. Moham.^ 
p. 219. — Vaiiani os ires quanto aos nomes das povoa- 
ções recuperadas pelos mussulmanos, mas são conc^^rdor 
DO essencial do facto. 



^6 HISTORIA DE PORTUGAL 

ra Atrica a fim de visitar a capital e de repousar 
ahi das suas longas fadigas. Os fossados ou correri- 
as dos christãos começara ru a cruzar aquelle solo 
do Gharb, onde ainda subsistiam tcdos os vestigios 
das passadas invasões ; mas agora o rei de Portugal 
€ os seus ricos homens, entretidos, segundo parece, 
€m reparar a grave perda do anno anterior, aban- 
donavam aos populares o proseguimento dessas al- 
garas ou entradas que, levando a assolação aos cam- 
pos e logares não fortificados, abriam caminliopara 
as importantes conquist-is das cidades e castellos 
defendidos por guarnições numerosas. Não erp-m, 
de feito, só os prestameiros do rei ou cavalleirosas- 
soldados, nem os homens d'armas dos barões e se- 
nhores, que figuravam nestas einp rezas, "pela inaior 
parte obscuras : eram também e princij.!aln...ente os 
chamados cavalleiros villàos, isto é, os individuos 
mais abastados daquelles concelhos que, ou se or- 
ganisavam nos districtos de novo sabjai>adus e a 
que serviam de centro ss po\oaçues restauradas, 
ou que já existiam nas províncias anterioimenle 
sujeitas a I.eão e que tinham sido como o núcleo da 
classe popular do novo estado. l)i\ididos os chefes 
das famiiias, conforme eram mais cu mencs ricos, 
nas duas categorias militares de ca-salieiros e de 
peões, emquanto estes últimos só ficavam ordina- 
riamente obiigados á defoisão do território niuni- 
•cipal, do territorií» daquclla espécie de pequenas 
rejiublicas, incunibia aus primeiros o servirem ncs 
guerras offeiisivas duiante cer!o numero de meses 
cada anno, na conformidade dos seus foros. Soguu- 
do este admirável systema. c::ja natuieza e modiíi- 
cações especiaes teremos de exoôr .Urgamcnte no»i- 
tra parte, o paiz sem exércitos permanentes, oíTc- 
recia poderosos meios de agressão contra os inimi- 
gos e ainda mais poderosos elementos de resisten- 



LIVRO II 77 

cia coDTra quaesquer invasões. Foi a estas tropas 
muiiicipacs que se deveu por esse tempo a conquis- 
ta de liéja, cujas fortificações, derribadas três ân- 
uos autes, os sarracenos deviam ter reedificado. Um. 
coi-po <lc burí:^ueses ou de villaos dirigido por um 
certo Frrnando Gonçalves marchou contra aquella 
cidade no coração do inverno, e num ataque no- 
cturno o repentino, em que provavelmente se em- 
pregou o uiesiuo ardil pelo qual Santarém caíra 
em podc!' dos cliristãos, estes se apoderaram de 
Beja no ultimo do noveuibro de 1162 (i). 

Évora era naquelie tempo, depois da capital da 
província (Badajoz), a cidade mais importante del- 
ia. Vasta e populosa, estava toda cingida de muros, 
e um casteilo ou kassba que a assoberbava consti- 
tuía a sua principal defesa. O território dos arredo- 
res passava ])ov ser um dos singulares em fertili- 
dade, e os seus principaes productos eram os ce- 
reaes, os gados e toda a casta de fructas e legumes. 
Um extenso commercio, tanto d'importação como 
de exportação, a tornavam poderosa e rica, e a ma- 
gnificência da sua principal mesquita merecia par- 
ticular attenção dos viajantes (21. Entrada, como 
vimos anteriormente, pelos christãos no primeiro 
ímpeto depois da conquista dAlcacer, as tropas al- 
mohades a haviam brevemente restituído ao isla- 
mismo; mas a hora em que a cruz devia hastear-se 



íi) Chron. Gothor., na Mon. Lu.sit., P. 3, L. 10, c. 4'- — 
Chron. Lamec. e Chron. Goninibric. 

(2 Edrisi, GeogT., Vol. 2, p. 24. Provavelmente o cha- 
mado templo de Diana, cujas magnificas ruinas ainda exis- 
tem, servia de mesquita aos sarracenos dKvora, se é 
que não era antes o sitio da kasst)a, por estar a cavat- 
leiro da povoação, sendo a mesquita no iogar ojide íio- 
pois se edificou a Sé. 



jS HISTORIA DE PORTUGAL 

no topo da sua celebre mesquita Unha, íinalmenl% 
soa.ao. 

li lacil de conceber quaes seriam as condições da 
^ vida s :cial pelas incertas IVonteiras d j sarracenos 
e cnristãos. immenso campo de um combate, por 
íissim dizer, incessante de annos e séculos. Entre 
homens naturalmente ferozes e desenfreados, para 
queni o viver era acaso, e a morte espectáculo de 
todos os dias, e que se haviam habituado a subsistir 
mais de rapinas feitas aos seus contrários que do 
trabalho das próprias màos, a impotência das leis 
devia ser completa ou, antes, a lei que não podia 
protegê-los menos devia obrigá-los. Assolar os cam- 
pos e aldeias, alancear mouros, ganhar cast»'llos 
para el-rei, eis em que vinham a cifrar- se os de ve- 
íí res desses arraiaes permanentes a que chamavam cas- 
tellos e povoações das estremaduras ou fronteiras. 
K assim que o direito civil d«;.'s mvmicipios, repre- 
sentado pelos costumes ou leis tradicionaes, nos 
apparece nebuloso sempre na sua oj'igem e. até, as 
mais das vezes o direito politico estabelecido nos 
foraes só vem a promulgai'-se annos depois de con- 
quistado ou fundado o logar a que são conccílidas 
aquellas cartas de garantia constitucional. O crime 
jb e a bruteza como que transsudam de todos o.> docu- 
" mientos dessa epocha em que se allude ao^^ usos e 
hábitos ordinários da vida, e não e.^caceiam men^o- 
rias, que a seu tempo havemos de apontar, n83 
quaes se encontra o repugnante quadro de um mal- 
vado moribundo, recapitulando á face da sociedade 
€ sem titubear a negra historia de uma torpo 
exiatencia e legando a um mcsteiío o fructo das 
suas extorsões e assassínios, para depois expirí»r 
coit 4 tranquillidade do justo Se porcni. taes e?- 
p6<f/^.caios eram vulgares por aquelle tempo en? 
tof',. ç p4tiz, imagine-se quaes seriam as scenas de 



LIVRO II ^J 

inniioialidade e ferocia que diariamente se pass^a- 
riam nos Icg-ares fortificados da fronteira, ondeí/na- 
si só dominava o pensamento das assolações e rí^p^^ 
nas. 

Xada mais natr ral do que apparecerem no mero 
desta gente, a bem dizer selvagem, homens de ca- 
racter mais sáfaro e duro, para quem o viver a 
Sí»mbra das muralhas de um castello fosse já sujei- 
ção intolerável e que nas brenhas, separados de 
nm ténue simulachro de existência social, buscassem 
gosar illimitada liberdade. As rixas entre os homens 
<l'armas, os ódios que resultavam da impetuosidade 
das paixões, as longas vinganças entre as familias, 
que muitas vezes não cessavam senão com o exter- 
minio de uma delias ; todas estas causas e varias 
outras deviam povoar os bosques dos territórios 
disputados entre jjortugueses e sarracenos de ban- 
dos de salteadoras, p''ovavolmente compostos de 
individuos de uma e de ontra crença, unidos pelo 
ikstincto do crime, guerreando indiscriminada- 
mente christáos e mussulmancs, indiíTerentes á 
lucla do pjredominio das duas raças, e attentos só 
a saciar a própria crueldade e cubica nas suas cor- 
rerias e assaltos sem objecto politico. 

A tradição revestiu de circumstancias poéticas a 
singela historia do capitão de uma destas compa- 
nhias de salteadores. Se déssemos credito ás lendas 
tscriptas em tempos mais recentes, Giraldo, o he- 
roe do romance, que pelo seu esforço adquirira o 
appellido de Sempavor, era um nobre^cavalleiro 
que fjor rarios delictos abandonara o serviço de 
Affonso I e ajunctara no Alemtejo um bando que 
lhe obedecia. Os remorsos e a vergonha do vil ofiv 
cio que exercitava induziram-no a tentar uma em ■ 
X^reza gloriosa cujo feliz resultado lhe servisse (i% 
rehabilitação moral. Foi ella a tomada de Evc:^ \ 



òo 



HISTORIA DE PORTUGAL 




II. — Sé de Évora 



LIVRO II 81 

relação da fórraa por que obteve sair com o intento 
é quasi inteiramente semeihante á narrativa da con- 
quista de Santarém e, porventura, imitada desta. 
Restitiiido com os seus companheiros á graça do 
principe, foi elevado á dignidade de alcaide da ci- 
dade que com tanta ventura e destreza sujeitara ao 
dcminio christão (i). A Chronica dos Godos apenas^ 
poré.ii, nos diz que em 116G ella iora tomada e sa- 
queada por Giraldo Sempavor com os salteadores 
seus sócios e que este a entregara depois a Aílbnso 1 
(2). O silencio dos outros monumentos coevos acer- 
ca de haver sido Giraldo o conquistador de Évora 
poderia, até, fazer suspeitar o successo de fabuloso, 
ídnda reduzindo-o á primitiva singeleza (3). 

O exercito real pisava então de novo o território 
da província de Al-kassr, cuja conquista inteira a 
tomada de Évora e Beja facilitava grandemente ou, 
antes, tornava inevitável, faltando os poderosos 
soccorros de além mar, cuja vinda era, aliás, pouco 
provável. Abdu-1-mumen fallecera em Salé (ii63) 
onde ajunctara numeroso exercito para passar á 
Hespanha. Seu filho Yusuf Abu Jacub, que elle 



(i) Mon. Lusit., L. ir, <í. 9 e 10. 

(2) Chron. Gothor. ibid. 

i3) O chronicon Conimbricense e o Lamecense são con- 
formes com o dos Godos quanto ao anno da conquista de 
Évora, data que, aUás, se proA-a de um documento citado 
no Elucidário T. i, p. 410 , o qual se diz exarado na era 
de 1204 ;iiu6 em Évora, quando fuit ablala à maiiris. Ne- 
nhum delles, todavia, allude á historia de Giraldo, antes 
o Lamecense attribue aquella conquista ao próprio rei : 
Elbora el Maura et Serpa capte sunt a rege AHunso. Não 
ousamos^apesar disso, rejeitar o successo, porque nesta 
parte o exemplar da Chronica dos Godos que pertenceu 
a Resende concorda substancialmente com os de Alcobaça 
e Santa Cruz, cujo texto seguiu Brandão. 

YOL. III. • 



Ba HISTORIA DE PORTUGAL 

escolhera por successor e que se achava então em 
Sevilha, partiu g^ara^a,, Africa, onde foi acclamado 
amir; mas as resistências de seus irmãos excluidos 
do throno e vários outros motins que successiva- 
mente occorreram naquellas partes obstaram por 
alguns aimos a que Yusuf podesse attender á de- 
fensão das fronteiras occidentaes do Andalús (i). 
Livre assim do receio que deveriam causar-lhe os 
almohades de Africa, AíTonso I invadira de novo o 
território mussulmano. As memorias christans al- 
ludem resumidamente á conquista feita em 1166 de 
Moura, Serpa e Alconchel, além do Guadiana, e á 
reedificação do castello de Coruche entre Évora e o 
Tejo (2). Um escriptor árabe contemporâneo relata 
mais especificadamente esta rápida serie de trium- 
phcs, que roubaram por então ao islamismo talvez 
a melhor porção do Gharb. Segundo elle, o rei de 
Portugal correu até Truxillo, de que se apoderou 
.f por estratagema (abril ou maio de ii65). Sorte 
I igual coube a Évora pouco depois (setembro ou ou- 
tubro). Cáceres estava rendida em janeiro de 1166, 
e já na primavera deste anno os christãos eram se- 
nhores do castello de Muntajech e das povoações 
de Sheberina e Jelmanyah, a primeira das quaes 
fora submettida na entrada do mês de abril (3). 



(i) Al-makkari B. 8, eh. a e 3. — Oonde, P. 3, c. 46 e 47. 
— Abd-el-halim, p. 221 e seg-g. 

(2] Cliron. Lamec, Ghron. Conimbric, Ghron. Gotbor. A 
chronica dos Godos é a única em que se menciona Al- 
conchel. Preferimos, áceica de Goruche, o exemplar de 
Resende, porque nos parece evidente erro de copista o. 
que se lia no de Alcobaça. Veja se a Mon. Lusit-, L. 11, c. 
II. 

(3) In Jumada the second of 56o be surprised tbe cityoi 
Truxillo, and in Dhi 1-kadah of the same year did the 
same wdh. leburab. He aiso took Gazeres in Safar 56i, 



LIVRO II 83 

A relação do historiador árabe, que vivia perto 
do tlieatro da guerra, não contradiz, mas completa 
€ illustra as resumidas memorias que restam entre 
nós relativas a estes successos. A diversa data que 
elle yjarece attribuir á tomada de Évora é fácil de 
conciliar com a que indicam os monumentos portu- 
gueses, suppondo que alluda á entrada dos saltea- 
dores de Giraldo, e os chronicons á entrega feita 
por estes a AíTonso I. Quanto ás diíTerenles desi- 
gnações de alguns dos logares submettidos pelos 
:;hristãos, é possível que as de Muntajech, íSheberina 
e Jelmanyali correspondessem aos nomes d'Alcon- 
cliel, Serpa e Juromenha, postos depois áquelles 
logares, ou grandemente alterados dos antigos 
pelos conquistadores. 

A circumstancia, porém, mais grave da narrativa 
de Ibn-Sahibi é que ella nos faz conhecer quão atre- 
vida e impetuosa foi a invasão tentada nesta con- 
junctura pelo rei dos portugueses. O exercito 
parece ter passado a fronteira moderna de Portugal 
pelo alto Alemtejo ao norte de Badajoz, seguindo 
pela Estremadura hespanhola, numa linha de 
poente a nascente de mais de vinte léguas, e retro- 
cedendo obliquamente a occupar os logares fortes 
de Alconchel e Serpa situados ao longo da margem 
esquerda do Guadiana. Assim, estabelecendo as 
suas fronteiras além deste rio, Affonso I assegurava 
o dominio de todo o território do actual Alemtejo, 
logo que obtivesse apoderar-se de Badajoz, onde 
uma forte guarnição podia cubrir o norte desta 



and the castle Muntajesh in Jumada the íirst. Severina... 
and Jelnianyyah Avere the next to íall into his hands. the 
former having- surrendered to him in the last day of Ju- 
mada the íirst of the same year : Ibn-Sahibi-s-Salat, em 
ôayangos. Vol. 2, p. 5aa. 



84 HISTORIA DK PORTUGAL 

província, cuja orla boreal ia entestar pela direita 
de Badajoz com a Beira-baixa on Portugal antigo. 
Quanto a Cáceres e Truxillo (Tordjala;, o silencio 
que as chronicas nacionaes guardam acerca da sua 
conquista persuade que foram destruídas e aban- 
donadas. A ruína de Traxillo equivalia, comtudo, a 
uma grande victoria, Tordjala, que os árabes com- 
pararam a uma praça de gaerra por causa dassuas 
solidas muralhas, era habitada poc uma raça de 
homens inquietos e valentes que só se dedicavam^ 
assim cavalleiros como peões, a fazer algaras con* 
tinuas, nas quaes assolavam e mettiam a sacco o 
território dos christãos. A anciã do roubo e a per- 
fídia eram as qualidades dominantes da sua Ín- 
dole (i). Apesar, porém, da solidez dos muros a 
cuja sombra se abrigavam, chegara finalmente para 
elles o dia de severo castigo. 

Entretanto o rei de Leão, que se apoderara de 
uma parte dos estados do rei de Castella seu sobri- 
nho, achava-se ainda a braços com os súbditos do 
moço príncipe que se conservavam fiéis a este. Na 
varia fortuna com que proseguira a gaerra desde o 
anno de 1160, o consorcio que Fernando II cele- 
brara com a íilha do rei de Portugal, j^ensando 
assegurar a allíança de Aífonso I, fora insufílcieixte 
para obter os seus fins. Longe de servirem esses 
laços de família para nascer um affecto mutuo nos 
ânimos do sogro e do genro e estabelecer-se uma 
paz duradoura entre os dous estados, pelo contrario 
quasi nunca deixara de haver en're elles discórdias, 
depois daquella epochfi (ti). 

Não consta cora bastante clareza o motivo real 



(i; iurisi, G?ogr., Vol 2, p. 3o. 

12) Fernandus, licet j,'eiier, regi Pottugalliín pacificus 
rarò fuit : Roder. Tolet., L. 7, c. iç). 



LIVRO II 85 

por que veio, finalmente, a rebentar guerra vio- 
lenta entre os dous príncipes. Diz-se que um servo 
ou familiar de AíTonso I, movido de certas ofTensas 
que deste recebera, fugira para a corte do príncipe 
leonês e que lhe persuadira fundasse Ciudad Ro- 
drigo, donde Fernando II fez muitos damnos a Por- 
tugal (i). Estes damnos podiam na verdade dar 
motivo a represálias : mas as cousas por que as 
primeiras hostilidades começaram ficam do mesmo g 
modo obscuras, sendo mau de acreditar que Affonso u 
as rompesse unicamente porque^o genro fundava em 
territórios seus e longe cias fronteiras de Portugal 
uma cidade, embora forte ou vantajosamente situada. 
Podia, na verdade, desgostar-se o rei português com 
o acolhimento dado ao foragido e fmgir que cria ou 
imaginar realmente que o príncipe edificava Ciudad 
Rodrigo por instigações daquelle homem, com o 
intuito de fazer d'alli correrias em Portugal, se U 
algum dia para isso se offerccesse ensejo. Mas ten- ^ 
tar logo destruir a povoação, entrando na Estrema- 
dura hespanhola com mão armada, parece um 
pouco estranho. Se nos lembrarmos de que á fun- 
dação daquella cidade se oppuseram os poderosos 
concelhos de Salamanca e A vila e de que os povos 
destes districtos se levantaram contra o rei de Leão, 
que se viu constrangido a dar-lhes batalha, occor- 
rerá facilmente a conjectura de queelles houvessem \:| 
buscado o favor de AíTonso, que este publica ou se- ^ 
cretamente lh'o desse e que assim rebentasse a final 
a discórdia que, talvez, lavrara entre os dous prín- 
cipes por motivos que não chegaram até nós (q'}. 



[i] Unde ad consilium cujusdam vernali (aliás vernuli 
qni à rege Portugalliíe laesiis eíTugerat, locuin optimum 
populaverat qui dicitnr civitas Roderici, ex qua Portu- 
g.il)'?p intul't riulta mala : Idem. 'bid. 

Í2^ Idem, ibid. c. 20. — Luc. Tud., p. iq6. 



86 HISTORIA DE PORTUGAL 

Tendo- se o casamento de Fernando e Urraca ce- 
lebrado em ii65 (i), é necessário suppôr que essas 
dissensões foram posteriores, até porque a edificação 
de Ciudad Rodrigo parece coincidir com esta 
data (2), e os chronistas tudense e toledano fazem 
começada a lucta dos dous reis depois daquelle 
consorcio. Accresce que, entretidas as tropas portu- 
guesas durante uma parte do anno de ii65 e pelo 
decurso do seguinte nas conquistas áquem e além 
do Guadiana, não era possivel que Aííonso I qui- 
zesse arriscar os seus estados, declarando ao mesmo 
tempo guerra ao poderoso rei de Leão. Assim, os 
successos que vamos narrar passaram necessaria- 
Tnente depois de 11 66. 

Sancho, o único filho varão do rei de Portugal, 
tinha mais de doze annos. Nas circumstancias espe- 
ciaes em que se achava o paiz, cujo chefe elle seria 
por morte de seu pae, e segundo as idéas vulgares 
naquella epocha, de que o primeiro dote de um 
príncipe consistia no esforço e no tracto das armas, 
a grande eschola que o infante devia cursar era a 
dos campos de batalha. Cumpria-lhe affazer-se na 
juventude aos terríveis espectáculos da guerra, ás 
devastações, aos incêndios, ás mortes; endurecer os 
membros na áspera vida dos arraiaes, e fechar o 
espirito aos sentimentos de brandura e ao desejo 
de rejoouso. Lembrado, talvez, do triste exemplo de 
Sancho, o filho querido de Aílbnso VI morto ás mãos 
dos sarracenos em Uclés, o rei de Portugal não quiz 
que o infante recebesse as suas primeiras licções na 
arriscada conquista do Gharb, onde ao vencido era 
quasi indifterente escolher entre o captiveiro e a 
morte. Assim, preparando uma expedição contra 



(i Docum. em Flores, Reyn. Cathol., T. i, p. 822, nota 
(a) Risco, Reys de Leon, T. i, p. 36o. 



uIVRO II 8^ 

Ciudad Rodrigo, que determinara destruir, ordenou 
que Sancho acompanhasse o exercito enviado áquella 
empreza. 

Nesta conjunctura a resistência dos castelhanos 
contra a usurpação de Fernando II tinha tomado 
grande incremento, e os partidários de Aíibnso VIII 
haviam-se apoderado em 11G6 de Toledo, capital 
dos estados que pertenciam ao moço príncipe íi). 
No meio dos cuidados que preoccupavam o rei leo- 
nês, chegou-lhe a noticia de que um novo adversá- 
rio vinha complicar as dilllculdadesda sua situação. 
Aos dotes moraes de piedoso, lhano, liberal e be- 
nigno, pelos quaes o celebram os antigos histo- 
riadores, ajunctava Fernando indomável esforço, 
virtude commum da cpocha. Naquella estreiteza, 
não desanimou : deixando a maior parte das tropas 
a sustentar a guerra contra o sobrinho, dirigiu-se 
com o resto ao encontro das forças que nominal- 
mente capitaneava o cunhado. Tinham os portu- 
gueses avançado com rapidez e já pisavam o terri- 
tório adjacente a Ciudad- Rodrigo quando toparam 
com os leoneses que vinham recebê-los. Era inevi- 
tável uma batalha, e esta se travou num logar 
chamado Arganal, j^erto da povoação ameaçada. 
Declarou-se a victoria pelo rei de Leão, e Sancho 
Tiu-se obrigado a fugir. Grande numero dos seus 
soldados ficaram j^risioneiros; mas Fernando deu- 
ihes a liberdade, ou j)or seu animo generoso ou, o 
que é mais natural, para com este procedimento 
abrandar a cólera do sogro, cujo caracter impetuoso 
sobradamente devia conhecer (2). 

Todavia AíTonso I, irritado pelo destroço de Ar- 



íi) Docum. em Colmenares, Hist. de Seg^ov., p. 146 e i^?' 
(3; Luc. Tud., p. loG e 107. — Roder. Tolet., L. 7, c. a3. 



88 HISTORIA DE PORTUí^AT, 

ganal, abriu pessoalmente a campanha, acompa- 
nhado do infante, pela fronteira de Galliza com os 
veteranos que o tniham ajudado a ganhar tantas 
victorias. Preparando-se Tiara esta empreza, aju- 
da va-se da politica. Soubera de antemão corromper 
á força de dadivas vários fidalgos da Galliza, não 
dos Ínfimos, que a principio o serviam occultamente, 
dando -lhe avisos e aconselhando-lhe o que devia 
fazer, e que no momento de elle invadir aquella 
província se mostraram remiosos na defesa do ter- 
ritório (i). Atravessando o Minho, Affonso investiu 
a cidade de Tuy, de que se assenhoreou. A cathe- 
dral, onde a guarnição procurara resistir, foi acom- 
mettida e violada (2), e o exercito invasor, dirigin- 
do-se para o norte, sujeitou brevemente o districto 
de Toronho até as margens do Lerez. Voltando 
para o oriente, o rei de Portugal apoderou-se então do 
território de Limia, se é que as forças portuguesas 
se não dividiram desde logo em dous corpos, o que 
parece mais provável, atacando simultaneamente 
ambos os districtos (3). Emquanto Aífonso era obri- 



fi] Yita S. Riidesindi L. 2 § 20, naEsp. Sagr., T. i8, p. 897 
e manuscripta no Códice i33 da Livraria de Alcobaça, na 
Bibliotheca Publica de Lisboa. 

(2 Pro ecclesia Tudensi quarn obsedi et violavi : Doação 
de ÃíTonso i á Sé de Tuy de 1169 no Archivo de Braga, ci- 
tada por Sandoval, Iglesia de Tuy, f. i33 v. Não alcança- 
mos como Flores Esp. Sagr., T. 22, p. 92 e segg. imagi- 
nou, á vista deste documento e do encontro do conde da 
Barcelona com AlTonso I em Tuy no anno de 1160, uma 
conquista daquella cidade feita pelo ultimo, logo depois 
da morte de Affonso VIL 

(3 Do documento de Braga, citado de Sandoval na nota 
antecedente^ parece concluir- se que o infante capitaneava 
a expedição de Galliza; todavia, Lucas de Tuy e Rodrigo 
Ximenes loc. cit.) são accordes em attribuir a invasão ao 
próprio rei de Portugal. O que dizemos no texto concilia 
o documento com os historiadores. 



LIVRO II 89 

gado a alevantar o cerco do castello S indino em 
consequência de uma horrorosa tempestade, que a 
superstição da epoclia attribuiu a S. Rosendo pro- 
tector dos monges de Cella-nova, sob cujo senhorio 
estava aquelle castello, o conde Velasco apoderava- 
se por estratagema dos de Santa Cruz e Monte-Le- 
l>oreiro. Para assegurar aqueUas conquistas Atlbnso 
Henriques mandou edificar á pressa um novo cas- 
tello, o de Cedofeita (i) juncto de Cclla-nova, donde 
parte dos monges, aterrados, fugiram para Leão. 
As violências practicadas pelos conquistadores na- 
quelle districto ioram intoleráveis, e um escriptor 
coevo compara c rude procedimento do rei português 
ao do impedernido Pharaó. Deixando o conde Ve- 
lasco em Cedofeita, e guarnecidos os castellos desses 
dous disti^ctos, AlTonso retrocedeu para Portugal, 
segundo i^areee, a fim de continuar a guerra com os 
sarracenos nas fronteiras meridionaes. 

Fernando II marchara entretanto pelo norte da 
Galliza, resolvido a expulsar os portugueses daquella 
província, e viera pôr cerco ao castello de Cedofeita. 
Era o logar forte, estava bem guardado, e a resis- 
tência prolongava-se tenazmente quando, por assim 
dizer, a natureza interveio na lucta. Certa noite 
cerrada e tempestuosa, um raio caiu na torre prin 
cii^al do castello, fulminando a guarnição de bestei- 
ros. Atemorisados com a^quelle terrível espectáculo, 
o resto dos defensores de Cedofeita entregaram-se 
no outro dia sem combate. Se o rei de Leão pude 
submetter mais alguns togares tomados pelos por- 



(i O auctor aa vida de S. Rosendo 1. cit.) chama a este 
castello Birretiim, mas designa-o também pelas palavras 
oppidum cito factiim, e diz que Fernando II o tomara 
antes do successo de Badajoz. Iv, portanto, evidentemente 
o mesmo de que se fala no documento de 1170 abaixo 
citado. 



90 



HISTORIA DE PORTUGAL 



tugueses cousa é que se ignora; mas é certo que 
ainda em 1169 os dousdlstrictos de Toronhoe Limia 
se consideravam como sujeitos na sua maior parte 
ao rei de Porlugal (i). 

As prosperidades deste illustre guerreiro tinham 
chegado ao ultimo auge. A extensão dos seus domi- 
nios era equivalente á do moderno Portugal ; por- 
que, se lhe faltava o senhorear o território a que 
hoje chamamos Algarve, essa falta ficava de sobra 
compensada com as ultimas conquistas além da 
Minho. Feliz em quasi todas as emprezas dirigidas 
pessoabnente por í^lle, não poderíamos sem justiça 
deixar de attribuir a uma indisputável êuperiori- 
dade de talento militar tanta constância da fortuna. 
E' de crer, jíorém, que, se da sua parte a alliança 
com o rei de Leão houvera sido tão sincefa como, 
segundo parece, o fora do lado desse príncipe, ou 
se as conveniências politicas o cegassem menos, 
teria evitado um acontecimento fatal que lhe amar- 
gurou os últimos annos da vida e collocou á borda 
de um abysmo a independência do paiz, que por 
preço de tantas fadigas e de tanto sangue vertida 
elle e os seus súbditos tinham, emíim, conquistado. 

Emquanto Fernando combatia para recuj^erar os 
castellos retidos pelos portugueses em Toronho e 
Limia, Affonso I entrava de novo com um exercita 
pelos territórios sarracenos do Gharb, que não po- 
derá submetter na passada invasão de 1166. INa 
primavera de 1169 o rei de Portugal accommetteu 



d) Doaç. de Fernando II á Sé de Compostella, ern ii-o» 
cit. por Sandoval, lgles.de Tuy, f. i33 v. e segg-. Como ve- 
remos logo, AíTonso I restituiu ao genro Toronho e Limia 
depois do infeliz successo de Badajoz, para o que, é evi- 
dente, devia reter ainda, ao menos em parte, o senhorio 
dos dous districtos. 



LIVRO II 91: 

Badajoz. Esta cidade, assentada numa planície nas 
margens do Guadiana e cercada de fortes muralhas^ 
ainda era uma povoação notável, postoque os seus- 
arrabaldes, d'antes mais vastos e populosos que a 
própria cidade, estivessem agora ermos em conse- 
quência das discórdias civis (i). A noticia da expe- 
dição do sogro breve chegou aos ouvidos do rei de 
Leão. Pertencia lhe a elle Badajoz por dous títulos. 
Era o primeiro que nas convenções de limites feitas 
entre os dous príncipes (provavelmente em Cella- 
nova) sobre as futuras conquistas, Badajoz devia- 
caber á coroa leonesa : era o segundo que os mora- 
dores da antiga capital do Gharb se tinham coUocada 
debaixo da protecção de Fernando, havendo -se feito- 
seu vassallo e tributário o governador da cidade (2). 
Os juramentos ou os tractados, como outros quaes- 
quer laços de ordem moral, são fracas barreiras 
contra os cálculos da politica, e a reducção de Bada- 
joz acabava de facilitar a .A ftbnso 1 o proseguir na 
sua brilhante carreira de conquistador, porque 
completava a linha de togares fortes que lhe asse- 
guravam a posse da margem esquerda do Guadiana 
por quasi toda a fronteira occidental da Andalusia. 
Importantíssimo era, por esse mesmo motivo, para 
o rei de Leão o dominar aquelle ponto, que, senho- 
reado pelo sogro, lhe cerrada, por assim dizer, a 
estrada para qualquer emjjreza contra a Hespanha 
mussulmana, em consequência de se achar já pri- 
vado do domínio nos estados de Castella. 



íi Edrisi, Geograph. versão de Jaubert, Vol. 2, p. 2!\. 

2 Badallociuiu est agjíi-essus, quae in dkisione acqui- 
rendorum provcnerat regi Fernando : Rod. Tolet., L. 7,, 
c. 23. — Vadalozum... ad regem F. de J are sfjcctantem : 
Lue. Tud., p. 107. Fernando, ^vhose tributar and vas.sal th& 
governor of Batiajoz was : Ibn Sahibi-s-Salat, em Gayan- 
gos, Vol. a, p. Oaa. 



-^a HISTORIA DE PORTUGAL 

Como tantas povoações que se tinham curvado ao 
jugo de AíTonso 1, líadajoz cedera também; mas a 
guarnição havendo-se retirado para a kassba, alli 
sustentava uma defesa, segundo parecia, inútil. Si- 
tiados naquelle breve recincto pelos portugueses 
senhores da cidade, debalde esperavam de dia para 
dia o soccorro dos almohades, quando as tropas de 
Leão capitaneadas por Fernando II vieram reani- 
mar as suas amortecidas esperanças. A chegada 
dos leoneses mudou subitamente a face das cousas, 
e Aíibnso achou-se ao mesmo tempo sitiador e 
sitiado. Os historiadores variam nas particularida- 
des dos successos que então occorreram. Segundo 
uns, Allonso saiu a dar batalha ao genro. Desbara- 
tado por elle, acolheu-seá cidade, da qual occupava 
duas partes; não se julgando, porém, alli seguro, 
i;ractava de retirar-se quando, indo a transpor as 
portas, quebrou uma perna, entalando-a no ferro- 
Uio que as fechava. Mal podendo suster-se a ca- 
vallo, breve caiu prisioneiro nas mãos dos inimi- 
gos (i). Pretendem outros que, tendo os sarracenos 
da kassba pactuado render-se no fim de uma 
semana, se não fossem soccorridos, e havendo pas- 
sado metade do praso, certo dia, em que parte das 
tropas portuguesas vagueavam por aquellas cerca- 
nias e AíTonso I repousava descuidado na sua tenda, 
chegara dimproviso o rei de Leão. Ao passo que 
Fernando accommettia o sogro desprevenido, os 
sitiados do castello faziam uma sortida e atacavam 
por outro lado os cercadores. Desperto no meio do 
i;umulto, Affonso, montando num ligeiro cavallo, 
fugiu ; mas ao sair das portas quebrou uma perna 
no ferrolho com que estas se fechavam. Naquellô 



(ij Roder. Tolet., L. ;, c. a3. 



LIVRO II 9^ 

estado ainda correu algumas milhas sem que po- 
dessem aprisioná-lo, afé que foi despenhar-se num 
íojo profundo, donde o tiraram alguns pastores que 
o entregaram ao genro í i). A relação, porém, mais 
digna de credito é a de Ibn Sahibi, historiador 
qiiasi coevo e que vivia perto do logar do successo. 
Fernando, diz elle, cercou Aífonso em Badajoz. 
Havendo-se dado entrada na kassba a um troço de 
leoneses, Afíonso e os seus foram accommettidos 
nas ruas por ambos os lados. Depois de grande 
destroço e mortandade, os portugueses viram-se 
constrangidos a abandonar a povoação. Aífonso, 
que corria á rédea solta para sair por uma das por^ 
tas, bateu com a coixa da perna direita no ferrolha 
do portão e quebro u-a. Caiu immediatamente sem 
sentidos do cavallo abaixo, e os que o seguiam 
trãnsportaram-no para um sitio jjroximo chamada 
Béka^ah 'o Caia?); todavia, perseguido pela cavai- 
laria do seu rival, íicou, emfim, prisioneiro (2). 

Se historiadores quasi coevos não nos dessem tes* 
temunho do generoso caracter de Fernando II, o 
procedimento deste principe naquella conjunctura 
seria estrondosa prova da nobreza da sua alma. O 
guerreiro que arrancara á monarchia leonesa uma 



(11 R. d'Hoveden, Annales, apud Savile, Rer. Anglicar. 
Scriptor., p. 640 e seg. R. d'Hoveden, que escrevia alguns 
annos depois do successo e num paiz remoto, é inexacto 
(juanto ao logar, que diz fora Silves, e quanto á data^ 
collocando-a em 1187, provavelmente porque neste anno 
chegou á sua noticia o lacto. 

i'2) Ibn Sahibi, em Gayangos, Vol. 2, p. 522. — .\ narra- 
ção de Lucas de Tuy, na sua brevidade, condiz com a do 
historiador mussulmano : « Commisso autem praelio, de- 
victi sunt portugalenses. Rex autem Adefonsus dum fu- 
giens equo supersederet, et egrederetur per portam civi- 
tatis de Badalozo, casu in vecte férreo portae impegit, et 
crus ejus fractum est. 



^^ HISTORIA DE PORTUGAL 

das suas mais bellas províncias para constituir um 
«stado independente; aquelle que constrangera o 
Taloroso AlTonso YII a acceitar resignadamente 
esse facto ; o capitão victorioso em tantos combates, 
açoute e terror dos sarracenos ; o homem, emfim, 
que tantos damnos lhe causara estava captivo aos 
pés delle. No leito da dor, vergado o seu animo 
fero pela desdita, viu se desapparecer a altivez de 
Affbnso I. Confessando que fora desleal a Deus e a 
seu genro, oííerecia entregar sem reserva a este os 
próprios estados em troco da liberdade. A desven- 
tura nunca achara o coração do rei leonês fechado 
Á piedade, e o de Portugal experimentou o nessa 
occasião. — « Restitue-me o que me tiraste, respon- 
deu Fernando, e guarda o teu reino ». De feito, as 
«idades e castellos de Limia e Toronho foram des- 
pejados pelas guarnições portuguesas, e abando- 
nada, segundo parece, a margem esquerda do Gua- 
diana. Pelo menos, sabemos que Alconchel estava 
sujeito no anno de 1171 ao senhorio de Leão. Os 
castellos restituídos diz-se que foram vinte cinco, e 
que o rei de Portugal dera ao genro vinte cavallos 
de batalha e quinze azemolas carregadas de ouro, 
no que parece haver alguma exaggeração (i). De- 
pois de dous meses de captiveiro, Affonso I voltou 
aos seus estados, mas irremediavelmente inhabili- 
tado i)ara a vida militar (2). 

Estes graves successos passavam na primavera de 



(i) Luc. Tud., e Roder. Tolet., loc. cit. — Doaç. de Al- 
conchel á ordem de Sanctiago, em Salazar e Castro, Hist. 
de la casa de Lara, T. 3, p. iG — R. de Hoveden, p. 6^0 
c 64i. 

(2) sub custodia fere per duos menses retinuit .... 

Ipse autem Rex, quamvis solutus a vinculis, tamen usque 
a.d ultimum diem anime sue egressionis e suo corpor» 
permansit inutilis : Vita S. Rudesindi^ 1. cit. 



LIVRO II 

liG[) (i). AíTonso I, posto' rmalmente cm liberdade, 
reeollieu-sa aos seus estados. Xas caldas d'Alafões, 
^onde viera (i) e onde frequentes vezes residiu 
desde então para convalescer da fractura da perna, 
cuidou em occorrer á defensão do Alemtejo contra 
os mussulmanos, doando á ordem do Templo a terça 
parte de tudo o que ella podesse povoar e adquirir 
nessa provincia, com a condição de despender a 
ordem as rendas que dessas terras lhe deviam 
provir no serviço delle e de seus suecessores em- 
<juanto continuasse a guerra entre christàos e sar- 
raceno? (3'. Esta poderosa associação de monges ca- 
valleiros, além do que obtivera durante o governo 
de D. Theresa, tinha já recebido do rei de Portugal 
o senhorio do castello de Cera (Geras) e os territó- 
rios cortados pelo Xabão e pelo Zêzere desde a alta 
Estremadura, prolongando-se ao oriente pela Beira» 
baixa; territórios vastissimos, em que os templários 
haviam fundado successivamente muitos castellos, 
como os de Pombal, Thomar, Ozezar, Almourol, 
Idanha e Monsancto (4). Era a estes homens, enri- 



'i Brandão, seguindo a data da Cbronica dos Godos, 
attribue o acontecimento de Badajoz ao anno de 1168. Flo- 
res demonstrou por documentos indisputáveis Esp.Sagr., 
T. 22, p. 95 e seg-g. , que o desbarato do rei de Portugal 
devia verificar-se de abril a junho de 1169. — A chrono- 
logia de Ibn Sahib' concorda com a de Flores, collocando 
o successo na hégira 564 outubro de QS a setembro de 691 
O Chronicon Conimbricense concorda também no anno 
d3 11G9. 

2) ()uando rex venit Badalioz, et jacebat iníirmus in 
balneis de Alafoeu : Doe. de novembro de ii6j, no Arch. 
íiac, M. 12 de For. Ant., n.» 3, f. 69 v. 

3 Doação aos templários, era 1207, mense septembris : 
Cart. de Thoniar no Arch. Xacion. 

(4; Inscripção de Almourol, transcripta no Elucidário, 
T. 2. p. 356. Sobre as terras e mosteiros dos templários, 
tio tempo de AíTonso I, o documento mais importante é m 



g6 HISTORIA DE PORTUGAL 

quecidos por elle e cujo instituto os obrigava a 
combater de continuo contra os infiéis, que o rei^ 
inhabilitado para vestir as armas, confiava princi- 
palmente a defensão das suas ultimas conquistas. 




13. — Castello de Almourol. 



No meio destes acontecimentos Yusuf Abu Yacub, 
domados os competidores ao throno, e reduzidas as 
províncias mais turbulentas, consolidara o seu im- 



bulla de Urbano III de 1186, coníirmando-lbes a posse de 
todos os seus bens : Arch. Nac, Gav. 7, M. 9. 



LIVRO I] 



9; 



perio d"Africa. As noticias, porém, dos assustadores 
progressos que faziam no occidente do Andalús as 
armas do filho de Henrique chegavam todos os 
dias, e torna va-se cada vez mais evidente a necessi- 
dade de acudir aos miissulmanos da Península. O 
cerco de Badajoz obrigou, em fim, o amir a tomar 
uma resolução prompta. Abu Haíss, irmão do im- 
perador, foi escolhido para capitanear vinte mil 
ainiohades e alguns corpos de voluntários destina- 
dos para repellir os christãos. Partiu Abu Hafss 
Í11691 e, desembarcando em Tarifa, tomou o cami- 
nho das fronteiras occidcntaes, com a esperança de 
que ainda poderia salvar Badajoz dos horrores de 
um assedio. Apenas, porém, chegara a Sevilha, 
onde fazia os preparativos para aquella exj^edição, 
soube do desbarato de Affonso I e que Fernando se 
recolhera aos seus estados. Então Abu Hafss retro- 
cedeu para Córdova e dahi enviou um corpo de tro- 
pas, debaixo do mando de Ibrahim Ibn Humuchk, 
para cubrir a fronteira de Badajoz fi). 

Os progressos militares dos almohades nos terri- 
tórios recentemente submettidos pelo rei de Portu- 
gal não parece terem sido grandes, apesar das for- 
ças auxiliares capitaneadas por Ibn Humuchk. 
Algumas das memorias árabes alludem vagamente 
a varias escaramuças com os infiéis (2), ao passo 
que os monumentos j^ortugueses guardam a tal res- 
jjeito absoluto silencio. E' todavia, por estes tempos 
que a tradição colloca a morte de Gonçalo Mendes, 
irmão de Sueiro Mendes da Maia e denominado o 
Lidador pelo seu esfoi-ço nas batalhas. Estava por 
íronteiro de Beja, postoque tivesse mais de noventa 
annos. -Certo dia, saindo a correr o campo, encon- 

I Ihn Khaldun, em Cayangos, V. 2, App. D., p. 58. — 
.4.1)d-cl halim, Hist. dos Sober. Mohaiiiet., p. aSo. 
Í2; Conde, P. 3. c. 48. 



^8 HISTORIA DE PORTUGAL 

trou-se com um esquadrão de sarracenos que desba 
ratou; mas, apparecendo novas tropas e estando 
elle cançado e ferido, ficou morto no campo, ainda 
que com victoria dos seus (i). As circumstancias 
deste successo que se lêem nos historiadores são pela 
maior pane de tal modo inverosimeis que nós o 
teriamos absolutamente omittido, se um monu- 
mento que reputamos assas remoto não alludisse a 
elle (í2). 

Entrado o anno de 117 1, emquanto os sarracenos, 
aug-mentando as Ibrtificações de Mertola, punham 
em melhor estado de deíensa o districto de Al-ía- 
ghar (Algarve), que era tudo o que lhes restava ao 
occidente do Guadiana (3i, Abu Yacub j)assava o 
mar e vinha com tropas de refresco avivar a guerra 
que corria frouxamente. Reunidos então na Hespa- 
nha, segundo dizem, cem mil soldados (4k os 
mussalmanos obtiveram algumas vantagens no 
Gharb (5). A tradição conservou a memoria de uma 
invasão feita nessa conjunctura pelos almohades 
até o interior de Portugal, e a narrativa dos nossos 
chronistas é confirmada, ao menos no essencial, 
pelos historiadores quasi coevos. Sem encontrar 
séria resistência, ou o próprio Yusuf ou, o que é 



(i) Brandão, Mon. Lusit., P. 3, L. 11, c. 16. — L. das 
Linhag. attrib. ao c. D. Pedro, T. 21, §2. 

121 E este Gonçalo Mendes malaram os mouros na lide 
que houve com elles em Beja : Liv. Yelh. das Liiihaij. na 
Hist. Geneal. Provas, T. i. p. 1G9. 

(3) En 7 dylhagia dei ano 0G6 (1171) se acabo la obra de 
la torre de Mirtula, que mando edificar Cid Abu-Ahdal- 
la-ben-Abi-Háfas : Conde, ibid. Veja-se Moura, vers. 
d'Abd-el-lialim, p. 23o, nota (a. 

(4) y entonces editicò una ciudad en Gebal-Fetah 1172) 
por occupar sus cien mil soldados : Conde, ibid., c. 49 

(5j En Algarbe de Espana, los almohades triunfaban ea 
sus fronteras : Idem, ibid. 



Ln'RO II 



99 



mais crivei, os seus generaes atravessaram o Alem- 
tejo e vieram pôr cerco a Santarém. Achava- se ahi 
AlTonso I. O successo de Badajoz diminuirá o ter- 
ror que este principe incutia aos sarracenos, e 
liavia-lbes dado ousadia j^ara sitiarem o velho leão 
no seu antro. Animava-os também a idéa de que o 
valente rei de Leão, irritado pelos anteriores acon- 
tecimentos, abandonaria o sogro ao seu des- 
tino. Deste modo esperavam tirar vingança dos 
passados males e, porventura, annuUando o resul- 
tado das victorias de trinta aniios, reduzir as fron- 
teiras de Portugal aos antigos limites. Sabida a 
nova do cerco de Santarém, Fernando II, convo- 
cando os seus homens darmas, dirigiu-se immedia- 
tamente para os districtos de sudoeste. Apenas 
constou em Santarém a marcha do rei leonês, gra- 
ves receios assaltaram o coração de Affonso I. Ape- 
sar do generoso proceder do genro no triste aconte- 
cimento de Badajoz, temia que elle quizesse 
aproveitar o ensejo, ou para o privar de uma parte 
dos projirios dominios ou para ajudar os infiéis a 
esmagá-lo. Nestas apuradas circumstancias, o rei de 
Portugal expediu mensageiros que indagassem do 
leonês as intentaçues com que vinha e que procu- 
rassem applacá-lo. Deshabilitado para conduzir os 
seus guerreiros no revolver das pelejas, aquelle 
animo de ferro descia a supplicar a paz. Mas o te- 
mor br^^emente se converteu em jubilo. Fernando 
voava em seu auxilio : tal foi a resposta que, vol- 
tando, trouxeram os mensageiros. Espalhou-se esta 
nova no campo dos mussulmanos. A sua situação 
mudava. Collocados entre as forças de Portugal e 
as de Leão, entenderam que era necessário retira- 
rem-se, e assim foi Santarém salva (i). Naquella 



tij Luc. Tud., p. 107. — Roder. Tolet., L. 7, c. 23. 0« 



lOO 



IIISTOKIA DE PORTUGAL 



volta, provavelmente, os almohades devastaram o% 
territórios vizinhos do Guadiana possuidos pelos 
christãos e retomaram Alcântara ao rei leonês, que 
delia se apoderara em 1167 (i). O havê-los este 
príncipe constrangido a levantarem o assedio de 
Santarém tornava natural a vingança. Pelo menos 
os historiadores árabes, que omittem a pouco bri- 
lhante empreza do amir contra Portugal, attribuem 
a esta epocha a conquista dos castellos de Thogor e 
Al-kantara Al-seyl' e exaggeram os estragos feitos 
naquelles districtos e o grande numero de captivcs 
que por esta occasião caíram nos ferros de Yusuf (a). 
Alguns annos antes, a retirada dos almohades 
houvera sido fatal para os povos mussulmanos das 
fronteiríis, porque Afíbnso 1 os teria sem duvida 
accommettido e tirado crua vingança dos males 
causados aos seus súbditos. Mas desde a desgraça 
de Badajoz a decadência da energia moral parece 
ter acompanhado nelle o quebrantamento das forças 
physicas. Emquanto a guerra se protahia entre os 
outros príncipes christãos da Península e o amir de 
Marrocos, o rei de Portugal, o antigo açoute do 
islam, encerrado nos muros de Santarém, de Lis- 



nossos historiadores referem a grande victoria obtida por 
AíTonso I, que saiu de Santarém a dar batalha ao rei de 
Sevilha, Albaraque. Foi sobre esta narrativa que se bordou 
a fabula da instituição da ordem da Ala (Mon. Tusit., L. 
II, c. 22. — Chronica de Cister. L. õ, c. 18). — O silencio 
dos monumentos nacionaes coevos confirma indirecta- 
mente a narrativa de Lucas de Tuy e de Rodrigo Ximenes, 
que attribuem á vinda do rei de Leão o levantar-se o 
cei^co. — A Chronica dos Godos, ao menos, não teria 
omittido tal victoria de AíTonso Henriques, se realmente 
a retirada dos sarracenos se tivesse devido aos esforço» 
dos sitiados. 

til Docum. na Esp. Sagr., T. 18, p. i36. 

(2) Conde, loc. cit. 



LIVRO II lOI 

boa ou de Coimbra, negociava e concluia trégua» 
com os sarracenos d, tréguas que subsistiram, tal- 
vez, alé serem rotas pelos portugueses em 1178. 
Este procedimento, que, depois da nobre interven- 
ção do rei leonês, não pode deixar de parecer 
estranho, contribuiria em parte para Fernando II 
repudiar D. Urraca em 11 j5 (a), recorrendo ao pre- 
texto ordinário do parentesco, instrumento de que 
os principes se valiam quando ou a politica ou as 
paixões os convidavam a partir os laços domésticos 
que os prendiam. Era esta paz com os almohades 
uma necessidade de situação ? Fora diíTicultoso 
resolvê-lo de modo positivo. O acceitá-la o amirde 
Marrocos, que expressamente viera á Peninsula 
com tropas numerosas para dar calor á guerra con- 
tra os christãos, mostra que a reputação militar dos 
portugueses ainda gerava temor, apesar do revés 
de Badajoz, mais fatal para o principe nas conse- 
quências que tivera do que j^ara o paiz. O repouso 
de tão longas guerras era, em todo o caso, uma 
conveniência, e no decurso desta narrativa temos 
visto que Atibnso I não costumava ser demasiado 
escrupuloso em sacrificar a generosidade de caval- 



li)... the accursed christian (Ibn Errik"i shut himself up 
in his stronghold, and the moslems a-ere for some Ume 
deVwered from his miscJiief : Al-makkari, B. 8, c. 3, Vol. 2, 
p. 3i8... et tandem, volenteDeo, pacis focdeia inter regem 
saepè dictiim et mauros... securius iter efficerent : diz o 
relatório da trasladação de S. Vicente por nm auctor 
coevo Mon. Lusit., P. 3, App. escrit. aõ . — Essa traslada- 
<ão íezse no anno de ii~3 iibid. aproveitando-se o ensejo 
das treg-iias celebradas entre AíTonso 1 e os sarracenos, 
as quac; com probabilidade se podem colloí^ar no anno 
antecedente, sendo a sua existência innegavel á vista da 
passaí^em citada. ^ 

(2t Consulíí-m-se em Flores iReynas Cathol., T. i, p. 3í>4 
e ^rrr-^, os documentos que det'.Tminani a epocha deste 
divorcio. 



I02 HISTORIA DE PORTUGAL 

leiro e ainda a fé politica ás conveniências puMicas 
O modo como quasi sempre se houve para assegu- 
rar a independência e alargar os limites de Portugal 
faz mais honra ao seu esforço e destreza do que ao 
seu atlerro ás idéas pundonorosas de que Fernando 
II lhe dera ultimamente dous grandes exemi)los. 
Se, porém, a historia imparcial e severa tem de ver 
sombras no caracter de Aílonso I como homem, 
para ser justa deve lançar na balança em seu favor 
as dificuldades que o cercavam para poder legar á 
geração seguinte uma existência iDolitica bem ci- 
mentada, uma nacionalidade, digamos assim, assas 
compacta para resistir ás procellas que agitavam a 
Peninsula. Tinha elle de atlender á organisação 
interna da sociedade e, no exterior, a collocá-la 
vantajosamente em relação aos vários povos da Hes- 
panha christan e mussulmana. Noutra divisão do 
nosso trabalho veremos como Aílonso I fez concor- 
rer os diversos elementos sociaes para aviventar a 
energia interior do paiz, e no processo dos factos 
até agora relatados temos observado que para lhe 
dar força e importância externa combateu sem ces- 
sar, vertendo mais de uma vez o seu sangue na pro- 
secução de semelhante fim. 

Dizemos isto aqui. porque de certo modo o rei- 
nado de Aílonso 1, como chefe de uma nação que as 
circumstancias e as diligencias delle próprio tinham 
tornado essencialmente militar e conquistadora, 
acabou com os acontecimentos que o inhibiram do 
exercício das armas. Não raro o individuo, embora 
eminente, que deu o impulso a uma sociedade ou 
que lhe creou uma nova situação politica, é por ella 
vencido na carreira e, em breve, se vê obrigado a 
abandonar a mãos, ás vezes mais inhabeis, porém 
mais robustas, o concluir ou continuar a sua obra. 
A actividade do homem é demasiado curta compa 



LIVRO II I03 

rada com a extensão das suas concepções, e quando 
ellas vão influir na existência de um povo. apenas 
este entra em mocidade viçosa já a decadência das 
forças rnentaes e physicas obriga a aífrouxar o 
passo áquelle que pouco antes parecia arrastá-lo 
após si. 

Em verdes annos o infante Sancho recebera nos 
combates com os leoneses as tristes licções da guerra, 
officio que algum dia tinha de exercer larga mciite. 
Contava elle apenas quinze annos na occasião em 
que seu pae caía prisicneiro nas mãos do rei leonês 
Restituido á liberdade, um dos primeiros cuidados 
de Alíonso 1 foi armar seu fillio cavalleiro, ceremo- 
nia celebrada em Coimbra a i5 de agosto de ii^ofi'). 
Esta qualidade, segundo vimos dos actos jiractica- 
dos por Aflbnso Henriques e por seu primo, 
tomando o grau de cavallaria antes da conveniente 
idade, quando pretendiam revestir-se do supremo 
poder, parece que se considerava na Hespanha 
como inherente ao caracter de monarcha. Se assim 
era, as doutrinas predominantes naquella epocha 
sobre os deveres de uni cavalleiro. isto é, as dou- 
trinas da lealdade, cortezia e munificência, deviam 
supprir de algum modo a falta de cultura intellec- 
tual, defeito não menos commum entre os principes 
e nobres que entre o povo. Os preceitos de ordem 
moral que constituiam em parte aquella celebre 
instituição modificavam a violência própria dos 
tempos, suavisando, sem os atVrouxar, os espiritos 
embrutecidos pelo habito continuo da guerra. 

rSas circumstancias em que se achava o rei de 
I^ortugal a ceremonia celebrada em Coimbra era 
apenas o jjreludio de resolução mais ponderosa. 



U) Chron. Conimbrio. 



I04 HISTORIA DE PORTUGAL 

Fundador de uma nova dynastia, no meio de socie- 
dade igualmente nova, nada mais natural do que 
conceber Aílbnso I a necessidade de ir habituando, 
não só os súbditos, mas também os estranhos a 
considerarem Sancho como rei, antes que a morte 
viesse, por assim dizer, produzir uma solução de 
continuidade entre o pae e o íilho e, portanto, na 
monarchia. Em Leão e Castella o hereditário tinha 
substituido de facto o electivo da coroa ; mas o 
direito Avisigothico da eltirão subsistia como lei 
escripta. e nas formulas da coroação do rei presiip- 
punha-se ainda no século XIIÍ a existência desse 
direito ii). Em Portu^alnco havia irst t .ições j)ar- 
ticulares que deteruíir.assem asucce^são. nem havia 
a segurança que á dynastia leonesa-castelhaiia oíle- 
recia uma longa serie de monarchas succedendo-se 
de pães a filhos. Não faltava naquelia epocha nem 
audácia nem ambição, e a morte do primeiro rei 
dos portugueses j^odia produzir sérias perturbações, 
ou geradas no próprio paiz ou trazidas de fora, 
tanto mais que Eernando 11 já mostrara no proce- 
\ dimento que tivera para com o joven rei de Cas- 
tella, que nem sempre a sua generosidade resistia á 
prova de poder ajunctar uma nova coroa á que 
possuia. Estas considerações ou outras semelhantes 
moveram provavelmente AtTonso I a associar seu 
filho ao governo, não por um acto formal, de que 
não temos noticia, mas dando-lhe larga mão no re- 
gimento do estado, principalmente nas matérias dê 
guerra. Pelo menos, faz que assim o acreditemos a 
impossibilidade em que se achava o rei enfermo d-s 
tractar as armas com a anterior energia 121. 



(t) Marina, Ensa\ o Hist. Crit., § 66 e segg-. — Uiluai de 
Cardena do século XIII, em Berganza, Antigued., T. a, 
p. G82. 

Í2) Nota IV no fim do volume. 



LIVRO II lOD 

A alliança de família contractada em 1160 pelo 
conde de Barcelíjua, Raimundo Berengiier. com o 
rei de Portug-al para o consorcio de seus filhos, não 
se havia realisado por fallecer pouco depois a infanta 
Mafalda. Esta alliança, porém, veio a renovar-se 
por diverso modo em ii74' casando o príncipe San- 
cho com Dulce, filha de Raimundo Berenguer e 
irman de Allonso II, que succedera a seu pae no 
condado de Barcelona e a sua mãe Petronílha na 
coroa de Aragão 11). Durante os annos que prece- 
deram e seguiram este casamento parece ter rei- 
nado paz profunda em Portugal. O silencio das me- 
morias coevas sobre os successos do paiz por todo o 
período decorrido desde a retirada dos sarracenos 
até 1178 é completo, e nem sequer os nossos chro- 
nistas, cujo defeito não é, por certo, a falta de ima- 
ginação, acharam tradições e lendas para preen- 
cher essa extensa lacuna. 

A guerra entre os portugueses e os mussulmanos 
accendeu-se, todavia, de novo neste ultimo anuí), 
ou porque o praso das tréguas houvesse expirado, 
ou porque se dessem por findas dè alguma das 
partes. Numa ou noutra hypothese, o que sabemos 
é que os portugueses foram os primeiros em romper 
as hostilidades. Sancho, no vigor da juventude, 
seguia o exemplo de seu illustre pae. Atravessando 
o Guadiana á frente de um exercito, internou-se na 
Andalusia, e os homens darmas de Portugal 
pisaram, emfim, territórios sobre os quaes nunca 
havia tremulado o pendão de Affonso I, do velho 



(i) Chron. Golhor. ad aer. 1212. llomey (Hist. dEspagrne, 
T. 6, p. Í20Õ) diz (jue este casamento se fez por interveiu-ão 
de Henrique II de Inglaterra, e cita em seu abono a His- 
toria de Matheus Paris, que não diz uma palavra a se- 
melhante respeito. 



Io6 HISTORIA DE PORTUGAL 

rei soldado que tantas vezes os guiara á victoria (i). 
Tendo obtido diversas vantagens dos priacipes 
christãos e reunido debaixo da sua auctoridade toda 
a Hespanha mussulmana, sem exceptuar o amirado- 
de Valência, que por muitos annos se conservara 
independente, YusufAhu Yacub voltara á x\fri ca- 
em II-6. DesalTogado do temor que poderia causar- 
lhe a presença do amir-al-muminin na Península, o 
infante marchou contra Sevilha, cidade então a mais- 
importante do Andalús e onde o príncipe dos 
crentes quasi sempre residira emquanto se demo- 
rou áquemdo Estreito. Yusuf gastara somnias avul- 
tadas em fortificá-la, em provè-la d'agua jior meio 
de aqueductos magníficos, em adorná-la de edifícios, 
entre os quaes se distinguia uma sumptuosa mes- 
quita, e finalmente, na construcção de vastos cães 
para tornar fácil o accesso de terra ás mercadorias 
transportadas pelo Guadalquivir (2). Os vestígios 
do seu vasto circuito, a fortaleza das suas muralhas, 
n magestade dos seus monumentos, ainda no meio 
da successiva decadência dão um brilhante teste- 
munho do que era Sevilha debaixo do domínio al- 
mohade (3). 

Assentada na margem esquerda do rio, a cidade 
coramunicava por uma ponte de barcas com um dos 
seus principaes arrabaldes, o de Triana ou A- 
trayana, conforme os árabes lhe chamavam, sito na 
margem direita. Era Triana como um posto avan- 
tado que defendia a cai)ital por aquella parte. Uma 



•1' Chron. Gothor. ad aer. 1216, — Chron. Conimbric. ad 
canelem aer. 

(2) Conde, P. 3, c. 49- — Abd el-halim, p. aao e segg. — 
Ben Al-khatib, em Casiri, Vol. 2, p. 220. 

(3, Caro, Antiguedad. de Sevill., L. 2, c. a e segg. — 
Ponz, Viage de Espana, T. 9, passim 



LIVRO II 107 

torre do lado do subúrbio dominava a ponte que ia 
intestar com a outra maro^em perto da torre do 
ouro íi). Assim, o populoso arrabalde, que alguns 
pretendem fosse o assento da antiga Hispalis (2), 
licava exposto ao primeiro embate dos christãos, 
cujas fronteiras se dilatavam, postoque a larga dis- 
tancie», pela direita do Guadalquivir. As forças do 
exercito português estavam, sem duvida, long^e de 
bastarem para accommetter uma cidade em cuja 
conquista foi necessário empregar, annos depois, 
quasi todos os recursos militares da Ilespanha 
cliristan e ainda o auxilio destrangeiros. Sancho, 
porém, fazendo um largo circuito pela moderna 
Estremadura hespanhola, atravessou a serra Mo- 
rena e, descendo para o meio dia, desbaratou. algu- 
mas tropas que se lhe oppuseram e naquelle pri- 
meiro imjjeto veio entrar em Triana. Saqueado a 
logar e feitos nelle grandes estragos, voltou a seu 
salvo para Portugal carregado de despojos, sem que 
os almohades podessem obstar a isso i3i. 

Facilmente se imagina qual seria a cólera do- 
amir de Marrocos ao receber a noticia da ruina e- 
sacco d- subúrbio de Sevilha. Se é licito avaliar a 
cmp eza do infante, ignorando-se hoje as circums- 
tanc'as qae precederam ou acompanharam o facto,, 
ao pi imeiro aspecto ella parece merecer, pelo menos^ 



(i) Chronica General, em Morgado, Historia de Sevilla,. 
L I, c i; e 18. 

2 Trianara, antiquam urbem SibilliíE : Chronica Gotlior. 
ad ncr. 121a exemplar de Resende . — Thirianam, quae 
nunc liiana, antiquam urbem Felilie : ibid. (exemplar de 
Saneia Cruz c de Alcobaça'. — Os bons ou maus funda- 
mentos desta opinião podem ver-se em Caro, L 3, c. 12» 

3 Memor. de Tarouca, em Brandão, Mon. Lusit., P. 3^ 
Livr. 11, c. 26. Chron. Gothor. loc. cit. — Chron. Conim- 
Lric. ad eandem aer. 



I08 HISTORIA DK PORTUGAL 

m qualificação de imprudente, A esperança de con- 
quistar Sevilha com os recursos de Portugal não 
existia por certo, até jjorque íbra impossivel que o 
rei de Leão o tolerasse, ainda suppondo essa con- 
quista exequivel. Considerada como simples corre- 
ria, sendo conduzida tão longe da linha das fron- 
teiras, ao passo que era inútil, assim para as dilatar 
como para as defender, inquietava os almohades 
sobre a segurança da capital do Andalús, accendia 
nelles o desejo da vingança e desafiava necessaria- 
mente as duras represálias de Yusuf. Foi o que sue- 
cedeu. O imperador de Marrocos preparou-se para de 
lima vez reduzir á extremidade esta nova monarchia 
christan que, ainda no berço, já se tinha dilatado 
pela maior parte do Gharb, e cujos homens d'armas 
vinham temerariamente fazer reluzir os ferros das 
5uas lanças por entre os vergéis das margens do 
Guadalquivir. 

Resolvido a atacar os portugueses por mar e por 
terra, Yusuf apromptou uma frota, a qual, capita- 
neada por Ghamim Ibn Mohammed Ibn Mardanix, 
se dirigiu ás costas de Portugal e, dobrando o cabo 
de S. Vicente, entrou no Tejo (1179). O resultado 
desta expedição maritima foi voltar o almirante 
sarraceno sem emprehender nenhum commetimento 
decisivo contra Lisboa, contentando- se, conforme é 
de crer, com saquear os arredores, donde levaria 
os despojos cuja importância memoram os historia- 
dores árabes, postoque os monumentos portugueses 
guardem sobre taes successos um absoluto si- 
lencio (i). 

Em quanto o rei de Portugal preparava uma 
p.rjnada, ou para resistir ás forças navaes de Yusuf 



(i) Ibn Khaldiin, em Gayangos, Vol. a. App. D, p. 60. 



LIVRO II 109 

OU para se ^Jll^ar nos logares marítimos da Anda- 
lusia dos damnos que recebera, o titulo de rei, que 
tão activamente diligenciara obter da cúria romunéí, 
era-lhe,emfim, confirmado por Alexandre IIÍ, ccmo 
se a fortuna quizesse consolá-lo das recentes infeli- 
cidades. Devendo na historia especial do clero relê- 
rir-nos á longa e pertinaz resistência da metrópole 
bracharense em acceitar o jugo da primazia de To- 
ledo, teremos ahi occasiáo de calcular até onde essa 
questão influiria na demora da concessão de um titu- 
lo, para obter o qual, além dos outros motivos que 
anteriormente expusemos, Afíbnso 1 fizera os pró- 
prios estados censuaes da Sé apostólica. No meio das 
suas incessantes guerras e das difficuldades que 
essas questões das duas metrópoles oppunliam á con- 
clusão do negocio, o rei de Portugal continuara com 
maiores ou menores interrupções a tractar o 
assumpto perante a caria romana. O direito que 
tinha a ser como tal qualificado pelo chefe daigre a 
era evidente. Outros príncipes haviam herdado de 
seus pães as coroas e deviam a um acaso de nasci- 
mento que o supremo pastor reconhecesse nelles o 
caracter de monarchas, sem que lhes custasse para 
o obterem exporem-se aos riscos da guerra, e quando 
esta lhes augmentava os domínios não iam dizer ao 
papa : — « concede-me tu o que eu conquistei . 
EUe, pelo contrario, tinha feito voluntária otferta a 
Roma, não só do que livremente houvera da herança 
paterna, mas também dos mais vastos senhorios 
que adquirira á ponta da lança em cem combates. 
Taes eram as razões allegadas por AfTonso I (li. O 
desconto relativo que ellas deviam ter sabemo-lo 



(ij Doe. do Arch. de Sancta Cruz de Coimbra, em Bran' 
dão, MoQ. Lusit., L. 11, c. 4- 



MO 



IIISTOraA DE POr.TI.GAL 



pelas circumstancias que occorreram para a home» 
iiagem feita nas mãos do legado Guido ; mas, fossem 
quaes fossem as causas politicas do passo que dera, 
as alleg-ações de Aífonso I não eram menos exactas, 
absolutamento falando, ou menos legitima a pre- 




iS. — Moedas de Affonso HenrKpies. 



tensão que se estribava em 
tão sólidos fundamentos. 

Desí jariamos poder affirmar que Alexandre III fo- 
ra generoso e justo accedendo ás suj^plicas do velho 
rei de Portugal, que pedia ao chefe supremo da gran- 
de familia christan sanctiíicasse um titulo comprado 
por bem caro preço em quarenta annos de lides 
com os infiéis. Produz uma impressão de tristeza 
em quem sabe quão g^randes serviços o papado 
fez aos prog-ressos da sociedade moderna o ver 
pontifices que, aliás, conheciam bem qual era a 
sua missão, no meio daquella idade férrea, prosti- 
tuirem-se, apesar disso, á cubica e sacrificarem á 
mais abjecta de todas as paixões a magestade da 
dictadura que exerciam na Europa, dictadura que, 
pesados os bens e os males d'ahi provenientes, se 
pôde, sem receio de erro, dizer que foi salutar. Mas 
a sede de ouro era o vicio inveterado de Roma. 
Aílbnso I sabia-o, como o sabiam todos aquellea 



LIVRO II III 

cujas pretensões pendiam do sólio pontifício. Nin- 
í^uem na Hespanha ousava já. na verdade, disputar- 
Ihe uma qualificação que os súbditos lhe haviam 
espontaneamente attribuido e que fora escripta a 
ferro e fogo nas assoladas fronteiras da monarchia 
leonesa e no Gliarb conquistado. Mas sem a sancção 
do i)apa, não o disputariam a seu filho? Eis o que 
elle, quanto a nós, temia. Assim, renovando as 
instancias na cúria, recorreu ao meio quasi sempre 
seguro de conciliar a benevolência delia. A substi- 
tuição de dous marcos a quatro onças de ouro, 
censo annual que olTereceraá Sé apostólica em ii44, 
obteve-lhe, emíim, a confirmação da dignidade real. 
E' crivei que os motivos expostos pelo pontifice no 
preambulo da bulia passada sobre esta matéria não 
deixassem de contribuir também, até certo ponto, 
para a concessão. Memorando os serviços feitos por 
Afionso Henriques ao christianismo e os dotes que 
o tornavam illustre, Alexandre III rendia homena- 
gem á verdade e achava, além disso, uma solida 
base em que estribar o acto que motivos mesqui- 
nhos dinteresse o induziam, aliás, a practicar. Uma 
das particularidades mais importantes deste diplo- 
ma é o confirmar igualmente o papa ao rei de Por- 
tugal o dominio de todos os territórios conquistados 
aos sarracenos, sobre os quaes não podessem provar 
ter direito os príncipes comarcãos. Estas concessões 
eram, finalmente, feitas não só a Aííbnso I, mas 
também a todos os seus successores, aos quaes a 
sancta Sé tomava, como a elle, debaixo de sua espe- 
cial protecção. Um presente de mil morabitinos que 
© rei de Portugal enviou ao papa passados dous 
annos serviu de paga, afora o augmento do censo, 
pela concessão tanto tempo inutilmente sollicitada ( i ). 



(IJ Sobre este § veja-se a nota V no íim do voiiima. 



HISTORIA DE PORTUGAL 

Se, porém, esta concessão valia muito para reba*> 
A^v quaesquer futuras tentativas dos reis christãoa 
da l^eninsula, havia um inimigo contra o qual os 
raios de Roma não tinham vigor algum. Era Tusuf» 
O amir guardava na lembrança a destruição de Tria* 
na pelo infante Sancho e o pequeno resultado da 
tentativa da sua armada contra Lisboa. Retido em 
Africa pela rebelliào de um certo Azzobair ou Ibn 
Zobeir, que se alevantara com a província dEfri- 
kia, o imperador sustentava a guerra na Hespanha 
pelos seus generaes. Segundo as memorias christans^ 
Yacub (i), filho mais velho do amir de Marrocos^ 
entrou com um exercito em Portugal 11179) e, atra- 
vessando o alto Alemtejo, veio pôr sitio ao castello 
de Abrantes. Defenderam-se valorosamente os cer- 
cados, e o príncipe almohade teve de retirar-se. Se 
acreditássemos a Chronica dos Godos, a perda dos 
sarracenos teria sido avultada, e a dos portugueses 
apenas digna de mencionar- se 'i2).Noanno seguinte 
as tropas almohades tomaram e destruíram Coru- 
che, levando captivos os seus moradores. Todavia, 
dentro de dons annos este importante castell» 
achava-se reconstruído e repovoado (3). 



(i) O filho mais velho de Yusuf e seu successor chamava- 
se Yacub. — A Chronica dos Godos denomina-o Aben (Bea 
ou ihn. filho de) Yacub, fácil inexacção, que não impede 
Yer no chefe da expedição de 1179 o príncipe almohade. 
ísos nomes dos seus 17 irmãos, que se lêem em Abd-el- 
Jhalim (p. aaT») não é possivel descvibrir qual delles era a 
Fossem, ou Ossem, que a mesma chronica diz o acompa» 
aliava. 

(2) imiiinie rabi lis eorum exercitus pul,sus cum magna 
clade fuit, ex nostris novem tantum desideratis : Chron. 
Golhor. O adjectivo innivncvaveí parece cair insensivel- 
mente da penna aos escriptores daquelles tempos cada 
^ez que alludem a qualquer corpo de sairacenos. 

(3^ Chron. Gothor. ad aer. 1218 na Mon. Lusit., P. 3, L. ii^ 
^» 3o. — Foral de Coruche de 1182 no Arch. Nacion., M. zd 



LIVRO II 11^ 

A guerra proseguia, apesar disso, com a mesma 
Actividade. Os nossos historiadores dizem que o 
infante a sustentava á frente dos soldados de seu 
pae e referem variai victorias obtidas contra os 
infiéis. Faltam-nos memorias e documentos coevos 
em que possamos estribar-nos para relatar taes suc- 
cessos. Não só, porém, as probabilidades nos aucto- 
risam a crer que Sancho dirigia nessa conjunctura 
as armas portuguesas, mas também os pequenos 
resultados dos esforços que faziam os almohades 
nos revelam que estes acharam no infante um duro 
adversário. O moderno Alemtejo era então um 
vasto campo de batalha, onde os capitães de Yusuí 
parece terem concedido pouco repouso por estes 
tempos aos fronteiros de Portugal. Se acreditarmos 
um celebre historiador árabe do século seguinte, 
2)elos fins de 1180 ou primeiros meses de 1181 Mo- 
hammed Ibn Yusuf Ibn Wamudin, á frente das 
tropas de Sevilha, atravessou o Guadiana e veio 
pôr C'?rco a Évora. Como no anno anterior em 
Abrani^r. os sarracenos encontraram aqui, segundo 
parece, te..az resistência; porque, tendo saqueado 
Ds territórios circumvizinhos e destruido alguns 
■pontos fortificados, tornaram a voltar para a capital 
ia Andalusia, emquanto Abdallah Ibn Isak Ibn 
^ami, almirante da frota sevilhana, se encontrava 
com uma armada portuguesa saída do Tejo e, tra- 
vando com ella combate, a punha em fugida e lhe 



de F. A. n.* 3, f. i3. Brandão, levado do preambulo desfe. 
Foral... « Coluchi quam a sarracenis abstulimiis » siippõe 
que o eastello ficara presidiado pelos almoliades, o que 
é contrario á intelligencia litteral da Clironica dos Godos. 
A phrase « qiiarn a sarracenis abstiilirnus » « frequente 
nos foraes do meio-dia de Portugal e não prova o que 
Brandão delia pretende deduzir, podendo referir-se á 
anterior conquista. 



Il4 HISTORIA DE PORTUGAL 

apresava vinte navios, com avultados despojos e 
grande numero de captivos (i). 

Depois destes successos a lucta das fronteiras 
parece ter diminuido de violência ; porque nem as 
memorias árabes, nem as de Portugal alludem a 
nenhuma facção militar que naquelle tempo occor- 
resse. Gomo brevemente veremos, este respirar de 
contínuos combates era apenas a triste calma que 
no oceano costuma preceder e annunciar temerosa 
procella. Yusuf preparava-se já no anno de 1183 
para passar á Hespanha e reunia um dos mais 
brilhantes exércitos que transpuseram o Estreito 
durante o dominio sarraceno no occidente da Euro- 
l^a. Ordenadas as cousas d'Africa, elle resolvera, 
emfim, realisar o intento que concebera de dar um 
golpe decisivo nos estados christãos da Península, 
começando pelos do velho Ibn Errik, senhor de 
Portugal, o mais perigoso de todos os adversários 
do islamismo. Segundo uns, a partida do imperador 
da sua capital para esta exj)edição verificou-se 
ainda em ii8a; segundo outros, no principio do 
anno seguinte. Porventura, o tempo que deviam 
gastar em se ajunctarem as numerosas tropas do 
amir explica estas diíTerentes datas e concilia a 
divergência, aliás pouco importante, dos historia- 
dores (2). Ao passo que as forças do império se 
encaminhavam de varias partes para Ceuta, Abu 
\acub recebia em Salé a nova de que na província 
dEfrikia se achava completamente restabelecida a 



(i) Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2. App. D, p. 61. 

(2) Ibn. Khaldun (loc. cit.) põe a partida de Yusuf ainda 
em 1182 : Abd-el-haUm (p. 232) e Conde (P. 3, c. 5oi em 
ii83. Esta partida entende-se de Marrocos; mas a jornada 
até chegar a Ceuta foi assas demorada, como se vê da 
narrativa dos mesmos historiadores árabes. 



LIVRO II 1X5 

tranqiiillidade. Assim, desassombrado das pertur- 
bações da Africa, elle pôde dedicar-se inteiramente 
íL apressar a sua expedição á Hespanha. 

Emquanto o raio que ameaça Portugal não vem 
desfechar sobre este paiz, alonguemos por um 
pouco o espirito do monótono e tedioso espectáculo 
<le tantas batalhas, assédios e correrias a que temos 
sido obrigados a assistir, na historia de mais de 
meio século, com raras interrupções. O viandante 
que debaixo do sol ardente caminhou todo o dia por 
charneca safara e erma, se ao cair do sol descobre, 
abrig-ada á sombra de algum rochedo, uma bonina 
solitária, pára e contempla com sentimento de jubi- 
lo a pobre flor que em variegado jardim lhe seria 
importuna por singela e campesina. No meio dos 
furores da guerra e dos cálculos ambiciosos da po- 
litica, um atfecto que surge puro e desinteressado é 
a bonina da solidão. 

O rei de Portugal vira acabar em tenra infância 
Mafalda sua filha, destinada a servir de laço entre 
a própria dynastia e a d'Aragáo. Urraca, buscada 
para esposa por Fernando II quando a reputação 
militar e a gloria de Affonso I no seu auge faziam 
desejada a estreita alliança deste principe aos ou- 
tros reis da Hespanha, tragava agora no silencio do 
claustro a affronta de um repudio a que servira de 
pretexto o parentesco entre ella e o marido. Restava 
ao velho monarcha ainda uma filha, Theresa, a 
quem elle destinava o senhorio de uma boa porção 
das terras que comprara por alto preço de sangue e 
fadigas ii). Devia amá-la quanto o seu duro coração 
o comportava ; devia ser-lhe grato repousar o ani- 



I Cum filio meo... et filia mea regina D. Tarasia reg:ni 
mei coheredibus : Carta de couto ao most. de Ceiça, nas 
Dissert. Chronol., T. 3, P. i, n.» õia. 



ii6 



HISTORIA DE PORTUGAL 



mo, gasto e cançado de tão longa e turbulenta exis» 
tencia, no carinho aíTectuoso da infanta. Ao menos^ 
assim o persuade a repugnância que mostrou em 
aílastá-la de si. Era Theresa extraordinariamente 





l/{. — Sellos rodados de Affonso Henriques, Sancho, D. Theresa 
e D. Dulce, datados de ii83. (Archivo Nacional, Collecção Especial.^ 



gentil, e a fama celebrava pela Europa a formosura 
desta princeza da ultima provincia do occidente^ 
como superior á de todas as dos paizes septemtrio- 
naes (i). Philippe, conde de Flandres e filho de 
Thierry d'Alsacia, tinha-se captivado da infanta, ou 



(i) quam hilarior fama concupiscibilem forma íiliabus 
regum australium praeferebat : l^adulf. de Diceto, Yma- 
gines Historiar., apud Twysden : Hist. Angl. Scriptor.^ 
p. 6a3. 



LIVRO II 117 

pelo retrato que delia lhe faziam ou, o que é mais 
natural, por havê-la visto na corte de Atronso í, 
aonde viria na sua seg^unda viagem á Palesti- 
na (ii;;7-8); porque, conforme advertimos já, Lisboa 
era a escala em que frequentes vezes os cruzados 
buscavam mantimentos e refrescos na ida ou volta 
das suas expedições do oriente. Viuvo de Isabel, 
irman e herdeira de Rodolpho, conde de ^ erman- 
dois e de Amiens, pela morte da qual elle houvera 
os dous condados, Philippe era um dos cavalleiros 
mais illustres daquella epocha e um dos príncipes 
cuja vida foi mais inquieta (i i. Sem filhos do pri- 
meiro consorcio, vinha a succeder-lhe no condado 
sua irman Margarida, casada com Balduino, conde 
de Hainaut, a qual fizera reconhecer por herdeira 
em iijj. O novo casamento que intentava contrahir 
devia desagradar, portanto, á condessa de Hainaut 
e igualmente ao moço Philippe Augusto, rei de 
França, que pretendia ter direito a uma parte dos 
estados do conde, parte que, de feito, reivindicou 
dejíois da morte delle (1). Fracas barreiras eram 
estas para se opporem á paixão de Philippe; mas 
encontrou-as mais fortes na repugnância de Atfon- 
so I a separar-se da filha (3). Emfim, á força de 
repetidas embaixadas, o rei de Portugal cedeu. Uma 



(i) Art. de vérif. les Dat., T. 4, p. 104 e io5. Do excel- 
lente resumo da historia dos condes de Flandres, que ahi 
se encontra, tirámos tudo o que acerca de Philippe d'Al- 
sacia dizemos neste paragrapho. 

(2) In detrimentumque domini sui (se. francorum regis) 
duxerat filiam regis Portugalliae : diz expressamente Ger- 
vásio Dorobornense (apud Twysden, p. 146o . 

(3i Philipus... Adelfonsum. . . per internuncios saepiàs 
«oUicitavit ut Beatricem lege Therasiam liliam suam, etc. 
Radulf. de Diceto, loc. cit. —Desta passagem de Radulfo, 
escriptor contemporâneo e bem informado, se conhec» 



Il8 HISTORIA DE PORTUGAL 

armada Telejou então de Flandres para Portugal 
destinada a conduzir a infanta, que partiu acompa- 
nhada de vários cavalleiros. Despedindo-se da filha 
para nunca mais a ver, o velho monarcha mostrou- 
se amplamente generoso com ella . e os historiadores 
contemporâneos celebram as riquezas de ouro, bro- 
cados, sedas e pedras preciosas de que os navios 
flamengos iam carregados. Chegando á Rochella 
com prospera viagem, Theresa ahi achou commis- 
sarios do rei de Inglaterra, Henrique II, que muito 
diligenciara este consorcio (i), encarregados de 
subministrar á infanta os commodos necessários 
para uma aprazível jornada até as fronteiras de 
Flandres, por serem do domínio de Henrique II 
quasi todas as terras por onde havia de passar. O 
namorado Philippe d'Alsacia veio receber a prin- 
ceza ao entrar nos seus estados e, na presença do 
exercito e de grande numero de povo que concorrera 
áquelle espectáculo, se uniu pelos laços nupciaes 
com a formosa infanta, a qual por esta occasião 
trocou o seu nome pelo de Mathilde, postoque 
alguns lhe chamem impropriamente Beatriz (2) 



que foi necessário insistir com o rei de Portugal, contra o 
que affirma Gilberto de Mons, citado pelos AA. da Arte de 
verificar as Datas. 

(i) Rex Anglorum Henricus, sapientia et devitiis suis 
acquisivit sororem regis portugalensis Hispaniae, ad hoc 
ut íieret uxor comitis Flandrensis. .. Hujus pater, licet 
grandaevus, adhuc vivit : Rob. de Monte, apud Pistorium, 
lUust. Veter. Script., T. i, p. 675. — a plirase irnian do 
Rei de Portugal mostra que Sancho já era considerado na 
Europa como o verdadeiro rei, postoque Affonso ainda 
vivesse. ,^ Do mesmo modo Rogério d'Hoveden diz : duxit 
in uxorem sororem Sancíii regia portugalensis : Annal 
p. 622. 

[2; Regis, igitur, íiliae comes accensus amore, venienti-, 



TIVRO II 



"9 



A invasão dos sarracenos não concedeu a Aífonso I 
largo espaço para sentir a ausência da filha (i). 
Mais graves cuidados o assaltaram brevemente. 
Junctas em Ceuta todas as tropas d' Africa destina- 
das para a guerra de Hespanha, Yusuf ordenou 
que o exercito passasse o Estreito, seguindo-o elle 
immediatamente com a guarda de negros, officiaes 
da corte e ministros, no meado de maio de 1184 
(5 de saphar da hégira 58oj. De Gebal-fetah (Gibral- 
tar;, onde eíleituou o desembarque, o imperador de 
Marrocos dirigiu-se por Algeziras a Sevilha e, in- 
corporando com os numerosos esquadrões que 
trazia as forças de seu filho Abu Isak, então wali 
daquella provincia, marchou para o occidente e, 
atravessando o Alemtejo, veio assentar campo 
juncto de Santarém, quasi nos fins de junho desse 
mesmo anno (a). 

As narrativas dos historiadores árabes acerca 
das circumstancias e desfecho deste assedio variam 
entre si e são quasi inconciliáveis com as dos chro- 
nistas christãos, posto concordem nos factos capitães. 
Se acreditarmos alguns dos primeiros, Yusuf, 



bus hispanis in equitatu magno, dignum duxit festinanter 
occurrere. Beatricem vero, superius tociens memoratam, 
comes, in íacie commilitonum suorum et in praesentia 
multitudinis quae convenerat, sibi foedere nuptiali con- 
junxit : Rad. de Diceto, loc. cit. — Mathildem filiam regis 
Portugalliae sic enim apud nos, sed apud suos portugal- 
lienses Terasia vocabatur; sibi matrimonio copulavit ; 
Joli. Iperii Chron.,apud Marlene, Thesaur. Nov. Aneedot., 
T. 3. p. 669. 

(ij Nota VI no fim do volume. 

12 A 7 do mês de rabieh i.» de 58o 19 de junho 1184), 
segundo Abd-el-halim (p. 233); e a 5, segundo Conde P. 
3, c. 5o]. — Yigilia S. Johannis Baptistae : Ghron. Conim- 
bric. — Circa nativitatera B. Johannis : Kadulf. de Diceto, 
p. 623. 



laO HISTORIA DE PORTUGAI 

passando o rio, sitiou a povoação, assentando os 
seus arraiaes do lado do norte. Começada a lucta, 
os sarracenos foram repellidos em suecessivos 
commettimentos, que se repetiram por quinze dias, 
postoque empregassem naquelle empenlio todos os 
seus esforços. Ao anoitecer do dia 4 de julho (22 de 
rabieh i.**) Abu Yacub fez mudar o acampamento 
para o lado occidental, o que todos estranharam, 
sem que todavia se atravessem a contradizer a reso- 
lução do imperador. Julgavam, porventura, que, 
perdida a esperança de submetter Santarém, resol- 
vera marchar para o interior da provincia, devastá- 
la e retroceder para Sevilha. E de feito, sendo já 
noite, Yusuf mandou chamar seu filho e ordenou- 
Ihe que na manhan seguinte marchasse com as 
tropas andalusas contra Lisboa e pusesse a ferro e 
fogo aquella comarca. Entendeu Abu Isak que 
seu pae o mandava voltar para Sevilha á meia noite. 
Pouco tardou a correr voz pelo campo de que o 
príncipe dos crentes resolvera levantar immediata- 
mente os arraiaes e retirar-se. O exercito começou 
então a passar o Tejo, e ao romper d'alva Isak 
partiu com o resto da gente, ficando só no acampa- 
mento Abu Yacub com as suas guardas e os alcaides 
andaluses, que sempre o acompanhavam na van- 
guarda ou na retaguarda. Nascido o sol, os chris- 
tãos que guarneciam as torres e adarves observa- 
ram que o arraial se tinha levantado e que o exer- 
cito partira. Os exploradores enviados a reconhecer 
o campo voltaram em breve a confirmar a noticia, 
assegurando sjue só o amir ficara e um pequeno 
troço de soldados. Abrindo então as portas, os sitia- 
dos arrojaram-se impetuosamente para o acampa- 
mento, bradando : « ao rei! — ao rei » ! A guarda 
dos negros tentou resistir; mas, rota e dispersa 
pelos portugueses, estes penetraram até a tenda do 



LIVRO II IQI 

imperador. Como valente, o príncipe lançou mão da 
espada, defendendo-se dos que o accommettiam, 
seis dos quaes lhe ficaram aos pés. Os gritos de 
terror das mulheres de Abu Yacub attrahiram 
áquelle ponto os almohades e andaluses que se 
haviam conservado firmes, os quaes obrig-aram os 
christãos a recuar, levando-os de vencida até os 
muros de Santarém. Mas Yusuf caíra ferido g-rave- 
mente, e a retirada era inevitável. Puseram o impe- 
rador a cavallo, segundo parece, já sem sentidos e 
inhabilitado para mandar. Destituídas de chefe, as 
tropas atravessaram o Tejo e, dirigidas pelos tam- 
bores, encaminharam-se jjara Sevilha. Desta cidade 
Abu Yacub foi levado a Algeziras ; mas, antes de 
poder passar á Africa, falleceu naquella cidade, 
das feridas que recebera, a 12 de rabieh 2." de 58o 
(24 de julho de 1184) (i). 

Tal é a narração de Abd-el-halim e de outros 
escriptores árabes. As inverosimilhanças delia são 
palpáveis. Como acreditar que Isak não percebesse 
que seu pae o enviava contra Lisboa, ordenando-lhe 
elle ao mesmo tempo a devastação daquella comarca, 
o que seria absurdo em relação á de Sevilha? Além 
disso, são as tropas andalusas as que se destinam 
para a expedição e que com o filho do amir se reti- 
ram do território invadido ; mas os seus chefes não 
as acompanham, ficando juncto de Yusuf Destas e 
de semelhantes contradicções o que se pode deduzir 
é que algum com mettimento repentino dos christãos 
espalhou o terror pânico entre os mussulmanos e 
que, ferido Yusuf no meio do tumulto, redobrando 
o terror, o exercito se precipitou em desordenada 



(i) Assaleh (Abd-el-halim>, Hist., dos Sober. Moham., 
p. 233 e 234. — Conde P. 3, c. 5o) narra o successo com 
alguma diíTerença, postoque não essencial. 



122 HISTORIA DE PORTUGAL 

fuga. É certo que dous dos mais graves historiadores 
árabes, Ibn Khaldun e Al-makkari, omittiram as 
circumstancias referidas por Abd-el-halim, prova- 
velmente inventadas para corar o triste resultado 
da empreza. O primeiro diz-nos, fjositi vãmente, que» 
depois d'alguns dias de assedio, Abu Yacub dera 
ordem para se alevantar o campo, o que não só pro- 
duziu descontentamento geral, mas também desa- 
nimou as tropas; que, tendo os sitiados feito uma 
sortida, encontraram o imperador quasi só e des* 
prevenido e que, depois de sanguinolento conflicto^ 
elle e os seus foram obrigados a voltar costas. 
« Neste mesmo dia — prosegue Ibn Khaldun — a 
khalifa expirou; uns dizem que de uma frechada 
que recebeu no fervor do combate, outros que de 
enfermidade súbita, a qual o accommetteu durante 
a retirada » (i). Al-makkari ainda é mais succinto. 
« O principe dos crentes — diz elle — esteve 
acampado diante de Santarém durante um mês,. 
até que uma doença que lhe sobreveio lhe causou, 
a morte. Pretendem alguns que esta fosse proce- 
dida de um virote arrojado pelos christãos; mas 
só Deus sabe como o caso se passou » (2). De feito^ 
os fugitivos deviam narrar variamente as causas 
e circumstancias da retirada, e as conveniências 
politicas que íizeram esconder por algum tempo a 
morte de Abu Yacub não menos contribuíram, por* 
certo, para obscurecer as ^particularidades do sue- 
cesso. 

Os monumentos portugueses que podiam illus- 
trar-nos sobre este gravíssimo acontecimento nar- 
ram-no, iníelizmente, em termos demasiado curtos. 



(i) Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2, App. D, p. 6a. 
[a] Al-makliari, B. 8, c. 3, Vol. 2, p. 319. 



LIVRO II 123 

Delles apenas tarjemos que os mussulmanos se 
espalharam por toda a Estremadura e a devastaram, 
demorando-se alii cinco semanas, período acerca 
do qual, com pouca dillerença, concordam os escrip- 
tores árabes (i). O desfecho, porém, daquella em- 
preza, para a qual se haviam ajunctado quasi todas 
as forças do Moghreb e do Andalús, devia soar 
assas alto para echoar pela Europa. Assim, um 
historiador inglês, que escrevia justamente por 
aquelles annos, nos conservou a relação mais in- 
teressante do modo como se desfez a furiosa tem- 
pestade que ameaçava Portugal da ultima ruina. A. 
narrativade Radulfo de Diceto foi, provavelmente^ 
recebida de algum dos actores daquelle drama, 
sendo certo que o tracto entre Portugal e Ingla- 
terra já então era frequente, como temos visto e 
veremos na historia dos subsequentes reinados. 
Ella nos parece por isso preferível á dos escriptore& 
mussulmanos, interessados nesta parte em dissi- 
mular a verdade, cumprindo, todavia, reduzir ás 
dimensões naturaes a j^erda que o historiador 
christão attribue aos vencidos, perda impossível de 
crer e, sem duvida, exaggerada pelos vencedores^ 
segundo o costume daquelle e de todos os tempos. 
Se acreditarmos, pois, Radulfo, Abu Yacub con« 
dúzia no seu numeroso exercito trinta e sete walis 
[reges] com a gente de guerra das respectivas pro- 
vindas. Transposto o Tejo, os invasores accommet. 
teram Santarém, que foi combatida sem interrupção 



[\i Ghron. Conimbric, ad aer. 1222. — A chronica dos 
Godos apenas nos diz que Yusuf invacit Scalahiurn, sed 
pulsas et victus; e ainda esta parte daquella chronica é evi- 
dentemente accrescentada por mão diversa e em tempos 
posteriores, alludindo-se ahi á batalha das Navas d© 
Tolosa, dada muitos annos depois. 



J2/J HISTORIA DE PORTUGAL 

durante três dias e três noites até que, rotos os 
muros, os almohades penetraram dentro, obri- 
gando a guarnição a refugiar-se na alcáçova (i). Na 
seguinte noite chegou um corpo de christãos, a 
cuja frente vinham Sancho e o bispo do Porto. 
Accommettido por elles, Gami, um dos principaes 
<íhefes mussulmanos (talvez Ghamin Ibn Yusuf Ibn 
Mardanix, almirante das frotas almohades), pereceu 
no conflicto com a maior parte das suas tropas, 
cujos cadáveres amontoados na brecha serviram de 
parapeito aos vencedores. Entretanto, sabida a 
vinda de Yusuf, um exercito de vinte mil homens 
capitaneado pelo arcebispo de Sanctiago descia 
da Galliza em auxilio dos portugueses e chegava a 
Santarém ao romper dalva do dia 26 de junho (2), 
immediato ao da victoria de Sancho. Atacados 
repentinamente, os mussulmanos tiveram uma 
espantosa jjerda. Não foram, todavia, decisivas as 
vantagens obtidas, e o cerco proseguiu por todo o 
mês seguinte. Talvez para divertir a attenção do 
rei de Portugal, um corpo de sarracenos se enca- 
minhara para o lado de Alcobaça, ena sua marcha 
assoladora mettera á espada as mulheres e creanças, 
cujo numero se avaliava em dez mil pessoas. O 
castello, porém, dAlcobaça lhes offereceu mais 
séria resistência, e três walis com grande porção 
daquella soldadesca desenfreada pagaram com a 
vida as cruezas antes practicadas. Emfim, a 24 'J^ 
julho chegou aos arraiaes mussulmanos a nova de 
que o valente rei de Leão se dirigia para alli e que 



(i) É o que evidentemente significa a phrase se intra 
iiirrem rcceperunt. 

(2) In crastino autem, scilicet in die sanctorum Johannis 
-el PauU. A festa de S. João e S. Paulo, martyres, cúe a 
«O de junho. 



LITRO II 1q5, 

desafiaA'a a combate singular o imperador almo- 
hade. Preparava-sejá Yusufpara a batalha, quando 
ao querer montar a cavallo, vacillou e caiu. Tres^ 
vezes tentou cavalgar; três vezes desmaiou. Fora 
tiro de besta vibrado das muralhas que o traspas- 
sara? Fora ataque de súbita e mortal enfermi- 
dade ? Eis o que nos não diz o chronista inglês. 
Espalhada a nova daquelle impensado caso, o 
terror pânico apoderou-se do exercito, que fugiu 
desordenadamente, abandonando os despojos que 
ajunctara na devastada Estremadura ( i;. 

Tal é a relação menos inverosimil, e, ao mesmo 
tempo, mais com^^leta do cerco de Santarém, da 
morte de Abu Yacub e da dispersão do seu nume- 
roso exercito. E possível que em uma ou outra par- 
ticularidade seja inexacta e, até, se poderia sus- 
peitar que o historiador inseriu neste acontecimento 
algumas circumstancias do primeiro cerco de San- 
tarém em 11'ji ; mas, ainda assim, o confirmar o 
pouco que nos transmittiram os monumentos na- 
cionaes abona a generalidade da narrativa (12). 

Livre, como por milagre, da situação arriscada 
em que se vira, o rei de Portugal mostrou a su» 
gratidão aos benefícios da providencia pelo modo 
que naquella epocha se cria mais agradável a Deus. 
Grande numero de sarracenos tinham ficado capti- 
vos durante uma retirada feita sem ordem e só 
conduzida pelo temor. Estes captivos foram con- 
demnados á servidão e distribuídos pelo paiz para 



ti) R. de Diceto, p, 6124. Romey 'Hist. d'Espagne, T. 6^ 
p. 2181 tira a relação deste successo de Matlieus Paris[ 
que a transcreveu quasi litteralmente de R. de Diceto è 
que compôs a sua Historia Major muito depois. 

i2i ... vastavit totam Extremaiuram, et fuit ibi per 
quinque septimanas : Ghron. Conimbric. ad aer. laaa. 



126 HISTORIA DE PORTUGAL 

carregarem a pedra e o cimento nas reedificações e 
reparos das igrejas, e o ouro que pertenceu ao 
€stado no sacco do arraial de Yusuf applicou-se á 
feitura de uma arca destinada a guardar as re^»- 
quias de S. Vicente, transferidas annos antes para 
Lisboa do cabo que daquelle sancto recebeu o 
nome, e conservadas durante o dominio sarraceno 
pelos sacerdotes mosarabes em um templo ons- 
truido sobre o alto promontório, templo respeitado 
sempre pela exemplar tolerância religiosa dof? 
mussulmanos (i). 

Pouco tempo decorrera desde que Yusuf cercara 
Santarém e que o território da moderna Estrema- 
dura fora devastado pelas tropas almohades, quando 
uma numerosa armada, em que provavelmente se 
achavam reunidas as forças navaes de Africa e de 
Andalusia, bem como succedera no exercito de 
terra, penetrou pela foz do Tejo e veio atacar 
Lisboa. Entre as galés de que se compunha a frota 
distinguia-se uma daquellas a que pela grandeza se 
dava então um nome especial, o de dromon ou dro- 
niunda. Eram embarcações de primeira ordem, 
correspondendo de certo modo ás nossas naus de 
linha (2). Sobre esta possante galé conduziam os 
sarracenos uma engenhosa machina de guerra, por 
meio da qual, fundeando aquelle navio perto dos 
muros da cidade, as tropas de desembarque j^ode- 
riam ir saltar sobre os adarves e combater peito a 
peito com os christãos. Era de temer um tal com- 
mettimento, em que j^ara os defensores a vantagem 
de pelejar de alto e a cuberto das ameias desappa- 
recia;mas entre os de Lisboa appareceu um homen^ 



(i) R. de Diceto, loc. cit. - Edrisi, Geogr., Vol. 2, 
(2) Diicange, Gloss., verb. Dromcnes. 



LIVRO II 



127 



■^ue, offerecendo-se a morte quasi certa, removeu 
> perigo commum. Infelizmente a historia não 
salvou do esquecimento o nome daquelle esforçado, 
4? nem sequer nos conservou as circumstancias do 
feito. Sabemos só que elle, aproximando-se pela 
•calada da noite do temeroso baixel, lhe abriu um 
rombo, pelo qual penetrando o mar o fez soçobrar, 
e a machina mal-guardada, descendo á superfície 
da agua, foi trazida á praia e suspensa das mu- 
ralhas. Logo que amanheceu conheceram os sarra- 
cenos que os seus desígnios haviam sido burlados, 
e assim abandcmaram a empreza, não sem haverem 
primeiro saltado em terra e captivado todos os 
christãos que vagueavam imprudentemente pelos 
arrabaldes da cidade ou pelos campos circumvi- 
zinhos (i). 

Tal foi para os almohades o infeliz êxito da tenta- 
tiva contra Portugal, que na sua soberba elles 
tinham crido poder facilmente riscar da lista dos 
povos christãos da Hespanha. No longo crepúsculo 
de velhice aborrida e enferma, o coração do valente 
Affonso 1 ainda pôde dilatar-se pela ultima vez nos 
contentamentos de uma grande victoria. A sua boa 
espada repousava havia muito na bainha juncto do 
seu leito de dor; mas consolá-lo-hia a certeza de 
que deixava um filho digno delle no esforço, e 
uma nação cheia de energia e de esperança, a qual 
lhe devia quasi inteiramente a sua vida politica. A 
resistência invencivel que as forças de terra e de 
mar do império mussulmano tinham encontrado em 
Portugal provava-lhe que o povo educado por elle 
passara em curtos annos de débil infância a juven- 
tude robusta. O edifício da independência nacional. 



(I] R. de Diceto, loc, cit. 



Ii8 HISTORIA DE PORTUGAL 

desenhado pelo conde Henrique, cimentado j)or 
D. Theresa e realisado de todo o ponto por elle> 
achava-se, emfim, concluido com a segurança ne- 
cessária para resistir á destruidora acção dos sé- 
culos. Quando na ebriedade da victoria ou ao sentir- 
se g-rande e forte, o rei de Portugal tomava para si 
os titulos de feliz, de príncipe egrégio e de trium- 
jiliador (i), o orgulho que os dictava era nobre e 
legitimo, porque se estribava na voz da consciência 
e no testemunho unanime de amigos e de inimigos^ 
de estranhos e de naturaes. 

O ultimo anno da vida de Affonso I passou sem 
que a historia tivesse nada que mencionar acerca 
deste príncipe. O guerreiro como que já dormitava 
no somno da morte, que em breve devia cerrar -lhe 
perpetuamente as pálpebras. Apenas alguns docu- 
mentos dessa epocha nos mostram que nos seus 
derradeiros dias não abandonou de todo o leme do 
estado, ao passo que se mostrava ainda liberal para 
a igreja, com quem sempre repartira largamente os 
fructos das suas conquistas (2). Veio, emfim, a fal- 
lecer a 6 de dezembro de ii85 (3), depois de gover- 
nar este paiz com os titulos d'infante e de príncipe 
doze annos e com o de rei quarenta e cinco. Orde- 
nara elle que o enterrassem no mosteiro de Sancta 
Cruz de Coimbra, onde jaziam também as cinzas 
de sua esposa D. Mafalda. Ahi, de feito, descançou 



íij Docnm. nas Dissert. Chronol., T. 3, P, i, n." 439,474^ 
e T. 4, P- I, n" 786. - Ribeiro duvida da genuinidade dos 
dous primeiros em consequência desses titulos, o que nos. 
não parece motivo bastante para os rejeitar. 

(2j Foral de Palmella, no Arch. Nacion., For. A., M. 3, 
n." i5 e M. 12, n.» 3, f. 75. — Doaç. á Sé d'Evora, nas 
Dissert. Chronol.. T. 3, P. i, n.» 5Õ7. 

(3j Vlll idus decembris obiit rex Ildefonsus portuga- 
lensis : Chron. Gonimbric. 



LIVRO II 139 

finnl mente aquelle corpo gasto de tantas lidas em 
se]>:i?t:iríx modesta, conforme permittia a rudeza 
dos tempos, até que el-rei D. Manuel lhe alevantou 
o rico mausoléu em que ainda hoje se guardam os 
ossos do lundador da mcnarcliia 11 1. 

Srguindo as phases deste longo reinado e julgando 
im[)arcialmente as acções do homem que a provi- 
dcficia pcs á frente da nação para a guiar nos pri- 
meiros annos da sua existência, conhece-se que o 
pensamento de firmar a independência portuguesa 
sul)|ugava no espirito do príncipe outras quaesquer 
considerações, ainda, talvez, com oíTensa de algu- 
mas que deveriam ser respeitadas. É realmente 
áquclla idéa que vão ligar-se muitos actos de 
Allonso Henriques, os quaes, avaliados separada- 
mente, dariam direito a accusá-lo de pouca fé e de 
ambi(,ão desmedida. Além da rebeilião contra 
1). 1 heresa, que mais se ha-de attribuir á nobreza 
do que a um mancebo inexperiente, a quebra do 
tractado feito com o imperador em 11 3;, o engano 
imaginado para colher desprevenida a guarnição 
de Santarém, as crueldades practicadas com os 
sarracenos, a maneira, emíim, por que se houve 
com o rei de Leão seu genro, cujo nobre e generoso 
caracter não pode deixar de fazer sombra ao de 
Affonsol, foram acções que, avaliadas em si unica- 
mente, serão sempre dignas de reprehensão, ao 
menos emquante os monumentos nos nêiO revelarem 



(1, Monasterio Sancte Cruéis, ubi jubco sepeliri corpus 
meiiin : Doaç a Saneia Cruz, em maio de 1159 : Arch. 
>'aci >ii. M. 12, de For. A. n.» 3, f. 68, v. — Monasterio 
San( te Cruéis ubi pater meus et mater mea, avi rnci, et 
frat» s mei, tumulati jacent: Coníirm. dos Privileg. de 
San «la Cruz por Aífonso II, ibid., f. 67. — Góes, Chron. 
4elr< ÍD. Man., P. 4, c. 85. 



3o 



HISTORIA DE PORTUGAL 




15. — Tumulo de Affciiso Henriques èm Satitii Cruz. 
de Coimbra 



LIVRO II 



l3l 




le. — Sello de 
Atlonso Henri- 
ques e de seu 
íillio Sancho, 
datado de 11.S4. 
('.l/\///Vo .Xacio- 
nal. ColLecção 
Especial.) 



«Ig-umas circumstancias ainda ignoradas que possam 
absolvê-las. Mas, se as ligarmos ao pensamento a 
que o rei de Portugal se votara e que, por assim 
nos exprimirmo?, elle encarnara em si, quem não 
desculpará taes acções, sobretudo 
se attendermos á barbaria da epo- 
cha, á dilTicultosa situação do paiz 
€ á fraqueza real de uma sociedade 
desmembrada de outra que force- 
java para reconduzi-la ao próprio 
grémio ? A grande necessidade a 
que Affonso I tinha de i)rover era 
íi de dar homogeneidade e robustez 
interna e externa á nação que se 
constituia. Para isto importava que 
ao mesmo tempo buscasse o favor 
da igreja, primeiro elemento de 
força naquelles tempos, que favore- 
cesse a fidalguia, principal nervo dos exércitos, e 
que, finalmente desse o máximo grau de vigor 
ao espirito municipal, sem o 
que, em nossa opinião, nunca 
houve nem haverá energia po- 
pular ou vivo affecto á terra 
natal. Além deste trabalho de 
organisação interior, cumpria- 
llie dilatar os limites do terri- 
tório que herdara, demasiado 
estreitos para o estabelecimento 
de um estado indei^endente. O 
temor do seu nome entre os 
mussulmanos e christãos e a 
audácia das suas tropas eram 
meios para o obter. Natural- 
xnenie Dellicono, duas gcriíções successivas aprende- 
ram na sua escliola o duro mister da guerra e alcan- 




17. — Sello rodado de 
Aflbnso Henriques, 
Sancho e D. Dulce, 
datado de 1184. (Archi- 
vo Xacional, Collecção 
Especial.) 



i:>2 



HISTORIA DE PORTUGAL 




iS. — Igreja de Sancta Cruz de Coimbra. — Portal 



LIVRO II 



i33 



çaram legar aos vindouros as gloriosas tradições de 
esforço c de amor pátrio que a nação guardou reli- 
giusanientc durante alguns séculos. Antes, porem, 
que Aííonso I podesse confiar á sorte das batalhas a 




t^. ~ Igreja de Sanctu Cruz de Coimbra. — Claustro. 



independência do seu paiz, precisava de ampará-la 
emquanto planta débil com a destreza da j^olitica. 
D'alii nascia, em certas circumstancias, um proceder 
quc, absolutamente considerado, a severidade da 
moral condemnará. Visto, porém, o quadro á con~ 
veniente luz, as manchas que, aliás, assombrariam 
o altivo e nobre vulto do nosso primeiro rei quasi 



l34 HISTORIA DE PORTUGAL 

desapparecem, e a sympathia que em todos os sé- 
culos a gente portuguesa mostrou pela memoria do 
filho do conde Henrique torna-se respeitável, 
porque tem as raizes num affecto dos que mais 
|y raros são de encontrar nos povos, a gi^ajjxl^o-paj-a 
\Í com aquelles a quem muito deveram. Este affecto 
nacional chegou a attribuir a Afíonso Henriques a 
aureola dos sanctos e a pretender que Rmaa. desse 
ao fero conquistador a coroa que pertence á resi- 
gnação do martyr. Se uma crença de paz e de hu- 
mildade não consente que Roma lhe conceda essa 
coroa, outra religião também "víneranda, a da 
pátria, nos ensina que, ao passarmos pel© pallido e 
carcomido portal da igreja de Sancta Cruz, vamos 
saudar as cinzas daquelle homem, sem o qual não 
existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, 
nem sequer o nome de Portugal. 



LIVRO lií 



1185-1211 



LIVRO III 



1185-1211 



Accessão de Sancho I ao throno. — Territórios portugueses 
nos íins do século XII. — Relações com Leão. — Estado 
do império almohade. — Defesa e povoação de Por- 
tugal. — AÍTonso IX suceede a Fernando II na coroa 
leonesa. — Designios ambiciosos de Sancho I. — Reno- 
vação da Cruzada. — As idéas do rei português sobre 
associar-se áquella empreza desvanecem-se. — Algara 
dos almohades. — Prepara-se uma invasão contra o 
Gharb mussulmano. Vinda de duas armadas do norte. 
Começo da guerra nas costas de Al-faghar. Cerco e to- 
•mada de Silves e conquistas posteriores. — Reacção 
dos almohades. Entrada de Yacub na Estremadura. De- 
vastações ahi feitas, e retirada dos sarracenos. Violên- 
cias practicadas por uma armada inglesa em Lisboa e 
desaggravo de Sancho. — Casamento de AfTonso IX com 
a infanta D. Theresa. — Nova entrada de Yacub, e 
perda das ultimas conquistas no Gharb. — Estado de- 
cadente da força material do paiz. Politica interna do 
rei de Portugal. — • Divorcio de AíTonso IX. — Guerra 
entre AfTonso VIII de Castella e Yacub. Desbarato dos 
chrislãos em Alarcos. — Liga de Affonso IX com os 
almohades, e dos reis de Castella e Portugal entre si. 

— Guerra geral na Península. — O rei leonês casa com 
a íilha de Affonso VIII. Pacificação momentânea, e re- 
novação das contendas parciaes. — Questões com o 
papa acerca do censo. — Esforços de Sancho para po- 
voar e defender o reino. — Morte da rainha D. Dulce. 

— Xovas guerras com Leão. — Negociações politicas 
entre Inglaterra, França, Castella e Portugal. — Desen- 
volvimento da força interna. Colónias estrangeiras. 

— Erecção de novos concelhos. — Fome geral. — Sancho 
prosegue no systema pacifico que adoptara. — Estado 
da Península, e causas da situação tranquilla de Portu- 



l38 HISTORIA DE POMUGAI. 

gal. — Casamento do infante Afíbnso, herdeiro da coroa^ 
com Urraca de Casteila. — Discórdias de Sancho com o 
clero. Phases e circumstancias da lucta. — O rei en- 
fermo. Reconciliação com os bispos do Porto e de 
Coimbra. — Morte de Sancho. — Observações sobre o 
seu caracter e governo. 



TRÊS dias apenas eram passados desde que 
Affonso I fallecera quando seu íilho, que estava 
longe da corte do velho monarcha, chegou a Coimbra 
para subir definitivamente ao throno que elle fir- 
mara á custa de tantas fadigas (i). Sancho tomava 
sobre os hombros todos os encargos do laborioso e 
arriscado mister de rei em circumstancias em parte 
difficeis, em parte vantajosas. Reinava em Leão Fer- 
nando II, por quem, já em vida de seu pae, uma ou 
mais vezes elle fora desbaratado (2), sem que hoje 
seja possivel assignalar clara e precisamente as 
causas destas discórdias ou conhecer todas as cir- 
cumstancias que as acompanharam. Por outro lado 
as ultimas vantagens obtidas dos sarracenos, prin- 
cipalmente a desastrada morte de Y usuf e a disper- 
são do seu exercito, deviam gerar novos brios para 
repellir as tentativas dos almohades na recuperação 
do Gharb, boa .parte do qual Afibnso I lhes fizera 



(i) V idus decembris ing-ressus est rex Sancius Colim- 
briam. .. coepit que regnare in loco patris sul : — Chronic. 
Conimbr. ad aer. 1228. 

(2) Veja-se p. 90. Dous documentos de 1180 citados por 
Flores (Esp. Sagr., T. 16, p. 219 e T. 22, p. 99) falam de 
um destroço de Sancho, rei de Portugal, pelo de Leão, 
occorrido neste anno. E, comtudo, notável o silencio das 
memorias históricas, tanto de Portugal como de Leão e 
Casteila, sobre tal successo, accrescendo em contrario as 
probabilidades de Sancho andar por esta epocha envol- 
vido na guerra com os sarracenos. (V. ante p. ii3.j 



LIVRO III i39 

l)crder. As allianças de família com vários príncipes 
mais ou menos poderosos, o reconhecimento do titulo 
real que seu pae obtivera, emlim, da Sé de Roma, o 
cingir a coroa na idade já de trinta annos com larga 
experiência da guerra eram outros tantos motivos 
de esperança para Sancho I e para o jjaiz a cuja 
frente se achava, emfim, só. Antes, porém, que si- 
gamos o novo monarcha no meio dos vários suc- 
cessos do seu reinado, vejamos qual era o território 
que Aílbnso I desmembrara definitivamente de 
Leão para legar ao filho ou, por outra, quaes eram 
os limites de Portugal naquella ej)ocha. 

Aílbnso Henriques, como vimos no livro antece- 
dente, levara mais de uma vez as suas armas victo- 
riosas ao coração da Galliza até a conjunclura do 
desbarato em Badajoz. Não fora, porém, este infeliz 
successo que destruirá as probabilidades de se esten- 
der para o norte a monarchia fundada por clle : 
havia para isso uma causa permanente mais pode- 
rosa, A idéa de nacionalidade distincta que se radi- 
cara no animo dos povos d'áquem Minho, ao mesmo 
tempo que lhes dava força e unidade politica, era 
uma barreira moral que se ia alevantando entre 
elles e os habitantes do noroeste da Península, com 
quem, ainda não havia um século, tinham commu- 
nidade de pátria, de príncipes, dinteresses e de lin- 
guagem. Acontecimentos em parte calculados e pre- 
dispostos, em parte imprevistos, faziam cada vez 
mais distinctos os traços que separavam o novo 
estado da monarchia que lhe dera a existência. Na 
verdadô essa circumstancia ia gradualmente diffi- 
cultando o reconduzir Portugal ao grémio da socie- 
dade leonesa; mas também impedia a aggregaçào de 
qualquer território ou districto desta a Portugal. 
Emquanto as convulsões que agitaram o seio da 
Hespanha chrislan depois da morte de Aífonso VI 



l4o HISTORIA DE PORTUGAL 

não passaram de luctas entre os barões hespanhoes 
sobre qual seria mais poderoso ou mais influente, 
essas discórdias, posto tendessem a afírouxar e 
ainda a quebrar os laços sociaes, não podiam ter 
efleito radical e duradouro, porque o maior nu- 
mero, o povo, nada interessava nellas ou, antes, 
devia detestá-las por longa e dolorosa experiência. 
Todavia desde que a denominação d'estrangeiro, van 
perante a philosophia, insensata perante o christia- 
nismo, mas de que a ambição e a politica sabem em 
qualquer tempo aproveitar-se para os seus fins, íoi 
lançada como injuria reciproca de uma á outra mar- 
gem do Minho e se repetiu por todas as raias da an- 
tiga provincia portucalense, as multidões asso- 
ciaram-se aos ódios dos príncipes, fizeram suas as 
questões dos poderosos. Em nenhuma parte e cm 
nenhuma epocha a palavra estrangeiro serviu ao 
povo para designar simplesmente um facto politico : 
elle ajuncta sempre a este vocábulo a idéa de male- 
volencia, de desunião moral e, até, de rixas sangui- 
nolentas. Estrangeiro^ as mais das vezes, soa-lhe 
como inimigo. Um rio que passa entre duas aldeias, 
um marco posto em eras remotas ou por mão des- 
conhecida entre dous campos são para elle symbolo 
de guerra e fazem com que ao mais puro e gene- 
roso, talvez, dosaflectos humanos, o amor da pátria, 
associe uma paixão hedionda, o ódio irreflexivo e 
infundado contra os seus semelhantes. 

Deste modo, ao passo que a resistência ás inva- 
sões leonesas ganhava immensa energia, porque se 
estribava .num sentimento popular, as tentativas 
dos immediatos successores do conde Henrique para 
alargarem os seus territórios além dos limites de 
Portugal, ao norte e ao oriente, encontravam em 
sentido contrario a mesma repugnância ao jugo 
estranho que lhes servia a elles para salvarem a 



LIVRO III 



i4i 



própria independência. Apesar da supcrioiidade de 
<;orças que a velha monarchia de Pelagio jjodia em- 




— Gaslello de Lapelia. 



pregar contra o novo estado, não bastara a subjugá- 
lo o valor impetuoso de AíTonso Yll, nem o desar 
que daquelle facto resultava para o imperador obs- 



l42 HISTORIA DE PORTUGAL 

tara a que elle reconhecesse que esta parte da Penín- 
sula estava irrevogavelmente perdida para Leào. 
Porém, ao laestno tempo as frequentes entradas de 
AlToiis3 Henriques, por si ou pelos seus ricos- 
homenS; na (ialliza e na Estremadura leonesa ha- 
viam sido inteiramente infructuosas e tinham vindo 
terminar no successo de Badajoz que amargurou os 
seus últimos dias. 

Assim, quando Sanohc I tomou posse cahal da 
administração do reino, os limites boreaes e aus- 
traes de Portugal eram os mesmos que haviam sido 
na epocha do governo de seu pae, salvas as altera- 
ções transitórias que os eventos das guerras com 
Leão tinham pi*oduzido ou que trouxeram no seu 
reinado. Desde a foz do Minho até onde este rio s:^ 
interna hoje no território hespanhol elle era, como 
ainda é, a linha natural que estremava os dous 
estados. Os successos antecedentemente relatados 
nos mostram que Tuv oom o seu districto, que se 
dilatava pela margem direita daquellerio, pertencia 
aos leoneses, emquanto Alfonso líenriques, domi- 
nando na margem esquerda, fundava Lapella, não 
sabemos em que anuo, e Melgaço em 1181, e seu. 
filho povoava depois ('outrasla .Valença) em frente 
deTuy. De Melgaço a fronteira, fazendo um* angulo, 
descia de noroeste a sudoeste na direcção pouco mais 
ou menos da actual, como corre até Lindoso. D'alli, 
voltando numa nova linha para o oriente, corria 
pela extremidade dos dous disti-ictos em que se divi- 
dia, segundo parece, a parte mais septemtrional da 
j^rovincia de Trás-os-Montes, i^^to e, o de Montene- 
gro e ô de Bragaii.^a, e, rodeando 00 nordeste a 
capital deste ultimo dist.-icto, donde elle tirava o 
nome, ÍRclina\a-s> para o sul. ?^•e*sa direcçclo tor- 
na^a a bojar para o Tiasoente, abrangendo o terri- 
tório de Mirandij, até que, buscando oulrs v*z a. 



LIVRO lII 



143 



perpendicular sobre o Douro, vinha morrer na mar- 
gem direita deste rio no mesmo ponto, pouco mais 
ou menos, em que actualmente se estremam a Hes- 
panha e Portugal. Assim as divisões dos dous paizes 
Ibram, desde o? fins do reinado de Aílonso i, as 
mesmas, proximamente, que ainda hoje subsistem 




ai. — Caslello de Melgaço. 



desde a foz do Minho até o Castello d' Alva sobre o 
Douro. Da margem esquerda deste rio para o sul os 
limites do nosso j^aiz eram, porém, mais curtos, e a 
fronteira leonesa, estendendo-se á foz do Coa, se- 
guia-o no seu curso até a confluência do Pinhel e, 
tomando ao longo deste rio, talvez até a sua origem 
ou próximo delia, passava perto de Sabugal e de 
Sortelha, dirigindo-se ás íontes do Elga. O Elga 



l44 HISTORIA DE PORTUGAL 

formava d'alii ao Tejo a divisão entre os dous esta» 
dos como forma actualmente (i). 

Não é possivNel nem necessário íixar as estremas 
de Portugal, quer relativamente a Leão, quer aos 
dominios sarracenos, nos territórios ao sul do Tejo; 
porque ahi tudo era incerto e transitório. As con- 
quistas dos dous povos limitrophes e rivaes dila- 
tavam-se ou recuavam conforme as circumstancias 
os favoreciam ou aos seus communs adversários, 
os mussulmanos. E certo que entre Fernando II e 
AíTonso Henriques algumas bases, hoje desconhe- 
cidas, se tinham assentado, provavelmente em 
1160 (2), para lançar de antemão uma linha divisória 
que determinasse quaes districtos do Gharb deviam 
ser subjugados e unidos a cada uma das duas coroas ; 
mas é obvio que a realisação desse convénio, fosse 
elle qual fosse, dependia de muitas casualidades 
para não se fazer sobre isso grande fundamento. Q 
accrescimo ou a diminuição de forças de cada um 
dos dous estados, o que pendia da fortuna da guerra 
€, até, dos acontecimentos domésticos ; as diífe- 
renças de talentos militares e de actividade ou am- 
bição entre os respectivos príncipes ; as pretensões 
de Castella, á qual também ,importava prear na- 
quelle grande cadáver do islamismo hespanhol ; as 
aggressões dos almohades, que consideravam os 
diversos estados christãos como um único povo e 
que nas suas terríveis represálias obrigavam a re- 
cuar o dominio de uns ou de outros, sem curarem 
de indagar se o equilíbrio politico se conservava 
entre elles ; tudo isto, dizemos, impedia a certeza e 
permanência de direitos internacionaes quanto á 
demarcação de territórios, cuja conquista definitiva 



(i) Nota VII no fim do vol. 

(a) Yeja-se o que dizemos a p. 74 e a p. 3i5. 



LIVRO III 145 

ninda estava duvidosa. O Gharb, como todas a& 
outras províncias meridionaes da Península, era ura 
vasto campo de batalha, onde no meio das torrentes^ 
de sangue, das aldeias incendiadas, das tribus e= 
famílias não raro vagabundas e fugitivas, se via tre^ 
molar do alto dos castellos tomados, perdidos, reto- 
mados dez vezes e nas torres das cidades fortifi- 
cadas, que com a mesma frequência mudavam de 
senhores, ora o estandarte de Mohammed, ora o pen- 
dão de Chrísto. De que serviria pois fixar, se isso 
fosse possível, limites quando muito nomínaes e que 
os factos hoje confirmavam, mas que ámanhan des- 
mentiam? 

E ainda pelo que respeita ás províncias aquilo- 
nares e centrars de Portugal, o leitor conceberia 
uma idéa falsa acerca das fronteiras que acima lhe 
designámos pelo lado de Leão, se imaginasse que 
nos fins do século XII estas eram, como hoje, uma 
cousa precisa e definida. Nr»o o cremos ; porque 
isso fora assas extraordinário no meio da confusão 
que devia reinar ainda em todas as relações polí- 
ticas dos dous paizes límitrophes, os quaes tão 
poucos aiiEos antes formavam um só. Esse facto 
seria tanto mais extraordinário quanto a posse ou 
não posse de uma ou duas léguas cubertas de flo- 
restas e sarçaes ou de arruinados vestígios de antigas 
aldeias gothicas menos podia importar á cubica e 
ciúme dos príncipes de um ou de outro paiz. Os 
dístríctos onde o domínio dos christãos se havia 
irrevogavelmente firmado, foram, não havia dous 
séculos, theatro de scenas análogas ás que -ora se 
representavam no Alemtejo e na Andalusía. Era 
forçoso que os povos da Hespanha, quer da raça 
arabe-maurítana, quer da romano-goda, se tivessem 
habituado a considerar como absolutamente incerto, 
e por consequência sem valor real, o domínio de 



l46 HISTORIA DE PORTUGAL 

k qualquer território aberto ás invasões dos inimig-os, 
^ no qual não houvesse uma povoação forte, um cas- 
tello, uma torre ao menos, onde, ao passarem essas 
continuas vagas de assolação e raorte, j)odessem, 
salvar as vidas e os seus pobres haveres. Da força 
das cousas, da jírorogaçào daquella cruel lucta, á 
qual não seria então faeil calcular o termo, nasceu 
um facto necessário no systema de povoação : a 
agricultura devia ser exclusivamente annual, tran- 
sitória, e, digamos assim, nómada; e ainda, apesar 
disso, os resultados do trabalho agrícola tinham de 
ser muitas vezes nullos. Os documentos daquella 
epocha, principalmente os dos concelhos das fron- 
teiras, nos dizem que o ir roubar ou destruir as 
propriedades e, sobretudo, as searas dos inimigos 
era uma empreza que se renovava quasi annual- 
niente. Não esquece nos foraes, como a seu tempo 
veremos, o estabelecer regras para a divisão das 
presas, quer fossem feitas em terras de christãos, 
quer em terra de infiéis. O que d'aqui resultava é 
obvio : os terrenos aftastados de algum logar forte, 
onde o agricultor podesse rapidamente salvar- se a 
si e aos productos da sua industria, tinham -se tor- 
nado forçosamente maninhos : a cultura cingia 
apenas as povoações acastelladas ; o mais era um 
deserto. Quando nos foraes dos séculos XII e XIlí 
se vão seguindo aquellas extensas demarcações dos 
termos dos concelhos ( princij^almente dos situados 
no sul do reino I que se dilatam por muitas léguas 
em faixas tortuosas e enredadas: quando vemos fre- 
quentes vezes indicarem-se ahi como balisas apenas 
a penedia dentada que orla o espinhaço das serras, 
o carvalho que nasceu insulado, a i^elha 3strada 
mourisca, a pedra que sobresae eiitre as outras pela 
sua cor, a torrente que se despenha pelas ladeiras, 
o rio que passa entre as brenhas, o villar antigo a 



LIVRO III l47 

que já se não sabe o nome, porque não ha lá quem 
o diga, e jamais o casal, a courella, a habitação 
humana, quasi que sentimos aquelle zumbido que 
o excesso do silencio parece produzir, e como 
que nos opprime o espirito um sentimento indefi- 
nido de solidAo. Tal era o paiz. A's circumstancias 
politicas que obrigavam os liomens a agglomerar- 
se em grupos accrescia o rareá-los a guerra ; e, 
como se a guerra, incessante e implacável, não bas- 
tasse, as fomes frequentes naquellas eras, não só na 
Península, mas também na Europa inteira, e a 
peste não menos repetida, augmentavam os obstá- 
culos para que a população, trasbordando dos 
logares fechados, se fosse dilatando solta pelos 
campos, principalmente nos districtos extremos do 
território, tanto para o lado de Leão, como p<ira o 
-dos sarracenos. 

Assim, não era uma linha precisa ou uma serie 
de pontos fixos que determinavam rigorosamente as 
fronteiras nos fins do século XII, epocha em que 
ainda as discórdias entre portugueses e leoneses 
constituíam o estado permanente dos dous reinos é 
cm que a paz só se dava como excepção. As po- 
voações fortes e os castellos mais avançados, de uma 
c d'outra parte, eram os padrões que indicavam até 
onde iam os dominios das duas nações; e, se esses 
logares deixavam entre si algum extenso tracto de 
terra deshabitado, é provável que no maior numero 
de casos nenhuma das partes podesse dizer por 
onde, no meio das charnecas e mattos, devia passar 
a rai-i- dos dous paizes. 

As circumstancias que prohibiam a fixação pre- 
cisa das fronteiras e de que, além disso, resultava 
\\m damno incomparavelmente mais grave, o da 
falta do aiigniento natural da x^opulação e do desen- 
volvimento da industria agrícola, tinham indirec- 



l48 HISTORIA DE PORTUGAL 

tamente uma consequência útil, o darem vida e 
energia ao espirito manicipal. Os concelhos eram 
outras tantas socie-dades que se formavam, li^^adas 
por direitos, por interesses e, sobretudo, por tra- 
balhos e perigos communs. Noutro logar teremos 
occasião de desenvolver largamente a historia dessa 
grande instituição, o municipio, legado o mais pre- 
cioso que a Península herdou do dominio romano 
Notaremos só aqui de passagem que os nossos pri- 
meiros reis, constrangidos pela força das causas 
que apontámos a multiplicarem estes grémios po- 
pulares, brevemente sentiram que elles eram a 
barreira mais forte contra as aggressões d'estranhos 
e ao mesmo tempo um seguro instrumento de go- 
verno, do qual se ajudavam, não só para crear um 
systema de repressão contra as classes privilegiadas, 
mas também para augmentar o numero de soldados 
não-pagos, tão necessários no meio de uma existên- 
cia de continua guerra. 

Fernando II, rei de Leão, não chegou a sobrevi- 
ver três annos ao sogro, e este periodo decorreu 
sem que entre elle e Sancho I houvesse discórdias 
de que os monumentos coevos façam menção. Se é 
certo que na entrada de Yusuf em 1184 o rei leonês 
se não contentara com a vinda do arcebispo de 
Compostella a soccorrer Santarém, mas pessoal- 
mente marchara contra os almohades, este nobre 
proceder devia minorar quaesquer resentimentos 
mútuos que existissem entre elle e o cunhado. Na 
verdade, um documento de 1187 poderia fazer sus- 
peitar que no outono desse anno o rei de Portugal 
se dirigia ás suas fronteiras do norte para as defen- 
der de algum ameaçado commettimento. Aíora, 
porém, este duvidoso vestígio, nenhum outro nos 
auctorisa a suppôr a existência de perturbações 
entre os dous paizes, e o silencio dos documentos ó 



LIVRO III 1^9 

confirmado pelo das chronicas mais próximas da- 
quelles tempos 1 1). 

A gueiTa com os sarracenos também se limitara 
9. tentativas de menor importância desde a morte 
de Yusuí. Yacub Abu Yusuf, que lhe devia sucee- 
der no império, transportara a Salé o cadáver de seu 
pae e só ahi publicara oíTicialmente a morte de 
Yusuf, fazendo-se acclamar amir-al-mumenin (1184). 
Príncipe de dotes não vulgares e superior aos seus 
predecessores da dynastia almohade, senão pelo 
valor, ao menos por talento e cultura, o novo senhor 
do império de Marrocos dedicou-se inteiramente 
nos primeiros tempos do seu governo a segurar a 
coroa e a melhorar a administração interior dos 
vastos estados que herdara. Persuadido de que dous 
irmãos seus conspiravam contra elle, seguindo as 
tradições sanguinárias da politica mussulmana, 
mandou-os matar e teve de aííogar em sangue uma 
revolta que nessa conjuncção rebentara na Africa. 
Assim, entretido com graves cuidados, deixou res- 
pirar ijor algum tempo os principes christãos da 
Hespanha (2). 



(i) ... quando ibat rex D. Sanchio pro a S. Pelagio do 
Piconia: docum. d'outubro da era 1220 (Chancell. de Aff. III, 
L. 2, f. 4)- Esta circumstancia de ir o rei ao castello de 
Piconha, mencionada como notável na simples doação de 
uma igreja, e a palavra pro, que parece indicar ajuda ou 
soccorro, são o fundamento desta suspeita, a que se oppõem 
o silencio de Lucas de Tuy, de Rodrigo Ximenes e da 
Crónica General. 

(2) Abd-el-halim íVers. de Moura, p. 286 e segg.) — 
Conde, P, 3. c. õo ad íin. e 5i in princip. — Ibn Khaldun 
diz que antes de Yacub partir de Sevilha mandara seu 
irmão Abu Yahya contra os christãos e que este fizera 
grandes estragos e tomara muitas fortalezas. O silencio do 
anonymo citado por Al-makkari (Vers. de Gayangos, Vol. 2, 
p. 320) e o testemunho positivo de Abd-el-halim e do» 
AA. seguidos por Conde invalidam o de Ibn Khaldun ; 



HISTORIA DE PORTUGAL 

O período de dous annos que ainda antecedeu á 
morte do rei leonês Sancho I parece ter-se dedicado 
activamente a prover ás necessidades internas do 
j^aiz, começando a restaurar desertas ou quasi de- 
sertas ruinas de antigas povoações ou a fundar 
novos castellos e villas; estas destinadas a entrar no 
vasto systema municipal, cuja importância e fins 
sociaes apontámos acima resumidamente ; aquelles 
a serem padrastos contra as tentativas de Leão ou 
centra as assoladoras invasões dos sarracenos. A 
esta epocha pertencem os foraes de vários concelhos 
estabelecidos jjrincipalmente nos districtos orientaes 
da Beira, e a essa conjunctura se poderiam attribuir 
também outros dados pelo mesmo príncipe e cuja 
data precisa se ignora (i). Postoque também, até 
certo ponto, coubesse a AÍTonso I o epitheto de po- 
voador, que exclusivamente a posteridade attribuiu 
ao filho, é indubitável que desde o principio do seu 



sobretudo o de Abd-el-halim; porque, segundo Gayangos, 
a sua historia não é mais que um resumo da de Ibn Abi 
Zara, escripta pelos annos de i3io, e por consequência 
anterior á de Ibn Khaldun (Gaj^angos, Vol. í2, p. 5i6. 
Veja-se também a este propósito o prologo de Conde). O 
único modo de salvar a relação deste é suppôr que se 
refere á tentativa feita contra Lisboa, narrada pelo chro- 
nista Radulfo de Diceto, mas exaggerando-a e desíigu- 
rando-a (Veja-se p. ia6). Também é possível que se retira 
á invasão de 1188 a que adiante nos havemos de referir. 
(i) Os foraes deste período são os dado* a Gouveia, 
Covilhau, Viseu, Bragança, Avô, Felgosinho, t Valhelhas 
(Dissert. Chronol., T. 3, P. i, n." 067,569, 5^4, 577, õ8i, 582, 
591). São, talvez, desta epocha também os de Villa-franca 
(que do seu contexto parece ser no distrícto da Idanha) e 
o de Penaruiva (Arch. Nac, M. 3 de For.. A., n.» 11— Gav. 
i5, M. 10, n." i4). Em 1186 trocou Sancho i uma herdade 
em Laedra pela Villa de Vimioso no território do seu cas- 
tello de Ulgoso, que era perto da fronteira de Trás-os- 
Montes, ao nordeste (Ghancell. de Aíf. III., L. a, f. 70 v.). 



LIVRO III l5l 

reinado Sancho cuidou seriamente de uma das mais 
graves necessidades publicas, a repovoarão de terri- 
tórios assolados por guerras que duravam havia, 
não annos, mas séculos. Ao passo, porém, que elle 
buscava assim promover o augmento da força po- 
pular e, portanto, novos recursos para a manuten- 
ção do estado, tractava de empregar os outros meios 
que a politica, os costumes e as circumstancias do 
tempo aconselhavam para a defensão do paiz. Entre 
esses meios o augmento das ordens de cavallaria, 
desse monachismo militante a cujo espirito guerreiro 
as monarchias christans de Hespanha deveram em 
boa parte a ex^^ulsão dos sarracenos, era um dos 
mais eíTicazes. Estes monges soldados, entre os 
quaes a disciplina monástica suppria até certo ponto 
a falta de disciplina militar, bem pouco adiantada 
naquellas rudes eras, forçosamente levavam por 
isso vantagem aos outros homens d'armas e caval- 
leiros, a quem nos combates deviam faltar muitas 
vezes o nexo da obediência e a força que resulta da 
unidade e simultaneidade de acção. Para a defesa 
dos castellos que se incumbiam á sua guarda, 
doando-lhes o dominio temporal delles, nenhuma 
outra guarnição poderia ser mais própria; porque 
esse logar forte ou castello convertia-se ordinaria- 
mente numa preceptoria ou commenda ímansio), e 
os freires que ahi residiam, no seu duplicado carac- 
ter de monges e de cavalleiros, a consideravam 
como uma espécie de solar e de convento, de modo 
que, reduzidos á defensiva, o sentimento de affecto 
que nos costuma prender ao lar domestico lhes 
redobrava esforço e brios. Em relaçãv. aos outros 
estados christãos limitrophes a influencia e o en- 
grandecimento que as ordens obtiveram em Portu- 
gal durante os séculos XIÍ e XIII trouxeram graves 
inconvenientes a este paiz em consequência da su- 



l53 HISTORIA DK PORTUGAL 

jeição das preceptorias portuguesas aos mestre» 
respectivos (procuratores, ministri), ordinariamente 
residentes em Leão ou em Castella e súbditos de 
reis estranhos, mas em relação á lucta com os mus- 
sulmanos aquellas instituições eram de summa 
utilidade para a monarchia. 

Além das ordens hierosolymitanas do Templo, 
do Hospital e do Sepulchro, que já existiam ampla- 
mente dotadas desde o reinado antecedente e cujos 
primeiros vestígios remontam ainda a epocha de 
D. Theresa, alguns membros da ordem castelhana 
de Calatrava tinham entrado em Portugal pelos 
annos de 1166 e vindo, segundo parece, fazer o seu 
primeiro assento em Évora, então conquistada, to- 
mando depois promiscuamente o nome de freires de 
Évora e de freires de Calatrava. Uma nova ordem 
fora entretanto fundada em Leão por Fernando II, 
a de Cáceres, Uclés ou Sanctiago. Apesar da supe- 
rioridade dos templários, superioridade que transluz 
do complexo dos documentos relativos ás diversas 
corporações monastico-militares, e apesar de Af- 
fonso I haver de antemão doado ao Templo a terça 
parte de tudo o que se fosse conquistando além do 
Tejo, Sancho I julgou opportuno entregar aos freires 
de Cáceres os castellos de Alcácer, Palmella, Almada 
e o da yilla da Arruda, villa cujo senhorio tinham 
desde 1172, se a doação que delle lhes fora feita 
por Aílbnso I chegou a realisar-se. Ao mesmo tempo 
mandou occupar por cavalleiros de Calatrava o de 
Alcanede e a villa de Alpedriz na moderna Estre- 
madura e lhes assegurou o dominio da fortaleza de 
Jurumenha, logo que fosse conquistada aos sarra- 
cenos que então a senhoriavam (i). 



(i) O que dizemos aqui acerca das ordens militares s-rá 
tractado em logar opportuno com a extensão conveaiento 



LIVRO III i53 

Postcque ainda no vigor da idade, o rei de Leão 
veio a fallecer nesta conjunctura em Benavente 
(janeiro de 1x88) (i). Um filho, o infante Affonso, 
fora o único fructo do seu primeiro matrimonio com 
a irmande Sancho I, D. Urraca, da qual se apartara 
ou por obediência ao papa, que havia condemnado 
aquelíe consorcio em razão do parentesco, ou, o 
que é mais provável, por causa das longas discór- 
dias que tornaram mútuos inimigos Aflbnso Hen- 
riques e seu genro. Separado de D. Urraca, Fer- 
nando II tomara por mulher D. Theresa, filha do 
conde Nuno de Lara e neta do celebre Fernando de 
Trava, que tanto figurou em Portugal. Fallecida 
€sta sem filhos, terceira vez casou o rei de Leão, 
buscando para esposa outra D. Urraca, filha do 
Senhor de Biscaia, o conde Lopo Dias de Haro. 



c á vista dos documentos. As doações á ordem de Sanc- 
tiago ou dos spatharios e á de Calatrava acham-se no 
Arch. Nac, M. 12 de For. A., n.» 3, f. 60 v. e 6a e, além 
disso, as feitas á de Sanctiago num extenso rolo iGav. 5, 
M. I, n»' 14 a 46), espécie de cartulario do século XIII em 
que vem transcriptos os titulos mais antigos da ordem. 
Entre elles é o primeiro na data este a que nos referimos, 
circumstancia que nos assignala a epocha da fixação defi- 
nitiva dos spatharios em Portugal; porque a doação da 
Arruda M. 11 de For. A., n° 3, f. ;6) feita por Affonso 1, 
um ou dous annos apenas depois da fundação da ordem, 
postoque genuina, é o único vestigio indubitável da an- 
terior existência de freires de Sanctiago neste paiz, se é 
que ahi vieram estabelecer domicilio, pois que o silencio 
que a tal respeito guarda a doação de Sancho I faz sus- 
peitar que essoutra não se effeituara. Quanto á doação 
•de Jurumenha aos freires d'Evora, vè-se que era uma sim- 
ples promessa; porque ahi se diz ser feita « de illo cas- 
tello quod vocatur Alcanede et de illa villa quae vocatur 
Alpedriz et de illo alio quod vocatur Jurismenia, si mihi 
^um Deus dederit. » 

(i) Risco, Reyes de Leon, p. 3GÕ. 



l54 HISTORIA DE PORTUGAL 

Delia teve dous filhos, Sancho e Garcia, que íicarank 
de tenra idade. A infanta portuguesa, a abandonada 
rainha de Leão, vivia ainda ao tempo da morte d& 
Fernando, havendo tomado o véu num mosteiro de 
freiras hospitalarias. Como mais velho, era a seu 
filho que tocava a coroa leonesa, e, com effeito, 
Affonso IX (i) foi acclamado rei contando entãa 
dezesete annos de idade. Este successo parecia ser 
precursor de uma jDaz duradoura entre Portugal e 
Leão : D. Urraca saíra do claustro para a corte do 
moço principe, e a sua influencia, junctamente com- 
os laços do sangue que prendiam o novo rei ao de 
Portugal, deviam contribuir para uma concórdia 
sincera, mas aconteceu o contrario (2). 

Diz-se que D. Urraca de Haro, ultima esposa do 
principe fallecido, buscara ainda em vida deste 
dispor as cousas para que, excluido Aff'onso IX da 
successão, fosse chamado a ella Sancho, o mais velho 
de seus dous filhos, e accrescenta-se que, f)erseguido 
e desgostoso, o legitimo herdeiro do throno se diri- 
gia á corte de seu tio Sancho I a j^edir-lhe protecção 
quando no caminho lhe chegou a nova da morte do 
pae; que, finalmente, havendo voltado, o infante 
obtivera a coroa a desj)eito das tentativas da ma- 
drasta, a qual debalde procurou abalar a fidelidade 
de seu irmão, o alferes-mór Diogo Loj)es de Haro, 
para que alevantasse o estandarte da revolta a favor 



(j) Ou mais propriamente Aííonso VIII, porque o impe- 
rador seu avô fora o VII cm Leão e Castella. Mas como as 
duas coroas se haviam dividido, e em Castella reinava 
outro AíTonso VIII, os historiadores dão geralmente ao 
leonês a designação de IX, confundindo as duas dynastias^ 
que em breve tornaram de leito a ser uma só com a 
accessão de Fernando III ao throno. 

2) Flores, Reinas Cathol., T. i, p. Sub a 333. — Salazar^ 
Hist. de la Casa de Lara, T. 3, p. 16. — Risco, op. cit.^ 
p. a64 e segg. 



LIVRO III l55 

do sobrinlio (i). A serem estes factos verdadeiros» 
do que duvidamos (2), elles nos otTereceriam uma 
explicação natural das hostilidades de Sancho I 
contra o joven principe, que para obter protecção 
na desgraça teria feito promessas, as quaes, fir- 
mado no throno, não quereria cumprir. Fosse o que 
fosse, é certo que apenas Aílbnso IX começou a rei- 
nar viu-se ao mesmo tempo ameaçado pelo tio e 
pelo rei de Castella. Ainda suppondo, como o arce- 
bispo de Toledo parece querer significá-lo, que o 
joven monarcha dera algum aso a este proceder 
violento e jíouco generoso dos dous príncipes limi- 
trophes i3), o mais de crer é que debaixo de plau- 
síveis pretextos a causa verdadeira da guerra fosse 
a ambição, que tanto o rei castelhano como o por- 
tuguês esperavam facilmente satisfazer á custa de 
um mancebo inexperiente na arte de governar e no 
tracto das armas, vingando-se ao mesmo tempo no 
filho de Fernando II, aquelle das oppressões que o 
rei leonês lhe fizera sup portar em circumstancias 
análogas, este das quebras por que elle e Aífonso I 
haviam passado nas antigas discórdias com o jDrin- 
cipe fallecido. Se acreditarmos um historiador ara- 
gonês, comparativamente moderno, mas que nesta 
parte parece ter consultado algum documento coevo, 
Sancho procurou renovar allianças antigas com seu 
cunhado o rei de Aragão, mas, exigindo este que na 
novo convénio fosse incluído o principe leonês e re- 



(i) Cron. Gener., f. 392. — Marianna, Hist. d'Esp., L. ii^ 
e. 17. — Flores, op. et loco cit. 

(2) Nota VIII no íim do vol. 

(3) Hic (scil. Aldephonsus) fuit homo pius, strenuus et 
benignas, sed successionem (aliás sussiirroniim) çicissitu^ 
dine matabatur, et a consobrino suo Aldephonso rege Cas- 
telke et Saneio rege Portugalliae infestatus circa princi^ 
piurn regni sui : Roder. Tolet., L. VII, c. 24- 



l56 HISTORIA DE PORTUGAL 

cusando-se a isso o de Portugal, os embaixadores 
Toltaram de Saragoça sem haverem coneluido a sua 
missão (i). 

Incapaz de se defender contra os dous perigosos 
adversários que o ameaçavam, o rei de Leão resol- 
veu lançar-se nos braços de um delles para conter o 
outro por esse meio. O mais poderoso, não só pela 
grandeza relativa dos seus estados, como também 
pela reputação de muitas victorias, era Aftonso VIII 
de Castella, ao passo que Sancho, o menos forte dos 
dous, tinha-o repellido. Foi, portanto, preferido o 
castelhano. Entaboladas as negociações, Affonso IX 
dirigiu-se a Garrion, onde então celebrava cortes o 
primo. Tractava-se nellas de rivalidar definitiva- 
mente as condições do contracto matrimonial de 
"Gonrado, filho do imperador de Allemanha, com 
Berengaria, filha mais velha de AíTonso VIII. Nessa 
-conjunctura o successor de Fernando II foi armado 
cavalleiro por seu primo, humilhando-se a ponto de 
lhe beijar a mão. Assim o novo rei leonês se reco- 
nhecia de certo modo dependente do rei castelhano, 
sendo aliás tão grande o ciúme que os príncipes da 
Hespanha tinham em não receberem de outrem o 
grau de cavallaria, armando-se, como vimos antece- 
dentemente, por suas próprias mãos (2). 

Passavam estes acontecimentos no estio de 



(i) Çurita, Annales de Aragon,L. 2, c. 43. O apontar este 
historiador, aliás um dos mais exactos da Hespanha, o 
legar da embaixada e os personagens que ahi estavam 
presentes persuade que sobre este suceesso existia algum 
■diploma ou memoria que Çurita consultou. 

(,2) V. T. II, p. 114. — Sobre este paragrapho consulte-se 
R. Tolet., loc. cit. — Esp. Sagr., T. 26, p. 287 e os docu- 
mentos em Sota, App. n» 47- — Berganza, T. 2, p. 119. 
— Escalona, App. 3, n." 196 e 197. 



LIVRO III 167 

1188 (i). O rei de Portugal devia conceber graves 
receios da alliança que a solemnidade celebrada 
em Carrion firmava entre Leão e Castella. Pelo 
menos, era um facto que o constrangia a proceder 
com moderação exterior acerca do sobrinho. Foi o- 
que succedeu ; porque nenhuns vestígios subsistem 
de que as dissensões começadas com o moço 
AíTonso IX progredissem por esse tempo, antes 
pelo contrario, durante aquelle anno de 1188 o 
paiz parece ter gosado de tranquillidade profunda. 
A guerra civil em que ardia a Africa tornava pouca 
provável alguma séria tentativa dos almohades 
para se melhorarem da quebra de reputação e da 
immensa perda que tinham padecido em 1184. 
Assim, não só para Portugal, mas também para os 
outros estados vizinhos raiavam dias de paz. 

A nova, porém, de um successo deplorável 
retumbara então de um a outro extremo da Europa 
e arrancava lagrymas de furor e de angustia a 
todos os seguidores do Evangelho. Na batalha de 
Tiberiada ficara captivo Guido de Lusignan, rei de 
Jerusalém, o seu exercito fora anniquilado, e o lenho 
da cruz caíra em poder do terrível Saladino, que 
reduziu successivamente quasi todas as cidades e 
fortalezas da monarchia christan da Syria, cercando 
emfim a capital, que não tardou a capitular (outu- 
bro de 118;). Tyro e Tripoli escaparam apenas á 
conquista sarracena. Narrados na Europa estes 
desastres com todas as circumstancias, verdadeiras 



(i) Rodrigo Ximenes (loc. cit.) nos diz que a ceremonia, 
fora em Carrion. No documento publicado por Sota n.°47) 
o imperador de Allemanha obrigou se a mandar em maia 
seu lilho para Hespanha, e este recel)eu também o grau 
de cílvalleiro em Carrion depois de AíTonso IX Do docu- 
mento 197 de Escalona se vê que, efíectivament©» 
AíTonso YIII alli residia em julho de 1188. 



l58 HISTORIA DE PORTUGAL 

oa fabulosas, que podiam excitar a indignação e o 
horror numa epocha de crenças ardentes e de 
paixões enérgicas, a agitação que produziram foi 
extraordinária. O papa Urbano III faileceu nesta 
conjunctura, dizem alguns que da magua que lhe 
causaram os lastimosos successos do oriente. Gre- 
gório VIII, que lhe succedeu, era sujeito de fé 
viva e de costumes severos : estava por isso talhado 
para renovar a febre moral que gerara a primeira 
€ a segunda cruzadas. Nas encyclicas dirigidas por 
elle a todos os principes e fiéis e nas bulias parti- 
culares sobre este objecto transluz a afílicção do 
chefe da igreja pelo captiveiro dos sanctos logares 
e a indignação do homem religioso e honesto contra 
a perversidade dos costumes, as discórdias dos 
reis, a corrupção do sacerdócio, dos grandes e do 
povo, ao que na simplicidade do seu coração elle 
attribuia as desgraças de Jerusalém. Chamando ás 
armas todos os guerreiros do christianismo para a 
redempção do sepulchro do Salvador, ao mesmo 
tempo que recommendava a emenda e a penitencia, 
punha debaixo da protecção especial da Sé ajDosto- 
Vj liça as famílias e bens daquelles que se alistassem 
»'^ para tão piedoso fim, suspendendo, até, os litígios 
que lhes dissessem respeito, ao passo que o colle- 
gio dos cardeaes declarava excommungado e mal- 
dicto de Deus qualquer príncipe christão que a 
outro fizesse guerra d -irante sete annos . Gregório VIII 
não alcançou todavict o efleito das suas diligencias, 
fallecendo nos fms de 1187 com dous meses incom- 
pletos de pontificado. Clemente III, que lhe succe- 
deu, proseguiu activamente no empenho do seu 
antecessor e teve a fortuna de ver, emfim, esse 
empenho realisado (i). 



(r) Mansi, Collect. Concil., T. 22, p. 527 e segg. — Baro> 



LIVRO III 



109 



Sancho I parece ter cedido momentaneamente ao 
impulso geral, e que chegara a resolver a sua par- 
tida para a cruzada. Talvez o assegurasse do temor 
que podia ter dos sarracenos em Portugal a severa 
licção que elles haviam recebido em Santarém, a 
decadência dos mussulmanos hespanhoes, as revol- 
tas em que os almohades andavam envolvidos na 
Africa e, da parte dos príncipes christãos, as amea- 
<;as de Roma contra os que entre si movessem 
guerra naquella conjunctura. Torna plausível esta 
suspeita um documento desse mesmo anno de 
1188. E um testamento do rei de Portugal. Na 
força da vida, no meio da j)slz elle prevê ahi a 
possibilidade de morrer em logar incerto ou de 
ficar captivo, o que presuppòe o intento de longa e 
arriscada viagem, estabelece a ordem de successão 
e previne o modo de conservar os thesouros que 
possuia, até que o seu successor chegue á idade da 
razão. Habituado a combater todos os dias com os 
sarracenos da Península e d'Africa e, o que mais é, 
a vencê-los fosse qual fosse a empreza que deli- 
neava, taes precauções indicam ter ella sido bem 
extraordinária (i). 

Se, porém, o pensamento de Sancho I era imitar 
seu avô associa^ido-se á tentativa que mais gloriosa 
se julgava naquelle tempo, a expedição de ultramar, 
este príncipe achou, segundo cremos, resistência 
no paiz, assim da parte das ordens do Templo e do 



nius, Annales ad ann. — Raumer, Gesch. der Hohenst.» 
T. 2, p. 418 e segg. — Michaud, Hist. des Crois., L. VII ad 
<in. Que todos os príncipes christãos íbram convocados 
para a cruzada dizem-no expressamente a chronica de 
Trevas, ap. Martene, Ampliss. CoUect., T. 4, p. 222, e o 
continuador de Guilherme de Tyro .Ibid., T. 5) L. 23, c. 34, 
(i) Nota IX no fim do vol. 



ibG HISTORIA DE PORTUGAL 

Hospital, que melhor conheciam os perigos e diffi* 
culdades daquellas guerras, como de muitos 
cavalleiros e burgueses. Apesar, emfim, de ter 
punido severamente os contumazes, não levou a 
effeito os seus intentos, "alvez porque as circums- 
tancias pouco tardaram « m mudar-se (i). Entre os 
christãos de Hespanha e as raças árabe e africana 
que lhes disputavam palmo a palmo a i)osse deste 
solo ensanguentado poda o cançaço dar tréguas 
aos combatentes, mas longa paz era cousa impossi- 
vel. Yacub, que devia guardar viva na lembrança 
a morte de Yusuf e o desbarato do numeroso exer- 
cito almohade na invasão de 1184, fora assas feliz 
para subjugar os levantados da Efrikia, fazenda 
reconhecer a sua auctoridade em todo o império. 
Tendo voltado triumphante a Marrocos no mês de 
regeb de 584 (setembro de 1188) emquanto tractava 
de aformosear a sua capital, ia recebendo informa- 
ções do estado das fronteiras mussulmanas do- 
Andalús e preparando-se para tirar vingança dos 
passados reveses. Effectivamente, na primavera da 
anno seguinte, transpondo o mar com as suas 
tropas, desembarcou em Algeziras e dirigiu-se para 
o occidente. Os escriptores árabes encarecem as 
devastações feitas pelo principe mussulmano na 
território português. Se os acreditássemos, o exer- 
cito almohade teria vindo acampar- se juncto dos 
muros de Santarém e, estendendo as correrias até 
Lisboa, houvera deixado terriveis signaes da sua 
passagem na assolação dos campos, no incendia 
das povoações e no captiveiro de milhares de indi- 
vidues (2). O nenhum vestígio deste successo nos 



(i) Veja-se a mesma nota IX ad fin. 

(2) Abd-el-halim, p. 288. — Con ]e, P. 3, c. 5i. — Ano- 
ny moafricano cit. por Al-makkari, Vol. 2, p. 820. — Ibn 



LIVRO III 161 

nossos m Dnumentos contemporâneos e a tendência 
dos historiadores, tanto árabes com^ cliristãos, 
para exagsi-erarem as vantagens do seu partido e 
attenuarenii as do contrario dào motivo bastante 
para nos persuadirmos de que a vinda de Yacub 
foi uma simples algara, sem que delia resultasse a 
conquista de algum castello ou povoação de nome, 
e tão fugitiva que, tendo elle transposto o Estreito 
nos fins de abril, estava de volta na cidade de Fez 
em septembro desse mesmo anno (ii. 

No presupposto de que o rei de Portugal se pre- 
parasse para passar ao oriente, é forçoso, não só 
que houvesse dado as providencias^pãrli o bom 
regimento do paiz durante a sua ausência e para 
occorrer a qualquer caso impensado, mas que 
lambem tractasse de ajunctar as tropas, armas e 
petrechos necessários, tanto para a expedição, 
como para a segurança do estado. Prevenido, pois, 
ainda que com fms bem diversos, p>ara a guerra, 
Sancho oppôs necessariamente aos almohades séria 
resistência, e a volta de Yacub á Africa, sem que 
podesse restaurar um de tantos castellos e cidades 
que Affonso I arrancara do poder dos mussulmanos, 
auctorisa as conjecturas com que somos constran- 
gidos a supprir a falta de monumentos nacionaes. 

A retirada do imperador de Marrocos não teria, 
comtudo, uma explicação assas plausivel, se não a 
ligássemos com os successos que occorreram então 
em Africa. Os historiadores árabes dizem-nos que 
Yacub Al-manssor (o victorioso, appelido que o 
filho de Yusuf tomara), chegando a Féz, ahi rece- 



Khaldun, como já advertimos, talvez se reíira a este 
successo, coUocando-o em uma epocha anterior. — Ibid. 
App. XLII. 
(I Idem, ibid. 

VOL. III. II 



1012 HISTORIA DE PORTUGAL 

bera aviso de que uma nova revolução rebentara 
nos distrietos orientaes dos seus estados. E crivei 
que Al-manssor tivesse indícios ainda na Penín- 
sula da' intentada revolução e que esse motivo 
juncto aos pequenos resultados da sua empreza o 
movessem a voltar para a Mauritânia (i). 

A guerra com os sarracenos tinha, pois, pela 
entrada dos almohades tornado a accender-se, e 
essa circumstancia constrangia Sancho I a mudar 
dintentos, abandonando a idéa de partir para o 
oriente. As considerações apresentadas por elle ao 
papa a este respeito e a attenção que ellas merece- 
ram á Sé apostólica, na conformidade do que refe- 
rem os antigos chronistas (2), são apenas uma tra- 
dição, mas tradição para a qual, acaso, houve 
fundamento legitimo. Fossem, porém, offerecidas e 
acceitas taes desculpas ou nada disso existisse, é 
certo que o rei de Portugal resolveu aproveitar a 
partida de Yacub para continuar as conquistas que 
no antecedente reinado tão longe se haviam esten- 
dido pelo Gharb. Das três províncias em que se 
dividia d'antes o occidente de Andalús (3) uma, a 
de Belatha, estava definitivamente unida ao terri- 
tório português : outro tanto não se podia dizer da 
de Al-kassr. Ao norte desta, Coruche era o ultimo 
castello da fronteira de que achamos memoria por 
aquelle lado, ao passo que o dominio christão se 



(i) Abd-el-halim e Conde locis cit. 

12; Pina, Chron. de D. Sancho I, c. 6. Apesar do ana- 

chronismo com que o historiador attribue estes successos 

O '^ ao pontificado de Innocencio III, todavia parece da pas- 

\i^ sagem em que allude a tal matéria que Fernão Lopes, a 

quem Pina provavelmente ou copia ou resume, vira a 

correspondência com a cúria romana sobre esse negocio 

ou pelo menos tivera noticia da existência delia. 

(ój T. II, p. i;o e se^ji,'. 



LIVRO III i6!l 

«stendia até Évora no centro da província. Para o 
oriente, postoque Affonso 1 se houvesse apoderado 
de vários logares na margem esquerda do Guadiana, 
A desgraça de Badajoz lh'os fizera perder, segundo 
todas as probabilidades ; pelo menos, é certo que 
nos fins do século XII os sarracenos dominavam em 
Badajoz, e Sancho I esperava ainda ensejo de tomar 
Jurumenha, ao mesmo tempo que as conquistas de 
Leão, levadas por Fernando II muito para o melo- 
dia do Tejo, recuavam outra vez para além da 
margem direita deste rio, vindo os lioneses só no 
principio do século seguinte a occupar de novo os 
4 istrictos entre o Tejo e o Guadiana e, ao sul deste 
i'io, um vasto tracto de terra, onde Affonso IX fun- 
dava (ao nascente do ponto central do moderno 
Alemtejoi Salvatierra e Salvaleon. E' certo, j^orém, 
que ainda em 1202 os freires de S. Juliào do Pereiro 
« os de Sanctiago, princij^aes defensores desta 
fronteira, consideravam como um campo de batalha 
inteiramente precário toda aquella parte da Estre- 
madura hespanhola que jaz ao meio-dia deCoria(i). 
Nesta conjunctura uma circumstancia casual 
veio incitar o animo do rei português a realisar os 
seus designios de conquista. Trouxeram-na os 
acontecimentos do oriente. As diligencias de Gre- 
gório YIII e de Clemente III para excitar o ardor 
dos guerreiros da cruz no empenho de resgatar os 
-sanctos togares tinham surtido o desejado effeito. 
Preparava-se tudo na Itália, em Flandres, na 
França, na Inglaterra, na Allemanha e ainda nos 
paizes mais septemtrionaes para a partida dos 



(i) Aanal. Toled. II ad anu. 1191, na Esp. Sagr., T. a3, 
p. 4o4- — M- 12 de For. A., n.° 3, t'. 62 no Arch. Nacion. 
— Ilod. Tolet., L. VII, c. 2Õ. — Lucas Tud., p. iio. — Doa. 
«m Manrique, T. 3,p. SgS, n.« 6. 



l04 HISTORIA DE PORTUGAL 

cruzados, uns por terra, outros por mar. Armadas 
mais ou menos numerosas desciam diariamente dí> 
mar do norte e, vindo ajunctar-se nos portos Je- 
íng"lateiTa ou de França com os navios destas 
nações, proseg-uiam na sua derrota ao longo das 
costas de Hespanlia, em «rujas povoações maritimas 
tomavam victuallias e refrescos ou buscavam aco- 
lheita contra os temporaes, para depois passarem •> 
Estreito e se engolfarem no Mediterrâneo. Os- 
portos de Galliza ou os de Portugal eram os mais^ 
acommodados ao intento, como dissemos falando das. 
anteriores cruzadas, e por isso se viam apparecer, 
ora nuns ora noutros, frotas após frotas, que con- 
duziam gentes de tão diversos paizes. Imjjatientes^ 
por combater os mussulmanos, fácil era mover 
aJguns delles a guerrearem os de Hespanlia, ^m 
cujas povoações, ainda ricas e florescentes, devia 
offerecer-se a esperança de mais avultados despojos 
do que na devastada Palestina. 

Abrindo a campanha ^ Sancho I era obrigado a 
attender á natureza e condições dos elementos que 
tinha de empregar para obter prospero resultado^ 
e entre estes um dos mais importaiit;\s consistia 
nestas forças dos cruzados, que facilmente faria 
associar aos seus desígnios pelo enthusiasmo reli- 
gioso e pela cubica. Gente coUeeticia, como aquella 
era, indisciplinada e dilferente entre si cm lingua, 
em pátria, em costumes e em 'udo, que c*ó de j)as- 
sagem vinha a Portugal buscar provisões ou esperar 
monção j)ara seguir avante, nem fora con\ eniente 
fazê-la penetrar no sertão, onde prf»vaveliDente 
deixaria iguaes vestígios de ruinas e estragos entre 
amigos e inimigos, nem era crivei que Jj í>eu& 
chefes concordassem em aflastá-la das orla^: dí> 
mar. Esta circumsian.-ia determinava necessaria- 
mente o theatre da gueni. A situada/ l? E^ >ia a^ 



LIVRO III i65 

centro da pro\incia de Al-kassr tornava assas 
incerta a sua conservação em quanta assim se 
achasse insulada a tamanha distancia das margens 
do Tejo, que eram os verdadeiros limites perma- 
nentes de Portugal. Com effeito, ao norte, oriente 
« meio-dia daquella cidade só se encontravam 
castellos e povoações, ou de que não havia sido 
possivel expulsar os mussulmanos ou que tinham 
voltado ao seu dominio ou que, finalmente, se 
achavam destruidos e ermos (i). As escacas e 
incertas memorias que chegaram até nós sobre as 
vicissitudes por que passou o moderno Alemtco 
nos últimos annos de Affonso I e nos primeiros 
tempos do governo do seu successor apenas nos 
habilitam para escrever por conjecturas ; mas, em 
geral, persuadem que as deploráveis discórdias 
com os leoneses não só influiram nas perdas que 
trouxe o infeliz successo de Badajoz, mas também 
annuUaram pela maior parte na provincia de 
Al-kassr as brilhantes conquistas do filho do conde 
Henrique. 

Assim, postoque uma invasão pelo norte de Évora, 
a qual, segundo parece, Sancho delineara primei- 
ramente, propondo-se accommetter Jurumenha, 
oílerecesse indubitáveis vantagens, as circumstan- 
cias que acima ponderámos obrigavam a dirio^i-la 
pelo sul, avançando para a provincia de Chenchir 
ou Al-faghar, que, sendo uma faixa de terra lançada 
ao longo do oceano, a uma distancia não demasia- 
damente eonsideravel da forte linha dos castellos 
fronteiros de Almada, Coina, Palmella e Alcácer, 
podia ao mesmo tempo ser accommettida pelos des- 
filadeiros de Monchique ao norte e pelas orlas do 
mar ao meio-dia. A conquista, pois, da pequena 

U) Nota X no íim do vol, 



lt)6 HISTORIA DE PORTUGAL 

provinda ou districto a que hoje chamamos Algarve 
foi desde então resolvida. 

Durante a quaresma de 1189 uma armada de cin- 
coenta a sessenta velas partira do mar do norte em 
demanda da Palestina. Transportava dez ou doze 
mil homens da Frisia e da Dinamarca, e entre os- 
seus chefes contava-se um sobrinho de Knud, rei 
deste ultimo paiz. Com ventos j)ropicios os cruzados 
chegaram dentro de poucos dias ás costas de Gal- 
liza e, aportando, provavelmente, na ria de Noia^ 
dirigiram- se por terra a Compostella, segundo era 
uso, para visitarem o templo de Sanctiago, um dos 
mais celebres logares de devoção e romagem de toda 
a Europa. O seu numero, o serem gentes em grande 
parte vindas das regiões septemtrionaes e cuja pre- 
sença as recentes devastações dos normandos deviam 
tornar suspeitosa, explicariam o successo que então 
occorreu. Fossem, porém, estas ou outras as causas 
delle, é certo que se espalhou a nova de que os 
l^eregrinos intentavam roubar a cabeça do apostolo^ 
cujos restos mortaes, conforme a antiga crença, alli 
se guardavam. Repellidos pelos habitantes daquelles 
districtos, foram obrigados a embarcar de novo com 
alguma perda e, seguindo a intentada viagem, vie- 
ram buscar abrigo, entrando no Tejo (i). Votados a 
combater com infiéis, fácil seria ao rei de Portugal 
fazê-los concorrer para a execução dos seus desí- 
gnios. Estava prestes uma armada portuguesa : 
partiu com a dos cruzados e, velejando junctas 
para o sul, dirigiram-se ás costas do moderno 
Algarve (2). 



(i) GodetVidi Annal., apud Freher., Rer. Germ. Scriptor. 
T. I, p. 35i. Ghron. Turon., apud Marlene. Ampliss. Coílect. 
V. 5, p. io3i e 1082. — Reinerus, Continuai. Lambert» 
Parvi, ibid. p. i4 — e a nola XI no fim do vol. 

(aj De Ilinere Navali ele, p. 11 (ediç. de Lisboa i844)» 



LIVPO III 167 

Esta província, que, como já tivemos occasião de 
advertir, os árabes denominavam Al-faghar a^.. 
Chenchir e cujas principaes povoações eram (^lielt 
ou Silves, capiral daquefles territórios, Sancta 
Maria e Tabira, povoações da beira-mar, e o fortís- 
simo castello de Mirtolah assentado sobre o rio 
lana ou Guadiana nos limites da província de Al- 
kassr, encerrava, além disso, muitos outros togares 
.liais ou menos fortes, mais ou menos populosos, 
principalmente j^erto das costas do oceano. Correndo 
para leste do cabo, chamado pelos sarracenos dos 
árabes e depois de S. Vicente, encontrava- se a 
pouca distancia a povoação de Chakrach 1 Sagres?) 
e vizinha delia a de Carphanabal, se nào era antes 
este o nome dado pelos christãos áquelle mesmo 
logar. A meia distancia de Chakrach a Chelb ficava 
a povoação de Zawaia com um bom porto, prova- 
velmente no território em que hoje existe e já então 
existia Lagos, vindo, tahxz, a ser tudo o mesmo. 
Na enseada de Lagos ao oriente ficava o castello de 
Aibur, e seguindo avante, pouco mais de uma légua, 
era a foz do rio de Silves, sobre cuja bahia, na margem 
direita, estava assentada Porcimunt, nome com que 
os christãos designavam a antiga povoação mus- 
súlmana de Portimão. Na costa que desde Portimão 
se vae prolongando para o nascente successiva- 
mente se encontravam Alboeira, Sancta Maria de 
Pharum iFaraon, Faroi, Tabira, Hisn Kastala 1 Ca- 
cei lai, e, passada a foz do Guadiana, dilatava-se a 
costa deserta até Chaltich ou Saltis lao sul de 
Huelva) cujos habitantes se haviam tornado cele- 
bres nas suas expedições marítimas contra a Gal- 
iza (II. Pelo sertão, voltando do Guadiana até o 



(I Histor. Compostell., L. i. c. io3. Alii se mencionam 
eomo corsários « lUspalenses, Saltenses Castellenses habi- 



l68 HISTORIA DE PORTUGAL 

Cabo dos árabes, o districto de Al-íagliar não estava 
menos povoado, existindo ahi já Loulé, Paderne, 
Messine, Estombar, Montagudo, Monchique e ou- 
tros togares, cuja grandeza, numero e importância 
seria iioje impossivel avaliar (i). 

Albur (Alvor) era um dos castellos mais fortes 
que guarneciam a orla marítima de Chencbir. O 
silencio de Edrisi, que delle não fala, descrevendo 
aquelles territórios apenas meio século antes, e o 
próprio nome do castello, Albur (charneca, baldio), 
indicam ter sido este alli edificado recentemente 
para servir de centro e defesa aos agricultores que 
viessem arrotear os campos vizinhos, d'antes in- 
cultos. Foi contra esse ponto que a expedição se 
dirigiu. Aterrados com o apparecimento de tão 
grande numero de velas e, provavelmente aífugen- 
tados dos campos e das aldeias pelos saltos que a 
gente da frota iria fazendo em terra, os sarracenos 
daquellas immedi ições que não haviam podido reti- 
rar-se para Silvei tinham-se acolhido a Alvor, onde, 
em vez de amparo, acharam a ultima destruição. 
Eram assas numerosos os christãos para não poder 
o castello fazer larga resistência. Levado á escala, 
os seus habitantes experimentaram a crueza dos 
vencedores, que, não perdoando a sexo nem a idade, 
puseram a ferro perto de seis mil pessoas, deixando, 
além disso, a povoação reduzida a um monte de 
ruinas. Depois a armada do norte, não querendo 
retardar a viagem, seguiu para o Estreito, acompa- 
nhada até lá pelos navios portugueses, que, retroce- 



tan!esde Hisn Kastala , Salvienses leg-e Silviensesi, Liabc* 
nenses. » 

I) Edrisi, Geograph. Vol. 2, p. í2I e se^g. — De Itinere 
Navaii, p. 43 e 45. — Nota XI, no íiiu do vol., e o que di» 
«emos no T. II, p. 170. 



LIVRO III 169 

<lendo ao lons^o da costa, trouxeram alguns sarra- 
cenos caplivos, emquantoos cruzados se engolfavam 
no Mediterrâneo com vento prospero e ricos dos 
despojos de Alvor (i). 

O resultado desta feliz tentativa redobrava a con- 
fiança de Sancho I ; mas era necessário aproveitar 
as vantagens que otlerecia o transito desses homens 
do sei3temtriáo cuja ferocidade lhes deslustrava o 
Talor, mas que pelo agigantado das formas, pela 
estranheza das armas e engenhos de guerra de que 
usavam, pela audácia, emfim, com que commetliam 
os muros mais fortes ou pelejavam no campo peito 
a peito, produziam temor no animo dos sarra- 
cenos (2t. Navios carregados de homens darmas^ 
saindo do canal dlnglaterra, sulcavam o golfo de 
Biscaia e abordavam á Galliza ou vinham entrar no 
Tejo ou, finalmente, passavam ao longo da costa, 
transpondo o Estreito e aportando depois em Itália» 
Para um golpe decisivo cumpria empregar simulta- 
neamente as forças de terra e as de mar que as des- 
graças do oriente e o enthusiasmo dos i)ovos da 
Europa agora proporcionavam. Emquanto, pois, 
occorriam os successos já referidos Sancho I reunia 
a gente de guerra portuguesa para com esses diver- 
sos elementos alargar as conquistas que seu pae com 
tanta gloria encetara. 



(i De Itinere Navali, p. 11 e i3. — Godefrid. Mon. loc. 
«it. 

2 Destes cruzados diz o A. anonymo da Brevis Historia 
Terrae Sanctae (Eceard, Corpus Hist. M. Aevi, T. 1. p. i3õ : 
« gentes bellicosae, próceres corpore, mortis intrepidae. 
bipennibus armatae, navibus rotundis, quse IsnacluiE di- 
cuntir, adveclae » : e Vinisauf Richardi R. Iter Lib. i, c. 27) 
pinta-os como insignes para a guerra com os infiéis por 
três dotes reunidos : ^ artus proceri, mens indómita, et 
lidei fervor devotus. » 



XyO HISTORIA DE PORTUGAL 

Na primavera deste anno (11891 haviam-se reu- 
nido em Inglaterra, no porto de Sandwich, trinta e 
sete navios vindos de AUemanha e de Flandres que 
transportavam muitos cruzados daquelles paizes. 
Capitaneava os allemães Ludwig, landgravio de 
Thuringia, e entre os chefes dos outros cruzados con- 
tavam-se Henrique, conde de Bar, Airard ou Ailrad^ 
conde de Braine, e vários cavalleiros mais ou menos 
illustres. Saindo de Sandwich, as naus de Flandres 
tomaram ao largo emquanto a armada alleman en- 
trava em Dartmouth e ahi recebia a seu bordo 
muitos peregrinos de Inglaterra, que em grande 
parte eram burgueses de Londres. Depois de se 
haverem demorado alguns dias nos portos de Gal- 
íiza, os allemães e os ingleses chegaram nos pri- 
meiros dias de julho a Lisboa, aonde já os navios 
flamengos successivamente haviam aportado. Eram 
ao todo trinta e seis embarcações com três mil e 
quinhentos homens de peleja, força, na verdade» 
muito inferior á que poucas semanas antes assigna- 
lara com sangue e ruinas a sua passagem pelas 
costas do moderno Algarve ; mas os elementos para 
proseguir a guerra naquella província com resul- 
tados mais importantes e permanentes estavam 
finalmente dispostos. O rei dos portugueses achava- 
se á testa de um exercito que diariamente engros- 
sava, e o commettimento de Silves, da opulenta 
capital de Chenchir, se fosse coroado de bom suc- 
cesso, traria em breve a sujeição dos castellos e po- 
voações de menos monta. Sancho tractou o negocio 
com os capitães estrangeiros, que se obri?.;aram a 
ajudá-lo na empreza debaixo da condição dt se lhes 
dar e aos seus o sacco da cidade. Feitos todos os 
preparativos, a armada portuguesa que voltara da 
expedição de Alvor e que se compunha de trinta e 
sete gales e navios de alto-bordo, além de grandd 



LIVRO III 171 

numero de sétias, unidas com as naus flamengas e 
allemans, ás qiiaes se associara uma galé de Ruas na 
Gailiza, saiu do Tejo a 16 de julho e dentro de qua- 
tro dias fundeou na babia de Portimão a duas léguas 
de Silves, acbando-se já acampada a pouca dis- 
tancia da cidade a vanguarda do exercito que 
partira por terra antecipadamente á saída da 
armada (i). 

As cercanias de Silves, esses férteis e bem culti- 
vados campos que bordavam as margens do rio^ 
tinham- se tornado ermas ao aproximarem-se os 
christãos. Os povos do campo haviam buscada 
abrigo nos muros da capital. Apenas chegadas» 
aquellas gentes indómitas do norte, em quem a sede 
de rapina era mais forte do que o sentimento reli- 
gioso, e, até, do que as considerações da prudência, 
saltaram em terra e começaram a derramar-se pelo 
sertão com o intento de saquear as habitações aban« 
donadas. Dous soldados de Braine, que se haviam 
desmandado dos companheiros, ficaram mortos no 
campo, alanceados por alguns almogaures que ainda 
por alli vagueavam, e, porventura, foram, segundo 
as idéas do tempo, considerados como dous mar- 
tyres. Roubadas as poucas alfaias que a população 
rural não poderá salvar, os cruzados acolheram-se 
ás naus, não sem reduzirem primeiramente a cinzas 
as aldeias vizinhas. Nessa noite uma sétia da frota 
portuguesa foi enviada pelo rio acima até o arraial 
do exercito, acampado a quatro milhas para o sertão^ 



(ij De Itinere Xavali, p. 10 e i3 : « noster exercitus tantum 
habebat... tria millia et quingentos cujuslibct ordinis vel 
aelatis viros. » « Ex prima enim eonvenlione nostra erant 
omnia niobilia. » Ibid. p. 89. Quanto ao dia da partida, c 
ao numero de velas portuguesas, Radulfo de Diceto, Ymag. 
llistor., p. 640 e 640; e quanto aoschelVs que damos á expe- 
dição dos cruzados, veja-se a nota XI, no íim do vol. 



172 



HISTORIA DE PORTUGAL 



com avisos ao chefe, o qual na tarde seguinte veio 
a bordo da armada conferenciar com os capitães 
estrangeiros. Tinha elle já observado as fortifica- 
ções de Silves e avaliado os recursos com que se 
devia contar. Não julgando estes sufficientes, pro- 
punha elle o accommetterem o castello de Gardea, 
cuja situação se ignora, mas que devia ser nestas 
jíaragens e não longe da beira-mar. O ódio contra os 
sarracenos ou, o que não é menos provável, a espe- 
rança de avultado despojo levou os capitães dos 
cruzados a seguirem o dictame contrario. Concor- 
daram todos finalmente neste voto, e, vindo o dia, 
os navios vogaram j)elo rio acima até onde a maré 
lh'o consentia, emquanto as tropas de terra prote- 
giam a subida prolongando-se pela margem (i). 

Depois de navegar algum tempo, aquella selva 
de navios parou. Não dava mais fundo o rio, e a 
cidade ostentava a sua vasta e soberba perspectiva 
aos olhos dos cruzados, que viam pela primeira vez 
ante si uma capital mussulmana. Silves era das 
mais importantes povoações da Península. A alme- 
dina ou cidade antiga, coroada da sua kassba ou 
castello (2), tomava a coroa de um monte, em cuja 
raiz se estendia uma planície pela margem direita 
do rio, na qual estava assentada a parte mais vasta 
da povoação, o arrabalde que por si só representava 



(i) De Ilinere Nav., p. i3 e i5. 

(2) Sub primum castrum Alcay dicebatur : De Itinere 
^^av., p. 17. — Esta phrase do anonjnio é demasiado obs- 
cura. Provavelmente houve erro na copia. Parece deve 
ler-se : Super primam (scil. civitalemi castrum Alcay dice- 
talur. O que é certo é que no systema militar daquelle 
tempo a alcáçova lal-kassba) sempre campeava sobre a 
Almedina, porque era o logar mais Ibrle. É isto mesmo o 
<jue a respeito de Silves nos provam os restos das antigaa 
fortificações. 



LIVRO III 



173 




1^4 HISTORIA DK PORTUGAL 

uma grande cidade. Comparada com Lisboa, Silves 
era muito mais forte, e em opulência e sumptuosi- 
dade de edifícios dez vezes mais notável. A abun- 
dância dos seus mercados e a elegância das habita- 
ções e do tracto dos moradores condiziam com o 
esmero da cultura dos arredores cubertos de hortas 
e jardins deliciosos. O seu commercio consistia prin- 
cipalmente em exportações de madeiras cortadas nas 
magnificas florestas que cubriam as montanhas vizi- 
nhas, e os figos de Chenchir, cuja capital era Silves, 
procuravam-se por todo o mundo como incompará- 
veis em doçura e bondade. Naepocha da colonisação 
sarracena aquelle districto fora repartido entre os 
árabes do Yemen, raça a que i)ertenciam não só os 
habitantes da cidade, mas também as gentes das 
alçarias ou aldeias circumvizinhas. Ainda no tempo 
de Edrisi se conhecia tanto nuns como noutros 
essa origem commum; porque tanto na cidade como 
no camj)o se falava um árabe extremamente puro. 
Distinguiam-se os camponeses por seu caracter hos- 
pitaleiro e generoso, e os moradores da povoação 
pela eloquência, pelo génio j^oetico e por certa viveza 
natural que os tornava aptos para os negócios (i). 
Taes circumstancias e outras que resultavam da sua 
situação faziam daquella cidade um dos logares 
mais importantes da Hespanha mussulmana. Os 
portugueses não só a consideravam como uma das 
praças difficilimas de atacar, mas também como o 
principal foco da resistência á conquista christan. 
De feito, os vestígios que ainda subsistem dos seus 
antigos muros, e as memorias contemporâneas que 
a descrevem nos indicam bem quaes eram, em 
relação á táctica daquella epocha, as difíiculdades 



(i) De Itin. Nav. passini. — Edrisi, Geogr., Vol. a, p. 21 
e aa. 



LIVRO III 1^5 

que oíTereceria aos que tentassem reduzi-la á viva 
força. A linha das íbrtificações abrangia no seu âm- 
bito os edifícios todos da povoação, que não continha 
menos de vinte a trinta mil almas (i). Circumdava 
uma extensa muralha o arrabalde, ao qual de certo 
modo se ligavam a almedina e a kassba pela couraça 
€ por uma estrada cuberta, a qual, descendo pela 
«ncosta, vinha entrar na torre albarran, que juncto 
da cidade inferior atalaiava a campanha. Esta torre 
servia não tanto de defesa ao ponto em que estava 
situada, como á almedina ; porque com os tiros dis- 
parados delia seriam feridos pelas costas os que se 
aproximassem dos muros da cidade alta. A couraça 
que descia para o lado do rio Drade, defendida por 
quatro torres, ofíerecia passagem segura para os que 
moravam na almedina e na kassba descerem a 
prover-sede agua, que lá escaceava e de que tinham 
abundância num poço situado na extremidade da- 
quella fortificação. Todas essas linhas de muralhas 
eram. coroadas de torres, tão próximas, que a pedra 
despedida de qualquer delias, salvando a imme- 
diata, ia bater na seguinte; e ainda nos logares ou 
mais expostos ou mais fracos a distancia de uma a 
outra se reduzia a metade. As entradas, emfim, das 
portas eram por tal modo tortuosas, formando ân- 
gulos successivos, que seria mais fácil transpor os 



(i^ Radulfo de Dicelo loc cit. eleva só o numero dos 
combatentes que defendiam Silves a 60:000, numero por 
certo exajígerado, postcqne a população rural se tivesse 
acolhido alii. O mesmo Radulío reduz o numero dos habi- 
tantes de ambos os sexos, que se encontraram na cidade 
depois de tomada, a i3:ooo, e o Anonymo de Turim a 
i5:ooo. Ainda suppondo qvie durante mês e meio de cerco 
perecesse metade ou ainfla dons terços da população, 
auuca esta podia abranger 60:000 homens de guerra. 



I^C HISTORIA DE PORTUGAL 

muros á escala vista do que i)enetrar por ellas (i)^ 
Confiados no seu numero e na solidez das fortiti- 
cações que os cercavam, os defensores de Silves pa- 
reciam desprezar a procella que lhes ia estourar 
sobre as cabeças. A cidade illuminou-se ao anoitecer 
com grande numero de fachos, e os navios corres- 
ponderam a este signal de feroz alegria accendendo 
também muitos faroes. Ao romper da alva a gente 
da armada, miCttendo-se nos batéis, dirigiu-se para 
a cidade e, saltando em terra, acampou em frente 
delia, a tão curta distancia que as pedras arrojadas, 
pelos engenhos dos sitiados caíam dentro dos ar- 
raiaes, aonde vieram ajunctar-se as tropas que 
haviam avançado poi' terra. Naquelle primeiro 
Ímpeto alguns dos cercadores foram encontrar-se 
com dez almogaures sarracenos que pareciam desa- 
fiá-los, correndo fora das portas; mas, feridos pelos 
arremessos despedidos dos muros, foram obrigados 
a retirar-se. Depois, provavelmente durante a noite^ 
estreitou-se mais o cerco, e, tendo resolvido atacar a 
cidade baixa no dia seguinte (21 de julho), os sifia- 
dores prepararam as escadas e dispuseram-se para 
o assalto. 

Bem como na povoação superior, no vasto e forte 
arrabalde assentado na margem do rio o accesso ás 
muralhas ollerecia uma grande difíiculdade, a das 
cavas ou fossos que iam seguindo os lanços das qua- 
drellas e que na cidade inferior ainda oppunhara 
mais segura barreira por estarem cheios d'agua. O 
excitamento religioso, a esperança de se apoderarem 
das riquezas que Silves devia conter e a emulação 
desforço entre essa multidão de combatentes de di- 
versas nações accendiam, porém, com demasiada 
força aquelles ânimos feros para não lhes consen- 



(i) De Itin. Nav., p. i5, 17, aj, 3j. 



LIVUO III 



tirem o vacillar. Os foisos transpuseram-se apesar 
da profundeza das a^^uas, e por entre a saraiva das 
pedras arrojadas das ameias os cliristãos chegaram 
á linha fortificada. A audácia com que estes já ar- 
voravam as escadas produziu nas tropas sarracenas 
que guarneciam os adarves e as torres um daquelleí> 
terrores pânicos de que não faltam exemjílos entre 
os melhores soldados. Abandonando os postos, 
começaram a fugir para a almedina emquanto os 
inimigos, subindo as escadas e galgando ás ameias, 
os perseguiam, obtida tão fácil victoria. Não foi, to- 
davia, grande o estrago. Cubertos de armaduras 
pesadas, os christãos mal podiam cerrarcomos fugi- 
tivos armados levemente e a quem o medo aligei- 
rava os passos. Os mais dos que morreram foram os 
que abafaram nas portas da almedina, querendo 
todos ao mesmo tempo recolher-se por ellas. Apo- 
derados do arrabalde, os vencedores ficaram essa 
noute dentro da povoação, aquartelando- se os por- >u/7x^' 
tugueses e os estrangeiros separadamente. Irritado 
pela fraqueza dos seus, o kayid de Silves mandava 
entretanto decepar a cabeça aos primeiros que, fu- 
gindo, entraram na cidade alta. 

Ao romper da alvorada as tropas christans, 
deixando guarnecido o arrabalde com a chusma das 
galés, marcharam a atacar as fortificações superio- 
res. Esperava-os na almedina resistência mais effi- 
caz. Aqui os fossos não estavam cheios d'agua, mas 
eram talvez mais profundos e escarpados pela na- 
tureza do terreno, que descia em ladeira para o 
valle. Cubriam os besteiros e frecheiros o assalto 
dado pelos homens d'armas, que com perda vence- 
ram os fossos e trabalharam largo tempo em arvorar 
as escadas. Choviam amiudados tiros e arremessos, 
e, postoque os virotes e frechas das mangas de bes- 
teiros e frecheiros christãos fizessem grande estrago 



19 



1^8 HISTORIA DE PORTUGAL 

nos sarracenos, a constância destes triumphou, em 
fim, do ardor impetuoso dos inimigos. Repellidos 
por toda a parte, portugueses e cruzados voltaram 
costas com o mesmo desalento com que os defenso- 
res do arrabalde o haviam abandonado na véspe- 
ra. Resolvidos a desamparar os pontos de que 
já estavam de posse, lançaram fogo á cidade baixa, 
que todavia pouco ardeu por serem os edifícios, 
segundo o systema de construcção árabe, feitos pela 
maior parte de taip>a ou formigão e cubertos de 
eirados de ladrilho, o que obstava á communicação 
do incêndio. Foram, comtudo, reduzidos a cinzas 
alguns navios dos moradores que, ao chegar da 
frota, tinham vindo varar em terra perto das mu- 
ralhas por temor dos inimigos. Tomada esta inútil 
vingança, no meio daquella confusão e desordem os 
sitiadores voltaram aos primeiros arraiaes, e os 
mussulmanos recobraram o terreno que anterior- 
mente haviam perdido quasi sem combate. 

Pouco, porém, durou o desalento entre os cerca- 
dores, e o sitio tornou logo a apertar-se. Reinava 
grande actividade no campo : preparavam-se ma- 
chinas, torres de madeira, catapultas, escadas e 
todo o género de instrumentos para o ataque. En- 
tretanto j)elo lado do sertão appareciam diariamente 
novos reforços de gente, até que a final se viu asso- 
mar ao longe o pendão do rei. Era Sancho I que 
chegava (29 de julho), tendo-se adiantado ao grosso 
do exercito, que marchava mais lentamente por 
causa dos petrechos de guerra e dos provimentos 
que trazia para abastecer o arraial. Crescia este de 
instante a instante, e o assedio estava de todo fe- 
chado em volta de Silves quando um successo lasti- 
moso veio irritar mais as tropas já impacientes por 
accommetter os cercados. O arrabalde deserto era, 
tiegundo parece, um terreno neutro entre os con- 



LIVRO III Ijg 

tenderes. Os christàos tinham encostado as tendas 
aos muros delle in, e os mussulmanos occupavam 
as duas fortificações avançadas, isto é, a torre al- 
Larran com a estrada cuberta que a ligava á alme- 
dina e a couraça que descia a encosta para a banda 
do Drade. Na véspera da vinda do rei haviam os 
ingleses morto um sarraceno numa das mesquitas 
da cidade baixa : era porventura sacerdote ou pes- 
soa notável, e o sangue vertido no templo não podia 
deixar de ser um sacrilégio aos olhos dos mussul- 
manos. Vingaram a aíTronta. Três christàos appare- 
-ceram no domingo immediato pendurados pelos 
pés das ameias da torre albarran e alli foram 
mortos ás lançadas; scena repugnante, que pela 
escolha do dia e pelo triplicado da reparação bem 
mostra ter sido inspiração do fanatismo. Despertou 
o espectáculo todo o furor dos sitiadores. Com la- 
grymas tristemente ferozes pediam o combate. Não 
tardou elle muito. No domingo seguinte os allemães 
fizeram avançar para a couraça certa machina co- 
nhecida pelo nome de ouriço (2), com a qual pre- 
tendiam romper uma das quadrellas que corria 
entre duas torres. Era construída esta esjDecie de 
vaivém de grossas vigas cubertas com lemes de 
sobrecellente que vinham nas galés, e forrada por 
cima com terra, cimento e lan bastida. Punham os 



(i) castra juxta murum captee urbis posuimus : De Itin. 
ísav., p. 21, 

2 Ibid., p. 23 — instrunientuni quod ericiíim vocamus. 
Espécie de vaivém cuberto, e armado de pontas de ferro 
para alluir muros, já conhecido no tempo dos romanos 
com esse nome (Cães. de Bello Giv., L. 3, c. ô^K O mesmo 
provavelmente que o oy^^^x dos gregos, traduzido por Vi- 
tnivio u Testiidinem ad lodiendum comparatum. » — Veja- 
se J. Lipsii Poliorcet., L. i., Dial, 8, e a nota de Vosios 
áquelle logar de César. 



l8o HISTORIA DE PORTUGAL 

sarracenos todas as suas diligencias em queimá-la^ 
lançando-lhe de cima estopa a arder molhada em 
azeite, e a própria solidez da machina lhes facilitou 
o empenho, porque pelo seu peso era má de fazer 
recuar. Inutilisada a tentativa, os cruzados viram-se 
constrangidos a desistir e a retirar- se. Era gente 
collecticia, muitos, acaso, sem pratica da guerra e 
por isso pouco habituados a resignar-se com as va~ 
rias e tediosas phases de um assedio : fê-los desa- 
nimar o contratempo. Falavam já de levantar o 
cerco, e eram os flamengos os que mais nisso insis- 
tiam. Outros sustentavam o parecer contrario, e 
estes venceram emíim. Reparada a machina, bate- 
ram o muro no dia seguinte com mais prospero 
resultado, de modo que parte de uma torre veio ao 
chão. Entretanto Sancho mandara assentar dous 
trons ou catapultas, as quaes, postoque de menos; 
vulto que o ouriço, faziam grande estrago entre o» 
cercados (i). O temor começou provavelmente a 
apoderar-se do animo de alguns dos defensores de 
Silves, porque nessa noite veio apresentar-se a el- 
rei um transfuga, trazendo dous ricos estandartes e 
asseverando que, tomada a couraça, a cidade se 
renderia. Com isto cresceram no campo a esperança 
e a audácia, excitadas ainda mais pela façanha de 
certo cavalleiro de Galliza, capitão de uma das 
naus, o qual, acercando-se destemidamente do muro 
meio derrocado pela machina dos allemães foi ar» 
rançar delle uma pedra angular e voltou a seu, 
salvo. Levados pelo estimulo da emulação, os cru-^ 



(i) ... macliinae regis, licet parvae, satis infestabant popo^ 
lum intrinsecus : De Itin. Nav., loc. cit. Vê-se desta phras& 
que as duas machinas eram trons, ballistas ou catapultas,, 
que arrojavam pedras ou virotes por cima dos muros so- 
bre a guarnição. 



LIVRO III l8l 

xados começaram a minar a torre, na qual, com 
-espanto dos christãos, se conservavam inabaláveis 
os sarracenos, apesar de choverem sobre elles 
milhares de frechas e do perigo que corriam de ficar 
sepultados naquellas ruinas. Nào cessavam os sitia- 
dores de trabalhar na mina; mas nessa noite, ou- 
vindo lalar os sarracenos, acreditaram que estes 
vinham contraminando e, tomados de repentino 
susto, fugiram. Desfez-se com o dia a illusào : vol- 
taram á mina e, lançando fogo aos espeques com 
que a tinham escorado, veio abaixo a parte da torre 
que lhe ficava suj^erior. Apagado o incêndio, segui- 
ram áAante, minando e pondo novamente fogo ás 
escoras sobj^ostas aos alicerces, com o que desabou 
mais uma porção de muro. Larga brecha facilitava 
já por aquella parte o assalto : arvoraram uma 
escada e principiaram a subir um a um. Era grande 
a multidão dos sarracenos que impediam a entrada; 
mas aquelles mesmos que haviam mostrado extrema 
constância diante de um perigo contra o qual não 
valia força nem esforço vacillaram e tremeram ao 
offerecer-se-lhes um combate braço a braço com 
homens sobre os quaes tinham a vantagem da situa- 
ção o do numero. A fuga do primeiro foi o signal da 
de todos. Lançavam lora as espadas e as bestas 
j)ara ficarem mais desembaraçados, abandonando 
não só a torre alluida e rota, mas também as outras 
três que defendiam a couraça. A retirada S('), toda- 
via, se converteu em perfeita fuga quando um nu- 
mero suíficiente de christãos subiu acima e os 
obrigou a refugiarem-se na almedina. O primeiro 
cuidado dos vencedores foi entupir o poço defendido 
pela couraça, cortando assim aos sitiados a agLa e 
inutilisando aquella linha de fortificações. Depois 
disto as tropas cançadas e com alguns feridos vol- 
taram a repousar aquella noute nos arraiaes. 



l82 HISTORIA DE PORTUGAL 

Despejados de mouros não sõ o arrabalde, mai^ 
também a linha da encosta, no outro dia e na se- 
guinte noite os trabalhos para combater a cidade 
alta, derradeiro refugio dos cercados, proseguiram 
activamente. Começaram a abrir-se ao mesmo 
tempo na povoação inferior duas minas que ficavam 
mascaradas pelos edifícios, por baixo de cujos fun- 
damentos os sitiadores iam co aduzindo os ramaes. 
Perceberam os sitiados o empenho do inimigo e, 
fazendo uma sortida repentina na manhan imme- 
diata, incendiaram as casas á sombra das quaes os 
mineiros trabalhavam. Pegou o fogo ás estroncas e 
pontaletes que sustinham as terras da mina, e os 
christãos viram-se obrigados a abandonar a em- 
preza, não sem os frecheiros haverem feito grande 
estrago nos sarracenos. Tentaram então os cerca- 
dores noA o caminho, principiando os flamengos a 
arrombar um muro do arrabalde que tinha commu- 
nicação interior com uma das torres da almedina, 
no presupposto de que por esse caminho lá pode- 
riam chegar; mas os mussulmanos, que estavam 
alerta, marcharam pelo subterrâneo, expulsaram- 
nos e, fazendo uma cortadura, separaram a torre do 
muro de communicação. 

Entretanto todos os dias api^areciam no arraial 
transfugas da cidade, que, perdida a esperança de 
defensão, buscavam por este modo salvar as vidas. 
Recebiam-nos benignamente os christãos para inci- 
tarem os outros a imitá-los. Certo dia (i4 de agosto) 
em que os sarracenos tinham saído a escaramuçar 
com os sitiadores, um dos que haviam iieado na 
almedina, saltando do muro abaixo, veio entregar- 
se aos inimigos. Tractado com toda a brandura, a 
primeira cousa que pediu foi agua, que bebeu com 
estranha soíTreguidão. A sede, o peor dos males de 
uma cidade assediada, devorava Silves : muitos pe- 



LIVRO III i83 

reciam já por não terem que beber ; porque toda a 
agua que restava nas cisternas ou poços era pou- 
quíssima e salobra. Este? e outros motivos de desa- 
lento que não deviam faltar aos cercados favoreciam 
um commettimento decisivo. Destinou-se para elie 
o dia i8. O exercito christão subiu a encosta por 
todos os lados e, aproximando-se dos muros, pare- 
ceu-lhe que poderia chegar á escala. As tropas que 
avançavam pelo lado do norte (provavelmente por- 
tuguesas) (i), alcançaram ainda cegar o fosso com 
fachina; mas os sitiados, lançando fogo das ameias, 
incendiaram-na. A agrura da subida por esta parte 
augmentava as difQculdades que oflerecia a deses- 
perada resistência dos mussulmanos, e do outro 
lado os estrangeiros, que avançavam pelo arrabalde, 
apertados entre aquella pinha de casarias, mal 
podiam revolver-se e ordenar-se : pelo menos, foi 
com estas desculpas que, depois de repellidos, os 
christãos procuraram consolar-se. E certo, porém, 
que os mussulmanos, apesar d^ sua triste situação, 
se defenderam como leões e que as tropas christans 
se retiraram do assalto com grande perda. 

Quebrados os ânimos, alguém no exercito real 
falou de retirada. Estribavam-se os deste voto na 
falta que se começava a sentir de viveres para um 
exercito tão numeroso e, até, de forragens para a 
cavallaria. O rei de Portugal chegou a hesitar, e, 
se acreditarmos a narrativa anonyma que nos deixou 



(i) fossatum... in aquilonari parti almadinae. . Hac ergo 
jactura paveíacli portugalenses... il)id., p. 29. Não só pela 
correlação destes dous períodos, como pelo todo da 
narrativa que nos serve de guia se vê que os cruzados 
estavam do lado do rio, e as forças portuguesas, que eram 
as principaes, ao norte, noroeste e poente. O mais natural, 
portanto, é que fossem ellas as que atacassem por estes 
lados. 



l84 HISTORIA DE PORTUGAL 

um dos cruzados, foi a estes que se deveu a resolu» 
ção final que Sancho tomou de proseguir na em- 
preza. Tratou- se então de abrir novas minas, mas 
começando-as a maior distancia dos muros para dif- 
íicultar aos sitiados o destrui-las com repentinas 
sortidas. Entretanto da banda do norte jogavam 
tT^es engenhos ou trons portugueses e um dos es- 
trangeiros, aos quaes correspondiam outros quatro 
que os sarracenos tinham assestado para aquella 
^arte. 

A situação, porém, dos cercados era cada vez 
mais intolerável. A pequena porção d'agua que lhes 
restava distribuia-se com a mais severa economia 
por aquella multidão de gente apinhada em Silves 
desde o principio do assedio e limitada agora ao 
âmbito da almedina. Providos abundantemente de 
viveres, estes se lhes tornavam inúteis pela falta 
d'agua para os cozinharem. Assim, já nem sequer 
amassavam pão e alimentavam-se principalmente 
de figos. Os captivos christãos, cujo numero subia 
no principio a mais de quatrocentos, foram obriga- 
dos, para se lhes distribuir agua como aos mussul- 
manos, a combaterem nos muros contra os seus co- 
religionarios e, apesar disso, tinham de se deitar 
nús á noite sobre os pavimentos de pedra para g^- 
çarem de alguma lentura e frescor. As mulheres e 
creanças mastigavam barro para humedecerem as 
boccas sequiosas. A consequência forçada da misera 
condição a que se achavam reduzidos os sitiados 
era o au^mento das enfermidades e o atulharem-se 
as ruas e casas de mortos e moribundos. A sede, 
peor que a fome, fazia pesar sobre elles um mal 
maior ainda que o complexo dos três flagellosdeDeus. 

No meio de tal angustia a constância dos sarra- 
cenos que defendiam a cidade é por certo um dos 
exemplos mais memoráveis da energia humana. 



LIVRO III i85 

Tendo percebido que os christãos recorriam de novo 
ao systema das minas, aquelles que ainda podiam 
menear as armas fizeram uma sortida para des- 
truir a obra ; mas os sitiadores estavam prevenidos 
•e, depois de um combate inútil em que o estrago foi 
inutuG> tivéramos mussulmanos de se acolherem ao 
recincto dos muros. Renovaram a tentativa na ma- 
<]rng-ada do dia 22 : estavam desapercebidos os 
•christãos, e ellespoderam ainda examinar o terreno 
próximo das muralhas aonde receavam que já ti- 
vesse chegado a mina, a qual na verdade ainda ia 
distante. Não tardaram, todavia, a ser furiosamente 
accommettidos por algumas forças que os levaram de 
vencida e com grande estrago até as portas da alme- 
dina, onde os christãos teriam entrado d'envolta 
com elles, se houvessem sido mais numerosas as 
tropas enviadas para os repellir. 

Ou fosse o rumor falso de que os chefes sarra- 
cenos do Andalús mandavam soccorro a Silves ou 
íbsse desalento causado pela pertinaz resistência dos 
sitiados ou, finalmente, fosse, o que é mais pro- 
vável, a falta de viveres e forragens, que devia já 
ser extrema, houve motivos graves para o rei de 
Portugal querer levantar o campo. Os cruzados, 
porém, que viam escapar-lhes das mãos a presa, 
tanto fizeram que Sancho resolveu demorar-se mais 
quatro dias, em que cumpria emiDregar os últimos 
esforços para render a cidade. De feito abriu-se logo 
uma nova mina mais perto dos muros, começando- 
se de um daquelles graneis subterrâneos chamados 
matmoras, conhecidos já dos povos antigos e de 
que usavam especialmente os árabes. Longe de 
annuir á representação dos cabos que insistiam na 
necessidade da retirada, o rei com os seus gasta- 
dores e dirigindo, segundo parece, os trabalhos 
çpssialmeTcte, fez progredir por tal modo a nova 



l86 HISTORIA DE PORTUGAL 

mina que em breve chegaram a curta distancia do» 
fundamentos da muralha. Os heróicos defensores de 
Silves, inhabilitados já para saírem ao campo, donde 
a superioridade dos inimigos os repellira duas vezes 
com perda sua, buscavam entretanto oppôr uma 
resistência em que a desproporção de forças de 
algum modo se equilibrava. Contraminando de en- 
contro aos gastadores christãos,as duas estradas sub- 
terrâneas desembocaram uma na outra, e os sitiados^ 
topando ahi com os sitiadores, travaram combate. 
Devia ser horrível esse pelejar nas trevas ou á luz 
mortal dos fachos e o resoar dos golpes das espadas 
d'envolta com o bater rouco das alavancas e alviões^ 
retumbando por aquellas extensas galerias. Tinham 
preparado matérias inílammaveis, e quando viram 
que não era possível fazer recuar os soldados do rei 
de Portugal, incendiando os combustíveis, soltaram 
ao encontro dos seus encarniçados inimigos um rio- 
de fogo. Recuaram os christãos diante de um adver- 
sário contra o qual não valiam armas nem esforço^ 
e estiveram a ponto de abandonar a empreza. A'^ 
custa, emfim, d'incriveis fadigas alcançaram obstruir 
a desembocadura da contramina e continuar as 
excavaçòes ; mas os incançaveis sarracenos não tar- 
davam a romper de novo por outra parte, de modo 
que ao trabalho incessante accrescia incessante pele- 
jar. Entretanto os cercados conduziam uma galeria 
exterior ao longo dos alicerces do muro para cortar- 
as minas aonde quer que ellas viessem e ao mesmo 
tempo abriam um vallo profundo da parte interior,, 
persuadidos de que os christãos tinham em mira 
penetrar na cidade por essa estrada subterrânea^ 
quando os verdadeiros desígnios de Sancho eram o 
solinhar a muralha e, derribando assim um lanço 
da quadrella. abrir larga brecha, onde os homens 
d armas podessem combater sem desvantagem. 



LIVRO III 187 



Esta lucta de todos os dias, estes vãos esforços da 
valente guarnição mussulmana para salvar a capital 
de Chenchir eram os clarões derradeiros da lâmpada 
que se extinguia. Renderem-se ou perecerem de 
sede com todos os habitantes que sobreviviam, eis 
a alternativa que lhes restava. Tractou-se da ren- 
dição. No primeiro de setembro os sarracenos come- 
çaram a chamar dos muros e torres alguns officiaes 
do rei de Portugal para lhes proporem as condições 
da entrega. Eram ellas de quem cria possivel encu- 
brir a extremidade em que a povoação estava. Pre- 
tendiam que os deixassem sair com todos os bens 
moveis, entregando aos conquistadores aquellas 
ruinas da almedina e da alcáçova. Accedeu Sancha 
á proposta, mas os transfugas da cidade, que dins- 
tante a instante cresciam em numero, pintavam por 
tal arte as agonias da sede, o terror que incutiam as 
minas, a desesperança, emíim, dos habitantes, que 
os cruzados, apesar de todas as diligencias do rei, 
recusaram concordar naquellas estipulações. Como 
de christãos que diziam combater pela gloria e en- 
grandecimento da própria crença esta resistência 
dos estrangeiros que podia, talvez, prolongar os 
horrores da guerra era uma detestável cubica. Con- 
siderados, porém, como mercenários que vendiam o 
sangue e a vida para satisfazerem a anciã da rapina, 
justo era que recebessem a sua paga. Foi a esta luz 
que Sancho encarou o negocio. Gener oso 2)ara com 
os vencidos, intentou remir o sacco de Silves oílere- 
cendo aos cruzados dez mil morabitinos ou áureos, 
somma que por íim fez subir á de vinte mil. Recu- 
saram elles pertinazmente com o pretexto de que 
sendo necessário ir buscar o dinheiro a Coimbra ou» 
pelo menos, a Évora, retardariam a viagem (i). 



(i) quia a terra sua portari necesse fuit. Ibid.. p. 35^ 



l88 HISTORIA DE PORTUGAL 

Constidngido pelas promessas feitas em Lisboa aos 
seus alliados, o rei cedeu, concedendo-se apenas aos 
habitantes de Silves o não saírem inteiramente 
mis (i). A três de setembro abriram-se, emíim, as 
portas da cidade rendida, e os sitiadores poderam 
ver por seus olhos qual era a horrível situação dos 
cercados. O chefe sarraceno, cujo verdadeiro nome 
não é fácil descubrir no de Albaino que lhe dá o 
historiador christáo, nosso guia nesta narrativa (mas 
que provavelmente era o kayid AbduUah, ou Abu 
Abdullah, filho ou neto de um anterior wali de 
Silves) (2), saiu a cavallo da cidade á frente de grande 
parte dos mussulmanos, os quaes, cubertos de po- 
bres trajos que indicavam tristeza e captiveiro, iam 
peregrinos buscar asylo nos muros de Sevilha (3). 



Dizemos de Coimbra ou de Évora, porque é onde nos 
consta ter então Sancho I avultadas sommas : Doe. do 
Elucid., T. 2, p. 271. 

(i) tantum ciim una veste exire ; De Itin. Nav., 1. cit. 

(2) Sabemos por Al-makkari (Vol. 2, pag-. 32o) que a van. 
gviarda do exercito de Yacub, que reconquistou Silves em 
Í19T, era capitaneada pelo kayid Abu Abdullah Ibn Wasir 
Ach Gliell)i (filho do wasir de Silves^ nomeado annos depois 
^vali d'Al-kassr Abu Danes (Alcácer do Sal, e a elle allude, 
nari-ando a vinda de Yacub a Portugal em iiga, o antigo 
Instoi-iador Ibn Khalduu Ibid., App. p. LXIV). Abdel-halim, 
f-ilando da conquista de Alcácer pelos christãos em 1217 
(Conde, P 3, c 56! chama-lhe Abdallah Iben Muhamad 
Iben Wasir {Abdallah filho de Mo ham me d filho do wasir. 
Filho ou neto do wasir de Silves, Abdullah ou Abu Abdul- 
lah era um caudilho illustre, e as circumstancias de ser o 
lierdeiro de um governador de Silves, na epocha em que 
já muito havia que os governos das terras eram geral- 
mente hereditários entre os sarracenos, e também o ser 
quem capitaneava a vanguarda no exercito de Yacub des- 
tinado a restaurar a mesma cidade, parece-nos dar alto grau 
-de probabilidade á nossa conjectura. 

(3) dominus civitatis... solus in equo, reliqui pedites 
«equelantn^ : D-? Itin. Nav., 1. cit. : ejusdem generis pannis 



LIVRO III 189 

O respeito ao valor desgraçado nào pôde conter a 
feroz bruteza dos cruzados que ainda naquelle trance 
espancavam e despiam os vencidos. Irritado já pela 
ambição dos estrax^geiros, a cólera do rei de Por- 
tugai subiu ao extremo á vista de tal espectáculo, e 
os portugueses estiveram a ponto de virem ás mãos 
com os seus alliados. A' noite estes cccuparam sós a 
cidade, e íecharam-se as portas para que não saíssem 
durante as trevas os restantes moradores. As scenas 
que ahi se passariam fáceis são de adivinhar. Os 
mussulmancs íicaram encerrados nas casas, e mui- 
tos, desprezadas as mais solemnes promessas, foram 
postes a tormento para confessarem onde havia que 
saquear. A luz da manhan mostrou acs olhos da- 
queila turba de salteadores quaes tinham sido as 
victimas da sua barbaridade. Era gente quasi mori- 
bunda, cujas faces tingia pallidez mortal eque mal 
podiam mover-se, caminhando muitos de rastos. 
r>as ruas jazia grande numero de pessoas, umas 
semivivas, outras já mortas, e o cheiro dos cadáveres 
de homens e de animaes era intolerável. Dos pri- 
sioneiros christãos, que subiam a quatrocentos e 
cincoenta ao principiar o cerco, só duzentos sobre- 
viviam, e esses a ponto de expirar. Emíim, da nu- 
merosa população de Silves restavam apenas quinze 
a dezeseis mil almas (i). 

O doloroso quadro que tinham ante os olhos 
abrandou, emílm, um pouco esses duros corações. 
Conduzido o resto dos moradores para fora das 
portas, os cruzados abstiveram-se das violências até 
ahi perpetradas. O receio da cólera de Sancho 1, 



in signum servitutis induti versus Sibiliam íransmigrandi 
plenani receperunt securitatem : Rad. de Biceto^ Ymag. 
Hist., p.646. 

'ij De Itin. Nav., p. 35 e 3^. 



igO HISTORIA DE PORTUGAL 

já irado contra elles, contribuiu, porventura, para 
essa moderação ; mas nem por isso a discórdia entre 
o principe português e os estrangeiros deixou de 
augmentar, postoque por diverso motivo. Durante 
o cerco, segundo parece, as tropas portuguesas, 
cuja constância no assedio a esperança da pilhagem 
não alimentava, tinham mais de uma vez querido 
que o camj)o se alevantasse ; nem isto era de admi- 
rar, visto que também mais de uma vez os cruzados, 
que contavam com o sacco de Silves, haviam desa- 
nimado. Para conter, pois, a soldadesca tinha- se- 
lhe promettido certa porção do esbulho, cedendo 
nesta parte as tropas estrangeiras dos anteriores 
ajustes. Vimos que o próprio rei, constrangido pela 
falta de victualhas, resolvera por fim abrir mão da 
empreza, e assim, quando se tractou da divisão do 
despojo, escolheu para os seus os mantimentos, de 
que havia grande quantidade na povoação to- 
mada. Gomo os cruzados tinham sido os que se 
aquartelaram dentro dos muros e viam que os 
viveres não lhes cabiam em sorte, começaram a 
roubá-los e a vendê-los ás escondidas pelo arraial 
dos portugueses. Queixou- se altamente o rei deste 
proceder; porque, desbaratadas assim as provisões, 
ver-se-hia na dura necessidade de abandonar a po- 
voação que tanto custara a conquistar. Longe, porém, 
de se cohibir com as queixas do rei, aquelle tropel 
desenfreado passou a saquear a cidade, sem esperar 
ordem dos seus chefes. Era uma verdadeira anar- 
chia, á qual Sancho I, cuja indignação subira de 
ponto^ pôs termo, mandando occupar Silves por 
tropas portuguesas e expulsar d'alli os cruzados (i), 



(i) O anonymo De Itin. Nav., p. 41) diz : unde nos ne minae 
regis in dampnosas lites convalescerent reddimus ei 
urbem, etc. Esta cessão voluntária da parte de homeng 



LIVRO III 191 

<Tue, descontentes, a sete de setembro voltaram de 
novo á sua armada e, descendo o rio, vieram lançar 
ferro perto da barra. Ahi, emquanto concertavam 
alguns navios e dividiam o producto de três dias 
de sacco, ainda tentaram obter mais alguma cousa 
do seu alliado, invocando ora a generosidade deste, 
ora a sua religião; nada, todavia, alcançaram. Che- 
gado o negocio quasi a rompimento, é assas pro- 
vável que Sancho passasse as metas da moderação 
« que, se de um lado tinha havido violência e rapina, 
também não fosse inteiramente digno de louvor o 
procedimento da outra parle. Passados, emíim, doze 
<iias os cruzados saíram do porto de Silves, accu- 
sando Sancho e os portugueses de não terem nem 
combatido nem trabalhado durante o cerco, e de os 
haverem defraudado do que lhes pertencia iii. 
Estas accusações, a primeira das quaes se repetiu 
na Europa (2), estão desmentidas pela narrativa de 
um daquelles mesmos que contribuíram para as 
espalhar, convencendo-se de falsa ou pelo menos de 
exaggeradissima a queixa contra a avareza e des- 



que entregues ao roubo já não faziam caso dos seus chefes 
fsine consensu magistratuum... efferebant praedam , é alta- 
mente improvável. O crivei é que o rei, cheio de ira e 
assas forte para dar a lei aos cruzados, tomasse conta da 
cidade sem esperar por essa cessão, cuja inverosimilhança 
resulta da própria narrativa do anonymo, narrativa que 
desde este ponto revela em cada phrase o despeito e a má 
vontade contra Sancho I. 

'i ... totó tempore obsidionis portugalenses nec labora- 
bant, nec pugnabant, sed tantum insultabant nobis : ibid., 
p. 'ò-j. Rey vero omnia sibi vindicans nihil nobis reddidit: 
ibid., p 41. Qual é a veracidade do anonymo nesta parte 
vé-se do que citamos adiante e da relação do cerco, em que 
se^^uimos quasi sempre á letra a elle próprio. 

•2' qui scil. rex portus:alensis cum exeicitu supcrve- 
*i°vat, sed christianis nullum prcestabat auiilium : Rad. do 
Diceto, Ymag. Hist., p. 64*^. 



192 HISTORIA DE PORTUGAL 

lealdade de Sancho, á vista dos ricos despojos qn» 
os estrangeiros levavam ; despojos que, fazendo 
esfriar o enthusiasmo de muitos pela liberdade dos 
sanctos togares, os induziram a ir gosar na pátria 
o fructo da expedição contra os sarracenos da Hes- 
panha (i). 

As formidáveis fortificações de Silves tinham ficado 
por partes arruinadas em consequência do assedio. 
Além dos estragos feitos no arrabalde e, sobretudo^ 
na couraça, a torre da almedina e o lanço do muro 
contíguo por onde se havia minado e contraminado 
ameaçavam desabar e, de feito, vieram ao chão oito 
dias depois de rendida a cidade (2). Provendo ao 
reparo destas ruinas, Sancho marchou de Silves 
com o grosso das tropas antes da saída dos cruzados^ 
deixando ahi por alcaide com grande numero de 
homens d'armas aquelle mesmo que escolhera 
d'entre os seus capitães para conduzir a vanguarda 
do exercito, provavelmente o seu alferes-mór, o qual 
desde o primeiro dia do assedio nelle ajudara os 
cruzados. Se a tradição dos nossos historiadores 



(i) moram in portum fecimus, tum pro divisione spo- 
liarum : De Itin. Nav., p. 4i- Estas palavras contradizem^ 
formalmente o nihil nobis reddidit, e revelam que o des- 
peito levou o anonymo a transfig-urar a verdade. Temos^ 
além disso, testemunhos expressos e coevos de que os cru- 
zados não saíram de Silves com as mãos Aazias. O chro- 
nicon turonense assevera positivamente o contrario : 
Silviam obsidente, et post XL dies captam diripiunt... 
Postea opes inverdas inter se aequaliter dividentes, urbem 
tenendam regi Portugaliae reliquerunt : Chron. Tur. apud 
Martent Ampliss. Collect., T. 5, p. 1082. O monge Godo- 
fredo Struv. Rer. Germ. Scriptor.,T. i, p 3Õ2i talando dos 
allemães que voltaram para a pátria diz : « Plurimi peri- 
grinorum... redierunt... adducentes secum vestes et pallia» 
et alia qua'dam pretiosa, quse eversa quadam urbe, pa- 
ganis abstulerunt. » 

(2] De Itin. Nav., p. 35 e 43. 



LIVRO 111 



193 








23. — Sé de Silves. — Portal. 



VOL. III 



i3 



194 HISTORIA DE PORTUGAL 

fosse verdadeira, teria sido o conde D. Mendo o 
Sousão (Mem Gonçalves de Sousa, o mais notavei 
rico- homem de Portugal e mordomo- mór de San- 
cho I) aquelle que principiara o cerco e, portanto, 
quem tomou a seu cargo defender Silves e estabe- 
lecer na pro vinca de Chenchir o dominio português. 
Nenhum documento ou monumento coevo aucto- 
risa, todavia, essa tradição. Só sabemos que poucos 
meses depois governava Silves um certo Rodrigo 
Sanches, cuja memoria chega até ii95,anno em que 
este guerreiro veio a perecer na sanguinolenta 
batalha de Alarcos (i). 

A queda da capital de Al-faghar trouxe aos Sar- 
racenos a perda de toda a porção do moderno 
Algarve a oeste das cordilheiras que correm de norte 
a sul, desde as serras de Monchique e do Caldeirão 
até o mar perto de Albufeira. Além dessas cordi- 
lheiras, Sancta Maria de Faron, Hayrun ou Pharum, 
cujo nome parece confirmar a fundação christan que 
lhe attribuem os escriptores daquelle século (2), era 
a povoação mais importante áquem do Guadiana. 
Com as tropas que Sancho lhe deixava o novo gover- 
nador de Silves tentou logo accommettê-la, contando 
com o soccorro dos cruzados, que, segundo dissemos, 
ainda se tinham demorado no porto. Estavam, 
porém, estes demasiadamente irritados contra os 



(I) Nota XII no íim do volume. 

(2)... Sancta-Maria de Faron. Et notandum est quare 
civitas sic nominatur : Faron dicitur locus ubi civitas sita 
est ; et christiani qui eam edificaverunt sic eani nomina- 
verunt, qui in noraine Dei genitricis Mariae quandam yco- 
niam supra murum statuerunt : Brompton, apud Hist. 
Angl. Scriptor., p. 1178. Hoveden diz o mesmo, com a dif- 
ferença de chamar á cidade Sancta-Maria de Hayrun ; 
p. 670. O anonymo denomina-a Sancta-Maria de Pharum ; 
p.43. 



LIVRO III 



itj5 



portugueses por não haverem satisfeito a todas as 
suas pretensões; e assim, postoque neste negocio 
interviessem as rogativas de Nicolau, clérigo 11a- 
mengo que fora eleito bispo de Silves, recusaram 
obstinadamente associar-se á empreza, que se des- 
vanecei. O espanto, porém, que a tomada da capital 
da ]_rovincia produziu entre os mussulmanos íez 
com que Aiboheira (Albufeira), castello além dos 
montes para o sueste e sobre o oceano, se rendesse 
antes de combatido e o mesmo, provavelmente, suc- 
cedeu com os de Lagos, Portimão, Monchique, Mcs- 
sines, Paderne e todos os mais ao occidente e norte 
de Silves, que sabemos terem ficado submettidos 
aos christãos nessa mesma conjunctura (i). 

Mas, poi.'que partiu Sancho i tão rapidamente da 
cidade novamente adquirida e não invadiu os terri- 
tórios orientaes até o Guadiana? Quem examinar a 
topographia das duas modernas províncias do 
Alemtejo e do Algarve achará sem custo a expli- 
cação deste facto, estranho na apparencia. Évora, 
como já advertimos, estava, j)or assim dizer, insu- 
lada na fronteira, tendo ao septemtrião vastos terri- 
tórios desertos ou quasi desertos e ao meio-dia 
castellos que, tomados por Affonso I, dentro de 
pouco haviam tornado a cair em poder dos almo- 
hades. Reduzida agora Silves, esta cidade e aquella 
podiam considerar-se como as extremidades de uma 
linha de fronteiras de nordeste a sudoeste cujo cen- 
tro era naturalmente Beja, o logar mais notável entre 
cilas, postoque a muito menor distancia de Évora. 
Conquistada Beja, quaesquer castellos situados nos 
intervallos dos três pontos capitães ou ao noroeste 
delles deviam ser abandonados pelos sarracenos, a 



'I, De Itin. Nav., p. 43. 



196 HISTORIA DE PORTUGAL 

que de feito logo se verificou ao sul das serras de 
Monchique. Estas considerações, que facilmente 
occorreriam, moveram, por certo, o rei de Portuc ai 
a atravessar os montes e a marchar para Beja, t ue 
sabemos ter sido submettida pelos christãos (i). As 
particularidades dessa campanha ignoramo-las ; mas. 
vê-se que a empreza se concluiu rapidç.mente ; 
porque, havendo partido de Silves o exercito portu- 
guês pelo meado de setembro, achamos Sancho 1 
em Coimbra ainda no mês de dezembro de 1189 (2). 
Ao passo que o príncipe português dilatava assim 
l^ara o meio-dia os limites dos seus estados, Afibn- 
so VIII de Castella invadia os territórios mussulma- 
nos e apoderava-se de Reyna, Magacela, Banos pí 
Galasparra, atravessando o paiz de Andalús até as 
costas do mar ; e as tropas christans, avançando 
para as immediações de Sevilha, ahi desbaratavam 
as dos almohades (3). A noticia de tantos desastre» 
chegou brevemente a Marrocos. Yacub, cheio de 
cólera, depois de exprobrar amargamente aos cau- 
dilhos da Hespanha mussulmana a sua negligencia 
em repellirem as aggressões dos infiéis, avisou-os. 
de que se preparassem para a guerra, porque não- 
tardaria a vir desaggravar o império dos damncs- 
recebidos. Era então wali de Córdova e principal 
chefe almohade da Península Mohammed Ibn Yusuf^ 



(I) Abd-el-halim, p. 238 e 296 — Conde, P. 3, c. 5i — Iba 
Khaldun e Al-makkari (Gayangos, Vol. 2, App p. lxiv e 
p. 820) falam só de Silves, e o primeiro, até, parece indicar 
que Beja estava em poder dos christãos desde a primeira 
conquista ; mas não sendo claro o texto de Ibn Khaldun. 
e sendo positivos os de Abd-el-halim e Conde, preferimos, 
estes, que, aliás, são confirmados pela falta de documento» 
relativos a Beja por todo o fim do século XII. 

(a Doaç. de Alvor, na Mon. Lusit., P. 4, L 10. c 9. -• Doaç. 
de Mafra, ibid., P. 5, App Fscrit. iG. 

(3) Annal. Toled i. — Ibn Khaldun, loc. cit. 



LIVRO III 



197 



irmão de Yacub Al-manssor, Foi elle, segundo 
parece, o encarregado de reunir as forças sarracenas 
de áquem mar. Emquanto isto se fazia o imperador 
passava o Estreito na primavera de 1190 com tropas 
numerosas e vinha desembarcar em Tarifa, diri- 
gindo-se immediatamente com marchas forçadas 
para Silves, juncto a cujos muros veio ajunctar-se 
com elle o exercito andalús. Deixando este para 
continuar o assedio, Al-manssor transpôs as serras 
com a gente d'Africa, resolvido a penetrar nos esta- 
dos de Sancho e a fazer experimentar aos súbditos 
do seu adversário as mesmas calamidades que ti- 
nham padecido os mussulmanos de Chenchir (i). 
Nesta resolução de Yacub influiu, provavelmente, 
a resistência que encontrava na guarnição de Silves, 
resistência a que ajudou o soccorro inesperado 
que obtivera aquella praça antes da chegada dos 
sarracenos. Uma nau inglesa que conduzia para a 
Syria cem homens d'armas de Londres aportara alli. 
Persuadidos pelo bispo Nicolau, os ingleses, moços 
e valentes, associaram-se de bom grado aos portu- 
gueses no perigo que as noticias dos preparativos 
do príncipe almohade representavam imminente e 
gravíssimo (21. Para sabermos a causa desta inopi- 
nada vinda dos cruzados e illustrarmos em parte os 
successos subsequentes, cumpre que apontemos em 
resumo acontecimentos na apparencia estranhos á 



(i) Ib» Khaldun, 1. cit. — Al-makkari, L. 8, c. 3 — Abd- 
el-halim (p. 239) seguido por Conde loc. cit.l altribue esta 
campanha unicamente a Mohammed Ibn Yusuf, wali de 
Córdoba. Ibn Ech Chemma, citado por Al-kairuani His- 
toire de lAfrique, vers. de Pellissier e Réniusat, Paris, 
1845, p. 202 não faia da vinda de Yaculj á Hespanha nesta 
conjunctura. Preferimos, todavia, a relação de Ibn Khaldun 
e de Al-makkari, porque concorda com as memorias 
christans, que são uniformes acerca da vinda de Yacub. 

íaj Hoveden, p. Qúq — Brompton, p. 1176. 



ig8 HISTORIA DE PORTUGAL 

nossa historia, mas que com ella têem intima con- 
nexão, como adiante veremos. 

Ricardo I d' Inglaterra, chamado Coração de 
Leão, que succedera a seu pae Henrique II, tinha-se 
ligado com Philippe Augusto, rei de França, para a 
cruzada. Reunindo os respectivos exércitos, desce- 
ram ao longo do Rhodano até que de novo se apar- 
taram, dirigindo-se Philippe Augusto para Génova 
e Ricardo para Marselha, onde era seu desígnio 
embarcar com a gente que levava da Gran-Bretanha 
e dos vastos territórios que possuia na França. O 
resto das tropas deviam ser transportadas numa 
armada que se ajíromptava em vários portos d'In- 
glatcrra e da Normandia e que tinha de ir esperá-lo 
em Messina ou, segundo outros, recebê-lo a bordo 
em Marselha (i). Foram incumbidos de capitanear 
esta armada Ricardo de Camwil, Roberto de Sabloil, 
Guilherme de Forz e os bispos d'Auch ede Bayeux. 
Eram mais de cem os navios de que se compunha a 
expedição, entre galés, naus de carga e outras em- 
barcações, as quaes, á medida que se apromptavam, 
saíam em esquadras dos portos de Normandia, Bre- 
tanha e Inglaterra; esquadras que, rodeando a 
Peninsula até o Estreito, deviam ajunctar-se no 
Mediterrâneo. Partiu de Dartmouth a primeira, 
composta de dez naus, dirigindo-se a Lisboa, aonde 
todíis, segundo o costume, haviam de vir procurar 
refrescos para a viagem; mas ao engolfarem-se no 
mar de Biscaia levantou-se um temporal desfeito 
com mares tão grossos que se esi^alhou a frota, indo 
buscar separadamente acolheitas ao longo da costa 
de Hespanha. Asserenada a procella, nove daquellas 
naus proseguiram em demanda do Tejo, e uma que 



^1, Var.am neste ponto Vinisauf (L. a, c, j) e Rogério de 
tíoveden (p. 667). 



LIVRO III 



^99 



/obrara o cabo de S. Vicente, corrida de ventania, 
entrou na bahia de Silves logo que pôd^ assegurar- 
se de que não passara além do termo dos domínios 
christàos. Foi o auxilio destes cruzados que o bispo 
de Silves invocou. Acceitaram elles o serem parti- 
cipantes na sorte dos seus co-religionarios : ajuda- 
vam a guarnecer os muros; e a própria nau em 




24. — Torres-novas. — 7Uma parte do castello. 



que tinham vindo se desfez para se aproveitarem 
os materiaes delia nas fortificações e reparos neces- 
sários á melhor defensão da cidade, obrigando-se os 
j)ortugueses em nome de Sancho I a indemnisá-los 
pela demora e a dar-lhes uma nau nova por aquella 
que assim perdiam ; promessas estas que o rei de 
Portugal depois religiosamente cumpriu (i). 

Não tendo podido reduzir Silves no primeiro 
ímpeto, Yacub marchou, como dissemos, através do 
moderno Alemtejo e, deixando á direita Évora, 
aproximou-se das margens do Tejo. Transpondo o 
rio acima de Santarém, o exercito mussulmano, que 



(I) Id. 668. — Bromp-ôn, loc. cit. 



200 HISTORIA DE PORTUGAL 

pelo seu numero e pela rapidez da invasão levava 
ante si o terror (i), accomnietteu o castello de 
Torres-novas, que foi tomado depois de dez dias de 
inútil ri sistencia {'?.). Mortos ou prisioneiros os que 
o defendiam, os sarracenos dirigiram-se contra 
Tliomar. Era este castello um dos mais fortes de 
Portugal e, talvez, o mais bem defendido por estar 
confiada a sua guarda aos templários, que delle 
tinham feito o centro da ordem, estabelecendo ahi 
a sua casa capitular. Gualdim Paes, um dos pri- 
meiros portugueses afiliados áquella ordem e um 
dos mais illustres membros delia pelas suas faça- 



(i) A inscripção deThomar transcripta por Viterbo (Elu- 
cidário,'!, a, p. 309) eleva o exercito de Yacub a 400:000 
homens de cavallaria e a 5oo:ooo de infanteria. Brandão 
(Mon. Lusit., L. 12, c. i3) prudentemente leu 4o 000 e 
5o:ooo, cortando uma cifra nos de cavallo e nos de pé. E 
ainda assim, não sabemos se haverá exa^geração. Quanto 
á rapidez da entrada dos almohades, vê se ter sido extre- 
ma, porque ainda nos princípios de 1190 (Ibn Khaldun, 
1 cit.) Yacub estava em Africa ; e tendo a nau inglesa que 
aportou a Silves partido de Dartraouth depois da Paschoa 
25 de março) e sobrevindo-lhe o temporal no dia da As 
cenção, chegou áquella cidade quando ainda se esperavam 
os inimigos (Hoveden, loc. cit.), ao mesmo tempo que 
sabemos haver Yacub passado o Tejo nos íins de junho, 
depois de deixar o assedio de Silves (Inscripç. de Thomar, 
Ibn. Khaldun, Hoveden, loc. cit.) . 

(2) Hoveden, loc. cit. — O foral de Torres-novas dado em 
outubro de 1190 (Arch. Nac. M. 12 de F. A. n.» 3, f. 8 v.) 
mostra que logo depois da retirada de Yacub se tractou 
de restaurar e repovoar aquelle castello. Encontra-se, 
além disso, neste documento uma passagem que .ndica 
bem ser gente vinda recentemente de outras terras para 
alli a que o repovoava, visto faltarem-lhe leis ou costumes 
tradicionaes; « Ista omnia invenimus in carta de Thomar 
et nulla alia ipsi faciunt que in carta non tenent. et 
sicut ipsi íecerint ita et nos faciemus « : Ibid. — Quanto 
aos dias que o castello de Torres-novas resistiu, veja-se 
Brandão, L. ia, c. i3. 



LIVRO III 



20 1 



nlias no oriente e na Hespanha, era então o mestre 
ou procurador do Templo em Portugal. No meio 
•daquelles muros que elle próprio travara com os 
pincaros de monte despenhado e fragoso, o duro 



mÊ^Ê^^r^. 




^^^^^k'' 


Í*.. 




^'"^1^^''^' 


"'^'""tlJH^^^M 


'^ 




-vjtia^^ti-aE.?': 




â''- • 


fc!9pL^;^<wSgMaMli 


ãM>,: , j 





a5. — Castello de Thomar. 



Telho esperou com os monges-cavalleiros a fúria 
dos pagãos, epitheto com que na sua singela igno- 
rância nossos avós costumavam designar os mussul- 
manos. Pouco tardaram estes ; e, devastadas as 
cercanias do logar, o imperador pôs estreito assedio 
ao castello, destruindo todas as habitações que 



-aoa uíSTORiA de portugal 

começavam a ag^j^lomerar-se na raiz daquellas quasi 
inaccGssivcis muralhas (i). 

A marcha rápida de Yacub, penetrando pela 
centro dos estados de Sancho I, mostrava a este que 
tinlia de luctar com um hábil adversário. Conduzida 
inesperadamente por aquelle lado, a invasão impe- 
dia que as forças das províncias portuguesas do 
norte, onde a população era mais numerosa e onde 
tinham principalmente seus solares os cavalleiros. 
mais illustres, se ajunctassem ás que guarneciam as 
recentes conquistas de AÍTonso I e de seu fdho. 
Persuadido de que Yacub se dirigia contra Santarém 
para ahi vingar a morte do pae (2), Sancho lançou- 
se dentro da povoação com os poucos cavalleiros e 
homens darmas que então o acompanhavam. Toda- 
via a marcha dos inimigos j^ara o lado septemtrionat 
da Estremadura, longe de lhe diminuir os receios^ 
devia augmentar-lh'os. Accommettido em Santarém 
pelos almohades, poderia entretê-los até descerem 
tropas da Beira e do Alemdouro ; mas, agora, a 
possibilidade do soccorro difficultava-se por dous 
modos, visto que os invasores impediam a commu- 
nicação, internando-se para os territórios entre 
Alcobaça e Leiria, e que fora grave imprudência 
desguarnecer Coimbra, centro e capital da monar- 
chia, até cujos arrabaldes, dex)ois de destruir Lei- 
ria, um corpo de tropas almohades havia chegado^ 
jjondo tudo a ferro e fogo (3). Era na verdade critica 



(i^ delevit quantum extra murum invenit : Inscrípç. de 
Thomar no Eluc, T. 2, p. 359. 

(2) venit... in vindictam imperatoris Africse patris sui i 
Hoveden, p. 669. 

(3) Fr. Nicolau de Sancta Maria cita o livro da Noa e unj» 
obituário de Sancta Cruz de Coimbra em prova deste facto. 
Na livro da Noa (Chronica Conimbricense) nada se lê a. 
lai respeito. E possível que se leia no obituário. Apesar 



LIVRO III 



203 




26. — Igreja de S. João d'Alporão em Santarém. — Portal. 



204 HISTORIA DE PORTUGAL 

a situação do rei de Portugal; mas ainda uma vez 
mais a providencia lhe deparou inesperado soccorro 
por intervenção dos cruzados. 

Dissemos como nove naus da primeira esquadra 
anglo-normanda que partira de Dartmouth, tendo- 
se abrigado da furiosa procella que as acommettera 
no mar de Biscaia, vieram, emíim, reunir-se no 
Tejo. Havia poucos dias que Al-manssor passara 
«ste rio acima de Santarém quando os cruzados 
«hegaram. Sancho enviou mensageiros aos chefes 
da armada que lhes pintassem o estado das cousas, 
e estes mandaram logo pelo rio acima quinhentos ho- 
mens escolhidos dos que para isso espontaneamente 
«e oflereceram, a fim de reforçar a guarnição de 
Santarém. Ao chegarem alli os ingleses conheceram 
quão necessária fora a sua vinda. A gente de guerra 
que o rei tinha comsigo era mui pouca, e os habi- 
tantes da povoação também poucos e mal armados. 
Já Yacub se havia apoderado de Torres-novas e 
sitiava Thomar; mas ao menos com este soccorro 
tornava-se mais segura em Santarém a esperança 
de uma defesa efficaz. 

A estação em que os invasores chegaram ás mar- 
gens do Tejo, e as febres que ainda hoje costumam 
reinar pela Estremadura durante o ardor da cani- 
<;ula, são circumstancias que ajudam a aclarar a 
•causa do procedimento ulterior de Yacub, procedi- 
mento que um chronista inglês contemporâneo, 
levado da vaidade nacional, attribue ao temor pro- 



•do pouco credito que merece o chronista augustiniano, o 
que é certo é que o foral de Leiria de 119Õ (M 12 de F. A. 
n.» 3, f. 3 no Arch Nac.) justifica a sua narrativa. Admit- 
tida a destruição de Leiria em 1190 explica se também a 
existência dos seus dous foraes de 1142 e 1195 e remove- 
sc a duvida que obrigou J. P. Ribeiro a ter por espúrio o 
primeiro 



LIVRO III !105 

duzido pela vinda dos cruzados e que nós cremos 
ter unicamente nascido do estrago que faziam no 
exercito sarraceno a malignidade do clima naquella 
quadra e a falta de victuailias. Acaso, elle próprio 
loi tocado do mal que grassava entre a soida- 
desfía (i). Mas, fosse por este ou por outro motivo, 
conhecendo que não poderia levar a cabo os seus 
desígnios, o imperador de Marrocos enviou aos 
inimigos proposições de paz. Pedia a restituição de 
Silves, oíle recendo retirar-se, restituindo também 
Torres-novas e fazendo tréguas por sete annos. 
Sancho I, porém, mostrou-se tenaz em recusar a 
entrega da capital de Chenchir, entrega que virtual- 
mente importava a perda das suas ultimas con- 
quistas. Recebida esta resposta, Yacub de novo 
mandou mensageiros ao rei de Portugal ameaçando- 
o de que no dia seguinte viria bater ás portas de 
Santarém. Acreditou-se a ameaça; guarneceram-se 
os muros e torres, escolhendo os quinhentos ingleses 
para sua estancia os pontos mais arriscados. Assim 
se passou a noite, e logo na manhan seguinte correu 
a voz de que os sarracenos se avizinhavam ; mas 



(i) A inscripção de Thomar que diz : « Ipse rex remea- 
vit in pátria sua ciini innumerahili detrimento hominum et 
hestiariim «; a noticia que se espalhou em Santarém de 
que Yacub morrera subitamente Hoveden 1. cit.) ; os ves- 
tigios que se encontram em Abd-el-halim e Conde il. cit.) 
de uma grave enfermidade que Yacub padecera neste 
tempo Ipostoque digam fora em Africa) e, íinalmente^ 
sendo absurdo attribuir com Rogério de Hoveden a sua 
repentina retirada para Sevilha a qual é confirmada por 
Ibn Khaldun) a temor que tivesse dos õoo ingleses chega- 
dos a Santarém; tudo isto, dizemos, torna altamente vero- 
símil a nossa conjectura que, aliás, se estriba nos eíTeitos 
prováveis do clima durante o mês de julho. Sobre este e 
os seguintes paragraphos vejam-se principalmente R. de 
Hoveden, p. 6G9 e 670, e Ibn Khaldun, p. lxiv. 



^o6 HISTORIA DE PORTUGAL 

pouco tardaram a chegar os exploradores, dizendo 
que Yacub fallecera havia três dias, que o exercito 
sarraceno se retirava era desordem e que, portanto, 
propostas e ameaças tudo era falso. Repetiam a 
mesma noticia os que successivamente chegavam. 
Era ella em parte verdadeira : Yacub não morrera : 
mas o cerco de Thomar cessara a ii de julho, tendo 
apenas durado seis dias. As tropas almohades 
transpunham de novo o Tejo e, retrocedendo para 
o sul, dirigiam-se a Sevilha. 

Assim terminou esta invasão, que ameaçava ser 
fatal ao j)aiz, e Sancho despediu os seus auxilia- 
dores certificando-os de que não seria ingrato ao 
prestado serviço. Entretanto os dous principaes 
chefes da armada do rei dlnglaterra, Roberto de 
Sabloil e Ricardo de Camwil, tinham entrado na 
barra de Lisboa com sessenta e três naus. A gente 
que nellas vinha era, segundo parece, um vulgacho 
rude e desenfreado, para conter o qual fora neces- 
sário a Ricardo I decretar disposições atrozes que 
regulassem a policia da frota (i). Apenas entrados 
no porto, os cruzados saltaram em terra e começa- 
ram a tractar os habitantes de Lisboa como se a 
cidade houvera sido tomada de assalto. Correndo as 
ruas e praças, accommettiam quantos encontravam, 
violando brutalmente as mulheres e filhas dos bur- 
gueses. A fereza e perversidade daquelle tropel de 
malvados exercitou-se especialmente contra as fami- 



(i) Segundo estas leis, transcriptas nos Annaes de Hove- 
den (p. 663) e por outros historiadores daquelle tempo, o 
assassino era lançado ao mar amarrado ao morto e, sendo 
o crime commettido em terra, sepultado vivo com elle; o 
que puxava ferro para outro ou teria tinha a mão dece- 
pada : ao ladrão derramava-se-lhe sobre a cabeça pez a 
íerver e lançava se em terra no primeiro porto aonde cg 
navios chegavam. 



LIVPO III 207 

lias dos judeus e sarracenos que na occasião da 
conquista não tinham querido abandonar os seus 
lares e que haviam sido recebidos como súbditos 
pelo babil Afíbnso I. Expulsos á viva íorça das 
communas ou bairros em que separadamente vi- 
Tiam, viram roubarem-lhes os ingleses tudo quanto 
possuiam e, depois, incendiarem-lhes as habitações. 
Os estragos feitos ncs campos vizinhos não foram 
menores (i). Esta situação intolerável, esta quebra 
de todas as leis da hospitalidade e do christianismo 
durou tempo bastante para chegar a Santarém a 
nova do que se passava. Sancho, a quem provavel- 
mente já tinham vindo unir-se algumas tropas do 
norte, marchou immediatamente para Lisboa á 
íi-ente de forças respeitáveis. Chegando, porém, á 
cidade, longe de mostrar aos chefes da armada a 
sua indignação, fingiu esquecer as injurias feitas a 
si e aos seus e tractou-os com moderação, promet- 
tendo não tirar vingança do indigno procedimento 
dos cruzados. iVssim obteve sem violência que Ro- 
berto de Sabloil e Ricardo de Camw ill obrigassem 
aquelles homens brutaes a jurar que guardariam 
inviolavelmente para com os portugueses o regi- 
mento de Ricardo I sobre a policia da armada. 

Três dias durou a paz ; mas a irritação dos bur- 
gueses e a violência das paixões dos cruzados não a 
soíTreram por mais tempo. Os capitães da frotíi 
commetteram o erro de consentirem que os seus 
voltassem a terra, e as passadas violências foram 
incentivo para novas e mais sérias rixas. Os portu- 
gueses estavam prevenidos, e uma accesa briga se 
travou entre elles e os hospedes. Correu o sangue 
em abundância, e de uma e outra parte ficaram 



(i) non relinquentes eis uvam neqae racdmum ; Hovedeu, 
loc. cit. 



208 HISTORIA DE PORTUGAL 

alastrando as ruas e praças grande numero de ca- 
dáveres. O arruido do combate chegou aos ouvidos 
de Sancho, que logo mandou fechar as portas da 
cidade para que nenhum dos cruzados que se acha- 
vam em terra podesse evadir-se. Depois os homens. 
d'armas desceram da alcáçova e, iDrendendo quantos, 
encontravam, os lançaram no fundo de masmorras. 
Eram setecentos. Sancho abandonara o systema de 
brandura cuja inutilidade estava i^atente. Os pri« 
sioneiros que tinha em seu poder eram-lhe seguro 
penhor contra qualquer tentativa da gente da armada 
e, assim, dictou aos cruzados as condições que quiz 
para a pacificação da discórdia. Conveio-se a final 
em que de parte a parte se esquecessem os males e 
injurias recebidos, em que se restituíssem mutua- 
mente as armas, bem como os roubos perpetrados (i) 
e, finalmente, em que os cruzados respeitassem os 
súbditos portugueses e a sua propriedade em qual- 
quer porto aonde chegassem, dando-lhes o rei segu- 
rança e acolhimento pacifico em todos os logares 
marítimos dos seus estados. Soltaram-se então os 
prisioneiros, e a armada não tardou em levantar 
ferro defronte de Lisboa, aproximando-se da barra 
a 24 de julho, dia em que ahi chegava também Gui- 
lherme de Forz com trinta naus de grande porte. 
Reunidos os três almirantes, a frota do rei d'Ingla- 
terra, que subia a cento e seis navios de alto-bordo, 
saiu ao mar, proseguindo na sua viagem para o 
Mediterrâneo. 

Aj)esar da retirada de Yacub para Sevilha, a 



(i) qiiod arma et caetera omnia quae in illo praelio amissa 
fuerant, ex utraque parte redderentur : Hoveden, loc. cit. 
É evidente que os cruzados só poderiam ter perdido as 
armas e que o coetera omnia se refere aos roubos anterior 
mente perpetrados 



LIVRO III aoQ 

guerra com os sarracenos não tinha inteiramente 
cessado. Os alcaides andaluses corriam os campos 
de Al-faghar, e Silves era continuamente combatida 
ou pelo menos ameaçada ; mas as guarnições tanto 
daquella cidade como dos castellosao oeste de Faro, 
ultimo ponto da fronteira mussulmana, sustentavam 
as conquistas do anno antecedente (i). O tempo 
consumiu as memorias desta lucta, que, porven- 
tura, custou a vida a mais de um nobre cavalleira 
de Portiig-al (2). Todavia ella não parece ter sida 
assas violenta para absorver toda a actividade da 
Sancho I, que se dedicava entretanto a outros ne- 
gócios de ordem politica, negócios a que se lig-am 
em boa parte os acontecimentos posteriores da saa 
vida. Foi um dos seus primeiros cuidados obter de 
Clemente III a confirmação da coroa, o que lhe íoi 
concedido por uma bulia em tudo semelhante á que 
Alexandre III dirigira a seu pae em 11 79 (3). Maté- 
ria não menos grave, postoque de outra natureza, 
lhe attrahia ao mesmo tempo a attenção : vinha a 
ser o que nessa conjunctura se passava nos dous 
reinos vizinhos. O ter recebido o grau de cavalleiro 
de Aftbnso VIII de Gastella e o haver beijado a mão 
deste numa assembléa publica e solemne, qual íora 
a de Carrion, signal de respeito que aos olhos de 



(i) Segundo Ibn Khaldtin 'l. cit.l o exercito andalús ficou 
sitiando Silves até a vinda de Yusuí" com os almohades 
em 1191. w) silencio de Hoveden (1. cit.) a semelhante res- 
peito, quando relata a passagem da armada inglesa ao 
longo sla costa do Algarve, que o historiador vae descre- 
vendo/persuade que a guerra contra Silves era antes de 
correrias do que um assedio regular. 

(a) Carta de confirmação da posse de vários bens ao 
mosteiro de Grijó : M. 12 de F. A., n.« 5, f. 64eLiv. 20 de 
D. João III, f. ii5 v. no Arch. Nacion. 

(3) Bulia de Clemente III Manifesiis probatam (maio de 
I190J no Arch. >;aciou. Gav. 16, M », n.» i5. 

VOL. III. I^ 



aio HISTORIA DE PORTUGAL 

muitos equivalera a uma confissão de inferioridade 
e, talvez, de sujeição, era espinho que pungia cruel- 
mente o animo do moço rei de Leão. Os validos 
irritavam o resentimento do mancebo ou por pun- 
donor nacional ou porque desejavam a guerra. Diz- 
se que o motivo para o rompimento entre os dous 
primos fora a fundação de Placencia, a qual Af- 
Ibnso VIII povoou em território que pertencia ao 
bispado leonês de Coria (i). Fosse este ou outro o 
pretexto, a discórdia cujas sementes se haviam lan- 
çado á terra vieram, finalmente, a germinar. Para 
poder resistir ao primo, o rei de Leão buscou es- 
treitar alliança com o de Portugal e, j)ara que esta 
fosse mais sincera e estável, os dous príncipes resol- 
veram unir-se por laços de familia, tomando Af- 
fonso IX por mulher Theresa, filha mais velha de 
Sancho. Dirigiu-se este a Guimarães, aonde veio 
encontrá-lo o futuro genro, e ahi foi celebrado o 
consorcio na primavera de 1191, recebendo em 
arrhas a nova rainha uma parte das rendas de va- 
rias terras e castellos de Leão (2). Este consorcio, 
aconselhado pelas conveniências j)oliticas, conver- 
teu-se em amor sincero, que sobreviveu, como 
depois veremos, á separação dos dous esposos im- 



(i) Ferreras, Hist. de Espana, P. 5, p. 4ii- — Romey, T. 6, 
p, 222. 

2! Rod. Tolet., L. 7. c. 24. Luc. Tud., p. 107. Hoveden, 
p, 685. — Brandão (L. 12, c. i5) põe este casamento nos 
fins de 1190; mas parece obstar-lhe a escriptura de feve- 
reiro de 1191, em que D. Theresa íigura ainda na corte de 
seu pae e que elle mesmo publicou (App. Escript. IIi, e 
positivamente se lhe oppõe a citada por Flores íEsp. Sagr., 
T. 17, p. 97) expedida por AíTonso IX nesse mesmo mês, 
em Guimarães, estando para casar-se. O que dizemos das 
arrhas deduz-se indirectamente do App. LXII do T. 36 da 
Esp. Sagr. Veja-se também Flores, Keyn. Cathol., T. I, 



LIw.O III 211 

posta pela disciplina da igreja e pela inflexibilidade 
de Celestino III. O tractado entre Portugal e Ara- 
g-ão, que não tinha sido possível assentar três annos 
antes pela insistência de Sancho I em excluir delle 
o sobrinho, diz-se que fora, em fim, concluído nesta 
<;onjunctura, fazendo-se em Huesca uma liga oílen 
siva e defensiva entre os três estados em mai 
de 1191 (i). 

Entretanto o amir-al-mumenin, que da passada 
invasão em Portugal não tirara nenhuma vantagem, 
«alvo o assolar o território inimigo com grande dis- 
pêndio das próprias forças, meditava uma nova 
gaswat contra o rei infiel do occidente, modificando 
o desenho anterior e começando pela restauração 
dos districtos perdidos além do Tejo, para depois, 
talvez, atacar pelo centro os estados de Sancho, 
invadindo-os pela orla boreal da província de Bela- 
tha, que por tantos annos estremara no poente da 
Península os domínios christãos e sarracenos. Ou 
thesse, conforme alguns, residido neste meio tempo 
«m Sevilha ou, conforme outros, fosse ido a visitar 
a Africa (2), Yacub, reforçado o seu exercito, veio 
com marchas rápidas pôr definitivamente cerco a 
Silves. Ignoram-se as circumstancias do assedio, o 
tempo preciso que a cidade resistiu e o modo como 
se entregou. O que unicamente se pode conjecturar 



(i) Çurita, L. 2, c. 44- 

(2) Gomparem-se Abd-el-halim, p. 238 e 289, e Conde, P. 3, 
c. õi, com Ibn Khaldun, 1. cit., e Al makkari, L. 8, c. 3. Os 
primeiros parece indicarem que Yacub não tornara á 
Hespanha depois da primeira correria em 1189 até a bata- 
lha de Alarcos, e que a guerra fora feita por seu irmão 
Moliammed, governador de Córdova. Al-makkari e Ibn 
Kbaldun dizem o contrario. A narrativa destes é confir- 
mada por Hoveden, que attribue precisamente as entradas 
de rigo e 1191 ao próprio Al-manssor. 



312 HISTORIA DE PORTUGAL 

com probabilidade é que as tropas da guarnição se 
defenderam longamente e que, ou jjor convénio ou 
por outro qualquer modo, evitaram a triste sorte? 
do captiveiro (i). Durante o assedio o kayid Abu. 
Abdullah Ibn Wasir, que suppomos ser o mesmo 
que sustentara a heróica resistência da capital de 
Chenchir contra Sancho e os cruzados e que era o 
chefe da vanguarda dos sarracenos, entrara por 
outra parte no território disputado e, tendo submet- 
tido uma praça cujo nome e localidade os historia- 
dores nos não conservaram (talvez Beja), viera 
unir-se ao grosso do exercito d'Al-manssor juncto 
dos muros de Silves. Rendida esta, os vencedores 
marcharam para o norte e, havendo atravessado o 
Alemtejo meridional, reduziram successivamente 
Alcácer, Palmella e Almada, de modo que não só 
restituiram ao senhorio mussulmano as recentes 
conquistas de Sancho, mas também o privaram de 
uma parte dos domínios que seu pae lhe tinha 
legado. De toda a província de Al-kassr apenas 
Évora ou resistiu á torrente ou não foi accommettida. 
Satisfeito com os resultados desta brilhante campa- 
nha, o amir, guarnecidas as fronteiras do Gharb> 
recolheu-se aos seus estados d' Africa (2). 



(i) A perda das praças além do Tejo ainda não era defi- 
nitiva em abril de 91, porque ainda nesse mês Sancho I,. 
se intitulava rei do Algarve (Dissert. ChronoL, T. 3, P. i, 
n.° 606), e a narrativa de Ibn Khaldun acerca desta guerra 
{Jersuade que Yacub teve de se demorar diante de Silves. 
É também provável que escapasse a guarnição, porque 
sendo governador da praça Rodrigo Sanches (Nota XII ad 
lineni) sabemos que elle veio a morrer na batalha de Alar- 
cos, estando alli com as tropas portuguesas que assistiram 
áquella infeliz jornada. 

2) Ibn Khaldun, 1. cit. — Al-makkari, 1. cit. — Hoveden^ 
p. 714 e 7x5. — Abd el-halim, p. pSg. Pelo que respeita á 
conservação de Évora sob o domínio de Sancho, além do 



MVRO III ai3 

Al-manssor invadira com forças taes os territó- 
rios além do Tejo que o rei de Portugal não se jul- 
gou habilitado para resistir á torrente (i ). Todas as 
circumstaneias lhe eram adversas. Yacub, homem 
de extraordinários talentos militares e políticos e 
facilmente superior em cultura intellectual aos reis 
christãos da Península, dominava sem contradicção 
em todo o Andalús, exceptuadas as Baleares, onde 
ainda se conservavam independentes uns restos de 
alnioravides, e era senhor absoluto do império de 
Marrocos, onde se fazia estimar pelo seu amor das 
letras, pelo caracter religioso de que era dotado e 
pela firmeza com que sabia conservar a ordem e a 
Loa administração do estado, a ponto de se dizer 
que qualquer caravana podia atravessar o império 
desde os desertos de Barca até as praias mais occi- 
dentaes da Africa, sem risco do menor accidente (2). 
Sancho, porém, postoque bom soldado, nem igua- 
lava o seu antecessor em talento militar, porque os 
homens como Afibnso I são raros, nem suppria essa 
inferioridade de génio com a cultura superior do 
entendimento. Se alguns dos actos políticos da sua 
vida parece auctorisarem o historiador a attribuir- 
Ihe um certo grau de prudência e tacto governativo, 
d'outros actos seus, públicos e particulares, se de- 
duz que, em conformidade da sua educação inteira- 
mente militar, era fácil de dominar de cólera ceera 
«violenta; podendo assim, talvez, attribuirse em 



que dizemos em a nota X, Hoveden (1. cit.) referindo-se 
aos territórios christãos e mussulmanos da Hespanha em 
iiyi, e nomeando as dioceses de Portugal, entre as quaes 
omitle já Silves, fala dEvora como situada iri marchia 
sarraccnorum. 

(i; non potuit illius resistere viribus : Hoveden, 1. cit. 

ií>i Abd-el-lialim, p. 236. — Ibn Ech Chemma em Al-kai» 
ruuni, p. 200. - Conde, P. 3, c. õo. 



2l4 HISTORIA DE PORTUGAL 

parte á inlluencia do seu clianceller Julião, homem 
intelligente, postoque de consciência um pouco 
larga, as i)rovidencias administrativas para o de- 
senvolvimento da força e prosperidade nacional^ 
que honram indisputavelmente o reinado de San- 
cho I (i). Esta desigualdade de talentos e recursos 
entre o imperador mussulmano e o rei português 
tinha até ahi sido contrapesada pelas j^erturbações 
do Moghreb, as quaes entretiveram quasi sempre 
as attenções do amir nos primeiros annos do seu 
governo, pelos valiosos auxilios das frotas dos cru- 
zados, pelo habito da victoria, pelas tradições 
d'esforço que AíTonso I deixara aos cavalleiros de 
seu filho, e, emfim, pelo valor pessoal deste. Mas 
agora o dominio de Yacub achava-se geralmente 
firmado em Africa e em Hespanha, faltava o auxilio 
estrangeiro, a conquista de iVl-íaghar consumira 
cabedal de gente e dinheiro, a invasão dos almoha- 
des no anno antecedente, além de ter espalhado o 
terror, a devastação e a morte numa importante 
porção do território português, devia ter produzido 
maior ou menor quebrantamento nos ânimos e, 
finalmente, a alliança estreita contrahida por Sancho 
com o rei de Leão, se por uma parte lhe trazia um 
alliado, por outra forçosamente causava ciúme a 
Aífonso VIII de Castella e o convertia num inimigo, 
embora occulto, digno de receio por ser entre todos 



(i) Uma carta de Innocencio III ao arcebispo de Com 
postella (Epistolar., L. XIV n." lo) que, bem como outras, 
adiante havemos de aproveitar, nos revela ao mesmo 
tempo a pouca educação litteraria de Sancho I e o caracter 
astucioso do chanceller. A historia das discórdias deste 
príncipe com os bispos do Porto e de Coimbra, e o docu- 
mento de Vairão publicado por J. P. Ribeiro (Dissert. 
Chron., T. I. Append. n.° 4^. P- 2041 são bem palpáveis ves- 
tígios do irascivel e indómito génio daquelle príncipe. 



LIVRO III 2l5 

OS príncipes da Hespanha cliristan o mais poderoso 
e mais hábil. Restava, portanto, ao rei português o 
projjrio esforço e o esforço dos seus soldados ; mas 
isso não era sufficiente jiara compensar as desvan- 
tagens da situação. Assim a immobilidade com que 
Sancho parece ter assistido á perda das suas con- 
quistas e de uma parte das de seu pae, nascia evi- 
dentemente da falta de recursos para se oppôr a ella 
e da necessidade de empregar os que tinha em pro- 
ver a defensão dos seus domínios ao noroeste do 
Tejo. 

Num paiz pobre e pouco povoado, onde a guerra 
€ o pensamento em volta do qual se agitam todos os 
espíritos, e cujos habitantes se afazem a viver antes 
dos despojos das cidades vencidas ou das rapinas 
de frequentes correrias do que do trabalho pacifico ; 
onde á idéa do ferro se associa quasi sempre a da 
espada e raramente a do arado ; onde o homem não 
pôde nem quer ter outro pregoeiro da própria 
gloria senão o restrugir dos combates; onde, emfim, 
a palavra virtude quasi que inteiramente voltou á 
sua primitiva e brutal significação de força, ahi a 
sociedade é essencialmente fraca; ahi vive-se de 
uma excitação febril, para annullar a qual basta 
muitas vezes somente um grande revés. Dizem-no 
hoje as boas doutrinas politicas : disseram -no mais 
de uma vez ás nações guerreiras e rudes da idade 
média dolorosas experiências. Ao sentimento vivo 
e profundo dessa verdade, na conjunctura em que 
se mostrou quaes eram as consequências de tentar 
novas conquistas antes de assegurar as antigas por 
meie da povoação e cultura, se deverank acaso os 
quatro annos de j^az de que Portugal gosou depois 
dos tristes successos que narrámos ; d'ahi nasceu o 
caracter que distingue principalmente o reinado de 
Sancho I, a tendência constante para colonisar com 



3l6 HISTORIA DE PORTUGAL 

estrangeiros e naturaes os districtos mais ermos do 
paiz e para fundar novas povoações ou restaurar as 
antigas, tendência pela qual este príncipe mereceu 
da posteridade o epitheto de povoador. 

Sancho, cingindo a coroa, tomara no preambulo 
dos diplomas, ora o titulo de rei de Portugal, ora o 
de rei portugalense ou dos portugueses, com a 
mesma variedade de que Affonso I usara. Depois 
da conquista de Silves e da maior parte da província 
de que Silves era cabeça accrescentou a esse titulo 
os de rei de Silves e do Algarve ou somente o 
ultimo. E, na verdade, tal denominação bem qua- 
drava a quem se via senhor de quasi todos os terri- 
tórios que compunham d'antes aquella grande 
divisão da Hespanha mussulmana que os árabes 
costumavam designar pelo nome de occidente 
(Gharbou Al-gharb). Agora, porém, que a sorte das 
armas lhe deixava apenas uma das três províncias 
que constituíam essa divisão e um logar forte no 
meio da de Al-kassr ; agora que a esperança de res- 
taurar as perdidas conquistas só podia assomar 
muito ao longe, seria uma vaidade mesquinha, que 
unicamente serviria para recordações amargas, o 
conservar um titulo que de modo nenhum corres- 
pondia á realidade dos factos. Sancho abandonou-o, 
portanto, limitando-se ao antigo, ao passo que prin- 
cipiava a cuidar com séria attenção em fortalecer e 
organisar os exhaustos e cerceados domínios que 
lhe restavam. 

Segundo o costume, os historiadores abando- 
nai^am ao esquecimento os quatro annos do reinado 
de Sancho I immediatos á retirada de Yacub para 
Africa, porque faltavam durante elles as vicissitudes 
das batalhas e assédios para descrever. Todavia 
ainda restam bastantes documentos que nos mos- 
tram não ter cessado a actividade daquelle principe 



LIVRO 111 



QI7 



HO meio de uma forçada paz. Temia, e com razão, 
<que os almohades renovassem as tentativas contra 
Portugal, tentativas que, a julgá-las pelos successos 
passados, podiam ir levar a assolação ao interior do 
paiz : era necessário, portanto, multiplicar os lo- 
jgares fortes, povoar de gente aguerrida as fronteiras 
<e coUigir todos os recursos possiveis para repellir 
os inimigos. Assim novas preceptorias ou mosieiros 
^as ordens militares se estabeleceram nas povoações 
mais importantes da margem direita do lejo, e 
fizeram-se doações a estas ordens de vários caslellos 
■ou de vastas porções de terra com obrigação de ahi 
os fundarem (i). A povoação da Beira-baixa me- 
receu também sérios cuidados, e a antiga Egitania 
(Idanha) começou a surgir das suas ruinas (2). As 
«colónias estrangeiras que no tempo de Allonso I 
tinham vindo povoar a Estremadura e que haviam 
prosperado augmentòu-se o território, dando-se-lhes 
Pontevel e seu termo, o que por este lado as apro- 
ximava da margem direita do Tejo (3). Leiria foi 



i) Uoaç. de Mafra á ordem de Évora ou Aviz maio de 
1193 M. 12 de F. A., n." 3, f. 62 v. — Doaç. aos templários 
<le bens em Santarém ^(diclo anno ibid., f. Go. — Doaç. á 
-ordem de Sanctiag-o da torre e paços da alcáçova de San- 
tarém no dieto annoi no Liv. dos Copos, f. 84. — Doac. á 
.mesma ordem do ediíicio de Sanctos o velho, juncto a 
Lisboa, em fevereiro de 1194 : CoUecç. Especial, Gav. 28, 
■in.g; tudono Arch. Nacion. — Doaç. da herdade de Guidim- 
testa á ordem do Hospital para fundar o castello de Bel- 
ver íjunho do dicto annoj em Figueiredo, N. Hist. de 
31alta, T. I, p. i52. 

(2) Na doaç. da Idanha aos templários Elucid., T. a, 
p. 12) feita em 1197 diz-se que corria o 3." anno depois que 
«e começara a repovoar. 

(3) Doaç. e Foral de Pontevel aos Francos de Villa- 
"verde e da Lourinhan fevereiro de 119Õ na Gav. õ, M. õ 
m.» i5 e no M. 12 de F. A., n.» 3, f. 33 v. no Arch. Nacionà 



2l8 HISTORIA OE PORTUGAL 

repovoada, restabelecendo-se-lhe as instituições ma- 
nicipaes (i). A fundação de vários outros castellos 
e villas neste periodo acaba, emfim, de provar qu^io 
activamente o rei português se dedicou durante elle 
a restaurar a vida interna da monarchia (2). 

As desditas, jjorém, de Sancho não deviam limi- 
tar-se aos damnos que buscava ag"ora reparar. 
Como se a providencia lhe houvesse concedido estes 
annos de paz unicamente a íim de deixar colligir 
forças a elle e á nação para não soçobrarem no 
meio de maiores calamidades, o rei de Portugal 
brevemente se viu obrigado a luctar com mais de 
um infortúnio. No casamento da infanta D. Theresa 
com o rei de Leão tinha-se dado uma circumstancia 
que em tantos consórcios análogos entre os prín- 
cipes da Europa quasi sempre trouxe, mais tarde 
ou mais cedo, graves perturbações. Eram primos 
os dous consortes. Celestino III regia então a igreja 
catholica. Logo que lhe constou o facto ou que 
outros negócios lh'o consentiram condemnou publi- 
camente esta união prohibida pelas leis ecclesias- 



(i) Castellum Leirene Dei cullui restituimus : diz o pre- 
ambulo do 2.» foral de Leiria (abril de 119Õ;. Fundada por 
AÍTonso Henriques, tivera delle o i » foral de 1142 e desde 
aquelle anno até este não ha probabilidade nenhuma de 
que estivesse nunca em poder dos sarracenos. Assim as. 
palavras que citámos só podem explicar-se pela invasão» 
de 1190, tanto mais que a diíTerença profunda das dispo- 
sições dos dous foraes prova que novos moradores tinham 
vindo estabelecer-se alli em 1195. Comparem-se os dous. 
diplomas no Arch. Nacion. M. 2 de F. A., n.* i, M. 12,. 
n." 3, f. 3 — Liv. de F. A. de Leit. Nova, f 17 v. — Gav. i5, 
M. 22, n.' 17 e na Mon. Lusit., P. 3, App. escript. 18. 

21 For. de Penacova 1192 M. 12 de F, A., n.-S, f. 56. — 
For. do INlarmclar (1194) : ibid., í. 21 v. — For. de Cove- 
linas abril de ii'Jõ) Liv. 2 de AlT. III, f. 7 v. — For. de Ou- 
velo (dicto) : ibid., f. 5-j v. — For. do Castello de Povo» 
{janeiro dicto) M 12 de F. A., n.» 3, f. 3o v. etc. 



LIVRO Hl 



ai() 



ticas e, não se mostrando inclinados a ceder ás suas 

ameaças nem o rei leonês, nem o sogro em Portug-al^ 

o papa ou o seu leg-ado pôs o inter- 

dicto em Leão e fulminou contra um 

e outro monarcha sentença de excom 

munhão. Xão bastou isto para 

separar os dous esposos, os quaes 

sinceramente se amavam ; mas, 

como quasi sempre acontecia, 

veio a triumpliar, emfim, nesta 

lucta o papa. Sancho teve de 

tragar a aíTronta de ver sua filha 

repudiada (i). 

Se acreditarmos um escri- 
ptor contemporâneo, AíTon- 
so yill de Castella não foi 
inteiramente estranho ao 
successo, e a politica deu 
aos raios de Roma uma effi- 
cacia que durante quatro 
annos não tinham podido 
alcançar (2). E' certo, porém, 
que, se o rei castelhano le« 
vava em mira o quebrai 
por esse meio a alliança de 
Leão e Portugal, não parecf 




I Os escriptores moderno( 
variam muito sobre as circum- 
stancias deste divorcio. Nós 
ativemo-nos ao que se colhe de 
uma carta de Innocencio III L. 
2, Episl. 7Õ e ao pouco que nos 
dizem Rodrigues Ximenes L. 7, 

c. 24) e Rog-erio de Hoveden fp. 685 e ao que Flores de- 
duziu dos documentos Reyn. Cathol., T. i, p. 342 . 

21 licet Celestinus papa multum laborasset ut separa- 
reQtur, tamen tenuit eam...per quinque annos... Alfonsuíi 



27 — Seílo pendente d© 
Sancho I, datado de 1195. 
( Ar chivo Nacional^ Collec- 
ção Especial.) 



220 HISTORIA DE PORTUGAL 

provável que naquella conjunctura tractasse já de 
«iibstituir sua filha á princesa repudiada; porque o 
consorcio de AíYonso IX e Berengaria effeituou-se 
dous annos mais tarde, depois de haver continuado 
a guerra activa que os dous reis, leonês e caste- 
lhano, tinham, havia muito, entre si (i). 

Soltos os laços de famiiia que prendiam Sancho 
a Alionso IX, era natural, attendendo ao caracter 
Tiolento do primeiro, que qualquer faisca de discór- 
dia entre os respectivos estados produzisse grande 
incêndio. Obstou por então a isso um grave aconte- 
<^i mento, se é que este não precedeu o divorcio, cuja 
<iata é duvidosa entre iigS e os princjpios de 1196, 
sendo aliás mais provável a primeira (2). Foi uma 
nova passagem de Yacub da Africa para a lles- 
panha, vaga impetuosa e terrivel que rolou pelos 
territórios christãos, fazendo vacillar o tlirono de 
Castelia antes de refluir para o seu leito. Uma ionga 
-enfermidade e os negócios do governo retinham Al- 
manssorem Marrocos havia três para quatro annos. 



rex Castellae coegit eura relinquere uxorem... et dedit ei 
suam liliam : Hoveden, 1. cit. 

(i) Veja se Risco, Reyes de Leon, p. 368. Romey conta 
particularidades assas curiosas sobre este divorcio. Pena 
•é que não nos diga donde tirou noticias tão recônditas. 
De Rodrigo de Toledo, que unicamente cita em seu 
-abono, de certo não. Neste historiador apenas se lê o 
pouco que delle aproveitámos. 

(21 Flores (Reyn. CathoL, T. I, p. 3Õo parece inclinar-se 
á de 1196; Risco (Rey. de Leon, p. 368) seyue sem hesitar a 
<ie 1195. Vindo o rei de Aragão (quer fosse Aílbnso II, 
quer seu filho Pedro, herdeiro da coroa, como nós cremos) 
a Coimbra, para, segundo se diz, congraçar os principes, 
•em fevereiro de 1196 (Chron. Conimbric. nos Port. Mon. 
Hist. (Scriptores) vol. i, pag. 3) a discórdia devia existir 
antes, e tempo bastante para o aragonês o saber e tentar 
a viagem, que attribuimos a causa bem diversa do amor 
<la paz. 



LIVRO III 221 

Entretanto Affonso VIII, aproveitando a ausência 
do amir, talara por si ou pelos seus capitães as 
terras dos sarracenos, e o arcebispo de Toledo» 
passando o Guadalquivir, levara o ferro e fogo ao 
coração da Andalusia. As tropas castelhanas che- 
garam no meio destas entradas até Algeziras, donde, 
segundo affirmamas memorias árabes, Affonso YIII 
enviou ao imperador de Marrocos um insolente 
cartel (i). Acceitou-o Yacub. Fazendo resenha das 
suas tropas e chamando para a guerra sancta as 
tribus todas do império, passou á Hespanha com um 
dos mais numerosos exercites que em tempo algum 
atravessaram o Estreito. A noticia da vinda dos 
almohades chegara ao rei de Castella, que, invo- 
cando o soccorro dos outros príncipes christãos da 
Península, marchou immediatamente ao encontro 
de Al-manssor com as forças que ajunctara. Os reis 
de Navarra e de Leão moveram com efleito as suas 
tropas; mas ou não poderam chegar a tempo ou, 
segundo affirma o arcebispo de Toledo, o soccorro 
era inteiramente simulado, de modo que apenas se 
aggregou ao exercito castelhano alguma gente de 
Portugal, entre cujos chefes se contavam o mestre 
da ordem d'Evora, Gonçalo Viegas, e o antigo alcaide 
de Silves, Rodrigo Sanches, que porventura buscava 
vingar nos sarracenos a perda daquella cidade (2). 



(i) Rod. Tolet., L. 7, c. 28. — Ibn Ech Cliemma em Al- 
kairuani, p. 202. — Abd-el-balim, p. aSg. 

(2) Rod. ToL, L. 7, c. 29 e 3o. Lucas de Tuy fp. 108 sem. 
negar o facto de que o rei de Leão não cheg-asse a tempo, 
procura attribuir as consequências dessa tardança á de- 
masiada pressa de Afíonso VÍII em atacar Yacub. Que 
estiveram tropas portuguesas na batalha de Alarcos vê-se 
do Chronicon Conimbricense. Suppomos que o Rodrigo 
Sanches de que ahi se fala era o alcaide de Silves; porque 
nenhum outro personagem deste nome .se encontra nos 
documentos do reinado de Sancho I. 



222 HISTORIA DE PORTUGAL 

Tendo-se dirigido a Sevilha, Yacub saiu d'alli para 
Córdova e de Córdova, atravessando a Serra Mo- 
rena, desceu para as planícies da Mancha. Mar- 
chava a encontrá-lo Alíbnso YÍII, e os dous exér- 
citos avistaram-se (agosto de iigo) perto da povoação 
de Alarcos, Alarcur, ou Hacen Al-arak, da qual já 
no fim do século XYI apenas restavam vestígios (i). 
Deu-se a batalha, que foi disputada e sanguino- 
lenta; mas, desbaratados emfim os christàos com 
horrorosa perda, Allbnso VIII escapou a custo com 
as relíquias do exercito, ficando no campo muitos 
dos mais illustres cavalleiros e entre elles o mestre 
da ordem d'Evora e Rodrigo Sanches. Carregados 
de despojos, os almohades, cuja perda fora também 
considerável, retiraram-se para Sevilha (2). 

Segundo o testemunho de um historiador, pos- 
toque contemporâneo, estrangeiro e que vivia longe 
de Hespanha, um troço de sarracenos entrara neste 
mesmo tempo pela Estremadura portuguesa e, che- 
gando a Alcobaça, encontrara nos monges que habi- 
tavam nesse famoso cenóbio uma resistência para 
a qual os habilitavam ou as fortificações do próprio 
mosteiro ou as do castello que por esse tempo já 
ahi existiria. Conforme a narrativa de Rogério de 
Hoveden, os defensores de Alcobaça foram vencidos, 
eos irritados sarracenos a nenhum perdoaram. Pro- 
seguindona sua correria, estes últimos, ao passarem 
avante, chegaram a outro mosteiro da mesma 
ordem (porventura o de Tamarães) (3) cujos habi- 
tantes, amestrados j)elo triste exemplo de Alcobaça 
ou desprovidos dos meios de defesa, saíram ao 
encontro dos inimigos, cujos capitães generosamente 



(i) Mariana, Hist. de Espana, L. 11, c. 18. 
(2) AA. cit. 

17 



LIVRO III 023 

lhes salvaram as vidas (i). O silencio dos historia- 
dores árabes, que, aliás, partieularisam os vários 
successos das guerras com os christàos desde a 
Tinda de Al-maiíssor, e igualmente o nenhum ves- 
tígio que se encontra de tal successo nos monu- 
mentos nacionaes e nos historiadores hespanhoes 
que poderiam narrá-lo, fazem-nos suspeitar que 
Hoveden, apesar de ser o mais exacto dos chronis- 
tas estranhos acerca dos acontecimentos de Portugal 
no seu tempo, coUocaria mal no anno de 1195 um 
episodio da invasão de 1190, que, como já adver- 
timos á vista do foral de Leiria, parece ter-se esten- 
dido mais longe do que a Torres-novas fai. 

Apesar da victoria dos almohades e da situação 
arriscada em que se achavam as diversas monar- 
chias deHespanha, o ódio e a ambição entre os seus 
príncipes eram mais fortes que todas as conside- 
rações que podiam movê-los a terem entre si paz. 
As dissenções dos dous primos que reinavam em 
Castella e em Leão tinham, na verdade, asserenado 
com a vinda de Y acub, e Aífonso IX, a cuja demora, 



(i' Hoveden, p. 758. 

2 Ibn Khaldun loc. eitJ diz expressamente que depois 
da batalha de Alarcos o exercito mussulmano voltou a 
Sevilha. Ibn Ech Chemma apad Al-kairuani, p. 52081 dá 
também a entender o mesmo. Abd-el-halim íala vagamente 
das devastações feitas por Yacub depois daquella jor- 
nada; mas diz, como os outros, que o imperador voltou a 
Sevilha, porque os soldados estavam carregados de des- 
pojos, yão é, portanto, provável que uma parte do exer- 
cito abandonasse esses despojos para vir a uma expedição 
tão longínqua, Accresce que dos documentos se vê que 
€m 1189 ainda era abbade de Alcobaça D. Martinho e que 
«m 1192 já o era D. Mendo, o qual sobreviveu até o anno 
de 1200 Santos. Alcob. Ilustr.,, p. 61 e seg. — S Boaven- 
tura, Hist. Chronol. e Crit. de Alcob., p. i;o . Tinha, pois, 
Davido de 1189 a 1192 a morte de um abbade, e nenhum 
morreu em iigò. 



224 HISTORIA DE PORTUGAL 

bem como á de Sancho de Navarra, muitos impu- 
tavam a rota de Alarcos, se dirigira a Toledo, onde 
residiu algum tempo com Aílonso VIII depois da- 
quelle desastre. Emfim, voltando o moço rei leonês, 
aos seus estados, a quietação durou por certo» 
tempo; mas essa quietação servia só para os con- 
tendores tomarem alento e prepararem- se para 
novas luctas. Como e porque Portugal teve nellas 
parte, é o que procuraremos, até onde for possível» 
explicar, indicando os meneios occultos com que se 
preparariam, em nosso entender, longas e sangui- 
nolentas guerras. 

O infante Pedro, herdeiro da coroa de Aragão,, 
era extremamente affeiçoado ao rei de Castella seu 
próximo parente (i). Nada mais natural do que 
buscar Affonso VIII aalliança de Sancho I, sabendo 
quanto o repudio de D. Theresa devia ferir o orgu- 
lho de um homem violento como o rei de Portugal. 
Uma chronica daquelles tempos nos diz, que enk 
fevereiro de 1196 o rei de Aragão viera a Coimbra 
para fazer pazes entre os christãos (2). Quanto a 
nós esse rei foi Pedro II, então infante, chamada 
dous meses depois ao throno por morte de AflonsoII» 
fallecido em abril daquelle anno, e a sua missàa 
consistia provavelmente em unir o rei de Castella e 
o de Portugal, visto dever este separar-se do de 
Leão, com o qual se diz estivera até ahi ligado con- 
tra Affonso VIII {3}. Tal hypothese nasce lógica- 



(i) foederato sihi fi deli amico Petro rege: diz Rodrig-o de 
Toledo falando de successos pouco posteriores á accessão 
de Pedro II ao throno de Aragão, o que presuppõe uma 
amizade antiga. O prineipe aragonês e o rei castelhano 
eram primos. 

{a) Ghronic. Conimbric., 1. cit. 

(3) Os negócios do Aragão tornam improbabilissima a 
vinda de Affonso II a Portugal naquella conjunctura. 



LIVRO III aaS 

mente dos successos que precederam e, de certo 
modo, illustra os subsequentes , sobretudo a al- 
liança do rei leonês com o imperador almohade. 
Não era raro naquella epocha ver muitos dos mais 
illustres cavalleiros da cruz militarem debaixo 
das bandeiras do islamismo e, vice-versa, chefes 
sarracenos virem offerecer o adjutorio dos seus 
soldados aos príncipes christãos. Os desgostos poli« 
ticos, a impetuosidade das paixões e a frequência 
das revoltas e mudanças nos diversos estados da 
Península eram as principaes causas de se repeti- 
rem semelhantes factos, que, aliás, tanto desdizem 
da crença viva desses tempos. Pedro Fernandes de 
Castro, um dos mais poderosos ricos-homens cas- 
telhanos, passara ao serviço do amir de Marrocos 
por discórdias que tivera com Affonso VIII e na 
batalha de Alarcos contribuirá em boa parte para a 
victoria (i). Por intervenção deste, no meado de 
1196 ou ainda antes, o rei de Leão e Al-manssor 
fizeram entre si um pacto cujas condições se igno- 
ram, mas com o qual Affonso IX se premunia con- 
tra o outro que, segundo dissemos, é provável se 
tivesse já feito entre Portugal, Castella e Aragão. 
Além disso, Sancho VII de Navarra associou -se 
também com o rei leonês em ódio do castelhano, 
ficando assim equilibradas as duas parcialida- 
des (2), 



Sobre estes negócios e sobre os pactos que havia entre 
os reis de Leão, Navarra e Portugal, na falta de textos in- 
disputáveis, consulte-se Çurita, Annales de Aragon, L. a 
c. 46- 

(i) Lue. Tud., I. cit. 

(2) Rod. Tolel., L. 7, c. 3o. — Bulia de Celestino III, de 
outubro de 1196 em Marina, Teoria de las Cortes, T. 3, 
App. n.» 3. — Ibn Khaldun (p. lxvi) talvez alluda a este 
convénio entre os almohades e os leoneses postoque o 

VOL. III. i5 



226 HISTORIA DE PORTUGAL 

Todavia, entre os príncipes christãos continuava 
a subsistir simulada benevolência (i). E até de crer 
que, na sua vinda, o rei ou, antes, infante arago- 
nês, mostrasse com apparencias fingidas tractar da 
reconciliação geral. A procella, porém, que se 
amontoara rebentou, emfim, nesse mesmo anno. 
Al-manssor partiu de Sevilha com o seu exercito e,, 
atravessando para o norte de Merida, tomou succes- 
sivamente Montanches, Santa-Gruz, Truxillo e Pla- 
cencia. D'aqui, fazendo um angulo para o oriente e 
passando além de Talavera, assolou os territórios 
ao noroeste da capital. Tendo inutilmente atacado 
Maqueda, marchou contra a própria cidade de 
Toledo, que teve sitiada dez dias e cujos arredores 
devastou (junho de 1196). Então retrocedendo para 
os seus estados, recolheu-se de novo a Sevilha (2): 

Foi nesta conjunctura que se declararam os reis 
navarro e leonês. Aproveitando o enfraquecimento 
de Castella pela invasão mohametana, emquanto 
Sancho Vil de Navarra assolava os territórios de 
Soria e Almazan, Affonso IX, ajudado de tropas 
sarracenas, avançava por Terra-de-Campos, amea- 
çando os estados de Castella pelo noroeste. Mas 



coUoque em 1197, e faça entrar nelle todos os adversários 
de Yacub. 

(i) quia tunc reges Hispaniae in unam coneordiam con- 
vcnerunt • diz Lucas de Tuy falando dos suceessos de 119G 
(1. cit.) 

(2j Luc. '^ud.,1. cit. — AnnalesToled. I, p.SgS. — Ibu Kha)- 
dun, 1. cit. Rodrigo de Toledo (1. cit.) relata o mesmo com 
a circumstancia de alterar a chronologia, attribuindo os 
suceessos de 1196 ao anno seguinte, e vice-versa. — Abd- 
el-halim (p. 249) confunde uns com outros, attribuindo 
tudo ao anno de 1196. A auctoridade, porém, dos Annaes 
toledanos, rigorosamente coevos e concordes com Ibn 
Khaldun, não deixa duvida sobre a ordem daquelles suo~ 
eessos. 



LIVRO III 227 

Affonso YIII e os seus alliados, valendo-se da cir- 
cumstancia de se haver o rei de Leão coníede- 
radc com os infiéis, alcançaram bulias de Ce- 
lestino III em que o pontifice excommungava Af- 
fonso IX e Pedro Fernandes por este criminoso pro- 
•cedimento, fazendo communs aos que combatessem 
o principe leonês as indulgências concedidas aos 
que guerreavam os mussulmanos em Hespanha ou 
se alistavam para as cruzadas da Palestina. Absol- 
via o papa, além disso, os súbditos daquelle mo- 
narcha, se persistisse em introduzir os sarracenos 
nos seus dominios, da obediência que lhe era de- 
T^ida, e na bulia especialmente dirigida a Sancho I 
permittia a este que incorporasse na própria coroa 
tudo quanto podesse tirar ao rei de Leão, fosse por 
■que maneira fosse, sem que jamais elle tivesse 
<iireito a reivindicá-lo. Assim os reis de Gastella, 
Portugal e Aragão obtinham contrapor á força ma- 
terial que dava ao seu adversário a temerosa ai- 
liança de Al-manssor a força moral , porventura 
não menos efíicaz, que lhes resultava das fulmi- 
nantes declarações de Roma (i). 

Entre Sancho i e Affonso IX haviam rompido as 
hostilidades já em agosto de 1196 (2), e o primeiro 
marchara para os districtos de Alemdouro, a pro- 
Ter no estabelecimento de novos concelhos, prepa- 
rando-se ao mesmo tempo para invadir os territó- 
rios do seu adversário e para ajunctar alguma por- 



(i) Rod. Tolet., 1. cit. — Bulia de Celestino III, de outu- 
loTO de 1196 em Marina, 1. cit. - Bulia de abril de 1197, em 
Brandão, Mon. Lusit., L. 12, c. 19, e no Arch. Nacion. Gav. 
16, M. 2, n.» i5. 

(2) Doaç. a D. Fern. Fernandes e a sua mulher das villas 
<le Vimioso e de Sesulfe « pro bono servicio quod nobis 
fecistis et pro hereditate vestra, qiiam rex legionensis vobi» 
<iccepit pro nobis : Gav. 3. M. 7, n.* a no Arch. Nacion- 



aaS HISTORIA de portugal 

cão delles aos próprios domínios, estribado na con- 
cessão de Celestino III, que antecipadamente dili- 
genciara (i). A g-uerra, porém, parece ter-se tor» 
nado mais violenta no anno seguinte, provavel- 
mente quando chegou a terrível sentença do papa 
que separava o rei leonês da communhão dos fiéis 
e incitava os seus súbditos á desobediência. Sancho, 
que voltara á capital (í2), saiu de novo de Coimbra 
para o norte e foi cercar Tuy, que se rendeu. Ou 
Ibsse effeito desta conquista ou da impressão que 
produziu a bulia de Celestino, houve em Galliza 
quem quebrasse o preito de lealdade a Affonso IX (3) 
e, se acreditarmos as chronicas nacionaes, a inva- 
são portuguesa estendeu-se muito além de Tuy» 
submettendo-se, umas após outras, as villas de Sam- 
paio, Lobios e Pontevedra (4). Faltam memorias 
authenticas para confirmar essa narrativa ; mas ella 
se torna assas provável, se attendermos a aue o rei 



(i) Na bulia d'abril de 97, acima citada, diz expressa- 
mente Celestino III que as concessões nella contidas ti- 
nham sido sollicitadas por Sancho I : « tuis non credimu» 
postulationibus favorem... denegandum. » — O foral d'Er- 
mello e Ovelioa(abril 1196) é datado de Guimarães : M. 12, 
de F. A., n." 3, f. 33 v. Vejam-se também os foraes deste 
anno, apontados nas Dissert. ChronoL, T. i, n." 63i, 632^ 
634. 

(2) Doaç. de metade da Igre> de Sancta Maria de Sede- 
los a D. Fernão Mendes, etc. Facta karta apud Colimbria 
jiiense februario : era i235, Liv. a.' de Aff. III, f. 32, no Arch. 
IVacion. * 

(3) Sancho I, estando apud Portam Dorii, fez mercê a 
Miguel, mestre dos engenhos, de vários ben» em Coimbra 
e em Lisboa, /) 7*0 bonis servitiis que nobis fecistis et facitis 
(setembro da era de i235.) Entre os coníirmantes acham»- 
se « D. Gonsalvus tenens Tudem... D. Johannes Fernandi 
Gallecus » : M. 12 de F. A., n.« 3, f. 61, no Arch. Nacion. 

(4) Pina, Ghron. de Sancho i, c. 16. — Mon. Lusit., L. i», 
•. 19- 



LIVRO III 229 

^e Leão mal poderia oppôr séria resistência a San- 
cho I, achaiido-se a braços com os exércitos de Ara- 
gão e Castella, que, penetrando pelas fronteiras 
orientaes, lhe tomaram muitos log-ares importantes, 
apesar das tropas auxiliares que Al-manssor lhe 
enviara e que foram desbaratadas. Entretanto Yacub 
tornava a invadir as provincias de Castella e, de- 
pois de uma nova tentativa contra Toledo, des- 
truindo diversas povoações e castellos e commet- 
tendo incalculáveis devastações e outros males, re- 
colhia-se a Sevilha carregado de despojos. Ahi, se- 
gundo Ibn Khaldun, os príncipes christàos manda- 
ram propòr-lhe tréguas, que elle acceitou e entre- 
gando o governo de Badajoz e do Gharb a Abu Rabi 
€ a Abu Abdullah, filhos de seu irmão Abu Hafss, 
partiu em 1198 para a Africa, onde veiu a fallecer 
no anno immediato (i). 

A narrativa do historiador africano é confirmada 
pelas memorias christans. De feito, sabemos que 
Aífonso VIII de Castella ajustou uma suspensão 
d'armas com Al-manssor para poder empregar todas 
as suas forças contra os leoneses e navarros (2) ; 
mas estas tréguas, que parecia deverem trazer um 
accrescimo de violência á deplorável lucta dos prín- 
cipes christãos, produziram uma pacificação mo- 
mentânea entre elles, vindo o remédio do excesso 
do mal. Privado da cooperação dos sarracenos, ao 
passo que se via accommettido ao occidente pelos 
portugueses e ao sul e oriente pelas forças reuni- 
das dos castelhanos e aragoneses, Afl^onso IX bus- 
cou obter a paz, oíTerecendo-se a casar com a infanta 
Berengaria, filha do rei de Castella. Recusou este a 



(1) Rod. Tolet., 1. cit. — Annal. Toicd. I, 1. cit. — Ib» 
Khaldun, 1. cit. 

U) Rod. Tolet., 1. cit. ad lin. 



a3o HISTORIA DE PORTUGAL 

principio; mas a final cedeu por intervenção da 
rainha D. Leonor sua mulher. Celebiou-se o casa- 
mento (fins de 1197) em Valladolid, e Affonso VIII 
restituiu ao genro todos os togares que lhe tinha 
conquistado (i). 

Nesta pacificação entraram o rei de Portugal e os 
outros príncipes belligerantes (2); mas Affonso Ylll 
não tardou a rompê-la no que tocava ao rei de Na- 
varra. Ligado com o de Aragão entraram ambos 
pelos domínios de Sancho VII, os quaes devasta- 
ram, apoderando-se de muitos togares. Ou em con- 
sequência disto ou por outros motivos que ignora- 
mos, a guerra ateou-se entre os dous príncipes 
leonês e castelhano, cuja mutua má-vontade ficara 
apenas disfarçada em consequência do pacto de 
família celebrado poucos meses L-:ites. Affonso VIII 
passou as fronteiras de Leão e tomou vários cas- 
tellos; mas, dirigindo-se Affonso IX contra o sogro 
com um poderoso exercito, Pedro Fernandes de 
Castro e outros ricos-homens procuraram e obtive- 
ram congraçá-los antes de travarem uma batalha 
decisiva, cujo resultado, fosse qual fosse, tinha de 
ser fatal não só para elles, mas também para a 
Hespanha christan (3). 



(i) Idem, ibid., c 3i. — Doe. em Flores, Reyn Cathol., 
T. 1, p. 3Õ2 e segg. 

(2) Miramamolimis ad própria est reversas... tunc reges. 
Hispaniae in unam concordiam convenerunt : Luc. Tud.» 
p. 108. 

(3) E' impossível concilliar a chronologia de Lucas de 
Tuy com a de Rodrigo de Toledo relativamente a estes 
S'ftccessos. Aqiielle íixa positivamente a paz geral dos 
christãos depois do segundo regresso de Yacub para 
Sevilha, que de Ibn Khaldun e dos Annaes toledanos I." 
vemos ter sido em 1197. Efíectivamente, pelos documentos 
de Flores consta estar leito o casamento de Berengaria 
aos últimos meses deste anno, ao que o próprio Rodriga 



LIVRO II. 



23l 



Emquanto estas cousas se passavam os sarrace- 
nos do Gharb não assistiam tranquillamente. apesar 
das victorias de Al-manssor, ao espectáculo para 
elles tão aprazivel, que lhes oíTerecia a lucta dos 
christãos. Uma armada, onde se tinham embarcado 
vários principes e prelados de Allemanha que se 
dirigiam á Palestina, entre os quaes se contavam o 
duque da Lorena inferior 
iLothier), e Hartwic, arce- 
bispo de Bremen, entrou 
em Lisboa. Foram os cruza- 
dos recebidos com agasalho 
na cidade, e Hartwic achou 
no bispo D. Sueiro a mais 
generosa hospitalidade e to- 
das as demonstrações de 
estima. Provavelmente, os 
cruzados allemães, ouvindo 
aqui narrar os deploráveis 
successos dos annos antece- 
dentes, resolveram vingar 
em parte os males pade- 
cidos pelos seus co-religionarios. Saindo de Lisboa 
e velejando para o Estreito, a armada entrou 
no porto de Silves. A certeza de que o rei de 
Portugal nada podia tentar contra a provinda de 




«í'. — Sello rodado de San- 
cho I e de seus filhos, 
datado de 111)8. (Archivo 
JSacional, ColLeccão Espe- 
cial.) 



de Toledo e o papa Innocencio III L. i, ep. 92) attribuem 
essa paz. Ambos os historiadores concordam em que 
Affonso VIII invadiu a Navarra depois da paz geral, e 
pela citada carta do papa maio de 1198: sabemos que ainda 
nos primeiros meses deste anno estavam em desbarraonia 
os difíerentes reis de Hespanha. Por isto preferin os a 
chronologia do Tudense á do arcebispo, que, como acima 
notámos, não é mui seguro acerca da ordem dos successos 
deste tempo, talvez porque o texto da sua historia, nesta 
• noutras partes, chegou até nós grandemente alterado. 



aSn HISTORIA DE PORTUGAL 

Al-íagnar aevia ter tornado menos vigilantes o» 
mussulmanos, ao mesmo tempo que as vicissitudes 
pelas qaaes, pouco havia, a povoação passara não 
consentiam que Silves estivesse ainda restituída á 
sua força e recursos antigos, li assim assas crivei o 
que nos referem os historiadores coevos. As tropas 
allemans atacaram inesperadamente a cidade e po- 
deram penetrar nella. Persuadidos de que Sancho I 
não tinha meios de a sustentar, contentaram-se com 
deixá-la desmantelada e, embarcando-se de novo, 
proseguiram na sua viagem j)ara a Syria (i). 

O silencio de todas as memorias e documentos 
nacionaes acerca das relações entre Portugal e Leão 
nos lins de 1197 explica-se pelos acontecimentos ge- 
raes da Península que acima narrámos. Sancho, 
associado á paz geral, reteve acaso Tuy e os outros 
togares ou restituiu-os? Ignoramo-lo. Mas as inimi- 
zades j)oliticas renovaram-se com demasiada pres- 
teza para nos fazer encaminhar á negativa. Num ou 
noutro caso, a discórdia começava a pullular outra 
vez nos primeiros meses de 1198. Celestino III fal- 
lecera em janeiro deste anno, e Innocencio III, um 
dos homens de caracter mais indomável que cingi- 
ram a thiara papal, lhe succedera. De uma das suas 
cartas dirigidas ao legado Raynerio se deduz que já 
em maio constava em Roma que as mal sopitadas 
dissensões dos príncipes recrudesciam. O pontifica, 
que ordenava ao legado com especial recommenda- 
ção dissolvesse as ligas dos dous bandos contendo- 
res e obrigasse a concórdia Leão, Portugal e Cas- 
tella, até empregando os meios raoraes extremos, 
lançava, todavia, nessa mesma carta novas sementes 



(i) Godefr. Mod., p. 35í?. — Alberti Stadensis Chronicon, 
ad calcem Eiiea; Silvii Histcr. (Argentor. i685) p. 298. — 
Hoveden, p. 77a. 



LIVKO III 23?» 

<d'odio entre os reis leonês e castelhano Berengaria, 
segunda mulher de Affonso IX, era, assim como a 
primeira, parenta daquelle monarcha, postoque em 
grau menos próximo que D. Theresa. Celestino III 
ou não se oppusera ao consorcio ou só frouxamente 
•o combatera : Innocencio, porém, exigia a separação 
<ie um modo terminante e debaixo das mais severas 
penas. Se, pois, o rei de Leão cedesse ás ameaças do 
legado e repudiasse Berengaria, as rixas dos dous 
primos, longe de se apaziguarem, como o papa mos- 
trava desejar, teriam maior incremento (i). 

Deixaremos aqui a narrativa dos successos qne 
resultaram da resistência de Affonso IX á resolução 
<do papa ou que se lhe seguiram, porque não a jul- 
gamos necessária para illustrar os acontecimentos 
de Portugal naquella conjunctura. Bastará saber-se 
que o rei de Gastella accedeu ou fingiu acceder ás 
determinações do pontífice, declarando receberia 
outra vez a filha, se o marido a repudiasse, em- 
quanto este absolutamente recusava separar-se de 
sua mulher. Havia para esta resistência motivos 
políticos. Pelo contracto de casamento, os castellos 
•que Affonso IX dera em dote á rainha deviam ficar- 
Ihe a ella e, assim, virtualmente unidos á coroa de 
Castella; e, postoque o papa desse por nullo esse 
contracto e resolvesse que no caso de se effeituar o 
divorcio o rei de Leão reassumiria o domínio delles, 
não era Affonso VIII príncipe de quem o genro po- 
desse acreditar que consentisse em ver Berengaria 
expulsa do throno e ao mesmo tempo privada das 
arrhas que recebera para subir a elle (2) . 



(i) Innoc. Ill Epist. L. 1 — 92. Hoveden (p. 685) afíirma 
positivamente que Celestino consentira neste consorcio; 
xnas Innocencio III nega-o indirectamente (L. 2 — 7ÕJ. 

(2) Sobre este paragrapho veja-se Flores, Reyn. Gathol., 
T r, p 366 e segg. 



S34 HISTORIA DE PORTUGAL 

Não sabemos se foi em virtude das diligencias dò 
Pedro Fernandes de Castro e dos barões de Leão e 
de Castella, se das admoestações e ameaças do legado 
Raynerio, se, linalmente, por influencia de D. Be- 
rengaria, cuja capacidade politica bem se provou 
depois, que os ânimos dos dous príncipes até ahi 
inimigos poderam conter-se nos limites da modera- 
ção e que até se annullar aquelle consorcio, no que 
o papa continuou a insistir por cinco annos, o sogro 
e o genro se houveram sempre ou quasi sempre pa» 
ciíicamente um para com o outro. Não assim San- 
cho I. Ainda que nos faltem noticias de correrias e 
batalhas entre portugueses e leoneses durante o 
anno de 1198, o movimento interno do paiz naquella 
epocha e a certeza de andar ateada a guerra com 
Leão em 1199 são indícios claros de que a accessão 
de Sancho á paz geral foi bem curta e de que elle 
esperava que as hostilidades se renovassem em 
breve. Com eíTeito, vários diplomas daquelle anno 
descobrem as inquietações do rei de Portugal e a 
actividade com que buscava prover á defensão dos 
seus estados. Ao passo que fazia as convenientes 
disposições militares, procurava impedir que o rei 
de Castella, unido agora com Aílbnso IX pelos laços 
de familia, como elle ja estivera, lançando a própria 
espada na balança da contenda, movesse contra elle 
as armas junctamente com o genro, ao que fora dif- 
ficultoso resistir. Sabia que os seus inimigos traba- 
lhavam tm persuadir o rei castelhano a quebrar as 
allianças que publicamente havia feito com ^lle e 
solemnemente jurado. Mandou, portanto, um en- 
viado a Roma representar qual era a sua situação a 
Innocencio III, qne ordenou ao legado Raynerio 
impedisse as discórdias entre os dous príncipes ou 
as íizesse cessar, se houvessem começado, empre 
gando no caso extremo & excomamnhào e o inter- 



LIVRO III 235 

dicto (i). Surtiram eíleito as diligencias de Raynerio; 
porque Allonso VIII se conservou estranho á lucta 
que pouco tardou a travar-se entre Sancho e o rei 
de Leão : ao menos nenhum vestigio se encontra de 
que elle interviesse j^or uma ou por outra parte. 

Homem o mais habil e tenaz de quantos subiram 
ao sólio pontiíicio durante a idade média, se excep- 
tuarmos Hildebrando, Innocencio aproveitou as dif- 
ficuldades de que o rei de Portugal se achava cer- 
cado para dar impulso a um negocio que Celestino III 
tentara debalde pôr em elfeito. Era a questão do 
censo á Sé apostólica. Antes de expedir aquella carta 
ao legado, o papa dirigiu outra a Sancho em que lhe 
recordava o que se passara em tempo de Affonso I 
e como a promessa feita a Alexandre III dos dous- 
marcos de ouro annuaes, em logar das quatro onças 
offerecidas a Lúcio II, nunca se cumprira. Lem- 
brava-lhe também que já elle Sancho, havendo-lhe 
representado Celestino III isto mesmo, respondera 
com a evasiva de que seu pae tinha pago por uma 
vez o censo de dez annos, mandando a Alexandre III 
mil áureos; mas que isto fora dicto livremente; 
porque essa somma havisi sido apenas um signal de 
affecto dado áquelle pontifice pelo rei fallecido. 
Que, á vista destas considerações, o exhortava a 
que desempenhasse a obrigação contrahida e encar 
regava o legado de o admoestar com efficacia, recor- 
rendo, até, aos meios de coacção moral, se tant» 
fosse preciso (2). 

Esta carta, datada de 24 de abril de 1198, prece- 
deu apenas mês e meio ess'outra dirigida ao legada 
sobre obstar a que Affonso YIII favorecesse o ré- 
probo rei de Leão contra o de Portugal, a quen» 



(I) Innoc. III, Epistol. L. i — 249. 
(■) Id. ibid., Epist. 99. 



336 HISTORIA DE PORTUGAL 

Innocencio também escreveu, avisando-o do quo 
ordenara a Raynerio. Assim, é crivei que o enviado 
<ie Sancho levasse já poderes para ao menos entreter 
o papa com boas esperanças, visto não ser possível 
responder á intimação acerca do censo dentro de 
mês e meio, nem natural que Innocencio III se 
mostrasse resolvido a proteger o rei português, se 
não contasse com a sua obediência num objecto em 
que tanto a cúria romana se empenhava. Sancho, 
•que, segundo vimos, se esquivara até ahi ao paga- 
mento do censo, recebida a carta sobre a paz com 
Castella, viu-se obrigado a condescender com uma 
pretensão que se estribava em titulos indisputáveis. 
Mas, ou elle ou, talvez, o astuto chanceller, por 
•cujas mãos corria a correspondência com Roma (i), 
íichou um termo médio, senão para evitar o reco- 
nhecer as relações de dependência que ligavam a 
•coroa portuguesa ao pontifice, ao menos para tornar 
problemático o tributo dos dous marcos. Acceitando 
perante o legado Raynerio o facto practicado por 
seu pae em ii43, Sancho incumbiu o mestre do Hos- 
pital de fazer chegar ás mãos do papa por dous ca- 
Talleiros da ordem que iam a Roma 5o4 morabiti- 
Tios, em que importavam, a razão de quatro onças, 
os annos decorridos desde o IIÍ concilio lateranense. 
<3uanto ao augmento do censo offerecido a Alexan- 
dre III e a serem ou não os mil áureos dadiva vo- 
luntária, o rei de Portugal dizia ignorar a verdade, 
«entregando o exame do negocio á consciência do 
papa, na j)ersuasão, talvez, de que nos archivos 
pontifícios não haveria documentos sobre taes offer- 
tas. A cúria romana sabia, porém, registar cuida- 
dosamente os dijílomas que lhe podiam ser úteis. 
Innocencio devolveu por copia uma carta de Af- 



U) Id . L. XIV — IO. 



LIVRO III 23^ 

fonso I, de que tudo constava com clareza, e acom- 
panhou-a de outra sua, na qual, em tom ao mesmo 
tempo benévolo e ameaçador, exigia o pagamento dos 
cem áureos annuaes devidos desde 1179, que pre- 
tendia receber sem desconto algum (i) e, portanto^ 
accumulando os dous censos, visto haver já accei- 
tado 5o4 morabitinos pelo das quatro onças (2). 

Assim a pobre astúcia do chanceller Julião ficou 
desbaratada pela previdente cubica da cúria ro- 
mana. Era a lucta demasiado desigual. Contando 
com o resultado do negocio e certo de que Sancha 
precisava da força moral que lhe provinha da boa 
amizade com a Sé apostólica, Innocencio expediu» 
quasi conjunctamente, uma bulia ao rei de Portugal 
em que o declarava o príncipe mais predilecto da 
igreja, como censuario delia, e de novo o tomava 
debaixo da sua especial protecção com todos os do- 
mínios que possuia ou que de futuro podesse ad- 
quirir com justiça (3). Cumpre não esquecer que 
Sancho fora auctorisado por Celestino III a haver 
por qualquer modo as terras do rei de Leão, e facil- 
mente occorrerá com qual intuito esta bulia foi re- 
querida e quaes eram as suas consequências. Por 
isso e porque nenhuma noticia mais se encontra da 
renovação do pedido, é de crer que a somma exigida 
fosse paga, apesar de que um documento dessa 
epocha nos poderia fazer hesitar a semelhante res- 
peito, se aliás não tivesse uma explicação natural 
plausível (4). 

No meio destas negociações que lhe asseguravam 



(i) ... sine aliqua diminutione persolvat. 

(a) Innoc. Epistol., L. i — 44^ e 449- 

3) Id. ibid., Epist. 441. Esta é datada de 2 de dezembro 
de 1198 e as duas antecedentes de 9 do mesmo mês. 

(4) Veja-se o que adiante dizemos acerca do recibo do 
tenso passado por Fr. Gonçalo Hispano Liv. IVj. 



338 



HISTORIA DE PORTUGAL 



a protecção de Roma, Sancho I dedicava-se activa- 
mente a organisar a defesa do reino. Tinha elle 
■doado já em 1197 aos templários a Idanha e seus 
termos, fronteiros aos últimos dominios leoneses 
para o sudoeste (D. Neste anno, porém, ajunctou a 
mais avultada dadiva de 
Açafa, territórios vastissi- 




9Q. — Moedas de Sancho I. 

mos, que se dilatavam ao longo da marg-em direita 
do Tejo desde esse districto da Idanha, anterior 
mente doado, para o occidente até os limites ao 
castello de Belver, que pertencia aos hospitalarios 
e cujas extremas oppostas se avizinhavam das de- 
pendências da preceptoria ou commenda de Thomar. 
Nesta doação da Açafa comprehendia-se também 
uma extensa i)orção do alto Alemtejo, que parece 



(1) Carta de Thomar cit. no Elucid.,T. 2, p. ia. Numa co- 
pia do Arch. Nacion. (Gav. 7, M. 3, n." 35), copia assas 
antio-a, attribue-se á doação da Idanlia-velha a data de 
ligo!' Ribeiro (Dissert. Chron., T. 3, P. i, p. 65i) tomou esta 
copia por um documento diverso, bem como Fig-ueiredo 
(Nova Malta, T. i, p- 55, nota). De quasi todos os litulos da 
ordem do Templo apparecem copias antigas, que ás vezes 
simulam serem originaes, semp.e diversas na data ou 
noutra circumstancia das legitimamente originaes. A ex- 
plicação deste ^jhenomen- quo procedeu, quanio a uós, 
da politica de D. Dmis, ^ertcnco è histori i k .einado 
deste príncipe e da extincção da ordem do Templo. 



LIVRO III 239 

ter sido aquella que os christãos iam gradualmente 
povoando. Que Sancho fizesse uma dadiva tào im- 
portante só porque os templários lhe cediam o pa- 
droado das igrejas de Mogadouro e Penas-roias, 
castellos a troco dos quaes dera a Idanha áquella 
ordem, é o que apenas se pode acceitar como um 
pretexto, postoque assim se diga no respectivo di- 
ploma (II. Estas doações importantes feitas ás 
ordens militares tinham evidentemente motivos po- 
líticos. Quanto e por quantos modos os templários 
ou, ainda, os outros institutos monastico-militares 
(que formavam associações independentes das divi- 
sões geographicas da Hespanha christan ou, por 
outra, que eram ao mesmo tempo portugueses, leo- 
neses, castelhanos e aragoneses) podiam pela sua 
influencia fazer pender a balança para esta ou para 
aquella parte nas dissensões dos diversos estados, 
cousa é de que se pode fazer conceito, postoque seja 
diíTicultoso apreciar toda a força dessa influencia e 
todas as hypotheses que se verificariam na applica- 
^ão. Removendo estas ordens, principalmente os 
tão bellicosos templários, dos castellos do norte 
para as fronteiras do sul, Sancho collocava-os na sua 
situação natural, isto é, na vanguarda da reacção 
christan contra os sarracenos, e alonga va-os de pon- 
tos onde o balsão do Templo facilmente se podia 
encontrar, inimigo de si mesmo, erguido nas torres 
de um logar forte e conjunctamente guiando á escala 



(I No Arch. Nacion. (Gav. 28 da Collecç. E.spec.) estão 
deus exemplares da doação da Arafa. dos quaes um tem 
a data clara da era i236, emquanto noutro já não é possí- 
vel lê-la. Numa certidão passada em tempo de D. Dinis 
(Liv. dos Mestrados, f. 7a e 73 leram na 2.* — era 1237 — ; 
mas é justamente esta que tem certo aspecto de forjada, 
postoque em tempos bastante remotos. Viterbo (Elucid, 
T. 2, p. 362) prefere sem razão, pois, a data de 1199. 



24 o 



HISTORIA DE PORTUGAL 



OS sitiadores desse legar, no qual caso a fraternidade 
das armas e d'instítuto prcdiiziria forçosamente 
quebra no esforço de soldado. Accrescia que cora 
estas amplíssimas mercês de terras não só os che- 
fes do Templo em 
Portugal, mas 
ainda os de Leão 
e Gastella lhe fica- 
riam uns gratos» 
outros affeiçoa- 
dos. Finalmente 
o estabelecimen- 
to das precepto- 
rias no sul do rei- 
no era, em rela- 
ção á economia 
interna, do mes- 
mo modo que a 
fundação do» 
mosteiros, um dos 
grandes meios de 
povoar os logares 
desertos; porque 
em volta das re- 
sidências monás- 
ticas ou monasti« 
co-militares a população e a cultura cresciam rapi- 
damente. Semelhantes instituições eram a formula^ 
adequada á epocha, com que actuava nas socie- 
dades o fecundo principio da associação. 

Apenas ordenara estas cousas na Beira-baixa^ 
Sancho partiu para Trás-os-Montes (i), cuja fron- 




So. — Cálice de I"). Dulce, datado de ii8j. 



(i) A doação da Açafa é feita na Govilhan em 5 de julho; 
e neste mesmo mês dava o rei em Mirandeila o reguengo- 
ne Villar-de-Maçada a Garcia Mendes : Gav. 3, M. 6, n.» ir 
no Arch . Nacion. 



LIVRO 111 a4i 

teira é jrovavel tractasse de fortificar, quando uma 
desgraça domestica veio momentaneamente distralâ- 
lo dos cuidados da guerra e da politica. Foi a mort»? 
de sua mulher a rainha D. Dulce, fallecida no i.* 
de setembro de 1198. De D. Dulce teve o rei de Por 
tugal o principe D. Aíibnso, que lhe succedeu, e os- 
dous infantes D. Pedro e D. Fernando, ambos cele- 
bres, tanto na Ilespanha como fora delia, pelo seu 
caracter turbulento e guerreiro, e as infantas D. The- 
resa, rainha de Leão, D. Sancha, D. Mafalda, depois 
desposada com Henrique I de Castella, D. Branca 
e D. Berengaria que lhe sobreviveram, além ád 
outros que morreram na infância ou dos quaes se 
ignora a epocha do fallecimento. Era o concubinato 
vicio commum naquelle tempo, commum nos prín- 
cipes como entre os nobres e o clero ; e a historia con- 
servou o nome de duas amantes do rei de Portugal, 
D. Maria Ayres de Fornellos e D. Maria Paes 
Ribeira. Foi filho daquella Martim Sanches, que tão 
i mportante papel fez no meio das ultimas discórdias 
<le AíFonsG II com Leão : da outra *eve cinco filhos, 
um dos quaes, Rodrigo Sanches, também pertence 
á historia. Destes que mencionamos e dos outros 
cujos nomes deixamos na siia tranquilla obscuii- 
viade descende mais de uma nobre familia da Hes- 
I)anha (i) 

A guerra com Leão, que nos fins de 1198 ou prin- 
cípios de 1199 veio a rebentar, provou que as pre- 
venções de Sancho, prevenções que nos parece des- 
cortinar no complexo dos seus aotos políticos a 
administrativos, não era m baldadas. São por extremo 
escaços os monumentos que a eFte respeito c^ e- 



(i) Veja-se acerca deste paragrapho a Mon. Lusit., L. 12, c* 
ai e 1. 1-4, c. 24, o Testamento de Sancho l (Ibid. App. 
•str. lllj e os ftntigos Nobiliários. 

TOL. ui. 16 



^42 HISTORIA DE PORTUGA! 

garam até nós. Suspeitamos, apenas, o que daria aso 
ao rompimento, esó com certeza sabemos que o san- 
gue christão foi vertido mais uma vez pelo ferro dos 
cliristãos. AíTonso IX entrou na primavera de ii()9 
com as suas tropas em Portugal a pôr cerco a Bra- 
gança, e Sancho marchou contra elle. Ou desbara- 
tados em algum combate ou não se atrevendo a 
acceitá-lo, os invasores retiraram-se (i).E' provável 
que os leoneses procurassem por este tempo res- 
gatar Tuy, que vimos ter caído nas mãos dos j3ortu- 
gueses e que as relações de Sancho I com a Sé apos- 
tólica e o direito que Innocencio 111 lhe dera de 
despojar por todos os modos que podesse o rei de 
Leão nos fazem crer não fora restituida pelo de Por- 
tugal. E' a esta causa que attribuimos a renovação 
das hostilidades, postoque a nossa opinião não passe 
de mera suspeita, bem comoé unicamente uma con- 
jectura o haver então Affonso IX recobrado Tuy por 
si ou pelos seus capitães (2). 



(i) eo videlicet anno, quo venit occurrere civitati Bri- 
ganlie, et liberavit eam ab impugnatione regis legionensis : 
Doe. do cartor. dos Figueiredos, nas Dissert. Ghronol., T. 3, 
P. I, n." 649. 

(2) Sandoval (Igles. de Tuy, foi. 140) e Flores (Esp. Sagr., 
T. 22, p. 102) citam uma doação á Sé de Tuy (agosto de 
1199) de metade do logar de Rial e de uma herdade em 
Mosende, onde unicamente se diz, segundo Sandoval, que 
reinai-a em Portugal D. Sancho, e segundo Flores que rei- 
nava em Leão D. Affonso e em Portugal D. Sancho. De um 
ou d'outro modo, sendo ambos os logares doados na Gal- 
liza, não havia que mencionar o rei de Portugal, se Tuy 
não estivesse em seu poder. Em setembro, porém, deste 
mesmo anno achamos o bispo daquella cidad^ -«.onlir- 
mando um documento na corte de Affonso IX (Esp. Sagr , 
T. 18, App. XXV III . E neste intervallo que suppomoà 
seria retomada Tuy, tanto mais que sabemos ter vin<lo 
nesse tempo á Galliza o rei de Leão, por ser aquell© 
ultimo documento datado de Lugo. 



LIVRO III a43 

Acham-se em memorias antigas vestig-ios de uma 
batalha dada perto das margens do Pinhel nos 
plainos chamados de Hervas-tenras, onde morreram 
diversos cavalleiros illustres de Portugal. A em a 
epocha nem as circumstancias delia nos foram 
transmittidas. Os nossos historiadores attribuem 
este successo ás discórdias entre os fidalgos portu- 
gueses, discórdias que se verificaram, quanto a nós, 
numa epocha diíTerente, ao passo que a batalha de 
Hervas-tenras, devendo coincidir com o reinado de 
Sancho I e dada na fronteira de Leão, num território 
despovoado e a enorme distancia dos solares das 
familias a que j^ertenciam os cavalleiros ahi mortos, 
tem muitas mais probabilidades de haver sido con- 
tra os leoneses do que resultado de dissensões entre 
os nobres (d. Fosse o que fosse, sabemos que Sancho 
tinha passado o Coa no meado de 1199 e accommet- 
tido Ciudad-Rodrigo,onde pereceram pelejando valo- 
rosamente a seu lado Lopo Fernandes, commen- 
dador do Templo em Portugal, e outro cavalleiro 
celebre chamado Nuno Fafes (2). Precedeu esta 

1 Liv. Velho das Linhagens, Prov. da Hist. Geneai. 
T. I, p. 148 e 198 Nunca encontrámos nos documentos 
desla epocha logar algum chamado Hervas-tenras, senão 
um no termo de Pinhel M. 12, de F. A., n.° 3, f. 53 v. no 
Arcli. Nacion.) Da inscripção sepulchral e da passagem do 
■Chrouicon Conimbricense que abaixo citaremos ^e vè que 
havia combates nestas proximidades por agosto de 1199, 
Brandão Mon, Lusit., L. 12, c. 22) parece ligar esse facto, 
<5om a lide do Porto e com a morte de Pedro Poyares, que 
julgamos pertencer a outro tempo, como em logar com- 
petente diremos. Do mesmo Livro das Linhagens se co- 
nhece que os íidalgos mortos em Hervas-tenras deviam 
■existir no reinado de D. Sancho L 

2 Chron. Conimbric. — Elucid., T. 2, p. 36a, col. a. — 
Viterbo rectifica a data de 1198 que se 1% no Cbronicon 
pela inscripção sepulchral de Lopo Fernandes. De feito, 
«e este tivesse morrido em fevereiro de 1198, não lha 
poderia doar el-rei a Açafa em julho desse mesmo anno* 



S44 HISTORIA DE PORTUGAL 

entrada a batalha de Hervas-tenras ou foi posterior 
a ella? Ignoramo-lo. Na primeira liypothese, Sancho^ 
desbaratado pelos leoneses, teria recuado para o seu 
território ; na segunda, Aflonso IX, li a vendo pene- 
trado em Portugal, haveria sido repellido para além 
do Pinhel e teria buscado defender-se em Ciudad- 
Rodrigo. No meio de tantas incertezas, o que unica- 
mente se pode affirmar é que entre os dois estados 
ardia nesse anno a guerra. 

Para se entenderem os successos simultâneos e 
subsequentes aos que temos narrado é necessário 
que voltemos por um pouco os olhos para o que se 
passava em outros paizes, ainda fora da Península. 
Ricardo, Coração de Leão, morrera em França no 
commettimento do castello de Chalus (abril 1199), e 
seu irmão, o conde de Mortain, conhecido j^elo nome 
de João Sem Terra, lhe succedera. Pelo direito de 
representação a existência de um sobrinho, Arthur^ 
duque da Bretanha, filho de um irmão mais velho^ 
tornava duvidosa a sua legitimidade. Pertenciam 
então aos reis de Inglaterra a Normandia, a Guienna^ 
o Poitou, o Maine, o Anjou e a Touraine, além de 
outros territórios. Os barões destas três ultimas pro- 
víncias declararam-se por Arthur. Philippe Augusto,, 
rei de França, soprava a discórdia. Seguiu-se d'aqui 
uma guerra, que terminou por Arthur reconhecer a 
soberania do tio e por um tractado de paz entre os 
dons monarchas de França e de Inglaterra (ií200 
maio). Por este tractado Branca, filha de Aífonso VIII 
de Castella e sobrinha por sua mãe do rei inglês,. 
devia casar, como de feito casou, com o príncipe 
Luís, her^leiro da coroa de França (i). Não impe- 



(i) Vejam-se os AA. citados por Hume (Kist. of Engl.^ 
Vol. 2, c. II) e o tractado, em Dumont iCorps Diplom^ 



Vol. X. n." 233). 



LIVRO III 245 

oiram, porem estas pazes que breve se tornassem a 
acccudcr as discórdias entre as duas nações. 

O casamento da infanta castelhana oíTerecido 
pslo rei de Inglaterra como condição de um tractado 
inteiramente alheio aos negócios da Península seria 
assas estranho, se não tivessem antes disso concor- 
rido circumstancias que podem até certo ponto 
explicar semelhante facto. Na guerra de Portugal 
com Leão Aílonso VIII ficara neutral e, como disse- 
mos, memoria nenhuma se encontra de que elle 
interviesse na lucta dos dous príncipes, de um dos 
quaes era sogro e doutro antigo alliado. De que 
«stava em boa harmonia com o genro pelos annos de 
1200 temos provas precisas íi), e o mais natural é 
que buscasse reduzi-lo a concórdia com Sancho I. 
Entretanto, apenas constou a morte de Ricardo e 
que o conde de Mortain subira ao throno, elle e o rei 
de Portugal, de commum accordo, segundo parece, 
mandaram embaixadores ao novo monarcha. O 
objecto da mensagem não nos foi transmittido pelos 
monumentos ; mas sabe-se que João Sem Terra dele- 
gou três i^essoas de sua confiança para tractarem 
com os mensageiros do rei de Castella ao mesmo 
tempo que escrevia a todas as auctoridades civis e 
«eclesiásticas do seu reino, prevenindo as da che- 
gada dos embaixadores portugueses e ordenando- 
ihes que por onde quer que estes passassem os rece- 
bessem com as maiores demonstrações possíveis de 



^i Versos de Affonso X, nas Revn. Catbol , T. i, p. 3i6 
— ascito sibi género suo rege Legionis fines ingressus est 
Tíavarrorum : Rod. Tolet., L. 4. c. 33. Esta entrada devia 
ser na primavera de 1200, porque foi posterior ao ban- 
dear-seDiogo Lopes de Haro com os navarros ibid Esle, 
porém, confirma diplomas de Affonso VIII até janeiro de 
1200 Alarcon, Relac. Geneal. escrit. 09 e já não se men- 
ciona em outros documenlos desse anno jd ibid. escriU 
•ji. — Berganza, T. a, escrit. i63j. 



2^6 HISTORIA DE PORTUGAL 

acatamento, supi)rindo-os, além disso, de tudo 
aquillo de que necessitassem (i). Passava isto em 
junho de 1199, e no mesmo mês do anno seguinte o 
principe Luis de França desposava-se com Branca 
de Castella. E' impossivel não ver uma correlação 
mutua entre os dous factos ; mas a cooperação de 
Sancho nestes successos ainda ficaria inexplicável, 
se não lançasse alguns raios de luz em tantas trevas 
a narrativa de um chronista contemporâneo, homem 
politico, o qual mais de uma vez interveio nos ne- 
gócios públicos do seu tempo. Falamos de Radulfo 
de Diceto. Estando o rei d'Inglaterra em Ruão trac- 
tando da paz com Philippe Augusto, partiram o 
bispo de Lisieux, Guilherme d'Estaing, Radulfo de 
Ardennes, Roberto Burch e outros personagens» 
tanto normandos como ingleses, enviados a Por- 
tugal a pedirem a Sancho I para esposa do seu sobe- 
rano uma das infantas portuguesas, cuja fama tinha 
captivado o animo de João Sem Terra (2). Elevado 
ao throno, o conde de Mortain resolvera repudiar 
sua mulher Hawista, filha do conde de Glocester, e 
de feito obteve a sentença de divorcio dos condeseen- 
dentes prelados da França inglesa; mas, homem de 
caracter mudável, voluntário e fraco, sem avisar os 
legados que dirigira ao rei de Portugal e expondo- 
os a serem victimas do génio violento deste quando 
soubesse que havia sido indignamente burlado, 
tomou por mulher Isabel, filha única e herdeira do 
conde de Angoulême, já então desj)osada com o 
conde de La-Marchc (3). A vista destes factos, o que 
parece dever conjecturar- se é que ou Aífonso YIII» 
cujos talentos e capacidade iwlitica foram indispu- 



(1) Rymer, Foedera, Vol. i. p 76 íediç. 1816). 

(2) Rad. de Diceto, Vinaí?. Hist., p. 707. 
<3j Hoveden, p. 8o3. — Diceto, 1. cit. 



LiYRo III a4^ 

taveis, ou, o que é menos de crer, o próprio João 
Sem Terra concebera o desígnio de unir todos os 
principes da Europa meridional e central numa 
vasta alliança de familia, que devia ser instrumento 
da alliança politica das respectivas monarchias dila- 
ceradas por incessantes guerras. Destes factos se 
pode também deduzir que, apesar da sua ambição 
ou dos seus ódios, o rei de Portugal se associou a 
esse pensamento, ao qual, na falta de provas para 
lhe attribuir motivos menos nobres, podemos cha- 
mar generoso. 

A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu 
hábil ministro, o chanceller Julião, é na verdade 
admirável, se attendermos aos multiplicados objec- 
tos pelos quaes naquella epocha essa actividade se 
repartia. No meio de uma guerra violenta com Leão 
tractavam-se as graves questões politicas de que 
procurámos acima dar uma idéa, bem que necessa- 
riamente imperfeita. Não era, porém, só isso. Na 
mesma conjunctura em que se promovia a povoação 
por uma e outra margem do Tejo, entregando- se ás 
ordens militares, principalmente aos templários, 
vastos territórios, onde estas corporações poderosas 
pouco a pouco iam estabelecendo aldeias e granjas 
e fazendo arroteamentos, saíam de Portugal agentes 
encarregados de conduzir das regiões centraes da 
Europa novas colónias que supprissem a escaceza 
das que desciam das províncias septemtrionaes do 
reino. Este encargo devia ser dado com preferencia 
aos estrangeiros já estabelecidos no paiz e cujas 
relações com a sua pátria natural os habilitava para 
attrahirem novas migrações á pátria adoptiva. A 
doação de Pontevel, feita em 119.5 ás antigas coló- 
nias da Lourinhan e de Villa- verde, presuppõe um 
incremento de população mais rápido do que pode- 
ria resultar do seu desenvolvimento natural ; e 



a48 HISTORIA DK PORTUGAL 

assim cremos que esses municípios haviam augmen- 
tado com os aventureiros que vinham huscar me- 
lhor fortuna neste paiz hospitaleiro. Entre as pro- 
videncias que se davam já em 1198 para tornar 
menos solitárias as provindas meridionaes, devas- 
tadas pela longa e variada lucta da conquista e 
pelas recentes invasões dos almohades, foi uma das 
mais importantes o diligenciar a vinda de novos 
coloncs. Olferecia esta gente, duas utilidades; por- 
que, não só servia para ir desbravando os logares 
ermos, mas também era seminário donde se podiam 
transplantar para os campos de batalha valentes 
homens de guerra. Guilherme, deão de Silves, quí?, 
segundo parece, ahi ficara com o bispo Nicolau na 
occasião da tomada daquella cidade aos mussul- 
manos, expulso da nascente diocese j)ela terrivcl 
reacção de Yacub, passou a Flandres, donde voltou 
com bom numero de companheiros, deixando mui- 
tos outros alistados para depois o seguirem. Era o 
chefe principal desta colónia flamenga um cer'-0 
Raolino (Raulin?i. Destinaram-lhes para se esta- 
belecerem uma parte dos largos campos que se 
estendem entre Santarém e Alemquer, dando-Sí> 
lhes por termos as várzeas que o Tejo fertilisa coíii 
as suas enchentes e que já eram conhecidas naguelle 
tempo pelo nome de Lezírias. Então elles fundaram 
a viila-dos-francos ( Villa-franca) , designação que 
depois se mudou na de Azambuja. Raolino foi feilo 
alcaide-mór do novo município e, homem talvez 
pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enri- 
quecido agora pelo príncipe português, viu i^rospe- 
rar no processo de uma dilatada existência aquelle 
simulachro da pátria que levantara para si e para 
os seus em terra estrangeira, mas am^^a (i). 



(i) Sciatis quia isti franci venerunt populare in terra mc« 



LIVRO líl 249 

Quando pela seg^iinda vez, em 1191, Yacub atacou 
o rei de Portugal os sarracenos avançaram até a foz 
do Tejo pela margem esquerda, expulsando os chris- 
tãos de todo aqúelle districto; mas, longe de guar- 
necerem os castellos que ahi existiam, parece terem- 
se contentado com fortificar Alcácer, que, portanto, 
ficou servindo de fronteira e baluarte contra os seus 
adversários. í*ouco tardaram os portugueses em 
occupar o território entre as duas profundas bahias 
do Tejo e do Sado; é, pelo menos, o que resulta de 
se acharem já em iqio os freires de Sanctiago esta- 
belecidos de novo no castello de Palmella, tão impor- 
tante pela sua situação militar, e da existência das 
colónias dos francos trazidos a Portugal nos últimos 
dous annos do XII século. Uma delias jxívoou, 
perto da foz do Sado, o logar de Cezimbra: mas as 
mais numerosas foram mandadas para os desvios 
que se alongavam entre o Tejo e o Ervedal,.estabe- 
lecendo-se-lhes o centro do município no sitio cha- 
mado Montaho de Sor, provavelmente o mesmo a 
que hoje chamamos Ponte de Sor. A falta de habita- 
dores fazia considerar estas solidões comotermosdos 
três importantes concelhos de Santarém. Alemquer 
e Lisboa: porque foi aos magistrados delles que San- 



propter utilitatem meani... et regni mei ... Et ego quibus- 
<iam iliorum dedi Sesiinbriam ut popularent ibi . aliis a.s 
Leziras cum suis terminis, propter D Vilielmum (^©ndam 
Silvensem decanum et propter sócios suos qui cuin eo 
venerunt et etiam venturi .sunt ; Carla de Sancho I aos 
concelhos de Santarém. Alemquer e Lisboa (õ kal. junii 
era 1237] naChancell. de D. Dinis, L. 5, f. 52. — Doaç. de 
Afilia franca fhoje Azambuja, a Raolino et omnil us llan- 
-drensibú.s qui morantur ibi (era i238j : M. 12 de F. A. 
Tl." 3, f. 32, e Gav. 3, M. 11, n.° 6 no Arch. Nacion Kaoiino 
pretor Azamhugie ainda vivia em 1221 . Doaç. de Alpam- 
pilhel ás donas de Ghellas no Arch. deste mosteiro. 
Cezimbra teve foral em 1201 M 12 de V A., n.^ 3, f. 29 v. 



íl5o HISTORIA DE PORTUGAL 

cho incumbiu a distribuição de terras sufficientes^ 
onde os estrangeiros já vindos e que ainda se es])era- 
vam podessem viver e manter- se com largueza. O 
empenho do rei de Portugal em que os colonos ficas- 
sem satisfeitos, o que seria incentivo para novas; 
migrações, transluz da carta dirigida ás auctori- 
dades dos três concelhos. Dizia-lhes que saberia agra- 
decer como feito á sua própria pessoa todo o bem 
que se fizesse aos hospedes e que pelo contrario^ 
qualquer aggravo que recebesse um só delles seria 
punido com a muleta extraordinária de 6:000 soldos. 
Declarava-os, além disso, exemptos de pagarem 
portagens em todo o reino, coma pena de 5oo mara- 
vedis contra quem quer que lh'as exigisse e de 
ficar o infractor considerado como inimigo pessoal 
do rei (i). 

Depois dos acontecimentos militares que acima 
relatámos e que se entretecem com a historia da 
colonisação estrangeira os vestígios da guerra com 
Leão desapparecem. O tempo tinha de certo modi- 
ficado a cólera de Sancho pelo repudio de sua filha 
e, acaso, a sorte das armas não lhe fora inteira- 
mente favorável. Sabemos que em 1200 Affonso Vllt 
invadia a Navarra e que o genro o acompanhava 
nesta expedição com o seu exercito (i), donde se 



(i) Doaç. de Sancho I ao mestre de Sanctiago e ao com^ 
mendador e capitulo de Palmella da decima de tudo o que 
der a Adiça : novembro da era IÍ248 : Gav. 5, M. i, n.» 35 
no Arch. Nacion, — Carta cit. da Chancell. de D. Dinis 
L. 5, f. 52. A designação do logar, inter Tagum et Caiam, e 
o nome do rio, Montem-albiim de Sor, mostram clara- 
mente que se tractava de um logar situado nas margens 
do Sor, que corre entre o Tejo e o Caia, e não de Mon- 
talvão sobre o Sever, rio cujo curso é em sentido contrario 
ao do Caia e muito ao norte deste. 

(i) Roder. Toi., 1. cit. 



LIVRO III q5i 

pode concluir que as hostilidades haviam cessado 
entre os dous reis, leonês e português, provavel- 
mente, como já advertimos, por intervenção do de 
Castella alliado de ambos. Desde esta epocha, San- 
cho, postoque ainda no vigor da idade, Aolta os seus 
cuidados todos para os negócios internos da monar- 
chia. Dir-se-liia que uma grande revolução sefizera 
no animo do filho de AíTonso Henriques e que o 
cançaço e o tédio o aíTastavam agora dos campos de 
hatalha. nos quaes até ahi tanto se deleitara. Mas,, 
quem attender aos extraordinários esforços que se 
faziam para attrahir ao paiz gentes estranhas verá 
que essa existência de quasi incessantes combates,, 
essa febre guerreira de três gerações successivas,. 
j)roduzida pelas necessidades de situação e ainda 
mais, porventura, pela fereza dos tempos, havia 
devorado, senão a energia moral, ao menos a força 
material da nação. As desordens da natureza vie- 
ram, como depois diremos, associar-se a estas cau- 
sas de enfraquecimento interior, e os primeiros as- 
somos das discórdias entre o poder real e o clero,, 
classe rica, poderosa e influente, acabam de expli- 
car a conservação da paz externa nos últimos annoa 
do reinado de Sancho I, cujas diligencias para res- 
taurar as forças do estado indicaremos nas suas cir- 
cumstaneias mais notáveis e nos seus resultados- 
geraes; porque a prosecução do nosso trabalho 
melhor e mais particularisadamente fará conhecer 
o estado social dessa epocha. 

Na mesma occasião (1199) em que se distribuíam 
aos templários os dilatados senhorios que já men- 
cionámos fimdava-se no extremo do paiz para o 
oriente uma povoação importante, não peio seu. 
vulto, que ijouco se jjoderia estremar no meio d& 
tantos niunicipios semelhantes, mas pelo ponto em 
que ficava situada. Falamos da fundação da Guarda^ 



252 



HISTORIA DE PORTUGA!, 




O 



« 



LIVRO III :í5 3 

que continuava para o sul a linha de logares lortes 
ao long-o da fronteira occidental da Estremadura 
leonesa. Tornava-se ella um soberbo padrasto con- 
tra os inimig-os, quer ciiristaos, quer mussulmanos. 
Fundada numa das cordilheiras da serra da EstrcUa^ 
descubria-se dalli para diversos lados umic extensão 
de quinze a vinte léguas. Assim, difficullosa ae 
commetter pela agrura do sitio e campeando subre 
os montes e valles do arredor, era ao mesmo teir<no 
atalaia e baluarte para a defesa. Os j^odos ou outra 
qualquer raça das que passaram por esta terra da 
Peninsula tinham conhecido a importância militar 
daquelle ponto. O nome de Guarda (Ward, Gard) 
de origem teutonica, indica bem que havia ahi -im 
castello ou fortaleza gothica de que se conservava 
ainda viva a memoria na epocha da nova fundayáo. 
Deram-se por termos a esta povoação territórios,, 
diríamos melhor desertos, não menos extensos dos 
que acima vimos pertencerem a Santarém, Alen- 
quer e Lisboa; porque, ao passo que pelo noroeste 
e poente estreitavam o seu alfoz os concelhos mais 
antigos de Celorico, Linhares, Yalelhas e Covilhan^ 
e pelo oriente a fronteira do Goa (aliás rio Pinhel)^ 
aggregava-se-lhe a estirada faixa de terra que, cor- 
rendo para o sul, passava entre as raias da Estre- 
madura leonesa e a Idanha e Açafa até vir morrer 
no Tejo ao longo do Elga. As vastas dimensões da- 
das ao distrieto da nova cidade, em harmonia com 
o que resulta do seu foral, revelam logo que à fun- 
dação da Guarda presiaira a idéa de a converter 
em centro de um districto militar, como veio a sê-lo 
de uma diocese, transferida para alli a antiga Se 
egitaaense (ij. 



(i) For. da Guarda: M. ia de F. A., n.*3, f. Sg v. no Arch. 
Nacion. — Elucid., v. Garda (T. a, p. g e segg.i Vilerbu af- 



íi54 



HISTORIA DE PORTUGAL 



Emquanto assim se proseguia activamente era 
attrabii moradores para os ermos da Beira-baixa, 




Sa. — 9é da Guarda. — Porta] . 



lis ordens militares, fundando novas villas nos ter- 
renos além do Tejo que llies haviam sido doados, 



LIVRO III a55 

associavam os seus esforços aos do rei para se ad- 
quirirem, á sombra das tréguas feitas com os sar- 
racenos em II 07, o norte e oeste do Aleintejo, que 
a invasão de Yacub fizera perder a Sancho I, não 
por se terem os almohades assenhoriado do solo, 
porque apenas conservavam Alcácer ao sul para 
■cubrir a província de Al-faghar, mas j)or haver pas- 
sado sobre os castellos e logares que se começavam 
a levantar a rasoura da devastação. Benavente foi 
povoada neste tempo (abril de 1200) pela ordem de 
Évora ou Calatrava, e no anno seguinte a colonisa- 
ção estrangeira e, talvez, a portuguesa, ao longo da 
enseada do Sado, tinha crescido bastante para se 
concederem a Gezimbra os foros municipaes (i u 

A esta politica mais prudente e illustrada do que 
era de esperar de homens daquelle século veio, 
porém, dar terrível desconto uma calamidade que 
affligiu diversas regiões da Europa e que, sobre- 
tudo, pesou duramente na França e nas duas pe- 
nínsulas meridionaes, a ítalia e a Hespanha. A irre- 
gularidade das estações numa epocha de atrasa - 
mento agrícola, de continuas e assoladoras guerras, 



firma erradamente que se deu á Guarda primeiro o titulo 
de villa e depois o de cidade, quando para ahi se mudou 
a Sé. Isto é inexacto de dous modos : i.' porque os nomes 
de í'illa e cidade se empregam um pelo outro em muitos 
documentos daquella epocha, e por isso nenhum delles 
indica precisamente maior ou menor importância dada a 
qualquer povoação : 2.° porque no foral acima citado se 
diz; u Isti sunt termini quos rex D. S. concessit civilati de 
Aguarda ». Que ella, porém, desde logo foi considerada 
como cabeça de districto vê-se dos personagens que con- 
firmam o foral, entre os quaes se encontram o governador 
militar d<^ districto e o governador especial da cidade ; 
* Alfonsus Alvariz, qui tunc tenebat Aguardam. . Suarius 
Venegas pretor de Aguarda ». 

(i) Foraes de Benavente e de Cezimbra, M. ia de F. A. 
n.' 3, f. 16 e 29 V. 



256 HISTORIA DE PORTUGAL 

de diíficul tosas commumcações produzia frequen^ 
temente fomes extraordinárias, ás quaes a falta de 
previdência e de luzes económicas não consentia 
remédio. Morria-se então á mingua e desamparo : 
vinham depois ou conjunctamente as epidemias e 
os contágios, que tornavam mais destructivas as 
consequências da fome. Acham-se a cada momento 
nas memorias coevas tristes recordações dos estra- 
gos causados por esses flagellos, que parece terem- 
se repetido mais amiudados nos fins do século XII e 
princípios do XIIÍ. No anno, porém, de 120a a falta 
de subsistências foi extrema. A fome, diz um chro- 
nista contemporâneo, derramou-se por todo o orbe 
e assolou a França, a Itália e a Hespanha. Os mo- 
numentos nacionaes recordam com horror esse ter- 
rível açoute de Deus, asseverando que excedera as 
maiores que houvera. O pranto erguía-se de toda a 
parte, e a morte accommettia furiosa os homens e 
os animaes. As guerras incessantes entre os diver- 
sos paizes, ao limitado da população e ás devasta- 
ções dos sarracenos vinha assim associar-se um 
successo tremendo e irremediável para rarear 
ainda mais os habitantes da Península (i). 

Se os monumentos não nos houvessem conser- 
vado a lembrança daquella grande calamidade^ 
menos fácil seria de explicar a longa quietação que 
reinou em Portugal em relação aos povos limitro- 
phes e a crescente energia com que se proseguiu no 
empenho de preencher os vazios abertos nas filei- 
ras da população. O reino, já exhausto, devia-o 
ficar ainda mais em consequência do recente fla- 
gello. Desde então até i:;o8 redobraram-se as dili- 



(t] Chronicon Turonense, Coíiec. Mcniim., T. 5, jj. loSg.— * 
Chrori. Conim;tr. — Doe. em Rayiialdo ad ann. § 3í, — NaA- 
çis, Gbrcr.., em Achery Spicileg-., vol. 3, p. ai. 



LIVUO III 



q5;j 



g-enciqs para continuar o encetado lavor, e Sancha 
corria o reino, residindo ora numa, ora noutra pro- 
víncia. Ao passo que distribuía terras aos que bem 
o haviam servido dilatava as propriedades de um ou 
d"outro mosteiro, postoque com mão muito meno.<^ 
larga que seu pae. Emquantopor uma parte alguns 
dos ricos-homens e prelados eram incumbidos de 
fundar novas villas no interior do paiz ou de repa- 




33. 



Riiinas do castello de Montemor o-novo. 



rar os castellos das fronteiras, por outra parte o 
rei dava íbraes aos concelhos estabelecidos de novo 
não só no sul, mas também nas províncias do norte. 
Nas agrestes encostas que vem descendo dos mon- 
tes Hermínios ou serrada Estrella até o Tejo esten- 
dia-se ainda mais a preponderância dos templários 
e Sancho, fundando a Idanha-nova (i2o5 ou j2o6), 
entregava-lhes o senhorio da nascente colónia. O 
estabelecimento dos estrangeiros pelo noroeste e o 
dos cavalleiros do Templo pelo norte do Alemtejo 
facilitavam a conquista pacifica da banda borea) 

VOL. III. ij 



« 



25 HISTORIA DE FCmTUGAL 

daquella provinda, territórios que, evidentemente, 
os mussulmanos tinham para sempre abandonado, 
contentando-se de possuir os districtos ao sul 
d'Evora, mais habitados e que eram, como disse- 
mos, protegidos pela fortaleza de Alcácer. Assim, os 
muros de Montemor-o-novo princij^iaram a erguer- 
se (i2o3) emquanto Pedro AíTonso, meio-irmão do 
rei e cuja amizade para com elle parece ter sido 
inalterável, havendo recebido da coroa (1200) o 
senhorio dos terrenos banhados pelo Zêzere, que 
entestavam ao poente e sudoeste com as precepto- 
rias de Pombal e Thoniar e onde existia o castcUo 
real de Monfalude, estabelecia ahi successivamente 
os concelhos de Arega (1201), Figueiró (1204) e Pe- 
drogam (1206). Nos próprios campos da antiga Be- 
latha (Estremadura inferior), cubertos de colónias 
estrangeiras, lançavam-se os fundamentos de Alhan- 
dra pelos esforços do bispo Sueiro de Lisboa (i2o3), 
e o rei procurava misturar com os francos os por- 
tugueses, estabelecendo entre Pontevel e Azambuja 
o município de Aveiras (1207). Vagueando inces- 
sante pelas diíferentes provindas de Portugal, esse 
príncipe que tantas vezes na sua passagem estam- 
para sobre a terra o terrível sello da devastação e 
da morte dedicava-se agora a fazer surgir debaixo 
de seus pés as aldeias, as villas e os castellos. Nes- 
tes quasi últimos aniios do seu reinado, em que a 
historia parece esquecer-se delle, porque cessou o 
estrondo das batalhas e o drama dos odio« i)oliti- 
cos, é que os diplomas falam mais alto a^^íavor de 
Sancho 1^ que, por si ou pehi capacidade dos seus 
conselheiros, dá um impulso enérgico ao desenvol- 
vimento das forças materiaes da nação. Os foiaes 
multiplicam-se nos reguengos, bem como nos terri- 
tórios da coroa já colonisados permanentemente 
sem instituições municipaes e sujeitos á auctori- 



Li\'Ro III a59 

dade dos ricos-homens, das ordens militares e dos 
prelados. Esses padrões de liberdade popular, a 
cuja sombra sacodem o pó das suas ruinas antigas 
e abandonadas povoações, e o movimento e o tracto 
humano perturbam a triste paz dos ermos, são por 
certo um titulo mais glorioso para o successor de 
AíTonso I do que o ruido das guerras passadas, cu- 
jos motivos nem sempre parecerão a muitos justifi- 
cados e legítimos íi). 

Felizmente as circumstancias externas favoreciam 
a realisação do pensamento que dominava em Por- 
tugal naquella epocha. Os almoliades haviam res- 
peitado as tréguas olTerecidas a Yacub pelos reis 
christãos, e se alguns recontros Jiouve no Alemtejo 
entre os fronteiros mussulmanos e portugueses, tão 
insignificantes foram que nenhuns vestigios restam 
de taes successos. O que se passava em Africa im- 



(II Foraes de Guyães, Sancta Martha e Biduido, Taboa- 
delo, Fontes e Crastello, Ucobou, S. Julião, S. Cypriano, 
Codins, Aguiar, Souto, Ranalde e Andrães, no Liv. 2 de Af- 
fonso III, f. 8 V., 56 V , 34 v., 33, 37, 02 v., 35 v., 17 v., 55 v,, 
53 V. — Foraes de Yillanova, Montemor e Aveiras, no M. 
12 de F. A., n.» 3, f . 4 v., 29 e 32 v. Foral de Alpedrinha, M. 
4 de F. A., n.» 3. For. de Guardão, Corpo Chronol., P. I. M. 
I, n.» õ. For. de Lapella, Liv. 2 de Alemdouro, f. 269. For. 
<le Alhandra, For. Antig. de Leit. nova, f. õ v. For.de Are- 
ga, M. í de F. A. n.» 7. For. de Figueiró, ibid. n." 14. For. 
de Pedrogam, M. 2 de F. A., n.» 8 e M. 12, n.» 3, f. 4. Doaç. 
de Monfalude, Liv. dos Mestrados, f. 74 a. Doaç. da Idanha- 
-nova, ibid, f. 58 v. Doações diversas a cavalleiros, prela- 
dos e mosteiros, Liv. 2 de Affonso III, f. 63, i5 v., 2st. v., 26, 
56, 32. ete. M. 12 de F. A., n.» 3. f.6i, 64 v., 32, 60 v.. 62. 61 
V., etc. — Vemos que Sancho I residiu successivamente de 
1202 a 1207 em Gestaço, na Lourinhan, em Guimarães, na 
Idanha, no Porto, em Trancoso, em Bostello, em Lamego, 
de novo na Idanha, em Santarém, de novo em Guimarães, 
na Covilhan, etc, dos documentos do M. 12 de F. A., n.» 3, 
f. 61 V., 64, 64 v., 60 v., 62, e do Liv. 2 de Affonso III, f. a5, 
S6 V., a6, 37, 35, 53, 55, etc. no Arch. Nac. 



SGO HISTORIA DE POIITUGAI, 

pedia também a vinda á Península de novas tropas, 
único meio de excitar os brios dos sarracenos an- 
daluses, cuja decadência politica era tão rápida 
quanto o era o incremento dos christãos. Apesar^ 
porém, dessa decadência e desse incremento, sê- 
as discórdias enfraqueciam os mussulmanos. ódios 
e rixas quasi civis se alevantavam também de con- 
tinuo entre as nações de origem gothica ; e se os 
soccorros dos francos de além dos Pyrenéus con- 
tribuiampara as victorias e conquistas destas, o que 
principalmente se pode dizer de Portugal, de muito 
maior valia eram x:)ara aquelles os auxílios de tro- 
pas aguerridas e numerosas que lhes enviava a 
Africa. Assim, só o augmento de energia e vigor 
interno da sociedade christan e n degeneração mo- 
ral, sempre crescente, da sociedade mussulmana 
podem explicar v^ resultado íi na 1 da terrível deman- 
da pleiteada já i)or mais de quatro séculos entre os 
sectários das duas religiões inimigas que disputa- 
vam uma á outra o domínio exclusivo da Península. 
Pelo que respeita a Sancho I as circumstancias 
que lhe facilitavam o dedícar-s8 aos negócios depaz> 
era que o vemos inteiramente empregado por tan- 
tos annos, foram, conforme a variedade dí^s tempos,, 
diversas, postoqae sempre favoráveis. O casamento 
de D. Bereagaria com o '.'ei de Leão produziu, em- 
lim, uma alliança sincera deste com í de Castella, 
allíançô em que, como observámos, tudo persuade 
ter sido ijartícípante o rei de Portugal, (.'hamado 
pelo sogro para o ajudar na guerra de Navarra, não 
convinha a Aífonso IX que se renovassem as dissen- 
sões com um estado limitrophe, cujos habitantes e 
cujo príncipe sempre haviam mostrado um carac^ 
ter emprehend?dor e guerreiro, e por outro lado 
AíTonso Vill devia ter bastante influencia no animo 
de Sancho, seu antigo alliadc para o mover a nã.> 



UVRO IH 261 

inquietar as fronteiras leonesas com quebra da con- 
córdia commum, tanto mais que nesse caso elle rei 
castelhano naturalmente se declararia antes pelo 
genro. Roto depois o consorcio com D. Berengaria 
(12041, as antigas perturbações entre Leão e Cas- 
tella renovaram-se mais de uma vez (D. Todavia, 
aquelle divorcio, em que a severidade ou o capricho 
de Innoccncio III se empenhara, reconciliava com a 
corte de Roma o rei leonês, e o pretexto da excom- 
munhão fulminada contra elle faltava á ambição ou 
á vingança de Sancho, que já não podia esperar que 
o papa lhe legitimasse as tentativas para se apode- 
rar de uma parte dos domínios do seu antigo ad- 
versário. 

Se o ensejo para a guerra de Leão era impróprio, 
a dos sarracenos fora igualmente, senão impossível, 
ao menos assas difficultosa para ambas as partes. 
A grande fome de 1202 tinha forçosamente empo- 
brecido e ermado as províncias andaluses, tanto 
como as portuguesas, e, se o remediar as calamida- 
des publicas com a maior actividade e energia era 
o meio único de Portugal se preparar para novas 
conquistas, também aos sarracenos do Gharb cum- 
pria contentarem-se com defender as fronteiras, não 
só pelo enfraquecimento e miséria do povo, mas 
também porque as revoluções que seguiram em 
Africa a morte de Yacub pouca esperança olTereciam 
de que o djihed ou guerra sancta. contra os christãos 
se podesse tão cedo intentar com vantagem. Por 



(i) Et postea inter reges g-uerrae etvastationes vix aliquo 
tempore cessaverunt : Piod. Tolet., L. 7, c. 24 Risco duvida 
desta asserção em consequência dos tractados de paz entre 
Leão e Castella em 1206, 1207, 1209; mas é justamente essa 
repetição de concordias que, em nosso entender, contirma 
a existência de frequentes dissensões entre dous prin« 
cipes. 



262 HISTORIA DE PORTUGAL 

morte de Yacub succedera no amirado seu filho 
Moliammed En Nacer ou Annasir, homem que o tes- 
temunho dos escriptores árabes e os successos do 
seu reinado nos mostram ter sido inferior a Yacub 
em dotes militares e políticos. O começo do seu go- 
verno foi logo assignalado por uma revolução entre 
as tribus das montanhas de Ghomera. Apenas so- 
pitado este movimento, mais graves inquietações 
obrigaram o amir-al-mumenin a sair de P'éz aonde 
se recolhera. A familia do celebre Ibn Ghanyyiah 
(que tão importante papel fez na lucta em que o 
dominio da Hespanha passou das mãos dos almora- 
vides para as dos almohades) tinha se refugiado nas 
Baleares e ahi estabelecera um estado independente 
em que de certo modo se continuava o império al- 
moravide. Com maior ou menor felicidade os Ibn 
Ghanyyiahs haviam por diversas vezes tentado alar- 
gar os limites dos seus domínios, tanto na Hespa- 
nha como em Africa. Durante o reinado de Yacub, 
Ali ibn Isak denominado Almayorki (o maior- 
quino) aproveitara as frequentes ausências deste 
príncipe nas suas expedições contra os christãos da 
Peainsula para fazer desembarques e correrias na 
província mauritana de Efrikia. Em summa, os 
almoravides achavam-se de posse das cidades de 
Tunis e de Mahdia e d'outros togares nos primeiros 
annos do reinado de Annasir. Yahya Ibn Isak 
governava então essas conquistas, e seu irmão 
AduUah era amir í^^e Maiorca. Annasii , pouco de- 
pois de submettidos os levantados de Ghomera, re- 
solveu acabar com estes restos de uma parcialidade 
sobre cujas ruinas se firmava o império almohade. 
Para isso partiu de Alger com uma grossa armada, 
que, atacando Maiorca, veio a submetê-la com f 
morte de Abdullah. Voltando depois á Africa, mar- 
chou para a Efrikia, onde governava Yahya. Era 



LIVRO III 263 

este valente e hábil soldado, mas as suas forças 
mui desigiiaes ás do império. A província sujeitou- 
se em breve, e por íim ^lahdia, que resistira mais 
tenazmente, abriu as portas ao vencedor. Yabya, 
conhecendo na ultima e sanguinolenta batalha que 
perdeu contra Annasir a inutilidade de luctar por 
mais tempo, internou-se com as relíquias das suas 
tropas nos desertos de Sahará (1). Estes successos, 
que passaram nos primeiros sete ou oito annos do 
século XIII, explicam sulíicientemente a tranquilli- 
dade em que os almohades deixaram por todo 
aquelle periodo os príncipes christãos da Plespanha. 
Entretanto ás occupações pacificas em que San- 
cho I andava enleado vinham associar-se cuidados 
de bem diversa espécie, que deviam enlutar-lhe os 
últimos dias da vida e, porventura, abbreviar-lh'os. 
Aílbnso, seu filho mais velho e herdeiro, chegara á 
idade de vinte e dous annos Í2), e Sancho, gasto e 
cançado por uma existência consumida nas agita- 
ções e perigos da guerra, no meio de tantas adver- 
sidades e no vivo empenho de repovoar o paiz, sen- 
tia já provavelmente lavrar-lhe no seio a longa en- 
fermidade chronica de que morreu poucos annos 
depois (3). O rei de Castella, a quem o prendiam 
laços de antiga e fiel amizade, tivera de sua mulher 
D. Leonor dlnglaterra três filhas, D. Berengaria 
casada com o rei de Leão e agora divorciada, D. Ur- 
raca e D. Branca, desposada pelos annos de 1200 
com o príncipe Luis de França. Permanecia ainda 
solteira D. Urraca, e Sancho I buscou estreitar a 



'i) Ibn Ech-Chemma e Al-kairuani, p. aoi e soo. — Abd- 
el halim, p. 253. — Conde, P. 3, c. 54. 

2 Era MCCXXIII iiatus cst lex Alfonsus íilius regis 
Sancii ; Cliron. Conimbr. 

i3 Morbo chronico dia detentus vitam íinivit : Rod. To- 
Icl., L j, c. 6. 



204 



HISTORIA DE PORTUGAL 




34. — Sé do Porto. — Claustro. 



LIVRO III 265 

emizade que o ligava a AíTonso VíII com ^tina al- 
liança de família. Urraca foi escolhida para consorte 
do herdeiro do throno português, e os desposorios 
celebraram-se nos fins de i'2oS ou princípios de 
I20y (i). Este successo, que devia ser um novo pe- 
nhor de tranquíllídade para Portugal, deu, se não 
motivo, ao menos occasião e pretexto para violentas 
discórdias civis, que, azedando-se com o correr dos 
annos e complicando-se com outras causas de ódios 
€ parcialidades, foram como o primeiro élo dessa 
cadeia de combates entre a auctorídade real e a 
mais poderosa classe do estado, o clero, combates 
em que nenhum dos contendores ganhou muito, 
mas em que padeceram grande quebra a paz e o 
progresso moral e material do paiz. Para illustrar os 
, primeiros actos dessa longa e cruel lucta não sobe- 
jam os monumentos, os quaes os historiadores só 
em parte conheceram e a que nem sempre deram o 
verdadeiro valor. Para evitarmos este escolho cum- 
pre-ncs ir buscar o fio da nossa narrativa um j^ouco 
mais longe. Como frequentes vezes succede, os gra- 
ves acontecimentos da lucta interna que agitou Por- 
tugal por um século tiveram, quanto a nós, uma 
origem pouco importante e obscura. 



(i) A data de iao8, que os historiadores attribuem ao 
casamenlo de Aílonso II, é impa«,'nada por BarLosa Catai, 
das Rainh., p. i44 e segg.i que pretende fosse muito ante- 
rior. Os seus argumentos são de nenhuma força por se es- 
tribarem nas opiniões contradictorias dos mesmos histo- 
riadores : são apenas argumentos per te. Exceptuamos a 
♦íseriptura mencionada em Brandão Mon., Lus., L. /4, c. I) 
em que o infante Sancho Sancho U já apparece nascido 
em i2o3. Esta data, porém, é evidentemente errada; por 
que D. Urraca só principia a figurar nos documentos de 
Portugal desde fevereiro de laoy em diante Dissert. Chro- 
nol., T. 3, P. I, n.» 701 e segg. . Vejam-se além disso, as 
ponderações de Flores na Esp. Sag., T. 21, p. 93. 



1ÒÒ 



HISTORIA DE PORTUGAL 




SS. — Só do Porto. — Interior do claustro. 



Elevado á Sé archiepiscopal de Brag-a o bispo do 
Porto, Martinho Pires, havia-lhe succedido nesta 
diocese ÍI191) Marlinlio Rodrigues, homem ainda no 



LIVRO III 267 

vigor da idade e que pertencia pelo seu berço a 
uma das mais illustres familias do reino (i). Não 
eram então os paços dos senhores as melhores es- 
cholas de modéstia e costumes severos, e nada mais 
natural do que conservar o moco bispo no exercicio 
do ministério ecclesiastico os hábitos de dissipação 
e violência que eram communs entre os nobres. Ti- 
nlia o seu antecessor dado nova forma ao cabido 
portuense, creando as dignidades de deão, chantre» 
mostre-eschola e thesoureiro, a ultima das quaes 
fora conferida ao i3rox)rio Martinho Rodrigues. As 
rendas da diocese ficaram então divididas, perten- 
cendo ao bispo duas partes delias e uma ao cabido, 
que até esse tempo vivia monasticamente debaixo 
da regra de Sancto Agostinho. Cingindo a mitra, 
Martinho Rodrigues pensou em repor as cousas no 
antigo estado. Fácil e de crer que não o moviam 
considerações de disciplina : para isso os escrúpulos 
eram demasiado tardios. Os cónegos, porém, se- 
gundo parece, preferiam desfructar um terço das 
rendas episcopaes em liberdade a viverem claus- 
tralmente, mantidos e governados como simples 
monges pelo prelado. D'aqui nasceu uma contenda 
que veio a concórdia por intervenção do metropo- 
lila de Braga. Com algumas modificações, a reforma 
que elle introduzira durante a sua prelazia no Porto 
foi conservada. Não tardou, todavia, a quebrar-se o 
bom accordo, accusando os cónegos a Martinho Ro- 
drigues de ter falseado a concórdia. Interpôs-se no- 
vamente o arcebisj^o, e o negocio terminou convindo 
o i^relado e o cabido em nomearem conjunctamente 
um prebendario ou preposto que governasse a terça 



I, Docum. cit. nas Dissert. Cbronol., T. .5, p. 181. — Liv. 
Velho das Linhagens, p. 170. Martinho Rodrigues governou^ 
pelo menos, até I235 (Dissert. Chronol., 1. cit., isto é, 44 
annos, donde se vê que devia ser moço quando foi eleito.í 



a68 HISTORIA DE PORTUGAL 

<lcs rendimentos que tocava aos cónegos, regulan- 
<ío-se per esse mesrco contracto a forma da eleição 
€ substituição delle. Mas no que mais insistiu Mar- 
tinlio Rodrigues foi em que, no caso de sobrevirem 
algumas duvidas ou contestações, só podesse o ca- 
bido queixar-se £0 rei depois de haver recorrido 
inutilmente ao metropolitano, exigindo que não 
fossem logo suscitar contra o senj^relado a malevo- 
7 b cia de Sancho I. Assentadas outras disposições 
aecessarias, o bispo foi obrigado a pagar ao cabido 
nove bizancios em reparação de varias rapinas qae 
íizer^ c*m especial a alguns membros delle. Esta es- 
pe-ie de tractadodepaz entre as partes contendoras 
irmou-se na presença de Martinho Pires e de di- 
versos ^onegcs de Braga, Porto, Coimbra e Lisboa, 
■em outubro de lioo (ii. 

Que se pode deduzir das antecedencias a que se 
allude nesse contracto, senfio que os cónegos cíien- 
tiidos por Martinho Rodrigues tinham buscado a 
protecção de Sancho e que este se declarara centra 
o prelado, o que o obrigou provavelmente a recor- 
rer ao arcebisx30 de Braga e a congraçar-se por 
iutervenção delle com o cabido? Que, apesar destes 
ajustes, recresceram novas perturbações é o que 
pai ece concluir-se de um rescripto de Innocencio III, 
no qual este papa só oito annos depois manda guar- 
-dar aquelle contracto. Foi, de feito, antes de 1208 
que as discórdias de Sancho I e do bispo chegaram 
ao auge em que no-las descrevem duas cartas de 
Innocencio III escriptas dons annos depois. iVmbos 
vdolentos, o mais crivei é que tanto um como outro 
praticassem excessos e que, assim, uma questão que 
a principio fora apenas entre o corpo capitular e o 



(i) Pobre este e os subsequentes paragraphos vjja-se a 
«iota yili no fim do volume 



LIVRO III 269 

seu chefe se convertesse em grave discórdia entre 
este e o rei. As cousas chegaram a termos que o 
preLido teve de fugir da cidade : seu irmão, Pedro 
Rodrigues, foi preso pelo rei ou pelos ofliciaes do- 
rei, acaso em algum tumulto civil, e o bisj)o despo- 
jado dos seus bens, alfaias e cavalgaduras. Fugitivo, 
Martinlio Rodrigues fez saber ao i)apa a situação 
em que se achava. Innocencio deu então j^lenos 
poderes ao bispo de Zamora, ao deão da mesma Sé 
e ao da de Leão para terminarem a contenda sem 
appellação. Produziu eíTeito o expediente : Sancha 
tinha-se excedido e temeu os resultados do pro- 
cesso. Subscrevendo ás condições impostas pelos 
juizes apostólicos, conveio em receber na sua graça 
o turbulento Rodrigues, restituindo-lhe o bispado e 
os seus bens e promettendo não se envolver mais 
nas questões do clero portuense, obrigando -se tam- 
bém a tractar perante o arcebispo de Braga ou 
perante o papa as que lhe dissessem respeito pesso- 
almente, a mandar põr em liberdade Pedro Rodri- 
gues, a pagar o que faltasse das alfaias episcopaes e 
a abster-se de entender nos rendimentos destinados 
á fa]>rica dts cathedral. Pela sua parte o bispo devia 
voltar tranquillamente ao Porto e levantar c? inter - 
dicto, o qual pusera já, obrigando-se tanto elle como 
Sancho a estarem em tudo pela resolução dos dele- 
gados em qualquer duvida que viesse a suscitar-se, 
resignando ambos o direito de appellar j^ara Roma 
E assim pareceu íicar restabelecida a paz. 

Mas, ou porque o orgullio de altivo prelado não 
estivesse inteiramente satisfeito com o que obtivera 
do seu adversário, ou porque as «iiversas condições 
do pacto celebrado não ^ossem cumpridas no todo ou 
em parte, é certo que o fogo da discórdia ardia de- 
baixo das cinzas. Só faltava um pretexto para o 
rompimento, e este não tardou a appar^írpr, nora 



270 K -JTORIA DE PORTUGAL 

Martinho Rodrigues a aproveitar a conjunetura 
para dar largas a uma vingança mesquinha. O 
principe Affonso era jíarente, postoque <ím grau 
remoto, da infanta de Castella sua esposa. Esta cir- 
cumstancia de parentesco dos contrahentes dava- se 
facilmente entre os príncipes, que, por conveniên- 
cias politicas, tinham feito mais de uma vez entre 
si allianças domesticas. As desordens que nasciam 
de um systema de impedimentos exaggerados até o 
absurdo começavam a j^erturbar seriamente os 
estados, e os bispos hespanhoes mostravam-se pouco 
inclinados a sustentar nesta parte o rigor de uma 
disciplina que na origem fora ^juramente civil. No 
casamento de AíTonso IX com Berengaria os prelados 
leoneses, á excepção do de Oviedo, desprezaram o 
interdicto posto pelo legado do papa em conse- 
quência de nào quererem separar-se os dous con- 
sortes, e o primaz de Toledo não hesitou, depois, 
em ir a Roma j^ara ver se dobrava a inflexibilidade 
de Innocencio III (i). O próprio j^apa attendeu, 
emfim, aos clamores geraes, convindo em que 
fossem reduzidos os impedimentos só ao quarto 
grau, e Honório III, estabelecendo precisamente a 
doutrina da omnipotência pontifícia j)ara dispensar 
qualquer lei ecclesiastica, ao mesmo tempo que 
facilitava indirectamente os consórcios, abria uma 
abundante fonte de novos proventos para a cúria. 
Cora as idéas, portanto, que vogavam já entre o 
clero as núpcias do principe AíTonso não encon- 
traram resistência nos pastores portugueses e cas- 
telhanos. O do Porto, porém, preferiu, como era 
natural, a opinião contraria. Dej)ois de unidos, os 
jovens esposos passaram pela cidade episcopal. 
Martinho Rodrigues, que recusara intervir na ceie 



<a) Bisco, n. <lf, L., p. 371. 



LIVRO III 271 

bração do matrimonio, negou-se também a receber 
processionalmente os noivos conforme o estylo. 
Lançar assim a luva a um homem do caracter de 
Sancho, além de ser o clieíe do estado, parecia 
demasiada e perigosa audácia. Experimentou-o o 
bispo. Como a mutua malevolencia era antiga, 
bastava o mais leve excitante para aggravar a feri- 
da. Renovaram-se as disjuntas a que tinham posto 
termo os delegados e, segundo cremos, duraram 
algum tempo, até que Martinho Rodrigues, julgan- 
■dose já desobrigado da condição que fora imj^osta 
tanto a elle como ao seu contendor, appellou para 
o papa (i). Por esta ou por outras circumstancias 
que não chegaram até nós a irritação de Sancho 
subira de ponto, e no arrebatamento da cólera elle 
transpôs, emfim, todos os limites da moderação. Os 
membros do cabido pela maior parte inclinaram-se 
á parcialidade do rei, de cujas dissensões com o 
prelado eram a causa remota, mas o deão e alguns 
outros seguiram o partido contrario. A fermentação 
dos espíritos adquiria cada vez maior intensidade, 
e as lides judiciaes, protrahindo-se, ameaçavam 
converter-se em lucta brutal e sanguinolenta. Um 
terrivel ingrediente, o povo revolto, lançado na 
cratera que rugia, fez trasbordar o vulcão. 

O senhorio do Porto pertencia aos bispos daquella 
diocese desde o tempo do celebre amigo e panegy- 
rista de Diogo Gelmires, o francês Hugo. O dominio 
real limitava-se ao Porto primitivo, isto é, á povoa- 
ção da margem esquerda do Douro, hoje Villa-nova- 
de-Gaia. O burgo, villa, ou cidade episcopal foi 



(i) nec vobis nec ipsi liceal super causa, quse inter vos 
et ipsum vertitur, ad appellationis diffugium comolare : 
Sent. Deleg. apostol. (Irm. III, Epist. L. i3 — 76)... post 
appellationem ad nos interpositam^ domos... fecit dirui : 
Inn. Epist. i3 — jõ. 



2^3 lílSTOIlIA DE PORTUGAL 

crescendc rapidamente pela marg-era direita do rio^ 
á sombra dos privilégios que na carta de couto^ 
concedidri h. Tinge por P. Tlieresa e confirmada por* 
seus successores, sf. lhe 1 ibera lisriram. Hugo attra- 
hiu porá allí uior^^dores, eoncedendo-lhes impor- 
tantes exempçóe? e regalias no seu foral, 23assad(> 
em II23, Tão rápido foi o incremento da povoação- 
que em pouco mais de cem annos ella se dilatou por 
tal modo Jesde c pequeno burgo que se pendurava 
pela encosta em volta da cathedral, que ia já entes- 
tar cora o couto de Cedofeita j^or uma linha que> 
partindo do Douro juncto de S. Pedro de ?vlira- 
gaia, se internaA^a para o norte. Deste prompto 
augmentc do burgo ej)iscopal se infere quão impor- 
tante logar seria na pi^imeira década do século XIII. 
Apesar da doação feita a D. Hugo e do senhorio 
indubitável do j^relado diocesano, os burgueses 
recusavam reconhecer- se por seus súbditos ou vas- 
sallos,estribarido-se na carta do foral. Pelo contrario 
os bispos sustentavam que, sujjposto fosse na ori- 
gem como se pretendia, os burgueses tinham em 
varias cousas quebrado as convenções do foral e» 
por isso, renunciado ás vantagens que este lhes oíTe- 
recera, sendo signal evidente dessa renuncia o have- 
rem acceitado muitos delles e por varias vezes 
cargos administrativos não municipaes, mas depen- 
dentes dos prelados, mostrando-se mais attentos 
aos lucros que d'ahi podiam tirar do que á sua 
pretendida independência e liberdade (i). 



(i) Ribeiro, Nov. Additam. ás Dissert. Chronol., p 5 
— For. do Porto, Corpo Chronol , F.a, M. 88, r.^o. e Liv. i 
de Affonso lY, f. 83 no Arch. Nacion. Inquirições de 
Affonso III, L. 5, f. lo v. (ibid.) Que a discórdia entre Mar- 
tinho Rodrigues e os burgueses do Porto nasceu da 
questão de vassalagem é o que se deduz das duas cartas 
de Sancho I qii? se encontram a f. a8 v. do Liv. a te >ffon- 



LIVRO m 



Fácil era redarguir a uma allegação que se estri- 
bava no procedimento de um ou outro individuo 
contra o direito politico do concelho inteiro; mas 
os burgueses replicaram de modo mais peremptório 
e eííicaz, Oílerecia-se-liies para isso favorável con- 
junctura nas discórdias de Martinho Rodrigues- 
com o rei e com uma parte do cabido. As cousas 
tinham chegado a tal ponto que os delegados régios 
mandaram saquear as casas de alguns cónegos par- 
tidários do bispo e derribar-lh'as, privando-os, além 
disso, das prebendas. Ou entào ou ainda antes, 
tinha sido posto interdicto na cidade. O povo asso- 
ciou-se aos officiaes do rei (i ), e de commum accordo 
proseguiram nas violências contra o prelado. As 
portas das egrejas foram arrombadas, os excom- 
mungados introduzidos no templo, e aos mortos 
durante o interdicto deu-se, como nos tempos ordi- 
nários, sepultura ecclesiastica. O geral dos mem- 
bros do corpo capitular tinham seguido o movi- 
mento dos burgueses e, não obstante a appellação 
de Martinho Rodrigues para o pontífice, o que tor- 
nava o negocio mais melindroso, continuavam a 
celebrar ^publicamente os officios divinos, como se 
não existira interdicto. Entretanto os officiaes do 
rei e os do concelho conservavam o bispo encerrado 
no palácio episcopal e em tão estreito assedio que 
nem sequer lhe consentiram entrasse um sacerdote 
a confessá-lo numa enfermidade que lhe sobreveio. 
Durou esta situação quasi cinco meses. Yendo-se 
reduzido á extremidade, abandonado por uma 
grande porção do próprio clero, que, unida ao povo. 



so JV (aliás Liv. a da Demanda do bispo D. Pedro) no 
Arch. IVacion. 

(i) per portarium suum et per biirgcnses portagalenses : 
lujioc Epist. ló — 75. 

voL. III. 18 



^74 HISTORIA DE PORTUGAL 

se ria das censuras ecciesiasticas, e conhecendo, 
talvez, que os de sua poderosa linhagem não podiam 
salvá-lo, Martinho Rodrigues entregou-se á mercê 
do rei. Esta resolução parece não ter sido mais do 
que um alvitre para" sair da estreiteza do assedio; 
porque, sabendo que Sancho o queria constranger 
a vir a um accordo linal pouco vantajoso para elle, 
insistiu em appellar jmra o pontífice, não obstante 
a anterior concordata, e, fugindo de noite, saiu do 
reino com o deão e vários outros individuos, apesar 
das providencias dadas para se lhe embargarem os 
passos. Sabida a fuga, os officiaes públicos tomaram 
conta não só dos bens patrimoniaes do foragido, 
mas também dos da mitra, e um agente do bispo 
que tentava salvar alguma cousa foi lançado no 
fundo de um calabouço. Martinho Rodrigues diri- 
giu-se a Roma; mas, falto de recursos para tão dila- 
tada viagem, chegou alli em tal estado de miséria 
q-ie movia á comi^aixão. Pintando ao papa os seus 
padecimentos, é natural que exaggerasse as violên- 
cias practicadas pelos mandatários do rei e pelos 
burgueses do Porto e que desse modo podesse, 
emíim. despertar a indignação de Innocencio III, 
em quem, postoque houvesse chegado com as mãos 
vazias, achou um poderoso protector. Ao mesmo 
tempo que confirmava a antiga concordata em que 
o rei e o prelado renunciavam á intervenção apos- 
tólica na reparação dos seus mútuos ftggravos, o 
papa dirigia cartas ao bispo e ao arcediago de 
Zamora e ao abbade benedictino de Moreruela, nas 
quaes lhes dava commissão para compellirem San- 
cho I a reparar os damncs perpetrados e a dar 
satisfação das injurias íeitas ao prelado e lhes man- 
dava que, declarando incursos em excommunhão 
os cónegos e raçoeiros que iiaviam escarnecido dos 
dous ihterdictos postos aucccs si vãmente pelo seu 



LIVRO JII 275 

prelado diocesano, os privassem dos benefícios 'e 
igualmente fulminassem a excommunhão contra os 
oíficiaes do rei, instrumentos da perseguição, e 
especialmente contra dous burgueses que parece 
haverem sido os chefes do levantamento popular e 
dos quaes um merecera ao povo a alcunha de Few(/o- 
iirou (tirou o feudo ou vassalagem). Estee um certo 
João Alvo, segundo se deprehende das palavras de 
Innocencio III, tinham-se mostrado mais que nin- 
guém ardentes e j^ertinazes no commettimento dos 
paços episcopaes. Concluía o pontífice ameaçando 
os delegados, se não desempenhassem á risca a sua 
missão, de os castigar severamente e, o que era 
mais notável, prohibia-lhes que admittissem appel- 
lação para a Sé ajDostolica, ac passo que invectivava 
contra Sancho por não a haver admittido ao bispo 
que a interpusera quebrando as condições da con- 
cordata anterior, a qual nesta mesma conjunctura 
elle papa revalidava (i). 

Dous annos durou aquella discórdia (1208- 12 10). 
Entretanto AíTonso IX, seguindo a politica de que 
Sancho lhe dera o exemplo, cubria de povoações 
acastelladas os territórios que se dilatam pelas 
margens do Coa. De toda a fronteira entre Portugal 
e Leão a parte mais despovoada e, por isso, a me- 
nos forte era a que subia da confluência do Águeda 
com o Douro para o sul e descia depois até a foz do 
Elga. Facilitavam-se por aquelle lado as invasões 
em ambos os paizes; porque a falta de castellos, a 
solidão e, digamos assim, o silencio dos ermos favo- 
reciam as inesperadas correrias, tanto dos i^ortu- 
gueses nos districtos de Salamanca e da alta Estre- 
madura, como dos leoneses na Beira. Destes annos. 



(i; Idem, ibid., Epist. 5^, 75, 76. 



a'-6 HISTORIA DE PORTUGAL 

porém, datam as cartas municipaes de Castello-Ro- 
drigo e de Castello-melhor, e pela mesma epocha 
parece haverem sido fandados os concelhos de Al- 
meida, Yillar-maior, Castello-bom e os mais togares- 
denominados de Cima-Goa até Sabugal e Alfayates^ 
onde as fontes do Goa e do Elga, descendo aquellas 
para o norte, estas para o sul, quasi travavam a 
orla das fronteiras (i). Sancho, porém, apesar das. 
sérias inquietações domesticas pouco antes relata- 
das, não se descuidava de ir alevantando novos- 
padrastos contra a recente linha de castellos leoneses,. 
Foi assim que, em frente delles, ao norte se ergue- 
ram os muros de Pinhel e ao sul os de Penamacor 
e de Sortelha (2). Estas povoações, ladeando a 
Guarda, formavam sobre a raia uma espécie de 
vanguarda aos castellos que, um pouco mais para 
o interior, defendiam a Beira, como eram Numão^ 
Longroiva, Marialva, Trancoso, Gelorico, Linhares, 
Gouveia, Covilhan e, descendo para o Tejo, as fortes, 
preceptorias do Templo. 

Emquanto o bispo do Porto procurava na cúria 
romana armar-se com as terríveis armas da igreja 
para combater Sancho í, o rei de Portugal, consu- 
mido pela irritação que as discórdias com Martinho» 
Rodrigues lhe deviam produzir no espirito, pelos 
cuidados políticos e pela extrema actividade com 
que tractava de dar força e incremento á nação^ 
vergava, emfim, para o tumulo antes de o curvar 



(1) M. 5 de F. A n." í2, 3, 4; M. 4» n" 2 no Arch. Nacion. 
— Roder. Tolet., L. 7, c. 12. 

(2) M. 12 de F. A n.° 3, f. 7; M. 7, n." 9 no Arch. Nacion, 
Ignora se a epocha exacta da fundação de Sortelha; mas 
sabemos pertencer á de Sancho I, porque no foral que 
lhe deu Sancho II se diz que o dá tarn illis qui ibi venistis 
et habitastis a tempore avi mei. Parcce-nos o mais provável 
«ttribui-lo a este tempo. 



i.iviio III 277 

a velhice. A sua enfermidade chronica desenvol- 
veu-se a ponto que as esperanças de remédio intei- 
ramente se desvaneceram (i). Nesta extremidade, 
Sancho, que, apesar da decadência do corpo, con- 
servava a robustez do espirito (2), olhando para 
o futuro não j)odia deixar de ver com receio as 
perturbações domesticas que legava ao herdeiro 
da coroa. A essas considerações, não menos que 
■aos terrores da outra vida, cremos se ha-de attri- 
buir o seu procedimento naquellas circumstancias. 
Fazendo as disposições testamentárias que a vizi- 
nhança da morte aconselhava, declarou expressa- 
mente por successor o infante Affonso, distribuiu 
por elle e pelos outros filhos e filhas uma avultada 
porção das riquezas que ajunctara, doando, além 
disso, mais solemnemente á repudiada rainha de 
Leão, D.Theresa.o senhorio de Montemor-o- velho e 
Esgueira, a D. Sancha o de Alemquer e a D. Ma- 
falda os dous mosteiros de Arouca e Bouças com 
varias terras em Seia, cujas rendas, segundo parece, 
já suas filhas desfructavam. Apesar das immensas 
doações que fizera ás ordens militares, não se 
esqueceu nesta conjunctura dessas illustres corpo- 
rações que tantos e tão leaes serviços lhe haviam 
feito. Com o intuito, finalmente, de acalmar a exci- 
tação do clero, para quem nunca se mostrara de- 
masiado favorável i3) e ao qual não podia ser 
indiíferente a sorte do bispo do Porto, Sancho dis- 



(I) In gravi adeò aegritudine constitutus quod de pro- 
prii corporis salute desperas : Inn. III, Epist. i4 — Sg. 
Postoque esta carta seja do anno 121 1, refere-se em parte, 
evidentemente, aos suceessos de 1209. 

2 Licet infirmus corpore, animo tamen sanus. Idem, 
ibid . Epist. õ3. 

3) Liv. das Doaç. de Salzedas, f. io3, em Brandão, Mon. 
Lusit., L. 12, c. 3\. — Innoc. III, Epist. i3 — 179. I4 — 8. 



HISTORIA DE PORTUGAL 



tribuiu com mão profusa quasi todo o resto da» 
grossas sommas que entliesourara. Pedindo ao papa 
que confirmasse o seu testamento, legava-lhe cem 
marcos de ouro, somma assas avultada e que indica 
bem qual era a força que elle attribuia á confir- 
mação apostólica. O arcebispo eleito de Braga, 
Pedro, que da Sé de Lamego fora promovido á 
metrópole da Galliza por morte de Martinho Pires ^ 
os abbades de Sancto Thyrso e Alcobaça, o prior de 
Sancta Cruz, o mestre do Templo, o prior do Hos- 
pital e vários ricos-homens nomeados executores do 
testamento juraram cumprir á risca as disposições 
nelle contidas, empregando nisso quaesquer meios, 
sem excepção de nenhum. Sancho fez jurar o 
mesmo ao princi^De, não só perante si, mas também 
perante o arcebispo D. Pedro, o bispo de Coimbra 
e o abbade de Alcobaça. O rei de Portugal parecia 
desconfiar da sinceridade do seu successor, e o 
tempo mostrou que essas desconfianças estavam, 
longe de ser inteiramente infundadas (i). 

Este acto celebrou se no mês de outubro de 1209,. 
justamente na conjunctura em que o bispo do Porto 
exulava pela Hespanha e Itália, trabalhando por 
obter os meios de vingar a sua injuria. Na prima- 
vera, emfim, de 1210 Martinho Rodrigues voltou 
de Roma com as cartas do papa dirigidas ao bispo 
e ao arcediago de Zamora e ao abbade de More- 
ruela, cartas cujo conteúdo acima expusemos. Pro- 
cederam os delegados em conformidade do que 
nellas lhes era ordenado, chamando ao seu tribunal 
os contendores (2). Sancho, desenganado da vida e 



(1) Testamento de Sancho .1, Gav. 16, M. 2, n.' 16 no 
Arch. Nac, e impresso na Mon. Lusit., P. 4> App. escript. 3. 

(2) É o que se deduz da sentença dada á revelia na 
anno seguinte contra os burgueses do Porto pelo bispo 



I.IVKO III 279 

perdida a antiga energia, dobrou a cerviz ante a 
proiella que Roma soltara contra um moribundo. 
O duro e bravio caracter que até ahi o distinguira 
moUificava-se na proximidade do tumulo, e os 
membros do clero mais influentes não se descui- 
davam de aproveitar o ensejo daquella decadência 
moral que no homem acompanha sempre o que 
bran lamento das forças physicas. Cercavam-no o 
arcebisjDo eleito de Braga, seu sincero amigo, mas 
que nem por isso renegara da causa do clero, o 
bispo de Coimbra, o abbade de Alcobaça e o prior 
de Sancta Cruz, extorquindo-lhe diariamente graças, 
concessões e privilégios para os ecclesiasticos de 
todas as jerarchias (i). Como se tentasse tugir á 
morte que o perseguia, Sancho abandonava a sua 
capital, Coimbra, e, residindo alguns dias entre os 
monges de Alcobaça, d'ahi pedia aos vassallos e 
burgueses, não homens darmas para as batalhas, 
não ouro para se enriquecer, mas orações e lagrj- 
mas 2). A violência do seu génio desapparecera. 
Tinham-no resolvido a humilhar-se e a responder 
benignamente ao bispo desterrado, que lhe dirigira 



arcediago de Zamora, na ausência do abbade de More- 
ruela : Liv. da Dem. do bispo D. Pedro (no Arch. da 
Camará do Porto), 1*. õo. 

i; Eciam ad subgestionem bracharensis electi et colim- 
briensis episcopi et abbatis Alcupatie et prioris S. Cruéis, 
sub testimonio multaram litterarum ncstrarum extrapen- 
dencium concessimus cunctis episcopis, abbatibus, prio- 
ribus et clericis, etc. Littera Sancii I episc. Portucal. 
(Liv. 2 de AíTonso IV, f. oíè). 

í2) Sciatis quod ego sum multum iníirnius, unde rogo 
vos sicut amicos et vassallos naturales, ut oretis pro me 
«d dominum et ad beatam virginem Mariam et beatum 
Vincentium martyrem quod dent mihi salutr-m corporis et 
anime : Litt. S. I concilio Ulixbon. 14.* nov. era 1248 ; 
Liv I de Affonso III, f. 04, col. 2. 



38o HISTORIA DTi PORTUGAL 

uma carta acompanhando outras dos juizes apostó- 
licos. Na resposta o rei de Portugal relatava as 
concessões que fizera ao clero em geral, exemp- 
lando os seus membros de qualquer serviço militar, 
salvo o caso d'invasão de sarracenos, e sujei- 
tando-os só ao pagamento do tributo chamado co- 
lheita (collecta) uma vez no anno e, ainda assim, 
unicamente quando elle transitasse pelos togares 
onde moravam. Submettia se, além disso, a tudo o 
que os delegados exigiam delle e promettia que, se 
alguma cousa ficasse por cumprir, faria em tudo o 
que o prelado português lhe aconselhasse. Partici- 
pava-lhe também que já enviara o prior de Nandim, 
com os officiaes públicos por este escolhidos, para 
repor as cousas da mitra do Porto no anterior 
estado, restituindo-lhe todas as rendas e preroga- 
tivas de que fora esbulhada. Leinbrando-lhe depois 
antigos benefícios, rogava-llie que viesse congra- 
çar-se com elle, na certeza de que não só podia 
entrar em Portugal com inteira segurança, mas 
também viver na corte, na sua diocese ou em outro 
qualquer logar do reino onde folgasse de residir, 
(levendo sempre contar com a boa e sincera amizade 
delle rei. Avisava-o por ultimo de que expedira 
ordens a todos os oíficiaes públicos para o trac- 
tarem, por onde quer que passasse, com as honras 
e gasalhado que fariam á sua própria pessoa (i). As 
expressões desta carta abrandaram o altivo ódio de 
Martinho Piodrigues. Equivaliam quasi a lançar-se- 
lhe o rei aos pés e implorar perdão. Veio á corte, 
onde já residia nos fins de 1210 \p.). Para completar 



(i) Litt. S. 1 episc. Port. íLiv. 1 de Affonso IV f aS). 

(21 Doaç. de Villa-nova a Fernão Nunes, M. 12, de F. A. 
n." 3, f. Õ9, col. I, no Arch. Nacion., e Doaç. orijçín. de 
uma vinha em Alvalade a Mondo Gomes no do carLor-. 



LIVRO III aSi 

o seu triumpho os burgueses do Porto foram esma- 
gados. O fútil motivo allegado outr'ora por elle e 
repetido agora para se annuUarem os toros e liber- 
dades municipaes, isto é, o terem alguns burgueses 
acceitado o cargo de homens íofíiciaes) dos bispos, 
Ibi julgado decisivo para se considerarem todos os 
habitantes da cidade como vassallos da igreja, que 
iicaria desde então gosando o pleno dominio do 
Porto, não obstante o foral. Os mesmos exactores 
<la fazenda que ahi cobravam os poucos direitos 
-que pertenciam á coroa foram obrigados a submet- 
ter se indirectamente ao prelado, ordenando-se-llies 
que das causas que promovessem dessem conta ao 
íispo, não podendo penhorar ninguém sem inter- 
Aenção do mordomo episcopal. Martinho Rodri- 
gues, que naturalmente desejava augmentar a força 
do castello, dentro do qual íicavam os seus paços 
« a cathedral, obteve também licença para estabe- 
lecer no adro da Sé um mercado ; excellente alvitre, 
pelo qual contava attrahir para alli moradores, 
acaso com o intuito de que estes, ligados pelo 
interesse ao senhor da terra, fossem mais um ins- 
trumento para enfrear os ousados e inquietos bur- 
gueses (i). 

Além dos diplomas que determinam o que deixá- 
mos ]oarticularisado, existe outro que, i)rovavei- 
mente, acompanhou a carta do rei era que convo- 
-cava o bispo a voltar para Portugal. E' a confirmação 
amplíssima do senhorio do Porto e a enumeração 
dos privilégios concedidos ao clero daquella dio- 



Most. de Chellas, ambas datadas de Santarém a 12 de 
<iezembro de 1210 e contirmadas por Martinho Rodiij,'ues. 
I Três cartas, sem data, de Sauciíol Liv. 2 de Aííonso IV. 
•í. 23 v.i são os textos que seguimos nesta parte. Veja-se a 
nota XIII no iim do voi. 



a82 HISTOR.IA DE PORTUGAL 

oesc p cm geral, ao dt todo o reino. Por este doeu» 
mento o rei cedia, até, do direito de ventilar as 
próprias causas nos tribunaes civis quando fossem 
intentadas contra algum ecclesiastico do bispadO' 
jjortucalense; Ordenava-se também alii ao alcaide- 
-mór e alvazis de Coimbra que entregassem aos 
ofíiciaes de Martinho Rodrigues todos os bens mo- 
veis e de raiz que lhe pertenciam, repondo-se as 
cousas no estado em que se achavam no tempo 
do seu antecessor o bispo D. Fernando (i). Mu- 
nido deste titulo, cuja confirmação logo pedira ao 
papa (2), e dos mais que attestavam um triumpha 
completo, o prelado parece ter-se dirigido á sua 
diocese nos últimos dias de dezembro de 1210 (3). 
Quaes foram as scenas que ahi se passaram fácil é 
imaginá-lo attento o caracter de Martinho Rodri- 
gues, os seus ódios e dos membros da sua poderosa 
familia contra os populares e contra os officiaes 
públicos que tão cruelmente os haviam oíTendido ; 
descrevê-las, porém, é impossível, porque os mo- 
numentos raras vezes alludem aos males ou ao 
heroismc do povo quando não é elle quem trium- 
pha. Abandonados pelo rei, trahidos, talvez, por 
aquella parte do clero que se lhes mostrara favo- 
rável, os burgueses ainda luctaram por muito 



(I] Littera Sancii I Mart. episc. Port. el canonicis e 
burgensibus, etc, Liv. 2 de Affonso IV, f. 28. 

líí) Bulia Innoc. III, 5.» idus januar. pontif. ann. 14. • i 
ibid., f. 24 V. 

(3) O bispe do Porto, que ainda confirma a doação de 
Villa-noA'a a Fernão Nunes a 12 de dezembro de 1210 e a 
da vinha de Alvalade a Mendo Gomes no mesmo dia, já 
não íigura na de Infaneis ao abbade de Moreruela, datada 
de janeiro de 1211, a qual é confirmada por todos os bigK 
pos á excepção delle : Liv. 2 de Affonso III, f. i5. 



LIVRO III ía83 

tempo (i). O Perto, essa terra que dera o nome a 
este paiz e que, por assim dizermos, estava predes- 
tinada para também lhe dar, na successão dos sé- 
culos, grandes exemplos do amor de independência 
e de uma crença viva na dignidade moral do ho- 
mem, abria a serie destes exemplos continuando, 
fcpesar de tudo, a combater em defesa dos seu» 
foros. Entregues pelo poder real aos próprios recur- 
sos, fulminados pelos raios de Roma, que naquella 
idadô não eram de desprezar, vendo concitada 
contra si a nobre e numerosa familia de ?Jartinho 
Rodrigues e encarregados, até, os clientes delia de 
serem seus juizes e verdugos (i), os burgueses da 
Porto foram emíim, constrangidos a submetter-se ; 
mas os seus inimigos, conservando os documentos 
do triumpho obtido, nos transmittiram involunta- 
riamente a memoria desses homens enérgicos, e os 
nomes de João Alvo e de Pedro Feudo-tirou, que 
parece terem sido os chefes da conjuração mu- 
nicipal, podemos hoje eslarapá-los nas paginas 
da historia, o grande e indestructivel livro da 
Pnhagem popular. 



fi, Ainda em novembro de 1211 passaram os juizes apos- 
tólicos sentença de excommunhíio contra os burgueses 
que tinham cercado e prendido o bispo, declarando infames 
vinte delles, e só em junho de 1212 Innocencio III expe- 
diu o breve, em que ordenava ao abbade de S. Thyrsa 
absolvesse os excommungados, e isto a instancias de Mar- 
tinho, com quem elles se tinham, emíim, congraçado : 
Liv. da Dem. do bispo D. Pedro ;no Arch. da Cam. do> 
PortO', f. 5o 6 õi, na Collecção d'Extractos da Academia. 

(j> O prior de Nandim foi encarregado por Sancho I de 
restituir •.-) bispo a cidade do Porto e de fazer voltar 
tudc ao an+igo estado ÍLiv. 2 de Affonso IV, f. 28). O mos- 
teiro de Nandim possuia o couto de Palmeira nas terraa 
de que eram senhores os membros da familia do bispo. 
Veja-se Niccl. deSancta Maria, Chron. dos Coneg. Regr.,L- 
6, c- 7. 



-284 HISTORIA DE PORTUGAL 

O procedimento de Sancto I neste negocio pode 
parecer jrepreliensivel ; mas fácil é desculpá-lo. 
Tudo nascia do estado em que se adiava e do abuso 
que os cortesãos ecclesiasticos faziam da fraqueza 
de um rei moribundo. Não era, pcrém, .unicamente 
isto As violências practicadas no Porto deviam 
irritar em geral o clero e, sobretudo, os prelados, 
<[ue podiam ser victimas de acontecimentos aná- 
logos. Eram tempos esses demasiado rudes para 
os membros da igreja não deixarem de manifestar 
o seu desgosto, e o génio do rei de Portugal assas 
ardente para não tolerar taes demonstrações. Daqui 
a mutuas oiTensas distava pouco. A prudência, que 
um auctor coevo attribue a este j)rincipe (i), não 
bastava a domar, como temos visto, as suas paixões 
impetuosas, e essa reputação talvez a devesse mais 
á influencia do chanceller Julião do que ao próprio 
caracter. As perturbações intestinas do nm do seu 
reinado provam quanto a Índole do filho de AíTonso 
Henriques era irritável e indómita. Narrando as 
suas discórdias com Martinho Rodrigues, deixá- 
mos de mencionar outras que pertencem á mesma 
^pocha e que, entretecendo-se com ellas, servem de 
<?ompletar o quadro. A conveniência de conservar 
a unidade de um facto, grave por si mesmo e ainda 
móis pelas suas consequências, nos constrangeu a 
separá-lo de scenas análogas que, durante o exilio 
<lo bispo do Porto, se repetiam na capital. 

As dioceses mais importantes da igreja portu- 
guesa eram nestes tempos Braga, Porto e Coimbra : 
a primeira como metroTjolitana da Galliza ; a se- 
gunda como restaurada havia perto de um S;?eulo e 
encerrando os districtos mais populosos do paiz ; a 



(I) Vir raa},'u'- iae : Roder. Tol {., L. t. c. 6. 



LIVRO III 285 

terceira como sendo aquella a que pertencia a 
capital e dilatando-se até o Douro por territórios 
talvez não menos férteis e povoados que o Minho. 
As Sés de Lamego e Viseu, mais circumscrijDtas^ 
abrangendo districtos menos favorecidos da na- 
tureza e, sobretudo,, da industria, sujeitas ainda 
durante boa parte do reinado antecedente aos pre- 
lados do Porto e de Coimbra e regidas nesse tempo 
por delegados delles, estavam longe de poder com- 
petir em força e esplendor com essoutras. As do 
sul do reino, Lisboa e Évora, estabelecidas em 
duas provindas devastadas pela conquista recente^ 
onde aos pastores faltava o rebanho e sobejavam 
solidões intractaveis ou contendo no seu grémio 
povoações nas quaes as ordens militares devo- 
ravam uma parte dos proventos pios que poderiam 
attrahir para ahi o clero, tinham, por certo, ainda 
menos importância que Viseu e Lamego. Final- 
mente, o bispado egitanense (Guarda), restaurada 
apenas, era pouco mais que um nome ou um titulo 
e, por assim nos exprimirmos, antes um desejo que 
um facto. Portanto, postoque a existência destas 
dioceses não deixasse de contribuir para augmentar 
e ir desenvolvendo a influencia ecclesiastica, a 
força da classe sacerdotal residia principalmente 
nos três prelados bracharense, portucalense e co- 
nimbricense, que dispunham de avultados rendi- 
mentos e se achavam á frente de um clero nume- 
roso e igualmente rico (i). 

Nos prelúdios da lucta com o bispo do Perto dif- 
íicultoso é averiguar para qual dos contendores se 
inclinou o metropolita da Galliza. Por um lado, o 
rei havia-se insensivelmente empenhado nessa 



(i Esta matéria será especialmente tractada em ioga» 
competente. 



a86 HISTORIA T)E PORTUGAL 

questão para proteger os cónegos que sustentavam 
íi organisação capitular que elle arcebispo estabe- 
lecera no tempo em que i)residia áquella diocese : 
mas por outra parte, como primeiro prelado de Por- 
tugal, iiào podia olhar com indiílerença para os 
males do seu collega. Da hesitação em que, prova- 
velmente, se achava veio, porém, libertá-lo a morte 
{1209, depois de junho). Pedro, que lhe succedeu, 
€ra homem addicto ao rei (i), e, por isso, nenhuns 
vestigios se encontram de que buscasse pretextos 
j^ara sustentar á viva força os interesses da sua 
classe. Não assim o bispo de Coimbra, chamado 
também Pedro. Sancho, como já advertimos, tinha 
um caracter arrebatado. Se comparamos as suns 
liberalidades para os mosteiros e igrejas com as de 
seu pae, vemos que a affeição aos ecclesiasticos es- 
tava longe de ser nelle, como em Aflbnso I, radi- 
cada e profunda, e as contestações com Martinho 
Rodrigues deviam torná-lo cada vez menos pro- 
picio a esta ordem do estado, Naquella situação dos 
ânimos qualquer circumstancia imprevista j)odia 
propagar o incêndio que lavrara na diocese do 
Porto. Foi o que succedeu. Entre o rei e o bispo de 
Coimbra existiam antigos motivos de desgosto, que, 
segundo parece, tinham já constrangido o bispo a 
andar exilado largo tempo (2) e que, em parte, eram 



(11 E o que se colhe de ser elle o único prelado esco- 
lhido i)or este para seu testamenteiro, e com a maior evi- 
dencia da Epist. 8, do L. 14, de Innoc. III. 

(2) Num pergaminho incompleto de uma collecção de 
documentos importantes para a histoiua do século XIII, e 
que constituem o n." 43 da Gav. 12, Piepart. 2, M. i, e seus 
appensos no cartório da Sé de Coimbra, refere-se confusa- 
mente esse facto, confusão que nasce da falta de chrono- 
logia que reina nos depoimentos de testemunhas tiradas 
em 12Õ2 por occasiião da grande demanda entre a Sé e o 
mosteiro de S^^ Cruz principiada nessa epocha. Diz ahi 



LIVRO I!I 2^7 

communs a todo o clero. Queixava- se o prelado de 
que Sancho se intromettesse nas cousas da igreja 
de um modo escandaloso, conferindo benefícios a 
quem lhe parecia, destituindo parochos postos cano- 
nicamente por elle nas igrejas da sua diocese e 
fazendo servir os reddilos destas para sustentar os 
besteiros, cães de caça, falcões e cavallos do serviço 
real, apesar do limitado rendimento das mesmas 
parochias. Accrescia a isto o desprezo que fazia das 
uamunidades ecciesiasticas, mandando reter os clé- 
rigos nas prisões publicas, obrigando-os a pleitea- 
rem perante os tribunaes civis e fazendo-os servir 
na guerra com graves oppressões e opprobrios (i). 
Se acreditarmos todos os pontos de accusação pro- 
postos contra o rei, de muitos outros modos mos- 
trava Sancho a sua malévolo n cia j^ara com o sacer- 'y 
docio. Cada vez que topava com um padre ou 
monge, dizia ter um encontro de mau agouro, e os 
seus mimosos eram os excommungados, os usu- 
rários e os inimigos da igreja; as viuvas que que- 
riam viver na continência obrigava-as a casar com 
os servidores da coroa, sujeitando j^essoas livres a 
escravidão perpetua 1 2 > ; prohibia acs sacerdotes a 
entrada e saída do reino, sendo necessário a fim de 



uma delias que o bispo Pedro fuit êxul per oclo annos, o 
que só poderia acontecer antes dos successos que vamos 
narrar. 

(1) Esta circumstancia não deixa a menor duvida sobre 
serem antigos os ag-gravos do clero. Havia annos que o 
serem obrigados os clérigos a pegar em armas se não 
podia verilicar. porque Sancho I não teve guerra alguma 
nos últimos ânuos do seu reinado. 

(2) continentes viduas invitas hominibus tuis tradens, et 
liberos nihilominos depuíans perpetuíc servituti : In- 
noc. III, L. 14. Epist. 8. A intelligencia que damos a esta 
phrase parece-nos 4i única pcssivel; a litteral, suppondo 
que liberos siguilieasse filhes, seria absurda. 



j8S HISTORIA Dtí PORTUGAL 

obterem para isso licença que primeiro dessem jura- 
mento de não irem a Roma, e se, acaso, vinha a 
descubrir-se que a sua mente era faltarem á pro- 
messa, prendiam-nos, roubavam-nos e punliam-nos 
aferros. Quanto a este ultimo artigo o próprio quei- 
xoso veio a experimentar em si a verdade dos seus. 
vehementes queixumes (i). 

As contendas com Martinho Rodrigues haviam 
neste meio tempo chegado ao seu auge, e o prelado 
do Porto fora constrangido a fugir. Os ânimos- 
estavam grandemente irritados, e o bispo de- 
Coimbra, movido, talvez, por um sentimento de 
despeito, commetteu a imprudência de escolher se- 
melhante conjunctura para levantar o brado contra 
o procedimento de Sancho. Rude soldado, não nos 
deve parecer estranho que este fosse crédulo e su- 
persticioso, como nessa epocha o eram ainda os 
espíritos mais allumiados. Tinha o rei uma feiticeira 
ou mulher de virtude, daquellas em que ainda hoje 
crê o vulgo, a qual consultava todos os dias. A's 
suas queixas ajunctou o bispo ordenar a Sancho 
que aíiastasse de si a p^thonissa, por cuja causa elle 
deixara de frequentar o paço, apesar de ser mais de 
uma vez ahi chamado. Posto o negocio em taes 
termos, o rei buscou pretexto para romper de todo 
com o audaz prelado que assim ousava reprehendè- 
lo e desobedecer-lhe. Não lhe custou achá-lo. Pre- 
tendia ter o dominio eminente em certa granja ou. 
aldeia do senhorio da Sé de Coimbra ; exigiu então 
que delia se lhe pagassem os direitos senhoriaes 
chamados procuração, e o prelado recusou pagá-los. 
Era, porventura, isso o que se desejava. As casas 
que ahi tinha o cabido foram derribadas, levaraia 



(I) Innoc. III, Epist., I. eit. 



LIVRO III 389 

tts cavalgaduras dos coneg-os e saquearam a igreja. 
Pôs o bispo interdicto na diocese; mas, receando 
que o levantasse o arcebispo eleito de Braga, parcial 
do rei, interpôs logo appellação para o papa (1). O 
duelo estava travado, e nenhum dos contendores 
era homem que recuasse. Apenas soube do que se 
passava, Sancho applicou o remédio extremo para 
taes casos. Substituiu-se ao metropolitano e, até, ao 
papa. Determinou que ninguém respeitasse o inter- 
dicto, e aos sacerdotes que não obedeceram, isto é, 
que recusaram celebrar os ofíicios divinos, privou- 
os de seus bens. Não contente com essa vingança, 
declarou por inimigos e traidores todos os que 
dessem guarida e soccorro áqucUes desgraçados. 
Como primeira personagem ecclesiastica de Por- 
tugal, Pedro, o arcebispo eleito, pretendeu restabe- 
lecer a paz e chegou a resolver Sancho a dar satis- 
fação ao bispo de Coimbra, que foi chamado a Braga 
por cartas do rei e do metropolita. Partiu para lá o 
prelado conimbricense e perante o arcebispo expôs 
os motivos das suas queixas. Até este ponto podia 
haver e, provavelmente, havia alguma justiça da 
parte do bispo; mas as violências brutaes practica- 
das depois por Sancho foram evidentemente resul- 
tado do orgulho e pertinácia que o seu contendor 
mostrou naquella conjunctura. Postoque, apenas 
chegado a Braga, este renovasse a sua appellação 
para Roma, todavia o metropolita, pedindo e rece- 
bendo por escripto segurança do rei de que faria a 



(i diocesim sententiíe supposuit interdicti, et ne bra- 
charensis clectus eam prefesumeret relaxare, vocem ad nos 
appellationis emisit : ibid. Estas palavras assignalam pre- 
cisamente a epocha depois da qual rebentou a discórdia 
cora Pedro de Coimbra : Martinho Pires falleceu entre 
junho e setembro de 1209. e é desse tempo em diante que 
começa á figurar Pedro eleito de Braga. 

VOL. I. 19 



290 



HISTORIA DE PORTUGAL 



conveniente reparação ao oíFendido, ordenou ao sen 
suftraganeo que levantasse as censuras; porém não 
foi obedecido, com o mndamento de que se devera 
ter começado pelo desforço e de que, longe disso, -is 
violências continuavam. Inutilisados assim os meios 
de conciliação, o arcebispo eleito annullou o inter- 
dicto lançado sobre a diocese de Coimbra; mas o 
clero recusou geralmente assentir ás ordens do pre- 
lado bracharense. A indignação de Sancho tinha 
chegado ao ultimo auge, e o seu terrível furor não 
encontrou limites. Os sacerdotes que seguiam o 
partido do bispo e que recusavam sxercer o minis- 
tério sagrado foram barbaramente maltractados, e 
até se disse para Roma que el-rei chegara a ordenar 
se arrancassem os olhos a alguns delles á vista dos 
seus proj)rios parentes e amigos, postoque a verdade 
fosse ter Sancho convindo em que se fizesse essa 
atrocidade a um irmão do bispo, não chegando, 
todavia, a realisar-se o attentado (i). Pedro fra- 
queou emíim, e o interdicto suspendeu-se ; mas a 
contenda não socegou. Cônscio da sua força moral, 
o prelado cedera á força bruta para melhor poder 
usar daquella e, i.'esolvido a ir a Roma implorar 
justiça ou vingança, preparou-se para sair de Por- 
tugal. Sancho, porém, estava alerta e, sabendo 
quaes eram as intenções do seu adversário, lançou o 



(i) ceiebrare nolentes, coram propriis parentibus et 
amicis, ut asserebatur eidem, exoculari mandaveras : Id., 
ibid. O que se diz no docaaieTito incompleto dos appensos 
ao n." 43 da Gav. 12, F.epart. í>, M. i, do archivo da Sé de 
Coimbra, já anteriormente ciíadu, é que « propler odium 
dicti episcopi tantúm exarsit ira regis quod ÍVatreni ejus 
et consanguíneos fecit capi eos bonis propriis spoliando. 
Item quod in captione parati fuerunt satellitf s rejais dic- 
tum fratrem exoculare. Item quod de mandato regis sivo 
«onniventia aut consensu boc laciebant salellites •. 



LIVRO III 



291 



no fuBdo de um calabouço antes que fosse unir-sea 
Martinho Rodrigues, que justamente nesse tempo 
devia estar em Itália e que, ligado com o bispo de 
Coimbra, não podiam, ambos junctos, deixar de 
mover contra elle a cólera de Innocencio III. 

Apesarde preso ou já prevenindo esse caso, Pedro 
tivera modo de enviar um agente seu á cúria, o qual 
referiu ahi, engrandecendo-os, os acontecimentos 
-que haviam occorrido. Innocencio escreveu logo ao 
rei de Portugal sobre a matéria com a energia que 
as idéas deste papa acerca das immunidades eccle- 
siasticas deixam facilmente adivinhar, postoque 
■essa carta não chegasse até nós. Levado ao extremo 
da irritação, Sancho enviou ao pontifice uma res- 
posta cuja audácia, se o próprio Innocencio delia 
nos não desse testemunho, custaria a acreditar num 
principe de paiz remoto d'Italia que não podia oppòr 
as armas terrenas aos raios da igreja, ainda então 
assas fortes para fulminarem um throno. Na sua 
resposta o rei de Portugal queixava-se francamente 
de que o papa estivesse prompto sempre para 
escutar quantas accusações lhe faziam do seu proce- 
dimento, não se envergonhando de soltar contra elle 
«xpressòes insultuosas, fosse diante de quem fosse, 
o que, de certo, não era prova de grande prudência. 
Advertia-o de que os successores de S. Pedro tidos 
por sanctos não costumavam dizer injurias, mas, 
seguindo o exemplo de Ghristo, soffrè-las com pa- 
ciência ; de que elle rei tinha entendido não haver 
remédio mais efflcaz para diminuir ou quebrar as 
ostentações de luxo e soberba dos hypocritas (i), 
principalmente dos prelados e clero, do que cer- 
cear-lhes a nimia superabundância de bens tempo- 



(l) In eis qui religionem siraulant : Id. ibid 



aga 



HISTORIA DE PORTUGAL 



raes que, com grave detrimento do reino e do» 
successores da coroa, seu pae e elle próprio lhes 
haviam liberalisado. Patenteava-lhe, emíim, a 
opinião em que estava de que era melhor distribuir 
esses bens pelos infantes seus filhos e pelos deíen- 
sores da pátria, que, aliás, padeciam muitas priva- 
ções e misérias, do que conservá-los nas mãos dos 
inimigos domésticos. A estas duras reflexões accres- 
centava o rei de Portugal outras de tal natureza, 
que Innocencio III não ousou depois repeti-las res~ 
pondendo a esta carta (i). 

Se attendermos á epocha e ás circumstancias do 
principe que ousava lalar assim ao mais altivo e 
inflexível dos sucessores de Hildebrando, não pôde 
deixar de causar assombro semelhante linguagem. 
Não menos admirável é o eíieito que elia produziu 
no animo do pontífice. Embora as expressões do rei 
português fossem aspérrimas, a consciência bradava, 
talvez, ao pontiíice que na essência as idéas eram 
exactas. A's violências Sancho ajunctara as injurias, 
dirigidas não só aos prelados, mas, até certo ponto,, 
ao chefe da igreja, e, todavia, este não vibrou contra 
elle os anathemas de que Roma era tão liberal, e 
ainda o estylo da réplica está longe da verbosa 
impetuosidade e tom decre tório que caracterisam 
as cartas e mais diplomas da cúria expedidas 
naquelle pontificado. Sem deixar de advertir o rei 
de Portugal de que principe nenhum, por mais 
poderoso que fosse, ousara nunca dirigir áSé apos- 
tólica phrases tão irreverentes e arrogantes, salvo 
algum herege ou tyranno, e de que as allusões ao 
pensamento de privar o clero das riquezas, como 
triaga contra o seu fausto, soberba e hypocrisia» 



(1) Id. ibid. 



LIVRO III 293 

«ram ft^al soantes com a fé cathoiica e tinham resa- 
bios de heresia, limitava-se, comtudo, a recusá-lo 
por juiz da moral da igreja e admoestá-lo instan- 
temente para que se abstivesse de intervir nas 
cousas ecclesiasticas e para que reparasse os males 
feitos ao bispo de Coimbra e ao seu clero. Ultima- 
mente deelarava-lhe que, apesar do aíTecto que lhe 
consagrava e do desejo de mostrar deferência pai'a 
com a magestade do throno, elle, que a todos devia 
fazer justiça, nunca desampararia o prelado quei- 
xoso nas suas justas pretensões (i). 

Ao passo que se expedia esta carta, o papa 
escrevia ao arcebispo de Gompostella para que fosse 
medianeiro e arbitro na contenda, ordenando-lhe 
que, depois de empregar os meios brandos de 
admoestação e conselho, recorresse aos violentos, 
impondo a Sancho as penas a que elle próprio se 
tinha submettido na declaração escripta que fizera 
perante o arcebispo eleito de Braga, declaração que 
lhe fora communicada, a elle papa, pouco anterior- 
mente. Punha a cargo do compostellano o fazer 
chegar á mão do rei a carta que lhe era destinada, 
recommendando ao arcebispo que a remettesse pelo 
seu secretario, o qual lh'a apresentasse e lhe lesse 
o conteúdo delia. Esta recommendaçào minuciosa 
tinha por motivo o ser notório que o chanceller 
Julião, para assegurar o seu valimento, ou interpre- 
tava como lhe convinha os diplomas da cúria 
romana e dos seus delegados ou deixava de ler 
aquillo que sabia dever desagradar ao principe, e 
por isso Innocencio III incumbia ao arcebispo adver- 
tisse o chanceller de que, se não queria incorrer na 



ii) Id. ibid. 



ag/^ HISTORIA DE PORTUGAL 

indig-naçâo de Deus e delle papa, se abstivesse d© 
tão escandaloso procedimento [i). 

Esta ultima circumstancia caracterisa a pouca 
educação litteraria de Sancho I e a destreza de 
Julião, que, talvez, tractava de evitar ao rei eníermo» 
o abalo que nelle produziriam as exprobraçôes da 
pontiíice, obstando ao mesmo tempo a que o monar- 
clia percebesse qual fora o effeito dessa linguagem 
insólita de que o seu chanceller usara num diploma 
cuja redacção nos parece podermos, sem receio de 
erro, attribuir-lhe. Apesar da escaca luz com que 
apenas os documentos nos allumiam e na falta abso- 
luta de memorias históricas relativas a este reinado^ 
sentir-se-hia que Julião era um valido, um homem 
cuja situação lhe dava grande influencia nos negó- 
cios, ainda quando as cartas de Innocencio III não 
o revelassem claramente. Emquanto os mais altos 
cargos do estado e os governos de províncias e de 
castellos passam de mão para mão pelas causas que 
em tal matéria actuam no es^^irito de todos os prín- 
cipes e em todos os tempos — o favor, a intriga e as 
conveniências momentâneas — vemos que o chan- 
celler de Aílbnso I se assenta nos degraus do throno 
de Sancho apenas este ahi sobe, e só quando elle 
solta o ultimo susx^iro se alevanta d'ao pé do leito 
do moribundo para guiar o herdeiro da coroa 
(AíTonso II) nos primeiros actos do seu governo e, 
fallecendo pouco depois, deixa Gonçalo Mendes, 
que lhe servira de secretario, para o substituir no 
importante cargo que exercia e que já então era o 
terceiro na ordem hierarchica da cúria real (2). 



(i) Id. ibid., Epist. 9 e 10. 

(2) O que dizemos estriba-se nos documentos dos últi- 
mos annos do reinado de Affonso i, nus de todo o de 
Sancho i e nos dos primeiros annos do de AlTonso lí, qu© 



LIVRO III 



295 



Julião, que em alguns diplomas toma o titulo de 
mestre (magister) (11, fora, provavelmente, um dos 
primeiros portugueses que haviam frequentado a 
eschola de jurisprudência romana começada a esta- 




36. — Sello rodado de Sancho I, da mulher e filhos, e assi- 
gnatura de Julião, nolario da corte, datado de 1194. (Archivo 
Xacional-, CoLLecçào Bspccialj. 



belecer em Bolonha nos principios do século XII 
pelos trabalhos de Irnerio. Indica-o a designação de 



não citamos, porque seria demasiado longo. Consulte-se 
a memoria de Trigoso sobre os chancelleres-móres : Mem. 
da Acad., T. ia, P. 2, p. 95 e segg. 

(i Na doaç. d'Alvor a Sancta Cruz Mon. Lusit., L. 12, 
c. 9 e na de Mafra ao bispo de Silves ibid., P. 5, App. 
escrit. 16 — Thom. ab Incarnatione, Hist. Eccles., T. 4» 



296 



HISTORIA DE PORTUGAL 



W'^ 




,7. — Tnmulo de Sancho I em Sancta Cruz de Coimbra 



LIVRO III 



í"97 



tnagister, dada então aos professores e que elle 
simples escholar se arrogaria no seu paiz, onde 
íiinda devia ter rarissimos companheiros. Na acre 
resposta dada ao papa em nome do rei, da qual 
acima fizemos menção, reinam idéas sobre o 
supremo poder do imperante em relação aos bens 
<ia igreja que em tempos como aquelles são, por 
certo, extraordinárias A ameaça indirecta de secu- 
larisá-los era um verdadeiro protesto contra a dou- 
trina recebida em toda a Europa sobre a inviolabi- 
lidade desses bens, doutrina cujas consequências os 
príncipes j^rocuravam atalhar com imperfeitas leis 
de amortisação, mas que não ousavam accommetter 
«de frente. As opiniões do chanceller de Portugal 
iam todavia mais longe, e não admira serem taxadas 
de heréticas pelo papa, porque, de feito concor- 
davam, nesta parte, com as que no século antece- 
dente defendera Arnaldo de Brescia, o celebre 
republicano e heresiarcha (i). 

As providencias do pontífice relativas ao prelado 
de Coimbra foram expedidas tarde. Emquanto o 
procurador deste as sollicitava em Roma e, con- 
forme é de crer, o agente do rei que ahi residia, 
lhes punha obstáculos (2), os negócios mudavam 
«m Portugal de face. Sentindo aproximar-se a 
morte, Sancho não só se congraçara com Martinho 
Rodrigues, mas também com o bispo de Coimbra. 
Do fundo da masmorra onde jazia este subira de 



p. 72 e segg. . Ainda então se intitulava notarias regais. 
Quando é designado cancellariíis omitte-se, ordinaria- 
mente, o magister. 

(i Raumer, Hohenstauf 6 B. S. 144 e segg. — 2B. S. 35. 
2 Do L. 14, Epi.st. 9 de Innoc. III se vê que fora en- 
viado a Roma pelo rei um certo abbade Pedro ou Pelagio, 
<jue apresentou ao papa a violenta carta de que elle se 
queixava. 



2g8 HISTORIA DE PORTUGAL 

repente a assentar-se nos conselhos do rei, que pr&^ 
tendia remir perante Deus com generosas dadivas e 
com a larga concessão dos privilégios que já enu- 
merámos os actos severos ou, melhor diríamos, vio- 
lentos, anteriormente practicados. As liberalidades 
do monarcha chegaram até Herberto, abbade de 
Moreruela, um dos três juizes delegados na causa 
do bispo do Porto. Tinha vindo Herberto, ou con- 
junctamente com Martinho Rodrigues ou j^oucos 
meses depois, á corte de Portugal, e um dos últimos 
actos do governo de Sancho foi o donativo de vários 
bens reguengos ao mosteiro de Moreruela e ao seu 
influente abbade, que em paga lhe jDromettia per- 
pétuos suíiragios (i). 

Nos fins de março de 121 1 Sancho I, na idade 
ainda robusta de õ; annos, cedera ao mal interno 
que o devorava (2). Apenas um mês ou pouco mais 
antes de elle ir repousar debaixo das abobadas de 
Sancta Cruz de Coimbra em somno perpetuo, recebia 
de Roma o arcebispo de Compostella o encargo de 
desaggravar o clero português, com o qual, aliás, o 
príncipe fallecera inteiramente conciliado. Mas pa- 
rece que a noticia dos últimos successos que referi- 
mos chegou logo de^Dois á cúria papal. Havia dous 
annos que Sancho não só legara a Innocencio III 



11) Nota XIII no fim do vol. Doação do reguengo de Infa- 
neis (janeiro de ií2Ii) feita a Herberto e ao seu mosteiro 
no Liv. 9. de Aíionso III, f. i5. 

[2) tribus jam mensibus elapsis postquaix. divina poten- 
tia regnum nobis gubernandum commisit : "-z Affonso II 
na doação de Avis á ordem de Évora feita eu. 3o de junho 
de 1211. Liv. I de Affonso III, f. 19 no Arch. Nacion. — Bran- 
dão (MoD -Lusit., L. i3, c. I) fixa a morte de Sancho I a a& 
de março, «bonando-se com o original da Chronica co- 
nimbricense, mas no orig^inal, propriamente dicto, não se 
encontra tal. Veja se o texto dessa chronica nos Monumentat 
{Scriplores), vol. I. 



LIVRO II] 



29í> 



cem marcos douro no seu testamento, mas ahi 
mesmo lhe rogava que sustentasse'e fizesse respeitar 
as disposições nelle contidas. Para que estas ficas- 
sem realmente debaixo da protecção do pontífice 
era necessário que elle confirmasse o diploma que 
encerrava a ultima vontade do rei de Portugal. Tal- 
vez em consequência das perturbações que com 
breve intervallo seguiram este acto, Sancho differiu 
o impetrar a confirmação ; mas, serenados os odios> 
e restabelecida a paz com os prelados do Porto e de 
Coimbra, elle a pediu ao papa e, conjunctamente, a 
da absolvição que obtivera do eleito de Braga pelo 
arrependimento e penitencia dos excessos passados. 
Accedeu Innocencio III ás suas supplicas, encarre- 
gando os arcebispos de Braga e Compostella e o 
bispo de Zamora de fazerem cumprir aquellas dis- 
posições testamentárias e ratificando a absolvição 
de todas as censuras concedida pelo eleito Pedro. 
Declarou, todavia, que as verbas do testamento real 
em que se doavam diversos mosteiros se entende- 
riam unicamente em relação ao direito de padroado. 
De tudo quanto se lia nas letras apostólicas o mais 
notável era o vivo desejo que o pontífice mostrava 
de que os legados pios fossem cumpridos em vida 
do próprio rei e de que este não deixasse a cargo de 
outrem aquillo que por si podia executar. Tal pre- 
tensão, na verdade estranha, dá motivo á suspeita 
de que as idéas recebidas na cúria romana acerca 
das intenções do herdeiro da coroa eram pouco- 
favoráveis a este. Infelizmente para a igreja, Sancho 
não podia já seguir os conselhos de Innocencio; 
porque, ao chegarem aquellas cartas a Portugal^ 
tinham passado alguns meses desde que este prín- 
cipe fora sepultado (i). 



(i) Innoc. III, Epist., L. i4 — 58, 59 e 60, . . ea qiiaí pro 



JJOO HISTORIA DE PORTUGAL 

O valor histórico dos vinte e seis annos que durou 
o reinado do íilho de Aílbnso I não é, porventura, 
menor que o do dilatado governo deste ; mas os ca- 
racteres das duas epochas são tão differentes quanto 
o foram os dotes e o génio dos dous principes que 
presidiram á vida politica de cada uma delias. Me- 
i>03 liabil capitão que seu pae, sem aquella superio- 
ridade d'eng-enho e de audácia que incitava a 
grandes emprezas o fundador da monarchia, San- 
cho I ficou mui longe de obter o mesmo renome 
como conquistador, posto consumisse em guerras, 
na maior parte obscuras e inúteis, os melhores 
annos da idade viril. Por esta parte, nem os dous 
reis nem as duas epochas soíTrem comparação. 
Diante da espada de Aílbnso sarracenos e christãos 
recuam aterrados, as cidades e castellos abrem as 
suas portas, os limites do paiz alargam-se, e as bases 
<la existência de Portugal, cimentadas com torrentes 
de sangue, assentam-se inabaláveis no occidente da 
líespanha : Sancho, depois de uma conquista 
que torna logo a perder, debate-se por annos em 
luctas estéreis com Leão e, se recupera uma parte 
do norte e poente do Alemtejo, é porque os almoha- 
des, que já começam a decair e que não têem bas- 
tantes forças para sustentar um dominio quasi 
inútil naquellas charnecas inhospitas, as abando- 
nam, e os christãos, j)i'iiicipalmente as ordens 
militares, as vão desbravando e construindo ahi 
castellos e preceptorias. Mas se, aífastando os olhos 
da linha das fronteiras, os volvemos para o interior 



tuoruin peccatorura remédio in testamento legasii... con- 
sulimus bona Jide ul id adimpleri facias eum praesens vita 
vegetat tuos arlus, non expectans ut post mortem tunm 
«a alii exequantur quae potes íacere per te ipsum: ibid. 5^ 
— Estas cartas são datadas de a6 e 27 de maio de laii. 



LIVRO III 3oi 

do paiz, o nome do segundo não surge ante nó» 
menos glorioso que o do primeiro, e o seu reinado 
se nos afigura como o complemento do reinado ante- 
rior. Fertilisada com as cinzas dos martyres do 
evangelho e do koran, sulcada e revolvida pelo ferro 
dos combatentes e pelo redemoinhar das batalhas» 
a terra de Portugal recebe das mãos de Sancho as 
sementes da grandeza e da força real nesses conce- 
lhos que i3or toda a parte se estabelecem, nessas 
granjas e aldeias que se povoam nos distrietos me- 
nos sujeitos a invasões e correrias, nesses castellos 
das fronteiras que se coroam de ameias e que se 
abastecem de petrechos de guerra. Virtude trivial 
era naquelles tempos o valor que aífronta a morte. 
Sem o grandioso pensamento que dirigiu todas as 
suas conquistas ; sem a destreza politica e extraor- 
dinários talentos militares com que suppriu a falta 
de força e de recursos da monarchia que fundava» 
Allbnso I, apesar de todo o seu esforço e actividade^ 
não houvera de ser considerado senão como um ca- 
valleiro feliz. Por este lado, seu filho não parece ter 
sido demasiadamente mimoso da fortuna. Vingou-se 
elle, porém, nobremente, trabalhando por adquirir, 
e merecendo com el leito, o appellido de povoador. 
A historia, tão sujeita ao erro commum de achar 
mais bella a coroa infértil do louro que o ramo fru- 
cíifero da oliveira, tractou com desdém os últimos 
annos do reinado de Sancho, porque c príncipe 
buscara durante elles substituir as povoações aos 
desertos^ D campo cultivado ao baldio e, emíim, a 
vida á morte. A energia com que proseguiu neste 
empenho temo-la visto no processo da anterior nar- 
rativa, e o seu maior elogio está no complexo dos 
documentes que provam a sua actividade e que, 
talvez, são uma limitada porção dos que outrora 
f xistiram. Fosse que o estado de enfraquecimento a 



302 HISTORIA DE PORTlGAL 

que o paiz chegara em consequência de quasi ura 
século de incessantes combates a isso o constran- 
gesse ; fosse o desengano de que a sua pericia militar 
não era sulíiciente para equilibrar a lalta de recur- 
sos de Portugal com as forças superiores dos 
mussulmanos e dos leoneses; fosse, emíim, por ins- 
piração própria ou guiado pelos conselhos dos seus 
validos, entre os quaes nos apparece, postoque 
nebuloso e vagamente desenhado, o vulto sagaz do 
chanceller Julião, é certo que este monarcha seguiu 
sinceramente o systema que o estado interno da 
nação aconselhava e habilitou os seus successores 
para serem, senão mais valentes, ao menos mais 
felizes soldados. 

Tal é a justiça que se deve a Sancho I como rei. 
Como homem o seu caracter moral não foi relativa- 
mente mau; foi vulgar, isto é, teve os defeitos 
communs aos príncipes e barões da epocha em que 
viveu. Ignorante e crédulo, porque a sciencia, se- 
gundo então se pensava, era só feita para ânimos 
apoucados ; irascivel e violento, porque a modera- 
ção não se aprende nos campos de batalha, onde seu 
pae o educara, parece ter sido, além d'isso, assas 
inclinado aos galanteios e ao passatempo da caça (i). 



(i) Já noutra parte alludimos ás amaates de Sancho I. 
A sua inclinação para a caça se colhe da Epist. 8, L. 14 de 
Innocencio III, em que se diz que obrigava os clérigos a 
sustentarem-llie os cães e as aves (açores, gaviões e fal- 
cões), e esse testemunho é conlirmado pela Lei de Aí- 
fonso II de 1211 (Liv. das Leis e Posturas Antig., Lei i5 
no Arch. Nacion.) em que se ordena que os mesquinhos 
não sejam atormentados para darem aljavas para os fal- 
cões reaes, ao que até ahi os constrangiam. Um dos do- 
cumentos que pintariam melhor o génio violento de San- 
cho I seria a espécie de relatório de Lourenço Fernandes 
do roubo dos seus bens moveis e da destruição das suas 
propriedades, mandados fazer pelo rei sem motivo algum» 



LIVRO III 3o3 

Também um certo numero de factos da sua vida 
lançam sobre elle as suspeitas de cubiçoso e de 
haver enthesourado sommas avultadas por meios 
gravosos para a nação. Com etíeito, ainda suppondo 
que houvesse tirado ricos despojos da transitória 
conquista de Al-laghar e das suas entradas em Leão, 
é certo que tanto aquella como estas lhe trouxeram 
também despesas inevitáveis. Se depois reflectirmos 
nas devastações do território pelos inimigos, na 
fome que rareou a população e nas edificações de 
tantos castellos, que deviam ser dispendiosas, ape- 
sar da contribuição em traballio paga pelos muni- 
cipios e chamada anúduva, qualquer se persuadirá 
de que não só a nação, mas também o príncipe esta- 
riam pobres. Pelo que respeita á primeira o próprio 
Sancho asseverava que muitas vezes os defensores 
do estado careciam do necessário (i), e todavia, elle 
testava perto de um milhão de morabitinos, quasi 
tudo em ouro cunhado, isto é, mais de três milhões 
de cruzados da moeda actual, somma a bem dizer 
incrível, se attendermos á raridade dos metaes pre- 
ciosos naquella epocha. Semelhantes riquezas pre- 
€uppõem frequentes rapinas ou um systema tribu- 
tário demasiado violento. De feito, numa lei de 
Aííbnso II se encontram as provas de que tanto o 
rei como os seus barões obtinham por um preço 
incomparavelmente inferior os objectos mais neces- 
sários á vida [O.], imposto monstruoso que nos pode 



«e tivéssemos absoluta certeza de que pertencia a este 
íeinado : Dissert Chronol., T. I. p. íiõ^. 

(i regni delensoribus inimiltis patientibus indigentiam . 
Innoc. III. Epist., 1. cit. 

(2 Maao costume dantigo sí^ya seer... en todalas partes 
áo reyno que asy nós como aqiielles que de nós tinham 
terras ou alcaidarias levavam de todas as cousas de co- 
«aer. . . a terça parte : lAv. das L. e Post. Ant., Lei a. — O 



3o4 HISTORIA DE PORTUGAL 

dar ídéa das outras exacções íiscaes. Neste procedi- 
mento, diametralmente opposto aos desígnios de 
povoar o reino, está em parte a explicação da inuti- 
lidade com que em muitas partes se tentou tornar 
habitados logares desertos ou convertidos em mon- 
tões de ruinas (i). 

Mas aquillo eui que o reinado de Sancho tem, 
acaso, mais subida significação histórica é em ter 
então começado esse facto tão variado como com- 
plexo que se protralie por três séculos e que cons- 
titue a principal feição publica Ja nossa idade 
média. Falamos da alliança do rei c di-.'* coucelhoí» 
contra as classes privilegiadas, t» clero e & IId:»3í;;uia. 
Nestas primeiras phases da iucla ha Ií^o £;ó uia 
começo, mas também um resumo ou, niitts, miv 
symbolo de toda ella. Os burgueses do 1 t vi..», ac~ 
commettendo o seu bispo e seu senlu-r com os 
officiaes da coroa, sequeslrando-lhc os ber.^-. evpnl- 
sando-o cuberto de ignominia e aíiVoLilaii.ío n r»*. lera 
dos membros da poderosa fiimilia de >íriri.nho 
Rodrigues, são o typo das resistências e nij vti.iiade 
que nos municípios e nos reis achííram geral nirute 
as duas alias classes <:lo estado, ate- a monarchia 
obter delias final e decisiva vicíoria. Sancho, aban 
donando os habitantes do Porto, transportando, 
digamos assim, a sua força inerte de moribundo 
para o cam]jo adverso, associando-se, até. ao okra 
para ajudar a siibmetter os burgueses, dava um de- 
plorável exemplo aos seus successcres e entibiava 
os ânimos populares para as futuras contendas. Não 
pôde, apesar disso, condemná-lo a historia^ pois 



art. IO das cortes de i448 (era} dá a verdadeira intelligen- 
cia deste costume. Pagavam por menos um terço as cousat 
que compravam para comer. 
ii) Eiucid., T. 2. p. i5 e i6. 



LIVRO III 3o5 

que tudo parece indicar que os últimos meses da 
sua vida foram uma dilatada agonia ; e se ainda 
nestes nossos tempo?, em que o sentimento relie^ioso 
se acha attenuado e frouxo, almas que se dizem 
rijamente temperadas yacillam ao aproximar-se a 
morte e se acurvam, não só aos terrores salutares e 
sanctos da religião, mas até, muitas vezes, ás cren- 
ças supersticiosas da infância, que revivem então 
importunas, como deixaremos de desculpar um 
homem ignorante e crédulo, nascido numa epocha 
férrea, de sacrificar á voz dos remorsos, muitos dos 
quaes seriam legitimes, tanto as conveniências como 
a lealdade politica? 



▼OL m- 



NOTAS 



FONTES HISTÓRICAS SOBRE A TOMADA DE LISBOA, 
PAG. IO. 



As fontes legitimas para a historia desta expedição 
dos cruzados, e tomada de Lisboa aos sarracenos, são : 

i.'^ Crucesignati Anglici Epistola de Expugnatione 
Olisiponis, citada com outro íitulo por Cooper (On 
Public Records, T. 2) e publicada ultimamente a pag. 392 
dos Portugaliae Moniimenta Histórica {Scriptores)^ 
Tol. I. E' obra de testemmiha ocular, e sem compara- 
rão a mais circumslanciada e importante narrativa do 
successo. Seguimo-la prmcipalmente. 

2.** Epistola Arnulíi ad Miloneni episcopum Morinen- 
sem, apud Marlene, Yeter. Scriptor. et Monumentor. 
Ampliss. Collectio, T. i. p. 800. E' testemunha ocular 
dos successos da expedição, da qual fez parte. Narra 
algumas particularidades desta conquista. 

3.*' \)odechinus, Appendix ad Mariani Scoti Chroni- 
con, apud Pistoriura, lllustr. Yeter. Scriptor. (Francf. 
i6i3), T. I, p. 473 e 4"4- E' também testemunha ocular. 
Refere o successo mais succinctamente que Arnulfo. 

4.** Helmoldus, Chronica Slavorum seu Annales 
<FraiiGf. i58i, foi.) lib- i. c. 49- Auctor contempora- 



i 



3o8 HISTORIA DE PORTUGAL 

neo (Obiit anno ii^o: Cave, Scriptor. Ecclesiasticor* 
Hist. Litter., Yol. 2, p. 237). E', por isto e por alguma» 
circumstaQcias que relata, assas importante. 

5.° Chronica Gothor. na Mon. Lusit., P. 3, L. lo^ 
cap. 28. Aponta apenas o facto e a sua data. Mai» 
extensamente no exemplar paraphraseado de Resende : 
Ibid., Appendice, Escrit. I. Melhor nos Monumento. 
(Scriptores)^ vol. i, p. i5. * 

6.° Chronicon Lamecense, nas Dissert. Chronol., T. 4r 
P. I, p. 174- Melhor nos Monumenta {Scriptores), \ol. i^ 
p. 20. Só o suecesso e a data. 

7.° Chronicon Conimbricense, na Esp. Sagr., T. 23^ 
p. 33o. Melhor nos Monumenta [Scriptores), vol. i, p. 2. 
O mesmo que o antecedente. 

8.° Robertus de Monte, Appendix ad Chronographiam 
Sigeberti, apud Pistorium, T. i, p. 628. Contém algu- 
mas particularidades interessantes. Vivia este escriptor 
pelos annos de 12 10 segundo alguns ; mas a opinião 
mais segura é a de ter fallecido em 1186 (Cave, oper. 
cit., vol. 2, p. 285). Assim, foi coevo. 

9.° Henricus Huntingdonensis, Historiar. Lib. 8, apud 
Savile, Rer. Anglicar. Scriptores post. Bedam, p. 394 
CCiaruit anno ii5o: Cave, op. cit., p. 225). E' mais breve 
que Roberto de Monte ; mas não deixa de merecer atten- 
çáo, sobretudo por ser perfeitamente contemporâneo. 

lo.^Rogerius de Hoveden, AnnaliumPars prior, apud 
eundem Savile, p. 489 e 490 (Claruit anno 1198: Cave, 
oper, cit., p. 255). Não fez mais do que copiar, até nas 
mínimas circumstancias, os outros chronistas (Lappen- 
bert, Geschichte von England, i B. Litter. Einleitung 
S. 61). Nesta parte seguiu á letra Henrique de Hunting- 
don ; mas vê-se que no códice de que se aproveitou 
lia-se (< civitatem... Ulixbona, et aliam quae vocatur Al- 
m,ade * em quanto no texto impresso de Henrique de- 
HuntLQ^don se leu erradamente Almaria. 

II. •* Johannes Brompton, Oironicon, apud Twysden^ 
Hist. Anglicae Scriptores X, p. io35 (Claruisse videtui» 
circaannum 1198: Cave, oper. cit., p. 254)- Lappenberg- 
diz que viveu no século XIV, mas que a obra que se 
lhe attribue é talvez dum escriptor mais antigo (Oper» 



NOTAS 309 

cit. Einleitung S. 69). Quasi, como Rogério de Hoveden, 
copia apenas Henrique de Huntingdon, 

12.° Johannes prior Hagiistaldensis, Continuatio His- 
tor. Siraeonis Dumelmensis, apud Twysden oper. cit., 
p. 277 (Vivia pelos fins do século XII : veja-se Selden, 
De scriptor. a Twvsdeno editis, p. XXVI). Allude ao 
«uccesso. 

13." Vita S. Theotonii, apud Bollandum, ActaSanctor. 
Februarii, T. 3, p. 116 col. 2 e melhor nos Monumenta 
iScriptores), vol. i, p. 79. Como se deprehende da sua 
narrativa, o auctor foi contemporâneo do acontecimento, 
ao qual apenas allude como o precedente escriptor. 

14 *^ Indiculum Fundationis Monasterii B. Vincentii 
Ulixbone. Manuscripto do cartório de S. Vicente no 
Archivo Nacional. Foi publicado por Brandão, Mon. 
Lusit., P. 3, Appendix, Escrit. XXI, substancialmente 
errado. Publicado correctamente nos Monumenta {Scrip- 
tores), vol. i, p. 92. Téem-se offerecido algumas duvi- 
das sobre a sua authenticidade. O que se pode ter por 
certo é que ou não foi escripto nos primeiros annos do 
reinado de D. Sancho I, como ahi se indica, ou que é 
uma copia tirada posteriormente, o que nos parece mais 
provável á vista das ponderações que vamos fazer 
acerca desta memoria, a mais particularisada de todas, 
salvo a carta do cruzado inglês e a carta de Arnulfo ao 
bispo morinense. 

Em primeiro logar cumpre advertir que o transumpto 
publicado por Brandão está cheio de erros intoleráveis, 
sendo provavelmente tirado por mão imperita. Assim 
<por não falarmos em muitas palavras trocadas ou de- 
turpadas) onde se lia a data da tomada de Lisboa bem 
claramente por estas palavras « Anno igitur ab incar- 
natione Dominica MCXXXXVII » puseram 1148. O nu- 
mero das velas da armada estrangeira, que o Ms. diz 
ser de 190 ficou reduzido a 160 por não saberem que X 
aspado valia 40. D'aqui fácil é de conceber qual seja a 
imperfeição da copia impressa por Brandão. 

Postoque a memoria pareça indicar que foi escripta 
710 anno terceiro de Sancho /, o que lá não se acha é o 
anno de 1188, que logo segue na edição jimcta á Monar- 



3lO HISTORIA DE PORTUGAL 

chia Lusitana, mas sim o de 1148, data evidentemente 
errada, porque neste anno ainda D. Sancho nem sequer 
era nascido, tendo-se emendado no transumpto com* 
municado a Brandão 4^ em 88 para coincidir com sl 
data do reinado. E' deste erro evidente do manuscripto» 
sem attender aos seus caracteres paleographicos, que 
se deduz ser elle apenas uma copia ; porque não é pro- 
vável que no original se errasse a data do armo da en- 
carnação, corrente no acto de se escrever a memoria. 
Mas o que de todo acaba de persuadir isto mesmo é 
a letra em que ella se acha escripta. Os paleographos 
sabem que os caracteres franceses, que começaram a 
vogar mais entre nós desde o meado do século XII,. 
diminuiram successivamente em grandeza no reinado 
de Sancho I e chegaram a ser ás vezes minutíssimos ,, 
já no tempo de Aífonso II, Sancho II e Affonso III. Mas^ 
em geral, os diplomas dos primeiros annos de Sancho I 
são ainda escriptos em grandes caracteres, sem diife- 
rença sensivel dos de Affonso I. A letra, porém, do 
manuscripto de S. Vicente é semelhante em grandeza» 
em forma, em tudo á do volume da chancellaria de 
Affonso II que nos resta (M. 12 de Foraes antigos,, 
n.° 3) e, ainda, aos volumes das inquirições do mesmo 
Affonso II. 

Assim, o mais provável é que a memoria como existe 
seja uma copia feita neste ou nó seguinte reinado, por- 
que é sabido que só pela letra não é possível determi- 
nar com precisão a data delia. 

i5.° As Chronicas de Guilherme deNangis e de Nicolau 
Trivett (apude-Achery, Spicilegium, T. 3, p. 7 e 147) 
narram igualmente a tomada de Lisboa ; mas, sendo 
ambas do século XIV, pouca auctoridade têem acerca 
do successo. Guilherme de Nangis parece ter seguido 
Roberto de Monte, e Trivett Henrique de Huntingdon» 
A carta de Dodechino citada por Schaefer (Gesch. v. 
Port., I B. S. 64) deve ser interessante, mas não j o dê- 
mos consultar a obra de Gerckcn Reise diuch Sc/m-aòeiè^ 
cnde vem transcripta. 



NOTAS 3ll 

II 

CIRCUMSTANCIAS DA TOMADA DE LISBOA, PAG 5l. 



Narrando a conquista de Lisboa accingimo-nos, cpianto 
ás circumstancias do assedio, á carta do cruzado ing^lês, 
á de Arnulíb, á chronica de Dodechino e ao Indiridum, 
únicas aucloridades que nos era licito seguir. Os nossos 
historiadores narram particularidades diversas. Taes 
são o combate na ponte de Sacavém entre os christãos 
e cinco mil sarracenos que vinham de Thomar, Torres- 
-novas, Alemquer e Óbidos em soccorro de Lisboa ; a 
morte de Martim Moniz entalado na porfa septemtrional 
do castello, por onde os portugueses accommetteram e 
entraram na povoação, etc. Todas estas circumstancias 
têem parecenças de familia com as mais fabulas que 
deturpam a nossa historia. Nenhum escriptor ou docu- 
mento contemporâneo allude a semelhantes successos, 
e nos mesmos successos está a sua refutação. O com- 
bate de Sacavém, em que figuram mouros de Thomar, 
é relatado em certa memoria dos fins do século XVI 
íMon. Lusit., P. 3, L. lo, c. 27), onde os erros grossei- 
ros de historia são quasi tantos como as palavras, e a 
façanha de Martim Moniz não tem melhor abonador 
que uma phrase vaga do Nobiliário attribuido ao conde 
D. Pedro (Tit. 53), Babel de quantos contos absurdos 
se foram forjando durante a idade média, do fim da 
qual data o mais antigo manuscripto completo que delle 
possuimos, e em que são visíveis as alterações e serzi- 
dos de diversas epochas. Basta examinar atopographia 
do actual castello de Lisboa, para ver que um ataque 
por aquella p^írte, se não era impossível, ao menos 
fora loucura, descendo as muralhas da cidade em duas 
linhas quasi perpendiculares sobre o Tejo e partindo do 



^12 HISTORIA DE PORTUGAL 




38. — Porta de Martim Moniz, do lado norte do castello 
de Ivisboa. 



iíotaS 3i3 

poente e oriente do erguido monte da kassba, que, se 
hoje é despenhado para o lado do norte, muito mais o 
devia ser então. O simples senso commum nos persuade 
o mesmo que as memorias contemporâneas referem, 
isto é, que os assaltos foram dirigidos contra os lanços 
dos muros mais accessiveis. Se, com uma larga brecha, 
■aberta no sitio mais baixo da povoação, os allemães e 
flamengos foram repellidos, como acreditar que, tre- 
pando por um despenhadeiro e indo accommetter o ponto 
mais fortificado e melhor defendido, como sempre o 
eram as alcáçovas, cujas muralhas do lado do norte 
estavam intactas, os portugueses entrassem por um 
postigo, quando os francos não podiam entrar por uma 
larga brecha ? São cousas tão admiravelmente insen- 
satas, que custa a perceber por que titulo semelhantes 
patranhas mereceram ser não só lembradas, mas ainda 
referidas como factos correntes por um homem tão 
grave e judicioso como era Brandão. 



III 

CONFERENCIA DE CELLA-NOVA, PAG. 74 

Reina a maior confusão entre os historiadores acerca 
do anno do casamento de Fernando II e D. Urraca. 
Brandão, Barbosa, Flores, Risco seguem cada qual seu 
parecer, fundando-se em diversos documentos, que, de 
■feito, se excluem uns aos outros, ao menos apparente- 
mente. A confusão foi augmentada com os diplomas 
colUgidos por J. P. Ribeiro (Dissert. Chronol., T. 3, P. i, 
ii.«8 4:9,-48-, 490) em que D. Urraca figura durante os 
«.nnos de 1166 a 1169 como existindo na corte de seu 
pae, ao passo que em outros deste mesmo periodo só 
«ipparecem D. Theresa e o príncipe D. Sancho. Flores 
(Reynas Catholicas, T. i, p. 819 e segg.) prova que 
D. Urraca devia casar antes de 1166, por vários docu- 
mentos seguros em que ella é mencionada como rainha 



3l4 HISTORIA DE PORTUGAL 

de Leão. Risco atrasa o casamento a iiSg, fundado 
num único diploma. E' certo, porém, que para admittir 
a veracidade desse documento seria necessário que 
D. Urraca de todos os filhos de AíTonso Henriques 
fosse a primogénita e nascida em 1x47, ®j ainda assim, 
teria casado de doze annos. 

Lucas de Tuy (Chronicon Mundi, na Esp. Illust., 
vol. 4» P- io6) e Rodrigo Ximenes (De Reb.Hisp., L. 7, 
c. 19) são concordes em falar deste casamento como 
precedendo á repovoação de Giudad Rodrigo, a qual de 
certo não foi posterior a 1x05. Yeja-se Ferreras, Hist. 
d'Esp., P. 5, p. 370. 

Como conciliar o testemunho encontrado dos monu- 
mentos coevos ? Nenhum outro vemos, senão o de 
suppôr que se fizeram os esponsaes primeiro e que a 
inianta, ainda então de menor idade, só veio a ser en- 
tregue ao marido em xi65. Lucas de Tuy assegura-noí* 
positivamente que Fernando II casara com D. Urraca 
para que o rei de Portugal o favorecesse contra os seus 
inimigos : iit ejiis posset habere auxilia contra impetit» 
adversantium (loc. cit.). Sabemos^ que os dons prínci- 
pes tiveram uma conferencia em Cella-ucva no anno 
de 1160 (Manrique, Cislcrciens. Annal., T. i, p. ^3n)y. 
justamente na epocha em que o rei leonês começava a 
realisar os seus projectos acerca de Castella. Nada mais 
natural, portanto, do que attribuir 6 conferencia de 
Cella-nova a alliança dos dous príncipes e os ajustes 
do casamento de D. Urraca. 

De maior difíiciddade parece o explicar a contradicção 
dos documentos de Leão e Castella com os de Portu- 
gal depois de se realisar o casamento, o qual sahf-mos 
com certezk haver-se verificado em junho de iiGS ])or 
um documento de Monte-Ramo, cuja phrasaf [)arece- 
também reforçar a conjectura de haver antes disso 
esponsaes : d XVI kal. julii era MCCUl, co tem{)ore quo 
domnus ¥evnsijiá\i.saccepit fUiam regis Portugaleiísinm »»- 
(Flores, Reyn. Cath., T, i, p. 322). Desde esle tempo 
D.Urraca figura em grande numero de diplomas de seu 
marido, mas continua a appaiíccr t.m oífiuna de seu 
pae. A solução rauis obvia dessa contradicção ajpí»- 



N05AS 3i5 

rente é que os notários portugueses, pelo habito de 
mencionarem a infanta nos documentos, o fizeram uma 
ou outra vez depois da sua partida. Esta conjectura 
evidenceia-se da carta de couto de Midões á Sé de 
Coimbra, carta que se diz feita « cum consensu filiorum 
meorum, videlicet reg-is Sancii et regine Orrace atque 
Tarasie » e todavia na inscripção do rodado, que 
correspondia então como meio de authenticar os diplo- 
mas ás assignaturas modernas, lêem-se apenas os 
nomes de Sancho e Theresa (Liv. Preto, f. 29). 

No paragrapho a que esta nota se refere suppusemos 
que em Cella-nova Fernando II procurou pôr barreiras 
ás rápidas conquistas de Affonso I, estabelecendo uma 
linha de demarcação para ellas. E' indubitável que esta 
demarcação existia poucos annos depois, segundo o 
testemunho de Lucas de Tuy e Rodrigo Ximenes (Chro- 
nicon Mundi, p. 107 — De Reb. Hisp., L. 7, c. 28), sue- 
cedendo ao rei de Portugal o desastre de Badajoz em 
consequência de ter atacado aquella cidade, cuja con- 
quista pertencia ao genro. Não havendo o menor vestí- 
gio de tractado anterior entre Portugal e Leão sobre 
semelhante objecto, o mais natural é attribui-lo á con- 
venção entre os dous príncipes, e esta á conferencia de 
Cella-nova. 

Existem dous documentos notáveis que parece darem 
mais força á nossa opinião e que, pelo menos, indicam 
terem-se alterado as demarcações das fronteiras entre 
Portugal e Leão nos annos decorridos de 11 54 a 1167, 
em que caeo de ii6oe a conferencia dos dous príncipes. 
Numa certidão authentica passada em i353 (Arch. Na- 
cion.^ Gav. i, M. i, n.° 12) se encontra : i.», ^ doação 
da villa de Maide sobre o Aliste ao mosteiro de S. Mar- 
tinho da Castanheira feita por Affonso I em 11 54: 2.°, a 
doação feita de novo por Fernando II ao mesmo mos- 
teiro em 1167 na qual allude á do sogro : Mayde quam 
dederat vobis domnus Affonsus rexportugallensis. Donde 
parece concluir-se que as fronteiras orientaes de Trás- 
os-Montes haviam recuado neste meio tempo uma» 
poucas de léguas. 



3l6 HISTORIA DB PORTUGAl, 

IV 

CO-REGENCIA DO INFANTE SANCHO, PAG. Io4 



Assentando a sua opinião num documento ou falso 
ou errado na data, Brandão suppôs a co-regencia de 
Sancho com seu pae nos últimos annos da vida deste 
íMon. Lusit., L. ii, c. 33). Ribeiro impugnou a exis- 
tência de semelhante facto com argumentos que pare- 
cem bem pouco fortes (Dissert. ChronoL, T. i, p. 3o e 
segg.), sendo o principal a falta de referencia a esse 
facto nos documentos posteriores a elle. Sem nos estri- 
barmos no diploma em que o auctor da Monarchia 
Lusitana fundamentou o seu parecer, seguimos, toda- 
via, este pelas seguintes razões : 

E' notável que para resolver tal questão, tanto Bran- 
dão como Ribeiro se esquecessem da passagem positiva 
e terminante que se lhes offerecia no relatório da tras- 
ladação de S. Vicente, escripto por auctor que ambos 
■elles acceitaram como coevo. Eis aqui a passagem : 
u anno Domini 1173, regni autem regis Adefonsi 45, 
vitae vero ejusdem annc 67.°, Jilioque regis ejusdem 
€onregnanie, 18 annoj^uni adolescente mirabilis indolis, 
«te. » Daqui se torna evidente que a associação de 
Sancho ao governo já se havia verificado em 1173, 
cousa fácil de crer pelas razões politicas ponderadas no 
texto. Para destruir este testemunho positivo fora ne- 
cessário mais alguma cousa do que a falta de declara- 
rão authentica do facto, a qual, na singeleza dos tem- 
pos, SC ulgaria escusada, como parece também se 
julgara na occasião, muito mais importante, de tomar 
Afíbnso o titulo de rei, acto de que nenhum, documento 
importante nos resta. 

Mas não é só isto. O próprio Ribeiro se lembra do 
<oral de P-kmbal (Dissert. Chr nol., T. 3, P. i, p. i6r; 



NOTAS 3iy 

dado por Gualdim Paes em 1174, em que se diz: « re- 
g-nante Domino Ildefonso portug-alensi rege... et cum eo 
i-ege Saneio filio suo », o que confirma inteií-amente o- 
.elatorio da trasladação de S. Vicente. Ao illustre anti- 
quário não occorreu duvida alguma sobre este docu- 
mento, considerando-o genuíno, como na realidade é. 
Accresce a escriptura do mosteiro de Fiães do anno de 
II 74 iSandoval, Ygles. de Tuy, f. 187), em que se diz : 
- regnante in Portugallia rege Alfonso, et ejus filio 
doinno Saneio, sedente Tude episcopo Beitrano ». A 
Doação a Garcia Mendes do Casal de Felgueiras feita 
em 1181 ainda é, porventura, mais explicita: u Alfonsus 

Dei gratia portugallensis rex una cum filio mea 

eadem gratia portngallense rege » (Arch.Nacion., Liv. ^ 
«'Alemdouro, f. lõg v.) : e não menos a concessão á or- 
dem de Évora (Calatrava) do castello de Coruche : « Ego 
rex Alfonsus... concedente filio meo rege D. Saneio 
hanc cartam, etc. Era 1214 •> (Arch. Nacion., Gav. 4, M. i, 
n.° 17;. Assim, os diplomas posteriores a 1178 e ante- 
riores á morte de AíTonso I, acerca dos quaes não se 
dera outro motivo de suspeição mais do que alludirem 
de algum modo á auctoridade real do infante, longe de 
os rejeitarmos, consideramo-los como outras tantas 
provas em abono da nossa opinião. 

O figurar quasi sempre AíTonso I nas doações da- 
quelles últimos tempos como principal e, talvez, único 
doador, não nos parece provar cousa alguma em con- 
trario. Era uma forma de chancellaria assas conciliável 
com a realidade da acção do infante nos negócios pú- 
blicos, e tanto mais que não cremos que o velho mo- 
narcha abandonasse todo o poder a seu filho, mas sim 
ijue o fizesse participante delle. 



3l8 HISTORIA DE PORTUGAL 



INFIRMAÇÃO DO TITULO DE REI, PAG. TXT 

A bulia original da confirmação do tilulo de rei, pas" 
sada a favor de Affonso 1, acha-se no Archivo Nacional 
ÍM. i6 de Bulias, n.*» 20) e impressa com algumas 
inexacções por Brandão e nas Provas da Historia Genea- 
lógica. A substancia delia fica inserida no texto ; mas 
para se conhecerem, até onde é possível, as circums- 
tancias que concorreram para se expedir aquelle diplo- 
ma, cumpre recorrer também a bulias e rescriptos pos- 
teriores. E' comparando mis com outros que se pôde 
chegar a concluir o que dissemos sobre esta matéria. 

Pelos documentos que nos restam sobre a primeira 
oíTerta de censo á Sé apostólica vimos que ella se limi- 
tara a quatro onças de ouro. Este censo, porém, não 
bastava para que Roma concedesse o titulo real, por- 
que da bulia de 11 79 se deduz que o offerecimento dos 
dous marcos precedeu e motivou a concessão : « Pro 
amplioris reverentiae argumento statuisti duas marchas 
auri, annis singulis, nohis nostrique successoribus per- 
solvendas » (ibid.). Além do estabelecimento desta con- 
tribuição annual, Affonso enviou depois ao papa mil 
morabitinos, offerecidos gratuitamente por uma vez. E 
o que consta de duas cartas de Innocencio III a San- 
cho l*^Baluzius, Epist. Innocent. III, lib. i, epist. 99 e 
448). Resolvida favoravelmente em Roma a pretensão 
de Affonso I, este príncipe, ou por causa da guerra dos 
almohades que sobreveio, ou porque a sua devoção á 
Sé apo.stolica não fosse tão profunda como Alexandre III 
insinuava na bulia Manifestis probatum, nunca pagou 
os ceiu áureos aunaaes ou dous marcos que prcmettera 
(lib. I, epist. 99), ao mesmo tempo que suspendeu o 
censo das quatro onças. Pelo meado de 1199 Sancho f 



NOTAS 3l9 

enviou a Roma 5o4 morabitinos em pagamento do dicto 
censo, devido desde o 3.° concilio lateranense (março 
de II 79) até aquelle tempo, isto é, 20 annos e alguns 
meses e dias (lib. i, epist. 448)- A epocha deste paga- 
mento não consta da carta de Innocencio III ; mas infe- 
rimo-la da somma de 5o4 morabitinos, suppondo que 
as quatro onças correspondessem a 25 daquellas moe- 
das : isto é, a libra regia de 16 onças a 100 e o marco a 
5o. Recebeu Innocencio esta somma, mas insistiu em 
que se lhe deviam os cem áureos annuaes desde 11 79, 
conta na verdade curiosa, da qual se vê que o pajja 
tomava as promessas de Affonso Henriques no sentido 
mais lato possivel, pretendendo accumular os dous 
censos. Essa questão era antiga ; mas foratractada an- 
teriormente de diverso modo. Celestino III quizera 
compellir Sancho I a pagar os cem áureos annuaes 
devidos desde o augmento do censo ; mas o rei de Por- 
tugal redarguira que seu pae dera ao papa mil áureos 
tquivalentes á contribuição de dez annos, os quaes 
ainda não tinham decorrido (ibidem, epist. 991. A noti- 
cia da dadiva dos mil áureos chegou por este meio até 
nós, e daquella noticia se colhe que esta somma fora 
offerecida nos últimos dias de Alexandre UI (fallecido 
em agosto de 1181), porque aliás no i.° anno do ponti- 
ficado de Celestino III (eleito em março de 1191), ainda 
suppondo que este x^apa tractasse immediatamente do 
negocio, estariam findos os dez annos. Não insistiu 
Celestmo, segundo parece; mas Innocencio III apenas 
subiu ao sólio pontifício renovou a exigência, declarando 
ao rei de Portugal que os mil áureos tinham sido uma 
simples liberalidade de Affonso I: non pro censu, sed ex 
devotione, quain aã eiini habebat, liberaiite'' ^ontulisset : 
(ibid.) Apesar das ameaças com que terminava a carta 
do papa, vê-se que Sancho resistiu quasi dous annos 
e que no íim delles só queria pagar o censo offerecido 
no tempG de Lúcio II, isto é, as quatro onças annuaes. 
Mas, cançado talvez de luclar contra o tenaz Innocencio, 
elle entregou o negocio á consciência do papa, que o 
resolveu enviando-lhe pelo legado Raynerio a carta que 
Affonso I escrevera a Alexandre III com os mil áureos, 



320 HISTORIA DE PORTUGAL 

da qual se via que estes haviam sido um dom gratuiti^. 
A' vista da carta, Sancho pagou provavelmente o qua 
se lhe pedia, porque não consta que Innocencio tor- 
nasse a escrever sobre isto. Em tal presupposto a con- 
firmação do titulo de rei a Affonso Henriques custou a 
Portugal, pelo menos, 3:5oo morabitinos. 

Advertimos, em ultimo logar, que nos documentos 
relativos a este negocio a moeda de que se fala é a dos 
áureos ou bizaiicios, nome que se dava geralmente na 
Europa, não só ao dinheiro douro cunhado em Cons- 
tantinopola (Bizâncio), mas também aos morabitinos 
ou dobras dos sarracenos (Ducange, veib. Byzantius). 
Destes mesmos documentos se conhece, que cincoenta 
delles faziam um marco. Assim a somma recebida de 
Sancho 1 pelo papa em consequência da concessão de 
Alexandre 111 equivaleria hoje a, pouco mais ou menos, 
8:oooSooo réis e o censo annual a 23oSooo réis. 



VI 



CASAMENTO DA INFANTA D. THERESA, PAG. II9 



Brandão refere o casamento de D. Theresa depois do 
cerco de Santarém, suppondo a partida da infanta pos- 
terior a este successo. Nós preferimos relatá-lo antes, 
porque nos parece que a vinda da armada de Flandres 
e a sua viagem para a Rochella precederam aquelle 
famoso cerco. Em qualquer das hypotheses, os dous 
factos são quasi parallelos, e a matéria não vale a pena 
de largas discussões. 

Sabemos que a celebração do casamento se verificou 
em agosto (Genealog. Comit. Flandriae, apud Marlene, 
T. 3, p. 391). Chegar a Flandres a noticia de que Affon- 
so I accedia aos desejos de Phifippe, preparar-se a arma- 
da, vir a Portugal, embarcar a infanta com os ricos pr^ 



NOTAS 321 

«enles que o rei fazia a sua íilha e genro, partir a frota 
e chegar a Rochella, e d'alli caminhar por terra a prin- 
cesa até chegar a Flandres são acontecimentos que não 
podiam gastar menos de dous ou três meses numa epo- 
tha de navegação imperfeitissima e de difíicil transito 
por terra. Assim o negocio do casamento devia estar 
lesclvido em abril ou maio, e a vinda da armada fla- 
menga seguir-se-hia immediatamente. Segundo o teste- 
munho, nesta parte uniforme, das memorias christans 
e mussulmanas, é indubitável que a entrada dos almo- 
hades só se verificou pelos fins de junho, e o cerco de 
Santarém durou, pouco mais ou menos, um mês, isto 
é, até os fins de julho. No meio de tão graves aconteci- 
mentos não é crivei que se tractasse da partida da 
infanta, e por isso entendemos que este facto era já 
passado naquella conjunctura. 



VII 



FRONTEIRAS PORTUGUESAS E LEONESAS NOS FINS DO 
SÉCULO XII, PAG. l44- 



O que dizemos no texto, relativamente aos limites 
de Portugal, estriba-se nos fundamentos que vamos 
apontar. 

Linha da foz do Minho a Melgaço. No Arch. Nacion., 
M. 12 de For. Ant., n° 3, f. 22 v. acha-se o foral de Mel- 
gaço dado em 1181, e na carta de repovoação de Lapella 
de 1208 renovam-se a este logar os íóros com que tinha 
sido povoado in diebus regisD. .4Z/o/ísí (Liv. 2de Alem- 
douro, f. 269). Os povoadores de Melgaço pediram para 
si os foros de Ribadavia, concelho limitroph^na Galli- 
za. Lê-se no preambulo deste diploma que a nova po- 
voação era fundada na terra ou districto de Valadares, 
districto que, como hoje vemos da situação desta ulti- 
ma villa, se dilatava ao longo do Minho para o lado de 

voL. in. ai 



322 HISTORIA DE PORTUGAL 

Monçáo. AíTonso I iacliiiu nos termos do uovo muiii- 
cipio metade de Chaviães. logar exactamente situado 
no angulo que a linha de Melgaço a Lindoso forma com 
o rio Minho, caindo quasi perpendicularmente sobre 
elle. Na restauração de Contrasta (Valença) por AíTon- 
so lI(Liv. I de Aífonso III, f. 64 v.) affirma el-rei que seu 
pae já tinha dado um foral áquelle logar, o qual, por- 
tanto, remonta á epocha de Sancho 1 e, talvez, á de 
Affonso 1, porque nem sempre a carta municipal coin- 
cide com a origem das povoações, podendo, ellas existir 
anteriormente e, até, terem tido outro foral, hoje per- 
dido. Isto mesmo se vê do fragmento da demanda enlre 
Affonso II e suas irmans (lançado no Liv. 3.° de Aff. 1U, 
f. 26), donde consta existir já o castello de Contrasta 
por morte de Sancho I, porque logo começaram as dis- 
córdias de Affonso II com as infantas, durante as quaes 
foi Contrasta tomada pelos leoneses. Que por este lado 
o districto mais meridional da Galliza (Toronho) vmha 
intestar com o Minho é o que se deduz da restituição 
feita por Fernando II em 1170 á igreja de Tuy de algu- 
mas propriedades sitas no seu reino, de que estava 
desapossada desde o reinado antecedente. Entre ellas 
íigura o logar de Tominho, a menos de uma légua da 
margem direita do Minho e a pouca maior distancia das 
bordas do mar (Docum. da Esp. Sagr., T. 22, x\ppend. 
XV). Finalmente, o testemunho de R. de Hoveden nos 
mostra ser então geralmente sabido, que, ao longo da 
costa, a foz do Minho formava a divisão entre os dous 
reinos de Leão e Portugal (Hoved. Ann. apud Savile, 
p. 672). 

Lirvha de Melgaço e Lindoso. De dous documentos do 
cartulario de Feães (Sandoval, Ygles. de Tuy, f. 182 e 
137), provavelmente destruído no incêndio que devorou 
aquelle mosteiro no século passado, se conhece que 
pelos annos de 1166 a 11 74 este mosteiro era em terri- 
tório português ; porque, posto aquelles documentos 
sejam de particulares, nelles se diz que reinava em Por- 
tugal Affonso I, não mencionando o rei de Leão. Que 
as cercanias do logar onde depois se fundou Lindoso 
pertenciam a Portugal pelos annos de 1160 resulta evi* 



NOTAS 3a3 

dentemente do relatório da trasladação das relíquias 
■de Sancta Eufemia, as quaes por essa epocha íorani 
levadas a Orense. A ermida de Sancta Marinha, onde 
«lias se achavam estava já então sobre a fronteira e 
perto de Manin, ultima povoação sobre o rio Lima do 
lado de Galliza, como Lindoso o é do lado de Portugal. 
Querendo o bispo de Orense, Pedro Seguino, transferi- 
las dalli para a sua Sé, os portugueses oppuseram-se. 
A relação deste successo deixada pelo próprio Seguino 
'Munoz, Noticias hist. dOrense, cit. por Flores, Esp. 
Sagr., T. 17, p. 224) prova que já a fronteira fazia o 
■angulo que, curvando-se para o nascente, vae formar a 
■orla boreal de Trás-os-Montes. 

Pelo lado de Lima, isto é, do districto de Galliza que 
por aquella parte entestava ao poente com Portugal, 
^imos no antecedente volume que Affonso Henriques 
fundara Celmes no território leonês, e Celmes (hoje 
Zehne) ficava apenas três léguas além da nossa fron- 
teira actual, ao nascente do Alto-Minho. O que parece 
poder-se afíirmar, sem receio de erro, é que os limites 
«dos dous estados seguiam a divisão das dioceses de 
Eraga e Orense, como conjecturou S. Luiz (Memor. da 
Acad., T. 12, P. 2, p. 37), porque achamos na carta de 
protecção de AíTonso YII á sede auriense (iiS^) confir- 
mada a posse de vários logares bem próximos da nossa 
fronteira moderna por esta parte, a de Rubias, por 
exemplo, entre outros, logar situado defronte de Lin- 
doso, a de Elariz, a pouco mais de duas léguas de 
Montalegre, e a de Nino-d'aguia, ao noroeste de Elariz 
<(Esp. Sagr., T. 17, p. 254). 

Linha de Lindoso a Bragança. Suspeitamos que nesta 
linha o território de Galliza descia um pouco para o 
«ul dos seus limites modernos, aproximando-se mais 
de Montalegre. Ao menos, assim parece concluir-se da 
doação do couto de rio Caldo, feita por Fernando II á 
Sé de Orense em 11 76, ampliada depois por elle e con- 
firmada por seu filho (Ibid., p. 95, 97 e 254). Este 
pequeno rio nasce na fronteira actual e vem desaguar 
no Cávado, passando juncto de Montalegre, e, a não^ 
suppormos que eia outro rio do mesmo nome na dio- 



324 HISTORIA DE PORTUGAL 

cese de Orense, de que não temos noticia, é de crer 
que esse couto se dilatasse por uma ou por outra mar- 
gem delle, ambas hoje em território português. Dahi 
avante até Bragança nenhuns documentos nos auctori- 
sam a suppòr que os limites do paiz fossem subsequen- 
temente alterados, devendo por isso crer-se que são os 
mesmos desde o principio da monarchia. Ao documento 
citado no paragrapho antecedente, que os determiua 
pelo lado de Galliza, se ajunctam para os fixar pelo 
lado de Portugal um diploma de ii3o em que já figura 
Fernão Mendes, o Braganção, como governador por 
Affonso Henriques em Bragança e em Lampazas, terri- 
tório ao sudoeste desta cidade (Dissert. Chronol., T. 3, 
P. I, p. 99) e as particularidades coUigidas por Figuei- 
redo (Nova Hist. de Malta, T. i, § ii5, 117), o que tudo 
nos indica dilatarem-se os territórios portugueses para 
o occidente de Bragança até Montenegro, hoje districto 
de Chaves. Do testamento de D. Froilhe Ermiges ( Arch. 
Nacion., Gav. 7,M. 10. n.'* i5) se vê que os districtos do 
norte de Trás-os-Montes eram Bragança, Montenegro e 
Laedra. Neste testamento ou doação geral á ordem do 
Templo diz a doadora que lhe deixa a herdade em RuU 
cães que houvera do rei D. Affonso e da rainha D. Ma- 
falda e o que possue em Sancta Marinha de Pedraira^ 
Estes dons pontos nas proximidades de Montenegro 
servem para determinar o território português por 
aquelle lado. 

Linha de Bragança por Mirandella d Barca d' Alva. 
Bragança teve foral de Sancho I em 1187 (Arch. Nacion. ^ 
Gav. i5, M. 9, n.'' 36). O districto de Laedra intestava coni 
o de Bragança e pertencia a Portugal (Liv. 2 de Aff. III, 
f. 70 V. ) ; mas onde ficava situado ? Devia ser contíguo 
a.0 de Lampazas, e ambos ao sudoeste de Bragança e 
ao nordeste de Mirandella ; pelo menos, este ultimo 
concelho pretendia exercer ahi jurisdicção (Nova Malta^ 
T. I, § ii5 ad fin.), e em 1196 doava Sancho I a Fer- 
nando Fernandes a villa de Sesulfe na terra de Laedra 
(Arch. Nacion., Gav. 3, M. 7, n.° 2). Descendo, porém, de 
Bragança para o sul, achamos que a villa de Vimenoso 
(Vimioso) em termo de Miranda e no território do ca&-^ 



XOTAS 3^5 

tello de Ulffoso fAlgoso) pertencia a Sancho I em 1186 
<Liv. 2 de AíY. III, loc cit."). No angulo que a linha da 
fronteira forma para o nascente, acima de Miranda, 
doava este principe em 121 1 ao mosteiro leonês deMo- 
reruela o reguengo de Infaneis (Infanes) : (Ibid., f. i5). 
A Miranda dera foral Aífonso Henriques em ii36(M. 12 
-de F, A., n.*" 3, f. 9». Com os termos deste município 
partiam provavelmente os de Mogadouro, ao sul do 
qual principiava o concelho de Mós (Molas). No foral 
deste ultimo concelho, dado em 1162 (Gav. i5, M. 11, 
n.° 48 e Liv. dos For. Velhos de Leit. Nova, f. 98 v.), 
nas demarcações dos termos, se lê ".... eí inclè a parada 
inter nos et mugadoyro... » Pelas confrontações des- 
criptas nesse diploma se conhece que o território de 
Mós se dilatava para o norte e poente até o Sabor, ao 
passo que o de Urros (Orrios) o limitava pelo sul, a 
bem curta distancia da cabeça daquelle concelho, 
estendendo-se até a margem direita do Douro (Yot. 
Velh. de L. N., f. loi v.). Ainda que o foral dUrros 
careça das demarcações, que muitas vezes se indicavam 
nas cartas de município, todavia, dos logares em que 
se estabelecem os pontos nos quaes se haviam de deba- 
ter e julgar as demandas entre os habitantes d' Urros e os 
povos limitrophes, o que sempre era na raia municipal 
ou medianido, se conhece que esta raia chegava ao 
Douro. A villa d' Alva, de cuja anterior existência se 
acham provas em 1286 (Mon. Lusit., L. 14, c. 16), devia 
remontar ao principio do século XIII ou, porventura, 
aos fins do XII. Pelo menos, é certo que o castello de 
Ahia na fronteira de Portugal existia já em 1212 (Liv. 3 
de Aff. III, f. 26). Dos documentos citados na no- 
ta IH )a fine se conhece que, se Aífonso Henri- 
ques possuirá temporariamente o território do Aliste 
além das fronteiras de hoje, tinha-o já perdido nos últi- 
mos annos do seu reinado. 

Linha do Coa até o Tejo. Pelo lado oriental da Beira 
na perpendicular do Douro ao Tejo os limites de Portu- 
gal e Leão eram n ui differentes, nos fins do século XIÍ 
e princípios do Xlll, do que actualmente são, e do que 
foram desde o reinado de D. Dinis. Leão estendia-se 



325 HISTORIA DE PORTUGAL 

pela margem esquerda do Dom^o até a foz do Coa, que 
no foral d'Urros, atrás citado, w^e designa como media- 
jiido daquelle concelho. Yê-se que esles territórios, 
talvez ermos em tempos anteriores, se povoaram, 
principalmente, em tempo de Fernando II e de Affon- 
so IX. O mosteiro de Sancta Maria de Aguiar, fundado 
juncto ao rio deste nome e que existia já em ii65 (Doe. 
em Manrique, T. 2, p. 416) offerece-nos a primeira prova 
do domínio leonês no Cima-Coa, porque nesse anno 
doa Fernando II áquelle mosteiro « lociim qiii dicitur 
2\irris Aquilaris et Grajigiani de Bio-chico. » Brandão 
(Frei Francisco), sem impugnar a veracidade do diplo- 
ma (Mon. Lusit., L. 17, c. 32), pretende annullar essa 
prova daquelle dominio com a carta de couto ao mes- 
mo mosteiro, feita em 1174 por Afíbnso Henriques 
(Arch. Nacion.,Gav. i, M. 3, n.° 7) ecom outro exemplar 
lacerado, ambas em publica-fórma do tempo de D. Di- 
nis (no M. I, n <» i3) em que se allude a uma carta de 
fundação anterior, feila também pelo rei de Portugal. 
Eis a passagem do documento que ainda existe na 
Torre do Tombo: « ... facio et assigno... términos et 
divisiones terminorum ipsius monasterii, quod oiiin 
«ediíicandum et construendum vobis pei^ scripturani et 
cartam dedi autem : itaque vobis assigno et concedo 
hos términos infra nominatos, sicut incipiuntin ilumine 
quod íluit inter caput Castelli Roderici et inter montem 
coval sicu!: intrat in Aguiar et sicut Aguiar intrat \i\ 
Dorium... et inde sicut Ágata currit et intrat in Do- 
rium )'. Daqui argumenta Brandão que este território 
era de Portugal e que o doar Fernando II bens a Sancta 
Maria de Aguiar não prova o seu senhorio sobre o 
mosteiro, i,)orque os reis faziam frequentes vezes doa- 
ções a mosteiros situados em reinos alheios. Esta obser- 
vação, exacta em si, é neste caso um sophisma^ que 
se desvanece em se lançando os olhos para uma carta 
corographica do Cima-Coa. A aldeia chamada Torre de 
Aguiar, a lorre donde ella lomou o nome e o mosteiro 
€s!avam no mesmo território, e a granja do Rio-chico 
4 ra provavelmente siiiífida também em Cima-Coa, onde 
lioje está «» povoação de Rio secco, poucí5 abaixo da 



NOTAS 327 

Castello-bom. Em todo o caso a doação do rei leonês 
refere-se, pelo menos quanto á Torre d'Aguiar, a um 
senhorio incluído dentro dos termos marcados na carta 
de couto d'AÍ'fonso Henriques. Assim os dous docu- 
mentos de Brandão e Manrique excluem-se mutuamente. 
O rei de Portug-al refere-se em 1174 a outro diploma 
anterior, isto é, a um acto seu de soberania exercido 
alli muito antes (olirn), e a doação de Fernando lí, que 
presuppõe o mosteiro já fundado, data de ii65. ]\Ias 
não é só isto : em 1176 o rei de Leão doa mais áquelle 
mosteiro dez jugadas in circuitu fontis de Berbenosa 
(Manrique, ibid.i, e Bervenosa ou Vermiosa fica a bem 
curta distancia do mosteiro para o sul. 

Não vale a pena de analysar o que diz inexactamente 
Brandão affirmando que constava do archivo de Tarouca 
ser filiação deste mosteiro o de Aguiar, quando o que 
constava era que isso se dizia ; e constava por memoria 
Ião moderna que nella se chamavam os reis de Portu- 
gal reges Lusitaniae, ao passo que Manrique se fanda 
nos antigos Índices das igrejas claravalenses para o 
fazer filial do mosteiro leonês de Moreruela. A contra- 
dicção dos documentos apontados tem uma fácil solu- 
ção, e c, quanto a nós, que a carta do couto attribuida 
a Affonso Henriques é mais que suspeita. Rejeitada 
ella, tudo conspira em provar que o território além do 
Coa pertencia em geral a Leão ainda depois do meado 
do século XílI. Os fundamentos que temos para a sup- 
pôr forjada são i.** que em i336 numa demanda entre 
a coroa e o mosteiro de Aguiar, sobre o senhorio da 
aldeia juncto á torre d'A guiar, os monges allegavam 
que lhes fora dado, não por Affonso Henriques, mas 
por Affonso e Fernando reis de Leão e pelos seus suc- 
cessores (Arch. Nacion., Liv. 2deReis, f. iiiv.); 2.* que 
na carta de couto de 11 74 se demarcam os termos pelo 
rio que <;orre inter caput Castelli-Boderici^ e nenhum 
vestígio ha da existência de Castello- Rodrigo antes do 
reinado de Affonso IX ; 3.° que o documento é uma 
publica-íórma de i3o2, seis annos apenas posterior á 
epocha em que D. Dinis unia o Címa-Coa aos próprios 
estados e em que aos monges mais convinha que > 



328 HISTORIA DE PORTUGAL 

titulo do seu senliorio lhes viesse de um rei português 
que de um rei estranho, e, talvez, o documento, forjado 
nesta coRJunctura, lhes fosse rejeitado em juízo em 
i338, o que os obrigaria a recorrerem á verdadeira ori- 
gem da sua posse ; 4** que a mesma publica-fórma, 
suppondo-a authentica, está viciada; porque onde na 
designação dos termos se á\z et feinunt in portam provi- 
ciorum ha um respançado contra o costume dos notários 
de então, que riscavam ou suppontavam, em caso de 
erro, e entrehnhavam. Que vale, pois, um documento, 
único e em tal estado, contra tantos outros que se lhe 
oppõem ? — Restam-nos os foraes leoneses dados no 
principio do século XIII ás povoações de Cima-Coa, 
como Castello-Rodrigo, Castello-melhor, Almendra, 
Castello-hom, Alfayates, Villar-maior (Arch. Nacion., 
M. 5 de F. A., n.°^ 2,3, 4, e M. 4, n.° 2, Gav. 18, M. 9, n.« 7). 
A ordem militar leonesa de S. Julião do Pereiro tinha 
já em II 76 a sua residência no Cima-Coa a uma légua 
apenas de Pinhel, perto da confluência do rio deste 
nome com o Coa, e Fernando II dava-lhe nesse anno 
uma carta de protecção contra o concelho de Ciudad- 
Rodrigo, que a vexava (Manrique, T. 3, p. 36). Deste 
documento resulta evidentemente, que Pereiro com as 
suas dependências ficava dentro dos limites leoneses... 
« qui ex hodierno die vim aUquam ipsis, aut in suis 
possessionibus fecerit, aut, si fiierint extra regni mei 
términos, aliquam mjuriam personis illorum intulerit, 
etc. » Do dominio leonês nos territórios ao sul de Cas- 
tello-Rodrigo temos ainda outro documento de 1190 
(1228) : é a doação a Sancta Cruz de Coimbra do villar 
de Pedro Thomé inter Reigadas et Vermenosam, feita 
por Affonso IX (Nic. de Sancta Maria, Chron. dos Cóne- 
gos Regr., T. 2, p. 169). Accresce o sabermos com cer- 
teza, pelo testemunho dos escriptores coevos, que a 
villa do Sabugal foi fundação do mesmo Affonso IX 
(Roder. Tolet., I. 7, c. 26, Cron. Gener., f. 398, ediç. de 
1541). 

A serie dos documentos de Portugal relativos aos 
territórios da Beira na linha da foz do Coa até o Tejo 
harmonisam com os de Leão, indicando-nos que os 



NOTAS 329 

<iomiiiios portugueses acabavam na margem direita do 
Coa desde o Douro até a confluência do Pinliel, seguindo. 
<l'ahi até o Tejo, na íórma que dissemos no texto. 
Aílbnso I deu foral a Marialva (Arch. Nacion., M. 12 de 
For. A., n.o 3, f. 5 v.) e antes disso o dera a Numáo 
<ii3o) Fernão Mendes de Bragança, súbdito de Aflonso 
Henriques : imperante in Portugal infante D. Alfonso 
<For. de Numão, For. A. de Leit. N., f. 24». Numão pa- 
rece ter sido no século XII a ultima povoação portu- 
:guesa no angulo da Beira ao nordeste : ao menos ne- 
nhum documento encontrámos ainda em que se men- 
cione alguma outra mais para o nascente. Que de 
Marialva a fronteira, transpondo a confluência do rio 
Lamegal, ia seguindo a margem esquerda do Coa até a 
confluência do Pinhel conclue-se do foral concedido á 
cidade deste nome por Sancho I em 1209 (M. 12 de F. 
A., n.** 3, f. 33 V.). A Guarda teve também foral por 
essa epocha (1199), e das demarcações nelle designadas 
(ibid., f. 59 v.) se deprehende que davam então o nome 
<le Coa ao rio Pinhel, porque os termos orientaes eram: 
In primo de Coa; per portam de avazil et per portam 
vetas de pega (desde- Azim ao norte até Pega ao sulj, e 
<i'alli correndo entre o território da Covilhan, com o 
qual partiam ao sudoeste de Varelas (Barreias), iam 
terminar numa longa e estreita faixa de terra juncto á^ 
fontes do Elga (ibid. ), ao passo que, mais para o poente, 
os termos da Covilhan, descendo pelo Ponsul (For. da 
Covilhan em 1186: Ibid. f. 55 v.) vinham fechar no Tejo. 
O foral do concelho de Castello-Mendo (Villa de Mendo), 
de que logo havemos de falar, dá logar á conjectura de 
que a fronteira, transpondo ainda o Pinhel, ia buscar, 
na direcção de sueste, a margem esquerda do Coa, 
perto das suas fontes, e então, fazendo um pequeno 
angulo para oeste, tomava a direcção de susueste até 
as fontes do Elga, passando entre Sortelha (Portugal 1 e 
Sabugal ^Leão). O aforamento de uma herdade feita 
pelo mosteiro de Sancta Maria da Estrella (Liv. i de D. 
Dinis, f. 26 V.) nos esclarece bastante, dizendo que esta- 
'va situada a herdade yíZA:<ayZ«Píwm de Cola in term^ino 
de Portugal, e nas demarcações, que indpit in dircct-^' 



33o HISTORIA DE PORTUGAL 

de defessa de Saugal sicut incipit in aqua de Cola, 
Caindo sobre o Tejo, a linha da fronteira portuguesa, 
era a mesma de hoje, isto é, a margem direita doElga. 
desde a sua entrada no Tejo até quasi, talvez, a sua 
origem. E' o que nos assegura a doação de Idanha e 
IMonsancto aos templários íeila por Aílbnso I em iiG5: 
Quomodo ciirrit aqua Elgiae inler regnum meumet re- 
gnum legionensein (Doe. de Thomar no Arch. Nacion.)^ 
Tirando, portanto, uma linha tortuosa desde perto das^ 
fontes do Pinhel até as do Elga, achamos ao oriente ast 
povoações leonesas de Castello-bom, Villar-ma"or,. 
Sabugal e AHayates, e ao poente as portuguesas da 
Guarda e Sortelha (que só teve foral de Sancho II) ; 
mas ahi se refere que fora começada a povoar por 
Sancho 1 (Arch. Nacion., Liv. i de D. Dinis, f. 89 v.) ; e 
para o sul as de Penamacor (For. em 1227, aliás 1287 : 
M. 12 de F. A., n.° 3, f. 7 e Liv. de F. A. de Leit. N., f. 
36 V.) e Monsancto, que, como acabamos de ver, já 
existia em ii65, posloque só em 1174 se lhe concedesse 
foral (jNI. 12 de F. A., n.® 3, f. 3 v., e Liv. de F. A. de 
Leit. N., f. 34 V.), talvez porque até ahi fora um simples 
castello, unicamente habitado por guarnição militar. 
Finalmente advertiremos que, achando frei António- 
Brandão (Mon. Lusit., L. 14, c. 16) decisivo, para pro /ar 
o dominio português além do Coa, o foral de Castello- 
Mendo (Liv. i de D. Dinis, f. 38 e em copia aiithentica 
dessa epocha na Gav. i5, M. 3, n." 9), nada ha que prove 
menos tal dominio ; porque esse foral é o da viila de 
Mendo a les-sueste da Guarda, e não o de Casio!' 0- 
Mei do ao oriente do Coa. Para nos desenganarmos: 
basta attender ás demarcações dos termos do concelho: 
« teneatis de Selada et deindè per monasterium de Murjidi 
et per fundum de azial velido, et quomodo intrat Pizeo 
in Pinei (rio Pinhel) et per portelam de Adima (Ima?) 
et deindè der portam maujnsciwi (Valmourisco ?) et per 
cabezam de Cerzeira (Curugeira?) et deindè ad caJjezam 
homine et quomodo intrat Yallougum in Coaiii. » Um. 
tepritorio que estivesse ao oriente do Coa nunca pode- 
ria ter por limite de um lado este rio d do outro o 
Pinhel. 



NOTAS 33 1 



VIII 

ACCESSÂO AO THRONO DE AIFONSO IX DE LEÂO^ 
PAG. l55 



Aos escriptores hespanhoes pertence averiguar a ver* 
dade destes successos, estribados apenas no testemunha 
da Crónica General, que, apesar de escripta nos fins 
do século XIII, se desauctorisa com frequentes inexac- 
ções. Lucas de Tuy e Rodrigo de Toledo omittem-nos 
inteiramente, postoque Romey iHist. d'Esp., T. 6, p. 219) 
cite de falso este ultimo em abono da sua narrativa, 
estofada ainda com mais circumstancias do que aponta 
a General. Notamos aqui esta leveza de Mr. Romey^ 
como já o poderíamos ter feito outras vezes, porque 
nos indigna o nivel de desprezo que elle passou, tanta 
por cima dos mais graves historiadores hespanhoes, 
como por cima dos mais inexactos e superiiciaes, che- 
gando a ponto de tractar o celebre Masdeu com a pater- 
nal benevolência de lhe conceder que seja o menos mat 
informado dos escriptores da Península ! Mas voltemos 
ao assumpto. Julgamos que as pretensões de D. Urraca 
de Ilaro e os successos que seguiram em Leão a morte 
de Fernando II, narrados vulgarmente nas historias de 
Hespanha, offerecem graves difficuldades, sendo a pri- 
meira o silencio de Lucas de Tuy e do arcebispo de 
Toledo. Talvez, por isso o P. Risco omittisse taes suc- 
cessos na historia dos reis de Leão. As suspeitas, po- 
rém, lornam-se mais violentas quando attendemos á 
circumstancia de vir o infante Affonso de Leão passar 
o Tejo para se dirigir á corte de seu avô (Affonso Hen- 
riques). Já se vê que não escolheu o caminhov mai» 
curto, nem a melhor occasião, porque Affonso I estava 
enterrado havia três annos. As diligencias de D. Urraca 
de Haro para que o alferes-mór seu irmão, o celebra 



332 HISTORIA DE PORTUGAL 

Diogo Lojjes de Biscaia, levantasse o pendão a favor 
do sobrinho contra o infante herdeiro e a fidelidade de 
Diogo Lopes ao legitimo principe também são cousas 
inexpHcaveis. O senhor de Biscaia não foi, que nós 
«aibamos, alferes-mór em Leão e vassallo de Fernan- 
do II, como diz a General: foi-o sim de Affonso VIII e 
■alferes-mór em Castella, e por isso não podia usar da 
influencia decisiva que se lhe attribue. Não nos occorre 
agora nenhum diploma em que figure o alferes-mór de 
Leão em iiSS : mas achamos que em ii85 e 1186 o era 
Poncio Vella, e de 1189 a 1191 Joanne Fernandes íEsp. 
Sagr., T. 36 App. p. 126, e T. 17, p. 261. — Escalona, 
Hist. de Sabag. App. 3, n.° 193 e 199). Pelo contrario, 
achamos Diogo Lopes figurando na corte de Castella 
•em 1187 e ii8i, já como alferes-mór (Colmen.. Hist. de 
Segov., p. 157. — Alarcon, Relaciones Genealog. App. 
Escript. n.° 62) e, no ultimo anno, como um dos fiado- 
res do contracto matrimonial da infanta D. Berengaria 
com o filho do imperador Friderico (Sota, Princ. de 
Astur. App. n." 47)- 

Todavia, as pretensões de D. Urraca de Haro eram 
naturaes, sobretudo naquella epocha, em que tentativas 
<le semelhante espécie mais de uma vez foram coroadas 
de bom successo. E' por isso que não nos atrevemos a 
rejeitá-las como fabulosas, postoque nellas haja circums- 
tancias que o pareçam. 



IX 

TESTAMENTO DE SANCHO I, PAG. iSg 

O primeiro testamento de Sancho I (sem data), q«e 
«e guarda na Sé de Viseu, foi publicado em extractos 
no Elucidário (T. 2, p. 99, 271, 285) e por integra nas 
Dissertações Chronologicas (T. 3, P. 2, p. iid onde> 
todavia, se omitte a verba final que se lê no Elucidário 
■a p. 285. Viterbo assigaala-lhe por data, ora o anno de 



NOTAS 333 

1188 (Elucid., T. 2, p. 271 e 286), ora o de 1189 (ibid. 
p. 100). Ribeiro diz que devia ser feito entre março de 
1188 e todo o anno de 1189 (Dissert. Chronol., T. 3, p. i 
n.° D-õ e P. 2, p. 118). Assim, chronologicamente, elle 
pôde suppôr-se motivado tanto pelo receio que Sanchf> 
tivesse de perecer na expedição do Algarve, segundo 
entende Viterbo, como pelo temor de algum desastre na 
expedição de ultramar, conforme nós conjecturamos. 
Seguimos esta opinião, porque é exemplo novo naquella 
epocha prevenirem-se por tal modo os príncipes para 
os eventos da guerra com os sarracenos limitrophes, 
guerra de todos os annos e quasi de todos os dias, ao 
passo que não só esta precaução se torna natural na 
supposição de se preparar o rei de Portugal para a 
remota e arriscada empreza da cruzada, mas lambem 
as palavras do testamento « ubicumque contingat me 
mori, vel (quod absit) aliquod incurrere infortunium » 
indicam alguma cousa mais extraordinária que uma 
guerra de fronteiras. Sabemos que nos podem oppòr o 
testamento de Affonso lí, onde se encontram expres- 
sões análogas. Esse argumento, porém, provaria de 
mais ; isto é, provaria que a hypothese de morte cuà 
logar remoto era uma simples formula, que nem indi- 
caria a intenção de partir para o oriente, nem a de par- 
tir para o Algarve, visto que na epocha em que AÍTon- 
80 11 exarou o próprio testamento estava bem loiígc^ 
pelo seu génio e pelas circumstancias em que se adia* 
va, de pensar em expedições militares. Mas quanto a 
nós, elle copiava essas expressões do testamento de 
seu pae, porque, ameaçado pelo papa de ser privado 
do reino, receava que um tal infortúnio viesse a veri- 
íicar-se. Seja como for, é certo que, ainda desprezadas 
essas illações, da intenção de Sancho 1 em tomar parte 
na cruzada apparecem largos vestígios na Clironica de 
Ruy de Pina {c. 6), a qual não é tão desprezível como 
a de Affonso I por Galvão, tanto por ser ?ina geral- 
mente menos inexacto, como porque, segundo L;randc» 
probabilidades, elle se aproveitou da Chronica geral do 
reino, que é hoje certo haver escriplo Fernão I.opes, o 
mais antigo e pontual dos nossos chronistas (^Trigoso» 



334 HISTORIA DK PORTUGAL 

Discurso Prelim, nos Inéditos da Acad., T. IV, p. Yíl e 

4segg.)-_ 

Ribeiro, para determinar o periodo em que o testa- 
mento podia ser leito, estribou-se em um facto estabe- 
lecido poT elle, quanto a nós, sem fundamento bastante. 
Mencionam-se no diploma os infantes D. Affonso (pri- 
mogénito), D. Pedro e D. Fernando, e omitte-seD. Hen- 
rique. Sabemos que D. Fernando nasceu em março 
de 1188 (Chron. Gonimbric. nos Fort. Monum. Hist. 
(Scriptores), vol. i, p. 3j e é a opinião vulgar que 
D. Henrique nascera só depois do meado de 1189, o 
que é confirmado pela falta do seu nome ainda em 
março deste anuo (Dissert. Chronol., T. 2, p. 58, T. 3, 
P. I, p. 178 e P. 2, p. 118). Possuído desta idéa, Ribeiro 
rejeitou seis documentos anteriores em que se men- 
cionava o infante Henrique. Não podemos, todavia, 
subscrever á sua opinião ; e porque nos liavemos de 
servir adiante de alguns desses documentos, aproveita- 
remos a occasião para os vindicar ou, ao menos, paia 
fazer sentir que faltam provas sufficientes para con- 
demnar diplomas assas interessantes, sem mais exame, 
que é o que importa, e não se houve um filho de 
Sancho I chamado Henrique e se viveu ou morreu 
neste ou naquelle anno. 

Pertencem esses seis documentos rejeitados ao perio- 
do decorrido desde maio de 1187 até janeiro de 1188, 
em que íigura um infante Henrique (Dissert. Chronol., 
T. 3, P. I, n."» 58i, 582, 583, 589, 576. T. 4, P. 2, p. 97), 
sendo o penúltimo í doação de Sabadim a F. Fernandes» 
o unicr que não tem data de mês, podendo por isso 
attribuif-se a qualquer dos meses que vão de maio a 
dezembro de 87. Todos elles existem em original ou em 
registos antigos e autheuticos, e, até, um repetido em 
três diversos logares (Foral de Bragança no Liv l de 
AíTonso in, f. I V., no Liv. 2 do dicto f. i4 e no M. 12 de 
F. A., n."^ 3, f. 22). Como, pois, crer que todos elles sejam 
falsos ou que lhes errassem as datas ao transcrevê-los, 
principalmente ao foral de Bragança, em três copias 
unilormes? Um D. Henrique apparece nos rodados de 
três documentos de julho de 1190 a abril de 1191 



NOTAS 3^5 

<Dissert. Chronol., T. 3, T'. i, n.°" 599, 604, 606) e é em 
attençáo a estes que Ribeiro rejeita os seis, não havendo 
razões algumas diplomáticas para isso. Porque essa 
prelerencia ? Ignoramo-lo. Quanto a nós, ha uma hypo- 
tiiese que salva todos os documentos, sendo, aliás, 
T) obabilissima. E' ella que D. Pedro, nascido em feve- 
Tpiro de 1187 (Chron. Conimbric, 1. cit.),se chamou no 
baptismo Henrique, que depois lhe mjidaram o nome, 
e que tendo el-rei outro filho em 1189, lhe pôs o nome 
<jue tirara ao primeiro. Esta hypothese, que explica a 
appaiente contradicção dos documentos, reforça-se com 
díi seguintes considerações : i.^, que, sabendo-se pelo 
Chronicon Conimbricense ser nascido D. Pedro em 
março de 87, não se admittindo tal explicação, os seis 
<iocumentos rejeitados hão- de ser tidos por absoluta- 
mente falsos, e não por simplesmente errados na data ; 
porque este infante chegou a idade viril, e em nenhum 
<ielles apparece o seu nome, mas só o do primogénito, 
Affonso, e o de Henrique ; 2.^, que ao próprio Sancho I 
fizera seu pae o mesmo, mudando-lhe o nome de Mar- 
tinho em Sancho ; 3.^, que esta mudança se faria em 
obsequio a Pedro Aftbnso, o qual viveu sempre em 
grande intimidade com el-rei seu irmão, como se vê de 
<juasi todos os diplomas régios desse reinado. Voltemos 
Agora ao objecto principal desta nota. 

Figurando no testamento o infante D. Fernando, é 
este diploma posterior a março de 1188, como dissemos. 
Vejamos se os outros indivíduos que ahi figuram nos 
obrigam a suppô-lo exarado em 1189, caso em que seria 
correlativo á expedição do Algarve, e não á intentada 
viagem dultramar. São esses indivíduos : João, bispo de 
Viseu; Pedro Affonso, alferes-mór ; Pedro, prior de Sane- 
la Cruz; Affonso Ermigues , Martinho, abbade de Alco- 
baça; Álvaro Martins, alcaide de Coimbra eo notário del- 
rei, Julião. O bispo de Viseu existiu desde 1180 até 1192 
(Dissert. Chronol. T. 3, p. 202). Pedro Affonso, irmão 
bastardo de Sancho I, foi com certeza, como veremos 
cm anota XII, alíeres-mór desde o principio do reinado 
■ale 1189. Pedro Alfarde, prior de Sancta Cruz, governou 
«iquelle mosleiro desde os fins de 11S4 até agosto da 



336 HISTORIA DE PORTUGAL 

1190 (Nicol. de Sancta Maria, Chron. dos Coneg. Regr., 
L. IX, c. 9). O abbade de Alcobaça, Martinho, já o era 
em 1x83 e falleceu em 1191 (S. Boaventura, Hist. Chronol. 
eCrit. de Alcobaça, p. 172). Álvaro Martins, que sabemos: 
era em 1187 (For. de Bragança no Liv. i de Afíbnso III,, 
f. I v.) vedor da casa real, cargo que podia accumulap 
com o de alcaide de Coimbra, não sendo raros os^ 
exemplos análogos, morreu em Silves em 1189 ou 1190 
CM. 12 de F. A., n.° 3, f. 64 v.). Afíbnso Ermigues é 
menos conhecido ; mas, além de outros documentos^ 
confirma em 1187 o foral de Bragança e em 1190 a 
doação da albergaria de Atrinccs (Liv. i de Aflbnso II J,, 
f. 55). O notário ou chanceller Julião figura, emflm, na 
maior parte dos diplomas régios de Sancho I por todo 
o seu reinado. 

Assim nenhuma das personagens que intervieram no 
primeiro testamento deste rei obsta a que o attribua- 
mos ao anno de 1188. A este testamento se ha-de ajun- 
ctar uma espécie de codicillo que tem evidente connexão 
com elle e que Brandão desprezou como inútil (Mon. 
Lusit., L. 12, c. 34). Acha-se no Archivo Nacional, jun- 
cto ao que se imprimiu no Appendice da 3.* Parte da 
Monarchia Lusitana (Gav. 16, M. 2, n." i4). O extracto 
que vamos dar delle indica o que dissemos conjectu- 
ralmente no texto sobre a resistência dos cavalleiros e 
homens darmas dos concelhos á expedição d'ultramar,. 
a não ser que tivessem recusado servir o rei contra 
Leão, quando queria mover a guerra ao sobrinho no 
principio do reinado deste, hypothese obviamente im- 
provável. Naquelle codicillo o rei presuppõe a incerteza 
de qual dos filhos lhe succederá, e a mesma incerteza 
existe no anterior, onde elle prevê e regula as differentes 
circumstancias e casos que nesta matéria se podiam 
dar. Os confirm antes, tanto do testamento como do 
codicillo, são os mesmos, e o segundo pôde considerar- 
se complemento do primeiro pelo que toca a legados: 
pios, espécie que absolutamente falta neste. Compa- 
rando-os, o que parece dever-se concluir é que, apesar 
das resistências das duas ordens do Templo e do Hos« 
pitai e de uma parte da nobreza e dos concelhos, San- 



NOTAS 33 



cho insistia nas suas idéas e que, talvez, só delias o 
demoveram as conveniências politicas, como dissemos 
no texto. Eis o extracto : 

u Ego Sancius... considerans novíssima mea et diem 
niorlis mee metuens, sic pecuniam meani pro anima 
mea mando partiri. In primis mando dare captivis 
i3o85 morabitinos et médium. Ad claustrum S. Marie 
de Cclimbria 2000 morabit... Operi S. Marie de Alcu- 
pacia 2000 moráb... Operi S. Marie de Ulixbona, etc. » 
(seguem-se legados ás outras Sés, menos á egitanense 
que ainda não existia). « ísti mor. superfiui, qui simt 
5202 mor. et 97 mealias auri, dentur pontibus in re^-no 
meo. Et de denariis qui sunt in S. Cruce dentur j;au- 
peribus coo sólidos, et in muros de Covilliana, et de 
Couna et de Coluchi 86o'35 solid. et pipiones. Monaste- 
rio de S. Crucis, ubi corpus meun sepeliri jubeo, 400 
marchas argenti. »» (Prosegue legando varias sommas, 
para se fazerem ornamentos a Alcobaça e ás Sés de 
Évora, Porto e Lamego. A 100 igrejas da invocação de 
Sancta Maria, e a õo da invocação de Sanctiago, i mar- 
co de prata a cada uma para cálices.) « Equos et azi- 
melas et loricas et tota arma que habeo, et sellas et 
frena, et mauros et mauras jubeo dividere inter fra- 
tres d Elbora et de Alcazar, exceptis lorica et lorigone 
et genoleiras et elmo et spada corporis mei, que 
dimitto íilio meo, qui regniim habaerit, et excepto 
caballo qui fuit de Go. de Rochella, quem Pelagio íilio 
de Gomes Pelagio mando. » (Continua cora a dislri- 
buição de vários cavallos e muares >. » Pelagio Gomes 
dent mantum et sagiam de escarlata vermelia. Totum 
repositum, tam pannos quam vasa argêntea, et scu- 
tellas et coliares, et quicquid in reposito est, et pannos 
quos habeo in S. Cruce taliados et pro taliare dent per 
albergarias pauperes mei regni. Et hoc totum íiat per 
manus uxoris mee regine D. Dulce et domni Johannis 
viseensis episcopi et abbatis Alcubacie £t prioris 
S. Crucis et comitis domni Menendi Gunsalviz, et Domni 
Petri Alfonsi. Et tota pecuiiia que est in S. Cruce, que 
fuit templi et hospitalis, detur unaquaque dominis sais. 
Adicio preterea ut totum illud habere de Vimaranes 

voL. ia. aa 



338 HISTORIA DE PORTUGAL 

quos (sic) tenent priores el viUanos (talvez, iulianus ?) 
et Go. de Rochellade niilitibiis qiii miliiiwnserinerunty 
et de Castello de Vermiii, et de peiíajiel, et de laioso, et 
de benviver, expendant in constructione muronini et 
luunicioiium de benquerencia, et de Covilliana et de 
couna. ') (Continua em diversa letra, mas do mesmo 
tempo) : « Mando presertim Soo minus y mo rabi tinos 
novoSy iqiios habeo et totas oves quas habeo in Colim- 
bria et omnes porcos quos habeo in Sanctaren dare in 
missas cantare et per monasteria. Qui presentes fuerunt 
et viderunt. = Col. i.'' : Johannes Fernandi adfuit : Al- 
varus Martini adf. : Julianus regii notarius adi'. = Gol. 
!2.^ : Johannes vissensis episcopus adf. : Petrus prior 
S. Cruéis adf. : Martinus abbas de Alcobacia adf. = 
Col. 3.* : Petrus Alfonsi signifer regis adf. : Alfonsus 
Ermigii adf. : Johannes Fernandi adf. = 



DOMÍNIOS CHRISTAOS NO ALEMTEJO NOS FINS DO 
SÉCULO Xít, PAG. l65 



O fixar precisamente os territórios e povoações pos- 
suídos no Alemtejo por christãos ou por sarracenos 
durante os últimos annos do governo de Aííonso Hen- 
riques e os primeiros do de seu filho é impossível. A' 
falta de monumentos ajunctam-se as mudanças conti- 
nuas quí' deviam resultar de uma guerra assoladora, 
quasi nunca interrompida. O que, porém, parece poder- 
se estabelecer com certeza é que Évora, desde a sua 
conquista em 1166, náo tornou a cair ei4 poder dos 
mussulmanos. E' o que evidentemente resulta da reso- 
lução de Innocencio 111 acerca da contenda que havia, 
desde a conquista desta cidade, entre os arcebispos dç 
Braga e de Compostella sobre os direitos metropoliticos, 
que ambos pretendiam ter naquella diocese dnnoc. Ill 



yjTAs 339 

Epist.,L. 2, epist. io3), contenda em que, apresentando- 
se tantos documentos e apontando-se tantas circums- 
tancias que favoreciam ou um ou outro metropolita, 
nenhum indicio apparece de que a auctoridade episco- 
pal dos bispos dEvora na sua diocese fosse interrom- 
pida. Isto mesmo é confirmado pelos documentos : em 
1181 os cavalleiros portugueses da ordem de Calatrava 
residiam em Évora : fratribus... in Elbora observantibus 
<Doaç. da era de 1219 no M. 12 de F. A., n.'' 3, f. 46j, e 
pouco antes de fallecer (ii85) Affonso i doou ao bispo 
D. Paio o dizimo de todos os quintos que pertenciam á 
coroa em Évora (Doe. em Brandão P. 3, L. 11, c. 87;. 
Documentos análogos nos apparecem em ii86 e 1187 
(Dissert. Chronol., T. 3, P. i, n ^» 5-i e 076). Em 1188 
Sancho I considerava Évora assas fortificada para con- 
servar no alcaçar desta cidade parte dos seus thesouros 
<Doc. da Sé de Viseu no Elucid., T. 2, p. 271, col. 2.»j, e 
no meado de 1189 a ordem de Calatrava continuava a 
ter ahi a sua sede (Anonymus, De Itinere Xavali, ete. 
nas Memor. da Academ. de Turin, Ser. 2, T. 2, p. 177). 
Sabemos, finalmente, que nos princípios de 1191 Mendo 
Strema, um dos ricos-homens de Sancho I, era gover- 
nador de Évora (Doaç. a Alcobaça, Liv. 12 da Estrema- 
dura, f. III V. no Arch. Nacion.j. 

O historiador árabe Abd-el-halim /Vers. de Moura, 
p. 238 e 296) diz-nos, porém, que em 1190 os christãos 
se apoderaram de Silves, Beja e Évora (BeirOf segundo 
■a traducção de Moura; mas veja-se a justa observação 
de Romey a este respeito, no T. 6, p. 162, nota 2; e que 
lhes foram retomadas por Yacub no anno seguinte. 
Além do erro chronologico de um anno em que labora 
a narrativa de Assaleh, os documentos acima citados 
provam ^ue eUa é inexacta quanto a Ev^jra. Outro 
tanto não ousamos dizer a respeito de Beja. Nada se 
oppõe a que ella estivesse já perdida por esse tempo, 
que os christãos a tomassem durante a conquista do 
Algarve e que a perdessem de novo em 1191 (aliás 1190). 
A falta completa de documentos relativos a esta povoa- 
ção ou em que, ao menos, se alluda a ella, por muitos 
annos anteriores e posteriores a 1189, não só torna pos- 



34o HISTORIA DE PORTUGAL 

sivel essa circumstancia, mas parece provar que, se 
esteve debaixo do dominio christão, foi por um curtis- 
sirao período. De feito, nenhum diploma podemos ainda 
encontrar, nem no Archivo Nacional, nem noutras col- 
lecções de que temos tido conhecimento ou alcançado 
informações, que directa ou indirectamente indique a 
existência de dominio português nos terrítoríos ao 
meio-dia d'Evora. Quasi o mesmo se pôde dizer do Alto- 
Alemtejo, no qual, para o oríente de Coruche e por todo 
o tracto de terra ao oeste de Jurumenha e Elvas (então 
de sarracenos) se dilatavam descampados e ruinas, 
consequência das correrías e entradas dos chríslãos da 
Beira ou das que os mussulmanos intentavam contra 
Portugal, transpondo o Tejo por aquella parte. Assim,, 
geralmente falando, estes territórios ermos a ninguém 
pertenciam, na realidade. Conhece-se o estado de des- 
povoação em que ainda se achavam nos íins do sécu- 
lo XII, não só o Alto-Alemtejo, mas também o sul da 
Beira, por muitos documentos que mutuamente se aju- 
dam para indicar este facto. Em semelhante falta de 
logares habitados vemos nós a razão de se dar por 
termo ao concelho da Guarda, quando esta se fundou 
(iigo), um território de quinze léguas para o sul até o 
Tejo, e á Covilhan (1186) o vasto tracto entre o pendor 
meridional da Serra daEstrella eo Tejo, limitado só ao 
occidente por uma linha de Villa-velha de Rodam á 
Cortiçada. De que as frequentes algaras dos sarracenos 
eram a causa da impossibilidade em que por muitos 
se esteve de povoar a Beira-baixa achamos a prova no 
que assegurava Sancho II cm 1229, ordenando a reedi- 
íicação da Idanha-velha, a qual »( a long-issimii tempo- 
ribus... propter hostilitateni sarracenorum... noii potuit 
consurgere ; iicet pater meus et avimei... ad id operam, 
dedissent : » (Docum. no Elucid., T. 2, p. i5). Nos dis- 
trictos contíguos á margem esquerda do Tejo vemos 
Sancho I, em 1199, estabelecendo colónias de gente 
estrangeira (Chancell. de D. Dinis, L. 5, f. 52), e é notá- 
vel o mandar elle aos magistrados municipaes de San« 
tarem, Lisboa e Alemquer que dêm aos francos uma 
porção de territorío, tal que possam cultivar e ahi 



NOTAS 341 

Tiver á sua vontade, tanto os já chegados, como os 
novos colonos que haviam de vir depois. Quer o Mon~ 
tem-Album de Sor, a que no diploma se allude, seja 
Montalvão sobre o Sever na raia de Hespanha, o que 
julgamos inexactO; quer seja Ponte-do-Sor, muito mais 
ao sudoeste, o que parece deduzir-se daquelle docu- 
mento é que os termos nominaes dos três concelhos, 
aos quaes se mandam largar terrenos para a começada 
colonisação, se estendiam pelo Alto-Alemtejo, o que 
presuppõe a não existência de outros concelhos na- 
quelles districtos. De feito, á vista dos documentos, a 
nenhuma das povoações que ahi hoje subsistem, como 
Aviz, Portalegre, Crato, Villa-viçosa, Borda, Estre- 
moz, etc, se pode fazer remontar a origem além do 
serulo XIII. 

Todavia, na ultima década do XII vê-se, que San- 
cho I diligenciava repovoar uma e outra margem do 
Tejo por intervenção, não só das colónias estrangeiras, 
mas também dos templários. Tomando para a coroa os 
castellos de Mogadouro e Penas-ruivas ou Penarroyas 
nas fronteiras do norte, possuídos por cavalleiros desta 
ordem, dilatava os senhorios dos templários nas fron- 
teiras do sul ao longo do Tejo para além do Zêzere, 
dando-lhes a Idanha- velha e a vastíssima herdade de 
Açaía (Rodam), que, partindo com os termos de Belver 
ao poente, desde a confluência do Ocreza, seguia ao 
longo deste rio para o norte algumas léguas e, voltando 
pelas immediações de Moncarche ou Cardosa (depois 
Castello-branco), descia pelo Ponsul até o Tejo. Na 
margem esquerda deste ultimo rio serviara-lhe de limi- 
tes orientaes o Figueiró, e, passando pelo Castello de 
Terron (perto de Niza?) corria até o mosteiro de Al- 
palhão 'ad monasterium de Alpalantrij, e d'alli tornava 
a voltar para o Tejo até o porto de Mola de Salor, que 
cremos seria a confluência do rio Niza, que nasce junto 
de uma aldeia chamada Ribeira de Niza, sita nas faldas 
occidentaes da serra de Portalegre. Da doação dWçafa 
resulta que em 119S, em consequência dos esforços que 
se faziam para po\ : "^r estes districtos, já existia, pelo 
menos, um castello e um mosteiro ou preceptoria no 



3^1 HISTORIA DE PORTUGAL 

moderno districto de Portalegre (Arch.Nacion.,ColIecção 
Especial, Gav. 28, M. 2 — Liv. dos Mestrados, f. 58 v. 
— Eluc. verb. Garda e Tempreiros.) 



XI 



EXPEDIÇÕES E CHEFES DOS CRUZADOS EM II 89. 

TOPOGRAPHIA DE AL-FAGHAR, PAG. 166 



As narrativas dos nossos historiadores acerca dos 
cruzados que ajudáramos portugueses na i.* conquista 
do moderno Algarve são assas confusas e inexactas. O 
apparecimento de um manuscripto contemporâneo, pu- 
blicado em 1840 pelo Sr. Gázzera (Memorie deli' Acade- 
mia delle Scienze di Torino, Ser. 2, T. 2, p. 177)6 reim- 
presso em Lisboa, de ordem da Academia Real das 
Scieucias, com a versão e notas do Sr. Silva Lopes 
(184^), veio lançar grande luz sobre o assumpto. Não 
faltavam antes, todavia, nas memorias coevas estran- 
geiras espécies que poderiam ter illustrado os escrip- 
tores nacionaes, se elles ou as houvessem querido con- 
sultar ou não tivessem desconhecido a sua existência. 

E' preciso, primeiro que tudo, estabelecer o facto de 
que duas expecfições de cruzados vieram dentro do 
mesmo anno de 89 a Lisboa, Dambas ellas dá noticia 
o Ms. de Turin, postoque o auctor, que fazia parte da 
segunda,* especialmente se dedicasse a descrever os 
successos desta « ... praecesserant nos ante^ IV hebdo- 
madas LV naves de nostro império et de Flandria, et in 
itinere ultra Ulixbonam castrum quod subjacebat do- 
mínio Silviae, Alvor nomine, expugnaverimt nulli aetati 
vel sexui parcentes » (De Itinere Navali, etc, p. 11 da 
ediç. de Lisboa). — Nos annaes do monge Godefredo 
(Freheri, Rer. Germ. Script., curante Struvio, Argentor. 
1717, T. I, p. 35i) lê-se: « In ([iiadragessima naves undi- 
que adventantes, et sibi invicem copulatae... iter aequo- 



NOTAS 343 

reum ingressae sunt... Eraiit sexaginta naves ex eis, vi- 
roriim vero pugnatorum ad decem mi ília et ampliiís... 
cum in Africíe I lege Al-Gharbii) partes venissent, urbem 
gentilium populosam, nomiiie Albur, oppugnant et ca- 
piunt, atque aurum et argentum iiilinitum inde detra- 
hunt, urbicis in oj^e gladii caesis. <> O chronicon Turo- 
iiense iMartene, Ami)liss. Collect. Vol. 5, p. io32) 
distÍDgue claramente as duas frotas, da primeira das 
quaes só faz menção Godefredo : « De Frisia et Dacia 
quinqiiaginta naves pariter foederatee eandem peregri- 
nationem arripiuut. De Flandris quoque A'A'ATY//roíes 
seqiiutae siint^ et dum per Hispanias transeunt sarrace- 
norum urbem, nomine Silviam, obsident, ete. » O monge 
Reinerio 1 Continuatio Chronic. Lamberti Parvi : Wná. 
p. 14! parece o mais mal informado dos seus contem- 
porâneos, e não é fácil dizer se confimde as duas expe- 
dições, se allude só á primeira : « Colonienses cum leo- 
diensibus a Colónia j^er Rhenum navibus descendentes, 
in Angliam cum frisonibus et dalmatianis et ílandren- 
sibus, parata classe LV navium, adierunt Britaniam, 
indè ad Hispanias navigaverunt per oceanum, et praelia 
multa commiserunt cum paganis ». Vinisauf, no L. i, 
c. 2- do Richardi Regis Iter Hyerosolimitanum (Scrip- 
tores Hist. Anglic, Oxon. 1687, Vol. 2, p. 2681 illustra- 
nos um pouco sobre este ponto, pcstoque, também, não 
seja assas explicito. Descrevendo o cerco de Acre, diz 
que, estando já os sitiadores cercados por Saladino, 
« ... ecce quinqiiaginta naves, quas vulgo Coggas 
dicunt, cum XII millibiis armatorum... veniunt... líanc 
ciassem Dani moderantur et Frisones... Terrarum vero, 
quas praeternavigant, incolae, visa classe, quam plures 
moventur ; et navibus instanter conscensis, Angli pari- 
ter etjlandrigenae iesúni sequuntiir. . . urbem, quae Silvia 
dicitur, audacter impetunt, etc. » Do capitulo 28 do 
mesmo livro vemos que a frota das 5o velas 'ihegou a 
Acre um dia antes da de Jacques de Avesnes, e do 3i 
parece deduzir-se que entre os chefes da expedição dos 
íiinaraarqueses e frisões figurava um sobrinho do rei 
de Dinamarca. Finalmente o chi'onicon Terrae Sanctae 
de Goggeshale (Marlene, oper. cit., Vol. 5, p. 5;4>> compa- 



344 HISTORIA DE PORTUGAL 

rado com os antecedentes escriptores, vem provar-nos, 
não só que eram duas armadas diversas, que, na sua 
passagem, ajudaram Sancho I a devastar ou a conquis- 
tar a provincia de Al-faghar, mas também que ambas 
ellas eram difíerentes da de Jacques de Avesnes : « Ad 
hanc obsidionem (a de Acre), diz elle, prima venit classis 
borealium virorum numero XII millium. Posiea appli- 
cuit Jacobus de Avesnes... Sane deRegno francorum et 
anglorum Jam plurimiçeiiiebant... biter alios venit epis- 
copus belvacensis cum Roberto fratre suo. Yenit comes 
brenensis et comes de Barro et flandrenses plurimi. De 
Germânia venit quidam Landgrave cum alemannis... » 

O que resulta destas ditTerentes passagens é que a 
expedição de 12:000 frisões e dinamarqueses, havendo 
partido na quaresma de 1189, Ibi a que interveio na 
destruição de Alvor, e não a que ajudou á conquista 
de Silves ; porque esta velejou da foz do Scalda no i.* 
de maio e não conduzia mais de 3:5oo homens (De Iti- 
nere Navali, p. 3 e 39), e que nem uma nem outra era 
a de Jacques de Avesnes, chegado á Palestina no dia 
im mediato ao da vinda da armada da Dinamarca e 
Frisia, devendo por isso ter entrado no Mediterrâneo 
poucos dias depois delia ou, talvez, ainda antes. Os 
cruzados que ajudaram á conquista de Silves só passa- 
ram o estreito de Gibraltar no ultimo de setembro, além 
de que Coggeshale distingue claramente as duas pri- 
meiras expedições, a dos povos boreaes e a de Avesnes, 
das que iam chegando {jara pliirim.i çeniebantj de 
França e d'Inglaterra, pertencendo a esta ultima cate- 
goria a que foi a Silves, composta em parte de ingleses, 
como se deduz do Ms. de Turin e positivamente afíir- 
mam Radulfo de Diceto, Hoveden e Brompton. 

Quanto ás povoações do Algarve, tecemos o catalogo 
daquellas que existiam nos íins do século XII, combi- 
nando a descripção de Edrisi com a narrativa do ma- 
nuscripto de Turin. Estombar não é mencionada nem 
por um, nem por outro ; mas cremos ser essa a alçaria 
de Xombos, perto de Silves, de que falia Ibn Baskwal 
(Conde, P. 3, c. 3). O Castallar do Anonymo de Turin 
não pode ser senão Gacella, embora a mencione depois 



NOTAS 345 

de Loulé e antes de Tavira; porque, passando só ao 
longo da costa, nada mais fácil do que ignorar elle a 
situação relativa dos diversos logares. Casta liai' é evi- 
dentemente a Kastala ou Hisii Kastala de Edrisi, cora 
© simples augmento do r final. <■ Entre Chaltich e Hisn 
Kastala, diz o geographo mussulmano, está a foz do 
lana » (Guadiana), o que não pode convir senão a Ca- 
cella, sendo Saltes uma das ilhas da bahia de Huelva, 
onde vem desaguar o Odiei e o Tinto. Com elTelto, 
amda no século XIII Cacella figura nos documentos 
portugueses successivamente com os nomes de Cascala 
e Cazalaí Arch. Xacion., Gav. i, M. i, n." 24 e G. 5, M. 3, 
I1.V3). 

De varias outras povoações da estreita faixa de terra 
que constitue hoje a província do Algarve se acha noti- 
cia tanto nos auctores árabes, como nas chronicas chris- 
tans, postoque actualmente não seja fácil assignalar- 
Ihes a situação, salvo a Oksonoba (Esloi), a antiga 
Ossonoba (Conde, loc. cit. ). Taes sãoMargec (provavel- 
mente Marachicj e Rabat-Alrihanat, (Hospício da Arri- 
fana) de que fala Casiri (Vol. 2, p. 44- 5i e 52), e Merell, 
mencionada nos Annaes de R. de Hoveden, a qual os 
que vinham do poente encontravam antes de chegar á 
foz de Odiene (Guadiana, Odiana^ e muito áquem de 
Saltes (apud Savile, p. 670). 

Pelo que respeita aos chefes dos cruzados, se os nos- 
sos escriptores, em vez de se espraiarem em conjectu- 
ras, fiados na auctoridade de historiadores modernos, 
houvessem recorrido ao exame e comparação dos mo- 
numentos ou contemporâneos ou mais próximos, único 
meio legitimo de escrever a historia, teriam evitado o 
fazer cabo, e cabo único de uma expedição composta 
da tão diversas gentes, a Jacques de Avesnes, que, 
justamente, é aquelle acerca de cuja vinda a Porlugal 
nenhíima Bspecie se encontra nesse*, monumentos, 
como vimos das passagens acima citadas. Pelo 'vis. de 
Turin sabemos precisamente que a gente da armada 
que se associou á empreza ae Silves se compunha de 
allcmães, flamengos e ingleses . os cliefes deviam ser, 
pois, d«slas três diversas reà'oci, conio evxLu. o» Bolãfk 



3^6 HISTORIA. DE POKTJGAL 

dos. Começando pelos allemães, Vinisauf (Rich. R. Iter 
lib. I, c. 2Q) depois de falar dos franceses e ingleses 
que iam chegando à Syria, accrescenta : « De Germânia 
quoque vir quidam illustris et potens accedit, quem 
lingua theutonica landegravum dicunt. » Coggeshale^ 
que nesta conjunctura residia na Palestina e que é bem 
explicito a semelhante respeito, distinguindo na passa- 
gem que já transcrevemos as três expedições, a da 
classis borealis, a de Jacques dAvesnes e a das gentes 
que depois chegaram, conclue, como vimos : -i Inter 
alios venit episcopus belvacensis (bispo de Beauvais> 
cum Roberto fratre suo. Venit comes Brenensis et come» 
de Barro et Jlandrenses plurimi. De Germânia venit qui- 
dam Landgrave cum alemannis. » Temos, portanto, os 
condes de Braine e de Bar com os flamengos e o land- 
gravio com os allemães. Agora ouçamos o que nos diz 
Rogério de Hoveden, referindo se ao cerco d'Acre antes 
que ahi chegassem os reis de França e dlnglaterra 
«( . . . applicuerunt apud Accon Robertus Comes de 
Drues, et Belvacensis episcopus frater ejus, et comes 
Airardus de Breincs, et lakis de Avesneis, et Lande- 
grava de Alemannia^ et alii christiani peregrini multl 
(p. 66o ) » e na descripção que faz do arraial (p. 66i) 
achamos de novo o landgravio acampado juncto de 
Jacques d'Avesnes com allemães e genoveses, ao passo 
que o conde Airaldo se achava juncto ao bisj o de 
Beauvais e aos outros francos. O mesmo, com lev«» 
diíTerenças, se lê em Radulfo de Diceto (p. 564', <1^® 
também menciona o conde de Bar como acampado 
juncto do de Braine, sendo evidente erro de copia bre- 
vensis por brenensis, qae se lê na edição de Radulfo^ 
feita em Oxford em i652, de que nos servimos. Mas 
quem era O \andgravio de Aliemanha? Jacob de Vi- 
triaco, então bispo de Acre, no-lo revela (Hisl.^Orient» 
L. 3, c. 20, Thesaurus Anecdotor., T. 3, p. a84). Enume» 
rando os principes e senhores que tinham vindo por 
mar ao cerco daquella cidade, emquanto o imperador 
Friderico se occupava na sua infeliz expedição por 
terra, menciona por íim : « Lodoicus, et Landgravius 
Thw''ng'iae et plures alii principes et barones »» ElTec- 



NOTAS 347 

tivameiítc Luiz III, landgravio de Thuringia, vivia 
n_sla conjuuctura, e sabemos ter fallecido no oriente 
diiraale a cruzada (Art de Vérificr les Dates, T. 4t 
p. 494)- Assim, parece que no texto de J. de Vitriaco^ 
impresso pelos Maurienses, em logar de Lodoicus et 
lamlg-raviíis Thuruig-iae se ha-de ler Lodoicus landgra- 
vius Thuringíae. Mas, seja o que for, é certo que a 
narrativa do bispo de Acre, comparada com as passa- 
gens anteriormente citadas, torna evidente que o chefe 
dos allemáes que vieram por mar depois de Jacque» 
d'Avesnes era o landgravio de Thuringia. 

Po i*ís. de Turin consta que naquella armada vinham 
uns certos brenieihses (Deitin. Nav., p. i3). Não sabemos 
porque, tanto na edição piemontesa, como na portu- 
guesa, se interpretou breiíienses habitantes de Bremen, 
que nas chronicas dessa epocha se chamam constan- 
t.^niente bremenses. No que nós hesitámos a principio 
foi era resolver se a narrativa anonyma da expedição 
se referia a naturaes de Bren, nas immediações de 
Magdehurgo, se a naíuraes de Eraine nos Paizes-baixos, 
perto de Bruxellas. Decidiu-nos por esta intelligencia 
o vt rmos nos historiadores Airaldo ou Airardo, conde 
de Breiíie ou Bréne, figurando juncto do conde de Bar 
e n;'o apparecer como chefe germânico outro persona- 
(jem que não seja o landgravio. Além disso, o texto de 
Cogzefhale que antes transcrevemos nos está indicando 
ckramente o mesmo: i.*^ o bispo de Beauvais com Ro- 
berto seu irmão, franceses ; 2.° os condes de Eraine e 
e de Bar com os flamengos (comes Brenensis et comes 
de i^arro et flandrenses) ; 3.° o landgravio com os aile- 
mãcs (De Germânia quidam Landgrave cum aleman- 
nis). i 

Quanto aos ingleses, que, não só pelo testemunho 
cie ?i. de Diceto e de R. de Hoveden, mas também pelo 
do A. do Ms. de Turin (p. 5 e 21), sabemos que faziam 
parte da expedição de Silves, não é possível assigna- 
lar-lbes chefes, talvez porque eram gente obscura, 
principalmente burgueses de Londres, que foram rece- 
bidos a bordo dos navios germânicos. E' verdade que 
poderia occorrer fossem capitaneados pelo bispo de 



348 HISTORIA DE PORTUGAL 

Salisbury, o qual, na enumeração das tropas que cer- 
cavam Acre em 1190, unicamente achamos á testa dos 
cruzados ingleses : mas dos mesmos Radulfo de Diceto 
(p. 649) e Rogério de Hoveden (p. 661), se vê que em 
outubro de 1 189 elle estava ainda em Inglaterra, onde 
nesse mês foi sagrado. 



XII 



GOVERNADORES DE SILVES DEPOIS DA CONQUISTA, 
PAG. 194 

O anonymo historiador da expedição dos Cruzados 
aponta o princeps militiae portugalensis como o chefe 
das tropas portuguesas que primeiro avançaram con- 
tra Silves (De Itin. Nav., p. i3) e diz-nos depois (p. 41) 
que o rei saíra d'alli, urbem príncipe militiae suae et 
tnultis militibus muniens. É claro que nas duas passa- 
gens se allude á mesma personagem. Mas quem era 
esse chefe que o anonymo denomina priíicipe da milí- 
cia portuguesa, príncipe da milícia real ? Em nossa opi- 
nião, só pôde ser o alferes-mór. Este cargo era desi- 
gnado nos documentos latino-barbaros de Portugal 
pelas palavras signifer regis e, ás vezes, só signifer; 
mas os estrangeiros não sabendo o valor do vocábulo 
vulgar alferes, deviam naturalmente indicar o alfercs- 
mór pelas palavras princeps militiae, porque estas cor- 
respondiam na verdade ao objecto, visto ser o alferes- 
mór o tenjen te general do rei, o chefe das tropas imme- 
diato a est%. É assim que na historia con].p<>stellana, es- 
cripta, na maior parte, por dous franceses, se designara 
frequentes vezes os alferes ou alferes-móres pelas pala.' 
\ras príncipes militiae. Parece, pois, que o anon\Tno se 
refere ao alferes-mór. Posto isto, resta averiguar quem 
o seria nessa occasião. Eis o que, á vista dos documen- 
tos, é assas difficil dizer exactamente; mas, ao menos, 
por certo o não era o conde D. Mendo, como dizem os his- 



NOTAS 349 

toriadoies. Os dous priucipaes personagens do estado 
naquella epocha eram o maiordomus ciiriae (mordou.c 
da corte), que na essência se pode dizer roprcsciivnvíi o 
Comes Patrirnonii dos wisigodos (postoquc com iiuiií» 
largas attribuições, como em legar o.ojr» pelcn lo "vr re- 
mos), e o signifer regis, que exercia uiu t,aj;:;o não 
menos importante, podendo-se considerar a quoUo ccrr.o 
o chefe da administração, este como o da foiça i.;ililar 
do paiz. O vedor, dapifer reg-is, cujo uiinlst^-ílc tia 
mais domestico do que publico, viii]»a a s» r o l« rc« iro 
ofiicial da corte, mas a sua categoria, so não c:a ii Tf- 
rlcr, não excedia á dos tenentes ou govcniadiitc mi]:- 
tares dos districtos, que eram a primeira clas.sc '\ . no- 
bres, a dos ricos-homens. Yé-se pela serio dos d; ci- 
mentos que o cargo de maiordomus, so não era ••. I»õ!i- 
cio, tendia a sê-lo; mas o de signifer e o d?- Sc;j'j\r 
eram mais amoviveis, sobretudo o ullin-.o. h' cLvIa i\ 
razão disso : o ministério de dapifer, exercldc/ \ cr* -lto 
cavalleiro, não dando mais importância que mux yc- 
verno militar de província, devia ser íacilnicntc uJ.r.i:- 
donado a troco d£ um desses governos ou pela. ^ ida 
aventurosa da guerra, e o de signifer, do qual drj.cii- 
dia a sorte dos combates, devia variar, segundo csU^ 
ou aquelle rico-homem mostrasse maior aptidão ou 
esforço para o desempenhar, ao mesmo tenqo que 
tinha o attractivo do perigo para os fortes e ousados e 
o contrario para os que o fossem menos, não (i;llar;d'-> 
a esles situações, não tanto arriscadas, nss quaes sa- 
tisfizessem a sua ambição ou vaidade. Aulecifiomos 
aqui estas idéas, que pertencem a oulra divisão do 
nosso trabalho, para melhor intelligcncia do que va- 
mos dizer. 

Nos primeiros meses do reinado de Sancho I, Vasco 
Fernandes, o ultimo mordomo-mór de Affouso I, ainda 
exercia este cargo (For. de Gouveia no M. 6, n.° 7 de F. 
A. no Arch. Nacion.), mas já em outubro, talvez por- 
que tivesse fallecido Vasco Fernandes, o evercia Meni 
Gonçalves, isto é, o conde D. Mendo, que até ahi (con- 
forme se vê do M. 12 de F. A., n.° 3, f. 70) fora gover- 
nador militar de Lisboa Doaç. de Palmella á ordem d© 



35o HISTORIA DE PORTUGAL 

Sanctiago, Liv, i de AlYonso III, f. I49 e Gav. 5, ?I. i, 
n.° i5j. Desde esta epocha achamos constantes eute o 
conde occupando aquelle cargo até maio de 1192 (Es- 
cambo (I'Aveiro, Liv. 5 de D. Dinis, f. 09 e v. — Fur. de 
Bragança, Liv. i de Aífcnso III, f. i v. — Doaç. do Paul 
deOttaa Alcobaça, Gav. i, M. i, n.° 2. — Doac. a <jrijó, 
M. iQ de F. A., D.« 3, f. G4. — Cento de Concieiro, Ibid. 
f, 43. — Doaç de Abenabeci a Alcobaça, LLv. 12 .!&. 
Estremadura, f. 11 1 \. — Doaç. a Salzedas, ^l 12 de 
For. A., n.o 3, f. ^'j). O feral ou aforamento de liuyáos, 
de março ie 1191, no Liv. 3 de D. Dinis, f. 34, c o único 
documento, por nós conhecido, em que iigura antes ce 
iiyíí outro mordomo-mór, Mem Fernandes; mos ou st- 
ria por impedimento ou, o que é mais rro^ avel, não 
passa de erro do copista, que trocou ViryxivH por 
Gwidisalvi. Foi neste anno que succedsu Gonçalo Men- 
des a seu pae naquelle cargo, servindo-o per alguns 
meses de permeio o vedor João Fernandes, ccmo re- 
sulta de outros documentos que é escusado citar. 

O alferes-mór, quandc morreu Aflbnso 1, era Pedro 
Paes, o qual parece que deixou de ter o mand j efttc'ivo 
das tropas, dado desde então a Pedro Aífonso, ir!_ 
bastardo de Sancho I. É o que p»e vê 'la carta de ccu- 
tamento geral a Saiicta Cruz de Coir^bra, de janeiro de 
1186 (M. 12 de F. A., íi.'^ 3, f. ;&), onde Vasco Fcruan- 
de-, que se menciona em primeiro log'ar^ ce chama -"a- 
pifer curie (e não regis), ou porque esta des'gnaç^o 
equivalesse á de niai^-rJoirihs, cu porque trocassem a 
pala\ra .0 transcrever j d;*pl:ma naquelle registo, 
onde íigura, iinmediat:* aõ inordcino-niúr. P.írí.*- Al- 
fjTisi govemadur militar d-í Seia -tinel^at Senam) e al- 
feres-mór (et est signifer r^gis), e onde, emíira, só i'e- 
pols do vedor c dos outr.ts gov amadores militares ap- 
parece P:t..u3 Pclígii piú.mus signifer regiTÍ, àigiaiílcau 
do, sem duvida, primus sig-nifcr artig-c a'fíre£-j.i6r . 
Até março de ii89''occupou, com certeza, este pcsto 
^pr'ro Alfonso (D:ar. d'0{ta acima citada\ e só cm 
julho de iioo e cm fv-vcr^^o ce rioí c exccia Rcdrigc 
R.c:íi7;u'Ls (Dcaç. o C)';íó e Dcaç. de Abenabec;\ epc- 
C: «A t-To qj:i Pofl' o Aff^njo fgj.ira .ntre es príncipe e« 



NOTAS 35 I 

ricos-homens, mas sem se lhe attribuir posto ou digni- 
dade alguma da corte. 

Como dissemos anteriormente, as personagens que 
occupam o cargo de dapifer por esta epocha variam 
mais do que no de maiordomus e no de signifer. D. 
João Fernandes, que foi depois vedor por alguns an- 
nos, apparece como tal em outubro de 1186 (Doaç. de 
Palmella), mas substituído por Álvaro Martins nos 
princípios de 1187 (Escambo dAveiro c Foral de Bra- 
gança). Em dezembro de 1189 estava reintegrado D. 
João Fernandes (Doaç. de Alvor a Sancta Cruz em 
Brandão, L. 12, c. 91, que em fevereiro de 1191 gover- 
nava Coimbra (couto de Concieiroi, sendo substituído 
por Pedro Peres (Doaç. de Abenabecii, e que se achava 
restituído já em março desse anno (se não ha erro no 
afloramento de Buyãosj, mas que, de certo, o estava 
em julho de 1192 (Doaç. da albergaria de Atrinces no 
Liv. I de AíTonso 111, f. 55). 

Foi estribado nestes factos e ponderações que na 
I.* e na 2.* edição nos inclinámos á conjectura de que 
Álvaro Martins, tendo deixado o cargo de dapifer nesta 
epocha, exercesse o de alferes-mór, attendendo, sobre- 
tudo, á doação feita em julho de 1190 (M. 12 de F. A., 
n.*> 3 já citado, e chancellaria de D. João 111, L. 20, f. 
Ii5 v.) que Sancho 1 diz ter feito pr^o amore vassali nos- 
tri D. Alvari Martini qiii iti obsequio Dei et nostro con- 
tra inimicos criicis Christi apud Silviíwi inler/ectus est. 
Uma passagem, porém, do historiador árabe Abdu-1- 
-wahid (Historia dos Almohades, p. 2o3 e 204 do texto 
árabe I, a qual nos acaba de ser subministrada pelo 
nosso amigo, o professor A. Soromenho, parece dever 
acabar com todas as duvidas e conjecturas a tal res- 
peito e mostrar que ainda na facção de Silves o bas- 
tardo Pedro AíTonso era o princeps núlitiat, o alferes- 
mór de seu irmão Sancho I. Eis a passagem, traduzida 
pelo snr. Soromenho : << Botros (Pedro 1 Ibn-Errik cercow 
Silves. Auxíliaram-no os francos íafranjes» comba- 
tendo-a por mar com galés e albatoças, por os ter o 
rei convidado com a condição de que elle ficaria con* 
tt cidade, tocando-lhes a elles os habitantes. O que sa 



HISTORIA DE PORTUGAL 



sim se fez. O amir, apenas soube da tomada, airigiu-se 
logo com grande exercito de mar e de terra sobre Sil- 
ves, a qual achou descercada, por haver partido o me- 
lik Ibn-Errik sobre um dos castellos maiores do par- 
tido, chamado Torroxo, o qual tomou ». 



XIII 

DISCÓRDIAS ENTRK SANCHO I E O CLERO, PAG. iGS 

A falta de datas na maior parte dos documentos que 
dizem respeito ás discórdias de Sancho I com o bispo 
Martinho Rodrigues, tão importantes por serem o élo 
dos mais graves successos políticos dos subseíiuentes 
reinados, torna assas diílicultoso deduzir os factos com 
ordem e clareza, sendo necessário proceder quasi sem- 
pre por conjectura. E todavia, esses documentos, nu- 
merosos em si, contêem muitas circurastancias que 
fariam conhecer perfeitamente os acontecimentos, se- 
não faltasse muitas vezes o facho da clironologia para 
os illuniinar. 

O mais antigo de todos é a composição feita entre o 
bispo e o cabido (Censual da Sé do Porto, f. i3o, Dissert. 
Chronol., T. 5, p. 94 e segg.). Esse tem, com certeza, a 
data de 1200. O raçoeiro João da Guarda, redactor do- 
Censual, nos refere os motivos de discórdia apontados 
notextoque trouxeram essa composição iCensual, ibid. 
— Cunha, Catai, dos B. do Porto, P. 2, p. 48 e 49>- A 
coníirmaçáo delia pelo papa, concedida a instancias 
do bispo sete annos depois (Censual, ibid., f. 3i. — 
Cunha, ibid., p. 53), prova que esteve suspensa, ao me- 
nos em parte dos seus eífeitos, até essa epoeha, do que 
se deduz que, sendo ella geralmente desfavorável a Mar- 
tinho Rodrigues, este se achava humilhado cu em cir- 
cumsiancias difíiceis. para assim se empenharem reva- 
lidar um contracto que lhe fora d;^saiics.' e imposto 
peia aucloridade do metropohlano. A insistência con* 



NOTAS 353 

que naquella concórdia elle tinha pedido que de modo 
nenhum o rei interviesse em quaesquer duvidas que 
Decorressem, sem consentimento do arcel)ispo, e que os 
cónegos não suscitassem as iras de Sancho é o primeiro 
e irrecusável indicio de que a intervenção se tinha 
dado. Estas circumstancias combinadas suscitam logo 
a idéa de que as violências mutuas continuaram, e que 
esta queslão de pouco momento tomou maior gravi- 
dade. Assim, torna-se natural que o bispo, não levando 
a melhor do rei, buscasse, emíim, salvar, ao menos, as 
condições do contracto. 

Note-se que a confirmação do papa é expedida em 
julho de 1207, e que o casamento do infante AíTonso 
só se verificou pelos fins de 1208 ou princípios do ann/ 
seguinte. Deste modo, se, como cremos, os document 
tos acima citados persuadem que na discórdia particu- 
lar do prelado e do cabido interveio o rei, e que ella se 
prolongou depois de 1200, não é possivel que nascesse 
do insulto feito por Martinho Rodrigues ao herdeiro da 
coroa. Xem este insulto gratuito, a que nenhum outro 
bispo se associou, é natural, se o náo suppusermos 
nascido de ódios e rixas anteriores. 

Comparando, porém^ estas espécies com a matéria 
contida nas epistolas ;5 e 76 do Liv. i3 do Registo de 
Innocencio 111, de que também tirámos no texto todo o 
proveito possivel, as conjecturas até aqui feitas conver- 
tem-se em certeza. Pela epist. ^5 vemos que antes do 
casamento do infante houvera violências praclicadas 
por Sancho 1 contra o bispo ; que o papa nomeara três 
delegados para os comporem; quo, eíTectivamente, a 
pacificação se fizera; que Martinho Rodrigues, talvez 
jjouco satisfeito ainda com as condições delia, irritara 
de novo o animo do rei com a ofiensa feita ao infante 
e que então o negocio chegara aos últimos extremos. A 
composição, celebrada, antes disso, entre os dous, 
acha-se lançada por integra na epistola 76. Aqui, como 
na concordata com o cabido, repete-se a circumstancia 
de ser confirmada pelo papa muito posteriormente. 

Analysar phrase por phrase estes dous longos docu- 
mentos não cabe em curto espaço; mas, tanto delles, 

voL. III a3 



354 HISTORIA DE PORTUGAL 

como dos outros análogos, se conhece bem que Mar- 
tinho Rodrigues era homem inquieto e orgulhoso. No 
P. RodeiHci míles, de quem se fala na epistola 96, não 
podemos deixar de ver Pedro Rodrigues de Palmeira, 
seu irmão, que os juizes delegados exigem do rei Jiiande 
soltar' {absolvi facietis). A poderosa familia de Palmeira, 
a que pertencia Martinho Rodrigues, provinha de um 
tronco de Trava e tinha ligações de sangue com outras 
não menos intlueiites e illustres (Liv. Velho das Linh. 
p. 169 e 170). Nos costumes daquelle tempo, nada mais 
fácil do que oppôr o nobre prelado a força particular á 
publica, e, porventura, que já nestas discórdias mais 
de uma vez correu o sangue humano, como com certeza 
sabemos que correu depois. 

O periodo durante o qual foi mais violenta a discór- 
dia entre Sancho e o bispo do Porto determina-se pelas 
seguintes datas. O nome de D. Urraca, mulher do prín- 
cipe herdeiro, só começa a apparecer, como noutra parte 
dissemos, em fevereiro e março de 1209, e o ultimo di- 
ploma anterior em que o infante ainda figura sem se 
mencionar sua mulher é de setembro de 1208 (Dissert. 
Chronol., T. 3, P. i, n.°* 700, 701, 702). Num dos meses 
intermédios se devia celebrar o consorcio, e occorrer 
o insulto feito pelo bispo. Em março de 1209 este con- 
firma os diplomas régios (M. 12 de F. A., n.° 3, f. 7 e 
19), o que prova que ainda as renovadas dissenções 
não haviam chegado a vias de facto e se limitavam ao 
contencioso. Depois, Martinho Rodrigues torna a appa- 
recer confirmando a doação de Villa-nova a Fernão 
Nunes, em dezembro de 1210, e a da vinha de Alvalade 
a Mendo Gomes (Ibid., f. 59 e Doe. do Arch. de Chellas). 
Neste meio tempo succedeu, portanto, a revolta do 
Porto, o cerco do paço episcopal, a fuga do bispo, a 
sua volta dltalia e a pacificação com o rei. Assim, as 
cartas deste que se lêem no livro da demanda do bispo 
D. Pedro devem collocar-se, aproximadamente, no ulti- 
mo semestre de 12 10, tanto mais, que as letras apostó- 
licas a favor de Martinho Rodrigues, as quaes prece- 
deram a sua vinda, ou que elle mesmo trouxe de Roma, 
datam de maio deste anno. As três cartas de Sanclio I 



NOTAS 355 

em que se annuUam as liberdades dos burgueses do 
Porto e que se acham lançadas a f. 28 v. do 2.° volume 
da Demanda do bispo D. Pedro ou livro 2.** da chan- 
cellaria de Affonso IV carecem de data, bem como as 
outras do mesmo rei pertencentes áquella longa ques- 
tão. Se compararmos, porém, a sua matéria com a das 
cartas de Innocencio III relativas a este assumpto (L. 
i3, ep. 76 e 76), veremos claramente que, ainda no 
principio de 1210, durava a alliança entre o rei e os 
cidadãos, e, tendo nós mostrado que a ausência do bis- 
po continuou até o fim do mesmo anno, não só a estes 
últimos meses se ha-de attribuir a carta em que o rei 
offerecia a paz a Martinho Rodrigues, mas também 
aquellas três, que, forçosamente, foram expedidas 
depois. 

Mais difficeis de conciliar são os documentos de Por- 
tugal com as cartas de Innocencio III relativas á perse- 
guição do bispo de Coimbra. Do contexto delias se 
deprehende que as questões com este prelado, tanto ou 
mais violentas que as do bispo do Porto, duraram ao 
menos alguns meses, necessários para se passarem os 
successos ahi referidos. A mais importante, dirigida a 
Sancho I (L. 14, ep. 8), é datada de fevereiro de 121 1 : 
todavia, na magnifica doação feita em janeiro de 1211 
pelo rei de Portugal ao abbade de Moreruela, Herberto, 
um dos três juizes apostólicos na causa do bispo do 
Porto (Liv. 2 de Affonso III, f. i5), confirma o prelado de 
Coimbra, e, antes disso, no dia de Natal de 1210, lhe é 
dirigida a carta -dos privileofios concedidos a Sancta 
Cruz (Liv. I do dicto, 1. 11 ), o que o presuppòe na fruição 
da sua auctoridade episcopal. Além disso, da carta 
conciliatória dirigida por Sancho a Martinho Rodrigues 
de que nos lembrámos no texto se vê que o bispo de 
Coimbra foi um dos que o aconselharam a escrevê-la, 
e não seria um homem preso e perseguido que o rei 
citaria como seu conselheiro ; mas sendo, forçosamente, 
aquellas cartas anteriores á reconciliação de Sancho e 
de Martinho Rodrigues, que, pelo menos, estava feita 
em dezembro de 1210, é evidente que já neste mês se 
achava também congraçado aqueíle principe com o 



356 íllSTORIA DE PORTUGAL 

prelado coiiimbricensa. Ce mo apparecem, pois, as três 
cartas de Innocencio III sobre este negocio, datadas de 
fevereiro de 121 1 (L. 14, ep. 8, 9, 10), as quaes siip- 
põem ainda a existência da discórdia? Para sair desta 
difíiculdade guia-nos o documento da Gav. 12, Repart. 2, 
M. I, n.° 43 (Appensos) já citados no texto, doade se 
vê que as contendas do rei com o bispo de Coimbra 
duravam bavia mais de oito annos. Deve-se crer que, 
vendo-se maltraclado pelo rei, e tendo o seu collega do 
Porto obtido tão decisiva protecção do pontífice, man- 
dasse, emfim, um agente a Roma. As difficuldades que 
este acbaria em sair do reino, alguma demora impen- 
sada na viagem, as delongas da cúria, resultado das 
diligencias do procurador do rei, que é o mais pro- 
vável, ou outra qualquer circumstancia explicam 
plausivelmente a demora da resolução de Innocen- 
cio III, expedindo-se esta quando Sancho era já falle- 
cido, tendo-se congraçado antes tanto com um, como 
com outro prelado. 



índice de matérias 



LIVRO II 



1128-1185 
2. 



Paffs. 



(Continuação do reinado de AíTonso I. — To- 
mada de Lisboa e outros Jogares. — Guerras 
civis entre os mussulmanos. — Tentativas re- 
pelidas contra Alcácer. — Conquistas no 
moderno Alemtejo. — Leão e Castella por 
morte de AlTonso VII. — Aliianças de familia 
entre AlTonso I, o conde de Barcelona e 
Fernando II de Leão. — O rei de Portugal 
desbaratado pelos almohades. — Tomada de 
Beja e Évora. — Invasão dos portugueses além 
do Guadiana. — Varias terras submettidas. — 
Discórdias entre AlTonso I e o rei de Leão. -- 
Destroço dos portugueses em Arganal. — Con- 
quista do sul da Galliza. — O rei de Portugal, 
prisioneiro dos leoneses em Badajoz, é posto 
em liberdade. — Previdências para a defensão 
do paiz. — Primeiro cerco de Santarém pelos 
almohades. Tréguas. - Casamento do príncipe 
herdeiro, o infante Sancho. — Invasão dos por- 
tugueses naAndalusia. Represálias — O papa 
confirma o titulo de rei a Affonso Henriques. — 
Continuação da guerra com os sarracenos. — A 
infanta D Theresa uesposaaa com o conde de 
Flandres. — O amir al-muminin lusuf Abu 
Yacub invade pessoalmente Portugal. — Se- 
gundo cerco de Santarém e morte do amir. — 
Últimos dias de Affonso I. — Epilogo 7 a iS^ 



358 ÍNDICE 



LIVRO ílí 



1185-1211 



A-ccessão de Sancho I ao throno. — Territórios 
portugueses nos íins do seeulo XII. — Relações 
com Leão. — Estado do império almohade. — 
Defesa e povoação de Porlugal. — Alíonso IX 
succede a Fernando II na coroa leonesa. — 
Designios ambiciosos de Sancho I. — Renova- 
ção da Cruzada. — As idéas do rei português 
sobre associar-se áquella empreza desvane- 
cem-se. — Algara dos almohades. — Prepara- 
se uma invasão contra o Gharb mussulmano. 
Vinda de duas armadas do norte. Começo da 
guerra nas costas de Al-faghar. Cerco e to- 
mada de Silves ^ conquistas posteriores. — 
Reacção dos almoiJades. Entrada de Yacub na 
Estremadura. Devastações ahi feitas, e reti- 
rada dos sarracenos. Violências practicada 
por uma armada inglesa em Lisboa e desag- 
gravo de Sancho. — Casamento de AíTonso IX 
com a infanta D. Theresa. — Nova entrada de 
Yacub, e perda das ultimas conqui-stas no 
Gharb. — Estado decadente da íorça material 
do paiz. Politica interna do rei de Portugal. 

— Divorcio de Aflbnso IX. — Guerra entre 
Affonso VIII de Castella e Yacub. Desbarato 
dos christãos em Alarcos. — Liga de AíTonso IX 
com os almohades, e dos reis de Castella e 
Portugal entre si. — Guerra geral na Penín- 
sula. — O rei leonês casa com a filha de 
Alíonso VIII. Pacificação momentânea, e reno- 
vação das contendas parciaes. — Questões com 
o papa acerca do censo.— Esforços de Sancho 
para povoar e defender o reino. — Morte da 
rainha D. Dulce. — Novas guerras com Leão. 

— Negociações politicas entre Inglaterra, 
França, Castella e Portugal. — Desenvolvi- 



índice 359 

Pags. 
mcnio da força interna. Colónias estrangeiras. 

— Erecção de novos concelhos. — Fome geral. 

— Sancho prosegue no syslema pacifico que 
adoptara. — Estado da Península, e causas da 
situação tranquilla de Portugal. — Casamento 
do infante AíTonso, herdeiro da coroa, com 
Urraca de Castella. — Discórdias de Sancho 
com o clero. Phases e circumstancias da lucta. 

— O rei enfermo. Reconciliação com os bispos 
do Porto e de Coimbra. — Morte de Sancho. 

— Observações sobre o seu caracter e governo. i38 a 3o5 



NOTAS 



Pags. 

I. — Fontes históricas sobre a tomada de Lisboa . 807 

II. — Circumstancias da tomada de Lisboa 3ii 

III. — Conferencia de Cella-nova 3i3 

IV. — Co-regencia do infante Sancho 3i6 

V. — Confirmação do titulo de rei 3i8 

VI. — Casamento da infanta D. Theresa 320 

VII. — Fronteiras portuguesas e leonesas nos fins 

do século XII 321 

VIÍI. — Accessão ao throno de Aflbnso IX de Leão. . 33i 

IX. — Testamento de Sancho 1 332 

X. — Domínios christãos no Alemtejo nos fins 

do século XII 338 

XI. — Expedições e chefes dos cruzados em 1189. 

— Topographia de Al-faghar 342 

XII. — Governadores de Silves depois da conquista 348 

XIII. — Discórdias entre Sancho I e o clero 3õa 



IINUICE DE ILLUSTRAÇOES 



Pag:s.. 

1. — Sé de Lisboa 12 

2. — Restos da muralha de Lisboa juncto de Sancta 

Luzia. i4 

3. — Frecheiros do tempo de AíTonso Henriques. 

(ArchU'o Xacional : Luto das Acesj 26 

4. — Gastello de Palmella. — Porta da Torre de 

Menagem no 

5. — Cavalleiros do tempo de Affonso Henriques 

(Archwo Xacional : Conimentario ao Apoca- 
lypse de Zo/hyíoi õ8 

6. — Seilo rodado de Alberto, clianceller de Affonso 

Henriques, do anno de ii53. (Archivo Nacio- 
nal, caixa 28 da Collecção Especial) 60 

7. — Mosteiro de Alcobaça. — Portal (>2 

8. — Mosteiro de Alcobaça. — Claustro do silencio. 63 

9. — Mosteiro de Alcobaça. — Nave central 04 

o. — Sello rodado de AÍTonso Henriques, datado 

de 1159. (Archivo Nacional, Gav. y, M. 3, n.° 8.) 72 
Sé de Évora 80 

12. — Gastello de Almourol 96 

i3. — Moedas de Affonso Henriques. (Teixeira de 

Aragão, Descripção geral das moedas, I.). . . iio 

14. — Sellos rodados de Affonso Henriques, Sancho, 
D. Theresa e D. Dulce, datados de ii83. (Ar- 
chivo Nacional, caixa 28 da Collecção Especial. ) 116 

lõ. — Tumulo de Affonso Henriques em Sancta Cruz 

de Coimbra i'3o 

16. — Sello de Affonso Henriques e de seu filho 

Sancho, datado de 1184. í Archivo Nacional, 
caLxa 28 da Collecção Especial.) i3i 

17. — Sello rodado de Affonso Henriques, Sancho e 

D. Dulce, datado de 1184. (Archivo Nacional, 
caixa 28 da Collecção Especial) i3i 



II 



IXDíCE DE ILLUSTHAÇÒES 3Ôl 

Pags. 
i8. — Igreja ile Sancta (>niz de Cuimlua. — Portal . i32 
ly. — Igreja de Saneia C^riiz de Coiíubra. — Claustro. i3"i 

2u. — Castcllo de Lai)ella i^i 

21. — Castello de Melgaço l'^'i 

aa. — Castello de Sil\es (Pedro Júdice, Ali-(U'cz de 

SiUes.i i;3 

23. — Sé de Silves. — Portal 193 

a4- — Uma parle do castello de Torresno\a.s .... i.jy 

25. — Castello de Thouiar 2ji 

2G. — Igreja de S. João de Alporão em Saulareiu. — 

Portal 2o3 

27. — Sello j)cndcnle de Sancho I, datatlo de l\{)í>. 
(Art'/ti\o Xíuioiíal. caixa -jS da Collctçãu espe- 
cial) 219 

aS. — Sello rodad(» de Sancho I e de .seus lilhos, da- 
tado de 119^. (Ai'chii'0 Xacional, caixa nH da 
Collecção Especial.) 23 1 

29. — Moedas de Sancho I. (Teixeira de Aragão, 

Descrifição ^cral das moedas, !> a3S 

30. — Cálice da rainha D. Duh-e, datado de iiK;, 

(Albano Bellino, ArcheoLo^ia christà.j .... 2.4O 
3i. — Ruinas do cantcllo da (luarda s.52 

32. — Sé da Guarda. — Portal uja 

33. — lluinas do castello de Montemor o-no\ o .• . . . aã^ 

34. — Sc do Porto. — Claustro 264 

35. — Sé do Porto. — Interior do claustro 266 

3Ó. — Sello rodado de Sancho I, da mulher e íiihos, 

e assignatura de Julião, notário da corte, da- 
tado de II94- fA}'chií'o Xacional, caixa 28 da 
Collecção Especial) og5 

37. — Tumulo de Sancho I em Sancta Cruz de Coim- 
bra 2q6 

3B. — Porta de Martim Moniz, do lado norte do cas- 
tello de Lisboa. Chrislovam Ayres, Ilisloria 
do exercito poi-iu{^'a.'s, IV, p. 143; 3ia 



Imprensa roRTUCAL-BRASii. — Ru.i na .\!ec;ria, jo-T.isp.oa 
VOL. III • 24 



LIVRARIA BERTRAND 

Casa Fundada em 1732 i 

LISBOA — 73, Rua Garrett, 75 I 

ANTOLOGIA PORTUGUESA 

ORGANIZADA PKI.O 

Dr. Agostinho de Campos 

Sócio Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa 1 

A série da ANTOLOGIA PORTU- 

GUESA, que virá a constar de uns trinta I 
volumes, pelo menos, não será apresentada ao | 
público com numeração editorial. Cada possui- 
dor a ordenará como entenda, ou cronológica- | 
mente, ou por poetas e prosadores, segundo o 
sen critério e vontade. 



VOLUMES PUBLICADOS: 

Manoel Bernardes, dois volumes. 

Alexandre Herculano, um volume. 

Frei Luís de Sousa, um voluuie. 

João de Barros, um vohnue. 

Guerra Junqueiro, verso e prosa, um volume 



'1 Trancoso, um volume. 



Paladinos da linguagem, três volumes. 
Fernão Lopes, três volumes. 



'1 Lucena, dois volumes. 



Eça de Queiroz, dois volumes. 
Augusto Gil, um volume. 
Camões lírico, cinco volumes. 
Antero de Figueiredo, um volume. 
Afonso Lopes Vieira, uui volume. ,\ 

s